Marília Novais da Mata Machado - Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo - Sonia Roedel (orgs.

)

PSICOSSOCIOLOGIA análise social e intervenção
André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost

Psicossociologia
Análise social e intervenção

André Lévy André Nicolaï Eugène Enriquez Jean Dubost ORGANIZADORES Marília Novais da Mata Machado Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo Sonia Roedel COLABORADORAS: Regina D.B. de Barros Teresa Cristina Carreteiro

Psicossociologia
Análise social e intervenção

Belo Horizonte 2001

Copyright © 2001 by Os Organizadores Primeira edição publicada pela Editora Vozes (Petrópolis/RJ), em 1994. Capa Jairo Alvarenga Lage Editoração eletrônica Waldênia Alvarenga Santos Ataide Revisão de textos Erick Ramalho Editora responsável Rejane Dias

P974

Psicossociologia; análise social e intervenção / André Lévy et al.; organizado e traduzido por Marília Novais da Mata Machado et al. – Belo Horizonte: Autêntica, 2001. 264p. ISBN 85-7526-022-7 1.Psicologia social. 2. Levy, André. 3. Machado, Marília Novais da Mata. I. Título. CDU 316.6

2001
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos, eletrônicos, seja via cópia xerográfica, sem a autorização prévia da editora.

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SUMÁRIO

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO
Marília Novais da Mata Machado, Eliana de Moura Castro, José Newton Garcia de Araújo e Sonia Roedel...........................................

07

PREFÁCIO
Marília Novais da Mata Machado e Sonia Roedel...................................... 09 Parte I –

Análise social

ANÁLISE SOCIAL E SUBJETIVIDADE
Eliana de Moura Castro e José Newton Garcia de Araújo............................ 17

O PAPEL DO SUJEITO HUMANO NA DINÂMICA SOCIAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 27

A INTERIORIDADE ESTÁ ACABANDO?
Eugène Enriquez.......................................................................................... 45

O VÍNCULO GRUPAL
Eugène Enriquez.......................................................................................... 61

O FANATISMO RELIGIOSO E POLÍTICO
Eugène Enriquez.......................................................................................... 75

CONJUNÇÃO, NA EMPRESA, DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR, COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL
André Lévy................................................................................................... 91 Parte II – A

psicossociologia em exame

PSICOSSOCIOLOGIA EM EXAME
Teresa Cristina Carreteiro............................................................................. 107

A PSICOSSOCIOLOGIA: CRISE OU RENOVAÇÃO?
André Lévy................................................................................................... 109

A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO
André Lévy................................................................................................... 121

........................................Psicossociologia – Análise social e intervenção RUPTURAS...................... 133 IDENTIFICAÇÕES EXPERIMENTAIS E INOVAÇÕES SOCIAIS André Nicolaï........................................................................................................... 237 6 .......................................................................................................................................................................................................................... 171 INTERVENÇÃO COMO PROCESSO André Lévy...................................................... MUTAÇÕES E COMPLEXIFICAÇÃO EM ECONOMIA André Nicolaï........................... 185 DA FORMAÇÃO E DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS Eugène Enriquez......... 211 AS ORIGENS TÉCNICAS DA INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA E ALGUMAS QUESTÕES ATUAIS Jean Dubost............ 165 NOTAS SOBRE A ORIGEM E EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICA DE INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Jean Dubost.................. 143 Parte III – Intervenção psicossociológica INTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICA Regina D..................................................................... Benevides de Barros.........................................................................

A coletânea de textos que o compõem interroga e constrói a psicossociologia. reais. cada vez mais utilizada.PREFÁCIOÀSEGUNDAEDIÇÃO É com grande satisfação que vemos este livro chegar à sua segunda edição. tal como no momento da primeira edição. sociólogos e um economista. a administração e a política. a educação. bem conhecida e divulgada no Brasil. o direito. da organização e do funcionamento social. O fortalecimento do CIRFIP – Centro Internacional de Pesquisa. a psicanálise. A psicanálise seguiu sendo uma das principais teorias inspiradoras. Desde a primeira edição. Junho de 2001 Os organizadores 7 . principalmente em suas vertentes sociológica e psicossocial. fruto do trabalho de psicólogos. dispositivo de consulta e pesquisa. por meio da “intervenção psicossociológica”. hoje. o campo da psicossociologia cresceu. Assim. quanto para os que praticam a psicologia. prático e metodológico. a sociologia. feita à partir de análises sociais de práticas realizadas em situações concretas. pois apresenta justamente os fundamentos e a história dessa disciplina que se fortalece: esboça uma teoria do socius. A sua perspectiva clínica ganhou espaço. tornou-se ainda mais importante. esclarecedoras dos processos de criação do social. este livro. Por tudo isso. a economia. cuja história é nele revista e avaliada. o livro continua sendo de interesse para os estudiosos das ciências humanas e sociais em geral. mas novas e originais elaborações teóricas foram desenvolvidas. esta transdisciplina simultaneamente teórica e prática. tanto para os que se dedicam à reflexão teórica. Formação e Intervenção Psicossociológica – acompanhou todo esse vigor teórico. À metodologia de intervenções/pesquisas. juntou-se o levantamento e análise de histórias de vida.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 8 .

fez aparecerem certos problemas. Em conseqüência. dedicou-se ao estudo de sujeitos abstratos. organizações e comunidades. a metodologia de pesquisa-ação. se revelassem. em seus grupos. empregando para tanto. grupos. por sua presença. inicialmente. os psicossociólogos criaram a intervenção psicossociológica. freqüentemente através de experimentos. Portanto. até então desconhecidas. Seu campo é bem delimitado: é o dos grupos. excluíram os métodos nos quais as decisões eram tomadas de maneira unilateral pelo pesquisador. Por meio dessa abordagem. são o objeto de pesquisa. das organizações e das comunidades. geridos e transformados. igualmente. com as instâncias de mudança. permitiu que um novo tipo de discurso fosse enunciado. as condutas concretas dos indivíduos. nas quais o psicossociólogo tinha o papel de um pesquisador-interventor. respondendo a uma demanda e adotando uma posição de analista. A ênfase à concretitude foi o divisor de águas que estabeleceu a especificidade da Psicossociologia frente à Psicologia Social e que se refletiu na diversificação das metodologias inicialmente utilizadas: enquanto a Psicologia Social. Atuando diretamente na vida dos grupos. a Psicossociologia interessou-se pelo estudo de sujeitos em situações cotidianas. no quadro da vida cotidiana. Passaram a se preocupar. reflexão e análise dessa disciplina. abandonaram totalmente uma certa prática de pesquisa-ação que estudava grupos artificiais e. que condutas. considerados como conjuntos concretos que mediam a vida pessoal dos indivíduos e são por esses criados. em especial. isto é. o pesquisador-prático. organizações e comunidades. 9 .PREFÁCIO A Psicossociologia é uma vertente da Psicologia Social. A partir dos anos 50. ele teve acesso aos processos conscientes e inconscientes que aí atuavam e às condutas lingüísticas que as pessoas realizavam. relação de colaboração na qual os problemas são prioritários com relação aos métodos. dissociados de seu papel social real de sujeitos concretos.

de onde e como surge a dinâmica social. na crença exacerbada em valores estimados como transcendentes. Reencontra indivíduos que caem facilmente no fanatismo. adquire um sabor de novidade. É essa trajetória teórica que se pretende apresentar neste livro. a Psicossociologia redescobre sujeitos pulsionais. DUBOST). podendo se tornar os principais agentes de suas próprias evoluções e das de seus grupos e organizações (J. mesmo que involuntariamente. pois a teorização é fruto da reflexão que. da sublimação e de um imaginário que facilitariam a solidariedade entre os homens. da organização e do funcionamento social. Porém. pouco a pouco tecido. sujeitos capazes de serem autônomos. e do processo de criação institucional. 60 e 70. no qual um convite à análise e à reflexão é repetido em cada texto. irmãos apenas no complô contra os que são representados como diferentes. é formulada uma teoria. a mudança social (A. LÉVY). sujeitos que são verdadeiros autores e atores. que a análise talvez pouco abale uma instituição que se imagina estável. Paulatinamente. A partir da análise social instaurada com a intervenção psicossociológica. retirando sua originalidade sobretudo de sua construção teórica. hoje ela se renova. torna visível a presença do sujeito social. contra esse pano de fundo. já sendo a priori evidente que a opacidade do social não será eliminada. Ora. e serem criadores da história. no “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). disputando tanto mais com seu semelhante quanto mais iguais figurem ser. de transformações nos sistemas sociais (A. chega-se ao conhecimento e à explicação da natureza do vínculo que congrega os indivíduos. são capazes de realizar “esse obscuro objeto do desejo”. sujeitos que. por um ato de decisão. foi possível também constatar o trabalho da pulsão de vida. fortemente movidos por sentimentos ambivalentes de amor e ódio. mobilizados por ilusões e crenças. encontra também sujeitos capazes de saírem desse “imaginário enganoso”. NICOLAÏ). dos desejos de onipotência e dominação. a partir de eventos da vida cotidiana e de intervenções psicossociológicas. que 10 . Teoria e prática se confundem nessa tarefa. sempre inacabada. buscando certezas através das quais vão abrandar seus sentimentos de desamparo e impotência. com suas mudanças e rupturas. aptos a um “imaginário motor”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. que é também um ato de palavra. do socius. idealizando e buscando destruir seus chefes. Ao lado do reconhecimento de uma ordem social marcada pela luta de todos contra todos. nos termos de E. do trabalho da pulsão de morte. ENRIQUEZ. se foi esse vínculo estreito entre pesquisa e ação que caracterizou a Psicossociologia dos anos 50.

Política. T. Psicologia Clínica (J. o desenvolvimento de um processo organizacional. DUBOST. estruturas dissipativas. é analisada. LÉVY. assim como. convida a nomear e a analisar novas práticas sociais e novas formas de ação coletiva. S. de seus desejos de afirmação narcísica e de reconhecimento. ROEDEL). ENRIQUEZ) não se lança mão apenas da Psicanálise. aqui e ali. de suas demandas de amor e proteção. considerando a sociedade como um conjunto hierarquizado de sistemas de ação. formadoras das sociedades atuais e futuras. mas também de outras referências. como sistemas dinâmicos. da MATA-MACHADO. J.Prefácio o exame minucioso de todo grupo. CASTRO. são analisadas novas ideologias. A. o da qualidade total e o do corpo passível de ser eternamente jovem. a condição de construção da vida social. de suas fantasias de onipotência. que pensa em termos de sistemas e de modos de produção. 11 . CARRETEIRO. ARAÚJO. Eugène ENRIQUEZ. Teresa Cristina CARRETEIRO e Regina D. são apresentados nesse livro por Marília N. Sociologia. MATA-MACHADO). B. de ARAÚJO. está presente em quase todos os textos. os conceitos recentemente formulados nas ciências “duras”. E. o pensamento filosófico de C. Assim. nomes consagrados na França mas ainda pouco conhecidos dos leitores brasileiros. autopoieses. são analisados mitos tão diferentes como o da sociedade transparente. a respeito das suas representações historicamente constituídas. André LÉVY e André NICOLAÏ –. de BARROS. práticas de intervenção mitificadas. nestas páginas. toda organização e toda comunidade pode ser indefinidamente continuado. TOURAINE que. Essa teoria fundamenta inclusive a crítica a uma Sociologia abstrata. normas e formas de pensar o mundo que orientam os diversos atores sociais. enfim. Os textos são permeados pela Sociologia da Ação de A. entretanto. apontando para as representações imaginárias do social e para questões referentes à autonomia e à heteronomia. e ressalta as mudanças preparadas por grupos pertencentes a movimentos sociais. Mas nada impede a reflexão e a análise a respeito dos valores. José Newton G. auto-organização e complexificação a partir do ruído. Para essa reflexão “desmistificadora e desmitificadora” (E. CASTORIADIS. relações de poder e autoridade. assim como novos sagrados e certezas. BARROS. O que reúne essa equipe é seu interesse pela área das Ciências Humanas e a perspectiva transdisciplinar com a qual abordam não apenas suas disciplinas específicas – Psicologia Social (R. M. Sonia ROEDEL. Os autores – Jean DUBOST. formuladora de grandes quadros teóricos mas. Eliana de Moura CASTRO. distanciada das situações concretas reais onde se dão os fatos sociais. Assim.

a partir do exame de uma centena de textos.). LÉVY). ROEDEL). Essa primeira proposta. na França. NICOLAÏ (mimeogr. a seleção dos artigos aqui apresentados foi feita por M. mostrando a situação da evolução do pensamento teórico dos autores. MATA-MACHADO – Psicologia Social). UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais (J. distribuídos em três partes. ARAÚJO. 1990-1. ENRIQUEZ. “identificações experimentais e inovações sociais” – A. ROEDEL. CARRETEIRO). T. CASTRO – Psicanálise. ENRIQUEZ). 1991. Paris X (J. muitos dos quais trazidos pela equipe francesa.Foram escolhidos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Direito (E. ENRIQUEZ. E. M. T. MATAMACHADO). especialmente. mutações e complexificação em economia” – A. julgou-se indispensável incluir dois textos – “O vínculo grupal” (E. CARRETEIRO – Psicologia Clínica – e E. todos esses intelectuais têm em comum o fato de trabalharem em universidades – Universidade de Paris VII (E. FUNREI – Fundação de Ensino Superior de São João del Rei (S. mais da metade dos artigos apresentados neste livro foi publicada depois de 1989: “O papel do sujeito humano na dinâmica social” – E. a maior parte dos brasileiros tem o título de doutor por universidades francesas (Paris VII: J. “Rupturas. Inicialmente. CASTRO. Paris XIII (A. a disciplina que os congrega. mantidos entretanto os critérios da primeira seleção. na empresa. “A Psicossociologia: crise ou renovação? – A. com a história de uma região: o processo de criação institucional” – A. ENRIQUEZ) e “A mudança: esse obscuro objeto do 12 . ENRIQUEZ. Os membros dessa equipe estão formalmente ligados através de convênio de intercâmbio científico patrocinado. Dois deles eram inéditos no momento da seleção: “Conjunção. Além desse território de pesquisa. “A interioridade está acabando? – E. LÉVY (mimeogr. DUBOST. de um projeto pessoal e familiar. NICOLAÏ) – mas. “O fanatismo religioso e político” – E. NICOLAÏ). Foi feita uma primeira escolha de 14 artigos que seriam distribuídos em quatro partes. a Psicossociologia. pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior) e.Em segundo lugar. pelo COFECUB ( Comité Français d’Evaluation de la Coopération Universitaire avec le Brésil). . BARROS. NICOLAÏ. ENRIQUEZ) e Economia (A. resultando em treze textos. 1989. Assim. A. 1990.). LÉVY. feita em novembro de 1991: . Paris XIII: M. ARAÚJO. no Brasil. 1990-1. MATA-MACHADO e S. UFF – Universidade Federal Fluminense (R. cobrindo questões atuais. primeiramente. em função do mencionado convênio. textos recentes. sofreu modificações. estudada tanto pela equipe francesa quanto pela brasileira (que compreende outros membros além dos organizadores e colaboradores).

A segunda – Psicossociologia em Exame – é uma avaliação crítica da evolução da área e. contrapondo as origens a temas recentes (“As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais” – J. de acordo com a tradução portuguesa do Vocabulário de Psicanálise de LAPLANCHE e PONTALIS). LÉVY. As traduções foram revistas por J. preferiu-se “fantasia”. “Intervenção como processo” – A. Por exemplo. o grupo e a questão da mudança. Seus nomes aparecem. de atividades e produções criadoras. Mais de uma dificuldade de tradução. Psicanálise do vínculo social. CASTRO e M. a palavra forclusion tem aparecido em português como “foraclusão”. certamente refletindo posturas teóricas diferentes. Todas as traduções foram feitas por professores universitários ou por estudiosos ligados. “Notas sobre a origem e evolução de uma prática de intervenção psicossociológica” – J. . algumas aterrorizantes. contudo. na primeira nota de rodapé.Prefácio desejo” (A. foi objeto de discussão e comparação. alguns mostrando a evolução do pensamento psicossociológico (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas” – E. ARAÚJO. Por exemplo. 1976. 1980. DUBOST. através da análise etimológica. 1987). o termo lien social foi traduzido por “vínculo social”. A primeira – Análise Social – apresenta a construção teórica feita na disciplina. ENRIQUEZ. “forclusão” ou “preclusão”. NASCIUTTI para o livro de E. editado por Jorge Zahar. E. para designar 13 . respectivamente. Outro exemplo: para a palavra fantasme (fantasia ou fantasma. em cada texto. Esses artigos foram organizados em três grupos que correspondem às três partes do livro. MATA-MACHADO. optou-se por uma seqüência de textos de caráter histórico. apresenta a intervenção. CARRETEIRO e J. à Psicossociologia e à Psicanálise. além de ser uma parte de retrospectiva histórica. LÉVY) – uma vez que marcam um ponto de transição teórica na forma de conceber. esse dispositivo de consulta e pesquisa que fundamentou e inspirou a construção teórica. mantendo-se a tradução utilizada por T. 1980) e um texto que faz uma retrospectiva desse pensamento. a possível confusão com a fantasia carnavalesca só auxilia a aproximação com esse mundo imaginário. Buscou-se uma certa uniformização. por estar dicionarizada (Novo Dicionário Aurélio) e por permitir. DUBOST. a última tradução foi preferida. mantiveram-se termos como “fantasmático”. em maior ou menor grau. finalmente. a terceira – Intervenção Psicossociológica –. a apreensão de seu sentido original.Em terceiro lugar. ENRIQUEZ: Da horda ao Estado. Utilizou-se a palavra “narcíseo”.

expressão bastante usada em português. a critério do tradutor. entretanto. nosso primeiro leitor.“relativo a narciso”. para a palavra enquête. foi igualmente traduzida por “pesquisa”. Agradecemos a colaboração de José Walter Albinati SILVA. Finalmente. essa foi a escolha. seguindo o fluxo corrente das traduções de textos psicanalíticos. quando a referência era obviamente a um “levantamento de dados”. que procedeu a uma cuidadosa revisão final. Marília Novais da Mata Machado Sonia Roedel . seguindo o Novo Dicionário Aurélio ou “narcísico” e “narcisista”. não se utilizou uma tradução uniforme: empregou-se “pesquisa” na maior parte das vezes. na expressão méthodes d’investigation. a palavra investigation.

Parte I Análise social .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 16 .

funcionando independentemente dos sistemas ideológicos ou de outras “sobredeterminações” que falam por aquele que fala. ENRIQUEZ confessa sua antiga “irritação” com o sucesso das teses sustentadas principalmente pelos discípulos de FOUCAULT (sobre a morte do sujeito) e 17 . seja porque elas põem a nu alguns ranços de nossas posições teóricas ou da “visão de mundo” que inspira o conjunto de nossas práticas cotidianas. LÉVY e E.ANÁLISESOCIALESUBJETIVIDADE Eliana de Moura Castro José Newton Garcia de Araújo A leitura dos artigos que compõem a primeira parte deste livro nos coloca em contato com alguns temas de rara atualidade. não se trata também de simplesmente “matar” o sujeito. A primeira delas diz respeito a uma discussão sobre o sujeito. a idéia de um “eu”. Cabe.2 cificidades na articulação entre o psicológico e o social. Mas não poderia ser diferente. visto como uma unidade da consciência ou do psiquismo. por exemplo) situados na gênese da violência que permeia a “afetividade coletiva”. marcando suas espe. no entanto. aquilo que lhe cai nas mãos. visto que todo leitor recebe. Eles descartam. à sua maneira. A terceira se volta sobre o esquecido e fascinante tema da interioridade. A segunda discute alguns fenômenos (a intolerância. a cada leitor se deter naquelas questões que lhe parecerem mais inquietantes. ENRIQUEZ abordam o tema do sujeito sob um ponto de vista que nos ajuda a compreender melhor o lugar onde eles situam a Psicossociologia. no enfoque psicossociológico. preenche ou interpreta. No entanto. como quiseram algumas correntes das ciências humanas. vamos selecionar três questões para as quais dirigimos nossos comentários. corremos o risco de enfatizar arbitrariamente apenas alguns de seus conteúdos. O sujeito que não “morreu” A. desde o início. seja porque elas demandam um exercício novo de reflexão.1 Pois bem. Ao apresentar tais artigos.

dentro de uma história regional e de um sistema complexo que envolve a terra. apenas a uma outra elite? Não seria apenas recentemente. Assim. a empresa-família é anterior ao sujeito. convém observar que. a chamada “sociologia do cotidiano”. entre outras coisas. antes de tudo. um átomo talvez. por exemplo. por exemplo. ligada a uma prática clínica. a polêmica suscitada por tais teses estaria há muito “esfriada”. notadamente através da teoria lacaniana.3 Seria incorreto dizer que esse “reaparecimento” do sujeito se deu mais lenta ou tardiamente. mesmo na França. ela é 18 . entre nós.. notadamente aquela dos “grandes homens”? Em outras palavras: como explicar o incontestável “culto da personalidade”.6 Isso é claro para os autores. nos artigos aqui apresentados. suas relações próximas e regulares. os autores caminham numa direção que. situando todo o resto – especialmente o sujeito – apenas na esteira de seus efeitos? E até que ponto – valho-me de outra observação de ENRIQUEZ – seria privilégio do pensamento “de direita” encarar a história sob o ângulo da ação individual. não estariam restritas. só então deixando de lado toda uma tradição discursiva. que distinções do tipo “sujeito falado” e “sujeito falante” foram “popularizadas” no ensino universitário ou no interior das instituições de formação psicanalítica. nos parece em parte negligenciada. no momento da grande divulgação da Psicanálise no Brasil. as discussões sobre o descentramento ou a “subversão” do sujeito. E. Não se trata nem de matá-lo nem de ressuscitá-lo como uma entidade absolutamente autônoma. como um período de redescoberta do indivíduo ou da subjetividade.”. no desenrolar da história da revolução?5 Já num outro campo. no conjunto das discussões sobre o sujeito. LÉVY. vemos que o “indivíduo” é. o da Psicanálise. um sociólogo ligado à formação de lideranças sindicais em Minas Gerais. já na virada dos anos setenta. e não mais sobre os grandes dispositivos sociais. se interrogava diretamente sobre “o sujeito individual. um ponto de passagem.Psicossociologia – Análise social e intervenção ALTHUSSER (sobre a história como um processo sem sujeito). mais próxima de uma self-psychology? Pois bem.. principalmente em algumas vanguardas intelectuais e políticas? Há algum tempo. nos disse que os anos mais recentes dessa formação (ele se referia já aos anos noventa) poderiam se caracterizar.4 Então: até que ponto essas “vanguardas” só permitiam que se nomeassem as “estruturas” ou o “determinismo absoluto dos processos sociais”. a família. A esse respeito. o ofício ou o produto. No texto de A. nas décadas anteriores. em relação a homens como LENIN ou MAO? Como explicar a exaltação “individual” de alguns heróis marxistas.

só sabendo repetir ou reproduzir o funcionamento social. identidade coletiva. ele alude tanto a um imaginário cultural quanto a um “projeto de família” ou a um narcisismo “regional” das pequenas diferenças. narcisismo grupal. Mas qual seria a contribuição maior desses autores? De um lado. é sabermos distinguir os fenômenos ligados a essa concepção de sujeito coletivo e os fenômenos oriundos da onda de individualismo – um fenômeno sem dúvida coletivo –. antes de mais nada. os autores colocam em destaque um aspecto específico da constituição do sujeito. Desse modo. Assim sendo. num crescente alienar-se. espírito de empresa. mas que reenvia. a um processo de massificação que acaba justamente por ameaçar o sujeito. além de desempenhar. sempre imprevisível. enfim. por exemplo. as relações sociais. Importante ainda. isto é. segundo os autores. do qual alguém como o dirigente é apenas um prolongamento. ENRIQUEZ aponta aqui a diferença entre as noções de indivíduo e sujeito.” De outro lado. narcisismo social. Ele destaca ainda. através da noção (via CASTORIADIS) de heteronomia: todo indivíduo só existe ou funciona “no interior de um contexto social dado. é alguém capaz de produzir uma certa “anormalidade”7 em relação aos padrões sociais. tenta introduzir uma mudança de si mesmo. que a história de uma empresa revela um trabalho psíquico individual mas sobretudo coletivo. tenta transformar “o mundo. os processos sociais “nunca regulam completamente a conduta individual. aquela de afirmar que o indivíduo só é parcialmente heterônomo. A. um papel essencial nas transformações sociais”. de uma cultura particular que desenvolve suas ‘significações imaginárias específicas e que dita em parte sua conduta’”. Ela é aqui veiculada através de expressões como “narcisismo das pequenas diferenças”. Essa dimensão “grupal” da subjetividade merece atenção especial. ENRIQUEZ retoma essa posição. O primeiro é aquele que se agarra.Análise social e subjetividade um projeto de seus antepassados. Daí também o estilhaçamento da “bela unidade do indivíduo”. “no momento em que falamos. pois este. pois ele tem sempre uma “parcela de originalidade e autonomia”. quem está falando e por que falamos dessa maneira”. sua constituição “plural” ou coletiva. através de FREUD. 19 . a identificações coletivas rígidas ou a um coletivo totalitário. as significações das ações”. daí a ilusão da identidade pessoal. a onda do individualismo acabaria por suprimir o sujeito. “às vezes sem sabê-lo. fanatismo de empresa etc. a questão das identificações múltiplas: não sabemos. LÉVY nos lembra. “mesmo aceitando as determinações que o fizeram tal como ele é”. já que “somos uma pluralidade de pessoas psíquicas” ou que o eu é um terreno por onde transitam múltiplos “visitantes”.

em diversos momentos.) deve ser eliminada. fanatismo e outras manifestações daquilo que ENRIQUEZ denomina “referências duras e estabilizadas”. amor (ou cumplicidade?) mútuo. Conseqüências imediatas: toda alteridade (outros grupos. Mas as ideologias petrificadas acabam gerando suas réplicas ou o seu avesso. que se refere a um núcleo de fenômenos essencialmente coletivos. científicas etc. algum tempo após as notícias.8 Essas “ideologias petrificadas” são também assunto de fartos noticiários na mídia brasileira. ora nos grupos que já se impuseram em uma dada cultura ou sociedade. pois ela se torna uma ameaça. pois sua ação – presumem – tem a marca do sagrado. A primeira: é importante considerarmos que o recrudescimento das ideologias nazistas e de um racismo generalizado não são um privilégio da Europa Central. mas que tentam ainda se expandir. como se tinha notícia até pouco tempo. o grupo se atribui uma aura de excepcionalidade. como a intolerância e o fanatismo. xenofobia. outras idéias. além de poupar toda interrogação sobre o valor ou o sentido de seu projeto (seja esse projeto político.. os nordestinos. cabem algumas observações. estamos falando de mecanismos inconscientes). além da sua. tentando eliminar dele os negros. E aí florescem as condutas totalitárias e massificadas.. ilusão e crença.. mas exemplar. religiosas. sobre os skinheads verde-amarelos a imprensa também informou sobre a existência de um grupo denominado Nação Islã. científico ou outro qualquer). presentes ora nos grupos nascentes e minoritários. Basta lembrar. A isso se ajunta a observação – importante e oportuna – de que o estofo da afetividade grupal não é a racionalidade (afinal. O que os seus membros fazem é incontestável para eles mesmos. mas sim os processos de idealização.Psicossociologia – Análise social e intervenção As “referências duras” ou as sementes da violência grupal Passemos agora à segunda questão. esportivo. “céticos quanto à eficiência do Estado”10 se armam contra “as violências cometidas pelos carecas e pela polícia contra negros. árida novidade. Falamos da ocorrência cada vez maior – inclusive no Brasil – de episódios de intolerância.. E aí o vínculo grupal se exterioriza em forma de violência: ódio ao exterior.9 composto por militantes islâmicos negros que. sentimento de “sermos portadores” da verdade etc. objeto do noticiário nacional: querem garantir um “futuro glorioso” para o nosso país. que os skinheads já têm seus representantes no Brasil.” 20 . os judeus e. outras propostas políticas. O grupo não suporta nenhuma outra verdade. Esses musculosos jovens de cabeça raspada já se tornaram. como um fenômeno “periférico”. Assim. religioso. no início de 1993. Assim. A essa altura.

seja num grupo democrático. tão presente nas igrejas evangélicas e católicas (o movimento “carismático” arremeda. os rituais “emocionais” dos programas de auditório das tevês brasileiras. isolada e coletivamente. contrapor as noções de sujeito e interioridade. uma questão mencionada mais de uma vez tanto por LÉVY quanto por ENRIQUEZ: em todo projeto grupal. Enfim. Interioridade – metáfora espacial A terceira questão que nos propomos a comentar aqui diz respeito à interioridade. Gostaríamos de lembrar. noção de origem literária e filosófica. no Sul do Brasil. o vazio do sentido de qualquer projeto e de qualquer ação. num clima onde toda crítica está ausente. é também no bojo da xenofobia que vemos aparecer um movimento separatista. onde se perenizem as vivências de eternidade e de totalidade. cada sujeito está perseguindo. a fim de refletir sobre o sentido e o estatuto 21 . onde o ritual é banalizado e seu simbolismo empobrecido). poderíamos nos referir também a narcisismos e intolerâncias em diversas outras “cenas coletivas”.Análise social e subjetividade Aliás. Não são portanto de modo nenhum insensatas as teorias que assimilam a vida grupal à idéia de um sonho12 (ANZIEU) ou à idéia de um círculo fechado (FONTANA)13 onde não haja “brecha” alguma. onde a evocação dos termos “nós” ou “nosso(a)” teria efeitos de um regulador social e de um redutor das angústias individuais:11 nossa saga familiar. resvala necessariamente para a intolerância. em níveis talvez menos contundentes. E. nossa igrejinha teórica e/ou acadêmica. livrando o indivíduo e o grupo de um “desespero” impossível de suportar. ela deve ser doadora de sentido. Em outras palavras. principalmente aqueles que se atribuem uma identidade ideológica. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados. nesse movimento de fechar-se em si mesmo. mas empregada freqüentemente no campo da Psicologia. por analogia. Vale lembrar as investidas do fanatismo religioso. nosso partido de direita ou de esquerda etc. a ação grupal deve cobrir um vazio. a eterna questão do sentido. seja num grupo intolerante. O que se torna problemático. o espectro do Integralismo está nos revisitando e o racismo reaparece com suas múltiplas caras. nosso grupo body-building. às vezes. Poderíamos. infantilizando os “fiéis”. Digamos isso de outra maneira: se o inconsciente “desconhece” o tempo e a morte. rapidamente. sejam elas brancas ou negras. é que o grupo passa a não suportar a alteridade e sua “busca de sentido”. nossa “seita” de comedores vegetarianos. nosso time de futebol. não escapam setores conhecidos de nossos partidos políticos. Dessa mesma linha “fanáticoreligiosa”. ele desconhece também. já de início.

segundo o autor. da mesma forma como nega que se possa falar do vazio. na Filosofia antiga. A questão do espaço. a não ser por arrombamento. que não é recente. os dados imediatos da consciência são pura qualidade. Mas cabe principalmente destacar que ela não se afigura como um conceito que inclua o inconsciente. de uma discussão paralela àquela entre ser e não-ser. onde ninguém tem o direito de penetrar.Psicossociologia – Análise social e intervenção dessa última. 22 . Se esse sentimento nem sempre existiu. Talvez seja. A interioridade remete. A compreensão da interioridade é. filósofo que centra sua reflexão na dimensão temporal. Toda representação da interioridade se desenvolve numa especialização. parece transcender o tempo ou estar menos sujeita à dimensão temporal. foi discutida em termos do cheio. interessante lembrar que a interioridade é muitas vezes dolorosamente percebida como uma sensação de vazio interior. o que é pura duração. A interioridade. o que nos permitiria mesmo aludir a uma hegemonia do espaço. na esfera psicossocial. Para ele. alegria. tanto por parte dos empresários quanto dos fanáticos religiosos. em se pensar espacialmente. E embora não possa ser tomada como sinônimo de interior. a interioridade possibilita uma outra abordagem da inserção do singular no social e do choque das forças em conflito. sendo que a intuição do homem é sempre virtualidade motora ou apreensão espacial. para ela. pois. num certo sentido. ameaçado de extinção.14 O espaço da percepção é o conjunto de movimentos virtuais. é numa relação espacial que ela se inscreve. Por outro lado. mas a inteligência tende a espacializar o que é fluxo qualitativo. interrogações e que. questionamentos. PARMÓNIDES não admite que se possa falar do não-ser. ENRIQUEZ define a interioridade como sendo “o sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior. íntima. à alternativa interior x exterior. em oposição ao vazio: trata-se. vítima de ataques. Aliás. é ‘uma terra estrangeira’”. condicionada pela especialização (e aqui a crítica bergsoniana procede. quase que imediatamente. ele existe atualmente e está. pois. mostra que a apreensão de nós mesmos é condicionada por uma organização onde domina a especialização. parece haver uma tendência. Só o ser existe e ele é cheio. por ser da ordem da especialização. o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento. ela seria mais facilmente sentida e intuída do que tematizada. pois o que é essencialmente da ordem do qualitativo é dificilmente apreendido como tal). BERGSON. Escapando às problemáticas da morte do sujeito e da sua divisão.

A percepção do espaço remete à visão. Nessa relação de passagem do exterior para o interior. porque especular. ao que marca a diferença. É interessante notar que a criança exprime a relação com o objeto primeiramente por identificação: eu sou o objeto. O aparelho perceptivo se situa no limite dentro-fora. eu não sou.Análise social e subjetividade A grande dificuldade na apreensão da interioridade é a passagem do interior para o exterior. a identidade própria. Assim. A interioridade define o sujeito de um ponto de vista espacial: o interior é diferente do exterior. meio de se situar no mundo. bonito. foram abaladas pela Psicanálise. As idéias de permanência. Pode-se dizer que o sentido de interioridade reside sobretudo na noção de receptáculo de riquezas ou monstruosidades que a pessoa percebe de forma mais ou menos clara. quase que uma obsessão em relação ao próprio território. temos de falar nos órgãos dos sentidos. O culto exagerado do corpo. separada. Já os estímulos provindos do interior chegam sem redução. unidade e similaridade. o recalque nada mais é do que a fuga de uma ameaça interna. considerando o 23 . isto é. enérgico e jovem) é garantia de sucesso individual. depois da perda do objeto.16 um escudo protetor que defende o organismo contra estímulos externos. a pele se liga à formação do eu. capta os estímulos exteriores e também os internos. segundo o modelo adotado em relação ao perigo externo. Dito de outro modo. e essa questão tem a ver necessariamente com o corpo. Um corpo dinâmico (isto é. pois o organismo não dispõe de proteção nesse sentido. Existe. que pode ser descrito como um narcisismo de morte. O dinamismo e a eficiência profissional são buscados através do treinamento corporal. ela é capaz de dizer: eu tenho. sendo os orifícios os lugares privilegiados de troca com o exterior. aponta para uma relação direta entre dentro e fora (narcisismo de morte. O conceito de eu-pele de ANZIEU15 chama a atenção para essa superfície – a pele – que faz a demarcação do dentro e do fora. sendo ao mesmo tempo o container e o meio de comunicação com o outro. na época atual. isto é. Limite e superfície privilegiada de estimulações. só permitindo a percepção de pequenas quantidades. saturada de comunicação. O ter é ulterior. A conseqüência dessa situação é uma tendência a tratar o que vem de dentro como se se originasse do exterior. denotadas pelo termo identidade. ENRIQUEZ aborda o processo de idealização do corpo. o que se vê por fora é um reflexo do interior. diferenciando o interno do externo. diz FREUD. Já a identidade marca a diferença. Há. refletindo a si mesmo). pois o conceito de inconsciente vem perturbar profundamente o caráter unitário do psiquismo.

em sua obra Lector in Fabula (trad. Dessa passividade podemos inferir o caráter estático da interioridade e isso faz ressaltar o papel das forças sociais que a agridem. o fato de ser uma noção construída a partir da espacialidade faz dela uma metáfora limitada do psiquismo. pelo fato de que ela aparece sobretudo como uma região espacial metafórica. à concepção de uma interioridade psíquica que está sujeita a todas as investidas externas. francesa Grasset. As propostas absolutizantes. é passiva. isto é. já dissemos. oferecer uma resistência passiva. quer como sentimento pessoal. em outros termos. é no cenário da espacialidade que essa ameaça se realiza. ARAÚJO. Esta última questão foi elaborada por Eliana de Moura CASTRO. naquilo em que ele é diferente do outro. pois. Por isso.Psicossociologia – Análise social e intervenção conteúdo que constitui o sujeito. pela empresa ou pela sociedade. por ser essencialmente espacial. O espaço de dentro é o lugar ao mesmo tempo da certeza de si próprio e do seu lado desconhecido. só podendo. feitas pela religião. Assim. de outro lado. a interioridade considerada. 2 24 . Afinal. a interioridade é mais palpável (quase que literalmente). enquanto as duas primeiras ficaram a cargo de José Newton G. A imposição de um padrão idealizante de comportamento e de pensamento implica uma “profunda” agressão à intimidade da pessoa. é que ela remete à vida consciente e não ao inconsciente. É por seu cunho espacial que a interioridade comporta um caráter estável e estático. Em outras palavras. é certamente desprovida de energia ou. entre outras coisas. porque confrontadas à interioridade (e não à identidade. e como bem captou ENRIQUEZ. Ele diz. isto é. Notas 1 Humberto ECO. Essa dimensão do inatingível e do secreto constitui a interioridade. Finalmente. resta-nos reafirmar que a noção de interioridade comporta certa ambivalência teórica: de uma lado. ao eu e muito menos ao sujeito). O oculto. se tornam assim mais claras. do outro que eu sou. a imagem do dentro carnal corresponde a uma imagem do dentro espiritual. 1985) nos aponta essa singularidade do lugar do leitor. Uma tal instância parece estar realmente à mercê dos ataques perpetrados por uma sociedade cruel. o seu manejo “espacial” apresenta vantagens de apreensibilidade. quer como conceito psicológico. nenhuma leitura é um ato neutro. o profundo – e aqui a referência espacial é clara – marca a individualidade. E o mais importante. que todo texto é um tecido de espaços em branco. com interstícios a serem preenchidos pelo leitor. no campo da argumentação psicossociológica.

mais perto de nós. P. p. líder da extrema-direita francesa. A matéria se refere a uma empresa gaúcha. publica uma reportagem intitulada “Quarto Reich – nazismo no ar”. Paris. por isso mesmo. BALANDIER comenta (e esse artigo é de 1983) que o mais importante da multiplicidade de pesquisas sobre a vida cotidiana é que esse “movimento recente. principalmente após as recentes eleições da Rússia. Esse autor comenta que os termos nó e círculo.. Alain RENAUT (cf: L’ère de l’individu. como um instrumento terapêutico. p. a vida grupal seria experimentada como 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 25 . O autor evoca J. vol. A adesão a uma ideologia leva o indivíduo a um mundo de trocas com o outro. a questão dos fornos crematórios nos campos de concentração. a incontestável condenação desta figura do sujeito devesse se traduzir pelo abandono puro e simples de qualquer referência à subjetividade” (op. Paris: Gallimard. 50-53. Conseqüentemente. p. em seu número de 1º/12/93. “Essai d’identification du quotidien”. Le groupe et l’inconscient: l’imaginaire groupal. visando negar os massacres cometidos pelo Terceiro Reich (entre outras coisas.. reportagem da revista Isto É. D. Assim. 1970. (Cf: ANSART. Não vem ao caso evocar aqui a ameaça do racismo na Europa do Leste. inferidos da etimologia do termo e da elucidação do conceito de grupo. nas quais o Sr. o culto à figura de GUEVARA. fez reaparecer o sujeito. 13). 29-31) afirma que. face às estruturas e aos sistemas”. de 28/04/93. 1978) para quem a normalidade seria “uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo”. Para ele. “como se todo uso da noção de subjetividade devesse inevitavelmente aludir a um sujeito inteiramente transparente a si mesmo. In: Cahiers Internationaux de Sociologie. 1983. p. De outro lado. 1989) chama nossa atenção para uma simplificação das discussões sobre a idéia de sujeito. p. Paris: Gallimard. Paris: Dunod. Lembremos. não esqueçamos também a intolerância no interior das sociedades muçulmanas. n. G. desembocam na idéia central de uma conexo fechada. Seu objetivo é uma “revisão” da história do nazismo. por Jean-Marie LE PEN. encontrando aí as condições de gratificação narcísica. Essa mesma revista. BALANDIER. nessa mudança. senhor de si e do universo e como se. McDOUGALL (cf: Plaidoyer pour une certaine anormalité. tomo XXIX. o dono dessa editora diz que o massacre dos judeus teria sido uma “montagem da mídia”). em nível individual. na Biblioteca Nacional de Paris. 1975-1976.. Paris: Bordas. em seus níveis mais profundos. 5-12. 445-449). 322. soberano. cit. 1984. à medida em que estrutura as economias psíquicas e funciona como um aparelho redutor de angústia. SELLIER (cf: Le mythe du héros. Observação semelhante já fora feita. In: Bulletin de Psychologie. empenhadas numa guerra dita religiosa e que leva aos extremos o endurecimento ideológico grupal. além de serem historicamente contestáveis. uma boa metade dos livros consagrados a heróis são livros russos e posteriores à Revolução de 1917. que incontestavelmente “sustentou a fé” de várias gerações. P. “Discours politique et réduction de l’angoisse”. alguns anos atrás. vendendo livros e vídeos pelo Brasil afora.Análise social e subjetividade 3 Cf. P. Cf. na América Latina e mesmo na Europa. não passavam de “mero detalhe”. concedeu-se também lugar à vida privada e não apenas às “grandes causas” trabalhista e revolucionária. LXXIV. uma editora de propaganda nazista. Cf: ANZIEU. JIRINOWSKI saiu vitorioso. ANSART vê a ideologia como um sistema simbólico que favorece a regulação social.

D. 1977. XVIII vol. semelhante à vivência intra-uterina. 1976. ss. 42. Além do princípio do prazer (1920). 120 ed. ANZIEU. p. 1985. 68. (Cf: FONTANA (A) et al. H.) 14 Cf: BERGSON. 15 16 26 . Entre outras alusões a essa questão. 1967. Buenos Aires: Editorial Vancu. Rio de Janeiro: Imago. Paris: PUF. p. El tiempo y los grupos.Psicossociologia – Análise social e intervenção infinita e atemporal. Paris: Dunod. S. Essai sur les données immédiates de la conscience. da edição Standard das Obras Completas de Sigmund Freud. Le moi-peau. ver: FREUD.

2 A razão é simples: como muitos outros autores. em grupos e organizações. não é porque esse tema voltou violentamente que vou abandoná-lo. O indivíduo torna-se. em maior ou menor grau. só se fala do indivíduo. pareceu-me o sinal do triunfo de teorias que enaltecem. que nega a interrogação de D. No momento atual. a argumentação que proponho se afasta da que tem sido habitualmente apresentada. um ser falado. o indivíduo só pode endossar condutas enunciadas como legítimas por sua nação. fiquei irritado com o sucesso das teses sobre a morte do sujeito (desenvolvidas por discípulos dogmáticos de Michel FOUCAULT) e com as teses sobre a história como processo sem sujeito (L. por um lado. fui um dos primeiros a abordá-lo e não tenho nenhuma razão para me desdizer. como psique. que decidi me manifestar. ele nunca é um ser falante nem um autor de seus atos. 27 . pois. do aumento do individualismo. ALTHUSSER). LAGACHE. Com efeito. ao invés. As grandes determinações sociais estão enterradas (sem dúvida um pouco precipitadamente demais) e. meu propósito é susceptível de ser considerado como modismo. sob o pretexto de que o pensamento “de direita” só tinha encarado a história sob o ângulo da ação dos grandes homens. Seguindo essas abordagens. pareceu-me sempre aberrante fazer desaparecer o indivíduo humano do movimento da história. É contra essa tendência reducionista. sua classe ou sua raça.OPAPELDOSUJEITOHUMANONADINÂMICASOCIAL1 Eugène Enriquez O tema que abordarei tem retido minha atenção há vários anos. como lugar de condutas significativas e como ser em interação contínua com outros. do sujeito. um determinismo absoluto dos processos sociais. mesmo sem dizê-lo. De minha parte. No entanto. assim. ele participa da dinâmica de uma determinada sociedade. por outro lado. segundo a qual “o papel das personalidades individuais na história não pode ser descartado a priori”. Fazer desaparecer o indivíduo ou o sujeito (voltarei mais tarde à distinção que é possível fazer entre esses dois termos). um ser agido.

Freqüentemente. Em outras palavras. heterônima. no entanto. a anterioridade dos processos sociais. em uma etnia. “a possibilidade de saber que alhures.5 a fim de que eles desempenhassem seu papel de garantia das vidas psíquica e social. mas como estando submetida a um Sagrado Transcendente. as sociedades nunca são totalmente heterônimas. é impossível analisar a conduta de um indivíduo sem referi-la à conduta dos outros para com ele. logicamente. já que ela não se pensa como sendo o produto da ação histórica e da atividade psíquica de seus membros. Nessas condições. portanto. de uma cultura particular que desenvolve suas “significações imaginárias” (CASTORIADIS)3 específicas e que lhe dita. em parte voluntariamente. o esvaziamento da história (já que a história tem um sentido predeterminado. zonas inexploradas. quer seja por Deus – BOSSUET. conformados a seus votos e a seus ideais. a cada homem. Elas crêem em seus Deuses e em seus mitos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Para ir diretamente ao cerne do assunto. ou de um Deus único. LENIN) e o do papel do indivíduo em um processo que se desenvolve segundo uma lógica implacável. CASTORIADIS. BURKE. tendência a só produzir indivíduos heterônimos. que lhe deu direito à existência. todo indivíduo é fundamentalmente heterônomo. em uma nação etc. num lugar-tela. quer pelo desenvolvimento das forças produtivas – MARX. é que a distância não pode mais ser mantida e que é possível situar a sociedade completamente (ou quase completamente. que pode tomar a forma de totens. ao mesmo tempo. De fato. Uma tal sociedade heterônima tem. de antepassados e de Deuses. Nessas condições. sua conduta. porque toda sociedade comporta falhas. ou seríamos constrangidos a nos alinhar à tese que quero combater: a do determinismo social que traz. ela própria. já que nascemos sempre em um grupo. em parte inconscientemente. DE MAISTRE –. se projetam os desejos mais insatisfeitos e ficar seguro de que esse alhures não virá invadir o aqui da vida cotidiana”. em parte. em uma classe. elas souberam mantê-los “à maior distância possível”. gostaria de partir de uma consideração trivial: todo indivíduo nasce em uma sociedade que instaurou. numa sociedade que é. mas deixassem também.6 Só quando os religiosos cedem ao desejo de instaurar um Estado teocrático. para retomar a terminologia de C. além disso. uma cultura. mas só até certo ponto (Paul VEYNE4 teve razão ao perguntar se os gregos acreditavam em seus mitos). isto é. portadoras de 28 . Essa emergência acontece. Não é necessário. que pode exigir o sacrifício de seus membros pela causa que encarna. é preciso pressupor. ele só existe e só pode funcionar no interior de um social dado. conduta estruturada social e culturalmente. ir muito longe nesse sentido.

Deve-se. sobretudo. Acrescentarei ainda que o indivíduo desempenha sempre. contra a vontade da massa.8 Enfim. choca-se a condutas que se referem a outros valores e hábitos. um discurso dominante. visitados ou não pelo espírito de Calvino e pela idéia de ascese intramundana. souberam deixar sua parte ao religioso sem lhe atribuir uma autoridade essencial sobre as consciências nem um papel central na organização. Embora exista. Elas se tornaram. Mas. na medida em que sua psique se estrutura progressivamente. Além disso. sem sabê-lo. não se pode esquecer que o discurso. esse discurso é modulado diferentemente pelos diversos grupos e classes que compõem essa sociedade e. a trocar sua natureza pela de um térmita. uma “parcela de originalidade e de autonomia”. ele sempre estará inclinado a defender seu direito à liberdade individual.7 Quanto ao indivíduo humano. como FREUD aponta: não parece que se possa levar o homem.O papel do sujeito humano na dinâmica social mudanças possíveis) do lado da heteronomia. às vezes. desde a Revolução Francesa. em pessoas e grupos sempre diferentes. desde a Renascença e. devemos nos lembrar que cada indivíduo é um desvio em relação a todos os outros. a médio ou a longo prazo. Notemos que as sociedades modernas. pelo menos de imediato e. não reina totalmente sobre as consciências e os inconscientes e que ele provoca fenômenos de rejeição. se põem a acumular riquezas. Alguém inventa uma máquina a vapor. como dizem FRITSCH e PASSERON. até mesmo se choca. Milhares de artesãos arruinados e de camponeses esfaimados encontram-se disponíveis para entrar nas fábricas. como evocava FREUD. fanático. não a um contra-discurso organizado mas. Reis continuam a se 29 . portanto. em certos casos. ignorando soberanamente a ideologia dominante. É claro que conseqüências danosas podem decorrer de tal discurso. outro um novo tear. em toda sociedade. seja lá por que modo. Filósofos e físicos tentam pensar o universo como uma grande máquina e buscam encontrar suas leis. um papel essencial nas transformações sociais. concluir que o indivíduo mais heterônimo (mais conformado aos imperativos sociais) está sempre em condições de demonstrar. mesmo sem percebê-lo. às vezes. de maneira invisível. apoiando-se nas funções corporais. cada vez mais fundadoras delas mesmas e afastaram um pouco seu aspecto heterônimo e. O que escreve CASTORIADIS a respeito do nascimento do capitalismo esclarece esse ponto: Centenas de burgueses. ele também só é parcialmente heterônimo. por mais totalitário que seja.

pois não há tarefa mais elevada do que desempenhar a missão que lhe foi confiada. a vitória nunca sendo definitiva. apenas um elemento do processo de massificação. O winner sempre pode se tornar o looser. seu tempo. dominando os homens pelo terror e pela opressão interiorizados). E esse diretor continuava: “Quero ver vocês todos como uma única cabeça”. que gostam de tomar iniciativa e gostam do risco. performance sempre a recomeçar.Psicossociologia – Análise social e intervenção subordinar e a debilitar a nobreza e criam instituições nacionais. Nessa ética. não é bom fazer parte dos que não são combatentes. estes últimos nunca regulam completamente a conduta individual. então. ela pode ser bem efêmera.9 Assim. Tendo argumentado que a heteronomia completa não pode existir. ainda mais porque não são desprovidos de ambigüidade. No entanto. Se cada um deve manifestar sua singularidade. objeto de tantas preocupações. a individualização. sua família) pela organização da qual ele veste a camisa. Ao contrário. Poderei também precisar as diferenças que estabeleço entre indivíduo e sujeito (mesmo observando que essas diferenças podem ser de natureza ou simplesmente de grau). do seu serviço. mas é o homem da performance mensurável. O conformismo está diretamente implicado em uma tal concepção do individualismo. é. deve fazê-lo porque todos os outros estão submetidos à mesma injunção. os processos sociais. o elemento esportivo predomina. sempre imprevisível. Assim. “matadores frios”. se os processos psicogenéticos pressupõem. o resultado – o capitalismo – é de uma ordem completamente diferente. cada um deve ser criativo à sua maneira. Assim. Max WEBER não se enganava quando escrevia: “Quando 30 . de ambivalência e de contradição (salvo no caso da “horda primitiva” ou de uma sociedade que erigiu um Estado total. Uma nova ética puritana se organiza: o vencedor deve experimentar uma ascese. mas a criatividade torna-se uma norma irrefutável. deve se sacrificar (sacrificar sua vida. Ele deve gozar com essa renúncia. Todos os indivíduos e grupos em questão perseguem fins que lhes são próprios. vencedores que querem ir até o fim. relativa ao papel do indivíduo e do primado do individualismo. Um diretor de pessoal de uma grande empresa dizia recentemente a seus gerentes: “Todos vocês devem se tornar criativos”. Ninguém visa à totalidade social enquanto tal. que estão prontos a se “exaurir” pelo triunfo da equipe. porque o homem de sucesso não é o homem nobre nem o virtuoso. em nossa época. da sua organização. fico mais à vontade para me distinguir de uma certa tendência do pensamento contemporâneo. mais freqüentemente. De fato. como sublinha CASTORIADIS.

Tem repercussões e impacto profundo em todos os membros da sociedade. designava por “zé-ninguém”. mas que. quando se fala do indivíduo. Admira o pensamento que ele não concebeu. hoje em dia. tem-se no pensamento um indivíduo conformado. a busca da riqueza. na maioria das vezes. o “culto da empresa”. Todos os indivíduos devem ter agora o espírito de empresa. ter exportado seus valores para fora de seu campo restrito. em geral. O “zé-ninguém” está sempre. ou ainda.O papel do sujeito humano na dinâmica social o exercício do dever profissional não pode ser ligado a valores espirituais e culturais mais elevados. algumas vezes mostrando-se mais “realista que o rei”. Ele atinge. além disso.11 os que tendem a se tornar transmissores dos ideais da sociedade.10 Assim. nos hospitais. Nos Estados Unidos. naquele tempo. um novo ritual. igualmente. pelo próprio fato da empresa ter conseguido vender sua paixão pela eficácia ao conjunto do corpo social e. o indivíduo renuncia. Ele dissimula sua pequenez e sua estreiteza de espírito por trás de sonhos de força e de grandeza. características de um esporte. O “zéninguém” ignora que ele é “zé-ninguém” e tem medo de ter consciência disso. A adesão à “cultura da empresa” torna-se dogma. aqueles a quem chamamos vencedores. desvestida de seu sentido ético-religioso. Esse movimento de conformismo não fascina somente os indivíduos que trabalham na indústria e no comércio. financeiras ou de prestígio. REICH. a justificá-lo”. o que lhe confere. não se restringe a pessoas susceptíveis de obter satisfações tangíveis. Orgulha-se dos grandes chefes de guerra. onde seu paroxismo predomina. nas universidades. quer se trate de pessoas que trabalhem na empresa. em vez de admirar o que ele concebeu. a renúncia ao pensamento como prazer de representação ininterrupta e processo destinado a todos os homens. Como escreve REICH: O grande homem sabe quando e em quê ele é “zé-ninguém”.12 Por isso é que ele pode propagar a “peste” emocional. que deve funcionar segundo comportamentos que agradem à sociedade. 31 . igualmente. que ele se desfazia de sua capacidade de liberdade e de produção de idéias. assim. É particularmente perturbador o fato de que esse movimento não apenas invade todos os campos da vida social. os que W. REICH mostrava que o “zé-ninguém” admirava tanto os que ele acreditava serem grandes. posições de poder. na primeira fila para aplaudir os grandes e dar consistência a todos os movimentos autoritários de tipo mais ou menos fascistizante. tende. atrás da força e da grandeza de outros homens. a se associar a paixões puramente agonísticas. para depositar seu destino nas mãos dos outros. mas não se orgulha de si mesmo.

a condição de produção e de representação de indivíduos que se situam mais na heteronomia do que na autonomia. Ela transmite uma mensagem de serenidade: a ordem social existe e nos preserva de toda interrogação fundamental a seu respeito (especialmente sobre o caos originário. ela lisonjeia nosso próprio narcisismo. É por isso que o indivíduo pode aceitar recalcar seus desejos. favorecendo a singularidade na massificação buscada e aceita por grandes. tentar interpretá-lo e demarcar sua abrangência. depois de descrever esse fenômeno. é. Só com essa condição será possível refletir sobre o que constitui o surgimento do sujeito. Resta-me. Miramo-nos no espelho que nos é estendido pelo próprio objeto de nossa admiração. Em outras palavras. Além disso. rejeitado pelas autoridades tutelares que assumem o papel de pais benevolentes. portanto. Quanto mais os ideais são necessários à constituição do sujeito. o mecanismo central que permite a toda sociedade instaurar-se e manter-se e a todo indivíduo viver como um membro essencial desse conjunto. A idealização permite a cada um sentirse parte interessada no devir social e ser liberto de seu desamparo original. Esses indivíduos heterônimos (levando-se em conta que a heteronomia total não existe nesse mundo) precisam. evocado por FREUD no Futuro de uma Ilusão. nós próprios nos tornamos admiráveis. apresentando-se como objeto maravilhoso. reprimir suas pulsões.Psicossociologia – Análise social e intervenção O processo de individualização. médios ou pequenos homens. às vezes. Por que a idealização desempenha um papel tão importante? Porque ela nos tranqüiliza profundamente: uma sociedade idealizada. Se adoramos chefes que encarnam ideais fortes ou sociedades aparelhadas de virtudes admiráveis. o que devemos fazer e como seremos recompensados. é a melhor garantia de nossa estabilidade psíquica. de repressão e de adesão. ser um agente ativo desses processos de recalque. a sociedade dá um sentido preestabelecido a nossas diversas ações e nos indica. pois lhe fornecem uma base e o poder de escolher entre ações legitimadas pela sociedade – ou por suas próprias exigências pessoais –. A idealização é. eles funcionam (mais do que vivem) sob a égide da doença do ideal. idealizar a sociedade e os ideais que ela propõe. angústia de estar sem proteção e ser abandonado. correndo um mínimo possível de riscos. sempre ameaçador). aderir profundamente às injunções sociais e. o mundo criado não é contestável. tanto mais a doença do ideal (a idealização) desempenha um papel fundamental na edificação de uma sociedade e de indivíduos heterônimos. então. Ele troca sua liberdade pela segurança de manter seu narcisismo individual. assim. para existirem. agora bem conhecido. apoiado 32 .

uma massa maior de homens. graças a esse jogo identificatório. está cheia de perigos. o racismo. nós próprios nos dissolvemos enquanto portadores de uma identidade irredutível à dos outros. dificilmente. que sentido pode ter ganhar por ganhar.O papel do sujeito humano na dinâmica social pelo narcisismo grupal ou social (pois cada grupo ou cada sociedade quer formar um “nós” indissociável). qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo para a renúncia ‘definitiva’ à identidade real. um capitalista. tem como futuro possível a xenofobia. um proletário. A identidade coletiva favorece ainda. estamos divididos e angustiados. consumir por consumir?) Ora.13 Reencontrar a coesão.14 o “narcisismo das pequenas diferenças”. É necessário precisar esse último ponto. pelos vínculos do amor [e eu mencionaria os da fascinação. de simplesmente não ser. De fato. provocando a idealização (quando as causas a defender e os projetos a realizar não são evidentes). DEVEREUX expressa-o muito bem: O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – e isso. eles suscitam a aceitação ou a identificação. G. é imputar os problemas ao outro. o narcisismo social. o fanatismo. através desse processo. Perdemos progressivamente nossos marcos identificatórios. de que podemos ter marcos identificatórios mutáveis ao longo de nossa vida e de que. estamos perto de não ser absolutamente nada e. contraditórios. podemos escapar à pré-formação desejada pela sociedade e não nos tornar indivíduos totalmente heterônimos. é se voltar ao grupo de pertinência. freqüentemente. os ideais são múltiplos. graças a identidades coletivas fortes. enquanto o século XIX nos tinha dado como ideal o progresso infinito do espírito humano em sua vontade de domínio científico do mundo. ideais vazios e desprovidos de sentido. Vivemos em sociedades nas quais. É recusar (como já apontei anteriormente) o fato de que somos o produto de identificações múltiplas. um budista. da sedução ou da obrigação]. mesmo se os ideais que elas têm a nos propor são. 33 . de fato. Se somos apenas um espartano. a tentativa de refazer identidades coletivas fortes. (Com efeito. que tem como efeito “unir uns aos outros. A identidade coletiva. portanto. como mostrou FREUD. É o momento em que as identidades pessoais começam a deteriorar e as sociedades tentam redefinir identidades coletivas fortes. Vivemos um déficit de ideais transcendentes. produzir por produzir. sem se dar conta de que. com a única condição de restarem ainda outros de fora para serem alvos de ataques”. nas quais. ao nosso “nós”.

ao menos. ao fanatismo religioso e político que permite a indivíduos de uma cultura não suportarem o menor desvio da parte de outros que compartilham a mesma cultura. que visa à transformação da totalidade enquanto tal. Vê-se. quanto mais a identidade coletiva existe. criança. O indivíduo que adere sem falha a esse tipo de cultura só pode se sacrificar por ela e comportar-se de forma heterônima. tem como projeto voluntário. sempre tem em si mesmo os recursos para se libertar das malhas do social). A essa figura do indivíduo individualizado opõe-se seu inverso: a figura do sujeito. aceitando as determinações que o fizeram tal como é. portanto. as relações sociais. o indivíduo singular. esquecer que esse “narcisismo grupal” pode até chegar ao racismo exacerbado e. para se abrir ao mundo e para tentar transformá-lo. Quando digo que o sujeito transforma o mundo. as significações das ações. no entanto. tentar introduzir uma mudança em si mesmo e nos outros. Para definir criatividade. ela é indispensável ao artista que deve fazer obra de arte. seres a eliminar. não quero identificá-lo ao grande homem que tem uma visão globalizante. portanto. bem como da tranqüilização narcísica. Com efeito. a individuação estando do lado da constituição do sujeito). reproduzir. Quero simplesmente dizer que cada um. bem entendido. a sua conversão. nos lugares da vida cotidiana. recriar o funcionamento social tal como ele é (salvo a reserva já feita – mas sobre a qual faço questão de insistir – de que um tal indivíduo. na qual se forja uma imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores onipotentes e. totalmente pré-formado e definido pela sociedade. daí. mais intolerante ela se torna e mais ela deseja a morte dos outros ou. preso na massificação obtida pelo apego às identidades coletivas. por mínima que seja. O sujeito é um ser criativo. em sua vida de trabalho. O indivíduo individualizado (e não individuado. o melhor é citar WINNICOTT:15 A pulsão criativa pode ser vista em si mesma. em suas relações sociais de todos os dias. a respeito de qualquer tipo de problema. não pode ser considerado como sujeito humano. quanto mais uma cultura se quer unificada. 34 . Ela é animada pelo ódio e por uma alucinação coletiva. O sujeito humano é aquele que tenta sair tanto da clausura social quanto da clausura psíquica. Não podemos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Esse “narcisismo” permite “uma satisfação cômoda do instinto agressivo e através dela a coesão da comunidade se torna mais fácil para seus membros”. menos o questionamento é possível e menos os indivíduos podem tentar aceder à autonomia. que. mas ela está igualmente presente em cada um de nós – bebê. Tal indivíduo só sabe repetir.

um ser capaz. uma novidade irredutível. em lugar de uma imagem da natureza. ludens e viator. a gestação.. A referência a WINNICOTT significa que não me interesso particularmente pela vontade que os grandes homens têm de transformar todas as variáveis do mundo (uma tal preocupação é a de um espírito “elitista”). demens (objeto da hybris).. antes que ela se fixe em natureza morta. A única maneira de se encontrarem enquanto artistas é através de sua própria ação criadora16 e isso pode ser feito somente em suas casas. a fim de que sua pulsão criativa tome forma e figura. não na escola!. é ainda pior. de repente. o primeiro movimento indistinto da matéria. qualquer coisa – seja uma lambuzada com seus excrementos. Marcel DESCHAMP exclama: “Alarguei a maneira de respirar” e o poeta Victor SEGALEN.. Os artistas não se enganaram a esse respeito. não ao charco das alegrias imortais. ao mesmo tempo sapiens. Paul KLEE escreve: O que quero ensinar a meus alunos não é a forma fechada. e que o mundo possa testemunhá-la.. meu amigo. o nascimento. seja um choro intencionalmente prolongado para saborear sua musicalidade. dando “um sentido mais puro às palavras da tribo” (MALLARMÉ). em seus Conselhos a um viajante. aqui e agora. portanto. em compensação. mais seu horizonte se alarga do presente ao passado. chegarás. mas aos remansos cheios de embriaguez do grande rio diversidade. aquela única que conta – a criação enquanto gênese. é a formação. que não correspondem a vocês e que estragarão suas vidas. assim se expressa: Evita escolher um lugar de asilo. homem portanto de sabedoria e loucura. HUNDERTWASSER declara a seus alunos: Se vieram para aprender. interessando-se mais pela germinação das coisas do que pelos resultados 35 . Essa pulsão criativa aparece tanto na vida cotidiana da criança retardada.O papel do sujeito humano na dinâmica social adolescente. Quanto mais longe mergulha o olhar do artista. quanto na inspiração do arquiteto que. do jogo e da vagabundagem. ela está presente em quem faz. imobilizada. O sujeito é. respirando a plenos pulmões um ar salubre. sabe o que quer construir e pensa então nos materiais que poderá utilizar. a vontade de cada um de fazer mudar as coisas (pequenas e grandes) e o desejo de criar. E mais se imprime. adulto ou velho – que pousa um olhar surpreso em tudo o que vê. voluntariamente. levo a sério. que sente prazer em respirar. porque vão aprender coisas que não lhes são próprias.

há o exemplo – estudado por FREUD19 – do presidente Woodrow WILSON. propõe uma visão totalmente negativa: Não digo: há loucos perigosos no poder e um só bastaria. WILSON acreditava-se eleito por Deus (seu pai encarnando a palavra divina) para propor. mesmo se tem a aparência de um sujeito que teve uma influência primordial na dinâmica social. O que não impede que ela tenha uma parte de verdade. em particular o grande homem. assegurando-lhe a redenção.Psicossociologia – Análise social e intervenção tangíveis. Michel SERRES. um pouco paranóico. Essa desagregação da Europa Central tem ainda. fazendo-o tomar consciência de sua culpabilidade. entre os grandes homens. estão presos à fantasia do dominação total que os leva a negar a alteridade do outro (e. os sedutores ocupando uma posição histérica. para realizar uma missão salvadora. 36 . identificado a seu pai. pela natureza. Com efeito. é preciso parar um momento. Foi por isso que chamei esse sujeito de criador da história. depois da guerra de 1914-1918. sem dominar o caminho que toma nem as conseqüências exatas de seus atos. sente-se eleito por Deus. preso na ganga dos ideais. recriando-o apenas pela palavra e instalando-se num imaginário enganoso (no qual tudo se torna possível). Sabe-se o que aconteceu com esse projeto grandioso: o desmembramento do império austro-húngaro deu à Alemanha a hegemonia da Europa Central e foi um dos fatores da segunda guerra mundial. os manipuladores ocupando uma posição perversa. Assim. pode-se identificar os megalômanos ocupando uma posição paranóica. a sua própria alteridade).18 Essa visão é radical e não posso compartilhar inteiramente dela.17 Porém. atualmente. pastor presbiteriano que lhe havia reservado o papel de salvador do mundo. O megalômano. Mas digo: no poder só há loucos perigosos. de seus medos. a esse respeito. aliás. de suas metamorfoses a própria condição de sua vida. Caracterizemos rapidamente esses três tipos. homem apto a recolocar em jogo sua vida e a correr riscos. No entanto. Todos jogam o mesmo jogo e escondem da humanidade que eles preparam sua morte sem acasos. freqüentemente é apenas um “indivíduo individualizado”. os fundamentos de uma paz geral e definitiva entre as diferentes nações em guerra. inebriado pela diversidade da vida e capaz de percebê-la. porque uma armadilha nos espera aqui: o criador de história. homem que sabe desposar suas contradições e fazer de seus conflitos. para lavar o mundo de sua sujeira. cientificamente. portanto. Os grandes homens correspondem efetivamente à definição de pessoas que querem criar coisas voluntariamente.

como já indiquei anteriormente. que tomou o poder contra os mencheviques. denega a realidade). que queria dobrar o mundo à sua vontade. que estava pronto a utilizar qualquer meio para chegar a seus fins. a um de seus detratores: Lembre-se de que Deus quis que eu fosse presidente dos Estados Unidos e que nem você nem nenhum mortal pode impedi-lo. para isso.O papel do sujeito humano na dinâmica social efeitos devastadores (aumento dos nacionalismos e do anti-semitismo). ao mesmo tempo. obcecado com a força pela força. O surpreendente é que esse homem não se reivindique capacidades carismáticas excepcionais. é um bom exemplo desses chefes perversos. quiseram dobrar o mundo a seus modelos e a suas equações. crê falar a linguagem da verdade. 37 . graças a um golpe de força (porque o perverso não ama o real e. caso bem conhecido e. os tecnocratas. segundo FREUD e BULLITT. por sua vez. Sua mensagem é simples: “Sou admirável porque o quis e qualquer um de vocês pode se tornar admirável. O sedutor histérico é o novo tipo de grande homem em voga. ao contrário. LENIN. durante a campanha para a sua eleição à presidência dos Estados Unidos. deveria fazer desaparecer o outro povo que se considerava objeto da eleição divina. tem gosto pelo instantâneo. ou capacidades manipulatórias. de assegurar a mise-en-scène mais ao gosto da mídia e de ser o ator com melhor desempenho.21 Assim também HITLER.20 do homem que declarava. onde gosta da performance por ela mesma (ela dá satisfação a seu eu grandioso. quis fazer do alemão o povo eleito e. ele se proíbe de ser excepcional. que não tinha interesse algum pelos outros. O teatro é também para ele um terreno de esportes. Ele vê o mundo como um grande teatro e tem o papel de escrever a peça mais persuasiva. complexo demais para ser evocado em poucas linhas. Poder-se-iam citar muitos outros nomes. só considera o mundo sob o ângulo econômico. o povo judeu. “Eis as conseqüências dos atos ‘virtuosos’ daquele que se tomava como o Jeová dos Hebreus”. Quanto ao manipulador perverso. pelo acontecimento (Bernard TAPIE declara: sou um ser dos acontecimentos). como LENIN: ao contrário. Ele é histérico na medida em que erotiza o conjunto das relações sociais. esse está. incapaz de viver sem inimigos e fazendo seu povo pagar pelo fruto de seu delírio paranóico. reduz as relações humanas a relações de objetos. basta o de STALIN. inventando complôs. nem uma força de pensamento e de ação. que toma a si mesmo por ideal). recém-saídos das grandes escolas. só pensa em termos de estratégia. possuído pela fantasia do domínio total dos seres e das coisas. como WILSON ou HITLER. a um nível mais irrisório.

Em todo caso. como GORBATCHEV. Podemos nos perguntar se essa falta de fantasia não é um pouco perigosa para quem fala e para aqueles a quem ele se dirige. Em contrapartida. como indivíduos perfeitamente normais.). um indivíduo sem fantasias. Ela descreve a seu respeito: O caracterial de tipo normal criou para si uma carapaça que o protege de todo despertar de seus conflitos neuróticos e psicóticos. um sujeito encarapaçado (segundo o termo de McDOUGALL) 38 . CHIRAC declarou um dia: “Eu não sonho. talvez. não se torna. Poderia acrescentar à minha panóplia de “caracteres” os antigos burocratas obsessivos que fizeram sua carreira à sombra de grandes homens (os apparatchiki) e que um dia se tornam uma mistura de manipuladoresperversos e de sedutores-histéricos. Partem de uma situação similar à minha e o tempo necessário para isso não parece uma duração mítica. sem dúvida.. Tentarei em outra ocasião. O sabor da madeleine não desencadeia nada nele e ele não perderá seu tempo em busca do tempo perdido. AGNELLI a gente nasce.. Mas uma tal evolução e uma tal mistura de estilo é ainda muito nova para ser descrita e explicada de maneira rigorosa. é possível tornar-se DE BENEDETTI. nem mesmo na imaginação. não tenho dúvidas morais”. ele perdeu alguma coisa. M. Mas. A psicanalista Joyce McDOUGALL22 caracteriza essas pessoas como “caracteriais de tipo normal”. poder ser um verdadeiro chefe de empresa (e o que é mais glorioso atualmente que chegar a esse lugar?). não podem sonhar em se tornar AGNELLI. O grande patrão italiano C. Essa normalidade é uma carência que atinge a vida fantasmática e que afasta o sujeito dele mesmo.. há milhares de empresários na Itália que podem querer isso e esperá-lo. Se elas tomarem um grande patrão italiano.. Em outras palavras. de BENEDETTI exprime muito bem essa posição: Na Itália. a seus olhos. meus aliados (. com a condição de ser corajoso. AGNELLI por exemplo. porque sou. Eles se apresentam. os outros escapam a essa denominação.) são as pessoas comuns.Psicossociologia – Análise social e intervenção se fizer como eu. se os megalômanos-paranóicos podem parecer mais ou menos “doidos” segundo a concepção de Michel SERRES. uma demonstração do possível (. mas uma duração realista. sem interrogação. Pode-se compreender o sucesso de um tal modelo. Mesmo assim. se tiver tanta coragem quanto eu”. ao contrário. pois ele promete a qualquer um. Ele respeita as idéias recebidas como respeita as regras da sociedade e não as transgride jamais. de uma normalidade esmagadora.

de se lançar no desconhecido. em sua linhagem. mais ainda. a recusa de compromisso sobre o essencial. 39 . reproduzir. Eles têm uma influência social inegável. no sentido que dou a esse termo. São mesmo os mais numerosos entre as pessoas que ocupam postos de responsabilidade.O papel do sujeito humano na dinâmica social ou encouraçado (segundo a terminologia de REICH) está afastado dele mesmo e. tomar caminhos transversais. na tradição da qual é herdeiro e que enriquece e deforma. que é um verdadeiro projeto existencial: permitir a tomada de consciência. Ele não tem projeto. tanto em sua forma violenta como em sua forma sedutora. A noção de sujeito torna-se precisa: não é apenas alguém que traz um projeto voluntário. de tudo realizar” (McDOUGALL). só sabem repetir. dos outros. o sujeito é um homem movido por uma idéia fixa. Um ser consistente pode ter dúvidas. “que significa. de ter – segundo o termo de FREUD – “uma alma de conquistador”. recolocar em questão algumas de suas idéias (como FREUD ou MARX. fazer advir o sujeito individual. conforme McDOUGALL. em MARX. assim. mesmo se não provoca mais que um leve impacto sobre o movimento do mundo. Não confiam na “imaginação radical” (CASTORIADIS) que jaz em todo ser humano. FAUCHEUX. pois falta a ambos. em FREUD. ao inusitado. por um lado.23 Em certo sentido. Um ser coerente tem uma personalidade compacta. de tudo desarrumar. São portadores da pulsão de morte. fazer advir o sujeito coletivo. mesmo se nada descobre. a partir de trabalhos de Psicologia Social Experimental que desenvolveu com C. pois exprimem em voz alta o pensamento banalizado e dão satisfação aos desejos recalcados. como FREUD quando enunciava: “A Psicanálise é a minha causa”. é também um ser que atinge “um certo grau de anormalidade” e que está em condições de interrogá-lo. “uma certa anormalidade” (uns pecam pelo excesso. nas duas extremidades: os loucos de poder e os hiper-normais. Vê-se bem aqui a diferença entre consistência e coerência. sem falhas. ele o faz em sua linha. São desprovidos da aptidão à transgressão. Mas ele conserva o mesmo projeto. MOSCOVICI. a não ser o de continuar a fazer funcionar a sociedade tal como ela é. a perceber as coisas e os seres sob outro ângulo. outros pela falta) que lhes permitiria “manter os olhos ávidos da infância” (McDOUGALL) e ter vontade “de tudo questionar. Pode-se então perguntar se essa hipernormalidade lhe permite ser sensível à surpresa. Teríamos. insiste sobre essa noção. criar seja lá que novidade for. o caráter irrevogável de sua escolha e. Mas não são verdadeiros criadores de história. Corre pela vida como em uma auto-estrada. assim. por outro. remanejando continuamente suas análises e suas teorias). S. É também um homem que demonstra consistência. Se o sujeito evolui. favorecer a tomada de consciência de situações reais. E.

lá onde a maioria é tentada a evitá-lo. SEGALEN. consistência e astúcia andam juntas. Ele é. Nem MARX nem FREUD foram pessoas boazinhas.” O sujeito não é homem de comprometimentos. há uma vocação do exílio” e essa vocação “é a dispersão. porque a dispersão. consistência e astúcia. se outros não podem se identificar a ele e com sua causa. visível e. porque o sujeito deve estar cheio de furor (de hybris). finalmente. Consistência e furor. BLANCHOT escreve: há uma verdade do exílio. provenientes 40 . só poderá fracassar (não é à toa que a criação da Associação Internacional de Psicanálise pode tranqüilizar FREUD e que a criação da 1a Internacional era ardentemente desejada por MARX). a uma identidade coletiva. pois sabe que se ele se encontrar sozinho. Ao mesmo tempo. o que não é nada fácil. A idéia fixa não impede a astúcia (no sentido da Mètis dos gregos) e o aproveitamento da oportunidade. igualmente. recentemente republicado. Uma outra característica do sujeito é a de viver como um “exota”. a um Estado. isto é. É possível ser um “exota” na sua própria sociedade. é que. não pode jamais estar colado a uma organização. em vista dos movimentos de migração que se intensificam. ARISTÓTELES dizia que o homem de gênio deveria saber utilizar o Kairos. à dispersão. sentir-se à margem mesmo se a sociedade deseja sua integração. o homem pronto a ser tomado pela surpresa e pelo inusitado. portanto.24 O “exota”.Psicossociologia – Análise social e intervenção Mas essa consistência deve ser perceptível e deve poder provocar reações e discussões. da mesma forma que apela para uma estadia sem lugar. quando ela se apresenta. pessoas vindas de outros países. segundo a expressão de V. acrescenta que um tal sujeito deve “optar por uma posição clara. deve ser capaz de sair dele mesmo (ek-stase). o exota é aquele que tem a percepção do diverso e o poder de conceber outro. para fazer triunfar suas idéias. criar e sustentar um conflito com a maioria. diante da exigência do todo. MOSCOVICI. Está muito próximo do que BLANCHOT evoca a respeito do homem votado ao exílio. souberam conciliar furor. interdita a tentação da Unidade-Identidade. no entanto. sendo assim aquele que olha o mundo como se o visse pela primeira vez. um grupo ou um Estado. Aqui não se trata de manipulação. no momento atual. serão vistos cada vez mais “exotas” reais. o exilado. da mesma forma que renega toda relação fixa entre a força e um indivíduo. ARISTÓTELES já o sabia e o mostra muito bem no “problema trinta”. é uma pessoa capaz de criar redes de alianças. em seguida. Para SEGALEN. delimita também. uma outra exigência e. como também a provocá-los. a ocasião. O que é interessante.

O papel do sujeito humano na dinâmica social

de outras culturas, pessoas que, assim, necessariamente, pousarão um olhar novo e surpreso sobre a sociedade que os acolhe e que, quer queiram ou não, questioná-la-ão e a influenciarão, do mesmo modo que serão influenciados por ela. Os “exotas”, entretanto, não ficarão presos no processo de idealização. Estarão, ao contrário, presos na necessidade de sublimação, como os “exotas” indígenas que teriam escolhido esse destino. Serei breve sobre o processo de sublimação, sobre o qual discorri várias vezes em textos recentes.25 Deixarei de lado o aspecto indispensável da atividade de sublimação na formação do vínculo social, na medida em que é evidente, agora, que nenhuma sociedade poderia ter sido fundada se os homens não pudessem ter passado do prazer sexual direto ao prazer da representação e da imaginação, se eles não pudessem ter passado da satisfação das pulsões egoístas àquelas obtidas pelo agenciamento de pulsões altruístas, valorizadas socialmente. Parece-me mais importante observar que a sublimação implica no reconhecimento, por cada um, de sua própria estranheza, da estranheza dos outros e no desejo de propor, sem vontade de dominação, ao conjunto dos indivíduos com os quais se vive, uma investigação conjunta e partilhada. Sublimar é aceitar sua parte de estranheza, de contradição, de remorsos, de metamorfose ou de êxtase. O fato de poder se interrogar sobre si mesmo, de se descobrir estrangeiro para consigo mesmo (porque o ser humano se constitui na clivagem), permite considerar o outro como menos estranho e mais semelhante a si mesmo. Assim, o outro (ou a coisa) não é mais um ser a dominar, a domar, por nossa atividade intelectual ou física, mas alguém com quem se pode tentar manter relações de reciprocidade, relações que podem se mostrar difíceis, conflituosas se necessário, mas que tendem a ser as mais simétricas possíveis. A sublimação não impede o ideal, mas ela luta contra a doença do ideal. O sujeito é então aquele que aceita se recolocar em questão, ser questionado, ele não tem necessidade de ligações que lhe sirvam simplesmente de apoio para existir. De fato, sublimar é difícil, porque é viver ao mesmo tempo como ser completo (homo sapiens, homo demens, susceptível de ser atravessado por afetos que não controla, que o põem em estado de desordem, sem saber se poderá aceder a uma nova ordem, homo ludens e homo viator, como evoquei precedentemente) e como ser clivado, dividido, mantendo-se em pé diante da angústia provocada pela ausência dos Deuses e pela possibilidade de que o outro não seja um apoio, mas se revele adversário implacável. A sublimação implica, igualmente, na

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

aceitação da tradição, da filiação, da dívida que temos para com os que nos precederam e para com as gerações futuras. Se a dívida não é reconhecida, se o homem cede à tentação de auto-engendramento, estará talvez em condições de se tornar um grande homem. Ele deixará apenas ruínas atrás de si. Para engendrar novidades e a vida, é preciso admitir ainda a violência mortífera que atua na fantasia de auto-engendramento. Sublimar é, portanto, estar consigo mesmo, com os outros, com seus pais e com seus filhos, em uma relação na qual a vida palpita, vida cheia de angústia e de alegria, de possível morte e de transfiguração. Essas pessoas que não cedem às ilusões, que vivem com os outros, não numa interrogação permanente, mas numa interrogação suficiente, colocam-se então numa história coletiva, sabendo que seu lugar nunca estará totalmente assegurado, sentindo-se e querendo-se, em parte, integradas, em parte, exiladas. São talvez elas que provocam as rupturas mais fundamentais, a possibilidade de um caminho para a instauração de sociedades de sujeitos mais autônomos, mesmo quando elas não o sabem e mesmo quando pensam que são apenas “zé-ninguém”, sem projeto voluntário verdadeiramente constituído (em tal caso, é a realização de uma vida guiada por suas próprias exigências e pelo reconhecimento do vínculo social que forma o projeto). Essas pessoas, definitivamente, comportam-se como verdadeiros heróis. Utilizo o termo no sentido que lhe deu FREUD: o herói, aquele que teve a coragem “de sair da formação coletiva”. Essas pessoas souberam colocar seus ideais, reconhecer a alteridade do outro, reconhecer-se a si mesmas. (O caminho para o outro passa pelo caminho para si). Esse heroísmo é um heroísmo partilhável. Basta que cada um queira tentar ser ele mesmo com os outros. Então, o mundo será composto mais por sujeitos autônomos do que por indivíduos “individualizados” e a dinâmica social será o produto do confronto de homens livres e responsáveis. Para concluir meu intento, é evidente que as condições colocadas para atingir a plena autonomia indicam que sua ocorrência é fraca. É mais fácil deixar-se guiar que conduzir sua própria vida, mais fácil imitar que inventar, mais fácil idealizar que sublimar. Mas uma outra constatação é necessária: da mesma maneira que o indivíduo totalmente heterônimo não existe, como mostrei na primeira parte de minha exposição, o sujeito inteiramente autônomo também não existe. Simplesmente porque o homem é clivado, contraditório, mistura inextricável de pulsão de vida e de morte, capaz do melhor e do pior, freqüentemente obcecado pelo poder, pelo prestígio e sentindo um desejo de segurança narcísica e, também, porque as sociedades precisam, para se manter, de um mínimo de

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O papel do sujeito humano na dinâmica social

ilusões e de crenças, de disfarces e de hipocrisia. Cada um de nós é, de fato, em certos momentos, mais um indivíduo pronto a aderir, incapaz de se colocar questões, pedindo amarras fortes, cedendo à idealização (dos Deuses, do Estado ou de um outro ser humano – caso contrário, a paixão não seria desse mundo) e, em outros, um sujeito mais autônomo, em condições de questionar o mundo e a si mesmo e de procurar, tateando, seu próprio caminho. Portanto, a idéia de uma sociedade e de um sujeito tendo acedido à autonomia se dilui. O que permanece, em compensação, é a possibilidade de cada sociedade e de cada pessoa entrever a dificuldade do caminho e de, às vezes, arriscar-se por ele. Tanto quanto é impossível chegar à verdade, é impossível atingir a autonomia. Nem por isso a busca da verdade e da autonomia devem terminar. Saber que perseguimos um fim impossível nos chama, simplesmente, para um pouco de modéstia, de humor e de ironia, em relação a nós mesmos e a nossas possibilidades de influência. Talvez seja ao atingir a consciência de nossas impossibilidades que cheguemos, mais freqüentemente, a nos conduzir de maneira autônoma e a não nos deixar prender nas ilusões que o social difunde e das quais o ser humano é particularmente ávido. Se, às vezes, os heróis ficam cansados, em outros momentos, podem se reerguer e nos surpreender. Aceitemos o augúrio e trabalhemos cotidianamente para fazer da “vida imediata” (ELUARD) mais um lugar de surpresas do que um lugar de repetição morna.

Notas
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Traduzido de ENRIQUEZ, Eugène. “Le rôle du sujet humain dans la dynamique sociale”. Revue Européenne des Sciences Sociales. Tomo XXIX, 89, 1991, p. 75-89, por Sonia Roedel. Cf. meu texto “Individu, création et histoire”. In: Connexions, n. 44, E.P.I., 1984, e o capítulo de minha tese Pouvoir et lien social, Paris: Gallimard, 1980, intitulado “O papel da conduta do indivíduo”. CASTORIADIS, C. L’institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975. VEYNE, P. Les Grecs ont-ils cru a leurs mythes? Paris: Seuil, 1975. ENRIQUEZ, E. “Le mythe ou la communauté inchangée”. L’esprit du temps, n. 11, Ed. de Minuit, 1986. Ibidem. Esse ponto será retomado mais adiante neste texto. FREUD, S. Malaise dans la civilisation (1929). Paris: PUF., 1970. CASTORIADIS, C., op. cit. WEBER, M. L’éthique protestante et l’esprit du capitalisme. Paris: Plon, 1964.

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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REICH, W. Écoute, petit homme.(1948). Trad. franc. Paris: Payot, 1973. REICH, W. op. cit. DEVEREUX, G. Ethnopsychanalyse complémentariste. Paris: Flammarion, 1975. FREUD, S., op. cit. WINNICOTT, D. W. Jeu et réalité. Paris: Gallimard, 1975. Sublinhado por mim. ENRIQUEZ, E. Individu, création et histoire, op. cit. SERRES, M. “La thanatocracie”. Critique, março 1973. FREUD, S. e BULLITT, W. Le président T. W. WILSON. Nova trad. Paris: Payot, 1990. FREUD, S. e BULLITT, W., op. cit. FREUD, S. e BULLITT, W., op cit. McDOUGALL, J. Plaidoyer pour une certaine anormalité. Paris: Gallimard, 1978. MOSCOVICI, S. Psychologie des minorités actives. Paris: PUF., 1979. BLANCHOT, M. L’entretien infini. Paris: Gallimard, 1970. Citemos simplesmente o último texto publicado: Idéalisation et sublimation. Psychologie Clinique, n. 3, 1990.

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AINTERIORIDADEESTÁACABANDO?1
Eugène Enriquez

O sentimento que uma pessoa experimenta de ter uma vida interior, íntima, onde ninguém tem o direito de penetrar, a não ser por arrombamento, o sentimento de possuir um dentro que carrega sofrimento, alegria, questionamentos, interrogações e que, para ela, é “uma terra estrangeira”, nem sempre existiu. J. P. VERNANT, particularmente, sublinhou até que ponto um homem grego podia se conceber como um indivíduo, um sujeito, mas não como um eu autônomo que pudesse “esconder uma coisa em suas entranhas”, segundo a palavra de Aquiles. A vida interior obteve o direito à existência durante os séculos III e IV, quando o homem começou a tecer relações especiais com o divino e, por isso, teve de viver uma experiência de si e não apenas uma “preocupação consigo” (M. FOUCAULT, 1984). No século XVIII, século das luzes, quando foi dito que cada homem possui em si próprio os princípios da razão, foi enunciado, simultaneamente, que o homem é também um ser de paixões e de afetos, atravessado por ventos tumultuosos (“Venez, orages désirés!”), um ser que deve fazer seu exame de consciência, escrever confissões como ROUSSEAU ou manter um diário íntimo como AMIEL. Nem todos se sujeitam a essa tarefa, mas isso não impede que nasçam, simultaneamente, o homem plenamente racional e o homem totalmente emocional. Antes de mais nada, todo homem possui, ao mesmo tempo, um cérebro e um coração que ele deve sondar para se compreender e, assim, melhor guiar sua conduta. Nunca se insistirá bastante sobre a ligação íntima entre “paixões e interesses”, entre Aufklärung e o Sturm und Drang. É porque cada homem tem “dúvidas morais” e persegue a conquista de si mesmo que pode se tornar, também, um conquistador do mundo.2 Parece que essa centralização em uma interioridade (que favorece igualmente a exteriorização) está se tornando objeto de numerosas investidas por parte dos empresários, por um lado, e por parte dos fanáticos religiosos, por outro.

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SERVAN-SCHREIBER). de ter modos de “comunicação afirmativa”. mostras de “apatia”? Quem é dado como exemplo é o guerreiro ou o esportista. sem o saber (e de consciência tranqüila). tem como finalidade prendê-los totalmente nas malhas que ela tece. é necessário que essas pessoas sejam movidas por um processo de idealização. por fim suprimir o sujeito e a vida interior. de ficar obcecado apenas pela “excelência” e que deve. para fazê-lo. assim. se só pensa através dela. sobretudo. com personalidades “as if” (H. ao propor. A proposição é a seguinte: A renovação do individualismo tem . de considerar os problemas em sua frieza. Os indivíduos com um “falso self” (WINNICOTT) ou. do combatente. aos outros. desembaraçado de compromissos. de sonhos e de interrogações. capaz de se adaptar a todas as situações. seu imaginário enganoso – que tem como objetivo englobar todos na fantasmagoria comum proposta pelos dirigentes da organização – e seu sistema de símbolos – que fornece um sentido prévio a cada ação dos indivíduos –. senão uma pessoa (ouso utilizar somente esse termo) “de geometria variável” (J. do vencedor. sobretudo. Se o indivíduo se identifica com a organização. Os outros serão suspeitos de se colocar problemas demais e. DEUTSCH) serão particularmente apreciados. Para obter tais resultados. O que é o indivíduo de quem todo mundo fala. então. ele entrará. no sentido sadiano do termo. de fazer calar em si suas “dúvidas morais”. aos que dela participam. sejam quais forem. dando. portanto. Minha contribuição será. em demasia. de colocá-los. num sistema totalitário que se tornou para ele o Sagrado 46 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Posso apenas indicar uma pista que mereceria ser explorada mais sistematicamente. mas que deveria também ter a vantagem de provocar vivas discussões. se a idealiza a ponto de sacrificar sua vida privada às metas que ela persegue. escrita num estilo lapidar que poderá chocar. seus valores e seu processo de socialização. então. L. conformar-se à nova ideologia do “matador frio”. A cultura de empresa ou de organização. o homem capaz de ultrapassar seus limites.

pois essa fornece a cada ser a garantia de não viver no puro arbitrário. mas. a famosa seita dos “Assassinos” era a forma mais aguda do ismaelismo. através de um projeto a concretizar. O “fanatismo de empresa” pode parecer relativamente irrisório para alguns. Basta ter em mente: a renovação do Islã. no mundo medieval. o papel central desempenhado pelo Opus Dei na Itália e na Espanha). Ela nos força a admitir que muitos indivíduos precisam de “referências duras e estabilizadas” para solidificar sua psique e ter o sentimento de fazer parte do povo eleito. segura de estar em seus direitos. pais-de-santo estão prontos a substitui-las. uma causa a defender. Mas os valores gerenciais podem não ser suficientes para responder ao déficit de identificações característico de nosso sistema social e ao malestar dele resultante. exige a idealização. um ideal a realizar. E. triunfante em sua versão “chiita” (e não nos esqueçamos que. Promete-lhe alcançar um estado não conflitante da psique. concedendo-lhe um sistema de significações que o tranqüiliza e o faz agir. ao contrário. quando as igrejas não são suficientemente atraentes. pronta a punir os blasfemadores. Essa volta do religioso não visa a nenhuma sublimação. mais próximos do integrismo. inscrevendo-se no mito coletivo da organização. Sabe-se muito bem. esse último sendo apenas um avatar do chiismo3). 47 . As empresas americanas e japonesas de melhor desempenho funcionam dessa maneira e é sob esse regime que começam a viver as empresas européias. que parte à conquista do mundo (ou de uma parte do mundo).A interioridade está acabando? transcendente legitimador de sua existência. a importância dos movimentos Communione e Liberazione na Itália. o despertar de um integrismo judeu que se traduz pela multiplicação das yeshiva (escolas judaicas) na França e pelo papel dos partidos religiosos em Israel. Então. em nome da verdadeira fé. presas na miragem do alémAtlântico ou do além-Pacífico. atualmente. a voltar aos valores da família patriarcal e a se pronunciar contra a contracepção e o aborto (disso são testemunhos exemplares o sucesso de Monsenhor Lefèbvre na França. que uma sociedade não pode existir sem religião. gurus. o indivíduo pode se considerar como um herói dos tempos modernos. injustamente martirizado. de perda e de sofrimento. A empresa (ou qualquer outra organização) quer. O sagrado laicizado dá ao indivíduo o sentimento de se transcender. encarnar a “instituição divina”. o renovar de uma igreja dogmática. xamãs. uma plenitude que o protege de qualquer trabalho de luto. desde DURKHEIM e FREUD. É por isso que as antigas religiões voltam sob os seus aspectos mais extremos. Eles também exigem a crença e anunciam a proibição de pensar livremente.

animado) é o nosso bem mais precioso. O fanatismo bane o pensamento e a palavra criadora. de ser capaz de penitência e de viver tanto o sofrimento como a alegria. o “grito primal”. provar a si mesmo e aos outros que o cuidado do corpo é um cuidado vital testemunham nossas capacidades. a expressão corporal. falado e falante. como a expressão da graça que lhe cabe. 48 . sofredor. pelo menos. os estágios off limits. “Perinde ac cadaver”4 continua sendo a palavra de ordem. Mas basta saber que o indivíduo que não se dá conta desse controle sobre sua interioridade pode estar pronto a todos os atos. o desenvolvimento do esporte de massa. cuja meta é a homogeneização do “interior”. Mas as religiões. “Estar bem em sua pele”. em seus aspectos “idealizados” (no bom sentido do termo). que aqui apenas menciono. afastar a dor. porque são vividos por ele como atos socialmente valorizados pela organização à qual ele adere e. todas as religiões. esbelto. persegue as mesmas metas e comporta os mesmos efeitos. os seminários de sobrevivência têm todos por meta nos dizer que o corpo real (e não o corpo fantasmático. as maratonas de Paris ou de Nova York). Elas querem proceder à intrusão na psique para destruí-la ou. em seu lado excessivo – as seitas – não se preocupam de forma alguma com a vida interior específica dos diversos sujeitos. mesmo os mais repreensíveis. O fanatismo político. as ginásticas suaves. continuamente desejável. portanto. Voltarei adiante aos métodos empregados. competitivo ou não (por exemplo. nossa juventude e nos fazem acreditar em nossa imortalidade. a aeróbica.Psicossociologia – Análise social e intervenção Certamente. submetê-la a ídolos não contestáveis. pode encontrar seu ponto de ancoragem num objeto maravilhoso interior: o corpo do indivíduo. Resulta daí uma equação simples: corpo dinâmico = energia física = energia psíquica = aptidão ao sucesso individual = aptidão à utilidade social. desenvolvida pela publicidade e por certos “psicólogos” nesses últimos anos. proferem a necessidade de cada qual descobrir a divindade em seu “foro íntimo”. “tornar-se saudável”. É nesse sentido que é preciso compreender a nova ênfase ao corpo. o jogging. Quando esse processo de idealização não pode se ligar a um objeto maravilhoso exterior. as medicinas naturais. as diversas técnicas que têm por objetivo dar a cada qual um corpo flexível. Reserva para si mesmo seu uso e monopólio. As técnicas de body-building.

mas de edificar novos cultos. a “qualidade total”. sinais de uma fantasia de domínio total. porque o “narcisismo de vida” é busca de verdade. de autoridade. membro de um conjunto que tem suas coerções. quer se tenha atingido um status social elevado ou subalterno. Os próprios indivíduos. cada qual se mira em seu próprio espelho. de intervenção psicossociológica ou institucional. reconhecem que o indivíduo é um ator preso numa história coletiva. que o indivíduo. Os métodos para conseguir sacralizar ou re-sacralizar a organização. a esfera religiosa ou política e o corpo são “irracionais”em sua essência. de criar uma cultura. A explicação é simples: todos os métodos de formação. que se desenvolvem as técnicas mais aberrantes. Basta que seja capaz de amar suficientemente a si próprio. que lhe devolve uma imagem idealizada de si mesmo. para se tornar um sujeito falante e atuante. devem encontrar as melhores soluções para os problemas que lhes são 49 . necessariamente. GREEN. “a paixão pela excelência”. suas regras de jogo e seu espaço de liberdade. na qual fatalmente se perderá. O narcisismo mais total está na ordem do dia. novos questionamentos e transformações nas relações de poder ou. o erro não cabe à organização nem ao tipo de direção). embora alienados no mais profundo de sua psique. 1983). o paradigma individualista não quer nem mudança social nem mudança individual profunda. Ora. grupal e coletiva. a busca do “erro zero”. reconhecem que a mudança é o produto de mudanças ao mesmo tempo individual. ao menos. É no momento mesmo em que no mundo se enaltece a eficácia. de evolução pessoal ou grupal. únicos responsáveis (se eles fracassam. na qual ele tem que desempenhar um papel social. mudança sempre difícil pois traz. deve poder se interrogar sobre si mesmo e sobre as estruturas de trabalho nas quais se encontra. confronto com o sofrimento. cada um pode ser capaz de atingir o gozo mais absoluto. Basta querer. Acontece que esse narcisismo só pode ser um “narcisismo de morte” (A. nas organizações sociais. na medida em que não se trata. a ponto de “correrem” atrás de sua alienação e a buscarem sempre mais. Quer se tenha nascido rico ou pobre. interrogação do ser.A interioridade está acabando? Essa equação é mais atraente ainda porque está ao alcance de qualquer um. Elas anunciam. Por outro lado. de fato. No narcisismo de morte. de uma vontade infantil raivosa de onipotência. assim. processo de ligação com os outros.

no quadro de normas extremamente fortes (quando não de dogmas). a edificação de processos identificatórios que têm como meta favorecer a segurança narcísica e fornecer certezas e orientações precisas de vida. pessoas sem rumo ou submetidas a estresses contraditórios) provoca. únicos a prometerem resultados tangíveis. como resultado a sua destruição ou. Cada “conjunto humano”. sejamos claros: a uniformização da psique (isto é. a sua submissão. a astrólogos. a “numerólogos” ou a provas como “andar sobre brasas”. uma psique a serviço da organização. para viver e se desenvolver. uma psique sem conflitos. tem por certo necessidade de sentir que não é um simples aglomerado mais ou menos 50 . a implicação.Psicossociologia – Análise social e intervenção colocados. em reação. pede-se a eles que saltem de grandes alturas. faz-se apelo a leitores de tarô. necessariamente. portanto. a fim de desenvolverem sua autoconfiança. a possibilidade de todos enfrentarem uma certa complexidade e de demonstrarem capacidades criadoras não previstas e não programáveis). de pessoas que não se sentem bem consigo mesmas. É por essa razão que a seleção e a promoção de tais indivíduos serão particularmente severas. pois esses só dariam resultados aproximados como a própria vida. com os pés amarrados a um elástico. como a simples lógica o exigiria. O mal-estar existente nas identificações (e que se expressa pelo desenvolvimento da toxicomania. não do desenvolvimento da racionalidade. A finalidade desses métodos é evidente: a adesão. quer dizer. O reconhecimento da psique como força operante tem. faz-se com que pratiquem artes marciais para que se sintam como samurais. freqüentemente com seu consentimento e com sua satisfação. perfeitamente interiorizadas. pela multiplicação de indivíduos “em crise de identidade”. A conseqüência desses métodos e a criação de uma identidade compacta. na sociedade. nas organizações e nos indivíduos. a mobilização total de todos. para a seleção de dirigentes. Assim. do aumento dos métodos mais bizarros. instalam-se os diretores em “grandes caixas” para lhes insuflar uma nova energia. Por isso. pelo menos. Não é preciso continuar essa enumeração de “técnicas” (recorre-se mesmo ao vodu) para compreender que a vontade de eficácia a qualquer preço (essa podendo emanar das empresas ou de outras organizações – os fanáticos religiosos também têm seus métodos para provocar o torpor e o entusiasmo) está acompanhada. é impossível recorrer a métodos minimamente científicos. Pede-se a “gurus” ou a “xamãs” que “reenergizem” a empresa. ao contrário. mas.

quer dizer. Cada um de nós teve oportunidade (com a condição de aceitar sua “interioridade”) de se perguntar: mas qual é a relação entre o que sou e essa pessoa que tem o mesmo nome que eu e que teve oito anos. nacionalidade etc. que se liga a uma tradição. de ser um sujeito que tem uma história. em um gênero. nas quais mostrou esse estranhamento: sou eu mesmo aquele que essa velha foto me devolve? E.A interioridade está acabando? feliz de vários fluxos de intensidades e de entroncamentos diversos e que. isto é. tal como foi colocada por FREUD em “Psicologia de grupo e análise do ego”. ou o status social a que chegaram. Os indivíduos evoluem. em uma palavra. em uma espécie). portanto. permite que se possa situá-lo em uma classe. Cada um sente. – podendo 51 . em Barthes par lui même (1975) e em La chambre claire (1980). de constância: (b) idéia de objeto separado. de acordo com a idade e responsabilidades que têm de assumir. Tal experiência é comum e não mereceria que nela me detivesse. não vivo mais. essas três idéias são abaladas pela investigação psicanalítica: a. partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça. animado por uma coesão totalizante tendo. ele é capaz de ser um “Si”. evocando o decorrer do tempo: não penso mais. transformam-se de acordo com a maneira pela qual são capazes de negociar suas contradições e seus conflitos. portanto. Além disso. uma unidade. constata-se que a identidade remete a três idéias essenciais: (a) idéia de permanência através do tempo. se examinarmos mais de perto essa noção. Caso se retome a análise de A. classe. Cada indivíduo. em diferentes lugares e com múltiplas pessoas. que participa de uma memória coletiva. não creio mais como esse ser que leva meu nome. Mas. FREUD escreveu: cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos. por minha vez. através dessas diversas experiências. Ora. acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados. (c) idéia de similaridade (toda identidade permite identificar o outro. escreveu belíssimas páginas. credo.A constância não existe. ela revela características um pouco suspeitas. portanto. GREEN (1985). a necessidade de ter uma certa identidade. ou vinte anos? BARTHES. eles são solicitados por situações sociais diferentes ou confrontados a elas. que constrói e reconstrói seu passado à luz dessa memória e que está apto a elaborar projetos para o futuro. de referências seguras. caso ela não permitisse colocar em termos temporais a questão das identificações múltiplas instantâneas.

cada uma. b. mais na divisão ou mesmo na ruptura às quais todos estão submetidos a cada instante de sua vida. FREUD não deixa de lado a dimensão temporal nessa frase. Assim. Se. 1976). além disso. o qual não pode ser considerado como o sujeito da enunciação e da ação. que processos de clivagem. portanto capaz de se afirmar diferentemente de como o fez no passado. escrevia ARNIM) e de decidir quem posso reconhecer como um outro eu-mesmo. “criptas” tanto mais incrustadas quanto mais são o fruto de um silêncio (N. de reconhecer em mim minha parte conhecida e minha parte estranha (“os caminhos misteriosos vão para o interior”.Quanto ao reconhecimento do mesmo.5 Certamente. admitimos que pode haver em nós “visitantes do eu” (A. TOROK. ilusória. por definição. necessita do trabalho do tempo. então. a sua própria finalidade. Sabemos: que somos compostos de uma “pluralidade de pessoas psíquicas” (o isso. com WINNICOTT (1966). Precisamos. que o inconsciente tem um papel enorme em nossa maneira de viver e que ele não está submetido aos mesmos processos do nosso eu consciente. Mas ele insiste. já dizia RIMBAUD. cairmos na irresponsabilidade. sob certos aspectos. implica que eu seja capaz de responder à questão “quem sou eu?”. admitir. 1982). então. de preclusão e de denegação estão operando em nós. o eu etc. a partir de um estado não integrado. a esperança de uma bela unidade do indivíduo se estilhaça. em sua pureza. no entanto. a identidade pessoal (não evoco aqui os enormes problemas colocados pela identidade cultural) é. em particular quando enuncia que o indivíduo “construiu seu ideal de eu segundo os modelos mais variados”. no momento em que falamos. não podemos abandonar essa idéia. quem está falando e por que falamos dessa maneira. pois toda construção. quando sei tão pouco o que sou.A idéia de unidade parece ainda menos sólida.Psicossociologia – Análise social e intervenção também elevar-se sobre elas. assim. a idéia de permanência e de constância. No entanto. Eu é um outro. a menos que acreditemos sermos apenas uma série de máscaras e. na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. de MIJOLLA. tentamos continuamente criar um “si” que evolui. Nunca sabemos de maneira precisa.) que visam. que. Se não esquecermos que o processo identificatório está em ação durante toda a vida e que ele é o único que permite ao indivíduo continuar vivo. c. mas que mantém um certo grau de 52 . então é possível questionar. ABRAHAM e M.

e a adotar as estratégias racionais que se mostrem as mais lucrativas (identidade compacta e possibilidade de utilizar identidades múltiplas não são. São. o remorso. trazendo “temor e tremor”. a dúvida. Porém. escolhendo as máscaras sociais que precisam. contra a qual os que querem ser sujeitos de sua história só podem se opor). a interrogação. problemáticas. de “maioria compacta”. de suas capacidades de comunicação e de persuasão. assim como as instituições e organizações que a compõem. portanto. de sua centralização no sucesso de seu trabalho. como também um amor consciente por si. os diretores participam de um grupo. de seus desejos. estejam em condições de chegar aonde sua ambição (ou a ambição de sua organização) os impele a ir. mesmo se são aptos a demonstrar “teatralidade histérica”. que sejam capazes de adaptar o mundo à sua vontade. portanto. portanto sedução. segundo as circunstâncias (como o Zellig de Woody ALLEN) e que. é mais facilmente projetado sobre os outros quando o indivíduo deve dar provas de seu caráter inteiriço. sobretudo. da “inquietante estranheza” e. O que nossa sociedade reclama. donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo. é a existência de indivíduos que saibam estabelecer uma distinção nítida entre eles mesmos e os outros. de um narcisismo a toda prova. é ouvido um momento. o trabalho sobre si.A interioridade está acabando? coerência. Os duros golpes da Psicanálise contra a noção de identidade coerente e unificada e a favor de uma reflexão sobre as identificações só podem irritá-la profundamente. O ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros. o que o leva a evocar elementos de sua vida pessoal que nunca tinha 53 . e tanto mais porque se parecem conosco. quaisquer que sejam. adotando estratégias flexíveis e sabendo utilizar os atalhos. indivíduos com uma “identidade compacta” (forjo esse termo a partir da fórmula de IBSEN. tão apreciada por FREUD. Um deles explicita suas dúvidas. a sociedade contemporânea não precisa de uma tal concepção que implica. Os outros. para o indivíduo. muito pelo contrário). a possibilidade de tomada de consciência de suas falhas. Apenas um exemplo: numa grande empresa. Esse ódio contra partes de si mesmo mal integradas. contraditórias. Em cada indivíduo existe um ódio inconsciente de si. podem ser o objeto no qual nos livramos do que nos assombra e nos divide. a aceitação dos processos de clivagem. de suas faltas.

seja de novo como nós.Psicossociologia – Análise social e intervenção revelado. quando os indivíduos estão nessa situação. em substância: “Não continue. seu imaginário enganoso. p. aquele de quem se debocha e que seria eliminado brutalmente. como seres que percebem o diverso e que têm “o poder de conceber o outro” (SEGALEN. tendo uma identidade compacta. Além disso. Um indivíduo que reflete sobre si mesmo e. não se compara à intensidade das formas extremas de xenofobia ou de racismo) testemunha a capacidade dos indivíduos de utilizar as falhas dos outros para preenchê-las com suas próprias faltas. comportamentos dinâmicos mas não conformistas. Escolheram ser o que tinham vontade de ser e o mostram de forma visível. o indivíduo que demonstra reflexividade ou um grupo minoritário são causas de si mesmos. serei obrigado a falar disso a meu pai e. como mostrou Micheline ENRIQUEZ (1984). Pediu desculpas por seu momento de fraqueza e. simplesmente por se comportarem como “exotas” (V. quer dizer. eles questionam sua identidade. comportou-se como o seu próprio grupo de “pares” desejava. até que ponto evitam-se a si mesmos. 270). Transformam o mundo no qual estão. Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causa de si próprios (eles são apenas os porta-vozes de normas fortemente interiorizadas que foram edificadas pela “maioria compacta”). serão susceptíveis de levar os indivíduos com identidade compacta a transformarem o ódio de si no ódio do outro. 36). Ele se tornaria o fraco. Eles lhes mostram até que ponto estão enclausurados. Esse exemplo (que. que detestam. 54 . nem mesmo à sua esposa. Nessas condições. Pôde obter o posto desejado. experimentam um “ódio visceral de tudo que pode se apresentar como causa de si” (M. Com efeito. até que ponto estão presos na apatia (SADE). por um processo de contra-investimento. não quero saber nada de seus problemas porque. 1984. ele tem úlceras constantes. Apenas. Domine-se. Ora. Nesse momento. p. não somente você não poderá pretender ficar na empresa dele. desde então. O “homem com problemas” aprendeu a lição. mas ele dará um jeito de lhe fechar todas as portas. naturalmente. se você continua. eles insultam o narcisismo individual e grupal de todos os que. filho de um grande industrial. que lhe diz. SEGALEN). esquecerei o que você disse e você poderá ter o lugar que sua competência merece”. ENRIQUEZ. um grupo que tem uma cultura própria. são aprisionados em fantasias de “renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca”. seu simbólico. reedição de 1986. formam uma nova maioria compacta. vinda da boa burguesia. em termos mais gerais. é interrompido por um de seus colegas. diante dessas revelações. Nunca mais abriu seu “foro íntimo” a ninguém.

guerreiro e sedutor. todos os “estrangeiros” que devem conseguir se situar. sem emoção. destruir toda possibilidade de ser tocado” (M. como escreve P. “com essa apatia que permite às paixões se encobrirem”. pelo menos. por si próprios. como igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa. em seu corpo como em seu espírito. o homem dinâmico. 103-104). “à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido”. os que não se assemelham aos indivíduos que. o verdadeiro libertino deve conhecer “o repouso das paixões”. quer dizer. pelo menos. Assiste-se a passagem de uma civilização da culpabilidade a uma civilização da vergonha. 1835. pode se transformar tranqüilamente em verdadeiro matador. um piolho a ser eliminado. soropositivos e. de desprezo por parte de todos os que vivem na certeza e não na “perturbação de pensar” (TOCQUEVILLE. Basta ouvir certos discursos ou notar certos atos referentes a toxicômanos. no dizer dos racistas. assim. pessoas que se comprazem em refletir sobre sua ação etc. Quem não se amolda deve ser liquidado. “fazer correr sangue”. tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento anteriormente assinalado. dando a impressão de só se ocuparem de si mesmos. colocar em lugares criados especialmente para eles). Sente-se sempre mais puro quando foi possível fazer correr sangue impuro. do outro. ENRIQUEZ). “o embotamento da sensibilidade” que o levará a cometer com “fleuma” todos os atos os mais criminosos. “Apagar. para SADE. os “parasitas” (mãos-de-obra excedentes. ainda mais. então. num mundo a priori hostil ou indiferente. reedição de 1961.A interioridade está acabando? Lembremo-nos de que. todos os “marginais”. AULAIGNER. para nos darmos conta da violência da possibilidade de exclusão que pode atingir todos os que não são “sadios”. De um lado estão os vencedores. doentes de AIDS. todos os “exotas”. 55 . possam se tornar objeto de ódio ou. se evitam a si próprios. que todos aqueles que buscam articular sentidos. Sente-se tanto mais admirável quanto mais foi possível fazer desaparecer tudo o que não pode ser incluído no ideal e que se encontra.. todas as “minorias ativas”. p. só podem ser consideradas como “parasitas” que a sociedade deve excluir ou. O “matador frio”. Como dizia um chefe de empresa.. a propósito de “cortar gorduras”: não se deve temer “cortar ao vivo”. É interessante constatar que qualquer um pode se tornar um parasita. norte-africanos que “roubam o trabalho dos outros”. Compreende-se. “em demasia”.

infeliz de quem trapacear. Uma civilização da vergonha é completamente diferente. Mas. falta e sentimento de culpa requerem um interesse pelos vínculos que nos ligam a nós mesmos. demarcada demais e a culpabilidade da criança japonesa com relação à sua mãe foi evidenciada por outros autores. Uma civilização da culpabilidade só é possível se existe um sentimento de culpa. ele se tornará objeto de vergonha (por exemplo. Ele será perseguido pela vergonha de não ter conseguido. Da mesma forma. chamou a atenção para uma diferença essencial entre as sociedades ocidentais e a sociedade japonesa. em nível esportivo (mas tudo não está sendo cada vez mais medido pelo padrão esportivo?). a vergonha se abate sobre o autor da ação. em O crisântemo e a espada (1946). Essa distinção é. Ora. Ben JOHNSON nos Jogos Olímpicos) quando provas esmagadoras caírem sobre ele. da inveja e do amor. A vergonha não toca o indivíduo em sua intimidade. 56 . tiver medo diante de todo mundo (pois essas condutas acontecem em grupo ou sob o olhar das mídias). L. ir além de seus limites. utilizando-se produtos proibidos. em sua aparência. enquanto aquelas seriam uma cultura da culpabilidade. escalar um paredão com as mãos nuas. mas o toca em seu ser social. Ela supõe. a honra e o dinheiro serão seus sem que. quer o ato culpável tenha sido perpetrado ou não. 1988). Todo ato repreensível. a fim de que o indivíduo possa ser recompensado segundo seu mérito. ela só pode se desenvolver “no universo da falta”. Assim. voar em asa delta etc. sem dúvida. é preciso que seja conhecido por todos.Psicossociologia – Análise social e intervenção Ruth BENEDICT. se sinta culpável. mas pela vergonha. SERVAN-SCHREIBER. um ato que atesta o dinamismo do indivíduo – é realizado. fracassar. as práticas que permitem ganhar. seria exagerado dizer que nossas sociedades não são mais guiadas pelo sentimento de culpa. Se não for descoberto. além do reconhecimento dessa luta. simplesmente. Insiste-se também na necessidade de “volta da coragem” (J. na demonstração das capacidades de ascese e de enfrentar riscos (andar sobre brasas. em condições normais. a luta. portanto. um estudo sobre a sociedade japonesa. seja ele qual for.). Tudo está no ato e em sua visibilidade. é mesmo a uma tal passagem (certamente inacabada) que estamos assistindo. Se um ato corajoso – ou. ao cosmos e ao infinito (que esse último seja chamado de Deus ou outro nome) além de uma aceitação da articulação do desejo e da proibição. da agressividade. Basta que não seja descoberto. por isso. pode ser perpetrado. vemos proliferar. no interior de si. Essa última seria uma cultura da vergonha. O esportista que vence nessas condições não se sente de forma alguma culpado. No entanto. aos outros. Se ele for conhecido.

(b) que os fracos ideais propostos à identificação já provocaram formas de rejeição. mais a civilização da vergonha se imporá e a culpabilidade ligada à interioridade desaparecerá. com um único passe de mágica. felizmente -. nas sombras. quando não é possível falar-se a si mesmo. já começa a ser profundamente criticado. as notas frias. necessariamente. acabará como todas as que tentaram suprimir o sujeito humano. nascem a cada dia sob nossos olhos e. pelo jogo de aparências. contra o racismo. privilegiando a aparência. enunciando que é possível tornar os indivíduos mais performáticos. uma vez que se pode negociar idealização e sublimação (movimentos pelos direitos humanos. os seres mais unidos e as organizações mais dinâmicas. lendo as reflexões precedentes. Essa psicologização (ligada ao crescimento da civilização da vergonha) que tende a tornar impossível uma Psicossociologia Clínica encontra seus limites no número de excluídos que ela produz. (c) que os ideais fortes. atos dos mais contrários à moral comum. Mas o estudo do mundo dos “negócios” (por exemplo. podem mobilizar grupos a serviço de uma ética). senão mesmo “marginalizados” todos os sujeitos que não são obcecados pelo sucesso social. Com efeito. o fanatismo. Direi simplesmente: (a) que o corpo resiste e que as mais variadas somatizações expressam até que ponto. Porém. Esse movimento de desaparecimento da interioridade não é inelutável. são suspeitos. Não se deveria pensar. Quanto mais vivermos no mundo do fazer e da aparência. que o jogo está feito. necessários à vida humana. apesar de suas imperfeições – normais. semelhantes nisso aos povos mais arcaicos). a lavagem dos narco-dólares. postos de lado. sem culpabilidade. podem ser criados sem que daí decorra. (d) que o pensamento mágico prevalecente hoje em dia (estamos à beira da “onipotência das idéias”. o corpo se encarrega de fazê-lo. o desenvolvimento da corrupção nas esferas da sociedade que haviam sido preservadas até agora) mostraria ainda melhor a que ponto se pode tramar. contra a pobreza etc. um outro artigo seria necessário para mostrar como a interioridade resiste e porque penso que a nossa época. (e) que a psicologização exagerada dos problemas (o sucesso depende apenas da vontade do indivíduo de superar os obstáculos) tende a fazer desaparecer tanto o sujeito humano quanto o grupo e a organização nos quais ele atua. que não têm o gosto pelo efêmero ou por uma 57 .A interioridade está acabando? Só dei exemplos esportivos.

assim como as pessoas às quais se pede uma qualificação maior. sem dúvida.). Esses “excluídos”. da força de seus desejos reprimidos ou recalcados nem da própria realidade de seus desejos. que desejam uma vida regida por uma ética e que buscam um ideal sem cair. pelo sofrimento. com sua carga enigmática. pela alegria. a droga. de crédito. em termos de necessidades a serem satisfeitas imediatamente (demanda de criação de empregos. Esses sujeitos. assim como pela capacidade de sublimação. à obrigação da performance sempre a ser renovada (diretores que tiveram aposentaria antecipada ou que foram demitidos. Podem pensar que esses serão satisfeitos se a sociedade ou a organização cederem à sua demanda explícita. não desapareceu e não está 58 . trabalhadores incapazes de se readaptar. para retomar a expressão de BRETON) a parte que lhe é devida em todos os processos de transformação. de indústrias. se indagar sobre a necessidade de dar ao psíquico (esse “inquebrantável núcleo da noite”. os animadores socioculturais etc. começam a se fazer perguntas. Eles não se dão conta. jovens sem qualificação e que têm como horizonte o desemprego. para não caírem na Scylla de uma interioridade tal como foi definida por Thomas MANN – qualidade suprema do homem alemão que leva ao abandono do mundo objetivo e político6 –. reconforto narcísico) e que o caminho para obtêlo passa obrigatoriamente pela interrogação. veladamente. Sendo assim. eles ainda as fazem “na exterioridade”. ser tratadas “na interioridade”. poderão. Na realidade. Nesse momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção cultura de relações sociais valorizadas e mutantes. que resistem à adesão maciça a uma organização ou a uma instituição “fanatizadas”. Sem dúvida. apenas o fato de fazerem perguntas “na exterioridade” e de começarem a experimentar a angústia permite-nos esperar que eles possam um dia se por à prova. evitando o Charybde da exterioridade. Mas eles não podem ainda ter uma representação clara do que. sem lhes dar uma retribuição mais adequada (como as enfermeiras. Mais ainda. governa seus discursos e seus atos. são esquecidos ou eliminados por responderem insatisfatoriamente (ou por não mais respondem) aos critérios de “excelência”. deverão se precaver. Entretanto. a delinqüência. por isso. de afirmação ou de identificação. as perguntas. de espaços. tal como tentei delineá-la. aceitando as regras do novo jogo. encontram-se na mesma situação todos os que. além das reivindicações relativas ao reajuste do salário ou à valorização digna de seus esforços). pois sabem bem a que aberrações tal concepção pode levar. na doença da idealidade. os ferroviários. sentem freqüentemente que suas exigências são de uma outra ordem (desejo de reconhecimento. necessariamente. entretanto. mesmo se a interioridade. busca de identidade. esses “esquecidos” da sociedade.

p. GOETHE. 3 Cf. na qual o mundo objetivo. e TOROK. 1989-2. espírito racional e humanista por excelência. então. nunca se contenta de por ordem na vida e de dizer que é impossível viver sem “um projeto de existência”. Referências ABRAHAM. 37. Entre la marionnette et Dieu. “Psicologia de Grupo e Análise do Ego” (1921). um subjetivismo espiritual apreciador da autobiografia e da confissão. tão diversos quanto GOETHE. Eugène. “Vers la fin de l’intériorité?” Psychologie Clinique. Quanto a KLEIST. 2 Grandes escritores alemães.Topique. é necessário ter consciência de que a sociedade atual criou relações sociais suficientes para permitir aos homens evitarem a si mesmos e aos outros e. do culto do inconsciente e dos instintos. Segundo o Larousse. S. 1976. da salvação e da justificação da vida pura. ENRIQUEZ. sem dúvida o mais apaixonado dos românticos e que sanciona sua vida por um suicídio. 34. com a formação. 5 FREUD. 59 . 1985. N. 89-112. Paris: Aubier. Topique. da T. Considérations d’un apolitique. 61-76. “expressão pela qual Sto. citado por L. é a inquietação com o cuidado. da poetização do universo. prescreve aos jesuítas a disciplina e a obediência a seus superiores. é sentido como profano e abandonado com indiferença pois. Paris: Seuil. Rio de Janeiro: Imago. sobre KLEIST: E. 4 Como um cadáver (em latim no original). (N. com o aprofundamento do eu puro ou. os “diários de bordo”. XVIII. p. v.). 163. 1 6 Thomas MANN escreveu: “A interioridade. 38-53. In: Sur l’individu. p. p. é uma consciência cultural individualista. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. a Bildung do homem alemão. o gosto pelo mórbido. L’écorce et le noyau.A interioridade está acabando? perto de desaparecer (como atestam a volta dos registros íntimos. pela emoção. com suas difusões amplas). NOVALIS. assim. E. ENRIQUEZ. Notas Traduzido de ENRIQUEZ. o romantismo. 1987. Individualisme apolitique. como diz Lutero. 135. DUMONT. as autobiografias. M. Cf. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. é a absorção em si ou introspeção. reserva feita dos casos nos quais a consciência proíbe”. (N. descreve “os sofrimentos do jovem Werther” e inicia. 1976. contribuindo para a onda de suicídios que pontua o princípio do século XIX. Le Verbier de l’homme aux loups. 1962. 1976. por Sonia Roedel. p. é. o mundo político. Paris: Aubier. o homem dos Hinos à noite.). involuntariamente. seu oposto. N. Inácio de Loyola. deseja escrever (e redige em parte) uma Enciclopédia. ABRAHAM. ‘essa ordem exterior não tem importância’”. em termos religiosos. assim. não se confrontarem com o problema crucial da existência: o da alteridade dos outros e o da sua própria alteridade. NOVALIS e KLEIST testemunham esse movimento de ligação entre razão e paixão. da T. em suas constituições.

Nouvelle Revue de Psychanalyse. E. W. BARTHES. C. “Immuable et changeante illusion: l’illusion nécessaire”. n. Trad. Notes sur l’exotisme (1908). 1980. A. L’identité. 1965. Paris: Gallimard. narcissisme de mort. E. P. ps. de Minuit. VERNANT. Narcissisme de vie. de. J. Picquier. 1962. nova. 34: 89112. Paris: Seuil. R. 1985. ENRIQUEZ. 1942. 1983. Barthes par lui-même. L. In: Sur l’Individu. WINNICOT. GREEN. J. R. Aux carrefours de la haine. MIJOLLA. SEGALEN. 37. 1987. 1984. Le retour du courage. S. Paris: Grasset. Paris: Seuil. 25. In: Essais de Psychanalyse. 1984. BARTHES. V. reedição. Le sabre et le chrysanthème. 1982. P. Paris: Ed. Hogarth Press. Tomo I. FREUD. DUMONT. M. Paris: Gallimard/Seuil. ENRIQUEZ. Paris: Gallimard. retomado em Nevroses and character types. franc. M. R. A. 1985. La chambre claire. Paris: Seuil. “L’Individu dans la cité”. SERVAN-SCHREIBER. L. “Some forms of emotional disturbance and their relationship to schizophrenia”. Topique. A. p. H. EPI. FOUCAULT. “Ego distorsion in terms of true and false self (1966)”. Histoire de la sexualité 3: Le souci de soi. “Individualisme apolitique”. Topique. 1987. In: LEVI-STRAUSS. francesa In: Processus de maturation chez l’enfant. “Atomes de parenté et relations oedipiennes”. GREEN. “Condamné à investir”. ENRIQUEZ.Psicossociologia – Análise social e intervenção AULAIGNER. Biblio-Essais. 1975. Trad. 1981. D. Psychoanalitic quaterly. Paris: Les Belles Lettres. 309-330. 1986. “Heinrich von Kleist: entre la marionnette et Dieu”. Paris: Payot. Paris: Payot. 20-37. R. 1970. 1946. Trad. BENEDICT. DEUSTCH. “Psychologie des foules et analyse du moi (1921)”. 311-321. p. 1961. In: Sur l’individu. Les visiteurs du moi. 60 . 1982. 1987. 11.

para existir. O primeiro ponto que vou salientar – e que apresenta. mas não se está à altura de compreender. sem dúvida. esse problema é capital. fazer constatações e descrições finas da vida dos grupos. pois pode-se. Todos sabem e reconhecem isso. as análises dos grupos em estado nascente. Ora. Tal sistema de valores. O que parece. de um projeto ou de uma tarefa a cumprir. então. Por imaginário social entendo que só podemos 61 . Vamos um pouco adiante. à primeira vista. em um imaginário social comum. Um projeto comum significa. menos evidente são as implicações e as conseqüências de tal axioma. de início. neste texto. no entanto. que têm uma história (mesmo que limitada a algumas horas.OVÍNCULOGRUPAL1 Eugène Enriquez São numerosos os estudos sobre os mecanismos ou processos de grupos já constituídos. o que permite dar ao projeto suas características dinâmicas (fazê-lo passar do estágio de simples plano ao estágio da realização). a base sobre a qual são elaborados os princípios que presidem à instauração de todo grupo e que permanecem decisivos ao longo de sua história: O que favorece o vínculo grupal? Por que indivíduos se reúnem e chegam a funcionar como uma comunidade? O que permite diferençar um simples amontoado de sujeitos de um grupo consciente de sua existência e de seus valores? Eu gostaria. que o grupo possui um sistema de valores suficientemente interiorizado pelo conjunto de seus membros. como os grupos de seminários ditos de dinâmica de grupo) e que tentam formar para si um futuro. O projeto comum Um grupo só se constitui em torno de uma ação a realizar. São mais raras. no entanto. enquanto não for possível responder às questões que se seguem. deve se apoiar em alguma (ou mais de uma) representação coletiva. de levantar algumas hipóteses referentes aos elementos em jogo na formação dos grupos e na perenidade de sua ação. um caráter de evidência – é a necessidade de um projeto comum.

nos inspirar. Um grupo que queira fazer alguma coisa deve acreditar nela 62 . transforma-se logo em um sistema de crença. nela. Da ilusão à crença. mas afetivamente sentidas. para que um projeto comum possa verdadeiramente nos mobilizar. nos fortificamos (reforçando simultaneamente o eu ideal e o ideal do eu). ele pode nos atrair. é necessário que.2 Se FREUD criticou tanto a ilusão religiosa é porque. com uma força particularmente viva. Ela é um dispositivo simbólico que permite a canalização de nossos desejos. todo trabalho de interrogação sobre si. da ilusão e da crença. aquilo que queremos fazer e em que tipo de sociedade ou organização desejamos intervir. tentando nos situar a uma altura que nos parecia antes inatingível. aquilo que queremos vir a ser. tais representações devem não só ser intelectualmente pensadas. tanto ao projeto quanto a nós mesmos que. motor de nossa conduta. em um sistema de pensamento e em um sistema social que lhe tiravam toda possibilidade de pensar por si mesmo e de “trabalhar” as Condições e as conseqüências de seus comportamentos. ele via o protótipo de uma Weltanschauung que tinha a pretensão de dizer a verdade sobre a verdade e de incluir o indivíduo. de experimentar a mesma necessidade de transformar um sonho ou uma fantasia em realidade cotidiana e de se munir dos meios adequados para conseguir isso. Um dispositivo simbólico que funciona encobrindo toda dúvida. num grau maior ou menor. Ora. Todo grupo funciona à base da idealização. mais belos que os outros) podem ser elementos suficientemente mobilizadores para fazer-nos sair da apatia ou da simples expressão de nossa boa vontade. sagrado. correndo esse risco intelectual e social. que nos poupa toda interrogação sobre o valor desses desejos e que fornece uma solução pronta para os possíveis conflitos entre esses.Psicossociologia – Análise social e intervenção agir quando temos uma certa maneira de nos representar aquilo que somos. Para serem operantes. nos fazer sair de nossa cotidianidade e nos unir aos outros que partilham da mesma ilusão. Mas esse sentimento. trata-se de sentir coletivamente. Somente um projeto tido como objeto ideal e somente nós mesmos tidos como seres idealizados (mais puros. só pode emergir e ter força de lei quando ligado a um sistema de idealização de nós mesmos e de nossa ação. a passagem é rápida. inatacável: assim. a nossos próprios olhos. vigor e “aura” excepcional. A ilusão deixa igualmente sua marca. ele se apresente sob um aspecto religioso. A idealização está presente na elaboração de um projeto comum. Não se trata unicamente de querer coletivamente. Pois o ato de crer permite a certeza e elimina a questão da verdade. pois ela é o elemento que dá consistência. consciente e inconscientemente.

). sacrifício da própria vida (às vezes no sentido preciso do termo: em certos países. ilusão e crença não funcionam de maneira maciça. a fim de poder arregimentar toda a sua energia para o sucesso de seu projeto. a revolução etc. esse não é o problema. sobre a possibilidade de sua impotência. grandiosa ou pueril. Todo membro de um grupo é. pois esse não pode se estruturar se algum desses três elementos vier a faltar. A causa pode ser sublime ou irrisória. toda a dúvida sobre os limites de seu poder. eliminar toda inquietação relativa aos fundamentos do que quer realizar). Causa a defender. A crença de um militante político revolucionário não é assimilável à crença de um pesquisador no objeto de sua ciência. todos esses termos têm uma ressonância religiosa. missão a cumprir. Sua presença é indispensável e as modalidades de seu aparecimento são contingentes e arbitrárias. para se desenvolver. sua vida). de maneira mais ou menos forte. Eles assinalam que o projeto pertence a um mundo transcendental e sagrado que assegura a seu portador a certeza de estar com a verdade e de ser tanto mais admirável quanto mais brilhante for o projeto. é preciso que se refira a um grande propósito que lhe garanta sua onipotência e que encubra. na formação de todo grupo. É verdade que algumas distinções finas se impõem aqui. bem à vontade. abusivamente sem dúvida. possa perder parte de suas ilusões. existente há muito tempo. Mas isso não impede que esses três elementos estejam presentes. assimilando. pois esse não pode escamotear a questão da verdade. o militante político arrisca. o porta-voz e o guardião de “alguma coisa” que o ultrapassa e que legitima sua ação e sua vida (os primeiros psicossociólogos na França diziam. à qual se agarraria com todas as fibras de seu ser (certos psicanalistas atuais não hesitaram em chamar sua escola de Escola da Causa Freudiana. deveria ser defendida como uma causa. que eles exerciam o militantismo psicossociológico). ilusão e crença levam-nos à noção de causa a defender. consequentemente. pois. FREUD já pensava que a Psicanálise. Crê que deve ser capaz de se sacrificar pela causa que o motiva (a nação. verdadeiramente. idealização. o mesmo não se passa com um grupo no momento de se instituir. em certa medida. E isso não acontece gratuitamente. 63 . Para que um grupo se cristalize e crie seus meios de ação. Todo militante político pensa do mesmo jeito. Todo membro de um grupo sente-se investido de uma missão (mesmo se ele mesmo se designou essa missão) à qual deve consagrar seu tempo e sua vitalidade. suas práticas à da Psicanálise como um todo). Assim. Embora um grupo. Idealização. deixando de considerar o que faz como visando ao ideal mais elevado ao qual pode aspirar e deve se referir.O vínculo grupal (deve.

membros do grupo. sem exceção. lutando contra o que IBSEN já denominara “a maioria compacta”. antes de chegar a seus fins.Psicossociologia – Análise social e intervenção Um grupo minoritário Se o grupo tem uma causa a defender e a promover. Eu serei menos afirmativo. Para isso. a proclamar uma visão nova do mundo (ou. mas direi que. nós o sabemos. só existe um caminho: o do complô contra os valores instituídos. os primeiros psicossociólogos e numerosos outros exemplos). o da conjuração tramada no segredo e assegurada pela fé 64 . geralmente. para se reforçar. Só um grupo minoritário (como os psicanalistas – e FREUD em primeiro lugar –. Essas pessoas sabem que. atingir o grau de adesão que permite aos indivíduos se sentirem. mesmo pelos mais sedentos de combatê-la). ela deve. sua luta não terá alma nem razão de ser. propagar-se como uma mancha de óleo e. um dia. imperativamente. pode ser capaz de se arriscar para fazer triunfar o que presidiu sua fundação. A maioria não tem jamais uma causa a defender. um grupo que tem a comunicar uma mensagem nova. são sobretudo os seus discípulos e seguidores que ganharão com esse avanço. acreditar que está com a razão. A maioria não tem jamais um grande propósito. mais modestamente. IBSEN acreditava nos que diziam que “é a minoria que tem sempre razão”. vocação majoritária: mas. a causa que ela representa já triunfou anteriormente. se tornar a dissidência de muitos. antes de tudo e contra tudo. ela deve primeiro. “A dissidência de um só” (retomando a bela expressão de MOSCOVICI4 sobre SOLZHENITSYN) pode. queira triunfar. são o feito de um número muito pequeno de pessoas. Toda minoria tem. ela só tem interesses a conservar e uma organização a consolidar. a manifestar uma conduta desviante em relação às normas da instituição ou da sociedade. faz parte do bem comum ou se tornou mesmo um lugar comum. talvez mesmo. pois. Do contrário. algumas vezes de uma só3 . encarnação da ordem estabelecida e das idéias esclerosadas e enrijecidas. A maioria tem por objetivo o de bem gerir o patrimônio coletivo e manter uma ideologia favorável à ordem social que ela instituiu. utilizado nos dias de hoje por todos os partidos políticos. caso uma minoria. triunfar. têm poucas chances de serem bem sucedidas e as mais conscientes pressentem que. As idéias novas. (Pensemos na afirmação da liberdade de todo cidadão no momento do sobressalto revolucionário de 1789 e no empobrecimento desse termo. progressivamente. Pouco importa. isto é. se representa e quer se definir como uma minoria atuante. isso significa que ele se pensa. no caso de sucesso. de uma profissão ou de uma disciplina).

visando não à contestação da ordem existente. Para que a vitória seja possível. é preciso se definir pela intransigência e pela intolerância. pois se funda em instituições sólidas. visando à repetição. sintoma do trabalho da pulsão de morte (compulsão à repetição. a transgressão diz não apenas que o saber antigo é obsoleto. no passado. a sedimentação das relações de poder e das estratégias que. A transgressão. ao idêntico e à reprodução das relações sociais é. Tal transgressão só pode ocorrer pela expressão de uma certa violência. A contestação. por exemplo. mas que um novo saber apareceu. novas maneiras de ser ou de se conduzir. o grupo vai tentar destruir as instituições. o falo triunfante ou a mãe arcaica devoradora. com efeito. Ela é o que impede a tomada de consciência das relações sociais reais e das relações humanas autênticas. Assim fazendo. E na maior parte das vezes ele o é. que as práticas sociais e as representações coletivas não apenas não têm mais eficácia. mas propõe novas idéias. enfim. mas pela luta. sob certos aspectos. deram certo. tirânico e conservador que se quer derrubá-lo. ao contrário. Ela não visa a propor outra coisa. explicitando o implícito dos comportamentos. Assim. Luta empreendida em nome da verdade e da pureza. mas também que práticas sociais novas são possíveis e que representações coletivas renovadas devem guiar a ação. ela é. enquanto elemento da regulação social. Todo o dispositivo contra o qual se luta é percebido como fortemente hierarquizado. maneiras inovadoras de ser. contra um exterior percebido como tão obscuro. tornando claro o “nãodito” e o “não-pensado” da ordem social. A Psicanálise. Como essas representam a ordem paterna. Pouco importa que o ambiente seja menos repressivo do que se pensa. não somente interroga de maneira virulenta as instituições e as condutas estabelecidas. vista como pulsão agressiva). Toda instituição. Não se ataca a antiga ordem com um debate cortês. ser claro como a neve e se sentir irmão dos outros transgressores. o grupo só pode lhes opor a ordem fraterna e igualitária. tem por objetivo questionar o sistema vigente. que as idéias tradicionais tenham um fundo de verdade. 65 . não tentou apenas desarticular a antiga ordem psiquiátrica e a visão organicista da doença mental. mas enunciou uma nova teoria da psique e uma concepção da cura que coloca os fenômenos transferenciais e contratransferenciais entre o psicanalista e seu paciente no próprio centro da cura. na cristalização de desejos passados e de poderes estabelecidos.O vínculo grupal jurada (juramento que faz de todos os membros do grupo ao mesmo tempo cúmplices e irmãos). mas à sua transgressão. desmistificando-o e desmitificando-o.

isto é. Ódio ao exterior. sentimento de serem irmãos e de formarem uma comunidade de iguais. aliás.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD compreendeu isso bem. a priori estranhos ou rivais entre si. violência fundadora de um novo mundo. É o ódio ao exterior que vai favorecer o amor fraterno e fazer circular o fluxo libidinal que permite a passagem dos sentimentos egoístas aos sentimentos altruístas. em outras palavras. conquistar prestígio ou uma certa posição social e quer realizar o que sente como se fosse a própria essência de seu ser. são essas as condições de constituição do vínculo grupal. irmãos uns dos outros. cada sujeito procura exprimir seus desejos e fazer com que os outros os considerem. graças a esse imaginário comum e não a outro. todo grupo. identificados uns aos outros (tendo trocado sua diferença e sua provável rivalidade por um amor mútuo e maior semelhança). não ser rejeitado. Esse problema é o do conflito entre o desejo e a identificação ou. O desejo e a identificação O grupo assim formado vai se encontrar diante de um problema estrutural que tentará tratar continuamente. Se nem todo grupo tem que matar o pai da horda. mas sobretudo porque pensa que é com essas pessoas e não com outras. amor ao grupo enquanto grupo. manterem essa confiança recíproca que não apenas os transforma em membros de um grupo. não obstante. deve criar um acontecimento irreversível. fazer-se aceito em sua 66 . Não há complô verdadeiro. que pode chegar a tornar seu desejo reconhecido em sua originalidade e em sua especificidade. FREUD. tornar seus sonhos reais. permitindo-lhes formar entre si uma verdadeira comunidade. entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. ao menos. Se ele faz parte do grupo. mediado por uma violência que substituirá a violência instituída e insuportável aos novos irmãos. porém sem sucesso. amor mútuo. seria impossível aos indivíduos reunidos trabalharem juntos ou se amarem. Ele quer se fazer amado pelo que é ou. sem esses sentimentos de serem perseguidos pelos detentores da ordem antiga. viu mais longe: ele se deu conta de que é o complô que torna os indivíduos. mas também favorece a emergência de um narcisismo grupal e evita todo conflito interno. sentimento de serem minoritários e portadores da verdade. a não ser entre irmãos. Sem essa vontade de destruição. não é só porque quer realizar um projeto coletivo. O reconhecimento do desejo Em um grupo.

De todo jeito. como ameaça real e não como elemento da ordem simbólica. cada grupo terá a tendência a resolver o problema escolhendo uma dessas duas direções. para que possam se amar. às quais cada um deverá se submeter. Para que os diversos membros do grupo se reconheçam entre si. é o desejo de reconhecimento que predomina. inventores de normas rígidas e profundamente interiorizadas. Assim sendo. querendo formar uma comunidade. O grupo. ele apenas é o irmão mais velho e mais experiente) pode resultar na formação de indivíduos uniformes. O desejo de reconhecimento ou a identificação Mas. não devem ser muito diferentes uns dos outros. eles se tornarão semelhantes. quer. Tal perspectiva comporta cinco séries de conseqüências: 67 . o sujeito não quer apenas expressar seu próprio desejo. igualmente. nesse caso. Para se dar conta de até que ponto uma ideologia vivida conjuntamente pode dar lugar a uma linguagem hermética e a condutas normalizadas. não poderia ter sido aceito por seus semelhantes. se não o desejasse. manifestar no real suas fantasias de onipotência e denegar a castração que é vivida. em seu ser insubstituível. Aliás. Cada sujeito tentará então amealhar os outros nas redes de seus próprios desejos. homogêneos. em maior ou menor grau.O vínculo grupal diferença irredutível. em um grupo. cada sujeito (e cada grupo) será enredado nesse conflito estrutural entre o reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento. basta pensar no aspecto estereotipado das atitudes de certos psicossociólogos não diretivos ou de psicanalistas “lacanianos”. Mais ainda – e aqui também FREUD nos abre o caminho –. A MASSA Num tal caso. Assim. uma sociedade secreta com seu ritual e seu código). pode caminhar ou na direção de se tornar massa ou na direção da diferenciação diferenciação. ser reconhecido como um de seus membros. essa igualdade insensata (mesmo quando um sujeito se destaca. O grupo não tolera a diversidade de condutas e de pensamentos. um corpo social completo. eles devem se identificar uns aos outros. O único problema é a mais estrita identificação. estar a par do “segredo” (um grupo em estado nascente é sempre. formarão um verdadeiro corpo social e não um aglomerado de indivíduos. não teria podido fazer parte da conjuração. colocando um mesmo objeto de amor (a causa) no lugar de seu ideal do eu. Essa semelhança buscada.

foi antecipando a emergência desse sentimento que a comunidade se dirigiu para essa via. influência. Assim como. o emprego de uma linguagem de clichês e de uma “ideologia de granito” (Cl. a falta de inovação e. tomando as características de um corpo todo-poderoso. o grupo tem o sentimento de euforia por se constituir como massa. LEFORT). de indivíduos os mais emocionais. crédito a rumores e às palavras mais aberrantes. sem-fundo”. Que ele se guarde da desilusão. Aliás. 4. portador da “verdade” (!). com efeito. avança cego. 3. sabemos que as mercadorias criadas pelo homem acabam por revestir o aspecto de “seres independentes em comunicação com os homens e entre si” e por tomar a “forma fantástica de uma relação de coisas entre si”. O grupo se torna objeto de todos os investimentos. delação. Ocorrerão comportamentos regressivos. tomam um vigor particular. face a um grupo “sorvedouro.6 de um grupo onde dominarão as imagens arcaicas e no qual os comportamentos serão de tipo pré-edipiano. senão os mais perturbados. que será particularmente dura de suportar. Nenhum conflito intra-individual ou inter-individual parece possível. O grupo. igualmente. abismo. despertar as fantasias mais arcaicas – medos de fragmentação. de devoração e de destruição – que são apanágio de todo grupo. angústias de explosão. desenvolver condutas que. no grupo. Cada qual se perde na construção do eu ideal do grupo.A falta de diferenças provoca. à primeira vista.5 2. mas que. Estamos. sem que se perceba. Ao contrário. sentimento de um meio hostil. de tipo defensivo: suspeita mútua. narcisismo individual e narcisismo de grupo coincidem.A semelhança pode. em tal caso (como no do indivíduo perfeitamente couraçado que vive uma angústia insuportável de brechas). por ser o mais forte e o mais belo. predomínio de fenômenos afetivos nas tomadas de decisão. então. progressivamente. 68 . a degradação da reflexão e da inventividade. capaz de nos devorar ou de nos englobar totalmente e ao qual devemos necessariamente obediência e submissão. tentativa de destruição do outro ou de autodestruição do grupo. pensando dar satisfação ao seu próprio eu ideal.O grupo completo vai progressivamente se autonomizar e suplantar seus membros. a partir de MARX. não parecem defensivas. sabemos agora que toda criação humana acaba por se desligar de seus criadores.A compacidade do corpo formado vai.Psicossociologia – Análise social e intervenção 1. coberto de certezas.

a administração. cada qual acreditando deter a verdade. uma diferenciação dos indivíduos e uma variedade dos desejos expressos. em seu interior. como frouxos ou traidores. No entanto. todo mundo concorda com a idéia de que a cooperação nasce da expressão e do tratamento de conflitos. “níveis insuportáveis” (FREUD). Se aceitaram durante longo tempo o processo de uniformização. A DIFERENCIAÇÃO Certos grupos admitem. A vontade operatória desaparecerá para dar lugar a uma expressão afetiva superabundante. cada qual reconhece a competência do outro (ou de um outro subgrupo) em domínios específicos que utilizam abordagens e técnicas adequadas (assim. Em tal caso. quanto mais ele se apresentar como o resultado de discussões finas. orgulhoso de suas prerrogativas e seguro de estar no bom caminho. a concepção que tais grupos têm desse projeto não apresenta nenhum aspecto monolítico.Se. Se não se trata de questionar o projeto comum. por acaso. mesmo se as posições de cada um são defendidas com clareza e determinação. de argumentações contraditórias. alguns membros do grupo suportam mal essa situação de massa. os educadores. ao contrário. em um seminário para diretores de um centro de jovens inadaptados. ao contrário. A tolerância existe. uma maximização das contradições e pode orientar a maior parte da energia do grupo para a resolução desses conflitos. (Assim. como a cooperação idílica não existe mas. eficaz e de suscitar adesão ou mesmo entusiasmos. Todo mundo. de negociações rigorosas. o psicólogo e o psiquiatra poderão trabalhar em conjunto e não um contra o outro). Teme-se mesmo que o grupo se desagregue em subgrupos ou em partidos. No limite. tive a surpresa de 69 . então. Os membros do grupo são. é possível e mesmo provável que o grupo viva momentos de desacordos e tensões que podem mesmo atingir. irmãos em sua capacidade própria de pensar e de agir. chegando ao abandono de toda identidade pessoal. serão excluídos do grupo. então. acreditará que um projeto tem tanto mais chance de ser pertinente. A aceitação do conflito institucional como modo normal de regulação do grupo pode acarretar. encontrarão as maiores dificuldades para se reinventar uma nova identidade e para não reagirem simplesmente como “homens de ressentimento”.O vínculo grupal 5. em certos momentos. em um centro de jovens inadaptados. o grupo acabará por esquecer o seu projeto e passará a maior parte de seu tempo tentando analisar e compreender o que se passa. ele esquecerá os objetivos que deve perseguir. O grupo se centrará em si mesmo.

os grupos que admitem a diferenciação e que querem se gerir de maneira democrática. Em qualquer caso. Para não chegar a esse ponto. mestre do pensamento e da ação). repetição da palavra do mestre. novos complôs para tentar tomar o seu lugar ou para ridicularizar seus atos. Fenômenos regressivos do tipo submissão. acabam por reconhecer em um de seus membros um poder que vem de sua experiência. será tentado a achar um bode expiatório. Entretanto. 70 . Essa vítima pode ser alguém que não é de modo algum responsável pela situação atual ou a pessoa que se revela mais frágil e. e no domínio da Psicossociologia conhecemos como liderança. com toda impunidade e sem temer medidas de retaliação. os processos de grupo girarão em torno da pessoa central. Quando o grupo não consegue resolver seus problemas. de suas relações com o conselho de administração e da amplitude de seus poderes. tudo isso corre o risco de aflorar e de monopolizar uma grande parte das capacidades do grupo. a única que o grupo pode sacrificar levianamente no altar de seus problemas. vê-los reclamar da perda de tempo ocasionada por eles). encontra aqui sua razão de ser e seu campo de aplicação. Nesse caso. eu deveria ter ficado menos surpreso. se torna um grupo edipiano. ao contrário. O que em política se chamou “culto da personalidade” ou. É raro ouvir professores falarem de estudantes. nos países ocidentais.Psicossociologia – Análise social e intervenção constatar que esses diretores tratavam apenas de problemas da organização de seus centros. “personalização do poder”. crença cega no caráter de verdade daquilo que ele disse. tentativas escusas de fazê-lo cair de seu pedestal. Esse. A paranóia nos grupos De acordo com cada caso. enquanto professor. aquela que é considerada como tendo e sendo o falo. insistirão na uniformidade ou na diferenciação (o momento final dessa consistindo na restauração de um líder. assim transformado. os grupos serão então do tipo pré-edipiano ou do tipo edipiano. pois ninguém tem medo de fazê-lo e cada qual pode exteriorizar sua agressividade. Um super-eu coletivo surgirá e o chefe será seu portavoz e seu guardião. rivalidade entre os discípulos para serem o eleito do mestre. investindo-o então como chefe capaz de encarnar a vontade e os desejos do grupo. é freqüente. as grandes ausentes de seus discursos eram as crianças de quem se encarregavam. por isso. no qual a referência ao novo pai e a seus ideais se tornará o elemento essencial que permite a identificação mútua e a coesão do conjunto. uma influência que vem do domínio das idéias.

Uma tal paixão tem pesadas conseqüências. tende a desenvolver relações fortemente erotizadas entre seus membros e a fazer emergir um discurso passional. A tentação paranóica está pois sempre presente e acompanha o processo libidinal. se nós nos damos muito ou nem tanto ao grupo. transformado muitas vezes em processo de erotização. sendo bem sucedidos ou não. Ora. ele não pode mais duvidar de estar com a verdade. 71 . mas também a se defenderem contra o exterior e a se entre-devorarem. rendemse ao discurso de amor proferido pelo chefe ou ao discurso de amor comum. em maior ou menor grau. podem. Essas questões não podem ser elucidadas. igualmente. O amor desemboca no ódio. os membros do grupo estão condenados ao amor. Os membros do grupo podem indagar se alguns dentre eles jogam bem o jogo do amor. Assim. inscrever seu sonho na realidade. a única digna de ser respeitada. é o de saber se nos amamos bastante (se amamos bastante o grupo). para afirmar a primazia de sua posição fálica. impôs a seus membros que investissem libidinalmente nele e também uns nos outros. eles estão também condenados à suspeita contínua e aberta. os grupos não podem se esquivar. Os raros inimigos que lhe restam serão perseguidos tanto mais duramente quanto mais tiverem se recusado a se submeter à nova lei. em sua vontade de mudar a ordem na qual intervém. se consegue impor os seus ideais ou transformar. isto é. do mesmo modo que estão condenados à crença. E não serão só os inimigos que serão perseguidos. Correlativamente. o grupo corre o risco do fracasso. as pessoas conformistas e os traidores potenciais. como já constatamos. mas também os fracos. mas quem são os amados e os rejeitados. para existir. a fantasia de onipotência desemboca no sentimento de ser perseguido por inimigos exteriores (pela maioria compacta) e também por inimigos internos que utilizam o fluxo de amor em função de sua grande glória. querer estabelecer vínculos privilegiados com outros membros. O problema não é mais saber o que devemos fazer juntos. o campo social. A situação minoritária obriga os indivíduos a se sentirem solidários e a se amarem. os discípulos eleitos e os indivíduos excluídos. Correntes de amor e de ódio percorrem o grupo. tornar-se majoritário. dos processos paranóicos que os atravessam constantemente. só pode ter sucesso em sua tarefa se estiver possuído por uma fantasia de onipotência. o grupo minoritário que.O vínculo grupal Mas. se alguns se aproveitam da situação refreando seu amor. se os indivíduos não se entregam ao jogo ou o revertem a seu favor. de todo modo. se somos suficientemente amados. Se o grupo é bem sucedido. Com efeito. pois um grupo minoritário.

O grupo é incapaz de se interrogar sobre as verdadeiras raízes de seu fracasso. De fato. educadores. qualquer um é sempre o frouxo ou o traidor para alguém ou para alguma facção). 72 . os marginais. mas ela não atua com a mesma intensidade em todos eles. mas não é um resultado inelutável.Psicossociologia – Análise social e intervenção os indiferentes. Eu não quereria desacreditar o interesse de tal trabalho. havendo sempre os frouxos e os traidores em potencial (se esses não existirem. mas gostaria de sublinhar que ele não é uma panacéia. Quem não se enquadra no discurso de amor comum deve se submeter ou desaparecer. Ela representa uma tentação constante. Com efeito. em um processo de análise: 1. de outro lado. E elas não são difíceis de encontrar: são os inimigos exteriores que fecharam as portas para a vitória e são os inimigos internos que sabotaram os esforços comuns. em sessões conduzidas por um analista interno ou externo. trabalhadores sociais) habituadas a se interrogar sobre suas motivações e que acreditam ter uma certa proximidade com seu inconsciente. o elemento em torno do qual o grupo se constitui. isto é. Para tratar esse elemento constitutivo e desativar sua estrutura mortífera. se ele não provoca impacto social. é a ação (o projeto comum) e não a linguagem. Muitos observadores se espantam.Confia-se na linguagem (como na cura analítica) para esclarecer os problemas. por exemplo. pois o triunfo revolucionário deverá ser sustentado. além disso. ele vai procurar as causas de seu fracasso. o grupo fracassa. Com efeito. Ora. é o contrário que seria de espantar. para dizer que ele ainda subsiste. Para ele só existem os perseguidores ativos ou potenciais. esse canto de morte nada mais é que um canto de cisne e sintoma de sua decomposição lenta e inevitável. deixar claro: A paranóia é constitutiva de todo grupo. no entanto. serão inventados segundo as necessidades e. com o fato de uma revolução devorar seus próprios filhos. se seu ideal parece ridículo e sem interesse para os outros. psiquiatras. Se. mas outro que está ainda para ser encontrado. particularmente quando o grupo é composto por pessoas (psicólogos. assim como todos aqueles que dão testemunho de outra possível verdade ou de um sentido que não é o sentido do grupo triunfante. Ele os acossará internamente e agirá ruidosamente no exterior. isto é. É preciso. psicanalistas e psicólogos pregam habitualmente a necessidade de uma análise aprofundada e de uma regulação do grupo. o organizador do grupo.

73 . 2. Ela pode levar à dissolução do grupo. sem jamais chegar ao menor esboço de solução. as pessoas se entregarão a descargas emocionais. Muitos atos e condutas só ganharão sentido muito tempo depois. ela pode atacar o fundamento mesmo do grupo e abalar as certezas mais enraizadas. às custas do mal que nutrem com gosto. Além disso. De fato. o grupo levantará as mesmas questões durante anos. há muito tempo atrás. ela pode agir como função de desconhecimento e obscurecer os problemas. quando não mais for possível fazer o que quer que seja para evitar suas conseqüências. para adquirir uma competência interpretativa ou para se atribuir uma consciência boa. ter em conta que o grupo não se suicida facilmente e que retira benefícios consideráveis do mal que pensa sofrer. Isso não é sem importância e os grupos freqüentemente preferem viver dolorosamente. É importante não nos esquecermos. tendo a possibilidade de exprimir seu poder e seus sentimentos. Viver na angústia e na violência é se sentir viver. serão feitas análises superficiais. os problemas serão evocados sem serem tratados a fundo. Outras vezes. Se. Ficar-se-á perplexo ao constatar que. Na própria medida em que ela interpela os processos de idealização. não será possível tomar consciência do todo (o sentido permanecerá para sempre velado). quando esse perde os motivos para se apegar a um projeto que não reforça mais o narcisismo individual e coletivo. arriscar-se a ser amado. que se traduziria em uma erradicação ainda mais radical. de maneira recorrente. pois a tomada de consciência levaria a tamanhos perigos que tudo concorre para impedi-la. em certos casos. de crença e de ilusão. Aí também há muita ilusão. isso seria amenizar as funções e o alcance de uma análise. em vez de favorecer o seu esclarecimento. Deveríamos. e o disse muito bem.O vínculo grupal Nessas sessões trabalha-se com a hipótese de que a linguagem e a ação são forçosamente complementares e que. assim. O grupo corre pois o risco de fazer a análise pelo prazer da análise. a tomada de consciência se produz. no entanto. a linguagem (a análise) pode e deve acompanhar a ação. FREUD disse isso. ao invés de tentarem o inferno de uma elucidação radical. em muitas circunstâncias. A análise pode dar um sentido mas pode também desarticular.A tomada de consciência é tida como um elemento central da regulação e da capacidade de mudança do grupo.

Eugène. Ma vie et la psychanalyse. CASTORIADIS. Bulletin de Psychologie. 2 3 4 5 6 74 . FREUD podia escrever com orgulho: “A Psicanálise é minha criação. por dez anos. seus antagonismos. Seuil. Nouvelle Revue de Psychanalyse.U. uma solução. pois aquilo que ele trabalha é a própria razão de sua existência. PONTALIS. C. Tomo XXXVI. B. Acreditar nela é ir em direção a novas decepções e ressuscitar a ilusão. fui o único a me ocupar dela e. Gallimard). “Le lien groupal”. por José Newton Garcia de Araújo. Psychologie des minorités actives. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ.” (FREUD. Por dez anos. ao mesmo tempo. 4. “L’illusion mantenue”. n.Psicossociologia – Análise social e intervenção Nada resta então a fazer? Há ainda algo a se fazer. suas relações de poder. S. mas é preciso não querer ir muito longe. MOSCOVICI. S. LEFORT. A elucidação do grupo por ele mesmo é uma exigência que não pode ser. J.F. foi sobre minha cabeça que se abateram as críticas pelas quais os contemporâneos expressaram seu descontentamento e seu mau humor em relação à Psicanálise. 631-637. um grupo deve reconhecer e trabalhar suas clivagens. Cf. em caso algum. p. suas angústias e. 1983. P. se dar conta de que tal tarefa é limitada. Um homme en trop. Segundo os termos de C. no 360. lá mesmo onde se havia pensado vê-la desaparecer.

de modo algum. passar despercebida (ela provoca mais impacto que a tentativa de “reinventar a democracia”) e porque ela tende a ser reforçada nos próximos anos. 1985). Devo acrescentar. que o presente estudo é muito diferente (apesar de não o contradizer) de um primeiro texto meu respondido por Jean-Léon BEAUVOIS. 1983. quanto nos países do Norte da África e no Oriente-Próximo. Essa exposição se encontra na obra coletiva dirigida por BAREL (1985). a fazer uma exposição intitulada “Mal-estar nas identificações”. (Malraux) As dificuldades relativas às referências de identificação. Espero. constituem um fenômeno bastante forte para terem me levado. Creio não ser o caso de retomar aqui os argumentos desenvolvidos ou evocados naquela ocasião. então. que meu discurso seja recebido como suficientemente coerente. experimentadas por um número cada vez maior de nossos contemporâneos. por ocasião de um colóquio organizado por Yves BAREL. é porque me parece que essa tendência. na verdade. convincente e inquietante. Entretanto. mesmo que essas considerações preliminares possam parecer um pouco longas. Com efeito. não deve. os acontecimentos que se produzem atualmente. atualmente. mas simplesmente de assinalar que citei a tendência a reencontrar certas “referências duras” entre as condutas desenvolvidas pelos indivíduos e pelos grupos para sair de uma situação “onde tanto a perda das referências quanto a multiplicação dessas nos fazem penetrar em um universo no qual as potencialidades persecutórias são inumeráveis” (ENRIQUEZ. O texto que proponho aqui tem a finalidade de explicar o que entendo por “referências duras”. em Grenoble. 75 . Ele não pretende eliminar as outras vias de solução nem designar a solução que ora apresento como a mais freqüente.OFANATISMORELIGIOSOEPOLÍTICO1 Eugène Enriquez Mas nós. se me detive a explicitar tal proposição. quem somos nós? (Plotino) O século XXI será religioso ou ele não existirá. tanto no Leste da Europa.

sob pena de exclusão da comunidade. A referência dura se exprime para mim. o papel que lhes estava destinado. um dogma. ao longo do tempo. igualmente ENRIQUEZ. No conjunto. no entanto. as grandes religiões monoteístas foram. desde a entrada na modernidade) souberam deixar um espaço ao religioso. ela nos religa uns aos outros. sem lhe outorgar. apesar de todas as diferenças possíveis de se observar em seus modos de existência social). às custas da própria vida – encontrou pouco sustento para crescer. enquanto as sociedades (desde a Revolução Francesa. está na própria base da instauração da comunidade (e mais tarde da sociedade) e de seus modos de gestão política. como indivíduos que dependem da existência de um Sagrado transcendente e obrigados. a se apresentar sob a máscara do fanatismo. a Deus o que era de Deus. A religião produz então o “ser-junto”. de maneira privilegiada. além de nos sentir para sempre em dívida. deixando ao Estado e ao seu aparelho educativo o cuidado de completar ou de contradizer seus próprios ensinamentos. A César o que era de César. mais exatamente dos) fanatismo religioso e político (cf. Ao contrário. seja como ser coletivo). sem totens. Pois bem. dizer que a religião é consubstancial a todo corpo social e a toda forma de governar esse corpo. com relação a ele. 1989).Psicossociologia – Análise social e intervenção trazem argumentos complementares à minha tese e tendem a torná-la ainda mais radical do que era em sua primeira versão. as religiões no mundo moderno ocidental desempenharam. A religião nos institui como seres heterônimos (segundo a expressão de CASTORIADIS). o fanatismo religioso – isto é. As crenças. se depurando. isso não a obriga. Não existe corpo social nem orientação normativa desse corpo sem religião (sem culto dos ancestrais. Assim. como o pensavam DURKHEIM e FREUD. no renascimento do (ou. ou seja. um domínio completo sobre as consciências e um papel central na organização política (esse foi o caso tanto nas sociedades arcaicas como nas sociedades do antigo regime. elas não colocavam mais problemas particulares. pode-se dizer que. ela nos protege da angústia do caos primordial e de uma interrogação que poderia apontar o aspecto arbitrário de nossa presença no mundo (seja como ser individual. a lhe render uma homenagem constante pelos dons recebidos. um ritual compartilhado que é preciso defender. *** Tratar conjuntamente do fanatismo religioso e político significa que a religião. a crença exacerbada em um mito. necessariamente. às vezes com reticência. sem deuses ou sem Deus único). sustentadas por rituais 76 .

tornando-se mestre de si mesmo e de seu destino. tendo como papel levar os indivíduos a idealizarem a sociedade atual (ou futura) e seus mestres (presentes ou futuros). como desejava DURKHEIM. é um bom exemplo desse desvio tranqüilo que não incomodava a ninguém. a tornar-se um Deus para os outros homens – homo homini DEUS). As ideologias que me interessam não são os sistemas mais ou menos formalizados de idéias que buscam uma coerência e que orientam a ação dos homens. dos padres operários. na França. quando o reino de um Sagrado transcendente foi se acabando. tendo por missão engendrar uma sociedade sem classes. não assistimos. laicas (E. salvo ao aparelho da Igreja que começava a se dar conta das conseqüências. Essas religiões substitutas nada mais são que as ideologias. quando as religiões estabelecidas passaram a não ter mais a mesma força de convicção e se tornaram assuntos privados (o homem dotado de razão. baseadas mais ou menos nesses diversos Sagrados. do declínio de uma fé sincera e manifesta. em todas as sociedades (modernas) seriam então ideólogos. mas foram se laicizando. a qualquer preço. colocando-os num lugar de submissão a um imperativo de conduta que.O fanatismo religioso e político pouco numerosos e pouco restritivos. como acreditaram grandes autores (em particular Max WEBER). porque é 77 . transformada apenas em uma religião enfeitada com seus últimos esplendores. a Sociedade ela mesma se admirando na sua capacidade de se transformar e de desenvolver a ciência e a tecnologia. J. Entretanto. Todos os homens. a longo prazo. O episódio. uma sociedade da transparência e da reciprocidade. Algumas religiões. STOETZEL). ARON. É necessário precisar o significado que dou a esse termo. mas à criação de religiões substitutas. ENRIQUEZ). como medida de todas as coisas. o Proletariado como Salvador messiânico da humanidade. que se assumiam cada vez mais como operários e cada vez menos como padres. venha a lhes aliviar “a angústia de pensar” (TOCQUEVILLE) e lhes assegure. além de assumir o progresso indefinido do espírito humano (segundo a fórmula de CONDORCET). a longo prazo. se resumiam em uma ordem moral geral bastante branda. regulando e freqüentemente dominando a Sociedade civil. “introduzindo a unidade na diversidade” (HEGEL). profanas (MOSCOVICI). sem se dar conta disso na maior parte do tempo. passam a se desenvolver. Novos Sagrados vão aparecer: o Dinheiro. o Trabalho como grande integrador (segundo a ótica de Yves BAREL). um estado psíquico onde o conflito não aparece. que alguns autores vão denominar religiões seculares (R. o Estado como aparelho separado. aspirando assim. permitindo-lhes se situar e dar razão à sua existência e às suas condutas. ao “desencantamento do mundo”. Elas continuavam a assegurar um papel de estabilização das relações sociais.

mais ou menos fortemente. mas como um corpus científico do qual se pretende que só podemos escapar por má fé.Psicossociologia – Análise social e intervenção impossível viver sem ser regido. Os sucessores de LENIN levarão tal proposta muito mais longe: um bom comunista deve conhecer as obras de STALIN ou o pequeno livro vermelho de MAO. permitindo compreender o funcionamento e a evolução da humanidade. ou mesmo quando ela pode admitir certas contradições trazidas pelas instituições específicas que dividem entre si as funções de regulação da sociedade. a boa forma da obediência aos que detêm o saber. por LENIN) que recusa levar o nome de ideologia. saber que é indispensável exportar aos países que ainda vivem na barbárie 78 . como um conjunto de idéias e de valores ao qual também podem ser opostos outras idéias e outros valores. após a morte de MARX.). na França. de modo que a escolha a ser feita dependa unicamente das preferências individuais ou coletivas). O termo designa então um modo de funcionamento tão comum da psique individual e coletiva que não apresenta nenhuma qualidade particular. de serviços. da ideologia de granito (LEFORT. por ENGELS e. então. de votos etc. eu falo de Weltanschauung (de uma concepção de mundo). plenamente possível dizer o mesmo da ideologia marxista (tal como ela foi recolocada. mas que atribui a si o ajuste definitivo de leis objetivas da natureza e do social. eu falo então de um conjunto de valores que têm força de lei. A ideologia pode. (mesmo se. isso não impede que ela tente dar uma boa forma aos indivíduos. não como uma ideologia (quer dizer. racional e calculador dos custos ou vantagens que ele pode esperar de seus comportamentos. apóia-se sempre em um sistema articulado de crenças) ser discutida cientificamente e se apresentar. de ideologias totais (LYPSET. 1976). Quando falo de religiões substitutas. tal como a ideologia republicana. para conduzir sua vida cotidiana de maneira justa e científica. conscientemente ou não. É. e que favorecem a unidade do eu ou do corpo social. por um conjunto de idéias nas quais acreditamos. 1963). depois. na medida em que ela se funda sobre uma representação do homem (homo oeconomicus). os chefes de guerra ou os chefes de Estado. um homem agindo em um mundo transformado num imenso mercado (de bens. quer sejam os pais. Mesmo quando a ideologia se apresenta sob aspectos menos totalizantes. de fato. sob a IIIa República. os mestres. A ideologia capitalista-liberal é então uma ideologia. pois. pois. governado por uma lei fundamental: a lei da oferta e da procura. porque ele se designa a si mesmo como expressão de uma verdade científica que não seria posta em dúvida e que fornece aos indivíduos e aos grupos a resposta única e definitiva às questões que a vida leva-os a se colocar.

vão se impor como lei. que ela assegura sua identidade. Uma religião. conseguiu se desenvolver. substituindo-os por outros que. em maior ou menor grau. jacente em todo ser humano. as religiões tinham uma face muito diferente daquela – boazinha –. As ideologias que eu evoco são. quando as religiões se enfraquecem. não pode estar na origem de nenhuma religião. É assim que ela pode formar uma cultura. que já mencionei. devem estabelecer com o Sagrado. impor sua intolerante visão de mundo sobre as outras visões. sozinhos. Um grupo minoritário. pelo ferro e pelo fogo. reunidos em comunidade. por seu caráter absolutista. constituindo-se. indica que a seita. projetando-o nos outros. têm por função fundar “uma comunidade de crentes”. 1979).O fanatismo religioso e político (colonização). heréticos ou descrentes. Um tal sucesso só tornase possível se ela souber. Essa mensagem é sempre anunciada por um indivíduo cercado de discípulos e que forma uma seita. que ela pode livrar os homens do ódio inconsciente de si. que produzem uma cultura própria. Uma religião só existe quando “a comunidade de crentes” (e não é por acaso que eu utilizo as mesmas palavras. é assim que ela fornece a seus adeptos o sentimento de formar um “nós”. por sua força de convicção. no cerne mesmo da sociedade. a “minoria ativa” (MOSCOVICI. estabelecida e difundida (eu me refiro aqui somente às religiões nascidas no Oriente-Próximo). a converter ou a destruir. elegendo dogmas e rituais violentos que são o sinal de sua força conquistadora. Essa concepção da ideologia me obriga a retomar a questão religiosa. como as religiões. Eu havia dito acima que religião não significava fanatismo e que as religiões. as ideologias (que pretendem ser a encarnação da cientificidade) asseguram sua continuidade porque. desejando continuar minoritário e sendo tolerante com outros grupos. a negar. provocando a submissão e a admiração de povos inteiros. representaram um papel menor na dinâmica social. antes mesmo que seja colocada. pelo sacrifício de seus mártires. como uma Igreja com seus templos. ideologias “compactas” que. na época moderna. Mas é preciso observar que. Ela então regula essa questão central da alteridade. cheia de calor para com seus adeptos e cheia de ódio contra os indivíduos livrespensadores. e foi capaz de se designar os inimigos “ideais” a excluir. Toda religião se alimenta da idealização e do ódio contra o outro. 79 . então. Uma religião é uma mensagem sobre a transcendência e sobre as Relações íntimas que os seres humanos. quando evoco a religião e a ideologia) soube recalcar certos desejos e certas fantasias. sob pena de desaparecerem ou de serem predestinados às piores torturas.

Eles insistirão na possibilidade de transcendência que a religião oferece ao indivíduo. é porque os judeus.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma tal descrição da religião chocará os “crentes” que insistirão. ROLLAND) que a mensagem religiosa provoca neles. (Entretanto. A única tese que eu defendo é que essa maneira de viver a religião acontece com um pequeno número de pessoas e que. discurso de amor que induz a uma união entre os seres humanos (“amai-vos uns aos outros”) e entre esses e o cosmos. como heróis (no sentido freudiano do termo). além de ver a vida sob a forma de uma ascese e de uma interrogação permanente. Não é meu propósito dizer que esses indivíduos estão errados e que é pouco provável que a crença religiosa seja vivida desse modo. tendo contraído com Deus uma aliança privilegiada que os instituía como povo eleito. a multidão só pode viver ou aderir a uma religião (principalmente quando ela está se formando e pretende se estabelecer duradouramente) quando essa é intolerante e apela ao sacrifício e à destruição. A pulsão de morte tem então um imenso campo social à sua disposição: que os impuros desapareçam e com eles a impureza que eles espalham. Se a religião judia pôde não se revestir desse aspecto destruidor (isso dito com bastante reservas. Isso seria dar prova de uma arrogância insuportável. ao contrário. 80 . A religião católica não teria podido se impor sem a caça aos heréticos (basta mencionar a maneira como foram subjugadas a heresia dos albigenses e as práticas da Inquisição). no “sentimento oceânico” (R. seres ao mesmo tempo humildes e gigantescos. apesar de tudo. “poetas”. porque a morte santifica e promete o paraíso. de seu lado. já que as informações sobre esses tempos longínquos são raras). desenvolveu uma política de conversão). as religiões monoteístas (as religiões politeístas sabiam fazer composições entre si e trocar seus deuses) só puderam se impor por sua capacidade de desenvolver sentimentos fanáticos. mas como a única via de abertura do mundo terrestre ao reino de Deus. em certos casos – como no Norte da África – a religião judia. não tinham razão alguma para ampliar o número de seus adeptos. É verdade que os grandes místicos. apto assim a se desembaraçar de seu narcisismo protetor e de suas mesquinharias cotidianas. Em outras palavras. Eles não vivem sua crença como uma ilusão. os eremitas e os santos se mostram a nós como “sábios”. porque eles correram o risco de se desviar da formação coletiva dominante e de fazer do amor de Deus o único amor que vale a pena. É de fato mais belo morrer sem sentir dúvidas do que viver com interrogações. assim como a religião muçulmana não triunfaria sem a destruição do paganismo e sem a guerra santa conquistadora. enquanto que a vida sem certezas só permite a infelicidade.

nossas sociedades ocidentais contemporâneas. Foi a ruína progressiva das religiões de caráter absolutista que permitiu a progressão das ideologias “compactas” e. além disso. idealização da técnica e da tecnologia que pode dar um senso preestabelecido a todas as condutas humanas.Elas se enriquecem. entretanto. Entretanto. Ora. levando a uma opacidade nas identificações e na eclosão de um universo onde tudo se mistura. as liberais e as “socialistas”. sem emblemas. mas somente possível e previsível.O fanatismo religioso e político Concluindo. intensificação da produção não somente de objetos úteis. 1971). 1.que não são mais organizadas em torno da diferença primordial dos sexos e das gerações. que admitem certas contradições ou elementos de incoerência. sem toda uma iconografia – um Marxismo sem retratos de MARX. o texto de J. obsessão da modernização que tem por corolário uma alienação e uma exploração mais sutil e também mais severa. quanto de certas ideologias mais leves e menos dogmáticas. segundo o axioma de WALRAS). na verdade. segundo a terminologia weberiana). a invenção de novas transcendências com seu cortejo de dogmas e de ícones. de ENGELS ou de LENIN é impensável – representando os santos e os heróis). (Não existe. que são religiões da revelação. São sociedades: a. se certas condições são preenchidas. como a ideologia republicana. ser totalmente dissociados. substituição das questões por quê? pelas questões como? (ou seja. viram o declínio progressivo tanto das ideologias duras (o desmoronamento atual dos regimes políticos dos países da Europa do Leste nada mais faz que levar ao seu apogeu esse declínio que toma um ar de derrocada). substituição da racionalidade de fins pela racionalidade instrumental. PALMADE). eles não podem. 2. 81 . mas de afetos que podem entrar no circuito de troca e de distribuição. pelo menos no que diz respeito às religiões monoteístas. ideologia sem porta-voz.As sociedades ocidentais continuaram o trabalho começado no século XIX e o levaram a um ponto de incandescência: prioridade total do econômico (“tudo se compra. (O sexual torna-se então uma mercadoria como uma outra qualquer – KLOSSOWSKI. por conseguinte. de novas características. é conveniente fazer algumas observações. Não é o caso aqui de traçar um diagnóstico desse declínio (cf. tudo se vende”. embora religião e fanatismo religioso não devam ser confundidos e embora a passagem da religião ao fanatismo não seja imediata nem constante.

mãe das estepes e grande portadora de morte” (DELEUZE. não pense e não aja como se tudo fosse possível no imediato) que são vividas como fruto do mais puro arbitrário – a vontade de coerção – e que acabam parecendo tanto mais irrisórias quanto mais se multiplicam ao infinito (J. para os homens e para as mulheres. o trabalho perde seu significado. realizáveis. o que favoreceria tanto a metaforização quanto o acesso progressivo a um certo grau de autonomia e de reconciliação com o pai.sociedades que. b.sociedades que não mais propõem ideais elevados (salvo ideais satânicos: destruir o outro. sem possibilidade do assassinato simbólico do pai. ao mesmo tempo. caem num desinvestimento letal e encorajam os comportamentos perversos (o sucesso da noção de estratégias no mundo dos negócios é um testemunho evidente disso) e histéricos (ENRIQUEZ. “mãe das cloacas e dos brejos. já que ele compreendia a privação como uma etapa indispensável à construção de um futuro radioso). além do furor de não poder satisfazê-los. 1989). o capitalismo tinha uma certa legitimidade. concebê-lo como um inimigo ideal. se desembaraçar. Assim também. c. já havia observado isso). HEGEL escrevia: “As crianças vivem a morte dos pais”. a partir do momento em que o pai e os filhos passassem pelos caminhos da castração. Restam apenas algumas fantasias de onipotência. 1967). ligadas a certas imagens de mãe arcaica devoradora. por isso mesmo. Se não há mais pais ou se só existem pais terrificantes. d. assim. não propõem mais interdições estruturantes mas apenas interdições repressivas (para que cada um não tente realizar seu desejo de onipotência. quando o socialismo real não implica senão privações e o açambarcamento de magras riquezas pelos potentados nacionais ou locais. seu valor se corrói. 1967. 82 . (Assim. de imortalidade. sua legitimidade desaparece. os valores são intercambiáveis ou desaparecem. no fim das contas. Nesse momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção onde a indiferenciação reina absoluta. as crianças não se tornarão jamais seres autônomos. enquanto criação e distribuição das riquezas. Sociedades sem pais e. pensar e querer o apocalipse) e. O que resta nada mais é que a necessidade de consumo e de gozo imediato. LAPLANCHE.sociedades que. da qual é necessário. A partir do momento em que apenas a especulação permite fazer dinheiro sem produção de mercadoria.

os excluídos. de um budista. O indivíduo desaparece. no limite. em particular. da miséria. da ausência de um fundamento. nós estamos bem próximos de não ser nada ou então de não ser de jeito nenhum”. os irmãos e os adversários. no Ocidente. do desaparecimento de referência a toda transcendência. da corrupção). formar uma cultura. Daí se seguem três conseqüências. 1930) 83 . A religião reclamada é a religião absolutista. de um capitalista. da exclusão. Como explica admiravelmente DEVEREUX (1973): “O ato de formular e de assumir uma identidade coletiva maciça e dominante – qualquer que seja essa identidade – constitui o primeiro passo à renúncia ‘definitiva’ da identidade real. Se não somos nada além de um espartano.O fanatismo religioso e político Diante dessa perda de sentido. Contra o mundo perverso. aquela que designa claramente os aliados. uma causa a defender. O aparecimento do “narcisismo” das pequenas diferenças. tendo se enfraquecido no conjunto do mundo e. nutrido por uma atmosfera individualista ou coletivista (sem se preocupar com os custos humanos: aumento dos suicídios. tragado pela espiral do desenvolvimento e dos excessos da guerra econômica. Essa citação dispensa comentário. da loucura. os esquecidos. permanecer na certeza e. não oferecem mais interesse. se sacrificar. da apatia. os “desgarrados”. O que desejam os deserdados. construindo uma sociedade que se deixa levar pelo equívoco da Unidade-Identidade. Eles querem se tornar um “Nós”. um projeto a sustentar. Com a falência das ideologias e supondo-se que elas ajudaram a gerar esse “pesadelo climatizado”. Mas as religiões. só há salvação na paranóia partilhada. é normal que muitas pessoas e grupos tentem reencontrar seu equilíbrio e se assegurarem uma identidade estável recorrendo àquilo que foi o próprio fundamento de todo corpo social: a religião. “os humilhados e ofendidos” (DOSTOIEVSKY) é um sistema que lhes dê um ideal a realizar. em um universo laicizado que não se preocupa com a salvação do homem. os indivíduos nada mais fazem senão tentar se retirar desse mundo instável onde a angústia se torna o destino comum. (FREUD. de um proletário. aquela que cria uma identidade coletiva.

Não esqueçamos. Ela é impelida pelo ódio e por uma alucinação coletiva que aponta a imagem dos estrangeiros (ou dos desviantes) como perseguidores todo-poderosos.Psicossociologia – Análise social e intervenção FREUD mostrou que era sempre possível “unir uns aos outros. além de permitir atenuar as feridas narcísicas” (M. da sedução ou da coerção). É certo também que o fanatismo é apenas uma das respostas possíveis para 84 . Esse desaparecimento do indivíduo em um grande todo que não suporta a diferença faz ressurgir as condutas religiosas fanáticas. o espanhol despreza o português”. nos diversos países. o bloqueio ou o desaparecimento progressivo da interioridade. dos “grandes e dos pequenos Satãs”. Quanto mais uma cultura quer se unificar. O desenvolvimento do fanatismo. no entanto. então. além disso. pelos vínculos do amor” (e nós acrescentaremos: pelos vínculos da fascinação. tanto mais ela se torna intolerante e mais deseja a morte das outras ou. livre do mal. O fanatismo visa. pelo menos. Esse “narcisismo das pequenas diferenças” permite uma “satisfação cômoda do instinto agressivo e é através dela que a coesão da comunidade se torna mais fácil aos seus membros”. liberado finalmente do mal. o que é um alimento. É certo que. as diferentes religiões não se comportam todas da mesma maneira e não buscam os mesmos objetivos. com a única condição de “que alguns outros fiquem de fora para serem alvo dos ataques”. ou seja. para isso. Os outros tornam-se “piolhos” a destruir. o super-investimento no projeto. tais como as descrevi acima. Ele é possuído por uma fantasia de redenção e de ressurreição do social. que esse “narcisismo grupal” pode levar à xenofobia exacerbada e ao racismo. a criar um mundo novo. 1984). a vontade de salvar o mundo se situa deliberadamente em um imaginário enganoso. elas exigem a super-identificação à causa. sua conversão. anunciador de um mundo novo. CASTORIADIS (1987) escreve: “Como uma cultura poderia admitir que existem outras que lhe são comparáveis e para as quais. Eu acrescentarei apenas que elas vão assumir a função de “dissimular as fraquezas do eu ideal e do ideal do eu. como seres a eliminar. ENRIQUEZ. para ela é uma impureza?”. o inglês fala tudo de ruim do escocês. uma imensa massa de homens. É por isso que “grupos étnicos estreitamente aparentados se repelem reciprocamente: a Alemanha do Sul não pode suportar a Alemanha do Norte.

É preciso. Não foi isso que aconteceu quando se constituíram as grandes religiões monoteístas. fundamentalista. Ou seja. é preciso lembrar que. Uma tal explicação não pode entretanto ser suficiente. em seu objetivo de controle ou de direção da sociedade ou do mundo. assim.O fanatismo religioso e político o mal-estar da identificação. Retomemos esses dois pontos: 1. regiões ou grupos sociais bem definidos que utilizam a fé para exercer seu poder ou seu terror. ainda. onde a mídia desempenha um papel considerável e onde todas as ações devem ser vistas em seu esplendor. É por essa razão que meu texto tem esse título. a se tornar dominantes (por exemplo. Síria). para unificar os corações e os espíritos. ele é a resposta daqueles que têm necessidade de “referências duras” para viver e que são “inaptos” para reinventar a democracia e se confrontar com a sua solidão. grupos sociais minoritários e outrora desprezados. primeiro e antes de tudo. no máximo. o essencial: a dimensão política. que essa renovação fanática traga proveito a alguns. por sua vez. não basta que existam tais indivíduos (e grupos) em nossa sociedade perversa e histérica. E nós tocamos. São Estados. O fanatismo religioso é. o que é a base do “barroco degenerado” no qual nós vivemos). que desejam ter um dia o domínio sobre os destinos de um Estado do qual eles 85 . mas. na hora atual. um instrumento a serviço do fanatismo político. o Azerbadjão. O fanatismo religioso. Estados que utilizam o fanatismo para assegurarem o domínio sobre outros países (Iraque. sozinho. em relação à Armênia) ou para tentar chegar à sua independência. em pequenas seitas fechadas sobre si mesmas. 2) que a religião tem sempre necessidade de se apresentar de maneira integrista. Regiões de um império que emprega a religião para humilhar e deixar famintas outras Regiões tão submissas quanto elas (por exemplo. resulta. o Irã). simultaneamente (a histeria sendo uma característica essencial de toda sociedade “teatral”. é a resposta de indivíduos levados pela onda da história e não de indivíduos criadores da história. O fanatismo se aplica aos Estados outrora dominados que aspiram. sem dúvida. para que o fanatismo se fortaleça. o sinal de seu enfraquecimento. certas de seu direito e partes do folclore de toda nação. Ela poderia fazer crer: 1) que se trata apenas dos problemas de indivíduos ou de grupos sociais excluídos e que tentam resolver seus problemas dessa maneira. o retorno de um religioso absolutista não é o sinal de uma renovação religiosa verdadeira.Se é mais fácil recrutar fanáticos entre os “esquecidos” que entre os combatentes e os vencedores de um sistema.

Alguns exemplos heterogêneos – a reação fraca e ambivalente de Monsenhor LUSTINGER ao incêndio que arrasou o cinema que projetava o filme ligeiramente iconoclasta de SCORCESE2 . Alemanha do Leste. que querem fazer valer sua palavra. judias). antes talvez de desaparecerem um dia num enfrentamento direto (é o caso. ela permitirá aos diversos cleros se apoiarem. Communione e Liberazione. cristãs. 2. interdição de pensar (Polônia. lepenistas. grupos racistas minoritários que esperam um dia tomar o poder em nome de uma raça regenerada (neonazistas.fortalecer a ação de indivíduos e de grupos contra as ideologias (as religiões leigas) às quais eles estão sujeitos e que só lhes trouxeram miséria. ela designará os vencedores e os vencidos. ela pode ter como papel: a. o convite a alguns líderes protestantes. a fim de re-instaurar territórios nacionais e de repensar a questão das nacionalidades que as ideologias marxistas e liberais tenderam a esquecer ou a tratar de maneira uniforme. Irlanda do Norte. c. Nesse caso. a ação empreendida por certas instituições judias para o 86 . se ela se extingue. Se a aliança persiste. Loja P2. Basta constatar o papel cada dia mais importante que desempenham as autoridades religiosas (católica. nos quais não existe senão um fraco consenso.redourar o brasão das religiões tradicionais. na regulação dos Estados modernos. protestante. destruição cultural. conseguindo-o freqüentemente (Opus Dei. na França. certos grupos religiosos em Israel). Eglise de Scientologie). na retomada das negociações na Nova-Caledônia. em nossos dias. O fanatismo religioso tem então uma relação direta com o problema da tomada de poder. Armênia – não importa quão diferentes sejam os exemplos). Países Bálticos. diferentes “igrejas” americanas) ou que se iludem na possível conquista de um poder. coabitando umas com as outras dentro de uma grande tolerância ou senão de uma grande conivência. muçulmana) na vida cotidiana da França. das comunidades islâmicas. judia.Psicossociologia – Análise social e intervenção são membros (por exemplo. b. forçosamente.A religião não se apresenta. sob uma forma fanática. do qual eles não saberiam o que fazer. seitas que conseguiram se implantar e têm o desejo de exercer uma influência política.manifestar as diferenças irredutíveis de cada comunidade (o indivíduo só existindo em relação à comunidade).

como no exemplo de KHOMEINY). fazendo desaparecer ou tornando silenciosa a vida interior com suas emoções. prontos a afrontar o absurdo. um sinal da transformação da vida política e dos modos de dominação política. sem recorrer a referências seguras –. Talvez seja isso que quase sempre vem acontecendo. às suas competências ou se mostra sensível aos seus pontos de vista. Mas. De fato. mas também construir com outros uma ação que possa ter sentido para a coletividade. desde o início dos tempos modernos. que surge um processo de desalienação e uma vida democrática. de reflexão e de reflexividade. O retorno do religioso se mostra então mais ambíguo do que aparentava ser. a tendência ao superinvestimento religioso e nacional será barrada. ao invés de processos de sublimação. o religioso. a intervenção da Grande Mesquita para tentar resolver o “famoso” problema do uso do véu (tchador) – nos mostram que as Igrejas não são mais separadas do Estado. em vez de afirmação da necessidade de transcendência. de precisar meu objetivo. laborioso. ele tenta. a falta de sentido. ele visa também a desenvolver ainda mais os processos de idealização. Eu gostaria. tomado como regresso à origem cultural ou nacional e o religioso fanático são. 1. qualquer que seja sua intenção profunda – um mundo onde o reino de Deus (qual Deus?) existiria sobre a Terra ou um mundo onde uma nova classe política tomaria o poder. cujo objetivo é constituir “comunidades de denegação”. com a ajuda de seu Deus –. antes de tudo. mas que.Se a ameaça do fanatismo religioso e político é real. nascida desse trabalho árduo. ao contrário. Os homens aprenderiam. finalmente. suas dúvidas. nesse caso. não é o caso de superestimá-la. 87 . sem fim. para terminar. seus conflitos (embora proclamando o contrário de tudo isso) e impedindo a criação de sujeitos individuais e coletivos que buscam não apenas sua autonomia – criadores de história. o religioso sempre visa a identificar o indivíduo com seu grupo e inserilo totalmente nele (algumas vezes absorvendo-o no potentado que encarna o poder político e espiritual em sua pessoa. o Estado leigo faz apelo.O fanatismo religioso e político desenvolvimento das escolas religiosas na França. cada vez mais freqüentemente. paralisar a atividade de mentalização. O fanatismo se alimenta dos descaminhos e da corrupção de nossas sociedades. o caos e o abismo. que são eles que criam a história a cada momento e que é pela tomada de consciência. Se essas são capazes de inventar novos projetos.

então a reflexão desaparece. sob pena de cair. 55. Connexions. (N. ela lhes permite tomar iniciativas. na armadilha que denuncia. Eu não quis dizer. a política da cidade ou da nação nada mais são do que perversões do espírito. o fundamento mesmo da instauração de toda vida social. quando uma cidade ou uma nação desenvolvem uma cultura na qual elas se fecham e fecham seus membros. O que eu quis enfatizar em meu texto são os aspectos mais negativos do fato religioso. Também o papel de todo intelectual e de todo homem prático é dar caça a esse desejo de homogeneização e de morte do pensamento. Ela assume então o papel de desalienação. p. em si mesmo. em nenhum momento. ideológicos e nacionais. 137-149. no outro. a religião pode levar os grupos sociais a se darem conta da situação de dominação na qual eles vivem. do fato nacional. Por outro lado. ter uma outra visão do mundo e conceber Ações coletivas.Psicossociologia – Análise social e intervenção 2. naturalmente. T. Se. o que eu quis sublinhar – e isso com bastante ênfase – é que. 1990-1. a tentação totalitária está continuamente presente nos processos religiosos. na medida em que favorecem uma relação com um sagrado transcendente não colocado a serviço de uma vontade política de dominação. uma vez que elas são. nos fenômenos sociais. habitualmente reservado à Filosofia ou à Sociologia. nos seus interlocutores e. em certos casos (eu penso na Teologia da Libertação. devem ser levados em consideração. Todos nós cremos em certos valores e é impossível decidir racionalmente que valores são preferíveis a outros. se ele não faz esse trabalho. Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. Ela lhes é consubstancial. antes de tudo. efetivamente. “Le fanatisme religieux et politique”. Os valores religiosos. “A última tentação de Cristo”. Eugène.No mundo não existe ninguém que seja não-crente. na América do Sul). que a religião. quando a ideologia dura impede o livre pensar. quando o religioso se põe a serviço do político. a ideologia.O que me parece crucial é que não se interrompa a reflexão filosófica sobre o homem e sobre as sociedades.) 2 88 . n. por Leila de Melo Franco S. Araújo. tanto quanto outros tipos de valores. 3. Ora. tão fácil e prazerosamente. a perversão ou a paranóia triunfam. Thanatos ocupa todo o campo espiritual e social. do fato ideológico.

C. 1967. 1967. Épi. G. Eres. ENRIQUEZ. 1985. 1989. L’autonomie sociale. ENRIQUEZ. LEFORT. “Notations sur le racisme”. 1987.). In: Autonomie sociale. E. LYPSET. Seuil. M. Au carrefour de la haine. CASTORIADIS. . sobre o fanatismo hoje. Editions de Minuit. 1979. Essais d’ethnopsychiatrie générale. PUF. E. Seuil. 89 . Présentation de Sacher-Masoch. n. Cl. 1971. 1985. ENRIQUEZ.(1930) Malaise dans la civilisation. Un homme en trop. “La défense et l’Interdit”. 1976. DELEUZE. KLOSSOWSKI. janeiro. ENRIQUEZ. J. PUG. S. E. S. Connexions. G. 1971. PUG. In: La NEF. DEVEREUX. MOSCOVICI. “L’individu pris au piège de la structure stratégique”. Entrevista à revista “L’événement du jeudi”. LAPLANCHE.O fanatismo religioso e político Bibliografia BAREL. 54. 48. Epi. FREUD. P. 1989. Psychologie des minorités atives. (org. S. 1973. L’homme et la politique. “Malaises dans les identifications”. n. 1984. Connexions. PUF. Y. 1963. La monnaie vivante.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 90 .

seus produtos. são exportados para todo o mundo (iates. em domínios tão variados quanto o têxtil e os da madeira. de outro lado. como elas podem morrer. de um lado. alimentação. por ocasião de entrevistas exaustivas e sucessivas. sobretudo. O contraste existente entre esse dinamismo industrial e comercial. revela claramente o modo como elas nascem e vivem em função do aparecimento. uns nos outros. do exame e de uma resolução relativa de tensões permanentes.CONJUNÇÃO. Ele se apoia em reflexões suscitadas por um estudo realizado em algumas Pequenas e Médias Empresas (PME) situadas na região de Cholet. como uma empresa é o produto de uma criação coletiva envolvendo não apenas o dirigente que a fundou e seus sucessores. em plena Vendée. de uma tecnologia freqüentemente muito sofisticada. os diferentes níveis de realidade e de experiência de uma instituição concreta. calçados etc. Caracterizando-se por um notável dinamismo industrial. A história das empresas que estudamos a partir do que nos disseram seus dirigentes. por exemplo). DE UM PROJETO PESSOAL E FAMILIAR.2 Tais reflexões mostram. se impôs por ser ela bem conhecida como uma microcultura que tem suas raízes na história da Vendée. já havia sido notado por vários pesquisadores. para nela desenvolver esse estudo sobres as PMEs. que 91 . assim como revela as Contradições que se manifestam em todos os níveis de funcionamento da empresa.. Esse texto trata das instituições – como elas se criam. individual e coletivo. e o conservadorismo social e cultural da região. vestuário. COM A HISTÓRIA DE UMA REGIÃO: O PROCESSO DE CRIAÇÃO INSTITUCIONAL1 André Lévy Descrever um fato psicossocial – tendo como referência o fato social total de Marcel MAUSS – é compreender como estão imbricados. mas também sua família e as comunidades locais no seio das quais ela existe e encontra sua razão de ser. A escolha da região do Cholet. NA EMPRESA. vividas pelos dirigentes. Resumindo: a história revela um trabalho psíquico. como elas se desenvolvem. incessante.

a partir de suas lembranças. evocava neles. sobretudo aquela que seus sucessivos dirigentes vivem e se confunde em grande parte com a história pessoal desses dirigentes. o qual é vivido como o fundamento da empresa. é. segundo um método comparativo.Psicossociologia – Análise social e intervenção consiste em passar de identificações imaginárias a um “real” mítico. mas permanecendo fiel às representações das quais ele é a metáfora. pudemos recolher o depoimento detalhado descrevendo a história de uma dezena de empresas diferentes quanto à dimensão. indispensável – para que elas tivessem um sentido – que fossem também para os dirigentes uma ocasião de refletirem em voz alta. entretanto. ainda que solicitadas por nós. entretanto. ou ainda. que são ao mesmo tempo seu principal tema. Ou seja. feito às custas de rupturas e da intervenção de mediações que provocam divisões. sobre aquilo que a empresa. e também fazer um levantamento de questões relativas ao presente e ao futuro próximo. respondessem a um autêntico desejo de rememoração e de melhor compreensão. mas a empresa como objeto psicossocial. em presença de interlocutores supostamente neutros e atentos. enquanto existindo e tendo sentido para seus dirigentes. Em outras palavras. Assim. para si próprios. um trabalho que consiste em passar de um “real” mítico universal a uma espécie de realidade mais abstrata – a empresa moderna –. 92 . Não se trata. convidados a falar a respeito. seu futuro. como objeto no discurso dos dirigentes. era. diferenciações. Uma tal aventura. ao produto. à antigüidade. caso a caso (empresa a empresa). de suas dúvidas. que envolve todos os grupos ligados ao futuro da empresa. clivagens. de estudar a empresa como objeto sociológico – tal como poderia ocorrer pela combinação dos discursos e dos pontos de vista de todos os seus atores –. num primeiro momento e. Se as entrevistas e a maneira como foram conduzidas respondiam sobretudo a exigências de ordem metodológica definidas em relação a nossos objetivos de pesquisa. desde sua origem até o momento atual. que tais entrevistas. sua história. para nós. em função das quais os depoimentos estavam estruturados – constantes definindo o processo de desenvolvimento das empresas. de seus projetos. depois. com efeito. Cada um desses depoimentos cobria o espaço de várias gerações sucessivas de dirigentes. pudemos pôr em evidência certas constantes. geralmente pertencentes à mesma família ou a famílias aparentadas. suas dificuldades. a partir de sua criação. isto é. Tendo analisado esses depoimentos.

a terra ou a região. aquilo que se relaciona aos vínculos de consangüinidade e de parentesco por aliança. .a terra ou a região. geográficos.o ofício ou o produto. .a família. sua cultura. sociais (ou mesmo econômicas) e a valores (ou a representações simbólicas). no seio da qual e para a qual a empresa se desenvolve. ou então o Oeste) que constitui uma unidade geográfica. podem ser resumidas da seguinte maneira: . histórias de famílias (nucleares ou ampliadas. Essas três entidades. o que tem relação com o trabalho e com seu objeto. Nesse último sentido. argila. na origem. na empresa. com a história de uma região: o processo de criação institucional Assim. É importante sublinhar o fato de que essas três realidades se traduzem por expressões faladas. conceitos verbais. De maneira mais geral. quer dizer. a partir do qual elas podem se desenvolver. quer se exprima pela relação com o solo. nota-se que. ruas ou áreas) que define o campo de atividade onde a empresa está implantada. de maneira mais extensa. de Bocage. ou ainda. A terra Essa referência é onipresente. com a região (no caso. designa não apenas um lugar geográfico mas também seus habitantes. quer dizer. que correspondem ao mesmo tempo a realidades materiais. de maneira mais abstrata. também. sua realização efetiva e seu desenvolvimento apoiaram-se sobre um conjunto de solidariedades ativas familiares e. grão etc. locais e regionais. a regiões de Mauges. de um projeto pessoal e familiar. suas tradições e a 93 . da ação de um indivíduo (o fundador) possuidor de um ofício e de um projeto. parece-nos ser possível afirmar que as empresas são fundadas sobre a base de três entidades imaginárias de importância variável. com o território (nome das cidades. histórica e sociológica. com freqüência até mesmo joint families. quer dizer. Todos os casos ilustram perfeitamente a conjunção entre um projeto e uma competência individual.Conjunção. cuja combinação constitui o sistema de sustentação. aquilo que é ligado aos locais físicos. conjugadas a relações econômicas) e de estratégias de sobrevivência ou de desenvolvimento de comunidades locais.) que se trabalha ou. famílias reunidas por relações de alianças ou de parentesco. quer dizer. embora todas tenham dependido. com a propriedade do camponês que fornece diretamente as matérias primas (fibras. cujas diferentes significações e modalidades se desdobram à medida em que evolui a história das empresas e o discurso dos dirigentes.

vira tudo uma máfia”). um conjunto de obrigações e de restrições. mas também no metafórico. Desse ponto de vista. a região de Cholet é vivida como uma espécie de cidadela cercada de estranhos dos quais devemos desconfiar (“entre as pessoas de Cholet há uma certa moralidade. tanto no imaginário quanto no real. “não ficar falando abobrinhas. independência (“as pessoas daqui mandam no lugar”) e perseverança (“ir até o fim com o que começamos”). de empresas familiares. em nome de um patriotismo regional que cria obrigações. contribuindo para o renome da cidade ou da região. não se pode fingir”. Essa é aqui entendida como um nome próprio – com freqüência o mesmo que empresa. atividades e lucros organizam-se em torno dela. mas também e sobretudo como a história de gerações sucessivas cujas relações. constituem então. Antes de ser um projeto pessoal. a empresa é um projeto de família. a política industrial tende a favorecer o desenvolvimento de uma produção local beneficiando as “pessoas da gema”. “é preciso revirar a terra com vontade antes da colheita. a certeza de poder contar com uma rede de solidariedades ativas extremamente eficazes. assim que ultrapassamos a fronteira. de dependências múltiplas que limitam as margens de manobra e as capacidades de iniciativa e de inovação. físicas e morais.Psicossociologia – Análise social e intervenção consciência de compartilhar um passado comum e aquilo que é sentido como uma mesma “mentalidade” – caracterizada aqui por valores de ajuda mútua. na maior parte dos casos. A família Tratando-se. simultaneamente. A identificação com a “região” inscreve-se concretamente no funcionamento da empresa. bem como uma fonte de riquezas. 94 . como traduzem diferentes fórmulas como: “temos quer ir fundo”. o próprio modo de gestão pode também ser orientado pelos valores comuns. em nome de uma certa ética. A identificação do dirigente a esse imaginário cultural alimenta com efeito não apenas um sentimento de orgulho (“orgulho de ser dirigente chalotês”). nas relações e atitudes: assim. eis nosso jeito fazendeirão”. no sentido concreto. A “região”. as relações com os empregados pressupõem vínculos recíprocos de solidariedade comunitária que transcendem as relações de poder e as diferenças de status social. o lugar dessa é aí dominante. em caso de dificuldade. as relações comerciais privilegiam os clientes “fiéis”. “a terra”. mas também um sentimento de segurança. de seriedade e de fidelidade (“palavra é palavra”).

por um lado. essa distinção é acompanhada por uma modificação no estatuto jurídico (LTDA. entre os bens e os dividendos pessoais. como uma herança da qual ele nada mais é do que um depositário transitório e da qual deverá prestar contas a seus próprios descendentes. 95 . “empresa familiar”. com a história de uma região: o processo de criação institucional Ela é. As estruturas e as relações de poder são. “sociedade de família”. Da mesma maneira. uma reprodução bem fiel das estruturas da família. o capital da empresa se confunde com o patrimônio familiar (“os bens da família”). então. Afora alguns poucos casos acidentais (ligados a falências ou a conflitos graves). Compreende-se. inclusive para outras aglomerações. seja pelos homens (os filhos). quer dizer. os postos-chaves sendo ocupados por membros dela. na empresa. no início. ainda que apenas para atender a exigências do fisco. Como se pode notar. onde empregados e patrões podem comer juntos. de papéis e de procedimentos formais. de acordo com a posição que ocupam no seu seio (a não ser por incompetência notória ou situação de conflito). seja pelas mulheres (as filhas e seus maridos). num primeiro tempo. COOP) que estabelece uma distinção entre a posição de patrão e a de acionista e acarreta a instauração de regras. então. Naturalmente. designada como “negócio de família”. inclusive com empregados. sendo também imagem das relações de parentesco. que para o dirigente ela seja concebida como um “prolongamento de si próprio e de suas raízes”. a empresa é freqüentemente alojada na “casa familiar”. fortemente personalizadas. mas também nos fatos reais. de um projeto pessoal e familiar. a transmissão da herança é sempre assegurada em linha direta. “sociedade familiar” ou. SA. até o dia em que a extensão das atividades torna necessária a mudança para locais mais apropriados. e o capital e os salários. Assim. geralmente. se essas diferentes expressões marcam um deslocamento progressivo da “família” do centro para a periferia (a preposição “de” podendo ser interpretada como designando o pertencimento ou a origem). na sua origem. ainda. descartado. de fato. de outro. substituindo as regras informais que reproduzem as relações intra-familiares.Conjunção. é certo. até a introdução de uma contabilidade que estabelece uma distinção formal. sendo um dos dois sexos. nas representações e valores que dão sentido à empresa e ao papel do dirigente. como “a realização de seus antepassados”. elas traduzem a idéia de que a empresa é um lugar “de trabalho em família” e um bem privado (um patrimônio). as relações de autoridade. A presença da família e de seu passado se traduz.

O resultado é que se torna difícil para o dirigente definir perspectivas futuras para a empresa que se distingam das finalidades concebidas em termos de fidelidade com o passado e manutenção de vínculos e bens da família. seus vizinhos. Assim como para a referência à região.. a identificação à família é ao mesmo tempo uma fonte de força. numerosas PMEs definem-se em relação ao ofício de seu fundador. uma fonte de problemas e de conflitos. um elemento de coesão e também uma limitação. lenços da região do Cholet. o produto Em função de sua origem artesanal. confundida com a história familiar e as etapas de seu desenvolvimento coincidem. a maior parte das vezes. tudo isso é sempre ocasião de um prazer intenso. no seu corpo-a-corpo com uma terra e seus produtos. Nessas condições. casamentos. pois esse restitui a ancoragem do homem na natureza e a transformação que ele nela provoca. –. o ofício exprime o orgulho do trabalho cumprido e sua utilidade social para seus próximos. Mais do que um produto com valor de troca num lugar qualquer ou para cliente qualquer. Um ofício é uma maneira de trabalhar uma matéria – madeira. Esse empresta um valor emblemático ao produto que é a sua razão social. Está diretamente associado às mãos do artesão. principalmente por ocasião de mudanças de direção e na repartição de tarefas e poder. porque são percebidos como estrangeiros intrometendo-se no que é considerado negócio privado. os sindicatos independentes são mal tolerados. couro etc. frangos que a gente destrincha de maneira especial etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção Assim. freqüentemente. transmitidos de geração em geração. evocar sua origem terrena ou seu significado cultural e mítico – receita caseira. da receita ou do jeitinho de fazer. uma inspiração. com os acontecimentos familiares – mortes. A história da empresa é assim. rupturas. O ofício. – e de lhe imprimir uma marca pessoal. Ele exprime também o reconhecimento da herança recebida. Apalpar essa matéria. Produzir e vender (até mesmo exportar) um lenço de Cholet ou uma rosca da região de Vendée é tornar conhecido e apreciado um objeto 96 . Todos os dirigentes têm consciência disso e multiplicam as precauções destinadas a reduzir e a prevenir as repercussões sobre a vida da empresa das problemáticas familiares – rivalidades etc. um conflito com membros do pessoal é facilmente sentido como uma insuportável falta de respeito em relação à pessoa do dirigente e àquilo que ela representa.

políticos e em utilizar os serviços de especialistas de todo tipo. Consiste. no qual a empresa e seus dirigentes estão solidamente ancorados e cuja solidez reside na potência do imaginário cultural do qual é a expressão manifesta. mas em reduzir a influência desses objetos imaginários. sangue ou mãos). Entretanto. o ofício. que asseguram sua identidade e a base da empresa. constatou-se. tal como aparece no discurso de seus dirigentes. permite de maneira precisa compreender: como elas conseguiram efetuar essa passagem do arcaísmo de suas origens àquilo que caracteriza uma empresa moderna. como elas conseguiram fazer coexistir um passado sempre presente e as complexidades da organização socioeconômica atual. pelo menos em parte. o marketing etc. e a convicção de que deve se desembaraçar deles. ele supõe a adoção de atos concretos.Conjunção. elas não hesitam em estabelecer vínculos numerosos com os meios financeiros. eles formam então como um bloco compacto. de um projeto pessoal e familiar. para o dirigente. como os dirigentes puderam ultrapassar as contradições com as quais eles se confrontaram. com a história de uma região: o processo de criação institucional impregnado de história e tradições. com efeito. essas três bases – ou instituições primárias –. No que concerne àquilo que constitui a empresa em sua origem. elas desenvolvem um dinamismo comercial na França e no estrangeiro. O dirigente que percebe bem esses riscos fica dividido entre a necessidade de permanecer fiel a esses objetos de identificação. Juntos. a maior parte das empresas estudadas dão testemunho do dinamismo que habitualmente se atribui ao meio industrial da região de Cholet. em desligar aquilo que estava ligado. estão imbricadas umas nas outras. é se inscrever nelas e não apenas pôr em circulação no mercado uma produção anônima. à terra. –. Esse processo não se realiza sem problemas. na empresa. elas são ligadas entre si – a família às comunidades locais e à região. de decisões dolorosas implicando escolhas difíceis que o dirigente deve assumir pessoalmente. em introduzir distâncias e divisões ali onde havia 97 . cujas partes. não em negar. De fato. para garantir as evoluções indispensáveis. vêse então que. não são entidades independentes. Sua história. trata-se de um conjunto extremamente coerente. profissionais. encarnada na pessoa do fundador. que remetem cada qual a uma realidade física (terra. nós constatamos também que essa solidez aparente mascara contradições que fragilizam o conjunto: as dependências e as restrições podem se traduzir em rigidez que ameaça gravemente a empresa de esclerose e de imobilismo. Elas integram de maneira notável as tecnologias mais recentes – a informática. transmitido de geração em geração.

seu objetivo. com efeito. portanto. do herdado (ou do dado) ao adquirido. c.Psicossociologia – Análise social e intervenção uma unidade mítica e em decompô-la e recompô-la a partir de seus elementos liberados e capazes de se unir de uma outra maneira. num deslocamento das finalidades da empresa em direção à produção e à venda de objetos que têm um valor de troca universal. Isso influencia todos os planos da empresa: racionalização das técnicas de fabricação. podemos descrever esse processo desenvolvendo-se em três direções distintas: a. é realizando-os que as tensões anteriormente evocadas são deslocadas ou tratadas de maneira indireta. essencialmente. do pessoal ao impessoal. exigindo. De maneira mais precisa. independente da pessoa que os fabricou ou do lugar onde foi produzido. ao longo de toda a história da empresa. de valores ou modos e redes relacionais. assim como a aprendizagem e a utilização de técnicas transmissíveis. a transferência física da empresa para outros locais. isto é. 98 . investimentos em máquinas e em locais especializados. de estruturas de necessidades e de motivações.a passagem do negócio de família à sociedade anônima. PARSONS. à medida que a empresa adquire os atributos de uma identidade própria. de estatutos e tarefas diferenciadas e hierarquizadas. ela tem também por efeito torná-las mais autônomas entre si. PARSONS: do particular ao universal. a substituição do ofício pelo produto e meios de produção. mas a evolução que eles traduzem não modifica apenas as significações particulares que cada uma delas tem. da proximidade ao distanciamento. Esses três movimentos resumem. a evolução pode ser descrita em função dos cinco grupos de variáveis definidas por T. quer se trate de papéis ou de expectativas de papéis. Cada um deles está presente nas três instituições primárias que mencionamos no início.a industrialização. as principais dificuldades que os sucessivos dirigentes têm a enfrentar. de produções. b. consiste em passar de um sistema social a um outro. da afetividade à separação. é a criação de uma instituição tendo sua organização e suas finalidades auto-referidas. isto é. Nos termos de T. principalmente. O ponto de chegada de tal processo. A industrialização: do ofício ao produto A passagem do artesanato à indústria consiste.o deslocamento. elaboração de uma organização e.

Já mencionamos antes os perigos dessa situação que. Do negócio de família à sociedade anônima Um dos primeiros indícios da institucionalização da empresa é.. Enfim. tendo como conseqüência relações de autoridade mais formalizadas e mais impessoais. ele não pode assumi-las todas e é. sua principal razão de ser – ele deve. Um outro índice de evolução da empresa diz respeito às transformações que ocorrem na composição do grupo de acionistas. adquirir as competências ligadas à gestão –. ao mesmo tempo em que respeita suas obrigações”.) que elas são ao mesmo tempo sua condição e sua negação. obrigado a repartir o poder com outros. de um projeto pessoal e familiar.. bem como uma administração capaz de a gerenciar. toda confusão entre ganhos e bens de família e entre o capital ou os salários. unida por vínculos de consangüinidade com os ancestrais fundadores que ocupam igualmente todos os postos de responsabilidade. que põe as contas em ordem. com efeito. segundo técnicas menos automáticas e mais agressivas. O próprio dirigente vê seu papel se transformar profundamente. na empresa.Conjunção. a partir de então. a entrada em cena de um contador. as relações mais diversificadas com a clientela são estruturadas segundo a problemática da oferta e da procura. bem como na composição do Conselho de Administração. Esse fato ilustra perfeitamente a relação paradoxal que existe entre a família e a empresa e confirma a observação de LÉVI-STRAUSS segundo a qual a sociedade não pode existir a não ser se opondo à família. O envolvimento da família é. mas também porque a estrutura de pessoal se transformou. Mesmo quando o dirigente conserva o monopólio de uma ou de outra dessas responsabilidades. regidas segundo técnicas e métodos importados. de acordo com regras precisas que excluem. A implantação de um estatuto jurídico preciso é um corolário dessa reforma. freqüentemente. pode-se dizer (. máximo. quando essas instâncias reagrupam apenas membros da família restrita. não somente porque seu ofício não está mais no centro da empresa. com a história de uma região: o processo de criação institucional traduzindo diferentes níveis de competência. se 99 . elas implicam no estabelecimento de uma organização e de uma política comercial orientadas para um mercado. em contrapartida. ou ainda: “das famílias na sociedade. além de requerer especialistas suscetíveis de aplicá-las. então.

portanto. Progressivamente. mas. com efeito. transformando as relações de poder e os modos de pensar. a estrutura de pessoal (mais jovens. garantindo o distanciamento de pressões afetivas de origem familiar e traduzindo. muito raro que essas evoluções possam ter lugar durante uma só geração. pela definição de papéis e critérios decisórios. melhor formados) e a da clientela. freqüentemente. podem se traduzir em dificuldades muito grandes. –. no centro do processo que os afeta mais do que a qualquer outro membro da empresa. geralmente fora da empresa. principalmente entre os (jovens) dirigentes. mostra-se assim sempre indispensável. ela se baseia em competências que eles adquiriram. quer sobretudo a terceiros não tendo nenhuma ligação familiar – quadros ou representantes dos empregados (no caso de cooperativas). É. É mais freqüente que caiba aos sucessores a tarefa de operar as rupturas necessárias. e que lhes permitem mais facilmente romper com modos de fazer e de pensar herdados e. portanto. Na medida em que seus conhecimentos e suas convicções os encaminham a posições radicalmente opostas àquelas que os inspiram à fidelidade e ao respeito que devem a seus mais velhos. mesmo que essas já tenham sido delineadas há muito 100 . eles devem encarar tensões e mesmos conflitos agudos. Aqui também isso se traduz por estruturas e procedimentos formalizados. Eles são. podendo implicar até em falência. o centro de gravidade da empresa encontra-se deslocado para fora do círculo familiar. Esse processo não se realiza de uma só vez. quer a um conjunto de famílias aliadas (joint families). como para qualquer chefe de empresa. colocados numa situação extremamente conflitiva. por conseguinte.Psicossociologia – Análise social e intervenção não forem evitados. o que permite. de ajudar a empresa a percorrer esse mesmo caminho. Esses estão. pela instauração de regras explícitas e. pois. sócios etc. em várias gerações e sempre por decisões – das quais uma das mais significativas é o deslocamento concreto da empresa para um lugar apropriado – onde o peso dos modos de vida e dos hábitos de pensar das relações antigas é menos forte. separar de maneira mais efetiva sua vida pessoal privada da profissional. Sua legitimidade enquanto dirigentes não se baseia mais sobre o direito que seu lugar no seio da família lhes atribui nem na lenta iniciação sob a condução e o olhar de um idoso. A ampliação do Conselho de Administração e/ou do grupo de acionistas. segundo os termos de LÉVI-STRAUSS. “a recusa de reconhecer na família uma realidade exclusiva”.

É no momento da passagem progressiva do poder que o filho ou o genro é levado a negociar as mudanças. a empresa adotar uma estratégia de exportação. portanto. isto é. na empresa. ser-lhe-á necessário adaptar-se a um mercado regido por outras normas. com a história de uma região: o processo de criação institucional tempo. ela se traduzirá por obrigações novas face a outras populações com outros estilos de vida. Se o deslocamento para outra região. ou mesmo para o estrangeiro. como uma espécie de traição. bancos etc. no entanto. Outros se orientam para soluções. o solo no qual a empresa se situa. 101 . outras exigências. além disso. considerado preferível a uma expansão sem significado. Mesmo tratando-se de uma simples mudança (mas elas não são jamais “simples”) da unidade fabril. E.Conjunção. renunciando a uma expansão possível. por exemplo. é importante para reduzir. o deslocamento é conotado por um sentimento de infidelidade face àquilo que constitui a especificidade da empresa e a identidade de seus dirigentes. evitando ao máximo que isso leve a rupturas irreversíveis. nesse caso. outras aspirações. isso será vivido como algo em detrimento da preferência pelo local e. encontramos respostas extremamente diversas. na medida em que ele traduz de maneira mais direta a ruptura com o local de origem. mas evitando que essa se torne uma limitação ou obstáculo à criação de novos vínculos abertos a outras perspectivas. Mas o deslocamento pode também significar a inserção numa rede industrial e comercial mais ampla. manter uma qualidade de vida e de trabalho. Trata-se. de um projeto pessoal e familiar. de um problema nevrálgico para as empresas e para seus dirigentes. Para essa questão. – e o questionamento de vínculos anteriores. mas permitindo a sobrevivência da empresa. necessariamente. graças a constantes esforços no plano da inovação: “permanecer pequeno”. Em todos os casos. permitindo administrar as contradições. uma estratégia de desenvolvimento e de crescimento implica sempre. o estabelecimento de vínculos mais ou menos institucionais com outros parceiros – industriais. Se. uma tomada de distância em relação à terra natal. outros modos de relação. preservar uma base local. O deslocamento O deslocamento está carregado de conotações essencialmente negativas. Alguns escolhem deliberadamente reivindicar e reforçar suas raízes locais. para si próprio como para o ambiente é. o custo de mão-de-obra e encarar uma certa concorrência. pois.

margem de lucro. assimilado a um trabalho de luto. criar vínculos de dependência com eles. estabelecer vínculos com outras empresas e participar de uma rede industrial. algumas das quais podendo se situar alhures. Esse trabalho deverá ser essencialmente assumido pelo dirigente. Um tal processo pode ser. as pessoas ou os hábitos de pensar. taxa de crescimento. SUA terra. admitindo divisões e separações. as identificações a objetos são substituídas por identificações a símbolos (faturamento. onde as relações são mediatizadas pelos saberes. são substituídas por relações secundárias. que supõem prazos e contatos (redes etc. traduzem uma participação em pelo menos dois desses três movimentos. entretanto. quem encarna por mais tempo as três bases sobre as quais a empresa se funda. As relações diretas. uns sobre os outros. emerge assim uma organização. São interligados no sentido de que apresentam efeitos. que a instituição possa se reduzir a essa 102 . com efeito. por exemplo. Como conseqüência de decisões. as relações de poder pessoal são substituídas por regras e estatutos. indiretas. ou ainda. é ele. Seria. e é igualmente nele e por ele que elas podem se desligar. na SUA cabeça que elas se ligam e tomam sentido. a rachar. por exemplo). etc). e de rupturas que essas provocam com o lugar. ou ainda. situadas em regiões economicamente mais propícias. conscientemente tomadas ou impostas pelas circunstâncias. no sentido pleno do termo. desenvolver uma rede de sub-contratantes. é pois. portanto nitidamente diferenciados e interligados. então. consistir em dividir a empresa em várias unidades relativamente autônomas. uns em relação aos outros. SEU ofício que dá corpo a ele. mercados. mais ou menos importantes. Todas as empresas. mais eles se autonomizam. que manifestam um crescimento sensível. ilusório acreditar que esse processo de criação institucional possa ser terminado. evitando.Psicossociologia – Análise social e intervenção Essas soluções podem. é SUA família. e mais a unidade mítica do tríptico terra-ofício-família tende a se quebrar. Os três movimentos que constituem o processo de institucionalização são. no entanto.). por regras ou por técnicas. Quanto mais eles se ampliam. no entanto. cobrindo um ciclo completo de fabricação e distribuição sobre toda uma região (o Oeste. ao mesmo tempo. produtividade. São diferentes no sentido de que eles não se implicam mutuamente de maneira total. face a face.

(N. do clã. André. ele deve sempre compor com o nível primário. uma tensão permanente. com a história de uma região: o processo de criação institucional ordem preestabelecida. é necessário desligar-se das identificações a “objetos” imaginariamente reais. collectif). “Conjonction dans l’entreprise d’un projet personnel et familial. (Publicado também em “Actes du Colloque de l’Invention Freudienne”.) 2 103 . O social nunca é estabelecido de uma vez por todas. A instituição é um processo. Paris. com o título Inconscient. para ingressar na linguagem e na ordem simbólica que se abre à história e ao futuro. por Júlio M. desprender-se inteiramente. apenas se o trabalho de luto está sempre ocorrendo e se a angústia que o acompanha está sempre presente. traduz também a ameaça de destruição do núcleo do real. sob pena de perder o contato com o real biológico. Essa angústia é mais difícil de ser suportada quando.T. Mourão. 1990. sua ancoragem biológica. Toulouse. na empresa. Se. de um projeto pessoal e familiar. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. Região situada no oeste da França. organisation sociale. é impossível. constitutivo do sujeito. 1991.). de sua unidade. despregar-se. no entanto.Conjunção. de negar aquilo que é. além de traduzir o risco de perder os objetos de identificação primária. et de l’histoire d’une région: le procès de création institutionnelle”. que é o seu fundamento. de sua consistência. ficando na ilusão de sua existência.(mimeogr. Uma instituição está viva apenas na medida em que essa tensão é mantida. sua fonte energética. existindo para e por si mesma.

Parte II A psicossociologia em exame .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 106 .

grupos religiosos etc. possível. quais são os problemas realmente essenciais. uma vez que ignoram a angústia inerente a toda transformação e a toda ação de caráter irreversível. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e. capazes de levar em consideração as dificuldades inerentes a tais situações. sobretudo. pois. as mudanças essenciais 107 . verdadeiramente. aparentemente. como o evidencia Nicolaï. LÉVY. surgiram diferentes métodos de intervenção que se mostraram. Ela pode ajudá-los a analisar melhor as estratégias de ação que podem desenvolver. enfrentar suas dificuldades e buscar superá-las. LÉVY) que querem inovar e criar novas modalidades sociais. NICOLAÏ) ou os sujeitos (segundo A. os “intermináveis adolescentes” citados por A. assim como compreender as conseqüências de suas tomadas de decisão. a fim de que as sociedades possam. No momento atual (e esse é um dos pontos abordados nos estudos de A. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global. que acarreta as disputas inevitáveis entre nações. No espaço até então ocupado por ela. Entretanto. podemos nos perguntar (e é essa a questão colocada por A. Todavia. LÉVY e A. um trabalho de tal monta é necessário e. as sociedades são afetadas por consideráveis rupturas e mudanças. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo. finalmente. NICOLAÏ). de forma responsável. ser pensadas e acompanhadas por intervenções de pesquisadores. etnias. mais eficazes e mais rápidos. com o seu corolário. responsáveis por um incontestável mal-estar nas identificações e nas identidades. então. o triunfo da racionalidade experimental. Essas transformações devem.PSICOSSOCIOLOGIAEMEXAME Teresa Cristina Carreteiro Muitos teóricos acreditaram que a era da Psicossociologia chegara ao fim. No momento atual. Pode-se mesmo perguntar se a civilização não estaria passando por um processo involutivo (como já o temia FREUD). NICOLAÏ. mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais (segundo a terminologia de A. o recrudescimento do “narcisismo das pequenas diferenças” (FREUD). nos seus dois textos) se esses novos métodos não minimizam a possibilidade de mudanças reais e duradouras.

pelas interações entre sujeitos. e não a nível global e em regiões centrais. ritualizadas. com freqüência. não surgirão de tomadas de decisões formais. assim como por mudanças no modo do funcionamento dos grupos (A. como o fez Touraine. É importante ainda mencionar outra questão. interessar-se mais pelos movimentos sociais. a Psicossociologia tem algo de positivo a oferecer. seja para a sua involução. que poderemos reconhecer nossas possibilidades instituintes. prováveis de ocorrerem na sociedade. dar atenção especial à conversação e ao debate. faz-se necessário o reconhecimento do mal-estar que perpassa todos os campos de nossa sociedade. elas ocorrerão a partir da elaboração das dificuldades e da criação de novas modalidades de busca da verdade. isso só adquire sentido se pensarmos que as modificações devem ser acompanhadas por mudanças no psiquismo do ator (autor. através da crítica efetiva e da transformação de nossas práticas sociais. desde a sua criação. o “retorno do ator”. podendo auxiliar os vários atores a aprofundarem a reflexão sobre as suas organizações. Essa disciplina deverá. Só assim pode-se proceder a um verdadeiro aprimoramento ético. quando afirmava que é na vida cotidiana que as transformações ocorrem. Ao contrário. levando-os assim a se tornarem progressivamente mais autônomos. Será. levantada por A. Os sociólogos não se enganaram. na atual crise pela qual passa o Brasil. É verdade que a Psicossociologia deve evoluir. No entanto. na prática social. também. quando anunciaram. LÉVY: as verdadeiras mudanças. como têm sido feitas. suas instituições e seus diversos grupos sociais. os diferentes sujeitos devendo analisar sua própria implicação. 108 . Lidar com tais situações tem sido a tarefa da Psicossociologia. antes de mais nada. sujeito). para tanto. ela estará atenta à exigência de verdade e poderá ajudar os indivíduos a tentarem superar seus medos. Ela poderá. conhecendo mesmo um certo prazer na criação individual e coletiva. além de auxiliar na pesquisa de questões relativas a como queremos e podemos nos transformar. LÉVY). pois requer que se ultrapasse o nível da exterioridade. Nesse sentido. a partir do reconhecimento de nosso lugar de atores sociais (enquanto sujeitos individuais ou coletivos). seja para a evolução social. na relação e pela relação. por tudo aquilo que poderíamos chamar de forças instituintes. capazes de contribuir. e que não se pode dissociar mudança individual e coletiva. igualmente. Esse processo é longo.Psicossociologia – Análise social e intervenção surgem em níveis locais e em regiões periféricas. atingindo mesmo as diferentes dimensões da cidadania. Mas. portanto. ajudá-los a acreditarem nas suas próprias palavras. Seguindo essa via. realizando um genuíno trabalho psíquico.

por uma verdade da qual só é possível aproximar-se considerando-se a relação com o outro e por meio de uma pesquisa rigorosa que 109 . seríamos tentados a pensar que. ainda. é porque me parece que. posto ao gosto da moda pelas contribuições da Sociologia das organizações. E isso se traduz em um interesse. nas condições de uma evolução das pessoas e das práticas organizacionais está atualmente em decadência? A Psicossociologia foi suplantada. no modo de compreender as organizações e as instituições e. muito marcadas por transformações profundas na organização do trabalho e nas relações com ele e por reviravoltas devidas à informática e às novas técnicas de comunicação. que a Psicossociologia não é mais um lugar vivo de criação intelectual e de inovação nem está presente em questões dominantes das organizações atuais. da socioterapia e da Escola de Palo Alto. Se me decidi a escrever esse texto. em tantos setores da vida social? Sua influência no tratamento dos problemas de mudança individual e coletiva.2 o envelhecimento. malgrado as aparências. nem sempre bem sucedido. tornada obsoleta pelas novas doutrinas e metodologias que apareceram a partir daquela época e que se inspiraram tanto nela? Caso se acredite no que se diz a esse respeito.APSICOSSOCIOLOGIA:CRISEOURENOVAÇÃO?1 André Lévy O que se passa hoje com a Psicossociologia e com as práticas que ela introduziu. e observando-se toda uma série de sinais. presente em muitos meios. as coisas se passam assim: o número restrito de manifestações. a receptividade reduzida das produções escritas recentes. no início dos anos 60. na acepção forte do termo. as preocupações às quais a Psicossociologia tentou trazer respostas não perderam em nada sua acuidade e que nada leva a pensar que elas devam um dia desaparecer. as tendências por demais freqüentes a reduzi-la a uma espécie de novo humanismo misturado a um rogerianismo neolewiniano. de equipes e instituições tradicionalmente associadas a ela. – tudo isso parece indicar. forçosamente. com efeito.

uma após outra. a partir de interrogações relativas ao papel da Psicossociologia na sociedade. A decadência aparente da Psicossociologia Sem pretender realizar um inventário completo das novas metodologias que surgiram. oferecer respostas globais a questões deixadas em suspenso pelas práticas psicossociológicas. mas que favorece a transformação da ação e suscita nos homens implicados. elas tenham podido ser a referência principal. o que tem como conseqüência que. mas a vontade de inovar. a análise organizacional. não apenas a inquietude e a interrogação. para os atores sociais e para muitos práticos. enfim. desde o início dos anos 70. 110 . os métodos centrados na expressão corporal. primeiro. elas têm em comum o fato de terem pretendido. ela é hoje o lugar de pesquisas que têm como objeto renovar suas formas de abordagem e suas bases teóricas. pode-se citar a análise institucional. uma gama extremamente considerável de meios que eles podem escolher. ou. senão a única. de ter prazer. do reexame sem complacência de algumas de suas metodologias (dinâmica de grupo e intervenção psicossociológica. que evidentemente não é exaustiva. por exemplo).Psicossociologia – Análise social e intervenção exclui radicalmente toda relação ou desejo de submissão e de dominação. ENRIQUEZ. de viver de outra forma. mais recentemente. reagrupa abordagens extremamente diversas e dificilmente comparáveis. É certo que a maior parte delas não desapareceu.. as abordagens sistêmicas da Escola de Palo Alto – a “comunicação nova” –. a análise transacional e. Essa enumeração. Mas importa. tentar captar as razões e os significados da aparente decadência da Psicossociologia e do sucesso de métodos e técnicas que parecem tê-la suplantado. elas foram sendo substituídas muito rapidamente nessa função por alguma outra metodologia mais promissora. retomando termos de E. a partir das quais não é tão arriscado prever que ela possa tomar um novo impulso. para os atores engajados na ação. elas conheceram também um fenômeno de desgaste rápido. Em outras palavras. da renúncia a certas ilusões para as quais ela criou espaço. Entretanto. em função do que lhes parece ser necessário. uma após outra. constituem. em um determinado momento. Parece-me igualmente que. como todo fenômeno de moda. as metodologias inspiradas em novas pesquisas em Psicologia cognitiva. em seu conjunto..3 por um trabalho de análise que visa não ao simples questionamento. Embora durante alguns anos.

Podem-se fazer duas observações suplementares que contribuem para explicar o sucesso – comercial. meios que ele controla. por não lhe deixar escolha. no quadro sugestivo do brief therapy center – “centro de terapia breve”. eles estão prontos a se ajustarem a um requisito de resultados e não apenas de procedimentos. com vantagens. fazendo assim. É praticamente certo que a análise institucional.. Em outras palavras. O mesmo ocorre com a bioenergia e com outros métodos de reeducação sexual. incertos e custosos. eles se comparam. intenções que. emergência de personalidades mais autônomas e congruentes etc. efeitos espetaculares em uma instituição.) e das intransigências instituídas nas estruturas e relações sociais e à medida que elaboravam metodologias acentuando a duração e um nível de investimento muito mais radical e. pelo menos – desses métodos: a. impõe-lhe regras às quais ele deve se submeter sob pena de torná-la inoperante ou de mudar seu significado.. ao mesmo tempo.A psicossociologia: crise ou renovação? Em si. Quanto às terapias preconizadas pela Escola de Palo Alto. em um breve lapso de tempo – da ordem de alguns dias –. na verdade. por exemplo. isso é totalmente diferente da relação que ele deve manter com uma metodologia que. à medida que os psicossociólogos tomavam consciência das leis do inconsciente (limites da “autonomia”. auto-realização. 111 . eles apenas retomam as intenções das primeiras experiências popularizadas por K. tudo isso tem uma conseqüência de importância tão grande que modifica radicalmente a relação do ator com as técnicas: essas passam a ser. desse ponto de vista. eles “funcionam” a um custo relativamente reduzido de tempo e dinheiro.eles se apresentam como respostas susceptíveis de fornecerem soluções eficazes e rápidas a problemas imediatos e delimitados. ROGERS (resolução de conflitos sociais. dentro de um limite de tempo (dez sessões no máximo). ganhou grande parte de sua reputação devido à sua capacidade de provocar. então. podendo escolher o local e o momento de aplicação ou combiná-los à vontade. Dessa forma. a outros métodos mais longos. LEWIN e C. com ambições mais limitadas e incertas. deveriam ter sido consideravelmente reduzidas.4 contrapondo-se a tratamentos longos que perseguiam objetivos considerados como “utópicos” (tais como a busca de causas e origens dos sintomas).). Certamente. elas consistiam em tratamentos visando a “objetivos concretos e acessíveis”.

tendo como corolário a colocação entre parênteses do sujeito enquanto ser de desejo e de projeto. reduzido. não garante nem assegura nada. na análise institucional que queria reduzir o papel do analista ao dos analisadores (“isso” analisa). aparecendo em utensílios. a um “ator” ou a um “agente”. “sistemas” (por exemplo. então. e que. Tal fascinação pelo que “funciona”. se possível. Essa tendência já estava presente. o sistema de ação concreto de M. Embora ocorram desvios. pelos “utensílios” que permitem responder rápida e. automaticamente a problemas delimitados. colocada sob o signo da urgência (ou do sentimento de urgência) – sociedade que é fonte da angústia diante da ausência de um ponto de referência estável e central e pelo sentimento contrário de estar presa num feixe de determinações que escapam a todos. condenado a ser rejeitado. 112 . deve ser compreendida no contexto de nossa sociedade altamente tecnológica. não está muito distante de uma fascinação pelo poder –. a “crise” ou a decadência relativa da Psicossociologia pode ter um caráter relativamente saudável. então. concomitantemente. dominada por relações mercadológicas e seus valores. obriga-a a retornar às suas fontes e a se definir com mais rigor. há que se lembrar.Psicossociologia – Análise social e intervenção b. mas parece ser verdade que o objetivo das metodologias assim desenvolvidas é a aquisição de um controle sobre os homens e sobre os processos. Tudo o que se apresenta como uma exigência do sujeito. especialmente a necessidade de tempo.5 não é possível daí deduzir que a concepção de mudança tenha se tornado puramente instrumental. Abandonar a outros um território no qual ela não poderia lutar no plano da eficácia. instrumentos e técnicas susceptíveis de serem utilizadas sem a participação de um sujeito. Isso ocorre não apenas nas diferentes orientações sistêmicas (de Palo Alto a CROZIER) que enfatizam a importância dos jogos e das regras do jogo. mas também nas orientações cognitivas.Um segundo traço que nos parece caracterizar bem as novas orientações é o interesse muito particular que elas manifestam pelos mecanismos lógicos. pelo instrumento e pela instrumentalização – que. “enquadramentos”. CROZIER) que regulamentam as relações entre homens e o funcionamento dos grupos e das organizações de maneira quase automática e sem intervenção humana. tudo isso é. evidentemente. Nessa perspectiva.

combinada então a pressões mais ou menos fortes. retira-lhe. Assim. inscritos em uma história coletiva que. Se. progressivamente. exigindo a submissão daquele a quem ela se dirige. Para evitar a ambigüidade desse último termo e reservar-lhe apenas o segundo significado (psicológico). ela foi levada à idéia de uma “demanda social”. no limite. sem risco. A demanda expressa. ato pelo qual a demanda (potencial) é feita. a demandas por respostas e soluções. uma 113 . ao contrário. assimilá-la a uma encomenda. isso os levou a aprofundar o significado complexo das demandas que lhes eram endereçadas.A psicossociologia: crise ou renovação? Se ela parece estar muito ausente do “mercado” é porque muitos psicossociólogos renunciaram. especialmente. a articulação íntima entre o individual e o coletivo. à noção complementar de oferta – demanda e oferta devem se equilibrar. por isso mesmo. “existe” e se desenvolve apenas se “vivenciada” por pessoas. uma perspectiva segundo a qual todo acontecimento psíquico. Entretanto. entre a demanda e a encomenda. que podem. está próxima à noção de encomenda. isto é. Colocando como premissa a importância do psicológico no social e. Assemelha-se. com efeito. a demanda é. é a partir de uma reflexão exaustiva sobre a noção de demanda que a Psicossociologia se construiu. é eco de acontecimentos sociais. assim como uma relação de troca. podem-se percorrer todos os graus. Primeiramente. uma grande parte de sua riqueza. um objeto. seu caráter paradoxal e a impossibilidade de reduzi-las. tal distinção não nos parece desejável pois. no registro econômico. nesse caso. toda história singular. endereçada a um outro. indo do pedido e da sugestão (que supõem o reconhecimento da liberdade do outro e sua adesão voluntária) à ordem (que supõe. mais ou menos explícitas. implicando um bem. O conceito de demanda social Com efeito. necessariamente. demanda de encomenda – LOURAU. uma demanda de objeto. no sentido de ordenar ou encomendar. mesmo se ela resolve de maneira artificial a ambigüidade do termo demanda. a noção de “demanda social” é ainda ambígua e necessita ser esclarecida. No que nos diz respeito. a fazer com que a crença em sua capacidade de ser “performático” fosse compartilhada. então. há quem quis diferenciar. pode-se observar que o termo demanda comporta significados que se situam em dois registros diferentes: um de ordem econômica. reciprocamente. reciprocamente. Nesse sentido.

o que dá um sentido e uma configuração particular a essa questão. necessário indagar a respeito de seu significado. a questão da demanda – sua escuta. de uma falta. No limite. principalmente. aplica-se a todas as relações ditas de ajuda. toda demanda de objeto revela também um apelo indizível a ser decifrado. seu tratamento – é. Se. dirigida a quem se estima seja capaz de supri-la. inversamente. em demanda de outra coisa – conselho. precisamente. Ele não é evidente. como capaz de dar uma resposta adequada (o objeto solicitado) ou caso diga ou seja incapaz de fazê-lo. ainda é verdade que o termo demanda inclui sempre. Ela se torna real por essa e nessa relação. pois o qualificativo “social” tende. no primeiro registro. aí.. mas como social. ajuda. mas seria um processo permanente que daria sentido a todo o trabalho realizado. objeto material etc. a demanda é considerada não como individual. Entretanto. é que. seja em um quadro terapêutico. trata-se de uma demanda de amor. o que lhe dá riqueza e complexidade. Por essa razão. sua interpretação é sempre problemática. inclusive e sobretudo por quem a formula. uma certa relação de poder e de dominação. disfarçando-se. na Psicossociologia. na relação com aquele a quem ela se dirigiu e apenas se foi ouvida por ele. na acepção própria do termo. tudo isso não é específico da Psicossociologia. sua interpretação. explicitada pelo objeto que designa. Nesse caso. Seja qual for o registro – econômico ou psicológico –.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação de dominação hierárquica). a “análise da demanda” não poderia ser um preâmbulo. É. Enquanto é apelo ao outro. pelo menos em um segundo plano. freqüentemente ou sempre. dificilmente é formulada como tal. Mas as coisas se passarão de forma inteiramente diferente caso o destinatário seja reconhecido e se reconheça a si próprio. a demanda é facilmente interpretável. em um trabalho social ou nas diversas outras relações cotidianas – entre pais e filhos. no segundo. 114 . seja de reconhecimento ou de amor. não é uma demanda de objeto. então. durante um processo de consulta ou de intervenção. uma das dificuldades da problemática da transferência e da contra-transferência na situação analítica. Certamente. Outra vertente de significado do termo situa-se no registro psicológico. em contrapartida. marido e mulher etc. solução. Toda demanda se situa ao mesmo tempo no dois registros. a “demanda” só tem sentido e só existe. mas a expressão de um desejo. a tirar da acepção corrente de demanda toda conotação psicológica.

meios de resolver um conflito etc. É em relação a esses dados que o trabalho do psicossociólogo pode ser definido: fazer emergir demandas através de situações preparadas com objetivo não apenas de permitir uma expressão menos difusa delas. de dependência ou de submissão. é necessário que ele tenha se manifestado. o psicossociólogo está sempre submetido a pressões que visam a colocá-lo em uma relação hierárquica (de mando). Como conseqüência. Para que uma demanda seja dirigida a um consultor. por sua vez. as demandas sociais podem e devem ser analisadas e tratadas de maneira igualmente coletiva. Assim. transformadas em atos. testemunhado através de seus escritos. não há nada em comum com a posição de simples espelho. às quais é difícil resistir. Análise da demanda: a ética da Psicossociologia Fazer emergirem demandas não consiste em adotar uma atitude de escuta passiva simples.). reflexo interpretante.) e de levá-las assim para um registro mercadológico. podem ter efeitos nas situações que as originaram. mas também de permitir interpretá-las. nas quais elas podem ser avaliadas. refere-se ao fato de que as demandas emergem em situações coletivas. compreendidas e interpretadas. Porém. de uma maneira ou de outra. De um lado. há sempre o risco de reduzi-las ao objeto que elas anteciparam (reivindicação. Ao contrário. mobilizadas. o acesso a essas demandas e às situações problemáticas em relação às quais elas adquirem sentido se dá de forma privilegiada em situações de interação coletiva. especialmente se ele próprio ocupa uma posição na hierarquia da organização na qual intervém. das quais resultam vivências compartilhadas que. quis ou “demandou”. atos e palavras. que sua prática não é aplicação de uma 115 .A psicossociologia: crise ou renovação? O conceito de “demanda social” não significaria que grupos e instituições se incorporariam em sujeitos portadores de desejos inconscientes. mesmo que seja de maneira difusa. a solicitou. Mesmo quando essas expressões coletivas manifestam-se em microsituações – grupos e organizações particulares –. de outro. exprimem-se sob formas coletivas (greves. Em outras palavras. estão sempre ligadas a condições macrossociológicas que elas expressam. eventualmente. uma demanda só existe quando escutada por seu destinatário e. ela é endereçada apenas àquele que se pensa esperá-la e que. as quais. manifestações agressivas ou angustiantes etc.

. com uma preocupação ecumênica de bom quilate – sob pena de trair o que dá sentido à sua ação.Psicossociologia – Análise social e intervenção técnica posta ao dispor de atores sociais. uma ética. BRADFORD antecipava tal perspectiva de 116 . Tal projeto reduziria a Psicossociologia a uma ideologia cujas metamorfoses certamente não seriam estranhas à “crise” que ela conheceu e que tentamos analisar acima. não é possível. no espaço desse artigo. não deveria ser identificada a um projeto de sociedade. toda análise em termos de relações bipolares. Esse ponto. consequentemente. uma perspectiva – que. que foi particularmente desenvolvido por Jean DUBOST. independentemente das outras com as quais ela se articula. incitar assim também os solicitantes a reconhecê-las como questão.6 como oportunamente evocado por J. a reduzi-las a problemas específicos susceptíveis de terem uma solução externa). que suas teorias não se reduzem a um quadro conceitual neutro. princípios que não poderiam ser transigidos – inclusive. desenvolver esses princípios ou os procedimentos que os sustentam. cujo sentido e destinatário verdadeiro ainda têm que ser decifrados (renunciar. individuais e coletivos. interagindo entre eles. desde LEWIN. afirmar que elas são. Tal representação exclui. não podem ser considerados como tendo uma “demanda” analisável em si. uma concepção da sociedade e das relações humanas. entretanto. ao mesmo tempo. parece-nos ser uma ética. um serviço administrativo. tudo isso expressa bem o que. Trata-se. Entretanto. um grupo. da mesma forma. cujas respectivas demandas só adquirem sentido umas em relação às outras. principalmente.Analisar a demanda social implica que se considere sua heterogeneidade. de ser interpretada em toda a sua complexidade e com todos os seus paradoxos. Assim. mas que traduzem um desejo. na falta de outro termo. Desse ponto de vista. mas através de princípios regendo procedimentos. com a condição. ao contrário. uma classe de atores etc. corresponde a uma representação da sociedade como composta de uma pluralidade de atores. Evidentemente. confessáveis e tratáveis. Estar disposto a receber demandas sociais com toda sua dimensão intersubjetiva e a reconhecê-las como tais – e não como simples reivindicações –. de fixar um nível de rigor mínimo que permita ao psicossociólogo resistir a pressões e superar os riscos nos quais incorre: não através de uma filosofia abstrata. alguns pontos nos parecem determinantes: 1. ela evita a tentação antropomórfica que consiste em atribuir a um grupo atributos de um sujeito individual e sua unidade imaginária. enigma. uma empresa. DUBOST. a noção de sistema é bastante útil.

conceitualizar as situações das quais emergem as demandas e compreender os processos que governam sua evolução. todo interventor ou consultante que aspira a exercer um papel de análise situe sua ação em relação a uma perspectiva de pesquisa e. O pesquisador etnógrafo está necessariamente 117 . eles serão sempre incapazes de proteger o pesquisador e. J. a demanda à sua vertente econômica ou mercadológica).Não importando qual seja o interesse dos preceitos positivistas da ciência experimental. 3. em especial. LEWIN. é importante que todo ator e. 2. tal mediação frente ao saber é a principal condição que permite ao ator social munir-se.A psicossociologia: crise ou renovação? análise desde os anos 50. aplica-se também à Psicanálise. Evidentemente. identificar os dados. ao mesmo tempo. por exemplo –. Desse ponto de vista. em especial. Assim. a intervenção junto a um grupo deve ser vista.7 Porém. propondo os termos “sistema-cliente” e “sistema-interventor”. para garantir a independência do pesquisador em relação às influências de poder e às ideologias. como uma ação e como um modo de desenvolvimento de novos conhecimentos. sem o perceber. instrumental. do conceito de “pesquisa-ação” contribuiu para precisar as formas como ela poderia se manifestar na prática. dessa forma. FAVRET-SAADA8 deu ênfase a que o fato de falar e fazer falar nunca é neutro. os objetos de pesquisa comuns aos interventores e aos solicitantes e. igualmente. ter sua atividade mais ou menos afetada por sua posição de sujeito e de ator social. A desconexão pregada pelos defensores da ciência positivista – Max WEBER. Sem dúvida. por K. a fortiori. (de forma relativa) contra os riscos de reduzir sua relação com o outro a uma relação de poder dual. em uma relação de colaboração. a um trabalho teórico centrado em objetos de saber. condicionada a uma preocupação de eficácia ou de utilidade (reduzindo. e sendo breve. desde o início da ação de intervenção. tal perspectiva não se restringe à Psicossociologia.Por outro lado. A introdução. incluindo tanto atores quanto interventores e analistas. a perspectiva lewiniana de pesquisa-ação pode ir além. não pode pretender submeter os processos de produção teórica apenas aos critérios de racionalidade e objetividade. antecipadamente. trata-se de tentar definir. então. o interventor-pesquisador contra o risco de. Em suma.

implicam sempre em estar inscrito numa relação de forças. então. nem que seja apenas para legitimar sua própria posição de sábio em relação às “crenças” de “indígenas atrasados” cujos ritos estuda. Da mesma forma. A Psicossociologia é a instância de tal renovação ou ela se limita à reprodução de práticas antigas? Ela tem um futuro? Em caso afirmativo. é impossível. essas diversas indicações não deveriam ser interpretadas como normas rígidas. uma orientação. questionar. Embora seu enunciado seja necessário. ser estabelecido antecipadamente como um princípio normativo. de qualquer jeito. então. parafraseando J. 118 . um lugar específico no conjunto das ciências humanas e esse lugar diz respeito a necessidades duráveis. aceitar sua implicação e a subjetividade dela resultante. elas expressam antes uma perspectiva. e não condutas estritas às quais o interventorpesquisador deve se conformar. quais são seus pontos fortes? Sem pretender responder a essas questões. tentando identificar. FAVRET-SAADA. algumas tendências atuais. investigar. ele o é não tanto para prescrever uma tarefa que. FAVRET-SAADA. com tudo o que isso comporta de inconsciente e de cumplicidade consciente. nos termos de J. em seguida. O “desprendimento” só pode resultar de um movimento duplo: em primeiro lugar. embora não suficiente. assim como observar. brevemente. “o que pode ter sido através de seu próprio desejo de saber”. é importante que esse lugar seja interpretado em função de evoluções. de apreensão – deixar-se prender pelos discursos dos outros e participar deles. tal princípio apenas levaria pesquisadores e atores “a se mirarem no espelho que cada um mostra ao outro”. dos discursos sustentados (incluindo o seu próprio) e dos processos realizados – “re-apreensåo” quer dizer. Igualmente. reafirmar essa posição e manter-se nela. Perspectivas para o futuro A Psicossociologia ocupa. Entretanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção “preso” pelo seu objeto. mas para levar os que se engajam nela a descobrirem seus limites.9 O “desprendimento” implicado em um trabalho de pesquisa não pode. É indispensável. da sociedade e das ciências do homem. de “re-apreensão” teórica das situações observadas. consagraremos a elas as últimas páginas desse texto. “saber como se foi apreendido”. consideráveis nas últimas décadas.

elas acentuam a necessidade de uma abordagem pluridisciplinar e a impossibilidade da Psicossociologia renovar-se sem contribuições externas. A pretensão da Psicossociologia de monopolizar a questão da mudança social. de uma forma diferente. rogerianas e morenianas.A psicossociologia: crise ou renovação? Uma primeira observação. orientam-se cada vez mais para o estudo da linguagem como lugar de produção e de transformação de estruturas e de relações sociais.12 embora em sua origem tais trabalhos tenham sido feitos com objetivos puramente descritivos e de pesquisa. a problemas de mudança social. É certo que essas indicações sintéticas mereceriam um desenvolvimento bem mais amplo. hoje. por perspectivas lewinianas. etnometodologia. a influência crescente da Psicanálise tornou necessária. cada vez mais evidentes.11 principalmente aquelas orientadas para a análise das instituições e dos movimentos sociais. Não é mais possível considerar o trabalho de formação. sem evocar seus vínculos com outras disciplinas e outros atores sociais. de ordem geral. mesmo que apenas em uma perspectiva microssociológica. é forçoso admitir que não podem ser ignorados e que se deve reconhecer que também eles contribuíram para abrir novos campos e formas de pensar. análise conversacional. há alguns anos. até então. desde os anos 60. certas correntes de Sociologia Clínica. uma profunda reavaliação de seus métodos e objetivos. Assim. contribuindo sobretudo para a compreensão das dimensões institucionais e culturais. Mostram. os processos de intervenção e de mudança e para fornecer conceitos e métodos novos para analisá-los. falar de orientações da Psicossociologia e de psicossociólogos. impõe-se: qualquer que seja o domínio. assiste-se a uma multiplicação de pesquisas orientadas para a análise de discursos coletivos e para as interações lingüísticas – interlocuções. Em todo caso. Por outro lado. convergências. com uma perspectiva bem global. assim.10 Mais recentemente. de análise de grupo. Finalmente. dedicaram-se. no início do texto. a retrocessos ou mesmo que violaram objetivos e princípios fundamentais. não é mais aceitável. é impossível. dominados principalmente. com alguns trabalhos da Psicossociologia e contribuem para esclarecer. e se possa dizer que eles freqüentemente conduziram a impasses. de intervenção ou de consulta sem referência a trabalhos de inspiração psicanalítica. Mostram também que tais articulações não são feitas facilmente e que elas se chocam com diversas 119 . talvez rapidamente demais. embora se possa ser crítico com relação aos desenvolvimentos recentes que revisamos.

A. D. LÉVY. Dunod. 1981. trabalhadores sociais. por Eliana Vianna Soares e Marília Novais da Mata Machado. Connexions. 1985. Connexions. e LÉVY. O problema da mudança individual. “La psychosociologie: crise ou renouvau?” Cahiers d’Etude du CUFCO. J. Petit traité de manipulation à l’usage des honnêtes gens. O que é verdadeiro no plano teórico também o é no terreno da prática. Notas 1 Traduzido de: LÉVY. “Connexions”. In: Du discours à l’action. 1989. A. J. BION. ATLAN. 11 TOURAINE. 1972. 1984. e de representações específicas de objeto.. Recherches sur les petits groupes. 1979. DUBOST. Seuil. Les mots. Façons de parler. 42. O. 1978. 1965. p. sindicalistas. L’intervention institutionnelle. Em especial. FLAHAULT. CHABROL. Dunod. E. RAPOPORT. La voix et le regard. “Eloge de la psychosociologie”. Entre le cristal et la fumée. “Les trois dilemmes de la recherche-action”. LECLERC. Payot. La parole intermédiaire. 1977. Como exemplos: BARUS. les sorts. “L’analyse sociale”. Paris: Seuil. W. Intervention et changement dans l’entreprise. André. R. La société du vide. GOFFMAN. In: ARDOINO et al. Paris X. com os quais novas formas de colaboração devem ser inventadas. 2:87. TROGNON. Le sujet social. 1979. G. paradoxes et psychothérapies. Desde a colaboração intensa – freqüentemente conflitiva e não de todo desprovida de ambigüidade – que foi estabelecida. J. Paris: Seuil. L’intervention psychosociologique. A. L. e BAREL. Le groupe et l’inconscient. 1973.N. Seuil. 6 8 9 FAVRET-SAADA. Gallimard. 1978. “Ce que parler peut faire”. por vezes fundamentais. 1987. e JOULE. J. 1984. R.Psicossociologia – Análise social e intervenção dificuldades advindas de diferenças epistemológicas. PUF. 3 ENRIQUEZ. “Une analyse comparative des pratiques dites de recherche-action”. arquitetos etc. la mort. Sociologie du Travail. J. L’observation de l’homme. E. 9-18. 1983. Por exemplo: ANZIEU. DUBOST. Minuit. H. 43. Seuil. A. 53. 1975. PUF. PUG. C. JAQUES. J. 1980. “Coopération et analyse des conversations”. 2 4 5 WATZLAWICK et al. 7. 7 Cf. Situations de groupe et relations langagières. A. Dunod. Connexions. Changements. 12 BORZEIX. 1990. L’Harmattan. Tese de Doutorado. 17. 1987. 1987. muitos outros atores apareceram: formadores. Y. 10 120 . DUBOST. responsáveis políticos locais. BEAUVOIS. e CAMUS-MALAVERGNE. 1987. com os psicanalistas e psiquiatras empenhados em reformas da instituição psiquiátrica. “La recherche-action: une autre voie pour les sciences humaines”. nos anos 60 e 70. grupal ou institucional não é monopólio do psicossociólogo. E.

da crise das ideologias e das doutrinas que pregam uma transformação radical e revolucionária da sociedade. do efeito das decepções ligadas às evoluções políticas e sociais desde o início dos anos 70. no campo que nos interessa. desde há dez ou quinze anos: desapreço às teorias gerais que oferecem modelos explicativos das mudanças sociais globais e. relacionados com o desenvolvimento de práticas sociais de intervenção. em detrimento da problemática da sobredeterminação que havia dominado as pesquisas durante muitos anos. em contrapartida.2 Mas. A importância que os trabalhos de CROZIER e de TOURAINE ganham hoje. poder-se-ia ser surpreendido ao constatar que. em nenhuma das duas. Entretanto. retorno a uma problemática do indeterminismo. de forma mais ou menos clara. se faz referência aos trabalhos dos psicossociólogos que.4 Essas evoluções. é significativa desse estado de coisas: se o primeiro reduz a mudança ao desenvolvimento de processos de regulação e de negociação permanentes nas organizações. resultam também da desilusão com a capacidade explicativa e preditiva das teorias gerais relativas à mudança. essas obras trazem a marca das inflexões que o pensamento sobre a mudança conheceu. mais do que como fenômeno excepcional. também. depois de LEWIN. tendência. o segundo 121 . certamente. interesse crescente pela análise e mesmo pela descrição de processos concretos de mudança nos grupos e instituições. contribuíram de forma decisiva para a compreensão dos processos de mudança nas organizações.A MUDANÇA: ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO1 André Lévy Para quem se interessa pela questão da mudança social. não podem ser atribuídas apenas aos psicossociólogos. a abordar a mudança em suas manifestações cotidianas.3 sobretudo nas Ciências Humanas. o ano de 1984 teria sido rico com a publicação de duas obras sobre esse assunto.

no grupo (na relação e pela relação. isto é. Assim.5 Além disso. mas que ela poderia se realizar. porém algumas observações prévias: a. Nesse terreno. para as constatar. 122 . deslocamento. fez notar que se tratava não de uma simples passagem de um estado a outro.Psicossociologia – Análise social e intervenção ressalta as mudanças futuras. participando delas diretamente. estabeleceu que o lugar desse processo não era forçosamente o indivíduo sozinho. teve o grande mérito de abordar essa questão diretamente.Estabelecer a mudança como processo grupal e não como resultado de uma série de interações entre indivíduos significa que o grupo constitui uma realidade fenomênica e que esse termo não define apenas um nível de análise. compreendê-la como tal. designar como lugar desse processo a realidade intersubjetiva que constitui o discurso – atos de escrita ou de palavra – e se livrar. dirigir ou combater. talvez por se terem situado no terreno das mudanças em vias de ocorrer. foge à apreensão – pois só se poderia falar dele após sua ocorrência –. necessariamente. por definição. necessitando ser aprofundada.6 Apesar da extrema dificuldade que existe para se entender um fenômeno que se assemelha à criação poética ou à invenção científica e que. preparadas em grupos pertencentes a movimentos sociais virtuais. com efeito. de uma leitura psicológica. mas de um processo que podia ser descrito segundo três fases distintas (descristalização. por isso. mas participar do momento e do lugar nos quais ela se efetua e. ele permite. não é menos verdade que eles foram os primeiros a pressenti-las e a desenvolver suas implicações. aqui. Antes. recristalização). que a mudança social não resulta sempre da acumulação de mudanças individuais. K. fornecer alguns elementos de forma a precisar e complementar essas reflexões já antigas – mesmo que isso só possa ser feito de maneira aproximada e sugestiva. de súbito. hoje. LEWIN. Se os psicossociólogos não podem ser considerados como os únicos responsáveis por essas evoluções. prever. iria reificá-lo. O conceito de interação pela linguagem7 parece-nos. definitivamente. como demonstramos num texto anterior). a questão que se coloca não é tanto a de explicar uma mudança já realizada. com efeito. do interior e não de um ponto de vista exterior. e porque toda observação ou análise que se poderia fazer. parece-nos possível. que aparece necessariamente em toda reflexão sobre mudança. muito fecundo. aquém ou além.

Toda vida é “repetição de ciclos”.. é acontecer. Antes de ser um acontecimento objetivo. A teoria dos sistemas distingue. Isso nos obriga a precisar a que “mudança” nos referimos.). mutações.). reorientações bruscas...A mudança: esse obscuro objeto do desejo b. a mudança é um acontecimento psíquico. escrevia Paul VALÉRY.Se o discurso pode ser tomado como o lugar da mudança. Ele se traduz. reprodução das idéias. que queremos nos centrar aqui. tem “o poder de transformação das representações” e o de “tratar situações insolúveis 123 . é sobre essa segunda significação de mudança. ao risco (. “exceto do corpo que se usa”. Com efeito. o desenrolar de uma existência. como ruptura. também. a mudança no sistema e a mudança do sistema: se essas duas dimensões parecem contraditórias. eles não podem ser previamente enunciados.. tecnológico –. Mesmo se posteriormente esses acontecimentos pareçam ter sido inelutáveis. assim. ela é um acontecimento subjetivo. Com efeito. seja a de um indivíduo ou de um grupo.. é um acontecimento ou um fato que introduz uma ruptura na vida do sujeito. pois. que é a morte) – reprodução das espécies.8 Com efeito. desse ponto de vista. A mudança é um trabalho do espírito. lento e ininterrupto. do pensamento Antes de ser um acontecimento material – biológico. redirecionamentos. legitimamente. é se abrir a uma história. O termo mudança poderia.) pelo aparecimento e exame de elementos de significação verdadeiramente inéditos (. físico. a um processo de mudança. nem todo processo discursivo se identifica. econômico. designar tudo o que está vivo.. tal definição é geral demais para ser útil. é o espírito que. freqüentemente não isentos de violência. porém. elas mantêm entre si relações dialéticas e complementares que é preciso compreender..9 a mudança.) mudar não é submeter-se inteiramente à lei da repetição (. entretanto. Como já dissemos... à aventura. reprodução das instituições. a vida se conserva reproduzindo-se (termo que não deve ser confundido com a repetição do mesmo.. No entanto. como observou Paul VALÉRY. por momentos de descontinuidade que marcam fraturas no destino. não se reduz a esse processo evolutivo. (.

As condições materiais. Para entender bem essa proposição. Fazemos. a liberdade”. então. ainda. isto é. ao contrário. a emergência de instituições e de novas práticas sociais se realizam. depois de LEWIN. só têm valor de mudança quando elas são apropriadas mentalmente. os psicossociólogos. no qual o psicológico teria todo o seu lugar. mas essas seriam certamente ilusões perigosas se supusessem que se pode poupar um trabalho do pensamento. em todos os níveis. das instituições. da possibilidade de desligamentos e de novas combinações. por excelência.Psicossociologia – Análise social e intervenção por meio da atividade de reflexão. representações ou intenções e os que estimam. A decisão tem sido encarada mais como um problema de lógica. todos os esforços para acentuar o fato de que o ato de decidir (uma das principais funções do dirigente. interessaram-se pouco pelos problemas de decisão. As inovações técnicas podem certamente ser consideradas como as manifestações mais gritantes de mudanças marcantes nas sociedades modernas e como o fator mais determinante da subversão dos valores. pode-se não duvidar da eficácia dos novos métodos de terapia comportamental ou das aplicações da abordagem sistêmica à terapia familiar. Por exemplo. que essas últimas constituem racionalizações de condutas instituídas e de situações objetivas. favorecendo o estado de disponibilidade de recursos próprios. ao contrário. por um trabalho do espírito. ele o é apenas se fizer sentido. objetivas. dos modos de pensamento. um trabalho de pensamento. de organização ou de poder do que como um problema psicológico. Não estamos interessados na polêmica que opõe os que julgam que as condutas são determinadas pelas idéias. 124 . o único capaz de desfazer relações antigas e elaborar novas e que. segundo FAYOL) seria inconseqüente se não fosse recolocado no processo complexo do qual ele é apenas um dos momentos – se ele não fosse preparado por uma longa elaboração e seguido por um trabalho de apropriação. A decisão: momento. tanto dos que as concebem quanto dos que as utilizam. lugar e modelo da mudança Paradoxalmente. Ou. a história do desenvolvimento da informática mostra como suas inovações mais técnicas e suas aplicações industriais mais espetaculares traduzem. antes de tudo. é necessário se livrar de toda perspectiva em termos de causalidade.10 O psiquismo (o mental) e sua dinâmica são. se o ato é fundador. exceto numa perspectiva organizacional ou de teoria dos jogos. Nosso propósito vai além: ele consiste em dizer que as mutações. ao nível de suas significações. o lugar da mudança.

por si. algumas continuam sempre desconhecidas e o momento da decisão é sempre. de se dar um pai e de nomeá-lo (Moisés e o Monoteísmo). podem parecer distantes da decisão histórica analisada por FREUD da crença em um só Deus todo poderoso. a decisão de “não se apoiar no testemunho dos sentidos” e a de se opor à fantasia de que: “quem não pode chegar a se apoiar no real. Os processos de decisão analisados por LEWIN. quanto é falso considerar negligenciável esse momento “decisivo” – no qual o sujeito que oscilava entra bruscamente e de maneira irreversível em um futuro imprevisível – ou considerá-lo como sendo de uma outra ordem. da continuidade sem hiatos. renunciando. Somente a decisão pode fundá-lo”.13 acentuamos o ato arbitrário. então. em um trabalho anterior. em suas opções e em seus desejos fundamentais. a organização social. LEWIN. a fundamentá-las no que até então parecia “evidente” (as sensações de repulsa. para chegar ao processo secundário e criar o real. uma situação nova e envolve inteiramente. em sua época. “operando uma disjunção violenta. com o risco de sua própria desagregação”. o psicanalista W. ao mesmo tempo. da ordem do real-concreto-sensível. esse ato arbitrário pelo qual o sujeito se retifica. o “golpe de força” na origem de toda organização social. afastando-se da certeza “baseada no testemunho dos sentidos” (do processo primário e das fantasias). o tempo.12 A decisão seria. por exemplo). necessariamente. a divisão. da duração (bergsoniana). inicialmente. modifica as representações e leva os indivíduos a adotar novas condutas. um salto para o desconhecido. a partir do enunciado de regras que não se apoiam em nenhuma legitimidade anterior.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Mas tanto é absurdo reduzir a decisão ao momento único da escolha. por si própria.11 incluindo os hábitos de compras das donas de casa de Ohio. só pode ocultá-lo. sem rede de proteção nem garantia de espécie alguma. os que a tomaram e aqueles em relação aos quais ela é tomada. A noção de processo não pode mascarar o fato de que a decisão marca uma descontinuidade no curso da história: só o fato de “tomá-la” cria. Em um comentário sobre esse famoso texto de FREUD. Por isso. GRARANOFF salienta o fato de que toda decisão é. sublinhara a importância crucial do momento da decisão coletiva que. negligenciar ou considerar secundário todo o trabalho de análise e de elaboração psicológica que o prepara e o acompanha. para baseá-las em uma escolha voluntária que se apoia em uma aposta feita coletivamente em uma outra verdade. 125 . Qualquer que seja o grau de sofisticação dos estudos de probabilidades. do feminino.

A decisão: ato solitário e coletivo Como todo ato de palavra. isso significa que uma escolha. em si mesmo. a enunciação de uma escolha e o começo de sua realização: anúncio de um futuro. quer sejam. esse se exprime aí e se expõe aí (nos dois sentidos do termo: mostrar-se.. econômicas ou sociais. Mas. nem que a palavra seja onipotente. a decisão é. Uma decisão que não expõe nominalmente seu ator (nos dois sentidos indicados) não é uma decisão no sentido próprio e. os termos nos quais a situação será doravante encarada e as condições nas quais ela é susceptível ou não de ser mudada. É a razão pela qual todas as instituições insistem tanto no reconhecimento explícito de atos realizados por seus autores – seu testemunho assinado. O sujeito de tal enunciado. nas relações pessoais dá-se o mesmo (o que é o amor sem sua declaração?). não pode significar uma mudança. mas porque é um ato público. assim. dando assim sentido aos atos que a traduzem – sem o que tudo se passa como se nada tivesse verdadeiramente acontecido. que uma decisão necessariamente modifica. no sentido de que ele é um ato “que se realiza quando é falado” – à semelhança de uma declaração de amor ou de um insulto. ele não compromete nem seu autor nem ninguém. ao mesmo tempo um ato eminentemente individual e um ato coletivo. ao mesmo tempo. só é concluída quando tiver sido dita e ouvida.” é um ato “ilocucionário explícito”. explicitamente designado. evidentemente. tomados como testemunhas. Um ato. mas também emergência no seu próprio real – a ordem do discurso – da mudança evocada. é o mesmo sujeito da enunciação. Toda decisão é. as situações institucionais. um ato de palavra. retomado ou reinterpretado. de forma mais importante ainda. qualquer que ela seja. Se o sujeito que 126 . simplesmente. simplesmente. pois. apenas por seu enunciado. arriscar-se) – quer os destinatários estejam implicados diretamente na decisão. assim.. Isso não significa. que o enunciado de uma decisão seja suficiente para transformar. não muda nada. como que por mágica. pois ele pode sempre ser desmentido. por seu conteúdo informativo e prescritivo.14 a enunciação de uma decisão: “eu decido então que. De acordo com as definições de FLAHAULT ou de TROGNON. modificações na realidade.Psicossociologia – Análise social e intervenção A decisão: ato de palavra Assim. decisão tem essa significação não apenas porque não se reduz a uma resolução íntima. manifestação da vontade de produzir. Mas.

a respeito do herói. Fazer crer que ela possa resultar mecanicamente da contabilidade das escolhas individuais é a fraude que todo poder utiliza para tentar se tornar invisível. bem antes do livro sobre Moisés. como diante da morte –. em que condições adquirem sua plena significação e apreendem o real? A prática da análise social permite esclarecer essa questão? Em que as reflexões precedentes permitem compreender as condições nas quais essa prática é susceptível de contribuir. como muitas vezes ocorre. vazios de sentido e sem conseqüências. Nesse sentido. esconde mal. efetivamente. formal e. Decisão. o despeito resultante de uma decisão contrária à dos que protestavam. a uma atividade lúdica ou de encantamento. eles próprios. e de abandonar o terreno do possível. para fundar o real. talvez mais do que em qualquer outro momento. que preferiu propor um futuro às comunidades da Nova Caledônia. Porque uma decisão é de qualquer forma inevitável. Aqui. conscientes ou inconscientes. não se reduzindo. interpretação e prática de análise social No entanto. em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”. rituais ou emblemáticos. entre as possibilidades. força-os a se reconhecerem no futuro que ele traça ou a rejeitá-lo. ele é investido da vontade do grupo diante do que é necessário. os desafia. para um processo de mudança. as decisões tomadas nas organizações apenas raramente têm a significação que lhes demos aqui. sob a má fé dos argumentos. A indignação manifestada por alguns com relação a PISANI. a definição usual (segundo FAYOL) do chefe como aquele que decide contém uma parte da verdade apontada por FREUD. Então. o risco que ele assim corre estando na proporção daqueles aos quais ele convida. do imaginário. É mais comum tratarem-se de atos formais ou simbólicos. e da obrigação de assumir sozinho as contradições coletivas. sem apreender o real? 127 . o jogo de hipóteses. compromete-se também por conta de outros e diante deles: ele os toma como testemunhas. igualmente.A mudança: esse obscuro objeto do desejo decide se compromete sozinho – nenhuma solidariedade pode evitar que se experimente um intenso sentimento de solidão diante de uma decisão importante. inelutável. as censuras que lhe foram feitas por fazer a escolha em vez de ficar como árbitro neutro e deixar os oponentes escolherem. O caráter coletivo de uma decisão é tanto mais manifesto quanto mais ela se traduz por uma palavra proclamada por um único homem frente à coletividade.

Certamente. para se imporem como necessárias e para se traduzirem concretamente em condutas. sendo difícil. Seria importante. possuem as características do relato histórico. eles têm a pretensão de “dizer a verdade” (“o narrador é aquele que sabe”) e contribuem. Assim. feita pelos psicossociólogos. levou a associar a mudança sobretudo a um trabalho de elaboração e de perlaboração (working-through). com efeito. Mas ele pode. E é insistindo nesses aspectos que a prática de análise psicossociológica conseguiu adquirir sua identidade e se diferenciou das abordagens tecnológicas. Esses sistemas. 128 . para fazer a história. ajudar a fazer emergir conteúdos recalcados ou censurados e provocar trocas e um trabalho de análise susceptíveis de facilitar certas tomadas de decisão. mas. um levantamento de dados no contexto de uma intervenção psicossociológica pode. sublinhar que as mudanças sociais e as decisões levam tempo para amadurecerem e serem preparadas. ao mesmo tempo. senão impossível. incontestavelmente. termo que. escapar dessa eventualidade. certamente. mais vale uma interpretação equivocada do que nenhuma interpretação. serve para designar ações reais bem como o relato dessas ações. nenhuma interpretação está assegurada ou completa. ela é necessariamente parcial e partidária. Mas a insistência sobre essa dimensão contribuiu para fazer esquecer que o trabalho de perlaboração só não cai no vazio se for ajudado por interpretações feitas no momento oportuno. a luta interminável contra os efeitos do recalque e o instinto de morte constituem. igualmente. remontando ao passado e interpretando “fatos” ou eventos que cada um pode ver ou experimentar. como observa FAYE. tais como J. permitindo um salto qualitativo e a passagem sem transição de um nível de compreensão a outro. uma porta essencial para o que chamamos de trabalho de mudança. implica um risco e um custo. eles têm pretensões a uma objetividade que mascara interesses e jogos subjacentes à trama e aos efeitos que esses “relatos” buscam produzir. Na medida em que esses sistemas explicativos se apresentam habitualmente como uma re-escritura da história da organização. como toda decisão. contribuir para reificar os sistemas de racionalização e de explicação que justificam as condutas.Psicossociologia – Análise social e intervenção Uma certa leitura da Psicanálise. FAYE15 as analisou. ainda que não tenham conhecimento disso. O trabalho sobre as resistências. pedagógicas ou manipuladoras da mudança social. P. processo longo e contínuo – oposto aos atos que afetam diretamente a realidade ou à transmissão de saberes. certamente.

É aqui que uma concepção por demais rígida. contribui para reforçar seu caráter dogmático. que eles constituem visões diferentes.16) O fato de colocar em evidência essas construções não somente não favorece a concretização de mudanças. diz-nos LEGENDRE. e o desconhecimento dos interesses materiais ou psicológicos que eles promovem e que são relativos às posições ocupadas na estrutura por aqueles que os detêm (“A verdade dogmática visa a retirar do escrito seu traço de história”. longe de se fundamentarem no “real”. Trata-se de um movimento contrário àquele subjacente às condutas de decisão. em um processo de reificação de enunciados fechados. então. os conflitos revelados pelas contradições entre seus discursos. bem claramente. ao contrário. das condutas às quais elas se referem. cada um. uma parte da verdade comum. impedindo qualquer possibilidade de palavra nova e fazendo com que os conflitos. moral e “não-diretiva” da regra de abstinência induziu os psicossociólogos. que as análises de conteúdo tendem a destacar com mais força ainda. Essa vontade de imparcialidade e de objetividade. que preserva o analista social da decisão. subtraído do tempo”. “nascendo. o texto. a pensar que lhes seria suficiente descrever os discursos. bem como o lugar que ocupam na organização – e ocultar. não podendo ser traduzidos em decisões. muitas vezes. mas sua coerência.17 O ato de palavra que a pesquisa inaugura se transforma. do risco de uma interpretação verdadeira. contentando-se em esclarecê-los e. sobretudo. no inconsciente dos sujeitos. ela tem como efeito fazer esquecer o que constitui. assim. práticas contestadas ou abordadas. atuem diretamente no real. que deveriam se abster de tomar o partido de uma significação mais que o de outra. justificando. tende também a fazer acreditar que os diferentes discursos contêm. a necessidade de uma atividade interpretativa para que um trabalho de análise se articule a um processo de mudança ao invés de tender a enrijecer 129 . mais ainda.A mudança: esse obscuro objeto do desejo Os discursos que podem ser coletados durante essas pesquisas participam. ideológico. mas tende a afastá-las. de uma mesma “realidade”. Esse contra-exemplo da pesquisa inscrita no contexto de uma intervenção psicossociológica permitiu-nos apreender. mas complementares. essas diferentes visões e o que elas ocultam. de antemão ou posteriormente e em nome de uma pseudo – ”realidade”. visto que essas. fundamentam o real através de um ato de pensamento arbitrário. pois.

Psicossociologia – Análise social e intervenção

os sistemas de representação e contribuir, reforçando-os, para condutas de evitação dos problemas e de negação das contradições. Em exemplos desenvolvidos anteriormente,18 estabelecemos, em compensação, como uma atividade de interpretação pode se articular com uma atividade de decisão e de mudança, na trama dos discursos e nas condutas concretas. Se pareceu surpreendente colocar “a decisão”, habitualmente associada a um ato de autoridade, no centro de nossa reflexão sobre mudança e se pareceu arriscado associá-la ao trabalho analítico e interpretativo, que exclui, por princípio, todo exercício de poder sobre outrem, esperamos, entretanto, através dessas páginas, ter apreendido melhor, com a própria ajuda dessa contradição aparente, o motivo pelo qual a mudança se situa, precisamente, na interface dessas atividades de pensamento, conjugadas uma à outra. Juntas, e somente juntas, elas permitem aos homens se protegerem “da luz brilhante do não questionável e organizar de outro modo o campo das significações”.19 O que a interpretação realiza no espaço analítico, a decisão realiza no campo da organização social, sem que jamais, porém, essa realização se traduza em conclusão, em enunciado de uma certeza; elas ficam, uma e outra, sob a dependência dos efeitos que engendram e, especialmente, daqueles que retornam sobre si mesmos: uma decisão é sempre submetida à prova da realidade, da mesma forma que uma interpretação, sempre suspensa na sua possível verificação, é sempre “fundamentada no amor à verdade, isto é, no reconhecimento da realidade que exclui todo engano ou simulacro”.20 Se a decisão, pelo que ela prescreve ou sugere, abre um novo espaço de condutas, a interpretação, pelo que ela enuncia, abre um novo espaço de palavras. Mas, como BATESON mostrou há bastante tempo,21 toda palavra se situa ao mesmo tempo nos dois registros da informação e da sugestão – ato de palavra, análise em ato. Elas definem o lugar da mudança na medida exata em que, tomadas em um campo de conflito no qual contribuem para deslocar os termos, nunca instituem uma relação de forças. Contudo, elas parecem facilmente contraditórias; mas isso não se daria por que essa contradição permitiria mascarar a realidade paradoxal das organizações sociais – elas sendo, ao mesmo tempo, projeto de continuidade, de previsão e de unidade, bem como instituição da divisão, da ruptura e de limites a todo desejo de onipotência? Do mesmo modo, esse

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A mudança: esse obscuro objeto do desejo

paradoxo inerente a todo sistema organizado, vivo,22 dura apenas o tempo em que acontece uma atividade decisória e analítica (ou interpretativa), seu desaparecimento coincidindo com a instauração de um Estado totalitário e cristalizado.

Notas
Traduzindo de: LÉVY, André. “Le changement: cet obscur objet du désir”. Connexions. 45, p. 173-184, 1985, por Maria Lívia do Nascimento e Sílvia C. Josephson. 2 BOUDON, R. La place du désordre. Paris: PUF, 1984. MENDRAS, H. e FORSI, M. Le changement social. Paris: Colin, 1983. 3 POPPER, K. L’univers irrésolu, plaidoyer pour l’indéterminisme. Paris: Hermann, 1984. 4 ALTHUSSER, L. Pour Marx. Paris: Maspero, 1966; BAUDELOT, C., ESTABLET, R. e MALEMORT, J. L’école capitaliste em France. Paris: Maspero, 1971. 5 LEWIN, K. “Décision de groupe et changement social”. In: LÉVY, André. Textes fondamentaux de psychologie sociale. Paris: Dunod, 1964. 6 LÉVY, A. “Le changement comme travail”. Connexions, 7, 1973. 7 TROGNON, A. Situations langagières et processus de groupe. Tese de Doutorado de Estado, 1980. 8 VALÉRY, P. Réflexions simples sur le corps. Variété V. Paris: Gallimard, 1945. 9 LÉVY, A., ibid. 10 VALÉRY, P., ibid. 11 LEWIN, K., ibid. 12 “A decisão de se restituir o pai, de reinstitui-lo depois de tê-lo descartado, é, como em Totem e Tabu, o ponto essencial que terá seu fechamento no livro sobre Moisés”. “Isolar o nome do pai é renunciar a se fundamentar no testemunho dos sentidos, é decidir que a paternidade é mais importante que a maternidade, decisão que, em si própria, é um dilaceramento, um distanciamento que se torna o seu próprio (...), é, para FREUD, a aventura da humanidade que cada homem deve refazer, pessoalmente, em seu destino”. GRANOFF, W. Filiations. Paris: Minuit, 1974. 13 LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations. Tese de Doutorado de Estado, 1978. 14 TROGNON, A., ibid.; FLAHAULT, F. La parole intermédiaire. Paris: Le Seuil, 1978. 15 FAYE, J.-P. Théorie du récit. Paris: Hermann, 1972. 16 LEGENDRE,P. L’amour du censeur. Paris: Le Seuil, 1974. 17 Essa vontade apoia-se também numa concepção relativista e subjetiva da verdade, excluindo a possibilidade de diferir o verdadeiro do falso. Como demostra FAYE, tal concepção está na origem do pensamento totalitário. 18 LÉVY, A. e DUBOST, J. “L’Analyse social”. In: ARDOINO et al. L’intervention institutionnelle. Paris: Payot, 1980; igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, tese citada; LÉVY, A. e ENRIQUEZ, E. “Évolution technologique et perspectives psychologiques”. Connexions 35, 1982. 19 CASTORIADIS-AULAGNIER, P. “Savoir et certitude”. Topique 13. 20 BATESON, G. e RUESCH. Communication. The social matrix of psychiatry. Norton, 1942. 21 Ibidem. 22 BAREL, Y. Le paradoxe et le système. PUG, 1979; ou, igualmente, LÉVY, A. Sens et crise du sens dans les organisations, op. cit.
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

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RUPTURAS,MUTAÇÕESE COMPLEXIFICAÇÃOEMECONOMIA1
André Nicolaï

O objetivo da maioria dos economistas é o de equiparar o funcionamento da Economia ao de uma sociedade animal. Isso significaria: 1- Que existe uma perfeita determinação do comportamento dos atores (para os seguidores de PARETO, advinda da realização de um nível ótimo único; para os seguidores de KEYNES, da queda necessária na tendência ao consumo; para os marxistas, dos papéis dos “funcionários do capital”): assim, cada uma dessas correntes teria, à sua disposição, apenas um modelo de comportamento possível; 2- Que existe entre esses atores uma perfeita complementaridade de papéis e, por conseguinte, de comportamentos que visam ao seu desempenho; 3- Que daí resulta, necessariamente, um equilíbrio: equilíbrio ótimo para WALRAS, de subemprego para KEYNES, de lucro-zero para RICARDO. Na melhor das hipóteses, admitir-se-á um crescimento equilibrado (SOLOW) ou, na pior delas, um declínio a um estado estacionário (RICARDO). Poder-se-ia mesmo admitir que o equilíbrio é raramente atingido mas que, em tal caso, emergem mecanismos de regulação que atuam como fator de reequilibro do sistema. São raros os economistas que tratam da mudança por rupturas e mais raros ainda os que trabalham do ponto de vista de uma eventual complexificação após cada crise profunda do sistema. Somente alguns autores fundadores e algumas correntes ortodoxas ousaram atacar o problema: SMITH, no livro III da Riqueza das Nações (“variações do progresso da opulência nas diferentes nações”); MARX, em toda a sua obra; Schumpeter (Teoria da evolução econômica e Capitalismo, Socialismo e Democracia); PERROUX (A Economia do século XX); os historicistas alemães (que, aliás, jamais chegaram a um acordo sobre a sucessão dos estágios

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

históricos da evolução econômica); os institucionalistas americanos (de VEBLEN a GALBRAITH, passando por ROSTO, que se recusam a deixar unicamente por conta dos historiadores e sociólogos o tema da mudança). Existem várias razões para essa situação de carência teórica: inicialmente, o medo dos economistas de serem percebidos como influenciados por MARX; em seguida, o alinhamento da principal corrente de pensamento (o dos neoclássicos) com a física do século XIX (a do equilíbrio e da reversibilidade); a lição tirada de KEYNES (as interrogações sobre a longa duração só interessam aos subdiplomados e, além disso, “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”); o receio de cair no domínio da não-formalização e de que a Economia deixe de ser “a mais dura das ciências moles”; o misoneísmo em relação a descobertas ou hipóteses elaboradas em décadas recentes pelas “ciências duras” (as “catástrofes” dos matemáticos, as estruturas dissipativas ou os atratores estranhos dos físicos, o não-evolucionismo dos biólogos: assim, por exemplo, foram necessários cinqüenta anos para a Economia se apropriar do conceito de regulação). Mais fundamental ainda foi a dificuldade (lógica, mas também afetiva) de se admitir, nas sociedades humanas e, por conseguinte, na esfera das atividades econômicas, que os agentes são simultaneamente: a) agidos pela lógica de reprodução-mudança das relações (das estruturas) do sistema, lógica e relação que preexistem aos agentes, impondo-se a eles; b) atores do sistema, uma vez que, por seus comportamentos, eles são o suporte de suas estruturas; c) autores, mesmo que involuntários, das mudanças que aí se produzem. Daí também as dificuldades em admitir: que a determinação dos comportamentos não é total e que cada agente dispõe de um leque de modelos possíveis; que a complementaridade entre esses agentes não é perfeita, o que pode dar lugar ao aparecimento de crises, mas também de estratégias, nas zonas de complementaridade imperfeita; que as crises, quando profundas, repetidas e duráveis, permitem justamente rupturas e mudanças. Todas essas hipóteses contradizem, termo a termo, aquelas enunciadas acima sobre a determinação dos agentes, da perfeita complementaridade dos papéis e do equilíbrio. Do exposto, duas conseqüências podem ser tiradas: 1- A teoria econômica depende sempre, para a renovação de suas hipóteses de base, das descobertas ou hipóteses enunciadas pelas ciências duras. Entretanto, ela precisa de algumas décadas para poder se aclimatar e tornar familiares essas idéias advindas de um outro lugar. 2- Quando, por fim, a adoção das hipóteses acontece, prevalece o raciocínio por analogia: os novos conceitos ou hipóteses são utilizados
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as crises econômicas foram. autocriação. que poderiam ser transpostos para o campo econômico? 1. graças aos comportamentos de adaptação de certos atores. cujos elementos. como crises momentâneas de coerência. autopoieses. isto é. Assim. as regulações espontâneas ou voluntaristas reequilibram o sistema. supra) agidos. Nesses períodos.Inicialmente. inicialmente. isto é. químicos ou biológicos. então. a partir do século XIX. de sua capacidade de fazer frente a um leque amplo de disfunções. por isso. existiam no globo cerca de 50 000 sociedades diferentes. em 1900. em 1950. Eles se referem a sistemas autônomos. literalmente. pois. O resultado disso é um aumento da “variedade” do sistema. são simultaneamente (cf. mas abertos ao seu meio ambiente e. colocam outros problemas. mutações e complexificação em economia tais quais formulados. capazes de se auto-regularem. oriundos de outras áreas. os novos conceitos e hipóteses.Rupturas. a tradução conjuntural de uma imperfeição repetitiva na complementaridade dos papéis dos agentes. por serem produzidos pelo próprio funcionamento do sistema. os “ruídos” são cada vez mais endógenos. autogeração etc. enquanto que as “diferentes sociedades” (outro componente do meio ambiente) desaparecem de modo acelerado (calculava-se que. “desnaturalizados” pela extensão do mercado.Os conceitos de auto-organização. os conceitos de dinâmica dos sistemas e de auto-regulação (a homeostase dos biologistas dos anos vinte). os atores. visto se referirem a soluções eventualmente encontradas (o êxito não é certo) para as crises estruturais e para as crises-ruptura. o que não é o caso dos elementos físicos. face a “ruídos” provenientes do exterior. *** Quais são. 2. atores e autores do seu sistema. constituindo-se. verifica-se não apenas um deslocamento da coerência entre os papéis. Em um período de crises simplesmente conjunturais (as crises do ciclo Juglar). uma recusa em manter a adesão aos “compromissos 135 . O ambiente natural e mesmo o corpo natural dos agentes são. ou seja. eles não são transformados a fim de se tornarem aplicáveis a um campo. não restavam mais que 10 000). Mas já aí é preciso assimilar e divulgar a seguinte hipótese: no campo econômico (e em geral no campo social). mas também um deslocamento da coesão entre os agentes.

entre os economistas. o compromisso fordista empresários-assalariados.2 por exemplo). sob a égide do Estado. experimentam de modo disperso as várias soluções possíveis para essa crise. encontramos poucas reflexões (na França. e só poderá ser verdadeiramente explicada a posteriori. sob o protecionismo de MÉLINE. É certo que essa escolha é aleatória.P. embora vários exemplos históricos (a estagnação árabe. na sociedade ou numa área econômica dada. costuma-se esquecer que tais inovações dependem da presença ou não. de um lado. amplia a margem de manobra dos inovadores que. assim como do próprio acaso na escolha que será feita entre as possibilidades apresentadas. mas isso deixa de lado os fatores 136 . A mutação estrutural depende igualmente do “conjunto de inovações” que se revelarem dominantes. Certamente não é falso explicar o ativismo do empresário-inovador pela “vontade de poder” (SCHUMPETER) ou pelo temperamento sangüíneo (KEYNES). apenas as de DUPUY e PASSET) sobre o que poderia ser o equivalente econômico das estruturas dissipativas e. ligadas a um esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. logo não previsível. ora entre as malhas muito frouxas ou esgarçadas desse Centro (a economia subterrânea da Lombardia ou a economia “bismarkiana” da Baviera). a partir do século XI até as atuais contestações periféricas do império econômico americano) pareçam mostrar. durante a inflação-crescimento dos Trinta Anos Gloriosos). que existem muitas sociedades fechadas – ou que voltaram a se fechar – e. exigidos por uma complementaridade necessariamente conflitante (pois não igualitária) entre os papéis desempenhados (exemplos de compromissos mal sucedidos: a aliança camponeses-indústria.I. exigem que se leve em conta a “flecha do tempo”: a irreversibilidade da “escolha” que será efetuada nas ramificações oferecidos pela bifurcação (ou a “polifurcação”?) onde nos encontramos.. segundo CROZIER) e.Psicossociologia – Análise social e intervenção históricos”. em especial. que a reserva de desviantes potencialmente inovadores se constitui ora na periferia do Centro (os N. nesse momento. No entanto. na França. de outro lado. de inovadores potenciais. Sua presença é vista como consolidada. Essas crises-ruptura. Nesse ínterim. sobre os respectivos papéis do esgotamento da variedade própria a esse estágio do sistema. Mas. o que sabemos é que esse tipo de crise aumenta as zonas de complementaridade imperfeita (as “zonas de incerteza”. por conseguinte.

desde os Goliardos da Idade Média até os jovens lobos dos N. Isso seria esquecer o fato já mencionado do desaparecimento de 40.Rupturas.P. pois “é preciso dar tempo ao tempo” (apesar da repetição do fenômeno. do mercado e das estratégias (públicas e privadas). nesse quadro. Mas ainda permanece inteiro o problema da coincidência bem sucedida do shake-hand. E seria esquecer também os milhões de atores marginalizados ou mesmo “eutanasiados” pelas mudanças ocorridas na complementaridade de papéis. julgamento de Deus face à incerteza “não-probabilizável” (KNIGHT).000 sociedades. Há outro problema não estudado. por conseguinte. Continua também faltando uma articulação entre os respectivos papéis. Isso significa que é preciso acrescentar às duas primeiras condições para a saída da crise (ampliação das possibilidades e a presença dos inovadores) uma terceira condição: a existência de um imaginário social que dê lugar a essas possibilidades e a esses agentes.I. junto à qual também se verifica o desaparecimento da adesão. da designação. Em período de não-crise (ou de crises reguladas) o mercado nada mais faz que aperfeiçoar. MORISHIMA) que permitem ou não a presença desses tipos de agentes e sobretudo a aceitação – e. Mas ainda continua faltando. aparecendo assim como conflitos “trans-classes”. da linearidade (doravante descontínua) do “progresso”. Mas a razão do mais forte deve se inscrever em uma lógica clandestina. elas correriam o risco de cair na armadilha do evolucionismo ingênuo. mutações e complexificação em economia culturais (MAX WEBER. ele se torna o ordálio. nessas mutações estruturais. a complementaridade dos papéis: trata-se do ajustamento. ao nível dos detalhes. tornando possível viver em perspectiva (C. passando pela revolução dos costumes de 1968): é o fato de que as rupturas favorecem os conflitos de gerações. uma teoria do fracasso. Já aludimos à localização na periferia ou nas malhas frouxas da rede. Isso leva talvez à expansão das ocasiões de inovação e à multiplicação de experimentações inovadoras. Talvez a crise de coerência estivesse mascarada por uma persistência anacrônica da antiga coesão: a descrença em relação ao antigo compromisso histórico só pode surgir da nova geração. em cinqüenta anos. a difusão ou não – de suas inovações. CASTORIADIS). Em épocas de crises-ruptura. Mesmo se essas teorizações existissem. inerente ao sistema. 137 . assim como aos fatores culturais. da predestinação do mais forte. ou seja.. entre a mão invisível e o punho de ferro.

despolitização.fenômenos de extensão truncada: o mercado se expande mas não necessariamente o capitalismo (o mercado + a acumulação + a “destruição criadora” + a relação salarial). . após dessacralização. diminuição do número de agentes que têm um poder real de ação.aumento da quantidade de informações emitidas e do número de conexões entre os agentes implicados. por exemplo) como “um aumento do número de elementos em jogo e um aumento dos vínculos existentes entre eles”.). integrismos. homogeneização da linguagem. às vezes. fenômenos de “autonomização” e de assimilação lúdica de alguns subconjuntos econômicos (as “bulas financeiras”. antes de eventuais mutações e complexificações bem sucedidas (o equivalente da neotínea): o recurso ao mercado-ordálio (como nos tempos do capitalismo selvagem). à extensão do capitalismo (os N. des-sindicalização e mesmo des-identificações.outras referências. poderes oligopolíticos em escala internacional. 3.conjugação crescente dos mecanismos de regulação (R. GROU. por exemplo). 138 . . “mercantilização” generalizada do globo e de atividades que outrora eram não-mercantis (a cultura.Psicossociologia – Análise social e intervenção Enfim. após a solução eventual da ruptura. Ela se define (P. que o Centro se desloca.I. 3 . por exemplo): concorrência. Mas. ENRIQUEZ): nacionalismos. podemos constatar: . ao mesmo tempo. . da cultura. embora ainda não totalmente. o lúdico.P.). a família e a escola). BOYER. polimorfismo das intervenções do Estado.enfim.aumento do número dos agentes aí implicados. Certamente podemos multiplicar as referências atuais: . devido à extensão atual do mercado e.Uma última hipótese a ser ajustada em Economia: o aumento da complexidade. mesmo que saibamos. desde BRAUDEL. o sagrado e. . integrações regionais (Mercado Comum Europeu etc. sectarismos (com suas conseqüências sobre os próprios comportamentos econômicos).fenômenos de recuo sobre as características locais e fenômenos de “identificações maciças” (E. . . não poderemos jamais predizer em que direção ele se desloca.fenômenos de regressão a formas mais simples.fenômenos de simplificação: diminuição do número de sociedades diferentes.

por um lado. mecânicos. contrariamente a todos esses sistemas (por exemplo.Rupturas. por um lado. dos quais recebemos hipóteses e conceitos novos. pois. REYNAUD). 139 . mutações e complexificação em economia No que diz respeito à complexificação. por outro lado. por seu lado. é preciso também questionar o antigo problema da relação entre o aumento das quantidades (dos elementos. a complementaridade entre os papéis e grupos de agentes detentores desses papéis nunca é perfeita. Do mesmo modo. identificações laterais (em relação ao semelhante) e verticais (em relação ao superior). a fim de poderem ser transpostas ao novo campo de aplicação. tão caro aos marxistas de outrora. para poderem inovar. uma época de crise-ruptura supõe não somente um deslocamento da coerência. como afirma o individualismo antropológico. além das imposições do mercado e dos demais poderes. introduzir normas. informáticos. o leque dos comportamentos não é. Ela supõe. Podemos sugerir algumas hipóteses sobre as especificidades próprias aos sistemas sociais antropológicos (incluindo a Economia). não se dá somente através do “interesse bem esclarecido”. para cada grupo de agentes. a complementaridade que os une (através do mercado e dos poderes) é sempre imperfeita e potencialmente conflituosa. Apesar da necessidade econômica ser reforçada pela coerção social (o controle social e as normas interiorizadas) e mesmo pelo prazer oriundo do jogo econômico (político etc. ao invés do mais próximo) e verticais (do establishment aos inovadores). regras ou convenções para lhe dar suporte. objetivando marcar suas diferenças do estudo dos sistemas físicos. E esses. das conexões) e do “salto qualitativo”. químicos. Contrariamente. para serem fecundas.Nos sistemas sociais. quando da sua transgressão e. 1. biológicos e mesmo etnológicos. completamente fechado. É preciso. um deslocamento das identificações laterais (o mais distante. D. a desculpabilização em relação ao desejo de infração e. devem inicialmente ser especificadas. por outro. *** Tudo isso tem por objetivo nos lembrar que as analogias.4 Mas essas regras só têm valor à medida que são (aproximativamente) respeitadas pela maioria dos agentes: a coesão deve ser o suporte da coerência e supõe a adesão às regras do jogo (J. uma interiorização das normas e uma culpabilização. as sociedades animais). Essa adesão.). mas também um deslocamento da coesão: o que acarreta.

os profissionais da informática e da automação substituem os trabalhadores desqualificados.5 o pessoal patronal). estaremos lidando com os avatares de um mesmo sistema. lidamos com a passagem de uma lógica de reprodução econômica e social a uma outra lógica. há geralmente mudança do número e da qualificação dos atores. modalidades de mercado) e a passagem de um sistema a outro (as mutações sistêmicas: a passagem de escravo a assalariado. pelo fato de que a longa duração se introduz e se choca com o cotidiano. pelos golpes das OPA. Dada a imprevisibilidade das mutações sistêmicas.Quando há ruptura. Daí resulta a mudança no funcionamento da complementaridade e. muito numerosos e/ ou muito obsoletos. Existe então. um New Deal dos poderes e uma modificação das regras do jogo.Psicossociologia – Análise social e intervenção devem inicialmente figurar no conjunto de desviantes. mais nitidamente. em seguida. os outsiders e os parvenus substituem. por exemplo). os economistas não deveriam continuar excluindo de seu campo de estudos as transformações de um sistema (o atual) que une o futuro ao presente. de se expandir e. No total. esperar desfazer o imaginário da conservação e situar o sistema em um dos troncos da “polifurcação”. dos fatos de regressão (por exemplo. 140 . seria preciso distinguir. por fim. acumulação. No primeiro caso. então. cria-se um conjunto em que varia o número de jogadores (os agricultores são menos numerosos que os camponeses) e da distribuição das cartas (deslocamento das formações exigidas e realocação das informações necessárias). no segundo. da sedentarização ao nomandismo). sem esquecermos ainda as marginalizações. por isso mesmo. enquanto que. as ocasiões de experimentar. 3. O imaginário da destruição pode. sem haver forçosamente o desaparecimento do papel que era desempenhado pelos jogadores contestados (os agricultores substituem os camponeses. as exclusões e eutanásias – violentas ou suaves – que tal fenômeno implica. de sua unicidade histórica. é mais prudente deixar aos historiadores a explicação retrospectiva dessas mudanças. Por outro lado – apesar de KEYNES –. entre rupturas e mudanças no interior de um sistema (as mutações estruturais = as transcrições necessárias da identidade do sistema: relação salarial. inovações. devendo encontrar.Para não cair no modelo do fator explicativo único e que se aplica a tudo. em período de crise. 2. a modificação do tipo de conjuntura. de sentir um prazer lúdico em transgredir as regras do jogo e “reposicionar” os antigos atores.

Cf. 141 .T. tornando-se então os emissários da renovação do imaginário social.). por conseguinte. mutations et complexification en économie (mimeogr. então. A modificação espontânea ou orientada dos comportamentos de certos atores permite regulações e reequilíbrios do sistema. André. existirem na sociedade considerada e puderem se aproveitar de um abrandamento das imposições da coerência e da coesão. A continuação do funcionamento implica. n. portanto. Connexions. março 1989. 1990. 2.Rupturas. um esquema ideal típico. 55.T. “esgotamento da relação salarial fordista”). n. Paris: ERES. OPA: offre publique d’achat (oferta pública de compra. para experimentar as inovações. mutações e complexificação em economia Poderíamos talvez propor. a coesão) + o comportamento dos atores que fazem funcionar esses papéis e essas normas – explicam a lógica de funcionamento e de reprodução do sistema. por exemplo. V. 2. a complementaridade entre os papéis continua imperfeita e pode gerar a disfunção (crises conjunturais).). normas. emergindo de reservatórios clandestinos ou periféricos de desviantes. 40. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ.).As estruturas (as relações de complementaridade e.Apesar da necessidade e das normas (eventualmente o prazer). a adesão às normas e. Essa só será possível (pois o sucesso não está assegurado) se certos agentes. representações. Ruptures. a aquisição de conhecimentos e de representações. uma nova transcrição das relações que identificam o sistema e implica. então. por Teresa Cristina Carreteiro. Cf. por conseguinte. uma mutação estrutural. “L’économie des conventions”. tal como: 1. Revue Économique. N.Mas a adaptabilidade do sistema. em um determinado estado (sua capacidade de “variedade” e de regulação) encontra limites (existe. “Malaise dans l’identification”. 2 3 4 5 Nouveaux Pays Industrialisés – Países recém-industrializados (N. de coerência) + a cultura (os conhecimentos. 3.

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o Estado-Providência perde ao mesmo tempo sua eficácia e sua credibilidade. GORBATCHEV) ou de irmão mais velho (SOUCHON. MITTERAND. por sua vez. 2. jogando. não se trata mais de crises (isto é. “desfusão das pulsões”. na imprecisão das referências e também no mal-estar das identificações. precedeu uma crise econômica.Ela mobiliza atores em potencial. e os transforma em autores das mudanças. precedeu uma crise política. E. 143 .Ela confunde a hierarquia das referências culturais (o direito à diferença concebido como a dignidade equivalente das culturas) e permite. a introdução de novas referências. ela mobiliza em cada “conformista” o lado desviante que persiste nele: há. 4. só conservando o papel tranqüilizador das figuras de tio (W.A crise enfraquece a capacidade dos poderes vigentes de controlar e de orientar o social. a crise distende as complementaridades sociais e suscita falhas e interstícios. quando não destroem a sociedade em questão. de rupturas) mas sim de mal-estar (isto é. na reserva de desviantes que existem em toda sociedade. Pois essas “perturbações”. ROCCARD. no 52) A crise das identificações. João Paulo II. então. porém robusta. criam. MARADONA. todas se deslocaram para o Terceiro Mundo e para os países do Leste. (Hobbes) Tempo é criança brincando. de algum modo.IDENTIFICAÇÕESEXPERIMENTAISEINOVAÇÕESSOCIAIS1 André Nicolaï O malvado é uma criança. Do mesmo modo. de criança o reinado. No Ocidente. TAPIE e outros).Introduzindo o “jogo” na coerência instrumental dos papéis e na coesão (adesões complementares). se bem que o mal-estar é conseqüência das crises. Atualmente. Assim. de incertezas). 3. nos anos 60. BRANDT. Fragmentos. Esses se tornam “zonas de incertezas” onde algumas estratégias podem nascer e se desenvolver: a ocasião faz o ladrão. condições de “saída da crise”: l. por exemplo. reorganização das personalidades e reciclagem da ação. (Heráclito. a qual. talvez anuncie o fim delas.

tentativas de reconstrução. diz FREUD. de modos diferentes. São pois simultaneamente experimentadas atitudes e estratégias de recuo e de acomodação. ou como geradoras de pânico e de abandono por outros. a tipos de personalidade diferentes. Mas esses agentes inovadores ou reciclados coexistem e estão em relação com outros que. de assimilação e de inovação. assimilam e transformam. ao mesmo tempo. não apenas a realidade parece incerta. perplexidades face às alternativas e buscas de orientação. “O narcisismo das pequenas diferenças” Ele consiste. O “mal-estar na identificação” traduz. em um movimento de retorno libidinal a “um grupo cultural mais reduzido” e uma orientação da agressividade para os 144 . por um lado. as “intermináveis adolescências” que. Mas quando se é obrigado a chegar a esse extremo. recorrem e se agarram a referentes e modelos tradicionais (existentes. a categorias socioprofissionais e. os elementos culturais e os meios de ação disponíveis. a grupos étnicos. é claro. reativados ou mesmo imaginados). levados pela incerteza das situações e do futuro. 6.Ela libera. ao contrário. desses imaginários de projeto. com todas as posições intermediárias possíveis.No final de contas.Psicossociologia – Análise social e intervenção 5. Quer se tratem de agentes inovadores ou reciclados. Esse movimento aciona inicialmente indivíduos ou pequenos grupos atípicos. Consideremos três delas com suas subdivisões: o “narcisismo das pequenas diferenças”. assim. O resultado é que. o individualismo ilusório ou de oportunismo. essas recomposições implicam também a experimentação de novas identificações e a exploração de transformações suportáveis da identidade. ela permite uma multiplicação de experimentações sociais. por outro. aparentemente dizem respeito a faixas etárias. que podem arrastar atrás deles certos “conformistas” que parecem certamente obedecer à regra: muda-se mais facilmente de práticas do que de idéias e de idéias do que de personalidade. inúmeros imaginários de projetos que se apropriam. Daí os recuos ou as experimentações que implicam que o local substitua o global e o precário o durável. Os recursos e os recuos: a manuntenção Essas tentativas de manutenção comportam muitas variantes. localizadas e transitórias. pode-se reciclar também a identidade. para todos. angústias de identidade. mas também versátil: essas duas características vão ser percebidas como fonte de vantagens ou de prazeres potenciais por alguns.

as reativações religiosas atuais no Irã. é paralela à involução identificatória de seus membros. torna-se uma contra-sociedade nos dois sentidos do termo. nos dois sentidos do termo. b. à organização que se toma por objeto de reprodução (o domínio da gíria do grupo como teste de recrutamento: assim o domínio das gírias universitárias) e. gorros cristãos etc. na Polônia ou mesmo no Ocidente podem certamente corresponder a ressacralizações visando à sobrevivência: mas elas são também a reativação de um pai ideal e discriminador.2 A valorização dos signos e da agressividade desvaloriza a linguagem. solidéus – kipas – hebraicos. religiosas.Identificações experimentais e inovações sociais grupos estrangeiros ou excluídos.O recurso de certas organizações a “clichês” traduz também essa depreciação da palavra significante em benefício da voz. a. da empresa etc.Os mais clássicos desses recuos dizem respeito às diferenças raciais. por uma dupla referência às diferenças tradicionais ou consideradas como tal e a uma escala de idealização-rejeição. e a aparência NAP) pelo simbólico. à organização que prefere “escolher” sua própria morte a renunciar aos seus “princípios” e despedir seus membros fixos obsoletos (os “clichês” combinando com o salário e com o estatuto de membros fixos). da igreja. é claro. O global deixa de ser área comum de confrontos ritualizados entre complementares para se tornar a arena de combate entre “tribos”. A identificação que não se desvencilha do partido. O que é mais importante: esse tipo de retorno narcísico leva à substituição do semiótico (véus islâmicos. a regra e as sublimações. sobre a cumplicidade e a solidariedade dos companheiros ou do grupo familiar. nacionais. talvez estejamos passando do casal associativo “moderno” ao casulo pós-moderno. de classe. Assim. regionais. E mesmo quando as pequenas diferenças do outro são exploradas e valorizadas. do racismo. que é geralmente lugar de violência necessária e legítima. organizacionais etc. E a acentuação dessa depreciação segue as mesmas etapas que a necrose da organização que a emite: passa-se da organização ao serviço de um projeto exterior (a palavra para convencer e seduzir).3 A família. podemos talvez perguntar se essa curiosidade não mascara um voyeurismo: assim o turismo é talvez a face iluminada. c. invólucro de incubação afetiva de ninfas à espera de seus imagos indecidíveis. Por exemplo.Esse retorno pode se dar sobre unidades sociais mais fechadas e. profissionais. finalmente. em vista da emancipação para o societário e a individuação. Fenômeno que ilustra 145 .

são o narcisismo e o hedonismo do sucesso individual que ocorrem e se mostram de duas formas: a consumação insaciável e rápida de objetos simbólicos (uma bulimia vomitória. pois ele reduz o espaço àquele que o separa de sua imagem e. porque ele denega a passagem do tempo e o conseqüente envelhecimento. especialmente na França. principalmente. a ascensão profissional provada e marcada pelo ganho pecuniário. a que impede a obesidade: nós não saímos da expressão corporal). Mesmo quando se eleva acima do nível elementar das práticas obsedantes do bodybuilding para atingir o brilho cintilante do vestuário ou da linguagem. por sua vez. é.Psicossociologia – Análise social e intervenção bem. exatamente como Deus.5 até que alguns craques na bolsa tivessem nivelado a trajetória dos golden boys. fortalece as exigências da necessidade econômica. a. a cenoura e o bastão são a mesma coisa) num mun146 . com o dinheiro.Do primeiro diremos pouca coisa. Ela é. as afirmações de FREUD sobre a complementaridade antagônica dos vínculos familiares e dos vínculos sociais.Mais interessantes. salvo que ele é a negação da realidade espacial e temporal. pinta com falsas aparências a face pública de sua mônada: o efêmero da moda como garantia de sua própria eternidade e da fidelidade do Cavalheiro à Rosa. primeiramente. Mas o mercado-ordália tem também o mérito de reintroduzir a binaridade (como se sabe. revelando assim a ilusão da satisfação ilimitada. isto é. O “novo individualismo” e a mônada com janelas falsas4 Com exceção talvez do autista. uma conseqüência da crise econômica que transforma o mercado em ordália e desvaloriza o status adquirido. justamente porque mais na moda. sendo aliás esse que permite aquele. às avessas. entre 1983 e 1988. Quer dizer que o narcísico. O retorno pode ir ainda mais longe. de alguns yuppies e dos numerosos poupadores populares miméticos do esquilo de FOUQUET. além disso. ipso facto. o narcisismo individual. “tem necessidade dos homens”. E isso. não há narcisismo que se satisfaça unicamente com o olhar interior ou especular. O “sempre mais” do período 1945-1974 dos “Trinta Anos Gloriosos” foi transformado pela crise em “sempre mais alto”. quer opte pelo narcisismo de aparências corporais ou por aquele de aparências do sucesso individual. uma aclimatação cultural tardia da perversidade obsessiva do capitalismo (domínio da natureza e autoridade sobre os agentes) onde o prazer lúdico envolvido reforça a virtude puritana e anal que.6 Essa idealização do sucesso pecuniário. b.

Além disso. em prêmio de Schadenfreude. A vantagem da acumulação sobre as formas qualitativas do narcisismo é dupla: ela permite não apenas transformar – no imaginário – o qualitativo em quantitativo (o “Pompidou dos tostões” cúmplice do poder. uma certa renovação do empresariado e o rejuvenescimento das figuras identificatórias. em substituição ao “Mudar de vida”). manter ou criar os meios de aumentá-la. induz não ao 147 . tomado como “medida de todas as coisas” (inclusive do que antes não era mercadoria: o serviço público. é mais simples escolher a binaridade. A diferença na conta bancária é um indicador mais preciso que a multiplicação das diferenças de vestuário ou de status ou a contabilização fastidiosa de mártires da fé ou da revolução. Enfim. os assassinatos psíquicos (aqui pecuniários) são sempre menos punidos que os assassinatos físicos (SEARLES). “O empresário competitivo” ou o candidato a empresário podem então fantasiar de copular. Por enquanto. de junho de 68. talvez.) permite.Identificações experimentais e inovações sociais do onde as referências de identidade e de identificação se tornam imprecisas. Na verdade. se não for provido de códigos e rituais duráveis e respeitados. exatamente como os pequenos narcisismos da diferença religiosa ou étnica. simultaneamente. se ela for realizada. assim como com as regras precisas dos jogos lúdicos. Isso é talvez patológico. mesmo o perdedor “sabe a que se ater”. atualizava o “Enriqueçam-se pelo trabalho e pela poupança”. caso se propagasse a todos os agentes. o festivo. o mercado. Entre a binaridade e a injunção contraditória. mas é ao mesmo tempo reconfortante: com a binaridade do jogo do dinheiro. A monetarização. notemos que o modelo do sucesso individual. acrescentando a atração lúdica que faltava à fórmula de GUIZOT. Assim. as identificações da concepção materna com as do priapismo paterno. uma erotização e uma “tanatização” brutais porque justamente binárias. mas também efetuar (período 1983-1988) sua própria transformação sublimante do quantitativo ao qualitativo (o que ganha mais é o melhor). o prestígio etc. se autodestruiria. a mercantilização e a acumulação respondem às ameaças de perda de identidade e permitem uma identificação pelo menos tão abstrata quanto a que se pode fazer à lei e. A palavra de ordem premonitória de Raymond BARRE. O dinheiro. o sucesso dos outsiders permite também e. mais tranqüilizadora. “Criem sua própria empresa”. essa acumulação pecuniária permite. posto que mensurável e mesmo conversível – mesmo que seja só em imaginação – em bens equivalentes. Mas todas essas fantasias econômicas são ao mesmo tempo auto-realizadoras pois incitam os agentes a se darem os meios de realizá-las. numa androgeneidade fecunda.

necessariamente. a partir de elementos de vestuário comuns. que opta pelo oportunismo e conta com o “acaso moral”. entretanto. provocam a sanção do craque das bolsas ou dos OPA selvagens.Psicossociologia – Análise social e intervenção risco calculável mas à incerteza e. passa-se rapidamente. ao insolúvel. como antecipar-se a eles e manipulá-los? Lembremos que o perverso tem necessidade de regras sociais e do sucesso dos outros para satisfazer seu narcisismo. nas três etapas – puberdade. na qual os próprios pais entram no modelo irmãos-irmãs. tudo isso torna altamente provável e muito facilmente explicável a estratégia do far-niente e o prolongamento de “intermináveis adolescências” por parte de numerosos jovens. A incerteza das regras e das referências tradicionais e. cada um será. (T. 1. em contrapartida. a adolescência se estende agora de doze a trinta anos. a individualização extrema dos novos modelos. No caso de fraqueza delas. Se cada um desempenhar o papel do “Cavaleiro Livre”. Acrescentaremos apenas algumas observações. do adolescente revoltado e membro de um grupinho ao adolescente intimista e que convive numa microssociedade. por sua automaticidade arbitrária e movimentos miméticos que suscitam. E o “passageiro clandestino” vai se encontrar sem meio de transporte. tem necessidade que outros respeitem as regras para que ele possa obter seu ganho e seu prazer do ganho. adolescência e pós-adolescência -. na época atual. ANATRELLA) Podemos resumir em poucas frases essa pesquisa: a invenção da infância e depois da adolescência são fenômenos recentes. um cavaleiro solitário. instaura-se uma sociedade “adolescêntrica”. daí resulta.É como se a incorporação do aleitamento e os investimentos iniciais sobre os pais não fossem transformados em identificações e 148 . servir de modelo a outras esferas: a moda do kit que permite individualizar as diferenças. a nítida binaridade do mercado. Intermináveis adolescências. uma crise da progressão das identificações e do trabalho do luto que essas etapas da constituição da identidade implicam. os barroquismos arquiteturais diferenciadores do urbanismo “pós-moderno” e até mesmo as escolhas narcísicas de objetos afetivos. esse narcisismo manipulador. logo. Se os outros também se recusam a entrar nas regras e abolem a culpabilidade de infringi-las.7 Isso que vale principalmente para as esferas econômicas pode. ele será levado a construir regras fictícias (por exemplo. Porque a perversidade obsessiva do dinheiro e do sucesso pecuniário. a programação dos computadores das Bolsas) que.

Identificações experimentais e inovações sociais

como se essas não fossem constituintes da identidade e, por isso mesmo, da diferenciação. 2- Essa fuga do real e de suas oposições naturais (gerações, sexos, prazer, saúde) ou sociais (pais-filhos, trabalho-lazer, sagrado-profano) e suas expressões simbólicas instrumentais (útil-inútil, eficaz-ineficaz etc.), cognitivas (semelhante-diferente, verdadeiro-falso, culto-analfabeto), normativas (bem-mal, bonito-feio etc.) e relacionais (amistoso-hostil etc.), essa fuga é compensada, como ressalta essa obra, pela constituição de identificações e de microgrupos horizontais, a partir do modelo irmãos-irmãs. É necessário acrescentar: a substituição da imago confusa do pai pela figura avuncular, em lugar da necessária complementaridade dos status do pai e do tio, ressaltada já há muito tempo por LÉVI-STRAUSS. 3- A inversão da “chantagem afetiva” (das crianças em relação aos pais, em vez do inverso habitual) é um bom indício do mal-estar na identificação que, ainda por cima, remete à forma elementar da tentativa de inversão da chantagem: o período anal. Tudo isso é racionalizado nesse paralogismo: agora as crianças são desejadas; ora, eu não pedi para nascer; logo, se você quer que eu continue a optar por gostar de você, amamente-me e deixe-me brincar com seu dinheiro. (Em contrapartida, essa inversão institui a família como um dos lugares privilegiados da experimentação das transgressões e das inovações). 4- A apatia, a abulia e a paralisia se tornam os meios de manter uma situação de dependência alimentar, corporal e afetiva, associada a gratificações que a versatilidade das despesas e a impossibilidade de antecipar os comportamentos fornece. Criamse e mantêm-se, assim, personalidades “sem genealogia” (M. ENRIQUEZ), isto é, sem assimilação e superação das identificações. E a substituição atual, nos casais, dos amores flutuantes de até pouco tempo, por amores que fazem seu ninho, mantém a incerteza na diferenciação das figuras parentais e na diferença entre semiótico e simbólico, perpetuando, pois, as condições dessas intermináveis adolescências. 5- Se as figuras do tio (tia) e do irmão (irmã) mais velho(a) substituem as imagos parentais do pai ausente ou desvalorizado e da mãe ambígua ou “dominadora”, as identificações verticais serão transitórias (a rápida obsolescência dos ídolos o prova) sem se tornarem transicionais. Essa fragilidade e essa precariedade das identificações verticais será compensada pela solidez e estabilidade das

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

identificações horizontais entre pares amicais, nos quais procurase mais a semelhança narcísica de solidariedade que o questionamento das diferenças entre modelos educativos (J. PIAGET). O grupo de pares se torna, assim, confirmação da semelhança e da permanência, em vez de ajudar na superação, por lutos repetidos, das identificações parentais. A individuação é, então, adiada sem cessar.

As experimentações: inovações e identificações
Narcisismos de pequenas diferenças e intermináveis adolescências são retornos ou pausas em posições preexistentes. Mas, paralela e simultaneamente, experimentam-se outras estratégias que se ligam mais à assimilação e à inovação e que privilegiam mais os processos que os estados. Mas, como se tratam de experimentações, elas serão múltiplas, parciais, locais, precárias, contraditórias. Por isso, elas terão mais de “remendos próprios do pensamento selvagem” (Cl. LÉVI-STRAUSS) e de improvisações astuciosas da Métis que da experiência intelectual antecipante e preparatória para a ação, característica do Logos. Elas mobilizam atores novos ou reciclados. Elas redistribuem o emprego dos lugares e do tempo. Elas supõem a experimentação de novas formas e de novos objetos de identificação e a exploração de novas constituições e transformações de identidade. Elas provocam mudanças onde não se esperava e trabalham, assim, na reconstituição dos vínculos sociais.

Os novos atores
Entre os desviantes que toda sociedade necessariamente comporta, há os que são atores potenciais das mudanças. Se uma crise abre falhas (na periferia) e interstícios (no centro), esses poderão pôr em andamento estratégias de assimilação-inovação nas zonas de complementaridade imperfeita. Eles serão recrutados não somente nos meios geralmente marginalizados (um recente major na Escola normal é filho de Harki e as filhas de imigrados norte-africanos se saem melhor na escola que seus irmãos). Mas também nas famílias de classe média que têm uma estratégia de ascensão social, ou mesmo nos micromeios do establishment que privilegiam mais a adaptabilidade que o conformismo. A isso é necessário acrescentar que o fato de pertencer a uma sociedade só define e abre leques de possibilidades às personalidades e que é o futuro agente, através de identificações aceitas ou rejeitadas, que vai realizar, na sua biografia, uma dessas trajetórias possíveis.8 Sem esquecer também que certos adultos “estabelecidos” são capazes de reciclagem.
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Identificações experimentais e inovações sociais

Esses portadores de mudança assimilaram e ultrapassaram, assim, suas identificações para se construírem uma identidade inovadora e adaptável. A constatação de que, em período de mutação, muitas das transgressões inovadoras e construtivas são possíveis sem penalidades excessivas permite essa construção de personalidades em pessoas nas quais existem traços de perversão. Mas, diferentemente do perverso obsessivo pecuniário de agora mesmo, “não é ainda o ganho como tal, mas a paixão de ganhar que é essencial para ele”.9 Há, pois, aí um componente lúdico que ainda não se tornou obsedante, permitindo a busca da novidade e a colocação em andamento do polimorfismo da “Razão astuciosa”. Aqueles mesmos que contribuem para o obsoletismo dos ideais, dos códigos, das ordens estabelecidas, das organizações, põemse, por necessidade e por prazer, a criar projetos, regras, poderes e agrupamentos. Eles se tornam, assim, os autores de “Revoluções minúsculas”10 que modificam:

O emprego dos lugares, o emprego do tempo
E isso nas diferentes esferas do social 1- No lúdico, inicialmente, pois é aí, por volta de 1968, que as derrisões e os projetos começaram e, além disso, porque as outras esferas (a empresa com suas brincadeiras de empresa; a universidade com o disparate prometido na pluridisciplinaridade etc.) tentaram depois se apropriar da festividade para se tornarem mais atraentes. Mas, no domínio próprio do lúdico, constata-se, por exemplo, o lugar cada vez mais importante dos esportes e espetáculos esportivos de competição como oportunidades de identificação e como ocasião para descarregar agressividade. Da mesma forma, a consumação apressada de grupos musicais efêmeros tomou o lugar da fidelidade às vedetes coletivas ou individuais estáveis. Finalmente, um último exemplo: a popularidade e a renovação crescente dos jogos de simulações, de papéis e mesmo “de empatia”, aumentadas ainda mais pela introdução da informática. Todas essas experimentações tornam o lúdico atual mais próximo da Paidia espontânea que do Ludus regulamentado (R. CAILLOIS). 2- Em Economia, o hedonismo do sucesso pecuniário e social e as exigências da crise puseram em contradição os objetivos de mobilidadeflexibilidade com os de lealdade-identificação. A segmentação do mercado de trabalho faz coexistirem a ameaça de desemprego (para os recalcitrantes que podem ser substituídos) e as várias tentativas de sedução e de indução à fidelidade em relação aos executivos
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Psicossociologia – Análise social e intervenção

considerados excessivamente inconstantes e, ainda por cima, com a informática e a espionagem industrial, excessivamente tendentes à sabotagem ou à traição. Mesma oposição, entre os jovens, entre a precariedade dos empreguinhos e a motivação pelas empresas-juniors11 . E a um nível mais global, coexistência de uma economia oficial que, às vezes, perde o fôlego e de uma economia subterrânea, clandestina ou até mesmo mafiosa que, articulandose em redes regionais e familiares, chega em certos países a produzir 20% (Itália) a 50% (Marrocos, Colômbia) do PIB. 3- Se, em política, o número de militantes, de aderentes e mesmo, às vezes, de eleitores continua a baixar, isso não significa indiferença e ainda menos rejeição das instituições e dos partidos, como foi o caso depois das crises de 1921 e de 1929. A perda das ideologias não leva à desmobilização total mas, ao contrário, a lutas ativas de tendências, a tentativas de “renovação” e à emergência de outsiders (atualmente os Verdes). Sob a égide de um “consenso fraco” e avuncular, numa aparente ausência de gravidade e na adesão de quase todos à “economia social de mercado”, tecem-se novas redes entre novos atores e explodem, às vezes, arrebatamentos na defesa da Escola (ou de sua laicidade) ou nas campanhas humanitárias pelo Terceiro ou Quarto Mundo. Assim, “o coração à esquerda, a carteira à direita” e o trocado no centro restabelecem as referências que pareciam ultrapassadas. 4- A esfera da reprodução física e social dos agentes, apesar dos atrasos habituais em relação a uma realidade em mutação, é também o lugar de experimentações simultâneas e sucessivas, embora freqüentemente inábeis (a sucessão de reformas escolares). A coexistência e a rivalidade dos modelos patriarcal, conjugal, associativo (G. MÉNAHEM) e, agora, que fazem ninhos, assim como a coexistência de referenciais corporais (das belas produzidas às belas sensuais) ou emblemáticos (do herói ao anti-herói) já chamam a atenção para a diversidade dos “familiogramas” que aí se poderiam revelar. Mas também, do seio dos adolescentes intermináveis, emergem, de tempos em tempos, líderes estudantis, festivos, políticos (mas não ainda religiosos). 5- Isso não coloca o sagrado livre de qualquer mudança, apesar da predominância atual de efervescências religiosas. Se a prática dominical católica caiu na França abaixo de 10% (cf. Le Monde de 27 de outubro de 1989) e se a mediação dos prelados ou dos teleevangelistas e dos Tios (Abbé Pierre) ou Tias (Madre Tereza) deixam de lado as organizações e as instituições intermediárias, aparecem, entretanto, práticas e grupos de oração ou de reflexão que,

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Identificações experimentais e inovações sociais

por vezes, chegam a se organizar em redes para sustentar organizações não governamentais (e não episcopais) caritativas, educativas e, às vezes, mesmo no Terceiro Mundo, produtivas. Sem falar das seitas, do recurso ao horóscopo, aos advinhos e às loterias. Em todos esses casos, trata-se por certo mais de religiosidade que de religião: até o Estado é abandonado pela Providência, sendo o luto pelo pai que não chegou a ser reverenciado, substituído pela nostalgia persistente do “gigante sagrado”. Mas essa religiosidade talvez prepare a retomada de movimentos realmente religiosos (pensamos, é claro, na predição de MALRAUX para o século XXI), se entrementes o Sagrado não tiver se fixado sobre um objeto profano menos totalitário e obsessivo do que podem ser, às vezes, respectivamente, a política e o dinheiro. Esse percurso das esferas do social permite pôr em evidência algumas características comuns: o resfriamento do global compensado pela mediação de uma figura central avuncular (ou de irmão mais velho); a coexistência de experimentações locais, parciais, múltiplas, precárias e, freqüentemente contraditórias; os tateamentos de veleidade de passagem do semiótico ao simbólico; e finalmente: o desaparecimento de corpos e organizações intermediárias entre o local e o global.

A passagem ao local marca o recurso “às pequenas unidades sociais” (WINNICOTT desde 1971) e instaura “o tempo das tribos”. No cume, os “ídolos” sem veneração ou com entusiasmos efêmeros; na base, grupos de debate. No meio, apenas algumas instituições estimadas (sem ilusão excessiva: a escola) ou sempre fascinantes (as Grandes Escolas) parecem se manter. A prática religiosa dos católicos franceses reduz-se à metade em trinta anos, porém numerosos são os grupos carismáticos. A CGT perde mais de 55% de seus efetivos entre 1977 e 1987, mas as reivindicações dos assalariados se exprimem através de “coordenações” fugazes, porém decididas. Poderíamos também constatar a simultaneidade da mundialização do mercado (até nos países do Leste) e a transferência dos poderes econômicos nacionais, quer para firmas multinacionais cada vez mais “apátridas”, quer para a nova região asiática dos “Cinco Tigres” e, mais dificilmente, para a CEE. E, no interior de um país, é o Estado que se julga obrigado a incentivar os “núcleos duros” ou a conservar os golden shares para impedir o esfacelamento ou as pilhagens selvagens e sem sedentarismo.
É que os novos atores não têm nenhum interesse e não obteriam nenhum prazer se as zonas de incerteza se reduzem excessivamente, por codificações precisas ou por organizações invasivas. Em período de
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Com a condição. por exemplo. no que tange à história do capitalismo. Além disso. os quais estão a serviço de objetivos determinados e realizáveis. fora do controle exercido pelo Centro. o que é um dos signos importantes da passagem do princípio de prazer ao da realidade. E as impaciências do “tudo imediatamente” cedem o lugar à procura de atalhos no adiamento da realização do desejo. conjugada com a manutenção dos objetivos. que os investimentos lábeis de objetos desse nomadismo só se concentrem nos meios de ação. Aí o nomadismo errante se transforma em migração periódica orientada. em certas regiões. WALLERSTEIN: as mutações de desenvolvimento jamais se produzem no país momentaneamente dominante. MOSCOVICI) e às suas tentativas de deslocamento dos poderes e de ocupação do espaço. mas nas zonas periféricas onde as aquisições instrumentais e culturais podem ser reordenadas e desenvolvidas sob um novo imaginário. “surpresas”. Pode-se. por historiadores como BRAUDEL ou I. uma vez instaladas. O deslocamento dos centros e o nomadismo dos atores Esse é um fenômeno bem esclarecido. não podem ser reorganizadas e reorientadas. Essa atração pela mobilidade e pela flexibilidade tem como conseqüência a necessária aceitação da precariedade eventual dos resultados da ação. Nesse caso. Assim. cada um é favorável às regras para os outros e à liberdade para si. 154 . como. é necessário que os atores periféricos ou intersticiais tenham traços comuns de personalidade que os predisponham para isso. porque as primeiras podem ser modificadas mais facilmente do que as segundas que. cujo dinamismo se apoia no nacionalismo local. prever que as turbulências continuarão a afetar por muito tempo esses níveis intermediários porque elas são favoráveis à emergência de “minorias ativas” (S. inclusive jovens executivos12. do norte da Itália onde se desenvolvem redes de PME (pequenas e médias empresas). Além disso. pois. A flexibilidade-mobilidade atual talvez seja tanto um desejo quanto uma constatação do que existe. entretanto.Psicossociologia – Análise social e intervenção experimentação é necessário preservar a margem de manobra: assim sendo. pois. antigamente atrasadas. pelo menos em muitos jovens. É por isso que as revoluções. produzem-se onde não se espera e constituem. a secreção de regras precede a transformação de redes em organizações distintas. as pressões econômicas iriam ao encontro de desejos pessoais. mesmo que sejam minúsculas. a efemeridade das identificações e dos prazeres dos intermináveis adolescentes se transforma em tomada em consideração da existência do tempo.

. a mudança de cada uma das esferas crescerá paralelamente aos prazeres obtidos. o tipo ideal seria aquele de um agente individualizado (capaz de ser ele mesmo com os outros. ao contrário. O papel das identificações Um pouco paradoxalmente. MC DOUGALL). constitutivas da personalidade e. a personalidade arrisca-se a desmoronar). principalmente por aqueles agentes que são felizmente tocados por “uma certa anormalidade” (J. as referências são apenas evanescentes: são imprecisas e inconstantes.. jogo de empresas. o conformismo dos agentes denotam identidades inacabadas. cujos agentes perdem suas identidades quando se encontram em um outro agrupamento. Cada esfera de atividade tem seu campo próprio. dos valores. numa situação de mal-estar. aumento da variedade e da intensidade das motivações com objetivos econômicos. Todas essas mudanças disseminadas no emprego do tempo.Identificações experimentais e inovações sociais Um outro signo dessas reconstruções dispersas aparece no investimento de cada uma das esferas de atividade (econômica. as sociedades fundadas sobre a relação fusional (Gemeinschaft).. das coisas. desde bem antes de FREUD (FOURIER já tinha observado). aí. no início. do espaço. mas existem. logo. Se esses aspectos importados de outros domínios aumentam. unicamente confirmadoras da identidade. no adulto não é a repetição mas. E essa mobilidade pode produzir inovações e novas implicações dos atores. podemos contrapor.) pelas outras.. GODALIER). dos prazeres.). Em contrapartida. Paralelamente. substitutivas (a vida por procuração) e arcobotantes (sem contrafortes. diz WININICOTT). as identificações são. em seguida. das idéias. e as sociedades baseadas na troca (com suas diversas variantes fundando a Gesellschaft) onde os agentes sublimam os vínculos familiares em 155 . E como se sabe. mas é também uma dimensão de todas as outras (M. do político (mudanças de poder) e mesmo do doméstico (a suposta excelência de certas “grifes”) pelo econômico é importação de motivações próprias para as outras esferas e. colocam o problema do papel desempenhado pelas identificações. a mudança de situações e de escolha de objetos que aguça o prazer. a captação do lúdico (jogo de papéis. política etc. por sua superação. Mas. cujas identificações seriam. É claro que a contaminação generalizada é própria de uma situação de crise em que o desaparecimento das referências deixa o campo livre para injunções contraditórias. ainda mais. idealmente. a conformidade e. Assim.

onde o censor só interviria para condenar os distanciamentos entre a realização e o eu ideal. ao mesmo tempo que se escreve.13 Fundamentalmente. em transformar as identificações laterais. tipos de vínculos laterais (de tipo irmãosirmãs) ou colaterais (de tipo tios-sobrinhos) que propõem identificações menos estruturantes que as precedentes. imprecisas e transitórias. Se se quiser caricaturar: narcisismo atual contra neurose obsessiva de outrora. A autocriação da sociedade é recriação de seus agentes. é o fracasso que sanciona e não a falta que culpabiliza.a dificuldade está.os vínculos sociais anteriores (constituídos evidentemente pela emancipação e superação dos vínculos familiares) se revelam caducos e decepcionantes.experimentam-se. O atual mal-estar na identificação não seria proveniente da passagem por um barroco (inédito desde o período que precede o rapto das Sabinas): a constituição tateante de um vínculo social por uma “sociedade de irmãos” sem referentes paternais plausíveis? Poderíamos sugerir a seguinte seqüência: . a fonte da atenção atual para as autopoieses e as auto-organizações (VARELA. DUPUY. Desse modo. por exemplo). . como vimos. as esferas atualmente se interpenetram) e a uma figura representativa (mas a única figura gratificante de identificação de prospeção é a do irmão mais velho. é um problema de escrita que obriga a ler o programa e a obedecê-lo. situam-se todos os barrocos das sociedades concretas. representadas e transicionais. . Essa é. mas constata-se ser isso impossível ou de novo decepcionante. Salientemos uma que poderá ser encontrada como traço de personalidade nos inovadores de que tratamos: um ideal do eu nascido quase sem pai. Resta ainda ligar o ideal do eu a uma esfera de realização (mas. Mas. .tentam-se. entre esses tipos extremos e opostos. por uma dicotomia bem marcada entre os distúrbios decorrentes da predominância das referências ao ideal do eu sobre as referências ao censor e os distúrbios estritamente inversos. com o 156 . então.Psicossociologia – Análise social e intervenção vínculos societários (TONNIES revisto por FREUD). . então. então. retornos aos vínculos familiares verticais ou aos dos sósias desses. em identificações hierárquicas. E o que permite essa simultaneidade está talvez indicado no divã ou nos hospitais psiquiátricos. Mas há formas de narcisismo bem mais numerosas do que aquelas já mencionadas aqui. sem dúvida.isso explicaria a diversidade das experimentações e também a predominância atual da Métis e dos semióticos sobre o simbólico e o Logos.

no fim de contas. Há. (O que prova. Mas também o aumento do prazer obtido na substituição rápida das identificações com as figuras múltiplas e fugazes do referente fraternal. em 1981). o mal-estar subsiste. tanto para os autores das mudanças. a idade ou a condição de estrangeiro colocam em situação de espectadores ou de vítimas: nenhum deles pode antever o resultado. podem entrar em conflito.O tipo de conseqüência mais marcante é o das apropriações: desde 1968 há apropriação pelos poderes políticos sucessivos de projetos (modernizar a universidade) e mesmo. de passagem. por isso. permitir a certos herdeiros enfeitar o cadáver sob o disfarce da renovação. outsiders ou reciclados. como na tectônica as placas entram em fricção. em oposição ou em encavalamento: daí alguns tremores da sociedade em torno de véus. Mas essas reconstituições permanecem parciais e. que apesar de HEGEL. Chegando à encruzilhada. da maioria dos marxistas. pois. dos indivíduos e da identificações 157 ..Identificações experimentais e inovações sociais qual se está. às vezes. Mas também apropriação da tendência lúdica pela empresa e pela Bolsa. Algumas conseqüências 1. de fetos ou de liberdade de viajar. reconstituições múltiplas do tecido social: passa-se das ilhas ao arquipélago. em concorrência). o fim da história só concerne a cada indivíduo). Essas apropriações podem. das motivações de poder pelos agenciadores de OPA. das coordenações pelos sindicatos etc. Mais surpreendente ainda seria o caso da ligação dos movimentos carismáticos com redes nacionais e mesmo internacionais que tendem a escapar da autoridade episcopal e mesmo pontifical. aliás. 2. quanto para aqueles que o desemprego. Daí a multiplicidade. apesar de tudo. experimentações e prazer que só se estabilizam quando se acentua o afastamento e se afirma a diferença em relação a esse referente. de Daniel BELL e de FUKUYAMA. Esses conflitos e fricções permitem acertos de contas e seleção das experimentações de inovações e de seus atores. a “estrutura dissipativa” de orientação se tornaria: ser melhor sucedido. diferentemente e alhures que o referido irmão mais velho. a diversidade e a flutuação das experimentações de saída da crise social. Já mencionamos o desempenho das economias paralelas e mesmo mafiosas na Itália. com a eliminação das organizações. Poder-se-ia também tomar o exemplo da organização progressiva dos movimentos ecologistas ou o da proliferação das PME (pequenas e médias empresas). de bandeiras.. Enquanto isso. e das intermináveis adolescências.Mais interessantes são as criações de novas redes e de novas regras de jogo. na Colômbia ou alhures. das utopias (“mudar a vida”.

ao mesmo tempo agradável e funcional. talvez. mesmo se as referências são modificadas e as ramificações deslocadas. as únicas referências ainda fidedignas. para retomar uma distinção aprofundada por Julia KRISTEVA. Até mesmo os novos empresários que experimentam todas as formas de sedução para obter de seus especialistas e executivos carreiristas-oportunistas (e mesmo. todo mundo notou “o silêncio dos intelectuais” (os conhecidos) no auge da crise (1981-1983) e mesmo no momento em que a retomada econômica e as mudanças sociais tornavam-se mais patentes. e a complexidade progressiva do sistema. um momento dessa ascensão. portanto. então.Mas sabe-se também que o vínculo social e. as gerações. os espaços. como alguns dizem. pedidores de emprego. pois se destinam a prepará-los para as metamorfoses do sistema. 3. Talvez.). os tempos. esperando a nova fundação de uma Focéia em Massalia e a volta do Logos grego. amanhã. Por isso. E a que corresponderia. encontramo-nos. equívocos no lugar das palavras corretas) como se tornar canto de apelo ao desvario (pensemos na voz dos discursos hitlerianos). um aumento da variedade e da complexidade das identidades (e pois das identificações constitutivas e confirmativas)? Adaptabilidade e criatividade dos autores evidenciariam isso. mesmo essas autopoieses contribuam para aumentar a variedade. necessariamente. Daí o reaparecimento de referências e de inteligibilidade das ramificações. O barroco societário atual é. E aquele que sobrevive restabelece as diferenças evidentes e banais. ENRIQUEZ. sobre as superfícies marítimas de águas inquietas onde a linguagem tanto pode se desmonetarizar (IVG. Ora. Os signos (o sol. sob a aparente homogeneização da aparência dos indivíduos. por um momento denegadas (entre os sexos. as experimentações de inovação social são também um bordejar contra o vento para ascender do semiótico ao simbólico. principalmente). suas reconstituições passam pela invenção da linguagem e pela sublimação horizontal da afetividade (E. uma escala num porto cosmopolita onde a única língua possível seria um pidgin das palavras. as culturas etc. das normas e das formas. Quanto às metamorfoses contemporâneas da “transcendência horizontal” em direção às outras que CAMUS projetava.Psicossociologia – Análise social e intervenção obsoletas ou impossíveis. a estrela polar) são. 158 . Isso impõe a questão: “Será que Ulisses falava quando as sereias cantavam?” Se a estratégia adequada para esse tempo é o polimorfismo obstinadamente orientado. todo mundo sabe passar pelas identificações libidinais. de seus “técnicos de superfície”?) a adesão que eles sabem necessária à coerência funcional.

das coesões) não parece ainda inventada. Auteuil. simultaneamente. N. Passy. 55. ao contrário. “Zur Kritik. a receita das identificações complementares novas (e. do econômico ao sagrado. sem dúvida. 1989. MILLS (L’imagination sociologique) propunha para as ciências do homem “articular história e biografias. Os períodos de estabilidade (inclusive crescimento harmonioso) oficializam a predominância do Todo (Holismo) sobre as Partes (os agentes). p. sociedade e personalidades”. W. os novos atores hesitam entre a perenização imaginária. Tomo 1... 1981. 29. André. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Autrement. Oeuvres: Économie. para outros? Mas. na formação de ninho familiar. no mal-estar. “não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas” (HERÁCLITO ainda. logo. Petit Larousse. naturalmente). RUBEL.” In: M. Gallimard. nas diferentes esferas do social. MARX acrescenta: É a superioridade dos yankees sobre os ingleses”. no adulto que eles se tornariam. Notas 1 Traduzido de: NICOLAÏ. [OPA: Offre Publique d’Achat = oferta pública de compra. 2 de março. Hoje ele teria. NAP: Neuilly.Identificações experimentais e inovações sociais De qualquer modo. por Eliana de Moura Castro. É por isso que. Estaria a saída. MARX. 159 . da criança-rei perversa que eles foram e o exercício de um domínio efetivo que lhes permitiria manobrar realmente os peões no seu tempo social. O problema: em época de “destruição criativa”. 40. então. Mais dura foi a queda. Essa moda de aparência de NAP reintroduz a diferença de vestuário entre os sexos. C. Temos assim uma alternância de interpretações. p. Pléiade. “Imago: estado do inseto que chegou ao seu completo desenvolvimento e à capacidade de reproduzir”. Tende a substituir: BC-BG (bon-chic bon-genre).]. Já o estado de ninfa faz lembrar o que FREUD diz do “bem-estar morno” que provoca a persistência de uma situação desejada inicialmente pela pulsão. com a divisa: “Onde ele não subirá?”. centro de denegação da incerteza para uns e refúgio temporário contra os riscos de suas inovações. As épocas de crise e reconstrução valorizam. “L’économie des conventions”. 1990-1. assim como os signos da diferença pelo dinheiro. edição de 1963. Connexions. “Identifications expérimentales et innovations sociales”. onde se escondem os “vínculos sociais”? Michel ROCARD acaba de propor o “sempre melhor”: mudança de máscara ou mudança de projeto? O esquilo aparecia nas armas do Superintendente. escrito: “dos japoneses sobre os yankees”.T. os atores (Individualismo). Revue Economique. 239. 61-78. n.

J. 1974. VERNANT. CAILLOIS. Paris: Gallimard. J. 1976. Connexions. mobilidade. 1985. BELL). J. D. The end of ideology. New York: Collier.. Les deux arbres du jardin. BIRNBAUM. Paris: Seuil. R. ANREP. Les destins du plaisir. 1982. 1975. Si tu m’aimes. DETIENNE. Interminables adolescences. Paris: Seuil. 1983.-P. M. 1979. D.. 1989.. 1989. BELL. Winnicott en pratique. Freud et l’éducation. C. 1987. J. Les ruses de l’intelligence: la Métis. ELKAIM. n. Paris: Seuil. 1988. para TARDE. M. Cf. oportunismo. Les contradictions culturelles du capitalisme. F. 4. L’institution imaginaire de la société. Paris: Minuit. P. Autonomie et systèmes économiques. Paris: des Femmes. n. Le paradoxe et le système. Paris: PUF. “Les représentations sociales”. agora são os novatos que são levados a não precisarem do pai. CERISY (Actes du Colloque de). 160 . La distinction. 1950. Uma pesquisa de MCS de setembro de 1988: morosidade. M. A. Paris: Grasset. 1988. 1981. 1982. 1989. 12 13 Bibliografia ANATRELLA. P. G. Paris. 1977. Paris: Epi. Cujas. L’auto-organisation. Toujours plus. BOURDIEU. 45. L’homme et le sacré. De la horde à l’Etat. 1988. Paris: Seuil. 29. P. Y. Paris: Seuil. Connexions. P. Autrement. 1979. 1960.] uma não-imitação de exemplos paternais”. BALANDIER. J. LECA. 1988. Paris: PUF. DE CLOSETS. n. 1984. ARMANDO. Paris: ESF. ne m’aime pas. CASTORIADIS. L’individualisme. Paris: Flammarion: 1974. E. M. Le désordre. L’acteur et le système. 1979. Le lien social. Bulletin de l’AISLF. Grenoble: PUG. ENRIQUEZ. a oposição entre a incitação à fidelidade à empresa e a da idealização do sucesso pecuniário individual. BELL. CROZIER. DUPUY. por outro lado. BAREL. Paris: PFNSP. FRIEDBERG. Ordres et désordres. ENRIQUEZ. é “uma verdadeira dissociação de pais e filhos [. Paris: Gallimard. Paris: Cerf. AULAGNIER. 1988. Les révolutions minuscules.. n. CHASSEGUET-SMIRGEL.. Quanto aos jovens empresários: se antes o fundador “não tinha filhos”.Psicossociologia – Análise social e intervenção 11 Os jovens executivos estão submetidos a duas injunções contraditórias: por um lado. “Le changement en question”. Tese. E. Aux carrefours de la haine. Paris X. Uma mudança social. 1982. Paris: Fayard. DENOYELLE. a oposição entre a moral do trabalho e as incitações da sociedade de consumo (D. T. 51.

Les rites d’interaction. B. 1958. 161 . 18 julho. SEARLES. MITSCHERLICH. FINKIELKRAUT.. M. Cl. junho 1987. G. Paris: Gallimard. WINNICOTT. Playdoyer pour ume certaine anormalité. Paris: Fayard. Paris: Plon. TOURAINE. FREUD.. 1980. G. Cl. LÉVI-STRAUSS. “L’économie des conventions”. out. E. 20. Malaise dans la civilisation. Le déclin du complice d’Oedipe. D. “Les Français et l’argent”. MENDEL.. 1989. 1971. Anthropologie structurale I. FUKUYAMA. Paris: PUF.” Peuples méditerranéens. GODELIER. n. “Penser le chômage”. A. SEGALEN. n. symptôme. 18 mai/7 jun. n. G. Idéaux. 1989. Inhibition. n. GOFFMAN. 1966. 40. “Et le poussent jusqu’au bout. “La politique en apesanteur”. 1980. Pouvoirs de l’horreur. Paris: Plon. 1970. J. Forum de Delphes. MENAHEM. S. Paris: Laffont. Paris: CNRS. L’empire de l’éphémere. 1971.. LE GENDRE. 38-39. LIPOVETSKY. Freud et le problème du changement. Paris: Gallimard. Rationalité et irracionalité en économie. S. 1989. Paris: Maspéro.. 1934.Identificações experimentais e inovações sociais L’expansion. 1989. “Les mutations de la famille. Revue française de psychanalyse. Paris: Seuil. 1989. n.. 1988. “Vous n’auriez pas une valeur?” Le Monde. Paris: Minuit. 1979. MOSCOVICI. FREUD. W. Paris: PUF. 1989. Paris: PUF. psychose et perversion. n. 1983. F. L’autre et le semblable. Paris: Payot. L’effort pour rendre l’autre fou. 15 nov. 1951.1974.. Psychologie des minorités actives. H. Le Monde.” L’homme et la société. 1973. Vers la société sans père. 1977. “Et mourir de plaisir. SIBONY. LÉVI-STRAUSS. 1978.. D. Pour décoloniser l’enfant. 1979. A. 1984.. TARDE. 51-54. “La fin de l’histoire?” Commentaire. In: Essais. G. 27. 1980. 1989. 1987. outono. nov.” Connexions. Les lois de l’imitation. WIDLOCHER. 1971. A. 1980. “La voix écoute”. OLIVIER. 47. Les infortunes tiers-mondiales de la nécessité. LASH. NICOLAÏ. M. Ressources. S. 2 de março. S. Paris: Gallimard. A. FREUD. “La nation disparaît au profis des tribus”. 10. et al. NICOLAÏ. Paris: RFP. “Psychologie des foules et analyse du moi”. 25 de out. KRISTEVA. Ch. Revue Economique. 1974. Paris: Gallimard. NICOLAÏ. Le Monde. Paris: PUF. A. n. Paris: Denoël. Jeu et réalité. 3. 1982. La pensée sauvage. D. Cl. Traverses. S. 1981. Le Monde. nov. 1981. 1989. Paris: Payot. Le retour de l’acteur. 26 jan. J. de la vertu et de plaisir. FREUD. Le complexe de Narcisse. n. Paris: PUF. FREUD. Reedição GEX. Paris: Gallimard. Nauplie. Mc DOUGALL. SIBONY. Névrose. Les enfants de Jocaste. S. A. D. angoisse.

Parte III Intervenção psicossociológica .

Psicossociologia – Análise social e intervenção 164 .

em fins de 50/início de 60. Assim. trazer também nossas histórias e implicações com o “Movimento Institucionalista”. Benevides de Barros É. entretanto. 1980. os textos de J. também. ENRIQUEZ (“A respeito da formação e da intervenção psicossociológicas”. que o trabalho de Paulo FREIRE e alguns desenvolvidos. lançar um olhar novo sobre o mundo. Poderíamos dizer. “A respeito das origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais”. As décadas de 60/70: Movimentos sociais e produção teórica A Europa de pós-guerra defronta-se com experiências que convocam um repensar sócio-político. essa parece ter sido. na maioria das vezes. que essa “crise” também eclode em vários países e que. instigante a tarefa de tomar o tema da “Intervenção Psicossociológica” e trazê-lo a público através de textos de alguns de seus principais pensadores. por exemplo. sem vê-lo como algo já dado. ela tomará formas próprias. em uma espécie de “crise das instituições”.INTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA Regina D. em cada lugar. 1976) trazem-nos a instituição da intervenção em faces e recortes polêmicos. 1980) e de E. a partir da divisão não-saber x saber. uma das características marcantes de suas próprias histórias: estimular a crítica. de A. desembocando. vivíamos experiências de educação popular que colocavam no centro da cena a instituição da Pedagogia. No Brasil. instrumentalizada então. criando em nós uma vontade de entrar no debate. contribuir. realizar práticas nas quais pesquisa e ação não são dois pólos que se interligam. mas a construção de ferramentas de ruptura com o cotidiano. Pelo que eles mesmos nos contam. sem dúvida. DUBOST (“Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica”. pelas Comunidades 165 . nas décadas de 60/70. 1987). LÉVY (“Intervenção como processo”. mais tarde. É bem verdade.

desde essa época. então. Em meados de 60. ainda. A. do conservadorismo universitário. presenciamos. de maneira diferenciada e com focos de penetração mais localizados em São Paulo. J. 166 . analisador histórico do status quo vigente. fossem mais ligados à Psicossociologia (M. convulsionado pelo golpe militar. na interseção dos campos filosófico. de modo generalizado. de um lado. LÉVY. por outro. através do contato com os “institucionalistas” franceses. HESS. J. DELEUZE). pois procuravam construir uma teoria-prática desnaturalizadora. ENRIQUEZ). crítica das experiências instituídas. Vemos. como à Argentina. Ainda que marcados por grandes diferenças. PAGES. G. o contato com as correntes francesas institucionalistas se dá em fins dos anos 60/início de 70. No campo da Psicologia. então. principalmente. o trabalho com grupos e comunidades como dispositivos-alvo privilegiados. uma entrada maciça de trabalhos com influência da Psicologia Social norte-americana (de caráter adaptacionista) e. a análise (no sentido do olhar/escuta que decompõe) como modo básico de funcionamento. ARDOINO) ou. abandonando seus laços experimental-adaptacionistas. uma certa psicossociologia se faz intervenção. ao Chile e ao Uruguai. GUATTARI e G. fica claro que “Movimento Institucionalista”. questionamento de seus modos de instrumentalização. As instituições são analisadas. havia certos pontos que ligavam os “institucionalistas”: a critica relativa à separação investigação-intervenção. quando tomado em seu sentido amplo. as experiências que vinham sendo desenvolvidas desde o pós-guerra e que apenas timidamente caminhavam.Psicossociologia – Análise social e intervenção Eclesiais de Base. No Brasil. político e social. O mês de maio de 68 francês. Rio de Janeiro e Belo Horizonte. designa a crítica à naturalização das instituições. R. no que viríamos a denominar “Movimento Institucionalista”. LOURAU. inserem-se. a recusa a uma psicologização dos conflitos sociais e a uma Sociologia abstrata. à recente corrente que então se desenvolvia – a esquizoanálise (F. colocou em cheque. E. DUBOST. à Socioanálise (R. LAPASSADE. da burocracia partidária. vive a extirpação de muitas das experiências “alternativas” de organização social e política. o país. chegar também até nós o eco dessas produções. Por aí. por causa da situação política e social de repressão impingida tanto ao Brasil. éramos tocados pelo pensamento latino-americano – em função não só da proximidade geográfica mas. palco de uma produção expressiva. Os fins do anos 60/década de 70 serão.

cuja prática foi denominada Socioanálise”.. portanto.(.. respectivamente. fomos lançados numa perspectiva rogeriana. p. alguns de Enriquez... os professores Max PAGÈS e André LÉVY. que congregou pesquisadores práticos (. a partir de 1968.. O recente trabalho de M. voltado à pesquisa e à prática.)”.) havia formulado a teoria da Anáse Institucional. (MATA-MACHADO.. Em 1967.. da formação da A. professor que esteve em missão cultural em Belo Horizonte durante três meses em 1972. com a qual logo rompemos (. MATA-MACHADO (1992) faz uma história do que foi e de como está hoje o desenvolvimento da corrente psicossociológica em Belo Horizonte. (MATA-MACHADO. iniciou-se o que veio a ser talvez a maior intervenção psicossociológica da qual o Setor de Psicologia Social. a história da Psicologia Social no Curso de Psicologia da UFMG. mantinha. 2). em 1959. além de seus próprios escritos.Intervenção psicossociológica Uma história a respeito dos cruzamentos do movimento institucionalista com as práticas desenvolvidas no Brasil ainda está por ser feita. a influência do pensamento institucionalista francês. de forma mais pontual. Como ela nos diz: “Em 1968 e 1969..) Atendíamos sobretudo a demandas advindas de meios educativos e religiosos (. via Universidade e.). MATA-MACHADO. o texto de Dubost: “Os métodos de intervenção psicossociológica” (. mais especialmente. participou: a implantação da Reforma Universitária de 1968 em diferentes escolas da UFMG. tivemos entre nós.. (Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques).). 1992. através do Curso de Psicologia. segundo M... sobretudo.). Lapassade (. p.... Se no início a orientação era claramente norte-americana. 3-4). “(. É marcante. mas há algumas produções importantes que já apontam.I.) Em 1971. como grupo.P. 1992. p. A entrada se dá. foi formado o Centro de Psicologia Social Aplicada (CEPSA). 2) O pensamento institucionalista atravessa. Lévy apresentou-nos. Junto com René Lourau (. entretanto “uma vertente de articulação entre teoria e prática” MATA-MACHADO. sob a liderança de Garcia. para as influências e os efeitos que esses pensamentos aqui exerceram.R. quando se estabelece um convênio entre a UFMG e a Embaixada da França..) sofremos [também a influência] do trabalho de Georges LAPASSADE. 167 . de Rouchy e.. 1992. Com PAGES. Ambos haviam participado. segundo a autora.

assim. o tema começa a ser ministrado em disciplinas de algumas universidades. na Europa. DUBOST e E. 4). em favor de intervenções com perspectivas mais modestas. p. CASTEL. G. absorveu a influência de alguns teóricos vindos da França (R. p. LÉVY. no Brasil. cujos interlocutores privilegiados são A. entre outros). além dos autores já citados. 1987). G. R. 1992. mas estendendo-se até hoje. a fundação do IBRAPSI – Instituto Brasileiro de Psicanálise.)” (MATA-MACHADO. o movimento institucionalista inclui sociólogos. 1986). somou-se a influência do pensamento de outros (M. mais tarde. Ao mesmo tempo. o movimento institucionalista tivesse um viés grupalista que. G. LAPASSADE traz influências novas sobre os processos de intervenção em curso e. Grupos e instituições em Análise (RODRIGUES. que um certo número de intervenções com esses enfoques ganha destaque. outros centros de estudos e pesquisas se constituem em torno de propostas institucionalistas: o núcleo Psicanálise e Análise Institucional (1984) e o Centro de Estudos Sociopsicanalíticos (CESOP. há alguns projetos em andamento. Essa perspectiva é. fez com que.Psicossociologia – Análise social e intervenção A chegada de G. entretanto. passou-se “a intervir usando os dispositivos propostos por Lapassade e Lourau” (MATA-MACHADO. 1992). pedagogos. trazido pelos psicanalistas argentinos no início dos anos 70. FOUCAULT. Digo isso porque chama a atenção o fato de que.. F. enquanto que. Na década de 80. em fins de 70/início de 80. No Rio de Janeiro. no Rio de Janeiro. O pensamento pichoniano. atentas às características da realidade brasileira.. 1992. menos desejosas de mudar o mundo (. “parcialmente abandonada. Algumas são objeto de publicações: Análise Institucional no Brasil (KAMIKHAGI e SAIDON. 168 . são primordialmente esses últimos que desenvolvem tais propostas. LAPASSADE. Hoje. a partir de então. por um certo tempo. O que se percebe é que. ENRIQUEZ. o percurso do pensamento institucionalista toma outras formas. aliado a algumas críticas às instituições de formação em Psicanálise. GUATTARI. MENDEL). LOURAU. psiquiatras e psicólogos. LEITÃO e BARROS. 6). segundo a autora. Grupos e instituições – que inclui a Análise Institucional como uma das suas áreas de formação. DELEUZE. J. É também na década de 80. Encontramos. construindo-se práticas singulares. ainda que tenha mantido a característica de ter sido difundido através do “meio psi”.

sobretudo. e SAIDON. pesquisas e intervenções. o Núcleo de Estudos da Subjetividade. 175p. 1984. Atualmente. mais tarde. Vida R. hoje. Osvaldo (orgs). Heliana B. encaminhou-se para a formação de centros de estudos.). RODRIGUES. 22p. ROLNIK. em São Paulo. Os textos que se seguem trazem dados históricos mas. Gregório F. C. Belo Horizonte.Intervenção psicossociológica Em São Paulo. Análise institucional no Brasil. Micropolítica. e BARROS. A década de 60: seus efeitos no pensamento. 164p. 1987. Especialmente através dos trabalhos de S. o “pensamento institucionalista”. LEITÃO. GUATTARI. em suas várias vertentes. as contribuições da socioanálise. GUATTARI e de G. diversificado seus modos de intervenção e expandido por outras áreas do Brasil. Grupos e instituições em Análise. C. KAMKHAGI. Heliana B. M. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. Rio de Janeiro. Regina D. (orgs). B. 327p. desembocando em algumas traduções e publicações. 1986. já toma contornos bastante diferenciados. algumas pesquisas realizadas sob essa influência. RODRIGUES.). Marília N. do Curso de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC/SP é um dos centros que congregam.). se a difusão inicialmente se deu através do eixo Rio de Janeiro-Belo Horizonte-São Paulo. a inquietação dos autores frente aos efeitos da intervenção psicossociológica. à instituição de formação e à de pesquisa. tendo incluído outras influências teórico-práticas. (mimeogr. MATA-MACHADO. B. Petrópolis: Vozes. Cartografias do desejo. (coord. Regina D. DELEUZE. (mimeogr. 1992. Sua leitura e reflexão são um convite irrecusável. Suely. sente-se também a influência do pensamento grupalista argentino que. Félix e ROLNIK. de obras desses autores. Intervenção psicossociológica. incluindo. Mas. Referências bibliográficas BAREMBLITT. 169 . e BARROS. Rio de Janeiro: Vozes. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo. História do Movimento Institucionalista. difundiram-se os pensamentos de F. na universidade – PUC/SP –. nas intervenções e práticas sociais.. em alguns casos. 1986. 1992. bem como na entrada. O inconsciente institucional.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 170 .

a algumas observações. além dos desejos de terceiros.a formação.2 hoje estando quase todos na faixa dos cinqüenta anos.NOTAS SOBRE A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DE UMA PRÁTICADEINTERVENÇÃOPSICOSSOCIOLÓGICA1 Jean Dubost Os agentes sociais chamados a realizarem práticas novas de pesquisa e de ação podem ter o sentimento de que escolhem e inventam.. aos quais as demandas e as encomendas são endereçadas e. finalmente. b. que os traços que caracterizam uma prática concreta de intervenção resultam. os princípios e as modalidades de sua intervenção. Limitamo-nos entretanto.I. mais ou menos livremente. em primeiro lugar. a interação entre essas variáveis. no período que se seguiu à Liberação (éramos diversos membros fundadores da A. 1945-1950 Reflito sobre as primeiras ações de intervenção às quais estivemos associados.as condições gerais que engendram. o status e a posição social. aqui.as condições particulares desse ator que o levam a esperar um resultado positivo da ajuda de um terceiro. principalmente. Mas creio. os indivíduos e as diferentes equipes não se comportam de uma forma idêntica.P. as dificuldades sentidas por um ator social.R. em uma determinada sociedade e em um determinado momento de sua história. em uma determinada situação. e tendo conhecido o mesmo meio – o das grandes e médias empresas industriais ou comerciais – e por intermédio do mesmo tipo de 171 . de variáveis como: a. Parece-me ser verdade que sua atividade comporta uma dimensão criativa. implicando opções e esforços de imaginação e que. c. essas hipóteses podem guiar uma reflexão retrospectiva sobre a evolução de nossa prática e de nossas idéias. Por mais banais que sejam. a natureza do “saber-fazer”.

suas aplicações no domínio da economia. missões de produtividade. a busca de participação. a passagem rápida de um período de desemprego a um mercado de trabalho caracterizado pelo excesso de empregos. evidentemente. tanto contribuições no plano de métodos contábeis. simultaneamente. Na Sorbonne. de investigação psicológica (técnicas projetivas) e. o funcionalismo etc. entre 1945 e 1959. quanto no domínio da “simplificação” do trabalho nas oficinas e escritórios. O período imediatamente após-guerra foi dominado. formas de autoridade mais compatíveis com um ideal democrático. estabelecidos na capital. da formação em habilitações. mas as “aplicações” precedem largamente o reconhecimento acadêmico das correntes teóricas: criação dos primeiros centros de consultas psicopedagógicas. ênfase a métodos estatísticos. desenvolvimento de novos métodos de psicoterapia. esse período foi igualmente dominado por conflitos políticos e decepções que não chegaram a prejudicar um certo consenso nacional. de gestão. do recrutamento de pessoal. da conjuntura.Psicossociologia – Análise social e intervenção organismo: os gabinetes privados de engenheiros consultores organizacionais. pelo problema da reconstrução. inflação. Muitos dentre nós trabalharam. econômica e social. comportava. em períodos diferentes. de reeducação.. inspirada mais ou menos diretamente pelos Estados Unidos (plano MARSHALL. Nesse contexto. nos mesmos organismos3). então. do 172 . freqüentemente com a estrutura jurídica de associações. uma vontade geral de reconstrução das forças e dos meios de produção. o ensino de Psicologia e de Sociologia é ainda limitado a dois certificados de licenciatura em filosofia que quase ignoram a Psicanálise. à imagem de seu homólogo americano e segundo os exemplos dados pelas forças militares engajadas no conflito mundial. A intensidade das dificuldades alimentares e de habitação. A ajuda proposta às empresas para acelerar sua reconstrução. o Marxismo. comissões especializadas de organizações internacionais nascidas da ONU etc. da recuperação econômica do país e por esperanças de restruturação política.). movimentos reivindicatórios e formas de repressão mobilizadas diante das greves operárias não impediam nem o estabelecimento do primeiro plano de modernização e de aparelhamento nem o desenvolvimento simultâneo da ideologia racionalizadora – a organização científica do trabalho – e da ideologia que levava em conta o “fator humano”. essas esperanças tinham sido tecidas durante os anos de ocupação alemã pelos que tinham pertencido à Resistência. de estruturas de direção. o engenheiro sentia a necessidade de associar “especialistas do fator humano” à sua prática de intervenção.

nessa época. em 1961. no plano das práticas. a aquisição de numerosas habilitações e a descoberta de trabalhos da Psicologia Social norte-americana (LEWIN. segundo o esforço que fazem para integrar a contribuição freudiana – e as práticas psicossociológicas inspiradas sobretudo por MORENO – ou denunciá-las como fortalecedoras de tecnologias capitalistas de manipulação. da demografia. estudos de mercado –. em seguida. MORENO e depois ROGERS). André BRETON. especialmente. pela Dunod). da gestão etc. onde milito durante esse período. a relação crítica e complexa que G. se as tentativas de Reich são. POLITZER desenvolveu com a Psicanálise dos anos trinta constitui uma referência viva nas discussões da época. na França. o movimento que iria ser denominado “institucional”. FRIEDMANN fizeram com que se conhecesse as de E. a partir dos anos 40. por exemplo. que os psiquiatras de orientação marxista que suscitaram. pesquisas sobre a “moral” civil – do tipo de experimentação de campo –. o movimento surrealista se encarrega logo (cf. separam-se em duas tendências. a partir de 1952. lembremos. marcado por esses dois “faróis” (como diz BRETON): MARX e FREUD. MAYO de ROETHLISBERGER e de DICKSON. Les Vases communicants) de familiarizar uma parte da intelligentsia com a problemática freudo-marxista. O espaço microcultural no qual uma parte de nós se forma é. monografias sobre empresas industriais – sobretudo sob a égide da UNESCO –. tentativas de reeducação de adolescentes em tratamento etc. guiada pela busca de uma concepção mais unitária das Ciências Humanas. desenvolvendo uma abordagem mais global. na qual FREUD e MARX não seriam nem excluídos um pelo outro nem apenas superpostos. Essa irrupção de atividades e ações inovadoras tem por resultado. Essas atividades e ações provocavam também o desejo de ultrapassar os estudos pontuais e aplicações de técnicas. então. o movimento trotskista. as obras de G. PALMADE aborda o problema das condições teóricas de uma concepção unitária das ciências do homem através da busca de conceitos transespecíficos no sentido de BACHELARD (essa tese só seria publicada dez anos depois de sua defesa.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica planejamento. é o momento também no qual G. pouco conhecidas na França. vista particularmente como a complementaridade necessária entre a liberação individual e a liberação coletiva. é também a época em que LAGACHE escreve L’Unité de la psychologie etc. é ele próprio dividido entre tendências “defensistas da URSS” – reformistas com 173 . Em relação a esse último ponto. Nossos primeiros anos de profissionalização são divididos entre as atividades de estudos e aplicações psicotécnicas – seleção e orientação –. levantamentos de dados com amostras – opinião pública.

Perret.O. sobre a “moral” da empresa. esse procurando encorajar aquela a encontrar modalidades operatórias que traduziriam as orientações de solução preconizadas. CASTORIADIS4 e Cl. o que dificulta que esses grupos e os ligados mais estreitamente ao anarquismo tenham audiência. servem. das práticas de consulta em organização: o essencial da prestação de serviço se refere a um trabalho de estudo com função de diagnóstico (quais são os pontos fortes e os pontos fracos da firma enquanto organização social?. em função do problema da burocracia operária. mas o fato de que surrealistas tenham se refugiado nos Estados Unidos. a idéia de que as ações de pesquisas de campo têm por si mesmas um efeito positivo sobre o estado psicossocial. a C. na relação que elas estabelecem com o cliente. é freqüentemente colocada pelo sociólogo consultor. em 1949. O debate ideológico que domina em grande extensão a França é muito marcado pela influência do PCF e pela defesa incondicional da URSS. por essas correntes e idéias fourieristas que as precedem. o grupo “Socialismo ou Barbárie”. WILLIAMS. durante a ocupação. Entretanto. R. com o restante do relatório. Entre essas últimas. em 1947-1948.Psicossociologia – Análise social e intervenção relação ao stalinismo – e “derrotistas” – revolucionárias. no qual se encontra B. mas parece-me certo que uma parte do projeto psicossociológico foi influenciada. Antes de sua volta aos Estados Unidos. Igualmente um outro. Uma missão americana de pesquisa coordenada por PARSONS dedicou-se a estudar o fenômeno do nazismo na Alemanha imediatamente após-guerra. 174 . Mas o tempo gasto nessas reuniões representa apenas uma pequena parte do tempo total do trabalho e o sociólogo não tenta obter a divulgação de seu relatório a outros leitores além dos que a própria direção espontaneamente propõe. separa-se da IVa Internacional. mas elas permanecem muito próximas. enfraqueceu a influência do grupo dirigido por BRETON. ROGERS e a postura não-diretiva) ou formas de conceituação (recorrendo à linguagem sistêmica). um dos colaboradores dessa equipe.5 retém.E. sociólogo industrial que conduziu duas intervenções junto a empresas francesas. de apoio às reuniões-discussões propostas pelo consultor à Direção. As intervenções de WILLIAMS inovam em matéria de métodos de pesquisa (por exemplo. LEFORT. dirigido por C. as consultas nas quais o estudo desemboca são apresentadas de maneira esquemática em relatório escrito.S. como esses podem ser explicados?) e prognóstico (o que poderia acontecer a médio e longo prazo se não forem tomadas novas medidas?). desde sua origem. utilizando um tipo de entrevista inspirada em C.G. e que esse efeito será reforçado se as decisões tomadas considerarem suficientemente os elementos expressos pelo pessoal entrevistado.

de início. aplicadas ao estudo de opiniões ou de escalas de atitude. apoiando-se nos resultados. e eles devem ter acesso aos resultados. facilitada pelo desenvolvimento de registros em fitas magnéticas. elas tendem mesmo a se restringir a uma “consulta de pessoal” do tipo levantamento de opiniões sobre um certo número de temas que parecem problemáticos e importantes.W. a idéia de articular a conduta das operações de pesquisa a um trabalho de confronto e de reflexão em grupo. como por exemplo na elaboração do questionário de pesquisa. elas colocam. parece cada vez mais interessante. ou dos métodos de educação popular do tipo “treinamento mental” –.I. 175 . as que são conduzidas por equipes francesas. Os anos 50 Esses primeiros casos (conhecemos pessoalmente oito entre 1946 e 1951 ou 1952) aparecem. depois eventualmente coletivas –. se abrem a uma abordagem mais clínica. passando pelas reformulações européias do T. uma nova etapa é vencida quando as técnicas de pesquisa psicossocial. da mesma forma que a direção. em empresas maiores. porém. e pela passagem da simples codificação de respostas a questões abertas a uma análise de conteúdo bem mais apurada dos discursos registrados. À medida que se desenvolvem certas formas de trabalho com perspectiva de formação – desde os “círculos de aperfeiçoamento” até os primeiros seminários de dirigentes. as reuniões que se seguem à apresentação dos resultados não são numerosas e os agentes do estudo não estão mais presentes. que permitem uma transcrição exaustiva de entrevistas aprofundadas – primeiro individuais. a capacidade da Direção de escutar as críticas expressas aparece como uma das variáveis importantes nessa fase. sobretudo como uma aplicação de uma técnica de levantamento de dados mais ou menos estruturada. As hesitações ou conflitos que são expressos nessa ocasião fazem com que as reuniões preparatórias do estudo propriamente dito ou que acompanham as diferentes etapas (especialmente as de controle do respeito aos princípios negociados inicialmente) representem uma parte do orçamento-tempo e ainda um momento importante do processo de consulta.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica Paralelamente a essas intervenções conduzidas em empresas de tamanho médio (200 ou 300 pessoas). Ao contrário. Da mesma forma. em última análise. uma exigência nova: os representantes de pessoal no Comitê de fábrica (ou uma comissão ad hoc de delegados sindicais) devem ser ouvidos na escolha de métodos de estudo. junto a pessoal assalariado de uma empresa. são menos inovadoras no plano das técnicas de entrevista e de elaboração de resultados.

Por outro lado. Ajudando todas as pessoas. segurança etc. em pesquisar verdadeiramente como se poderia resolvêlos. higiene. os papéis que permitiriam assegurar uma função de ajuda à maneira de um catalizador. relacionados a uma metodologia experimentalista ou diferencialista. e tenta inventar. as crises. a se expressarem. cujos conflitos. ou aos que decidem – Direção Geral. dão mais ênfase ao trabalho de confronto que acompanha o feedback dos resultados do que à expressão de opiniões. provocou a transformação da representação dos papéis do psicossociólogo. as dificuldades que estão na origem da demanda que lhe é endereçada são devidos a uma recusa mais ou menos consciente (em particular da Direção ou dos quadros elevados) em ver quais são os problemas. pelos sentimentos coletivos. inspiradas pelas práticas de aconselhamento. modos de remuneração. turn-over. pela maneira como certos acontecimentos da empresa foram vividos por diferentes categorias do pessoal. sua natureza real. e diferenciando-se por meio do adjetivo psicossociológico. de pagar o preço por sua solução. e essa não sendo a conseqüência menos importante. algumas vezes antigos. Enfim. Direção de Pessoal –. à análise estatística dessas e à elaboração do diagnóstico dos problemas de funcionamento psicossocial. feita pelos encarregados da pesquisa. retomando as palavras usuais do consultor organizacional. pirâmide de idade. mas levam também ao interesse pelo conteúdo latente. a passagem de instrumentos de pesquisa com perspectiva métrica – correspondendo ao método de desempenhos psicotécnicos –. induzidas pela aquisição de novos saberes práticos. o psicossociólogo procura se tornar consultor da organização enquanto uma unidade. Ele faz da relação de consulta um problema em si.Psicossociologia – Análise social e intervenção As mudanças na concepção de intervenção. grupos de mais velhos. um objeto de trabalho. as disfunções. levam a não se considerar apenas o conteúdo manifesto das opiniões. ele se pergunta se os bloqueios. queixas e reivindicações relativas a dados fatuais (condições de trabalho. De perito ou agente ligado aos promotores do estudo – engenheiroconsultor –. ainda marcam representações e atitudes para com a direção. que fala sobre seu campo e suas intervenções. ele estabelece uma ruptura com o papel do perito e procura destacar sua especificidade. técnicas de entrevista e animação de reuniões-discussões. Em outros termos. absenteísmo. que habitualmente não têm a possibilidade de falar. para uma orientação mais clínica. favorecendo de maneira suficientemente progressiva a circulação das 176 . características da pirâmide hierárquica e da estrutura de qualificações. no interior desse quadro de atitudes. as relações intercategorias e as microculturas da organização.).

ele recoloca os aspectos técnicos como dependentes da capacidade de todos e não mais de um subconjunto interno ou externo. dá efetivamente a palavra a categorias que não a exercem na vida cotidiana. que recortavam mais ou menos amplamente os conflitos sociais globais. a idéia de que a intervenção. sem dúvida. para separar a esfera das atividades da organização da esfera das comunicações sociais e das relações humanas. ele crê que. gestão ou organização. isto é. mesmo nesse caso. acaba totalmente reforçada. de fato. inscrevendo-se na relação de consulta – na qual os psicossociólogos intervêm como agentes de facilitação e catalizadores de fenômenos de tomada de consciência –. ele próprio contribui. a necessidade de uma evolução de concepções e de formas de autoridade. sem nunca ocupar o lugar dos atores implicados. isto é. criando novas estruturas de comunicação e novas formas de trabalhar os problemas. ajuda as categorias vítimas da repressão. as mais altas instâncias conservam seu poder intacto e que a estrutura da organização.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica informações e os confrontos. os sistemas de comunicação na empresa. de ver com melhor conhecimento de causa quanto se está decidido a investir e a pagar o preço por um funcionamento melhor. os processos de preparação e tomada de decisões. ele descobrirá ainda que essa expressão e o trabalho que a acompanha apenas excepcionalmente conduzem a mudanças de estrutura e que. de fato. o psicossociólogo tende a separar seu papel daquele do engenheiro. o psicossociólogo espera aumentar a capacidade do conjunto de reconhecer a origem de certas dificuldades. de perceber direções de solução. estávamos sobretudo preocupados em fazer o público reticente reconhecer a importância dos fenômenos afetivos coletivos. não nos impedia de nos sentir comprometidos com uma espécie de guerra de culturas onde se confrontavam diferentes modelos de organização. considerando a empresa sobretudo como um sistema social unitário. além dos arranjos menores concedidos. do especialista em uma técnica de produção. à medida que esses são identificados. permitindo a expressão do reprimido. em especial dos inconscientes. Concebendo-se a si próprio como um agente que facilita a regulação da firma através de uma ação sobre as comunicações. Nessa perspectiva. Porém. ele exerce uma pressão que. constituía uma situação de descoberta e de aprendizagem. Querendo colocar sua relação de consultor em nível global e não apenas no plano de uma instância de direção. se aceita. 177 . mesmo desejando o contrário. mais tarde. nos anos cinqüenta e no início dos anos sessenta. sem dar conselho. ele dá força para que sejam escutadas e consideradas as dimensões sócio-emocionais e os interesses não reconhecidos.

ambos preocupados em criar uma estrutura de trabalho que permitisse realizar diversos projetos sem as limitações conhecidas anteriormente. sua equipe agrupava essencialmente dois grupos de práticos. como para os que mantêm um engajamento político ou sindical – não implica apenas na abolição da propriedade privada e na planificação centralizada. do psicodrama analítico etc. que a passagem ao socialismo – para os que são antigos militantes decepcionados com a estrutura e o funcionamento das organizações operárias. das formas de autoridade. os limites das ações de intervenção. A outra continuava a realizar. mas também em uma transformação cultural profunda. são mais relacionados aos dados locais – e/ou à natureza do regime capitalista – do que ao próprio princípio da tentativa. que essa transformação das relações sociais em direção à verdadeira democracia e à liberdade passa também por uma evolução das pessoas. mas pensamos que os problemas sobre os quais trabalhamos se colocam também nos regimes não capitalistas.R. Os anos sessenta No momento de criação da A. as formas pelas quais as correntes políticas que falam em nome do Marxismo denunciam toda ação psicossociológica como antioperária são tão radicais e violentas que não facilitam um verdadeiro trabalho de crítica interna. em uma empresa nacional. a 178 . era bem mais claramente marcado pelas atividades que ele iria desenvolver. Tenho a impressão de que. O caráter clínico do novo grupo. No momento da criação. mais do que acelerar tal processo. então.Psicossociologia – Análise social e intervenção Além disso. já que tendia a atrasar o momento de manifestação de um conflito aberto.. mesmo se as organizações do movimento operário se recusam a tomar a iniciativa no que lhes diz respeito. aceitamos considerar que o significado político de nosso trabalho era reformista. atividades de formação psicossocial no nível de dirigentes e intervenções em unidades regionais. Uma dessas equipes saía do organismo de consulta onde ela trabalhava em ligação estreita com engenheiros organizacionais. Mas a organização e a animação de estágios do tipo Grupos de Evolução. nessa época.P. (1959).I. Da mesma forma. não poderiam ter lugar no interior de uma empresa nem ser tolerados em um organismo cuja vocação continuava a ser a organização científica do trabalho. utilizando os métodos derivados do Grupo T de Bethel. das estruturas organizacionais e que não é cedo demais para uma reflexão e experiências sobre esse tema. que algumas vezes demoram a ser identificados e que em outros casos surgem subitamente.

outras vezes apenas três psicossociólogos. uma longa intervenção em uma empresa implanta. alguns membros ficam completamente ocupados com análises (grupos semanais de psicodrama.P. grupos abertos de análise etc. e ainda agora.-C. Os seminários derivados do Grupo T e cada vez mais marcados pela abordagem psicanalítica tornam-se objeto de discussões sérias e de diversas publicações.). de sociologia das organizações. a proporção era aproximadamente de nove décimos. neles. até 1966 (marcado pela vinda de C. HERBERT.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica proporção de membros que tinham buscado uma cura analítica pessoal ou tinham-na já terminado. A organização e a condução de seminários representa.6 No começo dos anos sessenta. se podemos dizê-lo. os grupos de evolução tendem a aumentar sua duração e a priorizar. algumas vezes mesmo de introdução à economia. de metodologia psicossocial. durante todo esse período. trabalhos mais próximos de uma orientação sócio-pedagógica são conduzidos por outros membros da equipe: queremos dizer que. reunindo às vezes toda a equipe. terapeutas ou analistas. do sócio-técnico e mesmo do econômico. feita dentro de uma perspectiva de estudo de problemas. atuando diretamente no campo. a continuidade no tempo. era de um terço. antigo membro do Tavistock e primeiro tradutor de BION na França –. sobretudo as publicações de Max PAGES e de J.I. de formação de adultos. ROGERS à França e a descoberta (ou a confirmação) da distância nos separando desse autor. reduz-se ao trabalho de perlaboração de fenômenos afetivos coletivos e. A orientação não diretiva. esse esforço produzirá apenas resultados parciais (cf. tanto no plano teórico e ideológico quanto prático). dez anos depois. a metade já era. o registro de sessões é feito num programa de pesquisas que permanece dividido entre as perspectivas experimentalista e clínica: a despeito de numerosas reuniões de trabalho que balizam todo o processo. de inspiração rogeriana. a metade das atividades da A. Ao mesmo tempo em que os estágios se diversificam em direção a questões de pedagogia. em lugar de fórmulas intensivas concentradas em cinco ou dez dias. ou iria finalmente se tornar.7 Paralelamente. ou mesmo com um ponto de vista adaptativo mais claramente afirmado. tenta-se trabalhar na articulação do psicossociológico. desde 1959 (data do primeiro seminário de longa duração). malgrado a influência já sensível da Psicanálise – incluindo as abordagens britânicas introduzidas desde o primeiro ano pela presença de L. uma estrutura de análise de grupo no seio de um subconjunto da sociedade. dominou os primeiros anos de funcionamento. a referência a uma pedagogia ativa e ao lugar ocupado pela animação dos grupos. ROUCHY). Essa evolução está ligada também à da clientela desses 179 . nesses.R.

Mas creio que é necessário evocar também. em 1961. Entretanto. a integração. movimentos educativos.R. por volta de 1965. embora o número de intervenções de longa duração permaneça sempre reduzido. para explicá-lo. junto a organizações com função econômica.E. mesmo quando a freqüência a estágios pelos diretores permanece relativamente estável. de psiquiatras e de psicoterapeutas. os números especiais de Arguments sobre a Autogestão. a participação de um número crescente de membros da equipe no ensino universitário ou na pesquisa. é uma intervenção no México. o despontar do clima de consenso nacional que marcou o período de reconstrução após-guerra e.I. Psicossociologia e Política etc.P. intervirão na Itália (sobretudo na Fundação Agnelli) e ajudarão na constituição de uma associação de psicossociólogos italianos com os quais a colaboração prossegue. denomina-se “psicossociológica”) ou às de certos meios intelectuais (cf. institutos religiosos e hospitais psiquiátricos. os anos 60 conduzem uma parte da equipe a intervir no estrangeiro. de padres e religiosos. que o trabalho em meio industrial acusa uma redução contínua. de estrangeiros francofones (Maurice JEANNET na Suíça. sua ambivalência ou seu ceticismo com relação a demandas susceptíveis de provir desses meios (que se traduzirá depois de 1968 inclusive no domínio da formação permanente). o fato de que certas bases ideológicas discerníveis na constituição da própria disciplina psicossocial se articulavam às do movimento estudantil que iria explodir em 1968 (assim. que inova a metodologia que será a da intervenção em GeigyFrança. o que reduz o potencial de intervenção do grupo etc.). 180 . diversos membros da A. Paul NINANE na Bélgica) está ligada a atividades em empresas desses países. as condições ideológicas próprias da França. a tendência que iria colocar a maioria no seio da U.N. junto a um Centro de Produtividade. de maneira ainda mais geral. na equipe. por exemplo. de trabalhadores sociais. a guerra da Algéria. É certo que umas tantas razões podem explicar o fenômeno: as opções tomadas pela equipe (sua orientação mais clínica. os últimos anos da revista Socialisme ou Barbarie. a demanda se estende a associações. Ao mesmo tempo.Psicossociologia – Análise social e intervenção estágios incluindo cada vez mais uma proporção maior de professores. desenvolvimento organizacional).F. sua recusa em fazer pesquisas de mercado. É sobretudo na França. então. de atendentes.8 Isso quer dizer que as demandas provenientes de meios industriais diminuem. durante vários anos. em Paris. sua atitude crítica com relação à escola lewiniana e póslewiniana: mudança planejada.

Embora alguns dentre nós víssemos. por pesquisa-ação entende-se aqui projetos integrando uma dupla perspectiva (heurística e de mudança) na realização de uma intervenção 181 . com os quais a A. uma direção susceptível de provocar. ao contrário. como o fazem os indivíduos ou os grupos. experimentamos a desilusão de constatar que o que nos parecia ser bem mais que uma revolta cultural. Antes de prosseguir no desenvolvimento desse último ponto.as atividades de caráter clínico se tornam cada vez mais especializadas. por parte da instituição.E. vivemos os acontecimentos de maio como uma “intervenção”. nas ações de movimentos como a F. simultaneamente política e cultural. por meio de atividades do tipo intervenção psicossociológica. que o reconhecimento desses esforços pelos autores da nova lei de orientação significava antes uma oposição à mudança. a todos os tipos de temas presentes de maneira mais ou menos explícita no projeto psicossociológico e. no domínio do Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho.. antes de 68. trabalhava desde 1964.V. enquanto o projeto previa a multiplicação de intervenções em todos os estabelecimentos onde uma proporção suficientemente grande de professores já estava comprometida com um trabalho de evolução a nível de sua sala de aula.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica 1968 e depois Como tantos outros. como muitos outros. dentro de certo prazo. . mesmo que modesta. As instituições não se analisam.N. que dava uma direção totalmente imprevista. uma evolução global do sistema educativo.10 .9 evoquemos ainda alguns aspectos da evolução da equipe desde 1970: . consideradas em seus papéis sociais e modos de inserção. a tendência foi retomar atividades de formação visando a uma mudança pessoal. centrando-se na evolução das pessoas. ao considerarem suas relações e vida psicológica. por exemplo. através do desenvolvimento de ações locais.O. um “movimento revolucionário sem revolução” (TOURAINE). mas também a abandonar a esperança de analisar a instituição. desproporcional a tudo o que poderíamos ter esperado desde a Liberação. Limites e impedimentos percebidos no confronto com a realidade das instituições levam não apenas a renunciar a produzir uma mudança global.E.integração de novos membros trabalhando em disciplinas diferentes ou praticando abordagens diferentes.R. que a “Comuna Estudantil” (MORIN) ficou sendo uma “revolução antecipada” (CASTORIADIS). a despeito de sua repercussão no conjunto do país.elaboração de projetos de pesquisa-ação. não desembocou no político.I.P. o período que se seguiu a maio mostra. de uma audácia espantosa.

. ele participa desse clima de consenso que marca para nós o período após-guerra. noções como transferência e contratransferência não podem ser transpostas da Psicanálise para a análise social.nos anos que se seguem à Liberação e. Esse último aspecto leva à questão mais geral. durante os quinze primeiros anos (de 1948 a 1963). parece que se pode observar uma volta a uma representação mais próxima da do início. na prática. no campo social. progressivamente. em especial lacaniano. seu modo de intervenção refere-se cada vez mais ao modelo da relação de consulta saído da psicologia clínica e sobretudo da prática psicanalítica. sob a influência do pensamento psicanalítico. da mesma forma que o desejo de curar o paciente no tratamento individual (a cura.12 . ou “indutor de mudança”. sem dúvida. 182 . o psicossociólogo considera a si mesmo como um ator social participando da vida econômica. devendo ser afastado ou suspenso.11 Estudando (por três vezes: 1963.Porém.Psicossociologia – Análise social e intervenção cuja iniciativa é tomada pelo psicossociólogo e não pelo agente de uma demanda de consulta. afastando-se dela em seguida. no plano das idéias. até o começo dos anos 60. a ROGERS ou mesmo a certas posições políticas saídas do trotskismo (cf. exigindo um esforço de abstração não só da situação específica na qual o prático das ciências sociais se encontra. mesmo quando se esforça em separar seu papel de cidadão e militante de seu papel profissional. a “socioanálise” ilustra. bem problemático. como dizem alguns dentre nós retomando o termo utilizado por LEWIN e seus alunos. 1972) o trabalho de JAQUES na Glacier Metal. ou melhor.A partir dos anos 60. “agente de mudança”. todo ponto de visto adaptador – ou contestatório – parece-lhe antinômico a uma verdadeira atividade elucidadora. mas também de seu objeto de trabalho. parece-me que. ou quando se sente mais um agente de estudo e pesquisador. relativa ao modo de implicação social do psicossociólogo. 1967. benefício a mais). tende a se ver como um analista com funções de elucidação. mesmo quando. e permite resumir um aspecto da evolução que me parece importante: . quando as referências à pedagogia ativa. ele deve ser buscado em outro nível. relativo primeiramente à natureza das relações sociais. Como o mostra André LÉVY. ele arriscava ocupar o lugar de ideal do eu. se há na obra freudiana um paradigma relevante para a sociologia clínica. no último período. o grupo Socialismo ou Barbárie) começam a ganhá-lo. O modelo do analista pareceu sempre. tal opção.

ou satisfazendo o próprio exibicionismo. ou que se tenta ocupar. habitualmente caladas e cuja expressão pode ser psicologicamente difícil. que ainda me parece pertinente para caracterizar tal abordagem. Toda intervenção psicossociológica. ação que é também uma intervenção que não pôde atingir suficientemente seus objetivos e cuja existência – e fracasso – 183 . pertencente ao campo estudado. nunca é independente. sobretudo. tendo em vista sua própria história. ao que lhe é atribuído e que ele recusa ou aceita. a esse respeito. Se ele se encontra em uma posição menos central. Simetricamente. porque ocupa. comparáveis à função que têm na situação dual – ou grupal – de uma cura. A expressão pesquisa-ação. lugar onde se está. nem a se considerar parte da ação. toda pesquisa-ação – quer seja resposta a uma demanda ou resulte de uma iniciativa do prático – tem sempre como origem uma outra intervenção de qualquer natureza – psicossocial ou não. por exemplo. sob pretexto de dar a reconhecer àqueles junto aos quais intervém o direito de saber quem lhes fala e de que matéria são feitos os agentes de intervenção. a posição de médico chefe em um estabelecimento psiquiátrico – e é evidente que tal lugar induz uma relação social que se encontra primeiro na realidade antes de poder ser situada no espaço imaginário que reproduziria uma relação vivida em outra parte. por exemplo. é sempre ligada a uma ação que a precede ou que a engloba. presente nele. os fenômenos transferenciais não são mais da alçada da análise. no campo. uma posição de autoridade ou de poder totalmente particular – por exemplo.Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica O analista pode esperar. como pesquisador ou consultor social. é certamente oposta à acepção lewiniana. ainda menos a revelar coisas a respeito de si próprio. se tornar o objeto privilegiado dos fenômenos transferenciais de grupos e coletividades. cedendo a pressões de que se é objeto. e. com todos os riscos que isso comporta. A consideração da implicação parece-me aqui se situar primeiramente na análise do sistema de lugares. considerar sua implicação não se reduz a procurar saber quanto a situação lhe diz respeito. que faz com que se seja chamado e que se responda a tal apelo etc. Essa consideração sobre a implicação do prático (ou sobre lugar daquele que solicita algo no campo onde ele próprio se encontra e sobre as relações que ele mantém com os outros agentes do sistema. na referência ao próprio lugar ocupado.) conduz-me a propor nesse parágrafo uma última observação. O trabalho de Jeanne FAVRET-SAADA em Bocage13 parece-me representar. um esforço exemplar para tentar extrair da Psicanálise um paradigma epistemológico relevante para um trabalho sociológico.

no sistema de intervenção que a gerou? Caso se despreze essa origem. “Dire la loi. 13 Les Mots. 9 Cf. seu vice-presidente. Paris: Dunod. sobretudo quando estão absorvidos em seu novo trabalho. no qual são avaliadas as transformações das práticas psicossociológicas nos últimos 10 ou 20 anos (N. acontece até que os agentes de intervenção – e os grupos junto aos quais eles intervêm – perdem facilmente de vista essa relação. Intervention et changement dans l’entreprise.E. 1971. “Une intervention psychosociologique dans un service d’hôpital psychiatrique”. 1972. In: Fondation Royaumont. contra.P. Sociologie du Travail. 1963. Le psychosociologue dans la cité. que era animada por Jean MILHAUD e Noël POUDEROUX. o capítulo “Variantes de la cure-type”. ou quando o utilizam para esconder os acontecimentos que provocaram o processo. quatro anos depois.O. de forma mais livre. por Marília Novais da Mata Machado. a partida de Max PAGES. Ecrits (por exemplo. Notas 1 Traduzindo de: DUBOST. 2. nunca é fácil elucidar completamente a natureza exata da relação.T. LÉVY. n. Paris: Payot. n. “L’intervention psychosociologique dans l’entreprise”.G. ou mesmo depois de terminar. com universitários como Georges FRIEDMANN. 2 3 184 . 806. L’intervention institutionnelle. ROUCHY em Connexions. les Sorts. esse organismo tinha então relações estreitas com o I. 8 Cf. 1980. n. 3. não se pode. 4 Cf. Connexions. sobre. 857. de 1955). Association pour la Recherche et l’Intervention Psycho-sociologiques. 1969. por exemplo o artigo de J. 1304. n. Uma boa parte do problema do significado que vai tomar uma intervenção psicossocial está na relação que ela manterá com aquela que a precedeu: é ela intervenção para (a serviço de). de PERETTI. la Mort. Continuando. meu texto de introdução em Elliott JAQUES.”. Gallimard. desde sua criação. 5 Compagnie Générale d’Organisation.).-março. e de A. 17.F. A C.-C. jan. 1331. 10 Cf.S. mais recentemente. LEFORT em Eléments d’une critique de la bureaucratie. 1977.. presidido por Jean STOETZEL e. 12 Cf. a retomada recente desses textos na coleção 10/18 (Nos 751. Jean-Claude ROUCHY. 1972.. 825. sobre esse último ponto.. 1332 etc.Psicossociologia – Análise social e intervenção tenta-se mais ou menos claramente esconder. 1303. p. André. Les paradoxes de la liberté dans un hôpital psychiatrique. 6 O distanciamento progressivo com relação à corrente rogeriana provocou. evidentemente. André. 1978. “Une intervention psychosociologique”. 11 Cf. 50-68. n. 7 Max PAGÈS. LACAN. mas essa observação sugere uma pista de trabalho a seguir desde o início. Épi. responder a essa questão.) e dos de Cl. Psychosociologies. 29 de Connexions. 29 (Vers une psychosociologie psychanalytique). 1980. 1967. Connexions. In: ARDOINO et al. secretário geral da associação. Jean e LÉVY. “L’Analyse social”. Paris: Epi. J. Droz.O.

através das contradições de suas condutas profissionais. bem ou mal resolvidos. 185 . à maneira de se definir diante dos conflitos de todo tipo. como Jean-Claude ROUCHY2 propõe. a experiência adquirida tornou os psicossociólogos mais prudentes. quando é apenas verbal. permitindo esclarecimentos progressivos. tem qualquer coisa de suspeita. porém. pela fidelidade a alguns princípios e valores essenciais – em resumo. Tal afirmação. Parafraseando HEGEL. tudo isso não me leva a entregar-me ao prazer da renúncia doutrinária e da autocondenação. uma vez sustentada pelas pulsões de morte. sobretudo porque permite aos que a enunciam afirmar sua superioridade sobre os que vivem diretamente essa negatividade. Porém. Porém. Esclarecer sua posição em relação às situações. renunciei às ilusões da mudança social planejada ou ao otimismo rogeriano com relação aos homens e aos grupos. Tomaram consciência da enorme distância que existe entre a complexidade das situações e suas metodologias e teorizações. freqüentemente ocupa o lugar de uma elucidação das diferenças teóricas ou dos postulados epistemológicos. descobri como essa mesma crença pode ser suspeita. sobredeterminado por uma profunda lógica. mostrar seu itinerário3 sinuoso e. há muito tempo. esses ainda são muito relativos.INTERVENÇÃOCOMOPROCESSO1 André Lévy Se as diferenças entre as diversas correntes da Psicossociologia se afirmaram e se aperfeiçoaram nos últimos anos. entretanto. além disso. está na moda hoje celebrar a importância do “trabalho do negativo”. pelo desprezo e pelo ódio que ela tenta conjurar. mesmo que artificial. à crença em sua positividade fundamental e. No que me diz respeito. o agravamento de diferenças doutrinárias ou ideológicas. devido a fatores circunstanciais e à necessidade de se criar uma identidade visível ou uma demarcação. “dar conta de sua prática” – é uma tarefa cada vez mais difícil de ser feita seriamente.

penso que uma atitude voluntária e falsamente objetiva. leva-me. com freqüência. diretamente. nos quais os conflitos e as contradições são trabalhados concretamente por cada um. mas ainda assim tem acesso ao real apenas por intermédio de estruturas hierárquicas de poder. Mas tal metodologia ainda depende em excesso do modelo epistemológico da pesquisa científica. pode ser apenas uma máscara para o desprezo profundo com relação ao outro e representar apenas ações tecnocráticas a serviço de um desejo de poder mais ou menos oculto. a reconhecer. o que lhe dificulta acomodar-se a uma perspectiva com caráter analítico e chegar a resultados diferentes da atividade decisória. ou mesmo a um nihilismo. feito paulatinamente com grupos relativamente pequenos. Embora com uma posição totalmente diversa da de ROGERS. a intervenção psicossociológica foi associada a essa metodologia. diferentemente das ações de formação e de pesquisa. científica. As práticas de intervenção. As tomadas de consciência. Ela repousa. fundamentalmente. no postulado de que o conhecimento representa um valor ou um bem e que sua conquista é um elemento determinante de uma estratégia de mudança. mais lúcida ou. aos grupos de pessoas em seu devir coletivo. no mínimo. ainda hoje.Psicossociologia – Análise social e intervenção O essencial de minha atividade de interventor está centrado em um trabalho psicológico. um processo de feedback dos resultados e acarretando um trabalho de interpretação e resolução coletivas dos problemas evidenciados. desapaixonada. Durante muito tempo e. as aquisições de conhecimento ou de compreensão resultantes do trabalho analítico que se desenvolve nesse contexto têm sentido apenas em função de seus efeitos concretos na história do grupo.5 as primeiras intervenções psicossociológicas conhecidas. cuja meta é a transparência cada vez maior da organização. na França. face a face. longe de chegar a um ceticismo. reciprocamente. Toda a minha experiência. ela desconhece 186 . ao contrário. cada vez mais claramente. ela é. em relações diretas. visavam a compensar os efeitos objetivantes e idealizantes da pesquisa. diferentemente lúcida. dizem respeito. penso que só é possível realizar um trabalho que valha a pena com grupos e organizações quando se tem um interesse afetivo verdadeiro pelas pessoas que fazem parte deles4 . junto aos grupos envolvidos.6 por esse rótulo. instituindo. Como evocado por Jean DUBOST nas páginas precedentes. o significado da análise (no sentido freudiano) em grupos e sociedades humanas. sem dúvida.

caso contrário. data de 1972. seu amigo. por sua vez. sobretudo. de outro lado. O fato de escutar cada pessoa isoladamente. cuidando. A reunião desses diferentes objetos na análise. fomos conduzidos a distinguir diversos discursos concorrentes. implicitamente. a colocação de todas as entrevistas em um mesmo conjunto. Mas tomamos uma série de precauções para garantir que tal pesquisa não bloqueasse o processo de análise coletiva ao qual pretendíamos chegar. de forma alguma.Intervenção como processo não apenas que o acesso ao saber não é um simples problema técnico. melhor coordenação administrativa. em determinado momento. então. esclarecimento das funções. que. ainda se tenha que demonstrar essas ilusões. quase narrativa. uma única vez. supõe. supõe que seu pensamento possa ser “apreendido” e resumido a um objeto – o objeto-entrevista. considerado como um diagnóstico e. reequilibro do poder em favor da produção e mudança de atitude do proprietário. Cada uma dessas representações era formulada de maneira muito coerente. que a técnica só tem pertinência e eficácia quando é susceptível de ser mobilizada em situações e relações concretas. mas.7 A última intervenção da qual participei. Porém. apropriada para demonstrar as bases sólidas das soluções preconizadas: adaptação dos antigos dirigentes a novos mercados e às novas tecnologias. criando condições para que um início de confronto entre os membros da organização fosse feito durante nossa pesquisa e por ocasião de seu relato. de um lado. com vistas a decisões e ações. é apenas um simples instrumento ideológico. Para dar conta das clivagens existentes entre as diferentes maneiras de se representar a empresa. 187 . Tal metodologia induz. ela implica na reificação de palavras em “dados” de informação. cada um se referindo ao passado da empresa para explicar. de uma forma histórica. de quem dependia bastante. à expectativa de uma objetivação e de uma organização dos problemas. seja possível uma leitura vertical da expressão coletiva.8 Fomos obrigados a efetuar um levantamento de dados como primeira etapa de nossa intervenção. De toda forma é surpreendente que. 35 ou 40 anos depois de LEWIN. isto é. pois a direção da empresa fazia disso uma condição. que se considere cada entrevista como um objeto isolado. tais precauções foram vãs: a metodologia de levantamento pressupõe. que adotava aproximadamente esse modelo. com efeito. que nosso relatório (que seria comunicado a todos) não pudesse ser. visto como ligado demais ao responsável comercial. permitindo seu tratamento e sua captação ulterior. os problemas atuais da empresa.

teria sido preciso fazer de conta que achávamos que era suficiente. uma crise ideológica – mais aguda ainda por se desdobrar em uma crise de poder. em outras palavras. sobretudo. traduzia também. A perda da esperança acarretou. impondo uma interpretação única da realidade na qual uma parte do grupo se reconhecia. a esperança de se chegar a reuni-los em um único discurso e de se resolver assim o que era vivido por todos como uma crise de sentido. excluir de cada expressão o que a tornava particular 188 . à medida que cada discurso. no limite. o término definitivo da intervenção e a renúncia ao trabalho de grupo previsto (malgrado uma preparação inicial já feita para a constituição de grupos). e de passar assim. algumas vezes insuportável para uma parte do grupo). e. surgiu como a expressão totalitária de um lugar de interesses específicos na empresa. cada um estruturado segundo sua própria racionalidade (econômica ou tecnológica. A esperança desfeita era também a de uma comunidade no seio da qual as contradições e as oposições se resolveriam por si mesmas. O que era então uma realidade contraditória e clivada foi transformado em pontos de vista divergentes. repousando sobre pressupostos certamente divergentes. que pressupunha a possibilidade (ao menos para nós) de escutar e compreender todos os discursos. organizacional). então. complementares. para apreender a “realidade”. um de cada vez. Uma outra análise de conteúdo dos dados de pesquisa teria sem dúvida evitado esse desenlace.Psicossociologia – Análise social e intervenção Entretanto. a ausência de uma referência única traduzia-se no sentimento de um poder diluído e inapreensível. a coexistência desses diferentes discursos. e sobretudo. enquanto que os outros tinham o sentimento de serem. sem dificuldade. de um a outro. como se esperava de nós. negados (o que se traduziu em movimentos diversos durante a leitura. porém situados no mesmo plano. teríamos de apresentar cada discurso como se fosse a expressão parcial de uma mesma realidade objetiva. inevitavelmente. A pesquisa havia fortificado essa esperança. expondo cada um com a mesma objetividade. particularmente por meio de nosso relatório oral. Mas teria sido preciso que assumíssemos pressupostos contrários à nossa posição: teríamos de nos esforçar para articularmos o discurso comum. Tais implicações se tornaram muito claras durante a leitura e a discussão de nosso relatório: a esperança de um discurso único dissolveu-se logo. mas potencialmente articuláveis entre si. Em outras palavras. reconstituído graças a nossos cuidados. ideológico-afetiva.

ao contrário. pois o “real suposto” de cada discurso é concebido como uma parcela. de uma explicação geral.Intervenção como processo (subjetiva demais. no mínimo. isto é. embora imperfeitamente. segundo a qual apreende-se melhor a “realidade” quando se somam diferentes visões que se pode ter dela. então. a um princípio de tolerância de pontos de vista diferentes. associa-se necessariamente à busca de um sentido. levando a acreditar na reunião imaginária dessas representações divergentes. ações ou decisões (saber para). Tal é o contrato implícito do levantamento de dados. é a função das representações. o fato de serem recuperadas em um discurso único leva a crer na possibilidade de ultrapassá-las ou. mas se apresentam como um saber sobre – saber ou sentido cuja função principal é a de fundamentar. qualquer que seja a maneira como é conduzida. não aceitamos seus pressupostos. a partir de diversos “pontos de vista”. assim. o levantamento inscreve-se necessariamente no projeto de dar um sentido. em seguida. assim. o levantamento de dados. 189 . sabemos. Essa experiência possibilitou-nos. por menos que ela fosse levada a sério e que se tentasse compreendê-la. a pesquisa contribui. o “real”. Mas essa crença implica na possibilidade de apreender diretamente. o que poderia completar e “enriquecer” o discurso comum – e tanto pior (ou tanto melhor) se certos discursos parecessem mais “objetivos” que outros. estão na base de toda sociedade “harmoniosa”. Mesmo quando as contradições são explicitadas e acentuadas. Longe de favorecer um processo de análise. desejaríamos. em contrapartida. para o recalque: primeiramente. desconectados das condutas e estratégias. como uma palavra destinada a ser perseguida e retomada. articulá-las. que cada discurso fosse reconhecido como expressão real de um vivido. excessiva demais) e conservar. legitimamente. que não se reconhecem como um discurso. constrangidos. cujos pressupostos “científicos” kantianos simplesmente traduzem de outra forma essa crença do senso comum. perceber o quanto a prática da pesquisa. escutada ou recusada. Gostaríamos também de compreender como essa palavra poderia testemunhar o lugar ocupado pelos que falavam e o que lhe permite ser mantida. transferindo para o pensamento as clivagens e contradições resultantes das divisões intra-organizacionais (particularmente da divisão do trabalho). reduzidas a enunciados fechados. Essa crença conduz. aliada à consciência da relatividade de cada um dos princípios que. Mas se aceitamos. em discursos que as pessoas expressam.

O obstáculo mais sério a uma “Psicanálise de grupo” é a impossibilidade para o “analista” de se constituir como um terceiro. com efeito. na qual o imediatismo do risco é sensível. se articulam e se transformam. esses processos não podem ser compreendidos nem podem evoluir. nem que seja por estar associado apenas temporariamente ao grupo e por buscar objetivos diferentes. essa só pode. a negação dos conflitos e das clivagens e o desenvolvimento de uma relação normativa e pedagógica falsamente denominada de analítica. sua posição de exterioridade é apenas relativa. 190 . esse não é o mesmo feito no quadro da cura individual. mas. ser feita em uma experiência de comunicação. como lugares privilegiados de análise: constituem o que forma a espessura do social. Porém. de considerar análogos seus quadros e settings respectivos. no sentido pleno do termo. na qual uma resposta instantânea. falar de análise social em situações de grupo nas quais os sujeitos podem inserir. pode ocorrer. sob forma falada ou atuada. Os processos sociais não se reduzem evidentemente ao que pode ser apreendido nos grupos face a face.Psicossociologia – Análise social e intervenção Então. instituídos. Crítica da Psicanálise aplicada aos grupos Não me deterei aqui nesse assunto complexo. então. Os grupos face a face aparecem. a fim de aplicá-lo aos grupos e organizações. de comparar particularmente as relações de transferência/ contratransferência entre um psicanalista e um analisando com as relações que se passam entre um ou mais interventores com um grupo ou organização. enunciados interpretativos que fazem sentido para eles. tendo acumulado experiência de análise de grupo por 15 ou 20 anos. este é o seguinte: se um certo trabalho analítico pode ser feito nos grupos. reciprocamente. colocando em jogo pessoas em sua integridade intelectual. se há um resultado do qual estou seguro. A não ser que se idealize o processo de análise social. Só é possível. a opacidade de uma palavra que não se reduz a um conteúdo e nunca coincide perfeitamente com os discursos construídos. só pode ter um resultado: o recalque da palavra. embora ele ocupe incontestavelmente uma posição especial. independentemente das maneiras como se atualizam. O fato de querer transpor as regras e as técnicas da Psicanálise para a análise social. moral ou corpórea. reproduzidos em lugares separados do lugar e do momento de sua emissão. então. na enunciação. é grande a tentação de abandonar o modelo heurístico do levantamento e recorrer ao modelo psicanalítico.

o mesmo não se passa nas relações com um grupo cujas identidade e unidade são definidas arbitrariamente. “fenômenos” abstratos de “grupo” em geral. por exemplo). do não agir. e o desenvolvimento de uma relação entre os dois sujeitos – analista de um lado. pois variáveis da mesma natureza condicionam seu lugar e o dos outros membros. cuja existência ele postula (ou mesmo contribui para estruturar). no próprio ato que o institui como analista. caracterizados ainda por serem uma realização do fantasia do animador-genitor. mas relações de transferência. isolados de toda historicidade. Não desenvolverei aqui o que já escrevi anteriormente10 e que me levou a concluir que esses grupos não poderiam ser outra coisa senão situações de aprendizagem disfarçada. material ou simbólica. pois tal afirmativa não se refere a uma diferença irredutível – física. tudo se passaria diferentemente se fosse possível situar os grupos ou as organizações “naturais” definindo suas fronteiras e sua história. isso é apenas uma petição de princípios. ele se insere no mesmo sistema de alianças. desde o início. uma vez que. Se isso é possível nas relações de pessoa a pessoa. A própria expressão “transferência do grupo” ou “transferência institucional” parece-me um absurdo ou até mesmo um embuste. por parte do analista.Intervenção como processo Qualquer que seja o discurso que ele mantenha a respeito de sua independência ou suposta neutralidade. apontando que um dos limites da análise social era a necessidade de um poder no qual o lugar do analista pudesse se apoiar – poder cujo exercício é contraditório com todo trabalho analítico. Podem ocorrer aí fenômenos de deslocamento ou de projeção com relação ao interventor. Nas situações de intervenção. O analista não pode estar em uma situação de exterioridade radical relativa ao grupo ou à organização. com a participação do analista-interventor. o respeito à regra de abstinência. estratégias. grupo do outro. das quais necessariamente é parte. essas relações implicariam particularmente. 191 . pressões. Tudo isso aparece claramente nas situações de formação (grupo de diagnóstico. corpo a corpo. FREUD9 já havia destacado essa dificuldade. em função de uma “demanda”. cuja existência postulada como objeto transferencial (desejante) é necessária para instituí-lo como analista. no sentido preciso desse termo. não podem ser estabelecidas ou desenvolvidas. cuja existência depende inteiramente do ato fundador (programa) do analista e do seu reconhecimento pelo “grupo”.

preso em diversas alianças (que ele aliás nunca pode recusar totalmente sob pretexto de uma neutralidade ilusória). ser tentado a definir um quadro de trabalho análogo ao de uma situação de formação. ele elimina. Mesmo com a ficção do “grupo em análise”. concebidas de maneira a assegurar seu lugar como analista de fantasias inconscientes. ele continua a atuar como uma instância organizacional (uma equipe. então. fora da situação de análise. sua redução a dimensões interpessoais ou a fenômenos grupais gerais. tendo que tomar decisões e executá-las. o grupo ou equipe como unidade diferenciada. assim. O interventor pode. de termos como o “grupo” ou a “demanda”). realizando coletivamente transferências para o mesmo analista. não unificada.13 mostrei que a modalidade de pagamento de meus honorários. ele encontra claramente os limites que evidenciei a respeito do grupo de diagnóstico: a psicologização do conflito. Reconstruindo de forma fictícia tal situação. por antecipação. tendo uma existência e uma história separadas (pelo emprego. por exemplo. graças às relações de “transferência” que se estabelecem e se desenvolvem entre o grupo e ele próprio. não é o único pólo transferencial em torno do qual se ordenariam e se desenvolveriam as relações susceptíveis de serem interpretadas. traduzia o desejo de tirar 192 . o trabalho sobre as diferentes maneiras pelas quais o interventor tende a ser utilizado em estratégias. seu objeto. essas clivagens e divisões são apagadas na representação segundo a qual todos compartilhariam da mesma demanda de análise coletiva e se situariam de forma idêntica como participantes ou membros do mesmo grupo. isto é. Um dos objetos de análise pode ser. Essas limitações são ainda agravadas pelo fato de que ele também omite a consideração dos efeitos que a instauração dessa situação pode ter tanto para a organização. quanto para as relações internas. um serviço). fragmentada. tudo aquilo que pode fazer a especificidade dessa situação e que a sobredetermina no plano organizacional e institucional. feito diretamente por cada membro da equipe e igualitariamente. no mesmo ato.Psicossociologia – Análise social e intervenção Tentei demonstrar11 que o próprio fato de alguém se definir e se posicionar como analista leva a postular. Em uma intervenção efetuada em um hospital-dia. por meio de regras explícitas e implícitas. Tal crítica da “Psicanálise aplicada” leva-nos a concluir que o interventor tem sempre uma posição de exterioridade relativa. do “aparelho psíquico grupal”. atravessada por clivagens internas e prisioneira de imposições institucionais e econômicas.12 e a legitimar sua interpretação.

essa modalidade se constituía. Um dos resultados. que não se tem de preocupar com os efeitos do trabalho sobre o devir da organização (“sua cura”) ou com as relações internas dela. a composição do grupo pode evoluir. por exemplo. o interventor não está ligado a nenhum grupo em particular. como o fazem certos psicanalistas. o próprio fato de se colocar a questão da avaliação situa o problema em termos que podem ser contraditórios com a significação de uma experiência. como. segundo outras modalidades que não a análise de reuniões (entrevistas.).Intervenção como processo o processo terapêutico do controle institucional da hierarquia. à medida em que o trabalho progride. a presença. mas também para o gozo sexual ou estético. É por isso que. o que vale não só para a análise. assim. especialmente do médico-chefe. a não ser provisoriamente. a enquadrá-lo e a controlá-lo até lhe retirar todo o significado que não coincida com o de uma pedagogia ativa. Certamente. quando o interventor. a congelar o trabalho de análise em um lugar determinado. Se isso é em parte verdadeiro. numa colocação em ato do desejo. Como posicionar tais experiências de acordo com 193 . a desmistificação de certas crenças. Não se pode escapar disso dizendo. o abandono de tabus. mesmo quando essas evoluções se tornam difíceis ou improváveis. institui tal quadro. que continuaria submetido às regras administrativas. essas sendo também pagas pelos doentes e não submetidas ao orçamento do hospital. que a emergência dos conflitos latentes. pesquisaação etc. de uma terapêutica localizada. Como avaliar a intervenção psicossociológica Mesmo sendo possível se defender. Nessa perspectiva. de tornar a psicoterapia autônoma e de acentuar a diferença entre essas atividades e o trabalho das enfermeiras. nunca se pode ignorar totalmente a questão da avaliação do ato profissional efetuado na intervenção psicossociológica. foi então o de evidenciar o caráter ilusório desse desejo de autonomia da terapia e a maneira como ele contribuía para reforçar a divisão do trabalho no seio da equipe no hospital. as resistências internas na organização tendem. o acesso aos processos psíquicos inconscientes são metas que se justificam por si mesmas. e o grupo de suas restrições externas. ele entra em conluio com as resistências. podendo o interventor trabalhar com outras pessoas e outros grupos. merece ao menos uma explicação. por razões que ele gostaria que fossem metodológicas ou de melhor garantia de sua posição. com efeito. Isso permitia assimilar a intervenção a atividades de ergoterapia. paradoxal. do trabalho de análise. observações.

de acordo com eixos orientados. em face à eventualidade de uma ruptura. vivida como o fim ou a morte da organização tal qual era imaginada. um jogo mais livre se torna possível. Com efeito. Tal concepção da análise social implica também a necessidade de rearranjar a idéia que se faz de uma organização. na vida de um sujeito ou de uma comunidade. do pior ao melhor. de uma ruptura com um ciclo de repetições e. Graças a esse vazio repentinamente desvelado. um novo pleno. A questão é: a quê e a quem cada teoria serve? 194 . o acesso a uma história. ao risco. uma certeza a menos. a significação de uma intervenção ou de uma análise não pode ser concebida independentemente do ato de transgressão envolvido e da crise ideológica e política que atravessa a organização e que a questiona. a necessidade de defini-la com conceitos distintos dos utilizados quando ela é captada do ponto de vista do ator. no mínimo. uma questão onde havia uma afirmação. uma certeza a mais. organização é apenas um conceito relativo que se refere a finalidades que variam de acordo com o lugar onde ele foi elaborado e onde ele supostamente é útil. dependente da sua importância para determinadas situações e metas. a da burocracia. a mudança representa para nós.. Em um texto anterior. a da organização científica do trabalho. Não é uma soma. à incerteza. irredutíveis. então. ao desconhecido. uma peça retirada de um edifício em equilíbrio”. toda teoria organizacional é relativa. do negativo ao positivo? E como não o fazer? Assim. antes de tudo. um possível onde havia certeza.14 descrevemos essa experiência como “a descoberta de um vazio aí onde se acreditava haver plenitude. com noções e representações úteis à ação. É por isso que se poderiam analisar significações comparadas: a da teoria das organizações que as vê essencialmente como sistemas de estratégias e de alianças.. Essa se encontra então em seu ponto de ruptura ou. conseqüentemente. para o qual seria necessário abrir espaço e ajustar ao que já estava lá. isto é. centrada nos problemas de produção racional. orientadas para a resolução de problemas e para metas práticas subentendidas.Psicossociologia – Análise social e intervenção coordenadas de um esquema pragmático ou utilitarista. Com efeito. as peças começam a circular. ou como o reconhecimento de clivagens internas. centrada no sistema de regras etc. inclusive nas pessoas. um acontecimento marcado pelo advento. mas uma subtração. do menos ao mais. Nenhuma dá conta de uma “verdade” geral relacionada à natureza da organização em si. O novo que aparece não é.

o que dá no mesmo. enfrentar e ocultar as contradições que vive. Assim. eles reproduzem essas mesmas divisões e contribuem para reforçá-las. são discursos destinados a legitimar.Intervenção como processo A prática de intervenção psicossociológica produz. hierarquizado. o processo de análise não pode. que permite às pessoas implicadas se desligarem da fascinação exercida por seus próprios discursos. permanecem divididos os discursos de representação. Nesse sentido. então. também ela. a análise não alcança objetivamente um real suposto. mas ainda a leva a cair na armadilha do levantamento de dados (para ver ou para saber) ou. mas ao preço de um esforço de simplificação e de redução intelectuais. mas ela própria é uma produção de discursos16 que permite abrir o caminho do grupo a uma história. procurando indefinidamente e de maneira nunca acabada a busca de um sentido. sociológicas sobre as quais a organização se baseia. mas em apreendêlas como discursos incompletos. que representações podem ser consideradas como algo diferente de um conjunto ou de um sistema de idéias e de juízos estruturado. tendo sua própria pertinência. Pareceu-nos. em remetê-las aos lugares de onde são enunciadas e às diferentes formas como cada um. nos quais está subentendida a busca de significações comuns (graças às quais a organização poderia ser apreendida como UMA). com a finalidade de construir referências. Quando se tenta apreendê-las sob a forma em que efetivamente atuam. consistir em assinalar e decodificar as significações existentes. ordenado. uma elaboração teórica a respeito dos processos organizacionais. fornecendo explicações e tornando as divisões e as clivagens organizacionais mais toleráveis. na pedagogia demonstrativa (para fazer saber ou para convencer – postulando que as condutas podem ser modificadas por meio de representações). explicamos por que15 o fato de assinalar e de interpretar representações e fantasias não apenas é insuficiente para justificar uma intervenção. desenvolvendose segundo atos referenciais múltiplos – cadeias de significados freqüentemente contraditórios. com efeito. as ações e as divisões. dar um sentido ao lugar que elas ocupam e atribuir um sentido às divisões espaciais. então. Entretanto. de acordo com a posição que ocupa no sistema de divisão do trabalho. temporais. tenta explicar. Nessa perspectiva. essa é bem a forma sob a qual elas freqüentemente se apresentam. desde 195 . somos levados a percebê-las como séries de discursos entrecruzados. para os outros e para si próprios. são discursos que as pessoas enunciam nas situações em que se encontram.

aliás muito rapidamente. Buscavam essencialmente um “técnico”. que deveria ser. centrado no trabalho do grupo (denominado Comissão da Assembléia Geral) durante todo o período de preparação da Assembléia. nem para ajudar na sua animação nem como observador ligado à Comissão. como condição para aceitarem sua missão. aceitei. dado o mal-estar existente no interior da comunidade. citarei o caso de uma intervenção muito breve. o problema que eles colocavam parecia-me interessante e eu sentia que poderia trabalhar com eles para resolvê-lo. apenas depois do primeiro dia de trabalho decidi não participar de forma alguma. Igualmente. isso não apenas não os inquietou mas.Psicossociologia – Análise social e intervenção que não proponham outro sistema de interpretação superior que. ao contrário. era o sentimento de que não poderia. encarregadas de preparar e conduzir uma assembléia geral próxima. Essa Assembléia Geral deveria ocorrer alguns meses mais tarde. em sua maior parte. talvez tivesse mesmo o inverso. pareceu-lhes uma garantia para realizarem o que se haviam proposto. por sua vez. mas a demanda. em especial. de algumas sessões ao longo de quatro ou cinco meses. Embora eu tivesse trabalhado no passado. sem me sentir comprometido de qualquer forma que fosse com a comunidade e seus valores. reificaria significados. a ocasião da eleição do próximo Conselho ou direção da comunidade. chegamos logo a um acordo a respeito do meu papel. ela pretendia ser. endereçada agora a mim. Depois de uma breve hesitação. A razão de minha determinação. essa não implicação de minha parte com seus problemas ou sua ideologia. intervir nas orientações futuras da comunidade e nos problemas que não me diziam respeito. com pessoas pertencentes a esses meios. por diversas vezes. tanto quanto pude analisála. Ela tomou a forma de uma consulta junto a um grupo de seis a sete pessoas pertencentes a uma comunidade religiosa. não tinha nenhuma afinidade particular com relação a comunidades religiosas. a fuga dos problemas se traduzisse em voto de moções muito gerais e imprecisas. 196 . como ocorrera na assembléia anterior. destinadas a serem engavetadas. Mas as pessoas sentiam uma grande dificuldade. Esclarecemos. pareceu-me simpática. A questão de minha participação ou presença durante o desenrolar da própria Assembléia foi deixada em aberto. A preocupação das pessoas que me procuraram era evitar que. Para ilustrar o que precede. nesse lugar eminentemente político que seria a Assembléia Geral. colocaram a possibilidade de contratarem os serviços de um psicossociólogo. Assim. com interesse e prazer.

que não podia ser perdido. de fato. pela Comissão) como um ponto de transição. em seguida. à noite. por diferentes razões (acentuação da distância entre gerações. eu próprio em relação à Comissão e à Comunidade Tendo visto essas diferentes posições respectivas como extremamente articuladas umas às outras. de um lado. uma Assembléia Geral extraordinária. o lugar deles. em especial durante a eleição do novo Conselho ou Direção. Como cheguei lá. Tratava-se então de um momento que. na história da Comunidade. atendendo expressamente à sua demanda. Como já mostrei. de outro lado. A Assembléia Geral e a Comunidade Essa Assembléia Geral em preparação veio a ser. oposições cada vez mais marcadas entre as diferentes concepções da Comunidade. Para isso.Intervenção como processo Minha participação se limitou então a alguns encontros de um dia ou de metade de um dia com a Comissão. cuja forma seria definida? 197 . à Comunidade em seu conjunto e à Assembléia Geral. Tudo isso permitiu o posicionamento dos respectivos lugares: o meu. era considerado por muitos (ou. no final da assembléia anterior que havia deixado as pessoas insatisfeitas e com o desejo de enfrentar os problemas mais diretamente. parece-me mais interessante examiná-las conjuntamente do que separá-las uma a uma. pelo menos. Ela havia sido decidida no ano precedente. em relação à Comissão e. depois dos debates. isso me parecia necessário para preservar a minha não implicação nos problemas diretamente políticos da Comunidade e para esclarecer as posições da Comissão e minha em relação à Assembléia Geral. dois encontros no local da Assembléia Geral. a fim de ajudá-los a esclarecer o que havia se passado durante o dia e de preparar o dia seguinte. aproximadamente um encontro a cada mês (sempre que ela se reunia em Paris) e. vencimento dos prazos para decisões importantes). se nas primeiras trocas não excluíra a priori uma participação nos trabalhos da Assembléia Geral. A comissão em relação à Assembléia Geral e em relação à Comunidade. em relação à Assembléia Geral e à Comunidade. a Assembléia Geral em relação à Comunidade. decidi depois do primeiro dia de trabalho não participar de forma alguma nem assistir à Assembléia Geral. diversas sessões haviam sido previstas. e enfim.

Psicossociologia – Análise social e intervenção É importante. tendo em vista a Assembléia Geral. Parecia-me. o grupo havia se empenhado em uma tarefa consistindo em reunir todas as informações de que dispunha sobre os pontos de vista e as proposições das diferentes comunidades regionais. pareciam garantir a seus olhos (com uma certa ingenuidade. com amizade e com confiança. ao ver-me reagir rapidamente e com muita vivacidade diante da maneira deles se situarem nessa tarefa. talvez também meu próprio sobrenome judaico. O fato de que eu estava lá como um profissional. a fim de levantar suas opiniões. que essa mesma brutalidade respondia a uma demanda inconsciente da parte deles.P. pertencente a uma organização evidentemente leiga (a A. então. sem dúvida) que eu não buscava nenhum interesse pessoal relativo a seus assuntos internos. eles haviam visitado pessoalmente cada uma das comunidades.I. Espantei-me. Nessa ocasião. esquivando-se dos conflitos e divergências.). as relações entre elas. os textos definindo seu funcionamento. com a ajuda deles. Eu era calorosamente acolhido. sem implicação com o grupo. ao mesmo tempo. evitando toda aspereza. as regras às quais se submetiam etc. Eles absolutamente não procuravam se apoiar em mim. de sair de um estilo de relações muito corteses. que me autorizava a intervir em tudo o que me parecia ir no sentido de evitar problemas e conflitos. tomei conhecimento. a passar sobre elas e a generalizá-las apressadamente demais. da organização complexa da Comunidade: a existência de comunidades descentralizadas na região. examinar o que se passou durante esse primeiro dia: Nesse momento. como um estranho mas não como um intruso. ou mesmo ser influenciados na decisão que deveriam tomar e em relação às suas responsabilidades. Nossas relações começaram igualmente a se tornar mais precisas. então. Apoiando-me no contrato que havíamos feito. Embora a expectativa com relação a mim fosse muito grande – eles estavam bastante prontos a escutar e a levar em conta as minhas observações –. intervim bastante brutalmente para criticar as tendências deles a se esquivarem das dificuldades. 198 . a lista dos membros da Comunidade e as diversas posições sociais entre as quais se distribuíam. o tipo de atividades nas quais estavam empenhadas e as diferenças existentes entre elas – inclusive no plano econômico -. eu próprio me sentia um estranho. parecia-me que não havia confusão entre os nossos respectivos papéis.R.

em última análise. mas representavam também. sem deixar de observar. demonstrei que. sem dúvida.Intervenção como processo No nível do conteúdo. com bastante veemência. Declarei-lhes que não poderiam recusar o poder que lhes havia sido confiado de orientar e contribuir para a organização dos debates da próxima Assembléia Geral. Pareceu-me. em nome de valores democráticos. A maneira como confrontariam e analisariam ou não suas divergências tinha toda a chance de prefigurar o que se passaria na Assembléia Geral. tendências que estavam encarregados de confrontar e esclarecer. relatar o resultado de seus trabalhos e proposições a um Comitê Permanente e 199 . entretanto. Eles aderiram. observei. a meu ponto de vista. Caçoei da maneira como alguns deles justificavam. pelas vontades expressas pela “base”. então. diferentes tendências existentes no seio da Comunidade. encontros mais numerosos do que os previstos no começo. periodicamente.Que ele exigiria igualmente que trabalhassem o funcionamento de seu próprio grupo. com relativa facilidade.Que esse trabalho exigiria muito tempo e investimento da parte deles e. assim. será que eles pretendiam se limitar a estabelecer um simples catálogo de dados de informação e de questões a tratar ou se empenhar em um trabalho de análise da situação a partir desses elementos? Perguntei-lhes em que medida estavam prontos a fazer esses investimentos. mas também político: eles não podiam deixar de influenciar nas orientações que seriam definidas na Assembléia Geral ou mesmo na eleição. para a escolha dos temas que seriam então tratados. O papel que tinham era não apenas técnico. se efetivamente o desenrolar da assembléia geral fosse determinado. declarei-lhes: 1. não eram apenas procuradores de votos e opiniões. 2. para a maneira como os problemas seriam colocados etc. seu papel de porta-vozes puros. que eles deveriam. que eles estavam errados ao se considerarem como simples emissários ou portavozes das comunidades que cada um havia visitado e ao limitarem seu trabalho a um simples cotejo ou colocação em ordem das informações que haviam recolhido. que eu lhes recusava o papel de “técnicos” que atribuía a mim próprio! Analisando o trabalho deles como se fosse um levantamento de dados e uma pesquisa-ação na Comunidade e em seus problemas e analisando a disposição de tratar esses problemas. ao contrário. essa expressão estaria fortemente condicionada à maneira como fora buscada e tratada.

Isso apenas provocaria confusão e a ilusão de que esse objetivo era puramente técnico (um problema de organização e de relações). a de que eu participasse da Assembléia Geral 200 . seria necessariamente confundido com a Comissão. com o conhecimento e o acordo da Comunidade). ao contrário. permitia-me manter meu papel junto à Comissão e permitia à Comissão manter o seu junto à Assembléia Geral e à Comunidade (e. Caso eu participasse da Assembléia Geral. Essa discussão permitiu-me esclarecer meu próprio papel: o de um consultor junto a um grupo empenhado em uma pesquisa-ação na comunidade da qual emanava. isso não excluía em nada minhas conclusões relativas ao papel político deles mas. análise e interpretação dos dados coletados) e políticos (como apresentar e traduzir essas análises em ações). Isso pareceu-me indispensável para diferenciar nossos lugares respectivos de implicação. No limite. exceção feita à maneira como eles se apresentavam na Comissão. Com efeito. O fato de ficar totalmente sem implicação com a Assembléia Geral e seus problemas políticos e táticos. a veemência com que me manifestara no sentido de que a Comissão não evitasse sua implicação na tarefa e assumisse mais integralmente sua missão teve como efeito permitir-me tomar a decisão de recusar uma participação direta na Assembléia Geral (como me havia sido proposto. isso permitiu que eu me situasse como consultor para a Comissão e apenas para ela (naturalmente. com alguma hesitação). isso poderia contribuir para esvaziar a Assembléia Geral de todo conteúdo político! (Quanto à eventualidade evocada em certo momento. Eles funcionariam então dentro de limites relativamente estreitos. Paradoxalmente. tornava-as mais precisas: uma das preocupações deles era a de preparar seus encontros com o Comitê de maneira a evitar se atolarem em problemas menores ou técnicos. o esclarecimento dos problemas e o seu tratamento. colaborando no objetivo supostamente comum de favorecer a expressão e a elucidação dos debates. sem implicar posições táticas e políticas. à Assembléia Geral preencher sua função junto à Comunidade). eventualmente. minha posição com relação à da Comissão e também a da Comissão com relação à Assembléia Geral. esse grupo encontrava problemas que eram ao mesmo tempo teóricos e técnicos (coleta de informações.Psicossociologia – Análise social e intervenção que todas as decisões concernentes à Assembléia Geral próxima deveriam ser submetidas a essa instância.

I.P. para ajudar a tomar consciência de sua responsabilidade (política) e implicação do grupo e de cada um de seus membros. sobre o caráter relativo de exterioridade do interventor enquanto terceiro. com o agravante de tornar a situação ainda mais obscura). formalmente. O termo relativo não deve evidentemente ser compreendido como equivalente ao adjetivo parcial ou imperfeito (relativamente quente. durante um vazio de poder). sobretudo. através de minha inesperada implicação afetiva. mas também de escolha de orientação política. Pode-se aqui recolocar e aprofundar a questão evocada anteriormente. a Comissão constituiria o corpo executivo delas (ela foi aliás. essa era uma proposta que ia no mesmo sentido. entre nós e os membros da Comissão. (Já assinalamos a ingenuidade que consiste em crer.a Comissão era o instrumento dessa vontade política da Comunidade e das comunidades regionais. Deveria representar um tempo de análise coletiva.. o Conselho provisório da Comunidade enquanto durou a Assembléia Geral. c. mas no calor da discussão.Intervenção como processo como observador. judeu) tinham para eles. ficou claro que: a. não em trocas prévias. Mas isso resultava não de uma diferença de natureza.17 A análise que precede sobre nossa posição em relação à Comissão mostra bem o que se deve entender como qualificando uma relação que só adquire sentido em relação a outras. nosso sobrenome (LÉVY) – e o fato de que não tínhamos nenhum vínculo institucional com a Comunidade nem com qualquer organização semelhante – faziam de nós um interlocutor válido para o que se esperava. Devemos acrescentar que esses diversos esclarecimentos de papéis foram feitos simultaneamente. nossa posição profissional e inserção institucional.R. por meio das quais eles nos davam uma referência simbólica. Certamente. até a eleição do próximo Conselho. Assim. membro da A. mas do efeito de sentido que as qualificações (psicossociólogo. isto é. durante o primeiro dia de trabalho. sem direito à palavra. eu era o meio que a Comissão tinha para realizar sua missão e. existente no real.a Assembléia Geral era o lugar político da Comunidade. enquanto as comunidades estavam implicadas nesse trabalho. a partir dessas diferenças em status 201 .quanto a mim. por exemplo): o interventor não é “um pouco” exterior. uns em relação aos outros. ligado à Comissão. b.

relatórios de reuniões. nosso trabalho centrou-se na maneira pela qual os membros da Comissão liam e escutavam os documentos – cartas. às instituições ou às atividades). assim como um trabalho de elaboração de hipóteses interpretativas. de associá-los a opções teóricas ou ideológicas abstratas. Na sua maior parte. fazer com que se ficasse mais tempo examinando detalhadamente os textos. 202 . Esse efeito de sentido. por sua vez. nossa alteridade. lutar para tornar o trabalho mais lento. participado da redação de uma parte desses textos) e sobre a maneira como formulavam. Nesse sentido. entre o que havia sido a última Assembléia Geral e o que seria a próxima. entre as comunidades regionais. que se traduzia em um contrato implícito regendo nossas respectivas relações e tornando possível. e sobre o que pôde ser produzido. que se traduziam em diferentes maneiras de hierarquizar os problemas e de definir as linhas de clivagem ou de oposição (dependentes. entretanto. era “relativa”. entre outros escalões – e. não se produz. entre a Comissão e o Conselho. Não queremos fechar esse exemplo de intervenção sem dizer algumas palavras sobre a seqüência do trabalho que pudemos realizar com a Comissão. a partir desse primeiro dia. estatísticas – que lhes chegavam (alguns dentre eles haviam mesmo. em conseqüência. como membros dessas comunidades regionais.Psicossociologia – Análise social e intervenção e posição social. por exemplo. Foi preciso. esquemas de análise de problemas a serem submetidos à Assembléia Geral. assim. a partir desses documentos. sem que isso excluísse – antes pelo contrário – o fato de que estivéssemos implicados em todo um sistema de relações e sem que isso nos diferenciasse radicalmente de outros membros da Comunidade. suas análises da situação sob forma de textos preparatórios da Assembléia Geral. destinados a serem comunicados à Comunidade. que não visávamos nenhum interesse – ideológico. aliado a uma tendência intelectual de globalizar os problemas. como terceiro. por exemplo – em nossa associação com eles e em nossa implicação em seus problemas). da importância atribuída às pessoas. tornava muito difícil uma escuta atenta do conteúdo dos textos. o desenvolvimento de um certo trabalho. sem que nossa posição social distinta seja associada a outras diferenças no interior da Comunidade – entre os diferentes status sociais. particularmente. Tudo isso. Não é necessário lembrar que esse trabalho tinha representações prévias subjacentes: representações de cada membro da Comissão a respeito do que era a Comunidade e do que ela deveria ser.

diferenciando-se assim daquelas que se apresentavam como produto de uma elaboração coletiva.. na Assembléia Geral. da expressão individual particularizada em relação à experiência geral. Isso implicava o abandono da busca de uma definição geral na qual alguns termos-fetiche representariam de maneira fictícia a unidade da Comunidade e. em seguida.”). por meio desse trabalho preparatório e.. talvez certos conteúdos não pudessem ser expressos senão sob essa rubrica. Fizemos com que se notasse que todas essas expressões tinham em comum serem apresentadas como emanando de uma única pessoa. a principal dificuldade foi a de situar as verdadeiras clivagens. sem dar muita importância. antes da Assembléia Geral e no seu decorrer. segundo os quais as definições da Comunidade. seja o conjunto de atividades –.. mas em relação às diferentes posições ocupadas pelas pessoas e grupos coexistentes na Comunidade – do ponto de vista do dinheiro. suas regras de vida e suas instituições seriam colocadas em eixos – seja a crença em certos valores. o “projeto sacerdotal” ou o “projeto espiritual”).). encontrava-se talvez aí o problema do lugar das pessoas e da experiência individual na Comunidade. que elas estavam marcadas por esse signo: “um padre disse”. aparentemente menores. o que significava não considerá-los? O que se elaborava. interrogar sobre a importância e extensão de certas caracterizações muito apressadas. algumas vezes. 203 . carregadas de subentendidos (por exemplo. seja a coabitação em um mesmo lugar. era uma representação cada vez mais complexa e contraditória da Comunidade. implicava também o reconhecimento e aceitação de discursos múltiplos.18 Um exemplo: havíamos observado que o grupo tinha tendência a considerar superficialmente. Essa dificuldade surgiu durante o trabalho com o grupo. algumas vezes concorrentes e eventualmente incompatíveis. ou mesmo. as cartas que exprimiam uma opinião muito pessoal ou muito particular e as opiniões mencionadas nos relatos como sendo de uma única pessoa (“Um padre disse. da idade. refletindo situações particulares diferentes. sobre palavras fetiches.Intervenção como processo considerando questões particulares. No curso desse processo.. a definição da pauta dos diferentes dias. em contrapartida. da segurança. ou ainda. as questões a serem submetidas a voto etc. sob forma de propostas contraditórias para se organizar o trabalho da assembléia (por exemplo. assim. não em relação a princípios gerais e mutuamente exclusivos. ou de análises feitas em termos de escolhas dicotômicas com base em princípios gerais.

tais questões vão de encontro àquelas que tratamos sob o ângulo das relações entre o analista e o grupo junto ao qual ele intervém. Para concluir. opõe ao desenvolvimento da organização? Ou. além do sentido que as interpretações e tomadas de consciência podem ter em relação a situações específicas e a problemas concretos. de outro. o processo organizacional? A análise é antiorganizacional. de comum acordo. seu rendimento? Ou situa-se em outro plano. reflexivo e crítico. mas seria também um meio de produzir um saber específico a respeito das organizações. a intervenção e o processo de análise que ela instaura e. Mas o conceito de pesquisa-ação (se não o tomamos em um sentido estritamente lewiniano) não corresponde a uma simples relação de dois 204 . de outro. de um lado. permitindo-lhe aumentar sua força. suscitadas por textos formulados de formas diferentes: fazer brutalmente o contraste entre duas opções mutuamente exclusivas e igualmente absolutas – com o efeito provável de impedir toda escolha verdadeira e de criar uma unanimidade factícia sobre um texto suficientemente abstrato para conciliar as contradições (por exemplo. por exemplo: analisar as diferentes funções possíveis de um voto. visto então como desenvolvendo-se em dois planos – empírico e acionador. Nessa perspectiva. de um lado. facilitando a escolha de futuras estratégias. justamente antes de cessar o vazio de poder assumido pela Comissão cujo compromisso fora o de conduzir o trabalho de análise coletiva. ela constitui uma terapêutica dessa última. elas podem contribuir para esclarecer os processos organizacionais em geral. Intervenção e organização Essa última observação permite-nos introduzir uma questão final: que relações há entre. melhorar seu funcionamento. criar uma situação nova. quando aplicado a um processo de intervenção. Uma primeira abordagem da questão é fornecida pelo conceito de pesquisa-ação. permitindo revelar conflitos latentes e facilitando a continuação da discussão. assinalarei que minha colaboração na Comissão terminou. a-organizacional? Bem entendido. a intervenção não se limita a uma prática de mudança cujo único objetivo seria o de favorecer a evolução de uma situação e sua compreensão por atores nela implicados. ao contrário. na véspera do dia em que deveria ocorrer a eleição do próximo conselho. o “serviço concreto do Homem”). fazer uma sondagem.Psicossociologia – Análise social e intervenção Pôde-se assim. isto é.

eram sempre escolhidos em função de interesses particulares e contingentes. isto é. a ação de outro. conseqüentemente. em uma modificação das relações de poder. a perspectiva lewiniana da pesquisa-ação parece-nos limitada pelo fato de não realizar essa revolução epistemológica. a outra concepção da ação e a outra concepção de organização do saber. melhor se fica”. ela também não é. A análise dos limites e das contradições da pesquisa-ação lewiniana desemboca assim em uma crítica epistemológica do saber e da ação e de suas relações recíprocas. o fato de relacionálas é visto essencialmente como o estabelecimento de uma relação de aliança. assim como em reforço das representações da organização como um conjunto sem conflito. ela implica. Com efeito. essas afirmações estão longe de serem verificadas. “quanto mais houver saber. ao contrário. Assim. 205 . entre o quadro experimental de uma estrutura de intervenção e o conjunto do sistema organizacional no qual essa estrutura se insere. sendo marcada pelas concepções tradicionais do saber e da ação. traduzindo-se pela postulação de uma ausência de contradição e de uma complementaridade entre a lógica da ação e a lógica da pesquisa. antes. como alguns às vezes pretenderam. podemos acentuar o fato de que a ação supõe. susceptível de evoluir em direção a uma racionalidade crescente e a uma transparência cada vez maior de seus processos internos (particularmente dos processos de tomada de decisão). à medida que as experiências evidenciavam que os conhecimentos que surgiam. mais a ação é eficaz e pertinente”. como o fato de ignorar as contradições no subsistema da pesquisa. a concepção segundo a qual as ações-pesquisas estariam a serviço do conjunto de uma organização pareceu cada vez mais ilusória. uma dose de desconhecimento. longe de terem um valor geral ou intransitivo. leva a menosprezar a maneira como os saberes assim produzidos dependem de sua importância prática. Em um trabalho anterior.Intervenção como processo processos: a pesquisa ou produção de conhecimentos de um lado. necessariamente. que a inserção dos interventores-pesquisadores em uma organização traduzia-se em alianças de poder e. uma colocada a serviço da outra. Ora. senão de cegueira. de normas e de valores próprios às situações nas quais são elaborados e utilizados. com precisão. uma afirmação da identidade desses dois processos. o que é expresso implicitamente em afirmações como: “quanto mais se sabe a respeito disso. tivemos a oportunidade de demonstrar. que a própria relação leve a uma redefinição profunda de cada um deles – ao mesmo tempo.

em uma organização ou em uma sociedade. e tem sentido apenas para o trabalho e no trabalho. em um processo de escrita. a mais simbolizável. entre o que pode ou não ser escutado. por exemplo. O saber. A pesquisa representa processos de produção de conhecimentos e de sua elucidação que têm como efeito não apenas modificar.19 Por isso. ocorre muito mais do que a transmissão de conteúdos prévios: o ato de escrever os faz existir e. sobre seu passado. Mas esse saber-objeto (ou conteúdo do saber) representa apenas a parte mais visível. ao mesmo tempo. já assinalamos que eles não se reduzem a uma coleta (objeto-entrevista mais objeto-entrevista) de “material” informativo ou de dados a respeito da situação. Os efeitos “secundários” dessas entrevistas podem ser bem mais importantes (em termos de efeitos de sentido) que os resultados informativos – efeitos de decisões tomadas durante a organização das entrevistas. efeitos produzidos sobre as pessoas entrevistadas devido à própria situação de palavra etc. os transforma. entre as zonas de saber assumidas e as que não o são. Por essa tendência e não por uma afirmação de princípio é que se pode apreender o vínculo entre esse processo e o da organização. os conteúdos do saber se desenvolvem e adquirem sentido na experiência de relação na qual o sujeito está implicado. 206 .Psicossociologia – Análise social e intervenção Ao se pensar a realidade e a ação. cujo significado é apenas parcialmente simbolizável. na condição de que essa seja considerada não como um agrupamento (uma empresa. implica todo um trabalho sobre si. pelas restrições impostas por estruturas sociológicas e psicológicas. mas também modificar as linhas de clivagem entre o dizível e o indizível. as linhas de clivagem entre o saber e o nãosaber. em instâncias não controladas pelo investigador e fora de sua presença. o saber-objeto é necessariamente considerado dentro de uma perspectiva utilitarista e de controle – ilusão que é desmentida pela irracionalidade das condutas. entre sua apropriação ou não por alguns em detrimento de outros. com o mundo. como experiência. Com efeito. entre os lugares de palavra e os de não-palavra. uma escola). tratando dos processos de pesquisa. um sistema de ação. pela existência de conflitos e contradições irredutíveis. Assim. sobre seu presente e sobre suas relações com os outros. é a parte que permite trocas e manipulações. mas como um processo. discursos produzidos paralelamente ao levantamento. do plano da experiência e do trabalho designado pelo termo.

sem o qual se formariam apenas vínculos episódicos. por exemplo. Esse golpe de força. O termo requer então as noções de lugar e de tempo. que pretenderia circundar o sentido. As regras dividem e separam. instalando-as nas coordenadas de tempo e espaço.Intervenção como processo Tal concepção de organização. tem subjacentes uma afirmação e uma negação: aqui e não lá. visam a introduzir. O processo organizacional funda-se. ao contrário. que. mas. no nível do pensamento. contabilizável ou informática. Se a existência de regras e proibições funda uma organização. está subjacente e resulta de intervenções psicossociológicas. As regras e proibições que materializam essa negação instauram um funcionamento regido pelo “princípio secundário”. permite aos homens escapar do ciclo da repetição. de outro. dito de outra forma. 207 . a necessidade de dividir. especialmente do desejo de onipotência. o desejo de tudo controlar. já foi evocada anteriormente. espiritual ou mesmo afetiva. Daí o hiato persistente entre. de limitar. a racionalidade que elas introduzem permite o desenvolvimento de uma atividade criadora e sua inserção na história. de suprimir as contradições que as atravessam (já observamos como elas reproduzem e contribuem para reforçar as divisões e as clivagens e são pegas em estratégias e alianças). o desejo de tudo compreender e. uma organização funda um campo temporal – um antes e um depois – e divide o espaço material geográfico: é suficiente. é a condição de toda vida social. O que faz com que uma organização seja uma atividade viva e criadora. De alguma forma. para essas representações – esses discursos de representações –. supõe igualmente o desenvolvimento e a circulação de representações. de toda construção material. e sem o qual nenhuma ação consecutiva seria possível. enquanto que as representações visam a dar um sentido unitário e homogêneo a essas divisões. assim. de um lado. é precisamente a impossibilidade. Não se trata então de uma racionalidade mecânica. ao mesmo tempo. clivagens e limites. para perdurar. de separar. que não exclui nem dúvida nem incerteza. produtora da história e não de um estado de coisas mortífero. essa. Ela repousa na idéia central de que o desenvolvimento de um processo organizacional consiste na instauração de uma perspectiva temporal nas atividades e relações. de uma racionalidade criadora. de realizarem sua meta de dar sentido. em uma negação do inconsciente. fixar horas e lugares de reuniões para que nasça um embrião de organização.

ao menos. então. L’intervention institutionnelle. mantendo vivo o passado. assim. em seu primeiro esforço. na qual os lugares ocupados por cada um teriam como referência uma lei imanente e onde todos os desejos seriam considerados e explicados:20 “Organização” totalitária. Porém. Notas 1 Traduzido de: DUBOST. Dessa forma. a intervenção psicossociológica contribui então para fazer reconhecer que nem tudo é organizável. Jean e LÉVY. sobretudo. Paris: Payot. 29. por Marília Novais da Mata Machado. quanto da análise que a torna possível. In: ARDOINO et al. ela se choca assim. com o desejo de reencontrar o sentido perdido e. Connexions. André. os sujeitos podem então assumir o desejo e a impossibilidade de dar sentido. quando seus efeitos se fazem sentir na vida cotidiana através de acontecimentos imprevistos. I/1980. a se desenvolver. de ignorar as implicações dessa inversão. fazendo isso. Colocar de novo em circulação as significações imobilizadas. a intervenção participa do processo organizacional e não da reificação de uma “Organização”. já é um ato que contribui para deslocar os limites e as linhas de clivagem. dar a palavra ou contribuir para a sua manifestação não é suficiente. Respondendo a uma demanda de palavra. dar de novo às representações sua posição de discurso e fazer com que sujeitos que falam as assumam. ao mesmo tempo em que rompe com a fascinação que ele exerce. “Vers une psychosociologie psychanalytique”. as que dizem respeito ao dizível e ao indizível. que a organização exprime e realiza apenas uma das dimensões do sujeito. até então bloqueada ou proibida. perseguir o projeto enfrentando seus limites e esclarecer as relações entre as significações contraditórias que assim se engendram e se encadeiam aos mitos e às fantasias inconscientes que as ligam a seu passado. é importante.Psicossociologia – Análise social e intervenção Paralelamente aos discursos escritos – enunciados de significações fechadas –. p. a despeito dos obstáculos e temores que ela provoca. ela implica uma reviravolta de perspectiva: se ela é possível apenas como uma resposta ao que é vivido como crise de sentido. ou. 1980. da emergência de novos atores ou de decisões que rompem com um certo passado e abrem outras possibilidades. que supõe a história acabada e que é o oposto tanto da organização – processo dinâmico que cria a história –. 2 208 . L’Analyse social. uma palavra continua. 69-100. acompanhá-la e ajudá-la a se desenvolver.

49-68. de P. 196l.3 4 5 Inspirado em G. Jean e LÉVY. “Sens et crise du sens dans les organisations”. In: ARDOINO et al. “Le changement comme travail”. 1980. Nesse exemplo. “Dire la loi.. Particularmente em “Analyse et critique du groupe d’évolution” e “ L’analyse dans les groupes de formation”. Por exemplo: Max PAGES. Connexions. Cf. Connexions. especialmente o capítulo sobre intervenção de M. André. Descrita e analisada mais detalhadamente em A.”. Cf. Connexions. postula dois aparelhos psíquicos distintos. op. “L’acteur et le système”. ENRIQUEZ. também “Le pouvoir et la mort”. Segundo o Petit Robert.”. Gallimard. S. KAES. Esse conceito. inédita. LAPASSADE. Connexions. “Sens et crise du sens dans les organisations”. L’intervention institutionnelle. Em termos mais sofisticados. FAVRET-SAADA. 1978. isso implicava a exclusão de um certo número de atividades que eram objeto de contestações. “L’Analyse social”. “L’interprétation de discours”. LÉVY.. um individual e outro grupal. Paris: Seuil. L’amour du censeur. Como toda análise de conteúdo. ilustrado pelo exemplo: ele é de uma honestidade bastante relativa. quando o projeto sacerdotal era apresentado como englobando o espiritual e não o inverso. Traduzido de: DUBOST. Connexions. 29. “Une intervention psychosociologique sur les structures et les communications sociales”. pp. Mal-estar na civilização. 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 209 . 7. FREUD. Sociologie du Travail. cit. 21. I/1980. Thèse d’Etat. a análise desses dois termos permitiu evidenciar que. Seuil. de E.. trabalhando com a própria contratransferência. LEGENDRE.. Paris: Payot. cf. Cf. esse é o sentido corrente do termo “relativo”. 21. la Mort. “Dire la loi. introduzido por R. Les Mots. Connexions. Notas sobre a origem e a evolução de uma prática de intervenção psicossociológica. CROZIER. em Topique. les Sorts de J.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 210 .

há casas para ela). Entretanto. reinvestimento de energias de outra forma e em outro lugar. sobre um possível papel que têm na reprodução das relações sociais? É que esse ativismo formador e seu possível denegrimento ocultam dois problemas fundamentais: l. possibilidade e multiplicidade das comunicações. as práticas de formação. mas também a formação como processo de preclusão da mudança social e da transformação das relações sociais. o procedimento de exclusão do real e. de forma concisa e injusta (mas. tentaremos mostrar que o discurso e as práticas dos formadores que acreditam nos efeitos benéficos de toda formação. toda educação carregando a marca do impossível e deixando o gosto amargo do inacabado. ainda. nesse breve artigo. de toda atividade de formação. que o discurso dos psicólogos centrado no encontro interindividual e que os discursos dos 211 . 2. como a maior parte das indagações a respeito da formação. Por que realizar tantas atividades de formação? Por que indagar a respeito da incidência de uma escola ou de métodos de formação. Por isso. multiplicaram-se consideravelmente nos últimos anos. Dizendo o mesmo com outras palavras. assim como os discursos gerais sobre seus fundamentos. isto é. e. Esse número de revista testemunha bem o fato. uma dúvida me invade. o que nos interpela e fascina no seu próprio movimento: a quase certeza de seu fracasso inelutável.E também o que é o próprio sentido desse movimento. por que ser tolerante? Como dizia CLAUDEL: a tolerância. sem dúvida. a repetição do discurso infinito e sempre a ser retomado. as interrogações a respeito de seu valor e de suas significações explícitas ou latentes.O que ocorre de essencial no ato formador. e mais violentamente. mais precisamente. ou.DAFORMAÇÃOEDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAS1 Eugène Enriquez As práticas de formação permanente. tendem a ocultar não apenas a experiência do vivido da formação. de intervenção sobre as estruturas e os sistemas.

de uma nova oportunidade oferecida aos que não puderam tirar proveito da escolarização à qual tiveram acesso. a formação permanente torna-se indispensável. então. sua vontade e sua imaginação. O problema é unicamente operatório. de tempo. Certamente. Assim. cada um deverá atualizar seu saber e questioná-lo. a todo momento. quais são as vias que favorecem a experiência vivida e a recolocação em ato das relações sociais. a fim de poder seguir as mudanças e. de reciclagem e.a dos formadores e educadores.a dos sociólogos críticos. 3. de paciência. temores do formado e condicionamentos sociais. onde toda a sociedade é dirigida por uma vontade educativa) para uma sociedade educativa. ainda mais. então. cada um à sua maneira.Psicossociologia – Análise social e intervenção sociólogos perdidos na crítica das ideologias e das conseqüências da formação são não apenas perfeitamente aborrecidos e freqüentemente inúteis. resistências. Análise dos discursos atuais sobre a formação Três perspectivas serão consideradas: l. mesmo se a noção de operação implica que se seja obrigado a ter em conta motivações. todo crescimento no domínio das informações. que estaria mais à vontade para viver e compreender o mundo técnico e social no qual está. assim como aperfeiçoar os sistemas de avaliação dos resultados. a fim de se chegar a uma formação verdadeiramente pertinente para os objetivos propostos. Será preciso empreender uma experimentação de diferentes métodos e técnicas. Orienta-se (e não apenas na China.a dos psicólogos. alguns métodos de formação são preferíveis a outros. 2. Gostaríamos também (pois só o discurso crítico assinala sua pertinência ao discurso criticado) de indicar. para desejá-las e provocá-las. de investimento pensado. situando a prática que buscamos promover. as mudanças nas disciplinas e a necessidade de interdisciplinaridade tornam rapidamente obsoleto o saber que cada um dispõe. A perspectiva formadora Ela se baseia em uma análise exata do mundo atual: as transformações tecnológicas. 212 . um efeito positivo para o formado. Trata-se. para um sistema onde. advindo a necessidade. o progresso dos conhecimentos. de outro. Toda formação. toda aprendizagem de técnicas teria. o mesmo objetivo: impedir os atores sociais reais de se soltarem das malhas nas quais eles se encontram e ser capazes de tentar assumir seu devir. de um lado. mas também têm.

ela tende a fazer crer que é preciso reforçar o eu consciente voluntário dos indivíduos.2 que o sentido descoberto reenvia sempre a um outro sentido possível ou a um não-sentido. o do louco. cartesiano. do cálculo. as brechas repentinas. Ora. que a libido é turbulenta. ela tem por finalidade fazer calar o desejo inconsciente. os “documentos” que buscam seus caminhos e seus objetos e reforçar a ilusão do eu sólido (“sou senhor de mim mesmo como do universo”). Quantos pressupostos! Tentemos demonstrá-los: o real é definido estritamente pelas estruturas atuais. sempre a serem melhoradas. que se torna assim excluído). que as reconstituições são parciais. estritamente falando. na transformação e ele é. que é próprio do desejo ser deslocado infinitamente. da medida. O comportamento adulto é o comportamento refletido. além de anularem toda diferença e toda dispersão. que falar de comportamento adulto é nomear simplesmente o comportamento perverso do técnico e do tecnocrata que crêem na virtude de seu logos e de seus instrumentos. como uma coisa a ser tomada e a ser controlada. obtido apenas 213 . armá-lo solidamente para que ele seja capaz de se comportar de maneira adulta. através da ordem. é o que excede toda análise. sabemos agora que há um “umbigo do real” que nunca se deixará decifrar e que a única esperança de abalá-lo um pouco é fazê-lo falar por meio de golpes de força. que os acontecimentos que fizeram os povos passar de uma epistéme (FOUCAULT) a outra não são apreensíveis. quando não se trata simplesmente de aceitar a superioridade do pensamento ocidental. Todos os teóricos da Sociologia e da História sabem bem. da mesma forma.Da formação e da intervenção psicossociológicas Essa visão nos parece radicalmente falsa e acentua a ideologia tecnocrática de direita ou de esquerda (do poder). inesgotável. ele chegaria necessariamente ao ininterpretável. Talvez comecemos a nos dar conta (e LAPASSADE já o demonstrou muito bem em seu livro L’entrée dans la vie) que não há comportamento adulto. mestre das leis e da morte. sobre qualquer outro pensamento (o da criança. o real é o que escapa a toda definição. os blocos erráticos. o do primitivo e. Falar do real é simplesmente submeter-se às estruturas tais como elas são reveladas no discurso dos donos do poder. mesmo se toda análise visa a circunscrevê-lo e defini-lo. portanto. vendo exatamente o que ele pode fazer no mundo tal como ele é. sem sonho nem loucura”. ao umbigo dos sonhos. hoje. que as causas determinantes não existem. sem paixão. Quanto à vontade de reforçar o eu consciente voluntário. Freud sabia que podia interpretar os sonhos de seus pacientes mas que. que o homem está sempre por nascer. O real não está lá.3 referindo-se ao racional e ao controle. além de toda interpretação. o do outro. ele se revela na ação.

Ora. do que dá poder sobre o trabalho e outras coisas. como diziam os alquimistas. a angústia de se perder no turbilhão de questões. do que tranqüiliza. emblemáticas e carregadas com a submissão de cada um a seu status e a seu papel social. De outro lado. a energia que se desprende. Temos de um lado o conhecimento. então. do questionamento do saber obtido. as provas de sua impossibilidade. Como é o funcionamento desses dois princípios? l. o seu contrário. mas seguramente – tudo o que não entra nas normas e na edificação de uma boa cabeça pensante. a ruptura e a falta? Nossa experiência de vinte anos como formador e de dez anos como professor universitário nos fornece. ao mesmo tempo.A ação de formação visa principalmente à adaptação a um real cotidiano e não tem. a alegria da certeza e. pois ele não pode sê-lo. a opacidade. E nunca esse programa foi mantido. a cada dia.4 isto é. Ela parece derivar dessa máxima terrível (deformação do pensamento de FREUD): “O eu deve desalojar o id”. Esse voto de MALLARMÉ não tem espaço algum nessa concepção. a humanidade estará. se for atravessado pela ideologia do senhor. não se trata aqui de uma simples metáfora. “Que se exploda de carne humana e perfumada”. falando dos signos da 214 . cuja única saída é o aniquilamento mútuo. as ações formadoras são sustentadas sub-repticiamente por dois princípios que não têm o mesmo peso nem o mesmo sentido: l. Sempre foi dito que era preciso que as cabeças fossem bem feitas e não apenas preenchidas e que era preciso aprender a dúvida metódica enquanto procedesse à acumulação de conhecimentos. Como viver o desejo do pleno. Quando houver apenas Eus fortes. por isso. imagens protetoras.Toda ação de reforço do eu controlador é acompanhada por uma aprendizagem da dúvida. Aliás. 2.5 Certamente. de hábito. temos a bola de fogo. plenamente livre para encarar as onipotências narcíseas e para o conflito generalizado. o confronto com a finitude.O primeiro é o princípio fundamental de toda Pedagogia e não tem nenhuma originalidade. seguindo etapas pedagógicas rigorosamente definidas e afogando – lenta. desenvolvendo-se progressivamente. as imagens engendradas pela complementaridade dos papéis sociais. as variações de temperatura. embora não se possa crer na impossibilidade teórica de casar essa água com esse fogo. como uma água calma. as conseqüências que acabam de ser enunciadas.Psicossociologia – Análise social e intervenção com a supressão de todo excesso e de toda novidade. Ela visa a reforçar o que denominamos imaginário enganoso (em relação ao imaginário criador).

Os tecnocratas. os psiquiatras aliados do poder. os sociólogos conselheiros do príncipe não nos desmentirão.Quanto ao segundo princípio. toda formação com objetivo científico acrescenta a dúvida às certezas. Se o efeito dessa nostalgia parece decrescer quando se passa de um discurso mítico para o discurso científico. É como lhes dar migalhas de saber que lhes permitirão ser ainda mais submissos ao trabalho e ao respectivo papel na divisão do trabalho. a despeito de suas diferenças.” Pensamento mítico e pensamento científico mostram.. Isso é testemunhado a cada dia nos discursos dos mestres do saber que preenchem com suas palavras o vazio de suas vidas ou mesmo utilizam instrumentos que forjaram para dominar os outros. Se os dirigentes são formados em técnicas de gestão é para que a empresa seja mais competitiva. Conclusão: o que permanece são as certezas. o lugar que aí vêm ocupar a nostalgia de uma certeza perdida e a de um primeiro modelo de atividade psíquica no qual saber e certeza coincidem. se a formação tem como perspectiva fornecer aos formandos o meio de ficarem mais seguros de si mesmos em seus postos de trabalho. permanece ainda o fato de que esse último só pode conquistar seu lugar deixando-se atribuir um objetivo semelhante ao de seu predecessor: prometer ao sujeito que renuncia à certeza do mito e do discurso sagrado um saber que se oferece como uma possível via de acesso a uma certeza futura e sempre diversa”. ele exprime o fato de que não está em questão distribuir o conjunto do saber a todo mundo.. 2.Da formação e da intervenção psicossociológicas água e do fogo: a água apaga o fogo. sem que eles possam se perguntar por que eles e não outros ocupam esse posto ou por que esse posto existe e em que estrutura ele 215 . Então. Se os migrantes aprendem a língua do país é para que se integrem melhor aos hábitos e costumes do país que os acolhe e para que se comportem melhor como trabalhadores. mas somente o saber útil e rentável para quem o distribui. Como escreveu Piera CASTORIADIS: “saber exige renúncia à certeza do sabido.6 Ora. mas uma relação angustiada com o saber. Essa falsa formação assinala o desprezo que os dirigentes têm por seus subordinados. a dúvida sendo dissipada como uma eflorescência vaga. querer a certeza implica na recusa em reconhecer que todo saber de um movimento contínuo. se os operários especializados podem aprender certos ofícios é por que nos faltam profissionais. Igualmente. pode haver dúvida apenas se ela estiver no ensino como o verme no fruto e apenas se não houver certeza.

deve ensaiar novas comunicações com os outros e consigo mesma. não porque ela apresente menos interesse ou porque nos mostremos mais tímidos ao criticá-la. ao qual muitos poderiam se subscrever. tendo recebido um certo tipo de educação. A perspectiva fundamenta-se na idéia de que a pessoa. Um importante dirigente internacional não dizia. enquanto há vinte anos os estágios de dinâmica de grupo encontravam obstáculos (os participantes tendo medo de se questionarem). no momento em que ela começa a ter o direito de ser citada). é preciso. no momento. que era necessário que esses chefes seguissem grupos conduzidos por psiquiatras para serem capazes de tolerar a ansiedade inerente à direção das grandes empresas modernas? O único inconveniente. estar em situação de tomar consciência de seus comportamentos e do efeito que eles têm sobre o outro. algumas vezes. então. ter um outro modo de relação com os outros. alienada na sociedade contemporânea. a mulher. que relações de poder ele pressupõe. não chega a ser considerado nem como um cachorro? Que quer dizer reconhecer seu corpo com seus poderes aterrorizadores em estágios onde o corpo é entregue aos outros como elemento de manipulação? Como viver a dolorosa confrontação com esse corpo. vivendo em uma cultura ou em uma subcultura precisa. assim como as experiências de bio-energética. inseridos em instituições e tendo um certo lugar no processo de produção e de reprodução. mas de peso. o cachorro ou com o estrangeiro que. no qual se inscreve toda 216 . Acrescentemos que. esses mesmos estágios. passaram a ter um sucesso que parece inquietante para quem “não faz grupo” na hora atual. grupos de encontro. com seu corpo e com seus desejos. O que existe são indivíduos de uma dada sociedade. não existe. mas porque apresenta. O que quer dizer aprender a comunicar? Trata-se de comunicar-se com o patrão. aliás. é que a pessoa. A perspectiva psicológica (inter-relacional) Seremos mais breves a respeito dessa perspectiva. Horizonte grande e enaltecedor. como o escreveu TOURAINE7) e como reforçadora do processo de esquizofrenia social. é ela que mais freqüentemente dirige os métodos educativos escolares e universitários e a maior parte das técnicas dos formadores da indústria. liberação corporal e sexual. em um congresso de chefes de empresa. rejeitar totalmente essa perspectiva como perfeitamente alienante (como “privação de consciência”. além do mais. o homem. há alguns anos.Psicossociologia – Análise social e intervenção ocorre. impacto social menor (estamos. gestalt-terapia. É talvez por essa razão que.

durante um tempo determinado. a seu cheiro. se ele tem como finalidade aprender a se comunicar melhor. que dá a cada parte de seu corpo. de um dispositivo e enquanto não questionamos esse conteúdo e esse dispositivo. de uma luz na qual me banho. compreender-se melhor e se ele visa à plenitude. por que falo dessa maneira. num momento de estado de graça. Então. mas não explicá-lo e ainda menos provocá-lo. que barra o acesso aos outros e que é demanda de amor. O que se troca não é o projeto comum ou projetos diferentes. a quem falo. Entretanto. sujeito e objeto de desejos contraditórios do outro. Trata-se unicamente de relações faladas e. Em contrapartida. tudo seria mentiras e ilusões nesse tipo de estágio? Respondemos tranqüilamente que sim. permite colocar a questão: de que lugar eu falo. Comunicamo-nos sempre através de um conteúdo. Como escreve S. Temse que ser tão débil quanto os sexólogos americanos e seus discípulos franceses (esses sendo ainda mais estúpidos que os primeiros. sujeitas a serem apropriadas pelo discurso ideológico e pelo discurso passional imaginário. pode-se considerá-lo uma propedêutica a uma análise social onde cada um é ao mesmo tempo ator e analista. pois são apenas seguidores) para acreditar nisso. testados no mundo. eles não se explicam. Não se aprende o amor. ocorre-me dizer a uma mulher: ‘eu te amo’. Mas. à sua voz.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma história. Ele é apenas uma das fabulações que o mundo moderno encontrou para mascarar sua frieza e a generalização da separação que ele instituiu. por quem e por que sou falado. mesmo nesse último caso. que podem ser atuados. então. complementares ou antagônicos. contentando-se a brincar com ele como se se tratasse de um instrumento controlável? Isso chega ao máximo nas inépcias dos sexólogos atuais e de seus miseráveis manuais que tendem a sistematizar um saber sobre a sexualidade. em técnicas e em posturas. não temos nada a dizer. Sua beleza desencadeia esse prodígio. dos quais podemos experimentar a boa base e 217 . Certamente o amor-paixão e a ternura estão além das palavras. feito de uma explosão que me fascina. justamente. que instituições me sustentam. subsiste um problema intransponível: o da linguagem (palavra ou gesto) em um lugar fechado. como tais. como se a relação passional entre dois seres pudesse ser colocada em fórmulas. alguma coisa explode em mim. renasço. pois ele é o choque de duas verdades que lutam contra a (e a partir da) morte. que sofre e que ama. LECLAIRE: Quando.8 Pode-se apenas descrever tal estado. à sua pele e às suas palavras um atrativo que nada pode desmentir. que desejos elas retomam ou reprimem?.

na maior parte do tempo. e ele é um bom juiz. Os mais belos discursos e os mais paranóicos (ou. terão sido apenas o delírio breve de pessoas que não poderão nem quererão se reencontrar depois. seu rigor. irromperá um lapso. não se definia como o psicólogo do olho úmido?). mostrando assim sua potência. analisando com toda a sua força. Ficará apenas a lembrança de um momento único. as fantasias invasoras. ou. onde a graça valia o peso: da impossibilidade de sair do local do seminário (mesmo quando o que se passava fora tornava-se objeto de análise). os mais narcíseos) podem. a não ser que queiram ou possam. não porá nada em movimento. de todo esse bricabraque rápido e mal-controlado. um ato-falho. vai querer se fazer amar por todos. as manifestações sem seqüências. entrará em jogo um sentimento “autêntico”. do aumento do grau de irrealidade da situação. embora plenas. ser trocados: alguém vai querer transformar o mundo. ao mesmo tempo. Mas o psicólogo está lá para as acossar. de tempos em tempos. fazer triunfarem suas fantasias. essa explosão. questionará as instituições. esses discursos. chorará (o próprio ROGERS. da necessidade de que essa experiência se passasse num prazo relativamente breve (entre uma e duas semanas). super-ativo. única fonte de mudança. essas paixões desaparecerão ou serão sublimados. onde tudo era diferente. definido como um lugar no qual se deve comunicar. São palavras (ou gestos) em um lugar específico. tomar o lugar do líder. esse irromper não ocorrerá. certificando-se de que nada lhe escapa. o tempo ao momento.Psicossociologia – Análise social e intervenção a carga afetiva. a fim de viverem sentimentos intensos. para que entrem em uma relação de transferência. Eles podem fazê-lo: nada os obriga somar o ato à palavra. as proibições. O lento trabalho do negativo. definirá a maneira como trabalhar (fora de lá) para a mudança social. seu “saber-fazer”. os tabus. não se entregam. então. estará pronto a largar mulher e filhos. como os weekends e as maratonas. Uma vez de volta às suas instituições. E talvez. As pessoas são entregues diretamente umas às outras e. Outro deixará se levar por suas emoções. não pode ser feito. no medo e tremor. Mas. arriscam tudo e nada arriscam. declarará sua paixão por uma estagiária. no caso de práticas aberrantes (tendo por objetivo quebrar as resistências). pelo menos. os choros e os gritos de alegria. assim. surgirá uma palavra verdadeira que será dita verdadeiramente a alguém. Eles. surgirá um acontecimento que é um advento de alguma coisa. pois as palavras trocadas. as transferências maciças. Como fazer com que essa experiência possa ser verdadeiramente 218 . o fazer ao dizer. Ei-lo. tomar o grupo em seus desejos. um sintoma que engendrará o desconhecido que os participantes arrebatarão para trabalhá-lo profundamente. para fazê-las sair de suas tocas. favorecendo os processos regressivos.

Esse discurso se pretende totalizador e sistemático. o sentido social do desenvolvimento da Psicanálise e alguns de seus aspectos repressivos (CASTEL. “A Psicanálise é o que se passa em Psicanálise”. ele é chocante e desesperante. A mensagem dada. Além disso. parece-nos aliás exata e corresponde a nossa própria experiência. divulgá-la nas massas dominadas e. FOUCAULT). ou atento e vivido como o dos psicólogos. Igualmente. Afinal. seus métodos. Quanto a seu conteúdo. é a sua descoberta de si próprios e do mundo que os rodeia. O único senão é que. então? Vemos que o que é dito é. O discurso dos sociólogos críticos Aqui temos que lidar com um outro tipo de discurso. em muitos aspectos.-B. para expressá-las ou mesmo provocá-las. exato e periférico (não tocando no essencial). aquele que dita a norma (M. evidenciando o conjunto de significações das condutas sociais.Da formação e da intervenção psicossociológicas uma abertura para novos comportamentos e a irrupção do imaginário motor? Essa questão será retomada mais tarde. Não é nossa intenção buscar desmentir essa conclusão. é o encontro indefinidamente repetido do desejo e da lei. Toda formação (qualquer que seja seu programa. da falta e do gozo que se passam no espaço onde dois seres se encontram. eles têm razão (mesmos se considerarmos os excessos de seus discursos). assim. Por que periférico? Uma comparação permite situar nosso pensamento. PONTALIS. Sem dúvida. mas científico. a experiência que nela se faz) é apenas uma máquina para reproduzir as desigualdades sociais. é essa troca de palavra. é a tomada de consciência de sua determinação e de sua vontade de fazer. falemos sério: se a educação fosse apenas transmissão da ideologia dominante. Mas. como os sociólogos – criados pelo sistema educativo – seriam capazes 219 . é o veículo privilegiado da dominação social. DELEUZE e GUATTARI). é esse turbilhão do amor e da morte. que se apoia em uma massa de trabalhos notáveis e que permitiu colocar em perspectiva e questionar duramente o conjunto de métodos educativos. simultaneamente. Muitos autores (inclusive nós) mostraram a influência da instituição analítica na prática da Psicanálise. é a capacidade inventiva dos participantes. o que é essencial é o que se passa no campo formador. toda educação serve apenas para veicular a ideologia dominante. na formação. em sua aridez. que não se pretende voluntarista e criativo como a dos formadores. como muito bem o diz J. o papel do analista como a última e a mais forte personagem médica.

de um processo. de um trabalho de mudança. se a ideologia dominante tem necessidade de se exprimir é que. a vida. mesmo se. tão sistemáticos. em uma palavra. a partir de que poderiam questioná-la? Além do mais. pode-se falar de de-formação e de trans-formação). isto é. o que lhes falta é considerar o que se passa no concreto cotidiano. tenha sido possível ler. a transformação das relações sociais. explicável por um único tipo de lei. O objetivo não é o de formar indivíduos para serem ou fazerem alguma coisa. se ela o fosse. ela não chega a ser totalmente dominante. que só nos resta. não de uma formação (a rigor. É preciso abandonar definitivamente o termo formação Trata-se de uma experiência.9 as palavras inovadoras e as ações sociais.Psicossociologia – Análise social e intervenção de criticar essa ideologia dominante? Se eles haviam interiorizado plenamente essa ideologia. crença da qual decorre a tendência que eles têm a simplificar seus enunciados. Para que não reste nenhuma ambigüidade relativa à nossa intenção. o que não se pode esperar dela. de constatação aguda e de desmobilização geral. É por isso que o discurso dos sociólogos provoca ao mesmo tempo esse duplo sentimento de exatidão e de aborrecimento mortal. o que ela esconde em seu próprio movimento. Seus enunciados são tão gerais. os movimentos sociais emergentes. com outros tipos de relação com o outro e tendo um acesso menos temeroso a seus desejos e interditos. isto é. nas Questões propostas. É o de permitir que pessoas situadas sexualmente. 220 . justamente. não teria mais necessidade de existir e de ter seus arautos e seus porta-vozes. cruzar os braços ou desejar mudar o conjunto do sistema. que elas possam pensar de forma diferente a respeito de Questões novas. quais eram os princípios que guiavam nossa ação. Os impactos reais e os limites da formação psicossociológica Agora é o momento de deixar de lado nossa perspectiva crítica. o que tem como conseqüência deixar-nos estupefatos diante do tamanho da tarefa. homogêneo. profissionalmente e socialmente se mexam. depois de tê-los escutado. em filigrana. ao mesmo tempo. exporemos uma série de proposições que nos permitirão mostrar o que a formação não pode fazer e. Encontramos aqui o que sustenta o discurso dos sociólogos e o que lhe falta: o que o sustenta é a crença em um mundo unificado.

um encadeamento de Questões. organizacionais. a criação de negentropia (isto é. mas uma problemática. desse lugar desocupado e fugidio. resvalando. Mesmo quando faz uma exposição (e por que. mas sua relação com o saber. um jogo de luz sobre certos pontos que. suas idas e vindas. suas falhas. Ele está lá simplesmente como uma referência. através dessa ausência. um terceiro garantindo o vínculo social e questionando a relação dual. as correntes de informação. 221 . provocando a vontade de respirar. o que ele exprime não é resposta às Questões que o grupo se coloca. suas interrogações e também suas paixões. o retorno do recalcado social ou uma experiência de mudança. ele oferece não um saber. mas. dessa desordem-ordem. que também ele é possuído pela palavra e pelo desejo. Quando ele intervém.Da formação e da intervenção psicossociológicas O dispositivo (integrando o papel do psicossociólogo) deve ser coerente com esse projeto Quer se trate de favorecer o movimento. São homens e mulheres que têm papéis sociais (membro de um quadro de pessoal. em suas diferentes dimensões: culturais. ele deveria se calar?). uma movimentação de energias. aliás. o lugar do psicossociólogo deve ser um lugar vazio. indicando. ele próprio preso à desordem e à procura de uma ordem. instituído como o portador da lei sobre a qual os desejos se escoram. assim. políticas. de uma nova ordem vivendo a partir da desordem). ele acompanha o movimento das pessoas no grupo. Ele está lá sem desejo e sem compreensão particular. ele o faz de forma diferente e de outro lugar que não o esperado. que ele não pode portanto ser situado num lugar determinado. por isso mesmo. ele é a testemunha de que o dito será escutado e não será esquecido. Por meio dessa ausência-presença. na situação. suas descobertas e suas resistências. fazem surgir formas da sombra. seus entusiasmos. As instituições fazem parte do campo de análise Os participantes que estão presentes existem. ele não quer que as pessoas se tornem isso ou aquilo ou cheguem a um objetivo específico predeterminado. Ele está lá vivendo. Ele não está lá como alguém que possui o saber (e que o distribuirá). para provocar as pessoas a dizerem ou a falarem. ele está sempre deslocado em relação ao que se está a ponto de viver. ele não é o portador do sucesso da experiência. que ele está sempre deslocado (como o próprio desejo). e que ele não é alfinetável nem tentará alfinetar ninguém ou atribuir lugar a um outro. Ausente. ele não está lá para apontar as inibições e os bloqueios.

Um exemplo. Por isso o trabalho do grupo será centrado. teria podido fazer como interpretação em termos de liderança espontânea. com as instituições que lhes falam e que eles fazem falar.). 222 . Ora. a resistência se deslocou. formadores etc. tendo um passado. as diferenças são apagadas. não há muito tempo. hoje. permitirá precisar esse ponto: em um estágio com os responsáveis hierárquicos de uma empresa. tal funcionamento é profundamente mistificador. de seus corpos e. um dos membros do grupo era particularmente escutado. pedindo que as pessoas do grupo se dirijam umas às outras informalmente. mas naquilo que as relações vividas nessa situação exprimem. usando os nomes próprios sem os títulos e posição social. praticamente nunca era contradito e. de suas relações afetivas. Não são pessoas ou seres desencarnados. na medida mesmo em que esse outro lugar está presente no grupo (é bem por causa desse outro lugar que eles vieram viver essa experiência). não nas relações aqui e agora entre indivíduos sem passado e sem futuro. por isso é essencial que se trabalhe suas relações concretas com as respectivas vidas e com os outros. a relação com o saber é suspensa no vazio. refletem ou transformam nas relações vividas em outro lugar. quando se pôs a evocar seus problemas afetivos. uma atitude de deferência e de sedução. com relação a esse personagem. de relação de identificação ou de submissão homossexual! Essa perspectiva parece-nos mais importante ainda porque. o resto do grupo o seguiu em bloco. os conflitos não têm mais espessura social. que sua palavra e suas decisões “valiam ouro”. Como interpretar tal situação. o mais rápida e seguramente possível? Pode-se já imaginar o que um especialista de relações humanas. vivem em organizações específicas. tomando certos caminhos e não outros. Os participantes desejam falar de si próprios e de seus problemas. projetos sociais. para não falar de sua situação econômica. além de estar sempre pronto a antecipar seus desejos e a satisfazer suas mínimas vontades. de seu lugar no processo de produção e na estrutura de dominação social. entre cem. No caso contrário. caso não se saiba que esse homem sedutor acabava de perder o seu emprego em um escalão superior e esperava fazer boa figura para conseguir um emprego ou para estabelecer uma relação com uma pessoa poderosa que lhe permitisse reencontrar trabalho. Um outro participante manifestava.Psicossociologia – Análise social e intervenção enfermeiras. caso não se saiba que o homem respeitado era um dos grandes dirigentes industriais do país. as escutas recíprocas são apenas fruto das simpatias e das antipatias espontâneas. os participantes hesitavam em falar a respeito de si próprios.

intensivo. é aberto sobre o mundo exterior ou. realizaram. confrontadas. Os membros do grupo trabalham sobre esse material. imaginam soluções. de breve duração. O lugar fechado. experimentaram. o mundo exterior (o do cotidiano) está presente no estágio. de seus sucessos. O processo de mudança é descentralizado Enquanto toda formação visa ao reforço do eu consciente e toda perspectiva estritamente psicológica tem como finalidade a plenitude afetiva. ação real e ideologia. mais exatamente. As palavras trocadas nesse lugar definido engendrarão outras palavras. aprofundadas. Não estão lá como pura presença. de suas tentativas. mas como portadores de suas angústias. sentiram em seu ambiente de trabalho ou em seu meio social. não há mais dicotomia entre ato e palavra. É por isso que somos partidários de estágios longos. conduta e gesto. novas faltas sobre as quais se articularão outras demandas. fazem propostas. em que as palavras se transformam em ações e em que as ações são analisadas. outros atos sociais. Para que os participantes possam estar verdadeiramente lá é indispensável que os estágios sejam distribuídos no tempo e que um trabalho de maturação possa ocorrer nos intervalos (que são os momentos da vida cotidiana) nos quais os participantes se reencontrem consigo mesmos e com as estruturas nas quais vivem. a imersão na vida aqui e agora. O estágio “bloqueado” por um período curto favorece fenômenos irreais. imaginário instituinte. a 223 . o imaginário que aí está torna-se imaginário motor. um ou dois anos). o foco em relações afetivas imediatas. Em cada sessão. lugar de análise. nos quais cada sessão é continuamente reinvestida pelo que as pessoas viveram. A partir do momento em que o desejo circula. os participantes falam do que fizeram. outras palavras sociais. retomadas. construíram ou destruíram em seu meio real. o desenvolvimento de fantasias de onipotência e a manutenção de máscaras sociais. menos tal processo pode ocorrer. Esse trabalho de mudança não passa mais por um lugar fechado privilegiado nem pela simples palavra Esse princípio resulta necessariamente do anterior. fecundarão novas atitudes. os desejos emergentes e reconhecidos poderão fazer surgir novos desejos. de 15 a 40 dias (distribuídos em seis meses. experimentam comportamentos que tentarão prolongar. da mesma forma que as condutas vividas no lugar habitual “trabalharão” as condutas surgidas no estágio e poderão provocar novas rupturas no indivíduo.Da formação e da intervenção psicossociológicas Tal trabalho deve reintroduzir a dimensão temporal Quanto mais o estágio for curto.

períodos de análise refletida. mas que a perversão (a manipulação das técnicas) lhes assenta melhor. de uma situação na qual todas as relações (consigo mesmo. Resistência igualmente das instituições e organizações que delegaram participantes às sessões e que querem vê-los retornar mais bem adaptados. sair com certezas e instrumentos de ação comprovados. de novo. com o outro. Toda formação e toda educação visam a recalcar certas pulsões. Não está. com o saber) são descentradas. a loucura e o sonho possam ter. uma angústia diante do desconhecido. viva paixões.. algumas vezes. Essa experiência da heterogeneidade. E é a própria ausência de previsão que faz com que o grupo tenha uma história. ver surgir em seu seio outras linguagens ou mesmo um além da linguagem.. Momentos de mutismo e de temor. reencontra muitos obstáculos ou. a compreensão autêntica ou o reencontro de um “Eu e Você”. expressão gráfica etc. que poderão manifestar um “medo da liberdade”. Não nos enganemos entretanto. evidentes para todos os que têm alguma experiência nesse domínio. falar. sua cronologia e sua importância não podendo absolutamente serem previstas. em questão visar à dissolução pela dissolução. o aparecimento da desordem no organismo estabilizado. discursos ideológicos desenfreados. ter efeitos.. o que é excluído tenta (freqüentemente com muitas dificuldades e resistências) se manifestar. um temor do esfacelamento e da dissolução definitiva e que solicitarão. Eles dirão também que não querem a vacilação da neurose. então. mesmo se ela pode se tornar criativa. Enumeremos rapidamente algumas dentre elas. naturalmente. mais dinâmicos. do excesso. de necessidade de alimento. do saber alegre. O que está em jogo é que sabemos que a ordem se constitui a partir da desordem. Daí os momentos tão diferentes na vida da sessão. ser protegidos. a fim de que a energia livre. do fogo e mesmo do caos. mas cada um tendo uma relação específica com os outros e consigo mesmo. ter caminhos balizados. possa. É em direção a essa experiência originária que tentamos avançar. momentos de embotamento. do gozo). talvez. se interrogue sobre si mesmo. a precluir certos registros (da paixão. Trata-se. Aqui. Resistência vinda de indivíduos em formação.Psicossociologia – Análise social e intervenção comunhão. nesse processo que. a periodicidade desses momentos. impossibilidades totais. somos ainda obrigados a chamar de formação psicossociológica. a colocação em movimento de forças de desconstrução e de reconstrução. direito de atuarem. depois de terem liquidado 224 . ao contrário. que o amor inexiste sem a experiência da morte. irrupções vulcânicas. que a lei e o desejo reciprocamente se fundamentam. por enquanto. o processo de mudança que tentamos descrever visa à dissolução da personalidade organizada. todos juntos.

o que ela não poderá jamais realizar. um contabilista escrupuloso do progresso ou das dificuldades de seu grupo. sobretudo. a dificuldade intransponível. Enfim. Essa experiência da margem. mas a confusão. torna-se uma experiência de marginalização e de exclusão progressivas. que deveria transformar o que está no centro. tentar experimentar novas condutas. o espanto e o desprezo de seus colegas. deliberadamente. não tendo a intenção de transformar a instituição na qual vivem. vivido e experimentado por grupos que têm certas zonas de liberdade e de responsabilidade. quando retornam às suas organizações. senão abandonando progressivamente todo projeto formador (mesmo se ele se assemelha ao que descrevemos) e optando. que arriscam ser colocados dolorosamente em questão. E eis que o psicossociólogo que queria se lançar ousadamente em uma nova experiência. resistência também da parte da instituição de formação e do psicossociólogo. então. pela experiência de viver uma viagem na qual eles também podem descobrir não a terra incognita. para nós. eles reencontram a inércia das estruturas. Trata-se. da intervenção. provocar mudanças. senão a violência simbólica da organização.Da formação e da intervenção psicossociológicas seus problemas e. é necessário que ele seja evocado. as numerosas escolas. Procederemos como nos parágrafos que trataram da formação. avançando uma série de proposições. mesmo se os participantes podem. há ainda o maior obstáculo: o fato de que essa “formação” é dirigida a indivíduos e não a grupos reais existindo em organizações específicas. Intervenção psicossociológica. O que é demandado é a formação de melhores administradores (melhores formadores. a utopia e a inquietante finitude. mas simplesmente precisar os contornos das razões de ser. É a isso que a intervenção psicossociológica tenta responder. entre as sessões. suas metodologias e seus objetivos freqüentemente contraditórios. naturalmente. empregados ou assistentes sociais) e não o nascimento de atores sociais que tenham projetos sociais e estejam prontos a neles investir. o que ela busca induzir. É por isso que não é possível tentar ultrapassar esse obstáculo. por formas mais ativas de trabalho no interior do social. o psicossociólogo encontra grupos reais Para que um processo de mudança possa ser inaugurado. de trabalhar 225 . E que. Na intervenção. tentar descrever os diversos aspectos da intervenção. se transformará em um simples prestador de serviços. seu modo de existência. seu possível devir Não está em questão aqui. Naturalmente.

os participantes estão aprisionados em seu vivido imediato. nas estruturas tais quais são dadas e que representam para eles 226 . desordem nas salas. no processo de trabalho. A palavra é tomada progressivamente pelos novos atores sociais No próprio processo de intervenção é importante que todos possam se expressar. isto é. a fim de explorarem as vias que favorecerão a resolução de seus problemas. É por isso que a intervenção não pode se contentar em favorecer a reflexão. A palavra reprimida.Psicossociologia – Análise social e intervenção com grupos reais. mas porque sabemos que toda organização recalca não apenas certos desejos. mas. Tudo se passa como se essas pessoas não existissem ou. O que está presente não é. como submissos. permite às pessoas falarem de sua vida cotidiana. consciente ou inconsciente. de seus sofrimentos e de suas esperanças e de se assumirem. como na formação. só pode fazê-lo de formas selvagens que remetem à impossibilidade para essas pessoas de se sentirem como tendo uma palavra e um desejo que podem ser reconhecidos e ouvidos. então. A palavra se desloca em direção a novos campos e a novos objetos sociais No começo. não como atores sociais tendo alguma coisa a dizer sobre o andamento da organização (assim. de melhoria de condições de trabalho.) e que desejam resolvê-los. um certo modo de linguagem e de relações com os outros. os estudantes não tiveram nada a dizer sobre o funcionamento da universidade e os operários especializados sobre o andamento da fábrica e de seu trabalho). atraso e sabotagem da produção nas fábricas). antes de tudo. para se expressar. desperdício. existissem como executantes da máquina. mas. que têm problemas concretos (de decisões. mas ela deve facilitar a expressão dos excluídos e suscitar o nascimento de novos grupos sociais que provocam. na hierarquia interna. ao contrário. impede de ver e de sentir outra coisa. grupos que têm um certo lugar na estrutura da organização. durante muito tempo. mais exatamente. além do mais. numa primeira análise. é vivida como uma forte restrição (uma repressão) e induz fenômenos de resistência implícita (barulho. assim. a discussão entre os que têm o direito reconhecido sobre o controle da linguagem (o que apenas manteria a segregação social na organização). Essa recusa. A intervenção. uma certa fissura no organograma da organização. de definições de tarefas etc. recusa a alguns o próprio direito de falar. Não por razões morais. absenteísmo. uma situação irreal. toda a violência do cotidiano que.

a não se deixarem aprisionar pelas representações habituais. ele é obrigado a se tornar um outro olhar lançado por uma outra pessoa. progressivamente. Essa distinção instituída está perfeitamente interiorizada.F. na medida em que as relações se desestruturam e se restruturam de outra 227 . relações de poder e separações instituídas. para que possa interrogar o oculto. Mas. Numa pesquisa efetuada pela C. pensamento-execução. Isso quer dizer que as pessoas terão aprendido a sonhar. transformador do mundo. pelas relações codificadas. Tratase aqui de dar uma olhada naquilo que não pode ser visto (por essas pessoas).Da formação e da intervenção psicossociológicas praticamente a natureza das coisas. examinar os vínculos entre a fábrica e o sistema econômico. entre si e o outro.D. mas que possam também (e talvez mais tarde) evocar tudo aquilo que habitualmente não lhes diz respeito. talvez seja preciso que ele se interrogue sobre a distinção homem-mulher. É imiscuindo-se nos assuntos dos outros que cada um poderá descobrir que o que está em jogo lhe diz também respeito. para que o olhar se desloque. de falar sobre aquilo que não se deve dizer. Sua imaginação é pobre e eles se contentam com imagens estereotipadas. É a busca de uma nova ordem simbólica que só pode existir na medida em que ocorrem atos novos. O imaginário e o simbólico A experiência a ser promovida é bem a do imaginário motor. um real rasgando os véus da realidade tal como ela é sempre mostrada pelos guardiães do poder. Não se trata de sonhar por sonhar. para imaginarem algo que para eles é da ordem do inimaginável e do impossível. do imaginário instituinte das relações novas entre si e as coisas. nota-se que vários trabalhadores criticam o autoritarismo dos chefes e pedem bons chefes que considerem suas qualidades de seres humanos e que possam igualmente respeitar a si mesmos. transcrevendo os desejos na ordem organizacional e aí introduzindo rupturas. a deixar seus desejos serem expressos. a aceitar sua parte de loucura. “ruídos”. que faz surgir um real além do real percebido.T. é a subversão da ordem simbólica reinante que se exprime pelo organograma. ou que possa pensar de fora da fábrica. O que resulta. Nenhum coloca em questão a distinção chefes-trabalhadores. É por isso que o trabalho com os grupos deveria ter como objetivo não apenas que os grupos tratem finalmente dos problemas que lhes dizem respeito diretamente. então. mas de poder reintroduzir essa parte de sonho ativo. Para que um trabalhador se interrogue a respeito da distinção patrãoempregado. Colocá-la em causa seria um salto mental. pai-filho ou ele-outros. afetivo e político que os trabalhadores seriam incapazes de dar pois nada os preparou.

dessa maneira. a própria idéia 228 . além das crianças. em lugar de ser transcendente aos seres e encarnada em um único. pessoal de cozinha e de limpeza. angústia sem freio e desejo por parte de todos de retornar um dia à ordem antiga. Esses deslocamentos não desembocam na confusão. a linguagem utilizada e as problemáticas que eles instauram possam ser desviados. promete apenas. Assim. Os modos de pensamento e a linguagem são questionados Para que o imaginário abra seu caminho e para que a análise possa tomar corpo. é necessário que os modos de pensamento. uma nova forma de educação. os educadores chefes e especialistas. deve se encontrar e se confrontar com um modo de pensamento associativo. As posições. isto é. os psiquiatras. cada um se tornando. então. transformada e garantida por cada um. Certamente o pensamento dito racional é também aquele do controle das coisas e da natureza. subvertidos ou. Já foi mostrado acima que o sonho poderia ter lugar nos grupos. pode sair a surpresa. ator e analista social. Mas sabemos muito bem com que facilidade pode-se passar do controle e da administração das coisas à dominação dos homens. sem análise. Aliás. na evidenciação de que tudo está sujeito a questionamento e que. analógico. com seus argumentos e suas demonstrações. ou. imaginativo. no qual as coisas e seus contrários possam ser considerados. numa decodificação das relações. interrogados. que o surgimento do imaginário. no qual as relações de equivalência (mesmo absurdas à primeira vista) possam ser colocadas. mas em uma maior fluidez. os psicólogos. O que significa. fazem da criança também um educador. outras formas de relação e outros modos de estruturação. é o que permite a troca e a reciprocidade. numa análise em ato da organização. é lei retomada. ele classifica. Pois o modo de pensamento lógico é o modo de pensamento do senhor. levam o pessoal a também intervir na gestão do estabelecimento. a médio prazo. o diretor se torna pedagogo e é questionado em sua função de direção. enquadra e fecha as pessoas nessa moldura que ele lhes prepara. decepção. dessa ruidosa confusão. à sua maneira. Isso quer dizer que o modo de pensamento lógico. o inesperado. Ele distingue. metafórico. ele exclui e. Essas relações não podem mais ser escritas na ordem em que acabam de ser enunciadas e que é bem a ordem hierárquica. O que significa que o imaginário faz surgir uma capacidade maior de análise do conjunto dos participantes. a mudança em um estabelecimento educativo para as crianças especiais passa por uma quebra das relações codificadas entre o diretor. onde a lei. no mínimo. ao se deslocarem.Psicossociologia – Análise social e intervenção forma. sua cronologia e suas articulações. igualmente.

11 Queremos dizer que a verdade. dissimula. da ortografia necessária. de intimidade. Essa perspectiva não o impedirá. Se as pessoas deixam unicamente seus desejos e inconsciente falarem. do bom estilo. muitos trabalhadores dizem que não possuem o vocabulário que lhes permite se expressarem e numerosos chefes de empresa utilizam tal situação para propor como “palavra de ordem” uma formação com base na expressão escrita e oral que visa a conseguir que cada um fale e escreva como se deve falar e escrever. inversamente. de calor e de dádiva que o homem pode manter com a natureza deixam lugar para tendências predadoras? Certamente também o pensamento racional permite a comunicação universal e o desenvolvimento científico e técnico. Buscamos. As pessoas se submetem. se elas querem se definir apenas em relação à realidade. utilizando suas qualidades de erudito e sua exigência de rigor. apenas daquilo que os que modelam e mostram a realidade querem deixá-las falar. A língua. a língua. o homo demens no homo sapiens. MARX mostrou como o dinheiro mascara a natureza do sistema capitalista. submetem-se ao princípio do prazer. para ser expressa ou reencontrada. à língua (a parte social da linguagem) dominante. Mas. FREUD proclama em bom som essa idéia quando escreve (na “Interpretação dos Sonhos”): “O autor da interpretação dos sonhos ousou tomar o partido dos antigos e da superstição popular diante do ostracismo da ciência positiva”. Mas aí também sabemos que. isto é. antes. vinda das tripas que RABELAIS elevou à quintessência. recusam o princípio da realidade e tornam-se incapazes de pensar o limite. é como o dinheiro. pede que cada um pense e viva na contracorrente. a invenção popular. visão de um combate a empreender e de um adversário a submeter. Ora. de fazer. Não se trata apenas do modo de pensamento. na França. o sistema de exploração e de apropriação da mais-valia do trabalho. não nos propomos fazer pouco caso do pensamento lógico. mas também da linguagem utilizada. a verdadeira 229 . já não indica que as relações de cumplicidade. divertida. as “estórias de comadres”. da criatividade diária dos grupos sociais. isto é. atrás da imagem de falar bem. o roubo da língua espontânea. como ele próprio o diz. um elemento de mascaramento do sistema social. falarão. a língua se torna sofisticada com MALHERBE e a academia. ele é apenas o apanágio de alguns e que o discurso científico é também o discurso que exclui de seu campo a experiência diária. o repertório de saberes práticos e de imaginação de culturas inteiras. Naturalmente. colorida. da Psicanálise uma arte de construção. rejeita-se definitivamente uma linguagem viva. reintroduzir a poiesis (criação)10 nas formas de fazer e na teoria. nas organizações. por sua vez. Quando. Assim. isto é.Da formação e da intervenção psicossociológicas de controle da natureza. pelo contrário. então. na realidade. sob certos aspectos.

A mesma coisa ocorre hoje. argumentada. as frases que inventam. É por isso que atacar a língua dominante. não tendo mais nenhum elo com as esperanças. dessa forma. de seus mandamentos. os guardiães do poder têm uma língua é bem para se constituírem em classe dirigente. os sonhos e os sofrimentos da gente miúda. para culpabilizá-los por não saberem se exprimir. Quando se vê a maneira como os jovens se exprimem. para obrigá-los. experimentar o seu calor. do mundo adulto (e o atacam). Há uma língua dominante. em boa linguagem. antes de mais nada. inventar um falar. mais exatamente. Por isso. Eis que chegou o tempo dos tradutores. dos que não sabem falar como se deve falar em uma sociedade tecnocrática). quando se escutam as palavras que eles utilizam. Veja-se bem a dificuldade. Isso quer dizer que toda intervenção é uma questão de poder. pois o 230 . as idéias e opiniões dos que não sabem falar (ou. para se protegerem dos outros atores sociais. fazê-la viver. de modalidade de comando. precisa e cifrada. fazendo-os aprender a falar. a dos tecnocratas. É indispensável que essa língua do poder possa ser recolocada em seu lugar: não o da necessidade e da natureza das coisas. mudar o sentido das palavras eqüivale a colocar a nu a problemática de dominação-submissão que é constitutiva do falar dominante. reencontrar a língua perdida. reencontrar sua língua. mas de poder: da lei. que são os que podem traduzir. a literatura estará reservada aos salões e às suas cabalas miseráveis. É também por essa razão que cada vez que é possível explicar as coisas na modalidade da linguagem habitual o saber dos especialistas se cinde12 . a pensar como eles e para surgirem como os únicos e bons tradutores de suas vontades e de suas esperanças. a partir do Século XVII. mas o da dominação que ela instaura. todo mundo. da tecnologia que ela utiliza e que a faz existir. se dá conta disso. É também por essa razão que todos os movimentos de contestação cultural reivindicam. Se os mendigos têm sua gíria é porque toda língua é constitutiva de um grupo social e é uma membrana que o protege contra os outros. A instância política (o poder) está no campo da intervenção Essa longa passagem por modos de pensamento e pela língua nos permite caminhar agora mais rapidamente e chegar ao próprio centro da questão: o poder instituído. os porta-vozes mascaram e os especialistas reduzem. confusamente. Mas os tradutores traem. pode-se constatar que eles se protegem. Não apenas de autoridade. Se.Psicossociologia – Análise social e intervenção linguagem popular. dos porta-vozes e também dos especialistas que protegem seu saber (ou o seu simulacro de saber) sob a alta tecnicidade das palavras que utilizam. Aliás. então.

Na própria medida em que leva as pessoas e grupos a se interrogarem. FREUD dizia em “Os chistes e sua relação com o inconsciente”: “Penso que resistências emocionais fundamentais obstam o caminho da aceitação do inconsciente. colocar-se em questão. A intervenção. sendo inauguração de uma palavra nova. quer que ele seja reforçado. chocase violentamente com as estruturas. as resistências. pois foi através dele que o escândalo ocorreu. sua vontade instituinte e. os hábitos. introduzindo uma falha nos poderes constituídos. ele lhes permitiu. interminável. ele cheira a enxofre e deve ser sancionado. Assim. Ela destrói as certezas e introduz o novo e o descontínuo. fundadas no fato de que não se quer conhecer o próprio inconsciente. Mas. Entretanto. diretor de hospital ou auxiliares de enfermagem).” É possível deslocar essa frase de FREUD e dizer que ninguém quer conhecer todo o poder de que dispõe. o interventor ultrapassou o limite. permitindo-lhe ter uma consciência tranqüila e assegurando-lhe um ganho substancial e uma posição social invejável? Achamos que essa 231 . o fracasso inelutável ou só a possibilidade de um trabalho superficial. agradece-se ao interventor. ao contrário. permitindo a novos atores se expressarem em novos campos. foi porque os solicitadores experimentavam dificuldades e aceitavam. com uma outra linguagem. a se comunicarem em suas diferenças e conflitos reais. então. se uma demanda lhe foi feita. nem renunciar a seu poder. assim. a se informarem. mas também quando o poder está em jogo. o senhor das respostas é simplesmente o senhor). nunca solicita que o poder que ele representa seja questionado.Da formação e da intervenção psicossociológicas solicitador de uma intervenção. que não atrapalha ninguém e que permite ao interventor facilitar algumas tomadas de consciência de problemas periféricos. o plano mais conveniente a negação completa de tal possibilidade. membros do comitê de empresa. Porque ela não pode estar a serviço de um poder nem de um sistema de poder. De qualquer maneira. Interesse e limites da intervenção psicossociológica Resta apenas. quando estão no campo de análise não apenas as relações. nunca é resposta a um problema (responder é controlar. dentro de certos limites. a menos que ela seja simplesmente uma ação de apoio estratégico de alguns contra outros. as comunicações interpessoais e intergrupais. mas. quem quer que seja (dono de empresa. os estilos de autoridade. (mesmo se sua ação está além do poder) experimentar seu próprio poder. a intervenção pára. Então. mas sim questionamento infinito. justamente. então. então. sendo. favoreceu o conflito assumido às custas do consenso que mascarava os antagonismos. terá necessariamente de questionar qualquer forma de poder.

Não deve esperar triunfo nem sacrifício: sabe apenas que um movimento começou a existir. é que. esses resultados (que podem ser estimados como muito fracos) só podem ser considerados se forem acompanhados por certas características das situações em que ocorrem: 1. O que ele é: simplesmente o avalista de uma possível análise. ele terá uma idéia somente muito mais tarde. mais poderá efetuar um trabalho de análise que será completado e aprofundado por esses grupos. é em referência a uma vontade instauradora de poder por parte do interventor. se ela se coloca. 232 . através de ações.Psicossociologia – Análise social e intervenção alternativa não tem nenhum sentido. não os conduz em direção a nenhum resultado. em contrapartida. aos grupos sociais existentes ou emergentes que cabe promover (nos outros e em si mesmos). das funções elucidativas. sendo alguém que incomoda. dispersões a se operarem. sem muita hierarquização interna e sem opacidades devidas a problemas de status social e de sucesso econômico. palavras a serem ditas. eus a se abalarem. os movimentos sociais. Não sabe pelos outros. Ele não realiza nenhuma mudança.Quanto mais o interventor for chamado por grupos compostos por voluntários. Também não se pode dizer que ele fracassou. quando se viu excluído por ter permitido que a questão do poder fosse colocada (para todos e por todos). Pois. encontrar resistências vivas e não satisfazer a ninguém. seu trabalho só pode ser lento. mas permite ao outro querer modificar as estruturas de acordo com sua vontade. então. à sua linguagem e de tentar traduzi-las em ações significativas. O que ele sabe bem. Ele não transforma as estruturas. Ele não é nem o revolucionário nem o reformista. procedendo por deslocamentos e rodeios. é aos atores sociais reais. de uma tentativa de desvelamento de relações sociais. daquilo que está “ocupado por uma mentira” (LACAN). colocando-se como um shaman ou um mártir. em meio a oscilações constantes e bruscas entre a onipotência e a impotência. se houver uma germinação ao invés de um fechamento. energias começaram a circular. Ele apenas lhes entreabre caminhos que eles desejam buscar. Porém. que. mas favorece o desejo de mudança. Quanto ao valor e à importância desse movimento. de se dar orientações normativas e inaugurar outros modos de relacionamento. que só poderá viver. O que ele traz: a possibilidade para o outro de ter acesso à sua própria palavra. pólo de identificação ou bode expiatório. não lhe cabe questionar os poderes. a tomada da palavra e outros modos de relações sociais. Ele não analisa sozinho. mas cuida que as funções de análise existam e se exerçam no grupo.

desde o início. mais seu trabalho será suspeito e provocador de resistências. havíamos dito que era preciso não ter grandes ilusões a respeito da formação psicossociológica tal qual tentamos descrever. Suspeito por todos.A falta de formação dos interventores. mais ele arriscará ser atado pelos desejos contraditórios dos participantes. mais será possível que sua ação de elucidação seja prolongada por intervenções de pessoas colocadas estrategicamente em diferentes pontos do poder. Entretanto. há da parte de alguns deles um certo desejo de aumentar sua capacidade profissional. Pode. a conluios que retirarão toda a eficácia de sua atividade ou que farão dele outro agente do poder local ou da contestação instituída. 4. questionamento do seu valor e da pertinência de suas ações. podemos ter ainda as mesmas dúvidas quanto ao desenvolvimento das intervenções. os psicossociólogos dedicados à prática da intervenção são menos numerosos. 3. então. traidor em potencial. mais nos aproximamos de um processo cumulativo. onde cada um deve defender sua identidade social e seu sucesso econômico. Anteriormente. Se existe um número bastante grande de psicossociólogos capazes de conduzir grupos de base e de sensibilização. que rearranjos mínimos favorecidos por ele provocarão contra-ações. A prova são as numerosas demandas de formação 233 . ao contrário. agricultores tendo interesses em comum.Da formação e da intervenção psicossociológicas 2. professores de diferentes estabelecimentos da educação nacional. provocando mudanças notáveis nas relações e na própria textura das relações de poder. Isso não significa que ele não deva intervir em tal contexto. mas que ele deve saber. sua posição nada tem de confortável. quanto mais ele intervier em organizações fortemente estruturadas e hierarquizadas.Quanto mais intervier em meio aberto (e não em organizações mais ou menos fechadas): grupos de responsáveis por diferentes empresas. mais sua ação será limitada a certos grupos. manipulado (mais ou menos) pelos diferentes grupos. Sabem pouco a respeito dos grupos e das organizações e têm desejos de mudança que não sabem como operacionalizar. inclinar-se à rigidez ou.Quanto mais seu trabalho tiver efeitos de treinamento e for multiplicado em diferentes grupos e organizações por aqueles com quem ele colaborou.Em contraposição. As maiores dificuldades parecem ser (indo das menos importantes às mais essenciais): 1.

Mais grave parece ser a “vontade de revolução” e o delírio megalomaníaco de alguns interventores que pensam transformar as estruturas e destruir as instituições através de sua implicação vigorosa na intervenção que conduzem. um maior controle consciente. efetuado por eus fortes. 3. já estão tão ansiosos por trilharem uma nova via. busca persuadir a assistência de que todas as mudanças que se produzem no picadeiro são efeitos de sua vontade e de suas ordens13” Os palhaços se tornaram legiões e ocupam a frente da cena. eles se preparam para uma vocação de mártir. Aparentemente. E o lento trabalho do negativo (o único que é portador da vida e da verdade) poderá. comunicações melhores e. a demanda acaba. tendo uma única palavra permitida que é a palavra técnica (técnica de fabricação como técnica do corpo) ou produtiva (produção de bens ou produção desejante). justamente ao lado dos liberadores de todo tipo (do corpo. pois tornam-se insuportáveis para todos os grupos com os quais colaboram. Um dia. 2. ser retomado. é a fraqueza (e a diminuição constante) das demandas de intervenção. mas o que lhes interessa é o aumento de sua própria zona de poder ou a cegueira a respeito do sentido de sua ação. onde estão os mestres da ciência e os instrumentos de gestão. que busca a si própria e que não promete amanhãs que cantam. não a desejam com freqüência para si mesmos. do desejo da alienação etc. eles desabarão. onde as ideologias prontas cruzam-se sem se influenciarem. por seus gestos. Como escutar ainda uma palavra que cochicha. que já nem se permitem mais o autoquestionamento. em um soberbo isolamento psicótico. com outras relações. A razão é evidente: a partir do momento em que os grupos e as organizações se dão conta de que a intervenção não permitirá uma restruturação. a questão e a angústia da finitude? Mesmo os que a pregam para os outros.) que têm todas as mensagens a levar aos outros e que se apresentam como mercadores da felicidade. 234 . da mulher. uma redistribuição mais aceitável da autoridade.Enfim. em uma sociedade tecnocrática. mesmo se nos ocorre perguntar se eles não se preparam algumas desilusões. Deixemos que se esgotem em seus jogos perversos. o que nos parece mais importante. então. Quanto aos grupos que tentam viver de outra maneira. que assim buscam empreender atos significativos.Psicossociologia – Análise social e intervenção e intervenção endereçadas aos organismos e aos indivíduos que têm prática nesse domínio. quando não se misturam em um magma sem nome? FREUD dizia: “O eu é apenas um palhaço de circo que. sobretudo. Isso é compreensível. Quem quer conhecer a dúvida.

descritas. A qual acontecimento ou a qual lei obedecem essas mutações que. não caem nesse erro. ENRIQUEZ. Cinco lições de Psicanálise. Essa falta fundamenta a perspectiva dos sociólogos que pensam em termos de sistemas e de modos de produção: quando os sociólogos (como TOURAINE) pensam o socius em termos de relações sociais. caracterizadas. On tue un enfant. Em Lip. Na primeira meditação. pois o centro de seu pensamento é a ação social e não as normas sociais. 1972 (Imaginário social. Segundo J. Le Seuil (A instituição imaginária da sociedade. 13. FREUD. 137-159. Les mots et les choses. M. Epi. Le Seuil. Connexions. “A propos de la réalité: Savoir ou certitude”. mesmo que ela deva ser analisada minuciosamente. Quando esses elementos lhes foram explicados de forma direta e clara. cf. Connexions. DESCARTES baseia a descoberta do “verdadeiro” na exclusão necessária da loucura. o Eu tudo destrói. 1974. Ela é um acontecimento radical que se estende por toda a superfície visível do saber. Piera. Paz e Terra). E. DOMENACH: “Para não ser destruído. TOURAINE. essa abertura profunda na superfície das continuidades. Eugène. cujos signos. Rio de Janeiro: Zahar. “Imaginaire social. recalcamento e repressão em organizações. 17. “De la formation et de l’intervention psychosociologiques”. do sonho e do gênio maligno. Seuil. L’institution imaginaire de la société. Le Seuil. 1975 (Mata-se uma criança. 1974). La nature humaine. “Points”. por Marília Novais da Mata Machado.Notas 1 Traduzido de: ENRIQUEZ. FOUCAULT. 1977). Points. repentinamente. Le paradigme perdu. fazem com que as coisas não sejam mais percebidas. A. MORIN. abalos e efeitos podem ser seguidos passo a passo. CASTORIADIS. Pour la Sociologie. “Razão do encaminhamento do não ser ao ser” diz PLATÃO. Gallimard. os trabalhadores acreditavam que não poderiam compreender nada de contabilidade e de problemas de gestão de empresa. enunciadas. classificadas e sabidas da mesma maneira? Para uma arqueologia do saber. Tempo Brasileiro 36/37: 53-94.” Le sauvage et l’ordinateur. 1976. 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 235 . LECLAIRE. CASTORIADIS-AULAGNIER. n. eles disseram: “mas era apenas isso!”. não pode ser “explicada” nem reduzida a uma única palavra. no 3. Le Seuil. C.-M. p. Topique. refoulemente et répression dans les organizations”. Serge. E. Cf.

Psicossociologia – Análise social e intervenção 236 .

ASORIGENSTÉCNICASDAINTERVENÇÃO PSICOSSOCIOLÓGICAEALGUMASQUESTÕESATUAIS1
Jean Dubost

Os problemas humanos criados pelo uso das máquinas e pelo desenvolvimento das sociedades industriais são respondidos por atores que se defrontam diretamente com esses problemas, bem como pelos responsáveis políticos – no nível de sistemas de ação institucionais – e, também, pela intelligentzia que produz os discursos legitimadores e que arma ora a classe dirigente, ora seus adversários. As Ciências Sociais emergem, primeiramente, como força de pesquisa e estudos e, em seguida, contribuem mais diretamente para a formação de agentes específicos de intervenção. Para intervir, o patronato, seus quadros de direção, seus gerentes e seus organizadores, bem como o movimento operário, suas organizações e seus militantes jamais esperaram os agentes formados pelas Ciências Sociais; porém, o surgimento dessas foi acompanhado por práticas sociais novas que, há mais de meio século, continuam a buscar sua verdadeira face. Ligado a elementos teóricos e ideológicos, um modelo de papel diferente daquele exercido pelo professor, pelo especialista, pelo formador, pelo mediador, pelo advogado, pelo sectário ou pelo militante tende a se afirmar, contribuindo para inventar e analisar os modos de funcionamento coletivo e as relações sociais. Antes mesmo que os empregos de psicólogo e sociólogo do trabalho ou das organizações tenham sido realmente reconhecidos (eles são ainda um pouco objeto de críticas e de apreensões, na França, em todo caso), o nível político tentou intervir, através da legislação do trabalho, dentro de uma perspectiva que mantém alguma relação com os processos e os princípios propostos pelos psicossociólogos (cf. Leis AUROUX). Paralelamente, o contexto de crise e de guerra econômica tendeu a “psicossociologizar”, se é possível falar assim, as estratégias dos administradores (cf. rejeição ao taylorismo, círculos de qualidade, grupos de progresso, projetos de empresa etc.).

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

Do ponto de vista dos práticos, não se sabe muito bem se se trata de uma convergência que os psicossociólogos devem considerar como um avanço de suas teses ou tratar como uma oportunidade conjuntural ou, ainda, como uma “reciclagem”, uma nova forma de resistência ou de defesa, induzindo a uma regressão de seu projeto. Independentemente do fato de que as duas hipóteses não são forçosamente exclusivas, a situação atual aumenta o mercado de consulta. Por razões econômicas evidentes, muitas empresas de serviços tentam aí penetrar, sem escrúpulos excessivos, sejam de ordem teórica, metodológica ou ideológica, e chegam mesmo a rejeitar, em nome do pragmatismo ou da eficácia, qualquer referência científica. Há quarenta anos atrás, especialmente através de Elliott JAQUES, o Tavistok Institute of Human Relations já colocava claramente a distinção entre as abordagens “tecnocrática” (intervenção sobre) e “colaboradora” (intervenção com). Essa oposição e a opção resultante apoiavam-se parcialmente nos trabalhos de LEWIN, MORENO, ROETHLISBERGER e seus predecessores; correspondem a uma teoria da organização que é compartilhada tanto pelos experimentalistas quanto pelos clínicos, tanto pelos behavioristas quanto pelas correntes da fenomenologia e da Psicanálise, tanto pelos promotores da mudança voluntária (planned change) quanto pelos pesquisadores da Sociologia Industrial norte-americana: nessa concepção, as perspectivas democráticas e a eficácia organizacional são objetivos transitivos, não antagônicos. Retomando, por exemplo, os termos de KATZ e KAHN, é em nome da produtividade industrial que é preciso lutar contra o modelo “ditatorial” dentro da empresa. Embora tal tese, em seguida, tenha sido matizada pela consideração de fenômenos de ordem econômica e pelos do inconsciente, da cultura e da história, assistiu-se a um desvio, nos Estados Unidos, no nível das práticas de intervenção. Considerando-se garantidos pelo conjunto de trabalhos de laboratório realizados em um subconjunto restrito de empresas, os partidários da planned change e da action research partiram para a conquista de um mercado, adotando uma perspectiva de aplicação, propondo uma forma de serviços apresentada explicitamente como uma tecnologia social. De fato, no início, geralmente toda prática nova de intervenção, em um espaço no qual surgiram problemas humanos, aparece como aplicação de conhecimentos e de um “saber-fazer” criados em outro lugar e mais ou menos arranjados para a circunstância. Porém, enquanto algumas correntes de consulta parecem se satisfazer com essa perspectiva de aplicação ou de transferência, outras tentaram continuamente se desligar

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

dela, não apenas para criar elementos teóricos e de “saber-fazer” mais específicos, a partir de uma base socioclínica que lhe é própria (mantendo, em conseqüência, a referência à noção de pesquisa ação), mas também para manter as metas que a constituem como práxis, recusando a redução a uma forma de atuação puramente instrumental. Reencontram-se aqui, aparentemente, as duas abordagens distinguidas por JAQUES; na primeira, a referência à idéia da democracia torna-se o modelo de funcionamento, teoria normativa da organização, dispositivos técnicos; a segunda guia a maneira de estruturar o processo de intervenção, deixando aberta a questão de um modelo de funcionamento, recusando-se a estabelecer normas ou evitando fazê-lo, considerando a teoria sempre inacabada, sempre a ser construída e esclarecida a cada nova intervenção. Haveria, então, para os adeptos da abordagem colaboradora, mais do que uma aporia na maneira pela qual se apresenta o desenvolvimento organizacional, contradição que seria compartilhada, justamente, com a concepção tecnocrática. Porém, na prática, se o desvio assinalado pela mudança de rótulo (de “planned change” para “DO”2), na maior parte das vezes, corresponde a um abandono de uma perspectiva de pesquisa pelos consultores que querem promover, em grande escala, a expansão de suas atividades e a uma tendência a autonomizar o “cultural” (isto é, a abandonar a concepção sociotécnica), não é certo que, sob a proteção de uma terminologia tranqüilizadora para os clientes potenciais, esses consultores, na condução de suas intervenções, não estejam mais próximos do que admitem das perspectivas iniciais da planned change. Paralelamente, está claro que não é suficiente estar resolutamente engajado ao lado da abordagem colaboradora, manter uma ligação forte entre os pontos de vista psicológico e sociológico e entre pesquisa e ação para escapar ao risco, continuamente presente, de ser instrumentalizado por um ator às custas de um outro. Embora, na prática, não possamos, então, identificar sempre o DO à abordagem tecnocrática, ainda assim a distinção que evocamos parecenos sempre bastante pertinente para esclarecer a oferta dos práticos e as condições de possibilidade de uma intervenção que se recusa a ser reduzida a engenharia. Efetivamente, a conjuntura econômica e a ideologia atual, evocada acima, abrem de novo, na França, o mercado da consulta e da intervenção em meio industrial, ao mesmo tempo em que as demandas são, na maior parte das vezes, de ordem instrumental:

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Psicossociologia – Análise social e intervenção

- “O senhor, que tem a reputação de saber formar, venha ensinar a nossos dirigentes como mobilizar o pessoal para os objetivos de nosso projeto de empresa”; - “Vocês, especialistas em comunicação, venham fazer um estudo do tipo ‘retrato’, a fim de sensibilizar os agentes para seus papéis comerciais e para as relações entre os serviços”; - “Vocês, com experiência em círculos de qualidade, venham nos ajudar a implantá-los em nossas fábricas”... Assim, é tentador, para quem escuta uma encomenda desse tipo, aceitar o papel de prestador de serviço, sem um convite a refletir sobre a pertinência da operação decidida, sobre as relações entre essa solução e os problemas e dificuldades vividas pela unidade etc. Está claro que a oferta de “tecnologias sociais” parece corresponder a uma demanda. Ela mantém a ilusão de que uma técnica de intervenção de um agente externo poderá resolver as contradições da realidade, sem outros custos, para quem a encomenda, que o dos honorários e o do tempo concedido, além de um apoio superficial da hierarquia à realização da operação; isto é, sem que o processo mude as posições respectivas dos atores, a divisão do poder, a distribuição dos esforços e dos ganhos em diferentes domínios. Essa crença mágica dos responsáveis no poder da técnica relativa a problemas humanos (no próprio momento em que a literatura empresarial demanda o reconhecimento das dimensões irracionais do comportamento dos assalariados) pode, evidentemente, ser interpretada como função de defesa do empresário pouco desejoso de pagar por sua própria implicação; não é respondendo à sua encomenda que se facilitará o estabelecimento de condições que permitam analisar tal processo. Embora o fato de encorajar a ilusão possa parecer, ao mesmo tempo, bem mais rentável a curto prazo e confortável para o psiquismo do consultor (pois uma posição de prestador de serviço permite economizar a análise da demanda, simplificando a vida e tranqüilizando todo mundo – ou quase todo mundo –, ao menos no início...), não podemos acreditar que o fato de aderir aos partidários de operações de mobilização psico-ideológica seja, a longo prazo, uma boa estratégia: pode-se prever que elas se revelarão incapazes de operar as mudanças esperadas e que serão também recusadas e denunciadas pelos atores envolvidos, como ações de doutrinação. Assim, parece-nos ser especialmente importante que o psicossociólogo continue presente no mercado de consulta em meio industrial e, de uma maneira mais geral, nas organizações que desenvolvem esforços de melhoramento de seu funcionamento coletivo; ao mesmo tempo, que

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As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais

mantenha, tão firmemente quanto possível, o que nos parece constituir as condições não mistificadoras da intervenção e, principalmente: - o fato de considerar as teorias utilizadas como sempre inacabadas, sempre infiltradas por elementos ideológicos, jamais apropriadas a fundar uma Autoridade; - o fato de manter explicitamente a referência às ciências do homem e da sociedade, isto é, entre outras coisas, considerar que toda intervenção deve ser habitada por um projeto de pesquisa cujos objetos são, em primeiro lugar, o próprio processo de consulta, o sistema no qual a demanda emerge e a categoria de fenômenos sobre a qual o trabalho é feito; - o fato de manter a interrogação sobre o sentido de nossas práticas, sobre as funções sociais que elas garantem, sobre as condições que favorecem sua emergência, seu desenvolvimento ou seu abandono. Pensamos conhecer bem as dificuldades frente às quais se debate a sustentação de tais exigências; é o preço que os consultores têm a pagar por tentarem escapar à única lógica da relação mercantil e de seus efeitos perversos, à influência das correntes ideológicas que sofremos, da mesma forma que nossos parceiros, a fim de conservar as perspectivas de existência e de progresso a médio e a longo prazo. Dito isso, a sustentação de uma práxis de intervenção local, associando ao processo todos os atores envolvidos e opondo-se à perspectiva tecnológica de produção de instrumentos de doutrinação e de mobilização psico-ideológica, não deve levar a negligenciar os aspectos técnicos e o exame de nossa própria relação com eles. Em primeiro lugar, abordemos o problema a partir da noção de método. Refletindo a respeito dos termos de base de toda intervenção, não mantive esse substantivo, mas reagrupei sob a noção de processo os atos do agente, o trabalho resultante de seus encontros com os atores, seus efeitos sobre o sistema, os fatores que geraram o problema e a demanda de consulta, as representações que os interventores e os atores se fazem das qualidades desse trabalho, as regras e princípios que eles se impõem, a fim de que essas qualidades existam. Evidentemente, minha abordagem conceitual não ignora a noção de método e sabe reconhecer o lugar que diferentes correntes e autores lhe concedem; mas, quando aplicada à minha própria prática, ela tem em conta, especialmente, o fato de que a palavra método designa o caminho pelo qual se passa e que esse nunca é totalmente conhecido antes de ser alcançado (e mesmo depois). Creio ser útil e necessário interrogar-se, freqüentemente,

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que pode ser feito fora de um universo técnico. representações iniciais que trazem em si opções metodológicas que se esclarecem à medida que se caminha através de um trabalho de análise e reflexão. tendo a não apresentar um método definido de maneira unilateral. que meu comportamento não é orientado por meus recursos técnicos. perspectivas. de preferência. além disso. também. a examinar princípios. sua participação no trabalho. numa dada situação concreta. regras. Ao mesmo tempo. abordando concomitantemente o sistema. Assim. creio também na necessidade de deixar aberta a questão do método no momento em que uma demanda começa a surgir. algumas vezes. a partir de um determinado momento. O que se revelou como um “bom método” – a partir da opinião de diferentes atores envolvidos –.Psicossociologia – Análise social e intervenção sobre o caminho a seguir. fazendo dele um objeto fetiche ou atribuindo-lhe. deve ser o objeto de uma pesquisa em comum que comporte também momentos de negociação. firmemente. Ao mesmo tempo. mas. em excesso. tento fixar as modalidades de trabalho e um quadro técnico com os quais tanto participantes quanto consultores se empenharão durante uma duração determinada. por razões que só aparecerão quando já se estiver a caminho. o objeto (O que se quer fazer? O que se quer mudar? Por quê?). acredito ser ingênuo pensar que todo trabalho induzido por uma intervenção não se apoia em técnicas. esclarecer todos os fatores acessíveis que podem explicar esses afastamentos. sobre a maneira como se afastou do previsto. pode. os fatores geradores do problema. isso se dá. os atores envolvidos. de forma alguma proíbo-me de contribuir para a estruturação metodológica e técnica do processo. de não responder cedo demais com uma proposição saída de um modelo prévio que se tentaria padronizar – ou de uma gama de modelos entre os quais seria necessário escolher. não poder sê-lo. adquiridos durante minha formação e minhas experiências anteriores. como também uma posição crítica a respeito daqueles que têm tendência a autonomizar ou a privilegiar esse aspecto. dimensões ideológicas. mas pode. hipóteses. meus conhecimentos e habilitações. ser transposto sem grandes mudanças a uma outra. justamente. parece importante aos solicitadores. A questão do método parece-me fazer parte do trabalho de colaboração. porém. mas tomo iniciativas e faço propostas. dada a natureza dos problemas que eles se colocam e desejam tratar. Caso um apelo seja feito a mim. justamente. Reconheço que minha atitude comporta uma certa suspeita a respeito de tudo o que diz respeito a técnicas. 242 . porque se atribuem a mim competências em um domínio que.

considera que o dispositivo tem que ser inventado e construído a cada vez. os fenômenos de moda. não apenas objeto de trabalho para os participantes. ecologia etc. tamanho.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Por outro lado. conservando sempre uma perspectiva de pesquisa. compreendo bem a opção por estabilizar um dispositivo técnico. em função do campo no qual elas aparecem. Porém. constituindo. as funções externas almejadas pelos atores. PALMADE chama de dispositivo “modelador” dos fenômenos estudados. os que foram constituídos pelas atividades da formação e da psicoterapia. no final desse artigo. então. as práticas sociais de intervenção e de ação já existentes nos diferentes campos de nossa cultura. para tratá-lo. 243 . a questão de saber em que medida as práticas se diferenciam. na determinação das técnicas. uma lógica própria e apresenta propriedades diferentes. tolerância à diferenciação. tornar mais inteligível. Independentemente da relação que cada corrente de intervenção tem com a questão técnica e com o objetivo de esboçar uma via de reflexão a respeito das escolhas que são feitas pelos práticos e/ou seus comandatários. os custos etc. Poderíamos. então. a técnica de estruturação do processo se torna um dispositivo de inserção – o que G. a influência respectiva de variáveis como a natureza do local (intra ou transorganizacional). tolerando apenas uma gama restrita de variações. O modo de estruturação do processo pode se tornar. a natureza dos objetos. É nessa perspectiva que é preciso. Cada uma comporta pressupostos. as propriedades do sistema (grau de centralização. suas orientações teóricas. para o prático que pretende permanecer disponível a demandas muito diversas e para o que. por exemplo. os recursos da equipe de consultores escolhidos. em si mesmo. tal vantagem deve ser abandonada. mas objeto de pesquisas diferenciadas para os interventores. princípios estratégicos. na esperança de constituir um corpus de observações socioclínicas homogêneo. a seguir. Na medida em que se considera a intervenção como uma estratégia de pesquisa que permite o acesso a fenômenos inacessíveis por métodos convencionais. formas de autoridade. dentro de uma perspectiva comparada e diferencial. tentar. tentarei responder à questão: quais são as origens nas quais os práticos de intervenção psicossociológica se nutrem? Parece-me que é possível distinguir três categorias de origens: os métodos de pesquisa das Ciências Sociais. Evocaremos.). rapidamente. então. considerar os aspectos técnicos da intervenção sociológica de TOURAINE ou da sociopsicanálise de MENDEL. um objeto de trabalho.

a partir da prática psicanalítica. algumas vezes. depois de LEWIN. Em um outro pólo dos métodos de pesquisa. B. de maneira bem menos acentuada. a propensão dos práticos de intervenção. COCH e FRENCH). Quanto às estratégias de pesquisa. bem cedo. ela aparece ainda em intervenções do tipo pesquisa-ação (cf. mesmo que apenas para conhecer melhor as propriedades de suas técnicas. 244 . tal qual utilizada por certos sociólogos e etnólogos. em especial. certos ensaios de TAYLOR e os trabalhos de E. permanecem sendo uma condição técnica ou um auxílio importante para o trabalho de análise. a partir do momento em que os práticos integram à sua ação uma dimensão de pesquisa. combinados ou não a estudos monográficos e históricos. Entretanto. Algumas vezes. os social experiments no campo urbano ou em certas empresas) e. isso se passa sobretudo porque. Em seguida. forneceram um ponto de partida para as práticas de intervenção: estudos qualitativos e/ou quantitativos de amostras ou por meio de recenseamento. a observação participante. em algumas práticas. eles podem ser levados a planejar uma parte de sua démarche com uma perspectiva que permite uma exploração experimental ou diferencial de seus resultados. por exemplo. de devolução aos participantes e de interação dos atores. seus discípulos americanos utilizaram muito pouco as técnicas experimentais. nas de TOURAINE. FAVRET-SAADA retomou e transformou essa abordagem no campo da etnologia. pode-se dizer que a idéia de experimentação de campo constituiu. utilizando a análise de documentos disponíveis ou de instrumentos mais especializados como os testes sociométricos. Entre esses dois pólos. é a de situá-las mais aquém e além de uma démarche teórico-experimental do que no nível de operações visando à administração de provas. uma origem técnica importante. na maneira como J. GODIN. É espantoso ver quantos psicossociólogos estiveram interessados. estão as técnicas de pesquisa de campo que. parece-me. Não é de se espantar que a abordagem colaboradora acarrete uma opção por uma orientação clínica. MAYO como predecessores da intervenção psicossociológica.Psicossociologia – Análise social e intervenção Os métodos de pesquisa das Ciências Sociais como origens técnicas A noção de experimentação: se consideramos as primeiras pesquisas de J. mas também nos campos da saúde e social ou mesmo em meio industrial. ela alimentou uma parte dos trabalhos da escola lewiniana (cf. representa uma origem técnica que foi utilizada não apenas em meio aberto. os utensílios de registro (do gravador ao vídeo) foram largamente utilizados e.

a caracterizar melhor as situações.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais A estratégia geral de intervenção que fundamenta o recurso a essas técnicas de pesquisa e estudo repousa na idéia de que faltam aos atores informações objetivas. por exemplo. que. a identificar os problemas. há muito tempo. o significado das condutas etc. freqüentemente. a isolar os objetivos. a escolher as variáveis de ação. no papel de especialistas. considera-se racional separar (ou alternar) as fases de estudos e as fases de ação. atualmente. na França. de prestadores de pesquisa e de estudo) ou a acompanhar o processo até que os efeitos desejados sejam atingidos. quem participará do trabalho de exploração dos resultados. os interventores são convidados ora a fazer um diagnóstico (combinado ou não a recomendações). quem reterá as soluções etc. ainda hoje. Igualmente. Le BOTERF (1981) mostra a importância dessa origem técnica. Entretanto. os responsáveis por um estabelecimento industrial demandem a um serviço exterior ajuda para a instituição do “projeto de empresa”. a natureza das resistências. a origem das disfunções. pela encomenda de um estudo “Retrato”. de fato. quem escolherá as opções. como em outros lugares. a obra de G. Em um campo bem diferente. determinarão o caráter da intervenção (mais ainda do que o modo de divisão do trabalho entre consultores e atores. é sobretudo dessa origem técnica que brotaram as primeiras intervenções-consultas conduzidas depois da guerra. é dessa maneira que elas se estruturam. a atuação dos conflitos. as razões dos bloqueios. é comum. Em todos os casos. os limites desse modo 245 . o de intervenções em coletividades camponesas de países do Terceiro Mundo. e que a comunicação dos resultados os ajudará a fazer o recuo necessário. em todos os casos. permitindo aos atores elaborarem por si mesmos um diagnóstico e se empenharem em um trabalho de análise e interpretação. Vistos como capazes de realizar as pesquisas necessárias para informar sobre o estado de funcionamento vivido como insatisfatório. no começo. produzindo dados válidos. nas próprias operações das fases de estudo). ora a produzir uma análise descritiva ou um conjunto de observações e esclarecimentos. as respostas às questões de saber quem terá acesso às informações resultantes da pesquisa. a compreender os fenômenos que entravam o progresso em direção às metas. Pode-se observar que. que os consultores têm meios de aumentar o nível de conhecimento do sistema e dos atores a respeito deles próprios. quer os resultados se apoiem em uma perspectiva demonstrativa ou sejam apresentados apenas como sendo a percepção de um agente exterior. Os consultores podem ser convidados a colaborar apenas nas primeiras (o que tende a mantê-los. quem conduzirá esse trabalho.

. iniciar uma ação de formação desligada da etapa inicial e com uma outra equipe de consultores. ao menos. sem associação suficiente com os atores envolvidos: os pesquisadores ou responsáveis pelo estudo trabalham fenômenos ou discursos coletados junto a indivíduos ou pequenos grupos. a idéia de mandar realizar um levantamento de dados do conjunto do pessoal pode se dar devido a uma esperança. fazer economia de um trabalho verdadeiro de expressão cara a cara. escolhe-se. a violência das reações que eles provocam quando apresentam seus resultados: rejeição. a não ser esquecê-lo. muito freqüentemente é porque o relatório funcionou como uma operação de interpretação selvagem. . conseguindo uma solução de síntese ou. A respeito dos riscos nos quais se incorre e pensando. então. com a apresentação dos resultados. em especial. um retrato eventualmente objetivo e fiel. no caso de intervenções-consultas intra-organizacionais. são interrompidas. por exemplo. já citado. cólera. O texto de André LÉVY. de caráter mágico. os participantes têm a impressão de que se lhes despeja um relatório que tem valor de avaliação. enterrá-lo. freqüentemente com espanto. malgrado seus esforços para se expressarem de forma suficientemente prudente e pouco agressiva (ou para administrarem uma demonstração convincente).Há um risco ligado à análise insuficiente da demanda e das ilusões a ela relacionadas. desenvolve muito claramente esse aspecto. Poder-se-ia dizer que a célebre experiência de Hawthorne já apontava alguns deles. Se muitas intervenções. apresentaremos rapidamente três observações: .A preocupação legítima em obter uma informação bastante completa. por exemplo.O trabalho é conduzido por uma equipe externa. de fato. a descrição minuciosa permitirão fazer emergir uma palavra unificadora. Não se sabe mais o que fazer. o inventário. o trabalho de recenseamento. significativa e “representativa” inspira uma lógica para a elaboração 246 . de que a explicitação de sentimentos e de posições antagônicas. restaurando a coesão. caso se decida reiniciá-lo. os resultados afastam-se muito das representações que habitavam o campo de consciência dos atores para poderem ser aceitáveis. 1980). Sociólogos como CROZIER e SAINSAULIEU evocam. nas quais a fase de estudo fora concebida como um ponto de partida. depressão etc. denegação. depois de um certo tempo no qual ninguém ousa tomar iniciativa relativa ao projeto inicial. um conjunto de compromissos aceitáveis por todos e permitindo. sobretudo. constróem.Psicossociologia – Análise social e intervenção de estruturação técnica do processo foram percebidos (LÉVY. de confronto e de evolução das diferentes partes envolvidas. do exterior.

dando o tempo necessário ao trabalho de reconhecimento e de apropriação. e apesar das reservas expressas. a perlaboração. a uma solução que exige uma equipe e. adiamentos de realizações importantes.) e alternar fases curtas de levantamento de dados ou de pesquisa. . parece-me. se sente um interesse suficientemente grande de conceber o trabalho de estudo ou de pesquisa como uma mediação oportuna e necessária. correspondentes a atuações mais modestas. então. a atividade interpretante é conduzida aonde as interações estão favorecidas. chega-se. em outras palavras. transformando-as para que se adaptem à perspectiva da intervenção. durante o trabalho de análise da demanda. às relações elaboradas e conceituadas demais. o debate.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do projeto – particularmente. os interventores não devem se deixar levar pela lógica própria ao campo científico do qual elas saíram. . o que aumenta o risco de decalagem entre a fase de pesquisa e o momento em que se deveria investir no trabalho de exploração dos resultados. essa atividade interpretante submete-se às regras da interpretação clínica. algumas vezes. com o trabalho sobre os resultados. pode-se tentar: . os critérios de cientificidade: validade. como o próprio relatório. por categoria de ator etc. que dependem mais da segunda origem técnica da intervenção que propomos distinguir. o que provoca aumento dos temas de estudo. ela resulta de um esforço coletivo que permite a contradição. reprodutividade) em função dos princípios específicos da relação de consulta. mas repensar essa lógica (por exemplo. quando se quer a associação de todos os parceiros envolvidos –.preferir.fracionar a investigação (por tema. inevitáveis e lembro-me de casos nos quais eles ofereceram um começo muito positivo (ou apoios muito preciosos durante o percurso) para um trabalho de colaboração de longa duração. não opto por uma posição radicalmente hostil aos recursos dessa primeira origem. preferir as opções que procedem por meio de pequenas etapas sucessivas. assim. Entre as formas de reduzir esses riscos e quando. eles me parecem. 247 . pertinência. essa meta de associação máxima leva também a alargar o leque de técnicas. na medida em que isso for compatível com suas possibilidades efetivas de participação. as devoluções que estão próximas da expressão espontânea. De meu lado. da diversidade e tamanho da amostra (em grandes unidades). sobretudo. Quaisquer que sejam as técnicas de pesquisa utilizadas.associar todos os parceiros envolvidos.

os grupos. comparar as vantagens e as desvantagens das técnicas oriundas dessa primeira origem com as das duas outras e ter em mente a ingenuidade do postulado implícito nelas. sempre útil interrogar-nos sobre o seu grau de relevância. Passar-se-ia. TRIST. as práticas de formação. apresentam-se como a aplicação simples. pôde-se estar tentado a fazê-la sair da escola ou do centro onde nasceu para aplicá-la diretamente aos grupos naturais. algumas vezes. A escola lewiniana escolheu essa via com o NTL – National Training Laboratories (a palavra laboratory designando bem a idéia de experimentar. a fim de que elas mudem”. o artigo de E. traduzido para o no 3 de Connexions. de uma fórmula aperfeiçoada em um centro especializado ou originária de experimentos de laboratório de Psicologia Social ou de Pedagogia. As técnicas originárias das práticas de formação e de psicoterapia Toda vez que uma nova fórmula de formação. BRIDGER e outros) elaboravam as bases da 248 . a partir de 1964. de ensino provocou o sentimento de que se tinha descoberto uma pedagogia fecunda no plano dos indivíduos. de aperfeiçoamento e. que pode ser assim simplificado: “É suficiente estabelecer certas verdades e comunicá-las às pessoas. as organizações e as “instituições” supostamente se aperfeiçoariam. esse último exemplo encoraja-nos a reagrupar. assim. Logo. na qual. em seguida. de 1948. com muita freqüência. a uma perspectiva de intervenção. porém. métodos de mudança susceptíveis de serem aplicados. De uma maneira geral. em diferentes lugares da sociedade). JAQUES. social analysis. a equipe de JAQUES não parou de transformar essa base técnica para chegar ao que ele denominou. 1972). Uma das concepções iniciais do Tavistock caminhava no mesmo sentido (cf. nessa segunda categoria de origens técnicas. de uma perspectiva de formação. é necessário lembrar que. cujos efeitos de mudança social resultariam da transferência das aquisições do estudante a respeito do seu lugar de trabalho ou de vida. sobre a possibilidade de contorná-los. ao mesmo tempo que os indivíduos que os compõem. em um plano concreto. numa escala pequena. todas as técnicas de desenvolvimento organizacional (DO) originam-se do campo da formação e. adquiririam novas propriedades. de consulta psicológica (counselling) e de psicoterapia.Psicossociologia – Análise social e intervenção porém. Considerando a importância dada à referência psicanalítica nessa orientação e a dupla formação dos membros fundadores do Instituto Tavistock. ao mesmo tempo em que outros membros do mesmo grupo (RICE. evoluiriam. na Glacier Metal Company.

das estruturas de organização. essa evolução. grupos de análise de prática profissional. C. consistia em transpor. ENRIQUEZ consideram. o que representaria. a fortiori. A. a importância da referência à Psicanálise. C. no 1 a 10. das quais surgiram numerosas pesquisas-ação e. no plano teórico. tal grupo nunca foi tentado pela idéia de estabilizar um ou mais dispositivos técnicos do tipo DO. Sociopsychanalyse. conceberam diretamente. G. as intervenções que se seguiram. Mas se. em seguida. na empresa Geigy. ANZIEU transpôs. de se diversificarem em função da natureza das demandas. Payot). o movimento de democracia industrial. por exemplo. das orientações específicas a cada um dos membros da Associação. não pararam. Certos autores franceses que se nutrem das mesmas origens teóricas não seguiram. inscrevendo-se. utilização da autóptica. ROUCHY e E. ao contrário. D. nem todos os métodos de intervenção que tecnicamente se equipam com as práticas de formação psicossociais têm as mesmas referências teóricas e. 1972). jogos de simulação. as práticas de formação e de psicoterapia constituíram sempre a origem dominante de sua prática. com uma perspectiva de tratamento da organização hospitalar. em pedagogia institucional. MENDEL e sua equipe. J. para o seio da cúpula. Evidentemente. ao mesmo tempo em que se reforçava. passando pelos estudos de caso. LÉVY e. tanto em meio industrial quanto no campo social e da saúde. os métodos do grupo de base experimentado nos anos precedentes (J. um dispositivo de análise admitindo poucas variações e buscando sempre se distinguir – sem chegar a fazêlo. tecnicamente. ROUCHY. em nossa opinião – de qualquer intenção educativa (cf. seria evidentemente necessário diferenciá-los em função das orientações pedagógicas e das teorias de aprendizagem às quais eles se referem: técnicas de condicionamento. na França e em países estrangeiros. sua prática de psicodrama analítico. de reforço ou de treinamento em métodos ativos. se quiséssemos ser menos esquemáticos. nos quais a ARIP interveio. o processo de elaboração do dispositivo (sua instalação e as reiterações eventuais durante o percurso) como um objeto de trabalho integrado ao processo de colaboração com os solicitadores. ao mesmo tempo. um equivalente simbólico da segunda tópica freudiana. Pode-se fazer o paralelo com a evolução de uma associação como a ARIP: sua primeira intervenção psicossociológica de duração longa.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais abordagem sociotécnica. especialmente. KAES). Um critério de diferenciação importante das práticas de intervenção-consulta e de suas técnicas pode ser encontrado 249 . em pedagogia do projeto. com uma perspectiva de intervenção intra-organizacional. no plano organizacional. em uma estrutura técnica inspirada pela noção de aparelho psíquico grupal (R.

250 . o princípio estratégico subentendido durante a oferta e demanda de tais intervenções postula que já se conheça a solução do problema vivido pelo sistema envolvido (diferentemente dos casos evocados anteriormente). esperando-se que se aumentará assim. Além disso. De uma maneira geral. mas que ela produz outros resultados além dos esperados no interior de sua localização inicial. Em relação às situações descritas a respeito da primeira origem técnica. para os quais já se inscreveram individualmente N agentes.Psicossociologia – Análise social e intervenção nos conceitos elaborados por G. PALMADE no campo da formação e das reuniões: funções externas das atividades empenhadas. no espaço organizacional. na medida em que instituir. embora ninguém pense seriamente em conservá-la. é mais rápido. sob pressão de demandas dirigidas a interventores. as que se nutrem da formação surgiram. desde há algum tempo. a mudança social desejada. mais racional e menos caro. em especial. Enfim. entre os próprios serviços de uma organização. ela continua subjacente a muitas demandas desse tipo. a palavra de ordem. os meios de verificar a validade das hipóteses. Na lógica do modelo médico que funciona de maneira subjacente. irrelevante. é que se engane sobre a causa das dificuldades. Como para as intervenções que se equipam tecnicamente com os métodos das Ciências Sociais. ao mesmo tempo. os aspectos econômico-práticos nem sempre estão ausentes de uma demanda orientada para práticos da formação. é a descentralização. estágios existentes fora dela. Evidentemente. é necessário providenciar a formação do responsável local. Não se quer dizer com isso que esse deslocamento a torna. da regulação (hetero – ou auto –. sobre a pertinência do remédio ou sobre os dois e que não se tenha. as atividades de formação representam um precedente que permite conhecer consultores potenciais. localmente. forçosamente. da facilitação e. então. aplicando o método ao qual nos referimos à totalidade ou a uma proporção significativa de agentes. durante um tempo que pode ser apreciável. Com efeito. é falsa a idéia de que uma fórmula de formação psicossocial – concebida e experimentada pelos indivíduos que não se conhecem e dos quais se espera que transfiram suas aprendizagens para as suas respectivas unidades – conserva as mesmas propriedades quando é dirigida a um grupo natural. os responsáveis pela unidade fizeram seu diagnóstico e prescreveram o tratamento que delegam a interventores externos. freqüentemente. pensa-se atingir a massa crítica que permitirá alcançar. de acompanhamento ou dinâmica). sua eficácia e seu grau de adaptação às expectativas da unidade ou do serviço em pauta. o risco. funções internas asseguradas ou não pelos consultores no campo da produção.

descobrir. aliás. ele oferece aos interventores uma fonte de mediações para. ele deverá poder substituir o tipo de formação demandada por outras. inclinados demais a satisfazer imediatamente o cliente ou dependentes demais da autoridade que esse representa. na construção pedagógica da ação e na condução dos estágios e sessões etc. a condução e a animação das atividades de formação psicossocial em um dado lugar – ou apenas a formação dos formadores internos – não se reduz. Esse recurso às técnicas do primeiro grupo não tem somente por função alargar a composição do agente do diagnóstico prévio. Paralelamente. manter essa dimensão presente durante todo o processo. dispor de uma teoria das condições nas quais uma dada 251 . além disso. arriscam encomendar uma ação incapaz de obter os efeitos de mudança esperados. tal risco. desenvolver a análise da demanda dos responsáveis. de uma maneira progressiva. A competência de um interventor. evidentemente. houver disposição para investir em um trabalho satisfatório de análise da demanda. Um meio técnico (que.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Deixando de lado a qualidade das intuições dos que tomam as decisões. por demais impacientes em preencher seus carnês de solicitações. transformar as pessoas envolvidas em atores de sua própria formação. já foi institucionalizado há mais de vinte anos em um grande serviço público) para tentar reduzir esse risco consiste em não assumir uma intervenção sociopedagógica sem proceder. de um lado e de outro. deixar-se-ão cair na armadilha da prestação de serviço. na própria perspectiva da engenharia (ou na metáfora médica). menos o trabalho empenhado autorizará as derivações necessárias a um novo enunciado do problema inicial e a uma maneira mais adequada de se perceberem as dimensões reais. em assegurar “suas tarefas”. seguros demais dos próprios diagnósticos ou temendo muito vê-los questionados e temerosos em embarcar num processo psicologicamente mais custoso para eles. Esse risco pode ser reduzido apenas se. Tal dispositivo técnico é insuficiente. Ainda assim. então. do qual se espera a responsabilidade. os consultores. ele pode não resolver as dificuldades que o consultor escolhido pode encontrar para assumir esse papel. não é suficiente substituir o adjetivo “psicossocial” por “sócio-profissional” para reduzir suas dificuldades. primeiro. ao desempenho eficaz da prática de formador. na elaboração dos programas. os voluntários para se associarem na preparação de decisões. é função do tipo de formação da qual se esperam efeitos: quanto mais os programas são estruturados e estruturantes. confrontá-la à dos outros atores. a uma pesquisa prévia junto aos atores envolvidos e aos outros estratos hierárquicos do estabelecimento considerado. os solicitadores.. entre os dirigentes.

a prática permanente de intervenção socioanalítica desemboca em uma teoria da burocracia. é incapaz de obter uma verdadeira evolução. 252 .. Por exemplo. talvez seja interessante descobrir em que campos sucessivos esse fenômeno foi progressivamente institucionalizado.) –. com a corrente sociotécnica e a maioria dos sociólogos da organização. e não em técnicas de ação formadora de diretores. as estruturas internas das organizações se complexificam. em data. criando sempre mais serviços encarregados de intervir junto ao pessoal de operação. é interessante observar que. um grupo. Porém. Entretanto. As práticas sociais de intervenção já presentes na sociedade O fato de intervir – de vir entre (uma pessoa. a emergir como práticas e como papéis diferenciados.Psicossociologia – Análise social e intervenção ação é susceptível de provocar efeitos sobre o sistema – e que tipos de efeitos –. afetando a estrutura e as instituições internas.. negociar os procedimentos técnicos que permitirão produzir as informações que faltam. as estruturas da organização e a cultura da empresa são interdependentes. em problemas de remuneração etc. a serviço de que funções materiais ou simbólicas ele se desenvolveu e inventariar os diferentes papéis correspondentes a ele em um dada cultura. numa crítica aos limites do staff and line. Essa última observação leva-nos a examinar a terceira categoria de origens técnicas. mesmo na abundante literatura produzida pelo caso Glacier. de agentes de comando ou de pessoal de execução. para comunicar aos responsáveis de outras empresas o que se aprendeu no trabalho socioanalítico). é fenômeno tão geral nas sociedades humanas e na sua história que é passível de desencorajar uma abordagem teórica. pode-se simplesmente observar que o crescimento e a diferenciação funcional e os processos de divisão do trabalho. a convicção de que as condutas das pessoas. incorporar um cuidado permanente de acompanhamento e avaliação etc. que as características das tecnologias de produção e o modo de funcionamento coletivo também o são e que uma formação não associada a mudanças. o desenvolvimento técnico e científico. a extensão permanente da escala de mudanças são alguns dos fatores próprios a acentuar sua importância. Ela compartilha. e os fenômenos de consulta e de intervenção psicossociológicas não são mais os últimos. Sem poder preparar aqui tal reflexão. um sistema e seu problema. dois atores ou diversas instâncias em interação. nunca se evoca o recurso a atividades de formação (a não ser a partir do décimo quinto ano de intervenção-consulta. em resposta ou não a um apelo.

seria absurdo e falso nos limitarmos às duas primeiras origens técnicas de intervenção. JAQUES na Glacier Metal Company permitiria observar como as técnicas iniciais. fluxos de trocas recíprocas entre os aspectos mais familiares da vida cotidiana – que continuam a constituir o ambiente cultural no qual as práticas psicológicas e sociológicas se desenvolvem – e as duas origens. ao mesmo tempo em que essas evoluíam por meio de experiências socioanalíticas. nos conflitos entre direção e sindicatos. adquirindo uma nova especificidade através da maneira como são utilizadas e integradas na práxis. 253 . as pesquisas-ação originárias da corrente sociotécnica e as intervenções do movimento da democracia industrial tomam emprestado. o sociodrama. ALINSKY. não sem as enriquecer também com novas formas de contestação e de pressão. enriquecendo-as. Freqüentemente ligados à ação das igrejas. são chamados. as técnicas dos organizadores do trabalho e mesmo as dos gerentes. em sua prática de intervenção junto a populações migrantes desprivilegiadas. o psicodrama e os jogos de papel e de jornalismo (reportagem. durante os motins do Harlem. progressivamente. Mais recentemente. intervinha em fenômenos de preconceitos raciais e de violência urbana. assim. a metodologia de intervenção desenvolvida por A. TOURAINE recorre também. No campo das empresas de produção. acompanhamento permanente e pesquisas aprofundadas a respeito dos acontecimentos) quando. mas. freqüentemente. L. correntes tão diferentes quanto a advocacy planning e a análise institucional nutriram-se de fontes desse tipo. Com uma perspectiva de pesquisa de lutas sociais e culturais atuais. existem. vir a substituílas completamente. MORENO não se nutriu apenas das duas primeiras origens. sistematicamente. em Nova Iorque. de defesa ou de negociação. aproximaram-se dos modos de intervenção “naturais” dos atores. Mesmo a história da intervenção de E. mas também aproveitou as técnicas da arte dramática para inventar sucessivamente o axiodrama. no fim dos anos 20. as técnicas de ação direta dos sindicatos americanos. inscrevendo-se mais diretamente em suas práticas espontâneas. J. os psicossociólogos. Então. a práticas de debate. retomaram. esses já tomavam emprestado do ambiente cultural os elementos susceptíveis de equipá-los tecnicamente. como mediadores – um papel que a cultura francesa tem dificuldade em desempenhar. por exemplo. renovando-as. eventualmente. Essas trocas podem não apenas contribuir para enriquecer e diversificar os elementos técnicos tirados das duas primeiras origens. os “organizadores de comunidades”. Em países como o Canadá.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Em suas primeiras manifestações. como o sociólogo S. evidentemente.

como por exemplo no campo da imprensa escrita. Um risco das orientações que tendem a privilegiar essa terceira origem técnica seria. Pode-se dizer que esse serviço central cria um conjunto imponente de instituições de segurança. Entretanto. e que. concurso de segurança) etc. de coordenar uma rede de especialistas funcionais da prevenção. dirigidas à prevenção de acidentes de trabalho. a toda especificidade. talvez possamos propor duas observações antes de evocar rapidamente um exemplo concreto. as prescrições) e funcional (no campo técnico. apenas. tanto no plano material quanto no legal. tornando fácil arriscar comentários um pouco gerais. da magistratura. das lutas militantes etc. o exemplo seguinte pode contribuir para que sejamos compreendidos. o de não repensar suficientemente os empréstimos influenciados pelas precedentes. Da mesma forma que. há uma 254 . deixando de lado os requisitos que permitem estabelecer e manter as condições de análise. as oportunidades. das relações pastorais. o pressuposto poderia ser o de que os atores já possuem um conhecimento e um potencial suficientes de transformação e que lhes faltam. de propaganda. A variedade e a heterogeneidade dos elementos que reagrupamos nessa terceira categoria são grandes demais. de sensibilização (por exemplo. de fato. social). e renunciar.Psicossociologia – Análise social e intervenção Se fosse oportuno. difusão das estatísticas de acidentes. Embora não ilustre especialmente esse risco. os dispositivos de proteção. para a terceira. para a primeira origem. para a segunda. os dispositivos de encontro ou as garantias de mudança. então. de estudar as instalações da fábrica. em conseqüência. de organizar as ações de inspeção. da polícia. a idéia estratégica repousa na capacidade pressuposta dos atores de aproveitarem as informações mais objetivas a respeito de seu próprio funcionamento coletivo e. pode-se mudar esse funcionamento apenas por meio de aquisições e evoluções das pessoas. instalação de “monitores de segurança” escolhidos pela hierarquia. Parece-nos que. poder-se-ia ilustrar também como as práticas sociais parecem evoluir sob a influência das técnicas e métodos da Psicossociologia. de alguma forma. tratam-se de intervenções desenvolvidas em um espaço industrial de tamanho grande. ele acumula um papel legislativo interno (fixar as leis. educativo. No começo. de coletar e tratar o conjunto de informações relativas aos acidentes. de assegurar a publicidade dos resultados dos estudos. audiovisual. sem que ele próprio tenha autoridade no que diz respeito a sanções. a luta contra os acidentes está a cargo de um serviço central de técnicos encarregados a um só tempo de produzir a regulamentação interna. de formação. o material e os utensílios do ponto de vista dos riscos.

Poder-se-ia dizer que a condução do processo é prudente. combinando as técnicas derivadas das duas primeiras origens aqui distinguidas. ou comandos e direção) não são feitos diretamente. então. planeja-se uma ou diversas seqüências 255 . a abordagem escolhida não teria chegado a considerar todas as dimensões psicossociais do problema. fundamenta-se também. No fim desses dois dias. ela é acompanhada por mudanças que afetam certos aspectos das estruturas das instituições locais e não apenas as atitudes e comportamentos de atores. Uma abordagem mais recente. com a colaboração de consultores externos à sua unidade. ou por uma intervenção apenas formadora. Elas procedem geralmente – exceto nas fases de levantamento de dados e de observação – descendo a linha hierárquica e trabalhando em especial junto ao escalão médio. De acordo com os resultados. evidentemente. por exemplo. eles defendem seus relatórios diante de seus contramestres. o grupo ou os grupos dispõem de uma seqüência de duas jornadas para analisar a situação. o aperfeiçoamento dos estratos mais baixos dos agentes de comando. geralmente. concomitantemente. de segurança e de condições de trabalho. Os confrontos entre atores (por exemplo. cujo acordo é considerado como uma condição de possibilidade. na iniciativa de um responsável local decidido a desenvolver um esforço particular em matéria de prevenção. progressiva e que ela se passa em um lapso de tempo que se mede em anos. O apelo dirigido por algumas unidades a consultores externos ao serviço central ou a agentes de serviços de formação pode ser traduzido. algumas vezes desenvolvendo. Uma vez estabelecida a composição. Mais precisamente e sempre com a animação dos consultores. pessoal de execução). no começo. No caso da intervenção psicossociológica. Embora essas realizações permitam registrar progressos incontestáveis. no interior de um estrato ou entre comandos e escalões.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais coerência com uma concepção burocrática – no sentido de WEBER – de uma organização fortemente centralizada. mas mediados por dispositivos de estudos ou por situações de formação. é passível de ilustrar o recurso à terceira origem. produzir os diagnósticos. que abandona os dispositivos de estudo e de formação. gerentes. certas unidades sentem que o nível obtido é ainda insuficiente em relação ao alcançado. colocar cara a cara um grupo natural e seu escalão direto. em outros países. por uma intervenção psicossociológica. eles apresentam coletivamente o resultado de seu trabalho ao escalão direto. a base trabalhadora foi convidada a cooptar voluntários para participar de um grupo de trabalho. Depois de uma fase de informação-consulta dos atores envolvidos (comitê de higiene. evitase. propor as medidas. contramestres.

Tal dispositivo relaciona-se com o de grupos de expressão direta dos assalariados. Como no caso anterior. esse explicita as ações e organiza as situações de confrontos de maneira bem mais direta. tal 256 . produz uma frustração muito forte no ator. a intensidade emocional mais forte. todas as etapas que balizam a criação de um novo papel (do tipo “conselheiro-segurança”) são animadas por uma equipe de interventores externos à unidade. em saber em que medida e em que pontos as mudanças demandadas pela execução e seu comando serão adotadas pelo responsável local e se os membros do grupo ou dos grupos de executores confirmarão sua participação e segundo que modalidades. demitir-se ou deixar o outro – ou os outros – conservar sua vantagem. para nós. segundo o duplo princípio do voluntariado individual e da cooptação por pares. A última negociação consiste. a presença ativa de um terceiro nos parece indispensável. permite evocar aspectos que ultrapassam largamente as questões de segurança num sentido estrito e leva a considerar os acidentes (ou os comportamentos de risco) como resultante de um grande número de variáveis (ou. de múltiplas forças antagônicas). Se a situação mobiliza práticas sociais muito familiares aos assalariados e. instituídos pela lei Auroux.Psicossociologia – Análise social e intervenção suplementares ou passa-se diretamente à etapa seguinte que consiste em apresentar ao responsável local e a seus gerentes o relatório a respeito do qual o grupo inicial e o comando entraram em acordo. decisivos. Em relação ao processo das intervenções precedentes. em especial. então. ligada às diferenças de status e/ou de poder. ele não reúne todos os agentes da unidade envolvida. Ela permite. aos delegados do pessoal e aos militantes sindicais. Um dos pontos importantes desse processo é o de saber se os executantes voluntários e cooptados por seus colegas se empenharão ou não em um papel de “conselheiro segurança” no interior de suas respectivas equipes e segundo quais princípios esse papel será estruturado. a ponto dele renunciar. entre outras coisas. como na teoria dos equilíbrios quase estacionários de LEWIN. Três aspectos o distinguem: ele é demandado expressamente por um escalão da linha hierárquica e não imposto por ela. estende-se numa duração que se mede em meses. Porém. ultrapassar conseqüências e retroceder no momento em que uma assimetria muito grande. os mecanismos de defesa que protegem habitualmente cada categoria de ator mais prontamente atacados e reconstruídos por ocasião dos sucessivos encontros. O primeiro ponto (a iniciativa de um escalão ou de uma direção decididos a se empenharem em um diálogo verdadeiro) e o último ponto são. o choque de pontos de vista pode ser mais brutal. em teoria. mas um subconjunto (da ordem de um quarto a um décimo) composto.

O objeto “relações sociais” é tomado em uma fantasmática organizacional das relações interpessoais e dos fenômenos de grupo como o minério em sua ganga. sempre pluridimensional. Essa dimensão de positividade corresponde a um dos limites da neutralidade evocada: a presença do interventor só é possível se. é preciso que se lhes reconheça bastante autoridade para serem escutados e ouvidos por todos. sensíveis às causas pelas quais os atores lutam. em todos os níveis. o referencial teórico na Sociologia da ação de TOURAINE não impede que uma abordagem intervencionista atravesse necessariamente os fenômenos relacionais da Psicologia. entretanto. Enfim. além de serem percebidos como tendo condições de guardar uma distância ótima e resistir às pressões que podem ocorrer. caso se considere tais intervenções mais “sociológicas” do que “psicossociais”. na medida em que elas tentam ter um acesso mais direto às relações sociais. não são específicos de situações que retiram seus elementos técnicos da terceira origem. aliás. cada ator envolvido e ele próprio percebem a existência de metas suficientemente compartilháveis e a virtualidade de uma mudança eqüitativa. Em outros termos. uma importância acentuada. está. evidentemente.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais fenômeno pode-se produzir não apenas no interior de um dos estratos envolvidos. mas têm. a fim de fornecerem enunciados que não são gerais e abstratos demais nem tão “pé no chão” ou neutros. sem dúvida. por exemplo. não deve de forma alguma levar a renunciar ao projeto 257 . que se experimente bastante confiança em suas capacidades de catalisarem um progresso que poderá ser aproveitado por cada parte. senão à primeira. aqui. Por isso. tal metáfora. mas também em encontros do mesmo estrato. ancorar. Escolher. bem cedo. mal consegue considerar o grau de intricação e interdependência das dinâmicas grupal e social. mesmo se essas qualidades requeridas podem e devem se desenvolver através da experiência de práticas relacionadas à segunda origem (da condução dos grupos de estudo de problema aos grupos de evolução). Está claro também que. é necessário que os interventores sejam percebidos como suficientemente independentes de cada parte. e. evidentemente. para guiar a análise. O fato de que a realidade dos sistemas de ação concretos e das condutas sociais seja. capazes de empatia e de domínio intelectual dos problemas. mesmo se a orientação evocada não persegue meta formadora nem meta de estudo (os resultados obtidos nesses dois domínios sendo considerados como benefícios secundários). tecido com fios múltiplos. Tais requisitos. claro que elas ainda se situam no campo microssociológico. elas não dependem apenas da técnica.

Assim. no entanto. estabilizar uma mudança desse tipo (de fato. em cada momento. retomando a distinção de PALMADE (1977). sem chegar a lhe dar um molde. distribuídos por uns poucos meses) não deve permitir que se esqueça seu lado efêmero (dois. as escolhas iniciais arriscam. elas dizem respeito a uma práxis distinta daquelas do educador. do terapeuta. nenhuma estrutura técnica de intervenção pode constituir uma peneira perfeita. mas. malgrado os fluxos que renovam sua composição e os outros fenômenos internos ou externos que o afetam.Psicossociologia – Análise social e intervenção de análise (de decomposição em seus elementos) que caracteriza toda démarche de conhecimento. a Sociologia que opta por tal abordagem não pode mais excluir a Psicologia Social nem ignorar a vida psicológica dos grupos nos quais penetra. por si só. elas seriam. privilegiando processos decisórios ou elucidações de sentido. uma evolução das relações que caraterizam seus modos de funcionamento). Com efeito. Tal situação pode desencorajar um pesquisador. enquanto dispositivo de inserção. ela me leva. antes. Nem ciência nem tecnologia. com o tempo. três ou quatro anos no mesmo exemplo acima evocado). para o pessoal de um estabelecimento. a natureza dos dispositivos técnicos e os modos de intervenção que podem. o interventor é um clínico. ser atropeladas pelos acontecimentos presentes no processo e é apenas no desfecho que se pode concluir de que vertente disciplinar os objetos que foram trabalhados realmente dependem. ela só pode ser ela mesma ao preço de uma integração suficiente das abordagens da Psicossociologia. Não é fácil. a mim. O caráter algumas vezes espetacular de seus efeitos (não é raro ver a freqüência dos acidentes de trabalho em uma unidade ser reduzida a um quarto. do gerente ou do político. depois de dez ou vinte dias de intervenção. filtrar com segurança um objeto teórico. não é suficiente dizer que é a escolha do referencial teórico. ele contribui mais ou menos ativamente para lhe dar forma. quer esteja empenhado. enquanto não se tenta atingir as estruturas intrapsíquicas individuais nem as estruturas globais 258 . fundamentar tal distinção. capazes de contribuir em processos de pesquisa. caso se esteja inscrito em uma relação de consulta. uma posição de disciplina científica organizada em torno de um objeto específico e exclusivo. a resistir à tentação de considerar as práticas de intervenção psicossociológicas como passíveis de adquirir. até o ponto em que a distinção entre intervenções psicossociológica e sociológica não mais seja fácil de ser feita. em uma intervenção-consulta com perspectiva demonstrativa. enquanto pesquisador. quer atribua prioridade aos problemas de ação e de existência. permitindo isolar. particularizando-se por um trabalho técnico que lhe é próprio.

assim. analítica. de maneira mais ou menos difusa. por mais importante que ela seja para as pessoas envolvidas. os setores de saúde. tal resultado não se reduz a uma estatística de acidentes. analisar e experimentar as vias de democratização etc. por certos setores da sociedade. de tentarem inscrever seu esforço na história da unidade. diante de cada um dos campos que acabamos de enumerar.. exemplos que tomam emprestados elementos técnicos a cada uma das três origens que distinguimos nesse texto. adquirir um sentido menos restrito. Se nos restringirmos ao caso da perspectiva “colaboradora” – que corresponde ao que denominamos intervenção-consulta – e se entendermos por campos os domínios de atividade como a indústria. as que asseguram a qualidade da formação inicial dos práticos. a administração. na literatura especializada. vigiar a maneira como a sociedade institucionaliza sua atividade. A inserção na universidade.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais do espaço social considerado. Anunciamos. para mim. a colaboração ativa com os laboratórios de pesquisa. os espaços urbanos. lutar por estabelecer e manter as condições de possibilidade de seu papel (por exemplo. os movimentos sociais ou culturais etc. em função do campo social em que aparecem. o reconhecimento de uma posição suficientemente independente para estar em condições de contribuir concretamente para explorar. o comércio. no começo desse artigo. um ponto que vamos agora abordar rapidamente: o de saber em que medida as práticas de intervenção se diferenciam. malgrado sua fragilidade no tempo. isso tem pouca importância diante de um novo chefe determinado a orientar seus esforços em uma direção inteiramente diferente. Porém. o mesmo se passa. para os atores.). sem subterfúgios. pode-se observar que. é da responsabilidade dos psicossociólogos que optam por uma estratégia de “forçar entrada” afirmar. se a inovação local exprime e reúne novidades aspiradas. sua identidade social e a natureza de seu projeto. e se surgem conjunturas favoráveis. importantes sob esse ponto de vista. tais acontecimentos podem inspirar outros e. assim como a manutenção de uma vida associativa que não seja só de função corporativista são. 259 . demonstrativa) ou ainda se examinamos essa classificação em função das origens técnicas. a criação de “conselheiros segurança”) é o único meio. Por outro lado. social e educativo ou os campos de estudo como o meio rural. Enquanto atores sociais. podem-se encontrar. se relacionamos os campos e os tipos de intervenção-consulta que distinguimos (decisória. a invenção de instituições locais (por exemplo. o aperfeiçoamento permanente que pode garantir um nível de competência aceitável. seria natural levantar tal hipótese. Entretanto.

7-28.as opções epistemológicas e as perspectivas ideológicas dos pesquisadores e de seus parceiros (suas relações com os modelos dominantes em sua região e em sua subcultura).).a natureza dos objetos (as categorias de fenômenos) a respeito dos quais tenta-se produzir uma certa forma de conhecimento e obter mudanças. poder.). . não coincidiriam. não chegaria a evidenciar as diferenças significativas de acordo com os campos. com o que se observaria em outros lugares.-C. Os critérios que me parecem mais eficazes para evidenciar as especificidades seriam antes: .o lugar dos agentes que instituem o projeto no sistema em questão (status social. Porém.o caráter do lugar: espaço intra-organizacional ou trans-organizacional. ROUCHY chegou. a divisão do trabalho.T. Por exemplo.Psicossociologia – Análise social e intervenção Já observamos que. nesse número. as conclusões às quais J. sem operar modificações importantes e sem que ela perca sua pertinência.a relação pesquisador-ator (relação mercantilista.). a variância devida às condutas pessoais do consultor e de seus parceiros. pode-se aplicá-la a outros campos. 49. se tentamos elaborar uma taxionomia das práticas de pesquisa-ação no interior de um determinado setor (no caso. voluntária ou militante etc. DO – Desenvolvimento Organizacional (N. MARTIN em uma pesquisa recente. conceitualizá-los e a maneira como os apreendemos teoricamente. o espaço urbano). . necessariamente. autoridade. a estruturação dos papéis recíprocos. 2 260 . . Jean. sua própria experiência no campo da saúde. ainda. 1987-l. . os resultados quantitativos estabelecidos por C. de dependência hierárquica. Connexions. p. até um determinado ponto. posição central ou periférica etc. Notas 1 Traduzido de DUBOST. de colaboração profissional. evocando. o grau de nossa capacidade de indentificá-los. a partir de um corpus de uma centena de intervenções no campo social (1986) e. por Marília Novais da Mata Machado. pensamos que a raridade relativa do fenômeno deixa-o ainda fragilmente institucionalizado e que isso favorece. “Sur les sources techniques de l’intervention psychosociologique et quelques questions actuelles”. lidando com uma amostra bastante numerosa de casos. Não quero ir tão longe a ponto de dizer que uma análise comparativa.

1980. LÉVY. 1972. Paris: Anthropos. 1981. L’intervention psychosociologique. ROUCHY. PALMADE. G. Les recherches-actions sociales. L’enquête participation en question. A.As origens técnicas da intervenção psicossociológica e algumas questões atuais Bibliografia DUBOST. MARTIN. J. 261 . LE BOTERF. Paris: Payot. Connexions. G. C. “Une intervention psychosociologique”. J. 1986. 3. 1977. Interdisciplinarité et idéologies.-C. Paris: PUF. Paris: LFEEP. In: L’intervention institutionnelle. Théories et pratiques de l’éducation permanente. 1987. La Documentation française.

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mas ela pode auxiliar os atores e os autores sociais ou os sujeitos que querem inovar e criar novas modalidades sociais”. finalmente.br 0800 2831322 . o recrudescimento do ‘narcisismo das pequenas diferenças’ que acarreta as disputas inevitáveis entre as nações.“Quais são os problemas realmente essenciais. etnias. os mais importantes entre eles parecem ser o crescimento do individualismo. grupos religiosos etc. É certo que a Psicossociologia não tem poder para tratar dessas questões no âmbito da sociedade global.autenticaeditora. o triunfo da racionalidade experimental. a busca desenfreada pelo êxito econômico e financeiro e.com. os ‘intemináveis adolescentes’. ISBN 978-85-7526-022-7 9 788 575 26 022 7 www. na atualidade? Aos olhos do psicossociólogo.