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Oi Karen! Percebo em você uma grande amiga.

Isso faz sentir-me à vontade para compartilhar os meus sentimentos com você. Mesmo assim, não deixa de ser estranho falar para uma amiga que sente por ela algo que transcende a amizade. Numa entrevista, perguntaram-me quais eram os meus sonhos. Respondi que era viajar pela Europa, refazer os caminhos de Benjamin e Baudelaire, sentir a vibração e a história de nossas raízes em Portugal, e por aí afora. Tudo mentira minha, enganação. Sonhos não são projetos, viagens. Sonhos são gerados pelo anima, pelo sentido mitológico que nutre nossas vidas. Mas então, reformulo a pergunta: O que pode gerar um sentido mitológico para as nossas vidas? Acredito que as afinidades e os sentimentos de idem-entidade ajudam a refletirmos e a nos refletir no mundo e a encontrarmos uma narrativa, um anima, uma mitologia que permeia e é permeada pelo pulsar, pela fonte da vida. Às afinidades e aos sentimentos de idem-entidade colocamos molduras sócio-cuturais sentimentais: a amizade e o amor. Amor pelo que pensamos, fazemos e, sobretudo, pelo outro. Quando compartilhei meu sentimento com você, cumpri um verdadeiro ritual de passagem. Nunca havia feito isso em sã consciência e, ao mesmo tempo, inebriado por uma conjunção de emoções pré-conceituosas: o ridículo da diferença de idade, a rejeição iminente, enfim, a queda da máscara de um homem autônomo, seguro de si para desnudar alguém totalmente temeroso, frágil, vulnerável, completamente à deriva. Naquele momento você foi meu Zéfiro e, simultaneamente, meu Eros. Carregou-me nos braços quando me lancei nesse precipício. Reafirmou que o amor só pode ser algo bom. Cuidou de mim como uma grande amiga quando me disse que não prometia que eu fosse correspondido, ao invés de falar que isso nunca iria acontecer. Sei que esse amor é platônico, ainda sim seu pulsar me traz colorido, ritmo, vida. Estou assimilando a minha maior morte de todas. É maravilhoso ter padecido em seus braços. Eis que estou ressurgindo, Dioniso, com uma nova máscara. Sinto-me no mais elevado estado de graça de toda a minha existência. Beijos, Sílvio