VAMPIROS

Marcos Torrigo

VAMPIROS

© 2008, Anúbis Editores Ltda. Projeto Gráfico e Capa: Edinei Gonçalves Revisão: Érika Sá da Silva

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Page, Gregory A. O diário de Judas Iscariotes, ou, O Evangelho segundo Judas / Gregory A. Page; [tradução Fernanda Meirelles Vicente de Azevedo Rossi]. – São Bernardo do Campo, SP: Anúbis, 2006. Título original: The diary of Judas Iascariot of the Gospel according to Judas. ISBN 85-86453-15-3 1. Ficção norte-americana 2. Judas Iscariotes – Ficção I. Título. II. Título: O Evangelho segundo Judas.

Sumário
Capítulo Um – Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo ...9 Índia ................................................................................................ 11 Os Ciganos ..................................................................................... 14 Roma ............................................................................................... 17 Arábia e os Muçulmanos .............................................................. 18 Grécia .............................................................................................. 19 China ............................................................................................... 22 Malásia ............................................................................................ 24 Leste Europeu ................................................................................ 25 África e Países com Influência Africana ..................................... 29 Mesopotâmia .................................................................................. 30 Capítulo Dois – O que Torna Alguém Vampiro, Como Destruí-lo e Defender-se ..................................................................................................33 Capítulo Três – Alguns Casos de Vampirismo ................................. 51 Capítulo Quatro – Viagem Astral, Duplo Etérico e Corpos Sutis ....61 Capítulo Cinco – Bruxaria e Vampirismo .......................................... 75 Capítulo Seis – Múmias, Egito e Alimentação Post-Mortem ........... 95 Capítulo Sete – Licantropia ...............................................................107

06-3659 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura norte-americana 813

CDD-509.2

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............................... no qual podemos nos tornar............. Satanismo e Vampirismo ..............160 Posfácio ............ Paródia de Cristo..... Frater Piarus .... 119 Capítulo Nove – Cristianismo....6 Marcos Torrigo Capítulo Oito – Cabala e Vampirismo ..................................................... um deus............................... 149 Considerações Finais ..................................................................................................... 169 Apêndice Um – Chupa-Cabras .......................................................................................... 173 Apêndice Dois – Drácula ................................................................... 185 O Vampiro tem a maravilhosa característica de ter sido humano........ É um ser especial............... 131 Capítulo Dez – Vampirismo e o Sexo......................... 177 Bibliografia .. do Avatar – o homem feito deus..................... de Buda.....

dormir.Capítulo Um Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo Ser ou não ser. não mais. William Shakespeare tradução de Machado de Assis . E um sono apenas. Acaso É mais nobre a cerviz curvar aos golpes Da ultrajosa fortuna. eis a questão. ou já lutando Extenso mar vencer de acerbos males? Morrer.

o espectro dos mortos. ou seja. Gestantes também faziam parte de suas principais vítimas. quando a vida se alimenta da morte. maias e astecas conviveram com o fenômeno do Vampirismo. Neste livro. uma forma de familiarizar o leitor com a temática. Outra classe de seres Vampíricos era a dos Bhutas. Os candidatos principais a se tornarem . que viria a ser a pátria de Sigmund Freud. Toda a ordem de seres mágicos e míticos tem seus próprios domínios. Sua ocorrência geográfica engloba dos Bálcãs ao Egito. Civilizações como a dos sumerianos. Índia A Índia é um dos locais que. havia os Pisashas. O corpo é a base do retorno. o nome do Vampiro na Bósnia. regressando ao atavismo mais profundo. paixão e terror. Eles se faziam acompanhar muitas vezes por sacerdotisas. da Bulgária. sem falar em várias divindades que têm facetas vampíricas evidentes. Os Rakshasas são senhores de grandes tesouros. afinal. Estavam sempre prontos a atrapalhar a consecução espiritual dos ascetas. eles se alimentavam dos restos da cremação e transmitiam inúmeras calamidades. dos babilônicos.10 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 11 Para o Vampiro não há céu nem inferno. Eles portam unhas longas e venenosas. Asuras. e o próprio processo de cristianização apagou a origem da palavra. dos indianos. agora antideus. tem mais elementos para esclarecer o fenômeno dos Vampiros. Deixando o racionalismo de cabelo em pé. sua cor é o azul escuro. guardiões de templos e palácios. ela pode ter vindo do eslavo arcaico obyri. deste aos confins das florestas equatoriais da Amazônia e. Sua antivida é pautada pela violência. é claro. pois o Vampiro está ali no espelho. ao contrário do Vampiro. E através dele a morte se alimenta da vida. Os Rakshasas habitavam locais de cremação. invertendo o habitual. Falaremos agora do Vampirismo em alguns locais do mundo. Outra possível origem desta palavra seria lampir. Existem inúmeras teorias sobre a origem da palavra “Vampiro”. até as galáxias distantes. mas o esclarecido Império AustroHúngaro. sede de sangue. o epicentro dos ataques não foi algum confim distante. talvez vampir. onde inúmeros cadáveres eram incinerados. Rakshasas e mais uma infinidade de seres vampíricos fazem parte da mitologia indiana. as Hatu Dhana. Quebrando e destruindo todas as normas. e a ligação com o mundo material. ele lhe confere a vida eterna. justamente a Áustria. sua aparência é feroz. Asuras e as Hatu Dhana. um ser de dentes pontiagudos e olhos sinistros. um morto-vivo. Datam da era védica. e à luz da Era das Luzes. Vagavam à noite em busca de sangue de crianças. destruindo e salvando. Não têm um corpo físico. como a deusa Kali e seu marido Shiva. seja a raiz e origem da palavra. dividindo o palco com Diderot e Voltaire em plena época do Iluminismo. o horror que se esconde nas sombras. Outrora homem. juntamente com o Egito e com a China. inimigo de Rama. mas podem ser verdes ou amarelos. Além dos Rakshasas. em especial das recém-nascidas. e os povos hebreus. eles vivem numa realidade própria e paralela à nossa. Para citar apenas algumas. seu líder é Ravana. tratamos deste arquétipo desconcertante – desse tabu. por mais que ele esteja “morto”. O leste europeu foi uma zona de grandes migrações. isso é o Vampiro. que participavam de seus sangrentos banquetes. suas intrusões são raras e ocorrem em situações especiais. repousando. Seus ataques foram registrados à luz do dia. ele é um paradoxo primevo a caminhar entre os mundos. além de matar sua vítima. Um ser habitante do limbo. um limbo glorioso.

O rei ficou em dúvida a respeito do que o Vampiro havia falado. de Apuleio. sempre esperando o pior. extremamente sedutora. drenando suas incautas vítimas enquanto estas se encontram deleitando-se em seus braços. portadores de alguma moléstia ou deformados e transformavam-se. Estava pendurado em um galho como um morcego. Três matizes diferentes combinadas lembravam um coco seco. Podem obsediar uma pessoa. O único sinal de vida era o agitar furioso de uma pequena cauda. seus olhos. Após dizer isso. e seus músculos contraídos ressaltavam como cordas de fibra. uma mulher que teve morte no parto ou menstruada. que estavam arregalados.12 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 13 Bhutas eram os que tiveram morte antinatural. os vinte e cinco contos de um Baital. A área era cheia de hienas. devorando-as. que voltou a ser um corpo normal. e contando inúmeras histórias consegue sempre voltar a sua árvore. mas este é esperto. em mortos-vivos. o Vetala pode promover a possessão de um cadáver. já que em praticamente todo o mundo pessoas que sofreram morte violenta ou tiveram má índole são fortes candidatos a Vampiros. atacam recém-nascidos. avisou o Rei Vikram de que o Yogue na verdade era um gigante monstruoso disfarçado. uma forma de gerar o seu alimento. Em certas localidades da Índia. transformam-se em corujas e morcegos. um dos mais importantes aventureiros do século XIX. e. abutres e assombrada por espectros. ela aparece . um Vetala Pancha Vishnati! Encurtando a narrativa. Vampiro ou espírito maligno que habitava e animava cadáveres. Tinha o corpo magro e cheio de nervuras. Esta narrativa tem como personagem o Rei Vikram. um ser que se apossava do corpo de um morto para executar suas atividades vampíricas. O Asno de Ouro. após a morte. e graças a isso foi salvo. Os Bhutas se alimentam de fezes e intestinos encontrados em corpos decompostos e também promovem doenças nos seres humanos. De forma alguma isso se restringe à Índia. Ele tomou parte nas cerimônias do Yogue a contragosto. O ser pendia de cabeça para baixo. o Vampiro abandonou o corpo do jovem. O Churel é um Vampiro feminino. É uma lenda antiga. Não parecia ter uma gota de sangue sequer. o Decameron e o Pentameron. de Giovanni Boccaccio. e castanho era seu rosto. Outros dois tipos de Vampiros importantes eram o Gayal e Churel. Vikram faz inúmeras tentativas de capturar o Vampiro. e esta viria a atacar outras. o Vampiro falara a verdade. O narrador dessas histórias é um Baital. animando-o para suas práticas hematófagas. De fato. um Vampiro. ao se aproximar do Yogue. aqueles que morrem de maneira semelhante às descritas acima são sepultados em vez de cremados. ou esse estranho líquido devia ter escoado para a cabeça. Esse livro trata da história de um gigantesco morcego negro. um Vampiro. Ela aparece como uma linda donzela. o Raja o leva até um Yogue que estava esperando por eles perto de um crematório. mas não tão perto para que este pudesse ouvi-lo. eram de um castanho esverdeado e nunca piscavam. Sir Richard Burton. pela ponta dos dedos. quando o Raja (Vikram) o tocou a pele era fria como o gelo e viscosa como a de uma serpente. Outras vezes. Por fim. Baital é a nomenclatura moderna de Vetala. que teve seu reinado por volta do século I. O bravo Rei deduziu – um Baital. e. igualmente aos Rakshasas. cujo estilo de narrativa influenciou As Mil e Uma Noites. como é hábito na Índia. Eles também vivem perto de locais de cremação. O Vetala é um demônio Vampiro com características de semideus. como um esqueleto ou um bambu. Ocasionalmente. Eram loucos. O Vampiro havia se apossado do corpo de um jovem. conta-nos a história do livro Vetala Pachisi. como a de um bode. suicídio ou execução. Seus cabelos também eram castanhos.

Em troca. assume características de Vampiro mais uma vez devido a problemas no sepultamento. eles migraram para o sul da Índia. ou seja. e de sua boca pende uma língua negra. ou a que faz alusão aos atzigani. e por volta do século XIV já eram vistos no Ocidente. ou esse lugar tenha esse nome justamente devido aos ciganos. Muito curiosa foi essa associação com os egípcios. será que notaram essas características quando os ciganos foram seus hóspedes? Curiosamente. expulso pelos arianos do Norte da Índia*. * Entenda-se como o calendário comumente aceito. derivando em gitano. ou melhor. e sua cabeça é ornada com uma selvagem cabeleira igualmente negra. Os dravidianos são os pais do Yôga e do Tantra. os ossos quebrados e era enterrado em decúbito dorsal. Talvez isso seja uma menção ao pequeno Egito na Grécia. A destruição do Gayal é feita quando lhe fazem os ritos póstumos e lhe queimam o corpo. O cadáver do Churel tinha os pés presos em cadeias. pois se supõe que este Vampiro feminino também tenha obsessão por contar. para impedir seus ataques. eles não foram tratados como novidade pelas populações dos locais onde se desenrolaram. o que faz pensar que não era algo incomum. não realizou as cerimônias. os ciganos trouxeram Sara. são retratados na arte hindu em atos vampíricos. e nessas representações há ainda um forte apelo sexual. Já em 1700. possivelmente descendentes dos dravidianos. baseado no suposto nascimento de Cristo. após uma estadia na Turquia. Por mais que esses casos tenham o século XVIII como foco. como os egípcios. egípcio. Tanto ela. os locais onde os ciganos tiveram influência mais proeminente estão no epicentro dos casos de Vampirismo que varreram a Europa no século XVIII. de uma forma muito comum aos Vampiros. por ser uma pessoa sem família para zelar por seu funeral. mantendo os seus conhecimentos em sociedades secretas. Da sua terra natal. há relatos na Grécia sobre a atuação de Vampiros (Vrykolakas). As pessoas se preveniam de seus ataques usando uma mistura de água do Ganges e leite. Os ciganos Começaram sua migração por volta do ano 1000 da era vulgar*. por alguma razão. como já vimos. tinham ritos de oferenda de alimentos aos mortos. pediam sua proteção e outros favores. Santa Sara. dessa forma. seita herética do Oriente Médio. sua civilização era matriarcal e Shiva era sua divindade principal. A Índia. na esperança de que ele assim se saciasse. o Vampiro do Punjab. O termo é de origem eslava. e igualmente no Império Austríaco são registrados casos amplamente documentados. mas ainda ocorrerem calorosos debates entre os especialistas. Kali. já que os ciganos chegaram à Europa sem passar pelo Egito. eles eram cultuadores da deusa Ísis vindos da Síria. Os Ciganos Os ciganos são originários da Índia. Os ciganos. Eles * Hoje em dia há evidencias que contradizem esta teoria.14 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 15 com dentes caninos enormes. Os gregos desde sempre tiveram os egípcios como grandes mágicos e adivinhos. . O Gayal ataca seus parentes e os filhos de seus vizinhos. Ele é enterrado sumariamente sem ritos póstumos. ou se a família. Para prevenir-se dos ataques dela. povo autóctone. se esquece do ataque predador. como seu marido Shiva. Para Voltaire. Duas teorias sobre a origem da designação “cigano” são a do egiptano. Ao perderem a guerra contra os invasores. conta também com inúmeros seres vampíricos. são colocadas sementes em sua antiga casa. Já o Gayal.

pequeno Vampiro. Roma No Império Romano. sugava o sangue de crianças e se envolvia sexualmente com homens que acabavam drenados. O porquê disso é uma boa pergunta. o último Grão Mestre Templário. uma união sexual tântrica. no Maranhão. dentre outras coisas. foram tratados como heréticos. incluindo o uso do terceiro olho. Esse caçador era filho de um Vampiro. Os Vampiros têm um lugar de destaque na religiosidade cigana. já tinha características vampíricas. e exercícios com os olhos – tratakas. o que culminou em strega. e eles eram Vampirovic. Alguns relatos sobre o Mulo mencionam as relações sexuais entre o Vampiro e sua esposa. Seu objetivo era a harmonia dos opostos e o êxtase místico. O casal se uniria para este fim.16 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 17 também tinham uma espécie de feiticeiro (xamã) chamado Kaku. famílias que tinham sangue vampírico se tornaram caçadoras de Vampiros. Como em outras culturas e nos casos de “almas” presas a Terra*. e seu universo é recheado de seres imaginários e mágicos. Vampiro filho. No Brasil. Tanto é que na idade média Carlos Magno teve de . atacava crianças para sugar seu sangue. O Mulo era a forma mais conhecida de Vampiro cigano. Voava à noite. Duplo Etérico e Corpos Sutis. e alguns Vampiros inclusive teriam constituído novas famílias. em forma de coruja. Sofreram com fogueiras e torturas. bruxos e Vampiros. em busca de conhecimento mágico. em muitos locais. um elo entre o humano e o vampírico. Um morto-vivo que atacava durante a noite e voltava ao amanhecer para sua sepultura. mas a lenda fala que Molay esteve em contato com eles no Oriente. o Vampiro era uma bruxa que. os primeiros grupos de ciganos chegaram no século XVII. influência de animais sobre o corpo do morto. Outro nome para o filho de um Vampiro é dhampir. o Dhampir. mesmo durante o Império Romano. e seus ataques dizimaram algumas famílias e inúmeras cabeças de gado. O Mulo poderia gerar filhos dessas uniões. através do conhecimento dos poderes hipnóticos. Os ciganos acreditavam que o Vampiro poderia gerar filhos mesmo depois de morto. Como já vimos. eles guardaram a sabedoria ancestral indiana. Para os sérvios. Essas relações poderiam ir das mais calmas às mais violentas. Os ciganos. os ciganos são místicos por natureza. Eles crêem que o corpo humano é entrecortado de canais que levam energia para os mais diversos pontos. o Vampiro era fruto de morte violenta. em idioma sérviocroata. assuntos não terminados em vida também eram relevantes. que tinha posse do poder de domar animais sem o uso da força. ou lampirovic. Ao que parece. Elas eram chamadas de Strix. Podia assumir várias formas animais. Dessa forma. e disso se deriva uma técnica usada em curas que também pode despertar intenso desejo sexual. Um fato curioso é que os Kakus ciganos têm especial respeito por Jacques de Molay. como o da Yôga. filho do Vampiro. tinha poderes especiais para detectar e destruir Vampiros. A strega. ainda viva. Muito do que foi usado no combate ao Vampiro foi também usado contra a strega. além de não poderem ser enterrados nos cemitérios comuns. sendo que havia até a profissão de “caçador de Vampiros” (Dhampir). ou amante. muitas vezes não se vendo nunca mais. italiano para bruxa. incluindo a cerimônia do Maithuna indiano. Como a maior parte de todos os Vampiros ele era um ser etéreo. Fazem uso de um asana. falhas no sepultamento ou ainda * Ver o capítulo quatro – Viagem Astral.

ele o destrói. Os Ghouls. Em uma dessas caçadas um Sabbatarian. mais uma vez. O Ghoul se enfureceu e jogou uma maldição sobre Sidi. O lobisomem também foi um fenômeno conhecido no Império Romano e posteriormente na Itália. Sidi Nouman (o marido). Ghouls são seres de forma feminina que assombram sepulcros. As Lâmias. Para sua surpresa. Escavam as tumbas para devorar as carcaças. podia ver. São similares à Lilith. havia os Sabbatarians. ele espera o Vampiro se defrontar com os cereais.ulmanos Os muçulmanos têm algumas entidades vampíricas. a um demônio feminino que se alimenta de corpos mortos. alguns Dervixes eram caçadores de Vampiros. Arábia e os Muc. Ele atraía suas vítimas até uma ruína deserta. . Mormo e a própria Hécate são representantes clássicas desse fenômeno e suas histórias se perdem nos séculos. O marido. Grécia A Grécia e a sua rica mitologia são um campo vasto para o estudo do fenômeno do Vampirismo. ela se metamorfoseia num Ghoul. há uma passagem que trata exatamente do Ghoul. entra em um celeiro. para então sugar o sangue de suas veias e comer sua carne. pessoas que haviam nascido no sábado. que. A feiticeira é transformada em uma égua. dentre elas os Ghouls. com visão suficiente do cemitério e do local para onde sua esposa ia. Nas Mil e Uma Noites. na profissão. Muitas vezes esses Ghouls eram tidos como metade mulher. Talvez mais fantástico que o prato principal. Eles podiam ver o espectro do morto e caçá-lo. mantendo uma vida marital sem que o esposo soubesse o que ocorria. Aproveitando a distração do Vampiro. Por meio da intervenção das artes mágicas de outra mulher. “um dia especial”. Sabendo da compulsão natural dos Vampiros por contar. esperou o próximo jantar com a esposa. e imediatamente conduzida a um estábulo. perseguido por um Vampiro. Ela entra em um cemitério. Ao término. ele nota que ela come muito pouco. lançaram a carcaça de volta à sepultura e a enterraram. O seu equipamento consistia em uma longa barra de ferro terminada em ponta aguçada. mas não ouvir. Juntamente com eles. atacam e devoram seres humanos. e prontamente o dividem em bocados devorados por todos. e o marido se esconde atrás de uma parede. ou seja. inclusive comer pedaços dele como forma de cura. Um rapaz se casa com uma jovem de nome Amine e. as Empusas. com grande compostura. ao jantarem. até que um dia a segue. Ambas as práticas foram adotadas contra o Vampiro. infestando cemitérios. Quando se defronta com Amine. Ela e outros Ghouls desenterram um corpo. ele volta à forma humana e ainda ganha uma poção mágica destinada à sua esposa. nem o suficiente para um pardal. de seu esconderijo. lança a poção nela com a seguinte frase: “Receba o castigo da maldade”. O marido observa que ela se ausenta à noite. e outros desses seres se aproximam para uma reunião que acontece bem ali. Ele perguntou se a carne de um homem morto era mais saborosa que o jantar. tenha sido o tema da conversa. mal tocava os alimentos. travavam uma conversa em meio ao seu festim diabólico. o que se passava.18 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 19 promulgar uma lei que proibia queimar ou canibalizar stregas. Na Turquia. transformando-o num cachorro. Estes dois tipos de caçadores também eram encontrados na Macedônia.

em especial em pequenas ilhas. já mencionava a lei grega que mandava queimar os cadáveres de quem quer que fosse acusado de visitar seus parentes após a morte. Essa prática foi usada em Hidra. no século II. O Vampiro grego mais conhecido é o Vrykolakas. Justamente no sábado eram exumados os corpos dos suspeitos. que principia por volta do século VI sua entrada na Grécia. Por mais que os Vampiros do leste europeu tenham uma fama enorme. Após a perda de seus filhos. onde eles ainda caminham à noite. vinha e atacava as crianças. o Vampiro é conhecido como Vurvukalas. Apuleio. e podia também entrar em corpos de animais ou assumir as suas formas. lobisomens se tornam Vampiros após a morte. tinha sido incumbido da tarefa do guardar um cadáver para que as feiticeiras não dilacerassem a dentadas a face do morto. Sábado era o dia em que o Vrykolakas ficava em sua tumba. Telefron. No caso em questão. O nome Vrykolakas talvez também seja uma referência à licantropia. uma novidade. e o corpo era removido para alguma ilha distante ou queimado. O poder do sangue como agente materializador era também por eles conhecido. Pausânias. uma ilha desabitada. A história de Menippus é um bom exemplo. e em seus ataques rápidos e assassinos rasgam a carne com os dentes para se banquetear com o sangue. o licântropo não era. e um Bispo se livrou deles ao mandá-los para Therásia. em verdade Lâmia. O Vrykolakas muitas vezes se comporta como um poltergeist. uma bela mulher. para os gregos. de lobisomens gregos que se tornaram Vampiros (Vrykolakas) após sua morte. Ele conhece uma bela moça. Quando as vítimas eram rapazes. A Stringla. A Grécia conta com inúmeros relatos de atividade vampírica. uma espécie de Vampiro feminino especialista em drenar sangue de crianças. Uma cerimônia de exorcismo era levada a cabo. Lâmia. para os gregos. Tinha a aparência de quando estava vivo. narra em uma passagem que as feiticeiras da Tessália podiam assumir a forma de qualquer animal. cujo prazer era se alimentar de jovens corpos. era o morto-vivo. O Vrykolakas. A esse solo fértil foi agregada a cultura eslava. . um espectro feminino também se revestia de sedução. Os Vrykolakas não atravessavam água.20 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 21 A Lâmia é um ser vampírico dos mais antigos. um estudante. destruindo mobília. A ilha de Hidra antigamente havia sido infestada por Vampiros. Bem entendido que. O Vrykolakas é um dos Vampiros mais vorazes e selvagens. Há referências. e os cretenses o chamam Kathakanas. mas suas histórias incluem manifestações em plena luz do dia. Vrukolakas. produzindo sons e outras manifestações associadas. e outros espectros também se materializaram valendo-se desse sangue. história muito similar à de Lilith. o demônio aparecia como uma bela mulher. Kythnos e Mitilene. O Vrykolakas era essencialmente noturno. com sangue puro e forte. Quem era atacado por um Vrykolakas se tornaria invariavelmente um deles. mas não podem cruzar a água salgada. O termo é de origem eslava e possivelmente se refere a algum ritual em que o sacerdote utilizava uma pele de lobo. todavia escassas. No folclore eslavo. Em outros locais da Grécia. um vidente. em Metamorfoses. Ulisses encheu uma cova de sangue para propiciar o aparecimento de Tirésias. com o sangue fresco nutriu a aparição ajudando-a a adensar-se. A volta do reino dos mortos não era de forma alguma desconhecida para os gregos. de forma alguma. como espírito da noite. foi tomada de ódio absoluto e vingou-se de toda a raça humana atacando crianças e sugando-lhes o sangue. por isso muitos foram mandados para ilhas desertas na esperança de que por lá ficassem. a maioria dos casos de Vampirismo ocorreu na Grécia. pertencente ao arquipélago de Santorini.

ao entrar em seu quarto. ele também podia mudar para outra cidade. ou caçá-los. encontrou uma bela dama. O fantasma dela havia seduzido inúmeras vítimas. um temporal se abateu. Tinha igualmente capacidade de se metamorfosear em animais. e qualquer ínfima parte do defunto poderia guardar o Vampiro. mas com a tampa parcialmente levantada. e seu relato revelou onde estava a tumba de uma jovem prostituta que havia se enforcado. O Vampiro na China. o ser humano tem duas almas: a Run. ou alma inferior. O mais importante nesse país é que os Vampiros são encontrados há mais de 2600 anos. Uma mulher foi acordar seu marido e. Lá. Para os chineses. como o grego. Sua boca tinha dentes pontiagudos e vertia uma espuma avermelhada.22 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 23 Ele também pode voltar para viver com a viúva. onde o cadáver foi encontrado como se estivesse a dormir. e tinha um semblante horripilante. e até mesmo empreender as tarefas mais comuns e tranqüilas. O Vampiro grego por vezes visitava a viúva após a morte. para mais tarde se unirem numa torrente de paixões. uma seca que grassava a região teve fim. o Vampirismo era herdado. Os chineses também têm várias histórias de crânios que falavam. Ele ficou tomado pelo receio e chamou várias pessoas para juntos averiguarem o conteúdo. e eram animados pela alma P’o do defunto. que mandou abrir a tumba. aspectos animais. A princípio. com unhas muito longas. Eles chamaram as . estava em viagem quando. Na Grécia. apesar de alegar inocência. China A China é uma das possíveis pátrias dos Vampiros. Um dos Vampiros que mais nos chama a atenção é o ChiangShih.C. com seu cavalo a alguns metros dali. e a P’o. e há relatos de crianças geradas desta forma. é ativo ao cair a noite. Ao chegar a seu destino. como um morto-vivo. um demônio se apossava da alma do defunto. já que em 600 a. Ele se refugiou em uma casa. Dentro estava um cadáver. a outra. já havia relatos de Vampiros em solo sino. qual não foi a sua surpresa ao se encontrar sobre a lápide de uma tumba. em especial em lobo. e levando-a ao Vampirismo. em dado momento. e o cadáver passava também por cerimônias de exorcismo. Outra história de Vampiros na China é a que se segue. mas com aspecto de vivo. Algum tempo depois. cabelos brancos com tons de verde e olhos avermelhados. Uma teria aspectos mais elevados. Crianças filhas de Vampiros poderiam ser Vampiros. Ele o montou e saiu a toda brida pela estrada. o que era muito estranho devido à decapitação. onde constituía família. não atravessava água e deveria voltar à sepultura após suas atividades. Era destruído pelo fogo. Esse Vampiro podia voar. ou alma superior. O clamor dessa história chegou aos ouvidos do magistrado da região. no dia seguinte. causando inúmeros problemas. Não havia uma gota de sangue em nenhum lugar. Essa alma inferior era a causa do Vampirismo. viu-o sem cabeça. voltando à sua sepultura ao raiar do Sol. tomaram chá. Chang Kuei. um lenhador encontrou um caixão semi-escondido pela vegetação. Para eles. Ao despertar. que faria o quarto estar encharcado de sangue. Nas suas mãos estava a cabeça do marido infeliz. causando a incorruptibilidade do corpo. Uma lenda chinesa trata da volta dos mortos e da destruição advinda disso. Cremaram-no imediatamente. foi interrogado devido à demora. como em outras partes do mundo. Ela chamou as autoridades e foi detida como a principal suspeita. mas. Curiosamente. após a destruição do corpo da vampira. Um funcionário do governo chinês.

ora o inverso. As vítimas prediletas do Penanggalan eram as mulheres no parto. ela pôde voar. os Vampiros deixavam as suas sepulturas para se refestelar com os vivos. sugando o sangue. Passado o prazo acertado. Leste Europeu Os mongóis foram um dos povos que atravessaram o leste europeu juntando suas tradições ocultas ao já extenso folclore local. O Bajang lembra um furão enquanto o Langsuir é similar à Strix romana. e essa ligação era usada contra as vítimas do feiticeiro. O Langsuir é uma mulher que morreu no parto. Um tipo de Vampiro malaio está associado à atividade de um feiticeiro. Dessa forma. Na península malaia. e dessa forma detectará o Vampiro. encontramos uma infinidade de Vampiros. esses nomes. eram trocados – ora o Pontianak era a mãe. nos quais a vampira prenderia seus intestinos. uma curandeira é chamada. até os dias de hoje eles se fazem presentes no folclore. sendo que o Langsuir original adquiriu o Vampirismo ao ver que seu bebê havia nascido morto. Ele voa sobre habitações atrás de crianças. tinha-se a crença que ela não se transformaria em vampira. o Penanggalan era uma mulher. e se colocou a serviço dele com afinco. mas. O Penanggalan é um estranho Vampiro. Os malaios têm toda um ritualística para proteger mulheres e crianças dos ataques de Vampiros. contrairia uma doença séria e seu corpo ficaria repleto de feridas. fazendo par com sua mãe Langsuir. e a mulher liberta. que faz seus ataques enquanto dorme. Para libertar-se dos ataques do Bajang. O Pontianak é um natimorto como o Ustrel descrito por James Fraser. Uma descrição interessante de um nativo sobre o Penanggalan foi tomada por Walter Skeat em seu livro Malay Magic.24 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 25 autoridades. em algumas localidades. Malásia Na Malásia. ao ser enterrada. delírios e mais uma infinidade de mazelas. as portas eram fechadas e espinhos espalhados. Aparece também como uma coruja. antes do pôr-do-sol. vampira. Esse feiticeiro pode continuar suas atividades após a morte. este era morto. que então sugaria a vitalidade do vivo. pois há casos de cadáveres que adotaram essa conduta. devorando-lhes o coração. e apenas sua cabeça com os intestinos dependurados voava. Os braços do Vampiro tiveram que ser cortados para libertar a cabeça. já que o corpo ficava. A curandeira induzirá a vítima. Ela aprendeu as artes mágicas diretamente com um demônio. a execução foi proibida. Quando uma mulher morria no parto. A vítima sofre convulsões. ovos eram colocados embaixo de suas axilas. a relatar o que está ocorrendo. Além disso. ou parte dela. Vamos a ela: No princípio. Para se defender. Na Polinésia. feiticeiros comiam a carne do morto. que tem o intestino e o estômago expostos. Se uma pessoa tocasse o sangue que gotejava dos intestinos. Não po- . criando dessa forma uma ligação com a alma do falecido. Outras formas de Vampiros eram o Penanggalan e o Pontianak. com a dominação britânica. Ele entra sorrateiro casa adentro até o peito de sua vítima. no momento do suposto ataque. ou melhor. e o sangue escorreu em profusão. suas mãos eram fixadas com agulhas e contas colocadas em sua boca. Tudo foi queimado. Sendo confirmado o Vampiro. em busca de sangue. um guarda armado veio rápido. Outros Vampiros são o Bajang e o Langsuir. A criança natimorta recebia o mesmo tratamento da mãe. Suas vítimas tinham como certa sua morte.

o Ustrel sai de sua sepultura e volta seu apetite contra um rebanho de gado que esteja nas redondezas. Fora esse tipo de Vampiros. o Vampiro era conhecido como Kukuthi. O local é liberto da maldição com cerimônias religiosas e erguendo-se uma cruz no local. de acordo com James Fraser em The Golden Bough. atacando e sugando o sangue dos que passam nas imediações. que nove dias após seu sepultamento já emite seus primeiros sinais. Tibete. os aldeões fazem. Na Albânia. separavam-nos das hordas invasoras – os hunos. não podendo ir nem para o céu nem para o inferno.26 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 27 demos deixar de pensar que os mongóis tiveram contato com a Índia. quando passa por uma luz. uma vida de humano – este é o Kukudhi. em 1734. os albaneses também conhecem o Vrykolakas. de uma forma ou de outra. ossos são colocados por onde todos os rebanhos passam. ora nos chifres de um touro. faz um enorme estardalhaço. Isso era colocado dentro de uma garrafa. e uma infinidade de países entre a Europa e a Ásia. duas grandes fogueiras numa encruzilhada. destruindo pertences das pessoas e cuspindo sangue. Vorkolaka. não precisa voltar mais à sepultura. por mais de trinta anos. A princípio como um fogo fátuo que brilha na escuridão. Os cavalheiros escutam que os Vampiros são os corpos de pessoas falecidas. Esses seres vivem de se alimentar do sangue dos vivos. A sua destruição se dá ou pela tradicional via da estaca e do fogo ou pelos lobos. influenciou e foi influenciada por povos vizinhos. Há a crença. criador do bem e do mal. há o Vorkolaka. morando nos corpos dos animais. uma sombra difusa é projetada. a partir desse tempo. os Cárpatos não os deixaram ser destruídos. Por mais que sejam religiosamente diferentes. o olho do mundo. de que se o Vampiro não for descoberto. e quando ele entrasse nela seria arrolhado e destruído. China. desde Brabilow até a Valáquia e Saxônia. O local deve ser freqüentado por lobos. Eles tiveram uma grande mitologia ligada ao Vampiro que. Ustrel. ora no úbere de uma vaca. os ávaros e os búlgaros. Leva. animadas por espíritos que se esgueiram para fora das sepulturas à noite. Swetovid. que morre sem batismo. deus negro. Kukudhi. para que dessa forma a alcatéia destrua e devore . Lugat. A entrada dos mongóis no continente europeu se deu pelas terras do leste europeu. Não há lugar mais associado ao Vampiro que o leste europeu. o Ustrel se lança de seu animal hospedeiro e cai na encruzilhada. os povos que atravessavam a região propiciavam uma mescla de culturas e folclore. Outra forma de Vampiro existente na Bulgária é o Obour. o Obour adquire aparência humana sólida. Na Bulgária. podendo levar a vida de uma “pessoa normal”. Depois disso. Quando a manada vai passando entre as duas fogueiras. eles dividiram uma mitologia e centenas de casos de Vampirismo. por outro. Nove dias após o enterro. Se. dentre outras. ora na lã de um carneiro. a alma de um criminoso que assombra o local de sua morte. agindo como um poltergeist. ele adquire a capacidade de andar à luz do sol. Montague Summers narra a viagem de três cavalheiros ingleses. é uma criança nascida num sábado. nesta região. ele deveria ser atraído por iguarias que lhe excitassem o paladar. em um sábado. E sabemos com certeza que na sua mitologia havia entidades vampíricas. e todos os outros fogos da comunidade são apagados. Os primitivos eslavos tinham como divindade. pelo leste europeu. Para combatê-lo. Após quarenta dias. Este é uma alma presa à terra. As cordilheiras dos Montes Cárpatos. Quando está suficientemente forte. Para destruir o Obour. Eles ouvem a narrativa do Barão Valvasor dizendo que algumas partes do país sofriam uma terrível epidemia de Vampiros. Ícones sagrados podiam ser usados para compeli-lo a entrar na garrafa. por um lado.

Alguns distritos pensaram até mesmo que pessoas que comiam a carne de uma ovelha morta por um lobo poderiam se tornar Vampiros depois de morrer. foi perguntado se poderiam contar o que estava causando seu falecimento. Os mesmos nomes podem ser achados nos países vizinhos da Ucrânia e Bielorússia.” O sangue que escorria do ferimento servia para curar as vítimas dos ataques. África e Países com Influência Africana Na África. da língua e um bom estado de conservação geral. os eslavos mantinham bem distintos os dois termos. Dom Augustine Calmet descreve a ação deste tipo de Vampiros: “O Oupire come a mortalha feita de linho. fruto do morto-vivo com uma mulher. achando sua toca e expondo-o à luz solar. No distrito de Zemplin. como primeiro passo de seu reavivamento. O Vampiro polaco mantém estreita semelhança com os Vampiros das nações vizinhas. em especial cinzas do coração. John Heinrich Zopfius. O Oupire pode aparecer do meio-dia à meia-noite. respondiam que o morto retornou da tumba para retirar a vida dos vivos.28 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 29 o Ustrel. um lobisomem em vida seria um Vampiro na morte. sendo Vampiro o morto que retorna para atacar os vivos e lobisomem alguém que se transforma em lobo. o fenômeno do Vampirismo está intimamente ligado à magia e à feitiçaria. Essa prática não se restringia à Polônia. sua contraparte feminina. Mora. Além do Upier. já que na Romênia se comiam pedaços do Vampiro. na Polônia. Havia também o Mahr que. Na exumação do Upier. quando às portas da morte. e cravando uma estaca em seu coração. depois das quais eles logo expiram. Na Eslováquia há o Nelapsi. Além de devorar a própria mortalha. Na Polônia Oriental. Na Bulgária. não poupando idade nem sexo. os aldeões crêem que o Vampiro tem dois corações e duas almas. e assim os dois são muito proximamente relacionados. e os resultados foram publicados com o nome de Povery de Vampirskev Zempline. sugam todo o sangue de seus corpos e os matam. Contrariando a opinião de alguns autores.” Para os sérvios. Porém. e para confirmar essa afirmação basta analisar a cultura africana e a dos países onde houve sua . A noite. O Mahr. mulheres e crianças. e atacam pessoas que dormem tranqüilamente nas suas camas. havia a Upierzyca. era a alma de alguém que retornava em busca de sangue. As pesquisas sobre o Nelapsi foram feitas por Jan Mjartan em uma viagem ao campo em 1949. em sua Dissertação sobre Vampiros Sérvios. um predador de gado e seres humanos. que podia inclusive estar vivo. Poderia atacar parentes ou não. diz: “Vampiros vagam à noite. Alguns a quem. Esses que estão sob a malignidade fatal da influência dos Vampiros reclamam de sufocação a uma deficiência total. Os búlgaros também acreditavam que o Vampiro podia deixar descendência. Eles atacaram homens. que pode trazer uma peste e dizimar populações inteiras. são chamados Morava. o cadáver muitas vezes apresentava movimento dos olhos. O modo para destruir um Oupire é exumar o cadáver e então decapitá-lo e abrir seu coração. saindo de suas sepulturas. ao que tudo indica. que o envolve. causaria obsessão. ele ataca seus amigos e especialmente seus parentes. o Vampiro era bem conhecido dos africanos. abraçando-os e sugando-lhes o sangue. o nome mais comum para um Vampiro era Upier ou Upior. O modo de destruí-lo é similar ao de outros Vampiros. Essa criança seria provida de dotes paranormais muito estimados para detecção e destruição do Vampiro. de 1733. devorava partes de seu próprio corpo.

que vive no âmago das florestas e tem forma humana. com nítida influência africana. mas especialmente no capítulo cinco.30 Marcos Torrigo Origens do Vampiro e sua Ocorrência pelo Mundo 31 influência. babilônicos. sumerianos. os seres demo- . Mesopotâmia Mesopotâmia. Qualquer fresta já era suficiente para o Vampiro entrar. As crianças são suas vítimas principais. Montague Summers narra o conteúdo de uma plaqueta sumeriana em que Lilith é o tema. entre outros. Eles permanecem incógnitos na comunidade. Só é avistado por caçadores que se aventuram nesses territórios. Asasabonsam é um Vampiro encontrado no folclore Ashanti. onde inúmeras influências se encontram culminando em uma tradição mágica poderosa e eclética. mas uma maneira de desviar o ataque. No Haiti. Para eles. dizendo que muito possivelmente o objetivo da plaqueta seria proteger contra as visitas noturnas de Lilith e suas irmãs. Campbell-Thompson. no caso o Tigre e o Eufrates. a figura do Vampiro está intimamente ligada a práticas mágicas. na Luisiana e na Jamaica. pois o Loogaroo ficaria entretido contando. poderosos e assustadores. níacos eram terríveis. como o Haiti. lobisomem em francês. é chamado Loogaroo. acadianos. O enfoque dado até hoje em inúmeros tratados sobre demônios nos faz lembrar os mesopotâmicos. um demônio feminino terá vital importância para a Vampirologia: Lilith. Esses povos tinham uma extensa mitologia e demonologia. Quando saem do corpo. elas saíam em busca do sangue de suas vítimas. uma corruptela de Loupgarou. devido ao vodu e ao sincretismo (sendo o próprio vodu fruto do sincretismo). era colocar arroz ou outra semente qualquer. deixando seu próprio corpo na forma de uma bola de fogo. mais uma vez. ou vale entre rios. R. Obayifo é um (a) feiticeiro (a) que deixa seu corpo para sugar o sangue. Summers cita Dr. Dentre todos. Os Loogaroos geralmente eram mulheres praticantes das artes mágicas. fazem-no na forma de uma bola de luz. O tema Lilith será uma constante em praticamente todo este livro. em especial a de cavalos. Ele ataca puxando suas vítimas para o alto das árvores. Em Granada. Todas as noites. O Loogaroo ataca também a criação. foi o berço de inúmeras civilizações: assírios.

E teme as ilusões o meu coração desperto! Meu velho coração. Como Destruí-lo e Defender-se Assusta o meu olhar a luz da vossa aurora.. visões do tempo antigo! Dedicatória do Fausto de Goethe tradução Antero de Quental .Capítulo Dois O que Torna Alguém Vampiro.. sim rejuvenesce! Dentre as névoas surgi. pois que inda te incendeias? Não é melhor ceder? Sim.

Há uma gama de elementos que se repetem nos locais mais afastados do globo. do Ocidente ao Oriente essa referência é encontrada. Para tanto. não esquecendo também os animais que de uma forma ou de outra entravam em contato com o corpo. O brilho de Sirius não pode ser substituído por Aldebarã – eles são únicos. que serão úteis por se relacionarem indiretamente com o padrão da criação do Vampiro. O demônio se “apossa” da alma do morto para com ela executar as mais variadas formas de atos. nosso eu interior. respectivamente. Falhas e acidentes no sepultamento são também elementos para a geração do Vampiro. . com uma única porta. maior será a sombra que ela projeta. Como Destruí-lo e Defender-se 35 O mundo não é composto apenas de luz e nem tão-somente de trevas. Mortes violentas são outro fator desencadeador do Vampirismo. você se torna uma cenoura. Isso é facilmente comprovado. As vítimas de excomunhão também estavam fadadas a tornar-se Vampiros. Na China. em locais e eras distintas. uma pessoa poderia se tornar um Vampiro (Chiang-Shih) se houvesse morte súbita ou sepultamento inadequado. as pessoas que têm os corpos possuídos são possivelmente pessoas de índole violenta ou sensual. Novamente. e na Índia isso não era diferente para alguns Vampiros. na mesma sala entra não um tigre. são encontradas em todo o mundo. como fonte do Vampirismo. Duplo Etérico e Corpos Sutis e Cabala e Vampirismo. mas de ambas. procurando estabelecer um padrão de seus agentes motivadores. registre suas impressões. assim como mulheres mortas no parto. fazemos o nosso papel no drama cósmico. Há um padrão tanto na geração quanto na destruição dos Vampiros. que é sermos nós mesmos. Bem e mal são conceitos extremamente relativos. judaica e hinduísta. e também os malditos. tanto é que criamos um capítulo especialmente para o tema*. neste exato momento. Isso por si só já é um fato estarrecedor. o que nos faz imaginar que essas culturas se defrontaram com o mesmo ser. e. já que essa “requer intensa concentração e uma força de vontade férrea. Executar corretamente os ritos fúnebres ou ministrá-los novamente era uma forma de livrar-se da ocorrência do Vampirismo. Abordaremos as causas do Vampirismo encontradas em praticamente todo o globo terrestre. ** Isso será mais bem compreendido após a leitura dos capítulos quatro e oito – Viagem Astral. De acordo com a tradição. Só que. encontrada nas religiões cristã. sem com isso deixar de incluir algumas crenças locais. Montague Summers diz que o candidato número um para se tornar um Vampiro e o praticante de magia negra. Natimortos podiam converter-se em Vampiros. Esse destino é nossa verdadeira vontade. ou seja. O próprio Vrykolakas era * Capítulo cinco – Bruxaria e Vampirismo. mas um pequeno coelho. é agir contra o nosso destino. entre culturas que nunca tiveram contato. ou seja. e são tais pessoas que se tornam Vampiros”. o que não é de forma alguma seguir os ditames de uma religião ou as convenções da sociedade. para citarmos algumas. dessa forma. Quanto maior for a luz.34 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. dependendo do ponto de vista e dos interesses de cada um. mas isto de forma alguma se restringe ao leste europeu. os que receberam a maldição dos pais ou da religião. Ninguém pode fazer isso por nós. convido o leitor a fazer a seguinte abstração: imagine estar numa sala sem janelas. Corpos animados por demônios – qliphoth** – são outra alternativa. Qual dos dois animais você gostaria que estivesse no recinto? Se há algo de ruim ou mau no mundo. Em especial os eslavos preocupavam-se muito com isso. A Magia e a Bruxaria. Agora. Registre novamente suas impressões. E imagine que por essa porta surja um tigre (por mais impossível que seja).

criando uma imagem dual do morto. inundações e comandar os ventos. mesmo nesses casos. consertar sapatos. ou Vampiros psíquicos. como cuidar das plantações. As roupas do cadáver eram pregadas ao fundo do caixão. Estas harpias são passíveis de serem mortas. O Vampiro podia atacar diretamente o coração ou sugar o sangue pela boca da vítima. queime-as a cinco pés abaixo da terra. e sementes ou pedras embebidas em óleo eram colocadas à sua volta. Pascal Beverly Randolph. o coração ou a cabeça perfurados. presos dessa forma à sepultura. mas se assim o fizer. espinhos de rosa selvagem ou algo similar eram espetados no cadáver. atravesse-lhes o peito com uma estaca onde esteja uma cruz. Mas. Como Destruí-lo e Defender-se 37 uma resposta à extrema dor imposta pela excomunhão. Os primeiros alvos dos Vampiros são seus próprios parentes. Caso esses métodos fossem inúteis. Pessoas que nascem com uma membrana encobrindo a cabeça também são candidatas a Vampiros. Faça todos estes preparativos em uma encruzilhada de quatro caminhos. ele seria exumado. O Vampirismo era prevenido colocando o cadáver de costas no caixão. Ele tinha o poder de causar tempestades. Os Vampiros podem engajar-se em atividades as mais corriqueiras que tinham antes de morrer.36 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. o duplo.” Casa de Goethe. O espelho refletiria o cadáver. O espelho poderia manter a imagem do morto. decapitado e estaqueado. dentro e fora da tumba. mortes de pessoas ou animais ocorrem. seu coração ou o corpo inteiro cremado. um grande mago e mentor de Abraham Lincoln. Se assim não fizer. foto do autor . O retorno em busca de sexo também é bastante conhecido. Manter um espelho perto do cadáver sendo velado era evitado. assim como os dotados de poderes paranormais. a vida voltará ao Vampiro. refere-se da seguinte forma à destruição do Vampiro: “Os Goules (Vampiros) penetram nas casas e bebem o sangue dos que encontram. etc.

O vento ruflando imperiosamente sobre o cadáver é outro elemento. De todos os animais ligados ao Vampiro. um cão ou em qualquer outra forma. Há também uma certa confusão dos termos no emprego pricolic e strigoi. elas * Ver capítulo quatro – Viagem Astral. O porquê desta prática. Fazem uma pequena incisão na vítima. Rainha do Averno. Montague Summers afirma que o costume inglês de matar um animal que atravessa sobre o morto reside em uma tentativa de evitar o Vampirismo. deixam os seus corpos. Pessoas que comessem carne de um animal morto por um lobo ou que tivessem seu corpo devorado pelos lobos podiam tornar-se Vampiros. Na China. A cor vermelha da Lua durante os eclipses é o sangue que escapa da boca do Varcolac. hoje em dia. que não morreu e tem a forma de cachorro ou lobo. da qual lambem o sangue. logo se espalharam os relatos de seus ataques. o jaguar faz exatamente isso. Crianças que morreram sem batismo também são associadas ao termo. Os morcegos hematófagos são extremamente pequenos. não esquecendo o popular morcego. Na mitologia de alguns índios sul-americanos. e lá fica em um estado de torpor. O elemento mais nefasto – e curioso – para o nosso estudo é o papel do morcego hematófago na transmissão da raiva. voltando noite após noite para atacar o mesmo animal ou humano. coruja e mais uma infinidade de animais. São reconhecidos por sua palidez e pele seca. A licantropia é um estágio que antecede o Vampirismo em muitas delas. mesmo antes da descoberta da América. e no Japão há inclusive Vampiros na forma de gatos. transmitindo pragas e efetuando seus ataques. Um ponto de ligação entre o Vampiro e o lobisomem é encontrado entre algumas populações eslavas. pois o Vampiro podia ser morto com uma bala de prata. e cavalos localizavam o . o gato era temido. assim. cães defendiam seus donos de ataques. Animal consagrado a Perséfone. ou um Vampiro vivo.38 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. que na noite de sua morte foi arranhado por um gato e tornou-se Vampiro. causando o eclipse. Uma narrativa grega a respeito do Vrykolakas narra que ele pode aparecer como um homem. Com a descoberta da América. O morcego fica tão repleto de sangue de sua vítima que tem de esperar um tempo até poder voar e voltar à sua caverna. sendo a fera mais associada por inúmeras culturas a esse ser. Quando a alma dessas pessoas está faminta. mas usualmente é um morto-vivo. O Vampiro tinha historicamente a capacidade de se transformar em lobo. destacam-se o lobo e o gato. deixando-os agressivos e “loucos” (cachorro louco é o nome vulgar) apesar de também a doença poder acometer o ser humano. A hidrofobia está mais associada aos cães. Na Romênia. lobos e dragões. Um caso bastante conhecido foi o de Johannes Cuntius. que outrora fora conhecido na Inglaterra. foi esquecido. ele já era um animal associado ao Vampiro. e conseqüentemente do morcego Vampiro. o termo é aplicado a cães endemoninhados. refestelando-se de seu banquete. traça. Entre esses animais. O lobo tanto destrói quanto cria o Vampiro. o morcego é o mais associado atualmente. Como Destruí-lo e Defender-se 39 Os que velavam o corpo tinham muita preocupação com animais que entrassem em contato com o morto. O significado primitivo da palavra Varcolac (de onde vem o Vrykolakas) era o de um ser que viajava rumo ao céu e devorava o Sol e a Lua. Outra versão é aquela na qual as almas de pessoas saem à noite para se alimentar da energia do sol e da lua*. Vôo de pássaros ou até o fato de um menino passar por cima do cadáver podem ocasionar o Vampirismo. Isso devia ser evitado a todo o custo. Duplo Etérico e Corpos Sutis. Os animais também tinham o poder de deter e detectar o Vampiro.

Como Destruí-lo e Defender-se 41 O autor em frente a estátua de Goethe em Frankfurt. toda forma de vida tem uma partícula essencial. . pois o Sol nutriria o cadáver da energia Yang. pelo sal e pelo alho. Alemanha Demônio. recusando-se a passar onde estivesse o Vampiro. marginais e suicidas. o “espírito” que a move. Os candidatos chineses a Vampiro eram os que tivessem vidas de privação. conta a história de uma mulher que em outras vidas esteve envolvida com o que havia de mais destrutivo na bruxaria. mas que ajudará na compreensão do exposto. No caso. a natureza predatória do gato seria transmitida ao P’o humano. lembrando que a deusa egípcia Sekhmet. Os cavalos tinham extremo pavor dela. para a tradição ocidental. O uso de um cavalo e um menino pré-adolescente para detectar Vampiros era praticado na Hungria. necessária para a animação do cadáver. Dion Fortune. sendo uma a contraparte da outra. nunca tendo tropeçado ou algo do gênero. e estar em excelentes condições. Ele poderia ser destruído pelo fogo. a deusa gata. O cavalo deveria ser absolutamente negro. em seu livro Psychic Self Defense. para os chineses. O fato de animais como o gato transmitirem o Vampirismo era explicado pelos chineses da seguinte forma: a alma elementar do animal era transmitida ao P’o. a ação dos animais seria como um vírus que altera a programação de um computador.40 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. para os chineses. Outro fato desconcertante é que. O contato com animal seria o transmissor do “vírus”. era também Bastet. seus repelentes naturais. uma pessoa poderia se tornar um Chiang-Shih se houvesse morte súbita ou sepultamento inadequado. Usando um exemplo completamente diferente. Lembremos que. Pares de olhos extras eram pintados em um cão negro como defesa contra os Vampiros. o cadáver receber a luz solar poderia ser um fator desencadeante do Vampirismo. O cavalo montado pelo menino passaria por todas as sepulturas. Na China. com cabeça de leoa. e possivelmente esse conceito chinês é idêntico.

executando toda forma de atos que todos têm vontade de fazer. causando-lhes uma sensação de agonizante opressão. tanto como característica das pessoas predispostas a se tornarem Vampiros como no comportamento do morto-vivo. Quando vivo. Um rebelde. visitas de incubo e súcubo. Portanto. provavelmente fruto de mediunidade. Quando eu tinha algo em torno dos 16 anos. Sentia tontura. sons estranhos foram ouvidos pela casa. os vários Orixás ganhando vida através de seus “filhos”. Após a morte e a saída da alma do corpo. e tinha sido sepultado sem nenhum preparativo. aconteceu um fato que me faz entender a frase “causando uma sensação de agonizante opressão” usada pelo padre de Creta. ao retornar como Vampiro. Ele fala que a pessoa pecaminosa. A partir desse momento. esse monstro fica mais audacioso e sedento de sangue. Sons. contra a morte. mas por repressão não fazem. levava a um cemitério. papel sendo amassado. contra a autoridade. Algumas horas já se haviam passado desde que eu adormecera. O poltergeist é um fenômeno muitas vezes associado à atuação vampírica. e estava receptivo e em êxtase com o ritual. à espreita no reino entre o céu e o inferno. mas com o corpo dormindo. Há o perigo de a pessoa assim sucumbir e tornar-se um Vrykolakas. eram os primeiros suspeitos. que teve uma vida maculada ou foi excomungada. Decorridos alguns segundos consegui despertar. O primeiro tísico a morrer voltava para alimentar-se dos outros. as danças. . asfixiado e sentindo uma agonizante opressão. Já nesta época. sonhos. o som dos atabaques. sem conseguir mover um músculo de meu corpo. Doenças do pulmão também constam nas manifestações vampíricas. objetos que se movem e mais uma gama enorme de ocorrências inusitadas. EUA. quando me dei conta de estar em um estado consciente. Voltei para casa feliz da vida e. de forma que isto pode devastar aldeias inteiras. há corpos que tiveram o coração arrancado e queimado como sendo suspeitos de Vampirismo. cometerá toda a sorte de contravenções. toda a família presenciou o ocorrido. Dentro desse espírito. na maioria dos casos. esse Vampiro “converte” todas as pessoas que morrem. ia tentando descortinar o maior número de caminhos. nada disciplinado. O Vrykolakas era algumas vezes a pessoa que morreu de doença contagiosa e não recebeu os sacramentos. contra o destino. O Vrykolakas expressa a violência da rebelião contra Deus. causando uma sensação horrível. corpos sem sinais de putrefação ou com sangue em abundância. fui a uma cerimônia de candomblé. mas bastante especulativo e curioso. Estaqueamento. A prática comum do Vrykolakas é sentar-se nas pessoas adormecidas. O lado marginal do Vrykolakas é bastante acentuado. A transformação de uma pessoa em Vrykolakas é descrita por um padre da ilha de Creta (1898). contra os valores sociais. Alguns colocavam a cabeça cortada entre as pernas do morto. é candidata a ser um Vampiro. mas. este é possuído por um demônio. fazendo uma multidão de seguidores. ele pode ter sido uma pessoa comum. eu demonstrava um interesse por magia. como o avistamento do espectro do morto. mas um ser que saltava sobre meu plexo. O pior não era isso. pronto para assaltar as noites sonolentas e medíocres. Quebram o status quo. decapitação e fogo eram as formas de tratá-los. Batidas na madeira. em especial a tuberculose. Lá. As cores.42 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. na noite seguinte. Como Destruí-lo e Defender-se 43 A caça a um Vampiro. Com o passar do tempo. as leis naturais e ofendem as leis divinas. Na Nova Inglaterra. Foi um espetáculo fascinante. pois a família e a sociedade se afastaram com medo da praga.

A decapitação era um método comum de despachar um Vampiro morto. justamente no dia desse último sonho. talvez no inferno. os hereges e apóstatas. Foi feita no centro uma desobsessão. um centro espírita. quem morria nesse período estava fadado a se tornar Vampiro. até hoje esse costume se mantém na Grécia. nessa época. Conseqüentemente. as crianças mortas sem batismo. Celtas e egípcios também tinham essa prática. os feiticeiros. podiam atacar os próprios irmãos. Muitas crianças que nasceram nesse período natalino sofreram as mais terríveis mutilações. os bruxos e congêneres também tinham grandes chances de se tornarem Vampiros. Os Callicantzaros. quando pequenos. O Callicantzaros são Vampiros que fazem seus ataques na época do Natal. Crianças que nascem nessa época do ano são candidatos a tornar-se Callicantzaros. De forma disfarçada. Na Europa. foi fundamental para me empurrar de vez para a senda oculta. Era uma forma certa de não ter problemas com o espectro do defunto. Os búlgaros acreditavam que morrer no Natal era também prenuncio de mau agouro. os excomungados. A . e as vítimas de um Vampiro se tornavam Vampiros em potencial. Esse incidente. são encontrados corpos enterrados dessa forma. desde o Neolítico. à sua volta havia muitos seres. de acordo com Leone Allacci. Havia uma sensação como se eu estivesse em uma corte na Idade Média. mais problemas. O ser queria que eu prestasse vassalagem a ele – o termo é este mesmo. dessa vez lembrando um ser meio humano. Consegui concentrar energia e destruir o ser. com nervuras. ou na Renascença. mas um bem-estar alienante. vi suas veias e feixes de músculos de uma cor avermelhada – o conjunto era algo deveras estranho. Deparei-me com ele no astral. nem repulsa. mas não dava para ver com nitidez. A crença no Callicantzaros é grega. Ele estava sentado em um trono. As forças das trevas andavam pelo mundo nessa época. e ao vê-lo caído contemplei em detalhes o seu corpo. O contato de animais com o defunto e a falha nas cerimônias religiosas são outros fatores. Lá eles a informaram que eu havia ido a uma “cerimônia não recomendável” e voltado com um “encosto”. e eles imaginavam que esse tipo de Vampiros permanecia inativo durante o resto do ano. mas dessa vez não era medo.44 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. por mais desconcertante que possa ter sido. Não sei definir exatamente a sensação. uma boca com dentes pontiagudos e proeminentes. os natimortos. talvez fossem pessoas. Como Destruí-lo e Defender-se 45 O autor na biblioteca de Goethe Na noite seguinte. No primeiro sonho. Minha mãe freqüentava. as que foram concebidas ou nasceram em dias santos. uma pele cinza azulada. eu o vi como um macaco grande. Para os gregos. tendo suas unhas arrancadas e os dedos queimados.

Muitas vezes. Como já citado anteriormente por todo o mundo. na aldeia de Izbecini. ela era preenchida com alho e suas imediações eram guarnecidas com espinhos de rosas selvagens. Suicidas e pessoas que deixaram assuntos inacabados. há a crença de que o Vampiro alimentar-se da alma do morto. os ossos do Vampiro são moles. O alho. Uma pessoa morta que se torna um Vampiro. ele. Em 1935. acredita-se que um Vampiro é criado através do contágio e morte devido ao ataque de um outro Vampiro. e muito provavelmente a fama do suicida que retorna como morto-vivo se deve a ter cometido suicídio em momentos de extremo desespero. não havia a necessidade de ser algo de origem vegetal. As evidências históricas derrubam por terra a fantasia literária e cinematográfica de o Vampiro transmitir sua condição ao beber o sangue de outro Vampiro. Caso o Vampiro estivesse fora de sua sepultura. os povos . aldeia ou mesmo que se afastasse de sua sepultura. Outra forma de uma pessoa se tornar Vampiro nessa região era a morte violenta. Nesses primeiros dias após o enterro. Ao que parece. torna-se mais violento e de difícil destruição. Os samurais. e nas Antilhas ele era usado contra bruxas e sacerdotes de Obeah. até o reinado de George IV. se tornaria um Vampiro. ele pode ser morto por um caçador de Vampiros ou um lobo. Com o esqueleto mais robusto. Na Inglaterra. Lá. Quando o cadáver é desenterrado. passaria a noite contando. e por isso sementes eram usadas para impedir que o morto-vivo chegasse até a casa. acreditava-se que o Vampiro tinha uma compulsão absoluta por contar. espinheiro ou amoreira preta. e eram também depositadas em encruzilhadas onde se reuniam bruxas. e em alguns casos partes de seu corpo sempre foi usado como um antídoto contra os males provocados pelo ataque do Vampiro. pertencente à província romena de Oltenia. e com o tempo vão ganhando consistência. o que nos leva automaticamente ao Egito e ao devorador de corações. O sangue do Vampiro. são candidatos ao Vampirismo. dentre outros. Assim sendo semente. a prática era enterrar o suicida em uma encruzilhada. está presente. Como Destruí-lo e Defender-se 47 flora também foi muito usada na proteção contra Vampirismo. a própria tampa do caixão era removida. Em Krain. como vingança. impossibilitado de voltar à tumba. antigamente parte oriental da Wallachia ocorreu o seguinte. com uma estaca devidamente posicionada. sangue é encontrado em seus lábios. raramente a mordida é no pescoço. Na Bulgária. mas sim no coração.46 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. antinatural. mas sim passível de ser contado. um malfeitor que encontrou a morte nas montanhas ou florestas e teve seu cadáver devorado por carniceiros como lobos. e em número razoável para detê-lo por um bom tempo. perturbando a vida das pessoas. O sangue seria o veículo da alma. Em volta das casas e dos telhados. a primeira coisa que fará é alimentar-se de seus parentes. na Romênia. nos caminhos que separam a vila do cemitério. Dessa forma. Ele atua como um poltergeist. Os suicidas não tiveram essa má fama por toda a história. corvos. seria destruído ao raiar do Sol ou pelos caçadores de Vampiros. O objetivo era entreter o Vampiro que. Durante os primeiros quarenta dias. Dessa forma. evitando que a pessoa se tornasse Vampiro e ajudando em sua convalescença. desde o Egito. ou um gato ter pulado por cima do cadáver. formava-se uma barreira contra o Vampiro. dessa forma. somando-se a isso o fato de que as igrejas cristãs negam os ofícios fúnebres aos suicidas. as de mostarda eram muito usadas e elas eram muitas vezes colocadas dentro da boca do cadáver. As pessoas levam este sangue até sua vítima para curá-la.

48 Marcos Torrigo O que Torna Alguém Vampiro. o Vampiro saía de sua tumba no sábado. Era esfregado tanto nas frestas como no próprio rebanho e nos estábulos. pássaros. Tomava a forma de um inseto ou outro animal. há outra espécie de Vampiro criança. Tiravam apenas pequenas quantidades de sangue de suas vítimas. toda sextafeira. Muitas vezes. mortas pelos próprios pais. o estaqueamento precedia a cremação. Símbolos sagrados eram usados contra o Vampiro. horríveis e deformados. a família ou as pessoas que cuidam de nós são as responsáveis por nossa sobrevivência. misturados com água e dados às suas vítimas. houve uma praga de Vampiros. adoradores de Kali. também um filho ilegítimo. A crença nisso provavelmente reside na capacidade do Vampiro de se apossar do animal e dessa forma livrar-se da destruição. o praticavam como reverencia à deusa. Na Romênia. O . besouros e mais uma infinidade deles que deviam ser lançados ao fogo. sairia da tumba e se passaria por uma pessoa normal. Algumas vezes. ele teria que dormir em uma sepultura e encontrar-se com outros Strigois para juntos participarem de sabás. Eles surgiam ao meio-dia ou à meia-noite e sugavam o sangue dos vivos. Caso fosse atacar uma pessoa acordada. Esse Vampiro também podia engravidar mulheres. Muitas vezes. Os Vampiros ficavam tão repletos de sangue que muitas vezes este lhes escorria pelo nariz e orelhas. apareciam: cobras. Reza a tradição que. preferencialmente de pais ilegítimos. Os filhos desse Vampiro também o seriam. a inalação da fumaça do coração do Vampiro queimado era usada como método de cura. Estimulava sua vítima sexualmente. Os tugs. formando uma cruz. sendo os familiares fonte de proteção e alimento. entre 1693 e 1694. vermes. Desde que nascemos. a família seria a primeira de quem o Vampiro iria se alimentar. os romanos e ainda os godos e os vândalos praticavam o suicídio. O Vampiro tem por hábito atacar primeiramente seus parentes. e não sabemos se ele teria consciência (nas primeiras fases da vida vampírica) do que estava fazendo. e o coração também podia ser arrancado e queimado separadamente. tendo o poder de criar tempestades. Dom Augustine Calmet menciona que na Polônia. Há relatos bastante recentes. transformava-se em alguém atraente do sexo oposto. inúmeros animais tidos como pestilentos e repulsivos. as janelas eram ungidas com alho. Eles apareciam como traças ou borboletas. Então. associar o lar à nutrição que mantém a vida é óbvio. a criança concebida seria uma bruxa. e retirando sua vitalidade. O Vampiro poderia constituir família e ter uma vida normal. Pessoas amaldiçoadas ou perjuras podem vir a se tornar Vampiros. Ele deixava sua sepultura assim que era enterrado. por isso deve ser levado em consideração em que religião ou sistema de crenças o Vampiro foi criado. e caso isso ocorresse. Leo Allatius designa o Vrykolakas como uma pessoa má e que possivelmente foi excomungada por um bispo. bem como a força mágica do portador do símbolo. ao mar ou espalhadas ao vento. muito possivelmente devido ao vínculo emocional nutrido. de Vampiros que foram mortos. e as portas e outras aberturas também eram guarnecidas com ele. No folclore da Transilvânia. No entanto. As cinzas seriam lançadas à água corrente. Esse Vampiro era chamado de Moroi. sendo então um momento de identificá-lo e destruí-lo. Outra fonte do Vampiro era a morte de crianças indesejadas ou ilegítimas. o caixão ficava repleto de sangue até a borda. Pedras enormes eram colocadas sobre os corpos suspeitos e espadas também eram fixadas como barreiras contra a saída do Vampiro da tumba. Como Destruí-lo e Defender-se 49 gregos. Caso o Strigoi (Vampiro) não fosse destruído antes de sete anos. Por esse prisma. Para alguns povos. enquanto o Vampiro queimava. na Romênia. agindo como um súcubo. O coração e o fígado do Vampiro foram cremados.

Em Chios. Sua visão durante o dia seria terrível. Capítulo Três Alguns Casos de Vampirismo Os mastins negros vão ladrando a lua. O Egito é sempre assim quando anoitece! As vezes. quando criança.50 Marcos Torrigo corpo incha.. das pirâmides o quedo E atro perfil. Se por infelicidade alguém responder. testemunhou a exumação de um Vrykolakas. O diabo anima tais corpos e os faz vagar a qualquer hora. é rígido. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. morrerá brevemente. os moradores não respondem a um chamado. até que este se repita novamente. seja dia ou noite. Eles acreditam que o Vrykolakas só possa chamar uma única vez. exposto ao luar. Allatius menciona que. sua aparência assustadora. seus membros ficam dilatados. e quando se falava com o espectro ele desaparecia. parece Uma sombria interjeição de medo! Augusto dos Anjos .. e quando recebe uma pancada ressoa como um tambor. O Cairo é de uma formosura arcaica.

vários ataques a humanos foram registrados. Na autópsia. comeu terra da sepultura como método preventivo que funcionou enquanto ele estava vivo. lembrando que a autópsia foi conduzida por médicos treinados e experientes. O caso teve repercussão internacional. e após isso caiu enferma. claro. Quarenta dias após sua morte. e para ter certeza outros corpos mortos nesse mesmo tempo e enterrados nas mesmas condições foram desenterrados e também autopsiados para proceder comparações. A partir daí a palavra Vampiro foi anexada ao vocabulário mundial. Podemos dar uma gama de explicações científicas – físicas. e sua morte estava desencadeando nova onda de Vampirismo. ele havia sido atacado por um Vampiro turco. Mas o mais impressionante foi o estado dos órgãos internos. Dom Augustine Calmet menciona em seu livro: “Arnold Paul havia contado uma história reiteradamente. e a ampla documentação feita por especialistas. Stanoicka e Millo faziam parte desses. Fluckinger ordenou que os moradores desenterrassem todos os que haviam morrido durante a epidemia. decapitados e queimados por ciganos contratados. seu corpo foi desenterrado por cirurgiões do Exército e se encontrava num estado similar à vida. Os oficiais autopsiaram os suspeitos. Na guerra. Um relatório de Fluckinger foi publicado em 1732 a mando do imperador. pareciam estar em um estado de animação suspensa. Em seguida foi decapitado e queimado. Outras quatro pessoas atacadas por ele tiveram igual fim. narrando os desdobramentos advindos. irrigados de sangue e intactos. Essa nova epidemia teve início com a morte de uma mulher de 60 anos chamada Miliza. os de Miliza. um forte grito. nas imediações do bairro Cassanova. pele rosada e lustrosa. É importante lembrar também que essa história ocorreu em pleno Iluminismo. juntamente com os restantes. tornavam-se ativos após a morte. biológicas e médicas – para o estado dos corpos. A tez estava rosada e. Stanoicka teve a garganta estrangulada por Millo em seu sonho. e pessoas sonhavam com ele. e o Império Austríaco era um dos mais avançados do mundo. Paul foi visto várias vezes. um dos mais alarmantes é o de Arnold Paul. Estes que haviam sido Vampiros passivos durante a vida. O que torna esse caso mais interessante é a onda de Vampirismo que se seguiu a ele. Arnold Paul pensou haver se curado comendo a terra da sepultura. Algum tempo se passou e ele veio a falecer. morrendo logo em seguida.” Ao voltar à sua cidade (1727).52 Marcos Torrigo Alguns Casos de Vampirismo 53 De todos os casos de Vampirismo. cirurgião de regimento campestre. O imperador austríaco instaurou um inquérito presidido por Johannes Fluckinger. onde o destruiu. Ele nasceu em Medvegia. Tanto foi alarmante o caso que todos os corpos em que a autópsia detectou o Vampirismo foram estaqueados. um veterano da guerra da Turquia. estabeleceu-se como agricultor. Império Austro-húngaro. o sangue jorrou e emitiu. Seguiu o Vampiro até o cemitério. Os três corpos. foi detectado um estado de semivida. saindo manchetes em todo o mundo. Suas cinzas foram jogadas no rio Morava. por . dezessete estavam anormalmente conservados e. Uma moça de nome Stanoicka. Logo após. o que levou os oficiais médicos até lá. Algum tempo depois. então. foi atacado por um Vampiro. Após a sua morte. teve um pesadelo no qual era atacada por um rapaz de 16 anos chamado Millo. e as pessoas envolvidas. Possivelmente Miliza havia comido carne de uma rês morta por Arnold Paul cinco anos antes. Essa onda de Vampirismo varreu a comunidade. ao ter o corpo perfurado. vários casos de Vampirismo apareceram na mesma região. Dos quarenta corpos. mas após a sua morte não teve efeito algum. total ausência de rigor mortis. mais dezessete mortes aconteceram. na época pertencente à Sérvia Turca. Mas o curioso é que.

mistura dos cacarejados das galinhas e do latido furioso dos cães. ao mesmo tempo em que * Ver capítulo seis – Múmias. Na Transilvânia. Os pais dela insistiram. as aparições e ataques cessaram. Um caso bastante curioso foi o de Johannes Cuntius. Há um caso no estado de Goiás. não usando o nome Vampiro. ** Ver capítulo quatro – Viagem Astral. Ele rejeitou essa idéia. Ele se alimentava das vacas até exauri-las completamente de sangue. ele olhou de maneira estranha para a esposa. o professor Emil Petrovici. Eles estavam casados. narrado por William de Newbury. mas quando saíram de lá. sem sinais de de- composição. e ao abrir a janela se depara com uma cena terrificante: um ser meio homem meio animal se alimentava do sangue de uma das galinhas. inclusive sua própria mulher. No século XII. Um fato curioso em relação ao fenômeno vampírico é a “morte violenta”. no epicentro de vários outros casos. Peter Plogojowitz. em especial o suicídio. desconhecido na Inglaterra naquela época. Apareceu para inúmeras pessoas. e sons estranhos eram ouvidos. versa sobre o corpo de um cavaleiro que ao ser exumado estava corado. Foi queimado e logo após isso. Após isso. e repleto de sangue. Ao que parece. Outras já haviam servido a seu banquete. após sua morte foi protagonista de uma série de eventos fantásticos. Logo após. ela consegue divisar naquele ser o seu parente de outrora. Mesmo com o asco ante o que ocorria. Sangue escorria pela roupa. Duplo Etérico e Corpos Sutis. e morrerem logo após o sonho – e tudo em uma única aldeia. Um dos casos mais antigos. O morto foi visto vagando pela cidade.54 Marcos Torrigo Alguns Casos de Vampirismo 55 mais que essas teorias possam estar corretas. Após a morte do referido senhor. dando a aparência de que estava apenas repousando e não morto. e assim ele concordou em ir para a igreja. A apoteose desse relato se dá quando uma parenta do defunto escuta uma algazarra no quintal. narra a seguinte história passada em 1936: “Um Vampiro (Strigoi) se transformou em um homem jovem e bonito. várias ocorrências estranhas tiveram vez. Egito e Alimentação Post-Mortem. Seu corpo foi queimado. possivelmente um ato autofágico*. a Inglaterra aboliu a lei que mandava estaquear os suicidas. e uma menina jovem se apaixonou por ele. Seu corpo foi exumado. o responsável pelo estado de Cuntius foi um gato que o arranhou antes de morrer. Este homem teve morte violenta ao tentar espionar sua esposa adúltera. da cidade de Ohaba. seus olhos estavam abertos. surgiu em sonho para várias pessoas. . Os habitantes da cidade invadiram o cemitério e destruíram seu corpo. Algumas pessoas viram o defunto perambulando pela cidade. nove pessoas morreram de causa desconhecida. mas a menina também quis um casamento religioso. Somente em 1823. o sangue comumente encontrado no corpo do suspeito Vampiro era atribuído às suas vítimas. incluindo seu próprio filho. Esse fato se deu em pleno século XX. A Inglaterra também protagonizou algo semelhante. O coveiro informou a família que a sepultura do referido senhor havia sofrido várias rachaduras. o que permanece sem explicação é o porquê de as pessoas sonharem justamente com aquelas dos corpos incorruptíveis. Isso casa perfeitamente com as causas que determinam almas presas à terra após a morte**. e como por milagre a epidemia desapareceu. Um outro Vampiro surgiu logo depois. onde um homem conhecido por sua maldade e outros atributos negativos. Esse relato teve a Polônia do século XVII como palco. e uma peste abateu-se sobre a comunidade. apesar de parcialmente devorado. depois da sua morte. os problemas cessaram. Newbury chama o cavaleiro de sanguessuga. em uma aldeia a poucos quilômetros dos casos já mencionados.

uma outra moça estava sendo atacada pelo Vampiro. em Londres. Lá chegando. protagonizou. Uma das adolescentes. desenvolveu sintomas de ataques de Vampiro – isso em 1969. à noite. o Vampiro despertou e atacou o padre. por várias pessoas. desmistificações. um homem chamado Andilaveris tornou-se Vampiro. cerimônias satânicas. ele começou a aterrorizar as pessoas. estava atacando uma jovem moça. quase um século após sua morte. este seria embalsamado. Seu corpo foi exumado a mando do vice-rei. trazendo o coração até a abertura do corte. Crianças foram suas vítimas. Foi estaqueado com uma barra de ferro. Mas. O processo tem início na presença de inúmeros médicos. mais sangue esguichou. nos casos de Vampirismo. Sean Manchester preside o Vampire Reserch Society. informando que em sonhos haviam visto mortos retornando à vida. Ele havia nascido no Irã e mantido contato com o extremo Oriente. o corpo estava em perfeito estado. elas tinham marcas de ataque de Vampiro. onde se localiza o cemitério de Highgate. ele a ama’. Na morte do prelado. um homem da nobreza. Algum tempo depois. Como de costume. e com marcas de mordida no pescoço. Tudo começou por volta de 1967. Ao ser decapitado com um machado. Esse fato levou até o cemitério centenas de curiosos. em uma aldeia da Grécia. mas para surpresa geral o coração pulsou e o cardeal recuperou a consciência no momento fatal. e inclusive uma delas relatou que um ser tentou entrar em seu quarto. O caso do Vampiro de Highgate ganhou o grande público quando um jornal noticiou que havia um Vampiro no cemitério de Highgate. O Vampiro. coveiros e o padre local o desenterraram e remeteram o cadáver a uma pequena ilha. Nessa carta. filmes. . o caso Highgate perde seu interesse.56 Marcos Torrigo Alguns Casos de Vampirismo 57 arreganhou seus dentes. Foi estaqueado e os ataques cessaram. nem por isso. Moireve. Duas adolescentes procuraram Sean Manchester. Moireve executou seus ataques. Uma história muito curiosa narrada por Montague Summers refere-se ao inquisidor geral da Espanha. seu corpo foi desenterrado e estava em perfeito estado de conservação. de nome Wojdyla. prisões de caça-Vampiros e mais uma infinidade de coisas estapafúrdias. jogando sobre ele excremento e toda a sorte de coisas pútridas. mas o grupo controlou a situação e o sepultaram na ilha deserta. em especial a Índia. Gente da comunidade. após sua morte. até que. O Vampiro de Highgate é um episódio bastante conhecido. Ela estava com anemia. Em 1928. exorcismos públicos. Na mesma época. Na época da Revolução Francesa. O cirurgião fez uma incisão profunda no tórax. agarrando a mão do anatomista que segurava o escalpelo. o oficial fala a respeito de uma visita do vice-rei a Belgrado. O motivo era um caso de Vampirismo.” O certo é que o noivo foi apanhado sugando a noiva e foi atirado pela janela. e através da ferida escorreu sangue juntamente com um fluido branco.Durante décadas. e dessa forma é explicada grande parte dos fenomênos encontrada em cadáveres suspeitos de Vampirismo. e ela procura Manchester. propiciando eventos bizarros. vários parentes do Vampiro já haviam sido atacados e mortos por ele. Mas assim que lá chegaram. de onde provinha sua esposa (atribui-se o seu Vampirismo às origens orientais). Ela ficou amedrontada e falou para sua a mãe sobre o ocorrido. Decorrida a sua morte. que havia sido enterrado três anos antes. como de costume. Os casos de catalepsia são uma hipótese para alguns dos corpos exumados. um ser imaterial foi visto vagando no cemitério. uma série de ataques vampíricos. A mãe disse: ‘não tenha medo. Dom Augustine Calmet narra uma carta recebida de um oficial austríaco que servia na Sérvia.

alguns casos de Vampirismo. Seria mais uma história fantástica dos descobridores. não fosse um detalhe – as iamuricumá. Este era fruto do Vampiro de Highgate. um paralelo é traçado entre a vampira do Amazonas e as antigas guerreiras amazonas. em 9 de novembro 1967: uma vampira de minissaia foi vista na cidade de Manaus. sendo estaqueado e destruído. e foi destaque no Mirror de Londres. havia um Vampiro morto. Pois é idêntico ao que as amazonas gregas. tratava-se de um praticante de magia negra do leste europeu que encontrara a morte no fronte ocidental. foi colocada em observação. A lenda das amazonas é grega. faziam. foi tratada como um caso patológico. que. Além da narrativa. mas. devido às influências de sua família. O alvo dos responsáveis foi o morto-vivo. O explorador espanhol. que sugou o sangue do ferimento. para os responsáveis pelo caso. Devido às suas técnicas de magia. No final da década de 1950.58 Marcos Torrigo Alguns Casos de Vampirismo 59 Em 1973. e. mas como eles não tinham a localização do seu corpo. Aparentemente. e então houve um combate entre espanhóis e as “amazonas”. Além disso. habitavam o Cáucaso e as fronteiras da Citia. Esta narrativa é encontrada no livro Le Livre de L’ inexplicable. de minissaia. perto da jugular. Em um deles. Essas pessoas vão até o campo . uma pessoa foi flagrada em ataques de necrofilia – isso teve lugar na Primeira Grande Guerra. um iniciado de alto grau prendeu-o dentro de um círculo mágico e o absorveu. menciona em seu livro Psychic Self Defense. de uma criança que havia sido sua vítima. Um caso insólito ocorreu no Brasil. Ou seja. desligando-se o espírito da Terra. ele teve o mesmo fim do primeiro. dezessete abandonaram as buscas. Para Dion Fortune. Dion Fortune. e não só o rio: ele menciona que se deparou com uma tribo de mulheres guerreiras. o Vampiro foi localizado em uma propriedade perto do cemitério. Relatos de atividades de Vampiros surgem em todo o mundo. de uma cultura quilômetros e séculos distante daquela das amazonas brasileiras. tinha iniciado o necrófilo no Vampirismo. e logo se estabeleceu uma relação entre os dois. usando meias negras. Dion Fortune compila um caso do comandante Gould de 1869. O relato sobre elas foi coletado pelos irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas diretamente das tribos indígenas. Essa pessoa foi presa. o necrófilo era o alvo ideal. a história tivera o seu fim. Suas vítimas foram uma moça de 20 anos. foi quem descobriu o rio Amazonas. devido ao estado psicológico. só que por volta de 1980. Em março de 2001. as mulheres guerreiras que cortavam o seio direito para melhor atirar com o arco. O primo foi atacado no pescoço pelo necrófilo. Ao ser detida. como o caso acima. Há um relatório de que dos trinta policiais que caçavam a vampira misteriosa. a respeito dos Berberlangs das Filipinas. Se for uma coincidência. e ali tentou beber o próprio sangue. ou seja. perto do Mar Negro. A ocultista inglesa1. Dois pequenos furos foram encontrados no pescoço. o Vampiro provou a segunda morte. o México aprovou uma lei que obrigava os pais a relatar a morte de crianças atribuída às bruxas vampira. A polícia informou que ela estava deixando a população em pânico. um garçom e uma senhora de 88 anos que teve o pescoço cortado. Francisco de Orellana. Um primo foi cuidar dele. e alguns bem atuais. de Jacques Bergier. justamente nas proximidades onde ocorreram os casos de Vampirismo da Grécia e os países do leste europeu. uma berlinense é presa após atacar várias pessoas na rua tentando sugar o sangue de seus pescoços. ao que parece. Ela gritava que era uma vampira sedenta. talvez por um Vampiro. pôde continuar “vivendo” e. As pessoas que foram suas vítimas a descreveram como uma mulher loira. estaqueado e exorcizado. na França. animais foram encontrados mortos. a crença nelas se mantém viva até hoje. um morto-vivo. é uma das maiores que já vi.

a segunda tem lugar no além.60 Marcos Torrigo mais próximo. A primeira é brutal e violenta. executam seus ataques. O senhor Skertchley protagonista das histórias do comandante Gould viu os Berberlangs entrarem em uma habitação. lenta e suave. saindo em astral. e. escondem seus corpos e. a segunda. nos domínios de Perséfone. no dia seguinte. Capítulo Quatro Viagem Astral. Plutarco . o morador estava morto sem nenhum sinal de violência ou doença aparente. Duplo Etérico e Corpos Sutis A primeira morte se dá nos domínios de Demeter.

Como já dissemos. o som do ar e do fogo enche nossos ouvidos. como demônios. na morte pode se tornar um Vampiro. Antes de prosseguirmos neste ponto. ou. mas ela é nossa amiga. o derradeiro portal. a bruxaria. a viagem astral não se restringe aos praticantes da Arte dos Sábios. Prana é a energia do Sol. tudo posso. tudo é vivo. a acupuntura e seus meridianos. o “lançador” do corpo astral. juntas. o Dragão cósmico. Os fenômenos paranormais. As reuniões ou sabás das bruxas eram feitos dessa forma. infindáveis. uma nova realidade milhões de vezes mais abrangente. de mãos dadas. somos recebidos por Ch’ien. limitado no tempo e no espaço. Para absorver a energia prânica usamos o duplo etérico. O ser atemporal. o praticante de magia em especial. girando. as irmãs vida e morte caminhantes rumo ao eterno. mas isso pode ser melhorado por meio do emprego de determinadas técnicas. Mas o que eles podem contra nós? São nossos irmãos. uma criança que nasce. e toda noite nos projetamos. muitas vezes. energia. umas mais naturalmente que outras. não há nada de novo na viagem astral. lembrando que mesmo esses estados fantásticos não são o objetivo último. e a natureza ganha vida. o terror. Ela é encontrada em todos os seres e é fundamental para a manutenção da vida. As pessoas que passaram por esse processo narram tanto as maravilhas como os gigantescos terrores. Na viagem astral ou projeção da consciência. tudo sei. o criativo. Grosso modo. A fogueira acesa crepita há vários metros. o corpo físico fica em repouso e o corpo astral é lançado. Um vôo ao eterno. Um praticante de magia em vida. a sensação é de vertigem. magos e yogues se valeram da viagem astral consciente para o seu aprendizado. através do qual podemos entrar em contato com outras realidades. A glândula pineal tem um papel importante na fenomenologia oculta – muitos viajantes astrais acham que esta glândula é a porta. Todas as pessoas têm essa capacidade. que. o corpo treme como nos estertores da morte. a maioria das pessoas inconscientemente. o Vampirismo está associado à magia e à bruxaria em todo o mundo. Êxtase infinito. Não se trata em absoluto de uma novidade. girando. O medo. levando o iniciado a ser considerado louco. e esse é o momento de voltar. Como veremos de forma mais abrangente no capítulo cinco. com a popularização da técnica chamada viagem astral. o Yôga e o processo de evolução através dos chacras se valem da anatomia oculta há milênios. nas mais variadas formas. sou uma criança e um velho. mares de energia. Mas vem a saudade do ser encarnado. De médico e louco todos temos um pouco. não há palavras para descrever o inefável. entre outras coisas. que é um elo de ligação entre o físico . Duplo Etérico e Corpos Sutis 63 Para entender melhor o fenômeno do Vampirismo e como se processam seus ataques. seria o corpo energético ou psicossomático. se preferirem. daí a capacidade de “voar”. xamãs. Estes corpos ficaram muito mais conhecidos nos últimos anos. ou seja. O sahasrara chacra tem uma relação especial com a pineal. causam uma ruptura com a pseudo-realidade. a mente e a realidade se tornam irreais e uma nova realidade se descortina. iremos abordar os corpos sutis e a anatomia oculta dos seres humanos. Seres espectrais. Mandalas tridimensionais.62 Marcos Torrigo Viagem Astral. e este está no centro – a dança de Shiva. Os quatro elementos são chamados pelo espírito para uma dança de roda. e estamos em tudo. no seio da mãe cósmica. infinito. faz-se mister trazer à baila um outro conceito – a energia prânica. elementais negros ou Asuras se aproximam. creio. ou mesmo estando vivo pode se valer da projeção astral usando o duplo etérico para drenar energia dos vivos. o leitor conhece ao menos em tese. O objetivo da ascensão da kundalini – a iluminação – é conseguido ao se elevar a energia ígnea (kundalini) até esse chacra. Quântico.

Duplo Etérico e Corpos Sutis 65 denso e o corpo astral*. foi enterrado por um mês (!) sob a supervisão de Sir Claude Wade. .64 Marcos Torrigo Viagem Astral. Qualquer mago que tenha conseguido * Todos esses corpos são físicos. são níveis diferentes da mesma coisa. Em projeções longas. Outro fato relevante é que os médiuns apresentam alguns sintomas das vítimas de Vampirismo. e a literatura do ocultismo está cheia deles. Se por acidente ela se fere. é claro. Esse fato é deveras contundente. Uma bruxa está materializada. o duplo absorve a energia prânica do ambiente. ficam extenuados. Os yogues conseguem levar essa prática às ultimas conseqüências. Os relatos desse tipo são inúmeros. onde a matéria equivale à energia. que usava o Vampirismo para se manter vivo por mais tempo. esse ferimento pode ser transmitido ao corpo físico. mas da mesma forma presente. Aparentemente estava morto. Achava que o Vampiro era o corpo astral de uma pessoa enterrada viva. para melhor compreender isso. Quando. Tanto é que alguns projetados já foram dados como mortos. enquanto seu corpo astral vaga e ajuda a manter o físico. ou seja. uma materialização sabe o desgaste advindo. Para os ciganos alemães. sendo que não são poucos os casos onde elas se nutrem dos vivos para manter-se nesse nível de existência. após as sessões de materialização. mais um motivo para que os magos negros se valham do Vampirismo para abastecer-se de energia. o corpo físico fica em catalepsia. Não esquecendo. Magos experientes podem adensá-lo materializando-o. O duplo é o responsável pelo ectoplasma e grande parte da fenomenologia espírita. ou o veículo do prana. ruídos e toda a sorte de manifestações. os pranayamas e a meditação profunda. Os médiuns. mas de uma solidez diferente da matéria vulgar. como um cadáver. na Índia. Transcorrido o prazo. ao que tudo indica. Estas sombras muitas vezes rondavam os locais habituais de quando vivas. por algum motivo. T. muito da sua energia é gasta na materialização. daí a licantropia e a capacidade do Vampiro de se metamorfosear em vários seres. o Vampiro deixava seu esqueleto na tumba. Pierart. A função do duplo etérico é captar a energia prânica durante o sono. e a chave dada a Sir Claude. mas de forma alguma esse fenômeno se restringe ao dito espiritismo. Duplo etérico é prana maya kosha. esse prana é absorvido de outro ser. O faquir foi lacrado em uma caixa. Guardas ficaram a postos pelos trinta dias. Este simulacro do corpo físico (mantendo a mesma aparência de quando em vida) comumente está associado às aparições de fantasmas que são encontradas na fenomenologia ocultista. ele foi desenterrado. Um faquir. Toda noite. são enterrados vivos por semanas. e isto pode ocasionar um fenômeno chamado repercussão. um espiritualista francês e editor da revista La Spiritualiste. na verdade não há diferença entre físico e espiritual. a respiração e os batimentos cardíacos caem a níveis mínimos. usemos a teoria da relatividade. ele propicia materializações. acerca do qual muito se falou. talvez menor que no caso dos médiuns. Z. temos o Vampirismo. sem falar que o duplo podia tomar formas variadas. Possivelmente o duplo materializado tinha uma constituição sólida. mas foi desperto pelos seus companheiros. daí vem a crença de que os Vampiros não têm ossos. Ficou enterrado dentro de um túmulo de alvenaria e coberto de terra. basta para tanto imaginar que todos os seres ao dormir estão se nutrindo dessa energia. foi um opositor do espiritismo e das idéias de Kardec. A sombra astral do morto é temida em alguns locais e reverenciada em outros.

que tem sua expressão das mais variadas formas. Para os reencarnacionistas. e inclusive há vários relatos da atividade sexual intensa de alguns Vampiros. tomava a forma de algum animal. menciona que os Vampiros podiam ser animados pela luz da lua. Se persistisse nessa situação. Esse relato é uma prova bastante forte a respeito do porquê do fenômeno do Vampirismo. A alquimia interior também é trabalhada pelo uso da anatomia oculta do homem. seria automaticamente transmitido ao físico. mesmo no espectro de temas do ocultismo. a retorta e o alambique alquímico são o corpo. A gama de hipóteses é gigantesca. como jogos de poder. aquelas pessoas que nos deixam extremamente cansados após o contato com elas. O corpo etérico superior poderia viajar pelas imediações. e não do que poderíamos chamar de sanguessugas energéticas. e por isso estão amplamente relacionados ao Vampirismo os natimortos e todos os óbitos advindos de problemas de parto. Um deles era irracional e selvagem. sadismo. O corpo etérico. A ligação do Vampirismo com a sexualidade é proverbial. que pode ser chamado de pai do estilo Gracie de Jiu-Jitsu. Como mencionado anteriormente. Há uma crença bastante difundida no ocultismo de que a encarnação se dá quando os pulmões se enchem de ar pela primeira vez. Na verdade. mesmo sem a pessoa ter consciência do que faz. O caso do Vampiro vivo é mais complexo. para que não sofram a segunda morte. vícios de vidas passadas podem ser uma motivação. Grande parte do emprego da energia nas artes marciais é advinda dessa escola e. Obsessão seria outra fonte: entidades agiriam como “más companhias” para a pessoa. após a morte. etc. esse elixir é feito com os próprios fluidos humanos – o recipiente. O feto só teria o P’o ou alma inferior. às vezes. fins mágicos. Elas lembram. entre outras coisas. para daí sugar os vivos. O morto-vivo é talvez o mais facilmente explicável.66 Marcos Torrigo Viagem Astral. Indagar o porquê do Vampirismo nos traz uma infinidade de inferências. Vale salientar. o ser humano tinha dois corpos sutis. em seu Dicionário Infernal. noutros existia como cascarrão e não se desintegrava. e o outro. coloquei aquelas com que entrei em contato ou que são bastante lógicas partindo dos conhecimentos que disponho. e pouco conhecido. Este é um tema deveras interessante. para os chineses. em alguns casos se mantinha ligado ao físico. chamado pelos chineses de P’o. Distúrbios nos corpos sutis podem ocasionar o Vampirismo. Duplo Etérico e Corpos Sutis 67 Lembrando que o prana no corpo humano se concentra em especial no sangue! No capítulo dois. Lembrando que estamos falando de projeção astral. ou seja. muito sofisticada. um Vampiro. e não da concepção. para não ficarmos tão longe da nossa realidade. Parte daí o fato de o mapa astrológico ser feito com a hora do nascimento. Um mantenedor da juventude. pois a morte romperia a capacidade normal de absorção de prana. tornava-se um Chiang-Shih. ajuste de contas. o que nos faz lembrar o Xamanismo e seus animais de poder. e isso se torna premente em espectros presos à terra. racional e composto pelos aspectos superiores da psique. a escola tântrica taoísta. são pessoas de índole vampírica. de certa forma. sendo que entidades vampíricas das mais diversas culturas têm um grande interesse na energia sexual dos humanos. Ela visa. Hélio Gracie. o elixir da longa vida. Collin de Plancy. tinha ainda um detalhe: o hun ou alma superior encarnava no momento do nascimento. é uma das que trabalham com essa fórmula. Se algo ocorresse a esse corpo. falamos de uma crença na Romênia de que Vrykolakas são almas de pessoas que saem à noite para alimentar-se da energia do sol e da lua. os suspeitos de Vampirismo. é um praticante dessa técnica. sexo. . fisionomicamente. Essa crença chinesa. O corpo físico inferior.

toda pessoa tem duas almas: quando uma pessoa morre. Ou seja. costume praticado até hoje na Índia. uma médium que conseguia tocar um instrumento musical pelo simples dedilhar. sejam elas os movimentos de objetos ou a descoberta de coisas ocultas. mesmo ele estando a dois metros de distância. Essa crença também é comum à Romênia. Sonha tão intensamente que o fantasma do cão pode apanhar uma lebre no campo e matá-la. . Seth e Hórus. e após breves minutos isso era transmitido ao instrumento. Os egípcios tinham o Ba e o Ka. o crânio. Após a morte. o Sol. De forma alguma isso se restringiu ao Egito. mas várias outras tradições como o culto do vodu. duas almas. por causa disso. Para a Cabala. já que são as condições angustiantes da morte que motivam esse fato. Na Eslováquia. o hábito e o sonho. saciaria-se com as oferendas de alimentos. Duplo Etérico e Corpos Sutis 69 O P’o não necessita do corpo inteiro. Sylvan Muldoon. a quem nós interpretamos como sendo um iluminado. uma alternativa para se abastecerem de energia. Ele compara a capacidade mediúnica a um cachorro dormindo. ela o fazia no ar. por exemplo. Os egípcios tinham um cuidado todo especial com o morto. sendo que a unificação dos dois venceria a morte. vários Vampiros tiveram morte violenta. De acordo com a convicção do vodu haitiano. tornando a pessoa imortal. tanto que uma série de preparativos era feita no sepultamento. que pode ser a alma de alguém que teve morte violenta. Por toda a história. Crowley os representa pelas divindades Hoor-Paar-Kraat e Ra-Hoor-Khuit – um é a sombra. As pinturas e estátuas eram representações que visavam apaziguar o morto do choque decorrente da morte. e estaria amparado por toda a sorte de coisas que teve em vida ou símbolos religiosos. temos os enterros * Ver capítulo oito – Cabala e Vampirismo. que para o nosso estudo é deveras importante. a escuridão. basta-lhe uma parte do esqueleto ou. Por algum tempo.68 Marcos Torrigo Viagem Astral. e consolá-lo. receber espíritos e mais uma infinidade de coisas graças à sabedoria atemporal que reside dentro de si mesma. que sonha que caça uma lebre. Ele derruba por terra a idéia moralizante a respeito dos espíritos presos à terra. Este fato era simulado ritualisticamente na entronização do Faraó como governante do baixo e do alto Egito. incluindo a viúva. ou uma pessoa que por qualquer motivo não teve os ritos fúnebres. dizia-se que o Vampiro tinha um coração extra. daí grande parte das assombrações. um adolescente. coletivos. o duplo do morto voltaria até o corpo. respectivamente*. os sérvios acreditam que o Vampiro tem dois corações e. A alma que vaga é chamada no vodu de zumbi. Muldoon dá um exemplo explicando essa capacidade. e não só eles. uma pessoa pode assombrar uma casa. não o caráter do defunto. melhor ainda. Nephesch e Ruach. O leste europeu tem crenças similares. sede real de sua vida. O trauma da morte é “reencenado” inúmeras vezes após o óbito. e por isso se tornaram Vampiros. a Luz. A alma da escuridão e a alma da luz. o desejo. Fechando o leque. O interessante é que os egípcios tinham uma compreensão idêntica. uma das almas segue para o céu. um dos maiores viajantes astrais de todos os tempos. o outro. nos quais uma figura de poder se fazia acompanhar por toda uma corte. Sendo que ele unia em si através deste ritual Seth e Hórus. Muldoon também fala que o cordão etérico e a mente supraconsciente produzem grande parte das manifestações. menciona que o que faz uma alma ser presa é a loucura. Muldoon menciona Eusapia Paladino. pequenas estátuas do sexo oposto do morto eram colocadas por vezes no caixão. no leste europeu. A outra alma fica nas proximidades do cadáver. ou vagando pelo mundo.

são ainda piores. Caronte é senhor da morte. uma taxa para ser paga ao barqueiro Caronte. os vários aspectos da vida têm um peso no condicionamento da viagem astral. entre outros. A primeira coisa que ela me contou foi o sonho que teve comigo e a nossa conversa. solar e lunar respectivamente. Caronte era quem fazia a travessia do Estige. o rio odioso. cujos temas tinham sido coincidentes. Em alguns locais da Europa. fui ao encontro dela sem falar-lhe nada. no alto da cabeça. são necessárias altas temperaturas que tecnicamente destruiriam tudo à sua volta. são canais de energia que existem no corpo humano.70 Marcos Torrigo Viagem Astral. Um fenômeno muito curioso é a combustão espontânea: estudos revelam que os alcoólatras e as senhoras obesas de meia idade são os candidatos a ela. o defunto estaria livre de ter seu corpo. fantasmas e sombras. Uma de minhas primeiras viagens com emprego de técnicas. As viagens astrais são motivadas. Tanto é assim que uma adulteração posterior colocava hóstia cristã na boca do defunto. havia o costume de colocar-se uma moeda na boca do morto. uma implosão ígnea. Nela. por fatores subconscientes. possuído por outro ser. ele está no centro do corpo. Estes recebem o nome de Kudlak. Assim sendo. apesar de ser bem sabido que. O sexo também é um dos grandes motivadores da viagem astral. na sua maior parte. Vai do muladhara chacra. Pingala e Ida. Encontrei uma amiga no astral e conversamos um pouco. naquela época. que separava o reino dos vivos do reino dos mortos. na base da espinha. Essa crença permanece viva até hoje entre os camponeses gregos. O central chama-se sushumna. Muitas dessas moedas são cunhadas nos dias de hoje com os mesmos símbolos usados nas casas para impedir a entrada do Vampiro. presidido por Hades. legistas ou policiais encontram explicações. mais precisamente na coluna vertebral. Aparentemente. e objetos ao redor também. para incinerar o corpo humano. sendo consumidos em chamas. há também combustão em alguns casos de estaqueamento. e sai na morte. Além desse canal central existem outros dois canais. que sairá de seu corpo à noite. dinâmico . frio e preocupação podem gerá-la. a pessoa morta seria condenada a vagar. Na Grécia antiga. há uma crença que reforça o uso do duplo etérico na atuação do Vampiro: pessoas que nascem com uma membrana cobrindo suas cabeças são Vampiros em potencial. e era colocada na boca justamente por ser por onde o espírito entra no nascimento. serem destruídos pela luz do sol. e reza a tradição que suas almas abandonam seus corpos em forma animal para atacar suas vítimas ou lançar sortilégios mágicos sobre a cidade onde vive. Incluo este tópico devido ao fato de os Vampiros. Fome. deu-se dessa forma. até o sahasrara chacra. não podendo entrar no reino dos mortos. a clarividência. do lado direito do corpo masculino. seja o físico ou o duplo. Ao despertar. e nem peritos. no outro dia. Uma parte importante no trabalho com a kundalini é a dos nadis. os mesmos da acupuntura. nítida adaptação do saber ancestral. O mais interessante em tudo isso é que a moeda. esse fogo brota do interior da vítima. Caso isso não fosse feito. O mais estranho é que muitas vezes a roupa do morto se mantém intacta. em muitos relatos. mas para lutar contra os Kudlak e contra os mortos-vivos em geral. na casuística vampírica. Duplo Etérico e Corpos Sutis 71 Dá muito que pensar esse exemplo. Pingala. de uma forma modificada. Após a morte. A vítima queima sem explicação aparente. O trabalho de ascensão da kundalini pode provocar o despertar de capacidades como a clariaudiência. Mas há uma outra possibilidade: o bebê pode vir a tornar-se um Kresnik. dessa forma. estava associada a algum pentáculo mágico.

emocional associado ao rio sagrado Ganges. o Pingala tem sua localização no umbigo. seus princípios deveriam ser absorvidos e transcendidos. descreveremos a que surge no nono dia após a morte. segura um escalpelo. uma relha e mais um escalpelo. encará-las como princípios divinos de grande sabedoria. mas sob um novo aspecto. iluminado. o sangue arterial é solar. lunar e solar. casa-se com uma moça e leva uma vida aparentemente normal. o local foi palco de estranhos ataques: cavalos e bois estavam morrendo. e visíveis a todos. e um grupo foi até sua casa e o prendeu. não o fim da jornada. Para o Budismo. Bardo Thodol. o Vampiro está vinculado apenas à corrente lunar. nos leva à experiência direta.72 Marcos Torrigo Viagem Astral. Duplo Etérico e Corpos Sutis 73 e racional. e Ida. Uma das máximas thelêmicas é: “Não há deus a não ser o homem”. Examinado. e ele voltava somente ao amanhecer. Seth e Hórus. Uma história ocorrida em uma vila da Bulgária nos fala sobre um Vampiro que ilustrará as explicações anteriores. O Bardo Thodol. Curiosamente. e mais manifestações físicas de sua superação se farão presentes no momento de sua morte. só que invertidos. Pingala na narina esquerda e Ida na direita. Os boatos das saídas noturnas do rapaz se fizeram conhecer pela comunidade. Esses canais são conectados às narinas. é um compêndio de técnicas para a boa morte. que leva até a boca de Bagavã Vajra Heruca uma taça cheia de sangue. e nos leva a uma observação: a de que o Vampirismo está intimamente ligado ao feminino. Na circulação sangüínea. etapas no caminho. foi constatado que apenas uma das narinas era utilizada. cujo objetivo seria conduzir o moribundo a vencer a Roda do Samsara. ele travará contato com as divindades irritadas. Um rapaz chega até a vila. o ciclo de nascimentos e mortes. e sabe que todas são Maya. e nas demais mãos. ele é humano. ilusão. mas nem por isso deixavam de ser ilusão. para que possamos estar acostumados a elas na morte. Foi levado até o alto de uma colina e queimado vivo. A mulher do rapaz notava sua ausência todas as noites. Ou seja. Em uma das mãos. ou seja. Ida. uma clava. e podemos levar isso aos dois princípios: a alma solar e a lunar. e caso ele não consiga isso nos primeiros dias. O fato em si levanta uma série de indagações. feminina e masculina. seis mãos. nos fala que devemos homenagear essas divindades bebedoras de sangue em vida. Durante sua estada. Alguns relatos de Vampirismo mencionam esse aspecto de uma única narina sendo utilizada. O Livro dos Mortos Tibetano. e dessa forma o estado búdico é alcançado. quatro pés. também chamadas de bebedoras de sangue. Para imaginarmos como era a visão dessas divindades bebedoras de sangue. um dorjê. ele se defronta com todas as divindades. a Mãe. O curioso é que são as mesmas divindades benevolentes. de Crowley. E vai mais longe: mesmo os que viverem de forma imperfeita alcançarão a salvação se conseguirem assimilar esse princípio. Ele principia com técnicas que visam fazer com que o moribundo veja a luz clara e liberte-se. Muito possivelmente. um sino. A divindade chama-se Bagavã Vajra Heruca. Junto a ele está Vajra Satva. tem três rostos. e às energias a ele relacionadas. ou seja. O mais curioso ainda é que medo e fuga não são a saída. do lado esquerdo do corpo feminino. etc. desperto. aquele que sabe. em outra. no centro da cabeça sendo que alguns tratados de anatomia esotérica o colocam no palato. Ler o Liber DCCCXIII Vel Ararita. intuitivo. Um humano que expandiu . o venoso é lunar. a partir do oitavo. e não havia sangue neles. e se pensarmos no Budismo tibetano e no conceito de Buda. O Livro dos Mortos Tibetano. os deuses eram seres poderosos. mas sim se fundir a elas. sendo o fenômeno do Vampirismo um desequilíbrio entre as duas energias.

cobiças o sangue e fazes tremer de temor os mortais! Gorgo.74 Marcos Torrigo as fronteiras do si mesmo. vagueias em meio às sombras passeando entre tumbas. Capítulo Cinco Bruxaria e Vampirismo Ó amigo e parceiro da noite. Um homem que se tornou mais que todas as divindades. com o sangue vertido. Lovecraft . Mormo. H. apreciem os nossos sacrifícios. indo à causa de todas elas e sendo sua causa. P. a Lua de mil faces. tu que te extasias com o ladrar dos cães acuando suas presas.

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Às vezes, também, o que é muito raro, as almas são acometidas com tão grande frenesi que não só entram nos corpos dos vivos, mas também, impulsionadas por uma força incrível, retornam aos cadáveres que abandonaram e realizam, como se houvessem ressuscitado, atos horríveis. Assim, lemos no Saxon Gramático que alguém chamado Asuit e outro chamado Asmond fizeram o juramento recíproco de que aquele que sobrevivesse ao outro se encerraria com ele na tumba; quando Asuit morreu de uma enfermidade, colocaram-no numa caverna com seu cão e seu cavalo, e Asmond, para guardar o juramento de sua amizade, deixou-se encerrar com o amigo, levando consigo víveres para muito tempo. Sem embargo, Eric, rei da Suécia, ao passar um dia com seu exército pelas redondezas da caverna, fez abrir (pensando tratar-se de um tesouro) a tumba de Asuit, expondo Asmond à luz; ao vê-lo horrivelmente desfigurado, coberto de podridão mortuária e inundado de sangue que lhe saía de uma cruel ferida (porque Asuit, que revivia todas as noites, em seus ataques contínuos lhe havia arrancado a orelha esquerda), perguntou-lhe qual era a origem daquilo, e eis o que narrou ao rei, com estes versos: “Por que assustar-vos com um verme tão desfigurado e pálido? Todo homem vivo desaparece entre os mortos. Não sei por qual empresa ousada do poder da Estígia, o espírito de Asuit foi enviado desde os infernos para devorar seu cavalo e meter incluso seu cão em sua detestável boca. Não contente em haver comido seu cavalo e seu cão, logo depois me cravou suas garras e arrancou-me a orelha. Eis aqui o porquê do meu rosto ser espantoso e porque vedes correr o sangue por esta cruel ferida. Sem dúvida, este monstro infernal não atuou impunemente, porque lhe cortei a cabeça com minha espada e transpassei com ela seu corpo maléfico.”

Esse relato encontra-se no livro Filosofia Oculta, de Cornélio Agrippa. O livro foi escrito por volta de 1500, ou seja, duzentos anos antes da histeria de Vampiros que varreu a Europa. Agrippa foi um dos maiores magos de todos os tempos, grande cabalista, alquimista e teurgo, tendo feito parte das cortes de Carlos V e Maximiliano I. A magia como um todo está inclusa na história do Vampirismo, seja a Bruxaria, o Xamanismo ou o vodu – não importa o rótulo. Mas onde reside o motivo dessa associação? É mera crendice? Muito possivelmente não; quase sem medo de errar, a afirmação mais correta seria a de que a magia é a grande motivadora do Vampirismo. Quando uso o termo magia, estou expandindo o seu significado original e lhe atribuindo uma nova valoração. Sendo entendida como magia toda relação do ser humano com o mistério e o oculto, na tentativa de tentar compreendê-lo, mas acima de tudo de compreender a si mesmo, como indivíduo e espécie. A ciência é prima-irmã da magia, e não poderíamos deixar de juntar a esse nosso conceito expandido os fenômenos parapsicológicos. Melhor que toda essa minha verborragia são os pensamentos de um certo escritor, em especial no que tange e pode ser aplicado ao Vampirismo. Arthur Machen, em algumas de suas obras, tem uma visão iluminada, muito similar aos axiomas de To Mega Therion. A sua obra faculta algumas reflexões bastante interessantes, que levam o vulgo ao estupor, e maravilham o Régio. Por mais que Machen mantenha aparentemente uma visão maniqueísta, ele insufla idéias fantásticas. Dentre elas nós temos os kalas, os centros secretos do organismo humano, terras inexploradas para o seu possuidor; outra afirmação de uma de suas obras faz lembrar Nietzsche, além do bem e do mal.

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Os senhores do mundo devem ir além do bem e do mal, só aqueles que os conhecem e que a eles transcendem chegarão ao mundo real, a causa última de tudo. Tomar o céu de assalto, querer ser Deus, é a maior de todas as blasfêmias. Estes que assim agem são ascetas negros e, como os outros iniciados, comungam, só que com as forças dos abismos profundos, onde habita o mal. Não sejamos hipócritas: estes que assim agem muitas vezes têm a conduta mais ilibada do que os santos. Os iniciados do caminho da mão direita tentam elevar sua consciência rumo ao divino; levando uma vida sã, são extasiados pelo espírito. Os ascetas negros são movidos por uma paixão aterradora em sua busca dos mistérios inversos. Os motivos de seus anseios escapam ao comum. Somente o iluminado, conhecedor da luz e sombra, capta o seu conhecimento. A bruxaria e os cultos femininos são tão antigos quanto o tempo. No Paleolítico, o corpo da mulher era sagrado, divino por natureza é um mistério – a anima mundi. As mulheres eram, segundo muitos antropólogos e mitólogos, as portadoras do saber e poder mágico. Tanto é que há mitologias em todo o globo tratando do processo que os homens tiveram que encetar para tentar controlar esse poder. Em resposta a ele foram criadas as sociedades secretas exclusivamente masculinas, similares à maçonaria de hoje. O enfoque feminino possivelmente era mais ligado às plantas, e o masculino, aos animais. Esse conflito retrata uma deusa imanente versus um deus transcendente. Muito do mal e do demoníaco associado à mulher é advindo dessa transição. Sabemos que os deuses dos vencidos são os demônios dos vencedores, e com o arquétipo feminino não foi diferente. Para as culturas antigas, o Vampirismo estava intimamente associado ao feminino: Lâmia, Lilith e uma infinita turba de lascivas e demoníacas entidades femininas. É bem sabido que, para as grandes religiões de hoje em dia, a mulher é associada ao mal, ao pecado e à

tentação. Algumas teorias, como já vimos, falam de uma era matriarcal que teria sido sobrepujada pela patriarcal; por mais que esse dado antropológico gere polêmica, ele se apóia na psicologia interna, em que o matriarcado se identifica com a mãe e a fase oral, e o patriarcado, com a fase fálica. E fácil imaginar que essa mudança não ocorreu de uma só vez, e também que, muitas vezes, foi feita de forma violenta. Encontraremos seus resquícios em várias partes do mundo, pois entre os judeus, até hoje, um filho de mãe judia é judeu, mas o de pai apenas, não. Para a compreensão desses fatos e sua ligação com o Vampirismo, iremos tratar de um arquétipo que sintetiza sobremaneira a miríade de elementos da magia e do Vampirismo. Lilith, intimamente associada aos Vampiros, e também às bruxas, é um espectro que paira sobre a religião judaica. No ato sexual, ela ficava por cima de Adão, e não quis ser subjugada pelo macho, daí sua revolta. Esse fato retrata, talvez, a transição dos cultos à deusa para o deus judaico, de uma sociedade agrária ou coletora para uma pastoril. Esse fato se repetiu inúmeras vezes pelo mundo, com isso não estou falando de sua existência objetiva, e sim subjetiva, mas com exteriorizações no mundo. Lilith, em sua origem, deve ter sido um arquétipo da grande deusa mãe, que tentou resistir à invasão do patriarcado. Possivelmente Abel, o pastor, foi sacrificado a essa grande mãe. Mas as coisas não foram tão fáceis para os pastores patriarcais. Muitas mulheres judias ficaram fascinadas pelo culto à grande mãe. Um bom exemplo é a história de Sodoma e Gomorra. Lot foi expulso da cidade; vejam esta passagem: O povo de Sodoma cercou a casa de Lot, do mais velho ao mais jovem. E eles proferiram: Que se vá embora, um estranho, que veio morar conosco e agora quer ser um juiz.

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Marcos Torrigo

Bruxaria e Vampirismo

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Com isso fica claro que não eram judeus, e que a alegoria da conversa entre Lot e Deus é um acréscimo posterior. A parte mais curiosa tem a ver com a mulher de Lot, que não quis acompanhá-lo, pois possivelmente preferiu ficar com o culto à grande deusa. Ou seja, a história de virar uma estátua de sal é mais uma alegoria. Lot afogou suas mágoas com as duas filhas em uma relação incestuosa. O nome Lilith vem da Mesopotâmia, encontrado nas civilizações sumeriana, acadiana e babilônica, nas quais há várias divindades em que ocorre o fragmento lil, como, por exemplo, os deuses Nilil, Enlil, entre outros. Belit-ili, Lillake, a cananéia Baalat, a divina senhora, são alguns de seus nomes. Nas representações mais antigas de Lilith, ela aparece como Lillake (cidade de Ur, 2000 a.C.). Lilith está intrinsecamente associada à coruja, sendo representada como uma mulher sedutora, torneada, de seios bem formados e suculentos, uma yoni (vagina) que exala o perfume do amor, com pés de coruja e asas. Na literatura hebraica, ela é a primeira mulher de Adão. Ao que tudo indica para alguns cabalistas o livro Zohar, o deus judaico criou Lilith e Adão como gêmeos. Ela queria igualdade para com ele, mas lhe foi negada. Ela não se subordina a Adão, e, conseqüentemente, incorre na ira do deus. Foge para o Mar Vermelho e, com Samael, cria uma infinidade de seres demoníacos, que juram atacar a raça humana – fruto da união de Adão e Eva. Uma lenda islâmica atribui a ela a origem dos djinns (gênios), seres de fogo que vivem nos espaços entre mundos. Ela era a responsável pela morte de crianças, pela esterilidade e pelo aborto. Também é sua característica a sedução sexual. Surge no meio da noite, trazendo sonhos eróticos carregados de emoção, e os homens são as principais vítimas. Quando despertam, dão-se conta do vulto monstruoso pousado sobre seu peito, pronta para absorver o esperma, fruto da ereção. A morte, a loucura e a depressão

são os resultados dessa visita. Um súcubo, um demônio da noite, sedutora de homens, assassina de crianças e mãe de demônios. Roberto Sicuteri, em seu livro Lilith, a Lua Negra, cita Ernest Jones: “Como os íncubos sugam os fluidos vitais, levando a vítima à consunção, também os Vampiros, freqüentemente, pousam sobre o peito da vítima, sufocando-a. A Lilith hebraica, que Iohannes Wejer chamou Princesa dos Súcubos, descendia da babilônica Lilitu, conhecido Vampiro”. Deus enviou contra Lilith três anjos, Sanvi, Sansanvi e Semangelaf. Seu objetivo era capturá-la, trazendo-a de volta para Adão. Como não voltou, Deus mandou retirar dela seus filhos tidos com Samael. Depois de todo esse tratamento especial dispensado pelo deus judaico-cristão e o patriarcado, não é à toa que Lilith aja do seu jeito. A relação das entidades vampíricas pelo mundo com o ataque a crianças é estarrecedora; nos locais mais remotos, assim como nas culturas mais diversas, faz-se presente. Lilith é o arquétipo da mulher rebelde, devoradora de homens e, não se prestando à continuação da espécie, esse demônio fêmea aparece em todas as partes do mundo, com os mais diversos nomes: as Lâmias e Empusas gregas, a Strix romana, a Aswang filipina, e deusas do porte de Hécate, Perséfone, Circe e Kali, o que a liga ao tantrismo. Estarrecedor, mas talvez a palavra Lâmia derive de Lamyros, garganta. Uma simples coincidência? Cremos que não. O próprio termo strigoi vem de strega, bruxa em italiano, que por sua vez vem de strix, mocho, coruja, demônio alado, que atacava crianças sugando-lhes o sangue. Desde os primórdios romanos, a Strix era conhecida. De acordo com Ovídio, atacava crianças e causava-lhes lacerações no tórax, onde se alimentava do sangue. Rituais de proteção eram feitos para livrar a criança desses ataques, espinhos eram colo-

sugando-lhes o sangue. à noite para vagar com os Vampiros e participar de sabás. uma prática sadomasoquista. de uma bola de luz. em seu livro The Land Beyond The Forest. Ela podia surgir na forma de traça. Era uma época de grande atividade vampírica. Para os romenos. Na Turquia. um termo para herege. as bruxas deixam seus corpos à noite e tomam a forma de animais. Alho também era usado em outros países para o mesmo propósito.82 Marcos Torrigo Bruxaria e Vampirismo 83 cados nas passagens da casa. e morresse devido a isso. Nos Bálcãs. ou o corpo etérico de um defunto. O Vampirismo estava associado à prática da magia. Emily Gerard. Na Albânia. Na Bulgária. celeiros e estábulos. Ela também diz que as bruxas celebram um sabá especial na Véspera de São Jorge (23 de abril). e o nome é Shtriga. Vivia incógnita na aldeia. Na Transilvânia e Moldávia. há uma crença idêntica. Eles usam vassouras para seus vôos. Uma pessoa que incorresse na maldição de um feiticeiro. Nessa forma animal. A noite. O feiticeiro teria posse da alma da pessoa: algo similar é encontrado no culto vodu. Lá eles trocam conhecimentos da arte da magia negra. Os camponeses se preparavam com os métodos tradicionais: alho. reza a crença popular que as bruxas se reuniam. símbolos sacros e o espinheiro. e mais inúmeros relatos. onde se encontram os vivos e os mortos. em seu corpo astral. das quais bebem o sangue. alguém que usa seus dons. como os Vampiros do Suriname. havia um termo para a bruxa ligada ao Vampirismo: Vjeshtitza. que era basicamente igual aos tipos de bruxas vampiras já narrados. coincidem com os hábitos dos Vampiros e bruxas em muitos locais. uma bruxa vampira. O Strigoi podia ser vivo ou morto. usa um ungüento para voar. Na Espanha. a participação nos sabás. Na Rússia. As Strigas muitas vezes deixavam seus corpos. Em certas noites. reúnem-se em covens e novos membros são aceitos. projetando-se astralmente. Os vivos podiam deixar seus corpos à noite e assumir a forma de um lobo. era crença que as stregas se transformavam em corujas para atacar crianças. fruto da colonização romana. em especial as bruxas. a bruxa também foi associada ao Vampirismo. tanto a bruxa quanto o Vampiro eram chamados de Eretik. . havia a Strigele. Durante a Idade Média. gato. desde que mantenham o segredo e sigam as regras. em especial ao furto de recém-nascidos para vampirizá-los. um Vampiro vivo. durante a véspera da noite de São Jorge. aquele que se afasta da cristandade. Os relatos de viagens fora do corpo. sobrevinha a morte. Em Montenegro. Com o tempo. cachorro ou. e o corpo etérico para seus ataques. na Transilvânia. podendo ser qualquer mulher. atacando gado e pessoas. mosca ou qualquer outro inseto. Ele tem a capacidade de transformar-se em animais como gatos. ou todos que estavam fora da fé cristã. para atacar suas vítimas. O Obur normalmente é um ancião. lobos e cachorros. pessoas que incorressem na ira da igreja eram candidatos a Vampiro. usando a forma de lobos. A noite de Walpurga tinha preparativos idênticos para a proteção. especialmente crianças. elas entram nas casas de suas vítimas e alimentam-se diretamente do coração. há o Obur. menciona a prática de vedar portas e janelas na véspera de 23 de abril. prática que se mantém após séculos no combate a Vampiros. Por vezes eles caçam em bando. O Obur também entra por frestas nas construções. ou seja. para impedir que bruxas e Vampiros de entrem em casas. poderia ter sua alma transformada por ele em Vampiro. passando-o em seu corpo. ou feiticeiro. A rosa selvagem era usada na defesa e para manter os mortos dentro de suas tumbas. e curiosamente portam um chicote. os Vampiros reúnem-se em covens. usado para açoitar os membros em suas reuniões. essa bruxa vagava em busca de suas vítimas. Na Transilvânia. bruxas e feiticeiros eram os candidatos. corvo.

Deitado novamente. Aliado a isso. em alguns relatos. Ou pior: poderia ser encontrada por um demônio. poderia se tomar um Obayifo. a anemia é causada pela falta de ferro no sangue. geralmente. Certa feita. nós temos casos de tuberculose (essas doenças são atribuídas a miasmas. existe uma boa explicação para essa drenagem sangüínea: a anemia falciforme (latim para “forma de foice”). A morte ocorria devido à drenagem do sangue. sentiu a presença de algo. Montague Summers relata que em toda a África há uma grande preocupação com o sangue. Ele recuou alguns passos. Sentia a presença de algo desagradável. ele toma muito cuidado para que nem uma gota de sangue possa cair nas mãos de um inimigo. uma pessoa se tornava um feiticeiro e. Brodie Innes. Todos sabem que. Mesmo sendo invisível. e mordiam-lhe o pescoço. Portugal e Brasil têm crenças idênticas a respeito da capacidade vampírica das bruxas. Ele não deu ouvidos e continuou. O Juju é uma forma poderosa de magia africana. criados pela ação do Vampiro) também atribuídos ao Vampirismo. ao olhar de novo. sendo também as crianças seu alvo principal. o caso é diverso. Nesse momento. Um antigo castelo estava sendo demolido. os feiticeiros saem de suas casas à noite para se reunir com demônios e tramar a morte dos vizinhos. o fiel escudeiro de McGregor Mathers na Golden Dawn (Aurora Dourada). Um belo dia. que a levaria para um feiticeiro. de onde vem o nome da doença. Levantou prontamente. enquanto estes dormem. prática similar à utilizada na destruição do licantropo. e. A intervenção de outro feiticeiro foi o que salvou sua vida. o que possibilitaria a sua materialização: O Obayifo é o nome ashanti para Vampiro na África. Tentou dormir. Um policial inglês que trabalhou em Gana conheceu inúmeros casos da potência do Juju. Atinge ao menos um em cada dez mil negros e. Na África. adaga. e o responsável recebeu um aviso para parar com a destruição. mas nada havia. . Quando um guerreiro ou qualquer outra pessoa da tribo sofre um ferimento. ao contrário das outras anemias. terminando por ser internado em um hospital. há a crença de que feiticeiros mortos podem atacar os vivos. A medula óssea pára de produzir glóbulos vermelhos sadios (células anucleadas) e passa a produzir células em forma de foice. bala. Ele ficava cada vez mais fraco. Entre os Yakos. Na anemia falciforme. e conseqüente falta de oxigenação das células. Suas vítimas eram especialmente crianças. criando um escudo mágico de proteção. Na noite seguinte. No rio Niger.84 Marcos Torrigo Bruxaria e Vampirismo 85 As bruxas podiam assumir várias formas animais. ela se transformou em um cão negro de olhos em chamas. lá estava a velha. Por meio de vários processos iniciáticos. e não podiam ser atingidas a não ser por um objeto de prata. a rosa selvagem era usada na véspera da noite de Walpurga como proteção para os rebanhos contra bruxas e Vampiros. o Vampiro podia ser destruído com o emprego de armas de fogo. que se alimentam da energia dos vivos. o castelo esta lá até hoje. O feiticeiro era capaz de deixar seu corpo e viajar à noite como uma reluzente bola de luz. conseguiu visualizar seus atacantes: eram animais com focinhos compridos. independe da alimentação. uma velha bruxa de aspecto malévolo estava sentada no castelo praguejando contra ele. mas algo se enrolou em seu pescoço. ele estava sobre um dos intensos ataques desferidos pelos feiticeiros. o que leva à redução do número de glóbulos vermelhos. Esses feiticeiros tinham a habilidade de sorver o coração. em especial das vítimas dos feiticeiros. na Nigéria. uma força sinistra. Bem. na qual os feiticeiros praticantes criam elementais artificiais. O responsável pela demolição pegou um caibro para expulsar a velha. Na Boêmia. relata um fato narrado por Sir Archibald Dumbar que teve a Grã-Bretanha como palco. que sugava sua energia na altura do plexo solar. conseqüentemente.

justamente um período em que as forças das trevas caminham pelo mundo. ou estiveram envolvidas em práticas pouco ortodoxas como o suicídio. responsáveis pelo seu culto. no Haiti). A destruição do Vampiro era feita de modo clássico. Alguns relatos nos contam que o Loogaroo deixava sua pele na árvore jumbie. No panteão vodu. o culto. Designa a vida religiosa. tiveram em alguns casos morte violenta.86 Marcos Torrigo Bruxaria e Vampirismo 87 e dessa maneira sugar seu sangue. mas também um feiticeiro. O Vodu. No Caribe. Daí saía voando em forma de bola de luz. A . O Obayifo voava em seu corpo etérico para efetuar seus ataques. por sua vez. Nos templos do deus havia inúmeras sacerdotisas. encontraremos o Loogaroo. O Vodu usa os veves. Inúmeros casos de Vampirismo são registrados em várias culturas nessa época. para poder penetrar nas habitações. como em todo o mundo. Comandam morcegos gigantes. Na Louisiana. Contas e sementes são usadas para desviá-lo de seus ataques sangrentos. A feitiçaria estava presente no cotidiano africano e sua influência é notada em todos os cantos do mundo onde a raça negra se fez presente. bruxa e Vampiro. o sangue é oferecido às Loas. se referia ao antiqüíssimo culto da serpente Dangbé (Damballa. Mulheres estéreis ou senhoras após a menopausa eram as mais freqüentemente associadas à feitiçaria.O sábado é um dia especial para o fenômeno do Vampiro devido a todas as suas implicações. A cabeça era separada do corpo. deixando um rastro de luz atrás de si. e a língua pregada ao queixo. o Loogaroo é uma mulher na maior parte dos casos. regente do signo de Capricórnio (22 de dezembro a 22 de janeiro). Ele aparece na forma de luminesccncia. em sua origem. sal ou pimenta. por exemplo. Vodu é uma palavra do dialeto africano fongbé. como é chamada a árvore do diabo. Mas nesse caso. um inchaço anormal ou integridade física post-mortem. como todos os Vampiros. Esses costumes foram trazidos pelos brancos e escravos negros. Samedi. lobisomem em francês. As feiticeiras podiam se transformar em vários animais e dedicar-se a atos de canibalismo e necrofagia. seja no Caribe ou no sul dos Estados Unidos – na Louisiana. Nas cerimônias de Vodu. Eles assim transformamse usando um ungüento que espalham por todo o corpo. Fazem encontros secretos em pântanos com outros de sua espécie. fundindo-se no Caribe. divindades similares aos Orixás. Alguns relatos mencionam que esses feiticeiros se reuniam em volta de um caldeirão com o sangue de suas vítimas. o Barão Samedi tem especial relevância para o nosso estudo. ele pega fogo. havia pequenos orifícios por onde o Vampiro poderia sair. No Vodu do Haiti também há o Loogaroo. e a magia talismânica medieval. alguém lhe jogar sal. o parentesco tem mais a ver com as feiticeiras africanas. desenhos simbólicos que representam e atraem os Loas. que os conduzem para as casas das vítimas. que era queimado. Depois sai voando. Para o vodu. um morto que retorna para beber o sangue dos vivos. palavra de origem francesa que significa sábado. também se tornam Loupgarou. por exemplo. lembrando os pontos riscados afro-brasileiros. Os suspeitos eram avaliados observando-se se havia sangue na sepultura. Mimetiza-se em pequenos animais. Às vezes. o Loupgarou é um lobisomem. e se. quando inadvertidamente estiver contando. Suas vítimas. Ali estava a vida de suas vítimas. e também é bebido. via de regra em crianças. apesar do nome. forma pela qual o sacerdote vodu é possuído pelo Loa. Têm compulsão por contar. dia consagrado a Saturno. Também tinham características de súcubos e íncubos. uma derivação de loupgarou. Essas feiticeiras. onde chupa sangue ou gera doenças. O Vampiro do Suriname pode ser morto com a luz do Sol. de Dahomé. na África. Ela consegue essa transformação usando uma poção de ervas.

matando-a eventualmente. uma das almas segue para o céu. A forma mais conhecida de zumbi é aquela feita após a morte. períodos nos quais os portais entre os mundos estavam abertos. Além disso. De acordo com convicção do vodu haitiano. Elas faziam esses ataques usando seu corpo astral. ** O leitor deve relembrar dos conceitos similares encontrados no Egito e na China acerca do assunto. as almas dos mortos estão andando sobre a terra. ao Bafomé Templário. que saem à noite para sugar o sangue de crianças. Esse tipo de zumbi pode ser enviado contra alguém. O sacerdote tem essa alma como escrava. Quando o Sol está em Escorpião. que pode ser a alma de alguém que teve morte violenta. . não teve os ritos fúnebres. causando obsessão. dos ritos fúnebres. podem escravizar sua alma após a morte. eram homens e mulheres que se transformavam em lobos para atacar a criação. A outra alma fica nas proximidades do cadáver. ervas são usadas para facilitar o ato: a vítima as ingere. com a variante de que a vítima ainda está viva. chauches em crioulo. Muitos Vampiros têm o fígado como alvo.88 Marcos Torrigo Bruxaria e Vampirismo 89 morte é intimamente associada a Saturno. Os cherokees têm algo análogo. sejam vivas ou mortas. em especial no mês de novembro. ela perde totalmente sua vontade. qualquer motivo. Outras fontes mencionam que as bruxas do Haiti e Caribe eram chamadas Loupgarou (lobisomem em francês). toda pessoa tem duas almas: quando uma pessoa morre. vivo-morto. numa visita ao Haiti. e através de rituais o reanima. também entrando por frestas. simbolizada pela terra onde o corpo é depositado. O rito é feito à noite em um cemitério. um adolescente. ligado ao bode sabático. ou vagando pelo mundo**. Aleister Crowley alerta que certas práticas de Vampirismo. Essa crença do vodu lembra o Halloween e o Samhain celta. além de drenar o indivíduo. pois dessa forma ele perde a conta ao apanhar a unha. como citado anteriormente. Para a Cabala. Binah*. Uma forma eficaz de precaução contra seus ataques é espalhar sementes: o Vampiro se distraía contando-as. tanto é quem dá a vida como quem absorve. elas ofereciam sangue de suas vítimas a ele todas as noites. Outra forma de zumbi é o morto-vivo. ou. para realizar seus intentos. O método é o mesmo narrado acima. Ele consome a vitalidade da pessoa. Ele menciona que os Vampiros são mulheres. prática também encontrada entre magos egípcios. E o imperador dos cemitérios. e o Barão Samedi é invocado. O Asema. a grande mãe. o Cronos grego. e unhas de coruja são colocadas junto. ficando à mercê do sacerdote vodu. e tem de recomeçar*. melhor. faz seus ataques à noite como uma bola de luz. que ressuscita desse reino justamente no sábado. ou são jogadas na casa onde habita. aos sabás das bruxas. Possivelmente. o Vampiro do Suriname. Há naquela tribo várias * Ver capítulo oito – Cabala e Vampirismo. No entanto. O Barão Samedi é o senhor dos mortos. Essa alma que vaga pelo mundo muitas vezes é chamada de zumbi. Willian Seabrook. relata vários rituais vodus e a crença em Vampiros. onde o sacerdote vodu rouba o cadáver da sepultura. devorador dos próprios filhos. As bruxas vampiras também existiam entre os índios norte-americanos. Em troca. o nome zumbi designa uma alma que foi escravizada por um sacerdote vodu. Os lobisomens. Suas capacidades mágicas eram atribuídas a um pacto feito com o demônio. * O leitor atento notará ocorrências similares e outros locais e culturas. ou uma pessoa que por. em vez do coração ou pescoço.

Caso conseguissem a entrada. no México. Ainda no México. pou- . Mas é de bom-tom salientar alguns tópicos do Vampirismo oriental: Na Malásia. O uso dos espinhos. já tratados neste livro em capítulos precedentes. os padres católicos recomendavam que as pessoas não sugassem o sangue dos outros e se livrassem da magia. era associada à Lua. e os intestinos pendurados. ou Ciuapipiltin. tem um aditivo especial: o Penanggalan tem uma aparência horripilante. preferencialmente crianças e mulheres. as vítimas principais. conhecido como diablero. os astecas construíram templos para elas nesses locais. ela transforma-se em um animal para executar seus ataques. Era um homem morcego. o Vampirismo é relacionado à magia. como a Hécate grega. O feiticeiro ou mago mexicano tinha a capacidade de se transformar em coiote. e também lembrava a deusa indiana Kali. o que eqüivale a dizer praticante de magia negra. após a conversão do país. Similarmente às bruxas européias. Suas vítimas são crianças. muito antes da conquista espanhola. por meio da qual suga o sangue de suas vítimas. Ela era uma mulher que possuía o poder de se transformar em vários animais e atacar crianças. buracos e rachaduras preenchidos. atuando como obsessões. Voa na forma de um pássaro. já tinham sua bruxa vampira. o ataque era certo. No Oriente. fomentando doenças. A deusa Tlazolteotl tinha como atributos a luxúria e a destruição. Quando a morte está consumada. No México também há uma conexão entre a licantropia e o Vampirismo. adultos e gado. assim como Lilith. A forma de proteção consiste em colocar espinhos no telhado. A noite. elas tinham o poder de voar. as bruxas permanecem invisíveis ao lado da cama. As faces das Ciuteteos eram extremamente pálidas. as princesas. Durante a noite. O leitor deve lembrar-se do Vampirismo chinês e indiano. Montague Summers afirma que. Devido a isso. Os relatos das bruxas não ficam restritos à Europa e à África. Além delas havia Camazotz. As encruzilhadas eram um dos locais preferidos de ataque. após as cerimônias elas arrancam o fígado da vítima. O Aswang das Filipinas é uma bruxa ou bruxo Vampira. há a Tlahuelpuchi. menciona a capacidade que os brujos tinham de se transformar em animais. Quando alguma pessoa está perigosamente doente. Na América Central e Latina. pessoas associadas à magia também eram ao Vampirismo. uma forma de apaziguá-las. Ela tem uma língua extremamente longa e oca. temos relatos de “bruxas” ligadas ao Vampirismo. As portas eram trancadas. atacariam crianças. Muitos Vampiros do leste europeu se alimentam do fígado de suas vítimas. não apenas como o mal. e as crianças. Oferendas eram feitas em seus templos. é uma moça que ao sofrer a primeira menstruação desenvolve um desejo profundo por sangue. em seu livro A Erva do Diabo. A forma de descobri-la é oferecer-lhe alimentos que contenham alho. os espinhos servem para que o monstro prenda seus apêndices e seja destruído. Faziam suas reuniões em encruzilhadas. e extinguindo sua vida. Os astecas. As Cihuateticos astecas eram bruxas vampiras com o status de deusas. um deus do submundo maia. As lendas as relacionam a mulheres mortas no parto. a cabeça pendida para trás. Ele mesmo viu algo inexplicável: um coiote de dimensões gigantes que acharam ser um brujo em sua forma animal. nesse caso. Lá encontramos as Ciuteteo. que também era encarada como uma divindade. uma mulher vampira que caça à noite suas vítimas. como a Tlahuelpuchi. onde bolos em forma de borboleta eram ofertados. Tanto assim que. há o Penanggalan. Carlos Castaneda. A deusa mor e matrona das Cihuateticos era Tlazolteotl. cuidados eram tomados contra os ataques das Ciuteteos.90 Marcos Torrigo Bruxaria e Vampirismo 91 bruxas e feiticeiros que se nutrem dos fígados de vítimas assassinadas.

Um deles expressa o desejo de que houvesse mulheres com eles. Em Java. O folclore grego atual também pode ter confundido os dois seres. cheios de prescrições e procedimentos. em especial as nereidas. Ressuscitar os mortos através da magia é uma história bem conhecida. e ele ficou entre esses animais até o amanhecer. Abrahão. O ritual teve resultados fantásticos. fontes e riachos. que acampam e começam a beber. ou às vezes na forma de um corvo. Frater Piarus encetou uma cerimônia de necromancia com ajuda de um demônio. e se assustou ao notar que sangue escorria de seus amigos. o Vrykolakas confunde-se com elementais. sendo usado com um revigorante para a eternidade. Há uma lenda curiosa a respeito do curupira: um índio dormia na floresta e o curupira o acordou. surgem quatro mulheres que se põem a dançar com os caçadores. e além dele há outros magos que encetaram essa quase impossível façanha. O Aswang pode viajar transformado num grande pássaro negro. ocorreram mudanças atmosféricas e objetos foram destruídos sem o envolvimento físico de ninguém. Igualmente atacava bebês e crianças de colo. foi se retirando e se escondeu junto aos cavalos. o saber mágico fluiu copiosamente na forma de revelações de grande beleza. Os tratados necromânticos podem ainda ser vistos em alguns museus da Europa. Naquele instante. O sangue de suas vítimas é colocado em um caldeirão. encobertas por sua roupa. deparou-se com seus amigos mortos. sobressaltado. Caso a vítima se deixe enredar por seus encantos. especialmente poços. Ela surgia como uma linda mulher. ela retorna à sua casa. Alguns tipos de elementais têm essas características. Elementais Vampiros são conhecidos em muitas culturas. Liahennen-Shee é uma elemental Vampira que fica nas proximidades da água. e através dela é possível interrogar os mortos sobre o futuro e mais uma infinidade de temas. O Aswang usa um ungüento que lhe confere poderes mágicos. Um exemplo é Jesus Cristo com Lázaro. havia a lenda de uma mulher que morrera por complicações no parto. entre eles o de voar. Quando saiu. enfim. por meio da magia de Abramelin devolveu a vida à mulher do Imperador Sigismundo. água. Em alguns relatos. similares às sereias. não estava dançando. repleta de sangue de suas vítimas. Os elementais têm essa nomenclatura pois são seres constituídos por um único elemento – fogo. A língua penetra o pescoço da vítima. Outro deles estava tocando música e. Quando um homem vai beber.92 Marcos Torrigo Bruxaria e Vampirismo 93 sando em locais estratégicos para facilitar seus ataques. ar ou terra. Esse termo também descrevia arrombadores de túmulo e lobisomens. Os celtas conheciam fadas vampiras como a Sith de Baobhan. Na alvorada. nem acre- . Uma das mulheres foi até ele. o Judeu. e o espírito prevê a total derrota de Saul. ela surge em uma bela forma feminina. Discretamente. na qual Aleister Crowley foi evocado. mas o ferro das ferraduras dos cavalos a impediu de agarrá-lo. notadamente crianças e mulheres grávidas. Há poucos anos. Ela evoca o espírito de um profeta. O ponto em comum é a atuação de ambos como sedutores que atraem para a destruição. Uma forma de magia que trabalha com os mortos é a necromancia. Nutria ciúme das mães sendo esse o principal motivador dos ataques. que seduzia e sugava o sangue de homens nas montanhas da Escócia. Uma das passagens da Bíblia fala da consulta que Saul fez à bruxa de Endor. Além disso. embora tivesse patas de gamo. O índio. como de fato ocorreu. Uma lenda escocesa fala a respeito de quatro caçadores. conseqüentemente. este é um campo para a especulação. alertando o vulgo do perigo de traficar com o reino dos mortos. ela o drena. Ela atacava os homens e sugava-lhes o sangue.

Coloca o rabo na boca da criança. a confusão reinará entre os seres das profundezas e os da superfície. teve a idéia de dar um coração de macaco no lugar do seu. Lá estava o esqueleto do curupira. O índio correu até a aldeia. O curupira. O curupira comeu e gostou. Um outro ser do folclore brasileiro é a jararaca. hipnotiza-as. ele começou a bater com uma madeira no crânio. Rumou para a floresta. e nesse momento o índio foi assaz sagaz e pediu o coração do curupira. temeroso. Capítulo Seis Múmias. para que ela não chore. Mas haveria em breve o casamento de sua filha. Ela se aproxima de mães que estão aleitando seus filhos e. O curupira queria comer o coração do índio. este. Por muito tempo ficou longe das matas por causa do trauma. então ele pensou que os dentes verdes do curupira dariam um belo presente. ao que tudo indica. para soltar os dentes e. Ishtar na Epopéia de Gilgamesh . aproximou-se do local fatídico. não teve dúvidas: meteu a faca no próprio peito. qual não foi a sua surpresa: o curupira retornou à vida. e daí se põe a mamar no peito da mãe. As legiões dos mortos serão mais numerosas que as dos vivos. vendo que o índio havia lhe dado o seu coração sem sofrer problema algum. eles se alimentarão como os vivos. tombando morto. e. Os mortos virão para cima. por sua vez.ão Post-Mortem Destruirei os portões do inferno.94 Marcos Torrigo ditava no que estava havendo. Egito e Alimentac.

mas cada um dos reis shilluk. três dias. e ainda mais pelo fato de o Vampiro devorar seu próprio corpo. Cremos que no decorrer da leitura do livro a razão desse ato tenha sido amplamente explicada. não se deve dormir ao lado delas. e por esse motivo. O velório. enfim. Assim. Em alguns casos. as flores. depois da morte. os reis são cultuados publicamente por todos e. Isso é verdade. pode-se afirmar que a parte mais visível do culto shilluk é a reverência aos seus reis mortos. e ainda hoje o tem. no âmbito familiar. Em alguns períodos. roupas e mortalha. Não só Nyakang. são um substituto energético. é a guarda do corpo para que nada lhe aconteça. O sangue sempre teve importância capital desde a aurora da raça humana. o herói que fundou a dinastia. tudo para uma viagem completa. A cerimônia de velório usual de nossa cultura esqueceu a sua origem. mas talvez com sorte mantendo a eficácia. seja de alimentos. e a sepultura de cada monarca se torna um santuário. utensílios. isso chegou ao requinte de enterrar juntamente com o morto a mulher do morto. os antepassados.96 Marcos Torrigo Múmias. . para o enterro ou cremação. oferenda ou para propiciar material para o adensamento de entidades. Por vezes. serviçais. Eles crêem que o morto pode voltar e atacar o vivo. Algumas culturas ofereciam e oferecem alimentos aos mortos: ciganos e japoneses. Os Awembas executam libações com sangue de animais para os seus ancestrais. tornavam-se. Ele ainda não é completamente divino. ouro. Desvendando um pouco dos métodos da cerimônia. sendo que os sete dias decorrentes da morte são cruciais para o processo de desligamento. como também a energia sexual o é. juntamente com as velas. Então eles têm muito cuidado com qualquer ferimento. uma tribo do Nilo Branco governada por um rei. imagens de parentes ou deuses. Essas oferendas visam tanto a ajudar e satisfazer os ancestrais como aplacar qualquer ação maléfica por parte deles. jóias. Dessa forma. como o nome já diz. como os deuses. Os ritos póstumos atuais mantêm simbolicamente alguns elementos do saber ancestral. temos o uso de roupas negras. soldados. para tanto basta assistir a Missa Católica Romana ou mais uma centena de Ritos ainda presentes em nossa cultura. Alguns experimentadores dos fenômenos parapsicológicos podem indagar que as flores cortadas também vampirizam o ambiente. Ele é o “combustível” para vários seres que pululam no astral. em deuses. O ideal é um prazo de setenta e duas horas. lembrando os semideuses gregos. se bem que esvaziados de seu conteúdo. a casuística vampírica relata que o Vampiro tem uma relação com os devoradores de cadáveres. além de belas. podendo dessa forma valer-se desse tipo de energia. de humanos. mas desapareceu. e o espectro do morto está em um processo muito mais acelerado. Egito e Alimentação Post-Mortem 97 Oferenda aos mortos é prática corriqueira. Voltando mais especificamente à questão do Vampirismo. Os shilluk. que funcionam como isolante para que o falecido não vampirize os parentes e convidados. cavalos e outros animais. Seja como sacramento. ou seja. Nyakang é concebido como tendo sido um homem que não morreu de fato. o sangue está presente. é adorado. ao longo das aldeias há muitos santuários. por exemplo. como Xangô. os mortos eram passíveis de oferendas. sendo o sangue um poderoso agente potencializador. o espectro do morto pode retirar energia das flores e velas. O culto aos ancestrais ou pessoas marcantes da comunidade foi encontrado em várias partes do mundo. Os Bantos da Zâmbia têm práticas similares. As diversas etapas que a compõem são feitas de forma mecânica. ainda mantêm a adoração de Nyakang. mas também não podemos esquecer que lentamente a energia se esvai das flores.

De todas elas. como Kenneth Grant. E quanto mais este Vampiro se alimenta. tanto é que dois livros foram lançados. e observa a crença de o Vampiro se alimentar primeiramente de suas extremidades. quando sobrevém a morte. Vários cadáveres foram encontrados dessa forma. Philip Rohr. Há um ritual similar. De Masticatione Mortuorum.98 Marcos Torrigo Múmias. incluindo a telecinesia. Sobre a cova. rituais e mais uma infinidade de práticas. uma corruptela da palavra turca para glutão. de autoria de M. aliado-se ao tempo. a sua alma. Falaremos com mais vagar a respeito do Egito. coloca-se uma grande pedra ou cruz para evitar que um Vampiro venha se alimentar do morto. Entre os gagalz. Para tanto. e depois disso segue-se uma grande festa. que eram compelidos a fazer a vontade do magista ou sacerdote. eles insuflavam vida em estátuas e imagens – eram talvez magos criadores de deuses. e muitos escritores. que para isso usavam encantamentos. Por meio de suas técnicas. em especial com as mãos parcialmente devoradas. e Masticatione Mortuorum in Tumulis. Uma diferença fundamental entre o Egito e outras culturas residia no fato de os sacerdotes egípcios literalmente mandarem em seus deuses. Várias culturas praticavam canibalismo e faziam-no por motivos religiosos. que poderia ser atraído por uma gama muito grande de alimentos. apossa-se do que antes pertencia à vítima. o uso da voz. um paradoxo. foto do autor Os valáquios. das palavras mágicas. assimilava-se o seu poder. uma eucaristia literal: a antropofagia e o canibalismo. pranteiam o ente morto com grande intensidade.de Michel Ranft. O Vampiro é um corpo morto que necessita de alimentação. Egito e Alimentação Post-Mortem 99 Múmias e sarcófagos no Museu Britânico. O tema teve uma atenção especial. Tendo por base o duplo etérico. por excrementos. discorreremos sobre as práticas mágicas egípcias. entre eles. em 1679. Sua tumba é purificada com vinho. Tinha inúmeras capacidades. atribuem ao país dos Faraós uma ancestralidade ligada ao Vampiro. Este último livro relata a prática de colocar terra na boca dos mortos para dificultar a mastigação. Ao comer o morto. que emerge das trevas da humanidade. Ele era conhecido como um ser extremamente guloso. era a chave para o poder sobre o universo. lançado em 1728. o espectro do morto se manteria graças à energia dos vivos. seu “corpo” ficaria cada vez mais material. Ressuscitar mortos transformando corpos mortais em imortais era . O Vampiro drena a energia de sua vítima. talismãs. já que ele se presta extremamente bem ao estudo do Vampirismo. A antropofagia ritual confere ao devorador as forças do devorado. um ato mágico que funde os dois seres. o Vampiro tinha o nome de Obur.

Será falado no capítulo oito sobre Tiphareth. Os egípcios faziam essa cerimônia diretamente no morto ou em uma estátua. No Egito. teremos o coração devorado pelo devorador de corações. Ruach. o demônio da dispersão. As fórmulas contra o devorador de corações que constam no Livro dos Mortos do Egito ressaltam que o morto primeiramente saúda o devorador de corações. entre eles uma vida plena e fórmulas mágicas. como sede da consciência. Esclarecendo ao leitor. Sendo que o Ib julgava o morto. que devolveu a vida a um morto. Alguns trechos são importantes para a nossa digressão. Em um deles. que muitas vezes abandonamos pelas dificuldades e prazeres que a vida oferece. Há inúmeros papiros contendo informações detalhadas de procedimentos. que age de forma similar ao devorador de corações egípcio. sabia o destino da pessoa. a sombra do morto é associada ao deus Seth. destinada a Caronte. e isso nos faz lembrar da moeda na boca dos gregos. incluindo excrementos. o “ser”. o que vulgarmente poderíamos chamar de missão. de sua mãe da terra. O coração do morto é dividido em dois princípios: Ib e Hati. e aquele que obtivesse o domínio do coração colocaria em harmonia seu Ba e Ka. o morto diz ao devorador de corações que o coração Ib é de sua mãe celeste. negligentes ou simplesmente não chegarmos lá. sai no último suspiro. a alma animal. simulacro do morto. Esse monstro deveria ser repelido por um conjunto de fatores. Hati sendo Nephesh. e na seqüência. ganhando dessa forma a liberdade. O morto tinha de guardar seu coração contra uma fera sobrenatural. Com o Livro dos Mortos. entre eles o Livro dos Mortos. De uma forma simplificada: se formos covardes. apresentava-se ao morto uma gama de fórmulas mágicas para que conseguisse atravessar os perigos do outro mundo. chamando-o de príncipe da eternidade. Egito e Alimentação Post-Mortem 101 uma das façanhas atribuídas aos magos egípcios. Podemos imaginar que o coração. e Ib. É interessante encontrar uma entidade do sistema mágico enoquiano e também na Cabala: Choronzon. O coração era a sede da consciência para os egípcios. O coração do morto deveria ser mais leve que ele. da consagração do seu coração e de sua própria essência. Por onde a vida entra. ele era julgado por si mesmo. Os capítulos LII e LIII são justamente súplicas do morto para que ele não coma imundícies. que menciona Zaclas. em uma escolha do âmago do ser. o devorador de corações. O morto tem a preocupação de que nada passível de culpa seja levantado contra seu nome. caso essas oferendas não fossem adequadamente . a cerimônia da abertura da boca é de suma importância para a vida após a morte. No Egito. enquanto Ib era o racional. por seu self ou daimon. mas. e. Claramente eles queriam usar o fenômeno da repercussão. O método foi a cerimônia de abertura da boca. Como já vimos o próprio Apuleio narra como Zaclas trouxe um rapaz de volta à vida usando essa cerimônia. enquanto no capítulo XLV a fórmula é para que o corpo do morto não sofra a decomposição no mundo inferior. Uma história sobre os magos egípcios é narrada por Apuleio. como nos outros casos sobre Vampirismo tratados neste livro. o egípcio. Hati era o instinto. Essa sephira é a sede do eu superior de cada um de nós. Não pensemos em uma imposição do universo. É bem sabido que alguns Vampiros podem comer uma série de imundícies nos seus primeiros dias de transformação. no capítulo XXVI. a sephira da árvore da vida que é representada no corpo humano pelo coração. no XLVI. e o Hati. e era alimentada por oferendas.100 Marcos Torrigo Múmias. a nossa lenda pessoal. Em seguida. ou se preferirmos. ele se defende valendo-se dos deuses. o objetivo é que a alma do morto (Ka) possa entrar e sair do cadáver sem problemas. pelo contrário. para que ele possa voltar à vida.

como era o corpo que jazia na tumba para o Vampiro. Shiva é a divindade mais antiga da Índia. O vencedor. seria a base do espectro. Esses atributos são correlates aos do deus Seth. o corpo preservado. são lados de um mesmo rosto. Os deuses dos vencidos se tornam os demônios dos vencedores. dois que se tornam um. pois com a conquista da Índia pelos arianos os costumes dravidianos foram destruídos. O Sol vermelho o liga a Sekhmet. Notem que mesmo na maior carnificina há paz. a união dos dois princípios. Sol (shivan). Egito e Alimentação Post-Mortem 103 Detalhe de sarcófago e múmia. ele foi transformado em um deus semidemônio. mas permaneceram subliminares. que dá origem a todos os outros deuses. opositor. e cadáver (shava). que lembrava o sangue humano. e o vencido é incorporado ao vencedor. o Diabo e Deus. tempo e espaço. Isso fica claramente demonstrado no Tantra e no Yôga. já que o Sol vermelho é o Sol do nascente e do poente. como prova o renascimento do Yôga e do Tantra na Índia. e tem como mulher Sekhmet. Como um jogo. a deusa de cabeça de leoa. e o sarcófago seria o equivalente ao caixão do Vampiro. Cronos e Zeus. A múmia. sem falar no atributo negro . o que faz com que ele se assemelhe a uma das facetas de Hórus. pois o sangue era a bebida da imortalidade. psicológico e metafísico. O Faraó Khasekhemui tem como selo Seth e Hórus. para detê-la. Seu nome tem relação com vermelho (shivappu). e sua adoração remonta a Mohenjo Daro. Museu Britânico. e. além do óbvio. a dualidade conduzindo a individualidade. no trimurti indiano. devora o vencido. a paz cósmica de quem segue a verdadeira vontade. como em um ato antropofágico. uma competição. ela estava destruindo uma população. Ptah é tido por muitos como a divindade criadora. Seth e Hórus e morte e vida são um. nos locais de cremação.102 Marcos Torrigo Múmias. e. que são de origem dravidiana. dessa forma. Até hoje. e o cadáver a Ptah. tornados novamente exotéricos. Uma curiosidade a mais é como Ptah e Sekhmet são similares a Shiva e Kali. esse aparente antagonismo propiciava o movimento universal. Não são dois senhores. Ela incitava guerras para poder banquetear-se com o sangue. foto do autor feitas. para embriagá-la. Muito do que temos das histórias sobre múmias advém disto. Certa feita. que executa uma dança selvagem acompanhado por demônios. como na batalha de Kurukshetra no Mahabharata. os outros deuses criaram uma bebida à base de mandrágora. Quando da conquista ariana. talvez um remanescente do Shiva Bairava. Só dessa forma a sede de sangue da deusa foi detida. Atrás de Maya (ilusão). Isso vale para Saturno e Júpiter. Curiosamente ele é uma múmia. o espectro do morto se voltava contra os parentes e quem mais estivesse nas proximidades. ele representa a destruição. isso ilustra um processo muito mais profundo.

Mas de forma alguma o aspecto sombrio está distante. A fase do touro era associada à vegetação. que para ocultistas como Dion Fortune é uma energia igual à de Sekhmet.104 Marcos Torrigo Múmias. Shiva sem Shakti (o poder. pois toda noite Rá (o Sol) tinha de enfrentar Apep (Apófis). fica claro que sem a bebida imortal do sangue de Sekhmet não há vida. Um fato histórico ocorrido no Egito foi a mudança do touro para o leão como elemento simbólico e representativo do poder terreno e espiritual. como ainda hoje é representado na Cabala. justamente onde os egípcios usavam o uraeus. o mesmo instrumento usado por Cronos para libertar sua mãe da opressão do pai. Uma das manifestações da mulher de Shiva é Parvati. basta imaginar os chifres transpostos ao céu). Espírito de luz e força. e seus chifres são associados à Lua (crescente ou minguante. Saturno. lembrando sempre que vida e morte são lados da mesma moeda. o carneiro. a Lilith matriarcal defendendo seu mundo. a Negra. às sombras e ao material. Parvati). temos um padrão. a união das polaridades. a Hórus. enquanto uma tinha uma ênfase lunar. Representado por uma serpente. Para a Vampirologia. todas as divindades associadas ao Vampirismo estão. Lembrando-nos de Seth e Hórus. como a deusa Poleramma da varíola. ou seja. Apep é associado ao Vampiro. ou seja. que em sentido metafísico é a emanação da divindade e o retorno a ela. o que a liga a Lilith. além do tempo e do espaço. ao morrer. e isso se em sua origem o próprio Cronos. ou tremendamente destrutivo. o Sol nunca morre. também ao lunar e ao matriarcal. e ela repleta de sangue. Isso faz lembrar a carta A Luxúria. Das Shaktis vem o poder de Shiva. quando a situação exigia. O matriarcal pelo patriarcal. Kali. como Cronos. animais – todos eram imolados junto com o Faraó. Curiosamente. Durga. Sangue é seu alimento. curiosamente. simbolizando o poder ígneo da kundalini. escuro. O lunar. uma vampira. Algumas Shaktis são associadas à peste. era ajudado pelo próprio Seth. a seguinte foi a solar. o comércio e a convivência cultural são fatores geradores dessa influência. Ela foi marcada por enterros coletivos nos quais o Faraó. uma serpente. a mãe do universo. mas em outros locais do mundo. A Força do tarô convencional. Porta uma foice. Shiva está intrinsecamente relacionado ao ajna chacra. A mulher de Shiva é Kali. e a segunda. poderíamos dizer que a primeira era é associada a Seth. Em Kali. Cronos. substituído pelo solar e claro. Essa era teve como atributos o princípio da civilização egípcia e os primeiros Faraós. com o céu ganhando força. e essa era teve um enfoque mais espacial. A essa era se seguiu à do leão. São pares complementares em atuação. Em suas representações. todos masculinos. Kali a tudo gerou. O . o falcão do Sol. o negro. terrível como Sekhmet e negra como Seth. similar a Ptah e Sekhmet. A Índia. por sua vez. só o cadáver de Ptah. Tanto Ptah como Shiva têm o touro como animal consagrado a eles. Entendamos como sangue o fluido vital. que fica no centro da testa. transforma-se em Amon-Rá. Tanto é assim que a divindade dessa nova era é Rá. muitas vezes essas deusas só podiam ser saciadas com sacrifícios humanos. Saturno e Ea são divindades correlatas: um titã. está cercada de cabeças e braços que a adornam. há uma serpente ali. é Shava (cadáver). por exemplo. Egito e Mesopotâmia se influenciaram mutuamente. kal é o nome dravidiano para Lua negra. se fazia acompanhar de mulheres. não fosse uma deusa. isso tem uma importância capital. à força da terra. Mais tarde fundido com Amon. mas devora seus próprios filhos. tendo como animal o leão. em Liber Stelae Rubae. O poder da Shakti pode ser construtivo. que em seu aspecto destruidor é Durga. Levando isso a Ptah e Sekhmet. também um falcão. no deus. e partindo do pressuposto de que ocorreu não só no Egito. Egito e Alimentação Post-Mortem 105 de ambos. e sangue é a forma de aplacá-la. guardas.

conseqüentemente. de Aleister Crowley. ou virar o santo de cabeça para baixo. que foi criado a partir de um texto egípcio gnóstico. A devoção dos fiéis é a forma de manter a “energia” da imagem. Já vimos que os sacerdotes e magos egípcios tinham o poder de infundir um espírito. O Hermetismo e o Renascimento italiano também foram influenciados pelos egípcios e. não algo organizado ou premeditado. A maneira atual de encarar a magia amálgama elementos egípcios e neoplatônicos. até psicologicamente. Um bom exemplo é Liber Samek.106 Marcos Torrigo Vampirismo seria. mas uma resposta natural de um arquétipo negado. a reação profunda contra esse novo status. em estátuas. um elemental artificial. Marcos Torrigo . podendo ser encontrados até hoje elementos egípcios no catolicismo romano. Capítulo Sete Licantropia O Bestial e o divino residem lado a lado em nossos corações. a magia ocidental. O saber mágico egípcio entrou na formação do gnosticismo e do Cristianismo. é similar ao que um mago egípcio faria para compelir um deus a trabalhar para ele. As imagens dos santos católicos até hoje mantêm esse princípio. e a singela história de tirar o menino Jesus de São Antônio.

que o feiticeiro vestiria. vem à mente o xamã caçador da pré-história. por mais que isso . Nos locais onde são relatados casos de licantropia. e Paulus a classifica como um tipo de melancolia. para os gregos. Com o tempo. Desses rituais imemoráveis. sem falar que para eles qualquer mago competente poderia tornar-se um lobo. Alguns voltavam à sua forma humana no momento que eram atingidos. transformavam-se e saíam em busca da carne dos humanos. foram amamentados por uma loba. quando em forma lupina. Pensando no Vrykolakas e em sua origem. A licantropia é passível de transmissão: beber água onde uma alcatéia bebeu ou pisou. homem. A licantropia era mencionada por Plínio. um morto retornado. Durante a Idade Média. no século V a. Há várias formas pelas quais uma pessoa pode se tornar licantropo.C. Para o Império Romano. Platão menciona que comer carne humana junto com carne de lobo conferia a licantropia. em seu livro Licantropia. pois. a um Vampiro. de 1615. Cerveja com sangue era tomada. isso seria transmitido ao corpo físico. do grego lykos. a raiz da palavra vrykolakas é vestir-se com pele de lobo. Ele é encontrado desde a Antiguidade. as qualidades negativas do lobo se sobressaíram e ele foi associado ao mal. Jean de Nynauld. a igreja associou o lobo ao demônio. o Velho. ou a mordida de um lobisomem transformariam a pessoa. podendo ser uma pele completa. mas nem sempre isso foi assim. Os pontos de contato entre a fenomenologia do licantropo e do Vampiro são muitos. Muitas bruxas tinham a capacidade de se transformar em lobos. a inteligência humana às inúmeras capacidades animais. são homens que se transformam em lobo. A licantropia foi chamada por Avicenna de lupinam insaniam. se por acaso elas. em Roma essa ocorrência era mais comum em fevereiro.. Marcelus Sidetes. já descrevia casos de licantropia. e o termo vrykolakas perdeu seu caráter ritualístico e mágico. e a palavra vrykolakas se referia. O lobisomem é um ser amplamente conhecido na mitologia dos povos indo-europeus. Havia rituais para transformar o ser humano em lobo. As pessoas mortas ou devoradas por lobos poderiam tornar-se Vampiros. fazendo com que a pessoa procurasse cemitérios e outros locais solitários. sendo inúmeras as lendas e relatos a seu respeito. nos quais o lobo era atingido e alguém na aldeia aparecia com o mesmo ferimento. A cinta era feita de coro de lobo. período bastante prolífico em licântropos. O arquétipo do lobo banido para o inferno se transformou no Vampiro. sofressem algum acidente ou ferimento. e os gêmeos fundadores de Roma. nos casos registrados na Grécia. Unir o humano ao animal. Petrônio também se referiu ao licantropo: ao cair da noite. e assinalava o costume dos guerreiros dos Bálcãs de usar rituais nos quais assumiam o poder do lobo usando uma pele da fera. Lykanthropos. que tiveram como palco as glaciações. Heródoto. lobo. Rômulo e Remo. também são relatados casos de Vampirismo. o lobo era animal sagrado de Marte.108 Marcos Torrigo Licantropia 109 Lobisomens. Uma cinta mágica era utilizada. narra inúmeros casos de repercussão. que viveu no reinado de Adriano. descreve que a licantropia faz com que sua vítima adquira a ferocidade e apetite horrorosos de um lobo. vem o eco do homem fera. usada em cerimônia mágica. que usava peles de animais para seus ritos. e anthropos. Ovídio e Plauto. alguns homens e mulheres tinham a capacidade de se metamorfosear em lobos ou algo a meio caminho entre o ser humano e o lobo. e dormir na toca de lobo ou comer o seu cérebro eram práticas para adquirir a licantropia. ocorrendo também caso se comesse carne de animais mortos por lobos ou pelo lobisomem. como já vimos. ou um ungüento. como o nome já diz. De acordo com ele.

que só poderia ser morto com uma bala de prata forjada à noite. o grande inimigo dos deuses. Em homenagem a isso. fazendo com que ele volte à forma humana. os borus. em especial do submundo.110 Marcos Torrigo Licantropia 111 seja uma forma delicada de chamar uma prostituta. podia ser um galho de uma árvore. Uma outra lenda eslava liga o urso ao lobisomem. e aparentemente tudo estava em ordem. ou. contra a volta do lobisomem. lupa. Dessa forma. ou um ladrão. Mas. No uso da magia xamanística. Há uma lenda européia de uma mulher que se transformava em loba para atacar os rebanhos. o poder animal é bem conhecido. o renascimento também o foi. O lobo e os cães negros selvagens são animais da noite. É claro que ele tinha fama de lobisomem. O lobisomem muitas vezes usava seus poderes licantrópicos para proveitos bem materiais. que tinham como deuses cavalos e lobisomens. Os cavaleiros teutônicos eram uma ordem militar semelhante aos templários. que guarda a entrada do Hades. isto é. entre elas uma extremamente misteriosa e composta de ferozes guerreiros. pois a segurança de um dos setores tinha sido rompida. ou o cão Garm. alguém que matasse outra pessoa e não confessasse transformar-se-ia em lobo. que lutavam ao lado de Odin como ferozes lobos. e nas florestas do norte da Europa havia os guerreiros Berserkers. como o Fenrir da mitologia escandinava. uma história de um homem que preferia levar grandes quantidades de peso atrelado ao seu corpo. O Cérbero grego. e os guardas já estavam em seu posto quando um alarme soou. rapidez e inteligência dos lobos têm infundido medo e admiração. o inframundo nórdico. belo. um grupo de guardas estava em sua ronda quando notaram que a vela estava fora do santuário. O fim do mundo. perto de um cemitério. e livrou-se do monstro com algum custo. Eles se encaminharam para o local. não usavam armadura. O lobo é um animal muito importante e presente nas lendas dos povos germânicos. Eles riram e falaram sobre o monstro e sua volta. Uma vidente profetizou que o mundo voltaria a ser como sempre foi. seu marido sempre tinha carne na mesa. são uma constante. foi construído um pequeno santuário onde uma vela acesa protege a cidade. na Alemanha. Não só os romanos. de que ao jogar-se um objeto de metal sobre o lobisomem. Há a crença. enfrentaram algumas tribos. presidido pela deusa Hel. Eram conhecidos por sua selvageria e bravura. e a Lua os influencia. o ragnarok. Uma pequena cidade da Alemanha teve em seu passado vários casos de licantropia. Dos nazistas aos cavaleiros teutônicos. o fim dos deuses. Por vezes atacando a dentadas. simbolicamente. a força. Dessa forma. O crepúsculo dos deuses é tido como o advento de uma era de trevas. descobre-se quem é a pessoa que está dizimando os rebanhos e espalhando terror nas cercanias. isso tira o poder do encantamento do cinturão mágico. Na Alemanha. da qual vem a palavra lupanar. Sensitivos têm captado cães monstruosos espectrais e imateriais de guarda em antigos castelos. da mesma forma que o fim foi predito. e um deles se deparou com . há também a lunar: um ser das trevas. mas sim peles de urso ou lobo. a capital brasileira do lobisomem. Em 1988. Isso ganhava uma importância maior tendo em vista que o fim dos deuses já estava previsto. Em suas lutas. do caos primal. O lobo era símbolo de poder e coragem. É conhecida em Joanópolis. como se fosse um animal de quatro patas. mas também os nórdicos tinham o lobo como animal heráldico. Cães e lobos como protetores de templos. Apesar da conotação marcial do lobo. que protegia Niflhein. prostíbulo. Algumas horas haviam passado. inúmeros foram os julgamentos de pessoas acusadas de se transformar em lobos para alimentar-se da carne de velhos e crianças. o reino dos mortos. Para os lapões. entraram em um pequeno bosque.

punhais. etc. as patas. saltou a cerca e desapareceu. que fez uma ampla pesquisa sobre o lobisomem na Bósnia. Um bom exemplo é esta narrativa abaixo: Um caso estarrecedor foi publicado pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres. De várias formas. nelas. Crianças e velhos são vítimas em potencial. Inúmeras armadilhas foram montadas. por sua vez. na Alemanha. uma arma era disparada assim . Após isso. ou matando-os. achava que o Vrykolakas era um lobisomem. balas. que foi enjaulada e conduzida até um avião. em pé. não saindo em captura do monstro de Morbach. Logo após. Em meio à refeição. Um caso que figura no Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas relata um fato ocorrido no nordeste. ou Homens-leões. de fato. rei da Arcádia. A família estava apavorada. nas suas patas traseiras. mas estranhamente não quis ir. o outro. volta à sua forma humana. controlaram-se e partiram pouco tempo depois para outra cidade. o que inspirava maior terror era o lobisomem. a membros longos e esguios. Ele pode ser destruído com o uso de objetos de prata. ele abandonou o trabalho. avistado por algumas pessoas da região. Freidrich Krauss. Para os nórdicos. através de um sistema basculante. sabe-se lá por que. 69. Os pêlos dando lugar a cabelos compridos e selvagens. o fenômeno é adaptado à fauna local. matéria de Elsie Dubugras. eram zeladores da igreja e recebiam vários religiosos itinerantes. a de um lobo: Lycaon foi. Ele foi assim punido devido à sua tremenda crueldade. quando se lembrou de que um dos frades havia passado pela cidade pouco antes da senhora falecer. como o Vampiro. transformado em lobo. a dona da casa morreu. Para ilustrar temos um caso que ocorreu no nordeste do Brasil e outro do espírito dos mortos nórdicos. Tinha uma altura perto de dois metros. Um casal vivia tranqüilo. Homens-tigres. Ao morrer. mandando outros dois frades à cidade. Alguns relatos mencionam que o lobisomem poderia ser um morto. O lobisomem tem como hábito a necrofagia. o espírito dos mortos. Eles foram ter com ele na cidade onde se encontrava. numa noite. em 1919 para ser exato. Até os dias de hoje chegam relatos a respeito do monstro de Morbach. ele tanto devora cadáveres humanos e animais já mortos. A licantropia está intimamente associada à magia e à bruxaria. foi enterrada e. Um cão policial foi levado ao local e a única coisa que fez foi ganir e se esconder. uma pessoa que se transformava em lobo para atacar o gado. com um grupo seleto de pessoas. Esse caso pode ser encontrado na revista Planeta nº. havia druckgeister. passados alguns dias. Dois oficiais britânicos relatam o caso de uma aldeia na África que estava sofrendo o ataque de hienas. A transformação do lobo em bruxa é algo terrível e excitante. um morto retornado.112 Marcos Torrigo Licantropia 113 um enorme cão de orelhas erguidas olhando-o estranhamente. que escutavam urros e gritos durante a noite. Uma lenda grega versa sobre a maldição lançada por Zeus contra Lycaon. frades passaram pela cidade e almoçaram com o casal. sua lápide rachou. ou seja. Como seu nome já demonstrava a força que o movia. Um determinado dia. O frade se prontificou em ajudar. talvez Zeus só tenha lhe dado uma forma mais condizente. E ainda com olhos ardentes pelo fogo das paixões bestiais que provêm do divino. enquanto um dos frades rezava com a família na igreja. abria a tumba. Eles instruíram a família a depositar carne e outros alimentos na sepultura. Dentro dela havia uma estranha fera. somando-se aos relatos dos vizinhos. que matava por sufocação. Nos lugares do mundo onde o lobo não é conhecido. Estes. um dos filhos do casal proferiu alguns impropérios contra os frades. Um pedreiro foi contratado e após consertar a lápide inúmeras vezes. em pleno século XX.

isso tiraria a atenção do nascimento de Jesus. sete cemitérios de igreja. Outra forma de adquirir a licantropia era nascer na véspera ou no dia de Natal. o chefe havia acabado de expirar e. não tão destruidoras como os lobisomens. e o capitão Shott a seguiu. à meia-noite.114 Marcos Torrigo Licantropia 115 que o animal tocava a isca. de acordo com os eclesiásticos. A forma de livrar o lobisomem de sua sina é espetá-lo com o espinho de uma laranjeira que tenha sido plantada numa sexta-feira. observando o cadáver. Ser amaldiçoado pela igreja. com a idade de treze anos. este estava sem o maxilar inferior! Na China. A partir dessa idade principia sua sina. O homossexualismo é relatado. e para as populações indígenas. para depois serem trocados por pegadas humanas. narra inúmeras crenças a respeito do lobisomem. os rastros das hienas feridas seguiam por alguns metros. A pessoa que for mordida ou entrar em contato com o sangue do lobisomem pode adquirir a doença. pode ser um fator desencadeante da licantropia. espertas e matreiras. Ela demonstra que a crença no lobisomem vem não só de Portugal. em seu livro Lobisomem: Assombração e Realidade. procura um cemitério. Quando está em sua forma humana. mas também de povos que para cá migraram. ele é chamado de capelobo. assim como é no Vampirismo. encontrando em uma poça de sangue a mandíbula da fera. orelhas grandes. Uma bala untada com vela que ardeu em três missas do galo é usada para caçá-lo. com pequenas variações. lá restabelecendo a sua condição humana. Nesse caso. é uma pessoa de nariz longo e fino. o lobisomem procura uma encruzilhada. que em última instância é o caso de licantropia clássico. Um fator importante na licantropia é a sexualidade. bem como a zoofilia. deve ser-lhe dada a estocada com o espinho. Só depois desse percurso ele poderá voltar à forma humana. pode ganhar a capacidade de se transformar em um. . Maria do Rosário de S. Em alguns locais do Brasil. No momento em que a fera está se transformando em humano. curiosamente. O capitão entrou na cabana. no mesmo local onde se transformou. Caso alguém entre em contato com o sangue do lobisomem. pois os suspeitos de licantropia tinham uma sexualidade que se fazia notória. sendo meio homem e meio tamanduá ou anta. Toda sexta-feira. sete cidades. Na noite de sexta-feira. os oficiais viram uma enorme e estranha hiena se lançar sobre a isca e levar a carga da arma sobre sua boca. Selecionamos algumas crenças de como se processa a licantropia e as expomos na seqüência: O candidato a ser lobisomem é o filho do incesto. ele terá que percorrer sete outeiros. A fera rumou para o matagal. Ele irá procurar um local onde se esponjou um cavalo. estarrecedor. sete cantos do mundo. Os oficiais logo notaram que. De campana em uma dessas armadilhas. Seguindo o rastro. onde ele foi informado de que o chefe local havia acabado de chegar extremamente ferido. chegou em uma aldeia. o que era considerado uma blasfêmia. havia a crença de seres humanos se transformarem em raposas. ou receber um sortilégio de algum mago. adquirindo a forma lupina. Seu comportamento é desconfiado e com repentes imprevisíveis. Os índios também o conheciam. e aí rolará na terra. normalmente destrutiva. Índios velhos e xamãs têm a capacidade de se transformar em capelobo. pálido e magro. sete encruzilhadas. Para a Igreja. no período da meia-noite às duas horas. só que adaptado à fauna local. como alemães e italianos. lá se esponja na terra e se transforma. eles mantinham as qualidades da raposa. O lobisomem brasileiro deriva do lobisomem português. Para voltar à forma humana. Lima.

ele conclamaria divindades. Há relatos de ataques sexuais do lobisomem. Respiraria profundamente. faria uma fogueira. É descrito como uma pessoa pálida. Suas presas principais são crianças. Quando desse meia-noite. ter os quartos traseiros maiores. Zeus para os gregos. . Têm por costume longas caminhadas à noite por lugares desertos ou cemitérios. mas isso poderia decorrer de um filho incesto ou mesmo ser simplesmente um fenômeno aleatório. os resultados fossem alcançados. como. Os próprios índios norte-americanos também tinham rituais em que a força do lobo era invocada com o uso da sua pele. Seria tomado pela força do ritual. estuprando mulheres. Só um detalhe: quinta-feira é dia de Júpiter. por exemplo. assim como o poder que tinham sobre os elementos. indivíduo o qual apresentaria uma aparência magra e abatida. pelas quais um mundo novo é vivenciado. tudo isso antes de o galo cantar e o Sol raiar. pois sabemos que os xamãs faziam uso deles em suas cerimônias. eram gerados por magos tempestários. os romanos já acreditavam que. as plantas de poder – apesar de o cogumelo ser um fungo – abrem as portas da percepção. narrados durante a Idade Média. e a concentração deveria ser absoluta. os cogumelos. produzindo ou dissipando tempestades. O leitor não deve pensar em simples alucinação. o mago se encaminharia para uma floresta. cânfora e erva-moura. Ele iria procurar um local isolado. Uma dessas lendas diz que o sétimo filho homem (sendo sétimo e último) de um sétimo filho (também último e homem). em sua ronda. o que é curioso. Evocações então seriam feitas. ervadoce e gordura de um gato. A quinta-feira é o dia especial em que todos os amaldiçoados se transformam. especialmente na quinta-feira. Bruxaria e Satanismo. arquétipos ou criaturas ligadas à licantropia. excrementos e sangue humano. Ser mordido ou entrar em contato com o sangue também transmitiam a licantropia. Ele. galinhas. as sobrancelhas grossas praticamente – ou muitas vezes – se juntando e orelhas grandes. magra. o feiticeiro passaria a mistura pelo corpo e imaginaria a transformação almejada. Algumas adaptações foram feitas nele para atualizá-lo. entre outras coisas. como uma praga enviada por Deus. menos sábados e domingos. São sorumbáticos e esquivos. Outra variação inclui a de babosa. Ele deveria sentir a transformação em cada parte de seu corpo. Uma outra diz que um sétimo filho precedido de meninas também poderia ser um lobisomem. mas com algo que lembra o homem. O corpo etérico é o agente das manifestações licantrópicas. isso repercutiria no físico. por exemplo. com pêlos e barba cerrados e abundantes. Muito possivelmente uma poção à base de potentes alucinógenos era usada. um caldeirão suspenso por um tripé seria colocado. dessa forma. ferindo o etérico. é claro. traçaria um círculo mágico. entre eles a mudança do tempo. A tradição medieval mandava que nesse momento se colocasse um cinto feito de pele de lobo. Iremos tratar agora de um ritual muito antigo que conferia a licantropia. das práticas mágicas. sem falar. experiências mostram que pessoas sob o efeito do cogumelo têm maior capacidade telepática. nela. Tem a forma de um cão grande e negro. Nesse caldeirão seriam fervidos os seguintes ingredientes: ópio. carniça. cicuta. Em uma noite de Lua cheia. Muitas vezes fenômenos físicos. tem que passar por sete cidades antes de voltar ao local da transformação. Se preferirmos manifestações mais brandas. poderia se transformar em um lobisomem. para que. Ele pode transformar-se todos os dias. imaginaria que o arquétipo entraria em seu corpo com o alento. filhotes de animais.116 Marcos Torrigo Licantropia 117 Há diversas lendas acerca do que poderia ser um sétimo filho de um sétimo filho.

o Vampiro após sete anos se torna uma urtiga. Il Talmud de A. o morcego após sete anos se torna um Vampiro. . a urtiga após sete anos se torna um abrunheiro. o abrunheiro após sete anos se transforma em um demônio. Cohen.Capítulo Oito Cabala e Vampirismo O macho da hiena após sete anos se torna um morcego.

o que o levaria a executar a mais ampla série de atividades destrutivas. representando o nosso lado instintivo e mais primário. da Edípro. como Destruí-lo e Defender-se. * Os estudiosos de Cabala me perdoem pela exposição tão sintética e aglutinadora. Essas Sephiroth (plural de Sephira) e os inúmeros caminhos que as ligam formam a Arvore da Vida. cananeus incorporados pelos judeus. Binah. aparentado com o perispírito dos espíritas. esse corpo poderia ser possuído por um Qliphoth. planeta Plutão. impulso. sem que ele deixe de ser um livro iniciatório sobre o assunto. claro. Sem falar que os judeus concebiam três corpos para o ser humano: Nephesh. Essa árvore foi formada a partir de uma fonte misteriosa. Iremos agora falar sobre o mito do Vampiro transposto para a Cabala. anjos e demônios correlatos. durante suas viagens. e mais uma infinidade de coisas*. ao racional. em especial a hermética. o masculino e feminino unidos. cascas. facilitando assim o entendimento. e as eventuais explicações serão feitas intercalando os dois temas. Cada uma dessas Sephiroth terá suas próprias características e deuses. o Vampiro é um morto que retorna da tumba. ao princípio mais elevado do ser (esquecendo Chiah e Yechidah). que continham em si o potencial para criar tudo o que conhecemos. . se lembrarmos da estada dos judeus no Egito. a grande mãe. e além do mais o Cristianismo nasce do Judaísmo. O nosso objetivo aqui é usar a metafísica cabalística. podemos chegar até ela apenas por símbolos. chamada Ayin Soph. Faremos uma pequena descrição das Sephiroth. Quando sobrevinha a morte. platônicos. Do Ayin Soph brotou Kether. Essa abordagem tem muito dos conceitos socráticos e pré-socráticos e. Em alguns casos. Ruach está associado à mente. em outro livro de minha autoria. Chockmah: sabedoria. entre elas o Vampirismo. por serem conhecidas dos ocidentais. um demônio. Binah: compreensão. apenas lembrando. o cálice. ou como contato que fizeram enquanto povo conquistado. Kether: simboliza a coroa. sendo entendido que na verdade eles foram os codificadores de inúmeras tradições. São os demônios mesopotâmicos. e seus estudos aprofundados sobre os fenômenos ocultos. o Nephesh. inconcebível. Ruach e Neshamah. e de Chockmah.120 Marcos Torrigo Cabala e Vampirismo 121 Cabala poderia ser definida grosso modo como a metafísica judaica. é a primeira sephira. há uma explanação mais detalhada sobre Cabala. Para a Cabala. similar ao P’o chinês*. Qliphoth são conchas. Este era o espectro do morto para os egípcios. As referências ao Cristianismo são necessárias. planeta Saturno. o livro versa sobre Vampirismo. e assim sucessivamente até Malkuth. dela veio Chockmah. No mito clássico. dela emanaram uma série de princípios. cacos dos cálices sagrados quebrados quando o poder criador da divindade cingiu o universo pela primeira vez. para entendermos melhor o Vampirismo. a décima e última Sephira. períodos de escravidão. O Nephesh é o que muitos cabalistas chamam de alma animal. o masculino. mantendo inúmeros de seus princípios. planeta Netuno. eles travaram contato com a magia egípcia e toda a cultura da mumificação. há um símbolo composto que serve para representar o universo e nossa inter-relação com ele: é a Árvore da Vida. Neshamah. Cabala: a Árvore da Vida. simboliza a origem de tudo. vagava por algum tempo até sofrer a segunda morte. * Ver capítulo dois – O que Torna Alguém Vampiro. o útero. à claridade. mas. o falo. a primeira Sephira (nome hebraico para numeração). o fantasma que vagava em cemitérios.

se preferirmos Lúcifer. todos eles são representações da mesma força. no caso. associado ao deus Shiva. Therion e Babalon. Voltando a Saturno. ameaçou: “Se a porta não for aberta. harmonia. Chesed: misericórdia. determinação. conseqüentemente). Malkuth: o reino. senhor do tempo (o Cronos grego). está à direita da Árvore. composto pelas Sephiroth Binah. como Elizabeth Bathory e seus banhos em sangue para rejuvenescer. mas para compreendê-la na totalidade faz-se necessário o estudo de outra Sephira. não envelhecer. Hod: esplendor. Tiphareth: beleza. o duplo. o corpo. ligado à bruxaria e ao diabolismo. O narcisismo. esta é a Sephira que não é Sephira. Chockmah. dentro do sistema thelêmico. Sem falar. ou. planeta Júpiter. som. o Sol. na Arvore da Vida. O mito do Vampiro tem os aspectos sensuais e o desejo da perpetuação. todos sob a regência de Saturno. a matéria. ao descer aos infernos em busca de seu amado. Geburah e Hod. na morte. e representam aspectos do feminino destrutivo por um lado. no lado animal. Vênus. a grande mãe da Cabala. onde a água na verdade é sangue. O outro pilar é o da misericórdia. Yesod: fundamento. energia sexual. tomado de ciúmes (um sentimento bem venusiano). ele era conhecido pela astrologia medieval como o grande maléfico. e a cova na morte. a cruz. a noiva. assim como o deus egípcio Seth ou Shaitan dos yesides. E fácil lembrar quantas datas ligadas ao Vampirismo estão sob o signo de Capricórnio. Assim reza a lenda. registros akáshicos. O leitor deve estar se perguntando: “Mas Binah não era a grande mãe?”. o local do eu superior. O planeta que lhe é atribuído é Saturno. planeta Terra. Lúcifer. composto por Chockmah. o antigo titã. A Árvore da Vida é composta de três pilares. Há uma lenda de Ishtar. é claro. entre elas a Binah. . planeta Mercúrio. A raça humana foi criada em uma sexta-feira. destruição. e protetor por outro. Shiva e Saturno têm inúmeros atributos intercambiáveis. Vênus também é a estrela da manhã. usando a vida e energia de jovens mulheres. Chesed e Netzach. religião. Geburah: força. A resposta é sim. No centro da Árvore há o pilar chamado pilar do meio. sexo e prazer. é atribuída à Sephira Netzach. escrita. amor. dia consagrado a Vênus. e independente disso. que fica à esquerda da Arvore e é associado ao nadi Ida. regido por ele. planeta Marte. a cosmética tanto embeleza como faz a idade aparentemente retroceder. hebraico para vitória. o demiurgo. Algumas Sephiroth em particular serão relevantes para nós. planeta Urano. o sacrifício místico. luz astral. A idéia de Shiva e Kali seria muito interessante. ou. as Sephiroth que o compõem são Kether. sorte. Elas são o ventre que dá à luz. planeta Vênus. um pilar feminino. Tiphareth. o grande Pai. masculino. no negro. intelecto. como representantes dessas polaridades. filosofia. espaço. a cruz ansata. a rosa. ensinarei o morto a voltar à vida”. fonte de toda a vida. Yesod e Malkuth. entendam-se polaridades. arte. o anjo rebelde. que une masculino e feminino e é associado ao nadi Sushumna. que. Netzach: vitória. mas cada Sephira compartilha da energia de sua contraparte. são eles o da severidade. vida. sem falar que quando nos referimos a sexo. Binah e Kali são negras (negro é a cor de Saturno e Binah. Ela é associada ao seguinte: manter-se incorruptível. declara guerra à humanidade. a Vênus da Mesopotâmia. representada pelo mar. um deserto habitado por demônios. Pingala é seu nadi.122 Marcos Torrigo Cabala e Vampirismo 123 Daath: conhecimento. Lua. simbolizada pelo abismo. magia. atributos de Vênus e conseqüentemente de Netzach. Daat. Esse feminino destrutivo terá um arquétipo perfeito em Lilith.

e a própria decapitação. o mesmo valor numérico de Fênix. Mas. no mundo das sombras. ele morre e renasce. Um bom exemplo do exposto é o rei Salomão. macho e fêmea ele os criou. A estaca é fincada no coração. da raça humana. este ser que atende por um nome de certidão de nascimento. ele se abre ao manancial de sabedoria incomensurável de todas as suas encarnações. como uma lagarta que se torna borboleta. Deus cria o ser humano usando epher. Adão ou Adam é composto de ar e sangue. bíles e sangue. ele anda à margem. Esse fato tem uma analogia cabalística importante. Sephira de vital importância será Tiphareth. e Aleph é uma letra Mãe que tem o ar como elemento. teremos Adam (Adão). além disso. Lembrando que a cruz é um símbolo pré-cristão. Sangue em hebraico soma 44. Portanto. mas esse Sol deve renascer após o abismo. Que seja entendido que o que morre em um iniciado é a sua persona. dam em hebraico é sangue. pó. órgão físico solar. O Vampiro é destruído pela luz do Sol na tradição. o primeiro ser humano. Dessa forma. Essas simples linhas já nos mostram que o primeiro ser era andrógino como a divindade. juntando-a ao aleph (a letra a). o iniciado se torna adepto. e imaginando que a consciência (o ser encarnado) se une ao corpo físico no momento da primeira respiração nada mais natural que o sangue tenha um papel preponderante. na maioria dos casos. e só podemos pensar no prana dos hindus. deixa de ser ele mesmo. muito mais efetiva e juntando os dois aspectos.. a Fênix. Com isso o sangue é um elemento importantíssimo no ser humano e a chave para seu renascimento. nutrir-se dos vivos. O iniciado que conseguiu o conhecimento e a conversação com o Santo Anjo Guardião (eu superior). Em sentido simbólico seria o canal do espírito. respectivamente. Mas o Vampiro vulgar se mantém agarrado à sua persona. pois há uma outra forma de vencer a morte. seja a cruz latina. que se recusa a morrer e se agarra à sua vida. isto é. que é a energia do Sol transmitida através do ar. Quando ocorre a morte. símbolo do sacrifício do iniciado. que jurou se alimentar do sangue dos filhos de Adão. O primeiro humano é formado de sangue e ar. que suga toda a luz. Mas essa composição nos faz vítimas de Lilith. suástica ou Tau. dessa forma. o mago ou feiticeiro tem a capacidade de evitar a segunda morte: ele pode alimentar-se. nas palavras de Kenneth . presente e futuro são uma única coisa nesse momento. afinal ele é que transporta o “ar” para o corpo. o mito da crucifícação de Jesus. o ato de separar a cabeça do corpo. e no corpo humano está presente no sangue. Palavras com valores iguais comungam da mesma natureza. ele é um ser pela metade. justamente ele. à imagem de Deus o criou.. Deus proferiu: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. O Vampiro não suporta esse símbolo. ele cria uma cisão. Passado. Mas dessa vez como um buraco negro. A palavra hebraica para sangue é dam. este se precipitara no mar vermelho e lá se afogaram. o Sol.124 Marcos Torrigo Cabala e Vampirismo 125 poucas pessoas irão negar o aspecto sensual do Vampiro. usando a terminologia egípcia. ou Buda iluminando-se à sombra da árvore Bo. é um Sol. é à alma de luz que ele se refere. como versa a tradição. Nesse momento. Ora se Adão (o ser humano arquetípico) é composto de sangue e ar isto nos leva ao prana. e tem um número de RG. Quando o Vampiro diz que não tem alma. ambos são atos que destroem o Vampiro e estão intimamente ligados a Tiphareth. o filho de Binah e Chockmah. Deus criou o homem à sua imagem. que tem como atributo o ar. marah e dam. uma ruptura entre o Ba e o Ka. Outro símbolo de Tiphareth é a cruz. após dar licença para partir aos demônios evocados.

e dessa forma viva eternamente”*. produziriam frutos similares. pois. Daat é uma tremenda prova para qualquer iniciado.126 Marcos Torrigo Cabala e Vampirismo 127 Grant “reabsorvidos em sua fonte”. ** Elohim. o mal. ou o liquido amniótico. Salomão ganha de Deus a Sabedoria. O narrado lembra os Querubins mesopotâmicos e a própria Besta do Apocalipse. passeava pelo jardim. assim. interessadíssimos em manter a sua hegemonia. são os deuses. em essência. podemos fazer uma releitura bastante proveitosa da Bíblia em Gênesis. Vamos destrinchar mais o mito bíblico. que também é o nome de uma Sephira. é a transcendência do bem e do mal. para que não estenda a sua mão. O norte é a escuridão à noite. quando ela se depara com a Serpente (Kundalini). e a sua parte material insuflada pelo alento divino. que Crowley chama de Caos. O Senhor lançou o homem na Terra. e tome também o fruto da Árvore da Vida. Os relatos associados a posessão de vivos e mortos é grande. sendo que para várias culturas estes demônios estariam por trás do fenômeno do Vampirismo. Chochmah em hebraico. o frio e a morte. De posse do conhecimento da sexualidade e da Árvore da Vida. ele morreria. espírito (uma entidade). e é de se imaginar que nelas houvesse uma genética divina. O conluio com uma gama enorme de entidades sempre foi praticado desde a mais remota antiguidade. (referente à segunda Sephira da Árvore da Vida) para o Sepher há-Bahir. ora. menos da Árvore do Bem e do Mal. o famoso pomo de Adão dos homens. justamente onde nossas avós diziam que a maçã de Adão entalou. Adão também tem relação com Adamah (terra). Conhecimento em hebraico é daat. A Árvore do Bem e do Mal é irmã da Árvore da Vida. Eva. Lembrando que na visão de Ezequiel. como já vimos. creio não haver melhor local para um Vampiro. Eva. que lhe diz que se comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal ela se tornaria igual a Deus. uma águia. algo meio andrógino. lugar de louvação dos Yesides. e. O termo demônio vem de Daimon. caso ele comesse o fruto dessa Árvore. Nesta visão ele vê um conjunto formado por um homem. Transposta para o corpo humano. claro. foram criadas juntas. Deus lhe cria a dócil Eva (tanto Adão quanto Deus deviam estar com seus egos masculinos feridos por Lilith). nua em folha. Caos é Satã e seu lugar é o norte. Jeová. a Arvore da Vida e. claro. e juntos seriam uma só carne. Uma parte é deveras elucidativa. sabendo o bem e o mal. que seria a companheira de Adão. . em uma tradução livre do hebraico. a união de Seth e Hórus. uma grande tempestade veio do norte e se abateu sobre ela. Eva e Adão se tomariam deuses. Daat fica na garganta. De posse das chaves que a Cabala nos oferece. Mar vermelho um grande mar de sangue. Os Magos de posse das chaves da Demonologia podem compelir estes seres a servi-los (dentro das possibilidades do Mago e do demônio). Deus baniu os futuros deuses. Deus disse: “Eis que o homem é como um de nós. * Ver Gênesis. Lá estavam Adão. E isso é conseguido pelo domínio da energia sexual. quem é o nós?** Eis que o homem é como um de nós – eram vários deuses. a Arvore do Conhecimento do Bem e do Mal. do tempo (Binah) e espaço (Chesed). como a concorrência é algo ruim. O casal do Éden comeu o fruto proibido e. um leão e um touro protegendo o trono ou carro de Deus. a Serpente. Tomemos uma passagem do Jardim do Éden. O homem podia comer os frutos de todas as árvores. Essa confissão de culpa é fantástica: se Deus é único.

o cruzamento entre ET’s e humanos e para os gregos. Na Idade Média. eles instruíram as mulheres na magia. se queres conhecer os deuses e o universo. Ele desceu à Terra para instruir os homens. E fácil imaginar que há bem mais nesse mito do que imaginávamos. e continuaram existindo. Daat também é o local dos demônios. é uma idéia interessante. A história dos Nephilim encontrará paralelo em várias tradições: para os espíritas. traduzido do texto hebraico. Outra ferramenta da Cabala é a numerologia. e Lilith. eles eram os exilados de capela. mais que os homens comuns. um deserto de areias movediças. Além de Lilith. como dizem os gregos: “Homem. a Arvore da Vida é o próprio universo. por isso selecionamos algumas teorias e passagens bíblicas sobre eles: Naqueles dias. . os judeus os temiam e respeitavam. um outro tipo de ser que merece a nossa atenção são os Nephilim. ela nos ensina que palavras com valores numéricos iguais têm um parentesco. O sangue carrega muito prana. Chockmah. Serpente tem a mesma numerologia que sabedoria. Samael seria Chockmah. Eram conhecidos por sua força e coragem. Binah. eles as desejaram. mas. havia gigantes sobre a Terra. estes eram os mais valorosos que existiram na Antiguidade. Como os Nephilim eram extremamente poderosos. seria caído. Eles unidos formariam um andrógino demoníaco como Kether. um anjo de alta hierarquia. mas ela riu desdenhosamente de mim) e criou toda a sua descendência de demônios. comungando de significados iguais ou complementares. justamente como o esperma. ou seja. derivação de divindades e demônios femininos mesopotâmicos. como os anjos que caíram junto com Lúcifer. Altos. para alguns ufólogos. O fruto desse acasalamento foi os Nephilim. atacando inclusive os homens. os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens. há muita especulação sobre o que eles seriam. Há quem diga que Lilith unida a Samael seria o Leviatã. Encontraremos os Nephilim tanta na Bíblia como nos manuscritos do Mar Morto. e Lilith tem interesse em ambos. de qualquer forma. varões de fama. como já vimos. similar àquele para onde Lilith se retirou (eu iria colocar fugiu. ela era a rainha dos íncubos. eles causaram extrema destruição.128 Marcos Torrigo Cabala e Vampirismo 129 a Kundalini. Após realizar o desejo. mas ao ver as fêmeas humanas. Possivelmente a história dos Nephilins começa com Shemhazai. Voltando ao nosso mito bíblico. O Nephilim e o cruzamento entre os anjos caídos e as mulheres humanas produzem uma raça de gigantes (leia-se seres poderosos). e delas geraram filhos. semideuses. a chave da imortalidade está no universo. de força incrível e com um apetite voraz. (Gênesis 6: 4. A Lilith hebraica é. conhece a ti mesmo”.) Nephilim. a Serpente que foi chutada do paraíso juntamente com a raça humana.

2500 a.Capítulo Nove Cristianismo. um deles tem a idéia de criar uma raça de escravos que produziria cultos. oferendas e sacrifícios.C. Desta forma foi criada a raça humana. Satanismo e Vampirismo Os deuses deliberam sobre o que fazer com o trabalho. . Lenda da Mesopotâmia. imagens.

Toda a energia represada. a bruxaria e os sabás considerados obra do Demônio. Um bom exemplo foi Aleister Crowley: fez de tudo na vida sempre em busca de seus limites. castrada. quebrando energeticamente a pessoa. O Nome da Rosa. ou pregar apenas o saciamento das paixões e desejos. ou jejua. no aspecto mais baixo (no sentido de degradante) que a palavra possa ter. Uma pessoa comum estava em eterna luta entre seus apetites e o status religioso imposto pela igreja. as mãos passeiam nas curvas do corpo do parceiro. Você tem diante de si um manjar extremamente saboroso. a melhor forma de se livrar de uma tentação é cair nela. a igreja. pois o Papa condenou o uso da camisinha. a pessoa abdicava do que há de mais divino em cada um de nós: a nossa vontade. Como disse Oscar Wilde. a primeira coisa que vemos ao longe é o campanário das igrejas. então nos apressávamos em doálo à Igreja – o caminho para o céu poderia ser comprado. um banheiro. mentais. dinheiro. é claro. o natural é errado e mau – este é um “Deus” masculino e infantil a brigar com sua mãe natureza. terá uma imagem premente em sua mente. Quem já leu Umberto Eco. pois a Igreja era poderosíssima. os corpos clamara pela pele um do outro. uma sala solitária. Outro exemplo: você saiu para dançar e se depara com aquela linda mulher ou aquele belo homem (de acordo com o gosto de cada um). conhecer os seus limites. mas “Deus” o proíbe (como se Deus não tivesse coisas mais importantes com que se preocupar). e. alimentando-se da energia dos seus fiéis. herança dos romanos (pena que só sobrou isso da velha e devassa loba). terras. fazer sexo sem preservativo uma loucura – problema duplo. Uma atração mútua acontece. como já falamos no início deste capítulo. que estão intrinsecamente associados à vida cotidiana e à natureza humana. Ter posses. o peso compatível. Dessa forma ela acumulou fiéis. em tempos de AIDS. o que digo é deveras diferente: quando um iniciado não come determinado alimento. um gigantesco Vampiro. e não porque estas coisas sejam más ou do “Demônio”. energia espiritual. ele ou ela está buscando um determinado fim – é como estudar para o vestibular. diferente dos dias de hoje. Não estou querendo ser epicurista. seu prato predileto. caso contrário ele será como uma criança que os pais impedem de fazer isso ou aquilo por ser errado. justamente para a entidade que criava o suplício. a vida era dura. a casa do homem. etc. Essas pessoas funcionavam como baterias que carregavam a egrégora vampírica da Madre Igreja. Temos que abdicar de algumas coisas para o nosso fim. pois foi um grande alpinista. enfim. não faz sexo. um grande enxadrista. As antigas festas pagas foram marginalizadas. Isso gerava um enorme sentimento de culpa. Um ser humano deveria testar suas capacidades. em latim. beijos ardentes são a decorrência natural. O toque dos sinos chama os fiéis cordeiros para a missa. . Um quarto. pelo menos para os fiéis. Vamos tomar por base os sete pecados capitais.132 Marcos Torrigo Cristianismo. senhora de terras e de opulentas riquezas que contrastavam com a miséria reinante. a casa de Deus. era lançada em busca de redenção. ou espirituais. poder político. nada que o proíba de se lançar com toda a gula sobre o prato delicioso. aí sim ele poderia se dizer livre. você está em bom estado de saúde. e o Papa era infalível. um local para ficar a sós. mas. A luxúria é pecado. seu poder de decisão era transferido para a Igreja. em que vemos os prédios. e somente seremos donos e senhores de algo conhecendo-o e não fugindo dele – aprende-se a andar de bicicleta andando. em qualquer rincão da Europa. Projetando-nos em plena Idade Média. da forma que o conhecemos. era pecado. fossem eles físicos. acima de tudo. seja dos donativos financeiros ou da energia gerada por inúmeras práticas antinaturais. é uma das religiões mais vampíricas que existem. Satanismo e Vampirismo 133 O Cristianismo.

Grandes místicos constam de seus quadros: São João da Cruz ou Santa Tereza. Hades concorda. ajudou a todos que pôde sem. a busca pelo inatingível. Na volta se casou. . as Moiras por um fugaz momento pararam de tecer. vai até o Hades em busca de sua amada (sua música foi a chave utilizada). o fim do Aeon de Peixes. e até as feras se prostravam para ouvi-lo. poder ajudar a si mesmo. e fez o pedido: queria poder reaver sua amada. tendo salvado todos com o poder de sua música. deitou-se ao embalo da suave música e as Harpias. mas a dúvida e a insegurança o invadiram. transmitindo amor e paz. inconformado. temendo ter sido enganado por Hades. e. Orfeu começa sua jornada de volta. foto do autor Mas a era cristã não teve apenas escória como sua representante. regente do submundo e sua mulher Perséfone. mas com a seguinte condição: ele não poderia olhar para trás até sair do submundo. Com o poder de sua música contagiava as pessoas. sua música encantava a todos os horrores. e a ele são atribuídas inúmeras curas. Foi personagem na expedição dos argonautas atrás do velocino de ouro. ele se vira e vê sua amada pela última vez. sem esquecer de Francisco de Assis e Inácio de Loyola. Cérbero. e ele. o cão de três cabeças de Hades. Por onde ele passava. ficaram imobilizadas pela bela música. O Cristianismo tem suas origens nos cultos dionisíacos e mitraicos. Satanismo e Vampirismo 135 Machu Pichu. Uma lenda que passa bem o espírito original do Cristianismo é a lenda de Orfeu.134 Marcos Torrigo Cristianismo. Por fim ele chegou até o poderoso Hades. Orfeu foi músico e poeta. e para nunca mais. Eles foram fiéis representantes de uma era que acabou (e morre lentamente). a sublimação. nos sombrios domínios do submundo. o coletivo em detrimento do individual. o sofrimento como caminho iniciático. seres rapaces e sanguinários. quando eles se defrontaram com as sereias. contudo. mas um infortúnio o esperava: sua bela esposa Eurídice foi picada por uma cobra e morreu.

é o elemento mais importante no ritual). ressuscitou. exímia em criar formas de estabelecer o seu poder. A mim o sangue e o corpo. tornando-se assim um pregador espiritual. faz-se mister esclarecer alguns pontos. a terra tremeu e fenderam-se as rochas. seja de católicos ou de protestantes. e daí em diante são implantados nela toda a sorte de dogmas. Mas essa crença é bem anterior ao Cristianismo. o universo pessoal e. seja do passado ou do presente. magick. abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos ressuscitaram. Independentemente de a maior parte ser simplesmente teatro (o leitor. nos casos verídicos os demônios envolvidos são crias do próprio Cristianismo. e por mais que ele às vezes transgrida as leis religiosas. depois da ressurreição de Jesus. e por não poder ajudar a si mesmo e escapar do fim terrível. e. Por sua compaixão e bondade. isso é claro. também por seu amor incondicional e o sacrifício pelo próximo. e por isso teria sido despedaçado e morto. zos kia e. Sei que procurais Jesus. Quem vem “salvar” a comunidade? A própria Igreja criadora do problema – muito curioso. dois muito relevantes ao Vampirismo: a excomunhão e o exorcismo. foi usado na confecção da coroa de espinhos. Mas o operador. Não está aqui. o crucificado. pois o deus havia ficado enciumado de Orfeu. em suas madrugadas insones. ficaram com muito medo e diziam: “Verdadeiramente. Para que o exorcismo ou a excomunhão surtisse efeito. planta usada contra bruxas e Vampiros. mágico. a ressurreição da carne. Condenava os sacrifícios e pregava uma vida mais frugal. Selecionei algumas passagens da vida de Jesus interessantes para o nosso estudo: (Mateus 27:51 a 54) E eis que o véu do santuário se rasgou de alto a baixo em duas partes.136 Marcos Torrigo Cristianismo. entre os vários elementos. Jesus. se esquecermos dos gnósticos. Os cristãos atribuem a eficácia do uso de plantas espinhosas contra bruxas e Vampiros ao fato de a coroa de Jesus Cristo ter sido feita de espinhos. antes de sua secularização e total deturpação. Dessa forma. conseqüentemente. no seu interior há algo que o acusa. O fundador do Cristianismo. usou. Orfeu foi sempre lembrado. Essa prática foi usada ao extremo por católicos e protestantes. Seu fim foi trágico: muitos julgavam que ele queria se tomar um deus. (Mateus 28:5 a 7) O anjo. daí a preocupação com seu sangue. o magista. sofre indefesa o batismo. Jesus). saindo do sepulcro. ao nascer. Antes de tratar deles diretamente. quer tenha existido ou não. vendo o terremoto e tudo quanto sucedera. e o número de casos de vítimas de excomunhão que se tornam Vampiros é enorme. A Igreja. como o enoquiano. este era filho de Deus”. Essa lenda ilustra as raízes do Cristianismo e o que ele tinha de melhor. deve ter tido amostras televisivas disso). claro. No mito do Vampiro. reza a lenda que o espinheiro. a Igreja tem os elementos perfeitos para exercer o seu poder. A própria morte de Jesus é bastante esclarecedora. O ato de beber esse sangue conferia a capacidade de comungar com o Cristo (nesse caso. O oficial romano e os que com ele guardaram Jesus. está repleto desses ícones. A criança. O poder mágico de qualquer ritual reside mais no operador do que na fórmula utilizada (é claro que existem as fórmulas poderosíssimas. a morte e a ressurreição. Satanismo e Vampirismo 137 Uma dor atroz o acompanhou por toda a vida. dirigindo-se às mulheres. Quando adulto. conforme tinha dito”. e para remediá-la ele pregou por todo o mundo. sabia perfeitamente dos arcanos secretos do Vampirismo. Algumas lendas atribuem a Dioniso a sua morte. . era necessário que a vítima deles estivesse sob a influência do Cristianismo. vieram à cidade santa e apareceram a muitos. disse: “Não tenhais medo. levando sua palavra de amor.

Dissertation sur les Aparitions des Anges. para o ortodoxo. . foto do autor Havia um ponto de discórdia entre católicos romanos e ortodoxos: a incorruptibilidade dos corpos. Quando esse fenômeno de não-putrefação ocorria. o diabo é um elemento decisivo para o fenômeno do Vampirismo. e não nos referiremos aos cultos setianos ou a Shaitan. Léo Allatius escreveu o primeiro livro que tratava do Vampirismo. O padre fazia algumas preces à Virgem Maria e. convencendo-se amplamente de seu poder. Ele escreveu um livro. maldição. Allatius retirou essa descrição de escritos de data desconhecida. Para o romano. o clérigo local era chamado. prova de santidade. oficiava o funeral do corpo em questão. o Vampiro grego (Vrykolakas) era definido como tendo o corpo incorruptível. Seu foco foi a Grécia. em que trata da problemática do Vampiro. des Démons et des Esprits. A Inquisição da igreja cristã foi o elemento que jogou de vez tanto a bruxaria quanto o Vampirismo para o lado do Satanismo. que estudou profundamente o Vampirismo na Grécia. Para o Vampirologista Dom Augustin Calmet. o que nos faz imaginá-lo como um assunto que preocupava algumas comunidades paroquiais. tentando desmistificar o fenômeno. de Bohême. e da obra de Satã. Nesse livro. O Vrykolakas chama uma única vez. Voltando à descrição de Allatius. Também para ele. Para a teologia cristã. O diabo (Vampiro) sai em sua ronda noturna por aldeias e vales. suas observações e teorias a respeito do Vampirismo.138 Marcos Torrigo Cristianismo. sua terra natal. Satanismo e Vampirismo 139 Igreja em Frankfurt. Giuseppe Davanzati foi um crítico da histeria acerca do Vampirismo. não sofrendo a putrefação natural. Ele então chama as pessoas pelo nome. na cidade de Nápoles. Aqui nos restringimos à ótica cristã. que era comum pessoas mortas há anos aparecerem em festas. Ele escreveu. O Vampirologista Leone Allaci estudou o poder da excomunhão e da absolvição. em 1645. e quem responde morrerá brevemente. nos domínios de Satã. ocasionando mortes de outros participantes. Menciona a excomunhão como um dos elementos que podem tornar alguém um Vampiro. por tratar-se de obra demoníaca. o Vampiro era obra do diabo. o livro Dissertazione sopra i Vampiri. A ligação entre o Vampirismo e o Satanismo é evidente para muitas pessoas. Leone Allaci publicou. relata. o Vampiro era uma entidade que andava à margem da graça de Deus. que se apossava do corpo do morto para práticas vampíricas. que são tão antigos quanto o tempo. passando pelas habitações. de Moravie et de Silésie. por exemplo. novamente. Já em 1645. E praticamente impossível falar de Cristianismo institucionalizado sem falar do Diabo. et sur les Revenants et Vampires de Hungrie. Conseqüentemente.

Essa entidade. copular com um homem e utilizar seu esperma para en- * De acordo com Jeffrey Burton Russell. o que notamos por nossa experiência é que qualquer símbolo religioso terá a força da egrégora da religião da qual provém. súcubos e incubos eram entidades distintas. que era a sua contraparte feminina. Conseqüentemente. . preocupava-se com a mutilação que a caça aos Vampiros estava produzindo em inúmeros cadáveres. e a Ortodoxa também. Na verdade. O Vampiro era naturalmente associado aos íncubos e súcubos. as técnicas de viagem astral e inúmeros eventos fantásticos. Dom Augustin Calmet fez um amplo estudo sobre os casos de Vampirismo na Europa Oriental e tinha a mesma opinião de Allatius. o Vampiro anda pelo mundo aquém da misericórdia de Deus (antes só do que mal acompanhado. seria sujeitado pelos ícones sacros (ou ortodoxos) dos católicos. havia uma entidade que seduzia e levava as mulheres a realizar atos sexuais enquanto dormiam. que era presidida por Satã em pessoa. ou seja. colocando-se a bruxa no local do cadáver. demônios noturnos que tentavam os fiéis com o pecado da luxúria. quase todos. também pensava que os demônios animavam o corpo dos mortos. Em Montenegro. o Vampiro estava atado a Satã. os demônios reanimavam os corpos dos defuntos. Para o imaginário medieval. Seus trabalhos foram lidos em toda a Europa. não me parece uma companhia agradável). no qual as mesmas regras para a existência da bruxaria eram aplicadas ao Vampirismo. e são obras de Satã. no caso da bruxaria. pedindo crianças cm sacrifício ou apostando e tomando parte na obra do diabo. para depois condenar à danação o infeliz pecador. etc. Outra fonte de Stoker foi o livro de Emily Gerard. Mas. ou seja. uma das mais importantes Ordens mágicas de todos os tempos. pois esses corpos de cristãos estavam à espera da ressurreição. aliado à força humana que projeta o divino através desse símbolo. Alguns padres diziam que um demônio poderia assumir a forma de um súcubo. a sua maneira de agir era inquestionável. Para outros. Nesse livro. a permissão de Deus (muito engraçado. deixa clara a origem satânica de seu Vampiro. O diabo é um cadáver. é de se imaginar que alguns ressuscitaram por conta própria. Léo Allatius cita o Malleus Maleficarum (usualmente O Martelo das Bruxas. com suas ignomínias. Bem. Satanismo e Vampirismo 141 É interessante notar que o próprio Allatius descrevia os Vampiros como aliados do Príncipe do Mal. The Land Beyond the Forest (A Terra Além da Floresta). com aparência masculina. Os Vampiros existem. A Igreja Católica Apostólica Romana. Esse pensamento de Allatius não é. Cascarrões de defuntos são possuídos por Qliphoth. em qualquer tribunal humano Deus seria cúmplice). Dessa forma. traduzido como um guia de caça às bruxas). era o incubo. sui generis. ele entrou em contato com a magia.140 Marcos Torrigo Cristianismo. segundo ele. essas são armas poderosas contra forças antagônicas. são corpos reanimados pelo demônio. água benta. Nela. de Bram Stoker. fala-se a respeito de uma escola na Transilvânia. de nenhuma forma. Drácula. Para ele. a Cabala. o opositor de Deus. afinal o Deus cristão. que se aproveitam das memórias do morto para seus fins nefastos. para a mentalidade católica. É interessante notarmos que Stoker foi membro da Golden Dawn* a mesma ordem à qual Crowley pertenceu. crucifixos. o Vampiro era o corpo de um morto possuído por maus espíritos. Dessa forma. professor emérito da Universidade da Califórnia. O Vampiro satânico. devido à peste de Vampiros que assolou a Europa no século XVII. Ele poderia se transformar num súcubo. seja como for. hóstia. o Baital indiano era o Vampiro-demônio que animava cadáveres para suas atividades. Como já vimos. ou seja. eram a mesma coisa.

O Vampirismo se desenvolveu com especial virulência onde o status religioso foi alterado. Não podemos esquecer as invasões mongóis iniciadas por Gêngis Khan. Por mais que o Cristianismo possa ter entrado no leste europeu na esteira do império romano (Romênia). levando-se em conta o exposto acima. O Papa Silvestre II era conhecido por manter um caso com um súcubo. . quer por meio de missionários bizantinos ou latinos. Usarei como paralelo uma situação ocorrida nos Andes bolivianos. Os íncubos poderiam tomar a forma de alguém respeitável para a vítima. onde as mulheres eram visitadas pelo deus Marduk e era praticada a prostituição sagrada. como a Rússia. muito provavelmente devido ao Bogomilismo. religião dualista que teve grande expansão nessas terras. Os bósnios se converteram ao Islamismo. esse fato se evidencia em decorrência da falta de dados e da carência de relatos fidedignos. de acordo com o Bispo Kallistos Ware. O envolvimento de grande número de clérigos com o Satanismo é evidente. Um importante centro do Cristianismo ortodoxo. havia a prática corrente de pessoas dormirem nos templos. o Islã talvez tenha sido uma escolha menos traumática. Todavia. Enquanto o Cristianismo era uma religião das cidades. assim sendo. O nome incubo deriva da raiz latina para incubação. visitando-a como um incubo. nas quais curiosamente se fazia uso de artes mágicas para quem quisesse mudar de sexo. Afirmar categoricamente é arriscado e um caminho certo ao erro. prática esta que remonta à Mesopotâmia. onde eram visitadas pelas divindades. Os seus exércitos eram compostos por guerreiros de diversas tribos que em sua maioria professavam uma religião xamânica. A Valáquia e a Moldávia foram cristianizadas totalmente somente no século XIV. mas algumas conjecturas são possíveis. que contou com maior documentação. Tomás de Aquino narrava que crianças eram geradas através dessa prática. é possível ter-se um breve relato das condições de algumas partes do leste europeu. Antes do Cristianismo. Satanismo e Vampirismo 143 Interior de igreja em Frankfurt. No leste europeu. como exemplo nós temos o Abade Beccarelli. uma certa dose de Vampirismo é nata a todos os seres vivos. que promovia intensas orgias. muitos bolsões continuaram pagãos ou heréticos – vide os bósnios. Ao que tudo indica. Ludovico Maria Sinistrari afirma que os “sucos vitais” e a virgindade eram o objetivo de íncubos e súcubos. foto do autor gravidar uma mulher. o interior continuou pagão até o século XIV.142 Marcos Torrigo Cristianismo. o que lhe facilitava o ataque. Sem falar de uma infinidade de grimórios atribuídos a papas como o grimório do Papa Honório. Os bogomilos foram drasticamente perseguidos pelos cristãos. Podemos indagar por que apesar do fenômeno ser mundial alguns locais são mais afligidos do que outros.

são usados em igrejas. Mas aquilo que era vivenciado de uma forma mítica se transforma em terror com a conquista espanhola. os cristãos tiveram apoio. foi usado por séculos como oferenda ritual. Por sua vez. um etnólogo francês que viveu com os Urus na aldeia Chipaya. dos cavaleiros teutônicos. os antigos deuses se tornaram demônios e os “pecados” deviam ser depurados. no leste europeu. Ordem de cavalaria que se propôs lutar contra os pagãos. É fácil imaginar a confusão psicológica que se instaurou na sociedade e. os membros da resistência insuflavam a população contra os espanhóis e a restituir o culto aos deuses. uma guerra de conquista foi levada a termo. conseqüentemente.144 Marcos Torrigo Cristianismo. Não que os Andes não tivessem uma mitologia do sangue e do seu poder. que acreditavam que os espanhóis haviam vindo atrás da gordura humana. como sabemos. O vampiro usaria o sangue (ou a gordura) de suas vítimas para a fundição de sinos. após a chegada dos espanhóis. criador do mundo e uma divindade primordial. Isso gerou o fim da identidade de um povo. ou mesmo o humano. O deus Viracocha. Era dito que as pragas que se abatiam sobre a população eram uma maldição devido ao (decorrente do) abandono das divindades autóctones e o crescimento do Cristianismo. De . Cristóbal de Molina narra. em 1571. Satanismo e Vampirismo 145 O autor em Frankfurt Kiev. em vez do Cristianismo. Os locais foram vilipendiados de todas as suas posses sejam elas materiais ou religiosas. na Bolívia. Além dos missionários. O sangue de lhamas. que. quando traduzimos seu nome obtemos mar de sangue. Nathan Wachetel. em especial o primeiro. o pavor que tomava conta das populações locais. na esteira disso ocorreu o Vampirismo. Na Bolívia. As lendas sobre esses vampiros nascem juntamente com a submissão dos nativos aos espanhóis. no indivíduo. relata que a crença no Vampiro se’ mantém viva até os dias de hoje. O Vampiro pode ser um europeu ou mesmo um índio. foi totalmente destruído por suas hordas.

e prognosticam o futuro baseando-se na observação das Plêiades. o choque da “maldição”. nacas. A ligação dos espanhóis com o Vampirismo continuou. até os dias de hoje. O tema é por demais vasto para estas poucas linhas. homem feito Deus. o sangue e a gordura humana são tidos na Espanha como possuidores de propriedades curativas. Para citar apenas uma. eles também poderiam tirar o fluido vital.” Frater Piarus O autor nas ruínas de um silo Inca . Se isso ocorreu na Grécia. Satanismo e Vampirismo 147 fato. vale lembrar que eles não foram tratados como “novidade” como o que ocorreu ao fenômeno chupa-cabras em nossos dias. Para tanto. um país cristão há séculos.146 Marcos Torrigo Cristianismo. e a abrangência das suas inter-relações. Este pequeno estudo tem a pretensão de apenas trazer mais um elemento a hipótese do Vampiro. alimento dos deuses. Os feiticeiros nativos “sugam” os males das vítimas. o que dizer do leste europeu e nos Andes. É de se imaginar que da mesma forma que os feiticeiros poderiam tirar a doença. a Ordem religiosa dos belemitas era acusada pela população de serem vampiros. os espanhóis eram os responsáveis pelas pragas. doenças trazidas as Américas para as quais os índios não tinham resistência. Muitos podem contrapor os séculos de distância entre a conversão ao Catolicismo e os relatos de casos de Vampirismo no leste europeu. Com isso não descarto outros fatores e elementos e nem me arvoro o “pai” da idéia. lembremos-nos dos resultados da excomunhão na Grécia como geradora do Vampiro. carrascos estripadores. “O Vampiro. ou melhor. Por volta de 1700. Curiosamente. bebe sangue. Talvez o hiato entre um fato e outro tenha sido um tempo de fermentação dos ícones cristãos e pagãos culminando na histeria vampírica que varreu a Europa.

Montado no Tubarão do seu desejo. Austin Osman Spare . ele cruza o oceano da dualidade e mergulha no auto-amor. então ele abandona tanto a Virtude quanto o Vício e se torna um Kiaísta.Capítulo Dez Vampiros e o Sexo O sábio que busca o prazer descobre que existem “inúmeros níveis de desejo”.

O deus Atum egípcio cria o universo através da masturbação. E as mortes em função disto estão presentes em inúmeras culturas. São inúmeras as formas pelas quais o Vampirismo se liga à sexualidade. e o nome deste filho é Hermafrodito. por isso uma jovem foi trazida para dormir com ele. crianças eram geradas por meio dessa prática. sexo grupal. ou criança da lua. A masturbação e os devaneios eróticos podem criar larvas astrais (formas-pensamentos adensadas) que se alimentarão da vitalidade de seu criador. senhor da Magia. o bissexualismo. dando vida a Shu e Tefnut similar às copulas atmosféricas de Austin Osman Spare. um pequeno Vampiro. a bruxa faria uma série de rituais. O Chiang-Shin. Os íncubos. mas um fato presente. mas todas trazem em si uma enorme carga mágica. os fetiches. Tanto na Malásia como na Europa. Alexandra David Neel conta que certos magos tibetanos saem em astral para encontros sexuais onde se abastecem de energia da parceira. ou seja. Lembrando que o Hermafrodita figura em muitos tarôs na carta * Carta de Tarô. sugando sua energia ou vitalidade. outras menos. Atum os abraça transmitindo sua essência. umas mais. animal sagrado a Thoth. Um dos elementos mais obscuros e poderosos na magia sexual é o culto Bestial. masculino e feminino unidos harmonicamente. as bruxas se utilizavam de familiares. Iremos nos ater especificamente a alguns deles. o Vampiro chinês. ritos obscenos e cópulas bestiais eram realizados. há relatos inclusive de pessoas que usam seus corpos etéricos para manterem relações sexuais. Quando do retorno de Sírius. devido ao fato de serem criados pelo mago para determinados fins. Então o súcubo colheria o esperma masculino e na forma de incubo fecundaria uma mulher. oral e mais uma infinidade de variantes. ele executaria inúmeros trabalhos para a bruxa. Gandhi dormia com virgens. O familiar era criado dentro de uma garrafa. que culmina na Alquimia que leva à Beleza. Uma lenda nos fala que Hermes (o Thoth grego) teve um filho com Afrodite. Há uma técnica de magia onde se cria um elemental artificial. a masturbação. Criar um elemental artificial é basicamente isso. A polaridade sexual é fonte de rejuvenescimento e saúde. Entendemos por esse nome tudo o que foge a moral judaico-cristã. Ganhar energia através de práticas sexuais é bem conhecido o Tantra taoísta tem inúmeras práticas para isso. Muitas vezes. levando-o a atacar e estuprar mulheres. Estes elementais também são chamados familiares. Kenneth Grant em seu livro Renascer da Magia nos fala das narrativas de Heródoto sobre as terras do Egito. a zoofilia. que se alimentaria de porções de sangue. Eles teriam a capacidade de se transformar livremente de súcubo para incubo e vice-versa. ou a Íbis. através de magia sexual. Em troca. Nisso se encerra o segredo da Fênix. Práticas como o homossexualismo. tinha forte compulsão sexual. De acordo com Tomás de Aquino em Summa Theologica os íncubos e súcubos poderiam fecundar. este ser se volta contra o seu criador. Em si ele juntava os dois pais.150 Marcos Torrigo Vampiros e o Sexo 151 O Vampiro muitas vezes voltava em busca de sexo. . sem o ato sexual em si. quando drenam o “parceiro”. Estas práticas têm em comum a transgressão. imagem e semelhança. súcubos. Durante sete dias. Na Eslávia do Sul era muito comum o Vampiro procurar quem havia sido sua companheira em vida em busca de relações sexuais. Lilith e Lâmia têm um intenso fator sexual. o Rei David era velho e doente. variando de povos e épocas. Desta forma tínhamos A Torre* e a Entrega. masculino ou feminino. praticamente tudo.

prazer e dor andam de mãos dadas no sexo. talvez. o abandono ao outro. cita o Kama Sutra e a atenção despendida em um capítulo às técnicas de mordida entre amantes. violência. Todos representativos de um estado entre a vida e a morte. Afinal a carta O Universo é de Saturno. mas reflete o prazer pelo prazer. A inocência tinha um preço alto para quem ia trabalhar para a Condessa. olheiras. e a Condessa Elizabeth Bathory levou isso ao extremo. a coragem. Não possui um impulso de preservação da espécie. de onde vem o termo “lésbica”. onde era visto como normal e desejável. Agressividade. nos remete ao lado animal e selvagem. Por mais que não houvesse a ingestão (até onde sabemos). Mas. Palidez. a mitologia de Ganimedes e Zeus é um outro bom exemplo. A necrofilia foi conhecida e praticada na Antiguidade. O homossexualismo foi praticado nas mais variadas culturas. Ganimedes porta o jarro de Ambrosia. mas também a grande mãe Binah. de acordo com Heródoto. O sangue servia para rejuvenescer a condessa. tanto é que as mulheres belas no Egito que morriam não eram mandadas imediatamente para o embalsamador. marca o advento da Nova Era. agindo como os aspectos subconscientes ou mesmo os autômatos do subconsciente de Austin Osman Spare. o signo regente da Nova Era. Tomando como exemplo uma coleira. A tradição da bruxaria é. O ato sexual de Seth e Hórus. Lá. o que é bastante feliz para o nosso estudo. Criando todo um repertório de atrocidades. e o número de casos de Vampiros que retornam para atividades sexuais é bastante grande. O sadismo está presente em todo o ser humano. luz e sombra. Nos dias de hoje isso não é diferente. o sadismo e o masoquismo. os fetiches. O sangue exerce um fascínio profundo. O homossexualismo possui caráter erótico e não reprodutor. a paixão que destrói seu próprio objeto. usufruindo um reflexo de si mesmo. a dominação pelo dono. é a grande chave hermética para o conhecimento de si mesmo. carregado de elementos psicológicos. tem uma enorme reserva de energia causada por sua repressão. Os sabás eram outra forma de adoração que muito tem a nos oferecer. morte. o que a liga ao Vampirismo. num relacionamento narcisista. Tanto é que os franceses chamam o orgasmo de pequena morte. com o tempo. roupas negras e mais uma gama de elementos. O próprio ato sexual promove intensa circulação sangüínea. em outras palavras manter a vida. Dr.152 Marcos Torrigo Vampiros e o Sexo 153 O Universo. que é tratado como tabu. Os aspectos mórbidos do sexo são inegáveis. as mulheres deixaram de ter Lesbos. e o culto à morte como elemento de fetiche é presente. . que podem vir à tona. As energias sexuais são extremamente poderosas e o homossexualismo na nossa sociedade. as qualidades masculinas eram enaltecidas. Seth. sofrimento e angústia de suas vítimas. Montague Summers segue uma linha de pensamento similar. a mais antiga sobre a Terra. Banhava-se no sangue das vítimas e praticava a antropofagia. vida. mas somente três ou quatro dias após a morte. mas diferentes. a virilidade e o vigor. que transforma humanos em deuses. a união de iguais. como uma grande Vampira que se nutria da dor. Ele atribui ao beijo a mesma essência da mordida. a bebida da imortalidade. nem por isso. e não causar morte”. como por exemplo. que saciavam o sadismo e aplacavam com sangue a libido de Bathory. A lenda e a mitologia egípcias nos falam que unir Seth e Hórus. A condessa matava suas serviçais e depois. Lembrando que Ganimedes é associado a Aquário. fortes aspectos lésbicos estavam envolvidos. ela freia. especialmente na Grécia. tanto no sexo como fora dele. as filhas dos Boiardos. Havelock Ellis diz: “É provável que o motivo de assassinatos sexuais quase sempre seja derramar sangue.

ou seja. já praticando a irrigação. resolver ou suprimir seus desejos. tinham esgotos e banhos públicos. o Yab Yum do Budismo Tântrico Tibetano. iremos tratar de apenas um sabá. O nome vem do deus Baal. os abismos do desconhecido de onde viemos e para onde voltamos – a mulher. a deusa. controle do orgasmo e meditação profunda. em especial no sul da Índia. o poder. símbolo do poder criativo. 365 degraus tinham que ser transpostos – um ciclo solar – o que a liga a Babalon. significando o fogo de Bel. ela é sagrada. somente para a Kali Yuga**. As danças de roda em tomo do mastro. o ritual sexual tântrico. grande demais para poucas linhas. O ato indiscriminado era a quebra de barreiras e uma grande catarse coletiva. mas a única coisa nefasta é esse pensamento preconceituoso. Nos dias de hoje isso pode parecer bárbaro. é uma tradição antiqüíssima. será a materialização deste ato. Bealtaine. O casal divino Shiva-Shakti. a não ser com o que gera vida. além do que já a abordamos no capítulo seis. seu corpo é sagrado. O Tantra é considerado até hoje na Índia. Este fogo nada mais era do que o Sol.). Ela existiu por quase mil anos. * Há outras teorias a respeito da origem. um povo que viveu no norte da Índia em 2000 a. a mãe do sol. a união das polaridades. Como exaltar a vida. Ressaltando que a Grande Deusa tinha seu aspecto tenebroso. senhora da bruxaria. que ficava no interior da terra. O Maithuna. sexo. Um ato devocional. cultos e crenças das culturas matriarcais da Antiguidade. concentração. Há uma estátua de Circe como o Sol. a natureza. ** Significa Idade do Ferro. na figura de um touro. Uma deusa que reflete este lado é Hécate. a alma do mundo. remontando aos dravidianos. Havia um templo de Hécate e para chegar até ele. ê uma era de trevas. O Tantra é a raiz de tudo. O Tantra se manteve na clandestinidade. Os dravidianos* foram os pais do Yôga e do Tantra.C. Os dravidianos tinham duas grandes cidades: Harappa. ou o fogo de Baal. Para o Tantra. olhar o divino encarnado (a mulher). isso é uma grande bobagem. A Grande Deusa se unia sexualmente ao animal do clã. no Punjab e Mohenjo Daro. Era um sabá de glorificação da vida. agrícolas.154 Marcos Torrigo Vampiros e o Sexo 155 Uma tradição multiforme e aglutinadora. Uma dessas cidades foi Tchatal Huyuk (7000 a. das encruzilhadas e das hostes do submundo. esta figura demonstra bem o espírito deste sabá. a Bruxaria.C. ou impura. Tantra. ela também é a grande cadela negra. e não só lá. uma tradição vil. Estrela Cão. Devoção. seja a nossa ou a externa. A mulher é Shakti. na verdade. estes por sua vez descendem dos ritos. que tinham um culto muito similar (se não a própria). Essa cultura tinha um alto nível tecnológico. Nela se cultuava a grande mãe e seu consorte. ou seja. mas nem por isso menos divino. Ela porta um colar que. Essas culturas eram libertadoras. A nossa sociedade é hipócrita e repleta de casos de adultério. Vama Marga. e voltadas ao culto da grande mãe. no qual uma grande orgia era realizada. Hécate é representada com cães a acompanhando. culminando no deus Bel das ilhas Britânica. . Então. justamente por não ter a coragem de assumir. para onde fugiram alguns dravidianos. ele servirá como uma bela ilustração. mas não como uma divindade solar fálica. canções e degustação marcavam os festejos à espera do Sol raiar. a malha humano-divina que se casa com a física quântica. o totem tribal. ou o caminho da mão esquerda. é o zodíaco. mas sim em conhecê-la. mas sim como uma representação da luz. a evolução consiste não em negar a natureza. são o material com que se criam os deuses. em Sind.

operam pelo prazer do Purusha (Eu superior). Retirado o preconceito. o iluminado. Nos atrevemos a imaginar que o sucesso das referidas senhoritas se deva à sua origem dravidiana. é uma nota esclarecedora. Água e fogo. foi praticada em toda a Antiguidade. através da união dos opostos. por exemplo. depois cada homem pega uma jóia na caixa. Um dos rituais mais importantes é o Chacra Puja: oito casais se encontram. onde duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio resultam em algo completamente diferente dos dois gases originais. assim como seu marido Shiva. mas como atributos do Espírito. Similar à física. Os locais de cremação são uma boa opção para estes encontros. além do Chacra Puja havia um ritual muito similar ao Bealtaine. a Besta. que esposam reis. como disse Buda. Os tântricos tinham séries de técnicas e conceitos muito importantes para nós. O leitor lembrar-se-á do que relatamos nos parágrafos precedentes e a nossa opinião. A dona da jóia será a parceira de Tantra aquela noite.156 Marcos Torrigo Vampiros e o Sexo 157 Com essa prática se visa à elevação da Kundalini.” E o simbolismo da lavadeira e da cortesã ilustra que o mais nobre está escondido no mais baixo e vulgar. Todos os Tattvas (os cinco elementos. terra. os que compõem o mundo. Um grande circuito energético é formado. iluminado. Donzelas de casta inferior cheias de sabedoria e conhecimentos mágicos. na qual o deus mantém a racionalidade humana acrescida * Publicado pela Palas Athena. Rituais em que se copula com animais são conhecidos desde a Antiguidade. literal e metaforicamente. ar. Um bode é sacrificado. Tanto o Thelemita quanto o Tântrico querem alcançar a não-dualidade. tem a mente lúcida. Maya (mãe de Buda) e o elefante. em uma nota lança uma idéia importante. Sexo e troca energética. Eles agem organizadamente a serviço do Purusha em busca do Atman (Espírito). vide Maria e a pomba. iluminação. em especial Kali. Eles não devem ser considerados como realidades em si mesmos. Ela representa a aniquilação total. em especial à casta sudra. seres conhecidamente Vampiros. Netzach (na Cabala) são os deuses. gerando um novo ser. esta é a receita para encarnar um homem-deus. buthas e vetalas. Curiosamente. matéria e espírito como uma única coisa e não dicotomizados como na era cristã. nos faz pensar que a Serpente não mentiu. fica livre dos frutos de seu ato (Krishna no Bhagavad Gita). A união da mulher com a fera. Não é à toa que Crowley foi para o sul da Índia. Os deuses egípcios em especial retratam a união do ser humano e do animal. à composição da água. Aquele que está livre. Lembrando o mito bíblico de Adão. O selo de Salomão e em especial o hexagrama unicursal são a representação de Deus e do Macrocosmo. ou seja. que pode ser comparado a Narasimha (Vishnu como homem leão). Mircea Eliade. Quanto mais depravadas e dissolutas mais aptas para o rito. marcando o começo do ritual. Vênus. em seu livro Yôga. Notavelmente. pela energia gerada pelos casais. por mais que mate todas as criaturas. as mulheres colocam uma jóia em uma caixa. de fato o sexo (conhecimento) torna os humanos divinos. Vida e Morte. também tinha como sua cor o vermelho. As mulheres são os deuses. ganha poder sobre rakshasas. Imortalidade e Liberdade*. o Samadhi. “O papel desempenhado pelas donzelas de casta inferior e as cortesãs nas orgias tântricas são conhecidos. os alquimistas ocidentais não procediam de outra forma. a “Negra”. . água fogo e espírito). mulher e homem unidos em um único ser. ou seja. Eva e a Serpente. há muita similitude entre o Tantra e Thelema.

mas amigo e carinhoso com os seus. a casa de Hórus. juntos (nesse sonho) eles enfrentam os perigos. Ambos são animais grupais e predadores. Esse trecho de London nos faz refletir. enfim. não tão forte como o tigre ou o urso. Tão marcante foi este momento que ficou registrado na psique humana. corajoso. Inicia-se então um ato sexual entre a rainha e o cavalo morto. a Vênus egípcia com cabeça de vaca. e as mesmas caças. com um avançado sistema de comunicação. no qual a rainha Pasifae se une sexualmente ao touro gerando o Minotauro. e o fogo usado pelo homem muitas vezes os salvou de outras feras. a engravida e morre. Merlin e Cerridwen. “ hat hor”. Nosso pai foi um Titã. a grande mãe. inúmeras considerações ganham vida. era morto a pauladas pelo filho de uma prostituta. um garanhão era cuidado de todas as formas. Nas grandes noites glaciais. O brâmane e outros assistentes proferem um colóquio sensual enaltecendo o sexo. nós teremos Nuit e Hadith* ou o Iniciado. . seus instintos afloram. O cavalo era solto. Buck. criador e a criatura. Hórus era o filho autogerado. e selvagem na caça e na defesa. sendo o filho e o universo. O mito do Minotauro é um bom exemplo. Algumas tradições ocultas dizem que a energia formativa do planeta Terra veio da constelação de touro. que reunia a alcatéia para os mais diversos fins.158 Marcos Torrigo Vampiros e o Sexo 159 dos instintos animais. Muito possivelmente este rito teve origem em cerimônias muito mais antigas e talvez mais efetivas. sendo similares ao Yin e Yang. renascendo dela. uma escolta o acompanhava para garantir a sua segurança. que rouba o fogo dos deuses para dá-lo ao ser humano. Um cão de quatro olhos. que o lobo tornou-se o animal totêmico dos primeiros hominídeos. dividiam as mesmas cavernas. mesmo morto o cavalo casava com a rainha. a relação do ser com o universo que o cerca. Lembrando que um cão de quatro olhos justamente era usado para repelir Vampiros (um par de olhos extra era desenhado). e o Xamanismo comprova. O culto à vaca sagrada e ao touro está presente na ancestral idade humana nas suas mais variadas formas. A deusa vaca neolítica evoluiu até Hathor. ser humano este que havia sido criado pelo próprio Prometeu. Ele era amarrado e purificado. um espelho para os nossos ancestrais. mas duas delas sobremaneira. olhos que cintilavam na escuridão. Usando outras figuras. por um ano. filho e consorte de sua mãe. Jesus e Maria. e o uso do fogo. inimigo e aliado do ser humano. em que um cão doméstico é levado de volta ao ártico. O sacrifício do cavalo realizado na Índia védica é profundamente rico em simbologia. o cão. mas o trabalho em equipe supria essa deficiência. É fácil imaginar. Uma série de invocações mágicas é levada a cabo pelos brâmanes. Duas coisas de importância capital no desenvolvimento da humanidade. Jack London ilustra muito bem isso em um de seus livros. De todos os animais o lobo – e o cão descendente do lobo tem um papel deveras importante. a associação entre humanos e lobos. o uivo. acessa suas memórias atávicas. Após este prazo. guardião do mundo dos mortos. muito belo constatar isso. o lobo que dormia nele desperta. o cavalo era asfixiado e morto. um homem pré-histórico. e a rainha clama pela penetração do cavalo. O mito do filho divino e da grande mãe. em especial Aldebaran. nas mitologias mais variadas ele está presente: no mito de Prometeu. do rei sacrificado que copula com sua mãe. Junto com o despertar destes atavismos vem um sonho onde ele vê um homem atarracado e barbudo. Supremo mistério de onde se descobre que igualmente somos o * Nudit e Hadith no Panteão Thelêmico são as energias primordiais que criam e permeiam o Universo.

eles nunca procuraram lá. o mundo inteiro é consumido pelas chamas. todas as ilusões caem por terra. inúmeros lugares foram sugeridos. E o mundo foi formado assim. o fogo serpentino que reside na base da espinha. todos os objetos e coisas são unidos. na lua. religião. Eles confabularam. Carreira. mais esperto. integrados ao ser. para esconder este segredo. associado a Kundalini. ou seja. menciona que a serpente kundalini bebendo o fluido do Visudha Chacra. por sua vez. moral e outras lendas. Prometeu. no alto das montanhas. muros nefastos. Uma reunião no Olimpo foi levada a termo para descobrirem a melhor forma de esconder da humanidade o fato do homem poder se tornar deus. acorrentado no Cáucaso (ou no inferno). que privam as crianças de seu jardim. a lua já começou a ser loteada e o Everest há muito tempo já foi escalado. como Lúcifer. o Soma. bebida da imortalidade. Mindanau teve seu fundo vasculhado. A lenda do Vampiro indiano. os dados da Unicef são assustadores. até que um bem. falou: Escondamos no coração dos homens. pode ser uma das raízes do mito do Vampiro. no osso Sacro (sagrado).160 Marcos Torrigo Este fogo é. e isto vale para o mau. contada por Sir Richard Burton. Kenneth Grant. Nem sempre o que parece bom o é. Quando o iniciado eleva esse fogo. em Renascer da Magia. e a raça humana na ilusão. De fato os deuses foram espertos. Considerac. no fundo dos oceanos. demonstra isso perfeitamente.ões Finais . nossos semáforos e orfanatos são os reflexos de nossa sociedade.

para outros. sentia seu peso. possibilitam desenvolver os chamados corpos sutis. Uma pesquisa foi feita e as outras duas últimas companheiras do Magista desenvolveram os mesmos sintomas. achei por bem fazer uma cerimônia para livrá-la por hora. O lidar com o oculto de forma séria e sistemática. na presença de outras pessoas. As mulheres na vida deste Iniciado se queixavam de cansaço. O segundo caso lembra o primeiro. A pessoa era um homem extremamente narcisista.162 Marcos Torrigo Considerações Finais 163 Defrontei-me em minha vida com alguns casos de Vampirismo. onde o inexplicável pode adentrar com o seu lado assustador. gerando sentimentos de prazer sensual e medo. Este fato não se deu em um único ano. após o sexo com ela em um quarto de hotel. gostava de ver o sangue verter. Logo que ela acabou o relato. envolveu medo. e também sem energia. e ela começou a sentir a mesma paralisia que havia sentido em seu quarto. Este caso ainda . ela tinha de tomar cuidado para. Selecionei alguns que os protagonistas liberaram para publicar resguardando as suas identidades. perdeu sua consciência e agiu como outra pessoa. muitas vezes elas afloram por si mesmas. Era como se o homem fosse um animal. não ser destruída por ele. sem vida e melancólica. Curiosamente. Claramente o ritual atingiu os seus objetivos. e acima de tudo dolorosos. A percepção do que ocorria – Vampirismo – veio quando a última das companheiras desconfiou do próprio estado. nas suas próprias palavras. um espectro. era aparentemente um outro ser que ali estava. Inúmeras noites ela teve a sensação de que o homem estava em seu quarto. O dito homem ainda tinha por hábito cortar-se. O Iniciado em questão não tinha a menor idéia do que ocorria. infelizmente para os amantes de emoções fortes não foram mortos retornando da tumba. como se uma lâmina entrasse por sua nuca. não fossem alguns detalhes. Um dos casos trata de um Vampiro inconsciente. durante o Ritual sentia uma grande pressão sobre o peito e num dado momento ela disse que foi tomada por um sentimento de ódio por mim. ódio e vontade de destruir tudo e acabar com o ritual. sua presença. Para esclarecimento dos fatos. uma vez. sono e tudo mais para mantê-las saudáveis. passados breves segundos ela foi despertando. que teve experiências com Satanismo e outras formas de magia. mas também alegria e perplexidade. Nas suas relações sexuais com a minha amiga. Fui procurado por uma amiga que narrou ter reencontrado uma pessoa do seu passado. Agressiva. Havia também um forte caráter sadomasoquista na relação. nervosa e ausente. Nem sempre essas capacidades são de domínio do Magista. o homem se transfigurava. pelo menos. que por sua vez facultam capacidades. este quadro era acompanhado de movimentos corporais sinuosos e estranhos. mas no decorrer de quatro. e ficava paralisada sem poder se mexer. Um determinado dia ela. Elas tinham alimentação. Ao fim da cerimônia ela estava aparentemente sem sentidos ou bastante concentrada. poderes. da influência nefasta. A pessoa em questão foi membro de ordens iniciáticas praticante de magia. sono e dores musculares. um Iniciado que no decorrer de anos drenou suas companheiras energeticamente. nem estacas ou corpos sendo queimados. Estava com uma profunda dor de cabeça. inexplicável. Para as pessoas neles envolvidos foram fortes. Ela se sentia completamente dominada por ele. Serve como um alerta às nossas vidas. mas mesmo assim todas as três desenvolveram anemia. o homem foi ao banheiro. todas desenvolveram uma anemia leve e atualmente estão muito bem. com o agravante do Vampiro talvez ter consciência do que fazia. somado a uma certa predisposição. Poderíamos pensar apenas em uma paixão mórbida. e muito menos de sua atuação nefasta.

não conseguia mover um músculo do seu corpo.. recuperando a mobilidade. Ele continua o relato: “Os olhos ainda estavam na mesma posição. se um corpo etérico materializado pode mover objetos. Na maioria das vezes. É bem conhecida a capacidade de alguns Magos e espíritas de materializarem seus corpos etéricos e produzirem uma série de manifestações. brilhavam tanto quanto os olhos. O Vampirismo que se desenvolveu nestes casos ilustra o que vimos no capítulo quatro é a respeito duplo etérico e as viagens astrais. é de se imaginar que arrancar o coração ou sugar as veias de alguém não seja mais difícil. mas com os sentidos astrais. Aquele rosto começou a abrir sua boca. só vi escuridão e desmaiei. avançou sobre meu rosto. “Olhei ao redor e me assustei ao ver um pouco acima do meu peito duas pequenas luzes vermelhas. Ele projetou o corpo adensado de tal forma que pôde desferir “um golpe”. em resposta veio o Demônio. agora achou. e mais de uma vez fiquei em um estado intermediário. quando pode ocorrer um confronto e resultar em imobilidade do corpo astral e físico. o monstro foi se materializando mais e mais até eu conseguir enxergá-lo completamente. Antes de tudo. maldisposto. consegui destruir aparentemente o atacante. o inusitado é que ele não estava deitado. A partir desta data o Frater desenvolveu apetite por sangue. semelhantes a olhos que me olhavam”. desta forma não temos ainda o seu desfecho. até que em um dia. perguntou-se o que estaria lhe causando aquilo. De fato o Vampiro voltou. por algum motivo. O ataque feito com o etérico materializado pode tanto drenar o prana sob a forma de energia ou sangue. não conseguia nem levantar da cama. Um certo Iniciado conseguiu derrubar uma pessoa com o uso do seu corpo astral. e então algo aconteceu. ele foi visitado por uma entidade – um Vampiro.” O Frater em questão teve a confirmação do ocorrido por uma sensitiva. que. Ora. desta forma.. um inglês residente em Manchester. em raras vezes de peso enorme. no corpo físico. então. impossível mesmo para várias pessoas. O que notei nos meus encontros astrais com os mais variados seres (não humanos normais) é que. Por incrível que pareça. Hoje em dia ele se vale de certos Arcanos secretos para controlar o seu Vampirismo. e de forma alguma significa um ataque ou algo ruim. sem saber nada do ocorrido. mas sim em pé andando em uma rua de Londres. No outro dia acordei cansado. O por que ocorrem as duas formas ou como isso se processa é campo para especulação. Todas as vezes que isto ocorreu. . mas a entidade intrusa não deixou. Refiro-me aqui aos encontros objetivos com seres no astral. relaxado ou em catalepsia. e ele voltará”. isto explicaria os vários relatos sobre o Vampiro voltar a viver aparentemente como uma pessoa normal. o fenômeno da paralisia do corpo físico e do etérico no momento da projeção é comum. em um sonho. eram entidades aparentemente agressivas e perigosas. muito possivelmente pressenti o perigo e tentei voltar para o corpo. Não podia mover o físico ou o astral. É sabido que o duplo é uma réplica do corpo humano. conseguiu derrubar uma pessoa que estava a três metros dele. ocorre a imobilidade. só que dessa vez eu conseguia notar um leve contorno de um rosto. Um outro Frater sempre teve uma inclinação ao Vampirismo. mencionou: “Você procurou. quando notei dois pequenos caninos.164 Marcos Torrigo Considerações Finais 165 está em andamento. O meu instrutor na A∴ A∴ (Astrum Argenteum). Ele acordou em catalepsia. eles poderiam voltar a viver no meio dos vivos. Usando o que ele chamou de energia Ki (usada nas artes marciais). talvez alguns Vampiros consigam moldar um novo corpo físico tendo como base o duplo etérico.

onde ritos e cultos eram celebrados. sua namorada era presa de uma feiticeira. uma luz saiu do meu chacra cardíaco e atingiu o oponente ou utilizei fórmulas mágicas de repulsão. o Vampiro assume várias formas animais e o Vampirismo é transmissível. alquimista e teurgo. dolmens. Não só os corpos dos seres vivos têm centros energéticos. grande cabalista. Em toda a temática mágica é notada a força do sangue. a atmosfera. há uma fonte sagrada sob a construção da catedral de Chartres. de 200 a. metade homem. quando me dava conta estava fazendo uma coisa ou outra. Ficavam em encruzilhadas ou em locais energéticos onde se uniam os meridianos da Terra. abrigava a própria divindade (hebraico Beth casa el deus). os luy mei. incas e astecas faziam inúmeros sacrifícios humanos. 200 anos antes da histeria de Vampiros que varreu a Europa. Uma máscara pré-colombiana. rodas de energia como as ruínas incas. O livro foi escrito por volta de 1500. conseqüentemente. Ele dizia que da crença nos Vampiros três coisas eram comprovadas: A destruição do corpo do Vampiro para erradicá-lo. Mas com certeza são locais de poder. influência dos astros. Este relato encontra-se no livro Filosofia Oculta de Cornélio Agrippa. ou coisas bem piores. Betel.C. Crowley estava na França. Ela era uma vampira. tendo feito parte das cortes de Carlos V e Maximiliano I. escancarando a terrível boca. Relatos de Vampirismo fazem parte de todos os povos. Self. um deles foi Marcelo Motta.. a própria Terra os tem. Crowley vai até a casa da vampira acompanhado de seu colega. Este amigo pede ajuda a Crowley. De forma alguma o fenômeno se restringe a culturas exóticas. metade morcego. ou mesmo Meca. ele pode muito bem ser usado para imobilizar. Foram ações instintivas. Crowley achou a pretensa . como Theutatis. O corpo astral é susceptível a todas essas influências. São centros de força da terra. podendo ter alguns metros de distância do corpo projetado. A Magia e o oculto são uma ponte entre o homem e o infinito. Se este corpo projetado pode mover objetos. Hermes. Compilamos mais este. ou seja. senhor dos caminhos. Maias. Crowley menciona que gostaria de conhecer a artista (a vampira era artista plástica) e eles foram apresentados. Ou seja. o Thoth (Hermes) inglês. Os caminhos do dragão são correntes energéticas que são formadas pela rotação do planeta. ela e a namorada do rapaz moram juntas. Em uma cerimônia inca. No Brasil. também temos pessoas ligadas à Magia que se interessaram pelo Vampirismo. crianças de dez anos eram sacrificadas ritualisticamente. Curiosamente a máscara é articulada. Lá ele encontra um velho amigo. Motta narra que em 1903. retrata um deus Vampiro. O externo e interno se completam e se refletem. São as pedras sagradas. e também o nosso Anjo Guardião. Agrippa foi um dos maiores Magos de todos os tempos. nos festejos do ritual se consumia sangue de lhamas sagradas. como o Augoeides que é a estrela da manhã. É bem sabido que o raio de ação do cordão de prata é razoável. ainda estava empenhada em imantar com energia mágica uma estatueta para seus fins nefastos. um elemento presente no Vampirismo. O Vampirismo mescla atavismos com a fase oral destrutiva sem esquecer o narcisismo.166 Marcos Torrigo Considerações Finais 167 Eu enfrentei todas estas variantes em meus encontros astrais. e. locais de vida. Quando venci os confrontos astrais (felizmente a maioria). causar sons. e como se não bastasse. os caminhos do dragão. Lúcifer. O caminho de Santiago já era percorrido antes do advento do Cristianismo. da página 59. ermidas. locais de conhecimento. e o sangue era elemento primordial. podendo ser moldado por elas. tinha seus templos. de entidades que se nutrem dele. nas encruzilhadas. há uma correspondência macrocósmica e uma microcósmica. casa ou pedra de deus. Lá chegando. composição mineral e mais uma gama de fatores.

sentou-se a uma certa distância da senhora. Crowley toma em suas mãos um busto de Balzac*. Cambaleando ela se afastou da presença de Crowley. e que possivelmente seu amigo estivesse meio paranóico. Não perdendo o domínio da situação. fazem parte de uma só curva. um sonho. Ele olha sem acreditar a senhora de meia idade se converter em uma bela moça. Jung * Uma metáfora sobre as balzaquianas? . e absorto contemplava o busto. seu encanto mágico. Ele percebeu que estava em perigo. Crowley se sente levado a uma sensação de devaneio. A vampira deixara o sofá sem ruído algum e estava agora sobre ele. sedução. A ascensão e o declínio. Mais uma carga energética e uma luz esverdeada se desprende do corpo da vampira. uma velha encarquilhada sentindo o peso dos anos. Mas ela já sentia o furor do ataque mágico de Crowley e tombou em seus braços ainda tentando beijá-lo. Ele e a suposta vampira ficaram conversando enquanto o casal foi preparar um chá. escritor do qual gostava. agradável. Desta forma ele quebrava a cadeia glamurosa dela. havia algo aveludado tocando-lhe as mãos e indo em direção do pulso. o certo é que a laceração produzida em seu corpo astral a impediu de voltar ao Vampirismo tornando-se uma velhinha excêntrica. Crowley a encara e conversa como se nada ocorresse.168 Marcos Torrigo vampira uma mulher comum de meia idade. perfumes adocicados enchem o ar. levanta e coloca o busto no seu lugar. acariciando o pulso de Crowley vagarosamente. ou melhor. Cabelos soltos. Ela volta à carga com mais força ainda. Não querer viver é sinônimo de não querer morrer. em especial em seu coração. só que atacando-a energeticamente. Carl G. ela voltando a ser a senhora de meia idade. Possivelmente ela não era a vampira principal. uma influência hostil de grande poder. Tanto uma como outra significam não querer viver. Posfácio A recusa em aceitar a totalidade da vida equivale a não aceitar o seu término. Ele sentiu uma compulsão erótica.

porque sabe muito bem o que terá em troca: a sua redenção. adeus. dessa forma. secreto. avaliando-o como um arquétipo ou mesmo um deus. por um momento sequer. apesar da sua aparência de trophonius. enigmático. Tentamos neste livro enfocar alguns tópicos antes não abordados para que. Esquecemos inteiramente o silêncio quando. tudo quanto o assalta deve ser por ele próprio ultrapassado. dará uma dimensão iniciática ao Vampiro.. abrangendo um vasto período histórico. de animal subterrâneo. progredir lentamente. De qualquer forma. Marcos Torrigo Atua neste livro um ser “subterrâneo”. acaso. ou seja. a sua aurora?. o que de certa forma é esperado. isolados.. prudentemente. o que busquei lá embaixo. visto que é uma pesquisa multicultural. que pretendo incitar-lhes a semelhantes audácias! Nem sequer à mesma solidão! Pois o que caminha na sua própria trilha não encontra ninguém: isso é essencial à natureza da “sua própria trilha”. Deixo o amigo leitor na companhia de Friedrich Nietzsche. Sinceramente. Ninguém vem auxiliá-lo no seu empreendimento: perigos. creio que o objetivo do livro será alcançado.170 Marcos Torrigo Posfácio 171 O tema Vampirismo é abrangente e nebuloso. Não pensem. podemos até dizer que satisfeito por realizar este trabalho soturno. ele mesmo lhe dirá. uma vez que de novo “se torne homem”. Sinceramente. maldades e tempestades. É que seu caminho reside nele mesmo. dos que aprofundam. estivemos tanto tempo subterrados. como ele. pois que voltei e estou aqui. sem denunciar em demasia a angústia que acompanha a privação de luz e ar. pacientes amigos. Vou efetivamente dizer-lhes. o seu elemento incompreensível. que corroem. vou lhes dizer que poderia muito bem ter sido um último .. naturalmente. que minam. uma oração fúnebre.. Não parece guiado por uma espécie de fé e compensado por qualquer consolação? Deseja talvez conhecer as trevas profundas. Voltará sem dúvida à superfície: não lhe pergunte o que procura lá embaixo. facetas profundas do mito pudessem vir à tona. se tivermos olhos que enxerguem tal profundidade. desculpo-me perante o leitor pelas possíveis falhas que o livro porta. Nós o vemos. com inflexível suavidade.

Apêndice Um Chupa-Cabras .

20 e 1. animais domésticos vêm sendo mutilados. os ataques cresceram vertiginosamente. e os corpos das galinhas também. O fenômeno se espalhou rapidamente. O animal tem especial predileção por fêmeas grávidas.60 m. O mais desconcertante é que a vítima era completamente esvaída de sangue. estava a poucos metros do curral das vacas. e por vezes se referem à aparência de um gárgula. Nos anos 1950. A extração de glândulas endócrinas também é relatada em alguns ataques. e depois seria coletado pelas naves espaciais. Pode parecer história de ficção científica. Fato incomum. São Paulo. pelo visto algo indefinível. Listamos alguns ataques de chupa-cabras e outros relatos atribuídos a alienígenas: Em Sorocaba. O chupa-cabras com esta designação é um evento mais recente. não fossem pequenas perfurações no corpo. O local onde a vaca estava não tinha uma gota de sangue. A tela do galinheiro estava intacta. cor cinza escuro. O chupa-cabras é provido de grande força. Os municípios de Orocovis e Morovis. Relatos de fatos como os do chupa-cabras ocorreram em outras épocas. Em 1974. Das inúmeras teorias. contudo. o mundo foi varrido por uma onda de ataques a animais domésticos. um ser foi avistado. . só que cirurgicamente. ereto. Tinha caninos compridos como os Vampiros cinematográficos. Aparentemente uma pesquisa científica estava em andamento. e em alguns casos também tiveram o sangue drenado. um comerciante. Há quem diga que os chupa-cabras são intraterrenos. altura entre 1. escamas e pequenos pêlos. Nos ataques mais recentes. O chupa-cabras faria o trabalho de campo. No Brasil. A propriedade era protegida por quatro pastores alemães e o caseiro. olhos vermelhos grandes. só que a quantidade de casos e narrativas é estarrecedora. cabras e ovelhas eram as vítimas. o restante da descrição é muito similar. Laércio Longo. Pessoas comentam que ele tem um cheiro muito forte de enxofre ou ácido sulfúrico. incluindo alguns casos que vão além dos moldes usuais dos ataques do chupa-cabras. e as teorias sobre o que é o ser e de onde ele vem têm propiciado debates acalorados. um animal descrito como lembrando um canguru. Houve registro de ataques a seres humanos no México. com patas terminando em três dedos com garras. que havia sido retirado cirurgicamente. jornais americanos já falavam das mutilações animais. a que me parece mais lógica é a que diz se tratar de um animal alienígena. informou a morte de trinta galinhas. atacando os animais. O corpo do animal foi achado a 20 metros do curral onde se encontravam as outras vacas. Em Araçoiaba da Serra. datando de 1995. ou com o emprego de técnicas avançadas. e por causa de algum desequilíbrio ecológico teriam começado a atacar animais de criação. em Porto Rico. criado ou modificado em laboratório por seres extraterrestres com objetivo de coleta de dados. Uma porta metálica de 5 metros de altura por 4 de largura foi arrancada no México por um chupa-cabras. notadamente a latina. São Paulo. placas nas costas como a de uma iguana. atacava os rebanhos e bebia o sangue dos animais. uma vaca da raça jérsei foi encontrada sem o úbere. Lázaro Jorge.174 Marcos Torrigo Chupa-Cabras 175 Recentemente. e uma onda de ataques se seguiu por toda a América. e os fetos desapareceram das fêmeas atacadas. relataram os primeiros ataques conhecidos: galinhas. O ser autor dos ataques foi denominado chupa-cabras devido ao extermínio de caprinos levados a cabo por ele. O fenômeno foi inúmeras vezes relacionado com aparição de óvnis. no Arizona. de acordo com o veterinário que atendeu o caso. uma das pessoas sobreviveu com escoriações feitas pelas garras do chupa-cabras. Há alguns anos. pois uma operação como esta produz abundante sangramento. Outras pessoas mencionaram asas.

vísceras e olhos. O cadáver também estava sem olhos. mas sem os testículos. Ele se dirigia a nado até uma ilha deserta no centro da represa. O mais mórbido é que. o pênis rijo e enegrecido. tudo isso foi feito com a vítima ainda viva. sem o reto. O fenômeno foi estudado pelos ufólogos Eduardo e Osvaldo Mondini. Apêndice Dois Drácula . Um caso tétrico aconteceu na represa de Guarapiranga. nadando. Seu corpo foi mutilado. interior de São Paulo. provavelmente devido à velocidade da ação do mutilador.176 Marcos Torrigo Há relatos de ataques a galinhas. O aposentado estava de cueca. o ânus perfurado. vários órgãos haviam sido retirados por pequenos furos que deixaram os legistas pasmos sobre como aquilo poderia ter sido feito. especialmente às margens de uma represa no meio do mato. cabras e bois na região de Campinas. para os médicos do IML. Os ufólogos também se engajaram na busca do chupa-cabras nas matas da cidade de Rafard. onde casos de ataques têm surgido. Um aposentado de 53 anos tinha o costume de pescar ali. bem como todos os outros membros. O padrão é o mesmo: suga o sangue dos animais e arranca coração. orelhas e língua.

devido a esse encarceramento. mas não era monástica como esta. a morte e uma lenta agonia. há inúmeros seres vampíricos. entre outros. porém outras (muitas) são verdadeiras como. As legiões romanas incorporavam-no às suas coortes. desde pequeno. Não somente os turcos foram suas vítimas. Aos 11 anos. que tinha por objetivo deter a expansão do império otomano. A noite era povoada por encontros macabros e de terror. Sua vida foi uma sucessão de guerras e intrigas para se manter no poder. Por sua vez. ocasionando. Podemos devanear. Vlad Drácula ou Vlad Tepes (1431-1476). Essa Ordem lembrava os Templários e os Cavaleiros Teutônicos. Seu pai. como a fundada pelo herege boêmio Jan Hus. O que não é de estranhar. Sua morte tem contornos de lendas e as hipóteses acerca dela são inúmeras: uma armação política para lhe dar fim. Além do combate aos turcos. Muito possivelmente. passou para a história como um guerreiro cruel e sádico. Voltando a falar da Ordem do Dragão. Como é de se imaginar. teria sido confundido com um turco. o Upier. por exemplo: mães empaladas com os próprios filhos na mesma estaca. Constata-se assim que o dragão e a terras de Drácula tinham uma relação antiguíssima. na Polônia e o Obur. foi nutrido com ódio aos turcos. herói nacional da Romênia. Foi fundada por Sigismundo em 1387 que tinha como mulher Bárbara von Cilli. imaginando que de fato Vlad Dracul antecedeu a vinda de Drácula. na Albânia. O dragão era usado pelos dácio como símbolo de poder. ao abrir a sepultura de Drácula. Sua perversidade era criativa. As lendas e . não ficando nada a dever a Nero ou a Calígula. como o Vorkolak. Drácula esteve prisioneiro dos turcos e permaneceu assim por seis anos. e não só lá como também nos países do leste europeu. Isso só serviu para aumentar ainda mais as especulações acerca desse enigmático personagem histórico. o símbolo da Ordem era um dragão. onde deveria estar o seu corpo apenas havia ossos de animais. lembrando-nos do Apocalipse de São João. nos dias de hoje. Vlad Tepes ergueu florestas de corpos transfixados. também chamada “Drachenorden” ou “Societas Draconistrarum”. Drácula. Tanto é que os estandartes se chamavam dracones e eram conduzidos pelos draconários. Saxões e turcos deixaram registradas em narrativas as atrocidades de Drácula e muitas delas eram repletas de exageros. considerada devassa e alquimista. na Bulgária. até ser assassinado em 1476. Arrancar o couro de alguém ainda vivo. pertenceu a Ordem do Dragão. como parte do território da Romênia. A terra natal de Drácula encontra-se.178 Marcos Torrigo Drácula 179 Um personagem profundamente ligado ao mito do vampiro é o Drácula. a Ordem tinha como prerrogativa combater a heresia. foi decapitado e sua cabeça enviada para Istambul. O termo Dracul tem uma analogia em romeno com Demônio. empalados. defendeu seu povo contra as investidas dos turcos. em que o Dragão vermelho antecede a vinda da Besta. desta forma. mas também seu próprio povo. o ódio dele pelos turcos tinha aumentado. O que é certo é que ele era brutal e sem escrúpulos. No folclore romeno. Vlad Dracul. Alfonso de Aragão e Nápoles. Muitos séculos depois. que deu origem aos Hussitas. Na Ordem do Dragão foram iniciados vários nobres como Ladislau da Polônia. Sua fama em muito transcendeu as fronteiras da Transilvânia. ou ainda teria morrido naturalmente em batalha. Por três vezes foi príncipe da Valáquia. Após sua morte. cozinhá-lo e dar de comer de sua carne aos seus parentes são algumas delas. Jan Hus foi queimado em 1415.

Abundam. o Judeu. somando-se ás invasões eslavas. afinal tudo acontece quase ao mesmo tempo. O oculto. o Judeu.180 Marcos Torrigo Drácula 181 os relatos misturavam-se. que foi Mago na corte de Sigismundo. e de onde provém Dracul (Vlad Dracul – título do pai. fundador da Ordem do Dragão. William Wynn Westcott e Samuel Liddell MacGregor Mathers. A Magia de Abramelin tem como objetivo o conhecimento e a conversação com o Sagrado Anjo Guardião. Porém se ele fez ou não parte da Golden Dawn se torna de menor monta perante o fato de conviver com a sociedade londrina em pleno renascer da magia. Algemon Blackwood e o mundialmente conhecido Aleister Crowley. vampiros faziam parte do imaginário da epoca. usou a Magia de Abramelin para trazer de novo à vida a mulher de Sigismundo. Viagens astrais. Esse romance é um clássico em que a criatura foi maior que o criador. Drácula Filho do Dragão. havia sido compilado por Abrahão. Essa influência foi adquirida quando as legiões do Império Romano invadiram e dominaram as terras da atual Romênia. a mesma Alquimia que se preocupava com o elixir da longa vida. mas o que dizer sobre isso no século XIX quando quase nada se sabia? Abrahão. ora. editado em 1897. Não haviam só os vampiros como também os licantropos. Os romenos foram convertidos ao Cristianismo a partir do século IX. as lendas de alcatéias que. logicamente. povo autóctone da região. em alusão ao título do pai. da Golden Dawn. O fim do século XIX e princípio do século XX foi marcado pelo reavivamento da magia com a fundação da Sociedade Teosófica. Yats. Como evento mitológico. Da miscigenação dos colonos romanos e dos dácios. uma bruxa vampira. temos a crucificação de Jesus. Magia e Mistério logo cedo fizeram parte do seu cotidiano. Os primeiros anos da vida de Stoker foram bastante difíceis. ainda no folclore. e o de Abramelin. dentre outras. Drácula tornou-se um personagem literário mundialmente conhecido através da obra de Bram Stoker. sua morte e posterior ressurreição. assim. O Strigoi é um deles e o termo tem origem na Strix romana. lendas irlandesas sobre o reino das fadas. demônios e. temos a constituição do povo romeno. Dela fizeram parte personagens como William B. o Mago. É fácil nos dias de hoje traçar as correlações que unem os dois eventos. Os dácios tinham uma serpente com cabeça de lobo como animal totêmico. sendo que a Valáquia e a Moldávia só foram cristianizadas no século XIV. percorrem as imensidões geladas em busca das suas presas. nas noites de inverno. Reza a lenda que ele foi membro da Ordem Mágica Golden Dawn. um processo no qual o Iniciado deve morrer para renascer. Vlad Dragão). Drácula. Um fato deveras intere que une Drácula à Golden Dawn é o Livro da Magia Sagrada de Abramelin. Arthur Machen. É curioso que uma criança que teve uma infância tão terrível se convertesse em um homem bem robusto. impossibilitado de sair de seu quarto. a mesma em que o pai de Drácula foi sagrado cavaleiro. Obras . Este grimório que foi redescoberto por MacGregor e na Biblioteca do Arsenal. que atributo mais vampírico que retornar a viver? Sem falar na Alquimia que foi praticada na corte de Sigismundo. e maior até mesmo que a personalidade histórica que lhe serviu de inspiração. Ele ficou gravemente enfermo por oito anos. uma hábil contadora de histórias. em 1900. fundada por William Robert Woodman. Sax Rohmer. Eles foram os ancestrais dos romenos atuais. o que evidencia que ele foi influenciado pelo clima reinante. tornando-se um ícone na literatura mundial. em Paris. duplo etérico. o misterioso e o extraordinário estavam na ordem do dia. Coincidências curiosas. O gosto pelo fantástico foi herdado da mãe.

que. o bem e o mal. a história de uma vampira.182 Marcos Torrigo Drácula 183 como Carmilla. Fato este que possibilitou o seu acesso na sociedade londrina. Além de Emily Gerard. Para saber mais a respeito dos pensamentos e trabalhos do autor Marcos Torrigo. onde a luta entre a luz e as trevas. O fator mais importante na carreira de Bram Stoker foi o fato de ele ter trabalhado com Henry Irvin. Jekyll and Hyde (O Médico e o Monstro). justamente a mãe de Perséfone. Para termos uma idéia. acompanhou o marido. de Emily Gerard. escreva para MarcosTorrigo-subscribe@yahoogrupos. que também foi inspiração para o personagem Abrahm Van Helsing. dois se destacam na composição de Drácula: o Vampirismo e o Príncipe Vlad Dracula. Drácula reflete tanto a sociedade londrina quanto o seu próprio criador. ao ser averiguada. surgiram neste período. buscando inspiração em fatos reais para o enredo de Drácula. mas com verdade e fantasia. a passagem da chegada de Drácula a Londres a bordo do navio Demeter (Demeter. Ler Drácula de Bram Stoker. o orientalista Arminius Vambery. embora muitas vezes imprecisa. o reino dos mortos) aportando em Whitb. Stoker. The Lair of the White Worm e The Jewel of Seven Stars. conduzindo o leitor a distante Transilvânia que o próprio Stoker conheceu através do livro The Land Beyond the Forest (A Terra Além da Floresta). há um outro elemento que pode ter sido fundamental para a criação do personagem Drácula: o próprio Henry Irving.br . foi baseada em um evento real. Dublin. à Transilvânia onde este foi empossado como Brigadeiro Comandante. pode ter sido o protótipo para o conde. não havia ninguém a bordo. por sua vez. Mas de todos os personagens e fatos inspirados na vida real. da Valáquia. uma cidadã britânica. dentre outras. Esta estada na Transilvânia proporcionou o convívio de Emily com a tradição vampírica. São também obras de sua autoria: The Mystery of the Sea. Fruto da cultura da era vitoriana. dotado de uma personalidade carismática e dominadora. Emily. dentre elas. Na escuna russa chamada Dimitri que chegou a Londres. de autoria de Sheridan le Fanu – 1887. padeceu da maldição de não produzir nada que se compare a esse trabalho. Sua descrição das crenças e costumes locais é bastante rica. por mais que tenha tentado. é adentrar em um universo de sombras. Stoker não somente ilustra seu livro com luz e sombra.com. esposa de Hades – deus do submundo grego. bem e mal. um oficial do exército austríaco. também irlandês e da mesma cidade de Stoker. Bram Stoker valeu-se de várias fontes para construir o seu personagem e ambienta-lo. tem lugar. Bram Stoker. de Robert Louis Stevenson – 1886.

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