" D e m o c r a c i a r a c i a l " f o i , a princípio, uma t r a d u ç ã o livre cias idéias expressas p o r G i l b e r t o Freyre em suas c o n f e r ê n c i a s na Universidade da B a h i a e d e Indiana, em 1 9 4 3 e 1 9 4 4 .

N e s s a " t r a d u ç ã o " , R o g e r B a s t i d e o m i t e o sentido " i b é r i c o " , restrito, q u e Freyre atribuía à e x p r e s s ã o " d e m o c r a c i a social e é t n i c a " ; realçando-lhe o c a r á t e r u n i v e r s a l i s t a de " c o n t r i b u i ç ã o brasileira à h u m a n i d a d e " . A s s i m t r a n s p o s t a para o universo individualista ocidental, a " d e m o c r a c i a r a c i a l " t o m o u n o v o fôleg o , fazendo c o m que, c o m o t e m p o , ganhasse a c o n o t a ç ã o de ideal de igualdade e d e r e s p e i t o a o s direitos civis. S ó d e p o i s de 1 9 6 4 , " d e m o c r a c i a r a c i a l " v o l t o u a significar, apenas e e x c l u s i v a m e n t e , m e s t i ç a g e m e m i s t u r a étnico-cultural. T o r n o u se, assim, para a m i l i t â n c i a n e g r a e para intelectuais c o m o l l o r e s t a n Fernandes, a s e n h a d o r a c i s m o à brasileira, um m i t o racial. Recentemente, p a r a o s antropólogos, o mito transform a - s e em chave i n t e r p r e t a t i v a d a cultura. A d e m o c r a c i a r a c i a l — c u n h a d a originalmente, e m plena ditadura varguista, p a r a n o s inserir no mundo dos v a l o r e s p o l í t i c o s universais — p r e c i s a a g o r a ser substituída pela dem o c r a c i a tout court, q u e i n c l u i a t o d o s sem m e n ç ã o a r a ç a s , h s t a s , que n ã o e x i s t e m , c a r r e g a d a s de negatividade, f a r í a m o s m e l h o r se as a p a g á s s e m o s d o n o s s o ideal de c o n v i v ê n c i a , reservando-as apenas p a r a d e n u n c i a r o racismo.

Antônio

Sérgio

Alfredo

Liiumarars

FUSP
i-undação de A p o i o à Universidade de São Paulo Apoio:

F u n d a ç ã o Ford ".-732b-S3E-X

73 2 6 2 3 22

G CÍI tO r*â.^lA..3 4"

FUSP
F u n d a ç ã o de A p o i o à Universidade de São Paulo

Antônio Sérgio Alfredo Guimarães CLASSES, RAÇAS E DEMOCRACIA

A p o i o : Fundação Ford

editoraB34

E D I T O R A 34 E d i t o r a 3 4 Ltda. R u a H u n g r i a , 5 9 2 Jardim Europa C E P 0 1 4 5 5 - 0 0 0 S ã o P a u l o - SP Brasil Tel/Fax ( 1 1 ) 3 8 1 6 - 6 7 7 7 www.cditora34.com.br

CLASSES, RAÇAS E DEMOCRACIA

Agradecimentos Apresentação 1. Classes sociais
O grande consenso dos anos 1 9 6 0 : industrialização e modernidade O Estado e os empresários c o m o agentes sociais Os estudos sobre a formação da

' 9 • 13
15 16 20 30 32
J

F U S P - F u n d a ç ã o de Apoio à Universidade de S ã o P a u l o A v . A f r â n i o Peixoto, 14 Butantã C E P 0 5 5 0 7 - 0 0 0 S ã o P a u l o - SP Brasil Tel/Fax ( 1 1 ) 3 8 1 5 - 0 8 0 0 A p o i o : F u n d a ç ã o Ford fusp@edu.usp.br

C o p y r i g h t © Editora 3 4 Ltda., 2 0 0 2 Classes, raças e democracia © Antônio Sérgio A l f r e d o Guimarães, 2 0 0 2

classe trabalhadora brasileira Os estudos sobre as classes médias Os estudos sobre o campesinato e o proletariado rural Novos estudos de classe CLv.se como "condição" e "identidade" Conclusões

A F O T O C Ó P I A D E Q U A I Q U E R TOLHA DESTK L I V R O É I L E G A L , 1- C O N F I G U R A UMA A P R O P R I A Ç Ã O I N D E V I D A DOS D I R E I T O S I N T E L E C T U A I S E P A T R I M O N I A I S DO A U T O R .

5

38 42

C a p a , p r o j e t o gráfico e editoração eletrônica: Bracher Revisão: Adriennc de Oliveira firmo & Malta Produção Grafica

2. R a ç a e pobreza no Brasil
Rediscutindo o conceito de raça Os limites do racialismo negro As causas da pobreza negra no Brasil: algumas reflexões As críticas às ações afirmativas Conclusões ,

47
48 61 64 70 75

V E d i ç ã o - 2 0 0 2 ( D Reimpressão - 2 0 0 6 )

3. Política de integração e política de identidade
O \oto negro e a ciência política 0 conformismo negro

79
80 85 8/ 90 99 10->

C a t a l o g a ç ã o na Fonte do Departamento N a c i o n a l d o Livro ( F u n d a ç ã o Biblioteca Nacional, R J , Brasil)
C u i m a r ã c s , A m o r n o Sérgio Alfredo
t , , 6

01 movimentos negros A cinâmica do movimento negro O .milombismo o u a influência de Abdias do Nascimento nos anos 1 9 8 0 Os limites da cooptação

- '

c

Cl.is.ses. r a ç a s e d e m o c r a c i a / A m o n i o S é r g i o A l f r e d o O u i m n r ã e s . — S ã o Paulo: F u n d a ç ã o d c A p o i o a U n i v e r s i d a d e J e S ã o P a u l o ; F.d. 3 4 2 0 1 ) 2 232 ISBN p. 85-7J26-2J2-X 1. R a c i s m o - Brasil. 2. C l a s s e s s o c i a i s - B r a s i l . 3 . B r a s i l - R e l a ç õ e s r a c i a i s . [. F u n d a ç ã o de A p o i o n U n i v e r s i d a d e d e S ã o P a u l o . 11. T í t u l o . CDD - 305.80981

4 . Direitos e avessos da nacionalidade
A Matriz francesa: memória e não raças A matriz americana: o encontro do paraíso O Brasil moderno: uma democracia racial Unia nova identidade nacional brasileira? Os avessos do mito: o preconceito contra os baianos

109
110 113 117 122 125

através de Afrânio G a r c i a . Agradecimentos 7 . M á r c i o M a c e d o . a F A P E S P . meus assistentes de pesquisa. através da d o t a ç ã o n° 0 9 8 0 . Elávia Mateus Rios.1 8 1 4 . através de uma bolsa de produtividade de pesquisa. ajudaram na c o l e t a de material e na organização da bibliografia. o C N P q . N e s t e s encontra-se também a referência bibliográfica da versão publicada em revista acadêmica ou apresentada em c o n gresso científico. e Centre des Recherches sur le Brésil C o n t e m p o r a i n . O mito anverso: o insulto racial 0 que são os insultos raciais? Os termos injuriosos encontrados As situações de insulto i Insultados e insultantes Os insultos proferidos em situação de trabalho Os insultos dos vizinhos Os insultos a consumidores O insulto no trânsito e em outros âmbitos Conclusões 169 ! • 1 1 /3 1 S1 I 86 189 191 192 193 1^4 Os capítulos que compõem este livro resultam de projetos de pesquisa realizados com o apoio financeiro de diversas instituições e agências de fomento. Bibliografia 197 D e n t r e as instituições que apoiaram tais projetos e s t ã o o D e p a r t a m e n t o de Sociologia da USP. O s meus agradecimentos às o u t r a s pessoas que discutiram versões anteriores dos textos que c o m p õ e m este livro esrão expressos em cada um dos capítulos.G r a d u a ç ã o em Ciências Sociais). Entre elas: a F u n d a ç ã o F o r d . o pacto e o mito A idéia de um paraíso racial O "Itinerário da d e m o c r a c i a " de Roger Bastide O consenso racial-democrático A "democracia social e étnica" e a denúncia do " m i t o da democracia racial" O novo protesto negro e o "mito da democracia racial" A democracia racial enquanto mito Conclusões 13 / 139 141 144 149 157 163 166 AGRADECIMENTOS 6.5. e a C A P E S . sugerindo melhorias no estilo e na a r g u m e n t a ç ã o . entre d e z e m b r o de 1 9 9 9 e fevereiro de 200(3. a A N P O C S (Associação N a c i o n a l de P ó s . através de Líseas N e g r ã o e Sedi H i r a n o . N a d y a A r a ú j o Guimarães reve paciência para rever o s originais do livro. da École des H a u t e s Étttdes en Sciences Sociaíes. Rita Hipé)lito e Uvanderson Vitor da Silva. através da c o n c e s s ã o de uma bolsa pesquisa no exterior. através do projeto " O que ler na ciência social brasileira". Democracia racial: o ideal.

a ernia. devia sua dinâmica e seu desenvolvimento à exploração dos Trabalhadores. ao fim e ao c a b o . O c o n ceito de "ciasse". afinal. a idéia de que a democracia racial é.. Sua intenção era encontrar e a n a l i s a r a relação de exploração entre capital Apresentação 9 . D o m e s m o modo.APRESENTAÇÃO. resenho a trajetória acadêmica do conceito de "classes sociais" na sociologia brasileira. N o s capítulos que seguem. por m i m ou por outros. a sociedade burguesa. qual a relação entre classes e " r a ç a s " e. assim como as desigualdades sociais entre brancos e negros. c o m o sabemos. subtraiu de sua análise da r e l a ç ã o social de trabalho no capúalismo todas as formas de coerção n ã o econômicas que pudessem conspurcar essa relação (o gênero. têm um fundamento de "classe" é uma idéia que persiste apesar de todas as tentativas feitas anteriormente. a r a ç a . _ Este livro reúne arrigos escriros por mim entre 1 9 9 9 e 2 0 0 1 . Para demonstrar que a sociedade capitalista moderna. a idade. O que os une são duas indagações que me têm sido constantemente repetidas: primeira. fundadora de um possível futuro de relações não-racistas entre os grupos de cor parece resistente à denúncia do " m i t o da democracia racial". ganhou universalidade e difusão através dos escritos de M a r x e dos marxistas. para demonstrar o seu caráter racial. a nacionalidade e t c ) . segunda. M a r x ( 1 9 6 7 ) . a religião. democracia racial? A idéia de que a discriminação e o preconceito de que sofrem os negros no Brasil. uma doutrina satisfatória ou. o que significa. tento desvendar a permanência dessas concepções (que poderia c h a m a r t a m b é m de ilusões). N o capítulo inicial deste livro. pelo menos.

retomo os a r g u m e n t o s do meu li- vro anterior (Guimarães. traro dos i m i g r a n t e s nordestinos. rautologicamente e p o r definição. o conceito de classes sociais capitalistas n a d a mais é que um recurso analítico para referir-se a esse tipo de exploração. mais especificamente das fissuras que e x p õ e . que. e principalmente. na prática social e no mundo real. O Nordeste. a serem superadas pelo próprio r e g i m e capitalista. 1 9 9 4 ) . aparece s e m p r e misturado a hierarquias de gênero. invisto na temporalidade e historícídade desse senrimento. busco reinterpretar o intervalo democrático entre 1 9 4 5 e 1 9 6 4 c o m o compromisso político. distinguindo brancos de negros. Ou seja. é alargar a concepção de "classes" para usá-la n ã o apenas como categoria analítica. a partir da substituição da herança cultural lusobrasileira e colonial pela modernidade e u r o p é i a . Nesse capítulo. N o quarto capítulo. ao contrário. sociais e nacionais. etnia ou outra f o r m a qualquer de construção de outsiders (Elias e Scotson. gêneros e etnias c o n t i n u a sendo um dos meios mais eficientes de gerar exploração e c o n ô m i c a e tal "tecnologia" longe de ser suplantada no capitalismo tardio. os " n e g r o s " formam uma "classe". alimentando os estigmas que cultivamos também em relação a outros grupos étnicos. um pacto e c o n ô m i c o e político que uniu a massa negra urbana (formada principalmente por trabalhadores) e os intelectuais negros a o establisbment (elites polític a s . os preconceitos de cor ou de raça só têm sentido se resultarem em posições de classe.com o diálogo e debate profícuos que estabeleci c o m alguns dos meus críticos. ao arcaico. algo que antecede a grande imigração para o Sudeste. v o l t o . r a ç a s e democracia Apresentação 11 . seguindo a i n t u i ç ã o nativa. Isso para sugerir que. estigmatizando a tudo e a todos que remetiam àquele passado.e t r a b a l h o que fosse tipicamente capitalista. foi o de q u e as classes sociais capitalistas se formam prescindindo de q u a l q u e r uma daquelas formas de sociabilidade. m e dedico a resenhar boa parte da literatura sociológica brasileira para descobrir a trajetória do conceito de "classe" entre n ó s . N o capítulo terceiro. enriquecendo. trato diretamente da formação do imaginário nacional do Brasil m o d e r n o e das mudanças que podem ser observadas recentemente na nossa " d e m o c r a c i a racial". nos anos 1 9 5 0 . no caso específico de que e s t a m o s tratando. N o quinto capítulo. consideradas a partir daí como formas a r c a i c a s . a constante recriação de raças. no Brasil. de raça. Nesse capítulo. o nosso sentimento de nacionalidade. intelectuais e econômicas) do Estado desenvolvímentista. particularmente a Bahia. nesse c o m e ç o de século. D o mesmo modo. que muito deve a o evolucionismo do século X I X . abordando algum a s tensões recentes que aparecem no nosso trato com os indígenas e os negros.m e para esclarecer c o m o a palavra "raça" pode e deve ser e m p r e g a d a como conceito a n a l í t i c o . m a s c o m o grupo de pertença. O problema teórico deve ser colocado como de exploração ou a p r o p r i a ç ã o díferencial de recursos. N o primeiro capítulo deste livro. mais que contextualizar. 1 9 9 9 ) . a um só tempo racial e de classes. não se pode escapar do fato de que as desigualdades raciais n o capitalismo sejam t a m b é m desigualdades de classe (afinal trata-se de apropriação diferencial). M e u argumento é que o preconceito contra os " b a i a n o s " e "nordesrinos" teceu-se n o século X X — após a primeira leva de m o d e r n i z a ç ã o em finais dos oitocentos —. O fato de que tais preconceitos e desigualdades persistam no interior de uma mesma classe é o modo lógico mais c l a r o de demonstrar a a t u a ç ã o de componente tipicamente " r a c i a l " n a geração dessas desigualdades. Ou seja. e x a m i n o a c o n s t r u ç ã o e vulgarização da idéia de democracia racial. portanto. O a r g u m e n t o político erroneamenre derivado dessa análise em a b s t r a t o . N o final. nesse capítulo avanço a tese de q u e a democracia racial brasileira n ã o foi a p e n a s doutrina de convivência pacífica enrre as raças ou ideologia de dominação racial. tem sido constantemente reatualizada. M e u objetivo. N o segundo capítulo. ou mesmo mito fundador da nacionalidade brasileira: foi t a m b é m . O r a . assim c o m o s u a aparente dissolução 10 Classes. Investigo a origem de sua discriminação.-o. e nordestinos p a s s a r a m a ser associados a o atraso. ao avesso do trabalho livre e voluntarioso. Assim. Essa forma de estigmatizar os outros pelo que a eles atribuímos de antimoderno e não-europeu parece ser u m a constanre no nosso m o d o de ser.

a q u e l e s que. de ou- tro lado. c o mo Pierson e Willems. o conceito de "classes sociais" emerge com a nascente academia brasileira. como Pinto e Fernandes. viam as "classes" c o m o meros estratos sociais. grupos mais comunais que s o c i e t á r i o s (Pierson. introduzidas por T õ n n i e s ( 1 9 6 6 ) e W e b e r ( 1 9 6 8 ) . pp. II: Sociologia.).atual. 1 9 4 6 . T r a ta-se de um b a n c o de d a d o s sobre queixas de discriminação racial registradas na D e l e g a c i a de Crimes Raciais de São Paulo. São Paulo/Brasília. Willems. que s ã o g r u p o s fechados. Nele procuro r e s t i t u i r à expressão "democracia r a c i a l " os. d o t a d o s de consciência e sociabilidade p r ó p r i a s 2 e. Esse texto tem a mesma e x t r a ç ã o temporal e documental dos capítulos reunidos em um livro anterior meu (Guimarães._ seus significados históricos. 2 1 12 Classes. 1 9 9 8 ) . Donald Pierson caracteriza o Brasil c o m o u m a "sociedade multirracial de classes" ou de grupos sociais abertos — a o contrário de sociedade de castas. N o s a n o s 1 9 4 0 . datando os diversos contextos em que tal concepção vigeu. No último e s e x t o c a p í t u l o . aqueles que. 1 9 4 8 . 1 3 . O que ler na ciência social brasileira [19701995). raças e democracia Classes sociais 13 . foram posteriormente reelaboradas pela sociologia americana e popularizadas em manuais de s o c i o l o g i a . SumaréVANPOCS/CAPES. 1 9 4 2 . 1 9 4 5 . Seguindo as orientações traçadas nos estudos de Y a n k e e City p o r Lloyd W a r n e r . 1 9 4 5 ) . 1 9 4 8 ) . serviu de veículo p a r a o primeiro d e b a t e teórico sobre classes sociais. vol. 1 9 4 8 . organização e estratific a ç ã o s o c i a l . t o m a n d o c o m o objeto os insultos raciais. 1 9 9 9 . De m o d o geral. viam as classes Este capítulo é uma versão ampliada do capítulo publicado originalmente em Sérgio Miceli (org. 1. a revista Sociologia. na nascente s o c i o l o g i a brasileira (Pierson. de um lado. Em 1942. F e r n a n d e s . Estas distinções. editada pela E s c o l a de Sociologia e Política de São Paulo. o u de "estados". o debate opôs. ' P i n t o . CLASSES S O C I A I S 1 C e n t r a l para os estudos de estrutura. Ver Gordon (1963).5 6 . retomo a análise empírica do racismo à brasileira.

o desenvolvimento de uma sociedade capitalista entre nós. mas totalmente o p a c a a o entendimento dos indivíduos quaatores sociais. prescindindo ou não de atores individuais. em seus primeiros anos. Tal estilo de fazer sociologia consiste. Tal paradigma se c o n substancia na idéia de t r a n s i ç ã o . fundamentalmente. pois. o objeto da sociologia seria. fosse o operariado nascente. Os anos 1 9 6 0 assistiram ao avanço da teoria das classes e à consolidação da influência d o marxismo. fossem as clas- esrruturais. racionalmente compreensível. serão as classes sociais os principais agentes e o seu conceito a principal ferramenta da sociologia. seja do escravismo para o c a p i t a l i s m o . se fundamenta no princípio de que a estrutura social e sua reprodução dependem. seja do capitalismo mercantil para o capitalismo industrial. direta ou indiretamente. distinguindo-se apenas de outros tipos de estratos pelo grau de mobilidade ou solidariedade que proporcionava. em interpretar e e x p l i c a r os fenômenos sociais a 3 Podemos subdividir essa corrente em duas: havia os que prescindi- am de problematizar as classes e havia os que buscavam. m a s também — numa petição de princípios evidente — à condição de explicação mais plausível para os fenômenos mais diversificados. e de todas as formas de explicação estrutural. na Sociologia brasileira. a sociologia tinha " c o m o objeto fundamental. seja do tradicional para o m o derno.como_estruturas sociais. A própria idéia de sociologia passa a ser associada ao conhecimento de uma estrutura (a estrutura social). por outro) chega aos anos 1 9 6 0 com o claro predomínio daqueles que consideram a análise de classe central para a explicação s o c i o l ó g i c a .. à condição de principal objeto da pesquisa sociológica. 1 9 4 8 : 9 3 ) . Nesse contexto t e ó r i c o . simplesmente. portanto. da ação das classes. L o g o em seguida.comportamento e das atitudes. cada vez mais. Willems. íormar-se-á um grande consenso teórico. cuja força se mostrava n o s estudos de comunidade. era ainda uma sociologia tributária daquela feita e m C h i c a g o . 1 9 4 7 ) . Em jogo. regida por leis científicas e. basicamente. que condicionavam as ações coletivas nas sociedades capitalistas. O debate entre essas duas formas de compreender e utilizar o conceiro de classes sociais ( c o m o c o n c e i t o descritivo.. ou como conceiro explicativo. ou — o que vem dar no mesmo — o desenvolvimento de uma sociedade de classes ou. A vontade de desenvolvimento e c o n ô m i c o e social passou. seja do patrimonial para a ordem social competitiva. 14 Classes. raças e democracia Classes sociais 15 . às classes sociais. estavam mais que as concepções de duas tradições disciplinares — a antropologia versus a sociologia — ou metodoos estudos históricológicas — os estudos de comunidade versus 3 partir do. A análise de classe. a partir dos meados dos 1 9 5 0 . da estrutura e da dinâmica de sociedades de c l a s s e s " (Fernandes. o conceito de "classe social" era aplicável a qualquer sociedade humana. em seus trabalhos de campo. portanto. as e c o n o m i a s ocidentais capitalistas teriam se encarregado de destruir as sociedades de castas e de estados.es coletivos.deJtor. 1 9 4 7 . principalmente nas décadas de 1 9 3 0 e 1 9 4 0 . sendo simples sinônimo para "camada social". enquanto estilo de explicação. fundamentalmente. a vincular-se a uma expectativa de que as classes sociais (fosse o e m presariado industrial. Para os primeiros. por um lado. anteriormente exisrentes. No dizer de F l o r e s t a n . N o Brasil. O G R A N D E C O N S E N S O D O S ANOS 1 9 6 0 : INDUSTRIALIZAÇÃO E MODERNIDADE A sociologia brasileira. compreender a organização social através da estratificação em classes das comunidades estudadas (Cândido. Tratava-se de definir o o b j e t o mesmo da reflexão sociológica no Brasil. o desenvolvimento. que transformará o processo de indusrrialização em explanandum onipresente de todos os fenômenos s o c i a i s brasileiros. As relações sociais engendradas pelo processo de industrialização serão alçadas. referidos. o c o n h e c i m e n t o da origem. Para os segundos. de tal modo que a sociedade de classes passou a condicionar a sociabilidade própria à modernidade e ao capitalismo ocidentais.

a partir de 1 9 3 0 . isto sim. a classe operária.. quer a implantação do socialismo. às vezes. m e t o d o l ó g i c o individualista das análises anteriores. o Estado é que torna a classe dominante apta à sua tarefa histórica quando disciplinou as relações entre as classes sociais". raças e democracia Classes sociais 17 . 6 As citações de textos publicados nos 19 primeiros números dos BIB Sociais no — Boletim Informativo e Bibliográfico de Ciências Sociais —serão feitas de 4 " P o r industrialização. Principalmente os estudos s o b r e parrimonialismo. c) O dos estudos de formação das classes sociais brasileiras. a ferramenta. d e m o c r a c i a . desenvolvimento das forças produtivas e da mecanização. Embora historicamente esta preponderância do Estado c o m o núcleo vital do sistema seja inquestionável. o Estado nacional e a ordem capitalista mundial. ainda tributários da análise de classe. em três movimentos teóricos: a) O de uma sociologia e c o n ô m i c a . a classe média e a burguesia. A tal ponto o Estado esteve presente. por demais cul- aceleramento da divisão social do trabalho. entre nós..—ses médias) adquirissem.] segundo a versão dominante do imaginário sociológico c político dos anos 6 0 . clientelismo. A princípio. não se entende somente o acordo com a paginação dos BIB: O que se Deve Ler em Ciências Brasil. Estes se ramificam em cinco: de formação do empresariado nacional. 1 9 7 5 : 1 2 5 ) . para dar conta da importância do Estado.] no caso dos países de desenvolvimento tardio. o campesinato. questionável é. a análise de classes. recentemente.. invariavelmente. o pequeno espaço que as análises conferiram à possibilidade de atuação autônoma de grupos s o c i a i s " . a dominação crescente do capital sobre o trabalho. e de f o r m a ç ã o do proletariado rural. 1 9 6 8 . I.. Nesse caso. parece-nos que a tentativa de captar a complexidade do processo político subjacente à consolidação do capitalismo industrial n ã o se furtou de um certo viés. na medida em que. Os autores de tais estudos. mas também o 16 Classes. as análises macrossociais abandonam o estilo inação) de seus suieitos/agentes: o. Cardoso e Faletto. Essa problemática será expressa. vols. E s t a d o . focalizarão as insrituições e o sistema políticos. para enfocar a a r t i c u l a ç ã o entre a dinâmica interna de classes. de formação de classes médias. a submissão da economia agrária às necessidades industriais e a imposição ao conjunto da sociedade de critérios capitalistas de 'racionalidade'" (Pinheiro. O objetivo será analisar as possibilidades de transformação do Estado e de aumento do bemestar social. de formação de burocracias ou elites dirigentes. sob a forma de análise de classes. procurando explicar a ação (ou 4 quanto agente: "[. b) O de uma sociologia política.axonsciência necessária para assumir o que se pensava ser seu papel histórico: quer a superação das olig a r q u i a s agrárias no poder. Trata-se dos estudos de desenvolvimento econômico-social que culminam com as análises de dependência 1969). que Cerqueira e Boschi 9) 6 5 (Í977: observam: "[. um estilo de análise. populismo e. 5 O E S T A D O E OS E M P R E S Á R I O S C O M O AGENTES SOCIAIS Sader e Paolí (1986: 5 1 ) assim explicam a percepção do Estado en- A nascente sociologia brasileira se atirou à análise dos agentes do p r o c e s s o de industrialização . saiientou-se o papel determinante do Estado c o m o matriz geradora dos processos sociais. de formação da classe operária industrial. no imaginário acadêmico. (Fernandes. II e III. o E s t a d o e o seu contexto societário. O papel do Estado no processo de desenvolvimento capitalista brasileiro foi sempre elemento inesperado para os esquemas teóricos mais rígidos. desenvolveu-se. 1 9 7 5 . permanecendo desafiador e instigante para novos esquemas interpretativos.

que teorizou sobre as determinações sistêmicas e as restrições exógenas a o n o s s o desenvolvimento nacional. 0 ' D o n n e ü . tanto as expectativas normativas sobre o papel político e histórico das classes. A conclusão. neocorporativismo e t c ) . 1 9 7 7 .turalista. n° 1 4 . de formação de opinião pública e de opinião de grupos dirigentes. A tradição dos estudos sobre o empresariado e as elites empresariais tem continuidade. 1 9 7 2 . 1 9 7 8 . 1 9 7 4 . ] consolidou-se a idéia deste setor social como ator político de pouca relevância. de procura de um etbos. N o dizer de Cerqueira e Boschi ( 1 9 7 7 : 1 5 ) : " [ . as classes sociais. 1 9 8 4 . que opunham o Estado controlado por estamento burocrático a outro. 1 9 7 4 . 1 9 9 2 ) . deixando para trás. C a m a r g o . ao contrário. o Estado será teorizado c o m o aparato apropriado por uma classe (a oligarquia rural e os setores agro-exportadores. 1 9 7 3 . de formação de elites e de lobbies congressuais e t c . Assim. na produção das ciências sociais. 1 9 7 4 . e de Caio P r a d o J r . Dimz ( 1 9 7 8 . anéis burocráticos. O empresariado nacional mereceu uma atenção especial de nossos analistas. 1 9 7 2 . Dimz e Boschi ( 1 9 9 3 ) . entre nós. E m c a d a uma dessas matrizes. o principal ator da revolução burguesa. Velho. tais c o m o os conceitos de p o p u l i s m o (Ianm. V e r . 1 9 7 3 ) e de corporativismo (Erickson. Tal perspecriva. o estatuto de agentes. no qual as variáveis causais ganhavam. ( 1 9 6 5 [1937]). 1982). será a c a m a d a dirigente. Muito representativos dessa nova postura foram os trabalhos de Cerqueira e Boschi ( 1 9 7 6 . Este estilo tem raízes. 1 9 7 7 . Boschi. 1 9 8 6 . Santos. de autoritarismo (Martins. principalmente depois de frustradas as esperanças de uma revolução burguesa nacionalista ou mesmo socialista (Martins. 1978. com toda a força. 1 9 7 6 ) . e criticada em seu culturalismo implícito. controlado por classe dominante. 1976. mais próximas do P C B que da academia (Sodré. que inrroduziu a noção depat r i m o n i a l i s m o entre nós. 1 9 6 3 . 1 9 7 7 . 1 9 7 4 ) . R e i s . militares e burocráticos". Malloy. ligados ao c a pital estrangeiro) e. Cardoso. nos anos 1 9 8 0 . uma forte ideologia. 1 9 7 6 ) . s classes. Faria. os donos do poder. 1986) ou a burguesia de Estado (Perei8 ra. 1 9 7 6 ) . 1979). Linz. a respeito. . 1 9 7 3 . sem dúvida. sendo r e t o m a d a . Assiste-se a um grande desenvolvimento conceituai (populismo. qua agentes. tais como a tecnoburocracia (Martins. contrária à de R a y m u n d o Faoro (1993). o nacionalismo de Estado foi. estiveram em segundo plano. raças e democracia Classes sociais 19 . 1975. 1 9 8 5 ) . discutida à exaustão em Dados. de Sérgio Buarque de Holanda ( 1 9 3 6 ) . 1 9 7 6 . que capturavam melhor a articulação entre E s t a d o e classes da sociedade civil. 1 9 7 7 a ) . na burguesia. foi através de pesquisas bastante inovadoras que a ciência política explorou as análises de representação de interesses. 1 9 6 8 . Reis (1990). Suarez. . Guimarães. outras vezes por demais estruturalista. foi a de uma revolução sem ator (Fernandes. enquanto ator. quase sempre. quase como instância epifenomênica. Cerqueira e B o s chi. e de uma burguesia politicamente inexpressiva. T a l tradição de análise teve c o n t i n u i d a d e c o m o clássico de R a y m u n d o Faoro (1958). 1976. como as visões dicotômicas simples. o que de certa forma deslocou o foco da a t e n ç ã o . Boschi ( 1 9 7 9 . Tais análises desmentiram expectativas nutridas pela teoria das classes enrão vigente. 1 9 7 1 . e levou algum rempo esquecida. 1983). nos anos 1 9 7 0 . Cheibub Sigo. nacional. de disputas por recursos de poder. Gomes. nas análises clássicas de Gilberro Freyre (1969 [1933]). portanto. Concomitantemente. q u a n t o em Schwartzman. 18 Classes. que a b a n d o n o u o determinismo racial e c l i m á t i c o do fim de século. Stepan. 1 9 7 5 . por Schwartzman ( 1 9 7 0 . e m t r o c a do desvendamento de uma matriz cultura! fundadora. Pereira. substituindo-os'. que procurava encontrar. desenvolveram-se algumas perspectivas t e ó r i c a s que procuraram teorizar o E s t a d o . Apenas nas análises marxistas mais ortodoxas. que dará os rumos à sociedade brasileira. ampliando o universo da análise de ' Na verdade. 1 9 8 8 . portadora do ethos patrimonialisra. 1 9 7 5 . 1 9 6 8 . para outros grupos tais c o m o tecnocratas. através de categorias sociais plenas. que reforça a necessidade de novos estudos empíricos. a interpretação de Antônio C â n d i d o ( 1 9 9 4 ) . aqui. Tanto em F a o r o . 1 9 7 9 . Cardoso. 1 9 7 7 . foi invariavelmente substituída por c o n c e i t o s mais dialógicos.

Moisés. 1 9 8 9 . o diagnóstico consensual. Carone. tem lugar nas páginas da revista Estudos brap. Em seguida sublinharam-se as conseqüências da imigração rural na composição da classe operária. que se tornariam. 1 9 6 8 . Ainda nos anos 1 9 6 0 .. raças € democracia Classes sociais 21 . Pereira ( 1 9 9 4 ) e Minella ( 1 9 8 8 ) . c o m o esgotamento da economia agroexportadora. nas ciências sociais brasileiras. Almeida. Reis e Cheibub (1995). L. R o d r i g u e s . de janeiro de 1 9 7 3 . quando fica clara a impossibilidade de ação coletiva da classe operária no futuro imediato. 1 9 6 5 . e as condições. daí em diante. mais especificamente. 1 9 6 9 [ 1 9 6 1 ] . floresce uma grande produção sobre a f o r m a ç ã o da classe trabalhadora no Brasil. São. 1 9 6 8 ) . a força e o potencial político dos trabalhadores industriais brasileiros. que podem ser agrupados em dois temas: o sindicalismo e a o r g a n i z a ç ã o operária (Simão. 1 9 6 6 . L . estudos que procuram situar e analisar a classe operária qua agente coletivo. 1 9 7 4 .( 1 9 9 5 ) . T o u r a i n e . as classes médias urbanas e a burguesia industrial. Discutem-se as restrições estruturais. a sua dificuldade em aderir a organizações políticas.] pecaram por uma leitura demais sociologizante: preocupou-se mais c o m a estrutura e a composição da classe operária. Rodrigues. nas ciências sociais. seu p r o j e t o de ascensão social" (Pinheiro. 1 9 7 7 ) e sociólogos (Fíumphrey. em Osasco e Contagem. Ceem especial no seu n° 3 .. 1 9 7 4 . no Brasil. à ação da classe trabalhadora no Brasil. Quem desencadeia este novo ciclo é. 1 9 7 1 . dedicado à dis- cussão das idéias de Poulantzas. 1 9 8 2 ) . um segundo debate importante sobre as classes sociais. Seguindo a trilha de Weffort. as atitudes e os valores da classe operária nascente (Cardoso. 1 9 7 4 . 1 9 7 5 . tanto entre historiadores (Fausto. sem dúvida. Pereira. 1 9 6 1 . principalmente paulista. ressaltando-se os seus OS ESTUDOS SOBRE A F O R M A Ç Ã O D A CLASSE T R A B A L H A D O R A B R A S I L E I R A N o começo dos 1 9 6 0 . o móvel político e a perspectiva de análise que os alimentam esgotam-se c o m os golpes dc 1 9 6 4 e 1 9 6 8 . agora sob uma nova ótica: trata-se de reavaliar criticamente a estrutura sindical brasileira e as relações entre sindicalismo e Estado. foi a questão do peso dos imigrantes estrangeiros na formação da classe operária [antes de 1 9 3 0 ] . Weffort ( 1 9 7 2 ) . pois. já no clima de resistência democrática à ditadura. 1 9 8 8 . I m p o r t a n t e salientar que esses estudos já passam a usar ou referir o instrumental conceituai e analítico desenvolvido per Antônio G r a m s c i (a teoria da hegemonia) e Poulantzas (a teoria das classes). buscam avaliar a ação. era o de que os anos 1 9 3 0 haviam marcado uma ruptura n o processo de desenvolvimento brasileiro. para o surgimento de uma nova classe operária e seu novo sindicalismo. os agentes (ou referentes) principais da mudança social e política: o operariado. 1 9 6 4 . Rodrigues. bastantes debatidos. 1 9 7 8 a . 1 9 8 1 . e não sua suposta falta de consciência política. 1 9 7 0 ) . 1982. N o desenvolvimento da nova e c o n o m i a urbano-industrial. Hall. aparecem os primeiros estudos sociológicos sobre a classe operária brasileira. " O s ensaios [. ] . 1 9 6 7 . Pinheiro e Hall. T o d o s eles estão referidos à problemática maior da industrialização e da transformação da estrutura social no pós-1930. 1 9 7 8 . Lima e Boschi ( 1 9 9 5 ) . a partir das condições materiais e políticas dadas pela grande indústria brasileira. Nesse momento. trata-se de explicar os limites estruturais da ação transformadora da classe operária no Brasil. históricas. Na a v a l i a ç ã o crítica da geração que os sucede. assistem ao ressurgimento dos estudos de formação da classe trabalhadora. Lopes. 1 9 6 6 . em seu estudo sobre as greves de 1 9 6 8 . quanto cientistas políticos (Andrade. 1 9 7 5 : 1 2 3 ) . 1 9 7 6 . Escritos e publicados entre o final dos anos 1 9 5 0 e o c o m e ç o dos 1 9 7 0 . 1 9 7 9 . novas classes sociais teriam sido geradas. O s frutos m a i s importantes desse 20 Classes. então.. . objetivas e subjetivas. Os anos 1 9 7 0 . 1 9 8 4 ) . Aqui o prato de resistência valores tradicionais. .

"[. Oliveira e Reichstul. 1 9 7 9 .debate foram a crítica ao excesso de formalismo teórico dos mar-.] sublinha[va]m sobretudo que a ordem corporativa e mais tarde a conservação das instituições corporativas sindicais na época liberal corresponderam a uma prática intencional para a desmobilização dessa classe. na corrente de análise política inspirada pelos escritos políticos de M a r x e Gramsci. 1 9 7 3 ) . 1 9 7 2 . sobredeterminações. c o m o o pensamento nacionaldesenvolvimentista sugeria (Weffort. categorias sociais. interpretativo. vigente nos desenvolC h i c a g o com a escola de sociologia francesa). hegemonia. na qual despontam. numa intervenção sobre o mercado de trabalho cujos fins foram os de viabilizar. nessa época. Colletti. na sociologia brasileira.1 9 6 4 . Francisco de Oliveira produzirá. 1974). N o m e s decisivos desse marx i s m o acadêmico serão Weffort. na corrente de análise da dialética marxista.. Nos estudos sobre a classe operária. escudando-se (Vianna. como os ensaios de Weffort ( 1 9 7 2 . 1 9 7 8 . voltado para a teorização das restrições estruturais. 1 9 7 3 ) . atribuíam o fracasso operário. 1 9 6 9 . em termos de interpretação das restrições estruturais às ações de classe (Oliveira. Francisco de Oliveira (Oliveira. Oliveira e Reichstul. 1 9 6 9 . a sociologia partidos de esquerda. o Estado Novo e o intervalo democrático de 1 9 4 5 . 22 Classes. ate então. 1 9 7 8 . Guimarães e Castro (1988) e Lima ( 1 9 9 6 ) são alguns exemplos da influência que Oliveira exerceu nas discussões sobre as classes sociais. portanto.1975. 1973. direcionado para a nova exegese marxista. o retorno aos termos clássicos de pensar a mudança social c o m o resultado da lutas de classes. 1 9 6 5 . ampliar-se-á a ênfase na investigação dos condicionantes subjetivos da a ç ã o de classe e da for- As análises de classes que se desenvolverão nos 1 9 7 0 refar ã o diagnósticos e interpretações d o que foram a Revolução de 1 9 3 0 .. internas e externas. 1 9 7 1 ) . 1 9 7 3 ) . e Capital. grupos sociais. José Arthur G i a n n o t t i {1966). a ortodoxia marxista. sob a influência de Germani e dos desenvolvimentistas da Escolatina e da C E P A L . 1 9 6 8 . Moisés. A novidade dos anos 1 9 7 0 é o surgimento. feito por Pinheiro ( 1 9 7 5 ) . e aqueles que. \ 9 6 8 : Poulantzas. em 1 9 6 4 . como sujeitos da história. consentimento etc. 1 9 7 3 ) . 1 9 7 8 . as classes e os estamentos) que fizeram o Brasil. e não do embate entre estados-nação. 1 9 8 6 ) e Boito ( 1 9 9 1 ) darão continuidade a essa li- nha de análise. 1 9 8 2 . estudos c o m o o de Guimarães ( 1 9 8 2 ) . e a sociologia latino-americana. Althusser et al. na corrente de análise macroeconômica inspirada por O refiro-me ao seu Elegia para uma que deixarão marcas no marxismo dos anos 1 9 8 0 . 1 9 7 2 . estivera presa. O estilo é. apoiados nas análises de conjuntura. De fato. t a n t o o primeiro balanço crítico da produção brasileira sobre o movimento operário. 1 9 7 8 : 8 6 ) . 1 9 7 9 . Andrade. 1 9 7 3 ) e na Itália (Delia V o l p e . na década seguinte. bloco histórico. do que já acontecera na F r a n ç a (Althusser. os atores coletivos (os governos. peio recurso à violência — institucionalizada ou não — a acumulação primitiva de capital" (Vianna. 1 9 7 9 ) estão calcados na análise gramsciana da hegemonia. histórico-estrutural. respaldadas em suas leituras dos textos políticos de M a r x (principalmente O 18 Brumário re(li)gião de Luís Bonaparte): e O elo perdido. à falta de autonomia de suas organizações diante dos partidos políticos e do Estado (Weffort. Sintomaticamente. a teoria das classes. proposta por Oliveira ( 1 9 7 2 ) . B a l i b a r . havia os que. 1 0 No Nordeste. — ao vocabulário sociológico brasileiro. além de dois ensaios marcantes. nos moldes aliás. a algumas grandes tradições teóricas: a sociologia nal-desenvolvimentista da USP (nascida da confluência da Escola de naciodo ISEB. 1 9 7 2 . duas obras primas de análise histórica e conjuntural. raças e democracia Classes sociais 23 . 1 9 7 8 a ) na "crítica à razão dualista". Conceitualmente. do núcleo de pensamento em torno do C e b r a p . 1 0 9 vida na FLACSO. xistas franceses (Cardoso. 1 9 7 5 . no Brasil. e a incorporação das categorias de análise althusserianas e gramscianas — frações de classe. 9 Antunes ( 1 9 8 2 .

serão as práticas coletivas. os anos 1 9 8 0 foram de enorme euforia nas esquerdas. comprometendo os autores c o m a emergência da consciência de direitos.] ao narrar o que anda acontecendo com os trabalhadores e seus movimentos sociais. os estudos serão dirigidos mais às fábricas que aos sindicatos (Frederico.. mais aos bairros de moradia que aos mercados de trabalho (Caldeira. i. 1978). 1 9 8 4 . de Sader e Paoli ( 1 9 8 6 ) . mas. A mudança conceituai é notável: os novos estudos usarão sistematicamente conceitos c o m o "experiência". uma coletânea organizada p o r Singer e Brant ( 1 9 8 0 ) marcou. a relação entre operários e o movimento social mais amplo já era rratada desde os 1 9 7 0 (Moisés. E m termos acadêmicos. definitivamente.. C a s r r o e Guimarães. Gomes e Ferreira. 1981. D i n i z . A c a b a r á por fazer. abriu caminho para novas formas de investigação". 1 9 8 7 . Lopes e Prandi. Maroni. 11 dos pela sociologia. 1 9 9 0 . contudo. "imaginár i o " . M o i s é s e Alier. depende em menor medida das qualidades dos indivíduos [. 1 2 "Uma classe é tentativa de desenvolver poder efetivo através da for- A fórmula cunhada por Emilia Viotti da Costa (1990). na ordem do dia esteve a discussão s o b r e a possibilidade da form a ç ã o de aristocracias operárias n o Brasil (Humphrey.]". tão importante quanto as organizações políricas. com o tempo. Thompson ( 1 9 5 8 . pois. por parte não apenas dos operários. Telles. 1 9 8 8 . o outro. nutrida pela expectativa do m o d o c o m o os movimentos populares e o movimento operário seriam capazes de se expressar através de novo partido político — o P T . Tais c o n c e i t o s expressam a preocupação em tratar os dominados c o m o criadores de seus próprios mundos. Cardoso. 1 9 8 8 . mas das camadas populares. o alargamento do conceito de classe social para além de T õ n n i e s .. 1 9 8 8 . sintetiza o que estava em j o g o na revisão. 24 Classes. 1 9 7 9 . 1 9 9 1 ) . como atores sociais. 1 9 7 8 ) e Raymond Williams ( 1 9 7 7 . P. 1 9 8 7 . Kowarick. entre outras c o i s a s . O tom da revisão. N o que toca a classe t r a b a l h a d o r a . a incorporaç ã o dos movimentos populares aos estudos de classe.. Abramo. mas ineor1 4 1 J N o Brasil. 1 9 8 2 .. 1 9 8 2 . originários da história social e da filosofia política. De Decca. i 9 8 " : 2 8 ) . Neste sentido. "estruturas ça das massas.i n a ç ã o de uma cultura operária no Brasil. 1996). M u i t o importante para esse movimento teórico-metodológico foi a influência dos intelectuais marxistas ingleses.e. Mas será. 1 9 8 8 . Eram vistos. justamente. individuais e c o l e t i v o s . principalmente E . "cidadania". Almeida. 1 9 8 1 ) . Seguiramse várias coletâneas e resenhas sobre o tema (Jelm e Calderón. 1 9 8 8 . M a s . Larangeira.. em sua reação ao marx i s m o estruturalista francês. Essa tendência foi argutamente notada por Sader e Paoli ( 1 9 8 6 : 3 9 ) : "[. tal como vinha sendo usada. 1 9 8 7 . para significar mais que organização coletiva e ação política — sindicato e partido —. B a v a . 1 9 9 2 .com o m e s m o estatuto teórico das classes. 1 9 8 1 ) . foi d a d o por dois artigos: um de autoria de Sader. parte desta produção sociológica recente parece questionar profundamente o conceito de classe social como paradigma teórico instituído e adquirido pelas ciências sociais [. 1 4 os esquemas globalizantes passou a alimentar a busca de explicações qualitativas para os novos problemas que se colocavam e que diziam respeito ao sistema de dominação e seu modo de operar.] En- versus experiência". Martins. 1 9 9 4 ) . Seguindo o debate anterior. raças e democracia Classes sociais 25 . em 1 9 8 0 . com que boa parte da produção sociológica sobre os trabalhadores urbanos se desvie das preocupações teóricas clássicas. A progressiva rigidez tia teoria marxista. através do grande número daqueles que pertencem a esse coletivo. Jellin e Torre. Sader. em vez dos conceitos academicamente consagra12 1 ' Cardoso (1987: 2 7 ) tem o seguinte diagnóstico: "A desilu-ão com " Cs novos movimentos sociais eram geralmente caracterizados pela "sua independência com relação aos políticos profissionais e aos partidos. ficando prisioneira das teorias emergentes sobre os "novos movimentos s o c i a i s " . Paoli e Telles ( 1 9 8 3 ) e. esse novo enfoque criará seus próprios vícios. 1 9 7 8 .. bem como sua capacidade de expressar os desejos de base da sociedade'" (Cardoso. 1 9 8 2 . "cotidiano".

para Sader e Paoli ( 1 9 8 6 : 6 1 ) seriam "[. R i t m o de trabalho. preferem mesmo falar de classes populares. um c o n j u n t o de pesquisadores (sociólogos e a n t r o pólogos) procurará articular o estudo das condições do processo de trabalho com as condições extrafabris. a "alteração das próprias instituições no curso das experiências coletivas". de status. entretanto. já que tal termo indica "que o esforço de rigor do analista desloca-se do c a m p o da delimitação das fronteiras entre classes. que mal começaram as investigações s o b r e o trabalho e a vida operária nas unidades fabris. Ao encerrar a sua resenha. Forma-se na A N P O C S . ou seja. 26 Classes. Paralelamente. 1 5 (Tõn- Também Cardoso (1987) anota a a ç ã o comunitária como sendo o que os distingue dos novos movimentos sociais. perderam toda e qualquer consciência ou preocupação teórica. fosse industrial ou rural.] um coletivo presente duplamente: 1) na experiência única com aqueles que se identificam com e em cada uma dessas situações e 2 ) na elaboração mais geral de todos. dada p o r Braverman ( 1 9 7 4 ) . em seu esforço de "dar voz" aos dominados e visibilidade às suas práticas de resistência (Sader e Paoli. na sociologia brasileira: "Assim. caro o partido político como o tipo ideal de um coletivo societário" nies. foram banidas do m u n d o da 'verdadeira' classe social. lazer. Estudos como os de Vera Pereira (1979). quer como grupos identitários quer como coletivos políticos (partidos.. outro G T . como eles mesmos r e c o n h e c e m . para dar conta da formação dos trabalhadores em classe. ' Nesse sentido. para o campo da c o m p r e e n s ã o específica da prática dos atores sociais em movimento"._ porar práticas ç u l t u r ^ cotidiano.7 ) fazer a crítica do conceito de classes. Jose Sérgio I . Sader e Paoli (1986: 5 9 ) procuram ampliar o conceito de classe social para nele incluir o m o v i m e n t o social. As classes.. com o d e p a r t a m e n t o de pessoal da empresa. De fato. 1 9 8 2 ) . paralelamente ao já tradicional Grupo de Trabalho "Classe O p e r á r i a e Sindicalismo". na maioria das vezes. Vianna ( 1 9 7 8 : 9 0 ) anotara: "Registre-se. tal tendência intelectual rejeitou as teorias de classe sem mesmo as ter submetido à crítica teórica. relações com o sindicato. com a "descoberta da multiplicidade de espaços onde se faz a classe". fazendo-se ver c o m o algo que divide e conspira contra a unidade. sistemas de i n t e r a ç ã o horizontais e verticais etc. foram pioneiros e emblemáticos desse novo modo de analisar a classe operária. enfatizando as análises do processo de trabalho.]. que trabalhavam com o cotidiano das "classes populares". sua inserção real em um mundo de relações sociais historicamente formado [. é a possibilidade de redefinir o conceito de c l a s s e . realizados na segunda metade dos 1 9 7 0 . nas diversas esferas da vida cotidiana. N o entanto. antes restritas à sociologia industriai. teoricamente. muitos outros autores. 1 9 6 6 : 12-4). asso- ciações). raças e democracia Classes sociais 27 . o processo de formação das classes a partir das práticas dos atores sociais. usado antes. 1 9 8 6 : 6 5 ) . produtiva ou não. os estudos sobre a formação da classe t r a b a - possibilitará a Sader e Paoli ( 1 9 8 6 : 4 6 . a c o e s ã o e o poder coletivo". sindicatos. as práticas culturais diferenciadas dos diversos grupos sociais populares. este sobre "Processo de T r a b a l h o e Reivindicações Sociais". categorias sociais. A verdade é que. E m 1 9 8 4 .. "a existência de 1 1 lhadora enveredam por outra vertente. implicitamente. O que estes autores vêem de n o v o . isto é. que práticas que criam novos lugares sociais". são temas que ainda fazem parte de um território a ser descoberto e e x p l o r a d o " . Estes são retomados agora sob a óptica marxista.eite Lopes (1976) e John H u m p h r e y ( 1 9 7 9 . frações. reconhecendo algo em comum entre experiências distintas".. que nunca formara tradição entre nós.

Mas o problema c o m a maioria de tais estudos cedo foi apontado. 1 9 8 5 ) . 1 9 8 5 ) . a antropologia urbana (Pereira. Nesse caso. 1 9 8 4 . deriva dos estudos sobre trajetórias operárias. 1 9 7 8 . a engenharia de produção (Fleury e Vargas. 1 9 8 8 ) . que conceitualiza os regimes fabris. seja uma análise política das conjunturas. inusitadas. en- 1 6 Apenas para citar a influência sobre minha formação. 1 9 9 1 ) . A partir deles. H u m p h r e y e Hirata. foi possível revigorar a teoria marxista das classes. 16 Outra vertente importante.um pequeno e seminal estudo de Nilton Vargas ( 1 9 8 5 ) reavalia a história das relações de trabalho no Brasil (relações entre burguesia. 1 9 8 3 ) e. Para Castro e Leite ( 1 9 9 4 : 4 2 ) . O impacto desses conceitos sobre os estudos da classe trabalhadora brasileira. Hirata. nos estudos que se limitam a demonstrar que a política se encontra embutida no processo de trabalho através do sistema de máquinas e no controle social da produção — . "a porta de entrada dos estudos sobre a mulher na academia brasileira". ver G u i m a - rães (1988. Sintetizando. q u e eram não apenas diversas. e que. c r e s c e n t e . 1 9 7 9 ) . também. sem dúvida. os estudos sobre processo de trabalho ganham virtuosidade formal e teórica com Adam Przeworski ( 1 9 7 7 . derivando daí. não cessam de crescer os "estudos de caso". raças e democracia Classes sociais 29 . 1 9 8 8 . q u a n d o as associações políticas foram vistas como as representantes. 1 9 8 2 . a identidade operária e sua eventual a ç ã o política dependeriam das características sociais de seus m e m b r o s . influenciados especialmente pela reconstrução da teoria das classes e da ação coletiva feita por B o u r dieu ( 1 9 7 4 . integrando formalmente as esferas cotidianas de construção de interesses. identificáveis a partir da teoria de classe que os orientou: a) Foram estudos sobre o sindicalismo ou centrados na a n á lise da ação sindical.981. Parte da riqueza a que V i a n n a alude. tais c o m o a administração (Eleury e Eischer. Agier e Castro ( 1 9 9 5 ) documentam. Lopes 1 9 7 6 . Castro e Guimarães ( 1 9 9 6 ) . Em 1 9 8 6 . principalmente. adveio do contato entre os estudos sobre a classe t r a b a l h a d o r a e os estudos feitos em outras tradições disciplinares. par excelence. tivemos seja uma análise sociológica das determinações estruturais. seja a conjugação de amuas. Abreu. os estudos feministas (Rodrigues. 1 9 9 1 . da classe. também. apud Castro e Leite. n o Brasil. Autores c o m o Lopes (1987. foi. essa tendência nos estudos sobre os trabalhadores urbanos. e com Michael B u r a w o y ( 1 9 7 9 . ao repensar o Brasil contemporâneo com conceitos novos.. articulando "estrutura" e "experiência". ou seja. nesses anos. portanto. com freqüência. Estado e operariado) a partir do conceito de taylorismo. os estudos sobre a classe operária apresentaram quatro vertentes principais. por um observador arguto como Vianna ( 1 9 8 4 : 2 2 8 ) : "A fraqueza de grande parte dessa literatura tem consistido num certo formalismo. Pena. aplaina o quadro de referência histórico para novos estudos sobre o processo capitalista de trabalho. valores e identidades ao mundo da produção. 1980. nesses últimos 2 5 anos. na sociologia mundial. b) Foram estudos de valores e aritudes. A partir daí. O texto é importante porque.]". duas resenhas já haviam sido escritas sobre o tema: Sorj ( 1 9 8 3 ! e Abreu ( 1 9 8 6 ) . 1. se não foi direto nem imediato. Githay. 28 Classes. mas. à maneira da conceituação de T õ n n i e s . segundo Bruschim ( 1 9 9 3 : 2 . 1 9 7 9 ) . tão. 1 9 8 8 ) e G u i m a rães. quando se acreditou que a classe era uma associação e não necessariamente uma comunidade. 1 9 9 8 ) . 1 9 9 4 ) . quanto o núcleo duro' dos estudos de fábrica [. No que toca à teoria das classes. "a crítica das relações sociais tecidas na produção e das formas simbólicas de opressão teve. Os estudos de processo de trabalho foram. Souza-Lobo. aliás inutilmente. um tratamento da dimensão da política apenas como um elemento estrutural — por exemplo. modo como eram referidas as pesquisas feitas em unidades fabris.. 1 9 7 9 . que enfoca a formação de classes. e não na riqueza das suas determinações concretas no plano da conjuntura". a virtude de vivificar t a n t o os estudos feministas sobre mulher e trabalho.

1 9 8 5 . buscava-se compreender a força de determinação das " b a ses" sobre a atuação dos sindicatos. intelectuais etc. se comparada ao que ocorria na Europa. Ehrenreich e Ehrenreicb ( 1 9 7 9 ) . 1 9 8 4 . como advogados. Stepan. 1 9 9 2 : Segnini. Olson Jr. 1 9 7 3 . 1 9 8 3 ) . Saes. 1 9 6 8 ) ou os militares. pelo mundo da produção. 1 9 9 4 . raças e democracia Classes sociais 31 . em termos teóricos. Também importantes s ã o os estudos sobre a relação entre camadas sociais específicas (bacharéis. professores e profissionais diversos (Blass. N o s a n o s 1 9 7 0 . 1988). o estilo de uma análise de classes marxista 18 (Simões. aparecem os estudos sobre categorias profissionais específicas. as análises que se c o n c e n t r a m no estudo do associativismo e do sindicalismo dessas camadas (Almeida. 1 9 8 7 ) .) e o poder político no Brasil (Adorno. defendida em Londres. Piven e Cloward. ganhe autonomia na academia brasileira (Coelho. Carchedi (1977). 1 9 7 7 . 1 9 8 8 . estudos sobre a mudança na situação de classe de camadas que transitam da autonomia para o assalariamento (Evers. essas vertentes corresponderam a problemáticas sociais inscritas no m u n d o político brasileiro. até 1 9 6 4 . Pinheiro. Abercombie e Urry ( 1 9 8 3 ) e Simões ( 1 9 9 2 ) . boa parte dos autores passa a se dedicar ao estudo das condições de trabalho. 1986. Saes. estudos sobre categorias sociais decisivas. 1 9 8 5 . a dos estudos militares. forma incipiente de a n o t a ç õ e s (Oliveira. entre nós. tais como os estudantes (Foracchi. depois). M a i s recentemente. tratava-se de avaliar a continuidade das instituições corporativas do Estado Novo no processo de industrialização do pós-guerra (democrático e liberal. 1 9 9 8 ) .. 1 9 8 1 . quando a classe foi vista c o m o determinada. 1 9 7 9 . Martins. em algumas conjunturas históricas. e a organização política. tratava-se de entender o caráter autonomista das reivindicações operárias emergentes. As teorizações sobre o papel das classes médias ficaram na " Para acompanhar este debate ver Poulantzas (1973. I 9 7 4 . 1 9 9 6 ) . de movimentos sociais e de mobilização de recursos (Melucci. Offee Wiesenthal. A produção a c a d ê m i c a brasileira sobre as classes médias privilegiará três temas: primeiro. Leirner. Nos 1 9 8 0 . Oberschall. Ainda nessa tradição. principalmente no que concerne às teorias de ação coletiva. e explicar a fraqueza da ação política do operariado brasileiro. d) Foram estudos de cidadania. Kawamura. dos estudos sobre as classes médias ficou por conta da grande proximidade dos pesquisadores do I U P E R J c o m a produção contemporânea da sociologia e da ciência política americanas. Pizzor- OS ESTUDOS S O B R E AS C L A S S E S MÉDIAS A recepção das idéias de Poulantzas no Brasil. 1 9 7 8 . N o c a s o dos últimos. M a r t i n s . 1 9 6 5 . 1 9 7 8 . A parte mais i n o v a d o r a . 1 9 8 2 . 1 9 9 7 ) . Poerner. 1 V 8 5 ) . Ao mesmo tempo. Terceiro. Wright ( 1 9 7 7 . Nos anos 1 9 6 0 . 1 9 8 6 ) . 1 9 9 2 ) . quando se pensou que a classe eta o modo como os indivíduos realizavam e atualizavam direitos civis de natureza coletiva. 1 8 A exceção fica por conta da tese de doutorado de Simões ( 1 9 8 9 ) . Miceli. i 985). 1 9 8 8 . 1974. 1 9 7 9 . 1987. c o m o locus de alianças ciassistas espúrias ou de tutelagem. e as reivindicações de direitos subjetivos e coletivos pelo c o n j u n t o das organizações populares. Segundo. não foram capazes de fazer c o m que tais estudos ganhassem. sem grande respaldo empírico. 1 9 7 6 . a sua persistente importância na vida nacional fará com que nova área t e m á t i c a . em última instância. e principalmente. 1 9 7 1 . Oliveira. diferente da análise de c l a s s e — a sociologia das profissões (Bonelli e D o n a t o n i . 1 9 6 5 . e até mesmo 0 grande debate i n t e r n a c i o n a l 11 sobre o estatuto das classes mé- dias (a nova pequena burguesia e os trabalhadores não-produtivos). Zaverucha. Boschi. 1 9 8 1 . das formas de organização sindical e de luta política de segmentos cias classes médias. e ditatorial. que também acabam por criar nova tradição de análise. médicos e engenheiros (Barbosa. tais c o m o b a n c á r i o s . 1 9 7 6 . 1 9 7 9 .c) Foram esrudos do processo de trabalho e do mundo fabril. Goes. 30 Classes. 1 9 8 4 ) .

se feudal ou capitalista. M a r i a Isaura de Queiroz ( 1 9 6 7 . o campesinato. coerentemente. ] podem-se destacar dois tipos de trabalhos: os estudos onde a ênfase é posta nas formas de subordinação do trabalho camponês ao capital e os estudos das estruturas internas da produção familiar. 1 9 8 0 .. o IUPERJ foi uma das poucas instituições brasileiras que preservou (através dos estudos de N e l s o n d o Valle Silva e Carlos Hasenbalg) a tradição dos estudos de estratificação e mobilidade social iniciados.. a s s i m c o m o do caráter da revoluç ã o brasileira. t a n t o s o b r e as classes médias quanto sobre o empresariado. de modo a t r a ç a r a especificidade da teoria que se fará n o Brasil. 1984) trazem para os estudos de classe novas influências teóricas. 1 9 7 2 . nos a n o s 1 9 6 0 . jeto teórico p r ó p r i o . Sá Jr. ao mesmo tempo que dela se vale o sistema dominante para extração e captação de seu s o b r e t r a b a l h o [.] [e] seria também gerada na ocupação da fronteira agrícola". Oliveira. em t e r m o s teóricos. A realidade dos anos 1 9 7 0 . . principalmente o destroçamento das organizações c a m p o n e s a s . 1 9 7 3 ) e ao programa de pesquisa c o o r d e n a d o p o r Roberto Cardoso de Oliveira ( 1 9 7 6 ) e David Lewis. Fernandes. 1984. as lutas de classe no campo. se burguesa ou socialista (Wagley. primeiro e de expansão capitalista posterior. a pequena produção c a m p o n e s a . 1 9 9 1 ) . entretanto. é que.5 ) . 1979. se mantém ou se recria n a estrutura agrária como uma forma q u e lura pela sua permanência. 1 9 6 6 . o recrudescimento da urbanização De fato. "seria p r o d u t o da ocupação de terras livres ou do fracionamento d a s fazendas que. Frank. Sallum Jr. . 1951. Esses a u t o r e s (Boschi. 1 9 7 8 ) . no Brasil. 1 9 Exemplo disso é o sumário que Gnaccarini e Moura (1 9 8 3 : 17) fa- zem da persistente análise da relação entre campesinato e capitalismo: " [ . num sisrema colonial. por H u t c h i n s o n ( 1 9 6 0 ) . 1969. TíIIy. o que ofereceu aos seus projetos de pesquisa. Saes. interessados ambos n o s diversos planos de dominação-resistência que vivenciam os atores sociais". 1 9 7 4 ) . do seguinte modo: "Polemizava-se se a n o ç ã o de feudalismo não escondia um bias reformista de c e r t a corrente que propugnaria. 1 9 7 3 . em sua r e l a ç ã o c o m o poder político. informava o debate intelectual sobre a natureza das classes sociais no campo brasileiro foi muito bem sintetizado por G n a c c a r i n i e Moura ( 1 9 8 3 : 1 2 ) . parecia u m a forma apressada de frisara desnecessidade de u m a reforma agrária". foi construído nos a n o s 1960. principalmente as famosas Ligas Camponesas. marcaram os rumos dos estudos sobre a estrutura e as classes agrárias (Palmeira. 1 9 9 0 . 1 9 7 6 . O seu o b 19 OS ESTUDOS S O B R E O C A M P E S L N A T O E O PROLETARIADO R U R A L O clima político que. Inversamente. foram historicamente um o b j e t o privilegiado de reflexão.. no M u s e u Nacional. conferida a o c o n j u n t o das relações de produção no campo. sólida base de dados estatísticos sobre mobilidade ocupacional e m u d a n ç a s n a esrrutura social. Santos. u m a etapa burguesa necessária e dominante — aí i n c l u í d a a agricultura — de organização da sociedade. 1 9 8 3 . o debate acerca da natureza da formação social brasileira. 1 9 7 3 . N o dizer de Gnaccarini e Moura ( 1 9 8 3 : 1 4 . 1 9 8 6 . 1 9 8 1 . p a r a a esquerda brasileira. 1 9 8 7 . raças e democracia Classes sociais 33 . tais estudos permaneceram em diálogo constante c o m a teoria marxista sobre a renda da terra e com as teorias sociológicas sobre as classes s o c i a i s . A tradição d e trabalhos empíricos sobre as classes sociais no campo r e m o n t a a o s trabalhos pioneiros de Antônio Cândido (1964). O fato. Ademais. a partir de 1 9 6 8 (Gnaccarini e Moura. independentemente da filiação. através da análise do associativismo e do sindicalismo de classe média. 1979. 1 9 7 1 . a rotulação de capitalista. 32 Classes.no. . 1 9 8 3 ) . Prado J r .. Gnaccarini e M o u r a . n o Brasil. Do_ mesmo modo. M a r t i n s .

ou bóias-frias. popularizadas a partir do sentido do termo inglês class. à articulação que ela propunha entre as esferas sociais — a e c o n o m i a . 1988. 1 9 8 4 . 1 9 8 5 ) . Em seus melhores m o m e n t o s . permanece firmemente filiado aos estudos de classe. quer na linhagem bourdieusiana. a falta de criatividade. seja na própria análise. esvazia. etc. 1 9 7 3 . Lewin. a m o n ó t o n a repetição das falas dos entrevistados etc. Sigaud. 1 9 8 1 ) . Retomemos o fio t e ó r i c o .e das migrações_rurais-urban. 34 Classes. Meilo. Este é o modo como é usado vulgarmente em expressões c o m o "fulano tem classe" ou "um desclassificado". a política e a cultura — de tal m o d o que uma certa ordem prevaleceria sempre entre elas. pareceu dar razão a M a r x . 1986-87. O mainstream dessa produção. c o m o quando se dedica ao cotidiano familiar camponês ( M a r t i n s . em grande medida. e vontade política de impor à 21 vos temas e novos "olhares" sociológicos. Tal tendência já estava presente num conjunto de estudos sobre o mercado de trabalho rural. nos anos 1 9 2 0 e 1 9 3 0 . m a s sempre com um sentido " n a t i v o " ' .as. na Europa. nos Estados Unidos e no resto do mundo. " v i o l ê n c i a " . Passa-se então por uma espécie de superação da divisão empiricista entre rural e urbano (Martins. era última instância). 1 9 8 9 ) . 1 9 8 0 ) . e o sindicalismo rural (D'íncao. 6 ) A violência no campo (Porto. 1 9 7 9 . "movimento negro" etc. O termo estudos de classe. Martins. 3) Os efeitos sociais das barragens hidroelétricas e as lutas que desencadeiam (Sigaud. classe é muito p r ó x i m o de status.e. às vezes de um modo mais descritivo. a problemá- tica das classes sociais brasileiras. 1 9 9 2 . "cidadania". 1 9 8 6 a ) . a industrialização capitalista. 1 9 7 7 ) e na e x p a n s ã o da classe operária para o campo (Ianni. 2) A modernização da agricultura e as políticas públicas voltadas para a agricultura (Heredia. mas como estudos de "classes populares". A teoria das classes surgiu com Marx como teoria das lutas de classes e da mudança histórica. um g r u p o de convivência e comensa!idade possíveis. no sentido de que a classe emergente dos trabalhadores industriais parecia ter interesses o p o s t o s (do ponto de vista de um observador racional) à classe capitalista. 4 ) A expansão da fronteira agrícola (Martins. a importância do mundo rural para a intelectualidade brasileira. a sociedade.) que fustigam atualmente todas as ciências sociais. 1989). quer na nova tradição da história social. portanto. 1 9 9 8 . por um brevíssimo tempo. que insistiam na unificação dos mercados urbano e rural (Brant. seja na referência ao seu o b j e t o .. . impor-se-ão. antes de tudo. Por isso. 1994). tal sentido foi recuperado pelos estudos de comunidade feitos em C h i c a g o . significando o prestígio social associado a uma pertença grupai. 1 9 8 1 ) . m u i t o s estudos que têm c o m o o b j e t o de reflexão as classes sociais n ã o se vêem a si mesmos c o m o estudos de classe. ainda que teoricamente superada a divisão rural-urbana. 1 9 7 6 . para os quais a classe era. quer na linha do neo-marxismo. o segredo de tal ordenamento devendo ser buscado na produção da vida material (na economia. Ferrante e Saffioti.Nesse sentido. i. sem deixar de se renovar teórica e metodologicamente. 1 9 8 6 . certos temas específicos ao meio rural: J) Os camponeses sem-terra. 1 9 8 3 . Por muito tempo. Ainda que a análise. raças e democracia Classes sociais 35 . -" "Classe" pode ser referida com o sentido de um carisma ou estigma. empiricamente. é mais adequado p a r a referir um universo mais a m p l o de estudos e ensaios que utiliza o conceito de " c l a s s e " . 0 empiricismo das descrições. Nas ciências sociais. . 1 9 7 1 ) . Garcia J r . essa produção é extremamente inovadora e refinada. sem deixar de introduzir no- N O V O S E S T U D O S D E CLASSE As análises de classe n ã o esgotam. certamente. possa resvalar para os vícios (a o r t o d o x i a . O fato é que a relação teórica entre campesinato e capitalismo continuou a ser problematizada em termos da luta de classes e da formação de sujeitos. 5 ) As lutas pelo acesso à terra (Martins. quando mal feita. como vimos. Entretanto. entretanto. O sucesso científico da teoria deveu-se.

a economia e sua gestão estão dissociadas da política e da representação de interesses. desde 1958. Thompson. passem a ter importância crescente para a análise sociológica e política. não dava conta da complexidade da articulação entre economia. pelo menos. por Poulantzas e. a crise da teoria de classes reflete o desenvolvimento capitalista recente. por Pinto e Fiorestan Fernandes. rende a internacionalizar-se. todavia. na última metade dos 1 9 8 0 . tornou-se cada vez mais hegemônica na academia. Por outro lado. camadas subalternas (ou. O aprimoramento da teoria marxista foi. mas também de Althusser e Poulantzas. o sistema político. A teoria de M a r x . de movimentos sociais. 1 9 7 7 . P. muito bem apreendida por M a r x em seus traços gerais. inclusive operários. Thompson. no que pese o seu sucesso político na Rússia. foram muito criticados em alguns trabalhos da época. depois da derrota das esquerdas e das forças populares em 1 9 6 4 e 1 9 6 8 . comunidades e associações diversas — . 1 9 7 1 ) . como vimos. a teoria das classes teve uma carreira interessante. Do ponto de vista empírico. Por conta disso. Hoje. contra a resistência de sociólogos e antropólogos. a corrente crítica liderada por E. no que pesem os intervalos periódicos de anulação da ordem democrática. 1985). Os vícios que a teoria ganhou no Brasil. inclusive instâncias reguladoras a u t ô n o m a s . depois. Tal revisão das idéias de M a r x devia-se tanto à oposição ideológica aos m a r x i s t a s . buscando esferas rransnacionais de representação de interesses. Do final dos anos 1 9 4 0 até o final dos 1 9 6 0 . a teoria gozou de invejável e uníssono prestígio. entretanto. longe de se impor ao conjunto da sociedade brasileira. comunidade. em sua bem sucedida tentativa de fazer da experiência coletiva e do sentimento comunitário os núcleos da f o r m a ç ã o das classes trabalhadoras. quando do aparecimento do seu The Formation glish Working oftbe EnC/ass. tornando-se uma simples análise abstrata de c a tegorias reificadas. Por dentro do marxismo a c a d ê m i c o . quanto às crescenres dificuldades empíricas de aplicação da sua reoria ao Ocidente (Kaufsky. o universalismo de valores e a formalidade das regras). Os Estados Nacionais. que reconstruíam a teoria marxista em seu feitio estruturalista (do ponto de vista conceituai) e funcionalista (do ponto de vista da lógica de explicação). De fato. ficou prisioneira de um círculo restrito de pessoas " e s clarecidas". 36 Classes. A sociabilidade inerente ao grande capital (o individualismo. não hegemônicas economicamente) sem conseguir impor-lhes a forma de sociabihdade do grande capital. não chegando sequer a atingir o conjunto das classes médias. tornam-se mais permeáveis aos valores e aos interesses das 21 As tentativas de reconstrução da teoria das classes marxistas. primeiro. o Banco Central americano. F o i introduzida na academia. só no começo dos 6 0 do século X X a teoria das classes veio a sofrer alterações significativas. e não apenas as classes típicas do capitalismo. por fora do sistema político de representação de interesses. em grande medida. cultura e política. feitas. mormente os cientisras sociais alemães. que circulam internacionalmente. 1 9 7 8 . classe. Conceitos como os de associação. a princípio. apesar de introduzirem flexibilidade e clareza à análise. como o F M I . ficou combalida com a emergência. raças e democracia Classes sociais 37 . Isso ocorreu através de E. pelos marxistas analíticos (Wright.sociedade um novo ordenamento econômico. tornar a organização de interesses racionais analiticamente separáve! (e historicamente contingente) do sentimenro de pertença comunitária. feito por seus críticos. incluindo aqueles que não mereceram a designação de "classe" nos estudos sociológicos. Sofreu seus primeiros sinais de esgotamento nos anos 1 9 7 0 . a sociedade burguesa. que não parece viger na prática. justamente. ficou mais vulnerável à representação dos interesses e dos valores dos diversos grupos sociais. o Parlamento Europeu etc. que introduziram uma certa flexibilidade e conringência no modo c o m o tais esferas poderiam se articular ou não. enquanto mantém-se o hiato entre ambas e as formas culrurais. c o m o E m í l i o Willems ou Donald Pier2 son. ' N o Brasil. status e partido procuravam. mantêm ainda um organicismo pré-estabelecido entre as esferas sociais. P. Isso faz c o m que os mais diversos grupos sociais — etnias. entre os quais salienta-se o artigo de Cardoso ( 1 9 7 5 ) .

1 9 9 9 a ) . nem pacificada. Juarez Brandão L o p e s (1964. Sociedade que não é nem h o m o g ê n e a . Se seguirmos a terminologia de Castel ( 1 9 9 9 . Schwartz. tradução minha): "A transformação decisiva que amadureceu ao longo dos a n o s 5 0 e 6 0 não foi pois nem a homogeneização completa da sociedade. totalmente regulados e a precariedade d o trabalho inteiramente circunscrita por redes de proteção. a nova classe operária. 1 9 1 3 . ao que ele chama de sociedade s a l a r i a l . c o n h e c e seu apogeu nos anos 40 e 5 0 do século X X . seriam justamente a década em que tal sociedade salarial sofreu sucessivos ataques e tentativas de desmonte. imerso em l a ç o s de dependência e o b r i g a ç õ e s clientelistas. depois de 1 9 6 8 . francês. 2 3 Castel ( 1 9 9 9 : 5 8 1. 1 9 5 1 . 1 9 6 7 ) . ainda que me restringindo ao período mais r e c e n t e . nesse sentido restrito. trabalho e capital. t r a d u ç ã o minha): "Esse é o sentido literal da expressão 'trabalho alienado': t r a b a l h a r para outrem e não par. Como se pode deduzir. Weil. entre proletários e burgueses. em torno da competição entre diferentes pólos de atividades salariais. Foi lá não apenas que M a r x buscou inspiração para a sua teoria das classes. Verret.. O operariado nascente brasileiro teria suas origens no campesinato rural. Luiz Pereira ( 1 9 6 5 ) e Leôncio Martins Rodrigues (1970) reafirmam tal interpretação. 2 3 O operariado. modelo explicativo e ideal de república. ou seja. 22 A sociedade de classes seria o 2 . A lenta p r o m o ç ã o de uma salariado burguês abriu tal via.Diz Castel (1999: 5 8 3 . deixar o produto de seu trabalho para um terceiro que o vai consumir ou comercializar. assim c o m o cia pujança da cultura operária.Para compreender essas m u d a n ç a s recentes.5 . Para c o m p r e e n d e r esse imaginário. Lá estaria a sociedade típica de classes: a um só tempo. Ela desemboca num modelo de sociedade que já não é cindida por um conflito central entre assalariados e não-assalariados. A sociedade salarial teria tido vigência plena nos anos 70 e 8 0 do século X X . isto é. N ã o haveria uma " c o n dição" operária. temos que nos transportar para o universo de u m a sociedade de classes que tem a tradição de se pensar a si mesma e n q u a n t o tal. provocando o desaparecimento do pape! histórico da classe operária. o modelo preferido d o s nossos intelectuais para pensarem o modo como a sociedade brasileira lida com as diferenças e organiza suas hierarquias foi sempre a França. mas cujos antagonismos tomam a forma de luta por posições e classificações e n a o de luta de classes". mas p a r a onde intelectuais do mundo inteiro se voltaram em busca do segredo da sociabilidade e conflitosnrodernos. Foi antes a dissolução dessa alternativa revolucionária e a redístribuição dos conflitos modernos sociais segundo um modelo diferente da sociedade de classes: a sociedade salarial". Ao c o n t r á rio. a sociedade de classes. raças e democracia Classes sociais 39 . para ceder l e n t a m e n t e lugar. Classes. Os estudos j á citados de Fernando Henrique C a r d o so (1969 [ 1 9 6 1 ] ) . na França. Á ' n o v a sociedade' é organizada. n ã o poderia ter havido propriamente sociedade de classes no Brasil do pós-guerra. os conflitos m o d e r n o s que perpassam a sociedade salarial e s tariam. e n q u a n t o classe de pertença social. os operários industriais tenderiam ou a reproduzir no meio urbano tais laços de clientela ou a aspirar à condição das camadas médias urbanas. a França. no século X I X . Aliás. Alain T o u r a i n e ( 1 9 6 1 ) . teria passado então a ser marginal. sendo a condição salarial c o m p a r t i l h a d a pelo conjunto da sociedade. essa aspiração c auto-identificação do operariado in- CLASSE C O M O " C O N D I Ç Ã O " E "IDENTIDADE" De fato. reino dos conflitos m o d e r n o s não domesticados. ao m o d o francês (Halbwachs. J á os anos 1 9 9 0 . uma vez que. nos anos 6 0 . Essa concepção secular de trabalho assalariado desaparece cerca dos anos 50 e 6 0 . farei um rápido mergulho nas letras s o c i o l ó g i c a s francesas. 1 9 8 8 ) . no Brasil. si mesmo. contrariamente. legitimados pelo argumento da " g l o b a l i z a ç ã o " . na França. justificando a precarização da c o n d i ç ã o salarial e a " d e s a f i l i a ç â o " de grandes camadas de trabalhadores. nem o deslocamento da alternativa revolucionária para um novo operador. entre capital e trabalho. 1 9 9 0 .

Implícita nessa discussão está a n o ç ã o de classe social enquanto grupo hierárquico. Assim. p o r t a n t o . O b s e r v a r e problematizar tal gosto é possível apenas se contrastarmos a sociedade francesa a o u t r a s . conhecemos. a "condição negra". aliás. Tal ordem de metamorfoses poderá ser interrompida somente a partir do processo de construção democrática. e da internacionalização da economia e da globalização dos fluxos financeiros e culturais. A tendência certamente seria a desqualificação social do detentor de tal conhecimento. reagiríamos à pretensão ile distinção de pessoas que detivessem conhecimento tão limitado. a que esteve submetida a massa dos proletários. a ideologia liberai. 1998a). teriam seguido explicitamente uma linha de raça. Ela supõe uma dimensão transversal aos diferentes agrupamentos que reúne os que se opõem. isto é. pensada como desigualdade natural. As desigualdades. nesse sentido. mal vistas.dustrial com as classes médias t a m b é m foram detectadas durante o processo de industrialização tardia de outras áreas brasileiras (Guimarães. a reação a o que Castel chama de sociedade salarial. Certa feita. a persistência na "sociedade de classes" de relações servis. nos Estados U n i d o s . c o m o se depreende do trecho Ora. seguinte de Gastei: "Esse espaço social é c o r t a d o pelo conflito e pela busca de diferenciação. da restrição dos direitos trabalhistas e sindicais. o reconhecimento e elaboração de novas categorias sociais. defrontei-me com dois problemas. preconceitos e ritos próprios à ordem escravocrata. continuam a existir mesmo nos dias atuais. não de classes. em Paris. desde sempre. pois a distinção funciona sobre a dialética sutil do mesmo e do outro. no Brasil. 24 Assim. esse gosto pela hierarquia social e pelo monopólio de pequenos saberes é algo ainda atual. para ela. passa a ser praticada em seu sentido estrito. da fascinação e da rejeição. que já se encontra em Myrdal [ 1 9 4 4 ] ) . de distinção e de honra sociais. Não havia instruções impressas. que se diferencia das ordens do Antigo Regime apenas pela sua maior abertura e por sua ideologia. 40 Classes. assim. Um princípio de distinção opõe e reúne os grupos sociais.podendo ser resolvidos apenas por seu "especialista": gravar uma mensagem no rcjumdeur do telefone do meu quarto. n o sentido de que faz parte da ideologia republicana afirmar a igualdade de todos os cidadãos. no Brasil. Se existe tal ordem. Essas últimas. raças e democracia Classes sociais 41 . da proximidade e da distinção. seriam portadoras de privilégios e de limitações à liberdade individual. sendo contemporânea da precarização das condições de vida das classes médias. Agier e Castro. e nenhum o u t r o funcionário poderia ajudar-me. c o m o seria de se esperar. a s categorias socioprofissionais. As classes. O p õ e e reúne. 1 9 9 9 : 5 9 1 . quando a democracia. regulamentando em detalhe a distribuição de bens. nos anos 80 do século X X . serviços e honrarias. e depois Ianni ( 1 9 6 2 ) . 1 9 9 5 . Bidou explica o desenvolvimento da teoria social francesa como reflexo do desenvolvimento do sistema social real. respeitando os direitos individuais e promovendo as garantias jurídicas de seu gozo. mas r e c o n h e c e r juridicamente a sua condição de classe. pelo Estado francês teria ensejado dois movimentos teóricos: a teoriza- 2 4 Uma anedota ilustra esse ponto muito bem. Guimarães. q u a n d o governo e sociedade civil obedecem as regras do sistema político. sem afetar. ao hospedar-me numa instituição universitária que abriga pesquisadores em cooperação internacional. permitindo os comparar e classificar" (Castel. Ou seja. chamando de "secretária" a caixa de mensagem. tradução minha). mesmo na França. Bastide e Fernandes ( 1 9 5 5 ) . a sociedade se representaria a si mesma como um c o n j u n t o de indivíduos. Imagino c o m o . Como aliás fazemos literariamente. e programar os parâmetros ( D \ ' S e !Pi de minha conta de correio eletrônico. Se no Brasil não tivemos operários em "condição" que lhes fosse peculiar. seguiu dois caminhos: p r i m e i r o . por não deter esse conhecimento. no Brasil. Catherine Bidou ( 1 9 9 7 : 6 4 ) comunga com essa interpretação sobre a incongruência entre o conceito de classes e a sociedade americana (insight este. c h a m a r a m tal condição negra de "as metamorfoses do escravo". ela é pois rardia. ambo-.

1999). Establet. 1 9 7 4 ) . O sentido inglês. em termos menos individualistas que na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos. 1 9 7 4 . 1 9 8 2 . 1 9 6 8 .} e reconceitualização das classes sociais (Poulantzas. a associação das "classes sociais" a ordens competitivas. a começar pelos e n s a i o s seminais de Roberto D a M a t t a ( 1 9 8 1 . os ideais revolucionários burgueses foram retraduzidos. a crença de que todas as sociedades. No entanto. por exemplo. 1 9 8 7 . pelo senso comum. Bidou. M a r x tem certamente razão quan- do reivindicou ter retirado do termo este sentido subjetivo e valorativo. 1 9 8 1 . Desrosières. Nesse sentido. M a x Weber. 1998. para nossos interesses. Boa parte da produção sociológica no Brasil. e que. c o m o discriminações de classe. 1 9 8 5 ) . a concepção nativa francesa comunga com o marxismo e c o m o corporativismo. 1 9 9 5 . Mas. é preciso explorar ainda mais a diferença entre "classes" nativas (representação da estrutura e da hierarquia sociais) e as " c l a s s e s " teóricas. nas sociedades modernas. Segundo. principalmente) associado aos privilégios e ao sentimento de honra social. Baudelot. ao capitalismo e à modernidade. onde permaneceu razoavelmente intacta uma ordem hierárquica de privilégios. em termos de direitos (Dirn. política e social da distribuição do poder nas sociedades. Este sentido ancien do termo " c l a s s e " pode ser compreendido como pertencendo à ordem das desigualdades de direitos. os imigrantes. Boltanski e Thévenot. cabe ao Estado regular a relação entre elas. onde "class e s " passaram a ser associadas às corporações do antigo regime. às quais corresponderiam interesses e orientações de ação similares. 1984. que incorporaram definitivamente o operariado ao modo de ser e viver francês. distinguindo-o dos fenômenos ligados à distribuição da honra e do prestígio sociais. m a s de "direitos". prevaleceu. para referi-lo a posições objetivas na estrutura social.ção sobre uma nova classe operária (Maljet. ancien regime. na F r a n ç a . No Brasil. do termo permaneceu apenas no uso vulgar. ao separar anahticamente as dimensões e c o n ô mica. s ã o divididas em classes. a continuidade. 1983). raças e democracia Classes sociais 43 . Beaud e Pialoux. aristocrático e ao ancien regime. dos fenômenos de distribuição da honra e do prestígio sociais. 1974. em sociedades capitalistas e modernas. 1 9 8 8 . Boltanski. no pensamento sociológico. onde as discriminações raciais (aquelas determinadas pelas noções de raça e cor) são amplamente consideradas. As classes sociais francesas. próprios ao domínio Preencher o vazio teórico deixado pela referência vulgar à "classe" talvez seja a grande tarefa da sociologia a partir dos anos 1 9 9 0 . Pa rrot. da distribuição da íionra e do prestígio sociais. 1 9 8 4 . e onde as classes médias não foram capazes de desfazer os privilégios sociais. 1 9 6 9 . Foi com este sentido propriamente sociológico que o termo foi incorporado às modernas ciências sociais. apontam nesta direção: a chamada sociedade de 42 Ciasses. O termo "classe" c o m e ç o u a ser utilizado nos estudos da s o c ie d a d e (pela filosofia m o r a l . algo aliás que atualmente foi posto em questão pelo surgimento de uma nova categoria social. realinho a b a i x o os argumentos principais que desenvolvi nos últimos itens deste capítulo. O u seja. CONCLUSÕES A guisa de conclusão. o sentido présociológico do termo nunca deixou de ter vigência. ou ao m e n o s a sociedade moderna. 1999. Tal separação analítica permitiu que se pudesse problematizar. 1988a). a relações sociais abertas. de uma época ou de um modo de produção. Rosanvallon. principalmente nos Estados Unidos e Inglaterra. formada pela diferença de raça e cultura (Sayad. conceito analítico para a representação sociológica de uma sociedade. desvinculada da distribuição econômica de riquezas. não são depositárias de "privilégios" como as classes inglesas. port a n t o . 1 9 9 1 . M a l e m o r t . a partir dos 1 9 8 0 . e de estabelecer os ideários da igualdade e da cidadania. Bidou chama a atenção para a tradição dos estudos sobre o modo de vida das classes trabalhadoras (Michel V e r r e t . foi mais longe: deu um sentido mais preciso ao termo " c l a s s e " .

o princípio de desigualdade de direitos individuais. no que tange à ordem cstamental.. b) a ideologia da desigualdade brasileira. na nossa o r d e m de classes. Em Relativizando. não pressupõe uma ordem social igualitária e relações sociais abertas. e) a inserção econômica destes atores e a sua dinâmica produtiva. que a confusão brasileira tradicional entre discriminação de classe e discriminação racial se deve. identitáiias). para c o l o c a r a hipótese de que teria sido a "quase rígida estrutura de classes" brasileira a responsável pela relativa ausência de discriminação racial n o país. à a ç ã o de grupos. Se estou certo. dizer que não é racial a discriminação que. po temático das classes sociais. José M u r i l o de Carvalho (1998) cham o u a atenção para o fato de que a n o ç ã o de cidadania. desenvolverei melhor algumas dessas temáticas. no Brasil. D a M a t t a (1981) inspira-se em interpretação clássica de M a r v i n H a r r i s (1964). parece-me. sob a forma mitológica de democracia racial. d) a formação de atores coletivos e sua política. justamente. de cidadania que toma como tema central a exclusão e a limitação das classes populares. no Brasil. sofrem os negros. Ora. reelaborando-a a partir das idéias de D u m o n t ( 1 9 6 6 ) sobre a relação entre racismo e igualdade. no Brasil. Nos próximos capítulos. A guisa de e x e m p l o . está realmente referida ao camcomunidades. refere-se mais propriamente à igualdade de direitos políticos que à igualdade de direitos civis. à sua hierarquia e à f o r m a ç ã o de mesmo quando distante da problemática econômica O desafio teórico do presente é.classes. N o mesmo diapasão. boa parte da literatura sociológica contemporânea. pois. eqüivale a silenciar o que deveria ser dito: que se encontra ativo. através da violência física e simbólica. Isso significa fazer dialogar tradições que refletem sobre: a) as heranças patrimomalistas e autoritárias. de fato. os privilégios e. entre os três significados do termo " c l a s s e " — grupo identitário. pressupõe. das classes. raças e democracia Classes sociais 45 . que explicitamente o relaciona a uma ordem de igualdade de direitos. por e x e m p l o . assoc i a ç ã o de interesses e sujeito político e histórico. t a n t o a uma postura ideológica. portanto. de nacionalidade comum. pressuposto n ã o problematizado normalmente pelos teóricos. fazer confluir os estudos sobre a desigualdade dos indivíduos e das classes (no 44 Classes.desclassificações. a desigualdade de direiros que o rermo vulgar e pré-sociológico sugere. e o constante deslizamento semântico. o termo ciasse. c) a prática cotidiana da desigualdade. quanto à confusão. g a d o em seu senrido sociológico.produto . Assim como o termo cidadania traz implícito o sentimento m e s m o quando empre- sentido de .

b a seada em atributos c o m o a c o r — afinal é esse o sentido do dito popular. atribuem. portanto. condição social. quando pensamos o Brasil contemporâneo.2. cujas fronteiras sejam marcadas por formas diversas de discriminação. Primeiro. Além disso. já que não existem raças humanas. ou talvez por isso mesmo. de fato. Segundo. Peter Fry ( 2 0 0 0 ) argumentou que m i n h a Raça e pobreza no Brasil 47 . g r u p o de interesses e forma de identidade social. orientadas por crenças raciais. Costa e Werle ( 1 9 9 7 ) . incorrer num equívoco teórico. ainda que as discriminações a que estejam sujeitos os negros sejam. para muitos. o c o n c e i t o de classes não é concebido c o m o podendo referir-se a uma c e r t a identidade social ou a um grupo relativamente estável. não podendo ser analiticamente recuperado para pensar as normas que orientam a ação social concreta. de que a discriminação é de classe e não de cor. passa a significar. O termo "classe". a o mesmo tempo. Apesar disso. Yvonne Maggie (1999) e M ô n i ca Grin ( 2 0 0 1 ) consideram " r a ç a " uma noção estranha à realidade social brasileira. grupo de status atribuído. presos em duas armadilhas sociológicas. utilizado dessa maneira. de senso comum. RAÇA E P O B R E Z A N O B R A S I L Uma das pistas abertas pela discussão do capítulo a n t e r i o r é de que a invisibilidade da discriminação racial no Brasil se deve ao fato de que os brasileiros. em geral. à discriminação de classe a destituição material a que são relegados os negros. o conceito de "raças" é descartado c o m o imprestável. falar em discriminação racial significaria. três críticas têm sido formuladas à minha utilização do termo "raça" como c o n c e i t o analítico. Ficamos.

autoritário. sem dúvida. derivados da planetarização d o lucro e da abertura de novos mercados bastante afastados da m e m ó r i a da escravidão" (Gilroy. tradução minha). 1 9 9 8 : 8 4 3 . No entanto. que passou a defender insistentemente a tese de que a categoria " r a ç a " já n ã o t e m nenhuma utilidade prática ou teórica no mundo globalizado. 48 Classes. 9 de novembro de 1 9 9 9 . desde sempre. Algumas de suas razões não diferem daquelas assumidas pelos que o precederam nesta posição. Curitiba. discurso científico errôneo e de um discurso político racista. estando de certo modo contaminada. ou seja. 2) segundo ele. o fato de que "raça" é a única categoria possível de auto-identificação para pessoas "cujos pleitos legais. Essas críticas viram-se reforçadas pela posição de Paul Gilroy ( 1 9 9 8 . embora reconheça que faça algum sentido referirse à "raça" em estudos específicos sobre desigualdades ou discriminações raciais. em vez de abjeção. tradução minha). seja pelas posições ideológicas do movimento negro. para um telesetor de info-trenimento. O principal deles é. para denotar o seu c a r á t e r de construção social. 1 9 9 8 : 8 4 2 . antiigualitário e antidemocrático.posição se afastaria da nossa t r a d i ç ã o intelectual. c o m o levou. uma p o l í t i c a de negação do racismo e x i s t e n t e . e c e r t a m e n t e um dos mais envolvidos politicamente no combate ao r a c i s m o . A posição que Gilroy apenas insinua deve ficar m u i t o c l a r a : Paul Gilroy ( 1 9 9 8 ) . Por isso. Universidade Federal do Paraná. seja pelas categorias nativas norte-americanas. para Gilroy. j á n ã o precisamos historicamente da identidade da "(Re)Discutindo o Conceito de R a ç a " . Todo discurso que recria " r a ç a s " seria hoje a n a c r ô n i c o . Tal r e c o n h e c i m e n t o levaria. m a s nunca uma política afirmativa. um intelectual negro de expressivo ativismo na luta anti-racista. tal argumento já não é mais válido. dois alvos: re-examinar o estatuto do conceito de " r a ç a " e explorar um pouco mais a insuficiência da categoria "classe" p a r a dar conta da pobreza dos negros no Brasil. afinal. já que. e aí reside a sua novidade. 1 9 9 8 : 8 4 2 . a partir de c a t e g o r i a s que lhes foram impostas pelos seus opressores" (Gilroy. Gilroy argumenta também que o anti-racismo tem sido. 3 ) o uso d o t e r m o "raça" apenas reifica uma categoria política abusiva. ele pergunta: " O s antiracistas são. um dos mais brilhantes intelectuais negros do nosso tempo. não há no mundo físico e material nada que possa ser corretamente classificado c o m o " r a ç a " . tenho. Paul Gilroy certamente reconhece os argumentos dos antiracistas que defendem o uso da categoria "raça". p o r t a n t o . Neste capítulo. 2 ) o c o n c e i t o de " r a ç a " é parte de um 2 5 Esta parte do artigo foi originalmente preparada para a mesa-redon- 1) os anti-racistas estão comprometidos com a superação das desigualdades e das diferenças construídas a partir da idéia de r a ç a . declarou-se recentemente inteiramente contrário à m a n u t e n ç ã o do termo "raça" em nosso vocabulário. a uni compromisso liberal e d e m o c r á t i c o de empregar-se " r a ç a s ' ' entre aspas. São elas: 1) no tocante à espécie humana. e c o m o isso se conecta com o m o m e n t o necessário de s u p e r a ç ã o que define nossas esperanças e e s c o l h a s políticas?" ( G i l r o y . 2 0 0 0 ) . n ã o existem " r a ç a s " biológicas. o p o s i cionistas e m e s m o democráticos têm necessariamente de ser c o n s truídos sobre identidades e solidariedades forjadas a grande c u s t o . em que os resíduos das s o c i e d a d e s REDISCUTINDO O CONCEITO DE R A Ç A 2 5 escravistas e os vestígios paroquiais do conflito racial a m e r i c a n o precisam ser substituídos por outros imperativos. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 49 . considerou abusivo o uso do conceito em estudos sobre a identidade nacional o u sobre os regionalismos brasileiros. Sérgio Costa ( 2 0 0 1 ) . a favor do quê? Estamos positivamente c o m promissados c o m o quê. em suas palavras: " A negritude pode hoje significar prestígio vital. tradução minha).

a t r i b u i r à idéia de raça presente na população brasileira que se autodefine como branca a responsabilidade pelas discriminações e pelas desigualdades q u e eles efetivamente sofrem. por i n t e r d i ç õ e s rituais e etiqueta bastante sofisticada). portanto. m a s é t a m b é m categoria analítica indispensável: a única que revela que as discriminações e desigualdades que a noção brasileira de " c o r " enseja são efetivamente raciais e não apenas de "classe" ( G u i m a r ã e s . já não precisamos da idéia de raça. podemos. Primeiro. O problema que se c o l o c a é. Repito aqui a posição que tenho adotado: "raça" é não apenas uma categoria política necessária para organizar a resistência ao racismo no Brasil. que se definem c o m o brancas. certamente estaríamos submersos num "anacronismo" conceituai. ainda que Gilroy tenha razão quando se refira à Europa Ocidental. Este anti-racismo. para os negros. portanto. M a i s a i n d a : a assunção da identidade negra significou. segundo. abolidas d o discurso erudito e popular (sancionadas. terceiro. 1 9 9 9 ) . informada por um m o d o de produção. no Brasil? Para o a n t i . não há raças b i o l ó g i c a s . quando já não existirem grupos sociais que se identifiquem a partir de marcadores direta ou indiretamente derivados da idéia de raça. há quatro possibilidades discerníveis. concreta. raças e democracia Raça e pobreza n o Brasil 51 . s o c i a i s e políticos. sua resposta talvez não tenha a mesma validade para o "paroquialismo" americano ou brasileiro. seja social. Alguns dos pressupostos de Gilroy são também pressupostos meus. no mundo social.racial para avançar nossos p o n t o s de vista.r a c i s m o . a pergunta decisiva é: quando os anti-racistas negros podem prescindir da idéia de "raça" que os unifica? Essa é uma pergunta política e. t a m b é m n ã o há uma única e universal maneira de construir a categoria social de " r a ç a " . q u a n d o tais identidades e discriminações forem prescindíveis em t e r m o s tecnológicos. pois. c o r r e s p o n d e u a uma acusação d e racismo. n o c a s o brasileiro. quer pelas classes t r a b a lhadores. quer pelas elites políticas e pelas c l a s s e s médias. para a afirmação social dos g r u pos oprimidos". Pois bem. Afinal. Para obterem r e c o n h e c i m e n t o . viram-se forçadas a recrudescer o discurso identitário. inclusive. ao mesmo t e m p o . que resvalou para a r e c o n s t r u ç ã o étnica e cultural. hoje em d i a . vive em 50 Classes. ainda que obedeça a certa matriz universal. A s raças foram. cresceram as desigualdades e as queixas de discriminação a t r i b u í d a s à cor. Ou seja. a o longo da transmissão de caracteres fenotípicos que definem " r a ç a s " ) . efetiva e eficaz apenas no m u n d o social e. Se eles estão corretos. Se tivesse validade. n o período que vai d o s anos 1 9 3 0 aos anos 1 9 7 0 . Reconheço. Tais identidades a p e nas hoje estão b e m assentadas no terreno político. q u a n d o as desigualdades. Assim. na espécie humana nada que possa ser classificado a partir de critérios científicos e corresponda ao que comumente c h a m a m o s de "raça" tem existência real. que teríamos forçosamente de superar. devo confessar. se a raça biológica não existe. 3) como conseqüência. as discriminações e as hierarquias sociais efetivamente não c o r r e s p o n d e r e m a esses marcadores. mas. uma estrutura planetária de trocas e por tecnologias específicas. E isso justamente porque tais discriminações e desigualdades não foram nunca reconhecidas c o m o tendo motivação racial. quando já n ã o houver identidades r a c i a i s . p s i c o l ó g i cas e intelectuais. A primeira delas é aferrar-se a crenças racialistas (ou seja. Quais as formas possíveis que o movimento anti-racista p o d e tomar. à retomada da luta anti-racista em termos práticos e o b j e t i v o s . Essas e r a m vozes abafadas. todavia. c r e n ças na d e t e r m i n a ç ã o biológica de qualidades m o r a i s . a retomada da categoria de raça pelos n e g r o s correspondeu. n a verdade. o que c h a m a m o s " r a ç a " tem existência nominal. ou seja. Assim. pelo menos até recentemente. o u seja. somente no mundo social pode ter realidade plena. dispensar o conceito de raça? A resposta teórica parece ser bastante clara: primeiro. segundo. que não pode ser respondida em t e r m o s genéricos. que a minha argumentação repousa sobre dois pressupostos às vezes difíceis de serem percebidos. seja biológica. a qual deve diferir de sociedade para sociedade. t a m b é m . parece ter acontecido j u s t a m e n te o contrário. o seguinte: quando.

N ã o vou me alongar sobre este p o n t o . Para o analista. Mas. As pessoas que a d o t a m tal postura não acreditam que se possa ser. a s s u m e tal posição. durante um b o m tempo. Na agenda de ambas as posturas delineadas acima não consta a superação da divisão da h u m a n i d a d e em "raças". Trata-se de u m a p o s i ç ã o pragmática. reais. de o p o r t u n i d a d e s e de direitos. Uma vez atingido o estágio do não-racialismo e não-racismo científicos. mudem o seu c o m portamento racista. Ao contrário. 1 9 9 9 ) . uma crença ílumimsta de que os indivíduos podem ser esclarecidos sobre a inexistência das raças e que. racialista e anti-racista. portanto. precisaremos ainda usar a palavra "raça" de um m o d o analítico. n o c a s o . a construção social das identidades e classificações raciais) s ã o epifenômenos permanentes. a partir deste esclarecimento. Uma delas. não-analítico e não-fenomênico. para compreender o significado de certas classificações sociais e de certas orientações de a ç ã o informadas pela idéia de r a ç a . " C o r " . por si só. do p o n t o de vista social. fazem sentido e são julgados apropriados pelos próprios a t o r e s " . ou seja. o não-racialismo não é garantia para o anti-racismo. e. m a i s c e d o ou mais tarde. b) pela denúncia da constante transformação da idéia de raça sob diferentes formas e tropos. ( 1 9 9 3 : 460). de implantar e garantir o funcionamento de n o r m a s sociais que conduzam à igualdade de tratamento. c o n t i n u a 2. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 53 . porém. de civilizar as r e l a ç õ e s raciais. sem crer em raças biológicas. deve-se sempre grafar tal palavra entre aspas. à qual me filio.?/. acurados. s o b r e as quais deve-se organizar a luta anti-racista. é de que t r a t e m o s raças c o m o epifenômenos. conduz ao ra- cismo. apóia-se na c r e n ç a de que a superação das classificações raciais passa necessariamente por dois passos: a) pelo reconhecimento da inexistência de raças biológicas. No nível científico. Para ser mais claro. nativa. Continuamos a n o s classificar em raças. 52 Classes. também não acreditam em raças biológicas. é uma categoria emic.bases bastante delicadas. logicamente. a um só t e m p o . c o m o categoria nativa. principalmente o movimento rap (Gordon. utilizar um b o m tropo para "raça". embora possa ter desaparecido do discurso dos envolvidos no referido incidente. possível. aceitar que as "raças sociais" (ou seja. P r a g m a t i c a m e n t e . 26 ou seja. como c o n s truções que precisam ser s u p e r a d a s para que se possa erradicar o racismo. mas a c e i t a m que as raças sociais são construções sociais permanentes. nessa postura. A quarta possibilidade. para tanto. uma vez que aceita diferenças de qualidades e de propriedades raciais sem que aceite a hierarquia entre elas. as categorias etic "dependem de distinções fenomênicas julgadas pertinentes por uma comunidade de observadores científicos". H á . as pessoas que adotam tal postura anti-racista. a terceira possibilidade. portanto. ainda. denotando o seu caráter epiíenomenal e nativo. independente do que nos diga a genética. S u p o n h a m o s o caso corriqueiro de alguém. utilizo u m exemplo. tão somente. no Brasil. podendo mesmo cultivá-lo se. Trata-se. Direi apenas que boa parte dos negros brasileiros que e s t ã o longe da influência acadêmica e perto da influência da cultura de massa. a teoria c o p e r n i c a n a sem que deixemos de organizar as nossas experiências diárias em torno da crença de que o sol se põe e se levanta. a idéia de raça. ainda que difícil. assim t a m b é m acontece com a crença e m "raças". há séculos. que organizam a experiência social h u m a n a e que não têm chances de desaparecer. Por isso. a única referência possível a "raças" é o registro dessa idéia em termos cmic . do ponto de vista científico. Pode-se. "termos emie se referem a siste- mas lógico-empíncos nos quais distinções fenomênicas ou 'coisas' são elaboradas a partir de discriminações e contrastes que são signíficantes. Ou seja. Assim como aceitamos. que se queixa por ter sofrido preconceito de cor. A segunda possibilidade é. esta p o s i ç ã o é. independentemente da raça do indivíduo. Para elas. o u seja. uma vez estabelecidas pelas ciências a inexistência de raças humanas e a inexistência de hierarquias inatas entre os grupos humanos. o que se passou foi um caso de preconceito racial porque a categoria " c o r " é informada pela idéia de " r a ç a " que. distinguir duas outras posturas anti-racistas que implicam na superação da idéia de raças.1 Segundo Harris et.

c o m o uma matriz cultural periodicamente atualizada por políticas. a o c o n t r á r i o . O respaldo científico de que precisam os militantes a n t i racistas brasileiros. Analiticamente. em situações particulares. foi interpretada como resultado da aplicação de um discurso e x t e r n o a essa matriz nativa. que t e m como referente histórico a modernidade européia. Tal ideologia reinou sem g r a n d e contestação. é também delicada. D a í p o r q u e a recusa à democracia racial.a orientar a ação dos agentes sociais. A crítica sociológica ficaria por conta da c o m p a r a ç ã o entre sociedades humanas. C o m mais razão ainda. " R a ç a " . hereditários e endogâmicos das sociedades ocidentais. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 55 . as pessoas particulares. não para subsumir as diferenças e as particularidades. a um m e s m o universo de significado. Ora. que ilustram uma classifieação-política ou de cor. t a m b é m analiticamente. neste c o n t e x t o . N o caso específico d o d e b a t e brasileiro atual. no interior de uma estrutura de significados. invertendo os 54 Classes. ao contrário. quando pensadas em termos religiosos. não está em ressuscitar a idéia de " r a ç a " biológica ou uma raciologia ultrapassada. para permitir a compreensão das p a r ticularidades e das contingências históricas. por exemplo. seja no Brasil ou em países da E u ropa Ocidental. como eu. submetendo-se a reformas que a descaracterizam. discursos e crenças. por exemplo. Assim. Isso ficou claro para mim depois de ler um texto de Maggie ( 1 9 9 9 ) em que a autora reproduz boa parte da crítica de Louis Dumont ( 1 9 6 6 ) aos sociólogos americanos que utilizavam o conceito de "casta" para referir-se às relações raciais do Deep South. Eu tendo. cabe justamente ao analista buscar o que há de c o m u m a diversas sociedades humanas p a r a construir categorias a n a l í t i c a s gerais que possam ser utilizadas heuristicamente. seja nos Estados U n i d o s . à antropologia caberia apenas entender o modo c o m o esses mundos são construídos e são vividos pelos seus sujeitos-atores. ainda que. A postura. mas. dos 1 9 3 0 aos 1 9 7 0 . e alguns sociólogos. p e l o menos da maneira radical c o m o o movimento negro a fez. cada uma delas podendo ser entendida da perspectiva da outra. p o r t a n t o . ao contrário dos negros ou pretos brasileiros. que deve muito a Evans-Pritchard ( 1 9 6 9 ) . em políticas estatais e e m discursos literários e artísticos. minha postura. portanto. o correto é falar em preconceito racial e não em preconceito de gênero ou de classe. a idéia de raça de que estamos tratando pertence. e não ficar circunscrita apenas à hierarquia social das c o lônias espanholas e portuguesas do período colonial. ainda mais importante para se compreender a dificuldade de entendimento entre os aderentes a essas duas últimas posturas anti-racistas talvez seja uma diferença ontológica fundamental entre alguns antropólogos. a analisar a " d e m o cracia racial" brasileira c o m o uma ideologia historicamente d a tada. particularmente o desenvolvimento da c i ê n c i a ao longo da colonização e da e s c r a vização dos povos africanos. para a tradição sociológica. ou seja. materializada em práticas sociais. no caso " c o r " . "Castas" seriam um fenômeno indiano. Autores como Maggie e Fry tendem a ver a "democracia racial" como parte constituinte da formação social brasileira. a palavra espanhola " c a s t a " pôde ser usada em relação à hierarquia s o c i a l indiana. é uma ferramenta analítica que permite ao s o c i ó l o g o inferir a permanência da idéia de " r a ç a " disfarçada em algum tropo. é a seguinte: não cabe ao cientista social criar categorias analíticas para sobrepor ao modo c o m o os atores sociais constróem o seu mundo de significados. pois pressupõe uma comunidade de leitores e ouvintes que partilhem a crença científica na inexistência de raças humanas e nas bases sociais do racismo. respectivamente. como Yvonne Maggie e Peter Fry. grosso m o d o . e apenas a p a r t i r daí passou a ser crescentemente afrontada. assim como " r a ç a s " seriam o modo particular c o m o os negros norte-americanos são classificados socialmente. jamais categoria analítica para referir-se aos grupos semifechados. seja também importante adicionar a categoria nativa através da qual o preconceito de raça se atualizou. Mas. ainda que as duas hierarquias t e n h a m mais diferenças que semelhanças entre si. volto a repetir. por exemplo.

formado a partir dos anos 1 9 3 0 . racista. ' Mito. a d e m o cracia racial. Definindo "negros" como todos os descendentes de africanos e identificando-os com a soma das c a t e g o r i a s censitárias "preto" e " p a r d o " . o movimento incorreu em duas heresias científicas: primeiro. mas a ascendência biológica. cresceu a reação de alguns intelectuais à tentativa de demonização de Frevre. O leira. enquanto ideologia. C o n c e i t o este que deverá. ignorou o fato de que. um mito fundador da nacionalidade brasi- Sérgio Costa ( 2 0 0 1 i me atribui a intenção de querer reduzir a ideo- logia nacional brasileira a uma ideologia de cunho meramente racial.respaldo de que precisam resultará da reelaboração sociológica do conceito de raça. 2 S Apenas essa mudança já explicaria grande parte da reação a o movimento negro. em termos de legitimar desigualdades de tratamento e de oportunidades. Por um lado. se contrapõe à ideologia que permite a discriminação racial no B r a s i l . 56 Classes.t e r m o s d o racismo científico do século passado. e 3) identificar o c o n t e ú d o racial das "classes sociais" brasileiras. deu margem também a outras críticas: a de que o m o v i m e n t o negro tenta impor categorias raciais americanas ao Brasil. segundo. e a de que professa a crença em raças b i o lógicas (racialismo). seria impostura ou demagogia não reconhecer os perigos reais para os quais Paul Gilroy e Peter Fry. assim c o m o as demais organizações negras. na verdade. chamando de "negros" todos aqueles com alguma ascendência africana. tomou um rumo contrário ao imaginário n a c i o n a l e ao consenso científico. negando o caráter cordial das relações raciais e afirmando que. E isso. A pretensão de identificar alguém como " n e g r o " pela sua ascendência. O anti-racismo erudito e a ciência social politicamente engajada precisam mais que negar a existência de raças biológicas. O combate à discriminação e às desigualdades raciais tem encontrado resistências por parte da opinião pública brasileira. o que evidentemente seria uma b o b a g e m . N o entanto. O. entre outros. 28 27 Ao m e s m o tempo. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 57 . principalmente quando passou a defender po- 2 movimento aprofundou. além de ser. em parte. 2 ) reafirmar o caráter fictício de tal construção em termos físicos e biológicos. argumentando que. ignorando o modo como as pessoas se classificam ou traçam suas origens. o que obviamente não impede que ela seja declaradamente a-racialista. ou ter se tornado. Afinal. à medida que o m o v i m e n t o negro acusava Gilberto Freyre por ter passado uma imagem rósea das relações raciais no país. significa a expressão simbólica de um conjunto de ideais que organizam a vida social de unia certa comunidade. antropólogos como Roberto D a M a t t a e Peter Fry alertaram para o fato de que a democracia racial é. referindo-as pelo n o m e que devem ter. a linguagem da ciência deve justamente ser capaz de desvendar e revelar o que o senso comum escondeu. a p o p u lação que se autodefine " p a r d a " pode ter origem indígena e n ã o africana. longe de a c o b e r t a r . no Brasil. Ora. ao mesmo t e m p o : 1) reconhecer o peso real e efetivo que tem a idéia de raça na sociedade brasileira. Por um lado. pnorizaram em sua luta a desmistificação do credo da democracia racial. não a auto-identificação. O que eu digo é que essa ideologia nacional tem pressupostos raciais (mestiçagem). esses são os nomes que descrevem a sua verdadeira natureza social. apontam. e não apenas os "pretos". o racismo está e n t r a n h a d o nas relações sociais. não se confunde com "falsa ideologia". porque a luta c o n t r a o racismo. em grande parte do Brasil. por outro lado. ela m e s m a .9 6 : 1 2 6 ) foi mais longe. Fry ( 1 9 9 5 . à medida que o movimento negro ganhou maior proeminência política. A tensão entre o m o v i m e n t o negro e a academia brasileira é também grande quando se trata de identidade racial. enquanto ideal. o Movimento Negro Unificado. a d o tou como critério de identidade. para os antropólogos. no Brasil. inatacável. ainda que não sejam polidos ou estejam interditos por tabus: "raciais" e " r a ç a " . Precisam nomear as construções que tal idéia suscita. c o m o quer a moderna a n t r o p o l o g i a . referindo-se a tal idéia entre aspas. sua política de construç ã o de identidade racial.

"intelectuais a serviço do imperialismo americano". enquanto o Exame Nacional do Ensino M é d i o ( E N E M ) . já que o movimento negro. As críticas contundentes que lhes foram dirigidas por French ( 2 0 0 0 ) me dispensam de maiores comentários. c o m o em Salvador. o amplo setor da sociedade brasileira organizado em ONGs. o mal-estar da academia tendeu a transformar-se facilmente em c o n s e r v a d o r i s m o político. a pretensão de se utilizar qualquer outro critério de ingresso às faculdades que não seja o exame v e s t i b u l a r . é ainda. esperado. o qual continua pouco permeável à ascensão de negros.os "direitos difusos". . 29 reitos coletivos" e. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 59 . enquanto. n o movimento negro. para o convencimento da o p i n i ã o pública. O melhor exemplo disso está na r e a ç ã o bastante negativa das melhores universidades públicas do país a qualquer tentativa de acesso privilegiado de negros. 1 9 9 9 ) . De fato. em particular. desembargadores e ministros. surge também a necessidade de melhor preparação. sagens de Bourdieu e Wacquant ( 1 9 9 8 ) referentes ao Brasil. a situação é ainda mais complexa. está se dando no terreno jurídico-político e não apenas no terreno ideológico. ao tempo em que. ( 1 9 9 3 ) acabam cedendo lugar a parolagens e acusações gratuitas de "racismo às a v e s s a s " . a verdade é que. do p o n t o de vista intelectual. em outros lugares. tende a tratá-los como "brancos". já parcialmente aceito por algumas universidades. o movimento negro ainda precisa muito dos intelectuais "brancos" 3 0 para vencer a resistência do establisbment acadêmi- c o . a atuação j u r í d i c a cresce de importância. ensejou. de modo algum. a o introduzir no país os "di- 2 9 Um bom exemplo de má-informação e conservadorismo são as pas- sejam liminares a a ç õ e s civis públicas que defendem direitos difusos. nos J Ora.líricas públicas voltadas para a p o p u l a ç ã o negra. Isso faz com que os magistrados e advogados brasileiros. e mesmo de pobres. d o s advogados. prevista na Constituição de 1 9 8 8 . Reações intelectuais bem fundamentadas c o m o as de Fry (1995-96) ou Harris et al. " s u b o r d i n a ç ã o cultural" e t c . c o m o que cresceu bastante a importância. há uma grande defasagem entre o pensamento sociológico. em geral. c o m o salientei em outro texto (Guimarães. assim c o m o a que encontram por parte de j o r n a l i s tas. A Carta de 1 9 8 8 . que defendam os direitos sociais de populações marginalizadas. bastante primitiva. como sujeito de direito. a comunidade universitária brasileira não aceita. ofereceu a o M i nistério Público a oportunidade de criar seções especializadas n o combate aos crimes raciais. mestiços de pele clara em sua maioria. Mesmo contando com aliados intelectuais de peso. para os negros. e que garantam o cumprimento de acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. D o mesmo modo. 51 Essa restrição vem sendo d o b r a d a lentamente. Isso porque as decisões jurídicas g a n h a m rapidamente repercussão jornalística. reconheceu. últimos anos. além dos ativistas do S O S Racismo. 58 Classes. em relação ao establisbment. no Brasil. ferindo interesses e privilégios consolidados. l ! No caso dos intelectuais brasileiros. a nova ordem c o n s titucional abriu espaço para a elaboração de políticas c o m p e n s a tórias. possibilita um mecanismo eficaz de avaliação alternativa de mérito acadêmico. ^ Ainda. procuradores e p r o m o t o r e s negros. Vendo-se a si mesma c o m o uma elite formada através d o mérito intelectual. além de instituir o Ministério Público como o guardião desses novos direitos. por parte de juizes. já em uso. em São Paulo e no R i o de Janeiro. a formação de programas como o SOS R a c i s m o e a criação de Delegacias Especializadas. que u m a boa parte da intelectualidade negra concentrasse suas energias n a atuação jurídica. sejam prisões por r a c i s m o . técnica e ideológica. e aquele transmitido nas escolas de direito ou jornalismo. e dos magistrados e dos ministros das C o r t e s superiores. o grande avanço da luta contra o racismo. Assim. A reação que os advogados e promotores negros e n c o n t r a m no Judiciário e nas C o r t e s . Era. a criminalização do preconceito e da discriminação raciais. tendo r e n e g a d o tardiamente as idéias racistas de Lombroso e Nina R o d r i g u e s . vale lembrar que. portanto. g e r a do e transmitido nas faculdades de filosofia e ciências sociais. em contradição com seus próprios critérios. A nova Lei de Diretri- zes e Bases da Educação flexibilizou o ingresso ao ensino superior.

60 Classes. sendo comum. como nos Estados Unidos. adquiriu o teor de farsa. o u t r o discurso. social e e c o n ô m i ca da população negra. 1 9 8 9 . começa agora a ser travada pari passu a uma outra. hoje. c o m o um programa de combate à discriminação racial e de integração do negro à sociedade de classes. O primeiro negou as raças e pregou a cor como " a c i d e n t e " . Mais: é bastante provável que já não seja possível. O movimento negro.. ou ainda a demonstração de que as desigualdades sociais entre brancos e negros têm. no Brasil. que a n tes se definiriam c o m o morenas ou mesmo brancas. T ã o justas quanto a crítica à função mistificadora da democracia racial brasileira. 1 9 9 2 . A luta contra a discriminação. no futuro. na discriminação sistêmica alimentada pelos preconceitos e pelas hierarquias socialmente aceitas (classe. a verdade. ou seja. para uma parcela decisiva das elites brasileiras. direira e esquerda. Por um lado. dos negros em potencial (os "pardos" e "pretos" censitários. T e l l e s . etnia. t a n t o a defesa da identidade racial c o m o direito à auto-identificação. 1 9 9 2 ) . os bailes funk etc. os grupos rap. ou seja à pobreza da população em geral. talvez tenha que ser negociada entre essas duas posições. é q u e . gênero. 1 9 8 1 . o segundo reivindicou a dignidade e o orgulho raciais. região e t c ) . p o r t a n t o . apesar do imenso progresso e do enorme esforço feito em termos de política de identidade. 1 9 9 5 . liberais e socialistas. Desse modo.continuem agora apegados ao consenso intelectual. no entanto. se identificarem e serem aceitas c o m o negras. Qualquer política pública. 3 2 1 9 6 0 . t e m p o s mais tarde. quanto a rejeição das "raças" biológicas como construções sociais opressivas. que reparem a exclusão política. precisa esclarecer as diferenças entre o seu racialismo e o racialismo anterior e. frutos visíveis: e m vários pontos do país floresceram grupos culturais de a f i r m a ç ã o da identidade negra e afro-brasileira. a questão racial passe a ser objeto de dois discursos competitivos. e recriado nos 1 9 7 0 . liderado _por Freyre. OS L I M I T E S D O R A C I A L I S M O N E G R O O moderno movimento negro brasileiro foi criado nos 1 9 3 0 . O u seja. construir um consenso nacional sobre as desigualdades raciais. Adorno. a o qual aderiam. C o m o conseqüência de sua atuação. negros e brancos. personalidades midiáticas. a p o lítica de identidade racial rendeu. a p e nas 7 % da população brasileira se identifica como " n e g r a " ou ou a crítica à sociedade hierárquica ainda vigente no Brasil (DaMatta. através da busca de políticas públicas mais abrangentes. Todos esses pontos precisam ser reintegrados de m o d o a evitar que as críticas justas e saudáveis ao racialismo não realimentem uma elite politicamente conservadora e racialmente cínica. também. ademais. um fundamento racial inegável (Hasenbalg e Silva. pelo menos em certas c a m a d a s sociais. parece ter sido definitivamente rompido. para isso. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 61 . precisa também atentar para o que de verdade dizem os seus críticos. Guimarães. Lovell. £ provável que. Ainda de a c o r d o com esses dados (ver Tabela 2 ) . um discurso cuja ênfase é posta no c a r á t e r racial das desigualdades. A própria f o r m a de identificação racial m u d o u . 1998). O velho consenso sobre a democracia racial. O primeiro lutou para construir a democracia racial que. por outro lado. q u e alguns ativistas c h a m a m de negros). segundo dados de uma pesquisa a m o s t r a i . e que formariam 4 0 % da população brasileira. a única alternativa ao racismo científico do final do século X I X continua a ser a ideologia da democracia racial. tais como os bailes black. no Brasil. bem mais ampla: a luta c o n t r a as desigualdades raciais. ambos em sintonia com o reconhecimento pleno da cidadania negra. Mas. apenas uma minoria atendeu ao apelo racial do movimento (ver Tabela 1). 2 0 0 1 . dos anos 1 9 3 0 e 1 9 4 0 . os blocos afro. são justas. entre os anos 1 9 3 0 e 3 2 Ver Nascimento e N a s c i m e n t o . cuja ênfase é dada ao caráter econômico da desigualdade. como m o d o de se opor à opressão. denunciado pelo segundo. 1 9 8 5 . raça.

6 100. enquanto 4 3 % prefere se identificar c o m o "morena" e o restante como " b r a n c a " ( 3 8 % ) .3 2.0 Fonte: Instituto de Pesquisa D a t a F o l h a . são grandes os desafios: se o movimento negro abandonar o r a c i a l i s m o de atribuição racial (feita a partir de caracteres fisionômicos ou ascendência biológica). a uma definição ampla de n e g r o . enquanto a luta c o n t r a a discriminação forçou o r e c o nhecimento explícito da c a t e g o r i a racial que motivava a discriminação. c o r r e o risco de perder legitimidade. Tal estratégia negra c a s a . Isso p o r q u e se sabe muito bem que. em uma sociedade e m que a maioria sofre a pobreza e a exclusão social e política. e n ã o p o r q u e o país é pobre. Tabela 2 BRASIL: R E S P O S T A E S P O N T Â N E A À P E R G U N T A " Q U A L É SUA C O R ? " Cor Branca Moreno Moreno claro Parda Preta Negro Ciara Mulato Escuro Amarela Moreno escuro Outras Não sabe Total Freqüência 1.s e muito bem com a aspiração das es- % 38. C o m o reagirá no futuro o m o v i m e n t o a essa evidência? Como reagirá a sociedade branca? Em termos políticos. até h o j e . talvez. enquanto categoria o b j e t o do preconceito. aliás sabiamente.081 escondem seus interesses m a i s mesquinhos atrás de teorias c o m o a da democracia racial o u a do subdesenvolvimento e c o n ô m i c o . a d e m a i s .9 4. em t r o c a de um racialismo de identidades eleitas. a abandonar u m a política de maioria em favor de u m a política de minoria.3 34.4 5. tanto através de critérios de auto-identificação racial.7 0. inclua apenas os " p r e t o s " .8 0. Esse dilema explica. c o m o " n e gros e carentes". ^ O racialismo negro brasileiro tem duas virtudes inigualáveis: a c o n j u n ç ã o entre negros. Ao contrário. quanto de a t r i b u i ç ã o 3 3 O mesmo é válido para uma atribuição muito restrita que. 1 9 9 5 . Ora. 62 Classes.6 11.769 375 302 221 135 84 39 34 28 29 72 47 5.0 querdas e com a nova m o b i l i z a ç ã o em defesa dos direitos h u m a nos e do respeito à c i d a d a n i a .8 7. uma política de minoria. c o m o tempo.9 28. 1 9 9 5 . " p a r d a " ( 6 % ) ou outra cor. por e x e m - Fonte: Instituto de Pesquisa D a t a F o l h a . poderá se ver tentado.8 6. se c o n f o r m a d o a acomodar suas reivindicações de políticas afirmativas a fórmulas mais abrangentes. definidos amplamente.4 0. a luta a favor de a ç õ e s afirmativas para os negros terá forçosamente que beneficiar a q u e les 7% da população que se identifica como preto ou negro."preta".6 1.7 0.946 1. é uma e x c e l e n t e estratégia de responsabilização das elites do país que.522 606 1454 141 326 32 5.9 100. e pobreza é tão g r a n d e que dizer que os pobres são p o b r e s porque são negros. conduzindo.4 0.081 % 49.6 0. Tabela 1 BRASIL: R E S P O S T A I N D U Z I D A À P E R G U N T A " Q U A L É SUA C O R ? " Cor Branca Preta Parda Amarela Indígena Outras Total Freqüência 2. plo. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 63 .7 1.6 2. por que as lideranças negras t ê m .

a o longo dos anos (pelo m e n o s desde 1930 de forma organizada). terceiro. e branco e rico. esta tem sido a frase m a i s repetida pelos diversos governos republicanos. uma herança do passado. a p o p u l a ç ã o negra c bem menor que a de descendentes de africanos. AS CAUSAS D A P O B R E Z A N E G R A N O BRASIL: A L G U M A S R E F L E X Õ E S 3 5 Figura 1 A L I N H A D E C O R E DE POBREZA NO BRASIL. 19 de junho de 2 0 0 0 . m a i s q u e sugerido. há uma equivalência entre preto e pobre. estuda a hierarquia social n a Bahia para concluir que a principal clivagem dá-se entre b r a n c o s e negros. World Bank. embora tenha um cerne de verdade. 64 Classes. 1 9 6 6 . portanto. Primeiro. quanto pelo povo. 34 discrepância entre brancos e negros deve seaí) passado. Comparando as e s truturas sociais da B a h i a e do sul dos Estados Unidos. isenta as gerações presentes de responsabilidade pela desigualdade atual. Há. ' Até mesmo o movimento negro recusa-se a chamar de "negro" os 4 afrodescendentes de classe média. na e c o n o mia ou na antropologia. seja entre governantes e governados. está bem estabelecido e demonstrado o fato de que a pobreza atinge mais os negros que os brancos. no Brasil.por terceiros. que desapareceria c o m o tempo. Mais que isto: está t a m b é m demonstrado na literatura s o c i o lógica. u m consenso de que os pobres são pretos e que os ricos são brancos. inclusive o atuai). oferece uma desculpa fácil para a permanência d a s desigualdades ("como reverter em c i n c o anos o que é produto de c i n c o séculos?". p o r exemplo. desde os 1 9 5 0 . seja na demografía ou na sociologia. as lide- . seja na mentalidade popular. 3 6 Tal argumento encontra-se detalhado em Guimarães ( 1 9 9 9 ) . gradualmente. Inter-American Díalog/Inter-American Development Bank. clivagem esta que é igualmente referida na linguagem cotidiana como sendo entre ricos e pobres. seja n o pensamento erudito.escravista. Thales de Azevedo ( 1 9 6 6 ) . 3 9 . Estatisticamente. segundo. Quais são as causas da pobreza negra? A explicação normalmente aceita. " Este item foi escrito originalmente para ser apresentado ao Seminário "Race and Poverty: Inter-Agency Consultations on Afro-Latin Americans". no B r a sil. tais disparidades (as vezes. deixa sugerido que os diversos governos têm b u s c a d o corrigir. é de que a 36 S E G U N D O THALES DE AZEVEDO A n . Thales utiliza o diagrama sugerido por Lloyd Warner (Figura 1) para visualizar a relação entre o sistema de castas raciais e o de c l a s s e s . o a r g u m e n t o é explícito entre os economistas: é preciso que a economia c r e s ç a para que os problemas sociais r e s o l v a m se naturalmente). raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 65 . T a l e x p l i c a ç ã o . por um lado. que. tanto pelos governos. W a shington DC. por o u t r o . Fonte: Azevedo. no imaginário. p. esconde alguns p r o b l e m a s graves. que se definem como "brancos". : Sena. na ideologia e no discurso brasileiros. Contra tal e x p l i c a ç ã o conservadora têm se insurgido. portanto. em texto d a t a d o de 1 9 5 5 .

para os negros. nos a n o s 1 9 4 0 . ao fim e ao cabo. no Brasil. diluído numa série de características pessoais. N o plano da opinião pública. o preconceito e a discriminação raciais. todas de ordem atribuída (ascribeu). Dificilmente se poderia afirmar. Nesses c a s o s . Marvin Harris (1966) ouThales de Azevedo ( 1 9 5 3 ) . isso significou tratar c o m o natural e legítima tal discriminação de classe. As estatísticas demonstram que não apenas o ponto de partida dos negros é desvantajoso (a herança do passado). Atualmente. T a l argumentação foi. mostrou que 8 9 % dos brasileiros também acreditam que os brancos têm preconceito contra os negros e 5 8 % acham que o fato de a população negra viver em condições piores que a branca se deve ao preconceito e à discriminação dos brancos c o n t r a os negros (DataFolha. na educação e no mercado de trabalho. geralmente. para as quais as causas cia pobreza negra são a falta de oportunidades. Como esses autores faziam profissão de fé anti-racista. realizada em 1 9 9 5 . a criminalidade e de construção da cidadania passaram a explicitar as discriminações diárias perpetradas contra todos aqueles que. que existe racismo no Brasil. somamse novas discriminações que aumentam tal desvantagem. Essa legitimidade se expressa na justificativa dada para os casos inegáveis e reconhecidos de discriminação c o n t r a pessoas negras. De fato. para o Brasil. Primeiro. a referida pesquisa do DataFolha. . 1 9 9 5 ) . mas que. estudos sobre a violência. quando se escreveu a atual C a r t a constitucional. ' ' M a s ainda se considera legítima a discriminação de classe. o que. através de discriminações. consideram ser o principal problema que a população ne- - 5T A administração Fernando Henrique Cardoso reconheceu publica- gra enfrenta. no Brasil. O fato de que os pobres. há aquilo que Hasenbalg e Silva ( 1 9 9 2 ) chamam de "ciclo cumulativo de desvantagens" dos negros. é o c a r á t e r dessas discriminações. mas é ampliada no t e m p o presente. aceita e refinada pelas ciências sociais brasileiras p o r autores tão importantes quanto D o n a l d Pierson ( 1 9 4 2 ) . sendo a pobreza negra puramente pobreza. costuma-se explicar tal discriminação como sendo uma discriminação de classe e não de cor. mente. dizem os militantes negros. pelo seu aspecto físico — principalmente a cor —. em diversas oportunidades. quando as ciências sociais brasileiras passaram a pautar-se norma3 tivamente pelo ideário da cidadania m o d e r n a . nem preconceitos raciais. o acesso ao trabalho. no passado. Segundo. que 4 5 % dos negros brasileiros. quanto a opinião pública reconhecem a discriminação r a c i a l . dá n o mesmo. no Brasil. os argumentos das lideranças negras eram peremptoriamente rejeitados: não haveria nem discriminação.fi Fíabermas talvez seja o autor contemporâneo que mais tenha dado ênfase aos fundamentos normativos das ciências sociais. n ã o sejam reais sujeitos de direitos passou a ser um problema apenas recentemente. Até bem pouco tempo (a mudança pode ser datada de 1 9 8 8 ) . e m c a d a estágio da competição social. o fator racial está. tal legitimidade decorre justamente do fato de que os pobres são negros. para os Estados Unidos o u para a África do Sul. esquecendo-se de que a possibilidade de uma pessoa pobre n ã o ser portadora dos direitos plenos da cidadania é inaceitável numa ordem democrática. para os poderes públicos. raças e democracia R a ç a e pobreza no Brasil 67 . Ao contrário. o que torna legítimo o r e c o n h e c i m e n t o da falta de oportunidades dos pobres e o preconceito e a discriminação de que são vítimas? Em grande parte. É importante chamar a atenção para a legitimidade que adquiriram no Brasil o preconceito e a discriminação contra os pobres. 66 Classes. Ou seja. 3 8 Só a partir de então. não parecem. nota-se uma mudança importante: tanto o governo. portadores de direitos subjetivos. que o fator racial seja um motivo de discriminação explícito ou diretamente detectável. as estatísticas demonstram que a desvantagem dos negros não é apenas decorrente do passado. S e n ã o vejamos. Tome-se. A c h o que esses militantes têm razão.ranças negras. segundo o DataFolha ( 1 9 5 5 ) . como se fez. e talvez mais importante. c o m o e x e m p l o .

Assim. I0 brasileiros. inclusive com g a n h o s salariais. de emprego. justamente aquelas onde negros e pobres com escolaridade média teriam mais chances de c o n c o r r e r . Os dados m o s t r a m . como São P a u l o . a emancipação das mulheres parece ter ficado restrita às classes médias e altas. são muito melhor aceitas pelo mercado que as universidades privadas. há ainda um fator mais perverso. como grande parte dos jovens negros melhor aquinhoados pela fortuna. têm que pagar pelos seus estudos universitários. são políticas que podem realmente reverter a situaç ã o de pobreza da população negra brasileira. fica-se c o m a idéia de que esse benefício restringiu-se. para jovens universitários que buscam emprego. pela sujeira. 2 0 0 0 . A pobreza. 68 Classes. De um l a d o . 2 0 0 0 ) . o fator "gênero". v o l t a d a s especialmente para os negros e carentes. olhando algumas estatísticas desagregadas por cor. ticas habitacionais para as classes pobres. que embora as mulheres brancas tenham expandido sua participação na PEA e no emprego. políticas de saúde pública c saneamento. 40 O problema consiste no fato de que a qualidade do ensino público e gratuito deteriorou-se a tal ponto que apenas aqueles que podem pagai' colégios privados têm condições de ingressar na universidade pública e gratuita. a falta de oportunidades. Embora tenhamos consciência de que as pessoas não devem ser julgadas pela aparência. que n ã o pode ser desconsiderado. totalmente fragmentado por áreas de residência: a primeira pergunta feita a uma entrevistado em busca de emprego é o local de sua residência e quantas conduções ela tomaria para chegar ao trabalho (Guimarães e Guimarães. oferecem mais chances de qualificação para os estudantes oriundos de colégios privados. qualificam melhor os universitários da rede pública. até agora. mas que não freqüentam colégios de elite. quase que totalmente às mulheres brancas. o s bairros pobres-são estigmatizados pela violência. 4 1 O termo "favelado". 2 0 0 0 ) . " Apenas três ou quatro universidades privadas. na prática as bem cuidadas são mais favorecidas" (Guimarães e Guimarães. geralmente negras. é um dos insultos raciais mais freqüentes no Brasil (ver último capítulo). M a s . 3 9 arranjarem empregos.O r a . poli-. Não apenas os jovens mais pobres não têm acesso à universidade. outro fator decisivo é o r e n o m e da sua universidade. Mas. raças e democracia R a ç a e pobreza no Brasil 69 . que se traduzem na noção de " b o a aparência". Pol íticas na área de educação. por exemplo. Lavinas. 2 0 0 1 ) . segundo. elas teriam que p r e e n c h e r duas condições: primeiro. Ou seja. No e n t a n t o . o mercado de trabalho para as ocupações menos qualificadas. todas concentradas no R i o de Janeiro e em São Paulo. para que essas políticas pudessem reverter a s i t u a ç ã o de carência dos negros 41 de ou- tro lado. políticas de transporte urbano etc. por e x e m p l o . as mulheres negras continuam presas ao desemprego e discriminadas em termos de salário (Guimarães c Consoni. n ã o atingindo as mulheres pobres. Nos últimos a n o s . sendo que as universidades públicas e gratuitas. fogem dessa regra. os bairros mais afluentes oferecem mais oportunidades Além da " b o a aparência". Ademais. a desigualdade de rendimentos e a discriminação atingem muito mais fortemente as mulheres que os homens. a luta pela emancipação das mulheres e pela efetiva iguaLdade entre os sexos melhorou em muito a posição das mulheres na sociedade brasileira. atenção. o m e r c a d o e o governo discriminam duplamente o negro: primeiro. nas grandes cidades brasileiras. no mercado de trabalho. pela desonestidade. que atingiu sobretudo a população negra. Isso circunscreve a c h a n c e dos pobres e negros A noção de "boa aparência" é comentada do seguinte modo por uma consultora de R H : "Boa aparência significa sucesso. aceitação social. encontra-se. O que sobressai das estatísticas e dos diagnósticos disponíveis é que houve um desleixo h i s t ó r i c o dos governos brasileiros com relação à pobreza. valores estéticos e comportamentais. são os grandes responsáveis pela discriminação dos negros e dos pobres. de ingresso mais concorrido.

que levem cm conta a discriminação racial e de gênero. aberta a todos" (tradução minha). taças e democracia Raça e pobreza no Brasil 71 . seriam. assegura 5 0 % das vagas nas universidades públicas brasileiras a alunos oriundos de escolas públicas de segundo grau. AS CRÍTICAS ÀS A Ç Õ E S A F I R M A T I V A S N o entanto. já aprovado no O que esses autores ignoram ou omitem é que o povo brasileiro não rejeita políticas afirmativas. Equivocada p o r que reforça identidades étnicas e raciais. 2 0 0 0 ) . mas amplamente repudiado por educadores. a já citada pesquisa do D a t a F o l h a sobre racismo detectou que os mais p o b r e s e Senado. conta. 1 9 9 7 ) e ferem a inteligência nacional ( D a M a t t a . apesar das evidências estatísticas. quanto de raça (não haveria propriamente uma comunidade negra no Brasil. o u pouco refinados para entender a complexidade da cultura brasileira. Ainda que reconhecendo que existe discriminação c o n t r a o s negros e contra as mulheres. Fry. que reificam o r a c i s m o . 70 Classes. pela imprensa mais progressista. Há. as políticas de ação afirmativa (as únicas que visam reparar erros do passado). atualmente propostas pelas lideranças negras. entre seus adversários. a idéia de adotar tais políticas é equivocada e simplista. inclusive. 4 2 Foi o que aconteceu com o projeto de lei 298/99. têm sido rejeitadas com base tanto em argumentos de classe (tais políticas beneficiariam apenas os negros de classe média). protegidos por interesses corporativos. por exemplo. reitores e intelectuais e. E por quê? Ora. Em artigo recente. ou seja. Ademais. um agarramento aos privilégios 4 2 A discussão de políticas afirmativas para a população n e g r a . de sentimento de responsabilidade ou de culpa pelo passado. O s dados da pesquisa mostram também um forte consenso na elite c o n t r a ações afirmativas ou impostos sobre a riqueza. enquanto as políticas de guerra à pobreza apenas lentamente saem do papel. a educação é vista c o m o o m e i o mais efetivo de combate à pobreza e à desigualdade justamente porque se trata de uma solução universalista. a justificativa moral para o seu repúdio parece assentar-se sobre a ausência. o que inviabiliza qualquer argumento de "reparaç ã o " (Skidmore. Elisa R e i s (2000: 187) expressou essa dificuldade da seguinte maneira: " U m outro t r a ç o relevante da cultura política da elite é a forte preferência por políticas sociais universalistas p a r a c o m b a t e r a pobreza e a desigualdade. Tal projeto de lei. a elite não está preparada para compensá-la através de medidas de d i s c r i m i n a ç ã o positiva. inegavelmente. Para eles. simplista porque c o n t r a r i a a nossa tradição cultural. com os melhores e m a i s renomados cientistas sociais do país. as únicas que os mais carentes podem freqüentar. As elites brasileiras não aceitam medidas eficazes de combate à pobreza. portanto. 1 9 9 7 ) . De fato. Em 1 9 9 5 . ou estariam c o n t a m i n a d o s ideologicamente pelo seu e n v o l vimento com o m o v i m e n t o negro. Quem as rejeita são as c l a s s e s médias e as elites. O s intelectuais que defendem políticas antipobreza mais radicais. em tramitação na Câmara dos Deputados. 1 9 9 7 . teriam que ter duração maior que uma ou duas administrações. uma identidade negra precisamente definida). tal c o m o sugerem. inclusive intelectuais. É por isso que tem alguma plausibilidade a afirmativa dos militantes negros de que tal indiferença em relação à pobreza e a legitimidade da discriminação contra os pobres têm uma motivação racial. inclusive em sua forma e x trema de cotas. Esses argumentam que t a i s políticas c o n t r a r i a m os valores liberais (Reis.visar dois alvos — a população negra e os pobres. segundo. entre nós. seculares. Esses interesses impedem que políticas antipobreza sejam tomadas ou implementadas pelos governos brasileiros. a cena política brasileira mostra também uma ausência de sentimento de responsabilidade com o presente e com a pobreza: políticas afirmativas q u e visem beneficiar a população carente são igualmente c o m b a t i d a s em nome da competição por mérito ou da excelência a c a d ê m i c a .

5% 48. Que argumentos foram estes? 4 5 A pergunta feita foi a seguinte: "Diante da discriminação passada e Cito os três principais. T e r c e i r o . fala de dogmatismo.6 ) . 1 9 9 9 . democrática e igualitária. portanto.7% 34.5% 100.3% 65. Segundo. que tais críticas se dirijam a p o sições políticas tomadas por mim nas duas oportunidades em que discuti programas de ação afirmativa (Guimarães. parte 3 ) .5% S0. 1 9 9 9 . entretanto. parte 3) é claro: contrapor-me a o s argumentos daqueles que repudiaram. você concorda ou discorda c o m esta reserva de vagas de estudo e trabalho para os negros?". Por classes de renda até 1 0 SM 11 ou + S M tanstas ( C o s t a e W e r l e . assumindo explicitamente um estilo lógico-normativo. o faço 51.9% 100. outros a adotar princípios c o m u n i Total Concordância ou não com c o t a s ' Brancos Concordam Discordam Negros (pretos e pa rdos) Concordam Discordam Fonte: DataFolha. de imposição de modelos e c a t e g o rias de pensamento à realidade social. nos dois m o m e n t o s e m que analiso a a d e q u a ç ã o de políticas afirmativas para o Brasil. que tais políticas c o n t r a r i a r i a m os ideais de u m a sociedade liberal. num c o n t e x t o c l a r a m e n t e político e partidário (e não expresso em termos de análise s o c i o lógica). enfim de desejo de " p o n t i - 46.5% 30. para o Brasil modelos de engenharia social n o r t e americanos (Grin.5% 48.7% 53. segundo. Primeiro. o que. ou importar. posição que se inverte à medida que se perscrutam as camadas mais educadas e mais favorecidas (Telles e Bailey. n o Brasil. ção racial e de g ê n e r o ) . Antes de t u d o . é preciso lembrar que.6 ) . e. entre os negros mais favorecidos. 174). primeiro. 2 0 0 1 ) . O u seja. também diminui a adesão a tais políticas.1% 19.0% ficar". 2 0 0 T . A defesa que fiz (Guimarães. Grin ( 2 0 0 1 : 1 8 2 . principalmente ao nosso anti-racialismo. Em ambos. 1 9 9 9 ) do emprego de a ç õ e s afirmativas p a r a reverter as desigualdades raciais no Brasil m e rendeu críticas que vale a pena comentar. Ou seja. meu conhecimento da questão racial brasileira aparece. já que. na primeira hora. Tabela 3 O P I N I Ã O D O S B R A S I L E I R O S SOBRE COTAS. têm pessoas que defendem a idéia de que a única maneira de garantir a igualdade racial é reservar uma parte das vagas nas universidades e dos empregos nas empresas para a população negra.0% 100.os menos escolarizados seriarn favoráveis a tais políticas. a a d o ç ã o de políticas afirmativas no Brasil.0% Que não se trata de simples interesse racial sabemos através dos mesmos dados. 1 9 9 7 : 1 7 5 . em que meus valores são abertamente declarados.3% 69.0% 100. negros e brancos (e não que os que n ã o aceitam tal p a c t o queiram a guerra racial ou sejam intelectual e culturalmente grosseiros).5% 51. atribui-me vícios c defeitos intelectuais dos quais deveriam estar imunes as pessoas bem formadas e refinadas. 1 9 9 5 . significa que a paz racial é. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 73 . estamos inegavelmente diante de uma sociedade em que os privilégios estão bem estruturados e sedimentados entre grupos raciais e de gênero. Seria isso refinamento intelectual e cultural ou pura defesa de privilégios de classe? (ver Tabela 3 ) . em especial. que t a i s políticas seriam contrárias aos nossos v a l o r e s nacionais. Isso significa que tais privilégios orientam a sua reprodução e ampliação através de discriminações (e não que não há d i s c n m i n a - num tom de p o l ê m i c a . Meu objetivo nos referidos textos ( G u i m a r ã e s . que tais políticas n ã o poderiam ser aplicadas aqui porque n ã o existi- presente contra os negros. 72 Classes. um pacto de privilegiados. por si só. indica que a crítica deveria pôr-se mais propriamente nesse rerreno político. S E G U N D O C L A S S E S D E RENDA E GRUPOS DE C O R Por cor 4 Alguns autores me atribuíram uma tendência a "traduzir"'. É significativo.

entretanto. Os que me parecem mais sólidos são o s que chamam a atenção para o caráter histórico e transitório da idéia de raça. 4 4 pujá-la. qualidades. o mais importante desse debate de primeira hora sobre ações afirmativas foi enfrentar os fantasmas que nossos intelectuais a l i m e n t a m e que a polêmica trouxe à luz. No entanto. Em alguns âmbitos. engajar-se num debate político não significa "pontificar". D a í decorre. D a d a a nossa tradição anti-racialista recente.riam sujeitos instituídos que reclamassem tais medidas (tudo seria obra de uma minoria vanguardista distanciada da m a s s a ) . Isto. implícitas em políticas de a ç ã o afirmativa. alinhavo idéias que vão n o sentido de afirmar que. o que termina por fazer com que esses ideais e concepções continuem a alimentar as desigualdades sociais entre brancos e negros. C i t o alguns: a convicção na fragilidade de nossos valores d e m o c r á t i c o s . me parece. de um inegável rancor racialismo real que o não-racialismo formal e discursivo esconde. o constante m e d o de sermos vítimas do imperialismo cultural. Com relação ao primeiro desses argumentos. digo basicamente o seguinte: a divisão entre brancos e negros está presente no nosso cotidiano. na época. de sua c o n t e x t u a l i d a d e e transitoriedade. ao c o n t r á r i o do que parece xenófobo e antiliberal. Assim. significa dizer que políticas que levem em conta a a u t o c l a s s i f i c a ç ã o racial serão b u r l a d a s por pessoas que gostam de levar vantagem em tudo. foi o apego aos nossos princípios igualitários e a vontade de preservar a unidade nacional o que nos levou a desenhar políticas afirmativas. O r a . isto é. 74 Classes. Os valores igualitários a que me refiro foram aqueles que sedimentaram a incorporação dos negros e mestiços ao mercado de trabalho industrial e de serviços das regiões Sul e Sudeste. levasse à tolerância e não ao conflito racial. Dizer que ninguém sabe quem é preto n o Brasil. é também inegável que havia. desenvolvo a tese de que nosso antí-racialismo não deve ser entendido c o m o anti-racismo. é mais provável que o reconhecimento das diferenças e das identidades raciais. c o m o v i m o s . alimentado pelo clima de intolerância racial dos anos 1 9 4 0 . o persistente medo de que esse país se transforme num outro Haiti (revivendo tardiamente 1791). P a r e c e . diversos fundamentos. o que não seria muito difícil de fazer. no mercado de trabalho. tais ações afirmativas radicalizam-na e só podem ser compreendidas em contextos em que o indivíduo e o mérito são t o m a d o s rigorosamente a sério. a c r e n ç a na excepcionalidade e excelência de nossa convivência interracial (que não seria racial). enquanto c o n c e i t o analítico. sob os ideais progressistas de n e g a ç ã o de raças humanas e de afirmação de um convívio democrático entre as " r a ç a s " vicejam preconceitos e discriminações que n ã o se apresentam c o m o tais. implicará sempre em vantagens e desvantagens desde que o Estado g a r a n t a a coerência da autoclassificação. por exemplo. que nos levaria a importar idéias e pô-las fora do lugar. que decorrem do conceito e não do meu u s o .m e claro que a estratégia de se definir c o m o "preto" ou " n e g r o " . Pelo c o n t r á r i o . uso-o sempre com o p r o p ó s i t o d revelar o p 4 A E certo que a lei de 2/3 veio revestida. finalmente. ainda que outras formas de classificação p a r e ç a m sobre- CONCLUSÕES As críticas ao uso de "raça" enquanto c o n c e i t o analítico têm. C o m relação ao terceiro argumento. raças e democracia Raça e pobreza no Brasil 75 . e. longe de contradizerem a lógica da democracia liberal. Para m i m . a sua fragilidade. o que acabava por alimentar a xenofobia dos negros brasileiros. o suposto arraigado vício do nosso povo de pegar carona sem dividir custos. respectivamente a chamada lei de 2 / 3 e o dispositivo de incentivo fiscal conhecido como 3 4 / 1 8 . Ademais. nos anos 1 9 6 0 . ou no combate a desigualdades regionais. limita o entendimento do c o n c e i t o àqueles que c o m u n g a m c o m i g o o repúdio à idéia de r a ç a . todavia. sempre o referindo a uma situação concreta que pode ser verificada empiricamente. uma preferência racial pelos imigrantes europeus. Tal historicidade fica evidente no emprego que faço desse conceito. como na defesa do mercado de trabalho para brasileiros natos. Com relação ao segundo argumento. nos anos 1 9 4 0 . é c l a r o . c o m o qualquer estratégia.

ao não perceber o ceteris paribus envolvido na análise de qualquer aspecto da realidade social. Sem imperialismos ou reducionismos. nos estudos de identidade nacional há aspectos que só podem ser revelados quando investigamos a i m a g e m racial e de gênero do nacional. O principal desses equívocos é considerar a "democracia racial" uma matriz cultural. 76 Classes. é sempre. é muitas vezes (mas n e m sempre) um tropo para "negro'". E m vez de continuarmos a pensar que a relação entre " c o r " e pobreza é de c o incidência. na verdade. e x a t a m e n t e como acontece c o m o s conceitos nativos. que denuncia a construção de classificações gerais. reduzir a análise de qualquer realidade a um único conceito é sempre simplório. no sul do Brasil. qualquer c o n c e i t o que queira substituir o t r a b a l h o empírico é equivocado. a o contrário. querem esses estudos ou estudiosos negar a construção da pobreza pela s i t u a ç ã o de classe (ou pela luta de classes. não apenas "raça". raças e democracia Raça e p o b r e z a no Brasil . produto de um ethos (ou essência) qualquer (a c o l o n i z a ç ã o portuguesa etc. pela e x p l o r a ç ã o capitalista e t c ) . Tudo o que fazemos é mostrar outras determinações que n ã o são subsumíveis ao conceito de classe social. Passamos também a buscar os fundamentos raciais da classificação por cor no Brasil. A verdade é que o conceito jamais se efetiva em realidades sociais. q u e a p e n a s pode dar conta do afastamento entre a categoria nativa e as práticas sociais que o conceito quer representar. "mestiço" ou "mulato". O que parece estrangeiro. Já outros a r g u m e n t o s me parecem completamente equivocados. Em sociologia. de fato. Ademais. Do mesmo m o d o . Em nenhum m o m e n t o . Entre a " c o r " brasilei- ra e a " r a ç a " norte-americana está a construção típica ideal de raça.a n a l í t i c a . Outro equívoco m e parece ser o relativismo cultural. Q u a n d o os conceitos de "raça" e "gênero" são aplicados aos estudos sobre desigualdades socioeconômicas ou pobreza eles têm o efeito virtuoso de revelar aspectos que o conceito de " c l a s s e " não poderia e x p l i c i t a r . Certamente esta n ã o foi.pensar Sérgio Costa ( 2 0 0 1 ) . e q u a n d o digo que "baiano". nem poderia ser. ela deve obedecer à regra simples de não impedir que se construa o entendimento da mudança. até que ponto está ganhando proeminência ou desaparecendo. uma intenção interpretativa minha.) que se sobrepõe à história. levantando uma hipótese de t r a b a l h o . passamos a investigar o papel constituinte da " c o r " sobre a p o b r e z a . Ainda que a idéia de matriz de longa duração possa ser proveitosa quando aplicada à história. permanecendo sempre como um " t i p o ideal". A idéia de um imperialismo cultural americano a impor ao mundo o seu particularismo sofre desta doença: acreditar que o que é hoje " b r a s i l e i r o " ou "francês" está constituído desde sempre e foi construído e m isolamento das influências mais variadas e mais aparentemente estrangeiras. ao modo weberiano. buscando investigar até que ponto o elemento racial está mudando. que poderá ou não ser verificada. estou na verdade. parece ser o risco que sempre corre a leitura n ã o . Estou. quando analiso a possibilidade de que a identidade brasileira esteja se movendo do paradigma freyreano de "nação mestiça" para o paradigma internacionalista de " n a ção multirracial". Eles desvelam certas particularidades ria construção social da pobreza que eram antes ignoradas. alimentado do interior e em contradição com as tradições que se impuseram.

121-42. Institute of Latiu American Studies. reportá-la à maneira como algumas minorias raciais se organizam p o liticamente. A primeira é se negros e brancos tem comportamentos políticos diferenciais. Política de integração e política de identidade 79 . A primeira delas refere-se ao m o d o c o m o assuntos relativos às diferenças raciais da população brasileira são tratados ou abordados pelos políticos e pelas políticas públicas. Nadya Guimarães e Peter Fry. n° 2. todavia. University of London. no decorrer dos anos. a segunda. XIII. na Tempo cial. seja em termos institucionais e partidários. Essas idéias foram expostas originalmente na Conferência "Fifteen Years of Deniocracy in Brazil". Lilia Schwarcz. circunscrevê-la à forma particular como diferentes contingentes raciais foram absorvidos n u m a única identidade nacional brasileira.POLÍTICA DE I N T E G R A Ç Ã O E POLÍTICA D E I D E N T I D A D E 4 5 Como se coloca a questão racial na política brasileira? E s t a é uma pergunta que pode ser entendida de diversas maneiras. em 15 e 16 de fevereiro de 2 0 0 1 . pp. vol. se há um 4. ainda. ou.> Versão anterior deste capítulo foi publicada com o título de " A So- questão racial na política brasileira: os últimos quinze anos". presumidamenfe baseados na experiência das desigualdades sociais. também. Londres. novembro de 2 0 0 1 . Bolívar Lamounier ( 1 9 6 8 ) e Amaury de Souza ( 1 9 7 1 ) arrolaram. há trinta anos.. três questões substantivas que ainda desafiam o estudo da relação entre raça e política no Brasil. Agradeço comentários feitos a versões anteriores por Brasilio Sallum Jr. Podemos. um certo modo de abordar a questão. seja em termos da construção de um sentimento étnico particular. A ciência política brasileira construiu.

1996) restringiram seus estudos à primeira dessas questões. depois. George Andrews ( 1 9 9 I) apresenta uma interpretação síntese de quais têm sido as tendências políticas dos negros brasileiros. n o passado. Foi Bolívar Lamounier (1968) quem i n a u g u r o u uma nova tradição científica no estudo das relações entre r a ç a e política no Brasil. As duas frases reproduzidas abaixo sintetizam m u i t o bem a sua opinião s o b r e a preferência dos negros pelos p o l í t i c o s populistas. disfarçados em trabalhadores livres e privados de assistência social p a t r i a r c a l que lhes era dada na velhice ou n a doença pela casa-grande ou. em conseqüência. Berquó e Alencastro. no plano do poder. posteriormente. que e x p r e s z A p r i m e i r a tentativa de explicar o c o m p o r t a m e n t o político diferenciado dos negros no Brasil moderno foi cie G i l b e r t o Freyre. "como opera o sistema político para desmobilizar o potencial de comportamento político coletivo" dos negros? Souza e a m a i o r i a dos que escreveram sobre a relação entre raça e política no Brasil (Silva e Soares. Apenas o Estado N o v o de Getúlio Vargas. o consenso de boa parte da literatura disponível sobre o tema.-rou a obtida por D. em sua síntese. decidiu-se a implantar a legislação s o c i a l que deu a grande parte da população obreira do Brasil prot e ç ã o contra a velhice. Jango e Brizola) reganhou as simpatias das massas negras na mesma escala c o n s e guida pela casa imperial. raças e democracia Política cie integração e política de identidade 81 . Seu argumento é que. " O lado irônico do desaparecimento s i m u l t â n e o das d u a s instituições — escravidão e m o n a r q u i a — foi que antigos escravos se encontraram na p o s i ç ã o de hom e n s e mulheres que não tinham o i m p e r a d o r nem o a u t o c r a t a da casa-grande para protege-los. a Primeira República. (.>m. vítimas de profundo sentimento de insegurança.. brevemente. Isto também e x p l i c a porque V a r g a s se tornou conhecido c o m o o ' P a i cios Pobres* e conquistou entre o povo popularidade que sup. abordarei as duas primeiras. 1 9 5 6 : 4 6 . a simpatia política do povo negro sempre esteve com a monarquia. lado a lado.] Isto explica — chegando ao Brasil modern o — a grande popularidade de Getúlio V a r g a s quand o .. por algum tempo c o m p o d e r dit a t o r i a l . pela Imperatriz o u Princesa imperial. (c. o trabalhismo de Getúlio. tratar da emergência de movimentos sociais negros e de sua incorporação ao sistema político. Prandi.comportamento político coletivo por parte dos negros. pelo Imperador. se solidariedade racial: c finalmente. c o m o presidente. enquanto Lamounier ateve-se a examinar a terceira. Começarei por resenhar. Neste capítulo. t o r n a n d o se. O V O T O N E G R O E A CIÊNCIA P O L Í T I C A Focalizando especificamente São Paulo. Castro. com a relativa a u s ê n c i a de con- 80 Classes. doença e exploração p o r empresas comerciais ou industriais. n u n c a fora bem vista ou bem-quista pelos negros.) Foram necessários a n o s para que os líderes políticos entendessem a situação p s i c o l ó g i c a e s o c i o l ó g i c a real destes antigos escravos. Para ele. D o mesmo modo. principalmente pelo trabalhismo. 1 9 9 3 . entre 1 8 8 8 e 1 9 8 8 . . e por ter adotado uma política cultura! de europeizarão dos costumes.. !-. deixando para o capítulo seguinte a discussão sobre a incorporação simbólica dos negros na comunidade nacional. os estudos sobre o comportamento eleitoral dos negros brasileiros para. por ser uma república de fazendeiros. com sua política de proteção ao t r a b a l h a d o r brasileiro e de tutela de seus sindicatos. 1 9 8 5 . pois era sabido que o Imperador sempre fora muito mais propenso à abolição da escravidão que os fazendeiros. que se segue à abolição. Pedro II em 4 8 anos de governo b. hor. a situação brasileira oferecia u m aparente parad o x o : g r a n d e s e crescentes desigualdades sociais entre brancos c negros convive riam. 1 9 9 2 .csto e paternalista''' (Freyre. quando esta deixava de fazer-lhes j u s t i ç a . Andrews reproduz.

todavia. sugerem que tal preferência tenha sólidas bases e contrapartidas materiais. para as eleições de 1 9 8 9 . nas eleições de 1 9 6 0 . todavia. que iria sistematicamente em direção a o s populistas e trabalhistas. votaram mais consistentemente em J a n g o que os brancos. a partir de dados eleitorais d o s anos 1 9 6 0 . e c o n t r o l a n d o os efeitos de outros possíveis determinantes. Castro n ã o encontra. como a situação socioeconômica. D e p o i s que Souza demonstrou que os n e g r o s . terceiro. 82- Classes. entre os mais bem situados economicamente. como vimos. voto nulo). ou seja. as instituições sociais brasileiras têm tido sucesso em c o o p t a r as lideranças negras emergentes e agressivas. raças e democracia Política de integração e política de identidade 83 . Lamounier concentra-se no estudo das formas de integração dos negros ao sistema político. o Estado tem sabido antecipar-se ou abortar no n a s c e d o u r o as tensões raciais. havia maior mobilidade ascendente entre os negros que entre os brancos. foi Amaury de Souza (1971) quem demonstrou pela primeira vez. "pelo menos durante os primeiros anos do período de democracia liberal. Diferenças raciais n ã o fazem sentido. Aceitando a observação de Freyre de que os negros. a educação e outras variáveis de posição social. entre os jovens eleitores cie 1960. U m a década depois. essa maior mobilidade. era insuficiente pata erodir a identificação dos negros com a classe trabalhadora c os pobres. Se. N o plano ideológico. mais que os brancos. demonstram f a r t a m e n t e a existência de uma preferência eleitoral dos "pardos". ademais. entretanto. T a m b é m Reginaldo Prandi ( 1 9 9 6 : 6 3 . a preferência dos negros pelo imperador e pelo populismo getulísta é interpretada por Gilberto Freyre (1956) c o m o produto do sentimento de insegurança. que. a partir de dados de intenção de votos em quatro municípios brasileiros de porte médio. como não faz sentido qualquer movimentei de afirmação racial. diferenças significativas de c o m p o r t a m e n t o entre pardos e pretos. o Estado brasileiro tem sido capaz de gerar símbolos de i n t e g r a ç ã o e incorporação dos negros que são suficientes para contrabalançar-as tensões oriundas do preconceito e da discriminação raciais. T a m b é m M ô n i c a de Castro ( 1 9 9 2 ) . o grau de u r b a n i z a ç ã o etc. o populismo. que os negros apresentavam r e a l m e n t e comportamento político diferente dos brancos. Um voto que opera complexamente acoplado à situação socioeconômica: entre os mais pobres. N o caso do populismo. assim.\ ias é a feição populista do trabalhismo de Vargas que explicaria a adesão do negro a essa corrente partidária e seus candidatos. Gláucio Soares e N e l s o n do Valle Silva ( 1 9 8 5 ) . Souza (1971) e Andrews ( 1 9 9 1 ) . ainda q u e controlando outras variáveis explicativas. diz: ". pela c a n d i d a t u r a do herdeiro getuhsta. e n q u a n t o que.1 flitos violentos e com a quase inexistência cie assuntos raciais na esfera política. os negros tendem à apatia política (não comparecimento às urnas. firmase na ciência política brasileira a idéia de um c e r t o padrão de voto negro. o povo.4 ) interpretando esse período. como a classe social. independentemente de sua situação s o c i o e c o n ô m i c a . segundo. Seus ciados m o s t r a m . é uma ideologia de integração do negro como igual". Souza ( 1 9 7 1 ) argúi. comprova a existência de especificidade d o voto negro. oferecendo uma explicação para o p a r a d o x o por ele apontado. apoiam os lideres trabalhistas e populistas. os negros tenderiam a votar na esquerda. que é ideologicamente a fonte de toda a legitimidade. ( ) populismo nega a luta de classes e dilui as raças numa unidade homogênea. que as leis trabalhistas de Vargas deram ao negro brasileiro as garantias para a sua inclusão na sociedade de classes. 1 9 7 1 : 6 4 ) . analisando a vitória de Bnzola nas eleições para governador do R i o de Janeiro. M a s . que os leva a buscar proteção social em figuras fortes e dominadoras. primeiro. de 1 9 4 5 a 1964. Para ele. as categorias políticas de negro e povo eram quase que intercambiáveis" (Souza. por exemplo. Utilizando técnicas de análise multivariada. dos mulatos. c o m p r o v o u a sigularidade eleitoral que já tinha sido avançada por Freyre em termos impressionísticos.

) e Rio de Janeiro (portugueses). Brizola. Berquó e Alencastro (1 9 9 2 ) . ou seja uma preferência dos afrodescendentes cm votar em candidatos que representem a comunidade negra brasileira. e Alceu Colares. no Brasil.u s " : eram ambos de partidos políticos não radicais e pessoas "'Ivra educadas".e valores arraigados no senso comum) que informaria a conduta real do dia-a-dia e o c o m p o r t a m e n t o político. c o m 4 6 Dc fito. Mais adiante. Analisando dados de i n t e n ç ã o de voto para as eleições de 1 9 9 4 . O lançamento da candidatura de Benedita da Silva ao governo do Estado do R i o de Janeiro. no sentido de se expressarem em "bom" português de ciasse média e acrecitarem nos valores da "democracia racial". no Espirito de seu. O CONFORMISMO NEGRO Assim c o m o Prandi. sírio-libaneses. Não que essas pessoas fossem "alienadas' e não percebessem qualquer discriminação social. a relação entre raça e política voltou a preocupar os cientistas políticos. ainda que controlando variáveis como área geográfica. idade. ou c o m o moreno no dia-a-dia. um padrão "brasileiro". portugueses. raças e democracia Política de integração e políuca de identidade 85 . Prandi rejeita. que levaria os negros a identificar-se c o m os programas de alguns candidatos carismáticos. E n é a s ) . por um padrão universal de comportamento. até então. vêem a possibilidade.s Estados. e que se tratava de políticos " o n f o r m i . com a p o l a r i z a ç ã o racial e de ciasse que se seguiu. Prandi ( 1 9 9 6 ) t a m b é m c o n s t a t a a preferência eleitoral dos negros por alguns candidatos ( L u l a .Depois da Constituição de 1 9 8 8 . ameia que apenas 1 4 % dos que se autoclassificam de negros manifestem tal intenção. muitos autores argumentam que. políticos negros. em re- portar-se normalmente seguir. expectativas. que se classifica como "preto" o:: "pardo" nos censos. pauta o seu discurso de identidade em conformidade c o m o mito da democracia racial. isto é. sexo. Soares e Silva. Estaríamos em vias de assistir à racialização da política brasileira? Estariam os negros no Brasil desenvolvendo" sentimentos e comportamentos políticos c o m u n i t á r i o s . d. econômicas e intelectuais do país. Mais ainda. caso ÍOSSL . incorporando assim milhões de negros ao eleitorado brasileiro. a: "vi de- Santo. contudo. sem apelarem diretamente para c voto negro. não tem "ideolo gia" ou "consciência de raça". com o fim da proibição de voto aos analfabetos. de tal maneira que sua c o r não seria um fator relevante da organização de sua conduta ou do nosso entendimento nesta. segundo as quais tratar-se-ia de um voto motivado ideológica ou etmeamente. para Prandi. seria vista c o m o episódica e marginal. também normalmente. Ou se. no Rio Cirande do Sul. e diante do avanço do M o v i m e n t o Negro no país pregando o voto em candidatos negros. Quercia) em detrimento de outros (EHC. superando a escolaridade ou a idade. sem que sua cor fosse responsabilizada por esta trajetória. mais que " b r a n c o " . sentido. quando existente. assim. os negros e mulatos agiriam. preferindo retornar a uma explicação mais próxima da de Freyre: tratar-se-ia de um sentimento profundo cie desamparo e de impotência. Um negro poderia. Castro. ms< esta. em 1 9 8 9 . foi o fator principal para a predição da intenção de voto. O voto étnico. rais c o m o Ab-umo Az rodo. no Brasil. ja luvimi sido eleitos anteriormente p>\emadores lação a Benedita. japoneses etc. não -cria atribuída à raça e. analisando dados de pesquisas amostrais realizadas em São Paulo e em Vitória do Espírito Santo. estivera restrito a comunidades "imigrantes" de São Paulo (italianos.a. Amin. a cor. A diferi -ca dess N políticos. renda. Assim compreendida. o homem do povo. escolaridade. a "democracia racial" seria um sistema de orientação de a ç ã o (práticas. que permite o voto de analfabetos. terminada trajetória soe. A crença na existência e na efetividade desse c o m p o r t a m e n t o seria responsável pela generalização de trajetórias bem-sucedidas de negros c mulatos na S'4 Classes. de surgir no país o v o t o étnico negro. T a i "normalidade" seria garantida. as interpretações de Souza. obviamente. Dessa perspectiva. assustou as elites políticas. ficará claro no que consiste o "conformismo" destes políticos. Berquó) c Alencastro.

evocando uma certa inautenticidade naquilo que esses negros consideravam "brasileiro" c que ele. ainda q u a n d o estas pessoas pudessem reconhecer que efetivamente sofreram constrangimentos e humilhações por conta de sua cor. sempre ostentaram comportamentos radicais. os sírios-libaneses. não p a r e c e t e r havido. o qual grassaria tanto no espaço delimitado rolos valores da democracia racial (mas. se referiu a tal comportamento c o m o "embranquecimento". sobre esses que se definem como " n e g r o s " . que distanciava o negro de sua cultura e de seus valores. 1 9 9 9 ) têm demonstrado. o que significava. uma organização étnica. faz. 1 9 5 5 . apoiam o golpe de Vargas que. Debrucemo-nos. incluindo m e s m o um grupamento paramihrar. entretanto. R o g e r Bastide. que no período atual. Estudos recentes (Figueiredo. 1 9 6 5 ) . em São Paulo. também. Do mesmo modo. Bastide. realçando justamente o seu caráter a c u h u r a d o . ou seja o " e m b r a n q u e c i d o " ou racialmente "alienad o " . quebrando as regras do conformismo social. de que tal comportamento de negros e mulatos seja efetivo e generalizado não se dá. uma trajetória de ascensão social sem a necessidade de mobilizar politicamente a c o r . por um momento. definindo oportunidades desiguais. OS M O V I M E N T O S N E G R O S Se. por exemplo. considerava "branco". Assim. no sentido de que cultivava valores c o m u n i tários específicos. sem se confundir com "embranquecimento"). a F N B era majontariamente de d r e i t a . As tensões raciais no Brasil moderno. além destes dois tipos. Pode-se dizer. raças e democracia Política de integração e política de identidade 87 . O u seja. os negros relutam em formar com a revolução constitucionalista paulista. no Brasil. responsabilizadas pelos estereótipos que marcavam os negros — e denunciando o p r e c o n c e i t o de cor que os alijava do m e r c a d o de trabalho em favor dos estrangeiros (bastide. M a s a F N B foi. baseado nessa literatura dos anos 1950 e 1 9 W ) . i 9 5 5 . m a s cuja forma de recrutamento e identificação era baseada na " c o r " ou " r a ç a " e não na "cultura" ou nas "tradições". as diversas formações étnicas — principalmente os italianos. Assim seria o novo conformismo negro. de corre fascista. era considerado " e m b r a n q u e c i m e n t o " a absorção pelos negros de certos padrões de c o m p o r t a m e n t o das classes médias e altas. É nessa época que surge a Frente Negra Brasileira ( F N B ) . e o negro consciente de sua cor e cie sua discriminação. existe um outro: o negro que. De fato. isto é. por exemplo. sem contradições. os negros. O que faria este comportamento efetivo não seria a ausência de discriminação. antes de ser extinta pelo Estado Novo. tem crescido nos m o m e n t o s de menor coesão n a c i o n a l . Os brasileiros de variada mestiçagem sentiam-se a m e a ç a d o s "de exclusão em seu próprio p a í s " . de certo modo. isso n ã o impediu a formação de um m o v i m e n t o social relativamente forte. que organizam movimentos sociais e dizem representar o c o n j u n t o do "povo negro". t a m b é m subtepticiamente. que não haveria lugar para negro nessas classes. N o s anos 3 0 . quanto no espaço cultural construído pela mihtancia negra. de cunho regionalista e separatista e. mesmo sabendo que sua cor faz parte do jogo permanente cias representações sociais. nos últimos 1 5 a n o s . de 1 9 5 0 para cá. uma movimentação dos n e g r o s em uma direção única. apesar de conter algumas dissidências socialistas. os portugueses — estavam tão bem organizadas que o regionalismo paulista assumia contornos separatistas. C o m o muitos outros autores a p o n t a m . Fernandes. implicitamente. que havia dois tipos de " n e g r o " : o que acreditava na "democracia racial".sociedade brasileira. mas o fato de esta não ser realçada ou considerada um obstáculo insuperável. que Bastide e Fernandes c h a m a r a m de " o novo negro". implementa algumas polí- 86 Classes. i 9 8 3 .em 1 9 3 7 . P o l i t i c a m e n t e . em 1932. do ponto de vista da política eleitoral. a F N B buscava justamente afirmar o negro c o m o "brasileiro" — renegando as tradições culturais afro-brasileiras. uma organização política que chegou a se tran sformar em partido. (mas sem se confundir politicamente com esta). A crença. amda assim. pelas ciências sociais.

Para Guerreiro Ramos. que calou a sociedade civil. E m b o ra tivesse. aliás. oito anos depois. ou seja. do preconceito e das desigualdades. o protesto negro recuperou toda a sua veemência recentemente. 4 Ver. ainda que sua política tivesse o respaldo das massas. sobre esse assunto. entre 1 9 6 4 e 1 9 7 8 . p o r q u e os preconceitos e os estereótipos continuavam a perseguir os negros. eminentemente cultural. por urn lado. a c a b o u . o s a m b a . o federalismo político foi. no devir. deveria ser. Ou seja. clínica pública de psicodrama para a população negra e movimento de recuperação da imagem c da auto-estima dos negros brasileiros. com o tempo. por outro lado. Do ponto de vista ideológico. também se tomava m a i s problemática. Tratava-se. Isso representou. que tinha material e culturalmente acuado as populações negras e mestiças em espaços secundários e marginais. de início. coisa que. mucambos. Esse projeto de nação ofereceu aos negros uma melhor inserção econômica e transformou em n a c i o n a i s o u regionais as diversas tradições culturais de origem africana ou luso-afro-brasileira: o barroco colonial de Pernambuco. terceiro. as congadas. portanto. Mas a ditadura de V a r g a s prescindia de organizações políticas livres. por se transformar em agência de formação profissional. etc. O Brasil. com o Movimento Negro Unificado ( M N U ) . se não era de fato. as festas de largo. para o imaginário n a c i o n a l bastava. por um forte projeto nacionalista. O protesto negro. alagados e na agricultura de subsistência. 1 9 6 8 i e Alberto Guerreiro Ramos ( 1 9 5 7 ) . uma democracia racial. a capoeira. B a h i a e Minas. segundo. O Teatro Experimental do Negro (TEN) do R i o de J a n e i r o foi. Serão pts- tamente os negros em ascensão social.ricas ao encontro das suas reivindicações. como trabalhadores e brasileiros negros. Primeiro. de abrir o campo das artes cênicas brasileiras aos atores negros. porque a discriminação racial. Guerreiro Ramos transforma a negritude em assunção de uma identidade nacional brasileira liberta dos complexos de inferioridade deixados pela colonização portuguesa. pregando uma ciência social que se engajasse num projeto de construção nacional. principalmente este último. as procissões católicas. a edificação de um capitalismo regulado pelo Estado e uma cultura nacional a u t ó c t o n e de bases populares. a recusa do liberalismo econômico e do imperialismo cultural europeu e americano e. as diversas culinárias regionais etc. o objetivo. raças e democracia Política de integração e política de identidade 89 . que verbalizarão com m a i o r contundência os problemas da discriminação. segundo o qual todo brasileiro traria na alma a marca da mestiçagem. porque grande parte da população "de c o r " continuava marginalizada em favelas. não fazendo sentido falar de uma "questão negra" ou cultivar como exóticas formas de expressão cultural próprias da situação de miséria e de ignorância em que se encontrava boa parte da população pobre do país ( c o m o se referia principalmente as religiões afro-brasileiras). aqueles recentemente incorporados à sociedade cie classes. Bastide (1961). o carnaval. 88 Classes. Seus principais intelectuais. Abdias do N a s c i mento ( 1 9 5 0 . de certo modo. nesse período. cuja e x p r e s s ã o maior foi o trabalhismo de Vargas. fortalecido pela nacionalização dos diversos regionalismos culturais. em sintonia com a política nacionalista e populista da época. o candomblé. como vimos. todos de cunho racial. O s intelectuais cio T E N e a sua ideologia estiveram. portanto. negro era o povo brasileiro. O protesto negro só poderá emergir com a restauração das liberdades civis. A redemocratização em 1 9 4 5 será mareada. radicalizaram a crítica ao imperialismo cultural europeu e norte-americano. tanto em termos econômicos quanto culturais. à medida que se ampliavam os mercados e a c o m p e t i ç ã o . ampliou-se e amadureceu intelectualmente m -se período. a principal organização negra do país. e temperados agora pela grande mobilidade espacial da população e pela "integração cios negros na sociedade de classes". 4 Depois cie n o v o período autoritário. não desapareceu. e n t r e t a n t o . radicalizando o mulatismo de Gilberto freyre. cio protesto negro contra uma organização social (a da Primeira República). muito pelo contrário.

Fundado em 1 9 7 9 , o M N U tem um perfil radicalmente diferente de seus antecessores (Gonzalcz, 1982; Santos, 1985). Politicamente, alinha-se à esquerda revolucionária; ideologicamente, assume, pela primeira vez n o país, um racialismo radical. Suas influências mais evidentes e reconhecidas são: primeiro, a crítica de Florestan Fernandes à ordem racial de origem escravocrata, que a burguesia brasileira mantivera intacta e que transformara a democracia racial em mito; segundo, o movimento dos negros americanos pelos direitos civis e o desenvolvimento de um nacionalismo negro nos Pastados Unidos; terceiro, a luta de libertação cios povos da África meridional (Moçambique, Angola, Rodésia, África do Sul). Mas, a esses se deve juntar pelo menos mais três: o movimento das mulheres, no plano internacional, que possibilita a militáncia de mulheres negras; o novo sindicalismo brasileiro que, apoiado nos chãos-de-fábrica, retira as lideranças sindicais da órbita dos partidos políticos tradicionais; e os novos movimentos sociais urbanos, que m a n t ê m a sociedade civil mobilizada, durante toda a década de 1 9 8 0 .

pendência, os afrodescendentes continuavam, em sua maioria, n a s camadas subalternas e marginais da sociedade paulista, oncle estavam também, de início, os imigrantes e u r o p e u s . E s t e s , e n t r e tanto, já tinham r o m p i d o , a essa altura, a barreira de c l a s s e . A impermeabilidade da estrutura social brasileira à mobilidade cios afrodescendentes de traços negróides (mas não dos mais c l a r o s , que podiam se classificar como "brancos"') foi, certamente, se n ã o o estímulo maior, a o menos a grande justificativa para que se formasse um m o v i m e n t o social negro com o objetivo de e d u c a r e integrar socialmente os negros (Fernandes, 1965). Bastide (1 9 8 3 ) , ao estudar a imprensa negra em São P a u l o , fala de três períodos, entre 1 9 1 0 e os anos 1950. O primeiro, de H 10 a 1 9 3 0 , reflete um movimento de associação e f o r m a ç ã o cie lideranças negras. O s objetivos dessas associações e cie sua imprensa parecem articular-se em torno de três eixos. Primeiro, p r o m o ver a vida social n e g r a , através da atribuição e do reconhecimento da honra e do prestígio sociais distribuídos em diversos e s p a ços de sociabilidade e consagração, principalmente os clubes e os bailes; segundo, liderar um processo de reeducação da m a s s a negra, no sentido de sua completa aculturação e distanciamento de

A DINÂMICA D O M O V I M E N T O NEGRO Retomemos alguns elementos, com o intuito de esquematizar o desenvolvimento do movimento político dos negros no século X X . Como vimos, a primeira organização negra no Brasil a atuar no campo político surgiu nos anos 3 0 desse século e tomou o nome de Frente Negra Brasileira. Surgiu em São Paulo. Estado oncle era forte a formação de comunidades étnicas, alimentadas pela migração quase centenária de europeus — principalmente italianos, portugueses, espanhóis e sírio-libaneses. A Frente Negra foi, até certo ponto, segundo autores c o m o Fernandes f 196ã), uma reação à permeabilidade da estrutura social brasileira a estas etnias e a sua rápida integração na nacionalidade, através do domínio da cultura luso-brasileira. O fato é que, um pouco mais de quarenta anos depois da a b o l i ç ã o e quase cem anos depois da Inde-

suas origens africanas, a começar pela educação formal; t e r c e i r o , liderar a luta c o n t r a o preconceito de c o r e o seu correlato, o sentimento de inferioridade. E sintomático que, nessa campanha de reeducação, seja dada ênfase aos defeitos e vícios da massa negra: a relação p r o m í s cua entre os sexos, o alcoolismo, o modo de vestir, a licenciosidade «e linguagem, de gestos e modos. Fossem esses vícios p e n s a d o s como produtos cia escravidão, à maneira de Nabuco. fossem eles

4 S

Nogueira ( 1 9 9 8 [1 955]) descreve negros, mulatos e imigrantes divi-

dindo, no começo do século X X , as posições proletárias da sociedade de liapetinmga — principalmente os ofícios artesanais — enquanto, nos 1 9 4 0 . a maioria dos imigrantes já estava estabelecida em posições de classe média e alta, ao contrário de negros e mulatos.

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Classes, raças e democracia

Política de integração e política de identidade

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costumes de uma raça atrasada, à maneira do cvohicionismo cia época, a verdade é que essas lideranças negras não apenas acreditavam em tais explicações, c o m o aceitavam também que tais estereótipos tivessem fundamento. Reeducar a massa negra significava, portanto, ao mesmo tempo, diferenciar-se dela. Combater o preconceito eqüivalia t a m b é m a subtrair-lhe os fundamentos inscritos no comportamento da massa negra. O sentimento de inferioridade, pois, estava presente tanto nas elites quanto nas massas. O segundo período de que nos fala Bastide, de vigência da Frente Negra Brasileira, vai cios anos 1 9 5 0 até 1 9 3 7 e é marcado pela politização do discurso. Substancialmente nada muda, o que muda é o tom. O discurso torna-se cada vez mais nacionalista, às vezes xenófobo, as acusações de preconceito transformam-se em explicação para a pobreza negra, oriunda do desemprego dos artesãos e artistas negros c sua substituição por imigrantes estrangeiros. 1 al discurso, entretanto, é pouco convincente qua discurso negro pois sustenta-se, por um lado, na aceitação do caráter mestiço da nacionalidade brasileira, produto das três raças fundadoras, e, por outro lado, na recusa dos vestígios de tudo que seja africano ou lembre a África. Não é convincente tampouco pelo que tem de " p u n t a n i s m o negro" (Bastide, 1955). De fato, a busca de aparência de moralidade atinge seu ápice justamente nessa fase, com tudo que representa de inculpação sub-reptícia das vítimas do preconceito. Segundo Bastide, o símbolo desse períod>> é a Mãe-Prcta, c a palavra de ordem, a .segunda abolição. O mais consistente no nacionalismo negro dos anos l ^ a ó . 0 terceiro período de que fala Bastide, viceiou nos escritos de Guerreiro Ramos. Kste inverteu completamente a idéia matricial de branqueamento. inscrita no pensamento social brasileiro (Bastide. 1 96 1). Fm vez cie um elogio da mestiçagem, a maneira de Freyre e dos modernistas, que marginalizava o negro. Guerreiro R a m o s atribuirá a negritude ao povo brasileiro ("o negro é o povo brasileiro") e falará tio mestiço c o m o um branco patológico. N o entanto, por mais forte que tenha sido tal inversão, a verdade é que o discurso de Guerreiro manteve-se distante da massa negra, a qual

ele não reconhecia c o m o culturalmente distinta, n e g a n d o , p o r exemplo, a pujança tias tradições religiosas afro-brasileiras. Vias, contraditonamente, esse período deixou como legado um conjunto de práticas de reconstrução da auto-estima popular, c o m o o teatro negro e os c o n c u r s o s de beleza (boneca de piche). üe fato, os propósitos de integração do negro na s o c i e d a d e nacional e de resgate da sua auto-estima foram marcas registradas do Teatro E x p e r i m e n t a l do Negro. Através do t e a t r o , do psicodrama e de c o n c u r s o s de beleza, o TEN procurou n ã o apenas denunciar o p r e c o n c e i t o e o estigma de que os negros e r a m vítimas, mas, acima de t u d o , oferecer uma via racional e politicamente construída de integração e mobilidade social dos p r e t o s , pardos e mulatos. A orientação política desse movimento hcou e x p r e s s a n o modo extenso de definir os "negros", para neles incluir m u l a t o s e pardos, tal c o m o j á acontecia em São Paulo e no Sul, fazendo com que, longe de ser uma minoria, o negro fosse o povo brasileiro. Povo significa t a m b é m aqueles excluídos do pleno g o z o dos direitos civis e sociais — como acesso à educação, ao e m p r e g o e à assistência médica — constitucionalmente garantidos pela ordem jutídico-política. Povo sempre foi o oposto de elite ou de tores, douna dicotomía hierárquica da sociedade brasileira. L o n g e ,

portanto, de expressar os interesses de uma minoria, o T E N , e de modo mais amplo o movimento negro desses anos. p r o c u r a v a solucionar um problema nacional de integração social, e c o n ô m i c a e política da grande massa da população brasileira. Da:, a r e a ç ã o negativa de Guerreiro R a m o s (1957) c de muitos intelectuais, negros ao cultivo, por parte dos antropólogos, da herança, cultural africana presente no Brasil. Pinto (i 9 9 8 11953]), a primeiro s o c i ó logo a interpretar as relações raciais brasileiras de uma perspectiva marxista, pensava, a o contrário, que o TEN era um m o v i m e n to de negros de classe média, alienados da massa proletária. Fica, portanto, c l a r o , seja na postura da Frente N e g r a , seja na postura d o T F . N , o reconhecimento tácito da superposição entre ordem econômica (de classe) e ordem racial, a barrar o c a m i n h o

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Classes, raças e democrac

Política de integração e política de identidade

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da- integração dos homens de cor à modernidade luso-brasileira. O discurso intelectual prevaleeente até então, era de que a ordem racial já tinha sido desfeita, pertencia ao passado escravista, e de que as diferenças então existentes entre brancos e negros poderiam ser atribuídas quase que exclusivamente à seletividade de classe, barreira esta encontrada por todas as minorias é t n i c a s que emigraram para o N o v o M u n d o .
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Ao c o n t r á r i o , os intelectuais negros acusavam os intelectuais nordestinos e estrangeiros (principalmente Bastide) de incentivarem a permanência de traços culturais afro-brasileiros retrógrados, o que era considerado por eles como culto a o exotismo e como transf o r m a ç ã o do negro em objeto. C o n t u d o , a postura agressiva de anti-raeialismo ede afirmaç ã o cie um Brasil mestiço por parte de Gilberto Freyre, josé Lins do R e g o , J o r g e Amado, Rachel de Q u e i r o z e outros escritores enc o n t r a v a também alguma simpatia do movimento negro quando, e apenas quando, tal visão de Brasil contradizia a visão, nutrida por parte de outn > s escritores e intelectuais, em São Paulo e no Sul do país, do brasil como um país branco e da democracia racial como fruto de um etíyis cordial, não necessariamente miscigenaclo.
L 52

Na academia, serão os intelectuais

paulistas, principalmente Oracy Nogueira e Florestan Fernandes, que r o m p e r ã o tal consenso, ainda nos anos 1 9 5 0 , afirmando a confluência de barreiras de classe e de cor à mobilidade social e à integração dos n e g r o s .
50

A postura do "FFN colidia frontalmente com o

mainstream

da intelectualidade brasileira, tanto na interpretação sociológica, quanto no plano ideobágieo. No plano sociológico, o pensamento negro pressupunha a existência de formação racial e não apenas de classe; no plano idcoléigico, reivindicava a identidade negra e n ã o apenas mestiça, que constituiria o â m a g o da identidade nacional brasileira. Era desse modo que os líderes dos anos 1950 procuravam equacionar o nacionalismo e a negritude.11

Para s - entendei a postura de intelectuais c o m o Guerreiro R a m o s , Correia beire, Abdias Nascimento e outros tem que se ter presente o que estava em jogo nas diferentes dimensões do espaço s i m b ó l i c o . N o plano da identidade nacional, tratava-se de definir o negro n ã o c o m o uma minoria estrangeira — tal c o m o fazia o mainstream o povo. mainstreaw da intelectualidade paulista — , mas c o m o maioria, como M a s , tal postura, por outro lado, pressupunha o negro da intelectualidade nordestina, que via o negro como

Isso os

afastava do m o d o como os demais intelectuais, principalmente os nordestinos, entendiam a democracia racial então vigente, que se sustentava sobre a negação dos negros, qna raça ou grupo social, e na a f i r m a ç ã o de um ideal — que na verdade era tido c o m o uma realidade c o n c r e t a — de mestiçagem racial e sincretismo cultural.

c o m o categoria no plano político, o que n ã o eta reconhecido pelo c a t e g o r i a anenas no plano da cultura, enquanto objeto de estudo. M a s , apesar dessas diferenças m a r c a n t e s , na disputa entre aqueles qm pensavam o Brasil como mestiço e aqueles que o viam c o m o b r a n c o , a simpatia dos negros tendia para os primeiros.

A

" Fssa idéia é primeiramente aplicada ao Brás:! por Donald Picrson

F tanmém d< > s anos 1950 que d a t a o progressivo desaparecimento dc .'stigmas raciais tais como o mulato lato pachoio pn t» doutor, o negro boçal, pernóstico ou muhrano negro de alma

1 9 4 2 ) . que segue à risca o modelo explicam < > de R o i v r c 1'.. Park il».vl>. sen orientador, acrescentando, todavia, para o caso nrasileiro. algumas condições biológicas e culturais, como a mestiçagem, aportadas por (jilberro Ireyrc (19.53). Charles Wagley ( 1 9 s 2 l apenas reitera tal ponto de vista.
s o

Um intelectual comoThales de Azevedo, ainda que as documentanV e i . por exemplo, a polêmica envolvendo Paulo Duarte, Sérgio Millier, J o s é Lins do Rego e Rachel de Q u e i r o z , em Bastos (1988) e Maio (1997).

do fartamente, atribuiu as barreiras de cor a persistência da ordem social de Stànd, típica de sociedades tradicionais. Ver Guimarães ( 1 9 9 6 } .
1 1

T a l interpretação pode ser encontrada em Basude ( 1 9 6 1 ) .

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Classes, r a ç a s e democracia

Política de integração e política de identidade

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quando eram ainda vivos o escravismo e a subalternidade dos africanos c de seus descendentes. t ) problema. coalescidos no império e na Primeira R e p ú b l i c a . melhor dito.936). en- M Este é o título dado pelo T E N à coletânea J e teses apresentada no I tre outros. a resposta de Florestan será decisiva: o preconceito no Brasil seria uma reação das elites brancas (e não do povo) às novas relações sociais próprias à ordem social competitiva. assim. ou brasileiro. o preconceito era explicado como uma forma dos brancos evitarem a concorrência no mercado de t r a b a l h o óu de manterem o monopólio sobre as melhores posições sociais (Pierson. preferindo a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Daí. o preconceito racial tomar este aspecto de preconceiro não-revelado. pois o branco em posição social superior não reconhece no negro que ele discrimina um competidor. Nos Estados Unidos. no futuro. quando não de direito. sept pelo aumento da pobreza urbana — acabarão por fazer com que esses tipos émicoregionais sofram também com os estigmas antes concentrados nos tipos raciais. Pierson ( 1 9 / 1 [ 1 9 4 2 ] í e Azevedo (1996 [1955]). Assim. deslocado de sua classe. durante a década de 1 9 6 0 c seguintes. 1967). deixado i n a c a b a d o . uma razão sociológica para o preconceito racial no Brasil. do "negro r e v o l t a d o " 54 referir-se não apenas àqueles tipos raciais afro-brasilciros. portanto. entretanto. tida como partícularismo ou alienação. sociedade de privilégios sociais reconhecidos de fato. Ainda que os marxistas reconhecessem a discriminação racial existente na sociedade brasileira. caboclos e cabras) do Nordeste para o Sudeste e o sul do país. de lutar apenas pela integração na vida nacional. que muitos militantes negros abraçaram nos 1960. de modo mais abrangente. ele será visto preferencialmente c o m o um descendente baiano. carioca ou nordestino. Ver Nascimento ( i 9 6 8 ) . a renovação da linha política dos movimentos negros. Na verdade. como um migrante. Florestan fará. N o lugar desses estigmas estabelecemse progressivamente outros novos — c o m o baiano no. Florestan Fernandes encontra. Ainda nos anos 1 9 5 0 . que deixarão.ca e t c . em sociedades paradoxalmente orgulhosas de sua recente procedência européia. Congresso do Negro Brasileiro. entre nós. O ideal socialista c o n t a m i n a r á . não estaria na raça. como nos Estados Unidos. tal racismo era atribuído a determinantes sociocconômicos que desapareceriam com a stiplantação da sociedade burguesa. muitos militantes negros. a grande desvantagem de acentuar demasiadamente a luta de classes como motor ua história em detrimento da consciência racial. o "preconceito de cor". 96 Classes. A potencialidade revolucionária dos negros estaria justamente em livrar a sociedade burguesa emergente das amarras dos privilégios e das desigualdades da ordem patrimonial. raças e democracia Política de integração e política de identidade 97 . o movimento n c - í ! Freyre (1. 1 9 / 1 | i >42|. no Sudeste. Harris. sociedade igualitária. provinha das elites temerosas de perder privilégios patrimoniais. a todos os provenientes de regiões brasileiras de povo mestiço. Como justificai o preconceito no Brasil. mulatos. ou nordestino interior do Sul do Brasil — para Vl Desafiado teoricamente. o preconceito brasileiro. onde os negros eram mantidos em posição subalterna na hierarquia do prestígio social? l o revolu- cionário em potencial que poderá completar o serviço da revolução burguesa. portanto. Isso se deve principalmente ao incremento da migração inter-regional no sentido norte-sul. Florestan possibilita. mas um subalterno deslocado de lugar. Ou. mas. O socialismo marxista. documentam tais estigmas. finalmente. mas na ausência de subalternidade do discriminado. em vez de provir dos iguais em direito — competidores numa ordem igualitária —. que desloca massas significativas da população pobre negro-mestiça (negros. As tensões sociais que taí deslocamento provoca — seja pela concorrência no mercado de t r a b a l h o . a c a b a r ã o por dar uma rationalc regionalista ao preconceito de fundo racial: não importa que o negro seja paulistano ou gaúcho de quatro costados. para quem discrimina. tinha.

A passagem foi marcada pela transformação de Z u m b i . que havia começado tempos antes. aquilo que se expressa na cunhagem do termo "afro-brasileiro" para significar brasileiro de origem africana. em símbolo da luta pela e m a n c i p a ç ã o . 1 9 9 4 ) . N o entanto. influenciados pela cultura de consumo de m a s s a . a grande virada acontecerá apenas nos anos 1 9 8 0 j u s t a m e n t e na confluência de uma política de esquerda com a busca de africanidade. Pois bem. de outro lado. e do 20 de n o v e m b r o . deságua numa conseqüente onda de pan-africanismo e afrocentrismo que mudará substancialmente o panorama brasileiro. A discriminação passaria a ser vista doravante como parte integrante da modernização capitalista. 5 O Q U I L O M B I S M O O U A INFLUÊNCIA D E ABDIAS D O N A S C I M E N T O NOS ANOS 1 9 8 0 O M o v i m e n t o N e g r o Unificado dos anos 1 9 8 0 foi um m o vimento cindido. Ademais. com trânsito internacional. período marcado pelo nacionalismo e por projetos de desenvolvimento auto-sustentado. a descolonização da África. Nos anos I 9 7 0 . quanto pela maior influência que a indústria cultural norte-americana e européia passou a e x e r c e r no Brasil. De início. a ditadura militar desorganizou os grupos políticos marxistas e nacionalistas de o p o s i ç ã o ao governo. g e r a l m e n te jovens universitários. algumas deles sintonizados c o m a luta democrática que se organizava a partir das organizações socialistas. 1 9 9 4 ) . a influência cio movimento negro internacional foi muito maior e direta do que o que seria de se esperar. D e s p r o vidos de tais lideranças e defrontando-se agora com a d e m o c r a cia racial transformada em dogma de governo. Silva. nos anos 1 9 6 0 . o samba etc. abrigados no P M D B . 1<>79. levará o governo brasileiro a reconhecer e patrocinar as origens africanas da civilização brasileira. A década seguinte. 1978) e as primeiras críticas à interpretação da discriminação e do preconceito como reação à ordem competitiva. inclusive o movimento operário. foram postos pelos marxistas a reboque da luta de classes (Hancbard. os anos 1 9 7 0 . a busca de raízes. O discurso político negro será guiado por duas balizas principais — o n a c i o n a l i s m o e a esquerda — e a busca de africanidade se desenvolverá entre o s campos acadêmico -"' e artístico. tal como o candomblé. condenando ao exílio líderes e intelectuais importantes como Abdias do N a s c i m e n t o . como todos os outros movimentos sociais. a c a poeira. e. e x p o s t o s agora ao dia-a-dia da política racial. lideranças sintonizadas com a resistência cultural que espontaneamente se espraiava nos meios negros mais pobres. raças e democracia Política de integração e política de identidade 99 . Guerreiro R a m o s . lideranças de esquerda.gro. Florestan Fernandes c muitos outros. 98 Classes. ligado " No plano acadêmico.P r e t a e o 13 de maio. dissociada do discurso político. feminista e terceiro-mundista. D e um lado. já aparecem no Brasil as primeiras analises sociológicas qtie demonstram a importância da "raça" na construção das desigualdades sociais no Brasil {Hasenbalg. símbolo maior da respeitabilidade da mulher e da família negras. ainda que o marxismo passe a predominar daí em diante (Hanchatd. deslocando a M ã e . pela rejeição do sineretismo religioso e pela conseqüente procura da pureza nagó. M a s isso lentamente. M a s a presença de um dirigente I m t ó r i c o . De um modo geral. X o finai J a decida de 1 9 7 0 . os avanços da luta pelos direitos civis dos negros americanos foram decisivos para chamar a atenção dos brasileiros para a importância da mobilização em linhas raciais. como Abdias do N a s c i m e n t o . Isso aconteceu tanto pela influência que o mundo cultural europeu e norte-americano exerceu diretamente sobre os exilados. essa busca das origens será doravante a ptopulsora do discurso político negro. a mudança foi também radicai. a coincidência entre a descolonização da África e a luta pelos direitos civis dos negros americanos. presenciou o arrefecimento do "reducionismo de classe" entre a militância negra.

Duas influências maiores marcaram a doutrina de "quilombismo" em Abdias do Nascimento. N a q u e l a oportunidade. parece. Ora. Asante e Asante. Asante. se a p r o p r i a r a m das idéias de negritude. Abdias retira não apenas analogias formais c palavras de ordem. nacionalista e culturalista. uma doutrina muito influente entre os intelectuais africanos e afrodescendentes. 1 9 8 2 . A outra influencia foi. 1 9 8 7 ) . Aliás. Do Afrocentrismo vem o projeto de filiar os negros brasileiros a uma "nação" negra transnacional. radicados na Europa e nos Estados Unidos (Diop. se desloca do eixo da "negritude" para o do "afrocentrismo". a definição ampla de negro como descendentes de africanos (e n ã o apenas pessoas de cor ou fenónpo negro) é imprescindível. o marxismo. nos amos 6 1950. Deste. Longe de ser p r o d u t o de mentes "colonizadas" pelo imperialismo cultural a m e r i c a n o ou presas a um racialismo a r c a i c o . retirando daí a sua atualidade e eficácia ideológica. sem dúvida. como bem argumentou Roger Bastíde (! 9 6 1 ) . nos a n o s 1 9 8 0 . foi também decisiva na formação ideológica do movimento.ao trabalhismo de B n z o l a . Abdias definiu o negro brasileiro não apenas como a p a r c e l a mais explorada do povo brasileiro. e definida em termos de história e cultura. cujas raízes mais profundas se e n c o n t r a m no Antigo Império egípcio e na presença africana na América pré-colombiana. foi a escolha d e um movimento que optou por uma luta em que o negro pudesse ser assimilado à classe trabalhadora e x p l o r a d a e n ã o a uma minoria apenas oprimida. A a d o ç ã o de uma classificação racial bipolar ( b r a n c o s e negros. Do m e s m o m o d o . é preciso ter bem claro que o seu pensamento. Em sua referência interna. de cuja matriz teria evoluído a civilização ocidental.. Nascimento (19X0: 163. recusando seus aspectos culturais (vistos e n t ã o . através de u m a luta de emancipação radical. Abdias buscou integrar o programa do q u i l o m b i s m o ao movimento pela redemocratização do país. no caso do Brasil. maliciosos e os apressados em julgar: a palavra 'raça'. entre 1 9 6 0 e 1 9 8 0 . os negros brasileiros deram uni sentido bastante original ao m o v i m e n t o da negritude. 100 Classes. e não de uma minoria oprimida. Trata-se. ter uma motivação claramente política. a b o l i n d o as categorias intermediárias de " p a r d o " ou " m o reno"). tal definição ampliada de negro já fora teita por Guerreiro R a m o s e pelo próprio Abdias^ quando. desde os anos 1950. intrigantes. uma das principais matrizes ideológicas que permeava o movimento negro nos anos 1 9 8 0 . item A). no sentido em que a emprego. vindas cio m u n d o francófono. A novidade. a um só t e m p o . Ver." A v i s o aos caluniadores. portanto. a distância que o movimento negro guarda da n o ç ã o biolóí 6 Ainda que haja alguma continuidade entre o pensamento de Ab- gica de " r a ç a " é reiterada inúmeras vezes. o movimento negro se nutre de tradições e de elos com movimentos contemporâneos. dias dos anos 1 9 5 0 e o dos anos 1 9 8 0 . mas sua maioria. por exemplo. como anacronismo b á r b a ro) e enfatizando seu catáter libertário e nacionalista. 1 9 7 9 [ 1 9 5 4 ] . A mais óbvia é certamente o Afrocentrismo que foi. Conto t o d o o movimento político. Passo a examinar agora o " q u i l o m b i s m o " . foi a adoção de uma postura. de i n s p i r a ç ã o marxista ( Q u a d r o 1. principalmente através da vertente mais próxima ao nacionalismo brasileiro dos anos 1960. F o i o que fizeram as suas principais lideranças intelectuais e políticas. raças e democracia Política de integração e política de identidade 101 . mas a idéia fundamental de que a emancipação do negro brasileiro significa a emancipação da e x p l o r a ç ã o capitalista de todo o povo brasileiro.' . internos e e x t e r n o s a o país. evidentemente. Para esta luta. o caráter universalista da emancipação dos negros no Brasil está intimamente ligado à idéia de uma luta de maioria explorada. como Abdias do Nascimento e Lélía Gonzalez. de um movimento de invenção de tradições e reivindicação de um processo civilizatório negro. aliando radicalismo cultural a radicalismo político. não de pureza biológica". como nos Estados Unidos. doutrina forjada por A b d i a s . m o b i l i z a n d o velhas tradições sobre u m u l a t i s m o dos c a 5 Ali cs.

Abdias forçava a analogia entre a luta dos negros brasileiros e a luta c o n t r a o apartheid na África . ris-à-Ois seja outros negros na diáspora. seja à classe operária brasileira ( Q u a d r o 1. . o autoritarismo e ausência de diretos têm sido permanentes (Quadro 1. isto serviria apenas para procrastmar o advento de nossa emancipação total e deíinitiva. negros de pele clara assimilados pela classe dominante branca e instigados contra seus irmãos e irmãs africanos. a s muitas outras fases ela formação do Brasil alimentadas com o sangue martirizado dos escravo:. escravizados por uni período e depois exterminados. para os negros.3 2 » 'C " O povo negro tem um projeto coletivo: a edificação de ama sociedade fundada sobre a justiça. item C). Forçando os aspectos de segregação residencial. os africanos foram o primeiro e único trabalhador durante três séculos e meio. O negro. nessa época. N ã o devemos hoje nos permitir sermos divididos entre 'pretos' e 'mulatos'. Uma democracia autêntica. Uma análise d o texto clássico de Lélia Gonzalez ( 1 9 8 2 ) e dos documentos do M N U encontraria os mesmos elementos. africanos na diáspora" (Nascimento. mesmo nos dias de hoje. é a verdadeira alma e corpo deste país. De um modo gerai. políticas e sociais. a maioria oprimida por uma minoria racista. a qual virá apenas com a transformação radicai das estruturas socioeconômicas e políticas existentes. item D ) . bem estar. J Quadro 1 A L G U N S ELEMENTOS I D E O L Ó G I C O S DO QUILOMBISMO _ 102 Classes. enfraquecendo nossa identidade fundamental de afro-brasileiros. o mais brasileiro dos brasileiros. fundada pelos destituídos e deserdados da terra. longe de ser um invasor ou um estrangeiro. mas guardando as particularidades culturais e especificidades dos negros brasileiros.apesar desse fato histórico irrefutável. o racismo brasileiro do sul-africano ( Q u a d r o 1. M a s . N ã o temos interesse na simples restauração de tipos e formas obsoletas de instituições econômicas. ^ o . Mais claramente. raças e democracia Política de integração e política de identidade . a igualdade e o respeito por rodos os seres humanos. para Abdias. já mobilizava as torças políticas que lutavam pela redemocratização do país.I pirães-do-mato. diamante e prata.do Sul. saúde. Mais. do abolicionismo ao T e a t r o E x perimental do N e g r o . educação e renda nacionais" (Nascimento. " J u n t o com os índios. articulada com movimentos de libertação nacionais e de luta de classes. A saída. os africanos e seus descendentes nunca foram tratados como iguais pela minoria branca que complementa o quadro demográfico do país. Abdias argén que. exclusão do mercado formal de t r a b a l h o e terrorismo policial. afro-americanos de todo o continente. L desnecessário lembrar mais uma vez os vastos campos que os africanos irrigaram com seu suor. em grande parte estrangeira ( Q u a d r o 1. Abdias aproxima. item B). a referência à brutalidade policial está t a m b é m indissoluvelmente iigada ao movimento pelos direitos humanos que. por analogia. construindo as estruturas desse país chamado Brasil. isto é. ainda que de modo não tão e x p l í c i t o : o movimento negro brasileiro se nutre ideologicamente das lutas de emancipação que naquele momento estão t r a v a n d o alguns povos negros (nus Estados Unidos. perseguidores dos quilombolas (Quadro 1. Esta minoria manteve um monopólio exclusivo de rocio o poder. Não temos interesse em propor uma adaptação ou reforma dos modelos da sociedade capitalista" (Nascimento. ou evocar os canaviais. definindo o negro como o t r a b a l h a d o r por excelência. Entretanto. eles eram mulatos. 1 9 8 0 : 149). item F). na África do Sul e na África portuguesa) e da tradição das lutas de resistência popular no Brasil. 19S0: 160). "A citação dos capitães-áo-mato é importante. uma sociedade cuja natureza intrínseca torne impossível a exploração econômica ou racial. item E ) . seria a luta antiimperialista e nacionalista.. ao m e s m o tempo. . as minas de ouro. 1 9 8 0 : 1 5 6 ) . os campos ele algodão. isto é.

nos últimos 1 5 anos. raças e democracia Política de integração e política de identidade 105 . 1 9 4 5 . Nacionalismo aqui não deve ser confundido com xenofobia. o m a i o r radicalismo do M N U faz c o m que o protesto n e g r o a t u a l tenha uma sobrevida maior. O nacionalismo negro é universalista e internacionalistu porque apoia a libertação nacional dos povos e vê no respeito a sua singularidade cultura! e à sua integridade política uni imperativo para a libertação mundial. de diferentes matizes i d e o l ó g i c o s e políticos. senão que piorou. que se articula com o pan-afncanismo e sustenta uma solidariedade radical com todos os povos do mundo que lutam contra a exploraç ã o . A d e m a i s . Posto à margem do emprego. mocambos. o movimento negro r e c e n t e trouxe para a c e n a b r a s i l e i r a uma agenda que. T o d o tipo de arbitrariedade é fixada indelevelmente nas batidas policiais rotineiras que mantêm a comunidade negra aterrorizada e desmoralizada. A segregação residencial é imposta à comunidade negra pelo duplo fator da raça e da pobreza. largado em situação de semi-emprego ou suhemprego. N ã o podemos. Em primeiro lugar.5 0 ) . invasões. Com estas batidas. o povo negro continua largamente excluído da economia. alia p o l í t i c a de reconhecimento (de diferenças raciais e culturais). os autores [do manifesto] tocam num ponto importante a tradição quilombista — a definição do caráter nacionalista do movimento. 1 9 8 0 : 1 4 9 . Uma das práticas básicas deste autoritarismo é o desprezo brutal da polícia pela família negra. "Nessa passagem. em conformidade com os ditames do modelo social ocidental n ã o é do interesse dos povos oprimidos não-ocidentais." A condição do povo negro não mudou desde então. enquanto movimento nacionalista. Mas. o protesto n e g r o forma-se num a m b i e n t e de efervescência intelectual e de m o b i l i z a ç ã o política intensa da s o c i e d a d e brasileira. tanto nos dias de hoje q u a n t o n o s clois períodos anteriores ( 1 9 3 0 . dá uma idéia de sua abrangência e r a d i c a l i s m o . A uniformidade sem face em nome da 'unidade' ou da 'solidariedade'. Logo emergiram o u t r a s . assassinatos e tortura. compreende-se por que nenhum negro consciente tem esperança que mudanças progressivas possam ocorrer espontaneamente e beneficiar a comunidade afro-brasileira" (Nascimento. l o m b i s m o . cor. ao c o n t r á r i o da F N B e do "Quase 5 0 0 anos de autoritarismo é bastante. que t ê m em comum a luta contra o r a c i s m o . seja a t r a v é s do golpe do E s t a d o N o v o . que e n c o n t r a r a m rapidamente uma r e s p o s t a às suas reivindicações n o q u a d r o da política tradicional. ensina que a iuta de cada novo por sua libertação deve estar e n r a i z a d a na sua própria identidade cultural e experiência histórica" ( N a s c i m e n t o . porões. seja através do trahalhismo de V a r g a s e do nac i o n a l i s m o . a opressão e a pobreza. posto que incapazes de defenderem-se a si mesmos ou de proteger a sua família e os membros de sua comunidade. Classes. 1980: 162). política de identidade (racialismo e v o t o é t n i c o ) . Nessas c o n d i ç õ e s . dadas nos ú l t i m o s 15 anos. a impotência e 'inferioridade" do povo negro é atualizada diariamente. religião ou ideologia. e c o m d i f e r e n t e s finalidades. espancamentos. o movimento recusou a data oficial de celebração da incorporação dos negros à n a ç ã o brasileira. conjuntos populares ou 'residenciais. o M N U é apenas u m a e n t r e a-s muitas organizações n e g r a s q u e foram fun- Em sua pluralidade. não devemos e não toleraremos mais. 19S0: 155). >lf T E N . marcando como áreas residenciais negras guetos de diversas denominações: favelas. entre as q u a i s se destacam entidades culturais. OS L I M I T E S DA COOPTAÇÃO V i m o s q u e .3 7 . O quilombismo é uma luta anti-mipenalista. alagados. Isto constitui uma situação de humilhação perpétua" (Nascimento. o 13 de maio. data da a b o l i ç ã o da escravidão.' A brutalidade policial permanente e as prisões arbitrárias motivadas racialmente contribuem para o reino de terror sob o qual vivem cotidianamente os negros. tanto quanto contra as desigualdades motivadas por raça.1 9 6 4 ) . política de cidadania ( c o m b a t e à discrimin a ç ã o r a c i a l c afirmação dos direitos civis d o s n e g r o s ) e política redisttibutiva (ações afirmativas ou c o m p e n s a t ó r i a s ) . O qui• Uma pequena lista das reivindicações do m o v i m e n t o negro. p o l í t i c a s e jurídicas.

Em segundo iugar. conseguido passar legislação ordinária regulamentando o dispositivo constitucional. 7 1 6 e 9 . de modo a extiqsar dos livros didáticos. 106 Classes. deixando de íora tanto as lideranças de oposição. é que o perfil ideológico e partidário dos ativistas tem se diversificado. ao mesmo tempo em que competem pela repres e n t a ç ã o étnica. Finalmente. tais c o m o : os cursmhos prévestibulares para negros e carentes. no Rio de J a n e i r o . seja através da incorporação de s í m b o l o s negros ao imaginário nacional. entretanto. introdução de quesitos sobre cor nos formulários e registros de instituições de ensin o superior etc. pata permitir a multiculturalidade. dia da morte de Z u m b i . O fato é que t a m b é m o Estado brasileiro foi ágil em responder nesse diapasão. aos poucos. Em certos m o m e n t o s . em reclamar do governo federal a adoção de políticas de a ç ã o afirmativa para o combate das desigualdades raciais. novas instituições estão sendo criadas para atender a tais demandas. Do mesmo modo. concentra-se. há reivindicações que n ã o são feitas para serem atendidas. e. no cenário político. grande resistência. que regulamentam o crime de racismo). e n ã o como convivência entre iguais (à maneira norte-americana).A l g u m a s de suas reivindicações e n c o n t r a r a m respostas rápidas por parte do Estado brasileiro. boje em dia. partidos e instituições g o v e r n a m e n t a l incorporam a p e n a s parte dos ativistas negros. tendo. em alguns municípios onde a pressão e a presença negra s ã o m a i s fortes. projetos de lei que reservam vagas nas universidades públicas para estudantes egressos do sistema público de e d u c a ç ã o . É verdade que. é fato que a amplitude das demandas tem a l i m e n t a d o continuamente o ativismo político negro. e p o d e m voltar a surgir. exigiu uma campanha especial do governo brasileiro que esclarecesse a população negra (pretos e pardos! cie modo a se declarar "preta" nos censos demográficos de 1991 e 2 0 0 0 . a c r i a ç ã o de delegacias especiais de combate ao racismo. seja através do desenvolvimento de legislação mais apropriada de combate ao racismo (a Constituição de 1 9 8 8 e as leis 7 . quanto os militantes partiuariamcate independentes. como foi o c a s o de Benedita da Silva. tais c o m o as que poderiam mais facilmente caber na atual matriz de nacionalidade. raças e democracia Política de integração e política de identidade 107 . D e fato. Tanto o escopo dessas organizações — que têm o ativismo como profissão — quanto a sua fonte de financiamento passando a festejar o 2 0 de novembro. isenção de taxas de inscrição n o vestibular pata alunos provenientes de tais cursos. em contrapartida. que chefiou a resistência d o Quilombo dos Paimares em 1 6 9 5 . A l i á s . Em terceiro lugar. em 1 9 8 9 . foi a partir da c o m p r e e n s ã o muito peculiar da multirracialidade e do multiculturalismo c o m o síntese (à maneira freyreana). surgiram. seja através da modificação do currículo e s c o l a r . Estes últimos. ameaçarem desestabilizar o sistema. posteriormente. a autoestima e o orgulho negros. a o c-oitrano. O que tem acontecido. ainda hoje. cujo teor é o do sincretismo das três raças fundadoras. Outras demandas. era alguns lugares. c o m o foi o caso do l'T ou d < > PDT. seja através da criação de fundações culturais e de conselhos estaduais da comunidade negra. tais c o m o o respeito às tradições e às expressões culturais de origem africana e à estética negra. que exigem políticas afirmativas e inovadoras. Em quarto lugar. a q u e l e s afiliados ou simpatizantes dos partidos no poder. arrefecendo as tentações decooptação. encontram. 4 5 9 . c o m o aquelas que dizem resp e i t o a o combate das desigualdades raciais na distribuição de renda e no acesso aos serviços públicos. insulando. disputando cargos eletivos por partidos de esquerda. tais c o m o o voto étnico (neg r o deve votarem negro) e o cultivo ela consciência negra (cie corte racíalista). pregando c a l c a n ç a n d o . cm resp o s t a à procura dos diversos partidos pelo voto negro. dos currículos e das práticas de ensino os estereótipos e os preconceitos contra os negros. através da conjunção de propostas radicais de modificação das desigualdades raciais. D e qualquer modo. cooperam entre si em fóruns nacionais e internacionais. Em quinto lugar. articulou uma campanha nacional de denuncias contra a discriminação racial no país. geralmente agrupados em organizaç õ e s não-governamentais. reclamou e obteve a modificação da Constituição para transformar o racismo cm crime inafiançável e imprescritível. ou seja. entretanto. líderes negros de grande carisma. passou a reivindicar uma mudança completa na educação escolar. que os brasileiros passaram a aceitar algumas teses do m o v i m e n t o negro.

q u a r t o na racionalização da experiência cotidiana. permite maior intimidade e interpenetração entre negros e b r a n c o s . a democracia racial seria apenas um modo c í n i c o e cruel de manutenção das desigualdades s o c i o econômicas entre brancos e negros. I 995-96). DIREITOS E AVESSOS DA N A C I O N A L I D A D E 5 9 Nos capítulos anteriores. o reggae maranhense (Silva. parte fundamental de sua matriz civilizatória.4 1 4 .). que argúem que a "democracia r a c i a l " é pro- — são iniciativas independentes de qualquer organização política ou étnica. Refiro-me à nova conjuntura internacional. C o n t r a tal interpretação têm se manifestado alguns antropólogos (Fry. finalmente. vale. 3 8 7 .— independente do governo brasileiro — garantem-lhes maior autonomia e radicalidade de ações e propostas. ainda que não e x clua c o m p l e t a m e n t e preconceitos e discriminações. Movimentos como os que congregam principalmente a juventude u r b a n a — o funk carioca (Vianna. nem mesmo parcialmente. Editora da UNB. 1 9 9 5 ) . A sociedade de consumo e a internacionalização da indústria cultural possibilitaram o surgimento de movimentos culturais negros. da qual o Estado brasileiro já não pode mais se isolar. o que acaba por forçar as lideranças políticas negras a manterem-se coerentes c o m o seu próprio passado de mobilização. vimos pelo menos três sentidos do termo " d e m o c r a c i a racial". 1 9 8 8 ) . Democracia porânea. mas também pela cultura do chamado Black Atlantic. o rap paulista (Félix. Parte deste texto foi originalmente escrito c o m o relatório de viagem ao exterior para a FAPESP. 108 Classes. Nesse sentido. do radicalismo e da abrangência das reivindicações negras. a " d e m o c r a c i a r a c i a l " é também um sistema de o r i e n t a ç ã o da a ç ã o social. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 109 . acobertando e silenciando a permanência do preconceito de cor e das discriminações raciais. seja em termos culturais e políticos. priamente um m i t o fundador da nação brasileira. E desse m o d o que a maioria dos intelectuais negros brasileiros a entende e faz da denúncia de sua crueldade (tal ideologia anestesia e aliena suas vítimas) o principal instrumento de m o b i l i z a ç ã o política e de f o r m a ç ã o de uma identidade racial c o m b a t i v a . Entendida como uma ideologia de dominação por Fernandes (1965). mencionar um último motivo do porquê o protesto negro atual t e m sido mais duradouro e mais difícil de ser absorvido pelo E s t a d o . alguns deles bastante radicais em seu p r o t e s t o . Além da crise da identidade nacional. o bloco afro baiano (Risério. fornecendo bases mais sólidas para a superação do racismo. pp. 1 9 8 1). 2 0 0 1 . influenciados não apenas pela cultura popular brasileira de origem africana. Uma outra versão foi publicada em Jessé Souza (org. boje: novos desafios para a teoria democrática contem- Brasília. 20'KJ) 4. o u seja. ativo e onipresente tanto nos pequenos atos do dia-a-dia. seja em termos econômicos. a qual.

Para entendê-lo melhor. E x e m p l o disso é o crescimento cio preconceito étnico-regionaíista em S ã o Paulo. ou seja. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade . Tal c o m p r o m i s s o consistiu na incorporação da população negra brasileira a o m e r c a d o de trabalho. No ideário da revolução francesa. exploro. encontra-se agora em crise. no pensamento social b r a s i l e i r o . Rousseau definiu um po\ o pelo contrato. no século X X . prevalece a inspiração rousseau - 110 Classes. que preferiram a morte à servidão constituiu desde sempre um traço forte dessa representação n a c i o n a l . Meu argumento principal é de que tal construção ideológica. português ou espanhol. guarda muitas s e m e l h a n ç a s com o processo que se passou na América Latina em geral. e x p o n h o a constelação simbólica que faz da "democracia racial" e do " d e s c o b r i m e n t o " mitos nacionais. premidos sempre. um compromisso político e social do moderno Estado r e p u b l i c a n o brasileiro. os caboclos fugindo da "selvageria" e do "primitivismo" quelheseram atribuídos. a mestiçagem f <ram .->rmas usadas para definir o povo francês. Michel Foueau r (1997 explora. do passado servil. sempre tensa. pela associação livre e interessada. no c a p í t u l o anterior. A imagem do n e g r o enquanto povo e o banimento. Brancas para dentro e mestiças para fora. esse avesso da nacionalidade. pela luta entre a nobreza e o resto da nação trai cesa. A ambigüidade das elites latino-americanas encontrou. Neste capítulo. no final do c a p í t u l o . Examinemos brevemente tal matriz. inau- O processo de construção da identidade nacional brasileira. fundadora cia moderna na cionalidade republicana francesa. a geografia e o clima. em suas aulas no Collège de France. foi a definição pelas origens N o século que pre- valeceu. A romantiza cão dos índios como guerreiros selvagens e livres. alternando força e convencimento. na França. como bem salientou H a n r : Arenct 1 1 9 5 1 . responsabilizado pelos males herdados. A primeira dessas semelhanças é uma recusa coletiva do passado colonial. para transformar-se depois. A necessidade francesa de contrapor-se ao nacionalismo alemão de base étnico-racial. que vigeu. não podia ser seu. Os ilumimstas franceses foram os primeiros. povos europeus depois da guerra franco-prussiana de 1 8 / ) . do Estado Novo de Vargas até a ditadura militar. os negros afastando-se. substituído pelos de "cultura" e " c l a s s e social". O fato é que. as elites viram-se encurraladas. "entre a necessidade de negar e de afirmar sua diferença em relação ao poder metropolitano". pi>rém.>. o modo com. em lutas de classes (entre burgueses e o p e r á r i o s ) . do nacionalismo. foi necessário institucionalizar a desmemória das origens étnico-raciais: os brancos afastando-se do Portugal "decrépito" e "subordinado". Os franceses discutiram. entretanto. se transforma numa lui • de raças. na ampliação da educação formal. é que devemos ver na "democracia racial". 611 Apenas nos dias que correm foi também possível acrescentar-se a tal representação romântica a figura guerreira dos quilombolas (Zumbi) e do seu espírito de liberdade (o Quilombo dos Palmares). então. parafraseando Bha- bha { 1 9 9 4 ) . w) gurando uma definição puramente política de nação. no século X V I I . de novo. permanecendo "incapazes de estabelecer sua autoridade através da autenticidade de suas origens".Meu entendimento. u m a vez que tal passado.• a luta entre nobres e plebeus. pelo e m b r a n q u e c i m e n t o . enfim na c r i a ç ã o das condições infra-estruturais de uma sociedade de classes que desfizesse os estigmas criados pela escravidão. a c a b o u servindo de base para a construção da nacionalidade brasileira. 1 A MATRIZ FRANCESA: M E M Ó R I A E NÃO R A Ç A S a debater o que forma um povo: as origens ou o contrato? Contra as pretensões de sangue da nobreza. são suas expressões. c o m o diz Skurski (Í996: 3 7 6 ) . tal c o m o sistematizado por Julic Skurski ( 1 9 9 6 ) . x) sangue e a raça. do conceito de "raça". t a m b é m . premido pela necessidade de recusar o passado. diversas outras forma-de traçar as origens. um elemento renovador na crise política e ideológica que afetou o-.

Ao contrário. na verdade. eles são utilizados de acordo com a situação e o momento. estabelece c o m o fato o que não é verdade histórica: a existência de uma nova terra. A formação nacional por assimilação de povos se dá contra a pretensão de distinção racial da aristocracia através de sua o n g e m germânica. formam não apenas um mito. discutem-se. N e l a . e o critério da língua é medido pelo desempenho individual e não pela filiação a um tronco lingüístico comunitário. 1 9 8 1 ) . 1 9 9 3 . Dificilmente. podendo ser interpretada c o m o genealogia e hereditariedade ou como pertença simbólica (por intermédio da literatura. 1 9 9 1 . A meu ver. a sua posse simbólica. No caso da raça. O Descobrimento. para o nacionalismo alemão. as influências mútuas entre a forma mestiça. 1 9 9 1 ) . sem reiisnão o u Estado prévios. Do mesmo m o d o . esses dois princípios de identificação andam separados. Tal definição é. mas também nativos. A representação pictórica é conhecida: europeus bem vestidos. A MATRIZ AMERICANA: O E N C O N T R O D O PARAÍSO Entre os mitos nacionais brasileiros. igualmente. de experiências históricas e do culto dos ancestrais. As narrativas do descobrimento. 1969 [ 1 9 3 3 | .niana. guerreiros e civilizados. se deve justamente à virgindade pressuposta. 1 9 4 8 [1925). pode ser enganosa. Shumway. a noção de "origens" é ambígua. assim como. Originam-se daí duas formas de distinção nacional: uma atribuída (a lignée e a soitche) e outra adquirida (o domínio da língua. apenas a partir do advento do Estado nação. a assimilação dos povos primitivos. mas vários: o descobrimento. o particularismo francês privilegia a pertença a uma memória coletiva e a um tronco de antepassados e de memórias comuns. seguido do ofício de uma missa católica. supõe uma raça histórica. construída a partir de memórias coletivas. Stutzman. todavia. latino-americana (Vasconcelos. E x p l i co-me: já que os povos que os portugueses aqui encontram for- sentido de que é discursivamente legítimo. comungam e absorvem indígenas (mulheres belas e guerreiros bravos) ingênuos. com a diferença essencial de que se t r a t a de uma definição histórica e não biológica de raça. c o n t r a uma definição alemã (raça e língua). no Descobrimento. ainda que depois se desdobre em narrativa mitológica a u t ô n o m a . Freyre. Tal bifurcação. através cio soerguimento de uma cruz. geralmente. Segundo Noinel ( 1 9 9 2 : 2 1 ) . ainda que tal maneira não se restrinja à Alemanha. na qual participam portugueses e indígenas. não no sentido de que a França seja a única nação a pensar-se desse modo. o Descobrimento do Brasil é fundador em mais de um sentido. o caráter edênico. A definição p r o p r i a m e n t e francesa. de definir a nação (e o nacionalismo) e a forma mestiça de pensar a nação francesa. diz-nos José Murilo de Carvalho ( 2 ( ' i R ) ) . no século X I X . o domínio do vernáculo e da história francesas. Como sublinha o mesmo Noiriel ( 1 9 9 2 : 2 3 ) . Como se vê. puros e nus. Schutte. A idéia de um paraíso terrestre é parte essencial do mito do descobrimento. tal forma de particularismo é francesa apenas no munidade lingüística e racial. virgem de nacionalidades. o paraíso na terra. é legítimo pensar-se como uma co- 112 (lasses. mais iluminista que francesa. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 113 . se pode falar em definição francesa da nação (vontade coletiva). no c a s o da língua. pois narra a chegada dos portugueses ao N o v o M u n d o e a sua resolução de criarem aqui uma nação a partir de elementos não apenas europeus. democrática e assimilacionista. das instituições) etc. particularista. A rigor. o que se c h a m a de definição francesa da nação não é necessariamente uma definição univetsalista. à sua fé. que acabou por se impor em Renan ( 1 9 9 7 f l 8 8 2 ] ) . na literatura internacional (Anderson. a definição de nação. para ser exato. das letras e da história francesas). de nação supõe tanto a idéia de " r a ç a " . Os elementos principais do mito são: o descobrimento da nova terra. quanto de "língua".

redenção dos pecados introduzidos pela civilização. Esse aspecto do m i t o desdobra-se em outro mito particular: o da democracia racial. Os índios não formam uma civilização oposta ou inimiga. para os s a m b i s t a s . c o m o na segunda. como pela própria estru- Classes. de modo positivo. incorporadas numa mesma ordem h i e r á r q u i c a . Desígnio divino tanto mais evidente porque o b r a do acas' ••: Cabral teria sido trazido a o paraíso pelas correntes marítimas e pelas c a l m a r i a s do Atlântico sul. incorporando. c o m o aconteceu nos Estados Unidos C a r valho. mas em dócil incorporação. não c o m o missão de construir na terra uma n a ção segundo a Sua lei. mas igualdade entre criaturas de Deus. mas apenas brasileiros. desenvolvido bem mais tarde. os afro-descendentes ao imaginário n a c i o n a l . Os portugueses que aqui chegam irão. essa relação é de continuidade. A relação edênica entre homem e natureza é comum aos mitos fundadores de t o d a s as nações americanas. M a s ele t a m b é m não pode ser desvencilhado da fé católica. em se plantando tudo dá". Os índios transformam-se afinal em símbolo cios que não são totalmente brancos nem totalmente cidadãos. morenos e mestiços reconhecendo o papel redentor e civilizador de Portugal. E nem t a n t o pela inspiração. de certo modo. não exatamente igualdade entre cidadãos. Mais que raça. 2')Q0). agora civilizadas e incorporadas ao universo católico. e o estado civilizado posterior. No Brasil. agiram em conformidade: como se tais s í m b o l o s não fossem realmente católicos ou religiosos.marão uma das bases da futura n a ç ã o . A Descoberta aparece como desígnio de Deus. E também sintomático que a representação cio Brasil não tenha sido feita a partir de elementos culturais novos elaborados nos 2 0 0 anos de nacionalidade. Os índios não foram nem conquistados e incorporados. trata-se da representação da parcela subordinada da nação: impuramente européia. A Igreja Católica procurou impedir a utilização de seus símbolos sagrados na procissão profana. Aí reside o segundo elemento do mito: a idéia de uma totalidade hierárquica. mas apenas como habitantes de um paraíso original. nem tampouco vencidos. como na primeira. q u a n d o se tenta superar o trauma da escravidão negra. parece garantir tal equilíbrio entre duas superiondades reivindicadas: o estado virginal anterior. O catol íosmo represento. mas europeu. o que cimenta o m i t o do Descobrimento é a fé católica. m e s m o no sincretismo. no Carnaval dos 5 0 0 a n o s do Descobrimento. Repare-se que faltam a o nosso mito dois elementos importantes. foram os símbolos católicos da cruz. como vimos. conspurcar o paraíso que encontraram — a natureza virgem e a igualdade social primitiva — . raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 115 . trazem a redenção possível para os pecados que introduzem. encontrados em outras partes da América: aqui não se fala em conquista (como na América espanhola) nem em vitória icomo na América inglesa). mestíçamente branca. A idéia de um paraíso terrestre. ao m e s m o tempo. nos anos 1 9 2 0 e 1 9 3 0 . c o m o apontou Roberto D a M a t t a ( 1 9 8 1 ) . por isso mesmo. pré-civilizado. em estado original. 1 9 9 4 ) . não é possível tratá-los como ímpios ou perversos. A inspiração do mito do descobrimento é claramente o mito bíblico da expulsão do paraíso. e. mas representa também a igualdade de todos peranív Deus e a a b s o r ç ã o dos índios (ou os nâo-brancos) à civilização. mas. eles são apenas transmutados em novas pessoas. e sua missão civilizadora seria incorporar os índios à fé cristã e ao trabalho. M a s é sintomático que. da Virgem e do Cristo os mais buscados pelas escolas de samba. Apenas a fé católica. Por primitivos e originais. mas inteiramente brasileiros (Agier e C a r v a l h o . mas por uma atualização do mito do descobrimento: mulatos. é o terceiro elemento mítico. fosse impossível pensar o Brasil sem os símbolos c a t ó l i c o s . Pois bem. A representação do Descobrimento tem um componente central: a integração e c o m u n h ã o social de todos na fé católica. a o contrário. ainda que precisassem reafirmar sentimentalmente a superioridade da pureza indígena. ' ' A t e r r a é boa. porém. 3. pré-civilizado e propriamente americano. mas se encontram. desigual e hierárquico. a superioridade de sua civilização. N ã o por acaso. exterminados ou postos em reservas.

O povo brasileiro. de outro. por sua vez. os pequenos e os humildes (dóceis. entre "índios" e "portugueses". ele observa (Carvalho. Esta é. com o seu sacrifício. Foi apenas a partir de 1 9 3 0 . 1 9 8 7 ) já apontava para a ausência de verdadeiros heróis nacionais e de um p a n t e ã o cívico. a pátria independente que nasceria adiante. no mito fund a d o r da nacionalidade. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 117 . sem dúvida. entre índios e portugueses. não apenas européia. civilizados e matutos. 1 9 9 3 ) . O plan o da cidadania e do estado de direito. tal como In c o concebemos. Em outro text o .1 9 2 9 ) . em c o n t i n u i d a d e com a ordem estabelecida pelos portugueses. Fia pede fidelidade às crenças católicas e aos costumes europeus. pacatos e sábios. a instituição e a superação da desigualdade entre natureza e cultura. entretanto. em continuidade c o m aquele. Romero (1949 [1888]) e Joaquim N a b u c o ( 1 8 8 3 1 Classes. intelectuais J o porte de Silvio para incorporar as massas negras e mulatas. portanto. J o s é Murilo (Carvalho. a Primeira República procurou modernizar o Brasil através da adoção de novas instituições. representado pela fé católica e pela hierarquia de sua igreja — . grosso modo. não e x i s t e . manteve uma nacionalidade ostensivamente polarizada. É K :v» verdade. rejeitando apenas aquelas Sigo. Para que tal antinomia viva em equilíbrio é preciso um redentor — o C r i s t o . 1 9 9 5 ) . a respeito. com diferentes qualidades civilizatórias inatas. a s e p a r a ç ã o entre fé e crendi- c e s . à maneira de Cristo. 1 9 3 6 ) e do incentivo à imigração européia (Seyferth. produto dos últimos setenta anos. nos períodos de testas populares e festivais de i n v e r s ã o . Os sociólogos e cientistas políticos demarcam. inventou para si uma tradiç ã o e uma origem. 1 9 9 0 . entre seus expoentes. A Igreja procura desesperadamente restabelecer. Ver. Mas. que pôs fim à Primeira República ( 1 8 8 9 . e uma construção modernista. Os índios representam a vida. negros e índios. que quando a R e p ú b l i c a necessitou estabelecer um imaginário nacional laico. marcada pela enorme distância entre brancos e pretos. A ordem social e política continua a ser revivida como o encontro primeiro entre a natureza e a cultura. ela exige o embranquecimento da alma e da fé. só os portugueses representam a cultura e a civilização (com toda a carga de violência e de racionalidade que envolve a acumulação de riqueza). Distinç ã o esta que o povo desfaz em todos os seus carnavais. da europeização dos costumes (Freyre. M a s . justamente p o r ser o catolicismo o c i m e n t o de uma ordem social desigual (a igualdade em Deus c pres o c i a l ) . Pois o Descobrimento representa. uma tradição intelectual que remonta ao final d o século X I X . nunca foi amplo o Milicien. esta foi contrabalançada pelo romantismo brasileiro. Schwarcz. 63 6 O "cal- deirão étnico" brasileiro seria capaz de absorver e abrasileirar as tradições e manifestações culturais de diferentes povos que para aqui imigraram em diferentes é p o c a s .inicia-se no império. mas produto do cruzamento entre b r a n c o s . tal modernidade com a R e v o l u ç ã o de 1 9 3 0 . Se em relação ao Império (1 8 2 3 1 8 8 9 ) . miscigenada. o herói nacional chamado a desempenhar tal papel. entre religião e festa paga. c o m o um mártir redentor da nacionalidade. do ordenamento social e do contrato entre indivíduos. geralmente. O Brasil passa a se pensar a si mesmo como uma civilização híbrida. c o r r e t a m e n t e .Tiradentes. em busca de nativismo: que. DaMatta ( 1 9 9 0 a ) . A idéia fundamental da nova n a ç ã o é a de que não existem raças humanas. que a europeização do-. que desfaça as diferenças e re-estabeleça a igualdade de t o d o s perante Deus. principalmente com o Estado Novo ( 1 9 3 7 1 9 4 5 ) e a Segunda República ( 1 9 4 5 . ao mesmo tempo.tura do mito. de um lado. foi reconstruído. e que tem. a Igreja Católica não aceita a t o d o s os "índios". 61 O BRASIL M O D E R N O : UMA D E M O C R A C I A R A C I A L A modernidade brasileira é. mais que tudo. a garantir. mas sim diferentes culturas. ou seja. por natureza). como nos diz Schwarcz Í 1999*. indistint a m e n t e . costunp .1 9 6 4 ) que o Brasil ganhou definitivamente um " p o v o " . a interpretação de Frevre.

Santa C a t a r i n a e Rio Grande do Sul. nos anos 1 9 3 0 . em 1 9 9 1 . nas minas de ouro e diamante. 6 6 Em 1660. o país foi buscar mão-deo b r a na Europa. dominou a oferta de mão-de-obra industria] e artesanal. já estava consolidada. São Paulo. algo que eclode na Semana de Arte Moderna de 1 9 2 2 . mas estima-se q u e . em 1940. com estatuto p o l í t i c o reconhecido e regulado. nem de suas classes d o m i n a n t e s . aré os anos 1 9 3 0 . mulata e c a b o c l a . que migrou para São Paulo e para os estados do Sul e do Sudeste brasileiro. alijando do mercado a população negra e mestiça. ao excluir ncftros e mulatos do imaginário nacional. algodão. 1936). o governo c o l o n i a l brasileiro importou entre quatro milhões e meio e seis milhões de africanos para trabalhar c o m o escravos nas plantações de c a n a . Paraná. ser matizada com a compreensão de ouc o romantismo ln. entre unia nação branca. Quando começa a imigração européia. foram as c i ê n c i a s sociais. tornou-se possível a incorporação de uma enorme massa racialmente miscigenada ou negra. crendices e t c ) .isileiro revelou-se bastante artificial. a população branca. de certo modo. ( 1 9 6 5 [1937]). concentrado-se principalmente nos estados do Rio de J a n e i r o . é a ameaça de divisão cultural do país que passa a ser percebida. As bases materiais e e c o n ô m i c a s dessa modernidade foram plantadas pela Revolução de 1 9 3 0 . tenha acabado por fazer predominar no país uma população biologicamente mestiça. oriunda de várias partes do país. anim i s m o s . propriamente brasileira. que ja se deixa entrever. quase toda de origem portuguesa. Simonsen (1 9 7 8 : 2 7 1 ) estima a população 11 A proporção cjue se declara branca nos recenseamentos varia de brasileira em 74 mil brancos e índios livres e 1 1 0 mil escravos. 6 4 Conquanto a pequena presença demográfica européia. entre 1560 e 1850. do interior de S ã o Paulo. éramos vistos por nossas elites c o m o uma nação sem povo e sem cultura (Skidmore.4 Esta interpretação deve. por exemplo. A base demográfica. apenas q u a t r o dos 5 5 milhões de emigrantes europeus tenham se dirigido ao Brasil. e não apenas as artes plásticas e a literatura ficcional. e m sintonia com a "cultura pop u l a r " . entre 1 8 5 0 e 1 9 3 2 . ficando espremida entre a p o p u l a ç ã o negra. 6 3 . nem mesmo a cor branca da maioria da sua p o p u l a ç ã o . principalmente de Minas Gerais. tal como colocada de modo exemplar por Nina Rodrigues ( I 9 s 3: 1 9). Ver Wood e Carvalho (1994: 159). no incentivo à industria e â substituição da mão-de-obra estrangeira por mão-de-obra brasileira. as inventoras desse Brasil m o d e r n o . tabaco. 1. Tal idéia permite o cultivo de uma "alta c u l t u r a " . 66 65 D e p o i s de findo o tráfico de e s c r a v o s . Essas consistem. Sérgio B u a r q u e de Holanda (1936) e Caio P r a d o J r . 4 % . forte e poderosa. a 5 4 . provavelmente de o n 6 M a s . do Rio de Janeiro e dos estados do Nordeste. e a constituição de uma reserva de mercado para o trabalhador brasileiro. o Brasil tinha reconhecidamente uma questão racial. café. ela nunca pôs em cheque o caráter europeu da civilização brasileira. basicamente. mal rivalizava a população escrava. ante a população de origem indígena e africana. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 119 . ' Essa mão-de-obra estrangeira. Assim. ou seja. Apenas com o fim da imigração estrangeira. concentrada quase totalmente em São Paulo. que passa a constituir propriamente um proletariado. de n o v o . através de obras seminais c o m o s s de Gilberto Frevre ( 1 9 6 9 [ 1 9 3 3 ] . nós estados do Sul e no Rio de Janeiro. nas fazendas de gado e no trabalho d o m é s t i c o e artesão. as regiões mais populosas. De fato. e n t r e t a n t o . ainda no final do século X I X : "Ao brasileiro mais descuidado e imprevidente nao pode deixar de impressionar a possibilidade ela oposição futura. cujos fundamentos eram biológicos e demográficos.que fossem incompatíveis com a modernidade (supertições. 2 % . Nesse p e r í o d o . Classes. 1 9 7 6 ) . Até então. ver Florentino ( 1 9 9 7 : 2 3 ) . enquanto perdurou a importação de escravos africanos ou enquanto o volume de migração européia foi diminuto. ' ° Sobre essas cifras.

s í m b o l o s e marcos fundadores cie uma civilização brasileira. diluída na matriz luso-brasileira e mestiça de base p o p u l a r . e. b a n t o s . Lembre-se que a existência mesma d o movimento negro contradiz o ide\\ de mistura. nós n ã o ternos propriamente uma " r a ç a " — não somos brancos. vegetando na turbulência estéril de uma inteligência viva e pronta. do indígena ou do n e g r o " . mestiços. Freyre. que se está constituindo nos estados do Sul. 68 Segundo tal represen- Ou seja. os artistas e literatos modernistas e regionalistas. em que o predomínio demográfico e civilizatório d o s europeus nunca fora c o m p l e t o a ponto de impor a segregação dos negros e mestiços. a estratégia dominante sempre fora de " t r a n s f o r m i s m o " e de ''embranquecimento". " t o d o brasileiro. concessões s ã o feitas. restos e vestígios das origens í Guimarães. os negros. a lógica da poiítica republicana com relação à população negra (de origem africana) foi balizada por três construções simbólicas: 1) o reconhecimento da escravidão c o m o um sistema inumano e aviltante (ao c o n t r á r i o da justi- t a ç ã o . 1 9 9 3 ) . temia-se pela qualidade do estoque populacional brasileiro. oriunda do caldeirão colonial. 120 Classes. italianos. escravista. se reivindicado sem mestiçagem. Estes são marcos da fronteira da civilização brasileira.gem teutônica. pela ausência de uniformidade cultural e pela unidade nacional. são apropriados como objetos culturais. largamente freyreana. de incorporação dos mestiços socialmente bem-sucedidos a o grupo dominante " b r a n c o " . nas artes. nagôs. os brasileiros "ultrapassaram" os elementos formadores da nação (os brancos. Pois bem. os índios — em termos rac i a i s — ou os portugueses. remanescentes dos antepassados que criaram a n a ç ã o . donde o clima e a civilização eliminarão a Raça negra. de um lado. T a l constelação simbólica se manifesta. ou a submeterão. Permita-me insistir. da escravidão c o m o tempo da Essa rdéia se encontra muito bem equacionada e apresentada criti- camente. negros ou índios — . diz Frevre em Casa-grande e~ senzala ( 1 9 6 9 [1 9 3 3 ] : 3 9 5 ) . quando essa-. raças «• democracia Direitos e avessos da nacionalidade 12! . no campo político. os estados do Norte. mas têm negado o direito a uma existência singular plena c o m o m e m b r o s de grupos étnicos. o povo b r a s i l e i r o . ou seja. Se a Primeira República fora responsável pela europeização dos costumes brasileiros e pela introdução de milhões de europeus no Sul e no Sudeste do Brasil. V a r g a s . Isso é v á l i d o t a n t o para a a b s o r ç ã o de símbolos da identidade afro-brasileira à cultura na- 6 ! i ficativa monarquista. mas associada à mais decidida inércia e indolência. W a d e . é estrangeiro à n a ç ã o . traz na alma e n o corpo a sombra. que não deveria ter e n c a r n a ç ã o política. da sua "domest i c a ç ã o " ou "civilização"). na política. formada por séculos de colonização e de mestiçagem biológica e cultural. mas apenas cultural. em detrimento da população mestiça. elas correm o risco de permanecerem no papel. 1999. de cabelo louro. T o d o s os temores alimentados por crenças raciais. Assim. reificando um elos elementos deformação. enquanto povo. mesmo o alvo. de outro lado. foi uma das maiores inspirações de Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala). por Roberto DaMatta (19$ 11. Os negros e índios. tupinambás. ao desânim o e por vezes à subserviência. a Revolução de 1 9 3 0 e a Segunda República tiveram o bom senso de desarmar a b o m b a étnica que se formava em conformidade com os temores de Nina Rodrigues. esses serão os principais responsáveis pela "solução" da questão racial. ou seja. num povo. guaranis etc. mas uma nação: somos um povo mestiço. por c o n c e s s õ e s igualmente simbólicas. A o contrário. na política republicana. e assim ameaçados de converterem-se em pasto submisso de todas as explorações de régulos e pequenos ditadores". 2) o reconhecimento da dívida cultural que a nação brasileira tem em relação aos negros (tratar o negro c o m o um colonizador. 3) a idéia de que. ou pelo menos a pinta. colonização cultural dos negros e índios. Qualquer dos três pólos. — em tetmos nacionais) para se constituir numa meta-raça. C o m o vimos anteriormente. nas ciências sociais.

pela primeira vez cm sua história. com os A l i a d o s . Itália e J a p ã o ) . Primeiro. Quarto. A diU M A N O V A IDENTIDADE N A C I O N A L BRASILEIRA? A configuração descrita acima foi forte o suficiente para sedimentar o sentimento de pertença à nação brasileira. "paraíbas" e " n o r d e s t i n o s " ) . Do m e s m o modo. durante a Segunda Guerra Mundial. principalmente no Sul do país. comidas típicas etc. principalmente no Sudeste. o sentimento de pertença nacional brasileira continuou f r a c o . raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 123 . o ressurgimento. tais como o preconceito racial e regional e as crescentes desigualdades raciais. suas festas. f o r a m capazes de des a r m a r a bomba étnica que se formava em S ã o Paulo antes dos anos 1 9 3 0 . c o m o ate para a incorporação à ordem jurídico-normatíva das reivindicações políticas do movimento n e g r o . levou a identidade nacional aos limites da tensão. A c o m p e t i ç ã o que então se instalou no mercado de trabalho. alemãs e japonesas. a emergência ou continuidade de novos problemas. porém. o fato de o Brasil ter cerrado ri lei r. > convívio multirracial e multicultural. que deixava de ser plausível ã medida que outras sociedades pós-coloniais. seus santos. A " r e g i o n a l i z a ç ã o " dos preconceitos e estereótipos foi quase sempre a regra. suas datas cívicas. Segundo. Primeiro. são responsáveis pelo surgimento de estereótipos regionais negativos ("baianos". a n o v a ordem econômica surgida no pós-guerra (o desenvolvimento sustentado). tais como os Carecas do ABC etc. ainda que por breve período. assim como nacionais ("português"). a crença na d e m o c r a c i a racial tora tecida por sobre a lenda da excepcion a l i d a d c brasileira. Tais fenômenos. no período que vai dos anos 1 9 4 0 aos anos 9 7 0 do século X X . surgidas da grande imigração internacional da virada d< sécuio. se contrap >ndo ao e i x o ( A l e m a n h a . e x a c e r b a n d o os sentimentos nacionalistas (Seyfertb. duas grandes tensões pesaram -obre tal s e n t i m e n t o . o tato de unia grande leva de brasileiros de segunda. tais como os princípios constitucionais da não-discriminação e cia integração s o c i o c c o n ô m i c a dos negros (Guimarães. Segundo. galvanizada pela crise de governabilidade. 122 Classes. A decisão de Vargas de reservar o m e r c a d o de trabalho urbano aos brasileiros (lei de 2/3) reforçou as migrações internas.. Apenas. não foram suficientes pata levar à crise o sentimento nacionalista. como Estados Unidos e v lanada. superavam a segregação racial através de soluções c o m o . rrializados). o brasil passa a ser uma origem importante na emigração internacional. no período pós-abolicionista.. apesar de pouco estudados. terceira e quarta g e r a ç ã o buscarem uma A fragilidade do sentimento nacional na América Latina em geral é comentada por Skurski (1996). c o m a estagnação econ ô m i c a . fazendo c o m que grandes levas de nordestinos se dirigissem aos centros urbanos do Sudeste ou às áreas de agricultura moderna e de fronteira do Sul e do Sudeste.cional. numa situação de convivência dem o c r á t i c a mais igualitária em termos de oportunidades de vida. Se as migrações internas e a criação de u m a sólida cultura nacional. ainda que importantes. 1 9 9 0 . reforçada por uma socialização regionalizada. de origens principalmente nordestinas. Terceiro. visto que os portugueses gozavam dos mesmos privilégios dos nacionais. Na verdade. com seus heróis. de movimentos separatistas. cariocas e mineiras. mas apenas nesse sentido. significou um aumento do desequilibro regional (o Nordeste agrário cedendo terreno ao Sudeste e ao Sul indus6 9 ficuldade de reconversão e de remserção brasileira na nova ordem mundial. S ã o índices da crise do modelo assimilacionista e heterofóbico de nação alguns elementos que passo a enumerar. exigiu uma assimilaçã > muito rápida cias comunidades e colônias italianas. baianas. de bases mestiças e populares. tanto quanto o estranhamento cultural. 69 A crise real sobreveio nos anos 1 9 8 0 . o tato de que. 1 9 9 8 ) . a crise financeira e a falta de direção política clara. o surgimento de movimentos racistas voltados contra nordestinos e negros. elas não evitaram.

Sessão '"Lo afro en America Latina: debates sobre cultura. sobre que bases o preconceito ético-regionalista em S ã o Paulo cresceu. pode nos levar a considerar que tal estereótipo se deve à sua condição de imigrante no Sudeste do Brasil. servil. E é tão mais verdade para os termos paraíba. preguiçoso. principalmente São Paulo. o movimento de "reafricanização" dos costumes negros no Brasil. Sexto. se esse é o modo de definir-se racialmente. dados como desaparecidos. quando a B a h i a era a capital brasileira e os baianos. C a d a um desses elementos tem uma história própria que é preciso retomar para que se possa verificar a hipótese de crise. sendo portanto produto do pós-guerra. pela intelectualidade brasileira e internacional.dupla nacionalidade. em r e a ç ã o a tal pretensão. movimentos populares. Sudeste e Sul do país. b e ó c i o . em São Paulo. nos E s t a d o s Unidos ou no Japão — ou cria uma xenofobia regional racializada. em vez de n a ç ã o mestiça. Ainda que tais movimentos centrípetos (de reagrupar-se em torno de um dos pólos) não sejam movimentos de m a s s a . seus habitantes. Nos conta Gilberto Freyre que. sem chances de se tornar alguém. principalmente no R i o Grande. típico dos homens u r b a n o s . Mianú. neiro. paraíbas e nordestinos é dos mais fortes e persistentes no Brasil c o n t e m p o r â n e o . ou seja. Deixem-me. O branco de classe média busca sua segunda nacionalidade na Europa. 124 C l a s s e s . eles são. em dizer que a nacionalidade brasileira. aproveitando-se da m u d a n ç a da legislação brasileira. um j a n o t a palavroso. os índios recriam a sua t r i b o de origem. desenvolver melhor a própria hipótese geral. movimentos muito bem vestidos de ideologia e expressos. ainda que tomando-os por referência. para a definição de uma mestiçagem singular. política y poder". isto é. com crescente a c e i t a ç ã o . gerenciado politicamente pela construção da identidade negra. o movimento de reetnízação de povos indígenas brasileiros. acabou por sua vez fazendo de sua c o n d i ç ã o de h o m e m da capital do Brasil — por muitos anos a cidade por excelência do palanquim e de negros que gritavam para todo homem de sapato i. Se D a M a t t a tem razão. entretanto.iie descesse do navio ou nau: 'Que cadeira. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 125 . OS AVESSOS DO M I T O : O PRECONCEITO C O N T R A OS B A I A N O S 7 O preconceito contra os baianos. Leiamos o mestre: " E o baiano da cidade. baiano passou a denotar no Sul. de Salvador. O estereótipo do baiano como o imigrante pobre. só. esse modo está mudando rapidamente. e nordestino. enquanto definição de identidade racial. A verdade inteira começa ainda no Brasil C o l ô n i a . se arrogavam a ser os únicos habitantes civilizados da Tetra de Santa Cruz. V e j a m o s . a seguir. que para ao Rio de j a baiano. como eu acho que tem. Q u i n t o . o negro constrói uma África imaginária para traçar a sua ascendência ou busca os Estados Unidos como Meca afro-americana. o negro e o índio —. março de 2 0 0 0 . Sua crise é visível na busca de identificação a partir da recriação de cada um desses pólos. se distanciando cuidadosamente de cada um deles. no Nordeste.arin American Studies Associauon (LASA). se construiu no último século no espaço de representação dem a r c a d o por três pólos raciais — o branco. maneiroso e efeminado. quando as migrações internas no Brasil substituíram as migrações internacionais em termos de prover de mão-de-obra a nascente indústria do Sudeste. pois bem. especialmente do Norte. S ó em parte isso é verdade. sem espírito empreendedor. sinbô?' — m o t i v o de supervalorização de ori- '' Comunicação ao Congresso Internacional da I. que rendem a vero país como uma n a ç ã o multirracial. rivalizado pelo preconceito racial. ignorante. entretanto.

polida. pi ' arquitetura e pelos costumes. termo ao mesm o tempo de valorização e de desvalorização do indivíduo por circunstâncias regionais de origem e de form a ç ã o social. Era ser excessivamente civilizado: quase efeminado. mais que em qualquer outro lugar. O termo baiano parece ter perdido toda a áurea de civilida- Nesse sentido.ms indivíduos de se unirem para homenageá-lo de maneira espetacular. incorporando n ã o apenas a parte organizada da sociedade. testas que representam exatamente um ritual de intercâmbio de energias entre homens e divindades". c o m o passou a ser conhecida a região a partir dos 6 0 do século X X . ' Verdadeiros carnavais. Era só saber viajar de palanquim. ao mesmo tem- _ i po. gaúcho'" no Império. de que nos fala J oã o Reis ( 1 9 9 1 ) . desdenhando de q u a n t o brasileiro do N o r t e se mostrasse incapaz de montar a cavalo com a destreza dos homens do extremo Sul. ou N o r d e s t e . de cadeira. era ainda pujante o catolicismo barroco. mesmojdepois da independência. A essa supervalorização de origem ou situação urbana ou metropolitana.' são esses? 1 Que costumes Primeiramente. deve o devoto fortalecê-lo com as festas em seu !»uvor. visão bar- roca do catolicismo. Pois bem: nada mais colônia! e português que a Bahia.gem ou de situação regional. Para uma outra interpretação da mesma passaaem de . o santo não se contenta c o m a pivee indi•aciual. e associando essa incapacidade à condição de baiano. com suas muitas procissões e festejos. ou mesmo em referência a Portugal. Ademais. M e s m o a lesta da independência. Q u a s e sinhá. em termos dos costumes luso-brasileiros que aqui se estabeleceram e fincaram raízes na Colônia e O conceito é assim definido por Reis Í 1 9 9 1: 6 1 : "Ncss. 2 de apenas na República. ] 9 9 9 ) . na sociedade de corte. De m o d o que baiano tornou-se.. 126 Classes. feitas nos a n o s 4 0 do século X X . Português não em termos de seus habitantes. pois rodos s a b e m o s c o m o . raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 127 . 1 9 3 6 : 3 6 9 ) . na Bahia. odiavam esse legado colonial e gostariam de vê-lo enterrado e não vivíssimo. ele próprio c o m e n t a n d o as observações de Roger Basticie ( 1 9 4 5 : 3 2 ) . diz que a Bahia era a mais portuguesa das cidades brasileiras. enquanto metonímia de gente do Norte. 2 Baiano. religiosa e processional quanto as festas coloniais (Santos. ao menos para os g a ú c h o s . ver Guimarães (1999). eram malvistos o. tem razão Thales de Azevedo (1 <> [I 9S"l.K. tomada pela óptica de suas classes dominantes. as festas religiosas. 1 9 9 5 . na Bahia. nales. do Brasil.-. homens do interior. como nos diz Freyre. E o mesmo se verificou c o m (Freyre. inclusive negros e escravos afiliados a Irmandades. a "festa dos c a b o c l o s " . M a s não tinha. c o n t i n u a v a m a ser a única represent a ç ã o pública da autoridade política. e o mais. no Brasil. Era. um termo de valorização e desvalorização. urbana. era já uma criação do século X V I I I .quando aiacntiea . c o m o na Bahia. nos ensinam Freyre e José M u r i l o de Carvalho (1995». mato rústico. ou melhor. mas em t e r m o s de sua civilização. de rede. Ser baiano era ignorar a arte máscula da cavalaria. portanto. Para receber a força do santo. tão carnavalesca. nos diz Pierre Verger ( 1 9 8 4 ) . aos ombros dos escravos negros. era a Festa do 2 de J u l h o . o gaúcho reagiu a seu modo. certamente. -via os portugueses. provavelmente mais de valorização que seu contrário. mas também a patuléia e o"zépovinho. Sua intercessão será tão mais eficaz quanto maior for a capacidade . na Bahia. que seguia a t r á s . o caráter incontroversamente pejorativo que ganhou nesse século. Q u a s e mulher. Os republicanos e progressistas. Era c o m o se fosse Salvad o r a única região civilizada. Thales apenas fazia um exercício de reversa cio sentido pejorativo com que a República tratou seia a t Alonia. quando o c o s t u m e dos baianos de transformar em festa carnavalesca todas as efemérides santas continuava incólume. A l b u q u e r q u e . E conhecido o afã c o m que a República procurou separar-se da herança colonial e da herança portuguesa.

para imitar os franceses e ingleses. do riso e da estereotipia. Trabalho de desmoralização esse. em alguns casos bem-sucedidas. M a s sob o estímulo de outros meios: em correspondência c o m outros ambientes brasileiros. E esse sentido de mistura. mas política. eram as c o m i d a s vendi- 4 A representação da Bahia como a "mulata velha" é registrada por Ruth Landes • 1 9 4 7 ) . os portugueses e brasileiros brancos c h e g a v a m mesmo a disputar entre si a inclusão de músicos africanos e crioulos para melhor louvar os seus santos (Reis. de disciplinar a gente do povo e o espaço público em Salvador. 75 4 pretensões de civilidade. destituía a Bahia do seu capital cultural e social. citado por irevre 0 (I 9 5 9 : 2 0 9 ) : " [ . ou com o fato de a B a h i a ser ela mesma. Ferreira Filho (1999) e Morales ( 1 9 8 8 ) . . !28 Classes. c o m o aliás documenta muito b e m Gilberto breyre. t ã o c o m p l e t a que parece haver realmente. R u y Barbosa. Luís Gama. 1 9 5 9 : 2 1 0 ) . aos olhos dos brancos. boa parte do seu capital material. pela corte. na Bahia. sem passar pelos grandes investimentos de reurbanização da capita! imperial. de falta de respeito e de reversão da ordem que os republicanos e progressistas repudiam e que. para adquirir o ar de mistura e de convivência intima. desde que progressistas. por exemplo" (Freyre. e bom que se diga. que tem a ver precisamente c o m o m o d o de ser negro na B a h i a . . Ver Guimarães ! 1 9 9 9 ) . É de Freyre a mais completa afirmação do caráter retrógrado da Bahia novecentista. V o l t e m o s ao catolicismo barroco. Castro Alves. Aliás. uma mulata velha'' . ver. por exemplo. c o m u m aos carnavais. tinha reconvertido todo o seu capital social para uso na corte imperial. t r a n s p o r t e e escoamento s a m t á r i o do século XVHI. todos os nossos recursos materiais e intelectuais [. tratando o seu povo c o m o um povinho atrasado. ) o baiano esquecia-se da Província pelo Império''. ''para onde convergem. nesse trabalho ile r e p r e s e n t a ç ã o . em curso forçado. com tantas festas e procissões. e no Brasil c o l o n i a l em geral. "a negrada". parti- S í m b o l o m a i o r dessa "incivili- dade" era a falta de higiene resultante do crescimento demográfico de uma cidade que mantinha o a r m a m e n t o . dentro das q u a i s suas aptidões ou suas formas ou maneiras baianas de ser se exaltaram sob a influência de outras substâncias. se não no sangue b a i a n o . ' Diz o médico baiano Durval Vieira de Aguiar. seus e de outros. daí resultando combinações magníficas de baianidade com paulistantdade.Aliás a indisposição da Bahia com a R e p ú b l i c a era não apenas cultural.. na Bahia. E x e m p l o maior da falta de higiene. feito por baianos e não-baianos igualmente. A p a r t i c i p a ç ã o dos negros nos festejos religiosos. ignorante. foi mais além do que mandaria a hierarquia do desfile processional português. não tiveram força para reverter. Sobre as tentativas. Escreve o mestre de Apipucos: " É certo que dessa mística [da O r d e m .. principalmente sua oratória e a beleza vernacular do seu idioma. A R e p ú b l i c a . a substância à forma. o primeiro R i o B r a n c o . acabou por t o m a r conta das r u a s . privilegiando as ciências às artes. isto e. ou com o fato de as elites baianas " n ã o saberem lidar c o m os seus negros".]". N a B a h i a . uma vez que a antiga capital. entre outros. démodé e ridículo em suas cularmente dinâmicas. 1 9 9 1 : 6 6 ) . em outros não. M a s há outro componente nesse p r e c o n c e i t o que se nutriu contra ã Bahia. os anglicismos e galicismos ao castiço. citando mais de um baiano ilustre para tipificar o encastelamento da B a h i a no passado. contrária a o Progresso] se desgarraram baianos ilustres do século X I X : Teixeira de Freitas. A indisposição da República para com a Bahia e para com os baianos será impiedosa. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 129 . ela que já perdera. algo incompatível c o m a modernidade. renegando o legado luso-brasileiro. que os visitantes estrangeiros registraram. como impiedosa será c o m os portugueses: através da galhofa. Nabuco de Araújo. pelo acréscimo à sua condição de baianos de outras s i t u a ç õ e s . para a representação política dos interesses. na Bahia.

A n t ô n i o Risério ( 1 9 8 8 : 146) disse que "foi em m e i o ao mormaço e c o n ô m i c o e ao crescente desprestígio político que práticas culturais se articularam no sentido da individuação da Bahia no conjunto brasileiro de civilização". por sua vez.: na imprensa republicana para dirigir-se à trabalhadora de rua. A Bahia era a mulatice. W r . tanto quanto os candomblés (Velloso. de cujo estigma nutriu-se o primeiro preconc e i t o c o n t r a os baianos. para justificar seja a restauração monárquica.o. no plano micro-político. vindo de t o d o o Brasil. atraída pela fanfarra elétrica e. que a r r a s t a m a multidão pelas ruas. ao c o n t r á r i o . das elites a formas culturais afro-baianas serão usadas. c o m o fizeram os seus ilustras colegas da Academia carioca. pessoa^ serviram para a preservação de espaços consideráveis da cultura n gra eir Salvador. os cariocas e aqueles que. organizados em blocos. a nós que queríamos ser mais europeus que os portugueses. Na capital da República. não m a i s em irmandades. em suas caricaturas sociais. T o d o o racismo doutrinário brasileiro concentrou-se nos 4 0 anos cia Primeira República. p < exemp. Talvez. a raça. ranto q u a n t o a perme bilida. 1 9 9 0 ) e s a í r a m vitoriosos. a pobreza u r b a n a resultante das exclusões e restrições econômicas da falida economia agro-exportadora do Estado. representarão a B a h i a . agora. n ã o pudesse. J á nos anos 1940. o samba d o R i o ganhava "Escola" e " m o d e r n i z a v a " o modelo da procissão b a r r o c a . tamhcm. pa.6 ) : " S e . Era o velho caldeirão racial parado no tempo. sem transmutá-lo.. não apenas policial. as ideologias políticas que franceses manipulavam entre si e contra os alemães. Moura. Noiriel. laçv-. ainda hoje as classes altas da Bahia lutam para disciplinar a procissão paga dos trios elétricos. H o u v e ainda. doíam. de turbante e fazedora de angu". em teorias do embranquecimento. Sem imigrantes europeus novos e sem esperança de novos imigrantes europeus. o m o d o c o m o os europeus nos viam. a d e c a d ê n c i a . explicar a pujança c permanência da presença africana na Bahia. 1 9 9 2 ) . Estavam plantadas. C o m o se s a b e . 1 9 9 7 . o carnaval de rua das escolas de s a m b a de hoje tornouse uma s o r t e pomposa de procissão". 1 9 8 8 ) . os cientistas nacionais armaram a estratégia política e a solução teórica: o novo c a l d e a m e n t o se daria pelo a fluxo de sangue n o v o europeu. no mundo do trabalho e do comércio informal. as raízes da subeultura baiana. Fry. a mulatice. o que deu margem à observação irônica de Verger (1 9 8 4 : 1 3 ) : "se no Brasil de antigamente as procissões tinham um alegre ar carnavalesco.i mercado formal de ocupações. esses novos citadinos civilizados. mais que os negros. A ' m u l h e r do saião' fora expressão pejorativa largamente diíundul. As autoridades da capital da República perseguiram tenazmente as baianas. 1 9 5 1 . a endurecer os estereótipos.r cesso de desmoralização e acentuado por Ferreira Filho ( 1 > >V): "Freqüentemente. 1999: 2 5 5 . ( F r e y r e . atraso e falta de higiene" (Ferreira Filho. mas a pseudociência. p a s s a r a m a ser chamadas de baianas' . como os que formaram a Pequena África da Saúde (Carvalho. T e m razão. garant- 130 Classes. Em seu humor ferino. Foucault. se transformam em cariocas. eram relacionadas à barbárie. seja a integridade da nação francesa (Arendt. em que f o m o s beber no discurso / 6 O pape! central das mulheres negras. pelo espetáculo erótico de dançarinas e dançarinos. 1987. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade . nesse pro1 1 A estagnação econômica «Guimarães. da Academia de Medicina. Idéias de raça. aliadas ao caráter artificial do projeto de reformas urbanas.. que arrastava os devotos pela rua.das na rua p o r negras do acarajé que. que estancou epidemias e saneou nossas ruas. diga-se de passagem. de preferência nâo-ibérico. vendedoras de rua. na virada para o século X X . à escravidão que. " p o r uma baiana gorda.2 •. A crítica a roupa tradicional das mulheres pobres e trabalhadoras geralmente as associava à África. O b a r r o c o . 1 os. teorias sobre a degenerescência dos mulatos. Interessante que foi um baiano adotivo. 1995. b ideológico europeu. não apenas a ciência. a receber o influxo demográfico dos negros. Perseguição. as reste ções d. 1 9 5 9 : cxxxviii) O R i o de Janeiro cuidava dos seus negros e dos negros que a Bahia lhe mandava. 1 9 9 9 : 2 4 6 ) . quem levou mais a sério o racismo científico da época. a crítica às formas de mercância ou mesmo com idas vendidas na rua trazia implícita a associação cora a escravidão ou com costumes tipicamente negros. (Ferreira Filho. no R i o de Janeiro e fora da Bahia.

O imaginário da gente do sul. N o e n t a n t o . No imaginário da gente do sul. M a s . passava a ser uma fonre inesgotável de referência e de inspiração. * Oficialmente. n o futuro: mestiço. c h a m a d o s de baianos. carnaúba" e t c . Era o tipo de gente que o brasileiro do sul n ã o gostaria que tosse brasileiro — o seu O u t r o rejeitado. que. através da Lei de 2 / 3 . atribuído ao Nordeste. 132 Classes. para os ideólogos da tolerância e bondade do povo brasileiro. "sedução". e r a m mestiços e a c a b o c l a d o s . O que. com J o r g e A m a d o ou J o ã o Ubaido. da agricultura de subsistência. n o s a n o s 1 9 6 0 . nos mesmos termos do modo como o Brasil é e x a l t a d o . para os a n t r o p ó l o g o s culturais e sociais. c o m o queriam os modernistas de 1 9 2 2 . da fome. Esses imigrantes serão.Mas. p o b r e s e analfabetos o u semi-analfabetos. Mas a e m i g r a ç ã o massiva de gente do Norte para o Sul era um fato i n u s i t a d o . não é natureza é "encanto". um o u t r o m o d o de ser brasileiro: mestiço. Depois dos e x a g e r o s da Primeira República. o Brasil passava a ser simbolicamente representado por uma mulher branca em trajes de baiana e a democracia racial passava a-ser o seu produto de exportação. p o b r e . pa ou d o J a p ã o . o atraso. Dorival Caymmi. da Euroram a perpetuação de velhas práticas de trabalho e renda agenciadas por mulheres. imigrante. o m e s m o significado que foi. Seria também o Brasil q u e o sul odiaria ser. mesmo que na contramão das intenções modernizantes". d o flagelo das secas.. ainda que nutrido pelo primeiro. desde Vargas. menos que o tipo físico. a Bahia foi referência para uma nova estética. pobre e migrante? C h a m a r de baianos esses migrantes s era a p e n a s estender geograficamente. principalmente. um paraíso racial. Sem serem m u l a t o s . a preguiça. Ao que era um preconceito contra uma classe e um gênero de baianos — os h o m e n s de alta estirpe ou os baianos bem-educados — vai aos p o u c o s sendo generalizado para todos os baianos. n o sentido de que c o n h e c e r a m desde o Império algum tipo de m i g r a ç ã o interna. " m a g i a " . que era rejeitado. em alguns. era posto em causa. era t o d o um Brasil antigo. A velha Bahia. na Bahia. e antecipar no tempo. que se desenvolve no pósguerra. barroca e mulata. igualmente baixos. em São Paulo e no Sul. a lentidão. M i g r a ç õ e s de sertanejos nordestinos. Foi m a i s um preconceito contra os emigrantes que se dirigiram. as migrações interna e externa têm designações diferentes. Gilberto Gil. petróleo. N ã o credo haver aqui. A segunda fase do preconceito. como Gilberto Freyre: ou a recriação de uma cultura propriamente brasileira. ou para romancistas. dos c o r o n é i s . seus terreiros de candomblé foram valorizados como preciosidade cultural e documento vivo da presença africana nas A m e i icas. a c o s t u m a d a a se pensar a partir do afluxo de novos imigrantes e u r o p e u s . ainda assim. do progresso e do e m b r a n q u e c i m e n t o . c a c a u . cabeças c h a t a s . ou ainda nos anos 1 9 3 0 . Os estados que hoje c o m p r e e n d e m o Sudeste e o Sul formavam há muito uma região. raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 133 . Assis Valente. "a boa t e r r a " . "de mar.. para as áreas rurais e os c e n t r o s urbanos do sul. Chamam-se os que vieram do Nordeste de "migrantes". O estigma c o n t r a a Bahia amainara. incentivados pela nova política de industrialização nacional. t e v e moto próprio. "feitiço". C a e t a n o Veloso e tantos outros. Aos baianos se cola a imagem do pré-industrial e do pré-moderno em termos de costumes e de tempo: a manemolência. O que de melhor a civilização brasileira teria produzido. já no novo concerto das n a ç õ e s . da oligarquia. esses últimos perpetuam a saga h e r ó i c a dos colonizadores e bandeirantes. "desterr a d o " . principalmente. tal como a Bahia o fora: o Brasil da casa-grande. em b u s c a de emprego. P o u c o tempo depois da Segunda Guerra. homens e mulheres. em grandes levas. c o m e ç a m as reações contra o antilusitanismo e antibarroquismo dos progressistas. Para os poetas populares. p o r "imigrantes" entendem-se apenas os que vieram do estrangeiro — o u seja. " o berço do Brasil" passa a ser a encarnação de uma natureza pródiga. c o m o Ary Barroso. esse primeiro preconceito encontrou logo vários freios. esse. reservava o mercado de trabalho brasileiro a o s nacionais. Uma verdadeira restauração dos valores luso-brasileiros.

baseado na oposição barroco/moderno. O s migrantes brasileiros do Nordeste. na sua interpretação do crescimento da violência na c i d a d e . Nesse caso. é também possível que. cuja c o n d i ç ã o pode ser referida direta e descritivamente. apenas quando nordestino nordestinos. é o sentido primeiro. E possível ainda que os baianos que se dirigiram para o Rio fossem de c o r mais escura. I 999: 6 4 ) : " N o caso de São Paulo. ganhou características novas. vindo do C e a r á ou de outro lugar do Nordeste. esse sentido de " n o r d e s t i n o " foi preenchido pelo termo " p a r a í b a " . revela a força do regionalismo no Brasil. geralmente pobres. o d e s c o n t e n t a m e n t o de janistas e malufistas com o atual estado de c o i s a s n o plano da moralidade privada é. atraso e lentidão. Citarei apenas dois: Alba Zakuir ( 1 4 H : 5 3 . em São Paulo. Estes.. ou melhor contra aquilo que. nérico. prefere-se. republicano. o o u t r o brasileiro. N o R i o de Janeiro. culpam os nordestinos que passaram a morar no m e s m o bairro pela situação considerada insuportável e exigem p o líticos mais duros [. negando-lhe a naturalidade brasileira. baiano e ficaria reservado para uso nordestino? E m algumas situações. Será preciso mais investigação histórica sobre esse a s p e c t o . L pobres. e "nordestino". ela própria produto da imigração européia do c o m e ç o do século. que prevalece. A ofensa. A4as talvez não em todas. um preconceito contra os negros ou mulatos apenas. c n ã o nordestino. sendo esses últimos referidos pelo termo " p a r a í b a " . o problema desses bairros não parece ser apenas um retorno à comunidade mais fechada. no R i o . como negros e não apenas nordestinos. do crescimento do desemprego e da decadência econômica.vivéncia com os diferentes por c«<nta «. Ameaça à integridade da cultura paulistana (ou sulista). tendo o termo " b a i a n o " guardado seu sentido original de preguiça. numa boa escola paulista. um fato específico desses bairros q u e os diferencia de outros locais no que se refere à c o n s trução do medo e à resultante apatia social e política. pavor diante do aumento da criminalidade e da violência urbanas. e n q u a n t o que a migração baiana para São Paulo tenha sido mais propriamente de sertanejos brancos. medo da deterioração do padrão de vida urbano. entretanto. O fato é que. tendo sido mais facilmente absorvidos na p o p u l a ç ã o negra carioca. parecidas com a xenofobia européia moderna. Especulo de novo: baiano mais p e j o r a t i v o . antes. nascido ou não na Bahia. no c a s o . raças e democracia Direitos e avessos da nacionalidade 135 . e Flávio Pierucci i. N ã o se sabe. de atraso e luso-brasilidade incivilizada. o que. não ocorreu a fusão entre o sentido pejorativo. n ã o se dá essa sinonímia entre " b a i a n o s " e "nordestinos". Portanto. o mesmo tenha o c o r r i d o com os paraibanos. imigrantes p o b r e s e culturalmente inferiores. O ódio aos migrantes nutre-se do sentimento de medo e ameaça. certamente sim. além disso. Tal fato é registrado por vários autores. passa expressamente a significar o atraso. C r e i o se tratar. discrimina. de um preconceito contra os antigos " b r a s i l e i r o s " .4 ) : "As mudanças populacionais sobre o e s p a ç o físico da cidade tiveram efeito na construção do medo dos moradores da classe média. N o R i o .. Por que isso? E possível que na migração nordestina para São Paulo tenham prevalecido os baianos. em r e l a ç ã o ao R i o . em São Paulo e e m i x j a parte do Sul e Sudeste do país. por quem o reservado aos seus conterrâneos mais em sentido ge- Só recentemente. chamar esses novos imigrantes de M a s serão os dois termos intercambiáveis. um branco ou branca de classe média.] O ódio aos nordestinos parece ser. por si só. mas t a m bém um reforço da identidade racial e é t n i c a que nega a cor. de "baiano". que a l i m e n t a m as favelas e o desemprego. Tenho a hipótese de que. no entanto. são geralmente culpabilizados pela decadência ou pela deterioração do padrão de vida das cidades paulistas ou sulistas. ao contrário de S ã o Paulo. Assim. será preferencialmente tratado por baiano. o preconceito contra os " b a i a n o s " o u nordestinos. regressivo: 134 Classes. no B r a s i l fora até então considerado brasileiro.ios riscos que :sso implica". consiste em tratar por baiano.na escolha cio nome.

S : Ver Souza (2000: 1 36': "Gilberto teria s: ." (SI.. 4 ) um medo ou suspeita de que a raça subordinada almeje as prerrogativas da r a ç a dominante" (Blumer. (19. 136 Classes. m i n e i r o s . Para uma interpretação da gênese da idéia ( n ã o do termo) de "democracia racial" em Gilberto Freyre. o qual agiu como principal impedimento d a possibilidade de construção de uma consciência racial por parte dos negros" • Ver também Souza ( 2 0 0 0 a ) .. em São Paulo. umociü homônimo. quatro sentimentos estão . c sobravam arrogância e rivalidade. ver Elide Rugai Bastos ( 2 0 0 1 ) . p o r t a n t o . tanto sem teto.58: 4). 3) um sentimento de propriedade sobre certas áreas de privilégios e vantagens sociais. O PACTO E O M I T O 8 0 O niytho O mesmo é o nada que è tudo os céus e mudo. o que só tem feito prejudicar São P a u l o " .ebrap. um sentimento de que a raça subordinada é intrinsecamente diferente e estranha. c o n t r á r i o à ideologia racial brasileira. r a ç a s e democracia Democracia racial: o ideal. Esse tipo de preconceito. é t a m b é m muito parecido a o tipo de preconceito teorizado por B l u m e r 7 9 Ademais. D e v e m o s . A percepção de que São Paulo já saturou. Micbel Agier e Filia Schv. A começar pelo simples fato de a e x p r e s s ã o . une o velho preconceito regionalista à xenofobia moderna c o n t r a as minorias migrantes.*' não ser encontrada em suas o b r a s mais importantes e de não aparecer na literatura a não ser tardiamente. prepa ulo para o E n e aitro Anual da A X P O C S . principalmente contra baianos. usado pela U N E S C O ( M a i o . 2 . explícito e. e do texro. uma época de ouro (memória?) em que não havia t a n t o bandido.sempre presentes no preconceito raciai: " S ã o eies: 1) um sentimento de superioridade. suscita um tipo de insatisfação neo-regionalista que se expressa de várias maneiras. faltavam ó d i o e medo. .> o criador d>> conceito de 'democracia racial'. cunhados pelos cientistas sociais •— c o m o "sociedade multirracial de classes".existe. Caxambu. portanto. 5. novembro de 2 0 0 1 . de certo modo. "ios. ao que parece. que o s que chegam só fazem aumentar as hostes do desemp r e g o e da miséria. tos. por que empregar uma metáfora política para referir-se às relações sociais entre brancos e negros? P o r que tal loc u ç ã o passou a exprimir tão perfeitamente um p e n s a m e n t o que c o n c e i t o s anteriores. e portanto as taxas da delinqüência. atribuída a G i l b e r t o Freyre. sol que^abre brilhante E um mytho Fernando Pessoa O s estudiosos das relações raciais no Brasil ficam sempre intrigados com a origem e a disseminação do t e r m o " d e m o c r a c i a r a c i a l " . D E M O C R A C I A RACIAL: O IDEAL. um t e m p o . 2001 • Agradeço .. na memória dessa gente. nos anos 1 9 5 0 . inclusive no protesto c o n t r a a ausência de uma política migratória em nível federal. O m o d e r n o preconceito contra os nordestinos. A rejeição a o s ' b a i a n o s ' é função direta da amplitude do medo: cresce na medida e n o ritmo do crescimento real (mas s o b r e t u d o no do a u m e n t o imaginário) da insegurança. mo nome publicado em Kavos Estudos pp. o pacto e o mito 137 . t a n t o drogado. que já não há mais lugar. 1 9 9 7 ) — foram incapazes de expressar? Essas são algumas das indagações que procuro responder neste artigo. s ' ' Fste texto é uma versão mais completa •• revista do artigo do mesí'. em sua imagin a ç ã o . distingui-lo do preconceito bem-humorado. Elide BasSegundo esse autor. durante anos. paulistas e portugueses. muito virulento. a identificação desse tempo com a inexistência de m i g r a d o s nordestinos. que a l i m e n t o u . a crônica jornalista c a r i o c a de estereótipos raciais.« Antôn • Flávto Pierucci. A este ú l t i m o .arez peios coment. empregado por Pierson ( 1 9 4 2 ) ou " r e l a ç õ e s raciais harmoniosas". 1958: 4 ) . E existe. nacionais e regionais. 14~-ò2.

em 1 9 5 2 . cuja sobrevivência m a n c h a v a a consciência de liberais corno N a b u c o . a servir de lição e modelo para outros povos de formação étnica c o m p l e x a conforme é o nosso c a s o " ( 1 9 5 0 apud 1968: 67). da antropologia. nomeá-la assim. Na verdade. G i l b e r t o Freyre. Paulo em 3 1 de março de 1 9 4 4 . 1 9 4 7 : 7 8 ) . p r i n c i p a l m e n t e nos Estados Unidos e na E u r o p a . remonta a sua crença num s u p o s t o caráter ibérico da civilização mando. o uso primeiro parece c a b e r a Charles Wagley. A IDÉIA D E U M PARAÍSO RACIAL A idéia de que o Brasil era uma sociedade sem "linha de c o r " . Mais ainda: a disseminação e aceitação polnca da expressão "democracia racial" p o d e surpreender os mil "antes de hoje. usou a expressão sinônima — "democracia étnica"—.'os anos 1 9 . busquei primeiramente traçar a cronologia de cunhagem do termo "democracia r a c i a l " . ademais. A o r i g e m da idéia de democracia em Freyre. raças e democracia Democracia racial: o ideal.. Tal idéia. para referir-se à catequese jesuíta: "[. desde o início da c o l o n i z a ç ã o do Brasil. a expressão de Freyre parece datat de n o v e m b r o cie 1 9 4 3 . já desvendada por Elide Rugai Bastos brasileira. Na literatura acadêmica especializada. tendo sido ela de uso corrente no movimento negro . está se transfor(1001). em Apipucos. Gilberto Freyre ( 1 9 6 9 [ 1 . Teria Bastide c u n h a d o a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente. 1 9 5 2 ) . tendo-a conservado. 1 9 3 6 ) não pode ser responsabilizado integralmente. e da sociologia. no mais das vezes.Sem ter consultado sistematicamente documentos ou jornais da época. 9 3 3 ] . no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre. ou seja entre setembro e dezembro. t r a t a . mas a síntese do pensamento de toda uma época e de toda uma geração de cientistas sociais. Ao que parece o termo foi usado pela primeira vez por Roger Bastide num artigo publicado n o Diário de S. no outono de 1 9 4 4 . ceu lugar à c o n s t r u ç ã o mítica de uma sociedade sem p r e c o n c e i tos e discriminações raciais. europeus e brasileiros. bem antes do n a s c i m e n t o cia sociologia. patrocinados pela U N E S C O : Wagley. no entanto. com um significado bastante peculiar. quando se refere à tradição democrática baiana. em sua fala inaugural ao ! Congresso do Negro B r a s i l e i r o . dizia em agosto t e 1 9 5 0 : "Observamos q u e a latga miscigenação praticada como imperativo de nossa formação histórica. A o que parece. i 0 . era já uma idéia bastante difundida n o i i undo. Abdias do Nascimento. Wagley introduziu na literatura vibre "relações r a c i a i s " a expressão que se tornaria n ã o apenas célebre.] mas o seu sistema excessivamente paternalista e mesmo a u t o c r á t i c o de educar os índios desenvolveu-se às vezes em o p o s i ç ã o às primeiras tendências esboçadas no Brasil n o sentido de uma democracia étnica e social" (Freyre. em suas conferências na Universidade do Estado de Indiana.s c de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. ainda que fosse o inspirador da "democracia racial". p o r e x e m p l o . mas concentrando-me na produção jornalística e a c a dêmica de alguns intelectuais pioneiros no estudo das "relações raciais". escrevia W a g l c v . no Brasil m o d e r n o . " O Brasil é r e n o m a d o mundialmente p o r sua democracia racial". o pacto e o mito 139 . 133 Classes. unia s o c i e d a d e sem barreiras legais que impedissem a ascensão social dc pessoas de c o r a cargos oficiais ou a posições t e riqueza o u prestígio. na " I n t r o d u ç ã o " ao primeiro volume de uma série de estudos sobre r e l a ç õ e s raciais no Brasil. numa bem delineada doutrina de democracia racial. n e m pelas idéias nem pelo seu rótulo. Como veremos adiante. p o r inspiração e imposição das últimas conquistas da biologia. era tida pelos a b o l i c i o n i s t a s americanos. Mais ainda: a escravidão mesma. Como é sabido. evitou. <-u seja. c o m o veremos em seguida.. no e n t a n t o .

sua falta de instrução e seus costumes a r c a i c o s . Democracia guarda seu sentido puramente político. ideológicos e políticos. a expressão "demo- do país. formado e m 1 9 4 4 . no qual o valor e o mérito individual n ã o seriam empanados pela pertença racial ou pela cor. incorporadas pela Segunda Repúblic a . reafirmando a crença generalizada n u m país sem preconceitos o u discriminações raciais. em 1 8 6 7 . do modo injusto. Em sua " M e n s a g e m aos negros americanos". em nosso orgulho.) A América democrática e protestante faria bem em aprender a lição de justiça e liberdade vinda do Brasil católico e d e s p ó t i c o " (apitd Azevedo. M a s não vai além disso. na verdade. buco. entre 1 9 1 0 e 1 9 4 0 . essa utopia não será posta em dúvida. está envolta numa teia de significados muito específica. de que se ressentem os negros. Incorporadas no sentido de que funcionarão livremente. no Bra_síl. segundo a qual "o que facilitará singularmente a transição [para o trabalho livre] no Brasil é que lá n ã o existe nenhum p r e c o n c e i t o de raça". pelo menos de imediato. Roger Bastide empreende em 1 9 4 4 a sua pr meira viagem ao Nordeste brasileiro. 8 2 cracia racial".c o m o mais humana e suportável.. como responsáveis pela Mtuação de "degenerescência" dos negros. em Nova York: " M e s m o um país católico c o m o o Brasil — um país que nós. O " I T I N E R Á R I O DA D E M O C R A C I A " D E R O G E R BASTIDE A história da expressão de que estamos tratando começa um p o u c o antes do fim da Segunda Guerra. M a n o e l Passos (1942). ajudar un a (ormar a sua primeira percepção das relações raciais n o Bi isil. quando surgem novas organizações negras. b á r b a r o e escandaloso c o m o nós tratamos. numa palestra em 1 8 5 8 . raças e democracia Democracia racial: o ideal. (. para o período pós-abolicionista. (apud Azevedo. teferindo-se tão-somente à forma de g o v e r n o . presidente da União Nacional dos H o m e n s de C o r . Célia Azevedo registra ainda a opinião d o francês Quentin. em 1 9 4 5 . prefere. Hellwig ( 1 9 9 2 ) alinhava u m a série de artigos escritos por afro-americanos. As impressões recolhidas nessa viagem. no trato dado aos h o m e n s de cor. André Rebouças e outros sobre o caráter das relações raciais no Brasil. O Teatro Experimental do N e g r o ( T E N ) . Fernandes (1965) explora a lógica própria ao "preconceito de c o r " . além de mais recente. estigmatizamos como s e m i b á r b a r o — não trata as suas pessoas de cor. N o s anos 1 9 3 0 . Essas im- s -' Bastide e Fernandes (1955) se referem a tal fenôrr mo como "puri- S 2 V e r Azevedo (1994) sobre a opinião de R u y Barbosa. Até mesm o o "preconceito de cor". Douglas contrasta a d e m o c r a c i a e o senso de injustiça americanos. livres ou escravas. pois. 1 9 9 6 : 1 5 5 ) . N ã o usa a palavra " d e m o c r a c i a " para referir-se a relações 'ociais. 140 Classes. por um lado. por o u t r o lado. quando se organiza pela primeira vez o mov i m e n t o político negro no Brasil — a Frente Negra Brasileira —. com o despotismo e a justiça brasileiros. é sem dúvida a principal dessas organizações. por e x e m p l o .k-Esta autotlageiação só será revertida com a democratização Célia Marinho de Azevedo ( 1 9 9 6 ) registra a intervenção de Frederick Douglas. de certo modo. Joaquim Na- tanismo negro".. E verdade que na fala transcrita a c i m a . 1 9 9 6 : 1 5 6 ) . muito influenciadas pela leitura de Freyre. salientar o abandono a que está relegada a população negra. justamente pela ausência dessa linha de c o r . o pacto e o mito 141 . as quais serão. D o mesmo m o d o . além de influenciarem a vida nacional em termos culturais. é parcialmente atribuído à fraqueza moral das populações negras. O s historiadores fazem bem em tratar essa utopia como o " m i t o d o paraíso racial".

raças e democracia Democracia racial: o ideal. para Amado. o pacto e o mito 143 . Bernanos. sobre o o m b r o de um empregado de escritório. População de mestiços. pela primeira vez. O veículo estava cheio de t r a b a l h a d o r e s de volta da fábrica. ordem que seria baseada n a ausência de distinções rígidas entre brancos e negros. 2 0 0 0 ) . no Rio de J a n e i r o . O Brasil encontra-se alinhado aos Estados Unidos. respectivamente. pelas ondas da BBC de Londres. o decisivo. Salvador e Recife. O mundo está então dividido entre a democracia e o fascismo. produto de suas visitas a Bernanos. dedicado a o encontro com Jorge Amado em Salvador. Reconstituamos a cena: "Regressei para a cidade de bonde. que ajudara a organizar a resistência francesa a partir do R i o . no R i o . para nós. não se resume aos proletários. através das conversações. um preto exausto pelo esforço do dia. que o p o v o . E isso constituía uma bela imagem da democracia social e racial que Recife me oferecia no 142 Classes. enquanto a França continua ocupada pelas tropas alemães. Bastide colabora então regularmente com a imprensa diária paulista e de outros estados brasileiros. m a s considerado como alegria de festa. nesse artigo. o comunista que luta pela liberdade. 2 4 e 3 1.94. GrãBretanha e Rússia na guerra contra o Eixo. dedicado ao e n c o n t r o com Gilberto Freyre. teria lhe ensinado a lição de que a d e m o c r a cia "é igualmente o n a s c i m e n t o de uma cultura". Em março de 19. Mas. Jorge Amado. coberta de suor e adormecida. numa enorme e amistosa confusão de braços e pernas. engajando-se em fértil diálogo com o mundo artístico e intelectual local (Peixoto. O segundo artigo. Bastide reflete sobre a ordem sócia! própria à democracia brasileira. cristão militante. sobre algo mais concreto: a constituição do povo e da cultura popular.pressões serão modificadas apenas nos 1 9 5 0 . serve de p r e t e x t o para Bastide explorara idéia universal de democracia representativa. mas pelo fato deste. teria uma compreensão eminentemente moral da d estendendo-a para além da idéia de direitos civis. Bastide publica no Diário de S. Bastide nos explica que essa fora "uma viagem ideológica. que o separa do b r a n c o . de brancos e pretos fraternalmente aglomerados. a uma categoria e c o n ô m i c a . de J o r g e A m a - do. "onde ele mostra c o m o pouco a pouco o negro. no Recife. O encontro com Bernanos. No terceiro e ú l t i m o artigo da série. a expressão " d e m o c r a c i a racial". em seguida. como numa c a r í c i a . volta-se para o sindicalismo que o agrega a seus companheiros de trabalho. Perto de mim. na qual cada grande capital visitada constituía c o m o que uma etapa neste caminho da ideologia democrática" (Bastide. 1 9 4 4 ) . sem dúvida. N o primeiro desses artigos. Bastide ( 1 9 4 4 a ) começa o arti- go com uma rápida referência ao romance Jubiabá. amontoados uns sobre os outros. apertados. os sujeitos e a forma estética da democracia brasileira. versa. nos dias 17. como criador de valores estéticos. Paulo uma série de artigos que intitula "Itinerário da democracia". Jorge Amado e Gilberto Freyre. muitas vezes a mais saborosa de todas as c u l t u r a s " . é que Bastide inclui o Brasil no rol das nações democráticas não pela obediência a certa ética pública ou mesmo pela garantia ao exercício de liberdades civis. deixava cair sua c a b e ç a pesada. ao engajar-se na guerra c o n t r a o fascismo na Europa compartilhar uma certa "concepção da vicia e da dignidade do homem" (Bastide. 1 9 4 4 ) . o funde numa comunhão que ultrapassa a raça para darlhe uma outra mentalidade que é a classe". patrocinada pela U N E S C O e pela Revista Anbembi. a partir do momento em que Bastide se engaja c o m Florestan Fernandes numa pesquisa de campo sobre "brancos e negros em São Paulo". no lugar de procurar uma c o m p e n s a ç ã o para o seu labor cotidiano na mística. fixando-o numa tradição africana. E nesse c o n texto que aparece. no sentido da ética da ação política. mas se expressa na alegria da festa: "O povo é o c o n j u n t o dos proletários. Bastide argumenta. como mantenedor de uma certa cultura. que misturavam seus c o r p o s fatigados aos dos passeantes que voltavam do parque dos Dois Irmãos. um branco que ajeitava cuidadosamente suas espáduas de maneira a r e c e b e r esta cabeça como num ninho. ao c o n t r á r i o .

1 9 8 8 ) . " S o c i a l " . que se manifestaria espontaneamente nas artes. V e m desse vínculo comum a coiib -rmidade de pontos de vis- No pós-guerra. o pacto e o mito 145 . u m a a r m a poderosa de incorporação d o s mestiços — mulatos. tornando-a passageira e reversi- Para ilustrar o ideal de sineretismo ao meio negro. Os que estavam no T E N pertenciam à mesma geração nacionalista que reinventou a nacionalidade brasileira. cada vez mais. A p r i n c í p i o . n" . S 4 em detrimento do c o n c e i t o biológico de "raça". que a democracia brasileira. s i m b ó l i c o e ideológico da nação (incluindo aí a reivindicaç ã o de direitos civis e sociais). entretanto. tal como nos Estados Unidos. 84 mas com o correr d o tempo ganhará. é que B a s t i d e . e ademais decisivo. junho de 1 9 4 9 i . mais p r ó x i m a do senso comum e dos sentidos "nativos". inspirada em Freyre e Amado. Tal referência à mistura social e à miscigenação entre b r a n c o s e negros como "racial" mostra c o m o era artificial a pretendida abolição (acadêmica) das raças. culruralmente "africana". ao contrário de F r e y r e . p o r t a n t o . para aí incluir o negro. Maués (1 9 8 8 : (ano I. E preciso também lembrar que o T E N foi gerado no ambiente de crítica a o Listado Novo e de mobilização intelectual para a c o n s t r u ç ã o de u m a ordem democrática mais inclusiva. uma essência negra. será a de negar o caráter irreversível da inferioridade intelectual. 92 i a t a um texto do jornal negro O Quilombo que justifica o c o n c u r s o da Rainha das Mulatas como sendo "uma iniciativa em prol da v a l o r i z a ç ã o estética e social das t]ualidades mestiças de nossa civilização". raças e democracia Democracia racial: o ideal. será a "democracia r a c i a l " e não "democracia é t n i c a " que prevalecerá. por um l a d o . a grande novidade que representou a vulgarização do c o n c e i t o cie " c u l t u r a " . na passagem crepuscular do arrebalde p e r n a m b u c a n o " (Bastide.-DEMOCRÁTICO do. t a m b é m "africano". N ã o o de negar tal inferioridade. que o s c i l a entre a busca da superação das práticas culturais ditas " a f r i c a n a s " e "retrógradas" da p o p u l a ç ã o negra brasileira. representará. cunhado pelas ciências sociais. é antes de tudo "social e racial". O T E N atuará n o sentido de ampliação desses espaços. não pode ser reduzida a direitos e liberdades civis. européia e puritana. perdendo talvez o seu caráter de imutabilidade — . livre e festiva. p a r d o s . nos 1 9 4 0 e 1 9 5 0 . a desmoralização d a idéia de raça não significará o fim imediato dos estereótipos que atingiam a p o p u l a ç ã o n e g r a — estes se manterão r a z o a v e l m e n t e intactos. Seria. o negro brasileiro.l a . A democracia a que Bastide se refere. tal c o m o Bastide a pensa em 1 9 4 4 . Vê-se. m o r a l e psicológica dos negros.meu c a m i n h o de regresso. por outro lado. num sentido muito preciso. N o nível d o senso comum. na representação que dele fazem os seus líderes. mas construído uma forma original de cultura miscigenada. de emotividade e expressividade. isto sim. Muito interessante. e. c o m o por u m a economia e sociologia propriamente brasileiras. F o i essa também a geração que propugnou não apenas por um desenvolvimento econôm co e social auro-sustenta- O C O N S E N S O RACIA1. antes. de criação e convívio miscigenaclo.?. 1 9 4 4 b ) . que nada tem a ver c o m os direitos sociais a que se refere Marshall ( 1 9 6 5 ) . 144 Classes. mas alcançaria uma região mais sublime: a liberdade estética e cultural. seu povo e sua cultura (Tavares. vel. a afirmação de um certo ethos negro. principalmente morenos — a o s espaços econôm i c o . Por isso tem r a z ã o M a u é s (1988) ao notar a ambigüidade do discurso tecido pelas principais lideranças do T E N n o s anos 1 9 4 0 e 1 9 5 0 . c o n t i n u a r á sendo culturalmente mestiço e híbrido. senão de transferi-la para o p l a n o da cultura. ao referir-se a essa ordem use o adjetivo "racial" para d e n o m i n á . mesmo depois de reconhecer a evolução da "raça" para a " c i a s s e " . a constituição de uma o r d e m social em que a "raça" teria evoluído para a "classe". a sua evolução para "classes" e a regra acadêmica de tratá-las c o m o " e t n i a s " . Na linguagem d o s j o r n a i s e da política. mas na qual o " p o v o " daí resultante não teria c o p i a d o a expressão cultural pequeno-burguesa.

em 13 de maio de 1 9 5 5 . nos anos 1950.<b positiva. a confe- rência foi proferida em 1943. e o discurso sobre a participação do negro na sociedade brasileira. falar em democracia racial significava afirmar o direito pleno a algo que não havia ainda se materializado. em algumas matérias. pertence à zona de coincidência de pensamento a que estou me referindo. de alguns restos de d i s c r i m i n a ç ã o " . N o caso que nos interessa mais de perto aqui. em democracia racial tout court. econômica. M a s tal conformidade se rompeu em dois pontos capitais: a apropriação c reinvenção da "cultura afro-brasileira" pelos antropólogos e artistas " b r a n c o s " . na qual se realizaria plenamente a d e m o c r a c i a racial. M a s . social. Paulo Prado. Assim. a noção de "democracia" é centra] no léxico político brasileiro (Tavares. raças e democracia Democracia racial: o ideal. N a verdade. o pacto e o mito 147 . a crítica aos intelectuais " b r a n c o s " que negavam a existênc:. socialista. são duas as principais t e n s õ e s a crítica ao exotismo negro que seria cultivado pelas ciências s* veiais. 146 Classes. e com eles recrudescem a guerra fria c o anticomunismo. o Teatro Experimental do Negro reitera a opinião da mencionada fala de Nascimento (1950). M a u é s ( 1 9 8 8 ) chama-nos a atenção para algumas dessas coincidências. Para os movimentos negros. ficava como promessa cujo fado se cumpre ao prometer. já tínhamos um legado de d e m o c r a c i a racial desde a Abolição. 1 9 6 8 : 5 6 ) . transformamse. pois marca o afastamento destes seja da ditadura varguista. ou a "democracia social e racial" como disse Bastide. . algo que atinge seu ápice nos 1960: d e m o c r a c i a política. através dos adjetivos. já c o m e ç a a ser adjetivada..ricos unidos na luta antifascista. Ela tem um poder semântico do qual nenhum grupo político pode prescindir. F preciso que se note a ambigüidade no emprego deste termo. seja do fascismo e do nazismo derrotados na Segunda Guerra. Ao contrário de lá. como veremos adiante. das considerações: "considerando que o Brasil é unia comunidade nacional onde tem vigência os mais avançados padrões de democracia racial. A expressão também aparece no item 5 da declaração: "[. ao lado de conceitos c o m o " p o v o " e "nacionalidade". em 1 9 4 4 . pensavam scbolars tantes. o seu aspecto conservador ficava por conta de que tal igualdade. entre nós. E justamente em torno da utopia de uma Segunda Abolição. São os agrupamentos polí- Ver Freyre (1944: 30).. A medida.. mas que se poderia reivindicar a qualquer m o m e n t o — nisso residia o seu lado progressista. pois não representara a integração econômica e social do negro à nova ordem capitalista: t a n t o para a geração dos 1 9 3 0 (a Frente Negra Brasileira. não consubstanciada cm termos de oportunidades de vida. na qual se lê no parágrafo /.. seria necessária uma segunda A b o l i ç ã o . ainda prevalece o consenso democrático.] possam contribuir para a preservação das sadias tradições da democracia racial no Brasil [.ta. em 1 9 4 3 . Portanto. étnica e (por que não?) racial. acirra-se também a crítica da esquerda à d e m o c r a c i a representativa e cresce em seu seio a idéia de democracia c o m o mistificação formal e ideológica. ao menos c o m o ideal. porém. cooperativista. a democracia "social e étnica" de que falava Freyre. D o ponto de vista dos negros.. numa D e c l a r a ç ã o de Princípios. T 8 5 . que os anos avançam. especialmente por parte dos negros: por um lado. e m referência die milireta aos conflitos raciais que c o m e ç a m a rasgar o racismo legal dos Estados Unidos. apesar da sobrevivência. Embora i publicação seja de 1 9 4 4 . A d e m o c r a c i a . A crença na democracia racial. que se dá a mobilização política dos negros. q u e procuram agora se diferenciar e traçar. por exemplo. entre os intelectuais do T E N e os intelectuais nacionalistas como Florestan Fernandes. 1 9 8 8 ) . a sua trajetória particular. a abolição não fora completa. em meado dos anos 1 9 5 0 . a o encerrar a "Semana de Estudos sobre Relações de R a ç a " . entretanto. entretanto. havia diferenças entre a intelectualidade negra rebelde e o establishnient cultural da Segunda República. quanto para a geração dos 1950 (o T F J \ ) . nos 1 9 5 0 . em particular a discussão sobre a existência ou n ã o do preconceito racial no Brasil. ao lado do consensi • sobre a democracia racial.: do preconceito racial no Brasil e a necessidade de uma Segunda A b o l i ç ã o .]" (Nascimento. Gilberto Freyre e os escritores regionalistas.

86 A atitude de Bastide e Fernandes já existia. Entretanto. De fato. de tipos regionais. c o m o veremos em seguida. no Brasil. Isso porque Bastide e Fernandes como que não aceitavam a conclusão de Wagley. na prática dos intelectuais negros. c o m o Abdias do Nascimento c Guerreiro Ramos. 1 9 5 5 : 123. Gilberto Freyre foi o primeiro a retomar a velha utopia do paraíso racial. de fato. assinado pelo Diretório dos Estudantes da Universidade S 6 Para u m a análise detalhada d o q u e : o r a m os estudos patrocinados p e l a U N E S C O no Brasil d o s anos 1 9 5 0 . Bastide e Fernandes não vêem problemas em conciliar a realidade do "preconceito de c o r " a o ideal da "democracia r a c i a l " . dizia-nos um branco. por e x c e s s o de trepidação ou inquietação de conteúdos" (Freyre. galvanizou o debate em torno dessas divergências. culminaram. tratando-os. m e s m o que polarizasse o seu significado. "democracia racial" significa um ideai de igualdades de direitos e não apenas de expressão cultural. ao contrário do que acontece em muitos outros país e s " (Wagley. em Sobrados e mucambos. 1 9 3 6 : 3 5 5 ) . Nota-se. "em todo seu imenso território semi-continental a discriminação e o preconceito raciais estão sob controle. cara ao senso comum dos abolicionistas. no Recife. temos preconceito de não ter preconceito. c o m o prática e norma sociais. as quais podem ter existências contraditórias. acunhagem da expressão '"democracia é t n i c a " . F m Bastide dos anos 1950. grifos e colchetes meus). E esse simples fato basta para mostrar a que ponto [o preconceito racial] está arraigado no nosso meio social'. a tística e popular. Freyre chega mesmo a retomar as imagens de "aristocracia" e " d e m o c r a c i a " para contrastai a rigidez da organização patriarcal e a flexibilidade das relações entre raças: "Até o que havia de m a i s renitentemente aristocrático na organização patriarcal de família. trata-se de um alargamento Lia n o ç ã o de "democracia social e étnica" de Gilberto Freyre. Rapidamente a discussão se polarizou em torno da existência ou não do "preconceito racial" no Brasil. assim. respectivamente. Em 1 9 3 6 . dando-se uma espécie de despedaçamento das formas mais duras. M u i t a s respostas negativas [que dizem não haver preconceito racial no Brasil] explicam-se por esse preconceito de ausência de preconceito. por esta fidelidade do Brasil ao seu ideal de democracia racial" (Bastide e Fernandes. que justificavam seus objetivos políticos de desmascaramento da discriminação racial e de desrecalque da "massa negra" em termos daquele ideal. Ou seja. de economia e de cultuta foi atingido pelo que sempre houve de contagiosamente d e m o c r á t i c o ou democratizante e até anarqiuzante. A "DEMOCRACIA S O C I A L E ÉTNICA" E A DENÚNCIA D O " M I T O DA D E M O C R A C I A RACIAL" Na sociologia moderna. Bastide escreve: "'Nós brasileiros. não c o m o algo que existisse c o n c r c t a m e n t e . surge no c o n t e x t o da sua miütância contra o integralismo.O projeto sobre relações raciais no Brasil. que o debate acerca da existência ou não do preconceito racial no Brasil ainda n ã o punha em causa o consenso s o b r e a "democracia racial". Seguidas agressões a Freyre. mas apenas como um padrão ideal de comportamento. ver M a i o ( 1 9 9 7 ) . 1 9 5 2 : 7 ) . de cunho integralista. num contundente manifesto. 148 C l a s s e s . Bastide e Fernandes tratavam a "democracia racial" a que se referia Charles Wagley. por Gilberto Frevre. dando-lhe uma roupagem científica. concomitantes e n ã o necessariamente exrludentes. segundo a qual. no a m a l g a m e n t o de raças e culturas e. ou menos plásticas. o p a c t o e o m i t o 149 . em setembro de 1 9 4 3 . Ao contrário. que a UNESCO patrocinou entre 1 9 5 2 e 1 9 5 5 . raças e democracia Democracia racial: o ideal. até certo ponto.

A « : m c o m o para as gerações literárias espanholas de H9$ ou í <•) i 4. nu Rec::'e.h r a s i l e i j p r o f e r i - da por Freyre em 1 9 4 0 no Gabinete Português de Leitura. raças e democracia Democracia racial: o ideal. v A mobilização Junta-se à tensão da guerra na Europa a tensão regionalista. ilustra tais tensões regionais e nacionalistas. em que a idéia de democracia está intimamente ligada a idéia de direitos civis e individuais. inseparável da democracia social. falar ce " d e m o cracia étnica" ou " r a c i a l " poderia até nos levar a assobiar tais x Gilberto descreve assim o clima vivido por ele no Recife dos anos expressões aos direitos de representação e autenticidade de m i n o rias étnicas ou raciais. m i s t u r a d o . 150 Classes. Isso fica m e l h o r explicitado no trecho abaixo: "Nesse sentido a recente demonstração de ener- gia cívica da B a h i a . M a i s que isto: tudo que não é genuinamente luso-brasileiro.de Direito do Recife. E sem d e m o c r a c i a social. Gilberto leu a primeira de suas conferências na Faculdade de Medicina da Bahia. para uma visita a Salvador. ao racismo nazi-fascista. Elide Rugai Bastos ( 2 0 0 1 ) pode nos elucidar o sentido e x a to de "democracia social e étnica" em Freyre. inclusive o da h i s panidade'" (Freyre. respondendo aos estudantes baianos que organizam os eventos cm desagravo a tais ataques: " N ã o se trata de desagravo nenhum. de democracia étnica. o segundo. oportunidade em que lhe seriam prestadas diversas homenagens de desagravo. 1 9 4 4 : 3 0 ) . mas por sherloks-mirins a serviço n ã o só de nazistas indígenas como de jesuítas estrangeiros tão inimigos da água quanto do Brasil e do próprio clero brasileiro" (Freyre. Entre estas. favorecidas e estimadas pela o r g a n i z a ç ã o social e da criatura — que pode ser senão um artifício a simples democracia política?" (Freyre. boletins anônimos. para definir-se o conteúdo " s o c i a l " da democracia brasileira. sem democracia étnica. : Observe-se que " d e m o c r a c i a " deixa de ser contrastada a "aristocracia" e passa a sê-lo a o "fascismo". logo secundada por várias instituições baianas. no dia 2 6 . Pois a pal. O convite foi aceito em novembro do mesmo ano e. N a d a mais contrári-> a Freyre. : 1 9 4 0 . Em seu elogio à Bahia e à matriz luso-brasileira de sua cultura. Nos dias de h o j e . 88 das forças democráticas e de esquerda em defesa de Gilberto foi imediata. pixamento dos muros da casa de minha família com palavras obcenas pintadas não por mulcques afoitos de rua. Marca bem o início de um período novo na história da culrura brasileira. que convidou Freyre. que tenta_dcsmoralizádo. de seu matriarcado e de sua fecundídade política e intelectual: o imperialismo da democracia sobre trechos do Brasil ainda indecisos entre essa tradição genuinamente nossa e o racismo violentamente anti-btasileiro. estava a União de Estudantes da Bahia. esse caráter [ibérico• responsável rela 8 8 A conferência " U m a cultura ameaçada: a l u s o . sem d e m o c r a c i a e c o n ô m i c a . sua magnífica ostentação de espírito político preocupado não apenas com o estreito destino da Bahia estadual mas do vasto mundo brasileiro que no R i o Grande do Sul se denomina compreensivelmente Baía. "cm Gilberto. o primeiro. é visto c o m o um perigo para a jovem democracia brasileira.ivra 'desagravo' só faria dar a honra de agravo à insignificante campanha contra mim num Recife amedrontado c o m o o de hoje: ameaças de agressões na impossibilidade de se repetir a prisão do ano passado que encontrou reação inesperada. creio que ficará histórica. o fascismo sob disfarces sedutores. o nazi-jesuitismo. admitidas. sem democracia sócio-psicológica — a dos tipos que se combinam livremente em expressões novas. o pacto e o mito 151 . diz Gilberto: "Encontram-se aqui [na Bahia] esses resultados num clima em que n e n h u m a região do Brasil é mais doce. A velha 'Virgínia do Império' se levanta com um novo senrido imperial de sua força. de caráter universal. ao antibrasileirismo. 1 9 4 4 : 8 0 ) . sinerético. à tradição brasileira. 1 9 4 4 a ) . O primeiro termo é associado ao anti-racismo e o segundo.

e mesmo avesso a ela. 1 9 4 0 : 5 1 ) . social e étnica. Flenrique. nas diversas oportunidades em que tratara. já que evocava uma c o n t r a d i ç ã o em seus termos. tanto se opõe Sem ter cunhado a expressão. vindo ouvir a palavra de quem. n o s anos 1 9 4 0 e 1 9 5 0 . Freyre não usa tal expiessão senão em 1 9 6 2 . Freyre forja a idéia de "democracia social" ainda nos anos 1930. e reelaborado por Guerreiro Ramos e Abdias a o Nascimento (Bastide. particularmente o conceito de "negritude". quer no Brasil ou em Portugal. essencial. Nos textos desses anos. no Brasil. de medidas sociais e políticas universais. 1 9 6 2 ) . pois as mesmas não caberiam em uma sociedade marcada pela heterogeneidade. em 1 9 6 1 . portanto. pouco me preocupa a política" (Freyre. sociopsicológica. estrangeira sobre os negros brasileiros. adepto da 'vária c o r ' camoneana. participam este ano. justifica a não adoção. Para usar as suas palavras. normas de povos estritamente europeus — e o Português. O u seja. cunhado por Aime Cesaire. não e povo estritamente europeu — c o m não-europeus. Km discurso no Gabinete Português de Leitura. Principalmente c o m os das Africas negras e mestiças marcadas pela presença lusitana" (Frevre. Freyre adjetivou de diversos modos a democracia. dirá Freyre: " M e u s agradecimentos a quantos. seguir. trata-se de "democracia social. quando no auge da sua polêmica defesa do colomalismo português na África. 152 Classes. estes regimes seriam democráticos. contra todas as semelhanças e simpatias dos regimes autocráticos de Vargas e de Salazar com o fascismo. leva a que a democracia política passe a segundo plano. já a g o r a arcaicamente. econômica. í^fí 1). posto que promovem a integração e a mobilidade social de pessoas de diferentes raças e culturas. no contexto de exposição d o luso-tropicalismo: "Mais cio que nunca saberá de certo o Português conservar-se fiel às inspirações henriquinas. Sua linha de argumentação apója-se no fato de que a cultura luso-brasileira é não apenas mestiça. no Rio de Janeiro. em vez de procurar. S o b t e tudo com os do Oriente e os das Africas Portuguesas. da comemoração do Dia de C a m õ e s . raças e democracia Democracia racial: o ideal. o pacto e o mito 153 . c o m o recusa a pureza étnica. à mística da 'negritude' como ao nrito da 'branquitude': dois e x t r e m o s sectários que contrariam a já brasileiríssima prática da democracia racial através da mestiçagem: uma prática que nos impõe deveres de particular solidariedade c o m outros povos mestiços. põe-se o desafio de traçar a inserção luso-brasileira no concerto das nações democráticas. Freyre mantevese relativamente longe da discussão enquanto a idéia de " d e m o cracia racial" p e r m a n e c e u relativamente consensual. da presença negra e da democracia brasileira. Seria um desvio perigoso de tradições vindas dos dias daquele príncipe e desenvolvidas principalmente no Brasil: um Brasii tão henriquino no seu desenvolvimento em democracia étnica e em democracia social" (Freyre. pela sua presença. fala em "democracia é t n i c a " . mas grandemente responsável pela legitimação científica da afirmação da inexistência de preconceitos e discriminações raciais no Brasil. Mais ainda. uma vez substituída pela democracia étnica/social. seja c o m o Antes disso. Do ponto de vista "social". contra o fato patente da ausência de democracia política. c no bojo da construção teórica do que chamara de luso-tropicalis:no. quer trate de assuntos políticos.harmonia social. ele fala em democracia política. caracterizada por uma formação não tipicamente ocidental" (Bastos. naquelas relações. característica dos regimes fascistas e nazistas da Itália e da Alemanha. julga conveniente atacar o que ele considerava c o m o influência. Apenas a partir de 1943 e 1 9 4 4 . quero dizer. naquele ano. Leopold Senghor. 2 0 0 1 : 6 2 ) . humana. PYanz Fanon e outros. retomando a e x p r e s s ã o . c o m o vimos. 1961). sobretudo depois de D. Quanto à "democracia r a c i a l " . mas nunca c o m o "racial". quer trate de temas culturais e nacionais.

de F r e y r e de que a "democracia racial" já estava plenamente realizada no plano da cultura e da mestiçagem. Florestan faz uma conferência n o Curso de Introdução ao T e a t r o Negro sobre o mito da democracia racial. 10 s " Sobre mestiçagem. a favor de afroracistas. 1 9 6 2 ) . seja c o m o p a d r ã o ideal de relação entre as raças no Brasil. A integração classes-. 8 y N u m a época de tantos e diversos tipos de democracia — política. ou estão sendo mistificados quanto ao afroracismo. c o m o um fator de democratização da riqueza. as circunstâncias histórico-sociais apont a d a s fizeram com que o mito da ' d e m o c r a c i a racial' surgisse e fosse manipulado c o m o c o n e x ã o dinâmica dos mecanismos societários de defesa dissimulada de atitudes. ao modo brasileiro — fere o Brasil. para u s a r m o s as palavras de Freyre. da formação nacional. tratará a "negritude" c o m o um mito ou mística racial: "Palavras que ferindo o que Angola t e m de mais democrático — a sua democracia social através daquela mestiçagem que vem sendo praticada por numerosos luso-angolanos. e torna ridícula — supremamente ridícula — a solidariedade que certos diplomatas.tendência da sociedade brasileira. o pacto e o mito 155 . fantasiado de movimento democrático e de causa liberal. mas luso-tropical. quer siga o mito da 'negritude'. ver o Ir ro de Kabengelc Munanga < . principalmente. étnica etc. N ó s . Que afinidade com esses afroracistas. seria preciso que ele caisse nas mãos dos negros e dos mulatos. Utilizando-se do mesmo contraste entre " a r i s t o c r a c i a " e "dem o c r a c i a " e do mesmo conceito de " m i t o " usado por Freyre. com as guerras de libertação. 1 999). O autor dessa expressão foi justamente alguém que já dialogava criticamente com a obra e as idéias de Freyre desde o início de sua formação acadêmica: Florestan Fernandes^ . Em 1 9 6 4 . n" 1 2 . raças e democracia D e m o c r a c i a racial: o ideal. que parta de uma população em grande parte mestiça. O u o da ' a m a r e b t u d e ' " (Freyre. social. em 1 9 6 4 . c o m o brasileiros. e no Brasil. políticos e jornalistas. ou estão sendo eles próprios mistificadores dos demais brasileiros. alguns do alto de responsabilidades oficiais. farão prevalecer a idéia mesmo a n o . e que estes desfrutassem de autonomia social equivalente para e x p l o r á . Freyre passou a louvar a " d e m o c r a c i a racial" ou "étnica" c o m o prova da excelência da cultura n ã o apenas lusobrasileira. brasileiros. não podemos ser. 154 Classes. Quando. da FFLCH. a vitória das forças conservadoras. senão um povo por excelência anti-segregacionista: quer o segregacionismo siga a mística da 'branquitude'. assim procedendo. Sociologia I. Ou seja. enfim. um mito racial. como a brasileira. e c o n ô m i c a . do negro nj sociedade de publicada no Boletim n° ? ) 1 . com o avanço ideológico da "negritude" e do m o v i m e n t o pelas reformas sociais. certos políticos e certos jornalistas elo Brasil de hoje pretendem. em 196-. cruamente hostis ao mais precioso valor d e m o c r á t i c o que vem sendo desenvolvido pela gente btasileira — a democracia racial — pode haver da parte do Brasil? T a i s diplomatas.l o na direção contrária. da cultura e do poder" (Fernandes. — algumas teriam que ser c o n s i d e r a d a s falsas e outras verdadeiras. no cont e x t o d o r o m p i m e n t o da democracia brasileira justamente em nome da preservação dos valores e ideais d e m o c r á t i c o s . 1 9 6 5 : 2 0 5 ) . enquanto a luta antifascista e a luta anti-racista o aproximou da esquerda e dos escritores e políticos progressistas brasileiros. a situação polarizou-se na África. Ironicamente. sua tese de titular da Cadeira de Socio- logia ! da Universidade de São Paul' • . entretanto. estava fin a l m e n t e m a d u r a a idéia de que a "democracia r a c i a l " mais que um ideal era um mito. Florestan defende. racial. no O s a c o n t e c i m e n t o s políticos posteriores. Ainda em 1964. comportamentos e ideais 'aristocráticos' da 'raça d o m i n a n t e ' . o diálogo c o m este não poderia ser mais explícito: "Portanto. em vista de seus próprios fins. Para que sucedesse o inverso.

pois tal simplificação é u m a forma de im- pedir ou retatdar sua conscientização de espoliado por causa da cor e da classe pobre a que pertence". o M N U dos anos 1 9 8 0 t r a ç a o seu passado em continuidade com os movimentos negros dos anos 1 9 3 0 . 2 3 ) . Doravante. já fala em "logro": " O status de raça. como O genocídio N o prefácio. com o n o m e de Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação R a c i a l . representa realmente algo de novo no sistema político brasileiro. 1 9 6 8 . 1 9 7 8 : 20).O rompimento do pacto democrático que vigeu entre 1945 e 1 9 6 4 e que incluiu os negros. no Brasil. pela primeira vez surge a idéia d o que deve ser uma sociedade pluri-racial c o m o democracia: ou ela é democrática para todas as raças e lhes confere igualdade econômica. 1968: 22). 1 9 4 0 . os militantes políticos e ativistas negros referirão tanto as relações entre brancos e negros. O o b j e t i v o era claro: opor-se à ideologia oficial patrocinada pelos militares e propalada pelo luso-tropicalismo. The racial democracy in Brazü: myth or realitv?. No entanto. em 1 9 6 8 . 1 9 5 0 e 1 9 6 0 . do ponto de vista puramente político. Aqui entra a Negritude como c o n c e i t o c ação revolucionários. impede que o negro tome consciência d o l o g r o que no Brasil chamam de democracia racial e de c o r " (Nascimento. seja c o m o movimento organizado. b) a mudança nas relações de raça e c o r . raças e democracia Democracia racial: o ideal. o n d e amadurecia rapidamente o que Jônatas da Silva (1 988) c h a m o u de "auto-afirmação cultural" dos negros. Florestai! escreve: "[Abdias] não fala mais em uma 'Segunda Abolição' e situa os segmentos n e g r o s e mulatos da população brasileira como estoques africanos com tradições culturais e um destino histórico peculiares. p. já aparece o uso da "negritude" em sentido multiculturalista e em sua pretensão ecumênica: "Entendo que o negro e o m u l a t o — os homens de c o r — precisam. ainda que aos poucos. Ainda em 1968. Abdias escreve e publica. a poucos dias de partir para o exílio. o pacto e o m i t o Í57 . Afirmando os valores da cultura negroafricana contida em nossa civilização. a Negritude esta afirmando sua condição ecumênica e seu destino humanístico. O NOVO PROTESTO N E G R O E O " M I T O DA D E M O C R A C I A R A C I A L " O movimento social negro q u e irrompe na cena política brasileira. parece ter decretado t a m b é m a morte da "democracia racial'' daqueles anos. numa linha evolutiva em q u e as rupturas refletiriam apenas o amadurecimento do pensamento negro e o desenvolvimen- 156 Classes. em julho de 1 9 7 8 . Do mesmo m o d o . manipulado pelos brancos. devem ter uma contra-ideologia racial e uma contra-posição em matéria econômicosocial. quanto o pad r ã o ideal destas relações como o "mito da democracia racial". Ali. E m suma. seja c o m o elemento fundador da n a ç ã o . do negro republibrasileiro. ficam claras as tensões entre Abdias do Nascimento e a esquerda nacionalista. a novidade a p o n t a d a por Florestar: esteve em gestação durante todos os anos 1 9 7 0 . no Brasil. sinalizando o fim da "democracia racial" e n q u a n t o compromisso político. O brasileiro de cor tem de se bater simultaneamente por uma dupla mudança: a) a m u d a n ç a econômico-social do país. ou não existe uma sociedade pluri-racial democrática" (Nascimento. em depoimento em evento organizado pelos Cadernos Brasileiros (n° 4 7 . Em 1977. principalmente no R i o de Janeiro e em Salvador. retornando do exílio. em Lagos. Enfrenta o teacionário c o n t i d o na configuraç ã o de simples luta de classe do seu c o m p l e x o econômico-social. social e cultural. Abdias do Nascimento. cado em 1 9 7 8 .

entre a Fundação Pró-Memória do Governo Federal. que remonta aos anos 1 9 3 0 . que < . ligada ao terreito do mesmo nome. O u seja. ao menos no terreno da cultura. o CEAO (Centro cie Estudos Afro-Orientais da L1FBA) e o SECNEB. M a s . N o entanto. será a demanda por direito à diferença cultural pari passu à demanda por direitos sociais e respeito pelos diteitos civis dos negros. entre os quais os mais importantes são a repressão às atividades políticas e os rumos que toma a política exterior brasileira. permite a implantação do primeiro currículo multicultural. seja como integração simbólica dos negros à nação. Antes. protegida justamente por uma política de "democracia racial". cie discurso estatal que impedia a organização das lutas anti-racistas. a política exterior brasileira. NU. de aproxim a ç ã o com a África negra. passa a ser o principal alvo da resistência negra. antes que o movimento negro aparecesse na cena política nacional com uma agenda radical de reivindicações antiracistas. o M o v i m e n t o Negro Unificado. a repressão aos ativistas negros. gerou. m muito beneficiou a jovem militância negra em formação. como Jato marcante na formação do A • . o pacto e o mito 159 . na escola do Axé O p ô Afonjá. a Semana Afro-Brasileira de 19 4. desmascarar a "democracia racial". em 1978. raças e democracia Democracia racial: o ideai. nos anos 1980. justamente. portanto. seja como ideal de relações não-discriminatónas e não segregacionistas. já estava em atuação nas principais cidades br iisílciríis um sem-numero de entidades culturais negras. O patrocínio à "cultura afro-brasileira". no Rio de j a n e i r o . Nesse jogo de repressão e incentivo. Isso por diversos motivos. Nesse mesmo ano de 1 9 7 6 . em Salvador. a assinatura de um convênio.to da sociedade e da nação brasileiras. A o " s i n c r é t i c o " e "mestiço" procurar-se-á construir o "negro" e a "pureza cultutal". o Núcleo Cultura! Afro-Brasileiro. são criados o Centro de Pesquisas das Culturas Negras e a Escola de S a m b a Quilombo. Ota. cujo manifesto é publicado na da Bahia Tribuna ( 1 5 / 1 2 / 1 9 7 6 ) e. 2 0 0 0 ) . a democracia racial que se implantara n o país nos anos 1 9 3 0 . o M N U não foi um raio em céu azul. em relação a África. duas medidas de governo nos dão a medida exata do que mudava no pacto racial-democrático firmado na era Vargas. Em 1 9 7 6 é criado. e a Confederação Baiana dos Cultos Afro-Brasileiros (que se junta à Federação do Culto Afro-Brasileiro. criada em 1 9 4 6 ) e o bloco afro llê Ayê. uma espéck de renascimento cultural. nem surgiu fazendo tabula rasa do passado. como vimos. em sua versão conservadora. seja como pacto político de participação das massas urbanas. e não apenas na Bahia. cita.com a e x p o s i ç ã o de arte e cultura negras. dois trunfos: a "democracia racial" brasileira — o que requer. mas também no R i o de J a n e i r o . 158 Classes. a "cultura negra" e as "origens africanas" passarão a ser os e i x o s através dos quais se construirá um discurso alternativo ao marketing governamental. que surgisse. nos anos 1 9 6 0 e 1 9 7 0 . tal resistência vai se dar primeiro e mais desimpedidamente no terreno cultural que no c a m p o mais propriamente político. a "afirmação cultural" negra já se encontrava bastante madura. patrocinada pelo CEAA ( C . 2 0 0 0 . ntro de Estudos Afro-Asiáticos) e p i o S E C N E B (Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil). Primeiro. todas em busca de afirmação étnica. em meado dos 1 9 7 0 era a reivindicação de tal identidade e singularidade que começava a ser atendida pelo Estado brasileiro. no Rio de Janeiro. N o Brasil. vai explorar. como disse Florestan. 2 0 0 1 : Santos. Bacelar. O novo. por exemplo. Ou seja. tal democracia pressupunha o papel subordinado de práticas religiosas de origem africana e o caráter sincrético da contribuição dos negros à cultura nacional: não havia lugar para direitos a identidade ou singularidade. De fato. de fato. t a m b é m em Salvador. Lélia ( onzalez. principalmente na Bahia (Agier. Nesse mesmo ano são fundadas a SIBA (Sociedade de Intercâmbio Brasil-África) e o IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras). em Salvador. segundo. que a denunciavam como " m i t o " — e as origens africanas da cultura brasileira — o que levará o Estado a incentivar as manifestações culturais afro-brasileiras. um decreto do governador do Estado da Bahia põe fim à exigência de licença policial pata funcionamento de terreiros de candomblé.

da Serra da Em São Paulo e no Rio era a o p o s i ç ã o de esquerda ao regime militar que chegava ao poder e atendia a reivindicações de seus aliados negros. Joel Rufino. o governo de S ã o Paulo cria o Conselho de Participação e de Desenvolvimento da Comunidade Negra. local onde existiu no século X V I I o Quilombo dos Palm a r e s . e da ctiação de organismos estatais que procuram absorver as reivindicações da militância nas áreas da cultura. em sintonia com o movimento pela retlemocratização do país. seja para fins da política e x t e r i o r do Brasil em relação à Áfric a . que desde os anos 1 9 6 0 passara a ser utilizado e promovid o . 1 9 6 5 ) . a luta pelos direitos culturais da minoria afrobrasileira. Ele não abriria c a m i n h o sozinho. 160 Classes. Os anos seguintes. acrescentando a elas a nova bandeira de identidade étnico-racial expandida. têm-se três movimentos em um: a luta contra o preconceito racial. b) a denúncia do mito da democracia racial. como se c h a m o u na época. também na oposição. no âmbito do Ministério da Cultura. mas. nos anos setenta. Ou seja. 2 0 0 0 . nas eleições estaduais de 1 9 8 2 . de formação da N o v a República. foi o colapso cio m i t o da democracia racial que permitiu avançar o m o v i m e n t o negro. em 1 9 8 2 . da discriminação racial e do preconceito de que eram vítimas os negros brasileiros. 1 9 8 5 : 2 9 8 ) . 92 12 Ver a respeito Maggie ( 1 9 8 9 ) e Santos ( 2 0 0 0 ) . gradativamente. a m o b i l i z a ç ã o negra de 1978 a 1985 se fará tendo como pano de fundo a denúncia d o "mito da democracia racial". que p r o c u r a m resgatar a herança africana no Brasil (invenção de uma cultura negra). como patrimônio cultural brasileiro. a incorporar as demandas do M o v i m e n t o Negro. em. O governo federal c o m e ç a v a . a luta contra o modo c o m o os negros foram definidos e incluídos na nacionalidade brasileira. já notava o risco de "esgotamento" que isso representava para o movimento. Um dos mais importantes intelectuais negros do per í o d o . Os ativistas negros serão chamados a ocupar c a r g o s nos recém-criados Conselhos e Secretarias da Comunidade N e g r a . a Secretaria de Educação do Estado da Bahia regulamenta a inclusão da disciplina Introdução aos Estudos Africanos nos currículos escolares das escolas públicas de 1° e 2" graus. são de c o n s t r u ç ã o de uma nova institucionalídade política. diz Rufino: "Ora. 1 Barriga. c) a busca de construção de uma identidade racial positiva: através do aí-rocentrismo e do quilombismo. Ou seja. É a época da formação dos núcleos negros nos principais partidos políticos. primeiro terreiro de candomblé da Bahia. como o fez em 1944. E m artigo de 1 9 8 5 . c o m o R i o de Janeiro e São Paulo. da legislação e da ação e x e c u t i v a . 2 0 0 0 ) . J á antes de completa a redemocratização do país. o movimento negro retomava as suas bandeiras históricas de "integração do negro à sociedade de classes" (Fernandes. ao menos no plano s i m b ó l i c o . 1984. 91 um movimento de ampliação dos direitos culturais do povo negro. raças e democracia Democracia racial: o ideal. Em sua agenda política estavam três alvos principais: a) a denúncia do racismo. através da sua incorporação a organismos governamentais. tratava-se de ' Exemplos de ações estatais dessa época: em 1 9 8 2 . realizado em Belo Horizonte. seja para fins de expansão da indústria do turismo no Estado da Bahia (Agier. a Prefeitura Municipal de Salvador incorpora ao patrimônio histórico estadual o lerreiro da Casa Branca. assim. a militância negra tem a oportunidade de partilhar o poder em alguns estados. o pacto e o mito 161 . Ainda que nesse período a p a r e ç a m palavras de ordem como " p o r uma autêntica democracia r a c i a l " . em l^tia. e na Fundação P a l m a r e s . em 1 9 7 8 . criada em 1 988. na Bahia. que se estendem de 1 9 8 5 a 1995. como ideologia que impedia a a ç ã o anti-racista. que liquidaram em bloco o pacto ideológico qu~e c o n f o r m a v a a noção anterior de Brasil" (Santos.O movimento negro ressurgiu. no âmbito dos governos estaduais. m a s pela conjugação destas a condições históricas favoráveis. D e grande efeito simbólico foi o t o m b a m e n t o . Santos. título de um documento veiculado pelo III Congresso do M N U . pela exclusiva pertinácia de suas lideranças.

e e) na área de proteção à infância. pois a massa da população. unia boa parte da militáncia congregada anteriormente no MNU. redefinindo identidades c o m o "preto". e. Segundo. seja através de políticas públicas e legislação. nos termos da lei". "pardo" ou " m o r e n o " em "negro". o Fala Preta! — Organização de Mulheres Negras. nos a n o s 1 9 7 0 . fazendo com que as regras das convenções internacionais contra a discriminação. b-. 9 3 constantemente durante o período. 93 Apesar do esgotamento. E m 5 de j a n e i r o de 1 9 8 9 é sanc i o n a d a a Lei n" 7. nos sindicatos e nos órgãos estatais passará a atuar no c h a m a d o "quarto setor". seguirão. Esta centralidade renderá frutos e reações. aproveitando a cnminalização do racismo pela Lei 7 . O u seja. neste aspecto. artigo 6 8 : "Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva. organizados em O N G s . a pretensão do movimento em politizar a classificação racial brasileira. Esta lei permitirá que dali em diante a luta contra a discriminação racial e o preconceito de cor se organize em bases jurídicas. 7 1 6 . incentivado também pelo crescimento da oferta de recursos internacionais para a filantropia. a C a r t a M a g n a . Isso não quer dizer que o M N U deixe de existir (mas passará a ser apenas mais uma organização política negra). Para exemplificar com as mais importantes entidades negras: em í 9SS é fundado o Geiedés — Instituto da Mulher Negra. 162 Classes. b) na luta contra a discriminação no trabalho. e a vontade de fazer crer que a opressão dos negros no Brasil era pior do que a situação norte-americana ou sul-africana. amplamente favorável aos interesses negros. a partir de 1 9 9 5 se amplia o recrutamento de negros para órgãos do governo federal. será a proliferação do movimento negro em entidades independentes da sociedade c i v i l . As constituições estaduais. seja através de novas teorias acadêmicas sobre a " d e m o c r a c i a racial".I Data também desse período a instituição de uma nova legisl a ç ã o anti-racista. o CEER'1 — C e n t r o de Estudos das Relações do T r a b a l h o e Desigualdade. a propaganda do movimento quetia transformar a i m a g e m do Brasil de paraíso em inferno racial (Sansone. na melhor das hi- C o m a institucionalização de uma nova ordem jurídica no país. o fato é que o movimento negro fez da denúncia d o m i t o da democracia racial seu mote mobilizador central durante t o d o o período das décadas de 1 9 7 0 a 1 9 9 0 . que define os crimes resultantes de prec o n c e i t o de raça ou de cor. A novidade. raças e democracia Democracia racial: o ideal. sem no entanto consegui-lo. c) na área da saúde. M u i t o pelo contrário. § X L l b "A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos".9 l b A legislação brasileira anti-racista encontra-se reunida e comentada s. em 1 9 9 0 . porém. em 1 9 8 9 . o CEAP — C e n t r o de Articulação de Populações Marginalizadas. nem que os órgãos estatais. o pacto e o m i t o 163 . nos p a r t i d o s . ou seja. . A DEMOCRACIA RACIAL ENQUANTO MITO O incômodo da academia brasileira perante o avanço do movimento negro teve alguns pivôs importantes: primeiro. promulgadas em 1 9 8 9 . q u e transparece no emprego de termos como "genocídio" para referir-se ao comportamento da sociedade brasileira em relação a o s negros. no período. passassem a ser efetivamente respeitadas no país. em 1 9 8 8 . sujeito à pena de reclusão. 94 O número de O N G s negras cresce " Rosana Heringer (2000) arrola 1 2 4 principais O N G s cm 1 V 9 V . cujo parâmetro legal será a Carta Constitucional de 1 9 8 8 . os partidos e sindicatos deixem de recrutar ativistas negros. do modelo de "democracia racial".is O N G s concentram-se: a) na luta c o n t r a o preconceito racwl — são cria- em Silva j r . que declara em seu capítulo I. de que nos fala J o e l Rufino. em 1993. 1 9 9 6 ) . no Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. d) na área de educação e qualificação para o trabalho. artigo 5".716. das quais o Brasil é signatário. 1 9 9 8 ) . os serviços jurídicos de S O S Racismo — . 9 4 dos. um certo exagero do discurso militante.

1996). o que faz com que. apesar do modo como se classifiquem as pessoas. Mais que isso: as diferenças raciais se impõem à consciência individual e social. em termos da dicotomia entre "indivíduo" e "pessoa". n ã o é mais a democracia que será adjetivada para explicar a especificidade brasileira. a r e a ç ã o acadêmica começa com o esforço de reintrepretação do Brasil empreendido por DaMatta ( 1 9 7 9 ) . no sentido em que os antropólogos empregam o termo. 2 0 0 0 ) . como a economia (Barros e Henriques. Peter Fry escreve: "[. 1 9 9 5 . a oportunidade do mito se mantém. Ainda que. 1 9 9 6 ) . permanecem os fatos das desigualdades entre brancos e negros no Brasil. as quais se revelavam muito mais permeáveis ao populismo trabalhista que aos apelos afrocêntricos do MNU (Souza. C o m o mito.póteses. só muito lentamente poderia seguir tal redefinição (Harris et ai. PtfH/o/DataFolha. Terceiro. e que culmina com a sugestão de que as relações raciais no Brasil sejam regidas por uma "fábula das três raças" ( D a M a t t a . sem saber de Copcrnico. forjada por Florestan em 1 9 6 4 . c o n t r a o conhecimento científico que nega es raças ísão c o m o b r u x a s que teimam em atemorizar. finalmente se esgota enquanto discurso acadêmico. é a distância entre discursos e práticas das relações raciais n o Brasil. sintetizando a distância entre o discurso e a prática dos preconceitos. 1 9 9 5 . da discriminação e das desigualdades entre brancos e negros no Brasil. continua a nascer e a se pôi ?)• Novos estudos s o b r e as desigualdades raciais no Brasil. Maggie. Lilia Schwarcz ( 1 9 9 9 a : 3 0 9 ) sintetiza tal posição do seguinte m o d o : "Dessa maneira. O u seja. para as ciências sociais. 1 9 8 5 . o pacto e o mito 165 . Santos.] nem por isso precisamos descartar a 'democracia racial' como ideologia falsa. O u seja. que respaldou toda a 164 Classes. Mais tarde. Agier. 2 0 0 0 ) . [1975] poderíamos dizer que o mito se 'extenua sem por isso desaparecer'. inspirador da nova leva de estudos (Guimarães. depois substituída. Hasenbalg.. 2 0 0 0 . 1993. para aproveitai a expressão de Roberto D a M a t t a " (Fry. por o u t r a — "racismo cordial" (Folha de S. tal como Florestan e Bastide colocavam nos idos anos 1 9 5 0 . p o r t a n t o . 1 9 8 1 . S o a r e s . Ou seja. que via na denuncia pública de racismo na sociedade brasileira o fim do mito da d e m o c r a c i a racial. enquanto as contradições entre discursos e práticas do preconceito racial passam a ser estudadas sob o rótulo mais adequado (ainda que altamente valorativo) de " r a c i s m o " .9 6 : 1 3 4 ) . é um conjunto de idéias e valores poderosos que fazem com que o Brasil seja o Brasil. Ou seja. ganham outras disciplinas sociais. m e s m o reconhecendo a existência do preconceito. um evidente descompasso entre o discurso político da militância e o comportamento eleitoral das massas. no mesmo terreno em que o movimento negro o pôs. 1 9 9 6 ) que visam a definir a especificidade do racismo no Brasil. certamente. ou come o sol que. 1 9 7 1 . mas o racismo. 1 9 9 7 . D o ponto de vista teórico. transpondo-o diretamente para a política. raças e democracia Democracia racial: o ideal. para além de sua desconstrução racional. quem cunhou a expressão "racismo à brasileira" (DaMatta. a idéia de harmonia racial se imponha aos dados e à própria consciência da discriminação". Foi o próprio DaMatta. a denúncia do " m i t o da democracia r a c i a l " . no senso comum. Na academia brasileira. enquanto saem das universidades e se aninham nos círgãos de planejamento estatal. no Brasil. 1 9 9 5 ) — forjada pela mídia. ainda que como discurso político sobreviva c o m alguma eficiência. 1 9 8 1 ) . a respaldar as reivindicações do protesto negro. reagindo à anaiise de Michael Hanchard ( 1 9 9 6 ) . o mito n a o possa ser pensado da maneira maniqueísta como Freyre e Florestan pensaram. mobilização e protestos negros nas décadas seguintes. Pereira. ao que parece.. tom a d a de empréstimo a Louís D u m o n t ( 1 9 6 6 ) . O que continua em jogo. elaborados inicialmente no â m b i t o da sociologia e da demografia. t o m a n d o os t e r m o s de LéviStrauss. o " m i t o " passa agora a ser pensado como chave para o entendimento da formação nacional.

O golpe militar de 1964. Ademais. é dominante. o pacto e o mito 167 . revertendo o quadro de exclusão e descompromisso patrocinado pela Primeira República. em 1943 e 1 9 4 4 . "logro" e "mito" toma então conta do movimento. à influência estrangeira. ao contrário do ideal nacionalista do pós-guerra. constituída como mestiça e sincrética. Seria errôneo atribuir o recrudescimento da "consciência negra" e do cultivo da identidade racial. autênticas e não-sincréticas. Idéias essas caudatárias. foi durante muito tempo uma forma de integração pactuada da militância negra. c o m o querem hoje alguns a:ivistas e sociólogos. os principais líderes negros brasileiros vão para o exílio. todo o trabalho de reconstrução de um pacto racial democrático. raças e democracia Democracia racial: o ideal. que tinha a "democracia racial" brasileira como um ideal a ser atingido. a impossibilidade de se conter as reivindicações sociais dos negros brasileiros nos estreitos parâmetros da idéia freyreana de "democracia social" fica de todo evidente. principalmente a negritude. Mais que isso: dá-se num m u n d o em que a idéia de multiculturalismo. das reflexões de Freyre sobre a " d e m o c r a c i a social" luso-brasileira. que se teciam principalmente através d o nacionalismo de esquerda. à medida que a participação política se torna cada vez mais restrita. "democracia racial" foi. Neste pacto. A partir de 1 9 6 8 . em termos simbólicos. A discussão sobre o caráter da "democracia racial" no Brasil — o u seja. A nação brasileira. está fadado a um (in)sucesso limitado. através da a d o ç ã o de uma cultura nacional mestiça ou sincrética. a princípio. a política externa brasileira já se encontrava estressada quanto à posição que o Brasil deveria tomar ante os movimentos de libertação das colônias portuguesas na África. a partir de 1 9 7 8 . elas próprias. através de uma política eminentemente universalista de integração social do negro à sociedade moderna. as idéias e o nome de "democracia racial" longe de serem o logro forjado pelas classes dominantes brancas. influenciado pelo m o vimento negro internacial. individuais e universais o principal objetivo das lutas sociais. Em resumo. os negros brasileiros foram inteiramente integrados à nação brasileira. em sua cruzada pelos valoies da mestiçagem e do luso-tropicalismo. que destrói o pacto populista. no que pese o esforço de i n c o r p o r a ç ã o simbólica e material do Estado brasileiro. Com a redemocratização do país. A acusação de que "democracia r a c i a l " brasileira não passava de "mistificação". o movimento negro organizado concentrou-se na luta contra o preconceito racial. especialmente norte-americana. Nes- 166 Classes. Ao contrário. ocorre panpassu ao renascimento da "cultura" e do protesto negro. respectivamente. o que gerava a reação de intelectuais c o m o Gilberto Freyre ( 1 9 6 1 . enfatizava as suas raízes africanas. estremece também os elos do protesto negro c o m o sistema político. 1 9 6 2 ) . a guinada do m o v i m e n t o negro brasileiro em direção à negritude e às origens africanas data dos anos 1 9 6 0 e foi. através da regulament a ç ã o do mercado de trabalho e da seguridade social urbanos. o renascimento cultural negro deu-se nesses anos sob a proteção do Estado autoritário e de seus interesses de política exterior. no Brasil dos anos 1970. se se tratava de realidade cultural (como queriam Freyre c o estdbüshnient conservador) ou de ideal político (como queriam os progressistas L. já não precisava reivindicar uma origem "não tipicamente ocidental". Ao contrário. pelo menos parcialmente. D e fato. Nesse ambiente. ou seja de tolerância e respeito a diferenças cuiturais que se querem integras. A reconstrução da d e m o c r a c i a no Brasil. D o mesmo modo. as classes e grupos sociais farão dos direitos civis.CONCLUSÕES Entre 1930 e 1 9 6 4 . O movimento negro brasileiro. excluindo a esquerda e os dissidentes culturais. responsável pela geração das tensões políticas surgidas em torno do ideal de democracia racial. vigeu no Brasil o que os cientistas políticos chamam de "pacto populista" ou "pacto nacional-desenvolvimentista". e em termos materiais.o movimento negroi — acaba levando à radicalização das duas posições. no começo dos 1 9 6 0 . ela mesma. uma tradução livre de Bastide das idéias expressas por Freyre em suas conferências na Universidade da Bahia e de Indiana. Nesse período.

eu interpretei a ofensa verbal. a o contrário do norte-americano. pp. Finalmente. de cunho racial e não apenas de classe. alarga-o. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 169 . que inclui a t o d o s sem menção a raças. e n t r e t a n t o . no Brasil. a democracia racial ganhou um conteúdo político distante do caráter puram e n t e " s o c i a l " que prevalece em F r e y r e . 3 1-48.sa "tradução" Bastide omite o caráter " i b é r i c o " restrito que Freyre atribuía. E enquanto m i t o c o n t i n u a r á viva ainda pot m u i t o tempo c o m o representação do q u e . reservando-as para denunciar o que não deveria existir (o racismo). pelo contrário. a "democracia racial" precisa agora ser substituída pela simples democracia. 168 Classes. por pressão dos ativistas. Hste capítulo foi originalmente publicado em Estudos Apo-Asiáticos. "democracia racial" voltou a ter o significado original freyreano de mestiçagem e mistura étnico-cultural tout cnurt. 9 n" 3 8 . ela c o n t i n u a viva enquanto mit o . 6. ao t e r m o . ou m e l h o r . q u e se pautam por um código de honra pessoal e estamental (e não apenas de ética). o que é t a m b é m muito comum no Brasil. para alguns intelectuais contemporâneos. quero investigar o insulto racial como forma de construção de uma identidade social estigmatiza- 9 6 Uma versão deste texto foi apresentada ao Congresso da American Anthropological Associauon. para o queixoso.716. com o t e m p o . em Chicago. mais apropriado à coalizão antifascista e anti-racista da época. realça-lhe o caráter propriamente universalista de "contribuição brasileira á humanidade" (também reivindicado por Freyre). que não existem. de que a discriminação sofrida por ele era. em meados dos 1960. faríamos m e l h o r se não as mencionássemos c o m o ideai. Em outro contexto ( G u i m a r ã e s . realmente. Tornou-se. seja no sentido de falsa ideologia. reco- nhece o crime contra a honra. Agradeço a Afrânio Garcia. o legisíadot modificou o C ó d i g o Penal (Lei n" 9. desde que foi definido o crime racial. de- O código penal brasileiro. a expressão ganhasse a c o n o t a ç ã o de ideal de igualdade de oportunidades de vida e de respeito aos direitos civis e políticos que teve nos anos 1 9 5 0 . 1 TS2) — as cores — que c o m p õ e m a nação. o mito transforma-se em chave interpreiativa da cultura brasileira. N o ç ã o criada durante a ditadura varguista pata nos incluir no mundo dos valores políticos universais. assim c o m o dos pesquisadores: a maioria das queixas de discriminação p o d e r i a ser enquadrada como crime de injúria ou infâmia 9 . Assim transposta para o universo individualista ocidental. M o r t a a democracia racial. fazendo com que. entre as raças sociais (Wagley. zembro de 2000. que acompanhava a maioria dos atos de discriminação. Jocéiio Teles dos Santos e Njdya Araújo Guimarães a leitura cuidadosa de versões preliminares do texto e suas valiosas sugestões. Sua mera existência já indica a presença de relações sociais hierarquizadas. para a militância negra e para intelectuais c o m o Florestam a senha do racismo à brasileira. um dado p a s s o u a chamar a atenção dos ativistas e advogados negros. como sendo a única evidência disponível. O MITO ANVERSO: O I N S U L T O R A C I A L 9 6 No Brasil. Neste capítulo. em 1 9 8 9 .459) para que a injúria racial fosse punida c o m o mesmo rigor dos crimes raciais. no mais das vezes. em 1 9 9 7 . seja como chave interpretativa da cultura. Estas. pela Lei 7. Mais tarde. seja no sentido de ideal que orienta a ação concreta dos atores s o c i a i s . A i m p o r t â n c i a numérica dos casos de insul- tos raciais era tão grande q u e . novembro de 1999. como o que deve ser. assim. são as relaç õ e s entre negros e brancos. um m i t o racial. 1998).

P a r a Edmund Leach ( 1 9 7 9 ) . numa grande v a r i e d a d e de culturas. p o n d o em evidência o domínio verbal e o c o n t r o l e emocional 170 Classes. na literatura especializada. apenas n o â m b i t o das relações de consumo de bens e serviços o n ú m e r o de queixas sem registro de insultos é significativo (10 em 2 1 c a s o s ) . na sociedade brasileira. ou seja. Flynn ista algumas funções: a) legitimação e reprodução de uma orde n moral. mas estão sempre ligadas a uma relação de poder. entretanto. o insulto. hj legiti- 29 3 6 0 74 82% 2% 2 / <-''' /O 3% 7% 1% 100% Fonte primária: Delegacia de Crimes llaciais de São Paulo. que g e r a l m e n t e referem os muito p r ó x i m o s ou muito longínquos de si (sejam pessoas. c) legitimação de hierarquias no interior de grupos. significa o r o m p i m e n t o de uma norma s o c i a l . os insultos verbais sofridos. a partir do relato de apenas uma das partes. quanto pelos policiais. consiste principalmente em violações de n o r m a s muito signific a n t e s . M a i s que uma opinião negativa. portanto. volto a me valer de queixas registradas na Delegacia de Crimes Raciais de São Paulo. ou seja. e dem o n s t r a r c o m o os insultos. T o m e i para a análise apenas as queixas registradas-entre I 1 9 9 7 e 3 0 de abril de 1 9 9 8 . No entanto. atos ou gestos socialmente interditos. 1" de maio de 199 a 30 de abril de 1 9 9 8 . dado que 7 6 % das q u e i x a s registradas foram de ataques à honra pessoal. c o n t e n d a s verbais cm que insultos são t r o c a d o s de modo regulado. também. Tratarei aqui apenas das ofensas verbais. o insulto significa a violação de um tabu. os insultos aparecem na m a i o r i a das queixas relativas à d i s c r i m i n a ç ã o nas m a ç ã o de hierarquia entre grupos sociais. de m a i o de Tabela 1 Q U E I X A S PRESTADAS DE D I S C R I M I N A Ç Ã O . em 74 das noventa queixas prestadas na delegacia. consiste na e x p r e s s ã o de nomes. O m e s m o Flynn ( 1 9 7 7 : 6) propõe " e x a m i n a r a natureza das su(A/C 54"95 80 100°91'! 100°/ 100° o°o o Sem insulto (Ii)_ 10 1 1 0 3 0 0 1 Total (C) 22 19 5 2 32 3 6 1 90 18 'o 100% % coluna 24% 21% 6% JO posições c o m u n s e obvias concernentes à realidade social. n o s demais âmbitos da vida social as q u e i x a s com insultos são sempre maiores que 8 0 % .da. ou fatos c o r p ó r e o s ) . Para t a n t o . A função ou a intenção do insulto poden variar. da vizinhança e do c o n s u m o (ver Tabela 1). Nesse a n o . d) socialização de indivíduos. ou seja. m a s substancialmente implícitas". t a n t o pelas vítimas. o esferas do t r a b a l h o . em 8 2 % dos casos. entretanto. de apresentar estereótipos socialmente aceitos enquanto tais. ainda que tal fonte tenha a desvantagem de ser um registro feito por outrem (o plantonista). observação ou gesto que expressa uma opinião bastante negativa de uma pessoa ou grupo". a vítima. c o r r e s p o n d e m melhor ao que se c h a m a . animais. Na verdade. T e m a vantagem. partilhada por m e m b r o s de sistemas socioculturais específicos. Fssas duas últimas funções. S E G U N D O O Â M B I T O DAS RELAÇÕES SOCIAIS O N D E O C O R R E U E O REGISTRO D E I N S U L T O S Com Âmbito das relações sociais Consumo Vizinhança No trânsito Nas ruas Trabalho Negócios Família Outro Total % linha i ns u Ito (A) 12 18 4 •) O Q U E S Ã O OS INSULTOS R A C I A I S ? C h a r l e s Flynn (1 977: 3) define o insulto c o m o "um ato. raças e democracia O m i t o anverso: o insulto racial 171 . as vítimas fizeram registrar. de "insultos rituais". O grande número de insultos registrados era de se esperar. o que reforça minha convicção de que as i n j ú n a s são usadas de forma b a s t a n t e licenciosa.

nação. como a posição social e racial dos insultados já está estabelecida historicamente. tradução minha): " O s negros. 9 7 O S . todavia. através de um longo processo anterior de humilhação e subordinação. com tentativas de legitimar uma hierarquia social baseada na idéia de r a ç a . paixões inaturais. refere-se a sua cor no diminutivo c designa seu corpo com cores " e s t r a n h a s " : "Pode me deixar passar. alcoolismo. ' ' N o estudo da formação de grupos socialmente execrados. ou não inteiramente pertencentes à ordem social. O quarto e último é tratar e ver os dominados c o m o animais. agora envolvendo dois adultos. design a ç ã o sintética da injúria.T E R M O S INJURIOSOS E N C O N T R A D O S Os insultos raciais seguem a lógica esboçada acima.dos participantes ^. n e m mesmo a palavra precisa Diz Flynn ( 1 9 7 7 : 5 5 . O terceiro é atribuir ao outro grupo hábitos deficientes de limpeza e higiene. quando tais grupos detêm efetivo poder de fazer crer a si e aos próprios execrados que tais estigmas são (ou podem ser) verdadeiros. ao mesmo tempo. o próprio termo que os designa enquanto grupo racial ( " p r e t o " ou "negro") já é. que se prontificou a atendê-lo.: 3) estigmas tribais — raça. encarceramento. que visam confirmar a definição cultural de sua inferioridade 'inata' e. fundamentalmente. A estigmatização requer. um termo pejorativo. Como instrumentos de humilhação. o grupo dominante precisa monopolizar as melhores posições sociais. a um negro se sentir ofendido por uma referência t ã o sutil quanto esta: "tamb é m . num outro exemplo. por exemplo. crenças rígidas. a pobreza pode. ser vista c o m o decorrência da inferioridade natural dos excluídos. em termos de poder. Dolard 11939) e Labov ( 1 9 7 2 ) . prestígio social e vantagens materiais. em lugar do chefe: " N ã o falo com preto. uma senhora. à gerente de uma outra empresa. religião e mesmo classe. fazendo-os assimilar o significado da baixa estima social que lhes é devotada". Ver. nefando. T a l forma sintética visa criar uma barreira social intransponível entre agressor e vítima. Apenas nesta situação. "Negro" ou " p r e t o " passam. tentativas de suicídio. evocação de estigmas sociais e pessoais. O s insultos são também. N o r b e r t Elias e J o h n Scotson ( 1 9 9 4 ) propõem um ordenamento no m o d o c o m o os grupos dominantes estigmatizam os dominados. maldito. c o m p o r t a m e n t o político etc. ''• í ais jogos são muito comuns entre jovens negros americanos. O u . sua eficácia reside justamente em d e m a r c a r o afastamento do insultador em relação ao insultado. Prefiro esp e r a r " . remetendo este último para o terreno da pobreza. Isso o c o r r e . como bem d e m o n s t r a m os sinônimos listados em dicionários de língua vernácula: sujo. O segundo modo de estigmatizar é atribuir c o m o características definidoras do outro grupo a anomia (a desorganização social e familiar) e a delinqüência (o não cumprimento das leis). olha a cor do indivíduo". 172 Classes. 2) defeitos de caráter individual — fraqueza de vontade. em si mesmo. Assim. encardido. por exemplo. a própria c o r adquire tal função simbólica. confortável para o primeiro. estão sujeitos a insultos diretos ou indiretos. os quais Erving Goffman ( 1 9 6 3 ) classificou em três tipos: 1) anomalias corporais (deformidades físicas). por e x e m p l o . sem acompanhamento de adjetivos e qualificativos. estigmatizante. Mais que o termo. talvez mais significativamente. desemprego. podendo ser usado sinteticamente. N o entanto. o administrador de uma empresa diz. da sujeira e da animalidade. um aprendizado. Para utilizá-la. Às vezes. lúgubre. procuram relembrá-los continuamente de tal inferioridade. No caso ue insultos raciais não-rituais. quase-animais. seu negrinho de olho r o x o ? ! " . vício. da anomia social. funesto. desonestidade e t c . sinistro. para humilhar o filho menor de uma vizinha. de m o d o que este precisa apenas pronunciar o nome do grupo. inferidos a partir de doença mental. O primeiro modo de estigmatizar é a pobreza. estaremos lidando. que passa necessariamente por um processo de ensinar aos "subalternos" o significado da marca de cor. a ser uma síntese verbal para toda uma c o n s t e l a ç ã o de estigmas referentes a uma f o r m a ç ã o racial identitária. v 9 s por telefone. O estigma pode estar tão bem assentado que é possível. homossexualidade. então. perverso etc. pois. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 173 . lembram.

relere-se também à genitália feminina. o animal. P r i m e i r o .p u t a " . e não um animal doméstico c íntimo ou o incesto materno (tnotberfucker) peito. Ver. tradução minha): " E uma hipótese plausível que o modo como os animais são categorizados r interessante que. a palavra "'negro" e seus derivados (feminino. Eis um exemplo de reiteração. tais c o m o " b u r r o " . A pobreza e a condição social inferior é referida por palavras como "favelada". M a s . selvagem. "folgado". faz-se t a m b é m referência direta à "classe" ("não falo c o m gente de sua classe") ou à situação de escravidão ("lugar de n e g r o é na 10 em termo. para referir-se à c o n d i ç ã o de sociabilidade incompleta. Na maioria desses casos. que iguala mulheres a animais. ainda. Acontece apenas em dez dos 7 8 insultos registrados ( 1 3 % ) . para atribuir devassidão moral. "nojento" e "suja". Prestou e Stanley ( 1 9 8 7 ) . A anomia social é referida de três maneiras. que tem a finalidade de associar o nome grupai a qualidades desprezíveis: "Preto safado. " s a f a d o " .ser pronunciada. como "barata". trata-se de um abutre que tem por hábito devorar cadáveres de outros animais. "barata" tem mais de um sentido: aiém cie reteriise à sujeira. Nos dados que analisei. usando termos tais c o mo "vaca". q u a l q u e r um poderia estar aqui. ' ' " Mas. de comesvibilidade tenha alguma correspondência c o m o modo como os seres humanos são categorizados com respeito a relações sexuais". "imbecil" e " i d i o t a " . além de atribuir sujeira ("filhas de uma barata preta. " m a c o n h e i r o " . "maloqueira". o insulto sexual mais forte. Sobre a relação entre sexo e a n i m a i s . raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 175 . D e fato. quando se trata de mulheres negras. v a g a b u n da"). em 78 ofensas registradas. insultos que procuraram a s s o c i a r a cor do agredido com uma outra dimensão do estigma. diz Leach (1979: 2 1 2 . através de termos referentes à moral sexual: "vagabunda". "pilantra". ''" Nesse contexto. requerem uma reiteração dos termos ofensivos sintéticos pelo qual o grupo é reconhecido. "bastardo". no segundo c a s o . Registrou-se. "prostituta". "galinha" o u " c a d e l a " . por estigmatização religiosa. o insulto sexual. às vezes. g i g o l ô " . devendo. 1 0 1 A c o n d i ç ã o de quase-humanidade pode ser referida t a m - bém por qualidades intelectuais negativas. "merda". portanto. menos você". e portanto. e "preto" o fosse 33 vezes. é atribuída principalmente através de termos como " m a c a c o " e "urubu". na com respeito a sua mãe. preto vagabundo. fazendo com que. seguindo as idéias de L e a c h . apenas a segregação é reivindicada: " V o c ê não deveria estar aqui. " f i l h o . através de termos ou qualidades ligadas à delinqüência: " l a d r ã o " . a proximidade social entre as partes exige que se repita o ritual de afastamento. " t r a f i c a n t e " . a forma sintética é minoritária. terceiro. " m a n a . 1 0 2 '"" Os seres humanos. para referir-se aos insultados. q u a n d o se trata de insulto propriamente racial.h o mem". o termo " í n d i o " . ser objeto de distanciamento ritual muito rigoroso. seja a relação de rebaixamento Hon-of-a-bitch) que expresse a maior vergonha masculi- social (filho-da-puta). usados indistintamente para ambos os sexos. N o primeiro caso. é considerado pela zoologia como o mais p r ó x i m o do ser humano. através de insultos qualificados. A d e m a i s . os estigmas preferidos de inferioridade social s ã o o local e tipo de moradia e o grau de instrução formal. inclusive humanos. acompanha. A recorrência à animalização sempre está ligada a atribuição de estigma ou à formação de um carisma (reivindicação de qualidades excepcionais). Tais insultos. sangue de preto. "porqueira". "aproveitador''.. O estigma da sujeira é reforçado por termos como: " fedida".-. "desclassificado" e "analfabeto". "sem-vergonha".d a . a res- 174 Classes. em gerai. têm a sexualidade eferida a animais. o b v i a m e n t e . outros animais po1 dem ser usados também. "fedorenta". Mas. negro sem vergonha. v o c ê n ã o presta porque tem sangue de preto". nas culturas latinas. para ofender s e x u a l m e n te. "homossexual". c o m o "negrinho" ou " n e g r i n h a " . quase histérica. através de t e r m o s como " m a c u m b a " e "macumbeira". "podre". segundo. diminutivo e corruptelas) fossem citados 5 5 vezes. A animalidade. " s a p a t ã o " . além do insulto racial. uma estratégia lingüística freqüente é o uso de diminutivos. além de selvagem.

Nas demais categorias. evocando assim uma índole pervertida. " s a f a d o " é o insulto preferido. selvagens ou. de modo a lembrar a distância social ou justificar uma interdição de c o n t a t o . a preferida é l e m b r a r a condiç ã o de ex-escravo. irreligiosidade ou perversão religiosa. através de: t e r m o s referentes a tal condição. geralmente dirigido contra homens. mas desferidos por p e s s o a s da mesma c o n d i ç ã o social da vítima. O s insultos relativos a hierarquia e às deficiências físicas e mentais estão referidos a animais de t r a b a l h o (burro. o primeiro pelas mulheres. 176 Classes. Os insultos propriamente raciais que encontrei nos registros policiais podem. O insulto animal mais empregado é " m a c a c o " . Os termos que r e m e t e m à sujeira não são t a m b é m concentrados: "fedido". 6) I n v o c a ç ã o de uma natureza pervertida ou de uma maldição divina. Apenas os insultos raciais são referidos por animais distantes (macacos. à lógica das interdições de cont a t o s e x u a l entre os muito próximos. de c r i a ç ã o . mas ligados à alimentação da casa (galinha e vaca). por homens. c o m o a b a r a t a . 7) I n v o c a ç ã o de defeitos físicos ou mentais. Os termos de anomia que se referem à moral s e x u a l são os mais num e r o s o s e são geralmente assacados contras as mulheres (as vítimas ou as mães das vítimas): "vagabunda" é o insulto preferido por mulheres e "filho-da-puta". vale a pena mencionar a ocorrência de referências a doenças ou defeitos físicos do insultado (tais c o m o "queimada" ou " c a n c e r o s a " ) e referências a determinações naturais ou teológicas. ser agrupados. 2) Animalização do Outro ou implicação de mcivilidade. como vimos. Os termos sintéticos mais utilizados. que jamais comemos. este último preferido pelos h o m e n s . E n t r e as injúrias que se referem à condição social. seguindo a estreita relação e n t r e categoria animal e a b u s o verbal. remetem para tentativas de inversão de uma hierarquia social. que devem ser mantidos à distância da vida social. de modo geral. mas não muito p r ó x i m o s . imoralidade sexual. uso de diminutivos. que distribuímos pelas sete categorias elaboradas acima (ver T a b e l a 2 ) . " m e r d a " e " s u j o " têm a m a i o r freqüência. enquanto estratégia de distanciamento social.senzala"). O uso de seus nomes corresponde. a c u s a ç ã o de impostura (assunção de p o s i ç ã o social indevida). ou p r ó x i m o s indesejáveis. As m u l h e r e s têm também o privilégio de ser acusadas de " m a e u m b e i r a s " . expressões utilizadas para referir-se a uma forma de natureza ou de ordem social estagnada (a laia. pois são usados no sentido de que tais pessoas querem usurpar uma p o s i ç ã o que não é sua. prescrita por Leach. T o m a d o s de per si. O Q u a d r o 1 sintetiza a classificação dos insultos encontrados. através da referência ao lugar que se crê apropriado às vítimas: a senzala. Finalmente. Bichos d o m e s t i c a d o s . considerada natural. de superior social para inferior. tais c o m o "maldito". pelo m e n o s . a casta. portanto. em sete tipos: 1) Simples nominação do Outro. Outros termos empregados. O s i n s u l t o s sexuais são referidos por animais domésticos (cadela!. 5 ) A c u s a ç ã o de sujeira. já e n t r e aqueles que se referem à legalidade e ao caráter. 3) Acusação de anomia. 4) I n v o c a ç ã o da pobreza ou da condição social inferior do O u t r o . urubus). Termos como " f a v e l a d o " ou "maloqueiro" são atualizações de locais de moradia apropriados a negros. como "besta" e " m e t i d a " . N o t e m que o recurso à metáfora animal abrange praticamente toda a t a x o n o m i a . raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 177 . besta). "desgraça" e " r a ç a " . referência a uma origem subordinada. o escravo). Este é geralmente um insulto de branco c o n t r a negro. são "negro/a" e " p r e t o / a " . n ã o propriamente animais. em termos de: c o n d u t a delinqüente ou ilegal. anotamos 56 termos ínjuriosos. c h a m a a atenção apenas o insulto que se refere diretamente à " r a ç a " do indivíduo insultado.

58 senzala favelado maloqueiro analfabeto desclassificado metido besta Sujeira fedido merda sujo barata fedorento podre porqueira Natureza raça desgraça maldita Defeitos queimado escíerosado 1 1 1 - 1 - 2 2 - 2 2 - 3 3 - 1 ] 1 1 5 1 i 7 1 :i 1 i 1 2 172 100. M = Mulher.91 1.58 0.5 S 0.16 0.07 0.lasses.40 1.86 Í3.00 0.58 M.58 2.58 1 11 3 2 1 1 1 1 11 0.58 0.33 0.74 1.16 0.23 4.14 1.58 0.58 0. i" de m a i o de 1997 a 30 de abril de 1 9 9 8 .58 6.58 9.58 6. 1 - - 178 C .37 4.74 1.58 0.58 0. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 179 .16 1.58 0.16 Condição social 26 ia 5 4 1 1 9 7 2 1 1 25 6 1 2 - 3 1 .15 4 7 3 1 - 9 5 3 i - 16 7 8 - 66 29 23 8 4 1 1 16 14 2 1 1 55 9 7 2 1 1 1 1 I 38.19 1 Total geral 21 12.58 4.Tabela 2 T E R M O S ÍNJURIOSOS POR T Í P O D E I N S U L T O .37 16.58 0.16 0.74 1.98 5.30 S. H = H o m e m .65 2.21 40 23.5 S 0.58' 1.16 100.00 7 3 1 - 10 1 - 13 - 4 - 1 2 1 1 - 1 - caralho i• i 1 - x OJ >° ^ gaiinha gigolõ homossexual bastardo maria-homem sapatão scort girl safado ladrão sem-vergonha i - 1 1 - 2 - •§ ~ - - 1 1 canceroso imbecil burro idiota 1 - 1 2 1 - .58 0.58 0.58 0. SEGUNDO O S E X O D O INSULTADO E D O I N S U L T A D O R Ins ultado Insulrador T e r m o s insultuosos M M M H H M H H Í Sintéticos negro preto nego negrinho negrona neguinha Animalização macaco urubu Incivilídade índ io Anomia vagabunda filho-da-puta vaca cadela D '— vagabundo inveioso traficante maconheiro Total macumbeiro % despacho de frango - 0.16 1.58 0.58 0.58 0.58 4.58 0.58 0.58 0.58 0.58 0.40 1.26 V ~^ 23 ^~ folgado aproveitador pilantra 2 1 - Fonte primária: Delegacia de Crimes Raciais de Sao Paulo.74 0.í 1 ~> 3 2 - 7 5 3 2 ! 1 1 78 45.34 33 19.58 31.58 0.58 0.16 0.0" 1.07 i:> i 5.58 0.

Pode ser uma arma de última instância. no Brasil. O que motiva o insulto racial e a ordem em que ele aparece no conflito são. anota em Discriminação sigualdades raciais no Brasil. quando os epítetos mais insultuosos. tais estereótipos s ã . é a de que o insulto racial ocorre apenas numa situação de conflito. elementos decisivos para a análise. mentais e doenças: cancerosa queimada idiota imbecil à pagina 2 5 2 : "Com relação aos Delinqüência e defeitos morais: aproveitador folgado incompetente ladrão maconheiro pilantra safado sem-vergonha traficante Moral sexual: bastardo fiiho-da-puta gigolô homossexual maria-homem sapatão scort girl vagabunda Higiene: fedida fedorenta merda nojento podre porqueira suja padrões de sociabilidade inter-racial é notório que a classe b a i x a branca carrega um folclore de concepções estereotipadas do negro. são empre- 180 Classes. mas também um primeiro trunfo a ser sacado. ou seja o grau de intimidade e de confiança mútuas.com freqüência verbalizados em contextos amistosos. de ruptura de uma o r d e m formal de convivência social. ao contrário. e de- Animal/ deficiências: burro senzala Religião: despacho macumba macumbeira Natureza: desgraça maldita raça Defeitos físicos. ocasionar o conflito.tamente a ausência de formalidade entre elas. Isso acontece q u a n d o são tr ados entre pessoas muito próximas. Q u a n d o o insulto é feito? Q u a l a posição do agressor e da vítima na rela- Nomeação genérica: nega (o) negra (o) negrinbo (a) preto (a) Animal/ sexo: barata cadela galinha vaca Animal/ raça: macaco urubu Animal/ hierarquia: besta Hierarquia social: analfabeto desclassificado favelada maloqueira metida ção social? Que tipo de insulto é desferido.O r a .Quadro 1 T E R M O S INSU1.TUOSOS. Seu emprego é n o t a d o principalmente entre m e m b r o s de grupos estigmatizados. normalmente dirigidos a tais grupos por seus detratores. de respeito aos direitos individuais. T a l afirmação nada mais é que a conseqüência do pressuposto de u m a ordem igualitária. amigas. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 181 . a menos que a i n t e n ç ã o ofensiva esteja claramente p r e s e n t . a depender da situação e das características da vítima? Lima afirmação do senso comum. tal pressuposto. Carlos Hasenbalg. e as situações raramente evoluem para o conflito interpessoal e para a violência. Ademais. CLASSIFICADOS P O R C A T F C O R J A DE A F A S T A M E N T O E N T R E GRUPOS AS S I T U A Ç Õ E S D E I N S U L T O A situação que propicia a agressão verbal pode nos ensinar muito sobre o significado sociológico do insulto racial. Na verdade. em 1 9 7 9 . Contudo. resguardada por normas de polidez e formalidade. ainda quando aceito idealmente. pois. na prática social. pode não ser verdadeiro. para simbolizar ju. os termos njuriosos podem ser empregados para simbolizar uma situação iposta a o seu significado corrente. o insulto racial pode ocorrer durante o conflito ou pode. assim como nas situações de insulto ritual. ou seja.

sua nega b e s t a " ' . o 10 T e r c e i r o . que."com a h u m i l h a ç ã o desta. a mesma freqüentemente é ofendida verbalmente. como se houvesse. essas situações de ambigüidade ou de expressão de intimidade nao aparecem nas queixas prestadas em delegacias. soube por seu advogado que a P indiciada disse a ele que ela deveria pagar uma dívida que tinha assumido com a imobiliária. bem c o m o seus filhos. Primeiro. R e p a r e . nao havendo condições de d i á l o g o pacificamente". informando que. humilhar o seu desafeto. sistematicamente. E a vítima. F. D e a c o r d o com os dados de que disponho. a partir cie um determinado m o m e n t o . A queixa transcrita abaixei ilustra tal situação: "Informa a vítima que divide o mesmo quintal com sua c u n h a d a . ou se aproveita a ocasião para coalescer a distância entre ambos. a situação de ambigüidade mostra apenas a ambigüidade das pertenças de classe e de " r a ç a " . q u a n d o a relação entre as pessoas envolvidas está tensa e bastante desgastada por algum motivo. a indiciada. Quando a a m b i güidade existe entre membros de grupos raciais diferentes (brancos e pretos). já que estão desprovidos de significado subjetivamente ofensivo. o insulta n te apesar de não ser amigo do insultado. A queixa a b a i x o se enquadta nessa situação. por parte deste. Prescindo de anotações como sic ou qualquer outra forma de e d i ç ã o dos textos. põe-se nesse terreno ao usar o termo injurioso de modo que possa ser interpretado como um convite à brincadeira. a injúria é usada p a r a encerrar a disputa. c i t a d a c o m o fiadora sem seu conhecimento. mas membros de uma mesma classe social (pobres). proferindo as seguintes palavras: 'aquela nega besta está bem grandinha pra assumir as coisas que assina.s e que a expressão insultuosa ("nega besta") procura c a r a c t e r i z a r a atitude de resistência c o m o sendo provocada pela petulância e arrogância de alguém que usurpa uma posição social (de igualdade c o m o agressor) q u e não lhe seria devida (por viausa da c o r ) . O fato é que. esgotados os m e i o s de convencimento e o uso de a m e a ç a s plausíveis. freqüentemente o uso dc epítetos injuriosos ocorre em situações definidas ambiguamente pelo agressor. 182 Classes. e c o m o disse a o referido advogado que nada devia à i m o b i l i á ria. na data e local dos fatos. c o m u m . seja de ordem contratual ou de qualquer outra. D o mesmo modo. O insulto. sendo c h a m a dos de ' m a c a c o s ' . no c a s o . 'negrinho b a s t a r d o ' . cobrando tal débito. uma 1(15 Essa e as demais citações são transcritas tal c o m o estão nos bole- tins de ocorrência policial.gados entre os seus membros. segundo a vítima. este ofendeu-a dizendo: 'por causa de uma merreca. com enorme ironia. situando-se entre a intimidade da brincadeira (a proximidade expressa no insulto ritual) e o distanciamento expresso pelo conteúdo semântico das palavras ofensivas. r e c e b e u uma ligação do advogado da imobiliária ( 2 indiciado). por desentendimentos antigos. Nesses casos. C o m o era de se esperar. 'vagabunda'. ou seja. e trata o incidente como o início de uma troca de insultos rituais. seja de convivência vicmal ou familiar. Que o fato ocorre fre- q ü e n t e m e n t e . sendo que. quando uma falha involuntária da vítima provoca o ódio d o agressor. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 183 . o insulto racial aparece nas seguintes situações. ficando para o insultado definir a situação: se aceita o outro c o m o um igual. 'favelada' e t c . uma vez que todos sabem fazer parte da comunidade estigmatizada referida pelo epíteto. q u a n d o durante uma disputa q u a l q u e r . sinaliza a passagem da disputa p a r a o conflito. ^ Segundo. uma das partes resolve utilizar o insulto como modo de. 'negra fedida'. diante da recusa ou falta de assentimento da v í t i m a . v o c ê e seu advogado vão se foder. aquela esclerosada'. foi fiadora de um imóvel involuntariamente. na mesma data. " C o m p a r e c e a vítima. na qualidade de fiadora de u m imóvel.

Do mesmo modo. para reverter tal posição. são uns porqueiras. através da humilhação. Assim foi procurado pelo gerente. seja num incidente que o assusta ou desagrada. este passou a ofender-lhes dizendo: 'quem são vocês. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 185 . Seguramente. mas. a origem regional. Entretanto. se quisesse. os defeitos físicos. disse que ele não se encontrava. O insulto é uma forma ritual de ensinar a subordinação. por isso que eu não gosto dessa raça . pode ser que. os insultos raciais sejam mais comuns em situações de conflito. que estava ocupando a vaga de o u t r o proprietário. A queixa abaix o se enquadra nesse caso: "Informam as vítimas que na data e local dos fatos. como exemplo. os defeitos morais etc. vêem-se obrigados a fazer c u m p r i r as normas. o qual prestava serviços de convênio de Assistência M é d i c a à Empresa em que a vítima trabalha. p o d e r i a talar com a vítima. sendo que ninguém o avisou e acabou esquecendo. a p ó s procurarem o averiguado. uns pretos folgados. Q u e imediatamente procurou tirar o c a r r o da vaga e surpreendeu o referido gerente falando para a primeira testemunha: 'Preto é uma merda. mais que uma arma de conflito. ele s e m p r e foi extrem a m e n t e mal educado. e adverti-lo que poderia ser multado caso não retirasse o seu veículo. quando o agressor vê-se na posição de ser corrigido ou repreendido por ter c o m e t i d o uma falha e. e por esre motivo freqüentemente precisava entrar em c o n t a t o pessoal ou telefônico. parece certo acreditar que tais insultos não sejam especialmente m a i s ofensivos que os outros porventura proferidos durante o conflito. ato contínuo. A vítima sente-se discriminada e ofendida em sua honra e imagem pessoal". que estupiclamente o repreendeu. quando não apenas a raça c invocada. ferido pelo comportamento igualitário do o f e n d i d o . Prefiro esperar'. alegando que se a vítima não tivesse gostado que partisse para cima". pelos dados que tenho. a q u e i x a a seguir: "Informa a vítima que na data de o n t e m colocou seu veículo na vaga privativa de vendedores da empresa em que trabaiha. mas também o s e x o . onde são seguranças. se manifesta c o m o insulto. quando não há nenhum conflito e o insulto é apenas o meio extremado de demarcar a s e p a r a ç ã o racial entre agressor e vítima. agride verbalmente a v í t i m a . uma animosidade gratuita ou motivada por eventos anteriores. seja numa disputa.predisposição racista. c o m o 184 Classes. e x c e t o no primeiro. que é morador do C o n d o m í n i o . é nítido o sentimento hierárquico de superioridade do agressor. os negros que. na data de hoje ligou para falar com o gerente comercial e a testemunha retro. O indiciado pelo telefone respondeu: 'Não falo c o m preto. c o m o muitos acreditam. Trata-se da reivindicação de u m a segregação social. com a intenção de tirá-lo assim que começassem a chegar os vendedores. Veja-se. que. seja no dia-a-dia do relacionamento social. n o cotidiano. Ao tomar satisfações sobre o que dizia. segundo informam as vítimas". o mesmo não repetiu tais frases. c o m o na queixa abaixo: "Informa a vítima que o indiciado. desclassificados' e. A vítima e n t ã o tornou conhecimento do fato e ficou sabendo que isso era freqüente. apenas poucos insultos (16) ocorreram durante campanhas sistemáticas de humilhação pública. as preferências sexuais. diante de um fato qualquer. 1 Quinto. ao que foi impedido por familiares. foi entrando em sua residência dizendo: 'vou cortai" vocês no carango agora'. Q u a r t o . familiar e de classe. que não o d e i x a r a m entrar no quarto para pegar alguma arma. ou mesmo ocorram em última instância de ofensa. no cumprimento dos deveres do carg o . Esclarece ainda que nas oportunidades anteriores que falou com o indiciado. Em todos esses casos. Estão sujeitos a essa situaç ã o de risco.

forma de retaliação a alguma ofensa real ou imaginada, os demais foram decorrentes de situações singulares e fortuitas. Algumas estatísticas ajudarão a esclarecer esse ponto. Das 74 queixas em que foram registradas injúrias, 2 9 ( 3 9 % ) se referem a insultos proferidos, no ambiente de trabalho, por clientes, colegas, superiores ou subordinados; 18 insultos ( 2 4 % ) foram proferidos por vizinhos; 1 2 ( 1 6 % ) insultos foram sofridos por negros, na condição de consumidores, inquilinos ou usuários; os demais insultos o c o r r e r a m em situação familiar (6), na rua ( 2 ) , no trânsito (4) ou em decorrência de realização de negócios (.3). Ou seja, as queixas de insulto ocorrem com mais freqüência em âmbitos em que as relações sociais são mais intensas e também mais formalizadas; em que, portanto, o insulto é mais contundente. Das noventa queixas prestadas, quatro referiam-se a minorias étnicas (dois nordestinos, um peruano e uma judia) e, nestas, se registraram injúrias, proferidas em situação de consumo, trabalho ou negócio. N o c a s o dos nordestinos, as injúrias aludiam a seu deslocamento geográfico, isto é, ao fato de serem de outro lugar: 1) "Esses nordestinos desgraçados, vem pra cá querer mandar; sua vaca e t c . " ou " v o c ê tem complexo de inferioridade por ter nascido naquela terrinha de Arapiraca... porque você nasceu na puta que pariu". N o c a s o do peruano, é também sua condição de estrangeiro que é injuriada, junto com sua aparência física: "é por isso que eu não gosto de fazer contratos com esses índios nojentos e ainda mais sendo estrangeiro, tem que morar no mato do seu país". N o caso da judia, a injúria é genérica: "sua judia fracassada... nenhum judeu presta". Examinemos mais de perto os insultos propriamente raciais contra os negros.

Primeiro, é m a i o r o número de muiheres que se q u e i x a m de discriminação e t a m b é m é proporcionalmente maior o n ú m e r o de mulheres que se q u e i x a m de insultos. Ou seja, os insultos às mulheres são mais que proporcionais à razão entre homens e mulheres queixosos. M a s , t a m b é m , os insultos são principalmente desferidos por mulheres c o n t r a mulheres ( 3 6 , 8 % ) e por h o m e n s c o n t r a homens ( 2 9 , 9 % ) , a i n d a que nos insultos entre-sexos, sejam o s homens que o f e n d a m duas vezes mais as mulheres ( 2 3 , 0 % ) que o inverso ( 1 0 , 3 % ) . Isso, contudo, não explica a q u a n t i d a d e de insultos à c o n d u t a m o r a l ou sexual das vítimas, pois s ã o as mulheres, e não os h o m e n s , que abusam de referências d e s a b o n a d o ras à moral sexual das vítimas. De faro, 3 9 % das injúrias proferidas por mulheres c o n t r a mulheres c 4 0 % das dirigidas por elas contra homens referiam-se à morai sexual; enquanto, entre os h o mens, apenas 1 2 % assacaram contra a honra sexual das mulheres negras e nenhum ofendeu a moral sexual de outro h o m e m , preferindo fazê-lo, em 21 % dos casos, em relação à m ã e dos mesmos (Tabela 3 ) .

Tabela 3 I N S U L T A D O S E INSULTANTES POR GÊNERO Gênero da vítima Masculino Feminino Total Gênero do indiciado Masculino 29,9% 23,0% 52,9% Feminino 10.3% 36,8% 4~ .1 % 40.2% 59,8% 100,0% Total

Fonte primária: Delegacia de Crimes Raci.w de São Paulo, 1" de maio de 1 9 9 7 a 3 0 de abril de 1998.

INSULTADOS E INSULTANTES Dois fatos c h a m a m a atenção quando observamos as estatísticas.

Considerando não os casos registrados, mas a freqüência d o s termos injuriosos proferidos, chega-se à mesma c o n c l u s ã o . A m u lher é muito mais insultada do que o homem. N o c a s o de injúrias entre pessoas do m e s m o sexo, as mais numerosas ( 1 0 8 em 1 7 2 ) ,

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Classes, raças e democracia

O mito anverso: o insulto racial

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os insultos envolvendo mulheres são quase o dobro daqueles envolvendo homens ( 7 8 para 4 0 ) . J á nos easos de injúrias intersexuais (54 em 1 7 2 ) , os homens ofendem 5 7 % mais as mulheres do são ofendidos por elas. Em suma, a maioria dos insultantes é mulher ( 5 8 % ) , mas, em c o m p e n s a ç ã o , as mulheres são também as mais insultadas ( 6 4 % ) , isso porque 4 5 % dos insultos contra mulheres são dirigidos p o r outras mulheres e, ademais, os homens as insultam mais do q u e são insultados por elas (ver Tabela 2 ) . O segundo fato que merece atenção é a grande quantidade de averiguados, ou seja, de insultadores, de cor ignorada ou nãoanotada. Como era de se esperar, 9 3 % das vítimas se declararam ou foram declaradas negras, no entanto, apenas 5 7 % dos insultantes foram considerados brancos, sendo que 3 8 % deles não tiveram a cor registrada pelo plantomsta ou declarada pela vítima. Desconhecimento, d a d o sem importância, ou silêncio revelador? O fato de ter havido insulto mostra que dificilmente a cor do acusado não seria notada. P o r se tratar de um boletim de ocorrência sobre crime de r a c i s m o , peça que fundamenta qualquer ação judicial contra o a c u s a d o , também dificilmente a cor do acusado seria esquecida sem propósito. Portanto, é mais provável que 38%> dos acusados t a m b é m não fossem brancos (Tabela 4 ) .

É possível t a m b é m que o gênero, predominantemente masculino, e a c o r , na maioria branca, dos indiciados, assim c o m o as características de gênero e cor das vítimas, ganhem i m p o r t â n c i a para a c o m p r e e n s ã o sociológica apenas no âmbito das relações sociais em que ocorreu o insulto. Voltemo-nos, p o i s , p a r a analisar cada situação em separado.

OS I N S U L T O S P R O F E R I D O S E M S I T U A Ç Ã O D E TRABALHO A m a i o r i a dos insultos proferidos nos l o c a i s de t r a b a l h o provém de clientes ou usuários de serviços prestados p o r trabalhadores negros ( 5 6 % ) . Isso acontece quando t a i s e m p r e g a d o s cumprem n o r m a s ou regras que desagradam ou ferem o sentido de hierarquia dos clientes. O insulto, nesse caso, l o n g e de emergir do c o n f l i t o , o instala. Não se fazem necessárias palavras ou atitudes bruscas por parte dos negros: é a própria a t i t u d e ordinária de c o b r a n ç a , negação, repreensão ou frieza d o s negros que é sentida c o m o ' ' o f e n s a " pelos brancos. Dou um e x e m p l o : " C o m p a r e c e a vítima informando que n a d a t a e local dos fatos, onde prestava serviços autônomos c o m o g a r ç o m , a o servir o averiguado que é sócio d o C l u b e ,

Tabela 4 C O R DECLARADA D O I N S U L i A N T E E DO INSULTADO Cor do insultado Ignorada Negra Parda Total 36,1% Ignorada 36,2°;. Co- declarada do msultante Branca i,4% 50,7% 5,8% 58,0% Morena 1.4% 1,4%_ 4.5";, 4.5%
o -

após este pedir-lhe algumas refeições que c o n s t a v a m no c a r d á p i o , mas que não tinham disponíveis p a r a serem servidas. s< nnado ao fato de ter pedido para que a c o n t a
Total Parda 1,4",, ^2.S"5,S"» 500.0",.

fosse separada, e por norma do Clube o averiguado fora informado que não poderia ter esse pedido a c e i t o , passou a ofender a vítima com as seguintes o f e n s a s : 'graças a D e u s que você não é meu empregado, m a c a c o , se fosse estaria na senzala'. Vítima sentiu-se ofendido em sua h o n r a e imagem pessoal".

Fonte primária: Delegacia de t rimes Raciais de SãoPauio, I de maio de 1 9 9 . a 3 0 de abril de 1 9 9 8 .

Aqui, já se vê, o insulto tem a função de " e n s i n a r à vítima seu lugar" e s p e r a d o , ou seja, a subserviência. P a r a t a n t o , é sem-

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prc mencionado nos insultos o deslocamento social ou o lugar que deveriam ocupar as vítimas: "a senzala", "desclassificados", "essa m a c a c a aí pensa que é o quê?", "negra metida". A inconformidade com a igualdade social dos negros transparece t a m b é m nas ofensas proferidas por superiores: "Isso é um desperdício de talento. Essa deveria estar lavando roupas. Isso aí é para n o s servir."; " E negro, por isso que fez errado! Faz as coisas e r r a d a s e quer chegar cheio de razão! Esses vigilantes nem estudo t ê m . . . " . Ofensas que resvalam para outros âmbitos (honestidade, diligência ou outros aspectos morais), quando direitos trabalhistas são reivindicados ou estão em j o g o . As vezes, os insultados se queixam de que o insulto é precedido p o r um período de "perseguição". T a m b é m os interiores hierárquicos invocam o deslocamento social das vítimas ("não cumprirei ordens daquele negro analfabeto"). Dependendo do grau de segurança do o f e m o r quanto à sua própria posição social, os insultos podem apenas sugerir a animalização ou coisificação dos negros (quando o reconhecimento social d o ofensor é visível), mantendo-se no terreno da desqualiíic a ç ã o social, ou podem progredir para uma completa negação da humanidade do ofendido, situação mais c o m u m quando a distância social entre ofendidos e ofensores é m í n i m a . T a m b é m , no caso de clientes e usuários, há, às vezes, a transferência para os "inferiores", ou seja, para os "empregados", da raiva que deveria ser dirigida contra o governo e.i a organização que os negros momentaneamente representam: "Comparece a vítima nesta Delegacia informando que na data e local dos fatos, onde trai-a lha como p o r t e i r o , logo após entregar o carne do li ! L para a averiguada, foi ofendido pela mesma que dis-e: "eu queb r o a sua cara seu nego safado, ladrão sem -ergonha", e n t r e outras ofensas que foram presenciada dido em sua honra e imagem p e s s o a l " . pelas test e m u n h a s retro qualificadas. A vítima s e n r u - s e ofen-

Em termos de freqüência, os clientes ou usuários insultantes são, na maioria, homens. Mas os h o m e n s ofendem mais os homens e as mulheres ofendem mais as mulheres. Para o insultante, portanto, além do fato de não suportar o que considera "arrog â n c i a " ou "desrespeito" do servidor, o sexo da vítima tem algum a importância. Por que será isso? T a l v e z porque a relação entre os sexos imponha mais formalidade e envolva, a o mesmo tempo, uma abordagem mais simpática. Mas é interessante que os homens negros, insultados por clientes, não declarem, c o m maior freqüência, a cor dos insultantes (quatro em c i n c o c a s o s ) , enquanto as mulheres ofendidas se "esqueçam" m e n o s da cor cie quem as ofendeu (três em sete). Acaso? O fato é q u e a não declaração da cor dos insultantes é mais freqüente em queixas contra clientes e usuários, ou contra superiores hierárquicos, que contra colegas ou subordinados, e mais freqüente nos homens que nas mulheres.

OS I N S U L T O S D O S V I Z I N H O S O local de moradia é i segundo â m b i t o social de maior registro policial de insultos raciais. Por tratar-se de um ambiente doméstico, onde a presença feminina é m a i o r , os registros são, corno era de se esperar, em sua maioria, de mulheres brancas ofendendo mulheres negras (1. em 19 c a s o s ) . As ofensas, quando ocorrem nesse âmbito, são : -spaldadas, geralmente, por uma história mais longa de desavei ças e isso, j u n t o com a proximidade física entre os beligerantes, enseja disputas mais carregadas de e m o ç ã o , que extravasam er. virulência verbal. A moral sexual, a Humanidade, a higiene, os . efeitos físicos e a inconveniência da vizinhança das vítimas são odos alvos de ataque verbal. Eis alguns exemplos: 1) "Suas negrmhas fiii as da puta, negas fedorentas", "Suas vacas, galinhas". 2) "Estou cheia dessa i iça; por que vocês não se mudam?", "Essa raça não presta".

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ódio sem causa aparente. terceiro. os insultos mais fortes partem de pessoas do mesmo nível social cia vítima e. nos OS INSULTOS A C O N S U M I D O R E S As queixas prestadas de discriminação no âmbito de relações cie consumo de bens e serviços são aquelas que menos registram insultos recebidos — apenas 12 das 2 2 queixas fazem-no. por pessoa do m e s m o sexo. disputas em torno do uso do passeio das casas ou da garagem e. oficina e loja comercial. é não apenas secundário. então. que visa promo- pequenos negócios ou na rua e isso pela mesma azão: a grande tensão emocional a que estão sujeites os agresse es. simplesmente. você tem que mudar do prédio". "Que odeia essa r a ç a " . 9) "Maconheiros". "Traficantes". a respeito da honestidade do gerenciamento do condomínio. os insultos. pois a cor. 192 Classes. nesse caso. geralmente. eu n ã o agüento esse cheiro! Eu vomito". nesses casos. 8) "Essa negra do 4 andar. lanchonete. 7) "Sua negra. n ã o é registrada. "Que odeia pretos e nordestinos". "Pretos s u j o s " . quando partem de pessoas de m a i o r nível social ou dos donos do estabelecimento. (. os estabelecimentos pequenos apresentam maior número de casos c o m insulto que os grandes. o ver a imagem pública da empresa prestadora de serviços. Três fatos são dignos de nota: primeiro. da mesma c o r . a discr minação entre vizinhos é insultuosa também o é a discriminação to trânsito. raças e democracia O mito anverso: o insulto racial 193 . olha a cor do indivíduo"). de vizinhança. "Vagabundos". 4) "Suas negrinhas vagabundas.) c o n tato social. dt-feridos. eu odeio negro. O INSULTO N O T R Â N S I T O E EM O U T R O S Â M B I T O S Do mesmo modo q u e . hospital público. Obviamente. provavelmente porque neles a relação c o m o consumidor é sujeita a menor formalização e disciplinamento. puro desejo de segregação. 5) "Além de negra. ainda é queimada. aludem à c o r da vítima ("também. mas também padronizado. mais de 5 0 % das q u e i x a s ainda evocam insultos raciais? Observando-se caso a c a s o . vocês são negras maloqueiras e não prestam". são insultos sintéticos ("preto". filhos das vítimas. sua negra". que tinha inveja da mesma por ser branca de olhos claros e t c " . quase sempre. pois nego tem é que c a t a r papel". maldita. com a agravante de. em t o r n o de brigas e brincadeiras de crianças. c o m o as que se desenvolvem na rua ou no trânsito). para usai' a terminologia clássica da sociologia. e outros cinco em transporte coletivo (motorista e usuário). O que dizer das disputas que geram tais insultos? São disputas entre síndico e condôminos. vagabunda. geralmente. segundo. 6) "Márcia sapatão. Trata-se de insultos pesados. maloqueíra. ou relações não-sistemáticas. tem-se o seguinte: três dos insultos ocorreram na relação entre senhorio e inquilino. desenrolandose normalmente sob etiqueta bastante cuidadosa. eu vou por você na cadeia. dois em estabelecimentos bancários. o sexe oposto não ter tratamento mais discreto. na escola que eu dou aula é cheia de negrinhos macaquinhos e eu reprovo mesmo. carregados sempre de alusões ei sabonadoras à moral sexual das vítimas ou de suas famílias. negra invejosa. envolvendo clientes e seguranças. provavelmente. Esse dado já revela que a relação de c o n s u m o é mais formal que as demais (de trabalho. "negro") ou. C o m o .3) "Sua macaca. tem a mesma virulência o insuh > proferido por familiar. muitas vezes. v o n t a d e de evitar a presença de negros no prédio.

moralidade. o insulto racial ocorre como último recurso de ataque numa disputa interpessoal que se deteriora. Desenvolvi uma interpretação do insulto racial segundo a qual sua função é institucionalizar um inferior racial. raças e demex r. na maioria das queixas que analisei. no Brasil. além da cor — cab íos.wia O mito anverso: o insulto racial 195 . utilizei os registros de queixas na Delegacia de Crimes Raciais de São Paulo. no Brasil. Ainda segundo os registros que tenho. Esses estigmas são rcitcradans. encontra-se. Neste capítulo. canções e -. 4) devassidão moral. 194 Classes.negócios. má-educação ou analfabetismo. que tais pessoas apresenam. no Brasil. Ao contrário.CONCLUSÕES Os negros. Isso significa que o insulto deve ser capaz de. e qualidades e propriedades negativas (em termos de constituição física. principalmente.tde. ou seja. onde o cliente ou usuário sente-se ameaçado pela amoridade de que o negro está investido. não uma decorrência deste. 5) irreligiosidade. que transformou a injúria racial em crime. hábitos de higiene e humanidade) a um certo grupo de pessoas consideradas "negras" ou " p r e t a s " . 6) falta de higiene. Essas conclusões. servir de guia para investigação do insulto racial através de outros métodos de observação e outras fontes. Pelo que pude constatar. referir-se à conduta "indevida" de outrem. da vizinhança e do consumo de bens e serviços. As situações de insulto. modificada pela 9 . nos populares. é constituído pelos seguintes estigmas: 1) pretensa essência escrava. 3) moradia precária. não podem ser t o m a d a s com definitivas. Fazem-no beneficiando-se da Lei 7. organização social. todavia. 2) desonestidade e delinqüência.7 16. no trabalho -. esse "inferior racial". A atribuição de inferioridade consiste na aposição de uma marca sintética. a expressão "tomar liberdade" ou "metida a besta" para alguém. aquelas em que a po-içao de inferioridade do negro precisa ser reforçada por rituais cb humilhação pública. melhor. Interess inte notar que nenhuma característica física. entre 1" de maio de 1997 e 30 de abril 1 9 9 8 . ou em situações em que os brancos se sentem incomodados pela conduta igualitária do negro. 4 5 9 . para estudar o insulto racial. não foi possível c o n firmar a idéia do senso c o m u m de que. por exemplo — loi invocada nos insultos r -gist r a d o s .. 7) incivilid. Devem. c o m o a cor.-nie associados a cor negra ou preta. ameia que saibamos serem c o m u n s em. se q u e i x a m principalmente do insulto racial proferido no âmbito do t r a b a l h o . simbolicamente: a) fazer o insultado retornar a um lugar inferior já historicamente constituído e b) re-instituir esse lugar. Existe mesmo. por conta do número restrito de casos. lábios ou nariz. que se crê socialmente igual a ele. o insulto foi o fato que instalou o conflito. transformando-a em símbolo sintético dc estigma. que se crê superior. no Brasil.

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