ler

L i v r o s & L e i t o r e s

OS SEGREDOS DA MAÇONARIA | JUNOT DÍAZ | JOÃO TORDO | PAULO VARELA GOMES | LUÍS CARDOSO

A ALEGRIA DE NABOKOV
por Rogério Casanova

FERNANDO PESSOA E O IBERISMO
Diogo Ramada Curto, Pilar del Río, Fernando Venâncio, João Carlos Barradas, Francisco Belard

EXCLUSIVO O QUE ESTÁ A MUDAR EM CUBA
por Leonardo Padura

ISTAMBUL AS FOTOGRAFIAS DE ARA GÜLER

MICHEL ONFRAY O ANTI-FREUD

HELDER MACEDO

O gentleman marginal que acha Camões o malandro maior da literatura portuguesa

MARÇO 2013|N.º 122

REVISTA FUNDADA EM 1987. EDIÇÃO N.º 122. SEGUNDA SÉRIE.

Se não agarro a única coisa que tenho,que é a língua portuguesa,que é aquela onde me sinto bem, aí o mundo colapsa. Foi em Portugal que desconstruí a minha falsa identidade de infância (mágica,mítica,uma fábula) para uma realidade que se afirmava em termos de marginalização neste contexto português.É precisamente porque coincide com marginalização que Portugal é tão importante para mim.Eu não me posso integrar em parte nenhuma. Não sou inglês,tive uma magnífica carreira universitária inglesa,dirigi instituições britânicas,não podia ter tido mais sucesso em termos universitários,mas sempre fui um outsider.Como também sou em Portugal.Eu não caibo em Portugal,não por uma questão de tamanho mas porque as pessoas não me reconhecem como tal.
HELDER MACEDO

P. 24: HELDER MACEDO O GENTLEMAN MARGINAL Nascido na África do Sul em 1935, criança em Moçambique,
jovem rebelde em Lisboa,insuspeitada e sólida carreira na seriíssima academia britânica onde ensinou durante 33 anos,o King’s College onde criou a cátedra de Estudos Portugueses.Reformado,agora,livre para a leitura,a música,as conversas,os amigos,a escrita. Tão Longo Amor tão Curta a Vida, acabado de publicar pela Presença, é o oitavo romance deste ficcionista tardio – o primeiro, Partes de África, publicou-o quando tinha 56 anos.

P. 35: FERNANDO PESSOA O IBERISMO FUTURO Jerónimo Pizarro e Pablo Javier Pérez López reúnem e fixam,num único volume,os textos que Pessoa dedicou ao iberismo,incluindo inéditos. Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro (Babel) é o ponto de partida,nestas páginas,para reflexões de Diogo Ramada Curto,Fernando Venâncio,Francisco Belard, João Carlos Barradas e Pilar del Río. P. 43: LEONARDO PADURA MUDANÇAS NA ISLA CAIMÁN «Embora possa parecer que em Cuba pouco mudou», escreve o mais conhecido autor cubano da atualidade,«a realidade é que muitas coisas se movem na ilha.A emergência do cuentapropismo ou trabalho por conta própria está a desenhar um novo rosto às cidades e a vida quotidiana move-se ao ritmo das reformas que colocam mais perguntas que respostas. Os debates constantes que se fazem na “intranet”cubana sobre temas como a corrupção,o racismo,a necessidade de democratização,a homofobia, a criação cultural e as suas liberdades ou o direito a migrar poderiam ser exemplos da efervescência que se respira.» P. 52: ARA GULLER O ÍSTANBULLU QUE FOTOGRAFOU O MUNDO O novo livro dedicado à obra de um dos
maiores fotojornalistas,com prefácio do Nobel Orhan Pamuk,acaba de ser publicado.No café que era a farmácia do seu pai,em Istambul,o arménio «orgulhosamente turco» passa em revista mais de meio século de carreira.

P. 56: VLADIMIR NABOKOV CARTAS MARCADAS A ideia de organização narrativa como preenchimento de uma fórmula tem um vínculo formal com a paródia,e Rei, Dama,Valete (pela primeira vez em tradução portuguesa) pode ler-se também como uma revisitação de Madame Bovary, uma intenção sinalizada no texto por várias referências semicrípticas que, como o autor-professor nos diz,«os bons leitores não deixarão de detetar».

Em ler.blogs.sapo.pt informação sobre edição, livros, autores e ligação ao Twitter e Facebook.
Todos os textos são publicados segundo o Acordo Ortográfico em vigor. Excetuam-se os de alguns cronistas e eventuais extratos de obras citadas.

©Pedro Loureiro

A ABRIR

O

finlandês Mika Waltari (1908-1979) é ca que demonstra que os livros podem ser tão eficazes como ouo autor de O Egípcio, um romance his- tras formas de terapia – com a vantagem de não produzirem efeitórico situado no Antigo Egito (escrito tos secundários.» A lista,que deve ser disponibilizada nas biblioem 1945, foi publicado em Portugal no tecas públicas,inclui títulos de «autoajuda» mas passa pelos diários final da década de 60 pela Bertrand; nele de Bridget Jones, de Helen Fielding, ou por títulos de Bill Bryse conta a vida de Sinouhe, médico e son (Crónicas de Uma Pequena Ilha),Nancy Mitford (Amor Num espião do faraó Akhenaton. O seu pai, Clima Frio) e Harper Lee (Mataram a Cotovia). O tema garante, pelo menos, discussão «médico dos pobres»,acreditava que as pa– tanto quando a designação «os livros», lavras tinham virtudes terapêuticas e, em A partir de maio, que pode abranger quase tudo, inclusive certas doenças, só elas poderiam obter reos médicos ingleses coisas que,felizmente,nunca leremos.Mas sultados; numa ocasião, escreveu algumas essa discussão é gratificante e, no fim de frases num papiro que depois misturou podem passar uma contas, «saudável». Que efeitos pode ter a com vinho num almofariz e deu a ingerir receita sui generis leitura de Anna Karenina ou de O Vermelho a uma paciente – que se curou. Ao longo aos seus pacientes: e o Negro? Em que pode a leitura de Álvaro da história da leitura, o episódio pode ser uma ida à biblioteca de Campos ou de Rimbaud ajudar-nos a evocado sem dificuldade; o «poder curativo da sua área para ler ultrapassar estados depressivos? Quais as da literatura» não deve ser exagerado nem menosprezado. Se não aponta – longe dis- uma seleção de 30 livros consequências da leitura de Borges, Cormac McCarthy, Carver ou J.D. Salinger? so – o caminho para a felicidade, insinua que podem ajudar Existe um padrão para enquadrar esses a sua provável existência. a tratar «problemas efeitos e consequências – e quem assume Há 25 anos, tratando de um livro inteide relacionamento», a responsabilidade por eventuais «distúrramente diferente, Um Mês no Campo, de bios» causados pela leitura? J. L.Carr (Gradiva) – e adaptado ao cinema «distúrbios do sono», Na melhor das hipóteses regressaremos por Pat O’Connor,com Colin Firth e Ken- «certos tipos de fobia a uma das frases que encerra Rizhome, de neth Brannagh,sob o título Longe da Guer- social», «compulsão Gilles Deleuze e Félix Guattari: num livro ra –, propus que certos livros deviam ser alimentar» ou há nada a compreender e muito para nos vendidos nas farmácias,como se alguns pu«bulimia nervosa» servir. Para que tudo isto tenha sentido, dessem ser indicados para insónia e outros é também necessário alargar o conceito de (por exemplo) para a falta de apetite ou cer«medicina preventiva», ou seja, proteger o tos estados depressivos, havendo autores livro e a leitura até onde for possível e mesou obras que necessitariam de prescrição mo para lá dessa fronteira.A ideia de «cura pela bibliografia» é tão médica adequada. Em Inglaterra, o Serviço Nacional de Saúde acaba de criar feliz que não se pode perder a oportunidade de levar os leitores o programa «Books on Prescription»,em colaboração com o Arts a identificarem os livros que, em circunstâncias determinadas, podiam ter sido comprados numa farmácia – com prescrição Council, a Reading Agency e a associação britânica de bibliotecários. A partir de maio,os médicos podem passar uma receita sui médica ou ao seu arrepio, experimentando uma droga tolerada. generis aos seus pacientes na área da saúde mental: uma ida à biblioteca da sua área para ler uma seleção de 30 livros que podem Finalmente, uma palavra de gratidão ajudar a tratar «problemas de relacionamento», «distúrbios do (o que é muito diferente de um «agradecimento» formal) para sono», «certos tipos de fobia social», «stresse», «compulsão aliJoão Pombeiro, que ao longo destes quase dois últimos anos mentar» ou «bulimia nervosa», de acordo com uma classificação dirigiu a LER com seriedade, competência e atrevimento. São entretanto estabelecida pela associação de médicos de família três conceitos que se tornaram fundamentais na vida da revista do Reino Unido (que também recomenda a participação em durante os seus 25 anos de vida. E uma marca feliz que não comunidades de leitura).Textualmente: «Existe evidência clínideixará de observar durante os próximos 25.

FRANCISCO JOSÉ VIEGAS
2 março 2013

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«Quando penso na minha mulher, penso sempre na sua cabeça. Para começar, na sua forma. Da primeira vez que a vi, foi a nuca que vi primeiro, e havia qualquer coisa de adorável nos ângulos que formava. Como um grão de milho duro e lustroso ou um fóssil no leito de um rio. Ela tinha aquilo que os vitorianos diriam ser uma cabeça primorosamente modelada. Deixava adivinhar facilmente o crânio. Reconheceria a sua cabeça em qualquer lugar. E o que está dentro dela. Também penso nisso: na sua mente. No seu cérebro, com todas aquelas circunvoluções, e os seus pensamentos a percorrerem-nas como centopeias velozes e frenéticas. Como uma criança, imagino-me a abrir-lhe o crânio, a desenrolar-lhe o cérebro e a vasculhá-lo, tentando agarrar e imobilizar os seus pensamentos. Em que estás tu a pensar, Amy? A pergunta que mais vezes fiz durante o nosso casamento, mesmo que a não tenha feito em voz alta, mesmo que a não tenha feito à pessoa que podia responder.»

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Maio 2010

MANI FESTOS
EXPOSIÇÃO

VERSÕES EM REVISTA A edição digital da LER está disponível em www.bertrand.pt e www.wook.pt. Vire a página connosco.

CIÊNCIA A 360°
Até 2 de junho, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, o período dourado da ciência ibérica pode ser visto sobre vários ângulos.
Carta náutica de Pedro Reinel, 1504.

azer luz sobre uma página mal influenciaram e modelaram as ideias e as conhecida da história da ciência, práticas de portugueses e espanhóis nesna qual portugueses e espanhóis se período destaca-se «o fascínio com surgem,durante o período das grandes na- as novidades do mundo natural americavegações oceânicas, como precursores da no e asiático, a crítica do saber antigo, ciência moderna do século XVII.» É esse as novas práticas empíricas, a disseminao objetivo da exposição «360° Ciência Des- ção de conceitos científicos pelos estratos coberta», que acaba de abrir ao público na menos instruídos ou os melhoramentos sede da Fundação Calouste Gulbenkian, técnicos». Desenvolvida ao longo de seis núcleos em Lisboa. Quem o assume é Henrique Leitão,comissário da exposição,investiga- («O saber pela palavra»; «O espanto da novidade»; «Do Medor do Centro Interuditerrâneo ao mundo niversitário de Histónovo«; «Cada estrela é ria das Ciências e da um número»; «Planear, Tecnologia, responsáa gestão do saber;» e vel pela edição de toda «Do Mundo Novo, a obra de Pedro Nunes uma Ciência Nova») e e,desde janeiro,memquatro zonas temáticas, bro efetivo da Acade«360° Ciência Descomia Internacional de berta» traz pela primeiHistória das Ciências ra vez a Portugal peças (Paris), lugar que não ilustrativas «deste períoera ocupado por nedo dourado da ciência nhum português há ibérica», como mapas, mais de 50 anos (os úlmanuscritos raros, protimos eleitos foram dutos naturais, instruArmando Cortesão, «Árbol de Índias que allá Ilaman quauhochichioalli». mentos e livros. A tudo em 1947,e Joaquim de El códice de Jaume Honorat Pomar (c. 1550-1606). isto deve-se acrescentar uma parede com Carvalho,em 1957). «Nunca descobrimos o tom certo para centenas de nomes gravados (cerca de contar esta história» – escreve Henrique 300), ínfima «parte de uma «pequena Leitão sobre a exposição que pode ser vi- multidão de heróis anónimos». A 16 de março, 13 e 27 de abril e 11 e sitada até 2 de junho, sempre das 10h às 18h – «onde não há génios como Copér- 25 de maio,Henrique Leitão,ele próprio, nico, Galileu ou Kepler, mas onde se as- será o anfitrião de conversas e visitas à sistiu um modo fascinante de acumular exposição (inscrição necessária). Prograe gerir o conhecimento,que se tornou caso mação completa (e para diferentes idades) único na Europa». Entre os fatores que em www.gulbenkian.com

«F

Crocodillus terrestres. Página do «Atlas de historia natural», El códice de Jaume Honorat Pomar (c. 1550-1606).

Planisfério Terrestre de Claudio Ricardo, 1630

Avis coelestis. Página do «Atlas de historia natural», El códice de Jaume Honorat Pomar (c. 1550-1606).

Revista LER

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GAZETA INÚTIL

SEPPUKU
Primeiras referências a assuntos literários (ou não).
s escritores, regularmente criaturas sensíveis e de larga imaginação, tendem a ser muito conservadores quando se suicidam. Entre eficácia e criatividade, optam pela primeira. Reinaldo Arenas morreu de uma sobredose de drogas e álcool, Jean Améry de uma sobredose de barbitúricos e Mário de Sá-Carneiro matou-se com estricnina; John Berryman atirou-se de uma ponte e Hart Crane de um barco; Camilo Castelo Branco deu-se um tiro com um revólver, Ernest Hemingway e Hunter S.Thompson rebentaram as próprias cabeças com tiros de espingarda; Stig Dagerman fechou-se no carro e ligou o motor e Sylvia Plath enfiou a cabeça no forno e ligou o gás. Já Virginia Woolf foi uma inovadora não só na escrita como também no suicídio, ao tentar criar um estilo de natação com pedras dentro do bolso do casaco. Quanto a Primo Levi, o suicídio foi tão bem ou tão mal planeado que ainda hoje se discute se foi mesmo suicídio ou se foi um acidente. No entanto, foi o escritor japonês Yukio Mishima quem escolheu a forma mais original para morrer, seguindo o ritual samurai do seppuku ou haraquíri, que consiste na lenta introdução de uma espécie de punhal na barriga, movendo-o depois longitudinalmente, prática que não aconselhamos a ninguém depois do almoço. Original, bem entendido, em comparação com os suicídios de outros escritores, porque o seppuku remonta ao século XII, tendo posteriormente sido integrado pelos guerreiros samurai no código bushido. Se o fizeram voluntariamente, merecem todos os castigos possíveis, incluindo aquele filme com o Tom Cruise. Bruno

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HÁ PETRÓLEO EM ALCOCHETE!
E há pastéis de nata e caviar, o mesmo é dizer uma bloguista e Saramago. Há Jardim, Alberto João, a falar de «materialismo selvagem». Não há deuses no Olimpo, na TV portuguesa, mas há contratos com sabor a Figo.

Prémio preconceitos de gourmet
«Uma bloguista ao lado de Saramago é como ter pastéis de nata e caviar na mesma secção.» JoãoTordo, escritor. Expresso

Prémio desde que não o espalhes no relvado
«Temos petróleo em Alcochete e vamos aproveitá-lo.» CarlosSeverino,candidatoapresidentedoSporting. Correio da Manhã

Prémio o espiritualista das ilhas
«Já nada me espanta na classe política portuguesa, principalmente a partir do momento que uma substituição geracional trocou valores pelo materialismo selvagem.» Alberto João Jardim, presidente do Governo Regional da Madeira. Nova Gente

Prémio espertinho que eu sou
«Queria celebrar um contrato por três anos no valor de 250 mil euros anuais,mas eu não precisava dele [Luís Figo] por mais do que um. A minha intenção era rescindir o contrato ao fim do primeiro ano e ficar com os materiais promocionais.» João Carlos Silva, antigo administrador do Taguspark, durante o julgamento do «casoTaguspark». Correio da Manhã

Prémio não consegues
«Vou cantar até que doam os ouvidos às outras pessoas.» Rui Reininho, vocalista dos GNR. Expresso

Prémio gosto dos outros assuntos
«Tenho o dia dividido na minha cabeça há muitos anos, desde que passei a dedicar-me exclusivamente à escrita: livros e crónicas de manhã,outros assuntos à tarde,casa e família a partir do fim da tarde.» Margarida Rebelo Pinto, escritora. Correio da Manhã

Prémio isso querias tu, invejosa
«Os apresentadores não são deuses do Olimpo, são pessoas como as outras.» Sílvia Alberto, apresentadora de televisão. Correio da Manhã

©Pedro Vieira

Vieira Amaral

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março 2013

BREVES

RUY BELO NO CCB
Ruy Belo é o poeta homenageado pelo Centro Cultural de Belém, em parceria com o Plano Nacional de Leitura, no Dia Mundial da Poesia (24 de Março). Uma tarde cheia de iniciativas (das 14h às 19h) dedicadas ao poeta que fez capa da última LER: leituras em voz alta abertas ao público, exposição e projeção documental, «De viva voz», com a participação de vários poetas (Ana Luísa Amaral, Jaime Rocha, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta ou Nuno Júdice),palestra e lançamento do livro O Problema da Habitação, maratona de leitura de poemas ou conversa com António Carlos Cortez,António Guerreiro e Rita Taborda Duarte.Programação completa em www.ccb.pt.

CABEÇUDOS NA ESTRADA
Vale a pena acompanhar a rota itinerante da carrinha da Livraria Cabeçudos por escolas (públicas e privadas), bibliotecas e jardins de todo o País, sempre na companhia de autores. Começou em Lisboa, passou pela Azambuja e promete continuar estrada fora. Acompanhe o mapa em www.cabecudos.com

LIVRINHOS A SAIR
Nem tudo se perde por estes dias.Os «Livrinhos de Teatro» continuam a sair na cadência certa,sempre em cuidada coedição da Artistas Unidos e da Cotovia.A coleção conta com mais quatro volumes (do 67.º ao 70.º): dois do dramatugo Ramón del Valle-Inclán (1866-1936), Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte a par de Divinas Palavras,em traduções de Jorge Silva Melo e Norberto Ávila; de George Tabori (1914-2007),três peças em pouco mais de 200 páginas,com tradução de António Conde e José Maria Vieira Mendes (Mein Kampf, O Branco Judeu e o Pele-Vermelha e Os Canibais); por fim, de Jean-Paul Sartre (1905-1980) um dois-em-um (À Porta Fechada e A P…Respeitadora) traduzido por Virgínia e Jacinto Ramos e Regina Guimarães.
Revista LER

©DR

PUB

PASTORAL PORTUGUESA
BALAS SOBRE O GLOBO
Uma boa oportunidade para recomendar a obra de Neal Stephenson, príncipe dos geeks (e insólito sósia de Afonso Cruz).
ollywood não precisa de grandes filmes neste momento; precisa de bons filmes.» Foi com este confiante e pragmático aforismo que Anthony Lane, nas páginas da New Yorker em 1995,começou uma crítica elogiosa a Balas sobre a Broadway, de Woody Allen (que cumpria à risca o requisito).Regra geral, o aforismo não é o instrumento mais persuasivo no arsenal crítico; a tentativa de aliar sabedoria e compressão resulta muitas vezes em algo difícil de distinguir da arbitrariedade.Clive James dizia que o teste a aplicar a qualquer aforismo é inverter os termos e calcular as perdas imediatas. No caso em questão,dizer que «Hollywood não precisa de bons filmes neste momento; precisa de grandes filmes» seria igualmente prometedor – ou não – como início de conversa. Mas Lane não estava apenas a ensaiar uma frase de pacotinho de açúcar. A sua intenção era refinar um argumento mais amplo,aplicável a qualquer intersecção entre impulso artístico e actividade industrial: «O aspecto mais deprimente [da indústria cinematográfica] não é a falta de obras-primas,mas o facto de os produtos genéricos – as comédias românticas, os thrillers – serem tão pobres e iletrados.»

«H

Esta comovida reclamação – um apelo ao entretenimento competente – pode ser enfaticamente ratificada por qualquer adepto dessa venerável instituição literária que é o «thriller de aeroporto». Enquanto o livro policial tem mantido um rácio de mediocridade/competência mais ou menos consistente desde os anos 30,o thriller parece ter seguido o penoso rumo do livro de terror (cuja linha de montagem, depois da bonança da década de 70, entrou em declínio acelerado). O eixo Robert Ludlum-Tom Clancy-Dan Brown é um bom indicador: os livros da saga «Bourne» eram melhores do que os livros da

Se o facto mais surpreendente sobre Neal Stephenson enquanto autor é o de ele não ser um bluff, o segundo facto mais surpreendente é que também não é um dos atormentados génios pós-modernos que a América costuma produzir a intervalos regulares. É apenas essa banal raridade: alguém que produz entretenimento eficaz.

saga «Jack Ryan» quase na mesma proporção que os livros da saga «Jack Ryan» são melhores do que O Código Da Vinci. Não é que os adeptos confundam categorias e exijam James Bonds escritos por James Joyces; apenas que a vulgaridade dos componentes seja transcendida através de inteligência, bons instintos e prosa razoável. Como Anthony Lane, não reclamamos grandes livros; apenas bons livros. O que é uma boa oportunidade para recomendar, nos termos mais veementes possíveis, a obra de Neal Stephenson, príncipe dos geeks (e insólito sósia de Afonso Cruz). Depois de dois romances de aprendizagem, a sua carreira descolou com Snow Crash, um espasmo tardio do género cyberpunk que, entre outras proezas, «inventou» o «Second Life». O melhor viria depois, com Cryptonomicon, e as suas linhas temporais paralelas – uma na Segunda Guerra Mundial, outra nos anos 90 – que misturavam teoria da comunicação e teorias da conspiração, as origens da internet e batalhas navais, trivia japonesa e tesouros perdidos, e incluía ainda participações especiais de Alan Turing, Ronald Reagan e um lagarto gigante.A fórmula foi ampliada em e Baroque Cycle, uma megalómana trilogia de quase três mil páginas sobre a alvorada da ciência moderna (Newton, Hooke e Wren são alguns dos figurantes). Parece improvável que estas heterogéneas colecções de ingredientes resultem em algo que não uma obra-prima ou uma catástrofe (ou uma terceira alternativa: essa outra

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©Bob Lee

março 2013

Publicado em 2011, Reamde foi promovido como Stephenson-light, uma espécie de férias entre empreitadas mais ambiciosas, mas na verdade este humildemente espalhafatoso thriller de 1100 páginas é uma apoteose das suas melhores qualidades. Se alguém anda à procura do equivalente literário ao Assalto ao Arranha-Céus, não procure mais e faça bom proveito.

ROGÉRIO CASANOVA

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

venerável instituição literária que é o fracasso ambicioso). Mas se o facto mais surpreendente sobre Neal Stephenson enquanto autor é o de ele não ser um bluff,o segundo facto mais surpreendente é que também não é um dos atormentados génios pós-modernos que a América costuma produzir a intervalos regulares. É apenas essa banal raridade: alguém que produz entretenimento eficaz. O seu último livro, Reamde, publicado em 2011, foi promovido como Stephenson-light,uma espécie de férias entre empreitadas mais ambiciosas, mas na verdade este humildemente espalhafatoso thriller de 1100 páginas é uma apoteose das suas melhores qualidades. Começa com uma patusca reunião de família no Iowa, onde várias gerações da família Forthrast (fervososos praticantes da Segunda Emenda) têm por hábito celebrar o dia de Acção de Graças disparando várias armas na direcção de vários alvos. Um dos membros do clã, Richard, é um multimilionário que acumulou a sua fortuna desenvolvendo um jogo de computador online (vagamente baseado no World of Warcraft) que se tornou o divertimento mais popular à escala planetária, mas que enfrenta uma grave ameaça depois de um vírus permear o jogo – um vírus que encripta todos os dados nos discos rígidos das vítimas até que um «resgate» seja pago. As primeiras 200 páginas são como uma condensação platónica das competências próprias do género: as implicações de uma tecnologia específica – neste caso, as implica-

ções reais de uma crise económica virtual – são exploradas com leveza e inteligência,sem que o leitor sinta que está a ser submetido a um autoclismo de «pesquisa». Embora não seja avesso à ocasional sessão de diálogo expositivo, Stephenson tem um dom para incorporar informação na intriga com traiçoeira fluência. O leitor nem sequer repara que está a aprender coisas, porque cada solavanco narrativo faz parte de uma longa gincana de resolução de problemas: os personagens não andam a explicar uns aos outros como arrombar um cadeado, ou fazer uma ligação directa num automóvel,ou sabotar uma semiautomática húngara; limitam-se a fazê-lo quando as necessidades assim o exigem. E tudo isto antes de metade do elenco (a órfã eritreia,o hacker húngaro, o ex-membro da Spetznatz, etc.) viajar até Xiamen, uma cidade costeira chinesa, à procura do responsável pelo vírus; é aí que a sublime bobagem começa em força, cortesia de um gângster russo semienlouquecido por causa de pressão arterial elevada.Pessoas são raptadas, barcos e aviões são roubados, uma célula da Al-Qaeda é adicionada à mistura,um tiroteio prolonga-se por 80 páginas de perspectiva caleidoscópica, e, depois de breves passagens por uma ilha deserta, um bar em Manila e a costa leste do Canadá, tudo culmina num esplêndido regabofe de pólvora e granadas no paralelo 49. Se alguém anda à procura do equivalente literário ao Assalto ao Arranha-Céus, não procure mais e faça bom proveito.

CONSULTÓRIO LITERÁRIO

GRANDES CONTOS
«No seu “consultório” de Dezembro […] gabou-se de credenciais ímpares para organizar uma antologia de contos de terror. […] Agora [pergunto] qual seria o resultado se a tarefa fosse coordenar uma antologia apenas de grandes contos, os melhores, sem […] qualquer outra restrição?» Joana Ramos

Cara Joana,
O «resultado» seria, como é natural, uma antologia tão superlativa como a primeira. Parece-me preguiçosamente fácil regurgitar aqui uma lista devastadora de alguns dos melhores exemplos da forma, portanto é exactamente isso que vou fazer. Em homenagem à Academia, façamos a coisa por categorias. Melhor Conto: «Signs and Symbols», de Nabokov. Melhor Conto Não Escrito por Nabokov: «The Private Life», de Henry James. Melhor Conto Escrito por Um Sul-Americano: «O Congresso», de Jorge Luis Borges. Melhor Conto Escrito por Um Sul-Americano Que Não Borges: «Instruções para John Howell», de Julio Cortázar. Melhor Conto Escrito sem o Baralho Todo: «O Nariz», de Gógol. Melhor Conto Escrito por Um Autor Circuncisado: «The Silver Dish», de Saul Bellow. Melhor Conto Escrito por Um Autor Que nem sequer É devidamente Masculino: «Usurpation», de Cynthia Ozick. Melhor Conto sobre Índios: «The Indian Uprising», de Donald Barthelme. Melhor Conto sobre Uma Máquina de Engomar Possuída pelo Demónio: «The Mangler», de Stephen King. Daria, pelo menos, um bom índice. (Um prémio honorário, já agora, vai para o meu conto preferido em língua portuguesa: chama-se «Problema por Resolver» e foi escrito por Alexandre Andrade.)
Envie as suas dúvidas, ansiedades e problemas literários para consultorioliterario@gmail.com. Não envie os seus poemas.

Revista LER

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VISITAS AO SOFÁ
ALEXANDRE HONRADO

«ISSO PARECE UM ANÚNCIO DO OLX»
O jornalista e escritor reage assim a uma frase de Sartre. Mas há outras citações nesta autoentrevista: Kierkegaard, Freud, Nietzsche, Pessoa – e por aí fora. Coisa séria, portanto, com passagem por Massamá.
É a primeira vez que estamos assim, olhos nos olhos. És esquivo no que respeita a entrevistas?

«Jotas».
Qual foi ou é para ti o melhor político português?

de sexualidade, e sem sexualidade, nada de História.»

Sou esquivo e arisco. No mundo em que vivemos, quem não tem jogo de cintura arrisca-se a usar suspensórios.E como sou jornalista, os órgãos de comunicação evitam-me e preferem colaboradores externos, da classe política.
Das grandes questões do mundo, qual a que mais te preocupa?

O aio Egas Moniz.
O que te ocorre perante as seguintes nomes: Marx?

Sou licenciado e pós-graduado em História. Acho que isso esclarece.
Sartre disse: «O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.» O que pensas desta frase?

Um Dia nas Corridas.
Em Bolas de Berlim com Crime (reed. Bertrand), Alexandre Honrado (n. 1960) apresenta o Inspetor Bolhas, um herói que tem «medo da avó Pantufinhas» e é «viciado em gomas».

Passos Coelho?

Massamá.
Cavaco Silva?

Se um sem-abrigo aguenta... Isso parece um anúncio do OLX.
Ainda na senda das grandes figuras, Freud disse: «A nossa civilização é em grande parte responsável pelas nossas desgraças. Seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retornássemos às condições primitivas.» O que dizes disto?

Boli...queima.
Troika?

A eutanásia do humanismo.Numa escala de importância,o ser humano ocidental começa a valer menos do que um casaco original de Elvis Presley,ou uma gravação original de Maria Amélia Canossa,nas Antas.
Quem era Elvis Presley?

Fairy Platinum.
Vítor Gaspar?

Maria Amélia Canossa,nas Antas.
O que andas a ler neste momento?

Uma carta da Autoridade Tributária e Aduaneira. Um policial. Não percebi ainda quem é o criminoso.
Gostava que comentasses a frase de Kierkegaard: «Sem pecado, nada

Vítor Gaspar.
Bom. E esta de Nietzsche: «A crença forte só prova a sua força, não a verdade daquilo em que se crê.»

Um plágio de Amélia Canossa.
Elvis está vivo?

Graças aos plasmas da Octopharma... Mas pergunta ao Michael Jackson («I’m Starting with the Man in the Mirror»).
O que te ocorre perante as seguintes palavras: Cultura?

Não creio...
O Tempo é o mais sábio dos conselheiros?

Tenho lá tempo para isso!
Próximo livro?

Os Venturosos (Bertrand).
Citação preferida?

Ministério.
Pedofilia?

Aquela do Pessoa... A do... Aquela! Lembras-te?
«Para viajar basta existir»?
©Pedro Loureiro

Conclave.
Política?

Sendo assim, vou-me embora.

Vasco Graça Moura Meioséculodevidadedicadaàliteratura(poesia,ficção,ensaio), àtraduçãoeàpaixãopeloslivros epelaculturaportuguesa. Gérard Depardieu Compreende-sequetenhasaído deFrança.Maséabsurdofilmar naChechéniacomosefosseum paraísodaliberdade.

SOBE & DESCE

Jane Austen Passamesteanoos200anos de OrgulhoePreconceito. EmInglaterra,ascomemorações sãoumsinaldegratidão. Porto Aindanãosesabesehaverá feiradolivronoPorto,oquenão dignificanemacidadenem oseditores.

MP OMinistérioPúblicoarquivouoprocesso contraaeditoraTinta-da-China,quepublicou Diamantes deSangue,deRafaelMarques. ACADEMIA Saiuo VocabulárioAtualizado da AcademiadasCiências.Tem70 milentradas,oqueéumafarturadignadeseler.

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março 2013

LÍNGUA MOVEDIÇA

COM JEITINHO
á muitos,muitos séculos,no recanto noroeste da Península, surgiu a palavra jeito.Era uma invenção local, sacada do termo latino jactu, «lançamento». É provável que um primeiro valor de «gesto» tenha facilitado o mais genérico conceito de «aparência»,e depois o de «maneira», «modo».Acabou a significar também «habilidade». O castelhano nunca se meteu por aí, ignorando até por completo a forma latina. Limitou-se a acolher jeito, assim prontinho, e só para designar uma rede de pesca, lançada de certa forma hábil.Pesca galega,entenda-se,pois Castela, um modesto reino interior,demorou a ter mar que se visse. Foi de puro sucesso a história de jeito. Mostra-o aquela riqueza semântica, produto de séculos de utilização àgrafa. Os primeiros textos do idioma falam de certo homem de jeito físico portentoso, e de outro que estudava «o jeito e a hora» de matar um parceiro. O sucesso é patente, também, na série de formas que o vocábulo originou. A primeira delas, criada já em plena vigência portuguesa do idioma, foi jeitoso. Servia para designar cavalgaduras «adequadas», pessoas «saudáveis», indivíduos «de boas falas»,«convenientes» posições do corpo. Depois, veio jeitinho.Certo fidalgo de Gil Vicente, em texto de 1527, previne outro contra certos «olhinhos» que, com «uns jeitinhos lindos», desencaminham os homens. Podemos supor que a palavra era já de uso antigo,mas que precisou de um valente dramaturgo que a trouxesse à escrita. O mesmo decoroso atraso deverá explicar que só o século XX tenha visto jeitão e jeitaço lançados ao papel. Entretanto, formara-se também ajeitar, que por volta de 1600 achamos escrito. Mas só em 1712 será dicionarizado. Levará quase um século a acontecer outro tanto a ajeitado. O pudor dos dicionários é proverbial. Vive, no Brasil, a convicção de existir um «jeitinho brasileiro», essa «maneira hábil, esperta, astuciosa», diz o Dicionário Houaiss, «de conseguir algo». Representaria, digamos, uma forma brasileira de estar no mundo. Não vamos desapontá-los,mas é evidente que têm a quem sair.

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Fernando Venâncio

Revista LER

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ECONOMIA & POLÍTICA

A RIQUEZA DAS NAÇÕES
FERNANDO SOBRAL

Porque é que umas falham e outras têm sucesso? Os caminhos da riqueza e da prosperidade percorridos em 600 páginas.
rancis Scott Fitzgeral tinha toda a razão quando dizia que os ricos eram diferentes de todos nós.Mas hoje os multimilionários também são diferentes dos de ontem. E há uma coisa em que são mesmo antagónicos: estão menos ligados às nações onde nasceram. Esta nova plutocracia sem pátria é o resultado da revolução nas tecnologias de informação e da liberalização do comércio global. As nações, com benefícios fiscais e desregulação financeira, também contribuíram para que a relação entre pessoas e estados se diluísse. E como as pessoas,ideias e dinheiro viajam agora muito mais rapidamente, as nações deixaram de ser um íman ou um local emocional para quem ganha muito dinheiro em pouco tempo. No primeiro filme Wall Street, homens de 30 e 40 anos ganhavam dois ou três milhões de dólares por ano e eram alvo de inveja. Agora, na época da internet,jovens de 30 anos ganham 40 milhões de dólares por ano sem pestanejar. Isso enquanto a classe média entrou em colapso e o fosso entre a minoria que tem muito e a maioria que pouco tem se alargou. A globalização foi defendida porque iria trazer riqueza e emprego a quem não os tinha.O resultado foi um desnivelamento maior.Daron Acemoglu e James A. Robinson estudam isso,neste estimulante Porque Falham as Nações. Afinal o que é que leva a que um americano médio tenha um rendimento cem vezes superior ao de um afegão ou de um de um habitante do Zimbabué? Os autores dão uma pista interessante, especialmente na altura

F

da queda das ditaduras em alguns países árabes Apesar do crescimento económico,quase desde os tempos da Revolução Industrial, há mais de mil milhões de seres humanos que vivem abaixo das linhas mais frágeis da miséria.Para os autores é evidente que é o ambiente político que concorre, em muito, para uma salutar economia. Para eles não são nem a geografia nem as diferenças culturais que explicam a razão de cidades próximas no México ou nos EUA, ou nas duas Coreias, terem níveis de vida tão diferentes. É o ambiente político que cria uma elite parasita e desencoraja a inovação e o investimento. Para os autores, a Grã-Bretanha, palco da Revolução Industrial, é a prova disso, quando se compara com o que sucedeu em Espanha. Esta favorecia (como Portugal) o controlo pela Coroa do comércio oceânico.

ParaDaronAcemoglueJamesRobinson,autoresde PorqueFalham as Nações (Temas eDebates,trad. ArturLopesCardoso,620págs.) a economia e as finanças são importantes, mas é no centro político que se continua a decidir a sorte das nações e dos seus cidadãos.

A Grã-Bretanha deixou que o comércio estivesse nas mãos de investidores privados.E isso teve reflexos no ambiente político,em que a aristocracia encontrou poderes antagónicos que favoreceram o pluralismo e lançaram as sementes do crescimento económico. Os Estados Unidos beberam deste mundo fértil. Um argumento defendido pelos autores é que nos países onde o peso das indústrias extrativas era hegemónico, a tendência para o pluralismo foi posta em causa devido aos interesses das elites que ali faziam a sua riqueza.Escrevem eles: «Os países fracassam economicamente devido às instituições extrativas. Estas instituições mantêm os países pobres na pobreza, impedindo-os de enveredar pela via do crescimento económico.» As novas lideranças são sempre tentadas a reter os benefícios do velho sistema. O falhanço das nações torna-se então a regra. Os exemplos que dão sucedem-se: do Botsuana ao Zimbabué, do Egito ao México.Os autores mostram-se muito céticos sobre o caso chinês,porque o modelo continua a ser o extrativo. E sem reformas políticas, que garantam pluralidade e inovação, nada irá funcionar, dizem. Ou seja, para Acemoglu e Robinson, os níveis de prosperidade dos tempos modernos baseiam-se em alicerces políticos.E a prosperidade é gerada pelo investimento e pela inovação. Mas estes são atos de verdadeira fé: investidores e inovadores têm de ter razões credíveis para pensar que podem ter sucesso. E isso requer poder centralizado (para não haver desordem) e instituições de poder a quem a elite deve ceder influência. Ao ligarem a essência do poder à prosperidade (e à pobreza) e, portanto, ao sucesso ou falhanço das nações, Acemoglu e Robinson transferem a discussão novamente para o mundo da política. Ou seja, a economia e as finanças são importantes, mas é no centro político que se continua a decidir a sorte das nações e dos seus cidadãos. A economia pode e deve ser a continuação da política por outros meios.

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©DR

março 2013

A ORDEM DOS CRÍTICOS
Dormir e resignar
Deus,quando quer ser Dante, é maior do que Dante.Bela frase,que naturalmente não é minha; é de Machado de Assis e encontra-se algures no Memorial de Aires,livro que deveria ser oferecido aos cidadãos pela Segurança Social, quer porque demoveria muitos da reforma antecipada, quer porque para ela atrairia os outros tantos de disposição oposta.Saltou-me à mente quando soube que o Papa tinha resignado,já explico porquê.Não interessa ao caso o contexto da frase no romance; presume-se bem o que significa sem mais explicações: não se imagina que um escritor atreito a citar Dante e que volta e meia chega a truncá-lo, fosse condescender com pretensões de superioridade,ainda as de Deus. Muito menos as de Deus,diria. Mas a hipótese é possível, ou seria num entendimento literal da frase. Deus de vez em quando quer ser poeta, e quando quer é maior do que eles.Que diria disto o Papa? Retoricamente, parece-me inconsistente. Deus gera poetas, inspira-os ou deixa-os produzir de moto próprio,mas a certa altura regressa, como que a chamar a si a responsabilidade da poesia; ou mais mesquinhamente, a lembrar que foi ele que fez,que é ele a origem,e acima de todos,sempre. Não vá algum esquecer-se e pôr pé em ramo verde. Deus fecit. Dir-se-ia então que, quando quer ser Dante, Deus é maior do que Dante e que a frase resume o sublime esquema em que a livre iniciativa se conjuga divinamente com a regulação.O incómodo,que torna a hipótese inconsistente, é que nesse caso é o próprio Dante que necessariamente é maior do que Dante, porque o nome ali designa, não apenas ele mesmo, mas todos os poetas,ou o poeta por antonomásia. Dante fecit. Ou noutra formulação: Deus,quando quer ser Dante,é necessariamente um Dante entre outros. Como se Deus ficasse desde o início, que é ele, obrigado a regressar aos mercados, e competir,e provar excelência… Já se vê que a frase não afirma a superioridade de Deus senão por subtilíssima antífrase.Tenho dito quanto ao aspecto retórico, decerto supérfluo. No plano substancial,que foi onde a resignação do Papa me lembrou a frase de Machado, a desgraça divina é maior.Dir-se-ia que desta vez Deus não quis ser Dante,quis ser Nanni Moretti… Mas o filme de Nanni Moretti é um prodígio de imaginação, subtileza…e graça! O espectáculo da resignação do Papa só tem de aproveitável a surpresa inicial,no resto é sensaborão, repetitivo e completamente an-

ABEL BARROS BAPTISTA

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

Dir-se-ia então que, quando quer ser Dante, Deus é maior do que Dante e que a frase resume o sublime esquema em que a livre iniciativa se conjuga divinamente com a regulação.

ticlimático. Salvar-se-ia eventualmente se, no próximo conclave, os cardeais se abstivessem de largar o fumo e se deixassem ficar recônditos a curtir um imenso tédio.Sem cuidar de domingo de Ramos ou de Páscoa alguma… Não sei se já houve domingo de Páscoa sem Papa, mas seria decerto um desenlace espaventoso. Isso sim,valeria a pena. Demais, o enredo ganharia em coerência. Não é difícil notar que as reacções ao caso, passada a fase em que a expressão da surpresa ainda tem relevância, se dividem em duas famílias: a dos que sublinham que o Papa é muito inteligente e racional – como quem diz que ele lá terá as suas razões,sendo capaz de as seguir –, e a dos que importunam os eclesiásticos que encontram com a pergunta «Vai ser assim daqui para a frente?», como se só agora se descobrisse a possibilidade de resignar aplicada aos papas. A verdade é que as duas famílias partilham o mesmo receio – que um Papa menos inteligente resigne por motivo fútil – e o mesmo pressuposto: que a inteligência dos papas é em si salvaguarda eficaz contra a leviandade.Ora,a melhor reviravolta seria a que pusesse os cardeais a perceber que é o contrário: justamente a inteligência conduz à noção de que a resignação, além de possível, é necessária,e que diante dessa evidência qualquer razão apresentada é sempre fútil. O desenlace seria a paradoxal resignação de antemão,os cardeais murmurando em uníssono que preferiam não, e Deus afinal sofrivelmente imitando Nanni Moretti.Ao espectador,além da liberdade de bocejo, restaria a lição de que melhor é deitar de lado, no plano da omoplata para evitar lesões e fisioterapia, e dormir.Dormir e resignar…

Revista LER

©Pedro Vieira

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GIL JOUANARD

ABRIR O LIVRO
DÓRIS GRAÇA DIAS

«O cúmulo da cobardia é que um grande número de“meios de comunicação” escolheu com cinismo promover a todo o custo o “populismo cultural”.»

Liseuse à l'ombrelle (1921), Henri Matisse .

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o que falamos quando falamos de Literatura? Esta não deixa de ser uma pergunta recorrente e já respondida por vários atores da crítica, mas sempre apaixonantemente retornável, já que, sem a desejável discussão em seu redor, se arrisca a ser ignorada. Não vale a pena autoflagelar-nos afirmando que esse défice de discussão é um problema português e contemporâneo. É uma questão que atravessa os vários tempos e culturas e, neles,as variantes sociológicas correspondentes. Se assim não fosse, não teria o menor sentido o presente Do Livro e da Cultura, de Gil Jouanard (n. 1937). Importa, por isso, sublinhar que debater esta temática faz falta. Esta obra é constituída por uma diversidade de textos,apresentados em encontros ou que serviram de editorial (revista Septimanie) ou de resposta a inquéritos e que abordam a escrita narrativa ou poética,

partindo do pressuposto de que a cultura não é classificável em «popular» («baixa») ou «elitista» («alta»). Esta distinção resulta de um (dos muitos) equívoco(s) do sistema democrático: «[...] desde há bastante tempo,se confirma a tendência para confundir a democracia com demagogia, e que se ridiculariza sem vergonha a intuição daqueles que, no século XVIII, imaginaram o advento de um mundo do qual cada um seria convidado a fazer o esforço (e depois a tomar-lhe o gosto, uma vez ultrapassado o nível da aprendizagem) de aceder ao melhor, ao mais alto nível,das suas virtualidades, das suas aspirações mal conhecidas,das suas faculdades,da sua identidade particular, individual, pessoal» (p.41).A demagogia está no facto de se classificar esta tomada de posição como elitista; mas Gil Jouanard não recusa o elitismo da sua proposta,já que o «considera motor principal de todo o desígnio democrático» (id.), oferecendo-se

«Olivrodofuturo jánãoserásem dúvidafactualnem pedagógiconem recreativo:será existencialmente olugarporexcelênciadaemergência deinstantesautónomoseirredutíveis»,escreveGil Jouanardem Do LivroedaCultura (Gradiva),com tradução,introduçãoenotasdeMiguelGraçaMoura.

desejavelmente a todos e não a alguns, porque, como afirma noutro texto,«privilegia […] a aventura espiritual e intelectual, a autonomia do pensamento,o instinto de liberdade, preferindo-os aos tiques e diktats do “bem-pensante”e às aviltantes banalidades da “comunicação”» (p. 58). Isto implica clarificar que se reconhece a existência de duas categorias de escritores: o «“romancista”» ou «“o narrador”», que «distrai, informa ou instrui» (Balzac, Zola, Stendhal, Maupassant); e o «escritor por necessidade», cujo «campo de investigação […] é a obscuridade interior, a penumbra gutural dos não-ditos estratificados» (Montaigne, Pascal, Chateaubriand, Proust; cf. pp. 91-92). É, aliás,destes últimos que se aproxima a literatura contemporânea, no exercício de uma escrita que Gil Jouanard associa à profundidade e que assume o seu grau máximo na poesia.Os exemplos convocados referem-se sobretudo à literatura francesa, dada a naturalidade do seu autor, o que não obsta a reconhecer a validade das análises. Tratando-se de uma pequena obra, constituída por textos curtos, mas de uma densidade afirmativa e informativa inegáveis, é curta a crítica para abarcar a totalidade de questões levantadas.Já as lemos, formuladas de outro modo em outros autores (Calvino, Bloom, Manguel, Steiner), mas ficam aqui algumas ideias-chave: «A literatura, tal como o escritor, não serve para nada: é isso mesmo que a torna indispensável» (p. 51); «Pouco preocupado em contar histórias,Quignard faz parte daqueles escritores que não visam distrair nem informar nem edificar» (p.61); «Quando já se compreendeu que a literatura é menos a arte de contar histórias do que a de mergulhar a fundo na ambiguidade sinuosa e abissal da língua que nos procura exprimir, e que ela se esforça por nos reincrustar no magma histórico onde vêm misturar-se as nossas raízes, então pode-se começar a pressentir o porquê e o a partir de quê alguém se põe a escrever» (p. 84).

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©DR

março 2013

OS MEUS PERSONAGENS
O sapeur e o leão
Zacarias levou-me a ver o Jardim
Zoológico. Demorei algum tempo a compreender que havia animais entre as ruínas. Um gnu descarnado esforçava-se por encontrar, escavando os escombros e a terra seca, um resto de verde. Um dos cornos, rachado, estava preso com fita adesiva. Duas águias, na mesma jaula,agitavam de vez em quando as asas depenadas. Os macacos ainda me impressionaram mais. Estendiam-me as mãos, através das grades, implorando não sei se algo para comer, ou se apenas um pouco de afeto. – Esta era a jaula do leão – mostrou-me Zacarias.Ao fundo da jaula enrolava-se uma enorme escuridão. Zacarias avançava por entre o capim alto, o lixo prolixo, as recordações enferrujadas de uma outra era,com a elegante exuberância de um grou coroado. O meu guia é um sapeur, expressão criada a partir do acrónimo «sape» – sociedade de ambientadores e pessoas elegantes –,movimento estético e filosófico surgido no início dos anos 60,no bairro Bakongo,de Brazaville. Os adeptos da «sapologia» defendem o primado da beleza e da superficialidade sobre todas as coisas,incluindo as necessidades básicas.Isto significa que estão dispostos a sacrifícios enormes,mesmo a passar fome,para poderem adquirir um blêizer Jean-Paul Gaultier, umas calças Hugo Boss, uma echarpe Kenzo. Os detratores da sapologia acusam-nos, com um arrogante encolher de ombros, de puro narcisismo e alienação: – Um bando de palhaços vaidosos! Os sapeurs contra-argumentam – com irrefutável lucidez –, lembrando que se no Congo todos seguissem a sua filosofia da vacuidade não teriam sofrido nunca o horror de três guerras. Para pagar os dispendiosos trajes que usa depois que a noite cai,Zacarias trabalha desde as cinco da manhã, ora como motorista de táxi, ora como pintor de retratos.Taxista é uma profissão muito popular em Brazaville. Numa cidade onde falta quase tudo, sobram táxis. Basta erguer a mão e logo um carro verde, com estofos poeirentos, se detém diante de nós.Todas as corridas, independentemente da distância,ficam por mil francos CFA, pouco mais de um euro. Não deve haver no mundo, serviço de táxis mais eficiente, nem mais barato.

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

©Pedro Vieira

O leão também morrera, e igualmente por excesso, mas de carne. Um imbecil qualquer teve a ideia de colocar soldados inimigos dentro da jaula, primeiro apenas com a intenção de os assustar.

Zacarias tem uma ligação especial com o Jardim Zoológico.Há mais de 20 anos foi ele quem pintou o largo painel,à entrada, retratando os animais alojados naquele espaço.O painel ainda lá está,mas tão delido, tão maltratado, que só com muito esforço consigo reconhecer os animais. A estrela do Jardim Zoológico foi durante longos anos um gorila chamado Bernard (ou talvez Bertrand) que gostava de fumar charutos e de tocar batuque. A maioria dos animais morreram de fome, ou foram mortos para matar a fome dos soldados,logo após o início da guerra civil. Bernard (ou Bertrand) teve mais sorte – foi evacuado para Pointe Noire, a segunda cidade do país, junto à costa. Ali, alguém se lembrou de lhe oferecer uma companheira. Bernard (ou Bertrand),que era virgem,e fora celibatário a vida inteira, não se intimidou. Pelo contrário. Entusiasmou-se tanto que morreu na terceira noite,por excesso de amor. – E o leão? – perguntei. – O que aconteceu ao leão? Os olhos de Zacarias encheram-se de sombras. O leão também morrera, e igualmente por excesso, mas de carne. Um imbecil qualquer teve a ideia de colocar soldados inimigos dentro da jaula, primeiro apenas com a intenção de os assustar e, assim, lhes extrair informações. Não demorou, contudo, que o leão, esfomeado, comesse um deles. A partir dessa altura passaram a alimentar o animal com carne humana. Tornou-se uma rotina. Encarei-o, aterrado: – Isso aconteceu mesmo?! Zacarias sacudiu os ombros largos: – Era a guerra! Pois.Eu também prefiro a sapologia.

Revista LER

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LER É MAÇADA
Ficção biográfica
Kafka é um profeta do Antigo
Testamento que é também um burguês. Embora às vezes o amesquinhem em escritor de parábolas óbvias, trata-se na verdade de «um caso subterrâneo». Assim o define Agustina Bessa-Luís no fabuloso Kafkiana (Guimarães, 2012),que me fez reencontrar um Kafka não-evidente, indómito de tão lúcido. E apostado, como confessou, em «fazer da decifração um enigma». Encontrei-me com Kafka à medida que fazia os meus estudos jurídicos, e espantei-me com as audiências adiadas ou infrutíferas, as sentenças fatais e ilegíveis, os legisladores esquecidos da justiça. Agustina diz que Kafka defendia «o direito do ínfimo», e que os seus injustiçados, castigados e metamorfoseados são figuras da desconformidade. Personagens com consciência de que uma «presença» se pode transformar em omnipresença, e portanto em tirania. Por isso interrogam cada acto, esgotam cada assunto, esperam perante uma porta fechada mesmo sabendo que continuará fechada. Estudei isso em Kafka, tanto quanto na faculdade. Todas as regras esmagam Kafka. O pai, as noivas, o emprego, a cidade, tudo exige uma conformidade, e ele sente-se insatisfeito, não se ajusta às expectativas, ao casamento, à distinção social, ao emprego, à paternidade, tudo conhecidas formas de imitação, ideais para quem as executa sem grandes dúvidas, mas uma vergonha para os outros. Kafka admira quem se decide de uma vez. Ele não é um Hamlet indeciso, mas, escreve Agustina, decide constantemente, sem descanso. Essa voragem leva-o a encontrar consolo no riso, mais do que no pessimismo: «O seu sofrimento é feérico,irreal,explode no escuro como uma batalha de luzes,de clarões. Parece uma forma de rir, é uma forma de rir.» Outros escritores enlouqueceram nesse processo,como Robert Walser,que experimentou as «regras geladas da liberdade» e acabou numa «esquizofrenia intermitente».Kafka optou por ser «feliz na desgraça»,embora fosse uma hipótese condenada ao fracasso. Agustina lembra que os temas kafkianos, «treino, educação, autoridade, obediência, justiça», nos são apresentados «com humor e uma ponta de crueldade», ou seja, com uma dose de exagero. O pai tirano,por exemplo,é um pai um

PEDRO MEXIA

©Pedro Vieira

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

Kafka admira quem se decide de uma vez.Ele não é um Hamlet indeciso,mas,escreve Agustina, decide constantemente,sem descanso.Essa voragem leva-o a encontrar consolo no riso, mais do que no pessimismo.

pouco imaginário, que o filho enobrece temendo-o em demasia, «Kafka sabe que o pai tem medo dele,um medo envergonhado, doentio, que se manifesta em desprezo,injúrias várias e um simulacro de indiferença». É um avô que espera cada neto como se fosse um sucesso, como se um recém-nascido fosse já digno de «pompas fúnebres».Kafka foge de toda a ideia de sucesso,e prefere o tédio, a «felicidade no fastio». Aprendemos com os temerários,comenta Agustina, mas vivemos com os prudentes. «Ensinaram-lhe […] que se deve ser cerimonioso com as coisas sérias, ter filhos, fazer fortuna e fazer uma mulher feliz. Ainda que fazer uma mulher feliz depende muito de não casar com ela.» É assim que Agustina apresenta outra decisiva dimensão dos escritos ficcionais e intimistas, o Kafka «celibatário por amor do segredo», embora fosse atraente, sedutor, adepto de uma «sensualidade mística», e estivesse sempre em diálogo com mulheres ou com os seus fantasmas, em amores que são, sugere Agustina, uma «ficção amorosa». Ela chama a Kafka um «solteiro convencido»,para quem a água do consolo é uma água amarga, inviável. Uma mulher que o compreendeu, Milena Jesenská, disse que Kafka procurava a ascese, mas não enquanto meio de atingir uma finalidade: «É um homem que, devido à sua terrível clarividência, sinceridade e incapacidade para se harmonizar com o mundo, se vê condenado ao ascetismo.» Evita a depressão somatizando o sofrimento, e morre disso. «Proust do Norte», procurou uma literatura minuciosa, salvífica, e que fosse,acima de tudo,«um sucesso da solidão».

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PRIMEIRA PÁGINA

RADICAIS À FOLHA
Pacheco Pereira e a imprensa clandestina.
o estudo das organizações de extrema-esquerda não há os problemas de uma «história oficial» consolidada que existem com o PCP, mas também não é verdade que não existam de todo. Praticamente só duas organizações mantêm a continuidade,o PCTP/MRPP e os vários grupos trotskistas,em particular a LCI,depois PSR, e hoje uma associação dentro do Bloco de Esquerda.O PSR tem um problema suplementar, que aliás também se manifesta nos microgrupos trotskistas ainda existentes: têm uma componente internacional e isso limita a liberdade face à sua própria história. A UDP, que também faz parte do Bloco de Esquerda, não tem a mesma «memória» de uma história contínua, até porque a agregação de diferentes grupos no PCP(R) nunca apagou as diferenças e laços entre pessoas vindas de diferentes experiências de prisão, clandestinas, de idades e profissões e de trajetos de vida. Mas a tentação de fazer uma história «oficial» existe e alguns embriões dessa história «oficial» existem, presos mais aos homens, à sua identidade e memória, do que à realidade histórica.E algumas «memórias» e depoimentos têm transmitido versões de acontecimentos, mais do que factos. Verifica-se em depoimentos e versões vindos de antigos militantes do MRPP, a começar na história da sua fundação,da OCMLP,na sua narração hegemónica do movimento estudantil e operário do Norte,do PCP (ML) na sua elaboração a posteriori por alguns dos seus dirigentes de um marxismo-leninismo não esquerdista.Com tudo isto se lidará disponibilizando documentos e factos, e deixando-os fazer o seu curso e permitir a livre interpretação. Tenho consciência de que a história da imprensa clandestina esquerdista e radical nos últimos quinze anos da ditadura começa aqui, mas não acabará aqui.

N

José Pacheco Pereira na introdução ao seu mais recente livro, editado pela Temas e Debates/Círculo de Leitores, no qual trabalhou de «forma intermitente nos últimos vinte anos»: As Armas de Papel – Publicações Periódicas Clandestinas e do Exílio Ligadas a Movimentos Radicais de Esquerda Cultural e Política (1963-1974).

Revista LER

©Pedro Loureiro

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A VOZ DO BRASIL

MELHOR DAS AMÉRICAS DomingossemDeus (Record), de Luiz Ruffato», recebeu o Prêmio Casa das Américas. Conforme o júri reunido em Cuba, o romance «apresenta diversos episódios independentes que se entrelaçam, formando o mosaico de um Brasil essencial, embora esquecido».

JORGE FERNANDES DA SILVEIRA

ENTRE O BERÇO E O DIVÃ
A série de fragmentos coligidos em O Comedor de Salamanca estruturam-se,à sua moda,como uma epopeia.
orge Fernandes da Silveira,professor titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um leitor incomum de poesia: seus ensaios costumam estabelecer um sistema de interlocução entre versos, o que muitas vezes descortina inusitadas relações intertextuais e/ou temporais, destacando,com rara inteligência, as ligações dos poetas modernos com a tradição. Não à toa um de seus livros mais importantes intitula-se Verso com Verso,publicado sob a chancela da Angelus Novus. A editora carioca Oficina Raquel lançou no fim do ano passado O Comedor de Salamanca, uma mescla de memorialismo, crítica da cultura,crítica acerca do sistema político-econômico vigente,caderno de viagens, caderno de citações, coleta de poemas e, para adotar

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uma expressão cunhada nessa obra, «(auto)bibliografia», ou seja, uma vida contada por meio de referências. Embora a obra contemple o período de fevereiro a julho de 2012, em que Jorge Fernandes passou sua quinta temporada como professor visitante em Salamanca,esse volume de 124 páginas faz lembrar um verso de Drummond de Andrade de «Consideração do poema»: «É toda a minha vida que joguei.» O livro é uma análise do seu universo cultural, do universo cultural do outro,mas também ressalta uma profunda autoanálise,com observações em torno de uma vida tortuosa, ainda que marcada de muitas conquistas e superações.Nesse sentido, é mais do que justificada a sua afirmação: «Creio que volto a ensinar em Salamanca para reaprender a andar com os meus próprios pés

e pernas.E penas» (p.21).Se aprender a andar leva o Homem ao encontro de descobertas, reaprender implica dois movimentos: de olhar para trás,memorialisticamente,e de olhar para a frente, às vezes iluminado pelo esclarecimento de pontos obscuros do passado. Por causa disso,há momentos de alta comoção,que ainda revelam um escritor em sintonia com suas estratégias de leitura. Por exemplo: são muito surpreendentes as associações «livres» de ideias, como o exame atento de Um Filme Falado,de Manoel de Oliveira, ao lado dos embates já desgastantes em torno do Acordo Ortográfico. Ainda mais comovente é a relação que estabelece com uma pedinte sentada à porta da igreja e que lhe faz lembrar sua mãe. Jorge Fernandes oferece um euro; depois,dois; por fim,cem euros para que ela compre uma cama. E eis a conclusão: «Do berço ao divã se repetem muito mais monstros fantasmas do que sonha a vossa vã biografia,minha querida e saudosa analista.[…] Tudo isto é Fado.Um lugar para nascer, viver, morrer, na sobreimpressão do espaço em tempos inumeráveis. Numa palavra: o desejo de levantar-se uma cama antes de se deitar definitivamente no chão.E é em estado de alta que a mim mesmo me encontro,literal e metaforicamente suspenso por dois pontos: entre o berço e o divã está uma cama.» Sim,entre o berço e o divã está uma cama,bem como uma série de fragmentos coligidos em O Comedor de Salamanca que se estruturam,à sua moda,como uma epopeia. Uma epopeia que reflete ainda o processo de crise atravessado pela Europa sob a perspetiva do estrangeiro íntimo da Península.

LANÇAMENTOS

Rabo de Baleia (Cosac & Naify) é o segundo livro de Alice Sant’Anna, uma das mais festejadas autoras da novíssima geração de poetas brasileiros. Conforme a crítica Heloisa Buarque de Hollanda, esse volume, que reúne 35 poemas inéditos, já nasce definitivo.

©DR

Com ilustrações de Yara Kono, EmcimaDaquela Serra (Companhia das Letras) é um livro infanto-juvenil de um dos mais importantes autores da literatura brasileira contemporânea (Eucanaã Ferraz). Reúne uma parlenda notável para a construção de sua história: «Por detrás daquelo morro, / / passa boi, passa boiada / também passa moreninha / de cabelo cacheado.».

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MACHADO DE ASSIS EM E-BOOK A versão e-book do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, está sendo comercializada pela Simplíssimo. Em 112 dias, venderam-se 1200 exemplares. O livro digital está sendo vendido a 99 cêntimos (de dólar).

ANTOLOGIA DE CALCANHOTO A cantora e compositora Adriana Calcanhotto organizou para a editora Casa da Palavraumaantologiadepoesiabrasileira, quecontemplapoemasdoséculoXIXaoXXI destinadosa«criançasdequalqueridade». Calcanhottoaindailustrouolivro,quedeve ser lançado durante a FLIP (Paraty).

ACERVO DE MILLÔR O Instituto Moreira Salles vai receber o acervo de Millôr Fernandes em regime de comodato,durante10anos.Oacervocompreendeduasmapotecascomcentenasde desenhos do escritor e ilustrador falecido em março de 2012.

EDUARDO COELHO

SÉRGIO ALCIDES

LIVROS E EDITORAS

O FALSO CONTEMPORÂNEO
com a natureza e com o outro. Os versos revelam cenas cotidianas, circunstanciais e lúdicas − e não raro desponta seu humor tímido. Aos poucos,contudo,o livro ganha tons mais críticos. O prazer alienado dos primeiros poemas vai sendo substituído por marcas típicas de um mal-estar contemporâneo. Nesse sentido, «Global» é um exemplo sintomático dessa alteração de rumo: «Ida ao coração da treva./ Acha-se o mesmo sanduíche, / aura flácida do shopping,/ enjoo de intransitivos: / convir, consumir, sumir.» É notável a seleção precisa de palavras, que mostram uma rigorosa coerência semântica, onde um vocábulo parece refletir no outro, como demonstram «sanduíche», «aura flácida», «shopping», «enjoo», «convir», «consumir» e «sumir». Há nesse poema um excesso, um esgotamento relacionado à repetição, à falta de mobilidade, de sabor e de saber do mundo capitalista.No meio do poema, os versos «Fique à vontade no horror, senhor. / Clique até salvar a azia customizada, senhor» apresentam aos leitores uma leitura profunda que desvenda a insensibilidade e a indiferença contemporâneas. Há o registro de uma latente impossibilidade de vivência real do cotidiano em função de um falseado bem-estar. Perceção semelhante pode ser identificada no poema seguinte, «Pasto»: «Esta paisagem é mais ou / menos um locus amoenus.» Nela, em «vez de avena, tevê», onde é engendrada uma repetição sonora que opõe dois mundos. Píer é mais um livro que contesta a frequente acusação da falta de senso crítico na poesia brasileira contemporânea,além de exigir uma reflexão permanente entre os diálogos ativos e criativos que estabelece com a tradição da lírica no Brasil.

O QUE VEM AÍ
os anos 90, a literatura brasileira contemporânea começou a conquistar algum espaço no mercado local de livros, embora fosse imensa a disparidade entre os números de títulos estrangeiros e de nacionais publicados aqui, anualmente. Com o crescimento econômico do Brasil e a conquista de maior visibilidade internacional, sobretudo a Europa voltou-se mais atentamente à publicação de autores brasileiros,o que tem levado às editoras sobretudo do eixo Rio-São Paulo a ampliar o investimento em autores de vários estados e reconhecimento público e crítico diverso. Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, revelou alguns lançamentos de autores brasileiros previstos para o ano de 2013. Eis uma seleção deles: Alfaguara – Hanói,de Adriana Lisboa; Divórcio, de Ricardo Lísias; A Travessia de Suez, de Reinaldo Moraes. Companhia das Letras – Machu Picchu, de Tony Bellotto; A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves, de Joca Reiners Terron; Ithaca Road, de Paulo Scott; Edifício Midori Filho, de Andréa del Fuego; e romances ainda sem título de Bernardo Carvalho, Chico Buarque, Luiz Ruffato e Milton Hatoum. Intrínseca – Vidas Provisórias, de Edney Silvestre. Record – Tangolomango – Ritual das Paixões deste Mundo, de Raimundo Carrero; Só o Pó, de Marcelino Freire.

N

érgio Alcides nasceu no Rio de Janeiro em 1967. É poeta, tradutor, ensaísta e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Recebeu os prêmios Minas de Cultura e Cidade do Recife por seu livro Estes Penhascos, lançado em 2003 pela Hucitec.Trata-se de uma obra excelente, densa e definitiva, a respeito da poesia de Cláudio Manuel da Costa, autor mineiro do período colonial. Publicou como poeta, em 2006, Nada a Ver com a Lua, pela 7Letras, e O Ar das Cidades, em 2000, pela Nankin. Em dezembro do ano passado,lançou Píer, pela Editora 34. Por tê-lo conhecido apenas em janeiro, Píer não foi listado, nesta coluna, entre os principais lançamentos de 2012, mas é conveniente aqui fazer uma observação: merecia constar em qualquer indicação de melhores títulos de literatura brasileira lançados no ano passado. Os primeiros textos de Píer revelam uma intensa e prazerosa relação com o mar, quando despontam o prazer,as descobertas sensoriais ligadas ao contato

S

Bernardo Carvalho

Revista LER

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©Pedro Loureiro

LIVROS NO TOP
E.L. JAMES

ANASTESIEMO-NOS!
Anastasia e Grey não desarmam e isto começa a ficar monótono. Quem nos salva da chicotada psicológica?
NÃO-FICÇÃO

REINO UNIDO

Fonte: The Guardian

Fonte: The New York Times

>2 American Sniper Chris Kyle com S. McEwen e J. DeFelice [Morrow/HarperCollins] Biografia de um sniper norte-americano que tem mais de 150 alvos oficiais confirmados. >3 Killing Kennedy BillO’ReillyeMartinDugard[Holt] Mais uma investigação, minuto a minuto, sobre as balas mágicas que assassinaram o Presidente dos EUA. >4 The Future Al Gore [Random House] >5 Going Clear Lawrence Wright [Knopf] >6 Francona Terry Francona e Dan S. [H. Mifflin Harcourt] >7 Killing Lincoln Bill O’Reilly e Martin Dugard [Holt] >8 No Easy Day Mark Owen com Kevin Maurer [Dutton] >9 Remembering Whitney Cissy Houston c/ Lisa Dickey [HarperCollins] >10 Beyond Belief J. Hill c/ L. Pulitzer [Morrow/HarperCollins]

>2 Far from the Tree Andrew Solomon [Chatto & Windus] Destinado a pais com filhos radicalmente diferentes. Como enfrentar estranhas doenças. >3 The Examined Life Stephen Grosz [Chatto & Windus] Aspessoasqueamamoseasmentirasquecontamos,tudodestilado em50milhorasdeconversa. >4 Bob James Bowen [Hodder & Stoughton] >5 Silence of Animals John Gray [Allen Lane] >6 Return of a King William Dalrymple [Bloomsbury Publishing] >7 The Future Al Gore [Virgin Books] >8 Bedsit Disco Queen Tracey Thorn [Virago] >9 Turned Out Nice Again Richard Mabey [Profile Books] >10 Love Poems Carol Ann Duffy [Picador]

Fonte: El Cultural

>1 My Beloved World Sonia Sotomayor [Knopf] «Destinado a tornar-se um clássico da autoinvenção e autodescoberta.» Pois, está bem.

>1 The Real Jane Austen Paula Byrne [Harper Collins] Uma biografia que pretende revelar verdades escondidas, através da escolha de objetos do quotidiano da escritora inglesa.

E S PA N H A

NÃO-FICÇÃO

EUA

GERAL

>1 La infancia de Jesús Joseph Ratzinger [Planeta] Nesta versão do Papa que acaba de resignar, nem vaca, nem burro têm lugar no presépio. >2 No sé dónde está el límite Josef Ajram [Alienta] Um corretor da Bolsa que decidiu largar tudo e testar os limites do corpo humano. Se ele aguenta? Ai aguenta, aguenta. >3 El arte de no amargarse la vida Rafael Santandreu [Oniro] Comotransformaravidanum «marde felicidade».Tudomisturadocompsicologiae anedotas. >4 Al otro lado del túnel José Miguel Gaona [La Esfera de los Libros] >5 Una mochila para el universo Elsa Punset [Lunwerg] >6 La dieta de los 31 días Agata Roquette [La esfera de los libros] >7 Deja de ser tú Joe Dispenza [Urano] >8 Annonymics Risto Mejide [Gestion 2000] >9 Jinetes en la tormenta Diego Manrique [Espasa] >10 La magia Rhonda Byrne [Urano]

FRANÇA

BRASIL

Fonte: Livres Hebdo GERAL

>2 Cinquenta Tons de Liberdade E.L. James [Intrínseca] Farta de chicotadas físicas e psicológicas, Anastasia Steele decide trabalhar numa editora. >3 Cinquenta Tons mais Escuros E.L.James[Intrínseca] Oscastigoscorporaiscontinuam, eAnastasiasente-sefascinada porcarroseaviões. >4 O Lado Bom da Vida Matthew Quick [Intrínseca] >5 Toda Sua Sylvia Day [Paralela] >6 Profundamente Sua Sylvia Day [Paralela] >7 Morte Súbita J.K. Rowling [Nova Fronteira] >8 O Caminho para Woodbury J. Bonansinga e R. Kirkman [GaleraRecord] >9 A Travessia William Young [Arqueiro] >10 Finale Becca Fitzpatrick [Intrínseca]

>2 Dans mes yeux Johnny Hallyday e Amanda Sthers [Plon] Depois de cinquenta anos de carreira, o roqueiro francês decidiu contar a sua história. >3 Cinquante nuances de Grey E.L. James [JC Làttes] Entrar no Quarto Vermelho da Dor acarreta muitos perigos, mas Anastasia está encantada. >4 Cinquante nuances plus sombres E.L. James [JC Làttes] >5 Si c’était à refaire Marc Levy [Robert Laffont] >6 Rien ne s’oppose à la nuit Delphine de Vigan [JC Làttes] >7 Cet instant-là Douglas Kennedy [Belfond] >8 Les souvenirs David Foenkinos [Gallimard] >9 Je vais mieux David Foenkinos [Gallimard] >10 Paper money Ken Follett [Lgf]

Fonte: La Stampa GERAL

Fonte: Veja

>1 Cinquenta Tons de Cinza E.L. James [Intrínseca] Não são as cinzas do Carnaval, são mesmo as cinzas do charuto de Christian Grey na alcatifa de Anastasia Steele.

>1 Cinquante nuances plus claires E.L. James [JC Làttes] Depois das acrobacias pornoeróticas,nadacomoacender aluz e tornartudomais claro.

I TÁ L I A

>1 Vendetta di sangue Wilbur Smith [Longanesi] «Ébrio de violência», «fome de poder e dinheiro», «sede de vingança e de justiça». Hector Cross, senhoras e senhores. >2 Fra bei sogni Massimo Gramellini [Longanesi] «Um segredo guardado num envelope durante 40 anos.» E vai daí? >3 Ogni angelo è tremendo Susanna Tamaro [Bompiani] «A história da descoberta da terrível beleza do mundo.» E vai daí? >4 Gli onori di casa Alicia Giménez Bartlett [Sellerio] >5 Entra nella mia vita Clara Sánchez [Garzanti] >6 Cocaina AA. VV. [Einaudi] >7 Il tuttomio Andrea Camilleri [Mondadori] >8 Le tre minestre Andrea Vitali [Mondadori] >9 Diario di una schiappa Jeff Kinney [Il Castoro] >10 L’ex avvocato John Grisham [Mondadori]

FICÇÃO

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março 2013

Informação recolhida a 20/02/2013

FICÇÃO

NÃO-FICÇÃO

GERAL

E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras de Grey
Se não quiser ler a trilogia, passe logo para O Kamasutra de Grey. Tem desenhos, ao que parece.

Rafael Marques [Tinta-da-china] Diamantes de Sangue
«As autoridades e o governo ignoram os crimes, as forças armadas e policiais são não só coniventes como também protagonistas desses crimes.»

Beth Kery [Saída de Emergência] Porque És Minha
«As regras do desejo são quebradas, noite após noite», «uma carga requintadamente física incendeia ambos». Lindo!

E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras
Com as costas doridas e os joelhos esfolados, Anastasia abandona Grey e vai trabalhar.

António José Vilela [A Esfera dos Livros] Segredos da Maçonaria Portuguesa
«O episódio do mestre maçon que mudou de sexo» ou «a iniciação de Isaltino Morais». Temas de avental.

E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras de Grey
No Quarto Vermelho da Dor Grey esconde as suas sombras. Tudo porque a bola de espelhos se fundiu durante a passagem da tempestade Gong.

E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras Livre
«O destino conspira para tornar dolorosamente reais os maiores medos de Anastasia.»

Ellen Bailey [Booksmile] One Direction Cinco Estrelas
«Diverte-te com as revelações mais íntimas sobre cada um deles.» Uuu... Isso é espetacular!

Ken Follett [Bertrand] O Estilete Assassino
«O destino da guerra assenta nas mãos de um espião, do seu adversário e de uma mulher corajosa.»

José Rodrigues dos Santos [Gradiva] A Mão do Diabo
É favor regressar à edição de janeiro da LER para saber mais algumas coisas sobre o assunto.

Daron Acemoglu e James A. Robinson [Temas & Debates] Porque Falham as Nações
«Como explicar por que razão o Botsuana se tornou um dos países de crescimento mais rápido do mundo?»

Isabel Rocha e Joaquim Freitas Rocha [Porto Editora] Fiscal
«Atentos à volatilidade legal e à importância de fornecer aos agentes do Direito Fiscal ferramentas devidamente atualizadas.» É isto.

Ana Casaca [Guerra & Paz] Todas as Palavras de Amor
«Numa viagem em busca de si mesma, Alice escreve a primeira de muitas cartas a um grande amor.» Não é lindo?

Emma Wildes [Planeta Manuscrito] Sussurros Ousados
«Espera-se que as mulheres casem jovens, governem a casa e sejam vistas, não ouvidas.» Isto promete. O que vem a seguir?

Condessa de Carnarvon [Presença] Lady Almina e a Verdadeira Downton Abbey
«Existem vários pontos de contacto entre personagens da série e pessoas reais que viveram no Castelo.»

Gillian Flynn [Bertrand] Em Parte Incerta
«Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o 5º aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece.»

Ricardo Raimundo [A Esfera dos Livros] Escândalos da Monarquia Portuguesa
Desde reis que batiam na mãe aos «reis bígamos, impotentes, demasiado castos, homossexuais».

E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras Livre
E eis que a trilogia chega ao fim, com eróticos hematomas e desejos saciados. Chicote para cima.

Ken Follett [Bertrand] O Estilete Assassino
Quando um agente secreto de Hitler dá pelo nome de código «Agulha» está tudo dito.

José Luís Peixoto [Quetzal] Dentro do Segredo
«Um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo», onde os telemóveis ficam fechados num saco.

E.L. James [Lua de Papel] As Cinquenta Sombras mais Negras
«Enquanto Grey se debate com os seus demónios» Anastasia prepara-se para fugir. Mas volta atrás para pedir a fatura.

Philip Roth [Dom Quixote] Engano
«No centro de Engano estão dois adúlteros no seu esconderijo. Ele é um escritor americano de meia-idade, ela uma inglesa culta, refém de um casamento humilhante.»

Kate Sheppard [Edicare Editora] Amigas para sempre! Diário
«Diário, agenda, testes e tudo o que as amigas precisam de saber!» Exclamemos!

Sylvain Reynard [Saída de Emergência] O Inferno de Gabriel
«O enigmático e sedutor professor GabrielEmerson»com «asuabeleza de cortar arespiração»sente-se «torturado pelo passado». Sowhat?

João Tordo [Dom Quixote] O Ano Sabático
Conselho de amigo: avance até à página 61 desta revista.

Henrique Raposo [Guerra & Paz] História politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo
«Salazar, Cunhal e Soares, as três figuras mais maquilhadas e desmaquilhadas».

J.R. Ward [Casa das Letras] Na Sombra do Destino
«Um mundo diferente, criativo, obscuro, violento e completamente incrível.» Completamente, claro.

Yann Martel [Presença] A Vida de Pi
«Pi Patel possui um conhecimento enciclopédico sobre animais e uma visão da vida muito peculiar.» Um Booker que passou a filme.

Arielle Ford [Matéria Prima] Alguém no Céu Gosta de Si
«Inclui histórias de assombro e felicidade plena, de anjos, de ocorrências milagrosas, de experiências próximas da morte.»

Robert Muchamore [Porto Editora] Tsunami
«Após um violento tsunami destruir uma ilha tropical, o seu governador aproveita a situação para construir estâncias de luxo muito lucrativas.»

Revista LER

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HELDER MACEDO
O gentleman marginal

O ar de british gentleman não é exatamente enganador,porque isso havia de querer dizer que ele tem uma identidade classificável.Pode estar simplesmente aborrecido com o que o rodeia, ou preparado para contar cenas do Café Gelo dos idos de 60,ou então a citar Camões ou Yeats.O sorriso pode ser amigável ou de gato de Cheshire,os olhos azuis muito claros preparados para a ironia,se for preciso,cruel.Não está ausente,está ali como nos romances que escreve,personagem múltipla e surpreendente.Como as frases que diz e passa ao papel: uma volta que muda tudo quando parece que terminou.
Helder Macedo,nascido na África do Sul em 1935,criança na Zambézia,jovem incontrolável em Lisboa,insuspeitada e sólida carreira na seriíssima academia britânica onde ensinou durante 33 anos,o King’s College onde criou a cátedra de Estudos Portugueses.Reformado,agora,livre para a leitura,a música,as conversas,os amigos,a escrita. Tão Longo Amor tão Curta a Vida, acabado de publicar pela Presença, é o oitavo romance deste ficcionista tardio – o primeiro, Partes de África,publicou-o quando tinha 56 anos.Antes,tinha escrito poesia e assim treinou a mão para uma escolha exata e musical das palavras. Lido este livro,faz falta procurar outros escritos por ele porque ali estão outras pistas,na maravilha da leitura guiada por um intérprete atento e que recusa ideias feitas,sabedor como poucos mas sem se levar demasiado a sério. Feita nos dias das Correntes d’Escritas,na Póvoa de Varzim,a entrevista teve esse mesmo efeito de provocar a busca de outros livros, outros autores desta vez. Conversa calma com música em fundo sobre uma vida aventurosa e de mudanças bruscas que encontrou poiso na rua de Londres onde Freud viveu. A casa dele e de S.,a mulher extraordinária a quem dedica todos os livros,é feita de recordações,forrada de quadros de amigos: João Vieira,Paula Rego,Menez,Bartolomeu Cid dos Santos,um convívio encantador e a provocar descobertas e perguntas.É num sótão que se recolhe para escrever,ilha rodeada de livros por todos os lados onde a música chega para fazer companhia.

Entrevista de ANA SOUSA DIAS

Fotografia de PEDRO LOUREIRO

Comecemos pelo título do livro, que vem do soneto do Camões «Sete anos de pastor Jacob servia». É um soneto de uma bela ironia...

a coisa feminina. É uma poema de alta propaganda da sua virilidade.Traduzindo isto em linguagem corrente, é obsceno em extremo e, assim, é lindo.
Usa aí a palavra «obscenidade» sem uma carga negativa?

... porque ele fica com as duas...
... com as duas irmãs, a Raquel e a Lia, numa síntese divertida. Mas este não é o Camões épico d’Os Lusíadas. O título também é irónico?

O soneto tem uma ironia muito camoniana. O Camões é o malandro maior da literatura portuguesa. Basta ler aquilo que até há pouco tempo – e eu escrevi bastante sobre isso – as pessoas rejeitavam como sendo o Camões que não interessa, as Cartas que são de uma hilariante obscenidade e perfeitamente extraordinárias. A maneira como ele descreve a vida de Lisboa, com uma crítica social acérrima, e não apenas quando fala da vida boémia dos prostíbulos que ele frequentava ativamente, chamando aliás às prostitutas, porque estavam à janela, as «ninfas de água doce». E muita da poesia lírica, mesmo nos sonetos mas sobretudos nas redondilhas, há poemas que, se descodificamos, são profundamente obscenos. Há um exemplo extraordinário que parece a coisa mais inocente do mundo.Orgulho-me de ter sido a primeira pessoa que entendeu o significado da redondilha: o mote é «Quem disser que a barca pende, dir-lhe-ei, mana, que mente». E as voltas – «esta barca é de carreira, tem seus aparelhos novos,boa de leme e veleira». Quando descodificamos, a barca é fálica e a água é

Num poema feito por ele, é uma obscenidade radiosa e nada negativa.Traduzido em linguagem de rua, aí os pudicos e as pudicas ofendiam-se muito.Assim,dizem «cena misteriosa à beira de um rio». São aqueles exegetas tradicionais do Camões, aqueles que podem não entender que possa ser irónico que depois de servir sete anos ele fica com uma e depois quer a outra também.
Usa citações dos clássicos portugueses em muitas epígrafes nos seus livros. O Bernardim Ribeiro, por exemplo. Porquê?

Esse é um melancólico e escreveu o primeiro grande romance de língua portuguesa em voz feminina, Menina e Moça. É um livro mágico, maravilhoso, um livro de entrada na morte da mulher amada. Ele transfigura a morte da mulher amada pondo o equivalente dela a falar para ele, ou a falar para o mundo. E ele torna-se com o anagrama «Binmarder», de Bernardim, personagem de um conto que teria sido contado por ela. É um livro extraordinário.Não é irónico,não.Ele é um sofrente. A minha primeira tese é que o Bernardim Ribeiro era um cristão-novo, um judeu que se converteu ao cristianismo e que depois encontrou o seu grande amor numa judia que o fez regressar tomando o seu

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perigo, perigo de vida, perigo da nação. Antes de o Pessoa ou de Sá-Carneiro falarem do eu dividido, ele falou. No poema «Entre mim mesmo e mim, não sei que se levantou que tão meu imigo sou», termina «assim me tem, assim estou». O estado de imobilização faz lembrar o Sá-Carneiro, «Pilar da ponte de tédio, que vai de mim para o outro». Eu e mim mesmo.
O Helder Macedo faz quase sempre parte do romance que escreve. Chamemos-lhe «narrador», «personagem», «autor», «espectador», seja o que for que se chama nas teorias literárias. Há um eu nos seus escritos, com dados biográficos reais, como se estivesse a brincar com isso. Mas é um falso eu, não é?

Eu faço muito isso. Nunca sou eu, na verdade. Sou e não sou.Isso é parte do gozo que a escrita me dá e,por outro lado, é uma estratégia narrativa. No Pedro e Paula, no Vícios e Virtudes, neste último livro, aparece um escritor que é claramente identificável comigo. Mora no sítio onde eu moro, conhece pessoas que eu conheço, há referências ao sítio onde eu ensino, enfim, esse tipo de coisa. E depois o que é que acontece? Há uma situação fictícia, aparece uma personagem que não existe. A partir desse momento, duas coisas podem acontecer: uma é dar uma falsa, portanto fictícia, verosimilhança à personagem que aparece e que não existe. É uma estratégia de credibilidade, se quiser. Mas a outra, mais profunda, é que torna esse eu autoral uma personagem. Porque se não aconteceu e está a contracenar com alguém que não existe, passa a não existir em termos biográficos,factuais,mas passa a existir ainda mais em termos ficcionais.
Não é sempre igual, de livro para livro, pois não?

fazemos como,literalmente,em sonhos à noite.O nosso mundo fantasmático é muitas vezes tão poderoso, se não mais, quanto o mundo real, objetivo, factual, onde nos movemos. Uma das funções que a literatura pode ter é fazer a articulação entre esse concreto, factual, circunstancial, e o fantasmático. Porque nós somos fantasmas de nós próprios também e temos de saber lidar com isso,porque senão ficamos maluquinhos ou embotados. Há uns que enlouquecem por excesso,há outros que ficam embotados e são cidadãos cumpridores, deixam de existir em termos do seu potencial. Ora uma das grandes tragédias é que nós morremos. Nós não evoluímos assim tanto. A partir de certa idade – acho que ainda não me aconteceu – as pessoas começam a decair nas suas faculdades.E não se pode sequer levar muito a sério as nossas almas, porque se deterioram, as almas deterioram-se com os corpos. É por isso que a ideia da redenção, que a pessoa gagá aos 90 anos vai ter a sua eternidade...o quê,naquele estado? É melhor não. Antes de isso acontecer, todos temos potenciais, coisas que herdamos na infância mas que depois na vida adulta perdemos.
Porque não exploramos, não desenvolvemos todas?

Esse eu autoral que coincide comigo é muito diferente de livro para livro, os comportamentos são sempre diferentes. A própria ação e as circunstâncias e as outras personagens determinam qual é aquela história. Nós, todos nós, manifestamo-nos não só no potencial daquilo que somos mas nos atos, nas ações. «Eu sou eu e as minhas circunstâncias», como dizia o Ortega y Gasset. Esse eu vai ser diferente consoante a história em que se insere. Por outro lado, há o autor que está de fora, que é quem manipula esse jogo. Num livro de que eu gosto particularmente, o Vícios e Virtudes, há uma personagem que se recusa a ser personagem e que manda um autor parvo à vida e depois também manda à vida, ainda mais gravemente, um autor que se julga esperto e que coincide com o nome do Helder Macedo. Fui eu que escrevi o livro, a Joana é minha personagem e manda-me passear.
Isso corresponde a uma atitude sua perante a vida? Está sempre a observar-se, a recriar-se?

É claro que não,isso é impossível,mas não era isso que eu estava a dizer.As crianças são o que são e aquilo que imaginam, ao mesmo tempo.Têm todas as suas possibilidades lá. E nós perdemos isso com a maioridade, sendo adultos,levando-nos a sério de mais,em termos daquilo em que nos tornamos, tendo obliterado essa simultaneidade de possibilidades. Não são as heteronímias de Pessoa, é uma questão de latências que nós devemos ou podemos manter. Uma das funções da literatura é mostrar esse mundo que é simultaneamente fantasmático e tão real como qualquer outro. É uma ficção.
As suas personagens constroem a sua história, desligam-se e fazem a sua própria vida. Mas essa estratégia literária de que fala é uma opção sua, muito intencional, pensada, uma voz muito própria. Não conseguia fazer de outra maneira, não quer fazer de outra maneira?

Não me interessa fazer de outra maneira.Talvez tenha uma voz própria. Posso falar daquilo que escrevi com uma certa racionalidade a posteriori. Quando começo um livro, genuinamente não sei o que vou escrever.
Como começa, então?

Com uma personagem numa situação determinada.
Que pode ser a personagem principal do livro ou outra?

Um pouco isso. As circunstâncias são extremamente importantes. Havendo um centro em nós, que inclusivamente pode ser forte, muito daquilo que se entende como sendo a nossa personalidade é variável, mutável. Nós funcionamos tanto em termos do que

Pode não ser. Muitas vezes aquilo que começa por ser o primeiro capítulo deixa de o ser, pode aparecer mais tarde porque sinto a necessidade de voltar atrás e criar qualquer passado para essa situação.Também depois de aparecer essa primeira vida – personagem e circunstância – eu não sei o que vai acontecer a seguir. Não é uma graça, uma boutade, mas a verdade é que se eu já

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março 2013

um grande comparativista que morreu prematuramente, tem um pequeno capítulo sobre mim como escritor, no último livro que escreveu. Uma das coisas que ele dizia,analisando um certo tipo de frase que eu tenho, é que quando o leitor chega ao fim da frase ela continua para dar outra volta. Eu não tinha pensado nisso, mas de facto é a minha maneira de pensar.
Mas o próprio Helder fala assim, as frases continuam e mudam de significado na sua conversa. Tem consciência de que está a fazê-lo ou sai naturalmente?

NÃO ME POSSO INTEGRAR em parte nenhuma. Não sou inglês, tive uma magnífica carreira universitária inglesa, dirigi instituições britânicas, mas sempre fui um outsider. Como também sou em Portugal. Eu não caibo em Portugal.
soubesse o que vai ser o livro não me interessava escrevê-lo, porque eu já sabia. É uma pesquisa de possibilidades. Aí é que entra a necessidade de uma escrita que dê as multiplicidades dos próprios acontecimentos. Isto está acontecendo mas podia estar acontecendo de outra maneira. A arte a que eu aspiro seria tanto quanto possível dar essa simultaneidade de possibilidades. Até que alguma delas possa tornar-se dominante.
Mas isso não é o que já acontece nos seus livros?

Sai-me naturalmente porque o primeiro treino de escrita foi a poesia. Eu não escrevo romances poéticos, graças a Deus e ao meu esforço. Não há nada pior do que isso, sinceramente não tenho saúde para esse tipo de coisa. Mas a escrita de poesia é, em linguagem, o que aspira a ser mais parecido com música, no sentido em que é capaz de dar simultaneidade de significações. Em ópera, especialmente, nós conseguimos ter, através da música e das vozes das personagens, sentimentos contraditórios a serem expressos pelas mesmas notas que estamos a ouvir. Só em música isso se consegue cabalmente. Há poetas extraordinários, como o Camões que mencionámos há bocado, que consegue dizer coisas desse género.Quando o Camões escreve aquele achado incrível, por exemplo: «Errei todo o discurso de meus anos.» Isto explode para todos os lados,porque é o decurso, é a fala, é o discurso poético, errar é deambular e cometer erro, quer dizer, com esta meia dúzia de palavras vai-se por aí,por aí.São raros os poetas que conseguem isso. Se há um propósito em poesia, é precisamente a possibilidade de dar a nossa complexidade de uma forma tão condensada quanto possível. Creio que quando comecei a escrever ficção transpus um bocado esse tipo de treino mas tornando-o um discurso em prosa, em que em vez de imagens e símbolos tenho personagens e situações.
Esse verso de Camões faz-me perguntar-lhe: está sempre a ajustar contas consigo mesmo, a fazer o ponto da situação, a pôr-se à prova e a expor-se. Não é demasiado?

Certo, e há uns que se disfarçam e procuram criar um tipo de persona que acham simpático ou coisa que o valha, uma certa autoternura que encontramos aliás em muita da nossa literatura e que a mim me cansa: «Que querido que eu sou.» Mesmo bons escritores de vez em quando se saem com um «tive um tio que gostava muito de mim», esse tipo de coisa.
Passam a ser o sujeito?

Sim, no fundo, a escrita passa a ser um exercício narcísico de fora para dentro.
Mas no seu caso não é?

Não, eu exponho-me.
Não tem contemplações, é impiedoso.

Acontece-me fazer isso, porque estando como estou a sondar possibilidades não há outra maneira de isso acontecer. Um crítico espanhol, o Claudio Guillén,
Revista LER

Não procuro defender-me. Não estou a querer ocultar, pelo contrário, estou a querer usar-me na medida

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do possível para dizer coisas que de outra maneira não seria capaz de dizer. É o meu discurso, a minha fala, mas através de outras possibilidades de ser que não têm nada a ver comigo. Não é por acaso que algumas das minhas personagens mais conseguidas e dominantes do que eu digo sejam femininas. Esse elemento de alteridade fascina-me.Tentar penetrar outros mundos,outras perceções. São possibilidades de ser, mas não de desejo de ser. É uma especulação de ir tão longe como possível em termos de entender processos. Como tal, não posso estar a querer ocultar-me, tenho de me usar porque é o único instrumento que tenho.
Há um momento neste último livro em que é mesmo impiedoso. A história é desencadeada por uma personagem, desenvolve a história e a certa altura a personagem aparece e diz: «Não é nada disto, ó meu amigo, que livro é este?» É o que estava a dizer: cada história tem várias possibilidades?

Sim.Este livro surgiu inesperadamente porque comecei a escrever a reportagem do que foi contado por essa personagem ao escritor que mais ou menos coincide comigo. E depois a partir daí especula-se sobre o que poderia ter acontecido. Mais ou menos cinco capítulos para a primeira parte, cinco capítulos para a outra. E depois dois últimos capítulos contraditórios. No décimo primeiro, essa personagem chega e diz: «Que porcaria, não faz sentido nenhum, não é assim que se escreve.» E no último capítulo essa personagem, não o autor enquanto personagem, fica a pensar nessa história alternativa e passa a assumi-la, mesmo no seu erro, mesmo que esteja errada. Não sei se isto surge para o leitor, há quase uma responsabilidade moral negativa no facto de essa ficção ter sido contada. Passou a influenciar a autoperceção da personagem. Ele de repente assume-se inclusivamente como equivalente ao velho que ele não é. Ele próprio o diz: não o sendo, está a ser. Com todos os termos que usa, como «necrofilia», coisas extremamente negativas. Não sei se sem essa ficção que lhe foi imposta ele teria chegado lá daquela maneira. Se há uma realidade e uma ficção, ambas fictícias como é evidente – a realidade no senhor que chega e conta a sua história, a ficção no autor que escreve sobre o que teria acontecido e que a personagem não contou – depois a perceção dessa personagem supostamente real e autobiográfica passa a ser afetada pela ficção. Deu-me um certo gozo quando vi que isso tinha acontecido.
Porque não o fez intencionalmente?

O ACORDO ORTOGRÁFICO é outra história que não vale a pena a gente meter-se nela. Já perdemos a virgindade ortográfica há muito tempo, a não ser que restaurem o «y» e o «ph», deixem ficar. Já passei por quatro na minha vida.Tanto faz.
estava certo, que fazia sentido, mas a posteriori entendi que o último capítulo, tal como acabou por ser escrito, se torna num ato de violência autoral em relação à personagem.
É quase uma vingança? «Disseste-me que eu não estava certo, vou dar cabo de ti»?

Não, nada. Inclusivamente, escrevi o último capítulo duas vezes. A primeira vez que escrevi senti que estava errado, não era assim. Os outros todos, mais lentamente ou mais rapidamente, foram fluindo. Depois desse capítulo em que a personagem ralha com o autor, a coisa continuava, não interessa como, mas estava errado. E então rescrevi. E ao fazê-lo senti que

Exatamente. Porque pegou, através da ficção, no seu ponto vulnerável fazendo correspondências através das

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mas por ser o Zola e meter-se no caso Dreyfus. Enquanto cidadão, se tem prestígio, pode interferir nas coisas.A literatura pode mudar perceções individuais dos leitores e, como tal, se muda alguma coisa é através de indivíduos que leram e que de algum modo poderão mudar.Mas não é uma intervenção direta,como se concebia nos tempos neorrealistas.
E aquela pergunta que se faz muito: o livro que mudou a sua vida, ou o livro mais importante na sua vida?

Isso é uma maneira de dizer qual é o livro que o marcou mais.Todos nós temos aqueles autores que vamos reler de vez em quando,não necessariamente os maiores autores, se não estava toda a gente a ler o Tolstói outra vez. E acho muito bem que se releia.
Quais são as suas releituras?

Stendhal e Machado de Assis.Camões o tempo todo.
E não por obrigação, por trabalho?

Não, de vez em quando, quando não sei o que fazer, abro o Camões. Mas em ficção é o Stendhal, sobretudo a Chartreuse [A Cartuxa de Parma], um livro que releio periodicamente. E o Machado de Assis, que é um imenso escritor, é dos grandes romancistas e contistas do século XIX em qualquer língua.O Dom Casmurro, As Memórias Póstumas de Brás Cubas, os contos dele que são subversivos para além de tudo quanto se pode imaginar. E consegue ter aquele tom de voz, quase ironia melancólica, espantoso. O Shakespeare, que é imenso, vejo mais no palco do que releio.
Não vive em Portugal há 50 anos e no entanto na sua literatura é muito mais visível a realidade portuguesa, até o facto político português, do que o de Inglaterra. E escreve em português. Porquê?

Escrevo em português, é a minha língua materna. Escrevo ensaios em inglês, durante 33 anos dei aulas em inglês, foi a minha língua de trabalho.
Seria possível escrever ficção ou poesia em inglês?

TENHO UM FASCÍNIO pelo feminino.
O que aliás não entendo que não possa haver.Todos nós somos filhos de mulher. As mulheres ensinaram-me tudo. Essa intimidade com o feminino é a base da minha personalidade de homem, de macho.
personagens fictícias que não têm nada a ver com ele mas que são situações de algum modo psicologicamente equivalentes – de utilização do outro, de violação do outro, de uso fantasmático de corpos.
Um escritor pode ter mesmo efeito sobre a vida real, interferir na realidade?

Nunca tentei, nunca quis, de modo que não, obviamente. E sabe porquê? Falávamos há pouco desse processo de escrita de ir tateando no escuro, a ver o que vai acontecer nesse mundo de possibilidades. Aí a língua ajuda. O meu inglês escrito é razoável e se eu fosse outro tipo de romancista poderia contar uma história em inglês, com um mínimo de eficiência. Mas não poderia explorar os interstícios da história porque para isso preciso de um tato de linguagem, de sondagem,em que não tenho de estar a pensar qual é o adjetivo. Ele surge.
A sua relação com Portugal é de alguém que está a ver de fora mas não está desligado. Como se fosse a nossa consciência crítica. Tirando aquela fase em que esteve em Portugal a seguir ao 25 de Abril e foi secretário de Estado...

... isso são cinco meses, isso não conta...
A sua infância nem sequer foi em Portugal, só aqui viveu alguns anos, porque é que Portugal é a referência?

Não, só os escritores panfletários, só o Zola pode fazer esse tipo de coisa. Não tanto em relação aos livros
Revista LER

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Pois é. A pergunta é complexa mas a resposta tem de ser um bocado mais complicada. Eu sempre fui marginal. Passei a minha primeira infância no meio da selva, numa situação perfeitamente artificial do sistema colonial português. O meu pai era um jovem administrador de circunscrição, o que significa que era a autoridade presente em territórios do tamanho do Alentejo, com um poder mais ou menos absoluto. Não havia eletricidade, não havia outros meninos brancos em volta, mas havia... eu quis um leãozinho para brincar, em vez do cão, e apareceu o leãozinho.Tudo o que era impossível no mundo dos outros, no mundo «civilizado», podia acontecer.Tudo o que era «civilização» não existia, eu não tinha conhecimento disso. No entanto, tudo era possível. E isso acontecia numa mistura estranhíssima. As minhas primeiras brincadeiras eram com os negrinhos que estavam em volta. Para mim em termos de perfeita igualdade, para eles nunca poderia ser porque eu era o filho do «rei». Vivia numa casa com torres, uma situação mágica.
Onde?

Na Zambézia, Moçambique. Alto Molokwe, Pebane, Ile, sítios remotos. Havia um bardo, um tipo perfeitamente extraordinário, um homem velho que me contava histórias, imitando rios, ventos... Isso acontecendo naquele universo que era também um universo linguístico, porque acontecia numa espécie de português com várias misturas. O meu professor primário era um negro que tinha uma pronúncia diferente da magnífica e perfeita pronúncia dos meus pais, sobretudo a minha mãe que tinha sido menina de Odivelas. Então eu ia para casa corrigir os meus pais porque o professor me tinha dito de uma maneira diferente. Eu vi eletricidade pela primeira vez aos cinco ou seis anos quando os meus pais foram a Blantyre [Malawi]. Carregava-se num botão e acontecia luz, achei aquilo tão estranho que no dia seguinte vi uma estátua,a estátua do Rhodes, e achei que, se se carrega num botão e há luz, então podia existir perfeitamente um homem de pedra.Tudo era possível, tudo era imaginável. Continuei em Moçambique, mais tarde no Sul, em Lourenço Marques como era então, até aos 12 anos. E a minha identidade era, se alguma coisa, moçambicana. Vim para Portugal onde passei a minha adolescência. É uma altura complicada, a puberdade, e tinha um sentido de perda. Os meus pais foram para a Guiné e fiquei mais ou menos sozinho acompanhado pelo meu irmão mais velho que foi muito simpático para mim mas...
Desenraizado?

boa era o reverso disso.O que é que eu ganhei em Lisboa? Marginalidade. E depois meti-me nas políticas e tive de sair de Portugal, com 22 anos. De facto, vivi muito pouco tempo em Portugal,mas esse foi também um tempo de marginalização,associado ao Café Gelo, esse tipo de coisa. Nós vivíamos à noite e não de dia, acolhíamos todos os desvalidos deste mundo, inclusive nessa altura o Mário Cesariny de Vasconcelos tinha de ir todas as semanas à polícia dizer que estava a portar-se bem. Para nós era um herói. Era toda uma atitude que nos cultivávamos que era um mundo às avessas. Há uma marginalização da marginalização da marginalização. E saí, vivo de estrangeiro rodeado por todos os lados como uma ilha, mas se eu não agarro a única coisa que tenho, que é a língua portuguesa, que é aquela onde me sinto bem, aí o mundo colapsa. Foi em Portugal que desconstruí a minha falsa identidade de infância que é mágica,mítica,uma fábula,falsa,para uma realidade que se afirmava em termos de marginalização neste contexto português. É precisamente porque coincide com marginalização que Portugal é tão importante para mim. Eu não me posso integrar em parte nenhuma. Não sou inglês,tive uma magnífica carreira universitária inglesa, dirigi instituições britânicas, não podia ter tido mais sucesso em termos universitários,mas sempre fui um outsider. Como também sou em Portugal. Eu não caibo em Portugal, não por uma questão de tamanho mas porque as pessoas não me reconhecem como tal. «Ah,você é tão inglês!»,sempre me disseram isso,mesmo antes de eu nascer.Não sou.Os ingleses não acham que eu seja.
Os ingleses encaram-no como português?

Também não. Um tipo que está para aí e que fala bem mas com sotaque e que dá aulas. Em termos institucionais estou perfeitamente integrado, mas aquilo que eu sou não está inteiramente de acordo com as correntes mais ou menos de interesses ou de modas ou o que for que há em Portugal. Por outro lado, tem havido um certo exercício mais ou menos constante de escrita e de intervenção através disso. Queiram ou não, eu existo.
Estava a pensar naquela frase do Fernando Pessoa que se tornou um chavão e é usada a torto e a direito: «A minha pátria é a língua portuguesa.» É isso?

Desenraizado e privado.Tornei-me um menino de rua, malcomportado, quase a chumbar todos os anos. Felizmente fui para um liceu reguila que era o Passos Manuel onde se andava à porrada, conheci isso tudo muito bem.Encontrei uma espécie de identidade compensatória. Perdi o que tinha em Moçambique, Lis-

Não é bem isso e de resto isso está sempre tão mal citado... O Pessoa, aliás o Bernardo Soares, disse isso no contexto de se insurgir contra a reforma ortográfica do tempo. Ele dizia que abolirem o «y» e o «ph» era uma difamação,uma coisa terrível que destruía a língua portuguesa. A coisa foi extrapolada. Essa frase devia aplicar-se agora, se quisessem, ao Acordo Ortográfico que aliás é outra história que não vale a pena a gente meter-se nela. Já perdemos a virgindade ortográfica há muito tempo, a não ser que restaurem o «y» e o «ph», deixem ficar.Já passei por quatro na minha vida.Tanto faz.

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Há pouco disse que isso tem que ver com a alteridade, o outro sendo neste caso o outro sexo. Mas o outro pode ser do mesmo sexo. Há da sua parte um fascínio pelas mulheres?

Sem dúvida, tenho um fascínio pelo feminino. O que aliás não entendo que não possa haver.Todos nós somos filhos de mulher,nós homens,vocês mulheres.As mulheres ensinaram-me tudo: a falar, a fazer chichi, a andar, tudo. Eu sou filho de mulher. E depois há a figura paterna. Essa intimidade com o feminino é a base da minha personalidade de homem,de macho.
A questão dos chamados «retornados» está muito presente hoje em Portugal, e está a ser tratada ao nível da literatura. Depois de As Naus de António Lobo Antunes, há O Retorno, de Dulce Maria Cardoso...

... uma escritora de quem eu gosto muito...
... e há vários livros sobre a questão e até uma série de televisão...

... finalmente que se está a falar nesse tema...
... mas é um tema difícil e continua a sê-lo para todos os que vivemos esse tempo...

... eu também, porque em 75 estive em Lisboa mais do que em Londres...
... apesar de ter sido uma situação tão fraturante (como se diz hoje), tão trágica em muitos casos, hoje as pessoas que vieram de África fazem parte integrante da sociedade, sem fraturas nenhumas.

HÁ ÁREAS DE PROFUNDA ambiguidade. Às vezes fico um bocado inquieto quando há «angolanos» ou «moçambicanos» que há 30 anos não vivem lá. Não sei se isso é possível. Eu também podia ter um passaporte moçambicano se quisesse.
Se tenho alguma identidade,é linguística.Não é por ser uma pátria.Sou eu.Eu sonho em português.Também posso sonhar em inglês mas é uma coisa dramática.
Também sonha em inglês?

Se no sonho aparece alguém a falar em inglês, falo inglês. Mas o meu centro é a língua portuguesa.
Há bocado falou nas personagens mulheres dos seus livros, já se falou muito nisso. São figuras centrais, fortes, determinantes da ação, sobretudo.

É uma coisa que eu tenho um bocado em comum com o José Saramago mas de maneira diferente. Acho que ele mitifica mais do que eu. Não é uma mulher iniciática como as personagens dele,aliás maravilhosas.
Revista LER

Eu acho que a integração dos portugueses que vieram das colónias foi uma história de considerável sucesso. Como é que Portugal conseguiu absorver razoavelmente 10 por cento da sua população em tão curto período? É espantoso. Não houve tumultos especiais, não houve fomes exageradas, mais do que havia, quer dizer, as pessoas acabaram por se integrar bastante bem e isso foi muito pela ação dos Governos Provisórios que fizeram muito mais coisas positivas do que as pessoas retrospetivamente lhes estão a querer dar crédito. Mas há outro aspeto da questão, o problema do grande trauma dos portugueses que foram para as colónias como fator de beneficiação e que depois regressaram numa situação precária. Quando o barco chegava, esse português era automaticamente promovido dois ou três graus acima na sua classe social pelo facto de ter chegado a uma colónia e ser branco. Era um fator de «aristocratização». Lembro-me de uma história que me deixou perfeitamente arrepiado de um pateta qualquer que andava por aqui aos caídos, foi para Angola e quando voltou disse: «Quando fui para lá a primeira coisa que fiz foi dar um par de chapadas nas ventas daquele negro.» Tinha direito a fazê-lo,era aceite.Uma forma de poder compensatório. Aí podemos entrar em psicologias sociais, em freudianismos transpostos e essas coisas. O camponês virava classe média nas colónias.E depois criava outra dinâmica, aliás por vezes extremamente interessante, em que também havia hierarquias entre

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os colonos, muitíssimo fechada e ao mesmo tempo aberta. Branco, negro e assimilados neste sistema português muito ambíguo e muito curioso.Essa gente perdeu esse privilégio mais ou menos artificial. O grande trauma,julgo eu,não é tanto o terem regressado ao Portugal das suas origens, mesmo que tenha sido duas ou três gerações antes,mas,sem que alguma vez o tenham dito ou pensado, terem deixado uma terra em que eles eram ocupantes.Uma terra que não era deles.
Porque no fundo sabiam que não era deles?

Não. E ainda se calhar não sabem. E muitas vezes quando encontro algumas das nostalgias dos ex-retornados, ou filhos de retornados, é que ainda não sabem que a terra não era deles. Aqui há uns anos, houve um encontro literário em Moçambique que foi um desastre total. «Pontes Lusófonas», ou coisa assim. Correu muito mal por razões que não interessam. A certa altura, eu estava na mesa e alguém para ser simpático disse: «O Helder Macedo afinal também é moçambicano.» E eu disse: «Olhe, obrigado mas não sou. A minha experiência de Moçambique é puramente colonialista. Sou filho e neto de governantes coloniais.» Ficaram assim: «O que é que este gajo está a querer dizer?» E terminei dizendo: «Talvez entendam isto melhor se citar – dá sempre jeito citar o Pessoa, dá para tudo – o poema do Álvaro de Campos que diz “Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim / Particular ou público,ou do vizinho”» [«Dobrada à moda do Porto»]. E eu acrescentei: «Descobri a certa altura que o jardim não era meu,era do vizinho.» E de facto não era. Era uma situação perfeitamente artificial. Mas há uma área de ambiguidade.Há muitas pessoas que têm o seu passado colonial, colonialista, e os seus descendentes que se identificam com esse país.Acho muitíssimo bem que funcionem e trabalhem. Mas há áreas de ambiguidade, de profunda ambiguidade. Às vezes fico um bocado inquieto quando há «angolanos» ou «moçambicanos» que há 30 anos não vivem lá. Não sei se isso é possível. Eu também poderia ter um passaporte moçambicano se quisesse.
Não lhe faria sentido?

O GRANDE TRAUMA não é tanto o terem
regressado ao Portugal das suas origens, mesmo que tenha sido duas ou três gerações antes, mas, sem que alguma vez o tenham dito ou pensado, terem deixado uma terra em que eles eram ocupantes.
Não pertence também em Portugal? Não viveria aqui? Agora pode voltar, não está a dar aulas.

Poderia, mas estou a duas horas e meia. Se quiser, e vou usar linguagem politicamente incorreta, tenho os ingleses indígenas a tratar da minha vida muito eficientemente. Deixe-os tratar, estou lá e quando me apetece venho a Portugal.
O que tem cá? Os amigos?

Nenhum.
Já disse que voltou lá, pelo menos para o tal encontro literário. Mas voltou à zona onde cresceu?

Não, a mais próxima foi uma visita à ilha de Moçambique onde devo ter estado bebé, porque o avô materno era governador daquela área e duas das minhas tias nasceram lá no palácio.
E não tem nostalgia desses tempos, desses espaços?

Sim, mas cada vez menos porque vão morrendo. Nos últimos anos têm morrido os meus melhores amigos, e isso causa-me uma profunda indignação, fazerem-me isso a mim. O Fernando Gil, o Bartolomeu Cid dos Santos, o João Vieira que era o meu melhor amigo. Não se faz. Nesse sentido, é claro que Portugal se torna mais fantasmático, está povoado de fantasmas. Mas com o passar do tempo a nossa vida fica povoada de fantasmas.
Vive bem com isso?

Não.Não é recuperável.É um tempo que teve o seu espaço, mas a pessoa também não pode ter nostalgia do mito de Perséfone.Tem uma significação,isso sim,muito profunda,é um mito pessoal.Que pode ter a ver com totalidades perdidas,nostalgias de outra ordem,mas não é uma nostalgia de uma situação social, política, histórica, é uma coisa que aconteceu de onde eu derivei.

Que remédio... Não é caso de suicídio. É uma das tais coisas que a pessoa tem de integrar e ser e funcionar com ela.
Começámos por falar do título Tão Longo Amor tão Curta a Vida. É uma história de amor, mas não é uma história de amor romântico, cheio de flores e trinados de passarinhos.

É uma história de amor ou de demanda do amor.
Continua na página 93

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CARTÃO DE LEITOR
O lápis na água
Ana Luísa Amaral pegou no copo
e verteu água lá para dentro até meio. «Alguém tem um lápis que me empreste?» Estávamos,eu e ela,na Escola Básica 2/3 de Rates,perto da Póvoa de Varzim. À nossa frente, dezenas de alunos convocados para um encontro com autores, incluído na programação das Correntes d’Escritas. De uma das filas do meio,levantou-se um rapazinho tímido, lápis na mão.Ana Luísa agradeceu,pegou no pequeno cilindro de grafite e madeira, mergulhando-o na água.«Estão a ver?», perguntou, copo levantado no ar. «Reparem na percepção que têm agora do lápis. Ele não perdeu nenhuma das suas características,mas,devido ao fenómeno físico da refracção, parece maior. Parece outra coisa, parece diferente.» Onde está o copo com água até meio e lápis,leia-se poema e seu objecto.O poema não deve reflectir a realidade,deve refractá-la. Silenciosos,atentos,os miúdos perceberam a analogia,sem necessidade de grandes explicações. «As Correntes d’Escritas são um lugar de resistência»,lembrou Jaime Rocha,no final da sexta mesa.Resistência cultural. E resiliência.Numa altura em que os cortes orçamentais se tornaram regra e em que muitos projectos são suspensos,ou ficam congelados,ou pura e simplesmente desaparecem, porque não há dinheiro, porque as autarquias deixam de apoiar, porque os subsídios se eclipsaram,é admirável ver como as Correntes se mantêm de pé,firmes,com o auditório municipal ainda mais cheio do que em edições anteriores – aliás, literalmente a rebentar pelas costuras,mesmo em sessões habitualmente menos concorridas. Como sempre, os escritores foram subindo ao palco,respondendo aos motes nunca lineares que a organização sugere, desta vez versos retirados dos livros finalistas do Prémio Casino da Póvoa, atribuído ao livro A Terceira Miséria, de Hélia Correia (Relógio d’Água). Um dos aspectos mais marcantes da edição de 2013 foi a omnipresença da crise e do seu reverso: a revolta cada vez mais generalizada contra o sufoco da austeridade. Noutras edições já se tinham ouvido referências à situação económica e política do País,mas nunca como este ano.Volta não volta,quando algum orador se referia a um certo ministro com obscuras habilitações académicas, ou fazia uma piada sobre a obrigatoriedade de pedir factura,o público logo respondia com um burburinho cúmplice,bruaá, gargalhadas.«Já faltou mais para se ouvir

JOSÉ MÁRIO SILVA

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

Nas Correntes d’Escritas,o ar do tempo não fica à porta.Entra nos debates e nos momentos de lazer.É como o poema da Ana Luísa Amaral,o lápis dentro de água,refracção à espera de quem lhe dê um novo sentido.

a “Grândola”»,dizia alguém na tarde de sexta-feira.E foi profético.Nessa mesma noite, Rui Zink precipitou o inevitável. No fim da sua intervenção,durante a qual se referiu à importância da acção cívica dos escritores e ao novo verbo que circula pelas redes sociais (grandolar; isto é,cantar a «Grândola» em sinal de protesto), lançou uma das suas provocações: «Eu não sou menos do que o ministro Relvas.Se ele,só com uma licenciatura, foi interrompido pela “Grândola”,eu,que sou doutorado, também quero ser.Vou continuar a falar durante mais três horas se vocês não me interromperem com a canção do Zeca.» O resultado foi o que se imagina.Apoteose,vozes ao alto e uma desculpável desafinação. Logo no primeiro dia, ao reagir ao prémio para A Terceira Miséria, Hélia Correia dissera que os seus poemas cantam um país (a Grécia) massacrado pelo horror económico e devem ser lidos como o grito da «cantiga de alevantar», de José Mário Branco.Alevantemo-nos, então. Grandolemos. É extraordinário ver músicas quase esquecidas renascerem de um momento para o outro como instrumento de luta e mobilização. No Hotel Axis Vermar,onde à noite os escritores, editores e jornalistas se juntam para conversas e copos,a «Grândola» teve direito a vários encores,ouviu-se ainda o «Acordai», de Fernando Lopes-Graça, e até «A Internacional».Na brincadeira, discutiu-se o que seria mais importante numa futura revolução: as palavras ou uma AK-47? Nas Correntes d’Escritas, o ar do tempo não fica à porta. Entra nos debates e nos momentos de lazer. É como o poema da Ana Luísa Amaral, o lápis dentro de água,refracção à espera de quem lhe dê um novo sentido.

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©Pedro Vieira

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HETERODOXIAS
O sexo dos anjos
Façamos um pequeno exercício.
Quem eram os escritores portugueses mais relevantes em abril de 1974? Sem grande controvérsia,podemos dizer que eram José Gomes Ferreira,Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, José Cardoso Pires e David Mourão-Ferreira. A citação é cronológica. Eram eles que a opinião pública identificava, eram eles que mexiam os cordelinhos e eram eles que cabiam na designação «escritor». Alexandre O’Neill, Herberto Helder e Ruy Belo eram grandes poetas, admirados e respeitados pelas elites cultas, mas sem peso no Meio.Todos eles,os dominantes, os tolerados (Cesariny) e os tonitruantes (Ary dos Santos),todos davam a cara. A mítica inscrição era de regra. Quando, a 21 de maio de 1965, a sede da Sociedade Portuguesa de Escritores foi destruída por energúmenos ao serviço da PIDE e da Legião Portuguesa, «indignados» com a atribuição do Grande Prémio de Novelística ao livro de contos Luuanda (1963), de Luandino Vieira,preso no Tarrafal sob a acusação de pertencer ao MPLA, a maioria silenciosa terá concluído que premiar um «terrorista» era um ato de provocação. O assalto coincidiu com a divulgação pública da atribuição do prémio. E Salazar fez vista grossa à prisão sem culpa formada (no dia 22) dos cinco membros do júri – Alexandre Pinheiro Torres,Augusto Abelaira,Fernanda Botelho, João Gaspar Simões e Manuel da Fonseca.O ministro da Educação,Inocêncio Galvão Telles,apressou-se a dissolver a SPE. O caso dividiu a opinião «esclarecida», dando origem a um protesto de escritores. O regime tinha acabado de sofrer um revés importante (Portugal não foi admitido como membro da UNESCO), ao mesmo tempo que fazia os impossíveis para controlar os danos colaterais decorrentes do assassinato de Humberto Delgado, a 13 de fevereiro daquele ano,em Villanueva del Fresno. Prova de que a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores excedia o âmbito estritamente literário,foi a preocupação de Caetano, assim que tomou posse,em dar a volta ao problema.Tentativa vã.A 3 de novembro de 1968,um domingo, recebeu em sua casa Jacinto

EDUARDO PITTA

©Pedro Vieira

O’Neill,Herberto e Ruy Belo eram grandes poetas,mas sem peso no Meio.Todos eles,os dominantes, os tolerados (Cesariny) e os tonitruantes (Ary dos Santos),todos davam a cara. A mítica inscrição era de regra.

do Prado Coelho, Joel Serrão, Álvaro Salema e João José Cochofel, aos quais disse que a SPE «nunca seria restabelecida» porque o exército e a União Nacional «não o permitiriam».José Gomes Ferreira conta a história no sexto volume do seu diário, Dias Comuns.A atitude de Caetano, que já tinha falado com Mourão-Ferreira, percebe-se à luz das movimentações de Joaquim Paço d’Arcos, ocupado a tentar pôr de pé uma associação (de escritores) «apolítica». Vem isto a propósito da aparente abulia política dos novos ficcionistas. Estou a pensar em Rui Cardoso Martins, Gonçalo M.Tavares,Afonso Cruz, Alexandre Andrade,Valter Hugo Mãe, Rui Herbon, Rui Manuel Amaral, Jacinto Lucas Pires, José Luís Peixoto, Sandro William Junqueira, João Tordo e David Machado,autores nascidos entre 1967 e 1978. Verdade que Herbon apoiou Sócrates nas legislativas de 2009 (e o resto?), e que Peixoto foi à Coreia do Norte extasiar-se com as pernas das mulheres e as colunas de mármore do metropolitano de Pyongyang, «o mais profundo do mundo». Estou a falar de escritores premiados e traduzidos, não estou a citar meninos de coro. Gostava de saber o que pensam da falácia europeia, do desemprego sem freio,do empobrecimento geral,dos direitos das minorias,do arbítrio das agências de notação financeira, do diktat da Goldman Sachs, enfim, do retrocesso que tudo isto representa.Não vem longe o dia em que hordas de desempregados vão organizar-se em milícias, como já sucede em Atenas (não é inocente que a capital grega tenha desaparecido das televisões),e nesse dia ninguém vai querer saber do sexo dos anjos para nada.

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Para quando é o Imperio Novo, Ó Mãe Iberia, para quando? De leste a oeste, vez e vezes, De norte a sul do inerte mundo, Nós, hispanhoes e portuguezes, Do ignoto fomos ao ermo fundo. Hoje, quem é o nosso povo? Qual o destino que vae avançando Fernando Pessoa (c.1920)

A IBÉRIA EM PESSOA
Jerónimo Pizarro e Pablo Javier Pérez López reúnem e fixam, num único volume, os textos de Fernando Pessoa sobre o iberismo, incluindo inéditos. Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro (Babel) é o ponto de partida nestas páginas para reflexões de Diogo Ramada Curto, Fernando Venâncio, Francisco Belard, João Carlos Barradas e Pilar del Río.

IBÉRIA, NÓS E ESPANHA
«Em Ibéria, o programa de domínio cultural dito “imperialismo” extravasa o reino lusitano, despreza partes da Europa, desdenha as colónias, centra-se no trapézio peninsular. Falam do mesmo império o prosador de Ibéria e o poeta de Mensagem? E são um só Pessoa?»
Por FRANCISCO BELARD
m livro de Pessoa,foi notícia na última rentrée. Como outros, não foi por ele entregue para publicação.É porém seu o núcleo central de Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro,ed.de Jerónimo Pizarro e Pablo Javier Pérez López,posfácios de Humberto Brito e Antonio Sáez Delgado,obra organizada e interpretada em cerca de 180 páginas (Babel,2012),fixando,com exigente aparato crítico,os textos pessoanos sobre o iberismo – em geral de 1917-1919 – e afins,a par de documentos e estudos. A questão envolve séculos de oscilações terminológicas e semânticas (Hispânia,Espanha,Ibéria,ibéricos,hispanos...) e o lugar de Portugal e outros países num quadro em que só é estável a geografia física. Labirinto que começa em Espanha e Ibéria, supostos sinónimos de diferente etimologia (uma latina, outra grega,ambas incertas na origem e no sentido) assumindo conotações várias segundo as ideologias que se apoderaram das palavras e os seus alvos políticos. Espanha (latim Hispania) começou por significar, em aceção histórico-geográfica, o território da península ibérica ou hispânica,em raras ocasiões subordinado (ou quase) ao mesmo poder: romanos, visigodos, muçulmanos – para estes, al-Ândalus – e a monarquia hispânica dos Habsburgo ou Áustrias, «Filipes» que governaram Portugal de 1580 a 1640. Só a partir do século XVIII o conceito começa a corresponder nitidamente a um Estado, Espanha. Ibéria virá de Iber, o rio Ebro. A continuidade de Portugal como realidade política desde o século XII não nos excluiu,até à época de Filipe IV,da denominação dos reinos peninsulares, «espanhóis»: Castela (e Leão), Portugal, Aragão (e Catalunha), Navarra e outros, de geometria variável. Qualquer referência nossa a «espanhóis» de datas anteriores como «os outros» peca por anacronismo, notou António José Saraiva (A Cultura em Portugal, Gradiva, e especificamente «Camões e a Espanha», em Homenaje a Camoens, Granada, 1980). Espanha não correspondia a um país. É nesse sentido que Camões é considerado «príncipe dos poetas de Espanha» ou que ainda hoje lemos que o imperador Trajano era «espanhol» (por ter nascido na península,perto da atual Sevilha).Os catalães, espanyols da «marca de Espanha» de Carlos Magno,são literalmente dos primeiros espanhóis pós-romanos. E diríamos (incorrendo em certo anacronismo) que os bascos,«autóctones»,são os espanhóis mais antigos. Mas «Castela fez a Espanha,e desfê-la» (Ortega y Gasset, España Invertebrada); apoiada na língua,acabou por ser vista como autora e dona do Estado,sendo este seu instrumento.

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«Iberia – Introducção a um Imperialismo Futuro» é um dos inéditos de

As aspirações castelhanas e portuguesas à unidade,à hegemonia ou ao equilíbrio de poderes,em regra mediante política de casamentos que garantisse união dinástica mas também pela guerra, foram falhando.Mas a aliança matrimonial entre Fernando de Aragão e Isabel de Castela (fins do século XV), ampliada pelas conquistas de Granada e de Navarra,mudou os equilíbrios.O conjunto dominado pelo país central, Castela, muito mais forte demograficamente e alargado às Américas (as Índias de Castilla) manteve a aspiração a abranger o reino português; entre nós cresceu o temor de que a união desequilibrasse gravemente a balança. Para o poder espanhol,o domínio de Portugal sob Filipe II e sucessores terá parecido um destino lógico – conquanto nos símbolos de soberania,titulação régia e administração continuassem os vários reinos (e não dois,o que torna discutível a expressão monarquia dual),sob o mesmo monarca.O título oficial de Filipe II (I de Portugal) não era «rei de Espanha».A restauração portuguesa após 1640 e a centralização espanhola após 1712 (quando a casa de Bourbon substituiu a de Habsburgo) firmaram a dualidade estatal na península,consolidando o nome de espanhóis para os súbditos da monarquia com sede em Madrid,deixando os portugueses de ser tidos como tal. As monarquias peninsulares seguiram vias divergentes,cada uma apoiada em potências extra-hispânicas (Inglaterra no caso português).No século XIX ainda houve propostas espanholas de que os nossos D. Fernando II e seu filho

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relações entre Espanha e Portugal em contexto europeu nos séculos XIX-XX v. José Medeiros Ferreira, Um Século de Problemas, 1989).Há porém outros nacionalismos,como o catalão. Ultrapassadas no final do século XX tendências anexionistas ou de iberismo político, prefere-se – já na UE – uma «perspetiva peninsular» ( Juan Carlos Jiménez Redondo, in AA.VV., La Mirada del Otro, 2001) de conhecimento mútuo em nome de afinidades culturais, a par de um «iberismo cultural» sem hegemonias. Note-se que o adjetivo ibérico(s) tem sido usado correntemente na literatura historiográfica e política em castelhano e em catalão (catalanista ou não) sem relação forçosa com o iberismo, antes no sentido de pertença à península e até articulando-a com a projeção nas Américas. Em português, presente na História da Civilização Ibérica de Oliveira Martins, é menos neutro em textos recentes. A até hoje quase ignota incursão de Pessoa no debate surge num ambiente político e cultural de declínio da noção difusa e não unívoca de Ibéria, acesa no século anterior. Iberismo sui generis (tão pessoal que é pessoano),diverge de iberismos oitocentistas e até do de Pascoaes, mas, vindo de um português sem notória influência espanhola e sensível ao messianismo lusíada,é uma construção intelectual que deseja anular o peso da matriz castelhana na Espanha moderna; «[...] se Unamuno é um dos criadores do mito castelhanista, Pessoa considera Castela como a grande inimiga de Portugal e da Ibéria,etc.» (José Luis García Martín, Fernando Pessoa, Sociedad Ilimitada, 2002). À Catalunha atribui um papel, mas com ambígua hesitação. Idealiza a Ibéria como sujeito de «imperialismo» cultural,quase sem ponderar os meios de tal plano. Crê que ela se fará contra os interesses de «Castela» – inimiga principal do projeto –,que remete para um apagamento implausível (sem falar nas objeções da França,obstáculo maior na visão pessoana,ou da Inglaterra,óbice apontado na historiografia). Pessoa revelados por Jerónimo Pizarro e Pablo Javier Pérez López. Na Ibéria destaca três nações, galaico-portuguesa, castelhana e D. Luís fossem também reis de Espanha, mas o projeto (que catalã; ela será obra de dois Estados, mas, dada a relação de forças, passa pela desintegração da monarquia regida por Castela, os britânicos temiam ou proibiam) não se consumou. Na Europa e nesta sua península,esse é o século da afirmação principal inimigo interno pela tendência a absorver países. Quanto a navegações, bem podem figurar no poema Mensados nacionalismos. É no quadro destes ou contra eles que se fala gem; na prosa do episódio iberista de Pesde iberismo. Os propósitos unionistas persoa, as colónias africanas de Portugal não dem feição dinástica, assumindo formas contam. Em contraste, na África do Noralternativas: o iberismo político (em regra Vindo de um português te há terras que a Ibéria deve dominar.No na forma de federação republicana que nos sem notória influência opúsculo Um Fernando Pessoa (1959) interassociasse à Espanha, ressalvando ou não espanhola e sensível pelara Agostinho da Silva a Mensagem, a especificidade da Catalunha e outras ao messianismo lusíada, nela vendo «a chave do Pessoa inteiro,[...] regiões) e a anexação de Portugal pela Eso sentido da sua obra» (Adolfo Casais panha. Se o primeiro procedia de ideário é uma construção Monteiro, A Poesia de Fernando Pessoa, federalista,a segunda esteve na agenda pointelectual que deseja 1999). Casais recomenda-o por não ser lítico-militar quer de monárquicos (como anular o peso da matriz mais uma de «tantas improcedentes exalsob Afonso XIII) quer das direitas falangiscastelhana na Espanha tações da Mensagem como poema “patrióta e franquista,em especial quando mudantico”» mas sim «visão para além da pátria ças de regime (Primeira República, 25 de moderna. material e estreitamente concebida»,anteAbril) ou outros acontecimentos (Repúblicipando o Império anunciado por Vieira e ca Espanhola,guerra civil,Segunda Guerra Mundial) inspiravam ânimos de alterar o mapa, em sectores em função de um destino português. Em Ibéria, o programa de militares e ideológicos para os quais Portugal tinha escassa razão domínio cultural dito «imperialismo» extravasa o reino lusitano, de ser, devendo ser chamado ao desígnio imperial,à semelhança despreza partes da Europa,desdenha as colónias,centra-se no trade outros antigos reinos.Opunham-se dois nacionalismos,o por- pézio peninsular.Falam do mesmo império o prosador de Ibéria tuguês (ante o «perigo espanhol») e o de matriz castelhana (sobre e o poeta de Mensagem? E são um só Pessoa?
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PESSOA, O IBERISMO E O PENSAMENTO IMPERIAL
«Se existe uma linha coerente no pensamento de Pessoa em relação à necessidade de respeitar as diferentes nacionalidades peninsulares, ela encontra-se na estreita ligação entre nação e regime republicano.»
Por DIOGO RAMADA CURTO

declínio no prestígio augusto da Raça.Nos judeus defende uma etnia inimiga contra a integridade precária da Grei.Nos jesuítas ataca a única organização católica que ainda lhe mete receios.No Livre-Pensamento enfraquece a disciplina católica,que é e foi sempre a melhor garantia da unidade moral da Nação.Nas lutas intestinas que ateia e alimenta é a anulação da ideia nacional que tende empenhadamente, para que mais um passo se avance no caminho que leva à Cidade-Futura,em que não haverá nem deuses nem chefes. A prova mais irrefutável dessa grande conspiração contra Portugal é justamente o assunto que aqui me trouxe.Com a esperança na queda da realeza em Espanha,a Maçonaria tem sido uma servidora Primeira de duas folhas de papel de máquina dactilografadas. desvelada da fusão ibérica.»1Foi com estas palavras de manifesto anti-iberismo que António Sardinha atacou, numa conferência sobre o iberismo têm de ser colocados numa linha que remonta de 1915 publicada no ano seguinte,a Maçonaria e a Primeira Re- a Antero e Oliveira Martins, e que se mostra contrária tanto a pública. E, para que não restassem dúvidas acerca da existência Magalhães Lima como aos integralistas. Como bem notaram dessa grande conspiração internacional promovida pela Maço- a este último respeito os editores da sua nova e talvez definitiva edição de textos sobre a Ibéria, Jerónimo naria a favor do iberismo,preparada desde Pizarro e Pablo Javier Pérez López,Pessoa o início do período liberal,citou o livro de «conhecia bem o programa e os ideais do Magalhães Lima, La fédération ibérique De forma totalmente Integralismo Lusitano»,mas «foi muito crí(Paris, 1892). De facto, a segunda metade inédita para a época, tico em relação a este agrupamento e ao do século XIX fora fértil na discussão de no âmbito das discussões nacionalismo tradicionalista professado ideias sobre a questão ibérica2. O célebre sobre o imperialismo pelos seus membros»3. Os ensaios sobre discurso de Antero do Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últia questão ibérica permaneceram inéditos. europeu,Pessoa propunha mos Três Séculos (Porto, 1871) e a História O que, no caso de Pessoa, não se afigura a necessidade de uma desda Civilização Ibérica de Oliveira Martins uma exceção.O mesmo aconteceu à quase colonização, e denunciava (Lisboa,1879) foram,sem dúvida,as duas totalidade dos seus ensaios ditos políticos. a falta de direito dos portu- À exceção de O Interregno – Defesa e Justicontribuições mais significativas destinadas a pensar a nação num quadro peficação da Ditadura Militar em Portugal gueses a terem colónias. ninsular – perspetiva que não implicava (Lisboa: Núcleo de Acção Nacional,1928) necessariamente adesão a uma unidade e de um pequeno texto sobre associações ibérica.Nos seus escritos sobre a Ibéria, iniciados em 1915 e que secretas,só a partir do final da década de 1970 começou a ser pudatam sobretudo de 1917 e 1918, Fernando Pessoa mostrou-se blicada essa parte da obra ensaística do poeta4.Não é de estranhar contrário a uma «fusão ibérica», de um ponto de vista político, que – em contraste com a figura do poeta dos heterónimos, inmas favorável a uma reflexão sobre a história e o futuro de Portu- fluenciado desde a infância pela cultura inglesa e no qual pairava gal no quadro de uma civilização ibérica.Por isso,os seus ensaios a sombra enigmática do «fantasma africano»,como bem sugeriu

«Ados seus grémios representa nada mais,nada menos,que

maçonaria é ré de lesa-pátria.Cada santificação que parte

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Alfredo Margarido, numa das suas aguarelas – sejam os ensaios políticos que melhor permitem inscrever o seu pensamento nas lutas concretas então em curso.Através da sua leitura,será possível compreender melhor até que ponto Pessoa dependeu de forma tão premente das circunstâncias ou do contexto em que escreveu, pelo menos uma parte da sua obra.Trata-se,assim,de um exercício de leitura do genial poeta que implica uma maior atenção aos condicionalismos históricos em que exerceu a sua atividade. Tudo isto, claro, em detrimento das repetidas declarações feitas pelos críticos acerca dos seus interesses filosóficos, esotéricos e proféticos promovidos por perspetivas que se justificam à custa de um suposto excecionalismo,autónomo e puro,do literário. Ora,nos seus textos de natureza política,em particular nos que dizem respeito ao iberismo,bem como nos que escreveu sobre associações secretas, Pessoa tomou posição frente às grandes clivagens do seu tempo. Afirmou-se, então: contra os integralistas, como já foi notado; contra um movimento bem mais lato, como era o «nacionalismo tradicionalista dos saudosistas pertencentes ao movimento da Renascença Portuguesa»5; e ainda contra as supostas tentativas maçónicas e internacionalistas de diluição política da soberania nacional, às quais opunha uma espécie de união federativa,limitada ao nível cultural e civilizacional.Neste ponto,Pessoa aspirava à utopia de um império cultural,considerando em 1915 que «só separados é que estamos unidos»6.Ou, numa formulação do ano seguinte, onde cria uma disjunção entre imperialismo político e nível intelectual: «para a criação da civilização ibérica é preciso rigorosa independência das nações componentes dessa civilização. É um erro crasso supor que a fusão imperialista facilita a actividade civilizacional. Antes a entrava. Veja-se como se abaixou o nível intelectual da Alemanha depois da fundação do Império»7. Leitor de Ribera i Rovira, Pessoa insistiu igualmente na diversidade de nações que compunham a Espanha, a começar pela própria Catalunha. Mas encontrou, na «índole profundamente nacionalista» da Espanha,uma característica oposta ao «feitio profundamente cosmopolita de Portugal»8. É,aliás,tentador interpretar este modo de identificar Portugal no seu cosmopolitismo com as ideias de António Sérgio e Jaime Cortesão, para quem a pátria se revelava com as mesmas características universalizantes e os portugueses se identificavam pela sua abertura à história universal.Ora,a aproximação de Pessoa a Sérgio parece ficar confirmada quando o poeta, a propósito da necessidade de um estreitamento das relações de Portugal com o Brasil, considerou que era urgente a República pôr cobro à «fermentação revolucionária» e tratar da organização económica, tal como sugeria o «snr.António Sérgio»9.Iberismo,pois,mas de carácter cultural e civilizacional, como se de um ideal utópico se tratasse; que nada tinha que ver com a submissão a uma mesma ordem política.Aliás,se existe uma linha coerente no pensamento de Pessoa em relação à necessidade de respeitar as diferentes nacionalidades peninsulares,ela encontra-se na estreita ligação entre nação e regime republicano. Isto porque – se a monarquia e o império tinham sido determinantes não só para ligar as «províncias» separadas de Espanha,onde Portugal se incluiu durante o período filipino,mas também para fazer a obra da «colonização na América espanhola» – , na futura civilização ibérica, assistir-se-ia à «abolição da monarquia»11.É,talvez,nesse programa utópico que melhor se pode ver até que ponto Pessoa, preso nas
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O MIRACULADO CONTEMPLA A IBÉRIA
Por JOÃO CARLOS BARRADAS
os anos em que fazia caminho entre boa parte da intelectualidade artística europeia a ideia de que a realidade era algo trabalhado, moldado, se não mesmo inventado, pela mente criadora, Fernando Pessoa estreava-se, em 1912, na revista Águia, profetizando o aparecimento de um «supra-Camões». As elucubrações estéticas e esotéricas de Pessoa irão a par de uma mística épica e patriótica que tem um primeiro momento alto num poema que não chegou a ver imediatamente a luz do dia devido ao fracasso da publicação do nº 3 da Orpheu na segunda metade de 1915. Com «Gládio» («E esta febre de Além, que me consome») – datado de julho de 1913, impresso 11 anos depois na Athena e posteriormente reintitulado «D. Fernando, Infante de Portugal» na Mensagem, de 1934 – Pessoa entrara já, notoriamente, pela senda de «criador de mitos» apostado numa regeneração patriótica. Ante a urgência de «criar grandes valores» e abolir «o dogma da personalidade» proclamados por Álvaro de Campos, a imensidão de gente que habita Pessoa e se faz escrita a partir da primavera de 1914 para tentar escapar à prisão da «finitude infinita» – no dizer de Eduardo Lourenço – sustentará, entre o lúdico e o paradoxal, contraditórias teses políticas, mas permanecerá fiel a uma crença radical, algo alucinatória. O culto dos heróis, marcado pela leitura juvenil de Thomas Carlyle em Durban, atinge o paroxismo quando Pessoa assume, na década de 20, que ele próprio (nascido em 1888 conforme à profecia de Bandarra) se confunde com a epifania do «Encoberto» e o advento de um «Quinto Império» – «império de cultura» e sagração d`«a universalização da cultura europeia». Para o poeta a política é sustentada por ideias e crenças que dão corpo a uma ordem social em que o poder organizativo deve caber a uma aristocracia do espírito e, por isso, poderá afirmar – em resposta a um inquérito do jornalista Augusto de Castro, em 1926 – que a renovação do grande mito nacional propiciará «Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império. Terá regressado El-Rei D. Sebastião». Os textos em que Pessoa aborda questões ibéricas revisitam estereótipos étnicos, religiosos e culturais. Por lá podem encontrar-se, como num albergue espanhol, ecos das cogitações do jesuíta Juan Franciso de Masdeu que na sua Historia crítica de España... (Madrid, 1783) asseverava: «Cada nación tiene un carácter dominante. El holandés es industrioso, el inglés sublime, el español agudo, el francés metódico, ameno el italiano e laborioso el tedesco.» Ángel Ganivet, que aceitara a separação entre Espanha e Portugal como «hecho irreformable» no seu Idearium español, publicado em 1897, um ano antes da desgraça colonial madrilena, é outro caso de uma veia essencialista que vislumbra no estoico Séneca – alegado «torero de la virtud», segundo o Nietzsche do Crepúsculo dos Ídolos, de 1889 – um vero espanhol. O essencialismo e o profetismo na definição do ser das nações são o fulcro das meditações pessoanas que têm diversos equivalentes Europa fora. O mito da Moscóvia como sucessora de Constantinopla e «Terceira Roma» desde a sua formulação, no início do século XVI, pelo monge Filofai de Pskov, perpassando por mitologias autocráticas e revolucionárias russas e suscitando incessantes polémicas entre eslavófilos e ocidentalistas, é um caso exemplar no outro extremo do continente. Nessa textura imagética o mito não será estranho ao simbolista Viatcheslav Ivanov (1866-1949) que oporá ao Ocidente uma Rússia herdeira de Bizâncio e da Grécia, filha das tribos citas, «sedenta / da liberdade / que desconheceis» (Estrelas-Guia, 1903) e irá

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vincar o poder assombroso do russo, única língua viva a preservar a tensão mítica entre Apolo e Dionísio. A estreia em Paris, em Maio de 1913, d’A Sagração da Primavera de Igor Stravinski, coreografada por Diaguilev, é, por sua vez, um sinal indelével dos tempos convulsivos que calharam em sorte a Pessoa. O vitalismo pagão do bailado é uma onda de choque – tal como quatro anos antes o Manifesto del futurismo de Filippo Marinetti («Noi vogliamo glorificare la guerra – sola igiene del mondo...) – e, neste momento, quando a guerra se faz próxima, a estetização da política e as tendências predominantes advogando absolutismos exclusivistas de classe, raça, religião e nacionalidade, inquinam certos modernismos. Algo se vai sabendo em Lisboa das polémicas vienenses sobre sexualidade e alienação e teme-se a irracionalidade das massas teorizada na Psicologia das Multidões (1895) por Gustave Le Bon. A rebelião de maio de 1915 contra o general Pimenta de Castro, provocando cerca de 200 mortos em Lisboa, foi para Pessoa mais um sinal da degradação do regime republicano e pouco faltava para rondar um bolchevismo prestes a impor-se na Rússia. O conservadorismo revolucionário alastrava, António Ferro iria viajar à volta das ditaduras e, ao longe e tarde de mais para que Pessoa o conhecesse, um Emil Cioran, levando às últimas consequências extremismos nacionalistas, acabaria por legar e repudiar um manifesto fascista, A Transfiguração da Roménia (1936), em que aspirava a uma pátria «que tenha a população da China e o destino da França». Pessoa viveu o passamento da Belle Époque, o transe da guerra e das ditaduras e, apesar de integrar uma geração formada na ressaca do Ultimato de 1890 e pelo republicanismo anticlerical, ao abordar a Ibéria ignora polémicas ancestrais. Nada lhe dizem um Oliveira Martins – que acabara defendendo a aliança de Braganças e Borbóns para salvaguardar a posição de Lisboa e Madrid no mundo e os impérios coloniais – e as velhas tendências socialistas federalistas que deram fama a Henriques Nogueira na primeira metade do século XIX. Desprezando as razões de Afonso Costa e Bernardino Machado para a entrada na guerra em março de 1916, Pessoa integra nas suas análises algumas questões conjunturais, como, por exemplo, o domínio de Marrocos, o fracasso de sete anos de ditadura de Primo de Rivera – que culminara na sua demissão em janeiro de 1930 – por não ter sido «uma personalidade proeminente» como Mussolini ou Salazar, e o risco de desagregação do Estado dominado por Castela ante a iminência da restauração republicana. Fanado um primeiro enlevo pelo saudosismo de Teixeira de Pascoaes, desenquadrado dos ritualismos da «Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira», avesso ao integralismo de António Sardinha, o conservador mitificador Pessoa queda-se solitário e, essencialmente, incompreendido e impublicado. Nestas meditações Pessoa hipostasia alegados caracteres de pátrias diversas, configura «alianças civilizacionais», aventa sínteses de almas nacionais, destaca a idiossincrasia peninsular derivada de um «fundo romano-grego-árabe semita«, afere o cunho de países criadores de civilização e das línguas imperiais, e define objetivos como o «domínio espiritual das américas ibéricas». Uma suma contradição Pessoa deixou em aberto para eventual assombro de castelhanos, galegos, catalões ou vascos. O imperialismo cultural supremo, a «hegemonia intelectual da Ibéria», implica o «Advento do Encoberto» e a assunção plena da «alma portuguesa» obriga a subsumir em si a totalidade da Ibéria. E, no entanto, é bem possível que, talvez, essa contradição pouco contasse para o Pessoa que sagrou D. Sebastião: «Que importa o areal, a morte e a desventura Se com Deus me guardei? É O que eu sonhei que eterno dura, É Esse que regressarei.» Mensagem

lutas do seu tempo, se mostra extremamente inovador. Não se trata apenas de tentar surpreender, no interior de um estilo armadilhado com tantas formas de dialética e inúmeros paradoxos,um dos lados da argumentação.Mas de verificar que Pessoa exprime uma ideia única a respeito do império. Por um momento, valerá a pena pôr entre parênteses as propaladas visões de Pessoa a respeito do Quinto Império.Elas correspondem a uma atração pelo universo do simbólico que encerrou o poeta numa suposta genealogia portuguesa do profetismo e do messianismo,recuando pelo menos a Bandarra e ao Padre António Vieira.O próprio autor incita-nos a essa mesma suspensão, ao exprimir uma forte preocupação pelos fatores de ordem material: «Urge que nos organizemos economicamente e saiamos um pouco, porque pouco seria muito para nós,do nosso sonho,não de poetas (como dizem os idiotas nas conferências),mas de mandriões»11. Porventura,mais pertinente será procurar explicar o pensamento de Pessoa sobre o império à luz do processo de expansão imperialista europeu,então em curso12. Ao passado, pertencia o imperialismo colonialista criado por portugueses e espanhóis.Portugal mais orientado para a criação de um império marítimo,«baseado nas suas descobertas que a sua situação geográfica lhe impunha»13.A Espanha,inicialmente,mais voltada para um imperialismo europeu.Filipe II, sob o domínio do qual Portugal também caiu, desenvolveu o seu imperialismo em duas direções: «imperialismo colonialista» e «imperialismo de domínio» voltado para a Europa14. Porém, argumentou Pessoa, «de todo esse imperialismo [português e espanhol] marítimo,colonial e europeu,não surgiu um imperialismo cultural»15. Cultura, repare-se, aqui tomada como sinónimo de civilização.«Qual era o conteúdo cultural da expansão portuguesa ou da expansão espanhola? Tipicamente nenhum. Havia o catolicismo,mas esse era estrangeiro e não era novo.»16 Nessa ausência cultural, encontrava o poeta «a demonstração plena de que os nossos imperialismos [português e espanhol] não representavam uma expressão perfeitamente natural,hígida,dos fins rácicos imanentes»17. Esta incapacidade demonstrada pelo passado criava as condições necessárias para conceber um programa futuro – a referida utopia de uma civilização ibérica. Mas talvez o mais importante seja dizer que se tratava de uma incapacidade que contrastava: com o imperialismo alemão com a sua correspondente cultura alemã, «inconfundível e vincada»; com o imperialismo francês,do Antigo Regime à Revolução,sempre acompanhado da difusão de uma cultura francesa; e ainda com o imperialismo inglês,com paralelo numa «nítida» cultura inglesa18. Frente a esses outros imperialismos,os impérios coloniais ibéricos eram um facto do passado. Dele, portugueses e espanhóis poder-se-iam orgulhar, mas sempre como algo que pertencia à história. Porquê? Porque, «criando um imperialismo colonial e europeu, nada conseguimos, de nosso, que não fosse apenas proveitoso para outros povos»19. Restava, por isso, que, inspirados no exemplo de Bismarck, o qual fora capaz de transformar o orgulho alemão num grande Império, fizéssemos «da noção orgulhosa do nosso antigo domínio a base para o nosso diferentíssimo domínio futuro»20.
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«A Galiza, no discurso pessoano, é tão-só um espaço a anexar para Portugal ser inteiro. Tivesse o nosso ensaísta posto o ouvido à escuta, e saberia que tinha, na intelectualidade galega, aliados de peso.»
Por FERNANDO VENÂNCIO

or muito «cultural» que o iberismo de Fernando Pessoa se listas da realidade humana acabam na caricatura.Menos comum apresente, há um momento em que se abandonam as áreas é as caricaturas embaterem tão frontalmente. Sabe-se quanto do espírito,e o dedo desce,muito fisicamente,sobre o mapa.Em o «celtismo luso-galaico» é enaltecido, irmãmente, por alguma 1918, pormenorizando um dos três «problemas ibéricos», afir- extrema-esquerda galega e pela genérica extrema-direita portuma o pensador que o Estado Português só estará completo com guesa. E ambas detestam, em comovedora consonância, o áraa «reintegração de Albuquerque e Olivença» e a «anexação da be (o «mouro») na Península, que associam a degenerescência Galiza».Ao contrário do tema oliventino,que entrou e logo saiu e imundície. Mas não é tudo ainda. A Galiza, no discurso pessoano, é tãoda história, o tópico galego vai ser crucial no pensamento pessoano. Crucial, mas irrelevante.Toda a importância da Galiza -só um espaço a anexar para Portugal ser inteiro. Em momento nenhum ela é sujeito, e ainda menos sujeito pensante.Tivesse consiste, e se esgota, em dever ser anexada. Na Ibéria de Pessoa, existem três «nacionalidades naturais»: o nosso ensaísta posto o ouvido à escuta, e saberia que tinha, na a Catalunha,Castela e o «Estado galaico-português».Não signi- intelectualidade galega, aliados de peso. O fundador da Real fica isto que sejam três as nações.Com efeito,«há só duas nações Academia Galega, Manuel Murguía, defendera já em 1889 que na Ibéria: Espanha e Portugal.A região que não é parte de uma, a Galiza e Portugal formavam, por origem, território, língua e é parte de outra. O resto é filologia». Simplesmente, enquanto sentimento, uma só «nación». Idêntica era a convicção de numea Catalunha tem potencial para seguir caminho próprio,a Gali- rosos galegos cultos, coetâneos de Pessoa, vários deles em assíza «só não tem licença para escolher a independência». O que é duo contacto com portugueses. Se algum desaforo se nos perdizer ainda muito, já que, uma vez absorvida por Portugal, será mite, diríamos que Pessoa estava a par disso, e confiava ser a anexação da Galiza favas contadas. privada de qualquer individualidade. Ela Em 1930, passados 12 anos sobre estas «fica parte do Estado a que por natureza e cogitações,Fernando Pessoa insiste: «Porraça pertence». Não, a Galiza não será seNunca se percebe o tugal é um país completamente unificaquer uma «região portuguesa». O motivo? que lucraria Portugal do, um país falando de Norte a Sul, sem «Portugal é uno.» «Somos uma nação unicom o anexar de mais dialectos, a mesma língua», enfim, um tária, homogénea.» Entenda-se: a vadia redo mesmo. Quando, em país «organicamente uno». A Espanha, gressa a casa, e não se fala mais nisso. Que «natureza» e que «raça» sejam es1931, a realidade lhe cai pelo contrário,é,«pelo menos,quatro paísas que unem a Galiza e Portugal, nunca em cima, Pessoa desfaz- ses». Com quatro línguas, portanto? Não, porque o galego baralha aqui o arranjo. o veremos esclarecido. O «Estado natural -se, soberanamente, de O galego é, acha Pessoa, «um Português galaico-português» em nenhuma circunsuma Galiza que, para não desenvolvido». tância histórica ou social aparece fundado. Esta ideia do galego como um português É um dado natural,mais precisamente raele, era já um vazio. «primitivo», por cultivar, irrompe de temcial. Mas a proposta perde,aqui,claramenpos a tempos.O próprio Murguía,defente o pé.Todas as abordagens racialistas de temática galego-portuguesa se estribam no «celtismo» que as dendo-se em 1886 de falar um «dialecto del castellano»,concedia que, duas comunidades partilhariam. Ora, para Pessoa, a Ibéria é, no a ser o galego tal coisa, o era do português. E ainda nos anos de seu todo, culturalmente «árabe». «É na proporção em que for- 1970,Manuel Rodrigues Lapa propunha para o galego uma reamos os mantenedores do espírito árabe na Europa que teremos bilitação «literária»,isto é,culta,por transfusão do nosso idioma. Continua na página 90 uma individualidade à parte.» Certo: todas as leituras essencia-

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PESSOA E A GALIZA: ANEXAR O VAZIO

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NAVEGAR NUM MESMO RUMO
Claro que outros obstáculos se interpõem para a realização de um projeto que para Pessoa seria «uma allianca llevada ao maximo: por exemplo, a estupidez orgulhosa e baratamente imperialista, estylo Philippe Segundo de estrebaria,dos hispanhoes modernos,que olham de Por PILAR DEL RÍO alto para nós, emphaticos e ignaros, do pincaro de consciencia da sua civilização onde os colhera o facto de não serem civilizados;depois,o receio «A questão é exaggeradamente simples. Devemos ser separados racial, o odio ancestral do portuguez, que a attitude quotidiana do hisem tudo o que seja problemas nacionaes, juntos em tudo o que seja pro- panhol não contribue para mudar. Só o catalão, porque “não tem nada blemas civilizacionaes. Instituições, costumes, convém que tudo isso seja a perder”,pode olhar,pelo menos,tranquillamente para a hypothese prodifferente em um, e outro, povo. Orientação perante a Europa, convém posta», hipótese que o poeta considera de difícil realização pela sua própria natureza,nada mais que por isso,quando para a vida ecoque seja em ambos a mesma.» nómica e cultural seria tão positiva uma Ibéria unida, confedeernando Pessoa, neste fragmento, parece estar a escrever rada, com o seu passado grego, romano e árabe, com a sua base para este tempo, que é, pelo que se vê, síntese de todos os criadora de civilização. Com o seu futuro. Entre os pensamentos enunciados por Fernando Pessoa chatempos que temos conhecido. Mas continuemos a ouvir Pessoa a expressar-se, entre 1915 e 1925, sobre Portugal e Espanha, ma-nos a atenção a proposta de «allianças civilizacionaes»,essas que uma entidade que poderia chamar-se «Ibéria» e que talvez fos- podem produzir-se entre os que,não sendo países iguais,tão-pouse um dos sonhos albergados no seu coração, tão múltiplo como co veem existir entre si abismos intransponíveis: Pessoa não soua sua inteligência criadora. A Ibéria impõe-se, afirmava, porque be, não podia sabê-lo, que quase um século depois, nas Nações Portugal e Espanha são países criadores de civilizações, com Unidas,e para promover o entendimento entre muçulmanos e criscontributos tão grandes que não podem perder-se no marasmo tãos, se enunciaria a «Aliança das Civilizações»,hoje quase desado tempo e que apenas navegando num mesmo rumo conse- parecida no marasmo da crise económica e moral em que nos enguirão manter-se à tona. Mas essa unidade tem inimigos inter- contramos, e no entanto tão necessária como o pão que também nos, dizia Pessoa, como o nacionalismo anti-hispânico portu- se nega quando se oculta a realidade sob o ruído estrondoso da queguês ou o imperialismo espanhol, e externos, como a antipatia da da economia especulativa. Pessoa considera que não há que ser obediente ao real,e por isso de França por essa confederação,a aliança de Portugal com a Inglaterra, o catolicismo, religião que o poeta pouco considerava, continuamos hoje a ocupar-nos do que escreveu,seja isto ingénuo e, volta a insistir Pessoa, a cultura francesa, que entende como ou esteja dotado da capacidade visionária da poesia.E insiste na ideia de Ibéria porque,separados,portuguefonte de tantos desencontros entre os poses e espanhóis teriam um sentido nacional, vos peninsulares e pela qual não pode nunca civilizacional,ou pelas suas palavras, ocultar tanto amor como um ódio de diA Ibéria impõe-se, seriam países «como qualquer Belgica ou qualfícil adjetivação. afirmava Pessoa,porque quer Suissa, mas isso não é existencia digna de A ideia de Ibéria tem outros elementos Portugal e Espanha são que a ella se aspire. Valemos mais do que isso; que,na opinião de Pessoa,impedem a unipaíses criadores de civiliza- temos direito a fazer mais que a existir». dade, como o facto de Portugal ser um país Deliciosos textos de Pessoa,que se leem unitário e a Espanha uma nação composta ções que não podem com um sorriso e com a intuição de que os por várias nacionalidades, que necessitam perder-se no marasmo do poetas,alguns deles pelo menos,como este da monarquia,«a não ser que se queira a Hestempo.Apenas navegando Pessoa, são capazes de enunciar versos ropanha desfeita nas nacionalidades que a comnum mesmo rumo consetundos e suspirar evidências tão claras como põem; aqui a republica basta,e torna-se desnea água: «para que a orientação iberica se deficessaria a monarchia, porquanto não temos guirão manter-se à tona. na e se veja, é preciso dizer-lhe o que é que ella nada a unificar, o paiz estando, por si, unifideve combater, qual o seu inimigo. Combatencado. Só é admissivel a monarchia onde não convém haver republica.Onde uma ou outra pode existir,deve existir a do-o irá creando a sua orientação».E logo se põe a falar de literatura republica,porque é o mais avançado e indisciplinador dos dois systemas», e arte,de cultura,que é a base da vida inteligente.Poetas,sim,quandiz poeticamente o poeta e mostrando,já então,que a lógica car- ta falta fazem, embora falem de elementos supostamente estratesiana não tem mandamento sobre os profundos sentimentos dos nhos, que parecem golpes na barriga do leitor.Ou na consciência de uma sociedade. sonhadores.

«Pessoa insiste na ideia de Ibéria porque,separados, portugueses e espanhóis teriam um sentido nacional,nunca civilizacional.»

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Leonardo Padura,
o mais conhecido autor cubano da atualidade, escreve sobre as mudanças na isla caimán e sobre o seu papel como escritor. Dois ensaios para ler de seguida.

Tradução de Helena Pitta

Eppur si muove

Cuba
por Leonardo Padura
Embora possa parecer que em Cuba pouco mudou,a realidade é que muitas coisas
se movem na ilha,que não as estruturas políticas fundamentais.A emergência do cuentapropismo ou trabalho por conta própria está a desenhar um novo rosto às cidades e a vida quotidiana move-se ao ritmo das reformas que colocam mais perguntas que respostas.Os debates constantes que se fazem na «intranet» cubana sobre temas como a corrupção,o racismo,a necessidade de democratização,a homofobia,a criação cultural e as suas liberdades ou o direito a migrar poderiam ser exemplos da efervescência que se respira.
mboradeumaperspetivaforâneapossaparecerqueem Cubapoucomudou,arealidadeéquemuitascoisasse movem nailha,quenãoasestruturaspolíticas fundamentais. Aemergênciado cuentapropismo ou trabalho por conta própria está a desenhar um novo rosto às cidades e a vida quotidiana move-se ao ritmo das reformas que colocam mais perguntas que respostas.Os debates constantes que se fazem na «intranet» cubana sobre temas como a corrupção,o racismo,a necessidade de democratização,a homofobia, a criação cultural e as suas liberdades ou o direito a migrar poderiam ser exemplos da efervescência que se respira. Ao longo dos últimos cinco anos,a palavra «mudança» foi perdendo a sua conotação politicamente diabólica em Cuba.Era tão terrível a simples menção (e até o sonho) de uma possibilidade de «mudanças» que, em 2002, chegou a modificar-se a Constituição para tornar patente,na lei suprema,que no país nada mudaria, pelos séculos dos séculos.Embora da perspetiva do materialismo dialético,que deveria reger a doutrina socialista cubana, a imobilidade perpétua não seja propriamente uma situação muito adequada, legislaram-se e aprovaram-se normas constitucionais que garantiam a irrevocabilidade do sistema socioeconómico estabelecido, ou seja, o socialismo, uma vez que «Cuba nunca mais voltará ao capitalismo»,conforme conclui o texto numa das suas adequações. A grave situação económica e social que desde essa altura se foi desenhando no país (acabado de sair da crise devastadora da década de 90,o eufemisticamente chamado «Período Especial em tempo de paz») vinha marcada por lastros como a falta de produtividade das empresas socialistas, a ineficiência dos sistemas de

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produção e distribuição de produtos agropecuários, a corrupção nos mais diversos níveis e frentes,o desvario da política de pleno emprego (os famosos «quadros de pessoal inflacionados»),a fuga de profissionais – particularmente professores e até médicos e engenheiros – para outras atividades mais rentáveis como a indústria turística ou a condução de táxis clandestinos (ou boteo),enfim,pela fratura da ordem económica,social e até moral. A conjunção destas problemáticas foi crescendo no país e tornou ainda mais evidente a necessidade de,sempre dentro do sistema político de partido único (o comunista),das altas esferas de decisão se começasse a exigir a introdução daquilo a que o próprio Presidente Raúl Castro,já convertido oficialmente no substituto do líder histórico doente,chamou «mudanças estruturais e conceptuais». Movimentos quase todos centrados na esfera económica, que,muito lentamente,foram dando forma ao novo rosto da vida cubana.Com proverbial cautela,mas moldando-o e tornando-o diferente.Em poucas palavras: mudando-o paulatinamente.

Os novos trabalhadores por conta própria
Embora de uma perspetiva forânea possa parecer que em Cuba poucas coisas sofreram mutações,a realidade é que,sem chegar a mexer nas estruturas políticas fundamentais,muitas foram as transformações empreendidas. E se os resultados são ainda pouco visíveis ou essenciais,isso deve-se mais à falta de profundidade até agora atingida do que a uma questão numérica.E é justamente essa falta de movimentos mais radicais e os resultados pírricos obtidos com algumas dessas mudanças que chamam a atenção para a necessidade de chegar às questões de fundo,pelo menos no que diz respeito às estruturas económicas da nação caribenha.

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Entre as diversas transformações já empreendidas e em processo de ampliação,talvez a mais notável seja a revitalização e a ampliação do trabalho por conta própria,ou seja,do emprego individual ou em pequenas empresas à margem do Estado, embora limitadas por este para que não se transformem em grandes geradoras de lucros.Trata-se,regra geral,de ofícios simples (alguns deles seculares: aguadeiros,reparadores de armações de óculos ou de guarda-chuvas,etc.) e alguns serviços,sobretudo gastronómicos. Dois elementos, entre outros,levaram à tomada de uma decisão que na prática abolia a política da «ofensiva revolucionária» de 1968; esta,num excesso de ortodoxia e desejo de controlo,eliminou quase todas as formas de produção privadas sobreviventes às grandes intervenções e nacionalizações dos primeiros anos revolucionários, colocando-as – e quase sempre destruindo-as – nas mãos do totalitário Estado socialista cubano. É verdade que em meados de 1990, quando a crise apertou até à asfixia o cinto dos cubanos,se admitiu a reabertura dessa possibilidade laboral,mas de forma tão limitada e assediada que muito poucos daqueles que nessa altura optaram por aderir conseguiram sobreviver às taxas impositivas,às fiscalizações contínuas e ao pequeno espaço comercial que lhes foi concedido para o seu desenvolvimento.É evidente que a essa solução de emergência faltou uma verdadeira vontade política capaz de encorajar o trabalho privado (que implica uma quota de independência social e económica para o indivíduo) que agora, e de acordo com os discursos oficiais, tem todo o apoio do Governo…com prévio pagamento de impostos. Os elementos em jogo neste momento foram,primeiro,a evidência finalmente reconhecida de que o Estado/Governo era incapaz de manter os postos de trabalho da quase totalidade da
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população laboral ativa,boa parte da qual,como diz e bem o cidadão comum, «fingia que trabalhava, enquanto o Governo fingia que lhe pagava», porque nem eram suficientemente produtivos ou necessários nos seus trabalhos,nem conseguiam viver com os salários oficiais,num país em que o custo de vida durante as duas últimas décadas se multiplicou por cinco, 10 e até 20 vezes – ou mais, de acordo com os produtos ou serviços – e os ordenados pouco mais do que duplicaram. Esta realidade levou os analistas económicos à grande descoberta de que cerca de um milhão de trabalhadores estatais (um quarto da força laboral ativa) eram prescindíveis.Mais: deviam ser racionalizados (despedidos),e a única maneira de encontrar uma alternativa de sobrevivência para eles era dar-lhes a opção do trabalho por conta própria ou encorajá-los ao cooperativismo.Ampliaram-se então os sectores possíveis de trabalho e flexibilizaram-se muitas proibições, embora não se tenha tido muito em conta a dificuldade que pode implicar para uma secretária de 50 anos transformar-se em doceira; para um arquiteto,transformar-se em pedreiro; para um técnico de qualquer ramo, transformar-se em vendedor de fruta com um carrinho de venda ambulante como os que hoje pululam pelas ruas de todas as cidades cubanas. O segundo fator radicava na própria falta de produtividade de muitas empresas que,mesmo hoje,correm o risco de ser desmanteladas a menos que melhorem o seu nível de eficiência,conforme determinaram os últimos documentos aprovados pelo Partido/Governo.Todo este movimento de pessoal para atividades produtivas ou de serviços não regidas pelo Estado garantiria,além disso, uma fonte de receitas notável para o país,pela simples cobrança de impostos que cada trabalhador por conta própria teria de pagar

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©Hugh Sitton/Corbis

pelo direito de exercer o seu trabalho e pelos lucros obtidos,a que acresce o pagamento de uma contribuição para a segurança social. Nesses movimentos laborais e estratégias de procura de eficiência económica empreendidos pelo Presidente Raúl Castro e a sua renovada equipa governativa,desempenhou um papel destacado o sector dramático da produção de alimentos. Como se sabe, a benéfica situação geográfica de Cuba,a fertilidade dos seus solos e até o grau de formação técnica de muitos dos seus habitantes, tornavam o país um sítio ideal para a criação de uma indústria agropecuária forte e mesmo competitiva. Mas nem na agricultura nem na pecuária,devido às estruturas políticas e organizativas estabelecidas e às proibições de comercialização da produção (entre outras causas),se concretizou essa possibilidade. Após o desmantelamento drástico de uma parte considerável da indústria açucareira,efetuado num momento em que os preços do açúcar não eram os mais apetecíveis e quando os custos de produção cubanos os tornavam definitivamente desprezíveis, ao mesmo tempo que se fechavam muitas centrais açucareiras (aliás, um verdadeiro símbolo nacional cubano), uma percentagem importante de terras de cultivo ficaram «ociosas», a juntar a outras que, nas mãos do Estado, já estavam nessa situação há décadas.Uma nova repartição dessas terras entre velhos e novos camponeses,ou entre recém-criadas cooperativas agropecuárias, foi-se desenvolvendo através do sistema de usufruto,com o objetivo de inverter uma das realidades que mais afligiam o Governo cubano: o facto de se ter de importar entre 70 a 80 por cento dos produtos alimentares consumidos no país, com a perda subsequente das sempre escassas divisas.A entrega de terras em usufruto, em quantidade crescente e por períodos que se foram alargando, não parece ter dado, no entanto, resultados muito animadores, pelo menos até ao dia de hoje. Os próprios dados oficiais revelam que, excetuando algum pequeno aumento na produção de arroz e de feijão, os restantes sectores produtivos estão em níveis inferiores aos de 2007, precisamente quando se começou a executar o plano de reformas.

denado mensal na aquisição de um litro de óleo de soja? Este é, sem dúvida,um dos grandes mistérios cubanos,a que o Governo respondeu com a confissão de que compreende que os salários sejam insuficientes para viver, mas que,enquanto os níveis de produtividade não aumentarem e não se «desinflacionarem» os quadros de pessoal,não será possível aumentar os salários e começar a equilibrar esta estranha relação…que é absolutamente normal e quotidiana num país onde ninguém morre de fome.Quem sabe se por intervenção divina – essa poderia ser uma resposta,ou não? À sobrevivência nestas condições os cubanos chamam «desenrascanço» e englobam-na no polissémico verbo «resolver». O movimento social que foi provocando a revitalização do trabalho por conta própria serviu para que uma parte da população obtivesse maiores rendimentos do seu trabalho, apesar da carestia dos insumos e dos impostos que têm de pagar.Nesta busca de horizontes de esperança, foram aparecendo os novos «empresários» (salvo seja); trata-se de cubanos que abriram bons restaurantes, hostais em casas que já pertenceram à alta burguesia

A sociedade cubana foi-se pulverizando em sectores que dependem da sua função económica ou da sua proximidade ao dinheiro,chegado por uma via ou por outra.Uma dessas vias é a consabida corrupção, contra a qual o Governo empreendeu uma guerra frontal.Mas a verdade é que,com as mudanças, o igualitarismo socialista já não funciona da mesma forma,nem por parte do Governo,nem dos cidadãos.

E como vivem os cubanos estas mudanças?
O salário médio que o Estado paga a um trabalhador ronda os 450 pesos cubanos, ou seja, cerca de 25 dólares. Mas, ao mesmo tempo, foram sendo reduzidas as ofertas subvencionadas do cabaz básico (através da caderneta de racionamento), a esmagadora maioria dos produtos aumentou de preço, tanto os que se vendem em moeda nacional como em peso cubano convertível (CUC), equivalente a uns 90 cêntimos de dólar. Em poucas palavras: o salário real é cada vez mais magro. Para a maior parte dos cidadãos do país, a medida de todas as coisas poderia ser simbolizada recorrendo a dois produtos que passaram a ser emblemáticos: o abacate e o litro de óleo de soja ou girassol. O primeiro, comercializado em moeda nacional pelos vendedores ambulantes, costuma rondar os 10 pesos. O segundo, importado de diversos países e disponibilizado nas lojas estatais onde se paga em divisas,atinge os 2,50 CUC,ou seja,uns 60 pesos cubanos ao câmbio atual. E a pergunta repete-se, repito-a, repetimo-la,sem acabarmos por encontrar todas as respostas ou as mais lógicas: como é que um trabalhador, pago a cerca de 20 pesos por dia, pode investir metade do seu salário diário num simples abacate? E como pode gastar um oitavo do seu or-

cubana (imóveis situados nos melhores bairros da cidade e que muitas vezes os seus pais ou avós receberam gratuitamente pelos seus méritos revolucionários), oficinas de reparação de diversos equipamentos, incluindo telemóveis e até iPhones que as casas matrizes já tinham dado como mortos. Os lucros obtidos por alguns destes empreendedores/empresários (na realidade, uma percentagem ínfima da população) começam a ser notáveis e,para poderem realizar o seu trabalho produtivo ou de serviços, têm hoje autorização para contratar empregados, que recebem salários muito superiores aos que,em média,são pagos pelo Estado. Será que a relação entre estes empresários e os seus trabalhadores, mesmo tratando-se de pequenos negócios, é a que tinha concebido o socialismo cubano? Ou volta a ser a velha fórmula patrão-empregado? Esta é outra dessas perguntas que circulam em Cuba sem que haja uma resposta única e convincente. Como é fácil depreender,nem todos os cubanos têm alma,habilidade ou possibilidades empresariais. Dessa realidade começa já a inferir-se a evidência de que a homogeneidade social e económica patenteada pelo sistema começa a dilatar-se e a permitir o aparecimento de camadas ou sectores que usufruem de possibilidades de consumo com as quais outros nem sonham. Ou sonharão… mas noutro sítio da geografia planetária. O fenómeno da migração é comum na América Latina há já dois séculos e foi encorajado pelas mais diversas razões, que vão

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das políticas às económicas. E no caso cubano dos tempos mais recentes, misturadas ambas as razões (e acrescentadas as sentimentais), está a viver-se um processo, em minha opinião, preocupante: o da perda de capital humano com preparação intelectual e técnica suficiente (e até alta). Enquanto os cidadãos do país esperam a chegada de uma muitas vezes anunciada reforma migratória prometida pelo Governo (e finalmente tornada pública no passado mês de outubro, com as «reservas» previstas a respeito da possibilidade de migração dos profissionais), na verdade o fluxo para o exterior de jovens com preparação cultural e técnica média e alta é um gotejar que flui antes como um riacho. Embora as leis migratórias cubanas, mesmo com as modificações recentes,coloquem diversos entraves a esse movimento, são às centenas os jovens engenheiros, informáticos, médicos, humanistas (e não nos esqueçamos dos desportistas) que preferem atravessar o mar e, mesmo em tempos de crise económica global, apostar o seu futuro na busca de um espaço de desenvolvimento pessoal e económico que, para eles, o seu próprio país não pode oferecer. Esta descapitalização de inteligência comporta, sem dúvida, uma das perdas mais custosas para um país onde as pessoas da minha geração – entre os 45 e os 65 anos – começaram a ser conhecidas como «os PA», pais abandonados… pelos filhos que saem para tentar a sorte no vasto mundo. No entanto, a própria existência dessa imigração difícil mas contínua potenciou a presença de uma alternativa económica que tem um peso indiscutível na economia familiar e nacional: o envio de remessas de divisas do exterior.Esse dinheiro enviado dos diversos pontos do Planeta pelos familiares na realidade não costuma atingir grandes valores,mas,no contexto cubano,o seu peso acaba por ser enorme,tendo em conta que se um médico ganha por mês uma média de 40 dólares pelo seu trabalho valioso,qualquer zé-ninguém pode receber uma quantia semelhante ou maior enviada por um parente e viver do dolce far niente,dedicando-se, como aqui se diz,«ao desenrascanço»…e não exatamente para o bem da ciência e da Humanidade.

ou por outra. Uma dessas vias é a consabida corrupção, contra a qual o Governo empreendeu uma guerra frontal cujos resultados mais notáveis ficamos às vezes a saber graças à cautelosa imprensa nacional.Mas a verdade é que,com as mudanças,o igualitarismo socialista já não funciona da mesma forma, nem por parte do Governo, nem por parte dos cidadãos. O processo de reformas empreendido na ilha teve um dos seus pontos mais decisivos e controversos na relação que a sociedade não conseguiu estabelecer com o universo das chamadas «novas tecnologias», sem dúvida essencial ao desenvolvimento humano e económico no mundo atual. Até agora, havia uma pesada justificação para a grande dificuldade de os cubanos acederem normalmente à internet e a todos os seus outros benefícios: a impossibilidade de o país se ligar aos cabos de transmissão de dados, uma vez que estes pertenciam,em parte ou na totalidade,a companhias norte-americanas e, pela «lei do embargo», Cuba ficar excluída da possibilidade de aceder a eles.Desta forma,as comunicações tinham (têm) de estabelecer-se através de satélite, uma

A verdade é que a internet rápida não funciona na ilha, sem que se tenha explicado porquê, e a sua inexistência não se limita a afetar as possibilidades de comunicação dos cidadãos que eventualmente, quem sabe, teriam autorização de utilizá-la, mas abarca todo um país que,se realmente quer mudar, terá de o fazer com os instrumentos das novas tecnologias.

O fim do igualitarismo
Mas enquanto se espera a chegada das reformas migratórias que normalizarão (ou não) esta peculiar relação cubana com o direito (ou não) de viajar livremente,foi-se pondo em prática nestes anos outro grupo importante de modificações na trama legal imobilista e burocrática imperante.Estas modificações vão desde a possibilidade de os cubanos poderem dispor de linha telefónica móvel, comprarem material informático (coisa que não garante que depois tenham acesso à internet) ou hospedarem-se nos hotéis (desde que paguem esses bens e serviços nos já mencionados CUC, a preços às vezes muito elevados),até à mais recente de os proprietários de automóveis fabricados depois de 1960 (!) poderem vender a outro cubano o seu veículo e,sobretudo,a de os proprietários de imóveis poderem fazer o mesmo com as suas casas,duas medidas que parecem a revogação de éditos medievais e que,no entanto, puseram a circular uma quantidade notável de dinheiro no país. Desta forma, a sociedade cubana, sem que possa falar-se de fraturas extremas ou de novas classes sociais «capitalistas»,foi-se pulverizando em sectores que dependem da sua função económica ou da sua proximidade ao dinheiro,chegado por uma via
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via mais lenta e cara, incapaz de satisfazer a procura de todos os possíveis usuários. Por isso, o acesso, tanto ao correio eletrónico como à internet, esteve limitado a pessoas devidamente autorizadas por alguma entidade oficial,ou disponível para os trabalhadores ou estudantes de determinados centros (universidades, alguns escritórios,departamentos de investigação). Mas a chegada às costas cubanas de um cabo colocado a partir da Venezuela, que multiplicaria vários milhares de vezes a velocidade e a capacidade de conexão,foi anunciada pelos meios oficiais como uma grande mudança que revolucionaria os processos de transmissão e receção de dados, imagens, sinal televisivo. O cabo,cuja chegada a Cuba foi publicitada,só deveria ser inaugurado quando fosse dado como «operativo»…coisa que,passados meses e sem que se saiba a razão,ainda não aconteceu.O cabo chegou ou não? Não funciona por dificuldades tecnológicas ou por uma decisão política?... Ou, como garante muita gente nas ruas do país, a sua colocação e funcionamento terão sofrido os embates da corrupção? Qualquer que seja a razão, a verdade é que a internet rápida não funciona na ilha,sem que se tenha explicado porquê,e a sua inexistência não se limita a afetar as possibilidades de comunicação dos cidadãos que eventualmente, quem sabe, teriam autorização de utilizá-la, mas abarca todo um país que, se realmente quer mudar, terá de o fazer com os instrumentos das novas tec-

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nologias,único caminho possível para que uma sociedade e a sua economia funcionem com os códigos globais do século XXI em que avançamos… A peculiaridade extraordinária da sociedade cubana radica na necessidade de mudanças que a aproximem do mundo em que vivemos, mas sem que esses movimentos impliquem uma possível transformação das suas esferas políticas e económicas fundamentais, como o referendaram os documentos e os discursos do partido e do Governo dos últimos anos. Mas se a política e a economia não mudaram no essencial, o tecido social pôs-se em movimento,com avanços e retrocessos,mas com uma nova perspetiva de aspirações, possibilidades, direitos exigidos pelos cidadãos, de acordo com as novas condições e realidades que se foram criando. Os debates constantes que se fazem na «intranet» cubana (a rede que fornece o serviço de correio eletrónico) sobre temas como a corrupção,o racismo,a necessidade de democratizar estruturas, a homofobia, a criação cultural e as suas liberda-

des, o direito a migrar, o ritmo das mudanças anunciadas, o impulso ao cooperativismo, o ressurgimento de relações económicas de dependência entre os indivíduos e não só com o Estado,a muito impopular Lei das Alfândegas recém-estreada, poderiam ser exemplos desta efervescência que se respira.Lamentavelmente, só uma pequena percentagem da população tem um acesso normal e fácil a esta troca de ideias. Mas até uma parte desses felizardos, e sobretudo os restantes cubanos que habitam hoje a «sempre fiel ilha de Cuba» e compram abacates a 10 pesos, tem uma perceção do que se vive na rua que, segundo a expressão cubana,«está duríssima».E fazem a si próprios perguntas para as quais muitas vezes não têm respostas.

Este artigo é uma reprodução fiel do publicado na revista Nueva Sociedad n.º 242, noviembre-diciembre de 2012 www.nuso.org

Cubano
por Leonardo Padura
Escrever sobre Cuba e sobre os cubanos é talvez a tarefa mais complexa e simultaneamente
mais satisfatória que enfrenta um escritor cubano que vive nesta Cuba do século XXI. Se alguma vez se interroga «por que sou cubano?», «por que sou um escritor cubano?» e «por que sou um escritor cubano que vive em Cuba?», também poderia substituir o «por que» por um «para que» e encontrar talvez as suas próprias respostas, quem sabe mais próximas das predestinações cósmicas, mas também do papel social que assumiu com essa vocação de fé que é a prática da literatura.

Perguntas de um escritor

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á três perguntas que faço a mim próprio com alguma frequência e, embora para outras pessoas algumas dessas interrogações possam não ter muito ou nenhum sentido, tentar encontrar uma resposta convincente para cada uma delas é um dos desafios que me deixa mais obcecado. E eu costumo ser bastante obsessivo. A primeira,e talvez na aparência a de resposta mais fácil e óbvia é: por que sou cubano? A possível facilidade com que poderia ser respondida,ou seja,sou cubano simplesmente porque nasci em

Cuba e vivi toda a minha vida em Cuba,razão pela qual sentimental, cultural e humanamente não tenho outra opção que não seja ser cubano,pode ser complicada por um certo sentimento de predestinação cósmica,de fatalidade ou capricho geográfico (a maldita circunstância de Virgílio ou da Pérola das Antilhas desde os tempos de Espanha),razões todas elas alheias à minha vontade ou capacidade de decisão.Mas a resposta até podia enrevesar-se mais se a essa condição natal ou mesmo escolhida lhe acrescentássemos os elementos do que implica uma pertença assumida para lá do que é jurídico,caindo então num território onde já incide arbítrio

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pessoal. Ora bem, se, como acontece tantas vezes, a esta simples pergunta se lhe intercala uma recorrente e utilíssima interjeição muito comum no vocabulário de um cubano,e se se situa num determinado contexto,esta pode perder toda a sua simplicidade aparente e transformar-se num desafio histórico ou filosófico.Não é isso que acontece quando, em vez de a interrogação ser «por que sou cubano?»,se pergunta «por que coño sou cubano?»... Feita e matizada esta pergunta, a sua pertinência nas minhas obsessões torna-se mais evidente, porque, sem ela e as suas possíveis respostas,que podem ser condicionadas por fatores conjunturais, me seria difícil começar a fazer a mim próprio as outras duas perguntas frequentes e evidentemente mais complicadas: por que sou um escritor cubano? E, sobretudo, uma que decalca e ao mesmo tempo amplia e modifica o sentido da anterior com uma subordinada: por que sou um escritor cubano que escreve e vive em Cuba? Se confesso que para a primeira destas duas perguntas não tenho uma resposta convincente, talvez não acreditem. Sobretudo porque muita gente, a começar por mim próprio, não costuma acreditar nestas predestinações cósmicas que já mencionei.Devo avisar apenas que nasci e cresci numa casa onde só havia nove livros – oito volumes das Seleções do Reader’s Digest e uma Bíblia –, que sou filho de um mação e de uma católica ao estilo cubano dos mais normais e correntes, que cresci num bairro chamado Mantilla onde ainda se diz «ir a Havana» quando alguém se desloca ao centro da cidade, e que até 1980 o nível escolar mais elevado obtido por alguém da minha família era o 8.º ano a que tinham chegado, a muito custo, a minha mãe e uma tia paterna. É evidente que com semelhantes antecedentes, com a agravante de durante
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os primeiros 18 anos da minha vida o que mais me interessou e aquilo a que mais tempo dediquei foi praticar,ver e pensar no basebol, e que de entre todas as obrigações académicas do ensino médio a minha disciplina favorita era a de matemática, não vejo no meu passado remoto nenhuma razão que possa indicar uma vocação, na idade em que se forjam as vocações mais profundas. Foi na Escola de Artes e Letras da Universidade de Havana, a dada altura mutilada e condenada a ser só Escola de Letras e, de repente, transfigurada em Faculdade de Filologia, que tropecei com o desejo de ser escritor,como se não pudesse deixar de o ser.O mais interessante é que cheguei a esse sítio e a esse encontro por pura causalidade socialista,pois a minha intenção de graduado pré-universitário era a de estudar jornalismo com o sonho de me tornar cronista desportivo. Mas justamente naquele ano académico não abriu a licenciatura de Jornalismo,nem a de História da Arte, para a qual mais tarde tentei passar. Face a tanta reorganização do que já estava organizado – corria o ano de 1975, o auge da institucionalização do país –, cambaleando atrás do meu sonho de escrever sobre basebol,acabei por estudar Literatura Hispano-Americana, sem imaginar que aquelas «atualizações» universitárias me poriam no caminho do que tem sido a minha vida profissional e sentimental,ou seja,toda a minha vida, porque enquanto estudava esse curso tive pela primeira vez a possibilidade de sonhar, já não com a crónica desportiva, mas com a prática da literatura e, além disso, encontrei a rapariga que me acompanha desde essa altura em cada ato da minha existência (embora tenha de admitir que às vezes o faz de muito má vontade). Por isso, ao contrário de outros pretendentes a escritores ou de escritores incipientes que começaram a levantar a cabeça na

©Sophie Bassouls/Sygma/Corbis

Romancista, guionista, jornalista e crítico literário, autor de ensaios e livros de contos, Leonardo Padura Fuentes é um dos escritores mais reconhecidos de Cuba, onde renovou o policial, género no qual, entre muitos outros livros de ficção, se destaca a série «As Quatro Estações», protagonizada pelo detetive Mario Conde. Em 2009 publicou O Homem Que Gostava de Cães, sobre Ramón Mercader, o assassino de Leon Trotsky. Os seus romances foram traduzidos para mais de 15 idiomas. Com esta intervenção abriu os dias da Semana do Autor, a 27 de novembro de 2012, na Casa das Américas em Havana.

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ilha naqueles anos finais da década de 70 e que se tornariam mais visíveis no decénio seguinte, quando começo a sentir as exigências da literatura não fazia a mais pequena ideia do universo em que pretendia entrar e onde, de facto, estava a entrar. Precisamente,naqueles anos,uma das profissões mais ingratas a que se podia aspirar em Cuba era de facto a da prática da literatura, à qual,no entanto,se entregavam com entusiasmo tantos habitantes do país que se podia ficar com a impressão de que éramos o paraíso dos escritores.Porque na Cuba de 1980 havia também, além de simples poetas,narradores e ensaístas,muitíssimos criadores «coletivos» de novo teatro,legiões de escritores policiais, de romance testemunho e de ficção científica,e milhares de participantes em oficinas de escrita, escritores voluntários e escritores aficionados, todos com os seus concursos, prémios e publicações. Curiosamente, aquela superpopulação da nossa República das Letras crescera justamente quando várias dezenas dos mais notáveis escritores cubanos,por causas,suspeitas e até simples desconfianças de origem variada, tinham passado toda uma década de marginalização e silêncio, durante a qual alguns deles encontraram a morte e o silêncio eterno.No entanto,o meu desconhecimento ou pouco conhecimento daquela história obscura não me impediu de reparar numa coisa que me pareceu alarmante: quão graves tinham sido os pecados ou deslizes desses escritores cubanos se naquele início da década de 80 eram reabilitados silenciosamente,como se o passado nunca se tivesse passado? Foi no ambiente mais benigno desses anos que me tornei – ou comecei a tornar-me – um escritor cubano que vivia em Cuba e, mais por via atmosférica do que por um processo de racionalização, fui descobrindo como devia enfrentar a literatura alguém que pretendesse ser aquilo em que me estava a transformar: um escritor cubano que vive em Cuba. Para começar, alguém com semelhante índole era um companheiro que necessariamente devia ter um trabalho a realizar (como jornalista, assessor literário, professor, funcionário), para além dos seus empenhos literários, que se faziam em horas roubadas ao descanso ou ao horário laboral; era alguém cuja aspiração máxima radicava no facto de arranjar um lugar na fila para publicar as suas obras nalguma editora da ilha, uma vez que o estrangeiro era uma noção difusa, longínqua, só acessível a figuras históricas como Alejo Carpentier e Nicolás Guillén, ou a autores tão reconhecidos como Manuel Cofiño, o escritor por excelência, em cuja pasta estavam sempre os amarrotados contratos das traduções para o russo,moldavo, romeno, usbeque, dos seus famosos, muito promovidos e reeditados romances.E um escritor cubano devia ser,além disso, um ser social com suficiente consciência de classe, do momento histórico – vivemos sempre num momento histórico – e da responsabilidade do intelectual na sociedade,para escrever só o que se supunha – ou o faziam supor – que devia escrever.Em poucas palavras: alguém capaz de manejar com discernimento a arte castrante da autocensura para evitar o enxovalho da censura. Para um pretendente a escritor cubano, os meus destinos laborais daquela década de 80 foram os melhores que hoje poderia imaginar e,se me tivesse sido possível,escolher.Para minha sorte, o meu primeiro centro de trabalho foi a revista El Caimán Barbudo quando El Caimán se tinha transformado no centro mais ativo das pequenas (ou não tão pequenas) preocupações dos jovens escritores de então. Assim, no El Caimán pude de-

Talvez o maior erro desta literatura mais livre,
ou desencantada,ou intencionalmente crítica,tenha sido a falta de uma perspetiva universal, ou seja, menos localista. A insistência em determinados mundos sociais, personagens representativos, problemáticas específicas e formas expressivas que se tornaram repetitivas, fez com que uma parte notável desta literatura encalhasse no imediato.

senvolver o meu conhecimento do mundo e das figuras da literatura cubana do momento e desenvolvi um forte sentimento de pertença geracional.Aí aprendi também que as regras do jogo estabelecidas na década de 70 para o mundo da cultura, continuavam a funcionar numa espécie de extrainning interminável e que qualquer movimento em falso podia ser considerado um balk pelos árbitros da pureza ideológica. Mais tarde, depois da minha saída bastante estrepitosa do mensário cultural (cantaram-me um balk),fui trabalhar para o vespertino Juventud Rebelde, onde se supunha que tinha de ser reeducado ideologicamente, mas onde,na realidade,me eduquei literariamente,graças ao conhecimento mais íntimo da História do meu país, às muitas horas que pude dedicar à leitura e à prática de um jornalismo que me abriria as portas de uma consciência do que ia ser a minha literatura.Mas,sobretudo,nesses anos consegui fazer um reconhecimento mais maduro das minhas expectativas, de mim próprio e da sociedade onde vivia – para o que muito me ajudou, de uma forma dolorosa mas rápida e eficiente, o ano que passei em Angola e no decurso do qual conheci não só o medo (coisa muito pessoal), mas também a verdadeira pobreza material, e as misérias e bondades dos seres humanos, manifestadas nos seus estados mais consolidados e patentes. Naquela época, embora tenha escrito muito pouco – sobretudo na etapa de Juventud Rebelde, quando fui de forma carinhosa

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e perigosa absorvido pelo trabalho jornalístico –, fui esboçando, juntamente com outros escritores da minha geração,alguns interesses literários que tinham muito a ver com as nossas próprias experiências, mas também com uma reação lógica ao que se tinha escrito em Cuba, e como se tinha escrito, nos anos anteriores, nos do terrível decénio negro.Uma consciência incipiente de que a política e a literatura deviam ter existências independentes, de que o Homem e os seus dramas podem ou devem ser o centro da criação artística,e de que olhar criticamente para o que nos rodeia era uma responsabilidade possível para o escritor, foram moldando alguns interesses coletivos e tornando-se patentes nas obras que, com maior ou menor sucesso artístico, criámos e até publicámos nesses tempos,não sem alguns sobressaltos,embora na realidade atenuados relativamente ao passado imediato. Mas (devido à feliz conjunção cósmica ou a uma simples necessidade histórico-concreta) seria a década de 90 a da minha transformação real e definitiva em escritor,evidentemente cubano e que viveria em Cuba, com o remate de chegar a ser,a partir de 1995, um escritor profissional…Seria aquela época,além disso e aliás,a da queda do Muro de Berlim,do cambalear e desmoronamento da irmã União Soviética,e a dos tempos mais álgidos do Período Especial.Se no meio daquelas catástrofes,que tiveram efeitos tão diretos como a falta (entre outras coisas) de eletricidade,comida e transporte,além da paralisação da indústria cultural e editorial do país,se no meio de tantas incertezas continuei a ser um escritor cubano que vivia em Cuba talvez se deva,sobretudo,ao facto de a primeira das perguntas que me deixam obcecado – ou seja,por que sou cubano? – ter colocado nas balanças possíveis todo o seu peso interior através de um sentido de pertença e por já ser um escritor cubano (por essa altura dificilmente podia ser outra coisa) e a minha intenção ser a de ser um escritor cubano que escrevesse sobre Cuba, com a maior liberdade e sinceridade possíveis, empenhado em refletir os conflitos (pelo menos alguns deles) da minha sociedade e assumindo os riscos inerentes a esse empenho. E, preso à minha pertença e para atingir esse objetivo literário, decidi pessoal,soberana e conscientemente ficar em Cuba e,apesar das carências e incertezas que batiam à porta de quase todos, e até dos meus próprios medos,escrever em Cuba e sobre Cuba. Foi a prática da literatura que então me salvou da loucura e do desespero para que o ambiente me atirava. Entre 1990 e 1995, enquanto desempenhava o cargo de chefe de redação de La Gaceta de Cuba e três vezes por semana fazia em bicicleta o percurso Mantilla-Vedado-Mantilla, no verão e no inverno, ao sol ou à chuva, a escrita transformou-se no meu refúgio e escrevi nesse período três romances – Um Passado Perfeito, Ventos de Quaresma e Morte em Havana –, um livro de contos, o meu longo ensaio sobre Carpentier e o real maravilhoso, três ou quatro guiões de cinema e até organizei dois livros com o meu trabalho de jornalismo dos anos anteriores e uma antologia de contos cubanos, El submarino amarillo.Graças à literatura fui a Espanha,ao México, à Colômbia,à Argentina,a Itália,aos Estados Unidos.Graças à literatura, a essas viagens e ao passaporte uruguaio de Daniel Chavarría pude comprar um computador e até uma máquina de lavar e algumas embalagens de carne de vaca picada nas lojas pagas em divisas, fechadas nessa altura para os cubanos, mas com uma frincha aberta para os escritores cubanos que viviam em Cuba e obtinham alguma moeda forte nas estadas

no estrangeiro, quando essa moeda era convenientemente trocada por uns cheques avermelhados que nos permitiam aceder àquele privilégio que, embora não incluísse computadores, nos salvava da inanição e da cadeia (quando se podia acabar aí por se andar na rua com alguns dólares no bolso).

J

á são horas de avisar que se para falar do que foi e,sobretudo,do que é,a prática da literatura em Cuba,parto de um inventário de caminhos,contingências e decisões pessoais,isto se deve à perceção de que a minha experiência individual como escritor cubano que viveu e vive na ilha,recebeu e foi recebendo ao longo de 30 anos o peso e a influência de todas as circunstâncias por que foi passando o exercício desta arte no país que,de muitas formas,condicionaram as minhas expectativas e necessidades de criador e de cidadão pertencente a uma geração muito específica de cubanos:a que nasceu na década de 50,estudou nas universidades durante o período crítico dos anos 70 e entrou na literatura insular,com uma tímida rutura,nos anos 80. A geração que,no momento da sua maturidade e eclosão possível,

O escritor cubano que vive em Cuba – onde
tem um acesso precário à internet ou não o tem – move-se como um cego pelo universo da literatura do seu tempo,na qual deve inserir-se e com a qual tem de partilhar o mercado, se conseguir chegar a abrir alguma porta dessa instância tão satanizada mas tão necessária, até para a criação e para a promoção nacional e internacional da literatura.

viu alterado o seu desenvolvimento ou evolução com a chegada do eufemisticamente chamado «Período Especial» que marcou a última década do século XX e projetou o seu espectro até ao momento presente,de hoje,de agora mesmo,a geração literária cubana que talvez com maior rancor recebeu os golpes mas também os benefícios – sim,os benefícios – desses anos e a quem o simples facto de os recordar faz com que sintam fome,calor e até o risco de sofrerem uma polineurite.Lembram-se da polineurite,não é verdade? Porque no meio daquele caos, loucura e luta pela sobrevivência pura e dura que se instaurou no país,enquanto escrevia como um louco para não enlouquecer, alguma coisa começou a mudar na situação de escritor cubano que vivia em Cuba, levada pela pressão dessa espécie cultural que,evidentemente,já não era tão abundante como nos dias de 1970 e 1980, pois publicar um livro numa editora do país se tinha transformado numa coisa excecional e muitos deixaram de o tentar, porque outros «escritores» emergidos nos anos 70 não o eram tanto e se evaporaram, e porque muitos outros escritores cubanos que viviam em Cuba trocaram a sua situação pela de escritores cubanos que viviam fora de Cuba ou, como lhes deu por chamar, por escritores da diáspora ou do exílio (uma relação, lamentavelmente desatualizada, aparece no epílogo ao Informe contra mi mismo, do querido e já desaparecido Lichi Diego, aliás, Eliseo Alberto).
Continua na página 91

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©Rene Sommer Documentary Photography

Güler
O Ístanbullu que fotografou o mundo
Um novo livro dedicado à obra de um dos maiores fotojornalistas,com prefácio do Nobel Orhan
Pamuk,acaba de ser publicado.No café que era a farmácia do seu pai,em Istambul,o arménio «orgulhosamente turco» passa em revista mais de meio século de carreira.
Texto de MARGARIDA SANTOS LOPES, em Istambul

Ara
Bósforo,transportando gentes locais e/ou turistas;o fausto de antigos edifícios da Sublime Porta e a decrepitude de casas ocupadas pela miséria; ruas estreitas e largas, onde religioso e profano se cruzam,com salões onde dervixes sufis rodopiam longas vestes brancas e outros onde jovens dançam o ventre quase despidas; vistosos consulados que foram embaixadas,museus evocativos do Im-

S

empre que olha para uma das mais famosas fotografias de Ara Güler, a do elétrico n.º 26, que ligava Edirnekap a Bahçekapi, parado num dia de neve, em 1956, à espera que o condutor de uma carroça puxada por um cavalo a retirasse dos carris,o escritor turco Orhan Pamuk visualiza a «alma de Istambul». É uma imagem onde «colidem modernidade e tradição; ideais de disciplina e autoridade com o desamparo desordenado da pobreza e inadequação tecnológica». Estas palavras do Prémio Nobel da Literatura 2006 constam do prefácio do mais recente livro (Ara Güler’s Istanbul, Thames & Hudson) dedicado ao fotojornalista que o francês Henri Cartier-Bresson levou para a agência Magnum,em 1956,e rapidamente se tornou num dos melhores do mundo.Em 184 páginas e 153 fotos a preto e branco,são evocadas as muitas vidas da capital cultural daTurquia,entre os anos 40 e 80.Uma «memória visual» que, confessa Pamuk, o faz querer escrever de novo sobre a cidade da sua infância. A luz e a penumbra das imagens do ístanbullu (natural de Istambul) Güler acompanham-nos numa terça-feira de janeiro,na subida de uma colina íngreme que conduz à Praça de Galatasaray,em Beyoglu.Aqui se «esconde» o café,antiga farmácia do pai,onde o mestre de 84 anos se senta todas as tardes,acompanhado do motorista e assistente pessoal,Fathi Aslan,de 45.Ao atravessar a Ponte de Gálata ainda vemos dezenas de pescadores sustendo linhas em azáfama e competição, para lazer e sobreviver; ferries fumegantes que deslizam pelo

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pério Otomano e galerias de arte contemporânea….Vemos, acima de tudo,os múltiplos rostos de Istambul: o que de mais importante,realça Pamuk,tem sido captado pelas quase 50 câmaras (16 são Leica) de Ara Güler. O Kafe Ara situa-se num escaninho de Beyoglu – «um lugar onde se pode observar sem ser observado», perfeito para fotojornalistas como Güler,que aqui tem o que ele, modestamente,descreve como «arquivo», três andares com «mais de dois milhões de negativos e transparências, só de Istambul».A sua casa fica em Taksin, também considerada parte do «coração europeu» da antiga Constantinopla de Bizâncio.À chegada ao café-restaurante que outros gerem como um imperdível ponto de encontro de nacionais e estrangeiros,como é que se entrevista um homem que não gosta de ser entrevistado e que entrevistou famosos como Winston Churchill, Bertrand Russell,Tennessee Williams,Alfred Hitchcock, Marc Chagall, Salvador Dalí ou Pablo Picasso? Ao fim de quatro horas de espera, ei-lo que surge, o corpo curvado e agasalhado por um casaco grosso,camisa, camisola e colete,calças de bombazine,da cor do bolo de chocolate que acrescentou fama ao café, e um barrete de lã preto tipicamente turco.Fathi encaminha-o para uma mesa onde um repórter arménio já o esperava. Dá-nos a primazia,e o modo como nos fita lembra a palavra árabe «hüzün» que Pamuk usou para descrever a sua «melancolia particular»,na autobiografia Istambul: Memórias de Uma Cidade (Presença). A maioria dos seus admiradores insiste em venerá-lo como um «artista»,mas Güler nem nos deixa comRevista LER

pletar a pergunta: «Não sou ninguém», interrompe, entre o sério e o divertido. O ferry está a partir de Kandilli no «O meu pai deu-me uma câmara, e eu Bósforo. Em julho de 1994, escrevi um poema para a primeira edição fui fotografar o mundo.Estive 33 vezes do meu livro Memories of Old Isna Índia – o paraíso da fotografia, pela tanbul e gostei muito desse poema. diversidade de cores, vinha de lá com Por isso [esta fotografia não foi in400-500 rolos; na Birmânia, no Japão, cluída no livro Ara Güler’s Istanbul], na Indonésia – sabe quantas ilhas exisrepito aqui o poema para exprimir tem aí? Mais de 160 mil e em locais reo mesmo amor do mesmo modo… motos. Uma vida inteira não seria sufiAnd... ciente para visitar uma por dia. Estive on one day or another em toda a parte, exceto no Polo Norte in a beautiful sunset, e no Polo Sul.» the boat sailed, on the Bosphorus Porque é que ele não gosta de entreof old Istanbul vistas – dar e fazer? «Tenho de gostar das pessoas ou ser amiga delas. Se eu E… mostrar entusiasmo e a outra pessoa o num dia ou noutro num lindo anoitecer, pressentir,então ela abre-se mais facilo barco navegou, no Bósforo mente. Picasso,por exemplo – foi difícil da velha Istambul aceder a ele.Encontrámo-nos em Genebra. A editora Skira pediu-me que o fotografasse [para o livro Picasso: Metamorphose et Unité], por ocasião dos seus 90 anos [em 1972].Ele não gostava de ser fotografado, mas deixou-me passar quatro dias na mansão dele, em Cannes,e tornámo-nos bons amigos.» «Já no caso de Churchill»,revela,«conheci-o no iate de Aristóteles Onassis que me convidou a ir ter com ele; fui,como fotojornalista,embora fosse amigo [do armador e milionário grego],e mais tarde,acabei por mostrar

Istambul, 1956

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Istambul» ao então ex-primeiro-ministro britânico,em 1958.» Chagall também foi um desafio: encontraram-se numa casa sem nenhum dos seus quadros: «Uma parede branca e um vaso com uma planta; tivemos de sair para o fotografar nas escadas.» Ara Güler lamenta não ter fotografado três dos seus maiores ídolos, porque «eles ensinaram-nos a olhar a vida,deram-nos uma visão»: Charlie Chaplin,Jean-Paul Sartre e Albert Einstein.Também se entristece quando se recorda de como está a «perder Istambul».E vai desfiando a amargura: «Já não há barcos como antigamente, os cavalos deixaram de ser meio de transporte; os carros obrigaram a demolição de espaços únicos que hoje são parques de estacionamento; velhas casas de madeira foram queimadas e demolidas; cemitérios e igrejas desapareceram; havia bairros com talhantes,merceeiros e ferreiros. Agora,nada é natural é só metal e cimento armado. Sem as minhas fotos, ninguém se lembraria do passado. A cidade muda, as pessoas mudam, as ideias mudam.Eu sou testemunha.» Ara Güler, venerado como «o Olho de Istambul», nasceu em 1928,em Beyogku.O seu sonho de infância era ser realizador de cinema,e ele admite que esta forma de arte e também o teatro influenciaram o modo como fotografa,sobretudo «as expressões faciais» e «os planos». Mas ele distingue-se: «Ando por aí,vejo um cenário interessante e espero que alguém apareça.Primo o botão da câmara e mostro a realidade.Isto é fotografia! É muito importante e difícil fotografar porque vamos determinar um pedaço da realidade e fixá-lo para a eternidade. No cinema,há toda uma encenação.O ator morre em palco,mas é mentira.Não tiro fotografias para as pessoas olharem e ficarem impressionadas.Fotografo o que vejo; uns são capazes de ver e outros não.» Foi com uma câmara de 35mm oferecida pelo pai que nasceu a paixão pela fotografia.Em 1948,Güler já trabalhava para pequenos jornais de Istambul,aceitando todos os serviços,por mais aborrecidos ou perigosos que fossem: recorda, por exemplo,com um sorriso amplo, quando subia aos minaretes para fazer planos gerais.«De que outro modo poderia conseguir boas imagens?» Se o jornal se queixava de que ele gastava demasiados rolos, ele pagava-os do seu próprio bolso – o bolso onde,tem admitido com candura,costumava guardar uma tesoura para «cortar os cabos dos flashes» dos colegas,quando eles chegavam primeiro do que ele aos locais da notícia. O talento de Güler foi sendo reconhecido e rapidamente o contrataram para publicações de maior relevo, como Paris Match, Stern, Time, Life, Sunday Times e Newsweek.O grande salto na carreira aconteceu no início dos anos 60,quando Henri Cartier-Bresson,«o pai do fotojornalismo moderno»,o convidou a juntar-se à Magnum.A fama não mais o abandonou.As suas fotos estão expostas por vários países,desde os EUA,no Museu de Arte Moderna (MoMA),em Nova Iorque,até França,na Biblioteca Nacional,de Paris.Em 1962 a Alemanha premiou-o com o título de «Master of Leica»

Istambul, 1956

Ochefederedaçãodarevista Hayat. disse: «Seria bom ter uma fotografiadeneveemIstambul.»Pegueina minhacâmaraedesciacolinadeSirkeci. Apanhei um elétrico, abri uma janelanastraseirasecomeceiàprocuradealgumacoisa.Penseiquetinhadehaveralgumacoisaemredor de Sultanahmet, quando reparei num homem a puxar uma carroça com um cavalo, enquanto o elétrico se aproximava. Foi assim que tirei estafotografia–talvezumadasmelhoresdaminhacoleção.Infelizmente, o negativo ficou sujo e quando o tentava limpar desintegrou-se com asoluçãodelimpeza.

(Mestre da Leica). Em 1968, o British Journal of PhotographyYear Book aclamou Güler como «um dos sete melhores fotógrafos do mundo». Apesar deste reconhecimento, nem todas as portas se abriram.Um dia,Güler contactou o editor de fotografia da National Geographic.«A primeira questão que me colocou foi: “Quanto tempo esteve na Mongólia?”Quando lhe disse 10 dias,respondeu:“Não vou aceitar a sua reportagem, nem vale a pena olhar para as fotos.”Eu reagi.“O quê? Tenho mais de 1500 imagens, escrevi uma série de artigos; não tenho hipótese?” E ele replicou: “Para se conhecer um país é preciso senti-lo, estar lá pelo menos três meses. Só publicamos esse tipo de reportagens na nossa revista.”» Num livro homónimo com prefácio do amigo e colega Nezih Tavlas, o arménio «orgulhosamente turco» desabafa: «No nosso tempo ser fotojornalista era tão importante como ser escritor. Hoje, já não é assim. O fotojornalismo está em perda.Todos são artistas livres.

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[…] O fotojornalista é alguém que vai Istambul,1957 atrás da bomba quando ela está prestes Dois marinheiros na margem, à ena explodir; corre para a morte e arrisca a trada do Corno de Ouro [estuário vida.O fotojornalista escreve a história no Bósforo], com [a mesquita de] Yeni Camii em fundo, quase obscucom a sua câmara.» recida pelo fumo dos ferries. Quem Em Lisboa,porém,quando veio para poderá adivinhar o tema da conuma sessão de fotografias no Centro de versa de ambos? Multidões pasArte Moderna da Fundação Calouste sam ao longo da velha ponte e dois Gulbenkian, em 1969, Ara Güler não pássaros sobrevoam o céu. Ainda receia confessar que fugiu da morte. que distantes, podemos ouvir o «Era uma encomenda da Skira,em Pa- zumbido da cidade, as sirenes dos ris, e eu ia acompanhado de Yves Riviè- barcos e as buzinadelas dos carros. Estes são os sons de Istambul, o re, o principal editor.Ficámos no Hotel som de um feitiço místico, que nos Ritz,e tudo parecia estar a correr bem. atrai e nela envolve; quem vive No entanto, na nossa primeira noite, nesta cidade, ouvi-la-á sempre, houve um potente tremor de terra porque estes são os seus sons. [magnitude de 7,3 na escala de Richter; causou 13 mortes]. Chovia imenso e as ruas estavam cheias de pessoas,que corriam em roupa interior e descalças.A única pessoa que não acordou e continuou a dormir foi o meu amigo Rivière, mas a primeira coisa que eu fiz foi apanhar um avião de regresso a França. Yves ficou em Lisboa – obviamente que não teve medo.»
Revista LER

Ainda antes desta confidência,Güler já se mostrava fatigado: «Ando sempre numa roda-viva, nem tenho tempo para beijar a minha mulher.» Posteriormente, por e-mail,esclareceu dúvidas através da sua amiga Fatma Artunkal, tradutora-intérprete que organizou em Portugal, em 1994, a exposição «Duas Cidades-Dois Poetas», ou «Istambul-Lisboa; Yahya Kemal-Fernando Pessoa», usando fotografias de Ara. Ele não esteve presente, mas deu a sua opinião, sem modéstia: «Deve ter sido difícil encontrar palavras que combinassem bem com as minhas fotos de Istambul, já que elas contêm a sua própria poesia.» Sobre os momentos perigosos que enfrentou durante meio século de carreira,conta um episódio: «Fui enviado para reportar a guerra entre a Eritreia e a Etiópia», conta,por intermédio de Fatma.«Colocaram-me num camião que seguiu para o deserto onde estavam os guerrilheiros.Viajámos durante a noite com helicópteros a sobrevoarem-nos a todo o momento. Quando chegámos ao acampamento dos combatentes, na manhã seguinte, as pessoas saudaram-me com tanto entusiasmo que fiquei surpreendido, e até me senti honrado, mas depois veio a hora da verdade: não estavam contentes por me verem mas porque iriam receber armas pesadas que estavam no camião que me transportou. Percebi que escapei por pouco…se os helicópteros tivessem reconhecido o camião teriam disparado e,bum! Eu não estaria aqui.» Mantendo o seu característico bom humor e aproveitando o esclarecimento das dúvidas por correio eletrónico, Ara Güler fez questão de explicar melhor a sua rotina: «Não sou madrugador. Por volta do meio-dia, o meu motorista vem buscar-me e o dia começa. Tenho tantos afazeres,desde visitar centros de impressão, assinar autógrafos, dar entrevistas na televisão… e depois, é claro, há o café onde estão sempre pessoas à minha espera para falar comigo.Gosto muito de ir ao cinema e de jantar fora nos meus restaurantes favoritos junto ao Bósforo. Quanto a não ter tempo para beijar a minha mulher, não acreditem nisso – tenho sempre tempo para beijar a minha amada maravilhosa.» Este é o homem que disse: «Eu e as minhas fotografias somos um pouco românticos. Não gosto de fotografar com luz normal, mas ao amanhecer ou ao anoitecer. Além disso, em cada imagem gosto de explicar alguma coisa – cada imagem tem de ter uma mensagem.» Nezih Tavlas, colega e amigo, contextualiza: «Apesar de todo o seu romantismo, Güler nunca se distancia do realismo, porque é um fotojornalista que escreve a história.» Orhan Pamuk conclui: «Não consigo decidir se gosto tanto da Istambul de Güler porque essas imagens reproduzem de forma tão poderosa a minha cidade ou se foi através dessas imagens que eu aprendi a olhar para Istambul e a reconhecer a sua essência.»
(A jornalista agradece a preciosa colaboração de Fatma Artunkal)

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Vladimir

Cartas marcadas
A ideia de organização narrativa como preenchimento de uma fórmula tem um vínculo formal com a paródia, e Rei, Dama, Valete (pela primeira vez em
tradução portuguesa) pode ler-se também como uma revisitação de Madame Bovary, uma intenção sinalizada no texto por várias referências semicrípticas que, como o autor-professor nos diz,«os bons leitores não deixarão de detetar».
uma carreira repleta de capricho,duplicidade e artifício, o único jogo literário que Nabokov nunca praticou foi o jogo da humildade. A decisão é louvável: na sua voz, a autodepreciação seria sempre uma pose demasiado rebuscada. Atrevia-se, de quando em vez, a ser estrategicamente modesto, mas quando elevava ao altar um dos seus raros superiores hierárquicos ( Joyce, Gógol, Proust), é uma aposta segura que os seus pés se mantinham ocupados a pisar mediocridades lá em baixo. Mesmo a mais célebre das suas declarações públicas de inadequação conseguiu contrabandear um autoelogio; quando disse «penso como um génio, escrevo como um autor prestigiado, falo como um idiota», o termo relevante é «génio». Na década de 60, no pico da maturidade artística, Nabokov escreveu uma série de prefácios para os seus romances «russos», que no rescaldo do «furacão Lolita» iam sendo traduzidos para o mercado americano. Esses prefácios são tão idiossincráticos como as suas paisagens imaginadas e encerram muitos prazeres familiares para os aficionados de longa data: remoques a tradutores e críticos; pitorescos instantâneos autobiográficos («preparando-me para gastar o generoso adiantamento [da editora] num safari de borboletas nos Pirenéus Orientais»); e as habituais caneladas a Freud («o bruxo de Viena»,o «charlatão austríaco»). O elemento preponderante no seu charme duradouro, no entanto, parece-me ser precisamente a total ausência de hesitações na autoavaliação.

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A introdução a Despair, por exemplo, assegura que o «leitor descomplexado» irá encontrar naquelas páginas «um enredo aprazível» e «muitos diálogos apelativos» – além de que «a cena final com Felix nos bosques invernais é obviamente muito divertida». No prólogo a The Eye,esclarece algumas questões estruturais e elucida as várias ramificações temáticas da obra – para o benefício de «críticos canastrões» e «leitores que mexem os lábios enquanto leem». E termina afirmando a benevolência das «forças da imaginação» que produziram um livro tão «imponente» e «intoxicante». Quem arriscar a imponência intoxicante de Rei, Dama,Valete (pela primeira vez em tradução portuguesa) é alertado ainda no alpendre para a «composição refinada e exultante» desta «fera», que o autor elege como «o mais alegre» de todos os seus livros.Estamos, portanto, em boas mãos. Devidamente reconfortado, o leitor avança para uma história que depressa se revela o que o título já insinuava: um dos habituais triângulos nabokovianos,em que a integridade geométrica é mais tarde ou mais cedo comprometida pela incompetência dos respetivos vértices. A engrenagem do romance começa a funcionar com um ímpeto mecânico: «O enorme ponteiro negro do relógio está ainda imóvel, mas prestes a executar o seu gesto de cada minuto: esse salto elástico porá todo um mundo em movimento.» É a este mundo recém-gerado – assumindo,para efeitos práticos,a forma de Berlim nos anos 20 – que chega Franz,um jovem provinciano com a cabeça povoada de aversões que se muda para a capital na esperança de que o tio lhe arranje um

Nabokov
Por ROGÉRIO CASANOVA
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emprego.O tio,Dreyer,próspero homem de negócios e proprietário de uma cadeia de armazéns, é casado com Martha,um hárpia letal e entediada,que prontamente seduz Franz atraindo-o primeiro para os prazeres do esporádico adultério,e depois para a elaboração de um plano para assassinar Dreyer,que Martha decidiu ser o único obstáculo à sua felicidade. O jogo está em marcha: rei,dama,valete.Como o prefácio,sempre uma piscadela de olho à nossa frente, adverte: «é uma intriga de um tipo,no essencial,familiar […].Só espero que os meus velhos parceiros, cheios de fullens e sequências, pensem que estou a fazer bluff.» Que tipo de bluff, exatamente, pode estar em causa neste baralho abreviado e banal? O enredo formulaico, extrapolado a partir de uma abstração esquemática,era uma óbvia predileção do autor. Laughter in the Dark,um romance posterior que recupera muitos dos mesmos elementos, começa com uma sinopse que é um enorme spoiler: «Era uma vez um homem chamado Albinus,que vivia em Berlim.Era rico,respeitável,feliz; um dia trocou a esposa por uma amante mais jovem; amou; não foi amado; e a sua vida acabou em desastre.» O narrador admite que esta é a história por inteiro e que nada mais haveria a acrescentar,caso não houvesse «lucro e prazer» no ato de efabulação.A versão resumida não seria capaz de nos dizer,por exemplo,que o «amor» em Nabokov é muitas vezes equivalente a uma imperdoável obsessão; e que o «desastre» é quase sempre autoinflingido,fruto de cegueiras localizadas e erros calamitosos. A ideia de organização narrativa como preenchimento de uma fórmula tem um vínculo formal com a paródia, e Rei, Dama,Valete pode ler-se também como uma revisitação de Madame Bovary, uma intenção sinalizada no texto por várias referências semicrípticas que, como o autor-professor nos diz, «os bons leitores não deixarão de detetar». Quando o trio de protagonistas vai à ópera no sexto capítulo, depara-se com a orquestra a «atacar uma rapsódia de árias extraídas de Lucia di Lammermoor», que um parêntesis descarado assegura ser «particularmente adequada às circunstâncias,ainda que ninguém, entre os nossos espectadores, se apercebesse do facto».(Emma e Charles Bovary também não se aperceberam.) Rei, Dama,Valete é portanto um testar das águas esquemáticas, o triângulo a adivinhar os seus ângulos e limites, e o escritor a descobrir os seus brinquedos preferidos. «Os bons leitores não deixarão de detetar» que o êxtase aliterativo com que Humbert Humbert acaricia sensualmente o nome de Lolita («a ponta da língua a fazer uma viagem de três passos pelo palato») é aqui prefigurado: «Berlim! O simples nome da metrópole ainda desconhecida,o peso surdo da sua primeira sílaba e a ligeira ressonância da segunda, bastava para o excitar da mesma maneira que o faziam os nomes românticos dos vinhos bons e das mulheres más.» E como Lolita, como Laughter in the Dark, como quase tudo o que Nabokov escreveu,também esta his-

Numa das suas famosas aulas de Literatura em Cornell, Nabokov disse um dia uma coisa curiosa (a respeito de Dickens): «Agradeçamos a teia e ignoremos a aranha.» Declaração de panteísmo estético que é característica: uma recusa intransingente de interpretações políticas, sociológicas ou biográficas de uma obra de ficção.

tória acaba em desastre – um desastre qualificado e, como seria de esperar,moralmente justificado.O narrador de Pnin (um dos seus romances mais ternos e bem comportados) diz-nos que «a avalanche que interrompe a sua marcha poucos metros antes da povoação aterrorizada não exibe apenas um comportamento pouco natural,mas também um comportamento pouco ético». Nabokov tinha ideias muito próprias sobre o impulso ético em obras de ficção, e a noção implíci-

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Vladimir Nabokov elege Rei, Dama, Valete, editado pela Relógio d’Água, com tradução de Miguel Serras Pereira, como «o mais alegre» de todos os seus livros.

ta de que a qualidade da estrutura narrativa é o único elemento pelo qual um escritor pode ser responsabilizado não deve surpreender ninguém. Mas,neste aspeto, Rei, Dama,Valete está claramente do lado do bem.Crime e castigo são judiciosamente distribuídos. Pela maneira como os personagens tratam os animais – um fiável índice moral no universo nabokoviano – o terreno é preparado com bastante antecipação: Martha é condenada quando o narrador nos informa de que a sua conduta com o seu cachorrinho de estimação se altera dependendo se está ou não na presença de terceiros (e nós,sendo terceiros,não lhe perdoamos); mas a sua crueldade já se revelara em discurso indireto livre, com uma única expressão («por sorte»...): «Antes de partir para Berlim,Dreyer oferecera-lhe um macaco que ela achara repugnante: por sorte,um jovem e belo primo… ensinara o desastrado animal a acender fósforos, que, ao fazê-lo,pegara fogo à pequena camisa que trazia vestida, acabando por ter de ser abatido.» O que acaba por impugnar definitivamente Martha e Franz – ainda que um deles tenha direito,se não a absolvição, pelo menos a pena suspensa – é o facto de as suas múltiplas aversões traduzirem uma aversão mais ampla: à vida. A câmara de horrores que é a memória de Franz é representada nos mesmos catálogos fetichistas com que o autor ergue o cenário: «lembrou-se de um cão que vomitara à entrada de um talho. Lembrou-se de uma criança, uma criança ainda trôpega, que, inclinando-se com a dificuldade própria da idade,apanhara aplicadamente do chão para a levar à boca uma coisa nojenta que parecia uma chupeta de bebé.Lembrou-se de um velho que tossia num transporte e soltara um coágulo de muco na mão do cobrador».E o pecado cardinal de Martha,suspeita-se,não é tanto o ato adúltero ou mesmo a intenção homicida,mas sim a sua negação injustificável da «presença triunfal»,da robustez e vitalidade (física e imaginativa) do marido: «Enorme,com o seu cabelo fulvo,bronzeado pelo ténis; vestido de pijamas de um amarelo brilhante,com os seus bocejos vermelhos; irradiando calor e saúde,e emitindo essa variada espécie de grunhidos que,quando se desperta ou se espreguiça, são característicos de um homem incapaz de controlar a sua grosseira realidade física,Dreyer enchia o quarto inteiro, a casa inteira, o mundo inteiro.» Martha e Franz partilham a essência de todos os vilões de Nabokov: não gostarem dos «mundos inteiros» criados por Nabokov. Mundos que incluem uma casa de banho «em cuja parede branca dormiam três mosquitos senis»; onde olheiras de fadiga são como «penumbras impuras e esverdeadas»; onde um comboio é engolido por uma plataforma: «rasgou-se uma luz de topázio sobre milhares de carris e composições de carruagens molhadas.Lenta,segura,brandamente,a imensa cavidade de ferro da estação aspirou o comboio,que se tornou no mesmo instante vagaroso e pesado, e depois, com um solavanco,redundante»; onde uma cidade é absorvida por olhos míopes: «a perspetiva não exis-

tia, as cores não tinham substância. Como um ligeiro vestido de mulher caído do cabide, a cidade cintilava e multiplicava-se em pregas fantásticas que nada prendiam, numa iridescência desencarnada,pairando instável na cerúlea atmosfera outonal». Como os excertos demonstram, este não é um mundo descrito, mas inventado. E é um mundo assombrado por outra das presenças que Nabokov patenteou, e que descreveu um dia como uma «divindade antropomórfica» camuflada de autor: o espectro extradiegético que se intromete nas competências do narrador, espalhando signos e símbolos, denunciando insuficiências de realidade.(O caso mais extremo ocorre provavelmente em Invitation to a Beheading, uma fantasmagoria política cujo desenlace mostra o Universo a ser rasgado como papel de parede para deixar fugir o protagonista.) A estabilidade do mundo de Dreyer,Martha e Franz é também sabotada por intromissões, por signos e símbolos que se repetem em estéreo: morangos, espelhos, autómatos, Montevideu. A dada altura, Martha dedica-se a uma absurda fantasia erótica («três árabes concupiscientes regateavam a seu respeito junto de um belo mercador de escravos com o torso bronzeado») que, dezenas de páginas depois, é recapitulada por um personagem menor.E isto antes de o autor e respetiva esposa – Vladimir e Vera – serem trazidos à página para uma «visita de inspeção»: «Franz teve a impressão de que estavam a falar dele, a impressão até de os ter ouvido dizer o seu nome. Incomodava-o, exasperava-o a ideia de que aquele maldito e feliz estrangeiro, que estugava o passo a caminho da praia, ao lado da sua bronzeada e adorável companheira,sabia absolutamente tudo acerca da situação em que ele próprio, Franz, se encontrava.» (No hotel na costa do Báltico onde a ação termina, um dos nomes na lista de hóspedes,apontado com júbilo por um inocente Dreyer, é «Blivdak Vinomor». É pegar nas letras e fazer as contas.) Qual é então o propósito de todos estes padrões,todas estas simetrias? A resposta correta – a resposta nabokoviana – é que o seu propósito é serem notados. Numa das suas famosas aulas de Literatura em Cornell, Nabokov disse um dia uma coisa curiosa (a respeito de Dickens): «Agradeçamos a teia e ignoremos a aranha.» Uma declaração de panteísmo estético que é característica, na medida em que recicla o mesmo entendimento da literatura que articulou em tantas outras ocasiões: uma recusa intransingente de interpretações políticas,sociológicas ou biográficas de uma obra de ficção. Mas no universo de Nabokov, o Criador faz parte da Coisa Criada.As suas ficções propõem-nos que ignoremos a pessoa do autor, mas não a figura do Autor. No ato de leitura, validamos o mundo que configuram, mas também a mente que organizou a configuração – e provámo-nos (humildemente) merecedores do prazer proporcionado.

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CUIDADOS EXTENSIVOS
A tinta da China
Foram efervescentes os anos 60-70. Deixei em 1970 o curso de Direito (Lisboa) e a AAFDL, associação legal sob a ditadura. Na minoria politizada os quadros do PCP reconheciam-se, com discrição; o partido único era a ANP. Havia já maoistas identificáveis,o heterogéneo sector católico, socialistas que em 1973 seriam do PS e alunos sem enquadramento. As relações entre as tendências eram pacíficas, às vezes amistosas. Na AAFDL havia eleições, em contraste com o regime, e liberdade de expressão na sede,à vista da polícia política. Tendo deixado o curso,o Exército reclamou a minha entrada no quartel de Mafra e depois noutros; fiquei fora do meio estudantil. Em 1972 foi assassinado, em confronto com a PIDE no ISCEF, o meu amigo José António Ribeiro Santos. Em 1974 o regime caiu.O PS surgira em 1973, o PCP crescia, o PPD nascia da ala liberal da ANP, grupos brotaram do suposto vazio.Depois do 25 de Abril estranhei o número de maoistas, fragmentados em organizações que pareciam detestar-se entre si quase como odiavam o PCP (partido «revisionista» traidor da herança bolchevique), sem que a comum veneração da China as unisse. No diário República, um jovem camarada da Revisão explicou-me pacientemente o que era cada sigla dos grupos marxistas-leninistas.Ainda hoje não domino essa ciência extinta. Em 1968-1975 a cartografia política mudara. Mesmo conhecendo parte dos actores, não percebia bem a divergência ideológica e a agressividade que originaram poucos mortos mas muitas feridas e ressentimento. Queriam «reconstruir» o Partido, cujas ideias o PCP atraiçoara. Para cada um, os outros serviam a reacção, salada russa de fascismo,social-fascismo, imperialismo,burguesia (tal como antes o PCUS acusara inimigos: desvios de direita e de esquerda, nazis, cosmopolitas, trotskistas). Nos maoistas intrigava-me que criticassem o PCP não por ser estalinista,mas por (segundo eles) ter deixado de o ser.Como receita prescreviam mais estalinismo,não menos. Estranhava certezas na adoração da China, que não conheciam. Não pareciam ler obras (nem em francês,espanhol,português) sobre a ditadura popular, só propaganda; mas críticas a Estaline, Mao ou Hoxha eram para eles propaganda capitalista, fascista, revisionista. A estranheza quanto ao estalinismo na configura-

FRANCISCO BELARD

©Pedro Vieira

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

Em 1968-1975 a cartografia política mudara.Mesmo conhecendo parte dos actores,não percebia bem a divergência ideológica e a agressividade que originaram poucos mortos mas muitas feridas e ressentimento.

ção maoista explicava-se: não lêramos os mesmos livros. Em Portugal,entre 1968 (Maio francês, invasão da Checoslováquia) e 1974, ideias e factos em publicações várias permitiam olhar para aquém de Engels, Lenine ou Mao.Também se aplicava isto ao PCP.Mais que clássicos, consumiam vulgatas de Politzer e Harnecker. Eu preferia Marx (que pouco frequentavam), Gramsci,Rosa Luxemburg («Luxemburgo» cá), suspeitos como Nizan,Camus,Mounier,Ricoeur, E.Lourenço,russos...Leituras explicam a credulidade? Ainda hoje,ex-maoistas explicam mal o fascínio chinês. Resposta-tipo: ideologia forte nos liceus, escolhia-se seita, maoismo era o contrário de burguesia. Nova causa de espanto foi o desdém da revolução de 1974; acabavam a censura e a PIDE,os partidos surgiam, e daí a clandestinidade,como na pior fase da ditadura? Centrei este relance no maoismo, que não esgota as derivações leninistas. Algum seguidismo assentou em importações francesas após a cisão sino-soviética. Em 1973 os Cahiers du Cinéma glorificavam «a China e a Albânia, bases vermelhas da revolução mundial!». Quem lia mal Mao não lia Simon Leys, sinólogo. Livros (e jornais) respondem e perguntam: Z. Seabra, Foi assim,Alêtheia, 2007; Chr. Bourseiller, Les maoïstes, Plon, 2008;M. Cardina, Margem de Certa Maneira – O Maoismo em Portugal: 1964-1974,Tinta-da-china,2011.Em 2012: L. March e A. Freire, A Esquerda Radical em Portugal e na Europa,QuidNovi; I. Pêgo (coord.), Ribeiro Santos – Homenagem (...), AAFDL; J.M. Fernandes, Era uma vez... a Revolução, Alêtheia; D.P. Aurélio, Maquiavel & Herdeiros, Temas e Debates/Círculo de Leitores.

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HISTÓRIAS & APONTAMENTOS
de suspeição e paranoia. A hipótese de Stockman ser o terceiro gémeo, o seu semelhante, a sua cópia,afinal salvo e entregue para adoção,conseguindo os êxitos que o destino lhe negou, emerge naturalmente. Mas Tordo nunca resolve o mistério, antes o adensa com uma ambiguidade que deixa sempre o leitor na dúvida, tão perdido como o homem que avança a custo numa tempestade de neve, sem ver nada à sua frente (imagem que atravessa os dois planos da narrativa). O que atormenta Hugo é um sentimento de incompletude e uma melancolia tão funda que o aproxima da loucura: «Melancolia era […] a palavra perfeita para adjetivar a sua condição, a de um sentimento de perda sem causa definida: ainda tinha família; ainda tinha a possibilidade de um futuro; ainda estava vivo; e, contudo,a cada dia que passava,agora longe do excesso e da fúria dos últimos anos, julgando que o regresso seria a resposta para a sua incapacidade de lidar com as coisas, a cada dia que passava sóbrio, começava a acreditar que algumas pessoas não eram feitas para lidar com o mundo no seu estado natural: que algumas pessoas só o conseguiam suportar distorcendo-o, nublando-o,observando-o do outro lado de um espelho.» Se na primeira parte do livro assistimos ao modo como Hugo distorce efetivamente a realidade na procura desesperada de um sentido, a segunda funciona como o reverso da história e confirma o talento ficcional de Tordo – exemplar na construção de enredos,personagens e diálogos. Amigo de Stockman, o narrador admite que nos dá de Hugo uma imagem «completamente verdadeira e completamente falsa», porque contar uma história nunca deixa de ser uma arte da manipulação. «É este o desafio de um escritor, parece-me: encontrar a verdade de um determinado ponto de vista.» Em O Ano Sabático, João Tordo soube encontrar, mostrar e esconder a verdade de Hugo e Stockman, fantasmas um do outro.

JOÃO TORDO

A MELANCOLIA DO DUPLO
JOSÉ MÁRIO SILVA

Um irmão gémeo falecido à nascença perdurou como uma espécie de fantasma que o escritor decidiu finalmente enfrentar na ficção.
o seu sexto romance, O Ano Sabático (Dom Quixote),João Tordo (n.1975) partiu de um acontecimento autobiográfico para explorar um dos temas mais persistentes na literatura ocidental: a ideia de que pode existir,algures, um outro que em tudo se nos assemelha, um reflexo perfeito das nossas características físicas,um duplo,um doppelgänger. À nascença,Tordo tinha dois irmãos gémeos, uma rapariga e um rapaz, mas só a irmã sobreviveu. O terceiro gémeo, que ninguém esperava (na época ainda não se faziam ecografias),morreu passadas umas horas e perdurou como uma espécie de fantasma que o escritor decidiu finalmente enfrentar no território da ficção. Além da história do terceiro gémeo, Hugo,o protagonista da primeira parte do romance,partilha com o autor uma paixão musical pelo contrabaixo.As semelhanças

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terminam aí, porque Hugo é um falhado aparentemente sem salvação.No Quebeque, onde viveu 13 anos,deixou-se vencer pelo desânimo,pelo alcoolismo,pela inércia e pelas dívidas que não consegue pagar a um agiota pouco paciente.Decide então, com 43 anos, voltar à pátria, oferecendo-se o intervalo de um ano sabático,sem planos, tentativa de pôr os pés na terra e,quem sabe,reequilibrar-se.Mas o regresso não lhe corre de feição. Além das relações tensas com a irmã, com o cunhado e com a mãe (só o sobrinho,Mateus,parece compreendê-lo), um acontecimento inesperado desencaminha-o de vez.Ao ouvir,no Coliseu, um pianista subitamente projetado para a fama, apesar de só ter um disco, descobre que este lhe usurpou uma melodia em que vinha trabalhando há muitos anos. Perturbado com o inexplicável «roubo», Hugo não demora a entrar numa espiral

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©Pedro Loureiro

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DA CARÉLIA À LAPÓNIA

EPOPEIA FINLANDESA
JOSÉ RIÇO DIREITINHO

A narração faz-se ao som do kantele e conta como o mundo foi criado – é isso que se espera de uma «epopeia nacional» que busca o coração do mito.
alevala (que significa «terra de Kaleva» – um herói mítico) é a única obra literária finlandesa que ganhou um lugar entre os grandes clássicos da literatura mundial. É um longo poema épico – cuja versão definitiva foi publicada em 1849 – que resulta do trabalho inspirado, paciente e apurado, de um então jovem médico rural, Elias Lönnrot (1802-1884), que durante as suas longas viagens pela região da Carélia – atualmente dividida entre a Finlândia e a Rússia – foi compilando «poesia popular». Na época, essa poesia era essencialmente cantada, sobretudo por mulheres idosas e por bardos (curiosamente, muitos eram cegos,como o era Homero, segundo conta a lenda) e passada de geração em geração. Os poemas eram acompanhados melodicamente pelo toque do kantele,uma cítara de mesa,

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O Kalevala emedição«verificada» pelauniversidade, soboscuidadosde MerjadeMattos-ParreiraeAnaIsabelSoares(Dom Quixote)–excelentetradução,notas esclarecedoras.

instrumento tradicional finlandês (restam poucos, mas é sabido que este tipo de instrumentos musicais teve uma grande importância na cultura tradicional dos povos bálticos); em alguns distritos da Carélia do Sul, o recitador era quase sempre uma mulher, e normalmente fazia-se acompanhar por um coro, quase à maneira dos gregos. Mas o Kalevala não é «poesia popular», está a um outro nível; o poema foi composto sobre elementos de um património tradicional constituído por lendas, mitos da criação do mundo, fábulas, baladas, poemas líricos e épicos, cantos rituais xamânicos, salmos, esconjuros, episódios da cultura cristã, algumas invocações pagãs, cantos fúnebres, etc. Elias Lönnrot moldou a matéria-prima à sua vontade: nomeou os três heróis (Väinämöinen,o bardo que nasceu já velho, Lemmin-

käinen, o sedutor e conquistador, e Ilmarinen, o ferreiro que forja o Sampo – o talismã) e definiu-lhes as personalidades, deu-lhes complexidade, inventou um tesouro mágico e uma intriga entre duas regiões (a fazer lembrar a Ilíada, mas também uma lenda da Lapónia), rejeitou grandes partes dos poemas e transformou muitos versos, regularizando-os; escreveu também outros (segundo os estudiosos não mais de setecentos), criou um mundo entre o real e o mágico,entre a ilusão e a desilusão, habitado por heróis com paixões bem humanas e telúricas. No início de cada um dos 50 cantos que compõem o Kalevala, Lönnrot escreveu um curto texto em prosa em que resume os acontecimentos da narração e que ajudam o leitor a seguir a história contada. A epopeia inspirou grandes figuras da cultura europeia, como o grande pintor finlandês Gallen-Kallela, o compositor Sibelius, ou Tolkien. Ainda hoje, na vida finlandesa, as suas referências estão por toda a parte, desde a culinária às roupas,passando pela publicidade, até às muitas bandas de heavy metal que fazem, curiosamente, daquele poema épico um culto. O Kalevala está traduzido em mais de meia centena de idiomas, incluindo alguns pouco expectáveis, como o suaíli. Faltava ainda a edição portuguesa traduzida diretamente do finlandês (existe uma edição publicada em 2007, traduzida a partir de uma versão inglesa, mas de fraca qualidade poética).Mas ao fim de vários anos de esmerado e paciente trabalho, duas professoras da Universidade do Algarve,Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares, deram-no por concluído.O resultado acaba de chegar às livrarias pela mão da Dom Quixote.De realçar o excelente trabalho de ambas as tradutoras que anotaram e explicaram muito do que o leitor gostaria de saber,como por exemplo os vários nomes de lugares ou de rios,ou curiosos pormenores encontrados ao longo do trabalho de tradução.

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©Norbert Rosing/GettyImages

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PHILIP KERR

AZUL NA ESCURIDÃO
estamos mesmo enfiados na merda até ao pescoço.Se queres saber a minha opinião, acho que somos um povo fácil de governar. Basta promulgar todos os anos uma lei nova que diga: façam o que lhes mandam.» Philip Kerr (n. 1956),autor consagrado de dezena e meia de romances policiais, regressa, com Se os Mortos Não Ressuscitam (Porto Editora,trad.José Vieira de Lima), a um tempo de facas longas e mentes curtas. Bernie envolve-se num caso patrocinado pela sua patroa que o lança nos braços de uma escritora norte-americana desejosa de contribuir para o boicote americano dos próximos Jogos Olímpicos,negócio que suscita a cobiça de várias máfias. Enquanto lhe serve de guia e guarda-costas, permite-se observações do género: «Parece impossível que esteja um dia tão bonito.Goethe tinha a sua teoria sobre os motivos pelos quais o céu é azul.Não acreditava na ideia de Newton de que a luz é uma mistura de cores. Goethe pensava que tinha a ver com a interação da luz branca com o seu oposto, a escuridão.» E remata: «Há muita escuridão na Ale-

Berlim, 1934.

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ernie Gunther é um sobrevivente com um apurado sentido de justiça. Antigo polícia berlinense vai entretendo o tédio nas funções de detetive num dos mais elegantes hotéis de Berlim.Ano de 1934,em plena euforia nazi.As coisas não começam muito bem,com uma morte inadvertida e a sensação de que o ambiente está um pouco sufocante. Ele tem uma opinião muito precisa sobre a natureza do povo a que pertence: «Quando os alemães esperam que o governo resolva as coisas, então é porque

manha,não é? Se calhar é por isso que este tempo é hitleriano. Porque contém tanta escuridão.» Na carta de amor que recebe, depois da partida inusitada,ela fala-lhe de dois quadros de Caspar David Friedrich, Mar de Névoa e Mar de Gelo, para descrever o que sente por ele. Bernie tem um problema com a verdade: «Em minha defesa, poderia ter-lhe lembrado que era um antigo polícia e que, para um polícia, só há uma verdade: tudo o que nos dizem é mentira.» Mas neste caso sabe que não é assim.O inesperado reencontro está marcado para Havana de Fulgencio Batista e dos rebeldes,20 anos depois.Ela está hospedada na casa de Hemingway, ausente em África. Os acontecimentos parecem simétricos, os factos abonam em favor da tese de que as vítimas de ontem são os vilões de amanhã, e que alguns crimes não passam impunes. A vida não se dá muito bem com verdades absolutas, nem com heroísmos fáceis: «Nunca gostei de gestos inúteis. Por isso sobrevivi até hoje, minha querida. Mas as coisas não são assim tão simples.» Nunca foram. «Pareces mesmo Ellegua», diz-lhe a amante cubana. «É o deus das encruzilhadas e que protege a casa de todos os perigos. Ele tem sempre razão no que faz. E é ele que sabe o que mais ninguém sabe e que age sempre de acordo com o seu julgamento perfeito.»
José Guardado Moreira

MIGUEL MIRANDA O QUADRADO IMPERFEITO
m A Paixão de K.(Porto Editora) vários personagens afirmam que a vida consiste numa «sucessão de planos» ou «imagens aprisionadas na memória». É também assim que se organiza o romance de Miguel Miranda (n.1956),pela sucessão ou sobreposição de vários planos narrativos, tendo no centro a figura do protagonista: Perfecto Quadrado, um falsário de vida «burlesca» que imita o projecto real de António Jorge Gonçalves, desenhando passageiros do metropolitano em cidades do mundo inteiro.Numa dessas viagens subterrâneas, em Londres,ele apaixona-se pela «mulher perfeita»,Josephine K.,que há de ser primeiro um arquétipo feminino perdido na multidão, depois um mistério, mais tarde alguém de carne e osso (uma estudiosa da relação entre matemática e música), por fim amante e adepta do caos social. Em torno deste eixo, desdobram-se os restantes «planos» da vida de Perfecto

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Quadrado: a sua atividade de especialista em pintura falsa,feita por si ou por outros; as amizades com figuras algo estereotipadas (o companheiro de bar gay que não desiste de o seduzir, um porteiro viciado em literatura policial); mais o relato pormenorizado das suas façanhas amorosas; a descrição bastante realista dos distúrbios e pilhagens que puseram Londres a arder há uns anos; e a memória vivíssima da infância e juventude passadas na aldeia de Consolación, na Espanha profunda. Lugar onde todos os homens se chamam Pepe, Consolación é terra de absoluta mansidão o ano inteiro, menos em Agosto, quando enlouquece de rituais pagãos que coincidem com as férias do padre Giménez, conhecido por transportar, no seu Citröen boca de sapo «cor de vinho», imagens de várias Virgens (ou talvez sempre a mesma,com nomes diferentes) entre

as várias paróquias das redondezas. Por lá encontramos três irmãs, freiras vicentinas, «horrendas e entortadas de nascença», mestras em artes libidinosas com que iniciam sexualmente os rapazes da aldeia – pelo menos os que se atrevem a visitá-las no cimo de um monte,onde vivem protegidas por uma alcateia.E um toureiro cuja morte na arena, seguida de enterro num caixão em forma de touro, é motivo para páginas de antologia. Infelizmente, os outros planos do livro anulam a riqueza deste, com a sua falhada tentativa de reflexão sobre a desordem do mundo e o elogio xaroposo do amor,repleto de lugares-comuns (mulheres com «corpo de viola» à espera de serem «dedilhadas», «bocas de morango»,e outras imagens igualmente gastas ou pirosas). No meio da confusão narrativa de A Paixão de K., Consolación é de facto um consolo. Mas não chega para salvar o livro.» JMS

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INVENTÁRIO OBSESSIVO
m casal de tradutores, sexagenários, com um casamento de 30 anos e sem problemas económicos, acabou de se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo. Ainda as caixas estão espalhadas pela sala e por abrir quando a mulher – a narradora anónima de Nada a Dizer (Quetzal), romance da brasileira Elvira Vigna (n. 1947) – descobre que o marido, Paulo, tem uma relação extraconjugal com N., também tradutora, 20 anos mais nova, casada e com dois filhos, que se veste parecendo uma «arara tropical». A mulher vasculha e-mails, sms enviadas e recebidas pelo marido, e até lhe parece encontrar mensagens e alusões sub-reptícias nos textos do blogue de N., a amante. Diante das evidências, Paulo nada tem a dizer. Ambos tinham crescido e vivido intensamente as ideologias revolucionárias e libertárias da década de 60, eles eram os da «arte de perseguir lutas e sonhos», e de repente ela encontra-se a reagir da mesma maneira que as restantes burguesas traídas e acomodadas, estereotipadas, que ela criticava. «Trepar com quem quiséssemos seria, para mim e para Paulo, sempre uma liberdade que nos orgulhávamos de ter, por tê-la conquistado arduamente.» E de repente dá-se como que uma alteração de identidade, ou a descoberta de uma outra, e a traição é vista em dobro, Paulo enganara também o passado de ambos. Elvira Vigna parece querer fazer um obsessivo e minucioso inventário de perdas e danos (incluindo até as datas das trepas) num caso de adultério desinteressante. Mais do que uma história normal, ela é banal, dessas que todos nós já ouvimos. No exercício de autodescoberta da narradora, através de uma revisão do passado suportada por um triângulo amoroso, Vigna quase consegue o feito de salvar o romance. Mas a escrita que fixa todos os acontecimentos durante cerca de um ano, e que parece querer ensaiar uma peça daquelas em que as aparências não são o que mostram, acaba por não ter o resultado desejado e se deixar arrastar por vezes num discurso de palestra pretensiosa. JRD

CHILI COM CARNE

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EXPERIÊNCIAS E ABANÕES
O fanzine Mesinha de Cabeceira avança para a sua 23.ª edição, ou seja, duas décadas de banda desenhada sem preocupações comerciais.
volume em formato de bolso, com a lombada a deixar as entranhas da encadernação à mostra, não parece enquadrar-se no universo fanzinesco,mas este «Inverno» é mesmo o n.º 23 do Mesinha de Cabeceira (MdC), fanzine já mítico editado pela Chili com Carne que cumpriu recentemente duas décadas de vida. Na introdução, o editor Marcos Farrajota fala dos 20 anos da publicação com o à vontade vernacular que o caracteriza e explica que o primeiro MdC nasceu da necessidade: não havendo publicações dispostas a acolher a sua produção,a de Pedro Brito (o outro editor do fanzine,nos primeiros anos) e a de vários autores que começavam a experimentar os terrenos da banda desenhada,criaram uma que o fizesse e ainda experimentaram a satisfação da vingança. O que talvez não tenham imaginado foi o potencial que se guardava naquelas primeiras páginas, em 1992, e que haveria de desenvolver-se numa teia de colaborações, experimentalismos, abanões estéticos e narrativos de toda a espécie, e a capacidade de manter uma publicação arejada e vibrante ao longo de tanto tempo. De tal modo que quem queira,hoje,conhecer o que se faz no campo da banda desenhada de autor e com poucas preocupações comerciais

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pode continuar a usar o MdC, e concretamente este nº 23,como guia fiável. A lista de autores inclui vários suspeitos do costume,presenças habituais que confirmam a evolução natural que duas décadas de persistência e talento permitem (casos de João Fazenda,João Chambel,Filipe Abranches ou Bruno Borges),e algumas colaborações novas, como Sílvia Rodrigues,Uganda Lebre ou Lucas Almeida,entre muitos outros.Desta coleção de nomes e trabalhos resulta um gesto que mantém em forma elevada aquilo que a Chili sempre conseguiu produzir nas suas antologias: uma babel de traços e estilos numa estranha e inquietante harmonia, o que dá ao volume uma coerência que não pode ter sido planeada mas que é o melhor exemplo dos motivos que mantêm estas pessoas a trabalhar juntas há tanto tempo. E se a coerência do conjunto não nasce do traço ou do estilo, é provável que se deva aos temas,uma radiografia daquilo a que chamamos «ar do tempo», com o tom apocalíptico,o peso do desperdício, a contaminação (real,no lixo que excede o da indústria de consumo e ocupa os campos, e visual, nas manchas que parecem alastrar como fungos) e uma certa ideia de no future que deve muito ao punk,mas deve ainda mais aos dias que vivemos. Sara Figueiredo Costa

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©João Chambel

JUNOT DÍAZ

AMOR, PERDA, HUMOR
Educação sentimental em spanglish:Junot Díaz sobre o dia em que os dominicanos viram a neve pela primeira vez.

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mais recente livro de Junot Díaz (n. 1968), É assim Que a Perdes (trad. José Miguel Silva, Relógio d’Água), é uma coletânea de histórias sobre diferentes maneiras de amar; narrativas mais ou menos ligadas entre si sem terem o tempo a organizá-las. Os personagens, que na sua grande maioria são emigrantes da República Dominicana – como o autor, que emigrou com seis anos de idade – a viverem em Nova Jérsia, procuram encontrar,na tumultuosa vivência diária, um ponto de equilíbrio afetivo entre os dois mundos a que pertencem. As histórias, que se desenvolvem de maneira veloz, vão completando uma espécie de «guia da educação sentimental à maneira das Caraíbas», com a sua dose do inevitável machismo, em que as mulheres são

reduzidas a objetos de desejo – e também de violência emocional e familiar,bem retratada numa história em que uma criança é obrigada a permanecer de castigo ajoelhada sobre um ralador de coco). Junot Díaz traz de volta o personagem Yunior – que cada vez mais se parece com o alter ego do autor à medida que as suas biografias se começam a confundir – que surgiu em algumas narrativas do seu livro de estreia, Drown (inédito em português), e no romance que o consagrou (venceu com ele o Pulitzer Prize e o National Book Critics Circle Award), A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao (Porto Editora, 2009); Yunior e o irmão, Rafa (um personagem carismático), pertencem à diáspora dominicana, e isso oferece a Díaz inúmeras possibilidades de retra-

tar a comunidade que lhe interessa e sobretudo de usar o seu característico spanglish,salpicado de vernáculo – que no caso se começa a aproximar cada vez mais de um dialeto próprio do autor. Na maneira fragmentada como é apresentada a vida de Yunior, Díaz parece querer desafiar os limites da construção de identidades, assunto que já explorou nos seus dois livros anteriores.Isso é bem visível numa das histórias mais tocantes da coletânea,«Inverno»,em que o personagem narra os seus primeiros tempos na América, quando a família (a mãe e dois filhos) se veio juntar ao pai: a reclusão em casa, a língua,os vários choques sofridos – o climático não foi o menor: «Eu olhava para a neve a peneirar-se a si própria, em pânico, e o meu irmão estalava os dedos.Era o nosso primeiro dia na América. Estava o mundo totalmente congelado.» É assim Que a Perdes é um livro sobre as relações entre o amor e perda, narradas com sentido de humor, e que deixam a esperança de que o toque do amor é sempre «para sempre». JRD

©Jessica Dimmock/VII Network/Corbis

VIAGENSPOR ROMAEVENEZA Onovolivro deEduardoPitta (n.1949), CadernosItalianos –integradonacoleçãodeviagens daTinta-da-china,coordenada porCarlosVaz Marques–,agrupa OsDiasdeVeneza,volumepublicadoem2005, e«duassequênciasromanas» comintervalo dequatroanos (2007e2011), comoescreve PedroMexia noprefácio.

AVENTURAS DEWEINER Em2008,ojornalistanorte-americanoEric Weinerpublicava umdos best-sellers desse ano: AGeografia daFelicidade. Assuasaventurascontinuaram desdeentão (Turquia,Nepal, IsraeleChina) eagoraaLua dePapellança oresultado dessepériplo espiritual: UmaViagem peloMundoà procuradeDeus.

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ZONA FRANCA FERNANDO SOBRAL
DEDICADO À TROIKA

APROVADO
Quando hoje se vê uma telenovela ou um filme descobre-se uma multiplicidade de produtos e marcas que se interligam com a ação. Em vez de surgirem de forma agressiva, insinuam-se pela afetividade. Sofia Moura, que trabalha na SIC nessas áreas, analisa neste livro, de forma clara, essa ligação cada vez mais durável e rentável. Trata-se, por isso, também de um livro que é um verdadeiro dicionário sobre a atuação de profissionais nesse vasto campo da comunicação e do entretenimento. A autora sabe a importância da publicidade para a sustentabilidade económica do audiovisual e por isso não surpreende que defenda o product placement como uma oportunidade de grande potencialidade para o setor. Uma proposta bem defendida.
Sofia Moura Marcas e Entretenimento Guerra & Paz

DÍVIDA PÚBLICA, DIZEM ELES
Até que ponto a dívida pública é uma crise das finanças privadas transferida para as finanças públicas?
«AAA» das agências de rating.No seu diagnóstico sobre a crise atual, provocada pela «bolha» imobiliária americana que contaminou o setor financeiro europeu e que levou a que os Estados criassem dívidas colossais, escrevem Millet eToussaint: «A crise que abala a zona euro é uma consequência das lógicas que dominam a integração europeia: o primado atribuído aos interesses das grandes empresas industriais e financeiras privadas,o pôr em competição, no interior do espaço europeu, economias e produtores que têm forças perfeitamente desiguais, a vontade de retirar aos serviços públicos um número crescente de domínios de atividade […].» Os autores são militantemente contra o tratamento de choque infligido pela troika aos países da Europa do Sul e à Irlanda que, segundo eles, conta com a cumplicidade de políticos europeus. Mais: consideram que esta dívida é «ilegítima» e por isso deve ser anulada. Em sua defesa mostram o que fizeram países como a Islândia, Rússia, Argentina ou Equador. Porque, na realidade, a crise da dívida pública é uma crise das finanças privadas transferida para as finanças públicas.Um livro com ideias fortes e contundentes.

A comidatambém é umamercadoria. Parece uma visão friae crua darealidade mas KaraNewman (em TheSecretFinancial LifeofFood, edição da Columbia University) desmontaeste conceito muito bem. Conta-nosahistória de como a comidaé comprada e vendida em grandes quantidadese transformada em bensque consumimos. Explica como a pimentafoium instrumento financeiro de alto valor e como a idade darefrigeração alteroua nossa formade consumir ovos ou leite. Não esquece que só um quinto do preço final de um produto é o seuvalor real: o resto é publicidade, armazenagem e distribuição.

á um slogan que martela os ouvidos dos cidadãos como um tambor: que a solução para a crise da dívida e do défice é a austeridade. E que não há outra via.Mas cada vez mais se vê que essa via conduz a um labirinto sem luz e sem saídas. Não espanta por isso que surjam apelos a uma visão panorâmica da crise.É o que Damien Millet e Éric Toussaint – membros do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo – defendem em A Crise da Dívida (Temas e Debates, trad.A.Lopes Cardoso),originalmente intitulado AAA – Audit, Annulation, Autre Politique, numa alusão à célebre classificação

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É no meio das grandes crises que surgem as melhores oportunidades. Álex Rovira acredita que este é um tempo excelente para cada um descobrir novos rumos para a sua vida. Escrito sob a forma de cartas, Uma Boa Crise acaba por ser um guia de aconselhamento pessoal para quem se deixa envolver e deprimir pelo complicado mundo económico e financeiro. A prosperidade material e espiritual acaba por estar ligada a uma gestão de capacidades e possibilidades.
Álex Rovira Uma Boa Crise Nascente

COMBATER PELO GIM
No século XVIII os ingleses pobres bebiam uma cerveja muito forte, conhecida por «ale». Mas o gim holandês tornou-se também favorito dos operários e marinheiros da industrialização nascente, porque gerava calorias e afogava desgostos. Para terminar a «epidemia» alcoólica o Governo whig de então decretou aumentos substanciais de impostos sobre as bebidas, por motivos «morais». Porém, o imposto sobre o gim gerou manifestações de rua nunca vistas em Londres. Nasciam os gin riots, uma revolta contra os impostos, como descreve Julius Van Daal em Belo como Uma Prisão em Chamas (Antígona).

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É o número de vezes que um americano é mais próspero do que um mexicano. É 20 vezes mais próspero do que o habitante da África Subsariana e 40 do que um dos países mais pobres de África, como o Mali. Dados de D. Acemoglu e J.A. Robinson em Porque Falham as Nações (Temas & Debates).

«A nossa derrota financeira é também uma derrota cultural! A nossa dívida financeira é sobretudo uma dívida cultural.»
Rui Neto Pereira em Como Transformar Portugueses em Alemães (Chiado Editora).

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ESTANTE DIGITAL
MICHAEL FEINSTEIN

SARA FIGUEIREDO COSTA

DIGITAL E USADO
A Amazon registou uma patente para a venda de livros e outros conteúdos digitais em segunda mão. Quem possua um livro digital e decida vendê-lo acionará uma tecnologia que transmite para o novo comprador o acesso ao conteúdo, à semelhança do que já acontece quando se emprestam livros do Kindle. O negócio não agrada aos editores. Quando compramos um livro usado em papel, sabemos que estará manuseado. Num livro digital, não há diferença entre novo e usado, por isso será sempre vantajoso comprar o usado. Mas se a própria Amazon edita livros, que vantagem tem em vender os usados? Segundo a revista Wired, se a Amazon oferecer aos autores contratos em que lhes dá uma parte das vendas dos usados digitais, afasta-os das editoras que só podem pagar-lhes direitos sobre as vendas em primeira mão. E o que parecia uma novidade para entreter o admirável mundo novo do digital revela-se mais um passo na criação de um monopólio editorial e livreiro, processo em que a Amazon se tem revelado pródiga.

O ESPAÇO A OLHO NU
Ver o universo a partir do Hubble pode ser, a partir de agora, uma atividade diária. A NASA facilita.

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om as imagens recolhidas pelo telescópio Hubble a merecerem tornar-se acessíveis aos leigos da ciência espacial, a NASA decidiu criar uma aplicação gratuita (para iPad) que utiliza esse património visualmente impressionante como base para um livro sobre o tema do Cosmos. Com edição do Space Telescope Science Institute, Hubble Space Telescope Discoveries apresenta-se como um livro digital em cujas páginas há dezenas de textos explicativos sobre aquilo a que chamamos «espaço», vídeos com depoimentos de astrónomos, professores e astronautas

ligados à missão do Hubble, fotografias com uma focagem assombrosa de corpos celestes (cujas formas parecem montanhas,manchas ou cogumelos,consoante a nossa capacidade de adaptar o desconhecido àquilo que nos é familiar) e vários gráficos, vídeos e infogravuras sobre o que se passa muito acima das nossas cabeças. É um livro impressionante, não apenas pelo efeito esmagador que as imagens do Hubble e as suas explicações produzem na nossa vã condição humana, mas sobretudo pela eficácia didática que assume, iluminando o tema complexo que trata como só a boa divulgação científica é capaz de fazer.

NOTAS EM LINHA
VATICANO EM ACESSO LIVRE A Biblioteca Apostólica Vaticana, fundada no século XV, disponibilizou 256 manuscritos na internet, os primeiros de um conjunto de 80 mil, acessíveis nos próximos anos (www.vaticanlibrary.va/). PRÉMIO HISTÓRIAS DIGITAIS Na Conferência sobre Edição Digital de Livros para Crianças, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, anunciou-se a criação do Prémio Histórias Digitais Ilustradas. Podem ser apresentados projetos para narrativas em suporte digital e os vencedores verão esses projetos transformados em aplicações e comercializados.

A VOZ DOS POETAS
A Faber & Faber apresentou recentemente uma coleção de e-books de poesia onde a leitura dos poemas se faz acompanhar da voz dos seus autores. Cada livro da Faber Voices custa 3,99 euros e já estão disponíveis volumes de Ted Hughes, Seamus Heaney (na foto), Philip Larkin e Wendy Cope. A seleção de poemas de Ted Hughes confirma a simplicidade e a eficácia da coleção. Os poemas, escolhidos pela editora, apresentam-se exatamente como num livro impresso, sem hipótese de mudar a paginação ou as quebras de versos (o que alteraria profundamente a sua mecânica), e a leitura é acompanhada pela voz do autor à medida que a leitura áudio progride. Quem preferir, pode limitar-se à leitura silenciosa dos poemas, mas para isso há boas antologias no mercado sem mais nada além do texto. Aqui, o que se destaca é a oportunidade de ouvir Ted Hughes arrastando umas sílabas e forçando outras na sua cadência inconfundível.

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VIDA PRIVADA

QUARTO CRESCENTE
BRUNO VIEIRA AMARAL

De como uma divisão da casa tradicional – o quarto – pode ser o palco de metáforas sobre a vida e a morte.

ada um dos capítulos deste História dos Quartos daria para um livrinho académico, a rebentar de notas de rodapé e de interesse residual para o leitor comum.Felizmente,a historiadora (será mais justo dizer escritora) Michelle Perrot optou por um livro mais aberto, eclético, sem temor de juntar fontes historiográficas e obras literárias,proporcionando ao leitor uma larga panorâmica que vai muito além do (aparentemente) limitado objeto de estudo. São tantas as abordagens possíveis que é interessante ver como muitas delas se cruzam harmoniosamente neste livro. Pelo lugar que o quarto foi ocupando nas sociedades, observamos, por exemplo, a evolução das condições económicas, o percurso sinuoso da emancipação feminina, a valorização da

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HistóriadosQuartos, de Michelle Perrot (Teodolito), com tradução de CarlosCorreia Monteiro de Oliveira: umaviagem à«vidaprivada», ouseja, ao lugar onde se é essencialmente livre.

infância e da adolescência no contexto familiar e a ascensão do conceito de lazer.As penosas condições dos quartos destinados às multidões de operários significavam uma negação do direito à intimidade e as consequentes desumanização e desmoralização. A necessidade de um espaço privado não é apenas social, é também espiritual. Num espaço só seu,o homem descansa, medita, reencontra-se com ele mesmo. Essa necessidade era mais premente no caso das mulheres, até então praticamente reduzidas à condição de animal doméstico. Afastada dos lugares públicos por questões de pudor e de decoro, a mulher via-se enclausurada dentro da própria casa,sem direito à sua privacidade. A reivindicação de Virginia Woolf de um quarto só da mulher, onde pudesse criar sem

receio de ser incomodada, tinha antecedentes nas heroínas de Jane Austen. É no quarto que as personagens de Austen refletem sobre os acontecimentos exteriores, é aí que pensam e que, dessa forma, afirmam a sua singularidade. Também a existência de um quarto para as crianças é sinal de uma profunda transformação social. Se,por um lado,a generalização de um espaço exclusivo para as crianças denota uma melhoria das condições económicas, representa, por outro lado, uma valorização da infância. O quarto passou a ser entendido como fundamental para o desenvolvimento da criança,para a sua autonomia e sentido de responsabilidade. Tendo noção de um espaço que é só seu é como se a criança adquirisse mais rapidamente noção de si: «Eu sou o meu quarto.» O que é visível na importância que o quarto tem para os adolescentes. Fechado à chave, recheado de objetos que o definem,o adolescente faz do quarto um santuário. Arrumá-lo sem o seu consentimento é visto como uma invasão. Ele confunde-se com o seu quarto. A autora dá como exemplo o filme O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, para ilustrar o poderoso simbolismo do quarto: aquele espaço torna-se no mausoléu do filho que morreu, a prova mais nítida da sua passagem pelo mundo. Preservá-lo é preservar a memória do filho. Nos antípodas do quarto hiperpessoal do adolescente está o quarto impessoal dos hotéis. Não só «o quarto de hotel nega a singularidade» como oferece ao seu ocupante uma possibilidade de liberdade anónima.Ao contrário dos quartos de pensões que albergavam os trabalhadores que vinham do campo para as cidades, e que aí sentiam todo o peso da solidão e do desenraizamento, o quarto de hotel destina-se a viajantes, a artistas, aos desenraizados voluntários. Sartre, que abominava todos os símbolos de conforto burguês (o casamento, a casa, o quarto), era um homem dos quartos de hotel,dos restaurantes e dos cafés, o homem público

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por excelência. Como refere Michelle Perrot, os quartos de hotel onde morreram Joseph Roth e o dândi Oscar Wilde são locais de peregrinação e de culto. No entanto, hoje em dia, a aura sagrada do quarto, se excetuarmos esses fenómenos da fama, está reduzida ao amor, à conjugalidade e à celebração do Eu. O nascimento, a doença e a morte foram expulsos do quarto de família e transferidos para os assépticos quartos dos hospitais. Obviamente, essa mudança foi ditada por questões de saúde e de higiene, e indicadores como a taxa de mortalidade infantil seriam muito piores se os partos continuassem a acontecer em casa,mas os efeitos nas mentalidades são evidentes. Afastar do perímetro familiar e da experiência quotidiana os momentos de maior vulnerabilidade e sofrimento humano fez-nos esquecer a forma de lidar com eles. Sem as dores do parto e da doença e sem a agonia da morte, o papel do quarto na comunidade foi neutralizado.Tudo o que aí acontece pertence à esfera do indivíduo ou, quanto muito, do casal. O quarto como palco em miniatura da vida foi aniquilado. Passou a ser local de amor e de meditação. Um homem fechado no seu quarto pode ser,como Xavier de Maistre, alguém com a capacidade de viajar para muito longe ou alguém, como Oblomov (personagem de Ivan Gontcharov) incapaz de comunicar com os outros; pode ser um individualista ou um misantropo; pode aproveitar a solidão para criar mas pode também ser vítima dessa solidão, preso numa armadilha de quatro paredes. Em todos os tipos de quartos de que este livro nos fala há uma ideia comum: o quarto é o último reduto da privacidade e,como tal,o lugar onde se é verdadeiramente livre. As experiências que aí vivemos,desde a infância até à velhice,são tão íntimas que ter um quarto, um espaço que não é de mais ninguém,quase que equivale a ter uma personalidade. É na solidão do quarto que nos preparamos para enfrentar o mundo.O paciente é isolado num quarto de hospital para se tratar antes de regressar ao convívio com os outros.Quando saímos do quarto após uma noite de descanso é como se tivéssemos renascido, somos Lázaro a regressar à vida.Se o quarto já não é o palco da vida e da morte,ainda é o palco de metáforas da vida e da morte. O lugar onde todas as noites morremos, o lugar onde a cada manhã ressuscitamos.

LUÍS CARDOSO

TENSÕES DE TIMOR
Depois de Requiem para o Navegador Solitário, o regresso ao romance do timorense Luís Cardoso.
raticamente desconhecida e muito pouco desenvolvida – sendo, ainda assim, possível enumerar mais poetas do que ficcionistas –, a literatura timorense é resultado do contexto histórico-social recente e passado. País torturado pela invasão indonésia e, antes, por uma colonização portuguesa, mais displicente ainda que noutros territórios, mas presente, foi denegando aos autóctones, quer a presentificação efetiva da língua local (ainda que tenha já sido feito um trabalho de dicionarização do tétum-praça, uma crioulização do tétum-térique, pela sobreposição do português e do malaio), quer a introdução da língua do invasor, que conheceu nos missionários católicos os seus mais hábeis atores. Está assim por explorar toda uma oratura e o exercício liberto do peso da resposta imediata à sobrevivência. Primeiro divulgado pela Dom Quixote, Luís Cardoso (n. 1958), timorense, tem-se distinguido pelo desenvolvimento de uma obra cujo quinto título agora se apresenta, O Ano em Que Pigafetta Completou a Circum-Navegação (Sextante). Escrevendo em português, projeta na lusofonia o olhar de quem vivencia o espaço interior de um lugar que de forma dolorosa e lenta transita para uma autonomia contemporaneamente desejada. A veiculação a uma língua constitui, por isso, um ato de verificação e adoção de uma herança histórica, ainda que débil mas com admissível caráter universal,que permita projetar uma voz além-fronteiras com mais facilidade. Recuperando o nome de uma figura que incontornavelmente liga a História dos dois países – a de Antonio Pigafetta, cronista que acompanhou Magalhães na primeira circum-navegação – na rebatização de um jovem albino, que os pais, para o poupar à fome, fazem passar por branco,Luís Cardoso cria uma teia de relações entre momentos históricos dife-

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Revista LER

©Pedro Vieira

renciados, mas que sugerem as tensões por que Timor passou: a colonização, a invasão, a guerrilha, as milícias, o referendo… e as consequências na vida dos diversos personagens em função da sua relação quer com os momentos históricos, quer com os lados da «barricada» que ocupam. Um subterfúgio construtivo, que nos parece pouco feliz, faz com que umas sandálias, em determinados momentos, sirvam de conarradoras. Por outro lado, as frases são maioritariamente marcadas por pontos que substituem vírgulas, criando ruturas que – pretendendo vivificar afirmações – se revelam mais perturbadoras do que eficazes. Há algumas imprecisões gramaticais – que não passam pela autonomização do português em território não-europeu – que uma boa revisão deveria ter tido em atenção.
Dóris Graça Dias

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MAÇONARIA

O PODER DO AVENTAL
O jornalista António José Vilela investigou durante uma década a maçonaria portuguesa. Segredos, cisões e conflitos agora em livro.

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erseguidos durante o século XVIII e proibidos pelo Estado Novo, os maçons enfrentam o maior desafio da sua história: resistir a essa organização secreta e influente que é a maçonaria. Se há coisa que se aprende com este livro do jornalista António José Vilela é que a maçonaria portuguesa é uma organização extraordinariamente desorganizada.E sim,é verdade, com uma grande influência nas altas esferas de decisão,o que não abona nada em favor de uma e de outras.Entre 1834 e o fim do século XIX,diz o autor,«12 chefes do Executivo pertenciam à Irmandade.» O historiador Oliveira Marques, também maçom, reconhece que a «maçonaria passou a ser olhada como qualquer coisa de útil, de pragmaticamente necessário no currículo do candidato a ministro», isto,como é óbvio,se ao candidato a ministro lhe apetecer tornar público o currículo; o mais provável é que esteja apenas preocupado em mostrar o avental. Os resultados

Em Segredosda MaçonariaPortuguesa (AEsfera dosLivros),António JoséVileladivulga algunsdocumentosconfidenciais.

estão à vista e qualquer cidadão com um mínimo de preocupação cívica deve perguntar-se se não havia nenhuma outra seita secreta (Templários, Rosa-Cruz, APAF) disponível para dirigir os destinos do País.A resposta é negativa.Mas o que é mais surpreendente não é a dificuldade para governar o País como deve ser, é a incapacidade de os maçons se entenderem entre eles. Em comparação com a maçonaria portuguesa, até a Jugoslávia pós-Tito é um exemplo de unidade e harmonia. Em Portugal, a maçonaria está dividida em duas grandes fações: o Grande Oriente Lusitano (GOL) e a Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/ /GLRP) que, por sua vez, se dividem em lojas. As lojas têm nomes de figuras caras aos maçons (do poeta Fernando Pessoa ao diplomata Aristides de Sousa Mendes, até a um tal Anderson), de centro comercial suburbano (Nova Avalon) e de ilusionistas de terceira ca-

tegoria (Mestre Hiram).A grande cisão ocorreu em 1984, quando um grupo de dissidentes se reuniu na Margem Sul e fundou a GLRP. Às constantes zangas, cisões e desavenças (com episódios nada edificantes de bofetadas e de sempre inconvenientes atentados à bomba) não será alheio o facto de as lojas serem aquilo que os cientistas políticos chamam «saco de gatos». O que é que se pode esperar de um grupo que inclui um ex-ministro socialista (António Vitorino), um produtor de televisão ( José Nuno Martins) e o ex-responsável pelas finanças do CDS/PP (Abel Pinheiro)? Ou de um outro com Isaltino Morais e o artista de variedades Fernando Pereira? Um dos aspetos mais interessantes desta excelente investigação de António José Vilela, que dedicou 10 anos ao assunto, é a divulgação de documentos confidenciais da maçonaria, como por exemplo o «Questionário de Iniciação Maçónica» da GLLP, que consiste em seis perguntas sobre os deveres do homem para com o Criador, a Humanidade, a Pátria,a Família,o próximo e para consigo mesmo. Infelizmente, não temos acesso às respostas de nenhum dos iniciados. O GOL, na sua «Petição de Iniciação Nova», pede aos futuros membros que identifiquem os seus inimigos, disponibilizando para o efeito duas magras linhas que nem devem chegar para o nome completo de alguns deles.Tudo isto podia ser apenas tragicómico,uma farsa levada a cena por adultos com a mania infantil das sociedades secretas, se não tivéssemos aprendido com Umberto Eco e o seu O Pêndulo de Foucault que as elucubrações mais disparatadas podem gerar realidades tenebrosas. Neste caso, as realidades do tráfico de influências, dos favores e da corrupção,que envolvem pessoas que tinham o dever de colocar o bem comum à frente de quaisquer interesses particulares. Mas isso seria esperar de mais de um conjunto de homens que se reúne de avental sem ser para cozinhar. Bruno Vieira Amaral

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SONHOS MUTAÇÃO

AFINAL, HÁ AUTORES SUÍÇOS

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precio a espontaneidade com que se entrega, mas não sabe o suficiente para tomar uma decisão dessas. Não se trata de aprender a voar como se se inscrevesse num curso de parapente, mas sim de semetamorfosear.Desetransformar num pássaro de corpo e alma», confidencia a médica ao paciente. Metamorfose à beira do Céu, de Mathias Malzieu (Bertrand, trad. Tânia Ganho), de quem já foi publicado A Mecânica do Coração (Contraponto), propõe ao leitor uma pequena parábola sobre as metamorfoses inscritas no código da vida. Tom Cloudman é um rapaz sonhador que tem o desejo único de voar como um pássaro. Inventa mil e um expedientes, foge de casa, leva uma vida de saltimbanco sem eira nem beira, perseguido pela incompreensão e galhofa trocista da assistência. É de tal modo desajeitado que todas as acrobacias e piruetas apenas o conduzem a um completo estado de depauperação física. Hospitalizado, a médica que o acompanha possui um condão especial, propondo como terapia radical o princípio da mutação, avisando contudo que «o sucesso da transformação dependerá igualmente da sua capacidade de se deixar assombrar por um outro eu, o seu verdadeiro eu. Isso corresponde a superar-se». Impaciente, Cloudman aceita o desafio e o estranho processo inicia-se e decorre sob o olhar assombrado de alguns cúmplices atentos. «O amor físico é a única via de transmissão possível», esclarece a terapeuta, que também corre o risco de falhar, se o amor recíproco não for verdadeiro. O segredo começara muito tempo antes com um antepassado da médica: «Toda a gente o tomou por um feiticeiro ou um louco – o que ele é, de certa maneira. Vive numa casa feita de livros, nos confins da Escócia – um atelier extraordinário, onde passou o tempo a aperfeiçoar as suas invenções.» Uma delas tem a capacidade de fotografar os sonhos: «A película era sensível à luz dos sonhos. Foi com a ajuda deste método que obtive a fotografia do homem-pássaro que lhe enviei: bastou fotografar o seu rosto adormecido.» JGM

PEQUENO MUNDO
Uma história sobre o o passado e o esquecimento – a estreia de Martin Suter com uma espécie de saga familiar transformada em thriller.

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onrad Lang vivia na Casa Koch, uma enorme mansão em Corfu.Ele era o zelador da habitação: pagava os salários dos empregados, as contas da manutenção dos edifícios, e de vez em quando recebia um ou outro convidado ou mesmo algum dos Koch, uma família suíça de industriais,os proprietários. Konrad era mais um amigo da família do que um empregado,ele crescera – à data desta história tem 63 anos – naquela família.Ele crescera com Thomas Koch: frequentaram as mesmas escolas, jogaram ténis e aprenderam piano – desistiram quando Thomas assim o decidiu,apesar de Konrad ter pela frente uma promissora carreira como pianista.Todo este passado parecia enterrado, não fosse o caso de a doença ter começado a afetar Konrad; os sintomas de demência começaram a manifestar-se depois de ele, por descuido, ter pegado fogo a toda a propriedade; numa noite fria de fevereiro decidira acender uma lareira com madeira de amendoeira que,é sabido,só arde se estiver seca; mas aquela tinha sido trazida para ali ainda húmida e para a incendiar era preciso regá-la com gasolina.Konrad,distraído, deitou fogo ao monte de lenha na cozinha. «Quando regressou,ardia tudo,menos a lenha na lareira.» Eram os primeiros sintomas da doença de Alzheimer.

O que terá aquela família para esconder? É a pergunta para a qual o leitor procura resposta ao longo do cativante romance do suíço (de expressão alemã) Martin Suter (n.1948), Cinzas do Passado (Porto Editora,trad.Carlos Leite),um autêntico turn page magistralmente arquitetado e escrito.O título original deste romance – a estreia de Martin Suter, em 1997 – é Small World, e esse título faz todo o sentido na história que conta: com a progressão da doença e a perda crescente das memórias mais recentes (restando quase e só as da infância) o mundo de Konrad vai ficando mais pequeno, e é aí que tem que ser encontrada a chave da história principal,no meio de todas as outras sobre inveja,ganância e poder. Este é um romance dificilmente classificável, pois ao mesmo tempo que está construído em jeito de thriller (o ritmo tão característico, e o «mostra mais do que esconde»), é também uma espécie de saga familiar (abarca três gerações) com muitos laivos de crítica social – o estado de saúde de Konrad é o leitmotiv para mostrar os «pontos negros» de um tecido social muito bem clareado. Para ser um livro «perfeito» só lhe falta outro final, pois aquele dado por Suter, apesar de bastante moralista, é quase incapaz de convencer. José Riço Direitinho

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MICHEL ONFRAY

SIGMUND PSICANALISADO
DÓRIS GRAÇA DIAS

Brilhante ou mitómano? Experimentado ou instintivo? Cientista ou filósofo? Questões centrais da biografia psicanalítica de Freud.
neurótico pobre só muito dificilmente poderá livrar-se da sua neurose. Não lhe trará esta, com efeito, assinaláveis tributos na sua luta pela vida? O proveito secundário que ele tira dela é muito considerável. A piedade que os homens recusavam ter pela sua miséria material, passa a ser reivindicada agora em nome da neurose, libertando-o assim da obrigação de lutar, por via do trabalho,contra a sua pobreza.» Freud, in Sobre o Início do Tratamento, cit. em Anti-Freud (pp.428-429). Eis uma das muitas verdades científicas, descobertas após «experiências», admissivelmente várias e aturadas, desenvolvidas por Sigmund Freud,apresentadas em Anti-Freud (Objectiva) por Michel Onfray (n. 1959),francês doutorado em Filosofia e fundador da Universidade Popular de Caen – que não exige para a sua frequência

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qualquer formação,não atribuindo diplomas nem cobrando propinas,bastando-se por oferecer conhecimento de alto nível,dirigido às massas. Este projeto de Onfray contrasta em muito com a imagem que nos oferece do autointitulado «pai da psicanálise» (ou seria psicoanálise, como chegou a grafar nos seus primeiros escritos, muitos dos quais queimou? Antes dele, Auguste Forel, psiquiatra suíço, já falava em psicanálise), que aos seus clientes – ricos,claro – cobraria,em 1925,a preços de hoje,qualquer coisa como 450 euros por consulta. Mas comecemos pelo princípio.Não se pretende com esta obra esvaziar todo o valor que a teoria psicanalítica de Freud terá tido no impulso e desenvolvimento de uma terapia – e estudos relacionados – e que contemplava um dado novo: a sexualidade; e que impunha um novo conceito: o inconsciente (em substituição do de subcons-

ciente,utilizado pela primeira vez pelo psiquiatra francês Pierre Janet,seu contemporâneo). Mas,diante do que nos é mostrado, de modo consistente,sistemático,insistente, recorrendo à obra do «mestre» vienense e a outros poucos escritos disponíveis – no essencial, ao núcleo de correspondência muito importante com o seu amigo e confidente Wilhelm Fliess, o qual se incompatibilizará com Freud em resposta a uma das muitas atitudes de deslealdade que o caracterizavam –, é-nos dado a conhecer um «trabalho» baseado na especulação intelectual, na experiência individual e na adivinhação.Freud é apresentado como alguém dotado de grande inteligência, com uma imaginação extraordinariamente fértil e obcecado com a centralização da problemática neurótica ou histérica na esfera do complexo de Édipo. Aliás, a análise de Onfray vai mais longe: Freud, mais do que «cientista» – para além de a sua formação ter durado oito anos, sem distinções, acabará por revelar que os seus conhecimentos médicos de pouco valeram diante de determinados quadros psíquicos – seria um filósofo.Isto na linha da definição de Nietzsche,ao entender que toda a filosofia é reflexo de um pensamento individual. Mas, continua Onfray,porque Freud era demasiado am-

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bicioso,terá «inventado» a psicanálise,que lhe permitia apresentá-la já não como um modelo de pensamento – ou seja,teórico –,mas de terapia – ou seja, prático –, e, assim, disponibilizá-la a terceiros.Estaria deste modo assegurado o seu rendimento, que – Freud não o escondia – desejava bastante folgado. Assim,Onfray apresenta na sua obra cinco teses: 1. a psicanálise denega a filosofia,mas é ela própria uma filosofia; 2. a psicanálise não releva das ciências,mas de uma autobiografia filosófica; 3. a psicanálise não é um continuum científico,mas uma barafunda existencial; 4. a técnica psicanalítica releva do pensamento mágico; 5. a psicanálise não é liberal,mas conservadora. Ao longo destas páginas pretende-se provar igualmente como Freud seria homem de má-fé, ambicioso,ganancioso,psicorrígido, supersticioso, ciclotímico, depressivo, angustiado, fóbico,cocainómano… (pp.112-113),dado a enxaquecas, sangramentos do nariz, problemas intestinais, humor depressivo, falhas sexuais, cansaço, somatizações e falta de inspiração (p. 109). O véu sobre o mito é levantado logo de início, ao questionar-se por que razão a filha Anna e outros elementos da família tudo fizeram para ter de volta a correspondência enviada por Freud a vários destinatários (só a com Fliess não conseguiram reaver) – pagando, até; por que determinaram cem anos para que se acedesse livremente ao seu espólio (só em 2040), mas têm permitido que o consultem todos aqueles que, em momento algum, refuta(ra)m as teorias freudianas, inclusive o seu biógrafo autorizado. Outra questão prende-se com os métodos experimentados por Freud: cocaína,eletroterapia, hipnose,imposição das mãos,haptonomia, termalismo,sonda uretral…até que,em 1886, se fixe na psicanálise, não sem um ano antes se desfazer de todos os apontamentos que,em 14 anos de trabalhos,acumulara. É,então,aos 40 anos que o método do divã se apresenta a Freud como autorrevelador e, por aí,curativo.Quando não adormece escutando os seus pacientes, toma notas – e vice-versa. Esclarecedoras, sempre, e de sucesso garantido. Apresenta as suas conclusões em textos científicos, e sobretudo diante da plateia de estudiosos que reúne na Sociedade Psicanalítica de Viena, que o próprio fundou. Curiosamente,ele que havia comprado a obra completa de Nietzsche,gabando-se de,no entanto, não o ter lido – «as tentações para lê-lo foram abafadas por um excesso de interesse» (p. 68) –, assume muitos dos conceitos do filósofo, como sejam: «a etiologia sexual das neuroses; o papel dos instintos na construção

da civilização, da cultura, da arte e da moral; […] as estratégias de recalcamento; a denegação e a cisão do ego; a fuga na doença,a somatização; a fonte inconsciente da consciência; a importância da introspeção na produção do ego; a crítica da moral dominante cristã, culpada de gerar patologias individuais e coletivas; a relação entre culpa, má consciência e renúncia aos instintos» (p.76). Mas, e sobretudo porque a psicanálise assim o exige,foi todo o trabalho que realizou de autoanálise e de interpretação de sonhos próprios que o conduziram a conclusões «científicas». O «mestre», fazendo de si arquétipo, projeta nos seus pacientes o que entende serem as suas idiossincrasias. Determina que todo o indivíduo sofre de complexo de Édipo, e o seu,justifica-o indo desenterrar uma memória dos três anos,em que teria viajado com a mãe de comboio,surpreendendo-a quando esta se despia e desejando-a; facto que terá igualmente conduzido à sua aversão por aquele tipo de transporte.Automaticamente,e por um processo complexo que implica (também) o consciente coletivo, fixa o desejo da morte do pai,associado a uma memória de um episódio menor: um dia recorre ao quarto dos progenitores para se servir do bacio e ouve o pai dizer que daquele modo jamais viria a ser um homem.Isto sem esquecer a diferença de idades entre os pais (20 anos) e a existência de um irmão mais velho,de casamento anterior, sobre o qual estabeleceu uma complexa rede de associações pai-filho-madrasta. Defendendo que nenhum especialista deverá psicanalisar familiares,fá-lo à sua filha,à respetiva companheira e filhos desta.Aliás,fervorosa defensora do pai,Anna sofrerá de anorexia. Especializada em crianças,o seu primeiro paciente foi W.Ernest Freud,seu sobrinho. O «mestre» jamais terá admitido falhas na sua prática: um erro de prescrição medicamentosa, que leva à morte da paciente,é,sem remorso, disfarçado de receita corrente noutros doentes e envolto na fantasia de a vítima ter o mesmo nome da filha prematuramente morta; uma criança a quem determina uma histeria que estaria a «curar», é-lhe retirada pelos pais, vindo a falecer dois meses depois vítima de um tumor nos gânglios abdominais – Freud só admite que, preocupado com o problema psíquico, negligenciou o físico –, a que se soma o caso Anna O., o do homem dos ratos… os mesmos que Freud apresenta como exemplares de cura (desmentida pelos próprios ou pela deteção de patologias várias), cujo processo subjacente esta obra clara e inteligentemente denuncia.

GIORGIO BASSANI ESTAÇÃO DE CAÇA
suficiente imaginar-se «Fora morto para se sentir investido por uma onda de súbita felicidade, pensava de si para si mesmo, sorrindo, então, porque não matar-se? E porque não fazê-lo o quanto antes?» Edgardo Limentani, de Ferrara, 45 anos, advogado, judeu, proprietário rural, prepara-se para uma caçada inútil. A manhã está fria, o caminho é longo, entrecortado por algumas peripécias, e umas tantas conversas. A Garça (Quetzal, trad. Sara Ludovico), de Giorgio Bassani, coloca os atores deste drama no ano de 1947, numa Itália à beira de uma confrontação social e política. O velho regime, que sobreviveu ao fim da guerra, tenta assegurar que as forças proletárias não ganhem o poder. Nos bastidores desta guerra acesa, aos mandantes pouco importam os danos colaterais da marcha da História, mas ao romancista sim. Limentani está no fim da linha, num pântano de indecisões, encurralado por um casamento sem consistência – abaixo da sua classe social – tal como o primo engenheiro o advertira, e uma vida familiar cujo único ponto de apoio é a velha senhora sua mãe. A crise existencial leva-o ao campo de caça para contemplar o sacrifício inútil de umas quantas peças abatidas por desfastio, incluindo uma pobre e majestosa garça, destinada a ser empalhada. No pequeno teatro do absurdo a que assiste dentro de si mesmo, entre fantasias e sonhos, desespero e tédio, adormece, telefona, deambula, cogita embrulhado por um nevoeiro real e metafórico, observa, rumina. Ah! Não se pode esquecer das duas armas de caça, na bagageira do depauperado automóvel que o untuoso estalajadeiro fascista quer adquirir. «A felicidade interior dava impulso às suas fatigadas pernas, medida e precisão aos seus gestos, calma aos batimentos do seu coração. Era verdadeiramente um tesouro aquilo que trazia dentro de si. Imenso, inesgotável, que, apesar de tudo, tinha de manter secreto, escondido de todas as pessoas do mundo. Toda a sua alegria, toda a sua paz derivavam da certeza de ser o seu único proprietário.» JGM

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PRÓXIMO LIVRO JOSÉ DO CARMO FRANCISCO
JOÃO RICARDO PEDRO

É DIFÍCIL FUGIR DA NOSSA VOZ
Em busca de concentração para escrever o novo romance, João Ricardo Pedro já tem centenas de páginas e dezenas de personagens.

oão Ricardo Pedro (n. 1973) recebeu o Prémio Leya 2011 para o seu original O Teu Rosto Será o Último, publicado em 2012. Referido o livro como o «retrato literário de uma geração» (Rui Lagartinho), como «romance forte e entusiasmante» ( José Mário Silva) e o seu autor como alguém que «veio para ficar» (Miguel Real), não é fácil lidar com o ruído criado à sua volta. Mas o autor não para: «Estou a escrever aquilo que será o meu segundo romance. Na minha atividade diária continuo com todo o tempo para escrever sabendo que não é fácil gerir a responsabilidade de um livro vencedor do Prémio Leya. À minha volta dizem-me

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Depoisdasurpresa do Prémio Leya para OTeuRosto SeráoÚltimo (Dom Quixote), João Ricardo Pedro vive aeuforiadas primeirasedições estrangeiras: Espanha, Holanda, França–e Alemanha no próximo ano.

que o segundo livro é um problema, alguns escritores com mais experiência falam nisso dizendo que é urgente fazer o segundo livro para depois passar ao terceiro. Dizem também que o segundo livro será um fracasso. Dizem, mas eu não penso assim.» E prosseguindo: «A ideia é fazer uma coisa diferente. Mas mesmo com essa intenção é sempre difícil fugir da nossa própria voz. Está a ser um livro muito diferente do anterior,ainda não sei se melhor ou pior. Quanto à forma e à estrutura, à época e ao conteúdo,tento afastar este livro do primeiro. Ando no equilíbrio instável a tentar fugir do livro inicial e testar os meus limites

VENEZA – UMA CIDADE COM ÁGUA, PEDRAS E MUITA GENTE
João Ricardo Pedro gosta de toda a Itália embora conheça melhor a Itália do Norte: «A minha foto que aparece na Net é de um passeio a Veneza há cinco anos.Tenho boas memórias da cidade: não há automóveis, as pessoas estão mais perto umas das outras, mais juntas, apetece andar sem destino nas ruas e nas praças.Ali os autocarros são os barcos, tudo aquilo funciona mas a cidade é também um museu e há muitos turistas.Também gosto de Florença e Roma.»

mas sabendo sempre que a voz é única e não se pode fugir dela.» Para concluir a ideia: «Em OTeu Rosto Será o Último há uma geografia e uma época muito presente mas neste livro,embora se identifique que é o Portugal e o agora de 2013,o contexto histórico não está tão visível.O fundo é o “aqui e agora” do nosso país. Não há ainda título escolhido, são centenas de páginas e dezenas de personagens e segue-se um processo de escolha e de depuração do produto final. E isto com a salvaguarda de eu não ter agora a certeza absoluta de ser capaz de concluir este livro.» Sendo o autor formado em Engenharia, quisemos saber como se aproximou da literatura.João Ricardo Pedro explica: «A minha aproximação é como leitor,nunca estudei literatura,não tenho curso nem método, a ligação sempre foi anárquica e nunca foi dirigida por ninguém. Foi um caminho individual, sem mestre,sem guru e sem instituições. Um dos momentos decisivos foi a leitura de A Metamorfose de Kafka. Em Monte Abraão era olhado de lado por ser diferente e andar com um livro na mão.As meninas achavam estranho.Os encontros com os livros de José Cardoso Pires e António Lobo Antunes são para mim ainda hoje decisivos como leitor.» Voltando ao tema do próximo livro e do seu quotidiano,João Ricardo Pedro explica: «A minha vida é a luta contra o livro que estou a escrever. Isso também aconteceu com o meu primeiro livro: a questão da necessidade e a satisfação.Só penso praticamente no que estou a escrever, estou concentrado. A vida de um escritor hoje em dia tem isso, muitos convites para lançamentos, alguma vida social.Eu estou a afastar-me ao máximo dessas coisas, é preciso uma grande concentração no trabalho quotidiano de escrever.» Quanto às traduções do seu romance, o autor está a viver intensamente esta fase: «Estou entusiasmado com a publicação em Espanha.» Entretanto vão sair traduções na Holanda, na França e em 2014 na Alemanha.

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©Pedro Loureiro

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RESUMINDO E CONCLUINDO JORGE REIS-SÁ

RAQUEL NOBRE GUERRA SENTIDO DE DESMESURA
obre Groto Sato,a notável obra de estreia de Raquel Nobre Guerra (com chancela da Mariposa Azual), diz João Barrento, no seu entusiasmado posfácio, tratar-se de um «livro esfíngico», um «delírio manso e selvagem». Estamos, de facto, perante uma voz radicalmente distinta das que têm surgido na poesia portuguesa recente, sobretudo no modo como se afasta do denominador comum de muitas delas (linguagem prosaica, observação do quotidiano, tom de lamento), em prol de um certo sentido de desmesura. «Hiperlírica» atentíssima, enigmática, «metida entre astros», buscando o fio entre o sublime e o escatológico, Raquel Nobre Guerra entra no poema com «a luz e o gume bem medidos», à espera do «veneno certo» ou de uma «grande força erguida a prumo».Neste livro, as paixões e os ódios consomem-se «até ao osso»,há «fome da substância que preda» e uma vontade de absoluto que se transmuta quase sempre em distanciamento irónico. Em tempos de «pestilência», a poetisa recorre ao latim dos ritos católicos para dizer o abandono de deus, compensado pela experiência gloriosa de um «amor anárquico». Abundam os vocábulos raros, arcaicos, as deslocações semânticas, os efeitos caleidoscópicos de uma sintaxe partida e depois colada com cuspo, sempre à beira do desmoronamento: «tu igreja disposta para dentro / tu necromante aleph messo di dio / tu noema mênstruo telégrafo dos mortos / às delícias rasantes deste império retido / tu deitado para fora onde convergirá tudo». Obscura e densa, erudita e noturna, esta poesia não ignora o naufrágio de uma geração («para permanecer abdicámos de sonhar a oiro»),mas prefere registar a forma como as coisas se movem e interpelam numa escala cósmica, «em atracção vivíssima». Ousa por isso uma saudação pessoana a Álvaro de Campos, erguida sobre «sensações surradas num aperto de gelo»,no que acaba sendo um arremedo feliz de modernismo pós-moderno: «Porraaaa! Isto imensamente isto! / […] Irromper pandeireta, irromper turbina, zurzir pelos vossos ouvidos rígidos / e moucos, que tudo está mais voando que esta desonra de baixeza!» José Mário Silva

A VOZ DE UM NOME
ítulo roubadinho ao Fernando Guimarães, mas desta vez com crédito. Porque o nome é tudo. Próprio ou comum, é sempre substantivo. Diogo Vaz Pinto tem nome de escritor. E isto é importantíssimo.São raros os casos de nomes que se tenham imposto contra aquele que carregavam de nascimento. Não basta ser, na poesia. É também preciso parecer. E Diogo Vaz Pinto parece: a solenidade do Vaz, a burguesia do Diogo e a o ar proletário do Pinto conferem-lhe a necessária autorização para poder editar livros de poemas. Vaz Pinto apareceu com a Criatura, revista de poesia, e afirmou-se na contracultura poética. Quero crer que será este o termo de que mais gosta,mas temo pela minha saúde: tudo o que a minha veneranda pessoa disser de simpático e mais do que tudo o que possa dizer de antipático, será sempre mal dito, bem sei. Afirmou-se porque o nome é tudo. E o título Criatura é em si mesmo um programa. Por muito que nos manifestos que fazem parte da revista haja algumas contradições em relação ao que afinal «deve» ser a poesia para os diretores. Mas isso, como diz a outra, «agora não interessa nada». E escrevo «deve» (e não deve) porque nunca sei se a escola onde (não) se insere a poesia do Diogo Vaz Pinto quer ou não alguma coisa.Talvez não queira e sou eu que estou a ler mal manifestos antimuitagente desde há 10 anos. Porque, no fundo, essa corrente (tenho tentado usar vários sinónimos, como repararão, para conseguir acertar num dos termos) está é de mal com a vida. E isso nota-se sobremaneira na poesia de Vaz Pinto. Segundo livro, Bastardo (Averno), final da primeira página, cito: «Olho longamente da inquieta janela, / debruço-me p’ra lá, sobre / a linguagem que amadurece os muros; / prefiro-a a tudo o que vem / desses enconados / com os seus versinhos cortezes; apodrecido / mel e a alma asquerosa que entre eles / dividem. // Se leio poesia quero é vida, respiração, / uns ralhos,puxões de orelha.» Neste manifesto está a confusão toda (e não falo de algum excesso de adjetivação): por que raio quem

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escreve versos corteses tem a alma asquerosa? Não se estará a confundir a arte com o artista? (Isto assumindo que todos aqueles Júdices que escrevem poesia melíflua em vez de «Além de umas latas de cerveja e do maço de cigarros» fazem «arte»…) Mas, como diz a outra, siga pra bingo. O Diogo Vaz Pinto, como se nota em cada verso, não está para chatices. Cito: «Contra o mundo, prefiro a poesia / descomprometida, arreada de inúteis / militâncias.» Basta, para o efeito, ler o ponto anterior. Além de haver uma ligação direta com o Pedro Abrunhosa – também este coloca uma única palavra para título dos seus álbuns –, na poesia do Diogo Vaz Pinto há um experimentalismo citacional – quiçá mesmo situacionista – que me deixa agridoce. (Digam lá se experimentalismo citacional e Abrunhosa não ficam bem na mesma frase?) Se me agrada muito essa construção à volta do que os outros dizem – escrevemos sempre com os outros, não contra os outros –, o facto de Vaz Pinto, ao invés do que faziam Elliot ou Pina, (que elencavam os reenvios no fim do livro), as inserir em itálico no meio do poema emperra a leitura. Como se fossem pontos luminosos a ofuscar o resto. O que nos vale é a poesia.A dele,também. Gosto do que escreve.Há uma discursividade, um correr da pena,uma naturalidade nas imagens que cria («a linguagem que amadurece os muros») que denotam alguém que tem «a voz de um nome».E isso, como sabemos,é o mais difícil. Outros nomes,outros poetas.A crónica do mês passado já está desatualizada – e ainda bem. Jorge Melícias tem livro novo, na Cosmorama.Chama-se Felonia/Agma e reúne o livro que se mostrava inédito na reunião da sua poesia (Disrupção, 2008) com o novo livro, Felonia, Melícias – nos antípodas da poética do Diogo Vaz Pinto e nem por isso menos interessante – continua a rasurar cada palavra na procura incessante da imagem fatal. Se há alguém que soube perfeitamente o que escreveu foi Cabral do Nascimento: contra tanta gente pouco cortês, «a poesia é só uma».

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SEM RECEITA
Malala Yousufzai
Penso continuamente naquela
menina paquistanesa que foi baleada na cabeça pelos talibãs por insistir em ir à escola. Nas manhãs difíceis repito o seu nome como um mantra: Malala Yousufzai. O Prémio Nobel da Paz devia ser dado a pessoas assim, que preferem morrer a viver sem educação.Tem 14 anos, Malala Yousufzai. Milhões de indivíduos chegam à velhice sem terem entendido que só os livros mudam o mundo. Muitas centenas de outros escrevem livros por ódio à herança que os livros transportam.Escrevem em vez de ler, escrevem contra o acto da leitura, escrevem para criar muros de palavras que tapem as frases essenciais, duras, árduas, escritas por outros. Só os livros nos tornam humanos.Os golfinhos são inteligentíssimos mas não deixam rasto.Os cães sabem lamber pés, atacar inimigos e obedecer – mas não sabem escrever. Só os livros criam riqueza capaz de sobreviver à leviandade dos mercados. Ninguém perdoa aos judeus terem descoberto isto antes da generalidade dos seres humanos – é o amor aos livros e não a capacidade de transformar pedras em diamantes aquilo que faz do povo judeu o eterno perseguido. Uma coisa tem directamente a ver com a outra,aliás.O Padre António Vieira compreendeu-o. A democratização do livro criará sociedades mais justas. Há pouca gente disponível para trabalhar por esta causa, porque os interessados na justiça são muito poucos: cada um põe a espingarda à porta do seu território de excepção, e nisso a maioria dos intelectuais não é muito diferente dos talibãs. Os que defendem a inacessibilidade dos livros fundamentais são idênticos aos que escrevem livros contra a literatura: enfiaram o cérebro no gueto dos privilégios. O gueto é uma figura de inversão política: quem o cria fica refém dele. A arrogância alemã é uma consequência do gueto. Um estigma. Uma marca de infelicidade. Malala Yousufzai não aceitou o gueto. Não se deixou circunscrever por ele. Avançou para a escola com a tranquilidade de uma adolescente europeia, sabendo uma coisa que as adolescentes europeias não sabem: a morte é preferível à ausência de liberdade. Porque sem liberdade a vida é mera sobrevivência. Ser livre consiste em pensar,esse

INÊS PEDROSA

TEXTO SEGUNDO O ANTERIOR ACORDO ORTOGRÁFICO

©Pedro Vieira

Não há um único programa de livros no serviço público de televisão: os doutores que a dirigem dizem que o povo não quer. Os doutores não querem que o povo descubra que pode querer mais do que tem.

acto violento através do qual nasce a palavra «não» e a possibilidade da escolha. O Ocidente perdeu a noção da liberdade, que confunde com o poder de comprar e ter coisas.A ideia da compra e da venda impõe-se ao espírito como ao corpo: quando tudo é uma questão de dinheiro,vender a mãe,alugar o corpo ou entregar a consciência a quem oferecer o maior juro tornam-se banalidades lógicas. A poesia resguarda-se no castelo do branco sobre o branco, os intelectuais acoitam-se nos seus parques temáticos e dedicam-se ao pensamento conspirativo, o absurdo torna-se um divertimento literário, a lucidez uma tela impressionista em que todas as cores se misturam numa aparência de harmonia, e aqueles que insistirem em dizer que vender o corpo não é igual a vender uma ideia e que para vender uma ideia não é preciso vender a alma são uns chatos preconceituosos. Também os livros foram despromovidos de amantes a adereços sociais: objectos de ostentação. Exibidos como sinais exteriores de interioridade e amordaçados como terroristas perigosos.Não há um único programa de livros no serviço público de televisão: os doutores que a dirigem dizem que o povo não quer. Os doutores não querem que o povo descubra que pode querer mais do que tem. Os livros têm vendavais escondidos nas suas páginas.Tornam as pessoas ambiciosas.Capazes de mudar o mundo. Aos 14 anos, Malala Yousufzai já sabe que a liberdade não é uma forma de comércio, mas a própria respiração. Entregou-lhe o corpo e o espírito. Entrega. A palavra oposta a venda – isso que nos tapa os olhos.

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O DESIGN DE KRADOLFER DepoisdeR2, VictorPalla, PedroFalcão, Paulo-Guilherme eMarcoSousa Santos,osexto livrodacoleção «D»,conceitode JorgeSilvacom ediçãodaImprensaNacional-CasadaMoeda, édedicadoaFred Kradolfer(1903-1968),«protagonistaincontornáveldahistória do design português».Volume comprefácio deJoséBártolo.
©Martial Colomb/Getty Images

PAULO VARELA GOMES
FADISTAS DEMACHADO ÍdolosdoFado, umclássicode 1937daautoria deA.VictorMachado(1892-1939),regressa agoraemedição fac-símilepela ImprensaNacional-CasadaMoeda,comumestudointrodutório deRuiVieira Nery.Dezenasde fadistasretratados,deAdelina FernandesaZulmiraMiranda, passandopor AlfredoDuarte («Marceneiro»).

VERÃO MORNO
Os meses difíceis da vida de P., um paciente que se assemelha a Portugal, dividido entre a resignação e a fúria.
primeiro romance de Paulo Varela Gomes, professor universitário e colunista do Público, é narrado por um psiquiatra que relata os meses conturbados da vida de P., um paciente quase a fazer 60 anos a quem é diagnosticado um cancro.P.(Portugal?) é como o País,invadido por uma força estrangeira e destruidora e, também como o País, é um personagem entre a resignação e a fúria, entre a meditação e a ação. O Verão de 2012 (Tinta-da-china) começa num tom sebaldiano, evocativo e melancólico,com múltiplas alusões literárias, em particular ao diário relativo ao período em que o escritor inglês William Beckford esteve em Portugal, em 1787. Esta passagem é uma síntese dessa escri-

O

ta: «P. recordava nitidamente, quase alucinatoriamente,o piar de pássaros nas árvores matinais do parque onde se situava a biblioteca, o bater das badaladas de um relógio no silêncio das salas, as tábuas do soalho a ranger quando se aproximava das estantes onde estava a literatura dita juvenil.Estes fragmentos de uma atmosfera de recolhimento e solenidade impressionaram-no muito,talvez tanto como os muitos livros ali requisitados ou lidos,entre os quais estavam as histórias de piratas das Caraíbas escritas por Emilio Salgari.» Progressivamente vão confluindo na narrativa duas correntes paralelas: a primeira,a de um país,Portugal,tal como foi sendo visto pelos estrangeiros, desde o referido Beckford

a viajantes como Joseph-Barthélemy-François Carrère, cuja opinião impiedosa sobre os portugueses surge como o olhar «comum» que permanece até aos nossos dias na condescendência da Europa rica para com os bárbaros do sul do continente; a segunda, estimulada pela proximidade da morte de P., a de um tempo remoto, de maior harmonia do Homem com o meio envolvente (no sentido lato de natureza, urbanismo,economia).Esta confluência e o desequilíbrio emocional do protagonista levam-no para conclusões sobre os efeitos nefastos do capitalismo na ecologia humana: os camponeses de antigamente eram mais donos de si próprios do que o eleitor moderno,havia uma maior familiaridade com o mundo natural e com a própria ideia de morte,a sociedade em que vivemos acabou com a dignidade ontológica do Homem e, em particular, do povo português. Varela Gomes joga com a instabilidade psicológica do protagonista para que o leitor se mantenha na dúvida sobre se este é um diagnóstico certeiro dos tempos em que vivemos ou se P.não é mais do que um epifenómeno dessa realidade,um sintoma agravado pela sua condição particular de doente terminal.Uma incerteza que é reforçada pelo contraste entre a linguagem atmosférica, as referências eruditas, um certo bucolismo paisagístico e a irrupção da fúria,de um sentimento de revolta transformado em violência e patente no final que não é mais do que uma fantasia de vingança, uma catarse imaginária. O desequilíbrio deste romance,que tem momentos de rara felicidade entre pensamento e qualidade literária, resulta dessa indecisão entre a postura serena, contemplativa, de um médico e as oscilações maníacas de um paciente.Ainda que a primeira – a sua natureza sebaldiana – prevaleça em grande parte do livro, é a segunda, com o seu final atípico, que tem a última palavra.
Bruno Vieira Amaral

Revista LER

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Paris, julho de 1940, durante a ocupação alemã.

IRINA LEONIDOVNA NEMIROVSKAÏA

A QUESTÃO NÉMIROVSKY
FILIPA MELO

Aclamada em vida, esquecida durante 60 anos e recuperada graças a Suite Francesa. A Relógio d’Água está a publicar a sua obra.
m 2004, o Prix Renaudot, um dos mais importantes prémios literários franceses, criado em 1926 e atribuído, entre outros, a Aragon, Céline, Le Clézio ou Perec,destacou pela primeira vez uma obra póstuma. Suite Francesa, incompleto roman fleuve que retrata as provações dos franceses durante a ocupação alemã entre 1940 e 1941, havia sido escrita cerca de 60 anos antes pela judia ucraniana Irina Leonidovna Nemirovskaïa (1903-1942), cuja vida fora romanesca e terminara de forma trágica. Nascida e criada em Kiev (Ucrânia),filha única de um especulador e banqueiro judeu (não-praticante) e educada por uma precetora francesa, Irina viveu em Paris entre os nove e os 11 anos e a partir dos 16, quando a família ali se instalou definitivamente, em fuga às perseguições antissemitas e às convulsões políticas na Rússia.Em criança, fala quatro línguas e aprende o francês antes do russo.Licenciada em Letras pela Sorbonne,estreia-se,sob o nom de plume de Irène Némirovsky,em 1927,com

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a novela breve L’Enfant Prodige,e,em 1929, publica o romance David Golder (recémeditado pela Relógio d’Água),o seu maior best seller em vida.Seguem-se vários outros romances, todos escritos em francês, acolhidos com relativo sucesso durante toda a década de 30.Ao longo deste tempo,Irène frequenta a burguesia rica de Paris, mantém distância para com a comunidade de emigrados judeus russos e cultiva amizade quase apenas com pessoas influentes de direita e até mesmo de extrema-direita.Em 1938,quando ela e o marido,o judeu russo Michel Epstein (engenheiro físico que se tornou banqueiro),solicitam a nacionalidade francesa para si e para as duas filhas,nascidas em França,não obtêm resposta,o que os lança na perigosa condição de judeus, russos e apátridas.Em 1939,o casal converte-se ao catolicismo e batiza as filhas.Em 1940, recusam fugir (para os EUA) pela fronteira de Hendaye e Irène escreve ao marechal Pétain (sem resposta),pedindo-lhe que «a distinga dos indesejáveis»,enquanto estrangeira «respeitável» (honorable)

que é e nomeando vários amigos influentes.Todavia,estes esforços para,reconhecidamente, «quebrar os laços com um povo cuja estranha identidade sempre [lh]e pareceu incompreensível», de nada servem. Em 1940,Albin Michel (virá a ser tutor das órfãs da escritora) edita o romance de inspiração autobiográfica no qual Némirovsky descreve os judeus de Kiev,a sua feroz divisão por classes e a sua insistência, mesmo perante o aumento da violência dos pogroms e raides cossacos,em funcionarem entre si como cães e lobos.Os três protagonistas, depois emigrados em Paris, vivem um triângulo amoroso sempre condicionado por aquelas divisões originais. Os Cães e os Lobos (Relógio d’Água,2012) será a última ficção da escritora editada em vida,devido à interdição aos judeus de editar ou receber direitos autorais entretanto decretada. Note-se que o único editor que ainda publicará o seu trabalho é Horace de Carbuccia, fundador da ostensivamente antissemita revista Gringoire, onde ela passa a colaborar,sob pseudónimo (e até fevereiro de 1942).Em 1941,obrigada a usar a estrela amarela,a escritora instala-se com a família num hotel modesto numa pequena vila de Issy-l’Evêque (região da Borgonha, administrada pelos alemães),onde começa a escrever Suite Francesa.Em julho de 1942, com 39 anos de idade,é presa pela polícia francesa local,logo enviada para o campo de trânsito nazi de Pithiviers e,dali,como «artista judia degenerada»,para o campo de concentração de Auschwitz, onde morre, um mês depois, crê-se que vítima de tifo. O marido ainda escreve ao embaixador alemão, argumentando: «[A]pesar de a minha mulher ter ascendência judia, na sua obra ela refere-se aos judeus sem qualquer tipo de afeição.» Capturado em novembro, é também enviado para Auschwitz, onde morre, logo à chegada, na câmara de gás. Contendo apenas duas das cinco partes previstas,o pequeno caderno manuscrito da ficção Suite Francesa, repleto de uma letra minúscula e febril,quase ilegível,e feito de mau papel desse tempo de penúria, conservou-se, sempre em França, dentro de uma pequena mala que Michel havia entregado à filha mais velha,Denise Epstein (n. 1929). Acompanhou-a enquanto esta esteve escondida em colégios internos,com a irmã (Elizabeth Gilles,1937-1996,autora de Mirador,biografia imaginária da sua mãe,publicada em 1994),e,depois,durante 59 anos, até Denise arranjar coragem

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para o transcrever,ler,depositar no arquivo IMEC e dar a publicar. Em 2004, Suite Francesa torna-se um retumbante êxito comercial e impulsiona a revelação ou reedição de todas as ficções de Némirovsky. Ganha rápido destaque o romance de estreia, David Golder,cujo protagonista homónimo é um ávido homem de finanças judeu originário do gueto de Kiev e instalado em França. Já velho e após entrar em bancarrota com o negócio na Califórnia, reconstitui parte da fortuna, apenas para satisfazer os desejos de uma filha estouvada, cruel e promíscua. Num último estertor, vêm-lhe à boca palavras em iídiche e há uma voz que o chama de regresso a casa. Assim que ressurge, o personagem Golder, com muitas analogias com Père Goriot,de Balzac,é lido por vários grupos judeus e por vários críticos como uma criação profundamente antissemita,também comparável a Shylock, o agiota de O Mercador de Veneza, de Shakespeare. Outros traços de antissemitismo são depois apontados na obra de Némirovsky. Em 2008,o Musée d’Art et d’Histoire du Judaisme parisiense recusa-se a exibir a exposição evocativa da escritora antes produzida pelo Musem of Jewish Heritage de Nova Iorque e comissariada por Olivier Philipponnat, coautor da importante biografia La vie d’Irène Némirovsky (a mostra será acolhida pelo Mémorial de la Shoah, em 2011). Sempre que ressuscitam pelo mundo fora (existem traduções em 38 línguas), os livros de Irène continuam a suscitar polémica. A dúvida é premente: até que ponto a carga emocional e a complexidade da personalidade, da vida e da morte de Irène Némirovsky,um dos 75 mil judeus enviados da França para os campos nazis, influenciou, por exemplo, a atribuição póstuma de um Renaudot e poderá ofuscar uma apreciação crítica estritamente literária? O destino dos judeus na Europa no século XX, a Shoá (significa «calamidade» em iídiche) ou Holocausto (de origem grega, significa «sacrifício pelo fogo»), permanecem centrais na problemática mais profunda e essencial da cultura europeia. O suicídio de Paul Celan, Primo Levi, Jean Améry, Stefan Zweig ou Walter Benjamin ensombram para sempre a discussão sobre as potencialidades da expressão artística. É inegável que

a maior parte da força das ficções de Némirovsky, tal como a maior parte das críticas que lhe são feitas, advém da exposição das suas circunstâncias feita na atualidade. Em 1933, Irène escreveu no diário: «Existem suficientes recordações e poesia na minha vida para compor um romance.» De facto, poucas obras como a dela se relacionam de forma tão indestrinçável com a biografia do seu autor. A obra de Irène Némirovsky é determinada por uma tortuosa busca de identidade, com origem na sua dificílima relação com a mãe, que sempre a viu como uma rival. O pai estava quase sempre ausente em viagens de negócios e Fanny Némi-

Irène Némirovsky.

rovsky, obcecada pela sua própria beleza e capacidade de sedução, acumula amantes e humilha a filha desde pequena. No baile de debute desta,apresenta-se como sua irmã. Proíbe-lhe a vocação de escritora (Irène só a assume após o casamento). Quando ela engravida, insta-a a abortar, porque não quer ser avó.Quando as netas a procuram após a guerra, em Nice, onde manteve todos os privilégios (provavelmente à custa do desvio da herança paterna de Irène), fecha-lhes a porta, alegando que o lugar delas é num orfanato.A escritora dirá em 1937, à futura historiadora e escritora Dominique Desanti: «Detestar uma ausência e não uma presença: é um ódio muito mais fácil de suportar.» No entanto, o trauma da relação com a mãe projeta-se em todos os livros; sobretudo e de forma magistral na novela tragicómica O Baile (Relógio d’Água,2012),de 1930, terrível contraconto-de-fadas.

Irène demonstra também complexos e ambíguos sentimentos quanto ao passado vivido na Ucrânia.Não nutre simpatia nem pelos judeus do shtetl,nem pela burguesia russo-judia.As agitações pós-Revolução de 1917 levam-na a fugir,com a mãe,de Kiev em direção a Paris,passando pela Finlândia e Suécia,trajeto relatado no livro mais autobiográfico, O Vinho da Solidão (redigido em 1934, dois anos após a morte do pai). Odiará para sempre o comunismo. Entretanto,a sua adorada precetora,Marie, suicidara-se, deixando-a órfã aos 14 anos.Irène desejará para sempre ser adotada em pleno direito pela França. Até ao fim,lê mal os sinais à sua volta e duvida que possa ser abandonada por esse país que tanto ama, onde o pai reconstruiu a fortuna (a partir de uma sucursal do seu banco ucraniano) e onde,como judia assimilada, atingira uma situação social de privilégio. Helène, a protagonista de O Vinho da Solidão,exclama: «Passei a vida a bater-me contra um sangue odioso,mas tenho-o cá dentro.Corre-me no corpo.[…] E se não aprender a vencer-me a mim mesma,este sangue, acre e maldito, será mais forte do que eu...» Progressivamente, em permanente rutura com essa parte da sua herança, Irène Némirovsky divorcia-se da judeidade. O desenraizamento interior e exterior dos personagens torna-se o tema central. Até Suite Francesa (editado pela Dom Quixote em 2005) os romances vão-se esvaziando de personagens judeus. Num movimento semelhante ao de muitos autores secularistas,a escritora rejeita a religião e contrapõe-lhe o pragmatismo. Quer mostrar as pessoas-personagens como elas são,nos seus contextos precisos,e aceita o preço desta atitude: «[T]emo sobretudo a objeção dos próprios judeus:“Porquê falar de nós?”,perguntarão eles,“Por acaso ignora a perseguição de que somos vítimas, o ódio que nos persegue? Se falamos de nós,ao menos que seja só para glorificar as nossas virtudes e carpir as nossas provações!” A isto,eu responderia que não existem temas tabu em literatura. Por que há de um povo recusar-se a ser visto tal como ele é, com as suas qualidades e os seus defeitos? Creio que alguns judeus irão reconhecer-se nas minhas personagens.Provavelmente irão desprezar-se? Mas eu sei que digo a verdade.»
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ENSAIOS DO TEMPO RUI BEBIANO
EUROPA

O IMPERATIVO COSMOPOLITA
Para escapar à «inevitabilidade» de uma «Europa alemã», Ulrich Beck parte em busca de um novo contrato entre as nações.

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onhecido principalmente pela sua teoria da sociedade do risco,que considera a atual distribuição dos riscos incapaz de corresponder às diferenças sociais, económicas e geográficas próprias da primeira modernidade, e em condições de impor novos perigos disseminados à escala global e de mais difícil controlo,o sociólogo alemão Ulrich Beck (n. 1944) propõe-nos neste curto ensaio uma interpretação pessoal da presente crise financeira e das suas consequências sociais e políticas para a Europa. O plano, singular e inspirador, comporta três partes: as duas primeiras têm uma natureza analítica, destacando as mudanças nos equilíbrios de poder que a crise dos mercados impôs e o novo mapa político que delas resultou; já a terceira é assumidamente prospetiva, tendo como objetivo sondar as formas de conseguir um novo contrato social destinado a manter a gran-

Em busca de alternativas para a Europa no livro de Ulrich Beck, A Europa Alemã – De Maquiavel a «Merkievel»: Estratégias de Poder na Crise do Euro (Edições 70, trad. Marian Toldy e Teresa Toldy).

de casa europeia,afastando a catástrofe anunciada e promovendo o gradual ressurgimento das condições de prosperidade, igualdade, partilha e democracia. O ponto de partida é apresentado sob a forma de drama: a «pátria Europa», com as suas fronteiras abertas, as suas normas relativas à qualidade dos alimentos e do ambiente, a liberdade de expressão e de imprensa, as suas universidades ligadas em rede e cooperando entre si,a relativa fluidez do mercado de emprego,tornou-se de tal forma uma segunda natureza para os europeus que estes têm dificuldade em considerar sequer a possibilidade de a perderem. E no entanto esta encontra-se em marcha, num cenário de incerteza e previsível catástrofe. No eixo da mudança,Beck considera estar um «monstro político» com a forma de uma «Europa alemã»,que promoveria o fim da União Europeia, mas também,

mais cedo ou mais tarde, a decadência da própria Alemanha. Identifica-se um conjunto de tensões, sintetizáveis em quatro pares de conceitos: primeiro,«mais Europa» ameaçada pelo excesso de soberania inerente à lógica de «mais Estado nacional»; segundo, um «sentido do obrigatório», forçando uma mudança dos códigos estabelecidos bloqueada por ser «proibida pelas leis»; terceiro, uma «lógica da ameaça de guerra»,substituída por uma outra, baseada na «ameaça do risco», que amedronta e tolhe o movimento; e como quarto e último par, uma intervenção no âmago do «capitalismo global» limitada pela persistência de excessivas «políticas nacionais». No centro do argumento de Beck encontra-se a necessidade de uma Europa nova, forte e tendencialmente una, uma Europa dos cidadãos, construída sobre as ruínas da Europa velha, resultante da vontade das nações. Para a alcançar, é preciso abater um maquiavelismo de novo tipo,fundado no pragmatismo político de Angela Merkl. O antigo princípio de uma ética política fundada na lei do mais forte, no calculismo e no medo – proposto n’O Príncipe, em 1516, por Nicolau Maquiavel – é aqui retomado, sugerindo a aplicação de uma atitude análoga por parte da chanceler alemã. Contra essa «Europa alemã», a alternativa surgirá então de uma nova política e de um novo contrato, associados, ao contrário do que tem ocorrido nos últimos anos, a mais liberdade, a mais segurança social e a mais democracia, como exigências para um novo equilíbrio. Uma alternativa que requer coragem: contra a pequena política,que apenas executa regras,o retorno da grande política que as altera sempre que necessário.Sob a influência de um imperativo cosmopolita,capaz de evitar o estado de desigualdade imposto pelo excessivo peso das políticas antissociais e essencialmente nacionais.

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PORTUGAL CONTEMPORÂNEO

DESMANTELANDO FRONTEIRAS
final que coisa pode unir num manifesto comum, Pela Europa! (Presença, trad.Alberto Gomes e Manuel Alberto Vieira), pessoas com trajetos políticos tão opostos como aqueles protagonizados pelos deputados europeus Daniel Cohn-Bendit (n.1945),antigo libertário e atual copresidente do Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia, e Guy Verhofstadt (n. 1953),do Grupo Democrata e Liberal, primeiro-ministro da Bélgica durante quase uma década? De forma condensada mas nem por isso mutilada, pode falar-se de uma constatação e de uma proposta. A constatação é imposta por uma imagem que hoje poucos terão coragem de negar: «a Europa é um edifício que vacila nos seus alicerces», imersa numa crise profunda e assustadora, simultaneamente económica, demográfica, ecológica, política e institucional, pela qual europeu algum passa incólume e que questiona um paradigma de desenvolvimento, de bem-estar, de cooperação e de liberdade que ainda há pouco parecia robusto e irreversível.Já a proposta,apesar de controversa e de ainda encrespar muitos e ferozes opositores, começa a fazer o seu caminho: a rejeição do «umbiguismo institucional» dos Estados-nação e a assumida construção – como diz Verhofstadt na entrevista com Jean Quatremer também incluída neste livro – de «uma Europa federal pós-nacional» associada a um projeto político. Uma Europa capaz de defender os povos do Velho Continente dos apetites de potências emergentes ou consolidadas como a China, a Índia, o Brasil, a Rússia ou os Estados Unidos, e «que não tem nada de miragem». Ambos os eurodeputados consideram, aliás, não existir alternativa ao afastamento do espectro nacionalista e à adesão ao projeto federalista que não passe pelo aprofundamento brutal e catastrófico da crise. Vale a pena conhecer as suas razões, uma vez que neste momento tudo está em cima da mesa.

HISTÓRIA A CONTRAPELO

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ontrariando a tradição conformista do historicismo alemão,cujos partidários assumiam sempre uma «empatia com o vencedor»,Walter Benjamin propunha uma escrita da História concebida «a contrapelo»,escovada ao invés e interpretada a partir do ponto de vista dos vencidos. Henrique Raposo (n.1979) parte do princípio segundo o qual há um padrão dominante na historiografia nacional que a desvirtua e falsifica a partir da ótica vitoriosa da esquerda,propondo-se nesta História politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo (Guerra & Paz) diluir essa tendência, zurzindo no seu suposto apetite para deturpar a verdade dos factos do nosso passado mais chegado.Assume fazê-lo de forma inquestionável,uma vez que o seu trabalho de «recolector de factos incómodos» o terá aproximado de inequívocos «números»,de episódios «documentados»,de afirmações «registadas»,denunciadores de uma leitura da História imposta pelas «narrativas do costume» e traduzida num complexo de mitos.Identifica cinco: o de Salazar como mera criatura da Igreja Católica; o de um Mário Soares sem o qual Portugal não teria entrado na Europa; o do Estado Novo vergando os portugueses à irrevogável pobreza; o de que a esquerda não fora algumas vezes «colonialista»; e o de que a hegemonia cultural da mesma esquerda começou antes do 25 de Abril e terminou logo no final de 1975. A narrativa de Raposo apoia-se na negação radical desses pressupostos, anunciados como fábulas. Só que esta argumentação tem um dePormenor de New York Movie (1939), Edward Hopper. feito de origem: procurando apoiar-se em

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dados e factos que neguem aqueles mitos, fá-lo ao arrepio da historiografia produzida – vista pelo autor como irrevogavelmente prisioneira de uma esquerda empenhada em reescrever a sua genealogia – e ignorando de forma deliberada muitíssima informação produzida em estudos exaustivos e academicamente aferidos.As escolhas e as gritantes omissões da bibliografia são ilustrativas das intenções do autor.Tal não significa que algumas das hipóteses e das afirmações produzidas não mereçam atenção e não possam alimentar versões alternativas da História portuguesa recente. Provavelmente merecem-no.Mas a visível manipulação do ónus da prova descredibiliza o esforço.Um esforço mais empenhado em combater o «politicamente correcto» (sic) do que em alargar,e eventualmente em complexificar,uma explicação razoável. Os exemplos desta manipulação sucedem-se. Sem espaço para mais, ficam apenas dois. Como comparar o declínio da mortalidade e o aumento da esperança média de vida ocorridos durante os 48 anos que se seguiram ao 28 de Maio,nos quais,apesar de desigual e pontual, algum trabalho foi desenvolvido pelo Estado Novo – difícil seria nada se ter feito em tão longo lapso de tempo –, com as enormes conquistas, facilmente documentáveis, nesse domínio obtidas logo nos primeiros anos de democracia? E como confundir a construção gradual,obtida a pulso,de uma cultura política e moral de resistência, levada a cabo nos últimos anos do Estado Novo, com concessões benévolas do regime? As interrogações poderiam continuar.

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©Pedro Loureiro

O COLECIONADOR DE MUNDOS

LEITURAS MIÚDAS CARLA MAIA DE ALMEIDA
PRIMAVERA

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ovido por uma curiosidade camaleónica, Richard Francis Burton (1821-1891) foi o protótipo do viajante que faz da aventura um jogo, encarnando diversos papéis, adaptando-se às circunstâncias e aos costumes. É dele a primeira biografia da coleção «Grandes Exploradores», um exclusivo do Círculo de Leitores. Se o tom é biográfico, narrado como uma história, a apresentação não descura o apelo das imagens. Num álbum ilustrado com mapas, fotografias, pinturas e gravuras, desvenda-se a personalidade de um homem que partilhou uma das obsessões do século XIX: descobrir a nascente do rio Nilo. Não o conseguiu, mas abriu caminhos e deixou um legado fascinante, materializado não só em relatos de viagens como em obras de cariz religioso, histórico e etnográfico, bem como em traduções – do Kama Sutra a As Mil e Uma Noites, passando por Os Lusíadas. Nascido em Inglaterra, no advento da Revolução Industrial, Richard Francis Burton passou a maior parte da vida em terras meridionais, onde raramente se sentiu estrangeiro. Sobredotado para as línguas, discorria tão facilmente em inglês como em francês ou italiano, e aprendeu dialetos minoritários em todos os continentes por onde passou. Moreno, de olhos e cabelo negros, não lhe foi difícil disfarçar-se de árabe e juntar-se às peregrinações de Meca a Medina, um gesto incompreensível para os cidadãos do orgulhoso Império Britânico. Foi hindu entre os hindus e muçulmano entre os muçulmanos, sem perder de vista a religião católica. Um verdadeiro «colecionador de mundos», para citar o título do romance que lhe dedicou o escritor Ilija Trojanow (Bulgária, 1965), recentemente publicado em português pela Arkheion. Depois de Richard Francis Burton, a coleção prossegue com Cristóvão Colombo, Alexander von Humboldt, James Cook, Marco Polo, Scott e Amundsen.

CIÊNCIA, SONHOS & DELÍRIOS DE HUMOR
Antes de abrir a porta aos 50 anos da Feira de Bolonha (em Março), alguns livros da temporada.
O MUNDO DOS QUARKS
«Se queres que aconteçam coisas diferentes, deixa de fazer sempre o mesmo.» Uma frase misteriosa, projetada no teto do quarto, é o princípio de uma aventura no mundo quântico, onde as coisas nunca são preto ou branco, antes existem simultaneamente, como o gato de Schrödinger. Ao sair para a escola, Niko Mir, um rapaz igual a tantos outros, vira as costas ao caminho habitual e envereda por uma zona mais solitária, encontrando a casa das três fechaduras. Como abrir a porta? Simples: basta empurrar.No mundo quântico é preciso fazer as perguntas certas para chegar a algum lado, já que o problema é «de se dar tantas coisas por assentes». Com a ajuda de um elfo e uma fada, Niko entra num universo por estrear, assiste ao Big Bang,conhece a relojoaria do tempo relativo, experimenta o teletransporte,enfrenta os espectros negros e percorre o labirinto do caminho da verdade. Robert Frost,T.S. Eliot e S. João da Cruz falaram da virtude da despossessão na sua poesia, e também eles surgem nestas páginas. Mais do que uma lição de física revestida de fantasia, esta é também uma aventura poética que propõe outros valores para a compreensão do mundo. «São as nossas escolhas que definem quem somos, não as circunstâncias que vivemos ou os talentos que possuímos.»
A Porta das Três Fechaduras Sonia Fernández-Vidal Tradução de Regina Louro Editorial Presença

O SEU A SEU DONO
A Galinha Ruiva é uma antiga fábula corrente na tradição popular anglo-saxónica, com o título e Little Red Hen. Surge agora recontada por Pilar Martínez (Espanha, 1959), com lindíssimas ilustrações de Marco Somà (Itália, 1983), de quem recentemente a Bruaá publicou A Rainha das Rãs Não Pode Molhar os Pés. Reconhece-se de imediato o estilo deste ilustrador, formado em Pintura, cuja obra foi exposta na Feira do Livro Infantil de Bolonha: o traço meticuloso, os motivos lúdicos e vegetalistas, a paleta de cores sépia – tudo o que nos remete para um ambiente de loja vintage, com os seus brinquedos e velhos anúncios publicitários. A história faz uso da estrutura cumulativa e repetitiva, seguindo os passos de uma galinha trabalhadora, que faz de um grão de trigo um saboroso pão cozido no forno. Em cada uma das fases (semear, ceifar, colher os grãos, etc.), a galinha pede ajuda a três amigos, mas as respostas são sempre iguais: «Eu não!», «Eu também não!», «Nem eu!». No fim, a justa recompensa pelo trabalho árduo. Adivinhem quem não foi convidado para jantar.
A Galinha Ruiva Adaptação de Pilar Martínez Ilustrações de Marco Somà Tradução de Elisabete Ramos Kalandraka

SoniaFernández-Vidal(Barcelona, 1978) é licenciada em FísicapelaUniversidade Autónomade Barcelona e doutoradaem Informação e Física Quântica. Nosúltimos anos, dedica-se àdivulgação científicajunto do público generalista.

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MAUS HÁBITOS
Os livros de João Porcalhão não são inéditos entre nós, mas passam agora do formato picture book (Dinalivro) para uma nova coleção destinada a leitores mais crescidos, capazes de digerir três histórias de uma assentada. E «digerir» será talvez a palavra certa para falar de um miúdo que faz da porcaria um objeto de afeto: tem uma minhoca de estimação chamada Artur,guarda lixo debaixo da cama e macacos do nariz num frasco, não se inibe de produzir ruídos corporais e elege como grande herói o homem do lixo, profissão desejada acima das outras. Ao vivo e a cores, João Porcalhão pode ser o terror de qualquer adulto, mas é o exagero caricatural que faz da dupla inglesa Alan MacDonald/ /David Roberts um sucesso editorial já traduzido para 15 línguas. E também o facto de João Porcalhão nunca se dar por vencido, acabando por levar a água ao seu moinho graças a uma imaginação delirante que deixa os adultos sem reação.Juntamente com Minhocas!, saiu também Lama!,o segundo dos 15 títulos a publicar pela Presença.
Minhocas! Alan MacDonald Ilustrações de David Roberts Tradução de Carlos Grifo Babo Editorial Presença

ELE CÓMICO
Autor de thrillers e recordista de vendas (mais de 250 milhões de livros em todo o mundo),James Patterson não é tão conhecido entre nós como Stephen King, John Grisham ou Dan Brown, mas conseguiu chegar ao imprevisível público juvenil com idêntico sucesso. Há mérito nesta vantagem. Os dois títulos já publicados pela Booksmile (Escola 1 – Os Piores Anos da Minha Vida e Escola 2 – O Rebelde Está de volta!) são livros bem escritos,com ideias fortes,vocabulário variado, humor a rodos e dramas com que qualquer teenager se pode identificar: um nome esquisito, um irmão bully, uma família desestruturada, problemas de dinheiro, amores platónicos – eis o sal da vida dos heróis trágicos de James Patterson. Mais arriscado dos que os anteriores, Eu Cómico (I Funny) tem como protagonista um miúdo «possuidor de competências distintas» (linguagem politicamente correta para dizer que anda de cadeira de rodas), que está determinado a igualar os seus ídolos de stand-up comedy. Não, não é lamechas, nem forçado, nem programático. Mas é muito cómico.
Eu Cómico James Patterson (com Chris Grabenstein) Ilustrações de Laura Park Trad. Rita Graña e Dulce Afonso Booksmile

A BIBLIOTECA DO NAUTILUS
Livros a que regressamos por uma razão qualquer. Ou duas. «Este encantador livro de cozinha, dedicado às raparigas mais jovens, alia, de uma maneira muito equilibrada, o passatempo e a vida real.» Com versão portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, O Meu Livro de Cozinha (Verbo) apresentou-nos a receitas inesquecíveis como a Pombinha, os Corações em Flor, a Brisa do Oceano ou a Nani Negrinha. Escrevíamos «alperches», «tira-cápsulas» e «avòzinha» com acento grave; não sabíamos o que era paprika nem onde desencantar «duas latas de puré de castanhas ao natural». Apesar disso, foi o livro de cozinha mais popular entre as miúdas da década de 70, as mesmas que hoje dão voltas à imaginação para esticar o orçamento e inventar mais uma receita de frango.

FACEBOOK
James Patterson é o autor da coleção juvenil «Maximum Ride» e dos policiais «Alex Cross», ambos publicados pela Top Seller.

Às vezes não nos arrependemos de julgar um livro pela capa.

BLOGOLÂNDIA
Maggie Taylor (EUA, 1961) foi um dos nomes da exposição «Um Chá para Alice», que trouxe à Gulbenkian um conjunto de ilustrações originais à volta da obra maior de Lewis Carroll. Rara oportunidade de ver de perto as colagens-quase-pinturas de uma ilusionista da arte digital, que cruza os jogos surrealistas com a estética da era vitoriana. Maggie Taylor não tem blogue. É pena. Mas quem entrar no seu mundo não vai querer voltar atrás. www.maggietaylor.com

Revista LER

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Amor perdido, amor encontrado, amor reciclado. Amor dobrado em aviões de papel, amor feito malabarismo, amor que definha por excesso de água, amor que se costura com paciência, amor que nos leva pela rua como o cão de um cego. Amor aos molhos, aos bocados, acorrentado, livre, galopante, delirante, amor aos amores. Sem palavras, a ilustradora catalã Moni Pérez (www.moniperez.com) assina um passeio visual pelas emoções do amor, recorrendo apenas à imagem metafórica do coração. Amordiscadelas (Kalandraka) é mesmo um livro cheio de humores.

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BOLONHA

DOS CINCO AOS 50 ANOS
A Feira do Livro de Bolonha chegou ao meio século. A Suécia, país convidado, promete fazer a festa. Há portugueses a soprar o bolo.

m 2012, quando Portugal foi o país convidado da Feira do Livro Infantil de Bolonha, a Suécia já tinha o mote para o ano em que iria receber o testemunho. Em 2013, ano de efeméride, o terceiro maior país da União Europeia chega ao mais importante certame dedicado aos livros para crianças e adolescentes com um tema que se cola à sua imagem de nação do Primeiro Mundo: o direito das crianças à cultura. A apresentação no site oficial (www.bookfair.bolognafiere.it) associa

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a cultura ao direito de as crianças terem o seu papel na sociedade: «Terem acesso a vários meios de expressão. Serem vistas e ouvidas. Terem acesso à arte, à cultura e à informação.» Como vão traduzir-se, na prática, estes princípios, é algo que só se saberá de 25 a 28 de março, quando as portas se abrirem para a 50.ª edição da feira. Ao lado da Exposição Internacional de Ilustradores, onde este ano estará a portuguesa Mariana Rio (O Quebra-Cabeças, Edições Eterogémeas), a Suécia far-se-á

representar por uma mostra de 31 ilustradores, num arco temporal que vai de Ilon Wikland (n. 1930) a Clara Dackenberg (n. 1987). Mais conhecidos são os nomes de Astrid Lindgren (1907-2002), criadora de Pippi Langstrump, a Pippi das Meias Altas, ou mesmo Maria Gripe (1923-2007), de quem a Relógio d’Água traduziu Os Filhos do Vidreiro, um romance imbuído do simbolismo dos contos de fadas. Ambas levaram para a Suécia o Prémio Hans Christian Andersen, na categoria de escrita: Astrid Lindgren em 1958, Maria Gripe em 1974. Este ano, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa volta a estar presente, bem como a habituée Planeta Tangerina; e também a Zero a Oito e a Appgenerations Portugal. Depois de uma presença mais visível em 2012, quando Portugal foi país convidado, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) ocupará um espaço semelhante aos anos anteriores, aberto a lançamentos, reuniões e iniciativas de autores, ilustradores e editores (contactar pelo e-mail internacional@dglab.gov.pt). Para o dia 26 de março, está já agendado o lançamento de um guia de Lisboa, ilustrado por Catarina Sobral e André da Loba, editado pela associação cultural italiana Les Bas Bleu com o apoio da DGLAB. O stand, que terá a marca do ateliê Silvadesigners!, dará a conhecer ao público uma seleção de cerca de 60 livros infanto-juvenis portugueses publicados desde a última edição da feira. Maria João Worm, vencedora do Prémio Nacional de Ilustração com Os Animais Domésticos (Quarto de Jade, 2011), terá as suas linogravuras ampliadas e destacadas no stand, onde serão prestadas todas as informações sobre os programas de incentivo à divulgação no estrangeiro de ilustradores e escritores portugueses.

SERVIÇO DE AGENDA
Com uma oferta de 52 cursos, a Escola de Escrita Criativa Online proporciona formação em regime de e-learning, mas também presencial. A escritora Margarida Fonseca Santos assegura a parte que aquinosinteressa(mais):EscreverparaCrianças,Escrever Teatro, Livro Juvenil e Escrita Criativa para Adolescentes. www.escritacriativaonline.com Dia23demarço,das9h30às17h30,aOficinaDidáctica promove o workshop «Ritmos, Rotinas e Rituais na Pedagogia Waldorf», uma introdução à importânciadosritmosnaturaisnapráticapedagógica, no sentido do crescimento harmonioso da criança. O local será a Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa. www.oficinadidactica.pt

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Informações úteis para leiturasmiudas@gmail.com Em março e abril, o contador de histórias Rodolfo Castrocontinuaocurso «AIntuiçãoLeitora»,destinadoatodososmediadoresdeleitura,paisincluídos. São blocos independentes (40 euros cada), agora sobre a leitura em voz alta e a narração oral. Na Livraria Gatafunho, ao Bairro Alto, em horário pós-laboral. Informações pelo telefone 210127652.

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LER

MARÇO DE 2013 - ANO II - NÚMERO 14
INFERNOS Nesta edição, há descidas ao submundo para todos os gostos. Se o inferno são os outros, como
sugeria Sartre,então o metropolitano e outros transportes públicos perfilam-se como perfeitos lugares de danação, como muito bem explica a crónica que abre estas páginas.O inferno de João Guilhoto é literal,com Lúcifer e tudo, mas há outros mais esquivos: a sombra do desemprego,a insegurança dos corpos entregues ao desamparo do amor. Para compensar, alguns textos acolhem epifanias, momentos de felicidade, reflexões sobre o prazer de escrever sobre a própria escrita ou de procurar o significado da poesia.Todos os participantes nesta edição do 15/25 receberão um livro oferecido pela LER,cabendo dois ao segundo prémio (Luís de Aguiar Fernandes) e três ao primeiro (José Pedro Veiga).A todos os futuros participantes,um pedido: junto com o comprovativo da idade (digitalização do BI ou do cartão de cidadão),comuniquem-nos a vossa morada,para facilitar o eventual envio de prémios. José Mário Silva

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(parcial) de transportes.Em redor de uma paragem engalanada de grafítis, que transmitem mensagens tão relevantes como «morte aos chulos» e «João Kanninah luv Maggie 4ever», aglomera-se uma chusma de mamíferos com a soalheira disposição de quem se prepara para uma chacina; assim que se avista o autocarro,a agitação alastra como um motim, uma turba desenfreada debanda às cotoveladas e encontrões em direção às portas,que se cerram com um estrondo metálico; e, enquanto tristes epígonos de Martim Moniz esperneiam contra as portas que, na precipitação, se fecharam sobre si e arriscam ensanduichá-los, os restantes comprimem-se em busca de um espacinho, entre um ranhoso que volta e meia espirra e o sovaco de um outro que estica o braço para se agarrar aos manípulos que pendem do teto. Os impacientes zumbem remoques entredentes, ou vociferam coisas ao condutor; um velho catarreia para um lenço, entre resmungos de que «esta gente não tem maneiras». E o metropolitano? Talvez inspirado pela sumptuosa estatuária que as nossas estações exibem, benesse que devemos agradecer à prodigalidade de administrações falidas,o metro é palco habitual de portentosas atuações dramatúrgicas. Sucedem quando deparamos com um ex-colega, com quem trocámos dois dedos de conversa no período jurássico e que agora finge não nos reconhecer, I

VÁ DE METRO, SATANÁS
Decantadas por Camões e pelos saltitantes pimpolhos que Portugal costuma enviar à Eurovisão (também eles, já se sabe, poetas de alto coturno), as caravelas quinhentistas ascenderam, no imaginário do vulgo, a símbolo de coragem e abnegação patriótica – mas quem pasma com o arrojo da «gesta» quinhentista devia deambular um pouco mais pelos transportes públicos suburbanos. Viveiro de rufias, lapuzes e bêbados irremissíveis, transformam qualquer viagem numa odisseia em fascículos – e com ambições mais corriqueiras: se os navegadores quinhentistas sonhavam chegar à Índia, o passageiro frequente já só anseia chegar a casa. Com o humor críptico de um falso opúsculo de zoologia, o trabalho pioneiro de Alfred Jarry (Cinegética do Autocarro) já alertara para alguns destes perigos. Mas Jarry viveu numa era pouco familiarizada com o pandemónio de uma greve o que motiva uma bizarra coreografia ocular,destinada a evitar o embaraço mútuo de que os nossos olhares se cruzem novamente; sucedem quando um mendigo nos aborda a pedir esmola e nós (nada de hipocrisias) não queremos dar-lha, o que obriga a fazer um gesto desolado com as mãos, um trejeito pesaroso com a boca e a balbuciar «nada, nada». Claro que, em travessias noturnas, o mais provável é que este idílio dramatúrgico se veja perturbado pelas carraspanas de adolescentes eufóricos, cacarejando inanidades sobre charros e a perversidade da polícia, graçolas sobre flatulência subaquática ou farroncas sobre proezas debaixo dos lençóis. Longe de mim vergastar a pitoresca estroinice da adolescência – mas tamanha balbúrdia leva a pensar que o slogan de O’Neill, mais do que blague, era um alerta. JoséPedroVeiga, 24 anos,Algés

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O PENÚLTIMO DIA
(Empregado de Mesa) Ele pediu um uísque, no gelo. Não se esticou para marcas e anos específicos,o que prova que não é um apreciador.Beberá portanto para libertar a tensão de um dia de trabalho,o que pode explicar o facto de não se sentar. Provavelmente um só copo antes de enfrentar a tensão da noite,no que devia ser o sossego de sua casa. Não deve ser alcoólico:se fosse,virava-se mais para aguardentes,o famoso bagaço, mais forte e sobretudo mais barato,e não para o velho malte escocês. Podia também ser um apreciador sem dinheiro para outros uísques mais repousados. Ou estava à espera de uma pessoa importante,e todos sabemos que é a melhor bebida para se passar uma imagem de alguém com um certo estatuto e posição social.Era isso: estava à espera de um parceiro de negócios e pediu uma bebida apenas para impressionar. (Jornalista) Merda de tarde. Cada dia que passa estou mais perto de ser despedido.Sou dos mais novos no jornal, ninguém me passa cartão. Nunca me deixaram trabalhar decentemente, mandam-me correr dias a fio atrás de políticos reformados,se é que algum dia chegaram a ser formados, uma tropa de presumíveis candidatos a alguma coisa, sempre alguma coisa,à procura de uma declaração sobre isto e aquilo.Não lhes interessam as minhas ideias,os meus pontos de vista,não lhes interessa nada. Trabalho de jornalista,a sério,é só para as mulas velhas.Mas esses vão ficar,a continuar a chupar uma teta cada vez mais seca, a fazer notícias apenas por telefonemas aos velhos amigos, a toda uma teia de interesses que conhecem como ninguém.Não sabem usar um computador? Não interessa.Trabalho de jornalista a sério,reportagens,crónicas? Não interessam. O que vende são citações dos velhos compinchas, que dão ótimas manchetes.Afinal,são as manchetes que vendem. Que se foda o interior do jornal.Com ou sem dinheiro no fim do mês, preciso deste uísque. (Administrador) Que sorte a minha! Quem haveria de estar precisamente ago-

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ra ao balcão,senão um dos garotos que tenho de despedir amanhã? Tenho de ir lá falar com ele, mas com que cara é que o faço? Tem de ser.Cumprimento-o enquanto peço um Beefeater’s tónico. Com pouco gelo e muito limão. Sento-me enquanto falamos das notícias na televisão,ao fundo do balcão. Parece-me que ele está ainda mais nervoso que eu,e olha-me como se a sua vida estivesse nas minhas mãos.Talvez até esteja, até certo ponto, mas não, não posso pensar assim.Tenho uma empresa para gerir cujo fim é o lucro,e é isso que tenho de procurar. Às vezes é complicado tomar certas decisões,mas sei que não há outro caminho.Não há grande discricionariedade nas opções a tomar.Ele pergunta-me quanto tempo tem na empresa, numa inesperada mudança de assunto.Até amanhã, penso.Mas não lhe digo.Talvez fosse melhor dizer-lhe já, ele não ia para o trabalho amanhã com mais um dia de esperança. Merece isso,é um miúdo esforçado e inteligente. Mas não posso dizer-lho.Ainda não está nada decidido,sabes,é uma decisão do conselho de administração, não sou só eu que decido, sabes que as coisas estão difíceis e que alguns vão ter de sofrer, mas tu até és um rapaz trabalhador,tens de continuar assim e esperar o melhor. Sou um cobarde. (Cliente) Vais tu ao balcão? Ótimo,traz-me só uma água das pedras. Segui-a com os olhos até ao balcão,onde foi pedir para nós. Aproveito para acender um cigarro, para repor os exagerados níveis de nicotina a que o meu corpo se habituou,ou a que eu o habituei. Ela demora, enquanto espera a sua vez junto a dois homens, no balcão. Parecem ter uma conversa séria. O mais novo deve ser filho, resmunga e queixa-se ao outro, que o tenta acalmar com respostas calmas e em voz baixa. Não está a ter grande sucesso, trauma de pai. Há muitos silêncios, em que ambos se viram para o balcão e bebem longos tragos do que quer que estejam a beber. Deve ser algo de realmente importante, parecem ambos desalentados, ou exaustos, ou simplesmente tristes. Qual seria a tragédia? Morte de alguém? Doença? Problemas antigos,talvez uma má relação anterior entre os dois? Coitados,ninguém devia estar tão cabisbaixo num bar. É meio-caminho andado para aumentar os problemas, na minha opinião. Já chegaste? Não reparei que já estavas a vir. E olha lá, o qual era o problema daqueles dois ao pé de quem pediste? Luís de Aguiar Fernandes 23 anos, Lisboa

ESCREVER É INDESCRITÍVEL
O paradoxo de escrever sobre escrever, matematicamente: escrever é > a vontade de; escrever é = somar vida à vida × a vida; escrever é = sobreviver2… Pensemos no sinal vezes (×). Este sinal, sinal no singular, diz-se no plural: «vezes». A escrita é como ele, infinita: vezes × vezes × vezes… A escrita, reticências. É por isso que apenas os textos de fantasia, infantis, começam por «Era uma vez».Nada é uma só vez. Se algum dia os cientistas souberem qual a parte do cérebro que possibilita a escrita, nos manuais, essa zona estará indicada com este xis: tesouro. Enfim, escrever é indescritível: é ser as próprias palavras: é estimar as ramificações das ideias, contemplar as flores II que são a pontuação, sentir o toque dos significados no peso das folhas. Escrevo e sou a Natureza, a vontade da vontade, a Vida. João Silva, 23 anos, Gondomar

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O PESO DO PAÍS É MENOR QUE A LEI DE GOSTAR
O homem que levava o país às costas levava também o filho na sola dos sapatos da guerra. O país afincava-lhe as unhas nas maleitas das suas costas, maleitas provocadas pelos sapatos que pisavam o filho, quando pisavam o filho não eram os sapatos do país em guerra, mas os sapatos da família em guerra, que as guerras pequenas são mais importantes que as guerras grandes, nas guerras grandes não há caras – vestígio vagabundo da sua mulher, que a amante é gorda. No café, os amigos fedorentos de palito nos poucos dentes daquela noite. Há sempre o café do palito nos dentes. Do outro lado da rua: ela gosta tanto dele. O peso do país é menor que isso. Constituição de anos vazios: Mallu e Marcelo como banda sonora de ruas de gente em guerra – estar em guerra é estar zangado ou apaixonado; a separar os dois estados apenas uma pedra da calçada. A Constituição nunca quebrada apenas porque a lei constitucional coincide com a lei de gostar – a prioridade das leis é estabelecida pelos loucos. Os homens da Constituição nas suas rotinas sem turbulências – porque a lei é cumprida – nunca a gostarem tanto como ela, porque não conhecem a lei de gostar dele. Catarina Barroso 19 anos, Monte Abraão

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(O POEMA NÃO É SOLUÇÃO)
ranhuras no asfalto bélico, pasmo com os dedos armados de graça os publicitários atraem, à guisa de supermercado, o produto que sou o mundo é grande inviável e os poemas cada vez mais têm esse ar estropiado Estio, para esta estação o poema serve de fastio vem um homem e diz o poema não é mais a solução, pois não. serve como soluço, apenas, ou choro dos dias que virão porquanto o poeta não mais as penas carrega e ao invés de escrever atira pedras poesia é arte de cantaria Francisco Conrado 25 anos, Braga

AMANTES DE RUA
E eram tantos, tão grandes… envoltos em mantos, eram amantes. Dois a dois, ocupavam os seus lugares na rua cinzenta e começavam aquela dança lenta. Os grandes corpos entrelaçados debaixo dos mantos, como poemas cantados por sonhadores e outros tantos, movimentos harmoniosos, suaves, como o forte e pleno voo das aves, gestos determinados e prolongados em todas as direções, enquanto se ouvia a simultânea batida dos corações. E o cheiro era intenso e definido, como incenso de vidro, madeira velha, resina, caldo de açúcar a escorrer da terrina… a rua cinzenta agora era agitada, já não estava isenta, já não era nada. Tinha sido tocada, abraçada, molhada, vibrada, dançada. Por isso os amantes guardaram os mantos e deixaram a rua, partiram para outra nua e crua e fizeram-na sua. E assim há de ser sempre. MariaTeixeira de Barros 16 anos, Condeixa III

O MEU CORPO
o meu corpo foi morto ao sol e havia trigo nas veias cravaste os olhos esbugalhados de órbitas negras putrefactas em redor de que infernos desconhecidos orbitavam meu amor, em campos manchados de sangue o verbo articulado é falha falha e fraqueza punidas com o retorno – do sangue ao corpo da carne à cruz Eva Carneiro 24 anos, Setúbal

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NOITES DE DOMINGO
Dez da noite de domingo. Como todos os domingos,por esta hora, ele está a fazer a viagem de regresso à cidade, vindo da aldeia onde se exilava ao fim de semana, na casa que pertencera aos seus avós, agora seu retiro. Mais do que trabalhar para pagar as contas do apartamento, trabalhava para pagar a gasolina para as viagens. As suas mãos embrutecidas e calejadas guiavam o carro sozinhas, por conhecimento e instinto, enquanto os seus olhos se dispersavam livremente no infinito. Sem razão aparente, encosta-se à berma e para o carro ali mesmo, desligando-o. Não teve qualquer problema,e nem a metade do caminho está, mas parou.Abre o porta-luvas, tira o maço de tabaco e sai do carro, colocando-se de frente para ele. Por uns momentos fica a olhar para a grelha e deixa escapar um sorriso tímido. Há umas semanas tinham-lhe roubado o símbolo e ele não se importava com isso.Não tinha comprado o carro pela marca, mas sim pelo tamanho do capô, no qual se deita agora, de olhos postos no céu. Está uma noite amena e lá no alto nem uma nuvem. As estrelas, essas, brilham e irradiam beleza, iluminando aquela estrada no meio do nada. Tirou um cigarro do maço e o isqueiro do bolso. Anda sempre com um isqueiro no bolso, ao contrário dos maços que vai guardando no porta-luvas para as ocasiões especiais. Fá-lo porque aparece de vez em quando uma ou outra pessoa a pedir lume ou um cigarro e, se é verdade que nunca lhe custou acender um cigarro a um desconhecido, também não é mentira que lhe iria ser difícil ter sempre um maço ao alcance sem ter a vontade de lhe dar uso.

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as coisas claramente quando a velocidade é demasiada. E continua ali, deitado no seu capô, maravilhado com a noite estrelada. Entretanto passa mais um carro, e outro, rápidos, apressados. Como se o destino, fosse ele qual fosse, lhes pudesse fugir se parassem de acelerar. Ele compreendia que, por vezes, o importante era parar. E que nas encruzilhadas da vida o mais difícil podia não ser escolher a esquerda ou a direita, mas sim tirar o tempo para pensar e fazer e tomar a decisão correta. Por isso parou na berma, deitou-se no capô daquele carro que não escolhera pela marca, para apreciar o seu cigarro enquanto observava as estrelas que, naquela noite, pareciam brilhar mais do que nunca. Hugo Lourenço 20 anos, Odivelas

De isqueiro e cigarro na mão, olhos refletindo o brilho das estrelas, ele suspira e sorri. Está a sentir a aura do momento, que pede um cigarro. Ele acende-o e leva-o à boca. Dá um bafo demorado e expira o fumo. Sabe-lhe pela vida. Ouve o motor de um carro e olha para o lado. Não vê mais do que a imagem distorcida do que lhe parece ser uma expressão de estranheza. É normal, pensa, é impossível ver

O INFERNO
Neste lugar eterno sou apenas eu e outros. Sou tudo aquilo que não sou. Sou eu. Habito no Inferno há pouco tempo. Estou muito próximo de Lúcifer mas não o conheço. Ele tenta falar comigo em silêncio, enquanto eu sigo o olhar na direção do tempo. No inferno não há tempo, mas há relógios. Não existe noite nem dia, mas existe rotação, sol, sombras, lua e penumbra. Quando tento pensar em alguma coisa, para não me movimentar mais, começo de repente a mexer muito o corpo, ou a dizer parvoíces. Quanto mais me esforço para não falar, mais sou obrigado a abrir a boca, de onde não saem sons ordenados nem ruído. Se tenciono apenas pensar em alguma coisa, imagino palavras que nunca diria, como Amor. E sinto-me estranho. Caminho para a frente e regresso ao local de partida. Sei muito bem de onde vim, porque nunca saí daqui onde estou. Mas esqueço-me. Nunca tive pai nem mãe, no entanto, lembro-me perfeitamente deles, sei quem são até quando passam à minha frente e acenam. A minha mãe levanta a saia e o meu pai tira o chapéu. Lúcifer está sempre aqui. Vejo-o constantemente quando fecho os olhos. Acho que ele quer chegar até mim e sabe mais do que se passa no meu pensamento do que do que vê nas minhas ações do corpo, este meu corpo que não é meu mas onde deposito grandes esperanças. Tenho esperança e habito na eternidade. Só não sei como sair daqui. João Guilhoto 25 anos, Corroios IV

DIACRÓNICAS
TAC(o) a TAC(o)
Num artigo intitulado «Neuroscience: Under attack», Alissa Quart (e New YorkTimes) disparou contra as simplificações apressadas (ou politizadas) a propósito do livro Vagina, de Naomi Wolf e de outro,surgido anteriormente: Chris Mooney,em e Republican Brain, defende que os republicanos são geneticamente diferentes dos democratas. Ambos os livros são acusados de fazerem popscience,incorrendo em generalizações para consumo popular (há quem classifique isso em piores termos: brain porn). Cá por mim,admito incorrer em generalizações contando piadas, que aliás vivem delas,as caricaturas que resultam do carregar nas tintas de um pormenor. Uma distorção não nasce do ar; necessita de alguma base.Quando o ambiente é franco e de amigos,dá para ver quem ri de quê e com que vontade o faz.Venho acumulando estatísticas mentais e já tenho que baste para umas quantas generalizações, por exemplo no domínio do humor acerca dos géneros.Hoje cada vez mais as mulheres se vão libertando da preocupação com o politicamente correto e largam a sua boa gargalhada em graças a seu respeito. Longe estamos dos tempos da série de humor «Quantos X são necessários para enroscar uma lâmpada?», que terminava com «E quantas mulheres?». A resposta vinha zangada: «Não sei e não tem piada nenhuma!!!» Bom exemplo desse auto-humor feminino pesquei-o no mencionado artigo de Alissa Quart, que termina lembrando não ser difícil perceber o porquê do forte apelo das neurociências: todos queremos entender depressa, numa TAC,como funciona a mente humana. «Mas como os céticos dos avanços das neurociências insistem,estamos a pedir
demasiado ao esperar repostas definitivas. Na verdade, é difícil imaginar que a imagem de uma ressonância magnética […] alguma vez consiga explicar e Golden Bowl [o romance de Henry James] ou o céu. Ou que uma imagem do cérebro, por mais sofisticada e precisa que seja, consiga revelar-nos o que querem as mulheres.» Portanto, hoje com frequência conto à vontade a história seguinte: Um psicólogo quis fazer uma experiência; pediu a um grupo de voluntárias que entrassem num elevador e seguissem instruções.Porta fechada,não acharam nenhuma indicação sobre que fazer. Apenas quatro botões para outros tan-

ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

©Pedro Vieira

Venho acumulando estatísticas mentais e já tenho que baste para umas quantas generalizações. Hoje cada vez mais as mulheres largam a sua boa gargalhada em graças a seu respeito.

tos andares. Resolveram experimentar o primeiro. O elevador subiu e a porta abriu-se para um corredor com várias quartos. Um letreiro informava: «Dentro de cada um destes quartos está um excelente marido,péssimo na cama.» As mulheres concordaram todas em nem sequer valer a pena sair do elevador. Passaram ao segundo piso.A mesma rotina, idêntico cenário,letreiro diferente: «Dentro destes quartos estão maridos horríveis, magníficos na cama.» A reação foi idêntica. Restavam dois andares e natural seria experimentarem o terceiro, onde aparecia indicado: «Maridos magníficos e estupendos parceiros sexuais.» As mulheres hesitaram apenas por uns segundos. Ainda havia uma quarta hipótese e era caso de se averiguar. O elevador sobe, a porta abre-se e a curiosidade excitada do grupo cresceu. Mas tudo redundou em desilusão quando depararam com um terraço vazio. Apenas um letreiro explicava: «Este quarto andar serve apenas para demonstrar que as mulheres, mesmo quando têm tudo, ainda não estão satisfeitas.» Os homens naturalmente adoram esta parte da piada e as mulheres cada vez mais se sentem desinibidas para soltar o riso,anuindo afirmativamente com a cabeça. Bom, mas vamos à segunda parte da experiência: o psicólogo conseguiu também um grupo de voluntários e pô-los em idêntica situação. Simplificarei o relato porque o leitor recorda-se do esquema. No primeiro andar, o letreiro anuncia: «Mulheres ricas,péssimas na cama.» No segundo, «Mulheres ricas, magníficas na cama.» E aqui principia a diferença: não há memória de alguma vez algum homem ter experimentado subir aos terceiro e quarto andares.

Revista LER

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ARTIGO DA PÁG. 38

DIOGO RAMADA CURTO
Na condição de que o imperialismo ibérico do futuro – sempre associado ao tal programa utópico, exclusivamente civilizacional e cultural – nada tivesse «de comum com o passado, salvo o ser imperialismo»21. Em conclusão de todo este raciocínio – onde se cruzam lógicas comparativas com lógicas conceptuais, bem de acordo com as discussões em curso sobre a questão do imperialismo –, Pessoa considerava que, para criar um imperialismo cultural e civilizacional, era necessário «desfazermo-nos de todos os elementos do passado que possam pesar sobre a nossa delineação cultural»22. E, de forma totalmente inédita para a época, no âmbito das discussões sobre o imperialismo europeu,propunha a necessidade de uma descolonização, ao mesmo tempo que denunciava a falta de direito dos portugueses a terem colónias: «Devem desaparecer as colónias portuguesas. As colónias portuguesas são uma tradição inútil. Nós não temos direito de ter colónias. Na nossa mão, elas não nos servem, não servem aos outros, e pesam sobre nós, alimentando uma tradição funesta, que foi bela enquanto foi glória inútil, porque foi glória; mas que tendo deixado de ser glória, ficou sendo inutilidade apenas. Que o imperialismo seja a nossa tradição; e não o imperialismo colonialista e dominador!»23 Neste ponto,Pessoa foi muito mais longe do que Oliveira Martins, que sugeriu a venda das colónias, porque delas não se retiravam benefícios; ou de Eça que, nas Cartas de Inglaterra,apontava o valor meramente simbólico ou identitário das colónias. A proposta de uma descolonização, feita por Pessoa,era não só o resultado de uma falta de justificação jurídica, como de uma avaliação da sua inutilidade. Mas a proposta de uma descolonização constituía-se, sobretudo,como condição necessária para que se pudesse passar à utopia de um imperialismo cultural e civilizacional, de orientação ibérica.

Republicano e anticolonial, nos seus ideais de um iberismo composto por várias nações,o Pessoa dos ensaios políticos agora editados por Jerónimo Pizarro e Pablo Javier Pérez López? Talvez.Contudo, há qualquer coisa de perturbador nas suas ideias acerca de um imperialismo cultural e civilizacional – sobretudo nessa articulação entre um modernismo utópico,projetado no futuro, e a manifestação de um inequívoco «orgulho» pelo passado imperial. No fundo, uma estranha articulação entre modernismo e memória do Império que os projetos fascistas do Estado Novo vieram a concretizar,mais especificamente nas exposições do Porto de 1934 e de Lisboa de 1940. (Agradeço a Nuno Domigos e Miguel Bandeira Jerónimo as leituras, críticas e sugestões deste texto.)
1 António Sardinha,«O território e a Raça», in «Integralismo Lusitano», A Questão Ibérica (Lisboa: Tipografia do Anuário Comercial, 1916), pp. 9-76, maxime p. 28. 2 Fernando Catroga,«Nacionalismo e ecumenismo. A questão ibérica na segunda metade do século XIX», Cultura, História e Filosofia,vol.IV (1985),pp. 447-454; Sérgio Campos Matos, «Iberismo e identidade nacional», Clio – Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa,n.º 14 (2006),pp.349-400; idem, «Conceitos de iberismo em Portugal», Revista de História das Ideias,vol.28 (2007),pp.169-193. 3 Jerónimo Pizarro e Pablo Javier Pérez López,«Prefácio», in Fernando Pessoa, Ibéria. Introdução a Um Imperialismo Futuro (Lisboa: Ática,2012),p.11. 4 Fernando Pessoa, Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional,eds.Isabel Rocheta e Paula Mourão, introd.Joel Serrão (Lisboa: Ática,1978); Da República (1910-1935), eds. Isabel Rocheta e Paula Mourão,introd.Joel Serrão (Lisboa: Ática,1978),pp. 324-325; Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, eds.Isabel Rocheta e Paula Mourão,introd.Joel Serrão (Lisboa: Ática, 1980) (pp. 159-195: «Da Ibéria e do Iberismo»); Associações Secretas e Outros Escritos, ed.José Barreto (Lisboa: Ática,2011). 5 Pizarro e Pérez López,«Prefácio», in Fernando Pessoa, Ibéria, op. cit., p. 15. A Renascença Portuguesa sofria, segundo Pessoa, do provincianismo de «estar no Porto», Idem, idem,p.74. 6 Idem, idem,p.25. 7 Idem, idem,p.79. 8 Idem, idem,p.27. 9 Idem, idem,p.75. 10 Idem, idem,p.44 11 Idem, idem,p.75. 12 Andrew Porter, O Imperialismo Europeu (1860-1914),trad.Frederico Ágoas,intr.Miguel Bandeira Jerónimo (Lisboa: Edições 70, «História & Sociedade», 2011). 13 Pessoa, Ibéria, op. cit., p.63. 14 Ibidem. 15 Ibidem. 16 Idem, idem,p.64. 17 Idem, idem,p.63. 18 Idem, idem,pp.63-64. 19 Idem, idem,p.64. 20 Ibidem. 21 Ibidem. 22 Ibidem. 23 Ibidem.

ARTIGO DA PÁG. 41

FERNANDO VENÂNCIO
Em suma: se já a «natureza» e a «raça» unificavam a faixa ocidental da Península, pode presumir-se que, no cenário pessoano, o tão uniformizado idioma português se estenderia,sem entraves,até ao Cantábrico. E,de repente,num só ano,tudo muda. Em apontamento de 1931, Pessoa afirma: «Ninguém, que seja verdadeiramente português, quer a Galiza para nada. Não queremos a Galiza parte de Portugal, ou a Galiza e Portugal um só país.» Um brado d’alma? Um coração ferido? Nada. O mais puro bom senso. Portugal e Galiza «são dois países, com línguas diferentes, tradições diferentes, vidas diferentes. Se eu fosse rei de Portugal, com poder absoluto, e me oferecessem os galegos a Galiza, recusá-la-ia. Seria um corpo estranho a perturbar por excesso a grande virtude portuguesa, que é a formidável unidade da nossa nação.» Um golpe de teatro. Mas donde provém ele? Em inícios desse ano de 1931 é implantada em Espanha a Segunda República. A Catalunha, o País Basco e a Galiza exigem autonomia, que conseguem, e o reconhecimento dos seus idiomas, que conseguem também. Na sessão das Cortes madrilenas de 18 de setembro, enfrentam-se dois gigantes da intelectualidade espanhola: Miguel de Unamuno, basco mas centralista ferrenho, e Daniel Castelao, galego e incondicional da descentralização do Estado.Os ecos desse embate, que a imprensa espanhola registou, dificilmente chegariam a Pessoa, e, se chegassem, mais o arreigariam numa convicção, legível nas mesmas páginas: «A desintegração de Espanha é um facto. De resto, a desintegração de Espanha foi sempre um facto. A Espanha foi sempre uma mentira.» Num dos posfácios da edição que comentamos, Antonio Sáez Delgado vê no iberismo de Pessoa feições de um «museu de fantasmas». A sugestão é, no atinente à Galiza, inteiramente adequada. A inconsistência dos conceitos é patente, indesmentível o simplismo das opções. Nunca se percebe o que lucraria Portugal com o anexar de mais do mesmo.

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março 2013

Menos se entende por que artes se teria a Galiza conservado «portuguesa», ela, que era já rica e famosa antes de haver notícia de Portugal. Quando, em 1931, a realidade lhe cai em cima, Pessoa desfaz-se, soberanamente, de uma Galiza que, para ele, era já um vazio.

TESTEMUNHO DA PÁG. 43

LEONARDO PADURA
O que se moveu no território da criação e especificamente da literatura cubana foi uma soma de circunstâncias materiais e espirituais capazes,no seu conjunto, de redefinir a situação do escritor que vivia em Cuba e de alterar de uma forma bastante radical o conteúdo e as intenções da sua obra.Entre esses elementos estava a já mencionada paralisação da indústria editorial do país,o que obrigou os escritores a procurar pelo mundo um prémio literário que os salvasse da penúria e, ao mesmo tempo, um meio para publicar as suas obras sem que, pela primeira vez em três décadas, essas intenções editoriais se convertessem num pecado,punível como todos os pecados; evidentemente, esta relação diferente com o presumível ou finalmente encontrado editor estrangeiro criou,por sua vez,uma dinâmica diferente, menos preconceituosa,entre o escritor e a sua obra, pois esta última já não era destinada,pelo menos inicialmente,a um editor cubano que poderia lê-la como um funcionário do Estado cubano e, dessa perspetiva comprometida,aceitá-la ou rejeitá-la; some-se a estes dois elementos, outros de caráter social e espiritual que marcariam a época: o desencanto, o cansaço histórico, a revisão crítica da sociedade e dos seus atores a que nos levaram a crise e o conhecimento da nossa e de outras realidades, de algumas verdades nem sequer suspeitadas em toda a sua dimensão e as próprias mudanças numa sociedade que estava a sofrer violentas contrações e dando origem a atitudes e necessidades antes imersas ou mesmo inexistentes…O resultado de todas essas revulsões foi uma literatura que muito poucos,talvez ninguém,podiam conceber ou imaginar nos anos anteriores, uma literatura de indagação social, de forte vocação crítica,muitas vezes mesmo de disRevista LER

sensão com o discurso oficial e que, com o seu carácter e buscas, marca os rumos que seguiu, desde aqueles anos finais do século XX até estes já não tão iniciais do século XXI, o que pode considerar-se o mainstream da literatura cubana. E nesse rótulo incluo, evidentemente, a literatura que escrevem os que vivem em Cuba e os que vivem fora de Cuba,a que se publica e distribui em Cuba e a que se edita fora da ilha. Uma criação que, é justo dizê-lo, muitas vezes conseguiu ser publicada e distribuída em Cuba, graças a uma perceção mais realista do meio e das necessidades de expressão artística por parte das autoridades culturais do país. Essa literatura que começou a ser escrita e publicada na década de 90, e da qual eu participei, propôs-se perscrutar os recantos escuros ou inexplorados da realidade nacional, olhar criticamente para o passado, descer até às profundezas da sociedade em que vivíamos, encontrar respostas a perguntas existenciais, sociais e até políticas para as circunstâncias que tínhamos atravessado. Vários escritores desse momento atingiram o objetivo de encontrar editoras fora da ilha,entidades que publicaram e promoveram as suas obras e lhes conferiram um novo sentido de independência, tanto literária como económica. No terreno artístico, essa independência manifestou-se numa criação cada vez menos condicionada pela ordem estabelecida,mais abertamente crítica ou, simplesmente, mais pessoal. No plano económico,permitiu a profissionalização de alguns escritores e a possibilidade de muitos outros o conseguirem, uma condição impensável até à década de 80 e que, evidentemente, conferia outra dose de independência ao escritor cubano que vivia e escrevia em Cuba. No meio dessa nova circunstância nacional, talvez o maior erro desta literatura mais livre, ou desencantada, ou intencionalmente crítica,tenha sido a falta (ou a incapacidade de alguns dos seus criadores) de uma perspetiva universal, ou seja, menos localista. A insistência em determinados mundos sociais,personagens representativos, problemáticas específicas e formas expressivas que se tornaram repetitivas, fez com que uma parte notável desta literatura encalhasse no imediato, nas peculiaridades cubanas tão peculiares, e criou uma retórica que, ao passar o momento de júbilo internacional por

essa nova literatura criada na ilha, em especial o romance, cortou ou dificultou o acesso às editoras forâneas (que vivem as suas próprias crises) de novos escritores cubanos que vivem em Cuba e escrevem sobre Cuba. Mas sobre esta criação, desde os anos finais do século passado e sobretudo nos que decorreram do presente século, gravitam outras circunstâncias que, em minha opinião, estão a afetar o seu desenvolvimento. Primeiro que tudo, a certeza de que a escrita em Cuba é um ato ou vocação de fé, um exercício quase místico. Num país onde a publicação, distribuição, comercialização e promoção da literatura funciona de acordo com conjunturas regra geral extra-artísticas e não-comerciais, procura de equilíbrios culturais e até códigos aleatórios de sistematização impossível, a situação do escritor e o seu papel tornam-se instáveis e difíceis de suportar. Os escritores que publicam em Cuba recebem pelas suas obras direitos retribuídos na cada vez mais desvalorizada moeda nacional – em função do que se pode adquirir com ela –, valores pagos muitas vezes sem ter em grande conta a qualidade da obra ou a sua aceitação pública. Evidentemente, estes direitos de autor tornam quase impossível a opção pela profissionalização dos escritores (o que, é justo lembrar, é bastante comum em todo o mundo), o que pode ter efeitos na qualidade da obra empreendida. Com que recursos conta um escritor cubano para dedicar, digamos, três ou quatro anos à escrita de um romance que exija esse tempo de elaboração? É evidente que não pode depender só dos seus direitos em pesos cubanos e que tem de procurar outras alternativas laborais ou profissionais com que ganhar a vida ou onde desgastar a vida enquanto dedica o tempo restante à criação. O estado calamitoso do romance cubano dos últimos anos pode ou não ter uma relação direta com esta situação existencial e económica (impossível de inverter ou, pelo menos, de aliviar, enquanto não mudar toda a «situação económica»), mas o seu estado de deterioração pode ser visível, por exemplo, se contarmos quantas obras deste género, o mais lido e publicado no mundo, obtêm os prémios anuais da crítica literária, uma bitola subjetiva mas possível para avaliar as

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qualidades do que se difunde através das editoras do país. Outra questão que afeta o escritor cubano há décadas, mas que se agudizou nos últimos tempos, é a sua lamentável falta de informação a respeito da literatura que está a ser criada noutras latitudes. Todos os leitores cubanos, todos os escritores que vivem na ilha, sofrem desta desatualização porque, mesmo no caso dos mais informados, a sua relação com o que se lê no mundo é sempre aleatória,dependente não das suas necessidades mas das suas possibilidades de comprar ou de encontrar determinados autores e obras que, de forma nenhuma,se publicam ou distribuem de forma normal no país.Desta forma, o escritor cubano do século XXI que vive em Cuba – onde tem um acesso precário à internet ou simplesmente não o tem – move-se como um cego pelo universo da literatura do seu tempo, na qual deve inserir-se e com a qual tem de partilhar o mercado,se conseguir chegar a abrir alguma porta dessa instância tão satanizada mas, simultaneamente, tão necessária, até para a criação e para a promoção nacional e internacional da literatura. Não se pode esquecer também que, com muita frequência, o escritor cubano que vive em Cuba e escreve em Cuba tem de enfrentar, além disso, uma política promocional bastante deficiente, entre outras razões pela própria inexistência de um mercado do livro dentro do país, mas também, entre outros fatores, pelo estado ruinoso da crítica literária doméstica e pela ainda presente, nestes tempos de mudança de mentalidades e de muitas outras coisas, desconfiança política a que pode ser sujeito se a sua obra não se mostrar complacente com os preceitos da ortodoxia fundada naqueles distantes mas ainda (para algumas mentes) atuantes limites do «correto» patenteado nos anos 70. A soma destes elementos criou, contra a própria validação da literatura que se faz no país, a sensação de que durante duas gerações a ilha quase não deu – ou simplesmente não deu – escritores de importância, provocando uma falsa imagem de vazio. Embora não desejasse em particular fazê-lo,tenho de voltar agora à minha experiência pessoal para exemplificar como pode funcionar a realidade antes descrita… Quando, há pouco mais de um mês, a Casa das Américas me convidou para

ser o escritor protagonista da Semana do Autor, mais ainda, o primeiro escritor cubano a quem era dedicada a Semana do Autor,a minha previsível reação foi de assombro. Como costumo fazer, comecei a interrogar-me e a primeira questão que coloquei foi: porquê eu e não outros escritores mais reconhecidos ou institucionalizados, figuras que exibem mesmo prémios nacionais nos seus currículos? Antes de colocar mais perguntas a mim próprio, disse à direção da Casa que sim, que evidentemente aceitava, com muito orgulho, a honra e o reconhecimento de um trabalho que esta Semana do Autor representa, mas, ao mesmo tempo, não pude deixar de recordar que há um ano, quando a Casa da América Latina de Paris, o Pen Club Francês e a Sociedade de Leitores e Amigos de Roger Caillois me entregou o prémio que tem o nome desse importante escritor, nenhum meio oficial nacional se aproximou de mim ou promoveu, como se promovem outros acontecimentos ou ações, um acontecimento que me ultrapassava como escritor e implicava, como é evidente, um reconhecimento da literatura cubana, sobretudo daquela que se faz em Cuba pelos escritores que vivem em Cuba. Porque, na lista dos anteriores galardoados com o prémio – nenhum cubano – apareciam os nomes, entre outros, de Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa, Álvaro Mutis, Adolfo Bioy Casares… e agora o de um cubano que continua a escrever e a viver em Cuba. Não se pode esquecer, ao analisar a situação atual do escritor cubano que vive em Cuba e ao referir algumas das suas atribulações e sucessos, o mais essencial dos elementos que, em minha opinião, definem o seu carácter e, sobretudo, o da sua obra. Ao contrário de outros países, onde os escritores mais notáveis ou ativos costumam ter uma presença social ou artística graças ao apoio dos meios de maior circulação ou prestígio, o escritor cubano tem apenas a sua obra e uma ou outra entrevista como meio de expressar a sua relação com o mundo, com a sua realidade, com as suas obsessões. Muitas vezes a obra literária se vê obrigada então a assumir papéis mais ambiciosos e complicados do que os que normalmente lhe competem, e funciona – ou faz-se com que funcione – como instrumento de indagação social e como um meio de teste-

munhar uma realidade que, de outra forma, não teria um reflexo que a fixasse e dissecasse.O escritor cubano que vive em Cuba, e enfrenta dia a dia a realidade do país, com as suas mudanças, evoluções, reações sociais e sonhos pessoais realizados ou frustrados, transformou-se num dos mais importantes recoletores da memória do presente que o futuro terá. Esta responsabilidade somada à sua própria responsabilidade literária confere ao escritor um compromisso civil que dá uma dimensão mais transcendente ao seu trabalho. Escrever sobre Cuba, sobre o que Cuba tem sido e é e sobre o que são os cubanos de ontem e de hoje,com a sinceridade e profundidade que merecem estas entidades socio-históricas e humanas, é talvez a tarefa mais complexa e simultaneamente mais satisfatória que enfrenta um escritor cubano que vive nesta Cuba do século XXI. Porque é um dever para com os cubanos e para com a nação, porque é o seu destino e porque, se alguma vez esse escritor se interroga «por que sou cubano?»,«por que sou um escritor cubano?», e «por que sou um escritor cubano que vive em Cuba?», também poderia substituir o «por que» por um «para que» e encontrar talvez as suas próprias respostas, quem sabe mais próximas das predestinações cósmicas, mas também do papel social que assumiu com essa vocação de fé que é a prática da literatura.

ARTIGO DA PÁG. 78

A QUESTÃO NÉMIROVSKI
Os seus livros nascem de anotações prévias e minuciosas do perfil completo e do percurso de cada personagem. A David Golder e às figuras presas a formatos de caricatura, sucede-se uma complexificação gradual dos retratos psicológicos. Devido a um impregnado conservadorismo de direita, Irène convive muito pouco com os artistas modernistas ou experimentais ou com os intelectuais pós-dreyfusianos seus contemporâneos. Não se identifica com eles. Ainda que procure descrever o seu tempo com fidelidade, o mundo da sua ficção é ainda movido de forma cega pelo desejo e pelo impulso dos personagens. Em Tchékhov (a quem dedica um ensaio biográfico), diz ter apren-

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dido a escrever com acuidade, mas também com distanciamento. Com Balzac, treina a sensibilidade. Em Tolstói, descobre a técnica de fazer sobressair o detalhe na massa e no movimento indiferenciados, conferindo uma força poderosa ao painel por fim composto. Némirovsky situa-se sem dúvida entre o romantismo e o realismo,o que se confirma quando contrapõe a sua relação com a guerra enquanto escreve Suite Francesa à atitude de Tolstói perante os acontecimentos históricos integrados em Guerra e Paz: «Ele estava-se nas tintas. Já eu, eu trabalho sobre lava ardente. Seja qual for de nós que tem razão, acredito que o que distingue a arte do nosso tempo da de outros, é que nós esculpimos o imediato, trabalhamos sobre coisas em brasa. Pode ser questionável,claro,mas é precisamente disto que Arte de hoje em dia precisa.» Nas ficções de Némirovsky, a realidade medíocre contrasta com o brilho e a sensibilidade da prosa,habitada por um contraditório lirismo cru e por uma ironia devastadora. Quando se associa Irène Némirovsky ao que se crê ser a literatura judaica, convém deixar claro que esta denominação engloba variadíssimos objetivos e formas (literatura bíblica, rabínica, ética, filosófica ou mística, escrita nos idiomas judaicos, com temáticas relativas ao judaísmo ou produzida por judeus) e é indissociável da questão judaica, isto é, da questão do outro; de uma reflexão sobre as facetas de alteridade perante o outro,perante si próprio ou perante as suas próprias projeções. Mais ou menos determinada pela tradição religiosa ou por um judaísmo secular humanista, pelo passado de sofrimento, exílio e diáspora, em resposta ao antissemitismo ou, depois da solução final, pelo imperativo do testemunho, a literatura dita judaica interroga a identidade, a origem e o sentimento de pertença a uma comunidade. O denominador comum de todas as suas formas pode encontrar-se nestas oposições binárias entre o mesmo e o outro e,neste sentido, como salientou o filósofo político Leo Strauss, «o problema judeu é a ilustração mais simples e a mais profunda do problema humano». Depois, como explicar a um goyim (não-judeu) que a identificação de alguém com uma herança de cultura judaica possa cimentar-se desde a infância,por

exemplo e entre muitos outros fatores de pertença, na trivialidade de anedotas prósemitas ou antissemitas muitas vezes repetidas nas reuniões familiares? Como esta, escatológica: dois judeus estão sentados num banco de jardim e um diz para o outro «Deste um pum» e o outro responde, rápido: «Eu? Só se caiu.» Ou esta: um goyim pergunta a um judeu: «Porque é que vocês, judeus, estão sempre a questionar tudo?»,e ele retruca: «Porque é que tu achas isso?» Tal como melhor o exemplificou Sholem Aleichem (1859-1916, autor dos contos que inspiraram o libreto de Um Violino no Telhado),figura de proa da literatura iídiche, o humor judaico é uma combinação única de espírito de resistência e de tendência autodepreciativa. Trágico,nasce tanto do riso como do choro, da reflexão e da autocrítica (Victor Malka, Lire, 2008). Criadas e transmitidas de judeu para judeu, as anedotas judaicas são in-jokes que, em boa parte, exploram quase pateticamente estereótipos negativos atribuídos durante séculos pelos gentios aos judeus e relativos a características físicas (físico enfezado, rosto doente,nariz curvo,avantajado e rubicundo) ou psicológicas e de caráter (histeria, neurastenia,avareza,cobiça,ambição,inteligência perversa ou intrujice). O sujeito constitui-se,ele mesmo,em matéria risível porque procura entender, responder e resistir a um mundo que o caricatura e que o rejeita. O riso é, assim, uma arma contra o destino.A ironia judaica é amarga e dolorosa, mas exorcizante. Nela, como Milan Kundera assinalou, «o homem pensa[-se] e Deus ri[-se]». Se a situarmos num contexto de prevalência da questão da identidade e da alteridade, como forçosamente o temos que fazer, por exemplo, em relação a Espinosa, a obra de Irène Némirovsky poderá ser melhor entendida. A escritora e crítica Carmen Callil, uma das suas mais acérrimas defensoras contra as acusações de antissemitismo,argumenta: «Isso apenas é motivo de discussão porque a nossa cultura está hoje impregnada de politicamente correto. Ela não tinha aversão aos judeus. Ela tinha aversão a alguns judeus. O que faz toda a diferença.» Irène

vê e refere os judeus como outros a/em si mesma. No que escreve, é fiel ao que sente. Não imagina, nem poderia imaginar, o que o futuro lhe reserva. Como os personagens de Suite Francesa, ela caminha, de forma inconsciente, para a catástrofe. Numa entrevista, em 1935, deixa dito: «Se já existisse Hitler nessa altura [em que escreveu David Golder],eu [tê-lo-ia] com toda a certeza aligeirado […],e não o teria escrito da mesma forma […].Contudo, isso teria sido um erro, uma fraqueza indigna de um verdadeiro escritor!» Mesmo aqueles que rejeitam a ideia de uma escola literária judia, não negam que «um escritor não se demite da sua identidade» (Alain Finkielkraut). Última nota, para um testemunho de Maxim Biller, autor alemão,nascido em Praga (1960) de pais russos: «Como distingo o que, em mim, é judeu daquilo que depende só do meu carácter? A sociedade em que vivo, essa, sabe perfeitamente dar a resposta. Para ela, eu sou e permaneço um Judeu, quer o queira ou não, e isso faz mais de mim um Judeu do que aquilo que talvez exista de realmente judeu em mim – a hipocondria, o radical, o feminino – e que herdei do meu avô arménio.»

ENTREVISTA DA PÁG. 24

HELDER MACEDO
Porquê? O amor é uma demanda, não se chega lá?

O amor é uma demanda,pode-se chegar ao amor, sem dúvida. Há pessoas que têm a sorte de ter conhecido o amor.Este livro fala da perda dessa possibilidade, da carência anunciada da possibilidade do amor, mas que depois pela sua ausência, pelo desencontro, a própria origem desse amor que foi desencadeado começa a entrar na área das sombras e da dúvida. E começa a ser desmontado. Esse tecido começa a ser desfiado até desaparecer. Creio que há duas metáforas que se correspondem. Este homem que anda à demanda do amor, quando criança, tinha a obsessão de inventar mapas, inclusiva-

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Revista LER

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mente mapas onde os países são mudados de sítio a ver se encaixam. E apaixona-se – ou pelo menos anda na demanda – por uma mulher de quem vai dizer mais tarde: «Ela nunca gostou de mim.» Ela, conta ele, é uma cantora que perdeu a voz. Temos os mapas inventados e transpostos, e temos alguém que perde a sua identidade. O cantor sem voz não existe, há aquele verso maravilhoso do Yeats «how can you know the dancer from the dance?», como distinguir a dança de quem dança?
Ela deixa de existir.

PRINCIPAIS AUTORES E TÍTULOS REFERIDOS NESTA EDIÇÃO
Acemoglu, Daron e James A. Robinson Alcides, Sérgio ____, ____, ____, Assis, Machado Bassani, Giorgio Bastos, Alcmeno Beck, Ulrich Bonis, Yvonne Cardoso, Luís Cohn-Bendit, Daniel e Guy Verhofstadt Porque Falham as Nações Estes Penhascos Nada a Ver com a Lua O Ar das Cidades Píer Dom Casmurro A Garça Poesia Brasileira e Estilos de Época A Europa Alemã – De Maquiavel a «Merkievel»: Estratégias de Poder na Crise do Euro O Meu Livro de Cozinha O Ano em Que Pigafetta Completou a Circum-Navegação Pela Europa! – Manifesto por Uma Revolução Pós-Nacional na Europa Belo como Uma Prisão em Chamas A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao É assim Que a Perdes A Porta das Três Fechaduras Em cima Daquela Serra Em Parte Incerta O Verão de 2012 Os Filhos do Vidreiro Groto Sato Bolas de Berlim com Creme Do Livro e da Cultura Se os Mortos Não Ressuscitam Kalevala Temas e Debates Hucitec 7Letras Nankin Editora 34 Simplíssimo Quetzal 7Letras Edições 70 Verbo 12, 66 20 20 20 20 20 73 20 80 83

Sextante

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Presença Antígona Porto Editora Relógio d’Água Presença Companhia das Letras Bertrand Tinta-da-china Relógio d’Água Mariposa Azual Bertrand Gradiva Porto Editora Dom Quixote

81 66 65 65 82 20 3 77 84 75 10

Ela deixa de existir enquanto essa pessoa, a personagem diz: «Ela sem voz não podia ser quem era.» Mas existe como pessoa – se é que existe. Voltando ao tema do amor: o mais terrível e trágico no amor é a perda do amor,é o desfiar, o desfazer. Porque é o desfazer aquilo que nos torna quem somos.Há um tema (que não exatamente este) muito raro em poesia e, que eu saiba, um dos poucos poetas que explorou isso em português foi o Almeida Garrett.O tema do desenamorar-se.A literatura está cheia de pessoas a apaixonar-se e ficar enamoradas. O grande poema do Garrett, belíssimo, chamado «Cascais», é o poema do desenamorar-se, do desencanto.Esse desfazer de vidas que passa através do amor julgo que é um dos elementos centrais que cria no lugar daquilo que seria recordação ou experiência, esse mundo fantasmático em que a pessoa tem de destruir. Esta personagem anda à procura não tanto da mulher que amou e desapareceu mas a querer que ela morra dentro de alguém, ele torna-se de algum modo no violador naquela que ela não é,por ela não ser,e até aí tudo bem,complicado mas simples,mas ele no fundo quer matá-la.Precisa de.
Porque é que o amor é um tema permanente na criação artística?

Daal, Julius Van Díaz, Junot ____, Fernández-Vidal, Sonia Ferraz, Eucanaã Flynn, Gillian Gomes, Paulo Varela Gripe, Maria Guerra, Raquel Nobre Honrado, Alexandre Jouanard, Gil Kerr, Philip Lönnrot, Elias MacDonald, Alan (texto) e David Roberts (ilustr.) Macedo, Helder Malzieu, Mathias ____, Martínez, Pilar (texto) e Marco Somà (ilustr.) Melícias, Jorge Millet, Damien e Éric Toussaint Miranda, Miguel Moura, Sofia Nabokov, Vladimir Némirovsky, Irène ____, ____, ____, Newman, Kara Onfray, Michel Pamuk, Orhan ____, Patterson, James (texto) ____, Patterson, James (com Chris Grabenstein) e Laura Park (ilustr.) Pedro, João Ricardo Pereira, José Pacheco Pereira, Rui Neto Pérez, Moni Perrot, Michelle Pessoa, Fernando (ed. Jerónimo Pizarro e Pablo J.P. López) Pinto, Diogo Vaz Raposo, Henrique Rio, Mariana (ilustr.) Rovira, Álex Ruffato, Luiz Sant’Anna, Alice Silveira, Jorge Fernandes da ____, Suter, Martin Tordo, João Vigna, Elvira Vilela, António José Worm, Maria João (ilustr.)

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Minhocas! Tão Longo Amor tão Curta a Vida A Mecânica do Coração Metamorfose à beira do Céu A Galinha Ruiva Felonia/Agma A Crise da Dívida A Paixão de K. Marcas e Entretenimento Rei, Dama, Valete David Golder O Baile Os Cães e os Lobos Suite Francesa The Secret Financial Life of Food Anti-Freud Ara Güler’s Istanbul Istambul: Memórias de Uma Cidade Escola 1 – Os Piores Anos da Minha Vida Escola 2 – O Rebelde Está de volta!

Presença Presença Contraponto Bertrand Kalandraka Cosmorama Temas e Debates Porto Editora Guerra & Paz Relógio d’Água Relógio d’Água Relógio d’Água Relógio d’Água Dom Quixote Columbia University Objectiva Thames & Hudson Presença Booksmile Booksmile

83 24 71 71 82 75 66 63 66 56 78 78 78 78 66 72 52 52 83 83

Eu Cómico O Teu Rosto Será o Último As Armas de Papel Como Transformar Portugueses em Alemães Amordiscadelas História dos Quartos

Booksmile Dom Quixote Temas e Debates/Círculo de Leitores Chiado Editora Kalandraka Teodolito

83 74 17 66 83 68

Ah, porque aquilo que se chama «amor» no fundo é um encontro de vidas,um encontro privilegiado, extremo, e é um encontro mais desconfortável, porque nos desloca de nós próprios, do que a amizade. A amizade é aquilo que permanece para além da morte. O amor é a grande conflagração e, se se tem sorte, transforma-se em amizade. Se não se tem sorte as pessoas matam-se.
Pode viver-se sem amor?

Ibéria – Introdução a Um Imperialismo Futuro Bastardo História politicamente Incorrecta do Portugal Contemporâneo (de Salazar a Soares) O Quebra-Cabeças Uma Boa Crise Domingos sem Deus Rabo de Baleia O Comedor de Salamanca Verso com Verso Cinzas do Passado O Ano Sabático Nada a Dizer Segredos da Maçonaria Portuguesa Os Animais Domésticos

Babel Averno

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Guerra & Paz Ed. Eterogémeas Nascente Record Cosac & Naify Oficina Raquel Angelus Novus Porto Editora Dom Quixote Quetzal A Esfera dos Livros Quarto de Jade

81 84 66 21 20 20 20 71 61 64 70 84

Acho que não. Quem vive sem amor é tão pobre que não está vivo.

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CORREIOS & TELÉGRAFOS

LER
Diretor Francisco José Viegas Editor Executivo João Pombeiro Design & Projeto Gráfico Rui Leitão Fotografia Pedro Loureiro Design José Campos de Carvalho Secretária da Revista Maria José Pereira Revisão João Assis Gomes Colaboram neste número Ana Sousa Dias, Bruno Vieira Amaral, Carla Maia de Almeida, Diogo Ramada Curto, Dóris Graça Dias, Fernando Sobral, Fernando Venâncio, Filipa Melo, Helena Pitta, João Carlos Barradas, José do Carmo Francisco, José Guardado Moreira, José Riço Direitinho, Leonardo Padura, Margarida Santos Lopes, Pedro Vieira (ilustração), Pilar del Río, Rui Bebiano, Sara Figueiredo Costa Colunistas Abel Barros Baptista, Eduardo Coelho, Eduardo Pitta, Francisco Belard, Inês Pedrosa, Jorge Reis-Sá, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva,, Onésimo Teotónio Almeida, Pedro Mexia, Rogério Casanova Fotografia de capa © Pedro Loureiro Redação & Administração Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1 1500-499 Lisboa Tel. 217 626 000 Fax 217 609 592 ler@circuloleitores.pt www.ler.blogs.sapo.pt Assinaturas Maria José Pereira Publicidade Marta Serra Controlo de Gestão Teresa Gomes Produção Teresa Reis Gomes Impressão Bloco Gráfico, Lda. Distribuição para Livrarias Distribuidora de Livros Bertrand Distribuição para Bancas Vasp Assinaturas assinaturas.ler@circuloleitores.pt
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Nunca li nenhum livro de José Rodrigues dos Santos, não quero ler e não possuo qualquer interesse pelo género de literatura (se é que assim se pode chamar) à qual o jornalista se dedica. Posto isto, devo dizer que achei de bastante mau gosto, e até alguma falta de respeito, a opção de colocar o pequeno texto de Miguel Real mesmo ao lado da entrevista a José Rodrigues dos Santos presente na LER de janeiro. Naturalmente, não nego o direito de Miguel Real a expressar a sua opinião, nem necessariamente discordo do senhor. Porém, enquanto decisão editorial creio que foi infeliz e um pouco gratuita. Talvez algumas páginas de distância entre as duas colunas e a entrevista não tivesse sido má ideia. Quanto à recensão crítica do livro, sei que é prática corrente da LER colocar a recensão

no mesmo sítio da entrevista ao autor recentemente publicado. Contudo, talvez esta prática pudesse ser repensada. Sobretudo considerando que, semelhante ao caso referido atrás, o escritor pode ser português e a crítica particularmente negativa. Posso estar errada, afinal não percebo nada do mundo da comunicação social, mas não posso deixar de sentir que, a partir do momento em que investem tempo e dinheiro a entrevistar alguém e lhe um dão espaço para se expressar, devem-lhe alguma consideração na forma como o expõem. Se assim é, parte dessa consideração talvez passasse por reservar a recensão crítica para a secção das mesmas na parte final da revista. Ana Teresa Vasco, e-mail

ISTO SÓ LÁ VAI À LOMBADA

A Kansas Public Library (www.kclibrary. org) é uma das bibliotecas que promete participar na versão norte-americana do World Book Night (www.us.worldbooknight.org), marcada em todo o mundo para o próximo dia 23 de abril. Procurando in-

formações sobre esta iniciativa mundial, descobri a biblioteca que, logo à entrada, não quer enganar ninguém. Só fiquei com uma curiosidade: quem escolheu os livros cujas lombadas têm dezenas de metros de altura? Sara Silva, e-mail

Envie as fotografias das suas livrarias e bibliotecas preferidas para ler@circuloleitores.pt. Continuaremos a publicá-las nos próximos números.

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©DR

PONTO FINAL

TIAGO GOMES
«Ando em busca de um convento»
Como vai a Bíblia? Vai em busca de apoios para voltar a sair e pensa lançar uma compilação com os melhores textos publicados ao longo destes 17 anos. Não pensa resignar? Com esta idade já não me resigno. Sou um inveterado. Poeta, músico, produtor, editor. Falta aqui alguma coisa? Falta dinheiro. Tem algum livro para sair? Tenho, só não sei quando. Preciso de algum isolamento para compor as palavras em forma de poesia. Ando em busca de um convento. Quem é que nos anda a dar mais música? Entre a troika e o Governo,não sei qual deles desafina mais. Se querem música boa, neste momento Beach House. O que anda a ler? Eu sou daqueles que leem até as bulas dos medicamentos. Leio recorrentemente O Uso das Palavras, de Nathalie Sarraute, livro que me acompanha ao longo dos anos. E o que devia ler? Tanta coisa. Como diz o meu pai, os livros deviam vir com um pacotinho de tempo. Que escritor português o agarrou pelo colarinho recentemente? Já não me agarram pelo colarinho desde que jogava râguebi. Com quem é que gostaria de jantar amanhã? MC. Troika diz-lhe o quê? Diz-me empobrecimento e medidas que não são adequadas à nossa realidade.Nós que trabalhamos na cultura em Portugal somos verdadeiros sobreviventes.Quase apetece dizer: unidos venceremos. Que frase mais o comove? Como diz o António Lobo Antunes, «eu que me comovo por tudo e por nada». E que mais o desatina? Não é seguramente «o povo é quem mais ordena». Falta alguma coisa no seu BI? Dinheiro. O que devíamos ter perguntado logo de início? Quando é que espera receber o Prémio Nobel ou, pelo menos, o Dragão de Ouro? Venha a resposta. Acho que os países do Terceiro Mundo (como Portugal) mereciam o Nobel. E em relação ao Dragão de Ouro, espero que seja quando o Futebol Clube do Porto for novamente campeão do mundo. Sou um digno representante deste grande clube em Lisboa.

Tiago Gomes (n. 1971), poeta, músico e editor da revista Bíblia, está neste momento a gravar os álbuns de estreia das bandas Os Big Lebowskis (com Francisco Rebelo) e Coyotes (Pedro Galhós).

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©Pedro Loureiro