100 ANOS DE

mcLuHan mcluhAn McluhaN MCLUHAN MCLUHAN MCLUHAN
JANARA SOUSA, JOÃO CURVELLO E PEDRO RUSSI (ORGANIZADORES)

100 anos de McLuhan

C394 100 anos de McLuhan / organizadores Janara Sousa, João Curvello, Pedro Russi – Brasília, DF: Casa das Musas, 2012. 148 p. ISBN 978-85-98205-80-9

1. Comunicação – pesquisa. 2. Meios de comunicação - estudos. 3. Meio e Mensagem. 4. Transformações sociais. I. Sousa, Janara (Org.), II. Curvello, João (Org.), Russi, Pedro (Org.).

316.77 - CDU Ficha elaborada pela bibliotecária Paloma Guimarães Correa de Oliveira CRB1/1774 Este livro é resultado do debate realizado durante o “Seminário Internacional 100 anos de McLuhan”, financiado pela Capes e pelo Decanato de Pós-Graduação, da Universidade de Brasília (UnB). O evento, ocorrido nos dias 10 e 11 de novembro de 2011 e organizado pela linha de pesquisa Teorias e Tecnologias da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Comunicação da UnB, também teve apoio da Universidade Católica de Brasília.

© 2012, Brasília: Casa das Musas Projeto gráfico e diagramação Rodrigo Farhat

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INTRODUÇÃO

O “conteúdo” de um meio é como a “bola” de carne que o assaltante leva consigo para distrair o cão de guarda da mente. O efeito de um meio se torna mais forte e intenso justamente porque o seu “conteúdo” é um outro meio (MCLUHAN, 1964, p. 33)

O “meio é mensagem” é certamente um dos aforismos mais conhecidos do autor canadense Herbert Marshall McLuhan (1911-1980). Para além do jogo de palavras e da evidente provocação, essa afirmação, que também foi título de uma das suas principais obras, trazia um conteúdo completamente novo e diferente para a pesquisa em Comunicação; outra forma de entender (significar) o mundo relacionada aos processos e dinâmicas anteriores, não como uma episteme do tipo “ponto zero” que desconhece todo o anterior, senão, muito pelo contrário. Assim, pode-se compreender que o destaque para a importância do canal no processo de comunicação desperta a pesquisa na área do período marcado pelos estudos dos efeitos globais e do conteúdo e acusa a tecnologia de ser responsável por efeitos muito mais peremptórios e revolucionários do que qualquer conteúdo que a primeira página de um jornal ou as notícias de última hora de um canal de televisão poderia trazer. O estudo dos meios de comunicação marcava também uma ruptura na forma de ver a tecnologia, fato que já estava sendo pautado em outras áreas. O meio não era neutro, nem um mero instrumento, nem somente o transmissor. O meio é o conteúdo porque cada canal criava um “novo” ambiente diferente do anterior que demandava esforços diferentes, organização social diferente, respostas diferentes e outras interações entre os órgãos dos sentidos. Para McLuhan, o estudo dos meios de comunicação poderia trazer a luz essa mensagem que consistia nas transformações sociais muito mais profundas que as transformações que os conteúdos transmitidos poderiam causar.

A pesquisa em Comunicação não passou incólume pela obra de McLuhan. A década de 60 foi marcada pela polêmica e admiração que o pensamento desse autor causou. Porém, vale destacar: polêmicas lamentavelmente contaminadas por dicotomias (favor/contra; certo/errado; integrado/apocalíptico; esquerda/direita e assim por diante), favorecendo uma defesa da posição política defendida, em detrimento do conhecimento aprofundado, do conteúdo apresentado pelo autor canadense. Ao ser traduzido em diversos idiomas, McLuhan conquistou a façanha de em pouco tempo ser conhecido, citado, amado e odiado. O contexto social e político eram conturbados. Se por um lado, para uma parte do mundo pairava o medo da corrida armamentista, da Guerra Fria e quem sabe até de uma nova guerra mundial; por outro, a América Latina, por exemplo, além dessas questões, sofria com ditaduras militares sangrentas e voltava o foco da sua pesquisa para as questões políticas-práticas. A recepção da obra de McLuhan no Brasil também não foi diferente. No final da década de 60 e até o início dos anos 70, três das principais obras de McLuhan já haviam sido traduzidas para o português: “Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem”, “O Meio é a Mensagem” e “A Galáxia de Gutenberg”. Embora o momento político conduzisse para o debate das políticas da Comunicação, a rápida tradução do pensamento de McLuhan revela que as questões sobre a tecnologia e os meios de comunicação também reverberavam no ambiente intelectual e acadêmico brasileiro.
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Como em outros países do mundo, a obra de McLuhan provocou dicotomia no Brasil. Por um lado, admirado e até dicionarizado, por outro tido como o ingênuo capaz de, num momento político tão delicado para o mundo, voltar seu foco para o debate sobre a tecnologia. O fato é que, embora houvesse dicotomia, era impossível não mencionar o pensamento instigante e provocador de McLuhan. As décadas que se seguiram foram de abertura democrática para o Brasil e para América Latina, abertura de perspectivas para a pesquisa em Comunicação e fortalecimento dessa pesquisa evidenciado pelo aumento dos cursos de graduação e pós-graduação. Esse momento marcou também um longo silêncio com relação à obra de McLuhan. Menos citado e mais esquecido, o autor se tornou o capítulo perdido, o pensamento exótico. Alguém para o qual não valia o esforço de olhar ou entender, os resultados já estavam definidos e os fatores determinados, i.e., alea jacta est. Mas, é aproximadamente no final dos anos 90, tanto no Brasil quanto em diversos países do mundo, que o pensamento mcluhaniano passa a ser outra vez relembrado, revisitado e celebrado. O fenômeno da rede mundial de computadores pode ter sido o estopim para que o papel do meio de comunicação fosse outra vez revisto no processo comunicacional. As evidências das profundas transformações que esse novo canal causou fizeram com que os pesquisadores da área da Comunicação se voltassem outra vez para obra do “Sábio de

Aquários”, como McLuhan foi jocosamente apelidado, para buscar chaves de compreensão. As comemorações do centenário de McLuhan, no ano de 2011, deixaram claras as provas do respeito e da importância seminal do pensamento do autor para a pesquisa em Comunicação e de que nem tudo estava tão claro como foi pretendido, dessa forma, a sorte não estava lançada. Diversos países do mundo programaram eventos para celebrar o aniversário do autor, aprofundar o debate sobre sua obra e, claro, construir mais material de estudos sobre o tema. O reconhecimento da obra do teórico, desde a popularização da Internet, torna evidente a capacidade desse pensamento distinto e peculiar de resistir ao tempo e continuar podendo explicar fenômenos que acontecem tempos depois da morte desse destacado pensador. Este livro é resultado das apresentações que aconteceram durante o “Seminário Internacional 100 Anos de McLuhan”, nos dias 10 e 11 de novembro, na Faculdade de Comunicação – FAC, da Universidade de Brasília – UnB. O Seminário, organizado pela linha de pesquisa Teorias e Tecnologias da Comunicação, do Programa de Pós-Graduação da FAC/UnB, teve como objetivo participar dos eventos de comemoração à obra desse autor e aquecer o debate sobre o papel dos meios de comunicação. Os autores que compõem esta obra foram convidados pelo Comitê Científico do evento para participar do debate e escrever artigos para coroar e eternizar o Seminário com esta publica4

ção. Os 10 artigos aqui presentes, seguramente, traduzem a riqueza dos dois dias de debate travados entre os autores e os alunos de graduação e pós-graduação, professores, jornalistas e outros tanto que participaram do Seminário. Esta publicação está divida em três partes que agrupam os textos conforme a leitura da obra de McLuhan que eles foram trazendo. A primeira parte – fundamentos – traz reflexões sobre aspectos e/ou conceitos da obra do autor e mergulham profundamente nesse debate. Neste sentido, o escrutínio e análise da obra do autor foi o foco principal destes trabalhos. As outras duas partes – Aproximações I e II – nos trazem leituras de fenômenos ou de conceitos a partir do aporte teórico construído por McLuhan. Esses artigos buscam aproximar, discutir e comparar aspectos do pensamento mcluhaniano com outros autores, temas e conceitos. Aproveitamos a oportunidade para agradecer aos alunos da graduação e pós-graduação da FAC, especialmente, os que compuseram o Comitê Científico e Organizador e tornaram possível a realização desse evento. Agradecemos também o apoio e os recursos de suma importância concedidos pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Faculdade de Comunicação, Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação, da UnB, e Universidade Católica de Brasília – UCB. Reservamos também um agradecimento especial à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES que contribui com os recursos para realização do Seminário e desta

publicação. Finalmente, gostaríamos de agradecer a todos que participaram do “Seminário Internacional 100 Anos de McLuhan” e tornaram possível o debate e a celebração do pensamento de Herbert Marshall McLuhan.
JANARA SOUSA, JOÃO JOSÉ CURVELLO E PEDRO RUSSI BRASÍLIA, 2012

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PARTE 1

FUNDAMENTOS

McLuhan en el espacio acústico
JESÚS O. ELIZONDO MARTÍNEZ

Contribuição de McLuhan para uma visão de mundo global e inclusiva
IRENE MACHADO

Explorations e Probes (Encontrando McLuhan)
A. R. TRINTA

McLuhan e as extensões
RODRIGO MIRANDA BARBOSA

McLuhan en el espacio acústico

Resumen
Este trabajo expone los resultados de una investigación acerca del concepto ‘espacio’ en la obra de H. Marshall McLuhan a cien años de su natalicio. Creemos que este es un concepto clave que nos permite entender su obra desde una perspectiva innovadora, especialmente atractiva para artistas y desarrolladores de tecnologías locativas. Discutiremos acerca de la forma en que un proyecto artístico desarrollado en el espacio abierto (acústico) ayuda a la orientación espacial en contextos dramáticos de supervivencia. Observaremos los efectos de las tecnologías locativas en la creación de nuevas prácticas contraculturales en el contexto de la frontera México-Estados Unidos. Nos referimos específicamente al caso de la Herramienta del Inmigrante Transfronterizo deJESÚS O. ELIZONDO MARTÍNEZ UNIVERSIDAD AUTÓNOMA METROPOLITANA, CUAJIMALPA, MÉXICO MCLUHAN FELLOW, UNIVERSIDAD DE TORONTO, CANADÁ JELIZONDO@CORREO.CUA.UAM.MX sarrollada por el profesor y artista Ricardo Domínguez.

Palabras clave
espacio, frontera, arte público, medios locativos, medios móviles, GPS, TransborderImmigantToo
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McLuhan, teórico del espacio Uno de los acercamientos más innovadores y coherentes propuestos recientemente en el estudio de la obra de Herbert Marshall McLuhan (1911- 1980) tiene que ver con el concepto de espacio. Este concepto aparece en el pensamiento de McLuhan desde el comienzo de su trabajo y evoluciona a la par que su obra se amplía en temas y complejidad, superando los límites naturales de la literatura, por un lado y la teoría de la comunicación, por el otro. El concepto establece un puente entre la teoría del espacio visual, el cual caracteriza la primera etapa de su investigación y la teoría del espacio aural (audiotáctil) de su última fase. Representa una de las contribuciones menos analizadas, aún cuando se encuentra entre los aspectos más reveladores del trabajo del erudito canadiense. Nuestro punto de partida es la hipótesis de que el espacio es la categoría conceptual más consistente en el trabajo de McLuhan, y que ese espacio es la noción que enlaza una multiplicidad de elementos propuestos a lo largo de su pensamiento. El interés inicial de McLuhan por el alfabeto -concebido como una tecnología que entre otros efectos, tuvo el de haber transformado la concepción de espacio- fue complementado por el hallazgo de la idea de espacio abierto – como en arquitectura- y espacio acústico –como lo usan los invidentes- así como por los conceptos de tendencias o sesgos espaciales y temporales propuestos por Innis para el estudio

de los medios de comunicación. Esto deja ver el interés que el canadiense mostró por los problemas espaciales - manifestado inclusive durante eventos traumáticos de su vida- y en su carrera intelectual. En cuanto a la naturaleza del espacio acústico en particular, es esencial entender que estamos tratando aquí con un concepto híbrido, resultado de lo oral y literario –modos de ser alfabéticas-, y de que la noción es más material que abstracta. Esta visión materialista es resultado de la influencia de Innis. No obstante, veremos una separación entre las dos, originada desde la naturaleza misma de la relación entre espacio y tiempo. Sin embargo, si consideramos a McLuhan un ‘teórico del espacio’, como lo hace Cavell (2003, 4), puede ser éste un enfoque innovador, inventivo, pero sobre todo creativo. Desde que McLuhan descubriera las ideas de SiegfriedGiedion sobre arquitectura: el espacio abierto y cerrado, asumiría que el espacio visual era sólo una de las múltiples formas del espacio (Cavell); tal es el caso de la experiencia sensorial que una persona invidente experimenta en espacios abiertos. Tomando como ejemplo éste caso, McLuhan desarrollaría más tarde el concepto del espacio acústico. Y es que había encontrado al fin la forma de incorporar el tiempo en un modo relacional, dentro de la configuración espacial a través de las dinámicas de lo acústico. Si el espacio es considerado como ‘el mundo creado por el sonido’, entonces tenemos que estar conscientes de que sus características serán totalmente diferentes de aquellas del espacio visual. Este espacio no tendrá límites fijos o centro, ni un limitado sentido de la orientación. Además, estará
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más eficientemente conectada al sistema nervioso central que cualquier otro elemento visual: la imagen nunca es tan fuerte como lo es la sensación espacial directa. En una segunda etapa de este trabajo discutiremos acerca de la forma en que un proyecto artístico desarrollado en el espacio abierto - territorio y mapa - ayuda a la orientación espacial en contextos dramáticos de supervivencia. Abundaremos en el estudio de los efectos que las tecnologías locativas tienen en la construcción de nuevas concepciones culturales en el contexto de la frontera México- Estados Unidos. Nos referimos específicamente al caso de la llamada Herramienta para el Inmigrante Transfronterizo (TransborderImmigrantTool) desarrollada por el profesor y artista Ricardo Domínguez. El profesor Domínguez y su equipo en la Universidad de California en San Diego, había venido trabajando sobre la idea de orientación en el territorio. Domínguez había encontrado inspiración en el proyecto llamado ExcursionistaVirtual (Virtual Hiker) de BrettStalbaum. El Excursionista Virtual es un aparato basado en tecnología GPS que lee el portátil del tamaño de una reloj de pulsera, que “lee” el terreno para luego proponer una ruta a seguir sobre la topografía de la zona en cuestión. Con esto en mente Domínguez se preguntó si podría adaptar esta herramienta basada en el GPS para ayudar a los migrantes a cruzar la frontera México- Estados Unidos. Así las cosas, desarrollo su propia versión. La herramienta debía ser lo más sencilla posible como para poder ser usada por cualquier tipo de usuario (letrado o no, ha-

blante de la lengua ingles a o no). La interface fue diseñada de tal manera que se parece a una brújula y en la manera en que despliega la información en su pantalla es más pictórica o icónica que textual. La herramienta también funciona como detector de zonas de peligro (o elemento localizador), ya que se activa - vibra - cuando el usuario se acerca a pozos de agua o carreteras. La orientación es ciertamente un problema real para los sujetos en la frontera entre dos países, lugar donde las autoridades llevan a cabo un monitoreo constante de los movimientos y conductas de los individuos. La herramienta para Inmigrantes trans-fronterizos deja ver algo importante: que conocer la propia ubicación dentro del espacio es de vital importancia, y también subraya la relevancia de la elaboración de un mapa mental de la propia ubicación y la ruta a seguir. Mientras Domínguez y su equipo definen y defienden el proyecto como una la herramienta de carácter humanitario que ayuda a salvar vidas, no es de sorprenderse que la extrema derecha norteamericana lo haya interpretado como una declaración de guerra y ha tomado acciones contra él. Así las cosas su nombre saltó a los medios de comunicación cuando fuera nombrado como una de las personas más interesantes en 2009 por la cadena de noticias CNN. Él no sólo ha tenido que enfrentar la amenaza de un juicio legal, sino que también ha sido víctima de amenazas contra su vida, como resultado del proyecto. Más adelante volveremos sobre este tema.

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Sobre el rigor de la ciencia, la geografía y la cartografía El cuento de Jorge Luis Borges, Sobre el rigor de la ciencia, cuenta la historia de un mapa increíblemente detallado y de tamaño real que “eventualmente se rasgó en jirones a lo largo de todo del territorio que cubría”. Corner – especialista en cartografía –, dice al respecto que esta historia es citada frecuentemente en ensayos científicos, de cartografía y mapeo. El cuento no solamente captura bellamente la imaginación cartográfica, sino que va hasta el corazón de la tensión que se establece entre realidad y representación. Esta premisa deja ver otro punto que Corner declara muy claramente en su ensayo El quehacer de la Cartografía: “La realidad, entonces, en conceptos tales como ‘paisaje’ o ‘espacio’, no es algo externo y ‘dado’ para nuestra comprensión; más bien está constituido, o ‘formado’, a través de nuestra participación con cosas: objetos materiales, imágenes, valores, códigos culturales, lugares, esquemas cognitivos, eventos o mapas.” (Corner). Esta cosa que ha sido “formada” constituyen el mapeo y la cartografía. Desde el punto de vista de los Estudios culturales podemos decir que estamos ante nuevas relaciones entre culturas y tecnologías; entre el concepto de lo nacional y lo transnacional, territorios y migraciones. Este nuevo contexto demanda un nuevo acercamiento a nuevos fenómenos; son necesarias nuevas herramientas para pensar nuevos problemas. A menudo el problema de la migración aparece en de discusiones políticas, económicas y artísticas. Como Canclini (2009) lo expresa “es difícil de explicar lo que está pasando

con migraciones o con naciones, sin tomar en cuenta los procesos culturales”. Ciencia, tecnologías, territorios, mapas, arte, gente: Vivimos en medio de tensiones entre la concepción territorial de nación y otros conceptos de nación que no son ya territoriales. ¿Dónde están los nuevos límites? ¿Existe alguno entre arte y política? Por ejemplo, ¿cómo emergen estas tensiones cuando se hace arte (Augmentedreality) y la aplicación de la ley? Éstas son algunas de las preguntas que nos interesan.

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Del espacio visual al espacio acústico Uno de los acercamientos más innovadores y coherentes para examinar los trabajos de McLuhan tiene que ver con el estudio del espacio. Este concepto aparece desde el principio en el pensamiento de McLuhan y evoluciona a lo largo de su trabajo incluso cuando crece hacia cuestiones más amplias y más complejas; más allá de los límites naturales de la literatura por un lado, y la teoría de la comunicación por el otro. Este concepto proporciona un puente entre la teoría de lo visual – característica del primer período – y el espacio auditivo del último período. Es también uno de los conceptos menos explorados y uno de los más enriquecedores. Tanto McLuhan mismo como su trabajo académico han sido estudiados y criticados desde muchas perspectivas, pero sólo algunos han puesto énfasis en la importancia que la noción del espacio ha tenido en la totalidad de su trabajo. Lo atractivo acerca de la idea del “espacio acústico” es que describe un espacio abierto y por lo tanto, permite discutir la cuestión de la medición y el movimiento a través de “espacio-tiempo” y la velocidad. La noción del espacio acústico desarrollada por McLuhan se deriva de la descripción del “espacio auditivo” de la psicología conductista de E. A. Bott en la Universidad de Toronto. La idea de Bott dibuja en un espacio auditivo que no tiene centro o márgenes, de manera similar a cuando escuchamos sonidos que provienen de todas direcciones al mismo tiempo. Esta idea atrajo la atención de McLuhan inmediatamente, quien ya esta-

ba trabajando con las ideas de SigfriedGiedion sobre el tema. Como veremos más adelante, McLuhan desarrollará primero la idea de “espacio auditivo” hasta conformar la noción de “espacio acústico”, con el fin de hacer su naturaleza abstracta más “dramática”, tal como Theall (2002) lo sugiere. McLuhan in Space A cultural Geographyes el título del libro escrito por Richard Cavell (2003). En él Cavell plantea la hipótesis de que el espacio es la categoría conceptual más consistente a lo largo de todo el trabajo de McLuhan, y que es la noción que entrelaza una multiplicidad de elementos a lo largo de toda su obra. Nosotros estamos de acuerdo con esta idea y la usamos en este trabajo como premisa básica. Para comenzar la búsqueda de los orígenes de esta idea debemos echar un vistazo al influente libro del escritor, artista y crítico cultural Wyndham Lewis Time and Western Man (1927). Cabe mencionar aquí que el pensamiento de Lewis estaba alejado de la filosofía analítica de la época con Alfred N. Whitehead y Bertrand Russell la cabeza, así como del pragmatismo psicologista de William James. Durante sus estudios de posgrado, McLuhan conoció las ideas post einsteinianas acerca del espacio, el tiempo y la energía, que comenzaban a revolucionar toda la disciplina de la física moderna. También se familiarizó con el trabajo del historiador y arquitecto Suizo SiegfriedGiedion, particularmente con el concepto de “espacio cerrado” (citado en Elizondo, 2009). El entusiasmo por estos estudios se vio reforzado con la lectura de la obra de Harold A. Innis, quien impulsó la idea de “tendencias” o sesgos tanto
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espaciales como temporales en los medios de comunicación atrayendo así, la atención de McLuhan al campo del transporte y las tecnologías de comunicación. Cavell sugiere que se llevó a cabo algún tipo de colaboración entre McLuhan y Edmund Carpenter -quien entonces estudiaba el sentido de espacio en comunidades Inuit de Canadá-. Theall señala la importancia de esta colaboración para las artes, poesía, geometría y física: “Carpenter contribuyó con las concepciones que los indígenas Inuit, tenían sobre el espacio acústico; McLuhan elaboró su visión sobre la relación de las artes contemporáneas y la poesía, con la geometría cuatri-dimensional y la nueva física.” (Theall, 2002). Creemos que la colaboración con Carpenter fue esencial para McLuhan pues lo puso en contacto con grupos indígenas y su modo de vida—en donde el espacio acústico adquiere una dimensión esencial— y detonó la visión idealizada de la vida (oral) tribal, que se convirtió en una referencia constante en toda su obra. Sobre la naturaleza del espacio acústico, Cavell enfatiza que se trata de un concepto híbrido entre los modos orales y letrados —o literarios—, y que es una noción más material que abstracta (Cavell, 2002, xiv). Este argumento difiere de la percepción general que eruditos tienen sobre este tema. El materialista punto de vista de Cavell se debe a la influencia de Harold A. Innis. De cualquier modo, una ruptura entre los dos emerge debido a las diferencias en la naturaleza de espacio-tiempo. Incluso así, tratando las obras de McLuhan y considerán-

dolo como un “teórico del espacio” como lo hace Cavell (Cavell, 2003, 4), provee un acercamiento fresco y especialmente creativo, dado por el hecho de que el trabajo de McLuhan ha sido estudiado casi exclusivamente dentro del marco de las ciencias de la comunicación y los medios electrónicos, muy lejos del campo propio de la geografía. El interés inicial de McLuhan en el efecto del alfabeto como tecnología que transformó el concepto de espacio, vino a ser complementado con el descubrimiento de la noción de espacio acústico. Además, los conceptos de sesgos o tendencias a lo espacial o temporal expuestas por Innis, nos deja ver el amplio interés de McLuhan por los problemas del espacio en particular. Cavell dice
“la evolución de estos intereses hacia una preocupación más amplia por la ‘espacialización’ es coherente con la trayectoria total de su carrera intelectual, así como con las más amplias corrientes culturales de su tiempo” (Cavell, 2003, 4).

En el campo de la literatura, McLuhan puntualizó que el movimiento modernista representaba la transición desde una cultura orientada por lo visual y la palabra escrita, hacia una cultura electrónica con una tendencia a lo acústico. De manera similar, el Renacimiento fue el paso de transición entre la palabra hablada característica de la sociedades tribales, al nacimiento de una cultura alfabetizada en la que el ojo sería llamado a dominar. Ahí hay una tendencia a enfatizar la simultaneidad en textos lineales, como en las
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obras de James Joyce (Ulysses, 1992, Finnegan’s Wake, 1939) y Stéphane Mallarmé (Un coup de désjamaisn'abolira le hasard, 1897). Estos autores y sus escritos son una referencia constante en el trabajo de McLuhan. De acuerdo a Cavell, McLuhan tuvo una “revelación” cuando entró en contacto con las ideas de Gideon en arquitectura, espacio abierto y el espacio cerrado. Después de esto, asumió que el espacio visual es sólo una forma de espacio. Por lo tanto, la experiencia sensorial experimentada por una persona invidente en espacios abiertos, como por ejemplo en estadios, es una en la que un espacio auditorio no tiene límites físicos y es además, multi-lineal. Desde esta idea, McLuhan desarrollará el concepto de espacio acústico. Este concepto será después ajustado en La Aldea Global al concepto de espacio audio-táctil. Si observamos el espacio como “el mundo creado por el sonido”, entonces debe estar claro que sus características son completamente diferentes al espacio visual. Carece de límites fijos, no hay centro y hay un muy limitado sentido de dirección. Adicionalmente, el espacio visual está más directamente conectado con el sistema nervioso central que cualquier otro estímulo visual: la imagen no es tan poderosa como la directa sensación espacial. Cuando en el contexto de las tecnologías electrónicas McLuhan dice que la fuerza auditiva aniquila el espacio, en realidad se está refiriendo al espacio visual. Esta perspectiva se aproxima a la concepción post einsteniana del espacio-tiempo (donde ambas colapsan). Para Cavell, la obra de McLuhan Comprendiendo a los Medios,

es la afirmación de que tiempo y espacio desaparecen en la era electrónica de información instantánea. Así, “el espacio acústico encapsula al tiempo en una dinámica de flujo constante” (Cavell, 2003, 22). Ambos McLuhan e Innis fueron críticos de la modernidad y para sostener esta crítica inventaron una versión particular de teoría crítica con un fuerte rasgo canadiense: la fusión de la política económica y algunos de los críticos racionales de la Escuela de Frankfurt. McLuhan, sin embargo, no abogó por el retorno de valores de la palabra hablada / temporalidad como Innis hubiese deseado. Al contrario, trató de difundir la idea Inniana de que la característica de la sociedad contemporánea es el espacio; se trata entonces de reconfigurar el espacio (visual) en términos de lo acústico, el cual es el efecto de la tecnología electrónica en la cultura visual. De hecho, Cavell cita un enunciado de Comprendiendo los Medios donde McLuhan dice que el efecto de la tecnología contemporánea es dejarnos sin habla, mudos (Cavell, 2003, 25). La crítica marxista a la teoría del espacio resalta el argumento de que el estudio del espacio deja el concepto de tiempo — que organiza el trabajo humano— en segundo plano, McLuhan estaría entonces, superponiendo el entorno material a la evolución histórica.Este énfasis en el entorno material (espacial) es lo esencial para la producción social y cultural contemporáneas (Cavell, 2003, 24). El entorno no es otra cosa más que el contexto creado por los medios electrónicos que aparen13

temente no percibimos. Parece que McLuhan fue criticado porque su idea de espacio puede sonar estática, y sólo el trabajo, el dinero y la acción social pueden ser procesos dinámicos. Pero esta crítica [argumenta Cavell] revela que la naturaleza dinámica del espacio planteada por McLuhan no ha sido comprendida adecuadamente. “Era espacio visual, por consiguiente, lo que McLuhan criticaba. Era el espacio visual el que era estático, no per se el espacial (…) él se vio a sí mismo trabajando dentro de las tendencias espaciales, pero en contra del espacio visual.” (Cavell, 2003, 26). McLuhan desarrolló su crítica desde las cualidades espaciales del sonido; un espacio que incorpora lo temporal como una de sus dimensiones. Para él, la Aldea global estaba constituida por una paradoja fundamental; está situada en una dinámica simultánea y en un lugar espacial, lo que implica concebir un concepto cosificado y situado en un espacio y tiempo. De este modo, si el espacio en la Modernidad era sincrónico, en el Post-Modernismo el espacio es diacrónico, debido a que que la yuxtaposición de historias será su característica principal. A partir de aquí podemos decir que la Naturaleza pasa a pertenecer a la Cultura, por el que ya no es posible hablar de ambas nociones como fenómenos separados. Ésta será la dinámica característica de la Aldea global. McLuhan buscó analizar no sólo la forma en que la sociedad produce espacios sino también cómo las tecnologías espaciales producen a la sociedad misma.

Arte, el artista y el territorio Si la pregunta básica que McLuhan hizo fue "¿Qué efectos tiene cualquier medio, como tal, en nuestra vida sensorial?" (Nevitt, 1995, 143), la respuesta se encuentra en los cambios que se generan en la percepción del espacio y en la idea de que el espacio es el medio en el que la comunicación se realiza. Las relaciones espaciales son más que simplemente relaciones perceptuales entre objetos pues además implican la noción de perspectiva. McLuhan afirma que los efectos de la tecnología no se producen a un nivel de opiniones o conceptos, sino que modifican las relaciones de sentido o patrones de percepción constantemente y sin ninguna resistencia” (1964, 33). Los artistas, a diferencia de otras personas, ven esto claramente. De acuerdo a él, ellos son la única gente que domina las transiciones tecnológicas porque tienen un entendimiento innato de la mecánica de la percepción sensorial. (1964, 33). Para McLuhan, fue la imprenta —no el contenido impreso— lo que produjo una división entre el sentido auditivo y las experiencias visuales. Éste medio produjo un sentido de individuación y un sentido de continuidad entre espacio y tiempo (1964, 8687). Para otra persona interesada en la teoría cultural sobre el espacio y el tiempo, la novelista GertrudeStein, el único aspecto que ella creía que cambia de una generación a otra, es nuestra percepción sensorial, o lo que ella llamó nuestro “sentido del tiempo” (time-sense). Ella definió “visión” como lo dinámico en el sistema creativo que transformó nuestro sentido del tiempo y que produjo nuevas escuelas de pensamiento y arte
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(“Composition” 513). McLuhan también atribuye un lugar especial al rol del artista en la transgresión y subversión del orden establecido: ‘…Es posible relacionarnos con el entorno como una obra de arte…’, escribió. ¿Cómo es que la función del artista atenta contra el orden espacial? En el Renacimiento, el arte, la arquitectura y la horticultura usaron un punto focal único como medio para representar la perspectiva, pero este único punto de vista anula el movimiento. Las tecnologías más recientes tienen un efecto continuo en nuestras nociones de perspectiva como algo dinámico y a la vez localizado. La ciencia del cuerpo en movimiento en los espacios del mundo crea múltiples, cambiantes puntos de vista, y trayectorias del sujeto, el cual, por definición, no puede quedar fijo excepto en un lugar y un tiempo; ese lugar particular es ‘ahora’. Por esto los nuevos medios no usan la perspectiva como elemento para la orientación, sino que eligen en su lugar la desorientación y la desvinculación. Un punto de vista, por definición, ha sido siempre fijado en un tiempo dado, pero la dinámica de la naturaleza de la desorientación implica dimensiones transformadoras espaciales a momentos ilimitados en el espacio. El movimiento es una forma de perspectiva desorientada en los nuevos medios de comunicación. El dominio del espacio geográfico a través de la manipulación de sus datos es algo que damos por hecho—y que incluso celebramos—en un mundo rico en información. La historia nos ha enseñado que sin embargo que la “sistematización de la información geográfica resulta común en una centralización del

control y en la pérdida de autodeterminación local” (Butt 30). Michel Foucault (1923- 1984) le dio al clavo cuando propuso que el panóptico contemporáneo operaba desde dentro de nosotros. Vivimos ahora en la “cultura de la cámara de vigilancia”, culturas donde todo es observado, monitoreado, grabado, supervisado y controlado. En el periodo comprendido entre el año 1989 y 1993, los militares estadounidenses lanzaron 24 satélites a órbitas alrededor de la Tierra para establecer un sistema global posicional o GPS—sistema de mapeo- ahora aparentemente considerado inocuo por la mayoría de las personas y felizmente abrazado por individuos en movimiento alrededor del mundo con tecnologías móviles. En mayo de 2010, el primer sustituto de esa red fue enviado al espacio exterior. Si los satélites originales daban una fidelidad cartográfica tridimensional exacta hasta 6,096 metros (20 pies), las nuevas y mejoradas versiones incrementarán nuestra habilidad para ver de forma precisa hasta 0,091 metros (3 pies) (Ver Google Earth Blog). No es fortuito que ésta última tecnología cartográfica fuese un dispositivo militar. La experiencia de “ser encontrado” o “ser seguido” son muy diferentes a la de orientarse uno mismo en el espacio geográfico…

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Una herramienta portátil para el inmigrante transfronterizo El artista Ricardo Domínguez y su equipo en la ciudad de San Diego, California se interesaban por el desplazamiento y la orientación como aspectos del trabajo artístico. Inspirado en el proyecto Excursionista Virtual de BrettStalbaum, que lee el terreno de un área –vía satélite- y genera una propuesta de camino a seguir en la topografía, Domínguez se preguntaba si podría adaptar esta herramienta móvil para ayudar a la los migrantes que cruzan diariamente la frontera México-Estados Unidos. Lo que crearon lo bautizaron con el nombre de Herramienta para el Inmigrante Transfronterizo. Domínguez seleccionó un teléfono celular barato que tuviera la función GPS sin una base de datos. Adaptó el Motorola i455 y lo usó para interferir el sistema GPS. La herramienta debía ser tan universal que cualquier usuario—letrado o analfabeta, mexicano o chicano, hispanohablante o no—pudiera usarla. Tenía una interface icónica visual que se asemeja a una brújula. La herramienta también actúa como detector de agua, que vibra cuando se acerca al agua o a refugios, y alerta al usuario cuando se acerca a una carretera. El grupo contaba con fondos para ensamblar 500 unidades y estuvo trabajando con el grupo de un conocido grupo de apoyo a migrantes, los Ángeles de la Frontera (BorderAngels) y otras organizaciones humanitarias que proveían de agua y otros enseres necesarios a los caminantes en el desierto, además de informarles de la existencia de esta herramienta de navegación.

La herramienta cuenta con múltiples usos y funciones que han sido desarrolladas una por una por el grupo de Domínguez. Ellos están adquiriendo datos geográficos de la zona que les permitirá mapear la frontera Mexicano-Estadounidense para que el GPS los pueda usar; está investigando la ubicación de las redes de apoyo e infraestructuras actuales de vigilancia trans-fronteriza; está ubicando los lugares con alimentos y pozos de agua comunitarios; escribe el código y prueba la precisión de los mapas y unidades; crea interfaces duales en Inglés y en Español; prueba la herramienta; y la distribuye a las comunidades más susceptibles a cruzar la frontera (Ho). Interfiriendo datos de satélites y robando esa información (hacking) y haciéndolos disponibles, la Herramienta para el Inmigrante Transfronterizo
añade una nueva capa de recursos a esta geografía virtual que permitirá a segmentos de la sociedad global, que habitualmente están fuera de este emergente enrejado de poder híper-poder-geográfico de mapeo alcanzar un rápido y simple acceso con el sistema GPS. Herramienta del Inmigrante Transfronterizo no sólo ofrece acceso a este emergente segmento de la economía del mapeo sino que añadirá un nuevo elemento un “algoritmo inteligente” que podrá analizar las mejores rutas y senderos de ese día y hora para inmigrantes a cruzar este accidentado paisaje, de la forma más segura posible (thing.net).

La orientación, el movimiento en el espacio, es un problema permanente en esta zona fronteriza entre los dos países donde
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la vigilancia es el modusoperandi. Todos los movimientos son vigilados y el movimiento es monitoreado incesantemente. La Herramienta para el Inmigrante Transfronterizorevela que “simplemente conocer el lugar donde uno mismo se ubica es un privilegio” (Ho) y demuestra lo realmente vital y peligroso que es hacerse cargo uno mismo de su ubicación y su ruta a seguir. Mientras Domínguez y su equipo definen el aparato en específico y al proyecto en general como una herramienta humanitaria diseñada para ayudar a salvar vidas, no es de sorprender que haya sido interpretada por la extrema derecha Estadounidense conservadora como un acto bélico y una afrenta a la seguridad nacional. Nombrado por CNN como una de las personas “más interesantes” de 2009 Domínguez, quien es profesor invitado del departamento de Artes visuales de la Universidad de California en San Diego, no sólo ha sido amedrentado con acciones penales en su contra, sino que ha recibido amenazas de muerte y está en peligro de que su posición en la universidad sea revocado debido a este delicado asunto y a otros proyectos similares. Esta herramienta sostiene no obstante, es completamente legal; esgrime los siguientes argumentos y premisas:
Una larga historia en el arte de caminar, disturbios fronterizos y medios locativos de comunicación. El tema aquí es un interesante vínculo formado entre valores humanitarios y valores artísticos. Mientras Domínguez declara que “Todos los inmigrantes que de algún modo pudieran participar en este proyecto, de cierta manera contribuirían a

crear un vasto paisaje de naturaleza estética” dadas las múltiples capas de comunicación (icónicas, sonoras, vibratorias) y la forma en que el algoritmo de la herramienta puede ayudar al usuario a encontrar “una ruta más estética,” [él dice], yo sugeriría que el valor artístico emergiera desde su más profundo vínculo con el aspecto humanitario. La Herramienta del Inmigrante Transfronterizo subvierte los modismos habituales de los medios locativos e interactivos (tales como “realidad virtual”) para revelar lo virtual virtual – en el sentidoDeleuziano (el cual es bastante diferente) – de los medios locativos de comunicación. Y lo virtual, aquí, es guerra (Ho).

Actualmente en muchas ciudades, artistas de medios digitales siguen interesándose por el sentido del espacio (y los lugares) y por este entramado complejo, constituido en buen aparte pero únicamente, por los dispositivos que compran, reescriben, reinventan, acoplan, dividen y reasignan información permanentemente. Algunas ciudades tienen un pasado tan complejo que mapear su historia se ha vuelto el tema de obras de medios digitales, de medios locativos de comunicación y del arte in situ. Los medios digitales poseen habilidades únicas para “trascender los límites de tiempo, espacio y hasta de lenguaje… para mediar rupturas producidas históricamente que vinculan pasado y presente” (FayeGinsberg, citado enMeek 21).

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Prácticas Geo-espaciales y arte público El estudio del espacio se está volviendocada vez más importante para el arte, los negocios y el pensamiento contemporáneo. Conforme nuestro entrono urbano se vuelve cada vez más complejo, debido en parte a que nuevas capas de información se sobreponen en nuestro entorno cotidiano, los medios locativos pueden servir como estrategias para nuestra reinserción en el paisaje citadino. McLuhan sitúa el nacimiento de la ciudad a la par del de la escritura (1964, 99), y Bruno Latour ve los mapas como una forma de anotar el mundo. En el nuevo espacio de la información, no obstante, los mapas basados en texto e imagen se han fusionado ya para dar origen a un nuevo tipo de coordinación: un sujeto en movimiento que va escribiendo en el espacio. Si bien la cartografía buscó fijar la ciudad sobre un soporte físico, ahora mediante encuentros urbanos se explora más bien los flujos, su fluidez. Los movimientos contraculturales característicos de los espacios urbanos desde el grafiti hasta los juegos de “geocaching” y el movimiento contracultural a favor de los peatones llamado “psychogeographicwanderings” hasta el Parkour (arte de trepar por objetos y mobiliario urbano) han hecho del espacio público una forma radicalmente nueva para pensar la vinculación creativa y activa en entre cuerpos, tecnologías y relaciones dinámicas. A pesar de la mala reputación de los medios digitales como una forma que niega el cuerpo y valora la dispersión de la información en la Red, ahora hay “una tendencia hacia re-

pensar la importancia del lugar y el hogar, ambos como parámetros geo-imaginarios y socio-culturales” (Thielmann 5). Los medios locativos de comunicación son la antítesis de la filosofía “Vivir sin Límites” eslogan publicitario que compañías trasnacionales como LG y otras compañías multinacionales nos quieren hacer creer que deseamos. Los medios locativos se han erguido en la última década como una respuesta a la inmaterialidad del net.art basado en códigos y la desregulación del mundo bajo la globalización. Abundantes datos geoespaciales y tecnologías móviles manufacturadas de forma barata han hecho de la información cartográfica un bien accesible de forma gratuita. Durante mucho tiempo, una de las palabras de moda era la llamada ‘realidad virtual’ de la cual, la gente acuñó el concepto de simulación y de la creación de mundos alternativos. Ahora la moda es todo lo que tenga que ver con ‘realidad aumentada’ (augmentedreality); un mundo real pero con información adicional desplegada sobre la pantalla del dispositivo móvil en tiempo real. Este es un mundo sobre en el que nos podemos inscribir nosotros mismos. De forma opuesta a la World Wide Web, el centro aquí está localizado espacialmente, y centrado en cada usuario individual; una cartografía colaborativa del espacio y las mentes individuales, los lugares y las conexiones entre ellos” (citado TutersyVarnelis 357). De hecho, en algunos círculos, la red geo-espacial ha sido anunciada como el próximo gran espacio tecnológico, espacio donde los artistas de medios locativos fungirán como los grandes detonadores de la nueva tercera ola de las tecnologías de Internet (TutersyVarnelis 358). Lo medios locativos usan tres formas diferentes de mapeo: 1. La anotación, que añade algo al mundo; 2. La fenomenológica, que ubica algo en
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el espacio identificando el movimiento de un objeto o sujeto en el mundo; y 3. El movimiento o desempeño en medios locativos puede ser claramente conectado a la práctica situacionista de vagar hasta perderse, un acto psicogeográfico. Marc Tuters y KazysVarnelis equiparan los dos primeros tipos de mapeo—anotación y fenomenología—con las otras “prácticas situacionistas de détournementy la derive” (359). Los situacionistas fueron un grupo de artistas radicales y filósofos que vivieron en y cerca de París durante los años 50 hasta los 70. Su líder pensador GuyDebord definió el movimiento como “un proyecto efímero: antiestético, no-objeto, basado en lo no-artefacto, de creación colectiva con un nuevo énfasis en el ego. Su finalidad es la creación de un nuevo ‘tú’ politizado” (Debord 99). En su manifiesto Sociedad del Espectáculo, Debord llama a un arte participativo que liberará las masas del entumecimiento que los medios masivos de comunicación les han impuesto. Debido a que la meta del situacionismo era romper el cuarto muro (el público) de la cultura del espectáculo, sus ideas están en boga como cultura participativa y a la para de la culturaWeb 2.0 (“user-generated”). Si bien estas tres prácticas geo-espaciales no necesariamente se ajustan perfectamente a la definición de actividades mediático-locativas, sí al menos nos liberan de la lógica Cartesiana (cartografía clásica) y permiten que nos familiaricemos con la lógica que implica pensar en mapas dinámicos. Los mapas estáticos del pasado privilegiaron al espacio (visual) en detrimento del tiempo. Los nuevos mapas de datos, sin embargo, plantean también problemas específicos, como Coco Fusco

ha observado en una crítica sobre los peligros de los medios locativos de comunicación, “el acto mismo de mirar el mundo como un mapa ‘elimina el tiempo, se enfoca desproporcionalmente en el espacio y deshumaniza la vida”’ (2004, citado en Mitew 5). Los medios locativos pueden permitirnos recorrer un camino donde podamos volver a poner la atención en su sito adecuado, es decir en la información, los datos. De tal suerte que podamos abrir un intervalo temporal (time-lag) entre la geografía real y nuestras interacciones con el espacio de información; un intervalo donde podríamos insertar estrategias contraculturales en forma de “contramapeos” (countermappings) frente a las narraciones oficiales e historias fijas tradicionales. Es en este contexto de apertura que podríamos volvernos no sólo simples participantes, sino autores de nuestro propio espacio. Bruno Latour y otros teóricos dan un paso más allá al preguntarse si no será más bien, que los mapas preceden al territorio que “representan” o bien ¿lo producen? (Noviembre 2)Ellos argumentan que las tecnologías digitales han reconfigurado la experiencia del mapeo en una “plataforma de navegación” (Noviembre 4). Todas las interfaces digitales, que incluyen bases de datos, pantallas táctiles y teléfonos móviles, actúan como “tablero[s] de mando permitiéndonos navegar a través de grupos de información totalmente heterogéneos que son actualizados en tiempo real y localizados de acuerdo a nuestras consultas específicas. (Noviembre 4). Algunos de estos argumentos resultan convincentes y hay que considerar que han sido elaborados para dar cuenta de los aspectos fuera de la Web, demostrando esto la
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capacidad de funcionar como lo hace el viejo grafiti en espacios urbanos. Un tipo de arte público, contracultural, crudo, indisciplinado políticamente y situado:
Los intercambios entre el grafiti contemporáneo y los nuevos medios de comunicación abarcan un amplio rango de tecnologías (fotografía digital y video, sitos Web, teléfonos móviles, medios locativos, juegos digitales) […] Como práctica cultural, el grafiti también permite una reasignación del espacio urbano, abasteciendo los nuevos medios de comunicación con fructíferos modelos para la negociación de los actuales espacios urbanos y redes de información descentralizadas.” (MacDowall 138).

Conclusiones Los días cuando el arte público consistía en un monumento descuidado o en una fuente solitaria en una plaza se han ido desde hace tiempo. La escultura social, los medios locativos de comunicación y el arte público, rompen los límites tradicionales entre el arte-objeto, su uso y sus nuevas propiedades, de modo tal que nacen nuevas estéticas relacionales. Es reconfortante saber lo que Domínguez publicó el 12 de Noviembre de 2010 en la página de internet laboratorio b.a.n.g (Bits.Atoms.Neurons.Genes): “Estimadas comunidades de apoyo, Nosotros (EDT/b.a.n.g. lab/yo) nos complacemos en reportar que la Cyber-división del FBI ha terminado su “investigación” el 4 de Marzo de 2010 VR Sit-In performance. […] Ciertamente [es] algo que nosotros en las comunidades de la UC [Universidad de California] debemos tomar en cuenta la próxima vez que creemos cualquier arte haga una crítica al orden institucional institucional en la forma de crítica-como-acción-directa (al menos en los mundos de las realidades aumentadas). Una vez más agradecemos a todas las comunidades por su apoyo tanto en la UCSD / UC como alrededor del mundo. Mucha [sic] gracias, EDT/b.a.n.g. lab y yo. P.D. ¡La Lucha Sigue!” Ciertamente. La información nos rodea de manera dinámica todos los días en cada aspecto de nuestras vida. La video-vigilancia, los medios locativos o medios inalámbricos así como las pantallas de computadora y el video son ya fenómenos ubicuos en los centros urbanos y sobre grandes territorios. Los entornos urbanos
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son cada vez más ricos en información, están conectados en red y contienen y generan múltiples historias que cruzan a lo largo de muy diversos ámbitos identitarios: raciales, de género, geopolíticos y culturales. Éstas son las redes de información que constituyen el espacio psicogeográfico. ¿Cómo puede esta riqueza informacional del espacio urbano relacionarse con el individuo urbanita para crear posibles estrategias para salvar vidas? Debord vio en las psicogeografías el potencial para la contra-acción de los efectos antiestéticos de los medios masivos de comunicación porque son “el punto en el que la psicología y la geografía colindan, [proveyendo] el instrumento para explorar el impacto que el espacio urbano tiene en la conducta humana” (Debord). En términos contemporáneos, el compromiso psicogeográfico no es diferente a la cultura participativa—una cultura que elimina la noción y condición de audiencia (à la Alan Kaprow) y nos reinserta en los espacios de la historia como autores y sujetos interactuantes. En su obra de 1966 titulado “Notas sobre la Eliminación de la Audiencia”, Kaprow explora su invención de los ‘happenings’, eventos artísticos en los que la audiencia participa. Estos eventos fueron propuestos para crear una experiencia intensa, “incrementada” donde los interactuantes pudieran fusionarse con el espacio-tiempo del performance. Él abogaba por que todas las audiencias deberían ser completamente eliminadas y los individuos deberían volverse participantes. Para no confundirse con el teatro o el performance, los Happenings de Kaprow eran improvisados en el momento como los niños imaginativamente juegan al tiempo que siguen los parámetros de un guión pre-

definido. Las tecnologías digitales podrían permitir este tipo de vinculación con un lugar o evento de forma personal y virtual. Las tecnologías móviles que han surgido desde 2008 están ahora posibilitando que los medios locativos, el mapeo de realidad aumentada así como las herramientas de las redes sociales queden al alcance de cada individuo conectado en red en todo momento. Su potencial como un vehículo para navegación espacial es muy importante. Los medios locativos nos dotan con la capacidad de “formar y organizar el mundo real y el espacio real” (Ben Russell citado enTutersyVarnelis 357). “Las fronteras reales, los límites y el espacio se vuelven flexibles y maleables, la fuerza del Estado se vuelve fragmentada y global; la geografía se vuelve interesante [atractiva]; los teléfonos celulares tiene cada vez mayor conexión a Internet y a los sistemas localizadores; todo en el mundo real puede ser seguido, etiquetado, codificado en barras y asignado.” (Ben Russell citado enTuters and Varnelis 357). El novelista Peter Ackroyd habla de la “resonancia cronológica” de las ciudades, el espacio donde el lugar, historia e identidad convergen. Mediante la mezcla de información, la identificación de historias en lugares geo-etiquetados, la creación de diarios personales, la creación de historias interconectadas en espacio real continuará acumulándose en formas múltiples y podrá será legible y a la vez reescrito para todo aquel que se proponga navegar en un espacio rico en información. “El artista es una persona experta en el entrenamiento de la percepción”, escribió McLuhan. La definición es probablemente adecuada para Do21

mínguez y muchos otros quienes, como ellos, han transformado las formas en que concebimos el entorno, el territorio y las relaciones espaciales que los individuos construyen en su tránsito constante a través de diversas formas de fronteras y límites, físicas o culturales.

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Contribuição de McLuhan para uma visão de mundo global e inclusiva

Resumo
O ensaio examina as contribuições de M.McLuhan no sentido de promover uma visão conjunta dos meios de comunicação do ponto de vista perceptual e cognitivo. Para isso, busca na história da formação do pensaIRENE MACHADO PESQUISADORA DO CNPQ (PQ-2), PROFESSORA DA ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES E DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUÇÃO EM MEIOS E PROCESSOS AUDIOVISUAIS UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), SÃO PAULO, BRASIL IRENEMAC@UOL.COM.BR mento relacional de percepções apresentado como método de observação e análise hipotético-poético. Percorre os exemplos de análise e leitura das produções de meios, bem como da formação conceitual e histórica que entende os meios em suas interações e não como sucessões.

Palavras chave
percepção, cognição, leitura, envolvimento, sensório, história
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Treino de percepção e método analítico de observação No início de sua carreira docente, McLuhan se aproximou da antropologia cultural travando contato com Edward T. Hall e Edmund Carpenter. O primeiro, desenvolveu um estudo sobre a linguagem silenciosa (the hidden language) do espaço; o segundo, da gramática dos meios em processos de leitura. O conjunto das formulações de McLuhan, Hall e Carpenter trouxe à luz os trabalhos das chamadas «explorações»: investigações e análises de caráter experimental sobre a vida cultural sob o domínio dos meios de comunicação. Sem a pretensão de constituir uma teoria, as explorações abriram caminho para o desenvolvimento de um método de análise apoiado, evidentemente, nos firmes pressupostos dos meios como formas culturais. Os experimentos analíticos de McLuhan desta fase dão origem ao material reunido em seu primeiro livro, The Mechanical Bride: Folklore of Industrial Man, publicado em 1951. Nele exercita um método de análise orientado por aquilo que McLuhan denominou treino de percepção. Trata-se de um método deduzido de experiências vividas no Canadá e em Cambridge. No seu país natal aprendeu a exercitar a visão panorâmica: de qualquer ponto do país, parecia-lhe ser possível de– senvolver percepções formando um horizonte como num amplo panorama. Em Cambridge, na época de seu doutorado, aprendeu a exercitar a visão para as profundezas nos exercícios literários conhecidos como close reading ou, leitura concentrada, aprofundada sobre o texto, fora de qualquer foco extra-

textual. Um e outro contribuíram para a abrangência do treino de percepção que, no contexto dos meios de comunicação, abriu caminho para a considerar a importância das transformações culturais em curso. O treino de percepção assim vivenciado constrói um eixo que une percepção e cognição, desdobrando-se em duas linhas: uma de aprofundamento e outra de relações contrastivas. Esse treino nós vamos encontrar com diferentes graus de desenvolvimento em seus livros. Em The Mechanical Bride, há um fechamento (close reading) em anúncios em contraste com textos literários; em The Gutenberg Galaxy, fecha-se no alfabeto, em contraste com os desenvolvimentos culturais tanto da prensa, das cidades, dos transportes, quanto da oralidade ou do sensório; em Understanding Media, explorações sobre os meios a partir da eletricidade em contrastes entre si graças ao movimento das extensões. Em todos eles, o treino de percepção é ponto de partida para alcançar o processo cognitivo sobre os meios e processos culturais de representação e entendimento do mundo. Assim podemos sintetizar os comportamentos de análise que viam nos meios de comunicação processos amplos com atuações e efeitos particularizados, sementes importantes para o ulterior desenvolvimento de uma visão global e inclusiva dos meios na cultura.

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Percepção e cognição no jogo entre figura e fundo Todos que se iniciam na leitura do texto de McLuhan percebem, imediatamente, a tendência de seu discurso à interlocução, de modo a incluir o ouvinte na trama de seu pensamento. Isso ele faz, muitas vezes, recorrendo a uma certa dose de humor. Uma piada é sempre caminho certeiro para exprimir o conteúdo de formulações e até mesmo para provocar, polemizar, ironizar. Contudo, a piada, que ele entende ter se transformado em chiste – uma forma de advinha, sem fio narrativo, mas baseada em pergunta e resposta –, se constrói como uma das forças vitais da linguagem: o direcionamento à participação do outro. O feitio apelativo da linguagem assim empregada revela o seu caráter dialógico e, portanto, envolvente. Seja como piada ou chiste, o discurso assim enunciado não se realiza sem vínculos de duas ou mais mentes concentradas no mesmo foco.

Piada e chiste são gêneros discursivos de construção da linguagem que mantêm vivos os elos de envolvimento e participação. No discurso de McLuhan, adquirem igualmente a função de distinguir dois processos sensoriais: o percepto e o conceito. Sem percepção impossível atingir conhecimento: esta máxima McLuhan viu plenamente realizada nos meios do entretenimeno cujo funcionamento não diferia muito do humor de longa vida na tradição da prosa e da retórica. Se o percepto aciona uma sugestão, o conceito ativa inferências; um provoca associações, outro, generalidades. Com base em distinção como esta, McLuhan examina o quanto percepção e cognição não apenas caminham juntas como condicionam-se. Daí que tanto a piada quanto o chiste criarem ambientes relacionais e de fluxo de idéias. Em suas próprias experiências, mostra como ao ativar percepções. Uma piada pode evocar dimensões mais fundas de uma mensagem; por conseguinte, aquilo que emerge na superfície não é da mesma natureza daquilo que se configura no fundo. E é este o alvo que lhe interessa: a noção de que, se a relação figura / fundo não se encontra ausente na formulação de uma piada, certamente não se pode descartá-la do processo cognitivo. Ao que conclui: “a vantagem de sempre estudar qualquer figura em relação ao seu fundo é que aspectos inesperados e negligenciados de ambos se revelam” (McLuhan, 2005: 210). Nesse sentido, longe de ser um exercício retórico desprovido de pretensão teórica, o emprego da piada e do chiste revela a
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McLuhan & Fiore, Guerra e paz na aldeia global, p. 58

importância de mecanismos que ativem processos inusuais e inesperados de modo a promover, cada vez mais, o refinamento do treino de percepção e da atividade cognitiva. Na mesma linha de formulação McLuhan situa o processo baseado em pergunta e resposta. Como formas discursivas herdadas da tradição oral, não é muito comum entender a pergunta-e-resposta em suas finalidades especulativas com vistas a consolidação do pensamento teórico. Sabemos que obras como os Diálogos socráticos, de Platão, ou os Diálogos sobre os dois sistemas de mundo, de Galileo, já foram considerados pouco sérios, simplesmente pelo emprego da interlocução entre personagens como condutora da questão científica ou filosófica. Em seus estudos retóricos, McLuhan acompanha a derrocada do discurso de envolvimento (de chistes, de pergunta e resposta, de aforismos), confinado ao limbo dos discursos pouco confiáveis. Em seus escritos, contudo, não apenas reconstitui o vigor expressivo de tais processos como mostra o quanto eles colaboram para o envolvimento no ambiente dos meios. Em suas parcerias com designers e artistas visuais, os objetos de mídia (anúncios, jornais, programas de televisão, quadrinhos, cinema) recuperam o espírito tanto da piada, quanto do chiste ou da pergunta e resposta para a composição de relações baseadas na interação fundo/figura. Se, na observação e análise de seus objetos midiáticos, se serve de piadas, chistes e aforismos, seu gesto especulativo joga com a percepção e significação de maneira que se crie uma re-

lação de dependência entre aquilo que se diz (figura) e aquilo que se mobiliza do ponto de vista do sentido (fundo). Para produzir o efeito desejado, a piada gera envolvimento, desperta a percepção para algo. É esse envolvimento que provoca estados de atenção e de compreensão simultâneos, fundamentais de toda mensagem. Por esse motivo, é tão importante elaborar os meios. É assim que seu trabalho discursivo e textual caminha e se transforma. As noções legendárias de seu pensamento como «o meio é a mensagem», «os meios como extensões» e a «aldeia global» são apenas as proposições conceituais que funcionam como as artérias primordiais das hipóteses que não foram formuladas para serem demonstradas e provadas, mas sim para abrir o diálogo e desencadear reflexões na linha evolutiva de uma visão de mundo global e inclusiva. Trata-se de caminhos retóricos orientados para o outro, como tudo na comunicação.

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Caminhos retóricos da leitura A orientação para o outro não apenas conduz à valorização da linguagem; marca uma postura teórica ocupada com os efeitos: mais importante do que as idéias e as intenções de partida, são as reações, as provocações, aquilo que vai emergir do ponto de vista perceptual. Em nome dos efeitos é que se tornou prioridade o desenvolvimento de uma visão global e inclusiva nos meios. E esta não é uma exclusividade dos estudos de McLuhan. Na verdade, representa um investimento de autores ocupados com a compreensão dos efeitos dos meios de comunicação na cultura. Se, na época de McLuhan, tal preocupação delineava um novo objeto de pesquisa, hoje é possível vislumbrar um conjunto teórico sólido, que já conta uma história considerável, cujo marco é, sem dúvida, as pesquisas de Millman Parry e Alfred Lord. Além deles, seguem linhas diferenciadas de investigação: Jack Goody e Ian Watt, que se dedicam às consequências da escrita; Walter Ong que analisa a tecnologização do letramento; Erick Havelock que se debruça sobre o surgimento da escrita na Grécia; e, mais recentemente, temos os estudos do medievalista belgo-canadense Paul Zumthor sobre a poética da oralidade com ênfase na relação entre a letra e a voz, título de um de seus livros já traduzidos para o português. Dentre as descobertas desses mestres, encontra-se a memorável proposição de Erick Havelock, segundo a qual a grande descoberta da cultura letrada não foi exatamente a escrita, mas, sim, o surgimento do homem leitor, o homem capaz de ler e inter-

pretar signos de diferentes formações: signos gráficos, icônicos, sonoros, cinéticos, audiovisuais, enfim, signos com distintas configurações espaciais. O investimento de McLuhan, desde seu primeiro livro, ou melhor, de suas explorações, direcionouse para o aprimoramento da leitura das produções de meios, gesto que faz jus a seu devotamento humanista de valorização da linguagem como faculdade cognitiva. A leitura torna-se, assim, a atividade central de seu método poético-hipotético, herança direta de seu aprendizado literário. A possibilidade de exercitar a leitura das produções culturais de maneira equivalente à leitura do texto literário foi um exercício que ultrapassou os limites do close reading e levou McLuhan a investidas mais radicais que resultaram no conteúdo do livro The Mechanical Bride. Dentre elas podemos situar o desenvolvimento de um método de observação do mundo que sustenta o modelo investigativo definido como método hipotético-poético. Segundo McLuhan,
É possível discutir duas formas para abordar um problema. Uma, que se pode denominar de método teórico, consiste em formular o problema nos termos do que já se conhece, fazer acréscimos ou extensões na base de princípios aceitos, e depois proceder à comprovação dessas hipóteses experimentalmente. Outra, que se pode chamar de método mosaico, considera cada problema por si mesmo, com pouca referência ao campo no qual se encontra, e procura descobrir relações e princípios existentes na área circunscrita (McLuhan, 1977: 72).
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O método hipotético-poético é, pois, propositivo e, enquanto tal, constrói relações que devem levar a diferentes inferências. Um das explorações mais evidentes desse método foi proposto nas formulações que recorre à mitologia. Uma de suas concepções mais divulgadas – a noção de meios como extensão – foi elaborada tendo como recurso o mito de Narciso. Nesta comparação entre o mito e a extensão tecnológica, a concepção é desdobrada pelas esferas interligadas do mito, da linguagem e da cultura. A recorrência aos mitos é uma outra vertente do método de análise que reconhece a interação entre figura/fundo como trabalho que tem muita clareza de efeitos. Uma visão que incide sobre o próprio modo de ler a historicidade dos meios na cultura.

Uma história dos efeitos A abordagem histórica de qualquer manifestação, via de regra, acompanha a sequência dos principais eventos marcantes de seu desenvolvimento. Sem fugir à regra, a história dos meios de comunicação tem início com a produção de inscrições rupestres, de palavra ou de tambor e constrói-se pela sucessão de inventos que fizeram dos contatos do homem com o mundo, em diferentes esferas de relacionamentos, uma realidade possível. Na cultura ocidental, o marco é o gesto que levou à invenção da escrita a partir do surgimento do alfabeto. Das inscrições em pedras aos signos gráficos; do alfabeto fonético à tipografia; do telégrafo ao rádio; da televisão à internet; dos cabos às redes e aos satélites. Em outras palavras: a história dos meios de comunicação já reúne um conjunto marcante de invenções capazes de fazer dela um evento significativo da história do homem no planeta. Nada teríamos a acrescentar, se McLuhan não tivesse explorado outra possibilidade de contar a história dos meios, não pela sucessão de inventos sociotécnicos isolados, mas pelos «efeitos» culturais, isto é, pelas transformações no modo de tratar as informações representativas das percepções em ambientes vivenciais. Considerando que é por intermédio do efeito que o meio se define, e não o contrário, o autor formulou a hipótese dos meios como extensão, como transformação, «massagem» no entendimento.
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McLuhan realizou não apenas um inventário consequente desses efeitos como também defendeu a necessidade de produzir conhecimento de seus desdobramentos e implicações por intermédio de uma história alfabetizadora dos meios. Alfabetização que não é eficiência técnica, mas compreensão gramatical e funcionamento para significação. Estamos longe, pois, de creditar ao meio um papel determinado graças a seus atributos de destaque na série de inventos realizada pela humanidade ou porque um novo meio se revele mais eficiente que o anterior. O ponto significativo da hipótese de McLuhan se traduz no seu entendimento de que o modo de produzir informação interfere na maneira pela qual a própria informação é percebida e compreendida culturalmente. Nesse caso, a tecnologia coloca-se a serviço da linguagem como processo de significação. O efeito revela-se, por conseguinte, como a instrumento de transformar a informação em linguagem e esta em veículo de percepção e de conhecimento. A história dos efeitos tornou-se, pelo viés de McLuhan, uma história da linguagem, ou melhor, das diferentes formações perceptuais e cognitivas utilizadas nos processos de trocas e de convivências, merecidamente, denominadas «linguagens da comunicação». Por isso, em vez de focalizar tão somente o viés tecnicista dos inventos e descobertas, a história dos meios no contexto dos efeitos se mostra potencialmente capaz de revelar modos e processos de percepção, de compartilhamento, de conhecimento do mundo, como eles se implicam mutuamente, até mesmo

para impulsionar novas invenções. Fora desse viés, a tecnologia não diz nada aos interesses intelectuais de McLuhan. A televisão tornou-se o meio tecnológico que, depois do alfabeto, mais propôs desafios para o entendimento dos efeitos na era da eletricidade. É com a televisão que os processos perceptivos visuais revelam alcances muito mais amplos do que aquilo que se julga conter num campo visual. Com isso, ampliam-se os questionamentos sobre efeitos nunca antes cogitados. O exercício de McLuhan pode ser acompanhado a partir de um exemplo pontual: o questionamento emergente quando a televisão torna-se o palco do debate às eleições presidenciais dos Estados Unidos nos anos 50. Ainda que as performances de J.F. Kennedy e R. Nixon tenham sido o tema central das discussões, McLuhan perguntava-se sobre o que estava acontecendo efetivamente na vida sociocultural. Que efeito era esse? Por que um debate reproduzido entre os dois candidatos, numa tela em preto e branco, converteu-se em algo mais cativante que o contato humano e direto com os candidatos no palanque do espaço público? Por que um evento meramente performativo se tornava mais significativo que as análises posicionadas dos argumentos da imprensa escrita? Alguma transformação muito significativa estava acontecendo, uma espécie de hidden language, como diria Edward Hall, abria um dialogo com as pessoas. A resposta não apareceu de pronto,

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mas o fato de que o meio televisual produzira um efeito radicalmente inusitado era inquestionável. Que efeito era esse? McLuhan não é teórico de respostas imediatas, mas de reflexão que joga com proposições relacionais entre fundo e figura. No caso de suas indagações sobre os efeitos da emissão televisual, o procedimento não foi diferente. Suas conjecturas foram examinadas com em diferenes estudos e os argumentos foram retomados e reelaborados no processo de seu próprio amadurecimento. Particularmente em Understanding Media: the Extensions of Man (Para compreender os meios: as extensões do homem), o autor delineia algumas hipóteses que oferecem pistas de como é possível entender o porquê de o programa televisual ter conquistado a audiência naquele debate.
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Com base em suas observações e intuições, chegou a uma hipótese mais generalizada: o tratamento da informação foi traduzido em termos do meio, o qual produz, por sua vez, um efeito decisivo sobre a mensagem. Esse efeito revelou-se sob forma de apelo à participação e ao envolvimento sensorial. O que McLuhan verifica também é que a tela eletrônica da televisão permite um trânsito inusitado de percepções provenientes da imagem icônica, quer dizer, a imagem que não se restringe à visualidade, sobretudo porque a qualidade visual é muito baixa. Com base em observações como essa, McLuhan formula a hipótese desconcertante de que a televisão toca as pessoas na pele. Muito mais do que um meio que fala aos ouvidos e oferece-se ao olhar, a televisão condensa som e imagem visual em luz que incide e toma conta do ambiente, fazendo emergir aquilo que ele entende como “tato ativo” que, embora não seja cutâneo, toca a pele de algum modo (McLuhan, 2005: 101), atingindo todos os sentidos, perceptuais e cognitivos. Prolongam-se, daí, a compreensão sobre a tatilidade da imagem e os efeitos ambientais do meio nunca antes experimentados. O efeito tal como se manifesta na projeção televisual pode ser entendido como um ponto de transformação cujo caráter indicial atua na percepção e no entendimento. A imagem da projeção eletrônica por trás da tela (backscreen), a envolver com pontos de luz o telespectador, levou os candidatos a conversarem com as pessoas individualmente. Esse efeito de presença intensificou-se naquele debate e acabou revelando,
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A televisão havia criado uma nova linguagem em que a câmera estabelecera um contato pessoal e, portanto, mais íntimo com as pessoas. A imagem minimalista da tela da tevê revelouse, sobretudo, emocional. O tempo pode ser dimensionado num eterno presente em que milhares de pessoas se sentiram vinculadas, simultaneamente, numa mesma frequência. A tevê mostrou-se um meio de envolvimento e, portanto, de participação profunda do espectador: a imagem envolvia com som, luz, tato, movimento. Esta experiência sensorial era completamente inusual.

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para McLuhan, a força daquela linguagem. Não é propriamente o conteúdo do debate, mas o fato de ele ser realizado para as pessoas em suas casas que criou o envolvimento. Com fundamento nesse contexto especulativo, é levado a crer que o modo de tratar e de apresentar a informação age decisivamente sobre a percepção e provoca diferentes contatos com o mundo. Com isso, é possível dizer que a nova forma de apresentação das ideias conduz a modificações significativas das relações humanas. O efeito é o forte indício de mudanças perceptivas, sensoriais, cognitivas, performativas, bem como de um conjunto de relações e implicações em que nada pode ser considerado isoladamente. Assim o meio adquire a condição de objeto de pesquisa e de entendimento. Em última análise: o meio cria padrões de conexão formadores de ambientes, como as palavras de McLuhan confirmam.
O meio, ou processo, de nosso tempo – de tecnologia elétrica – está remodelando e reestruturando padrões de interdependência social e todos os aspectos de nossa vida pessoal. Por ele somos forçados a reconsiderar e reavaliar, praticamente, todos os pensamentos, todas as ações e todas as instituições anteriormente aceitos como óbvios. Tudo está mudando – você, sua família, sua vizinhança, sua educação, seu emprego, seu governo, sua relação com os outros. É essa mudança é dramática. As sociedades sempre foram moldadas, mais pela natureza dos meios que os homens usam para comunicar-se que pelo conteúdo da comunicação (McLuhan, 1969: 36).

Os efeitos constituíam, assim, forças fundamentais da revolução que os meios de comunicação introduziram na cultura. Era urgente estudá-los com seriedade. Do ponto de vista dos efeitos, a história dos meios pode ser, então, dimensionada de acordo com a profundidade das transformações perceptivas, sensoriais e cognitivas, deixando-se de lado a horizontalidade e causalidade dos inventos. A dinâmica é dada pelas alterações introduzidas pelos meios de comunicação na cultura de modo que se reveja a história das relações entre eles, bem como dos sentidos que mobilizam e enunciam. Com essa finalidade, McLuhan propõe uma gramática para os meios que pudesse ser ensinada. Lançou-se, assim, ao estudo de formas de organização de mensagens, particularmente anúncios e notícias, que permitissem elaborar a leitura que se faz deles. Com isso, em vez de meros consumidores ou usuários, os envolvidos poderiam se tornar interpretantes dos processos transformadores da informação em mensagem. Interpretante, nesse caso, no sentido semiótico do termo: um intérprete capaz de transformar a mensagem e requalificar a informação em novo meio. É nesse contexto que propõe acompanhar a história dos meios como uma história alfabetizadora, na qual os efeitos, e não as sequências, são agentes das interações sociais. Descobrir como as épocas respondem às invenções culturais é a tarefa da história alfabetizadora dos meios, uma vez que os acontecimentos se desenvolvem em superfícies de contato e de encontros culturais.
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Diferentemente de muitos estudos que procuram tão somente montar sequências – oralidade > escrita > tipografia > eletrônica > informática –, McLuhan convida-nos a observar interações e, por conseguinte, a comparar os efeitos de uns meios em relação aos outros, a começar do caráter ambiental da própria informação. Surgem algumas articulações que podem orientar nossa compreensão:
(a) (b) (c) (d) (e) (f)

vamente, recuperar formações culturais distintas como oralidades, visualidades, cinetismos. Por isso, McLuhan situa o alfabeto no eixo de deslocamentos que ampliam a história dos meios em desdobramentos como o grafismo visual fundado pela perspectiva, ou a escrita de números e não de letras, base das linguagens científicas; como as matemáticas e os cálculos, que são constituintes elementares das linguagens elétricas, eletrônicas e informáticas. Ainda que o foco seja o estudo dos efeitos traduzidos em comportamentos culturais, o objeto de análise é um processo de linguagem em transformação ou mesmo transmutação.

efeitos ambientais da informação; efeitos da integração dos sentidos na oralidade; efeitos de síntese visual na invenção do alfabeto; efeitos sensoriais da gravação e do manuscrito; efeitos de multiplicação da escrita tipográfica; efeitos da leitura no contexto das línguas nacionais e polifônicas efeitos de simultaneidade da eletricidade.

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A história que valoriza os efeitos, e não as sucessões, tem o mérito de acompanhar o desenvolvimento dos meios de comunicação não como aparatos tecnológicos, mas, sobretudo, como linguagem – ponto de partida das explorações de McLuhan. Graças à capacidade de elaborar linguagem, os meios podem mudar comportamentos, ações, percepções. Esse é o mérito maior da história alfabetizadora. Ao assumir o centro do processo de alfabetização pelos meios, a linguagem mostra-se em seus diferentes códigos históricos. O alfabeto é o grande marco de invenção da escrita que permite, comparati34

Dos efeitos às leis da mídia A história alfabetizadora dos meios distingue-se da sucessão pura e simples, uma vez que, para comunicar, os meios pressupõem uma cadeia de eventos: ação perceptiva, interpretação sensorial e organização cognitiva sob forma de linguagem aberta para a leitura. É impossível ignorar as ocorrências humanas que constituem esse intervalo entre informação e mensagem; percepção e conhecimento. Tal é o caráter da argumentação de McLuhan que interessa para compreender, por um lado, o processo de alfabetização pelos meios, por outro, os padrões de funcionamento que tais efeitos organizaram. As leis da mídia a que chegou McLuhan surgem como intuições dessa visada global e inclusiva de efeitos conjugados. As leis da mídia não estão acima da história, pelo contrário, resultam do jogo entre transformação e permanência, como toda lei dialética de mudança. Se os meios naturais de comunicação se desenvolveram por intermédio dos órgãos humanos em contato com o ambiente, isto é, da boca ao ouvido, as inscrições e a escrita colocam em evidência formas visuais em suportes diferenciados: pedra, tijolo, pergaminho, couro, papel, tela. Por conseguinte, os meios, em seu processo histórico, são agentes transformadores de possibilidades sensório-cognitivas. Se, do ponto de vista da cultura, as formas elaboram mensagens que significam diferentemente nos diversos meios, do ponto de vista cognitivo, as diversas significações explicitam modos distin-

tos de percepção e de sensorialidade. O jogo entre processos de significação das mensagens perante as percepções das linguagens desenvolvidas pelos meios é o que sustenta a mais conhecida formulação de McLuhan: “o meio é a mensagem”. A função alfabetizadora dos meios seria uma maneira de explicitar as regras desse jogo. A descoberta de que os meios se relacionam por comparação, e não como termos de uma sucessão, apresenta outro viés da história dos meios tomada com base nos efeitos. A noção de que um novo meio, em seu nascimento, desencadeia tanto interações quanto distinções quer dizer o seguinte: as forças relacionam-se para conjugar um funcionamento integrado, em expansão, com avanços e recuos, idas e vindas. Quando McLuhan afirma que a história dos meios não desenvolve sucessões, mas simultaneidades, ele nos apresenta uma concepção permeada pela visão elétrica do «tudo ao mesmo tempo» – lição que ele aprendera ao acompanhar, por exemplo, os debates televisionados dos candidatos americanos à sucessão presidencial. O mérito maior é a valorização das relações nas quais nenhum meio, como nenhuma invenção ou tecnologia, pode ser considerado isoladamente: o meio concentra traços dominantes e estes são inclusivos, não exclusivos. Com isso, as interações podem delinear relações entre percepções diferenciadas, tais como as que consagraram os diversos sistemas culturais, que os não estudiosos da obra de McLuhan conseguiram colocar numa sequência. Deixando de
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lado as sequências, é possível alcançar as interações emergentes na galáxia de Gutenberg e na aldeia global. Desde os anos 60, McLuhan entendeu que “quando um novo veículo entra em cena é que nos tornamos conscientes das características básicas dos veículo mais antigos, de um modo que não víamos quando as coisas estavam acontecendo” (McLuhan, 2005: 62). Quando este raciocínio ganha peso teórico, pela análise histórica dos efeitos, McLuhan alcança uma visão de conjunto sobre as transformações, formulada em termos de um diagrama conceitual concebido como «tétrade», figura geométrica constituída de quatro pontos solidários. Com ela, as relações entre figura e fundo projetam uma dinâmica correlacional em que o efeito se colocam, sobretudo, como movimento perceptual. Explorando a dinâmica das relações no diagrama das tétrades, McLuhan chega à formulação das leis da mídia. O diagrama da tétrade é constituído por uma superfície com quatro instâncias interligadas. A exemplo da fita de Moebius (Möbius string), trata-se de uma superfície com um limite que, quando articulada em suas extremidades, exibe o seu reverso. No diagrama de McLuhan, o que se enfatiza é a passagem de uma dimensão à outra, tanto do ponto de vista de uma ordem reversa, quanto da conversão ao estado anterior. Quer dizer, a mudança de estado não é causa para uma ruptura, mas sim para uma retomada a partir de outras bases. Este movimento é o que leva McLuhan à lei da mídia: aquilo que se apresenta

como extensão pode evoluir num sentido reverso, do mesmo modo como pode ser retomado em outras circunstâncias. Na verdade, com este diagrama, formula padrões de funcionamento em que os meios podem ser dimensionados em suas extensões; reversões; recuperações e obsolescência. Graficamente, a tétrade abrigando as quatro leis que regem a dinâmica dos meios na cultura foi assim representada: A – AMPLIFICAÇÃO

D – INVERSÃO

C – RECUPERAÇÃO

B – OBSOLESCÊNCIA

Estrutura tetrádica (apud McLuhan & Powers, 1996: 27)

A norma de quatro partes demonstra com clareza que a verdadeira tétrade tem dois fundos e duas figuras em equilibrada proporção entre si, o que tende a realçar a natureza da etapa de inversão (McLuhan & Powers, 1996: 54).

Tornado instrumento teórico para a investigação dos efeitos, o diagrama da tétrade transforma o processo de composição de figura/fundo num princípio de pensamento para se acompanhar o desenvolvimento dos meios e suas transformações ambientais. Ao invés de adotar um modelo fundado na causalida36

de, a tétrade organiza um artefato baseado na simultaneidade e inclusividade das relações. As tétrades sintetizam as leis dos meios que emergem a partir do próprio conceito que o orientou na concepção de tecnologia como extensão de nosso corpo e de nossas faculdades. Toda tecnologia surge amplificando. “A necessidade de amplificar as capacidades humanas para lidar com vários ambientes dá lugar a essas extensões tanto de ferramentas quanto de mobiliário. Essas amplificações de nossas capacidades, espécies de deficações do homem, eu as defino como tecnologias” (McLuhan, 2005: 90). A tétrade ajuda a ver a figura e o fundo, trazendo este último para um plano visível. Nesse caso, a tétrade é o revelador, ou melhor, “um instrumento para revelar e predizer a dinâmica das inovações e as novas situações” (idem, ibidem: 34). No caso específico das tecnologias, há que se examinar como a eletrônica desloca o espaço visual para recuperar o espaço acústico de um modo inovador sob o pano de fundo da cultura alfabética, tornada obsolescente, o que não impede, contudo, que continue parte integrante da estrutura tetrádica. Isto porque, não se trata de eliminar o confronto, mas de promover o equilíbrio. A tecnologia eletrônica tem a função de reposicionar o sensório, valorizando o que na época de Cícero era o sensus communis, isto é, a integração do sensório. A tétrade de McLuhan está desenhada para explicar os acontecimentos culturais que os meios de comunicação impulsio-

nam. Não se baseia numa teoria ou um conjunto de conceitos, mas sim na observação, experiência e idéias.
os tétrades não se baseiam em uma teoria mas sim em um conjunto de perguntas; se apóiam na observação empírica e portanto são comprováveis. (...) ainda que os tétrades sejam um meio para concentrar o conhecimento de qualidades ocultas ou inadvertidas em nossa cultura ou suas tecnologias, atuam fenomenologicamente (McLuhan & Powers, 1996: 24).

O aspecto inverso do tétrade está sucintamente exemplificado na máxima da teoria da informação: uma sobrecarga de dados é igual a um padrão de reconhecimento. O principal ponto da argumentação aqui formulada confere ao circuito elétrico a possibilidade de criação de um ambiente de percepção totalizante e inclusivo, bem diferente da percepção fragmentária da condição visual desenvolvida pelo alfabeto. Um ambiente em que as extensões não são os meios, mas os efeitos e seus processos. Nesse caso, não é exatamente o meio tecnológico que se encarrega de alterar a condição perceptiva, mas sim os efeitos processados. Figura e fundo, interior e exterior, olhar de dentro e olhar através: tudo emerge para compor um conjunto de interações em conflito, sem que uma anule a outra. As leis da mídia revelam ainda como o raciocínio que partiu do treino de percepção caminha para a ecologia das formas
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culturais onde as permanências sobrevivem às mudanças que muitas vezes confundem figura e fundo e nos levam a ver apenas um lado. Ficam aqui um alerta, uma lição ou apenas um convite a novas elaborações e respostas.

Considerações finais No contexto do pensamento sobre visão global e inclusiva, o movimento da informação na era eletricidade tem papel decisivo, como McLuhan procurou examinar em sua obra. É da natureza do meio a inclusão e a participação simultânea. E isso não tem nada a ver com automatismo. Por isso o pensamento de McLuhan não cabe nos limites de uma mera sucessão ou substituição de um veículo por outro. Cresce a importância dos efeitos na formulação história de seu pensamento onde a eletricidade ocupar o lugar de grande desafio. Diferentemente da tecnologia do alfabeto e da causalidade mecânica – diferente, não em oposição a – a tecnologia elétrica segue a orientação do campo físico unificado, afastando-se da percepção do espaço newtoniano, ainda que recuperando a sensorialidade do espaço tribal. Por isso McLuhan reporta-se à teoria segundo a qual, no mundo elétrico,
...a idéia de força tendia a ser substituída pelas idéias de interação e da energia possuída pelo agregado de um conjunto de partículas; e ao invés de considerar corpos singulares sob a influência de forças, os físicos matemáticos desenvolveram teorias, tais como as de Lagrange na dinâmica, em que se obtêm equações matemáticas capazes de predizer o futuro de todo um sistema de corpos simultaneamente, sem de nenhum modo recorrer às idéias de “força” ou “causa” (apud McLuhan, 1977: 92).

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Desenha-se, assim, a noção de aldeia global num campo unificado, seja pela eletricidade, seja pela percepção simultânea de acontecimentos. A simultaneidade já não é mais da ordem da visualidade, mas sim da audibilidade.
Independente de toda questão de valores, o que temos de aprender hoje é que nossa tecnologia elétrica tem conseqüências para nossas percepções e hábitos de ação mais comuns e que tais conseqüências estão recriando rapidamente em nós os processos mentais dos homens mais primitivos. (...) Vivemos num único espaço compacto e restrito em que ressoam os tambores da tribo (McLuhan, 1977: 57; 58).

Considerando o diagrama da tétrade, alcança-se o elo que aproxima a eletricidade do mundo intuitivo das sociedades orais: recupera-se um estado de cultura baseado num senso comum de participação e de envolvimento. Os circuitos elétricos não apenas expandem as possibilidades espaciais, mas envolvem, criam vínculos e participações. McLuhan entende que ao propiciar este estado de comunidade numa base elétrica, a percepção e o conhecimento do mundo recuperam aquele estado em que o ouvido ocupava o lugar do cérebro. Do ponto de vista conceitual, percebe-se, igualmente, uma aproximação entre intuição e a noção de campo unificado. Tal noção foi examinada pro McLuhan em diferentes momentos de suas indagações sobre o efeito de simultaneidade introduzido pelos circuitos elétricos.

A coexistência num mesmo campo sensorial e perceptivo é dimensionado também numa escala cultural uma vez que a era eletrônica recupera tempo e espaço culturais diferenciados e que aprendem a conviver. Nesse sentido McLuhan alcança o caráter oral do campo eletrônico. Em seus estudos sobre televisão não é a visualidade que tem o poder de definição maior sobre o meio, mas sim a oralidade e a tatilidade. A noção de tatilidade da imagem só faz sentido se inserida no contexto do envolvimento de sentidos que as transmissões eletrônicas inseriram na cultura. Simultaneidade implica envolvimento e participação; vinculada ao contexto das percepções na era elétrica, implica invisibilidade e ubiquidade. Com tais noções, são ampliadas as configurações do entendimento dos meios como ambiente, ao mesmo tempo em que são lançadas sementes para a compreensão do espaço acústico, a ecologia dos meios e as bases do que seriam as leis dos meios. Tanto do ponto de vista da análise, quanto das formulações teóricas, as explorações que procuraram focalizar os efeitos tocam em raízes históricas que estão na base dos processos formativos com vistas à amplitude das relações panorâmicas sem perder as raízes históricas e contextuais.

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Referências
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Explorations e probes ou encontrando McLuhan

Resumo
Este ensaio versa duas modalidades do que poderia ser chamado de “aventuras heurísticas”, delineadas e levadas a termo por Herbert Marshall McLuhan. Explorations & Probes terão servido menos a intentos de explicação teórica ou justificativa filosófica do que a tentativas (bem) feitas no sentido de um desvelamento cognitivo e da proposição de introvisões poeticamente transpostas e assim (a)firmadas. Servido por uma metaforização intencional, pelo “sequestro criativo” próprio à formulação de hipóteses ousadas e pelo gosto desenvolvido pela expressão paradoxal, Herbert Marshall McLuhan, em pensamento e obra, elevou os estudos de mídia (e mesmo da teoria da coA.R. TRINTA PROFESSOR ASSOCIADO DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA MINAS GERAIS/BRASIL AR.TRINTA@TERRA.COM.BR municação) a um novo patamar. O período histórico subsequente à sua morte, em 1980, vem dando provas cabais do acerto de suas hipóteses exploratórias e investigativas.

Palavras chave
explicação, probes, explorations, metaforização, eletricidade
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Ecce homo: Herbert Marshall McLuhan Por tudo que de sua personalidade e de sua obra refletida já se conhece, passados trinta anos de sua morte, parece ser de fácil execução a tarefa de explicar o professor de língua inglesa e teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan (1911-1980), por exemplo, em referência a seus intentos exploratórios e a seus probes. Neles, sua magnífica figura intelectual se mostra de corpo inteiro; e, no curso de três décadas, tanto se escreveu e falou a seu respeito que a tantas leituras e a algumas nutridas interpretações nada parece haver a acrescentar. Non nova, sed nove, reza o provérbio latino: se não há como dizer coisas novas, então por que não dizê-las de uma nova maneira — (em) nova mente? Ao coligir seus probes — espécie de “pensamento em drágeas”, servido por frases conceituosas, a exemplo dos aforismos — Marshall McLuhan dava curso às suas explorações. Não o fazia, porém, em um vácuo histórico e no vazio epistemológico; antes, inscrevia-se como teórico renovador no âmbito das ideias comunicacionais gestadas ao longo do século XX, a elas emprestando sua verve e sua intensa criatividade. Em uma de suas perspicazes lições, ele nos ensina que a mídia eletroeletrônica não encerra nem manifesta tendências; acata e adota princípios, normas ou leis, cujo entendimento se faz urgente — tal como se aprende na parábola do marinheiro em luta para escapar da vertigem do redemoinho que está prestes a tragar seu barco.

O conjunto de sua obra, a par da mudança paradigmática que provocou e o desenvolvimento posterior, que culmina com as tétrades e a ecologia midial, permitem inscrever Herbert Marshall McLuhan no rol dos mais destacados maîtres à penser da Modernidade.

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Época, reflexão e obra A expressão de seu pensamento em livros, aulas, conferências e entrevistas trouxe nítida marca de cultivada inventividade, aproximando-se ora do conto filosófico, à moda de Edgar Allan Poe (USA, 1809-1849), ora do texto literário poeticamente instruído e inspirado pelos artifícios verbais (a metáfora e o jogo de palavras, em primeiro plano) do escritor irlandês James Joyce (1882-1941). McLuhan fez ainda uso programático da abdução — o modo metodológico da “hipótese exploratória” — ao feitio do filósofo pragmaticista Charles Sanders Peirce (USA, 1839-1914), assim como adotou com entusiasmo as vantagens expressivas do paradoxo, ao gosto do escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, teólogo, filósofo, desenhista e conferencista britânico G. K. Chesterton (1874-1936). Mestre da retórica, Chesterton teria influenciado McLuhan no sentido de uma rejeição algo conservadora de valores caros à Modernidade, tais como certo cientificismo ateu, de talhe reducionista e determinista. Professor universitário de língua e literatura inglesa, formado pela escola inglesa do New Cristicism e do close Reading — empenhada na valorização do texto em si mesmo, em regime de imanência estética — Marshall McLuhan foi homem de seu tempo e de seu lugar, absorvendo a cultura pop para dominála e pô-la a serviço da exposição de suas ideias. Afeito à expressão artística e cercado por artistas e intelectuais provindos de distintas áreas, com os quais fez parcerias, Marshall McLuhan iria ainda tornar-se conhecido pelo mote “I don’t explain, I explore”, ao qual reiteradamente recorria para justifi-

car investidas e investimentos de um irrequieto, indagativo pensamento. Detratores houve, no Brasil, que em evidente tom de zombaria disseram que McLuhan e o animador de TV Abelardo ‘Chacrinha’ Barbosa, morto em 1988, proclamavam a mesma coisa: “Eu vim para confundir; não vim para explicar”. À exceção talvez de artistas acostumados a experimentações, poucas vezes suas investidas exploratórias foram levadas a sério, não tendo seus probes tido melhor sorte. Colunista da prestigiosa revista semanal francesa L´Express, Jean-François Revel certa vez o chamou de “Salvador Dali metido a Lavoisier”, afirmando que as proposições do canadense empalmavam o “método paranoico-crítico” do célebre pintor catalão. Compunham esta “metodologia” três etapas, distribuídas em graus sucessivos de pretensa complexidade no propósito de provocar surpreendentes efeitos de sentido: mistificação (temática) deliberada, delírio (interpretativo) habilmente orientado e confusão mental (enfaticamente induzida). Não é, portanto, fato incomum o de que agressividade na cédula e pouca ou nenhuma sutileza no selo constituam uma maneira de se deslustrar, desqualificar, reduzir e infamar o que não se chega a compreender ou, ainda, aquilo que se decide ver de través ou em obliquidade intencional, talvez porque não se queira (ou não se tenha podido) ver tal como é. A personalidade conhecida de Herbert Marshall McLuhan terá sempre sido motivo de viva controvérsia1. Em se tratando de um pensador revolucionário a seu modo pró____________________ 1 McLuhan Pro & Com (New York: Funk & Wagnalls, 1968), livro editado por Raymond Rosenthal, figura entre as melhores obras de referência à polêmica que, em seu tempo, o notável professor da Universidade de Toronto suscitou, em particular no mundo acadêmico da América do Norte.

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prio, tal como McLuhan, adeptos e fiéis cultores do “mcluhanismo” o tinham na conta de um “estilo de pensamento” ou um “modo de pensar” a Modernidade, tal como esta se afigurava projetada pela mídia eletroeletrônica, plasmada pelas indústrias da cultura e traduzida pela cultura pop ao longo da segunda metade do século XX. Quanto aos que sequer o haviam lido, mas tampouco haviam gostado do que ele escrevera ou dissera, a rejeição liminar reproduzia pejorativamente um trocadilho inspirado em seu nome: “mclunatismo”. Amor e ódio situados num plano a-histórico, não teórico e apolítico, contíguo à devoção quase religiosa ou, ao contrário, desacordo visceral ou forte sentimento de inveja, motivo de surdas disputas por poder simbólico e notoriedade acadêmica ou mundana. Em seus livros e intervenções, Marshall McLuhan ilustrou — verbal, vocal e visualmente — suas ideias acerca da comunicação de seu tempo, prefigurando a de tempos por vir. Para tanto, preferiu realizar estudos exploratórios da mídia eletrônica, em reconhecimento teórico de seu papel formativo — sobretudo informativo — e sua ação continuada sobre a percepção humana, individual e coletiva. Chamado de “filósofo da mídia” e rotulado, com simplismo e alguma impropriedade, “determinista tecnológico” por ter-se ocupado dos canais (evolução diacrônica) e dos meios (situação sincrônica), ressaltando o peso específico de sua incidência em meio sociocultural, Marshall McLuhan aludiu, metaforicamente, a um environment (“ambiência”), que em toda parte presente é, por paradoxal que

seja, invisível. Ele se referiu a um recondicionamento sensorial e mental, que então se delineava; e muito disse de alterações em curso que logo afetariam nossos hábitos de percepção, nossos métodos de pensamento e as linguagens de que fazemos uso. Em processo de mudança estava também a relativa acuidade de nossos sentidos elementares e, com eles, nossos valores estéticos. Ao menos em parte, estas transformações ocorreriam subliminarmente, alojando-se em nosso subconsciente; assim, somente quando, por obra e graça de uma tecnologia de inclinação prometeica, viessem a se tornar ambiência, isto é, a compor o espaço de um ambiente físico e psicológico (e, por esta via, estético) propício a toda espécie de práticas humanas e relações socioculturais. Somente aí teríamos delas algum grau de consciência. “Mind your media men!” era a advertência que ele repetidamente fazia: necessitamos compreender o ambiente em que estamos imersos, se desejarmos exercer sobre ele algum controle. O mestre canadense da comunicação procurou mostrar (e demonstrar) que a forma de sairmos do maelström (“a tremendous vortex of power”, em suas palavras) em que nos encontramos (causado pela ação ininterrupta de uma ambiência midiática) e nos apercebermos como as tecnologias modificam profundamente nossa cosmovisão e nosso “sentimento do mundo”, pode dar-se por uma convivência íntima com a arte e a arte literária, além de uma filosofia da cultura. O artista, o poeta/escritor e o animador cultural, com sua excepcional sensibilidade, são os únicos que conseguem perceber e captar mudanças introduzidas em nosso meio ambiente (físico, psicossocial e cultural), no qual vêm
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ocorrendo rápidas e repetidas transformações. Marshall McLuhan se esmerava em citar, além de James Joyce, críticos e teóricos da literatura moderna tais como Thomas S. Eliot (Londres, 1888-1965) e Ezra Pound (EUA, 1885 - Itália, 1972), bem como poetas da estirpe de Charles Baudelaire (França, 18211867), com seus “poemas em prosa”, e Arthur Rimbaud (França, 1894-1991), o jovem poeta do decadentismo de fins do século XIX, mestre do artifício literário. Interessou-se muito pela obra de William B. Yeats (1865-1939), escritor e poeta irlandês que se notabilizou por seu patriotismo, seu idealismo romântico e sua imaginação fantasiosa. De um modo ou de outro, a todos estes autores caracterizam uma feição moderna, a afirmação literária de sua identidade nacional, a capacidade criativa e a visão crítica de um novo tempo pelo viés da arte, tendo a expressão metafórica como veículo de causa eficiente. McLuhan apreciaria a pop art — dimensão ético-estética da cultura pop, da qual, em seu tempo, ele próprio foi figura emblemática — a ela creditando os contornos artísticos dados a uma miríade de objetos que integravam a ambiência trazida e fomentada pelas indústrias da cultura. O meio (a “massagem psíquica”) portava e informava a mensagem, uma vez chegado o momento histórico da “massa média”2, McLuhan reite____________________ 2 A exemplo de James Joyce, Marshall McLuhan apreciava jogos de palavras. Fazendo deslizar o significante (sensível) sobre si mesmo, obtinha um significado (inteligível) novo, poeticamente elaborado e filosoficamente procedente. O mote “The medium is the message” (o meio é a mensagem) desdobrava-se em “The medium is the massage” (o meio é a massagem [psíquica]) e “The medium is the mass age” (o meio chega ao tempo da massa); enfim, “The medium is the mess age” (o meio é a era da balbúrdia), talvez em premonitória visão de um mundo ciberpunk ou o advento de uma idade de “desreferencialização” generalizada, à qual se vem chamando de Pós-Modernidade.

rava que, por sua presença e, sobretudo, por sua ação continuada, a mídia — a televisão em plano de destaque — influencia a cultura, conforma o comportamento social, informa a experiência dos fatos do mundo, altera a percepção pelos sentidos elementares e dita estratégias de conhecimento. As três “idades da humanidade”, a que se referia, contemplam e consagram a prevalência de um dado meio de comunicação, tendo seu início na transmissão de boca a ouvido da cultura oral e passando à era da alfabetização e do impresso; aparece, enfim, a mídia eletrônica, impulsionada pela industrialização, o capitalismo de mercado e conquistas tecnológicas alcançadas no último século, além da informatização crescente. Ela ocupa hoje o proscênio, em virtude de numerosos gadgets (equipamentos ou dispositivos de uso cotidiano que contam com múltiplas funções) e aplicativos. A internet e as conhecidas mídias sociais tornaram o mundo pequeno, imprimindo velocidade à vida social, ao abolir na prática as coordenadas tradicionais de espaço e tempo. A virtualidade em voga substituiu a realidade, tal como a conexão (múltipla, variada, instantânea) veio ocupar o lugar que um dia foi do contato (real, experiencial, vivido). Triunfo da mediação obtido por uma, ao que parece, definitiva midiação, sempre e cada vez mais “natural”, “necessária” e, assim, consentânea.

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Eletricidade é informação Tal como sucedeu com a descoberta e o uso do fogo, operando uma mediação entre o ser humano e o meio natural, a descoberta e o uso da eletricidade vieram mediar uma nova relação do homem a seus espaços culturalmente instituídos e demarcados.3 Uma nova luz, em acepção literal e figurada. A eletricidade é triunfo e trunfo técnicos, alcançados pelo desenvolvimento da física, tal como se deu no curso do século XIX. O notável avanço obtido com (e pela) conquista, por exemplo, da luz artificial consumou-se ao fim de pouco mais de um século, uma vez que entre 1830 e 1850 o que se conhecia, nas principais cidades europeias e nos EUA, era a iluminação a gás: imprecisa, bruxuleante e invariavelmente crepuscular. Entre 1930 e 1950, a par de outros avanços da eletrotécnica, o emprego de lâmpadas a vapor de mercúrio e tubos fluorescentes proporcionou a interiores uma luz branca, abundante e uniforme, a qual, sob alguns aspectos, admitia honrosas comparações à luz solar. Em um de seus muitos vislumbres, Marshall McLuhan deu a entender que um meio afeta a sociedade em que (como um ator dramático) atue; não o faz, porém, por seu conteúdo eventual, senão por suas características tecnológicas, em sua primária condição de canal e, logo depois, de ambiência. A invenção
____________________ 3 “Today, after more than a century of electric technology, we have extended our nervous system itself in a global embrace, abolishing both space and time as far as our planet is concerned”. (Marshall McLuhan, Understanding Media. New York, McGraw-Hill, 1964 p. 28.

da lâmpada elétrica4 serviu a uma esclarecedora explicação: ela não dispõe de conteúdo — tal como um jornal traz artigos e a televisão oferece programas — mas, ainda assim, constitui-se em meio de grande efeito social. Ao cair da noite, uma lâmpada acesa permite que sejam criados novos espaços; sem ela, a escuridão envolveria a mente em trevas ancestrais, em todas as acepções desta expressão. A luz elétrica fazia bem mais do que completar ou substituir a iluminação natural, vindo mesmo a suplantá-la. Conquista técnica de grande importância para a civilização ocidental, distinguia-se por ser regulável e, mediante variações controláveis, produzia efeitos; satisfazia ainda a um bom número de requisitos referentes, por exemplo, à iluminação de interiores, beneficiando a projetos arquitetônicos. Construídos com a imprescindível assistência dos computadores, não serão nossas edificações, literal e metaforicamente falando, “extensões” de nós mesmos? O controle da luz (natural e artificial) é comparável ao diafragma ocular; elevadores e andares vêm em auxílio a nossas pernas, em percursos que fazemos no interior de um prédio, que nos envolve ainda como ambiente. De fins do século XIX a meados do século XX, a eletricidade já se vinha impondo como meio técnico ideal para a transmissão
____________________ 4 “The light bulb creates an environment by its mere presence”, disse certa vez em uma de suas exposições no Centrer for Culture and Technology da Universidade de Toronto. Esta proposição viria reafirmar a tese de que “o meio é a mensagem”, isto é, as qualidades características de um dado meio produzem tanto efeito quanto a informação que, por seu canal, se transmite.

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da informação. A história de seu emprego para tal finalidade oferece marcos notáveis, ressaltando-se a invenção do telégrafo por volta de 1850; do telefone, entre 1850 e 1880; da transmissão hertziana, ao redor de 1900; do rádio, na década de 20 do século passado; e da televisão, entre 1940 e 1960. Estendia-se o alcance dos sinais, fossem eles portadores da voz humana ou da imagem do homem e, por via de consequência ,do “homem imaginário”, proposto pelo cinema. Anunciava-se uma “telepresença”, algo que somente se concebia como ficção científica e que, em nosso tempo, tornou-se inteiramente factível pelo recurso a uma tecnologia chamada “ponte holográfica”, em que pessoas, localizadas em pontos distintos, conversam ao vivo como se estivessem partilhando um só e mesmo ambiente. Marshall McLuhan observou que não seria possível compreender inteiramente a natureza e a influência exercida pela mídia eletrônica, fosse a televisão, fosse o rádio (e, hoje, telefones celulares, computadores etc.) sem se aperceber e entender bem a natureza da eletricidade. Potencialmente perigosa em seu manejo, a eletricidade, como a mídia em si mesma, em seu ser ou em sua natureza é serventia, pois permite conexões. Uma nuvem de chuva se conecta à terra na forma fulgurante de um trovão, forte descarga elétrica na atmosfera. A corrente elétrica que chega por um fio instalado conecta a lâmpada de uso doméstico a um polo de energia, fazendo supor a conexão a uma rede e esta, a atividades de uma concessionária de luz — em cadeia ou a exemplo de um jogo de dominós.

Considerando-a, portanto, como prodígio técnico, a importância da eletricidade em plano sociocultural poderá ser estimada tanto por seu alcance quanto pela amplitude das mudanças que promoveu. Semanticamente, “elétrico” significará “de modo muito rápido”; em adaptação metafórica, servindo à descrição de uma personalidade, dirá “brilhante”, além de “agitado” e “nervoso”. “Moderno” e “dinâmico”, enfim. Na “era mecânica”, ação e reação não se correspondiam em referência ao curso do tempo; respostas chegavam lentamente, desencorajando todo envolvimento emocional. Na “era eletrônica”, estendemos o sistema nervoso central à escala do planeta, abolindo as coordenadas de tempo e espaço, uma vez que ações e reações passaram a acorrer em simultaneidade. A extensão tecnológica de nosso self — a esquina do eu com o mim — nos comove e mobiliza no sentido de uma intensa participação em ocorrências havidas em qualquer parte de nossa “casa planetária”. Ao comparar a energia elétrica ao sistema nervoso central5, McLuhan desvelou sua função unificadora no que tange à experiência humana e social. A energia elétrica faz bem mais do que iluminar; seu uso continuado promove alterações em no____________________ 5 O sistema elétrico que nos habita chama-se sistema nervoso, ao qual compete conectar cada parte de nosso organismo a todas as demais. Por este sistema circula nossa auto percepção, nosso conhecimento interior, a atenção que a nós mesmos damos. Ficamos sabendo do que se passa conosco e em torno a nós. Se, portanto, admitirmos que sistemas elétricos de qualquer espécie ponham coisas em contato e, assim fazendo, proporcionem formas de apreensão (veja-se o significado de “tomada”), não ficaremos surpresos em constatar que a mídia eletroeletrônica de nosso tempo — a internet em primeiro plano — põe efetivamente em risco a manutenção da privacidade individual. Esta situação tende a agravar-se, porque tal apreensão e a conectividade dependente da energia elétrica encerram, por sua natureza, um ímpeto de difícil contenção. Uma e outra existem para burlar defesas, vencer resistências, transpor fronteiras e analisá-las por completo.

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ções bem conhecidas e há muito estabelecidas, modificando, desta maneira, o complexo psicossocial e cultural humano. Processos de automação tendem potencialmente a introduzir modificações no mundo que um dia conhecemos, ao qual distingue a fragmentação trazida por procedimentos de mecanização. Letrado e habituado, pela ordem alfabética, a sequenciamentos, o homem da virada do último século já é tido por “criatura complexa” por definição; aos poucos, vem formando uma consciência planetária, porque, com os empreendimentos da mundialização, adquiriu a condição de “habitante da aldeia global”. Com a popularização das mais recentes tecnologias eletroeletrônicas — telefonia móvel, transmissão de TV em alta definição, redes wi-fi, conexão 3G e aparelhos (por-)táteis de comunicação digital — campos eletromagnéticos (de baixa e alta frequências) integram, de fato e de direito, domínios de nossa vida cotidiana, tornando-os, com seus (e os nossos) toques, um pouco mais “agitados”. Afinal, temos o mundo na palma da mão ou na ponta dos dedos. Um mundo literalmente digital, escolhido a dedo. Isto sucede porque, enlaçando funções sociais e políticas, e tantas vezes as implodindo ou provocando seu colapso interior, a velocidade da energia elétrica6 e sua consumação tecnológica expandiram a percepção e elevaram a consciência humana. O tradicional “ponto de vista”, com sua conhecida aptidão para separar e pôr em destaque, tornou-se obsoleto, cedendo o passo à “imagem total”, pregnante, impactante, configurada
____________________ 6 “Electricity does not centralize, but decentralizes. It is like the difference between a railway system and an electric grid system: the one requires railheads and big urban centers. Electric power, equally available in the farmhouse and the Executive Suite, permits any place to be a center, and does not require large aggregations”. (Marshall McLuhan, Understanding Media).

em forma e fundo como totalidade organizada, indivisível. Em sua magnífica inteireza, sua unidade e sua fina confecção, ela é tecnologicamente dotada; com isto, suscita simpatia e incita a uma tomada de consciência, de modo a mobilizar camadas profundas do psiquismo humano. O título de uma das obras paradigmáticas de McLuhan — que, de certo modo, inaugura um campo de investigações que a posteridade poderá denominar Estudos Mediais — é Understanding Media: The Extensions of Man. Nele o teórico da escola canadense de comunicação delineia uma teoria geral da tecnologia, pela qual toda tecnologia — e não somente a eletroeletrônica — prolonga aspectos e características da fisiologia humana. Esta tomada de posição habilitou o autor a empreender uma pesquisa exploratória, na qual o circuito elétrico inteiro e todas as coisas que a ele ligamos (e com ele ligamos) representam acréscimos ao nosso sistema nervoso: “all technologies extend and enhance the natural physiological capacities of the human beings who create them”. Eis porque entender (os mecanismos de funcionamento da) mídia eletroeletrônica requer conhecimento prévio do que é e como opera o circuito elétrico. As tecnologias anteriores à era do eletrônico eram parcelares e fragmentadas; a eletricidade é totalizadora e inclusiva. Marshall McLuhan não pôde prever ou antecipar o momento histórico em que, em todo o planeta, com a popularização do hipertexto e a popularidade da internet e seus mecanis48

mos de busca, ocorreu um sensível aumento da velocidade do fluxo da informação (vetor energético) produzido e propagado graças à eletricidade. Em linha com as proposições de McLuhan, enuncia-se aqui um princípio: eletricidade é conectividade; correlativamente, interconexões ou apreensões de ordem sensorial compõem parte substancial da mensagem... da eletricidade.

Explorando domínios da comunicação Explorations foi o título de uma revista, publicada entre os anos de 1953 e 1959, no Canadá. Em fins de 1960, algumas de suas edições circularam como encarte da revista Varsity Graduate, publicação oficial da Universidade de Toronto. Versando temas de comunicação, seus destaques iam para intelectuais, estudiosos e professores atuantes em domínios como antropologia, arte e linguagem da poesia, além de outros mais. Seus editores eram Edmund Carpenter e Marshall McLuhan. Naquela mesma década, no ano de 1966, a editora americana Beacon Press, em sociedade com a canadense Saunders of Toronto Ltd. publicaria a antologia Explorations in Communication, sob a supervisão editorial de Carpenter e McLuhan. Partilhavam ambos os ideais nativistas afirmativos de Harold Innis (Canadá, 1894-1952). Este volume, eminentemente ensaístico, explorava distintas gramáticas e linguagens dos meios de comunicação, tais como as da imprensa e da televisão, dando merecido relevo a “movimentos exploratórios” de assuntos como a comunicação não verbal, a comunicação tátil, o espaço acústico, as tradições da oralidade e da era da escrita; abordava também questões das disciplinas linguísticas e literárias — sem distinguir língua de literatura — bem como modos lineares e não lineares de comunicação da realidade. Sob a inspirada batuta de seus editores, o livro traduzia esforços e muito empe49

nho em demonstrar que todas as revoluções operadas em processos de formação e difusão de ideias, assim como de sensações e sentimentos, haviam tido o condão de modificar não somente as relações humanas, senão também padrões de expressão de todas as formas existentes de sensibilidade. Entre outros “resultados exploratórios”, dados a conhecer, figurava a advertência quanto à ignorância generalizada acerca do papel desempenhado pela literacy (“letramento”) na formação psicossocial e cultural do homem do Ocidente; afirmava-se igualmente a necessidade de se proceder a um reexame inovador da posição central ocupada pela mídia eletroeletrônica, em particular no que respeitasse à constituição de uma escala de valores filosóficos e socioculturais. Compondo ambiências, letramento e revolução midial da era eletrônica deixavam-se assinalar por sua “permeabilidade” e sua “capacidade de penetração” (pervasiveness), tornando-se virtualmente invisíveis e, assim, pouco passíveis de investigação científica apurada, melhor dizendo, “exploratória”. Neste sentido, para levar a bom termo a “atividade de exploração”, seria preciso tomar, metaforicamente, uma mídia por outra, abordando-se então a imprensa pela ótica da mídia eletrônica ou se estudando a televisão por meio de uma visão analítica da imprensa. Com a comutação operada de uma configuração linear a outra em forma de feixe, o letramento entrou em declínio no âmbito da educação e na estrutura social da Modernidade, posto que que o principal incentivo dado ao ensino da leitura, de par com o desenvolvimen-

to de uma alta cultura letrada, residia em sua propalada relevância para todo e qualquer projeto individual a realizar-se. Desponta aqui, em filigrana, o educador Marshall McLuhan, a quem inquietava o fato de que, à sua época, os conceitos utilizados para a análise das mídias eram ainda de extração literária, limitando-se a “análises de conteúdo” nutridas por uma sociologia de pertinência duvidosa. Em qualquer caso, eram débeis ou inexistentes os vínculos à nova configuração da mídia eletroeletrônica. McLuhan faria uma proposição paradoxista, qual fosse a da “ignorância organizada”7. Recomendava pôr de lado as especializações, estritas (e, portanto estreitas), que fazem uso de um conhecimento disponível, jogando intenso feixe de luz (light-on) sobre algo que se mostra opaco; há então de haver insistência obstinada em lançar outro feixe luminoso, que se dê através (light-through) do objeto em questão. Sob este aspecto, a televisão diferirá da fotografia e do cinema pelo fato capital de sua imagem chegar a nós através de um cinescópio. O que então se pode denominar “modo de comunicação atravessado” requer iluminação total proveniente do interior (os bilhões de minúsculos pontos catódicos do cinescópio tradicional) e, assim, diametralmente oposta ao modo analítico da tradição literária, que considera uma coisa por vez. Simultaneidades (all-at-onceness) e não mais unidades linearmente dispostas em sequên___________________ 7 “If you beam knowledge at a new situation, you find it is quite opaque; if you organize your ignorance, tackling the situation as an over-all project, probing all aspects at the same time, you find unexpected apertures, vistas, breakthroughs”.(Op. cit. pág. X).

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cias, que James Joyce chamou “ABCD-mindedness”, oferecem a garantia de que não haverá fraturas, fissuras ou fragmentações no campo da percepção humana, bem ao feitio do que se havia estipulado como meta artística, cultural e científica em Explorations in Communication.

Herbert Marshall McLuhan conhecia retórica e tinha apreciáveis dotes de orador. Estava seguro do impacto e da ressonância da comunicação dramática, aprendida com sua mãe Elsie, mulher culta, atriz e diseuse de poesia. Donde suas conhecidas sound-bites (“formulações breves e altissonantes”), as quais, verbalmente bem elaboradas, ele acrescentava doses de um humor algo irônico, temperando-as com pitadas de um exagero expressivo que beirava a hipérbole. Não ficará aqui deslocada, portanto, uma breve digressão filológica. Tal digressão poderá demonstrar que a língua inglesa fixa uma distinção semântica entre os verbos to explore e to exploit, conferindo a este último o significado pouco abstrato de “fazer uso de recursos de uma região, um país etc.” ou, pejorativamente, “usar uma pessoa para satisfazer propósitos egoístas”; “aproveitar-se de alguém para atingir finalidades próprias”. Quanto a to explore, seu étimo é o latim ex-plorare (“grito alto dado por caçadores ao localizar presas de caça”). Sincronicamente, to explore diz o mesmo que to search out (“lançar-se a uma busca”), especializando-se to explore em “to look wisely and carefully”.8 Por extensão de significado, tem-se “viajar por um território com o propósito de conhecê-lo”; acessoriamente, “proceder a um exame atento, com a finalidade de detecção de problemas e possibilidades”; “inquirir com seriedade”. To explore subsume as funções de “explorar riquezas”; “investigar sistematicamente” ou “escrutinar criativamente”. Quer também dizer “prospectar (coisas úteis ou valiosas)”. Há ain___________________
8 In Collins Thesaurus of the English Language. New York: Harper-Collins, 2002.

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da um sentido médico especializado, que é o de “examinar para (se) chegar a um diagnóstico”. Pense-se um instante em browsers como o antigo Netscape e o conhecido Internet Explorer. Seus nomes lembram ou não uma viagem espacial ou, com maior precisão, uma exploração de espaços virtuais? Em inglês, um explorer viaja, desloca-se daqui para ali (travels around) ou dá um giro ou uma volta (tours), inspeciona ou observa do alto (algo) em seu conjunto (surveys), com uma preocupação eminentemente heurística, isto é, ocupando-se com descobertas. O Explorer 1 terá sido o primeiro satélite artificial terrestre lançado ao espaço pelos EUA, em 31 de janeiro de 1958. “I may be wrong, but I’m never in doubt”. Com este dístico, Marshall McLuhan estava dizendo que a si próprio não concedia os benefícios da dúvida. Desassombrado, corajoso e assertivo, foi um explorer9 como poucos haverá, por seu pendor aventuresco (jamais aventureiro) e a generosidade intelectual, além da magnanimidade, uma e outra prerrogativas dos homens de espírito, no sentido que, na França, se dá a esta expressão. Viajante mercurial e, a seu modo, andarilho e alpinista, além de marinheiro como o personagem de Edgar Allan Poe, Marshall McLuhan subiu colinas, chegou a cumes e desceu a cavernas da comunicação teórica; jamais demonstrou incômodo ou cansaço em percorrer planícies ou subir em direção a um planalto.

Aventurou-se em mares sem dispor de cartas náuticas, tendo conseguido sobrenadar onde outros afundaram. Internauta avant la lettre, era cioso de sua condição de viajor destemido, fugindo de sendas batidas apontadas por guias de turismo convencional ou à la mode, para acolher o imprevisto ou ir ao encontro do inesperado. Parecia gostar de mostrar-se em flashes, oferecer insights pela clareza instantânea de sua mente e, bem ao gosto de sua época, dar aulas como se de um happening — a intervenção festiva e descontraída ou a representação teatral improvisada, solicitando a participação ativa dos circunstantes — se tratasse, para nada dizer da “tempestade de ideias”, técnica à qual amiúde recorria. Em tudo e por tudo distintas dos relatórios de pesquisas (universitárias) contemporâneas, suas explorações, de porte filosófico e cariz multidisciplinar, representaram um exercício de sensibilidade aguda ao que emergia como novo, exigindo um novo modo de pensar. McLuhan as tinha na conta de um autêntico “campo de provas” ou uma “área de manobras”; jamais, porém, uma “zona de conforto”. Por fim, mas não menos importante, explorer, como substantivo, designa um instrumento ou ferramenta usado para (uma) exploração; tem, por sinônimo, probe.

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9 A este respeito, é particularmente instrutivo o livro de Carlos F. Collado e Roberto H. Sampieri, Marshall McLuhan,

el explorador solitário. (Mexico: Grijalbo, 1995).

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Probes A exploração filosófica se associa à investigação filológica para elucidar “de dentro” o que se oculta sob a pele das palavras. Oriundo do latim probare (“provar” ou “aprovar mediante teste”), probe diz respeito a uma ação exploratória, a uma “expedição ou incursão que se destinem a coletar informações acerca de uma região remota ou desconhecida”. O mesmo substantivo serve também para nomear a “sonda cirúrgica”. To probe significa “sondar”, no sentido de “explorar”, “investigar” ou “fazer uma sindicância”; donde, “inquirir” e mesmo “esmiuçar”. Quando dizia “I´m probing (this or that)”, McLuhan fazia referência à condução de uma busca de caráter exploratório (para eventual estabelecimento dos fatos), uma perquirição.10 É este também o significado de probe no jargão jornalístico dos EUA. Em suas estratégias de reflexão e de expressão de seu pensamento, McLuhan elegeu o aforismo11 — daí talvez o epíteto de
____________________ 10 The Probes é hoje marca de um produto do Nova Scotia College of Art and Design,no Canadá, que abriga arquivos originais (em formato PDF) em regime de comodato com The Herbert Marshall McLuhan Foundation, detentora dos direitos eletrônicos da obra do eminente teórico canadense da comunicação.
11 Substantivo derivado do verbo grego antigo aphoricsein (“definir”; “estabelecer limites”), aforismo quer dizer “decla-

“oráculo da era eletrônica” — como forma simples de linguagem, com a qual pudesse dar a conhecer porções (bits/bites) de informação, dar curso à sua percepção expandida, exercitar sua inteligência ou fazer valer seu talento lítero-filosófico. Marshall McLuhan fez manejo apto desta forma metafórica de expressarse, na qual reconhecia, em sua face interna, um elemento intuitivo, às vezes mesmo irracional, mesmo sob a aparência de uma construção sintática rigorosamente estruturada. A inspiração e o bom humor que invariavelmente o assistiam, permitiam a McLuhan imprimir a seus probes, como aforismos, uma tensão entre um polo de natureza lógica e outro de ordem ético-estética, deixando entrever um intuito prospectivo e uma intenção pedagógica.12 Em nada aleatórios e, menos ainda, ingênuos — engenhosos, certamente — os “mcluhanismos” (para os mais críticos, “mcluhanices”) valem por uma surpreendente coleção de juízos bem definidos, de proveniência abdutiva (pela descontextualização), recorte metafórico e alinhavo feito sob a impressão desconcertante causada pelo paradoxo. O pensador canadense da comunicação e da mídia preferiu o aforismo ao argumento de cátedra; a enunciação da hipótese sedutora à da tese sisuda. Seus quips (“tiradas”) e wittcisms (“comentários denotativos de grande presença de espírito, que se caracterizam pela capacidade de percepção e a escolha de palavras”) revelam-no por inteiro. Agudeza teórica, complexidade filosófica e simplicidade na expressão final; convocação dos sentidos elementares, em sinestesia; e referência alusiva a sentidos intelectualmente estabelecidos
____________________ 12 Marshall McLuhan e David Carson publicaram The Book of Probes, (Gingko Press, 2003), tendo como editores Eric McLuhan e William Kuhn. Compõem também o volume comentários feitos por Eric McLuhan e W. Terrence Gordon.

ração”, “frase curta e concisa”, veiculada pela tradição (cultural, literária, jurídica, filosófica) e corrente em “praça pública” ou “fórum”, no intento de exprimir um princípio (“algo que é como é por princípio”). Com o aforismo, pode-se expressar uma verdade que se pretenda incontrastável. Caracterizam-no o modo categórico, terminante e irretorquível que marcam sua forma e demarcam seu conteúdo. Textos econômicos, sucintos e mesmo lacônicos, em construção frasal paratática (orações absolutas e frases autoexplicativas), aforismos convêm a um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica, relacionando-se ainda a uma reflexão de natureza prática ou moral, dadas a sua admissível pertinência e sua evidente incisividade. Da Antiguidade aos tempos modernos, filósofos da estatura de F. Nietzsche (Alemanha, 1844-1900), L. Wittgenstein (Viena, 1889-Cambridge, 1951) e M. Heidegger (Alemanha, 1889-1976), recorreram a aforismos (frases lapidares) para substanciar suas proposições filosóficas. E obtiveram o mesmo grande sucesso.

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Para constar, segue-se a transcrição, em língua portuguesa, de alguns probes de Herbert Marshall McLuhan. ‣“Somente os pequenos segredos precisam de proteção. As grandes descobertas são protegidas pela incredulidade do público”. ‣“Com o telefone e a TV, não é tanto a mensagem, mas sim o mensageiro, que está sendo enviado”. ‣“O dinheiro vivo é o cartão de crédito do pobre”. ‣“Olhamos para o presente por um espelho retrovisor. Vamos de ré para o futuro”. ‣“Você quer dizer que minha falácia inteira está errada!” ‣“A lama às vezes dá a ilusão de profundidade.” ‣“O carro se tornou a carapaça, a concha protetora e agressiva do homem da cidade”. ‣“O problema da educação especializada e barata é que você nunca para de pagar por ela.” ‣“As pessoas, na verdade, não leem os jornais. Elas entram neles toda manhã, como num banho quente”. ‣“Hoje em dia todos nós vivemos muitos séculos em uma década”.

‣“O grande negócio dos negócios está se tornando hoje a constante invenção de novos negócios”. ‣“Quando você está ao telefone, você não tem corpo”. ‣“O amanhã é o nosso endereço fixo”. ‣“As respostas estão sempre contidas nos problemas, e não fora deles”. ‣“Esta informação é de segurança máxima. Quando a tiver lido, autodestrua-se”. ‣“Os homens na fronteira do tempo ou do espaço abandonam suas identidades prévias. A vizinhança confere identidade. As fronteiras a roubam”. ‣“A ignorância quanto ao uso do conhecimento cresce exponencialmente”. ‣“A nova mídia não é a forma como nos relacionamos com o ´velho´ mundo. Ela é o novo mundo e remodela o que ainda resta do velho”. ‣“Os efeitos da nova mídia em nossas vidas sensoriais são comparáveis aos efeitos da nova poesia. Eles não mudam os nossos pensamentos, mas a estrutura do nosso mundo”. Eis o homem: Herbert Marshall McLuhan, quintessencial!

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Referências
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McLuhan e as extensões

Resumo
O artigo pretende chamar a atenção para o esquecido conceito de extensões utilizado por McLuhan e outros autores, apresentando o seu início e as problemáticas que envolvem discutí-lo, como a relaRODRIGO MIRANDA BARBOSA DOUTORANDO EM COMUNICAÇÃO, UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA BRASÍLIA, DISTRITO FEDERAL, BRASIL RMBDESIGN@GMAIL.COM ção homem e máquina, biológico e tecnológico, o conceito de tecnologia e a busca de uma melhor definição do conceito de extensões.

Palavras chave
McLuhan, tecnologia, extensões do humano, Ernst Kapp
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Meu tema principal é a extensão do sistema nervoso na era elétrica, e assim, a ruptura completa com cinco mil anos de tecnologia mecânica. Isso eu declaro e repetidamente. Eu não digo se é uma coisa boa ou ruim. Fazê-lo seria inútil e arrogante. (McLuhan, 1987, p. 300)1

Marshall McLuhan, o literato canadense que se tornou um dos maiores nomes sobre os estudos dos meios de comunicação e seus efeitos, alcançou seu sucesso estrondoso com o livro Understanding Media: the extensions of man em 1964. É de se esperar que a concepção de meios de comunicação enquanto extensões do homem seja então um ponto fundamental para a discussão do trabalho deste autor. Apesar dessa aparente importância pouco se discutiu sobre uma concepção tão abrangente que envolve filosofia da tecnologia, antropologia da tecnologia, o conceito de técnica e de meios de comunicação, isso para elucidar apenas algumas problemáticas possíveis. Ainda assim, parece-nos que a sua simples expressão encerra o debate, sofrendo de um processo de naturalização que poucos ousam questioná-lo. É também enganoso pensar este desprezo pelo conceito se deu apenas por aqueles que não se aprofundaram nos estudos de McLuhan. Um dos exemplos mais emblemáticos é o de W. Terrence Gordon que no glossário produzido para a versão crítica do livro Understanding Media: the extensions of man (2003) e no índice remissivo da biogra____________________ 1 Tradução livre. Trecho de carta enviada para o jornalista canadense Robert Fulford em 1 de Junho de 1964.

fia Marshall McLuhan: Escape Into Understanding (1997) escrita pelo mesmo autor, o termo “extensão” é simplesmente inexistente. Na biografia Marshall McLuhan: The Medium and the Messenger (1989) escrita por Philip Marchand também não há menção ao termo “extensão” ou similares no índice remissivo. Será então que a noção de extensão é tão óbvia assim? McLuhan é possivelmente o maior expoente do conceito de extensões, mas não o único. Atrevemo-nos assim a investigar outros autores que problematizaram as relações entre homem e tecnologia e as possíveis influências no pensamento de McLuhan com o objetivo de trazer a tona a vasta problemática que traz consigo o conceito de extensões e como este pode ser um dos pontos fundamentais para compreender as tecnologias e os meios de comunicação. A concepção mais básica de extensão é a de que os objetos técnicos estendem faculdades mentais e corporais do humano. Aristóteles talvez tenha sido o primeiro a colocar em discussão o tema por volta do século 5 a.C.. Para Martin Lister (2009) em dois trabalhos Aristóteles iniciaria a discussão das ferramentas enquanto extensões. O primeiro trabalho seria Eudemian Ethics e o segundo A Política. Aristóteles percebe nestes o corpo como uma ferramenta natural da alma. Os instrumentos são como escravos sem vida, e os escravos enquanto instrumentos com vida. O autor estende esse conceito ao relacionar que para a navegação, o leme é o instrumento inanimado e o piloto, o instrumento animado.
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Em Eudemian Ethics diz “Para o corpo é o instrumento natural da alma, enquanto o escravo é como se fosse uma parte e ferramenta destacável do mestre, a ferramenta sendo uma espécie de escravo inanimado” (Barnes, 1984 apud Lister, 2009, Tradução livre). No livro A Política Aristóteles reafirma:
Existem dois tipos de instrumentos: uns inanimados, outros animados. Assim é que, para a navegação, o leme é o instrumento inanimado e o piloto, o instrumento animado. Em todas as artes, o trabalhador é uma espécie de instrumento. (Everson 1996, p. 15 apud Lister, 2009)

nuamente a si mesmo. Uma vez que o órgão cuja utilidade e poder deve ser aumentado é o fator dominante, a forma apropriada de uma ferramenta pode ser obtida somente a partir desse órgão. A riqueza das criações intelectuais, portanto, surge de mãos, braços e dentes. O dedo dobrado torna-se um gancho, o oco da mão uma tigela; na espada, lança, remo, pá de ferro, rastilho, arador e pá de cavar, observa-se diversas posições de mão, braço e dedos, cuja adaptação à caça, jardinagem, pesca, e ferramentas do campo é facilmente perceptível. (Kapp, 1877, p. 44-45 apud Mitcham 1994, p. 23-24, Tradução Livre).

Ainda que Aristóteles possa ter sido um dos primeiros a situar o problema da extensão, é o geógrafo e filósofo da tecnologia alemão Ernst Kapp que em Grundlinien einer Philosophie der Technik (1877) inaugura o termo “filosofia da tecnologia” e onde a noção de extensão (ou, projeção) ganha realmente corpo e importância fundamental. O autor concebe a tecnologia, da mesma forma que Aristóteles, como uma forma de “projeção do órgão” (organ projection) (Lister, 2009), optando pelo termo projektion em vez do equivalente em alemão para extensão (Brey, 2000).
… a relação intrínseca que surge entre as ferramentas e órgãos, e que é para ser revelada e enfatizada - embora seja mais uma descoberta inconsciente do que consciente de invenção - é que na ferramenta o ser humano produz conti-

O aspecto mais importante da visão de Kapp sobre a tecnologia enquanto projeção dos órgãos é que o objeto técnico tem um aspecto morfológico intrinsecamente ligado ao órgão que o objeto técnico está estendendo. Percebemos que a relação entre forma e função é essencial para Kapp. Os instrumentos devem ter o aspecto de órgão humano, assim um gancho deve parecer-se com uma mão. Para Kapp a tecnologia configurava-se como um meio de “superar a dependência da natureza bruta” (Mitcham 1994, p. 23). E isso se dá a partir da colonização do espaço e do tempo que permite “ligar as línguas mundo, semiótica, e invenções em uma transfiguração global da terra e um habitat verdadeiramente humano.” (Mitcham 1994, p. 23). Neste texto Kapp teria previsto uma rede de telégrafos "universal telegraphics" que iria transformar (encolher) o tempo e (manipular) o espaço. Argumentando que o telégrafo seria uma exten58

são do sistema nervoso assim como as estradas de ferro são extensões do sistema circulatório.
Somente após o fato, em muitos casos, os paralelos morfológicas tornam-se aparentes. (Na verdade, o capítulo 9 do Grundlinien é dedicada ao inconsciente). E é só nesta base que a ferrovia é descrita como uma externalização do sistema circulatório (capítulo 7), e o telégrafo como uma extensão do sistema nervoso (capítulo 8). (Mitcham, 1994, p. 23, Tradução Livre).

Segundo Kapp, “Os seres humanos inconscientemente transferem forma, função e as proporções normais de seu corpo para as obras das suas mãos” (Kapp 1877, p. v-vi, apud Brey, 2000, Tradução livre). Isso significa que os humanos usam suas próprias faculdades como um padrão de referência sempre que criam novos artefatos, e esse processo não se dá de forma consciente. Esta última característica sendo a mais duvidosa, pois retira qualquer possibilidade de intencionalidade na ação de construir um objeto técnico. Sendo assim, as propriedades dos órgãos biológicos são transferidas aos artefatos (forma, função, proporção) e estes órgãos projetados realçam estes poderes naturais. Ainda que para Kapp a forma sempre siga a função, ou seja, para duas coisas serem funcionalmente similares, elas devem ser também morfologicamente similares, segundo Brey (2000), Kapp tende a perceber essas projeções mais como substitutas dos órgãos humanos do que como complementos. Este propõe assim, a partir do seu conceito de projeção, uma naturalização da produção dos artefatos tecnológicos.

E para Carl Mitcham, Kapp leva essa relação morfológica ao extremo ao considerar a linguagem como uma extensão “Finalmente, até mesmo a linguagem e o Estado são analisados como extensões da vida mental e da res publica ou externa da natureza humana.” (Mitcham, 1994, p. 23). Para o filósofo Taede A. Smedes (2009), o conceito de Kapp não se restringe a uma projeção do órgão, pois estes órgãos também são ampliações e exteriorizações. "Grande parte da tecnologia foi, segundo Kapp, um alargamento e externalização de órgãos humanos, como a tecnologia que substitui as capacidades humanas." (2009, p. 50, Tradução livre). A comparação morfológica parece simples, mas esconde que esta projeção não é apenas da forma. Uma forma semelhante deve ter uma função semelhante para Kapp, assim os nervos humanos transformam-se em cabos de telégrafo, as lentes em instrumentos óticos imitam as lentes do olho humano, e os sistemas ferroviários imitariam a estrutura do sistema vascular.

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O debate das extensões em McLuhan Dentre os diversos autores que escreveram sobre extensões, sob qual McLuhan se apóia? Parece difícil precisar quem apresentou e foi sua inspiração para o conceito. Dois autores procuraram sistematizar de forma mais profunda essas influências: Richard Cavell no livro McLuhan in Cultural Space (2003); e Alice Rae na sua tese McLuhan’s Unconscious (2008). Para estes autores as referências de McLuhan podem ter vindo de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), Henri Bergson (18591941), Ernst Cassirer (1874-1945), Teilhard de Chardin (18811955), James Joyce (1882-1941), Sigmund Freud (1856-1939), Edward T. Hall (1914-2009), Buckminster Fuller (1895-1983), e Lewis Mumford (1895-1990). Todos estes devidamente citados por McLuhan em seus trabalhos. Mas talvez o caso mais interessante seja a relação de McLuhan com Edward T. Hall. Segundo Rae (2008), apesar de McLuhan ter lido o livro de Freud nos anos anteriores a publicação de The Mechanical Bride (1951), é Edward T. Hall com o seu livro The Silent Language (1959) que aparece no livro A Galáxia de Gutenberg (1977):
Hoje o homem desenvolveu extensões para praticamente tudo o que ele costumava fazer com seu corpo .... todas as coisas materiais feitas pelo homem podem ser tratadas como extensões do que o homem fez uma vez com seu corpo ou alguma parte especializada do corpo dele. (Hall, 1959, p. 79, Tradução livre; McLuhan, 1977, p.21).

Ted Carpenter (2001, p. 19) que até escreveu livro com McLuhan atribui justamente a Edward Hall o conceito utilizado por McLuhan. McLuhan em diversas cartas enviadas a Walter Ong, fala do seu apreço por Edward Hall e em uma delas atribui crédito do conceito de extensões a este. Após McLuhan conhecer Hall, os dois trocaram diversas cartas e Hall até enviou uma versão prévia do seu livro Beyond Culture (1976) no qual inclui uma nota em que afirma que o termo extensão foi tomado "emprestado" por McLuhan A Galáxia de Gutenberg (Hall, 1976, p. 245, nota 4; McLuhan, 1987, p. 515, nota 1). McLuhan, triste com a acusação, contesta que Hall tenha sido um dos primeiros a conceitualizar o termo extensão, em uma de suas cartas para Walter Ong em 1962. Dizendo que a ideia de Hall veio de Buckminster Fuller. Ele “teve a idéia de nossas tecnologias como outerings de sentido e função a partir de Buckminster Fuller” (McLuhan, 1987, p. 287;308, nota 1, Tradução livre). Mas é possível que o próprio Fuller estivesse ciente do trabalho de Freud, pois o mesmo tinha gerado muita atenção nos EUA. Para Richard Cavell, o autor James M. Curtis em Culture as Polyphony (1978) deu algumas pistas indicando que até Hegel teria influenciado McLuhan:
Não se costuma associar Hegel com a tecnologia, mas ele o fez e com o princípio com que McLuhan chocou as pessoas cento e cinqüenta anos depois: a interpretação da tecnologia como a extensão do homem (Curtis, 1978, p. 34-35 apud Cavell, 2003, p. 256-257, nota nº52, Tradução livre).
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Cavell encontra ainda outros autores que poderiam ter influenciado McLuhan. Notando outras apropriações como a de Georg Von Békésy (1967) e a do arquiteto Le Corbusier em que a arte decorativa é “uma extensão de nossos membros de fato de membros artificiais“. (1987, p. 72). Uma vez que fica difícil rastrear de forma assertiva a partir de qual conceito McLuhan se apropria. O que parece ficar claro, é que o próprio McLuhan rastreou o “conceito”2 de extensões nestes autores tão diversos, mas ainda assim não propôs um conceito de forma clara e objetiva. Mas qual é o sentido de extensão utilizado por McLuhan? Para McLuhan toda tecnologia é uma extensão. Ela pode ser tanto do corpo como da inteligência do homem. Em termos gerais não podemos dizer que McLuhan tenha um conceito muito desenvolvido ou que propõe uma diferenciação clara entre vários tipos de extensões. A própria nomenclatura escolhida pelo autor cria essa dificuldade uma vez que o mesmo por vezes utiliza o termo “extensão”, em outras pode denominar de “tradução”, “repetição” ou “intensificação” para representar o mesmo processo. Segundo Rae (2008), a partir de 1973, McLuhan deixa de utilizar muitas vezes a noção de tecnologias enquanto extensões e passa a utilizar termos relacionados a linguagem como "metáfora" ou "palavra" com uma "estrutura lingüística" e
____________________ 2 Ainda que possamos identificá-las mais como ideias do que propriamente conceitos elaborados de forma sistemática.

que vai desembocar no modelo tetrádico do livro Laws of Media (1988) escrito com seu filho, Eric McLuhan. Ainda assim, podemos chegar a algumas definições. As extensões de McLuhan podem ser divididas em dois tipos. De um lado extensões do corpo e de outro, extensões de faculdades cognitivas como as funções dos sentidos, sistema nervoso central e até a consciência. Esta última encarada como a fronteira final das extensões.
Estamos nos aproximando rapidamente da fase final das extensões do homem: a simulação tecnológica da consciência, pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana, tal como já se fez com nossos sentidos e nossos nervos através dos diversos meios e veículos. (1969, p.17)

Já as extensões do corpo podem ser extensões de partes do corpo humano que podem ser usadas para agir no mundo, se proteger do ambiente ou regular certas funções do corpo. As roupas, por exemplo, são uma extensão da pele e que estendem a função do controle de temperatura e de proteção do corpo. Outros utensílios como jarras, fósforos, e dinheiro também são considerados como tecnologias que estendem funções de “armazenamento e mobilidade” (1969, p. 207). Os meios de comunicação são analisados enquanto extensões dos sentidos. Em destaque o sentido da visão e da audição. O rádio e o telefone, por exemplo, funcionam como orelhas de lon61

ga distância. E as extensões como a escrita e a imprensa são extensões visuais. E foram analisados como executando funções de processamento de informação do sistema nervoso central. Funções como gestão da informação, armazenamento e a recuperação que eram executadas pelo sistema nervoso central. Um dos pontos importantes do conceito de extensão é que para ele as extensões criam um entorpecimento e devido a isso não são percebidos enquanto extensões e também não permite perceber os novos ambientes criados decorrentes dos efeitos dos meios.
O exame da origem e do desenvolvimento das extensões individuais do homem deve ser precedido de um lance de olhos sobre alguns aspectos gerais dos meios e veículos — extensões do homem — a começar pelo jamais explicado entorpecimento que cada uma das extensões acarreta no indivíduo e na sociedade. (1969, p.20).

outra pessoa, quando na verdade era uma parte sua estendida. "A extensão de si mesmo pelo espelho embotou suas percepções até que ele se tornou o servomecanismo de sua própria imagem prolongada ou repetida." (1969, p. 59). Cada nova extensão exerce uma pressão sobre nós, e em decorrência dessa pressão exercida pela faculdade estendida, nosso corpo procura nos proteger entorpecendo aquela área ou bloqueando a percepção. Dessa forma, toda extensão é (também) uma amputação. Para lidar com essas pressões, segundo McLuhan, contra-irritantes devem ser aplicados, e que se resumem em novas extensões.
Fisiologicamente, o sistema nervoso central, essa rede elétrica que coordena os diversos meios de nossos sentidos desempenha o papel principal. Tudo o que ameaça a sua função deve ser contido, localizado ou cortado, mesmo ao preço da extração total do órgão ofendido. […] Qualquer invenção ou tecnologia é uma extensão ou auto-amputação de nosso corpo, e essa extensão exige novas relações e equilíbrios entre os demais órgãos e extensões do corpo. Assim, não há meio de recusarmo-nos a ceder às novas relações sensórias ou ao “fechamento” de sentidos provocado pela imagem da televisão. Mas o efeito do ingresso da imagem da televisão variará de cultura a cultura, dependente das relações sensórias existentes em cada cultura. (1969, p.61;63)

McLuhan recorre ao mito de Narciso em Understanding Media para se referir ao efeito de entorpecimento enquanto um efeito do processo de extensão. No mito grego de narciso, o jovem narciso é conhecido pela sua beleza e orgulho e dessa forma desdenha daqueles que o amam. Nemesis ao ver essa situação induz Narciso a olhar o seu reflexo na água. Narciso apaixona-se pelo seu próprio reflexo, ou seja, por si mesmo. E não conseguindo escapar da beleza de seu reflexo, Narciso morre. Para McLuhan, Narciso não se apaixona por si mesmo, pois este não percebe se trata de um reflexo. Ele acreditava que era

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Se McLuhan não se preocupa com a descrição do processo de projeção, só pontua que existem os paralelos entre artefatos e faculdades humanas, fato que é levantado por seus críticos. Em contraposição ele aponta o que considera mais importante, que são os efeitos dos seus usos, e a relação que temos com nossas extensões.
Incorporando continuamente tecnologias, relacionamonos a elas como servomecanismos. Eis por que, para utilizar esses objetos-extensões-de-nós-mesmos. devemos servi-los, como a ídolos ou religiões menores. Um índio é um servomecanismo de sua canoa, como o vaqueiro de seu cavalo e um executivo de seu relógio. […] Fisiologicamente, no uso normal da tecnologia (ou seja, de seu corpo em extensão variada vária), o homem é perpetuamente modificado por ela, mas em compensação sempre encontra novos meios de modificá-la. É como se o homem se tornasse o órgão sexual do mundo da máquina, como a abelha do mundo das plantas, fecundando-o e permitindo o evolver de formas sempre novas. O mundo da máquina corresponde ao amor do homem atendendo a suas vontades e desejos, ou seja, provendo-o de riqueza (1969, p. 64-65)

navegação é uma composição de partes animadas e inanimadas, mas que ainda assim ambos servem como um tipo de instrumento para um projeto maior que é a navegação. Para McLuhan as extensões são extensões funcionais de propriedades de faculdades humanas, mas não necessariamente propriedades morfológicas, ainda que algumas dessas analogias possam ser traçadas. Neste quesito McLuhan não fica apenas na morfologia como Kapp e percebe que outras funções também podem ser exteriorizadas. Ainda assim em algumas propostas Kapp e McLuhan se aproximam, pois ambos vão considerar, por exemplo, o telégrafo como uma extensão do sistema nervoso central. Ou ainda na concepção de que os meios elétricos (telégrafo no caso de Kapp) teriam a potencialidade de abolir as dimensões do tempo e do espaço. Kapp percebe os mais variados artefatos a partir da dupla: similaridades morfológicas - similaridade funcional. O maior problema da similaridade morfológica para entender as extensões, é que elas não dão conta da noção de máquina. Quando a força motriz vista a partir de André Leroi-Gourhan (1984; 1965) e Georges Friedmann (1968) passa a ser executada pela máquina, a relação entre forma e função deixa de correr em paralelo. McLuhan escapa dessa limitação ao relacionar as extensões a partir das funções exercidas.
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McLuhan apresenta a partir da noção de extensão e de tecnologia uma visão importante e diferenciada de outros autores, ao colocar que o homem e o objeto técnico fazer parte de um mesmo sistema. A canoa necessita do homem para configurar um sistema funcional, eles são partes intrínsecas de um mesmo projeto. Da mesma forma como Aristóteles situa que para a

Considerações A noção de McLuhan de extensão se complica na tentativa de perceber uma relação exata da função exercida pelo humano, seja mentalmente, seja fisicamente. Isso é percebido, no caso de McLuhan, ao encarar a roupa como uma extensão da pele ou a casa como extensão do controle de temperatura interna do corpo. Poderíamos então nos perguntar o que seria estendido então com uma indústria de química? Um avião estende as asas que não possuímos ou nossa faculdade de locomoção? Ou estamos falando de um sentido mais restrito de extensão? Assim, quando se recorre a uma demasiada abstração e as propriedades se tornam inverossímeis, a ideia de que os artefatos são cópias funcionais de órgãos humanos pode tornar-se cada vez mais vazia. Percebemos assim que há diversas problemáticas envolvidas na noção de extensão. Tentamos mostrar como uma concepção vista como “simples”, ou “esquecida” de tecnologias enquanto extensões do homem abre espaço para uma série de perguntas e problemas que tem repercussão tanto para a filosofia da tecnologia, antropologia da técnica, quanto para a comunicação. Entre estas estão: (1) Quais as diferenças entre termos como extensão, exteriorização, prótese, projeção e simulação? Encontramos aqui a necessidade de uma investigação sobre as nomenclaturas, pois se não sabemos com o que estamos tratando encontraremos fatalmente dificuldades em avançar nas definições.

(2) Toda tecnologia é uma extensão do humano? Esta questão desemboca no que estamos considerando como tecnologia, e consequentemente no conceito de meios de comunicação. Além disso, coloca a questão de o que é que é estendido: é o sensório humano, músculos, ou órgãos, como em Aristóteles e McLuhan, ou é a própria tecnologia, como em Jacques Ellul? O que significa dizer que os meios de comunicação estendem a consciência? (3) A noção de extensão carrega consigo a proposta de um fim da separação entre homem e máquina, entre biológico e tecnológico? Tanto Freud, Bergson, Teillard, Mumford e Edward Hall, segundo Rae (2008), percebem as extensões em termos de um processo evolutivo. E dessa forma, borrando cada vez mais as diferenças entre tecnologia e o que é orgânico, ou seja, uma não separação. E que pode tomar sentidos mais extremos como para Rae (2008, Tradução livre) que diz que “Se a tecnologia não é nada mais de que uma adaptação evolutiva, então não há distinção para ser encontrada entre um órgão como o olho e uma tecnologia como o telescópio”. (4) A relação de causalidade das tecnologias e a concepção de determinismo tecnológico3. A definição básica de determinismo é a de que o desenvolvimento tecnológico condiciona a dinâmica social e indica o rumo das transformações culturais. Uma vez que Innis e McLuhan encaram que as tecnologias exercem
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Para um aprofundamento sobre a questão do determinismo tecnológico ver MARTINO, L.C. & BARBOSA, R. M. Do determinismo tecnológico à determinação teórica [no prelo].
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uma influência maior do que sua relação meio e fim, e nem sempre previsíveis ou conscientes, devido a isso estes são frequentemente acusados de serem deterministas tecnológicos. É possível falar de determinismo quando as tecnologias são nossas extensões? É possível se livrar do determinismo? O determinismo pode ser encarado como um aporte epistemológico, e/ou como uma questão metafísica? (5) A extensões como objetos essencialmente físicos? Como lidar com objetos que possuem uma relação maior com a função de status. Para McLuhan, o dinheiro, por exemplo, pode ser encarado como uma extensão, pois “No começo, é muito vaga a sua função de prolongar o anseio do homem por coisas distantes a partir dos bens e produtos mais próximos.” (1969, p.153). Mas seu caráter físico deixa ser prioritário para a noção de extensão, uma vez que o aspecto material do dinheiro é praticamente inexpressivo. O dinheiro pode ser feito de moedas de ouro, sal, plástico como em cartão de crédito, ou qualquer outro material, trata-se em grande parte de uma convenção social. Ou seja, o aspecto principal do dinheiro é o que Brey chama de “funções de status”, onde os poderes e funções correspondentes não provêm de suas propriedades físicas, mas incluem funções simbólicas, morais e religiosas. Ainda que isto não signifique que um artefato como um martelo que tenha uma função física, não possa ter também uma “função de status” atribuída a ele.

Assim, cada vez mais nos distanciamos de uma definição de extensão e de tecnologia. O dinheiro estende alguma faculdade metal ou corporal? Ela pode ser considerada como uma tecnologia? (6) Podemos considerar o uso de animais e humanos enquanto extensões? Um moinho movido por força animal, ou uma fábrica gerenciada por pessoas e máquinas são também consideradas extensões? Um dos exemplos é o uso do cavalo para o combate e para a agricultura são considerados como tecnologias no estudo de Lynn White sobre a tecnologia medieval (7) Objetos naturais como pedras, pedaços de madeira, ou água podem ser considerados extensões ou somente aqueles construídos? A água em uma roda d'água não seria uma tecnologia? Ou teríamos que enquadrar todo funcionamento da natureza enquanto extensões e dessa forma aproximar a um funcionalismo extremo? Estas questões são apenas amostras da importância e para onde a questão das extensões, colocadas em destaque por McLuhan, podem nos levar, e que pedem a meu ver de uma análise mais sistematizada. A naturalização do conceito de extensões, e uma falta de atenção às demarcações do conceito de tecnologia, nos levam a colocar a tecnologia como sendo ao mesmo tempo tudo e nada. Fato que ocorre nas discussões epistemológicas da comunicação, ou na falta delas, no que se refere ao conceito de meios de comunicação enquanto tecnologias da comunicação. Nesse sentido, o debate em rela65

ção ao conceito de extensões, meios de comunicação e tecnologias são essenciais para o saber comunicação.

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Parte 2

APROXIMAÇÕES 1

Marshall McLuhan: meios, mensagens, determinismo e esquecimento na aldeia global
MARIANE CARLA FONSECA FILOMENA MARIA AVELINA BONFIM

Profundo e nefasto: o debate sobre a televisão na obra de McLuhan e Adorno
JANARA SOUSA PEDRO RUSSI

McLuhan e Anísio Teixeira: aproximações em torno da tecnologia
RAQUEL DE ALMEIDA MORAES

Marshall McLuhan meios, mensagens, determinismo e esquecimento na aldeia global

Resumo
Este trabalho tem como objetivo estabelecer um traçado conceitual e histórico da trajetória de Herbert Marshall McLuhan a partir de um leMARIANE CARLA FONSECA GRADUADA EM GESTÃO DA COMUNICAÇÃO INTEGRADA HABILITAÇÃO EM JORNALISMO PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS (CAMPUS ARCOS) PÓS-GRADUANDA NO PROGRAMA DE MESTRADO EM LETRAS UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI, MINAS GERAIS, BRASIL MARIANE.JOR@GMAIL.COM FILOMENA MARIA AVELINA BOMFIM (ORIENTADORA) PÓS-DOUTORA MCLUHAN PROGRAM IN CULTURE AND TECHNOLOGY (MPCT), UNIVERSIDADE DE TORONTO, CANADÁ PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI, MINAS GERAIS, BRASIL FMABOMFIM@UFSJ.EDU.BR Este artigo vem ao encontro dessa dualidade de McLuhan, levantando os contrapontos à obra do professor canadense e apontando, ao mesmo tempo, sua pertinência ao contexto atual. vantamento bibliográfico e exploratório. Com isso, constrói-se um apanhado “vida-obra” com apontamentos críticos sobre o canadense que morreu em 1980 amargando certo ostracismo e críticas ferrenhas dos acadêmicos em Comunicação. Além disso, carregou os fardos do determinismo e do senso comum, considerados norteadores de seu trabalho. O curioso, porém, foi a reviravolta percebida em seu pós-morte. A partir dos anos 90, com a ascensão tecnológica e dos meios de comunicação, a obra mcluhaniana veio à tona novamente, impulsionada pela publicação de Laws Of Media – que expõe as noções das Tétrades.

Palavras chave
comunicação, McLuhan, mídias, tétrades, determinismo
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Introdução Nos anos 90 o termo “globalização” se transformou em uma das pautas da década. Falou-se em colapso da União Soviética, telescópio Hubble, Aids, genocídio em Ruanda e na tal transformação eminente a que o mundo inteiro estaria sujeito. Para alguns, o significado desse fenômeno estava ligado à empolgação de unir territórios desde a queda do muro de Berlim (talvez a onda chegasse à Coréia ou sensibilizasse Cuba). Para outros, tratava-se de uma nova Pangeia, desta vez simbólica, com o planeta se transformando em uma grande vizinhança mediada por computadores. Entre uma teoria e outra, a questão veio à baila em happy hours, elevadores, metrôs, bancos de praça e carteiras escolares. Na época, redações iniciadas com “no mundo globalizado em que vivemos” se transformaram em clichês insuportáveis para os professores de Língua Portuguesa. Não demorou muito para que o terceiro planeta do Sistema Solar, quinto maior do universo, com 71% de seu território coberto por água e único habitado passasse a ser chamado de “aldeia global”, algo bem semelhante ao que John Lennon cantava em Imagine e fazia dele um popstar sonhador. Mas de onde surgiu esse termo? A resposta está em Herbert Marshall McLuhan, teórico canadense que usou a expressão pela primeira vez em 1962 – no livro A Galáxia de Gutenberg – e não chegou a presenciar esta e outras de suas idéias tornando-se realidade. Ao menos totalmente. Morto em 31 de dezembro de 1980, um ano após sofrer

uma trombose que o impossibilitaria de qualquer atividade, McLuhan testemunhou com olhos atentos a formação de uma tribo mundial que agregava novos aparatos tecnológicos às comunicações, reestruturando métodos, transformando mensagens e reformatando sociedades. Segundo o autor, a partir dessa nova “ordem” os processos cognitivos seriam alterados e a própria cultura impressa encontraria sua crítica mais pungente devido a seu compromisso quase absoluto com a linearidade. McLuhan também alertou que a nova estrutura promoveria identidades coletivas formadas em meio a um trânsito de informações intenso e multidirecional. Ao trazer a perspectiva mcluhaniana para a atualidade, a questão da World Wide Web parece se encaixar à teoria do canadense, algo curioso ao considerar que McLuhan pareceu esboçar esse cenário quando a internet ainda era uma ideia1 e Bill Gates um garotinho de sete anos. Com isso, longe de ser beneficiado por dons premonitórios, McLuhan é por vezes apontado como um visionário, além de transgressor. Os títulos se devem principalmente ao fato de que enquanto muitos aplaudiam a Teoria Matemática da Comunicação2, centrada na emissão de mensagens, por exemplo,
____________________ 1 Na realidade um mecanismo de comunicação recém-desenvolvido nos EUA com o objetivo de conectar bases militares e departamentos de pesquisa do país. 2 Defendida por Shannon e Weaver – matemáticos e engenheiros elétricos norte-americanos – essa teoria apontava que “o objetivo da comunicação seria reproduzir num ponto de forma exata, uma mensagem selecionada em outro ponto. Porém, toda transmissão de informação poderia chegar acarretada de interrupções e ruídos” (REBOUÇAS, 2008).

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McLuhan defendia que o foco deveria ser voltado aos meios em si, já que um novo cenário estava sendo construído, abalando conceitos e paradigmas como tempo, espaço e oralidade. Dentro dessa dinâmica, novos media demandariam novas estruturações de mensagens e, consequentemente, instituiriam novas formas de comportamento. Segundo Tapley (1998, p.04), a lógica mcluhaniana está aí: trata-se de assumir que as mídias constituem parte do mundo que as pessoas habitam e em que interagem. Não por outro motivo o mesmo autor atesta que ao surgir um novo meio ou ser transformado um antigo, o tecido social sofre mutações para se adaptar. Assim, das pinturas rupestres aos emoticons no MSN, o que se percebeu – sob o ponto de vista mcluhaniano – foram modificações na forma de expressar ou relatar fatos em diferentes suportes. Com a expansão dos mesmos e a facilidade de acesso a eles, formou-se o infomar3 cantado por Gilberto Gil. Antes dele, McLuhan apontou que o excesso de informações e a característica mutante dos meios alienariam seus usuários. Não se tratava de uma questão marxista envolvendo dominantes e dominados. Dizia respeito, antes, ao excesso. Munday (2003) lembra a analogia feita por McLuhan baseando-se no conto A descent into the Maelström, de Edgar Allen Poe. Nele, um marinheiro relata como evitou ser engolido por um redemoinho gigantesco ao estudar os efeitos das correntes. Para McLuhan, o turbilhão aquático de Poe seria uma metáfora para o caos do mundo moderno enquanto as ações do marinheiro em Maelström esboçariam
____________________ 3 “Criar meu web site, fazer minha homepage. Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje... que veleje nesse infomar?” (Pela Internet, Gilberto Gil, 1996).

uma solução: cada indivíduo garantiria sua passagem pelo turbilhão, a salvo, depois de adentrá-lo e estudá-lo. Todavia, mesmo ao apresentar audiências até certo ponto autônomas e capazes de expelir a “bala mágica”4 dos meios de massa, McLuhan deixou expostas grandes contradições teóricas que, rebatidas com veemência, se transformaram em trunfos de seus críticos mais intensos: alguns acadêmicos detectam em seus textos traços de arbitrariedade e senso comum; grandes expoentes como Raymond Williams o acusam de cometer o pecado do determinismo tecnológico. O que se percebe é a construção de um novo modelo de “médico x monstro” em que McLuhan atua como “visionário x louco”. Para Friesner (2005), um dos aspectos mais notáveis em relação ao teórico canadense não está ligado à teoria em si, mas à rapidez com que ele oscilou entre a aclamação popular e a rejeição geral. Rockman (1968, p.138) ressalta esse mesmo paradoxo:
DeMott chamou McLuhan de “Mr. Big da midcult5”. Tom Wolfe o colocou no patamar de Darwin, Freud e Eistein. (...) Uma carta ao jornal Daily Star de Toronto, assinada por um certo Dr.Holt, chamou-o “a maior farsa de sua década”. E Frank Kermode acreditava que se vivêssemos em uma Era Literata, o livro “A Galáxia de Gutenberg” seria leitura obrigatória para todo mundo.

____________________ 4 Termo cunhado pela Escola Norte-Americana em meados da década de 40. Para os pensadores da época, como Laswell, chamados behavioristas, as audiências (“alvos fáceis” dos meios de comunicação), reagiriam de forma uniforme às investidas midiáticas. 5 “Diz-se da cultura intelectual intermediária, entre o erudito e o “popular”; cultura média”. (Dictionary.com)

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Nesse quase maniqueísmo, McLuhan se perde. Muito embora atualmente seja abençoado por algum reconhecimento tardio, o canadense ainda não figura como grande referência quando a comunicação é colocada como objeto de estudo. Por quê? Este artigo tem como objetivo levantar essa questão, ao mesmo tempo em que apresenta as teorias mcluhanianas em consonância com a contemporaneidade, num contexto em que das interações mais simples aos processos educacionais, as mensagens passaram a ser mediadas por conectores que parecem ignorar tempo, espaço e linearidade.

2. Herbert Marshall McLuhan: prazer em conhecer Herbert Marshall McLuhan nasceu em Edmonton, Canadá, a 21 de julho de 1911. Filho de um corretor de seguros e de uma atriz, McLuhan foi desde cedo a plateia mais atenta da mãe: ao colocar o filho mais velho para dormir, Elsie McLuhan fugia aos padrões mais comuns e, ao invés de contar alguma história assinada pelos Irmãos Grimm, recitava Shakespeare. Por alguma razão que só a Neurolinguística consegue explicar, o menino desenvolveu verdadeira paixão por Literatura e graduou-se em Literatura Inglesa pela Universidade de Manitoba na década de 30. Mesmo tendo escrito em um diário, em 1931, que jamais se tornaria um acadêmico, McLuhan logo se viu atuando em salas de aula. Após a obtenção do título de Mestre em Artes e Língua Inglesa (também pela Universidade de Manitoba), McLuhan passou dois anos na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Conforme conta Trinta (2003), ali McLuhan teve contato com I.A Richards, psicólogo, crítico, poeta e professor de Literatura que apresentou o canadense aos segredos da filosofia da retórica; além de F.R. Leavis, crítico e educador. Mais tarde McLuhan passou a lecionar New Criticism inglês na Universidade de Saint Louis. Em 1944 retornou ao Canadá, onde lecionou Humanidades no Assumption College. Dois anos depois já fazia parte do corpo docente da Universidade de Toronto, passando a conviver com o professor de Economia Política Harold Innis.
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Salta aos olhos a jornada transdiciplinar de Marshall McLuhan. Tal multiplicidade não tinha relação com mera curiosidade acadêmica, mas com a crença de que a totalidade estava longe de definir saberes e os próprios meios de comunicação.
Por mídia, McLuhan entendia bem mais do que meios tais como o jornal, o rádio e a TV. Neste rol estavam incluídos a estrada, o dinheiro, o relógio, a roda, a roupa e outros tantos artefatos humanos que se prestassem à realização de atividades de comunicação: são tecnologias ou aplicações de conhecimentos científicos, conquistas humanas e sociais. (TRINTA, 2003, p.06)

lidade a ruídos e cheiros. Mesmo assim, McLuhan retomou suas atividades meses depois. Na década de 70, após os saltos de Neil Armstrong na Lua terem sido transmitidos ao vivo pela TV, Woodstock ter virado comportamentos do avesso e os Beatles anunciarem que o sonho havia acabado, McLuhan prosseguiu publicando artigos e participando de conferências. O cinema também o solicitou: o canadense interpretou a si mesmo em Annie Hall, realizado por Wood Allen em 1977. Herbert Marshall McLuhan morreu três anos depois, em casa, às vésperas de um Réveillon.

Tais concepções mcluhanianas aparecem dispostas ao longo de sua obra datada inicialmente da década de 40, muito embora seu primeiro livro, The Mechanical Bride: Folklore of Industrial Man, tenha sido publicado em 1951. Segundo Marchessault (2005), essas foram as décadas mais importantes na construção teórica de McLuhan. Apesar de a produção do canadense acumular 17 livros de autoria própria e dezenas de artigos publicados ao longo dos anos até o final da década de 80, a autora defende que foi nas primeiras publicações que McLuhan mostrou seu caráter mais “profético”, cristalizado na década seguinte com A Galáxia de Gutenberg. A carreira acadêmica de McLuhan foi brevemente interrompida em 1967, quando exames detectaram a presença de um tumor na parte inferior de seu cérebro. Uma intervenção cirúrgica foi realizada, mas acarretou perda de memória e de sensibi74

3. As ideias de McLuhan: genialidade ou loucura? Quando McLuhan falou sobre a aldeia global, o rádio e a TV ainda eram as grandes coqueluches do mundo, trazendo som e imagens a um planeta habituado à oralidade crua e à escrita. Naquela época, ele não imaginou que no século XXI o Google se transformaria em um dos grandes inventos da humanidade, trazendo no mesmo barco o Youtube, o Wikipedia e o Twitter. Obviamente, ele não poderia deduzir que Susan Boyle viraria celebridade instantânea ou que a morte de Michael Jackson seria anunciada em primeira mão em um site de fofocas da internet. Todos esses fenômenos atualmente parecem banalizados por uma geração que nasceu em frente a computadores. No contexto mcluhaniano, falar sobre eles exigia, no mínimo, um grande nível de abstração. Quando McLuhan começou a apreender as ideias de I.A.Richards, se deparou com a possibilidade de não ser “o conteúdo de um poema o que, esteticamente, importa; mas, antes, o impacto que uma sucessão de inspiradas metáforas produzirá, como efeito psíquico, na mente do leitor” (TRINTA, 2003, p.03). Foi partindo desse princípio de negligência ao conteúdo e importância aos efeitos que McLuhan baseou suas teorias. Para o canadense, os homens não eram os únicos protagonistas do teatro do absurdo que parecia se inaugurar. Os meios pareceram vívidos à medida que eram reformatados e toda uma gama de material de entretenimento e informação começou a convergir. Enquanto grandes teóricos se debruçavam so-

bre paradigmas de emissores-receptores ou bradavam contra a Indústria Cultural e a reprodução em massa, McLuhan olhava com mais atenção para o fato de que tudo aquilo não causaria mudanças na sociedade. Toda parafernália e mistura já eram em si pacotes de grandes transformações. Mais do que aparelhos, eram extensões dos homens e manifestações sociais. “Para cada meio, McLuhan pousava um sentido e repousava nele a sua tese de exploração sensorial” (ESTRÁZULAS, 2007, p.03). Assim, além de uma caixa mágica com luz, som e imagem, a TV seria um prolongamento da visão e da audição. Da mesma forma, um carro seria uma extensão dos pés e as camisetas (das lisas às estampadas com o rosto de Che Guevara) seriam extensões da pele. Com essas proposições, McLuhan abriu duas vertentes: a) os meios correspondem a um vasto conjunto de suportes e b) são prolongamentos físicos. As mensagens, assim, seriam tão mutantes e complexas quanto os meios que as abrigam, adaptando-se a eles. Daí o surgimento da máxima “o meio é a mensagem”. No contexto de McLuhan, a TV trazia à tona o fato de que os conteúdos jornalísticos apresentados ali não podiam ser apreendidos com a profundidade e o requinte crítico dos jornais impressos. Ao ler uma página do Toronto Star6 a informação podia ser decodificada e assimilada no tempo exigido por seu receptor, mas o mesmo não era permitido quando as notícias
____________________ 6 Jornal impresso canadense, fundado em 1892. Atualmente o impresso de maior circulação no país, com cerca de 400 mil exemplares.

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eram veiculadas por um telejornal, dada a rápida transição entre as matérias e os assuntos abordados. Para McLuhan, os indivíduos não ficavam imunes aos processos de reconstrução midiática, passando por transformações à parte simultaneamente. Ao analisar a dinâmica evolutiva das últimas décadas, percebe-se que o desenvolvimento dos meios esteve intimamente ligado às mudanças sociais. Nos anos 2000 a informação assumiu status de “item de sobrevivência”. Ironicamente, o ritmo pós-moderno pareceu tolher a comodidade de ler um jornal ou uma revista e assistir a um telejornal. Ante esse cenário e em resposta ao emprego dos computadores, surgiram os jornais online com seções de Tempo Real. A notícia deixou de ser composta por um texto longo e analítico, passando a ser representada por fragmentos atualizados minuto a minuto, com links que permitem aprofundamento ou resgate de informações a qualquer momento, em qualquer ordem. A princípio, a troca de átomos por bits significou ameaça de extinção aos impressos. Mais tarde, com a aceitação do novo meio e suas formas de transmissão, ficou claro que o surgimento de uma mídia não demandava “a morte” de seus predecessores. Para esse fenômeno McLuhan também teceu explicações, no exato momento em que teóricos e universitários questionavam seu legado.

4. McLuhan e seu “crime”: senso comum? Eric McLuhan, filho de Marshall e co-autor de Laws of Media, divide os desafetos do pai em dois grupos: o de leitores que diziam não entender suas ideias e o de detratores que o desprezavam por não detectarem traços científicos em sua obra. No primeiro grupo estava Dwight Macdonald, que chegou a escrever em uma resenha sobre Understanding Media – no Brasil publicado sob o título Os meios de comunicação como extensões do homem – que “as partes são melhores que o todo. Uma única página é impressionante, duas são estimulantes, cinco levantam sérias dúvidas, dez as confirmam" (MUNDAY, 2003, p.01). Adiante, Macdonald classifica seu texto como “nonsense impuro”. DeMott (1969), por sua vez, preferiu rotular o trabalho de McLuhan como delirante, de difícil compreensão, embora com sentido. Segundo o autor, McLuhan produzia com opacidade, lançava livros densos com expressões como “interiorizações de tecnologia alfabética” e publicações que mais lembravam recortes acumulados sobre Matemática, Teologia Política e História, fugindo do que convencionalmente poderia ser chamado de “dissertação”. Em relação a isso, Federman (2003, p.01) diz o seguinte: “McLuhan não é de fácil leitura, pelo menos até que você tenha aprendido a decifrar sua linguagem e a quebrar o hábito de ler linearmente”. De fato, o trabalho mcluhaniano não respeita um critério cronológico e pode ser apreciado em qualquer ordem, sob qualquer perspectiva, sem anular a conexão estabelecida entre su76

as ideias. Todavia, “ler” McLuhan não diz respeito somente a “assimilar” um conteúdo, mas também a “decodificá-lo”. “Uma lição que McLuhan teve de cor referia-se à necessidade de acostumar estudantes universitários a uma análise crítica de seu ambiente cultural – com destaque para a difusão da propaganda comercial” (TRINTA, 2003, p.03). Não por outro motivo, livros como The Mechanical Bride (1951) e Counterblast (1969) são verdadeiras coletâneas de anúncios, tirinhas de jornais, gravuras, acrósticos ou representações abstratas de um McLuhan que defendia os meios de comunicação como formas de arte, de expressão. Quanto às acusações de teorias pautadas no senso comum, as mesmas se baseavam no fato de McLuhan não ter adotado em nenhum de seus livros qualquer critério científico. Ao invés de análises bibliográficas ou exploração de teorias em voga, McLuhan seguiu outros caminhos. “McLuhan se apartou do pesquisador tradicional, obrigado por praxes e convenções acadêmicas a se definir e pautar por critérios peculiares ao que se pode ter por uma postura científica. Fale-se, antes, em envergadura poética” (TRINTA, 2003, p.06). Para Friesman (2005), estava aí o grande erro: McLuhan preferia citar artistas a teóricos, ler menos como um estudioso e mais como um visionário, se posicionar como um poeta, e não como um cientista empírico. Se para ele comunicar era uma atitude de arte, então que seus escritos também o fossem. No entanto, para a pesquisa em comunicação na época,

aceitar as estripulias mcluhanianas na academia era equivalente a permitir que Jimi Hendrix conduzisse a Orquestra Filarmônica de Berlim. Além disso, ao afirmar que os meios alteravam sociedades e moldavam novos comportamentos ao sugerir novas linguagens, McLuhan fez disparar o alerta de pensadores dos media. Com isso, foi taxado determinista e fundou-se aí a corrente anti-McLuhan mais forte.

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5. Determinismo tecnológico Conforme lembra Tremblay (2003, p.16), em McLuhan “a sociedade e o indivíduo são modelos para as mídias”, estabelecendo uma relação de interdependência entre criadores e criaturas. No entanto, ao focar essa relação, McLuhan negligenciou fatores sociais, econômicos, culturais e políticos em favor da valorização técnica, passando a pertencer, então, ao grupo de deterministas tecnológicos – posto dividido também com Harold Innis. A grande diferença é que o segundo parecia contar com maior credibilidade: ao contrário de McLuhan, que recusava a roupagem de um universitário clássico, Innis assumia o estereótipo do verdadeiro intelectual canadense. “Sob vários aspectos, Innis encarnava um típico representante da cultura livresca da era Gutenberg, segundo McLuhan. A figura que evoca seu personagem é, sobretudo, a do escriba mais estudioso do que a do profeta carismático” (TREMBLAY, 2003, p.17). Portanto, entre o estritamente acadêmico e o pensador pop, a escolha mais evidente beneficiava Innis, o que não o excusou de também ser apontado como portador da síndrome do determinismo tecnológico. Na definição do dicionário Aurélio (1993, p.183), o verbete determinismo corresponde a um termo filosófico que representa “uma conexão rigorosa entre os fenômenos (naturais ou humanos), de modo que cada um deles é completamente condicionado pelos que o precederam”. Vieira (2008, p.42), completa essa definição:

O determinismo constitui uma concepção da ciência experimental que se fundamenta pela possibilidade da busca de relações constantes entre os fenômenos; isto é, uma doutrina que afirma serem todos os acontecimentos, inclusive vontades e escolhas humanas, causados por acontecimentos anteriores, ou seja, o homem é fruto direto do meio.

Ao fugir um pouco da concepção antropológica de Laraia (1997), que aplica o determinismo sob os pontos de vista social e geográfico, o determinismo tecnológico supõe que tecnologia e transformações sociais se inscrevem numa relação em que a primeira atua como uma força condutora de mudanças sociais, independentemente de escolhas e ações humanas. Assim, conforme lembra Lima (2001), sob a ótica do determinismo tecnológico as tecnologias são apresentadas como autônomas, forças independentes, autocontroláveis, autodetermináveis e autoexpandíveis.
Aplicada à análise da obra de McLuhan, surgiria a interpretação de que este autor pensaria a evolução das culturas como decorrentes de uma afetação direta dos modelos de tecnologias que emergem, fazendo com que sua compreensão ficasse reduzida a uma lógica causal, linear e sequencial, na qual a tecnologia, exclusivamente, determinasse os modos de se ser humano. (PEREIRA, 2006, p.04)

Foi a partir dessa premissa que Raymond Williams, um dos maiores contestadores de McLuhan, baseou suas críticas. Para Williams (2003), a metáfora do meio como mensagem seria ideológica, ofensiva, abstraída de sentido e alheia a caracteres
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históricos. O autor, defendendo a efetividade humana, sustentou que os meios podem incitar transformações, mas não determiná-las. Williams aponta que os meios foram desenvolvidos e implementados para ajudar nas práticas humanas já conhecidas ou almejadas, todas ligadas a interesses e vontades dos grupos que as contêm. A princípio, nesse ponto, McLuhan parece ter dado um tiro no próprio pé.
Todos os meios agem sobre nós de modo total. Eles são tão penetrantes que suas conseqüências pessoais, políticas, econômicas, estéticas e psicológicas, morais, éticas e sócias não deixam qualquer fração de nós mesmos inatingida, intocada ou inalterada. (MCLUHAN, 1969, p.54)

O conteúdo de um meio é sempre um outro meio. O conteúdo da escrita é a fala, tal como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa, e a imprensa, o conteúdo do telégrafo. (...) Todos os meios são metáforas ativas por seu poder de traduzir a experiência em novas formas (...). Não haverá mudança tecnológica nos meios de comunicação que não venha acompanhada por uma espetacular mudança social. Todas as mudanças sociais representam efeitos das novas tecnologias sobre o equilíbrio de nossa vida sensorial.

No universo mcluhaniano, na galáxia de Gutenberg, os meios deixaram de ser interpretados como meros canais e passaram a ser reconhecidos como agentes inanimados dos processos de interação. Embora manipulados por seres humanos, os artefatos em si ganhavam amplitude e destaque nas teorias de McLuhan, sendo responsáveis por mutações sociais que iriam desde a gramática das mensagens à estruturação das sociedades. Assim, ao invés de os meios se adaptarem a construções sociais inéditas, os grupos estariam sujeitos a novas formatações frente às tecnologias. Trinta (2003, p.09) resume essas idéias da seguinte forma:

Curiosamente, nessa explanação tem-se intrínseca uma outra noção de McLuhan: a das Tétrades, também conhecidas como “Leis da Mídia”, uma tentativa mcluhaniana de adequar seu pensamento à demanda cientificista. Ao receber uma proposta editorial para revisar e reeditar Understanding Media, McLuhan optou por buscar um ponto de equilíbrio entre a ciência convencional e seu estilo rejeitado pelos acadêmicos. Para chegar a esse ponto, concluiu que precisaria encontrar e defender pressupostos de fácil verificação. Foi daí que levantou o seguinte problema: “Que tipo de afirmação podemos fazer sobre a mídia e que pode ser testada, provada ou refutada por qualquer um? O que todas as mídias têm em comum? O que fazem?” (MCLUHAN, 1988, p. 08). O resultado dessas indagações foram quatro postulados que, na verdade, já estavam dispersos ao longo de sua obra.

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6. As leis da mídia: o quarteto fantástico de McLuhan Conforme já citado anteriormente, McLuhan propôs encarar os meios como extensões do homem. Isto é, ante as limitações dos indivíduos, aparatos tecnológicos eram desenvolvidos para ampliar suas potencialidades. Assim, em suma, toda tecnologia amplifica algum órgão ou faculdade do usuário. Consequentemente, todo meio, quando explorado ao máximo e tendo esgotado seu potencial (ou caindo em desuso por desinteresse de seus usuários) pode reverter no seu oposto (avanço e reversão). Tem-se aqui duas leis da mídia elucidadas por McLuhan. A terceira diz respeito ao fato de que ante uma nova proposta midiática, o artefato anterior se torna obsoleto sem que isso implique em sua extinção: de acordo com McLuhan, os arquétipos que antecedem novas mídias se convertem, nesse momento, em exemplares de arte. Há de se frisar – abrindo frestas para a quarta lei – que caracteres dos meios anteriores manifestam-se nos aparatos considerados “modernos” (recuperação). Daí o fundamento para se dizer que o conteúdo de um novo meio é sempre um antigo meio. “Toda inovação, enquanto torna algo vigente obsoleto, recupera características similares, anteriormente em desuso (...). Comunicar algo novo é como um milagre: difícil, mas não impossível. Mais arte do que ciência” (NEVITT, MCLUHAN, 1994, p.15). Segundo Theall (2001), as Tétrades podem ser associadas à analogia da proporcionalidade (A está para B assim como C está para D). No entanto, conforme frisa o autor, McLuhan voltou sua atenção muito mais às diferenças do que às similaridades

de cada uma. Daí a defesa de que não se tratam de fatores sequenciais, mas de complementos. “Os quatros aspectos são inerentes a cada artefato desde o início. Todos são complementares e requerem observação atenta dos meios como algo concreto em seu contexto, não abstrato” (MCLUHAN, 1966, p.98). Assim que as quatro proposições foram (re)descobertas, McLuhan iniciou uma busca ferrenha por dois fatores: a quinta lei da mídia e, ainda, algum exemplo de artefato que pudesse refutar o que acabara de elucidar. Não encontrou nada. Resolveu então pôr em prática sua intenção cientificista e apresentou as Tétrades a colegas de trabalho e acadêmicos da Universidade de Toronto, além de visitantes e alunos do Centro de Cultura e Tecnologia. A intenção era alcançar leitores em potencial do que seria a segunda edição de Understanding Media e, mais tarde, se transformou em Laws of media: the new science. Contudo, nem assim McLuhan recebeu aprovação. As Leis da Mídia só foram divulgadas oito anos após sua morte. Nesse período, McLuhan amargou considerável ostracismo que só foi remediado na década de 90, quando a aldeia global começou a ser efetivamente materializada na contemporaneidade.

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Conclusão Na cena acadêmica, McLuhan foi durante décadas um teórico negligenciado. Entre coadjuvante e antagonista, o canadense foi acusado de dois delitos: não ser cientificamente inclinado e, assim, não oferecer teorias prontas ao Olimpo da comunicação. O erro de McLuhan foi fazer de seu trabalho um arquétipo de toda poesia que o rodeava desde o berço. Poder-se-ia dizer que, traído por suas próprias teorias, o canadense ignorou a fugacidade dos públicos modernos e esperou deles que compreendessem toda a metáfora e hipertextualidade de suas publicações. Todavia, McLuhan usava mais uma vez de sua irreverência: se o que pregava era o criticismo, entregar teorias prontas a acadêmicos e universitários seria como entregar a fórmula da Coca-Cola para os fabricantes da Pepsi. Talvez a grande questão fosse de fato esperar que seu “público-alvo” estivesse realmente preparado para entender sua teoria, já que falar de aldeia global, extensões e redes parecia absurdo demais à sua época. Ao considerar que sua atuação foi visionária, chega a ser possível compreender o porquê de tantas críticas. McLuhan era a bug da Matrix – ameaçava adentrar o sistema causando rebuliço. Ora, incidir sobre os meios os holofotes analíticos tendia à balela quando o foco até então voltava-se a quem os administrava e à passividade da grande massa numa relação vertical imutável. Daí deduzir que chamar a atenção para transformações sociais dinâmicas e constantes no ritmo das evoluções tecnológi-

cas não fizesse sentido. Obviamente, a aventura interdisciplinar também soava como ameaçadora e beirava à heresia quando um canadense metido a analista comunicacional sugeria misturar cânones da literatura a peças publicitárias e discussões sobre canais de comunicação dilatados e populares. A falha de McLuhan, portanto, foi ater-se a objetos considerados paralelos aos interesses “batizados” como científicos e tardiamente dar o braço a torcer para amenizar seu caráter “vanguardista” em nome de uma possível congruência entre suas perspectivas e a de seus opositores. Mas agora, às portas da revolução informacional, McLuhan ressurge das cinzas. Muito embora seus postulados ainda sejam pouco estudados e soem muito mais como slogans dos anos 2000, o canadense vem sendo tardiamente resgatado, retirado do limbo em que se encontrava como indigente enquanto parte de suas teorias ganhava notoriedade de forma quase anônima – os créditos foram dados a McLuhan de forma apagada, praticamente restrita aos grupos de estudo no Canadá. Ainda assim, com tantos arquétipos, novos conceitos e paradigmas virtuais em voga, McLuhan parece ter oferecido ao mundo as provas que tanto lhe cobraram ao longo do tempo. Nada mais cientificista que isso.

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Profundo e nefasto: o debate sobre a televisão na obra de McLuhan e Adorno

Resumo
Adorno e McLuhan foram e continuam sendo um dos principais expoentes da pesquisa em Comunicação no século XX. Lidos e citados por investigadores do mundo inteiro, eles compõem um grupo bastante restrito que poderíamos arriscar chamar de clássicos da pesquisa em nossa área, dadas a qualidade e a importância de suas obras. Representantes de duas escolas de pensamento seminais para o saber comunicacional – Escola de Frankfurt e Escola de Toronto – os autores se destacam ainda por sua capacidade de continuar a influenciar e inspirar geJANARA SOUSA PROFESSORA-ADJUNTA DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, BRASÍLIA, BRASIL JANARA.SOUSA@GMAIL.COM PEDRO RUSSI PROFESSOR-ADJUNTO DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, BRASÍLIA, BRASIL PEDRORUSSI@GMAIL.COM rações de novos pesquisadores. A proposta deste artigo é, na medida do possível, comparar a matriz teórica e metodológica desses teóricos no que diz respeito ao estudo da Televisão. Aparentemente opostas, as contribuições de McLuhan e Adorno convergem em alguns pontos, em especial, na centralidade dada aos processos de comunicação mediados como chave de leitura para explicar os fenômenos sociais e no local de destaque que ambos destinaram à Televisão em suas obras.

Palavras chave
comunicação, televisão, Marshall McLuhan, Theodor Adorno
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Introdução Theodor Adorno (1903-1969) e Marshall McLuhan (1911-1980) marcaram profundamente a tradição de pesquisa em Comunicação. Fulguram nos textos sobre a história das teorias da área como personalidades importantes, pensadores destacados, que formaram escolas de pensamento e inspiram continuadores. Os contemporâneos optaram por matrizes diferentes (e por que não dizer opostas?) para analisar o impacto do processo comunicacional. Mas, o que eles tiveram, indiscutivelmente, em comum foi a preocupação de compreender os efeitos do processo comunicacional, contudo, privilegiando chaves de leituras diferentes: McLuhan, o meio; Adorno, a mensagem. Nosso interesse está em perceber tais chaves de leitura e compreender as formas (pesquisa) por meio das quais eles procuraram conhecer o mais destacado no entorno aos meios, o meio e a mensagem respectivamente. As décadas 50 e 60 foram os períodos em que mais se concentrou a produção científica de McLuhan e Adorno. O canadense McLuhan publicou nessa ocasião três das suas mais importantes obras: “A Galáxia de Gutenberg”, “Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem” e “O Meio é a Mensagem”. O trabalho de McLuhan foi profundamente marcado por um debate sobre o impacto da tecnologia, i.e., de que forma haveria uma penetrabilidade dessa tecnologia nas ações cotidianas. Para o autor, os meios de comunicação criam um novo ambiente social e isso muda profundamente a maneira

como percebemos e estamos no mundo. A centralidade dada aos meios de comunicação fez com que McLuhan fosse acusado de um determinismo tecnológico. Um determinismo que, até hoje, se emprega não como compreensão do que isso significou ou significa – se for o caso –, senão, como categorização de validação de um pensamento. Nesse sentido, as discussões de McLuhan não seriam válidas por serem deterministas ou vice-versa. A questão é pensar quais foram as formas epistêmicas que lhe possibilitaram pensar a centralidade dos meios. Se partirmos de que não foi por acaso, é necessário compreender suas particularidades epistemológicas e metodológicas. Por sua vez Adorno – expoente da Escola de Frankfurt – estava preocupado em denunciar os danos causados pela Indústria Cultural sobre a cultura de massa (conceito especialmente acunhado, junto a Horkheimer, em “Dialética do Esclarecimento”, no ano 1947). A análise e interpretação da cultura será para entender uma ideologia capitalista em co-autoria com a Indústria Cultural. Nessa linha, o autor apontou o efeito perverso dos meios de comunicação que fizeram da cultura um negócio de grandes proporções, cujo objetivo principal é conformar, controlar e manipular a audiência. A perspectiva crítica de Adorno foi apontada por muitos como pessimista. Aqui retomamos o supramencionado, é importante destacar o pessimismo de Adorno ou, se nosso interesse é epistêmico, a compreensão dos processos intelectuais que lhe permitiram pensar dessa forma.
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Se o leitor observar detidamente estas linhas de apresentação, deparar-se-á com dois pensadores que, pelas suas condições e maneiras de produção intelectuais relacionadas à Comunicação (seja pelo meio ou mensagem), tornam-se referentes intensos nas suas posições epistêmicas. A proposta deste artigo é a de investigar como esses dois autores, aparentemente tão opostos, enfrentaram o debate sobre a televisão. Como é a experiência da TV? Qual o impacto dessa experiência? Ambos os teóricos escreveram textos específicos para tratar somente deste tema e acreditamos que esse debate é fundamental para compreendermos os efeitos dos processos comunicacionais não somente na perspectiva de entender exclusivamente a visão de dois representantes de escolas de pensamento distinto, mas, especialmente, para compreender a nós mesmos na medida em que eles formam as nossas principais influências que nos auxiliam hoje no debate sobre a Comunicação. Adorno e McLuhan, certamente, ainda têm muito a nos dizer sobre o poderoso, profundo e nefasto “gigante tímido” (MCLUHAN, 1964).

Televisão: “A sala de aula sem paredes” Antes de mergulharmos nas semelhanças e diferenças no modo de debater a experiência e o efeito da televisão, entre Adorno e McLuhan, vamos primeiro apresentar um pouco do pensamento de cada um desses autores sobre esse meio de comunicação. Comecemos, então, por McLuhan que escreveu dois textos importantes, no qual a televisão é o aspecto privilegiado de análise. O primeiro texto é “A televisão: o gigante tímido”, publicado na obra “Os meios de comunicação como extensões do homem”, em 1964. O segundo texto, chamado “Visão, som e fúria”, foi publicado originalmente 1954 no periódico americano Commonweal. Seguramente, há mais na obra de McLuhan sobre a televisão do que somente estes dois textos. Certamente, podemos encontrar esse debate diluído em diversas obras do autor, entretanto, optamos por esse material considerando que ele traz o recorte específico sobre a televisão e, em certa medida, sumariza o pensamento do autor sobre o tema. Entretanto, é preciso esclarecer que, à medida que se fez necessário, recorremos a outros textos do autor no intuito de esclarecer conceitos e dúvidas. Não há dúvidas de que para um mergulho mais profundo fosse necessário recolher mais material, tarefa que oportunamente será empreendida. Ao começar o seu debate sobre as características e efeitos da televisão, McLuhan (1964) deixa claro que sua análise não é sobre conteúdo e sim sobre o meio. Esse é, evidentemente, um dos argumentos mais contundentes e inovadores na obra do
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autor, o qual ele faz questão de enfatizar, quando se refere à TV. De acordo com ele, a imagem desse canal causa uma perturbação psíquica e social e não a sua programação. McLuhan (1964) reclama que os cientistas políticos e os historiadores têm sistematicamente negligenciado o estudo dos efeitos sociais e pessoais dos meios separadamente do seu conteúdo. E essa é a tarefa que o autor se propõe a empreender, abrindo o caminho inferencial para compreender a esfera mediática desde outra perspectiva, a dos meios, i.e., desenha outra porta de entrada analítica ao configurar um saber diferente para interpretar a relação sociedade-meios. É importante trazer uma classe de conceitos fundamentais do pensamento de McLuhan, que nos auxiliará na leitura sobre as características da televisão. Trata-se do debate sobre meio frio e meio quente, um tema que para muitos atuais críticos e estudiosos de McLuhan não seria necessário mais enfrentar, porque já foi resolvido ou não leva a nenhuma compreensão afinada da proposta desse pensador. Porém, para avançarmos na empresa de analisar o pensamento do teórico sobre a televisão, vale destacar essa tipificação dos meios de comunicação. Segundo aspectos da sua natureza, os meios quentes são caracterizados por sua alta definição: “(...) Alta definição se refere a um estado de alta saturação de dados” (MCLUHAN, 1964, p. 38). Essa alta definição faz com que os meios quentes, como o rádio, o cinema e o impresso, não deem margem para participação e envolvimento da audiência. Já o que caracteriza os meios frios é exatamente a pobreza das informações, que obrigada o receptor a participar e se

envolver na perspectiva de “completar”, “fechar” o significado das informações que recebem. Assim colocado, a televisão, enquanto meio frio, promove a participação. “A TV não funciona como pano de fundo. Ela envolve. É preciso estar com ela” (MCLUHAN, 1964, p. 350). Quanto mais alta definição um meio tem, menor a possibilidade de participação. Contudo, se o meio é de baixa definição, o envolvimento do receptor é maior. Na TV, segundo McLuhan (1964), a programação deve ser envolvente do tipo “faça você mesmo”. O próprio ator deve assumir esse espírito e estar pronto para improvisar e manter a intimidade com o público. “A TV não é tanto um meio de ação quanto de reação” (MCLUHAN, 1964, p. 359). Por isso, McLuhan acredita que o consumidor da televisão é ativo, enquanto o dos meios quentes é passivo.
O meio frio da TV incentiva a criação de estruturas em profundidade no mundo da arte e do entretenimento, criando ao mesmo tempo um profundo envolvimento da audiência. Quase todas as tecnologias e entretenimentos que se seguiram a Gutenberg não têm sido meios frios, mas quentes; fragmentários, e não profundos; orientados no sentido do consumo e não da produção (MCLUHAN, 1964, p. 350 e 351).

Vamos avançar e compreender que a experiência da televisão é fortemente marcada por suas características tecnológicas. A construção da imagem da TV é uma trama em mosaico, ao contrário dos meios impresso, por exemplo, cuja imagem é visual e linear. Por causa dessa característica, o público precisa
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de um envolvimento profundo no processo de construção da trama. É por essa razão que McLuhan afirma que um ator televisivo precisa ter essa interpretação íntima, quase improvisada, por que esse meio não suporta personalidades bem delineadas e favorece mais a construção de processos do que a apresentação de produtos prontos e acabados. Esse argumento é algo que os continuadores de McLuhan foram reafirmar e aprofundar, como é o caso do pesquisador estadunidense Joshua Meyrowitz (1985)1, que fez um livro sobre o impacto da televisão no comportamento social. A televisão exerce uma força sinestésica e unificadora sobre a vida das populações letradas e desmonta, assim como os outros meios eletrônicos, a rigorosa especialização dos sentidos e a hierarquia imposta pelos meios escrito/impresso. Assim colocado, outra característica da TV é justamente a capacidade de promover a singularidade e a diversidade, já que as experiências profundas são únicas e de significados particulares e não massivos. A TV, conforme McLuhan, instaura uma nova maneira de encarar a realidade, avançando pode-se estabelecer também como uma forma diferente de descrever a realidade. Ela alimenta a paixão pelo envolvimento profundo e isso não se limita somente à experiência com a televisão, mas se estende para todos os outros setores das nossas vidas. O autor argumenta que ela mudou a nossa organização imaginativa por____________________ 1 O título original do livro é “No Sense of Place:The Impact of Electronic Media on Social Behavior”.

que não separa e especializa os sentidos. Haveria, dessa maneira, um entendimento de conjunção dos sentidos, não uma dicotomia dos mesmos, i.e., note-se a interdependência de sentidos. A televisão é uma extensão do tato e isto implica dizer que ela envolve uma inter-relação dos sentidos. A cultura letrada, por exemplo, ao estender a visão e promover uma organização uniforme do espaço e do tempo, permitia o distanciamento e o não-envolvimento.
A televisão é menos um meio visual do que tátil-auditivo, que envolve todos os nossos sentidos em profunda inter-relação. Para as pessoas há muito habituadas à experiência meramente visual da tipografia e da fotografia, parece que é a sinestesia, ou profundidade tátil da experiência da TV, que as desloca de suas atitudes correntes de passividade e desligamento (MCLUHAN, 1964, p. 378).

Um aspecto interessante que podemos interpretar a partir da argumentação de McLuhan sobre as características da TV é que não há passividade nessa experiência. Embora a televisão seja vista por muitos como espaço da falta de ação e de acolhimento ingênuo das mensagens, McLuhan defende que essa maneira de encará-la é herdeira da cultura letrada. A TV, ao contrário dessa cultura, exige participação imediata, envolvimento e respostas criativas: “(...) ela nos envolve numa profundidade móvel e comovente, mas que não nos excita, agita ou revoluciona. Presume-se que seja esta a característica de toda experiência profunda” (MCLUHAN, 1964, p. 379). Essa rela88

ção implica uma ação distante e distinta ao que poderia ser A→B. Tal situação de ingerência direta e de mão única (A→B) não sustenta uma compreensão de interdependência e inter-relação dos sentidos. Daí a crítica, por parte de McLuhan, ao entendimento de uma relação unidirecional de acolhimento. O efeito de séculos vivendo sob a influência da cultura letrada faz McLuhan (2002) se perguntar se essa especialização faz com que não consigamos encarar os novos meios de comunicação como cultura séria. O livro nos hipnotizou de tal forma que McLuhan questiona se somos capazes de perceber que a forma própria de um meio de comunicação é tão importante quanto o conteúdo que ele transmite. O que o autor chama a atenção é que as tecnologias criam novas formas de ambiência e isso, sem dúvida, é a sua principal mensagem. “Cada forma (dispositivo ou metrópole), cada situação planejada e realizada pela inteligência factiva do homem é uma janela que revela ou deforma a realidade” (MCLUHAN, 2002, p. 155). O autor completa afirmando que as inovações nos meios de comunicação promovem profundas mudanças sociais. Ainda com relação ao binômio meio/mensagem, McLuhan (2002) coloca, como exemplo da importância do próprio meio para além do conteúdo veiculado, que mesmo que o conteúdo jornalístico fortaleça o nacionalismo, a página do jornal não o faz já que sua característica é ser intercultural e internacional. A mensagem que não está explícita é a de que o mundo é uma única cidade.

A política, por exemplo, está para McLuhan (1964) profundamente afetada pelas características da televisão, afetada por suas lógicas. O teórico acredita que chegou ao fim a votação em legendas. Nós votamos, agora, em personalidades. Ou seja, em lugar de ponto de vistas políticos, optamos por atitude e posições políticas inclusivas. Para exemplificar esse argumento, McLuhan dá o exemplo das eleições presidenciais dos Estados Unidos, que foram disputadas por Kennedy e Nixon. O primeiro foi o vencedor por que era uma personalidade muito mais afeita às características da televisão, que suporta menos o conflito de opiniões e promove o envolvimento em profundidade, do que o bem delineado perfil de Nixon. Personalidades facilmente classificáveis frustram o telespectador porque não lhes permite a possibilidade de complementar/ participar do conteúdo veiculado (MCLUHAN, 1964). Como exercício analítico, podemos nos aproximar aos tempos atuais e observar o pano de fundo “marketeiro” nos “embates políticos”, em detrimento dos programas políticos dos partidos. Presenciamos o redesenho de candidatos políticos (personalidade a ser desenvolvida), por exemplo, no trânsito de um “Lula Talibã” para um “Lula paz e amor”. Finalmente, vale terminar o escrutínio do pensamento de McLuhan sobre a televisão trazendo um último exemplo, que é bastante enfatizado na obra do autor: trata-se do papel educativo da televisão. O título desse apartado traz a sugestão de que a televisão seria uma sala de aula sem paredes. McLuhan acredita que a televisão impactou profundamente a educação.
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“A TV mudou a nossa vida sensória e nossos processos mentais. Criou um novo gosto por experiências em profundidade, que afeta tanto o ensino da língua como o desenho industrial dos carros” (MCLUHAN, 1964, p. 373). As crianças, que nasceram sobre a égide da televisão, lançam sobre os meios impressos todo o seu envolvimento sensório e tentam viver a experiência da leitura como vivem a experiência da TV.

Aprendendo a assistir televisão Adorno escreveu três textos específicos sobre a televisão: “Prologue to Television” e “Television as Ideology”, ambos publicados originalmente no livro “Critical models: interventions and catchwords”, em 1963; e “Television and the patterns of mass culture”, publicado originalmente com o título “How to look at television”, em 1954, no periódico americano “Quartely of film, radio and television”. Mais uma vez, retomamos o argumento colocado sobre a questão da escolha dos textos de McLuhan para explicar também nossa escolha com relação aos textos de Adorno. Para tornar mais factível a comparação e desenhar categorias mais sólidas de análise, buscamos os textos dos dois autores que declararam abertamente mergulhar no tema da televisão. Embora, não tenhamos colocado essa ação como uma camisa de força, na medida em que consultamos outros textos para sanar dúvidas e questões que ficaram em aberto. O primeiro aspecto que Adorno esclarece em seu texto “Television and the patterns of mass culture” é que ele pretende analisar a natureza da televisão e do seu repertório de imagens e não programas televisivos específicos, embora no seu texto “Television as Ideology” ele apresente o resultado da análise de conteúdo de trinta e quatro programas de televisão. Os três textos se complementam e apresentam um quadro importante do pensamento de Adorno sobre os efeitos da televisão.
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Sobre esses efeitos, o autor acredita que para compreendê-los é preciso ter nas mãos categorias da psicologia e conhecimento sobre os meios de comunicação de massa. Adorno acredita que devamos questionar sistematicamente os estímulos sócio-psicológicos do material televisivo, tanto do ponto de vista descritivo, quanto do psicodinâmico, assim como analisar os pressupostos prévios da pauta desse meio para avaliar seus possíveis efeitos.
Ao revelar as implicações sócio-psicológicas e os mecanismos da televisão, que com frequência atuam sob o disfarce de um falso realismo, não somente poderão melhorar seus programas, mas, também – e isto talvez seja mais importante – poderá sensibilizar o público quanto ao efeito nefasto de alguns destes mecanismos (trad. livre) (ADORNO, 1977, p. 239).

NO, 1977, p. 259). Adorno acredita que sua análise trará recomendações claras ao público, que de posse desse conhecimento terá mais condição de se defender do efeito nefasto da televisão. Adverte-se um despertar do público, dar elementos para que ele tome consciência, desvende o que está oculto e que por não ser possível observar diretamente, levao, nessa manobra danosa, à funesta falta de consciência. Antes de passar para as características e efeitos da televisão propriamente ditos, vale destacar dois aspectos da cultura de massa que nos permitirão compreender melhor a argumentação de Adorno. O primeiro aspecto a ser destacado é o fato da cultura de massa fazer referência aos arquétipos estabelecidos durante o desenvolvimento da sociedade de classe média, mais precisamente no final do século XVII e XVIII, na Inglaterra. Desde então a produção de produtos culturais cresceu e, segundo o autor, não somente em quantidade, mas, também, em novas qualidades. O ponto crucial é que a cultura de massa incorporou elementos de sua predecessora, inclusive as proibições. A diferença entre as duas culturas está no fato de que a cultura de massa se estabeleceu como um negócio em larga escala.
Quanto mais se expande o sistema de "comercialização" da cultura, mais ela tende a assimilar a arte também "séria" do passado, mediante a adaptação desta arte aos próprios requisitos de sistema. O controle é tão amplo que qualquer violação das suas regras é estigmatizada a priori como "pedantismo" e é improvável que alcance a maior parte da população. O esforço conjunto do sistema resulta no que pode91

Um aspecto interessante do debate de Adorno sobre a televisão é que ele pensa em termos de um “melhoramento” da programação desse meio. Ou seja, para Adorno precisamos compreender bem a televisão para aprender a lidar com ela e a melhorar sua pauta. Porém, melhorar a pauta implica uma ação direta: melhorar a sociedade. Contudo, ainda a intensidade mantém-se: meios→receptores. O teórico acredita mesmo que não se trata somente de um aprimoramento de um ponto de vista estético ou artístico, mas, sobretudo, de uma nova postura do telespectador: “(...) o esforço que se requer é em si mesmo de natureza moral, pois consiste em encarar com conhecimento de causa dos mecanismos psicológicos que atuam em diversos níveis com o propósito de nos converter em vítimas cegas e passivas” (trad. livre) (ADOR-

ria ser chamado a ideologia dominante do nosso tempo (trad. livre) (ADORNO, 1977, p. 241).

Outro efeito dessa cultura de massa, que mantém uma relação direta com a ideologia da cultura de classe média do passado, é o seu caráter conservador, controlador e dogmático. O autor defende que essas características tendem a favorecer reações automatizadas e a fragilizar a capacidade de resistência individual. Haveria uma falta de compreensão (alienação) das próprias condições e relações nas quais o indivíduo se encontra na existência do mundo. O segundo aspecto apresentado por Adorno (1977) como comum nos meios de comunicação de massa é a estrutura sociológica da audiência, que mudou profundamente. O autor considera que não existe mais a antiga “elite culta”. Agora vários estratos populacionais que não tinham contato com a arte foram convertidos em consumidores culturais. Esses novos consumidores costumam ser exigentes quanto à perfeição técnica e a exatidão das informações e parecem conhecer o seu potencial poder sobre os produtores (ADORNO, 1977). De certa forma, parece existir um incômodo “de classe” na análise de Adorno, exposto quando se admite o acesso e consumo da “não elite culta” – a modo de ilustração lembramos da crítica realizada pelo autor, comparando o Jazz e a música Culta (Clássica).

Um aspecto dessa ideologia que impregna a cultura de massa de hoje é que antes se vivia um equilíbrio entre a ideologia e as condições sociais concreta dos consumidores. Hoje, há um problema porque não há mais esse equilíbrio. A mensagem implícita dos meios de comunicação é dos valores conservadores de outrora, essa mensagem transforma esses valores em normas de uma estrutura social cada vez mais hierárquica e autoritária. As mensagens de adaptação e obediência impregnam o nosso cotidiano.
Quanto mais inarticulado e difuso parece ser o público da cultura de massa, maior a probabilidade dos meios de comunicação alcançarem a sua “integração”. Os ideais de conformidade e convencionalismo eram inerentes nos romances populares desde o início. Agora, porém, esses ideais foram traduzidos em prescrições bem claras sobre o que fazer e o que não fazer. O resultado dos conflitos é predefinido e todos os conflitos são farsa pura. A sociedade é sempre a vitoriosa e o indivíduo é apenas um fantoche manipulado pelas normas sociais (trad. livre) (ADORNO, 1977, p. 245 e 246).

Adorno explica que esse constante reforço dos valores tradicionais poderia significar o esvaziamento deles, mas não é bem assim. Trata-se mais propriamente de uma estratégia na medida em que quanto menos se crer na mensagem, e quanto menos ela está em harmonia com a existência dos espectadores, mas ela se mantém na cultura moderna.

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Pois bem, essas são características comuns aos meios de comunicação na cultura de massa e que, seguramente, estão presentes na televisão. Mais quais as características específicas que Adorno confere a esse meio de comunicação? Porque o autor reservou espaços para discuti-lo em profundidade? Adorno aponta três características próprias da televisão, que nos auxiliam a compor o quadro dos seus efeitos: a sua estrutura de várias camadas, a previsibilidade e a redução da sua narrativa em estereótipos. A primeira característica está ligada ao conteúdo que está explícito e ao que está oculto na televisão. Adorno não acredita que as mensagens de controle e dominação estejam tão evidentes para o público. Os meios de comunicação não representam para as massas apenas uma soma de ações, mas diversos estratos de significados superpostos. A mensagem da TV é impregnada de um pseudo-realismo: o conteúdo mais explícito é aparentemente mais realista e menos totalitário, mas ele funciona somente como uma estratégia para derrubar as barreiras para que o significado oculto se instale e conduza as reações do público: “Tem lugar uma clara divisão em gratificações permitidas, gratificações proibidas e repetição das gratificações proibidas, em uma forma um pouco modificada e desviada” (trad. livre) (ADORNO, 1977, p. 248). Esses múltiplos estratos de significados são, para o autor, estratégias do meio tecnológico para controlar a audiência. Alentando, dessa forma, uma passividade da audiência, isso não deixa de ser um entendimento da manipulação nos processos comunicativos massivos. A televisão está à disposição de um aparato dominador diante do qual as

estratégias desviantes da recepção não aconteceriam de forma espontânea. Somente a participação de algum outro (iluminado), provocaria um processo de possível resistência, porém carente, mantendo-se, não obstante, a maldosa condição da TV. A outra característica atribuída à televisão é a previsibilidade da sua tipologia de programas. O público já está familiarizado com a divisão de conteúdo em diversas classes, como: comédia, histórias românticas, de terror e etc. Esses gêneros se transformam em fórmulas que programam o espectador. Ou seja, ele supõe o que vai acontecer e como vai se sentir sem mesmo ter começado a assistir o programa. O autor defende que somente a televisão consegue transformar essas pautas em universais.
Na verdade, o pseudo-realismo permite a identificação direta e sumamente primitiva alcançada pela cultura popular; e apresenta uma fachada de prédios, salas, vestidos e rostos triviais como se constituíssem a promessa de que algo excitante e emocionante pode acontecer a qualquer momento (trad. livre) (ADORNO, 1977, p. 253).

Como última característica, Adorno discute a tendência à criação de clichês da televisão. Ela tende a deformar o mundo promovendo perigosas dicotomias, como bem/mal, ruim/bom e branco/preto. Embora considerando a importância dos estereótipos para organização e previsão da experiência, no caso da TV o autor pondera que eles são demasiados e endurecidos. O efeito perverso é que as pessoas perdem a sua capacidade de compreensão da realidade e de mudar de ideia.
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Considerações Finais As propostas de leituras, como chave de acesso a duas esferas interpretativas, sobre o meio (McLuhan) e mensagem (Adorno) permitem compreender as distinções entre esses autores. Tais distinções não são simplesmente performáticas, e sim com relação à matriz interpretativa dos processos comunicacionais. Vamos iniciar pelo primeiro autor: McLuhan. O entendimento do meio coloca no cenário um conceito de amplificação, não só no sentido do alcance (mais público), senão também – e principalmente – no que diz respeito a uma amplificação temporal e espacial - tecnológica. Isto é, um meio posterior avança com relação ao outro, porém não o anula, muito pelo contrário. Veja-se que haveria uma matriz de continuidade de significados (semioticamente falando), não unicamente de dispositivos mais avançados. Cabe dizer que estamos diante de uma proposta epistêmica que prima pelo reconhecimento de uma sociedade em ação contínua de significações. Se um dispositivo supera o outro, a superação não se dá pela aniquilação e sim pela dinâmica de acrescentar sentidos. Para Adorno, a mensagem está na cena principal da sua compreensão sobre a relação estabelecida no âmbito da comunicação de massa. A postura crítica desse pensador ancora-se justamente naquilo onde um aparato ideológico da indústria cultural amarra a sua força, i.e., na mensagem direcionada para um espectador que simplesmente exerce a sua função de testemunha de algo sobre o qual não pode exercer nenhum outro tipo de movimento. A

possível saída mantém a mesma linha de raciocínio, ela acontece de outro ato também alheio a esse espectador desconectado da realidade, por estar embrulhado pela mensagem A→B, a luz oferecida por aquele que pode e entende o que está por trás da máscara. A mensagem, nesta postura epistêmica, não é observada naquilo que entendemos como estratégias desviantes, muito pelo contrário. Há nesse sentido, uma concepção conservadora dos processos comunicacionais (mediáticos). É importante notar essas diferenças, porque ao falar mensagem, neste caso, ou meios, no anterior, ambos devem ser compreendidos como conceitos (i.e., processos epistêmicos, lógicos) e não meramente como termos que podem ser utilizados indistintamente. As diferenças entre os dois autores também são evidentes com relação ao caminho construído para pensar a Comunicação. Adorno, ao privilegiar a mensagem, segue o caminho da análise no sentido próprio da palavra, ou seja, decompondo cada parte desta, separando os elementos para compreender e desvelar seu conteúdo ideológico. As mensagens destrinchadas revelam o conteúdo repressor, controlador e manipulador dos meios de comunicação. A análise de conteúdo aliada a um quadro teórico próprio da dialética marxista permite ao autor encontrar as evidências desse conteúdo ideológico nos meios. Já McLuhan percorre o caminho do método histórico e comparativo, tentando observar o quadro atual de impacto dos meios a partir de um olhar para o passado que pode revelar os sinais dos efeitos macro e microssociais destes. A comparação com o efeito de outros meios de comunicação dá ao autor as
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pistas e os insights para pensar o “meio ambiente” que cada novo canal vai criando. É esse caminho que permite ao pesquisador afirmar que a televisão é uma experiência envolvente e em profundidade que estimula a participação. Já a era impressa, por exemplo, foi o predomínio do olho, da especialização, burocratização e individualização (SOUSA, 2009). A experiência da televisão para Adorno é o cenário do perverso já que os valores do seu conteúdo são conservadores e controladores. O enfoque na mensagem fez Adorno perceber o desfile de estereótipos disfarçados em conteúdos pretensamente criativos, mas que sempre traziam mais do mesmo. Acreditamos que os quadros de interpretação dos pesquisadores e suas distintas chaves de leitura do mesmo fenômeno não são opostos e sim profundamente complementares. Meio e mensagem são aspectos do complexo fenômeno do impacto dos meios de comunicação. Enfocar o meio é tentar ver o quadro mais amplo no sentido temporal e espacial. É valorizar efeitos mais duradouros e menos pontuais e passageiros e tentar dar um quadro analítico mais amplo sobre os processos que vivem as sociedades complexas. Valorizar a mensagem é não perder a importância da atualidade e considerar a relevância das demandas que nos desafiam no presente momento. Além disso, é trazer o debate político para o seio da pesquisa em Comunicação. O debate sobre a televisão que trouxemos para pensar o trabalho de Adorno e McLuhan talvez tenha mudado bastante. O próprio

McLuhan (1964) afirmou que quando a definição da imagem da televisão mudasse e melhorasse – e, portanto, já não exigisse tanto a participação do espectador – não deveríamos mais chamá-la de televisão. Seria outro meio, outra proposta, outro ambiente novo e singular. Já para Adorno, provavelmente, o que teríamos seria mais do mesmo. Em uma escala muito maior sentenciando, assim, o triunfo da Indústria Cultural. Para além de pensar como esse quadro teórico pode ou não responder às questões da atualidade, vale a pena destacar que o pensamento de Adorno e McLuhan seguramente têm influências profundas na pesquisa na nossa área, na medida em que compõem, provavelmente, o quadro das referências mais lido e citado. Portanto, rever a obra desses investigadores é compreender também o cenário e as perspectivas da atual pesquisa em Comunicação.

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Referências Bibliográficas
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McLuhan e Anísio Teixeira aproximações em torno da tecnologia

Resumo
O artigo estabelece aproximações sobre o conceito de tecnologia entre Marshall McLuhan e Anisio Teixeira. Utilizando o método bibliográfico é descoberto que Teixeria inspirou-se em McLuhan o seu conceito de tecnologia como extensões dos sentidos, incluindo a problemática dos valores com fundamento em John Dewey. Por fim, são feitas considerações sobre a atualidade desses autores. RAQUEL DE ALMEIDA MORAES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO (UNB) BRASÍLIA, DF, BRASIL RACHEL@UNB.BR
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Palavras chave
tecnologia, Marshall McLuhan, Anísio Teixeira

Introdução O objetivo deste texto é tecer algumas aproximações entre Marshal McLuhan e Anísio Teixeira em torno da tecnologia. Prefaciando, em 1969, o livro de McLuhan dentro de sua coleção: “A galáxia de Gutemberg”, Anísio Teixeira assim expressa:
A novidade dos nossos tempos tumultuados, com o início da era eletrônica em substituição à mecânica e tipográfica de nossa extinta era moderna pela maior transformação tecnológica de toda a história, será a de que vamos entrar na nova era tribal da aldeia mundial pelos novos meios de comunicação, mas agora em contraste com os nossos antepassados espontaneístas e semiconscientes, em estado de alerta, como diz McLuhan (McLuhan,1972, p.13)

McLuhan e a Tecnologia Para McLuhan (1988) os meios podem ser entendidos como extensões dos sentidos humanos. Para ele, o meio é a mensagem e significa “em termos da era eletrônica, que já se criou um ambiente totalmente novo. O “conteúdo” desse novo ambiente é o velho ambiente mecanizado da era industrial. O novo ambiente reprocessa o velho tão radicalmente quanto a TV está reprocessando o cinema.” (idem, p. 11-12) Para ele a humanidade está se aproximando da fase final da extensão do homem com a possibilidade da “simulação tecnológica da consciência pela qual o processo criativo do conhecimento se estenderá coletiva e corporativamente a toda a sociedade humana” (idem, p. 17). E pondera que se isso será bom ou não, é uma questão em aberto. Ao analisar a questão da linguagem e da tradução, Mcluhan argumenta que o computador, pela tecnologia, pode traduzir qualquer língua instantaneamente e que o próximo passo lógico seria não traduzir, mas “superar as línguas através de uma consciência cósmica geral, muito semelhante ao inconsciente coletivo sonhado por Bergson”. (idem, p. 99) Mais adiante ele argumenta: “Mas um computador consciente ainda seria uma extensão de nossa consciência, como um telescópio é uma extensão do olho, ou um boneco de ventríloquo é uma extensão do ventríloquo”. (idem, p. 394)

Pelo o que se pode apreender, Teixeira juntamente com McLuhan, foram entusiastas da tecnologia eletrônica e viam nela a possibilidade da entrada da humanidade na era da “aldeia mundial”, só que num estado de alerta. A seu ver, não mais como os antepassados “espontaneístas e semiconscientes”, mas ao contrário, conscientes e com planejamento das suas experiências, voltados para o benefício da própria humanidade. Vejamos com um pouco mais de detalhes as concepções desses filósofos, no que se assemelham e algumas das críticas a McLuhan quanto à tecnologia.

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McLuhan concebia a linguagem como tecnologia que translada o pensamento para a fala e é transladado por outras tecnologias no decurso da civilização: hieróglifos, alfabeto fonético, imprensa, telégrafo, fonógrafo, radio, telefone etc. Para Maria Isabel Nascimento (2001), MacLuhan via na evolução tecnológica um ator principal na vida social: “o que é dito é condicionado pela maneira como se diz. O próprio meio passou a ser a principal atração, a informação”. Com sua tese de aldeia global, o canadense trouxe para a educação um novo enfoque baseado nas teorias da comunicação, algo que só viria à tona nos anos noventa do século XX com a Educomunicação. Andrew Feenberg (2010, p. 205), por sua vez, vindica que MacLuhan percebia a tecnologia como “órgãos sexuais do mundo máquina”. Mas critica sua visão de tecnologia argumentando que ela é determinista assim como a de Marx.

Anisio Teixeira e a Tecnologia Segundo Anísio Teixeira, com a moderna intensificação do processo tecnológico, criou-se a “cultura tecnológica” que representa “mais do que tudo, o reino dos meios em contraposição ao reino dos fins e valores fundamentais da vida humana”. (Teixeira, 1971, p.19) [grifos do autor] Recorrendo a John Dewey quando afirma que “os meios são parcelas dos fins, não podendo, portanto, considerá-los neutros nem indiferentes” (idem, ibidem), Anísio Teixeira considera fundamental o estudo do processo cultural no intuito de assegurar a correspondência entre meios e fins de modo a ter seu controle. Em vista disso, afirma que: “Tal estudo é que poderá dar-nos consciência do processo da cultura sob que vivemos e de que somos hoje cegamente dependentes, e, pela consciência, a possibilidade de dirigir e orientar seu desenvolvimento”. (idem, ibidem) [grifos do autor]. No entanto, a separação entre o saber humanístico do saber científico foi motivada, segundo o filósofo e educador, por “causas que não foram intelectuais mas sociais” (idem, ibidem), especializou o cientista de tal modo “que ele próprio chegou a ser excluído do mundo do pensamento propriamente dito”, criando a “falácia das duas culturas do homem” (idem, ibidem). Indo mais longe do que a cultura humanista, a ciência pôs-se a serviço do sistema econômico dominante dando origem à
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indústria, “como solução do problema da produção, sem consideração a quaisquer aspectos humanos” (idem, p. 15). E continua:
Aliada ao sistema econômico dominante, criou as tecnologias que transformaram materialmente o mundo, tecnologias que, por sua vez, moldaram o homem para a fácil conformação às condições do sistema econômico que acabou por assimilar a ponto de incorporá-lo a sua segunda natureza (Ibid)

sa mesma cultura, que é a grande marca do seu pensamento liberal progressista.

Partindo das críticas de Whitehead ao ciclo fechado do pensamento positivo, pragmático e operacional da ciência moderna, Teixeira alerta sobre “o perigo de estarem as tecnologias limitando, senão destruindo, a inerente natureza transcendente e crítica do pensamento humano” (idem, p. 11). Diante disso, formula sua tese sobre a possibilidade da extensão do método científico ao processo cultural e, desse modo, à restauração da educação humanística do homem combinando autores como Raymond Williams (cultura), Marshal Macluhan (tecnologia) e John Dewey (educação). A partir dessas referências, Teixeira desenvolve uma concepção de educação que, ao mesmo tempo em que adapta, ajusta o homem à sua cultura, lhe fornece as bases para uma compreensão que ultrapasse os limites da pura especialização para o trabalho, tornando-o partícipe no controle, revisão e reforma des100

Considerações finais À guisa de comparação, temos que para esses autores a tecnologia assume diferentes nuances dependendo da concepção de homem e mundo em que se baseiam. Em McLuhan há uma fusão do humano com o tecnológico aproximando-se de um entusiasta das mídias (Mattelart, 2001) e do pós-humano, com o cyborg e a Internet (Rüdiger, 2007). Como entusiasta da mídias Mattelart, no entanto, critica McLuhan argumentando que ele, ao aproximar o significante do significado (meio e mensagem), conteúdo e forma, acaba por beneficiar o monopólio da forma, do meio sob o conteúdo, à mensagem (idem, p. 75). Outra crítica à McLuhan é a partir do geopolítico Brzezinski (1969 apud Mattelart 2002, p. 100) . Para este o canadense, ao se apoiar nas idéias de Teilhard de Chardin da “nova unidade mundial” da aldeia global, não percebe que ao invés de aldeia global assiste-se à formação de uma “cidade global”, isto é, “um nó de relações interdependentes, nervosas, agitadas e tensas, produtoras de anomia, anonimato e de alienação política” (idem, p. 100) Sobre essas críticas contemporâneas o próprio McLuhan argumenta que sua visão utópica da aldeia global não se aplica na atualidade. Para ele: “Village is fission, not fusiuon, in depth...The village is not the place to find ideal peace and harmony” (Gordon, 1997, p. 105). Traduzindo livremente: Aldeia

é fissão, não fusão, em profundidade... A aldeia não é o lugar ideal para encontrar a paz e a harmonia. Ele considera que as tribos têm maior potencial de unidade. Nesse sentido, para Josef Mikovec (2011), Geers (2011) e Xiangsui (1999), o movimento Zapatista está se mantendo na luta contra-hegemônica para se libertar da dominação mexicana e da alienação graças à Internet, e faz sua estratégia política considerando esse meio de comunicação eletrônica. Para Ronfeldt et al (2011, p. 27) os índios de Chiapas (Exército Zapatista de Litertação Nacional, EZLN) não querem tão somente a terra, como Marx suporia, mas buscam encontrar um meio de preservar sua comunidade e cultura. E vem na netwar (guerra eletrônica) um caminho para alcançar essa meta. Já Anísio Teixeira utiliza como referência evolutiva a tecnologia na comunicação teorizada por McLuhan ponderando, no entanto, sobre os riscos que há por estar subordinada ao mundo do poder econômico, aproximando-se, portanto, mais do humanismo como postura filosófica e educacional. Por fim, para Grosswiler (1996), o método de McLuhan era como o método dialético de Marx, não era mecânico nem determinista mas garimpava nos interstícios da interação midiática para alcançar a abertura da consciência e a autonomia. Embora discordasse da análise marxiana sobre a infraestrutura da economia capitalista determinar o avanço tecnológico da sociedade simbolizado pela indústria, MacLuhan propu101

nha os meios de comunicação determinando o desenvolvimento social, à semelhança do que Marx fazia com a economia. Essa é uma polêmica, no entanto, que desenvolveria numa outra oportunidade, dado a complexidade temática e o escopo deste Seminário que ora participo.

Referências
GORDON, W. Terrence. McLuhan for Begniners. London: Writers and Riders, 1997. GEERS, Kenneth. Sun Tzu and Cyber War. CCD CoE · February 9, 2011. Disponível em: http://www.ccdcoe.org/articles/2011/Geers_SunTzuandCyberW ar.pdf Acesso em 13/11/2011. GROSSWILER, P.. The Dialectical Methods of Marshall McLuhan, Marxism, and Critical Theory. Canadian Journal of Communication, North America, 21, jan. 1996. Disponível em: http://www.cjc-online.ca/index.php/journal/article/view/925/ 831. Data de acesso: 15/10/2011. NEDER, Ricardo. (Org.) A teoria crítica de Andrew Feenberg: racionalização democrática, poder e tecnologia. Brasília: CDS, 2010. MCLUHAN, Marshall. A galáxia de Gutemberg. Tradução de Leônidas Gontijo de Carvalho e Anísio Teixeira.São Paulo:EDUSP Companhia Editora Nacional. (Coleção Cultura, Sociedade, Educação, Direção: Anísio Teixeira), 1972. _______.Os meio de Comunicação como extensões do homem. Tradução de Décio Pignatari. São Paulo: Cultrix, 1988. MIKOVEC, Josef. Návraty do budoucnosti aneb tak to zase vyhrál Evo čili latinskoamerická renesance a autopoiesis. Disponível em http://www.noveslovo.sk/c/11420/Navraty_do_budoucnosti_a neb_tak_to_zase_vyhral_Evo_cili_latinskoamericka_renesance_a_ autopoiesis Acesso em 12/11/2011. MATTELART, Armand. História da Sociedade da Informação. São Paulo: Loyola, 2002.

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NASCIMENTO, Maria Isabel Moura. McLuhan. Revista Educação, nº 46, 10/2001. RONFELDT, John; ARGUILLA, Graham; FULLER, Melissa. The Zapatista "Social Netwar" in Mexico. Disponível em: http://www.rand.org/pubs/monograph_reports/MR994.html Acesso em 15/11/2011 RÜDIGER, Franscisco. Introdução às teorias da Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2007. TEIXEIRA, Anísio S. Cultura e Tecnologia. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1971. XIANGSUI, Qiao Liang and Wang.Unrestricted Warfare.Beijing: PLA Literature and Arts Publishing House, February 1999. Disponível em: http://www.missilethreat.com/repository/doclib/19990200-Lian gXiangsui-unrestrictedwar.pdf Acesso em: 13/11/2011.

Webgrafia
EZLN a Low Intensity Operations Ejercito Zapatista de Liberatión National Zapatistická armáda národního osvobození http://en.wikipedia.org/wiki/EZLN http://pt.wikipedia.org/wiki/Subcomandante_Marcos Geostrategie, geopolitika a mezinárodní vztahy http://en.wikipedia.org/wiki/Geostrategy Návraty do budoucnosti http://aulavirtualedemocracia.blogspot.com/2011/04/navraty-d o-budoucnosti.html

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Parte 3

APROXIMAÇÕES II

Muito além da interatividade: o olhar de McLuhan sobre as novas formas de ver o telejornalismo
ANA CAROLINA ROCHA PESSÔA TEMER

Marcas do narrador implícito numa aproximação conceitual com McLuhan
ALEXANDRE KIELING

Visão e atualidade das contribuições de McLuhan sobre a automação e os consequentes impactos nas organizações, na comunicação e no mundo do trabalho
JOÃO JOSÉ CURVELLO

Muito além da interatividade o olhar de McLuhan sobre as novas formas de ver o telejornalismo

Resumo
Os avanços tecnológicos provocam mudanças estruturais na sociedade e nos próprios meios de comunicação. A televisão, como meio de comunicação de massa, vem inserindo espaços dentro de sua programação para novas práticas centradas nas possibilidades de interação/interatividade o telespectador. Essas mudanças têm alterado o formato e o conANA CAROLINA ROCHA PESSÔA TEMER DOUTORA EM COMUNICAÇÃO SOCIAL PELA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO DA FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E BIBLIOTECONOMIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS, BRASIL ANACAROLINA.TEMER@GMAIL.COM teúdo do telejornal, e até mesmo a forma como os telespectadores “vêem” esse produto jornalístico. Este artigo faz uma análise ampla sobre as possibilidades que essas mudanças trazem para o telespectador, e em especial, como afetam a relação telejornalismo/cidadania.

Palavras chave
televisão, internet, telejornal, interatividade, cidadania
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“Qualquer inovação ameaça o equilíbrio da organização existente.” (Marshall McLuhan)

Sobre televisão: uma breve introdução Desde a criação da televisão o jornalismo esteve presente na programação diária das emissoras. No entanto, a dinâmica de uso destes espaços foi reconfigurada ao longo das décadas, passando por períodos de maior e menor prestígio, e por usos diferenciados das imagens e recursos tecnológicos diversos. O momento atual aponta para uma nova reconfiguração do espaço destinado ao telejornalismo, em um claro indicativo de que está ocorrendo um processo diferenciado na pela conquista e manutenção da audiência e principalmente, uma busca quase frenética retomada de um prestígio ou importância estratégica que as emissoras de televisão percebem que está lentamente se deslocando para outros setores, como a Internet e até mesmo as Redes Sociais. No mundo atual, falar a notícia, a informação, é um capital precioso e volátil, e a transmissão de novos dados em tempo real não apenas virou sinônimo de bom jornalismo, como também se tornou elemento fundamental para credibilidade e prestígio do telejornalismo, estratégia essencial para o telejornalismo buscar seduzir uma audiência cada vez mais sabe, em geral via internet, os principais assuntos do dia. A rede mundial é sinônima de um mundo que se move em alta velocidade, no qual o ontem é um passado longínquo, e in-

formação esta acessível em tempo real em cada esquina, por meios cada vez mais portáteis e de baixo custo. A questão é: como esses novos meios estão impactando no telejornalismo? Como este modelo já tradicional de transmissão de informações jornalística está se adaptando a essas mudanças, inclusive utilizando, de forma instrumental, estes novos meios? Quais são as novas faces do telejornalismo em tempos de internet, redes sociais e twitters? Não são perguntas fáceis de serem respondidas. E, ainda mais grave, o futuro aponta para a radicalização deste cenário. De fato, uma pesquisa feita pela Microsoft sobre o comportamento do consumidor de internet europeu, divulgada em abril de 2009 em vários sites1, indica que a rede já superou a televisão em número de usuários/horas de uso. Apesar de todas as especificidades do Brasil, seria ilusão que a audiência brasileira segue em outro sentido. No Brasil, assim como em várias partes do mundo, os jovens estão cada vez mais “ligados” na Internet, e fascinados pelas tecnologias de última geração. De olho nessa mudança de comportamento, as emissoras de televisão brasileiras de sinal aberto – apenas para fazer um recorte - vêem investindo em sites e em outros elementos que possibilitem um link entre a sua programação os usuários das redes – (web, redes sociais, twitters). Essa relação se estende para o telejornalismo, que tem buscado se adaptar a esses novos recursos, tanto no que diz respeito a estratégias para a pro____________________ 1 www.bit.pt, www.fábricadeconteudos.com

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dução de conteúdos como também – ou principalmente – como elemento para conquistar os receptores mais jovens ou mais equipados em recursos para acessar as redes. Neste texto, iremos analisar algumas destas práticas, entendoas como estratégias que criam novos espaços para que os telespectadores interajam de forma diferenciada com os telejornais, mas também buscando compreender se essa interação/ interatividade efetivamente cria condições para uma comunicação dialógica, que efetivamente muda o caráter do telejornalismo, eventualmente abrindo espaço para que questões ligadas ao interesse público e à cidadania tenham mais destaque e/ou sejam tratadas de forma diferenciada. Ou ainda, se as novas tecnologias interativas apontam caminhos para efetivas mudanças no telejornalismo nacional.

Sob o olhar de McLuhan e da Escola Canadense Mas se estamos falando de tecnologia, e principalmente, se estamos questionando como a tecnologia afeta aos indivíduos e as relações sociais convêm olhar para a tecnologia a partir de um olhar específico, um olhar que, apesar de já não ser novo, ainda tem algo ao mesmo tempo sedutor e assustador: o olhar de McLuhan. A preocupação com os efeitos dos próprios meios de comunicação como tecnologia foi uma questão colocada de forma tardia nos estudos da mídia. O pioneiro nessa corrente foi Harold Adams Innis, mas sem dúvida Marshall McLuhan, um canadense, historiador da economia, que partia do princípio segundo o qual a principal força da transformação cultural são as transformações ocorridas nas tecnologias e, principalmente, nas tecnologias da comunicação, deu novo impulso aos questionamentos sobre essa relação. McLuhan foi um fenômeno no seu tempo, mas o seu legado foi em muitos momentos mal compreendido e/ou marcado por leituras superficiais. Visto com maior aprofundamento, seus escritos revelam um pesquisador com sólida formação humanista e grande estudioso de retórica. Na visão do autor os meios – ou seja, tudo aquilo que cria vínculos entre dois ou mais indivíduos – são os elementos que determinam os processos de comunicação e a própria articulação social. Neste processo, o desenvolvimento de cada um dos meios de comunicação – que em essência nada mais são do que extensões do sistema nervoso humano – exerce um
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tipo de influência decisiva na ação social do indivíduo e na própria estruturação social, transformando o modo de o homem entender a si mesmo. Focado nesta perspectiva, a preocupação central de McLuhan era entender o papel dinâmico das mídias e das tecnologias, que por sua vez são vistas como meios que articulam o processo básico da construção histórica da sociedade. McLuhan não apenas analisa os meios a partir de sua ligação com as transformações antropológicas e simbólicas, como também trabalha a partir de uma perspectiva diferenciada da história, atribuindo à cultura um papel semelhante a um “espelho retrovisor”, uma vez que se fundamenta no olhar da tradição, do passado, do que tende a ser conservador, enquanto as novas tecnologias apontam para a mudança e a transformação não apenas das técnicas, mas da própria vida social. McLuhan não estava solto no tempo e no espaço, ao contrário, dialogava com outros autores de sua época, inclusive com pesquisadores de outras esferas do conhecimento. Assim, na mesma época em que Einstein buscava entender a relação tempo/ espaço na teoria da relatividade, McLuhan também procura entender como os meios estruturam essa relação e, ao modificá-la, estruturam (desestruturam, re-estruturam) também a maneira como o homem organiza o seu raciocínio e a sua vida. Para McLuhan, o ambiente criado pelo homem, condicionado pela tecnologia que ele domina, é a sua segunda natureza: “o

homem é perpetuamente modificado por ela [tecnologia], mas em compensação sempre encontra novos meios para modificá-la” (McLUHAN: 2002, p. 65). Em função disso, esse autor desloca os estudos de comunicação da questão do conteúdo das mensagens para o estudo dos meios, invertendo a maneira de olhar da Teoria Crítica (TREMBLAY: 2003), vendo a tecnologia e a forma como o homem passa a lidar com essa tecnologia, e especialmente com as tecnologias da comunicação, como fator fundamental ao processo histórico. Os meios de comunicação reajustam psiquicamente os indivíduos, são tecnologias da inteligência, cuja compreensão é o ponto central da organização social. Toda tecnologia é também um “ambiente” um ordenador cultural que afeta tanto o corpo quanto as mentes. “Os ambientes não são envoltórios passivos, mas processos ativos” (GOMES: 1997, p. 118-119). São os meios, e não os conteúdos, que modificam a sociedade. Ainda que “todos os meios existam para “...conferir as nossas vidas uma percepção artificial e valores arbitrários” (McLUHAN: 2002, p. 224), cada meio tem uma dinâmica própria, uma vez que nenhum meio existe por si só, ele usa e se apodera dos conteúdos de outros meios, em um processo que modifica as possibilidades de utilização do novo meio, mas que também altera os usos sociais do meio já existente.

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E é justamente neste ponto que a relação dos novos meios com o jornalismo, e especificamente com o telejornalismo, torna-se um elemento ao mesmo tempo sedutor e angustiante. Sedutor porque traz promessas de uma interatividade antes impossível, de avançar no “ouvir o público” e prestar novos e melhores serviços. Mas também angustiante porque a prótese técnica que é inserida no processo, essa nova extensão do corpo, causa a mesma dor de uma amputação: o corpo conhecido se torna desconhecido, oferecendo limites e possibilidades que o seu usuário deve, eventualmente de forma dolorosa, testar.

O que é jornalismo? Ainda que nenhuma atividade seja mais representativa da modernidade do que o Jornalismo, é difícil relacionar seu estudo, que de muitas formas se construiu sobre bases empiristas e funcionalistas, a visão de McLuhan sobre as mudanças sociais decorrentes das tecnologias. A imprensa, como nós a construímos no nosso imaginário atual, tem como base valores como a busca permanente pela verdade, o questionamento de todas as autoridades e todos os mitos, a luta pela transparência nas ações do estado, a confiança no progresso e no próprio se humano (Marcondes Filho: 2000, p. 9). O jornalismo é tudo que se opõe ao atraso, ao obscurantismo, ao que dúbio ou secreto. O jornalista é um comunicador, mas é também um profissional da informação, indivíduo inserido em um processo produtivo ao mesmo tempo organizado e direcionado, ordinariamente inserido em uma organização empresarial cuja finalidade principal é o lucro, e que não vacila em utilizar tecnologias que racionalizem economicamente o processo de produção. Não é surpreendente, portanto, que a atividade profissional caminhe em paralelo com as mudanças tecnológicas, apresentando-se e inserindo-se com desenvoltura em cada novo meio de comunicação que alcança um mínimo de atenção dos receptores. Um olhar mais atento, no entanto, verá que a cada novo meio, a cada nova tecnologia, o jornalismo se adapta, se modifica, se reconstrói, em um processo que reconstrói não apenas a
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própria atividade profissional – o jornalismo -, mas também os jornalistas e as expectativas e comportamentos dos receptores. De fato, cada nova possibilidade tecnológica representa também uma nova possibilidade de articulação interna de um sistema que, ao mesmo tempo em que expõe a pluralidade de opiniões, também controla a exposição dessas opiniões. Cada nova tecnologia representa também uma nova possibilidade de acesso à informação, e a cada nova possibilidade cresce no receptor a falsa sensação de que desfruta incondicionalmente dos benefícios resultantes da liberdade de expressão. No entanto, é inegável que o jornalismo “... via de regra, atua junto com grandes forças econômicas e sociais: um conglomerado jornalístico raramente fala sozinho.” (MARCONDES FILHO: 1989, p.11). Desta forma, mesmo tempo compromisso com a informação verdadeira e atual, os veículos jornalísticos também buscam defender seus próprios interesses. Neste sentido, a vantagem oferecida pelos novos meios, pelas novas tecnologias, está em proporcionar aos produtores de informações – grandes ou pequenos_ melhores condições de publitizar seus próprios pontos de vista, oferecendo aos leitores um maior leque de possibilidades de acesso a/as informação/informações.
____________________ 2 Para Marcondes Filho (2002) o primeiro jornalismo nasce com a Revolução Francesa, a partir do ideal de trazer racionalidade os acontecimentos e expor a verdade. O segundo é o embrião do modelo de jornalismo moderno: o início do jornal como empresa capitalista e do jornalismo que valoriza a imparcialidade e o interesse público. O terceiro jornalismo surge no século 20, quando ele assume características de monopólios. O quarto jornalismo é o da era tecnológica.

Este novo jornalismo, que Marcondes Filho (2002) define como quarto jornalismo2, é resultante de processos que tiveram início por volta dos anos 1970, que se acoplam a expansão da indústria da consciência no plano das estratégias de comunicação e persuasão dentro do noticiário e da informação. Esse modelo é marcado pela inflação de comunicados e de materiais de imprensa fornecidos por agentes empresariais e públicos (assessorias de imprensa) eventualmente depreciando-a informação “pela overdose”. O modelo também é marcado pela perda de importância da informação jornalística, e do próprio jornalista, que passa a competir com “...sistemas de comunicação eletrônica, pelas redes, pelas formas interativas de criação, fornecimento e difusão de informações” (MARCONDES FILHO: 2002, p. 30). Especificamente quando falamos de telejornalismo, falamos também de um processo de comunicação que envolve mais de uma etapa, em uma relação híbrida de apreensão da realidade e representação dos acontecimentos atuais (os fatos) à sociedade. Estas ações, cuja simplicidade aparente escondem tramas complexa de atividades profissionais especializadas, é diretamente afetada pelas mudanças tecnológicas. O modelo de telejornalismo como conhecemos hoje, com múltiplas reportagens e várias entrevistas, só se tornou possível em função da portabilidade dos equipamentos de filmagem. Mudanças mais recentes, como elementos facilitadores da transmissão ao vivo em tempo real e a edição não linear,
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também tem afetado em maior e menor grau o conteúdo do telejornalismo. Da mesma forma, ainda que nem todas as emissoras e todos os telejornais tenham aderido incondicionalmente às novidades, sem dúvida que as possibilidades de interação em tempo real via internet já afetam o modo de fazer o telejornalismo. A preocupação das emissoras com os novos meios fica clara também em outras ações: os sites dos telejornais são cada vez mais elaborados tanto em termos estéticos quando em navegabilidade, e os conteúdos estão sendo disponibilizados cada vez mais rápido ou até mesmo tempo real (paralelamente a transmissão pela TV). Todos estes recursos criam não apenas novas possibilidades de acesso a informação, mas também novas possibilidades de indivíduos ou grupos sociais interagirem – mandarem suas mensagens, mostrar a sua presença e interesse – aos produtores dos telejornais. Essas ações, evidentemente, afetam o próprio jornalismo como ator social, criando novas relações de força (relações de poder) não apenas entre os produtores e consumidores de produtos jornalísticos, mas nas relações de força/poder entre o jornalismo e a sociedade. Neste sentido, ainda que tenham proliferado trabalhos que analisam o jornalismo a partir das ações profissionais e o conteúdo do jornalismo, é necessário rever também como as tecnologias afetam as relações do jornalismo como instituição social, como alimentador dos processos agente ativo na vida da sociedade.

Nesta perspectiva é necessário rever também rever o jornalismo a partir do olhar de McLuhan, entendendo que as novas tecnologias não representam “a morte da notícia”, mas abre espaço para que a atividade atue não apenas em novos espaços, mas também desenvolva novos papeis. Igualmente importante é acrescentar que o jornalismo, como reflexo do comportamento da própria sociedade na modernidade, absorveu as tecnologias sem racionalizar esse processo.
A adoção de computadores, sistemas de rede, acesso on line à Internet, fusão e mixagem de produtos na tela conduziram as empresas jornalísticas a uma reformulação completa de seu sistema de trabalho, adaptando em seu interior a alta velocidade de circulação de informações, exigindo que o homem passasse a trabalhar na velocidade do sistema (MARCONDES FILHO: 2003, p. 36).

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Sobre o conteúdo do (novo?) jornalismo O telejornalismo mudou, mas a questão é: mudou para melhor? Antes de responder a essa pergunta, é importante fazermos algumas reflexões. A verdade é que, para a maior parte dos estudiosos da área, o telejornalismo nunca foi marco de qualidade de informação jornalística. Ainda que tenha apontado para uma grande massa de indivíduos sem o hábito da leitura do jornal impresso a importância da informação, o telejornalismo brasileiro sempre esteve atrelado a interesse das grandes empresas de mídia, ou até mesmo a interesses do Estado. O indivíduo, o público receptor, foi tratado como audiência; sua voz só passou a ser motivo de preocupação quando a queda desta audiência – que aconteceu em parte por motivos econômicos e estruturais - começou a incomodar. Neste sentido, a principal preocupação nas redações não são as mudanças estruturais e sociais que as novas tecnologias podem trazer, mas se a tecnologia pode estar trazendo de volta para as redações uma proximidade com o público que havia sido perdida e/ou diluída nas rotinas produtivas das redações desde o processo industrial. Ou, em outras palavras, se a tecnologia pode trazer/manter/conquistar uma boa audiência para o telejornal. Aliás, como a redação dos telejornais de sinal aberto está cada vez mais consciente que parte do publico migrou para outros veículos e para as emissoras codificadas (cabo ou satélite) a palavra de ordem é usar buscas novos espaços de interatividade (real ou não)

que conquistem o público C, a fatia alvo para qual os produtores hoje voltam seus olhares ambiciosos. Mas antes de se deter sobre essas estratégias, no entanto, é importante analisar se no ambiente de convergência tecnológica o fazer jornalístico sofre impactos tanto em seu aspecto teórico quanto na ética de seu exercício profissional. De fato, a inserção da tecnologia aproxima cada vez o jornalismo de outros modelos de comunicação mediada e consequentemente o afasta da informação, da neutralidade e da imparcialidade que, em tese, é característica do jornalismo. A emergência dos novos meios aponta para um destronamento do jornalista da sua “a tendência de apoiar-se em si mesmo” (WOLTON: 1991), forçando-o a se relacionar-se com o mundo e suas exigências estéticas que antes não prevaleciam: a notícia deixa de se impor a partir do interesse implícito que carrega consigo: “agora é preciso fazer significar ao destinatário que se tratada dele” (MARCONDES FILHO: 2002, pág. 39).

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Internet, televisão e interatividade Os sistemas tecnológicos complexos de comunicação e informação afetam não apenas o jornalismo, mas exercem um papel estruturante na organização da sociedade e da nova ordem mundial (MATTELART E MATTELART: 2002). Não há como separar os avanços tecnológicos da compreensão de como a sociedade se organiza e age: “na época atual, a técnica é uma das dimensões fundamentais onde está em jogo a transformação do mundo humano por ele mesmo” (LEVY: 1993, p.7). Na análise do jornalismo essa separação fica ainda mais difícil. Vivemos na sociedade midiatizada e mediada pelos meios, na qual todos os acontecimentos cotidianos estão sempre passíveis de se tornar públicos: as redes sociais, as propostas de transparência do Estado, as relações virtuais cada vez mais constantes, criam possibilidades para se conhecer detalhes da vida de indivíduos que, em outro momento histórico, seria inacessível. Todos os assuntos, importantes ou não, estão dispostos e explicados em milhares de site na Internet, dando a impressão de que nada mais é secreto ou desconhecido. É verdade que a pauta das conversas diárias (ainda?) passam, quase sempre, pelo que foi divulgado na TV e nos jornais. Mas a perspectiva mudou. Em um estudo realizado este ano no Campus da UFG comprovou-se que a maior parte dos estudantes tiveram acesso à informação sobre a morte do líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden pelos veículos tradicionais de jor-

nalismo3. Da mesma forma, um estudo do mesmo grupo de pesquisa, mas do ano anterior, mostrou que os jovens estudantes de jornalismo não acompanhavam diariamente os telejornais, e mesmo quando o “viam”, ele atuava como pano de fundo para outras atividades4. Estes são apenas alguns dos estudos que apontam que, no mundo onde proliferam informações, a importância do jornalismo não está simplesmente em mostrar os fatos, mas em mostrar como compreendê-los, em classificá-los, sistematizálos, hierarquizá-los. Além disso, o telejornalismo atual já não se limita ao modelo tradicional de transmissão de informações, e tem voltado os seus esforços para o jornalismo diversional e a prestação de serviços. De fato, alguns telejornais – como é o caso do Jornal Hoje, da Rede Globo de Televisão – tem se especializado em assuntos mais leves, aparentemente voltados para as donas de casa, com dicas de culinária, moda e lazer. Da mesma forma, tem sido significativa a presença do material voltado para “ensinar alguma coisa”, sejam em matérias direta ou indiretamente ligadas aos direitos do consumidor, sejam aspectos específicos do serviço público, reforçando a relação do telejornalismo com a cidadania. Mas isso não é tudo, pois a relação da televisão com meios como a internet e o twitter exigem um olhar mais complexo. E
____________________ 3 TEMER, Ana Carolina Rocha Pessôa. Bin Laden e a morte da notícia - Trabalho apresentado no GT – Jornalismo do XI Congresso Lusocom, realizado de 4 a 6 de agosto de 2011. 4 TEMER,A. C. R. P. . Espiando a notícia: a recepção do Jornal Nacional por jovens estudantes de jornalismo. In: BARBOSA, Marialva; MORAIS, Osvando J de. (Org.). Comunicação, Cultura e Juventude. 01 ed. São Paulo: Intercom, 2010, v. 01, p. 183-212

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neste olhar é necessário considerar também até que ponto na incorporação das tecnologias, as novas mídias surgem com a promessa de serem espaços democratizantes porque ampliam o acesso à informação, e principalmente, na elaboração/construção da informação. Neste sentido, o mais recente questão mágica que de tempos em tempos assombra os estudiosos, é a interatividade. Mas o que é interatividade? No Brasil a expressão surge a partir do neologismo inglês interactivity, e é utilizada para principalmente para denominar uma qualidade específica da chamada computação interativa (interactive computing). A denominação, no entanto, era insuficiente clarificar a qualidade da modificação na relação usuário-computador resultante da incorporação de periféricos que permitiam acompanhar, em tempo real, os efeitos das intervenções do usuário. Da mesma forma, dado a intervenção mediada, essa nova relação não constituía uma interação, uma vez que o termo remete a noção de contato interpessoal. Para enfatizar essa diferença passouse a usar a expressão 'interatividade', aceitando-se que o adjetivo interativo um qualificador de interação em seu sentido amplo. Portanto, interatividade é caráter ou condição de interativo, é a capacidade de interagir ou permitir interação. Apesar de ser uma expressão que ganhou notoriedade com o surgimento da internet, a interatividade também pode ser discutida dentro dos meios de comunicação tradicionais. De fato, os processos interativos estão presentes em diferentes estân-

cias na comunicação mediada, mas somente a expressão interatividade se torna mais aplicável quando há uma “intervenção permanente sobre os dados”, ou seja, um tipo especifico de interação quantitativamente e qualitativamente mais significativa, ou pelo menos significativo o suficiente para alterar a relação predominantemente unidirecional que caracterizada os processos de comunicação mediados anteriores a disseminação dos computadores pessoais. Partindo desses significados, há interação na televisão quando o telejornal abre espaço para o cidadão se manifestar enquanto o telejornal está sendo veiculado, e essa manifestação também veiculada dentro do telejornal. Ou seja, jornalista e cidadão exerceram uma ação mutuamente. No entanto, é importante observar que a interatividade não corresponde necessariamente a uma resposta genuína dos membros da audiência, uma vez que o poder comunicativo não está dividido de forma igualitária. Neste sentido, a participação do telespectador dentro do telejornal pode ser reativa, uma vez que sua ação está limitada pelos profissionais de redação. Desta forma, os dispositivos interacionais midiatizados, ou desenvolvidos em zonas de incidência da midiatização são flexíveis, mas não plenamente acessíveis para os receptores. Consequentemente, tendem a ser rápidos e superficiais.

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As tensões entre televisão, telejornalismo e interatividade O diálogo entre comunicação e cidadania ganha fôlego novo a partir das novas tecnologias da comunicação. Isso porque “os efeitos da tecnologia não ocorrem aos níveis das opiniões e dos conceitos: eles se manifestam nas relações entre os sentidos e nas estruturas da percepção, num passo firme e sem qualquer resistência.” (MCLUHAN: 2002, p. 34). As mídias digitais e as possibilidades da interatividade afetam diretamente a relação das mídias tradicionais com o seu público e com o modo de produzir e/ou fazer telejornalismo. A partir das novas possibilidades oferecidas pela computação, pela telefonia móvel e acessível, já não é possível pensar mais dentro da lógica homogeneizante da sociedade de massas, da imprensa unidirecional elaborada a partir da lógica da produção industrial. As novas possibilidades tecnológicas mudam o conteúdo dos telejornais, mas, sobretudo, afetam as expectativas dos receptores e os usos que os receptores fazem deste conteúdo. Neste sentido, convém perguntar: se as tecnologias mudam as condições de interatividade dos receptores com as mídias, como fica a relação do telespectador com a telejornalismo? A elaboração desta resposta exige que se reveja as diferenças entre os conceitos de conceito de público/audiência para, somente a partir do seu entendimento, compreender melhor o telespectador do jornalismo produzido para a televisão.

O termo audiência ganhou destaque nos estudos de comunicação a partir da década de 1980, conforme destaca Orozco (2006), ao assinalar que o público deixa de ser visto como alienado diante dos meios de comunicação e passa a ser compreendido como um ente capaz de agir e reagir. Público ou audiência é um coletivo de telespectadores que, por razões variadas se conectam a certa programação ou programa de televisão, movidos pelo interesse em assimilar determinados temas ou conteúdos que satisfaçam seus interesses sociais, políticos ou culturais, ou as necessidades específicas de lazer ou busca por satisfação, a partir de escolhas subjetivas mas condicionadas pelos seus valores e percepções do mundo. A audiência, portanto, não é uma massa homogênea, mas um público com interesses direcionados, que só responde aos estímulos dos produtores se estes compreenderem o contexto cultural, social e econômico no qual estão inseridos. No Brasil, pensar a audiência significa pensar também nas características históricas da televisão brasileira, no seu passado fortemente influenciado por interesses comerciais, pela qualidade estética de suas produções, pelo seu vínculo estreito com o lazer. Em função disso, a tensão na relação do veículo com seu público, é que, para os empresários da televisão, a audiência só é válida quando formada por consumidores em potencial.
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Esta é a importância maior da comunicação em um sistema produtivo: transforma a população em mercado ativo de consumo, gerando a disposição ao consumo, relacionando cada bem, produto ou serviço ao extrato social a que está destinado, atingindo simultaneamente a todos os extratos e imprimindo maior agilidade ao mecanismo produtivo. (In KEHL: 1986, p. 205).

mágicas de conquista do público. A mais recente destas receitas mágicas, é a interatividade. Mas nem mesmo a interatividade é resposta a todos os problemas – ou todas as mudanças e necessidades de adaptações que a televisão tem que enfrentar. De fato, é importante considerar que, embora tenham se passado mais de 60 anos da chegada da televisão no Brasil, o comportamento dos produtores de televisão e do telejornalismo frente ao receptor não mudou expressivamente. Todas as ações continuam voltadas para a conquista cega dos números, para o aproveitamento das tecnologias como forma de deslumbrar o telespectador e manter alto o número de aparelhos ligados. O interesse pelo cidadão está esta em segundo plano, aliás, em alguns casos nem mesmo está nos planos, não interessa à programação. Mesmo nos momentos em que a televisão usa termos como jornalismo cidadão ou cidadania, ou se direciona ao cidadão com algum pretexto, o faz na expectativa transformá-lo em audiência, de cativá-lo. Essa relação é comprovada a partir da estratégia que a TV em se apoiar nas pesquisas para definir sua grade de programação e, principalmente, a se colocar como mediadora dos conflitos e questões do público ao tratar dos assuntos pertinentes à cidadania como saúde, segurança, emprego, entre outros. Neste sentido, a interatividade oferecida hoje aos receptores – e que tem vínculos estreitos com a cidadania, está limitada aos registros das possibilidades. Para ser assegurada, para efe116

No entanto, o consumo de produtos (anunciados exaustivamente pela publicidade) quanto de bens simbólicos (comportamento, visão de mundo, etc.) nem sempre pode ser diagnosticado previamente, ou elaborado de forma a produzir, sem margem de erros, resultados específicos. Sabemos hoje que nem o público consome tudo o que vê na TV, nem a televisão expõe de forma clara todos os seus interesses e produtos5, mas na sociedade moderna fica difícil trabalhar com a hipótese de que há uma ingenuidade de parte a parte nesta relação. O planejamento e o conhecimento dos interesses do público – para não falarmos das estratégias de uso da televisão adotadas pelo público – não suprimem, no entanto, o caráter imprevisível desta relação. Entre as previsões anunciadas que se concretizam se alojam também reações inesperadas para as quais os pesquisadores buscam explicações posteriores. Ainda que conscientes disto, os planejadores também são movidos por pautas coletivas, por modismos específicos e por pretensas soluções
____________________ 5 Um exemplo disso são as reportagens que criam expectativas sobre jogos e disputas esportivas que a própria emissora vai transmitir.

tivamente assumir uma dimensão de inclusão do cidadão, essa interatividade obrigatoriamente deveria conferir a todo membro da sociedade o igual direito de ser plenamente representado, de ter acesso aos meios e da participar da vida em comum e das decisões coletivas de forma plena.6 Quando consideramos que somente podemos pensar no indivíduo enquanto cidadão quando, além de ter a liberdade de forma plena, alcançando não somente os seus direitos civis e sociais, mas também conquistando a condição de interferir ou participar em todos os âmbitos da vida em sociedade – aí, incluído na própria agenda dos meios – verificamos que a “interatividade” hoje oferecida aos telespectadores do telejornalismo não assegura o direito de acesso do cidadão e de suas organizações coletivas aos meios de comunicação social na condição de emissores – produtores e difusores – de conteúdos, e portanto não assegura os processos de cidadania que deveriam ser inerentes a interatividade. Desta forma essa interatividade é antes uma estratégia (pouco efetiva) de busca pela audiência. Seu equivoco, aliás, está justamente em voltar-se para um público que já não aceita estratégias, pois busca espaços onde possa se exprimir como cidadão. Isto não quer dizer que a televisão não tenha mudado, não esteja mudando, mas aponta a imensa dificuldade dos produtores de televisão, entre eles os próprios jornalistas responsáveis pelo telejornalismo, em aceitar as mudanças que as mudanças trazi____________________ 6 Este trecho remete ao próprio conceito de cidadania, conforme definido na obra de Gentilli (2005, p. 93)

das pelas novas mídias vão além do instrumental. Para esses produtores é muito bom que o computador seja uma “maquina de escrever” mais eficientes, que o telefone celular substituía os ruídos e interferências dos rádios ponto a ponto acoplados aos carros de reportagens, que as fermentas de busca permitam que os arquivos desocupem espaços. Mas é só isso. O que parece estar fora de sua visão são as mudanças estruturais que estes equipamentos trazem consigo. Que frente em frente a “velha tela da televisão” existe um novo telespectador, uma nova audiência, um novo público, que já desequilibrou a organização do modelo televisivo atual. No entanto, o próprio McLuhan vê a audiência como uma elemento ativo, e seguindo essa visão produtores devem se conscientizar que a opção não é mais convencer esse público de que a televisão é moderna e interativa, nem mesmo buscar elementos de multimídia. Ou a televisão muda de fato a sua relação com a audiência e se insere em uma relação transmidiática, na qual a soma da televisão com a internet não é apenas uma mudança de ambiente, mas na criação de uma nova ambiência que exige modelos de narratividade diferentes dos modelos até então utilizados na televisão ou mesmo na internet, - ou a audiência irá migrar para espaços onde possa se expressar de forma mais completa. O que, aliás, já está acontecendo...

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Referências
COSTA, Alcir Henrique da, SIMÕES, Inimá Ferreira e KEHL, Maria Rita. Um país no ar: a história da TV Brasileira em 3 canais. São Paulo: Brasiliense/ Funarte,1986. GENTILLI, Victor. Democracias das Massas: jornalismo e cidadania – estudo sobre as sociedades contemporâneas e o direito do cidadão a informação. Coleção Comunicação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2005. Gomes, Pedro Gilberto. Tópicos De Teoria Da Comunicação. São Leopoldo: Unisinos, 1997. LEVY, Pierre. As tecnologias da Inteligência – o futuro da inteligência na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. MARCONDES FILHO, Ciro. A saga dos cães perdidos. Comunicação e Jornalismo. São Paulo: Hacker, 2000. MARCONDES FILHO, Ciro. O capital da Notícia – Jornalismo como Produção Social da Segunda Natureza. 2º ed. São Paulo: Ática, 1989. MARCONDES FILHO, Ciro. O Espelho e a Máscara – O enigma da comunicação no caminho do meio. São Paulo: Discurso Editorial, Editora Unijuí, 2002. MARCONDES FILHO, Ciro. A produção social da loucura. São Paulo: Paulus, 2003. MATTELART, Michèle e MATTELART, Armand. História das Teorias da Comunicação. 9º ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005. McLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. (Understanding media). 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2002.

OROZCO, G.G, Comunicação Social e mudança tecnológica: um cenário de múltiplos desordenamentos. In: MORAES, Dênis de (org). A sociedade midiatizada. Rio de Janeiro, Mauad, 2006 TEMER, Ana Carolina R. P. Espiando a notícia: a recepção do Jornal Nacional por jovens estudantes de jornalismo. In: BARBOSA, Marialva; MORAIS, Osvando J de. (Org.). Comunicação, Cultura e Juventude. 01 ed. São Paulo: Intercom, 2010, v. 01, p. 183-212. TEMER, Ana Carolina R. P.. Bin Laden e a morte da notícia - Trabalho apresentado no GT – Jornalismo do XI Congresso Lusocom, realizado de 4 a 6 de agosto de 2011. TREMBAY, Gaetán. De Marshall macluhan a Harold Innis ou da Aldeia Global ou Império Mundial. Porto alegre: Revista Famecos, n. 22, dez.2003.

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Marcas do narrador implícito numa aproximação conceitual com McLuhan

Resumo
O presente artigo ocupa-se de uma primeira reflexão diante das experiências narrativas operadas no âmbito do projeto de pesquisa de conteúdos digitais interativos e transmidiáticos abrigado no mestrado em Comunicação da Universidade Católica de Brasília. À luz das perspectiALEXANDRE KIELING DOUTOR EM COMUNICAÇÃO PROFESSOR E PESQUISADOR DO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA DISTRITO FEDERAL, BRASIL ALEXANDREK@UCB.BR vas de McLuhan, busca-se uma análise das incursões com uso da tecnologia digital nos cruzamentos de linguagem e códigos da Internet e TV. Promove-se uma aproximação com o entendimento de que na transmidialidade a tecnologia pode se inscrever como narrador implícito.

Palavras chave
narrador implícito, tecnologia, ambiência, transmidialidade
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1 Os pressupostos de McLuhan Nosso exercício de reflexão recorre a três pressupostos encontrados nos postulados de McLuhan: (a) a ideia de implicação sociocultural que cada nova tecnologia produz; (b) a noção de ambiente; e (c) a perspectiva de decorrência e interligação de um meio em relação ao outro. Este último, do nosso ponto de vista, a partir dos processos comunicacionais e da construção textual.

1.1 O primeiro pressuposto O pensador canadense destacava nos anos 1960 que nenhum meio ou tecnologia, concebido com extensões do homem, era introduzido na sociedade sem produzir consequências sociais e pessoais nas nossas vidas. No entendimento de McLuhan, “a mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas” (p. 22). Efetivamente, o presente processo de transição entre as mídias analógicas e as digitais tem resultado em algumas reconfigurações. Nós temos defendido (KIELING, 2009/2010) que uma das mais significativas se dá nos processos de produção, circulação e consumo de bens simbólicos gerados, ofertados e acessados por meio da comunicação mediada pelas mídias. Sabidamente, cada meio analógico, jornal, revista, cinema, rádio, TV e mesmo a nativa digital, que é a Internet, era operado a partir de sistemas com fluxos verticais e bastante hierarquizados. Cada qual obedecia às lógicas dadas pelas condições de produção impressa, da radiodifusão e da rede fixa. No jornal e na revista era necessário trabalhar textos dentro de determinados limites de linhas e diagramação, submetidos aos processos gráficos e de impressão, depois distribuídos nas bancas ou entregue na casa do assinante para ser lido no dia seguinte. No cinema, complexas ações de gravação em película, revelação, montagem, cópias, distribuição em salas de exibição e apresentação em sessões diárias. No rádio e TV, capta120

ção de imagens e/ou som em equipamentos eletrônicos armazenados em fitas magnéticas, editados e transmitidos em sistemas irradiantes de ondas hertzianas sintonizadas por aparelhos de recepção. Na Internet o processo exigia computadores de mesa, redes fixas e acesso discado pela linha telefônica. Com a digitalização esses processos estão também horizontalizados. Atualmente, produção, circulação e consumo de cada texto midiático pode se dar em um mesmo aparelho portátil, ser disponibilizado em conexões sem fio e acessado em receptores móveis. Até mesmo a velha TV, graças ao middleware Ginga e aos outros dispositivos de conectividade, pode exibir qualquer conteúdo de imagem, som e dados.

1.2 O segundo pressuposto A nossa dinâmica nos encaminha para o segundo pressuposto: a ideia de ambiente. McLuhan ensina que “toda tecnologia gradualmente cria um ambiente humano totalmente novo” (p. 10). E mais, destaca que esses ambientes são somente envoltórios. Uma espécie de esfera passiva, ao contrário, é ativa e interfere na dinâmica do espaço. Nesse sentido configuraria e controlaria tanto a proporção, quanto a forma, a ação e as associações humanas (McLUHAN, 1964, p. 10). Tal entendimento justificaria o postulado de que o meio, ao delimitar, ao estabelecer determinadas condições operativas no seu interior, configuraria a condição de mensagem. Se pensarmos no ambiente analógico e vertical dos meios, analisados, na época, pelo pesquisador da escola de Toronto, há pertinência de sentido. Mas se percebermos o novo ambiente digital horizontalizado, no qual as instâncias de produção e recepção podem experimentar interações numa oferta tecnológica bidirecional (BARBOSA FILHO; CASTRO 2009; KIELING, 2010), o meio enquanto mensagem tende a se diluir em processos dissipativos. Verón (2004) nos provoca quanto ao fim da experiência das mídias, no caso da TV, como fenômeno de recepção massiva. Eco (1984), que estudou o exemplo europeu no qual a TV Pública veio antes da TV Comercial, ao fazer uma classificação temporal e histórica, entendia como Paleo TV o período inicial da mídia televisiva quando esta procurava reproduzir tudo que suas câmeras pudessem captar do mundo exterior. Neo TV seria o
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que veio a seguir, quando o conteúdo se volta para o interior do meio e sua capacidade de criar realidades, um mundo próprio (auditório, ficção, celebridades) numa operação autorreflexiva. Por fim, alguns teóricos fora do ambiente semiótico falam de a Pós TV (Piscitelli, 1998; Ramonet, 2002) que se encaminharia para a segmentação. Para Verón, essa diluição, que se vê agravada pela digitalização, a dispersão de audiência, a quebra da recepção contínua vinculada ao fluxo da grade de programação, tende a desconstituir o fenômeno da assistência massiva. Imagine-se então agora com a audiência fragmentada pelos gravadores digitais, pelos repositórios de vídeos nas redes e pelos receptores móveis. Ou então a possibilidade dos públicos também produzirem. O princípio de controle oferecido pelo meio à instância de produção parece se relativizar. O fato é que vai se configurando um novo ambiente que tensiona o anterior, perturba sua ordem, seu sistema enquanto meio ordenador social, regulador das condições de sociabilidade, produção, acesso e consumo. Todavia, nesse processo, o ambiente anterior não desaparece. Da mesma maneira, suas lógicas e suas dinâmicas passam a conviver com o novo. McLuhan entendia que “o conteúdo de qualquer meio ou veículo é sempre o outro meio e veículo. O conteúdo da escrita é a fala, assim como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa, é o conteúdo do telégrafo” (p. 22). Por esse motivo, a tendência do conteúdo de um meio seria se tornar mais forte porque o conteúdo seria outro meio. No fenômeno presente da digitalização, em certo sentido, essa perspectiva pode ser verificável

nos portais, nas redes sociais que reúnem diversos conteúdos revitalizados a partir da sua herança analógica. É o caso dos vídeos e das fotos permanentemente disponíveis, das publicações dos conteúdos colaborativos, da interação com os públicos. Novas formas de construção textual que se apropriam das antigas e, às vezes, tão somente a reproduzem. E nesse movimento, os processos de seleção, filtros, e velhas hierarquias procuram se manter. Defende-se que nessa dinâmica, mais complexa de revitalização dos conteúdos, e nos processos pensados por McLuhan, há uma intersecção de duas lógicas que coabitam; não apenas um ambiente, mas uma ambiência. Esse espaço, de um lado reúne várias mídias e as dinâmicas de um sistema fechado mais vinculado à ordem operativa, necessária às dinâmicas operativas da tecnologia, e de outro, um sistema aberto vinculado às dinâmicas dissipativas1 dos conteúdos, vistos como bens simbólicos e, portanto, da produção de sentido que deles resulta (KIELING, 2009). Algo como, de um lado, o sistema numa relação homem-máquina, na qual predominam os esforços de estabilidade e ordem2. Há controle do discurso na lógica do esquema da teoria da informação descrita por Shannon e Weaver3 (Fig. 1).
____________________ 1 Prigogine (1990) desenvolveu a teoria de dissipação a partir do movimento de partículas de espaço para outro, considerando que a cada deslocamento estas partículas tendiam a se ajustar aos novos ambientes, mas sem perder sua referência de origem. 2 Dinâmicas pensadas a partir das lógicas dos sistemas de função descritas por Luhmann. O autor entende os meios de comunicação como um sistema fechado, autofortificados (que se protegem do ambiente externo), autorreferentes (autonomia e organização interna, uma autopoiésis interna) e heterorreferentes (sua relação com o ambiente externo se daria por um acoplamento estrutural). 3 SHANNON, C.; WEAVER, W. The mathematical theory of communication. Urbana: The University of Illinois Press, 1949.

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Fig. 1 – Esquema baseado na teoria da informação de Shannon e Weaver

Mensagem Emissor Canal Receptor

Constitui-se deste modo a noção de ambiência midiática5 (KIELING 2009/2010) por meio da qual as duas dinâmicas convivem no fenômeno de digitalização das mídias (Fig. 3).
Fig. 3 – Esquema desenvolvido para ilustrar o postulado de ambiência.

De outro lado, há dinâmicas processuais da relação sujeito-sujeito mais dedicadas à produção dos bens simbólicos. Operações de construção do discurso nas quais a geração do conteúdo não se processa apenas nas possibilidades de interpretação, mas também nas possibilidades interativas de produção. Experimentam-se os efeitos de geração e circulação de sentido4 (Fig. 2).
Fig. 2 – Esquema baseado na teoria da comunicação como processo

Mensagem (...) Emissor (R) Receptor (E)

Canal

Naturalmente que, como alertava McLuhan, a eficácia dessa configuração dos meios depende do uso e da própria estrutura que as associações humanas conformam. Na linha de tempo das tecnologias, o autor canadense, considerando que a técnica de alguma forma molda a associação e o trabalho humanos, encontra na idade da pedra e do manuscrito princípios de uma organização tribal. Na era da mecânica e da prensa percebe uma fragmentação e individualização. No período da elétrica encontra elementos de retribalização a partir, sobretudo, do fluxo da energia que aglutina as comunidades e o consumo de Cinema, Rádio e TV, que são compartilhados. Seguramente escapou ao autor a fase de massificação e uniformização, também presentes nessa fase elétrico-eletrônica, especial____________________ 5 Trata-se da perspectiva da midiosfera (KIELING 2009/2010) na qual, a partir de um esquema de elipses (Fig. 3) no qual percebemos dois sistemas (o SPD, Sistema de Produção e Distribuição, e o SSI, Sistema de Significação, incluindo consumo e interpretação). Na dinâmica imaginada das elipses, um sistema permeia o outro num processo de interação por meio do qual se constitui um lugar, um espaço, um terreno virtual de confronto e acomodação entre as lógicas de cada sistema. Mas, ao mesmo tempo, configura-se um espaço de realização, de consumação.

____________________ 4 Trata-se do processo de construção de sentido pensada por Verón (2004) e do sistema de significação, o SSI, que vai depender de variáveis externas, sociais, culturais que podem dissipar interpretações e escolhas, como pensaria Prigogine (1990), para fora da proposta original dos textos midiáticos, das suas estruturas modelizantes do script, do roteiro, do estúdio, dos esquemas da multicâmera, das normas de estilo, de redação, dos manuais.

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mente na segunda metade do século 20. Se aplicarmos a mesma lógica a essa etapa da digitalização, no âmbito dessa ambiência midiática, vamos encontrar efeitos de uma nova tribalização nas mídias sociais e no convívio virtual, porém permanecem vigorosos indicadores de segmentação. Quem dispõe de todos os aparatos tecnológicos de recepção tende a decidir individualmente ou em pequenos grupos onde, quando, de que forma e que conteúdo vai acessar.

1.3 O terceiro pressuposto O quadro descrito acima nos conduz ao terceiro pressuposto que trata da intersecção dos meios. Mais que se alimentar dos antecessores, o digital efetivamente atualiza todos e multiplica suas bases de distribuição. Ou ainda, produz cruzamentos e associações tecnológicas. Scolari (2008) lembra que “as transmissões de rádio, TV e cinema são desenhados, produzidos, pós-produzidos, e cada vez mais, distribuídos usando as tecnologias digitais” (p. 82), configurando-se o uso de uma multiplicidade de linguagens, em diferentes camadas nas quais se incorporam várias formas de expressão e vários meios. Agrega-se novos dispositivos àqueles que já eram mobilizados, as vezes ao mesmo tempo, para a compreensão da narrativa. Condição que é incrementada pela possibilidade oferecida pelos sistemas digitais de amplificar, arquivar, reconverter e reproduzir textos sem perda da qualidade original e sem prejuízo ao conjunto de dados informativos (SCOLARI, 2009). Um processo no qual o conteúdo ou o texto depois de digitalizado ou já gerado digitalmente, além de poder ser fragmentado, manipulado, recombinado, pode ser distribuído de maneira transmidiática, por vários meios, conferindo um efeito de transmidialidade ou hipermedialidade, como propõe Scolari. Tal circulação em diversas mídias insere esses conteúdos na dinâmica de narrativas que alimentam um fluxo na perspectiva da convergência pensada por Jenkins (2009). Mas, o fluxo de conteúdos, por meio de múltiplas plataformas, estaria sujei124

to “à cooperação entre múltiplos mercados midiáticos e ao comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam” (JENKINS, 2009, p. 29). Nesse sentido, a noção de convergência implicaria não apenas nas transformações tecnológicas, mas igualmente mercadológicas, culturais e sociais, verificando-se a mudança de escala, cadência ou padrão nas coisas humanas, pensadas por McLuhan. Juntamente com esse processo vamos verificar a inscrição dos públicos que, graças às ofertas interativas constitutivas das tecnologias digitais, podem se lançar de maneira mais intensa às interações com as instâncias produtoras. Estes sujeitos comunicacionais são qualificados como prosumidor (SCOLARI, 2008), ou produser (BRUNS, 2009). Esta última categoria, o produtor/usuário, não estaria diretamente envolvida em formas de produção de conteúdos, mas sim em produsage, que, segundo Bruns, seria a construção contínua e colaborativa e a ampliação do conteúdo já existente com a finalidade de melhorar esse texto. Boa parte destes produsers atua nas redes sociais e, conforme recente classificação do MIT, estaria dividida em quatro grupos de atividades interativas:
(a)

(c)

(d)

aqueles que repassam o conteúdo acessado aos amigos, agindo como mediadores destes textos; e os efetivamente colaborativos. Estes últimos, mais atuantes, se subdividem em duas subcategorias, os que ajudam na busca de informações (como colaboradores de uma investigação jornalística) e os crowdsourcing que trabalham coletivamente6 (Fig. 4)

Fig. 4 – Adaptação do gráfico desenvolvido pelo grupo de estudo do MIT.7

(b)

aqueles criadores profissionais ou podcasters, que promovem a distribuição e publicação de conteúdos; aqueles voyeurs, que apenas dão algum tipo de retorno como “curtir”;

____________________ 6 O crowdsourcing é um modelo de produção que utiliza a inteligência e os conhecimentos coletivos e voluntários espalhados pela Internet para resolver problemas, criar conteúdo e soluções ou desenvolver novas tecnologias . 7 Acessível em: http://web.mit.edu/comm-forum/mit7/papers/Frigo_MIT-MEL_SocialTV.pdf; http://mobile.mit.edu/research/next-tv/next-tv . Último acesso em 20/1/2012.

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2 O impacto provocado pela ambiência As operações dessa ambiência midiática têm mobilizado os grandes conglomerados midiáticos que já recorrem às múltiplas possibilidades de chegar a esse produtor-usuário, nos termos de Bruns. Cada vez mais jornais, revistas, rádios, TVs e sites da WWW são reunidos em versões integradas nos portais da rede de computadores ou ganham versões em receptores móveis com os tablets e smartphones. É fato que a instância de produção vem sendo impactada pelas possibilidades que gradualmente instituem uma nova maneira de produção, circulação e consumo dos conteúdos transmidiáticos. Esses movimentos contaminam especialmente os processos e a estrutura de realização de narrativas digitais. É o caso da construção de relatos que tem mobilizado diferentes plataformas tecnológicas e que na sua articulação narrativa geram composições não pensadas por McLuhan. Dentre essas possibilidades está aquela na qual as tecnologias passam a fazer parte da história, atuando inclusive com uma função narrativa de narrador implícito. Uma experiência nesse sentido foi empreendia no âmbito do grupo de pesquisa de conteúdos digitais transmidiáticos e interativos da Universidade Católica de Brasília. A equipe produziu um vídeo cuja abordagem sobre adoção se ocupa de estimular as pessoas à essa maneira de paternidade e maternidade. A estrutura narrativa da história utiliza como fio condutor uma família que costuma usar as redes sociais para se informar sobre como cuidar

do filho com síndrome de Down e também para compartilhar experiências com outros pais. Para compor a estrutura narrativa, o grupo de pesquisadores optou pelo uso da mediação da Internet para o cruzamento da história da família âncora com as histórias de outras famílias com experiência de adoções de crianças com necessidades especiais. A escolha buscava preservar o espaço real dos personagens e incluí-los num espaço fílmico com a menor contaminação possível. A perspectiva documental procurava o registro do contato natural entre as famílias por meio da rede. Desta maneira, a costura entre o espaço real e o espaço fílmico exigiu uma intervenção da tecnologia.

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3 O meio como narrador Acredita-se que esse deslocamento do suporte, da própria tecnológica, agrega novo status comunicacional ao meio. O movimento permite o entendimento de que a condição de meio, no caso da mencionada narrativa, assume, em certo sentido, uma condição de fim. Incorpora um estatuto de inscrição narrativa. Recordemos que a narratologia como uma manifestação de discurso, encontra nos relatos audiovisuais da televisão (polifônicos) pelos menos quatro níveis de enunciadores (locutores ou narradores), de certa maneira comuns ao cinema (KIELING, 2009). Primeiro, que seria o enunciador ausente, encontramos a instituição midiática. Um segundo enunciador seria o processo de produção de programas. Sejam meios, formas e estéticas de produção (incluindo os diretores, escritores, realizadores, editores, operadores de câmera). São os “narradores implícitos” (GENETTE, 1991; JOST, 2004) que servem ao sistema produtivo e ao mesmo tempo vão ser responsáveis pela enunciação manifesta na realização dos textos televisivos e de instrumentos de autoproteção do sistema. O terceiro é o narrador implícito que são os apresentadores, personagens. No caso do documentário sobre adoção seriam as pessoas de cada família que falam na história. E, por fim, o narrador virtual, que é o espectador, ou o produtor usuário que envia colaborações para o texto, como já descrito no presente artigo. Todavia, o que aqui nos interessa é o narrador implícito. Este é o caso dos dispositivos tecnológicos que com o advento da

digitalização passam a fazer parte da narrativa com escritura no texto, seja por meio de aplicativos que ajudam a estrutura da narrativa, seja por meio de dispositivos de interatividade com a instância de recepção que permitam ações colaborativas ou construções alternativas de linearidade e não linearidade. Trata-se, portanto, do suporte que deixa de ser meio e passa a ser fim, não apenas instrumento, mas figura como narrador ou personagem implícito que não está necessariamente declarado, porém intervém e também dialoga com a história, enunciando e produzindo efeitos de sentido. Isso ocorre no documentário, pois a tecnologia passa a fazer parte da narrativa. Observe-se que no relato o aplicativo de rede social alinhavando a estrutura do texto audiovisual exigiu um construto estético e narrativo. Foi criada uma interface gráfica (Foto 1 e 2), desenvolvida exclusivamente para o vídeo de referente factual, que terminou por figurar com um papel enunciativo. A interface promoveu o espaço de interação entre os personagens localizados em cidades de regiões diferentes do país. Portanto, uma inscrição que não somente interfere no fluxo narrativo normal como estabelece nova ordem interna organizando a relação dialógica das famílias (personagens). Noutro sentido, produz uma intersecção entre as lógicas e a estética do vídeo com a das redes. Sem a ação articuladora da tecnologia e, particularmente, da interface gráfica a construção do texto audiovisual apresentaria elipses temporais e espaciais de difícil compreensão.
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Foto 1- Still do diálogo da família da história âncora com outra família por meio da Internet

transposição conceitual a partir do postulado de McLuhan, quando se confere à tecnologia um caráter enunciador no interior do discurso. Não exterior a ele.
Foto 2 - Still da interface gráfica usada no documentário

O uso da tecnologia como parte da mensagem, do discurso e da narrativa, tende a resgatar o que Marshall McLuhan escreveu em 1963, quando afirmou que “o meio era a mensagem”. É bem verdade que o autor canadense fez essa reflexão a partir de outra realidade (a televisão analógica em seu estágio inicial) e tecnologias (eletricidade) e pensava no palimpsesto (GENETTE, 1992) que emoldurava ou enquadrava os conteúdos às condições de produção e de recepção. Mas sua análise deve ser vista aqui numa dimensão referencial, uma vez que o meio, no caso descrito, se torna mais que um meio. Avança a partir do pressuposto de limitação do texto e institui a premissa de abertura em relação ao enquadramento do sistema fechado de cada mídia para a produção textual. Imagina-se, arriscando uma noção distinta, que há uma

Trata-se de narrativas que podem adquirir vida própria. No exemplo, o roteiro proposto – o roteiro guia – é apenas uma proposta inicial sujeito a incorporações no processo de realização, na medida em que o que vai resultar da conversa por meio da Internet não está previsto. Há um espaço de registro da experiência, uma característica do documentário.

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4 Apontamentos finais Acreditamos estar diante da perspectiva de uma ampliação das marcas de ruptura paradigmática que vivemos com a digitalização das mídias. Como vimos, o uso da tecnologia digital vem gradualmente introduzindo novas dinâmicas tanto nas práticas da instância de produção quanto nos hábitos e práticas da instância de recepção. Há novos referentes em construção. Notadamente, o pressuposto da inserção da tecnologia digital no estatuto de inscrição narrativa, aqui apresentado, permite inferir uma transcendência. Nessa ambiência mediática a tecnologia promove o deslocamento do meio da sua condição de suporte para parte do conteúdo, da linguagem, da narrativa. Além disso, rompe os limites das próprias condições de produção de cada mídia tal qual foram constituídas a partir das capacidades do papel, da impressora, da película, do projetor, das ondas hertzianas, das antenas, dos transmissores, dos aparelhos fixos de transmissão, do tratamento do som, das cores, das imagens, das redes físicas, das máquinas. A horizontalização dos processos de produção, distribuição e recepção apresenta, assim, ao objeto tecnologia uma possibilidade de subjetivação na condição de agente narrativo. Tal ingresso no espaço do conteúdo tende a desalojar o meio do seu lugar harmônico. A condição única que ocupava como parte de um sistema fechado, cuja função de suporte era servir de transporte e entrega do texto pode agora ser bem mais complexa.

Ao ingressar no universo narrativo tem de incorporar a instabilidade do sistema aberto da criação, sua imprevisibilidade na produção de sentido desde o processo de realização dos textos até sua interpretação pelas instâncias de recepção. Hoje uma constante na construção de conteúdos digitais interativos é uma possibilidade que cada vez mais apresenta seus exemplos no mundo audiovisual. É nessa perspectiva que entendemos existir, no interior do discurso audiovisual digital, a nova possibilidade de a tecnologia ser continuamente ressignificada. Naturalmente, é uma proposição em sua fase reflexiva primária que procura dar conta de uma primeira aproximação com a experiência em curso, mas as pistas até aqui encontradas indicam pertinência na direção da inscrição da tecnologia como espaço narrativo.

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Referências
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Visão e atualidade das contribuições de McLuhan sobre a automação e os consequentes impactos nas organizações, na comunicação e no mundo do trabalho

Resumo
O artigo apresenta uma análise a partir das contribuições de McLuhan sobre os impactos da automação nas organizações e no mundo do trabalho e suas consequências, incluídos os processos de comunicação. A partir do último capítulo de Understanding Media, e com a introdução de aportes de autores no campo da comunicação, da filosofia, da sociologia e da administração, tece-se um paralelo entre as previsões de McLuhan e os cenários atuais. Ao final, tentamos reconstituir o que seJOÃO JOSÉ CURVELLO PROFESSOR E DIRETOR DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA CURVELLO@POS.UCB.BR ria uma nova visão a partir dos pressupostos da prospectiva.

Palavras chave
McLuhan, automação, trabalho, aprendizagem, comunicação organizacional
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Introdução Em primeiro lugar, na abertura deste texto, gostaríamos de explicitar nosso lugar de fala. Diferentemente dos pesquisadores que se voltam para o pensamento de McLuhan pelo viés da mídia e de suas contribuições para uma teoria do meio, nossas observações e análises partem desde o campo das organizações sociais, com interesse redobrado nos aspectos epistemológicos e teóricos presentes nos estudos que se dedicam a decifrar os intrincados percursos da comunicação nos contextos organizacionais. Particularmente, interessa-nos, aqui, discutir como a obra de McLuhan se inscreve entre as pioneiras em tratar de fenômenos tão complexos como o contexto das relações de trabalho, marcadas por processos técnicos, políticos, legais, econômicos, culturais e sociais que se transformam a olhos vistos e que exigem constante observação e interpretação. Desse lugar de fala, portanto, é que escolhemos como eixo a explorar, neste texto de perfil teórico e com base em pesquisa bibliográfica, o tratamento dado por McLuhan à questão da automação e suas conseqüências, sobretudo nos processos de produção, de consumo e de aprendizagem no âmbito das organizações industriais. Em um segundo momento, faremos um contraponto com o cenário atual, a partir da contribuição de autores que se dedicam ao estudo desses contextos, e também veremos como essas transformações anunciadas por McLuhan se confirmaram ou não nos contextos organizacionais pelo viés da comunicação. Por fim, tentamos atualizar a

visão de McLuhan, a partir de estudos prospectivos sobre tendências científicas e tecnológicas que sinalizam para uma hibridização cada vez maior entre homens e máquinas.

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A visão Nossa análise tem como ponto de partida o capítulo final de “Os meios de comunicação como extensões do homem (Understanding Media)”, dedicado à automação ou cibernação (MCLUHAN, 1969, pp. 388-403). Nesse capítulo, McLuhan começa sua reflexão a partir da tese de que o advento da eletricidade provoca uma aceleração dos processos, o que acaba por contribuir para mudar a percepção de tempo e espaço, que passam a ser percebidos como nada uniformes, como descontínuos. Para o autor, a rede global, que se viabiliza pela tecnologia, se assemelha ao nosso sistema nervoso central, com um campo unificado de percepção. Essa ordem se apresenta como diretamente oposta à da sociedade mecanizada, antes vista como fragmentada, e que o próprio McLuhan (1969, p. 390) denominava de “monofratura da manufatura”. Segundo ele, a automação “não é uma extensão dos princípios mecânicos da fragmentação e da separação de operações. Trata-se antes da invasão do mundo mecânico pela instantaneidade da eletricidade” (MCLUHAN, 1969, p. 391). Trata-se de um novo modo de pensar, tanto quanto de fazer. Trata-se de um processo que se apresenta como sincrônico. McLuhan diz que a automação faz com os processos de trabalho e produção o mesmo que o rádio e a televisão com suas audiências, agora ampliadas e sensibilizadas: uma nova forma de interprocessamento. Uma espécie de produção de massas,

não em termos quantitativos, mas de “amplexo inclusivo instantâneo” (MCLUHAN, 1969, p. 391-392). Nessa área da automação, as indústrias de bens e consumo têm caráter estrutural idêntico às estruturas de entretenimento, por conta da aproximação com um estado por ele denominado de “informação instantânea”. McLuhan já nos dizia que, com isso, no circuito de automação, o consumidor torna-se também produtor (tal e qual os “atuais” prosumers1, produsers2 ou cocriadores3). Nesse novo contexto tecnológico, energia e produção tendem a se fundir com informação e aprendizagem. A comercialização e o consumo tendem a se unificar com a aprendizagem, o esclarecimento, a busca de informações. Dessa forma, produção, consumo e aprendizagem se constituem em um processo inextricável. Aqui, é importante destacar que, mais de vinte anos após
____________________ 1 O termo prosumer, que aparece pela primeira vez na literatura na obra A terceira onda de Alvin Tofler, descreve os “consumidores engajados no processo de co-produção de produtos, significados e identidades. São consumidores proativos e dinâmicos em compartilhar seus pontos de vista. Eles estão na vanguarda em relação à adoção de tecnologias, mas sabem identificar valor nos produtos escolhidos. Distinguem-se dos early adopters pelas suas atitudes interventoras relativas a marcas, informação e meios de comunicação” (TROYE, XIE, 2007; XIE, BAGOZZI, TROYE, 2008 apud FONSECA et al., 2008, p.4). 2 Produsers são atores que não se envolvem em uma forma tradicional de produção de conteúdo, mas são envolvidos em produsage - a construção colaborativa e contínua de conteúdos existentes na busca de melhorias. Os participantes em tais atividades não são produtores no sentido convencional, industrial. O termo implica uma distinção entre produtores e consumidores que não existe mais. Os resultados de seu trabalho não são produtos existentes como pacotes completos e suas atividades não são uma forma de produção porque eles procedem com base em um conjunto de pressupostos e princípios que são marcadamente diferentes do modelo industrial convencional (BRUNS, 2008). 3 Cocriação é um termo desenvolvido principalmente por Prahalad e Krishnan (2008) no qual propõem às indústrias o envolvimento de seus clientes no desenho de produtos, de forma a manter um processo continuo de inovação.

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sua morte, McLuhan parece influenciar reflexões recentes de autores como Richard Sennet (2006) quando este último desenvolve em livro sua tese sobre a cultura do novo capitalismo, ancorada justamente na inter-relação entre o consumo, a nova burocracia do processo produtivo e a capacitação permanente. McLuhan reconhecia que esse processo levaria possivelmente ao desemprego, cuja saída estaria na aprendizagem como novo emprego dominante. Ele nos diz que emprego, operários, trabalhos especializados perderiam espaço na era da automação, o que pode ser comprovado pela redução drástica do número de trabalhadores em indústrias tradicionais como a automobilística, por exemplo. O processo de automação nos traz um mundo em que computadores começam a pensar, mas um “computador consciente ainda seria uma extensão da nossa consciência” (MCLUHAN, 1969, p. 394). Com isso, o que se armazena e desloca é, sobretudo, percepção e informação, em que “o próprio esforço do homem agora se torna uma espécie de esclarecimento”, no qual nos basta nomear e programar para que algo se realize, seja feito sob medida. McLuhan previa, ainda, que a aceleração e a interdependência elétricas eliminariam a linha de montagem na indústria, devido ao alto grau de conexão de todas as fases de uma operação. Isso implicaria a aceleração da sincronização que deverá ser feita de empresa a empresa, indústria a indústria, país a país, numa espécie de inter-relacionamento orgânico.

O todo da sociedade passou a ser encarado como “uma única máquina unificada criadora de riqueza”, uma riqueza cuja manipulação já não é privilégio de produtores, empresários, corretores, mas que passa a ser partilhada por técnicos e também pelas indústrias da comunicação, da criação. Nesse cenário, ao mesmo tempo em que há sinalização de cortes nos quadros de empregados, em razão do ajuste das empresas às novas regras de competição internacional, cresce, em contrapartida, a demanda por profissionais capazes de lidar com o universo simbólico multimídia. Confirma-se, aqui, a tendência apontada por Robert Reich (1992), de uma crescente demanda mundial por uma elite de profissionais competentes na arte de análise e produção simbólica. McLuhan também reforça a tese de que pensar e compreender a comunicação como interação é inerente à eletricidade e à automação, por combinar energia e informação, por praticamente impor o feedback ou a informação de retorno, o que acaba por criar um circuito informativo onde antes só havia fluxo único e mecanicamente sequencial.
“O feedback significa o fim da linearidade introduzida no mundo ocidental pelo alfabeto e as formas contínuas do espaço euclidiano. O feedback, ou diálogo entre o mecanismo e sua ambiência, acarreta o entrelaçamento de máquinas isoladas numa galáxia de máquinas que toma conta de tota a planta ou layout da fábrica. Daqui deriva um novo entrelaçamento entre plantas isoladas e fábricas, no sentido de
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toda uma matriz industrial dos materiais e serviços de uma cultura”. (MCLUHAN, 1969, p. 397-398).

tral, globalmente, inter-relacionando instantaneamente toda a experiência humana” (MCLUHAN, 1969, p. 401-402).

A aceleração elétrica requer, ainda, um conhecimento completo dos efeitos últimos, o que pressupõe uma valorização da estratégia e do planejamento. Nesse contexto, executivos, gestores etc. vivem pressionados pela aquisição de novos conhecimentos, por atualização permanente e por uma produção muitas vezes conduzida sem condições de acompanhar o resultado (que é instantâneo, às vezes imperceptível, invisível). Isso exige dos gestores e demais trabalhadores adaptabilidade diante do “interprocessamento instantâneo e complexo”, pois à medida que tudo se torna mais complexo, torna-se também menos especializado. Riqueza e trabalho são fatores de informação e demandam estruturas novas que se configuram e reconfiguram como novos espaços mercadológicos, mas também sociais. Um impacto visível é o da introdução crescente de uma visão utilitarista ao ensino, que passa a ser pressionado para preparar ainda mais os indivíduos para lidar com a profundidade e a inter-relação indispensáveis para lidar nesse cenário de simultaneidade.
“De repente, os homens passaram a ser nômades à cata de conhecimento - nômades como nunca, informados como nunca, livres como nunca do especialismo fragmentário, mas envolvidos como nunca no processo social total; com a eletricidade, efetuamos a extensão de nosso sistema nervoso cen-

O trabalho se virtualiza, se desloca, leva o indivíduo a uma nova necessidade de definição quanto a seu lugar no mundo, leva-o a pensar sobre o que fazer, o que aprender, o que e como criar. 4

____________________ 4 Também podemos ver isso na apropriação de De Masi sobre o ócio criativo (1999), caracterizado por “uma riqueza mais bem-distribuída, uma autodeterminação sobre as tarefas, uma atividade intelectual mais rica em conteúdos, maior importância dada à estética, à qualidade de vida, e maior espaço para a auto-realização subjetiva”.

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A atualidade Como é possível perceber, o texto premonitório de McLuhan sobre a automação e seus impactos no mundo do trabalho, antecipava um movimento que rompe com antigos paradigmas que apontavam para uma estabilidade do sistema. As influências do ambiente externo, marcado pela competitividade crescente em escala mundial, provocam rupturas e tentam impor o estabelecimento de novas relações de trabalho baseadas na mobilidade e na flexibilidade. Essas novas relações, em princípio, levando-se em conta o discurso no qual vieram embaladas, poderiam representar ganhos para os trabalhadores, uma vez que acenavam com um novo ambiente de trabalho, mais cooperativo, participativo, independente e centrado na aprendizagem e na criatividade, ao mesmo tempo em que criavam um novo modelo: o da organização virtual, caracterizada como uma rede temporária de parceiros independentes - fornecedores, consumidores, e até mesmo concorrentes - ligados pela tecnologia da comunicação para dividir habilidades, custos e o acesso de cada um ao mercado; uma organização sem níveis hierárquicos, sem integração vertical, com as relações baseadas na flexibilidade, na confiança, na sinergia e no trabalho em equipe (DAVIDOW e MALONE, 1993). Como já escrevemos em trabalhos anteriores (CURVELLO, 2001), o antigo tripé do conceito de organizações - pessoas, estrutura e tecnologia – entra em xeque, uma vez que esses componentes não mais precisam abrigar-se sob um mesmo espaço nem operarem a um mesmo tempo para configura-

rem uma organização. Entretanto, de todos os componentes de uma organização, as pessoas são as que sofrem os maiores impactos com a automação, a virtualização e a desestruturação das burocracias. A crescente informatização dos processos administrativos e a proliferação de novas tecnologias para transmissão de dados apontam para o desaparecimento dos escritórios, para uma "deslocalização" do trabalho, para uma corrosão dos cargos, ou até mesmo para o fim do emprego nos moldes como o conhecemos (BRIDGES, 1995). Hoje, cresce o número de pessoas que trabalham como empregados temporários ou em atividades terceirizadas. Esse desenvolvimento tecnológico - das primeiras máquinas, simples e automáticas, introduzidas pela Revolução Industrial, até chegarmos à automação em larga escala, propiciada pela microinformática e pelo avanço das chamadas “redes neurais” – se contribuiu para liberar o trabalhador da fadiga, também ajudou a excluí-lo, quase que totalmente, do processo produtivo. Nesse cenário, estar dentro ou estar fora das organizações já não são posições tão nítidas. Como nos diz Harvey (1994: 178179), não podemos simplesmente fingir que nada mudou, quando a desindustrialização, a transferência geográfica de fábricas, as práticas mais flexíveis de emprego, a automação e as inovações estão às nossas portas. Outra característica das mudanças operadas na cena organizacional é a mudança no volume e nos conteúdos de informação. Informação essa cada vez mais circular, dinâmica e acessível de qualquer ponto, através de um simples comando no computador.
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Essa nova organização, automatizada, sem estruturas físicas e com poucas pessoas trabalhando em espaços cada vez mais imaginários, impõe uma nova forma de lidar com a informação e com a comunicação. Os fluxos comunicativos são abalados ou ganham novos impulsos. A tecnologia desenha uma nova forma de conversar e dialogar e a própria organização tem de repensar e reformular seus discursos legitimadores. Essa organização que também se configuraria em rede caracterizaria, segundo Castells (1999, p. 213), um novo tipo de desenvolvimento no interior do capitalismo – o qual denomina de “informacionalismo” -, ao alterar, mas não substituir, o modo predominante de produção. O novo contexto de redes de empresas, de incremento das ferramentas tecnológicas, de concorrência global e de redefinição do papel regulador do Estado impõe uma nova ética, um novo espírito, mas não uma cultura nova, no sentido de sistema de valores, porque toda e qualquer visão unificadora é rejeitada pela nova ordem. Até mesmo a expressão “nova ordem” é rejeitada. Contudo, como bem observou Castells, há mesmo “um código cultural comum nos diversos mecanismos da empresa em rede”. Na verdade, o informacionalismo, para Castells (1999, p. 216-217) caracteriza-se por:
”muitas culturas, valores e projetos que passam pelas mentes e informam as estratégias dos vários participantes das redes, mudando no mesmo ritmo que os membros da rede e seguindo a transformação organizacional e cultural das unidades

da rede. É de fato uma cultura, mas uma cultura do efêmero, uma cultura de cada decisão estratégica, uma colcha de retalhos de experiências e interesses, em vez de uma carta de direitos e obrigações. É uma cultura virtual multifacetada, como nas experiências visuais criadas por computadores no espaço cibernético ao reorganizar a realidade. Não é fantasia, é uma força concreta porque informa e põe em prática poderosas decisões econômicas a todo momento no ambiente das redes. Mas não dura muito: entra na memória do computador como a matéria-prima dos sucessos e fracassos passados. A empresa em rede aprende a viver nessa cultura virtual. Qualquer tentativa de cristalizar a posição na rede como um código cultural em determinada época e espaço condena a rede à obsolescência, visto que se torna muito rígida para a geometria variável requerida pelo informacionalismo. O ‘espírito do informacionalismo’ é a cultura da ‘destruição criativa’, acelerada pela velocidade dos circuitos optoeletrônicos que processam seus sinais.”

É justamente aí, nessa espécie de inversão de sentido provocada pela destruição criativa, que o sistema se legitima e impõe seus novos limites, uma vez que a cooperação e a participação passam a se dar sobre bases cada vez menos sólidas, neutras e vazias de confiança, como bem definiu Sennet (2000). Para ele, “as ficções de trabalho em equipe, pela própria superficialidade de seu conteúdo e seu foco no momento imediato, sua fuga à resistência e ao confronto, são assim úteis no processo de dominação” (SENNET, 2000, p. 138). Ainda segundo Sennet, uma das características dessa nova era do trabalho em equipe
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é o que chama de “jogo de poder sem autoridade”, em que a diluição de responsabilidades contribui para o surgimento do “homem irônico”, que Rorty (apud SENNET, 2000, p. 138) define como uma pessoa que jamais seria capaz de se levar a sério, porque sempre sabe que os termos em que se descreve estão sujeitos a mudança, sempre sabe da contingência e da fragilidade de seus vocabulários finais e, portanto, do seu “eu”. Ou seja: o caráter irônico seria autodestrutivo, uma vez que provoca uma sensação de que não somos reais, de que nossas necessidades são meras ficções. O que nos ajuda a concluir que as falsas novas bases de relacionamento podem provocar uma perda do sentido do trabalho e da vida. Esse sentimento é certamente provocado pela “centralidade do trabalho”, incorporada à ideologia burguesa como categoria universal e fundadora de toda a vida social, como atividade natural de produção e troca de valores de uso, é necessária à reprodução material da vida em sociedade. Esse caráter central, forjado a partir dos séculos 18 e 19, contribuiu para dissociar o trabalho das demais atividades da vida social, como lazer, família e comunidade. Essa noção opõe trabalho a lazer e separa as esferas doméstica e pública da vida social, ao mesmo tempo em que começa a confundir trabalho com emprego, ou seja, o exercício de funções na ou para a produção. Foi por esta época que o emprego, vinculado à centralidade do trabalho,
“tornou-se importante referencial para o desenvolvimento emocional, ético e cognitivo do indivíduo ao longo de seu

processo de socialização e, igualmente, para o seu reconhecimento social, para atribuição de prestígio social intra e extragrupal. O desemprego tornou-se fonte de tensão psicossocial, tanto do ponto de vista individual, como para a vida comunitária”(LIDTKE apud CATTANI, 2000, p. 272) .

Esse fenômeno se relaciona com as redes de signos e significados organizados que expressam, ocultam e atribuem sentido às intrincadas relações corporativas, e a que convencionamos chamar de culturas organizacionais. A ordem, nessas redes, é definida, basicamente, pela memória. O caos, na aparente incompreensão do ambiente organizacional em mutação, está na destruição, no rompimento da memória. Essa destruição da memória está na raiz das desestruturações impostas às organizações. Modelos, como as reengenharias implantadas, sobretudo, a partir da década de 1990, buscam apagar essa ordem, digamos, histórica, e substituí-la por uma nova ordem produtiva e associativa. Só que os fracassos de suas implantações nos mais diversificados ambientes organizacionais mais destroem os antigos códigos ordenadores do que constroem o novo. Aprender, nesses contextos, se torna um imperativo para a sobrevivência física e simbólica. Assim como previa McLuhan, uma nova configuração de aprendizagem se instala nas organizações. As mudanças estruturais e processuais implantadas nas empresas de alguma forma as têm forçado a uma maior qualificação. Segundo Fleury (1996: 188), referindo-se a Philippe Zarifian (1994 e
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1996), os novos modelos organizacionais podem ser distinguidos entre organizações qualificadas e qualificantes. A organização qualificada se caracterizaria pelo trabalho em equipes ou células; a autonomia delegada às células e sua responsabilização pelos objetivos de desempenho: qualidade, custos, rendimento, etc.; diminuição dos níveis hierárquicos e o desenvolvimento das chefias para as atividades de "animação" e gestões de recursos humanos; a reaproximação das relações entre áreas e funções da empresa. A organização qualificante, ainda segundo Zarifian, incorporaria outras características além das já citadas: a valorização da aprendizagem e da inovação permanentes; devem ser centradas sobre a inteligência e domínio das situações de imprevisto, que podem ser exploradas como momentos de aprendizagem pelo conjunto dos empregados; a organização deve estar aberta para a explicitação da estratégia empresarial, realizada pelos próprios empregados (...); deve favorecer o desenvolvimento da co-responsabilidade em torno de objetivos comuns, entre as áreas de produção e de serviços (...); deve dar um conteúdo dinâmico à competência profissional, ou seja, permitir que os assalariados invistam em projetos de melhoria permanente de tal modo que eles pensem o seu know-how não como um estoque de conhecimentos a serem preservados, mas como uma competência - ação ao mesmo tempo pessoal e engajada em projeto coletivo (FLEURY, 1996: 189).

Essa visão representa, sem dúvidas, uma evolução aos modelos de treinamento e formatação característicos do taylorismo. Esses modelos reproduziam estruturas que separavam o saber do fazer, o agir do pensar, a partir da ideia de que uma elite pensante (e dominante) poderia atender às necessidades de descoberta e redefinição organizacionais; aos demais, só restava a tarefa de cumprir com o planejado. Também centravam o aprendizado numa dimensão individual. Ainda que a empresa definisse o que deveria ser aprendido, quando e como, esse aprendizado representava quase que exclusivamente um reforço aos currículos individuais. A valorização vinha geralmente do número de cursos e títulos acumulados e não da circulação do conhecimento. Podemos adiantar, a partir dessas contribuições, que o advento desse novo modelo de organização traz consigo uma radical mudança no processo de troca de informações nas organizações e afeta, sobretudo, todo um sistema de comunicação tradicionalmente baseado no paradigma da transmissão controlada de informações. O fato, porém, é que o novo cenário do trabalho, na denominada sociedade pós-industrial e informacionalista, é um cenário em profunda transformação, no qual a valorização da velocidade - traduzida na busca incessante pelo resultado no curto prazo, nas estruturas orientadas por projetos, e na flexibilidade dos contratos - acaba por não permitir que as pessoas desenvolvam experiências ou construam uma
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narrativa coerente para suas vidas, além de afetar a confiança e o comportamento ético (SENNET, 2000). Isso faz com que os antigos paradigmas do vínculo e da estabilidade, tão caros à comunicação organizacional, entrem em xeque e, com eles, as formas de comunicação e de construção de sentido. Segundo Varona (1996, p.5), a organização digital e automatizada está deslocando paulatinamente o intercâmbio de informação em forma de átomos (memorandos, documentos, revistas, jornais e livros) para um sistema de informação baseada em “bits”. Nesse novo tipo de organização, o verdadeiro valor da comunicação terá de estar mais afinado com comunidade do que com informação. Nessa linha de preocupação, autores como Parks e Floyd, citados por Varona (1996), identificam duas correntes opostas que têm dominado o debate acerca do impacto das novas tecnologias de informação sobre a interação entre as pessoas. Uma das correntes afirma que a comunicação mediada por meios eletrônicos é superficial, impessoal e, muitas vezes, hostil. Para seus adeptos, o espaço cibernético só pode criar uma ilusão de comunidade. A outra corrente, liderada por Rheingold (apud VARONA, 1996), diz que a comunicação por meio eletrônico contribui para quebrar as barreiras físicas tradicionalmente impostas pela administração e, assim, pode criar novas relações e comunidades.

Ainda com relação ao impacto das novas tecnologias na estrutura da comunicação organizacional, Daniels e Spiker, também citados por Varona (1996, p.5), identificam três correntes: a centralizadora - defende a idéia de que a nova tecnologia facilita a centralização e o controle da comunicação, via acesso direto aos bancos de dados e ao esvaziamento das funções intermediárias -, a descentralizadora - afirma o contrário, por entenderem que o aumento do fluxo informativo reduz as possibilidades de controle e abre caminhos para uma circulação mais livre -, e a corrente neutra - afirma que o fator determinante da centralização ou descentralização da estrutura de comunicação depende muito mais da filosofia gerencial vigente em uma dada organização. Outra forma de encarar o problema vem de uma abordagem filosófica do impacto da comunicação tecnológica, que procura realçar a necessidade de se estudar as implicações humanas. Segundo O´Connel, citado por Varona (1996, p.13), há seis hipóteses relacionadas com as possíveis mudanças impostas pela introdução da comunicação mediada por meio eletrônico, que transcrevemos a seguir, em tradução livre: 1. A oportunidade de interações face a face e as possibilidades de comunicação não verbal tendem a diminuir consideravelmente...; 2. A informação em fluxo descendente tenderá a ser mais informal devido às características físicas e comunicativas do correio eletrônico, o que implicará uma redefinição do que é estrutura formal e informal na comunicação organizacional;
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3. A informação transmitida por meio eletrônico provocará uma diminuição da transmissão de mensagens afetivas e axiológicas...; 4. As dimensões de confiança e credibilidade que se estabelecem entre as pessoas por meio da interação pessoal terão de ser repensadas; 5. Como os computadores impõem uma disciplina linear de pensamento e um estilo de comunicação que, para se adaptar ao novo meio, deve ser preciso e imediato, podem criar um clima de redução de tolerância aos estilos individuais de comunicação e uma conseqüente intolerância ao pensamento complexo e não linear. 6. O computador acabará determinando novas formas de execução do trabalho, com tempos cada vez mais acelerados. Como já vimos ao longo do texto, as novas tecnologias e a virtualização das organizações estão operando verdadeira revolução nos processos produtivos e de troca de informações, e exigindo de organizações e empregados novas atitudes e novas competências. Destes, é cada vez mais cobrada a capacidade de transformar a verdadeira enxurrada de informações recebidas em conhecimento produtivo.

O interessante nesse processo de virtualização é que, paralelamente aos diversos problemas que causa, como o desemprego e as incertezas da imaterialidade, permite inúmeras novas oportunidades, como a possibilidade de se estabelecerem novas relações de trabalho, não mais baseadas em normas e regulamentos padronizados de mediação, mas na confiança. Também a qualificação das pessoas tende a aumentar com a maior circulação e o maior acesso às informações globalizadas. As organizações estão propensas a obter ganhos em eficácia, em razão do livre trânsito de idéias e do incentivo permanente à inovação. O diálogo, a comunicação, em suma, apesar da impessoalidade, tende a se tornar mais franco, em razão da maior interatividade. As amarras burocráticas e hierárquicas tendem a se tornar mais maleáveis. No entanto, sabemos que a mesma automação que permite libertar o homem dos trabalhos mais estafantes e também impõe novas formas de aprendizagem e de relacionamento traz também embutida a possibilidade de aumentar os controles, as amarras e a vigilância sobre o indivíduo, além de induzir ao consumo de uma gama de conteúdos vendendo a ilusão de que a escolha é do trabalhador e do usuário. Dessa forma, convém perguntar que novas visões seriam possíveis a partir das contribuições de McLuhan sobre a automação.

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Uma nova visão? Antes de tentarmos buscar possíveis novas visões emanadas desde McLuhan e atualizadas por seguidores e outros pesquisadores, das mais variadas correntes, convém lembrar que qualquer possível previsão sobre os desdobramentos futuros da tecnologia e seus usos e impactos sociais não nascerá de simples abstração ou mesmo de exercício fútil de futurologia. Mesmo McLuhan, inserido que estava no establishment produtivo da época, só chegou a prever o que previu porque teve a rara oportunidade de conviver com a introdução de processos tecnológicos avançados por parte da indústria da informática. Como lembra Gamareli (2006, p. 30 apud SALARELLI, 2011, p. 6):
O traço profético do último capítulo de Understanding media não consiste, assim, em resgatar o enorme porte de uma incomensurável mudança tecnológica, evidentemente já percebida, pelo menos em nível de classe media - a primeira, com efeito, a ser afetada pela concorrência do trabalho desenvolvido pelos processadores - quanto em delinear suas características mais significativas de desenvolvimento futuro. De fato, McLuahn conhecia de dentro, o potencial da indústria informática e, principalmente, mais que as inovações propostas na vertente tecnológica, era bem consciente dos objetivos do mercado aos quais ela podia aspirar. Nos anos em que vinha à luz Understanding media McLuhan, como se sabe, desenvolvia consultorias para a IBM sobre um tema que é um verdadeiro programa: “Vocês

não devem mais construir máquinas de escrever, mas oferecer ao cliente a resposta às perspectivas de desenvolvimento de suas atividades”

As reflexões que faremos aqui, com a intenção de identificar uma possível nova visão seguirá os procedimentos já clássicos da prospectiva, palavra que remete a prospecto, ou a maneira de observar um objeto, e também ao latim prospicere, que significa olhar para longe. Nessa linha, prospectiva poderia ser definida a partir de quatro princípios “ver longe, ver amplamente, analisar em profundidade e aventurar-se, acrescentando o pensar humanístico” (BERGER, 1967, apud YEZID SOLER, 2004, p.1). Ou ainda como bem descreveu Bertrand de Jouvenel, “existem duas formas de ver o futuro, a primeira como uma realidade única, própria dos oráculos, profetas y adivinhos. A segunda forma de ver o futuro é como uma realidade múltipla, estes seriam os futuros possíveis (futuribles) (YEZID SOLER, 2004, p.1). Na linha dos futuros possíveis, no contexto organizacional, influenciado pelas novas configurações da automação, agora potencializada pela pesquisa avançada nos campos da neurociência, das ciências cognitivas, da biotecnologia, da bioinformática, da robótica e da nanotecnologia, é viável pensar em um futuro em que organismos e máquinas venham a se fundir. Em artigo recente, Girlanda e Fernández Castrillo (2011) apresentam um desafiador panorama no qual discutem as influências de McLuhan, das perspectivas pós-humanistas até o que chamam de neuromídia, e trazem a previsão de Raymond
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Kurzweil de que, em razão do aumento exponencial da velocidade das mudanças tecnológicas, no futuro próximo (2045), será possível transcender as limitações de nossos corpos e cérebros biológicos, de tal forma que não haverá nenhuma distinção entre homem e máquina. No artigo, os autores citam alguns projetos recentes que atualizam a perspectiva mcluhaniana, como os estudos ligados a sistemas de Realidade Virtual (RV), Realidade Aumentada e 3D Vision, bem como as novas pesquisas sobre “sentidos artificiais” e, especialmente, sobre a condição pós-humanística na esfera midiática:
Haverá em breve uma integração completa entre orgânico e inorgânico, natural e artificial, como afirmam vários intelectuais que cunharam novos conceitos como pós-humanismo e Singularidade. [...] Raymond Kurzweil (2005) e Vernor Vinge (1993) definem o conceito de singularidade em termos de criação tecnológica de superinteligência humana, o que representaria um colapso na capacidade dos seres humanos para modelar o futuro depois disso. Vinge foi o primeiro a utilizar este termo em um artigo de 1983, e um artigo de 1993 mais tarde intitulado "A Singularidade Tecnológica: Como sobreviver na era do póshumano". Neste texto, ele explicou que dentro de trinta anos, teríamos os meios tecnológicos para criar uma inteligência sobre-humana (GIRLANDA e FERNÁNDEZ CASTRILLO, 2011, p.535).

e as implicações desses processos a partir de uma perspectiva bioética e sócio-política (GIRLANDA e FERNÁNDEZ CASTRILLO, 2011, p.536). Sobre essas discussões, Salarelli (2011) nos apresenta às reflexões desenvolvidas por Lanier (2010); Carr (2010) e Schirrmacher (2009). Lanier nos diz que “as tecnologias digitais nos colocam em uma condição de lock in face a seus próprios resultados” (SALARELLI, 2011, p. 13). Para o autor:
Esse fenômeno, que se encontra em todos os níveis, desde a organização dos ícones em nossa tela, até o modus operandi colaborativo das redes sociais, produz êxitos desastrosos, como a asfixia de qualquer cenário alternativo na organização dos dados vinculada pelas rígidas e maniqueístas alternativas do dígito binário ou, ainda, como pode ser observado face todas as aplicações 2.0, a convicção disseminada de que as multidões interconectadas e falantes podem representar um degrau de inteligência superior em relação à dos indivíduos singulares (SALARELLI, 2011, p. 13).

Já Nicholas Carr preocupa-se com os efeitos da automação e das novas mídias sobre o cérebro. Para ele:
“o uso das novas tecnologias está modificando profundamente a atividade de nosso cérebro, na medida em que as áreas ativadas pela prática da leitura realizada através do livro impresso são subutilizadas, enquanto aquelas relacionadas à leitura na tela tendem à hipertrofia. O resultado, inevitável, é que o pensamento lógico-dedutivo, o aprofundamento
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Os mesmos autores alertam que muitas destas previsões também trazem para o centro do debate os problemas de limites

interior, o exercício da faculdade da memória, isso é, as habilidades específicas relacionadas à cultura das páginas impressas, estão fadadas a se tornarem secundárias em relação às competências fisiológicas necessárias para a fruição das novas mídias, que privilegiam a paratáxis - isso é, o multitasking - mais que a hipotáxis” (SALARELLI, 2011, p. 14).

Essa visão crítica também aparece em Frank Schirrmacher que, em seu trabalho, “afirma que, em breve, não será mais possível entender ‘onde começa o computador e onde acaba o cérebro’ (cap. 18), prefigurando uma espécie de isomorfismo entre a psique humana e os sistemas de gestão da informação, provocado pelo efeito desses últimos sobre o conjunto de nossas faculdades cognitivas” (SALARELLI, 2011, p. 14). A possibilidade aqui desenhada de que organismos e máquinas venham a se fundir e que as tecnologias indutoras da automação não sejam mais concebidas e utilizadas como máquinas, mas como parceiros cognitivos integrados (vide GIRLANDA e FERNÁNDEZ CASTRILLO, 2011, p.537), implicará, com certeza, novas discussões sobre a dimensão humana no trabalho, os aspectos éticos envolvidos na gestão, a chamada consciência moral, entre outros temas relevantes para a sociedade. Organizações sociais tendem também a se transformar em espaços cada vez mais híbridos, regidos por inteligências múltiplas e ampliados por cérebros artificiais, que precisarão aprender a equilibrar racionalidade e emocionalidade nas tomadas de decisão.

Certamente será necessária uma retomada dos debates em torno do que é meio, do que é mensagem, do que é conteúdo, nesses possíveis novos processos comunicacionais que advirão das interações entre “parceiros cognitivos integrados” em que não será mais possível perceber o meio como extensão humana, mas como algo intrínseco à própria natureza desse ser hibridizado. Como nos diz Salarelli (2011, p. 15), “na era da automação, temos a possibilidade de observar, a elevação potencial da técnica, portanto do meio sobre a mensagem”. A proposta inicial deste texto foi a de analisar, a partir do que denominamos de visão de McLuhan, a atualidade de seu pensamento sobre os impactos da automação nos contextos organizacionais, na comunicação e no mundo do trabalho. Também buscamos identificar que possível nova visão poderia advir da conjuntura atual e do desenvolvimento exponencial das pesquisas nos campos da tecnologia, da cognição, da robótica e da inteligência artificial. O que é possível vislumbrar, desde já, é que a visão de McLuhan se confirmou em muitos aspectos e que suas ideias e provocações ainda serão muito úteis para ajudar a iluminar os caminhos daqueles pesquisadores que se aventurarem a percorrer o futuro que desde já, e sempre, está em construção.

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