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Pelo Socialismo

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Texto publicado pelas Edições «Avante!» em 1947. Reeditado pela Editorial Avante em 2007, nas Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal tomo I, pp. 789-812. Colocado on line em 18 de Abril de 2010

Questões político-ideológicas com actualidade http://www.pelosocialismo.net

Álvaro Cunhal

O Partido Comunista, os católicos e a Igreja
Muitas vezes o Partido Comunista Português tem definido a sua posição em relação ao problema religioso, aos católicos e à Igreja. O Partido Comunista tem afirmado e reafirmado os seus princípios de respeito pela liberdade de crença e de prática de culto e o propósito de fazer tudo quanto estiver ao seu alcance para que tais princípios sejam uma realidade no Portugal democrático de amanhã. O Partido Comunista, ainda que tendo como base teórica o materialismo dialéctico, entende que as convicções religiosas, por si só, não são susceptíveis de afastar os homens na realização de um programa social e político e que, desta forma, comunistas e católicos podem e devem unir-se em defesa dos seus anseios comuns, em defesa dos interesses e aspirações dos deserdados e ofendidos, do povo e do país. O Partido Comunista tem assim proclamado a sua vontade de união com os católicos e, na prática da sua actividade, tem demonstrado a sinceridade das suas afirmações. A esta nossa posição de concórdia, de entendimento, de unidade, que resposta têm dado os católicos? Aqui há que distinguir. Por um lado, os trabalhadores católicos, assim como muitos católicos progressistas, particularmente jovens, têm compreendido a necessidade desta união e têm engrossado a frente da luta pelo pão, pela liberdade, pelo progresso e pela independência. Por outro lado, a Igreja Católica, pela boca dos seus mais autorizados representantes, como o Cardeal Cerejeira, altos dignitários e imprensa, longe de uma posição de concórdia e tolerância, têm tomado uma posição política clara, pregando o ódio aos comunistas e outros democratas e aconselhando o apoio ao salazarismo. A Igreja intervém assim activamente na política, colocando-se ao lado da ditadura fascista contra as aspirações democráticas do povo português. Altera isso a nossa posição em relação aos católicos? Não, não altera. Nós, comunistas, defensores do nosso povo e da nossa pátria, continuamos desejando sinceramente a unidade com os católicos progressistas na luta pela realização das nossas comuns aspirações. A insistência da política da Igreja obriga-nos, porém, uma vez mais, a vir esclarecer o nosso ponto de vista em relação à Igreja e à sua intervenção nos negócios públicos.

A alternativa que se coloca: democracia ou fascismo
Na presente situação nacional, qual é a alternativa que se coloca ante o povo português? Essa alternativa é: ou o fascismo ou a democracia. Ou a continuação da exploração sem freio das classes trabalhadoras, do esmagamento das classes médias pelos monopólios corporativos, do atraso do país, do obscurantismo, da censura, da ausência de liberdades, do ódio, das violências da PIDE e de todo o aparelho repressivo, do isolamento internacional, das concessões ruinosas ao imperialismo estrangeiro; ou UMA VIRAGEM DA POLÍTICA PORTUGUESA no sentido do progresso e da democracia, a libertação do país da canga do corporativismo, a realização de eleições livres, o estabelecimento de uma política externa

não entre os patriotas e os que se submetem ao imperialismo anglo-norte-americano. e que o Japão invadiu a China. mas é a Igreja que o proclama. E. o discurso do Cardeal. e escravizaram. a reacção procurou logo fazer esquecer a existência do fascismo. mas é a Igreja que concentra o seu fogo contra os comunistas e os democratas em geral. do militarismo. a luta pela sobrevivência e revanche do fascismo. Em segundo lugar: quebrar a unidade democrática. está isolando o salazarismo e criando no campo antifascista uma ampla unidade de homens e mulheres de todas as convicções políticas e religiosas. O fascismo salazarista não está. dizia que «os sucessores de Lénine» proclamam:« Moscovo ou Roma». Contudo. que já têm a audácia de nos chamar «totalitários» e «sucessores do nazismo». em editorial. Que pretende com isso o fascismo? Em primeiro lugar: alargar as suas bases de apoio. Os povos deram o seu sangue para extirpar o fascismo do mundo. a luta contra a democracia e a liberdade. . O significado da luta anticomunista A «luta contra o comunismo» não é recurso novo de que apenas agora o fascismo lance mão. em vez de tomarem uma posição progressiva. como diz o Cardeal. em cada país. não somos nós que. que se coloca voluntariamente no campo do fascismo. criando discordâncias e divisões. A «luta contra o comunismo» é. proferida ao microfone da Emissora Nacional em 22 de Fevereiro passado. interessado em que a questão seja assim posta.2 independente e de convívio internacional. não entre o fascismo e a democracia. Na «Instrução sobre o Comunismo». e que a Espanha foi agredida e ocupada. e traíram. os Quislings. isolando os comunistas. os Tissos justificaram a sua política de traição. e que os movimentos fascistas se desenvolveram. de opressão colonial. porém. A segunda guerra mundial foi conduzida na base da luta contra o fascismo e a sua expressão mais brutal: o fascismo alemão. E assim se procura chamar em defesa do fascismo todos os que não sejam comunistas. Foi à base da «luta anticomunista» que. A verdade é que não são os comunistas que proclamam «Moscovo ou Roma» (para nós. não se trata de «Moscovo» ou «Roma» mas de Portugal). desta forma. E assim se procura separar do campo democrático os católicos progressistas e levá-los à defesa do fascismo. atraindo os elementos mais hesitantes e aqueles que temem a «revolução comunista». que se afasta voluntariamente do campo da democracia e do progresso. de intervenção militar. entre o «Comunismo e o Anticomunismo». desorientando. Esta é a real alternativa que se coloca ante o povo português. «concentramos contra a Igreja todo o exército dos nossos militantes». tanto na política internacional como dentro de cada país. E porquê? Porque tal alternativa está alargando cada dia a frente democrática e reduzindo a frente fascista. de resolução dos problemas internacionais e nacionais por actos de força. alinhando com os povos amantes da liberdade e da independência. e o fogo foi concentrado novamente no «perigo comunista». O Cardeal procura mostrar que «vão-se cada vez mais extremando os campos» e que o choque que se está dando é não entre as forças da reacção e as forças do progresso. aplaudindo.» O jornal O Século de 4 de Março. mal acabada a guerra. não entre os que desejam a paz e os que querem a guerra — mas entre o comunismo e o anticomunismo. Não nos devemos espantar de que os comunistas venham a ser acusados de «fascistas» pelos próprios fascistas. É por isso que o fascismo procura fazer crer que a alternativa que se coloca perante Portugal (como perante o mundo) é uma outra. a luta contra os direitos das classes trabalhadoras. não somos nós que erguemos o facho da luta contra a Igreja e a Religião. os Lavais (237). O Vaticano e a Igreja Católica de cada país. o fascismo sobrevivente vestiu-se de «democrata». da expansão imperialista. comunistas. de exploração. Foi à base da luta «anticomunista» que Hitler escravizou a Alemanha e a Europa e lançou o mundo na mais sangrenta guerra da História. A «luta contra o comunismo» é retomada hoje pela reacção e pelo fascismo para justificar a sua política de expansão imperialista. preferiram alinhar com as forças da reacção. de terror. o Cardeal Cerejeira proclamou: «O DILEMA ESTÁ POSTO: OU O CRISTIANISMO OU O COMUNISMO. é a alternativa entre a «ordem e a desordem».

«Instrução»). A Igreja está fazendo política No seu discurso de 20 de Novembro de 1946.» No dia 13 de Novembro de 1945. o fascismo é um fenómeno passado e que a tirania de hoje é o «comunismo». O Partido Comunista luta. só depois da libertação tivemos conhecimento da situação real». O Partido Comunista luta para que seja dada voz ao nosso povo para que ele escolha livremente o seu destino. das famílias. na Grécia. a Igreja e o Vaticano estão disso informados. o Cardeal Cerejeira veio declarar que «a Igreja em Portugal não tem. SOMOS e SEREMOS SEMPRE GERMANÓFILOS. para declarar que o bolchevismo é «uma tirania não menos despótica do que o nazismo» (Discurso no Sacro Colégio em 36-1945). Respeita e manda respeitar as autoridades públicas que têm. aos olhos dos . Que conselho dava o Cardeal aos católicos portugueses? Que atitude lhes aconselhou em relação ao Estado salazarista? O Cardeal aconselhou aceitação e defesa do regime. a menor influência política. Só quem queira fechar os olhos às realidades pode ver. como tantos outros. representa colocarem-se ao lado do fascismo.3 Logo após a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho. como tal. Não dos horrores dos regimes fascistas e aconselhando os povos a libertarem-se do fascismo. ou dos monárquicos gregos. Assim se procura fazer esquecer que o Vaticano e as Igrejas apoiaram o «racismo» enquanto acreditaram na vitória de Hitler. a perspectiva duma «revolução comunista». Isto é: representou uma intervenção nos negócios públicos. nenhuma influência política». O Cardeal Cerejeira também veio dizer: «Batem à porta das nações cristãs hordas de bárbaros para as destruir. o racismo.) E esclarece: «ONTEM O RACISMO. mas sim a instauração duma ordem democrática. na presente situação portuguesa. Assim se procura mostrar que as atrocidades fascistas foram uma realidade privativa da Alemanha nazi e que não existem em Espanha. Estamos de acordo que esta DEVERIA SER a atitude da Igreja e do Clero. à democracia chamam «comunismo». em Portugal. Não é a «revolução comunista» que os fascistas temem e contrariam. mas para fazer esquecer a existência do fascismo. ao lado de todos os democratas portugueses. E sublinhou que «a Igreja não faz política». HOJE O COMUNISMO» (cit. cooperação com o salazarismo: «Se não está enfeudada (a Igreja) a nenhum regime político — disse o Cardeal — cumpre lealmente os seus deveres para com o existente... que «o clero não tem qualquer privilégio político nem exerce. das sociedades. a pretexto da «luta anticomunista». nem quer ter. Simplesmente. E. Assim se procura fazer esquecer que o fascismo. pela concessão das liberdades fundamentais ao povo português e pela realização de eleições livres. com a intenção de criarem fantasmas para assustar as almas ingénuas e justificar medidas de terror. não é um fenómeno passado (de «ontem»). Não é esta afirmação uma tentativa para diminuir as responsabilidades do silêncio do Vaticano perante as atrocidades nazis? Não estão o Vaticano e a Igreja Católica informados do «carácter inumano» da repressão salazarista. virem proclamar que o «racismo». dos indivíduos. A Igreja convoca os cristãos para a defesa da Pátria. o Sumo Pontífice veio falar ao mundo. desta forma. tentando acobertá-lo e defendê-lo à base da «luta anticomunista». Mas não o é na realidade.» (Discurso na Sé de Lisboa em 27-10-1946. se por isto se entender a intervenção nos negócios públicos e no regime do Estado». o exercício da influência religiosa na política nacional. O mesmo discurso. realizou precisamente o contrário. mas é ainda e infelizmente uma realidade presente. o Papa declarou a um jornalista francês: «nunca fomos informados do carácter inumano da repressão nazi. «Não nos envergonhamos de dizer — afirma o jornal católico O Mensageiro Paroquial de Viseu (3-11-1946) — que FOMOS. obediência ao salazarismo. ou franquista. tal como ontem estavam informados da repressão hitleriana? Sim.

Salazar procura. como tal. que. Como «cidadãos particulares» devem ser combatidos aqueles que. discurso de 20-11-1946). Nenhum apelido o incomoda mais do que «fascista» (que diz não ser) ou «totalitário» (de que acusa os democratas portugueses). Salazar. E não deixa de ser suspeito o facto de que aqueles que de tal (de fascista — Ed.4 cristãos. afirma ser essa actuação desenvolvida por cada um como «cidadão particular». dizia que «as mais solenes definições políticas do regime português feitas pelos homens responsáveis repugnam a tal qualificação. fazendo política fascista. como pode esperar com justiça não ser atingida nem criticada pelos adversários desse regime? Nós não combatemos a Igreja na sua acção puramente religiosa. da vitória de Hitler na guerra. que católico sincero. fazem política fascista.. quando. orgulhava-se por a «Ditadura portuguesa [. diz-se atingida. algo do poder de Deus (sic). no seu discurso de 20 de Novembro. da influência política? Nós pensamos que à IGREJA COMPETE CUIDAR DA RELIGIÃO. obedece e manda obedecer às leis. Exemplo bem vivo é a atitude do Vaticano e das Igrejas Católicas em face das condenações dos sacerdotes que na Jugoslávia. Agrada-nos que a questão seja assim posta.] não ser inferior. perseguida. nos púlpitos ou na imprensa católica. como na Albânia. E se a Igreja faz política. quando essa própria declaração tem o único objectivo de cobrir a política que se faz. coopera com o poder público na ordem espiritual em vista do bem comum. orgânico». tornando-se a Igreja uma força política. se põe a sua autoridade em matéria religiosa ao serviço de um regime político. . Ao fazer política.» Não é isto fazer política? Não é isto o exercício pelo Clero. Infelizmente. agora a Igreja auxilia Salazar no seu disfarce «democrático». é a Igreja que se coloca no terreno das lutas e das contingências. Tal como durante a guerra a Igreja não levantou a voz contra o auxílio salazarista a Hitler. conspiraram e traíram como «cidadãos particulares» e como «cidadãos particulares» foram julgados e punidos. (Entrevistas a António Ferro. para justificar a sua actuação política e dos seus ministros.. ao mesmo tempo que fazer esquecer a ajuda que prestou a Hitler. Pois bem. A obediência às legítimas autoridades é obrigação dos católicos. de dar maior autoridade às indicações de concordância e obediência ao fascismo. Mas. os seus ministros são criticados ou atingidos em consequência da sua acção contra o povo e a pátria.) Vencida a Alemanha. não o faz como ministro da Igreja. como «cidadãos particulares». E que ela está fazendo política fascista ficará mais claro pelo que se segue. à obra da ditadura italiana».) mais acusam de fascista o regime português são os que hoje procuram destruir todas as liberdades». como políticos. incluindo Sua Eminência NÃO PELO FACTO DE SEREM SACERDOTES.. poderá negar aos democratas o direito (e o dever) de combaterem a política reaccionária da Igreja? Diz o Cardeal que «ainda que qualquer ministro da Igreja tenha podido tomar atitudes políticas. antes COMO CIDADÃO PARTICULAR» (cit. derrotado o fascismo nos campos de batalha. em 1933. nos seus resultados e nas suas directrizes. E NÃO CUIDAR DA POLÍTICA: Não basta dizer que «a Igreja não faz política» quando a faz activamente. o Cardeal. Falando da designação de «fascista» que uma revista estrangeira dava ao regime português.. A Igreja ao lado do salazarismo Para iludir os anseios democráticos do povo português e a opinião democrática mundial. ao mesmo tempo que ajudava Hitler. Como «cidadãos particulares» devem ser combatidos os membros do Alto Clero. orgulhava-se da semelhança da «nossa ditadura» com a «ditadura fascista» «na guerra declarada a certos princípios da democracia». intervindo a cada passo na política. o salazarismo faz os maiores esforços para demonstrar não ser um regime fascista. MAS PELO FACTO DE SEREM FASCISTAS. insultada. fazer-se passar por «democrata. devem ser combatidos aqueles ministros da Igreja que tomam atitudes políticas ao lado do fascismo. Como «cidadãos particulares». que pessoa. Quando acalentava esperanças do triunfo internacional do fascismo. a Igreja. e não nós que a colocamos.

Mas vai dizendo que «condena as doutrinas erróneas que se traduzem praticamente na tirania do poder e na escravização do espírito e da consciência» (isto não respeita ao fascismo mas à democracia). etc.). quando da farsa eleitoral. porque todo o totalitarismo político nega a missão e a liberdade da Igreja» (para o sr.5 Um jornal católico.) comunista e demagógico. Essas condições eram: a concessão das liberdades democráticas básicas. alertando contra os perigos de uma mudança de situação política pois «corre-se o risco de perder o bem presente na procura precipitada do bem futuro». Quando. A VOZ DO PÁROCO da freguesia de N. apesar de que o recenseamento fora encerrado sete meses antes (numa altura em que a oposição não podia prever a realização de eleições).» Que representam estas palavras senão aconselhar os católicos a votarem contra os que falam em liberdades. LADRÕES. que «condena o totalitarismo cesarista (isto também não visa o salazarismo — Ed.) Não é isto abusar dos sentimentos religiosos dos católicos? Não foi contudo a farsa eleitoral de 1945 a única situação difícil em que a Igreja veio dar um substancial apoio a Salazar. por exemplo.a da Encarnação. reafirma que a Igreja «está acima e fora da política concreta dos regimes. SOCIALISTAS. em Portugal. apesar de não dar amplas liberdades de propaganda eleitoral (proibição de reuniões. Todo o católico tem o dever de trabalhar por uma lei fundamental do Estado que não se oponha aos santos princípios morais e religiosos. Cardeal o salazarismo não é um regime totalitário). envolve as suas afirmações em rodeios de linguagem a enjeitarem responsabilidades. (N. cuja força. pessoas». «um governo verdadeiramente democrático preside aos destinos da nação» e que «a democracia corporativista (sic) é a que melhor se adapta ao carácter do povo português» (número de 8-10-1946). etc. Claro que o Cardeal. partidos. democracia. programas. redenção proletária. a Igreja não pode deixar de dar combate». traduz este pensamento sem qualquer pudor dizendo que. a permissão de partidos políticos. E não temia menos a boicotagem do acto eleitoral pelos democratas e a consequente débil percentagem dos votantes. num artigo intitulado «As eleições de domingo». a Igreja e a sua imprensa vêm em auxílio do regime salazarista. etc. enlouqueceram desde que perderam a seiva cristã. em democracia. novo recenseamento e adiamento do acto eleitoral. governos. prisões. reforma social. o salazarismo estava defrontando um amplo movimento nacional de massas. que «aos que pretendem fazer do Estado incarnação do Anti-Cristo. esse apoio não tenha conseguido que . Em princípios de Novembro. contra os democratas portugueses? Tão bem foram compreendidas estas instruções pelo clero reaccionário que a pequena imprensa católica (e há dezenas de pequenos jornais católicos pelo país) se lançou abertamente na luta eleitoral. «Ideias e aspirações justas em si. como as de liberdade. incitando os católicos a irem às eleições-burla e a votarem nos candidatos salazaristas. ESTE DEVER EXERCEM-NO OS CATÓLICOS ATRAVÉS DO VOTO». ao longo de todo o seu extenso discurso. ameaças. NÃO SE PODE VOTAR PELOS COMUNISTAS OU COMUNIZANTES. como sempre. ainda que. ANARQUISTAS. Não é. de que devem votar: «A abstenção política dos católicos — disse o Cardeal — priva a sociedade dos tesouros de luz e de caridade que a consciência cristã possui. unidade e firmeza política eram uma ameaça para a própria existência do fascismo. em «redenção proletária». ASSASINOS. contra a boicotagem aconselhada pelo MUD e pela votação nos candidatos salazaristas. apenas neste aspecto da política salazarista que o Cardeal. E previne os católicos de que não devem abster-se das eleições. temia que os democratas concorressem às eleições e vencessem. porém. isto é. em Outubro-Novembro de 1945. BOLCHEVISTAS. Aqui.º 473. em reforma social. cultura. dizia: «Os católicos devem votar por aqueles que defendem os interesses da religião e da Pátria. não autorização de novos jornais. Era esta a situação em princípios de Novembro de 1945. O Mensageiro Paroquial. O salazarismo. a oposição democrática colocou algumas condições para concorrer às urnas. Sr. como sempre que intervém na vida política. Salazar levou a cabo a sua «manobra política de grande estilo» que foi a farsa eleitoral. sistemas. indica em quem devem votar os católicos. É PECADO MORTAL DAR O VOTO A CANDIDATOS INDIGNOS E ATÉ PODE PECAR GRAVEMENTE QUEM NÃO FOR VOTAR. E. Foi nesta situação que o Cardeal Cerejeira (em 7 de Novembro) veio falar ao povo português (num «documento dirigido ao clero» e publicado em toda a imprensa diária).

No Brasil desenvolveu-se um grande movimento anti-salazarista? Pois bem: o Cardeal vai aí numa missão que transcende em muito motivos religiosos e. dizia «Importa produzir ao máximo géneros alimentícios e não consumir deles senão o estritamente necessário. Agora. na crescente devoção que a sua vasta obra política testemunha e que o povo conscientemente reconhece. ruína e subserviência internacional do governo de Salazar. por exemplo.. a fim de facilitar a nova manobra salazarista que está no choco. de Faro. de volta (30-9-1946). de Rochoso. Salazar. Guarda: «Afinal. a FOLHA DE DOMINGO. Por isso a revolução tem de continuar».» Em 1 de Maio do mesmo ano podíamos ouvir o Cardeal referir «o apelo que os chefes das nações mais interessadas na ordem e no bem-estar do mundo têm feito em favor das multidões imensas que o novo flagelo da fome ameaça sacrificar. Presidente do Conselho continua firme no seu posto de comando. Salazar fez um discurso em que insistiu na ideia da conversão da «União Nacional» numa grande «frente patriótica». insiste o mesmo jornal: «O Sr. veio pregar a constituição de uma ampla frente «anticomunista» e ordenar aos católicos progressistas a sua separação dos outros «democratas» («Instrução» de 22 de Fevereiro).» O AMIGO DA VERDADE (sic). Resume-se em dois verbos: poupar e produzir. E passada mais uma semana. indiferente aos cansaços. comprando o auxílio anglo-norte-americano com toda a espécie de serviços e auxílios à política dos Estados Unidos e da Inglaterra? Vimos nós no dia 26 de Julho de 1946 chegar a Lisboa uma missão da UNRRA para tratar do «problema da fome» no mundo? E a 3 de Agosto o Conselho de Ministros aprovar a contribuição para essa campanha demagógica angloamericana de 25 000 contos de «mercadorias disponíveis (sic) no mercado nacional»? E a 5 de Agosto ser noticiado o pedido salazarista de admissão na ONU? Também na preparação desta manobra a Igreja deu o seu auxílio. no dia 12 de Março (no mesmo dia em que Truman anunciou a sua nova política «anticomunista»). num artigo sobre o 28 de Maio.º de 2-6-1946. de harmonia com a ofensiva conjugada da reacção mundial. declarou ao microfone da Emissora Nacional: «Não faltaram lá bocas de brasileiros ilustres a fazerem o elogio do Portugal renovado. APOIANDO SUAS MANOBRAS E SUAS DEMAGOGIAS. ela torna-se cúmplice da política de opressão. tanto o presidente Truman como os dirigentes franceses estão copiando aquilo que Salazar fez entre nós.» (19-1-47. o Cardeal.) Mais recentemente (16-2-1947). põe em palavras claras o que o Cardeal diz em formas complicadas.) O MENSAGEIRO PAROQUIAL. Seguindo as instruções do alto clero reaccionário. Não falamos já nos diários A VOZ e NOVIDADES. Já a voz dos que têm responsabilidades de governo disseram aos portugueses a maneira mais eficaz de cooperar nesta cruzada mundial. «data histórica». Uma semana depois. diz: «Em Carmona e Salazar consubstanciam-se as virtudes do heroísmo e da confiança. Nós temos que ir em seu auxílio..6 votassem mais de 20 por cento dos eleitores inscritos. com grandes fotografias de Carmona no meio de Salazar e Cerejeira. Falamos agora apenas da pequena e numerosa imprensa católica.» Salazar procurou entrar na ONU. referindo-se a um pedido da Inglaterra para a participação de Portugal numa campanha mundial contra a fome. Assim. (N.» A imprensa católica. num apelo aos portugueses. Tudo isto mostra que OS CHEFES RESPONSÁVEIS DA IGREJA ESTÃO AGINDO DE BRAÇO DADO COM O SALAZARISMO. por exemplo. à saúde que tem sacrificado. logo no momento do desembarque. A todo o passo esse apoio se faz sentir. de Viseu. já sem as responsabilidades dos altos dignitários. em 4 de Março. do valor militar e da certeza nas energias da raça. 20 anos são pouco para erguer dos escombros do passado a nova cidade. A 3 de Abril. um banquete na Nunciatura em homenagem a Carmona era noticiado com grande destaque nos jornais. fala na . cuja acção fascista é bem conhecida.

O AMIGO DA VERDADE diz por exemplo: «Depois que Salazar subiu ao poder. órgão do Seminário dos Olivais... A DEFESA. mostram que A IGREJA. longe de ser gasto em obras de luxo ou de segunda ordem. PORTUGALIZAR um país é manter esse país em paz. . Todos sentimos no peito o desejo de gritar: obrigado Salazar» (16-2-1946).» (7-9-1946. da Ilha do Pico. «FAZEM POLÍTICA». A CRENÇA.. nas reuniões feitas por padres franciscanos que percorreram as Beiras.. o endeusamento de Salazar. Um dia. Muitos exemplos que podíamos multiplicar mostram a ligação dos altos dignitários da Igreja com os chefes salazaristas. reverte. Nos seus elogios. em que se diz ir haver «nova guerra salvadora» — entre o Vaticano e Moscovo — e ser necessário apoiar Salazar. O cardeal bem pode dizer que aos sacerdotes a Igreja recomenda que se abstenham de qualquer actuação política «para se consagrarem com mais pureza. cumpriram honradamente os compromissos tomados pela nação.» (11-1-1947. O CLERO. E se nós portugalizássemos o mundo?» (3-2-1946.» (4-1-1947. etc. Portugal apresenta-se senhor de uma doutrina atestada por méritos de 20 anos. A IMPRENSA CATÓLICA. O DEVER.7 «homenagem àqueles que reintegraram o país no rumo tradicional e fomentaram o seu desenvolvimento e o livraram dos horrores da guerra» (16-6-1946). com boas finanças e boa orientação. repetidas vezes tem afirmado o mesmo pensamento de Salazar. que será um defensor do Vaticano (sic). Homem que votou integralmente a sua vida nas aras do amor da pátria..» (24-11-1946. «Só a mais refinada malevolência poderá negar a obra profundamente renovadora do Estado Novo.» (27-1-1946. O AMIGO DO POVO. de Braga: «Devemos essa paz e a paz interna à vigilância aturada do homem que redimiu a pátria. e com tal arte o fizeram que salvaram tudo. como A VOZ DA VERDADE. O MENSAGEIRO.) Sobre o orçamento: «Aos cidadãos ficará a certeza de que o contributo prestado à nação. pela boca do Papa.) E O MENSAGEIRO não lhe fica atrás: «A voz da Igreja. é o que encontramos em toda a imprensa católica. O DISTRITO DE PORTALEGRE. na pregação do ódio aos comunistas e outros democratas.) «Num mundo que ansiosamente procura os caminhos do futuro. não se harmoniza com os interesses e a independência do país e não é também o que mais convém aos católicos e à própria Igreja.» (27-4-1946). em prol do bem-estar geral. quanto ao problema da paz. boletim paroquial de Vila Franca do Campo. Os factos mostram que esta não é a realidade. quando se cansarem da sua falta de juízo. Mas que. hão-de vir pedir a Salazar uma esmolinha de bom senso» (4-8-1946).» (14-7-1946. Não só nos jornais citados.) «Vinte anos de progresso e de paz.) «À organização corporativa não cabem responsabilidades no mercado negro. em denúncias de democratas feitas à PIDE por padres fascistas.» (13-6-1945. semanário da Acção Católica. Será isto «consagrarem-se com pureza. mesmo a honra. na totalidade. de Évora. O mesmo encontramos em muitos outros jornais.. dedicação e independência à missão espiritual que lhes é própria»? Este caminho de política fascista aberta por que enveredou a Igreja não é o que mais convém ao povo português.) O APÓSTOLO DA JUVENTUDE. Essa actuação política vemo-la nós ainda nos sermões políticos feitos em todas as igrejas do país. «O governo de Salazar tem realizado a sua acção de fomento com larga visão e atendendo sempre ao maior e melhor rendimento e aproveitamento de todos os valores reais. órgão da diocese de Coimbra.) Mas toda esta cega e servil propaganda dos jornais católicos em favor do fascismo salazarista é ainda pouco. ao contrário..) «Confiemos nos homens que governam.) A defesa constante do regime salazarista e da sua política.» (149-1946..» (5-1-1946.) A VOZ DE FÁTIMA: «Os homens que nos governaram durante os longos anos de guerra. POLÍTICA AO LADO DO FASCISMO SALAZARISTA. os jornais católicos chegam a atingir o ridículo. «a posição invejável que desfruta na comunidade internacional» (6-6-1946). «O que falta a esses povos? Um chefe como Salazar. dedicação e independência à missão espiritual que lhes é própria». de Leiria: «O sublime pioneiro do ressurgimento foi Salazar.. a Igreja lhes recomenda uma actuação política ao lado do salazarismo..

(238)) Plena liberdade de consciência. comunistas. diz-se expressamente que é contrário à Constituição e punível qualquer acto pelo qual seja feita uma limitação de direitos em virtude duma diferença de religião. enquanto os sacerdotes se não servirem da sua actividade em matéria religiosa para fins políticos. comunistas (não são os democratas portugueses). das palavras e práticas que firam os sentimentos religiosos dos crentes. plena liberdade de crença e prática de culto — este é o objectivo por que lutamos e queremos que seja uma realidade no Portugal democrático de amanhã. Além disso. se coloca abertamente contra a renovação democrática em Portugal. no que respeita ao Estado. a religião deve ser olhada como uma questão privada. Nós somos intransigentes adversários da «guerra contra a religião». Mas então é lícito perguntar: Quem compromete a religião e a Igreja? Quem conduz a religião ao terreno da luta política. são os sacerdotes fascistas. que qualquer abuso da Igreja para fins políticos é proibido. apoia abertamente o fascismo salazarista — só nessa medida ela poderá sofrer as contingências da sua acção. são aqueles que abusam da hierarquia eclesiástica e da influência religiosa para apoiarem o Estado salazarista — são esses que estão a . da imprensa católica. Para nós. faz política. Só na medida em que a Igreja intervém nos negócios públicos. jornais e emissoras (não os portugueses) anunciaram.» E estabelece-se que as comunidades religiosas (que podem ser ajudadas materialmente pelo Estado) são livres de exercer as suas funções religiosas. ligando-a a uma facção anti-democrática? A quem cabe assim a responsabilidade do divórcio entre a Igreja e as forças democráticas? Quem levanta a incompatibilidade entre a Igreja e o Estado democrático. que Domingo de Páscoa. 124 — a Igreja. opondo-se activamente ao seu advento e fazendo-lhe já hoje guerra aberta? Quem quer que seja justo nas suas apreciações e juízos não poderá deixar de concluir que não somos nós. na URSS. há completa liberdade religiosa. Desmentindo as calúnias fascistas. A liberdade de praticar os cultos religiosos e a liberdade de propaganda anti-religiosa são reconhecidos a todos os cidadãos. e outros diplomatas católicos que participavam na Conferência de Moscovo assistiram à habitual missa na capital soviética. nós defendemos que nenhuma limitação deve ser feita à sua actividade. Não é isto dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César? Enquanto a Igreja se mantiver no domínio da actividade religiosa. assim como todo o incitamento ao ódio e discórdias de religião (art. a quaisquer perseguições por motivos religiosos.8 Quem compromete a Religião e a Igreja? Nós. 25 sublinha: «A liberdade de consciência e a liberdade religiosa são garantidas aos cidadãos. o ministro dos Estrangeiros francês. que as escolas religiosas destinadas à formação dos padres são autorizadas. E o art. tornamos bem clara a nossa posição em face da religião. Na União Soviética. ser contrário à liberdade de consciência que nós defendemos seria a melhor forma de fortalecer os preconceitos e o fanatismo que consideramos os factores prejudiciais à libertação das classes trabalhadoras e ao progresso em geral. ainda que ficando sob o controlo geral do Estado. 21). no Portugal democrático de amanhã. onde os nossos ideais estão sendo realizados. das organizações católicas. que estamos a comprometer a situação da Igreja. Bidault.» E na Constituição da República Federativa Popular da Jugoslávia. A orientação quanto ao problema religioso é consagrada na Constituição Política da URSS (e a realidade corresponde à letra da lei): «A fim de assegurar aos cidadãos a liberdade de consciência — diz o art.» «Cada um — disse Lénine — DEVE SER ABSOLUTAMENTE LIVRE DE PROFESSAR A RELIGIÃO QUE QUISER E DE NÃO PROFESSAR (Artigo de 1905 no Nóvaia Jizn. está separada do Estado e a escola da Igreja. Nós somos contrários a qualquer repressão em matéria religiosa. por exemplo. Nós permanecemos fiéis ao ensinamentos de Lénine: NENHUMA RELIGIÃO. tão combatida e caluniada. São os altos dignitários da Igreja.

«obedecer a Moscovo». mas sim como OBEDIÊNCIA POLÍTICA A UMA POTÊNCIA ESTRANGEIRA. O Vaticano tem gigantescos interesses financeiros e económicos em bancos estrangeiros. as organizações católicas. e a justificar críticas e ataques que venham a ser feitos e medidas que venham a ser tomadas não contra a sua acção religiosa. Acompanhando naturalmente os salazaristas. Esta ideia do carácter supranacional da Igreja é de há muito defendida e martelada. nunca. Quem recebe ordens do estrangeiro? Uma das acusações que a todo o momento é lançada contra o Partido Comunista é receber «ordens do estrangeiro». que «a unidade e a direcção da Igreja é supranacional» (20-1-1946). a Igreja não actue com independência mas obedeça ao Vaticano. o Vaticano tem a sua política própria. Como Estado. porém. Quando da reunião do Consistório. mas contra a sua acção política. Quando da greve dos operários das Construções e Reparações Navais de Lisboa (Abril de 1947). no que respeita ao «espírito e aos costumes». o Papa declarou. Esta estafada consigna é empregue pelo fascismo com vistas a desacreditar o Partido Comunista e a erguer dúvidas sobre a sua política nacional. E também recentemente o nazi Marcelo Caetano. (O Século de 9-4-1947). aí estão para mostrar o seu carácter. na obediência ao representante de Cristo. E assim se justifica que. Não temos por que nos defender de tais calúnias. onde tem os seus representantes diplomáticos (os Núncios). Na sua última viagem ao Brasil. Obedecer a esta política não pode ser considerado.9 comprometer a Igreja. em matéria religiosa. para fazer o que Cristo mandaria. os jornais tiveram o desplante de dizer que o governo os informara (sic) «de que há semanas fora prevenido de que Moscovo (!!!) tentava realizar uma das suas sinistras ofensivas periódicas». estranhamente associada à acção conspirativa do Vaticano no Brasil e à preparação febril do golpe antidemocrático.» Não temos aqui em vista discutir a obediência que. Os católicos honrados não poderão deixar de reconhecer a justiça destas afirmações. no seu discurso de 18 de Março. Paulo (5 de Outubro de 1946): «Para saber o que diria Cristo. como «obediência hierárquica» em matéria religiosa. os católicos devem aos seus superiores hierárquicos e ao chefe da Igreja de Roma. na cerimónia da entrega dos chapéus cardinalícios aos novos cardeais. Interessa. . a imprensa católica. em relação à Igreja de cada país. a sua natureza nacional. em que medida eles obedecem só aos ditames das suas inteligências e aos interesses da nação ou em que medida seguem ordens vindas do exterior. também o Cardeal Cerejeira proclamou que os comunistas «obedecem cegamente à Rússia Soviética». a sua luta esforçada através de muitos anos em defesa do povo português e dos verdadeiros interesses da pátria. Nas inspirações particulares pode haver ilusão. os seus mártires e heróis. basta pois ajoelhar aos pés de Pio XII. o Cardeal Cerejeira disse em S. ao mesmo tempo que a justificar as perseguições e violências contra os comunistas. dizia serem os comunistas portugueses. a sua orientação política. dentro de cada país e em relação aos problemas nacionais e especialmente aos políticos. sobretudo quando esta nos fala por via hierárquica.» E repetiu as palavras do Papa: «Nunca a gente se engana quando se abandona à vontade da Providência. em que os cardeais de todo o mundo foram receber instruções a Roma para a sua acção política. «de obediência moscovita». aqui considerar um outro aspecto da questão: em que medida existe independência e carácter «nacional» dos nossos acusadores. ouvir humildemente e atentamente o que ele diz e ordena. Toda a actuação do Partido Comunista. Queremos apenas sublinhar que Pio XII não é apenas o representante de Cristo na terra e um chefe espiritual! Ele é ao mesmo tempo o chefe dum Estado estrangeiro — o Vaticano — que como tal é considerado nas relações com os outros Estados.

Ela aparece-nos nas proclamações do Papa contra as nacionalizações e as reformas agrárias. das concessões constantes que Salazar faz à Igreja: concessões no ensino (livros. respeito que o grande homem (sic) votou à Igreja católica — muito mais eu gosto dele. . a voluntária incorporação dos Estados bálticos na URSS. O apoio da Igreja Portuguesa a Salazar é ditado também por este interesse do Vaticano. A Igreja Portuguesa. sem religião e sem Deus». o que é mais grave. O mesmo podemos ver nas campanhas para salvar os nazis do justo castigo e para fazer sobreviver os regimes fascistas ainda existentes. Ela aparece-nos na campanha contra a adesão livre dos Estados bálticos à URSS. programas. O Vaticano ajuda Salazar A política externa do Vaticano é caracterizada pela pregação e preparação activa da cruzada antisoviética. ensino religioso nas escolas primárias. que «é estúpido aceder aos comunistas de Paris para derrubar Franco» (O Mensageiro Paroquial.) A política reaccionária do Vaticano aparece-nos na intervenção nas eleições francesas e italianas. 7-7-1946). procissões nas ruas. ou que «por aqueles 3 pecados mortais que o generalíssimo Franco cometeu — primeiro. a fulgurância do espírito e o calor da eloquência» — acção essa que é apoiada pelo Cardeal na sua recente viagem ao Brasil como verdadeiro representante do Papa. ao insinuar que os horrores nazis foram erros que «são tidos por crimes» e «algumas vezes erros só porque não foram coroados de êxito» (1-5-1945) e absolvendo o nazismo porque «falta a certo totalitarismo democrático autoridade e critério para o condenar» (30-91946). de Faro (28-41946) elogia «a elevação dos ideais. onde conspira Plínio Salgado. calúnias. palavras. Ela aparece-nos no apoio ao regime de Franco de cujo novo conselho de Regência (num total de 4) fazem parte dois altos dignitários da Igreja. sucessões e cisas. Concordata. O apoio que a Igreja dá a Salazar deriva também de instruções vindas de Roma. subsídios financeiros. a quem A Folha de Domingo. apoio esse que o Cardeal secunda ao insurgir-se contra as «acusações» dos «governos impostos do estrangeiro» à «Espanha católica» (22-2-1947) e que a imprensa católica aplaude ao dizer. isenção de impostos sobre doações. guerra à maçonaria. 1-9-1946. representantes da Igreja em todas as manifestações públicas. terceiro. pela defesa do fascismo sobrevivente e preparação da sua revanche. Ela aparece-nos nas tentativas para salvar do justo castigo os criminosos de guerra e as forças fascistas. vibração dos sentimentos. Para os seus planos internacionais. e em especial contra a Polónia e a Jugoslávia. por exemplo. por erro dos seus dirigentes. nas vésperas das quais o Papa fez longo discurso (1-6-1946) falando largamente dessas eleições e mostrando os perigos de votar no «Estado materialista. concessões nas colónias e na máquina do Estado. não se limita a uma acção religiosa e. nós vemos a Igreja Portuguesa seguir as directrizes do Vaticano. segundo. que «o regime de Franco foi implantado para pôr termo ao regime bolchevista» (Ibid. na sua acção política não olha aos interesses do povo e da nação. pela luta contra todas as realizações democráticas. etc.» (Apóstolo da Juventude. reproduzindo ideias. a Jugoslávia. campanha essa que o Cardeal secunda ao vir falar no «exemplo das nações bálticas que entristece e aflige a consciência cristã». reforma que se prepara). argumentos. campanhas essas que o Cardeal Cerejeira secunda falando no «martírio da Polónia» (Carta Pastoral sobre o fim da guerra de 1-5-1945) e «na condenação sem garantia de defesa do arcebispo de Zagreb» (22-2-1947). secundárias e quartéis. derrota do marxismo. 31-3-1946). Ela aparece-nos nas campanhas contra as jovens democracias da Europa. tentativas que o Cardeal secunda ao dizer que «não estão inocentes de sangue todas as mãos que querem exercer justiça».. mas aos desígnios. o Vaticano conta com Portugal fascista como uma peça do seu jogo.10 Nas campanhas internacionais do Vaticano contra a Polónia. aos propósitos e aos planos «supranacionais» do Vaticano. O apoio que a Igreja dá a Salazar não deriva apenas de circunstâncias internas. Ela aparece-nos na acção conspiratória do Vaticano nos países da América Latina e particularmente no Brasil.

a segurança e a paz? Quem pode desligar destas manobras a ida do Cardeal Cerejeira ao Brasil e a ilegalização do Partido Comunista Brasileiro depois da campanha do Brasil-Portugal. ser casado com uma princesa brasileira e ter sido padrinho do seu filho Sua Santidade o Papa? Quem pode desligar de todas estas manobras as palavras do representante do Papa em Lisboa.mo Presidente da República. a quem chamou o «verdadeiro símbolo das virtudes do povo português»: «É-me agradável invocar a benção de Deus sobre este querido País que durante a guerra se tornou altamente benemérito da Humanidade. COMO CENTRO IMPORTANTÍSSIMO DAS COMUNICAÇÕES MUNDIAIS. ao O AMOR E CARINHO PATERNO. a coberto da defesa da paz. E depois de longas considerações significando a necessidade de os católicos não serem «neutros nem indecisos» «nesta hora decisiva da História».11 Ela aparece-nos no apoio hoje dado ao imperialismo norte-americano. animador da cruzada «anticomunista» no hemisfério ocidental e que. ACATAMENTO E AMOR FILIAL despertarão no Seu coração (do Tais declarações não se fazem sem interesse. Quem pode fechar os olhos a estas manobras da reacção internacional contra as liberdades. o Papa enviou uma «mensagem aos Portugueses» por ocasião da grande peregrinação a Fátima. Além de outras referências. depois de muitos anos de vida em Portugal. ESTÁ TODO EMPENHADO EM FACILITAR O CONTACTO E A CONGREGAÇÃO DOS POVOS. ao Ex. esse «diplomata de mérito. Ela aparece-nos. DEDICAÇÃO. terminava: «A todos vós. o Presidente da República e Masella pronunciaram significativos discursos de amizade. que o Vaticano incita a marchar contra a URSS. D.. e a ida de Plínio Salgado.» .a Em. veio do Brasil o embaixador salazarista e intervencionista Teotónio Pereira. tão nítida a indicação aos católicos portugueses para apoiarem o «Ilustre Chefe» que estas transcrições dispensam mais comentários.». No dia 13 de Maio de 1946. Sua Santidade fala em que Portugal esteve fora da guerra porque «N. COM TODO É tão claro o apoio ao salazarismo.a S. dizia o Brasil-Portugal — Ed. Núncio Apostólico» e «estou certo de que ESTAS DEMONSTRAÇÕES DE Santo Padre) as mais gratas ressonâncias». em relações estreitas com o alto clero e as esferas governamentais? Quem pode desligar destas manobras o facto de o «pretendente ao trono português». e a constante acção conjugada da Emissora Nacional. do clero e dos agrupamentos fascistas brasileiros. que desenvolveu uma grande obra na guerra de Espanha e na guerra europeia» e de quem «muito há a esperar da sua obra no Brasil». no que mais directamente toca os nossos interesses e aspirações patrióticas: no auxílio que o Vaticano dá ao regime salazarista. Ela aparece-nos na acção anti-soviética constante que. Presidente do Conselho. chamou a Salazar «este grande homem de Portugal». O legado pontifício. o Sr.. Não devemos esquecer que. etc. via Estados Unidos (para onde agora foi nomeado embaixador). no seu discurso no banquete ao general Carmona (em 12-31947). Depois da conferência com Masella. o Sr. Tal mensagem não se limitou a matéria religiosa... como insiste O Mensageiro Paroquial. a conferenciar com Masella.) e que HOJE. A BENÇÃO APOSTÓLICA. finalmente. Ele mandou um seu emissário. DAMOS. entre outras coisas de interesse. exortando a que «a juventude americana esteja sempre pronta para se lançar com todo o seu coração nas nobres aventuras e remover os obstáculos que existem e que são um desafio à sua coragem» e proclamando que «esta é a hora da América» (25-11-1946).) quem sofria os horrores da luta («paraíso sonhado pelos que na Europa. o Núncio Apostólico. o agente Teotónio Pereira voltou para o Brasil. como diz o jornal católico Apóstolo da Juventude (6-1-1946). onde teve prolongadas conversas com o Cardeal Spellman. Mas o Papa não se limitou a enviar as suas palavras revestidas da autoridade que lhe dá o seu papel na Igreja Católica Romana. ao qual assistiram todo o governo e alto clero. homem de acção e de vontade firme» que «tantos serviços prestou à causa da paz. quando em Março de 1946 passou por Lisboa. Duarte Nuno. socorrendo como oásis da paz («trampolim bendito» lhe chamou BrasilPortugal — Ed.a velou por nós e POR VOSSOS GOVERNANTES». ou. manifestou que transmitiria ao Santo Padre a satisfação pelo «magnífico convívio em que vejo reunidos S. Masella.» ILUSTRE CHEFE E AOS MEMBROS DO GOVERNO. visa provocar uma nova guerra — a cruzada anti-soviética — grande esperança da reacção do mundo. «esse ilustre diplomata que tantos serviços prestou à causa da paz» (13-1-1946).a o Cardeal Patriarca. Num banquete efectuado em 15-5-1946.

os sacerdotes reaccionários. Nas lutas dos operários. Os nossos apelos têm sido ouvidos. dum melhor futuro para a humanidade. afastar os homens duma unidade estabelecida com tal objectivo. pescadores. sujeitos às mais terríveis perseguições. uma vez que «na obediência ao representante de Cristo nunca pode haver ilusão»? Quem prega a concórdia e a tolerância? Nós submetemos ao juízo crítico de todos os portugueses e muito especialmente dos católicos. uma vez que. que «NÃO HÁ CONCILIAÇÃO POSSÍVEL entre o cristianismo e o comunismo histórico». São esses interesses que defendemos e isto determina a nossa atitude. à preparação de uma nova hecatombe universal. no próprio Vaticano. Só a unidade de todos os homens e mulheres honrados e progressivos pode pôr barreira à desenfreada exploração fascista e ao terror policial. estudantes. E assim. do MUD. aconselhando a intransigência com o erro comunista»? Porque grita outro jornal que «católico liberal é uma forma como qualquer outra de ser protestante» (sic)? Porque afirma o Cardeal que tudo separa o comunista do cristão. os sacerdotes fascistas e a imprensa católica? Porque grita um jornal católico que «à política da mão estendida tem oposto a Igreja a maior firmeza. agindo não em «obediência hierárquica» em matéria religiosa. contra a organização corporativa que asfixia a economia nacional. afirmando o seu desejo de união para a luta pelo bem-estar. «para fazer o que Cristo mandaria basta ajoelhar aos pés de Pio XII. que «há a separá-los toda a dimensão do homem» (sic). os altos dignitários da Igreja Portuguesa. pequenos produtores. à arbitrariedade e ao crime. atitudes e afirmações. mas os interesses do nosso povo. É assim que o Vaticano espera ganhar simpatia e amizade no coração do povo português? É obedecendo a uma tal política. por si só. ofendidos. da unidade.12 Esta pequena indiscrição do Núncio em Lisboa indica a verdadeira razão da ajuda do Vaticano a Salazar. da nossa pátria. que «nos separa e OPÕE RADICALMENTE a concepção da vida. da paz. E somos nós. a Igreja Portuguesa encontra estímulo para apoiar decididamente o fascismo salazarista. às concessões que ameaçam a independência. o Partido Comunista estendeu lealmente a mão aos católicos. . o problema de Deus e da alma humana. caluniados. camponeses. se estabelece a concórdia e a tolerância. contra a repressão e o terror fascistas. a imprensa católica. estes factos. insultados. das Praças de Jorna. De há muito. a ideia do homem. espalham a divisão e o ódio. como disse o Cardeal em São Paulo. Não há divergências de convicções religiosas e filosóficas que possam. dever que lhes é imposto pela Igreja em matéria não-religiosa. Porque se opõem a esta concórdia e unidade os altos dignitários da Igreja. Fazemo-lo porque estão em jogo não a sorte de um partido ou de um grupo. em milhares de lutas pelo melhoramento das condições de vida das classes trabalhadoras. da concórdia. intelectuais. em vez de sentirem e aconselharem tolerância e amor. católicos e comunistas dão-se as mãos fraternalmente. e a fraternidade na acção completa a fraternidade no sofrimento. Por eles se vê que o Vaticano. os serviços que o governo de Salazar dá ao Vaticano pelas suas manobras e conspirações internacionais. somos nós que erguemos o estandarte da tolerância. nos organismos de unidade que são as Comissões das Empresas. mas em obediência política a uma potência estrangeira que a Igreja Católica Portuguesa espera mostrar o seu nacionalismo e fortalecer a sua posição num Portugal liberto de torturas e suseranos estrangeiros? Não se torna agora claro que. se forma e se forja a unidade nacional. o Progresso e a Independência de Portugal. dos trabalhadores de outras convicções políticas e religiosas. o evangelho do amor»? Porque esta oposição à unidade dos católicos com os portugueses democratas e progressivos? Uma só explicação se pode encontrar para esta pregação de intolerância e de divisão: o desejo de que subsista o regime fascista com todo o seu cortejo de misérias e violências. pelas liberdades. longe de prosseguirem uma acção para a concórdia e para a fraternidade humanas. ouvir humildemente e atentamente o que ele diz e ordena»? Não é verdade que o apoio a Salazar se torna um dever de todos os católicos. contra os desejos e campanhas dos divisores da Nação. comunistas. conduzem uma política activa de apoio ao fascismo. Milhares de trabalhadores católicos têm aceitado e apertado a mão que os comunistas lhes estendem lealmente e têm participado ao lado dos comunistas.

Que às palavras comuns correspondam acções comuns Por muito que o fascismo e os católicos que o apoiam o não queiram. para os altos dignitários da Igreja. a Igreja «afirma e defende» o princípio da «DEFESA DAS LEGÍTIMAS LIBERDADES». Em tais países. E até sobre os adversários que morrem a Igreja lança o ódio e o rancor. tenta. E daí a necessidade. o clero reaccionário segue a máxima de São Tomás em relação aos heréticos: «Não só se pode excomungá-los como matá-los. pelos discursos nos templos e pela imprensa. regula-se por outro princípio: «Quando eu sou mais fraco. e todos os outros democratas colocamos para traduzir as aspirações do nosso povo. de virem dar resposta às preocupações e anseios da massa católica. a Salazar e à Igreja já isso é lícito. Em relação aos democratas de hoje. a Igreja «afirma e defende» «A PROTECÇÃO AOS FRACOS E HUMILDES». pergunta-se: Porque apoia o Cardeal o regime salazarista que condena o povo português à mais espantosa miséria e ao analfabetismo. peço-vos liberdade porque esse é o vosso ideal: mas quando sou o mais forte. O Cardeal Cerejeira afirma que «não é lícito a cada um impor pela força o ideal político dos seus sonhos» (21-11-1946). tal como em Portugal. os católicos honrados não podem deixar de desejar uma modificação desta política reaccionária. procura cortar-lhes a possibilidade de ganharem o pão. pergunta-se: Porque apoia o Cardeal o regime salazarista em que são protegidos e animados a corrupção na administração pública. de reunião e de imprensa? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas que reclamam e lutam para que tais liberdades sejam concedidas ao povo português? Segundo o Cardeal. então toda a pregação da tolerância desaparece. Senhora da verdade eterna. Se assim é. o abuso do poder? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas para pôr termo a tal estado de coisas? Segundo o Cardeal. Se assim é. as prisões em massa. a Igreja «afirma e defende» «A CONSAGRAÇÃO DA PESSOA HUMANA». isolar e condenar a uma vida de miséria os que não aceitam a autoridade do clero. protege os homens não em função do seu valor. Excomunga os seus adversários ideológicos. como no da própria Igreja. Se assim é. pergunta-se: Porque apoia o Cardeal o regime salazarista que nega a liberdade de associação política. quando reclamam melhores condições de vida? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas que reclamam e lutam pelo melhoramento das condições de vida dos «fracos e humildes»? Segundo o Cardeal. a prostituição. Se assim é. os problemas que afligem a Nação e o mundo são tão graves e angustiantes que se não esquecem pela mera promessa duma melhor vida além-túmulo. os escândalos e irregularidades. Isto é remoque injusto aos democratas. Segundo o Cardeal Cerejeira (discurso de 21-11-1946). mas da sua fidelidade política e . pergunta-se: Porque apoia o Cardeal o regime salazarista que consagra a mais brutal exploração dos trabalhadores e lança sobre eles a força das armas. as deportações para o Tarrafal.» E em relação à sua política nos vários Estados. comunistas. Mas os altos dignitários e a imprensa católica desvirtuam-lhes o sentido e nada mais temem do que o esforço dos católicos para dar realidade ao que eles próprios definem como aspirações. a Igreja torna-se a intolerância personificada. como no caso de uma banda de música duma aldeia portuguesa que foi excomungada por tocar no funeral de um ateu. Nessa resposta utilizam palavras e expressões que nós. tiro-vos a liberdade porque este é o meu ideal». a Igreja acusa os democratas de intolerantes e reivindica poderes que não tem. a arbitrariedade. No interesse do povo e do país.13 A pregação da tolerância só faz a Igreja Católica naqueles países onde uma efectiva separação entre o Estado e a Igreja lhe não permite regalias em prejuízo do povo e uma acção política dominante. nega as possibilidades de triunfo profissional a todos os seus adversários políticos. Quando a Igreja tem papel dominante na política de um país. a Igreja «afirma e defende» O SENTIDO DA MORALIDADE E DOS DIREITOS».

Pergunta-se: Que protecção têm no Portugal salazarista os desempregados. pela igualdade perante a lei. de instrução e cultura. Se O CUMPRIMENTO DO SEU DE- . onde morreram. ENFERMIDADE E VELHICE». a sua sede de justiça e de liberdade. contra os assassinatos a tiro dos grandes democratas que foram Alfredo Diniz e Dr. afirmando-se luta pela justiça. Se assim é. se não diga uma palavra em favor dos trabalhadores portugueses espancados. Porque apoia então o Cardeal o regime salazarista em que a maioria esmagadora das crianças não frequenta as escolas para começar desde cedo os mais violentos trabalhos na indústria. à falta de habitação? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas para pôr termo a esta situação? Segundo o Cardeal. Augusto Martins? FAMÍLIA E SEJA TAL QUE TORNE POSSÍVEL AOS PAIS VER NATURAL DE CRIAR UMA PROLE SÃMENTE ALIMENTADA E VESTIDA». às classes médias. Ferreira Marquês. Como explicar. é também «postulado da paz e concórdia social» «UMA HABITAÇÃO DIGNA DE PESSOAS HUMANAS». a todos os portugueses honrados. E há quem as empregue para iludir. quando a liberdade individual é escarnecida pelo governo e pela sua polícia política. nos campos. entre os quais Vieira Tomé. 30 democratas. para dividir e para desviar o povo do caminho da luta. Essas palavras comuns existem porque as aspirações fundamentais do povo português. o pluralismo social. após 21 anos de governação. pela consagração da pessoa humana. quaisquer que sejam as suas convicções políticas ou crenças religiosas. o respeito da liberdade individual. são comuns a todos os trabalhadores. proclamando-se o perdão e o amor e reclamando-se tolerância para os crimes de guerra nazis. outro «postulado» é a possibilidade de dar aos filhos «UMA INSTRUÇÃO SUFICIENTE E UMA EDUCAÇÃO APROPRIADA». o poder ao serviço do bem comum. os camponeses e pescadores nas invernias prolongadas. é último «postulado» «PROVODENCIAR PARA OS TEMPOS DE APERTO. vítimas dos maus tratos. pergunta-se: Porque apoia o Cardeal o regime salazarista que. às «ilhas». massacrados e deportados. contra os assassínios com torturas nos calabouços da polícia política de dezenas de democratas. aos bairros da lata.14 subserviência? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas para que os direitos da pessoa humana sejam firmemente consagrados na nossa infeliz pátria? Segundo o Cardeal («Instrução sobre o Comunismo». se não erga a voz contra as prisões sem julgamento e a existência do campo sinistro do Tarrafal. quando a lei é aplicada de forma diferente aos cidadãos. Pergunta-se então: Porque apoia o Cardeal o regime salzarista e diz ser Portugal um «país ainda chamado cristão». as violências e os crimes do salazarismo? Como explicar que. por exemplo. «para o cristão a palavra DEMOCRACIA implica a limitação do Estado. aos casebres escuros e miseráveis onde reina a promiscuidade. a aceitação dos valores morais. As palavras comuns traduzem aspirações comuns. assegurar melhores dias aos velhos e impossibilitados? Segundo o Cardeal. às rendas elevadíssimas. comunistas. quando o Estado exerce arbitrária e limitadamente o seu poder. e todos os democratas empregamos e aquelas que os católicos responsáveis empregam há muitas palavras comuns. nós empregamos tais palavras e lutamos para que a realidade nacional venha a corresponder a elas. que condena os filhos dos trabalhadores à fome e aos farrapos e responde com a violência das armas aos pedidos dos trabalhadores para aumento dos salários? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os seus irmãos de trabalho e sofrimento na luta pelo aumento de salários das classes trabalhadoras? Segundo o Cardeal. pergunta-se: Porque apoia o Cardeal o regime salazarista que segue uma política de salários de miséria. Ferreira Soares. entre os quais o grande português que foi Bento Gonçalves? Como explicar que se não erga a voz contra as violências e crimes da PIDE. a igualdade perante a lei. os doentes e os velhos? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas para alcançar seguros sociais e uma previdência apropriada. Simplesmente. é «postulado fundamental da paz e concórdia social numa sociedade cristãmente organizada UM SALÁRIO QUE ASSEGURE A EXISTÊNCIA DA assim é. quando só os fascistas podem participar na política e na administração? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas para conquistar para Portugal uma democracia onde tais princípios estejam não só no papel e nas palavras enganosas dos dirigentes mas na realidade e nos factos? Entre as palavras que nós. a garantia dos direitos da pessoa humana. que. pelo amor. não se diga uma palavra contra os atropelos. pela liberdade individual. nas ruas? Porque não hão-de os católicos unir-se a todos os democratas para conquistar para a infância portuguesa uma vida feliz? Segundo o Cardeal. 22-2-1947). a sua necessidade duma vida desafogada. condena o povo português às barracas de madeira. Germano Vidigal. a participação de todos na gestão pública».

«aquilo que nos separa nada é comparado com o que nos une» (239). com todos os portugueses honrados e progressistas nas acções. as ilegalidades. o Tarrafal. incluindo os de maior responsabilidade. Desejamos que os católicos participem. nas empresas. Desejamos que os católicos participem não só na luta para colocar à frente dos Sindicatos Nacionais gente séria que defenda os interesses dos associados como nas COMISSÕES SINDICAIS que. Mais ainda. em todos os locais de trabalho. e que no país sejam instauradas as liberdades e realizadas eleições livres. quaisquer que sejam as suas convicções políticas ou religiosas. e nas LISTAS DE UNIDADE a propor nas próximas eleições. são os legítimos defensores dos interesses dos trabalhadores. dos professores. mas que. legalmente. Todos estamos interessados em que o governo se não sirva da religião para seus fins de exploração e terror. nos escritórios. Todos estamos interessados em que terminem as perseguições. pelo contrário. os crimes da PIDE. nos movimentos. Na luta se vê quem é sincero e quem se sacrifica para atingir os objectivos comuns. monárquicos ou sem partido. Todos estamos interessados em que o país seja liberto dos monopólios corporativos que asfixiam a economia nacional e arruinam os pequenos e médios produtores. nos campos. Esta comunidade de interesses e aspirações explica porque milhares de trabalhadores e homens. em consequência de uma política de exploração e opressão coloniais. Desejamos que os católicos progressistas mais activos e decididos participem não só nas acções dirigidas pelo Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista como nos ORGANISMOS DO MOVIMENTO DE UNIDADE NACIONAL. Nós desejamos que essa unidade se alargue e fortaleça. Desejamos que os católicos honrados participem não só nas lutas das classes trabalhadoras como nas COMISSÕES DE UNIDADE que. como nas COMISSÕES DE ASSISTÊNCIA. se estejam unindo a todos os democratas portugueses na luta por uma melhor vida e um melhor futuro. Desejamos que os católicos progressistas participem não só nas lutas contra a ordem fascista e por uma ordem democrática como nas COMISSÕES DO MUD. Todos estamos interessados na oposição a essa política enquanto ela subsistir. mais cultura e mais liberdade como nas COMISSÕES DO MUD JUVENIL. A verdade é que. unamo-nos! Os dirigentes católicos reaccionários insistem constantemente no que separa os católicos dos comunistas e outros democratas portugueses. socialistas. Todos estamos interessados em que às classes trabalhadoras e classes laboriosas em geral seja assegurada uma melhor vida. que connosco desejam a edificação de uma sociedade comunista. sejam comunistas. Todos estamos interessados em que Portugal não seja pasto do imperialismo estrangeiro. intelectuais e artistas portugueses. Todos os portugueses e portuguesas honrados. tal como tem sublinhado o Partido Comunista. procurando mostrar que a barreira é tal que torna impossível qualquer entendimento ou acção comum. e que só não se identificam connosco porque . Desejamos que os católicos participem nos organismos de defesa dos interesses de todas as camadas laboriosas. Desejamos que os católicos participem não só nos protestos contra as violências e os crimes da ditadura fascista e da polícia política e no auxílio às suas vítimas. Desejamos que os jovens católicos participem não só nos movimentos da juventude portuguesa por uma vida de mais saúde. mulheres e jovens progressistas católicos de todas as profissões. fazem interessar os trabalhadores na acção dos SN. Nós desejamos que aqueles católicos que se identificam connosco nas soluções para os grandes problemas nacionais e nos ideais de justiça social. estamos interessados em que Portugal seja liberto do fascismo e encaminhado para a democracia. em que a Igreja cesse a sua política reaccionária e fascista.15 ASPIRAÇÕES COMUNS. católicos. republicanos. que é a organização de todos os jovens progressistas de Portugal. nas lutas. para a realização das nossas aspirações comuns. Todos estamos interessados em que os povos coloniais se não afastem de Portugal. SE TEMOS É para isso que continuamos estendendo lealmente a mão aos católicos portugueses. Católicos. nem instrumento dos fomentadores da guerra. desenvolva todos os seus recursos através de uma política pacífica e de relações amigáveis com todas as nações do mundo. DEVEMOS AGIR EM COMUM PARA A SUA REALIZAÇÃO. ombro com ombro. que são os organismos legais que lutam pelas liberdades e por eleições livres. que se dispõem a aceitar a linha política e a disciplina do Partido e se dispõem a trabalhar numa organização do Partido.

que esse alto clero (seguido por muitos outros dirigentes católicos — sacerdotes ou não) está comprometendo e desviando dos seus fins. não haja convicções religiosas nem ideias filosóficas que afastem os homens e prejudiquem o seu esforço conjugado para assegurar ao nosso Povo e à nossa Pátria dias melhores e mais livres. sacerdotes ou não. na luta por um Governo de Concentração Nacional que ouça e respeite a voz da Nação. como hoje não existe. o Progresso e a Independência de Portugal. não só defendemos os interesses do povo e do país como mostramos o nosso respeito pelas crenças e pela religião. no Portugal Democrático de amanhã. COMO CONTRA QUALQUER OUTRA RELIGIÃO. contra os crimes e o terror. na obra de reconstrução democrática de Portugal. Os nossos propósitos são os de todos os portugueses e portuguesas honrados. NADA NOS MOVE CONTRA O CATOLICISMO. VENHAM AO onde não há qualquer reserva para com eles. o Bem-Estar. pelas liberdades. exista. na luta pela Liberdade.16 mantêm as suas crenças religiosas — desejamos que tais católicos. UNAMO-NOS! . O nosso desejo é que. O nosso desejo é que a Igreja e o Clero. O nosso profundo desejo e objectivo é que. NOSSO PARTIDO. pela libertação de Portugal dos monopólios corporativos e da infiltração imperialista. não vejam limitada a sua acção. A nossa política é uma política de Unidade e de Concórdia. Na luta imediata pelo melhoramento das condições de vida dos trabalhadores e classes médias. Ao desmascararmos o papel reaccionário e antinacional do alto clero fascista. por se dedicarem apenas aos assuntos religiosos. uma completa liberdade para cada qual professar a religião e o ideal que entender. Católicos.

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