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Ideação

ARTIGOS DE DEMANDA CONTÍNUA

CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIOHISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO EM SAÚDE EM POVOS INDÍGENAS NO BRASIL.
Estevão Rafael Fernandes1

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*Atualmente chefe do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Rondônia. Graduado em C. Sociais pela Universidade de Brasília, sendo mestre em Antropologia Social também pela UnB. Pesquisa os índios Xavante (MT) desde 1998, tendo publicado artigos sobre cosmologia, história e política indigenista ao longo dos últimos anos. Email: estevaofernandes@gmail.com.

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RESUMO : Este texto busca analisar as práticas de educação em saúde RESUMO: nas fronteiras da civilização brasileira de meados do século XX (os “sertões”). O que se pretende, aqui, é mostrar de que maneira a educação em saúde feita nas aldeias indígenas manifesta valores histórica e socialmente construídos, como fica evidente na gênese institucional e filosófica dos diversos atores envolvidos nessa construção. Espero tornar evidente que a educação em saúde direcionada aos povos indígenas, no país, seja uma sobreposição de distintos elementos de diversas instituições republicanas, motivadas pelo “desbravamento” dessas fronteiras imaginadas cultural e sociologicamente PALA VRAS-CHA VES PALAVRAS-CHA VRAS-CHAVES VES: Educação em saúde - Educação Indígena - Indios Sul-Americanos - Notas Historicas - Indigenismo Civilizing the Hinterlands: Socio-historical paths of health education among indigenous peoples in Brazil ABSTRACT :This paper seeks to analyze the practices of health education ABSTRACT: at the frontiers of the mid-twentieth century Brazilian civilization (the “hinterland”). The intention here is to show how health education in the indigenous villages made manifest historically and socially constructed values, as is evident in the institutional and philosophical genesis of the various actors involved in this construction. I hope to make clear that health education directed at indigenous peoples in Brazil, is a superposition of several different elements of Republican institutions, motivated by the “achievement” of these borders imagined cultural and sociologically. : Indigenous Education - Indigenous Health - South KEYWORDS KEYWORDS: American Indians - Historical Notes - Indigenism.

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O que aqui se coloca no tocante ao processo civilizador nada mais é do que o problema geral da mudança histórica. Tomada como um todo, essa mudança não foi “racionalmente” planejada, mas tampouco se reduziu ao aparecimento e desaparecimento aleatórios de modelos desordenados. (...) Planos e ações,impulsos emocionais e racionais de pessoas isoladas constantemente se entrelaçam de modo amistoso ou hostil. Esse tecido básico, resultante de muitos planos e ações isolados, pode dar origem a mudanças e modelos que nenhuma pessoa isolada planejou ou criou. Dessa interdependência de pessoas surge uma ordem sui generis, uma ordem mais irresistível e mais forte do que a vontade e a razão das pessoas que a compõem. É essa ordem de impulsos e anelos humanos entrelaçados, essa ordem social, que determina o curso da mudança histórica, e que subjaz ao processo civlizador. (Norbert Elias, 1993:194) Introdução Enquanto escrevo, tenho a minha frente um cartaz, produzido pela Fundação Universidade de Brasília, em parceria com a Fundação Nacional de Saúde, um cartaz, dirigido aos índios Xavante (povo da família linguística Jê, atualmente com cerca de 13.000 indivíduos, habitantes no Mato Grosso), onde se lê, dentre outras coisas, aiparanhipó hã duré atsipó hã’re tsihöri tsu’u mono ([para ter higiene é necessário] cortar as unhas dos pés e das mãos). Na internet, leio uma matéria publicada dia 19 de novembro, pelo jornal matogrossense “O Documento”, noticiando que um jovem Xavante de 17 anos, Divino Dutsã Robratisidi, ganhou terceiro lugar em um concurso de redação e cartazes intitulado “Mato Grosso: Terra de Rondon, Terra de Heróis”, promovido pela Secretaria de Educação do Estado do Mato Grosso. Como prêmio, Divino ganhará um celular. Outra notícia, publicada pelo jornal “Nortão”, também do Mato Grosso, em 15 de novembro, informa que a Escola de Saúde Pública do Estado, em uma parceria com a Escola Paulista de Medicina, a Fundação Nacional de Saúde e a Fundação Nacional do Índio formará 300 índios como Agentes Indígenas de Saúde, dentre os quais kayapós, parecis e xavantes. Em comum entre o cartaz e as duas reportagens, está o fato de se passarem no Mato Grosso e de envolverem povos
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indígenas. Mas há algo mais, que de certa forma os une: dizem respeito a uma certa idéia de educação profilática intrínseca a certa visão civilizadora. Possuem, no cruzamento de seus caminhos e discursos, algo a nos dizer: que se faz necessária uma reflexão sobre a forma como educação em saúde têm sido feita no Brasil, junto a populações indígenas. O cartaz, atualmente, é quase um objeto naturalizado: todos os postos de saúde os possuem aos montes em suas paredes. No entanto, se tratam de textos produzidos por alguém e para alguém em determinados contextos (histórico, social, lingüístico, estético, etc.). Que tipo de percursos faz com que esse objeto venha parar nas paredes de uma farmácia n’alguma aldeia xavante do Mato Grosso? O concurso entre os alunos do Mato Grosso, com o sugestivo título exaltando a figura de Marechal Rondon, em sua missão de “civilizar” o Mato Grosso: que idéia de “Civilização” era essa, que impulsionava a ele e a seus subordinados? Finalmente, que trajetos (novamente: históricos, sociais, políticos, etc.) levam instituições diversas a realizarem um curso para agentes indígenas de saúde naquele Estado? O caminho para sua compreensão está, penso, na gênese e percurso de duas instituições bastante peculiares, do ponto de vista de seus respectivos papéis, funções e escopos de ação: o Serviço de Proteção ao Índio e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPILTN) e o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Há, ainda, um terceiro elemento: o próprio poder de agência indígena. Não é meu intuito fazer um histórico detido e exaustivo de nenhuma dessas instituições, sobre o impacto do protagonismo indígena nas políticas de saúde a eles direcionados, sobre o positivismo na Velha República, ou outros assuntos igualmente relevantes, mas que fariam este trabalho fugir de seu escopo inicial. Remetendo a epígrafe deste texto, interessa-nos aqui mapear as tramas que resultaram no tecido que hoje cobre as práticas educativas em saúde entre os povos indígenas do país. O que se pretende, aqui, é mostrar de que maneira a educação em saúde feita nas aldeias indígenas manifesta valores histórica e socialmente construídos, com vistas e se pensar tanto um modelo de análise do que se faz em educação em saúde hoje, para os povos indígenas do Brasil, para, a partir disso, buscar alternativas que possam torná-la mais eficaz, sendo este o caso. Espero tornar evidente, ao longo do texto, que não se

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pronto e acabado. ao longo da história. Uma viagem do Rio de Janeiro a Cuiabá durava mais de um mês. Marechal Rondon. dão conta de como a saúde pública e o indigenismo serviram de norteadores identitários à idéia de Estado-Nação. 13 nº 2 . porventura. antes. ao desbravarem os “sertões”. tomo a liberdade de tornar este texto muito mais um exercício mais ou menos formalizado de análise do que um texto. Noel Nutels. No início do século XX. que se levar em conta os ideiais militares e positivistas republicanos a fim de se fazer do Brasil uma “Nação”. Vários foram os meios escolhidos para isso. um imenso espaço desconhecido onde sabia-se que havia malária. Oswaldo Cruz. dentre eles. como veremos a seguir. percorrendo diferentes países percorrendo a bacia do Prata. posto que tanto a Educação em Saúde quanto a Saúde Indígena serem cada vez mais objetos de reflexão -. índios e borracha. dar um ponto de partida a futuras – e necessárias – pesquisas na área.p. levariam consigo uma visão de nacionalidade e progresso (muitas vezes associado a uma visão particular de ciência) que deixariam marcas em várias instituições e ainda hoje. seja uma sobreposição de distintos elementos de diversas instituições republicanas. mas como partes de projetos políticos de seu tempo.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . o Brasil era um país repleto de vazios em seu mapa. Por se tratar de um campo praticamente sem produção – o que é de se estranhar. 105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes trata de um processo de evolução unilinear mas. Trabalhos como os de Souza Lima (1995). Some-se a isso a Guerra do Paraguai entre 1865 e 1870 (as autoridades no Rio apenas souberam da invasão do Mato Grosso pelo Paraguai seis semanas após o ocorrido) e a anexação do Acre (1902). os irmãos Villas-Boas. entre outros . ainda. Há. um jovem militar matogrossense. que a educação em saúde direcionada aos povos indígenas. e a fronteira oeste do país era em grande parte desconhecida. O homem a frente dessa missão foi Cândido Mariano Silva Rondon. Skidmore (1998). Hochman (2006). As vias da Integração: a Nação vai ao Sertão Faz-se necessário entender as políticas de atenção a saúde. não como iniciativas de homens abnegados. bem como as políticas indigenistas no país. suscitando questões que possam. houve o telégrafo. no país. forARTIGO 108 Ideação R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . Homens como Carlos Chagas.

todos vibrantes de entusiasmo cívico pela Causa Indígena. o Mato Grosso correspondia a 1/5 do território nacional e. tampouco de seu papel nessas expedições de caráter nacionalistas e/ou científicos. Amazonas. .. Não cabe aqui delongar sobre o conceito de positivismo. Na época. e oferecidas aos estudiosos da ciência e aos concidadãos que se interessam pelas coisas essencialmente brasileiras e olham com simpatia o “Problema do Índio”. [. abraçada por ele como religião a partir de 1898) por Benjamin Constant. acomodados em compartimentos confortáveis” (Rondon. muito suor. ainda. através de meio século de intenso trabalho em que tão ajudado fui por uma plêiade de oficiais do Exército e pessoal civil.. mas com relação ao projeto de construção da Nação. Sua forma de agir e pensar pode nos lançar alguma luz sobre como pensavam as elites republicanas da Primeira República.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. Rondon escreve.. nas primeiras páginas do primeiro volume de seu “Índios do Brasil”. custaram muita abnegação. Há. publicado em 1946 (em um contexto a ser retomado adiante): Do numeroso arquivo que vimos religiosamente amealhando. sendo que logo Rondon se destaca e toma a frente desses trabalhos na região que atualmente compreende os Estados do Acre. livros publicados com as fotos das expedições da Comissão Rondon desde 1890. ARTIGO Ideação Interessante notar algumas coisas – dentre tantas outras – a partir do trecho acima: a oposição entre os “compartimentos confortáveis” e “ambientes civilizados” com relação aos sertões do Brasil. dentre os quais uma fé inabalável na racionalidade e nos conhecimentos 109 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . 13 nº 2 p.. mas os ideiais positivistas partiam de alguns pressupostos. 1946). suor e com sacrifício de suas próprias vidas. em 1891 o Congresso Nacional autorizava o Presidente da República a elaborar um plano geral de linhas telegráficas. pelo progresso de nossa Pátria e pelo bem da Humanidade. onde “patrícios” derramaram sangue.mado pela Escola Superior de Guerra e introduzido no positivismo (mais que uma filosofia. muito esforço patriótico.] Muitas destas fotografias agora folheadas tranqüilamente em ambientes civilizados. Mato Grosso e Rondônia (Bigio. 2000). Fica aí clara a oposição entre o país desconhecido e aquele a ser desbravado. não apenas no indigenismo. muito cansaço e quiçá também o sangue e a vida de patrícios nossos. para que ora as pudéssemos contemplar e comentar.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . o elemento do patriotismo e do progresso: idéias positivistas reforçadas pela idéia de Humanidade.

analfabeto. escreve Lima: Nos textos dos relatórios de viagens e nas conferências alusivas a essas experiências. qual seja “estabelecer em zonas ferteis. bestializado. os reformadores se viam como messias salvadores de um povo doente. o que contrariava os interesses da República positivista que se instaurara. Assim. que a instituição mais presente entre os índios no Brasil era a Igreja Católica. órgão indigenista dirigido por Rondon e criado em 1910 – dizem respeito a questões de produção agrícola. dotadas de condições de salubridade. O projeto de Rondon pode ser mais bem entendido se tivermos em conta. agricultura e pecuária – a maior parte dos Boletins do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais. Em seu primeiro Artigo. e no processo. Como observa José Murilo de Carvalho (1992). A esse respeito. ou seja: fazendas. o cenário descrito por Arno Mayer da Europa do século XIX se aplicaria com muito mais razão para o Brasil. por exemplo. 1996). Promove-se a ampliação ARTIGO 110 Ideação R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E DA UNIOESTE . sobressai como elemento comum a ênfase em seu caráter civilizatório.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . incapaz de ação própria.p. Um dos interesses por trás do Serviço (que viria a se chamar simplesmente Serviço de Proteção aos Índios. o mundo agrário. a fase religiosa e o positivismo. de mananciaes ou cursos de agua e meios faceis e regulares de communicação. Além disso. constituidos por trabalhadores nacionaes”. e a idéia de que haveriam três etapas de desenvolvimento humano: o fetichismo primitivo. era necessário desbravar aquelas terras para o “progresso”. a partir de 1918) era manter os católicos afastados dos indígenas. onde predominavam a tradição. 13 nº 2 . os transformaria em trabalhadores. O povo era geralmente apresentado como um ator em “estado de latência” numa situação de pré-cidadania (Lima e Hochman.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes LETRAS científicos. eles passariam do primeiro estágio (fetichista) ao terceiro (positivista) sem se “contaminarem” com as crenças católicas. o Decreto de criação do SPI já deixava claro esse propósito. SPI. pré-industrial e aristocrático. se não definitivamente incapacitado para o progresso. centros agricolas. Essa idealização e distância em relação ao “povo real” nos debates da intelectualidade do período podem ser vistas também em outros movimentos que focalizaram o interior do país numa crítica à imitação servil das elites intelectuais e políticas. Segundo o autor. enquanto o projeto positivista poderia ser levado a cabo pelo SPI junto aos indígenas.

futuramente. de outras formas. mais ativos. instrumentos de lavoura. versão eletrônica) Tais questões remetem a noção positivista de raça: como demonstra Kury (2006:27). herdando as qualidades de todas”. ferramentas. em relação as suas occupações ordinárias”. foto 156. a educação funciona como algo essencial no projeto positivista: com os “caboclos”.. officios e os generos de producção agricola e industrial para os quaes revelarem aptidões”. filósofo francês fundador do positivismo]. É um erro se pensar que o SPI – como muito se escreve – não possuía uma política de saúde sistemática no atendimento aos povos indígenas.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . nunca impostas” (idem). nos moldes do que o Estado preconizava. Ela sempre existiu. Nesse sentido. ao contrário. de modo que. Isso se dava. sendo os negros “mais afetivos”. também. as doutrinas positivistas não acreditavam na superioridade de uma raça sobre outra mas. a “Humanidade seria uma raça única. “sertanejos” e indígenas educados. em sua complementariedade. sendo que.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. e “os amarelos. que se lhes ministre “elementos ou noções que lhes sejam applicaveis. despertando-Ihes a attenção para os meios de modificar a construcção de suas habitações e ensinando-lhes livremente as artes. as transformações deveriam ser espontâneas. por exemplo. ARTIGO 111 Ideação R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . introduzir em territorios indigenas a industria pecuaria. mais inteligentes”. machinas para beneficiar os productos de suas culturas. superpondo-se a critérios geográficos e demográficos as idéias de abandono e de exclusão. (Lima. Rondon. 1998. Um sertão caracterizado pelo abandono e pela doença. 13 nº 2 p. desde o início. ou que se forneça aos índios “instrumentos de musica que lhes sejam apropriados. ou nas sessões de “ginástica sueca” feitas entre os Pareci (v. como o hasteamento da bandeira nacional nas aldeias em datas cívicas ou se dando roupas aos indígenas. os animaes domesticos que lhes forem uteis e quaesquer recursos que lhes forem necessarios. quando o Decreto de Criação do Serviço estabelece. A incorporação das culturas negras e ameríndias seria inevitável. quando as condições locaes o permittirem”. “os brancos.. . Um sertão desconhecido mas que era quase do tamanho do Brasil. 1946). essa transição estaria garantida.do sentido atribuído à palavra sertão. ou que se “envide esforços por melhorar suas condições materiaes de vida. “segundo as idéias de Comte [Auguste Comte.

encoberta entre normas sobre trabalho.” Seguem as recomendações: “nos casos das tribos já estarem com algum hábito de lavoura e criação. O índio deveria trabalhar para se tornar um instrumento de construção e integração nacionais. normal e indispensável. ligados especialmente ao combate à cólera e à febre amarela. o boletim do SPI (Boletim 08. Dessa forma. fornecendo o SPI gratuitamente todo o tratamento de saúde. encontram-se quatro elementos apontados por Lima e Hochman como “significativos e fundantes do movimento ARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . serem educados nesse sentido. Como se vê. motivados por interesses políticos característicos de seu tempo. bastando. sertanejos e/ou menos esclarecidos. Para crescer. higiene e dieta que carecem durante as suas enfermidades”. garantir força de trabalho. etc. devido a própria noção de raça da época. quase sempre. como veremos adiante. é aceleração da implantação de serviços básicos de saúde pública no Brasil. partilhando de certos pressupostos e práticas bem similares. para isso. incorporando-se à “sociedade brasileira com mentalidade de parasita e mendigo. a questão da saúde esteve lá. tutela e proteção. cumpre aos encarregados desenvolvê-lo e encaminhá-lo. 105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes 112 Ideação Essa mentalidade estará de tal forma arraigada no órgão (e.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . Essa domesticação com vistas a integrar a população em torno de uma idéia de Nação viria a ser constitutiva tanto das políticas indigenistas quanto das sanitaristas. como se vê freqüentemente. O modelo permaneceria ainda por bastante tempo.) ou ideológicos (como vimos até aqui. a fim de que eles não percam “a atividade”. etc. o mesmo se passando com relação aos brasileiros das áreas rurais. o que vemos nas primeiras décadas do século XX. muitas vezes pelo argumento da manutenção da saúde mas. quase sempre motivados por fatores econômicos (como a necessidade de aumentar as exportações. o povo necessitaria ser “domesticado” (para utilizar os termos de Bourdieu). Neste contexto. pelas noções de raça. e o discurso higienista viria a servir aos interesses do Estado neste sentido como uma luva. ainda na década de 40. como já foi mencionado) que. de 31 de julho de 1942) traz como recomendações que não se entregue indistintamente roupas e alimentos aos índios. de certa forma. ciência. tampouco adquiram eles a “noção.p. do trabalho e comércio”. Um dos meios civilizatórios foi a educação. nação. em instituições republicanas nas primeiras décadas do século XX. 13 nº 2 .).

seria possível recuperá-lo. de fato. criado em janeiro de 1920. dada sua composição racial. com a célebre frase de que o Brasil seria um imenso hospital). fundadas no conhecimento médico e implementadas pelas autoridades públicas. que. entre 1918 e 20 (op. anexa à Inspetoria de Demografia Sanitária... auxiliando no combate à febre amarela e malária. O diagnóstico de um povo doente significava que. era instrumento fundamental para operar essa transformação.] povo que ainda há de vir (Penna e Neiva. cit. 2004: 317) ARTIGO Ideação Assim. No regulamento do DNSP. puericultura e políticas sanitárias levam a uma crescente necessidade de institucionalização da saúde pública no país.. a questão da educa- 113 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE .. através de ações de higiene e saneamento. pois. . Não bastava ter encontrado este [. quando suas ações são absorvidas pelo SESP . até então. da condenação ao atraso eterno. a repercussão de artigos escritos por Penna sobre saúde e saneamento e a Liga Pró-Saneamento. Em primeiro lugar. (Lima e Hochman. Segundo os autores. em 1916. que ficaria a cargo da Seção de Propaganda e Educação Sanitária. alguns marcos importantes para se pensar a implantação dos programas de educação sanitária no interior do país. Outro marco é a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP).sanitarista no país”: a divulgação do relatório. em 1916. era urgente transformar esses estranhos habitantes do Brasil em brasileiros. se a questão não era racial (ver também Skidmore. em especial a medicina. 13 nº 2 p. em lugar da resignação. E. 1916). a repercussão do discurso de Miguel Pereira (também em 1916. nesse período. Há. especialmente na região norte. a demanda era se educar aquela população a fim de integrá-la. Como se pode observar no período. da comissão chefiada por Belisário Penna e Arthur Neiva. aliada ao poder público. 316). a instalação da Fundação Rockefeller no Brasil. 1998:117).CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . já havia a preocupação com a institucionalização da Educação Sanitária.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. a um Brasil “saudável”. A medicina. A entidade viria a agir até 1942. a crescente preocupação com higiene. propiciaria um alívio para intelectuais. Educação e Propaganda Já a Diretoria de Saneamento e Profilaxia Rural teria a seu cargo os “serviços de propaganda dos preceitos de higiene geral e educação profilática das populações do interior da República”. A ciência. não enxergavam alternativas para um país que parecia condenado.

Foi ele o jurista responsável pela elaboração da Constituição de 1937 a qual retirara de seu texto ser educação um direito de todos. 105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes 114 Ideação ção em saúde passa a ocupar lugar nas políticas do Estado voltadas. Se nas décadas de 1920 e 1930 temos paradigmas positivistas e escolanovistas no campo educacional. e decidir pelo povo: Vargas era o líder de que o povo necessitava e. Pode-se somar a esta observação. não cabe a ela poder escolher – nisto. que o DNSP lança as bases para as políticas de educação sanitária no país. 2006:80) “o irracional é o instrumento da integração política total. 13 nº 2 . (apud Schartzman. a técnica intelectual de utilização do inconsciente coletivo para o controle político da nação”. de certa maneira. O indivíduo era uma garrafa vazia a ser preenchida pelo educador. Citando Campos. Se a massa não sabe o que quer. A pedagogia da época se volta para a formação deste novo homem brasileiro. os meios midiáticos de propaganda viriam a desenvolver um papel fundamental. de fato.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . em questão pública”. voltado para o progresso e formação de uma sociedade brasileira onde o indivíduo seria transformado a partir da educação. Eis o porquê de afirmarmos que a educação. à luz do que foi visto até aqui. a criação do DNSP representa “a primeira iniciativa com alguma chance de sucesso de transformar a saúde pública. as ações de Saúde Pública são basicamente realizadas nos espaços urbanos e quase sempre com perfil policialesco. Do ponto de vista metodológico. Aqui. Como aponta Bueno (2005: 134). pelo menos. padroniARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE .p. nessa nova realidade (que o próprio Campos chama de “transição”). pode-se dizer. pouco mudaria quanto à forma como se pensava educação sanitária no Brasil entre 1923 e. o indivíduo iria se transformar de tal maneira a mudar a nação. O que se transformou foi. Até aqui. o discurso ideológico se mantém essencialmente o mesmo: a partir da educação. neste período. Não podemos esquecer da influência de Francisco Campos neste período. qual seria o sentido da democracia? Caberia ao líder da nação escolher que rumos tomar. que ambas compactuavam de um cunho essencialmente nacionalista. e o mito que é a sua expressão mais adequada. para educação profilática da população rural do Brasil. o aspecto ideológico sobre o porquê e como se proceder tal educação. na década de 1940. 1942. conforme os interesses da República. para isso. particularmente. possui caráter essencialmente domesticador.

os indígenas seriam produtores de bens de interesse comercial” (Craveiro. um dos objetivos principais do SPI era de integrar e proteger os indígenas – por mais contraditórios que ambos os movimentos pareçam. estando o propósito da integração do indígena à sociedade nacional muito mais presente e aumentado a ênfase nos trabalhos agrícolas e domésticos no currículo. etc. no que tange a domesticar para criar trabalhadores. treinando os índios em diversos ofícios... pouca coisa havia mudado desde a fundação do órgão. por meio de convênios. a alfabetização de crianças e adultos procurava consolidar a sedentarização de um povo indígena. passando pelos índios contatados pela Comissão Rondon.ARTIGO Ideação Dos antigos aldeamentos missionários aos postos indígenas do SPI. Neste sentido vão também as observações de Oliveira e Freire: DE FOZ DO IGUAÇU v . engenhos de cana.] Essa política de “nacionalização” do indígena esteve presente em quase todos os postos indígenas. passado a missões religiosas a responsabilidade pela educação em certas localidades. o SPI investia na educação para transformar os índios em trabalhadores nacionais (Souza Lima. impondo-lhe toda a sorte de símbolos e ideário nacional. 1995). [. Os postos preparavam as crianças indígenas para a integração no mercado regional à medida que aceitavam também como alunos os filhos de colonos. Desde o início. Era parte de um processo pedagógico que envolvia esses cultos cívicos [o canto de hinos oficiais e militares. casas de farinha. tendo o SPI. “com isto. da pecuária e de novas práticas agrícolas. Como observa Craveiro (2004). hasteamento de bandeira. como o uso de vestimentas e o aprendizado de práticas higiênicas. Podemos perceber como essa idéia de educação convergia com o que era feito nas aldeias pelo Serviço de Proteção ao Índio desde a década de 1910.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. freqüentemente uma pessoa sem qualquer qualificação para esta prática. quase replicando o sistema fordista de produção. . Envolvia também novos cuidados corporais. Como vimos no início. onde a professora dos índios era quase sempre a esposa do encarregado do posto.CAMPUS zado e “moderno”. 2004: 44). a idéia era formar mão-de-obra..]. com criação de clubes agrícolas em 1953. Os postos indígenas recebiam instalações de oficinas mecânicas. dos empregados do posto e de fazendas vizinhas. 13 nº 2 p. Conclui a autora que. e o aprendizado de trabalhos manuais. Ao Estado não cabia formar seres pensantes mas.. o padrão para a educação indígena era a educação jesuítica. As escolas 115 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . Do ponto de vista educacional.

o SPI passa por uma fase de desorganização: a geração dos fundadores do Serviço havia falecido ou se aposentado. o positivismo era uma filosofia já decadente e. Do início ao fim do SPI. O uso de material didático padronizado. tendo ainda passado por diferentes Ministérios: Agricultura. ainda. e Agricultura (a partir de 1942). 13 nº 2 . Temos. com iniciativas como a Fundação Brasil Central. a educação indígena parece ter se estagnado desde a fundação do SPI. após a revolução de 1930. O indigenismo ganha vida nova com as políticas nacionalistas de Vargas: volta o discurso de interiorização e conquista dos sertões. a maneira pela qual os índios se integrariam à sociedade nacional deveria ser revista – uma vez que não mais se acreditava em estágios de desenvolvimento da humanidade nos termos comtianos (idem). cit). como se pode notar. Indústria e Comércio (1910-30). predominou uma escola indígena formadora de produtores rurais voltados para o mercado regional. Trabalho (1930-1934). 2006: 124-5). como instância consultiva do Governo com relação a assuntos referentes aos povos indígenas. que entender a criação do CNPI no âmbito de “um vasto movimento de construção de conselhos de Estado (de Geografia. 116 Ideação Em muitos sentidos. com iniciativas como a Fundação Brasil Central. por exemplo. por exemplo. de Patrimônio Histórico e ARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . do ensino artesanal e da alfabetização não permitiram o sucesso de qualquer reformulação educacional. (Oliveira e Freire. de modo que foi fundado em novembro de 1939 o Conselho Nacional de Proteção aos Índios. sendo integrada a uma retórica mais ampla sobre a colonização do interior do Brasil. o órgão indigenista havia se enfraquecido muito entre as décadas de 1910 e 40. rebatizada de ‘Macha para o Oeste”.p. mantendo o mesmo paradigma: educar para criar novos trabalhadores. Guerra (1935-39). havendo baixo aproveitamento educacional das crianças indígenas em tais condições. “a proteção ao índio como prerrogativa do Estado obteve novos recursos. 105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes dos postos não se diferenciavam das escolas rurais.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . Mas o próprio conceito de indigenismo e as práticas do governo com relação ao “Problema Indígena” deveriam passar por uma rápida revisão. Na verdade. desta forma. com cada vez menor espaço político e orçamento. do método de ensino precário à falta de formação do professor. Como observa Souza Lima (2006:107). Como observa Souza Lima (op. CNPI. de Controle das Expedições Científicas e Artísticas.

em 1943 (coincidência. ocorre a publicação do primeiro volume da série “Índios do Brasil”. como o trecho acima permite perceber. tratada como uma questão agrícola. A ocupação do interior do país era. À época. inclusive no que dizia respeito ao trato da saúde indígena. pela leitura dos Boletins do Serviço. o filho de Roosevelt e cientistas norte-americanos entre dezembro de 1913 e março de 1914 permanecera no obscurantismo no Brasil. até o Estado Novo. tanto quanto de integração nacional. é emblemático quanto ao contexto da época: “O interesse de Roosevelt pelas questões sociais e sua capacidade de administrador patenteiam-se claramente [. Franklin Delano Roosevelt. baseado na viagem que o ex-presidente dos Estados Unidos fizera com Rondon. com visão não menor das necessidades sociais do país. com a “marcha para o oeste” e os projetos nacionalistas do Estado Novo.. No entanto. o Serviço de Proteção ao Índio atinge seu auge no início da década de 1940. com o sugestivo título “Através do sertão do Brasil”. Também ocorre a publicação da edição brasileira do livro escrito por Theodore Roosevelt. no ano em que o sobrinho de Theodore. ou não. como fora décadas antes. Through the Brazilian Wilderness. as contribuições do CNPI podem ser mais percebidas se a médio prazo.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . cit. O prefácio.] quando preconiza as possibilidades e a necessidade de colonização do Oeste brasileiro”. escrito pelo então Ministro da Agricultura (mesmo Ministério ao qual se juridicionava o SPI). e novamente em 1944.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. . O livro ganha duas edições no país.ARTIGO Ideação Artístico Nacional e dos Assuntos Florestais. Na época. alguns sertanistas. intitulado de “Nas Selvas do Brasil”. O livro. e muito mais teóricas do que práticas. como solução para nossa desorganização agrícola” (apud Enders.. era presidente dos Estados Unidos). está aí a indicar.. 13 nº 2 p. etc. 30 anos após sua publicação (Enders.) relacionados a um certo número de ´tarefas nacionais” (idem). tampouco dotação orçamentária para essa finalidade: em junho de 1942. 117 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . Isso ficava claro nas políticas indigenistas levadas a cabo pelo SPI. op.. pela Companhia Editora Nacional. com as fotos das expedições de Rondon. publicado pelo Ministério da Agricultura. Apolônio Salles. adiante: “dir-se-ia que o grande estadista americano anteviu o que hoje o presidente Vargas. Segue Salles. 2006: 33). Pode-se dizer que.). notamos que não havia uma Seção específica para Saúde Indígena.

. freqüentam a escola com entusiasmo e proveito EDUCAÇÃO E LETRAS DA DE FOZ DO IGUAÇU v . Contudo o Posto mantém uma farmácia variada com que atende aos doentes. pela Funai: na falta de programas específicos para povos indígenas. posteriormente. o que vimos até aqui é que os técnicos do SPI por diversos momentos manifestam sistematicamente a preocupação com ARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE . Diversos autores mencionam o início de políticas sistematizadas de atendimento a saúde indígena a partir da década de 1950. o autor do relatório não explicitar no que se baseava tal programa. “mendicância”. o estado sanitário é bom. ou programas de vacinação em massa. “prostituição” e “perambulagem” são constantemente referidos nos relatórios sobre saúde. A seguir. (. aliás. se reduzindo. com informações sobre nascimentos e óbitos. no Boletim n. Apesar de. diversas menções esporádicas a saúde indígena. tratados como “degradantes e inconvenientes”.1942): Felizmente. isso indica que havia uma certa preocupação referente a aspectos sanitários e profiláticos entre os indígenas. já mencionada de certa maneira. Isso foi. dentre as quais destaco duas. por meio do qual “a embriaguez” desapareceu.) Nasceram 4 crianças Caingangues. bem como possíveis epidemias nas aldeias.. cada vez mais. 13 nº 2 118 Ideação Percebemos aqui algumas coisas interessantes.09. a embriaguez desapareceu. bem alimentadas como são. retirado de um documento encaminhado pelo Posto Indígena Guarita. é a menção a um certo “programa do SPI”. como no caso do Campanha Nacional Contra a Tuberculose.p. com a instalação do Serviço de Unidades Sanitárias Aéreas (SUSA) – vistas adiante – mas..CAMPUS por exemplo. (. esses eram atendidos por programas nacionais direcionados a um público mais amplo. às quais o Posto forneceu pelúcia para agasalhá-las.) As crianças. 105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes UNIOESTE . A primeira. Com a execução do programa do SPI.. naquele mesmo ano (1942). RS. “Alcoolismo”. uma prática constitutiva da forma como a saúde indígena era feita no âmbito do SPI e. o Diretor Geral do Departamento Nacional de Saúde determinou que a Diretoria Nacional contra a Malária cedesse ao SPI diversos medicamentos. infelizmente. Há. sendo comuns nos relatórios das Inspetorias e Postos Indígenas a menção ao “Estado Sanitário” dos índios atendidos. há fartura nos lares indígenas e as enfermidades vão.° 10 do SPI (30. um pequeno exemplo dos textos desses relatórios. na década de 1950.

Se a questão não estava. isolados do contato com os não-índios e bem alimentados. não se tratavam de cuidados que denotassem grande expertise de conhecimentos médicos pelos funcionários do Posto.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. para “atenuar o mal”. Evidentemente. nas aldeias. produzindo e estudando bastante.. construção de privadas nas escolas mantidas pelo Serviço. propaganda e prevenção nos permitem afirmar que já na década de 1940 o SPI desenvolvia. A segunda é o relato no sentido de apresentar o entusiasmo e o proveito das crianças ao freqüentarem a escola. como vi- 119 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . Além das ginásticas. apurou a mentalidade entre as índias (“talvez produto de propaganda dos ‘bares”) contrária ao nascimento de filhos. preocupado com a baixa natalidade dos índios Bororo (apesar de gozarem de “todas as facilidades e garantias para o natural desenvolvimento de sua vida: alimentação suficiente.. por estarem bem alimentadas. Um exemplo curioso está no Boletim 14 do SPI. chefes indígenas e maridos índios. ações que bem poderiam ser chamadas de educação em saúde. e c) a instituição de prêmios: uma novilha ao nascimento de cada filho. e um cavalo de campo para quando a posse de gado chegar a mais de 10 cabeças. plena liberdade. . feita pelo encarregado e empregados dos mesmos postos” a fim de que não permitissem tais práticas. Na mentalidade do Serviço. e da menção ao “programa do SPI” no trecho acima. educação cívica. Assim. trabalho livre e moderado e tratamento de suas moléstias”. variando de ações educativas de combate ao alcoolismo. junto das índias. estariam protegidos de doenças. as indígenas confessaram tomar abortivos. se os indígenas estivessem em suas terras. para que não abortem e não deixem matar os seus filhos”. feita pela professora e mais senhoras civilizadas sediadas nos Postos. menções esporádicas a ações de educação sanitária. e mesmo da Funai até os anos 80. as seguintes providências foram tomadas: a) “intensa e amistosa propaganda. vivendo ainda “satisfeitos e alegres”). segurança absoluta. uma “dita” ao completar o filho mais um ano de vida até os cinco. publicado em 31 de janeiro de 1943. O Chefe de um Posto Indígena do Mato Grosso. 13 nº 2 p. até chamarem um médico da região para analisar algum índio que manifestasse alguma doença mais complexa. b) “idêntica propaganda entre os ‘bares’. Apesar de os “bares” negarem.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v .ARTIGO Ideação os cuidados de saúde nos Postos Indígenas.

consta do Boletim n. posteriormente. Em Lima e Hochman (2000: 324 e seguintes) está uma discussão que muito pode nos interessar aqui. Tanto os chefes de Posto Indígena quanto os educadores Sespianos tinham. enquanto seu marido buscava transformar os índios em agricultores. Ainda hoje é comum ouvirmos relatos nas aldeias em que funcionários colocavam índios doentes em garupas de bicicletas e viajavam quilômetros em busca de auxilio. por seus paralelos entre a visão de “Índio” aqui apresentada e a de “Caboclo”. As vias das instituições: a reestruturação do atendimento e protagonismo indígena O desenho do atendimento à saúde e educação sanitária no âmbito do SPI se manteve sem grandes mudanças práticas desde. mas isso apenas reforçava a auto-imagem heróica que os técnicos do órgão (e. da Funai) faziam de si. como o “Hospital do ÍnARTIGO 120 Ideação R EVISTA DO CENTRO DE LETRAS DE FOZ DO IGUAÇU v . 13 nº 2 . educá-lo e instruí-lo. e sobre o caráter anti-produtivo da doença.° 10 do SPI ser seu objetivo a “fixação do índio a terra. pelo menos. a chave para a questão indígena poderia muito bem estar na doença e na falta de cuidados corporais adequados – o que. Isso remete a questão já mencionada sobre a visão de raça no início do século. e incutir-lhe a idéia de que faça parte da nação brasileira”. a década de 1940: a esposa do chefe do Posto Indígena dava aulas na escola. corroborava a instituição do modelo tutelar aplicado aos povos indígenas no país. Houve algumas ações do SPI e da Funai em caráter esporádico de atenção à saúde indígena.p. por função. realizar o que Lima e Hochman (op cit) chamam de um “processo de mudança dirigida” – o que ficará evidente nos escritos de Charles Wagley – a partir dos quais se daria a “organização do processo de transição para uma sociedade moderna”. em larga medida. –especialmente por influência do sanitarismo norte-americano no Sesp. Como vimos. como veremos adiante. por exemplo.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes DA UNIOESTE . Em larga medida os paradigmas e metodologias do SPI no que tange a educação sanitária se encontram: tanto uma quanto outra tinham como projeto” integrar a cultura sertaneja numa economia competitiva e em padrões de consumo e de vida considerados civilizados” (idem). havia uma certa preocupação com o estado sanitário dos índios. Em 1942.CAMPUS EDUCAÇÃO E mos. na “raça”.

A educação sanitária era. Contudo. apesar das irregularidades constatadas. pautadas pelos mesmos modelos que orientavam o SPI. o SPI estava decadente. em larga medida. de 30 de setembro de 1942). na Ilha do Bananal (TO). tendo mais de 600 funcionários do SPI transferidos para o novo órgão.. Vimos que era papel institucional do SPI “fixar o índio a terra. e talvez caibam aqui alguns parágrafos sobre o assunto. chamava a atenção para o aparecimento de diabetes entre os indí- 121 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . quase sempre dizendo respeito a alimentação indígena: ao mesmo tempo em que a revista publicava os avanços da implantação de projetos de monocultura mecanizada de arroz entre os Xavante. e do SUSA. Como apontam Oliveira e Freire (2006). de 19 de dezembro de 1973). como resultado dessas investigações mais de cem funcionários do órgão foram demitidos e. inaugurado pelo Presidente Costa e Silva. não houve ruptura entre esse modelo e o que lhe deu origem. . ainda em vigor. uma conseqüência natural do processo de integração do índio.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . já na década de 1960. em grande medida. publicada pela Funai no final da década de 1970 alguns artigos que permitem vislumbrar uma certa tensão entre os movimentos de “se integrar” e “se proteger”. o SPI e o CNPI são extintos e é criada em 1967 a Fundação Nacional do Índio.. Entretanto. estabelecia já em seu primeiro artigo como propósito preservar a cultura e integrá-los. das Equipes Volantes de Saúde. Apontam os autores que as práticas institucionais e paradigmas que norteavam as ações da Funai foram. à comunhão nacional. o que fica evidente com a publicação do “Estatuto do Índio” (Lei n. com denúncias de corrupção e sendo investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito. um artigo escrito por Paulo Botelho Vieira Filho. “progressiva e harmonicamente”. Como vemos. da Escola Paulista de Medicina. Essa Lei. bem como do aproveitamento das suas aptidões individuais” (Artigo 50). 13 nº 2 p. o que fica evidente no artigo referente à educação: “A educação do índio será orientada para a integração na comunhão nacional mediante processo de gradativa compreensão dos problemas gerais e valores da sociedade nacional.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO.° 6001. tal modelo estava sendo revisto no período. no contexto de reformulação do aparato estatal pós-golpe militar. educá-lo e instruí-lo. incutir-lhe a idéia de que faça parte da nação brasileira” (Boletim n.° 10 do SPI. Encontraremos na revista Atualidade Indígena.ARTIGO Ideação dio”.

Entretanto. bem como o direito de estabelecerem o ritmo que considerem mais conveniente. por conta de alimentação inadequada (n. Além disso. não são esses artigos os que mais chamam a atenção no escopo deste trabalho. na idade da pedra. mas outro. Por outro lado. não constando no texto por acaso. a base do modelo de atenção à saúde indígena utilizado nas aldeias – ainda que na maior parte das vezes essa estrutura exista apenas no papel.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes v . 1979:24). médicos e especialistas em desenvolvimento de comunidades (Salzano. também escrito por Vieira Filho). É óbvio que os índios brasileiros não podem permanecer. Entretanto. também é visível certa tensão entre “integrar” e “proteger”. A preocupação se manteria vindo a se tornar um artigo sobre o mesmo tema em 1979 (intitulado “O diabete mellitus entre os índios dos Estados Unidos e do Brasil”. nos quais sejam respeitadas as peculiaridades de cada grupo. atualmente.° 03. pesca ou criação animal. escreve o autor que “devemos propugnar pelas dietas protéicas da caça. sobre o impacto do contato na saúde e medicina indígena.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU nº 2 122 Ideação O trecho acima é quase profético: as equipes multidisciplinares de saúde que ele propõe são. pelo menos. enquanto o resto do país se encontra na era atômica. Como aponta Bigio (2000). Neste artigo. Isso só pode ser feito através de equipes multidisciplinares que incluam. só poderá levar a conseqüências desastrosas. intitulado “Contato agride saúde do indio” é emblemático do período: Chegamos aqui. 13 genas. repetir erros do passado através de um processo desordenado e demasiadamente rápido de aculturação. A isso se seguiu um moviARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS . nesse texto. 1977). em 1978 foi divulgada a intenção do então presidente Ernesto Geisel de “emancipar os indígenas. é interessante a menção a um “especialista em desenvolvimento da comunidade”. e devemos evitar o sedentarismo através da atividade física em reservas extensas”. a um dilema. como nos anteriormente apresentados. haja visto o que vemos em ação no âmbito sespiano: o leitor já deve ter percebido que a alusão a esse profissional deve ser compreendida em seu contexto sócio-histórico.p. publicado por Francisco Salzano em maio de 1979. como objetos de museu. DA UNIOESTE . antropólogos sociais. É necessário montar esquemas de integração gradual. extinguindo as obrigações tutelares da Funai para com indivíduos e comunidades”.

e os índios conseguem um modelo diferenciado de atendimento. postura essa contraditória ao papel que a Funai (e antes dela. que precisam ser tomadas em consideração. Se na década de 1970 os movimentos indígenas agiam quase sempre isoladamente. as secretarias estaduais e municipais. em contraponto à política desenvolvimentista dos governos militares. ocorrem várias mudanças na estrutura de atendimento à saúde do país. em 1986. existem programas e carteiras voltadas para o atendimento a indígenas em diferentes ministérios – Meio Ambiente (MMA). muitas organizações indígenas da Amazônia vieram a fortalecer-se e a ampliar o seu escopo de atuação através de parcerias com a FUNASA no estabelecimento de Distritos Especiais de Saúde Indígena/DSEIs. bem como as associações de professores indígenas. como vimos. Na década de 1980. as políticas indigenistas não mais se encontram centralizadas em torno de um órgão. [. que conseguiram barrar o projeto (:64) – especialmente por ação da igreja católica e do movimento de teologia da libertação – sendo o período compreendido entre 1972 e 1983 marcado pela intensificação da organização de movimentos indígenas no país. 2006: 197). 13 nº 2 p. pelo qual vinham lutando desde a Primeira Conferencia Nacional de Proteção à Saúde do Índio. onde se percebeu que os índios deveriam ser atendidos por uma estrutura que fosse ligada ao Sistema Nacional (o SUS).ARTIGO Ideação Pela primeira vez na República. o SPI) exerciam nas políticas indigenistas do país. bem como um atendimento diferenciado aos indígenas. O que se segue. ao longo dos anos 80 eles se articulam de tal modo que conseguem.. contemplando as especificidades e práticas culturais. no texto da Constituição de 1988 ter o respeito a suas culturas garantido.] Também na esfera educacional surgiram articulações novas envolvendo o MEC. . 123 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO No início dos anos 90.. à saúde e ao desenvolvimento.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. ao longo da década de 1990 é quase inevitável: v . Atualmente. Sobretudo no campo da saúde. Pela primeira vez o Estado reconhecia aos povos indígenas seu direto a manter sua própria cultura.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU mento de oposição de diversas entidades ligadas ao movimento indígena. Desenvolvimento Agrário (MDA) e Desenvolvimento Social (MDS) (Freire e Oliveira. E LETRAS DA UNIOESTE .. um conjunto de decretos veio a transferir da FUNAI para os ministérios específicos as atribuições de assistência ao índio no que tange à educação. o que não quer dizer que tenha havido uma ruptura com modelos pré-existentes..

poética e melancolicamente nos descreve o que ocorreu: “Que vimos então na Fundação? Suas paredes foram rachadas e pelas fendas penetrou o vírus da politicagem que. Após a redemocradização. é óbvio. transferindo a responsabilidade da gestão da saúde indígena para a Funasa. é o responsável pelas ações de saúde (inclusive educativas) em área indígena. Não é nosso intuito. criando um quadro de antagonismo partidário na entidade. faltando apenas um elemento: em que contexto surge a Funasa e de que forma isso norteia a auto-imagem do órgão que. sendo que naquele mesmo ano foram organizados 34 DSEIs. corroeu os tecidos dos órgãos internos. contexto a partir do qual Bastos (1996:491-3) nos conta em que condições a Fsesp deixa de existir. antes e sobretudo. Segundo ele. em 1993 consolidou o modelo de distritalização.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes 124 Ideação A Segunda Conferência de Saúde Indígena.911-8. buscando reorganizar o órgão à luz das propostas da Reforma Sanitária e do modelo de saúde que se desenhava então. o que muito nos afastaria de nosso objetivo. criados no início da década). aqui. percebermos o que esses percursos institucionais têm a nos dizer sobre a forma como se gere a educação em saúde junto aos povos indígenas. O autor. o início do fim se deu pela reestruturação do órgão a base de improvisação. fazer um histórico do modelo atual de gestão a saúde indígena. para dar lugar à Funasa. com base em “problemas incertos. temos já boa parte dos elementos sobre a mesa. com a entrada de várias pessoas em cargos de direção sem compromisso com a entidade e “voltadas simplesmente para os interesses políticos do partido”.p.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . Voltemos à década de 1980. Há muitos artigos e bons livros escritos a esse respeito. e implementando o modelo de distritalização. Como um grande quebra-cabeças. O que nos interessa aqui é. em 1985. Bastos relata que. começam a surgir debates dentro da instituição e envolvendo o Ministério da Saúde. entrando em vigor somente a partir de 1999 (à exceção dos DSEIs Yanomami e Leste de Roraima. à época. por vezes mesmo de natureza pessoal”. a estrutura interna da Fundação começa a ser palco de conflitos diversos motivados pela entrega do órgão ao “controle de partidos políticos”. 13 nº 2 . com quebra da ARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . como vimos. com conseqüências negativas para a instituição. Em julho de 1999 é aprovada Medida Provisória n.° 1.

era preciso não desprezar os frutos do conhecimento adquirido. sempre foi um dos êxitos do Sesp” (idem). 13 disciplina que. que não tenha sido periodicamente visitada por guardas da Sucam. de saneamento público e domiciliar. . Era. para dentro da novel instituição que. Sucam e Fsesp. 2004: 54-55) Foi nesse contexto que ocorreu a transposição de antigos órgãos de saúde pública. muitas vezes sob a inspiração do heroísmo num Brasil de incipiente estrutura científica e tecnológica. até 1999). E como seus serviços foram. Interessante perceber como a FNS se apropria da história dessas duas instituições (Fsesp e Sucam) para conferir a ela uma identidade própria. preza-me dizer. Nas publicações da Funasa fica clara a autoidentificação do órgão com uma linhagem campanhística: nº 2 p.. como já foi tido. sendo finalmente instituída pelo Decreto n.] O Serviço Especial de Saúde Pública atuava em regiões despovoadas e extremamente pobres. isso foi feito. que autoriza a instituição da FNS). num primeiro momento. Seguramente.] 125 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE .029. [. (Funasa. denominado sanitarismo campanhista. Em abril de 1990 foi instituída a Fundação Nacional de Saúde (FNS.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO.... Era preciso respeitar as tradições.° 100. [. sempre. Convinha que se apreendesse e se incorporasse o precioso legado das instituições que se extinguiam para dar lugar a outra. importante valorizar as conquistas no campo de tantas carências. “mediante a incorporação da Fundação Serviços de Saúde Pública – Fsesp – e da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública – Sucam” (Lei n. ao longo de décadas de ações de combate a endemias urbanas e rurais.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . também incluiu-se o saneamento como parte integrante de sua rotina sanitária. desenvolvidos em comunidades carentes de qualquer infra-estrutura urbana. a constituir-se motivo de orgulho para muitos brasileiros. [.. A Funasa estaria absorvendo as campanhas e os serviços de saúde pública disseminados por este imenso país. desde aquela época.ARTIGO Ideação Não há localidade no interior do Brasil. e que viria. A eficiência e a disciplina desses servidores sempre foram reconhecidas pela população e pelas autoridades locais. Deve-se reconhecer.. como os interiores do Nordeste e da Amazônia. não muito diferente do resto do mundo que também engatinhava no conhecimento das doenças tropicais. que existiu um temor de que não se preservasse o que fora construído a duras penas.° 8.. por mais remota. então. em abril de 1991.] A Sucam foi legítima herdeira de um dos mais antigos modelos de organização de ações de saúde pública do Brasil. Era necessário impedir que caísse por terra todo um trabalho de imensas repercussões favoráveis ao povo brasileiro.. tenho a honra de hoje presidir.

na epígrafe deste artigo) do que era passado sobre saúde no interior do país. várias de suas ações serão norteadas pelos mesmos paradigmas que motivaram os funcionários daqueles órgãos. O passado heróico do Sesp. num contexto em que várias questões apontadas por Bastos ainda persistem. educação e sanitarismo como formas de civilizar a partir de visões positivistas. entre a ARTIGO 126 Ideação R EVISTA DO CENTRO DE DA UNIOESTE . É possível que as novas gerações tenham certa dificuldade de entender a presença histórica desses agentes públicos inseridos na malha social mais representativa do interior. respectivamente. seus mitos de origem. Fsesp. Algumas considerações sobre o que as tramas nos falam sobre o tecido Vimos. 2005: editorial) LETRAS EDUCAÇÃO E Essa visão institucional enquanto herdeira do campanhismo característico das ações das instituições que lhes deram origem (DNERu. Sesp. construtivistas e transitando. Ontem. conforme mudanças no jogo do Poder. com o barbeiro. resume-se o espírito desse preito de honra. etc. sem que houvesse uma ruptura estrutural na passagem deles para a FNS. Ideologicamente. era o mata-mosquito do DNERu. 13 . Sucam. bem como a Reforma Sanitária conferem. são os agentes de saúde e os agentes indígenas de saúde.). Da mesma forma. A idéia de integração e construção nacional. (Funasa.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . nas casas mais humildes do “hinterland”. funcionalistas. o guarda da Sucam com suas flâmulas e bandeiras amarelas para levar saúde e demarcar a presença do Estado nas choupanas mais distantes. pode-se dizer que essas sejam as pedras angulares do órgão e o que lhe confere identidade institucional. como o campo da educação sanitária e certos aspectos da política indigenista brasileira na República permitem cruzamentos que nos permitem vislumbrar de que maneira ocorreram certas mudanças no “tecido básico” (usando a expressão de Elias.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes nº 2 Hoje. até aqui. com o boticário. tanto aos sertanejos quanto aos índios. aos mais velhos e mais novos. inspirados na tradição dos que os precederam. a puericultura como forma de mudança de comportamentos e civilização. somada a uma certa visão romantizada da Reforma Sanitária e da formação do SUS marcará tanto o discurso quanto o ethos dos funcionários do órgão. novos ou antigos. Para esses agentes públicos. junto com o padre.p.

de ditadura militar e políticas integracionistas. assim. 13 nº 2 p. Pensemos. funcionalismo. É tentador pensarmos nesse processo enquanto uma teia. por exemplo. os atuais modelos de educação sanitária aplicados aos povos indígenas. a idéia de integração nacional. mas com todas as suas dimensões ligadas entre si. e. – as quais encontraram ecos em interesses das elites de seu tempo. com inúmeras Ongs. Não se trata. se não o vislumbrarmos em seu contexto político.. por exemplo. pensar a construção do campo como um processo social. prefeituras.. as políticas indigenistas. que vão desde iniciativas individuais até projetos de Governo. . paralelamente. historicamente construído conforme inúmeras variáveis.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. pelos próprios percursos que a educação em saúde. atores diferentes se encontram em diferentes situações: são 34 Distritos Sanitários. percorreram ao longo da República. mas as escolas nas aldeias são municipais. etc. o papel do protagonismo indígena a partir da década de 1980. repito. como pudemos constatar. dependeram muito mais dessas transformações macro-estruturais do que de iniciativas individuais. correriamos o risco de não notar quão complementares e acumulativas tais noções são. amarrada a “ismos”. governos. etc. por exemplo. nessas idéias e paradigmas como fios que se integram de modo a formar um intrincado tecido: o da educação em saúde em áreas indígenas. a qual nos privaria de ver os contextos a partir dos quais cada idéia emerge. a educação é responsabilidade do Mec. da mesma forma. de pensarmos os elementos aqui expostos como uma evolução unilinear: positivismo. Se até a década de 1980 tudo parecia mais claro (a Funai centralizava todas as 127 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . pois. Devemos. Evidentemente. Mais do que a história de homens abnegados. em que os diversos paradigmas se entrecruzam de uma forma não racionalmente planejada. não podemos dizer que haja homogeneidade no campo da educação em saúde desenvolvida junto aos povos indígenas no país: além de cada um dos mais de 220 povos indígenas do país apresentarem contextos e problemas diferentes. como uma espécie de super-homem desinteressado: ele foi o que foi devido às idéias que o motivavam – o positivismo Comtiano.ARTIGO Ideação domesticação e a educação popular. seria míope enxergarmos Rondon.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . educação popular e protagonismo. Além de uma simplificação exagerada. Não nos seria possível compreender.

CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . hoje. a priori. metodologias distintas de trabalho. moradia. há uma completa falta de integração entre os vários atores envolvidos. 13 nº 2 . Teatro.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes 128 Ideação ações). atualmente a gestão da política indigenista é um imenso bolo em que cada instituição dispõe de uma pequena fatia. de doença. o que é realmente um problema. as quais os índios achavam que fosse útil para melhor conservar a fruta É o que se consegue transpondo nossas metodologias ao contexto da aldeia. rádio. Mesmo assim.p. quase sempre. utilizando bananas. o que se nota? De um lado. as aldeias estão repletas de professores e agentes indígenas de saúde que. pensar sua vida de forma relativamente fragmentada: lugar de educação é na escola. sem ações integradas. vídeos. Da mesma forma. contudo. de informação. quase sempre. Como resultado. cartilhas e cartazes nas aldeias são fórmulas antigas as quais ainda são bem utilizadas – quando o são – junto aos povos indígenas. como usar a camisinha. No dia seguinte. intervenção que. posto que povos indígenas são alvo desse tipo de imunização desde as décadas de 1950 e 60. do outro. a divisão de tarefas se deve a uma série de questões: divisão de recursos financeiros e humanos. interesses políticos. o Posto Indígena da Funai. para o não-índio. ao lado. no hospital. etc. encontravam várias bananas envoltas com preservativo. quando se chega a uma aldeia. não exige maiores intervenções sociológicas. 2008) que ARTIGO R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . Do ponto de vista governamental. etc. são bem conhecidos no anedotário indigenista histórias de como índios se recusavam a receber a vacina por associarem a figura do “Zé Gotinha” a entidades espirituais de sua cosmologia. têm suas ações movidas de forma independente. alimentação são todas esferas vividas cotidianamente de forma integrada: os pequenos índios aprendem sobre a vida observando seus pais e ouvindo os mais velhos. Vimos (Fernandes. É normal. a escola da aldeia e. No entanto. isso não se passa dessa forma: educação. Com relação a maioria dos povos indígenas. saúde. os meios midiáticos. há relatos bem interessantes de equipes que foram às aldeias ensinar aos índios. dada a especificidade da questão indígena. o posto de saúde da Funasa. por meio de experiencias concretas e da vida em grupo. O resultado disso tem sido claro nas políticas de atenção a saúde nas aldeias: a prevenção se dá sobretudo por meio de vacinas.

que busca uma educação em saúde a partir da troca de conhecimentos entre os dois modelos médicos. e exemplos são inúmeros. isso parece ser a continuidade de um velho modelo adotado na saúde. Repito: atualmente há bons profissionais com iniciativas interessantes na gestão de políticas de educação em saúde nas aldeias mas. Numa reunião recente da qual participei. propunha-se a distribuição de filtros de barro a índios de determinada etnia. ou a instalação de kits sanitários nas aldeias. . o uso desenfreado de agrotoxicos que acaba poluindo as águas que abastecem as aldeias. o que ficou claro ao longo deste traba- 129 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . a vigilancia ambiental dos latifundios que as rodeiam. posto haver nas aldeias aumentado a incidência de diarréia.. como a distribuição de cestas básicas a índios. Quase sempre. Contudo. Claro que há exceções mas. esse ainda não é o modelo hegemonico no orgão. Isso é o que.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . como um modelo geral. etc. a suplementação de ferro às crianças. Até que ponto isso nos remete aos artigos Sespianos da década de 1950. tal qual se fazia na década de 1950 nas áreas rurais do país. os gestores seguem distribuindo cartilhas e pregando cartazes nos postos de saúde das aldeias. são esses os desafios atualmente enfrentados nas aldeias. apesar disso.num sentindo amplo. o discurso de culpabilização da vítima persiste. em que o caboclo era visto com alguém com certa torpeza mental (idem)? Ensinar tais preceitos aos índios é não querer ir no fulcro do problema e não pode ser chamado.ARTIGO Ideação essa tradição precede o Sesp. isso implicaria em se dar àqueles índios a capacidade de pensarem criticamente em uma série de conceitos que vão desde “vírus” até “controle social”. de educação . de forma alguma.. Em momento algum se vai a raiz do problema: as dimensões dos territorios indigenas. Para isso há recursos. bactérias e vírus são descritos como “animais muito pequenos que os olhos não veêm mas podem matar”. pois. vindo da década de 1920 e com um viés propagandistico. Caso contrário. O atual paradigma desses profissionais é o da educação popular. idem ações de caráter emergencial que se perpetuam. a culpa é dos índios – uma vez mais. se eximindo de intervenções que requeiram maiores reflexões sociológicas. À essa alternativa. que se comprem filtros de barro e o problema está resolvido. nos materiais educativos que chegam às aldeias. em grande parte dos DSEIs do país pode ser considerado como prevenção. 13 nº 2 p.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO.

discutiam-se e analisavam-se os temas. O que sempre foi feito – e ainda o é – foi se transpor um modelo educacional em evidência para as ações de educação em saúde. E. idem os ideiais Deweyanos e de organização comunitária. o Freiriano. doméstica. nas quais o educando é um recipiente vazio a ser preenchido com o conhecimento que lhe é passado. e de “comunidade” se baseiam em ideologias e práticas que. lixeira de madeira (lixo reciclável).CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v . e ambiental. No período da manhã. alimentação. mas a educação popular. e mobilização social. As idéias de “participação”. Em que medida uma educação pensada nesses termos é realmente levada a cabo nas aldeias? Talvez a metodologia proposta por Freire chegue às aldeias em rodas de conversa. como foi observado. saneamento ambiental (lixo). e. voltando ao ponto anterior. registravam-se as propostas dos grupos das soluções viáveis. estão longe de ser “libertadoras”: Os temas. tratados e discutidos a cada dia. mais que um método. esse também o era na educação sanitária. canteiros de horta orgânica na escola. posto que o contexto indígena requer que sejam levadas em conta. troca de conhecimentos. depois. Os temas contemplaram as questões de higiene corporal. Visitas domiciliares. supostamente.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes EDUCAÇÃO E LETRAS lho: quando o paradigma em voga na educação era o escolanovista. nas ações educativas. 13 nº 2 . suas práticas remetem a práticas que o Sesp já implantava nas décadas de 1950 e 60 em comunidades rurais. foram definidos de acordo com a pesquisa e os levantamentos feitos previamente (Diagnóstico Situacional). conforme já vimos. etc. rompendo com as “práticas bancárias” de educação.p. A partir dessa pesquisa. No período da tarde realizavam-se as atividades práticas. como escovar corretamente os dentes. Talvez seja o momento de uma ruptura. composteira (com material orgânico recolhido pelos próprios participantes da ARTIGO 130 Ideação R EVISTA DO CENTRO DE DA UNIOESTE . e o modelo atual tem sido. a educação popular freiriana pressupõe uma educação problematizadora. o conteúdo programático foi desenvolvido com os participantes e distribuído em cinco dias de atividades. o nível e o grau de envolvimento que a etnia mantém com a sociedade envolvente. Na verdade. pressupõe a libertação do educando de sua situação de opressão – o que não ocorre. ao contrário do que os próprios técnicos envolvidos nesse tipo de iniciativa possam pensar. onde a comunidade apontou seus principais problemas..

e visita pela aldeia para a coleta e seleção de resíduos sólidos que foram classificados para posterior discussão de alternativas de redução. é importante que os povos indígenas tenham acesso a informações sobre saúde. realmente.CAMPUS DE FOZ DO IGUAÇU v .. O mais interessante neste dia.105-134 2º semestr e de 2011 semestre CIVILIZANDO OS SERTÕES: PERCURSOS SÓCIO-HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO. é fazer com que eles tenham consciencia crítica de seu papel enquanto atores sociais no novo modelo de saúde indígena. cobre e latas. reutilização e reciclagem. não nos parece que as crianças correrem para recolher lixo e vendê-lo ao “Seu João Martins”. Para isso. pela primeira vez na aldeia. em uma dessas felizes coincidências que só acontecem quando as coisas têm que dar certo. o que se faz em educação em saúde nas aldeias é. Seu João foi trazido até o local onde estava sendo realizada a oficina e comunicou que a partir daquele momento estaria todas as quartas-feiras na aldeia comprando ferro. mesmo após uma análise detida. Note o leitor como todos os elementos mencionados até aqui se encontram na passagem acima. p. Tais iniciativas deveriam ser integradas com a escola e os técnicos dos DSEIs devem receber treinamento para compreender a cultura (e. seja uma prática libertadora. .. E a meninada saiu a recolher os ferros velhos com a maior rapidez. de preferencia. também a língua) da população que atendem. da coleta dos resíduos sólidos. O controle social e atividades educacionais devem ser realmente integradas. do senhor João Martins. tais ações podem realmente ser consideradas educativas? Indo mais além. É claro o viés civilizatório das ações mencionadas. aos moldes da educação popular. Nesses termos. desde o pressuposto da mobilização comunitária até a auto-imagem salvacionista dos técnicos envolvidos na reunião. mas. bem como os agentes indígenas de saúde e de saneamento agregados ao trabalho das equipes multidisciplinares de saúde nas aldeias. novas abordagens teóricas e metodológicas são necessárias. mas não com cunho propagandístico: sobretudo a comunicação 131 R EVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO E LETRAS DA UNIOESTE . de culpabilização da vítima e.ARTIGO Ideação Antes que o leitor pense que o trecho acima foi retirado de algum boletim sespiano da década de 1950. publicado em Julho de 2004. Talvez novas tecnologias devam ser implementadas. aviso que o texto foi retirado do informativo da Coordenação de Educação em Saúde da Funasa. a fim de se romper com os paradigmas que não são adequados ao trabalho com populações culturalmente diferenciadas. alumínio. para além dos cartazes e cartilhas. foi a visita. tão importante quanto isso. 13 nº 2 oficina). necessário? De fato.

por exemplo).CAMPUS E deve ser dialógica e permanente. Rio de Janeiro: Contraponto. ou da participação comunitária. “Um presidente americano na selva”. Cândido Rondon: a integração nacional. “diarréia”. etc. ELIAS.105-134 2º semestr e de 2011 semestre Estevão Rafael Ferandes UNIOESTE . ficando o resto com a medicina ocidental. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2010). 2000. 2005. Armelle. chamo a atenção ao fato de como um povo indígenase apropria de diversas categorias que lhes são passadas (“bactérias”. n°11. Brasília: ANVISA. Mais que isso. 2004. Elias dos Santos. na qual “doenças de índio” (como picada de cobra. sejam tratadas. ARTIGO 132 Ideação . Norbert. Brasília: Fundação Nacional de Saúde.) e as traspõem para os termos de sua própria cosmologia: as doenças passam a funcionar. São Paulo: EAESP-FGV. os processos educativos devem levar em conta a dinâmica interna das culturas indígenas. BUENO. p. BIGIO. CRAVEIRO. tendo Noel Nutels já escrito sobre isso ainda na década de 1950 – de “integração da medicina tradicional com a ocidental”. “amebas”. a compreensão desse processo de reapropriação da doença e da visão de mundo pelos próprios indígenas deve ir além de se achar que haja uma “medicina tradicional indígena”. 1996. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DE FOZ LETRAS EDUCAÇÃO CENTRO R EVISTA DO DE DA DO IGUAÇU v . como o discurso (e não a prática) da educação popular. À Sua Saúde . por exemplo (ver Fernandes. Revista de história da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro). 1993 ENDERS. Nilo Chaves de Brito. Em outra ocasião. O Processo Civilizado. Serviço Especial de Saúde Pública (SESP/FSESP): 1942 – Evolução Histórica – 1991. indo além do discurso – já tão gasto. Silvia da Silva. Dessa maneira. 31-33. Eduardo. assim.A Vigilância Sanitária na História do Brasil. Educação escolar e saúde indígena: uma análise comparativa das políticas nos níveis federal e local. Enquanto isso não ocorrer. Out. persistirão os velhos paradigmas civilizatórios escondidos em roupagens mais atrativas. 13 nº 2 BASTOS. 2006. no plano das relações interétnicas como marcador de identidade do grupo indígena.p. Volume 02: Formação do Estado e Civilização.

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