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CMAF Cap Marco Werle

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A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER 1

MARCO AURÉLIO WERLE *

A

seguir pretendo examinar um episódio no pensamento do assim chamado primeiro Heidegger, a saber, sua relação com a filosofia prática de Kant, em seu estudo hoje já clássico, intitulado Kant e problema da metafísica, do ano de 1929. Embora esse livro seja principalmente uma interpretação da Crítica da razão pura , em particular da lógica transcendental, apresenta-se nele um breve parágrafo sobre a Crítica da razão prática de Kant, precisamente o § 30, no qual a imaginação transcendental é identificada como sendo a origem da moralidade. A princípio, essa leitura contraria frontalmente a posição mais geral de Kant de alicerçamento da ética no plano do mundo inteligível. A despeito dessa “oposição” aos desígnios de Kant, adianto que o assunto tem uma
* Professor do DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA - USP. 1 O presente artigo resulta de uma reelaboração de uma monografia de conclusão do Curso de Pós-Graduação em “História da Filosofia Alemã”, ministrado pelo Prof. Dr. Ricardo Ribeiro Terra, no segundo semestre de 1993, no Departamento de Filosofia da USP. Agradeço pelo estímulo do professor e aos colegas do curso que naquele momento conheci: ao Marcos Nobre, Vinícius Figueiredo, José Carlos Estevão, Ricardo Musse, Daniel Tourinho, Moacyr Novaes, Paulo Licht, José Marcos Macedo, Pedro Paulo Pimenta, André Duarte, Márcio Sattin e outros. Pelo ambiente de discussão, indiretamente me estimularam a fazer a primeira versão do presente texto. 127

ÉTICA

E

SUBJETIVIDADE

certa atualidade, pelo menos para a recepção do pensamento de Heidegger, a considerarmos as discussões que se travaram ou ainda se travam no cenário filosófico internacional e nacional em torno da possibilidade de uma ética no pensamento heideggeriano, que supostamente estaria implicada na analítica existencial de Ser e tempo. Digo de Ser e tempo, uma vez que, depois desse tratado, nos anos 30 em diante, e principalmente com a Carta sobre o humanismo, de 1947, Heidegger parece ter abandonado definitivamente qualquer possibilidade de formulação ética, para escândalo dos filósofos morais de plantão, que exigem de todo pensador uma atitude ou acreditam que cada pensamento tem uma “ideologia” que o fundamenta. Muito se tem falado do silêncio de Heidegger em relação a certos eventos do século XX e se tem deplorado a ausência de um compromisso moral em seu pensamento. No entanto, se lermos com atenção essas breves páginas de Kant e problema da metafísica, talvez possamos nos convencer que, desde muito cedo, naquele momento mesmo dos anos 20, a questão já estava decidida para Heidegger. O problema ético não poderia ser recolocado em sentido tradicional, apelando-se a uma esfera axiológica ou deontológica ou ao pressuposto de uma racionalidade meramente subjetiva ou “social”. Também não se tratava e nunca se tratou para Heidegger de contrapor à tradição uma ética da finitude, como pensam alguns, pois lhe importa enfocar a questão de fundo abrigada em toda e qualquer “ética”, bem como explorar a dimensão temporal ou “transcendental” onde ocorre todo e qualquer “agir”. É o que Heidegger procurará fazer na leitura que a seguir abordarei: sua interpretação não envereda pelos
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imperativo categórico. Heidegger procura defender uma proeminência da imaginação diante da intuição e do entendimento no ato de constituição do conhecimento e do que para Kant é a verdade. bem como faz retroceder o problema da imaginação ao problema do tempo e da finitude humana. Deixemos por enquanto essas questões suspensas e passemos ao texto que pretendo percorrer. como se o campo da moral fosse um setor ou uma disciplina da filosofia já consolidado. compreendido como conhecimento do que as coisas são para nós e não em si. Como se sabe. Inicialmente cabe ressaltar o forte relevo que a sensibilidade adquire no contexto do conhecimento ontológico. de propostas de ação. etc. mas instigante. mas a própria estrutura do “sujeito” que age. examinemos o destaque dado à imaginação transcendental [transzendentale Einbildungskraft] no todo do livro. sem dúvida polêmica ou até mesmo “errada”. Recuperemos os momentos decisivos dessa interpretação. enfim. na leitura que Heidegger promove de Kant. isto é. 1) A IMAGINAÇÃO NA BASE DA FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA Antes de entrar diretamente no § 30 do Kant e o problema da metafísica (doravante KPM). segundo o qual interessa não apenas um agir. O exame recai sobre o âmbito a partir do qual primeiramente se torna possível falar de pessoa. A questão ética é antes examinada como um modo de ser no mundo. que necessitasse de teorias que a alimentassem. respeito à lei. O problema do 129 . boa vontade. a qual somente pode ser elaborada na base de uma recolocação da questão do ser.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER chamados “dilemas éticos”.

de modo que. uma passagem da pergunta ôntica (que aborda a entidade do ente) para a pergunta ontológica (que questiona o ser do ente). KPM. pois acredita que Kant negligenciou o carácter ontológico tradicional. que em Kant constitui a dialética transcendental. p. a “natureza” (cosmologia) e o homem (psicologia). Ao insistir na perspectiva Cf. para além de seu sentido mais imediato e superficial de uma guinada na direção do sujeito. o ens commune (cf. 2003. Walter. na Ciência da lógica. que se coloca a partir de então no lugar do objeto. é preciso antes tratar da metafísica generalis. § 1 e 2). A articulação da Crítica da razão pura aponta para um traçado estabelecido na história da filosofia a partir de uma recepção questionável de Aristóteles no pensamento medieval. que aborda o modo de ser do ente em geral. cujo assunto é Deus (teologia)./Weimar. de modo que o conhecimento ôntico. 221-252. implica questionar a compreensão prévia de ser que o determina e torna possível. embora a ela se oponha e pretenda aprofundála. Mesmo Hegel ainda se mantém na linha da filosofia kantiana.ÉTICA E SUBJETIVIDADE conhecimento em Kant não se apresenta segundo o registro da “teoria do conhecimento”. Metzler. A famosa “revolução copernicana”. Hegel-Handbuch. daquilo que é. que constitui em Kant a lógica transcendental. Para fundamentar a metafísica specialis. a interpretação feita por Jaeschke. é antes uma profunda virada de perspectiva. 130 2 . explora justamente a gênese da lógica do conceito (metafísica specialis ) não apenas por uma lógica da essência. mas por uma lógica do ser ( metafísica generalis)2. Stuttgart. mas como uma tentativa de fundamentação da metafísica ocidental.

Kant não se pergunta pela estrutura mesma do homem como estar. e sim o toma como sujeito dado. relida sob um outro enfoque. não parte do Ser que dá sentido ao ente. A sensibilidade é ressaltada em Kant porque o conhecimento se define pela finitude humana. Não é à toa que Hegel tente. a seguir. embora em sua filosofia. embora ainda não problematize o sentido último e originário de uma ontologia fundamental. 21). Pois o âmbito de questionamento se move na direção do ente para o ser. como o lugar privilegiado da síntese e não parte do horizonte no qual se dão as sínteses e se apresenta o transcendental. refundar toda a metafísica ocidental. se apresente essa problematização num nível do impensado.ou ser-aí. acreditando ser esse o único setor que restou intacto depois de Kant. Disso se segue que o pensamento não é um elemento distinto do ato de conhecer. O conhecimento a priori e o problema fundamental embutido na pergunta: “como são possíveis os juízos sintéticos a priori?” possui um cunho ontológico. Kant promove pela primeira vez um questionamento radical de toda a estrutura da metafísica ocidental e. ao dedicar todas as suas forças ao âmbito já engessado do “lógico”.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER das “condições de possibilidade”. embora Heidegger considere que Hegel abandona a “origem” da questão. § 4. insiste no ser do ente “homem”. proporcionando uma clareza sobre a tradição do pensamento como racionalidade e atividade do logos. “Para toda a compreensão da Crítica da razão pura devemos gravar na memória: conhecer é primariamente intuir” (KPM. isto é. com isso. p. no ato mesmo de intuição do múltiplo dado na experiência. desencadeia o início do fim da filosofia. ao lado 131 .

mas não intelectual. donde se segue o carácter essencialmente finito da sensibilidade. Ao contrário. p. é a imaginação que funda a sensibilidade. a qual é originária e criativa a um só tempo (KPM. p. 30). Ao homem somente é possível uma intuição sensível. pois. A apreensão do ente que se pretende conhecer depende de um oferecer-se deste mesmo ente. ao que primeira e constantemente é apreendido pela intuição. 132 . isso se pensarmos que o conhecimento é para nós. que o tome e conduze. a imaginação significa um processo originário de sensibilização. compreendido como entendimento. portanto. A receptividade significa. 2526). p. O peso maior da intuição se manifesta na distinção kantiana entre o conhecimento divino e humano. 24). Seu papel é restrito e se restringe ao campo da intuição. como é indicado a seguir na leitura de Heidegger. se define pela receptividade (KPM. não do que é em si. segundo sua estrutura interna. § 4. mas encontra-se referido. ao contrário da divina. § 5. Isto não quer dizer que a imaginação advenha da sensibilidade. O pensamento. uma permissão para que o ente se ofereça a partir de si mesmo. por seu lado. é um operar num segundo estágio. A intuição humana. enquanto um “trazer à frente [Hervorbringen]” (KPM. como possibilidade ou capacidade de fazer imagens. Exatamente aqui que se concentra o ponto nodal da possibilidade do conhecimento ontológico. o que não exclui que na intuição haja a necessidade de um captar que se dirija [Hinnehmen] previamente ao ente.ÉTICA E SUBJETIVIDADE da intuição. ou seja. de modo que a possibilidade de uma interpretação que ressalte a imaginação torna-se plausível diante deste predomínio da sensibilidade sobre o pensamento. § 5.

a possibilidade mesma da formação de um conceito. Em torno deste processo de sensibilização se dá o passo fundamental da leitura de Heidegger. a conceptualidade última dos conceitos.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER no horizonte do problema da síntese a priori ontológica. § 23. as categorias são pura imaginação. Mas. que é a da conceptualidade dos conceitos. Em sua origem ontológica. pois por meio dessa operação torna-se pela primeira vez possível falar da sensibilidade. 133 3 . 161). p. E essa tarefa. Ao fornecer os esquemas que arranjam uma imagem sobre a qual se compreendem os conceitos torna-se igualmente possível o próprio ato de pensar. A questão da subsunção. KPM. § 31. O problema central do esquematismo é. Não é o inverso que predomina. Pois. permanece reservada ao processo de imaginação. em última instância nada mais exprime do que a questão própria do esquematismo. é uma introdução ao problema do esquematismo (KPM. já que Kant teria recuado à favor da atividade do entendimento na segunda edição (cf. assim. o esquematismo como operação desde ou a partir do sensível. como já vimos acima. da Bildung a partir de uma Bild. isto é. o predomínio da imaginação se estende também sobre a intuição. A questão de como é possível a referência dos conceitos às intuições torna-se uma questão exclusiva do esquematismo3. Como Segundo a primeira edição da Crítica da razão pura. 110). a uma atitude humana formadora de imagens. que consiste a um só tempo numa reinterpretação e valorização do esquematismo. a unidade dos conceitos com as intuições acontece quando os conceitos são sensibilizados e é a imaginação que permite aos conceitos e às intuições que se “prepararem um para o outro” (§ 14). p.

o entendimento deve ser situado não a partir da disciplina 134 . No entanto. Que a imaginação. isso não parece surpreendente. “Portanto. 143). como atividade inteligível (§ 29). na medida em que ela organiza inicialmente aquilo que deverá ser apreendido como o ser do ente. O papel que o espaço e o tempo assumem como condição do intuir é de carácter imaginativo: o homem não tem espaço e tempo como formas. p. somente é compreensível mediante um imaginar (transcendental). mas permitem o próprio intuir. Este perfazer. para compreender isso. § 28. A imaginação se revela predominante sobre a intuição. já que é isso que forma [bildet] o campo prévio para que aquilo que se mostre possa ser apreendido. surpreendente mesmo é essa permanência ou predominância sobre o entendimento. o espaço e o tempo perfazem o horizonte que torna possível que algo seja intuído. pelo fato de que existe em toda a possibilidade de intuir uma atividade pré-imaginativa como condição prévia (§ 28). tomada em sentido ontológico.ÉTICA E SUBJETIVIDADE isso é possível? Nos dois últimos parágrafos que antecedem o § 30. o puro intuir é no fundamento de sua essência pura imaginação” (KPM. mas está no espaço por uma atividade espontânea e receptiva características da imaginação. O que é intuído é um sens imaginarium. seja a condição de todo o saber imediato do ente. de modo que as formas puras a priori da intuição não são intuídas. Na verdade. Como uma faculdade “inferior” pode fundar uma “superior”? Segundo Heidegger. com base na imaginação. todavia. Heidegger irá explorar esse tema visando tornar possível uma compreensão de toda a atividade supra-sensível desde a imaginação.

151). Para que o múltiplo seja intuído. o entendimento opera com unidades prévias. de modo que o entendimento é espontâneo. O eu penso é a produção de esquemas mediante um regramento. então o ´pensar` desses pensamentos não significa agora julgar [Urteilen]. Neste caso. não um atribuir noções sobre um múltiplo informe. sobretudo. como “faculdade das regras” (KPM. § 29. Esta espontaneidade. donde decorre 135 . embora não arbitrário. por seu estatuto derivado de já se mover num campo aberto. é ao mesmo tempo também receptividade. é preciso que haja na base dessa operação uma unificação originária. aqui compreendido segundo o termo alemão einbilden: “configurar-em-um” ou “unificar”. pensa algo através do imaginar. uma condição [ be-dingt ].150). como “faculdade dos conceitos”. que permitem uma certa união. Esse ´pensar` originário é puro imaginar [Einbilden]” (KPM. na medida em que está referida a algo é. visto como expressão do sentido do ser-aí.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER da “lógica”. pensar que é livre configurar [bilden] e projetar. Assim. Trata-se do “eu penso” que acompanha todas as nossas representações. p. alcance uma forma ou se torne percepção. contudo. mas por sua referência essencial à intuição. mas que tenha a natureza desse múltiplo. um horizonte abrangente destas noções. lhe seja aparentado ou comum. de um campo prévio possibilitador. por noções e categorias. “Quando Kant denomina esse relacionar-se a algo que se dedica [zuwendende Sich-beziehen-auf] como sendo ´nossos pensamentos`. mas é o pensar no sentido do ´pensar a si` [Sichdenkens] de algo. é o imaginar como livre configuração-em-um e projetar. uma possibilidade de algo se deixar regrar [Sich-regeln-lassen]. Esta operação necessita. p. mas que.

entre o homem e a coisa. Ambos. e sim que este entre enquanto apreensão prévia [Vorgriff] é algo que ultrapassa a coisa e igualmente a ultrapassa por trás de nós. Nessa obra trata-se essencialmente de pensar esse elemento intermediário em Kant. Toda essa caracterização da imaginação lembra a análise que Heidegger fará de Kant. Zu Kants Lehre von den transzendentalen Grundsätzen. que recebe outras designações ao longo do pensamento de Heidegger. tais como “o aberto” (Sobre a essência da verdade). assim como visto junto à intuição. no ensaio Die Frage nach dem Ding [A questão da coisa]. o “entre” [das Zwischen]. Tübingen. p. E a imaginação intervém como raiz ontológica enquanto é simultaneamente receptividade-espontaneidade. Que este entre não se estende como uma corda da coisa para o homem. em 1935-36. “a clareira” (Sobre Die Frage nach dem Ding. Apreensão prévia é lançar-de-volta [Rückwurf]” 4. mas como estando situada entre estes dois domínios. 188. 3. Esse “entre” o sujeito e o objeto. pelo fato de “1. que devemos sempre nos mover no entre. que este entre apenas é. M. enquanto uma cisão produtiva de toda a atividade humana. 1987. o “rasgo” (A origem da obra de arte). Auflage. entendimento e intuição. 136 4 .ÉTICA E SUBJETIVIDADE um duplo caráter do entendimento. 3. são para si e “predominam” um sobre o outro em vista de um terceiro: o entendimento é uma espontaneidade receptiva enquanto a intuição uma receptividade espontânea. Niemeyer. “o sagrado” (Interpretações da poesia de Hölderlin). A “coisa” em Kant não se define nem pelas categorias nem pela intuição. na medida em que nos movemos nele. e que talvez possa ajudar a contextualizar sua abordagem. 2. alguns anos mais tarde.

de fato. o nome de “respeito”. de evidenciar no texto kantiano da Crítica da razão prática como há uma via de acesso direto ao prático pela imaginação. § 30. sendo então a imaginação transcendental simultaneamente o fundamento também da razão prática. p. Mesmo sendo coerente e testemunhando um estreito vínculo entre o teórico e o prático. 137 .A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER a questão do ser) é aqui o lugar privilegiado da imaginação e. É preciso chegar à origem da razão prática através de “um esclarecimento da essência do si-mesmo prático” (KPM. que ainda necessitaria apoiar-se no fato da razão teórica. funda-se na imaginação transcendental. que se apresenta na espontaneidade receptiva. visando demarcar e alargar os passos heideggerianos. porém. Inicialmente Heidegger postula a possibilidade de se estabelecer a imaginação transcendental como origem da razão prática a partir do fulcro da razão teórica. 2) IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL E RAZÃO PRÁTICA Passemos agora ao exame do § 30. por meio de Kant. no domínio prático. recebe. trata-se de uma via indireta. esta liberdade da razão teórica. Essa seria a via mais cômoda de estabelecer a origem da razão prática pelo viés da imaginação e. trata-se. Esse apelo ao “si-mesmo prático” significa uma reflexão sobre a base mesma da ação moral. 156). que é a consciência de si humana em sua estrutura mais íntima. e que possibilitará pensar o tema mais amplo do que seja o homem. Partindo do enunciado kantiano de que “prático é tudo o que é possível por liberdade” e de que à razão teórica também pertence a liberdade. tem-se que a razão teórica enquanto tal já é prática. Ora.

O que é respeito para Kant? Heidegger considera que é sobretudo um certo sentimento. § 30. Se na razão teórica existe uma abertura para o mundo segundo o modo de ser da estrutura do si-mesmo e do mundo que se lhe impõe como “dado”. p. na noção de respeito [Achtung]. mas não enquanto instância meramente instável. de atenção a. § 30.. p. de uma reflexividade que distingue os atos e as 138 . também haverá uma postura de abertura da consciência própria que remete a uma atividade originária de execução de uma imagem de mundo. que. A consciência-de-si prática se mostra privilegiadamente. resulta que a personalidade da pessoa formulada como lei moral é inseparável do respeito pela pessoa. então. nebulosa e obscura.156).ÉTICA E SUBJETIVIDADE como projeção na existência.. O respeito é a possibilidade de captação da lei enquanto algo no qual assenta a moral como traço constitutivo do ser humano (KPM. Tudo se concentra na investigação do que é a “essência da pessoa” (KPM. ao se apresentar como respeito. Sentimento tem aqui o significado de sentido. expõe um modo de consciência de si ou um modo de ser do ser-aí. no campo da ação.: achten auf. mas como uma espécie de “inclinação”. meramente “pré-conceitual”. como é possível um sentimento dar conta de algo como uma consciência de si. ou da existência em sentido amplo. que é então tomada não apenas no sentido tradicional moral. segundo Heidegger. Mas. Partindo do fato de que o “eu moral” é denominado por Kant como pessoa e vontade. de uma projeção na existência. do cuidado tanto do próprio quanto do outro e do campo onde se dará um “encontro”. 156). de perceber o sentido e de ter sensibilidade a algo.

expressar a autoconsciência. mas imediatamente um sentir-se daquele que sente” (§ 30. onde se diz que o respeito é um sentimento auto-agente [Selbstgewirkten] (cit. de disposição até mesmo corporal. Aqui Heidegger se serve implicitamente e sem citar de uma distinção da Crítica da faculdade de julgar. mas antes uma “inflexão”. Mesmo assim. Com este excurso pela noção de sentimento com base no juízo reflexionante. na qual o sentimento de prazer e desprazer exprime uma estrutura de auto-referência e de “determinação” subjetiva de quem sente ou não algo. Com isso. Aqui já se entrevê a dupla estrutura da imaginação transcendental que se revela presente na estrutura do respeito e na lei (final do § 30). tal como Kant a compreende. pois entende que o sentir-se de quem sente não implica de início e em termos originários uma “reflexão” do sentir. 157). 157). no § 30. enquanto sentimento. implica um exame da estrutura universal do sentimento. a possibilidade de o respeito. que mantém sua estrutura dupla. p. tanto passiva quanto receptiva.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER conseqüências no campo da ação? Como pode uma noção que diz respeito a um ato um tanto quanto diversificado. Note-se que Heidegger evita avançar no tema da autoreflexividade presente na noção de sentimento. funcionar como fundamento de algo situado no campo do supra-sensível? Diante desses impasses. p. não subsiste apenas em estados corporais e cita a Fundamentação da metafísica dos costumes. partindo do fato de que o juízo de gosto estético é essencialmente subjetivo. Heidegger lembra que a sensibilidade. Heidegger passa então a uma releitura da análise kantiana da noção de respeito 139 . temos a seguinte estrutura do sentimento: “o sentimento é ter sentimento por algo.

Este sentir-se ou essa constituição da “autonomia” do agir não se dá “por intermédio” do respeito. O respeito é uma abertura para a lei. erstes Buch: Die Analytik der reinen praktischen Vernunft. primeira parte. „Von den Triebfedern der reinen praktischen Vernunft”. trata-se para Heidegger. uma vez que lei se torna acessível como modo de manifestação da própria legalidade no sentir. Num primeiro instante. como condição prévia que funcionasse assim: “respeito a lei e Drittes Hauptstück. temos de primeiramente nos situar. como aquele que se sente a si mesmo no respeito. a quem se dirige o respeito. algo como o sentimento do dever cumprido. como seres humanos. no qual nós mesmos. pode-se então pensar no estabelecimento ou na afirmação do homem como simesmo. bem como situar o que é a expressão de nossa humanidade. da Crítica da razão prática 5. o que não significa que a lei somente é o que é porque há o respeito. se entendermos por isso algo que chega “depois” de atentarmos à lei. de ressaltar o tipo da relação existente entre o respeito e a lei. erster Teil: Elementarlehre der reinen praktischen Vernunft. que prepara o terreno de acolhimento. mas o modo a partir do qual primeiramente se abre a possibilidade de um acesso. mas nos acede pelo fato de que há uma espécie de âmbito prévio que a permite. A partir dessa abertura e possibilidade de afirmação da lei no espaço aberto. 140 5 . Mas também não chega “antes”. porém. A lei não é algo que se impõe racionalmente sobre a mente humana. a lei.ÉTICA E SUBJETIVIDADE presente na terceira seção do primeiro livro. Como âmbito prévio. o respeito ainda não é um julgamento nem ainda uma postura prática consolidada.

desse modo. mas não desenvolver. não a um outro. como disposição.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER depois a cumpro”. A palavra alemã empregada por Heidegger. uma espécie de “submissão” à lei [Sichunterwerfen]. que é submissão a mim mesmo. compreensão e discurso. enquanto designação da transcendência. isto é. O significado do respeito à lei implica. Heidegger sustenta inclusive que o nome “imaginação”. no sentido do tempo constitutivo e originário. como o que define a própria imaginação. que é o mesmo presente no existencial Geworfenheit de Ser e tempo: o estar lançado do ser aí em meio a uma lida cotidiana. a “submissão” à lei implica não uma “repressão”. mas Esse problema do tempo. Assim. que surge nas investigações finais do livro Kant e o problema da metafísica. o eu que respeita já deve. § 30). é algo que aqui poderemos apenas indicar. mas a um certo dispor compreensivo e lançado diante da e na existência. A própria constituição da identidade da pessoa é marcada por esse estado de submissão. mas como simples verbo indireto: unterwerfen). procura pensar a ação moral não apenas no plano de um possível dever ser (que inegavelmente se afirma como mero futuro). “No respeito à lei. mas alarga o campo de abrangência dessa ação como se instalando numa temporalidade própria. e isso não posterior e ocasionalmente. 141 6 . Adiantamos somente que Heidegger interpreta a filosofia moral kantiana pelo viés da dimensão temporal. de modo que eu sou eu mesmo como alguém submetido a algo. No fundo. é inapropriado (KPM. É na própria atenção à lei que o si mesmo se afirma como o próprio agente e se constitui como pessoa. há um problema de temporalidade aqui envolvida. assim. que antecedes os êkstases do tempo 6. ser ao mesmo tempo aberto [ offenbar ] a si mesmo de um modo determinado. é formada a partir do verbo werfen. mas também por Kant (não conjugada.

da razão prática” 7. o qual. isto é. Ed. é a essência do ser próprio agente. possui uma transcendência projetiva subserviente. enquanto pura razão. § 30. juntamente com Heidegger que. h. A partir dessa situação.ÉTICA E SUBJETIVIDADE o respeito à lei – esse modo determinado de se revelar [ Offenbarmachen ] da lei como fundamento de determinação do agir – é em si um tornar-me manifesto [Offenbarmachen] de mim mesmo como o si mesmo agente [handelnden Selbst]” (KPM. examinar o ponto fundamental: como se apresenta a originária apreensão do si mesmo por meio da imaginação transcendental? A resposta já está de algum modo dada.159). ist das Wesen des handelnden Selbstseins. 6. der praktischen Vernunft” (Ed. considera Heidegger em termos “Das unterwerfende Sich-entwerfen auf die ganze Grundmöglichkeit des eigentlichen Existierens. 158). p. “O projetar-se a si que se submete sob a possibilidade fundamental do autêntico existir. mas como estrutura fundamental da própria transcendência do si-mesmo moral. Falta. 159). coloca em questão o sentido próprio do si-mesmo. por sua vez. p. primeiramente. enquanto algo que se afirma somente quando há respeito. 142 7 . Enquanto ser que se determina livremente. d. die das Gesetz gibt. p. a razão prática está calcada no sentimento de respeito. porém. que fornece a lei. “O respeito é‚ por isso.. § 30. o sentimento de respeito revela-se não como uma mera atitude de obediência à lei ou algo como um mero sentimento de dever. 1998. eu me submeto elevando-me a mim mesmo. um modo de ser do ser próprio do eu” (KPM. Heidegger chega então a uma caracterização do sentido da razão prática. Com isso. Percebemos então.

159). que se submete a algo . no que concerne às formulações do imperativo categórico e à relação que a moral tem com o direito e os costumes. a imaginação não se revela presente na consideração kantiana da noção de respeito. é a imaginação transcendental que permite a estrutura do caráter transcendental do respeito. p. Em suma. pois na noção de respeito. O que incomoda na leitura de Heidegger é esse deslocamento ou diluição 143 . Enquanto tal. Os dois momentos estão “em si unificados originariamente” (KPM. no ato mesmo da entrega própria imediata. Sendo assim. § 30. 3) FINITO E INFINITO NA RAZÃO PRÁTICA Do ponto de vista do intérprete kantiano. enquanto revelação do si mesmo. temos tanto uma receptividade quando uma espontaneidade. que se projeta na medida em que está lançado em uma situação. enquanto consciência da lei que se realiza em termos não objetuais e significantes como dever [Sollen].A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER fenomenológicos.. tendo em vista que Heidegger não explora toda a complexidade do agir moral. A imaginação é a operação oculta que forma e articula o si mesmo como agente moral. enquanto um agir segundo fins. o respeito é um modo de a imaginação se mostrar no plano moral. permite pensar uma constituição do si mesmo numa instância sensível e inteligível ao mesmo tempo e realiza a própria noção de razão.. para Heidegger. a impressão que a leitura heideggeriana da filosofia prática kantiana causa é de incompletude e de violência ao texto kantiano. e na afirmação da pura espontaneidade como lei... mas é ela que torna primeiramente compreensível como o simesmo opera nele mesmo a dupla perspectiva do respeito por .

p. deslocada e “lançada”. cabe registrar que Heidegger tem consciência da violência de sua leitura. Ao mesmo tempo. etc. Além disso. E nas anotações ao seu exemplar Kant-Buch (do anexo da quinta edição de 1991). Heidegger não toca no conceito central de vontade livre [guter Wille].ÉTICA E SUBJETIVIDADE de sentido operado sobre as categorias kantianas. XVII). tão cuidadosamente esquadrinhadas e delimitadas pelo filósofo de Königsberg. essa faculdade essencialmente errante. Mesmo que se revele que ela até aprendeu algo da violenta interpretação de Heidegger” (KPM. Não há uma ponderação sobre distinções internas. de 1950 (KPM. afirma: “Deixo a descoberta do `Kant-em-si´ para a filologia kantiana. Com efeito. No entanto. como indica no prefácio à segunda edição de Kant e o problema da metafísica. no máximo. ex. p. parece mesmo desprezar o terreno propriamente inteligível do problema e insiste na finitude do si mesmo. essa estratégia enfraquece a moral enquanto disciplina e deixa espaço para a exploração das diferentes modalidades envolvendo 144 . entre máxima e lei. a ênfase na noção de respeito na leitura de Heidegger visa indicar a origem mesma do que se chama de mundo inteligibilis em Kant. entre as diferentes formulações do imperativo categórico. ainda estaria dominado pela heteronomia e onde. torce-o para um campo que. 249). se colocam os rudimentos da moralidade e o homem ainda não é livre (no sentido de uma possibilidade de se determinar racionalmente). na linguagem kantiana. A subjetividade moral se afirma numa espécie de projeção na existência. donde se torna possível acentuar a imaginação. Heidegger “rebaixa” o problema da moral.

Sartre afirma a necessidade de se tentar “adquirir uma visão intuitiva da estrutura intencional da imagem” (A imaginação. tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER a atividade imaginária. Mas é isso que Heidegger justamente toma como fenômeno derivado na ação moral: seu questionamento visa tomar o logos moral em sua gênese como légein (que em outras obras Heidegger traduz por “recolha”). porém. principalmente para a arte e a poesia. partindo da noção husserliana de intencionalidade. no plano inicial de constituição e não como repertório de valores já constituído e estabelecido como costumes. por mais que Heidegger mesmo também tenha desmontado o próprio lugar da “estética” e insistido na manifestação da linguagem e da poesia enquanto mais originários 8. No que se refere ao papel da imaginação em particular. Kant pensa certamente uma possibilidade de atuação da imaginação no âmbito prático. a típica apenas mantém sua função predominante caso se conceda que a moralidade tenha uma origem numa razão já constituída. Abril Cultural. Só que essa operação é pensada pela noção de tipo. ou seja. um problema central na leitura heideggeriana consiste em pensar a atividade imaginação no domínio da razão prática kantiana como se fosse uma operação de esquematismo. capaz justamente de fornecer os tipos. que assume o lugar do esquematismo presente no plano teórico. intitulada A imaginação. justamente a partir de uma compreensão renovada da imaginação. Ora. pois aqui existe também um julgamento. São Paulo. 145 8 . pela típica da razão. Essa passagem para a literatura é o que vemos sendo realizado por Sartre. Pode-se dizer que temos aqui uma passagem da ética para a estética.105). 1978. Na investigação de 1936. Para Heidegger. p. In: “Os Pensadores”.

e sim algo de absoluto é postulado [gesetzt]” 9. não permitem esquematizações e exigem uma típica. KPM. 279). trata-se de uma passagem para o mundus inteligibilis. mas a todos os seres racionais. tal como Cassirer interpretou o intento heideggeriano no acirrado debate de Davos/ Suíça.ÉTICA E SUBJETIVIDADE Seja como for. p.. Além disso. pois o imperativo categórico teria uma constituição essencialmente racional. se apresenta apenas devido à sua finitude e de que Kant enfatiza na ética uma razão que está entregue somente a si mesma e que não pode se refugiar em algo eterno e absoluto. Cassirer afirma: “o ético [das Sittliche] como tal conduz para além da finitude. sendo que a opção pela finitude não deve ser compreendida como oposta a da infinitude. na época em que saiu o livro de Heidegger. de que essa ultrapassagem para algo mais elevado é sempre uma ultrapassagem feita em vista do ente finito. Heidegger responde dizendo que mesmo o imperativo categórico possui uma relação interna com o ente finito. Cassirer questiona a leitura que Heidegger faz da ética kantiana. acrescenta que o problema da liberdade na ética kantiana não permite o esquematismo pelo fato de que nossos conceitos de liberdade são perspectivas [Einsichten] e não conhecimentos. a seguir. de não se destinar apenas aos homens. p. portanto. É isso que vale para o ético [das Ethische] e no ético é alcançado um ponto que não é mais relativo à finitude do ente que conhece. num trecho que lembra a temática do “entre” e me parece delimitar bem sua posição: “Esse 9 As disputas de Davos [Davoser Disputation].. E arremata. 146 . 277. em 1929. mas também não pode se refugiar no mundo das coisas (KPM. Heidegger procura pensar Kant para além da cisão entre sujeito e objeto.

19-21. Acredito que se erra na apreensão da ética kantiana quando se está previamente orientado por aquilo a que se dirige o agir ético e pouco se atenta para a função interna da lei mesma para o ser-aí. p.. Mas. Por essas palavras notamos que Heidegger questiona o próprio sentido último da elaboração de uma ética por parte de Kant. p. Mas a pergunta é: como é mesma a estrutura interna do ser-aí mesmo. Lembremos que Hölderlin considera Kant o “Moisés de nossa nação”.19-20). cuja existência permitia. p. essa “sobrecarga ontoteológica” A implicação do imperativo categórico para o tema dos deuses ausentes. Se Deus não existe. cabe ao homem assumir para si uma parcela considerável do mundo supra-sensível10. Não podemos discutir o problema da finitude do ente [Wesen] ético se não colocamos a pergunta: o que significa aqui lei e como a legalidade mesma é constitutiva para o ser-aí e a personalidade? Não se nega que existe algo na lei que ultrapassa a sensibilidade. em carta a Neuffer do início de dezembro de 1795 (op. ela é finita ou infinita?” (KPM. o homem é plena finitude? Sob certo aspecto. cit. 280). bem como para a formulação de Hölderlin de um “afastamento categórico”. Kant parece querer colocar o homem no lugar de Deus. em sua essência. justamente porque. um fundamento à moral e aos costumes tradicionais. mas que foi colocada em dúvida pela crítica da razão e requer um “corretivo”. em sua formulação de extremo rigor. senão uma exigência para que o homem se eleve ao plano inteligível. se pressupõe que. no fundo. em outras épocas. Pois. 147 10 . o que é a ética kantiana.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER estar entre [dieses Dazwischen] é a essência da razão prática. é explorado por Jean Beaufret em Hölderlin e Sófocles.

11 Glauben und Wissen. a leitura heideggeriana considera dispensável a exploração da dimensão especulativa lógica. na segunda edição da Crítica da razão pura (KPM. E Beaufret complementa: “A moral kantiana é uma exclusão de toda teofania. ela não é mais visão de Deus. A lei é o documento mais próprio desse retraimento”. p. E. onde Kant afirma que a língua da razão intuitiva é a língua dos deuses e não aquela dos filhos da terra que somos nós. segundo o traçado da analítica do ser aí enquanto ser-no-mundo. 306. procurando já os germes do que seria mais tarde a dialética da negatividade da experiência da consciência. ao horizonte do logos “derivado”..a imaginação produtiva. sendo ontológica. Heidegger. 148 . mas desde já retraimento do divino. 2. vol. tal como a fez Hegel no ambiente pós-kantiano. Eliminação da moral teológica em prol de uma teologia moral. p. A finitude em Heidegger remete à expressão de uma instância pré-prática e pré-teórica.. 159). § 45.ÉTICA E SUBJETIVIDADE sobre o homem não é o reconhecimento tácito e flagrante de uma finitude que entrementes ficou evidente? Jean Beaufret cita uma carta de Kant a Hamman. por sua vez. de 6 de abril de 1774. Em Fé e saber. presente em Ser e tempo. de 1803. do em si e do para si enquanto são um para o outro. Suhrkamp. compreende o caminho hegeliano de transformação da metafísica em lógica pura como uma conseqüência do fato de Kant ter dado predomínio pleno ao entendimento. tanto na forma do intuir sensível quanto do conceituar da intuição ou da experiência é uma verdadeira idéia especulativa”11. Hegel também enfatizou a imaginação como verdadeira idéia especulativa: “. justamente uma ênfase no plano ontológico.

já consolidado de “intervenção ativa” do homem no mundo. segundo a qual o homem se projeta no universo de possibilidades e diante de uma situação. segundo Heidegger apenas pode ser pensado se partirmos da estrutura do ser-aí diante de seu ser e do Ser. A moralidade não é um modo específico. enquanto um domínio de questionamento do próprio homem. antes mesmo de ele se decidir ou de já estar decidido por uma opção. mas depende de uma postura mais ampla de abertura diante da existência. Parece-me que é sob esse pano de fundo que Heidegger procura compreender a ação moral em Kant. lL 149 . então. uma resposta ao “problema moral” que.A IMAGINAÇÃO TRANSCENDENTAL COMO ORIGEM DA RAZÃO PRÁTICA NO KANT-BUCH DE HEIDEGGER Nessa interpretação heideggeriana de Kant temos. antes mesmo de se posicionar como sujeito e já ter formado uma visão de mundo.

Frankfurt am Main. In: Werke (org. G. HEGEL. 1998. Stuttgart. M. Darmstadt. Frankfurt am Main. JAESCHKE. P. Kant und das Problem der Metaphysik. São Paulo. Niemeyer. 1986. W. de Anna Luíza Andrade Coli e Maíra Nassif Passos. tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. Auflage. Rio de janeiro. SARTRE. In: Werke [in 20 Bänden]. M. Zu Kants Lehre von den transzendentalen Grundsätzen . Hölderlin e Sófocles. F.ÉTICA E SUBJETIVIDADE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEAUFRET. Glauben und Wissen./Weimar. _____. trad. WBG. KANT. Jorge Zahar Editor. Suhrkamp. HEIDEGGER. por Wilhelm Weischedel). Band 6. Klostermann. W. In: “Os Pensadores”. V. Band 2. Die Frage nach dem Ding. A imaginação. Metzler. Hegel-Handbuch. 1978. 1983. Kritik der praktischen Vernunft. 6 ed. 3. J. Abril Cultural. J. lL 150 . Tübingen. 1987. I. 2003. 2008.

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