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Revelação ou Realização

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Revelação ou Realização: O Conflito na Teosofia Durante as próximas cinco semanas, o Lua em Escorpião vai apresentar um discurso intitulado “Revelação

ou Realização: O Conflito na Teosofia”, feito há mais oitenta anos por um teosofista holandês chamado Johannes Jacobus (Koos) van der Leeuw. Nessa altura, a Sociedade Teosófica (ST) vivia na ressaca do desfecho do episódio Krishnamurti, o homem que desde menino, e após ter sido descoberto pelo “clarividente” bispo da Igreja Católica Liberal, Leadbeater, foi treinado por este e por Besant para se tornar no veículo do Instrutor da Humanidade. Em 1929, e depois de uma série de avisos, Krishnamurti disse em definitivo não aos planos que tinham para ele, abrindo uma séria crise na ST, que começou aí um forte declínio. J.J. van der Leeuw, que chegou a ser um dos membros ativos da Igreja Católica Liberal – uma cocriação de Leadbeater, num espírito inverso ao que norteou a ST no tempo de Blavatsky – parece ter ficado sensibilizado pela posição que Krishnamurti tomou, especialmente no que respeita à primazia da experiência individual em detrimento da obediência aos ditames vindos de uma autoridade. É importante também referir que na altura Besant era a líder da ST há mais de 35 anos, sendo que vários membros a acusavam de destruir a democracia dentro da organização e de usar as mensagens de Mestres – muitas delas “recebidas” através de Leadbeater, como forma de exercer a autoridade.

J.J. van der Leeuw no centro, ladeado pelos irmãos Cornelis(Cees) e Marius Gabriel (Dick)

O texto de van der Leeuw contém passagens bastante importantes, e o brilhantismo dele é bem visível na reflexão que faz. Schuller e Hejka-Ekins, relevam nos textos introdutórios a pertinência que o discurso do teosofista holandês tem mesmo nos dias de hoje, num tempo em que a Teosofia ainda parece ter dificuldade em encontrar o seu lugar. As muitas crispações que se têm sucedido e ainda existem entre os teosofistas são também uma evidência disso.

Devo dizer que não sou grande simpatizante das ideias de Krishnamurti, embora reconheça nalgumas delas algum valor. Neste texto, Katinka Hesselink expressa bem alguns dos problemas com Krishnamurti. O próprio Govert Schuller, um dos maiores especialistas sobre o pensador indiano, temse mostrado cada vez mais crítico. A sua opinião é a de que as ideias de Krishnamurti são incompatíveis com as da Teosofia.

Jiddu Krishnamurti

Não concordo nada com algumas partes do texto de J.J. van der Leeuw, mas achei que truncá-lo não seria honesto da minha parte. Na introdução a cada uma das partes assinalarei essas situações. Assim, fica a tradução praticamente na íntegra, feita a partir da versão disponível no site alpheus.org de um documento que, como verão abaixo, Hejka-Ekins classifica como “um dos mais importantes alguma vez publicados”. Quanto à minha posição, sobre o assunto em causa, já tinha sido expressa neste post. Introdução pelo editor Abaixo está uma reflexão de um teosofista holandês, J.J. van der Leeuw, comentando algumas questões teosóficas profundas, trazidas à tona pela crítica de Krishnamurti à Teosofia. Baseia-se numa palestra dada na Federação de Londres da Sociedade Teosófica em (…) 1930. Este texto foi encontrado na internet com uma introdução de Jerry HejkaEkins, editor associado do Theosophical History, e foi originalmente publicado em (…) Amsterdão, em 1930.

O manuscrito de Aryel Sanat disponível online “The Secret Doctrine, Krishnamurti, and Transformation“ aborda muitos dos assuntos levantados por van der Leeuw. A principal alegação de Sanat é que a “essência da Doutrina Secreta (…) é a transformação humana”. Govert Schuller

Govert Schuller

A Teosofia como nunca antes vista Prefácio Como parte de discussão regular de um grupo de discussão de Teosofia na Internet, foi sugerido que eu poderia recomendar um livro ou artigo sobre o qual nos poderíamos focar. Em resposta a esta sugestão, eu coloquei o texto digitalizado de um panfleto teosófico bastante raro, escrito por J.J. van der Leeuw e publicado em 1930. O assunto diz respeito ao conflito entre revelação e realização que tem existido na Sociedade Teosófica (ST) desde o seu início, que segundo crê van der Leeuw (e eu próprio) está na origem do falhanço da ST. Eu considero que os temas tratados neste panfleto também se aplicam àqueles que fazem parte da LUT [NT: Loja Unida dos Teosofistas] e das tradições de Point Loma, embora ele só esteja a referir a história teosófica de Adyar no texto. Para dar algum enquadramento, deve-se referir que a ST de Adyar estava passando por uma crise, na altura em que este panfleto foi publicado. Krishnamurti estava desde há algum tempo a contradizer as revelações e ordens do Mestre transmitidas por Annie Besant e C.W. Leadbeater, e no final de 1929 Krishnamurti ordenou a dissolução da Ordem da Estrela do Oriente e demitiu-se da ST. O texto que vou disponibilizar resulta de uma palestra dada

por J.J. van der Leeuw, onde ele analisa a ST por forma a descobrir o que correu mal. Embora este panfleto tenha mais de sessenta anos [NT: este prefácio foi escrito em 1995, o texto tem hoje mais de oitenta anos], eu creio que as ideias de van der Leeuw continuam a ser tão relevantes hoje, como eram então, porque os problemas subjacentes que afligiam a ST em 1930 são os mesmos de hoje. Johannes Jacobus van der Leeuw (1893-1934) juntou-se à TS em 1914 e rapidamente se tornou um membro valioso do círculo interno. Em 1921, ele tornou-se um clérigo da Igreja Católica Liberal e ganhou a Medalha de Subba Row por “The Fire of Creation “ [NT: O Fogo da Criação], um clássico teosófico, que creio ainda estar a ser impresso. Ele também publicou “A Dramatic History of the Christian Faith”, “The Conquest of Illusion” e “Gods in Exile”. Tragicamente, tal como muitos antes que questionaram as ações das pessoas erradas, J.J. van der Leeuw perdeu a sua posição no círculo interno depois de ter publicado este panfleto de forma privada. Como é óbvio, este panfleto nunca mais foi reimpresso e tornou-se uma raridade, falha que agora fica remediada. Eu acredito que este panfleto é o documento teosófico mais importante publicado à época, e certamente um dos documentos teosóficos mais importantes alguma vez publicados, especialmente nestes tempos. Nele, e como ninguém o havia feito, van der Leeuw debate o tema da revelação e realização na ST, e como este conflito trouxe uma crise, que ainda hoje nos acompanha, e é acredito, o principal responsável pela má situação não apenas da ST Adyar, mas de todas as organizações teosóficas. Apenas quando as organizações teosóficas forem capazes de enfrentar este assunto terão oportunidade de ocupar um lugar como um movimento importante no mundo. Jerry Hejka-Ekins, Setembro de 1995

Jerry Hejka-Ekins

"Revelação ou realização: O Conflito na Teosofia Houve um tempo no qual nenhuma dúvida parecia possível sobre o futuro da ST. Tinha-nos sido dito que os Mestres da Sabedoria tinham-na fundado e que seria a pedra angular das religiões do futuro [NT: Sobre isto, ver aqui]. Consequentemente a possibilidade do seu falhanço dificilmente ocorria aos seus membros. Os impérios poderiam desfazer-se, as igrejas podiam deixar de sê-lo, mas a ST continuaria através dos tempos. Recentemente, contudo, sérias dúvidas têm surgido nas mentes de muitos relativamente a este futuro. O mundo em geral não está interessado em Teosofia ou no movimento teosófico como estava há quarenta anos atrás. Na altura, a ST sofria oposição por ser um perigoso movimento pioneiro. Agora é olhada com indiferença e encarada mais como uma relíquia do passado do que uma promessa de futuro. Praticamente em todas as Secções há uma grande redução da venda de livros mostrando que a literatura que já foi atrativa para o público, não é mais desejada.

Mais sério ainda que a indiferença do mundo moderno para com o movimento é o conflito dentro dele. Não estou a falar do conflito de personalidades, estes não interessam. O conflito é entre diferentes pontos de vista, visões de vida. Eu definiria estas como o conflito entre revelação e realização. Este conflito é inerente ao movimento teosófico desde a sua criação, e tem-se agudizado desde 1925. Foi então que por um lado a revelação se tornou irreal e portanto questionável, e por outro lado a realização foi enfatizada por Krishnamurti como o caminho de vida.

Um sistema de revelação só é possível quando existe um oráculo, um canal de revelação, cuja autoridade não pode ser questionada. Uma pluralidade de oráculos é letal para a revelação. Quando em 1925 foi anunciado que o Instrutor do Mundo teria doze apóstolos como já tinha acontecido na Palestina [NT: há cerca de 2000 anos…], e quando o próprio Krishnamurti negou ter quaisquer discípulos ou apóstolos foi inevitável que os membros se perguntassem se aquela revelação, assim como as anteriores, eram ou não de confiar. Anteriormente, os movimentos cerimoniais tinham ganho adeptos muito pelo facto de serem anunciados como uma preparação do trabalho do Instrutor vindouro. Em nome dele e sob sua autoridade, esses movimentos eram lançados por diante e aqueles que tomavam parte neles sentiam que estavam a fazer o trabalho do Instrutor. Quando ele começava a ensinar e negava o valor da cerimónia, chamando-a um obstáculo à libertação, eram novamente muitos que perguntavam a si próprios como poderia esta contradição ser explicada. As explicações avançadas eram muitas e engenhosas, mas o facto é que a fé na revelação ficou abalada para sempre. A consequência disto foi que o trabalho e o autossacrifício dos membros que se baseavam nesta fé em revelações, decaiu consideravelmente. No coração de muitos a dúvida e o desespero tomaram o lugar da crença inquestionável. O resultado inevitável é um processo de desintegração, em que muitos dos mais importantes membros deixam o movimento no qual deixam de ter confiança.

É minha intenção nesta palestra procurar as causas desta desintegração e se possível, encontrar uma cura. Devo portanto exercer o meu poder de crítica de modo muito aberto. A crítica tem sempre sido extremamente impopular na ST. Teoricamente a nossa plataforma é livre, mas na prática aquele que pense de forma diferente do resto, embora seja perfeitamente livre de o fazer, não encontrará nenhuma plataforma para expressar o seu pensamento. Tem sempre havido receio de alguma ideia que possa perturbar a harmonia entre os membros. A crítica, mesmo que expressa com gentileza, foi imediatamente rotulada como “ataques justos e cruéis”, como não -fraterna e em última instância como influência dos poderes das trevas. É a atitude mental medieval, onde o cheiro sulfuroso da atividade satânica é detetado sempre que uma opinião é expressa de forma distinta da sua. Eu falo por amor à verdade, não para atacar a Teosofia. Uma coisa que eu gostava de vos pedir, é que acreditem minimamente na minha sincera intenção de ajudar os nossos membros no presente estado de confusão, e que não suspeitem de intenções sinistras da minha parte. Sinto-me como um médico à beira da cama do paciente. Ele deve procurar os órgãos doentes e só pode ajudar o paciente procurando todas as causas dos seus problemas de saúde. Quando um médico diz que o coração do paciente está doente, nós não o

chamamos de não-fraterno ou dizemos que ele está a atacar o paciente da forma mais cruel. Não dizemos que ele deve procurar só o que há de bom no paciente e não o mau, e que ele deve enfatizar o bom estado dos pulmões e não a má condição do coração. Eu tenho de falar dos sintomas de doença do movimento teosófico e é apenas através de uma crítica completa que eu posso analisá-los. Ao criticar a Teosofia nós devemos antes de tudo perguntar: que Teosofia? Historicamente a palavra quer dizer a experiência do divino, distinguindo-se de teologia que é a discussão sobre Deus. A experiência da causa última, da realidade, da vida, da verdade, está para lá de qualquer discussão. Existe sempre que um homem a tem e não pode ser criticada ou negada. Em segundo lugar, a palavra [Teosofia] tem vindo a ser usada (…) como “um sistema arcaico de sabedoria esotérica à guarda de uma fraternidade de Adeptos.” Irei-me pronunciar sobre esta última conceção mais adiante, pois no momento não estou a tê-la em conta. Em terceiro lugar, Teosofia significa o sistema de doutrinas apresentadas na literatura ou em palestras desde o início da ST. Isto é o que o mundo em geral reconhece como Teosofia. Por fim, existe a prática em importantes centros de trabalho teosófico, onde, tendo em conta o trabalho presentemente feito e os objetivos realizados diante das pessoas, podemos ver aquilo que é considerado como importante. De momento estou a falar apenas destas duas últimas formas de Teosofia, ou seja, aquelas que foram apresentadas ao mundo em livros ou palestras ou que podem ser testemunhadas nos centros de trabalho teosófico.

Imagem de 1890 da sede da ST em Adyar (foto tirada de blavatskyarchives.com)

Esta Teosofia nasceu na Era Vitoriana. O fim do século XIX foi um período divorciado da vida. O homem tinha perdido o sentido das relações vitais e tinha tornado em algo absoluto coisas que só tinham sentido como relações vivas. Assim, ele olhava para o mundo que o rodeava, como um universo objetivo diante dele, independente da sua consciência. Na verdade, o que nós chamamos de mundo que nos rodeia é a forma como nós interpretamos a

realidade que afeta a nossa consciência. Esta interpretação nos termos da nossa consciência é a nossa mundivisão, que é real apenas em relação à consciência de que faz parte. Desde que esta relação seja reconhecida não há problema. A vida ou a realidade afeta o homem e através dele é externalizada como uma mundivisão na sua consciência. O homem é o foco através do qual este processo acontece, e existe um fluxo ininterrupto de realidade da vida o afetando e, através dele, se tornando numa mundivisão. Quando contudo, o homem esquece que ele é apenas um foco da realidade e sente-se como um ser distinto, uma alma ou um espírito, tudo muda. Em vez de reconhecer que aquilo que chama de mundo é a sua interpretação, em termos da consciência, da realidade que o afeta, ele objetiva essa mundivisão e torna-o em algo absoluto, oposta a ele: o mundo da matéria. De um modo similar ele separa-se a si próprio daquela vida que cria a mundivisão nele, objetivando também isso e chamando-a de Deus ou Espírito. Assim, ele encontra-se a si próprio isolado entre dois mundos: um mundo de matéria densa externamente e um mundo espiritual subtil internamente. Doravante, esta dualidade toma conta da sua vida e na prática ele tem de escolher entre os seus dois elementos. Esta escolha é entre o materialismo e o idealismo. No século XIX esta antítese era bastante real, e a Teosofia, baseada naquele dualismo, identificava-se com a visão idealista opondo-se à materialista. Lutou contra o materialismo dos seus dias e era francamente idealista ou espiritual na sua filosofia. Ainda o é; na doutrina teosófica, o mundo espiritual é olhado como o mundo real onde o homem, o Eu Superior tem o seu verdadeiro lar. Desse mundo ele descende até estes mundos inferiores da matéria onde através dos seus “corpos inferiores” ele ganha experiência. Quando, através da experiência o seu Ego se torna perfeito, ele retorna para esse mundo do além, de onde veio. Desse modo, a Teosofia é uma filosofia do Além, a sua realidade última não é este mundo físico mas um mundo afastado desse vários estádios. A sua realização não está no presente mas no futuro quando a perfeição for atingida. Assim, no espaço e no tempo, é uma filosofia do Além. O mundo mudou consideravelmente desde o século XIX. A maior mudança é a de que [o mundo] redescobriu a vida e portanto foram reestabelecidas as relações vitais que se perderam num período de dualismo. Assim, o homem moderno não mais reconhece uma dualidade entre espírito e matéria ou, em termos científicos, força e massa, mas vê estes como quantidades convertíveis que aparecem como um ou outro de acordo com a posição do observador. Uma nova perspetiva sobre a vida nasceu, que não é idealista nem materialista, nem tão pouco um compromisso entre os dois. Podemos defini-lo como um novo realismo à luz do qual o idealismo aparece tão gasto como o materialismo. A sua realidade não é um mundo ou mundos além, mas o significado deste mundo como outro mundo qualquer, o homem estando tão

perto da realidade do mundo físico como em qualquer outro mundo em que ele possa viver. De modo similar, o sentido de realização da vida não é visto como uma apoteose longínqua de derradeira perfeição mas a realização da vida aqui e agora. O próprio homem é a porta aberta para realidade, ele é o foco através do qual a realidade se transforma em mundivisão e com a sua própria experiência do momento, ele pode portanto encontrar uma porta aberta para toda a vida. Este não é um estado místico, não há “fusão com o absoluto”, se tal coisa fosse possível. É um processo que tem lugar na efetiva experiência do momento e no local onde o homem se encontra. A experiência que se tem, nesse efetivo momento e local é a porta aberta para a realidade – nada mais. É no aqui e agora que o caminho da vida deve ser encontrado. Os homens e as mulheres dos novos tempos não têm por isso tempo para uma filosofia dualista que prega um idealismo gasto, não têm interesse numa filosofia do Além. E é isso, que a Teosofia é, aos olhos deles. Nasceu numa era de dualismo, aliou-se com um dos dois elementos, o espiritual, e a sua objetividade num mundo do além e a sua perfeição num tempo futuro, é a esse respeito mais uma relíquia do passado que uma promessa de futuro. A menos que a sua filosofia passe a ser daqui e de agora, reconhecendo que a realidade ou vida só podem ser abordadas através da efetiva experiência, e de mais forma nenhuma, não existe futura para ela [a Teosofia], e apenas terá não mais que um interesse histórico. Outra característica do século XIX foi o medo da vida. Quando o homem está desligado da vida ele tem receio dela e procura um abrigo ou um refúgio. Ele procura uma certeza final, um sistema que resolva todos os problemas da vida, para que a Vida, que ele teme, não o possa apanhar desprevenido ou transtornar a sua confortável existência. Portanto, um sistema filosófico que afirma resolver os problemas da vida e que seja capaz de explicar tudo o que acontece tem um grande apelo para um homem desse género. A Teosofia era uma filosofia deste tipo, alegava ter uma resposta para os problemas da vida, de ter solucionado os seus enigmas. Mesmo os seus inimigos devem reconhecer que os teosofistas são inigualáveis em explicar tudo o que acontece, embora contraditórios. Com um virtuosismo verdadeiro eles executam acrobacias mentais em que podem afirmar ou acreditar numa coisa e mesmo assim encontrar uma explicação quando os factos da vida os contradizem. Aqui o desejo pela verdade não é tão grande como o desejo de fazer a vida encaixar num sistema preconcebido. O homem sente-se seguro apenas quando nada do que lhe acontece diariamente escapa ao sistema de explicação

racional que ele construiu. Quando algo lhe acontece, ele quer explicar porque aconteceu e para que serve no fim de contas. Assim ele encaixa-o no seu sistema de pensamento, racionalizando o acontecimento. Quando Krishnamurti começou a ensinar, a maior dificuldade para os teosofistas não era tanto o facto de não entenderam os ensinamentos, mas sim de se encaixarem no seu sistema de pensamento. A questão não era “o que quer ele dizer?”, mas sim “como pode isto ser reconciliado com o que foi ensinado anteriormente?”. A vida contudo, nunca pode ser reconciliada com ideias preconcebidas, nem pode ser racionalizada. A vida não é uma inteligência, portanto nem é lógica nem racional, não tem causa ou propósito. A tentativa de racionalizar o sofrimento que nos surge em vida, mostrar que o merecemos, e que é “bom para alguma coisa” no fim de contas, está portanto condenado a falhar. Não podemos domesticar a vida desta maneira.

Krishnamurti, na altura em que foi publicado "Aos Pés do Mestre", de quem se diz ter sido o autor, embora alguns o atribuam a Leadbeater.

É curioso ver como o homem fica apavorado perante a ideia de que a vida está para lá do que pode ser explicado. Ele quer consolo, uma droga que adormeça o seu sofrimento ou uma espécie de calmante para dormir, que lhe dê a ilusão de bem-aventurança. O teosofista tinha esse consolo e esse soporífero. Nenhum sofrimento poderia atingi-lo, mas ele acalmaria a sua humanidade indignada através de um processo de racionalização em que ele provava a si próprio que o sofrimento tinha de lhe bater à porta, e que isso seria bom para ele. Estas tentativas de explicação, contudo, cegavam o homem para o verdadeiro significado das coisas que lhe aconteciam. Elas desviam a sua

atenção do acontecimento em si, que ocorre aqui e agora, e conduzem a uma causa ou resultado imaginários. Assim o significado do acontecimento que reside na efetiva experiência, escapa-lhe e ele não está nem mais rico, nem mais sábio pelo seu sofrimento. De um modo análogo, a Teosofia afirma ter uma explicação para os grandes problemas da vida: porque foi o universo criado e como, o que acontece após a morte, para que vive o homem e em que se tornará ele. Aqui uma vez mais, o processo de racionalização desvia a atenção do mistério da vida, que apenas pode ser experienciado no presente. A vida não é um problema a ser resolvido, mas um mistério a ser experienciado. É graças à extrema facilidade com que a Teosofia explica todos os problemas e acontecimentos que os verdadeiros artistas e pensadores a têm evitado. Eles sabem demasiado bem que a vida não pode ser contida num qualquer sistema, e que o propósito do pensamento não é explicar a vida, mas entendê-la, por experiência. Um sistema de pensamento sempre traz um estado de certeza mental e vacila apenas perante um único temor, o de ser perturbado pela dúvida. É por essa razão que não há espaço para pensadores dentro da Sociedade Teosófica. Um pensador é sempre uma influência perturbadora. A Teosofia, ao afirmar oferecer um sistema de pensamento que explica a vida e os seus problemas, não tem só afugentado pensadores e artistas, mas tem também atraído mentes medíocres que procuram conforto intelectual e não a verdade. Isto explica porque o movimento teosófico, nos seus cinquenta anos de existência, tem de forma muito particular, tido falta de pensamento criativo ou original, pois estes eram automaticamente excluídos. Uma vez mais, a grande mudança que teve lugar no mundo passou completamente ao lado da Sociedade Teosófica. O homem moderno redescobriu a vida e consequentemente perdeu fé e interesse em qualquer dos sistemas de pensamento que afirmam explicar a vida ou resolver os seus enigmas. Ele sabe demasiado bem que a vida só pode ser entendida pela realização que vem da experiência, não por quaisquer equações ou doutrinas. A nossa idade moderna emergiu para além dessa consciência estreita que era tudo o que antes o homem reconhecia nas suas especulações. Ele está agora atento ao inconsciente, sem o qual o consciente permanece ininteligível. Ele sabe que a vida, não sendo consciência é irracional, não sendo lógica, nem justa. É pois em vão que ele procura explicações éticas dos seus acontecimentos ou resultados morais das agruras que ela inflige em nós. Estes nunca podem explicar ou justificar os eventos que ocorrem. O significado do acontecimento só pode ser apreendido através da efetiva experiência do mesmo, e toda a procura por um abrigo, refúgio ou consolação desvia o homem dessa experiência. O homem moderno, portanto, não tem qualquer interesse num sistema de pensamento, por mais engenhoso e elaborado que

seja, que dissipe os seus medos e lhe ofereça uma falsa tranquilidade nas suas tentativas de explicar a vida. Ele não quer ser protegido, ele não procura o conforto quente e sonolento da lareira. Ele antes preferiria sair à rua só e sem roupa e enfrentar a tempestade da vida, do que ficar seguro num abrigo que a exclui. Ele preferiria perecer nessa tempestade do que viver uma falsa segurança. Ele não quer procurar a felicidade, mas a própria vida, a realidade. Portanto, uma filosofia que lhe oferece a suposta segurança da explicações e soluções não tem qualquer interesse para ele, aquelas não são mais válidas. Quem nestes tempos modernos alega ter resolvido os problemas da vida, apenas conseguirá se comprometer. Se há algum futuro para a Sociedade Teosófica, ela terá de renunciar completamente à sua reivindicação de ter resolvido os enigmas da vida e de ser um repositório de verdade. Em vez disso terá de unir todos os que procuram a verdade e a realidade, não obstante estas possam trazer sofrimento e desconforto. O buscador da verdade acolhe a perturbação e a dúvida, as duas coisas que sempre foram e são mais temidas pelos teosofistas. Mas a Sociedade Teosófica ainda respira a atmosfera do último século num outro aspeto: no desejo de unir numa fraternidade aqueles que pensam ou sentem de modo semelhante. Por conseguinte, a Sociedade Teosófica visava formar um núcleo de fraternidade. Um núcleo tal porém, derrota o seu próprio propósito. Não pode escapar a se tornar uma fraternidade excluindo os irmãos indesejados. No momento em que unimos um número de pessoas num núcleo assim, criámos uma seita, um grupo separado e amuralhado do resto do mundo e portanto da vida. Mostramos que isto é verdade, cada vez que falamos, como muitas vezes fazemos, “do mundo exterior”. As próprias palavras dão a entender que nós próprios estamos dentro de alguma coisa. Dentro de quê? Dentro de algo que mantém aquele “mundo exterior” fora desse mesmo algo! Dentro de uma barreira que nós erigimos à volta de nós e pelo meio da qual nós impedimos a entrada àqueles que pensam de modo diferente. Essa barreira de crenças e doutrinas elaboradas tem tão eficientemente impedido a entrada do temido “mundo exterior”, de tal modo que nem o ar fresco desse mundo conseguiu penetrar na sua solidez interna, e a Sociedade tem respirado desde há cinquenta anos nada mais que a atmosfera dos seus próprios pensamentos e crenças. Nas suas reuniões foram sempre os teosofistas que falaram a outros teosofistas sobre as doutrinas teosóficas que todos eles já conheciam. A única coisa que foi unanimemente evitada foi a introdução de ideias externas que pudessem desafiar ou pôr em dúvida as doutrinas vigentes. A exclusão do mundo exterior tem sido evidente no quotidiano das lojas. Foi na intimidade confortável e asfixiante do quotidiano das lojas que a ortodoxia teosófica poderia prosperar. Ali, num pequeno círculo de mentes medíocres, todos pensando e acreditando de modo semelhante, uma fraternidade calorosa

poderia surgir, unindo todos na certeza encantadora de possuir a verdade esotérica, enquanto o mundo exterior vivia na escuridão. Na minha última digressão eu visitei uma loja, da qual o presidente me disse ser “uma família feliz”. Isto despertou as minhas dúvidas, pois eu sei como são as famílias felizes. Então ele continuou, dizendo que uns anos antes havia um membro que estava sempre a questionar e a pôr tudo em causa, causando perturbação nos seus encontros harmoniosos. Mas agora esse membro tinha deixado a sua loja e tudo estava em harmonia novamente. Ele quis dizer, é claro, que o torpor feliz da sua inatividade intelectual, que havia sido perturbada por algum tempo pelo único membro efetivamente vivo, tinha sido reestabelecido. É bem verdade, teoricamente, que a nossa plataforma é livre, que não temos dogmas e que qualquer um é livre de criticar. Mas se esse alguém o faz, sofrerá a excomunhão silenciosa que irá efetivamente empurrá-lo com indiferença para fora do núcleo de fraternidade. Irão lhe fazer sentir que a sua conduta é escandalosa e não-fraterna, que está sendo torturado pela mente inferior, que está a atacar a Teosofia e se predispondo à influência dos poderes das trevas. E esta atitude é visível, não só entre grupos de membros ignorantes, pois eu tenho-a encontrado até junto das autoridades mais altas. Portanto, o discurso sobre uma plataforma livre e a perfeita liberdade de ideias não me impressiona, pois eu sei que não existe tal liberdade, mas antes uma ortodoxia inconsciente que praticamente conseguiu matar inteiramente a faculdade do pensamento crítico dos teosofistas. Se a Sociedade com o seu orgulho, não tivesse tanta certeza que caminha na luz e tivesse sido chamada a trazer esta luz para um mundo em escuridão, poderia ter notado que as barreiras que tem erguido entre si e o mundo exterior, evitaram a luz da vida de entrar. Assim tem vivido às escuras, enquanto no mundo exterior uma nova e grande luz surgiu. Esse mundo redescobriu a vida sobre a qual os teosofistas falavam e consequentemente [esse mundo] não será vítima de mais barreiras. Portanto, os verdadeiros homens e mulheres modernos jamais se irão tornar membros de qualquer Sociedade, desde que eles sintam que a fraternidade é uma seita e a sua liberdade de pensamento, uma ortodoxia. Quem vem de fora sentirá que ao entrar na Sociedade Teosófica, ou noutro qualquer movimento espiritual, está a subscrever um credo que o exclui do resto do mundo, e entra numa fraternidade que o fará diferente de todos aqueles que não lhe pertencem. Se a Sociedade Teosófica quer sobreviver, deve atrair aqueles que têm sempre procurado, e regra geral, falhado em atrair. Terá de mudar completamente o seu modo de agir. Acima de tudo, a loja tradicional com os seus encontros tradicionais terá de ser abolida. Não há um fardo mútuo mais pavoroso do que o da Loja que se tem de encontrar todas as terças-feiras à noite e então pensar

em algo para fazer. O resultado só pode ser um fardo ou uma imagem artificial da vida. Uma vez mais, se a Sociedade Teosófica é para continuar, a antiga forma de filiação que implica a aceitação silenciosa de um credo tem de desaparecer e uma organização mais livre deve tomar o seu lugar, no qual a filiação não torne um homem mais parte de uma fação do que se ele pertencesse à National Geographic Society. O homem moderno não quer barreiras que lhe impeçam a entrada num suposto ”mundo exterior”. Ele procura o contacto livre e desimpedido com a vida. Até agora tenho lidado com as causas do declínio do movimento teosófico na sua relação com o mundo em geral. A partir daqui devemos considerar as causas mais sérias de desintegração dentro do movimento. Desde o seu início, a Sociedade Teosófica tem sofrido um conflito interno que eu classifiquei como sendo entre a realização e a revelação. No seu significado histórico, Teosofia significa realização, a experiência do Divino dentro do homem. Foi utilizada, nesse sentido, na filosofia neoplatónica e pelos filósofos medievais. Esta conceção da Teosofia tem estado presente nos ensinamentos teosóficos desde o início. Era suposto um homem ter de encontrar o eu superior dentro dele e desse modo entrar em consciência una com a Vida em todas as coisas. Ao mesmo tempo, porém, a Teosofia caracteriza-se pelo “sistema arcaico da verdade esotérica à guarda de uma fraternidade de Adeptos”. Neste caso, a Teosofia não é para ser experienciada pelo homem, é antes um corpo de doutrina possuído e guardado por um grupo de Adeptos, em cujo poder está a sua revelação aos outros. Assim a via do conhecimento passou a ser de discipulado. Apenas se tornando um aluno dos Mestres poderia o homem esperar tomar posse da verdade esotérica. O objetivo era obter a iniciação na Fraternidade, entrando na hierarquia que guarda a sabedoria esotérica. A via da sabedoria é a da revelação, a Sabedoria divina é recebida pelo aluno através do seu Mestre e transmitida àqueles menos iluminados do que ele próprio. Assim, um sistema hierárquico de revelação surge, no qual a autoridade dos superiores não deve ser questionada e a sugestão mais leve não é para ser criticada mas obedecida. O espírito é o de um exército espiritual onde a obediência e a eficiência são virtudes maiores que a atividade criativa individual e a genialidade. O caminho da realização é o caminho do indivíduo, o seu produto maior é o génio criativo. O caminho da revelação é o caminho do grupo, o seu produto maior é o canal perfeito, transmitindo de modo obediente as ordens e o poder vindos de cima. Devemos distinguir nitidamente revelação de autoridade. Autoridade é um facto da natureza. Quando um homem é mais sábio ou poderoso, ele automaticamente tem autoridade sobre os outros. Que esta autoridade possa

conduzir a abusos de poder ou de tirania e impedir a liberdade de outros, não invalida o facto de que superioridade de nenhum modo signifique autoridade. Mas quando eu falo em revelação, quero dizer informação que se afirma provir de uma fonte invisível, de uma autoridade inacessível. O homem primitivo olhava para alguns dos seus pares como estando intimamente relacionados com os deuses que ele temia e que estavam disponíveis para revelar a sua vontade e poder. Assim, o sacerdote era um canal através do qual a vontade, a sabedoria e a graça da divindade poderiam ser transmitidas às massas. O homem procurava um guia para a sua própria vida, pelas revelações que lhe chegavam através do oráculo designado. A casta sacerdotal ganhou poder sobre as almas dos homens e foram capazes de fazer cumprir a sua própria vontade, ao camuflá-la no material da revelação vinda do Alto. Portanto, revelação no sentido que eu uso aqui, é uma mensagem de uma autoridade invisível vinda através de um canal designado. No discurso comum, nós às vezes falamos de coisas que são “uma revelação para nós”, mas não é nesse sentido que a palavra é usada aqui. Eu posso dizer que a teoria de Einstein é uma revelação para mim, mas que fique claro que em nenhum trabalho científico o elemento da revelação tem lugar. Não se fala em nome de uma autoridade invisível. Os cientistas falam em seu próprio nome e o que eles dizem pode ser questionado, criticado, aprovado ou desaprovado. A autoridade está sempre disponível, a fonte do conhecimento está acessível e, apesar de nem todos os homens terem os meios para provar se a teoria de Einstein é verdadeira ou não, eles sabem que outros cientistas da área têm dado o máximo para descobrir falhas nela. O grosso da nossa literatura teosófica não contém o elemento da revelação. Se um teosofista escreve um livro, descrevendo as suas experiências neste ou noutros mundos, ou expõe as suas ideias sobre a vida e os seus problemas, não existe revelação numa obra dessas. Aquele que o escreveu, pode ser questionado e criticado, o argumento do livro pode ser discutido e alvo de contraditório. Todo o assunto permanece dentro do reino da razão. Contudo, no tempo de HPB, o elemento da revelação esteve presente na Sociedade Teosófica. Assim, nas Cartas dos Mahatmas, nós encontramos mensagens vindas de uma autoridade invisível através de um canal designado. Mais tarde, quando as cartas deixaram de chegar, mensagens vinham diretamente de autoridades teosóficas reconhecidas. Nestas mensagens, os Mestres expressavam as suas intenções sobre o que deveria ou não ser feito, que atividades deveriam ser levadas ou não a cabo e davam sugestões para guiar as vidas dos seus possíveis alunos. Aqui nós encontramos a verdadeira revelação: mensagens de uma autoridade invisível, inacessível aos outros. É certo que, teoricamente, a autoridade invisível está acessível a todos aqueles que têm sucesso em conseguir erguer a sua consciência ao nível dela. Contudo na prática, ela não está acessível, e caso alguém afirme ter entrado em

contacto com a mesma autoridade que havia antes enviado mensagens para outrem, então ver-se-á que essa autoridade falará através desse alguém com uma voz muito diferente. Nós precisamos apenas de comparar as cartas do Mestre KH produzidas no tempo de HPB e escritas no seu estilo Boémio [no sentido de não convencional], intercalado com expressões em francês, muitas vezes num estilo vivo, com as mensagens reveladas como tendo vindo do mesmo mestre em anos mais recentes. Elas transpiram um espírito completamente diferente. Se primeiro caso se negava a existência de Deus sob qualquer forma, visível ou invisível, pessoal ou impessoal, no segundo caso Deus foi reintroduzido de uma forma muito personalista. Quando nas Cartas dos Mahatmas, o mestre KH fala da religião como sendo o maior mal na civilização humana e denuncia todas as igrejas, casta sacerdotal e cerimónias em termos muito claros, as suas mensagens mais recentes falam com grande reverência sobre religião e igreja e apoiam a cerimónia e o sacerdócio de forma vigorosa. Somos inclinados a pensar que a fonte de uma autoridade invisível é para cada um algo estritamente individual e subjetivo, uma exteriorização dos seus próprios motivos inconscientes. Isto é ainda mais evidente com respeito a todas as mensagens reveladas como tendo vindo do Instrutor do Mundo durante os últimos quinze anos.

Mestre KH

Quando Krishnamurti começou a falar em seu próprio nome, com autoridade, como o Instrutor do Mundo, o que ele disse foi bastante diferente em espírito e propósito de todas as mensagens até então recebidas. Primeiro do que tudo, ele negou enfaticamente ser o veículo de outra consciência, ou de ser usado por alguém que falasse através dele ou que o inspirasse. Ele afirmava ser o Instrutor Mundial, não porque outra inteligência o possuísse ou usasse, mas

porque ele tinha ganho grande liberdade e se tornado uno com a vida, que é a única Instrutora. Ele negou completamente ter apóstolos ou discípulos e rejeitou o cerimonial, em todas as circunstâncias, por ser um obstáculo no caminho para a libertação. Nem ele queria ter alguma coisa a ver, com o caminho oculto do discipulado e iniciação, caracterizando-os como “não essenciais”. Foi por isso inevitável que os teosofistas de todo o mundo começassem a duvidar de todas as revelações anteriores e a suspeitar que estes eram mais pertença das opiniões subjetivas. É precisa a acrobacia mental de estudantes de Teosofia treinados para reconciliar os factos contidos em revelações anteriores e os subsequentes ensinamentos de Krishnamurti. Apesar dele próprio negar estar a ser usado por outra consciência, eles afirmam saber melhor do que ele o que está efetivamente a se passar na sua própria consciência, e ainda mantêm a ideia de que existe outra pessoa, o “verdadeiro” Instrutor Mundial, vivendo nos Himalaias, que ocasionalmente fala através de Krishnamurti. Este “verdadeiro” Instrutor Mundial subscreve inteiramente as revelações anteriores, tem apóstolos e aprova os movimentos cerimoniais, especialmente a Igreja Católica Liberal. O facto de Krishnamurti negar o valor destas afirmações é explicado pelo facto de, sendo ele “apenas um veículo” não poder expressar completamente a “consciência gloriosa” que eles, os que falam, conhecem muito mais intimamente que ele. Assim, nada quer dizer que ele se contradiga com o revelado anteriormente, apenas mostra que naquela ocasião, não era o Instrutor do Mundo a falar, mas apenas o Sr. Krishnamurti. O que é interessante aqui é que a algumas pessoas é creditada a capacidade de nos dizer quando Krishnamurti fala e quando é o Instrutor do Mundo a fazêlo. O resultado parece ser que quando as opiniões são concordantes com as suas, quem está a falar é o Instrutor do Mundo, caso contrário é o Sr. Krishnamurti. O único em que evidentemente não se deve acreditar, quando diz que é o Instrutor do Mundo que está falando, é o próprio Sr. Krishnamurti. Não há necessidade pois de alongar a exposição sobre a quão longe pode chegar a casuística teosófica. Permanece o trágico facto de que parece existir menos interesse em entender o que Krishnamurti diz do que em tentar encaixar em revelações expressas anteriormente. Seria muito mais simples reconhecer que as revelações prévias estavam erradas. Mas isto, claro, iria desacreditar a causa da revelação.

Krishnamurti (1895-1986)

O suficiente, contudo, foi dito para demonstrar o quão funestos são os efeitos da revelação no movimento. O facto de a revelação ser uma mensagem proveniente de uma autoridade invisível, inacessível aos outros, coloca-o para além do reino da razão e torna-o impossível de ser criticado ou de ver discutido o seu valor. Em todas as discussões que já tive sobre o assunto, os partidários da revelação acabam sempre por dizer no final: “Bem, o que eu posso dizer é que o Mestre disse-me para fazer isto, e portanto eu faço-o”. Isto encerra qualquer discussão e põe a questão em debate para lá da razão. Portanto eu mantenho que os efeitos negativos da revelação são provocados pelo facto desta só pode ser aceite ou repudiada, mas nunca criticada à luz da razão. Eu sei que teoricamente isto pode ser feito, e sempre que o assunto vem ao de cima, é-nos dito que os líderes teosóficos têm sempre incitado os seus discípulos a julgaram por eles mesmos e a não aceitarem nada só porque eles o disseram. Isto é contudo apenas teoria. Na prática, alguém que se aventure a criticar ou a duvidar de uma mensagem vinda do Mestre, sofreria a excomunhão silenciosa dos heréticos e ser-lhe-ia dado a entender que ele está inapto para ser um dos eleitos. Que valor tem a liberdade para criticar e julgar por si próprio quando, nas raras vezes, em que alguma corajosa alma se aventurou a fazê-lo, é-nos dito que nas “encarnações vindouras”, ela irá através de sofrimento incalculável, tatear em vão pela luz que intencionalmente rejeitou? Isto não é mais do que “Danação Eterna” noutra forma. É a ameaça e medo de punição vindoura que aterroriza os potenciais críticos de volta a uma atitude de obediência submissa. Nas Cartas dos Mahatmas e na correspondência entre HPB e Sinnett, nós podemos ler o que é dito sobre aqueles que não seguem um conselho uma vez dado, ou que se atrevem a discutir sobre uma ordem vinda de cima. Mesmo o próprio Sinnett

foi repetidamente ameaçado com a quebra de qualquer relacionamento com o seu Mestre se ele não seguisse as ordens dadas. E não há dúvida que, se um teosofista nalguma altura criticar ou rejeitar uma mensagem vinda de um Mestre através de um canal designado, ser-lhe-á consequentemente dito que rompeu por um longo período tais privilégios. Quando simultaneamente o discipulado e o aproximação a um Mestre são sustentados como o objetivo de vida, fica claro que a teorética liberdade de crítica significa abandonar aquilo que é mais querido e nobre na vida das teosofistas. Eu desejo tornar perfeitamente claro que não estou de modo algum negando a existência dos Mestres ou a possibilidade de comunhão com eles. Se eu pensar que o Mestre falou comigo, este facto não implica revelação, mas apenas experiência: eu tenho uma experiência que pode ou não ser de valor para mim. A revelação apenas começa quando eu transmito aos outros as mensagens assim recebidas, como vindas de uma autoridade invisível. Eu gostaria de sugerir que aqueles que pensam que receberam uma mensagem de um Mestre ou de uma autoridade superior devem primeiro ver se concordam com ela, se desperta uma resposta na sua própria alma. Se sim, deixem-no, quando fala sobre isso aos outros, falar em seu próprio nome e dizer: “Eu penso isto e vou fazer isto”. Mas nunca o deixem dizer: “O Mestre pensa assim ou o Mestre quer assim”. Caso ele próprio não concorde com a comunicação recebida, que não diga nada. Mas nunca o deixem falar em nome de uma autoridade invisível. A revelação é ainda mais funesta quando interfere com a vida do indivíduo e tenta guiar a sua vida, dizer-lhe o que fazer ou onde ele se encontra. Tem sido costume nos centros teosóficos olhar para alguns com sendo capazes de dizer a outros onde se encontram em termos da sua evolução espiritual, se deram ou não um passo em frente. Assim o progresso espiritual fica dependente da revelação, e dado poder a alguns de dizer a outros onde se encontram. As consequências disto são sempre funestas. O absurdo da situação fica claro quando nós pensamos que se estas poucas pessoas, supostamente capazes de nos dizer onde nos encontramos, morressem, ficaríamos perdidos na incerteza. Uma vez mais, se os canais designados discordassem entre si, como já aconteceu no passado, teríamos de escolher entre quem acreditamos e quem não! É inevitável que, nos casos em que tanto poder está nas mãos de uns poucos, os seus gostos e aversões pessoais inconscientemente influenciem a posição oculta em que eles colocam os restantes. Estes, por sua vez, poderão ter medo de contradizer ou de se opor a alguém que tem o poder de conceder ou recusar etapas, mas tentarão manter boa impressão, e fazer tudo o que lhe é pedido. Assim, surgem uma série de testes espirituais, prejudiciais para o indivíduo e para a causa que ele serve. Mas acima de tudo, permanece o facto de que é impossível, em qualquer altura, seja para quem for, dizer a outro onde ele está em termos de progresso espiritual. Ninguém nos pode revelar isso, a não ser a vida que está em nós.

Cada indivíduo é como um raio que parte do centro de um círculo. Ele só pode entrar no centro da vida juntamente com o raio, que é o seu próprio ser, nunca através de outro. A vida expressa-se em cada um de nós, num modo em que nós, sozinhos, e mais ninguém, podemos conhecer. Existe um santuário de vida em cada um de nós, no qual apenas nós podemos entrar e ouvir a sua voz. Não podemos entrar nesse santuário através da porta clandestina da revelação. Só existe a verdadeira estrada da nossa experiência diária. Ninguém nos pode dizer o que fazer na vida, que trabalho abraçar, se não a voz da vida que está dentro de nós, a nossa vocação interior, a nossa singularidade individual. Ir até outro e perguntar-lhe o que devemos fazer ou onde nós nos encontramos é violar a vida que está em nós, e desligarmo-nos dela. Eu gostava de enfatizar que não nego a existência do caminho oculto ou de degraus nele como o discipulado ou a iniciação. A sua existência ou nãoexistência encontra-se fora do assunto que estou a tratar. O elemento da revelação só entra quando alguém, em nome de uma autoridade inacessível e invisível diz a outros onde eles se encontram e que passos eles tomaram, e ninguém terá dado um passo, a menos que um dos poucos canais de revelação tenha afirmado que ele o tenha feito. Nada se perderia se esta prática com as suas consequências funestas fosse descontinuada. Se dar um passo traduz-se por uma expansão da vida interior, essa expansão é real e manifestar-se-á quer alguém diga que demos um passo ou não. De que nos valeria se todos reconhecessem que demos o passo e a expansão de vida não estivesse dentro de nós? E pelo contrário, que perderíamos se todos concordassem em que não demos o passo apesar da nossa expansão de vida, demonstrada de forma evidente no nosso quotidiano? O dizer ou não dizer é completamente acessório e totalmente pernicioso nas suas consequências. É snobismo espiritual, onde os eleitos sentam-se nos lugares de honra, enquanto o rebanho é menosprezado. Apesar dos resultados da revelação serem sempre funestos e opostos ao espírito da Teosofia - que é a realização – os mesmos são especialmente perigosos quando interferem com as vidas das pessoas e quando as conduz a deixar de fazer o trabalho que elas estão a fazer e a levar a cabo trabalho que elas não têm intenção de fazer. Especialmente quando estão envolvidos jovens essa interferência é indesculpável. Eu conheço casos, onde, com base na revelação, jovens têm abandonado os seus estudos universitários para que se possam dedicar à “Obra”. Como se a “Obra” de cada um não fosse aquilo que a vida lhe pede para fazer, em vez da revelação vinda de outrem! Na educação moderna, especialmente no método Montessori, é claramente reconhecido que o caminho de vida é o caminho da realização. A criança é rodeada de material didático, o único propósito do qual é fazer brotar as suas faculdades e permitir-lhe aprender por experiência. Deste modo, a criança irá espontaneamente se tornar naquilo que a vida interior quer que ela seja.

Em oposição a este espírito da vida está o espírito rígido onde as ordens vêm do alto e têm de ser obedecidas sem discussão ou demora. É este espírito que inevitavelmente acompanha a revelação, a hierarquia espiritual é como um exército espiritual onde as ordens devem ser obedecidas e não questionadas. Neste exército espiritual, a singularidade individual e o génio criativo são esmagados. Nós não podemos portanto nos interrogar porque tem havido tão pouco trabalho criativo na Sociedade Teosófica. É porque o ideal do “grupo de servidores” tem sido obediência à revelação e não autoexpressão através da realização. Não há razão nenhuma pela qual não deva alguém ocasionalmente de pedir conselho àqueles mais sábios do que ele próprio, e discutir com eles as suas dificuldades. Não há razão pela qual não se deva tentar aprender tanto quanto possível de instrutores e livros, desde que se perceba que temos de tomar as nossas decisões em nosso próprio nome e que é uma fraqueza deslocar a responsabilidade para os outros. Nós não devemos ter medo de guiar as nossas próprias vidas. Melhor cair nessa tentativa do que seguir com segurança no caminho de outro. Não há futuro na Sociedade Teosófica a menos que se livre para sempre do mal da revelação. É completamente incompatível com a Teosofia, que é essencialmente a experiência do Divino, ou realização. Não é outro “caminho” ou “aspeto”, pois a superstição não é um caminho, mas um erro. Existe uma pseudo-tolerância que concorda com as visões mais conflituantes, considerando-as todas de forma imparcial, e tentando retirar “algo de bom de cada uma”. Esta tolerância é na realidade falta de coluna vertebral, uma ausência de vigor. Que ninguém ouse dizer que no meu discurso eu neguei o ocultismo. Existe um futuro para o ocultismo se se adequar estritamente aos métodos científicos e submetê-los a testes e provas. Só se pode desenvolver se renunciar inteiramente a todas as reivindicações espirituais ou religiosas. Tem tão pouco a ver com estas como a ciência corrente. Tal como a ciência não se pode desenvolver até se ter livrado do fascínio místico e espiritual na qual foi envolta na Idade Média, assim também a condição de progresso para o ocultismo como uma ciência é descartar o halo de mistério na qual está envolta. Quando a questão é colocada, “tem a Sociedade Teosófica futuro?” eu só posso responder que não sei. Mas o que posso dizer com toda a certeza é que não tem nenhum futuro a menos que se liberte da mentalidade antiquada que ainda a impregna e nasça de novo no espírito da nova era. Que o espírito seja de amor da vida em vez de medo da vida, um onde a vida seja bem-vinda, apesar dela poder destruir as crenças onde nós encontrámos refúgio até agora.

A Teosofia deve deixar de ser uma filosofia do Além, deve conquistar a dualidade onde está enraizada e perceber que a porta aberta da realidade fica aqui e agora, na efetiva experiência diária do homem e não nalgum mundo superior ou futuro distante. Ninguém pode abrir esta porta para nós e ninguém pode fechá-la. Não é uma experiência mística para uns poucos, é para todos e é apenas o nosso medo da vida que nos torna incapazes de vê-la. A Teosofia tem de perceber que a sua alegação de ser um sistema filosófico, explicando os problemas da vida, não tem qualquer apelo ao homem moderno que sabe que a vida não é um problema a ser resolvido, mas que é uma procura e uma experiência em crescendo. A Sociedade deve deixar de ser uma fraternidade com a exclusão dos irmãos menos desejados, deve quebrar as barreiras que tornam possível falar de um “mundo exterior” e criar uma nova forma de filiação que não envolva alianças sectárias. Acima de tudo, os teosofistas devem aprender a reconhecer o conflito que tem sido inerente à Teosofia desde início, aquele entre a revelação e a realização. A Teosofia, como a realização da vida por cada homem na sua consciência, é incompatível com um sistema hierárquico de revelação, onde a verdade e a iluminação vêm a nós através dos outros e onde a orientação das nossas vidas assenta em ordens recebidas de superiores. O homem moderno não mais deseja um abrigo ou um refúgio, consolação ou segurança. Mais do que estagnar na falsa tranquilidade ou felicidade que estes possam dar, ele vai à luta sozinho e enfrentar a tempestade da vida com as suas forças. O objetivo da Teosofia é criar, não fracos, mas fortes homens.”

Publicado em http://lua-em-escorpiao.blogspot.pt em 5 partes, entre 6 de abril e 4 de maio de 2013

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