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Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger

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Bert Hellinger

PENSAMENTOS SOBRE DEUS
SUAS RAÍZES E SEUS EFEITOS

Tradução Tsuyuko Jinno-Spelter Lorena Richter

2010

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger

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Do original alemão Gottesgedanken Ihre Wurzeln und ihre Wirkung Copyright © 2005 Kõsel-Verlag, Munique Copyright © Bert Hellinger Printed in Germany 1a edição, 2004 Todos os direitos para a língua portuguesa reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio (eletrônico, mecânico, inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados) sem permissão escrita do detentor do “Copyright”, exceto no caso de textos curtos para fins de citação ou crítica literária. Ia Edição - abril 2010 ISBN 978-85-98540-22-1 Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela: EDITORA ATMAN Ltda. Caixa Postal 2004 - 38700-973 - Patos de Minas - MG - Brasil Telefax: (34) 3821-9999 - http://www.atmaneditora.com.br editora@atmaneditora.com.br que se reserva a propriedade literária desta tradução. Revisão técnica: Tsuyuko Jinno-Spelter e Wilma Costa Gonçalves Oliveira Revisão ortográfica: Azul Llano Coordenação editorialTsuyuko Jinno-Spelter Designer de capa: Alessandra Duarte Diagramação: Virtual Diagramação Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme o decreto n" 10.994, de 14 de dezembro de 2004. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) H476p Hellinger, Bert. Pensamentos sobre Deus / Bert Hellinger Tradução de Tsuyuko Jinno-Spelter e Lorena Richter - Patos de Minas: Atman, 2010. p. 224. ISBN 978-85-98540-22-1 1. Religiosidade. 2. Filosofia Aplicada. I. Título. II. Jinno-Spelter, Tsuyuko. III. Richter, Lorena CDD: 248.4 Pedidos:

wvw.atmaneditora.com.br comercial@atmaneditora.com.br Este livro foi impresso com:
Capa: supremo LD 250 g/m2 Miolo: offset LD 75 g/m2

PNL e a Terapia familiar. Publicá-lo é uma honra para a Editora Atman.. Bert Hellinger. Análise Transacional.. www. a partir da qual desenvolveu o seu método revolucionário das Constelações Sistêmicas.com www. Teologia e Pedagogia.hellinger. com quem? Este livro dá respostas e conduz ao profundo. Sua formação e sua atividade terapêutica envolveram diversas abordagens: Psicanálise. profundamente reconciliadoras. Terapia Primai..hellingerschule.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 3 O que dizemos sobre nós? O que dizemos sobre Deus? O que fazemos conosco? O que fazemos com Deus? O que dizemos sobre nós quando falamos sobre Deus? O que dizemos sobre Deus quando falamos sobre nós? O que fazemos conosco quando falamos sobre Deus? O que fazemos com Deus quando falamos sobre ele? O que fazemos conosco quando falamos sobre nós? O que fazemos com Deus quando falamos sobre nós? O que dizemos?. a quem? O que fazemos?. formou-se em Filosofia. entregando-se a forças superiores. Atua como conferencista e diretor de cursos em todas as partes do mundo e é autor de livros de sucesso.com .. nascido em 1925. Dinâmica de Grupos. aplicadas também a problemas empresariais e a conflitos étnicos. Atualmente Hellinger trabalha na linha mais espiritualizada dos "Movimentos da alma". Trabalhou durante 16 anos como membro de uma ordem missionária católica entre os Zulus na África do Sul. Hipnoterapia. traduzidos em vários idiomas. que se manifestam através dos movimentos dos representantes.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 4 PARA WERNER WILHELM WICKER COM GRATIDÃO .

.............................................................................................................................................................. 44 ...................... 19 O destino ............................................. 31 A alegria no espírito ......................................................... 20 Sem questionamentos ................................................ 16 O outro Deus .................................................................... 25 A igreja ...................................................................................................................... 26 A pátria.................................................................................. 21 A lamentação ...................... 11 ―Ouça meu coração......................................................................................................................................................................................................................... 34 A imagem ................................................................. 18 As contradições ....................................................... 40 Arrebatados ........................................................ 21 A visão................................................................... 23 A gratidão .................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 24 A fé ...................................................................................... ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 32 A providência ........................................................................................................................................................ 12 Devoção ao divino ............. 38 A impotência ................................................................................................................................................................................................................................. 22 A religião ............. 14 Os deuses .................................................................................................................................................... 39 O segredo ............................................................. 43 O conflito .................................................................................................................................................................................... 8 Agradecimento .......................................................................................................................................... 27 Distante e próximo ............................................................................................................................................................. 17 Deus está morto? ........................................................ 17 Puro ................................................................. 35 A raiz ............................................................................ 12 0 amor de Deus ............................................................................................................................................................................. 32 A paciência .......................................................................................................... 42 ―O E T E R N O E O E X T R A O R D I N Á R I O N Ã O Q U E R E M S E R V E R G A D O S P O R N Ó S‖ .................................................... 41 O infinito ........................... 16 A unidade ......Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 5 SUMÁRIO Introdução............................................................................. 44 A simplicidade ..............................................................................................I A....................................................................................................................................... 39 A sabedoria ........................................................................ 29 A liberdade ............................................................................................................................................... O U V I R .. S E E U G R I T A S S E ................................................................................... 36 Os mestres.....M E .......................................... 9 D E U S ― Q U E M ...................... 37 A flor .............................................................................................. 27 O abismo ................................................................................................................... 33 A armadilha .......................................................................................................................................................................... 28 ―NÃO QUE SUPORTES AVOZ DE D E U S E M S U A A M P L I T U D E‖......................... 30 O espírito ........... 15 À semelhança de Deus ........................................................................................................

......................................... 84 A pessoa amada ............................................................................................................................................................................................................. 72 Desfrutar .................................................... 46 As consequências da culpa .......................................................................................................................................................................................................................................................................... V O C Ê V I V E ............................................................................................................. 63 Desprendido .......................... 54 A noite escura ............................................................... 68 ―QUEM VIVE ENTÃO? D E U S .................................. 69 Querido corpo .. 50 A moral ...................................... 78 O novo dia .......................................‖ ............................ 53 O sentido ................................................ 83 A perspectiva ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 85 Meu e seu ................................ 60 A dúvida ..... 80 A satisfação ............... 71 O céu ............................................................................................................................................................................... 45 A culpa ........ 62 A caminho ............ 70 O amor que permanece ....................................................................................................................................................................................................... 61 A pureza ........Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 6 O temor ........................................................................ 72 Devoção .................................................. 57 ―O C E N T R O Q U E T U D O T R A N S C E N D E‖ ......................................................................................................................................................................................................................................... 67 Efêmero ............. 67 O silêncio ..................................................................................................................................................................................................................................................................... 78 ―Como posso segurar minha alma..................................................................... 56 A humildade ............................................................................................................................................................. 52 A retirada ............................................................................ 76 A solidão ........................................................................................................................ 55 Os limites ................................................................. 85 ................................ 77 ―Finalmente‖....................................... 46 A sombra ....................................... 64 O pretexto ........................... 64 Importante ..... 84 Permanecer no amor ................................................................................................................................ 51 A contemplação .....................A V I D A ? ‖ ...... 50 Os assassinos ....................................................................................................................................................................................... 74 A ressonância ........................................................................................................................ 70 A terra ...................................................................................................................................................................................... 53 A desconfiança ............... 75 O tempo ..................................................................................................................................................................................................... 81 O SER H U M A N O ―É E S P L Ê N D I D O E S T A R A Q U I ‖ .................. 48 O igual ........... 79 A intranqüilidade ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 56 A resistência ............................................................................................................ 66 ―Que se faça a luz‖ ............................................................... 70 O centro.......................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 54 O incompreensível......................

............. 101 0 autoconhecimento ............... 91 A existência ....................................... 107 Déficits do amor........... 93 ―É A S S I M Q U E E L E C R E S C E : S E N D O V E N C I D O C O N S T A N T E M E N T E P O R S E R E S H U M A N O S M A I O R E S ‖ .................................................................................................................................................................................................................... 82 As diferenças .................. 100 A delimitação .................................................................................................................................................. D A C O N D I Ç Ã O D O N Ã O S E R ‖ ... 91 A submissão ............................................................... 110 Chegar e partir ..................................................................................................................................................... 96 O direito .................................................. 92 A comemoração .............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 102 A força ....................................................................................................................................................... 98 Meu adversário ......................................................................................................................................... 99 Deixando .......................................................................... 103 ―SEJA-E SAIBA...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 104 A comunidade de destino ..................................................................................................................................................................... 87 A distância ......................................................................... 93 A arte .............................. 105 Depressão ............................. 88 O desejo mais profundo .................... 85 Seguir .......................................................................... 95 O ser humano ................................................................................................................................................................................................................................................................................................................ 89 O próprio caminho .................................................................................................................................................. 86 Limites... AO MESMO TEMPO............. 96 Os erros ........................... ............................................. 101 A ligação.................................................................................................................................................................................................................. 98 O amor do destino .... 90 O vazio ................................................... 97 A injustiça............................................................................. 111 ―No meio da vida estamos............................................................. 99 O julgamento ...................................... 106 A crueldade............................................................................... 105 Atuar sem agir ................................... 87 A alegria ..........................................................................114 ........................................................................................................... 108 A morte como porta ................................................................................................ 112 APÊNDICE E P Í L O G O ....................Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 7 Estar aberto ..... 89 Perspectivas ........................................................... 107 Os mortos .....................................................................................................................................................................................................................................................................................................

Ser humano. em todos os sentidos.eu giro em torno de Deus. sobretudo. experimentamos como ocultos e inacessíveis. Por isso. resumindo-os em dois capítulos principais: Deus . e eu ainda não sei: sou um falcão. Janeiro de 2004 . todos os textos sempre incluem ambas as dimensões. E é por isso que permaneço em meus pensamentos. os ―pensamentos divinos‖ neste livro permanecem sendo pensamentos humanos. para mim. esse também poderia ser seu significado. Rainer Maria Rilke expressou o cerne deste livro em poema: . Tenho consciência dos limites de meus pensamentos pois não tenho a intenção de alcançar os pensamentos de Deus que. em primeira instância. Cada um destes textos é independente. os pensamentos de Deus. dos pensamentos e imagens que as pessoas fazem de Deus. dentro da experiência acessível a todos. uma tempestade ou uma grande canção.. os pensamentos divinos poderiam sugerir que se trataria de meus pensamentos sobre Deus. De um lado. pois a partir do título. talvez. não são pensamentos divinos como se fossem. Mas. Portanto. Para facilitar a visão geral coloquei-os dentro de uma ordem. como se eu pudesse reivindicar saber ou poder dizer algo sobre ele. eu me exponho aos efeitos desses pensamentos em nossa experiência humana e os descrevo..Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 8 INTRODUÇÃO O título deste livro Pensamentos Divinos é ambíguo. Nestes textos trata-se. para mim. Contudo. e eu estou girando há séculos e séculos. de que fontes ocultas extraem esses pensamentos e o efeito que elas têm na alma de cada indivíduo e entre os seres humanos. em torno da torre antiga. E.

Sou grato a ela por isso.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 9 AGRADECIMENTO Muitos dos pensamentos coletados neste livro foram escritos após conversas com a minha esposa Maria Sophie. . Os seus pensamentos e experiências me estimularam e se refletem aqui.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 10 DEUS .

SE EU GRITASSE..Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 11 "QUEM.." . OUVIR-ME-IA.

em nosso espaço limitado. Quando estamos centrados. quando este invadiu Canaã: ―Matem todos: homens. muitas vezes apenas como um pressentimento.. quando vibramos com algo que se oculta no som. com toda tua alma e com todas tuas forças. O coração aberto. Atuam em nossas vidas. Porém o coração ouve mais ainda. Nesse sentido. Nós os ouvimos nos nossos afazeres cotidianos como música de fundo. nos deixa ouvir mais e esperar por mais do que as necessidades momentâneas.‖ Muitos que seguem esse chamado deixam tudo para trás e continuam a viver em uma outra dimensão. Somente aquele que também ouve com o coração compreende. Rilke diz: ―Ouça meu coração como somente os santos ouviram: de uma maneira que a grande invocação os levantou do chão. Rilke fala da ―transmissão contínua‖ que se ―forma do silêncio‖. algumas vezes aflija. quando se abre a tudo tal como ele é. estejamos conscientes de uma outra dimensão distante que nos consola. talvez ele ouça Deus em todas as coisas. Ele bate nesse compasso. em cada ato de amor. Que mandamentos? Eram mandamentos divinos ou mandamentos humanos? Quem pronunciou tais mandamentos em nome de Deus? Foi Deus que os incumbiu com essa tarefa? Que Deus? Será que ele realmente incumbiu o povo de Israel com o seguinte mandamento." O que ouve o nosso coração? O ritmo da vida e o ritmo do amor. Nesse silêncio. vibramos e estamos em sintonia com ele. subdesenvolvidos. No Antigo Testamento. enriquecendo-nos para além de nós mesmos e daquilo que está à nossa frente. Também se ouve bem apenas com o coração.. sem eles estaríamos empobrecidos. com toda tua alma e com todas tuas forças. limitados. este amor a Deus é um mandamento: ―Deves amar o senhor teu Deus de todo coração. não importando o que talvez nos perturbe.‖ O que isso significava na prática naquela época? Significava: deves seguir os mandamentos de Deus de todo teu coração. mulheres. o coração amplo. exija ou iniba. o coração ouve o essencial. Através deles ouvimos a ―transmissão contínua‖ que ecoa em tudo como um eco distante que. Também ouvimos Deus? Quem pode afirmar? Quem pode negar? Talvez baste que em cada ação. Distanciam.se com isso da vida e do amor? Mesmo que não desejemos segui-los. crianças e . Isso significa: somente quando percebemos mais do que nossos ouvidos ouvem. O AMOR DE DEUS O amor de Deus pode ter dois significados: o amor de Deus em relação a nós e nosso amor em relação a ele. o coração amoroso ouve realmente.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 12 "OUÇA MEU CORAÇÃO. ouvimos o essencial. ouvimos esse ritmo com nosso coração.

um Deus nulo. então também amas a Deus de todo coração. por trás de nosso destino e por trás da vida e da morte permanece indecifrável.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 13 animais‖ . Mas será que podemos e devemos amar a Deus? É um parceiro nosso que deseja ou necessita de nosso amor? Será que o nosso amor pode realmente dar algo a ele? Ou não será que o degradamos através desse amor.tal como um holocausto oferendado a Jeová? E será que aqueles que sentiram compaixão pelos outros realmente transgrediram o mandamento divino e o amor por Deus? Mas o que acontece se esses mandamentos se revelam como se fossem leis humanas? Mandamentos de seres humanos que se auto. Neste sentido. se formulássemos esse mandamento de amor. através de nosso amor. na lealdade a eles e no cumprimento de seus mandamentos e ordens. Pois ele foi complementado dessa forma: ―Amarás o teu próximo como a ti mesmo. o obrigamos até a se transformar em nosso súdito? Será que esse Deus não se torna um Deus segundo a nossa imagem. apossando-nos dele através desse amor? E será que. Precisamos apenas imaginar o tamanho da reviravolta. como se ele estivesse do seu lado e pertencesse exclusivamente a eles.nomeavam mensageiros de Deus sem sêlos realmente? Qual é então o efeito desse ―amor por Deus de todo coração. com toda alma e com todas as forças?‖ Será que não nos afasta de Deus? Será que não se contrapõe a Deus e ao que é humano? Situações similares são encontradas sempre quando seres humanos sentem-se representantes de Deus ou veem-se como escolhidos por ele. Algumas vezes. Nesse caso. aqui mencionado. acrescentando: ―Amarás o povo de teu próximo assim como o teu e a religião de teu próximo assim como a tua. em seu nome. Também podemos ver o mandamento do amor de Deus de outra forma. convocando. assim como essa imagem? Nossa experiência como seres humanos revela que o mistério por trás de nosso mundo. com toda alma e com todas tuas forças.‖ Dessa forma ninguém mais poderia reivindicar Deus como se fosse propriedade sua. o mandamento do amor ao próximo permanece tão sem forças? Porque o Deus que ordena esse amor permanece o Deus de um único povo e porque o próximo. poderíamos dizer: ―Se amas teu próximo como a ti mesmo. Ele estaria fora de nosso alcance.‖ Nesse sentido. muitas vezes significa apenas o próximo dentro do próprio grupo. com toda alma e com todas as forças. na realidade. ―em nome da ciência‖ ou ―em nome do povo‖ ou ―em nome da pátria‖. Mas por que. Remetem-se a Deus. Não sabemos e nem podemos apossar-nos dele.‖ Desse modo esse Deus não seria mais apenas meu Deus e sim o Deus de todos. a guerra contra outros seres humanos. O amor que esse Deus exige através de seus mensageiros é sempre o mesmo: ―de todo coração. ―em nome de Deus‖ é substituído por ―em nome da verdade‖.‖ Esse amor se comprova na obediência a esses mensageiros. E é desumano para aqueles contra os quais esse amor é direcionado. Só o fato de denominarmos de Deus esse . não importa o nome que se dá a Deus. nenhum arauto poderia recorrer a ele.

Também significa ter sacrificado a própria vida a Deus. confirmando-o através do sacrifício. desse modo. Isto. DEVOÇÃO AO DIVINO Devotado a Deus significa pertencente a Deus. entregues sem que nos movimentemos por iniciativa própria é a verdadeira experiência religiosa. direcionam e controlam. Através da ideia do sacrifício.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 14 algo velado é uma vã tentativa nesse sentido. A outra parte era consumida. detemo-nos diante delas e sabemos que somos sustentados por elas em nossa impotência. a não ser que tenha sido um sacrifício completo. Esta é uma ideia um tanto primitiva. Como sinal de que pertence a Deus. um holocausto. pois reconhece tudo que associamos ao nome Deus como fora de nosso alcance. É sem Deus. tanto reconhecemos como anulamos a nossa dependência de Deus. Uma segunda experiência que se sobrepõe à primeira. Nesse sentimento tudo o que é como é possui o lugar que é seu de direito. Uma outra. Através do sacrifício tomo novamente a minha vida em minhas mãos e com o sacrifício me . Olha para a escuridão sem enxergar. Essa bênção era adquirida através do sacrifício. O que foi sacrificado a Deus não está mais disponível aos seres humanos. Talvez seja a expressão mais próxima daquilo que muitos experimentaram em seu amor por Deus. A melhor parte do animal sacrificado era queimada ou oferecida aos sacerdotes. Encontro-me profundamente vinculado a ele. de que ela depende de poderes que a presenteiam. guiados. tomados a serviço e.a parcialmente é a experiência interpessoal de que quando renunciamos a algo. sem desejar possui-lo. também amados. invalidando. vertida ou queimada. presenteando-o a uma outra pessoa. Por trás disso está a ideia de que Deus deseja e precisa de nosso sacrifício. está reservado a Deus. principalmente tudo aquilo que é vivo. E mesmo assim nos experimentamos protegidos por poderes fora de nosso alcance. zelo ou decepção. podemos esperar por uma compensação e até exigi-la. Essa experiência da dependência é o sentimento religioso original. Confiamos nessas forças. deixando-a continuar. mágoa. coexiste comigo. Permanecer nesse sentimento. A bênção de Deus é compreendida como um sinal de que Deus protege a vida. Dessa forma o que seguia ao sacrifício a Deus era sua bênção. é amor. No sacrifício damos a ele um pouco de nossa vida com a súplica de que possamos conservar a outra parte que precisamos para viver. uma ideia mais sublime é a de que através do sacrifício reconhecemos que tudo pertence a Deus. porém sem querer algo. cuidados. sobretudo porque o imaginamos como uma pessoa com qualidades humanas tais como amor. A parte liberada para o consumo era então um presente de Deus àqueles que reconheciam o seu poder. Estou simplesmente aqui com ele. no entanto. Por trás dessas ideias atua a experiência de que a nossa vida está em perigo. muitas vezes a vida também é destruída.

Este Deus também possui uma tarefa e é responsável por um âmbito específico. entre outros. O Deus que se revela também pode ser apenas um entre outros. Por ser verdadeiro. ocupando o seu lugar. Projetamos sentimentos e necessidades em Deus que se assemelham aos nossos. os santos assumiram as tarefas dos deuses. No Cristianismo. Essa despedida encontra-se principalmente a serviço da paz. quando nos despedimos dos deuses. Sem essa imagem o sacrifício prova não ter sentido. pois apenas sendo um deles é que pode sentir ciúmes em relação a eles. Sem essa imagem não precisamos reservar nada para Deus: nenhum local sagrado. Justamente por se diferenciarem é que existem vários deuses. simultaneamente. E é exatamente por isso que se revelam não existentes. ficamos abertos para esse algo diferente. OS DEUSES Existem muitos deuses e eles são diferentes. por exemplo. está uma imagem de Deus que o torna semelhante aos seres humanos. Mesmo assim. As pessoas se distinguem essencialmente uma das outras através de seus deuses. ele se distingue. Por isso. O Deus judaico e o Deus cristão são também somente um. A pergunta é: existe algo por trás dos deuses? Algo em cujo lugar nós os colocamos? Não sabemos. Apenas os deuses podem se sentir ameaçados. coloca-se no mesmo patamar. Será que não devemos ter medo ao dizer algo assim? Mas por quê? Precisamos ter medo apenas dos deuses. A pergunta é: então o que nos resta em relação a Deus? A resposta é: nada. Sem essa imagem também não existem tempos sagrados. necessita de alguém através do qual possa falar e já por isso se revela limitado. nesse caso. Perante essas forças qualquer sacrifício é um ato de arrogância. são chamados e requisitados de acordo com a sua tarefa e habilidade. Pois tudo que pertence ao mundo.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 15 transformo em um servidor seu. tudo e todos estão devotados a Deus . Pois. Isso nos permanece oculto. Por trás do sacrifício e das ideias ligadas a isso. Os deuses estão aqui com algum propósito. somente se o tivermos criado segundo nossa imagem. Ele também tem sexo e quando impõe: ―Não terás outro Deus semelhante a mim‖. Travam guerras umas contra as outras em seu nome. Têm uma tarefa e possuem uma habilidade especial para a cumprirem essa tarefa. ao denominado profano está. Como. nenhuma assim denominada casa de Deus. pois os deuses também se diferenciam através de seu sexo.mas sem sacrifícios. independentemente de . nenhum templo. pelo povo eleito ou pelos seus fiéis. Cada um tem algo a mais ou a menos do que os outros deuses ou as outras deusas. ressuscitando-os. O mesmo se aplica ao ―Deus verdadeiro‖. Pois o sacrifício só faz sentido se imaginarmos Deus à nossa semelhança. tornando-se um entre muitos. próximo e distante das forças às quais sabemos estar entregues.

Por isso esse Deus não é apenas humano. Também poderíamos dizer: sem o homem. de igual para igual. quando o homem olha para si e para outros homens enxerga neles a imagem de Deus. não nos desenvolveremos para além dessas emoções e não seremos capazes de sentir compaixão de modo realmente humano. A consequência desta citação bíblica é exatamente o contrário do que parece. vingando-se deles. Sendo assim. à sua semelhança. ficamos abertos para algo que é comum a todos e que. das mais sublimes às mais incompreensíveis. Por exemplo. Sendo assim fala com ele. nos conecta um ao outro de modo humilde.‖ Por isso. tornamo-nos indivíduos e podemos ir ao encontro das outras pessoas. justamente por não podermos nominá-lo. essa imagem é tão equivocada como todas as outras. Porém. tal como fala com um ser humano e espera que Deus lhe responda e sinta como um ser humano. julgamos outros em nome do nosso Deus.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 16 quem esteja sendo venerado nesse momento. Ela implica que o homem criou Deus à sua semelhança. por trás de tudo? Mas não é disso que se trata aqui. o primeiro homem. Por isso. Por isso. Trata-se do efeito que uma ou outra imagem possa ter em nossa alma. O que fazemos conosco e o que nos aconteceu para que criássemos esse Deus à nossa semelhança? Nós usamos essa noção de Deus como motivação para ações. ao mesmo tempo. Os deuses são principalmente os deuses de um grupo. Mas esse Deus também não é o amor? Talvez a pergunta seja: que tipo de amor e a que preço? Com que temor e quanto tremor? Nós nos tornamos mais humanos sem esse tipo de Deus. Isto também significa que vê Deus em si mesmo. como indivíduos. Na sua ausência e quando deles nos despedimos. mas também nos torna desumanos. É obvio que ao dizer algo assim acabo também criando o outro Deus segundo uma imagem. Pois como poderíamos — se ele existe — criar uma imagem a seu respeito ou daquilo que intuímos atuar de modo poderoso. até mesmo segundo a minha imagem. esse Deus não existiria. O OUTRO DEUS O outro Deus — se ele existe — é diferente do Deus que nos criou à sua semelhança e que nós criamos à nossa semelhança. enquanto nós o segurarmos como nosso Deus. principalmente de . o contrário: Deus é semelhante ao homem. À SEMELHANÇA DE DEUS No Gênesis do Antigo Testamento está escrito: ―Deus criou Adão. semelhante a Deus não significa que o homem é semelhante a Deus e sim. nós os condenamos e esperamos que ele execute o nosso desejo.

Entretanto. simultaneamente. Por isso também não ofende ninguém. tornamo-nos verdadeiramente humanos e humanamente religiosos. A UNIDADE Tudo o que está vivo e existe continua a viver somente porque existe algo em comum ligando tudo: a existência. Por exemplo. se comprova ser válido e está em sintonia com uma ordem. Também podemos nos liberar dos emaranhamentos que resultam desses vínculos e simultaneamente sermos uma unidade com nossos antepassados dentro do todo. Mas é exatamente nessa impotência que encontramos o nosso ser. nele estamos acolhidos. para a postura religiosa e para a existência religiosa? Na dedicação a este todo que reside em nós. aquilo que está presente em tudo é mais do que cada indivíduo existente. O que então nos resta quando desejamos falar de Deus ou do todo ou do mistério que se encontra por trás de nossa vida e de todos os seres? Nada. Uma intenção é pura quando sem uma determinada meta. partindo da contemplação de um processo. Desse modo. segue um movimento da alma. Nós não sabemos se aquilo que através do qual tudo está presente é diferente ou não de outro algo que existe e está presente em tudo que existe. nessa conexão somos uma unidade ligada ao todo. O que isso significa em relação à nossa ideia de Deus? Coloca o divino em uma relação de unidade conosco. podemos superar os limites estreitos de nossa existência. no que diz respeito a ele? Mas mesmo essa renúncia é igualmente uma imagem de Deus. a diferenciação que existiria entre nós e o divino seria apenas o de não sermos o todo. Nesse sentido. O que isso significa para a realização religiosa. . Podemos fazer ainda uma terceira pergunta: qual é o efeito quando renunciamos a toda e qualquer imagem de Deus. sem uma indicação de quem e através de que foi impulsionado. Tudo está presente ao lado de outros. formando uma unidade com ele. de uma forma religiosa. formando até uma unidade com ele. mas que simplesmente estamos conectados a ele. Tudo faz parte do todo simplesmente porque existe. O todo está contido nele. sem uma dependência direta. está ligado e depende deles. PURO Um pensamento é puro quando sem intenções de provocar um efeito. através dos vínculos aos nossos pais e antepassados. Apenas a impotência. Entretanto. E.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 17 como essas imagens atuam na convivência humana. por termos consciência de nossa impotência e de nossos limites. também não conseguimos escapar de nossas imagens. tudo que existe também está conectado ao todo. que simultaneamente tem um efeito em muitos indivíduos.

Embora estejam mortos. como prece e preocupação por eles. como se isso pudesse ser feito. em primeira instância. sendo que Deus é um Deus dos mortos e. Como muitos fiéis imaginam o céu? Como um lugar onde vão reencontrar seus mortos. Mas podemos observar que o Deus em que muitos acreditavam está morto para eles. Então este Deus seria. e que concorda com aquilo que é. Mesmo no Antigo Testamento o Deus de Abraão. nele estão presentes. do povo escolhido por ele. estando morto para eles. ficando ele mesmo assustado com a sua própria declaração. Poderíamos dizer.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 18 Um coração é puro quando está aberto para tudo. desenvolve e transmite tudo que recebe e se recolhe no seu devido tempo para dar lugar àquele que lhe sucede. talvez essas sejam apenas as imagens que muitos fizeram de Deus. principalmente por Nietzsche. DEUS ESTÁ MORTO? Podemos fazer esta pergunta? Que Deus esteja morto. no nosso íntimo. devotada. um Deus dos antepassados mortos e seria um morto como eles. esperando de forma dedicada. morto não significa ―ausente‖ pois os antepassados são vivenciados como presentes. Uma bênção é pura quando é dada sem intenções. Muito da veneração a Deus desenvolveu-se do culto dos antepassados. O puro está simplesmente presente com todos. Para os fiéis. tal como o sol aquece e ilumina tudo e todos da mesma maneira. eles estão no reino dos mortos. sem vida. isso já foi proclamado muitas vezes. Contudo. Ficamos puros quando tomamos e soltamos tudo no seu devido tempo. pura em si. Isaac e Jacó é simultaneamente o senhor ancestral de seus descendentes. É claro que podemos apresentar muitas objeções contra esta observação e muitas delas talvez até sejam justificadas. que os ancestrais estão presentes nesse Deus. Como é praticada essa religião? Principalmente como um culto aos mortos. única. sem desejar mudar ou melhorar. Mas para mim não se trata de provar algo. Mas embora presentes também estão mortos. Uma vida é pura quando acolhe. se fossemos exagerar. gostaria de observar este fenômeno e esta experiência de que Deus está morto partindo de um outro ângulo totalmente diferente. Uma religião é pura quando apenas está presente. Podemos observar que aqui se trata de um culto dos . Mesmo entre os fiéis espalhou-se um medo de que Deus tenha se recolhido não se revelando mais. imagens que estão mortas. Entretanto. indistintamente. portanto. Contudo. tal como é. da origem comum. ao qual só se pode pertencer através do parentesco sanguíneo. Eu só reflito e prossigo nessas contemplações e observações. e quando nos submetemos a isso. o céu é sobretudo a morada dos antepassados mortos. até que todos sejam iguais. desbotadas e não brilham mais. sem movimento. está morto como eles.

a luta pela clareza. lutamos por uma ideia de Deus e realizamos em seu nome coisas boas e más. É a devoção perante algo inexplicável. Ninguém consegue escapar dessa controvérsia. por ele conduzidos. somente uma reverência perante ele. presentes conosco e por isso também dentro de nós. Não é maravilhoso quando nossos mortos estão próximos a nós e nos sentimos próximos a eles? Também existe a experiência de que nem todos os nossos antepassados têm intenções amistosas em relação a nós. o Deus deles é um Deus morto. Isso também é válido para a controvérsia religiosa. mesmo que a luta pelas imagens de Deus se esconda sob um outro nome sublime e dessa forma continue clamando cada vez mais desenfreadamente. Sempre que lutamos por uma causa nobre. após essas disputas parece-nos que as contradições estão ordenadas. Por isso muitas vezes aquilo que atribuímos a Deus não seria algo mais a ser atribuído a esses antepassados? Por exemplo a necessidade que Deus tem de justiça e expiação? Aqui também colocamos Deus no lugar deles de forma que na realidade este Deus está morto como eles? Então a pergunta seria: além de nossos ancestrais existe ainda um outro Deus.perante todos. Talvez também seja assim: que muitos que se sentem chamados por Deus. partindo do resultado. um Deus para além dos mortos? Não sabemos. É uma plenitude que libera as contradições. a luta pela supremacia entre os deuses e as imagens de Deus. conquistamos outros e os forçamos à submissão. sem reivindicações. lutamos pela nossa hegemonia e pela hegemonia de nosso próprio grupo. testados ou consolados. como se isso não devesse ser. acolhendo-as novamente. sem expectativas. por eles conduzidos. Não tenho a mínima intenção de me elevar sobre o todo nem de diminuir essa conexão. Quem realmente luta uns contra os outros nessa luta dos deuses e das imagens de Deus? Seres humanos que se elevam a si mesmos ao nível de Deus e o substituem por si . a compreensão nos caminhos errados e as suas consequências. sobretudo aqueles com os quais fomos injustos e ainda querem algo de nós. são necessárias e benéficas.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 19 antepassados. Repentinamente. pois ela abrange a própria alma. existe uma postura que está aberta e pronta para ele. pois nesses ritos os fiéis frequentemente comportam-se como crianças perante seus pais e antepassados. relacionadas entre si e. estão sendo chamados pelos seus antepassados. na sua luta pelo equilíbrio que reconhece as contradições. na realidade. Entretanto. Mas não perante algo vazio . testados e consolados e. Pressentimos a plenitude apenas na disputa entre os opostos. AS CONTRADIÇÕES A clareza sem contradições só percebe de forma limitada. O que acontece dentro de nós quando nos empenhamos por um Deus? Nós nos colocamos no lugar deste Deus e ao invés de lutarmos por sua hegemonia. se ele existir. nesse sentido.

. Eles também têm um destino que determina sobre eles e seu fim. Aqui não existem contradições. Tem sido assim desde a eternidade e independente de qualquer influência. quem se torna Deus dessa forma torna-se ao mesmo tempo um ser desumano. inexoravelmente. sem fazer perguntas. Na Antiguidade pensava. portanto. Atua para além da vontade. Aqui começa também a verdadeira religião. que eles são o nosso destino. De onde vem essa devoção? É uma devoção de uma criança e. Este destino não se deixa ser influenciado nem mudado. Quem são então os deuses e os ideais nobres? São nossa mãe glorificada e nosso pai glorificado. mesmo os deuses estão sujeitos ao destino. Aqui tudo é claro e simples . que olha para ela constantemente enquanto está mamando. O destino dirige tudo. Contudo. afinal. aqui se torna visível uma imagem — uma imagem que é válida para todos os seres humanos. de forma impessoal e ainda está sujeito a algo que permanece oculto. cega. não é nada arbitrário. segundo leis que ninguém conhece ou pode compreender. O DESTINO Experimentamos a fatalidade como algo que é conduzido por forças que nos controlam as forças do destino. Não importa o que pensamos e pressentimos sobre o divino para além dos deuses e o que experimentamos em muitas situações como apoio e proteção. De que forma podemos escapar dessa luta dos deuses e sermos humanos para todos os seres humanos? Quando olhamos para as contradições. Para quem é essa devoção? É para o Deus da mãe e o Deus do pai e. tomando.se que os deuses determinavam sobre nosso destino. Como podemos encontrar nosso caminho de volta da mãe glorificada e do pai glorificado para nossa real mãe humana e nosso real pai humano? Sendo e permanecendo somente a criança deles.e humano. no crepúsculo dos deuses. mas que é pressentido. E quando nos despedimos de qualquer devoção podemos ser amistosos também perante aqueles que ainda são devotados. Por exemplo. sem nos sentirmos entregues a uma ou a outra — e sem temor da vingança de Deus. Aqui começa a humildade que permanece embaixo e que reconhece somente os que estão acima de nós. que realmente estão acima de nós e que estiveram antes de nós e estão — nossos pais e nossos antepassados. Contudo.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 20 mesmos. só pela mãe e pelo pai. Contudo. a entrega ao mistério da vida. Nós vemos o que é a religião verdadeira no olhar da criança no peito da mãe.

Na submissão ao destino. Através de nossa concordância. Na lamentação . Essa concordância atua como uma bênção.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 21 Em face deste destino nós nos experimentamos entregues. Na lamentação essa realidade é comparada a algo que poderia ter sido diferente. perguntamos e procuramos respostas? E o que acontece em nossa alma quando renunciamos a essas perguntas? Quando renunciamos às perguntas ficamos mais centrados. É totalmente diferente quando concordamos com a realidade como foi. O resultado é que essa realidade não pode atuar em nós da forma especial de que é capaz. a lamentação e especialmente a acusação atuam como uma maldição. A lamentação limita e enfraquece.sem questionamentos. sobre o sentido da vida ou do destino ou do mundo ou sobre Deus. mas mesmo assim sustentados. mas que na realidade não foi. Na submissão a este destino nos tornamos essenciais e grandes como ele. contudo. desafiados. não precisamos nos consumir e mesmo assim estamos realizados. fazendo com que a nossa realidade floresça. Somos tocados sem entender. Inversamente. Através da lamentação e da acusação rejeitamos algo. E estamos presentes. ao invés de levar à frente. mesmo assim. Por isso este outro algo diferente comparado com a realidade que existiu não tem força. a realidade tornase preciosa e valiosa para nós.O que poderia ser mais humano? A LAMENTAÇÃO A lamentação se recorda de algo anterior e lastima por isso. Quando concordamos com essa realidade. na devoção a ele. O que acontece em nossa alma quando. Sem questionamentos? . conduzidos sem saber.e ainda mais na acusação — desejamos que algo tivesse sido diferente. Através de nossa concordância. sem um chão firme mas mesmo assim inseridos. ela se torna significativa e grande. SEM QUESTIONAMENTOS Não precisamos fazer perguntas onde não existem respostas. incluindo o seu fim na morte. E somos livres de uma forma misteriosa. Destino . Rejeitamos uma realidade. a realidade transforma-se numa força vital que carrega frutos no seu devido tempo e nos reconcilia com ela. sem nos esquivarmos. Foi em vão. Ela . Podemos ter o que nos foi dado e podemos devolvê-lo na hora apropriada. prontos. Por exemplo. Não precisamos renunciar a nada quando o temos. Estamos voltados à vida sem reivindicações e sem expectativas. E confiantes.este é o véu por trás do qual o divino se oculta e ao mesmo tempo se revela. voltados à vida como ela é. que poderia ter sido diferente do que foi. impotentes e. nós nos tomamos parte de uma dimensão até então oculta e inacessível .

não precisa saber disso. Algumas vezes. Também está em sintonia com os ausentes. Também existem religiões que lamentam e acusam. Dessa forma. com frequência nos dias de hoje. e também são inimigas de Deus. Esperam pela redenção e salvação deste mundo e desta vida. mesmo quando concordamos com um ponto de vista.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 22 nos paralisa e deixa algo murchar dentro de nós . porque o acordo não foi conquistado através de algo comprovado de forma visível. Todos que olham para a mesma pintura têm a mesma visão. essa realidade pode mudar e nós teremos influência sobre ela porque concordamos com ela. E são inimigas da vida e da realidade. reconhecemos a mesma cidade. Muitas preces e muitos sacrifícios que foram oferendados a Deus são igualmente lamentações e acusações conectadas ao desejo e à esperança de que deveria ter sido diferente e vai ser diferente do que foi e é. Sobre essas visões não existem discussões. tentamos mudá-lo. a lamentação e a acusação comprovam ser inimigas da realidade. Essas religiões enfraquecem. a força para influenciá-la não vem de nós. Vem da realidade com a qual concordamos. quem se submete a eles com confiança e alegria possui a vida e o mundo. quando duas pessoas olham para a mesma cidade possuem também a mesma visão. um ponto de vista pode ser questionado por outros pontos de vista. pois podem ser comprovadas. Ele também possui Deus? Nós não sabemos. Quando compramos cartões postais de uma certa cidade e olhamos para eles. . este fica pairando no ar. Dessa forma estamos melhorando a realidade? Ou o nosso impulso para agir vem somente do desejo de que algo deva ser diferente do que é na realidade? Assim estamos nos desgastando sem realmente mudar nada. Algumas vezes. Entretanto. A VISÃO Adquiro uma visão através daquilo que vejo. lutando contra isso. Entretanto. Quem concorda com a sua vida e o mundo como são. Quando concordamos com uma realidade sem reclamar e sem acusar ninguém. Falamos então de ponto de vista. Também são inimigas de outros seres humanos. Na lamentação e na acusação algo morre antes que possa amadurecer. Por exemplo. são inimigas da vida tal como ela é. Mesmo quando reclamamos do presente e responsabilizamos e acusamos outras pessoas pelo que acontece. Quem concorda com a sua vida e o mundo da forma que são. como se fosse um ponto de vista subjetivo e não pudesse ser comprovado. um significado oposto.principalmente o amor. Na acusação e na lamentação o amor definha. A acusação e a lamentação separam onde o amor vincula. o amor definha e esgota a nossa força vital. mas por razões táticas para se perseguir um objetivo comum. Nós podemos e devemos discutir sobre eles. Estranhamente a palavra ―visão‖ tem. ao reclamarmos de algo.

ficamos plenos dele. no seu efeito. olhamos admirados para o vazio. mesmo nesse processo frequentemente muitas coisas que se apresentam como esclarecidas. Ela irradia tranquilidade e paz. Denominamos isso compreensão. tanto mais teremos a suspeita de que se trata de pontos de vista que são. Conduz a conflitos e guerras. Quanto mais seres humanos se submeterem a uma ideia e quanto mais fortes forem as emoções. a coragem para a elucidação. A RELIGIÃO Por um lado. como incontestáveis. querendo ensiná-las e subjugá-las. .Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 23 De onde vêm esses pontos de vista? Vêm de uma ideia. Como lidamos com isso quando o reconhecemos? Soltamos essas opiniões uma após a outra. na realidade. Com isso uma realidade visível e vivenciada é degradada a uma questão de ponto de vista e afastada de uma comprovação empírica. comprovam-se depois de algum tempo que também são pontos de vista. Muitas coisas que nos são apresentadas como científicas e. a religião é centrada. quando olhamos de forma mais exata comprovam ser também um outro conjunto de pontos de vista. submetendo-se a ela. a compreensão também é comprovável de fato. Nós a contemplamos e a seguimos como se fosse uma possibilidade real. ficamos parados perante o impalpável. Servem para evitarmos uma situação ou para termos poder sobre ela. nos detemos diante dele sem nenhum ponto de vista e. Frequentemente essa imagem é uma imagem ideal que é colocada sobre uma realidade que vemos. A verdade que se revela leva à compreensão. nos esvaziamos delas. Existem muitos pontos de vista que são fugas da realidade. como as opiniões religiosas ou opiniões sobre aquilo que é certo ou errado e bom ou mau. Por isso. Existem muitas opiniões adotadas que têm uma longa tradição. Mas para comprová-las na realidade empírica é necessário coragem. Por exemplo. Essa religião se eleva sobre outras religiões. As objeções são frequentemente tais pontos de vista. imagens idealizadas. muitos pontos de vista que existem sobre Deus ou sobre o todo ou sobre o mistério do mundo e da vida. Como o ponto de vista. de uma imagem interna que fizemos. não é pensada. Uma compreensão nos é revelada. a religião pode promover tanto a guerra como a paz. Ao lado do ponto de vista externo existe também um ponto de vista interno. frente a esse vazio. Entretanto. como as cruzadas dos cristãos e as denominadas guerras sagradas do Islamismo. frequentemente ela é zelosa e intranquila e fora de si mesma. Essa é a diferença entre a verdade assumida ou a verdade resultante de conclusões baseadas em deduções lógicas e a verdade que se revela por si só. leva à ação que corresponde à realidade experimentada. Por outro lado. Tais pontos de vista e objeções também são denominadas críticas e como tais nós as colocamos sobre a realidade muitas vezes como equivalentes e até necessárias. nesse sentido.

Quando nos deixamos ser conduzidos. A religião fervorosa sempre toma a causa de Deus em suas próprias mãos. . Sente-se respeitado e está disposto a dar e presentear cada vez mais. Nós possuímos o presente somente após o agradecimento podendo. tornando-nos felizes e ricos. O reconhecimento mútuo. passar parte dele para a frente. A GRATIDÃO A gratidão entre os seres humanos amplia o coração. ao invés de serem tomadas por ela a seu serviço. tanto daquele ao qual agradecemos porque nos presenteou com algo como também o coração daquele que agradece à pessoa que presenteou. seja lá o que pressentimos e honramos em relação ao que esteja oculto por trás disso? Podemos aplicar o mesmo tipo de agradecimento que é praticado entre os seres humanos? Podemos devolver algo a Deus através do nosso agradecimento e ganhamos algo agradecendo a ale? O agradecimento aqui é diferente. Esse agradecimento nos deixa prudentes e nos centra. a doação mútua e o agradecimento mútuo nos conectam de igual para igual. ao invés de ajudar a resolvê-los.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 24 Mas isso não é válido somente para as religiões. Somente quando agradecemos pelo presente é que sentimos que podemos conservá-lo e utilizá-lo. Nós nos tornamos doadores e tomadores do agradecimento. da mesma forma que o fervor por uma boa causa quer tomar em suas próprias mãos o destino da humanidade ou o do mundo. Com isso. O agradecimento equilibra as relações de diversas maneiras. Através do fervor elas se tornam semelhantes às religiões fervorosas. Tomamos consciência de nossa dependência reconhecendo-a e tornando-nos humildes. confiando nas forças maiores. O nosso agradecimento homenageia o doador que se enriquece com isso e assim quer ser mais generoso conosco e com outros seres humanos. os adeptos das religiões fervorosas e de uma boa causa separam-se de suas próprias forças. Estão conectadas a um sentimento de superioridade e são sustentadas por ele. mesmo para a causa da paz. são abandonadas por elas. Então contribuem para a escalação dos conflitos. a salvação de um perigo ou de uma doença perigosa. A pessoa que agradece também está equilibrando algo. por exemplo. Encontramos a paz na religião e no serviço de uma boa causa quando nos detemos internamente em nosso fervor. Nosso agradecimento não nos assegura a posse do presente. ao invés de conduzirmos. É um presente temporário como. mas também para qualquer outra boa causa. O agradecimento muda algo em nossa alma. Mas como isso se dá em relação ao agradecimento a Deus ou ao destino. quando esperamos pelo momento certo. então.

Em primeiro lugar. interferindo de forma poderosa. como se sentem e entram em contato com outros seres humanos. Esse agradecimento é mais uma maneira de ser. É ser. impotentes e limitados. . budista ou taoísta. sentem-se pequenos. Como crianças acreditam em milagres. de repente têm medo. O que acontece com aqueles que proclamam essa fé aos fiéis? De certa forma. Eles nos permitem trazer a nossa infância para o presente e nos tornarmos novamente crianças.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 25 Nós também não sabemos para onde devemos enviar esse agradecimento e assim ele fica conosco. sentem-se responsáveis por eles. Por exemplo. quando as libertaram de uma situação sem saída. em seus comportamentos. Mas podemos verificar indiretamente no efeito que tem em nossa alma. no que nos foi dito e por isso não podemos comproválo imediatamente. Também podemos olhar para aqueles que acreditam e ver como a sua fé os afeta: em suas faces. com as conclusões sobre a vida de Jesus ou com as ideias do iluminismo. Voltam para a sua infância. amedrontam e protegem como tutores. seja cristão. de forma semelhante como outrora os pais. podemos observar que aqueles que acreditam mudam subitamente seu comportamento quando expressam a sua fé. Mas tratam os fiéis a partir de uma posição superior como os pais tratam seus filhos. Sobretudo não podem se desenvolver religiosamente de uma forma que os torne equivalentes a outros seres humanos e com isso humildes perante aquilo que conecta todos os seres humanos. O Deus ou o santo ou o antepassado para os quais elevam o olhar são como o pai ou a mãe em um nível mais elevado. A FÉ Nós acreditamos no que ouvimos. todas as vezes que precisarmos e quisermos. perante o último mistério . eles os conduzem a essa fé. entregues e necessitados de ajuda. eles nos ameaçam. Suas faces parecem transfiguradas como as de uma criança. Como pais perante seus filhos mantém-nos afastados daquilo que poderia abalar a nossa fé. Com isso muitos fiéis permanecem num estado de estagnação em relação a sua fé e não podem continuar se desenvolvendo. vemos isso quando observamos pessoas que acendem uma vela perante um santuário. procuram segurança. tornam-se pais e mães de seus fiéis. Este talvez seja o motivo principal pelo qual a fé nos torna bem-aventurados. Esperam que alguém poderoso venha amenizar as suas dificuldades. Muitas vezes são ausentes. por exemplo. Algumas vezes essa atitude se expressa assim: ―Os simples fiéis não conseguem lidar com isso‖ como. com os resultados cientificamente comprovados das pesquisas bíblicas. esperam um milagre. consolo.igualmente ignorantes. também acreditam que são iguais aos outros fiéis e ―também se tornam crianças‖. abandonam o contexto presente e entram em uma outra época e um outro espaço.

solitária e individual. Mais tarde. tornando-se uma causa de muitos lutando pelas almas das pessoas. Ela havia se esgotado amplamente. como na Revolução Francesa e mais tarde na forma do comunismo. . Permanece centrado e quieto no meio do entusiasmo fervoroso. mas se renovou através da Reforma e a Contrarreforma novamente por um longo período. aqueles que eram adeptos entusiasmados da igreja ou uma outra religião ou movimentos quase religiosos depois de algum tempo reconheceram que esse entusiasmo religioso havia sido cego. todos eles substituíram a Igreja. Para aqueles que seguem essa religiosidade solitária e individual não faz diferença se permanecem dentro da igreja ou fora dela. Por isso os fiéis também se denominavam ―irmãos e irmãs em Jesus Cristo‖ e também eram chamados dessa forma. democracia e o movimento pacífico. que antigamente havia sido absorvida pela Igreja e permitia a cada indivíduo dedicar-se de corpo e alma a algo maior. De certa forma. Um verdadeiro visionário está consciente de que o Último deve permanecer oculto. frequentemente parecendo uma causa perdida no meio do tumulto das demonstrações de massa e de poder. poderiam estar realmente esgotadas? Justamente o fato de que tenha havido uma ascensão e decadência das igrejas revela que não podiam preencher suas próprias reivindicações e promessas. nazismo. mas com o mesmo entusiasmo abnegado a essas novas promessas e esperanças. De certa forma. agora estava direcionada a diferentes causas sob diferentes nomes. A outra pergunta é: se as igrejas realmente foram capazes de conectar e se realmente tivessem conectado as pessoas a algo maior. Mas. assim como anteriormente esta havia substituído o Império Romano. afinal. sim. Chegou a grande época das nações e seus reis pela graça de Deus e a época de novas promessas de cura e esperanças de redenção. Não pode ser levado por um entusiasmo desse tipo. a religião no sentido original da conexão dos seres humanos a uma dimensão maior? De certa forma. Mas aqui se faz a pergunta: a igreja ou os movimentos que a substituíram tinham realmente algo a ver com a religião. Eles olham para além dela. A veemência religiosa. nesse ínterim. fascismo. Mas o que aconteceu com a Igreja nesse meio tempo? Ela foi ficando cada vez mais para trás. ela mesma ficou ameaçada de se afundar no caos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 26 A IGREJA A Igreja foi e é ainda hoje para muitas pessoas uma pátria anímica. A religiosidade é. a Igreja Romana o substituiu no mundo ocidental e ofereceu aos fiéis ordem e segurança tanto na área religiosa quanto na política. Quando o Império Romano desmoronou e ficou ameaçado de se afundar num caos perante a invasão dos povos migrantes. nele se dissolvendo. outras instituições substituíram a Igreja. Nela sentem-se em casa como se estivessem em sua própria família.

na igreja e até mesmo na Bíblia. Então talvez se recusem a reconhecer a nova pátria como sua pátria. Com isso permanecem estrangeiros no estrangeiro por muito tempo. A nossa força reside na nossa pátria. fracos. É como se acontecesse conosco. Algumas pessoas continuam sendo religiosas no estrangeiro como antes em casa. Quando nos esquivamos e queremos fugir das dificuldades de nosso país. A pátria também torna-se nosso destino. talvez sejam somente tolerados. . algumas vezes até se colocam numa posição superior a ela e sentem-se melhores. Mas com isso possuem um próprio Deus diferente do Deus dos outros na nova pátria. Mas para isso precisam ter realmente deixado a velha pátria para trás. algumas vezes forma-se uma minoria que leva consigo a velha pátria para o estrangeiro. Nós também temos uma pátria no céu que corresponde à religião de nossa pátria. A pátria é o lugar onde temos o sentimento de que pertencemos e o que nela acontece de bom ou de mau nos toca. como se estivéssemos cortados de nossa raiz essencial. Se este Deus está morto então não está mais estorvando o nosso centramento profundo. Alguns perdem a sua pátria para sempre e precisam procurar uma nova pátria. Nós sentimos falta de sua proximidade. mas não se sentem realmente em casa. Algumas pessoas sentem essa distância tão fortemente que receiam que Deus esteja morto para eles e para todos. no final. sentimo-nos culpados. Só ele pode estar distante e próximo como os seres humanos podem estar distantes e próximos uns dos outros. Mas só um Deus pode estar morto entre outros deuses. Por isso sentimo-nos atraídos de volta para ela e nela sentimos alívio e liberdade. no estrangeiro carregam mais pela fuga da miséria em sua pátria do que lhes teria custado se tivessem carregado as dificuldades em sua pátria. As dificuldades da pátria são nossas dificuldades. Pois. se um grupo todo procura uma nova pátria em um país estrangeiro. Separados dela nos sentimos estranhos. suas guerras são nossas guerras. Algumas pessoas se castigam muito por isso. Então Deus torna-se um Deus ao lado de um outro Deus e a religião que une todos os seres humanos em devoção perante o mesmo mistério torna-se uma religião que os separa de outros e de certa forma até os tornando apátridas. Um indivíduo pode realizar isso mais facilmente. DISTANTE E PRÓXIMO Muitas pessoas reclamam de como Deus se afastou de nós. Entretanto.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 27 A PÁTRIA A pátria pertence ao nosso destino e a ideia de pátria está viva em nossa alma. Permanecem estranhos no país estrangeiro por muito tempo até que através de seus esforços e contribuição adquirem um direito à nova pátria. por exemplo.

nos obriga a nos converter. é um gesto de reverência. Esse gesto de se deter perante o inatingível. Para nós são abismalmente profundos. O abismo e sua profundidade nos atraem e nos repelem ao mesmo tempo. Precisamos parar diante dele embora nos atraia. Na nossa imagem interna o seu fundo é tão profundo que não podemos apreendê-lo. Perante o abismo ela é tanto um desafio como um presente. Nós nos detemos internamente e olhamos para baixo perante ele. Pois um passo a mais já nos deixaria precipitar no abismo. . na medida em que reconhecemos que Deus seja igual a nós. Então Deus não estará mais entre os seres humanos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 28 O que nos centra de modo profundo? A qualidade de ser humano. escolhendo-os e rejeitando-os segundo a sua arbitrariedade. mesmo que no início isso pareça ser estranho. a concordância com o ser humano como é e a concordância com todo e qualquer ser humano como ele é. O abismo é profundo. esse retroceder apesar da atração. Mas a sua profundidade nos atrai. abismalmente profundo. O que poderia ser maior e o que poderia ser mais religioso? O ABISMO Olhamos para o abismo de cima e estando à sua beira. Repentinamente percebemos como o outro ser humano assume o lugar vazio de Deus. não importando que ele seja diferente. Um ser humano assume o lugar do Deus distante e não é menos misterioso do que o Deus agora morto. Na medida em que permitimos essa proximidade. incomensuravelmente profundos. mas simplesmente está presente. Esta imagem representa todos os grandes mistérios. essa persistência que não consegue ir nem para frente nem para trás e permanece centrada em seu lugar. nos abrimos ao todo que não está nem próximo nem distante. Para nós o abismo não tem fundo. É a sua profundidade que nos atrai e perante a qual nos detemos internamente.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 29 "NÃO QUE SUPORTES A VOZ DE DEUS EM SUA AMPLITUDE" .

atribuindo-nos o mérito ou talvez até mesmo a culpa? Entretanto.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 30 A LIBERDADE Liberdade significa. a experiência e o exercício nos abrem caminhos através dos quais podemos nos libertar de situações limitadoras e caminhar em direção a possibilidades maiores. embora tenhamos o conhecimento e a capacidade para fazê-lo. Contudo. O conhecimento. se o nosso impulso é fruto da reflexão e de uma decisão livre que considerou os prós e contras. o adulto fica liberado de muitas coisas que lhe foram negadas na infância e na juventude simplesmente porque ficou adulto. De início essa liberdade não é nenhuma conquista. Via de regra. Obteremos sucesso com mais facilidade. as consequências e que nos levou ã decisão acertada? Ou será que seguimos apenas um impulso que se apossou de nós e que posteriormente justificamos através de nossas reflexões como se tivéssemos sido realmente livres? Por exemplo. quanto mais estivermos em sintonia com aquilo que nos rodeia. Entretanto. tanto mais ficamos livres. por um lado. Porém aqui já estaríamos passando de uma ―liberdade de‖ para uma ―liberdade para‖. justamente por termos aprendido mais e termos adquirido mais conhecimento. também no sentido de que podemos deixar isso para trás. mais tarde. ―livre para‖. Nessa sintonia nos sentimos simultaneamente ativos e não ativos. No entanto a libertação em termos emocionais é também possível através da compreensão. de tal forma que o amor e a fidelidade a eles nos impedem de realizar outras coisas. . Usualmente ―livre de‖ significa estar livre de algo que nos restringiu. de forma que quando nos libertamos disso temos novas possibilidades ao nosso dispor. deixando-nos ser conduzidos por impulsos que dele advém. ―livre de‖ e ―livre para‖. através do tempo e através daquilo que essa liberdade nos concede. quando optamos por algo. descobrimos que aquilo que considerávamos um mérito nosso acaba se revelando como algo nocivo e como um infortúnio tanto para nós como para os outros? E quando ocorre o inverso? Quando algo pelo qual nos acusamos e nos sentimos culpados revelou-se como benéfico e libertador tanto para nós como para os outros? Talvez iremos nos sentir melhor se renunciarmos amplamente à ideia da ―liberdade para‖. ―livre de‖ e. quando nos sentimos pessoalmente responsáveis pelas consequências dessas decisões. por outro. Elas nos forçam a realizar outras coisas ou abrem novas possibilidades para as quais antes estávamos cegos. Assim. Mas o que é exatamente esta ―liberdade para‖? Será que realmente sabemos. estamos atados emocionalmente. aqui conseguimos conquistar a liberdade apenas através de novas circunstâncias da vida. Muitas vezes dá-se através das circunstâncias. sobretudo aos nossos pais e a nossa origem. também conquistamos a liberdade através de nossas experiências e de nossos esforços. a quem precisamos realmente atribuir isso quando. que obstruiu nosso caminho e que nos prendeu. Quanto mais nos desenvolvemos e evoluímos como seres humanos.

não sabemos de onde vem. Em um sentido muito mais elevado isso vale para a matéria animada em toda sua multiplicidade. e ele não estaria livre perante nós. pois nesse caso não precisaria seguilas. Será que pode realmente? O ESPÍRITO Diferenciamos o espírito da matéria ou o esquecemos em relação à matéria. que não pode ser explicada nem compreendida somente pela coincidência ou adaptação? Na matéria animada é a alma. o que a mantém em movimento e principalmente para onde se dirige. isso significaria que influenciamos o seu comportamento através de nossas livres decisões. como se pudéssemos nos decidir livremente a favor dele ou contra ele e que ele responderia e reagiria de uma ou de outra forma. Porém. mas possibilita a sua existência. O que é essa força que conduz e anima a matéria? O que é essa força que ordena e une. mantendo-os unidos como membros de uma comunidade que compartilha a mesma vida como elos de algo maior comum a todos. de acordo com a nossa livre vontade. Mesmo assim. Nesse sentido podemos observar que os seres vivos não são apenas conduzidos a partir do seu interior e por uma alma que pertence exclusivamente a eles. Essa força é misteriosa. É curioso. Para mim. mas também por uma alma que harmoniza diversos seres vivos uns com os outros. Falando mais claramente. Por isso as minhas reflexões também são inúteis. pois tudo aquilo que mantém a matéria em movimento é guiado por uma força que não pode provir da matéria em si. é somente disso que se trata aqui e cada um pode tomar livremente suas próprias decisões.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 31 dentro do mesmo movimento. movimentando-o a partir do seu interior sem que haja um impulso ou uma atração exterior. Além disso. Naturalmente não sabemos nada sobre Deus. nem ao menos se ele existe. tanto num sentido mais restrito quanto num mais amplo. Mas também esta alma. uma ou outra suposição acaba gerando efeitos diferentes em nossa alma. sabemos que a matéria se encontra ordenada. gera simbioses que nos deixam sempre admirados. submetendo-se a leis e ordens que não são matéria. apesar de podermos calculá-la porque se revela através de seu efeito. segue leis e ordens que não poderiam estar dentro dela. Qual seria então a força que é superior também à alma? Qual seria a força que se . Isso permanece um mistério para nós. No Cristianismo encontramos a ideia amplamente difundida de que seriamos livres perante Deus. mas que apenas se revelam nessas leis e ordens como algo que a domina. renunciando e ao mesmo tempo recebendo. Não pretendo aqui aprofundar-me nestas questões. Ela anima aquilo que se encontra ao mesmo tempo submetido a leis inorgânicas. de modo que no final estaríamos livres perante ele. Eu só queria apontar a que estranhas conclusões nos podem levar as ideias de liberdade perante Deus.

a alegria no Espírito Santo acrescenta algo à alegria no espírito. O Espírito Santo é a força criativa que anima e perpassa tudo. Por isso é sem zelo e não ofende ninguém. É a devoção a esse movimento que nos transcende em todos os sentidos. Mesmo assim encontra-se vinculada a tudo. Envolvidos por esta alegria. Diz-se do Espírito Santo que ele é o espírito do amor. encontrando-se por isso próximo ao divino ou unido a ele. Na realidade. No Cristianismo falamos da alegria no Espírito Santo. ele prepara a ajuda. Espera até que algo se desenvolva e amadureça no seu tempo. como se tivéssemos superado a força da gravidade. porém de um modo que não interfere. A PACIÊNCIA A paciência tem tempo. A ALEGRIA NO ESPÍRITO A alegria no espirito é ampla. Nela permitimos que algo mais poderoso atue e permanecemos despreocupados e sem intenção. O mestre apenas prepara a aprendizagem. Precisamos saber mais sobre este espírito? Ele se manifesta para nós através do seu efeito. A alegria no Espírito Santo nos inclui nesse movimento criativo. A paciência é também uma virtude do mestre. Talvez esse algo seja aquilo que determina a sua essência de um modo mais profundo para nós. Conhecemos apenas de modo limitado a sua grandeza e o seu ser que tudo perpassa e tudo configura. contudo o entendimento e a compreensão em si ocorrem na maioria das vezes bem mais tarde. não interfere. ilumina-o de modo benevolente. A alegria encontra-se no espírito. Ela não urge. à distância. porém. A alegria nos libera de algo ao qual antes estávamos atados e. pois permite que tudo permaneça como é. Alegra. É ampla. É a virtude do jardineiro. percebe o peso como sendo algo leve. Experimentamos o espírito como inesgotavelmente criativo. Aqui podemos fazer ainda uma outra pergunta. pois a aprendizagem e a compreensão necessitam também de tempo. permitindo-lhe que siga o seu próprio curso.se com o outro sem querer possuí-lo. que as determina e que não está submetida a elas? Para mim essa força seria o espírito.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 32 encontra acima das ordens. existe algo que o destaca. Então a alegria no Espírito Santo é principalmente uma alegria com amor. algumas vezes acreditamos flutuar como o espírito. Por ser ampla inclui tudo. . Dessa maneira. como o espírito. Se soubéssemos seriamos superiores ou pelo menos equivalentes a ele. Mas não o sabemos. ampla como o espírito. O espírito constitui a última instância? Talvez sim. Entretanto. porém espera que o essencial seja realizado por forças maiores.

Muitas vezes dispensa o aprendiz sem saber e sem querer saber qual o efeito dos seus esforços no final. trazendo-nos um bom desfecho. temos a confiança profunda de que por trás de tudo que fazemos existe um poder benevolente e previdente que transcende amplamente as nossas reflexões e possibilidades. Também o amor requer paciência. Algumas vezes. Por isso. Também Deus. tempo eterno. Ficamos diante de um enigma e talvez nos perguntemos: como Deus pode permitir algo assim? Muitas pessoas hesitam em perguntar diretamente: como Deus pode desejar algo assim? Preferem . quando num desastre houve um bom desfecho para nós de modo quase milagroso ou quando já havíamos quase perdido a esperança e tudo acaba bem de modo surpreendente. A PROVIDÊNCIA Providência significa para nós. via de regra. sendo assim. desejamos que sejam acompanhadas por bons espíritos ou poderes que as protejam de desgraças. algumas vezes o mestre não verá os frutos de seu trabalho. florescerá de modo mais belo e o sabor do seu fruto será ainda mais delicioso. ―a boa providência‖ ou ―a divina providência‖. Entretanto. Muitos pais rezam pelos seus filhos para que Deus zele por eles e os proteja do perigo. E teremos paciência com outras pessoas. seja lá o que se oculta por trás desta palavra e imagem. dizemos nessas horas que tivemos um bom anjo da guarda. Quase todas as pessoas podem relatar histórias desse tipo que ocorreram em suas vidas. principalmente com as crianças. Deste modo dá ao aprendiz a liberdade de aprender também a partir de sua própria experiência e compreensão e de encontrar por conta própria aquilo que é decisivo para ele. no seu tempo. Ele confia no tempo. Também a natureza tem tempo. Quando pessoas próximas realizam uma viagem. dizemos que por um encadeamento de várias circunstâncias infelizes uma catástrofe tornou-se inevitável. Associamos a isso a imagem de um poder supremo que conduz algo para nós de modo benevolente e previdente em direção a um bom objetivo. Aqui nossa fé em relação à boa providência é colocada à prova.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 33 Diferentemente do jardineiro que pode estar seguro de que aquilo que plantou trará frutos. tem tempo. E. Assim estamos dispostos a acreditar na ação protetora de anjos da guarda. Por exemplo. Muitas delas aconteceram na infância. Nessas horas temos igualmente a impressão da interferência de um poder supremo que ajeitou as coisas de tal modo para que este infortúnio ou esta desgraça pudesse ocorrer. principalmente em relação às crianças. o seu tempo. Quando confiarmos nas forças ocultas teremos igualmente paciência conosco e nos concederemos o tempo pleno. passamos também pela experiência oposta quando. por exemplo. Floresce quando lhe é permitido brotar e se aprofundar.

Eram instrumentos de caça que levavam a morte da presa. São do tipo espiritual. Ao invés de pisarmos na armadilha podemos também cair na rede de alguém. quando alguém deseja nos enganar conduzindo-nos a pensamentos e ações que lhe dão poder sobre nós.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 34 imaginar a presença de outros poderes e que Deus somente não interferiu. alcançamos uma confiança especial que se estende mesmo além de nossa morte. por exemplo. psíquicos ou danos em relação a nossa vida se não o seguirmos ou duvidarmos daquilo que nos disse. Porém eles são predeterminados? Existe um poder omnisciente em ação? Não o sabemos. Mesmo assim nos comportamos muitas vezes como se estivéssemos entregues a ele. que age e conduz os nossos destinos. Algumas vezes os denominamos diplomacia. Não quero afirmar aqui que toda diplomacia deva ser vista sob este ângulo. montar a armadilha e lançar a rede acabou adquirindo um papel importante. pois há casos onde ela conduz a um equilíbrio entre os interesses e todos saem ganhando. Mais tarde. mesmo quando exige o nosso último esforço. Nesse caso falamos de caçadores de alma. Porém nos é permitido fazer isso? Podemos realmente fazer uma diferenciação? Experimentamos a providência de modo mais profundo quando estamos em sintonia com o mundo como um todo como ele é. nas guerras. como algo bom. E também estamos em sintonia com o nosso destino e o nosso fim da forma que foram predeterminados para nós. Pelo menos esperamos que assim seja. Na maioria das vezes. Principalmente quando nos ameaça de danos físicos. Deste modo desejam absolvê-lo evitando que a imagem da boa providência seja colocada em questão. Originalmente a armadilha e a rede serviam para capturar uma presa. trata-se aqui de vida e morte. esta pessoa deseja apossar-se de nós para que estejamos a seu serviço e ela possa permanecer em vida ou ampliar e melhorar suas possibilidades de vida. tais métodos de montar armadilhas e lançar redes podem ser encontrados na política. . estamos verdadeiramente em sintonia. A ARMADILHA Quando pisamos na armadilha de alguém. Entretanto. principalmente quando parece que não temos saída. Se essa esperança nos engana ou sustenta permanece em aberto para nós. Apenas quando a mantemos em aberto. principalmente quando se tratava de obter poder sobre os outros. Um modo refinado de montar armadilhas e lançar redes é o procedimento estratégico que se usa. rede esta que posicionou ou lançou de modo tal que nos enredamos nela. Experimentamos aquilo que nos foi enviado por um poder superior como algo que nos é adequado. existem ainda outros tipos de armadilhas. como era na forma original de montar armadilhas. Por exemplo. Pois quando pensamos que existe algo que nos transcende amplamente.

atraem outras pessoas para a mesma armadilha só para não ficarem sozinhos. após um certo tempo aquilo que está oculto em nossa imagem revela sua essência oculta. sua verdade oculta. Será Deus igualmente uma armadilha desta espécie? Naturalmente não o Deus sobre o qual nada sabemos. Alguns dentre eles sabem que se trata de uma armadilha porém. por vezes ameaçando-os com terríveis castigos. por exemplo. Quem cai nessa armadilha por curiosidade ou por pena se apega a eles de tal forma que dificilmente consegue sair dela. confiando em nossa própria percepção. seguindo-a e nos movimentando apenas dentro do âmbito acessível para a nossa experiência. ficamos mais em nós mesmos do que naquilo do qual criamos uma imagem.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 35 Como escaparmos dessas armadilhas? À medida que paramos diante delas sem nos mover e quando tampamos os ouvidos diante do canto da sereia que nos atrai para um penhasco perigoso. de forma que também sentimos essa força no nível . também desejam que sintamos pena deles. Como escaparmos dessa armadilha? Parando. ao invés de se libertarem dela. Sua essência e sua verdade se encontram veladas na imagem e vêm à luz através dela sem que tenhamos uma noção disso. na maioria das vezes. sem olhar de forma exata para ela. nem caindo em uma armadilha nem montando uma para os outros. sendo inacessível para nós? Quando nos expomos à imagem. Se ficarmos com a imagem que criamos. Sendo assim trata-se de uma imagem criada. Pois a essência e a verdade constituem algo espiritual que está além de todas as imagens. E sim. apesar de não sabermos se isso não seria igualmente uma armadilha. Então como encontrar acesso a qualquer coisa que está além de nossa imagem. Mas ela realmente abrange o outro ou a situação? Abrange até Deus? Ou desconhece o outro ou a situação? E desconhece também aquilo que se subtrai a qualquer tipo de imagem? A imagem é apenas o início do conhecimento. O espiritual é reconhecido e sentido como algo espiritual na alma e no espírito. fechando os nossos ouvidos. A IMAGEM Dizemos frequentemente que criamos uma imagem. Às vezes. nela se oculta? Como encontrar acesso àquilo que permanece além de todas as imagens. Mas a imagem é necessária para o nosso conhecimento. Pois dele emana uma força que nos movimenta e nos conecta animicamente com algo que se encontra além de todas imagens. Chegam a se sentir bem e desejam também atrair outras pessoas para ela. permanecendo internamente abertos e amplos. esse Deus que é anunciado por aqueles que afirmam que ele se revelou para eles ou então os iluminou e que fala através deles. de uma situação ou até de Deus. Em seu nome exercem poder sobre os outros. Muitos dos que caíram nessa armadilha não sabem que estão dentro dela. que talvez apenas nela se insinua. que apenas intuímos. de outras pessoas.

na época da Reforma. mas isso já basta. independente de sua idade. Nela se oculta aquilo que virá à luz posteriormente. Mesmo assim. compreender e agir de um outro modo. mesmo que seja apenas um pouco. sustentado e mantido por ela. Por exemplo. sem a imagem não somos capazes de alcançar o oculto. Nela já se encontra o futuro. Só que denominamos isso o início. Então não criamos mais uma imagem. Porém. perde após um tempo a força da raiz. mesmo que de forma condensada. quando algo se expandiu excessivamente. desejamos eliminar algo nocivo pela raiz e queremos dominar algo à medida que o penetramos até a sua raiz. A imagem nos leva para algo para o qual foi apenas um véu. por exemplo. Representa igualmente a causa de um efeito. A raiz representa o início. mas essa imagem faz algo conosco. da natureza e principalmente com as imagens que temos de Deus. toda semente quando eclode e começa a brotar é um Big Bang desta espécie que faz movimentar e desabrochar algo que até então permanecia desconhecido. à ideia original e também o chamado de volta aos antepassados e ao vínculo com a sua bênção e sua sabedoria. o chamado de volta à Bíblia e em muitas ordens religiosas o chamado de volta ao ideal e à ordem inicial. de repente. É o que sucede com as imagens que criamos do ser humano. A raiz nutre aquilo que cresce a partir dela. Orientamo-nos por essa imagem nos mais diversos contextos. a partir do qual tudo se desdobra. Por isso me afasto dela e aguardo até que o outro. Vemos inclusive o início do mundo e sua expansão galopante a partir de uma imagem parecida. Deste modo somos captados pelo espiritual como um todo e sentimo-nos capazes de ver. se não permanecermos nela. a partir do qual eclodiu. ela o mantém e o sustenta. se manifeste por trás dela. frequentemente. por trás do qual o essencial permaneceu oculto. principalmente no Cristianismo. o Big Bang. Deste modo procuramos. Comumente isto significa um chamado de volta à simplicidade. Porém toda árvore. Algumas vezes. Elas são apenas a aparência e o reflexo e da luz . A RAIZ A raiz está coberta. de modo que não pode ser mais nutrido. ouvimos o chamado ―de volta às raízes‖. afastando-se demasiado de sua raiz. Os . Senão já estaremos parados diante da entrada jamais entrando realmente. o oculto. pela raiz de um problema ou de um conflito. Mas isso é também uma imagem. houve repetidamente o chamado de volta às raízes. apenas a sombra. muito menos se ficarmos parados diante dele. Em todos os grandes movimentos religiosos. A imagem da raiz é uma imagem poderosa. àquilo que oferece limites. à força original.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 36 físico. toda a multiplicidade posterior que se encontrava condensada nele através de uma explosão inimaginável.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 37 primeiros sinais de declínio são somente visíveis na periferia e as raízes ainda parecem estar intactas por um certo tempo. Este é um desafio no qual poderá ter êxito ou talvez fracassar. alimentando-os durante um longo tempo com seus ensinamentos. aprenderam. Mas será que os movimentos religiosos são realmente divinos? Será que Deus é realmente a raiz e a origem deles? Ou será que em suas origens estão apenas seres humanos que. o poderoso que está por trás de todo início? Este poderoso desconhecido não está simultaneamente distante e próximo de nós à medida que nos expomos a ele? E todo movimento não é sempre início e fim ao mesmo tempo? OS MESTRES Mestres são mediadores. à experiência e ao crescimento. O mestre dá e os aprendizes tomam. especialmente àqueles que são mais jovens do que eles. podem aprender mais dele e ele. prove perante os outros a sua competência e se revele superior ou ao menos equivalente ao mestre. Transmitem aos outros. então a autoridade do mestre e o comportamento apropriado do aprendiz é essencial. honram e respeitam o seu mestre. mantendo-os em vida através de sua força espiritual? Quando estes movimentos perdem a sua força Deus também perde algo? Ele se importa com isso? Adianta evocá-lo para que renove as raízes? A imagem da raiz e do início primordial é uma imagem humana. Entretanto. ao conhecimento. Em certo momento não é possível mais revitalizá-la. Pois neste momento o mestre irá rejeitar o aprendiz. adotaram de outros mestres e continuaram a desenvolver até que isso se transformou em seu próprio conhecimento. Como ela pode aprisionar e banir o divino. Isso significa que durante a época de seus estudos o aprendiz é pequeno. Por isso o chamado de volta às raízes de pouco adianta quando a raiz já definhou. Por isso. Entre os mestres e aprendizes existe um declive. fique sobre os seus próprios pés. O fracasso provavelmente acontecerá se aqueles que desejam aprender do mestre não o respeitarem. finalmente a sua força vital também se apaga e ela fenece assim como a árvore inteira. não lhe oferecendo compreensões importantes. que espera algo de seu mestre. Talvez o mestre também o dispense neste momento para que o aprendiz prossiga seu próprio caminho. desencadearam poderosos movimentos. O mestre não deve descer ao nível dos aprendizes enquanto estes ainda desejam aprender algo dele e o aprendiz não pode aproximar-se excessivamente do mestre e desejar competir com ele. é apropriado para o aprendiz que reconheça e concorde com a sua dependência enquanto está aprendendo. por sua vez. Porém. sem maiores interferências. Se a relação entre o mestre e o aprendiz deve servir. especialmente aquilo que só se pode transmitir a outros numa atmosfera de verdadeira confiança. como uma raiz. Quem estuda sabe que está numa posição inferior. depois que aprendeu o suficiente de seu mestre chega a . Quando os aprendizes reconhecem esse declive. pode dar mais aos seus aprendizes. aquilo que experimentaram. pois é aquele que está necessitado.

Quanto mais o aprendiz permanecer internamente vinculado ao seu mestre. muitas vezes. A FLOR A flor floresce. Contudo. posteriormente — é este o seu desejo — fará valer a pena todo seu investimento. com maior prazer. Assim terá as suas próprias experiências. aquilo que eles lhes dão e transmitem. para os quais se abre e está disponível. jogamos o caroço não prestando atenção ao que nele está contido: a nova e futura geração da flor e do fruto. reconhecemos neles em que sentido ainda precisamos crescer. talvez torne-se ele próprio um mestre e passe aos outros aquilo que lhe foi transmitido. seu aprendiz siga um caminho diferente. O essencial e os processos de transformação não dependem de nosso reconhecimento. Sem nos envolvermos diretamente.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 38 hora da separação. Mas também encontramos outros tipos de mestres que nos ensinam na medida em que são diferentes de nós e até nos são hostis. os aprendizes tomarão pouco de seu mestre se se colocarem acima dele. nos atraem para a sua esfera e nos colocam a seu serviço. a flor atrai principalmente os polinizadores para os quais floresce. nossos sonhos. Dessa forma os filhos poderão tomar de seus pais. nossa curiosidade. pois apenas através de sua ação e seu sucesso é que se transforma em algo próprio. Pois não é apenas ele que está a nosso serviço. negando-lhe o respeito. Ao mesmo tempo o conhecimento adquirido precisa provar a sua eficiência na vida real. Entretanto. Somos seduzidos a participar sem estarmos conscientes disso. entregues a eles e ao mesmo tempo centrados. Pois a flor está a serviço do fruto que. mas nós também estamos a serviço dele. Tal como um pai ou uma mãe quando ensina seus filhos ainda sente atrás de si a presença auxiliadora de seus próprios pais. Também Deus ou o divino ou o mundo como é nos ensinam de um modo especial quando nos expomos a eles: totalmente nus. tiram nosso orgulho. para os quais exala seu aroma. mesmo que. Porém da mesma forma que os filhos podem tomar pouco de seus pais quando se colocam acima deles. apoiando-o de modo benevolente. tanto mais êxito terá. Então seu mestre estará atrás dele. Ah. Muitas vezes aprendemos coisas essenciais de mestres que reconhecemos ser adversários valiosos. às vezes. Nosso conhecimento e memória limitados nos tornam sujeitos a ser usados por ele. O seu fruto também tem um aspecto delicioso e nos seduz com seu aroma. como somos algumas vezes distraídos! Mas mesmo assim não estamos obstruindo a sequência essencial do crescimento e da continuidade. Nós o colhemos e o saboreamos. No primeiro plano estamos simultaneamente à disposição e a serviço do oculto. Tanto o seu aspecto como o seu aroma nos atraem. Mesmo quando sentimos estar livres e independentes somos . sem defesa. nos conduzem para dentro de uma noite escura onde todo o conhecimento anterior se torna destituído de valor. Eles nos ensinam através de sua presença.

também aqueles que alcançam o topo decaem mais tarde através da roda do tempo. Do nosso lugar. apenas quando os ensinamos. o conhecimento sobre como podemos corresponder e estar a serviço da vida e como podemos honrá-la e realizá-la em sintonia com aquilo que ela nos presenteia. pois através dela outro poder entra em ação que. ao invés de permanecermos na margem externa da roda do tempo. acabam se excedendo após um certo tempo. Algumas pessoas ascendem enquanto outras decaem. nos conecta com aquilo que está além do poder e da impotência . permanecemos pequenos e humildes. Todo reino e toda instituição. podemos observar o impulso do tempo com serenidade sem ficarmos afetados pelo poder nem pela impotência. conscientes de estarmos puxando a carruagem de um outro cocheiro. estando a serviço do essencial. Todo ser poderoso torna-se impotente em face da morte. A roda do tempo não gira por si só. não seremos lançados para o alto nem jogados para baixo. mesmo quando são muito poderosos. Com o passar do tempo todos as pessoas poderosas se tornam impotentes pois jamais controlarão aqueles poderes que conduzem as grandes transformações. Por isso encontra-se voltada para a ação e a realização. onde a força centrífuga é mais eficiente. É impulsionada por um agente externo. por outro. Por isso. Porém. são desafiados por outros poderes e movimentos e por fim decaem. por um lado. Não estamos totalmente a mercê da roda do tempo. A IMPOTÊNCIA A impotência é apenas aparentemente impotente. Quando reconhecemos isso. Porque um não nos eleva e o outro não nos oprime permanecemos em sintonia com os poderes que movem a roda do tempo sem girarmos com ela. próximo ao centro. permite que aqueles que se sentem entregues a eles possam se liberar deles. Por que então deveríamos tentar ensinar os outros? Acrescentaria algo àquilo que os tomou a seu serviço? Sim.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 39 cavalgados por um outro cavaleiro como se fôssemos seu cavalo ou somos atrelados à frente de uma outra carruagem. ficarmos mais próximos do centro. Se. A SABEDORIA A sabedoria diferencia entre o que é possível e o que é impossível. conscientes de que somos iguais aos outros seres humanos. No fundo trata.se da sabedoria de vida. Permanecer próximo ao centro nos conecta profundamente com aquilo que toma tanto uns como outros a seu serviço. impõe limites aos chamados poderosos e. Por isso encontramos a sabedoria quando nos limitamos àquilo que em nossa vida se encontra .de modo atemporal e eternamente silencioso. mesmo quando aparentamos ser grandes e importantes.

Deus também se revela para nós? Ele também desvela seu segredo para nós? A fonte original de toda criação é uma força do outro lado de nossa realidade de forma que quando se revela precisamos experimentá-la como algo exterior e separado de nós? Ou devemos simplesmente nos entregar a um movimento interior. então ela é religiosa — porém sem fé ou esperança. pois se encontra em sintonia. E com ele se alegra.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 40 em sintonia conosco e com os outros. entregando-lhe o que possui sem nada reter com ela. quem espera até que os segredos se revelem por conta própria vai receber grandes dádivas e o poder de servir à vida. Não sonha além daquilo que possui. Toda descoberta nova. do ser humano e. Não vai além daquilo que está próximo e palpável. causa o bem para muitos. possui-o plenamente. o futuro e a ocasião especial. fluindo. mas na maioria das vezes um caminho que após um tempo acaba se revelando falso. seu destino e sua causa? . Porém de uma forma em que ele e os outros permanecem dentro de seus limites. sustentada por ele. Mas este é apenas o seu lado externo. é colocada a serviço dele e. a sua aparência. até de Deus. Em seu interior é profunda. A sabedoria é simples e discreta. A única medida para a sabedoria é a vida e aquilo com que ela nos presenteia e exige de nós. Então qual é o resultado? Usualmente encontram um novo caminho. modestos e mais conscientes de nossos limites a cada nova compreensão. A sabedoria é religiosa? Se religião for o ato silencioso de concordar com o mundo e a vida como ela nos foi dada. reconhecendo e tomando de imediato o novo. toda iluminação revela segredos maiores. Aquilo que possui. Por isso a plenitude se sente bem ao lado da sabedoria. revelando seus tesouros ocultos e sua especial beleza e força. tornam-se grandes e significativos. E a conquista da qual se vangloriavam acaba escapando de seu controle e talvez se torne um perigo mortal para eles. mais ocultos e talvez para sempre inacessíveis. Entretanto. às vezes. Também aqui lhe basta o que tem. O SEGREDO Apenas aquilo que antes estava oculto pode ser revelado. Alguns desejam decifrar os segredos da natureza. sem questionar sua origem. afasta-se facilmente daquilo que já passou. porém toda revelação esconde mais do que revela. como a vida. mesmo o pequeno e o insignificante. constantemente para frente. permanece no presente e com aquilo que se revela para nós através dele. Ela concorda com o possível. Encontra-se centrada em torno do essencial. Assim. é capaz de revelá-lo na hora certa. Portanto a sabedoria é terrena. Por isso ficamos mais respeitosos. quando preenchidos com a sabedoria. toda compreensão. Principalmente indicando aos outros uma saída que os chama de volta de seu delírio para a terra.

e também os outros. quando nela nos detemos. às vezes. por exemplo quando duas pessoas se apaixonam. planejando e usando métodos cruéis para se matar.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 41 Quando Deus permanece um segredo talvez estejamos mais seguros e mais próximos dele. às vezes. tornamo-nos capazes de realizar algo para o qual antes éramos demasiadamente fracos e temerosos. então não existe mais saída. Talvez alguns místicos e também aqueles que seguem movimentos místicos se sintam desta forma. Fica entregue a ele. Por exemplo quando um redemoinho captura algo que se encontra na superfície com uma força tal que é impossível escapar dele e acaba puxando-o para o fundo. Esse arrebatamento nos puxa para uma outra dimensão. Algo nos puxa em direção às nossas próprias profundezas. Porém de forma geral podemos distinguir claramente entre a atração e o arrebatamento. este arrebatamento possui também uma dimensão religiosa. Quando somos arrebatados deste modo deixamos algo para trás e seguimos um movimento que por um lado nos captura como se fosse uma força externa. como se estivessem possuídas por um poder estranho. Quando algo nos arrebata. Ou quando alguém tem a sensação de ser arrebatado a cometer suicídio.é esta a minha imagem — se permanecermos conscientes. em sintonia com aquilo para o qual fomos arrebatados. quando olhamos para a escuridão ao invés de olharmos para a luz e esperamos . No caso da atração somos também arrebatados em direção a algo. Sentimos que a ela pertencemos mas ao mesmo tempo percebemos que ela nos é inacessível. Nestas horas tendem a se perder com facilidade e saem de si. Quando emergimos novamente das profundezas dessa experiência. Não me cabe julgar isso mas gostaria de mencionar os possíveis perigos de tal arrebatamento. Ser arrebatado significa mais do que atração. ARREBATADOS Sentimo-nos arrebatados quando algo nos suga. principalmente no caso de um assassinato. Isso vale principalmente para a atração entre pais e filhos e mais tarde para a atração entre homem e mulher. por exemplo em direção a outras pessoas. Algumas pessoas acreditam que quando experimentam este arrebatamento estão sendo levadas a Deus. Esta atração pode ser tão forte que. Porém apenas desta forma . nos leva a compreensões que nos colocam. Mesmo assim. Nesta situação as pessoas estão fora de si. Ficam entregues a ele. Existe também uma forma totalmente diferente de arrebatamento que vem do centramento. em direção ao centro e para além dele em direção a um espaço amplo. mas ao mesmo tempo nos conecta profundamente com o âmago de nosso ser. Quando nos entregamos a ele de modo consciente e centrado. Esta atração nos vincula a elas. Criminosos por vezes são arrebatados. como se essa força fosse uma extensão do divino no nosso mundo. Esse arrebatamento as faz perder os sentidos. parece agir como uma sucção.

pois o finito aparenta ser finito apenas porque perdemos a sua infinitude de vista. porém sem esperar que ela nos conduza a um objetivo que se encontra além de nossa finitude. Quando ficamos conscientes disso.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 42 centrados perante um limite. no movimento infinito e reconhecemos que aquilo que nomeamos infinito é apenas um dos vários véus que encobrem o essencial. A infinitude é algo a ser ambicionado por nós? Ela constitui um objetivo que vale a pena? Apenas no sentido de confiarmos na finitude como movimento infinito. pois a infinitude que ela abriga nos assusta. alcançamos a paz através dela e nos experimentamos infinitos na finitude. . Nesse sentido tudo aquilo que vem ao nosso encontro possui uma dimensão que é infinita para nós. em um certo sentido. Podemos vivenciar a entrega a esse movimento como um ato religioso. Mais precisamente. Tudo que experimentamos como finito é ao mesmo tempo infinito. também nos detemos. Isso vale primeiramente para nós mesmos que algumas vezes lamentamos a nossa finitude. Principalmente porque essa infinitude nos liberta da esfera da finitude que talvez ansiamos que seja infinita como finitude. admirados. Apenas o seu movimento é para nós infinito. deixamos neste movimento o finito para trás. Sobretudo sobrevive a nós nessa dimensão. pois vai infinitamente além daquilo que podemos compreender ou controlar. talvez o infinito seja apenas o finito em um movimento infinito. este movimento permanece finito apesar de sua infinitude. O INFINITO Infinito é aquilo que vai além de nossa medida. A infinitude na finitude é infinita apenas porque não podemos compreendê-la. Sem saber para onde ela nos conduz. para nós. Pois.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 43 "0 ETERNO E O EXTRAORDINÁRIO NÃO QUEREM SER VERGADOS POR NÓS" .

quando fazemos uma imagem de um outro e olhamos para essa imagem. desgastandose nesse conflito. em nosso lugar.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 44 O CONFLITO Todo conflito é uma aproximação. dissolver-se nele é a meta de nossos anseios mais profundos. uma aproximação intensa. Isso significa que olhamos para eles de tal modo que os enxergamos como indivíduos. Tais conflitos são possíveis apenas quando desejamos algo específico da pessoa que está à nossa frente e. por exemplo. Aguarda e persevera. Mergulhar nesse nada. o conflito só pode ser resolvido quando olhamos para aqueles com os quais realmente temos um conflito. Muitas vezes uma única palavra basta para desfazer um conflito. Se desistíssemos de nossas expectativas em relação aos nossos pais. Então. 0 conflito com o parceiro. O nada é aquilo que nos foi mais subtraído. quando os olhamos até que sejamos capazes de vê-los. ficamos decepcionados. atento e disponível de modo . por exemplo. A simplicidade está acima dos opostos. pois transferimos a ele essas expectativas que temos em relação aos nossos pais. A simplicidade é também o que permanece. para que uma aproximação real possa acontecer-com amor. encontrando a paz. A simplicidade é a meta dos opostos que nela repousam. quando não obtemos o que queríamos. por isso. o último. o essencial. Muitas de nossas expectativas em relação a Deus são infantis. sairemos de mãos vazias. Na simplicidade os opostos são suprimidos. algumas vezes se transfere para uma criança ou o conflito com o pai ou a mãe se transfere para o marido ou a esposa. Aliás. Conflitos existem. Contudo. Pois precisamos incluir o outro em nosso campo de visão e nos expormos a ele. por exemplo. Estas palavras são. o mais simples é o nada. a alguém mais forte. ao invés de olharmos para ele. alguém do qual sentimos medo. Algumas vezes. de repente a ira também se dissolveria e estaríamos livres. os conflitos com eles poderiam ser resolvidos sem maiores problemas. o algo perene que está por trás de todos os opostos. não como uma função ou membro de um grupo. Um vínculo cheio de expectativas é que conduz a estes conflitos. Mas esse anseio não se movimenta. o grande. Se chegarmos a Deus com as expectativas infantis que nos foram subtraídas. Algumas pessoas encontram-se em conflito até com Deus ou com a Igreja. transcendendo-os e é. ―obrigado‖ ou ―por favor‖. libertando-nos desse tipo de vínculo. É também o enigmático e a escuridão que suprime os opostos. A SIMPLICIDADE A simplicidade difere da duplicidade ou da multiplicidade. um conflito é apenas transferido para alguém mais fraco que precisa pagar. No nada não há mais nada que possa ser nomeado. Toda e qualquer tentativa de compreender ou classificar o nada fracassa.

apesar de não existir nenhuma ameaça ao nosso corpo e à nossa vida é sobretudo o temor da consciência que mostra tais efeitos. Fundamentam uma comunidade de fé que.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 45 centrado. Com isso queremos mostrar a nós mesmos e a outros a predominância de uma outra realidade. conforme acontecia antigamente. depois a ação. A visão e a moral politicamente corretas têm substituído as igrejas num nível amplo. principalmente as declarações que ameaçam uma crença religiosa ou pseudoreligiosa que substituiu uma outra crença religiosa tornam-se perigosas para aquele que as emite. Mesmo nas sociedades onde a liberdade de pensamento e opinião se encontram protegidas pela constituição. na qual sentimos frequentemente temor. assim como antigamente os hereges da Igreja. deseja obter poder sobre a consciência de cada um. Principalmente quando desmascaram um ideal sublime como sendo algo vazio. de modo semelhante ao das igrejas antigas. são aqueles que hoje em dia chamamos de politicamente corretos. Primeiro paralisa o sentimento. existe uma pressão visível que discrimina certas declarações e uma pressão sobre aqueles que as representam. Ele nos diminui. contrapondo-se à observação ou experiência .pelo contrário. A diferença é que não denominamos mais de hereges aqueles que fazem observações e possuem pensamentos diferentes. Mas não porque estas manifestações se revelaram falsas. Essa resistência àquilo que é evidente. a suspeita em relação a outras observações e a tentativa de reprimi-las continuam existindo nas igrejas. Este anseio é a devoção ao nada. Então eles se transformam em figuras paternas e nós nos transformamos em crianças perante eles. Atualmente as igrejas dispõem dos encarregados das seitas para combatê-los assim como antes existia a inquisição para os hereges. Por isso. O TEMOR 0 temor paralisa. É óbvio que por trás disso existe a reivindicação de que elas são as únicas representantes da verdade perante a qual tudo aquilo que delas desvia pode e deve ser considerado de natureza sectária e divergente da opinião coletiva. trazem à luz uma realidade que abala idealizações e reivindicações de poder. Os valores pseudoreligiosos e validados pela coletividade fora do âmbito da Igreja. Essas declarações ameaçam as afirmações que não conseguimos abandonar e as quais seguimos fervorosamente como dogmas religiosos. Quem deles desvia precisa temer ser excluído da comunidade política. Por isso seus ilustres representantes e seguidores comportamse como guardiões de uma revelação divina e consideram-se autorizados para combater . principalmente quando estes têm ou pretendem ter certa influência sobre nós. mas suspeitamos que eles pertencem a uma seita ou então que desejam fundar uma. de olhos bem abertos para algo que jamais se revela. como também as condutas correspondentes. Isso significa que tememos perder o olhar benevolente dos outros através de um comportamento ou até de um simples pensamento ou uma declaração. Em nossa sociedade. depois o pensamento.

transformou. AS CONSEQUÊNCIAS DA CULPA . por exemplo. sem arrancá-lo do céu e da luz impenetrável que o envolve.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 46 aqueles que optam por outro caminho. quando não as queremos admitir. também liberta tanto aquele que se tornou culpado como aquele perante o qual nos tornamos culpados. Aqui também através da suspeita e da ameaça de exclusão. no fundo. essa pessoa o desonra. encontra-se mais próxima e mesmo assim indizivelmente afastada do divino . com um destino parecido como consequência dessa culpa. Quando se trata da culpa relacionada à vida de outra pessoa. Porque no final a culpa tem um efeito purificador e de completude para todos que ela abarca. à distância. Ela separa e nos deixa livres para aquilo que é particular de cada um. A CULPA A culpa está sempre relacionada ao vínculo. Qual é o resultado destas ordens para as almas ? O temor a Deus que. seja como autores ou sofredores.não importa o que possamos pressentir em relação ao que se encontra por trás disso. Por isso. Mas também aqui apenas de certo modo. era o temor e o respeito pela realidade revelada e o temor de suas consequências. a culpa nos força a ficarmos semelhantes ou iguais a ela. quem se sente culpado perante Deus perde a ligação com aquilo através do qual se tornou culpado. o outro abre-se para nós. Permite que nos aproximemos novamente e chega a nos abrigar em seu coração. Por outro lado ela também vincula. Pois a separação causada por essa culpa não se sustenta. ele como vítima e eu como agressor. seja lá o que isso exige de mim e do outro.se no temor ao poder humano. tornamo-nos uma unidade e ao mesmo tempo liberados de algo que nos transcende amplamente. A culpa e suas consequências são deslocadas para longe. concordando. Olhamos juntos para o destino que partilhamos. Porém. O seu primeiro efeito é a separação. ao invés de serem encaradas de frente. Ambos concordamos com as consequências dessa culpa. Porém. À medida que ficamos igual ao outro. Ela é maior do que o seu oposto. Alguns acreditam terem se tornado culpados também perante Deus. rendemo-nos a ele. forçando-o para dentro de sua existência humana? Ao invés de honrá-lo. por isso. quando isto se realiza de modo inevitável como o próprio destino e quando concordamos com o mesmo. porém. Mas somente de certo modo. Isso vale igualmente para um culpa de menor extensão. A culpa separa. Deus então é colocado entre ele e o outro. dissolvemo-nos neste destino e através dele estamos tanto vinculados como separados. Mas como alguém poderia tornar-se culpado perante Deus. na sua força e poder criativo e.

por fim. ―o mal precisa continuar gerando‖ até que um novo ato criativo o freia e o transforma. posiciona-se ou deita-se ao lado dela. Esse outro ato criativo coloca-se a serviço de algo que transcende a culpa e liberta forças que podem manifestar-se apenas como consequência de uma culpa.separados apesar de pertencerem um ao outro . Qual é o efeito da culpa no primeiro momento? Vincula o culpado à sua vítima. Nesse sentido a culpa é criativa. independentemente de quão terrível esta possa ter sido para muitos. Apesar de serem em sua alma as duas coisas. filhos de vítimas se tornam vítimas. essas duas partes acabam não se encontrando. Em seguida posicionamse perante o culpado e esperam até que o essencial possa ocorrer. Por isso os filhos dos agressores frequentemente se tornam vítimas e procuram como vítimas. Como isso pode ser realizado de modo eficiente? Agora o culpado pode. Ambos. por sua vez.podem enfim se reencontrar e se reconciliar? Com a ajuda dos últimos membros de sua corrente de gerações. Algumas vezes acontece o contrário: filhos de agressores tornam-se agressores. mas como vítimas ficam zangadas com os agressores e deste modo se transformam em ambos. sentem a energia do agressor e procuram como agressores pelas vítimas. Eles são principalmente os filhos e os netos. para sua vítima. incluir ele mesmo a vítima em seu campo de visão. aguarda humildemente até que a vítima lhe conceda um lugar ao seu lado e com isso também ao culpado que o descendente está representando nesse momento. foram envolvidos nesta culpa. não deseja olhar nos olhos da vítima. Isso significa que um descendente do culpado olha em seu lugar. apesar de o culpado e a vítima permanecerem vinculados um ao outro. acima de tudo. que. Mas as consequências da culpa não param por aí. A separação entre o culpado e sua vítima é mantida viva internamente e ao mesmo tempo vivenciada e continuada em público na forma de conflitos e guerras secundárias. tanto para o culpado como para aquele que é prejudicado ou até aniquilado por ela. tendem a se evitar mutuamente ao invés de irem um ao encontro do outro. Mas. muitas vezes se tornam agressores. expõem-se . Muitas vezes a vítima acusa o culpado e fica zangada com ele e o culpado talvez não queira admitir sua culpa e até a justifica. Os filhos das vítimas. sente-se envergonhado e fecha seu coração ao seu sofrimento. principalmente quando se trata de um dano grave. que talvez até tenha custado a vida da vítima. principalmente aqueles que desejam vingar outras vítimas sentindo-se deste modo também como vítimas e. apesar de inocentes. agressor e vítima. seus descendentes acabam ocupando a brecha e tentam preenchêla. através de seu descendente que já iniciou o movimento em direção à vitima. Porque o culpado e sua vítima não reconhecem que pertencem um ao outro nos sentimentos e ações. Porém. até que o veja realmente. vítimas e agressores. Como então aqueles que estão separados . ele e sua vítima. Ela gera algo inevitável. os agressores. Muitas vezes têm efeito sobre várias gerações e atingem pessoas totalmente inocentes tanto na linhagem do culpado como na linhagem de sua vítima. Após o dano provocado ambos permanecem ligados e não conseguem se desvencilhar um do outro.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 47 A culpa é um acontecimento com amplas consequências. com amor e arrependimento.

a sina da vítima. Porém. o culpado. Algo semelhante ocorre no final da corrente de gerações da vítima. Qual é o resultado? Todos os participantes. No âmbito da alma ambos. Quando então a vítima vê seu filho. Tudo isso não se realiza apenas na imaginação. apesar dos destinos diferentes. ela se abranda com a ajuda desse descendente. encontram-se verdadeiramente vinculados através desse movimento. Então a culpa não se oporia ao divino mas seria divina em sua essência? Quando nos deixamos tocar por essa ideia. mesmo quando um ou ambos já faleceram há muito tempo. a nossa imagem de Deus torna-se menor ou maior? E o que essa imagem faz conosco? A SOMBRA A sombra forma-se onde há um impedimento para a luz. posicionando-se com ele. Um descendente da vítima olha em seu lugar com amor para o culpado. sua vítima e todos seus descendentes que se encontravam emaranhados nas consequências dessa culpa. de uma outra forma.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 48 juntamente à dor e ao luto sobre o que ocorreu entre os dois. reconhecem simultaneamente que. ultrapassa a imagem literal e . submete-se junto com ele ao poder que age de modo diferente sobre os dois e perante esse poder se torna semelhante ao culpado. Por isso aquilo que está na sombra espera . os culpados e suas vítimas a partir de um novo ângulo. sobretudo. reconhece a sua ligação fatal com o culpado. tão verdadeiramente que aquilo que passou há muito tempo pode ser incluído aqui e agora no campo de visão de ambos e o incompleto pode ser concluído. a sina do agressor e para o outro. principalmente aquelas de natureza moral. de modo mais misericordioso e suave. encontram-se vinculados um ao outro e no fundo são iguais. submetem-se ao seu destino especial . olham para a vida e para as ordens que vinculam as pessoas umas às outras.o agressor como agressor e a vítima como vítima e assim desfazem a separação que existe entre eles. Reconhecem que seus destinos encontram-se vinculados e submetem-se juntos ao poder que reservou sinais diferentes para ambos: para um. À medida que se submetem juntos a esse poder. Aqueles que antes estavam separados tornam-se menos humanos quando se encontram ou talvez mais humanos? Será que a culpa e suas consequências acabam gerando um efeito curativo? Será que a culpa e suas consequências acabam aproximando mais as pessoas do que antes da culpa? A culpa então talvez seja um desejo divino? Vemos o divino sob uma perspectiva totalmente diferente e temos que vê-lo de modo diverso do que costumávamos e desejávamos? Então a culpa acaba estando a serviço do ser humano e de sua completude —e a serviço de Deus. seu neto ou até um descendente posterior ao lado do culpado. de uma forma purificada: com menos exigências. o descendente perante a sua vítima. até que na presença deste amor. este seja tomado pela dor. Veem.é o que imaginamos — vir à luz.

Faz parte da sombra que desejamos proteger da luz. é ela que causa o ponto de virada decisivo. da qual por vezes desejamos até nos livrar. talvez não encontremos a paz até procurarmos e encontrarmos estas sombras no reino dos mortos como uma parte nossa. no entanto. É claro que estas ideias são um tanto ousadas. dizemos igualmente que o lado luminoso e o lado sombrio de um ser humano se encontram próximos. Assim curamo-nos através de sua presença. acolhidas com amor. não apenas define a luz. à qual negamos o direito de pertencimento. a sombra se manifesta e nos assusta e também os outros. sem as termos acolhido em vida. A sombra que pretendemos ocultar. Então precisamos ocultar a luminosidade da sombra para que esta não a apague. iluminado e especialmente bom. também no caso do ser humano. também o instinto e tudo aquilo que se subtrai ao nosso controle. igualmente tudo aquilo que ameaça o nosso pertencimento a nossa família. negadas. se morrermos carregando essas sombras. Elas se manifestam em nós a partir de nossa sombra. quando a situação exige. Essa sombra não pode ser trazida à luz. por exemplo. Porém. Jung fala da sombra como a face obscura de nosso ser que se desvia da luz. Trata-se frequentemente também de pessoas em relação às quais cometemos alguma falta. já os estimamos tanto aqui como após a nossa morte. principalmente ao nosso controle moral. nas nossas sombras. que foram esquecidas. pois atua em nós como uma força apenas por estar velada. pois nos parece tão irreverente e ameaçadora. Por isso. muitas vezes não é algo individual. incluídas novamente na família. Mas aqui o lado sombrio não é apenas obscuro ou negro. Abriga muitas vezes a própria força. mas aguça igualmente o seu contraste. o impulso assassino que habita em nós. Fazem parte dessa sombra o mal. Usamos a imagem de luz e sombra de diversas formas. de sua faceta sombria. do reino dos mortos.G. Às vezes. Ninguém precisa considerá-las comprováveis ou até já comprovadas. ocultadas.os como hóspedes longamente aguardados e permitindo que fiquem conosco o tempo que desejarem. Essa sombra refere-se mais a pessoas do reino das sombras. lá seremos até . até nos unirmos e nos reconciliarmos com elas. Porém. a sombra não se refere tanto a nós. nosso coração e nossa alma para os mortos do reino das sombras. permitindo sua entrada. também o pertencimento a outros grupos importantes ou pessoas em relação às quais nos percebemos dependentes e entregues. desejam ser consideradas por nós. julgadas e excluídas por nossa família. mas mais àquilo que se propõe a ser luminoso. é a sua face velada. não somente a torna mais luminosa. face esta que preferimos ocultar ou negar e que não queremos admitir. Só eventualmente. saudadas e recebidas como iguais. C. a agressividade. fazem parte da sombra também a nossa culpa pessoal e suas consequências. Por isso. Nesse sentido a sombra é parte imprescindível da luz. inteiros. recebendo. Mas ajudam-nos a tornar essas conclusões posteriores desnecessárias. se abrirmos já agora. tornamo-nos completos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 49 tem um sentido figurado. Falamos. nesta vida.

por exemplo. assim como é. ao afeto e à companhia de outras pessoas. como fica a questão do bom e do mau. Significa igualmente que. em relação ao ar. Quando admito que lá no fundo somos parecidos e iguais. O IGUAL 0 igual é diferente. podemos estabelecer relacionamentos mais profundos com o outro como ser humano quando reconhecemos as diferenças dentro da igualdade e quando reconhecemos a igualdade através das diferenças. por exemplo. como se fosse diferente ou melhor. somos iguais para além de todas as diferenças externas e internas. Por isso podemos reconhecer o outro como igual a nós se antes o percebermos e reconhecermos como alguém diferente de nós. por exemplo. acabam formando uma unidade indissolúvel? Como poderíamos mudar nosso comportamento. da inocência e da culpa. Ela continua perigosa . Temos também as mesmas capacidades. dos agressores e das vítimas? São tão diferentes que acabam sendo iguais? O assim chamado Deus e o assim chamado Diabo também não são iguais? E a luz e a escuridão. de passar adiante a vida para os filhos. À medida que nos reconhecemos mutuamente como iguais. através do nascimento e da morte. honramos um ao outro. Possuímos as mesmas necessidades básicas. E. encontramo-nos submetidos ao mesmo destino. no que se refere ao essencial. no final. porém. Então não terei mais que me defender internamente.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 50 bem-vindos da mesma forma que os recebemos aqui e seremos conduzidos por eles e com eles até a verdadeira luz. algo atua em nós quando consideramos o outro igual e nos apresentamos a ele como igual e nos comportamos de acordo. como poderíamos amar de modo tão diverso. não poderiam ser iguais. ao alimento. viver e morrer de forma tão diversa? E como poderíamos ser tão devotos se conseguíssemos permanecer serenos perante essas diferenças. como algo equivalente e amá-lo com o mesmo amor? OS ASSASSINOS Como alcanço a paz interna? Quando me coloco ao lado dos assassinos como um deles. caso contrário não seria possível fazer comparações. Encaro a minha verdadeira face. Por isso. a luz que brilha para nós como luz eterna. perante a lei ou perante Deus. Se não fossem diferentes uma das outras. meus pensamentos mais íntimos e meu temor mais profundo. porém sem negar ou desistir de nossas diferenças. E. Aqui ser igual significa ser igual perante algo que nos transcende. a vida e a morte no fundo não acabam sendo iguais. a agressividade assassina dentro de mim se torna uma força serena. Porque os encaro. em muitos sentidos. Apenas pessoas diferentes são iguais. de modo que apenas aparentam ser diferentes e opostos. por exemplo. mesmo assim. Porém. tendo a coragem para concordar com a igualdade? E se conseguíssemos experimentar tudo.

ao mesmo tempo. procura destruir os outros velada ou abertamente. Posso freá-la assim como um cocheiro a seus cavalos. na verdade. que tanto se ocultam como se revelam através dela. em todas as suas manifestações. A arrogância termina quando não precisamos mais nos enganar mutuamente. que procura tirá-los de seu caminho. sem nenhuma arrogância. A MORAL Muitas vezes esconde-se por trás da moral uma verdade diametralmente oposta a ela ou então um anseio ou um desejo que não pode vir à luz. a força motriz. esta verdade e este anseio não podem ser totalmente ocultados e vêm à tona através da própria moral. mais próxima ou mais afastada. isso é igualmente uma luta. O que ocorre então com Deus e com nossas imagens de Deus? Nelas ele é o maior assassino.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 51 e por isso os outros continuam tendo medo de mim. Sabemos que ambos estamos ameaçados e ao mesmo tempo ameaçamos e encontramos caminhos para fazer um melhor uso dessa força. aquele que fez de tudo para pertencer muitas vezes torna-se arrogante. humana ou desumana. Porém. Porém. de modo que no final alcança o oposto daquilo que desejava alcançar através de sua moral: os outros evitam-no e ele se torna solitário. Eleva-se através de sua moral sobre os outros. Porém. e por outro ela está a meu serviço. pois ela também é uma variante da agressão assassina. Por trás da moral que experimentamos como exigente. Pois a vida é. até mesmo o Deus do amor revela a maior força assassina. por trás destas motivações. sucesso e vitória. No entanto. sente-se melhor do que eles. A verdade recalcada ou rejeitada. apagá-los e exterminá-los é. deseja que sejam punidos. oculta-se muitas vezes o medo de sermos excluídos ou o desejo de pertencimento. destruidora e. por um lado não estou entregue a ela. Por isso essa moral é sempre uma moral dupla. na moral ou na falta de moral. Dependendo das verdades ou dos desejos. mas ela não me assalta mais. Não importa onde essa batalha ocorre: nas guerras pequenas ou amplas. amável ou ameaçadora. pois sem esta força mesmo o bem e o amor se tornam fracos. Então fica zangado com aqueles que a seus olhos são menos moralistas ou imorais. não engano mais a mim nem aos outros. no engano e na calúnia. essa moral nos parece diferente: por exemplo. o sentimento original. que fazem o trabalho árduo no seu lugar. os desejos ocultos e o anseio velado acabam transparecendo através dela. cultiva ideias invejosas em relação a eles e algumas vezes deseja inclusive exterminá-los. a serviço de Deus ou do lucro. Então. A agressão assassina que. na euforia em torno de ideais sublimes ou na traição. portadora de uma energia assassina. simultaneamente sente inveja e por isso os rejeita. Por isso. são . Somos capazes de superar tais imagens? Será que as outras imagens que criamos a seu respeito não são apenas uma tentativa vã de banirmos o temor perante seus pensamentos e ameaças assassinas? Não podemos. Pois sem essa agressão assassina não há competição.

não necessita ocultar nada. assumimos secretamente o papel daquilo que atua através do que é contemplado. A segunda moral inclui em seu amor também as pessoas que têm a primeira moral. ocorre o oposto. pois parece que aquilo que mais deseja lhe é negado. A contemplação humilde e paciente nos vincula mesmo quando questiona tanto aquilo que contemplamos como a nós mesmos. a moral também tem a ver com a religião. Toma posse de nós e também nos assusta. sem criar nenhuma imagem a seu respeito. Naturalmente. No entanto. porém não sabemos para onde. tendem a se sentir pequenas e não grandes. A CONTEMPLAÇÃO O simples ato de contemplarmos algo. a segunda abre mão destas diferenciações. Com isso assumimos a condução. Eu a chamo de segunda moral. Então passamos a nos contemplar também dessa forma. Porém. revela-se mais forte. no entanto. pelo menos no início. sendo assim a favor de um e contra o outro. pois reconhece sua necessidade e seu desespero. algo de que o objeto contemplado depende. desse modo perdemos o acesso à realidade daquilo que contemplamos e o acesso às forças criativas a que estamos a serviço. Elas também são solitárias. Enquanto a primeira moral não se opõe somente a tudo aquilo que deseja corrigir. Através daquilo que contemplamos algo atua. concede a cada um o seu espaço e lhe permite que siga seu caminho.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 52 principalmente as pessoas moralistas que cultivam relações de inimizade. sem desejar compreendê-lo ou avaliá-lo. experimentados e conduzidos por nós mesmos. A moral tem a ver com a religião? Afirma-se frequentemente que a moral é protegida e resguardada pela religião. Essas pessoas moralistas tendem a ser mais tristes do que maldosas. a segunda moral permanece voltada para tudo. pois vê em tudo primeiramente as semelhanças. Contudo. quando assumimos uma posição frente àquilo que contemplamos. mas entregaram-se ao seu destino. assume a condução. conectando aquilo que está separado. Existe. sujeitamos aquilo que contemplamos. somos tomados. Este outro impõe-se. mas também àquilo que já corrigiu. Ao contrário da primeira moral. Então. Enquanto a primeira moral diferencia entre certo e errado e entre bom e mau. . colocamo-nos no seu lugar e elevamo-nos tanto sobre aquilo que contemplamos como também sobre aquilo que nos toca e nos leva a refletir. a segunda moral está de acordo com tudo tal como é. sujeita-nos àquilo que contemplamos. apenas a segunda. Pois trata-se do amor em relação aos outros como são. Frequentemente ocultam-se por trás da moral de uma pessoa também a falta de esperança e o desespero. uma moral totalmente diferente. a segunda inclui. Enquanto a primeira moral muitas vezes exclui. faz com que fiquemos admirados e parados. Enquanto a primeira moral deseja corrigir. relacionando-o com outras questões. ela não interfere. Aquilo que é contemplado deste modo. enquadrando-o com algo conhecido.

Está dedicada. Aqui me refiro a uma retirada no sentido de uma realização. Mas é justamente essa desconfiança que provoca aquilo que teme que aconteça. enquanto permanece. entrando nessa esfera. Está presente. algumas vezes acha graça de algo e descansa em si mesma. de forma pura e sem desejos. porém. sem que se sintam obrigados. Justamente por isso acaba revelando suas profundezas. O essencial foi realizado.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 53 Essa contemplação é serena. algo concluído e mesmo assim atua como uma força silenciosa. representa um ganho para muitos. Pelo contrário. Mas talvez justamente por isso ele seja aquele que realiza tudo de um modo especial e totalmente diverso. Abre a alma para compreensões que. está acolhido. também os conflitos e a luta por soluções e o investimento em objetivos sublimes. permanecem. Somente a sua retirada nos torna receptíveis e preparados para o inacessível e o inominável. à distância. Alcançou o seu objetivo. A RETIRADA Retirar-se pode ter vários sentidos. Mas ela não foge. pois em sua presença sentem-se livres. Os outros podem orientar-se a partir dele. Ao invés de encarar o outro totalmente . mas ainda sem intervir. Permanece lá. Nós nos expomos a ele tal como é. Pelo contrário. que inclusive vem ao nosso encontro. acabaram ficando no pano de fundo. Isso significa que aquilo que teme começa em sua própria alma. Essas compreensões transformam experiências passadas que. Esta contemplação transforma-se em oração. aberto. não se perdeu. que cultiva a desconfiança em relação ao outro. A DESCONFIANÇA Aquele que não consegue confiar. a tarefa central efetuada. O contrário da desconfiança seria a confiança. mesmo imergindo. a alma já se sente próxima de sua meta. Desse modo ela empobrece? Não. mas agora de uma forma diferente. Pois tudo que contemplamos dessa forma nos conduz ao mesmo centro que tudo sustenta e tudo conduz. Observa de modo benevolente e sereno o mundo em ação. sem desejos e. Sua presença é benéfica. Aquilo que foi deixado para trás é experimentado como plenitude. espera que sua desconfiança seja confirmada. muito para além de nossas imagens e desejos. Necessita somente de pouco e de poucos. sem medo. é atraído pela nossa desconfiança. Aquele que se retira deste modo. Esta retirada é rica. na vida cotidiana. por fim. como felicidade. encontraria dificuldades diante de nossa desconfiança. Dizemos igualmente que Deus se retirou. Aquilo que ela deixou para trás. Mesmo se desejasse comportar-se de forma diferente e o fizesse. pois já se desapegou. O outro que corresponde a nossa desconfiança. sua força e também o mistério que nos ameaça.

De que forma? Através da confiança. Porém. Assim como a desconfiança. por exemplo. alegramo-nos quando vemos o bem entre eles.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 54 armados. apesar de se retrair. Realizamos o sentido da vida à medida que a protegemos. Pois o resultado de uma ação é determinado pelo objetivo. Começou em sua própria alma. Sendo assim. Ele deixa cair suas armas e entra na esfera de nossa confiança. se a continuação de nossa vida obstruir o caminho de uma nova vida. Nós. Estamos a serviço da vida à medida que vivemos. como se estivesse esperando por isso. O SENTIDO Quem pergunta pelo sentido. Quem cultiva a desconfiança em relação às outras pessoas. Isso significa que esperamos algo bom dos outros e do nosso destino. porém. sem que possamos alcançá-lo e . Agimos porque queremos alcançar algo que ainda se encontra além de nós. presumindo e esperando coisas boas. Também aqui provocamos algo no outro. Pois a desconfiança contamina. Pois de acordo com aquilo que nos é possível vivenciar. Muitas pessoas que antes eram ingênuas. Isso nos deixa amáveis com eles. pergunta: para quê? Por exemplo: para que existo? Pergunta com isso pelo sentido de sua vida. cedemos serenamente nosso espaço a ela. ao destino e a Deus. o incompreensível encontra-se muito próximo. tornam-se desconfiadas através de outras. O INCOMPREENSÍVEL Incompreensível é aquilo que se retrai quando pretendemos apanhá-lo ou compreendêlo. a reviravolta em direção ao bem se inicia igualmente em sua alma. Porém. Ele nos apanha e não nos larga mais. Mas não de modo passivo. crianças. Caso contrário seriamos assim como os outros sem desconfiança e sem bondade. será esta a maneira de questionarmos o sentido da vida? Talvez nós sejamos o sentido da vida justamente porque vivemos. Algumas pessoas são ingênuas. nós o encaramos de peito aberto. Assim a vida só faria sentido a partir de um objetivo. Protege-se contra ela e justamente por isso atrai o que é nocivo. desejamos de coração o bem aos outros. A desconfiança atua como um veneno que empobrece e atrofia as relações humanas. a vida tem apenas um sentido: o da continuação. essa confiança benevolente também contamina. Eu também posso questionar: aquilo que realizo em minha vida está a serviço de algo maior no futuro? Assim a minha vida teria sentido apenas se este objetivo fosse cumprido. passamos adiante e finalmente. Somos atraídos por ele. Mas esse algo nocivo não o atinge de fora.a igualmente em relação à vida. alegramo-nos com seu sucesso e sua felicidade. desenvolvemos. cultiva. Respira aliviado quando é atingido. até que as tornamos desconfiadas. desarmados. Contamina inclusive o destino. É um veneno para o amor.

dedicando-nos a tudo tal como é. Não se retira para longe. humano. diferenciamos o que procura nos afastar da terra e da finitude na forma de substitutivos. pensamos. força-nos ao crescimento. firmes perante falsos símbolos. agradecemos. o sacrifício. tudo permanece grande. conectados e ao mesmo tempo livres. protegidos da luz brilhante que cega ao invés de revelar. focados no presente. nos são e permanecem incompreensíveis. Está presente. mas centrados. poderoso e. purificados. nos impõe um limite. independente de quão grande. Desafia-nos. dizemos em relação a Deus e tudo que celebramos. esperamos. não somos mais seduzíveis por sonhos humanos. ofertas sedutoras ou esperanças e permanecemos na escuridão. as grandes obras e os cantos em louvor a ele de repente se tornam vazios. É aquele que tudo abrange. assim como o mar jamais pode ser um igual perante aquilo que nele se movimenta. . aparentemente implacável. permite-nos um amplo espaço e. passageiro. E estamos estranhamente sóbrios. completos e. quando a escuridão se desfaz. Somente nela é que realmente existimos. Tudo que permanece é algo próximo. porém jamais será apossado por ninguém. belos. nulos. Dissolve-se. surpreendentemente revigorados. consolos. Tudo que fazemos em direção a Deus. mesmo que possa ser pressentido naquilo que ainda pode ser revelado e realizado. medos e ameaças. a oração. Joga conosco. Estamos perdidos quando estamos na noite escura? Não. quando todos aqueles que amamos e também aqueles que o nosso amor não é capaz de alcançar. Somente quando permanecemos incompreensíveis para nós mesmos. esclarecidos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 55 deste modo permanecemos dentro de sua esfera. Conseguimos ver além dos símbolos e imagens que nos são oferecidos para serem colocados no lugar de Deus. mas jamais contra nós. íntegros. muitas vezes. Mas este incompreensível. É a noite onde tudo que desejamos. algo que está sob ameaça e justo por isso torna-se infinitamente valioso. O incompreensível permanece misterioso. Somos tomados por este incompreensível e apenas com ele nós nos encontramos. vamos ao encontro dos outros de uma nova forma: próximos. a renúncia. intuímos. Somente na escuridão despertamos. abertos e simultaneamente limitados em relação a tudo. Não. a ele vinculados e abertos para tudo aquilo com que nos presenteia e que exige de nós. Somos tomados e simultaneamente sustentados por ele. Estamos em suas mãos e ao mesmo tempo nos sentimos acolhidos por ele. O incompreensível também somos nós mesmos. louvamos e amamos se recolhe na escuridão. como se talvez quisesse voltar. E é na noite escura que conhecemos a alegria. permanece voltado para nós. a expiação. de repente. Perante nós não é um igual. Nesta noite escura somos perpassados pela luz. retira-se sem deixar nenhum rastro. A NOITE ESCURA A noite escura é a noite divina.

Qual a melhor forma de reconhecermos nossos limites? Quando permanecemos em sintonia conosco. revelam-se distantes da realidade e carentes da força necessária para a sua realização. desde que reconheçamos os nossos limites. mais modesto e talvez mais substancial do que aqueles que compreendem ou talvez até possuam Deus e que desejam colocá-lo a seu serviço. quando chegam no limite. Nos nossos limites tornamo-nos modestos e compassivos. a partir do reconhecimento de seus . coloca-os em seu devido lugar. aquele que deseja ultrapassar seus limites fica cada vez mais fraco quando está além deles. Tornamo-nos mais ou menos perante os nossos limites? Aquilo ao que precisamos renunciar acaba se tornando uma bênção. Ao mesmo tempo a pessoa humilde protege seus limites contra invasores externos. Eles sentem-se seguros em relação a ele e podem conviver com ele de igual para igual. a longo prazo. Fica solitário. humilha-os dessa forma até que estes acabam respeitando os limites dos outros. quando renunciamos livre e espontaneamente. Tornase religioso. conscientes daquilo que é verdadeiramente possível para nós. Pois religiosidade significa reconhecer a nossa própria impotência e nos submeter aos seus limites. É surpreendente. A HUMILDADE Humilde é aquele que permanece dentro de seus limites. mas é justamente esta impotência que nos torna receptivos para o que há de essencial. Nos nossos limites crescemos através dos outros. Deste modo perde aquilo que desejava obter e. submetendo-nos a eles. perde inclusive aquilo que obteria se tivesse considerado e reconhecido os seus limites e parado perante eles. com nossas possibilidades e com as outras pessoas. obtém força. os outros o evitam e até chegam a lutar contra ele. Nossos planos exuberantes e nossas boas intenções que às vezes são um tanto pretensiosas.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 56 OS LIMITES Quem chega aos seus limites. Nossas ideias sobre Deus ou sobre o divino ou sobre o sentido do mundo e da vida também fazem parte disso. Mas principalmente quando permanecemos em sintonia com o tempo limitado a nossa disposição. das circunstâncias e do tempo que temos a nossa disposição. Deste modo obtemos uma força especial. uma força que conquista os outros. toma consciência de sua dependência de outras pessoas. Quem permanece dentro de seus limites. E também quando reconhecemos e respeitamos os limites de nossas ideias e nossos desejos. Pois são justo as nossas ideias que facilmente se tornam desmedidas e pretensiosas. Inversamente. Os limites nos colocam em nosso devido lugar. Por isso não ameaça os outros em seus limites.

humildade significa estar e permanecer em sintonia com os outros. Pois é justamente através dos pensamentos que ultrapassamos de modo leviano e muitas vezes arrogante os limites que nos foram impostos. de baixo. Também não avança. A humildade é irmã da sabedoria. via de regra. quando os meios que são investidos transcendem o estritamente necessário. a resistência parte. No fundo. Essa forma de humildade é forte e impõe respeito. Quando ela não é legítima. Também aqui a pessoa humilde permanece dentro dos limites impostos a ela e desse modo recebe tudo o que pode ser obtido e alcançado dentro desses limites. porque não irá tão longe. quando exigida. não tenta diminuí-lo nem ultrapassá-lo. nem anda para trás porque não recua. em ultima instância. Algumas vezes aquele que oferece resistência deseja obter o poder. A pessoa humilde mantém o equilíbrio. Por isso os pensamentos humildes permanecem sempre no presente. Quais são os nossos pensamentos e desejos mais exagerados? Com que pensamentos e desejos nos afastamos de nossa realidade e de seus limites? Com nossos pensamentos sobre Deus e nossos desejos de tomar posse e usufruir dele. suportando-os de coração aberto e sem nenhum desejo. Podemos exercitar a humildade? E por onde devemos começar este exercício? Pelos pensamentos. Pois assim como a sabedoria. comprometendo-se um com o . descobre o que. Através da resistência inicia-se um jogo de forças que acaba levando ao equilíbrio no qual os dois partidos passam a se respeitar mutuamente. Aquele cujos pensamentos permanecem naquilo que está próximo. Permanecer humilde em nossos pensamentos significa concentrarmos nossos pensamentos somente naquilo que é passível de ser experimentado e compreendido por nós. Nós a experimentamos na forma da devoção. Onde se encontram os limites de nossos pensamentos? Dentro da realidade como ela se manifesta. a humildade exige de nós e qual a força que oferece e exige. também precisamos oferecer resistência a essa resistência. A resistência impõe um limite aos poderosos e ao seu poder. A maior humildade é nos determos diante de nossos limites. Esse tipo de resistência manifesta-se principalmente quando os poderosos abusam do poder. à humildade do desejo e do querer. a força necessária para a ação. Ela tem a maior força.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 57 próprios limites. A RESISTÊNCIA A resistência fortalece e desafia. Permanecendo dentro de seus limites pode manter aquilo que alcançou não precisando perdê-lo. a humildade também é um filho da compreensão. A felicidade foge apenas daquele que comete excessos. Por isso. A pessoa humilde não ultrapassa seus limites. por isso não se esgota. a sua resistência está a serviço de uma revolução que pode ser legítima ou não. Sendo assim. Permanece centrada e possui. Encontra-se intimamente vinculado à humildade dos pensamentos.

Por isso o confronto através dos pensamentos e. Por isso a resistência manifesta-se contra essas pessoas ou instituições. Por isso. a resistência contra determinadas ideias ou afirmações muitas vezes têm como pano de fundo questões ligadas ao poder e à política. Isso significa que mostram Deus como uma figura humanizada. Encontramos essa forma extrema de punição dos rebeldes que expressam a sua resistência através de suas ideias. mas igualmente à . Porém. acaba sendo sufocado pelos poderosos. de modo que após um tempo a resistência inicia-se novamente contra o poder vitorioso. desmascarando a sua inconsistência perante certas experiências e perante a razão. É. que aqueles que as defendem. quando ameaça também o poder. submete e supera o outro. a liberdade de pensamento acabou sendo reconhecida como direito humano básico. a resistência contra o seu Deus. este confronto é punido. aquele que propaga essas ideias acaba se colocando no lugar de Deus e aquele que persegue aqueles que dela se desviam. a perseguição e a difamação daqueles que pensam de forma diferente. Por isso. Atualmente continua presente no Islamismo. O maior desejo de poder que existe por trás de certas ideias se revela através da afirmação de que elas provêm de Deus. resistindo contra seus pensamentos ou ensinamentos e contra as ―verdades‖ pregadas por elas. ensinamentos. Também os pregadores de sua ―verdade‖ em seu nome. vingativo e punitivo. convicções ou ―verdades‖ religiosas e um jogo de forças com o poder. que confia estes ensinamentos a determinadas pessoas ou associações. ou um dos dois partidos vence. Mas de que figura se trata na realidade? Ela se opõe não somente à natureza divina. as defendem em nome de Deus e que podem condenar e perseguir em nome de Deus aqueles que delas desviam ou as questionam. naquelas ditaduras que buscam também impor uma visão de mundo como o nacional-socialismo e o comunismo. Quando o poder é suficientemente forte. Assim como a vigilância. os persegue em nome de Deus. por exemplo como ciumento. O Iluminismo e suas novas ideias podem ser considerados uma revolução pacífica. Isso significa que um confronto aberto. continuando no presente. porém de forma mais amena. mostram Deus como uma figura humana. Sendo assim. nesse sentido. trata-se de resistência contra que Deus? Por vezes dizemos que as imagens que fazemos de Deus são antropomorfas. através do Iluminismo. as pregam em nome de Deus. Ele questionou muitas convicções e dogmas religiosos. algumas vezes até através da morte. enfraquecendo desse modo decididamente o poder da Igreja. a resistência contra essas ideias ou a tentativa de desmascarar a sua origem com a ajuda do Iluminismo não é somente a resistência contra o seu pregador. Em muitas nações. a luta pela hegemonia das próprias ideias e convicções ainda continua em outro âmbito. Antigamente a perseguição daqueles que pensavam de modo diferente também acontecia no Cristianismo. Porém. uma revolução começa principalmente através de novas ideias e convicções que buscam impor-se em relação a ideias e convicções anteriores.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 58 outro. principalmente. de que aqueles que as pregam. Existe igualmente um jogo de poder entre pensamentos.

nem cada um ao seu irmão.17)” . (Jr. eu serei o seu Deus. como é anunciada pelo Cristianismo. Heb. que coloca os próprios pregadores em seu devido lugar.33-34. porque todos me conhecerão. lhes imprimirei as minhas leis. Essa frase se encontra tanto no Antigo como no Novo Testamento: “Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo. 10. diz o Senhor. 31. Quem teme esse Deus e por isso não tem a coragem de se opor a ele e àqueles que o pregam acaba também sem coragem de discernir entre as doutrinas que correspondem ou não à experiência e razão humanas. também no coração lhas inscreverei. e eles serão o meu povo. diz o Senhor: Na mente. dizendo: Conhece o Senhor. depois daqueles dias. Felizmente existe uma frase atribuída a Deus. desde o menor até o maior deles.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 59 natureza humana.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 60 "O CENTRO QUE TUDO TRANSCENDE" .

principalmente em um relacionamento. não se trata mais da verdade e sim do poder. se é que ele realmente existe. Quando duvidamos até mesmo de sua existência ou desconsideramos qualquer forma de conhecimento sobre ele. Quando essa desconfiança é percebida. Dessa maneira. quando os pais investigam demais a vida dos filhos. não tenho certeza se uma afirmação ou declaração. Pois. Quando tenho uma dúvida procuro critérios que me ajudem a tomar a decisão correta e a me certificar se algo é verdadeiro ou se devo ou não acreditar em uma certa pessoa. Converter a quê? A uma verdade ou a si mesmo? Em situações onde sentimos zelo. Assim. como se soubessem algo sobre ele? Talvez até seja assim: quanto mais duvidamos daquilo que é pensado e dito sobre ele. Qual é o efeito da dúvida? Ela faz com que eu verifique algo com mais cuidado. nós mesmos. Por exemplo. E acima de tudo. devemos tomar cuidado para não querer. quando a dúvida cresce exageradamente. Alguns duvidam de Deus. no relacionamento entre pais e filhos. Através do efeito de determinadas situações. isso faz com que se esconda ainda mais as coisas. Muitas coisas permanecem veladas e somos capazes de perceber apenas seu efeito.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 61 A DÚVIDA Estar em dúvida significa que não tenho certeza. ela se transforma em desconfiança. que tenha um conhecimento exato de uma situação ou se isso poderia me causar algum mal. que me detenha por um primeiro momento antes de definir o próximo passo. converter ninguém. Assim. buscando alternativas e comparando-as entre si. mais honramos a ele. ficamos abertos e amplos perante o mundo que nos é revelado. se correspondem a um fato ou são apenas provisória e parcialmente corretos ou até mesmo errados. se uma decisão ou um modo de proceder foi correto e se estou no caminho certo para alcançar o que busco. Também não posso ter certeza de que as pessoas que afirmam ou declaram algo estejam falando a verdade ou se estão me enganando. Por exemplo. Também posso verificar em mim mesmo se é importante para mim que eu saiba algo. porém no nosso centro. Experimentamo-nos totalmente direcionados a ele. Às vezes tenho dúvidas a respeito de mim mesmo. A dúvida é apropriada principalmente quando alguém quer converter os outros. é importante ser cauteloso e encontrar estratégias capazes de ajudar-nos a nos afastar ao máximo desse poder. embora nem sempre seja possível fazer uma verificação precisa. me pergunto se me enganei. encontramos o caminho para uma devoção que nos sintoniza . uma compreensão ou reconhecimento estão corretos. voltados a ele. De verdade? Será que é possível duvidar dele? Ou será que duvidamos daquilo que as pessoas dizem sobre ele. prejudicando ou querendo exercer algum poder sobre mim. a dúvida me torna cauteloso e me impede de avançar demais na direção errada. frequentemente é possível verificar até que ponto essas dúvidas são verdadeiras ou úteis. sem contudo duvidar dele.

A pureza libera esses dois tipos de pensamento. Em relação a Deus ela é. Pois isso também é perante Deus — aliás. Algo está puro quando lhe é retirado algo. como se eu mesmo estivesse a serviço de Deus e por isso devesse alertar os outros. Nós nos desprendemos de tudo através do recolhimento e ficamos vazios. Além do mais corremos mais perigo de nos tornarmos impuros ao falar de Deus quando o tratamos como se fossemos amigos íntimos ou quando pretendemos ser seu servidor ou escolhido por ele ou até mesmo seus mensageiros e representantes. sem que saibamos ou possamos denominá-la. Se Deus existe. A PUREZA Pureza significa purificado. também perante Deus. não há nada que possa nos afastar dele e tampouco nos levar a ele como se ele estivesse sentado em algum lugar fixo e pudéssemos nos aproximar ou nos distanciar dele. Cada pensamento a respeito dele.vazia. em todos os sentidos. é arrogância perante ele. O que significa ser impuro perante Deus? Primeiro. algo que não lhe pertence. não pensarmos nele. conseguimos isso somente em parte através do próprio exercício. Nossos pensamentos e nossas palavras podem ser puros assim como nossas intenções e nossas metas. A purificação que nos ilumina até que estejamos realmente puros. Perante quem podemos ser puros? Podemos ser puros perante outros seres humanos. Essa devoção é ao mesmo tempo entrega e veneração e está além de qualquer dúvida . sem pensar nele. Contudo. que possui tal ousadia. Então como é possível ser puro perante Deus. desprovida de pensamentos. Que escuridão precisa residir em uma alma.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 62 profundamente com aquilo que está ausente. retira dele a sua unicidade. pois como um pensamento poderia alcançar Deus ou afetá-lo? Por isso. só pode vir dele. pensamos de modo impuro quando refletimos a seu respeito ou temos qualquer tipo de pensamento sobre ele. deixando-a incapaz. E o que não lhe pertence? Algo estranho que se mistura com sua verdadeira essência. Isso também é um pensamento impuro. Contudo. perante nós mesmos. e que escuridão nas almas daqueles que os ouvem e acreditam neles? Aqui também estou falando novamente de forma impura. temos a sensação dolorida de que . deixando-a impura. Nosso amor e nossas ações também podem ser puros. posso usar realmente essa palavra aqui? — impuro. retirando sua beleza e seu valor. Acima de tudo nós mesmos podemos ser puros. por ser um pensamento humano. sem esperar algo dele. sem usar seu nome? Da mesma forma como quando ocorre a purificação. Receio que com estes pensamentos eu mesmo me tornei impuro. Nós nos desprendemos de tudo o máximo possível.

movimentamo-nos com calma. Mesmo parados estamos a caminho. a vida também está a caminho. despertos. mas. Procuram mas não encontram. Tão puros que até podemos nos desprender de Deus. Talvez aqui já tenhamos chegado ao lugar para onde nosso caminho nos leva. sem medo. em sintonia. só à primeira vista. Mas onde está esse verdadeiro ser durante a caminhada? Aqui também fica a pergunta: o que está a caminho senão o próprio ser? Imagino que seja algo assim quando alguém diz estar a caminho de Deus. através da sintonia. nossa alma também está a caminho num movimento contínuo de busca. caminhamos do próximo ao próximo. Assim. Pois. quando uma vida individual termina. impalpável para nós. com a certeza de alcançar aquele objetivo que no nosso íntimo sabemos que é o mais próximo. na renovação contínua. Pois. Porém. Quando estamos a . procriou-se. Estranhamente atingimos a tranquilidade. Somente quando determinadas circunstâncias exigem uma ação rápida. mas apenas objetivos próximos. no final. mesmo estando em busca de algo. sem nos prender a nada e com isso prontos para o oculto e o Último. Quando estamos em sintonia. Podemos dizer isso? Então Deus estaria distante de nós e estaríamos sem ele nessa caminhada. algo contra o qual não podemos lutar. A CAMINHO Estar a caminho geralmente significa estar a caminho em direção a um objetivo. quando estamos em sintonia. Vagam pelo espaço pois perderam a direção. sem pressa. até mesmo quando estamos no nosso centro. E até quando isso não ocorreu. estamos direcionados para algo e temos expectativas. no crescimento. porém. reagimos com rapidez. Portanto. Nada pode nos impedir de estar sempre a caminho. Quando estamos em sintonia não existem objetivos distantes. Também não sabemos se nossas vidas realmente alcançam seu objetivo final com a morte. mesmo assim gerou ou influenciou outras que continuam a existir e agir. À primeira vista parece que a vida caminha em direção à morte. nós nos reencontramos de uma forma que não podemos compreender. Outros dizem que estão a caminho de seu verdadeiro ser. permanecem inquietos e continuam na busca. na medida em que tudo em nosso corpo está constantemente a caminho. relaxados e puros. Talvez ainda estejamos a caminho depois dela. ao alcançá-los. Assim como tudo que surge. Contudo centrados. influenciou outra vida. Outros chegam até a definir objetivos e procuram por eles. na troca. por exemplo. esteve a seu serviço ou a prejudicou. Porém a questão é: de que maneira estamos a caminho e em que direção? Algumas pessoas estão a caminho sem um objetivo. mesmo após o seu término. Muitos dizem que estamos a caminho de Deus.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 63 algo nos controla. pois a vida realizou muitas coisas durante o seu caminho. prontos para ações e decisões essenciais. mesmo quando estamos parados. cresce e perece. voltados a tudo como é.

DESPRENDIDO Quando me desprendo de algo. no entanto. Às vezes. pisar numa igreja antiga. eles podem pertencer a outra pessoa. Isto é. o velho esconde algo bom. diferentemente em relação. Tudo que já pertenceu a alguém permanece vinculado a essa pessoa. numa cidade antiga ou numa nova.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 64 caminho. estamos muito mais profundamente presos a coisas que nos rodeiam do que imaginamos e gostaríamos. 0 mesmo ocorre quando me desprendo de objetos. outras vezes. Aqui também podemos perguntar: por que digo isso? Pois algo parecido acontece com pensamentos antigos. Por que digo isso? Porque. vazio. permanecermos sem ele? Então não deveríamos nos desprender completamente de muitos pensamentos antigos para não perdermos a conexão com ele? Talvez a solução vá ainda mais além. principalmente com pensamentos antigos sobre Deus. a algo novo. Isto vale principalmente para nossos relacionamentos com outras pessoas. Isso significa. Não devemos nos desprender também dos pensamentos novos que temos sobre ele e até dele próprio? Só assim estaríamos totalmente desprendidos dele e talvez verdadeiramente próximos a ele. tarefa ou propriedade. estou mais próximo ou mais distante? Depende do meu desprendimento. por exemplo. Esse objeto. É uma boa maneira de filhos se desprenderem de seus pais. que não exijo mais nada dessa pessoa. outras. devem de fato estar livres de mim. mas já não fermenta mais. sem nenhuma carga minha. Tem um gosto particularmente doce. Neste contexto. A partir do momento em que me desprendo dos mesmos. Devemos nos desprender desses pensamentos antigos? Temos permissão para isso? Mas o que acontece se o próprio Deus já tiver se desprendido desses pensamentos antigos e nós. porém sentimos. IMPORTANTE Importante é o que tem peso. Às vezes. muitas vezes. Quando me desprendo de alguém libero essa pessoa de mim. que pesa de tal maneira sobre nós que temos que fazer . o antigo é cheio. Pois o antigo nos faz exigências que temos que cumprir se quisermos possuí-lo. tarefas ou de uma propriedade. com nossos pensamentos antigos sobre ele. existe uma grande diferença entre mudar para uma casa antiga ou uma casa nova. já estamos no fim. Jesus utiliza a imagem do vinho velho em odres novos. algo pesado. não estarei desprendido de forma alguma daquilo que estou liberando e uma outra pessoa não poderá tomá-lo de mim de maneira desprendida. por exemplo. Assim. Então estamos ligados a algo antigo de uma forma que não podemos definir. Caso contrário.

Por esse motivo é importante para elas que atribuam a si mesmas a devida importância. tratando-se de necessidades físicas urgentes. Ainda assim sentimos que em todos os lugares atuam forças criativas. Então algo tem tamanha importância que prevalece sobre todo o resto e. atribuímos importância a Deus na medida em que reconhecemos que ele é inacessível para nós. Forças que não captamos. o peso é tanto que não permite adiamento. No entanto ganhamos em peso próprio. respeito a minha dignidade assim como a do outro. Por mais paradoxal que seja. De acordo com o peso que lhes é atribuído pessoalmente.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 65 algo para nos aliviarmos. mesmo que isso não tenha importância e peso. Por todas as partes encontramos mistérios que nos surpreendem . porém sem atribuirmos importância a nós mesmos diante dele. É claro que são afirmações ousadas. muito menos sem nos fazermos de importantes. Às vezes atribuímos importância a algo. de acordo com o seu peso. através do seu conhecimento e das suas conquistas e através do peso que lhes é atribuído de acordo com a responsabilidade que assumem por outros. mas que nos colocam e mantém em movimento. através de sua idade. pois insinuam que Deus comporta-se de maneira similar ao ser humano e que nós podemos nos comportar de maneira similar a ele como se ele fosse um ser humano. Às vezes. na mesma medida.se nos abrirmos a isso. que temos que reconhecer que não sabemos nem mesmo se ele existe. Assim sendo. por exemplo. Através desse ato de atribuir-se a devida importância. em primeira instância. pelo menos não da maneira como podemos imaginar. Somos importantes diante de Deus também? Talvez aqui também seja válido que sejamos importantes diante dele na medida em que ele é importante para nós e nós o honramos. Nunca diríamos isso ao se tratar da fome. Pessoas diferenciam-se de acordo com o seu peso. Às vezes atribuímos importância a nós mesmos e vemos isso também em outros. Aqui sabemos o que é importante e o que é primordial. experiência. mesmo que . Às vezes também como adultos temos que nos dar a importância que corresponde ao nosso peso dentro de um grupo e. temos que atribuir aos outros a importância de acordo com o seu peso. Quem se comporta de maneira indigna em relação a si próprio e aos outros normalmente possui pouco peso próprio. temos que nos comportar de tal forma como se existisse por trás de tudo uma força condutora e criativa. estando abertos para esses mistérios. Que o Último ao que às vezes atribuímos esse nome é tão inacessível para nós. da sede ou da necessidade de aliviar-se. Principalmente as crianças se dão importância e dessa maneira conquistam um lugar. aquilo que serve à sobrevivência. Neste caso estaríamos reduzidos a nossa medida humana diante dele e somente assim abertos para o impalpável. Nessa medida cada indivíduo deve se atribuir a devida importância assim como aos outros. sem sabermos como. E então dizemos a nós mesmos e também a outros: não dê tanta importância a isso. se ele for importante para nós. por exemplo.

E assim sendo são reconhecidos e tolerados. a não ser com um pretexto. Quando se trata do essencial é diferente. mas ao Deus da maneira como é proclamado e em cujo nome muitas pessoas são seduzidas a restringir suas vidas e exercer atividades fúteis. sobre o qual ninguém pode dizer nada. dentro de nós e nós dentro dele. que tudo alcança o equilíbrio de acordo com seu devido peso especial. da vida terrestre.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 66 totalmente inacessível a nossa compreensão. por trás do qual frequentemente se esconde o pior de tudo. da maneira como se mantém velado a nós e se esquiva das nossas exigências. Quais são as consequências dessas reflexões? Viver a vida em sua plenitude. que ele se revelou e proclamou seu desejo através de seres humanos. Atribuir-lhe importância. Pois dessa forma damos tal importância àquilo que poderíamos denominar de Deus. Senão em que lugar o divino poderia estar mais próximo a não ser na plenitude da vida. Importante diante de quê? Diante de tudo e todos que encontramos. o que aqui fazemos?‖ Aqui pretexto significa que levamos algo a sério e que talvez procuremos realizá-lo a partir de um grande esforço pessoal. é aquele em nome de Deus. com o pretexto de que isso seria o desejo de Deus e que essas ações as aproximariam dele. o mais desumano e mais fútil. nulos como tudo aquilo que se diz em relação ao divino. seu desejo. Por exemplo. O PRETEXTO O pretexto encobre e desvia do essencial impedindo que coloquemos o foco nele. É a última experiência real que podemos vivenciar na vida. incluindo a concordância com o seu final na morte? A morte certamente não é nenhum pretexto. Naturalmente não o divino. mas também leva a algo desumano e ao infortúnio? Como podemos nos defender desse pretexto e como nos livrar dele? Na medida em que percebemos que são nulos. mesmo que isso se revele como nada no final. Mas o maior pretexto imaginável. Rilke diz na 4a. pois muitas vezes têm o caráter de um jogo que não é levado a sério por nenhum dos dois lados. submetendo-se a essa força com amor e humildade a torna importante para nós e nos torna importantes através dela. Mas acima de tudo podemos nos desviar dessa reivindicação de tais pretextos quando permanecemos naquilo que a vida tanto nos presenteia como exige de nós de esforço. Através de um pretexto também adiamos algo pendente ou buscamos o consentimento para uma ação que outros não nos dariam se soubessem das nossas reais intenções. Porém como se sentem quando se revela que esse Deus talvez não exista. Elegia de Duíno: ―Vê: os moribundos não mais suspeitariam que tudo é apenas pretexto. seu tribunal de justiça. que ele é apenas um pretexto? E mesmo que os indícios em relação ao seu amor. Mas normalmente trata-se de pretextos inofensivos. Como . nossa predestinação ou nosso repúdio através dele sejam somente pretextos que apenas devem levar a algo que no final não é apenas nulo.

entrando no lugar daquilo que passa. Porém ela apenas está distante do nosso entendimento. é equivalente a ele. Mas. mas sem sua própria vontade e sem sua própria força. na efemeridade algo novo se anuncia. enquanto nos é presenteada. O que é esse próprio ser? Ele não é mais distinto do divino. nada é mais escuro e nada mais distante para nós do que essa força inesgotável. Em cada segundo algo passa para nós. . apesar dessa proximidade.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 67 podemos fazer isso? Abrindo espaço ao divino como força criativa. sem podermos dispor dessa força. a força criativa oculta que atua por trás de todo ser está na escuridão e permanece na escuridão para nós. Entretanto. No entanto. mas vivemos de modo efêmero. Na verdade na Bíblia se diz dele também: ―Ele mora numa luz inacessível‖. até a sua luz fica na escuridão porque nos cega. Muito pelo contrário: nada poderia estar tão próximo de nós. Eles também cedem lugar a coisas novas e a outros pensamentos. entretanto. Porém. aquilo que está por trás de toda existência e atua e nunca descansa e que se revela como força criativa contínua não pode estar tão distante de nós. mesmo se quiséssemos. Através da escuridão ele se oculta e nos coloca em nossos limites. Deus ou o divino. Na realidade nada pode estar tão perto de nós como ela. entretanto. Sim. A vida como um todo continua. Tão perto que não podemos nos diferenciar dela. Tão diferente que ao mesmo tempo se dissolve nele. da qual não podemos nos subtrair. mas essa luz inac essível permanece na escuridão para nós. É abarcado e direcionado totalmente por ele. vivendo a nossa vida. pelo menos por um longo tempo e não podemos prever seu fim. o próprio ser permanece ainda em si. mas diariamente. EFÊMERO Tudo na vida é efêmero. Se formos chegar ao fim de nossos pensamentos. sabe que é diferente do divino. Por isso não somos efêmeros apenas através de nossa morte. de repente saberemos que somos inesgotáveis. Nenhum pensamento e nenhum desejo poderão trazêlo à luz de maneira que possamos vê-lo. na realização diária da vida. sem nos deixarmos desviar de nossa presença pura. Nossos pensamentos também são passageiros e por isso cada um se orgulha deles. sobretudo nós mesmos somos indivíduos efêmeros e não apenas na morte. Contudo. Nós nos dissolvemos em algo inesgotável e dessa forma chegamos ao nosso próprio ser. apenas como uma manifestação individual. ele mesmo ficou na escuridão. ―QUE SE FAÇA A LUZ‖ Quando Deus disse: ―que se faça a luz‖. como se ele mesmo se dissolvesse. simultaneamente.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 68 Somos também efêmeros perante Deus. Entretanto. se nos deixarmos levar pelos efeitos da efemeridade. o espírito também ouve. concentrados em direção ao essencial. o que será de nós no final nos permanece indecifrável. tanto mais forte atuará em nós um outro algo que se serve de nós. . Portanto. tanto mais ficaremos em silêncio e tanto mais silenciosos precisaremos ficar para percebê-lo realmente. vivendo-a ao mesmo tempo. mas também podemos ouvir em total silêncio. Talvez essa seja a experiência mais próxima à experiência de Deus. Na verdade. junto com ele. até que sejamos uma unidade com ele e. Por exemplo. sem ouvir. puro e espiritual algo for. ao concordarmos com ela. Entretanto. Está presente no silêncio. Aqui experimentamos a unidade como um todo. cujo efeito percebemos em tudo sem que possamos apreendê-lo. No silêncio captamos mais coisas simultaneamente. O SILÊNCIO ―O sol soa de uma forma antiga‖. Mesmo a assim denominada grande explosão se realizou em total silêncio. cantam os anjos no Fausto de Goethe. Em relação a essa força. mas de uma forma que estamos dentro dele. perante a força criativa. o universo está totalmente silencioso. sem nos perdermos. primeiro ouvimos com nossos ouvidos. Sim. não importa o que aconteça conosco. sem poder ouvi-la. a cada instante. nós a experimentamos como algo permanente já mesmo antes de nosso fim. Mas podemos perceber o que acontece dentro de nós. Quanto mais concordarmos com essa efemeridade. quanto maior. Ele vê sem ver e percebe sem sentir. Beethoven compôs sua última música partindo puramente do silêncio. experimentando dessa forma o essencial em sua densa totalidade. Por isso existe um reconhecimento no silêncio total. entramos nele e nos encontramos. sem que possamos denominá-lo ou compreendê-lo.

A VIDA?" . VOCÊ VIVE .Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 69 "QUEM VIVE ENTÃO? DEUS.

A terra nutre.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 70 QUERIDO CORPO ―Querido corpo‖. Tudo provém dela e tudo retorna a ela. melhor ou pior. Estranhamente. Só posso dizer isso com devoção e com confiança. honrar a terra. posso dizer isso? Você me pertence? Posso tratá-lo assim de forma tão íntima? Obviamente você pertence a um outro senhor. eu o ouço. Ela é a mãe da vida. com amor que se entrega. Talvez não exista nenhum Deus senão a terra. mostrando submissão? Dessa forma seu senhor falaria comigo através de você. ―Querido corpo‖. O AMOR QUE PERMANECE ―Permaneça no amor!‖. nos curvamos em direção à terra. Pois a terra e tudo que nela vive são um mistério. precisa. A TERRA A terra sustenta. em primeiro lugar. Sim. Somente quando deixamos esse mistério em suas mãos. como posso ousar chamar você de ―meu‖? Não seria o contrário? Para estar junto a você com amor. de forma que nela nada é maior ou menor. afinal. um amor cósmico. Quando você fala comigo. então é um amor que inclui tudo. Aqui nós o encontramos e o honramos. o que significa realmente dedicado a Deus? É estar dedicado à terra e à vida. Somente quando nós nos curvamos também perante este mistério. não deveria lhe pedir que me chamasse de seu? Que me mostrasse o caminho? Que me conduzisse ao seu senhor? Que se curvasse comigo perante ele? Que se entregasse comigo a ele. que você está a serviço de uma outra coisa. com amor sem reivindicação. Quem honra a Deus. com gratidão. em primeira instância. a terra nos tem e nós a temos. de volta ao respeito e ao reconhecimento de minha impotência perante você e seu senhor. Eu o ouço quando você me adverte e talvez me chame à razão através de dores. algumas vezes nos advertem dessa maneira. Mas. Tudo aquilo que atribuímos a Deus podemos e devemos dizer em relação à terra. através da terra. quando nos curvamos perante Deus. nos curvamos perante a terra. que nos . o que significa permanecer no amor? Se esse amor é um amor verdadeiro. que dispõe de você — de você e também de mim? Então. Então. Não poderíamos dizê-lo se não soubéssemos disso através dela. mas não de forma superficial. É a despedida do amor estreito. no qual tudo pode estar presente na própria alma como é. Não é assim. É como se estivesse dizendo ―Querida mamãe‖ ou ―Querido papai‖ ou ―Querido Deus‖. vivenciamos a vida. Esse amor é amor à existência como um todo.

tanto quanto ao meu. permanece também no amor e está no amor que permanece. fica poderosa como um rio que acolhe muitos riachos e flui para um centro maior que reúne cada um de nós para algo maior. da mesma maneira. no qual estamos presentes com todos os outros. a força desse centramento conjunto atrai outras pessoas e outras coisas. Ele é amigo de todos e quando necessário é também inimigo. Ele é pleno. Eles preenchem nossa vida e nosso espaço de tempo na vida. Contudo. O CENTRO 0 centro é o ponto de orientação de tudo aquilo que acontece ao seu redor. Deixa o mundo seguir seu curso. dedicados e conectados com todos. da natureza e do mundo. Ele não nos separa mais de outros seres humanos. amando-o tal como é e como se apresenta. aquilo que passou. Deixa o destino de cada indivíduo seguir seu curso e também o nosso próprio destino. Pois é devoção ao todo como é. . não importando de que forma virá. Este amor é amplo. tal como é. mas mesmo assim ativo. Ao mesmo tempo. Neste estado de centramento. Experimentamos a força do centro e sua atração quando estamos no nosso centro. atua na vida como ela é para mim e para os outros. É sereno. aos nossos pais. Tudo que existe da maneira que é. Este amor não interfere. esse amor se deixa envolver no acontecimento. quando nos percebemos e nos respeitamos mutuamente. Qual é o efeito desse amor abrangente em nossa vida? Deixamos o que é. É como a força da gravidade que atrai as partes externas para si. nesse amor ultrapassamos os laços do vínculo. sustentado por ele. atua também na luta pelo próprio lugar. pois eles também pertencem ao todo. dedicado a ele com sua total existência. Quando empreendemos algo. Concordamos também com a luta. Ele é religioso também. Nada pode escapar porque no final tudo descansará no centro e saberá que está no lugar certo. na ajuda e na rejeição. deixando os outros com seus destinos e submetendo-se aos destinos deles. E concordamos com a vitória de um e a derrota do outro. da maneira que é. estamos intimamente ligados uns aos outros e simultaneamente independentes e livres uns dos outros. Concordamos com isso. por exemplo.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 71 liga a determinadas pessoas. aquilo que virá. permanecendo distintos. no qual se perde e se reencontra ao mesmo tempo. no entanto. permanece em nosso amor: as forças construtivas e destrutivas. pois está em sintonia. concordando com ele e permanecendo no amor com todos. seguro. O centro segura tudo. aos nossos parceiros amorosos e aos nossos filhos. a felicidade e a infelicidade. a vida e a morte. Isso não significa que nós nos separemos deles. cada um entregue ao próprio destino e em sintonia com ele. com os opostos e com a luta pelo próprio lugar. é ativo. Quem permanece dessa maneira no todo tal como é. Somente nele somos únicos. não importando para que direção queiram ir.

até que ele nos preenche. Com essa espécie de atenção. O CÉU 0 céu.sem o uso de palavras — e talvez olhemos não para o próximo. No entanto. a um ideal. porque nos sentimos . DEVOÇÃO Quando dizemos devoção. o que é o céu? 0 céu existe realmente? Muitas pessoas acreditam no céu. no qual tudo se reúne. Tudo aquilo que conhecemos e existe está limitado — em relação a quê? Em relação a um nada. nos tomamos semelhantes a ele. Nós nos dedicamos a algo. o centramento que vivenciamos aqui e agora. a uma causa. O nada comparado ao ser é infinito. que atrai tudo para si. não podemos identificar nada com precisão. expondo-nos simultaneamente ao amplo e distante. a um ser humano. Tudo que existe está rodeado pelo nada. ficamos mais próximos ao nada. mas nosso olhar e nossos ouvidos estão abertos para uma dimensão maior. Mas isto é apenas um lado da devoção. quando estendemos nossos ouvidos e quando olhamos para a distância. talvez possamos ter uma experiência humana do céu. que não é estranho e distante para ninguém? Talvez seja esse o nosso desejo de atingirmos a paz e a realização. Muito pelo contrário. por exemplo. a um sonho. Os anseios que sentimos em relação ao céu talvez encontrem sua meta aqui na terra. incluindo o todo nos nossos sentimentos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 72 Será que existe um último centro. a uma tarefa ou a uma esperança. se permanecermos na experiência centrada. A expectativa de alcançar este centro em um outro nível de experiência não acrescenta nada ao que já foi vivenciado. Espreitamos à distância para ver se talvez possamos perceber algo. temos a ideia de que estamos nos entregando a uma pessoa ou a uma causa e nós a temos em nossas mãos. mas não sabemos se ele realmente existe. sem querer ultrapassá-la. mas para o distante. Isso significa que ficamos amplos e de certa maneira também infinitos. No entanto. Nós nos afastamos de nós mesmos e estamos em sintonia com algo maior e desconhecido. Para nos expormos a este nada. Nessa ação e não ação abre-se a experiência do céu. Nessa espreita estamos totalmente centrados. Percebemos algo . Quando nos expomos ao nada. a um impulso interno. O que acontece quando nós nos entregamos a esses anseios que temos em relação ao céu? Nós o ouvimos à distância. bem longe. estaremos abertos para aquilo que talvez ainda nos atraia para si. que experimentamos em relação a algo maior e total é suficiente. Este centramento é escuro e puro. mesmo que isso nos soe estranho. contudo não sabemos de que forma. Existe uma palavra para esta dimensão maior que abrange totalmente o sentido dessa experiência: é o nada.

Contudo. Somente a última dedicação à vida contém e preenche o propósito de todo e qualquer ato de devoção. A devoção. com amor. da maneira como a recebeu. a vida que foi transmitida pelos nossos pais e como ela se apossou de nós e nos colocou a seu serviço através deles. de onde ela vem e para onde volta a afundar. é o que se diz na Lorelei1. Na dedicação à vida. Aqui devoção significa o amor à vida em sua plenitude. Em nenhum outro lugar a atração e devoção recíprocas são vivenciadas de maneira mais profunda e abrangente.T. Qual é a maneira mais leve e mais bela para se conseguir essa devoção? Quando nos alegramos com essa vida no aqui e no agora.) . ―Ela o atraía parcialmente. ele afundava parcialmente‖. Portanto. A fusão na consumação do amor é. entregamo-nos ao mesmo tempo a algo maior: ao poder que atua por trás da vida de todos. a mais profunda realização da vida. Quando essa devoção é recíproca. a devoção aos nossos pais. aqui para a desgraça dele. O nome deriva de lendas germânicas sobre ninfas que viviam nas águas. Devoção verdadeira é devoção com amor e alegria. ao mesmo tempo. elevando-se a 120 metros acima do nível do mar. a devoção à vida em sua plenitude. no encontro amoroso entre o homem e a mulher. (N. tomando-se iguais. entregando-se a ela. para além de si mesmos. as ninfas atraíam os marinheiros para o fundo do mar. 1 Lorelei (ou Loreley) é um rochedo localizado junto ao rio Reno. por exemplo. a uma devoção conjunta mais abrangente. é a mais profunda devoção à vida. próximo a Sankt Goarshausen. Quanto mais profunda a devoção tanto mais nos sentiremos atraídos. Também a devoção a tudo o que essa vida nos presenteou e o que ela exige de nós para que possa se desenvolver. Nós também podemos dizer: onde seu início e seu fim se entrelaçam. deixando-a enriquecer. É a realização completa da presença. devoção à vida significa. Essa devoção continua no encontro entre seres humanos. para cada indivíduo. a devoção a tudo que nutre a nossa vida. quando ela atraía o marinheiro para o fundo do mar. principalmente. Através de seu canto. no caso do amor. ao mesmo tempo. em primeira instância. em primeiro lugar. como nos foi transmitida por esses pais e por essa família. por exemplo. Por isso. neste instante. crescem. no estado alemão de Renânia-Palatinado. a devoção a tudo que está conectado a ele. Isto é. Somente torna-se sua vida. Significa também a devoção e o amor à vida no aqui e agora. às circunstâncias de nossa vida. é claro.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 73 atraídos por isso. quando o homem e a mulher se unem para uma realização de uma vida em comum. sobretudo na realização do amor entre o homem e a mulher. Nós possuímos a vida em sua plenitude apenas através da medida de nossa entrega a ela. no entanto. A devoção maior é centrada e desperta. não é toda pessoa que vive que já tem a sua vida. à nossa família.

Existe também a satisfação do espírito. Existem duas maneiras de desfrutar. mas. Pois o desfrutar passa primeiro através de todos os órgãos do sentido.que palavra terrível — para que fiquemos disponíveis a algo mais elevado e a Deus e ficarmos iguais aos anjos ou até iguais a ele. através dos sentidos. quando não existia a pressão do tempo. De repente o prazer já não é mais sensual. curiosas. a despedida das seduções dos sentidos e a supressão da carne . Tal prazer traz o céu para a terra. a fragrância de uma rosa. Então. Algumas vezes ao desfrutar tais coisas tornamo-nos crianças que exploram. com os quais podemos desfrutar juntos. Pois ambas pertencem . resgatamos as belas coisas da nossa infância. Desfrutar está ligado à alegria e à sensualidade. uma música cativante. acorrenta-nos ao terrestre. uma refeição preparada com amor. nenhuma obrigação e podíamos permanecer no aqui e agora. quando focamos em algo belo e delicioso. transferindo-as para o presente e para o nosso futuro. acompanhando o ritmo e o compasso da pulsação da vida. diz-se que isso nos afasta de Deus. Portanto. tornando-nos mais intimamente conectados com o seu lado brilhante. deixam-se surpreender por ele. já ultrapassamos esse prazer sensual e entramos num espaço mais profundo e abrangente. o mundo ao seu redor. reverenciando o que encontramos. nos preenche e nos deixa felizes. que nas ideias dos seres humanos é um prazer bem-aventurado. leva com facilidade ao pecado. a saúde restaurada. vivendo plenamente o momento presente. seja através dos sentidos ou do espírito. Por exemplo. apesar da disciplina que exige de nós. alcançando através deles a alma e o espírito. principalmente da satisfação que parte da ação criativa que traz prazer aos outros. ficamos mais belos e mais amplos. devotados e plenos de respeito. por exemplo. uma bela vista. dedicamos nossa total atenção a ele. por exemplo. mas é religioso. Por um lado. tornando-nos suaves e fracos. bloqueia a perfeição e a iluminação. muitas recordações felizes de nossa infância emergem. tornando-se mais ricas e realizadas.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 74 DESFRUTAR Só podemos desfrutar quando nos detemos internamente. Através do ato de desfrutar entramos em sintonia com o lado precioso e transcendental da vida. a rendição total a eles. Muitas vezes precisamos de boa companhia para desfrutar plenamente. Em alguns círculos zomba-se do desfrutar. por exemplo. Por isso quando desfrutamos a vida. a satisfação que provém do conhecimento. Muito embora existam exceções à regra. o respeitamos e o tomamos com todas nossas forças. faz-se necessário o asceticismo. Precisamos dos outros. O prazer do espírito também nos leva a transcender a um espaço aberto e. ao desfrutarmos. Essas duas maneiras de desfrutar se opõem uma a outra? Não. uma festa. Por isso. sem que percebamos. também o sucesso e a obra concluída.

seremos reais e completos usufruidores da vida. em primeiro lugar. que agradecemos por tudo aquilo de bom que deles recebemos. então certamente se tornam nossos professores. 0 oposto da ressonância é a dissonância. A essas pessoas pertencem. talvez até confusos e nos afastamos de nosso centro. A RESSONÂNCIA Ressonância significa que respondo a um ser humano. Algumas vezes é também um desafio que exige uma transformação. Através da minha vibração. Pois. uma despedida e um crescimento interno de nossa parte. também aqueles que têm uma dívida conosco ou nós com eles e com os quais talvez ainda estejamos zangados. Esse legado não é sempre agradável. pessoas que encontramos e que nos deram coisas fundamentais e às quais até agora não demonstramos reconhecimento nem agradecimento. Além deles muitas outras pessoas pertencem também. nossa mãe. a um acontecimento ou a uma tarefa com a mesma vibração que parte deles. nosso pai. Se aqueles que encontramos não se tornam nossos amigos. A ressonância começa quando prestamos atenção aos sinais de nosso corpo. em primeiro lugar. aos sinais de cada um dos órgãos. Estamos em ressonância com eles quando sentimos dores ou estamos doentes. pois talvez estejam em ressonância com outras pessoas . como nossos órgãos. no nosso mais íntimo. Entrar em ressonância com eles também pode significar que não fazemos mais nenhuma . cada um dos músculos e cada uma das articulações. Nós nos sentimos mal. Mas frequentemente não nos é permitido olhar para nossos órgãos. Pode transformar algo em mim. que talvez tenhamos esquecido ou rejeitado ou pessoas com as quais as nossas famílias estão em dívida. nossos irmãos e nossos ancestrais. o mesmo acontece conosco quando estamos em dissonância com outras pessoas. aquilo que parte deles pode atuar em mim. nossos músculos ou articulações. dependendo de nossa coragem de enfrentar seus desafios. ficamos intranquilos. exigindo sua dissolução. encorajam-me a fazer aquilo que corresponde a mim e a eles. com circunstâncias essenciais ou com nosso corpo e nossa alma.com as quais nós mesmos nos encontramos em dissonância. Somente quando nos entregamos a ambas.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 75 uma a outra como o corpo e a alma. elas também pertencem a nós. algumas vezes professores severos. Por isso a ressonância com esses órgãos de nosso corpo começa quando entramos em ressonância com essas pessoas. ficando mais fácil suportá-las dessa forma. Entrar em ressonância com eles significa. exceto quando chega a hora da despedida e entramos em ressonância e concordamos também com nossas dores e nossa doença ou fraquezas. Da mesma forma que a dissonância na música é desagradável e dolorosa para nossos ouvidos e nossa alma e também para nosso bemestar físico. o sentido e o espírito. sendo indispensáveis para nossa saúde e nosso bem-estar. bem como me advertir de atitudes e ações que me afastam de mim mesmo ao invés de me aproximar deles.algumas delas mortas já há muito tempo .

quando olhamos e nos detemos deslumbrados perante essas forças que ultrapassam de longe o nosso conhecimento e nossos desejos. A felicidade faz com que ele pare por um tempo. Podemos também desperdiçar ou negligenciar o tempo. Quando o acompanhamos ao chegar a hora certa. Justamente quando o tempo para e nada se move. Por isso. Pois somente aquilo que é limitado pode se tornar completo. Ele nos abraça. Se nós vibrarmos com nosso destino como ele é. Sem limitações não existe nem o vazio nem a plenitude. existe também o tempo que se detém. enquanto que no fundo de nossa alma ou coração existe uma tranquilidade imóvel. prestando atenção de uma forma centrada à nossa voz interior e ao nosso movimento interior. O tempo vazio nos oprime. Com esse som pleno. Ou que não temos mais nenhuma expectativa em relação a eles. Entretanto. o nosso corpo e todas as nossas células ficam em profunda sintonia com a nossa alma. Entramos em ressonância. Na superfície o tempo pode voar e talvez se apresse. através de um certo esquecimento de nós mesmos. acalma e sustenta. nessa ressonância também prestamos atenção à voz interior de outras pessoas e prestamos atenção às vozes interiores da natureza e dos objetos. em sintonia também com os destinos de muitos. podemos deixar-nos atrair por este tempo tranquilo e nele descansar. Pois. . de acordo com nossas ações. podemos ganhar ou perder tempo. de forma que não podem ainda se despedir de nós. ao lado do tempo que passa. temos a experiência da completude. Aliás. Contudo. que fica parado. Essa ressonância é religiosa. pois deseja ser preenchido. surge um som pleno que continua ressoando. Sobretudo. como um sino pesado de uma torre alta que fica tinindo por longo tempo. podemos vivenciar o mesmo período de tempo em níveis diferentes. É o que as pessoas felizes experimentam quando o tempo fica parado. precisamos entrar em ressonância com nosso destino. não importando como ele nos atinge. com os quais estamos conectados. o tempo pode ser vivenciado como completo justamente porque é limitado. Contudo. com a qual nos prendemos a eles. quando o tempo nos parece estar vazio e esperamos por um outro espaço de tempo. quando o tempo se completa para nós? Quando nos submetemos a ele da maneira como nos foi presenteado. em primeiro lugar. Na felicidade profunda e na realização o tempo fica parado. deixando que elas nos carreguem e determinem. Quando concluímos no tempo certo. Aqui corpo e alma falam frequentemente com a mesma voz.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 76 reivindicação a eles. concordando com ele. Entramos em ressonância com o cosmo e com aquilo que atua atrás deste mundo como um todo poderoso. O TEMPO O tempo é limitado. Eles falam conosco tanto através de nosso corpo como através de nossa alma. Por isso.

chega o momento em que precisamos reconhecer que precisamos mais do que um lado. aquilo que está simultaneamente mais distante e mais próximo de nós. Então nos afastamos de uma intimidade. E onde está Deus? Ele está dentro do tempo? Talvez ele seja o tempo que fica parado. A SOLIDÃO A pessoa solitária é a pessoa que perdeu a conexão ou foi excluída. Contudo. Então. Nela sentimos uma fusão. como. poderemos suportar a solidão em relação ao outro de forma leve. O momento mais solitário de nossa vida é quando morremos. em uma outra dimensão. Somente alguém que já vivenciou muita intimidade e a guarda dentro de si pode experimentar uma solidão genuína. em seu âmago. experimenta que tudo nele fica parado. Sozinhos nós perecemos. quase nos fundimos um com o outro. Quem é solitário está sozinho e também foi deixado sozinho. de uma forma que não perdemos totalmente a primeira. Por isso. um casal de namorados ou pais com seus filhos. Vamos dando espaço em nossa alma para muitos outros. concorda com o mundo como este se revela para ele. Sozinhos estamos também perante Deus. por exemplo. nós trocamos uma intimidade pela outra mas. Nessa solidão ficamos vazios e plenos. voltamo-nos também a outras pessoas. da intimidade com nossos pais e procuramos uma intimidade com um parceiro. muitas crianças se sentem solitárias e muitas vezes as pessoas idosas também. . a proximidade e a intimidade com um lado nos afastam do outro. sem a experiência da intimidade. entramos em um outro espaço. com o tempo. tão íntimos quanto distantes. mas nos conectam com mais pessoas. Enquanto a intimidade com um lado nos preencher. Essa solidão é a premissa para uma maturidade e plenitude. experimenta dentro de si uma transformação que permanece. Muitas relações reduzem a nossa intimidade com alguns. Como seres humanos dependemos dos outros. via de regra. sem entretanto renunciar àquela intimidade e sem substitui-la por uma outra. No entanto. não podemos viver sem eles. Contudo. por exemplo. É a solidão que nos abre para muitos entretanto. estaremos realmente sozinhos? Quando deixamos a vida. de uma forma que à primeira intimidade se acrescenta uma segunda. na qual nada mais nos segura e justamente ao nos dissolver nos conectamos com o Último. senão definhamos. Precisamos de sua companhia e do intercâmbio com eles. Pois quem concorda com tudo como é.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 77 Quem. O intercâmbio próximo com outros seres humanos é a intimidade. Portanto. Neste momento deixamos tudo e todos com os quais estávamos conectados e caminhamos completamente sozinhos para a morte. a segunda intimidade exclui outras e. perante o impenetrável.

Como. por exemplo. Ele permanece em tudo. por exemplo. E. transformando-se em uma e única coisa e é. um período de relaxamento é necessário para coletarmos forças para novas tarefas e metas. só que observado por um outro ângulo. de uma longa preparação. começo e fim. a ver a nossa realização mais como se fosse um ponto final do que vê-la como um recomeço. finalmente podemos nos dedicar a uma outra coisa. Dizemos então: ―Finalmente chegou. é encontrada por ela e duas almas vibram em sintonia. Talvez dizemos: ―Finalmente terminamos. então. Em cada ―finalmente‖ existe algo que libera: um passou e outro pode chegar. vivemos de ―finalmente‖ para ―finalmente‖. são algumas vezes o mesmo processo. para o que deve ser feito em seguida. nos tornamos mais amplos e enriquecidos de ―finalmente‖ para ―finalmente‖ e nos experimentamos finalmente concluídos e plenos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 78 "FINALMENTE" Dizemos ―finalmente‖ quando chegamos ao fim. Ela procura a outra alma. pois como poderia realmente saber disso. fazemos finalmente uma pausa e dizemos: ―Finalmente terminou. algo pode estar realmente terminado quando olhamos ao mesmo tempo para frente. Eu imagino o divino dessa forma. Eu imagino que por um lado está num movimento contínuo e por outro. por exemplo.‖ No entanto. Aqui o ―finalmente‖ se transforma em força centrada. quando depois da escola começa a vida profissional e depois do casamento chegam os filhos. Sim..‖ Ou dizemos: ―Estamos finalmente em férias. Talvez nessa realização o ―finalmente‖ para finalmente e descansa. muitas vezes. Dessa forma. Pois. .‖ Esse ―finalmente‖ é a realização de uma longa esperança. como quando um tiro de partida é dado para a próxima tarefa. como nos sentimos quando finalmente chegou? Algumas vezes a tensão diminui e somos tentados a permanecer naquilo que alcançamos finalmente. ou quando atingimos uma meta e quando o trabalho foi terminado.‖ Contudo. de uma longa espera por um evento desejado há muito tempo. uma iniciação para um desafio maior ainda. infinitamente calmo. temos finalmente a certeza: ―Agora chegou. ao mesmo tempo. Dizemos ―finalmente‖ também quando superamos algo. Dessa forma um ―finalmente‖ que terminou e um outro ―finalmente‖ quando algo começa. talvez permeada de dúvidas sobre a sua concretização." Rainer Maria Rilke começa com essas palavras o seu poema ―Canção de Amor‖. em relação ao amor ninguém pode segurar sua alma. "COMO POSSO SEGURAR MINHA ALMA.‖ Nesse ―finalmente‖ relaxamos. uma prova ou uma doença.. Nós respiramos aliviados e descansamos. entretanto somente em meus pensamentos e em meus sentimentos.

Alguém que determina sobre elas. se contrai ou se expande infinitamente. Aqui o poema de Rilke: Canção do amor Como posso segurar minha alma de forma que ela não toque na sua? Como posso fazer com que ela se eleve. tem o violino em suas mãos e o toca. doce canção. O NOVO DIA O novo dia chega após o velho. mas sons conjuntos como duas almas que soam juntas. As duas cordas não produzem sons separados. trabalho e sofrimento. Contudo é novo. é tocada. como adoraria encontrar um lugar secreto e tranquilo onde desejos perdidos descansam e não continuam a ressoar. Outros que ouvem esse jogo começam a vibram em suas almas. No entanto. toca uma doce canção. você e eu. Quem é este violinista? Quem toca nossas almas deixando-as ressoar. somente quando o velho pode ficar para trás com toda sua felicidade e alegria. uma canção de esperança e confiança. quando a sua alma ressoa profundamente. transformando essa canção em sinfonia. criando uma harmonia? Quem coloca essas almas a serviço do amor e da vida? Nós não o conhecemos. O grande violinista também começa a tocar suas cordas. mas ouvimos a sua melodia e nos juntamos à sua canção. de você para outras coisas? Ah. . ressoando juntas como um violinista que toca simultaneamente duas cordas com o seu arco. Estamos esticados em que espécie de instrumento? E que mãos tocam este violino? Oh. responde com alegria ou tristeza.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 79 Ninguém quando ama pode segurar sua alma e nem pode dirigi-la para um outro lugar. querendo talvez ocultar aquilo que o fere ou o toca em seu âmago. uma canção de deleite e felicidade. tudo aquilo que nos toca. Estão ligadas uma à outra em um determinado nível. Ao tocar as cordas dos dois enamorados e com elas a canção da vida. Pois as duas almas se tornam uma. nos une como um arco que faz ressoar duas cordas como se fossem uma. Toca a canção da vida. a outra alma sente isso. Não importa o que um ou o outro pense e sinta e deseje.

para mim. se ele existe. novo trabalho. tem pouco acesso à sua vida presente. Procuramos uma nova . Essas recordações deterioram o novo dia. pelos sonhos futuros. a maioria das pessoas religiosas vive no futuro. Portanto. Portanto. mas não reconhecemos o que seja e por isso ficamos inquietos. O tempo presente fica perdido. O novo exige que liberemos o velho. Somente dessa forma brilha com suas novas possibilidades. Transpondo para a nossa vida como um todo. não pode haver nenhum acréscimo. ao novo dia. tudo o que para nós permanece no passado e futuro. muitas vezes a intranquilidade é indefinida. a religião seria estar devotado ao presente. A INTRANQUILIDADE A intranquilidade procura algo. algumas vezes não apenas nossa própria felicidade como também a felicidade de outros. E onde vive o ser humano religioso? Muitas pessoas religiosas vivem no passado. algo que nos chama. Existe uma semelhança em relação ao futuro. No entanto. pode nos preencher. Talvez sacrifiquemos a felicidade que está a nossos pés. Quando sabemos daquilo que precisamos ou nos falta. Em Deus. é pura presença realizada. isso significa: quem vive no passado. Entretanto.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 80 Somente o novo dia nos leva adiante e traz nova felicidade. o novo dia é novo só quando o velho pode ficar no passado. Ela nos assalta porque precisamos de algo ou porque algo nos falta. Contudo para Deus. O que acontece quando olhamos já hoje para o próximo dia que só chega amanhã? Aqui também perdemos o dia presente. transformando-o num velho e não deixando o novo emergir e se desenvolver. o que está próximo e possível. como se já fosse passado e mais vazio do que cheio. novas conquistas. Ou sentimos que algo deveria ser feito. por exemplo. Somente o novo dia pede a nossa total dedicação. transformando-se num dia pleno. Fazem do novo dia um malogro. nenhum ganho. mas não sabemos o que poderia ser. algo que devemos fazer. E repetem hoje os rituais vazios do passado. em uma tradição que já está há muito tempo embotada. Sentimos que algo nos falta. Ou sentimos que nos enganamos e escolhemos o caminho errado. Contudo. A felicidade quer seguir adiante. recordações da infelicidade e do sofrimento passado podem ser reativadas. Recordações da felicidade anterior não trazem novas satisfações. na esperança de uma vida melhor e mais feliz. tanto no seu próprio passado quanto no passado de sua família ou de seu povo. nenhuma perda. então começamos a buscá-lo para alcançá-lo.

Se concordamos com a nossa compreensão limitada. como é. mas mesmo assim estaremos consolados. o último mistério que não podemos apalpar ou entender. não importando para onde ela nos conduz. afinal. Não quer ir além do que possui e do que lhe foi dado.‖ Aqui ele fala da intranquilidade do coração até que descansa no seu destino final. Por isso a pessoa satisfeita não age? Faz menos do que os insatisfeitos? Muito pelo contrário. Talvez o divino. permanece em sintonia com tudo aquilo que as circunstâncias exigem e justamente por isso tem a compreensão daquilo que é adequado. mesmo que estejamos em movimento para completarmos nossa tarefa. até que tenhamos encontrado a saída e soubermos novamente qual é a direção. Também sabe quando um trabalho foi cumprido e fica satisfeito com o resultado. Deus. Também está satisfeito com as pessoas como elas são. Por isso essa satisfação é. com nosso destino. É amado por eles pois. satisfeita com Deus e com as forças ocultas que atuam por trás dele. Ela se completa na dedicação e no amor. Isso lhe dá a força para fazer o necessário e o possível. não desejando ir além dos limites intransponíveis. que não está no seu final. A satisfação verdadeira é a dedicação ao mundo como é. em sua presença. A SATISFAÇÃO Quem está satisfeito. com nosso início e fim. Pois ficamos em paz quando estamos em sintonia com nossa vida. . está em paz consigo mesmo. Também poderíamos dizer: nosso coração procura até alcançar a nossa mais íntima harmonia com as pessoas que estão próximas a nós. e como se revela para nós. talvez possamos encontrar um estado de paz. Existe uma frase famosa de Agostinho: ―Intranquilo está nosso coração até que descansa em você. No caminho certo temos uma tranquilidade interna. aos poderes do destino como chegam a nós e nos dirigem. Quem está satisfeito tem muitos amigos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 81 orientação e ficamos inquietos. com a vida e a morte. podem permanecer como são. A pessoa satisfeita também está satisfeita com o mundo como é. com sua origem e seu destino. não desejando mais além do que as circunstâncias permitem. esteja contido na total concordância com nossa vida. Por estar satisfeito. uma satisfação profundamente religiosa. Não existem exigências em relação a si mesmo e a outras pessoas no sentido de que sejam diferentes do que são.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 82 O SER HUMANO .

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"É E S P L Ê N D I D O ESTAR AQUI"

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A PERSPECTIVA
0 que está à nossa frente? Qual é nossa perspectiva? Nossa única perspectiva certa é a morte. Mas o que isso significa além do fato de que é certa? Nós não sabemos se a morte é realmente nosso fim ou é um recomeço. Portanto, para que ficarmos curiosos ou preocupados com o que virá? Nós já estamos vivendo a vida em sua plenitude quando estamos direcionados para o presente, sem olharmos para perspectivas futuras. Contudo, tudo que cresce tem a perspectiva da fruta que nascerá. Nela está contida uma meta inerente a ser alcançada. Por isso podemos focar no presente e realizar nossas tarefas sem nos perder em expectativas distantes. Se permanecermos na realização do presente, fazendo o que deve ser feito no momento, depois de um certo tempo perceberemos que nosso trabalho toma uma outra direção diferente daquela que originalmente pretendíamos e esperávamos. Portanto, nossas metas adequadas e nosso propósito se desenvolvem de uma forma diferente da nossa perspectiva inicial. A nossa perspectiva verdadeira permanece oculta para nós. Sem uma perspectiva abrangente, tudo o que está próximo a nós pode nos capturar totalmente. Ele se apossa de nós e nós nos apossamos dele incondicionalmente, entretanto, sem que ele nos pertença. O que queremos ainda? Alguma outra coisa pode nos tornar maiores ou mais ricos? Ou mais poderosos ou mais livres? Viver significa: viver agora. Estar aqui significa: estar aqui agora.

A PESSOA AMADA
A pessoa amada nos captura. Queremos ir até ela e nos unir a ela. Através dela nós nos encontramos e nos sentimos preenchidos. A pessoa amada nos eleva em direção a algo maior, mais amplo, mais sublime. Mas antes que percebamos, ela fica para trás, como se tivesse sido apenas uma porta através da qual avistamos a essência de nossos anseios e realizações. Através da pessoa amada tocamos e entramos em nossa essência que nos captura e satisfaz. Isso significa que a pessoa amada não está mais conectada conosco? Ela também passa através dessa porta, deixando-nos para trás. Contudo, à medida em que nos encontramos e nos deixamos para trás, caminhamos juntos em direção a nossa essência, unindo-nos a ela, transcendendo, de longe, a nossa ligação. Permanecemos conectados aqui? Não, retornamos e encontramos também muitas outras pessoas, olhamos para elas de uma forma nova e diferente, olhando para além delas. Elas também se transformam em portas. Por trás delas vemos a essência, caminhamos nessa direção através delas, entretanto sem deixá-las para trás. Nós as levamos conosco. Dessa forma encontramos e amamos os outros da maneira como são.

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PERMANECER NO AMOR
Permanecer no amor significa: permanecer dedicado, não importa o que aconteça comigo, com os outros, com a natureza ou com o mundo. Por isso esse amor é consciente e centrado. Permanece centrado tanto em si como nos outros. E é forte. Ele age somente quando pode estar em sintonia com o destino, tanto com o nosso quanto com o de outros. Por isso está tão próximo quanto distante. E é humilde. Conhece seus próprios limites e os limites dos outros e não os ultrapassa. Esse amor sabe que para além desses limites atua algo maior ao qual todos se submetem e se entregam. Portanto, esse amor permanece dedicado a algo maior, talvez esperando pelas suas instruções, ganhando sua forma através da sintonia com ele. Por isso também é sereno. É sem desejos, mas mesmo assim presente, de prontidão. Esse amor tem boas intenções consigo e com os outros, também quando se recolhe. Por isso sentimo-nos seguros e centrados em sua proximidade. Esse amor não exige nada, embora seja aberto. Ele atrai e espera. E quando age, faz bem.

MEU E SEU
Meu e seu nos diferenciam. Meu e seu também colocam um limite. O que é seu não pode ser meu e o que é meu, não pode ser seu. Precisamos respeitar essa diversidade. Seus pais não podem ser meus e meus pais não podem ser seus. Sua vida e seu destino e mais tarde a sua morte podem ser somente seus. Você está totalmente sozinho com eles. Eu também estou sozinho perante você com minha vida, meu destino e minha morte. Contudo, posso respeitar o que é seu como se fosse meu. Posso amá-lo como se fosse meu e desejar que se desenvolva em sua plenitude. Com isso abençoo o que é seu, sem querer nada dele. Através desse respeito, desse amor, dessa bênção você tem o seu ainda mais do que antes. Pertence a você mais do que antes. Você pode estar seguro do que é seu, respeitá-lo e amá-lo mais do que antes e alegrar-se com isso. Na medida em que respeito o que é seu e me alegro com isso, você se aproxima mais de mim e pode também respeitar o que é meu, abençoá-lo e alegrar-se com isso. O seu aumenta sem que você subtraia algo de mim, assim como o meu também aumenta, sem retirar nada de você. Eu me tomei mais através de você e você se tornou mais através de mim, justamente porque o seu permaneceu sendo seu e o meu, meu. Meu e seu, quando são reconhecidos, respeitados e amados nos unem.

ESTAR ABERTO
Eu me abro a alguém quando eu o honro e ele, por sua vez, fica aberto para mim, me dá

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talvez me diminuam e se coloquem acima de mim. Frequentemente estão menos centradas.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 86 sua atenção. mesmo quando pensamos que estamos conduzindo. Algumas pessoas parecem estar sendo impulsionadas por algo externo e atraídas por pessoas ou objetivos que lhes servem como modelo. É claro que o mesmo também é válido quando outros me negam a homenagem merecida. Tanto para mim quanto para ele são colocados limites dolorosos em relação àquilo que damos a outros e ao que podemos tomar deles. Quem lhes presta homenagem descobre seus tesouros ocultos. As maiores recompensas são possíveis quando nos abrimos para homenagear totalmente nossos pais. Com isso também cresço e encontro minha grandeza e minha plenitude. E me dá de uma forma que não me sinto obrigado. Então não posso tomar dele e nem ele pode deixar que eu participe de sua riqueza. sem poder tomar o que é oferecido e presenteado de maneira tão abundante. E quando ele percebe como sua generosidade gera frutos em mim. Para onde. porque eu tomo dele. sabe que está sendo homenageado e encontra sua grandeza e plenitude. sentados à uma mesa coberta de iguarias. Para ser mais preciso. É claro que posso passar a outras pessoas tanto as dádivas gentis que recebi como também os frutos de meu trabalho e experiência. Então estaremos como convidados. mesmo que quisesse. nos ajudando a realizar nossas metas mais profundas. Eu não posso estar aberto a eles e nem eles podem estar abertos para mim. Nós também podemos homenagear nossa alma confiando nela. Cuidadosamente ela nos revela seu conhecimento secreto. Estar aberto é humildade e amor. me presenteia com prazer. ao invés de procurarmos subjugá-las e impor-lhes a nossa vontade. cada um segue. estamos sendo puxados e impulsionados. SEGUIR Ninguém pode conduzir. Se me recuso a dar ao outro a homenagem merecida. isso se revela mais tarde. já é a maior recompensa. mas não estão menos tomadas a serviço do que aqueles que sabem que estão sendo conduzidos e impulsionados pelo seu íntimo. não importando para onde ela . Não posso dar aquilo que tenho a oferecer e nem eles podem tomar de mim aquilo que poderia ajudá-los. que vem de meu âmago e totalmente sem restrições. ele precisa se fechar para mim. Pois essa homenagem. nos conduz para caminhos antes não imaginados. em sintonia com ela. com o melhor que me pode oferecer. obedientes. Como chegamos ao nosso centro? Não é apenas quando ouvimos a nossa própria voz interior e a seguimos. É estar amplo sem limites. Também a natureza e a terra nos presenteiam ricamente quando lhes prestamos homenagem.

A distância também dá um senso de controle. Contudo. isso significa para mim: fico parado perante um limite. Depois da união se afastam novamente para seus limites. O amor também liga. Junto com elas ouvimos e captamos muito mais do que cada um individualmente. são sustentados por aquilo que os tomou a serviço. minha dignidade e minha força. Então através deles talvez nos encontremos de uma maneira ainda mais profunda com nosso ser e entendamos de forma mais exata a voz que percebemos. No entanto. Quando sinto respeito e temor e devoção. nos recolhemos e levamos o outro somente até o ponto em que nossa própria voz lhe permite. Portanto. . a experiência particular cessa de existir. Toda particularidade só existe através dos limites. Somente assim podem transpor seus limites de uma forma que os protege da dissolução e da fusão. nós a negamos. Só porque paro perante um limite. esquecemos o que lhes havíamos dito. Somente depois é possível um recomeço que vai para além dos limites impostos e . Mas o que fazer se virmos que outros também querem nos seguir? Como devemos nos comportar aqui em sintonia? Na medida em que os perdemos de vista. que é sempre a procura do limite certo . se renovam. LIMITES Os limites ligam. A DISTÂNCIA A distância preserva quem eu sou. As ligações só existem quando os limites são reconhecidos. quando transmitem somente o que lhes advém da sintonia. muitos seguem e conduzem ao mesmo tempo e se experimentam sendo conduzidos por algo maior que está acima deles. quando os amantes se veem e reconhecem seus limites. mas também quando encontramos outras pessoas que estão da mesma forma em sintonia com seus movimentos mais íntimos. mas também impor limites a outros. Sem limites não existem segurança e ordem. No lugar onde terminam. Para assegurar as nossas ligações e proteger a nossa individualidade. seguindo suas próprias metas. Mas isso acontece somente quando aqueles que queremos seguir querem apenas nos transmitir seus próprios ensinamentos. se concentram.após o conflito. precisamos respeitar nossos limites. nesse contexto existe também uma maneira de seguir que aliena. Ao invés de ouvirmos a própria voz e segui-la. Somente assim podemos ultrapassá-los e nos recolher novamente aos nossos próprios limites.a paz. ficando prontos para o desafio da próxima transposição dos limites.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 87 nos impulsione e conduza. posso me relacionar com algo que está e permanece além de meus limites.

Algumas vezes nos aproximamos demais de coisas ou de segredos ou até de nós mesmos. derrete sob seu brilho quente. Ela é dedicada. os pais passam por isso quando se aproximam demais dos filhos adultos. pois a primeira distância que precisamos experienciar é o nascimento. pois é esperada como o sol depois da noite. quando penetramos demais em algo que quer e precisa permanecer oculto. Por exemplo. de nossa influência e poder. Se alguém que tem poder e influência quiser se aproximar demasiadamente de nós. ela solta. Quem conserva a distância adequada em relação a outros. mais além daquilo que eles realmente necessitam. A alegria é viva e aberta. perde a sua confiança. Nela a tensão desaparece. O que está entorpecido. Ela flui e está preenchida. E quanto maior o grupo sobre o qual temos poder e responsabilidade tanto maior também a distância. para algo maior e para a multiplicidade. nos sentimos seguros e no nosso lugar. Está aberta para o novo e para o especial. Por exemplo. Por isso permanece totalmente no aqui e agora. Só experimento distância depois da fusão. quando queremos saber demais. Distância é renúncia. Também os ajudantes perdem prestígio e confiança quando se aproximam demais dos necessitados. Permanecemos dedicados. nem próximo nem longe demais. Penetra. Cada um sente qual seria a distância certa para com um outro. Ao mesmo tempo somos reconhecidos como independentes e separados. Quem se aproxima demais dos outros. de sua influência e prestígio. pois ansiamos por uma intimidade e fusão. Somente quando a distância certa é mantida. Quer o bem de todos também do jeito que são. Também amantes podem se aproximar demais. a distância e a fusão se condicionam mutuamente. na distância conservamos a visão geral e nossa grandeza. quando tentam tomar posse do outro ou quando querem que ele revele mais do que ele próprio quer revelar. perderá algo de seu poder. pois nada do passado está apegado a ela. sem encontrar resistências. ganha a sua confiança. Quanto maior a posição tanto maior a distância. Entretanto. O símbolo para essa distância é o próprio nome. por exemplo. E percebe pois é aberta e ampla. diminuir a distância. somos convidados a nos aproximar. sem querer algo. Entretanto. a fusão com a mãe. Descansa em si e está em sintonia com tudo e feliz com todos. somente através dela chegamos a ser nós mesmos. Ela vem depois da primeira fusão íntima. Porque é solta.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 88 Algumas vezes a distância é difícil. no entanto. Instintivamente estes se fecham e se desviam dele. também de nossa idade. A ALEGRIA A alegria solta. pois toma para dentro de si o que . Pressupõe a despedida da infância e a concordância com a última solidão. A distância adequada depende de nossa posição. sem nos perdermos e ficamos abertos para algo impalpável. Essa primeira distância é dolorosa. Vai para além das circunstâncias adversas e deixa tudo para trás. Quando somos chamados pelo nosso nome.

o presente puro. Por isso o desejo de vida é também o desejo por aquilo que existe como um todo e nos foi dado. Os outros já estão presentes nele. não importa quando ela chegue. facilitando nossa vida. elas cicatrizam. Esse desejo mais profundo é a felicidade realizada. O DESEJO MAIS PROFUNDO 0 desejo mais profundo é sempre realizado. É apenas o desenvolvimento daquilo que já existe. acolhidos e amados. . transformando-o e continua fluindo. essas perspectivas são realmente boas para nós? Através delas nos tornamos mais humanos. Mas como fazer uma diferenciação entre as boas ou más perspectivas? Quando falamos de boas perspectivas. nos tornamos um ser humano? Crescemos através delas? Elas nos conduzem para a plenitude que é possível para nós? Elas têm profundidade? Inversamente. Só pode estar direcionado para algo presente que já temos. Portanto esse desejo e essa vida não precisam de nada novo como se algo ainda pudesse ser acrescentado. Por isso se estende cada vez mais para o mais. Assim como a sede de vida bebe a vida que já tem. Pois a existência. No entanto. quando nos referimos às más perspectivas temos frequentemente a ideia de que uma perda nos ameaça. pois é ampla e leve. que ficaremos solitários. que vamos errar a meta. com a morte. como a vida.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 89 encontra. sem ter o nosso lugar certo e sem ter a sensação de estar conectados. Pois está em sintonia com o Último. É sede que já está saciada. Está em movimento para outros mas sem que estes estejam ausentes. trazendo mais conforto e talvez até tendo menos exigências. que talvez precisemos nos limitar e até perder prestígio. PERSPECTIVAS ―São boas ou más perspectivas?‖ Algumas vezes fazemos essa pergunta em relação a nós e a outros. que vamos sofrer prejuízos. Acima de tudo. Poderia haver uma conexão mais íntima do que aquela que experimentamos quando ficamos alegres junto com os outros? Ou quando os pais se alegram com seus filhos e os filhos com seus pais ou quando o homem se alegra com sua mulher e a mulher com seu homem? Ou quando nos alegramos até com as adversidades da vida? A alegria tira seus espinhos e as transforma. A alegria é a realização do amor. A alegria tira do pesado seu peso. sem que isso esteja num futuro distante. A alegria cura. exultante. Essa alegria vem de dentro e nada de fora pode turvá-la. Está preenchido mas mesmo assim em movimento. também o desejo mais profundo é o presente puro. Quando a alegria do sol brilha sobre antigas feridas. deseja aquilo que já está presente em sua plenitude. muitas vezes pensamos que elas nos trarão benefícios.

seguimos uma parte do mesmo caminho. Somente ele pode estar em sintonia com esse caminho. Pois ela está em sintonia com o que existiu e com aquilo que é e virá. Com isso permanecemos no essencial. Mas então chega o momento de seguir novamente sozinho o próprio caminho. o outro pior. passamos a refletir sobre outras coisas. de nossa força e de nossa mais profunda felicidade. conduzindo-nos a uma meta mais elevada. mas isso não dura para sempre. Para a alma não existem nem boas nem más perspectivas. Mas o outro caminho só pode ser seguido por alguém que reconhece que é esse o seu caminho. dos destinos de nossa família. No fundo não temos outra escolha a não ser seguirmos nosso próprio caminho. Pois aqui todos os caminhos se comprovam serem iguais e nenhum outro caminho foi realmente diferente do que o nosso próprio. que naquela época segundo a nossa imagem interna permaneceram irrealizados e que esperamos que sejam preenchidos posteriormente através de boas perspectivas. renunciando a ficar refletindo sobre as boas ou más perspectivas e renunciando a ficar esperando por elas ou as receando. O PRÓPRIO CAMINHO O nosso próprio caminho é o certo para nós. de nossa vocação. acompanhamos e nos apoiamos nesse caminho. Pois o nosso caminho nos foi predestinado: através de nossa origem. Mas todos os caminhos terminam na mesma meta. o outro vulgar e inferior. Cada novo dia é para nós a melhor perspectiva — se nos alegrarmos com ele. este é nobre e superior. apreciado e acolhido. separados daquilo que não pode ser mais resgatado. tendo com isso a força e a coragem e a disposição de segui-lo. aprendemos um do outro. de nossas experiências especiais e de nossos limites físicos ou mentais. Nela nossa individualidade termina. Através das más perspectivas deixamos essa esperança esvanecer. Nesse sentido. de nossa satisfação. todos nós só seguimos nossos próprios caminhos. O assim denominado bom é reconhecido. Quando estamos a caminho encontramos outras pessoas. Por isso também permanece oculto para nós se uma vida longa e feliz é uma boa perspectiva comparada a uma vida curta e difícil. de nosso sexo. lado a lado. Por isso. Se isso acontecesse talvez nos enfraqueceria. transformando a adversidade em força. Entretanto. as más perspectivas nos purificam de desejos. que talvez remontem à nossa infância. ninguém é diferente de um outro que segue seu caminho e sabe que é o seu. Todo desvio nos aliena dele e de nós mesmos. talvez com o tempo crescemos. Algumas vezes somos tentados a comparar o próprio caminho com o de outros e concluímos: este caminho é melhor. . crescendo com elas de uma forma mais abrangente do que ficando presos a velhos sonhos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 90 Contudo. Algumas vezes podemos pensar que um outro caminho seria mais fácil e mais satisfatório.

até que o próprio se impõe novamente e no nosso próprio caminho encontramos a nossa plenitude. O VAZIO Existe um vazio que é limitado. minha alma. existe um outro tipo totalmente diferente de submissão. Primeiro. Isso significa que através da submissão renuncio a algo meu. minhas reivindicações. tanto mais ampla ficará a nossa alma. meu conhecimento e meu definhamento. Dessa forma me submeto às leis da vida. desembocam algumas vezes num outro. Entretanto. Eu sirvo de orientação. Partindo do vazio dedicamo-nos novamente ao indivíduo. Então teremos no vazio tanto o todo como o individual. por exemplo. mas de forma diferente: vazios e ao mesmo tempo plenos dele. às necessidades de meu corpo. no final. minhas ilusões. justamente com isso. Fico feliz. sem ameaçar ninguém. é sintonia que vibra com o todo. meus temores. Pois o todo só pode ser imaginado e experimentado por nós somente como algo que não é individual.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 91 Dessa forma muitos caminhos se cruzam. poderoso. meus limites. meu amor. Contudo. . A SUBMISSÃO A submissão pode ter dois efeitos. um recipiente vazio. Quanto mais vazios ficarmos na nossa alma tanto mais nos aproximaremos do todo. Quanto mais nos esvaziarmos de nossas experiências anteriores. de forma que por um certo tempo parecem estar no mesmo caminho. porque estou em sintonia com a ordem que me protege e sustenta. Por isso o vazio. permitindo que um outro algo tome posse de mim. Ele só pode conter uma certa quantidade. minha capacidade. deixando o individual e amando o todo. Nessa submissão os limites entre mim e o outro desaparecem. ficando plenos no vazio. que através dela posso me perder. sem querer. na alma o vazio se amplia. minha compreensão. meus desejos de posse. ficando mais preenchidos por ele. Nela me abro para algo exterior. Nessa submissão sou conectado com mais e com algo maior. Eu fico submisso e. Contudo. eu lhe permito tomar posse de mim. até que fique aberta para o todo que permanece impalpável para nós. Essa submissão é centrada. Nessa submissão renuncio a todas as minhas resistências. de uma forma que eu me abro para ele e que ele se abre para mim. nela fico amplo e rico. talvez até a mim mesmo. Então de que forma podemos ficar vazios? Abrindo-nos simultaneamente para o todo.

tudo que existe é diferente na medida em que existe. Tudo que existe está presente. Também podemos perguntar: ―O que se acrescenta à nossa existência e o que retira algo de nossa existência?‖ Aqui existe uma contradição se formos pensar somente em termos de conceito. o irrecuperável. A existência como tal .Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 92 A EXISTÊNCIA Quando esperamos algo e isso acontece. Algumas vezes nem estamos presentes. Não existe nada mais grandioso. Então dizemos para um outro ou um outro nos diz: ―Você nem está aqui. Não existe por si só.‖ Por isso podemos diferenciar entre aquilo que nos deixa estar mais ou estar menos aqui. Mas observar isso somente dessa forma não está à altura da grandeza da existência. de termos mais peso ou menos peso. Pertence a todos que estão aqui e como estão aqui. Tem junto com ele a sua existência.‖ AS DIFERENÇAS As diferenças desaparecem quando olhamos para aquilo que existe somente como algo que existe. Para o ser humano existência é o mesmo que vida. Estamos presentes uns para os outros. Nossa existência tem início e fim. o sagrado. Mesmo assim. dizemos: ―Agora está aqui.‖ Por exemplo. Mas na nossa experiência sentimos a diferença de estarmos mais ou menos presentes. Ninguém pode ter mais existência do que um outro. Aquilo que está aqui toma seu lugar ao lado de todos os outros que estão aqui. Com a vida ela também acaba. O que é essencial para a nossa existência e o que é menos essencial e até desnecessário? O essencial acrescenta algo à existência. Contudo. o nascimento de uma criança. mais desafiante e ao mesmo tempo mais sereno do que quando dizemos para outros e para nós mesmos: ―Eu estou aqui.também sem essa referência .é o essencial. A existência para nós é mais do que estar presente. Ainda podemos fazer uma outra diferenciação. E justamente porque existe é igual a todo o resto que existe. Somos todos iguais na nossa existência. . Nada pode ser maior do que a existência. Estamos também presentes na medida em que nos desenvolvemos e evoluímos de uma forma diferente. a dos outros está também presente para nós. Nossa existência começa com ela. também está presente para outros. A existência tem uma referência. o único. como a nossa existência está presente para outros. Por isso algumas vezes estamos mais e algumas vezes menos presentes. Nossa existência alcança sua plenitude quando muitos outros estão presentes para nós e nós estamos presentes para muitos outros.

Nossa existência é a última experiência para nós. Seja na área da arquitetura. de um nascimento. Assim. o artista está possuído e inspirado por algo que o toma a seu serviço. sem diferenciação alguma. no qual penetramos apesar de nossos . abrindo. a vida como é a cada novo dia. um casamento. Quando olhamos para as fotos que tiramos. das artes manuais. nutre a alma e o espírito. por exemplo. Por isso o centramento em direção à nossa existência é o centramento mais profundo possível. Mas também podemos comemorar o nosso sucesso ou o sucesso de alguém. Como seriamos pobres sem a arte! Quão pouco verdadeiramente humanos! Quão pouco abertos para algo maior. São dias de festa em que ficamos felizes e dos quais nos recordamos com prazer. Aqui as diferenças não existem. por aquilo que o entusiasmou. Nós nos encontramos para festejar algo. para algo inesgotável. a diferenciação entre corpo e alma e espírito. podemos comemorar uma vitória. da música. e unidos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 93 O menos essencial só lhe acrescenta pouco e o desnecessário até retira algo dela. O essencial respeita o tempo limitado e justamente por isso é essencial. das artes plásticas. Por isso. Embora nos toque profundamente. para nós e para eles. no final. Também podemos festejar a existência. nos deixa admirados. ou na área da literatura. uma festa. longos anos de exercícios e de disciplina e um dom especial.nos internamente para ele. Ela pressupõe a capacidade. Nesse contexto comemorar também significa louvar. as boas sensações são reativadas e a alegria nos preenche novamente. deixando-nos tocar e mover pelo mesmo espírito que tocou e moveu o artista. Mas não importa em que área. ilimitados. todo o essencial está preenchido. da filosofia ou da experiência religiosa e espiritual: o artista sempre sabe que é a harpa que um outro toca. A ARTE A grande arte nos comove. Comemoramos um aniversário e nos lembramos de um acontecimento. de uma certa forma. nos eleva para além de nós. Na existência estão apenas presentes. festejar significa que comemoramos. Por exemplo. Tudo aquilo que é essencial para nossa existência o experimentamos dentro dela. Pois a nossa existência está limitada pelo tempo. Essas festas reúnem. Uma festa une. Ela nos revela amplitudes ocultas. nos deixa devotos e. o centramento essencial. Por isso convidamos outros para uma festa ou somos nós os convidados. A COMEMORAÇÃO Por um lado. Por exemplo. convidam muitos outros e fazem de nossa vida. Essas festas são os pontos culminantes em nossa vida. a melhor forma de entendermos o artista e sua arte é nos deixarmos entusiasmar por ele. permanece impalpável para nós.

o espírito que as inspirou permanece eterno.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 94 limites e no qual permanecemos mesmo após a morte! A arte nos dá esperança mesmo além de nossa morte. embora as obras sublimes da arte possam ser esquecidas. . Por isso.

Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 95 "É ASSIM QUE ELE CRESCE: SENDO VENCIDO CONSTANTEMENTE POR SERES HUMANOS MAIORES" .

nos perdemos no coletivo. No entanto. Tudo aquilo que precisa se impor. ama como eu. com o nosso grupo nos tornamos uma ameaça para os outros. A sociedade livre de erros e o relacionamento sem erros estão no fim. Por quê? Porque ele próprio parou de crescer. Neles não existe desenvolvimento nem crescimento. Esses laços frequentemente criam uma desconfiança. seus erros e as consequências desses erros fazem parte de nosso destino e do destino deles. Então como indivíduos de nosso grupo sentimos medo.nos tornamos desumanos. tem medo como eu. um sentimento de superioridade ou inferioridade e de ameaça. mas quase sempre como membros de famílias diferentes. pois sem eles não existe progresso. tem pai e mãe como eu. No entanto outros também nos prejudicam com seus erros. não tem amor por ele. Quando encontramos uma outra pessoa e reconhecemos que somos iguais. Isso pode acontecer com qualquer um e faz parte da condição humana. Entretanto. Frequentemente cometemos erros que são irreversíveis ou pagamos pelos erros dos . bloqueia seu crescimento e sua habilidade de conquistar sua mestria. Quem não permite que ninguém cometa erros e algumas vezes também não deixa que esses erros possam ficar no passado. Podemos perder algo ou sermos prejudicados através de seus erros. Nossos erros. algumas vezes sofremos danos físicos e até perdemos a própria vida. sua origem. culturas diferentes. Nenhum ser humano pode escapar totalmente de situações onde pode estar no papel de agressor ou de vítima ou estar em ambos os papéis em momentos diferentes. precisa enfrentar os desafios da vida como eu. Quem não quer cometer erros. aprender e exercitar. religiões e povos diferentes. talvez até mesmo indo contra mim. Nesse sentido também somos iguais. na verdade quer a morte. Isso também pode acontecer através de nossos erros.iguais a todos na humildade. necessita de algo como eu. justamente porque concordamos também com isso. nós nos encontramos não somente como indivíduos. Em situações de vida e morte. suas possibilidades. E como eu. Quem exige o perfeccionismo de si mesmo e de outros. não consegue mais agir. precisa lutar pela sua sobrevivência. Está entregue ao seu entorno como eu. Foi criança como eu. Quem não permite que outros cometam erros. nos tornamos cruéis nos nossos corações e desejos . seus limites. talvez precisemos nos tornar desumanos para salvara nossa própria existência. podemos interagir de uma forma que nosso intercâmbio seja benéfico para cada um de nós e darnos mutuamente o que serve às nossas vidas. sente como eu. tudo aquilo que precisa superar obstáculos. tem êxito somente através de erros. OS ERROS No geral todos os erros são certos. nos tornamos realmente humanos — sem arrogância . tem apego a eles como eu.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 96 O SER HUMANO Todo ser humano é como eu.

Reivindicamos nossos direitos. Pelo menos nos nossos desejos e esperança. 0 outro não pode mais aprender com eles. sem a esperança de que qualquer tipo de reivindicação possa ter direito nos torna conscientes de nossos limites. deixando-os também impotentes. não pode melhorar e não pode evitá-los no futuro. o seu crescimento. Contudo. se preocupem com nosso direito e se importem com ele? Afinal. no final. impotentes. perante o qual permanecemos devotados. Então seremos mais fracos? Quando nossos limites caem. Quem pode esperar algo assim: que as forças que. Mas quem recebe o direito. via de regra.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 97 outros. essas forças existem. Isto é a última sabedoria. . nos opomos contra os direitos dos outros e queremos que seus direitos estejam dentro de determinados limites. algo se abre. que não podem ser mais reparados. quando esperamos que o destino ou Deus confirme os nossos direitos. Ficamos humildes . porque o direito tem algo a ver com o poder. Quando reclamo meus direitos e quero afirmar algo contra outros . interferindo de forma consciente e ordenadora como uma pessoa? Esse fato poderoso. sem a esperança de que um dia receberemos a justiça. Isso também faz parte do caminho rumo ao progresso do todo. triunfar sobre os poderosos. abertos e prontos para aquilo que é possível. da mesma maneira que estivemos outrora perante eles. como eles haviam triunfado sobre nós. esse destino é realmente cego? Quem quer saber disso e quem pode ter esperanças aqui? Concordar com a impotência. tirar o seu direito e subjugá-lo. onde seu poder fracassa e seu direito prova ser passageiro e impotente. O mais forte pode oprimir o mais fraco. Pois só assim podemos crescer realmente através deles. Isso se revela principalmente quando queremos ir contra o destino ou contra Deus ou contra a morte.quero colocar limites. sobretudo face à morte. no final. da mesma forma. é o mais forte. Isso também é válido para nossos erros. quando reconhecemos que somos impotentes. centrados. serenos e justamente por isso. O DIREITO Queremos ter direito e queremos que nosso direito prevaleça. Quem perdoa facilmente ou deixa passar os erros dos outros bloqueia. todos que tiveram direito e o impuseram. punindo aqueles que tiraram o nosso direito. chegam a um limite. Por isso são principalmente aqueles que tiveram os seus direitos violados pelos poderosos que clamam ainda mais pela justiça e exigem seus direitos. queremos que o nosso direito seja exercido com a ajuda do destino ou de Deus e.e indulgentes. determinam sobre nós.

No entanto. seria concordar com aquilo que nos toma a serviço e seria agir com esse destino naquilo que nos oferece como saída e solução. contudo. Quando luto contra isso. tanto mais me prenderá e o resultado será uma união maior com ele e. sem nos ligar. me afastando de algo que me pertence. quando admito: ―Eu fui injusto com você‖. porque só dessa forma o que está oculto em mim surge perante minha visão e nos meus sentimentos. Contudo. desaparece. a falta de esperança. Aqui eu disse algo sobre a injustiça. encontrando com isso nossa dignidade e força. Então. Preciso daquilo que vem de fora em minha direção. em tempos de guerra ou opressão? A resposta mais comum é o grito pela vingança. Contudo. Então. Entretanto. A injustiça que cometi pode não ser revertida mas. cresço através de meu adversário. deixando-o mais humano. assustado. agora purificado e modesto. no final. MEU ADVERSÁRIO Meu adversário sou eu mesmo. Então ficaremos mais humildes e humanos. como acontece nos relacionamentos mais estreitos. a resignação. com o meu adversário chego a mim mesmo. por exemplo. Não podemos simplesmente passar por cima disso. me torna pequeno e eu me submeto às fileiras dos maus e me despeço de minha virtude e de minha arrogância. me reconcilio com ele e com ele me transformo na pessoa que eu já era. fico envergonhado. E assim a luta contra aquilo que vem contra mim deixa a minha alma mais estreita. mesmo quando sou injustiçado por outros. o que está oculto para mim se oculta mais ainda e essa parte que é minha se afasta de mim. Mas isso faz bem. o verei como parte minha. embora lutemos um contra o outro. Fico fora de mim. a submissão silenciosa ao seu destino ou até o total desespero. E posso ser tolerante. Talvez isso o torne mais silencioso e mais cauteloso naquilo que diz ou faz com os outros. A pressão que sentia. uma tal injustiça é superada com isso? Existiria um caminho possível para resolver o conflito? Seria olhar para o destino que atua para além de nossas ideias sobre justiça e injustiça. com o tempo. ao dizer isso.‖ Quando admito isso nossa relação muda. Quanto mais fora de mim eu fico e luto contra aquilo que me contraria. num nível mais profundo isso atua de uma forma reconciliatória. Mas como fica em relação à injustiça que grandes grupos cometem com outros grupos. ele pode ficar feliz com isso? Não.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 98 A INJUSTIÇA ―Eu fui injusto com você. Isso também me diminui. O que aconteceu permanece entre nós. Aquele com o qual fui injusto sente-se aliviado e sua dignidade reconhecida. isso me deixa mais humano e mais suave. querendo o meu outro lado. como eu mesmo. Se fui eu que cometi injustiça a um outro. e ele cresce através de mim. a raiva impotente. . Ele também pode deixar isso para trás. sim.

É um encontro de destinos que atuam por trás de mim e por trás dele. não me exponho a ele somente como um ser humano. a paz é o verdadeiro adversário. resisto ao sentimento de culpa. O AMOR DO DESTINO O destino nos encontra em qualquer pessoa com a qual mantemos um relacionamento. Está tanto inserido como dedicado. Nele crescemos para além de nós. nós o liberamos. ao seu e ao meu. muitas vezes a minha reação é pensar em fazer algo de mal a ele. de uma forma que traz a felicidade ou o sofrimento. Nós nos afastamos de algo sem deixá-lo fora de nossa visão. nessas guerras existem perdedores também.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 99 Aqui também é verdade: a guerra é a origem de todas as coisas. cada encontro com um outro ser humano é mais do que um encontro entre eu e ele. No entanto. Com isso. Para eles. quiser fazer algo de mal para mim. que exige o último de nós. Cada um se torna meu destino — e eu para ele. permitimos que . São aqueles que procuram a paz sem o conflito. Entretanto. O que isso significa para cada indivíduo? Se alguém. como amo o meu destino que enriquece o outro. não importa de que forma. fico livre das mesquinharias e permaneço em tudo no amor. deixo-me ser tocado por ele. porque é o amor do destino. É a minha origem que me transforma naquilo que serei. Por isso. está em sintonia com tudo. Quem ama o destino dessa forma. o próprio e o do outro. dando e tirando o último de nós. como se estivesse agindo por egoísmo e desejos maldosos e não porque estou entregue ao destino. o amor do destino é o amor último. querendo o equilíbrio ou a vingança. Inversamente. que o limita e o obriga à despedida e à separação. dando ou tirando a vida. quando me torno para um outro de certa forma o destino que o fere. está a serviço do crescimento ou da limitação. preciso amar esse destino como ele é e através dele me torno puro e igual. Por isso. DEIXANDO Deixar algo sem abandoná-lo é a verdadeira maneira de deixar. que às vezes me desafia e me atinge. Eu me exponho ao destino — e o amo. como é. do meu ponto de vista. o amor do destino significa que amo tanto o destino do outro que me enriquece. Deixando-o. Mas se olho para ele como entregue ao seu destino e reconheço que seu destino se torna também o meu destino. esse mesmo adversário os ajuda a se encontrar. Contudo. que às vezes o desafia e o atinge. Nesse instante eu me submeto a um poder fatal. Seu amor tem grandeza e força.

ganhamos parte nele. sem seus próprios limites. por exemplo. aquilo que escolhemos e aquilo pelo qual optamos prefere permanecer conosco. sem nada segurar. não concordamos com isto mais do que com aquilo que deixamos. Por isso. Este ―eu‖ não tem mais um centro. A plenitude não julga. Por isso. Justamente por isso aquilo que deixamos pode permanecer dedicado a nós e nós a ele. Não é apossado por nós e permanece conectado com aquilo que não escolhemos e com aquilo pelo qual não optamos. um como perfeito e o outro como imperfeito. num julgamento de valores. não importa o que encontremos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 100 esteja conectado com algo maior. Dissolveu-se no deixar. optar sem julgamentos. o julgamento nos torna solitários e empobrecidos. O que acontece com as pessoas que foram julgadas ou com aquelas que estão presentes durante o julgamento? Elas se afastam dele. penetramos em algo maior e vivemos a experiência de um encontro profundo conosco. Separa de uma forma tão radical que um é escolhido e o outro rejeitado. O JULGAMENTO 0 julgamento divide. A concordância conosco como somos. Quando tomamos o que precisamos. É claro que existem gradações. e na verdade. temos acesso a ele. Nesse amor somos ricos. se julgamos que um é melhor e o outro pior. pertencente a todos e com isso existindo em seu próprio ser. No entanto. Na concordância estamos ligados ao todo. com as coisas e com a criação como são. com as coisas e com a criação. Abre sua riqueza para todos. Qual é o oposto desse julgamento e condenação? A concordância. a concordância com Deus ou com o destino ou com o todo e com as forças ocultas que atuam por trás de tudo. Escolhido significa que pode existir. O deixar aproxima. . Rejeitado que não pode existir. Simultaneamente através do deixar. A concordância com tudo. ama tudo e todos assim como são. no seu relacionamento com Deus. nos movimentamos livremente com ele. no mais fundo de nosso ser. Portanto. concordar com tudo não significa que queremos tomá-lo ou até possuí-lo. sem julgamentos. acima das coisas e da criação e até acima de Deus. sem que possamos explicar ou entender. sem considerar o que possamos pensar e pressentir em relação ao que está por trás dessa imagem? Ele se coloca acima deles: acima de outros seres humanos. O que acontece então com aquele que julga? Quais são os efeitos em sua alma? E o que acontece com ele em seus relacionamentos? No seu relacionamento com outras pessoas. Mesmo assim um é escolhido e o outro rejeitado. podemos escolher sem julgamentos. somos desafiados por ele e estamos acolhidos e preenchidos por ele no todo. como é. podendo se desenvolver. podemos ficar ao lado dele. um como capaz e o outro como incapaz. é inalcançável. Contudo.

eu e o outro.‖ (Romanos 14. mesmo que talvez se afaste do que é meu. a delimitação conecta as pessoas quando existe o respeito como base. o conduz e a mim também. Eu permito a mim e a ele tomar o que precisamos nas nossas vidas e deixarmos o resto. o mesmo começo. Através da delimitação o outro também pode entrar em sintonia com aquilo que lhe é adequado. Entretanto. sua alma. Na epístola aos romanos Paulo escreveu a bela sentença: ―Cada um fica de pé e cai com seu próprio senhor. muito pelo contrário. Através da delimitação permito a mim e a ele as nossas próprias experiências. com aquilo que me é adequado. Através da delimitação poupo o outro de minhas imagens daquilo que é o certo ou errado e me protejo de suas imagens daquilo que é o certo ou errado. até do destino dos próprios filhos. Através das delimitações também protegemos os outros de nossas invasões em seu corpo. A delimitação também nos isola? Não. podemos realmente ajudar um ao outro. Nas delimitações respeito tanto a mim mesmo como o outro. Somente na delimitação posso ficar totalmente feliz comigo mesmo e com o outro. também do destino do meu parceiro e de seus antepassados. sim. A delimitação permite a mim e a ele seguir cada um o seu caminho. Através da delimitação entro em sintonia comigo mesmo. a mesma felicidade e infelicidade. no nosso espírito. seu espírito. Essa delimitação é o verdadeiro amor. O . Pois. Eu preservo o meu e permito que o outro preserve o seu. o nosso próprio desenvolvimento e o nosso próprio destino. mesmo que talvez seja muito diferente daquilo que é o adequado para o outro. aprender realmente um do outro.4) O senhor. Somente no amor com delimitações cada um é honrado em seu mais íntimo.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 101 A DELIMITAÇÃO Através da delimitação criamos uma distância. Curiosamente. do destino de meus pais ou de meus antepassados. Por exemplo. é o mesmo para todos. somente na delimitação podemos eu e ele nos dedicar diretamente ao que nos conduz e determina no nosso mais íntimo. na nossa alma. podemos realmente amar um ao outro. na verdade. Somente através da delimitação podemos. Eu e o outro nos sentimos seguros através da delimitação. A LIGAÇÃO O que nos liga como seres humanos é o mesmo: a mesma natureza. decide de modo diferente em relação a cada posição ou queda. a mesma vida e a mesma morte. embora e justamente porque a delimitação permanece. Nós nos encontramos mais intimamente naquilo que nos toma a serviço. para onde. especialmente do destino daqueles que estão próximos de mim. Através dela nos protegemos de invasões: no nosso corpo. o mesmo anseio. no final. Na delimitação me protejo do destino de outros.

Então o que é a nossa essência? É o todo no qual eu me esqueço. Deixa-nos experimentar no nosso íntimo a nossa dependência da multiplicidade infinita. deixando que sejamos carregados. A forma mais fácil de nos liberarmos dessa moral é quando olhamos para nós. embora seja a mesma para cada um de nós. Estamos inseridos num todo e unidos num processo infinito. chegando a nossa essência. justamente através da diferença. Garantimos um ao outro o mesmo espaço. Pois o conhecimento genuíno é destituído de egoísmo e é vivenciado como um presente. Por isso. despreocupados. mesmo que isso pareça ser contraditório. você é pior ou o inverso: eu sou mau. conectados com o outro com todas as fibras de nosso ser. ficamos devotados e silenciosos. humildes. Nós imergimos nele. Como seres humanos sabemos que estamos entregues a poderes que nos transcendem e perante eles sabemos que somos todos finitos e limitados. Ele nos conduz a algo maior perante o qual nos detemos admirados e esquecemos nossos próprios desejos. o mesmo desafio e o mesmo fracasso e sucesso. Quando reconhecemos e concordamos com isso ficamos serenos. totalmente dedicados a ele. ficamos temerosos perante eles e quando se trata do Último. Perante eles estamos unidos no nosso mais íntimo. deixamos o outro em paz e permanecemos assim em paz um com o outro. como seres humanos. de tal forma que nela nos envolvemos. Dessa forma. deixamos que sejam como são e renunciamos a essas mesmas reivindicações também em relação a nós mesmos. Renunciamos a nossas reivindicações em relação aos outros. você é bom. Nesse sentido todos somos iguais. não importando para onde nos conduz. pois a diferença acrescenta algo ao igual. nela nos diluímos.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 102 que nos liga também é a mesma ameaça. Nesse conhecimento somos serenos. Principalmente renunciamos à moral no sentido de: eu sou melhor. os mesmos medos. Somente nesse conhecimento chegamos a nossa essência. mas observamos a nossa dependência de circunstâncias exteriores e interiores e quando entendemos que a vida. observando de fora. somos iguais perante eles. nos aproximamos perante eles. se revela e se impõe de sua própria maneira. os seres humanos se entendem como seres humanos imediatamente. nos coloca a seu serviço e nos presenteia. . Esse conhecimento une. não somente como indivíduos. Mesmo que pareça ser contraditório. Ele nos penetra. somos iguais. Embora disponham de nós de formas diferentes. O AUTOCONHECIMENTO Muito autoconhecimento e o anseio por ele é egoísmo. através da diferença ficamos cada vez mais iguais e sabemos que nessa diferenciação estamos ainda mais dependentes e unidos um ao outro. sem que no final nos sintamos cortados ou alienados dele.

quando a hora certa chega. Está recolhida e presente. Então o que nos resta fazer? Continuamos jogando. Contudo. É centrada. mas mesmo assim distante. Onde descansa a maior força que permanece sempre a mesma nesse jogo de muitas forças? Na alma que está em sintonia com a ação e a reação. Ela é esperada porque leva adiante aquilo que estava esgotado e estagnado. está a postos. 0 que atua por trás desse jogo de forças e de forças opostas? Tem um sentido profundo ou tudo é apenas um grande jogo? Quem quer saber? Este pensamento e esta reflexão também pertencem a esse jogo. com o progresso e a estabilidade. Aqui as forças se colocam limites reciprocamente. A maior força é aquela que pode descansar em si mesma e por isso pode esperar pelo seu tempo. está próxima. cresce com eles ainda mais em direção a uma força maior.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 103 A FORÇA A força se impõe. Ela desafia. . Fica afastada de discussões superficiais. se aprimoram mais e se espiritualizam. com a espera e a ação. sem ameaçar. Ao invés de se voltarem para fora. pondera e amadurece. à realização e ao sucesso. Também reúne ao seu redor a força contrária por um certo tempo para estabelecer um novo equilíbrio entre as forças opostas até que o jogo entre elas comece novamente. voltam-se para dentro. até que no final as forças opostas tenham ficado fortes o suficiente para conseguir um equilíbrio. se medem de uma outra forma. desperta novas forças naqueles que estão expostos a ela. crescem umas com as outras e conduzem em nossa alma e também em nosso corpo e nosso espírito a uma riqueza interior. conserva a visão geral.

DA CONDIÇÃO DO NÃO SER" .Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 104 "SEJA – E SAIBA. AO MESMO TEMPO.

outras pessoas ficam emaranhadas em um destino não solucionado. exigindo de nós uma ação ou não ação. Nessa comunidade de destino estamos acolhidos. querem agir através de nós. são por ele capturadas e tomadas a serviço — e nós também. sabemos o que podemos e devemos deixar de fazer. comunidade de destino ainda pode ter um outro significado totalmente diferente: estamos emaranhados no destino de outros sem que existam possibilidades de escape. Comunidade de destino também significa que participamos espontaneamente no destino de outros procurando amenizá-lo. mais tarde. Pois tudo que existe já atua em tudo pelo simples fato de estar presente. soltamos todas as intenções que nos afastam . através de nós. Contudo. uma perseguição. uma catástrofe natural que atinge todos da mesma forma. não importa para onde ela o conduza e para que finalidade o tome a serviço. não concluído. ao mesmo tempo. uma guerra. no destino de nossos antepassados e no destino trágico ou na injustiça que outros sofreram. por exemplo. Pode até acontecer que no relacionamento com um ser amado ou. Soltamos nossos próprios pensamentos egoístas. mesmo quando agimos. quando estamos em sintonia. amados e apaziguados. no final. soltamos algo se estivermos em sintonia. Eles se tornam novamente vivos em nós.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 105 A COMUNIDADE DE DESTINO Por um lado. com nossos próprios filhos. comunidade de destino significa que carregamos com muitos o mesmo destino. é claro. somos seres humanos entre seres humanos. uma deficiência ou doença. temos o destino de muitos outros e o destino deles se realiza através de nós e o nosso através deles. representemos novamente um drama do passado e precisemos levá-lo até o fim. por exemplo. Quando estamos em sintonia. Assim. por exemplo. isso atua também em nós e a nosso favor. ser reconhecidos. atuando em sintonia com seu meio ambiente em qualquer momento. permanece no amor por todos e. nos tornamos iguais e equivalentes a todos os outros seres humanos perante algo maior que interfere de modo poderoso no destino de todos. têm a palavra através de nós. inversamente por ele. fica liberado. ao concordar com ele. Quem se submete a essa comunidade de destino. Entretanto. Isso nos tira a liberdade? Com isso fracassamos na nossa própria realização? Ou é justamente esta a nossa finalidade? Realizamos nessa comunidade de destino também o nosso próprio destino? Talvez o nosso destino seja esse algo em comum? Nós também temos nosso próprio destino porque. ATUAR SEM AGIR Quando deixamos algo significa que não temos mais efeito sobre isso? Ou talvez seja o inverso: que algo só pode ter efeito se deixarmos que atue. quando ajudamos alguém num acidente. Porém.

da pura escuta. frequentemente acontece porque queremos ou esperamos algo que se afasta de nós e permanece inalcançável.e nós estamos entregues a ela. que se apossa de nós sem que saibamos o que é e de onde vem. nos expor a esse plano. sem tomá-lo como próprio.se e entrando em sintonia com isso. Estamos realmente entregues? Ou podemos deixar entrar uma pequena luz nessa escuridão mudando a nossa perspectiva a partir de nosso íntimo? Só poderemos conseguir isso se tomarmos a depressão como ela é e a suportarmos como uma doença que no fundo quer se curar. experimentamos que a nossa não interferência deixa que outras forças mais sábias atuem para um bem maior. soltamos as coisas superficiais. algo fora de nossa responsabilidade ou culpa. Se através dela olhamos para um outro ou para um acontecimento que quer finalmente encontrar a paz depois que tivermos olhado para ele. talvez possamos nos deter algumas vezes. Também vem de algo exterior a nós. Ao mesmo tempo em que atuamos sem agir. Essa é a verdadeira depressão .nos impede de deixar. sujeitando. também deixamos nós mesmos para trás. nos expondo àquilo que se desenvolve à nossa frente de modo infinitamente múltiplo e que aparentemente se opõe à natureza. Levados pelo presente e sem que talvez percebamos. acolhido. deixado em paz e finalmente liberado no esquecimento. ele próprio se torna uma parte daquilo que atua. suportado. Esse deixar nos conecta com muito mais do que se fôssemos realizar isso por conta própria. E como aprendemos a deixar? Podemos praticar isso? Podemos nos preparar para o deixar na medida em que observamos a natureza através da pura contemplação. Se carregarmos esse algo. Depressão significa que algo ainda não está terminado. DEPRESSÃO 0 que pesa muito sobre nós e no nosso ânimo de forma que ficamos deprimidos. Na depressão carregamos algo que ainda pesa para outros. a não ser que esse soltar também já seja um estar em sintonia. Nós as soltamos. Quando planejamos algo com outras pessoas ou quando nós mesmos queremos decidir algo importante. a uma certa distância e sentir talvez o que precisamos deixar primeiro para que algo diferente. o tivermos respeitado. sem querermos modificá-las. soltamos o medo que temos de outras pessoas que se opõem àquilo com o qual estamos em sintonia. está esperando por ajuda e reconhecimento. porém . não está solucionado. Nesse deixar crescemos. sem nos opormos a elas. que esteja mais em sintonia com esse plano.é o que pensamos . Assim experimentamos como muitas coisas ao nosso redor atuam de uma forma poderosa sem que planejemos ou façamos algo. Se deixarmos que o presente também atue naquilo que . conscientes.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 106 dessa sintonia. algo estranho a nós. tenha a sua vez e tenha um efeito decisivo. Quando as soltamos. da pura sensação.

ao lado do outro até que se reconcilie consigo mesmo. Nós a encontramos na natureza a cada passo. nossa depressão se transforma em amor. não quer ou não pode fazer isso. Por exemplo. ao mesmo tempo. isto não se opõe ao amor? Apenas quem está em sintonia com o lado cruel da vida é suficientemente forte para amar o outro de tal forma que cresce através desse amor. se tornam vítimas da vida que é mais forte. Entretanto. que torna o desenvolvimento inevitável. Cruel a partir do resultado. Ele também não pode escapar às leis da vida que exigem o último de cada um de nós. como se a vida pudesse ser diferente. Algumas vezes este amor está exposto a limites tanto externos quanto internos. Tal criança é esperada pelos pais com amor. essa união é mais íntima quando o homem e a mulher já se encontraram antes e se denominam publicamente um casal. quando os pais se separam ou quando a mãe quer manter segredo em relação à criança porque é ilegítima ou quando a mãe. DÉFICITS DO AMOR Via de regra. a união na qual uma criança é gerada. tanto ele como as pessoas que pretende amar. Ela vivência um déficit no amor de que precisa e pelo qual . que atrai o homem e a mulher. toma-os a seu serviço. Mais tarde a criança também se sente assim.o mais fraco também precisa se tornar forte e cruel. a falta de consideração é algo natural. tornando-os pais. deixando esse algo no passado. que desafia. Então. através da adaptação às novas circunstâncias de sua vida que se torna inevitável no cuidado de uma criança.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 107 permanecermos. quando a criança é prematura e passa os primeiros tempos na incubadora ou quando vem ao mundo através de uma cesariana. via de regra. é bem-vinda e acolhida na família. Quem ama de uma forma fraca e covarde porque não ousa se expor à realidade total é igualmente cruel. é vivenciada e atestada como ponto culminante do amor e como realização sem déficit. Limites internos. Entretanto. somos gerados com amor. Então algo falta à criança.é claro que aqui também a crueldade . Nesse amor. sem déficit. Somente porque o mais forte procura se impor e . Sua vida é o fruto do amor. Mesmo quando parece que o instinto prevalece. Algumas pessoas dizem: ―A vida é cruel. com compaixão. A CRUELDADE A crueldade.‖ Nisso está contida uma censura. Essa criança pertence desde o início. Aqui também. aquilo que nos parece ser cruel é. aquilo que é forte. limites externos. Porém. a depressão transcende e se transforma em compaixão e força. Precisa se medir e desafiar o outro que é forte e cruel. Contudo. o anseio pela unidade e fusão. de forma que fica mais forte e mais cruel e então ambos precisam se desenvolver e crescer na luta pela vida e pela morte. depois de um certo tempo.

se embriaga ou renuncia ao mundo e procura na religião o apaziguamento de seus anseios procurando. como se estes precisassem garantir aquilo que somente seus próprios pais poderiam ter dado. Como essa despedida pode ter êxito? Deslocando o olhar.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 108 anseia. então a experiência do amor no presente transforma-se num amor sem déficit. se sentem sobrecarregadas e assim eles sempre repetirão a experiência que os tornou exigentes e adictos. pois vive somente porque tem os dois. Ela é vivencia. seus rebentos ou em outras formas de vida às quais serviram como alimento. quando o olhar permanece direcionado ao déficit. certamente que sim.da somente através da falta e do déficit como um polo oposto e assim não é somente presenteada. mas também tomada. ao mesmo tempo. Mas como fica isso em relação aos seres humanos? Nossa parte . Então os déficits do amor não são apenas restrições mas também estímulos que exigem e liberam forças especiais. Porém. compra mais do que precisa. Por outro lado. Com isso fica prejudicada? Ela sofre deficiência em seu desenvolvimento? Por um certo tempo. com isso as outras pessoas se afastam. não apenas em relação aos próprios pais. procura constantemente distrações. Por isso. quando alguém come ou bebe demais. afastando-se do déficit e da privação vivenciada em direção à plenitude da vida e do amor que foi presenteada a essa criança apesar das privações. não consegue ficar sem companhia. Contudo. surgem vícios que devem anular os déficits e acalmar o anseio anterior. Com isso não percebe que já tem a mãe completa e o pai completo. quando conseguimos tomar os pais como são e renunciamos ao que outrora não foi realizado não importando o que nos faltou quando criança. Algumas vezes isso se consegue somente de forma lenta e bem mais tarde. tudo que precisa para ser completo é tomar finalmente o que já tem e já é. Por exemplo. via de regra. a mãe ou o pai que lhe faltou. Pois a plenitude não significa perfeição. mas também em relação a outros e até perante seus próprios filhos. OS MORTOS Onde estão os mortos? Eles estão desaparecidos? Com a morte deles tudo passou? Quando as plantas ou animais morrem. esvaziando-o e deixando-o fracassar. no fim da vida. Por quê? Da privação vivenciada muitos desenvolvem uma reivindicação. Porém. através dessas circunstâncias. a criança é desafiada a desenvolver capacidades que foram necessárias devido a esse déficit. Com isso também colocam em risco o mais íntimo dos relacionamentos que é possível entre os seres humanos: o relacionamento entre homem e mulher. Mas elas se desenvolvem somente quando. a criança consegue se despedir do desejo de que os anseios antigos sejam satisfeitos. não ficamos refletindo se estão presentes para nós exceto ainda em suas sementes. Muito pelo contrário. trabalha mais do que é salutar ou quando quer fugir do presente.

Algumas vezes não posso diferenciá-los entre si. Pois os agressores também se sentem atraídos em direção às vítimas e algumas dessas vítimas não conseguem encontrar a paz até que seus assassinos não estejam deitados ao seu lado. Algumas vezes aparecem em nossos sonhos de forma tão viva como se ainda estivessem presentes e quisessem algo de nós. Porém. com um amor que não tem mais medo da própria morte e que reconhece que para ele o verdadeiro passo para a reconciliação com sua vítima seria sua própria morte. mas apenas de formas diferentes: um de forma visível e o outro se subtraindo ao nosso olhar. Contudo. Por exemplo. talvez até no seu próprio nascimento. talvez não seja a pessoa viva como pessoa que gostariam que estivessem consigo. Talvez caminhemos entre eles. algo que ainda lhes falta. mas sua recordação amorosa. como se uma pessoa morta os estivessem puxando com toda força. dentro do círculo da vida e morte e dessa forma servindo como alimentação e adubo? Será que não continuam existindo de uma outra forma não material? Nossas experiências com os mortos apontam para essa direção. como se agora pudessem permanecer com os mortos para sempre e encontrar a paz com eles. olhe para a mãe morta com amor e lhe diga de todo coração: ―Agradeço‖. Por exemplo. algo que ainda necessitam. uma mãe sente-se atraída em direção à sua criança morta ou uma criança se sente atraída na direção de sua mãe morta. como a nossa parte material. Estão simultaneamente distantes e próximos a nós. Algumas vezes devemos colocar algo em ordem para eles. algo que não os deixa em paz e que ainda os acorrenta a esta vida. essa criança não sente mais essa atração que a puxava para a mãe. Assim. Algo semelhante acontece em relação aos agressores e suas vítimas. sem percebermos. Talvez ambos estejam presentes. os vivos também se sentem atraídos pelos mortos. Sentem saudades dos mortos. Outros sentem uma atração irresistível para a morte. o reconhecimento ou uma despedida com amor para que finalmente consigam se separar. querem se reunir com eles. quando uma criança que perdeu a sua mãe muito cedo. algumas vezes. Para eles esses mortos ainda estão presentes e a própria morte é uma continuação de suas vidas aqui. revelam sua presença de forma poderosa causando temor — ajudando ou . Algumas vezes. seu respeito e seu agradecimento. de repente. Inversamente. Aqui falei somente dos mortos ou será que somente dos vivos? Eu não sei. o anseio de sua mãe de querer estar unida à sua criança na morte termina. Parece que esses mortos encontrariam a paz se houvesse ainda uma pessoa viva com eles ou ao seu lado.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 109 espiritual e nossa alma estão sujeitas à mesma forma de perecimento? Será que não estão. Porém. Quando fazemos algo por eles. aqui a vítima também encontra algumas vezes a paz quando seu assassino a olha com amor. que o torna semelhante à sua vítima e o une a ela. depois de um certo tempo se afastam. Anseiam pela morte para estar novamente unidos à pessoa amada que lhes falta. Os mortos permanecem um mistério para nós.

do cordão vital e expelidos para a vida em si. não sabe o que fez em detalhes. Temos a sensação de estarmos sendo forçados a atravessar uma porta. Naquela época aconteceu de forma inconsciente mas foi um movimento que atingiu cada uma das células do nosso corpo. fazendo coisas inacreditáveis através deles. Aqui também fomos empurrados através de uma porta e cortados de nossa base vital. Em contraposição. só sabe que um outro. de repente e inesperadamente. Ficamos esperando perante essa porta a vida inteira e nos perguntamos: o que nos espera quando a atravessarmos? Talvez sejamos empurrados através dessa porta. até que depois de um certo tempo se soltam e. Isso faz diferença? . A MORTE COMO PORTA O que é esse calafrio que sentimos quando ouvimos a palavra morte e nos expomos a esse movimento interno? Estamos perante algo desconhecido e misterioso que nos atrai e ao mesmo tempo nos repele. os protegeram de uma forma misteriosa. principalmente os mortos de nossa família. Eles nos acompanham por um tempo. aqui e agora. um carrasco. Talvez outros nos empurrem através dessa porta. como no nascimento.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 110 destruindo. falou e agiu através dele. Nós vemos que às vezes os mortos se apossam dos vivos. como se ainda estivessem entre nós. um morto. Entretanto. atrás da qual existe algo diferente que nos espera. Desse modo já estaremos consolados. frequentemente uma pessoa cujo nome conhece. temos a morte à nossa frente e estamos constantemente cientes de sua presença? E o que resta para nós quando temos medo dela. consequentemente. em um esquecimento infinito? Ninguém sabe. Frequentemente vivenciamos os mortos no nosso cotidiano como dedicados e amáveis. por exemplo dos curandeiros. Depois o curandeiro desperta. nós também deles. por outro lado. sabemos que a morte está sempre à nossa frente. estiveram também sob o domínio de mortos que. por exemplo. Talvez isso nos deixe mais cautelosos no nosso julgamento. Talvez personalidades poderosas da história que trouxeram infelicidade para muitos seres humanos. Talvez algo semelhante ao nascimento. de um lado lhes deram poder e. Ao mesmo tempo aviva o nosso medo porque percebemos ainda mais a nossa impotência. A pergunta é: para onde vão os mortos quando partem para sempre? Existe um reino próprio deles? Ou imergem depois de um certo tempo em um não ser. A outra pergunta é: o que resta para nós que ainda estamos vivos. queremos negá-la ou ignorar suas batidas à nossa porta? O que nos resta é estar em sintonia com aquilo que será e de que forma será. aqui também não sabemos. Talvez a atravessemos tranquilos porque nada mais nos segura.

Serve à vida e a sua realização. partiu de algum lugar. prontos para o próximo passo. vagando. venha e fique. Assim. Podemos deixá-los partir. Esse deixar partir é adequado. Amantes dizem um para o outro . No decorrer do tempo. Talvez também chegue a hora em que nos sentimos tão preenchidos como se estivéssemos já na meta. sem partir. talvez só fiquemos andando em círculos. CHEGAR E PARTIR Quem chega. se completando de uma forma semelhante ao que estávamos acostumados? Não sabemos. É como uma ―troca leve como o vento‖. Existe algo que continua por trás da porta. pois o que significaram para nós permanece conosco. algumas vezes por um longo tempo ou até mesmo a vida inteira. partimos. na realidade. Ao invés de olhar para a porta da morte. nosso coração e nossa alma deixam muitos desejos partirem. ficam por um certo tempo e partem quando chega a hora adequada para eles e para nós. Perante esta porta tomamos consciência de nossa impotência. Mas então examinamos se eles são constantes ou passageiros e conforme forem. deixamos que fiquem ou partam novamente. Porém.‖ Podem-se dizer mutuamente.―Por favor. talvez até de uma forma mais valiosa do que se tivessem ficado. os pais depois de um tempo deixam seus filhos partirem e os filhos deixam seus pais partirem. esperanças ou também certezas que se comprovaram serem irrealizáveis ou inadequadas. enquanto durar. aqui ficar . Porque eles partiram outros podem chegar. retornamos à vida e a tomamos em sua totalidade com gratidão e alegria. porque o essencial já chegou e todo o resto partiu. de como somos pequenos e entregues a esse Último. No final de uma vida realizada. sem perdê-los. que quase não deixa vestígios. muitos sonhos.pelo menos por um tempo.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 111 Não sabemos. quando ela se abre finalmente para nós. Somente porque partiu. Portanto. . Precisamos também deixar partir novamente muitos que chegaram até nós e ficaram conosco. mas apenas se ambos também tiverem partido. Os amigos também chegam. isso não faz mais diferença para nós. chega a outro lugar. Só quem realmente partiu pode realmente chegar. quando partimos e não sabemos para onde estamos indo. olhamos com mais tranquilidade para esta porta. Então não importa mais o que chega ou parte. o que resta? O que resta é a vida. principalmente quando estes morrem. porque outras coisas nos atraem e nos desafiam. Aqui encontramos a paz e já alcançamos a última partida. voltamos ao mesmo lugar e reconhecemos que aparentemente partimos mas que. Inversamente também deixamos amigos e outras pessoas importantes quando prosseguimos. Essa partida também é adequada e nos deixa abertos e livres para outras coisas.

a dança se transforma numa dança impetuosa. ela coloca a mão ao nosso redor e dança — a dança da vida.Pensamentos sobre Deus – Bert Hellinger 112 "NO MEIO DA VIDA ESTAMOS. somente seguindo uma outra melodia? Estaremos aqui também em movimento? Será que a paz com a qual alguns sonham é ilusória? Qual é o efeito dessa ideia em nós? Talvez seja: ―Vamos continuar dançando!‖ . Quando estamos esgotados e queremos parar. .. Ou a dança continua.. A sua mão é fria? — Ou será quente? Somente com ela. onde muitos pensam que lá descansariam. quando dá o seu compasso e sua melodia..‖ Como um bailarino. ela nos conduz a um outro espaço.circundados pela morte..

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A P Ê N D I C E

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EPÍLOGO
Talvez a melhor forma de resumir os pensamentos deste livro seja no seguinte poema:

O não-ser
Um monge que andava buscando pediu a um mercador uma esmola. O mercador se deteve por um momento e, ao dar-lhe o que pedia, perguntou ao monge: “Como é possível que você me peça o que lhe falta para viver e, no entanto, precise menosprezar a mim e ao meu modo de vida, que lhe proporcionamos isso?” O monge lhe respondeu: “Em comparação com o Último que busco tudo o mais me parece pequeno”. Mas o mercador perguntou ainda: “Se existe um Último como pode haver algo que alguém possa buscar ou encontrar como se estivesse no fim de um caminho? Como poderia alguém sair ao seu encontro e apossar-se dele, como se fosse uma coisa entre outras muitas, mais do que muitos outros? E inversamente, como poderia alguém afastar-se desse Último, ser menos conduzido por ele ou estar menos a seu serviço do que as outras pessoas?” O monge retrucou: “Encontra o Último quem renuncia ao próximo e ao presente”. Mas o mercador ainda ponderou:

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“Se existe o Último ele está perto de cada um, mesmo que esteja oculto no que nos aparece e no que permanece, assim como em cada ser se oculta um não-ser e, em cada agora, um antes e um depois. Comparado ao ser, que experimentamos como fugaz e limitado, o não-ser nos parece infinito, como o de onde e o para onde, comparados ao agora. Porém o não-ser se revela a nós no ser, assim como o de onde e o para onde se revelam no agora. O não-ser, como a noite e como a morte, é um começo desconhecido e só por um breve instante, como um raio, nos abre o seu olho no ser. Assim também, o Último só se aproxima de nós no que está perto e brilha agora.” Então o monge perguntou, por sua vez: “Se fosse verdade o que você diz, o que nos restaria ainda, a mim e a você?” O mercador respondeu: “Ainda nos restaria, por algum tempo, a Terra”.

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