Transcrição da aula pública do Prof.

Christian Dunker | Ocupa Sampa
A Miséria Neurótica e a Pobreza Real

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Christian Ingo Lenz Dunker 1. A Miséria Neurótica e o Sofrimento Administrado Um mundo que nos ensina qual sofrimento é legítimo e qual deve ser excluído. Um mundo que estabelece sem ambiguidade qual forma de insatisfação é produtiva e qual insatisfação deve ser reprimida. As formas de insatisfação já vem pré-fabricadas. Todos os tipos de sofrimento já foram catalogados. Você tem uma reclamação a fazer? Não há problema algum, nos já pensamos isso para você também. Pegue sua senha no caixa e espere em fila a hora de ser chamado. Se preferir use nosso serviço de Apoio ao Consumidor ou nosso Telemarketing. Você quer reclamar? Entra na fila. Entendo que é exatamente contra isso que os movimentos de ocupação, que se disseminam pelo mundo, estão produzindo uma alternativa. Freud chamou de miséria neurótica este estado de angústia que não é sentida como angústia, mas transformada em medo de objetos e situações continuamente produzidos para satisfazer e reproduzir este desamparo. A miséria neurótica tem horror ao mal-estar, tem horror ao estar-mal. É melhor não-estar do que mal-estar. Para este tipo de miserável toda diferença deve ser segregada. Tudo o que ainda não tem nome deve ser punido. Tudo o que é estranho à minha forma de gozo deve ser interditado. Pois a miséria neurótica é a sensação permanente de que minha insatisfação tem uma causa: foi o vizinho que roubou este fragmente de gozo que me falta. E o meu vizinho é só alguém como eu, só que nos piores dias. Sou eu ali onde eu não me reconheço mais. É o negro, é o pobre, é o homossexual, é a mulher, é o migrante, é o estrangeiro, são todos aqueles que vem “roubar o pedacinho que falta em meu estado de felicidade”. Ora este estado de felicidade feito de segurança, anestesia, covardia, adaptação, conformismo, este é a felicidade miserável do neurótico que ele defende até o fim, que ele ama mais que a sim mesmo. É este que Raul Seixas, chamou de “padre, médico, doutor ou policial, que acha que está fazendo a sua parte para nosso belo quadro social”. Reich chamou este personagem de Zé Ninguém. É aquele que abre mão de sua satisfação sexual e do risco representado pelo desejo, em troca do acolhimento bestificante da normalidade. O Zé Ninguém não é o pobre que sofre, mas aquele que desistiu de ver em seu sofrimento a expressão de um desejo e a articulação de uma demanda. Seu problema passou a ser seu vizinho. A miséria neurótica é a perda da capacidade de sentir dor, de experimentar a indignação. É a suspensão da experiência, substituída pela anestesia, pela identificação a um mestre, pela repetição de laços cujo único objetivo e esquecer coletivamente a contradição. A miséria neurótica é empobrecimento da experiência. A miséria neurótica é um tipo de servidão voluntária, ou seja, de servidão pela qual transferimos para o outro os destinos de nosso desejo e administração de nosso sofrimento. Ou seja, deixamos que o Outro empreenda nossa própria impotência, que ele dê nome ao que nos falta, que ele colonize nossa própria capacidade de dar nome ao mal-estar que ainda não sabemos do que é feito. A miséria neurótica é a impossibilidade de experimentar o que Axel Honneth chamou e sofrimento de indeterminação. Ou seja, o reconhecimento de que uma vida que vale a pena se vivida e vale a pena ser contada precisa de experiência produtivas de indeterminação e não apenas de determinação, ordem e sacrifício. Para o miserável neurótico, tudo o que indeterminado é perigoso, por isso ele jamais se apaixona realmente, por isso também todo compromisso lhe parecerá inautêntico. A pobreza real é outra coisa. 2. Ocupação e Violência: Entendo que é exatamente este tipo de problema, ou de insatisfação com a gestão da insatisfação que está no centro da recente invasão da Reitoria da USP pelos alunos. Alguns vão dizer que se trata de um bando de desordeiros privilegiados, que não querem se submeter às leis mais comuns que valem para todos. No fundo são alunos defendendo seus privilégios de classe, dentro dos muros deste abrigo, no qual as leis são suspensas, que é a Universidade. Quase sempre vocês encontrarão palavras como desordeiros, bando, horda, quando não são criticados por seus costumes e suas vestimentas incivilizadas. Mas o que é um bando senão um grupo sem uma ordem, um grupo que não tem motivo ou finalidade senão o saque e a pilhagem, como as hordas bárbaras que invadiram o Império Romano. Ora, o problema deste tipo de bando é que eles não seguem os regulamentos feitos para o setor de protestos, desacatos e insubordinações. Eles não estão seguindo o manual que administra a forma como devemos fazer nossa insatisfação trabalhar. Afinal, o que vocês querem? Fumar maconha sob tolerância policial? Querem ser tratados com o privilégio de estar acima da lei? Desobedecendo a própria deliberação do grupo estudantil? A P.M. está em toda parte, porque não estaria também no Campus? Estas são perguntas justas. Não há nada de errados com elas. Ocorre que uma das formas de administrar o sofrimento, reduzindo-o à miséria neurótica é acreditar que existe uma e só uma forma de justiça. É fazer a justiça o equivalente do direito e o direito o equivalente do ordenamento jurídico. 3. O Problema da Flauta Amarthia Sean, prêmio Nobel de Economia em 1998, mostrou como esta concepção unívoca da justiça não pode ser mais admitida, se queremos pensar o estado de inequidade, de justiça não equitativa, que tomou conta de nossa forma de vida. Uma demonstração simples de sua tese é a famoso problema indiano das três meninas e uma flauta.

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por em prática mentiras para acionistas. Vestindo uma camisa da seleção brasileira ele me conta que está no Brasil há uns seis meses. E que todas as três formas de razão precisam ser reconhecidas.. Quando Miltawa falou em escravidão eu logo imaginei uma situação como a que encontramos na China ou na Indonésia. São as UPPs no Rio. portanto. a qual delas devemos dar este instrumento musical? 1. na forma como ele foi colocado. É para isso que a sociedade nos paga e é isso que ela espera de nós: pensarmos formas de vida e soluções para problemas que não são as triviais. Quando tinha quinze anos mercenários contratados por mineradoras da Arábia Saudita e do Egito invadiram o bairro onde vivia seu grupo. Não se trata de dizer que a justiça é relativa e por isso ela é arbitrada por um código e administrada por instituições impessoais. É este o jogo. um país vizinho em estado de guerra civil. O sentido e o direito de propriedade é o elemento mais seguro e firme de nossa concepção de justiça desde o Direito Romano. é o estímulo e pretexto para que ela aprenda a tocar. e não o depois de amanhã. mataram os idosos. maquiagens nos balanços. Porque para as triviais. pode se beneficiar do fato de ter uma flauta. isso só é um argumento crítico para os que querem “empacotar” esta demanda de reconhecimento em uma fórmula administrativa de desativação da indeterminação. se queremos pensar o estado de inequidade. mas é um desperdício. E isso não fica desativado. vá pensar no cantinho da sala e volte quando tiver a solução. inutilizado ou silenciado pela resistência a obedecer. mostrou como esta concepção unívoca da justiça não pode ser mais admitida. Justiça quer dizer: igual para todos ou a cada um conforme suas necessidades? Quando se diz. você precisa fechar o próximo “quarter”. e consequentemente de justiça. Para aquela que não tem nenhum outro brinquedo. um tanto exigente e um tanto experimental. realmente produzidos pela comunidade na qual esta se exerce. A História de Milatwa Milatwa tem por volta de vinte anos e é negro retinto. Afinal do que serviria uma flauta para quem não sabe usá-la? 2. Mas não. Christian Dunker | Ocupa Sampa https://ocupasampa. A miséria neurótica acontece quando aquele sujeito se fixa a um saber. é isso que se espera da Universidade neste processo. E é isto que o sofrimento aspira sempre. Só que neste caso a comunidade em questão é de fato uma comunidade meio diferente. prometer coisas que não vai cumprir. fazer falar fora do lugar. Nossa polícia precisa de uma reforma. que tomou conta de nossa forma de vida. Uma demonstração simples de sua tese é a famoso problema indiano das três meninas e uma flauta.org/2011/11/14/transcricao-da-aula-public. O problema é que as três meninas tem razões. com pessoas trabalhando dezenas de horas. que uma flauta. Porque cada forma de razão corresponde a um tipo de sofrimento. É um experimento para inventar novos problemas. e agora e se pensamos só no agora e no amanhã. E todas as três concordam que ela é de fato a única que não tem mais nada para brincar. Ora. todos contra todos e o Estado que fique fora disso. nesta medida. É nisso também que a psicanálise pode trazer alguma ajuda. prêmio Nobel de Economia em 1998. a flauta de pouca valia será para esta segunda menina. Imaginem vocês que tenhamos três meninas e apenas uma flauta. Foi assim que Milatwa foi levado para Serra Leoa. com dentes brancos e sorriso permanente no rosto. ouvir que agora o Estado deve intervir para salvar os bancos. discutir e manter a segurança. Reproduzir o mercado? Ensinar a obedecer e tratar os problemas no formato pré-fabricado? Falar fora do lugar. Todo mundo sabe disso. E todos as três concordam que ela é de fato a única que sabe tocar este instrumento e que. Quem não sabe dizer exatamente qual é a solução para o problema. novas soluções e novas formas de vida. o 1% não vai abrir mão de seus bônus? E o motivo para isso? Segurança financeira. de justiça não equitativa. É privar a oportunidade de criar outra solução. vivia em uma cultura baseada na troca e no escambo. Milatwa nasceu em Brazaville na República do Congo. Para aquela que sabe tocar flauta. Amarthia Sean. Fica cada vez mais claro que é preciso tornar o exercício policial uma questão de comunidade. e ainda assim. o reconhecimento de algo que ele mesmo não sabe o que é. aliás prevista e sabida por todos que estão no jogo da pirâmide. restritas em sua circulação e recebendo salários 2 de 3 11/06/2013 09:39 . o resto do mundo está aí para fazê-lo. 3. 4. por favor. Vinte anos ouvindo isso para na primeira quebra.Transcrição da aula pública do Prof. deixar falar fora do lugar …. mas porque não acontece? Por que os 1% não querem abrir mão do bônus. Que tal se dessa vez a flauta fosse para os que não tem flauta? Sim. Para aquela que construiu a flauta. Lá ele trabalhou como escravo em minas de diamante e turmalina. então que os revoltosos da USP não sabem o que querem. E não há nenhuma dúvida entre elas que é esta terceira menina a construtora da flauta. predação das relações de trabalho. São modos de criar. Ora. E que. e sempre a segurança não participativa.milharal. os alunos da USP estão agindo de forma injusta quando requerem privilégios de suspensão individual da lei. o trabalhador deve ter direito ao produto de seu trabalho. o monopólio da violência e da coerção. estabelecer uma forma trivial de segurança não é errado. não estão agindo de forma injusta quando apontam que há algo errado na maneira como a polícia exerce sua prerrogativa de violência. Lá ele nunca tinha visto dinheiro. mesmo que ela ainda não saiba tocar. Mas isso vai tomar tempo. Segurança participativa. É a USP.. estupraram as mulheres e aprisionaram os jovens. como a polícia e pelo Estado que possui. Educação universitária não é só um empreendimento de alunos e aulas. Durante anos ouvi de meus amigos empresários e trabalhadores do chamado “mundo corporativo” que a vida é assim mesmo. sempre a segurança. dando consistência a uma única forma de demanda. E até mesmo Marx (até quase o final de sua obra defendia uma ideia parecida por esta). mesmo assim.

ele seria apenas mais um da horda. Nós que queremos alguma coisa que nem mesmos abemos bem o que é: chegar na terra de nossa própria língua? Libertarmo-nos do trabalho escravo? Escapar da selva na qual estamos perdidos? Embarcar num navio que não sabemos onde vai parar. Encontrei Milatwa na praia de Ondina em Salvador. independente de onde esta história termine. Um mapa da América. A mina era vigiada por mercenários armados e seu trabalho era recompensado com um tanto de comida. que é este que tento transmitir a vocês hoje. com os cabelos dando nas ancas. que cercam a travessia de nosso país a pé. Depois de meses vagando pela floresta eles alcançam um navio. 5. Decide então que ele vai chegar até a Caiena … a pé. versão bahiana do movimento Ocupa Wall Street que se disseminou pelo mundo como um protesto contra um certo mundo instituído. mais um que precisa de justiça pré-fabricada. que vivia em uma cultura de tradição oral. dormindo na praia. Um mapa do Brasil. Logo acima do Brasil ele encontra um país que fala francês: a Guiana Francesa. além do dialeto local. Dedica-se a estudar nossa língua e logo se depara com um a figura de um mapa. para não levar nem um pequeno um fragmento que seja das pedras preciosas entranhado em seu corpo. Mas não era bem isso. nenhuma felicidade gloriosa.Transcrição da aula pública do Prof. Não fosse sua disposição a reconhecer um laço totalmente inédito. que nos encontramos ao acaso numa praia de Salvador ou neste Viaduto do Chá. Não há nenhuma redenção nisso. Um mapa do mundo. Durante a viagem quinze dos vinte fugitivos são descobertos e jogados ao mar. O fim da viagem é a cidade de Santos. ele jamais teria chegado a Santos. Um mundo no qual a experiência de Milatwa acontece todos os dias. onde Milatwa chega nu. apenas um tipo de sofrimento que não foi transferido para Outro administrar. Embarcam num navio que eles não sabem para onde vai. Quando Miltawa falou em escravidão eu logo imaginei uma situação como a que encontramos na China ou na Indonésia. só falava francês. Aqui ele é acolhido como Refugiado de Guerra. 3 de 3 11/06/2013 09:39 .milharal. Não fosse sua ignorância dos perigos e improbabilidades. e chegou até Salvador. Lá ele trabalhou como escravo em minas de diamante e turmalina. jamais ele teria chegado aonde chegou. Mas se não fosse a coragem que só a pobreza real daquele que não tem nada a perder pode incutir em alguém. e que é o que nós já temos. junto ao Ocupa Salvador. mais um do bando. E lá. Christian Dunker | Ocupa Sampa https://ocupasampa. Pobreza Real A história de Milatwa é um exemplo do que chamo de pobreza real. Milatwa que nunca tinha ido a uma escola. no qual 170 pessoas morrem e ele e mais vinte companheiros fogem para as selvas de Serra Leoa.org/2011/11/14/transcricao-da-aula-public. Milatwa trabalhava nu. Foi assim que Milatwa começou a andar de Santos até a Guiana Francesa. Pensando bem somos todos como ele: refugiados de guerra. Tratava-se de escravidão mesmo. com pessoas trabalhando dezenas de horas.. estado de guerra civil. restritas em sua circulação e recebendo salários extorsivos. Milatwa organiza então uma rebelião de escravos. foi lentamente sendo acolhido pelas pessoas da Bahia..

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