[ESCREVA O NOME DA EMPRESA] CINEMA E AUDIOVISUAL ANÁLISE DE FILMES 3º Semestre 2011/2012

Hable con Ella
Pedro Almodóvar

Análise sonora de uma sequência
Janeiro de 2012

Duarte Guedes 5987 Turma A Emanuel Oliveira 5917 Turma A Isabel Braga 5907 Turma A Nuno Simões 5801 Turma A

Benigno cuida de uma outra mulher em coma.Benigno. Gostava de lhe poder dizer que também ele está emocionado com o espectáculo. Marco emociona-se e começa a chorar. duas mulheres de olhos fechados e braços estendidos movem-se ao compasso de The Fairy Queen. Meses depois. um enfermeiro.estão sentados lado a lado. e Marco. foi colhida por um touro e está em coma.Título original: (Hable con Ella) Lançamento: 2002 (Espanha) Realização e Argumento: Pedro Almodóvar Duração: 116 min Género: Drama Sinopsis (sonyclassics. Lydia. mas não se atreve. uma jovem bailarina. Alicia. Entre os espectadores. os dois homens voltam a encontrar-se na Clínica El Bosque. de Henry Purcell. repleto de cadeiras e mesas de madeira. uma clínica privada. Inicia-se uma intensa amizade… 1 . a namorada de Marco. onde Benigno trabalha. dois homens que não se conhecem . toureira de profissão.com/hableconella) A cortina cor de salmão que encobre o cenário abre-se para um espectáculo de Pina Bausch. No palco. Café Müller. Benigno vê o brilho das suas lágrimas na escuridão da plateia. um escritor de quarenta e poucos anos .

em 2006. [Pedro Almodóvar. Daqui resultam objectos capazes de suscitar um desconforto subliminar frequentemente traduzido naquele riso que. que venceu várias categorias dos Prémios Europeus de Cinema. Porto: Porto Editora. os códigos cinematográficos fundem-se. Em 2004. no fundo. La Flor Del Mi Secreto ( A Flor do Meu Segredo. relativizando-se e autodenunciando parodicamente as suas convenções sem. La Ley Del Deseo (A Lei do Desejo. Kika (1993). A paródia e o riso subsequente são apenas mecanismos desse desmascaramento que parte de personagens em crise de identidade em face da sobreposição de imagens que nelas se opera. com Penélope Cruz. segundo Bergson. o de melhor actriz (Penélope Cruz). por Fala com Ela (Hable con Ella. Almodóvar receberia novo Óscar em 2003. o Prémio para a Melhor Actriz. o de melhor banda sonora e o prémio do público.Pedro Almodóvar Cineasta espanhol. 1995) e Carne Trémula (Em Carne Viva. 1991). Em 1988. Pedro Almodóvar Caballero nasceu a 24 de Setembro de 1949. Nos seus filmes. 1997). Atame! (Ata-me.pt/pedro-almodovar] 2 . revela uma certa dose de amargura. 2003 sito em URL: http://www.) e. 1990).infopedia. deixarem de se cumprir. a protagonista. Trata-se. o de melhor fotografia. este cineasta foi reconhecido como a jovem revelação. com o seu filme Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos. quando examinado mais de perto. desta vez para o Melhor Argumento Original. 2002). Volver. filme que foi galardoado com o Prémio para o Melhor Filme e que proporcionou à actriz Cecilia Roth. de unir o trágico e o cómico. em Calzada de Calatrava. Carmen Maura e Lola Dueñas. tal como a espuma do mar. 1987). porém. Onze anos depois. O filme foi ainda distinguido pela Academia de Hollywood com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. volta a ser distinguido pela Academia com o seu filme Todo Sobre Mi Madre (Tudo Sobre a Minha Mãe. o teatro ou a literatura. o cinema. Mujeres Al Borde de un Ataque de Nervios (Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos. São geralmente personagens relacionadas com a televisão. atribuídos pela Academia Europeia de Cinema em Berlim. vestidas e rodeadas por cores explosivas que sublinham a risibilidade trágica da sua solidão radicalmente incapaz de fazer coincidir o prazer e o desejo. realizou La Mala Educación (Má Educação. In INFOPÉDIA. 1988). o sexo e a morte para desmascarar as pulsões humanas fundamentais. em filmes como Matador (1986). nos então estreantes Grandes Prémios do Cinema Europeu 2006. Tacones Lejanos (Saltos Altos. 1999).

Por som não-diegético podemos considerar as sonoridades subjectivas: todo o som não percepcionado pelas personagens mas que tem um papel importante na interpretação da cena. etc…) ou o diálogo entre personagens. Os sons diegéticos podem decorrer dentro do enquadramento visual da cena ou não. 3 . com maior expressão. a paisagem sonora (som dos carros. se recorda de um episódio entre os dois. onde permanece durante algum tempo. A palavra diegese tem origem em diegesis proveniente do grego antigo e significa universo de acção na história. Toda a sonoridade que traduz o imaginário de uma personagem. normalmente o seu estado de espírito alterado ou em alucinação. designa-se por onírico e corresponde à representação visual e sonora de uma experiência em que uma personagem abandona o seu estado sensorial normal da realidade entrando num plano de percepção emocional muito aproximado de um sonho. Um exemplo particular deste discurso. tais como. A sequência é dada como uma unidade dramática transmitida pela própria música que faz a distinção entre espaços e tempos. Na perspectiva narrativa.Introdução O seguinte trabalho propõe analisar uma sequência analéptica segundo a sua estrutura sonora e musical no que diz respeito à sua relação diegética. surgindo normalmente como um exagero de sonoridades do universo diegético. O episódio em questão retrata um momento da sua relação em que Marco abre-se sobre a sua relação passada que é mostrado com recurso a uma outra analepse. não diegético ou meta-diegético. pode ser diegético. pássaros num campo. no cinema. centrada num concerto de Caetano veloso com o tema Cucurucucu Paloma. pode ser considerado som metadiegético. que se encontra em coma. sem nunca sair por completo da primeira analepse. música num bar. o som. música de fundo ou efeitos sonoros especiais. Este discurso pode expressar-se sob a forma de qualquer tipo de som. retornando à realidade normalmente por efeito de um evento diegético. não diegética e meta-diegética. Podemos entender por som diegético todo o universo sonoro que é perceptível por todas as personagens em cena. A sequência em análise diz respeito a um momento em que a personagem Marco ao estar com a personagem Lydia. Podemos exemplificar com vozes de narração (voz off).

concordante com a introdução de um insert dentro do próprio plano. potencia ao espectador a introdução de um outro tempo e espaço dentro desta diegese – analepse.Análise A sequência em questão começa aos 27’55’’ e termina aos 33’17’’. deixada em suspenso nos planos anteriores. À nova realidade pertence a música que já se ouvia e que acompanhou a mudança espácio-temporal e que. passa para segundo plano perdendo o estatuto central. portanto. que não pertence ao universo diegético apresentado em cena. Do 4º plano ao 13º a música é diegética porque faz parte da narrativa. diegética. sendo por isso meta-diegética. a passagem torna-se completa pela introdução de sons desse espaço e tempo: o som da água materializa a cena a nível temporal e espacial. No 16º plano a música termina. No 3º plano. sendo a sua presença diegética reforçada pelo bater de palmas das personagens. Neste momento a música pode já ser percebida como meta-diegética. desviando. O 1º plano da sequência apresenta dois personagens. Ao mesmo tempo. Este é o plano de introdução à analepse. a atenção do espectador para outra acção. este é marcado por uma nova sonoridade dramatizante que acompanha a recordação da personagem. ao acompanhar os movimentos ópticos de câmara. É introduzida paisagem sonora. algo lúgubre. encaixa-se igualmente no segundo. ainda diegética. pois embora parta do primeiro. deixa de ser subjectiva: é deste espaço e. O plano é marcado por uma única tonalidade musical. logo. No 14º plano a música. É composta por 22 planos. No 2º plano a tonalidade musical acompanha a passagem para o outro momento espácio-temporal ao mudar com a introdução de um outro instrumento que com a sua sonoridade ajuda a intensificar a referida passagem. reforçando a força da acção. A paisagem sonora oscila entre os dois momentos espácio-temporais. assim. Do 17º em diante a força da acção é tomada pelo diálogo entre os dois personagens. No 19º plano. 4 . na medida em que já fomos efectivamente introduzidos nas memórias da personagem. sendo efectivamente parte integrante da cena.

mesmo. 5 . que é praticamente imperceptível. A paisagem sonora e o próprio diálogo retomam a preponderância anterior ao insert. o som introduzido desaparece ao também desvanecer o ambiente dado pelo insert. é dado por uma mudança abrupta a nível visual que é acompanhada. em concordância. efeitos sonoros ou. O fim da analepse.No 20º. pela ausência de elementos sonoros marcantes tais como música. no 22º plano. paisagem sonora.

Sobre a música talvez se possa inferir que não tenha sido escolhida ao acaso. portanto.Reflexões É importante referir que a música original em obras cinematográficas não deve ser abordada da mesma maneira que a música lúdica. Dá-se o exemplo da música utilizada no insert do 19º plano referido. e meta-diegética quanto à transição. Uma música só por si não faz sentido e podemos pensar nela como uma componente inteiramente dependente da parte visual e vice-versa. como referido nos seguintes três versos: (…) No es otra cosa mas que su alma Que todavia la espera A que regrese la desdichada (…) (…) Não é outra coisa senão sua alma que todavia espera que retome a infeliz (…) É. onde o tom da música direcciona o estado de espírito da audiência. exponenciando a tensão da situação da cena referida. no que diz respeito a analepse. 6 . importante referir como a música tem uma ligação narrativa directa à ex-mulher de Marco ao mesmo tempo que apresenta esta ligação meta-narrativa a Lydia. pois neste caso o compositor tem o propósito claro de ajudar e/ou influenciar a forma como a audiência percepciona a imagem. uma vez que a sua letra poderá ser interpretada como uma referência ou uma representação do estado vegetativo da personagem Lydia e da esperança que o personagem Marco mantém de que ela desperte. Do mesmo modo que a música apresenta-se tanto como diegética.

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