Gourmet

São nove pessoas à mesa, enfeitada com uma toalha e guardanapos bordados. Vêem-se, sentados, os filhos, o senhor general, que está fardado, e a avó. Também lá está o bebé ainda de berço. Vão tomar chá e donuts. A família existe na realidade, embora esta seja a descrição da sua “versão” em bolo de aniversário, mais exactamente em nove figuras-miniatura, mais uma mesa e – ainda mais miniatura – chávenas e guardanapos para todos. Tudo é doce e comestível neste conjunto. Depois de um primeiro pequeno curso feito no final de 2006, Ana Sousa, autora do bolo descrito, descobriu “uma paixão” na modelagem e decoração de bolos, a partir de uma boa tradição anglosaxónica. A mesa de cozinha onde tudo acontece parece a de um pintor ou de um escultor. Tintas, pincéis, lápis, pós e paletas misturam-se com facas, espátulas, rolos, palitos, gel e a pasta de açúcar. Os tempos de lazer que o trabalho por turnos lhe permite organizar, seja de dia ou de noite, são momentos de fuga, confessa esta mãe de três rapazes. A “família-miniatura à hora do chá”, baseada em fotos da família, demorou a fazer dois dias, o segundo dos quais até às seis da manhã. Na Istofaz-se, uma empresa ligada à formação, passam anualmente pelos seus cursos de fim-de-semana de decoração de bolos cerca de 250 pessoas, na sua grande maioria mulheres. A responsável, Joana Monteiro, respondeu, em 2006, ao desafio de uma amiga e convidou uma das melhores profissionais do Reino Unido, Debbie Brown, a vir a Portugal. “Não nos tínhamos apercebido que tanta gente procurava decoração de bolos”. Chegou a receber telefonemas de Espanha para marcações nesse curso, que foi um sucesso. Hoje, com a crise económica instalada, a lista de espera para os cursos de bolos decorados da Istofaz-se aumentou para entre dois a três meses de espera, o que não acontecia até ao final do ano passado. Foi com Debbie Brown, com Lindy Smith e Patricia Schmidt (outros nomes internacionais da área), com idas a feiras da especialidade como a de Birmingham, e com a Internet que Ana tem desenvolvido o seu “hobby”. Técnica de sangue num hospital há 20 anos, uma área em que “não há coisas bonitas”, descobriu na modelagem e decoração de bolos “uma coisa bonita e que dá prazer”. Lindy Smith é especialista em construções de peças desencontradas e em aparente desequilíbrio. Debbie Brown faz bonecos saídos de contos de fadas. Embora a confecção de uma massa de bolo de qualidade seja fundamental, é no trabalho de modelagem que a inspiração é convocada. Ana percebeu que os primeiros conhecimentos não lhe chegavam para grande coisa. Continuou a fazer pequenos cursos e a pesquisar na Internet. Descobriu Alan Dunn, Tombi Peck, Paddi Clark e Jan Clement-May, artistas da modelagem de açúcar. Uns vêm da escola romântica, outros desencontram bocados de bolo, como castelos a desmoronarem, e no final parece que Agatha Ruiz de la Prada passou pela cozinha. Dos brasileiros, tem aprendido a perícia no trabalho de massas húmidas, mais próximas do gosto dos portugueses. “Copiar é fácil, mas não dá gozo. O gozo está em criar”, diz Ana, em cujo blogue colocou, há alguns meses, a foto de um cantinho de Alfama, com a fachada de uma pequena casa, com Santo António por cima da porta, um gato e uma canastra de sardinhas à porta – um bolo que levou a uma exposição na FIL. A ideia de as suas criações serem presentes para quem faz três, oito, trinta ou oitenta anos diverte-a,

Tratado de paz com os tachos e panelas
Os tempos livres podem ser desfrutados na cozinha, com todos os sentidos envolvidos, a modelar e decorar bolos ou a juntar pato, chocolate e malaguetas. E, quem sabe, pode-se até conhecer o pasteleiro de ‘sua majestade, a rainha’... Lurdes Ferreira conheceu gente que foi para a cozinha divertir-se

Prazeres
26 • Sábado 25 Abril 2009 • Fugas

levando a sério a formação. “Tem que se pedalar, investir em formação, se não, faz-se qualquer coisa. Qualquer coisa não serve”. Há pouco tempo desafiaram-na a fazer um bolo com instrumentos musicais. “Precisava de um clarinete e um fagote, logo ali ‘à mão’. Não tinha. Resolvi o problema com a Net”.

Médicos aconselham
Foi através da Internet que soube da existência de um curso com Eddie Spence, um ilustre desconhecido para quase todos os portugueses. Mas se se acrescentar que se trata do pasteleiro da rainha de Inglaterra, o caso muda de figura. Com a perspectiva de que os 80 anos de Eddie Spence não permitam fazer muitos mais cursos, inscreveu-se com vários meses de antecedência na Squires Kitchen International School of Cake Decorating and Sugarcraft e lá foi, no fim de Março, conhecer o pasteleiro de ‘sua majestade, a rainha’. A experiência, diz, fica-lhe para toda a vida. Foi de tal maneira intensa que, para mergulhar na semana de curso, anunciou até uma paragem temporária na sua vida de “blogger”. Para Maio, tem mais um curso previsto para Lisboa, com outra celebridade: Colette Peters, uma norte-americana “excêntrica”, famosa pelas suas criações e por ter clientes famosos como a Casa Branca e Oprah. Para além da distracção, “há também um lado terapêutico neste tipo de actividades”, segundo Joana Monteiro. A Istofaz-se recebeu já alunas aconselhadas por psicólogos “a procurarem

Ana Sousa Silva trabalhos com as mãos” e que lhes dizem “Olhe, decore bolos”. Também já recebeu pasteleiros da escola tradicional “desconfiados”, que entraram a pensar que esta era uma técnica menor e saíram conscientes de que o tempo de entrega a cada bolo estava para lá do preço economicamente aceitável para um estabelecimento comercial. Muitos deles voltam lá, para comprar ferramentas, quase todas importadas do Reino Unido. “Isto só se faz por prazer. Se é para ganhar dinheiro depressa, é um erro”. Explica, no entanto, um dos segredos que mais motiva quem faz os cursos: “É a possibilidade de começar rapidamente a vender bolos”. O mercado, pelos vistos, existe, com indicações de outras iniciativas congéneres na grande Lisboa e Porto.

portuguesas e as novas formas de confeccionar alimentos tradicionais fazem parte da descoberta. Miguel Almeida, um engenheiro que já tem no currículo extraprofissional um curso de enologia, fez há uns anos um curso de culinária, oferta de uns amigos. O tema era o Natal e divertiu-se tanto a confeccionar a receita como a comêla. Depois, a costela de engenheiro levou-o a mais experiências. Por exemplo, cozer e fritar arroz carolino e basmati até perceber a razão pela qual o basmati não reage à fritura. Há dias em que pára o trabalho mais cedo e, em vez do futebol ou do ténis – que pratica –, vai para a cozinha “espairecer”. E foi experimentando nas horas vagas que chegou à que considera ser a sua receita mais radical: pato com chocolate e malaguetas. Da estranha combinação para as bocas mais convencionais, diz que “ou se ama ou se odeia”. O “Chocolate”, de Lasse Hallstrom, com Juliette Binoche e Johnny Depp, deu o mote; depois associou-o a uma carne de que gosta e foi a irreverência de Jamie Oliver que o levou até às malaguetas. Miguel Almeida, que sabe ter-se tornado um consumidor mais exigente e sobretudo mais atento à relação qualidade-preço, já tem também uma pergunta preparada para o dia em que se cruzar com mítico Ferran Adrià, do El Bulli. Não sabe quando vai ser, mas quer falar com ele sobre “fast food”... Rui Piçarra, um dos fundadores da Odisseias, uma empresa de aventuras, reconhece que a culinária nem é um dos seus mercados mais

significativos, mas acha graça ao facto de entre 10 a 20 por cento das pessoas que passam pelos seus cursos quererem especializar-se, “porque gostaram”. Pelas aulas da cozinha Vaqueiro, geridas pela Jerónimo Martins vai para seis anos, passam agora mais de meia centena de pessoas por semana. Entre os módulos do ABCozinha até às versões sofisticadas, Leonor Sousa, responsável pelo Instituto Vaqueiro, encontra quem regressa e faz mais uns cursos “porque gosta e vem com amigos”, ou quem, em menor percentagem, corre todos os módulos. “A cozinha passou de tarefa aborrecida e chata para diversão e terapia”, diz Leonor Sousa. Nas aulas Vaqueiro, a evidência colectiva é que o gozo começa na própria preparação. “Eles [os alunos] metem as mãos na massa. Experimentam texturas e sabores. É muito exploratório”.

Onde encontrar cursos
www.vaqueiro.pt Do ABCozinha ao chocolate. Preço 55 a 220 euros. Telefone Linha Azul 808 200 575 www.inspiro.pt Culinária prática com Emiliano di Renzo. Preço 310 euros. Telefone 220500752 www.istofaz-se.pt Dos bolos às técnicas de modelagem de flores. Preço 140 euros cada quatro horas. Telefone 213 049 767 www.noceudosbolos.blogspot.com/ Sobre bolos decorados. De Ana Sousa www.odisseias.com Das tapas à macrobiótica, passando pela comida exótica. Preço 50 a 185 euros Telefone 707 208020 www.cozinhomania.com Do menu 100 maneiras à cozinha com ervas aromáticas. Preço 30 a 40 euros Telefone 919984349 / 913621114 www.avidaebela.com Das flores comestíveis à arte de fazer queijo. Preço 35 a 360 euros Telefone 213617150 www.life-stylecooking.com Dos tachos para solteiros à cozinha indiana Preço 50 a 65 euros Telefone 214812244

Diversão e terapia
Contra a ideia de que a cozinha se tornou um lugar chato pela obrigação diária de alimentar a família, os novos cursos de culinária – sejam doces ou salgados – convidam a um tratado de paz com os tachos e panelas. Em vez da obrigação, estimula-se a liberdade de criar, mesmo que a família tenha de esperar mais uma hora pela refeição. Nesse regresso à cozinha, elas descobrem as comidas exóticas, os sushis; eles, as comidas rápidas e para impressionar, de acordo com a avaliação que a Odisseias e a Vaqueiro fazem dos alunos que passam hoje pelas suas aulas. Ambas concordam que a faixa etária mais significativa anda na casa dos 30 anos e nestas lições todos os sentidos são desafiados: é o olfacto, o paladar, a visão, o tacto e até mesmo a audição. Os novos ingredientes nas cozinhas

Miguel Almeida

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