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Frege Encontro

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06/06/2013

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Ideia, condições de verdade e significado

Matheus Pereira Costa

Problematização

Um discurso sobre o mundo, sobre os fatos e sobre as leis não pode afirmar que é o que não é, não pode afirmar que é “p” quando é “não -p”, ele deve dizer o que é e deixar claro o que não é. A tarefa da lógica é encontrar as leis da verdade, isto é, qualquer lei que estabeleça “como se deve pensar onde quer que se pense” 1. São leis do pensar que permeiam toda e qualquer teoria que visa asserir alguma coisa sobre o mundo. O discurso da ciência segue esse caminho, dizer coisas sobre o mundo, como o mundo é, expressar informações que devem ser compartilhadas por muitos, sem cair em contradições. Exemplos de proposições que

compartilhamos: 2 + 2 = 4, a terra descreve uma orbita elíptica em torno do Sol, a lua é menor que a terra, 3 é um número ímpar, todo homem é um mamífero, etc. Quando falamos de todas essas coisas, quando afirmamos, quando asserimos qualquer coisa verdadeira sobre o mundo estamos, inevitavelmente, discriminando o que é do que não é, o que é verdadeiro do que é falso. Dito isso, como podemos determinar que o que é para mim é diferente do que é para outro? Como posso dizer que o que tomo por “a lua é menor que a terra” (“a”) é o mesmo que outro compreende (por “a”)? Determinado que “a” para mim é o mesmo que “a” para outro, determinado que “a” sempre será igual a “a”; pergunto: como posso afirmar que “a” é igual a “b”, como posso afirmar que “a” e “b” significam a mesma coisa? Como é possível dizer isso e transmitir um conhecimento efetivo sobre o mundo, como dizer algo que é objetivo e não subjetivo? Portanto, como que é a relação da linguagem com o mundo? Essas questões revelam quais são alguns dos pressupostos que uma teoria sobre o funcionamento da linguagem deve responder, em especial uma linguagem que almeja ser científica e lógica. Esses pressupostos são: a teoria deve garantir que ao falar das coisas há ganhos cognitivos, transmite-se novas informações sem ser redundante, e que os objetos da fala não podem ser relativos, subjetivos, às pessoas. A resposta de Frege para qualquer uma dessas perguntas necessita clarificar três conceitos distintos que representam o funcionamento da linguagem, a saber: o
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FREGE, 1997, p. 202.

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é o objeto da observação. Frege em seu artigo “Sobre Sentido e Significado”. já a outra imagem está no sujeito que observa. pressupomos que a verdade do mundo é objetiva e não relativa.que é uma ideia ou representação. no caso. apenas uma face da lua. questionam se estes podem ser tratados como objetos. a imagem 2 . olhar a mesma face da lua. com o significado. esta face pode ser objeto de outros observadores. O cético e o idealista figuram entre os objetores de sua teoria. nós. Abstraindo-se do exemplo. isto é. Expõem-se esses três conceitos a partir da análise da analogia do observador da lua. Remontar todo esse percurso é o que desejo expor aqui. qualquer pessoa pode posicionar o telescópio no mesmo ângulo e grau e observar. como também são objetores desses pressupostos mínimos. é objetiva e pode ser usada por diversos observadores simultaneamente. Ideia. o que é o sentido ou pensamento e o que é o significado. mediado pela imagem real projetada na lente no interior do telescópio. Eu comparo a lua. o sentido e a ideia seriam imagens desse objeto. “Sobre o Sentido e Significado”. responde que nós quando falamos de algo. mas cada um teria sua própria imagem retiniana” (pg. pressupomos um mundo extra-mental. A imagem óptica é de uma face só e dependente do ponto de vista da observação. nem nos satisfaria apenas o sentido da coisa. isto é. e a imagem retiniana do observador. 155). o sentido. todavia. presente no artigo de 1892. entretanto. Uma primeira leitura deste trecho conclui facilmente que há uma distinção entre objeto e imagem. Uma dessas imagens está na ferramenta de observação. ela mesma. Essas diferenças de localização implicam que o sentido apresenta apenas um ponto de vista do objeto. Eles questionam a possibilidade de haver um significado para qualquer nome ou expressão. está é ideia. não estamos nunca tendo em vista a nossa ideia da coisa. diferenciou-os com a analogia de alguém observando a lua por um telescópio: “Alguém observa a lua por um telescópio. a segunda como a ideia ou intuição. Enquanto o significado é o próprio objeto em questão. pressupomos um significado. Frege. sentido e significado. sentido e significado Primeiro é preciso explicitar os três conceitos iniciais: ideia. o sentido é a imagem na lente do telescópio. inevitavelmente. A primeira imagem eu comparo com o sentido.

Este fenômeno (do tomar como verdadeiro) é totalmente subjetivo e dependente das condições do sujeito. O sentido é objetivo e a ideia subjetiva. não corresponde apenas a posição do telescópio. ao significado cabe o próprio objeto. como também qualquer uso ordinário da linguagem. se esse fosse o caso. FR pp. p. Do mesmo modo que as leis do pensar não podem depender de um sujeito para serem verdadeiras4. v. etc. seria impossível estabelecer as leis da verdade e. como também qualquer teoria sobre como linguagem é usada. Desse modo. Gg I p. segue-se uma nova distinção. de um sujeito. em hipótese alguma. pertencem ao domínio da minha consciência. são apenas impressões minhas e. química. 325 3 . segue-se que cada ideia ou representação tem apenas um único portador. o modo com que a linguagem se referencia às coisas não pode. Se o significado é um objeto determinado pelos sentidos. é impossível que dois homens associem à uma ideia a mesma imagem2. uma pessoa com uma visão mais aguçada poderia analisar melhores contornos na lua. o portador da imagem da lua não está apto para garantir que a 2 3 v. e necessitam de um portador. Portanto. qualquer teoria sobre como o mundo é e como ele se estrutura (qualquer lei da física. Se estão no domínio da minha consciência e dependem das minhas impressões sensíveis então elas não são autossuficientes. 154.óptica. 202. À ideia cabe o que é subjetivo. Assim. 334-336. 4 v. garante que o que observamos é ou não a lua. a única verdade possível seria a que se apresenta a cada pessoa. XV. Ao posto que a ideia refere-se apenas a imagem vista pelo sujeito. se necessitam de um portador e as imagens mentais que tenho dependem unicamente das minhas impressões. agora entre as imagens. imagem associada as minhas memórias e impressões sensíveis. FR. consequentemente. o que é crucial para abordar a ciência da lógica é a concepção das leis lógicas e isso está conectado com o modo que a palavra “Verdade” é compreendido 3. ele é o modo de apresentação e determinação do objeto em questão. sentido e significado. estar dependente da representação que cada pessoa tem do objeto. pois. FR p. Afinal. Sendo assim. pois não podem ter como base algo totalmente subjetivo como as ideias. ao sentido cabe o que determina o objeto. Tendo em vista essas considerações. é possível compreender à o que compete os conceitos de ideia. desse modo. corresponde a maneira com a qual o sujeito se relaciona com o objeto. p. etc). verdade seria o que cada sujeito toma como verdadeiro. a ideia seria o que então? A imagem mental que tenho do objeto. v. As ideias e representações são caracterizadas por não terem materialidade.

pensamentos não pertencem ao mundo exterior nem podem ser ideias e estão sempre sujeitos ao questionamento de sua veracidade. então eu não sou o seu portador e posso apesar disso reconhecê-lo como verdadeiro” 6 . Gg I p. à imagem óptica do exemplo da lua. então ele não pertence ao conteúdo de minha consciência. A concepção clássica de verdade diz que ela é uma relação de correspondência entre “uma figura e o que é figurado”7. com perfeita consistência lógica. faço uma asserção. e não é o próprio objeto. muito menos “a é idêntico de b”. basta relembrar o exemplo do teorema de Pitágoras. ou sentido. Farei um pequeno desvio na argumentação. não precisam pertencer à algum portador. O que esse exemplo revela do pensamento? De que ser um pensamento. se não será falsa. então. ao solipsismo5. Visto que o único meio de salvar a verdade do total relativismo é rejeitar as ideias como maneiras de acessar a verdade. FR p. 326 4 . Vou expor brevemente qual é a concepção de Verdade para Frege. Voltando ao exemplo. não seria possível afirmar “a é idêntico a a”. Noutras palavras. isto é: “se o pensamento que eu enuncio com o teorema de Pitágoras pode ser reconhecido como verdadeiro.verdade seja algo objetivo e passível de ser asserido por muitos. ele é a forma com a qual posso acessar o significado. reconheço sua verdade ou falsidade (após apropriada investigação) e. Se essa correspondência se sustenta dizemos que ela é verdadeira. XIX. Essa concepção levaria. Resta então ao sentido. apreendo o teorema de Pitágoras e reconheço que ele é verdadeiro. como as ideias. por outro lado. a tarefa de mediar a relação entre as impressões sensíveis das pessoas com a verdade. O que após ser questionado for falso também será um pensamento. Verdade. Todavia. 5 6 v. é algo que possa ser legitimo colocar em questão sua veracidade. então. depois retornarei a exposição do sentido. As ideias apenas garantiriam uma verdade relativa à cada pessoa. 7 FR p. julgo se é verdadeiro ou falso. 336. tanto por outros quanto por mim. A questão que se impõe agora é: o que é o sentido ou pensamento? O pensamento como vimos anteriormente é análogo a uma imagem objetiva (que pode ser usada por todos) que não pertence ao meu mundo interior. Nesse caso. apreendo o pensamento. exteriorizo esse reconhecimento. Pensamentos são caracterizados por também não terem materialidade. Desse modo. nesse caso. Ser um sentido é ser suscetível à questão se é verdadeiro ou falso.

Reconhece-se o pensamento como verdadeiro ao julga-lo como sendo verdadeiro. são o que podem ser questionados acerca de suas validades. 78 5 . um fato. Porém. ou seja. Esgotada a possibilidade de definir a verdade. diz Frege. A correspondência seria entre o real e o seu figurado. que poderia ser uma figura. Só há correspondência entre uma figura com outra figura. para Frege. o mesmo se segue para o falso. conclui-se que a verdade não é um atributo. Ora. Agora o passo seguinte é o de reconhecer nesse pensamento seu valor de verdade (Verdadeiro ou Falso). O segundo motivo é que uma correspondência só é perfeita se for entre duas que não são diferentes. nenhuma verdade estabelecida como correspondência será perfeita. Primeiro. Retornando. nem são relativos às pessoas e. e não que uma representação corresponde um representação. O que quer dizer “apreender” um pensamento? Ao fazer uma pergunta já realizamos esse ato. a verdade como correspondência não se sustenta por dois motivos. é um conceito sui generis e indefinível. fazer um juízo. Vou expor mais atentamente o processo que leva à exteriorização de um sentido. portanto. para Frege. o mais importante. mas é inevitável. a verdade reside nos próprios fatos e leis que são objetos do pensar e do julgar. 2008. Um exemplo: “o oxigênio é condensável?”. uma frase ou um pensamento. entre uma ideia e outra. após serem apreendidos. ela não contem nenhuma indicação da outra coisa ao qual algo deva corresponder. a verdade reside nos sentidos que são 8 SANTOS. apreender um pensamento é reconhecer o conteúdo em questão. a palavra “verdade” nunca é usada para relacionar duas coisas. O primeiro passo é o da apreensão. Um pensamento reconhecido como verdadeiro seria. Mas é impossível haver correspondência perfeita entre duas coisas essencialmente distintas. deseja-se que haja correspondência entre coisas distintas. Reconhecer o conteúdo da pergunta é apreender o pensamento. pois é a “conclusão imediata da tese da indefinibilidade da verdade e pressuposto da refutação fregiana da 8 possibilidade de identificação dos pensamentos a representações subjetivas” . Visto que pensamentos (sentidos) não pertencem ao mundo exterior. p. O argumento pode ser circular.seria uma propriedade dessa relação. etc. uma ideia. Ou seja. mas né é exatamente isso que não se pretende afirmar quando define-se a verdade como correspondência de algo real? Deseja-se dizer que a representação corresponde ao real.

ser verdadeiro ou ser falso. Ora. ela é relativa. Já. “A verdade não é o atributo que distingue os juízos legítimos dos ilegítimos. O significado era o objeto que estava sendo observado. ela não pode discernir o que é verdadeiro do que é falso com precisão. Visto que a ideia nunca poderia dizer claramente o que é sem cair em relativismo. mas ao que há para ser conhecido. a exteriorização do juízo. A verdade não convém propriamente ao conhecimento. a bem dizer. Qual então é o objeto do sentido? O objeto do sentido é o que se julga dele. Ele é. pode-se concluir facilmente qual seria o significado. seja ela subjetiva ou objetiva. Falta ainda analisar o último conceito associado ao exemplo da lua. A verdade é a realização dos fatos. um conceito originariamente ontológico”9. é o modo de determinação e apresentação de um objeto. não é relativo. o último movimento do reconhecimento de um sentido seria a sua asserção. Retomando brevemente a limitação do conceito de ideia e a função do sentido. O sentido fornece as condições de identificação do significado de um objeto. um conceito não epistemológico. 9 SANTOS. o significado. Ele forneceria as condições pelas quais o observador deveria passar para ver a lua pelo telescópio. se o único objeto do exemplo era o significado. para Frege.objetos do julgar. pois a ideia é insuficiente para determina-lo. jugar um sentido é reconhecer sua veracidade ou falsidade. Qual é o objeto que a ideia não pode expressar com certeza? Ela nos diz nada sobre o que é verdadeiro. o sentido por não depender de um portador. isto é. Caberia ao sentido a tarefa de mediar o conceito de ideia do objeto. 80 6 . 2008. p. o que seria o significado? O valor de verdade. o conceito de verdade é. a impossibilidade de definir o conceito de verdade e a objetificação do sentido. a vigência efetiva das leis que são tomadas como verdadeiras. A título mesmo de categoria lógica. é objetivo. Ele era caracterizado como não sendo uma imagem. mas originariamente o que distingue os pensamentos que são objetos de juízos legítimos daqueles que são objetos de juízos ilegítimos. Por fim. da verdade dele. apenas sobre o que um sujeito toma como verdadeiro. pois sempre dependeria de um sujeito. A afirmação de que o conceito de verdade é originariamente ontológico é possível devido a crítica de Frege à verdade como correspondência.

o pensamento é comum à todos. Quando garantidas as relações de igualdade segue-se a possibilidade de oferecer conhecimentos novos e efetivos sobre o mundo.Considerações finais Agora podemos responder as questões inicialmente colocadas. O que eu tomo como verdadeiro seria diferente do que outro toma como verdadeiro. Mas. novas condições de identificação do que é verdadeiro. o relativismo que decorreria ao tomarmos nossas ideias como o meio para averiguar a verdade tornaria inviável qualquer lei ou teoria que diz o que é. analíticos e a priori. Pressupõe-se um significado. apenas as condições de identificação da lua e da terra. é expor duas condições distintas de identificação que correspondem ao mesmo objeto. Garantida essa verdade mínima. um pintor e um zoólogo teriam associariam diferentes imagens a palavra bucéfalo. Só relembrar o exemplo clássico de Vênus. “A” é o que define “A”. afirmar que “estrela da tarde” = “a estrela da manhã”. pois descobre-se novas condições de identificação dos objetos. Pensamentos idênticos são iguais. o que é para mim seria sempre diferente do que é para outro. Ele é legítimo 7 . Surge o sentido como o mediador entre a verdade e as impressões. sentidos são condições de identidade. Pois. É possível determinar que todas as pessoas possuem ideias ou representações distintas dos objetos. pode-se perguntar se “a = b”. pois ser condições de identificação é ser condição para a legitimidade de juízo. O que se tem em conta é apenas o sentido. mas em um descobrir pensamentos verdadeiros. são duas proposições verdadeiras que correspondem a um sentido proposicional verdadeiro. este é um sentido dentre inúmeros outros. Frege responde ao cético e ao idealista que pressupomos um significado. o mesmo sentido é atribuído a letra nesses casos. Transmite-se conhecimentos novos. Ou seja. mas da proposição ao sentido. Entretanto. “a” e “b” se forem as condições de identidade para um mesmo objeto então a relação de igualdade se sustenta. Mas a resposta ainda não está completa. afirmações como “a=a” seria impossíveis de ser ditas nesse contexto. o que leva a recusa das ideias e da relação direta com a verdade. são modos de determinação. Ser terra é ser maior que a lua e ser lua é ser menor que a terra. ao dizermos que a “a lua é menor que a terra” não está tendo em conta a imagem que eu associo ao objeto. Que fique claro que não é uma correspondência da proposição a algo. Um cavaleiro. Do mesmo modo que o trabalho da ciência não consiste em um criar. São duas proposições que correspondem a Vênus que é verdadeiro.

se for verdadeiro. O olho e o microscópio: a gênese e os fundamentos da lógica segundo Frege. Portanto. atribuir uma propriedade a um objeto é atribuir esse conteúdo ao pensamento. é atribuir o conteúdo “ser menor que a terra” ao pensamento expresso pela palavra Lua . The Frege Reader. Reconhecer que algo possui uma propriedade é um ato que envolve os conteúdos do pensamento como também o conteúdo do predicado verdadeiro. Bibliografia e abreviação BEANEY. Se reconhecemos como verdadeiro o que na verdade é falso estaríamos sempre destinados ao erro e alheios de qualquer discurso que expressaria alguma informação. 8 . H. Atribuir a propriedade “ser menor que a terra” a Lua. (FR) SANTOS. as condições de identificação só existem por serem condições de verdade. L. Rio de Janeiro: Nau. 1997. 2008. L. Oxford: Blackwell. M.

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