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z Mitos e Lendas Do Folclore Brasileiro

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MITOS E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO

ANDRÉ LUIZ NAKAMURA

Desde sempre a humanidade se atormenta com as clássicas indagações pra as quais não houve e ainda não há respostas satisfatórias: de onde, por quê e para quê viemos? Para onde vamos? Diante dos fenômenos da vida que lhe eram totalmente inexplicáveis, a criativa imaginação do homem primitivo atribuiu a autoria e o comando do universo, bem como sua própria existência nele, a fantásticas criaturas, a entidades sobrenaturais (a que futuramente se chamariam mitos). Entre nós, é claro que os primitivos habitantes das terras que posteriormente se denominariam brasileiras, quais sejam, os índios, também daquele modo agiram ao se defrontar com o mesmo drama existencial. Destarte, a exemplo de outros povos, também eles povoaram as matas, os rios, as montanhas, o mundo, com entes sobrenaturais, dando nascimento, assim, aos mitos brasileiros (juntamente com as duas outras culturas que depois formariam a brasileira). O chamado pensamento mítico representaria, então, o estágio infantil da mentalidade humana na sua sempre ascensional trajetória evolutiva. Lévi-Strauss, no entanto, em “O Pensamento Selvagem”, delineou uma “analogia formal” entre o pensamento mítico e o pensamento científico, argumentando que aquele seria a “metafórica expressão” deste. A civilização, desse modo, teria sido edificada através dos mitos. Mesmo na atualidade, a despeito de ter a ciência progredido e elucidado alguma parte dos muitos mistérios da vida que assombram a humanidade, os mitos continuam a surgir e a renascer nas reminiscências populares, haja vista que a mencionada perplexidade que acometia o homem primitivo representava não só a crise existencial da humanidade diante do mundo, mas também a do homem diante de si próprio. Essa, aliás, certamente permanecerá, em maior ou menor grau. Os segredos da alma humana, os sentimentos, medos, desejos, paixões, raivas, a luta contra selvagens instintos (o lobisomem que habita o homem), enfim, tudo aquilo que se encontra no interior da alma humana, e que a razão não é capaz de explicar, exterioriza-se e reflete-se nos mitos. MITO – CONCEITO Tendo em vista o que expusemos no tópico anterior, poderíamos conceituar “mito” como sendo configurações de entes fantásticos e sobrenaturais produzidas pelo imaginário popular em virtude da necessidade de se buscar explicação para a existência do universo e da própria humanidade, bem como para o que se encontra no interior da alma humana sem elucidação racional. A essa motivação não se pode deixar de acrescentar também o prazer e a necessidade do homem de contar e ouvir histórias, pois o sonho e a fantasia, com efeito, fazem parte de seu espírito. Ressalte-se, ainda, que mito também pode se referir a objetos, lugares e épocas, tendo ainda o sentido de utopia, segundo o Aurélio. Exemplifiquemos parte de tal acepção com o chamado “Mito da Idade do Ouro”, “o mito da perfeição do princípio”, presente em quase todas as mitologias, segundo o qual no início dos tempos, quando da criação do homem, este vivia usufruindo uma felicidade plena. O “Mito da Idade do Ouro” é também “futurizado” de acordo com algumas crenças no “fim dos tempos”. Um novo mundo, com uma nova humanidade, então, surgirá (os mortos também voltarão), para viver uma vida paradisíaca, sem dores, sem sofrimento, sem tristeza, sem morte.Vejamos mais alguns conceitos de mito: Consoante o escólio de Leda Tâmega Ribeiro (“Mito e Poesia Popular”), “a palavra mythos, que originariamente significava ‘fábula’, ‘conto’, ‘fala’, ou simplesmente ‘discurso’, passou a ser usada em oposição a logos e história, vindo a denotar, então, ‘aquilo que não pode realmente existir”. “(...) A palavra grega mythos referia-se fundamentalmente à atividade de contar e não ao conteúdo daquilo que é contado”. O referido termo, prossegue a autora citando Mircea Eliade, “tornou-se em nossos dias, de certa forma, equívoco, podendo tanto significar ‘ficção’ ou ‘ilusão’, como ‘tradição sagrada’, ‘revelação primordial’ ou ‘modelo exemplar’” “O mito é narração alegórica, que em geral procura explicar acontecimentos anteriores aos fatos históricos”

(Veríssimo de Melo, “Folclore Brasileiro: Rio Grande do Norte”). “Mito é uma narrativa de um fato que transcende a natureza humana. Seus personagens são entes sobrenaturais (...) Nasceu da necessidade do homem de explicar o mundo em que vivia e de sua própria presença nele (...) narra as façanhas de entes sobrenaturais, graças aos quais passou a existir uma realidade ou parte dela, como, por exemplo, uma ilha, uma espécie animal, vegetal ou mineral, um comportamento humano, uma instituição, etc.” (Antônio Henrique Weitzel, “Folclore Literário e Lingüístico”). “O mito na história da civilização é um conjunto de lendas (grifamos) e narrações que referem personagens e acontecimentos anteriores aos fatos históricos conhecidos e que, por isso mesmo, se entretecem com episódios maravilhosos e fantásticos” (Luís da Câmara Cascudo, “Dicionário do Folclore Brasileiro”). Vale lembrar que atualmente o termo é também usado para tratar do fenômeno de popularidade criado em torno de astros e estrelas do cinema e da televisão, a que alguns chamam “mitos fabricados”. MITOS BRASILEIROS Os mitos que se configuraram no Brasil, a exemplo do que se deu com o próprio povo brasileiro, ostentam também a forte marca da miscigenação, pois são eles provenientes de diversas culturas, sendo três suas fontes primordiais: os portugueses, os índios e os negros. Para a grande maioria dos autores, foi prevalente a influência do colonizador português, que trouxe consigo mitos de quase todo o acervo europeu. Raros, então, os mitos que por aqui se conservaram “originais” e nenhum o que se manteve imune à influência lusitana. Em contrapartida, também os Lobisomens e Mulas-sem-cabeça que os portugueses para cá trouxeram adquiriram nestas terras cores locais e tropicais, “abrasileirando-se”. Em segundo posto, na ordem de influência apontada pela maior parte dos folcloristas, encontram-se os de origem indígena, os primeiros a serem catalogados pelos portugueses, logo se confundindo os mitos de ambas as origens. Os negros escravos, naturalmente, também para cá vieram acompanhados de seus mitos, os quais tinham grande força religiosa, requerendo rituais, danças, oferendas, etc. Os relatos sobre seus entes fantásticos que regem as forças da natureza certamente influenciaram na configuração dos nossos mitos. No entanto, tomando-se a acepção folclórica do termo, i.e., sem implicações religiosas, são poucos os mitos de origem africana. Câmara Cascudo realça que é no ciclo da angústia infantil que mais se faz notar a influência negra na formação da mitologia brasileira: “Rara será a aparição assombrosa que ainda mais terrível não ficasse através dos lábios africanos (...) O papel das ‘tias’ e dos ‘tios’ portugueses aqui lhes coube (...) A nossa Scheherazade foi a Mãe Preta...” (“Mitos Brasileiros”). Para Théo Brandão (“Folclore de Alagoas”) “nossos mitos são restos, reelaborações, cruzamentos superposições dos mitos dos povos formadores da etnia brasileira”. CLASSIFICAÇÃO Alguns autores estabeleceram uma classificação para os mitos brasileiros. O insigne folclorólogo Luís da Câmara Cascudo distribuiu-os em “primitivos e gerais” e em “secundários e locais”. Dentre os primeiros estariam o Saci-Pererê, o Jurupari, o Boitatá, o Lobisomem, a Mula-Sem-Cabeça, o Curupira, o Anhangá, Botos e Mães d´Água... Todos os demais que constam do rol que logo apreciaremos seriam “secundários e locais”. Cascudo (em “Mitos Brasileiros”) apresenta ainda mais duas subdivisões, a que denominou “Ciclo da angústia infantil” (Cuca, Mão-de-Cabelo, Chibamba, etc.) e “Ciclo dos monstros” (Capelobo, Gorjala, Mapinguari, Bicho-Homem, Labatut, Pé-de-Garrafa, Quibungo, etc.). Merecem destaque esses “ciclos”. Nos da angústia infantil, a exemplo do que se pretendia com as narrativas de contos de fadas, percebe-se neles um nítido propósito disciplinar. Com relação ao ciclo dos monstros, bem a propósito, o célebre folclorólogo fala sobre o “ataque inesperado e predatório de gente de fora” e uma conseqüente reação mental dos índios frente ao inimigo estrangeiro e

lagos. seguindo Basílio de Magalhães (em “Folclore no Brasil”). cuja imagem é por aqueles deformada. Nesta modesta abordagem do assunto. cavernas. episódicas e etiológicas. sempre aguçou a imaginação de devotos e deu origem a um particularizado lendário. compreendem gerais: boitatá. Não quer isso dizer. nossas muitas lendas sobre os bandeirantes cujas andanças. sonhos e visões”. hagiográficas ou hagiológicas (sobre santos) e anedóticas (sobre pessoas pitorescas). com inclusão da Internet. Entendemos que os vocábulos “primitivos” e “primários” foram utilizados pelos referidos autores com a acepção de “principais”. o sentido do vocábulo se foi ampliando. locais. caipora. descobrindo minas. enriquecido pela iconografia dos milagres e ex-votos. por exemplo. sendo-lhes os padroeiros. A primeira espécie. Os secundários. etc. porca de sete leitões. como veremos. lobisomem. segundo o mesmo autor. também tinham seus relatos fantásticos (a que depois se denominou “lenda”) sobre eventos originalmente verdadeiros. Hélio Damante (“Folclore Brasileiro – São Paulo”) dá outros exemplos: “O encontro de imagens. como dizem ter ocorrido na cidade de Nazaré Paulista. LENDA Proveniente do latim legenda. não estabeleceremos nenhum tipo de classificação pois. mãe-do-ouro. Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”).invasor. Os mitos primários são: saci. em sua “infância”. ou considerados como tais. era esse o termo usado para designar as histórias sobre santos que eram narradas nos refeitórios dos conventos ou em cultos religiosos com o escopo de se estabelecerem edificantes referenciais com que se deveriam identificar os ouvintes. montanhas. de animais. Merecem destaque as hagiográficas ou hagiológicas. mão-de-cabelo. ordenou-os em primários e secundários. etc. As episódicas dizem respeito a eventos e acontecimentos de interesse de uma localidade. de forma a opor-se a “secundários” (usado por ambos os folcloristas). versam sobre rios. de maneira a abranger outras formas de narrativa. minhocão. mesmo se tratando de fatos historicamente comprovados.. desbravando sertões. podendo-se deduzir que seriam os primeiros os mais conhecidos. As locais tratam de temas ligados a uma determinada localidade. essa se torna uma tarefa difícil. Com o passar dos tempos. por extensão. subdivide-se em heróicas (que versam sobre figuras históricas). não foi nada além de uma sucessão de lendas oralmente transmitidas de geração a geração. se sobrelevam nas fantasiosas . curupira. e regionais: corpo seco. porém que ensejou o advento das lendas. LENDAS – CLASSIFICAÇÃO E CONCEITO Costumam classificá-las em pessoais. etc. mula-sem-cabeça. “algo digno de ser lido”). do verbo legere = “ler” (e. do Bom Jesus de Pirapora e de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. ou sobre feitos “heroicizados” pela imaginação popular. ensejavam e divulgavam muitas lendas. com o sempre presente gosto popular pela fantasia. que buscam explicar a origem de plantas. caso do Bom Jesus de Iguape. São heróicas. As heróicas são aquelas que enaltecem com as cores da fantasia os feitos de figuras históricas. As etiológicas. Suas imagens recusavam-se a sair no local que designaram para seus santuários. sobre heróis que podem ou não terem realmente existido. cativando gentios. A lenda é também considerada como a “imaginação da História” tendo em vista que esta. outros povos. na atualidade. transformada em monstro. primitivos. em vista do recrudescimento dos meios de comunicação. cavalo branco. a das “pessoais”. Inúmeros são os exemplos de lendas brasileiras sobre santos que deliberadamente teriam dado origem a muitas cidades e bairros. São também denominadas tópicas e geográficas.

Na seara do folclore. No entanto. se reporta à criação do mundo e dos homens. ao passo que o mito.. etc. a amplitude conceitual que se lhe deu. 1. cumpre-nos acrescentar que o termo “lenda” não é usado apenas para significar “narrativa fantasiosa sobre a realidade”. fornece elementos para alguns conceitos de “lenda”. os elementos da natureza. com uma explicação ou interpretação de uma figura. a narrativa (literatura oral) – que seria a forma explicativa do mito – argumenta que “esse ato de crença é que irá distinguir o mito de outras formas narrativas. ‘história verdadeira’. por seres imaginários a que consensualmente se denominou mitos. etc”. Observe-se. dizendo que “fica implícita a noção de que o mito aquele que o relata nele acredita inteiramente. com base na apresentada por Antônio Henrique Weitzel “Folclore Literário e Lingüístico”).) “A lenda. ou seja. A própria origem do vocábulo. ao falar sobre a ambivalência do mito em Folclore. Com o devido respeito. narrativa fantasiosa sobre a realidade. em torno da qual a fantasia cria uma série de coisas irreais e até mesmo inverossímeis” (Renato Almeida “Inteligência do Folclore”).. que renomados folclorólogos brasileiros. segundo crença popular.’história falsa’. a mesma idéia do citado folclorista. sepultados. do milho. apontando. os acidentes geográficos. e que seriam encaminhados em sigilo ao papa pelo vigário. É oportuno lembrar. realidade que pode ser o homem. e do outro. da lua.narrativas indígenas sobre a origem da mandioca. à origem da morte. chamadas hagiológicas ou hagiográficas pelos estudiosos do assunto. o fato (crença). enquanto a ação das lendas decorre no mundo. explica a razão do que vê e não compreende. é possível divergir-se dessa distinção. MITO E LENDA – DISTINÇÃO Considerando-se a polissemia dessas palavras. remonta a histórias sobre santos contadas em convento. como vimos. às quais se denominaram e ainda se denominam “lendas”. aponta o que acredita ser a origem das coisas e dos fenômenos” (Maria de Lourdes Borges Ribeiro. Existem. que Théo Brandão (“Folclore de Alagoas II”). pois – para exemplificar – as lendas sobre santos ou mártires. e. porém. heróis. uma realidade. Reveste a vida dos santos. “Folclore”). narra feitos de alguns heróis populares. almas penadas. registraram histórias sobre a criação do mundo e da humanidade. visto que se passou a assim denominar tanto as fantásticas narrativas indígenas sobre a origem de plantas como aquelas que versam sobre a criação do mundo. um acontecimento histórico. por exemplo. bandidos. São também chamadas de “lendas” histórias sobre tesouros enterrados. 2. No entanto. . explica particularidades anatômicas de certos animais. Nesse sentido. Vejamo-los: “A lenda é uma narrativa em torno de um fato real. simples seria distingui-lo de “mito”. etc. (. cultivadas oralmente pelos índios (predecessores dos cristãos). o animal. quando defendeu. de um lado. entrementes. etc. o vegetal. Antônio Henrique Weitzel (“Folclore Literário e Lingüístico”). como a lenda”. também podem implicar crença nos relatos (e/ou crendice?) por parte dos narradores. observando que o primeiro “fornece o fundamento de toda a vida social e tem caráter religioso”. como o Curupira. se o vocábulo lenda fosse utilizado apenas para se referir a histórias fantasiosas sobre santos. Essa classificação. em virtude também das próprias definições que se lhes deram. informa-nos Saul Martins (“Folclore Brasileiro – Minas Gerais”). A Enciclopédia “Mérito” registra que “o mito situa-se nos tempos ante-históricos e representa um ser ou episódios sobrenaturais. a Mula-Sem-Cabeça. bem assim – dentre outras – sobre corpos de “espíritos puros” (“corpos santos”) que. Há fantásticas histórias protagonizadas. não recuando para além da origem dos povos cristãos”. posteriormente. Relatos sobre seres e fatos inverossímeis são também chamados “lendas”. o que distingue o mito da lenda é a natureza dos relatos. sobre fantasmas. os muitos sentidos que adquiriram. pode ter sido o ponto de partida para a confusão de mito com “lenda” (de que a seguir trataremos). “A lenda é a imaginativa sobre a realidade. “lendas” acerca de “mitos”. ambos os vocábulos são freqüentemente confundidos. etc. sobre os fenômenos atmosféricos. Em conformidade com a Enciclopédia Mirador. se mantiveram intactos sob a terra. pois. entre os homens. dos heróis e dos bandidos. enquanto assim não o considera aquele que o recolhe como tal”. o Saci. anteriormente.

Segundo o Prof. na qual o mito ocuparia o alto posto. Tendo em vista o escólio dos dois mestres.. 3. consiste no fato de que o primeiro é “uma entidade fantástica. a que se acresceram milagres atribuídos ao “Roque Santeiro”. Há lendas. não significa apenas história fantasiosa sobre a realidade. anuário do 29º Festival do Folclore). enquanto a segunda “é uma narrativa fantasiosa sobre um fato real”. sua conceituação compreende também essa característica (diversos folclorista. visto que popularmente o termo mais usual é “lenda”. lenda. por interesses. sobre o Curupira. segundo as convicções do narrador. Essa última distinção. Degásperi Rodrigues. que os poderosos da cidade. Um bom exemplo dessa interpretação extrai-se da consagrada telenovela “Roque Santeiro”.. totens e tabus. do qual se depreende o estabelecimento de uma espécie de hieraquia entre os dois fenômenos. queriam preservar – assim como a respectiva população. Paulatinamente. Numa etapa inicial. 4. visto que existem narrativas fantásticas sobre seres e fatos também imaginários. com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço”. é de fato penoso traçar uma nítida demarcação entre os territórios conceituais do mito e da lenda. ligada a proezas heróicas ou a maravilhas supra-sensíveis”.. esta. também apresenta algumas imprecisões. O ponto central da trama era o fato de estar vivo o protagonista. O mito pode ser um sistema de lendas. Renato Almeida em “Curso de Folclore” (registra a Profª Palmira M. Aleixo Leite Filho (“Noções de Folclore”) preleciona algo similar: “(. ora por outro dos respectivos domínios semânticos de cada um dos indigitados vocábulos. etc. a reiteração e a progressiva expansão dessa lenda pelo Brasil. Implicações Filosóficas”. a melhor definição dos mitos é a de que “são narrações em que se procura explicar a origem dos seres vivos e de certos objetos ou a origem de algum costume”. lutando contra os bandidos que a saquearam.foi que se geraram as lendas. e quanto à lenda. .. há quem o interprete “a contrário senso”. . a Iara. gravitando ao redor de um tema central. os contos e as fábulas da tradição popular. mesmo sem o saber. consagraram-lhe o status de mito (era apenas esse o termo que usavam na novela para aludir ao herói). como já dissemos. o Saci. que foi recentemente reprisada pela segunda vez.transfiguração dos seres e fenômenos naturais em corpos inaturais e forças sobrenaturais. por exemplo. conto ou acontecimento real. por exemplo. segundo os quais dos mitos derivariam as lendas. O problema é que ele í está se referindo a lenda. haja vista que precisa de mitos. devendo-se considerar a maior abrangência dos primeiros em oposição à relativa “localidade” das últimas. Para o mesmo autor. pode-se-ia denominar “lendas” as histórias que se contavam na fictícia cidade de Asa Branca sobre o mártir que morrera em defesa desta. Qual seria o critério para quantificar o dimensionamento territorial que a propagação de algum relato fantástico precisaria atingir para ser chamado “lenda” ou “mito secundário local” (espécie mencionada por Câmara Cascudo em “Mitos Brasileiros”)? O que impediria.acabou por deixar à vontade o uso dos controvertidos vocábulos ao expor sua conclusão: “Daí que a mesma narrativa possa ser catalogada como mito. enfim. data maxima vênia. há lendas em torno dos mitos.. com o peso de sua autoridade no assunto. tendo em vista que a polissemia desses termos parece poder mobilizar uma faixa fronteiriça definitiva que se lhes tentasse traçar. de modo que lendas também podem vir a tornar-se mito. fazendo com que esta se expandisse. dos objetos e dos fatos”. o que culminou numa luta entre o Roque Santeiro vivo e o mito.) é uma criatividade da imaginação popular que tem como principal preocupação descrever a origem dos seres. ainda nos suscitam dúvidas os elementos distintivos apontados por Cascudo e Basílio de Magalhães. a que chamam “lendas”. pontifica: “Muito confundida com o mito (a lenda) dele se distancia pela função e confronto. pois contempla apenas uma das acepções de “mito” e “lenda”. Vejamos outros pontos de vista considerando-se mais propriamente a acepção folclórica dos termos. Como diria Amadeu Amaral (ao falar da impossibilidade de traçar linhas exatas entre provérbios e outros . pelo eu projetivo do homem inculto. Câmara Cascudo. e os dicionários inclusive. o Lobisome. No entanto. em “Mito e Lenda. Para o ilustre folclorista Basílio de Magalhães (“O Folclore no Brasil”) “do mito. Como se pode notar. i.. de pura imaginação”. do coletor ou do divulgador”. alargando-se ora por um. a registram). tamanho o seu sucesso. O que caracteriza a lenda é a apoteose. qualificar-se como mito a “Moça de Branco” classificada como lenda por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”)? Ou como lenda o “Cavalo Branco” catalogado como mito secundário pelo mesmo autor? É válido observar também que a primazia que se pretendeu atribuir ao mito não se propagou com muita força. O mito também é “narrativa”. e.

Deslumbra. entre outros mais conhecidos. “a substância fluida escapa por entre as frinchas das frases que a pretendem conter”. puxada por enormes cavalos sem cabeça. Apresentamos. que podem ser verdes ou azuis. Na verdade. realizado anualmente.). nos altos picos dessa ilha. tomamo-lhe conhecimento por meio de informantes maranhenses por ocasião do Festival do Folclore de Olímpia/SP. usa a expressão “a lenda da Mãe d´água”. foi uma perversa mulher que sentia prazer ao fazer seviciarem seus escravos. O próprio Câmara Cascudo. conduzindo velozmente uma carruagem em chamas. que compreende também contos. Dicionário do Folclore Brasileiro. Ordenava que açoitassem cruelmente os escravos. a seguir.. cabelos lisos e compridos. etc. Conta-se que. ANHANGÁ . no verbete “Lenda”. onde se transforma numa medonha caveira. informa que “um dos mitos mais populares do Piauí é o Barba Ruiva”. como se quase sinônimos fossem. Dizem que a Alamoa atrai com seu fascínio os que por ela se apaixonam. Um relativo consenso se verifica no uso de “mito” para designar o Curupira. o Lobisomem. Assim a chamam porque loria é “alamoa” (alemã) para os habitantes de Fernando de Noronha. nunca mais é visto. que visse apanhando frutas em seus pomares. vestida numa túnica muito transparente que chega quase a tocar o chão. e de “lenda” para os relatos fantasiosos sobre a origem de seres e objetos. de Luís da Câmara Casculdo. cf. às vezes por nenhum motivo. Ela mandava arrancar os dentes e as unhas de crianças. a Mula-semcabeça. segundo a qual esta última seria mais localizada – não obstante a dúvida quanto à extensão territorial que um ou outra precisa alcançar para ser classificado como tal ou qual – atrevemo-nos a dizer que se trata de uma lenda a história de Ana Jansen. (A ela já se referiram como “lenda da Alamoa” e como “mito da Alamoa”. referindo-se lateralmente à matéria com alguns exemplos ou mesmo apresentando um repertório mais amplo. ALAMOA Belíssima mulher. e outros exemplos que constam da coletânea que logo se verá). misteriosa. Tendo em vista uma das distinções entre mito e lenda. Não obstante. o Saci-Pererê. iluminada pelos raios que coincidem com sua aparição. muitos deles costumam salvar-se empacotando tudo num só volume.. olhos neons. loura. no qual pregam o rótulo “Mitos e Lendas”. às vezes dança. o grande luminar da Folclorística. guiando-os para os picos da ilha. MITOS E LENDAS DO FOLCLORE BRASILEIRO No estudo do Folclore. Na mesma clássica obra. para identificar coletâneas desse jaez. em Agosto. “Alamoa”. noutro (“Barba”). fascina. pois o apaixonado que ao seu namoro não resiste e se põe a segui-la. Entretanto. o que amiúde se vê é o uso de um termo pelo outro. À noite. como adágios. espavoridos. às vezes indistintamente. como as plantas (“lenda da mandioca”. “lenda do guaraná”. fábulas. etc. filhos de escravos. enche de desejo os desavisados que com ela se defrontam – e de medo os pescadores que já a conhecem e dela correm. em “Mitos Brasileiros – Cadernos de Folclore”. existem exceções. parlendas. fala da “lenda do Barba-Ruiva”. quando viva. em “Dicionário do Folclore Brasileiro”. provérvios. No que refere aos folcloristas que se dedicam ao assunto. uma coletânea de mitos e lendas de diversos pontos do Brasil. nua. poesia.) ANA JANSEN Assombração de uma mulher deformada pelo fogo que aparece de madrugada nas ruas de São Luís do Maranhão.conceitos. surge nas praias. anexins. mitos e lendas são parte da chamada “Literatura Oral”. e no mesmo tópico. pois na bibliografia consultada dela não encontramos referência. frases-feitas. onde ela reside. coloca “Mães d´água” entre os mitos primários.

Correm. e depois seguro pelo caçador. Quando dele se aproximam percebem que. BARBA RUIVA Piauiense dos mais famosos. À vista disso. levamnos a defender que sua existência. Regina Lacerda o catalogou como lenda em “Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso”. Sua fúria contra os caçadores se amplia quando as vítimas são animais lactantes ou filhotes que ainda precisam ser amamentadas. (Registrado como mito e como lenda) BICHO-HOMEM Outro gigantesco antropófago. onde teria sido jogado ao nascer. em variantes. e que também só tem uma perna. Mito corrente. de um olho só. atrás de uma árvore. viu-se vítima de uma ilusão engendrada pelo Anhangá. com a qual se alimentava. Ele representa um grande pesadelo para os caçadores. na imaginação do povo. registram-nos como sendo manifestações de uma mesma entidade: “o mítico Bicho-Homem é também chamado Pé-de-Garrafa” (Câmara Cascudo. “Dicionário do Folclore Brasileiro”). . costuma ser visto a repousar. Mas. fora da água. assustadas. À margem da já mencionada lagoa. No entanto. 47). apesar de ser ele inofensivo. ao contemplas sua presa. e salvo por uma mãe d´água. Vive oculto nas serranias. nenhuma mulher lava roupa sozinha às margens daquela lagoa. em que se lhe dão outras características. unhas e peito estão em brasa. enquanto ele as persegue querendo abraçá-las e beijá-las. Pode derrubar até uma montanha com seus possantes murros e é capaz de beber um rio inteiro. p. viril. em quase todo o Brasil. então. despertando a curiosidade das mulheres que lá vão lavar roupa – a cujas perguntas não responde. vêem seus tiros serem desviados em direção a entes queridos e pessoas amigas. Conta uma lenda que um índio perseguia implacavelmente uma veada que amamentava seu filhotinho. o animal é trespassado por uma mortífera flecha do índio. muito branco. o Anhangá é criatura assustadora. de barba e cabelos ruivos. Muito se confunde com o chamado Pé-de-Garrafa. desesperado. carioca e mineira registraram esse mito em várias matérias sobre os assombrados depoimentos de fazendeiros. Era o corpo de sua mãe. Algumas gotas de água benta na cabeça do Barba Ruiva poderiam quebrar seu encanto. alguns relatos sobre o Pé-de-Garrafa (df. diz a lenda. Câmara Cascudo informa que a imprensa goiana.Mito geral no Brasil. ao tentarem baleá-lo. Entretanto. tendo sido este gravemente ferido por uma certeira flechada. para atrair a veada com os gritos do filhote. cujo pé tem forma redonda. Alguns autores. que faz morada na Lagoa do Paranaguá. ARRANCA-LÍNGUA Macacão gigante que atacava os gados em Goiás. sua barba. aliás. quando da água se farta. um grande veado cujos olhos são lança-chamas. que. Caindo na emboscada. que a torturava. o Barba Ruiva é um homem encantado. quando com ele se defrontam. o índio. alto. passou a ser independente da do Bicho-Homem. se não era. matando-os a murros e arrancando-lhes somente a língua. ninguém ainda teve coragem. deixando pegadas que lembram o fundo de uma garrafa.

quando moças solteiras das populações ribeirinhas engravidam. O Boto. transforma-se num belíssimo rapaz. “Não há mulher que resista sendo olhada através do olho de um boto”. à noite. (A ele já se referiram classificando-o como lenda e como mito) CABEÇA-DE-CUIA . aqueles que incendeiam os campos. dentre algumas superstições acercado boto. porém. a feitiçaria amazônica. onde. Para escapar de seu ataque. loucura ou a morte. a palavra “boi” (mboi). alto. ao chegar a noite. comparece triunfalmente aos bailes. e tatá. Amadeu Amaral (“Tradições Populares”) retrata essa variante como exemplificativa do fenômeno que se convencionou denominar “etimologia popular”. Do tupi mboi. segundo o eminente folclorista. então. e torna-se de novo em boto. os pensamentos e desejos de suas “vítimas”. ou. Para finalizar. é preciso atirar-lhe algum objeto de ferro ou.BOITATÁ Um dos primeiros mitos registrados no Brasil. pequeno penacho luminoso. A aparição do Boitatá traz cegueira. é uma grande serpente de fogo que habita as margens dos rios. vindo daí o seu intenso brilho. Alguns autores. Explica-nos Theobaldo Miranda dos Santos (em “Lendas e Mitos do Brasil”) que “o mito do Boitatá parece ter se originado do fogo-fátuo ou santelmo. quando toma a forma humana. que designa “as alterações dos vocábulos por efeito de uma errôneas e imaginosa compreensão da respectiva origem”. conversa. de acordo com os ritos do pajé-a pajelança. Noutras palavras. segundo a qual o Boitatá é um boi ou um touro “com patas como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa. segundo nos informa Câmara Cascudo. fazendo arder em combustão. Muitas mulheres costumam também a ele atribuir a paternidade de filhos espúrios e naturais. registram uma variante. famoso em todo o Brasil. bebe. ele se retira furtivamente. Antes que amanheça. os denominados “filhos do Boto” (muitas vezes injustamente). dança. o Boto”. mas ele nunca se deixa apanhar pois tem um faro mais possante que o de cães caçadores e é rápido como um tiro. sobre os pântanos e cemitérios. Há versões de que o Boitatá destrói com o fogo dos seus olhos. “ele. namora. robusto. Às vezes é implacavelmente perseguido ou cercado em emboscadas tramadas por homens enciumados. prender a respiração e fechar os olhos. lembremos esta: o olho seco de um boto. bem vestido. produtos de decomposição de substâncias animais”. BOTO SEDUTOR Costumam dizer que a maior protagonista das lendas sobre a fauna amazonense. através do qual respira. e que são apenas emanações de fosfatos e hidrogênios. ficar quieto. cobra. a brilhar que nem um tição de fogo”. branco. dentre as inúmeras desse mito geral no Brasil. Dizem que se transformar nesse monstro é o castigo para purificar as almas dos amantes compadres que em vida traíam seus respectivos cônjuges. com as moças ribeirinhas. mas sempre de chapéu para esconder o orifício que tem na cabeça. fogo: cobra de fogo. a exemplo de Crispim Mira (em “Terra Catarinense”). dir-se-á que o filho é do boto. para os índios é poderoso instrumento de feitiços amorosos. que aparece nos mastros dos navios devido à eletricidade. e daqueles que mantiveram relações incestuosas. mergulha num rio. representou o elemento transformador do aludido mito. adivinha os segredos. No caso dessa variante. depois de bem preparado. o fogo em forma de cobra. Conquistador infalível. mata animais e lhes devora os olhos.

O ponto vulnerável desse monstro é o seu umbigo. assombra. a quem muito maltratara. As inúmeras versões sobre o Caipora possibilitam que se apresentem ele e o Curupira (sempre associados e confundidos) como manifestações transformadas de uma mesma entidade. CAVALO BRANCO . morador”. o Pai do Mato)”. Mas ele também ataca humanos. Às vezes é citado como tendo. Para afugenta-lo é preciso fincar uma faca no fundo da canoa. No presente caso. musculoso. provoca ondas. e porá. cavalo encantado que também habitaria o Rio São Francisco exercendo efetivamente o mesmo papel do Caboclo-d´água. ou então nela desenhar um signo-de-salomão. devora uma mulher de nome Maria. com corpo de homem. vira embarcações. é pés redondos. As mães. aparecendo também em outras localidades fluviais. temerosas. desvinculada da do Curupira. Após comer sete Marias. que habita o rio Parnaíba. Atormenta os pescadores. retomaria seu estado natural. habitante. em “Quatro Histórias do Curupira”. forma humana e animal. foi condenado a viver no mencionado rio durante 49 anos. através do qual pode ser abatido. O nome deriva de sua cabeça que lembra o formato de uma cuia. atrapalha pescarias. volta para assombrar. alto. ou seja. Ìndios muito velhos transformar-se-iam nesse monstro a que costumam chamar de Lobisomem dos índios. CANHAMBORA Homem negro. alguns mitos – se não tinham – passaram a adquirir identidade própria e personalidades distintas. metade cavalo e metade homem. a quem persegue e agride. diz que o Curupira e o Caipora “constituem a mesma personificação do gênio das florestas.”. cabeça de tamanduá ou de anta. “chupando-lhes o miolo”.Homem magro. Mais conhecido em Minas Gerais e em São Paulo. Diz o povo que o Canhambora é assombração de escravos mortos a pancadas a mando de seus senhores. grandalhão. protetor dos animais e inimigo dos caçadores (descrição mais comum). embora aparentemente se trate de simples diferença de nome. Ele é detentor de poderes capazes de ressuscitar os animais mortos pelos homens brancos. e também meninos que brincam nas águas daquele rio. aos quais. Diz-se que é um caboclinho coberto de pêlos que anda sempre montado num porco-do-mato. ele habita as águas do Rio São Francisco. Amaldiçoado por sua mãe. CAPELOBO Criatura fantástica. da cor do cobre. sisudo. De caá. mato. acreditamos que quando não se trata de simples diversidade nominal. sorvendo-lhe a massa cefálica. Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”). mata. a figura do Caipora tal como aqui descrita já se criou efetivamente no imaginário popular. proíbem seus filhos de ali nadarem. Pessoalmente. ao mesmo tempo. (Vale registrar aqui a figura do CAVALO-DO-RIO. acrescente um parêntesis a esse título: “(Ou Caipora ou Caapora. com mãos e pés de pato. segundo Câmara Cascudo. por exemplo. posteriormente. Ruth Guimarães. Cães e gatos recém-nascidos são seu alimento principal. CABOCLO-D´ÁGUA Homem pequeno. A cada sete anos. feio.) CAIPORA “É o Curupira tendo os pés normais. alaga cargas. no Piauí. ao mesmo tempo que se admite a coexistência de ambos. com cabelos compridos até os pés. Popular no Maranhão e na região do Araguaia.

“é um animal miraculoso. As almas vão engarupadas nesse cavalo”. com precisão cirúrgica. semelhantes a navalhas. que afirma tê-lo visto. e conhecido em São Paulo e Minas Gerais. O jornalista Paulo San Martin. Degásperi Rodrigues (em “Mito. a cobra não poderia deixar de inspirar no Brasil esse monstro amazônico: A “Cobra Grande”. informa-nos Walcyr Monteiro. muito divulgada pelos meios de comunicação. Folclore e Filosofia”). “Novo ser mitológico”. Ele amedronta crianças choronas: “Olha esse choro. ela faz naufragar até mesmo grandes embarcações. que a Chibamba vem te pegar. após. faz com que ela caia naquelas águas e depois desaparece com ela. o descreve como uma criatura peluda apenas da cintura para cima. na ficção e na vida real. COBRA-JABUTI Catalogada como lenda por Domingos Vieira Filho (“Folclore Brasileiro-Maranhão”) é um cágado que depois de tomado como bicho de estimação revela-se um monstro de cujos cascos saem horripilantes cabeças de . de tanto chicotada. segundo Hitochi Nomura. Belém estremece”. como se tivessem sido feitas por garras longas e afiadas. Belém vai se afundar”(“Visagens e Assombrações de Belém”). Gigantesca. em ritmo compassado. Em alguns casos são retirados. As mães sempre advertem suas filhas para não passarem pelas relvas marginais do Valo Grande porque o Cavalo Branco. “Praticamente todo o sangue é drenado e as feridas são inconfundíveis.É um fogoso cavalo branco que em noites enluaradas é visto a pastar as relvas marginais do Valo Branco. CAVALO DAS ALMAS Segundo a Profª Palmira M. atraindo-a toda para si quando o invocaram. existe a crença de que essa cidade foi fundada sobre a casa de uma enorme cobra: “Se a Cobra Grande se mexe. A história foi. Acredita-se que ele foi um velho escravo que morreu no tronco. ronca como um porco e está sempre a dançar. ao ver uma moça virgem. também chamada ~Boiúna~. em Iguape. é um negro velho que se veste com folhas de bananeira. Quando novamente há lua cheia ele volta para buscar outra moça para viver com ele no fundo do Valo Branco. na edição de 8 de junho de 1997 do jornal A Tribuna. “Se a Cobra Grande sair de seu lugar. Na capital paraense. de Campinas. na época. ele papa criança”. com poucos pelos nas pernas. por volta de 1997. e com focinho semelhante ao de um lobo. não encontrando o seu ataque referência na zoologia e na biologia. CHIBAMBA De origem africana. Informa-nos Rossini Tavares de Lima que ao Chibamba também se atribuía a fama de suprimir a dor dos escravos açoitados. devorando. COBRA GRANDE Réptil repugnante que atemoriza o homem desde sempre. a tripulação e os passageiros. relata na matéria intitulada “Chupa-cabras: agora ele se tornou histeria coletiva” que as marcas deixadas pelo bicho não se confundem com a de nenhum predador conhecido. de olhos que semelham enormes faróis. CHUPA-CABRAS É relevante registrarmos esse. haja vista sua atualidade. Os habitantes da mencionada região atribuíram súbitas e misteriosas mortes de ovelhas e bois a uma estranha criatura notívaga. O Chupa-cabras teria aparecido nas áreas rurais de municípios vizinhos à cidade de Campinas. que o esperam nos moirões das porteiras. Uma babalorixá campinense. que percorre as estradas à procura dos mortos recentes. órgãos e glândulas nobres”.

cobras e aranhas venenosas”. aliás. Mas. tornando-se homem bonito. papai foi na roça. com quem Norato fizera amizade. na qual. Ao morrer. Bicho-papão. a conselho do pajé. espécie de bruxa. Atirou-os no rio. despertando-lhes o “ciúme”. quando se fala em Cuca. e seu corpo nem a terra o quis. Assim. Ao amanhecer. lacraus. a putrefazer-se insepulto. todos perdiam a coragem. do Lobisomem. pelos cemitérios e pelas ruas. Esta era má. É muito citada em acalantos: “Dorme. Para quebrar definitivamente o encanto era preciso que se dessem pancadas com ferro virgem na cabeça da cobra. três gotas de leite materno. ficando este. assombrando os viventes. conseguiu quebrar esse encanto. CURAGANGA Tal qual ocorre com o Lobisomem. Dada a fora da propagação televisiva. etc. acabou matando esta última. até que um soldado impávido. especialmente do Pará). ao ver a cobra. virara embarcações. num duelo para salvar uma vítima da Maria Caninana. da Mula-sem-cabeça. Norato deixava seu couro de serpente e ia bailar com as moças. . a exemplo do Saci. a imagem que se nos afigura é a da jacaroa da referida série. matava náufragos e animais. baseada na obra de monteiro lobato. do Boitatá. O Corpo Seco é corpo e alma penados – de quem nem os insetos se aproximam – que perambulam. a boca. depois de reunido a sua alma. graças ä sua bondade. que não tinham forma humana. deixa o nenê dormir sossegado”. É válido lembrar que a Cuca foi muito popularizada na série de televisão “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. derramando-se-lhe. porém. tal qual é está descrita nos contos de fadas. após. a Curaganga ou Cumanganga. sua alma foi recusada tanto por Deus como pelo Diabo. tal como nas ilustrações de livros do consagrado autor. nenê. É uma errante cabeça de fogo. a Cuca era apresentada como uma jacaroa bípede e falante. em forma de bola. é no que se torna a sétima filha de um casal. CUCA Mulher velha e feia. Eram Cobra Norato (ou Honorato) e Maria Caninana. uma índia deu ä luz dois bebês encantados. Bicho-papão feminino mencionado para se assustar crianças. COBRA NORATO Engravidada pela Cobra Grande. Nas ocasiões de festa nos povoados ribeirinhos. inclusive a de fustigar a própria mãe.cobras. sai de cima do telhado. Norato adquiriu o dom de poder desencantar-se durante à noite. se verifica a citação de muitos dos nossos mitos. “Velha feia e esfarrapada que vive a intrigar os casais. cercada de bichos peçonhentos. CORPO SECO Criatura perversa que em vida semeou o mal cometendo toda sorte de crueldades. que a Cuca vem pegar. sempre acompanhada de “sapos. Certa feita. Norato era bondoso e sempre procurava interceptar as maldades da irmã. mamãe foi trabalhar. retomava a forma de serpente. Na aludida série. vagabundos. feiticeira poderosa. na descrição da folclorista Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”. libertando o amigo. simpático e elegante. (Do norte do Brasil.

precavida. Quem o detiver. ficam loucos. produzindo tal como aqui dissemos. um duende. “familiar” (acabou famaliá para os sertanejos) é um pequenino diabinho guardado dentro de uma garrafa. Existem. Às vezes ataca a dentadas. no entanto. pagará com sua alma pelos benefícios obtidos. pois criar um Famaliá. Ele tem como principal característica a direção contrária dos pés em relação ao próprio corpo. no entanto. em pontos diversos e em considerável quantidade. Já registrado como mito e como lenda. é certo que foi uma intervenção do Curupira. no entanto. todavia. estes germinam e fazem surgir os amplos pinhais agrupados. Quem o detiver. e da reprise. que habita as serras cearenses.dizia a população da fictícia cidade de Paraíso – tinha um diabinho guardado em uma garrafa. Apavora os que a encontram. com muita persistência pode ser encontrado (às vezes leva anos). Diz o povo que essa ave encontrada nos planaltos do Paraná se alimenta de sementes dos pinheiros. GORJALA Negro gigantesco. Basílio de Magalhães (“Folclore no Brasil”) nos informa que para evitar esse horrível fadário “’e tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita. quando estes não acabam mortos. colocando-nos numa perseguição a falsos rastros. durante toda a quaresma. devorando-os a dentadas. Desse ovo nascerá. ao final da quarentena. coloca-os sob o braço. pagará com sua alma pelos benefícios obtidos. Implacável perseguidor dos humanos. um anão. Como nem todos os pinhões enterrados se consomem. o Curupira tem ligações originárias com o homem primitivo e atributos heróicos na proteção da fauna e da flora. tendo-se em vista a estranheza que causava o fato de estes aparecerem em grupos. pois criar um Famaliá não deixa de ser um pacto com o Diabo. “O demônio das Florestas”. enterra-os. a cabeça da portadora desse mal separa-se-lhe do corpo e sai em chamas a vagar pelas matas. da telenovela global “Paraíso”. Não se pode. Dizem também que quando os caçadores não acertam seu alvo ou quando se perdem na mata. um diabinho que atenderá a todos os pedidos de quem o produziu. . Mas sobrelevam as lendas que fazem dele o protetor das matas. Assim se explicam as grandes florestas só de pinheiros. no Pará. em que um dos protagonistas. em pontos afastados. no Maranhão. . GRALHA AZUL Para o povo paranaense a gralha azul é a responsável pelo agrupado reflorestamento de pinheiros. sem que o homem os plantasse.Nas horas mortas. segundo o povo. cabelos vermelhos. curruptela de curumim + pira. É chamada Curacanga. essa história muito se popularizou quando da exibição. CURUPIRA De procedência tupi-guarani (de curu. com um único e grande olho. um ovo de galo (!). É descrito de várias maneiras: como um curumim. variantes que divergem dessas idéias. Para cria-lo é preciso chocar na axila esquerda. corpo = corpo de menino). e Cumacanga. em que o Curupira é um ser medonho e perverso. para posteriormente saciar sua fome. FAMALIÁ Originário da tradição européia de fabricar uma espécie de demônio caseiro. dentes verdes. e que. um caboclinho. quando os captura. mas sempre com os pés contrário (calcanhares para a frente). o que constitui um artifício natural para despistar os caçadores. que. dar esmolas aos pobres com dinheiro vindo do Famaliá. Possui extraordinários poderes e é implacável com os caçadores que matam pelo puro prazer de faze-lo.

relata: “Sucede que pelo mesmo índio se apaixonara a mãe-d’água. Seu canto. conhecido nos Estados do Ceará e Rio Grande do Norte. só um olho na testa. que lhe ofereciam seu amor” (Gilda Helena em “Lendas da Nossa Terra”). mergulham nos rios e são por ela arrastados para o fundo das águas. Pescadores. Um talismã feito com escama de boto vermelho também pode livrar seu portador da sedução da Iara. os tiros saem pela culatra. Lenda paranaense. que garantem que ela existe. Deve-se fechar os olhos e tapar os ouvidos assim que se notar a presença da Iara nos rios e lagos. as armas dos caçadores negam fogo. LABATUT Homenzarrão monstruoso. Seus poderes sobrenaturais mantê-lo-iam vivo debaixo d’água. Um belo dia. é um preto velho. “Tia Regina”. Em algumas. na qual o índio Jaraguari desaparecera depois de mergulhar num rio encantado pela linda sereia. ao falar da lenda da Praio do Olho-d’água. foi alterada na história de João Galafoice. conta uma versão semelhante. esse “nego véio”raptor de crianças. mãos compridas. JOÃO GALAFUZ Duende que habita as águas dos mares e se manifesta como um facho luminoso e colorido que rutila sobre as ondas. em “Folclore do Maranhão”. a iara traiçoeira empolga o rapaz e o leva para o fundo das águas. de pés redondos. mas preferimos a denominação Iara. Alfredo Brandão (“Os Negros na História de Alagoas” ) informa que a lenda do João Galafuz (veja abaixo). longos e revoltos cabelos. Obs: A Iara ou Uiara é também comumente chamada “Mãe d’Água”. No entanto. sem a menor possibilidade de lhe resistirem. a Iara é apresentada como uma esplêndida sereia das águas amazônicas (mulher cujo corpo. enfeitiça e atrai índios e pescadores enamorados que. pois desprezava as belas cunhantãs. em Alagoas. em “Contos e Lendas Brasileiras”. corpo cabeludo como o do . nem toda as narrativas sobre a Iara retratam-na dessa forma. Ele ronda as residências à procura de crianças que se encontram fora de suas casas pra leva-las embora consigo. narra até um casamento da Mãe D’Água com um índio no conto “O Marido da Mãe D’Água”. se a ave contra a qual miram é a gralha azul. olhos verdes e cabelos cor de ouro. Foi ele posteriormente visto abraçado com ela a namorar. IARA Outra celebridade nacional. deixando o cunhatã alucinada de dor”. há outros aspectos além da sensualidade e da sedução (as grandes marcas desse mito). ou. Tem pés redondos. costumam contar que já houve casos de se fisgarem chumaços de cabelos louros com mais de um metro de comprimento. na qual a Iara vive um forte romance com o índio Jaraguari e acaba por leva-lo para viver com ela em seus palácios subaquáticos. de uma encantadora voz. Outras lendas falam de índios que com a Iara mantinham relacionamentos amorosos. Luiz Caldas Tibiriçá. tendo em vista que quando se fala em “Mãe d’Água”. JOÃO GALAFOICE Semelhante ao Papa-Figo. a exemplo de Inaiê: “Diziam-no manorado da Iara. como essa registrada por Theobaldo Miranda dos Santos em “Lendas e Mitos do Brasil”.Por isso. da cintura para baixo é uma cauda de peixe) linda. Nem seus corpos são encontrados. Os pescadores acreditam que é o espírito de um caboclo que morreu sem ser batizado. há finais felizes. Domingos Vieira Filho. nas inúmeras lendas. enquanto que tais características representam o cerne das descrições narrativas se o nome mencionado for Iara . pior. cujas nascentes de água teriam se originado das lágrimas de uma índia que perdera o seu amor para a linda sereia. De Pernambuco e Sergipe. em “Histórias e Lendas do Brasil”. de pele alva.

) a Mãe-do-Ouro passeia luminosa. diziam. a Mãe-do-Ouro é um mito multiforme: no Paraná.. no Ceará. informe.. por sua vez. de pele branca como a neve e com uma linda cabeleira cor de fogo. vento. LOIRA DO BANHEIRO O horror das crianças nas escolas era uma mulher que. pela manhã. A transformação acontece nas noites de lua cheia e nas noites de quinta para sexta-feira: seu corpo começa a se cobrir de pêlos espessos. homem mau e ganancioso. como capaz de satisfazer votos formulados durante sua trajetória cintilante”(Câmara Cascudo. senão se contagiará da triste sina. fogo. “Folclore – Contos e Lendas Brasileiras”). distinguindo-se o aspecto deste apenas pelo fato de escorrer sangue de seus lábios.)esconjurada e tida. uma das mais conhecidas fala de sua intervenção para ajudar um escravo a encontrar ouro para entregar ao seu senhor. a imagem confunde-se com o objeto da imaginação infantil. pertence ao número dos fenômenos metereológicos. seu semblante toma a forma do de um morcego. formosa mulher.. após a transformação. pálido.porco-espinho. em “Folclore Nacional”). onde ela cair. se vêem feridos e ensangüentados. De acordo com o consagrado autor. em “Lendas e Fábulas do Brasil”. meio humano. pelos ares. o sacerdote com o deus. Por ventura o mito nasceu do rito”. Era loira. “no Rio Grande do Sul é informe. mas vive debaixo d’água. Há muitas lendas sobre a Mãe-do-Ouro. cabelos compridos. O medo de encontrá-la era tanto que as crianças não iam ao banheiro desacompanhadas. Conta-se que se transformou nesse monstro um sanguinário general francês que. corre com os joelhos e cotovelos. em São Paulo é descrita como uma grande bola de fogo de ouro que atravessa o céu. sai em busca de sangue. a profissão com o fado. Quem conta sobre a “Loira”diz que ela era uma jovem que foi violentada e morta num banheiro de uma escola pública. Ao metamorfosear-se. mas o autor do ferimento que evite se sujar com o sangue. o filho de comadre e compadre. o Lobisomem é mito universal que protagoniza muitas narrativas populares desde a Antiguidade. trazido às terras brasileiras pelos europeus. “fada formosíssima. dando o rumo da mudança (. em “Mitos Brasileiros”). Segundo Oliveira Martins (em “Sistema dos Mitos”) “os sacerdotes do Sorano Sabino. suas orelhas crescem. Devora crianças. O encanto do monstro. nos bosques da Itália primitiva. que. “Mito ígneo. agindo com trovões. que nunca adquire aspecto de pessoa saudável. O lobisomem abrasileirado pode ser o sétimo filho homem de um casal. Suas vítimas. que morriam de medo dos lobos. O encontro de pedaços de algodão no chão do banheiro. o que nasceu depois de sete filhas. dentes como as presas de elefante. segundo Ruth Guimarães. O lobisomem é morto através de uma bala de prata. vestiam-se com as peles do lobo. confundindo com a estrela cadente (.. MÃE-DO-OURO Senhora das minas. com as cores próprias dos defuntos e com algodões em suas narinas: um cadáver ambulante. op. a fim de assim evitar duro . ou de união incestuosa. há ouro (Alceu Maynard Araújo. Enquanto homem é sempre magro. promoveu uma verdadeira carnificina quando da repressão à insurreição de Joaquim Pinto Madeira. pode ser desfeito por meio de algum ferimento que lhe arranque sangue. filha do sol e irmã da aurora” (Luiz Caldas Tibirçá. as mãos se tornam garras. arrastados pela Mãe-do-Ouro”(talqualmente as perigosas sedutoras Iara e Alamoa). é uma mulher sem cabeça. (Lenda?) LOBISOMEM Meio bicho.). padrinho e afilhada. sujos de sangue. costumava aparecer nos banheiros. assimilando-lhe o poder sensual: “os homens deixam a família e amigos. animal do deus. esse mito também infiltrou-se no ciclo das Mães-d’Água. se viverem. Cit. era sinal de que a “Loira” estivera por ali. podem contagiar-se dessa maldição. o que não foi batizado. num palácio” (Câmara Cascudo. num só tempo.

interveio. a tarefa quando lhe dizem “Chega. Prevalece. Uma de suas patas dianteiras é deformada e “pelada”. num medonho rasco que ostenta lábios vermelhecidos de sangue. ainda. MÃO-PELADA É um fantástico animal que espalha o medo nas matas e florestas do Estado de Minas Gerais. em Minas Gerais e em São Paulo. solta pelo ar. queria matar a ambas. a mais conhecida. Seus pais a sepultaram dentro de sua própria maloca e a regavam todos os dias com suas lágrimas. . por onde engole cabeças humanas (só come a cabeça). nasceu uma planta que. MANI (A LENDA DA MANDIOCA) Numa tribo indígena. vol. descascada. com uma bocarra verticalizada. conhecida também por “Mãozinha-de-Justiça”. alta. o propósito disciplinador. É comum a advertência de que “se mijar na cama. De acordo com o preclaro folclorólogo Câmara Cascudo. No local.castigo. MÃOZINHA-PRETA Assombração corrente no Sudeste Brasileiro. A Mãe-do-Ouro. visto que a versão assombrosa é. e disse ao índio que a mulher era inocente. uma mulher deu à luz uma menina de pele muito alva. fascinado diante de tanta riqueza. bem menos conhecida. o que seria muito castigo se tentasse qualquer coisa contra as duas. MÃO-DE-CABELO Fantasma que assombra. lhe impôs a condição de não revelar a ninguém o lugar onde encontrou ouro. Mas ela não viveu muito tempo. que significa “corpo de mani”. A criança. acordando-as. que parecem humanos. O feiticeiro da tribo. Ele atrai suas vítimas por meio de seus gritos. que vai do nariz ao estômago. e de suas raízes se vez um vinho delicioso. com a altura de um bezerro novo. no entanto. “como a mão é negra. o nome “mandioca” ou “manioca”. Há uma variante. vestida de branco. querida por todos na tribo. no entanto. uma velha magra. as crianças que uniram na cama. não castigava nem atormentava os escravos. que passa pelo órgão sexual das crianças que urinaram enquanto dormiam. cresceu. Suas mãos são feixes de cabelos louros. pois a planta revelou-se saboroso e nutritivo alimento. 1): “Quando não se consegue dormir. O fazendeiro. era branca como a pele de Mani. pequena. a Mão-de-cabelo vem te pegar”. começou ele próprio a cavar aquela vastidão de ouro. porém. que efetua os trabalhos domésticos com assombrosa velocidade e perfeição. linda. Os índios julgaram ter sido um milagre de Tupã (deus dos índios). até que a Mãe-do-Ouro permitiu ao escravo que o revelasse. Mãozinha de Justiça”. a que deram o nome Mani. se necessário. concluindo. O Fazendeiro torturava-o no tronco para lhe arrancar o segredo. ameaçando mutilá-lo. Mas. apesar de registrada por Alceu Maynard Araújo (“Folclore Nacional”. Seu marido. de cujos olhos sai uma luz parecendo um fogo azulado. muito peludo. cujos dedos são macios como cabelo. então. vem passar as mãos no rosto para que se concilie o sono”. inteligente. no entanto. É uma espécie de um lobo avermelhado. Tanto cavou que morreu soterrado. a Mãozinha-Preta também é capaz de bater e castigar. Deram-lhe. desconfiado e com raiva. MAPINGUARI É um macaco grande. Daí sua popularidade entre eles”. de longe. que esse mito foi mencionado por Gilberto Freyre no Clássico “Casa Grande e Senzala”. Tem forma humana. trata-se de uma mão negra. envolta num lençol branco. Acrescente-se.

Os motoristas de caminhão. Entretanto. toda vestida de negro. requer um ferimento que lhe tire sangue. MENINO DOURADO Menino loiro que em noites enluaradas aparece no Rio São Francisco. Quando está prestes a morrer. entretanto. Outras há. Até os mais valentes guerreiros morrem de medo do Mapinguari. as amantes de padres católicos. Contavam os caminhoneiros que ela fora morta atropelada por um caminhão ao dirigir-se à igreja no dia de seu casamento. cujo rosto é ocultado por uma cabeleira negra e revolta. Esse estranho hábito despertou a curiosidade do rei. volta à forma humana.). MOÇA DE BRANCO Moça vestida de branco que à noite aparecia pedindo carona aos caminhoneiros na antiga estrada Rio-São Paulo. colocar-lhe no meio uma chave e por cima desta um terço e rezar algumas orações. Walcyr Monteiro. O estrondoso galopar da Mula-sem-cabeça faz tremer o chão. retraída. Pela madrugada. assombrosa. Seus possantes coices que cortam como navalha ferem mortalmente os homens e animais que cruzam seu caminho. desgrenhada. atraindo-o. os motoristas se arrepiavam de pavor ao notares que a moça havia simplesmente desaparecido. toda machucada. capaz de voar. estacionavam o veículo e abriam a porta para o ingresso da bela jovem. limitava-se a responder com monossílabos ao que lhe perguntavam. MATINTA PERERA Uma velha feia. transformou-se naquele bicho (Theobaldo . pois estas têm para o monstro grande brilho. acéfala como diz o próprio nome.Os pés do Mapinguari são como os de burro. ela pergunta: “Quem quer? Quem quer? Quem quer? Quem responder. Quem defrontar com a Mula-sem-cabeça deve esconder as unha. como punição. chamado “rasga-mortalha”. suja. que solta fogo pelo pescoço. A mais tradicional das versões sobre esse mito nacionalmente conhecido conta que a Mula-sem-cabeça é aquilo em que se transformam. acreditando tratar-se de algo valioso. É também vulnerável em seu umbigo. sombria. emergindo desse rio e mergulhando em suas águas. o Acre e o Pará. calada. Cit. em “Visagens e Assombrações de Belém”. O encanto também pode ser desfeito se lhe for tirado o freio de ferro que traz no pescoço. Existe também a versão da Matinta Perera com asas. sempre solícitos com mulheres. e que se transforma nesse pássaro. segundo Alceu Maynard Araújo (op. explica que para “prender” a Matinta Perera é preciso enterrar uma tesoura virgem. Mulheres idosas da região amazônica teriam a sina de se tornar essa criatura. Assim ela fica presa ao local. transformar-se-á em Matinta Perera. Já o desencantamento da Mula-sem-cabeça. sucessivamente. Estes. algum tempo depois. O assobio estridente dessa ave assusta as crianças e não deixa ninguém dormir. para evitar que o seu amor sofra essa triste sina devem amaldiçoa-lo sete vezes antes de celebrar a missa. assombra o Amazonas. a exemplo do Lobisomem. ouvindo-se de longe seu mórbido e estridente relincho. montado nas costas de um enorme e mágico peixe dourado. estranha. Sempre faminto. que anda acompanhada de um pássaro agourento. A moça. e sua pele é semelhante ao casco de jacaré. Lenda paulista. MULA-SEM-CABEÇA É uma enorme mula. que numa ocasião a seguiu e a flagrou comendo o cadáver de uma criança que havia morrido na noite anterior. que o teria salvo do afogamento e se encarregado de sua criação. A viagem prosseguia. Vendo-se descoberta. aberta. que dizem ter sido o costume de passear de madrugada pelo cemitério.

sem pais. banguela. Depois de ter mandado que seus feitores açoitassem o Negrinho. Mato Grosso e Minas Gerais) que representaria a sanção contra o padre. a tentação. Assim nasceu o guaraná. O mesmo autor pontifica que a versão mais tradicional. soltou novamente os cavalos. O pedido foi atendido. acabou morrendo. O padre “representa o sagrado. bondoso e inteligente menino.Miranda dos Santos. PAPA-FIGO Um preto velho carregando um saco de estopa nas costas. Nossa Senhora. acabou adormecendo. de corpo todo piloso. cabelos até o chão. é oportuno mencionar que o Prof. cujas sementes negras. “Lendas e Mitos do Brasil”). toda a tribo saiu à sua procura até encontrá-lo morto. Dessa vez. Como se pode constatar. PAI-DO-MATO Bicho gigantesco. não satisfeito. tanto que foi preciso que criassem outra fantástica figura. muito feio. pondo a culpa no Negrinho. dizem que ele cavalga até hoje pela terra e pelo céu. que para se tratar desse terrível enfermidade mata crianças mentirosas para lhes comer o fígado. O filho do malvado senhor. então. que deles nasceria um fruto maravilhoso. de sanção que se inventou para que as mulheres não ‘tentassem’ os padres”. que se dizia afilhado de Nossa Senhora. O filho do estancieiro. diferenciando-se desta “pela morfologia do corpo”. Salvo por Nossa Senhora. o demônio”. era encarregado de pastorear o rebanho de um cruel estancieiro. a surra foi impiedosa e o Negrinho. Do sul do Brasil. não eram só as mulheres. Seus urros e seu riso macabro reverberam por toda a mata. a mãe da criança ouviu Tupã lhe dizer para plantar ali os olhos do menino. sendo por isso chamada . caído ao lado de uma árvore. Numa noite em que estava a exercer esse mister. que logo conquistou a amizade de todos da aldeia. exceto se lhe atingir o umbigo. o problema. iluminou as coxilhas por onde ele cavalgava à procura dos animais. envoltas numa película branca. e a quem chamavam Negrinho. mão de macaco. na realidade. no passado. É também comedor de gente. Alceu Maynard Araújo (em “Folclore Nacional”) acrescenta outras causas para a malsinada transformação: as moças namorarem na Sexta-feira santa. ainda menino. leproso. pé de cabra e orelhas de cavalo. Tiros e facadas não o matam. fazendo com que estes pudessem ser vistos e finalmente reunidos no potreiro pelo Negrinho. com medo do som das corujas. depois de atirado num formigueiro. seu senhor. Ao darem sua falta. moças solteiras terem relação sexual antes do casamento. sendo “uma réplica à mulasem-cabeça”. e usufruindo da liberdade que lhe trouxe a morte. A gente simples do povo acredita que a lepra altera os caracteres do sangue. em “Lendas Brasileiras”. Tiveram um lindo. Entretanto. esmolambado. “OS OLHOS DO MENINO” (A LENDA DO GUARANÁ) Um casal de índios que não conseguia ter filhos implorou a Tupã que lhes concedesse essa graça. O espírito do mal ficou com inveja e com ódio do menino e acabou matando-o ao tomar a forma de uma cobra. registra a figura do CAVALO-SEM-CABEÇA (São Paulo. fez com que os cavalos escapassem. barbudo. tão perverso como o pai. “era uma forma de proibição. a exemplo de Câmara Cascudo (“Dicionário do Folclore Brasileiro”). o senhor ordenou a este que no escuro da noite reunisse os cavalos. ela . “Quem acender uma vela para o Negrinho do Pastoreio encontrará o que perdeu: amor. Nesse momento. NEGRINHO DO PASTOREIO Um escravo. felicidade ou objetos”. diz Alceu Maynard Araújo. sem padrinhos. atendendo ao pedido de ajuda de seu afilhado. barbicha. considerando interessante que “esse castigo é só para a mulher”. realmente se assemelham a um olho humano. José Sant´anna (criador do Festival do Folclore”.

correm aterrorizados ao ouvirem. meio maçado. os que até hoje tentaram. que por um feitiço de um bruxo malvado com quem ela não quis se casar teve o seu corpo transformado numa espécie de serpente de escamas douradas. Dizem que ele costuma rondar as escola. Ela teria sido uma rainha que. meio homem. Suas presas mais fáceis. tiro ou pauladas. a personificação do pesadelo numa velha feia. para o povo. é preciso banhá-la com sangue humano e que o herói que a salvar ficará com ela e com todo o ouro que existe na cidade. . gorda. Mas. o Saci-Pererê é representado por um negrinho de uma perna só. os sons apavorantes de fantasmas. como o Pai-do-Mato e o Mapinguari. a qual também renascerá. que atemoriza as crianças nas narrativas dos pais. Esse foi o ponto de partida para o surgimento do temível Papa-figo. de gemidos e gritos humanos. que sentaria na boca do estômago de quem está a dormir. então. QUIBUNGO Bicho-papão. Se lhe for tirada a carapuça ele perde seus poderes. os moradores contam que existe uma cidade encanta. pelo focinho e pela boca. e de urros de monstros ferozes. Diversamente dos outros que integram o chamado ciclo dos monstros. PISADEIRA Acredita-se que o pesadelo resulta da ação maléfica de um demônio ou espírito ruim. cru. seria a alma de uma mulher que praticara sete abortos. numa caverna. Nessa cidade vive uma linda princesa. É curioso notar que o vocábulo pesadelo deriva de “peso”. A Pisadeira seria. A PRINCESA DA CIDADE ENCANTADA Em Jericoacara. sob o farol. quando ficam muito velhos. (Chamada de lenda. jardins e parques. onde só se pode chegar na maré baixa. o comedor de fígado. Apenas seu rosto e seus pés se mantiveram a salvo da terrível bruxaria. “pesado”. de criança sadia e forte. SACI-PERERÊ De acordo com a configuração mais popular. PORCA DOS SETE LEITÕES É uma porca. É branca e solta fogo pelos olhos. pesada. o Qujibungo não é invulnerável às armas do homem. mito. sendo esta uma forte característica do Saci. Acredita-se que os negros. De acordo com uma versão de que o Papa-figo teria sido uma pessoa rica que contraiu a terrível doença. atraindo as crianças. A ela atribuem a causa de malfadados sonhos. que usa uma carapuça vermelha na cabeça. oprimindo-lhe o tórax de modo a dificultar a respiração. Mito conhecido em todo o Brasil. Dizem que para quebrar esse encanto. que costuma aparecer atrás de igrejas antigas e de cruzeiros de estadas. De acordo com outra versão. “viram” Quibungo. é fechada por uma enorme grade de ferro. sofreu essa transformação por vingança de um horrível feiticeiro. de modo que pode ser ele abatido à faca. Mito baiano. perto da praia. são as pessoas que dormem de costas ou com o estômago cheio. de origem africana. atraindo as crianças desobedientes e mentirosas com doces e brinquedos. logo na entrada da cidade. e até mesmo de superstição). aí as mata arrancando lhes o fígado (“fico para o povo”). Lenda mais conhecida do Ceará. com orelhas de morcego e a mão furada. Ele se faz anunciar por um assobio estridente e adora fumar. cabeça muito grande e uma enorme boca nas costas – por onde devora as crianças – a qual se abre e fecha à medida que ele movimenta sua cabeça para cima ou para baixo. A entrada. dizem. jardins e parques. acompanhada de sete leitões. Para se purificar é preciso um novo fígado. ele costuma deixar dentro da barrida da vítima uma grande quantia em dinheiro para os familiares e para o sepultamento. com seus filhos pequenos.também de mal de fígado ou mal do sangue. cujo poder mágico lhe confere a prerrogativa de ficar invisível e de aparecer e desaparecer como fumaça.

com um chapéu gasto a lhe ocultar o rosto. voando de volta para sua tribo. Caapora. preterida pela irmã Denaquê. que convergem num ponto: transformaram-se em Urutau enamorados que à dor sucumbiram. seria sua mulher. Ele. A índia lhe contou e pediu que a transformasse num pássaro a fim de que dessa forma pudesse matas as saudades de seu amor. derramava seu prato de dor às ocultas. faz queimar a comida. esparrama as brasas do fogão. embora se mostrasse conformada.um jovem caboclo que na mata se entranhou tentando encontrar. que é certamente indígena em parte.a índia Imaeró. Pranto ou soluço. sofreu influência do negro. gostava de ambas as rivais. o Saci pratica todo tipo de diabruras: da nó nos rabos dos cavalos. Como eram amicíssimas. derrotada pela morte. começou a cantar um canto tão lindo que toda a mata parou para ouvi-lo. . Suas lágrimas formaram um rio. na mudez da mata escura. Não se sabe de onde vem.. traquinas. deixaram para que o cacique decidisse com qual das duas iria ficar. por causa de um amor perdido: . antes de desaparecer (registrada por Benedicto Pires de Almeida. derruba o chapéu dos viajantes (depois de quase matá-lo de susto ao montar na garupa de seus cavalos). a linda moça que lhe dissera ser o seu grande amor. e ao mesmo tempo incorporou não pouca coisa de procedência européia. O Saci é daqueles fumantes que nunca trazem consigo palitos de fósforos ou isqueiro e. (em “Tradições Populares”) pontifica que “o Saci. deu à índia o nome de Uirapuru (pássaro que não é pássaro).. foi saber o que se passava. estranho. ficou ainda mais triste. com seu triste canto. em pleno vôo. revelando amálgama de elementos de outros mitos aborígines (Curupira. por isso. encantado com o canto. uma encruzilhada da nossa viagem histórica. As duas amigas dispararam. em “Folclore de Tietê”). Uma delas acertou o alvo e se casou com o cacique. Ninguém lhe dá atenção nem dá nada por ele. esquivo. zombam e caçoam do . então. O Saci é talvez um símbolo. porém.” UIRAPURU “O que mais no fenômeno me espanta É ainda existir um pássaro no mundo que fique a escutar quando outro canta”. A outra. Amadeu Amaral. faz cócegas e puxa as cobertas de quem está dormindo e outras molecagens ainda piores. Quando se oferece para participar de vaquejadas ou outros certames com gado. segundo Luís da Câmara Cascudo) dentre as quais ficamos com três. etc). e lhe disse que quando se sentisse triste. uma competição de arco e flecha: a pretendente que acertasse um pássaro. joga farinha em toda a cozinha. que cantasse. montado num cavalo velho. o novo cacique da tribo onde viviam. ao surpreender-se com o silêncio da mata. A índia.pois é difícil imagina-lo sem seu cachimbo. É cercado de mistérios e de lendas (“personalizando fantasmas e visagens pavorosas”. Tupã. e não se decidia. propôs um duelo. tão triste que parece ressoar um plangente e desesperado grito de dor.a guarani Nheambiu. aparentemente frágil. Tupã. Matreiro. Para solucionar o impasse. em “Dicionário do Folclore Brasileiro”). de quem a nostalgia à noite invade”. que nas sombras e no escuro da noite se refugia. o deus dos índios. solta o Urutau seu grito de saudade. uma dor que nada cura. O remédio mais eficaz para espantar o Saci é rezar o Credo. Orlando de Almeida Sales Pássaro sinistro. patente na transformação do personagem num moleque travesso. suas flechas. mal vestido. duas índias muito amigas se apaixonaram pelo mesmo homem. então. na disputa pelo coração de Tainá-Can. . que levou seu namorado Quimbae (registradas por Câmara Cascudo. Segundo a lenda. VAQUEIRO MISTERIOSO Por todo o Nordeste brasileiro contam histórias sobre um vaqueiro muito humilde. URUTAU (ou Mãe-da-Lua) “À noite. indicado por ele. vendo nascer aquele rio que desconhecia. Ao ver que o cacique e sua amiga formavam um casal muito feliz. que a tristeza passava. De modo que o Saci marca um momento importante. sem jamais conseguir. sempre assombra os viajantes pedindo-lhes fogo para seu pito. nem seu verdadeiro nome. pleno de amargura.

conhecedor de grandes segredos. que na hora das disputas ele se revela um vaqueiro hábil como ninguém. . que escape à derrubada do vaqueiro misterioso. ao ver a imagem da lua refletida num lago. mantendo-se fiel a seu sonhado guerreiro. cujas pétalas à noite se abrem. transformou-a numa estrela das águas. Ele reúne todo o gado. passou a não se interessar por nenhum dos seus inúmeros pretendentes. Domina facilmente os mais ferozes touros. acreditando ser o seu amado. Naiá. Seu cavalo torna-se então. bom garfo e grande bebedor. atirou-se nas águas profundas do lago e morreu afogada. então. não há garrote. Terminados os torneios e as festas. Acontece. A lua. Alceu Maynard Araújo. para que o luar ilumine sua corola rosada. fazendo com que seu corpo de índia se tornasse uma imensa e linda flor. ele. Enfim.forasteiro. recusa os sedutores convites das mulheres. Câmara Cascudo o registrou como mito (“Mitos Brasileiros”). para reaparecer depois em outras paragens. que se apaixonou pela lua ao ouvir as histórias de que esta era um belíssimo e poderoso guerreiro que. levava-a consigo para o céu e a transformava numa linda estrela. Numa das noites em que vagava pelas matas. Essa flor é a vitória-régia. no curral. VITÓRIA-RÉGIA Era uma vez uma jovem e muito bonita índia. depois de se apaixonar pela lua. chamada Naiá. como lenda (“20 Lendas Brasileiras”). assim como as ofertas dos fazendeiros de bem remunerados trabalhos. um veloz e belígero ginete. quando se enamorava de alguma índia. não há novilho. alegre. porém. apenas recebe os prêmios e se vai. sozinho e em pouco tempo. acaba sendo ele o grande campeão. que não fizera de Naiá uma estrela no céu. Nas vaquejadas.

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