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RECONSTRUÇÃO IDENTITÁRIA DE OURO PRETO APÓS A MUDANÇA DA CAPITAL.

Kleverson Teodoro de Lima1 IFMG - Instituto Federal de Minas Gerais Resumo: O objetivo desse artigo é apresentar a relevância de três questões presentes na pesquisa que estou começando a desenvolver sobre o processo de reconstrução identitária experimentado em Ouro Preto entre o final do século XIX e o início do XX. Primeira: quais foram os problemas enfrentados pela população de Ouro Preto após a perda do título de capital de Minas Gerais? Segunda: como se deu a reconstrução das redes de sociabilidade após o arrefecimento do fluxo migratório impulsionado pela mudança da capital e a chegada de novos grupos? Terceira: como os discursos da “modernização” e “musealização” de Ouro Preto foram apropriados pelos diferentes atores e grupos sociais locais? Essas questões desenham o perímetro que desejo percorrer nessa investigação e, dessa maneira, contribuir para a historiografia sobre o período. Palavras-chave: Ouro Preto, identidade, modernidade, musealização. Nas últimas duas décadas, a sintonia entre as mudanças teórico-metodológicas no campo da História e as comemorações do centenário de Belo Horizonte estimularam a produção de novas investigações sobre os interesses que influenciaram o processo de transferência da capital mineira na fase inicial da República (Salgueiro, 1997; Viscardi, 2007; Castro, 2008). Ancorados nesse tema, outros estudos se inclinaram tanto à análise da composição do tecido urbano de Belo Horizonte - evidenciando, por exemplo, as diretrizes técnico-científicas e o diagrama do poder distribuído no espaço do planejamento da nova capital - quanto à ressignificação do cenário urbano de Ouro Preto entre o final do século XIX e o início do XX (Faria: 1985, Magalhães & Andrade, 1989; Mello, 1996; Miranda, 1996; Julião, 1996; Ávila, 2008; Brandão,2008; Fonseca, 1998; Meniconi, 1999; Natal, 2007; Mantovani, 2007).

Em meio a essas pesquisas, as analogias entre a antiga e a nova capital apresentam-se inevitáveis, já que na virada para o século XX construiu-se em Minas uma antítese entre os modelos urbanos das duas cidades: Belo Horizonte representando o moderno, o novo; e Ouro Preto, o antigo, o arcaico. Mas as relações entre esses espaços não se restringiam ao campo das oposições, havia também abertura para misturas ou superposições entre as suas simbologias, como demonstram a instalação da réplica do Pico do Itacolomi na Praça da
Mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais e graduado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto.
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1 – Praça da Liberdade. BH-MG. Autor: desconhecido. a influência das perspectivas técnico-científicas e 2 . em 2007. renomeada como “cidade histórica” e “monumento nacional”. além de nos permitir uma base mais táctil para a interpretação dos discursos que contribuíram para a construção das identidades “cidade histórica” e “monumento nacional” para Ouro Preto. Fonte: Coleção Otávio Dias Filho. 1905. e Ouro Preto: a construção de uma cidade histórica .Liberdade (FIG. Nesse sentido destacamos duas investigações: A construção de uma cidade-monumento: o caso de Ouro Preto. interessa ao problema aqui apresentado os trabalhos que tematizam a ressignificação do cenário urbano de Ouro Preto entre o final do século XIX e o início do XX. seja através das apropriações da atmosfera modernizante da Belle Époque ou da transformação da identidade da antiga capital. a fim de realçar a importância dessas investigações e de demonstrar ao leitor a necessidade de uma pesquisa mais abrangente sobre certas questões ainda pouco exploradas. Especificamente. Fundação João Pinheiro. em 1999. Réplica do Pico do Itacolomi FIG. Os trabalhos de Meniconi e Natal. 1999). Apresentaremos em linhas gerais os roteiros e as idéias detectadas nesses trabalhos. ainda polarizada pelos estudos setecentistas. passando pelos debates políticos que defendiam ou não a transferência da capital. 1997.1891-1933.1) e a reprodução de paisagens ouropretanas nas varandas de algumas residências particulares de Belo Horizonte (Meniconi. produzida pelo historiador Caion Meneguello Natal. Meniconi (1999) e Natal (2007) trafegam um caminho semelhante. elaborada pelo arquiteto Rodrigo Meniconi. demonstram-se audaciosos ao elegerem uma temporalidade pouco comum à historiografia relacionada a essa cidade.

i Sintetizaremos as idéias principais dos seus trabalhos seguindo esse mesmo percurso. caso necessário. Natal.. 1905. No final do século XIX. Juiz de Fora. se desintegraram com as delações e as prisões dos principais participantes e líderes no início de 1789 (Linhares. 2007).positivistas nesse contexto.1999). conectadas ao centro do Estado e à capitania do Rio de Janeiro. opção que evidenciava a tendência de fortalecimento das rotas comerciais do sul de Minas. voltou ao tema defendendo um novo espaço para a transferência da capital: agora às margens do Rio das Velhas. a mudança das capitais dos seus estados para lugares mais convenientes (Meniconi. (. já em 1890. Esse e outros planos. Os conspiradores do final do século XVIII defendiam a transferência da capital para a Vila de São Del Rey. cidade que colocou-se em campanha para sediar a nova capital. O início da República reacendeu em Minas Gerais o debate sobre a mudança da capital. industrializada e economicamente avançada. no entanto. 2007). Natal. Em Minas. uma cidade que se via moderna. 3 . a idéia não encontrou força política e a ressonância necessária para a sua aprovação (Linhares: 1905. a inauguração de Belo Horizonte e a retração do papel político de Ouro Preto em Minas.. No entanto. Mas era vista pelos seus oponentes como rebelde e viciada. De um lado. o Padre Paraizo. Rio São Francisco e a faixa litorânea do Atlântico. e o crescimento das vozes de intelectuais mineiros e de outros estados que defendiam a singularidade e a importância do patrimônio da cidade no cenário político e artístico nacional. De outro.) o debate na imprensa opunha dois grupos de valores estereotipados. desejo presente na Conjuração Mineira e retomado na segunda metade do século XIX. Essa opção reiterava a permanência da capital na zona central e realçava o aproveitamento da potencialidade hidrográfica a partir da integração entre o Rio das Velhas. O transporte fluvial de pessoas. representante da região do Serro na Assembléia Provincial. bens e mensagens ajudaria a desenvolver a economia regional e as conexões entre a capital mineira e as outras províncias brasileiras. essa questão apareceu nos jornais de Ouro Preto e de Juiz de Fora. o assunto emergiu novamente. como a trupe capitaneada por Mário de Andrade na década de 1920. Essa mudança favoreceria a região norte do Estado. cortada por importantes rios como o Jequitinhonha e os acima citados. Quase um século depois. A recém-instalada República dissolveu e extinguiu as assembléias provinciais e estabeleceu entre as atribuições dos governadores empossados o direito de ordenar.

que se percebia como um lídimo representante do Estado de Minas. 1999). Paraúna e Curral Del Rey. em meio ao clima da recente república.Ouro Preto. na modernidade (Viscardi. Ainda.1982). chefiada pelo engenheiro Aarão Reis. as condições topográficas em relação à livre circulação de veículos e ao estabelecimento de carris urbanos. à “neutralidade científica”. o abastecimento abundante de água potável. a despesa mínima que as instalações iniciais. por ser uma cidade culta e tradicional. segundo Meniconi (1999): 4 . Apesar das vozes contrárias. representava o “centro” administrativo de um Estado sem uma coerente unidade econômica ou política. p. cabendo aos estudos técnicos. o farto abastecimento dos produtos da pequena lavoura indispensáveis ao consumo diário. Mas o grupo oponente a via como suja. dos projetos a serem executados e da construção dos edifícios representativos. malcheirosa e empobrecida. finalmente. as lutas políticas inter-regionais. era atravessado por dois conflitos: no cenário estadual. Meniconi. oferecendo as precisas condições higiênicas” se prestasse “à construção de uma grande cidade” (Minas Gerais. separada em pólos relativamente autônomos “com os seus interesses voltados para fora do Estado (Singer. Deveriam ser examinadas as condições naturais de salubridade. 1891.) o estabelecimento de uma cidade de 150 a 200 mil habitantes (grifo nosso). Barbacena. no plano nacional. a Secretaria do Interior do Estado Público publicou as instruções que deviam guiar a comissão incumbida desses estudos. Conforme Rodrigo Meniconi (1999) os aspectos a serem considerados deveriam levar em conta (. 2007). Ouro Preto.52 apud. 2007).. em 1891 foi “declarada a mudança da capital do Estado para um local que. fruto da antiga formação espacial e econômica de Minas. a iluminação pública e particular. de forma a oferecer as condições de conforto requeridas pela vida moderna. Várzea do Marçal. No ano seguinte. Ainda. a definição do novo espaço entre as concorrentes: Juiz de Fora. portanto. que dividiu os setores políticos mineiros em alas a favor ou contra a transferência (denominados como mudancistas ou não-mudancistas). se destacavam os embates entre os grupos deodoristas e florianistas. as facilidades oferecidas para a edificação e construção em geral. O juizforano. foram indicadas e escolhidas as localidades que seriam avaliadas. O grupo ouro-pretano inventava-se na tradição. Esse debate. exigiriam com o custo das implantações..1977)” (Wirth. os esgotos e conveniente escoamento das águas pluviais. esses últimos partidários das idéias separatistas difundidas em Minas pelos críticos da permanência da capital na região central do Estado (Viscardi. com a indicação do sistema preferível. em 1891. a ligação ao plano geral da viação estadual e federal e.

muitas vezes devendo ser corroborados por dados estatísticos. eram reticentes quanto a ampliação dos direitos e da participação dos setores menos favorecidos no jogo do poder (Linhares. enfim. Salgueiro.Na relação das condições transparece a postura científica e “positivista” que deverá nortear os trabalhos da Comissão. traduzia em suas avenidas. que alguns aspectos comprometem e direcionam a escolha. Julião.ii Em dezembro desse mesmo ano. Ouro Preto tentou enfrentar o processo de transferência se adaptando às diretrizes urbanas disseminadas na época.2008).iii Em dezembro de 1891 foi criada a Empresa de Melhoramentos da Capital num contrato firmado entre a Intendência Municipal ouropretana e os Srs. sub-repticiamente Ouro Preto é descartada por sua incapacidade de atender muitos dos requisitos. O seu cenário urbano constituído nos períodos colonial e imperial foi parcialmente afetado pelos discursos de modernização presentes na atmosfera da Belle Époque. os grupos social. em especial os relativos aos esgotos e escoamento. indústrias seriam construídas. Simão. Reproduzia as aspirações de uma modernização conservadora: por um lado. Alexandre Moura Costa. bulevares. assim como a República. também. período em que os estudos sobre o espaço da nova capital ainda estavam em andamentos.2006.1996. ao “farto abastecimento” de produtos agrícolas e às condições topográficas para livre circulação de veículos e estabelecimento de carris (grifo nosso). de uma arquitetura de ‘gosto moderno’. A nova capital representava a fé linear na ciência e no progresso. 1989. linhas de Bondes. num viés conciliador conduzido por Penna.1996. o antigo Arraial do Curral Del Rey (situado no centro do Estado) foi escolhido para abrigar a nova capital (Barreto. por outro. mas entrelaçada a valores tradicionais (Mello. a comissão analisou as localidades e apresentou um relatório conclusivo ao governador Afonso Penna em maio de 1893. por comprovações factuais. de reinvenção de um novo país. Viscardi. basicamente. Percebe-se. 5 . aberta ao novo. Belo Horizonte.2007). Segundo Caion Natal (2007). viadutos. Aarão Reis tornou-se o chefe da Comissão de Construção da Nova Capital e com sua equipe definiu a planimetria. planilhas e tabelas. nasceu moderna e conservadora.1997). edifícios e praças a imagem idealizada de um novo tempo. política e financeiramente mais influentes eram seduzidos pela atmosfera da atualização dos valores e dos costumes. 1996. Vicente Barreiros e Dr. provas documentais. avenidas. facilitado pela ruptura entre os mudancistas das regiões do sul de Minas e da Zona da Mata. Entre 1891 e 1893. Os aspectos são objetivos e mensuráveis. Envolvida pelos interesses políticos e econômicos em jogo. o desenho urbano e a arquitetura dos principais edifícios públicos de Belo Horizonte (Magalhães & Andrade. 2002). a partir desse projeto A cidade que se pretendia fazer deveria constituir-se. Ávila. suas vias deveriam seguir um traçado reticular.

No entanto. inscreve uma vontade e uma forma de olhar Ouro Preto. o contraste entre as obras desejadas e as condições para realizá-las fica evidente quando nos aproximamos da realidade financeira da velha capital: a Empresa de Melhoramentos. FIG. suprimir os becos onde se acumulavam detritos putrefatos e insalubres.2 apresenta parte do Projeto de Boulevard criado para Ouro Preto em 1891. a Câmara publicou o Edital sobre terrenos foreiros. adquiriu um empréstimo junto ao governo estadual.ruas e planos inclinados seriam criados. ansiava-se pela construção de novos chafarizes e pontes no lugar dos antigos.” Ainda. Fonte: Arquivo Público da Prefeitura Municipal de Ouro Preto A FIG. que não podia contar apenas com os recursos da municipalidade. alargamento e alinhamento das ruas já existentes. presidente da Câmara. 1891. pela construção de um teatro amplo e moderno. pelo estabelecimento de um cemitério e matadouro públicos afastados do centro urbano. assim justificou a ação: Considerando que dentro do perímetro da sesmaria Municipal não há terreno que seja excluído do domínio porque as mesmas extensões isentas do pagamento de foros pela Carta Régia 6 . previa-se o estabelecimento de sistemas eficientes de esgotos e água encanada. construir parques e jardins. “A carência de recursos técnicos. Ademais. pela construção de muros de arrimo para conter as águas dos rios e evitar deslizamentos. nivelar áreas acidentadas e abrir praças e novas áreas planas. que incorporou os terrenos abandonados situados na Serra de Ouro Preto e previu a utilização dessa zona na futura expansão urbana da capital. 2007). autor desconhecido. para evitar miasmas e epidemias (grifo nosso). essa planta registra algumas pistas sobre a nova cidade sonhada para a antiga capital. restaurar as vias e edifícios que estivessem em estado calamitoso.2 – Parte do Projecto de Boulevard. bem como o calçamento. em 1892. no lado direito o corte transversal de uma suposta praça e no lado esquerdo a frente de um jardim. mais amplas e arejadas. materiais e financeiros selaram o malogro da Empresa de Melhoramentos da Capital (Natal. valor que foi insuficiente para o vulto planejado e que contribuiu apenas para aumentar o endividamento da economia ouropretana (Coelho. Diogo de Vasconcelos. era necessário tomar as devidas providências para embelezar a cidade: arborizar as ruas e os adros das igrejas.1987). Contendo no centro as fachadas das novas casas que seriam construídas.

a tradição e o progresso (FIG. como é necessário e exigido ao grande desenvolvimento da cidade. os pontos de ancoragem da memória. o espaço urbano no projeto de Braksley é reduzido ao atendimento das questões funcionais de circulação.3). abastecimento. 2001. 2º Fica marcado o prazo de 60 dias para quaisquer reclamações opostas a este Edital.iv No ano seguinte.1997). O viaduto que ligaria o setor antigo ao novo (o Morro da Forca ao alto do Morro do Cruzeiro) simbolizaria essa tentativa de construir uma passagem harmoniosa entre o passado e o presente. Segundo José Efigênio Pinto Coelho. a conservação do antigo núcleo da sede de Ouro Preto representava nesse contexto a proteção dos discursos que atribuíam a essa área a condição de principal palco da luta dos mineiros contra a tirania e a favor da liberdade de expressão e da criação artística (Choay.” Traduzindo os discursos dos não-mudancistas em projeção urbanística.) Este núcleo do Morro do Cruzeiro seria ligado a Ouro Preto por uma ponte que vai dar no Morro da Forca. 1987). Diogo Luiz de Almeida Pereira de Vasconcelos. a “nova capital” teria uma avenida contornando todo o núcleo urbano. Apesar do apelo à memória. Paço da Câmara Municipal de Ouro Preto . e bem assim toda superfície das antigas datas e concessões minerais que tenham caducado. Blaksley buscou conciliar em seu projeto a coexistência entre a “histórica capital” e a “nova capital” a ser criada. ali seria o ponto chave da obra. e estejam dentro dos limites da sesmaria municipal. Este plano começou a ser executado. Pesavento.. ele estudou o planalto do Morro do Cruzeiro a fim de fundar-se nesse espaço uma nova cidade que pudesse “ser unida à histórica capital do Estado de Minas Gerais (grifo nosso) (Blaksley. Como a emergência da cidade moderna e de suas práticas de destruição e remodelamento do espaço não exclui a possibilidade de se “julgar aquilo que se deve preservar”. Blaksley um plano de expansão da mancha urbana de Ouro Preto. Considerando que mesmo para os terrenos de sesmarias vizinhas prevalece aquele direito de incorporação nas partes que entravam pelas divisas da sesmaria Municipal. Gonçalves. lembrando a estrutura da Torre Eiffel. salubridade. e várias ruas paralelas transversais às duas avenidas. Considerando que o mesmo direito regia e rege as datas e outras concessões minerais cuja superfície pelo abandono dos serviços reverte ao patrimônio da Câmara. pois. 12 de julho de 1892. topografia e custo. Arantes. a porta de entrada (grifo nosso) (Coelho. 1996. a Câmara encomendou ao engenheiro João F. (. e nenhuma prova existe mais concludente desse abandono que as ruínas e confusão em que se acham. cujos arrebaldes não podem continuar entregues à solidão e a esterilidade: Resolve: 1º Ficam incorporadas ao patrimônio municipal os terrenos devolutos e abandonados em toda a Serra de Ouro Preto. 1984. indo os quais serão aforados os respectivos terrenos.. e é por isso que o Morro da Forca é chapado.1893).incorporam-se ao patrimônio se acaso abandonadas. Seguindo a recomendação dos camaristas. no plano. Seria uma ponte de estrutura metálica. duas avenidas se cruzariam no centro. assemelhando-se às 7 . em 1893. Considerando ainda que tão vastos terrenos podem e devem ser repovoados. tanto assim que pela Carta Régia não se permite que se recite o domínio dos proprietários que as tenham uma vez abandonado.

Esse apelo é nítido na inauguração do monumento dedicado a Tiradentes. o abandono (Fonseca.preocupações que guiaram os trabalhos de Aarão Reis na construção da nova capital e aos planos da frustrada Empresa de Melhoramento de Ouro Preto. sacralizada também deveria ser a antiga Vila Rica. 1998). em 21 de abril de 1893. a cidade convocou o panteão de personagens da história de Minas que viveram em Ouro Preto.vão colocar Ouro Preto em uma espécie de limbo. Os defensores de Ouro Preto acreditavam na sacralização cívica do mártir Tiradentes. Ouro Preto. o projeto de Braksley. primeira metade do século XX. a incorporação dos terrenos abandonados na serra ou os planos da Empresa de Melhoramento de Ouro Preto evitaram a aprovação do Curral Del Rey.3 – Sem título. Todavia. como Felipe dos Santos. nem o panteão de “heróis”. Natal. Autor: Luiz Fontana.. Aleijadinho etc. Cláudio Manoel da Costa. Morro do Cruzeiro (espaço para a “nova capital”) Área chapada no Morro da Forca FIG. todavia.calcula-se que mais de 45% da população tenham emigrado . como o espaço para a construção do novo centro político e administrativo de Minas. Não sendo mais desse tempo. Para Rodrigo Meniconi (1999): A construção da nova capital e o êxodo que se seguiu . Retirar-lhe o status de Sede do Governo Mineiro significaria arrancar de Minas suas raízes. 1999. um local fora do tempo (grifo nosso). impondo ao mesmo tempo à heróica terra de Tiradentes a mais desalmada crueldade. se posicionando como a “guardiã e representante das mais gloriosas tradições mineiras” (Meniconi. berço da luta pela liberdade. 2005). em dezembro de 1893. Fonte: Acervo fotográfico do Núcleo de Mentalidade e Memória IFAC/ UFOP. Na defesa de seu status como capital. situado na principal praça da cidade. de que tempo seria esse lugar? 8 .

mas sim trazer as marcas do passado em seu traçado e em sua arquitetura. 2005) 9 . Para Caion Natal (2005): A nova concepção que passa a envolver Ouro Preto. como se a recente capital fosse o prolongamento da antiga. vistos como a face de uma mesma moeda: enquanto Belo Horizonte representava o espírito empreendedor do mineiro. visitas aos “lugares históricos”. o nascedouro da identidade mineira (Natal. envolveu nomes importantes do quadro intelectual mineiro. Dessa forma. como Nelson de Senna. então. a partir da consolidação de Belo Horizonte. Natal. Em fins do século XIX e começo do XX. de uma tradição que deveria ser mantida sob pena de perder um importante elemento constitutivo da identidade brasileira e mineira. Em meio às manifestações desse evento buscou-se construir conexões históricas entre Ouro Preto e Belo Horizonte. em prol de Belo Horizonte e. tendo em vista a cidade de Ouro Preto. Ouro Preto passa a assumir uma imagem cujo principal atributo seria sua imutabilidade como signo da preservação de uma memória histórica. a um discurso de conservação da tradição. empreendimentos coordenados por José Pedro Xavier da Veiga (1998). e os lançamentos da Revista do Arquivo Público Mineiro. exibição de filmes e a edição de uma publicação específica sobre a história local (Meniconi. em 1911. Ouro Preto representava a raiz desse progresso. Benedicto José dos Santos. Passado e futuro eram. inferiorizada. editado pela Imprensa Oficial do Estado de Minas Gerais. Pouco depois esse tema ganhou uma nova visibilidade nas comemorações do bicentenário de Ouro Preto. portanto. em 1895. marcadas pela programação de festas. aumento dos problemas a serem sanados pela gestão municipal e apropriação de novos conceitos sobre o espaço urbano que os aspectos evocativos presentes nos discursos derrotados dos não-mudancistas adquiriram uma nova direção: a preservação e a conservação da “histórica” cidade.2005). seriam exorcizados: esta não seria mais uma cidade renegada. Nesse processo de construção dos discursos que criticavam o esquecimento de Ouro Preto e que exaltavam a velha cidade como um importante cenário da memória nacional destaca-se (na fase de inauguração da nova capital) a constituição do Arquivo Público Mineiro. esquecida. O livro Bi-Centenário de Ouro Preto (1711-1911): Memória Histórica. em 1896. mas sim o suporte moral da cidade moderna. Desse modo.1999. queda da arrecadação tributária. a raiz da mineiridade. o desenvolvimento econômico. da cidade moderna. aliava-se um discurso progressista. o progresso científico.1911). em 1897. Diogo de Vasconcelos e Augusto Velloso (Senna. que envolviam Ouro Preto. é a de que a cidade não deveria mudar sua condição material. os fantasmas da transferência da capital.É nesse contexto marcado pela diminuição da população. e das Efemérides Mineiras.

2005) Apesar da importância das pesquisas aqui brevemente apresentadas. Natal. 1999. 2007. Esse plano. Na década de 1920 novas vozes defenderam a necessidade de se reavaliar o esquecimento e o mal estado de conservação da velha cidade. Segundo Rodrigo Meniconi (1999): Com a criação. e o escritor Mário de Andrade. Oliveira. 2005: Oliveira. A transformou num lugar de memória. em modelo. onde cita o descaso com as cidades de Ouro Preto e Diamantina. A primeira refere-se a necessidade de se compor e analisar um inventário mais abrangente sobre os problemas enfrentados pelos moradores durante as décadas posteriores à mudança da capital. “arte” e “nacional”. os problemas da conservação e restauração da cidade e de seus valores assumem dimensões nacionais. nesse período ainda incipiente de construção da cultura republicana e da política de patrimonialização no Brasil (Meniconi. colocando Ouro Preto e Minas no foco do chamado modernismo brasileiro (Meniconi. Em 1935 Barroso apresenta um “Plano de Restauração” da cidade de Ouro Preto. como o escritor Alceu de Amoroso Lima (o Tristão de Ataíde). vinculada ao Museu Histórico Nacional dirigido por Gustavo Barroso. como o arquiteto Lúcio Costa e os paulistas liderados por Mário de Andrade (Tarsila do Amaral. estadia que o levou a escrever sobre Aleijadinho em 1920 definindo-o como um “gênio da raça”. 2005). que visitou a região na segunda década do XX. como “genuíno”. primeiro no Brasil. pontes e chafarizes e vai ser executado nos próximos três anos. Natal.No início do século XX. O tombamento de Ouro Preto transformou a velha capital em um espaço laboratorial para a política de preservação patrimonial: reflexões. Época em que a cidade passou a ser tutelada pela esfera federal. no ano seguinte. na verdade contemplava a restauração de edificações singulares. Oswald de Andrade e Blande Cendars). ações. A sintonia entre a ressonância dessas vozes e as intenções do governo Vargas de manter um bom relacionamento com os setores políticos mineiros e influenciar a reconfiguração do discurso mítico nacional levou ao tombamento de Ouro Preto como “monumento nacional” em 1933. 1999. “heroísmo”. O estudo desse processo nos permite trilhar as marcas das traduções do Estado e de grupos políticos e artísticos sobre alguns conceitos. diretrizes. que escreveu um artigo em 1916 em defesa do “passado nacional”. e limites. com uma verba de 200 mil réis. demandando urgências operativas. e incentivou a criação do Serviço de Patrimônio Artístico Nacional em 1937. da Inspetoria de Monumentos Históricos. acreditamos que algumas questões relacionadas ao período ainda necessitam de uma investigação que lhes dê maior visibilidade. igrejas. Acreditamos que as informações identificadas sobre essa época são 10 . as exaltações e as alegorias montadas em torno da valorização e conservação da cidade contaram com novos adeptos.

(. :2005). Como esse percentual demonstra um número de evasão menor que o indicado no trabalho de Rodrigo Meniconi (45%). p. discurso de Olympio Cardoso apud.857. Anno I. a ocupação não autorizada das edificações. Conforme o autor. Uma diferença. após a transferência da capital Ouro Preto entra em caos: falta d’água. 2002. 07/09/1907. a sede de Ouro Preto contava com 17. portanto. que a sede tenha absorvido novas levas de moradores após a fase do intenso abandono. Natal. sete anos antes da mudança da capital. as informações tendem a citações superficiais dos problemas. Belo Horizonte: Imprensa Oficial.v Em geral. obras paralisadas. Coelho.) Seu progresso não é apenas uma necessidade urgente. O trecho abaixo. de 6.857 habitantes. A segunda questão refere-se ao processo de reconstrução da vida social após a migração de parte dos moradores de Ouro Preto para Belo Horizonte. Machado. Ouro Preto. 1921)..insuficientes para se pensar o impacto dessa mudança no cotidiano dos ouropretanos e a difusão das soluções imaginadas nos âmbitos da política e da economia para reverter tal situação. talvez a prática mais comum.2-3.. e a influência dessa realidade na produção e apropriação dos discursos que ante a perspectiva do arruinamento e do esquecimento de Ouro Preto passaram a ancorar a reinvenção da cidade nos campos da memória histórica e da memória artística. 2008). Portanto.vi Eles encontraram um cenário favorável às suas acomodações.1986. escrito por Olympio Cardoso em 1907. sobretudo. até o trem já não andava mais em seu horário habitual (Coelho. Carvalho. nos parece que a análise desse inventário de problemas auxiliará a verificação de dois pontos: os limites da economia da cidade para reverter tal situação. porque se o Brasil. devido às suas nobres cogitações. muito desemprego. gerando o aumento da oferta de compra. como demonstra o trecho abaixo escrito por José Efigênio Pinto Coelho. 11 .1987. é também um dever imposto a todo brasileiro. outro tema tocado superficialmente pelas pesquisas rastreadas. número único. Ouro Preto foi sem dúvida o sol que brilhou e extasiou nesse horizonte (Jornal Independência. exemplifica essa relação entre a economia e a identidade: É digna de outra sorte a ex-capital de Minas. já que a evasão levou ao abandono de parte dos imóveis. acreditamos.000 moradores (ou 34%) (Annuario Estatistico de Minas Gerais de 1921. foi considerado como um horizonte onde se divisaram grandes encantos. em sintonia com José Efigênio Pinto Coelho (1987). três décadas depois esse número girava em torno de 11. estabelecimentos comerciais e hotéis fechando as portas. Em 1890. na Escola de Minas e na Escola de Farmácia (Jorge. funcionários da Câmara sem receber os salários. 1987). venda e aluguel e. Esse novo contingente foi composto pelas famílias que viviam nas regiões próximas a Ouro Preto e pelos estudantes que vieram ingressar.

nos questionamos: a idéia de coexistência entre o antigo e o novo identificada nas diretrizes encaminhadas pela câmara municipal ao engenheiro João Braksley. nos propomos nesse trabalho contribuir para esse esforço e realizar uma investigação sobre esse processo de reterritorialização (Ortiz. 2001). que se diferenciavam pela tendência de fixação temporária. superposições e resistências? Que nova cidade surge nesse período? A terceira questão resulta das duas acima citadas: como desdobraram-se os temas da “modernização” e “musealização” da cidade nos discursos dos diferentes atores e grupos sociais locais durante as primeiras décadas do século XX? As informações identificadas nos trabalhos de Meniconi (1999) e Natal (2007). 12 . já que esses setores se dividiam em grupos sociais distintos com discursos e interesses próprios. continuou sendo defendida? Ou será que.A antiga capital parece ter se reconstruído a partir desses três setores: os remanescentes. apesar de esclarecedoras e relevantes. Diante da necessidade de reconstrução das redes de sociabilidade após a mudança da capital nos perguntamos: como se deram as relações de aproximação e estranhamento entre esses três setores? É possível identificar em seus valores e práticas culturais pontos de misturas. 1996. tendem a se fixar em torno das apreensões dos discursos produzidos nos circuitos intelectuais mineiros ou não. ao contrário. Leppeti. penetrando muito pouco nas traduções dos indivíduos ou dos setores sociais ouropretanos. utilizando fontes que nos aproximem um pouco mais das recepções dos habitantes e do cotidiano da cidade. em 1893. que permaneceram por razões distintas em Ouro Preto. chegou-se a constituir a defesa de uma visão “progressista” contraposta aos desejos disseminados pelos grupos intelectuais quanto a preservação e conservação do antigo núcleo de Ouro Preto?vii As pesquisas de Rodrigo Meniconi e Caion Natal avançaram quanto ao preenchimento da lacuna historiográfica sobre o período. os migrantes que vieram das regiões próximas. e as novas levas de estudantes. Essa divisão tripartida não deve guiar o leitor à idéia de homogeneidade. Por isso.

A fim de trabalhar essas questões. exemplificam essas novas apostas do município de Ouro Preto. v vi iv iii ii Getúlio Vargas. e da Usina Wigg no Distrito de Miguel Burnier. IFAC / UFOP Acervo fotográfico do Núcleo de Mentalidade e Memória. A Belle Époque “(. enquanto esfriavam as expectativas de grandes investimentos na extração de ouro na sede de Ouro Preto. Edital sobre terrenos foreiros. Fundo Biblioteca Nacional. Fundo José Góes. 1997. Juiz de Fora. por Luiz Martinho de Moraes. Fundação João Pinheiro. por Samuel Gomes Pereira. IFAC / UFOP Acervo fotográfico do Núcleo de Mentalidade e Memória. Ouro Preto. Várzea do Marçal foi estudada por José de Carvalho Almeida. FONTANA.1986). O envolvimento de seus irmãos numa briga que terminou com a morte do estudante paulista Carlos de Almeida Prado Júnior. Barbacena. Guilherme. 2004). Belo Horizonte. Annuario Estatistico de Minas Gerais de 1921. construída na região de Saramenha.A. e o conjunto de imagens fotográficas pertencente ao Acervo fotográfico do Núcleo de Mentalidade e Memória IFAC/UFOP.” APMOP.i O trabalho de Rodrigo Meniconi não se prende aos marcos estabelecidos no texto de Caion Natal (1891-1933). vii Fontes primárias. em 1897. Códice 0965. Anno I. bauxita etc. por Manoel da Silva Couto. R. que retrata Ouro Preto entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Pires de Almeida. e seus irmãos estavam entre os estudantes que se dirigiram para Ouro Preto no final do século XIX.) se caracteriza pela expressão do grande entusiasmo advindo do triunfo da sociedade capitalista nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX. Aarão Reis buscou os seus assistentes na Escola Politécnica do Rio (Meniconi. posturas municipais. momento em que se notabilizaram as conquistas materiais e tecnológicas. A fim de garantir a “isenção” e o caráter técnico dos serviços. por Eugênio de Barros Raja Gabaglia. BH-MG. Entre o final do XIX e as três primeiras décadas do XX. os jornais e revistas diversos produzidos e divulgados na sede de Ouro Preto. livros de registros de indústrias e profissões e projetos referentes ao espaço urbano). os textos autobiográficos escritos por atores sociais que viveram na cidade. Ouro Preto. precipitou a sua volta e de seus irmãos para o Rio Grande do Sul (Jorge.. [décadas de 1920 e 1950]. tornou-se o principal empreendimento local até a inauguração da Eletro Química Brasileira S. com apenas 15 anos de idade. em 1933. A inauguração da Usina Esperança no Distrito de Itabira do Campo (atual município de Itabirito). As análises das condições de salubridade foram realizadas pelo médico sanitarista J. a pesquisa aqui apresentada elegeu como recorte temporal os anos que delimitam o anúncio da mudança da capital e a publicação do decreto de tombamento de Ouro Preto como “monumento nacional”. as edições da Revista do Arquivo Público Mineiro publicadas nesse período. LIBENEAU. já que a sua meta é investigar os alcances e os limites das políticas de preservação e conservação experimentadas em Ouro Preto ao longo do século XX. 1999).. animavam-se os investimentos na produção do ferro e na exploração de outros minerais no município: manganês. Livro de Registros e Portarias 1892-1893. Luiz. durante o início da República. Para esse empreendimento destacamos como fontes centrais a documentação produzida pela Câmara Municipal de Ouro Preto (atas das sessões do plenário. ampliaram-se as redes de comercialização e foram incorporadas à dinâmica da economia internacional vastas áreas do globo antes isoladas (Follis. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. em 1888. inaugurada na última década do XIX. [1881]. Coleção Otávio Dias Filho. 1921 13 . Na sede da antiga capital a Fábrica de Tecidos de São José. Cada localidade foi estudada por um engenheiro designado por Aarão Reis. Iconografia. Paraúna.

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