Dissertação: Como expor ideias ou defender objetivamente um ponto de vista

Formada em direito e letras pela Universidade de São Paulo, da qual foi professora, Marleine Paula Marcondes e Ferreira de Toledo é autora de "O Ato de Redigir" (Nankin Editorial), uma das obras mais abrangentes sobre o tema, pelo fato de reunir interdisciplinarmente conhecimentos linguísticos, semióticos, filosóficos e - por que não? - jurídicos, de modo a compreender todos os elementos que entram em campo na hora de se escrever qualquer tipo de texto. Aqui, em entrevista exclusiva, a professora Marleine fala especificamente sobre um gênero textual - a dissertação - que é fundamental para vestibulandos e estudantes do ensino médio e superior, em todas as áreas. Em que sentido a dissertação-argumentação é um gênero textual que merece destaque? A dissertação-argumentação está presente no dia-a-dia de todas as pessoas. Portador de razão e vontade, o homem está a toda hora expondo suas ideias, julgando, avaliando, criticando tudo a seu redor. Em outras palavras: está sempre dissertando ou argumentando. Podemos dizer que existem duas maneiras diferentes de dissertar? Sim. Podemos falar em dissertação expositiva, em que se expressam ideias sobre determinado assunto, sem a preocupação de convencer o leitor ou ouvinte. Já a dissertação argumentativa implica a defesa de uma tese, com a finalidade de convencer ou tentar convencer alguém, demonstrando, por meio da evidência de provas consistentes, a superioridade de uma proposta sobre outras ou a relevância dela tão-somente. Em termos de conhecimento, de discurso científico, onde a dissertação está presente? Por envolver conceitos, juízos, reflexões e ideias, a dissertação é aplicada a todas as áreas do saber. Daí a necessidade de os estudantes de todas as áreas conhecerem bem esse procedimento redacional, tarefa que, se não é fácil, também não é difícil, desde que o interessado se incline a observar suas técnicas sutis e a fazer exercícios contínuos. Quais seriam as dificuldades da dissertação? A eventual dificuldade para o ato de redigir uma dissertação explica-se pelo fato de que ela exige de quem escreve amadurecimento no assunto tratado, conhecimento da matéria, pendor para a reflexão, raciocínio lógico, potencial argumentativo, capacidade de análise e de síntese, além do domínio de expressão verbal adequada e de estruturas linguísticas específicas. Mais especificamente, agora, o que é argumentação? Uma argumentação é uma declaração seguida de provas. Pierre Oléron define o ato de argumentar como: "método pelo qual uma pessoa - ou um grupo - intenta levar um auditório a adotar uma posição através do recurso a apresentações ou a asserções - argumentos - que visam mostrar a validade ou fundamento daquela". Mesmo sob o risco de ser redundante, vale perguntar: a argumentação difere da dissertação? Não. Ela é uma dissertação com uma especificidade, a da persuasão. Dissertando apenas, podemos expor com neutralidade ideias com as quais não concordamos. Por exemplo, um professor de filosofia que não concorde com as ideias de Karl Marx pode expô-las com isenção, dissertando sobre elas. Mas se for um marxista convicto e quiser influenciar seus discípulos, tentará provar-lhes, com raciocínios coerentes e argumentos convincentes, que essas ideias são verdadeiras e melhores: estará, então, argumentando. Pode-se dizer que a argumentação é uma demonstração? Se um limite da argumentação é a dissertação expositiva, o outro é a demonstração. Para Tércio Sampaio Ferraz Júnior, jurista e filósofo do direito, a demonstração fundamenta-se na ideia de evidência, que é a força perante a qual todo

Como você resumiria essas "partes" da argumentação? A argumentação deve iniciar-se com a apresentação clara e definida do tema ou do juízo que se tem em mente e irá ser comprovado. com a reafirmação da tese. e 'um ponto de chegada'. onde se indica o que se quer dizer. A "terceira fase" consiste em exibir contraprovas ou contra-argumentos e refutá-los. isto é. Já a argumentação abrange as "técnicas discursivas que permitem provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses" que lhes são apresentadas. como disse Oléron na obra já citada. Construir o plano é.A Nova Retórica". Na "última parte". onde se conclui. estabelecer as divisões". isto é negá-los. Não sabe como iniciar. Nas palavras de Boaventura. Edivaldo M. toda prova consiste em uma redução à evidência. em primeiro lugar. . a argumentação precisa ter como ponto de partida elementos da lógica formal. Entre os dois. A tese defendida não se impõe pela força. embora se trate de categorias diferentes. porque não sabe como desenvolver e como concluir.pensamento do homem normal tem de ceder. Parece que aí você toca num ponto importantíssimo para o estudante. Assim. Como organizar ou estruturar uma argumentação? No livro "Como Ordenar as Ideias". Normalmente. O que é preciso para argumentar? Para argumentar é preciso. Assim. Boaventura resume muito bem aquilo que o bom-senso diz a respeito de todo o texto escrito: "A arte de bem exprimir o pensamento consiste em saber ordenar as ideias. É comum colocarem-se os argumentos em ordem crescente de importância. não se deve confundir "os aspectos do raciocínio relativos à verdade e os que são relativos à adesão". ou síntese recapitulam-se os argumentos apresentados e conclui-se. A "segunda parte" da argumentação destina-se a oferecer as provas ou argumentos que confirmem a tese.portanto toda argumentação "tem vínculos com o raciocínio e a lógica". saber pensar. simplesmente porque não organizou um plano. como dizem Chaïm Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca em seu "Tratado da Argumentação . há as etapas. o aluno de redação manifesta sua angústia: "Não sei como iniciar". E como se ordenam as ideias? Fazendo a previsão do que se vai expor". encontrar ideias e concatená-las. com objetos próprios. as 'partes' da composição. mas pelo uso de "elementos racionais" . em última análise. "o plano é o itinerário a seguir: 'um ponto de partida'. no raciocínio demonstrativo. Portanto.

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