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As impurezas do Branco

Baseado na obra homônima de José Saramago e adaptada para o cinema com roteiro de Don McKellar, dirigido por Fernando Meirelles (Cidade de Deus), o longa-metragem Ensaio Sobre a Cegueira conta a história de uma inédita epidemia de cegueira inexplicável, denominada “cegueira branca”, que após manifestar em um homem no trânsito abate o país inteiro. Conforme os afetados são internados e as falhas nos serviços do Estado se tornam visíveis, todos se transformam em meras criaturas que explanam seus instintos ao lutar por suas necessidades básicas. Contudo, o filme não é focado em deslindar causa e cura da doença, mas expor uma sociedade que é arruinada ao perder tudo aquilo que considera civilizado.

Inexplicável e coletiva cegueira branca
“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos. Cegos que vêem, cegos que, vendo não vêem." A cegueira é claramente utilizada como uma alegoria, o escritor representa o estado de transe enfrentado pelas sociedades do século XX onde vários limiares são rompidos. A interpretação de cegueira pode ser analisada diante de um ponto de vista marxista, onde pode ser enfrentada como produto do progresso desenfreado do capitalismo que resulta na perda da consciência do indivíduo que se deforma, se massifica e se torna parecido com uma mercadoria. Nesse aspecto, a doença apresentada por Saramago é apresentada como manifestação do delírio do homem em relação a si mesmo. Ao serem expostos a uma deficiência coletiva, que critica a hipocrisia humana em relação a sociedade, as personagens são humanizadas e passam a ter uma nova relação com a humanidade.

A testemunha ocular do caos
“(...) Se tu pudesses ver o que eu sou obrigada a ver, quererias estar cego.” Constata-se a grande parcela de solidariedade desprendida pela mulher do médico, que é testemunha da degradação causada pela cegueira, em relação aos demais cegos, tanto nos momentos passados dentro do manicômio como no retorno à cidade. Além de ser a única que continua a enxergar, mantêm compaixão e sensibilidade, mesmo ao matar o líder de um grupo adversário, que empunha escravização no manicômio, atingindo os limiares da agressividade e tornando-se defensora dos demais em meio ao caos ao qual são submetidos.

reforçando que este está fechado ao mundo. a crise motivada pela cegueira é movida através de uma desumanização violenta que deteriora valores de respeito mútuo e igualdade. mesmo diante de situações caóticas. disse a rapariga dos óculos escuros. repara” Conclui-se que a narrativa em questão promove um jogo entre desumanização e humanização ao trazer passagens. incapaz de manifestar sentimentos. uma garota de programas é sempre vista como um alguém desumano. está consciente em relação ao caos a que ele e os demais cegos estão submetidos. Além de ter perdido um olho. O velho da venda preta “Se queres ser cego. sê-lo-ás. é revelada a preocupação do autor com a permanência da memória diante ao esquecimento promovido pelo caos. O escritor “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome. vê. ” Ao trazer. a personagem usa uma venda. Apesar de tanta banalização dos dias atuais. em que se desce aos mais baixos extremos da barbária. . São palavras certas. para momentos em que o reparar se torna fundamental.” A favor do abuso da força pelo mais forte.” Por ser uma prostituta é estereotipada mediante a sociedade como uma mulher sem escrúpulos e valores e que vive no pecado. ou seja. o medo nos cegou. O reparar “Se podes olhar. um personagem preocupado com o registro escrito mesmo estando cego. e o instinto de sobrevivência se sobressai em relação ao homem. Se podes ver. o medo nos fará continuar cegos. essa coisa é o que somos.O comportamento mediante a crise “É desta massa que nós somos feitos. De forma surpreendente. metade de indiferença e metade de ruindade. demonstrando que a personagem se interioriza já que a venda a resguarda dos julgamentos baseados em aparências físicas. já éramos cegos no momento em que cegámos. Embora vítima da cegueira branca. mas. regras são quebradas.” Além da velhice. A rapariga de óculos escuros “O medo cega. o velho da venda preta sofre de catarata no olho que lhe resta. mostrando uma mulher com sentimentos nobres e capaz de amar sem visar somente benefícios. em sua narrativa. é tratada com repugnância pela sociedade sendo até assediada pelo ladrão no manicômio. mas Saramago mostra a outra face do extremo. sempre atentando para momentos de solidariedade e de compaixão. símbolo de experiência. No geral.