Yin-Yang: a busca pelo equilíbrio entre os opostos

FERNANDA CHAVES, LUANA FERREIRA
E

NATÁLIA VOMMARO

ia e noite, preto e branco, positivo e negativo. Para muitos, esses são termos opostos, que se repelem ou se distanciam. No entanto, nas culturas orientais, os opostos são energias complementares, que se equilibram, são dependentes entre si. Esse é o significado do Yi n - Yang, símbolo representado nas cores preto e

branco pelo chamado diagrama do Taiji Tu, que aparece na iconografia das mais diferentes formas, desde amuletos a tatuagens e marcas de alimentos. Entender o sentido original do Yin-Yang é c o m p reender toda a base da religião, medicina e cultura orientais. Segundo a cosmologia oriental, o princípio era o Um, o absoluto,

e de sua polarização nasceu o Dois, o Yin e o Yang, que em constantes interações produz todos os fenômenos da natureza: o dia e a noite, frio e calor, contração e expansão, e, em último nível, a vida e a morte. O Yang significa o princípio ativo, masculino, diurno, luminoso, quente, e, portanto o branco, enquanto o Yin o princípio passivo, feminino,

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Arquivo Roberta Ferreira

Para a professora Roberta, o iogue deve procurar estar acima das forças opostas

noturno, escuro, frio, enfim, o preto. É interessante destacar aqui que essas características não são definições, que implicam em juízo de valor. Ao contrário do que estamos familiarizados nas civilizações ocidentais, o Yi n Yang nega as oposições maniqueístas. Não existe bem e mal, mas um infinito ciclo onde energias diferentes se equilibram voltando a ser uma coisa só. As pessoas, assim como a natureza, trazem manifestações dessas duas energias. Desse modo, sob condições normais do corpo humano, um relativo equilíbrio fisiológico é mantido pela mútua oposição entre Yin e Yang. Se por alguma razão esta oposição resultar num excesso de Yin ou de Yang, o equilíbrio fisiológico relativo do corpo é destruído e a doença aparece. A teoria Yin-Yang da polaridade universal, ou dos opostos complementares, teve sua origem

na velha China por volta de 700 a.C., e seus conceitos básicos encontram-se registrados no mais antigo livro originário do Extremo Oriente, o I Ching (Yì J¥ng ), também chamado de O livro das mutações. Ele oferece um complexo e meticuloso manual para a compreensão do constante fluxo energético que continuamente cria e altera o mundo. Oráculo e obra filosófica, foi revelado como meio de aprimoramento para o ser humano viver de forma equilibrada, harmônica e em maior sintonia com o seu próprio destino. O I Ching é a referência que, resumida e simploriamente, equivale à Bíblia para os chineses. Há duas correntes principais que interpretam o livro: o Confucionismo e o Taoísmo. Ambas admitem o I Ching como o primeiro e mais importante de todos os estudos. Os primeiros símbolos, compostos por trigramas e hexagramas, surgiram há

cerca de cinco mil anos, criados por Fu Shi. Algumas teorias atribuem esse nome a uma pessoa física, enquanto outros o explicam como uma energia potencial presente em todos nós. O professor de I Ching Oscar Maron, da Sociedade Taoísta do Brasil, explica de forma simples como podemos entender a simbologia do I Ching: “Ao todo são 64 princípios, representados por diferentes combinações de linhas, onde cada linha representa Yin ou Yang. Os hexagramas associam a percepção do Yin e do Yang aos ciclos de mutação da nat u reza, discutindo como o ser humano pode se integrar a ela de uma forma melhor. No julgamento de cada hexagrama e na análise das linhas são especificadas as situações de interação entre os pólos que produzem os fenômenos mutáveis que vivemos, indicando que todas as coisas quando chegam ao seu limite máximo transformam-se no oposto”. O livro é um texto clássico que pode ser interpretado como oráculo ou como um livro de sabedoria. Seus ensinamentos nos falam, principalmente, da relação do homem com seu interior, e como esse diálogo se reflete em seus comportamentos diante do universo. Na própria China, o I Ching é alvo de estudos diferenciados, de origem religiosa, erudita, ou de adeptos do Taoísmo. No Brasil, o l i v ro encontrou bastante espaço, porém, principalmente, como ferramenta esotérica ou quase como um “livro da sorte”, sendo deixada um pouco de lado sua função prim o rdial como filosofia.

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Tratamentos como a acupuntura são feitos a partir da classificação dos meridianos do corpo

O Yin-Yang na tradição do Yoga
A filosofia do equilíbrio entre forças opostas e, simultaneamente, complementares também encontra espaço entre os seguidores do Yoga. A professora de Yoga Roberta Ferreira explica que a teoria do Yin-Yang não está documentada nos livros da tradição iogue da mesma forma que no I Ching, porém a simbologia por trás do ícone está presente em muitos dos ensinamentos que o praticante precisa conhecer: “O Yoga se propõe a superar a realidade externa tal como conhecemos, o chamado Maya. Tal realidade é composta de opostos: o claro e o escuro, o bom e o mau, o frio e o quente, etc. O verdadeiro iogue não se deixa abalar por essas modificações, oscilações, de contrários,

A filosofia iogue considera o dirigir-se para além desse carrossel, a superação de todos os opostos concebíveis, essencial para se chegar à iluminação
opostos. Na verdade, o que importa é conhecer a realidade interior, que está acima de todos estes padrões opostos”. Para atingir este objetivo, o aspirante deve seguir as práticas do Yoga, com o intuito de controlar sua forma de atuação no mundo externo, que ora se mostra favorável (com o prazer, a satisfação, etc.), ora desfavorável (a dor, o sofrimento). Tais práticas incluem a Hatha Yoga (pos-

turas que visam à introspecção e ao equilíbrio), a meditação e cantos devocionais. No dia a dia, aplica-se isso a uma vida moderada: não comer demais, não beber, não fumar, etc. Segundo a professora Roberta, o mundo ocidental ainda tem muita dificuldade em aceitar a teoria de que o bom e o ruim são apenas lados da mesma moeda e que tudo que está em contradição contém o “germe” de seu oposto, assim como o símbolo do Yin-Yang: “Todos os opostos, tais como o bem e o mal, são relativos. Portanto, o ser humano não se deve esforçar simplesmente para alcançar o ‘bem’, mas sim procurar manter um equilíbrio dinâmico entre o ‘bem’ e o ‘mal’, entre estes opostos. O universo e seus padrões estão em constante mudança, e o que o

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Tai Chi Chuan

iogue quer é se libertar destes padrões, para que não seja atingido pelas mutações constantes e encontre a iluminação, que se encontra desvinculada deste redemoinho” – explica Roberta. Uma das diferenças entre a filosofia taoísta e a iogue é justamente esta. A postura do taoísta é não interferir nas oscilações do mundo, não agir de forma contrária à natureza das coisas, não exercendo força nenhuma sobre si mesmo ou sobre coisa alguma ao seu redor. Ele, simplesmente, adapta suas ações aos movimentos do Tao, o que significa deixar que tudo ocorra como deve naturalmente ocorrer. Roberta esclarece que o iogue também procura não interferir na natureza das coisas, mas sua preocupação, em última instância, é nem mesmo se preocupar com tais interferências, pois seu caminho é não se deixar atingir por tais mudanças. “A observação do mundo externo se dá,

exclusivamente, com o intuito de se atingir a iluminação. Não é o prazer o que o iogue busca, pois ele sabe que o prazer e a dor caminham juntos e constituem faces da mesma coisa. A filosofia iogue considera o dirigir-se para além desse carrossel, a superação de todos os opostos concebíveis, essencial para se chegar à iluminação”, diz a professora. Ou seja, a filosofia do Yoga é seguir o caminho do meio, o que não se confunde com ficar “em cima do muro”. O caminho do meio é, justamente, aquele que sublimou os opostos, que não se abala por tais conceitos, sendo, em última instância, o caminho do equilíbrio.

Energias opostas e o Feng Shui
Dentre as muitas aplicações da filosofia Yi n - Yang nos hábitos cotidianos, destaca-se o Feng Shui, filosofia chinesa que busca a perfeita harmonia entre os seres humanos e os ambientes que freqüenta. O Feng Shui estuda como podemos organizar nossas casas, quartos ou escritórios a fim de alcançarmos sorte, felicidade e saúde. A decoradora e designer Alice P e rez estuda o Feng Shui e a cultura oriental há 13 anos e explica que os princípios de equilíbrio e n e rg ético do Yin-Yang se aplicam também ao espaço em que vivemos: “O ambiente exerce muita influência sobre nosso comportamento, por isso, em p r i m e i ro lugar, é muito importante que nossos lares sejam afastados de focos de barulho, como ruas com muito trânsito, ou locais com música alta. O quarto deve

transmitir paz, para que seja o lugar ideal para se recarregar as baterias espirituais e emocionais gastas durante o dia”. Além disso, são muito importantes para o Feng Shui a ventilação e a iluminação. Segundo a decoradora, o ideal é que se tenha uma ou duas grandes janelas que permitam, ao mesmo tempo, a entrada de luz e de ar suficientes para a energia cósmica pessoal. Além disso, a vista do quarto também é de crucial importância para a energia do ambiente. Caso não haja uma bela vista, aconselha-se o uso de plantas e flores que ajudem a harmonizar o ambiente. É também aconselhável que se pendure um cristal na janela, o que traz boas energias para o quarto. “Outra questão importante se refere aos objetos decorativos, e as cores, que devem ser cuidadosamente escolhidos e posicionados. Enfeites demais podem afetar negativamente a fluência de energia dentro do quarto. Além disso, cores muito fortes, muito fracas, ou que não combinam tornam a atmosfera desequilibrada. Assim, é muito importante que os objetos utilizados sejam de materiais apropriados ao tipo de personalidade de cada um e que as cores sejam planejadas”, afirma Alice. Vale, ainda, ressaltar a importância da mobília na energização de um quarto. Dentre os móveis, o de maior importância é, sem dúvida, a cama. Segundo Alice, existem três regras que não podem ser esquecidas: “Uma cama não pode, em hipótese nenhuma, estar virada para a

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Nos hexagramas do I Ching, as linhas partidas representam o Yin e as inteiras, o Yang

p o rta, pois isso simboliza a morte. Além disso, a cabeceira deve estar encostada em uma parede sólida e a cama deve estar localizada na direção norte/sul axial da Terra, sendo assim energizada por seu pólo magnético”.

nismo e, quando estão em mesmo nível energético, controlam-se mutuamente. Porém, quando uma se sobressai em relação à outra, ocorre o desequilíbrio, ou seja, a doença.

A principal causa dos desequilíbrios, e, portanto, das doenças, tem sido alterações emocionais. Isso nos leva a pensar sobre a influência da mente sobre o corpo, e sobre a necessidade de se investir alto no equilíbrio emocional, espiritual e, conseqüentemente, físico
E n t re os principais métodos de tratamento da medicina tradicional chinesa estão a acupuntura, a fitoterapia chinesa, a terapia alimentar chinesa e a prática de exercícios integrados à meditação, como o Tai Chi Chuan e outras artes marciais chinesas internas, que podem contribuir para o reequilíbrio do organismo. Segundo Yamane, a MTC classifica os meridianos do corpo em suas propriedades Yin e Yang, d e s c revendo as diversas part e s , pontos, regiões, órgãos e sistemas do corpo onde os princípios do Yi n - Yang são aplicados: “Por exemplo, no corpo hu-

O equilíbrio como cura
Outra importante aplicação da filosofia Yin-Yang no cotidiano é na medicina. A primeira aparição de tal conceito como agente atuante nos processos de doença e cura foi há quase 5 mil anos, no livro Nei Ching – o livro do imperador amarelo – que estabeleceu as bases da chamada Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Tal corrente se fundamenta numa e s t rutura teórica sistemática e abrangente, de natureza filosófica, que inclui entre seus princípios, além do estudo da relação entre Yin e Yang, a Teoria dos Cinco Elementos da Natureza (metal, madeira, terra, água e fogo) e o sistema de circulação da energia vital (chi) pelos meridianos do corpo humano. Jaime Yamane, médico acupunturista e membro da Associação Médica Brasileira de Acupuntura, explica que a saúde depende do bom equilíbrio entre as forças Yin e Yang, o que garante um bom fluxo da energia vital. Tanto uma quanto a outra têm suas funções no orga-

mano, o que está acima, externo, do lado direito e posterior tem características Yang, enquanto o que está abaixo, interno, do lado esquerdo e anterior tem características Yin. Essa classificação se estende também aos p rocessos fisiológicos normais e patológicos e a sinais físicos mais d i s c retos, o que não exclui a necessidade de se identificar os fatores internos”. A desarmonia Yin-Yang pode ser causada por motivos endógenos como raiva, preocupação, pesar, medo e tristeza ou exógenos como excesso de frio ou calor, alimentação inadequada e poluição. Além disso, existe uma inter- relação entre os sentimentos e os órgãos do corpo, como, por exemplo, o pulmão, que é afetado pela tristeza, o coração, ligado à ansiedade, o fígado, influenciado pela raiva e revolta, etc. “Isso é muito importante, principalmente nos dias atuais, quando o ser humano é bomb a rdeado por estímulos que causam tensão, estresse, raiva. A principal causa dos desequilíbrios, e, portanto, das doenças, tem sido alterações emocionais. Isso nos leva a pensar sobre a influência da mente sobre o corpo, e sobre a necessidade de se investir alto no equilíbrio emocional, espiritual e, conseqüentemente, físico”, alerta Yamane.

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