1 PLASTICIDADE, LOCALIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM Elizabeth Bates University of California, San Diego Tradução: Pedro Lourenço Gomes O termo

"afasia"se refere a um distúrbio agudo ou crônico da linguagem, uma condição adquirida que é mais freqüentemente associada a danos no lado esquerdo do cérebro, quase sempre produzidos por traumas ou um AVE. Já conhecemos a ligação entre dano no hemisfério esquerdo e perda de linguagem há mais de um século (Goodglass, 1993). Por quase o mesmo tempo também sabemos que as correlações lesão/sintoma observadas em adultos não parecem se aplicar em crianças muito pequenas (Basser, 1962; Lenneberg, 1967). De fato, na ausência de outras complicações, as crianças com dano congênito em um dos lados do cérebro (direito ou esquerdo) quase sempre chegam a adquirir habilidades lingüísticas que estão bem dentro do âmbito da amplitude normal (Eisele & Aram, 1995; Feldman, Holland, & Janosky, 1992; Vargha-Khadem, Isaacs, & Muter, 1994). Certamente, as crianças com um histórico de lesão cerebral precoce tipicamente têm um desempenho abaixo daquele dos controles neurologicamente intactos de mesma idade em muitas mensurações lingüísticas e não-lingüísticas, incluindo uma diferença média de QI em escala total entre 4-8 pontos de um estudo para outro (especialmente em crianças com ataques epiléticos persistentes - Vargha-Khadem et al., 1994). O dano cerebral não é nada bom de se ter, e devese pagar um preço pela reorganização total do cérebro para compensar por lesões precoces. Mas o ponto crítico para nossas propósitos atuais é que estas crianças não são afásicas, a despeito de dano precoce de um tipo que quase sempre leva à afasia irreversível quando ocorre em um adulto. Além das revisões de outros autores citados acima, meus colegas e eu também publicamos diversas revisões detalhadas do desenvolvimento lingüístico, cognitivo e comunicativo de crianças com lesão cerebral focal, a partir de vários pontos de vista (por exemplo, Bates et al., 1997; Bates, Vicari, & Trauner, no prelo; Elman et al., 1996; Reilly, Bates, & Marchman, 1998; Stiles, 1995; Stiles, Bates, Thal, Trauner, & Reilly, 1998; Stiles & Thal, 1993; Thal et al., 1991). Como atestam estas revisões, emergiu um consenso que se coloca a meio caminho entre os extremos históricos da equipotencialidade (Lenneberg, 1967) e da predeterminação inata do padrão adulto de organização cerebral para a linguagem (por exemplo, Curtiss, 1988;
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2 Stromswold, 1995). Os dois hemisférios certamente não são equipotenciais para a linguagem ao nascimento; de fato, se eles o fossem seria impossível explicar porque a dominância do hemisfério esquerdo para a linguagem surge entre 95-98% das vezes em indivíduos neurologicamente intactos. Entretanto, as evidências de recuperação a partir de um dano precoce no hemisfério esquerdo são hoje tão fortes que não é mais possível pensar-se na hipótese de que a linguagem per se está inata e irreversivelmente localizada em regiões perisylvianas do hemisfério esquerdo. A visão de ajuste é aquela na qual a organização cerebral para a linguagem emerge gradualmente através do decurso do desenvolvimento (Elman et al., 1996; Karmiloff-Smith, 1992), baseada em "limitações leves" que estão apenas indiretamente relacionadas à própria linguagem. Daí o padrão usual de localização da linguagem em adultos é mais produto do que causa do desenvolvimento, um produto final que emerge a partir de variações iniciais na maneira como as informações são processadas de uma região para outra. Crucialmente, estas variações não são específicas da linguagem, apesar de terem importantes implicações referentes a como e onde a linguagem é adquirida e processada. Na ausência de lesão cerebral precoce, estas limitações leves da arquitetura inicial e das proclividades de processamento de informação do hemisfério esquerdo levarão, em última análise, ao conhecido padrão de dominância do hemisfério esquerdo. Entretanto, outros "planos cerebrais" para a linguagem são possíveis, e surgirão quando a situação inicial não se mantiver. Nas páginas a seguir, não pretendo fornecer outra revisão detalhada dos resultados associados a lesões cerebrais precoces; outras referências são fornecidas ao leitor para um catálogo mais completo destes achados. O que eu gostaria de fazer, ao invés, é ir além destes achados até suas implicações para a natureza e para as origens da localização da lingugagem no adulto, fornecendo uma descrição de como este sistema neural pode surgir no decurso do desenvolvimento. Com este objetivo em mente, o capítulo está organizado da seguinte maneira: (1) uma revisão muito breve dos achados da neurobiologia do desenvolvimento que sirvam como modelos animais para o tipo de plasticidade que vemos nas crianças humanas; (2) uma ilustração igualmente breve dos resultados de estudos retrospectivos do desenvolvimento da linguagem na população com lesões focais; (3) a distinção entre estudos prospectivos e retrospectivos, incluindo uma discussão de alegados "períodos críticos" para o desenvolvimento da linguagem; (4) uma visão mais ampla dos achados prospectivos sobre o desenvolvimento da linguagem em crianças com lesões congênitas em um dos lados do
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3 cérebro; (5) uma nova visão da organização cerebral para a linguagem no adulto, uma alternativa para a visão frenologista estática que dominou nosso pensamento por dois séculos, uma visão que leve em consideração o papel da experiência na especificação da arquitetura funcional do cérebro. (1) PLASTICIDADE DE DESENVOLVIMENTO: MODELOS ANIMAIS A existência de evidências sobre a plasticidade da linguagem no cérebro humano não deveria ser surpreendente à luz de tudo que já se aprendeu nas últimas décadas sobre a plasticidade de desenvolvimento do isocórtex em outras espécies (Bates, Thal, & Janowsky, 1992; Deacon, 1997; Elman et al., 1996, cap. 5; Janowsky & Finlay, 1986; Johnson, 1997; Killackey, 1990; Mueller, 1995; Quartz & Sejnowski, 1997; Shatz, 1992). Sem tentar uma revisão exaustiva ou mesmo representativa, aqui estão apenas alguns dos meus exemplos favoritos de pesquisa sobre plasticidade de desenvolvimento em outras espécies, estudos que fornecem modelos animais para o tipo de plasticidade que observamos no caso humano. Isacson e Deacon (1996) transplantaram trechos do córtex de fetos de porco no cérebro de ratos adultos. Estes "estrangeiros" (chamados de "xenotransplantes") desenvolvem conexões apropriadas, incluindo ligações axonais funcionais através da medula espinhal que se interrompem nos locais apropriados. Apesar de sabermos muito pouco sobre a vida mental do rato resultante, nenhum sinal de comportamentos apropriados a porcos foi observado. Stanfield e O'Leary (1985) transplantaram trechos do córtex fetal de uma região para outra (por exemplo, do córtex visual para o córtex motor ou somatossensorial). Apesar desses trechos corticais não serem inteiramente normais comparados com o tecido "nativo", eles estabeleceram conexões funcionais com regiões internas e externas do córtex. Ainda mais importante, os transplantes desenvolvem representações (isto é, mapas corticais) que são apropriadas para a região na qual agora vivem, e não para a região onde nasceram ("Quando em Roma, faça como os romanos...") Sur e seus colegas (Pallas & Sur, 1993; Sur, Pallas, & Roe, 1990) reorientaram informações visuais do córtex visual para o córtex audutivo no furão ( ferret) recém-nascido. Apesar (novamente) das representações que se desenvolveram no córtex auditivo não serem inteiramente normais, estes experimentos mostram que o tecido auditivo pode desenvolver
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4 mapas retinotópicos. Parece que o córtex auditivo torna-se córtex auditivo sob condições normais primariamente porque (em animais que não sofreram operações) ele recebe informações da orelha; mas se for necessário, ele também pode processar informações visuais de maneiras aproximadamente apropriadas. Killackey e seus colegas modificaram a superfície corporal de um rato recém-nascido, removendo bigodes que servem de órgãos perceptivos importantes nesta espécie (Killackey et al., 1994). Sob condições normais, o córtex somatossensorial do rato desenvolve representações ("células cilíndricas"- barrel cells) que são isomórficas com o input da região do bigode. Em contraste, os animais alterados desenvolvem mapas somatossensoriais que refletem modificações na periferia, com representações expandidas para os bigodes remanescentes; regiões que normalmente seriam coadjuvantes dos bigodes retirados reduzemse ou estão ausentes (Killackey, 1990). Em outras palavras, o rato acaba tendo o cérebro de que precisa, mais do que o cérebro que a Natureza pretendia. Finalmente, em um exemplo que pode estar mais próximo da experiência de crianças com lesões cerebrais focais precoces, um estudo recente de Webster, Bachevalier e Ungerleider (1995) demonstra que o sistema "onde está isto" (medidado nas regiões dorsais, especialmente no córtex parietal, incluindo a área MT) pode assumir as funções do sistema "o que é isso" (medidado nas regiões ventrais, especialmente no córtex temporal inferior, incluindo a área TE). Quando a área TE é bilateralmente removida em um macaco adulto, o animal apresenta amnésia grave e irreversível para novos objetos, sugerindo que esta área desempenha papel crucial na mediação da memória e detecção de objetos (isto é, o chamado sistema "o que é isso"). Entretanto, como demonstraram Webster et al., a remoção bilateral da área TE em macacos recém-nascidos levou a um desempenho apenas levemente abaixo daquele de controles de mesma idade que não tinham sido operados (tanto aos dez meses como aos quatro anos de idade). Se a área TE não estiver mais disponível, para onde foi o sistema "o que é isso"? Lesionando áreas adicionais do córtex visual, Webster et al. demonstraram que a função de detecção de objetos em macacos recém-nascidos com a TE lesionada é mediada por regiões dorsais do córtex extraestriado que usualmente reagem mais ao movimento do que à forma (isto é, o sistema "onde está isto") Em outras palavras, uma função cognitiva superior importante pode se desenvolver bem longe de seu pretendido local, em áreas que comumente teriam um pequeno papel ou nenhum papel na mediação daquela função.

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5 Estes exemplos e muitos outros como eles levaram os neurobiólogos do desenvolvimento a concluir que a diferenciação cortical e a especialização funcional são em grande parte produto do input do córtex, ainda que dentro de certas amplas limitações arquitetônicas e computacionais (Johnson, 1997). Estes achados apresentam sérios desafios à antiga noção de que o cérebro é organizado em faculdades domínio-específicas amplamente pré-determinadas, isto é, a abordagem frenológica. Uma proposta alternativa que é mais compatível com estes achados será oferecida mais tarde. (2) PRODUÇÕES LINGÜÍSTICAS EM CRIANÇAS COM LESÃO CEREBRAL FOCAL PRECOCE: ACHADOS RETROSPECTIVOS Como se notou anteriormente, estudos retrospectivos de produções lingüísticas de crianças com lesão cerebral unilateral descobriram repetidamente que estas crianças não são afásicas; elas usualmente têm um desempenho dentro da amplitude normal, apesar de freqüentemente apresentarem um desempenho levemente abaixo daque apresentado por controles de mesma idade neurologicamente intactos (cf. Webster, Bachevalier, & Ungerleider, 1995). De modo mais importante para nossos propósitos aqui, não há evidências consistentes nestes estudos retrospectivos que sugiram que as produções lingüísticas sejam piores em crianças com dano no hemisfério esquerdo, em comparação com crianças cujas lesões estejam restritas ao hemisfério direito. Sem tentar uma revisão exaustiva, três exemplos serão suficientes para ilustrar estes pontos. As figuras 1a e 1b (adaptadas de Bates, Vicari, & Trauner, no prelo), apresentam resultados idealizados vs. observados para escores de QI verbal vs. não-verbal em uma amostra de seção-cruzada de crianças com lesões congênitas que foram testadas em diversas idades entre os três e os dez anos de idade. A figura 1a ilustra o que poderíamos esperar se as diferenças esquerda/direita observadas em adultos fossem consistentemente observadas em crianças: maiores escores de QI verbal do que não-verbal em crianças com dano no hemisfério direito (RHD - right hemisphere damage), o que significa que estas crianças deveriam estar alinhadas na diagonal superior; maiores escores de QI não-verbal do que verbal em crianças com dano no hemisfério esquerdo (LHD - left hemisphere damage), o que significa que estas crianças deveriam se posicionar na diagonal inferior. Estes escores idealizados foram obtidos fazendose pares de escores reais para crianças individuais em nossa amostra de lesão focal, e revertendo quaisquer escores que não estivessem na direção predita. Em contraste com esta
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6 produção idealizada, a figura 1b ilustra os escores reais de QI verbal e de desempenho referentes a 28 casos de LHD e 15 casos de RHD (note que não há diferenças entre estes dois grupos quanto a gênero ou idade cronológica, e nenhuma diferença média em QI de escala total). Os dados reais da figura 1b ilustram diversos pontos. Primeiro, acompanhando outros estudos desta população, o QI médio de escala total para a amostra como um todo é de 93.2, dentro da amplitude normal mas abaixo da média de 100 que esperaríamos se estivéssemos escolhendo (sujeitos) aleatoriamente da população normal. Segundo, a amplitude de produções observadas na população com lesão focal como um todo é extraordinariamente ampla, incluindo algumas crianças que podem ser classificadas como mentalmente retardadas (isto é, 16.3% desta amostra têm QI de escala completa em 80 ou abaixo disso), e algumas com QIs acima de 120. Terceiro, a correlação entre as sub-escalas verbais e não-verbais é relativamente forte (+ .65, p < .0001), o que significa que os QIs verbal e não-verbal não se dissociam marcadamente neste grupo. De fato, como podemos ver claramente a partir da diferença entre a figura 1a (produções preditas) e 1b (as produções realmente observadas nestas crianças), não há absolutamente nenhuma evidência nestes dados quanto a uma dissociação dupla entre o QI verbal e não-verbal enquanto função de uma lesão do hemisfério esquerdo vs. uma lesão do hemisfério direito. A figura 2 (adaptada de Reilly et al., 1998) apresenta os resultados de um estudo mais concentrado do desenvolvimento gramatical, ilustrando o número de diferentes formas sintáticas complexas produzidas em uma tarefa de discurso narrativo feita por sujeitos com LHD, RHD e controles neurologicamente intactos que foram testados entre os seis e os doze anos de idade à época dos testes. Esta figura demonstra (mais uma vez) que as crianças com lesão cerebral focal têm desempenho dentro da amplitude normal na produção de sintaxe complexa, apesar de (enquanto grupo) obterem escores siginificativamente mais baixos do que os controles neurologicamente intactos. A este respeito, o resultado de O'Reilly et al. para o desenvolvimento gramatical em crianças humanas é notavelmente similar aos achados comunicados por Webster et al. sobre a relativa preservação da memória para novos objetos em macacos recém-nascidos com lesões bilaterais TE (isto é, um desempenho mais ou menos 10% abaixo daquele dos controles normais). Além disso, a figura 2 mostra que não há evidências neste grupo etário para uma diferença de produção sintática enquanto função de lado ou local de lesão.

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7 Finalmente, as figuras 3a e 3b (de Kempler, van Lancker, Marchman, & Bates, no prelo) comparam resultados de adultos e de crianças de 6-12 anos de idade com LHD vs. RHD na mesma tarefa de compreensão de sentença. Os dados nas duas figuras baseam-se todos em escores-z, com os pacientes de cada nível etário comparados com o desempenho de controles normais de idades semelhantes (daí a diferença de desempenho entre os adultos normais e as crianças normais de 6-12 anos de idade ser fatorada fora dos resultados). Neste procedimento particular, pede-se aos sujeitos que combinem cada sentença de estímulo a uma de quatro alternativas figuradas. Metade dos itens são frases familiares (metáforas e figuras de linguagem bem conhecidas como "She took a turn for the worse " (ela escolheu o pior caminho), e a outra metade são frases novas combinadas às frases familiares em tamanho e complexidade. Como mostra a figura 3a, existe uma poderosa dissociação dupla entre as sentenças novas e as familiares em adultos vítimas de lesão cerebral unilateral: os adultos com LHD têm escores marcadamente melhores nas frases familiares, enquanto que os adultos com RHD têm escores melhores nas frases novas. Este é um exemplo de um crescente corpo de evidências que desafiam a antiga suposição de que o hemisfério esquerdo é "o" hemisfério da linguagem, mesmo em adultos. O hemisfério direito dá uma contribuição importante para o processamento da linguagem, mas sua contribuição é qualitativamente diferente daquela do hemisfério esquerdo, envolvendo diversas funções, que incluem a emocionalidade, os contornos de entonação e (como ilustra este exemplo) fala figurada, metafórica e/ou formulaica (todas as formas de fala nas quais o significado da sentença como um todo vai além do que se poderia obter computando-se ao longo dos elementos distintos da sentença). Uma comparação entre as figuras 3a e 3b ajuda a esclarecer três pontos importantes. Primeiro, as crianças com lesões focais vão bem mais longe do que os adultos com dano comparável, quando são comparadas com seus controles de idades semelhantes. Segundo, a poderosa dissociação dupla observada em adultos não é observada em crianças. Terceiro, as novas sentenças são mais susceptíveis aos efeitos da lesão cerebral do que as frases familiares no grupo de crianças, mas as crianças de RHD realmente têm desempenho abaixo do grupo de LHD na compreensão de novas sentenças (significativo para um teste-t de um só extremo da função [one-tailed t-test]), cujo oposto esperaríamos se o padrão adulto se aplicasse a crianças com lesão cerebral focal. Resumindo, estejamos falando de medidas globais como QI ou de medidas mais sutís de produção e compreensão de sentenças, crianças com LHD vs. crianças com RHD não apresentam os perfís de prejuízo que esperaríamos com base na literatura da afasia adulta CÉREBRO COGNIÇÃO LINGUAGEM www.gomestranslation.com

8 pelo menos não nestes e em outros estudos retrospectivos, com medidas de produção aos seis anos de idade ou acima disso (isto é, para além do ponto no qual os aspectos fundamentais da gramática e da fonologia quase sempre estão no devido lugar - Bates, Dale, & Thal, 1995). (3) IDADE DE INSTALAÇÃO DA LESÃO E O PROBLEMA DOS PERÍODOS CRÍTICOS A distinção entre os estudos retrospectivos e prospectivos está relacionada ao controverso problema dos "períodos críticos" para a linguagem, com especial foco na idade na qual uma lesão é adquirida. Por definição, os estudos prospectivos se concentram em crianças cujas lesões são adquiridas muito cedo, preferivelmente antes do ponto no qual a aprendizagem da linguagem normalmente começa. Em contraste, muitos estudos retrospectivos falham entre crianças que adquiriram suas lesões em pontos diferentes ao longo do decurso da aprendizagem da linguagem. Nossos próprios estudos prospectivos se baseam exclusivamente em crianças com lesões congênitas, definidas de modo a incluírem lesões pré- ou perinatais que sabidamente tenham ocorrido antes dos seis meses de idade, restritas a um lado da cabeça (esquerdo ou direito), confirmadas através de uma ou mais formas de imagem neural (CT ou MRI). Por isso nossos resultados podem diferir de estudos de crianças com lesões adquiridas em pontos posteriores da infância. O que poderiam ser estas diferenças? Infelizmente, existem muito poucas evidências

empíricas relativas ao efeito da idade de instalação da lesão sobre as subseqüentes produções lingüísticas. Apenas um fato está claro: que as produções associadas a lesão do hemisfério esquerdo são bem melhores em crianças do que em adultos. Isto significa, é claro, que a plasticidade da linguagem deve decrescer marcadamente em algum ponto entre o nascimento e a vida adulta (Lenneberg, 1967). Mas quando isto ocorre, e como acontece? Muitas investigações argumentaram que este decréscimo da plasticidade ocorre ao final de um "período crítico" para a linguagem, uma janela de oportunidade que presumidamente também rege a habilidade da criança em adquirir o status de falante nativo em uma segunda língua (para discussões, ver Bialystock & Hakuta, 1994; Curtiss, 1988; Elman et al., 1996, cap. 5; Johnson & Newport, 1989; Marchman, 1993; Oyama, 1993; Weber-Fox & Neville, 1996). Tanto já foi dito sobre este suposto período crítico que um novato no campo (e muitos consumidores em seu âmbito) estariam justificados se supusessem que sabemos muita coisa
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9 sobre seus limites (isto é, quando começa e quando chega a um final), e sobre a configuração da função de aprendizagem entre estes dois pontos. O próprio termo "período crítico" sugere que a habilidade de adquirir uma língua nativa e/ou a habilidade de se recuperar de uma lesão cerebral têm ambas uma interrupção abrupta, talvez simultânea, à medida que a janela de oportunidades se fecha. Entretanto, o fato é que quase nada sabemos sobre a configuração desta função. De fato, nem temos qualquer justificativa para supor que a função seja monotônica (isto é, que se torne progressivamente mais difícil aprender uma língua nativa, e progressivamente mais difícil recuperar-se de lesões no hemisfério esquerdo). Quanto ao suposto período crítico para a recuperação da lesão cerebral, temos notícia apenas de dois grandes estudos seccionais-cruzados que compararam produções lingüísticas e cognitivas em crianças que adquiriram suas lesões em diferentes idades, desde lesões congênitas (ao nascer, ou antes), até o início da adolescência (Vargha-Khadem et al., resultados não publicados, citados sob permissão em Bates, Vicari, & Trauner, no prelo; Goodman & Yude, 1996). A figura 4 compara os resultados destes dois estudos quanto ao QI verbal. Como indica esta figura, o efeito da idade da lesão é não-monotônico em ambos os estudos: as piores produções são observadas em crianças que sofreram suas lesões aproximadamente entre 1-4 anos de idade. Em apoio a esta hipótese do período crítico, observam-se melhores produções após lesões congênitas. Entretanto, em contradição direta com a hipótese do período crítico, melhores produções também são observadas em crianças cujas lesões ocorreram aproximadamente entre os 5-12 anos de idade, o que significa que não existe nenhuma queda monotônica na plasticidade. Até certo ponto, estas desagradáveis imperfeições na esperada função poderiam ser devidas a diferenças não controladas em etiologia (por exemplo, os fatores que levaram à lesão poderiam diferir ao nascer, entre 1-5 anos de idade, e na infância tardia). Pelo menos, entretanto, estes resultados devem nos tornar céticos quanto a afirmativas sobre um período crítico contínuo para a recuperação da lesão cerebral. Achados não-monotônicos similares foram registrados em pelo menos um estudo de

aquisição de segunda língua e perda de primeira língua (Liu, Bates, & Li, 1992). Para ilustrar, compare os resultados da figura 5 (adaptados de um famoso estudo de aquisição de segunda língua, de Johnson e Newport, 1989) e da figura 6 (adaptados de Liu et al., 1992). A figura 5 ilustra resultados de uma tarefa de avaliação de gramaticalidade administrada a alunos de primeira e segunda língua de inglês, comparando desempenhos de indivíduos que chegaram
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10 aos Estados Unidos em diferentes épocas, que se estendem do período do nascimento até a jovem vida adulta. Esta conhecida figura sugere que não existe nenhum ponto único no qual a janela de oportunidade para a aprendizagem de uma segunda língua se feche. Entretanto, ela fornece evidências da existência de uma queda monotônica na habilidade de aprendizagem lingüística do nascimento até a adolescência. Observe, entretanto, os resultados da figura 6, baseados em uma tarefa de interpretação de sentença administrada a bilíngües sino-ingleses tanto em chinês quanto em inglês. Nesta tarefa, os sujeitos podiam usar informações semânticas ou de ordem de palavras para interpretar sentenças "estranhas' como "A pedra perseguiu o cachorro". Os falantes nativos do inglês invariavelmente escolhiam o primeiro substantivo, usando a ordem de palavras para elaborar sua interpretação. Os falantes nativos do chinês invariavelmente escolhiam o segundo substantivo, ignorando a ordem das palavras em favor da informação semântica. As duas estratégias fazem sentido perfeitamente em termos do valor informacional da ordem padrão de palavras nestas duas línguas ( o chinês permite tanta variação na ordem das palavras que uma estratégia persistente de ordem de palavras como a usada no inglês não terá muita utilidade). Por isto esta pequena tarefa serve como útil prova de fogo (NT - " litmus test", uma "prova de fogo", um teste que usa um só indicador para chegar a uma decisão: “The word ‘hopefully’ has become the litmus test to determine whether one is a language snob or a language slob” [William Safire]. Isto é, "A palavra 'promissoramente' tornou-se a prova de fogo para se determinar se alguém é um esnobe lingüístico ou um bestalhão lingüístico") para a retenção da primeira língua (L1) assim como para a aquisição da segunda (L2) . Para nossos propósitos, o ponto interessante é que os bilíngües sino-ingleses freqüentemente têm um desempenho a meio caminho entre estes dois extremos, em uma ou ambas de suas línguas, e estas diferentes "ponderações" da ordem das palavras e da informação semântica variam em função da idade de aquisição. Note que os resultados do inglês (L2) geralmente estão de acordo com os resultados de Johnson e Newport para uma tarefa muito diferente: apesar de nossos resultados se aproximarem da assíntota em um ponto anterior ao de Johnson e Newport, eles fornecem evidências de uma modificação monotônica de interpretações "parecidas com o inglês" de frases inglesas naqueles que aprenderam seu inglês muito precocemente, para uma interpretação "parecida com o chinês" das sentenças inglesas naqueles que aprenderam seu inglês relativamente tarde. Entretanto, os resultados para o chinês (L1) apresentam uma função muito diferente, uma curva monotônica na qual os

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11 melhores resultados (movimento na direção da segunda língua, sem perda da primeira língua) são observados naqueles que estão expostos a uma segunda língua entre os 4-7 anos de idade. Apesar de ser um resultado complexo, o ponto desta comparação para nossos atuais

propósitos é simples: não existe nenhum "ponto crítico"isolado para o aprendizado de uma língua; o resultado depende de muitos fatores diferentes, e a probabilidade de um resultado positivo pode subir ou descer em diferentes pontos do desenvolvimento , na aprendizagem de uma L2, e na recuperação de uma lesão cerebral. É aqui que os estudos prospectivos se tornam particularmente esclarecedores: estudando-se as crianças durante seus primeiros encontros com a linguagem e outras formas de cognição superior, podemos aprender mais sobre os efeitos associados ao estágio inicial do cérebro, juntamente com os processos de desenvolvimento e (re)organização que levam estas crianças a uma produção normal ou quase normal. (4) PRODUÇÕES LINGÜÍSTICAS EM CRIANÇAS COM LESÃO CEREBRAL FOCAL PRECOCE: ACHADOS PROSPECTIVOS Todas as teorias que levam alguma forma de plasticidade em consideração (incluindo as teorias que supõe um período crítico) nos levariam a esperar produções relativamente boas em crianças com lesões congênitas, isto é, o grupo que estudamos em nosso laboratório. As evidências referentes à plasticidade de desenvolvimento de linguagem neste grupo têm se acumulado nos últimos anos, em parte devido a melhores técnicas para se identificarem crianças com lesões cerebrais precoces, incluindo-se a localização precisa do local e a extensão do dano, através da neuroradiologia. Em alguns casos, pudemos identificar estas crianças nas primeiras semanas de vida, antes da época em que a aquisição da linguagem começaria normalmente, permitindo-nos cartografar o decurso do desenvolvimento da linguagem, da cognição, e de habilidades comunicativas desde o comecinho (Bates et al., 1997; Reilly, Stiles, Larsen, & Trauner, 1995; Stiles et al., 1998; Stiles & Thal, 1993), antes do ponto no qual surjam formas alternativas de organização cerebral. De fato, os estudos prospectivos que fizemos até agora fornecem fortes evidências de déficits iniciais e de processos subseqüentes de recuperação - fenômenos que não são visíveis mais tarde, quando a maioria dos estudos retrospectivos ocorrem. Por exemplo, estudos prospectivos de desenvolvimento cognitivo não-verbal feitos por nossa colega Joan Stiles
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12 revelaram padrões sutís mas consistentes de déficit na cognição visoespacial. Por exemplo, crianças com RHD parecem ter dificuldade em perceber e/ou produzir aspectos globais ou configurativos de uma cadeia visual complexa; crianças com LHD geralmente não sofrem no nível global, mas têm dificuldade com a percepção e/ou a produção de detalhes locais (Nota: Voltarei a este exemplo mais tarde, relacionando-o a nossos achados com relação à linguagem). Estes déficits visoespaciais são qualitativamente similares àqueles obervados em adultos de LHD vs. adultos de RHD, apesar de serem mais sutís em crianças, e resolvem-se com o tempo à medida que as crianças adquirem estratégias compensatórias para resolver os mesmos problemas (Stiles et al., 1998; Stiles & Thal, 1993). Se um resultado similar pudesse ser encontrado no domínio da linguagem, então poderíamos esperar (por analogia com a literatura sobre a afasia adulta) encontrar os seguintes resultados nos primeiros estágios do desenvolvimento da linguagem: Vantagem do hemisfério esquerdo para a linguagem: as crianças com LHD teriam um desempenho abaixo dos níveis observados nas crianças com RHD em virtualmente todas as mensurações de desenvolvimento fonológico, léxico, e gramatical, assim como nas mensurações do gesto simbólico e comunicativo. O padrão de Broca: por analogia com a afasia de Broca em adultos, as crianças com danos nas regiões frontais do hemisfério esquerdo seriam particularmente atrasadas na linguagem expressiva, mas não na linguagem receptiva, e poderiam (em alguns casos) estar particularmente atrasadas no desenvolvimento da gramática e da fonologia.

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O padrão de Wernicke: por analogia com a afasia de Wernicke em adultos, as crianças com dano nas regiões posteriores do lobo temporal esquerdo estariam particularmente atrasadas na linguagem receptiva, talvez (em alguns casos) com preservação da gramática e da fonologia, mas com atrasos seletivos em mensurações do desenvolvimento semântico.

Nosso grupo se dispôs a testar estas três hipóteses em uma série de estudos prospectivos do desenvolvimento inicial da linguagem. Em todos os casos nós revelamos evidências de

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13 déficits precoces, e de que estes déficits parecem estar associados a locais específicos de lesões. Entretanto, em contraste com os achados de Stiles para a cognição visoespacial, os resultados para a linguagem fornecem poucas evidências para as hipóteses baseadas na literatura da afasia adulta. O primeiro estudo (Marchman, Milller, & Bates, 1991), concentrado no surgimento dos balbucios e das primeiras palavras em uma pequena amostra de cinco crianças com lesão cerebral congênita, duas com dano RH, três com dano LH, incluindo um caso de LH cujas lesões se restringiam à região frontal esquerda. Todas as crianças estavam marcadamente atrasadas no desenvolvimento fonológico (com o balbucio em segmentos consoante-vogal semanas ou meses atrás de um grupo de controles neurologicamente intactos), e no surgimento das primeiras palavras. Entretanto, três das crianças chegaram até o nível normal no decurso do estudo. As duas que permaneceram para trás tinham lesões nas regiões posteriores do hemisfério esquerdo, resultados que se ajustam à primeira hipótese (vantagem da LH para a linguagem), mas que estão em contradição direta com as hipóteses tanto de Broca quanto de Wernicke. O segundo estudo (Thal et al., 1991) concentrou-se na compreensão e produção de palavras de 12-35 meses em uma amostra de 27 crianças com lesão cerebral focal, baseado no instrumento de registro paterno de ocorrências ( NT - "parental", de pai e/ou mãe) que foi o predecessor dos MacArthur Communicative Development Inventories ou MCDIs (Inventários de Desenvolvimento Comunicativo de MacArthur) (Fenson et al., 1993, 1994). Em completa contradição com a Hipótese 1 (mediação de LH da linguagem) e a Hipótese 3 (a Hipótese de Wernicke), os atrasos em compreensão de palavras eram realmente de ocorrência mais provável no grupo RH. Acompanhando a Hipótese 1, mas contra a Hipótese 2 (a Hipótese de Broca), atrasos de produção de palavras eram mais prováveis em crianças com lesões que envolviam o quadrante posterior esquerdo do cérebro. Um estudo mais recente se valeu dos achados de Thal et al. com uma amostra maior de 53 crianças, 36 com LHD e 17 com RHD (Bates et al., 1997), usando uma combinação de registro paterno de ocorrências (os MCDIs) e análises de fala livre. Este registro foi dividido em três subestudos, com amostras parcialmente superpostas. O estudo 1 usou os MCDIs para investigar aspectos aspectos da compreensão de palavras, produção de palavras, e gestos no início do desenvolvimento da linguagem, em 26 crianças entre 10-17 meses de idade. O
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14 estudo 2 usou os MCDIs para investigar a produção tanto de palavras como de gramática em 29 crianças entre 19-31 meses. O estudo 3 usou transcrições de fala espontânea de 30 crianças de 22-44 meses de idade, concentrando-se no Mean Lenght of Utterances (MLU comprimento médio do falado) em morfemas. Em todos estes estudos, as comparações entre os grupos LHD e RHD foram seguidas por comparações que se voltavam para os efeitos associados às lesões que envolviam o lobo frontal (comparando crianças com envolvimento frontal esquerdo em todos os casos de RHD, assim como casos de LHD com preservação frontal esquerda) e o lobo temporal (comparando crianças cujas lesões incluíam o lobo temporal esquerdo com todos os casos de RHD e todos os casos de LHD nos quais aquela região foi poupada). Os resultados foram compatíveis com Marchman et al. e Thal et al., mas bastante surpreendentes do ponto de vista dos mapeamentos lesão/sintoma na afasia adulta, como se segue. Primeiro, em uma outra não confirmação das Hipóteses 1 e 3, Bates et al. registram que os atrasos na compreensão de palavras e nos gestos eram ambos mais prováveis em crianças com dano unilateral no hemisfério direito, pelo menos na janela de amostragem de 10-17 meses examinada aqui. Outros estudos de desenvolvimento gestual em nosso laboratório confirmaram que a desvantagem gestual para as crianças de RH ainda está presente entre os 20-24 meses de idade (Stiles et al., 1998). Segundo, em uma confirmação parcial da Hipótese 2 (a Hipótese de Broca), o envolvimento frontal foi associado a maiores atrasos na produção de palavras e no surgimento de gramática expressiva entre 19-31 meses de idade. Entretanto, em uma surpreendente não confirmação parcial da Hipótese 2, esta desvantagem frontal era igualmente grave em envolvimento tanto frontal esquerdo como frontal direito. Em outras palavras, os lobos frontais são importantes durante este período crucial do desenvolvimento (que inclui a famosa "explosão de vocabulário" e o florescimento da gramática), mas não há evidências de uma assimetria esquerda-direita nas regiões frontais, e daí não há evidências que apoiem a idéia de que a área de Broca tem um status privilegiado desde o início do desenvolvimento da linguagem. Terceiro, em linha com a Hipótese 1 (mediação de LH da linguagem), mas em contradição direta com as Hipóteses 2 e 3 (analogia às afasias de Broca e de Wernicke), os atrasos na produção de palavras e o surgimento de gramática foram ambos mais pronunciados em crianças com lesões que envolviam o lobo temporal esquerdo. Em contraste com os dois
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15 achados acima, (que só alcançaram significância dentro de um período restrito de

desenvolvimento), esta desvantagem temporal esquerda apresentou-se confiável por todos os três subestudos em Bates et al., desde as primeiras palavras (entre 10-17 meses de idade) até os cruciais desenvolvimentos da gramática (entre 20-44 meses de idade). Portanto, temos evidências para a importância assimétrica da área de Wernicke, mas estas evidências também têm a ver com a gramática e o vocabulário (sem evidências de qualquer tipo para uma dissociação entre os dois), e parecem estar restritas à linguagem expressiva. Reilly et al. (1998) conduziram comparações similares por lado de lesão e local de lesão numa amostra seccional-cruzada de 30 crianças com lesão cerebral focal (15 LH e 15 RH) entre três e doze anos de idade; estes resultados foram comparados também ao desempenho de um grupo de 30 controles de mesma idade sem histórico de prejuízo neurológico. As análises se basearam em mensurações lexicais, gramaticias e de discurso a partir de uma bem conhecida tarefa de relato de história. Para crianças entre 3-6 anos de idade, Reilly et al. replicaram a desvantagem específica na linguagem expressiva para crianças com lesões que envolviam a região temporal do hemisfério esquerdo. Entretanto, este efeito não pôde ser detectado em crianças entre 6-12 anos de idade - ainda que todas as crianças deste estudo tivessem a mesma etiologia congênita. De fato, os dados relativos às crianças mais velhas não forneceram evidências de qualquer tipo para um efeito do lado da lesão (esquerdo vs. direito) ou para o local da lesão (lobos específicos em qualquer dos hemisférios). O único efeito que alcançou significância em crianças mais velhas foi uma desvantagem pequena mas confiável das crianças lesionadas enquanto grupo, em comparação com controles de mesma idade e neurologicamente intactos. A figura 7 compara os resultados para as crianças mais novas vs. para as mais velhas em um índice gramatical (número médio de erros em morfologia gramatical por cada proposição), divididos entre crianças com envolvimento temporal esquerdo (+LTemp), casos de lesão focal sem envolvimento temporal esquerdo (-LTemp, combinando todos os casos de RHD e todos os casos de LHD com preservação temporal), e controles normais neurologicamente intactos. Apesar de devermos nos lembrar de que estes são achados seccionais cruzados, eles sugerem que um grau substancial de recuperação ocorre no grupo de LH durante os poucos primeiros anos de vida. Em estudos longitudinais subseqüentes, Reilly e seus colegas seguiram um grupo menor de crianças através deste período de desenvolvimento. Estes achados longitudinais são compatíveis com as evidências seccionais cruzadas da Figura 7, sugerindo que este período crucial de recuperação ocorre

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16 antes da faixa etária coberta pela maioria dos estudos retrospectivos da literatura sobre produções cognitivas e lingüísticas em crianças com lesões cerebrais focais. Para resumir, nossos estudos prospectivos de desenvolvmento de linguagem em crianças com lesão cerebral focal precoce forneceram evidências de atrasos específicos, correlacionados a locais de lesão específicos. Entretanto, a natureza dessas correlações lesão/sintoma difere marcadamente daquelas que poderíamos esperar porque baseadas na literatura da afasia adulta. Além disso, estas correlações são observadas apenas em janelas específicas de desenvolvimento, seguidas por evidências de recuperação e (por implicação) de reorganização. Nenhum destes resultados fica evidente nos estudos retrospectivos (incluindo os nossos próprios), nos quais as crianças são testadas para além do ponto no qual esta suposta reorganização ocorre. Ocasionalmente perguntam-nos por que nossos resultados parecem ser incompatíveis com os de uma literatura anterior sobre o efeito de hemisferectomia (por exemplo, Dennis & Whitaker, 1976; mas veja Bishop, 1983) e/ou efeitos de AVEs precoces (por exemplo, Aram, 1988; Aram, Ekelman, & Whitaker, 1985; Aram, Ekelman, Rose, & Whitaker, 1985; Woods & Teuber, 1978). Nossa primeira resposta é que nossos resultados não são incompatíveis com a grande maioria de estudos. Entretanto, eles parecem ser incompatíveis com um punhado de estudos citados (usualmente em fontes secundárias) como evidências em favor de um papel inato e irreversível para o hemisfério esquerdo em alguns aspectos do processamento da linguagem. Como já notamos em outro local (Bates, Vicari, & Trauner, no prelo; veja também Vargha-Khadem et al., 1994), inconsistências aparentes entre os estudos anteriores e nosso trabalho mais recente desaparecem quando olhamos cuidadosamente os detalhes. Primeiro, muitos dos estudos anteriores combinavam dados de crianças cujas lesões ocorreram em diferentes pontos do desenvolvimento, e também combinavam resultados (usualmente relativos a mensurações bastante globais) referentes a crianças com ampla diferença de idade na época dos testes. Como vimos na seção anterior, pode não haver uma relação monotônica entre a idade da lesão e as produções lingüísticas, e a natureza dos mapeamentos lesão/sintoma que observamos pode ser bastante diferente, dependendo da idade na qual as crianças são testadas e os eventos de desenvolvimento que sejam mais proeminentes nessa época.
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Segundo, alguns dos estudos anteriores tinham limitações metodológicas que pudemos superar nos estudos descritos acima. Em particular, diversos estudos bem conhecidos não faziam comparações diretas entre crianças com LHD vs. RHD por causa de diferenças não controladas de idade, educação e/ou etiologia. Ao invés, os grupos de RHD e LHD, cada um, foram comparados com um grupo distinto de controles de iguais características (matched). Por exemplo, Dennis & Whitaker registram que suas crianças sinistro-hemisferectomizadas tiveram desempenho abaixo dos controles normais quanto a aspectos sutís e específicos de processamento gramático; nada desta diferença foi observado entre as crianças destrohemisferectomizadas e seus controles. Estes resultados foram interpretados como se constituíssem uma diferença significativa entre os grupos de LHD e de RHD, apesar dos dois últimos grupos nunca terem sido comparados diretamente. Como Bishop notou em sua bem conhecida crítica (Bishop, 1983), um exame cuidadoso dos resultados referentes aos dois grupos lesionados sugere que esta interpretação não oferece garantias. O problema geral que se encontra com a abordagem do grupo de controle distinto está ilustrado na figura 8, que compara dados hipotéticos de um grupo de LHD, um grupo de RHD, e seus respectivos controles. Como podemos ver por esta figura, o desempenho do grupo de LHD não se coloca confiavelmente em nível inferior de desempenho com relação a seus controles (ainda que um pouquinho abaixo); o desempenho do grupo de RHD não se posiciona fora dos intervalos de confiança referentes ao seu grupo controle. Mesmo assim, neste exemplo hipotético, o desempenho é em verdade melhor nos casos de LHD! A chave para este enigma está nos desvios padrões para cada grupo controle: o desvio padrão é maior para os controles de RHD, o que significa que uma diferença maior entre os RHDs e os controles é necessária para se chegar à significância estatística. Claramente, não seria criterioso tirarem-se conclusões firmes sobre diferenças esquerdo/direito a partir de um conjunto de dados deste tipo. Finalmente, algumas das afirmações mais conhecidas em favor de um efeito precoce e irreversível de dano LH foram baseadas em estudos de casos isolados ou de pequenas amostras (incluindo os estudos de hemisferectomia citados acima). Este fato limita a generalizabilidade dos resultados, e o mesmo resultado freqüentemente é contradito por outros estudos de casos individuais ou de pequenos grupos. Por exemplo, Stark e McGregor (1997) descreveram recentemente um interessante contraste entre uma criança com uma hemisferectomia esquerda (início de lesão em 1;6, cirurgia em
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18 4;0), e um outro com uma hemisferectomia direita (início de lesão 2;0, cirurgia em 5;8), As duas crianças foram acompanhadas longitudinalmente com testes em intervalos de 1-2 anos até 9;0 e 9;6 anos de idade, respectivamente. Apesar de ambas as crianças apresentarem desenvolvimento substancial em linguagem e cognição no decurso do estudo, ficaram atrás de controles normais de mesma idade em todos os pontos. Ao final do estudo o caso de LHD tinha um QI de escala total de 71, e o caso de RHD tinha um QI de escala total de 81, bem abaixo das normas para crianças que sejam neurologicamente intactas. Para Stark e McGregor, os achados mais interessantes estão nos padrões contrastantes observados para cada criança em QI de dempenho, QI verbal, e outras séries de testes lingüísticos mais específicos. Para o caso de LHD, os QIs de desempenho e verbal foram bem baixos (separados por apenas quatro pontos). Entretanto, o desempenho das tarefas específicas de linguagem seguiram um perfil típico do padrão observado em crianças com Prejuízo Específico de Linguagem, isto é, um maior prejuízo nas mensurações lingüísticas (especialmente de morfossintaxe) do que esperaríamos de sua idade mental. Em contraste, o caso de RHD apresentou uma clara dissociação ao final do estudo entre o QI verbal (95) e o QI de desempenho (70), com escores na maioria das mensurações lingüísticas que eram apropriados para sua idade mental. Este é um resultado interessante e provocativo, e pode mesmo refletir evidências do surgimento de algum tipo de especialização do hemisfério esquerdo para a linguagem antes da idade na qual ocorreu a cirurgia. Entretanto, nossa própria experiência com uma amostra relativamente grande de lesões focais nos acautelou contra basear resultados sólidos em estudos de casos. As diferenças individuais em habilidades lingüísticas e cognitivas são imensas, mesmo em crianças perfeitamente normais sem nenhum histórico de lesão cerebral (Bates et al., 1995; Fenson et al., 1994). Um grau similar de variação é observado mesmo no pequeno quadro de casos que passaram por hemisferectomia. As evidências referentes a tais variações vêm do caso de Alex, recentemente registrado por Vargha-Khadem et al. (1997). Alex era quase mudo antes de sua cirurgia entre oito e nove anos de idade, e (até onde pôde ser testado) demonstrava níveis de compreensão lingüística similares aos de uma criança normal de três anos de idade. Logo após sua cirurgia demonstrou recuperação notável tanto na linguagem expressiva como na receptiva, e continuou a fazer progresso até a adolescência. Apesar de Alex ter sofrido algum grau de retardamento mental (quando adolescente, tinha a idade mental de uma criança de 12-13
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19 anos, em algumas mensurações), suas habilidades lingüísticas são inteiramente proporcionais à sua idade mental. De fato, seu nível de desempenho em mensurações lingüísticas é superior a ambos os casos registrados por Stark e McGregor, apesar de sua cirurgia ter ocorrido muitos anos depois. O contraste entre este estudo e aquele de Stark et al. sublinha dois pontos importantes. Primeiro, fornece evidências adicionais contra a suposição de que a plasticidade cai monotonicamente ao longo de um suposto período crítico para a linguagem. Segundo, lembra-nos de que os efeitos da lesão cerebral ficam sobrepostos no vasto terreno da variação individual observada em crianças que se desenvolvem normalmente ( para uma elaboração deste ponto, ver Bates et al., 1995). Por haver tanta variação na população normal, é difícil saber em um caso de estudo único ou de pequena amostragem se os perfís cognitivos que observamos são estatisticamente confiáveis ou não. De fato, eles podem não ser diferentes dos padrões que seriam observados se o dano cerebral fosse imposto aleatoriamente e casos selecionados a partir da população em geral (Bates, Appelbaum & Allard, 1991; Bishop, 1997; veja também Basser, 1962, para evidências de que a grande maioria dos casos de uma amostra ampla de crianças hemisferectomizadas não apresenta nenhuma evidência de um prejuízo fala/linguagem, seja qual for o lado da cirurgia). A despeito destas preocupações, nossos resultados referentes a crianças mais velhas são bastante compatíveis com a literatura retrospectiva sobre o desenvolvimento da linguagem na população com lesão focal: as crianças com lesões precoces em um lado do cérebro quase sempre adquirem habilidades lingüísticas dentro da amplitude normal ou subnormal, com poucas evidências de efeitos quanto ao lado da lesão ou seu local (como foi revisto em Bates, Vicari, & Trauner, no prelo; Eisele & Aram, 1995; Vargha-Khadem et al., 1994). Nossos achados prospectivos para crianças abaixo de cinco anos de idade são qualitativamente diferentes, mas também são tão novos que há poucas informações, ou nenhuma, comparável na literatura, além de alguns estudos de casos individuais ou de pequenas amostras, com objetivos muito diferentes (por exemplo, Dall'Oglio , Bates, Volterra, Di Capua, & Pezzini, 1994; Feldman et al., 1992). É claro que seria importante replicar todos estes achados prospectivos com outras amostras de crianças, e em outros laboratórios. No intervalo, podemos nos confortar um pouco com o fato de que estes resultados se baseam na maior e mais homogênea amostra de crianças com lesão cerebral focal que jamais foi estudada em um quadro prospectivo. Apesar de em alguns casos as mesmas crianças participassem em mais de um estudo prospectivo, a amostra completa ao longo de nossos dois maiores estudos (Bates et al., 1997; Reilly et al., 1998) inclui 72 casos de crianças com lesão cerebral focal,
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20 de três laboratórios diferentes. Com tamanhos de amostras de 26 ou mais de um subestudo para outro, pudemos usar projetos experimentais e estatísticas inferenciais que não seriam apropriados em estudos de casos individuais ou de pequenas amostras, revelando novas informações sobre a natureza mutante das correlações lesão/sintoma. Em suma, os achados são sólidos o suficiente para justificarem algumas especulações sobre o desenvolvimento da organização cerebral para a linguagem sob condições normais e patológicas. (5) COMO A ORGANIZAÇÃO CEREBRAL PARA A LINGUAGEM SURGE AO LONGO DO DECURSO DO DESENVOLVIMENTO A literatura sobre produções lingüísticas em crianças humanas com lesão cerebral unilateral precoce é bastante compatível com a nascente literatura sobre a plasticidade neural em outras espécies. Muitos dos resultados humanos são novos, mas as informações originadas da neurobiologia de desenvolvimento estão hoje bem estabelecidas. Apesar de poucos neurobiólogos discutirem a favor da equipotencialidade, isto é, a idéia de que todas as áreas do córtex são criadas iguais (Lenneberg, 1967), existem hoje evidências avassaladoras a favor da pluripotencialidade, isto é, a idéia de que o tecido cortical é capaz de assumir uma vasta cadeia de representações, com graus variados de sucesso, dependendo do tempo, da natureza e da extensão do input ao qual o tecido fica exposto (Elman et al., 1996; Johnson, 1997). Esta conclusão está bem atestada na literatura da neurobiologia do desenvolvimento, mas teve surpreendentemente pouco impacto sobre a lingüística, a ciência cognitiva e a neurociência cognitiva. De fato, a antiga abordagem frenológica da organização cerebral encontrou vida nova nas duas últimas décadas em diversas propostas de que a linguagem é um "instinto" (Pinker, 1994), um "órgão mental" (Chomsky, 1980a,b; 1995), ou um "módulo inato" (Fodor, 1983; Pinker, 1997a), com sua própria arquitetura neural e sua própria base genética altamente específica (veja também Gopnik, 1990; Pinker, 1991; Rice, 1996; van der Lely, 1994). De fato, a monografia de 1983 de Fodor celebra as contribuições de Franz Gall, o frenologista original, e orgulhosamente traz um desenho clássico do cérebro subdividido e numerado de Gall em sua capa. A única surpresa real é como as afirmativas se modificaram tão pouco ao longo dos últimos duzentos anos. A frenologia em todas as suas reencarnações pode ser caracterizada como a crença de que o cérebro é organizado em faculdades espacial e funcionalmente distintas, cada uma dedicada
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21 a, e definida por, um tipo diferente de conteúdo intelectual, emocional ou moral. Em algumas das propostas lançadas por Gall, Spurzheim e outros no século 18, estavam incluídas áreas de esperança, combatividade, amor conjugal, veneração, cautela, cálculo, tom, memória e, é claro, linguagem. Uma variante moderna da frenologia está representada sob forma de cartoon (NT - piada em forma de desenho) na Figura 9, que difere da versão antiga em pelo menos dois respeitos. Primeiro, o conteúdo dos módulos propostos mudou bastante nos últimos dois séculos: com algumas exceções, a maior parte do conteúdo ético se foi (veja Ramachandran, 1997, para um proposto "módulo de religiosidade"), substituído por um conjunto menor de domínios espécie-específicos cognitivos e lingüísticos (por exemplo, música, rostos, matemática, gramática, o léxico). Certamente as introduções e proposições particulares da Figura 9 são de minha autoria, mas cada uma representa afirmações explícitas que foram feitas nos últimos 5-10 anos no New York Times e em outras fontes públicas. Segundo, e mais importante para nossos propósitos aqui, a versão moderna da frenologia tem uma forte componente nativista. Em contraste com os frenologistas do século 19 (alguns dos quais sublinharam o papel da experiência no estabelecimento da organização funcional do cérebro - ver especialmente Wernicke, 1874/1977), seus defensores do século 20 como Fodor e Pinker juntaram sua teoria de localização modular à doutrina do inatismo. Nesta variante da frenologia, o cérebro adulto se organiza ao longo de linhas modulares porque o cérebro nos chega empacotado desta maneira, em sua forma fetal, com funções específicas designadas para regiões específicas através de um programa genético (veja também Gopnik & Crago, 1991; Rice, 1996; van der Lely, 1994). Em parte, a abordagem frenológica pôde subsistir porque as explicações alternativas são de difícil compreensão. O cérebro adulto é um órgão altamente diferenciado, e o cérebro da criança (ainda que sub-especificado, em comparação com o cérebro adulto) certamente não é uma tabula rasa. Ainda assim, os esforços para se reintroduzirem os efeitos experienciais nesta organização cerebral (por exemplo, Bates & Elman, 1996; Elman & Bates, 1997) foram recebidos com grande suspeita por aqueles que temiam uma reintrodução das velhas explicações behavioristas (Clark, Gleitman, & Kroch, 1997; Jenkins & Maxam, 1997; Pesetsky, Wexler, & Fromkin, 1997; Pinker, 1997b). Um pouco do calor deste intercâmbio surge do fato de que diversas questões logica e empiricamente distintas estão fundidas na argumentação sobre os órgãos mentais da linguagem. Em resultado disso, qualquer um que se oponha à moderna doutrina da frenologia em sua forma plenamente desenvolvida é acusado de (pasmem!) behaviorismo. A fim de esclarecer a diferença entre o velho behaviorismo da
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22 tabula rasa e a perspectiva emergentista à qual estou me ligando aqui, precisamos desmontar a doutrina do órgão mental em uma série de suposições distintas e separáveis sobre (1) representações inatas (isto é, as conexões sinápticas são determinadas por um programa genético), (2) processamento domínio-específico (cada região do cérebro está projetada para lidar com um tipo específico de conteúdo), e três corolários sobre localização, (3) localização compacta, (4) localização fixa, e (5) localização universal. (NT - a autora repete o item 3 e logo a seguir fala de "cinco afirmativas da frenologia moderna", o que nos fez consertar a numeração). A Tabela 1 resume as cinco afirmativas da frenologia moderna, juntamente com uma caracterização da alternativa emergentista de cada uma dessas cinco partes. Vejamos em primeiro lugar a suposição das representações inatas. Como meus colegas e eu reconhecemos repetidamente, por todo este capítulo e em outros locais (Bates, Edelman, et al., no prelo; Elman et al., 1996), o córtex não é equipotencial. Existem poderosas limitações endógenas no cérebro infantil que predispõem a maneira pela qual a organização cerebral funciona sob circunstâncias normais. Entretanto, afirmativas sobre a natureza destas limitações inatas podem ser feitas em diversos níveis diferentes: representações inatas (onde "representações" são operacionalmente definidas como o padrão de conectividade cortical que engloba o conhecimento), arquitetura inata (definida em termos da arquitetura global input-output do cérebro e das variações locais em densidade, velocidade e estilo do processamento de informações), e o timing inato (incluindo variações em tamanho da neurogênese, e do início e interrupção de fatores neurotróficos). A doutrina do órgão mental está profundamente comprometida com a existência de representações inatas. A alternativa emergentista está comprometida com a idéia de que o próprio conhecimento não é inato, mas surge no decurso do desenvolvimento, através da interação entre a arquitetura inata, o timing inato, e o input ao córtex. De fato, o caso das representações inatas está agora em péssima posição. Há trinta anos, o nativismo representacional era uma hipótese perfeitamente plausível. Isto é, era razoável supor-se que o conhecimento se elabora no córtex infantil sob a forma de conexões sinápticas detalhadas e bem especificadas, independentemente e antes dos efeitos do input ao córtex (a que Pinker [1997a] se refere como um "diagrama de circuitagem" (wiring diagram) inato. De fato, uma suposição destas é de suma importância para formas fortes de nativismo lingüístico (isto é, a idéia de que as crianças nascem com a Gramática Universal - Chomsky, 1980a,b; Pinker, 1994; Rice, 1996), porque a conectividade sináptica é o único nível de organização
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23 cerebral com o necessário poder de codificação para representações complexas e domínioespecíficas do tipo que seria necessário para sustentar uma gramática inata. Entretanto, esta forma particular de inatismo é de difícil defesa face à crescente quantidade de informações sobre a natureza atividade-dependente da conectividade sináptica no nível cortical. É claro que o cérebro infantil certamente não é uma tabula rasa. Em outros níveis de organização, temos amplas evidências de efeitos endógenos que predispõem o jogo da aprendizagem de maneiras significativas. Elas incluem limitações da arquitetura de input-output global do cérebro (por exemplo, o fato de que as informações vindas dos olhos quase sempre acabam indo para o córtex visual, na ausência de malévolas intervenções por Sur e seus colegas), variações locais em arquitetura e estilo de computação (por exemplo, o córtex visual primário inicia sua carreira com pelo menos o dobro de neurônios do que qualquer outra área), e variações de timing (por exemplo, variações de uma região para outra no tamanho da neurogênese e na disponibilidade do NGF (nerve growth factor - fator de crescimento neuronal). Hoje parece que a diferença entre o cérebro humano e o de outros primatas deve ser determinada primariamente por variações não-representacionais deste tipo, controladas por um programa genético pequeno o suficiente para se ajustar na mera diferença de 1-2% entre o genoma humano e o genoma de um chimpanzé (King & Wilson, 1975; Wilson, 1985). A segunda suposição da tabela 1, o processamento domínio-específico, é um componente chave da doutrina do órgão mental, isto é, de que distintas regiões do cérebro evoluíram para lidar com tipos particulares de conteúdos de interesse imperativo para nossa espécie (Barkow, Cosmides, & Tooby, 1992; Pinker, 1997a). Além da linguagem (e talvez de subcomponentes distintos da linguagem, por exemplo, uma distinção entre a gramática e o léxico), os módulos ou órgãos mentais propostos incluem um detector de rostos, um módulo de teoria-da-mente (que contém algoritmos para detectar-se comportamento desonesto por parte de outros membros da espécie), um módulo matemático, um módulo musical, e por aí em diante. Estes sistemas presumivelmente evoluíram para lidar de forma ótima com seu conteúdo designado, e apenas com este conteúdo. De fato, Pinker (1997a) propôs que formas diversas e específicas de psicopatologias podem resultar se um módulo for aplicado ao domínio errado (apesar de não ser claro o suficiente como isso poderia ocorrer, dada a predisposição perceptual que define um órgão mental). A alternativa emergentista ao processamento domínio-específico é que o conhecimento domínio-específico pode ser adquirido e processado por mecanismos de domínio geral, isto é,
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24 por mecanismos de atenção, percepção, memória, emoção e planejamento motor que estão envolvidos em muitos aspectos diferentes da aprendizagem, do pensamento e do comportamento. Em outras palavras, o maquinário cognitivo que nos torna humanos pode ser visto como uma nova máquina construída a partir de peças antigas (Bates, Benigni, Bretherton, Camaioni, & Volterra, 1979). Todas as partes componentes que participam da linguagem se baseam em mecanismos filogeneticamente antigos, com homólogos para cima e para baixo na linhagem dos vertebrados. As funções específicas que tornam os humanos diferentes das outras espécies estão superpostas neste Plano Cerebral Vertebrado Básico (basic vertebrate brain plan). É claro que é provável que alguns e talvez todos os componetes neurais que participam da atividade humana tenham passado por modificações quantitativas que permitam que surjam novos comportamentos como a linguagem, mas estes componentes ainda desempenham funções mais antigas e mais gerais de detecção de objetos, variação de atenção, formação de novas memórias, planejamento motor, e por aí adiante (isto é, eles mantiveram os empregos onde trabalhavam de dia...) Para nos ajudar a pensar no tipo de adaptação que permitiria a elaboração de uma nova máquina a partir de peças antigas, considere a metáfora do pescoço da girafa. As girafas têm o mesmo número de vértebras que eu e você temos, mas estes ossos são alongados para resolver o peculiar problema no qual as girafas são especializadas (isto é, comer as folhas do alto de uma árvore). Como resultado desta adaptação particular, outras adaptações também foram necessárias, incluindo modificações cardiovasculares (para bombear-se o sangue para cima, até o cérebro da girafa), diminuição das patas traseiras com relação às dianteiras (para assegurar que a girafa não tombasse para frente), e por aí adiante. Deveríamos concluir que o pescoço da girafa é um "órgão-de-alcance-das-folhas-mais-altas?" Não exatamente. O pescoço da girafa ainda é um pescoço, construído em cima do mesmo projeto básico que é usado o tempo todo nos vertebrados, mas com alguns ajustes quantitativos. Ele ainda faz algumas outros tipos de "tarefas de pescoço" da mesma maneira que o pescoços fazem em espécies especializadas, mas ele tem um potencial extra para alcançar o alto das árvores, que outros pescoços não têm. Se insistirmos em que o pescoço é um órgão de alcançar folhas então teremos que incluir o restante da girafa nesta categoria, incluindo as modificações cardiovasculares, os ajustes no tamanho das pernas, e tudo o mais. Da mesma maneira, o nosso "órgão de linguagem" pode ser visto como o resultado de ajustes quantitativos em mecanismos neurais que existem em outros mamíferos, permitindo-nos
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25 caminhar em um espaço problemático que os outros outros animais não podem perceber, muito menos solucionar. É claro que, uma vez que a linguagem finalmente apareceu no planeta, é bastante provável que ela tenha começado a aplicar suas próprias pressões adaptativas à organização do cérebro humano, assim como a adaptação do pescoço da girafa ao alcance das folhas aplicou uma pressão adaptativa a outras partes da girafa. Portanto os mecanismos neurais que participam da linguagem fazem ainda outros tipos de trabalho, mas eles também se desenvolveram para desempenhar a tarefa da linguagem. De fato, parece ser crescentemente improvável que estejamos algum dia em posição de explicar a linguagem humana em termos de diferenças claras e bem definidas entre nosso cérebro e o de outros primatas. Pense, por exemplo, no vergonhoso caso do planum temporale (isto é, o giro superior do lobo temporal que se estende para trás até a junção temporal-parietal-occipital). Há muitos anos notou-se que o planum temporale é mais comprido no lado esquerdo do cérebro na maioria dos adultos humanos normais destros. Como o lobo temporal claramente desempenha um papel especial no processamento da linguagem, argumentou-se que a assimetria do planum pode ter um papel chave na organização cerebral para a linguagem. Entretanto, surpreendentes evidências novas surgiram, demonstrando que a mesma assimetria também é observada em chimpanzés (Hollaway, Broadfield, Kheck, & Braun, 1998). De fato, a assimetria é realmente maior e mais consistente nos chimpanzés do que nos humanos! Eu não duvido por um momento de que os humanos usam esta extensão de tecido de maneira quantitativa e qualitativamente diferente, mas diferenças simples em tamanho e forma podem não ser suficientes ou mesmo relevantes para a importante diferença entre nós e nossos parentes mais próximos na linha dos primatas. Em resposta a achados deste tipo, Pinker (1997a) insistiu que a resposta está na microcircuitagem cortical do interior de áreas relevantes. Ainda assim, como já vimos diversas vezes, os neurobiólogos do desenvolvimento abandonaram a idéia de que aspectos detalhados da conectividade sináptica estejam sob controle genético direto, em favor de uma explicação atividade-dependente. Tem que haver algo especial acerca do cérebro humano que torne a linguagem possível, mas este "algo" pode envolver mecanismos altamente distribuídos que servem a muitas outras funções. Meus próprios candidatos favoritos para esta categoria de "mecanismos de facilitação da linguagem" são capacidades anteriores à linguagem filogeneticamente, e indubitavelmente envolvem muitos aspectos diferentes do cérebro. Incluem nossa rica organização social e a capacidade para o raciocínio social, nosssa extraordinária habilidade para imitar as coisas que as outras pessoas fazem, nossa excelência na segmentação dos estímulos auditivos e visuais
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26 rápidos, e nossa fascinação com a atenção conjunta (ver juntos os mesmos eventos, compartilhar novos objetos só por diversão - para uma discussão ampliada, veja Bates, Thal, & Marchman, 1991). Estas habilidades estão todas presentes em crianças humanas em seu primeiro ano de vida, e estão todas implicadas no processo através do qual a linguagem é adquirida. Nenhuma delas é específica para a linguagem, mas elas tornam a linguagem possível, assim como os ajustes quantitativos do pescoço da girafa tornam possível que ela realize algo que nenhum outro ungulado consegue fazer. Existem quaisquer evidências em favor desta visão domínio-geral de "sistema emprestado"? Eu colocaria o assunto de maneira algo diferente: a despeito de miríades de predições de que tais evidências serão encontradas, ainda não existe nenhuma evidência não ambígua em favor da idéia de que partes específicas do cérebro são dedicadas a tipos específicos de objetos, e apenas àqueles objetos. Por exemplo, existem células no cérebro de um primata adulto que respondem preferencialmente a uma classe particular de estímulos (por exemplo, rostos). Entretanto, estudos recentes demonstraram que as mesmas células também podem responder a outros tipos de conteúdo, espontaneamente e/ou depois de um período extendido de treinamento (Das & Gilbert, 1995; De Weerd, Gattass, Desimone, & Ungerleider, 1995; Fregnac, Bringuier, & Chavane, 1996; Pettet & Gilbert, 1992; Ramachandran & Gregory, 1991; Tovee, Rolls, & Ramachandran, 1996). De maneira similar, certas regiões corticais à volta da fissura sylviana ficam invariavelmente ativas em estudos de imagens neurais de processamento de linguagem, incluindo algumas das mesmas áreas que estão implicadas nas afasias fluente e não-fluente. Entretanto, cada uma dessas regiões também pode ser ativada por uma ou mais formas de processamento não-lingüístico. Esta posição foi tornada eloqüentemente clara em um recente estudo de Erhard, Kato, Strick e Ugurbil (1996), que observou todos os subcomponentes propostos da área de Broca enquanto pedia-se aos sujeitos que executassem (ocultamente) uma série de ações verbais e não-verbais, incluindo complexos movimentos da boca e dos dedos. Cada componente distinto do complexo de Broca que está ativo durante a fala também está ativo em pelo menos uma forma de atividade não-verbal oculta. Resumindo, apesar de haver amplas evidências de extensões de tecidos que participam da linguagem, parece não haver nenhum candidato em qualquer parte do córtex perisylviano para ser um órgão puro de linguagem. Isto nos leva a três suposições chaves sobre a natureza da localização, as três questões finais das cinco questões contrastantes listadas na tabela 1. Na explicação frenológica, precisamente
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27 por causa das suposições sobre (1) representações inatas e (2) arquitetura dedicada, supõe-se aditivamente que a organização cerebral para a linguagem envolve (3) uma arquitetura fixa que não pode ser substituída e não pode ser modificada significativamente pela experiência, (4) uma arquitetura universal que admite muito pouca variabilidade individual, e (5) uma arquitetura compacta e espacialmente contígua que opera como uma unidade autônoma e coerente nos estudos de imagens neurais, e cria déficits distintos em, ou dissociações entre, funções cognitivas quando é lesionada ("síndromes de desconexão" - Caramazza, 1986; Caramazza & Berndt, 1985; Geschwind, 1965; Shallice, 1988). Em contraste, a explicação emergentista é mais compatível com formas de localização que são (3) plásticas e modificáveis pela experiência, (4) variáveis em forma como resultado de variações da experiência assim de diferenças individuais da arquitetura inicial, e (5) distribuídas por extensões de tecido que podem participar de muitas tarefas diferentes (incluindo sistemas espacialmente descontínuos que podem executar seu desempenho em conjunto ou em separado, dependendo da tarefa). Por causa destas propriedades, a visão emergentista é muito mais compatível com todas as crescentes evidências da neurobiologia do desenvolvimento em favor da plasticidade e da dependência de atividade da especialização cortical, incluindo plasticidade para a linguagem em crianças cerebralmente lesionadas. A visão emergentista também é mais compatível com os complexos e variáveis achados que surgiram em recentes estudos de imagem neural em adultos normais (Courtney & Ungerleider, 1997; Poeppel, 1996). De fato, novas áreas lingüísticas estão se multiplicando a uma taxa alarmante nos estudos de ativação da linguagem, incluindo estudos que usam tomografia por emissão de pósitrons (PET), imagem funcional de ressonância magnética (fMRI), magnetoencefalografia (MEG) e/ou potenciais cerebrais relacionados a eventos (NT - ERPs - que José Morais traduz por "potenciais evocados"). Apesar da ativação ser usualmente maior no hemisfério esquerdo do que no direito em estudos de ativação lingüística, e das conhecidas regiões perisylvianas do hemisfério esquerdo aparecerem em estudo após estudo, há crescentes evidências da participação de regiões homólogas do hemisfério direito (por exemplo, Just et al., 1996), apesar de haver substancial variação entre os indivíduos, as tarefas e os laboratórios quanto à extensão em que esta (participação) ocorre. Os estudos de ativação lingüística que envolvem geração e manutenção de códigos e/ou uma decisão entre opções comportamentais parecem resultar numa confiável ativação de muitas regiões préfrontais diferentes que não estavam implicadas em estudos mais antigos do colapso lingüístico na afasia (por exemplo, Raichle et al., 1994; Thompson-Schill,
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28 D'Esposito, Aguirre, & Farah, 1997). Novas regiões que parecem estar especialmente ativas durante a ativação da linguagem também aparecem no córtex temporal basal (no lado de baixo do cérebro - Nobre, Allkison, & McCarthy, 1994), em algumas porções dos gânglios basais, e no cerebelo (especialmente no lado direito do cerebelo). Muitos aspectos diferentes do córtex motor e do córtex sensorial parecem ser ativados nas tarefas lingüísticas que envolvem estímulos imageáveis (NT - que podem ser cartografados por PET, fMRI, etc.). Ainda mais interessante para nossos propósitos aqui, estes padrões de ativação variam como uma função do próprio desenvolvimento, incluindo variações com a idade cronológica e o nível lingüístico das crianças (Hirsch et al., 1997; Mills, Coffey-Corina, & Neville, 1997; Mueller, 1996), e níveis variáveis de conhecimento em adultos (Hernandez, Martinez, Wong, Frank, & Buxton, 1997; Kim, Relkin, Lee, & Hirsch, 1997; Perani et al., 1997; Raichle et al., 1994). Surgiu então o quadro onde a maior parte do cérebro participa na atividade lingüística, em graus variados, dependendo da natureza da tarefa e do conhecimento que o indivíduo tem da tarefa. Em muitos respeitos, isto é exatamente o que deveríamos esperar: a linguagem é um sistema para se codificar significado, e hoje há boas razões para se acreditar que a ativação do significado envolve a ativação das mesmas regiões que participam das experiências originais nas quais os significados se baseam. Como a maior parte do cérebro participa do significado, deveríamos esperar padrões amplamente distribuídos e dinamicamente mutantes de participação na maioria das tarefas be base lingüística. O fato de que estes padrões de ativação se modificam através do tempo também não é surpreendente, refletindo modificações da experiência assim como modificações do nível de habilidade que os indivíduos obtêm na ativação e na manutenção tanto do significado quanto da forma. Claramente, entretanto, existem algumas diferenças importantes na visão da organização lingüística que surge a partir de estudos de imagens neurais e de lesões. As técnicas de imagem neural podem nos falar sobre as áreas do cérebro que participam da linguagem. Desse ponto de vista, podemos concluir que a participação é muito ampla. Estudos de lesões podem nos falar sobre as áreas do cérebro que são necessárias para a linguagem normal. A listas das áreas que são necessárias para a linguagem (em crianças ou em adultos) parece ser muito menor do que a lista de áreas que participam livremente de uma tarefa lingüística. Mesmo nesse caso, entretanto, técnicas melhoradas de imagem estrutural e de reconstrução de lesões produziram cada vez mais evidências de uma variabilidade individual no
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29 mapeamento lesão/sintoma (Goddglass, 1993; Willmes & Poeck, 1993), e de uma organização compensatória em pacientes que apresentam recuperação total ou parcial da afasia (Cappa et al., 1997; Cappa & Vallar, 1992). Claro que existem alguns limites claros para esta variabilidade. Algumas áreas do cérebro simplesmente não podem ser substituídas, em crianças ou em adultos. Por exemplo, Bachevalier e Mishkin (1993) demonstraram que macacos recém-nascidos com lesões bilaterais nas regiões temporais mediais (incluindo a amígdala e o hipocampo) mostram uma forma densa e aparentemente irreversível de amnésia que persiste por todo o resto da vida do animal, em marcante contraste com a notável recuperação que se segue a lesões bilaterais do córtex temporal lateral (Webster et al., 1995). A chave está na arquitetura global de inputoutput destas regiões temporais mediais, uma forma rica e ampla de conectividade que não pode ser substituída porque nenhum outro candidato tem aquele tipo de comunicação com o resto do córtex. Outras partes do cérebro não podem ser substituídas porque são vias cruciais e rampas de lançamento de informações vindas da periferia (por exemplo, a ínsula, que recebe um feedback cinestésico crucial dos articuladores orais, ou o nervo auditivo, que transporta input auditivo insubstituível ao córtex que o está aguardando - Dronkers, 1996; Dronkers, Redfern, & Ludy, no prelo; Dronkers, Wilkins, van Valin, Redfern, & Jaeger, 1994). Estas regiões insubstituíveis formam os pontos de ancoragem, os pontos iniciais universais da organização cerebral em crianças normais, e são de difícil senão impossível substituição uma vez que todos os exuberantes axônios do cérebro fetal tenham sido eliminados. Neste quadro, a própria aprendizagem também coloca limites na plasticidade e na reorganização do cérebro em desenvolvimento. Por exemplo, Marchman (1993) demonstrou que redes neurais artificiais engajadas em uma tarefa de aprendizagem lingüística (isto é, adquirir a conjugação do passado de verbos em inglês) podem se recuperar de "lesões" (isto é, remoção aleatória de conexões) que são impostas no início do processo de aprendizagem. As mesmas lesões resultam em um "déficit de linguagem" substancialmente maior quando são impostas mais tarde ao processo de aprendizagem. Esta simulação dos chamados efeitos de período crítico ocorre na ausência de qualquer modificação inessencial no potencial de aprendizagem da rede (isto é, não há nenhum equivalente de retirada [NT - withdrawal síndrome de abstinência devido à retirada de ...] neurotrofinas ou redução da taxa de aprendizagem). Marchman nos lembra de que os efeitos de período crítico podem ser
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30 explicados em pelo menos duas maneiras (e elas não são mutuamente exclusivas): modificações exogenamente impostas à capacidade de aprendizagem (a interpretação comum dos períodos críticos), ou o entrincheiramento ( entrenchment) que resulta da própria aprendizagem. Em outras palavras, a aprendizagem modifica a natureza do cérebro, elimina algumas conexões e afina outras com valores que são de difícil mudança. Eventualmente o sistema pode chegar a um ponto sem retorno, uma redução da plasticidade que mimetiza efeitos de período crítico sem quaisquer modificações na arquitetura senão as modificações que resultam de processos normais de aprendizagem e desenvolvimento. Marchman não nega a possibilidade de efeitos exógenos sobre a plasticidade, mas argumenta convincentemente que há outras maneiras de se explicar o mesmo resultado, incluindo modificações graduais na capacidade de aprendizagem (e recuperação do que foi aprendido antes) que são o produto da própria aprendizagem - mudanças que são mais compatíveis com as atuais evidências desenvolvimentistas do que com a noção de um período crítico repentino e descontínuo (veja também Bates & Carnevale, 1993; Elman et al., 1996, cap. 4). Finalmente, a visão emergentista provê espaço para a possibilidade de sistemáticas modificações de desenvolvimento na localização, devido a uma mudança no processo e nas operações necessárias para se executar uma função em pontos diferentes do processo de aprendizagem. Na visão frenológica estática, uma área de linguagem é uma área de linguagem, sempre e para sempre. Podem haver modificações de desenvolvimento devidas à maturação (isto é, uma área que não estava "pronta" subitamente "se liga" ("entra em linha"), mas os processos envolvidos neste domínio de conteúdo são sempre executados nas mesmas regiões dedicadas. Na explicação emergentista, as áreas responsáveis pela aprendizagem podem ser totalmente diferentes das áreas envolvidas na manutenção e no uso da mesma função em sua forma madura. De fato, há pelo menos três razões porque deveríamos esperar diferenças nos padrões de atividade cerebral associados ao processamento de linguagem em crianças vs. adultos. (1) Competição inicial. Podemos supor (baseados em amplas evidências vindas de modelos animais) que os primeiros estágios de desenvolvimento envolvem uma competição entre áreas para o controle de tarefas. esta competição está aberta a qualquer região que possa receber e processar as informações relevantes, mas isto não significa que toda região tem uma chance igualmente provável de vencer. De fato, à medida que a competição prossegue, aquelas regiões que são
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31 mais bem equipadas para lidar com a tarefa (por causa de diferenças na eficiência de acesso e no tipo de processamento) gradualmente tomarão para si maior responsabilidade pela mediação daquela função. Em estudos prospectivos de desenvolvimento da linguagem, estamos observando este processo de competição à medida em que ele se desenvolve. Isto leva à predição de que estágios anteriores de desenvolvimento envolverão formas mais difusas de processamento, uma predição que é sustentada por estudos de ERP de modificações de ativação ao longo dos três primeiros anos de desenvolvimento da linguagem (da ativação por palavras conhecidas, que é bilateral mas algo maior no direito, em direção à ativação que é maior no esquerdo e localizada mais focalmente em sítios fronto-temporais Mills et al., 1997). (2) Conhecimento (Expertise) Também podemos esperar modificações quantitativas e qualitativas nas regiões que participam de uma dada tarefa em função do nível de conhecimento. Estas modificações podem tomar três diferentes formas: expansão no interior das regiões, retração no interior das regiões, e uma modificação indiscriminada de mediação de uma região para outra. Um exemplo de expansão vem de um recente estudo de fMRI de aquisição de habilidades em adultos (Karni et al., 1995). Neste estudo, os primeiros estágios da aprendizagem em uma tarefa de movimento de dedos tende a envolver regiões menores do córtex somatossensorial; com a crescente habilidade na tarefa, as áreas responsáveis pelo padrão motor aumentam de tamanho. Exemplos de retração vêm de estudos que mostram que áreas maiores de ativação nos primeiros estágios de aprendizagem de uma segunda língua, em comparação com a ativação em falantes nativos e em alunos mais experimentados na segunda língua (Hernandez et al., 1997; Perani et al., 1997). Presumivelmente isto se dá porque o falante principiante tem que recrutar mais recursos neurais para alcançar uma meta que era muito fácil para um falante mais avançado (o equivalente à quantidade de músculos que um adulto e uma criança têm que usar para levantar uma caixa pesada). A terceira possibilidade pode ser a mais interessante, e aquela com maior significância para nossos resultados de lesão focal. Nos primeiros estágios, as áreas envolvidas na atenção, na análise perceptual e na formação de novas memórias podem ser particularmente importantes. À medida que a tarefa se torna mais bem aprendida e mais automática, o bastão pode passar para regiões que são responsáveis pela reativação de padrões sobre-aprendidos, com menos atenção e menos análise perceptual. Um exemplo recente deste tipo de modificação qualitativa é registrado por Raichle et al. (1994), que observaram uma forte ativação fronto-cerebelar nos primeiros estágios de
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32 aprendizagem, substituída por uma ativação do córtex perisylviano após a tarefa ter sido dominada. (3) Maturação e "prontidão" ("readiness") Finalmente, a abordagem emergentista não deixa de lado a possibilidade de modificação maturacional. Os exemplos podem incluir gradientes de crescimento diferencial para os hemisférios esquerdo vs. direito (Chiro et al., 1997), taxas diferenciais de sinaptogênese ("desabrochamento sináptico") de uma região para outra no âmbito dos dois hemisférios (Huttenlocher, de Courten, Garey, & van der Loos, 1982), modificações de região para região na quantidade total de atividade neural (como indexada pela tomografia por emissão de pósitrons - Chugani, Phelps, & Mazziotta, 1987), variação em taxas de mielinação, e por aí adiante. Como resultado de modificações deste tipo (juntamente com os efeitos da própria aprendizagem na reformulação do cérebro - Marchman, 1993), deveríamos esperar encontrar modificações marcantes nos padrões de atividade associados ao processamento lingüístico em diferentes pontos no início da infância. Com base nestas suposições, voltemos aos nossos achados nos primeiros estágios do desenvolvimento da linguagem em crianças com lesão cerebral focal precoce, para ver o que estes resultados sugerem sobre o surgimento da organização cerebral para a linguagem em crianças normais. (1) Vantagem do hemisfério direito para compreensão de palavras e gestos dos 10-17 meses. Contrariamente a expectativas baseadas na literatura sobre a afasia adulta, encontramos evidências de maiores atrasos em compreensão de palavras e gestos em crianças com RHD. Isto é exatamente o oposto do padrão observado em adultos, onde os déficits na compreensão de palavras e na produção de gestos simbólicos estão associados ao LHD, sugerindo que algum tipo de deslocamento ocorre entre a infância e a idade adulta, com o controle sobre estas duas habilidades passado do hemisfério direito para o esquerdo. Este resultado (como notamos) é compatível com observações de Mills et al., sobre os padrões de ativação observados em resposta a palavras conhecidas da infância até a idade adulta. Há pelo menos duas explicações possíveis para uma modificação de desenvolvimento, e elas não são mutuamente excludentes.

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33 Por um lado, a vantagem inicial do RH poderia ser explicada por difíceis modificações maturacionais que são exógenas ao próprio processo de aprendizagem. Por exemplo, Chiron e seus colegas forneceram evidências de tomografias por emissão de pósitrons de uma modificação na ativação do estado de descanso por volta dos dois anos, a partir da ativação bilateral que é maior no direito, para uma maior ativação no esquerdo. Baseados nestes achados, eles sugerem que o hemisfério direito pode amadurecer mais rápido do que o esquerdo no primeiro ano de desenvolvimento. Ocorre que este é o período no qual a compreensão de palavra e gesto surge primeiro em crianças que estão se desenvolvendo normalmente. Por contraste, a produção de palavras surge no segundo ano e cresce dramaticamente por 30-36 meses, o período no qual (de acordo com Chiron et al.) o hemisfério esquerdo alcança o estado dominante que manterá pelos próximos anos. Daí podese argumentar que o hemisfério direito "se apossa" da compreensão e do gesto no primeiro ano, o hemisfério esquerdo "toma" o controle sobre a capacidade florescente para a produção no segundo ano, e eventualmente domina todo o sistema lingüístico-simbólico (incluindo a compreensão de palavras e de gestos dotados de significado). Por outro lado, também é possível que o deslocamento direito-para-esquerdo implicado por nossos dados reflita uma diferença qualitativa entre os processos de aprendizagem exigidos pela compreensão e os processos requeridos pela produção. A primeira vez que adivinhamos o significado de uma palavra (por exemplo, decodificando a palavra "cachorro" e cartografando-a em uma classe particular de animais), nós o fazemos integrando o input fonético com as informações de muitas fontes diferentes, incluindo o contexto visual, tátil e auditivo ("coisa marrom agitada que se move e late"). Argumentou-se que o hemisfério direito desempenha um papel privilegiado na integração multimodal e no processamento de grandes padrões (Stiles, 1995 - mais sobre isto abaixo), e por esta razão podemos esperar que o hemisfério direito desempenhe um papel mais importante quando as crianças estão aprendendo a compreender palavras pela primeira vez. Presumivelmente, esta vantagem do RH desaparecerá quando as palavras forem completamnte adquiridas, substituídas por um processo rápido, eficiente e automático de cartogtrafar sons conhecidos sobre padrões semânticos conhecidos (mais sobre isto abaixo). Se esta hipótese tiver seu mérito, então também podemos esperar encontrar evidências de uma maior participação do hemisfério direito nos estágios iniciais da aprendizagem de uma segunda língua em adultos, uma hipótese testável e que tem alguma sustentação (limitada).

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34 É muito menos óbvio como esta hipótese de desolocamento-para-a-estratégia pode explicar a vantagem inicial do RH nos gestos simbólicos. Apesar de admitidamente esta ser uma resposta especulativa, este achado pode estar relacionado a resultados para crianças normais, mostrando que a compreensão e o gesto estão altamente correlacionados entre os 9-20 meses de idade, aproximadamente (Fenson et al., 1994). Uma possível explicação para esta correlação pode estar no fato de que os gestos simbólicos são adquiridos no contexto da compreensão auditiva (por exemplo, "Dê adeuzinho para a vovó", "Abrace o neném"). Daí as duas habilidades podem estar reunidas em crianças muito pequenas porque são adquiridas em conjunto na vida real. (2) Déficits no vocabulário expressivo e na gramática com lesões frontais em qualquer dos hemisférios, dos 19-31 meses de idade . Nós observamos efeitos específicos de lesões envolvendo os lobos frontais em crianças entre 19-31 meses de idade, um período curto mas dramático do desenvolvimento que inclui a explosão do vocabulário e o primeiro florescimento da gramática. Ao contrário das expectativas baseadas na literatura sobre a afasia adulta, os atrasos na linguagem expressiva associados a lesões frontais eram simétricos, isto é, não havia diferença entre as lesões frontais à esquerda e as lesões frontais à direita. Há diversas razões pelas quais deveríamos esperar encontrar efeitos específicos de envolvimento frontal durante este importante período do desenvolvimento da linguagem expressiva, incluindo contribuições ao planejamento e à execução de padrões motores, e contribuições da memória de trabalho e/ou da marcante cadeia de habilidades conhecidas pelo termo "função executiva" (Pennimngton & Ozonoff, 1996). Entretanto, a ausência de uma assimetria direito-esquerdo é mais surpreendente. Nem encontramos quaisquer evidências de um efeito específico do dano frontal esquerdo em qualquer dos nossos estudos até hoje, em qualquer idade. Esta diferença entre crianças e adultos nos sugere que a área de Broca não é inatamente especializada para a linguagem. Ela se torna especializada no decurso do desenvolvimento, após um período inicial no qual o córtex frontal faz uma contribuição simétrica para o aprendizado da linguagem. (3) Déficits no vocabulário expressivo e na gramática com lesões temporais esquerdas dos dez meses aos cinco anos de idade. Este é o achado mais robusto e protuberante de nossos estudos prospectivos, e é a única evidência que temos para uma assimetria que pode estar sistematicamente relacionada com uma vantagem do hemisfério esquerdo para a linguagem no cérebro adulto. Note, entretanto, que o efeito aplica-se apenas à
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35 linguagem expressiva (ao contrário da expectativa de que o cótex temporal é especializado para a compreensão), e se aplica tanto ao vocabulário quanto à gramática (ao contrário da expectativa de que o cótex temporal está associado à semântica, enquanto que o córtex frontal lida com a gramática - Zurif, 1980). Nós propusemos que uma predispposição relativamente simples em estilo de computação pode estar na origem deste efeito temporal esquerdo, refletindo diferenças arquitetônicas entre córtex temporal esquerdo e direito que estão apenas indiretamente relacionadas às especializações funcionais e representacionais que são evidentes no processamento adulto da linguagem. Seguindo uma proposta de Stiles e Thal (1993), notamos que o córtex temporal direito e esquerdo diferem ao nascimento em sua capacidade de sustentar detalhes perceptuais (realçados no esquerdo) e integração perceptual (realçada no direito - ver acima). Estas diferenças são evidentes no processamento não-verbal, mas podem ter conseqüências particularmente importantes para a linguagem. Por exemplo, diversos estudos recentes demonstraram que lesões no hemisfério direito levaram a problemas na integração de elementos de uma cadeia conceitual, enquanto que lesões no hemisfério esquerdo criaram problemas na análise de detalhes perceptuais da mesma cadeia (por exemplo, Robertson & Lamb, 1991). Solicitados a reproduzir um triângulo composto de muitos quadrados pequenos, pacientes adultos com dano no hemisfério esquerdo tendem a reproduzir a figura global (isto é, o triângulo) enquanto ignoram informações em nível local. Pacientes adultos com dano no hemisfério direito apresentam o perfil oposto, reproduzindo detalhes locais (isto é, uma porção de pequenos quadrados), mas fracassando em integrar esses detalhes em um todo coerente. Stiles e Thal registram que crianças com lesão cerebral focal se comportam de modo bastante parecido com o de suas contrapartidas adultas na tarefa do local-global, sugerindo que a contribuição diferencial dos processos dos hemisférios direito e esquerdo nesta tarefa pode ser uma constante de desenvolvimento ( developmental constant). De modo interessante, esta dupla dissociação fica mais evidente em pacientes com envolvimento temporal, e o papel específico do córtex temporal esquerdo no processamento de detalhes perceptuais também foi confirmado em um estudo de fMRI de adultos normais engajados em uma mesma tarefa global-local (Martinez et al., 1997). A mesma diferença direito-esquerdo pode ser responsável por correlações sintoma/lesão que observamos no desenvolvimento inicial da linguagem. Como notei anteriormente, a habilidade de integrar informações por entre as modalidades pode ser particularmente útil e
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36 importante nos primeiros estágios de compreensão de palavras e (talvez) reconhecimento e reprodução de gestos familiares. Entretanto, a tarefa de aprendizagem se modifica marcadamente quando as crianças têm que converter os mesmos padrões sonoros em output motor. Neste ponto, os detalhes perceptuais podem ser de extrema importância (isto é, uma coisa é reconhecer a palavra "cachorro", mas outra completamente diferente é extrair cada detalhe fonético e elaborar um padrão motor). Se for o caso de que o córtex temporal esquerdo desempenha um papel crítico na extração, no armazenamento e na reprodução de detalhes perceptuais (visuais e/ou acústicos), então as crianças com lesões temporais esquerdas estarão em maior desvantagem nesta fase de aprendizagem (veja também Galaburda & Livingstone, 1993; Galaburda, Menard, & Rosen, 1994; Tallal, Sainburg, & Jernigan, 1991. Entretanto, uma vez que os padrões exigidos estejam finalmente elaborados e ajustados em rotinas bem aprendidas, a desvantagem temporal esquerda pode ser bem meos evidente. (4) Nenhuma evidência de correlações lesão/sintoma após 5-7 anos de idade. Todos os mapeamentos lesão/sintoma acima parecem ter desaparecido quando testamos crianças com a mesma etiologia congênita após os 5-7 anos de idade. Apesar desta conclusão se basear primariamente em achados cruzados seccionais, os poucos casos que pudemos estudar longitudinalmente ao longo desses períodos de desenvolvimento são compatíveis com os resultados de cruzamento seccional, fornecendo evidências adicionais para a plasticidade e para a organização compensatória no decurso do desenvolvimento da linguagem. Claro que é inteiramente possível que achemos um novo e melhorado índice de eficiência em procesamento de linguagem que traga informações sobre os sutís déficits remanescentes, por exemplo, um efeito residual do envolvimento temporal esquerdo que aparece no processamento de sentenças em tempo real e/ou na produção de sintaxe complexa, sob certas condições laboratoriais. No mínimo, entretanto, podemos concluir com alguma confiança que estas crianças encontraram uma forma de organização cerebral para a linguagem que funciona muito bem, certamente bem o suficiente para o uso diário da linguagem. Enquanto um grupo, as crianças com lesão cerebral focal tendem a apresentar uma menor desempenho do que os controles de mesma idade neurologicamente intactos. Mas estas diferenças também tendem a desaparecer quando a pequena diferença de grupo em QI global é levada em consideração (Bates, Vicari, & Trauner, no prelo).

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37 Se o padrão familiar da organização do hemisfério esquerdo para a linguagem não for crítico para o funcionamento lingüístico normal, por que ele se desenvolve então, em primeiro lugar? Para responder a esta pergunta nós temos que fazer uma "modesta proposta" baseada nos achados de desenvolvimento e princípios de desenvolvimento listados acima, como se segue. (NT – Esta “modesta proposta” é uma referência à Modest Proposal etc. de Jonathan Swift (1729), indicando ironia). Antes da instalação do desenvolvimento da linguagem, o cérebro infantil não tem nenhuma representação inata da linguagem, nem tem um "processador de linguagem dedicado" de qualquer tipo. Entretanto, a arquitetura inicial (pré-lingüística) do cérebro infantil é altamente diferenciada. A estrutura global de input-output do cérebro é muito bem especificada (por exemplo, a retina se reporta ao córtex visual, a cóclea se reporta ao córtex auditivo), apesar de ainda poderem haver diversos axônios exuberantes que poderiam (se não forem eliminados no decurso normal do desenvolvimento) sustentar uma forma alternativa de arquitetura global, se eles forem necessários. Há também variações inatas (independentes da experiência) de região para região em densidade celular, densidade sináptica, velocidade de proessamento e tipos de neurotransmissores que são expressados (Hutsler & Gazzaniga, 1996). Além disso, apesar do bebê ter pouca experiência do mundo, o córtex infantil foi inundado com informações do próprio corpo. Como Damasio notou (Damasio, 1994), o cérebro é uma platéia cativa do corpo, e o corpo fornece os primeiros e mais confiáveis inputs que o córtex em crescimento jamais receberá. Isto inclui impressões sensoriais da superfície do corpo, feedback cinestésico dos próprios movimentos da criança, e ondas confiáveis de atividade dos centros cerebrais inferiores (por exemplo, input bilateral e competitivo dos núcleos visuais de níveis inferiores que, sabemos, é crítico para o estabelecimento de padrões de dominância ocular - Miller, Keller, & Stryker, 1989; Shatz, 1992). Daí, apesar de poder não haver controle genético direto sobre a conectividade sináptica no nível cortical, o recémnascido inicia sua vida com um cérebro que foi colonizado por inputs sensóriomotores de seu próprio corpo, estabelecendo os parâmetros básicos dentro dos quais todo o restante do desenvolvimento comportamental terá lugar. Estes fatos combinam com as diferenças regionais de arquitetura cortical descritas acima, arrumando a cena para o desenvolvimento pós-natal da cognição e da comunicação, incluindo o desenvolvimento da gramática (MacWhinney, 1999). Como resultado de todas estas forças, o bebê chega à tarefa de aprendizagem da linguagem com um pesado conjunto de predisposições sobre como as informações deveriam ser
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38 processadas. Algumas destas predisposições são simétricas (por exemplo, o papel do córtex frontal no controle dos movimentos voluntários), outras são assimétricas (por exemplo, as predisposições locais/globais descritas acima). Depois da lesão cerebral focal, estas predisposições aparecem nos mapeamentos iniciais de lesão/sintoma que descrevemos acima, mas eventualmente são superadas por pressões competitivas que definem a plasticidade e o desenvolvimento tanto no caso normal como no anormal. Entretanto, em crianças sadias sem lesão cerebral focal, estas predisposições informam o desenvolvimento da organização cerebral para a linguagem em algumas direções altamente previsíveis. Em particular, o córtex temporal esquerdo chega a desempenhar um papel crescentemente importante na extração do sinal lingüístico rápido e evanescente - primeiro na construção de padrões motores para combinar inputs lentos e dos quais se pode depender, mais tarde na construção de significados complexos tanto para a compreensão como para a produção (eventos que esperaríamos ver tanto na linguagem sinalizada como na falada - Petitto et al., 1997). Em resumo, sob condições normais (isto é, na ausência de lesão cerebral focal), o córtex temporal esquerdo ganha o contrato da linguagem. Apesar de não haver nenhuma predisposição assimétrica em favor do córtex frontal esquerdo nos estágios iniciais do desenvolvimento, o "vencedor" temporal esquerdo recruta seus parceiros na parte frontal do cérebro ( in the front of the brain), estabelecendo o conhecido circuito ipsilateral que caracteriza a mediação lingüística do hemisfério esquerdo em adultos neurologicamente intactos. Neste ponto (e não antes), a área de Broca tem uma tarefa especial. Esta é nossa proposta para a cascata de eventos que são responsáveis pelos padrões de organização cerebral para a linguagem que estão por trás de duzentos anos de pesquisas sobre a afasia adulta, e centenas (chegando aos milhares) de estudos de imagem neural de ativação da linguagem em adultos normais. Sem dúvida, esta proposta terá que passar por considerável revisão à medida que novas informações se tornem disponíveis, mas estamos convencidos de que a história final terá que ser uma história na qual o desenvolvimento e a experiência desempenhem um papel crucial. A plasticidade não é um sistema de defesa civil, um conjunto de procedimentos de emergência que só são invocados quando algo dá errado. Antes, os processos responsáveis pela reorganização do cérebro depois de lesão cerebral focal precoce são os mesmos processos que organizam o cérebro sob condições normais. É tempo de se exorcisar o fantasma de Franz Gall, trocando a visão frenológica estática da organização cerebral por uma abordagem dinâmica que reconcilie a lingüística e a ciência cognitiva com a neurobiologia do desenvolvimento.
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