andré romão

poemas bárbaros notas para uma história da violência 7 – 31 barbarian poems notes on the history of violence 35 – 59 colophon 62 – 63

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para / to g.

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I

querer escrever sobre guerra, sobre devastação. um poema bárbaro para aqueles que desconhecem a língua  grega ou os costumes do estado, palavras para canibais. palavras escritas / palavras ditas /   barulhos vegetais e animais / trompas /  som / espuma / forma / abstracção. linhas douradas, raios de sol. lutar, cair, dançar e cair, um triunfo, sempre.

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e ali estava, uma canoa, visível, adornada com ramos e flores. com búzios, flores e dentes de canibal, em confronto com o mar, com a espuma negra. homens, nus, adornados com folhas e flores, com búzios, flores e dentes de canibal ou com o cheiro de animais jovens e  saudáveis. para beber da mesma fonte que os primeiros  homens, andar nas mesmas pedras, sem guardar uso para as palavras. intolerância!

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II

rodeados de objectos, frisos e armas, com os pés descalços e a pele gravada   como papel. relevos em madeira, indecifráveis, uma narração colectiva para uma     generosidade partilhada. furiosamente comprometidos, em movimentos afiados, em contornos rápidos, nomes inúteis. objectos para o homem moderno, defendidos por palavras que implodem na sua própria falta de  significado

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e se tornam barulhos, estalidos, rugidos   têxteis, queimaduras solares, pele dura, uma hiper-civilização dos gestos. construir em vidro, em seda e absinto, uma tenda para a intoxicação. para ver o magma da terra, os nossos próprios ossos, incandescentes. com flores preparadas para a celebração, organizadas sem padrão algum, e esperar, sufocando em palavras, queimando até ao centro, até onde mármore e osso queimam.

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III

cabelos ruivos, palavras sem significado. barulhos. tambores. palavras desconhecidas ou o ranger de dentes, o estalar dos  maxilares. com o cheiro de fumo nas mãos, terra em combustão. um crescendo. cabelos ruivos com a graça de animais jovens, de animais saudáveis. formas que não conhecem equivalente   em palavras.

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escrever poemas trácios ou simplesmente notas para uma história   da violência, para compreender o poder autoritário   das palavras a pesar sobre o corpo, restringindo os movimentos. bronze e peles. selvagens / velhos assassinos. pedras, tambores de pele, formas que não conhecem equivalente   em palavras. um triunfo que se repete continuamente. e arrastar os pés por ruínas,

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por cinza e pedras e papel, repetidamente, à exaustão do corpo. para gravares o teu rasto em ouro como um verdadeiro aristocrata. uma linha através de cinza, pedras e papel. com o crânio partido na esquina de uma catedral, em mármore e ritmo. mel e absinto para iludir os lábios.

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IV

alimentar-se de pó, de tecidos e de padrões. dormir num leito bárbaro para a criação do helenismo. e vestir a pele de animais misteriosos, tecidos e padrões. tapetes, peles, bronze, pedra, leões,   leopardos, padrões, palavras em grego opondo-se ao rugir de criaturas míticas. palavras tecidas, ouro, palavras tecidas   em ouro a adornar a conquista, quebrando. da geometria como uma linguagem   desconhecida para uma linguagem   de geometria desconhecida.

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com areia sob os tapetes, em colapso sob o calor, cidades / ruínas / campos. tapetes cobertos de areia. alexandre! um bloco de mármore absolutamente  branco em descanso sobre folhas. cinzas. a primeira pedra para um império, cidades sem fim, todas pelo mesmo nome, protegidas sob a pele de um leão do sol que queima, e do gelo que queima, e de lanças que queimam.

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V

numa total ausência de luz. nódoas de tinta / nódoas negras. com o papel que colide contra a pele. criando linhas, vestígios de invasões antigas. resistindo. reunindo todos, todos podem lutar! em silêncio absoluto, numa escuridão espessa. marcas de tinta na pele, peles de animais. uma emboscada na noite, uma trincheira, um super-estado. com as mãos frias e um sabor metálico   na boca. vibrações demasiado fortes para formar  palavras,

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entre pedras que arrefecem. e haverá neve vermelha, um banho de sangue. aguardando invasores antigos, sem descanso, para lhes fazer ver os nossos ossos. e raios de sol, ângulos, árvores jovens,   palavras mal pronunciadas. à espera, para me encontrares no sol da manhã.

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VI

palavras em colapso.

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VII

madeira pintada de negro, pigmento  dourado quebrado em ângulo, afiado, contra uma superfície negra, aristocrática. um corpo morto, autoritário como uma escultura que fala. apenas um corpo para canalizar palavras, para governar os dias, que não passam como tempo mas como linhas e pó. estridente como um alfabeto que impõe forma aos sons.

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romano. uma verdade parcial gravada em pedra, uma presença monumental que exige acção política. um acto que contenha, mascarado, coberto de ouro, toda a história da violência.

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VIII

querer escrever sobre hoje e encobrir tudo com referências, episódios, citações, com o pó de livros, maneiras elegantes colocadas cuidadosamente juntas, válidas e correctas, confinadas a alfabetos, palavras / páginas. ter tudo como possibilidade, a história como barro e gesso, e pedra e cimento ou palavras e tinta e papel, páginas. quando tudo já foi provado válido,   talvez correcto.

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estrutura / mitologia / modos de agir. modos que se tornam modelos apropriados, usados como verbos, panos, traços, na ausência de uma necessidade verdadeira. todos justapostos, válidos, apenas modelos. para além de uma ideologia. apenas possibilidade, para ser usada como poder, autoridade, hierarquia. para criar conflito, definir um centro, gerar uma estrutura, uma escultura negra sólida,

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a verter, prestes a ruir. uma celebração acéfala, na direcção de uma prosperidade individual. unida sob um estado, se um estado resistir, em vidro e cores vivas. linhas que sobem descem em cores vivas, ou em tons mudos, mármore / vidro / betão / verticalidade /   pirâmides modernas / túmulos. dança. poderá existir uma progressão contínua? uma ruptura

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que gere formas novas, novos modos, convivência para além de uma ideia de  violência. possibilidade para além de possibilidade, tornada prosperidade partilhada, dissolução de autoridade. indiferente a palavras. vidro que se transforma em ar. circulação / devolução / retorno. terá tudo mudado? sob os nossos olhares desatentos, debaixo das nossas palavras. ou estará tudo nivelado a um ponto de  não-agressão? des-radicalização transformada em  convivência.

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uma indistinção que não sustenta   hostilidade. não é a nossa história a história da  violência? quando é o fim da celebração, pedro?

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IX

mãos delicadas, pedras, dedos partidos, em antecipação. embriaguez / barulhos bêbados. verde, folhas revelando os ombros nus, os braços nus, linhas de sombra a todo o comprimento das costas, à largura dos ombros, à espessura da pele. seco até ao músculo evitando excessos ornamentais. folhas, árvores jovens obscurecendo o caminho, cambaleando.

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uma caverna para traidores. sombras que se projectam sobre paredes toscas, sobre pedras escuras. aves. o espaço vazio entre rochas. expondo um corpo cavernoso, uma caixa torácica ligeiramente aberta, como se prestes a falar. música, monólitos, gritos / grifos, pedras negras pousadas pesadas na sombra, como um corpo morto, monolítico, que entra na esfera de um grupo

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acelerando processos de troca. ordem, leis que se aplicam a todos os corpos   (pele e minerais). resolvendo conflitos, organizando os soldados, na ausência de uma carência verdadeira. lei / pedra / narrativa. verdades parciais repetidas, encenando os primeiros dias do mundo. democracias entre selvagens. agir sobre o mundo, acelerando o retorno. devolução / extracção, à exaustão da terra. esvaziando os túmulos de artefactos,

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como modelos de acção, em cores vivas, em edifícios orgulhos, com as palavras certas, leis que afectam os corpos. pilhagem, celebração de possibilidades, crescimento, à exaustão do corpo. não deixando necessidade / vontade / razão /  tempestades. nada. uma democracia entre selvagens.

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X

palavras mal escolhidas, movimentos desajeitados, à pressa, como pedras lançadas contra metal. henry moore / tempestades. pilhagem e abstracção. uma dança para vândalos. um monstro como definido pelo estado. a destruição de uma escultura é sempre uma escultura, citações são sempre acções violentas. luzes que cegam, verde luxuriante, expondo o corpo com a pele quente do sol, flores, búzios e dentes de canibal. adornados com penas,

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com escalpes em sangue e dentes de canibal. quem irá sobreviver na américa? o que sobra para não ser dito?

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I

wanting to write about war, about devastation. a barbaric poem to those who know not greek or the manners of the state, words for cannibals. written words / spoken words / animal   and vegetable noises / horns / sound /  form / foam / abstraction. golden lines, rays of sunlight. fighting, falling, dancing and falling, triumphing always. and there it was, a canoe, visible,

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adorned with leaves and flowers. with shells, flowers and cannibal teeth. confronting the sea, the dark foam. standing men, naked, adorned with leaves and  flowers, with shells, flowers and cannibal teeth or with the smell of young and healthy  animals. drinking from the same fountain the   first men did, keeping no use for words, walking the same stones. intolerance!

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II

surrounded by objects, friezes, weapons. with bare feet and skin engraved as paper. carved wood reliefs, indecipherable, toward a collective narration / shared  generosity. furiously engaged in sharp movements, in fast shapes. useless names. creating objects for the modern man, defined by words imploding in their own lack of meaning, becoming noises, silent crackles, textile   roars, sunburns, hard skin. a hyper-civilization of gestures.

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and to build in silk and glass and absinth an intoxication tent. to contemplate the earth’s magma, to see our bones, luminescent. and to prepare flowers for the celebration, organised without pattern, stifling on words, burning to the core, where even marble and bone burn.

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III

red hair, meaningless words. noises, drums, unknown words or just the grinding of teeth, the clenching   of jaws. with the smell of fire, combusting land. growth. red hair with the grace of young animals, of healthy animals. barbarian poems. bronze / drums. forms that know no equivalent in words. savages / old assassins!

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writing thracian poems, notes on the history of violence, to understand the authoritarian power   of words, acting upon the body, restricting its movements, as stones. skin drums. forms knowing no equivalence in words. as a triumph repeating itself, over and over. and to drag your feet along ruins of ash and stone and paper, over and over and over.

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to carve your trail in gold as an aristocrat should, a line through ash and paper and stone. with your head collapsing under the weight of cathedrals, in marble and rhythm. honey and absinth to find its lips deluded.

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IV

feeding on dust and fabrics and patterns. to sleep in a barbarian’s bed (to sleep as a stone) for the creation of hellenism. dressing the skin of mysterious animals and linen and patterns, carpets, fur, silk, bronze, lions, leopards,  patterns, words in greek opposing the roar of mythical creatures. woven words, gold, words woven in gold adorning the conquest, breaking from geometry as an unknown language   to a language of unknown geometry.

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with sand underneath the carpets. collapsing under the heat. cities / ruins / fields. carpets covered in sand. alexander! a block of perfect white marble resting on leaves, and ashes, sand and carpets (to sleep as a stone). first stone of an empire. endless cities, to last forever, all under the same name, protected from the burning sun and the burning ice and burning spears, under a lion’s skin.

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V

inky darkness. bruises / ink stains. paper and skin colliding, drawing lines, resisting. traces of ancient invasions. to gather all as all can fight! as we all can stand (stand still) in thick silence / absolute darkness. ink stained skin, animal skin, silk, an ambush in the dark. to form, in the trenches, a super-state. with cold wet hands and a metallic taste in the mouth.

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knots. vibrations too strong to form words. stones growing cold and stones growing old. and there will be red snow, a blood bath. waiting for the ancient invaders to show them our bones. and sunrays, angles, youthful trees, ill   spoken words. restlessly waiting to meet me in the morning light.

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VI

words collapsing.

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VII

black painted wood, golden pigment breaking in angles, sharp, against a surface, dark, aristocratic in presence. a dead body reinforcing authority as a speaking sculpture. only a body to channel up words, to govern our days, not passing by like time does but in lines and dust. strident as an alphabet, roman,

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forcing sounds into shapes. a partial truth written in stone, of monumental presence, demanding political action. an act to contain, masked, covered in gold the entire history of violence.

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VIII

wanting to write about today, and to coat it all with references, episodes, quotes, dust,  books and graceful manners, carefully aligned, legitimate and correct, fitting into alphabets and words and pages. to have it all at your disposal. history as clay and plaster and stone and concrete, or words and ink and paper or keys and pages. as it has all been proven valid, perhaps  correct. structure, mythology, ways of acting.

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modes becoming models, stolen, used as verbs or cloths or lines. in an absence of real need. all juxtaposed, all valid, just models. possible regardless of ideology, used as power, authority, hierarchy. to create conflict, define a centre, shape a structure, a black sculpture, cast, leaking, about to be dissolved.

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a celebration, headless, towards individual prosperity. united under a state, if state endures, in glass and bright colours. ascending lines descending, in primary colours or muted tones. marble / glass / concrete / verticality /   modern pyramids / tombs / dance. continuous transformation, even breaks. break. to provide new form / new models, an acquaintanceship beyond an idea   of violence.

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possibility as growth. becoming mutual prosperity, dissolution of authority. regardless of words, ways of address. glass turning into air. circulation / devolution. has everything changed, underneath our words / gestures? or has everything levelled out to a point   of non-aggression? where acquaintance is only possible     through de-radicalisation, indistinctness not sustaining hostility. isn’t our history the history of violence? when’s the end of celebration, pedro?

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IX

delicate hands, stones, broken fingers, in advance of… drunkenness / drunken noises, leaves, green leaves revealing naked shoulders, naked arms, descending lines, to the length of his back, the wideness of the shoulders, the thickness of the skin. dry to the bone to avoid ornamental excess. shadowed by leaves, young trees obscuring the path. stumbling.

53

upon a cave for all betrayers, with shadows cast across the crude walls. dark stones. birds. to cast a space between a rock and a bird, a cave, a ribcage slightly open as if about to speak. a dead body, hand-sized sculptures, songs, shouts, monoliths, dark stones stumble. entering the realm of a group,

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accelerating exchange, ruling, law applied to all bodies, flesh and minerals. settling conflicts, organising the soldiers, law / stones / narrative. to re-enact the initial days of the universe, endlessly. to form forms, satellites, democracies among savages. acting upon the world, accelerating return, extraction, mining,

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exhausting the land, as models to act upon culture. in bright colours, in proud buildings, with the right words. law affecting all bodies. pillage. to celebrate possibility. growth, exhausting the body. leaving no need / reason, nothing. a democracy among savages.

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X

ill chosen words, clumsy movements, in haste ... like stones thrown against metal. henry moore / thunderstorms. pillage and abstraction. a dance for the vandals. a monster as defined by the state. the destruction of a sculpture / a sculpture  nonetheless, citation is always an act of violence. blinding lights, lush green revealing the body with sun warm skin, flowers, shells and cannibal teeth.

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men, adorned with feathers, bloody scalps, cannibal teeth. who will survive in america? what remains to be left untold?

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XI

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colophon

nota: os poemas vii, xix e x foram escritos enquanto londres ardia. o poema viii segue uma conversa com pedro neves marques sobre o seu trabalho when’s the end of celebration ? texto de andré romão, pintura para a capa coisas selvagens por ana manso, moiré desenvolvido por nuno da luz para moiré index de carsten nicolai. revisão por gonçalo gama pinto, luis silva, nuno da luz e samuel hodge. editado por kunsthalle lissabon e publicado por atlas projectos numa edição de 200 exemplares. isbn: 978-989-97141-4-4. impresso em lisboa em 2011.
© os artistas e kunsthalle lissabon

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colophon

note: while poems vii, xix and x were being written london was burning. poem viii follows a conversation with pedro neves marques regarding his work when’s the end of celebration ? text by andré romão, cover painting coisas selvagens by ana manso, moiré developed by nuno da luz for carsten nicolai’s moiré index. revision by gonçalo gama pinto, luis silva, nuno da luz and samuel hodge. edited by kunsthalle lissabon, published by atlas projectos in an edition of 200 copies. isbn: 978-989-97141-4-4. printed in lisbon in 2011.
© the artists and kunsthalle lissabon

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