O Signo do Cão
Em Sircoma, na Oitava Galáxia, uma raça desconhecida espalhou o terror entre os seres humanos. De onde teriam vindo os rhunqs? Ao que tudo indicava, do próprio planeta. Como seriam eles? Por que os sirkomianos, com sua ciência avançadíssima, não conseguiam debelar essa ameaça? A população vivia em permanente estado de pavor, cerceada em sua liberdade e pagando um elevado tributo em vidas. A Terra, informada da situação, resolve prestar ajuda - mas os sirkomianos são um povo orgulhoso que não aceita interferências externas. Na verdade, já fazia muito tempo que Sircoma recusava contacto com outros setores da Galáxia. Seu governo consistia em um conselho formado, em sua maioria, por Soldados Privilegiados. Também conhecidos como Homens-Força, diziam possuir tremenda força mental, capaz de abater qualquer pessoa comum. Essa força mental era a única arma que usavam contra os rhunqs. Em um universo povoado de seres estranhos, só as poderosas supernaves terrestres conseguiam impor respeito. E mais cedo do que esperava, a Terra é obrigada a enviar para Sircoma seu mais temível instrumento de combate - o Nivelador!

Título Original: Le Signe du Chien © 1961 by Jean Hougron

Capítulo 01
Após vinte e dois dias de uma viagem fastidiosa, avistava o planeta Sirkoma. Incumbido de dirigir uma mensagem de coordenação aos grupos geológicos que trabalhavam na sementeira de asteroides do sistema de Cirbo, depois de registar os seus primeiros relatórios, não pude hibernar senão durante os últimos dois dias. Quer dizer que experimentava, em elevado grau, o sentimento de mal-estar e de irritação difusa que acompanha sempre os cruzeiros demasiado longos no espaço. O aparelho, sob o comando automático, tinha-me conduzido a um milhar de quilómetros de Sirkoma. Fiz a chamada das Frotas da Confederação, para pedir as instruções de aterragem. Tive de renovar três vezes o chamamento, antes de obter uma resposta que me chegou sob a forma de uma ordem brutal: intimavam-me a partir imediatamente. Senti-me aturdido. A minha nave espacial, negra, de um só lugar, da Segunda Frota, que devia ter sido identificada pela torre de controle, era apanágio dos Grandes Questores, e recusar acolhê-la constituía uma injúria tão grave que as leis da Confederação equiparavam-na à rebeldia. Declinei, no entanto, os meus títulos. Houve um longo silêncio, depois do qual, a mesma voz que falava com um acento bizarro a linguagem dos Planetas do Primeiro Círculo, me pedia para esperar. Assaz intrigado, aproveitei para reler os dois parágrafos que o Manual de Navegação Sideral consagrava a Sirkoma. «Planeta do sistema de Sébanathor, colonizado no vigésimo-sexto século da Primeira Era. Estatuto de independência em 286 da Segunda Era. Centro de cultura para a Oitava Galáxia. Dividido em catorze nações que foram, progressivamente, absorvidas pelas mais poderosas: Esitié e Gonove. Estas duas nações, que partilham entre si o planeta, desde o Ano 540, rejeitam em 603 a proposta de fusão da Confederação. Participam no Terceiro e no Quarto Conflito intergaláctico, em campos opostos. Sirkoma foi um dos principais teatros destes conflitos, em virtude da sua civilização de Se gundo Estádio e do desenvolvimento cientifico de Esitié e de Gonove. No fim do Quarto Conflito, em 795, a população do planeta decaíra de seiscentos e sessenta milhões de habitantes para cerca de um milhão e quatrocentos mil. Em 822, Sirkoma negou-se a aderir ao programa de Cooperação Evolutiva. Retira os seus embaixadores das Províncias Extensivas em 824. Em resposta ao apelo de 903, oferece a sua cooperação económica parcial que não foi aceite.» O segundo parágrafo dizia: «População exclusivamente humana, de raça branca e amarela. Capital, Eimos de Salers.» Seguia-se a nomenclatura das cidades principais e dos recursos. Um aditamento dava a lista das invenções que se deviam a Sirkoma. A sua contribuição para a ciência, até o Quarto Conflito Intergaláctico, havia sido notável. Pertencia-lhe, em particular, a descoberta dos campos de torsão que permitiram, no decurso do Quarto Conflito, colocar certos planetas inimigos em novas órbitas e algumas das principais aplicações da anti-matéria. Finalmente, o anexo ao Manual esclarecia que nenhuns laços foram reatados com

Rumei para uma aglomeração mais pequena. porque nos planetas que visitava ordinariamente há muito que tinham reparado as ruínas. Eimos de Salers. a capital. Quanto às massas negras e compactas. cujas coordenadas me foram secamente repetidas. que era tudo o que restava de uma vintena de cidades. a carta de Grunbarth. não se reduzem somente as cidades às dimensões de um peixe-lua. os seus imóveis e os seus habitantes com um enorme ruído de sucção. também. Duas de entre elas. sujeitara-se a essa experiência. sendo a mais evoluída um aracnídeo que se organizara em sociedade a vários metros debaixo da terra.Sirkoma desde o ano de 905. as mais importantes. Sobrevoava uma cadeia de montanhas azuladas. A fraca altitude. Não me apressei a obedecer a esta voz displicente e. que se chamava a rainha da Terceira Galáxia. nas fundações da cidade. Afrouxei. era a causa das ruínas que se me deparavam sob os olhos. quando a voz me ordenou alcançasse o mais depressa a capital Eimos de Salers. haviam sofrido a guerra. não podia desaparecer como se eclipsa o molho de cogumelos de um indígena de Gasha. que mostravam ainda nos seus cumes as fundações de tijolos e os troços da rua de bairros inteiros. e que contava comigo para esclarecimento desta ridícula intriga. dispus-me a examinar uma dezena de cidades. Grunbarth. após a passagem dos velhos cruzadores de implosão do século VI. na sua última mensagem. então. Cyrillid. ordenando os informes fornecidos pelas câmeras e emissores de ondas de reflexão e toda a aparelhagem de registo de bordo. dispersas por dezenas de quilómetros quadrados. e não a guerra. que passara a sua carreira de normalizador a balizar o espaço e a torná-lo menos misterioso que uma grande estrada terrestre. para examinar as ruínas. apenas grossas como punhos. era a planície. Sabia que estes milhões de pedras brancas. O investigador zumbia. eu sabia. afirmava que um navio de cento e trinta mil toneladas. O visor do quadro de bordo iluminou-se e anunciaram-me. Apercebi-me. Nenhuma se me deparava intacta. enormes bossas. o inquérito fora provocado pelo desaparecimento do navio de combate «Kapa de Séméis» que. que juncavam a planície. Não existiam senão algumas formas de vida. depois uma floresta que se estendia por várias centenas de quilómetros. Observava e estava a pontos de concluir que o abandono. anunciava estar em riscos de naufrágio e ia tentar uma derradeira manobra para se colocar sobre Sirkoma. Campos e jardins rodea- . rapidamente. com dezenas de metros de largura e outro tanto de altura. à distância de uma quarentena de quilómetros. eu vagueava de cidade em cidade. Reli em seguida. as extensões desérticas. também. Eu tinha imobilizado a nave espacial a uma trintena de metros de altitude. Após sobrevoar. da altura de cinquenta metros. A nave espacial mergulhou na atmosfera do planeta. O investigador da nave espacial não notou nenhum sinal de vida. antes de os espalhar no espaço como um grande punhado de grãos de arroz. Jamais contemplara tão de perto os vestígios do Quarto Conflito. Além. surpreendeu-me pela sua atividade e vastas dimensões. Estendia-se por uma vintena de quilómetros. sem amabilidade. voando a baixa altitude. Havia. As ventosas de Breix passaram por aqui. com o comprimento de seiscentos metros. uma extensão amarela e pedregosa semeada de algumas moitas. A cidade reclinava-se na curva de um rio. mas os planetas. Hoje. Na origem. eram a obra dos polarizadores de campo que tinham empolgado a cidade no seu abraço para o relaxar bruscamente e a fazer rebentar em fragmentos minúsculos. de o que restava da primeira cidade destruída pelo Quarto Conflito. aspirando uma cidade. que era bem-vindo a Sirkoma. que dirigia o Departamento das Normalizações.

avermelhado. Usava uma véstia curta e negra. um tempo de belo estio terrestre. uma túnica cinzenta atravessada pelo raio violeta da Confederação. desde há um bom número de anos. face ao edifício G. Bocas laterais puseram-se a sibilar. depois o hangar com a letra G a vermelho. flanqueado por quatro torres com um quilómetro de altura. Estas turbinas comprimiam o ar. Perguntei a mim mesmo se Eimos seria a única cidade habitada do planeta. sem interesse.. examinava o seu centro. em suma. jardins e caminhos bordados de flores vermelhas. um tanto divertida também. A quem podiam servir estas torres e esta muralha. Fora reconstruida num estilo assaz curioso. O motor pareceu-me alimentado por um carburante qualquer mal-cheiroso. as fissuras do revestimento da pista principal. Acho-o demasiado vistoso e também ameaçador. Olhei em redor. sobre o telhado. Exprimia-se na linguagem das Províncias do Primeiro Circulo e o seu timbre era ainda mais áspero que o do sirkomiano que me determinara deixasse a órbita do planeta. que me dava o investigador. elevando-o. por isso. em virtude do alarde guerreiro desta construção. escutando distraidamente a informação complementar. acima do solo. Acrescia que a túnica me tornava quase invulnerável às armas habituais e. um grande retângulo na orla do rio. Era confortável e eu deixei-me ir contra as almofadas. bem assim umas calças de linho. enquanto descia em vertical. então. e. que lembravam as estâncias turísticas africanas e indianas da Terra. O meu chauffeur conduzia em silêncio. por onde a erva irrompia.Vou conduzi-lo à Primeira Casa. interessei-me vivamente. Notei. Confesso que fiquei desfavoravelmente impressionado. que dominavam uma planície tranquila? A voz ordenou: . escondia-se por trás das grandes montanhas azuis. O homem convidou-me a subir para o seu veiculo. pois só tinha admirado um semelhante num museu de Stambulio. onde nenhum Terráqueo pusera o pé desde há cerca de nove séculos. O Sol. Continuava nas minhas reflexões. O conjunto fazia pensar nos castelos-fortalezas. Os edifícios que cercavam o espaciódromo pareciam desertos. . que refluía violentamente sob o veiculo. que me prendeu por instantes a atenção.Queira estabelecer contacto sobre o plano principal. mas havia esta enorme fortaleza no centro da cidade. com vários metros de espessura.. a parte central da cidade era ocupada por um formidável quadrilátero. em Sirkoma. ainda na análise biológica e física de tudo o que ficava ao alcance das suas câmeras e antenas receptoras. evito de trazer este uniforme nas minhas missões. com chácaras. Afigurou-se-me um mundo acolhedor. era encadeada por enormes torres brancas. A minha apa- . Não correspondeu ao meu sorriso e examinou-me com hostilidade. Tudo aparentava um estado de abandono. como existiam na aurora da Primeira Era. Nunca alimentei a esperança de ver funcionar um destes espécimes e. Pareciam gostar dos signos exteriores do poderio. Mas aqui. enverguei a «sodie». eu não sabia nada do que me esperava neste planeta. Em regra. Tudo denunciava ordem e prosperidade.vam-na a perder de vista. quando um veículo desembocou entre dois hangares. cujas perneiras enfiavam nas botas. O tempo mostrava-se magnífico. O seu rosto era tão rude e marcado pelas intempéries como o das populações meio bárbaras dos Planetas do Segundo Circulo. Um homem desceu e aproximou-se de mim. então. Descobri o plano. que acionava as turbinas. mas topei com o imprevisto de uma muralha que limitava os últimos campos. Observava-me pelo retrovisor. Esta muralha. o ruído transformou-se num silvo sedoso e partimos. com a súbita surpresa da ausência de humanos. Qual o sentido que isto podia ter numa civilização como a nossa? Antes de deixar a nave espacial.

estas curiosas janelas retangulares. Tornam benéfica a luz do nosso Sol e regulam o tempo. que tateei à procura do sistema que permitia fechar a cobertura do veiculo.. sobre os telhados. Mostrava-se particularmente confiante. Mas o que reteve a minha atenção enquanto atravessámos a cidade. Inquiri da sua utilidade ao chauffeur. feria-me tanto os ouvidos. Losidium. que se topavam em cada encruzilhada. Havia. em redemoinhos. Percorri. Correntes vermelhas e violetas envolviam-nas de ondas fluidas que se aceleravam. A meio das escadas aguardavam-me dois homens. o que me causou estranheza.. O meu chauffeur. Fazia um tal barulho. que me respondeu com nítido orgulho: . para rastejarem molemente em volta do grande mastro de metal. reparei na presença. Tinham janelas. eram tão elevadas que davam a impressão de se circular num estreito canyon. Os quadros em que o negro e o vermelho dominavam.Porquê tanto arruido? . com efeito. Tenho direito de prioridade. As edificações de pedra cinzenta. o que demonstrava que o planeta mantinha poucas ligações com os mundos vizinhos. . seguidamente. Nos planetas da Confederação. previu o meu gesto. Não vi nenhum extra-humano. que se erguiam de cada lado da rua. As casas eram de pedra. Interroguei: .São os Kévios. Diante de nós. de solenóides de Sorx. Nunca tinha visto destas colunas em nenhum. moderando-se. eu examinava as casas e a população. O conjunto provocava um sentimento de opressão. mas não insisti. Assim. que são ainda uma das fontes de energia cósmica vulgarmente utilizada na Terra. o uso de janelas. a quem este alarido satisfazia manifestamente. À passagem. Supus que não apreciavam os estrangeiros em Sirkoma. depois. grandes cefalópodes inteligentes. por vezes. que me tomaram ao seu cuidado. uma sereia estrugiu. Neste é que viviam os Terns. transparentes para as pessoas da casa e opacas para quem olha da rua. com paredes da altura de várias centenas de metros e onde a luz do dia parecia ter decrescido. O veiculo desembocou numa grande praça nua e parou ao pé de uma escadaria de acesso a um pórtico monumental. há cerca de oito séculos que foram suprimidas. Encontravam-se agora até na Terra. pois. o estilo das casas tudo levando a pensar num documentário do século XXIII da Primeira Era . estas estranhas colunas com quarenta metros de altura.O Chefe dos Serviços de Proteção deseja vê-lo imediatamente. em menor grau. O veiculo corria veloz e eu colhi uma visão rápida da população. Levantando a cabeça. Os painéis da cobertura encaixaram-se. As paredes de Roviant. como serpentes preguiçosas. que aumentava ainda o silêncio.e um mo dernismo por vezes desconcertante. tão célebres pelo seu humor muito peculiar como pela sua incomparável habilidade táctil. O que me espantou foram. em seguida. A explicação antolhou-se-me obscura. foi o contraste entre certos aspectos arcaicos. e. mas que me deixaram mal impressionado. que distava sessenta horas de voo subespaciaI. tais como o vestuário das pessoas. Quando entrámos na cidade.. após uma breve saudação. substituíram. tanto mais que a transparência do Roviant é regulável e dá ao interior das habitações a claridade desejada. abriu-se uma porta de metal e o veiculo penetrou na formidável fortaleza. Algumas eram pintadas e outras esculpidas na própria pedra. Abria um vácuo diante de nós. representavam cenas confusas que não consegui interpretar.rência desagradava-lhe sempre e os seus grossos sobrolhos franziam-se. a quem a Confederação abrira os Espaços Exteriores em consequência da sua atitude cooperativa. os grandes painéis que decoravam as fachadas. particularmente o mais próximo. a maior parte das quais floridas.. descobri que as primeiras janelas se rasgavam a uma altura considerável. outro planeta.

que não diziam palavra. de relance.Posso saber o objetivo da sua visita? Entreguei as minhas credenciais ao Chefe dos Serviços de Proteção. que me obriga a viajar constantemente.Ela não constitui um perigo. Ainda que não vestisse a toga turbilhonante. por fim...Nós não queremos reatar nenhuns laços com a Confederação. Os meus dois companheiros. sobretudo com má vontade. . Grunbarth não estava com meias medidas. por onde iam e vinham pessoas atarefadas. uma cadeira.Somos um estado soberano e não aceitaremos qualquer ingerência no. Estudou-me com atenção. dos cidadãos dos Planetas do Primeiro Circulo. ... Este uniforme era constituído por uma espécie de toga que parecia animada de um rodopio próprio e descia até o chão. um pouco mais digno ou um pouco mais jovial do que as circunstâncias o exigiam.. Prosseguiu: . também me mostraria inquieto. teria desaparecido nas proximidades do nosso planeta. Enquanto as lia. Es- . Decididamente. O Chefe dos Serviços de Proteção. As feições do Chefe de Proteção. Encontrava-me numa quadra sem móveis. . à parte um antigo ficheiro movido por bobinas e uma secretária por trás da qual se sentava um quarentão.. multo rápido. de facto. . Acabei por acreditar que não se podia apanhá-lo desprevenido.. depois ao amarelo.. mas isso não é o único objeto da minha visita.Será conveniente. Alguns..Nunca ouvimos falar deste navio de combate «Kapa de Séméis» que. A maioria usava um uniforme de tal natureza que me pasmou. fá-lo-ei portador da resposta oficial do Coordenador para o vosso governo. mostravam-se arrogantes. A despeito da minha profissão.Os estatutos de 286 deram-nos uma independência total. era tão arrogante como aqueles que vira no corredor... em caso de recusa ou de atentado contra a minha segurança. mesmo.. se fosse cidadão de Sirkoma. segundo o que dizeis.um longo corredor.. o que levou os meus guias a sorrir com desdém.. levantou-se bruscamente. um nivelador da 14. Grunbarth havia-mo comentado entre dois tragos de Gotl e eu confesso que. .Sob a reserva de que a vossa curva evolutiva não constitua um perigo para a Confederação. O homem pousou os documentos sobre a mesa. ainda ao violeta e por vezes ao negro como pez.Tenho de confirmá-lo. que me revolveu o estômago. precisava que. passando do azul vivo ao rosa. cujo porte me pareceu sempre correto. Eu conhecia o seu conteúdo. Fui encarregado pela Confederação de renovar as relações com o vosso planeta e de fornecer ao Conselho Supremo um relatório sobre a situação atual de Sirkoma. A sua carta.ª Frota se dirigiria imediatamente para o planeta. depois um segundo. e rematou: . crisparam-se à medida que lia a segunda carta. procurei. diante de uma porta de madeira trabalhada. Era de um efeito grotesco e eu conclui que me sentiria horrivel mente num tal aparelho. fizeram-me tomar um primeiro ascensor. Constava de uma matéria brilhante que mudava de cor e como de substância a cada gesto. Um dos homens abriu-a e indicou-me que entrasse. de semblante insolente. . Esta gente com que me cruzava afigurou-se-me de uma raça diferente daquela que entrevira nas ruas da cidade e que achei agradável. verdade seja. que me concedia plenos poderes de controle. Tirei uma segunda carta da minha túnica.. pelo contrario. Não havia. nunca verifiquei nada de idêntico. muito vaidosos dele. Chegámos. . Mas os sirkomianos que o usavam pareciam.. Todas me dirigiam um olhar em que a curiosidade disputava a hostilidade.. Se assim o desejam.. Deixaramme aqui. Grunbarth. muito diversa. era um rapaz muito clarividente.. não se usavam em Sirkoma.

onde. Seguia-se a trabalheira para os reconduzir ao seu planeta e os convencer. . de uma grave doença. Para conclusão definitiva. que dispersavam como confeitos as descargas atómicas ou os fluxos cárticos.. velo pela segurança dos nossos súbditos. .tes niveladores eram especialmente equipados para descascar um planeta como uma laranja. mas ele readquiriu a calma e limitou-se a dizer: . a fim de lhe facilitar as investigações. se estavam de humor..Vou mandá-lo conduzir ao seu apartamento. Encontrava-se. Supus que se deitaria a mim e preparei-me para lhe lançar uma descarga de sono. Como julgaria ele que a Confederação impunha a sua política aos Planetas Unidos? Por meio de discursos amáveis ou de sugestões corteses? Era preciso conhecer. . as patrulhas militares. na sua gulodice incrível.. estes seres metálicos. uma vez mais.. Convalesce. porei um dos meus homens à sua disposição.se lançavam por vezes através do espaço. Poderá também constatar que não nos desviámos da linha evolutiva e que os nossos cidadãos vivem felizes.. tal como eu o conhecia. a fim de o desembaraçar de toda a construção superficial ou profunda e de todos os germes vivos.. agora.. Nove séculos de paz são a melhor garantia. enfartados de metal e meio asfixiados pelos desperdícios e as escórias que devoravam ao mesmo tempo. quando o Conselho de Triegel se obstinou em querer criar uma nova variedade de para-humanos. após um exame pelos biomatricianos. bastará chamar. Ainda recentemente o demonstrara. Não temos nada que esconder e podemos assegurar-lhe que nunca alimentámos intenções belicosas contra os outros planetas da Confederação. a partir dos gigantescos protozoários do seu satélite. Aí os encontravam. semeado. Se desejar alguma coisa.Desejo fazer o meu inquérito sem ser incomodado. .. atirou a carta para a secretária. de Koga.Agirá à sua vontade. Era também um rapaz que passava com grande facilidade das ameaças aos atos. neste momento. esgotavam os jazigos de mineral que lhes caíam sob a tromba. penso eu...Vê-lo-á. . Grunbarth informava na sua carta dos pormenores da operação e.. . no circuito. a cento e cinquenta anos-luz. o que não se conseguia sem incidentes e exigia a presença de todas as armas assestadas de uma divisão de implosores. O seu ar de sinceridade surpreendeu-me.Estes métodos são inadmissíveis. surtira os seus efeitos.Não. que seriam os únicos juízes do seu uso futuro. Isto sem contar que . revolvendo as aldeias e as cidades para procurar este pitéu a milhares de metros de profundidade. O Chefe de Proteção. divertiam-se a fazer saltar os campos de força e lavravam um continente de lado a lado como uma charrua uma nesga de terra. Eu não gostava muito destes planetas em que o Chefe da Segurança assume o papel de Governador.vizinhos insuportáveis . devia ter tido nisso um prazer particular.Posso ver o vosso chefe? . Grunbarth desorbitou o planeta e o seu satélite. grandes como vasos de guerra.. Durante a sua visita. colocando-o de novo.. Não houve parahumanos nem mais triegelianos. geralmente. O «descascador de laranjas». como dizia Grunbarth. se arremessavam no céu até qualquer planeta do seu sistema.Creio que não governa este planeta? . Interrompi o discurso veemente do Chefe de Proteção. colocando-o no sistema artificial.. num estado de excitação extrema. por exemplo. os Kacir de Sermapal. Mas não lhe concederá mais nada.

Perguntava a mim mesmo qual a significação destas cores deslumbrantes. com a ajuda destes aparelhos inestimáveis. adornado por um jardim florido e um jato de água da sua baía de pedra. . magnífico contra o céu. agora. Valia cem vezes mais do que as nossas enormes maçãs terrenas. mas arranhava mais do que lavava. um navio como «Kapa de Séméis». encaminhei-o para o terraço e mostrei-lhe os grandes géiseres vermelhos. a três luas de Sirkoma. Fi-lo notar e o homem sorriu-me. Cogitava sobre o papel destes aparelhos e acerca do que se escondia por detrás da explicação enfática do chauffeur. o que não se podia dizer de muitos planetas.Quem são os Rhunqs? O seu rosto ensombrou-se. depois considerou-me com desconfiança. a sua cabina de espera e a sua goteira vibrante. aliás. pois. desta bizarra matéria cambiante. Fiz. Interrogava-me sobre a razão desta orgia de flamas. quando uma voz anunciou que me trazia o jantar. o leito tinha colchas e lençóis se melhantes aos dos museus. como se eu ti- . Um homem entrou. cuja luz flutuante passava em rápidos movimentos espiralados do amarelo enxofre ao púrpura. um a um. A cidade baixa era iluminada pelos Kévios. as maçãs. pelo que o desmontei rapidamente. Tinha aprendido que. mas talvez se pudesse. conforme pude. se os chefes da Segurança eram desagradáveis. mas tudo simbólico até às manifestações mais banais. Era jovem. Nunca tinha comido fruta tão saborosa. indo depois para o terraço. fazer desaparecer.Um homem entrou e levou-me para um apartamento cujas três peças davam para um magnífico terraço. Na Terra. eram excelentes. os nossos ricos administradores teriam dado uma fortuna para obter um tal alojamento. que.. nada era gratuito. cujo efeito era. . teria reduzido a cinzas Eimos de Salers. Utilizavam-se ainda os velhos carburantes minerais nos antigos veículos. Destapou.. A casa de banho era uma verdadeira sala de banhos de uma estampa do século XXII. com o aspecto simpático. Os seus aparelhos de massagem e de oxigenação. As gigantescas construções da fortaleza eram sombrias e como que desabitadas. Mobiliado no estilo da Primeira Era. Gastei algum tempo para descobrir que brotavam da muralha encadeada pelas grossas torres que cercavam a cidade. empurrando uma mesa rolante. com a sua banheira fechada à volta. entre os povos dos Planetas Extensivos. Escalavam o céu num ritmo cada vez mais célere. fogosamente. Para que servia esta fortaleza que se erguia como uma ameaça acima da cidade? Parecia pertencer a um outro estádio da história do homem e o seu enorme poderio era irrisório num tempo como o nosso. Cotovelos na varanda.Que é isto? . onde ambos eram geralmente execráveis. pelo menos. também. Em Sirkoma.É para impedir a aproximação dos Rhunqs. As iguarias eram apetitosas. torciam-se e caíam de um jato. os pratos de prata. a sua fortaleza e os seus milhões de habitantes. aqui. para se elevar de novo. Havia mesmo um limpador dérmico. uma autêntica curiosidade. Olhava a cidade. eu pensava no estranho vestuário dos sirkomianos da fortaleza. a intervalos regulares. Detestam a luz. Sucediam-se.. Avistei uma macieira carregada de frutos vermelhos. construíam-se praças-fortes pueris. Seguiu-se-lhe uma outra.. com um único dos seus foguetões. Não devia ser usado com frequência. Antes que se retirasse. vinda de um ponto diferente. uns segundos mais tarde. Sirkoma era decididamente um singular planeta. Colhi uma maçã e trinquei-a. de uma simplicidade quase ingénua. desnudavam a planície limítrofe com a sua fulva claridade. a minha toilette. e as boas maneiras das pessoas da cidade. e outra ainda. quando fui atraído por uma gigantesca flama que rasgou a noite.

especialmente o corpo humano. Foi assim que no começo da invasão famílias inteiras se massacraram. mas este unicamente contra os da sua própria espécie. nas células cerebrais ou na espinal medula . Uma raça desconhecida. Neste segundo estado. segundo me têm dito.. Alguns anos mais tarde. Ora um fragmento.É proibido falar disto. enfim. que não podia aliviar sem dilacerar a carne ou sem atentar. dilatar-se até cobrirem metade de uma cidade com a sua impalpâvel substância. Assim.. sem necessidade. vindos de um outro planeta? Acontecia. Pôs-se cobro a esta penosa situação oferecendo aos Doyo-Doyo animais cujos centros nervosos foram tratados com Pyrium 38. Rolei a mesa para o terraço e jantei contemplando os grandes géiseres que iluminavam a noite de Sirkoma. inimiga dos sirkomianos? Duvidoso. no sistema de Bételgeuse. Nos Planetas das Províncias Extensivas... até o último. Interroguei-me acerca de quem seriam estes famosos Rhunqs. entre outras propriedades. no estado normal. o que parecia uma aposta. quando o julgavam conveniente. Os Doyo-Doyo eliminaram-se pois. viram-se aparecer em Tehora os Doyo-Doyo . há um século.. como se renunciasse a descrever uma visão particularmente horrenda: . Convém dizer que os Doyo-Doyo se alimentavam sobretudo de células nervosas. e os cidadãos de Tehora readquiriram a paz. Deixou-me imediatamente. do Doyo-Doyo.. possui. Mas ainda a propósito deste terrível Pyrium 38. Grunbarth. Grunbarth não me falara de nada que se lhes referisse. então. é o prato nacional dos Solpâtres. No seio da galáxia donde venho. Chegava-se ao ponto de suplicar à pessoa mais próxima o esmagamento da cabeça ou das vértebras. A sua mímica dizia que não podia haver medida de relação entre as medusas que choviam em Solpateria e os Rhunqs de Sirkoma. Cozidas no forno com Terra de Gomme. a de desenvolver num ser vivo o instinto de morte e de destruição. mesmo minúsculo. Grunbarth experimentou-o nos proto-humanos de Juspéron. podiam. Acrescentou.. os jusperianos descobriram formas inteiramente novas de se matar mutuamente. dos mais instáveis. Não escapou nenhum. abandonavam o seu hotel e reintegravam-se no seu corpo.afetavam o sistema nervoso .É a primeira vez que visito Sirkoma. Este produto.vesse dito um gracejo de mau gosto. contra a própria vida. as pessoas correm a apanhá-las ainda vivas.chamados desta maneira por causa do seu grito. literalmente devorado por atrozes comichões internas. entre outras. Saciados. uma espécie de frenesi que se apoderava do ser humano.São monstros. que. declarou-me um dia que o Py- . Os Doyo-Doyo. Uma invasão de seres ferozes. seríamos multo felizes.. que se tornava. Sem os Rhunqs. O servente mantinha uma cara sombria. depois. A este respeito. vocês têm variedade de vulcões artificiais. prestando-se a este serviço. Aqui. produzindo o assobio onduloso e liquido que lhes dera o nome. Era um espetáculo maravilhoso. Por essa altura. comprometido: .A que se assemelham os Rhunqs? Fez um gesto impotente afastando as mãos. existe um planeta onde a noite se acompanha de chuvas de medusas.ocasionava perturbações importantes. posuíam também a curiosa aptidão para atravessar certas matérias tenras. para quem os conhecia. eram da grossura de um punho. transparente. dizendo. . os habitantes têm frequentemente como certo que as instituições e os fenómenos peculiares ao seu mundo são comuns a todos os outros. De manhã. por vezes.. . obtido por via sintética. cujo cinismo eu deploro.

se esclareceram de uma maneira inesperada. com monstros à sua medida e alguns segredos benignos que eu aprenderia muito depressa.um povo violento. ao chefe da Segurança. obrigado. era excelente. quando a voz do criada me perguntou pelo interfone: . e no homem em particular. de sorte que. acrescentou ele. ser destruídos sem demora. ocupar-me-ei destes singulares papões. em casos extremos. por vezes. «É ainda mais eficaz que uma bela ideologia da Primeira Era para limpar um continente». Grunbarth ficaria encantado com a nova experiência. Grunbarth apresentou um projeto de lei que visava a tornar obrigatória a investigação da taxa de Pyrium 38 nas células de todas as raças das oito galáxias. Hoje. Verifica-se o paroxismo deste instinto nas guerras civis e outras. dinâmico. Havia os Rhunqs. Recordei-me de uma das primeiras regras dos Grandes Questores: «Quando se trata de outros mundos. mas não pude resistir a este prazer. diante de um espelho triangular. Poderia. oferece-lhe Pyrium 38. senhor? . Convenho que ele encontrou. que parecia a única cidade habitada do planeta? Os sirkomianos foram um dos grandes povos da Confederação . A não ser uma ilustração antiga. interpretados com a ajuda de novas noções introduzidas pelo Pyrium 38. Provocou-me o segundo um dos maiores sustos da minha vida.rium 38 não fazia mais do que multiplicar em proporções consideráveis um instinto que existe em todas as espécies vivas. porém. Tomarei a liberdade de mencionar isso no meu relatório. como ele gosta de repetir. era a primeira vez que via uma escova de dentes com um tubo de pasta. o que te parece simples é. assim como os grandes mitos terrestres da Primeira Era e os de princípio da Segunda Era. quaisquer que fossem. ai. As minhas reflexões levaram-me até ao fim do jantar. cujas técnicas científicas haviam revolucionado as oito galáxias.Não. um genocida de primeira força. Comia-se cada vez pior nas Províncias do Primeiro Círculo. pensaria que a alimentação. A partir de amanhã. a própria face da extravagância». Passei à casa de banho. que valesse a pena. A direita do lavabo. Perguntaram-me pelo interfone: . Terminava o repasto. a maior parte das vezes. evidentemente. nada restava disso. aqui. por isso. Gritei e comecei a limpar-me desta camada abominável e gordurosa. Contemplei ainda as altas flamas que jorravam das torres e pensei que proporia amanhã. As flamas continuavam a elevar-se das torres. Um jato de lama rosada e morna jorrou-me na cara. Sempre segundo Grunbarth .certas pesquisas o demonstraram posteriormente . mas existe também no seio das famílias mal-unidas. em Sirkoma. Porque teriam os sirkomianos abandonados todos os seus continentes. embora houvesse.Precisa dos meus serviços. A sensação era mediocremente agradável e compreendia que se tivesse abandonado este método bárbaro. porque se teriam refugiado em Eimos de Salers. Sirkoma era um planeta pacífico. num ritmo cada vez mais lento. Duvidava. Premi-os sucessivamente. espessa como um polegar. havia vários botões.como constava do Manual do Navegador . acontece que o individuo toma brus camente consciência de que os da sua raça constituem a abominação da desolação e devem. uma fonte de benefícios eventuais para o planeta. um meio de os desembaraçar destes famosas Rhunqs. contenta-se em utilizar a dose massiva contra os que transgridem a moral muito especial da Confederação. De momento. Presume-se que certos momentos da História do homem. A partir do caso dos Doyo-Doyo e dos Jusperianos. a fim de que estes monstros se devorassem mutuamente.todo o ser vivo tem nas suas células vestígios de Pyrium 38. para lavar os dentes. por exemplo. Se se relacionassem com a refeição que acabava de comer.

como o fazem quase todas as noites. Nunca tinha ouvido nada que se assemelhasse. No entanto. Quando os meus pés tocaram o chão a luz banhava as paredes e o teto. saltei da cama com o espírito em sobressalto. flauta.Os Rhunqs.São os Rhunqs. senhor. o grande grito rouco e penetrante desferiu sobre a cidade. o que acontece ainda nos planetas do Primeiro Círculo. Desta feita. onde a virtuosidade. . Voltei os olhos para a cidade. rasgavam-no e exasperavam tanto que se levava instintivamente as mãos aos ouvidos. o desejo de surpreender ou de perturbar. Com efeito. relaxam os músculos e os órgãos.Precisa dos meus serviços.. oboé e violino.Qual é a origem destes gritos? . a fim de conhecer o que dissimulava. Muito longe. gigantescos clarões amarelos subiam ao assalto do céu. Quando um novo facho de flamas abriu a noite. Anunciou-se o allegro moderato de um concerto em sol maior para trompeta. Uma espécie de mugido cavo rolava pelo quarto. O criado acabava de entrar no quarto. mas a claridade extinguiu-se e não vi mais nada. Fui surpreendido pela qualidade da música de Sirkoma. Relevavam do adágio deste concerto um tormento e um sentido trágico surpreendentes.. A dois passos de mim olhava para o céu. senhor? . desembaraçando-os das suas toxinas. no limite da audição. quando a voz acrescentou: . de correias entrelaçadas por onde passavam ondas reparadoras que banham o corpo em profundidade. Esta música harmoniosa e forte. mas tive saudades das nossas camas terrestres. O mugido estalou. Não era desagradável. Antes de me deitar. Após a descriptagem. senhor? . só as mulheres o empregam. que me pareceu feito de uma matéria vegetal ou talvez animal. pendurei o electrofone... Tinha pressa de o submeter ao descritor musical. que lembrava certos autores terrenos. Acabava de me limpar. onde a flama espiralada dos Kévios turbilhonava doidamente. substituem facilmente a emoção.Não o aconselho a usá-lo. diferia profundamente da música contemporânea dos Planetas do Primeiro Círculo.Posso servi-lo em alguma coisa. no auge da claridade. adormeci rapidamente. Dirigia-me para o terraço. e também uma profundidade pouco comum. quando perguntaram: . Um feixe de fogo escalou o céu negro.O que é este liquida imundo que jorra quando se comprime o segundo botão? . formas fluidas que pululavam. Um segundo mugido ressoou. pois que nunca mente. Prometi a mim mesmo que havia de analisar o facto com o auxilio dos instrumentos de investigação e de conversão da espacionave. Deitei-me.. Sons estridentes. senhor. senhor. desnudava a planície. Atacam a cidade. desenvolveu-se através do céu. para além das muralhas. Olhava atentamente e foi então que me pareceu ver. de rosto sereno. fascinado pelo espetáculo que se oferecia a meus olhos. da Primeira Era. dilatando-se até uma altitude que avaliei num milhar de metros. terei dado um grande passo em frente no conhecimento dos sirkomianos. Fiquei imobilizado a um passo da balaustrada. Explodiam e caiam em prodigiosos fogos de artifício. sabemos hoje da importância da expressão musical e quanto para um povo e para uma civilização ela é mais reveladora do que todos os escritos. colocado na parte inferior da mesa de cabeceira e escolhi ao acaso uma banda no cursor. distingui melhor as formas que eram bem as de imensos quadrúpedes. ele apontou para as muralhas: . onde se mente a propósito seja do que for e pelo simples prazer de enganar. Pensei vagamente em enormes quadrúpedes volantes.Um creme facial para a noite. rolou sobre a cidade como uma avalancha. Decorridas duas horas. Não estava acostumado ao contacto deste colchão. no momento em que o feixe do fogo. muito antigos.

senhor.Quais culpas? O criado mirou-me com assombro. saudou-me e retirou-se apressadamente. fenómenos verdadeiramente estranhos.. cessaram. pouco depois.. nunca tive a honra de os combater. Ocorriam. no planeta donde você veio? . O criado estremeceu.Tenho de o deixar. o ímpeto doidio dos Kévios abrandou.. não entrarão na cidade. Os mugidos cessaram. .Onde estão os guerreiros? Fez um gesto em direção às torres donde partiam.Não são animais. bocejei e decidi dormir.Fugiram. têm a inteligência do homem e. O criado disse: . pois acabou por esta noite. senhor. um último facho amarelo expandiu-se a baixa altitude e caiu.que pulavam várias centenas de metros acima do solo. O seu cadáver..Já viu o corpo de um Rhunq?.. a intervalos regulares. O criado acrescentou: . Os guerreiros vigiam.. progressivamente. Ainda precisa de mim. .Ainda desta vez.. mas sei que não existe nenhum ser tão grande e tão perigoso para o mundo e que tudo em que os Rhunqs tocam perde ime diatamente a vida. de pernas poderosas e com a dimensão de um cruzador sideral de combate.. segundo consta. . Diz-se que outrora não existiam no nosso planeta e que procedem de uma raça que mudou bruscamente após a última Guerra. Os nossos tribunais são suficientes. Quanto às outras faltas.. . senhor? .. Se têm o corpo destes.Estes animais existem em Sirkoma há quantos séculos ? . as torres deixaram de emitir as suas longas rajadas fluentes. Inquiriu: ...Não se é punido pelas faltas que se cometeram. na cidade.. Tanto quanto podia julgar.. perplexo. possuíam um enorme corpo anafado. em Sirkoma. Reservei o seu exame para mais tarde..São o castigo pelas nossas culpas. porque ajuntou: . Voltei a deitar-me. Voltei-me para o criado. que murmurou: . Mas não pelos Rhunqs. .. maior ainda..Não esteja inquieto. Eu devia ter um ar de desassossego. bem entendido? . Em volta das colunas. de irradiar. longas e rápidas flamas. As paredes e o teto...Não. Uma breve campainha retiniu. senhor. Só raramente atacam duas vezes.Sim..

. nos planetas do Primeiro Circulo.Capítulo 02 Na manhã seguinte. a campina cuidadosamente cultivada que se estendia entre a cidade e a grande muralha.. as nossas perdas são também elevadas. Disse ao Pr Alhena. esta noite. .É uma tradição.. Mostrava-se entristecido.Porque vestem assim? .. Antes de responder.. Interrompeu-se. para me acompanhar e responder às minhas perguntas. o que esperava fazer proximamente. Sugeria este espetáculo uma impressão de paz e de felicidade constante. que rodopiavam num delírio de cores.Quem é esta gente? -Trabalham nos laboratórios e nos serviços científicos da Cidade-Mãe.. de rosto grave. a menos que não tivesse pressentido a minha incredulidade... ouvi-os. à minha dis posição. os humanos cuja personalidade foi recentemente registada.. Alhena não adiantou e convidou-me com um gesto a tomar lugar a seu lado num veiculo a ar comprimido que estacionava na grande praça. Que pena. Não olhara sequer uma vez para os portadores das roupas turbilhonantes. deparei com alguns dos curiosos personagens com vestes deslumbrantes. que esperava.Prestam inestimáveis serviços ao nosso povo. óculos como os de certas personagens da Primeira Era.Sim.. vi-os. mais exatamente.Vamos dar uma volta pela cidade? No imenso vestíbulo do edifício. Quarentão. Anunciou-me que o Coordenador ainda não podia receber-me..Sirkoma é um planeta agradável. Muitas vezes nos temos convencido de uma vitória próxima. As ruas da fortaleza esta- . numa atitude respeitosa: . em virtude do seu estado de saúde. Observei: . e que o tinha posto. . Infelizmente. o professor teve uma hesitação. mas eles são hábeis. Do terraço soalheiro eu via o céu claro. para tornarem mais agressivos que nunca e trazerem a morte. usava roupas escuras como as que vestem por precaução. Pr Alhena. tomado o meu pequeno almoço. Conheci-os. Perguntei ao professor: .Quem poderá fazê-lo? Temos experimentado tudo. como se tivesse falado em demasia. Pelo menos. a ele.Porque não destroem estes Rhunqs? .. as torres brancas. capazes de desaparecer durante meses no seu covil. e propôs-me: . haver estes danados Rhunqs.. ou.Parece que não lhe agradam? . semelhante a uma sala dos Passos Perdidos. Conseguimos uma nova vitória e matámos três. o criado introduziu um homem que se apresentou como Pr Alhena. até o âmago da cidade.

como na véspera.o que fazia raramente. Enquanto Alhena continuava a expor-me o sistema de governo de Sirkoma. sucedeu-lhe. o professor. a arte terrena não era mais do que um prazer de esteta resultante de combinações intelectuais.. que se tornou no rosto de um homem lasso e como despreocupado. que posuía o poder de combater os Rhunqs sem armas e de os destruir pela simples força do espírito. No caminho. Devo dizer que em Sirkoma. salpicado aqui e ali de plantas com rostos humanos doentios. há alguns séculos. eu olhava em redor e. Sentia-se que enraizava nas emoções fortes que se exprimiam como espontaneamente no plano da beleza. A originalidade. é que a arte era ainda atravessada por perturbadores apelos. deslocandose uns em relação aos outros. a técnica dos móveis era rudimentar e raro os havia de quatro planos sobrepostos. os efeitos obtidos pelos pintores e escultores sirkomianos eram. expôs-me o sistema político do planeta.Se quiser. Estamos longe da arte terrena. se entre os maiores.ou. O que não obstava a que me sentisse seduzido pela forma de arte que aqui se revelava. desembaraçada do medo e dos seus conflitos. Sirkoma era governado pelo Conselho dos Quarenta. antes de mais. No primeiro plano. dotada de um movimento próprio como nos grandes planetas do Primeiro Circulo. e o arcaísmo do conjunto dos meios de transporte e das casas. Por cima deste mundo. tendo destruído os antigos mitos. sombreado por grandes árvores de folhagem clara. Examinava. como na véspera. em que se visava à proeza. O professor parou o veículo à entrada de uma larga avenida. flamejava um sol verde cujos raios figuravam longos tentáculos bifendidos. então. no entanto. Alhena explicou-me que estes soldados pertenciam a uma falange pouco numerosa. Notei que não dispunham de passeios e só encontrámos algumas viaturas do tipo da nossa. pintores ou músicos. A maior parte dos quadros e das esculturas eram fixos. em que se tratava. O Coordenador em exercício era um antigo Soldado Privilegiado. O Coordenador. podia designar seu sucessor um seu descendente . por exemplo. que tomava o seu papel a peito. a matéria de cada um dos planos era morta e não fluida. senão tão evoluída como a aos Planetas do Primeiro Circulo. que eram nomeados por dez anos sirkomianos. Disse-o a Alhena e também quanto hesitava entre o desagrado e a admiração perante a obra dos artistas sirkomianos. Reinava há dezassete anos. Por outro lado. de surpreender o es pectador e deixá-lo estupefacto. contemplou um fresco que representava seres sem cara.. Seguíamos por um passeio. deixamos o Berp aqui e visitamos a cidade a pé. por vezes. entre aqueles que a angústia do destino dos homens continuava a afligir afrontando os extra-humanos. um dos Soldados Privilegiados. por exemplo. ao passar. ao que parece . uma enorme planta azul. que passavam rapidamente. dos quais dezanove membros eram escolhidos entre os Soldados Privilegiados. não era mais do que uma exceção. de três ou quatro andares. oscilava frouxamente. As feições do homem .vam quase desertas. . admiráveis. dispersos num deserto amarelo. uma espécie de Presidente. e sentia o mesmo mal-estar indefinido. pelo menos como a do Segundo Estádio. Mas isto. Emocionava. Num mundo sem mistério. Desapareceu com lentidão e uma forma ondulante. a arte dos Primeiros Planetas e da Terra não diferia em nada das engenhosas composições dos robots-artistas. Ele sorriu. onde os constrangimentos individuais se tornavam exceção. Esta arte possuía uma significação. e falha de razão de ser. escultores. E.. Porém. mas alguns eram «móveis» como na Terra. as esculturas e os grandes painéis pintados que adornavam as vivendas e os prédios altos. O povo escolhia os vinte e um restantes. de corpos torcidos como flamas. impresionou-me o contraste entre o modernismo de certas instalações que pressupunham uma ciência. com os traços de um criança amarga.

Limitou-se a dizer: . Sentia-me cada vez mais impaciente por sujeitar os quadros e as esculturas sirkomianos ao interpretador. para ai contemplar o equivalente ao esquisito fresco. onde uma espécie de monstro cornudo. Apontei para um canto do quadro. Durante alguns segundos. meio-insecto. rastejava em direção à perna de um dos homens. e toda a circulação aérea... Arrastou-me para uma rua lateral e postou-me diante de um quadro fixo.Porque lhes chamam monstros? Não sabe que é uma palavra que banimos dos planetas do Primeiro Círculo.Quem poderá ser feliz sob um tal céu? Depois. que continuava a mirar o quadro. . as suas avenidas sombreadas.Esta avenida é a do Nascimento da Sombra. confirmei que todos os quadros exprimiam a mesma angústia e a mesma interrogação triste. Não respondera à minha interrogação.Veja. de tal sorte que pareciam gigantes cujos membros se estendiam de um monte ao outro. juntas às provenientes do exame da música.. onde se eliminaram os passeios rolantes de múltiplas velocidades.. como se se tratasse do mesmo ser visto trinta anos mais tarde. meio-peixe. Os seus rostos resplandeciam de alegria ou de gratidão e os seus gestos eram de arrebatamento. adejava contra a face de uma mulher. Enquanto descíamos a avenida que conduzia ao centro da cidade.. . pelo menos no sentido que aqui lhe dão? . as da criança. as cidades de repouso africanas. O pintor não respeitara a perspectiva e os corpos. Intuía que as suas conclusões. apenas do tamanho do dedo mínimo. colocadas no cimo dos arranha-céus para receber as espacionaves privativas ou os foguetões in- .Os monstros não estavam ali. Muitas coisas mudaram.Este móvel foi composto por Dorian. . Por outro lado. há simplesmente oito dias. baixou as pálpebras como se mergulhasse no interior de si mesmo. mas somente quando a obra é da coletividade. onde. Indaguei: . . Quis pôr a claro uma ideia que me ocorreu. Homens e mulheres corriam pelo flanco de uma montanha violeta. a perna do homem e a face da mulher já não têm a cor da carne sadia e viva... Esta foi concebida por um dos nossos mestres. o povo tem esse direito. Amanhã o mal estender-se-à a todo o corpo? Falava como se os dois monstros liliputianos e as personagens do quadro fossem vivos. Um outro monstro minúsculo. Venha. um dos nossos maiores criadores.Estas minúsculas criaturas são hediondas. .. do helicóptero público aos aparelhos dorsais individuais.Sim. subtilmente. à distância. abanou a cabeça e disse: . desde então. me instruiriam bastante acerca do mundo sirkomiano.. Aproximámo-nos do centro da com os seus prédios de dois ou três andares. eram tão volumosos como os do primeiro plano. assim como as gigantescas plataformas. Alguém os acrescentou. aqui e ali. O professor encaminhou-me para a avenida..Pode-se modificar assim um quadro? ..semelhavam. uma planta explodia lentamente para se tornar pedra ou estranho conjunto de linhas e de signos como uma linguagem. Participei-o ao professor. tinha examinado os dois monstros minúsculos.. que corrompiam a alegria do quadro. Alhena.E isto? Decidi que submeteria estes curiosos elementos decorativos à análise do interpretador.. As obras que aqui se vêem datam de há três séculos.

desta beleza estudada. Em relação a alguns. gostava dos olhares tímidos e a modo furtivos que me relanceavam. Não sabemos nada de vocês há cerca de nove séculos. devido aos atuais cânones de beleza feminina nos Planetas do Primeiro Círculo. de que o solion derivou. Não se assemelhavam. Encontrei aí comércios e ofícios que supunha há muito extintos. a cabeleira enxertada de pontos luminosos. Conquanto não tenhamos visitado. não podia furtar-me a admirar a simplicidade das mulheres sirkomianas.. entre os jovens. As pessoas olhavam-nos. mais ou menos. A sua atitude era reservada.Como pode haver pessoas que fabricam sapatos numa civilização que utiliza como principal fonte de energia as interferências de campos? Para quê encobrir o pé nestes objetos de couro ou de matéria plástica. se se pode obter a mesma proteção com um simples tratamento de solion? .E pensa que se produziu um fenómeno deste género em Sirkoma? . . há várias centenas de anos. mas você tem razão: ninguém pode compreender a civilização de Sir- . Aqui. é um dos elementos indispensáveis ao enquadramento exato dos campos de força e ao seu emprego nas casas. com um fundo de excesso de virilidade.Desde o Quarto Conflito galáctico. apetecia chamar-lhes feias. de modo nenhum. envergonhava-me um pouco do meu corpo e da minha cara de homem da Primeira Galáxia. as mulheres apresentavam-se ao natural. de cor viva e com motivos floridos ou geométricos. . os homens seguem uma evolução paralela. de insolência e de violência que se estava habituado a dar aos nossos homens. apurada. sabemos todavia.E no decurso destes nove séculos surgiram os Rhunqs. . Olhava disfarçadamente Alhena. . Sorriu-me e inquietou-se: . com a sua exibição de feminidade até o paroxismo. A primeira vista... pois o antorp. então. pelo menos aos que ocupavam um cargo elevado. que me parecem estreitamente ligados ao progresso e a certos limites da vossa civilização. cujos traços denunciavam ligeiros defeitos.Significa. a íris pigmentada e dilatada por toda a gama de cosméticos. Vestiam como os homens.É o que me parece estranho. às nossas beldades terrenas. . . o seu bigodinho e os seus cabelos grisalhos. desde. De vez em quando. Falto aos meus deveres. Caminhávamos agora por um bairro animado. e eu gostava bastante dos seus rostos graves e doces. Onde quer que se encontrem.. professor.Creio que sim.Não conhecemos o solion. um mundo distante. muito diferentes das olhadelas arrogantes das mulheres terrenas.. e isto de uma galáxia a outra.terurbanos. O professor não retorquiu. que se passou qualquer coisa que esmagou ou desviou o curso normal da evolução. era necessário que o professor me explicasse a sua significação.Cada um segue a lei que lhe convém. particularmente a mim. Observei: . cuja estrutura tem sido frequentemente modificada. as suas feições irregulares. num misto de temor ou de hostilidade.Não tenho constatado isso nos outros planetas de população humana. a pele pintada ou preparada. a cara modelada e remodelada centos de vezes. muito sofisticadas. Há bizarras contradições na civilização sirkomiana..E se o vosso cálculo se revela inexato? . e de curiosidade. entre os adultos. condicionada pela sua biologia e a sua estrutura mental. Ao passar. qual o seu grau de desenvolvimento. embora de calças de seda clara mais largas e de túnica até meio das coxas. um armazém ou uma loja de artesão interrompia a linha das casas de habitação.Acha-me silencioso de mais para quem foi designado para seu guia. . por via delas.

esta moralidade? .Não. em Sirkoma.Não. O que me trouxeram era melhor do que na Terra.. por voltar sempre aos Rhunqs.. Noventa mil pessoas foram mortas pelos Rhunqs. Como vê.. de que eles se alimentam das nossas emoções malignas.Neste momento.Posso admitir que essa gente não respeitou a sua quota e demonstrou menos virtude . as quotas são respeitadas. Se o quociente médio da cidade decresce..E qual é o castigo? . acabamos. . a maioria..Resolvi só beber um por semana.De modo que nunca se sabe quais são os que infringem individualmente a norma? .. Deveriam poupar os inocentes. a 185.. mas quem pode arrogar-se verdadeiramente inocente? .Os nossos viticultores tratam-no com todo o cuidado e na sua profissão as tradições contam mais de trinta séculos... a única.Gosta de conhaque? . Aquele homem vestido de cinzento. É a nossa melhor arma contra os Rhunqs. sentados em pequenas mesas ovais. ..Não se pode medi-la. valha a verdade... com grandes ramos de flores brancas e amarelas. é-nos dado pela atitude mais ou menos agressiva dos Rhunqs.. que varre.. Achei que as pessoas da Primeira Era também tinham tido os seus bons momentos.Sim. na Primeira Era..Mas como medem vocês esta virtude.. acolá entre as sebes dos pinheiros floridos. Isto surpreende-o. O rapaz que nos serviu não deve descer abaixo de 130. . também. podem apontar os infratores. a 378.Sim.. . O meu chefe direto. Aconteceu há oito anos.. Cumpre-me.Este conhaque é perigoso? .E neste momento? .Quanto mais prescindimos de certos prazeres . . .. Disse-o a Alhena. realmente. claro. É certo que podemos sabe-lo.e este de beber é somenos – mais o nosso quociente individual se eleva. Este conhaque é feito como no Planeta-Mãe...que aquela que se lhe exigia? ... . Os clientes bebiam. o único índice que temos do seu nível para o conjunto da cidade. colhendo dai um acréscimo de vitalidade. que sorriu. . Apenas os heróis. . eles pressentem-no imediatamente e atacam ato contínuo.koma sem os Rhunqs. Alhena prosseguiu: ... Informo-o.. todavia. eu devo conservar o meu no nível de 170.. é a nossa arma mais eficaz contra os Rhunqs. de toda e qualquer parte má do homem.Sim. antes de mais. Quer beber alguma coisa neste café? Entrámos numa sala clara.não vejo outra palavra para designar o quociente .Porque não bebe? . falar-lhe deles. mas nessa noite houve igualmente outras vitimas e os monstros não mataram só os culpados. e o Coordenador. está a 115. Pasmava a cada passo. que penetraram nessa noite no âmbito da cidade. desta ou daquela maneira.. Os Rhunqs cometem poucos erros.. onde a quase totalidade das paredes era substituída por sebes. mas o Conselho dos Quarenta e o Coordenador são ciosos da liberdade individual dos cidadãos... os que venceram um ou vários Rhunqs... Assim.Essa a razão por que o criado que me foi atribuído não receava a invasão dos Rhunqs esta noite? . Mas devo manter a minha norma e como sou funcionário de Terceira Classe ela é bastante superior.

. onde as suas tendências e os seus instintos profundos são analisados.. não é grave. em casos mais graves. Provêm do próprio planeta. Seita do Tédio ou outra.. que o Conselho levanta as restrições da alimentação e dos alcoóis durante vários dias.. você é um estrangeiro.Não temos nada de semelhante em Sirkoma.são assaz raras nos Planetas do Primeiro Circulo.Condenam à morte os culpados de delitos importantes? . reeducamos ou sujeitamos a um tratamento médico o indivíduo. ou ainda os problemas que nos colocam os extra-humanos.. sorridente... cultos secretos. lavradas por máquinas especializadas... além disso.. Você. não se comparam ao nosso.. A nossa justiça. algumas vezes. vos pareça incrível ou ainda incompreensível... não cuida da moralidade do acusado: só toma em consideração o prejuízo causado ao individuo ou à comunidade. seguro de si e do vosso poder.. após nove sé culos.. Além de que. que o ortoduc lança um sinal de alarme. ... . loucuras cíclicas provenientes da ociosidade. os Jurispro.. Acontece. .. que decorrem diretamente da nossa forma de civilização. talvez.Não os conhecemos sob a sua forma atual ou uma forma aproximada .. ou ainda um aumento temporário da norma. . beber álcool. uma simples penitência. a criminalidade passional ou outra... . Mas receio infligir-lhe uma quota muito baixa.Donde vêm eles? Dos Espaços Exteriores? . que o submete a um tratamento corretor.senão no fim do primeiro século que se seguiu ao Quarto Conflito galáctico..Tudo isso implica conhecimentos científicos muito avançados. até. Com efeito.. quando a quota geral se considera satisfatória. os cidadãos dos planetas do Primeiro Circulo devem passar pelas cabinas de ortoduc.no que subiste desta . Eu tenho muito medo que o destino do nosso povo. Outras vezes.. uma censura pública. um delinquente em potência a um Centro Psi.Em que época apareceram os Rhunqs? . Como o vosso mundo deve ser diferente do Sirkoma. reforçado por um sistema preventivo: em cada mês. porém. que antes da Quarta .um dos seus caracteres é o de evoluírem incessantemente ...Não. Um simples pensamento de inveja..Nós possuímo-los. homem da Primeira Galáxia. São lhe ministrados conselhos. creio que difere muito da vossa... As sentenças são. hesitante: . apesar das dificuldades gigantescas que não vos apoquentam. Temos ou tras problemas a resolver. O nosso sistema repressivo é. após a investigação das raízes biológicas eventuais do delito.Por vezes. o que nos permite julgar os delinquentes não-humanos. aliás.Mas viemos aqui para lhe contar o que sei da história dos Rhunqs. Sabe.... Alhena encarou-me. Para os delitos simples. Confia-se. Os sentimentos que manifestamos para com os nossos semelhantes têm mais influência. as diversas formas de atentado contra o indivíduo ou a propriedade . Quer outro conhaque? -Pois sim... Apagamos a personalidade do réu e procedemos ao registo de uma nova personalidade a um nível inferior... a expulsão da cidade..... Sucede.. para você atingir essa tranquilidade.Sim. . Cada cidadão recebe um folha que menciona os pontos débeis da sua estrutura. Os Mundos do Primeiro Círculo.. Para seu espanto. o abuso dos excitantes.. Não há pena de morte. . o roubo...Não tem importância.Quão pouco nós nos parecemos. flagelos como os suicídios epidémicos. É a nossa forma de justiça. então. ao que vejo.. de rancor ou um desejo de malfeitoria pesam mais do que cem excessos de bebida ou de comida. ou aquilo que a representa. . . O semblante de Alhena anuviou-se.Não..

Surgiram. ao passo que Esitié tomava o partido dos Planetas do Primeiro Circulo. Durante meio século.. dezenas de planetas tinham desaparecido ou estavam abertos e cavados até as entranhas.. Os homens conseguiram. Esitié e Gonove anexaram pouco a pouco os estados menores do planeta.. e cerca do trigésimo ano a inteligência apareceu na sua natureza. Em certos planetas.. Vinham das florestas e das montanhas. uivando através das ruas. de várias centenas de metros. saiam de noite. cada uma com a força de trezentos milhões de habitantes.. Quando a Quarta Guerra Intergaláctica eclodiu. com maior ou menor sorte. Todos os dias. Foi a partir desse momento que se lhes deu o nome de Rhunqs. na miséria e nas disputas incessantes.Duvido disso. e um certo êxito no decurso dos últimos séculos. Depois disso.. mas a maior parte morreu rapidamente. Hoje. E ali. Nessa altura. por isso.. Sirkoma foi considerada como integralmente destruída pelo conflito durante vários anos. geração atrás de geração.. o que demorava por vezes mais de uma semana.. as querelas recomeçaram entre cidadãos de Gonove e cidadãos de Esitié. Deve-se-lhes os campos de torção.Sobrevivíamos. com dezenas de quilómetros de comprimento. É certo que estamos longe da vitória. Após cinco anos de conflito. entre os que escaparam. e que antes de morrer. então. Ninguém se precaveu contra a sua presença. o antigo mar que separava os dois países. com efeito.. a maioria dos quais feridos. de súbito. pelo menos os que não fugiram para outros planetas.. Hoje. as radiações provocaram o nascimento de monstros.Talvez. não é mais do que um deserto cheio de rochas e de carcaças de navios. nunca mais deixámos de os combater. no entanto. queimavam.. Dissese que era devido às radiações atómicas e aos fluxos cárticos.Guerra Intergaláctica duas grandes potências. . Tudo eram ruínas e no continente sul. depois. gigantescos. novas hordas desciam da montanha. Em breve se contavam aos milhares. Esitié e Gonove. A guerra civil destruiu o que os ataques do exterior tinham poupado. os cães.. Esperávamos chegar ao fim. reconquistamos o solo necessário a nossa subsistência. .. brechas profundas. Começou-se. e numa só noite devastaram a cidade e degolaram três quartos da população. Sobrevoou. vocês curavam as feridas da guerra e esqueceram-nos. partilharam Sirkoma.. voltaram. Aperceberam-se de que os que tinham sido mordidos endoideciam.. onde se se haviam refugiado. a derrota dos Cães foi sangrenta e enterraram-se centenas dos seus cadáveres. .Os cães não morreram. mas em cada geração recuamos as muralhas da Cidade e mandamos agora expedições às florestas e às montanhas. Eimos de Salers conta mais de dois milhões de habitantes.Tudo estava desorganizado.Sim. porque pouco a pouco. calculo eu. Estes viviam nas ruínas. e destruíam. Continuaram a transformar-se. donde saíram os nossos Niveladores. expulsá-los para fora da cidade. As nossas tábuas de memória dizem que os sirkomianos estiveram na vanguarda da ciência. a luta contra os cães.. só restavam algumas centenas de milhar de habitantes no nosso planeta. Até ao dia em que se encontraram face a face. .. não se viu nenhum. testemunham ainda da extensão do desastre. assim como os primeiros geradores de fibrilação circular.. . para procura dos . o seu corpo tinha-se desenvolvido e triplicado de volume. Foi pelo relatório de uma patrulha de reconhecimento que soubemos que o vosso planeta tinha sobrevivido. .. de foguetões e de aparelhos aéreos destruídas.. Paralelamente. quando. começaram a modificar-se. Gonove alinhou ao lado dos Planetas dissidentes do Terceiro Circulo.. mutilados ou corroídos pelas radiações e os fluxos cárticos. matavam os seus parentes.. Os sobreviventes refugiaram-se no que restava de Eimos de Salers.. posso dizê-lo. repentinamente. na doença. no território que dominavam. até o dia em que os sirkomianos foram atacados pelos animais. numa luta de predomínio. com certeza...

Para desculpa da Confederação . para regressarem.Não. a crer no professor. . Não pensa que mais valera não ter criado os altarianos? . para ter a certeza de que possuíam vida e inteligência. . exatamente.. Escutara atentamente a história dos Rhunqs. Nunca gostei da maneira como tinha sido resolvido o problema do carburante para os grandes navios do subespaço... que os grandes navios. Em suma.Quem são os Seres-Duplos? . Assim..Altair-IV é o único planeta das Oito Galáxias que produz o Ségérium...minerais e de certos produtos que nos fazem falta.Esquisita civilização. Há meio século... Precisamos... Eu não dizia nada. salvo que não têm forma determinada e diferem de todos os organismos vivos que conhecemos.. toda a população de Altair IV é composta de seres especialmente concebidos para subsistir na atmosfera do planeta. Assim.. numa certa medida. com acelerações fulminantes. sem nenhuma alteração. mutações? . portanto.Segundo você. Também tivemos os nossos monstros no fim do Quarto e do Quinto Conflitos. que são derivados dos humanoides de Sobos. não sabemos quase nada acerca deles. estas expedições eram inimagináveis. mas um outro universo suportável. podem resistir a uma pressão atmosférica doze vezes mais forte do que a vossa e deslocar-se de maneira mais ou menos normal num globo cuja força de gravidade é trinta vezes superior à da Terra. Fomos obrigados a muni-las de um circuito digestivo e glandular capaz de neutralizar e mesmo de assimilar para as suas necessidades os produtos tóxicos do seu planeta de implantação.Não acredita nesta história extraordinária? . Quero dizer que os descendentes dos primeiros humanoides em Altair IV marcaram. mesmo. animais? . São os únicos seres do universo explorado que podem passar integralmente do estado de matéria ao estado de energia pura. a fim de os adaptar às condições ambientes e temos de recomeçar em cada geração.São. Modificámos-los. Produzimos mutações em laboratório.Já lhe disse que sabíamos das deformações provocadas pelas radiações atómicas ou pelos fluxos cárticos. Resistiram poucos anos e quando tiveram uma descendência. por conseguinte. a experiência foi saldada por um revés... tratava-se de cães que sofreram espantosas mutações. que abanou a cabeça e inquiriu: . Acresce que a maioria dos altarianos é estéril e que a sua taxa de natalidade é inferior a dois por mil. além disso.. apenas. As nossas observações ensinaram-nos. a seguir ao Quarto Conflito Galáctico.Prívamos-los da consciência. esta marcou um retorno aos caracteres originais da espécie... mas por métodos muito diferentes. podendo dizer-se que.Não o sabemos. Modificámos os seus sentidos. excepcionalmente.. Estes seres.havia a ameaça. a vossa... ao seu primeiro estado. sobre as Oito Galáxias. um retorno ao tipo ancestral..Porque a prosseguiram? . completamente. capazes de sair do campo da matéria numa fração de segundo. intervindo no estado fetal. por sua vez. que nesta descendência nunca há aquisição de qualidades ou de faculdades novas . mantinham em respeito.teria sido uma razão suficiente? . é mais complexo do que isso. não haveria.. Não têm necessidade de nenhum navio . . eles também.Não disse isso. Expliquei-o ao professor. Alhena perguntou-me: .. Este metaloide é indispensável aos nossos navios de grande linha. dos Seres-Duplos dos Espaços Exteriores. de tal modo que não vejam o mundo infernal em que vivem. de vários anos.

Não o sabemos.Aqui. acabamos por esquecer a estranheza do Universo. Talvez não fosse para eles senão um jogo. desequilibrando-o... Quando o veiculo se aproximou do sitio onde nos encontrávamos. eles destroem desde logo a nova. ou deixam-se ficar. esta noite. os seus rostos transtornados conservavam os vestígios de uma emoção violenta. Reparei em vários feridos. que viviam em contado permanente. soldados a julgar pela aparência. Projetaram-no fora do seu sistema solar. então. que deslizava com lentidão sobre o seu acolchoado de ar comprimido.Duplos incubavam nos núcleos de estrelas especialmente criadas em sua intenção.. elucidou-me: . mas desviei-os imediatamente.. sinais que ninguém ainda logrou decifrar. porventura com ligeireza.. mesmo. Todos multo jovens.. enfim. às vezes.. estranhos sinais repercutem na cabeça dos navegadores. fazendo saltar da sua órbita o planeta Denata.seria melhor falar de multiplicação .. de satélites e de astros menores colidiram. Os meus olhos cravaram-se nos do homem. ligeiramente levantada.. Um veículo. donde se concluiu. tanto mais que. riscada de longas bandas de um amarelo vivo que desciam do ombro à cintura. Houve perto de cinquenta milhões de mortos. como um petiz que dispersa o bolo de areia que acaba de fazer.Parecem-me agora um tributo muito leve. que gritara e aplaudira com a multidão. respondiam molemente aos vivas da turbamulta. Inconcebí vel aos nossos olhos. Apenas alguns aparentavam gostar do acolhimento caloroso.. Descobrimos que no limite dos Espaços Exteriores alguns deles se telescopiam a velocidades superiores à da luz.. Surgem. Quanto aos outros. . se são nossos inimigos. Isto para nós não tem significação. mas o que afeta um não é ignorado pelos demais.. criando as novas cintilantes que aparecem aqui e ali no vácuo. Usava uma túnica negra. Há dez anos causaram graves perturbações nos Espaços Exteriores. conquanto nenhum deles armado. Vivem a enormes distâncias. como se tivessem assistido a um medonho espetáculo e vivido uma terrível experiência. Os homens. por vezes. além do seu próprio armamento e até do seu próprio projétil. e até. e assimilam qualquer forma de matéria para dela se nutrirem ou com ela. uns dos outros. O professor levantou-se. avançava pelo meio da avenida. A vida é simples. Uma dor aguda trespassou-me a cabeça e .para se deslocar no espaço.. mostravam-se indiferentes e não esboçavam um gesto.. ocupada por homens uniformizados de cinzento e com capacetes. . diante dos nossos navios de reconhecimento. São eles mesmos o seu próprio meio de transporte. Não se reproduzem aos pares .. que andava pelos quarenta anos. se tinham qualquer desígnio... No passeio. Ignoramos... . um tanto análogo ao que se experimenta quando todo o nosso corpo vai de encontro a um obstáculo.. com pensos.. No instante em que fixei a cara do homem. Os sobreviventes.Qual era o desígnio dos Seres-Duplos. tomando cem formas sucessivas. Sobressaltei-me. mais ainda. O professor.. Que mais acrescentar? São os seres mais desconcertantes que nós já defrontámos. Segui-o. agindo assim? ..Há os Rhunqs. senti um choque brutal.. em Sirkoma.São os que se bateram contra os Rhunqs. um homem. a vários anos-luz por vezes.. a multidão que caminhava sossegadamente mostrou-se de súbito efervescente e desatou aos gritos.. mas todos se me afiguravam num estado de extrema fadiga. notei atrás da plataforma. satisfazerem as suas necessidades. escoltando-os durante dias sem lhe causar nenhum dano e. Uma vintena de planetas.. Atrás da cabina de condução estendia-se uma vasta plataforma descoberta.. comparado aos inimigos que vocês têm de enfrentar.mas por grupos de dez ou vinte e só por acaso descobrimos que os jovens Seres.. fazem-nos explodir. ..

que você não é um sirkomiano. Imagino que o que leu no meu espírito deve ter-lhe desa- . O Homem-Força teria sabido muito acerca de mim se dispusesse deste espantoso poder que lhe atribuía Alhena. sem o auxílio de quaisquer armas. mexi. para fazer desaparecer a anquilose. o Homem-Força. atravessou o meu cérebro. Eu estava. mas o que não sabia é que este tentou.. Sabe que podia ter morrido. podem matar um monstro em breves segundos. se você tivesse examinado a sua «tany». Alguns. então. conscientemente... que trejeitava ligeiramente. o seu sucessor. A dor descia agora pela coluna vertebral. furioso. que me arrastava através da multidão.. tive o reflexo de libertar o campo de força protetor da minha túnica. É um Homem-Força e não se deve suportar o seu olhar. de solidão e lições. ou então.. . O professor reatou... Temos alguns Homens-Força que mataram uma centena de Rhunqs. Os outros entram no Grande Colégio Sirkomiano. O Pr Alhena tinha razão: os Homens-Força podiam matar. desarmados e até o esgotamento das suas forças. por altura das grandes festas e da cerimónia da Meditação.São Soldados Privilegiados. após uma hesitação: . sendo. atingido pelo ricochete do choque.pois poucas coisas lhe escapam . Isso vai desaparecer.. Respirei a plenos pulmões.Respire lenta e profundamente. Os dedos do professor enterraram-se no meu braço. os nossos sábios seleccionam-nos e tiram-nos aos pais.. então.. entre os quais o Coordenador escolhe.. Vivem em células escavadas nas fundações da Fortaleza. A dor atenuava-se pouco a pouco.. conforme todo o meu corpo o gritou durante alguns segundos. o pescoço e os ombros doridos.. Vi. entretanto que a multidão dispersava diante de nós. que significam dezoito vitórias sobre os Rhunqs. Quando a dor. Quando ousei levantar de novo os olhos para o veículo. de que qualquer coisa forçava um caminho. teria contado dezoito ranhuras. como uma lâmina. . como aquele que você viu. agora. O professor. e têm de cultivar o seu espírito até submeter-lhe o corpo e todas as suas funções. no entanto. com um esforço.. E a minha dor começou a decrescer. é perigoso. recomendou-me: . São. Combatem os Rhunqs unicamente com o seu espírito. pressionando suas paredes. Baixei a cabeça bruscamente. Os reprovados neste concurso devem entregar-se à morte ou combater os Rhunqs. assassinar-me. em regra. desenvolvem as suas faculdades até o momento em que ascendem ao grau de Soldados Privilegiados.. obrigados a levar uma vida de privações e de sofrimento.Este Homem-Força teve de descobrir . Demos. e que é de sétima estrela. Tinha a impressão de que o meu crânio ia estalar. assim.. com precaução. Tinha ainda uma dor surda. com o professor a amparar-me. Neste momento. não desconhece nada a seu respeito.tive a sensação de que o homem esquadrinhava o meu cérebro..Donde vem o seu poder? .. no lado direito da cabeça. Durante quinze anos de abstinência. Murmurou: . Passei a mão pela testa suada. mas não levou com certeza a tentativa a bom termo.. Massajava docemente os músculos do meu pescoço.Desde a infância. Quis saber quem era e sondou o seu espírito. Nunca se misturam com a população. mas fiquei arrasado como no fim de um combate violento. segurando-me pelo braço. proibido suportar o seu olhar. viu-o afastar-se numa bruma movediça. Recue... uns vinte passos.. como hoje. os da duodécima estrela.Quem são estes Homens-Força? . Aliás.Baixe a cabeça.. A dor começou a diminuir. senão depois de combates vitoriosos.

. O professor lançou-me.Nessa altura.. Não é extraordinário?. O meu aparelho continuava em frente do hangar principal. O corpo e o espírito quebrados pelo ataque do Homem-Força..Gostava de saber porque é que o Homem-Força voltou a multidão contra você.Farei um relato sobre este assunto.A não ser que você não seja verdadeiramente amigo dos sirkomianos e que o Homem-Força o tenha pressentido. de repente: .Não notei que tivesse voltado a multidão contra mim. A propósito. deitava-me um olhar perplexo. e eu tive de puxar da minha arma para o defender. Alhena resmungou: . Suspirou. aqui há meses? .A não ser que. .Não sou vosso inimigo.. A banda emissora pôs-se logo em movimento: «17 horas. porque não teria largado as espacionaves de socorro? Chegávamos perto do Berp que nos conduzira à cidade. e começava a compreender porque é que Grunbarth tinha tanto empenho em saber o que se passava neste planeta esquecido há nove séculos. Um homem bateu-lhe. Sirkoma ofereceu a sua cooperação económica. Não passo de um inquiridor enviado ao vosso planeta pela Confederação... .. cabisbaixo. . desaparece a alguns milhares de quilómetros de Sirkoma.. . quando um cruzador como o «Kapa de Séméis».. novamente. que examinara os relatórios recebidos acerca de Sirkoma durante os últimos cinquenta anos.Quer voltar à cidade? ..gradado. como se a irrupção súbita do Homem-Força no meu espírito tivesse deixado traços duráveis e provocado a lesão de certas células.. tempo de Sirkoma: mensagem do cruzador-nivelador «Spotirezza de Do- . como se cogitasse a meu respeito qualquer questão inquietante. os antepassados desta gente inventaram os campos de torção e os fibriladores. Não durou mais do que um minuto... Receio que tenta sido um lamentável malentendido. Abri a portinhola e entrei. um olhar furtivo. gostaria que passássemos pelo aeroporto. pois. um grande cruzador não pousou perto de Eimos de Salers.. O professor parecia sincero.Primeiramente. mas também muito mais ricos em recursos inesperados do que eu pensara a principio. Ao despedirmos-nos. A intervalos. Interessavam-me.. Ora. O professor propôs-me: . Talvez tivesse visto uma ameaça. nesta medida. Não dei por nada. O seu espírito incisivo e esta espécie de sexto sentido que o fazia adivinhar o perigo mais camuflado. devolveu-me um meio sorriso tímido.. franziu de novo as sobrancelhas e disse. . E o que é que se há-de pensar. a não ser que. . Os sirkomianos eram muito menos inofensivos.Sim.. «Kapa de Séméis» talvez se tenha esmagado contra a outra face do planeta.. Era possível. muito amofinado pela minha desventura e eu sorri-lhe para o confortar. que era a de um povo agrícola de quinto estádio.. mas porque não teria ele lançado um último apelo.Não. você estava semi-inconsciente. capaz de fulminar um continente em vinte segundos. evitaram se contentasse com as conclusões tranquilizadoras do Departamento de Síntese. Tinha um ar honesto. Tenho de ir buscar alguns objetos à nave espacial. dissera-me: «Ao Apelo de 903.. Continuava a sentir uma dor surda no lado direito da cabeça. tinha perdido o prazer de deambular através da cidade. sem um só pedido de socorro?» O professor caminhava perto de mim.

» A voz anunciou: «Fim da mensagem».. Era o undécimo cruzador-nivelador destruído pelos Seres-Duplos. O professor balbuciava. o interior da espacionave foi filmado por ondas fortes.. Este movimento giratório cessa e constatamos então que. Os assaltantes retiraram-se. Agora que o fenómeno parece ter cessado e que o planeta está de novo visível. O Ser-Duplo emite um feixe onduloso que se divide e envolve o navio.. cujo clarão se atenua gradualmente. o que lhe disse. responder por eles. Um dos comprimentos de onda fundiu os discos de voo do quadro de bordo e as mudanças de dispositivo decifrador. seguindo trajetórias paralelas.nai»: alerta a todos os aparelhos da Confederação. cuja parte superior. A 334-09. notou: . tentamos passar ao subespaço. até sumir. Observamos o espetáculo a uma distância de quatro anos-luz. A que correspondiam estes blocos gigantescos dispostos no planeta cercado? Porquê ter destruído o cruzador-nivelador? Com que forma de inteligência nós tínhamos de tratar? Grunbarth acreditava de vontade de poder dos SeresDuplos.Repita. na minha ausência.. Enquanto voltávamos para a fortaleza. referência universal. Peguei em duas malas.. não vim como inimigo. dirigem-se para um planeta e envolvem-no a grande velocidade. Dizia que nunca tínhamos defrontado um tal perigo. Aqui.. Houve um breve silêncio. .. No decurso da operação. do cimo dos blocos. depois recomeçou: «A 18 horas e 37.. descobrimos a presença de Seres-Duplos. Estou convencido. tentativa de aproximação da astronave pelos habitantes do planeta. Mas o Conselho Supremo da Confederação não quis perfilhar as suas conclusões e limitou-se a mandar patrulhas de reconhecimento para os Espaços Exteriores.. tempo de Sirkoma. Alerta a todos os aparelhos.. de vários quilómetros de altura.. partem cabos luminosos. de emoção.... em direção à Quarta Galáxia.Já lhe disse. que se lançam no espaço à velocidade da luz. manteve-se . Emergimos do subespaço na constelação de Sergéi. . pelo contrário.Mas é muito pequena. não podendo. Alhena tomou lugar no veiculo. Tempo 748-19-334. descobrimos a presença de gigantescos blocos escuros. levando os seus mortos.. dirigindo-nos para uma estrela de terceira grandeza não classificada. A propósito. nada justificaria uma tal atitude. Além de que não tem nenhuma escolta. O Pr Alhena. Milhares de linhas brilhantes.. . as linhas fundem-se e recobrem o planeta com uma espécie de crosta multo brilhante. Tempo 017: um Ser-Duplo acaba de surgir diante de nós. Repercutem sinais na cabeça dos membros da equipagem. Parecia sincero. plana. que examinava curiosamente a nave espacial. cruzador-nivelador «Spotirezza de Donai» em missão investigadora nos Espaços Exteriores. gira. bem como num cofre que levei para o veiculo do professor. O anel ganha um brilho resplandecente. A tempo 011. gostaria que informasse o Coordenador da que era melhor cessar todo o ataque ou toda a tentativa de investir contra a espacionave. Tivemos de lançar dois projéteis. ao Coordenador ou ao Chefe da Segurança.. Qualquer que seja a desconfiança de certos dignitários sirkomianos para com a Confederação..Mas não foi atacada! Isso seria faltar à consideração devida a um visitante. Nova tentativa às 18 e 52. Pensei no cruzador «Spotirezza de Donai». Como o anel se aproxima do cruzador. Tivemos de dispor os quadros de proteção e de pôr fora de ação dois dos atacantes. Os atacantes estavam munidos de neutralizadores de campos. É desejável que estes ataques cessem. tanto mais que o sistema de defesa autónomo da espacionave poderia causar danos importantes em Sirkoma. Os conversares não obedecem. no entanto. Reparações efetuadas». Julgava que tivesse vindo numa dessas enormes naves como parece que havia por ocasião do grande Conflito Galáctico..

Tirei-o da mala e pu-lo a funcionar. uma grande solicitude. Voltando ao meu quarto. se o Coordenador o tinha destacado para a minha vigilância. A minha aventura com o Homem-Força já devia ser conhecida e tinham provavelmente tirado certas consequências sobre as fraquezas dos homens do Primeiro Circulo e sobre as suas medíocres barreiras mentais. Preferi utilizar o meu. ao invés. Pareceu-me sinceramente indignado que se pudesse atacar a nave espacial. Contudo. . mas. havia procedido com as suas razões. Resolvi comigo submetê-lo ao investigador. Não manifestou qualquer ironia. logo que possível. aconselhando-me a descansar e a usar um dos aparelhos da casa de banho que tinha o poder de regenerar as células. cruzei com vários sábios de vestes turbilhonantes. Todos me mostraram uma hostilidade mesclada de ironia.silencioso e preocupado. Tomei a colação que o criado me trouxe. Regulei-o para três horas e adormeci quase imediatamente.

a sua ameaça permanente. coexistiam. o Homem-Força tinha apagado as minhas recordações de seis minutos e eu não conservava nenhuma lembrança do que se passara durante esse tempo. diante do aparelho. mas também apanhavam o traço das ondas mentais e impressionavam nas orlas anexas na radiografia sumária dos seres vivos fotografados. Por outro lado – e eu pensava nas quotas de moralidade . Em seguida a algumas considerações gerais. O professor tinha razão. de apagamento da memória. o combate que os opunha ao povo e a fabulosa legenda que os rodeava. Mencionava um trabalho de reconstituição do lóbulo direito do cérebro. pespontada. sobretudo. Levantei-me e deitei uma olhada à banda registadora do regenerador.«O exame das formas de arte sirkomianas revela. o predomínio de um estado de medo que corresponde fielmente às con- . notório no habitat. de que não conhecia nenhum equivalente no mundo. que confirmaram o que eu já sabia. mas iludia-se quando pretendia que eu perdera a consciência. mas devo reconhecer que o exame destes dados contraditórios não me permitiu uma visão coerente da civilização de Sirkoma. em Sirkoma. O céu sempre muito puro. uma técnica avançada e um bizarro arcaísmo. pois. Eu não acreditava nesta legenda. a temperatura tépida. Portanto. que banhavam a cidade com as suas espirais amarelas e vermelhas. assemelhava-se demasiado às que corriam nos planetas atrasados da Quarta Galáxia e que não são mais do que velhas sequelas deixadas pelas superstições primitivas e pelos antigos deuses oriundos das forças físicas da natureza. de solenóides de Sorx que captavam os fluxos cósmicos. Faltava juntar a tudo isto os curiosos Kévios. no vestuário e no que eu tinha visto do sistema de mutação. contemplando a cidade do terraço. senti-me bem disposto. Em primeiro lugar. Muito simplesmente. ampla matéria de reflexão.existia um nível espiritual que tornava os sirkomianos comparáveis a certos povos religiosos da Primeira Era. Sentei-me no lajedo. em consequência da agressão do Homem-Força. Sentei-me numa poltrona para meditar mais à vontade sobre as características de Sirkoma. o uso dos campos de força. Levantei-me e tirei do bolso interior da minha túnica os filmes microscópicos do meu passeio pela cidade. Os filmes eram não só sensíveis às formas e às cores. Tinha. O estabelecimento da barreira de defesa reduzira a este breve lapso a ação do Homem-Força. o decifrador disse: . e. havia os Rhunqs. sofrera uma pequena lesão de certas células. pela brancura de uma herdade. como já o notei. tentativa. Esperei. Sirkoma era um mundo sedutor onde gostaria de viver e quanto mais pensava nisto mais esta história da maldade dos Rhunqs fantasmagóricos me parecia ridículo O analisador tocou e eu desprendi a banda que deslizava no circuito de decifração.Capítulo 03 Quando acordei. estes extraordinários Homens-Força. Os campos e os vergéis formavam à roda da cidade uma grande cintura verde. aqui e ali. Em segundo lugar. Introduzi-os no analisador que se pôs a resmungar. também. entre a quase totalidade dos seus autores. iniludivelmente um adversário perigoso.

pelo assunto banal. o filme registou uma ponta de emotividade entre os dois indivíduos. qualquer coisa branca. Ao longo das idas e vindas com o seu companheiro. com toda a evidência. Uma dezena de homens revezaram-se para a levar a termo. O tema verdadeiro é um desejo amoroso socialmente condenável. sua condição não parece inferior à do homem como neste último planeta. impulsos de alegria em corpos submetidos a uma subtil tortura muscular. na vivacidade das suas cores. com frequência. para recuperarem a intensidade normal vinte segundos depois. Observe-se. se caracteriza por símbolos eróticos mais ou menos habilmente dissimulados. seguida de um novo incremento com decréscimo regular segundo o primeiro ritmo. são mais pronunciados. Às onze horas e trinta e cinco.. Não foi possível precisar os seus elementos. distinguimos dois tipos de quadros. mas esta reminiscência era extremamente débil e eu não a relacionava com nenhum acidente exterior que a tivesse causado.. exceto os sentimentos evidentes de terror e de exaltação. reveladas na sua alegria fácil. comparam-nas com as de Borgsymaya. o emprego da cor negra nas partes superiores. a esperança que se quer mostrar e todos os atributos visam a uma expressão intelectual da felicidade. em particular. A quando do contacto.o uso dominante de cores vermelhas e amarelas. que não diferia em nada da dos humanos dos planetas do Primeiro Círculo. o decifrador observava: «A ausência de toda a pintura nas mulheres.» Tentei lembrar-me destes vinte segundos. De um lado.» Após um breve estudo da fisiologia dos sirkomianos. O homem escondeu o objeto sob as roupas. «. nota-se um aumento progressivo da emoção durante uma centena de metros. os mais numerosos. um paroxismo com descarga glandular na corrente sanguínea . não se liga a um sentimento amoroso. a submissão. Em certos pontos geográficos da cidade.depois uma queda durante cerca de quatrocentos metros. O decifrador estudava agora as esculturas e os quadros que tinha admirado na grande avenida. Num sujeito que caminhava na vossa frente. o estado de medo. imagem seiscentos e cinquenta correspondente ao instante em que bebia o meu segundo conhaque – as ondas mentais emitidas pelos clientes da café perdiam a décima parte da sua força habitual. que raramente representa humanos. mas a escolha das cores. Imagem 436: veem-se risos em caras lívidas. Estes homens forneceram constantes informações pela rádio. como um momento e surpresa ou de distração. uma mulher de túnica azul que entrega furtivamente a um homem. bem como a forma atormentada do desenho. aliás. contradizem o ardor dos gestos. a modéstia da sua atitude. Estes últimos assemelham-se. mas em balde. mas esta emotividade. É interessante verificar que esta arte. que porventura representa um combate de monstros contra um sol em vias de explodir. Além disso. corresponde muito exatamente ao esquema de Corterallo para as populações de Segundo Estádio. mas sobretudo seres de sonho ou pesadelo ou ainda plantas e signos matemáticos.. você foi alvo de uma vigilância permanente. os que se poderiam classificar de obediência e de submissão. e o seu corolário. apenas. enquanto estive no café com Pr Alhena. austera na sua forma.. Seria interessante conhecer-lhe a origem. com os três sinais clássicos de culpabilidade e a tentativa de destruição do objeto amado. imagem 109 e seguintes. indicam um conflito. sem olhar a mulher. aos primeiros. Imagem 502: o grupo de crianças que se diverte sob as vistas de uma mulher encontra-se sob um céu morto. do outro. opaco. Os transeuntes que cruzaram convosco ou vos ultrapassaram e os frequentadores do café. uma vaga sensação. Um dos quadros móveis. a vibração da luz.clusões do exame psicológico dos habitantes e das gamas de ondas que eles emitem. manifestavam a seu res- . os quadros que qualificaremos de «diabólicos». o vestuário que lhes dissimula o corpo e as formas. Retive. Todavia.

um dos sirkomianos presentes. que tentou contra a sua pessoa uma agressão de tipo ignorado. Vocês utilizam esse processo na Terra. cada lar recebe um. em que você ficou incluído.. presumivelmente. Este homem.. mas de tom apelador. assaz sumárias... não é certo. a esta inclinação. As marcas deste campo inscreveram-se nos filmes sob a forma de estrias negras. Devia ter o horror da mentira e era.» Refletia nestas conclusões. Nenhum cedeu. Perguntava a mim mesmo que ideia se tencionava implantar no espírito dos sirkomianos. à graduação zero. a ponto de correr um perigo de morte. O professor avistou o televisor que eu tinha pendurado alguns momentos antes.. No écran.. O professor entrou. Ideia multo velha.. a hostilidade dos sirkomianos que o cercavam redobrou. segundos depois. Considero pouco moral. que auxiliou o seu companheiro a protegê-lo da turba. o homem que o acompanhava registou os seus propósitos. tocando apenas o nível do sub-consciente? .ou mais provavelmente o Chefe da Segurança .. que seguia de pé na plataforma de um veiculo. Só um analisador de estrutura poderá definir este campo. Convém saber que. mesmo parcialmente.Aqui. No entretanto. A nossa análise foi contrariada pela emissão de um campo de força controlável. e em alguns uma vontade evidente de contactar consigo.. Não foi possível examiná-lo completamente e notamos apenas uma hipertrofia da região hipofisária.Ignorava isso. Eu observava Alhena..Tenho uma excelente novidade: o Coordenador incumbiu-me de lhe dizer que se sente muito honrado por recebê-lo. É um dos méritos do Grande Conselho. apesar de se terem inventado filtros de proteção contra esta variedade sub-reptícia de propaganda. que tenham uma outra aplicação. durante o nosso passeio pela cidade conquanto o tivessem o encarregado de registar as minhas intenções . valha a verdade. O criado anunciou: . possui uma psicologia sensivelmente diferente da dos sirkomianos. as ondas eram emitidas com uma frequência demasiado alta.. . . O mais comum era a hostilidade. parecia sincero. durante a sua investigação. parece indicar uma tentativa de registo mental. cuja natureza parecia ir da admiração à credulidade.não procurara ludibriar-me.se utilizavam televisores para inserir certas noções de maneira inconsciente no espírito dos espectadores. voltando. quando o interfone vibrou. Sabia o que isto significava e que em Sirkoma .O professor sabe que existe uma propaganda por imagens ultra-rápidas. Por que razões o Coordenador . porém. Estava mais ou menos convencido de que. mas não ousava servir-me do decifrador em presença do professor. . Está completamente refeito? ..Sim. Isto.. É possível. seguida de curiosidade. Durante a agressão. de qualquer maneira. um homem virtu- . A existência de ondas de sondagem.peito sentimentos muito variáveis. como sempre. O sentimento de hostilidade contra si atingiu o cúmulo num homem vestido de negro. prazenteiro. A agulha oscilava por vezes para a direita. de resto . E na Terra? Não respondi imediatamente..Existe um aparelho idêntico no vosso planeta? -Sim. interrogueio: . Pronunciou algumas palavras infelizmente indistintas. um homem falava da escolaridade em Eimos de Salers. emitidas ao nível cerebral médio. Pelo contrário.o teria posto à minha disposição? Alhena era um homem modesto.como em muitos planetas das Oito Galáxias.eralhe favorável. Alhena deseja vê-lo.O Prof. Olhava um dos quadrantes do analisador.

Andavam por trinta e escutavam as explicações do mestre. afinal.Bem. as equações e as curvas. O professor esclareceu-me: . invariavelmente uma degenerescência da sensibilidade até à demência. assemelhando-se a não importa que rapazinhos terrenos. que lhe infundimos os conhecimentos. Isto permite-nos um rápido adiantamento. designando-me um tal guia..E as crianças retêm a memória deste ensino? . os que manifestam uma verdadeira vocação científica. são recebidos pelo Colégio da Matéria.oso... pois em Nhorst os descendentes de um casal que se ama acusam. é admitir.Até à idade de nove anos. Assim. que funciona de duas a quatro horas. ensinamos nós às nossas crianças de quatro. Um companheiro demasiado hábil teria acordado as minhas suspeitas. Quanto aos indivíduos ordinários. aqui.Uma boa parte delas. em seguida. em sinais e traços luminosos. Seguidamente. cairia decerto nas minhas armadilhas e eu sentir-me-ia ofendido pelas autoridades de Sirkoma.. os seus receios e a suas reações instintivas de ser humano face aos habitantes de outros planetas. mas. sob a direção de professores.. À hora de deitar.. às vezes. Respondia sofrivelmente às minhas perguntas. O ensino. admirava os costumes do seu pais. as câmeras de televisão. Por exemplo. cujo aspecto causa vómitos. as crianças frequentam os Centros Educativos onde. . envergam as vestes irradiantes que tanto o surpreenderam. que estabelecera a ponte entre a mecânica ondulatória e o postulado corpuscular. absorvem os elementos químicos que facilitam a memorização e fixam as noções ensinadas durante a noite. As crianças relanceavam. pois dai resultava que não podia ser insensível à simpatia que inspira um homem honesto e bom. que entre os Citianos o ato de procriação se faz em público. De quando em quando. são orientados para a profissão que melhor se adeque às suas aptidões. é afrontar sem náuseas os seres pensantes de Gathul. os pais colocam no quarto uma espécie de instrutor. No fim de contas acabava por me convencer que o Chefe da Segurança usara de uma grande habilidade. uma das nossas maiores preocupações é eliminar num jovem Terreno as suas repulsas. Não havia esse receio com o professor Alhena. onde um homem nunca desposa a mulher que o atrai mas aquela que mais lhe desagrada. por exemplo. é aceitar os mundos alógicos como o de Nhorst. nós não temos escolas no sentido que aqui lhe dão. do que de acrescentar o saber.. não sabia nada de Sirkoma e das razões profundas das suas instituições. então.. No fim dos estudos.O ensino é confiado aos pais? . as nossas. . pois cuidam muito mais de organizar os conhecimentos e de formar os espíritos. o que este mestre ensina a vossos alunos de quinze anos. Nos planetas do Primeiro Círculo é durante o sono da criança e isto desde os primeiros anos. Escolhemos. os mais aptos e ministramo-lhes uma formação mais completa. Devemos preparar a criança para os problemas particulares que nascem do estado da Confederação. O que se justifica.Este centro escolar é destinado às crianças de mais de doze anos que terminaram a primeira formação. .. Uma sala de aula surgiu com os seus alunos ordeiramente colocados atrás das carteiras. Este demonstrava o teorema das divergências de Esmenard. São verdadeiras escolas. Acreditava nos Rhunqs fabulosos descendentes dos cães radioativos e em toda a exótica mitologia sirkomiana. vai até ao décimo sexto ano. Todas as noites... A sua companhia agradava-me.. . Para falar verdade.. aplicam as noções adquiridas inconscientemente.. por exemplo. o ponteiro de metal que tinha na mão aflorava um grande quadro branco sobre o qual surgiam. Suponho que o vosso sistema de ensino não se distingue em nada do nosso. O écran exibia agora o interior de uma escola recentemente construída.

muito longe disso. Vivem na água e assemelham-se aos golfinhos. Existem ainda os Seborianos. sabendo-se. por vezes. mas seres de uma infinita variedade com os quais se devem entender e cooperar. como ensinamos às nossas crianças desde o terceiro ano..Como é isso. e podem deslizar na escala temporal várias horas terrestres... certos de vos prestarem um serviço inestimável.prestam-nos grandes serviços. Vivemos apartados dos outros mundos. pois não os há mais competentes do que os keogianos para repor em perfeitas condições os órgãos que funcionam mal. portanto. pelo que nos são muito úteis para predizer o futuro próximo. cuja civilização remonta a mais de quatrocentos mil anos.Certamente. que as vibrações da voz humana podem liquefazer. .. È necessário cuidado. com as seborianas. Um seboriano está em contacto permanente com os seus semelhantes. Disse-lhe. tanto este povo dos Últimos Confins.. resistir a esta tentação. Tal é a sua condição. que podem realizar simultaneamente centenas de operações mentais em vários planos do seu espírito singular. Mas nenhum povo se arrisca. Outrora.. Mantemos excelentes relações com os turimianos. que não pôde evitar uma careta à evocação dos costumes dos keogianos. Mais tarde.. por exemplo. íamos também de estrela em . se não soubessem. refiro-me aos que tenham resolvido deixar a Terra. Infelizmente para nós. da Quarta Galáxia.. a rir: . Os Triphs. como as nossas máquinas eletrónicas. inteiramente coberto pelas águas. Ensinamo-las a não se assustarem ao ver os Seres de Kéoge penetrar no corpo humano e servir-se de alguns dos seus órgãos para deles tirarem um prazer parece esquisito. Que fariam se uma astronave dos Longanerianos aterrasse no vosso solo? Apressar-se-iam a matar-vos. Habitam-no seres inteligentes. que são encantadoras.. Não vivem num tempo determinado. Isto pode tornar as relações bastante delicadas. Só atingem a idade adulta à duodécima morte. mas é já secundário.o que não é recíproco . . Compreende-se. que é de um amarelo-limão. sem os arriscar a um perigo de morte pela rutura dos centros emotivos. ao décimo quarto ano.. por pura gentileza. Enxertamos-lhes. Que fariam vocês.Ficou surpreendido. diante deles. aliás. que não sonhem senão com metamorfoses. brânquias e modificamos-lhes o aparelho circulatório e digestivo.. .Imagine a decisão de querer viver em Turimii... a sua civilização é puramente aquática e temos de prover os humanos que lhes enviamos com um sistema respiratório adequado ao viver na água. voltando às crianças dos planetas do Primeiro Circulo.. adaptá-las a este mundo pleno de emboscadas onde terão de viver. como que espantado. pois. É o que sucede quando se decidiu viver à parte dos demais planetas.. antes de mais. queremos.Há também os Triphs. enxertamos-lhes os sentidos e os órgãos indispensáveis à sua futura atividade nos outros planetas.As nossas crianças devem também saber que em Thomigarterix não podem comer diante dos habitantes à maneira terrena. e vocês parecem tê-lo esquecido. adquirida esta formação. há séculos. salvo da cor. Mas. traçar no ar sinais que indicam ter-se atingido a forma definitiva e que não há nenhuma necessidades de ser assassinado para alcançar a felicidade?. ou ficam doentes para o resto da vida. para os quais so mos invisíveis . diz-se. que conhecemos ainda bastante mal.. Ri-me da estupefação do professor. está persuadido de que é preciso sofrer doze mortes antes de aceitar a verdadeira vida. suponho. a acometer Sirkoma.. A sua colaboração permitiu-nos evitar um bom número de erros e de falsas manobras. que os Terrenos casam. de resto. Não podem. As galáxias não são à imagem de Sirkoma. É um planeta enorme. Esforçamo-nos por que saibam que não há monstros. de sorte que o que acontece a um é instantaneamente conhecido de todos os outros. O professor sacudiu a cabeça. de enxertar sentidos e órgãos novos? . É um hábito. mais benéfico do que prejudicial.

pessoas comuns. de nos tornar insensíveis. que penetravam na carne e originavam pequenas chagas rosadas. eles se tornavam quase invulneráveis às armas materiais. serão os únicos a dar-lhes a força suficiente para vencerem o nosso inimigo hereditário. O caminho a seguir é tão difícil. não comendo e sendo alimentados por injeções nas veias. fixam para cada categoria social a quota de elevação. Sabe que têm de se sujeitar a uma perfeita continência. sem uma autorização especial?. Figurou-se-me tão primitivo e tão rebarbativo como o que via no écran. Além do combate do espírito que conduzem contra os Rhunqs. depois da aventura que me aconteceu esta tarde. eles podem obter um grande poderio. Mas que ganhamos com isso. que põem ao serviço de Sirkoma. assim. que mostrava agora o interior de uma fábrica. progredir no sentido da perfeição. e o que há de mais eficaz. A gente do povo tem de os aplicar uma vez por mês.. e que seriam muito mais eficazes do que os usuais. prisões em Sirkoma. Quanto mais grave a falta cometida.Uma punição benigna. Temos.. .. a meditação. Por causa da minha categoria. e fazer tudo por um nível espiritual cada vez mais elevado. . Tocou com o dedo as pontas agudas. concluímos que a única arma eficiente era o espírito e que. para o conseguirmos.. e que a sua educação se faz por meios que nós nunca empregamos.Em certa medida.estrela. . que muitos deles morrem ou desistem antes das últimas provas. O professor explicou-me: . Já lhe disse que eles pertencem a uma casta específica. senão a guerra.Mesmo durante o sono? . de nos elevar continuamente. Desabotoou a túnica e expôs-me uma espécie de cota de malhas que trazia sobre a pele nua. inclino-me mais para os faquires. como os da Primeira Era. Durante o nosso passeio. que pontas curtas e finas eriçavam de maneira irregular. assim como o amor verdadeiro e as virtudes que lhe são inerentes.. Cada homem deve.... com os anos. que determinam as penas a infligir aos delinquentes. o nosso povo era um dos maiores do universo. o que nunca se permite às pessoas do povo. e compreenderá que. Até as nossas crianças nós habituamos a trazer cilícios algumas horas por ano.São cilícios de mortificação. trata-se de uma espécie de santos.. que não devem dormir mais do que três horas por noite e entregar-se quatro vezes por dia às máquinas maceradoras do corpo.São eles que aconselham o Coordenador nas conjunturas difíceis e.. quais as funções dos Homens-Força? . e que o sofrimento.. Ao longo dos combates seculares contra os Rhunqs. .. mais violácea a cor da sua túnica. as virtudes exigidas tão altas. O meu chefe trá-la sete dias e os Homens-Força nunca o abandonam. também. não via claramente o que se fabricava e qual podia ser a utilidade daqueles tipos de casacões em fios metálicos.É um cilício de vinte espinhos.No vosso entender. portanto. tenho de usar o meu cinco dias por mês. Ensinamos-lhes muito cedo que o espírito é que importa e não o corpo.. Acrescente a solidão em celas sem luz.. oportunamente. criadas para eles a mil metros sob a Cidade. formada desde a infância.. São eles.. O speaker afirmava que estes «Rovoks» seriam fornecidos à população. A despeito dos comentários do speaker. no principio do ano sirkomiano. A gente do povo costuma trazê-las com quatro e seis espinhos. nós. a destruição e o massacre da nossa raça? Olhei o écran do televisor. ou ainda de faquires.O ideal dos Homens-Força. Ainda que lhe pese.Sim. calculo eu? . nem Centro de Reeducação ou de remodelação da personalidade.. . pois.. por um preço muito módico. do que o sofrimento livre mente consentido?. mercê disto. talvez notasse que alguns cidadãos vestiam do malva muito pálido ao violeta: são os que praticaram delitos para uma condenação... Não possuem. para delinquentes? .

Uma mulher. .. que apresentava agora uma multidão numa grande sala. Em caso de recidiva.. . chorava e gritava... quando ele prosseguiu. mas vem o dia em que as circunstâncias nos colocam em frente do monstro e . Olhei aquele povo sussurrante. são proscritos da cidade. O Homem-Força enunciava agora os nomes dos que tinham sido escolhidos para lutar na próxima noite. a multidão recolhida lembrava os povos que adoram um ou vários deuses. Atirei-lhe repentinamente: . .. Foram nomeados para defrontar os Rhunqs.São as reuniões para a Meditação da noite.Certos sirkomianos assim o pensaram. Mas é um sacrifício necessário. entre dois corrimãos de pedra que se afundavam no solo da sala. À medida que se citavam os seus nomes. entre os jovens . uma a uma.A cidade honra os que perdêramos filhos ou os esposos. Eu permanecia calado. uma música violenta ressoou. levaram-na. Alguns dos assistentes traziam túnicas malváceas ou azuladas.. . Quando terminou. .então fez um gesto. O Homem-Força fazia o balanço da batalha que se desenrolara de noite. professor. e eu entre os primeiros. Só os que respeitaram as normas de elevação podem participar nesta luta.Os homens do vosso mundo parecem possuir fabulosos poderes. e. para receber uma espé cie de insígnia. possamos conquistar novas terras ao império dos Rhunqs. das boas e más ações. que não se punha em dúvida a sua sinceridade. passou a mão pela cara e deteve-se. que não creio na existência dos Rhunqs? Pelo menos. numa centena de combatentes.. mas em cada bairro da cidade há um idêntico.Não. em metal brilhante. . Infelizmente. com as paredes decoradas de frescos móveis... como ainda se verifica nas Oito Galáxias. Duas outras. para que sobreviva a cidade. vestido com a curiosa túnica negra raiada de bandas amarelas.São voluntários? . Que nos livrem dos Rhunqs e seremos vossos servos até à centésima geração. aqueles cuja vitalidade é mais forte. Os delinquentes ficam em liberdade e apenas a cor da sua roupa os vota ao desprezo público. estes combates eram muito mortíferos e que a proporção de vítimas.De facto. um a um. Uma dezena de combatentes havia perecido. são os melhores. Os outros são designados pelos Homens-Força. O Homem-Força desapareceu. ...Julguei compreender que.. Falou com tanto entusiasmo. Eu tinha dois filhos. abrandou progressivamente e as pessoas alinharam. em cada geração. evidentemente. de súbito numa voz ainda com entoações de verdade: . Frente a um Homem-Força imóvel.Seria insensato. que não regressam. os pais avançavam. . Este é o Grande Lar. dos Rhunqs tais quais o povo os imagina? Alhena não se mostrou surpreso..era elevada. Eu observava o professor. prestava-se contas. cujo filho fora provavelmente designado. simplesmente.. que pregavam desde logo no peito. Voltou-se para o televisor. verifiquei que a maioria dos circunstantes apresentava cara de alivio. para que ela progrida e para que.Pensava que os mandavam combater os Rhunqs. que escolhem. Se bem entendi as explicações do professor. Inclusive. . os mais ardentes. acontece que não voltam senão alguns.E se eu lhe disser. ou se o delito é grave. que criei o melhor que pude. preparava-se a alma..Alguns.os que vi pareceram-me muito jovens . não era um deus que se adorava. é por vezes muito elevada. uma mulher vestia de violeta forte. Os Rhunqs sabem escolher a sua vitima.

Onde vão? . entrou pela porta lateral. Apercebi-me que sabiam fazer jogos de palavras em Eimos de Salers e que os sirkomianos nada tinham que invejar aos habitantes dos planetas do Primeiro Círculo.. de cara levantada.. mas descobrem-se novos adeptos todos os anos. . chama. que o fixaram com insolência. não obstante. .Os acusados serão abandonados amanhã de manhã..Que fizeram eles? .É raro.. O professor Alhena disse com indignação: .O Presidente Omesq parece ainda mais abalado que de costume. pelos seus companheiros e que não tinha uma noção exata das razões do seu culto. O Pr Alhena suspirou. Mas na Quinta Galáxia há seres que adoram o raio. Abriu-se uma porta. as viagens dos seis condenados. O Homem-Força dirigiu-se para os condenados.-se a isso delação. Não esqueça que estamos à mercê dos Rhunqs.Em público? . O presidente do Conselho dos Quarenta veio ditar a sentença. O televisor mudou de campo. pareciam aguardar. mas podemos nós expor-nos ao enfraquecimento da norma da cidade. contra vontade. ao nascer do dia.. que falava do povo de Sirkoma e da sua luta sem tréguas contra os Rhunqs.Devem atravessar os Quatro Sítios. Um Homem-Força.. Usará do violeta ao branco durante três estações. A câmera enquadrava. Subiram os três degraus de acesso a uma sala branca e ficaram aí de pé. exibindo uma vista aérea da cidade. ciciando-lhe quaisquer palavras ao ouvido. . Perguntei: .É contrário à Natureza adorar e render um culto àqueles a quem devemos os nossos males. diante das quais cada um pode falar. . porque esse procedimento acarreta a expulsão da cidade.. ao fundo da sala.. por culpa de alguns? . vários casos semelhantes. nem mesmo indignado. Disse: . os Kévios. Parou diante dos espectadores e o écran enquadrou a sua face rugosa. o Conselho dos Quarenta tem de julgar todos os anos. incansavelmente. isto é. de aspecto idoso. arriscar-nos aos ataques redobrados dos Rhunqs. sentadas em bancos de pedra.Nos Planetas do Primeiro Círculo.. Uma praça onde volteavam.. Só Yasmo Sar foi absolvido. De cada lado dos corrimãos há grades. O velhote não pareceu furioso..Não exatamente.Muitos não aproveitam para caluniar ou mentir? ... A multidão expandiu-se com violência. O televisor apresentava agora uma sala iluminada por altas e estreitas janelas. Reconhecemos que foi arrastado..É justo.. surgiu no écran.Julgava que o Coordenador respeitava a liberdade dos cidadãos. Seis pessoas entraram. Não pareciam inquietas com a pena que os esperava e a própria mulher sorriu ironicamente a um dos homens..Trata-se da salvação de todos. agora. Irrompeu um cântico. . Há algo de idêntico a este culto monstruoso no vosso planeta? . Tem-se esforçado por impedir este culto diabólico. Os que cometeram faltas vão purificar-se e os que descobriram as faltas graves dos outros vão declará-las. Tudo o que for revelado será difundido aos presentes por um altifalan te.. . Uma expressão melancólica toldoulhe as rugas. cinco homens e uma mulher. enquanto levavam os prisioneiros. . onde as pessoas. É o fim de um processo que dura há três meses. na porta norte da Cidade.Não. Dar-lhes-mos provisões e as armas habituais.São adoradores de Rhunqs.

.Com que objetivo? .. A noite caía. por exemplo.Para cair nas garras dos Rhunqs? Seria loucura. as suas folgas maiores. se houvesse apenas homens da sua categoria.É exato. Quanto mais importante o nosso papel. Estava convicto de que. quanto a mim. sequer.. Olhava os homens e as mulheres que paravam diante das câmaras e refletia acerca dos extravagantes costumes dos sirkomianos e das contradições de uma civilização onde a extrema tirania não excluía a mais curiosa tolerância. vitimado pelos Rhunqs. Perguntava a mim mesmo se o professor pensara alguma vez nos perigos que advinham inevitavelmente do orgulho e da ânsia do poder... Várias dezenas por ano. com quotas de 110 ou de 105. com espinhos mais numerosos. também. Pela mesma razão. em virtude da sua pouca elevação e da sua baixa situação na sociedade. Perguntei ao professor: . A túnica de penitência do operário é menos rude do que a do seu chefe. de modo nenhum. Mas porque me pergunta? Sorri ao professor.Contudo.Sim. pois. para ele. . quando se inclinara para um dos companheiros. Que significado teriam. . morreria depressa. quando muito. Um comerciante que negligencie o porte do seu cilício no número de dias regulamentares.. cuja quota fixa é de 140. decerto. Eu. . me falaria logo da santidade.. mais as vestes são luxuosas ou confortáveis. ...... em Sirkoma..Nunca houve desaparecimentos em Eimos de Salers? .Nunca ocorreu que certos habitantes de Eimos de Salers tenham solicitado a saída das portas da cidade? .Tenho a certeza de que nunca se encontraram os desaparecidos. se cometer a mesma imprudência.Daí o respeito que vos dedicam e aos vossos estupendos Homens-Força. . a sua alimentação é mais delicada..O princípio estende-se mesmo aos delitos.. será menos punido do que eu. mais nos devemos mostrar dignos e sofrer para o merecermos. O professor continuava a descrever-me as consequências resultantes da diferença das normas.. mais confortável..Pelos vistos. o sorriso de ironia da mulher e o desalento do velho Presidente do Conselho dos Quarenta? Eu observava a multidão que enchia lentamente a praça. um santo homem. se o interrogasse sobre este ponto. nem gozar. mas o Homem-Força que me atacou na avenida não o era com certeza. de dez a quinze unidades. O Presidente Omesq seria. não posso saborear as coisas agradáveis permitidas a um operário ou a um camponês. Sabe que no ano passado .. Alhena vacilou. vestir-me tão confortavelmente. quanto mais baixa a posição social de um homem ou de uma mulher. não posso..Não é um sentimento natural? Fechei o televisor. talvez. Abstemo-nos de tudo. que quedava mergulhado num devaneio: . a casa mais bela..Sim. é lógico. certos prazeres que lhes são autorizados.. arrisco-me à túnica violeta durante duas estações. que o seu papel é menor e que.. .O que seria bem excêntrico nos nossos planetas. É por esta mesmíssima razão que eu uso um cilício macerador. . Mas ele sabe. O mesmo acontece com as casas e o seu arranjo interior. A lei é mais severa ainda para os Homens-Força. Elevar-se-á sua quota.Nunca ninguém fugiu da cidade? .Pensava no sorriso irónico da jovem mulher.. . Tagarelava-se com animação. Era demasiado ingénuo. Inquiri do professor.. por exemplo.

Um homem afortunado. ..Completamente. e como a punição é proporcional à sua quota. com efeito.. Suponho que as leis dos planetas do Primeiro Circulo são completamente diferentes das nossas. isto produziu-se apenas uma vez. é responsável na medida da sua fortuna. corresponde a quota de 210.. . por ceder. Mas com um tal sistema. arrisca-se em breve a ser banido. por um instante.. agora.. nossa moeda.O próprio se acusou e se sentenciou? . Pense que a cem mil «leiros».. e tudo isto é lógico.. . . não tendes verdadeiros pobres em Sirkoma? . jovem viúva». que se deixaram matar pelos Rhunqs.Creio que chegou o momento de visitarmos o Coordenador. . não é de estranhar que acabe. Durante mais de um século. em vez de homens ricos. com frequência. Existem alguns homens ricos. porque representa um papel importante na comunidade. condenando à túnica malvácea uma rapariga acusada de leviandade e simples coquetismo? Pois foi expulso da Cidade. quero dizer.. desfrutar da sua fortuna com uma norma tão súbita. por conseguinte... sem combate. se tema quase tanto o excesso de riqueza como os Rhunqs? O professor interrompeu-se..um deles se acusou de ter abusado dos seus direitos.Não. Costumamos dizer: «Mais vale uma longa doença do que uma grande fortuna». à morte.. Percebe. os nossos provérbios e que em Sirkoma.. Temos um outro provérbio: «Marido rico.Peço-lhe que me espere.Quem o poderia substituir? Só o Coordenador pode acusar um Homem-Força. por alturas da Grande Conspiração. mas a sua arte não é invejável. à qual pôs cobro o suicídio de quarenta e seis Homens-Força. Dadas as muitas tentações. Um homem rico não pode..

E depois. como eu. claro. Alhena não parecia incomodado. imobilizou-se e tornou a partir.Estava a brincar. Haveria um único dia.. também. vesti-me como embaixador da Confederação. a agressividade. Este estádio é o nosso. que.. Alhena teve um ligeiro olhar de troça. isolando-me por detrás da sua barreira repulsora. Afivelei a cinto de proteção. Por amor da liberdade. horizontalmente. mas hoje. . perante a tristeza do professor Alhena. Quer os planetas se liberam ou sejam flagelados. tudo é preferível à decadência e à servidão.. o esplendor e a indumentária corresponde à importância das funções. aprendemos que a paz mais não é do que um signo da decadência. duvidava que fosse a única boa e que a guerra significassem mal menor. que entre vocês. era o contrapeso inevitável. Afrouxou de novo e parou. Entramos no ascensor. Dizia--nos: «Vocês são os cães de guarda das Oito Galáxias. desta feita. há os Espaços Exteriores e as suas ameaças. ao contrário do costume sirkomiano. Apontou para o raio violeta desenhado no ombro esquerdo da minha túnica.. senão com uma força e uma violência iguais? Grunbarth não se ilu dia. que subia com a terrível rapidez dos ascensores de Sirkoma. . à grande lei evolutiva. estendiam-se a toda uma galáxia: os extra-humanos dos Grandes Planetas voltavam ao seu velho sonho de destruição. Alhena entristeceu. a partir de um certo estádio de evolução. Acontecia o mesmo nos mundos do Primeiro e do Segundo Círculos. é simplesmente o dos Grandes Questores da Primeira Galáxia. incendiavam. a orgulhosa doutrina da Confederação. fosse suscetível ao apetite de riqueza ou grandeza? Os conflitos eclodiam. O Coordenador sabe. Quando reapareci. Não soube o que responder-lhe. Desde a agressão do HomemForça.Não receia que essas vestes magníficas o façam julgar pelo Coordenador como um homem de baixa condição? Sorriu e acrescentou: ... em caso de perigo. Sabem. Eu sei como que é uma tarefa decepcionante.Não. . a guerra fazia parte das nossas instituições. me defenderia dos ataques de armas clássicas. O raio atrai o ralo.Capítulo 04 Na dependência contígua. por respeito.É o emblema da Confederação? . a guerra e os símbolos do poder eram desdenhados. o pro fessor Alhena declarou-me: . quer soçobrem pelos seus apetites e loucuras de poder. tornei-me tão desconfiado que passei a trazer no braço direito um investigador de pequeno alcance. Antes de abrir a porta. constantemente recomeçada. não no sentido vertical mas.. e por vezes vários.» Esta.. sem que um dos vinte e três mil planetas da Confederação. contudo. que poderíamos impor a paz aos vinte e três mil planetas. Como responder à força e à violência. Em Sirkoma. Jurara defendê-la..O raio nunca foi um emblema de paz. O ascensor afrouxou.

.. Notei a sua cara magra. que pouco importa a via escolhida. que desapareceu há um ano. disse-vos.Queria dizer-lhe. para felicidade do povo de Sirkoma.. tenho a certeza de que o nosso Coordenador pretende o bem dos homens. quero informar dos vários fins da minha missão.Pensava na sua missão. pois corou e prosseguiu: . com força. Era o mais bizarro acolhimento que eu tinha recebido da parte de um chefe de Estado.Pensamos. Não se podia ir mais direito ao fim e traduzir mais claramente a opinião de Grunbarth.Não estamos. decoravam-na até ao cimo constituído por uma placa de vidro hexagonal e avermelhado. grandes e curvos. como o Pr Alhena decerto lhe explicou. Lamento que o meu estado de saúde não me tenha permiti do recebê-lo mais cedo... O professor abriu a porta.talvez influenciado pelos ditos do professor .. porque mo diz? . fixava-me nos olhos.mas um homem inquieto. o «Kapa de Séméis». e se posso responder às suas perguntas. . não sabendo onde o professor queria chegar.O chefe da Proteção. .. .. será bem-vindo. Quanto a nós. Examinei a sala. Não era o eremita. muito naturalmente...Sinto-me feliz por isso... atormentado. paralelamente. de plano inclinado.. os indícios de grande nervosismo.. de fibras vegetais. pleno de paz e de serenidade. mostrando.O Coordenador dirige o nosso povo há dezassete anos. próximo de Sirkoma.. Excetuando algumas cadeiras e uma comprida mesa de pedra. da nossa inquietação pelo destino de um navio de grande linha. que dava para uma vasta saia redonda e que se fechou atrás de mim. Aparentava sessenta anos de idade. Verdade seja. . claros.. os nossos costumes são tão díspares que talvez tenha escolhido um caminho diferente do vosso. Como você..Qualquer que seja o tempo que permaneça aqui. com.. Intrigava-me a atitude do Coordenador. . O vosso chefe da Proteção. antes de mais. .. Não retorqui. de colocar algumas questões. Sirkoma não cessou de progredir. se a felicidade é o nosso escopo. Os olhos. falava sem convicção.. por exemplo. Porém. mas. depois outra. infelizmente.. equipados para receber dessas mensagens. fizemos o que pudemos. mesmo diferindo da vossa. Sob a sua direção. Sorriu-me... deixamo-lo à vontade e confio se tenha convencido de que a nossa linha de evolução. para desviar os seus em seguida. talvez.. preocupações alheias à nossa conversa. A sua austeridade impressionou-me. . Conforme desejava. achava-se vazia. mesmo interrogativo. efeito. o pedido de socorro do «Kapa de Séméis»...E admitiram que somos responsáveis por esse desaparecimento? A franqueza perturbou-me. as suas mãos vigorosas. . Por outro lado. Ofereceu-me uma cadeira e sentou-se na minha frente. mas descarnadas. veio um homem ao meu encontro.Agradeço. . Mirei a sala rotunda. Eu devia mostrar-me surpreso. o seu vestuário grosseiro. de malares salientes.. que me pareceu ser a cúpula de um dos mais altos edifícios da Cidade. Vitrais. Da extremidade da sala. que teriam recebido informações. simplesmente. refletiam a mesma violência que os dos Homens-Força. não contém nenhuma ameaça à Confederação.. há nove séculos que desconhecemos a vossa orientação.. Gostaria. mas.. em suma.Muito feliz pó vê-lo. como. Esfregava as mãos. O Pr Alhena decerto lhe disse que há nove séculos não fazemos a menor tentativa para deixar o .. que eu esperava encontrar . como se o seu espírito seguisse.Estou persuadido disso. informou-me do objetivo da sua missão.

. e que se comportavam como veteranos com a população. Só me cumpria agradecer.. que saberei o que se passou. . aliás. mas a sua soberania é limitada pelo interesse comum dos Planetas da Confederação. o mais importante da minha missão.. uma pequena fração do vosso território. A iminência deste perigo talvez seja ilusória. Realmente. confesso.. seria um grande desastre. efetivamente. nem intenções... durante a sua estadia.. O coordenador afagava o rosto magro. Estas reflexões conduziram-me ao segundo ponto.. não estava habituado a este género de acolhimento.Não podemos aceitar essa proposta. Surpreendi-o a olhar-me.. desencadeavam-se tremendas trovoadas.. visto não sabermos quase nada destes seres que designamos por Seres-Duplos.nosso planeta e contactar com os mundos vizinhos. Ora.... Há alguns anos que seres não-humanos.A Confederação deseja instalar em Sirkoma um posto-avançado para o estudo dos Mundos Exteriores.Sim. Temos. Isto. mantêm sob ameaça as Oito Galáxias... que se erguera.... Talvez. Não tratei dele com o vosso Chefe da Proteção.. conheciam-se aí os cruzadores de combate.. O Coordenador aguardava. Quase concordava com ele. .. A menor partida destes gigantes do espaço que descolavam verticalmente.. No entanto. sentia-me embaraçado.. . Era inútil adiantar. É o motivo principal da minha presença aqui.Entro agora no segundo ponto da minha missão. capaz de pôr em cheque toda as frotas de um planeta de segunda grandeza? Era ainda do lado dos Seres-Duplos que precisava de procurar e já imaginava a inquietação de Grunbarth quando soubesse da sua irrupção até esta província da Oitava Galáxia. para identificar e. portanto. quando gozavam os seus quatro dias de licença em terra.Sirkoma é um povo soberano. Sirkoma é um dos raros planetas com a atmosfera e a força de gravidade terrena da Oitava Galáxia. poremos à sua disposição os meios que possuímos. me irritou.. o interesse comum exige a instalação deste posto-avançado. Com efeito.Não vos incomodaremos. sem falar nas equipagens semi-desequilibradas pelas longas estadias no subespaço. poderia ela ter feito desaparecer um gigantesco cruzador. eu propusesse com brusquidão: . quando não inundações.. necessidade da sua cooperação. situa-se no extremo dos Mundos Exteriores. combater os Seres-Duplos.. O Coordenador. se necessário. Não com acrimónía. Grunbarth falara de uma base de partida para os grandes cruzadores da duodécima Frota. não temos conseguido. Para qualquer planeta do Primeiro Circulo. abanou a cabeça... Ocuparemos. face ao Coordenador. com piedosa benevolência.. concedemos-lhe toda a liberdade para procurar o seu navio no nosso planeta. pelo contrário.Raramente saímos de Eimos de Salers. não ousando ir direito ao fim. Decididamente. . Dado o meu embaraço. cuja natureza. determinar. antes das pesquisas sobre o desaparecimento de «Kapa de Séméis». Como civilização ignorante do voo interplanetário...«Kapa de Séméis» podia ter naufragado no vosso planeta. em consequência. Não será em Sirkoma.. Temos helicópteros e alguns aviões. Se quiser. A medida que falava. o que. apenas. acrescentei: .. por outro lado.. Exprimia-se sem cólera e tive de fazer um esforço para defender o ponto de vista da Confederação. . . Lembre que se trata de uma das cláusulas do estatuto de Independência que assinaram em 286..

que me olhava com Insistência.. relegamo-lo para o seu lugar. e. Há cerca de nove séculos que combatemos os Rhunqs. lutaremos ao vosso lado.. O Coordenador.Creio que partirei amanhã. Com as nossas armas. revelavam-se-me agora bastante desprezíveis. sem dúvida. Vista do alto.. tinham para isso razões sobejas.Também penso o mesmo. . Porque nos entrincheiramos nós em Eimos de Salers? Lembre-se que. . antigamente. mesmo às mais modernas. preocupando-nos o individuo.. a sua larga cintura de vergéis e de cultivo. que Grunbarth errava o caminho. com os seus parques verdes. talvez sejam eficazes. contudo. Não podeis continuar a viver ameaçados. de facto? O Coordenador prosseguiu: . Tinha. Simplesmente. no nosso planeta. desenvolvera-se bastante para que pudessem fabricar armas eficientes contra os Rhunqs. . que assimilara tão bem. e só o espírito pode combater.. Aproximou-se do grande vitral curvo e apontou-me a cidade.. um sentimento próximo da vergonha. O Coordenador acompanhou-me até à porta do ascensor.Não contam com os Rhunqs. . O Coordenador esboçou um gesto de pesar. a pedir à Confederação que tome medidas para a destruição desses monstros.. comentou: . ao sol de Sirkoma.. se for preciso. . . O Coordenador tinha razão. como deve saber. levantou-se. Se os sirkomianos se recusavam a utilizá-las. . que tornava irrisórias as nossas capitais terrestres. de telhados azuis e amarelos. nas Oito Galáxias.. que poderíamos nós fazer. no entanto não perderam os méritos. em Sirkoma. de resto. o seu tumulto e o seu frenesi. Como pude vir aqui exigir.. O estado da técnica. pusemos o espírito acima da matéria.Estou certo que hã poucas cidades. feito inquiridor e enviado de um senhor brutal? Condenava o cinismo de Grunbarth e o desprezo pelo homem que este cinismo encobria. de irem cada vez mais longe.Libertar-vos-íamos deles.. o seu equilíbrio e o seu aperfeiçoamento interior. Temos consciência dos limites do progresso derivado de um conforto sempre crescente.Os Rhunqs não são sensíveis às nossas armas.Acredita que nós próprios dispomos de armas potentes? Todavia. . Considerava. as suas casas claras..Comunique aos seus chefes que a evolução que temos seguido. Se instalarem os vossos postos-avançados.. Estou disposto.. foi reduzido. evidentemente. que é acessório. de conquistar e de anexar. Aprendemos a conhecê-los e posso dizer-lhe que nunca a raça humana enfrentou um tal inimigo.. A ser verídico.. e os imperativos da Confederação. Contemplava a cidade e eu experimentava.. representava a própria imagem de uma felicidade pacifica. . cuja nervosidade se apaziguara e que parecia um velho um tanto fatigado e multo experiente. Tê-los-emos ao corrente de tudo o que aprendermos acerca dos Seres-Duplos que vos desassossegam. muito diferente da vossa. O destino dos humanos não podia ser o de se baterem. O Coordenador. não prejudica a Confederação nem as suas leis. mais felizes do que Eimos de Salers. pouca consciência. que vacilei. olhando-o. O Coordenador exprimia uma convicção tão profunda.. agora.Outros planetas concordarão com os vossos postos-avançados. sem lhe voltarmos as costas. não servem de nada. os sábios de Sirkoma figuravam entre os primeiros das Oito Galáxias e que se o seu papel.Acabava de mentir. serão destruídos numa noite.Gostaria que demorasse algum tempo entre nós.

da largura de quatro centímetros. Não era doloroso. As imagens deflagravam e sobrepunham-se. onde me estendi. coordenar as ideias. Obteríamos. ainda me falou de Sirkoma e da felicidade do seu povo. pela simples persuasão.Antes que me despedisse. desafivelei o cinto de proteção e tirei o bracelete do investigador. não tinha de receber as nossas lições. Di-lo-ei a Grunbarth e que seria bom abandonar a nosso conquista e a exploração desenfreada da matéria e do mundo. O rosto do Coordenador surgiu-me. O investigador estava em cima da cama. Que ao menos Sirkoma e o seu miraculoso êxito sejam preservados. enquanto no meu crânio a dor me espicaçava. A agulha fixara-se na graduação máxima. debalde. Nós é que devíamos aprender. de bondade. guardando a recordação de um homem de uma esplêndida sabedoria. quantas astronaves não desapareceram em cada ano? O espaço estava semeado de ciladas. porque se tratava de uma ferida? Perscrutei os dois minúsculos quadrantes do investigador. podia tocá-lo com a mão. porque estava ali. Fui até ao terraço. Esta lon ga conversa com o Coordenador. com o aparelho entre os dedos crispados. Aos meus olhos. Levei a mão à cara e retirei-a coberta de suor. a fim de visitar o Coordenador? Retirei o investigador. que já não eram exatamente os Rhunqs e lembravam os Protosauros carnívoros de Serti-Alq. procurando a respiração normal.. o que é que obstava a que os instalássemos algures? Não escasseavam os planetas limítrofes da Oitava Galáxia. Despi a túnica. neste planeta privilegiado. Relativamente ao «Kapa de Séméis». perguntei-me: «Que queres tu fazer? Que significam todos estes gestos? Fica onde estás. o de Grunbarth. pois concluíra a minha missão. Que fazia ali? Semicerrei os olhos. . de momento. a cidade tremia. para se retomar o estado primitivo em poucos segundos. onde a matéria parece passar do estado sólido ao estado pastoso. a favor da procura da virtude – porque não? . Voltei para o quarto. Em seguida. mas não podia esticar o braço. nada mais tinha a fazer. os Rhunqs. Que ganhávamos em imiscuir-nos nos assuntos de Sirkoma? Este planeta. Elas vinham e fugiam imediatamente. Dirigi-me para a casa de banho e massajei as minhas têmporas doloridas. Para os postos-avançados contra os Seres-Duplos. De volta ao apartamento. sempre com o investigador entre os dedos.. Voltei-me. As imagens confundiam-se na minha cabeça. respirei avidamente o ar mais fresco. continuei a meditar no destino do Sirkoma e a admirar o seu maravilhoso progresso. O meu espírito confuso esforçava-se molemente por reatar as ideias. mais do que andei. Só neste momento soube o que quis fazer. passei os dedos sobre a pele quase negra. Aprovei-o. Mas ele aceitaria depressa as minhas razões. assemelhando-se ás estranhas visões frementes que ocorrem em Bartisara. o seu riso sarcástico. que me doía cada vez mais. Porque teria carregado eu estes aparelhos. Sorri maquinalmente. Quanto a mim. Grunbarth sabia-o. Teria de convencer Grunbarth. Um rosto esplendecente de sabedoria. Que significava esta ferida. até a cama e. Depois. » Peguei no analisador. fluida como uma miragem. de enormes forças que aí se digladiavam e podiam esmagar um cruzador de combate como se fosse uma palha. o que dificilmente era feito respeitar pela força. Tropecei.e do enriquecimento da personalidade. que dominava o espírito e buscava a perfeição interior. em que se desenhava uma espécie de bracelete. às rajadas. Mas não fiz nada disso e deixei-me cair na cama. Era só o que me faltava. Olhei-a com pasmo. Sorriu-me. desejando-me boa viagem. a carne mostrava um vermelho sombrio. Tentava. estendeu-me a mão. Era necessário pôr as bandas no analisador. durante segundos. como peixes ágeis na água negra. No meu antebraço. onde segurara o aparelho. se rebentar um conflito. tinha-me exaurido. Porquê esperar até amanhã? Partiria esta noite.

agarrei. uma série de reflexos protetores que centenas de repetições e dezenas de horas de treino haviam imprimido em qualquer lugar do meu sistema nervoso. a voz recomeçou: «O investigador lançou-lhe vários apelos e emitiu o sinal de alarme. Eram gestos inscritos nos meus músculos. O ruído. com uma mão.Por fim. ainda informe. torcendo-o por vezes numa contração breve. Não podemos. . descobrimos que você sofreu sérias lesões. Peguei no capacete e ajustei-o na cabeça. se não me equilibrasse pondo as mãos espalmadas sobre a parede.» O aparelho soou a vazio durante alguns segundos «Após um primeiro exame. para abaixar a intensidade. precisar nem o texto exato das mensagens nem o método utilizado para as gravar nas suas células. e se desenvolvia até se tornar uma interrogação: «Porque é que os sirkomianos. verdadeiramente. arrancaram-me ao torpor. mas os seus centros nervosos já estavam sob controle. Tirei o capacete e pus o investigador sobre a cama. em breve desapareceram e diante dos meus olhos não houve mais do que um écran descolorido. Apalpei o capacete. Abri a caixa. tinha cessado.. Aguardei. Decorreram. » Passado um silêncio. Levantei-me e cambaleei até uma das maletas. o capacete chiava. que sabem utilizar os solenóides de Sorx. abismei-me na inconsciência. e eu sentia vontade de gritar. Gradualmente. o seu interlocutor. diante do aparelho. Não sabia ainda o que queria fazer. Pedimos-lhe. o aparelho sofreu um curto-circuito. ondas fugidias atravessavam-me o corpo. enviaram-lhe incessantes mensagens. Interroguei-me: «Que se teria passado? Porque dormi tanto tempo?» Não. « Temos todas as razões para crer que foi vitima de uma agressão tendente a modificar a sua personalidade por um certo lapso de tempo. Estendi a mão. Deixei-me escorregar para o chão. mas achei melhor procurar. Somente uma análise total e o exame das bandas de regeneração poderão informá-lo.. de que desconhecemos a origem. que abri. eu não tinha adormecido. Os meus gestos eram os de um ébrio e tive de me amparar várias vezes para colocar as duas fichas no gerador. Voltei-me. o vento bulia nas árvores. esta ideia que nascia. Conservava o sentimento confuso de ter corrido um tremendo perigo. depois de pé. assim. pois não adivinhava qual seria este perigo. Pus-lo em contacto. Durante um período de trinta e dois minutos. as imagens continuavam a fluir na minha cabeça. Não estamos equipados para essa tarefa. que zumbia. era outra coisa. de pé. o silvo diminuiu. os dois braceletes de metal. À minha volta. Depois. os mundos exteriores?» Estas questões e o estranho problema que suscitavam. era noite. vivamente. Jamais o soubera. As paredes e o teto. No terraço. os braceletes de metal que me rodeavam os punhos e chocalhavam. depois. Aos meus ouvidos. Uma voz jorrou. pretendem ignorar tudo da conquista do Espaço?» E também: «Mas ignoram eles. nos meus ouvidos. substituído por um sibilar acetinado. Um silvo agudo encheu-me os ouvidos e o choque foi tão violento que estive a pontos de cair. que fremia levemente. Ainda não pensava em nada de concreto. infelizmente. mesmo quando me arranquei do leito. as imagens desfaziam-se em farrapos acinzentados. as permutas elétricas entre o seu cérebro e os centros nervosos estiveram completamente suspensas. Pus-me de joelhos. bem assim outras pessoas não identificadas. que coloquei à volta dos pulsos. Doze minutos depois destes registos. Quando acordei. às cegas. Uma dor surda anquilosava-me a nuca. perdiam pouco a pouco toda a consistência. tirei três cápsulas chatas e introduzi-as nas fendas laterais do analisador. No decurso destes trinta e dois minutos. não me mexi mais. Houve um estalido. tudo se me antolhava normal. irradiaram uma luz igual. alguns minutos.

.» Eu escutava atentamente. Atenção à. Já lhe dissemos que foi destruída por um curto-circuito. Tinha a memória precisa do trajeto no ascensor. devem ser consideradas artificiais. Evoquei o que se passou em seguida. em que não podia fiar-me. Aconselhamo-lo. O Pr Alhena veio buscar-me às dezassete horas. A conversa travada correspondia. Atenção. Até as minhas recordações visuais. «Recusamos. «A Confederação deseja instalar em Sirkoma um posto-avançado para o estudo dos Mundos Exteriores. salvo num ponto. O registo fixava-se nas 11 horas e 33.. mais do que peguei. a estudar os filmes das suas câmeras...... Por outro lado.. Repetimos que as reminiscências a partir das dezassete horas são presumivelmente inexatas.. Pedimos-lhe.» Neste momento.» Seguiu-se uma série de gritos.. Todas as recordações concernentes às duas últimas horas e mais particularmente aos últimos cinquenta minutos. Além disso. por vê-lo. à lembrança dela. a voz do Coordenador deixa de se identificar com aquela de que me lembrava. O analisador silenciou por instantes e depois declarou: « Não podemos controlar o que nos expôs. além de você e do Coordenador. durante doze minutos. Preferimos ser destruídos a ver instalar os vossos postos avançados em Sirkoma... O seu rosto esplendecente surgiu-me de novo. pois. dos dois alvéolos ventrais e dorsais do meu cinto de proteção as minúsculas câmeras.. ou seja. O trabalho das câmeras poria tudo em ordem. antes da sua destruição. que a maior parte das células impressionadas pela lembrança das últimas horas foi queimada.. das 18 horas e 21 às 19 horas e 11.» Eu estava aterrado.. « Muito feliz.» Corri à casa de banho. é possível que a contaminação assente sobre as duas últimas jornadas. um . para ouvir o relato a que nos fez oralmente ontem à noite e hoje da tarde. com exatidão. revela que estavam. Descrevi em voz alta o quadro onde se desenrolara o colóquio com o Coordenador e contei as diversas percepções que conservava. Apenas uma sessão será insuficiente. arranquei. de furfalhos na gravação e a banda emudeceu.A banda registadora funcionou até às dezoito horas e trinta e três minutos. para repetir: «Atenção. se submeta com urgência à ação do regenerador. havia diversas pessoas na sala que descreveu. Parece. quer dizer. para complemento do nosso informe. Introduzi os filmes. Vai ouvir o registo destes doze minutos.. Isto é corroborado pela banda calorimétrica.. A leitura dos derradeiros segundos da banda sonora. Por via do choque sofrido e também da dificuldade em fazer uma ideia clara do que se passara. A voz de um destes dois personagens não nos é desconhecida.. Lamento que o meu estado de saúde... pelo menos dois outros personagens. assinalamos-lhe que as células imediatamente vizinhas e as conexões aferentes foram impregnadas de recordações ilusórias. Uma voz que não era a do Coordenador.Porque é que a banda registadora do investigador não tomou nota da minha entrevista com o Coordenador? . O que se teria passado durante as duas horas seguintes? Perguntei: ... das palavras do professor e do diálogo com o Coordenador. esquecera-se completamente. Aquilo de que me lembrava a seguir era o que tinha sido gravado no meu cérebro. gri tou: «Abandonai o segundo plano. com efeito..» A voz mudou de registo.por consequência. A partir das 19 horas e 30.» O tom era de uma violência crescente..

Proceda a esta sessão sem . Ainda outras frases. O analisador rosnava.Este apartamento está sujeito a algum controle? .Conhecemos só uma manobra análoga. O Coordenador dirigiu-se para a mesa de plano inclinado... de o rosto do Coordenador não estava atormentado. dar informações mais concretas a este respeito. por seu turno. talhada em ângulos agudos.O navio chamava-se «Kapa de Séméis»? Irresponsável. Pedimos-lhe para se submeter a uma nova sessão de regeneração. Os nossos circuitos são insuficientemente providos e não podemos. agora.. Supomos. Algo vibrou.a um. as imagens. Alhena. Ocorreram-me de novo os estranhos solenóides de Sorx que indicavam. . como para a banda sonora.. o Homem-Força que tinha visto no veículo de compressão na cidade. Olhei o analisador. você está no terraço e contempla a cidade. a olhar-me. repa rei que a larga marca escura se tornara cor de malva. E o próprio Homem-Força estava ali.Não o sabemos ao certo. Ordenou: . Mostrava a sala inteira. que o aparelho levado para a sala desempenhava o papel de interceptor de ondas. Não irradiava.. tornou-se agudo e assim se manteve. Pareceu inflar. os ângulos agudos sumiram-se. Houve um clarão deslumbrante.Projete o filme.Como teriam sido baralhadas as bandas testemunhais? . Tal qual a minha recordação. O filme projetou-se num cubo. Neste instante. Outros homens entraram. o que dizia deixou de coincidir com a minha recordação. Manejei a alavanca de projeção.. Represálias imediatas. de modo nenhum. Não ouvi. A guerra.. para os observadores do exterior. se descobrimos esta manobra apenas há dez anos. sabedoria e experiência. abriu-se uma porta. Pus-me atento. Dois homens apareceram. Refletia um misto de cólera e insolência. mudava progressivamente de cor. estão veladas. Mais alguns clarões ofuscantes. Houve um protesto violento e reconheci a voz do Coordenador: . Afirmava que Sirkoma nunca se submeteria às leis e à Confederação. em seguida. Queremos uma solução pacífica. infelizmente. encimado por uma massa irregular.não podemos fazê-lo. De facto. no analisador e sentei-me em cima da cama. pela indumentária. Inclinei-me para o analisador. Perguntei: . depois o ascensor.. e são dois que vigiam. O aparelho deteve-se.. ao centro do quarto. . a ciência sirkomiana estava muito mais desenvolvida do que o Pr Alhena e o Coordenador quiseram confessar. A câmera rodou e apanhou no seu campo a dala avermelhada da cúpula. e as primeiras palavras foram bem as que eu ouvi. O Coordenador vinha direito a mim..Sim. mais do que um burburinho cortado por bruscos sobressaltos sonoros e agudos. A câmera tomou campo. De repente. um nível muito elevado da evolução científica.. Súbito. na maioria. passando do cinzento ao branco. As suas lesões são importantes. Uma voz perguntava: . a massa irregular que sobrepujava o aparelho... que lembravam. mas o dispositivo de segurança tem funcionado normalmente. Olhando para o meu braço. dando lugar a bossas que inchavam e se afundavam como se a massa vivesse... A banda de sonorização atirava fragmentos de frases.. mas só há uma dezena de anos. cuja pequena lâmpada verde piscava incansavelmente.. simplesmente.Desde o primeiro minuto.. Diante deles.. que empurravam na sua frente um estranho aparelho rolante. Lembramos-lhe que a partir das 19 horas e 33. cheio de ironia. Pensei que. Mas adquiriram um sentido novo. para neutralizar as câmeras e as bobinas de registo? . Mostrava o Prof. Pretensa investigação. Eram dez.

O resto concordava com as minhas reminiscências. As mãos cruzadas sob a nuca. Constatei que a minha memória artificial só se referia à minha entrevista com o Coordenador. e acelerar várias centenas de vezes o processo do seu crescimento. Necessitava. todavia. mesmo distantes. aproveitei para maldizer novamente Grunbarth. não sem algumas perturbações. aplicando nas costas da mão as ampolas de Télè ran. Dizia-me também. ouvido e opinado desde que chegara a Sirkoma. igualmente. Voltei à sala de estar. fazendo caretas de dor ou arquejando quando um esforço violento era pedido ao sistema sanguíneo. com apetite. que retinha alguns traços da aventura que acabava de atravessar. Esperei que a pele absorvesse o conteúdo e deitei-me. A campainha do regenerador acordou-me. mas tinha de lutar contra este sentimento resultante. um de estes venenos subtis de que se usava nos Planetas do Primeiro Círculo que atuavam a longo termo provocando a morte ao cano de poucos dias. o que aguardava a minha disposição. Em particular. logo que regressasse à Terra. Levantei-me e bebi um copo de água. esforçando-me por pôr em ordem as informações que reunira acerca dos sirkomianos. Sabia o que isto significava e para as partículas de Télèranque atingirem os pontos lesados do meu corpo a tarefa não era fácil. Fiquei assim perto de uma hora. mas não achei graça nenhuma a esta ideia. Cotejei os documentos e os comentários do analisador com o que recordava dos dois últimos dias. reencontrara o meu equilíbrio psíquico. carrear outras. melhor. Queira. Duvidei. dos elementos emprestados pela minha memória e tão depressa acabei a refeição solicitei ao analisador que recitasse outra vez o que tinha visto. ou não se teriam dado tanto ao trabalho de gravar recordações artificiais nas minhas células.demora. porque sentia dores vivas e repetidas no peito e nas costas.» Eram vinte horas e cinquenta e seis. por via de osmose. decerto. lamentavelmente. porque dificilmente conseguia separar as recordações reais das artificiais. Afora uma sensação de fadiga. concordei em submeter-me a um exame psíquico completo. tomar três ampolas de Télèran. Segui as instruções do analisador. com o meu espírito. Trouxeram-me o jantar. Respondemos que queria a sua refeição para as vinte e uma horas e que decidira descansar até este momento. por exemplo. também de me alimentar. que os sirkomianos tivessem recorrido a este processo. Temia que os pratos apresentados contivessem substâncias capazes de modificar o meu comportamento. além disso. Hesitei antes de me sentar à mesa. eu tinha fome e este último argumento prevaleceu. Não acontecia o mesmo. depois. que resistir a este impulso era mostrar aos dirigentes sirkomianos que as suas diligências se tinham frustrado. Desconfiava. mais tarde. Comentei comigo que eram os inconvenientes do ofício de embaixador em país desconhecido. Sentia-me. e entre cada golpe de dor amaldiçoava Grunbarth por me ter enviado a este detestável planeta. pois. da intenção gravada na meu cérebro pelos Homens-Força. Deviam de regenerar milhares de células. embora com o espírito ainda caótico. para fornecer ao meu organismo os elementos tomados diretamente pelas partículas de Télèran para a reconstituição das zonas lesadas. sentia um desejo intenso de chegar imediatamente à minha astronave e de fugir. aliás ligeira. . no entretanto. junto da boca. O aparelho de gravação inercial e sensorial dos Homens-Força lesionaram gravemente o meu organismo. em seguida. O analisador anunciou: «Perguntaram várias vezes se deseja qualquer coisa. Pelo contrário. Jantei.

Além. Mas como conciliar isto com os solenóides de Sorx. Mensagem do Planeta Terra: ordem à 7. um tanto mais depressa do que de ordinário. Os raios sólidos encontraram o solo e apoiaram-se nele. Apreciei o espetáculo durante alguns minutos. Regulei a amplitude máxima do disco do irradiador. voltei a cabeça para a esquerda e para a direita. Levantei-me e dirigi-me para o terraço. Certamente. Entrei na astronave. que começou a emitir as suas rajadas de ondas fortes. A cidade estava tranquila.ª . os clarões verdes subiam fugitivamente até o céu e diluíam-se numa espécie de halo fosforescente. «Tempo unificado 748-19-336. Abri a segunda maleta e peguei num irradiador cujas correias fixei em torno do peito e das ancas. Não sabia porquê. recusavam voltar-se para a matéria e sua exploração. decididamente. mesmo que me vissem sair do quarto. que turbilhonavam incansavelmente. As torres dardejavam as suas longas flamas vermelhas. Os sirkomianos deviam estar barricados nas moradias. as ruas da fortaleza estavam desertas. então. Acocorado no rebordo de pedra do balaústre. Eu flutuava. na aparência. Manejei o emissor. Acionei a alavanca de ascensão e subi na vertical.Capítulo 05 Eram cerca de onze horas e ia submeter-me a uma nova sessão de regeneração quando o bramido poderoso dos Rhunqs ecoou na cidade. mas. O velador piscou. Não descobri nada de anormal. Apenas as altas colunas de Kévios. mas apeteceu-me rir deste aparato de flamas e do alarido que o acompanhava. Aterrei a alguns passos da astronave. a não ser que dormissem muito simplesmente. que pressupunham resolvidos todos os problemas da navegação interestelar. deixando-me cair da balaustrada em queda livre. enquanto o mugido dos Rhunqs ricocheteava contra as paredes do quarto. agora.ª e à 11. de um imóvel a outro. O aeroporto estava silencioso e em nenhuma das construções que rodeavam as pistas havia luz. Tinha uma margem de salto muito suficiente. também. inclusivamente o próprio princípio de voo no subespaço? Como conciliar isto com os interceptores de ondas que inutilizaram as câmeras e as bobinas de registo? Estas dúvidas afligiam-me. a minha verdadeira missão. a fim de ver se alguém me observava. durante os quais as janelas sombrias do edifício desfilaram diante de mim. pois afrouxei após cinquentena de metros de descida. visto as necessidades de Eimos de Salers não o exigirem de certeza absoluta? Aqui é que os Coordenadores e os Homens-Força se desmascaravam e aqui começava. na planície. Era como uma representação muito bem orquestrada e eu pensei que chegara o momento de agir. De resto. A um milhar de metros de altitude. tomei o rumo do aeroporto. trémulos de medo. Achei que tinha razão em preferir este aparelho aos hélicos-dorsais. porquê construir solenóides de Sorx. Sirkoma. não assumia grande importância neste momento. enquanto desatava os cintos do refletor de raios. virara as costas à aventura interplanetária ou aérea. Por baixo de mim. que permitem talvez uma deslocação mais rápida mas são ruidosos. Icei-me até à balaustrada do terraço.

No entanto. em conformidade com as ordens.» O problema complicava-se seriamente nos Espaços Exteriores. enquanto as paredes permanecem impermeáveis. Novas torres aparecem em seguida. sem que estes pareçam sofrer com isso. A julgar pela atitude de certos membros da equipagem do «Spotirezza de Donai».ª Frota». os Seres-Duplos? E queriam. A 340-18. segundo a qual os Seres-Duplos eram os inimigos mais perigosos que a Confederação jamais defrontara? A voz do vigilante continuou: «Tempo 336-61. Quanto aos membros da equipagem. a propósito. em virtude de certos fenómenos.. estariam em comunicação com uma força exterior. Mensagem do Cruzador-Nivelador «Yelato de Baëm»: emergimos do subespaço consoante as ordens recebidas. Parece. A teoria da antimatéria não explica senão parcialmente os fenómenos observados. Estado de alerta para a 4.. e os guardas empregam. o «Spotirezza de Donai» assemelhava-se a uma espécie de navio ocupado por uma equipagem de fantasmas. embora as máquinas estejam. um dos cabos parece dirigir-se para nós.. se bem apreciámos o seu comportamento no decurso das últimas horas. Certos fenómenos tendem a provar que estamos em face de uma nova estrutura da matéria obediente às suas próprias leis e de que não conhecemos nenhum equivalente. num plano totalmente diferente. O cruzador. Grunbarth começava a amedrontar-se. em bom estado. que não respondeu a nenhum dos nossos apelos. a despeito das nossas perguntas. Certos feixes dividem-se no espaço e os cabos luminosos picam agora em direções divergentes. com efeito. Segunda mensagem do cruzador-nivelador de primeira classe «Yelato de Baëm»: confirmando as primeiras constatações. afinal. No tempo unificado 44. As tentativas para tomar a pôr este em marcha malograram-se. alguma coisa? À primeira vista. o corpo dos nossos inquiridores. atacado pelos Seres-Duplos. emergido do subespaço: os feixes emitidos pelas torres negras infletem-se na direção dos planetas colocados no seu percurso e desenvolvem o emaranhado de fios deslumbrantes precedentemente verificados. punhamse de novo a andar ao acaso no navio. A equipagem errava pelos corredores. Abordámos o «Spotirezza de Donai» no tempo 50. Cumprindo as instruções. «Tempo unificado 340-34. identificámos o cruzador «Spotirezza de Donai». do cruzador-nivelador «Khadar de Sodriga». não obtivemos qualquer resposta coerente dos membros da equipagem e dos oficiais. exatamente. de Donai» atravessam. na Constelação de Sergéi. Deixámos trinta guardas no «Spotirezza de Donai» e rebocámos o cruzador. Atravessam igualmente os objetos levados do nosso cruzador e os do «Spotirezza de Donai». Tempo unificado 37-34.. ter-se constituído um novo equilíbrio da matéria. Não sabemos se há uma relação entre esta exceção e o facto de Dornica ser o único planeta habitado do sistema de Sergéi. Que queriam.Frotas para se dirigirem imediatamente. derivava em direção ao sol de Sergéi. Nenhum dano exterior aparente. patrulhamos um sector de sessenta anos-luz. Abandonados a si mesmos. Assinalámos que um dos feixes evitou o planeta Dornica do sistema de Sergéi. Tivemos de reforçar o número de guardas. pois. Os membros da equipagem do «Spotirezza. aos ponto de emersão no subespaço 818 e seguintes. aparentemente.. Teria imposto ao Conselho Supremo a sua concepção. os termos de «mortos-vivos». comportam-se como se não nos vissem.. Esperamos instruções. Mensagem. batemos em retira- . presumìveImente os Seres-Duplos. sem que expliquemos este fenómeno. o serviço técnico anuncia que as leis físicas já não atuam sobre o cruzador «Spotirezza de Donai». Nenhum dos homens parecia ter sofrido lesões ou feridas externas. Certos cabos emitem fibras mais delgadas que remontam no sentido inverso.

Entrincheiraram-se numa das construções do aeroporto. donde continuam as suas observações. enchia de negro. não servia de nada. que dardejava longas flamas. havia intuito bélico. Emergimos em coordenada auxiliar. Jorravam num sibilar ardente. as silhuetas violáceas. tínhamos de ser transformados em mortos-vivos.. como se destrói. sentados em volta de uma mesa. Pareceu-me que o seu desencadeamento era automático e não alvejava qualquer objetivo particular.. enquanto os outros se agrupavam ao pé da janela fechada. nem sabia da nossa existência? Afastei os receios. Mas não se tratava outrossim. no fim de contas. num tumultuo de gritos e . acender a lanterna de Grunbarth.» Tudo isto não devia. confesso. que evolucionavam a quatro ou cinco quilómetros das torres. durante alguns segundos fiquei estupefacto. 20 horas e 32. por uma força que. Constituíam centenas. em zumbis. O aparelho deslizava docemente por cima da planície. Verdade seja. mesmo sem a ver uma tribo de insetos.» O vigilante deu-me a situação exata do edifício e eu regulei o visor de ondas penetrantes que radiografa um imóvel como se radiografasse um corpo humano. com centenas de metros de comprimento. por instantes. O destino das Oito Galáxias. Eram. As duas agressões sub-reptícias de que fora vítima. se. depois da investida na nossa direção. para ir ver o que se passava lá em baixo e como procediam os estranhos feixes que anexavam planetas. Planeta Sirkoma. As minhas relações com as autoridades sirkomianas atingiram um ponto em que a diplomacia perde muito do seu valor. numa estrada campesina? Nem sempre eu acreditava nas intenções belicosas dos Seres-Duplos. Alcancei o cimo de uma das enormes torres. Continuamos as observações. que se moviam fracamente. banhando a própria superfície enegrecida do deserto. Os Homens-Força sabiam. e de mutação não concertada da matéria num outro. Houve uma nova tentativa de aproximação por parte de um veículo conduzido por oito habitantes do planeta. prodigiosas criaturas. de tropismo num caso. O mesmo aconteceu com «Spotirezza de Donai». Foi então que descobri os Rhunqs e. e por isso. Enquanto sobrevoava o campo. em seguida a um tropismo de natureza desconhecida. ao ataque. Mas qual a diferença em crer ou não crer. Passaria. não sei bem. se bem que numa ação inútil. pensei nas mensagens dos dois cruzadores-niveladores e no que estava em vias de se desenrolar no limite dos Espaços Exteriores. no auge do seu poder. Observei-a. que turbilhonava em grossas volutas. O vigilante retomou: «Tempo local. rodeando um pesado aparelho ovoide. cujo canhão. Expelia um autêntico fogo de artifício. Os jatos de flama. realmente. Alguns falavam. o dispositivo de segurança instalado para os persuadir da minha presença. de forma alguma. agora. O cabo luminoso prosseguiu a rota primitiva. Os jatos mediavam de trinta a trinta segundos. Pus a espacionave em movimento. visava a minha espacionave. que deixara o meu apartamento. Observei. O aparelho levantou-se lentamente. Deixar-nos-íamos varrer e aniquilar pelos Seres-Duplos. e rolava vagarosamente através do céu. bastavam.da no subespaço. Descartamo-nos deles. sofria uma reviravolta. Não me importei. estava morto por entrar no cerne da questão. Descobri os oito homens no segundo andar da torre de controle. ou óculo. mas desejei concluir a minha missão em Sirkoma. se dilatava. agora. calcinavam a planície e levantavam uma nuvem de fumo espesso. sobre um fundo laranja. qual a sua espécie? A julgar pela manobra do cabo luminoso em direção a «Khadar de Sodriga». se calhar. Se se tra tava de um ataque.

vomitaram uma torrente de chamas. Os Rhunqs. estudei o extraordinário comportamento dos Rhunqs. da espessura de vinte metros. mas eu não achei este espetáculo muito sério e ainda menos angustiante. e encontrei. a fim de evitar o choque da sua grande massa. pulavam. até que o seu voo para. atirar-se de novo contra a muralha magnética. Procurei evitar o embate. Por prudência. Levei um certo tempo a compreender que na corrida e no voo batiam numa superfície invisível. depois caíram lentamente. O animal que flutuava a uma centena de metros acima de mim. Perguntei a mim mesmo contra quem se bateriam .Barreira eletromagnética. cada um deles como um cão preso à sua trela. Com a ajuda de um visor de aproximação. então. Vacilaram. Acelerei e transpus a barreira. mas não topei nenhuma resistência. O vigilante anunciou logo: . Não era de uma grande eficácia e não constituía mesmo um sério obstáculo para um aparelho de turismo terrestre. acabando em um sol flamejante. que iluminava a planície. nestes mugidos roucos. evitando. de plumagem escamosa. Evolviam em pleno céu. soltando o seu mugido. tornar a lançar-se. como um tonel. lançar-se contra o aparelho e recair após uma volta. havia nesta ardência de incêndio. cujos olhos. por fim. que tinham convergido para mim. Decididamente. Eram. que. interroguei o vigilante: . Uns corriam sobre o solo. pondo-se a derivar pelo céu. desci. numa diligência vertical.e qual seria o adversário sobre que dirigiam os grandes jatos de vapor ou de fumo esverdeado que abrasavam a campina. em piruetas maravilhosamente fáceis. os enormes corpos dos seus congéneres. de súbito. Então. O Rhunq passou numa lufada de ar. Nos planetas. Era um gigantesco animal. . Outros.numa apoteose de fogo. numa descida oblíqua. Avancei com o aparelho direito ao campo de defesa. e. num geiser de flamas. tão ao perto. escancaravam a enorme goela de sáurios. recair. virei. O seu corpo. num golpe. Os Rhunqs continuavam a pular e a soltar o seu bramido rouco debaixo de mim. O animal voltou-se e tornou à carga. pareceram chegar ao fim da corrida. Vi-os evolucionar. latiram ensurdecedoramente.porque não se trataria de diversão . de meio metro de largo. meio empinados. provavelmente. as cidades de recreio que não queriam ser sobrevoadas usavam barreiras de outra potência. emitiam uma luz amarelada. saltando para a direita.Nenhum. de improviso. Esta queda era fascinante. o mais próximo. num campo de força. o campo a uma altitude de cerca de três mil metros. vomitando como fabulosos dragões uma chama esverdeada cheia de remoinhos. com sessenta metros de comprimento. era prolongado por um pescoço breve e por uma cabeça achatada. que os repelia como uma muralha.Corremos algum perigo? . mugindo.. nestes saltos tumultuosos. coloquei-me ao abrigo de boa altura. Dei um salto para a direita. estes monstros um pouco absurdos que aterrorizavam Sirkoma há nove séculos? Para tirar a limpo. afinal. imobilizei a minha astronave a seis mil metros de altitude. Examinei um deles. qualquer coisa de grotesco e de irrisório.. e disparei as câmeras para lhe fixar a imagem. numa atitude de semi-repouso. lançando-se através do espaço e abrindo um par de asas rudes. e lançou um jato ardente que me cegou momentaneamente pelo seu fulgor. e voltam ao solo. da intensidade de oitenta. quando descobri por baixo de mim dezenas de Rhunqs que abriam as asas e se arremessavam contra a astronave. mergulhou imprevistamente sobre a astronave. O focinho da nave espacial colidiu com a muralha. porque se fazia vertical e frequentemente de mil metros de altura. caracolando bruscamente. feria os ouvidos.

Coloquei a questão por puro desencarto de consciência, pois o sistema de defesa autónomo da astronave antecipava, em regra, as minhas manobras, para me pôr em segurança. Ora, mesmo quando o primeiro Rhunq falhou o ataque, a astronave tinha ficado imóvel. Com tempo livre, antes de me ocupar dos meus espantalhos, decidi sobrevoar o conjunto do planeta, a fim de fazer uma ideia mais completa. Mergulhei, portanto, em direção ao solo e piquei para a montanha. Descobri, então, que os Rhunqs se agrupavam num espaço restrito, com uma centena de quilómetros de comprimento e vinte de profundidade, mais ou menos. Era ali que realizavam o seu espantoso sabbat. Para além, era a noite e o silêncio. Esta observação aumentou a minha perplexidade. O aparelho sobrevoava agora uma floresta, depois o solo apresentou-se pouco a pouco em longas vagas arborizadas, até uma barreira montanhosa que transpus. Do outro lado, as rochas desciam a pique sobre uma planície semeada de tufos de árvores. Tudo estava tranquilo e as três luas de Sirkoma iluminavam uma natureza e uma paisagem aproximadas às da Terra, como se vê com frequência nos planetas da Oitava Galáxia. Admirei, ao passar, o que restava das cidades de Sirkoma. Formavam grandes manchas brancas sob as luas. Na sua maior parte, tinham sido destruídas pela guerra e eu via as pedras minúsculas dispersas por centenas de quilómetros quadrados, as corcovas de terra formadas pelas ventosas de Breix. Uma das cidades, que se expunha em triângulo na axila de um rio e de um afluente, fora poupada pelo Quarto Conflito. As suas altas torres para as emissões interplanetárias estavam ainda de pé, enxergandose, mesmo, as carcaças das antigas boias que balizavam os patamares aéreos. Retomei a minha rota e aproximei-me em breve de uma nova cadeia de montanhas. Ia a endireitar o aparelho, quando a luzinha do vigilante piscou. Este, preveniu: - Presença de seres humanos a vinte quilómetros. Sobrevoávamos colinas cobertas de espessas folhagens. Quando a vegetação cessou, um solo argiloso surgiu. Tinha deixado o aparelho em voo livre. Sabia que neste momento se dirigia para as presenças humanas detetadas. A astronave abrandou e começou a descrever círculos a pequena velocidade, por sobre as colinas... - Presença humana a trezentos metros, na vertical. Peguei no visor de ondas penetrantes e revelei rapidamente os homens. No écran, moviam-se as manchas, timidamente. Desci a astronave até tocar a fronde das grandes árvores. A imagem dos homens engrandeceu-os. Estavam no interior de cavernas escavadas no calcário da colina. Recenseei várias centenas de vultos, os mais pequenos dos quais seriam de crianças. As cavernas - algumas de vastas dimensões - eram ligadas por corredores e o conjunto formava uma verdadeira cidade subterrânea a duzentos ou trezentos metros, sob a colina. Concentrava-me nas minhas observações, quando qualquer coisa jorrou de entre as árvores,ao mesmo tempo que um breve clarão vermelho. O sistema autónomo de defesa obrigou a astronave a um pequeno salto de lado e bloqueou o projétil a alguns metros do aparelho. Examinei-o com curiosidade: era uma espécie de obus, com quarenta centímetros de comprimento. O vigilante elucidou: - É um explosivo ligeiro. Devolvemo-la aos homens que no-lo enviaram... ? - Não.. Não. Faça-o explodir à distância... O sistema de defesa ejetou o obus e fê-la rebentar a mil metros de altitude, o que produziu um pequeno molho de chamas e uma detonação surda. Com outros obuses neutralizados, o vigilante procedeu da mesma maneira. No interior das cavernas reinava uma intensa animação. As silhuetas cruzavam-se nos corredores. Logo os obuses

alvejaram a astronave, partindo de uma dezena de pontos da floresta. O vigilante contentava-se, agora, com mantê-las a uma distância de cem metros, formando à volta do aparelho, imóvel, uma fieira irregular. Observando os homens que continuavam a agitar-se doidamente, pensei na mulher que o Homem-Força condenara à expulsão, assim como a quatro dos seus companheiros. Sabia, enfim, o que significava o seu sorriso irónico. Eram estas cavernas que ela contava alcançar, para se unir aos seus iguais e fugir para sempre ao regime de Sirkoma. Nunca houve, porventura, autênticos adoradores de Rhunqs, mas homens e mulheres que sonhavam ser banidos da cidade; o velho Homem-Força que pronunciara sentença da exclusão, sabia-o, e por isso se entristecia. O vigilante agrupou a fiada de obuses num monte compacto. Projetou-os no céu e fê-los explodir. Tomei lentamente altitude e rumei para uma alta montanha com vertente para um oceano solitário. As vagas balançavam-se docemente sob as luas de Sirkoma. Acelerei. Cedo atingimos um plaino pantanoso. O vigilante dava-me, a intervalos irregulares, breves indicações sobre a fauna, a natureza do terreno, a vegetação, os componentes minerais da superfície ou do subsolo. Próximo de Eimos de Salers, notara que não existia quase nenhuma vida animal. Não ocorria o mesmo no resto do planeta. Peixes, aves e insetos de toda a variedade pululavam. Havia dezenas de espécies de mamíferos, e de outros animais, desconhecidos. Numa planície disseminada de lagos, cheguei a descobrir gigantescos herbívoros do tamanho aproximado do dos Rhunqs. A sua aparência, de resto, enganou-me tanto, que os sobrevoei a baixa altura, provocando um pânico doído, seguido de enormes galopadas. Estes animais, porém, eram inofensivos. Fugiam a quatro pés, bramando de terror, e eu retomei atitude. Às duas horas da manhã voltei a Eimos de Salers. As espiras dos Kévios envolviam as grandes colunas, as torres atiravam regularmente o seu jato de flamas rubras e, no horizonte, os Rhunqs, incansáveis, continuavam a mugir e a saltar ridiculamente contra a cintura magnética. Quando a astronave se postou em cima da muralha magnética, apanhei todos os Rhunqs no campo do visor. Chegara o momento de agir e de desembaraçar o planeta destes estranhos monstros, conquanto me parecessem mais grotescos do que verdadeiramente perigosos. Dispunha-me a contá-los, quando me apercebi de um cortejo que se dirigia da muralha para a barreira magnética. Caminhava a bom andar. Cinco veículos o compunham, iguais aos que tinha visto na companhia do Pr Alhena durante o passeio pela cidade. Regulei a lente do visar. Havia homens de pé na plataforma. Contei vinte por veículo e, entre eles, reconheci os Homens-Força pela sua túnica negra raiada de amarelo. Imobilizei a nave espacial. O cortejo chegou à barreira magnética; os veículos enfileiraram, defronte. Marcaram uma curta pausa, depois rolaram lentamente na direção à barreira de proteção, na qual penetraram devagar. Do outro lado, pulando de maneira desordenada, meio voando, meio saltando, com os seus mugidos roufenhos, os Rhunqs precipitaram-se contra a parede invisível. Eu esperava o choque, a arremetida, a inevitável carniça, mas os veículos fizeram alto no limite do domínio dos Rhunqs. Os homens puseram pé em terra e dispuseramse numa única linha. Os mugidos e os pulos redobraram, entretanto que as flamas brotavam da goela dos monstros. Era um espetáculo impressionante, os segundos suspensos ante a carnagem, e eu confesso que não acreditava nos meus olhos. Os homens transpuseram a barreira, sempre alinhados; houve, então, uma acalmia. Vi os Rhunqs vacilar, bordejar, o seu voo tornar-se pesado, os seus gestos mais lentos,

embaraçados, como se se deslocassem num líquido espesso. Os homens avançavam com lentidão. Perscrutei-lhes os rostos. Estavam rígidos, petrificados: não era a cara aterrada e raivosa de soldados em combate, mas a de crentes arrebatados pela fé. Iam direitos aos monstros, que lembravam montanhas de músculos convulsos. Contive a respiração, querendo saber o que se passaria quando os invulgares soldados, comandados pelos Homens-Força, entrassem em contacto com as montanhas de músculos; queria saber, também, o que se neste mesmo instante e como justificar o aparente torpor dos Rhunqs. E de súbito, esta cena, que se desenrolava como num pesadelo, foi quebrada por um salto desconforme. Um dos Rhunqs, a uma dezena de metros da fila dos sirkomianos, distendeu-se. Arrancou um dos homens do chão, abriu-o de um golpe, com as suas garras mais longas do que um braço humano, dilacerou-o e arremessou-o contra a barreira de proteção, onde o corpo rebolou antes de cair no solo. Os sirkomianos não arredaram pé, exceto um deles, que desatou a fugir, ululante - vi-lhe a boca desmesuradamente aberta, a cara distensa pelo terror - e correu em todos os sentidos, antes de vir bater contra o muro magnético, que socou com os dois punhos, o corpo tenso, em arco, berrando para o céu. Os outros Rhunqs iam e vinham, pesadamente, fustigando o ar com a cauda espessa, alçando, aos sopetões, os cotos das asas, para um impulso que logo abortava. O que matou o homem fundiu-se na sua massa girante, que recuava lentamente à aproximação dos homens. O segundo ataque foi tão fulminante como o primeiro, mas, desta vez, quatro Rhunqs deitaram-se à cima aos sirkomianos. Dilacerados e projetados no ar, os corpos ressaltavam contra o muro magnético. Um deles caiu entre os monstros, que o espezinharam longamente. Quando dispersaram, dando de novo o lugar aos homens, não havia no chão mais do uma açorda vermelha. O ataque desencadeara um remoinho de pânico e quando os Rhunqs saltaram vários homens saíram da fileira, atirando-se ao acaso. Por um fenómeno bizarro, os Rhunqs não se ocupavam destes homens, presas de terror, e eu concluo, talvez apressado, que escolhiam as suas vítimas por razões determinadas. Os fugitivos acabaram por se acolher junto da barreira que se esforçavam por atravessar, mas ela não era permeável, como todas as barreiras desta qualidade, salvo num só sentido, pelo que os seus esforços eram baldados. Um dos sirkomianos, fulo de pavor, fugiu a sete-pés, transpôs o rebanho de Rhunqs e desapareceu na campina. O homem passou a menos de um passo de uma das feras que rugiam, a qual nem sequer estendeu a pata para o lacerar. Isto reforçou a minha convicção. Mas a partir de que características os Rhunqs escolhiam as suas vítimas? Pensando nas explicações do Pr Alhena, tentei lembrar-me do que me dissera acerca dos Rhunqs quando assisti ao que me pareceu um real prodígio. Um dos Homens-Força destacou-se da fileira que se recompusera a trouxe-moixe e caminhou sozinho direito aos Rhunqs. Estes recuaram lentamente, de espinha dobrada. Deslizavam, flanco contra flanco, num movimento moroso e flexível, emitindo curtas flamas verdes e num rosnar surdo de fera meio domesticada. Súbito, um dos monstros enfrentou o Homem-Força: as patas anteriores levantaram-se, ameaçadoras. Permaneceram imóveis, durante dez segundos. O Rhunq, frente ao homem, dominava-o pela sua altura, vinte vezes superior. Tive a impressão de assistir ao encontro silencioso de duas forças gigânticas, provisoriamente em equilíbrio. O Homem-Força levantava a cabeça para o monstro ereto. Decorreram ainda alguns segundos anelantes, depois as patas do Rhunq desceram, dobraram-se pelos joelhos e rolou sobre o flanco. Ouvi os gritos de vitória dos homens, que corriam agora para o Homem-Força, ul-

foi . emitida pelo canhão. Pensava assistir à derrota total dos monstros. Começou a girar e dispersou em catadupa um milhar de cargas de diretriz autónoma. pelo menos. rolou por terra. como se fossem debandar. meio a correr. desatavam a fugir à toa ou deitavam-se por terra. e caiu a pique para se esmagar no solo. vencidos pelos homens. Este pôs-se em movimento. O massacre não durou mais do que breves instantes e dali a pouco só se viam cor pos espezinhados. As flamas corriam rente ao chão. todas as criaturas atravessadas por estas partículas infinitesimais. Vi um sirkomiano. tentavam fazê-lo. A rajada atingiu em pleno flanco. explodiam contra o animal como pequenos sóis ofuscantes. caindo numa goela que o seccionou. que os reagrupavam. são geladas em plena corrida. revoluteou. Desta vez. com a cara entre as mãos. e fiz jorrar do habitáculo o «pastor de cargas». guarnecida de presas mais longas do que sabres. que continuavam a encurralá-los sem armas. Por vezes. separou-se em duas metades. o Tior. deixando o corpo do sirkomiano. depois outro. Vogava. apliquei. O homem não fez um gesto. desnorteados. do seu influxo. um dos obuses roçava-os na sua corrida ziguezagueante: então. esvazia instantaneamente todo o ser provido de um sistema nervoso. na altura em que um dos monstros arreganhava a fauce. o Rhunq continuava a correr e a bater as asas grotescas. no centro do corpo dos Rhunqs que tinham encurralado. Reentraram nos alvéolos e. A sua cabeça. como se nada fosse. Um outro sirkomiano saltou no ar. Ora. que acabavam de arder na charneca. de minúsculas granadas. Ouvia os seus gritos e os apelos dos Homens-Força. acorrendo de todos os pontos do horizonte. que a besta pisou num movimento de roda. A toalha molecular de grande variação elétrica.trapassavam-no. A astronave reagrupou-os. dilacerados. o «pastor» deixou de girar e reocupou suavemente o habitáculo.. Um novo Rhunq tombou. Os obuses que só podiam explodir ao contacto de uma carga elétrica não-humana. então. Cada uma delas se arremessou contra um objetivo. O primeiro que se aproximou tinha ainda na bocarra o corpo de um homem. Eles fugiam. ainda. Pareciam subjugados. Piquei direito ao rebanho dos Rhunqs. Escolhi uma das feras e inundei-a com uma chuva de partículas glaciais penetrantes. que pulavam novamente através do ar. O Rhunq ardeu como uma tocha. Eu estava fascinado pelo espetáculo dos monstruosos animais. emitiu um silvo agudo e as cargas voltaram para a astronave. ao meio do rebanho. Estalaram os gritos e os homens corriam. só restavam. aberto como um fruto. crepitando na erva curta. Explodiram umas atrás das outras. Os projéteis. quando a última carga entrou no seu alojamento. evitavam-nos e retomavam a sua direção. Um tanto atónito. Um frémito percorreu o seu rebanho. ou. Quase todos os Rhunqs estavam mortos. que rebentava e lhes calcinava as carnes. que mal podiam rugir. mas isto foi o rastilho. Geralmente. quando os homens atingiram o limite da barreira magnética. uma espécie de hesitação. Os monstros eram derrubados. meio a voar. uma segunda arma. Os sirkomianos escapados ao ataque dos Rhunqs comprimiam-se de encontro ao muro magnético. como o tinha esperado. Desci a muito baixa altitude. Achei que era tempo de intervir. a grandes golpes de asas. que vai de um jato a um dos polos. quando se operou uma reviravolta. cuja temperatura se avizinha do zero absoluto. o que origina um estado de inércia. carcaças meio consumidas. abandonar definitivamente o terreno. Eu queria capturar um deles vivos e manobrava a alavanca de comando do «pastor de cargas». as mãos abertas sobre o peito. a uma altitude de cinco ou seis metros. uma carnagem sangrenta. Em breve. contornavam a enormidade da massa do Rhunq abatido e acometiam as bestas que já batiam em retirada. apanhados na fuga pelo obus. o seu corpo. arrancada. Eu dava caça aos Rhunqs que sobreviveram ao massacre.

um malogro completo. Voei por cima dos meus dois Rhunqs, perplexo, sem saber o que fazer, e estava quase a recorrer a um método que já empregara contra os Syonadirs, animais de células minerais de Giota, quando os meus monstros desapareceram inopinadamente. A astronave prosseguiu no seu encalço, e quando tornei ao sítio onde os Rhunqs se sumiram, apenas vi a charneca calcinada. Onde se teria, metido? Interroguei o analisador. Não topou rasto de qualquer animal vivo, num raio de várias centenas de metros. Continuei a descrever círculos sobre o solo, a baixa altitude. Se os Rhunqs se refugiaram nos covis, a entrada devia ser descomunal. Ora, eu não via nada que se assemelhasse. Talvez tivessem fechado a entrada, o que indicava um nível de inteligência que não mostraram nas suas simplórias brincadeiras. Não podendo o analisador responder às minhas dúvidas, e sendo inútil a minha busca, voltei à muralha magnética. Os homens tinham desaparecido. Vi os cinco veículos, que se dirigiam a toda a brida para a cidade. Deixei-os ir, decidido a encon trá-los mais tarde e pousei a espacionave junto de uma carcaça de um dos monstros. Antes de sair do aparelho, vesti um trajo de combate. Muitas coisas, realmente, me escapavam ainda nesta aventura, para que esquecesse a prudência. Cheguei ao pé do corpo de um dos Rhunqs, do qual se elevava um fumo ligeiro. Fiquei imóvel, estúpido de admiração, depois dei uma gargalhada. Não havia sob os meus olhos mais do que uma gigantesca carcaça vazia, que suportava uma armação de tubos de metal enegrecidos. Abaixei-me e toquei com um dedo num pedaço da pele. Constituíam-no fibras de uma matéria plástica qualquer. Saltei por cima do amontoado de fios que permitiam a articulação das patas e das asas e penetrei no ventre do animal, fazendo ceder sob os meus pés o chumaço elástico que o guarnecia. No sítio onde devia encontrar-se, aproximadamente, o coração do Rhunq, havia um pequeno cofre tisnado, a partir do qual se confundiam dezenas de conexões. O cofre ainda estava quente. Era, provavelmente, o gerador do monstro artificial. Examinei-o, arranquei alguns fios e rejeitei-o. Saí do ventre do Rhunq e andei em torno do que restava do seu corpo. Debru cei-me sobre a sua cabeça, quase intacta. Os olhos eram duas enormes lâmpadas, com a lente móvel vermelha; quanto aos dentes, vistos de perto, descobria-se que eram feitos de grandes navalhas de aço em bruto. Relanceei algumas outras carcaças, todas do mesmo modelo. Regressei à espacionave, pensativo. Compreendi porque não tinha o vigilante deparado com nenhum sinal de vida celular, quando os espantalhos se eclipsaram na charneca. Sentado no habitáculo, imobilizei-me sem tocar nos comandos. Assim, os Rhunqs eram criaturas artificiais. Todas as noites, mais ou menos, de um abrigo subterrâneo da charneca lançavam-nos ao assalto das muralhas magnéticas e das torres, ao assalto também dos homens vindos para combatê-las pela simples força do seu espírito ou para elevação da sua alma, tanto faz, e em cada noite os monstros teleguiados massacravam algumas dezenas de homens. Quem dirigia os Rhunqs? Um povo inimigo dos sirkomianos? Não, decerto. O planeta era deserto, excetuando a aldeia de cavernas onde se refugiavam os sirkomianos banidos de Eimos de Salers. E não seriam estes quem aterrorizava os seus antigos concidadãos. Começava a entrever a verdade. Para saber se estava no bom caminho, procurei com os olhos o monstro que o Homem-Força abatera com o simples poder do seu espírito. Este, ao menos, não fora incendiado pelas minhas cargas. Porém, não havia nenhum cadáver intacto de Rhunqs. Aproveitando a confusão, os seus donos tê-los-iam levado para o abrigo subterrâneo.

Isto não passava de uma magnífica comédia, para acreditar melhor o poder dos Homens-Força e do Coordenador junto dos sirkomianos, pois que, afinal, não se via muito claramente como a potência de um espírito podia agir sobre pedaços de tecido plástico, sobre conexões elétricas ou outras e sobre peças de metal. Após esta reflexão, sabia que chegaria sempre a uma conclusão idêntica, o que não impedia me tivesse iludido. Rolei a astronave até à muralha magnética. Os despojos dos corpos humanos juncavam o solo. Contei quarenta cadáveres. O culto dos Rhunqs e o prestígio dos Homens-Força custavam caro à população de Sirkoma. A propósito, havia um Homem-Força entre as vitimas. Ter-se-ia oferecido, também, em holocausto, para melhor assegurar o seu poder? Lancei o aparelho através da muralha magnética, depois descolei. Via, agora, o que se passara em Sirkoma. Tinha-se tirado um maravilhoso partido dos Cães do século VIII. Alguns pontos, no entanto, persistiam obscuros. Tomei o rumo do aeroporto. O Coordenador ou seus cúmplices, os Homens-Força, dar-me-iam a sua explicação. Hoje de tarde demoliram-me algumas células. Iria pedir-lhes contas e, desta vez, não me apresentaria como o amável embaixador da Confederação mas com todos os poderes outorgados por Grunbarth para levar a bom termo a minha missão.

Capítulo 06
Pousei a nave espacial na grande praça que constituía o centro da fortaleza. Antes de descer do aparelho, tomei algumas precauções. Desta vez, levaria as minhas armas visíveis. Um Homem-Força estava de pé no vestibulo do edifício governamental. Parecia esperar-me. - Desejo ver o Coordenador. - O Coordenador descansa... - Acorde-o... O Homem-Força sustentou o meu olhar. Dardejava hostilidade. Esteve quase, suponho, a usar do seu fluxo mental, mas reparou nas minhas armas e compreendeu que me serviria delas. - Vou acompanhá-lo. Entrámos num dos ascensores. Eu estava em guarda e vigiava cada um dos seus gestos. Enquanto subíamos, voltou-se para um pequena grelha redonda incrustada na parede, pronunciou algumas palavras numa língua que não entendi. Redobrei de desconfiança. Os Homens-Força constituíam uma casta, tudo o corroborava, e, como todas as castas, esta tendia a isolar-se pelos seus ritos e por uma linguagem particular que era um novo signo de iniciação e a tornava mais exclusiva ainda. O ascensor mudou de direção e prosseguiu horizontalmente. Deteve-se. O HomemForça puxou uma porta, que dava para uma vasta sala hexagonal. A julgar pelas paredes furadas de alvéolos com bobinas e pela secretária de pedra negra e luzente, guarnecida de aparelhos de comunicação, era aqui que o Coordenador se encontrava geralmente. Rodeava-o uma dúzia de Homens-Força. A sala era banhada por uma luz fria e azulada, vinda do chão. O Coordenador deixou-me aproximar. Ao contrário dos Homens-Força, não manifestou nenhuma aversão, mas apenas amargura. - Espero as vossas explicações, sr. Coordenador... Mal proferira a última palavra, percebi no meu braço a queimadura do investigador. Saquei da pistola radiante e enfrentei os Homens-Força, acoitados, agora, atrás do seu chefe. - A primeira tentativa de agressão mental ou outra, disparo... A queimadura cessou imediatamente, mas a atitude dos Homens-Força continuou hostil. Não me pareceram impressionados pela minha ameaça e eu pensei qual seria o estratagema que me reservavam. A fim de moderar o seu ardor, apontei a pistola radiante para uma grande mesa de pedra, encostada a um parede. Um silvo jorrou, amplificou-se. A mesa começou a amolecer, a ondular frouxamente. Súbito, a laje desfezse e correu pelo chão, onde logo formou uma larga poça escura. Os Homens-Força afastaram-se vivamente da pedra liquefeita. Só o Coordenador não se mexeu, recuando apenas um passo quando a toalha ardente aflorou os seus pés.

sobre a poça de pedra.. estreitavam a carne e retiravam-se como répteis para o interior do cubo. que coagulava lentamente. Uma campainhada surda. Daqui a bocado compreenderá melhor esta reação.. Não prestou grande atenção à cerimónia que se desenrolara aos nossos olhos. à altura dos ombros.e irritava-me a ideia malsã e arcaica do homem que consentia num tal comportamento. Durante a flagelação.. um cubo brilhante fixo na parede e com buracos redondos. a voz continuava a recitar. Não tardou que várias centenas se postassem frente às paredes. com um metro de comprimento. .. vibrou.Cada um serve-se das suas armas. Sirkoma era um planeta rico.. Uma dor violenta trespassou-me o peito. As nossas cidades e aldeias estavam destruídas e para viver na at- . Os Homens-Força despiram as túnicas. que podiam fazer-se castigar pelas suas máquinas até o esgotamento . não porque me apiedasse dos Homens-Força. em tom de melopeia.. o fosso é tão profundo entre o vosso mundo e o nosso. Elevou-se então uma voz.São as Oferendas da noite. imóveis. vagaroso. Há nove séculos.Repeti: . Sobressaltei-me. e jorraram látegos de cada um dos cubos.Já por duas vezes tentaram modificar-me a memória.. Homens-Força entravam na cripta por duas portas laterais. Esboçou um gesto.Levem-nos e que todos os Homens-Força se retirem com eles. arquejante.Que ninguém abandone a sala dos Planos.. . O Coordenador fez um sinal com a cabeça e os Homens-Força saíram.. O Coordenador baixou os olhos. Notei. Os três homens pareceram petrificar-se e oscilaram sobre o lajedo.. procurando respirar fundo. .Porquê? . O Coordenador que contemplava o écran. torciam-se. Rolei sob os meus dedos a moleta da pistola e engatilhei-a.Sabíamos que a Confederação acabaria um dia por querer saber no que nos tornámos. então... O Coordenador disse: . O espetáculo dava-me uma impressão desagradável... silvavam. donde brotavam de novo para azorragar os peitos que se ofereciam. pois retomou a conversa no ponto em que se tinha interrompido. que não podemos recorrer senão à mentira e à duplicidade. muito baixa. de rosto neutro. Não teve tempo de falar.Há nove séculos. ostentava em relevo agudo pirâmides de uma matéria vítrea que emitia uma luz amarelada. levando consigo os três confrades. O Coordenador voltou-se pressuroso para três Homens-Força reunidos à parte dos seus colegas. diante de cada um deles. na língua da casta. O Coordenador adiantou-se para um televisor embutido na parede. O écran iluminou-se e mostrou uma espécie de grande cripta oval. o Coordenador ordenou: . para junto de mim. . ficando de torso nu. . Antes que a porta se fechasse. cuja abóbada. como se lamentasse esta decisão e nunca a tivesse aprovado. Abateram-se sobre os corpos dos Homens-Força. Suponho que já descobriu muitas coisas. No fim do Quarto Conflito só restavam escombros. mas é melhor começar pelo princípio. que pareciam feitos de metal multo flexível. . Creia que não foi de bom grado que decidimos alterar algumas das suas recordações. Os flagelos. Manejou-o. caminhou para o televisor e desligou-o.Espero as vossas explicações..Peço desculpa. Tornou.. Voltou-se para mim. Após nove séculos de isolamento. -Estou pronto a dá-las.

.A nossa civilização.. os meus predecessores. continuavam com partidários rebeldes... é o termo justo. .Era só isto.. mas preservar-se de um perigo iminente. doravante. até mesmo a felicidade..Até fazerem dela a chave de ouro da vossa civilização.. Erguemo-los como uma barreira. inseparável do homem.. para o espírito e. tornamo-nos um povo miserável e dos nossos quatrocentos mil sobreviventes trezentos mil eram monstros ou enfermos. À necessidade de expansão do homem. Em primeiro lugar. progressivamente. entre nós e o restante Universo. de agonia. Os Rhunq significavam o inimigo graças ao qual reconquistaríamos. porque Esitié e Gonove.. então.Em suma. porque se desdobrou numa guerra civil. o desenvolvimento da nossa técnica. mas creio que em Sirkoma a guerra foi mais horrenda. Mas o nosso revés foi completo. começava o inferno. . seja para melhoria do nosso bem-estar. ceder à tentação do desconhecido. estabelecer a união. Comentei: . com a utilização da matéria. gradualmente. voltamos o instinto de luta e de agressividade. . Voltámo-nos.... Criando os Rhunqs. donde só nos viriam a infelicidade e a morte. Fizéramos coincidir o progresso.. seja ainda para o nosso poderio. pois na origem não se tratava. estabelecemos programas das normas concretas e ficámos por ai. fixámos uma quota anual. .. -Talvez.De certa maneira. os mais sábios juraram renegar da civilização. que punham em perigo a vossa nova sociedade. Para isso. Bem entendido.. contudo... . creio. refundimos toda a nossa escala de valores.. Por esta razão.E inventaram os Rhunqs. . O que importava. dando aos sirkomianos. ao que me disse o Pr Alhena. o mito dos Rhunqs ajudou-nos consideravelmente.. não era avançar.mosfera envenenada pelas radiações os quatrocentos mil sobreviventes tiveram de usar máscaras e medidas de proteção. o nosso planeta. . concentrámos toda a população de Sirkoma numa só cidade cujo desenvolvimento podíamos controlar constantemente. senão de cães que tinham escorraçado da cidade.. sabíamos onde ela nos conduziria.. para um outro objetivo... a desconfiança do desconhecido e dos outros mundos.. Foi então que neste mundo de terror. e a exaltação traduzia-se nos seus gestos. .. . os dois impérios que se dígladiaram durante os dez séculos precedentes..A situação era mais ou menos a de todos os planetas das Oito Galáxias. a partir dai. à sua curiosidade dos mundos exteriores.Também mo disse o Pr Alhena.. Ao mesmo tempo que nos isolávamos do mundo.. decidiram que só o espírito venceria este inimigo.. vimos qual o partido que podíamos tirar deste inimigo comum e aperfeiçoámos a noção de Rhunqs. cedíamos o passo ao espírito sobre a matéria. é verdade. Inventar.. O Coordenador antecipou-se às minhas objeções. à destruição. quotidiano.. ou mais justamente. opusemos os Rhunqs. simultaneamente.. a curiosidade e o espírito de descoberta tornavam-se vícios.. Tínhamos a medida da vossa forma de civilização.E com o vosso desprezo da matéria e dos poderes que deles advinham. Para além de Eimos de Salers.. da descoberta. Pouco a pouco. para. Em segundo lugar. Compreenda: tínhamos necessidade de um inimigo comum. quisemos regulamentar o progresso material. à morte.. tal como a entendiam os povos da Confederação. ... aliás.. em virtude de alguns casos de raiva. A voz do Coordenador crescia.Fomos nós. colocara-nos à cabeça da Oitava Galáxia. os Rhunqs. que inoculámos nos cães a doença que os atirou contra os homens. De repente.

. . qualifica-os de sábios.....Sem embargo.Não. por meio de aparelhos científicos desconhecidos do povo. Vivemos mais pobremente.pois que se trata de felicidade . Não queremos subestimar nenhum dos instintos e nenhuma das tendências naturais do homem. vestimo-nos mais simplesmente...Pelo que sei deles.Em que é que isso importava ao nosso povo? Pode afirmar que os sirkomianos são piores ou mais infelizes . do nosso proveito.. Porque eles eram o pecado original dos vossos ancestrais.. Os .. . antes do Quarto Conflito..Quando uma invenção não nos convence da sua utilidade para o bem-estar do povo. .. . que fora até o grande vitral curvo voltou-se com vivacidade. Quais os Mestres da Confederação que aceitariam subjugar-se a estas regras? . Porque se reservaram o monopólio de certas invenções? .Em resumo... qual é o papel exato destes homens de vestes rodopiantes? O Pr Alhena. em Sirkoma como em toda a parte... Uma das leis da Confederação é a seguinte: «Que morram os que procuraram a glória e o poder para seu prestígio e seu único proveito».Sim. serviram-se do progresso científico para instaurarem uma ditadura reservada a uma casta de iniciados.. Contentamo-nos com derivá-las para objetivos da nossa escolha. para o qual não são simpáticos. mas não admite que se possa acusar-vos de abuso do poder e de tentativa de ditadura por uma minoria? . Assim.que os habitantes dos vossos planetas? Sabe que temos muito menos delinquentes do que antigamente e talvez do que em todas as Oito Galáxias? Sabe que suprimimos as prisões há quatro séculos? Os sirkomianos do povo gozam de uma vida confortável.Refere-se aos Homens-Força e a mim mesmo? O Coordenador. e também que o espírito – sobremodo mais importante . por intermédio dos Rhunqs. Pagamos muito caro para saber a que conduzia um desenvolvimento desenfreado da técnica. Tivemos muitas dificuldades para nos desembaraçarmos deles. . Constituem uma casta orgulhosa e duvido que para eles a preocupação do bem comum se sobre punha à sua vontade pessoal. mas colocamos os homens de ciência no seu lugar. não a revelamos. nenhum. mas isto compete à Confederação julgá-lo... .. Donde provêm os seus poderes extraordinários? .A vitória era muito previsível e o combate artificioso. mas eu observei os vossos Homens-Força. Não são consideradas uma bênção.Só assegurariam o seu prestígio. . -Tem-me parecido que não hesitariam em associar-lhes certos truques e embustes. .... Engano-me? . Devemos-lhes as nossas invenções. mas não as contrariamos. ..Não se trata. . nascem vocações cientificas. nem da nossa glória. e a herança detestável que vos deixaram.São os nossos sábios. somos dominados pelo espírito de disciplina. Prosseguiu: .. quase.Mais do que ninguém.. pois não púnhamos a nossa Idade do Ouro no passado mas no futuro. que é medíocre. efetivamente..Apercebi-me disso. alimentamo-nos mais frugalmente e sofremos penitências maiores do que os indivíduos mais humildes de Sirkoma. A talha de fouce..só agiria na medi da em que as quotas das virtudes de cada um dos cidadãos fossem respeitadas. Mas vós detendes o poder e não prestais contas a ninguém.Do seu treino espiritual e mental. e nesta lenta vitória sobre os Rhunqs no decorrer dos séculos. tornaram a descobrir o pecado original. pelo contrário. e são controlados pelos Soldados Privilegiados.. talvez...A Confederação não gosta muito dos homens-deuses nem do que lhes toca de longe ou de perto.Aos vossos olhos.

. Foi uma incrível matança e eu não vi um único homem de idade entre os vossos guerreiros.. únicos juízes do emprego e da aplicação das suas descobertas... que pressupõem um grau de evolução muita elevado.. No caminho que escolhemos não podemos proceder de outra maneira. o conhecimento.. . mas outras.Mas isolam-nos da população. Atirei de improviso: . . a melhoria do nível de vida dos sirkomianos. porquê este terror permanente em que vivem os sirkomianos....Mas deixemos isso e voltemos ao que vi em Sirkoma e me pareceu mais grave que o uso dos solenóides de Sorx num mundo aparentemente com a técnica do Primeiro Estádio: quero falar dos Rhunqs. por exemplo. mas os nossos sábios devem servir a comunidade. calmo e violento alternadamente. .Contudo.Eu diria os mais débeis. só descobrimos estes solenóides há cento e cinquenta anos.Suponho que um planeta como Sirkoma.. sobretudo... . O Coordenador tinha encolhido os ombros.... Damos-lhes toda a liberdade. da matéria neutra e da transferência da energia para não importa que ponto de espaço sem nenhum desperdício?. poderiam defender-se? De que armas dispõem? . de preferência o sangue de jovens. do voo subespacial. decidir invadir-vos. Por vezes. que conservam os homens de ciência? O Coordenador hesitou. Era um homem estranho.. em que parecia avaliar-me e sopesar a melhor resposta. . e por isto me irritava. aqueles de que não tendes nada a recear.... Estabelecemos um programa de evolução moderada do nosso povo e não podemos . .Exato. tinha o pressentimento de que me escondia o essencial..Sabe que na Confederação. simplesmente. que se fechou ao mundo pelo mito dos Rhunqs. Por meio dos Rhunqs eliminamos este risco... o perigo representado por estes planetas. uma parte da vossa energia é tirada dos solenóides de Sorx. que poderiam.Se Sirkoma fosse atacado por um dos planetas da Confederação. se as minhas observações são justas. Antes de mais. o vosso mundo partiu daqui e é em torno dos Rhunqs que gravita a vossa civilização e a moral dela decorrente. Nunca os desanimamos. como se não desse valor ao que havia por detrás dos assombrosos solenóides de Sorx e eu perguntava-me ainda em que medida o seu desdém não era fingido. a bater-me num terreno menos movediço.. onde dezenas de milhar de sábios trabalham em equipa ou em concorrência. não pode.Os Rhunqs não matavam às cegas. Insisti: . no convívio com os chefes de Estado das outras galáxias. É por isso. os milhares de vítimas que sacrificam aos Rhunqs? Estes monstros eletrónicos exigem muito sangue... e controlam-nos por meio dos Homens-Força. entre os jovens. porque se calou. Porquê estes alarmes noturnos intermináveis. no entanto. por consequência.As investigações dos nossos sábios propõem-se. aqueles a quem não tendes que reduzir a curiosidade ou o espírito de iniciativa. que lhes é hostil. . Sabe o que quero dizer? O Coordenador sabia.. . também. quase o julgava sincero. como esta.A revolta e a dúvida são peculiares à juventude. ignorar o progresso científico dos outros planetas e.. presenciei o último combate. e enquanto me confiava as suas razões eu não deixava de admitir a possibilidade de me lograr. . por exemplo.Já lhe dei as nossas razões.que escolheram uma carreira científica entram nos Colégios da Cidade-Mãe. . evidentemente..Os mais assisados. Alguns homens foram poupados. e porquê... Habituara-me.. Não encorajamos as vocações científicas.

até porque não há nada que ela mais respeite do que o ardor da espécie humana. aliás. a compreensão dos universos divergentes.. Ajuntei. a adaptar. a vossa única possibilidade de sobreviver no futuro.São frequentemente voluntários. Preferimos a verdade. Estes seres extraterrestres são nossos aliados.. Porém. Temos também dificuldades.. Temos a nossa. o meu chefe. mesmo que dela resultem.. .A seu ver. concordo. Se Grunbarth.Pensa que a Confederação nos obrigará a mudar de regime? -Não sei.. não é isto o essencial?.. por meu turno. dir-vos-ia também que tentamos domesticar e infletir esta força. entusiastas das mudanças. não afirmo que tenhamos razão. tão viva era a minha visão dos jovens dilacerados pelos Rhunqs e que tinham sofrido uma morte estúpida no medo e no fervor. depois: . Grunbarth troçaria de mim. Acessòriarnente... da minha cólera e da minha paixão. no seu dizer. que aqui representa? . a válvula de segurança para todos os sentimentos maus que atiram os homens uns contra os outros numa sociedade que não se sente ameaçada. a melhor parte de vós mesmos e porventura.... mas este mito preservou-nos do mundo exterior e do seu deplorável exemplo. estivesse aqui..E condenam estes rapazes a uma morte atroz. talvez. oriunda do Terceiro Planeta.. elevámos o nível moral do nosso povo.. desconcertantes. Calou-se. . Dito isto. Podem tornar-se nossos inimigos.O que equivale. é o impulso da espécie. a sua pujança. e se torna hoje duvidoso o que se afigurava ontem evidente. suponho que vos diria que o que nós queremos salvaguardar.. o que ele chama o complexo da expansão da raça. a modificar. caímos no domínio da moral. Aproximou-se de mim e o seu rosto exprimia perturbação e receio. tanto os mundos encontrados nas galáxias são surpreendentes. venham revolucionar este programa. a condená-los à morte pela sua própria valentia e generosidade. Construímos a nossa sociedade à volta do mito dos Rhunqs. Tem sido o exutório da sua cólera e do seu descontentamento. são.. Arrebatava-me.Somos felizes. Depois. qual é o sentimento da Confederação. Isto não tem que ver com o culto da força e sofremos gravemente por causa desta parte turbulenta de nós mesmos.. como os Rhunqs. recomeçou subitamente. Receio que a Confederação dificilmente vos perdoe. vivíamos em cavernas e ignorávamos o fogo... que chegamos. a seguir. O Coordenador repetiu.aceitar que alguns jovens.. como crescer em força e em conhecimento. O Coordenador adivinhou que eu não dava grande apreço aos seus argumentos. em primeiro. aconselharia a calma e a ironia. os que combatem os Rhunqs. A nossa tentativa resultou.. . quando são. mas procuramos resolvê-las e não evitá-las. apelando para mitos ou criaturas artificiais. mas vivemos com outras espécies. se arrancamos os nossos braços mais vigorosos?. sensíveis somente ao espírito e às suas qualidades. confusões e conflitos.O nosso povo é um povo feliz. que assegura a felicidade e a paz ao maior número. O Coor denador não me teria ouvido ou ter-se-ia tornado insensível a este horror. aqui. de outra ordem. o que acontece algumas vezes.. Permitiu-nos eliminar os elementos nocivos da nossa sociedade. Como resistir-lhes. a seguir: . Há vinte mil anos. Segundo o costume. Visto que decretamos os Rhunqs invulneráveis às armas materiais. mas era mais um grito de defesa que uma afirmação: .. como um ancião obstinado: .. além da espécie humana.Pertenço ao mundo das Oito Galáxias. simplesmente. portanto.... também. . Hoje sulcamos as galáxias.

.Sabemo-lo. Entrei na cabina. além dos de Eimos de Salers.Há outros humanos. ou ainda os adoradores dos Rhunqs que baniram da cidade. Repeti-o. Por outro lado... Antes... Perguntei-me o que faria Coordenador quando chegassem as primeiras espacionaves para instalar os postos avançados.. O ascensor deteve-se à entrada do corredor que conduzia ao meu apartamento. porque não organizar um grande combate.. Se os Homens-Força não aceitam. o speaker da televisão comentava um encontro desportivo entre duas equipas que se disputavam um disco com autonomia restrita. Disse-lhe assaz rudemente: . peço-lhes que destruam os Rhunqs.. Mas que poderia ele fazer? Procurei e não encontrei nada.. O Coordenador voltou-me as costas. os nossos postos-avançados em Sirkoma para vigilância dos Seres-Duplos. . Não estava seguro de que se resignasse a esta Invasão. . tendo em conta certos fatores. de meios coativos.No entanto. De qualquer maneira... . A sua atitude mostrava que não tínhamos mais nada a dizer.Certeza não tenho. Atentei. O Coordenador mostrava-se abatido.. porém. Temos verificado que os humanos são intimamente condicionados pela sua natureza. não esqueçam que dentro de alguns dias instalaremos. Fechei o televisor. E uma opinião pessoal.. Eu compreendia que não se elimina facilmente um mito como o dos Rhunqs... Duvido que sejam suficientes o conforto e a paz de um só povo e que sejam estes os signos indubitáveis da sua felicidade. A porta da cabina fechou-se. creio tê-lo dito ao vosso chefe da Segurança.. usa.Se não querem envergonhar-se confessando a verdade. Transformava. . mesmo que a Confederação não enviasse o inquiridor a Sirkoma. . a sua visita e provável intervenção da Confederação nos nossos assuntos tornam esta ameaça sem importância. . . .. até à derrota completa dos Rhunqs? Poderão partir desta vitória. Julgo que são aqueles que expulsaram outrora.. mas não logrei dissipar a minha inquietação.No fim de contas.Tudo mudará e o nosso povo será menos feliz do que outrora. A Confederação.Os Soldados Privilegiados jamais concordariam. isto aconteceria.. em Sirkoma.. prefiro ser um homem da Confederação a um cidadão de Sirkoma.Mas.. segue regras inexoráveis.. Sirkoma não podia indispor-se com a Confederação. Vi uma das cidades destes sirkomianos proscritos ou homiziados. Contemplava agora a cidade pelo vitral. .Voltar à Terra e apresentar o meu relatório. Esta é marcada por uma fraca amplitude e a evolução.. voltamos ao poder e ao prestígio de uma minoria. no analisador. a Era dos Rhunqs em Paraíso perdido. de qualquer modo.Já lhe disse que não os tememos. obrigá-los-emos a submeter-se.Que vai fazer? ... que zumbia.. já.. delinquentes.Tem a certeza?. Não lhes dou dois séculos para assaltarem e cercarem Eimos de Salers. velho de nove séculos e que prestara tantos serviços. Correspondeu à minha saudação com um sinal de cabeça e carregou numa tecla de metal embutida na parede A porta do ascensor abriu-se. para destruir os Rhunqs. Quando entrei. O Coordenador esperava que me despedisse. .É preciso temer sempre um homem livre.. em que participe o vosso povo. naturalmente. Não nos amedrontam. como o não estava de que organizasse o grande combate que lhe sugerira. . em certas emergências. distraidamente. provavelmente.

«Dois homens quiseram entrar no apartamento. assim como pela leitura das bobinas de memória e pelo espetáculo da televisão.. Interroguei: . Quando desemboquei no alto da grande escadaria de pedra. espraiando os olhos pela praça vazia. A este propó sito. Acabei de fazer as bagagens. . Efetivamente. descobri que a minha espacionave desaparecera.Pôde verificar que o nosso planeta é maravilhoso. contra tudo o que respeita à ciência e à matéria.. ou melhor ainda. do efeito descluente do álcool ou de certos afrodisíacos. no capítulo dos imperativos de moralidade. Várias mensagens inconscientes mostram os Homens-Força troçando dos sábios. Retiraram-se sem fazer uso das armas. as mensagens que interessam os sábios tendem a menosprezar esta casta. desde a primeira infância. o estudo linguístico é sintomático. Falase. imobilizei-me. Insinua-se nos sirkomianos a admiração e o temor dos Homens-Força. sugerindo que possuem certos poderes de clarividência extra-humana. de cólera. Do mesmo modo. O estudo destas imagens parece indicar um acondicionamento de todos os sirkomianos. claro. Indiquei as bagagens.. Apesar de à distância de mais de duzentos metros. perguntou: . abria-se uma caverna vermelha que crepitava e lançava no céu feixes de faíscas. mas temos a certeza de vencê-los um dia. do outro lado da praça. por fim.. A resposta pareceu aliviá-lo. Só neste momento. Mais ou menos à altura do vigésimo andar de um imóvel. ao respeito do trabalho e das tradições..Não creio. sentíamos no rosto o calor do incêndio. O nível de desenvolvimento técnico neste planeta é do terceiro estádio. . As nossas primeiras observações confirmaram-se. acabou por dizer: .Não.As mensagens subconscientes referem-se ao Coordenador? . Por outro lado. enquanto eu trincava urna maçã que tinha colhido no terraço.Ajuda-me a levá-las até à praça? Transportou as bagagens para a cabina do ascensor. Você gostava que Sirkoma nunca mudasse? Hesitou. Entrou alguns minutos mais tarde. deste modo. A assinalar.Os Rhunqs. significa que ele tem pronunciada tendência para a malfeitoria. Ao descermos. palavra de que não sabemos a origem. As mensagens visuais de propaganda televisionada subconsciente conduzem. depois chamei o criado. Sorriu e disse-me: . dirigi-me instintivamente para o local do incêndio. que os sábios são frequentemente designados pelo termo «descluente».a perguntar-me . Pelo contrário. Existem outros assim tão belos? . .Alguns.. várias expressões proverbiais corroboram a nossa opinião. Estuguei o passo. O vestíbulo estava deserto. Assim.Volta a Sirkoma? . Chegado à praça. mas que designa também em Sirkoma a ação nociva de um corpo sobre as faculdades do espírito. Opusemo-nos.Nunca.Mesmo para os Rhunqs? . dizer de um indivíduo que «podia usar a veste rodopiante». dependurei o analisador e coloquei-o no seu invólucro.. há uma verdadeira assimilação na linguagem popular entre «amar a ciência» e «ser culpado». Atrás de mim.. prosseguimos o exame dos dados que nos foram fornecidos pela sua visita à cidade. afora alguns pontos especiais que pertencem ao primeiro estádio. A sua imagem liga-se a uma ideia de ridículo. o criado soltou uma exclamação.

Esperando não sei o quê. que se elevavam contra as fachadas e envolviam a praça. respondeu logo: . endireitei o aparelho para transpor a muralha da fortaleza. O vigilante falava do avanço dos Seres-Duplos. Não me resolvia a deixar Sirkoma. A espacionave rasava os telhados. As ruas estavam desertas. disse-me o vigilante: . mas não o consegui. Ao começarem a danificar o primeiro revestimento do ciclo de distribuição. A cidade estava em sossego. O Coordenador não me falara. Algumas destas estruturas . No extremo da grande praça. aqui e ali. o incêndio continuava em fúria. Perdeu altura. Sessenta planetas tinham sido acometidos. O fogo ardia por trás dos rolos negros de fumo. As ruas da cidade continuavam desesperadamente vazias. Tornei a sobrevoar vivendas e jardins. cabalmente. Pôs-se simplesmente a derivar no espaço e o nivelador que partiu em seu socorro descobriu na equipagem e nas máquinas do «Esmelian de Ordet» os mesmos fenómenos inexplicáveis verificados no «Spotirezza de Donai». Emitem permanentemente uma cintilação análoga às radiações 291. Um objeto fracamente iluminado deslocava-se no céu a grande velocidade. Olhei as fitas de ondas moles que serpenteavam em torno das colunas. as árvores e os jardins. Quando entrei no habitáculo. que devia tê-las estudado. Nas praças. além disso. onde são . Agradeci ao criado. Esquecera-me de perguntar ao Coordenador qual a utilidade destas curiosas colunas. que têm por fim provocar o medo por ação direta sobre os centros nervosos.. abrandou de súbito e pousou a alguns metros de mim. Enquanto a banda sonora me dava conta das mensagens recebidas durante as últimas horas. Um cruzador de reconhecimento. sobrevoei a Cidade a baixa altitude. do nível científico de Sirkoma. O segundo grupo de ondas. como se esperasse outras revelações.. ao passo que descolava: . mas sem contaminar os prédios à sua beira.difundem.Para que servem elas? O analisador. na via assim aberta. quando um ligeiro silvo me fez levantar os olhos. passei ao ataque e destruí totalmente o centro emissor que se encontrava num dos edifícios que circundam a praça. Nunca se sabia o que significavam as torres gigantescas que apareciam e cujo cimo giratório emitia estes singulares cabos luminosos. Do outro lado da praça. . que passara por um destes cabos. que mirava a espacionave com espanto e fechei a portinhola. no comprimento de emissão que nós utilizamos para o relaxamento psíquico. Interroguei.A sua frequência era extremamente elevada e acompanhavam-se de grupos de ondas homólogas que se introduziam no caminho que as vibrações de alta frequência abriam. Tentei neutralizá-las.há quatro na praça que sobrevoamos . Passei por cima de uma praça eriçada de Kévios. o incêndio continuava vivo. Há estruturas semelhantes no planeta Ortha. agia como um verdadeiro explosivo. Descrevi com o aparelho largos círculos.porque ninguém parecia preocupar-se nem curar de extingui-Ia. Picou em direção ao solo. «Esmelian de Ordet». não sofrera nenhum dano aparente.Fui atacado por ondas de vibração de alta frequência.São estruturas metálicas para um gerador subterrâneo. os Kévios enrolavam as suas espiras indolentes em volta das colunas. Pediria a Grunbarth para incluir na missão dos postos avançados um grupo de especialistas. Janelas iluminadas. a fim de sabermos onde estavam esses famosos sábios sirkomianos de vestes rodopiantes que suscitavam aversão. aproximou-se e reconheci a minha nave. Os cabos luminosos continuavam a progredir na direção da Oitava Galáxia.Porque não teria conseguido neutralizar as ondas de vibração? .

. para facilitar a calma e a disciplina. no tratamento de certas doenças mentais. Alguns modelos são utilizados.empregadas nas prisões. Foram interditas nos planetas do Primeiro Circulo. apenas. em seguimento ao protesto de 412.

de facto. que pertencia a uma categoria de navios considerados invulneráveis às armas clássicas? Havia. a imagem de «Kapa de Séméis» se me apresentou ao espírito.Capítulo 07 Não me decidia a abandonar o planeta. que o orgulho devora. agora. as rochas cinzentas e. Donde me vinha a nitidez desta imagem? À míngua de boas razões. além de que eu possuía alguns . por fim. são useiros nestes excessos. Resolvi que o mais urgente era enviar uma mensagem ao Departamento de Normalização. que a cifrou. comparar-me aos para-humanos de Yors. desde que voltara à espacionave. Não podia. se tudo corresse bem. Negligenciando o futuro dos habitantes de Eimos de Salers não seria para mim o mais fácil? O Coordenador e os Homens-Força detinham. se Grunbarth concordasse. mas nada provava que tivessem alcançado esta província da Oitava Galáxia. não se dá sem revolver profundamente o solo. da natureza e do relevo de Sirkoma. Tinha sobrevoado três cadeias de montanhas sem nada descobrir de insólito . por um lado. Dispunha de tempo. com efeito. cuja proa. e ainda com uma precisão quase fotográfica. pela terceira ou quarta vez. Por outro lado. por outro. como «Kapa de Séméis». Disse-lhe onde estava e que aguardaria em Sirkoma a chegada da esquadra. Rodando a fraca altitude. realmente. os Seres-Duplos. e isto aumentava a minha inquietação. afocinhava numa torrente de cascalho claro. esforçava-me por ver claro. Só me restava a nitidez da visão e a sua repetição contrariava-me. por cima da charneca juncada dos restos calcinados dos Rhunqs e dos corpos dilacerados dos jovens sirkomianos. Ditei-a ao vigilante. Que iriam eles fazer? Duvidava. tocaria um navio-posto em algumas horas e. todos os poderes em suas mãos. Como teria soçobrado este cruzador de combate. Em Sirkoma. principalmente. havia uma situação equívoca. O grande cruzador encalhara no flanco de uma montanha arborizada. de um grande cruzador de combate. meio amachucada. em determinadas circunstâncias. teria eu desempenhado bem as tarefas que me confiaram? Viera a Sirkoma. com equipamento de deteção e um grupo de astrofísicos. Via distintamente a cena: as árvores negras esmagadas pela queda. de novo. o gigantesco destroço inclinado. a esquadra chegaria amanhã. os quais. acabei por imputá-la a um provável sentimento de culpa que me engendrara a partir do que sabia. Era a única explicação. num longo sulco de vários quilómetros. para esclarecer o mistério de «Kapa de Séméis». mandada por via subespacial. Atingira o limite da charneca quando. Que me provava que na sua cólera e no seu despeito.e o esmagamento de um cruzador de cento e trinta mil toneladas. a fim de saber qual a melhor conduta a seguir. Solicitava a Grunbarth o envio de uma esquadra de cruzadores. não arrastariam o planeta na sua queda? Os chefes absolutos. possuem o dom de antever o seu próprio futuro. Por isso decidi certificar-me. que esperassem prudentemente a chegada dos cruzadores e se submetessem de bom grado à lei da Confederação. visto não partir de Sirkoma antes da chegada da esquadra. A mensagem.

se iludiam. Quando transpunha um enorme maciço nevado. a uns sete ou oito mil metros. Não descobrimos a causa deste fenómeno. com a largura de uma dezena de quilómetros. Os mundos que visitava em missão eram. Eu não prestava muita atenção a estas informações. que barrava o continente morto. a segunda. Não via nada de invulgar. por exemplo. que me confirmou a altura de treze mil metros. não era a primeira vez que me engana va. A imagem que me formara do naufrágio de «Kapa de Séméis» apresentou-se de novo ao meu espírito e afigurouse-me que as montanhas que sobrevoava se adaptavam perfeitamente a uma tal visão. da altura de catorze mil metros. Indicava treze mil metros. primeiro. Perplexo.e que procurava o «Kapa de Séméis». à laia de dentes de serra. As três luas de Sirkoma depressa iluminaram uma paisagem de cristas. Lancei mão dos comandos e fiz descer o aparelho. Com efeito. e profundos vales arborizados. que cortava transversalmente as cadeias rochosas. Existiam duas outras cadeias montanhosas: Ber-Emsir e Tawlich. afrouxei para observar Eimos de Salers. situada a dois mil quilómetros ao sul de Eimos de Salers. . embora me parecesse que navegávamos muito mais perto do solo. Porém. Interroguei o vigilante. Tomei o rumo do sul. mas convém dizer que os instrumentos de radioscopia de bordo só alcançavam alguns metros nas estruturas minerais. observei as ilhotas rochosas e as declividades arborizadas que desfilavam sob a nave espacial. uma grande ilha gelada perto do Polo Norte.instrumentos de deteção primária. Encontrei um. o vigilante reafirmou a exatidão das indicações dos instrumentos de medida. também. A maior parte das espécies já identificadas em Erm-Sémir poderiam viver aqui. e cujo relevo e situação numa zona temperada me pareciam mais propícios à justificação da imagem que me criara do naufrágio do «Kapa de Séméis». nem nas regiões inferiores».O clima e os recursos naturais opõem-se? . Sobrevoaria. Atraiu-me uma longa queda que me conduziu ao nível das crostas e examinava o quadro de bordo e as imagens de sondagem quando o altímetro chamou de súbito a minha atenção. que voávamos muito mais depressa. Recorri ao vigilante. A velocidade andava à roda dos duzentos quilómetros à hora. a despeito do pouco crédito em que continuava a ter esta visão. fe- . O analisador deu-me as características dos terrenos que sobrevoava. onze anos depois de viajar no espaço. em Sirkoma? Peguei no Manual de Navegação e procurei um mapa do planeta. sujeitos a estranhas leis. a fim de observar mais de perto os bosques de coníferas que cobriam as vertentes. Conclui que os meus sentidos. perto. O que eu vigiava era uma das antenas sensibilizadas pelo sermium . a cinco ou seis mil metros e que a nossa velocidade ultrapassava quatrocentos quilómetros à hora. Afundava-se para oeste. identificou a fauna e a flora. A primeira. Ia jurar que voávamos. referindo-se a estes circuitos de memória. Eram quatro horas da manhã quando surgiram os primeiros contrafortes da cadeia de Ber-Emsir.Não. Ber-Emsir. conquanto me parecesse. por vezes. Abriu-se um vale. do que se passava neste momento nas profundezas da fortaleza. Contudo. Mas não haveria outras montanhas. agora. De passagem. o que não me apoquentava. desta ou daquela maneira. o sinal de alerta ligado à antena sensibilizada pelo sermium continuava mudo.uma parcela deste metal radioativo inseria-se na célula central de todas as astronaves da Confederação . de sorte que não podia saber nada. o vigilante anunciou: «Não se revela nenhuma forma de vida animal neste maciço. no Anexo consagrado às Civilizações do Segundo Estádio.

Ponderei a resposta do vigilante.. que o que se julgava descobrir à vista. o sentimento de uma velocidade sempre crescente.nómenos peculiares desenvolviam-se ai e mistificavam tão bem cada um dos sentidos humanos. que. era a primeira vez que se furtava a responder-me. E devia a espacionave esperar que a interrogasse? O seu papel era o de me informar. Debrucei-me sobre o visor e observei o fundo do vale que semelhava. Larguei as alavancas. A espacionave conhecia exatamente o nível dos meus conhecimentos e tinha de adaptar as suas informações a este. ao tato ou ao ouvido não era. mais do que pura alucinação. . Havia. até que me disse: . Qual o fenómeno que alterava. mas acabamos de detetar grupos de ondas longitudinais suscetíveis de alterarem a gravitação e de nos desequilibrarem. como todos os navegadores..Porque não ganhamos altitude ou não passamos ao voo espacial? Houve um intervalo e depois: . antolharam-se-me confusas. mais vale acreditar nas informações da espacionave e deixar-lhe a iniciativa. em verdade. pois. quaisquer que sejam as conjunturas. alternadamente.. . neste ponto de vista. de facto. mesmo acrescidas da lembrança das numerosas ocasiões em que ficara a dever a vida à eficácia das reações da minha nave. Tudo estava calmo. de que mal explicamos a natureza e a origem. que numa situação de perigo o sistema de alarme se mantinha silencioso. procurando um novo indício. em tais circunstâncias. o vigilante advertia-me sempre que passávamos a voo automático e ele nunca o fazia sem motivos graves. mas. o jeito de um rio seco. Era preciso que surgisse um perigo ou ainda que os circuitos de apreciação da astronave julgassem os meus reflexos incapazes de corresponder a uma situação plena de ardis. mas a primeira função do aparelho não é a de obstar às aberrações dos nossos sentidos e de tomar as cautelas necessárias nos planetas onde as fraquezas do nosso corpo nos desarmam totalmente? Era isto que eu repetia. Geralmente.. também. Esta visão vertical da paisagem. nos quatro anos de pilotagem desta espacionave. Respondeu: . Insisti. As alavancas resistiram.. Esta ação não se exerce sobre a espacionave e o meio físico não é alterado.Estamos sob piloto automático. com os seus montes de rochas e as praias de seixos amarelados. bastante diferentes. Decorreu um lapso de tempo.Porque não ganhamos altitude? O vigilante calou-se. . enquanto sobrevoávamos o vale e também que a primeira lei da robótica prescreve que a espacionave nunca prejudica aos que lhe vão a bordo.Tomamos simplesmente as precauções habituais. igualmente. os instrumentos. a minha visão? Era ele natural ou antes provocado pela mão do homem? Propus a questão ao vigilante. Custa. naturalmente. tudo isto me deu uma impressão tão viva que segurei instintivamente as alavancas de comando e tentei subir a espacionave. Olhava. a primeira. alguns dos sinais de alarme não se acenderam. Mas estas reflexões. a proximidade do solo. segundo a segundo. O vigilante informou: . o tempo morto que se seguia à minha pergunta. Como as precedentes.Passa-se qualquer coisa.Porque passamos ao voo automático? Por via das minhas perturbações de visão ou porque corremos um perigo? O vigilante não respondeu. No quadro de bordo. como se hesitasse. Tentei tranquilizar-me. surpreendido.. das de costume e que mereciam sempre a minha concordância. Acabei por me pergun tar se estes grupos de ondas a que se referira não teriam já danificado alguns dos seus circuitos. não impediam me sentisse um tanto inquieto. em todo o caso. Não há perigo imediato. Aprendi.

estávamos apenas a mil metros do vale. Apetecia-me bombardear o vigilante com perguntas. . Tinha na ponta da língua novas perguntas. Só tinha o tempo de fugir. vi ao longe uma coisa semelhante a uma grande ferida na floresta que revestia o flanco esquerdo do vale. . coincidiam bastante perfeitamente. qualquer que fosse a sua origem. saber o que se passava ai. esta força de natureza desconhecida estava quase a drenar-nos para a fenda. Agarrei os comandos. . Pareceu-me que perdêramos ainda mais altitude e que a velocidade recrudescera. eram bastantes para me sossegar. Agi furtivamente. no qual imaginara que se inscrevia o naufrágio de «Kapa de Séméis». se via com justeza. Tranquilize-se. em dois ou três minutos atingiria o sitio onde «Kapa de Séméis» abalroou.Porque não afrouxar e pousar? . bruscamente.Mas é suficiente para nos impedir que pousemos. Resolvi deixar o aparelho. Só os destroços do grande cruzador faltavam. . Olhei o quadro de bordo. Dirigimo-nos para uma larga abertura. mas o que eu via através do visar e a imagem de que me recordava.Porque é que o sistema de alerta não funcionam se há perigo? . ao empunhar o visor a fim de examinar a fenda para a qual nos precipitávamos. ir até ao fundo dos seus circuitos. pondo toda a minha força na alavanca de direção. . À velocidade que voávamos. precisava que o vigilante não suspeitasse de que ia abandonar o aparelho. como se quisesse escapar ao olhar de um ser vivo.. admiti tratar-se de uma nova aberração dos meus sentidos. cuja função. clara. a torrente íngreme de cascalho branco. que não corremos perigo imediato. Decididamente. durante alguns segundos.. Inquiri: .As circunstâncias não o permitem.Não podemos. Esta maneira de me apaziguar não era de modo nenhum a própria do vigilante. mas queria todas as probabilidades a meu favor.Ignoramos a sua natureza. Orientei o visor no sentido da marcha. em primeiro lugar. tão precisamente. os burlava? Se tinha razão.Porquê? . como uma torrente que arrasta uma palha. O vigilante emudeceu. Naturalmente. mas até reconheci este esporão de rocha negra. mas eu estava agora demasiado inquieto.Não corre nenhum perigo imediato. eu não gostava deste género de resposta. Tudo parecia em ordem. o que era ridículo. vi os rochedos cinzentos. então.Este perigo não tem gravidade. . E. as respostas tranquilizadoras do vigilante. As árvores tinham sido esmagadas numa área considerável. Manejei pressurosamente a minha combinação de voo autónomo. Ele respondia cada vez mais dificilmente. Se o que eu concebia era verdadeiro.. nem este silêncio. era a de me esclarecer sobre o que se passava.. Se não errava os meus cálculos.Quais são as características dos grupos de ondas a que estamos submetidos? Decorreu cerca de um minuto. sobretudo. neste instante. Enchi-me. que furava as árvores e contra o qual embatera o casco de «Kapa de Séméis». Estava bloqueada.. mas era demasiado tarde. Era o quadro exato.. que passemos ao voo espacial ou ainda que abrandemos ou aumentemos a altitude.. nem. de verdadeiro medo. E se a espacionave estivesse neste momento à mercê de uma força que alterava os seus circuitos. entre dois ombros rochosos. como se lutasse contra um obstáculo. O sistema de alarme porfiava silencioso. De repente.

em ligar o desaparecimento de «Kapa de Séméis» e a destruição da minha astronave ao poder de Sirkoma. desviando-os tão subtilmente que tive vontade de falar de traição. Aguardei a aparição de um ser humano ou de qualquer forma viva. Regulei as radiações impulsionadoras do meu aparelho. até ir contra a lei primordial da robótica. mas o pânico apoderara-se do meu corpo e puxei brutalmente a alavanca de ejeção. Lembro-me desta ideia que me aflorou o espírito. desfeita. sem um reflexo de proteção. contra qualquer obstáculo. Vi-a afundar-se entre os dois maciços de rochas. aberta no flanco esquerdo do vale. Porem. rugas lentas percorriam as águas e espessas e brilhantes do lago. a planície estava calma. Refletia nisto e no que devia fazer. refleti nos prodigiosos meios necessários para retirar do vale um navio como «Kapa de Séméis». Um reflexo de prudência conteve-me e deixei-me correr para o vale. Enquanto avançava para o sítio onde julgara ver os vestígios da queda do «Kapa de Séméis». Pensei. em seguida.No derradeiro segundo. monologuei: «E se me enganasse redondamente? Se tudo isto não passasse de alucinação e equívoco?». cuja cor e Consistência me pareceram as do estanho em fusão. Desejei ver mais de perto a espacionave. atrás de uma saliência da rocha. a astronave. nos sábios do planeta e nas exposições. Comecei a descer docemente. O objeto. seduzir. quando ouvi um choque surdo e fiquei logo certo de que a minha nave se esmagara no solo. fazendo-a mentir e voltar-se contra mim. apto a resolver os problemas mais depressa e melhor do que um homem normal. perscrutava à minha volta. então. Estava quase a ceder.. Transcorreram vários minutos. Dissimulei-me entre as árvores. Vi. Icei-me até ao cume rochoso. contudo. Vigiava e cuidava demasiadamente da minha segurança». A espacionave prosseguia no seu caminho. Só um grande navio do espaço poderia esconder as árvores numa tal extensão. Algo de fracamente luminoso se deslocava por cima da montanha. Qual o poder que tinha conseguido embair. então. Ergui-me. de pé. Esperei. Penetrei na longa clareira. para a sua própria perda? E óbvio que pensei nos Homens-Força. mas debalde. mas não achava nenhum sinal que me permitisse afirmar que o «Kapa de Séméis» tinha naufragado aqui. Andei aos tombos uma centena de metros. nunca a espacionave aceitaria uma partida assim. A cada passo. em forma de esfera achatada . na minha nave e na estranha força que se apossara dos seus circuitos. que me fizeram da sua ciência. rasgar assim o solo e esboroar as rochas. Ganhei altura e dirigi-me obliquamente para um dos ombros rochosos. Em contrapartida. pôde deixar-se lograr e caminhar. ficando suspenso e imóvel durante alguns segundos. esperava descortinar algum indício comprovativo de que os seres humanos não viviam longe daqui. continuei a hesitar . ao olhar a célula pacífica e confortável da espacionave. a minha nave espacial. Ia a tocar o solo. ligeiramente acima do rochedo. quando um ligeiro silvo chamou a minha atenção e me fez levantar a cabeça. até apagar tudo o que os engenheiros haviam registado nos seus circuitos. direito ao fundo do vale. antes de me estabilizar. por vezes contraditórias. mesmo. pesquisando o solo à luz da minha lâmpada fotónica. na margem nua e perfeitamente lisa de uma espécie de lago. inutilmente. Sentado ao pé de uma árvore. Em breve se tornou um ponto na fenda clara e desapareceu. Eu ia e vinha.talvez porque não havia ras to de intervenção humana neste assunto . de forma a deslizar rente aos acidentes do terreno. que quer que a proteção do piloto seja assegurada até o último momento? Como um mecanismo tão complexo como rico de defesas. enquanto mergulhava em queda livre: «Em tempo normal. O alçapão abriu-se eu baloucei no vácuo.

A espacionave. que não era uma força cega a que atraíra a minha astronave para o vale e ia jurar que um dos curiosos sábios de Sirkoma comandava o aparelho que acabava de sobrevoar a várzea. não podia senão acusar-me e censurar a minha negligência. e eriçado de dois longos tubos metálicos. no do sonho. descia em direção ao vale. que era a de os Homens-Força. Deitado. Quanto às armas adversárias. Era bastante larga e profunda. arriscava-me a deixar a pele nesta aventura. o Coordenador usou do método mais simples: enquanto conversávamos no seu gabinete. na sua traição . um posto emissor cuja potência não alcançava além do planeta e víveres em quantidade suficiente para várias semanas. donde avistava o plaino confinante. Se a minha espacionave me traíra. O que lançaria o pânico em todos os Institutos Científicos dos Planetas do Primeiro e do Segundo Círculos. contra a população de Sirkoma. na minha espacionave. para me abrigar. que eu receara. finalmente a anfractuosidade que procurava. Antes de adormecer. agora. de que o «Kapa de Séméis» não se destroçara acidentalmente. que acreditava tanto na perfeição e nas qualidades de proteção. O dia não tardaria a nascer. não muito rápido. não se entregarem aos excessos. encontrando. virou. Estiracei-me no chão e saquei do cinto um implosor. Pensei. mas que podia. certos agora da vitória. de resto. a imagem do naufrágio de «Kapa de Séméis» formou-se-me de novo no espírito. o cume da montanha e assentei pé numa saliência da rocha. Saltei de rochedo em rochedo. ao quadrante do meu bracelete de deteção. Suspendi o bloco radiante do meu aparelho e deixei o solo. se se passara completamente para o inimigo? Se me desenvencilhasse do sarilho. Convenci-me. na total lealdade das nossas espacionaves. Regulei o meu detetor para que me acordasse à aproximação de uma presença viva ou de um engenho mecânico. ganhou altura e ultrapassou uma das cadeias de montanhas em direção ao norte. teria um bela história para contar a Grunbarth. assim. o que se passara e reputei-me mais culpado ainda do que tinha julgado. Afastou-se. de tempos a tempos. Se Grunbarth retardasse o envio dos cruzadores. enfim. também era verdade que a conduzira à cadeia de Ber-Emsir e à entrada do vale. de que distinguia agora as grandes vigias luminosas como enormes pupilas. Cuidava de não me afastar do píncaro das árvores que cobriam a encosta. Era lamentável. Vasculhei a algibeira ventral do meu combinado e encontrei uma pasta de nutrição comprimida. elevando-me lentamente e deitando uma olhadela. Examinei o céu.nos dois polos. Adivinhei. olhos fechados. e que desviou . o lago branco e os restos da minha espacionave. tendo por único armamento um implosor de curto raio de açâo. subestimar a ciência sirkomiana. recapitulei a situação. seguia o eixo do vale. nas suas mentiras. Qual a razão deste voo? Teriam notado que eu não jazia entre os escombros da astronave? Neste caso. mas. Para me levar a fazer esta escolha. Tinha uma consolação. Talvez o voo obedecesse a uma outra intenção. teria de rever as suas concepções e de reconsiderar a robótica. depois deitei-me no chão e fechei os olhos. Teria de manobrar prudentemente. não obstante. bebi um copo de extrato de Sotlair e examinei a situação. possuía o essencial: um aparelho de voo individual. de momento. que me tocava pouco.porque não empregar a palavra. tanto da curiosidade dos sirkomianos como dos raios de sol. que eu ignorava em absoluto. Ele. se bem que mais valia. os meios de investigação dos sirkomianos eram deficientes. a fim de evitar as espacionaves sirkomianas. de súbito. Repugnava-me. Mastiguei-a. não me preocupar com este aspecto da conjuntura. certo já do que eu lhe diria. depois. enfim. Estava isolado no bordo extremo da Oitava Galáxia. não via o que poderia opor-lhes. conduzir-me a Eimos de Salers numa vintena de horas. Atingi. agora.

com prudência. Daí. Foi por esta via que registou a imagem do meu espírito. a maior. Progredi a fraca altitude. Rastejei às arrecuas. comparei-as com metal em fusão. os móveis de madeira estavam deslocados e alguns. enfim de uma zona aventurosa. A noite descia quando cheguei por cima da planície. refra tava uma luz rosada. desagregavam-se numa poeira escura. havia necessariamente humanos e máquinas poderosas num raio restrito. se tinham recebido a minha mensagem. mesmo. De noite. Acelerei progressivamente a velocidade. uma das quais. em pleno dia. Determinei passar a noite numa destas casas e deixei-me cair . Se bem que não distasse mais de três ou quatro quilómetros. onde se desenrolavam os exercícios de ascese dos Homens-Força. atento. mas tratavase. bastava que eu olhasse distraidamente o écran da televisão. Entrei numa das habitações que rodeavam a praça. se se lhes tocava. que os cruzadores não deixariam de sobrevoar. De qualquer modo. de uma outra matéria. tinham fugido e eu concluí que reinava no sítio um perigo permanente. verossimilmente. As ondas portadoras do bloco radiante receberam-me. Levantei do chão um ou dois objetos cobertos por uma espessa camada de ferrugem pulverulenta e esforcei-me por adivinhar o seu antigo uso. clareavam um terreno pedregoso semeado de tufos de árvores raquíticas. não decidira ainda qual a conduta adequada. Tudo calmo. eu deixei-me prender. Algumas aglomerações que a guerra poupara pareciam intactas. Transpus. uma pasta de alimento comprimido. O lago cintilava ao sol. Ora. não me disse nada. sem prazer. Algumas passadas conduziram-me a uma ponta de basalto. porventura este lago estranho. ao menor alarme. quebrantaram-me o corpo. tratava-se de uma falsa recordação. Os instrumentos de deteção do meu combinado de voo não haviam registado a aproximação de qualquer ser vivo nem de nenhuma máquina. As suas águas brancas e pesadas estavam imóveis. à minha volta. As raças de animais. O tempo abrira fissuras e levantara os pavimentos. O vê-la. Decidi não me deter e prosseguir o meu voo até o cansaço. o primeiro elo de cristas e tomei o rumo de Eimos de Salers. Cheguei. Concluí que qualquer coisa. para que os instrumentos de deteção revelassem pela primeira vez uma presença animal e sentisse o alívio de ter saído. formava écran e interceptava as radiações. Precisei de atingir os primeiros contrafortes. Antes de me lançar no vazio. ao pino de uma das espaldas rochosas. meio crédito à minha intuição. os instrumentos de deteção não assinalavam a presença de um ser vivo nem a de um gerador.pouco depois da meia-noite . De quando em quando. de um azul resplandecente. com as suas casas e o traçado das suas ruas. Açodei ao princípio da tarde. continuei a observar as grimpas e o céu. Examinei as águas com o binóculo e cogitei sobre que substância as constituía.quanto possível. Saí do esconderijo da rocha. Não fazia a menor ideia e deduzi que esta civilização . Mais valia. gravou no meu espírito a imagem do «Kapa de Séméis» abalroado no flanco da montanha. A montanha estava deserta. meia curiosidade aguçada. Para o efeito. Investiguei a planície de cima para baixo. As três luas de Sirkoma. Bocejei.numa praça que um montão de sarças e de vegetais emaranhados obstruía. pois. deixei-me cair no vácuo. Mastigando. afastar-me de uma região que podia ser perigosa. mas os meus aparelhos de proteção não me alertaram. mesmo as mais ínfimas. Pois que há de mais banal e de mais inofensivo do que uma visão fugitiva dos destroços de um cruzador da Confederação? O processo era subtil e. Só podia esperar a minha salvação dos cruzadores da Confederação. vistas de longe. por fim. Umas poucas horas de sono numa posição desconfortável. tanto para mim como para eles e tentar aproximar-me de Eimos de Salers. aparecia o que restava de uma cidade ou de uma aldeia. a deslizar por entre o arvoredo da encosta.

a sete ou oito mil quilómetros de Eimos de Salers. semelhantes à que vira por cima da montanha. que eu tinha sobrevivido. enfim. Nomeando todas estas armadilhas. Ia estender-me no chão. Mas tratava-se de animal selvagem que rondava as ruínas em busca de uma presa. E se nenhum dos navios captara o meu apelo? Acontecia. descobriu-se recentemente que em algumas das suas regiões o tempo galáctico não tem curso. tentaria entrar em contacto com os proscritos que descobrira nas colinas do hemisfério norte. Fui à porta e perscrutei o céu. A julgar pela sua direção. Não é homogéneo. Durante a noite fui acordado várias vezes pelo calor de alarme dos detetores. por Sirkoma. devia ser profundamente diversa da nossa. Voltei à sala. À claridade da lâmpada de fotões. Tomei a deitar-me. circulam-no correntes de natureza misteriosa. as astronaves vinham de Eimos de Salers. Ora. Ilhotas neutras absorvem as gamas das ondas. não haviam empreendido nada de coerente para me encontrar. por vezes. voavam em frente. sentiam-se tão seguros do seu poder que desdenhavam procurar-me? Confesso que me inclinei para a segunda hipótese. meses talvez. os meios de investigação ou. a grande altitude. Pensei no Coordenador e nos Homens-Força. Se fossem tão hábeis como os imaginava. Escasseavam-lhes. Sabiam agora que a minha astronave fora destruída. Seis pequenas astronaves. arranjei um lugar livre na sala que tinha escolhido. igualmente. para que um utensílio doméstico fosse a tal ponto privado de significação aos meus olhos. Levantei-me com dia. O subespaço é um universo ainda mal conhecido. quando um dos aparelhos de deteção se pôs a sussurrar. ao invés. confundido. sabiam. com velhice milenária. que guarneci previamente de folhagens.sirkomiana. Dirigiram-se para o sul. . Adormeci com esta ideia mediocremente reconfortante. a este respeito. Se a Confederação me abandonasse. Tive de abater um quadrúpede de olhos fosforescentes que saltou sobre mim e cujas garras de vinte centímetros riscaram o tecido metálico do meu conjunto de voo. tempestades que se supõem de origem magnética sacodem-no a distâncias inconcebíveis. com renovada preocupação. vi-me condenado a vadiar durante semanas.

Ia fugir. desconfiado das induções apressadas teria podido prever que. devia ter assinalado aos navios-postos os ilogismos e as contradições que me feriram e.Capítulo 08 Fatigado e sem muitas esperanças. Algumas groselhas eufóricas de Birma far-me-iam bem. depois. Estava nestes lamentou inúteis mas que me ocupavam o espírito. enquanto dois novos cruzadores se patenteavam na céu. coberto de faíscas de luz. Através do casco transparente. Piquei direito ao solo e pus o pé na terra. um Essuérus trípode com a pele verde. Batido pelo sol. Era um cruzador da Confederação. lembrava um enorme martelo refulgente. em nove séculos. índices de uma ciência elevada. o ar tremia. quando a segunda espacionave surgiu. «Enviamos um aparelho para o recolher». a uma distância de vinte metros. Surgiu. depois um quarto. Em breve eram doze. Examinei-a com o óculo e soltei um suspiro de alivio. quando o detetor crepitou no meu pulso. distingui o perfil do piloto. Está em perigo? . O mais importante fora o de concentrar a atenção nos Rhunqs e. pouco a pouco. não iriam ficar inativos a despeito do regime arcaico por eles escolhido. retomei o caminho remoendo pensamentos sombrios. As três mãos em forma de estrela do Essuérus palpitavam debilmente sobre os comandos. Iluminou-se o receptor. aos quais não prestara suficiente importância. com a proa abrupta como a falésia. perdendo a altitude. Se tivesse. Um terceiro aparelho se materializou. dispostos em semicírculo. e de súbito o navio estava ali. em volta do qual os cruzadores. Onde não havia senão o céu azul uma fração de segundo mais cedo. o Nivelador. No Departamento de Normalizações saberiam inferir as justas consequências. depois desceu lentamente e pousou. Aproximamo-nos do Nivelador. da ilharga do Nivelador. A espacionave de reconhecimento cresceu. imóveis no céu. Desde a minha chegada ao planeta. Qualquer coisa se destacou. em particular. os sirkomianos havidos antigamente por um dos povos mais engenhosos das Oito Galáxias. porém. Quase logo vi a espacionave. para me dissimular num bosquete. ter subestimado o nível de evolução de Sirkoma. partindo destes títeres sumários. Dizia contigo que no decurso do meu inquérito em Sirkoma só tinha acumulado erros. minúscula. vindo do subespaço. Novos cruzadores se materializaram. Fez-me sinal para subir e abriu a porta lateral.Não. Lancei uma mensagem de apelo e esperei. imediatamente. Quando por baixo do ventre da largura de meio quilómetro e de que relevavam as protuberâncias das armas e dos aparelhos de son- . gigantesco e de dimensões tão majestosas que os cruzadores não passavam de simples barcos ao lado de um grande navio de guerra. A espacionave tornou a partir. As três fendas verticais que lhe serviam de boca distenderam-se para me dar as boas-vindas e sorri-lhe como retribuição. Imobilizou-se a uma dezena de metros por cima de mim. estes solenóides de Sorx. Respirei seu odor ácido. como sobreaquecido. pareciam estar de guarda. «Mensagem recebida.

continuava a vigiar o écran que as nuvens de bruma avermelhada percorriam. que patrulha neste momento Erm-Sémir. O seu chefe. O comandante vai recebê-lo»... estamos aqui por ordem de Grunbarth. Instalado ao centro de um tanque cheio de uma substância semilíquida amarela. do meu estado nervoso e circulatório.dagem. os cruzadores afastaram-se um a um.. da veracidade dos meus propósitos e da minha convicção. De facto. onde borbulhava uma bruma avermelhada. Um cone de tradução desceu do teto. aprofundava. Estes discos córneos substituíam no Hadiano o sentido da vista e do tato. com reserva de oxigénio. de superfície variável. observou-me com o auxilio de uma chusma de pequenos discos córneos que surgiam entre as fibrilhas. Abriu urna porta e entregou-me nas mãos de um segundo Essuérus. as referências de que necessitava.Você é o Navegador da espacionave «Reisa de Sol»? Eu sou o comandante do Nivelador «Mandrague de Centaurus». Grunbarth. No céu. Eu citava a perda da minha nave espacial e a singular sedução de que ela fora vítima nas montanhas de Erm-Sémir. O Hadiano repetiu: . O Essuérus ajudou-me a enfiar o combinado. Ao passo que me escutava. de que se nutria.O cruzador «Silla de Déis». Era um Hadiano. automaticamente. . Uma voz retiniu: . É neste gás que vivem os Essuérus e os Enthiures tricéfalos de Getta. neste momento. A espacionave penetrou num imenso paiol e assentou sobre dois rails móveis. confirma a existência de uma força de atracão nesta região. Ao fim do corredor. O Hadiano observou: . em virtude dos progressos dos Seres-Duplos em direção à Oitava Galáxia. O comandante estava diante de um grande écran negro. Fiz ao Hadiano um resumo do meu inquérito. julgar a partir das minhas emoções. que continuava a olhar o écran. pediu-me para receber o seu relatório. ao examinar-me pareceu-me mais gigantesco do que todos que vira até então. Eu sabia que neste momento os seus outros cérebros – cinco ao todo . que lhe permitiam. tudo se inscrevendo no écran elástico que se dilatava.. Este. explorar o meu corpo em profundidade. Vi-os virar como grandes peixes cintilantes sob o sol de Sirkoma e partir de um jato. Quase com três metros de altura. O Essuérus enfileirou a espacionave numa série de aparelhos semelhantes. Colhia também. Segui por uma longa passagem. abriu-se uma das comportas. e suspendeu-se à altura do meu rosto.se ocupavam da marcha do navio e recebiam os resultados das análises feitas por centenas de aparelhos. Tenho por missão instalar um posto-avançado de defesa em Sirkoma. por exemplo. nos cérebros eletrónicos dos andares inferiores. antes de executar a missão que me confiou relativa a Sirkoma. assim como outros sentidos ignorados do homem. depois fez um gesto com um dos três braços com articulações tão numerosas que parecia de borracha. que a conduziram por um túnel iluminado por partículas luminescentes em suspensão.Nenhum navio-posto nos transmitiu a sua mensagem. Escapou à justa e por isso temos de lhe enviar uma parte da nossa energia. o seu corpo em forma de pirâmide truncada estava coberto de uma multidão de fibrilhas ramificadas em perpétuo movimento. em sentidos diferentes. Uma voz ordenou no receptor: «Vista um combinado do tipo 3. Todos os Niveladores da Confederação são confiados às pessoas da sua raça. convidando-me a segui-lo.. onde as lâmpadas reparadoras iluminavam o gás azul de Estrha.. um ascensor elevou-nos a uma cinquentena do metros e eu penetrei no posto de pilotagam. retraía e representava ao mesmo tempo um papel de emissor e receptor. que tinha gravada na pele da espádua a insígnia negra do pessoal de combate.

depois de neutralizados os antigos. Através da via aberta pelos primeiros grupos de vibração. a base da rocha e de terra. Por isso se explica a sua potência quase ilimitada. de uma verdadeira sedução da matéria e da própria máquina. aos quais os cérebros múltiplos. Depressa chegou ao vale e eu vi o cruzador «Silla de Déis» que deslizava lentamente. injetar esta energia nas grandes espacionaves da Confederação.. O Nivelador sobrevoava agora as primeiras cadeias de Erm-Sémir. Eu sabia que neste momento as suas ordens eram recebidas por uma das bandas móveis que fluíam por baixo do écran. As ondas do visor ultrapassaram a superfície do lago. homens vestidos com o trajo rodopiante dos sábios de Sirkoma.apenas de alguns metros. continuavam em turbilhão. que eram as respostas das máquinas e as informações endereçadas aos serviços de bordo.Foi ela que modificou os circuitos da minha espacionave até lhe fazer dar indicações falsas. ao qual expusemos o assunto. A minha nave desaparecera. exploraram a sua massa. que logo se desvaneciam. Ramificou-se em árvore e deslumbrante. alguns dos nossos aparelhos sofrem a mesma modificação. À roda delas. Sabe que não possuímos nenhuma arma eficaz contra os Seres-Duplos. iam e vinham numa agitação.. Tratase.. a rasar as cristas. permitiam fazer face aos perigos mais Imprevistos.Neste momento.Os Niveladores estavam equipados para um contacto permanente com as grandes fontes de energia das Oito Galáxias. No écran terreno. com efeito. alinhadas em grandes salas de paredes de metal. muito mais rápidos e complexos que os dos humanos. as mensagens rasgam caminho até aos circuitos e registam novos princípios. . as nuvens avermelhadas. Vi o lago espelhado.Por que é constituído este lago? . de destruir esta fonte de energia. serviam esta fábrica flutuante e velavam pelo seu bom funcionamento sob o controle de uma dezena de Hadianos. Podiam. .Por partículas em movimento de um metaloide ou de uma substância mais complexa que não corresponde a nada do que nós conhecemos. as fibras. Sobre este. Tinha sido concebido para os Terrenos.. porque não conhecemos nada de equivalente nas Oito Galáxias. enfim. São as máquinas dos andares inferiores que saturam estas partículas de radiações e lhes dão o poder de atrair os agregados metálicos.. então.. No écran. Máquinas apareceram. O Hadiano disse: . que mergulhou no lago e se plantou na sua substância móvel. espessa .. Perguntei: . primeiro. Enquanto o Hadiano falava. O visor prosseguiu a exploração: outras salas apareceram e novas máquinas depois. Havia uma enorme fábrica..pareceu-me .. ... também.Acabo de receber o acordo do Departamento de Normalização.. Vamos pôr a fábrica e os seus anexos num campo de inércia. Espero que o Departamento de Normalização. É lamentável destruirmos esta fábrica. e talvez.. É-nos preciso uma energia considerável para resistir a esta atracão... nos conceda que a poupemos. Após uns segundos. . Quatro mil homens de equipagem. pertencentes a uma vintena de raças das Galáxias.Creio que precisamos. a sua superfície formigante donde se destacavam por vezes cintilações. O segundo écran iluminou-se à direita do primeiro. cujos fundamentos se encravam várias centenas de metros abaixo do nível do lago. e afundaram-se no solo. na parte superior do seu corpo. um clarão jorrou da vante do Nivelador. os sábios sirkomianos que se afadigavam em torno das máquinas imo- . solevantam-se e ondulavam. as nuvens avermelhadas turbilhonavam..Repare.

. Talvez não soubesse que os subterrâneos se ligavam à fortaleza. nada disto é perigoso. Meio tranquilizado. O Hadiano comentou: . por laboratórios e uma central de energia enterrada a milhares de metros de profundidade.Resolveu alguma coisa acerca da população de Sirkoma? .Estudaram o equipamento da fortaleza? -Sim. O Departamento das Normalizações continua a ser o único juiz. Notei dois cruzadores que enquadraram o Nivelador e navegavam a seu lado. deixei o Hadiano para acompanhar um Essuérus. anunciou-me que o meu organismo não sofrera nenhum prejuízo grave durante a minha estadia em Sirkoma. porém.Tudo parece normal. . agora.E se os Homens-Força tentam uma ação de qualquer espécie? . Temos de mantê-los num estado de vida suspensa. Despi o meu combinado de voo com alívio. Os sucessivos andares da fábrica subterrânea apareceram. O Hadiano previu a minha. É o sítio mais favorável. disse: .. que se pôs a ronronar.. Passei em seguida à célula de exame. Vi-os descontrolados em volta das máquinas mortas. na cadeia dos Enéis. Não temos mesmo razões para neutralizar a central. É provável que Grunbarth envie os especialistas habituais.Se quiser descansar um bocado e ir para um apartamento terreno. . bem como uma rede de subterrâneos que descobrimos a alguns quilómetros das muralhas.. Eimos de Salers. a não ser que parece ter-se interdito à população o deixar as casas. alguns dos seus adjuntos de elevada posição e a maioria dos Homens-Força..Não podemos deixá-los agir à sua vontade.Um dos nossos cruzadores patrulha.. O Hadiano. não sabia.Vamos instalar um posto-avançado ao norte de Eimos de Salers.. .. que é de um tipo bastante arcaico e funciona a partir de uma cadeia atómica de desintegração lenta.Não recebi nenhumas instruções a esse respeito. a submeter-me a uma narco-análise. O Coordenador e os seus Homens-Força tiveram uma reunião.Que vai fazer? . que me conduziu para um apartamento terreno.Que espécie de ação? Em boa verdade. ganhou altitude e dirigiu-se para o norte. Tomei um banho e deitei-me na mesa de regeneração. Transmiti o relatório que você me fez. .. A sala estava Isolada num quadro de Brachys e não podemos conhecer os fins deste conciliábulo.. O analisador.moviam-se de novo. neste momento. sobretudo. assim como as informações complementares que recolhemos no planeta. Pouco a pouco. Todas as máquinas da fábrica estavam. que era um tipo muito mais aperfeiçoado do que o da minha espacionave. paradas. Vacilei. O Nivelador virou.. Não observou nada de particular. O Hadiano propôs-me: .A força de atracão não se exerce mais. os sirkomianos que a onda de choque paralisara algum tempo – o campo de inércia não atingia os seres vivos .. Encontrámos aí os famosos Rhunqs de que me falou.. mas aprendera à minha custa como podia ser temerário subestimar a vitalidade e a engenhosidade dos sirkomianos. que os observava no écran negro. . Tudo o que sabemos é que houve desacordo entre o Coordenador. É constituído..bilizaram-se. objeção. É esta central que alimenta a cidade. Ao que julgo. .. No écran os sábios sirkomianos pareciam petrificados. Aconselhou.

Os planetas das Oito Galáxias acabam de receber instruções para pôr em ação o dispositivo dos conflitos de primeira categoria. destruídas por estas bac- . negligenciei sujeitar-me a ele. ir para a célula de pilotagem. eu queria conservar toda a minha lucidez. Depois.Como se desenrola a luta contra os Seres-Duplos? . ao fundo do apartamento.É aqui que vamos instalar a nossa base. O Hadiano esclareceu: . seres microscópicos inteligentes na Sexta Galáxia. Não ignorava as causas do meu excesso de tono mental. os cruzadores iam e vinham. Navegador terreno? .Venha. A erva de Hodello. Em contrapartida. não era de esperar refeições saborosas. tinha-se desencadeado dois séculos antes e durara treze anos. Estava multo longe da cozinha sirkomiana. adaptava-me muito bem. Tratava-se de uma bobina para circuito turístico. levantadas sobre as patas posteriores.. e encorajava o combate das duas grandes feras de Rodos que se defrontavam. . Ora. eu não queria distrair-me e somente desejava saber o que se passava. No entanto. simplesmente. Isso significava que se mobilizariam todas as forças da Confederação. com o comprimento de uma dezena de centímetros. Pedi uma refeição terrena.Aconteceu alguma coisa. Queria. . Como sabia que o diagnóstico do psico-analisador me receitaria sedativos e sessões de regeneração. visto não tê-lo usado desde a minha chegada a Sirkoma. em grandes doses. tinham posto na bandeja duas rações de erva de Hodello. escolhi um concerto para flauta e thyale de Lassinia. entorpecia o espírito e provoca uma satisfação estática. mas não senti nenhum prazer e acabei por desligar o aparelho.. travada contra os Kavorianos. que envolvia de círculos preguiçosos um enorme pico gelado. Na verdade.. substituiu-se por uma arena soalheira. Sobrevoamos a cadeia dos Enéis. Faria um relatório. Trouxeram-me um naco de carne em sangue de Sovol kersiano. que não protestou. fremiam levemente. O Hadiano estava imóvel. mas. que me deu um prazer mais intenso que de costume.O comandante pode receber-me? A voz do Hadiano não demorou: . Peguei no interfone e perguntei: . que abria sobre uma paisagem terrena artificial. Grunbarth conseguiu arrancar esta decisão do Conselho Supremo. a fim de seguir as operações. antes da submissão dos Kavorianos. algumas dezenas de planetas e uma trintena de biliões de vidas humanas e extra-humanas. Seria a Nona Guerra Galáctica... A precedente. no seu tanque nutritivo. não abri a caixa que continha a segunda ração.Não. frutas insípidas de Lanos e um enorme bolo ionizado com especiarias de Sandroz e leite de vaca terrena.. Disse-o ao analisador. Por instantes contemplei o fragmento de campina verdejante que se oferecia à minha vista. Rodei o botão. seguidos de quedas bruscas. Um deles. numa explosão de cores violentas.. É certo que a bordo dos Niveladores. Liguei o difusor de música. Para matar o tempo fui até à grande janela oval. subiu de repente. as garras estendidas.Estamos oficialmente em guerra com eles há seis horas. se tivesse instruções severas ou talvez se contentasse com esperar a minha próxima consulta. neste momento. No céu..porque alguns dos meus reflexos lhe pareciam demasiado nervosos e o meu tono mental acusava pontos de tensão extrema. de momento. a bruma avermelhada turbilhonava com lentidão. Mas não possuímos ainda nenhuma arma eficaz para entravar o seu avanço. em Sirkoma. que cobriam a quase totalidade do seu corpo.. Queimei a primeira numa taça e respirei o perfume. onde os humanos rareavam. nascidas da inquietude. As fibrilhas. No écran negro.. onde uma multidão gritava o seu entusiasmo. Perdemos.

e retiraram-se lentamente. agora. Elevaram-se novos turbilhões de nuvens de vapor. Apelei imediatamente para o Departamento das Normalizações. agora. filiformes girariam no cimo dos seus torreões. as toneladas de material. e. conforme o que eu sabia. O facho luminoso entrou em contacto com o pico e elevou-se uma nuvem de vapor.. Se os nossos cruzadores desembarcam no planeta. buscadores da presa rodariam lentamente sobre os seus socos e os geradores cósmicos seriam enterrados no solo. enormes canhões de carga proliferante e os de projéteis. na expectativa. desabrochou. . mas havia nesta progressão lenta.térias que invadiam as células vivas e cujos esporos mortíferos atravessavam o vácuo dos espaços interestelares. cheias de gases diferentes para a sobrevivência das cinquenta ou sessenta raças dos extra-humanos e humanos que povoavam os cruzadores. viraram do violeta ao branco. como o tentáculo rí gido de um macrosyage de Bóris. cuja temperatura ultrapassava vinte milhões de graus. Parecia de uma matéria sólida. O Nivelador perdia altitude e dirigia-se sem pressa para o enorme pico gelado. mas os seus prodigiosos meios fascinavam-me sempre. picaria em direção à montanha. de súbito. os veiculas. Um segundo feixe. Tinha sido arrasado quinhentos ou seiscentos metros e a sua base formava. devorando as nuvens. num clarão vermelho. Erguer-se-iam as antenas. seria uma verdadeira cidade com as suas construções metálicas de vinte andares. as nuvens avermelhadas turbilhonavam mais vivamente. os detetores. reentrando no ventre do Nivelador. Neste momento. o que restava do pico.. o que era sinal de emoção entre os da sua raça. No écran negro. os seus discos sensoriais contraíamse. Estávamos. dilatou-se. Mesmo arrasado. agora. como se um diálogo violento se travasse entre o Hadiano e outro alguém. Os fachos luminosos tornaram-se violeta e desvaneceram-se. com as armas triangulares de Persheva na proa. Eu sabia que não era mais do que um feixe de luz compacto. tive a consciência de que acontecia algo de anormal. saíram do ventre do Nivelador e atacaram os flancos da montanha. o que fora uma esplanada desnuda. deixando correr as máquinas. Já tinha visto os Niveladores em ação e conhecia o seu imenso poder. e como calculada a cada segundo. Aguardava o momento em que o primeiro cruzador. quando. os cruzadores dispostos em linha esperavam a ordem de pousar. os milhares de homens. ainda dominava as montanhas circunvizinhas. fundia-se. as cúpulas de todas as formas e de todas as dimensões. de um branco resplandecente. depois um terceiro. antes de desaparecer por seu turno. que fazia com que certas populações atrasadas das Oito Galáxias os adorassem como manifestações divinas. No céu. perdida a dezasseis mil metros de altitude. como o mercúrio no tubo de um termómetro. colocar-se-iam balizas de todas as formas e de todas as cores. cercados de nuvens tumultuosas que invadiam pouco a pouco o céu e inundavam de cinzento os grandes cruzadores. em algumas horas. então. com o comprimento de uma dezena de quilómetros e uma largura de quatro a cinco. Os flancos abrir-se-iam. mas Grunbarth está em conferência . Já tinha assistido noutros planetas ao seu desembarque. um facho espesso saía lentamente do ventre da espacionave. para regulamentação da circulação aérea. O facho avançava para o pico. um quadrilátero perfeitamente plano.O que se passa? Ondas rápidas percorriam as fibras do Hadiano. no seio da qual penetravam como numa substância flácida. . A rocha. Vi. Um relâmpago explodiu. Eimos de Salers será integralmente destruído. qualquer coisa de animal que enfeitiçava. Os fachos luminosos reapareceram.Acabamos de receber um ultimato do Coordenador.

Acabo de dar ordem aos cruzadores para se manterem em voo. por sua vez.... Desmistificando este. Estamos oficialmente em guerra contra os Seres-Duplos. estão em condições de nos estorvar na instalação das nossas bases? . O momento é muito mal escolhido para cuidarmos de mentalidades primitivas. a que me apoiar. o que equivale para nós a bilião e meio de humanos e de extra-humanos perdidos irremediàveImente. que acompanhara o meu diálogo com Grunbarth.Não poderíamos poupar a população de Sirkoma? .com os dirigentes das Oito Galáxias. O Nivelador virava. a cercada força que destruiu «Kapa de Séméis». pois ignoramos o nível científico exato desse povo. Que argumento podia eu contrapor às razões de Grunbarth. Quero saber. alegando insuficiência da margem de segurança. constituirá um dos nossos melhores pos- . Comentou: . suponha que querem desaparecer. me pareciam um povo digno de estima e que. O Hadiano prosseguiu: . uma vez livres dos chefes. apenas entrevistos por mim. maquinalmente durante a nossa conversa.. e ligeiramente excêntrica.. Acrescentou: . A propósito. Um dos Cruzadores da esquadra que mandei seguir para Sirkoma leva a bordo cinco membros do Conselho de Astrofísica dos Planetas do Primeiro Círculo.Os Seres-Duplos estão agora nas fronteiras da Oitava Galáxia.. Notei-o apressado. Tu conheces a situação.. Não penso que o destino de dois ou três milhões de sirkomianos. Quero que o posto-avançado esteja em condições de funcionar dentro de doze horas. cobriríamos os seus chefes de ridículo e eu tenho fortes razões para admitir que receiam mais este ridículo do que a sua própria destruição. navegador. . Nas últimas vinte e quatro horas. entrou imediatamente no imo da questão.. Podem eles causar um dano irreparável ao planeta. Para eles.. Os cruzadores dispersavam-se e afastavam-se vagarosamente. em que eu seria capaz de pedir a um grande feiticeiro de Ramayotl para nos livrar destes danados Seres-Duplos.. Por precaução. O Hadiano. .. que tu queres salvar.Ignoro-o. cinquenta e dois planetas foram invadidos e as suas populações transformadas em zumbis. que presidia ao destino de vinte e sete mil planetas povoados por centenas de biliões de seres? Dizer-lhe que estes sirkomianos.Que perigo corremos nós. tirou-me desta meditação melancólica. irritável. pouparemos provisoriamente os sábios sirkomianos da cadeia de Erm-Sémir.. disseram-me que também tu foste apanhado como uma mosca. Sirkoma. Grunbarth cortou a ligação. pese muito em face de um tal balanço.Para os ocupar. Pedia para falar comigo.Nesse caso. pedi ao comandante da esquadra um novo exame do planeta com a foto-sonda.. Sim. Chegamos a um ponto. proceda você mesmo à destruição de Eimos de Salers. À sua maneira habitual. Fiquei pensativo diante do disco de emissão. ocupariam o seu lugar da Confederação? Era irrisório. Eimos de Salers será destruído. dezasseis cruzadores e dois Niveladores converteram-se em navios-fantasmas... arrastando a população de Eimos de Salers na sua queda. .Não sejas idiota. Acabo de dar ordem para que dezoito cruzadores da 3ª Frota sigam para Sirkoma. simplesmente. exatamente. Em compen sação.. Coloquem-se à disposição deles. Pelo que sei do Coordenador e dos Homens-Força. talvez possamos tirar partido desta força contra os Seres-Duplos. quero eu dizer. Rumava para Eimos de Salers quando se anunciou a resposta de Grunbarth.... deixe-os destruir Eimos de Salers. trata-se muito menos de preservar a sua soberania do que de manter o prestígio através das crenças que impuseram ao povo.. consentindo que as autoridades sirkomianas destruam Eimos de Salers?. Navegador. pela sua posição avançada.... do qual me aproximara..

que conhecimento lhe poderiam dar os seus sentidos. explorando o interior das casas. O aparelho perdia gradualmente altitude. e perguntei-me que estranha visão.. a segunda descarga entranhar-se-ia no solo. outro voltado para o desenvolvimento interior.Que conta fazer. De pé. frente a uma das paredes de observação em que se inscrevia o mesmo espetáculo que poderia admirar de um zimbório panorâmico. depois tornava a subir. quase fazer-me seu amigo. só existente no meu espírito – e eu queria lutar para resistir à sua sedução.Que quer dizer? Não destrói Eimos? . esperava o clarão que iria jorrar do navio e sentia-me preso de um vago sentimento de culpa. que fremia no tanque. num magma confuso de grãos de areia vitrificados. Eimos é uma bela cidade. ou antes. Talvez. debaixo de nós.E Grunbarth? O Hadiano retardou a resposta. além. converteria o cubo destarte bombardeado numa matéria pulverulenta. mas de outra coisa. deixa-se-nos por vezes a . e este sentimento só raramente o experimentei nos planetas maravilhosamente desmistificados do Primeiro e do Segundo Círculos. devassando as profundezas do solo. Apreciava a massa enorme do Hadiano. a vários quilómetros de profundidade. deslocando-se a toda a brida. O Hadiano perguntou: . porque incompletamente satisfeito com a civilização e a Confederação. que as nuvens avermelhadas percorriam. A um milhar de metros.Nós.. numa bruma vermelha. Relanceei o écran onde a metamorfose se desenvolveria. onde borbotavam. Em troca de nove milénios de lealdade.tos de observação e de combate. Havia neste mundo uma doçura de viver . Nas ruas desertas. eu sabia o que iria passar-se: uma primeira descarga de rutura reduziria a cidade a grossas pedras do tamanho de nozes. quando o Conselho Supremo resolveu aniquilar o continente sul. esperava com esperança o confronto de dois tipos de "homem. afrouxava para melhor sondar os andares de pedra.. um livre até o extremo. temos nas mãos todos os Niveladores. desejei conhecer melhor os sirkomianos. Contemplando-a. As fibras agitaram-se na parte média do seu corpo. . O Nivelador sobrevoava morosamente a Cidade e eu intuía que neste momento preciso todos os seus aparelhos de deteção estavam de sobreaviso. Vogava. Como eu. Eram. só enxerguei alguns veiculas de compressão. Durante a minha missão.. . O Nivelador transpôs as muralhas do quadrilátero. onde eu via os telhados azuis e amarelos das vivendas. os Hadianos. Não retorqui.quiçá ilusória. a terceira. quer dizer. em suma. a própria força da Confederação. uma linha sinuosa desenhou um caminho como um filete de vento num campo de erva. se tivermos de o travar. analisando cada coisa.Se conseguirmos evitá-la. as mensagens das centenas de postos do Nivelador. o seu ventre passou rente à fortaleza. A cidade surgiu com as suas muralhas brancas e a cintura de jardins. sentia-me culpado. não se tratava de combate nem de eficácia. as sequelas deixadas no meu espírito pelas manobras do Coordenador. a sua sombra gigantesca manchava a charneca. Que perceberia ele. enfim. fosse do Pr Alhena. Em minha opinião. Olhei distraidamente o écran negro. a partir de falsas crenças. Por tê-lo visto uma vez em Esthra. descrevia um último círculo e imobilizava-se a uma centena de metros acima do edifício mais alto. porventura. contemplara a cidade no seu écran negro. fosse do criado que me atribuíram. diferentes dos meus. as ruas cor de greda e os tufos de árvores dos jardins? . Terreno? Voltei-me vivamente.

podemos usar de uma outra arma e espalhar sobre a cidade inteira uma camada de gás cataléptico invisível e quase imperceptível. .. Podem. O Hadiano interrompeu-se.Podemos destruir o quadrilátero onde se reúne a maior parte dos Homens-Força. não posso garanti-lo. um ramo humano que se desenvolveu por uma via que não a vossa.Mas os Homens-Força.. sempre em busca de uma nova população para oprimirem. escaparão. Os que respiram o Giragil não são mais que submissão e admiração. agir depressa. .. Por outro lado. quer dizer. mesmo.. com tempo para acionarem um dispositivo que destrua a cidade. solicitado. Possuímos. no entanto.. podemos experimentar.. .E sem que os Homens-Força tenham tempo de arruinar a Cidade? . a Confederação acumulava o máximo da sua força.Sim. e nós sabemos bastante da sua ciência para prevermos que podem aniquilar uma cidade como Eimos de Salers em alguns segundos. Mas bastará que os Homens-Força tenham consciência de que usamos uma destas armas. as ordens do Conselho Supremo. Utilizámos há algumas semanas terrestres esta substância contra os Reysian. mesmo que se encontrem a vários milhares de metros no subsolo. provoca uma euforia e um bem-estar que anulam toda a vontade combativa. precisamos de saber se temos a possibilidade de salvar os habitantes de Eimos..Sim. . . .Decerto. que transformou de brutos. de acordo com o melhor interesse comum... Uma delas. Podemos. legando as consequências a seus sucessores.. creio eu. sem que Eimos de Salers padeça com isso? . porque passamos a vida nos Niveladores e porque. . Há. para que ponham em prática o seu projeto. ficarão incapazes de se mover ou de ter simples pensamentos coerentes.. todo o ser vivo cairá num estado de inconsciência. ali. desta sorte. todos os velhos soldados. se podemos pôr fora de ação o Coordenador e os Homens-Força.De que meios dispõe? Eu só conhecia sumariamente o armamento e o equipamento de neutralização dos Niveladores. o seu chefe. pelos cuidados do navio..Acabarão por ser atingidos. o Giragil.Totalmente? Isto é. Ao contacto de uma molécula deste gás. . efetivamente. Ao invés de Grunbarth. e não se tem a certeza de ser um mau caminho. como os Ardelos. aprendemos o que acabam por aprender. isolados nas suas celas a mil metros de profundidade.Desgraçadamente.Sim. obtusos. prontos para todas as abnegações. mesmo que este esquecimento seja benéfico. Devemos. em dóceis escravos. cheio de autoridade e de experiência: por exemplo. Isto. podemos tentar a indulgência para com a população de Eimos de Salers. uma dezena de armas eficazes. Por isso... ainda.. de ameaças e de destruição em nome e para defesa da Confederação. ganhei-lhes uma certa estima.. O caso não é vulgar.liberdade de interpretarmos. mas.. uma raça de aves inteligentes da Ter- . ao longo dos nossos cinco séculos de existência de combates. Ouvi o que me disse dos sirkomianos e. criar um estado de hipersensibilidade do sistema nervoso humano... Ashuewa não se satisfaz com encolher os ombros quando se esquecem de executar as suas ordens. o essencial. que a destruição só é remédio paliativo. Sabia tão-só que a bordo destes gigantescos vasos do espaço. decerto. depois reatou: .. por influencia. porque soube que a bordo de um dos cruzadores mandados para Sirkoma vem o Primeiro Conselheiro Ashuewa. bom para as que vivem apenas umas dezenas de anos. de tal modo que os que forem apanhados pelas vibrações que emitirmos.

a situação era simples: apesar da prodigiosa potência da Confederação. na minha convicção.O campo de inércia só poderá suspender. e se avaliara bem o Coordenador e os seus companheiros. é um meio de proteger os sirkomianos citadinos. cujo pensamento. continuará sempre a ameaça de uma máquina regulada a longo prazo.Quando dois povos têm quase o mesmo desenvolvimento científico e este desenvolvimento é muito elevado.tinham sim ludibriados durante nove séculos e vivida à margem. a ratoeira funcionou e matou duzentos mil extra-humanos. deixar a instrumentos capazes de se adaptar ao novo meio criado pela aniquilação total. tomei a minha decisão.. Certamente.. Impotente para achar uma saída. O Hadiano. mas faria o melhor possível. Porque não se tratava senão de orgulho e de vergonha. conquanto imperfeito. Eu não estava seguro do êxito.Posso comunicar com o Coordenador? . neste instante... mas. parecia em estreito contacto com o meu. Um belo sol de verão terreno banhava a cidade.. através deles.. ao cabo de alguns séculos de repressão.. Era de presumir. não era um argumento de peso. à sua maneira. três milhões de homens seriam fulminados. a tarefa de os vingar. também. Para Eimos de Salers. porque este terreno era tão perigoso como o das armas. Precisávamos de combater os Homens-Força num outro terreno. de poderes psíquicos reforçados por truques.. Após um ano ardeliano de posse do planeta.. carecíamos de uma arma capaz de anular os Homens-Força. para obstar ao seu eventual suicídio.ceira Galáxia. Que pensaria Grunbarth do que eu queria tentar? . Neste momento.Não absolutamente. contemplando Eimos. Hadianos. ou retardar. de persuasão. Perguntei ao Hadiano: . como o fizemos para a instalação subterrânea de Erm-Sémir? . Sabe que. Todavia. Então.E se criássemos um campo de força neutro. durante a minha estada em Sirkoma. sentia-me furioso. De momento.. que decidimos destruir instantaneamente.. inevitavelmente. enraivecendo-me pensar que. Em resumo.. o mais forte pode supor que destrói o adversário. também se convenciam de que a Confederação só arrastaria Sirkoma para as guerras e as vicissitudes. com efeito. observou: . Os Homens-Força explicavam. . tive de pôr os sábios sirkomianos de Erm-Sémir em estado de vida suspensa. as armas não serviam de nada. Talvez encerrada numa matéria neutra. de ruas sempre desertas. a população aglomerada diante dos écrans de televisão submetia-se a um último doutrinamento. Era. pelo que escapará às nossas investigações. No ponto em que estávamos. Dirigi-me para o Hadiano. pode-se razoavelmente esperar que os Homens-Força não tenham um espírito malfeitor tão impulsivo e que não previram nenhum meio de destruição desta amplitude. Refleti. visto os Homens-Força julgarem que mais valia o aniquilamento de três milhões de sirkomianos do que só um dentre eles vir a saber que por meio de subterfúgios. talvez destes televisores jorrasse a morte. aprendemos. mas não que o subjuga.Quer experimentar a persuasão? . num clima de medo e de culpabilidade.. mas eu não queria correr o risco. Enquanto o Hadiano falava. Enquanto esperávamos a resposta à mensagem convocatória. o orgulho de uma casta. uma solução que resultasse. a presença do gigantesco Nivelador e dos cruzadores no céu do planeta. tanto nos pareciam malignas. metê-los-ia numa armadilha de que não poderiam fugir. do resto do universo. o que eu pensava. para que os mitos vencessem e se salvasse. considerei que não se tratava. no fim de contas. quando os Homens-Força renunciassem a toda a esperança. a secção de todos os dispo sitivos destruidores.. Foi o que nós.

Preveniu. A voz do Coordenador ecoou na sala de pilotagem.Dez minutos após a minha entrada na fortaleza.Torna a sua situação mais contingente.Pode conceder-me uma entrevista? . O Hadiano aceitou. .Chegarei a Sirkoma dentro de alguns minutos. . espero que coloque a cidade num campo de inércia. . . voltando a Sirkoma.Venha.Esperamos a partida das vossas espacionaves. serei obrigado a abandoná-lo e a executar as ordens de Grunbarth. talhando aqui para salvar acolá. Se. as autoridades o sequestram.Embora os seus propósitos frágeis. simplesmente: . eu sabia que detestava usar da força bru tal.Você arrisca-se. . Para mais facilidade. e os nossos aparelhos segui-lo-ão por toda a parte. mas não conte modificar as nossas intenções. basta que absorva um comprimido de scynthium. Quando Eimos de Salers estiver num campo de inércia.Sim. se o deseja. . esta maneira de conduzir a Confederação ao rufar do tambor. por uma manobra qualquer.Pode localizar-me durante todo o tempo que permaneça na cidade? . O Hadiano obtemperou: . Navegador. não poderei fazer mais nada para salvaguardá-lo.

. a julgá-los pelas estrias da sua túnica. Viram-me entrar e aproximar-me sem manifestarem nenhum sentimento. a um lugar na Confederação. Os HomensForça. para ir ao fundo da questão.Sim. inquietou-me mais que uma atitude de triunfo ou de amargura. Em oito minutos. se existia.Sabemos que destruíram o nosso centro de Erm-Sémir e que a vossa espacionave pode aniquilar Sirkoma em poucos minutos.. destruir Eimos de Salers. se bem compreendo. pelo que subentendia.Por que meio? Este. olhavam furtivamente esta massa sombria. a intervalos. Coordenador. sobretudo. mas nós não receamos o vosso poder. com o acordo do povo. que interceptava a luz do dia. foram escolhidos entre os de mais alto grau. . em primeiro. Conhecemos os sirkomianos e sabemos que preferem desaparecer a adotar o vosso modo de vida e a moral que decorre das vossas instituições. falariam.. o mecanismo que devia destruir Eimos. mas do nosso povo inteiro. cujo ventre. mas não viera para o discutir. entumescido de excrescências metálicas. É isto? O Coordenador aprovou.. obsessora. Apontou para o Nivelador. o único problema importante.Podia não responder-lhe.. No interior dos lares.Portanto. Havia aqui uma dezena de Homens-Força que. não passaria de uma estrutura de metal inofensivo. mas não patenteavam nenhum medo. o campo de inércia imobilizaria as máquinas da cidade.. Mas de que serve se. Esta calma.. o torçal das flamas cessaria do rodear as colunas dos Kévios. Levantei os olhos para o Nivelador.. Dois Homens-Força aguardavam-me no vestíbulo do edifício principal. Não denunciava o nervosismo que lhe vira no encontro anterior e tive a impressão de que destruir o seu povo lhe dava uma sensação de paz. Via nisso um fim digno dos homens da sua casta. . O Coordenador observava-me. os veículos das patrulhas parariam e. para nós.Se compreendi o vosso ultimato. Se tinham o orgulho que eu supunha.Não se trata somente de mim e dos que me rodeiam. . não se . preferis. impedir o povo de saber que foi engana do e mistificado durante quase um milénio? . Escoltaram-me até à sala rotunda onde decorrera a minha primeira entrevista com o Coordenador. sois vós que vos encarregareis dessa morte? . Qual o peso dos argumentos razoáveis que esperava empregar? Decidi abandoná-los. com um gesto.Mas esta escolha não visa.Capítulo 09 Minutos mais tarde. O Coordenador disse: . O último ponto pareceu-me duvidoso. O Coordenador hesitava. negro e enorme. os televisores apagar-se-iam. Relanceei o meu relógio. uma espacionave pilotada por um Essuérus depositava-me na praça grande da fortaleza. .. pesava sobre a cúpula.

Dois Homens-Força sacaram uma arma da sua túnica e apontaram-na para mim.ª Galáxia. Tirei o implosor do meu cinto e apontei-o para o homem. alguns dos nossos enfrentaram os Nos.Eimos de Salers está num campo de inércia. Todas as fontes de energia da cidade estão neutralizadas. por usar das suas armas. Conhecia. Bruscamente..trata de vos combater?. .. fixo na parede. usada. ... se bem que com dificuldade.. não sentiriam. Dez anos antes. então. Eu disse: . Uma onda lenta e espessa . um povo com a metamorfose da 5.. Nenhuma arma pode ser utilizada neste campo. um novo equilíbrio nasceu e pude mover os membros.O que é que espera obter por este meio? . Os humanos capturados pelos Nos foram mergulhados vivos na água branca de Sayas.e a presença dos vossos vasos de guerra no céu do nosso planeta é para nós um argumento suplementar – os sirkomianos dar-se-ão à morte. aliás.Primeiro. inconsciente. em cada lar de Eimos. a população está diante dos televisores.. Um dos Homens-Força destacou-se do grupo e dirigiu-se-me. quer dizer. Vamos evacuar a população para fora do campo de inércia. houve.. Coordenador e os vossos Homens-Força. Tirálos-emos deste estado quando o desejarmos e sereis julgados perante o povo de Sirkoma. qualquer coisa jorrou do Nivelador e abalou o céu e a fortaleza. nenhuma máquina pode aqui funcionar e os vossos televisores não podem enviar mensagens. felicidade em atirar-se para a morte? Sim. recusamos pertencer à Confederação e esta decisão pertence-nos. ao vosso povo dos Rhunqs e das dezenas de milhar de jovens sacrificados ao vosso prestígio. Nunca tinha sido apanhado num campo de inércia e a descarga foi tão impetuosa que cambaleei.. uma ameaça desta espécie. O Coordenador encaminhou-se para um aparelho de ligação... Depois.Em seguida. estava longe de experimentar.atravessava o meu corpo. outrora no fim da Primeira Era dos Planetas do Primeiro Círculo. onde se dissolveram lentamente após semanas de intoleráveis sofrimentos. Esforçava-me por demonstrar um ceticismo que. Pegou nele. Fiz uma pausa. olhei para o Coordenador. Simplesmente. O Coordenador deu um passo em frente. assim como os Homens-Força e o Coordenador. Pousou o aparelho e fez um gesto imperioso na direção dos dois Homens-Força. O momento difícil tinha chegado. a eficácia desta conformação. . Neste momento. Dirigiu-se de novo para mim. Quedei meio paralisado. durante quase um minuto. pelo menos. o Coordenador ajuntou: . Terrenos. depois para os Homens-Força. recebemos as ordem de nos suicidar quando as nossas astronaves fossem apreendidas pelos Nos. . com efeito. e os que a receberam dar-se-ão voluntariamente à morte. salvar os habitantes de Eimos de Salers. como se avançasse numa atmosfera densa. darei ao Nivelador ordem para mergulhar na inconsciência todos os ocupantes da fortaleza. a bem dizer. em vão. O Coordenador fez uma pausa.Supõe quê não empregámos já este meio contra o que atentam contra a felicidade de Sirkoma? E se uma ameaça pesasse sobre vocês. manobrou a alavanca de alarme. Para melhor me convencer.. Falaremos. Todos os sirkomianos aprenderam a conformar-se com esta mensagem desde a sua primeira infância.Basta uma só mensagem.. que se esforçavam. vós. falou.. De preferência a enfrentar o perigo e as torturas consequentes . Por este motivo.como se os meus músculos se levantassem numa vaga sólida .

.Que farão? ..Após o julgamento...Corremos esse risco. não ousei acreditar neste êxito. encarregando-os até. O Coordenador tornou-se lívido.. façamos de vocês os defensores mais encarniçados do nosso regime e da nossa forma de vida. arrancados a uma morte que queriam heroica e. Nada mais frágil do que estas ameaças .sabia. colocá-los numa situação mais desesperada. O Coordenador enfrentou-me de novo..pareceu-me ser o que tinha visto quando da retransmissão do processo ... Procurei encobrir a minha satisfação com uma pergunta reticente. adivinhei que o Coordenador só falara para incutir esperança nos seus subordinados. Assim. quase velho .. isto é. e semente agora eu avaliava o seu apego aos mitos que implantaram em Sirkoma. a julgar pela entoação. Houve um longo silêncio. Todos os Homens-Força aprovaram.. que Grunbarth.começou a falar na sua linguagem de casta. serão julgados e será publicada a verdade sobre os meios que utilizaram para radicar o vosso prestígio. pois sabia ser o único que os impressionava. fizera desta vez todos os possíveis. geralmente expedito. pois os rostos permaneciam neutros.Esta arma funciona no campo de inércia. no comportamento dos Homens-Força. Eu só podia imaginar a sua inquietação e a sua cólera.Combateremos os Rhunqs. a confes- . esperavam a sua decisão. . que não será hostil à Confederação.. o orgulho? Privados da sua vingança. Prossegui: . dizía-me que.mas que mais podia eu fazer do que atacar o adversário no seu único ponto sensível. Mais um passo e abato-o. Quanto a todos os que estão na fortaleza. a não tentar nada contra eles nem contra vós? Ficaremos com a liberdade de escolher a nossa sorte? A vitória estava próxima. Mas não acabariam por descobrir os falsos trunfos do meu jogo? O Coordenador perguntou: . Não me cansava de repetir este argumento.. pelo menos. se eu falhasse. à medida que o Coordenador ficava sem resposta. Era só que os queira levar e ao que eles vieram. Voltados para o Coordenador. O velho voltou-se para os companheiros e fez-lhes uma pergunta.diante dos seus monstros teleguiados. tão difícil era. por exemplo. como se eu não estivesse seguro disso: . preferiam perecer . distinguir o sincero do que relevava da intrujice. Estes não implicaram.Quem vos diz que alguns dos nossos não se dissimularam entre a população de Eimos? Ora vocês têm poucas probabilidades de os descobrir. de converter os sirkomianos. Na sua falta de segurança. Talvez mesmo. Até ao último segunda. para mais. não se incomodaria com os dirigentes de Sirkoma . não podia. . porque conheço o humor particular dos meus chefes.e de que morte atroz . enfim. Foi o Coordenador que desviou o Homem-Força e o impeliu para os seus companheiros.Prometo que todos os Homens-Força morrerão neste combate. E enquanto seguia os progressos do terror nas caras dos Homens-Força. se necessário.. Esperarão o tempo necessário e farão o que nós não pudemos fazer. depois um dos Homens-Força.E se os deixarmos desembarcar? Se nos comprometemos a poupar a vida dos habitantes de Eimos. O Coordenador respondeu-lhe. suponho que sereis condenados ao apagamento das vossas personalidades. Gravar-vos-emos uma outra. efetivamente. O Coordenador acrescentou.. não tendo outra perspectiva que a de se tornarem os defensores mais fervorosos de um regime que tinham odiado.

deixamos.sar uma fraude com nove séculos de idade. Consegui o que queria. a destruição dos nossos corpos e dos Rhunqs. Se ainda duvidasse da sinceridade dos Homens-Força. voltou-se para mim. esta petição ter-me-ia convencido da sua boa fé. dado o que sabia deles. . Durante alguns momentos.Temos um pedido a fazer-lhe. e que nos novos planetas. Perguntei a mim mesmo se houve. Comecei a descê-la. Não disse ao Coordenador que procurávamos. O Coordenador que ouvia um velho Homem-Força. .Assim se fará. No fundo. Logo que o campo de inércia seja levantado. igualmente.Aceita? Grunbarth quereria.. que este regime conviesse à Confederação. queria pedir-lhes que deixassem os sirkomianos organizar-se à sua vontade.. Comparados com o terrível génio de expansão do homem . ou melhor. ao contrário. serenidade. Se bem que esta escolha fosse lógica. Os meus chefes serão os juízes da conduta a seguir. Confiava no tempo e. Prometi-me que falaria com Grunbarth. Olhei o Coordenador. concebia agora uma espécie de medo. refleti se o fim que tinham escolhido não viria a reforçar o prestígio dos mitos e se não haveria nisto uma derradeira manobra. Cônscio de ser um tanto enganado e descontente por isso. Tendo obtido o que tão arden temente desejara. animados por um tal fanatismo. Um dos Homens-Força conduziu-me até uma escada. tinham resolvido o problema à sua maneira. Não mostrava nenhuma perturbação.Sim. esperava mais dos sirkomianos e do desejo sincero da maioria dos humanos de combater os seus verdadeiros inimigos.Não sei. do que dos técnicos de Grunbarth.Não se esqueçam de que os vigiamos do Nivelador. na Primeira Era. ao fim e ao cabo? Não se tratava aqui de uma revolução em que fosse urgente queimar o que eles tinham adorado..Comunicarei o vosso desejo aos meus chefes. . tive de infringir algumas regras da Confederação. Considerei que os dirigentes de Sirkoma alimentavam algumas ilusões acerca da gratidão dos povos e da força da sua recordação.Pedimos-lhes.. Receio por eles uma mudança demasiado brutal de regime. homens desta têmpera. mas. .com os inevitáveis excessos consequentes . Nós se- . quando um gesto do Coordenador me deteve. Afastei este receio. Gostaríamos que o povo testemunhasse o nosso combate. Ia despedir-me. especializados na extirpação das crenças maléficas...Que farão da população de Eimos? Vão educá-la nos princípios e na moral da Confederação? . na língua da sua casta. refletindo nas negociações com o Coordenador. Teriam eles aprovado conscientemente a sua escolha? Duvidava. No entanto. Examinei os Homens-Força. o qual gostava de dissertar acerca destes tempos passados e pretendia que. não me senti menos aturdido. Pareciam calmos. . acrescentei: . troçaria de mim. . Não tinha remorso algum. abandonarão o recinto da cidade. também. em regra.e com a sua ânsia de felicidade. além disso. Mas estaria certo.. no fim de contas. o homem praticamente não evoluíra em vinte milénios. O Coordenador insistiu: . .Se tendes o poder que supomos. Posso desde já dizer que à Confe deração repugnam as transições brutais. não condenava completamente a política dos dirigentes de Sirkoma. os habitantes a escolha do regime que lhes convém.

em grandes saltos. então. O Hadiano não dizia nada. o Essuérus disse-me: . O Essuérus subiu para o aparelho. aliás. Captamos as mensagens do Coordenador aos seus subordinados. Não as centenas do primeiro dia. ou qualquer coisa aproximada..Suponho que lhe disseram que... Os veiculas que transportavam os Homens-Força acabavam de transpor as portas da muralha. os heróis que haviam de adorar e dos quais cantariam virtudes durante os séculos vindouros.O Comandante espera-o. O Essuérus esperava-me perto da espacionave. .guíamos por outra via. e os fantoches de aço e de fibras sucumbiam. Terrenos. retalhavam-lhes a goela. De súbito. numa apoteose de flamas e de gritos. Tinha quase a certeza.. . Haverá Homens-Força na fortaleza? . os Rhunqs apareceram. depois de ensaiarmos o campo de inércia? Os Homens-Força quiseram apoderar-se de você e nós nada podíamos fazer. dilaceravam os corpos dos Homens-Força e as suas garras. Voltei-me para o écran.. -E não receia que eles tentem uma última manobra para nos enganar. juncavam a charneca.. estava inquieto. Mostrei ao Hadiano o implosor preso ao meu cinto. com o nosso apoio. agora mais do que nunca convencido de que o Coordenador manteve a sua promessa. jogam facilmente com a credulidade do semelhante. Sinto-me feliz pelo seu êxito. Pensei nos sirkomianos. Os cadáveres sangrentos dos Homens-Força e as carcaças dos Rhunqs. ali. contemplavam este estranho campo de batalha. Subi para a espacionave. quer dizer. Numa tal situação. De momento. . aos milhares. experimentei uma sensação de contração através de todo o meu corpo. . para os Homens-Força. bem menos uma certeza lógica do que a ideia de os dirigente de Sirkoma terem encontrado um fim à sua altura.Tentaram atacar-me mas ameacei-os com esta arma. . como lâminas. dòcilmente. mas milhares que corriam.. Eu estava fascinado e aborrecido. ao mesmo tempo. Olhe. diante dos televisores.. que neste momento. para aniquilar a população de Eimos de Salers? . . com este espetáculo. iam pôr cobro ao reinado dos Rhunqs. A bordo do Nivelador.. Deu uma ordem e vi surgir no écran terrestre as colunas de centenas de Homens-Força que saiam da cidade.Não creio. Seria a melhor? Percebi que não estava de bom humor para a discutir e abandonei a questão. e deste fim satisfazer o seu orgulho e a noção que tinham do seu prestígio. nunca teria convencido um Hadiano..Que não podia funcionar no campo de inércia....Mas eles não o sabiam. Quase imediatamente. Ligeiros remoinhos agitavam as suas fibras. valia mais perguntar se os Homens-Força e o Coordenador manteriam a promessa. manteve as promessas que lhe fez. . Imaginei-o a observar o combate tal como eu e gostaria de saber o que ele pensava.Não. De momento. O piloto fez-me sinal para permanecer imóvel.. Dava-lhes. Os Homens-Força representavam a terrível comédia do poder do espírito de mãos estendidas... Quando entrei na sala de pilotagem.Que se passa? Relatei ao Hadiano a minha conversa com os dirigentes de Sirkoma. A sensação desapareceu. Perguntei-lhe se era possível ao Nivelador romper o campo de força.Vocês. Os Rhunqs pulavam. Avançavam pela charneca em filas compactas. Sabe que correu um grave perigo.Como explicaram os dirigentes este combate ao povo? . O Hadiano tranquilizou-me.

Olhei o tan que do Hadiano. . que eu verificara em Sirkoma. da simplicidade que a acompanhava e da curiosa doçura de viver. acerca dos Rhunqs e da estranha mitologia deste planeta. Esquivaram-se desde o primeiro assalto. uma questão sem sentido para o Hadiano ou. o Nivelador rumou ao norte. com um sentido particular que nós. pouco a pouco. Seria feliz? Era.a charneca surgiu. então.Estes Homens-Força são seres corajosos. provavelmente. O Nivelador sobrevoava a charneca. aqui.. . De qualquer maneira. que apodara o espetáculo de pantomina. As pes soas reuniam-se em pequenos grupos. Eimos de Salers. Notei os que procuravam atingir a muralha da cidade. onde os bolores derramavam ondas de líquidos nutritivos. não são perigosos. Descrito um último círculo por cima da cidade. Há vinte milénios. Daqui a dois ou três séculos o Hadiano morreria. desapareceram do écran. Não houve a menor explosão de alegria. que vos leva de planeta em planeta? Não queria pensar nisso. uma espécie de estupor. . Resolvi se as contingências da minha profissão o permitissem. O Hadiano quebrou o silêncio. ajudarão a preparar o futuro e facilitarão a tarefa dos vossos extirpadores.Os sirkomianos que os viram fugir hão de desprezá-los. que lhe tivesse complicado a tarefa. Contestou-me... das casas.Penso que será melhor destruir os Rhunqs.. um paradoxo. humanos. mesmo risível. ou de grandeza. a expectativa .. Existe. um dia. Disse-o ao Hadiano. indo até o termo de crenças sucessivas e por vezes contraditórias. pela charneca fora. Algumas dezenas de Homens-Força fugiam. ainda. Estávamos por cima da cidade quando se desenvolveu a tempestade de chamas que calcinaria os Homens-Força e os Rhunqs. a coragem é a coisa mais comum do universo. a este planeta. que voltaria anos depois. não podemos conceber. provavelmente. Quando o último turbilhão se dispersou. Nestas circunstâncias. mas eu nem sempre teria de lamentar-me. o único bem que lhes foi dado. Que se passaria. a despeito de inumeráveis proibições. E acrescentou: . achava agora injusto que fossem salvos os únicos covardes. como consta do seu acordo com o Co ordenador. A sua atitude mostrava o receio. A população de Eimos de Salers começava a sair. que pensariam os sirkomianos da nossa civilização? Eu não tinha a certeza de que alguns deles não sentissem.Deixe-os viver. Em breve rolavam torrentes de fumo negro. interessava-me o que relevava de grotesco. dos vossos apetites..Grunbarth censuraria. O Hadiano observou: . inclusive. despida. quando os especialistas da Confederação contactassem com eles.. Seria lamentável que os sirkomianos descobrissem tão cedo de que era feito o seu inimigo.Pergunto se não foi devido a esse paradoxo que vós conquistastes as Oito Galáxias.Creio que para os homens que possuem uma crença. pois desprezam a vida. sem ter deixado o seu tanque e o Nivelador confiado ao seu comando. Não será esta curiosa aptidão que tendes para vos voltardes contra vós próprios. Vou ordenar a um cruzador para incendiar a charneca depois da nossa partida. do combate que se desenrolava sob os meus olhos e se concluía agora. Eu. mas. para escaparem a este desprezo talvez os Homens-Força gritem a verdade. recusando o combate e a morte final. Neste momento.. . saudades da velha ordem de coisas. que os nossos não cessam de morrer por causas que consideram justas. Sofrem uma morte atroz. No grande écran negro as mensagens continuavam a inscrever-se em turbilhões . as suas casas e os seus habitantes.

de maneira igual.Daqui a uma vintena das vossas horas. Com certeza não cometeste um erro? Ia explicar-lhe as minhas razões. As fibras do Hadiano tomaram uma bela cor dourada e palpitavam.É um povo de humanoides gigantes que vive na orla da Sexta Galáxia. Daqui a dois dias terrenos. Vais partir agora para o planeta Vassilia. tem sido misteriosamente poupada. Navegador. falarás com os Vassilianos.Disseram-me que poupaste a população de Eimos de Salers.. . Entrarás em contacto com eles.. cujo poder parecia sem limites. por um mundo que não podiam assimilar. que estava no caminho dos Seres-Duplos. Porquê os Seres-Duplos. Precisamos de saber porque foram poupados e talvez resulte deste conhecimento uma arma contra os Seres-Duplos. Nada de zumbis.Vamos pô-lo em comunicação com o Departamento de Normalizações. Navegador. Acabo de receber instruções para o conduzir a este planeta. apenas com um milénio de civilização. apesar de algumas tentativas. .. Enviei os nossos melhores sábios para o planeta.. nos Espaços Exteriores. os haviam poupado? Tinha pressa de chegar a Vassilia e de ver os estranhos vassilianos.. como satisfeitas com o fluxo que acabava de as nutrir.Sim... Perguntei ao Hadiano: . nada de criação antimatéria. Não sabemos explicar este milagre. quando ele anunciou: . seguirás as suas investigações.Falaremos mais tarde. Vassilia. A voz de Grunbarth soou: . Decidi voltar ao meu apartamento terreno e descansar até à minha chegada a Vassilia. . .Poderei consultar os circuitos da célula-mãe deste povo? .. .Quando chegaremos? . brandamente. As primeiras cadeias de montanhas de Enéis surgiram. apreciarás o seu modo de viver.avermelhadas. voltarei a ver-te em Vassilia. No tempo dos meus avós. Parece que os Seres-Duplos foram batidos. As fibras agitavam-se... Até breve. mas não me deu tempo.Quem são os Vassilianos? Procurou na sua vasta memória. alojavam-se ainda nas cavernas.

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