Opusculos

POK
A. :::H::ERCULANO
TO:\IO IX
LITTERATURA
TERCEIRA EDIÇÃO
TO:\lO I
Antiga Casa Bertrand-JOSÉ BASTOS & c. a-Livraria Editora
73, Rua Garro2tt, 75-LlSBOA
\
\
Hcservados todos os direitos de propriedade. para
o Brazil, nos termos do ajuste kito entre Portugal c
aqudle paiz. cm ~ ~ d e Setembro de 1 ~ ~ ~ mandado cum-
prir pelo deado do <ioverno Imperial dt: q. de Se-
tt:mhro do mt:smo anno.
ADVERTENCIA
Na collecçáo dos tmuos de opusculos de
A. Herculano ainda até hoje não estava re-
presentado ntn dos grupos en1 que elle a
dividiu- o de litteratura. O presente to-
tno yem re1nediar esta falta e1nbora con1 a
probabilidade de ficar isolado na diYisão
a que pertence. Os avulsos litterarios do
nosso escri ptor náo são todos da n1esma
indole. Co1n alguns d'elles, os de caracter
poetico, resol vetnos coordenar ntn voltune
appenso ao grupo dos romances e lendas
e que está prompto a entrar no prélo. Foi
depois d'esta selecção que passámos a apu-
rar entre os detnais os adoptaveis para to-
ntos de opusculos. Taes nos pareceu deve-
retn ser os que constassetn de historia,
theses, controversias e juizos litterarios.
Nestas condições a obra do escriptor era
.\I >\"ERTE:;\CI.\
bastante para que elle tivesse calculado for-
tnar cotu ella dois tontos pelo tnenos e por
certo tnais, se aproveitasse interessantes car-
tas que no genero escre\·era. Accresce que
sendo a tnaioria d'estes artigos dos pri-
tneiros tentpos da vida litteraria do auctor,
elle proprio dizia tencionar acmnpanhá-los
de utn exatne retrospectivo e an1pliar al-
guns cotno etn parte nelles indicara. E' tam-
bent o que se deduz do plano geral da pu-
blicação exposto na advertencia do totno I.
1Ias dos trabalhos contplententares condu-
centes a esse fitu, e que o auctor de dia
para dia adiava para horas de aprazivel re-
tnanso de espirito, não achátnos vestigios
nos papeis d'elle. Apenas nalguns dos ar-
tigos recolhidos neste tonto estavant indi-
cadas breves correcções de linguagem, das
qnaes introduzintos nas cópias enviadas
para o prélo as de in11nediata intelligencia.
E ainda essas correcções, tão leves que
hão-de passar despercebidas, seriatn apenas
preparativos de revisão, segundo o tnetho-
do adoptado pelo auctor,-nteros signaes
para tnarcar os logares e letnbrar o senti-
do etn que teriant de ser feitas as definiti-
vas. Estes os ntotivos pelos quaes é prova-
ADYERTEXCI.-\
vel que tenhmnos de linlitar-nos ao presente
totno en1 tu ateria ele li tteratura, setn toda via
podennos assegurar que aos elementos que
fican1 de reserva, não Yenhatn ele futuro
jnnctar-se outros que por novas pesquisas
possatn apurar-se, e tornen1 possiYel o se-
guimento do grupo.
Dada, porént, a abundancia de original
de que clispunhamos para este tonto, con-
seguitnos organizá-lo de tnodo que os
elementos qne encerra quasi constituen1
utn todo hotnogeneo de doutrina, repre-
sentando em globo, sem etnbargo da falta
de atnpliações que haviau1 de enriquecê-lo;
como que as generalidades de um curso de
litteratura moderna, prevalecendo a lição
sobre litteratura patria. E não adnlira que
assim succeda attendendo á relação íntima
dos artigos escolhidos cotn o ideal da epo-
cha en1 que foran1 escriptos, e que domina-
va o espirita do auctor. Aspirava A. Her-
culano a encatninhar por tneio d'elles are-
volução litteraria que nascera para nós cotn
a recente ntudança de instituições politicas e
que, sob o ponto de vista poetico con1 in-
tenso brilho fôra iniciada por Ahneida Gar-
rett, con1 os dois poentas D. Branra e Ca-
\.I I I .\I
miJl's. I >'a h i a feição doutrinal e harmo11ica
q ne o tomo apresenta. Sabe1n os leitores con1
que riqueza e variedade de ntonn1nentos
concorreu A. 1-Ierculano ao lado de
outros pri vilegiadosescri ptores para engran-
decer a imponente plwse das nossas le-
tras que desde então se {oi desenvolvendo.
J uncto a esses n1onntnen tos vem, pois, oc-
cupar agora o logar que lhe compete, a pro-
paganda cotn que elle os precedeu e os
acompanhou, naquella esperançosa epocha
de revi yencia nacional.
Nas paginas que preceden1 os artigos
vão indicadas as datas en1 que estes vie-
rmu a publico e as folhas de onde fora1n
trasladados. 1\las desde já conven1 advertir
que trouxe1nos os dois pritneiros da folha
quinzenal O !ttj>osilorio publica-
da durante alguns meses de I 834 a I 835
na cidade do Porto, coutando o auctor vin-
te e quatro aunos de edade. Nos dois
annos anteriores havia elle arriscado a vida
e1n tnais de vinte c01nbates do cêrco da ci-
dade, en1 todos en1 que interviera o glo-
rioso batalhão a que pertencia de T ·olun-
lanos da f(ainlta. Segundo resam formais
attestados, e era proprio do altivo caracter
.-\ D \·r-: T E ~ C I.\ IX
q ne elle nunca desmentiu, en1 todos esses
cotnbates dera aos cotnpanheiros de anuas
exetnplos de iuexcedi\·el destetuor, de arro-
jada bravura. Le\·antado o cêrco despia os
trajos de soldado e quando se lhe afigurou
terminada a lucta pelas anuas, surgiu cheio
de enthusiastno, revelando inesperados co-
nhecinientos e cotno \·ulto dotninante do
Repositorio, a pelejar no catnpo das idéas.
Pela leitura dos dois artigos transcriptos
d'essa folha, se ajuizará da originalidade e
\·igor com que deu começo á propaganda
exposta no discorrer do tatuo. O prin1eiro
descreve o estado geral da nossa littera-
tura naquelle periodo de transição, \·i-
sando norteá-la á luz das no\·as aspirações
e exigenci as sociaes, e nas \·arias fórmas etn
que ella tinha de manifestar-se. O segundo
trata da poesia etn especial, e cotno se o au-
ctor já então quisesse dar n1edida do po-
deroso engenho aualytico de que era
dotado, ao passo que v:1.i explanando co1u
extraordiuaria erudição e lucidez a fatno-
sa questão dos classicos e ron1anticos, \·ai
ta1uben1 deduzindo e conglohatido as bases
de un1a alta poetica de concepção propria,
co1n o pensamento de afastar o genio nas-
.-\I >\"ERTE::\'l'L\
centc das aberrações de uma e outra
cl'aquellas seitas, e ele o guiar para a fe-
cunda desenvolução litteraria en1 que tne-
ditava.
A par cl'estes artigos abria o novel es-
criptor nas cohunnas do Repositorio, cotn
a clescripção elas escholas de. ensino ele-
tnentar da Prussia, a catnpanha en1 parte
clescripta no totno YIII ele opusculos, e que
não tnais abandonou, en1 prol da instruc-
ção popular. Provocando o confronto ela
excellencia d'aquellas escholas con1 a obs-
curidade das nossas, frisava por esse
nteio o alcance do grave assurupto, pondo
en1 relevo perante os hotnens cultos e
aquelles a quen1 competisse dirigir os des-
tinos ela nação, o ntaior dos obstaculos que
tinhmn a vencer para assegurar o bon1
exito das instituições liberaes. O absoln-
tisnto politico fôra clerru bado pelas anuas
e pelas geniaes concepções legislativas
arretnessadas contra elle eru son1 de guerra.
Chegava o ruotuetüo de lançar novas e
grandes idéas, de suggestionar os espiritos
para _que sobre os escmnhros do derrocado
edificio se e r g u e s ~ e gradualntente o ela
liberdade e da civilização. Era com o pro-
.-\D\"ERTEXCI.-\ XI
fundo senti1uento, a niti ela visão d'esta ini-
periosa necessidade social, c ~ u e A. Hercu-
lano se estreava cotno propagandista no
nieniora \·el periodico portuense.
Jlaio di! 1907.
() CUORDEN.\DOR.
Oual é o estado da nossa litteratura?
Oual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
REPOSITORIO LITTERARIO
1834
Oual é o estado da nossa litteratura?
Ou ai é o trilho que e lia hoje tem a seguir?
Estas duas perguntas pedem nada menos do
que a dolorosa confissão da decaclencia em que
se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e
o encargo difficultoso de indicar os meios de
melhoramento no ensino e no estudo d'ellas.
Sem pretender que sejam as unicas, nem as me-
lhores, exporemos a serie das nossas idéas so-
bre este duplicado objecto.
~ \ convicção de uma verdade litteraria pro-
duziu nos secu!os xvr e XVII um erro na Italia,
que, extendendo-se á I lespanha e a Portugal,
transviou da legitima direcção todos, ou quasi
todos os escriptores ela epocha chamada do seis-
centismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais
bella de todas as figuras poeticas e 01·atorias, a
mais repetida, a mais necessaria mesmo nos
discursos communs da viela, abundava por isso
nos bons escriptores classicos e modernos, que
já nesse tempo illustravam a Europa: viu-se
.J 1,1\ .\1. E O IO:STAIIO 1•.\ :":OSSA I.ITTERATtJRA?
que as passagc·ns bellas cnt suhlinws de I loraciu.
l'indaro e \·irgilio, de I Jante c \riosto, deviam-
lhe cm grande parte a sua helleza e suhlimicla-
ck, e isto era certo; inferiu-se cl'ahi que a me-
taphora <-ra o principal c talvez o unico meio
ela poesia c eloquencia, e que ella devia reves-
tir todas as imagens e sujeitar ao seu impcrio
todos os generos, toch)s os estylos, c isto foi
um erro: a vertigem metaphorica se apossou
dos poetas P oradores, e, por uma consequen-
cia natural, o fundo das id{;.as Psq ucceu e SIJ se
olhou para as fórmas: á sombra d'esta mania
prosperavam os conceitos e as agudezas, che-
gando as letras a caí r numa barbarie, que
tanto mais irremediavel parecia por ser filha da
civilização litteraria já exaggcrada. O Zodiaco
sobcrauo, Os C1J'Sta,;s d'alma, .. A Pltozix 1't'nascida
c outros muitos escriptos d'esse tempo, são Ia-
mentaveis monumentos ela corrupção rle gosto
a que chegou Portugal no principio elo elecimo
oitavo seculo.
Porém, o mal não foi sem remedio, e os
membros da :\rcadia fizeram volver as letras
á severa singeleza elas puras fórmas ela Grecia.
~ I u i t o se eleve a Garçào, Gomes e Quita ; mas
ninguem tanto como Dinis mostrou a superio-
ridade do genio e do gosto que caracterizara:n
a segunda metade elo seculn XVIII. Pando os
IJCAL f: O TRILHO QUE ELLA IIOJE TE:\l A SEGL"IR? 5
seus principaes cuidados á poesia chamada pin-
darica, genero difficil pelo audaz das figuras,
pelo gigantesco das imagens, elle soube escapar
aos defeitos e frioleiras do seiscentismo CJ.Ue be-
bera na eschola, em composiç•->es nas quaf's era
mui facil introduzir-se o mau gosto; e ainda
que (_Juita e Garçào tentaram o mesmo genero,
em nosso intender, I )inis não foi emulado. Ca-
paz de todos os tons, no_ burlesco, no pastoril,
no dithyrambico, nos deixou apreciaveis exem-
plos, e as suas dissertaç•)es sobre a poesia cam-
pestre são dictaclas por um grande conheci-
mento da arte, ainda que não excedam em me-
recimento theorico as annotaçues ele Gomes ás
proprias poesias, nem os trabalhos de Freire e
posteriormente ele Barbosa c Fonseca sobre as
poeticas de ~ \ristoteles e Horacio.
Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do
seCLllo de José 1 olhou as letras ele um ponto
de vista eminente. Similhantes aos Pscriptores
do seculo de Luiz xtv, foram muito eruditos,
mas pouco philosophos, e assim o caracter das
duas litteraturas é a confusão dos principias
absolutos com os de convenção. Cingindo-se
quasi cégamente á auctorielade elos antigos,
miudeada e explanada pelos commentadores, a
sua obediencia illimitada a alheias opini,->es con-
tribuiu muito para a posterior decadencia .. \
TOllO IX FOL. ~ -
Ó Ql".\L 1:: O ESTAIIO liA NOSSA LITTERATiiHA?
impertinente qucst;lo dos archaismos e neolo-
gismos veiu tomar o Jogar das discussf•es da
. \rcadia e essa occupaç;1o dos m<:'ios talentos e
da meia instrucçàfl, influindo sobre objectos
mais importantes, viciou e acanhou toda a litte-
ratura. Se as notas, q uP sobre palavras e phra-
ses Ft-ancisco :\Ianuel a_junctou ás suas poesias,
l ~ l S S P m dedicadas a coisas, quão ricas messes
nós colheriamos do saber cl'este homem ! :\Ias
infélinnente não foi assim, e a polemica susci-
tada sobre o mcrito do immortal cantor dos
I .usiadas, pelos insultos que contra elle vomi-
tou o orgulhoso auctor do gelado On"oz!e, mos·
traram a que mesquinho estado tinha a critica
ch<:'gado em Portugal. Parte dos reparos que
:\!acedo copiou dos criticos franceses ficaram
sem cabal resposta, porque os systemas esthe-
ticos mais liberaes e philosophicos que o dos
antigos, e o da eschola de Buileau, eram cm ge-
ral desconhecidos entre nós, e estamos persua-
didos de que o juizo a respeito elo tão grande
quanto infeliz Camões ainda resta a fazer, ape-
sar ela abunclancia ele <:'scriptos que sobre este
objecto se publicaram.
Emq uanto assim entre nós a critica se apou-
cava, um sentimento vago de desgosto pelas
antigas f<írmas poeticas, a inl1uencia da philo-
sophia na litteratura, a necessidade que sentia o
QUAL 1:: O TRILHO QUt=: F.f.LA HOJE TK\1 .\ SF.GCIR? f
genio de beber as suas inspiraçôes num mun-
do ele iuéas mais analogas ás elos nossos tem-
pos, e emfim, varias outras causas clifficeis de
enumerar, começaram a crcar na Europa uma
poetica nova, ou, digamos antes, .a fazer aban-
donar os canones classicos. . \ \lemanha foi o
foco da fermentação, e foi lá que os princípios
revolucionorios em litteratura começaram a to-
mar desde a sua origem uma consistencia, e a
alcançar uma totalidade de doutrinas methocli-
cas e consequentes, não dada, ainda hoje, ao
resto das naçf1es. Lá não havia a luctar com a
gloria nacional para a introJucção de novas
idéas, porque os monumentos ela eschola afran-
cesada de Opitz não honravam demasiadamen-
te o dogmatismo intolerante elo seculo de
Luis XIV, impropriamente chamado classico, e
Boclmer e Breitinger deram começo á revolu-
ção ousando preferir a poetica de Shakspeare e
de á de Racine e de Boileau; comtudo as
opini,-,es na \lemanha teem-se desviado, em
parte, cl'esta clirPcçào e as de Schlegel já
teem reagido na sua tendencia um tanto nova,
sobre a litteratura inglesa d'onde tiveram ori-
gem. Xa França o antigo systema, amparado
pelo renome de muitas producç•-JeS immor_taes,.
disputa ainda a ás innoraç,-1es que
entre esse p•lVO, extremo em tudo, teem che-
S I_IUAL 1:; •1 EST:\1>0 DA XOSSA LITTERATL"RJ\?
gado a um d<"senfreamcnto h;u·haro f' mons-
truoso.
\Ias a Portugal nàn couhP o figurar nesta li-
dP. \ parte thPnrica da litteratura ha vinte an-
nos que {· Pntre 111Ís quasi nulla: o movimento
intellectual da Europa n;lo passou a raia de um
país onde todas as attenç(,es, todos os cuidados
estavam applicados ás miserias publicas e aos
meios de as remover. ( )s poemas D. Branca P
Camões appareceram um dia nas paginas da
nossa historia litteraria sem precedentes que os
annunciassem, um representando a poesia na-
cional, o romautico; outro a moderna poesia sen-
timental elo Xorte, ainda que descobrindo ás
vezes o caracter meridional de seu auctor. Não
é para este Jogar o exame dos meritos e deme-
ritos d'estes dois poemas; mas o que devemos
lembrar é que elles são para nós os primeiros e
até agora os unicos monumentos de uma pc•e-
sia mais liberal do que a de nossos maiores.
Comtudo, não existindo ainda um só livro
sobre as letras consideradas ele um modo mais
geral e mais philosophico do que os que possui-
mos; sem uma só voz se ter levantado contra
a auctoridacle de ..\ristoteles e de seus infieis
commentadores, será impossível emittir um jui-
zo imparcial sobre escriptos de similhante natu-
reza. Julgá-lns por l ~ í r m a s que n pneta não ad-
Qt.:.-\L E O TRILHO QCE ELLA HOJE TEl\1 .-\ SEGt:JR? 9
mittiu, ser;í. um absurdo, emquanto se nào prl)-
var a necessidade d'essas turmas; e istn, mes-
mo que ellas sejam legitimas, só pode ser re-
sultado ue um maduro exame ou de uma pote-
mica sincera. -\ntes d'isso os velhcs eruditos,
vendo offenclida o Íll'i-'iolabilid.ule de um tropel
de preceitos que julgavam imprescriptiveis, só
darão ao genio nascente o sorriso do desprezo;
e os mancebos poetas, a quem o sentimento in-
certo das opiniões contemporaneas dirige por
estradas que muitas vezes não conhecem, farão
que as suas poesias corram brevemente parelhas
com os desvarios que tem u!timamcnte mancha-
do a mais bella das artes na França e na In-
glaterra.
Cm curso de litteratura remediaria os damnos
que devemos temer, e serviria ao mesm? tem-
po de dar impulso ás letras. Em Portugal ain-
da ha homens cheios de vasta erudição, de phi-
losophia e de geni,>. Tyrannias mais ou menos
longas, mais ou menos crueis, os teem conser-
vado na obscuridade de que devem saír, agora
que se não receia a instrucção, agora que os
resguarda a egide da lei. Xôs não desejariamos,
porém, que uma tal obra fosse puramente or-
gão d'esta ou d'aquella eschola; d'esteou d'aquel-
le partido. ( 'onvem que os principias oppostos
sejam de boa fé e sem acrimonia:
lO I,IU.\1. f: O EST.\IlU 11.\ :.'\USS.\ LITTEl{:\"lTRA?
a inlokrancia cm idéas politicas ou rPiigiusas é
odiosa; cm matPrias scientiticas é ridicula. Secou-
besse nas nossas diminutas forças um trabalho
de tanta magnitudP, n6s começaríamos por dis-
cutir qual é o objecto da poesia, e d'csta questào
nos parPce que já se tirariam importantes resul-
tados, c que as duas caracteristicas - o icastico
c o itit·al- que distinguem as tendencias do
antigo e elo novo systema, surgiriam d'ella para
nos servirem depois na resolução ele varias pro-
blemas que se !10S apresentariam na serie das
nossas inclagaçües. () exame das ditlerentcs theo-
rias sobre o helio ~ o sublime, e as consequcn-
cias, objecto immediato a que nos conduziriam
os primeiros raciocinios, dariam em resultado os
principios necessarios e universaes ele todas as
pocticas, e consequentemente aquelles sobre que
deveriamos emittir uma opinião absoluta e ex-
clusiva: no resto •-espeitariamos as opiniües de
cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo em
que elles se não oppusessem aos principias ge-
raes. Indagando a historia da poesia nos diver-
sos tempos e naçües, vê-la-íamos depois da
queda da bella litteratura greco-Iatina, surgindo
do norte com um sublime de melancholia e
mesmo de ferocidade, proprio elos povos que a
inventaram : vPriamos esta poesia fundida com
os restos da romana, e posteriormcnte com a
Ql:AL É O TRILHO QUE l:LJ..-\ HOJE TE:\1 A SEGUIR? 1 I
arabe, produzir as diversas especies do roméw-
tico, d'essa poesia variada e verdadeiramente
nacional, na França e nas duas peninsulas, c
termo medio entre a beiJa symetria classica e
o sublime gigantesco do scptentrião: acharia-
mos essa originalidade nascente da litteratura
da meia-edade destruida quasi no resurgimento
das letras, e substituida por theorias antigas,
que, conservando sempre o m e ~ m o nome, foram
sendo enxertadas em idéas, em preceitos mo-
dernos: encontrariamos, finalmente, o espirita
de liberdade e de nacionalidade da actual litte-
ratura. () quadro das novas opiniües nas suas
variedades todas, as vantagens ou damnos re-
sultantes de cada uma comparada com os ele-
mentos universaes da arte, nos poria em estado
de formar um corpo de doutrina que determi-
nassse as proporções essenciaes da futura poe-
sia portuguesa, completando ao mesmo tempo
uma serie de juizos imparciaes sobre as produ-
cç•1es das differentes eras e das differentes es-
cholas, em relação ao seu genio particular, e á
philosophia geral das letras.
Todos sabem que os antigos dividiam a elo-
quencia em tres generos. que muitas vezes se
confundem; um destinado au elogio ou á inve-
ctiva; outro a fazer condemnar ou a absolver,
a invocar a lei a làvur do innocente, a in\·ocá-
12 I.JUAI. E O E!:;T.\110 lt.\ :"\OSSA IITTI•:RATl"H..\?
l.t contra o criminoso; outro, cmlim, dl'stinado
a ventilar os grandes interesses das naçües nos
congressos ou na tribuna popular. Foi a estas
trcs classes que cllcs reduziram a oratoria, di-
vis;\o que ainda hoje se conserva c que, apesar
da sua arhitrarieclad(·, nós respeitaremos cm
nossas reflexôes. Em Portugal, onde a rcprcsen-
taçào nacional não existia, onde os tribunaes
eram fechados ás defesas oraes e aos juizos pu-
blicos. e a arte de defender e accusar consistia
geralmente em conlwcer os meiJs de oppor en-
tre si a nossa ora nwsquinha, ora contradictoria,
ora obscura legislaçào, e r.uma dialectica as
mais das vezes pueril, tanto o genero delibera-
tivo como o jucliciario não tinham quasi appli-
caçào: ficava sómente a eloquencia dos pane-
gyricos para o orador profano, e uma mistura
de todos os tres generos para o orador sagrado;
mas em nenhuma das duas classes temos ele que
nos gloriar neste seculo. Por uma parte elogios
de encommenda ou feitos com miras ele inte-
resse pessoal n ~ \ o podiam sair da bocca do
orador acompanhados das inspiraçües elo enthu-
siasmo ; e sem convicção e persuaçào propria
não se póde convencer nem persuadir os ou-
tros: por outro lado a cloquencia sagrada nunca
p1íde preencher inteiramente o fim da arte,
uma vez que não divague do seu objecto - a
QC .\L É u TRII 110 <}L" E EI L\ lWJE ·r El\1 A SEGCIR? l 3
moral r<'ligiosa. () fim da eloquencia é per-
suadir; para isto não s<) é necessario mover os
atlectos, mas tambem obrigar a ra1ão. () usar
d'este meio, nervo principal da oratoria entre
as naçües civiliLadas, seria ridicLilo perante um
auditorio christào. O incrédulo não vai ouvir
serml>es, e o orador que empregasse uma logica
severa para provar a con ven iencia da moral do
christianismo, a quem d'isso está ele antemão
convencido, obraria com tanta impropriedade,
como se o missionaria diante de homens de
diversa crença buscasse tão sómente mover os
afTectos sem falar á razão.
O exemplo de dois grandes homens parece
oppor-se ao que temos acabado de dizer. São
_ elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empre-
gando a severidade elo raciocínio, o segundo
tacteando todas as cordas do sentimento, exci-
tando todos os terrores, todas as esperanças da
imaginaçào, e ambos considerados como gran-
des modelos. .:\Ias de que são elles modelos?
E', justamente, d'essa eloquencia impt:>rfeita, cujo
vicio se contém na sua propria natureta. Com
effeito, Dourdalone não preencheu, nos discur-
sos em que se lançou no abysmo dos myste-
rios, o objecto da arte: esta dirige-se á vonta-
de, pela acção: e a defesa metaph ysica bem
quP eloquente dos dogmas christàos não requer
LJ C,lU/\L 1:: O ESTAIH> liA I\'OSS/\ I.ITTERATl'R.\?
alguma. Hosstwl esl;'i nu caso contrario:
para q uc as suas uraçc-,es LC'nham C'ffeilo é ne-
ccssaria a fé. ( > homem imlifl(·n·nte cm mate-
rias de religiào, C' que 1üo possuir gosto bas-
tante para avaliar seu men·cimcnto, dormirá
tran,Juillamcntc á ll'itura de qualquer cl'cllas,
em quanto uma philippica ou olynthia d(• I >c-
mosthenes fará sempre impressão em todo o
homem qae tiver uma patria, uma fiJrtuna a
perder. Sabemos quanto nos pódem oppor so-
Lre estes dois oradores, e sobre a oratoria sa-
grada em geral; mas, nào sendo possivel o en-
trar ac1ui numa q11estàn bastante vasta que es-
tas reftex\Jes não comportam, lembraremos s6
aos leitores que n<ís consideramos os panegy-
ricos e os serm!,es de contruversia como alheios
do pulpito; que Bnurdalone, de todos os ora-
dores sacros o q uc mais sentiu a necessidade
dos raciocinios como meio da eloquencia, nos
seus panegyricos fugia constantemente para a
moral, o que nos crer que elle a considPra-
va o objecto da sua arte como acima dissemos.
Em ultimo logar transcreveremos uma citada
tentativa sobre a eloquencia elo pu! pito pelo ab-
bade obra a mais acreditada as cl'es-
ta natureza: ')'avouc, diz elle, qu' il cst tri's-rarc
de pou·voir sui·vrc cdte marcl!c didactique daus
nos cl!airts, oii lcs discussious moralcs 1u sou! ja-
QU.\L f: O TRILHO Qt;'E ET.T.A HOJE TE:\1 A SEGl71R? I 5
ma is probllmatiquts, t'l oit la conscicuce, qui 1ze
mozt jamais, ue saurait conh·sttr z:éritl à ses
remords. O que entra justamente na ordem ele
nossas idéas, tanto sobre o objecto como sobre
o defeito constitutivo da eloquencia sagrada.
\'" oltamlo ao nosso país, na mesma eloqucn-
cia do pulpito, a unica em Portugal cultivada,
só um orador deixou pela estampa monumen-
tos dignos de exame, se attendermos á fama po-
pular que para seu auctor grangearam: já se
ve que falamos do P. c·omo orador
sagrado, deveu a popularidade de que
gozou a um falso brilho no fundo elas idéas, e
sobre tudo a essa instrucção perfunctoria que
começa a invadir a capital e que é mais clam-
nosa ás letras do que a ignorancia. Sem vis-
lumbres da 'sublimidade ele Bossuet, sem a unc-
çào de Fenelon, sem a profundeza de Bourda-
lone, sem a nobre e evangelica simplicidade de
l'aiva d'r\ndrade, ganhou seu renome com os
ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda
soar na posteridade, não será para as suas cin-
zas um bafejo consolador de gloria.
Porém não é a eloquencia sagrada que deve
hoje chamar a nossa attençào; ella tem sido o
luxo da religião, e nós desejamos vê-la substi-
tuída por meios mais conducentes a fazer pros-
perar esta. \ bella e sublime moral do evan-
gelho n;·to pn·cisa Jos soccorros da art<• de I )e-
moslhcnes c Cicero; e a rcligi;1o J>ractica d'um
clero virtuoso, seria a homilia mais eloquente
para insinuar a moral do Crucificado .
. \ntes de passar av .. mte occorrercmos a um
reparo que brão os leitores; o de não falarmos
sobre a eloqucncia desenvolvida nas côrles da
nossa primeira epocha de liberdade, que l!írma
uma excepção de quanto dissemos sobre a elo-
quencia portuguesa do XIX.
0
seculo_ Tivemos
para iss·J raz()es, e talvez a principal seja o quão
longe nos levaria o exame de alguns discursos
aili pronunciach>s; entretanto diremos por honra
da nossa patria que então appareceram mui
grandes homens, e que desejaríamos ver publi-
car uma· escolha das opini,·>es e relatorios en-
tão ventilados, á maneira do que se Íez em
França das oraçües dns representantes nacio-
naes desde o principio da revolução.
E', portanto, a educar homens que ventilem
dignamente as questões ele interesse publico nas
camaras legislativas, ou que defendam a inno-
cencia e persigam o crime nos tribunaes já pu-
blicos, que o estudo e ensino d'esta parte da
litteratura se deve dedicar: é assim que nôs
ela essencia fl'estes dL}is generos de ora-
tnria o objecto da segunda parle ele um curso
litterario, tocando apenas de leve quanto é for-
QUAL É O TRILIIO QUE ELL \ HOJE TE!\1 A SEGt:IR? I Í
mal na arte e que sapienlissimos rheloricues,
copiando-se uns aos outros, de sobejo explica-
ram; mas tractando com profundeza os princí-
pios applicaveis aos gcneros
judiciario c deliherat!vo cm relação á nossa si-
tuação politica. Para isto seria do exame da elo-
quencia nos differentcs tempos e que
nós partiríamos em nossas indagaç•->es: veria mos
Demosthenes, trovejando na armado da
ra1ão e da indignação, admiravelmente conciso e
misturando com esta concisão os sublimes mo-
vimentos do patriotismo, arrastar após si a opi-
nião das multid•->es; veríamos Cicero defender os
seus clientes, tractar os mais importantes nego-
cios ela republica quasi sempre com uma gravi-
dade e eloquencia estudadas: na historia da
oratoria moderna acharíamos a vigorosa razão
ele acompanhada de um estylo raras
vezes rasteiro; acharíamos nos discursos de
os mais beiJos monumentos de uma elo-
quencia mascula mas tranquilla; e, finalmente,
o frenesi inspirado pelo amor ás velhas formas
do absolutismo nas orações de :\Iontlosier: pas-
sando á da Inglaterra exporíamos o gcnero de
Pitt, genero severo, renovado hoje por :\Iakin-
tosh e Burdett, a que succedeu o igualmente
nen·oso, porém mais cheio ele artificio, ele Burke,
:-;heridan e Caning, e o gPner•) nwJio de Fox,
I X <}U.\1. E o ESTAriO 1>.-\,NOSS:\ 1.1
krminanJo o exame das v<·rdadci-
ras da eloquencia.
Seria a d'esta ultima nação que n6s proporia-
mos como principal moJelo sem exceptuar com-
tuJo as outras. Entre os n>manos, e
franceses ha muit.> que aproveitar; mas, se é
vcrJade que a Iitteratura em parte depende' dP
Cf•rta harmonia com as circumstancias de cada
povo, nenhuma eloqu<:>ncia mais digna para
nós d'estuclo do que a inglesa. Kem entre os
antigos, n<:>m na republica francesa, ella estava
na mesma relação com as instituiçües sociaes
que vai a estar na nossa patria. O orador, na
discussão de uma lei perante a plebe, que deve
votar sobre ella ou influi r na votação, como
acontece no calor das revoluçc,es, tem de usar de
meios differentcs dos que hade empregar para
a impugnar ou defender em uma camara, cu-
jos membros são, ou devem ser, os mais cons-
pietws ela nação por suas luzes e virtudes. No
primeiro caso os raciocinios convem sejam acom-
panhados elos meios formais ela arte ·para dirigir
as paixües populares; no segundo, expostos
a homens que conhecem a arte tão bem
como o orador, sem alcançarem o ·seu efTei-
to, os artificins só attrahiriam sobre elle a sus-
peita de nó fé : isto sem pretendermos dizer que
elle discuta com a secura de um geometra as
QUAL E O TRILHO QL'E ELLA HOJE TE!\1 A SEGCIR? 19
questúes d1J publico interesse; porém os seus
movimentos elevem surgir sinceros ue um cora-
ção intimamente commoviclo e de nenhum modo
uar a conhecer que foram tranquillamente cal-
culados pelos preceitos ue <.Juintiliano.
Entre os romanos, a pequena porção de leis
que havia ainda nos ultimas tempos da republica
e o espírito de a que se limitavam,
dava motivo a que nas causas particulares o advo-
gado ou accusador ele qualquer réo buscasse des-
pertar a compaixão ou a sanha dos juizes: de
quem muitas vezes era guia unica o senso com-
mum e a moralidade, na falta de disposiçües pre-
ceptivas, e apesar da similhança elos tribunaes civis
e criminaes de Roma com os nossos modernos
jurados, existe entre nós e elles uma differença
enorme por causa elas circumstancias legaes.
I loje, entre os povos livres, ha, ou deve ha\·er,
um codigo que previne todos os casos com cla-
reza e exacção, e o mister do orador reduz-se a
provar se o seu cliente está ou não no caso da
!Pi: então todo o pleito deverá ser uma questão
de factos provados ou provaveis, e \·ice-versa.
I >'aqui se colhe quão sobri11 elle deve ser em-
pregando os meios que lhe ministra a artP.
( 'Jaren, ordem ele icléas, logica severa, eis os
meios principaes da elnqtwncia dn fúrn e uas
camaras Iegislati\·as.
:::?0 1Jl"AL (:O ESTAilO ll.\ :-JOSSA LITTF.l{ATUI·:..\?
Tal é o rapido quadro do nosso modo de
pensar sohrc a actual liller:1lura portuguesa, e
sohre os nwins de a dirigir. :\s curtas reOex··,es
que temos f{·ilo sobre a poesia e a eloqucncia
sàn as hases <'111 llllC julgamos dever-se fundar
um curso dt· lilleralura, que serviria como de
introducçào aos estudos mais profundos do
poeta e do orador. C )xalá que d'enlre os nossos
litteratos algum se enca.-regue d'esta util c im-
portante tarefa.
POESIA
Imitação - Bello -Unidade
REPOSITORIO LITTERARIO
1835
TOMO IX
FOI. 3
POESIA
Imitação -Bello-Unidade
Je do11nc 111011 ads 11011 comme
hon. mais com me micn
Xa torrente ele opmwes contrarias sobre a
critica litteraria, que na presente epocha com-
batem, morrem, ou nascem, tambem nós te-
mos a nossa: c vem a ser parecer-nos que da
falta ele exame dos princípios em que se fun-
dam os differentes systemas, procedem essas
questües que se teem tornado interminaveis
talvez por esse unico motivo. O genio, im-pel-
lido a produzir no meio ele idéas vagas c con-
trovertidas sobre as fórmas, as. condições ela
poesia, julga que todas ellas são indifferentes e
desvairado se despenha; o engenho, domi-
nado pelos preceitos que muitos seculos por
assim dizer, sanctificaram, contrafaz e apouca
as suas producçües temendo cair naquillo
que julga monstruoso e absurdo. Tal é, geral-
mente, o estado da litteratura: e emquanto se
não estabelecer Lim corpo de doutrina que,
afiançando a liberdade do poeta, o circumscre-
'
\·a aos limiks da a rqmhlica das lelras
as associaçc"Jcs politicas no meio de
uma revoluçào esponlanea onde· o despotismo
extremo c a extrPma licença, os terrores e as
es1wranças, a klicidadP c a desventura, se cru-
7am, se arruinam c se anniquilam no meio de
uma confusào éSpantosa.
Os <1ue conhecem o estado actual das letras
fora de Portugal, na França, na InglatPrra, e
ainda na Italia, sabem ao que alludimos. Tre-
memos ao pronunciar as denominaçf1es de clas-
sicos e ro,nauticos, palavras indefinidas ou de-
finidas erradamente, que súmente teem gerado
sarcasmos, insultos, miserias, e nenhuma ins-
trucção verdadeira; e que tambem teriam pro-
duzido estragos e mortes como as dos nomi-
1llltS e rt:acs, se estivessemos no xvl seculo. ln-
felizmente em nossa patria a litteratura ha já
armos que ad.)rmcceu ao som dos gPmidos da
desgraça publica: mas agora ella deve desper-
tar, e despertar no meio de uma transição de
idl-as. Esta situação é violenta, e muito mais
para nús, que temos ele . passar ele salto sobre
um longo prazo progressão intellectual para
emparelharmos o nosso andamento com o elo
seculo. Se as opiniües estivessem determina-
elas, o mal ainda não seria tào grande; mas é
num ch:'íos que nos vamos nwrgulhar e elo qual
DII.L\ Ç.\0- r . ~ < : 1.1 .0-l"N III.\ DE
nus tiraremos talvez muito depois de outras
naçües. _ \ influencia da litteratura estrangeira
torna necessario este acontecimento, se aquel-
Ies a quem está encarregada esta porção do en-
sino publico não tractarem de estabelecer uma
theoria segura que previna tanto o delirio d'uma
licença absurda como a submissão abjecta que
exige certo bando litterario. Sabemos as diffi-
culdades que tal trabalho encerra; porém o amor
da litteratura vencerá todas quando ajudado
do estudo e do genio.
_\s rel1exües que ora apresentamos são fructo
de uma parte de nossas meditações sobre tal
objecto. Desejariamos tê-Ias podido coordenar
todas e estabelecer melhor algumas; mas traba-
liws, posto que littcrarios, de differente espe-
cie, impostos por um dever, nos distrahiram do
nosso desenho. Offerecemu-las aos eruditos para
.que tendo alguma utilidade a aproveitem e sen-
do damnosas acautelem d'ellas aqueJles a quem
podem ser nocivas. :\cís nos envergonhariamos
mais de ter acertado com leveza do que de ter
errado pensando.
Talvez algucm as julgue em demasia abstru-
sas ; mas, ou o bello, objecto da poesia, seja
inteiramente resultado das relaçC,es das nossas
fàculdades intellectuaes entre si, ou das d'es-
tas fàculdades com o mundo objectivo, ou, fi-
l'\lESI.\
nalmente, resida neste, é sempre a alma do
homem quem o sente c goza. Para n(Js a sua
existencia uependc ua nossa; e a mdaphysi-
ca influirá sempre em qualquer syslema que
sobre tal objecto venhamos a adoptar. Tem-se
uito, c mil vezes repdidn, que é preciso para
que a litteratura floresça afastá-la d'csta scien-
cia: isto equivale a dizer-se que para os ramos
de uma arvore se conservarem virentes é mis-
ter decepar-lhe o tronco principal. I\a poesia
ha essencia c fórmas: estas devem convir ~ í q u e l ­
la, ou diremos melhor, d'ella devem partir.
Sem levar o facho da philosophia ao seio das
artes, sem examinar a essencia cl'estas, as theo-
rias fonnaes ficam sem fundamento; c é justa-
mente o que tem actmtecido. Seguiu-se quanto
a nós, methodo inverso ao que devera seguir-
se, e um grande mal cl'ahi resultou: a ftuctuaçào
dos princípios, e consequentemente dos juizos
criticos. Todos sabem das controversias de Uoi-
leau e seus sectarios com Perrault, Lamotle, e
ainda Fontenelle c I lud; mas o que nem todos
sabem é que muitas vezes os ultimos tinham ra-
z[to. E se é possivel entender uns e outros, vere-
mos que o arruido nascia da incerteza ou da
contradicçào dos preceitos, o que nunca succe-
deria se a poetica estivf'sse fundada <·m princí-
pios melaphysicos em que ambos os bandos
DIITAÇÃO- RELLO-UNIDADE
27
conviessem. :\las qual era a consequencia da ver-
satilidade das regras e das suas contradicções? O
fazerem homens, aliás engenhosos, os juizos mais
contradictorios sobre a mesma e haver
uma falta de consciencia em todos esses juizos
que salta aos olhos ... \ critica tomou naquella
epocha um caracter mesquinho e pedante. Xem
acreditemos que esse mesmo Boileau, tão gaba-
do pelos seus franceses como homem de sum-
mo gosto e fino tacto, sebrelevasse muito ou-
tros seus contemporaneos . ..--\ falta cl,esse gosto
e cl'esse tacto achamos nós numa carta a Bros-
sette acêrca do Telemacho. Esta grande crea-
ção de um dos maiores genios do seculo (per-
doem-nos os admiradores do inquisitorial e rai-
voso I3ossuet) foi comparada pelo autocrata
litterario da França com o romance de Tlzea-
genes e Llwricka de Heliodoro bispo de Tydea,
romance obscuro escripto na decadencia do
imperio romano e da antiga litteratura : bastava
esta carta para sabermos o peso que deviamos
Elar ás decisões de Despreaux, quando nas suas
poesias não encontrassemos já para isso erradas
opiniões acêrca do Quinault e do Tasso.
historia da critica em França no reinado
de Luís XIV e de Luís xv, e que tambem o é
com pouca diffcrença da C]Ue vogava em Ingla-
tera durante o governo de 4 \nna, se reduz a
que, se um poeta ousava apartar-se das f,)nnas
imaginadas nos antigos monumentos, e se este
poeta merecia a estimação publica, os <:riticos
se viam na necessidade ou de confessar, se não
a inutilidade, ao menos a insufficiencia de seus
preceitos, ou a voltar ao desprezo dasproclucçf,es
do genero moderno. não era duvidosa;
as regras sempre tinham razão; mas como ante
o tribunal ela opinião era preciso que ellas apre-
sentassem algum titulo, ahi se corria a pedir
soccorro ao homem e ao mundo, e sempre lá
se achava com que contentar o povo litterario.
_ \quelles preceitos llUe factos oppostos não con-
trovertiam ficavam amparados por grandes no-
mes e pelo respeito dos seculos sem dar razào
da sua existencia, bem como em nossas cathe-
draes os cuncgos ;í sombra do culto reli-
gioso.
justiça pede que digamos que uma grande
parle dos preceitos dos antigos foram
dos do principio da unidade, d'esse principio que
reside em nossa nlma e que, emquanto existir-
mos sobre a terra, representa para nós o abso-
luto ao qual nos faz constantemente tender a
consciencia da immortalidade; mas a applicaçào
d'cste principio foi em nosso entender muitas
vezes errada ou exaggerada. :\Ictastasio refutou
excellentemente a regra da restricta unidade de

Jogar e de tempo nos poemas dramaticos, e nt')s
veremos brevemente que nem sú essa unidade
carecia de fundamento: porém, a fóra cbs re-
gras nascidas d'este principio, outras ha de tal
maneira futeis qtH' para as basta ne-
gar-lhes a validade. <Jue razão daria Horacio,
tirada da essencia uo drama, para uma tragedia
ou comedia nàll ter nem mais nem menos de
cinco actos? Julgamos não teria outra melhor
uo que uma dada engraçadamente pelo auctor
uo ..-lmzo dt: 2-1-10 em nota a um dos seus dra-
mas. (
1
)
devemos em grande parte aos antigos o
que sabemos: seria uma ingratidão negá-lo. El-
les as letras e as levaram a um ponto
de esplendor admiravel; mas por as crear e
aperfeiçoar não se deve concluir que acertaram
em tudo ou tudo sabiam. não dizemos com
:\Ir. de_ Chateaubrianu que em litteratura só de-
vemos estudar os antigos: CamiJes, Tasso, Klo-
pstuk não nasceram na Crecia ou em Roma, e
entretanto achamos tant•> que estudar nos es-
1 Diz ::\Iercier em uma annotação, que segundo nos-
:;a lemhrança Yem no r .
0
tomo •le suas ohras dramati-
cas, que a diYisão ele cim·o actos fundada cm ser pre-
ciso atiçar cinco \"ezes as luses tlo theatro em quanto
Jura uma recita.
30
criptos d'elles como nos dP llomero e \·irgilio.
() mesmo "!\Ir. de lhateaubriand (. uma prova
de qUE' o genio nào é partilha exclusiva de ne-
nhuma epocha, de nenhum povo. Ko renasci-
mento das letras a admiração pelos auctores
classicos não deixou ver seus defeitos e erros,
c julgou-se inviolavd a antiguidade. Venia me-
reciam os descobridores dos preciosos manus-
criptas que continham o thesouro de idéas que
nos herdaram os gregos e os romanos: labo-
riosas indagaçC>es, largos annos de applicaçào
davam ju3 aos \·alias e aos Philelfos, aos Aldos
e aos Stephanos, a não verem uma só macula
nos objectos caros que t>Hes revelavam á Europa:
mas que, passados dois seculm:, ainda a repu-
blica litteraria se conservasse deslumbrada pelo
fulgor dos tempos remotos, emquanto as scien-
cias começavam a fazer justiça e a dar o seu
a seu dono, é o que nos parece inexplicavel ou,
para melhor dizer, o que com repugnancia ex-
plicariamos.
Embora se apresentassem difficuldades insu-
peraveis, embora fosse preciso recorrer ás ra-
zCJes mais frageis, aos argumentos mais illuso-
rios, uma vez que as rt>gras fossem ou se cres-
sem originaes, OU dPrivadas dos escriptos Ue
.'\ristotPies ou de I Ioracio, de ( i c e r o , de <.Juin-
tiliano ou de Longino, era obrigatorio defen-
J:\11 L\ÇAo-m:u.o- L
1
XtrJ.\l1E 3 I
dê-las sob pena de ser havido pJr ignorante ou
par homem de minguado critcrio. Boíleau dis-
se em uma das suas satiras que só a verdade
era bella: o padre Castcl profu:1do litterato que
escreveu sobre o hcll,J e sublime c que jurava
ai1te os mimes d e f e n d ~ r esta proposiçà·J (porque
cm fim era ele Despreaux_l, sem mesmo se apro-
veitar da vaga distincção do verdadeiro e vero-
símil, que tem sal,·ado muita coisa e muita gen-
te, começou a applícá-la por esse mundo poctico,
mas embicou logo cnm \-irgilio. () verso Pro-
z·dúmur /'Jr!u !t:rraequr: urbesqur: recedunt recal-
citrava, além de outros, contra a sentença do
mestre. <Jue fez o bom do padre? -Zás -lima
razão digna de Fr. Gerunclio: <<0 verso de \-ir-
gilio exprime uma idéa verdadeira, porque ha
ahi uns annos descobriu-se a theoria do movi-
mento; e ,·oto a _ \pollo que a regra ha-dc pas-
sar inconcussa: o verso é bello porque é ver-
dadeiro:.. Se fosse possivel um padre grave lu-
dibriar o publico, nós diríamos que elle estava
escarnecend•J os leitores. Desejaríamos que o
paure Lastel nos tivesse explicado porque o
verso era achado bello antes d'essa theoria e
porque o continuaria a ser mesmo_ se ella
fosse destruída. Taes são as miserias que teem
resultado do inodo porque durante muitos se-
culos foram tractadas as letras. lYestas ninharias
.,..,
.'1-
l't li': SI.\
po1kriamos dar muitos exemplos; mas voltemos
an nosso objecto.
I )epuis de . \ri::;loteles a poesia foi para os
antigos a imitação do helio Ja naturen, lendo
por condiçúes a unidade e a verdad(•, ou a vero-
similhança. E' est,t cm nossa opiniàL' a manei-
ra mais simples de exprimir a philosophia da
arte entre elles, o•t os elementos da sua poetica,
os quaes o continuJ.ram a ser até nossos dias.
E', pois, o valor dos termos imitaçdo, bt'llo,
wzidadl', • ou verosimil, que cumpre de-
terminar para ver se as idéas que exprimem estão
em harmonia entre si, e se podem dar validade
a uma poetica nellas fundada .
. -\ imitação supp;)e o bello em a natureza mo-
ral ou physica, e qualquer d 'e lias existente fóra
de nós. Os act•JS humanos serão na primeira,
digamos assim, o substractum da imitação: na
segunda sê-lo-hão os corpos, e o bello nos será
communicado por meio das sensaçües: qualida-
de dos corpos, forma de acçc,es, naq uelles a
sua impressão será universal, nesta nunca ne-
cessaria. O europeu, o chim, o holtentote sen-
tirão cgualmentc que o -\pollo de Belveclcre é
bello: a acçào dos templarios cantando hym-
nos a I )eus no meio das chammas, c cuja morte
Rainouarl pintou divinamente num s<í ver-
so:
1\IIL\Ç:\ll 1:!·11.0 l':'-:111.-\DE
..,..,
."1 ~ " '
\di n 'en- clait plus tems les éhants avait·nt c e s s ~ ...
nunca será necessariamente hella: se rlle a imitou
de um acto humano similhilnte, C'sse acto sendo
contingente parece-nos não tPria qualidade dota-
da de caracter necessario: se applicarmos isto a
uma acção épica ou dramatica, ainda mais visi-
vel é a falta de n{lcessidade da sua existencia e
consequentemente a dos seus caracteres for-
maes.
Se dissermos que o helio é relativo e resul-
tado do nosso modo de ver, ela relação particu-
lar dos objectos comnosco, da harmonia ou
desharmonia dos factos com as nossas idéas mo-
raes, nesse caso não poderemos aftirmar que os
Lusiadas ou a Od_yssea sejam absolutamente su-
periores ao Affouso ou ao I riria! o Trtlgico. Po-
deremos dizer que para nós não ha sequer C0m-
paração; mas seria absurdo exigir dos outros o
mesmo sentimento. Roileau julgou esqui\·ar-sc a
esta difticuldade asseverando que a opinião ge-
ral devia ser a norma do nosso modo de sentir,
C' que a totalidade dos honwns não se engana
numa crença duradoura. Desejariamos que Boi-
leau nos dissesse se era pela opinião geral que
elle acharia frio o gelo e quente o fogo. (_Jue
nos importa a opinião quando se tracta de sen-
saçt)es? {_Jue vale mesmo aos olhos dns honwns
3-1

cordatos o cn·dito cl(· uma geral? Cre-
mos nós hoje na arte m;ígica, na alchymia, ou
na virtude dos _ksuitas? E foram estas crenças
porventura pouco gpraPs c pouco duradouras?
<_Juandl1 conceclcsscmos o principio, cllc nos
seria inutil para julgar as producçõcs con-
tcmporaneas, e a critica nào nos serviria para
conservar puras as lctt·as, nem para gozar as
creaçües do genio moderno: a gloria ou o des-
prezo não encontraria já nem as cinzas do poe-
ta. Seettlos haveriam passado para refl1rmar a
opinião, quando isso mesmo fosse possível.
"\las felizmente não é assim. Lamartine I com
uma poesia_ celeste tu fazes adorar a religião
q uc saudaste em teus h ym nos solitarios. "\lnnti!
tu nos encheste de um delicioso condu-
zindo-nos aos umbraes do outro mundo. Schil-
ler! quem não sentiu bater mais fortemente o
coração lendo a despedida ele Picolomini e The-
cla? \ infancia elo seculo XIX já tem muitos ti-
tulos com que faça passar sua memoria enobre-
cida clcante dos outros seculos. Elles julgarão
como nós os genios que no meio das tempesta-
des politicas consolaram o genero humano com
a harmonia ele seus cantos . .Acêrca de Lamar-
tine, ele :\lonti, de Schiller, c não s6 d'elles, nós
damos seguro da posteridade.
Tal é o bello para quem o julgar em sua mo-
l\11 I'AÇ\0 t:ELLO-- Ut-.JIJ.\IIE
33
dalidadc necessario e absoluto: uma idéa oppos-
la repugna e nos aftiige: n{)s queremos que lo-
dos os tempos, todos os homens o julguem ego-
zem como nós, e diremos sem hesitar, o que não
for de nosso sentir ou carecerá de gosto ou o terá
pervertido.
E' esta circumstancia da necessidade do nos-
so juizo sobre o bello que distingue inteiramen-
te este do agradavel.-Do primeiro nós affir-
mamos a existencia, do segundo a sua relação
comnosco. O quadro da morte da Clorinda na
Jerusalem Libertada é bello, e que deixe os
poetas aquelle que tal não o julgar. Cm pomo
saboroso é para nós agradavel, talvez para ou-
trem o não seja, o que nos é indifferente. ::\o
primeiro caso julgamos; no segundo exprimi-
mos a idéa da relação particular entre nós e o
phenomeno .
.:-\ que reduziriam Burke e Delaunay a maxi-
ma parte do que escreveram sobre o assumpto
se tivessem reflectido nesta differença? Poria
um porventura os elementos do bello nas linhas
curvas e no macio e te-lo-ia outro dividido geo-
graphicamente como se dividem as raças hu-
manas? Estamos persuadidos que não .
. \ incerteza ácerca do criterio do bello não é
o unico resultado do principio da imitação: elle
tambem está em contradicção com o da unida-
I'OESI.\
de; esta dehaldP se procurari;t nos corpos; as
parles do universo cocxist<•m; mas individual-
mente, c cntr·e individuo c individuo nH"deia um
ahysmo que rigornsamenl<" falando n{)s não po-
d<·mos <"liminar: gcneros, <"spccics, familias,
causas e eO.eilos neccssarios sào f6rmulas do
entendimento; são como lhes chama . \ncillon
muletas da intelligencia. Se procurassemos a fu-
gitiva unidade do lotai do t• niverso lá mesmo
clla SPria para nós a nuvem de lxion. Com ef-
feito, sendo impossivel á imaginação acabar a
synthese dos phenomenos, ella disse f!Uando
cançou -isto é o universo-; mas teem acaso
os objectos que produziram essa idéa uma liga-
ção absoluta e una entre si ?-Xão: a mente
faz uma abstracção similhante á que faz a his-
toria natural deduzindo dos individuas generos,
especies, familias. O L. niverso não é senão a
repetição indefinida da individualidade.
Parece-nos, pois, que (> forçoso ou abando-
nar a imitação do mundo physico, ou não exi-
gir a unidade nas imitaçües cl'este genero. ( )u-
lras razües existem para provar que a mesma
difficúlclade apresenta a conciliação dos dois
principias no mundo moral; mas n6s guarda-
mos essas reflexc·,es mais complicadas para
quando voltarmos a este assumpto, tem<"ndo
sPr pctr agora tachados de prolixos.
1\IIT.\ÇÀO- f!F.LLO-l'KIDADE
3i
I >o quP lemos diclo concluimos que o helio
das imagens, o helio chamado physico não
existe nos objectos porque a unidade P a ne-
cessidade da sua existencia seriam destruidas;
mas sem estas duas condições o espirilo não o
admilte. E', pois, em n{,s, no mundo das iclPas
que o devemos buscar. Cm typo independente
do que nos cérca, deve existir, com o qual a
faculdade de julgar possa comparar o bello de
uma imagem particular. Eu -.J.Ytio eis o
circulo das existencias, os dois nomenos fóra
os quaes nada concebemos. l\Ias nós aclmitti-
mos o necessario e o uno sem o encontrar-
mos no que nos rodeia: cumpre, pois, que elles
residam em nós como fôrmas da intelligen-
cia.
E' visivel que um typo é preciso para julgar
o bello : sem elle as artes plasticas seriam im-
possiveis .. ..-\s comparações entre os objectos não
p0dem jámais estabelecer regras invariaveis de
gosto, e ellas supp,-1em já uma comparação an-
terior. Quando comparamos dois objectos, um
bello outro não, o unico resultado que tiramos
d'ahi é ver que são desimilhantes: mas por que
modo agrada um, outro repugna ? E' sem du-
vida porque um harmoniza com uma idéa, bem
que indeterminada, e outro se oppõe a ella.
Será este typo resultado da experiencia ?
IX
FOL.4
Cremos que nào. ( >nde existe o typo da enus
ue 1\ledicis, de 1 .aocoonte, ou dP Sexto?
(luem se pócle gahar de o tPr encontrado na
naturP7a ? EIIP existia na mente dos artistas: as
idí-as <festas creaç(,es foram para elles ·antes de
ser para nós: unisonas com o seu typo, o ge-
nio as trachuiu no no hronze e na
tela. I >ir-se-ha, em ultimo caso, que o estatua-
rio_ e o pintor reuniram o helio parcial para
formar o todo. Porém seria aggregado uno?
Além d 'isso, não é claro que para essa escolha
precisavam de um guia existente qa sua alma ?
Quem os moveu a escolher esta fronte, estes
labios, este collo com preferencia a outros ? Pa-
rece-nos que estas perguntas ficarào sem res-
posta emquanto os homens procurarem fóra
de si o principio vivificante das artes.
(lu::1nto ao verosimil e verdadeiro na imita-
ção, nós faremos s6 alguns leves reparos, por-
que de outro modo seria preciso as
mudanças que se teem feito na intelligencia
deste principio para devidamente o apreciar. e
este trabalho exigiria longas paginas. AristotC'-
les estabelece a differença entre a verosimilhan-
ça e a verdade, dizendo que a primeira perten-
ce fi poC'sia, a segunda á historia: que a pri-
meira consiste nos actos consequentes de um
caracter em geral, a sC'gunda nos actos practi-
11\IIT\Ç.\tl- J:EI.I.O- U::\lll.\llE
cados por um individuo existente e dderminado.
I >'estas expr<'ssües resulta que para a distincçào
do verdadeiro e do verosímil physico o critico
grego não nos dPixou nenhuma regra, e que
nn moral cessa com o vernsimil a imitação: na
natureza não ha sPnào caracteres individuaes,
os geraes existem por uma idéa. Confessamos
nossa rudeza; não entendemos como as paixües
concebidas da n1.aneira flUe as concebe o genio
e applicadas a um individuo, ou supposto ou
historico, sejam uma imitação. <Juanclo quises-
semos exprimir esse caracter por factos, dar-
lhe uma existencia real e individua, nada mais
briamos do que destruir uma abstracção por
nos servirmos da linguagem sensualista. i \ l ~ m
d'isso, suppondo que todas as nossas idéas se-
jam resultado de sensaçües, a idPa geral e abso-
luta de um caracter é uma chimera dando lhe
validade necessaria e imprescritível. Circum-
stancias particulares, opiniües, em fim as côres
locacs viriam introduzir a confusão e a anarchia
no imperio da critica. Supponhamos que os ca-
racteres dos heroes da Iliada foram traçados,
segundo a opinião de .\ristoteles, pela idéa ge-
ral elo valor, mas nós vemos esses heroes fugirem
elo inimigo que temem. Oclnardo P (-;ilelippc,
na Jcrusalem, cáem sob o alfange de Salaclino
St"m terem voltado as costas, Sueno acaba sobre
.JO
I'IIESI.\
cada \·eres dos seus soldados no lll<'ll) dos
S<'tn d<·pnr a espada, de SPr
possivel VPnccr. imitou a idéa gPral do
valor? Foi llonwro ou foi Tasso? l'rovavc·l-
nwntP I lomPrn porquP é rnais antigo .. \lgum
futuro comnwntaJor de . \ ristoteles no-lo ex-
plicará.
:'\ào nos tPndo este dcixadn a nnrma para
julgar o verosímil physico, vejamos se I loracio
occorreu a esta falta. Foi por ahi que elle co-
meçou a epístola aos Pis,-,es. um
monstro que imaginou, convida-os a rir do
quadro que lhes apresenta- e porquê? Dá
o· poeta a razão - vantlC fiugcutur specit:s,-
Battcux paraphraseando accrescenta - images
'<.'agues qui n'out point dt: moddc daus la nature.
E assim, o que for vão, o que não tiver typo
na natureza nunca será beiJo. Pobre Homero!
Os teus cyclopes, o teu Poliphemo, os mons-
tros de Charybdis, emfim teus lindos sonhos
devem-nos arrancar uma gargalhada. Tu mes-
mo, crapulario I Ioracio, q uerer;í:s com o teu
Pegaso fazer-nos estourar ele riso? Com effeito,
onde existem as ficções dos antigos monstros
ela mythologia? Quem viu um homem ou um
cavallo alado como o . \mor e o Pegaso? Nem
se diga que a crença popular lhes tinha dadll
a : isto são palavras que soam mas
IMITAÇÃO- I:J:<:I.I.II- U!'ID.\111<: 41
sem sentido.- Cremos que existir na intelli-
gencia não é existir no mundo real. Se a phanta-
sia produLiu estas creações ellas não foram imi-
tadas, logo não teem modelo, logo não são bel-
las; porque nos persuadimos que a mais dura-
doura crença nunca poderá fazer que uma coisa
seja o que não é.- \Temos, portanto, que para a
theoria do verosímil pouco se aproveita a poe-
tica do illustre adulador de :\Iecenas e ele ( k-
taviano.
Talvez Boileau nos satisfaça. Eis o que encon-
tramos nas suas doutas poesias a este respeito :
Riin n'est beau que Ie vrai, Ie vrai seul est
aimable. t
Le vrai peut quelqm· fois n'être pas vraisem-
blabe.
2
<Jual seria a conclusão que tiraríamos d'estas
duas proposições, dispondo-as em fórma de syl-
logismo? - Quem respeitar I )espreaux não ou-
sará fazê-lo.
-:\Ietastasio falando da imitaçào nos commen-
tarios da poetica cl'Aristoteles, nos explica em
que consiste o verosímil que o imitador é obri-
gado a conservar na sua imitação: «() alvo do
copista, diz elle, é que a sua ct,pia possa subs-
1 Epist. 9 - \-. 43·
2
.\rt. poet. C. 3 - \". 4X.
.p i'OI•:SI_\
tituir o original, o do imitaJor é conservar a
similliança. possiz•t'l do objecto sem alkrar a ma-
teria sujeita da imitação.>. Continua depois di-
zendo que o admiravd <l'esta consist< .. nas diffi-
culdades que venceu o artista: o que, em nos-
so entender, equivale a dizer que o helio con-
siste em vencer as difficuldades da imitação:
iemhremo-nos, porém, que por este mesmo tem-
po Batteux reduzia as artes a um s<> principio
-a imitação ela bdla natltrt'::;t1; e louvemos a
I >eus pela unidade de doutrina de uma eschola
que hoje com tanta arrogancia accusa de bar-
barismo e incerteza todos os princípios littera-
rios que n<l.o se amoldam aos seus.
Tirou cb estatuaria um exemplo
para nos dar a conhecer as clifferenças que ha
entre imitação e cópia, mas, tractanclo-se de
poesia, seria talvez bom que nesta o buscasse.
Xós o fàremos por elle comparando o retrato
de de Estées por com o de
Ignez Sorel por Chapelain. - Para os nossos
leitores poderem ajuizar transcreveremos am-
bos:
CHAPELAIN
En la plus haute part cl'un visage celeste,
........... un front granel et mockste
Sur qui vers chaque temple ;í bouillons séparés
DIITAÇ.\•J-JHo:LI.O- U'\IDADE 43
Tombent les riches flols de ses cheveux dorés
Sous lui . . . . . . . . . . . .................... .
Deux yeux étincelans ...... sereins ........•
.-\u dessous se fait voir en clnque joue éclose
Sur un foncl ele lis blanc une vermeille rose
<Jui de son rouge centre épand ue en largeur
\T ers les extremités fait palir sa rougeur.
Plus bas s'offre et s'avance une bouche enfanline,
<.J'une petite fosse a chaque angle termine,
Et dont les petits bords faits d 'un corail riant
Couvrent deux blancs filets ...
\"OLTAIRE
Telle ne brillait point au bord de l
La coupable beauté qui trahit
::\Ioins touchante et moins belle, á TarsP on vit
paraitre
Celle qui des Romains avoit dompté le maitre
Elle entrait dans cette age, hélas! trop redou-
table,
<]ui rend des passions le joug inevitable.
Son coeur né pour aimer, mais fier et géne-
reux,
I faucun amant encor n'avoit reçu les voeux.
Semblable en son prinptems á la rose nou-
vellc
<Jui renfcrme en naissant sa hcauté naturelle,
-t l
I'IJESIA
("ache aux vcnls amoureux les ln-;sors de son
sein
El s'ouvre aux doux rayons <l"un jour pur Pt
serein.
Vuem duvidad que Chapelain imita uma bel-
la mulher com a simil/zança possivel e que no
retrato de Gabriella a imaginação nada póde af-
figurar-se que não seja vago e indeterminado?
Vuem duvidará tambem que o primeiro retrato
é obra de um borrador e o segundo digno de
_-\!bano? Comtudo hoje é reputado _barbam e
extravagante quem se ri das regras da velha
poetica! ...
Desde Batteux, Sulzer, Jaucourt e outros, as
artes em geral e a poesia em particular foram
definidas --a imitação do bello da natureza. Es-
se principio se acha\'a nos escr4)t0s dos antigos,
mas confundido com a idéa de que do artificio
da imitação tambem resultava um prazer simi-
lhante ao produzido pelo bello. 1\luito devemos
a estes críticos; aliüs, fugindo constantemente
da natureza para a arte e d'esta para aquella, a
velha poetica salvaria uma grande parte dos
seus canones dos olhos investigadores da philo-
sophia. Era isto misturar a noção do agrada vel
com a do helio. Os modernos, reduzindo a poe-
sia á imitaçào cl'este, caíram, em nosso enten-
ti\IJT,\Ç.\n- m:r.J.o-
45
der, num erro analogo confundindo-o com o bom.
l )iderot disse que no util consistia o helio-
\ \' atelet que o era tudo o que r)ll·eenchia o seu
fim. ::\Ir. Lemercier d;í cnmo causa final elas le-
tras a utilidade. ::\I(•ndelssohn creu-o a expres-
são sensivel eh perfeição, e ao seu systema si-
milha o de :\[r. Laurenlie ácerca cl'l bello intel-
lectual. Tod'1s estes enunciados se podem redu-
zir ao de :\[r. de Bonald -o helio absoluto é sy-
nonimo de bom. Kào sabemos o que ::\Iarmon-
tel e Laharpe opinaram, porque temos a infeli-
cidade ele não entender as suas clefiniçües.
Os sensualistas do seculo passado, depois ele
um longo rodeio, voltaram á confusão do agra-
davel e do be·llo; e os espiritualistas d'aquelle
seculo e do nosso foram progressivamente ti-
rando o bello ela natureza physica e collocan-
do-o sómente na moralidade, ou creando uma
cousa chamada bd/o rda.ti"'O que, ou não existe
ou é o mesmo que o agrada vel.
:\Ir. Laurentie escreveu um volume para mos-
trar aos harban1s innovadores que o bom e o
helio moral eram inseparaveis: neste livro toma
(I pobre Kant para a sua alma, visto que, por
culpa d 'elle, foi enxovalhado o rico e harmonio-
so idioma de Paschal e Bossuet com o Eu e
1Ydo-eu. \té aqui bem vamos. Se Kant fosse
vivo, como causa primeira de 'se commetter tão
I'OESI.\
horroroso altentado, devia acabar numa foguei-
ra: e nisto, cremos, conviria :\Ir. Laurentic,
porque nos seus escriptos alguma pena mostra
de tf'r visb> linclar as assaduras dominicanas.
:\las no que não tem ra7ão é em insultar a me-
moria do venera pr,>fessor de Konigsherg,
que estabelecC"u antes d"elle a mC"sma verdade,
como m·>strariamos se este escripto comportas-
se uma exposição ela doutrina d'aquelle philoso-
pho acêrca do juizo esthctico. Xão seria melhor
que :\Ir. Laurentie, antes de decidir com um
tom tão dogmatico e magistral estudasse pri-
meiramente as opinif1es que intentava impu-
gnar? Similhante altivez não nos parece con-
cordar com a humildade evangelica propria ele
um bom christào como :\Ir. Laurentie ! (
1
)
Insistimos na clifferença elo bom e do bello,
porque o grande nome de :\Ienclelssohn se coi-
loca naturalmente á ti·ente dos que os declaram
I Tah·ez alguns •los nossos leitort>s extranhem o mo-
• lo porque tractamos um escriptor accreditado e ainda
\'t\'O. 1'\é>s salJemos que a urhanitla•le é o principal •le-
,·er •le quem impugna qualquer opinião: mas
mos que não pu•lemos n:osistir á tentação. :\Ir. Laurentie
l: um •lefcnsor do absolutismo, e muito mal tractou a
cansa tla nossa patria no seu exame ela Carta portu-
guesa. E' uma pequena Yingança littcraria que ;;e nos
• lc\'e penloar.
DIIT.\Ç.\0- m:LJ.O - ..J.i
identicos. Esta idéa se Pncontra já na philoso-
phia néo-platonica e talvez no I Iippias maior
do mesmo Platão, de cujas opiniües :\Iendels-
sohn não estava mui longe. <) que :\Ir. de Bo-
nald e disseram sobre este ponto fun-
da-se inteiramente naquellas doutrinas.
Porém serão ellas \'ercladeiras? .\"ós cremos
que não. _\ perfeição de qual(1uer coisa é o
complemento de seus fins, e estes devem ser
bons, aliás não se daria aquella. D'isto resulta sem-
pre um interesse, quPr no moral quer no physico,
o que suppõe uma existencia real: porém o sen-
timento do bello é desinteressado e não carece
ele ser acompanhado do de existencia. ( )s jar-
dins de Alcinos, a ilha de \Tcnus, não seriam
mais bellos se os cressemos existentes fora da
Odyssea e dos Lusiadas. \ imaginação é quem
nos presta a idéa de que resulta o juizo acêrca
do bello: o bom nasce de uma idéa determina-
da pela razão; porque, para julgar uma coisa boa
e; perfeita, é preciso saber para que serve. qual
seu alvo, quaes suas relaç0es: um edificio ir-
regular, mas commodo e reparado,. será bom,
porque satisfaz o seu alvo objectivo: a \. enus de
:\ledicls chama-se bella, porque satistàz, por
uma idéa da imaginação, o jogo das nossas fa-
culdades quando a comparamos com o ideal do
bello humano.
PIII•:SIA
I >issemos que o helio moral (· s<"mprf' acom-
panhado do bom. Conc<JJ·dando nisto com as
opiniôes actuaes dos littcratos puros, j ui gamos
n<1o ser precis:> prová-lo e portanto nos abste-
remos d 'isEo. <) pouco que not.'imos hasta para
se ver em quC' consiste a diHerença das duas
idéas no mundo da moralidade.
Cremos ter indicado, hem que mui de leve,
as difficuldacles e pnr ventura contradicç,)es que
encerra uma poctica respeitada por tantos se-
cuJos. -:\Ias desde . \ristoteles estava apontado, e
por elle mesmo, o vicio da sua construcçào .
.:-\pplicando á Iliada os canones que tinha esta-
belecido e que julgou ter deduzido cl'ella, achou
que ás vezes elles falhavam, e viu-se obrigado
a dizer que as regras se podiam pôr de parte
quando o bello assim o exigisse. Xão é cl'este
modo C]Ue n{)s concebemos a p o e ~ i a . Seus pre-
ceitos elevem ser imprescriptiveis sendo dedu-
zidos elo bello e de suas condiçc->es. I >c que
modo o nosso criterio p1írle ser s<'guro, ter este
caracter ele necessidade que a consciencia re-
quer, sendo incertos os seus meios? O jogo de
arguiç•->es e replicas que constituem o capitulo
2 5 da sua poetica seria digno de um sophista,
nào do maior philosopho ria antiguidade: ellas
fariam luzir um f'studante das nossas aulas de
rhetorica em uma sabatina ; mas para o estudo
mrnç.\o - nEt.t.o - U'\111,\IIE
da lilleralura parece-nos que de nada ser-
vem.
Tendo até aqui procurado clerribar, cumpria
cdiiicar agora: mas não um livro,
nem possuindl) para isso o cabedal nccessario,
apenas lançaremos os primeiros traços dos
(quanto a nc'is) unicamente verdadeiros funda-
mentos de uma poetica razoavel, 1nra estabele-
cer a theoria da unidade de um modo mais
conforme a razão, e ao mesmo tempo mais con-
corde com os grandes monumentos littera-
rios .
.-\ p.Jesia é a expressão sensível elo beiJo
por meio de uma linguagem harmoniosa.
() bello é o resultado da relação elas nossas
faculdades, manifestada como jogo da sua acti-
vidade reciproca.
Esta relação consistirá na· comparação ela
idéa do objecto com uma idéa geral e indeter-
minada: a harmonia d'ella resultante produzirá
o sentimento do beiio: esta harmonia será su-
jectiva, residirá em nós; e a sua cxistencia a
priori necessaria e universal.
Como composta a idéa do objecto leva com-
sigo a variedade; como geral o outro termo da
comparação é puramente suhjPctivo e conse-
quentemente uno.
_ \ c,mdição, pois, d,) hell,) (- a conconbncia
1'1 IESI.\
da variedade da idl-a particular com a unidade
geral : conJiçào quP (· por lanln necessaria em
lodos os _jui1ns ;1cl:rca do lwlln.
\las existindo PSSI harmonia no _jogo das fa-
culdades c requPn'ndo se para c·lla a unidach',
esta scr:í. subjectivame-nte absoluta, P tudo o que
na idl-a particular do objecto 1üo estiver cm
relação com e lia nunca poder;'i ser julgado
helio.
Tanto nos basta ela longa c difficil theoria do
helio e sublime para o nosso intPnto. 1\a sua
applicaçào restringir-nos-hemos aos poemas
narra ti vos, porque os outros, sobretudo os dra-
maticos, exigiriam um mais amplo desenvolvi-
mPnto que não comporta este escripto.
I )os princípios que apresentámos c que cm
parte as antecedentes observaçües pediam, se
colhe o sempre imprescriptivel cancn da uni-
dade, porém está collocacla mui longe d'ondc
os antigos a collocavam. E' uma idéa geral e
indeterminada que a torna nccessaria: a acção
nào é mais elo q ne a ser i c de variedades q uc
devem, digamos assim, dar um som unisono
com a idéa geral e una. Será, pois, em nosso
systema o primeiro passo a dar no exame de
qualquer poema o buscar qual foi essa idéa,
esse dt'llS tu uobis q ne constrangeu o pneta a
revelar-se ao mundo Pm cantos harmoniosos
.
J:\IIT.\Ç.\.0 -BF.LI.O -
:\ôs a buscaremos nus cinco mais celehrc·s
poemas da Europa-a llia.f,z,-a J.::ut'ida-o Or-
lando furioso- os Lusiadas-e a JtTltsakm li-
bt'rlada. Se a theoria for verdadeira acharemos
essa idéa : as partes que os constituem serão
concordes com ella ; aliás estes poemas cessa-
rão para nós de ser considerados como
lutamente bellos, e ficaremos persuadidos de
que a Europa inteira se enganou tendo-os por
modelos do gosto.
\ntes, porém, de tudo convem sujeitá-los a
um exame cujo norte seja o que a antiga poe-
tica exige para julgar similhantes producçf1es.
Seremos severos neste exame, mas limitar-nos-
hemos ao mais importante principio -o da uni-
dade de acção, a que n<ís temos a infelicidade
de não dar valor algum. Com este nos conten-
tamos, que de outro modo fariamos em vez ele
um artigo um volume.
será guia para Yêr em que essa
unidade cünsiste? \ristoteles: ninguem o refu-
sará. Elle é o unico escriptor original sobre taes
mater_ias: os que vieram depois d'elle o copia-
ram, o commentaram e talvez clemudaram suas
idéas. Diz IJacier que todas as poeticas se re-
duzem á do Stagyrita, e por outra parte
I .emercier nos assegura ser bastante para cons-
tituir um perfeito critico em poesia o entendPr
1'11ESIA
hem as poelicas dt• .\rislokles, llOI·acio, \"ida
t' I >espreaux. 1\.eunindo, pois, as opini,·,<·s de
dois lào illuslres littcralos parPce-nos que nes-
se escripto cl0 velho grego dPvemns buscar a
norma elos nossos juizos para avaliar os poc·tas ..
Busquemos lá, com cJTeito, em qtw a uniua-
de- consiste .. \chá-lo-hemos no capitulo 8. St'-
nio, diz clle, as partt'S dt' uma acçào tiL' la! gt:i-
to l(t;adas c11trc si, qut: tirada ou transposta 111/ltl,
fique tudo destruido ou mudadv.
São os episoclios que na epopêa constituem essas
partes da acção, rigorosamente falando .• ·\ssim
o julga Dacier e a Encyclopedia: assim o ct·ia
\r oltaire dizendo que os episodios similham aos
membros de um corpo robusto c bem affigura-
do. Cm episoclio, pois, que sendo omitticlo dei-
xa a acção inteira, inserido nella destruirá a
sua unidade. l\las ficará, porventura incomple-
ta a acção da Iliada se lhe tirarmos o longo tre-
cho da dcscripção das- naus gregas e o muito
mais longo do funeral de Patroclo? Cremos
que não, e que portanto se. pela poetica de
.._\ristoteles julgarmos a lliada, d'ella desappare-
ccrá a unidade.
Diz mais o critico grego, no começo cl'cste
capitulo, que a iuentidadP do heroe principal
nunca Pstabeleccrá a unidade, quando as aC(/ICS
forem multiplices. ( >ra, quem é que unP a pt·i-
U:\111.\I>E
53
meira metade da Eneida á penas
o heroe. ·1 mio é novo depois da sua chegada á
Italia. :\ovas são as aventuras, novas são as per-
sonagens sc>cundarias. E' o mesmo \Tirgilio quem
nos indica a duplicidade ela acção do seu poe-
ma .. \ exposição da Eneida estava plenamente
desenvolvida no fim do sexto livro, e assim,
logo no principio elo setimo, elle nos avisa que
vai contar uma nova ordem ele coisas
1
Po-
demos, pois, affirmar afToitamente que na t·:nei-
da falta a unidaqe.
Quanto aos Lusiadas nada é preciso dizer.
Salta aos olhos que a historia elos do7e de Iil-
glaterra, o assassínio ele n. Ignez, teem tanto
com a acção elo descobrimento da India como
com a da Oclyssea.
Todos acham bellissimo o nriando furioso,
ainda ninguem o achou uno. 1\ clistincção de
poPma heroico, de poema romance, ele Dubois,
Fontenelle, e de -:\Ir. Lemercier nada mais é do
que a impotencia absoluta de applicar a certas
producçües as regras da antiga poetica .
. \ Jerusalem libertada é o poema que mais
parece ageitar-se aos preceitos classicos pelo que
toca á unidade. Entretanto qual é a acção-do poe-
ma? _ \ conquista de Jerusalem : e acaso condu-
1 _,[ajor mihi rerum nascitur onlu.
:\Iajus opus mo\·eo-í. -l -1·
TOMO IX
I C' I. 5
Ltna o episoclio de (Hindu e Sophronia para o
seu exilo? Certo n<.io . .Além d'isso, a acçào da
_krusalem conquistada é a mesma ; o poeta mu-
dl)u varios episodios c ella continuou a ser a da
Jcrusalcm libertada, apc•sar de .1\ristoteles.
\rejamos, segundo o nosso modo de julgar,
se uma idéa geral c indeterminada p6Je estahe-
lt-cer a unidade na serie de acçües, de quadros
e de descripções que constituem estes cinco
poemas.
Xo tempo de 1 Iomero a historia grega apre-
sentava só um grande feito, a conquista e ruina
de Traia. Uma grande idéa occupava a mente
do poeta e esta idéa era a gloria da Crecia.
Foi, pois, á roda d't·lla que llomero agglomc-
rou as variedades que lhe diziam respeito. ( >nde
existiam ellas? L" nica mente na memoria das ba-
talhas pelejadas juncto aos muros de Troia: mas
uma parte d'essa historia era vergonhosa para
os gregos. Ou admittamos qualquer elas opi-
ni•->es referidas por llerodoto acêrca da queda
d 'aq uella populosa c i c l a d ~ , ou as narrações ele
Triphyodoro e do supposto Dictys, a nocloa de
fraqueza, quando não de dolo, sempre parece
,. ir manchar os gregos. K este caso o poeta re-
pelliu todo o odioso da historia e approveitou ou
inventou o que dava um som unisono com a
idéa que o dominava; assim, na lliada tudo a
55
ella tende; assim, o poema começa quando a
blta de 1 \chilles deixa fulgir o valor dos outros
heroes e acaha quando a morte de J leitor de-
\·ia, bem pelo contrario da verdade historica, fater
caír Troia c dar a ,-ictoria aos gregos. I >a era
a mais gloriosa da sem i-barbara ( foram
os successos de poucos dias que Homero esco-
lheu para objecto de seus cantos ; mas <:stes
dias eram os mais bellos d'aquella epocha me-
mcranda; nelles tiveram Jogar os brilhan-
tes feitos de guerra tão acintosa, e o poet.1
ainda os tornou mais admiraveis com os traços
\·igorosos do seu pincel divino.
( >s caracteres elos heroes da Iliada sào todos
agigantados e o valor d'Pstes rude, como o po-
dia conceber a mente de I Iomero; mas os ,·a-
lentes de Troia são s<:mpre homens, em quanto
PS da (;recia são muitas vezes semi-deuses. O
mesmo I-leitor, que hoje 1 nós pelo menos) acha-
mos a personagem mais interessante da lliada,
e que parece \'ir destruir a· opinião de que a
unidade exista neste poema por uma idea vaga
<la gloria patria, é uma prova do principio que
estabdecrmos. Para julgar I fomero é preciso
collocar-nos no seu tempo e no seu país. O
amor paternal e conjugal por que I leitor nos
interessa, n<lo era para os antigos, sobretudo
nos tempos primiti,·os, o mesmo que para nós.
l'olESI.\
. \ de l;raço e d<· coraça., c·ra a pnn-
cip;tl virtude, l' os atrl'dos nwrac'S <·st;n·am ap,·-
nas esboçados nPssas sociPdadc·s nascentes. l'or
isso Pile dc·via interessar, n;-to dc·spcrlindo-se de
. \ndromacha, combatendo por uma
cansa que n·putava injusta, mas qn<' S<' tinha
tornado a da patria; não por suas virtudPs do-
mesticas, mas JWias virtud(•S publicas <' por seu
valor quasi cgual ao de ,\chilles.
Foi por causa d'este que I Tonwro desenhou
tão amplamente o caracter de I leitor. Com
etfeitn, aquelle guerreiro que viu fugir ante si
I >iomedes, o vencedor de um nume
1
, cai ven-
cido c morto aos pés de Achilles. Quanto este
dPvia, parecer grande entre um povo que olha-
va o valor e a força como o dote mais digno
do homem, c qual seria a ufania e a gloria de
um país cujos filhos assim sobrelevavam os nu-
mes .
. \lguem crc dever notar o haver-nos I lome-
ro pintado . \chilies arrastancl0 o carlaver elo S<'U
inimigo á roda dus muros de Troia. Parf'ce-nos
t:unbem nascer isto de se julgar os antigos por
nossas actuaes idéas. N{)s vemos que para a
milior parte da_s virtudes sociaPs ellcs não ti-
nham divindadPs particulares; comturlo havia-as
I llia<l., S- n.
DIIT.\<;.\OJ - t:I'.LLO -CNJIJr\DE
57
para a amit.ade. Certo é, pois, q uc f'Sla nuhrc
paixãó tinha preço e valia entre elles. Esque-
çamo-nos das virtudes que deVf•mns unicanlC'n-
te ao Christianismo, constituamo-nos gregos, c
vejamos qual de nós não faria o mesmo no mo-
mento da vinganç::I. e da colera. Sõmente aquel-
le desgraçado que não possuísse um amigo.
Se assim examinarmos toda a Iliada, achare-
mos sempre a idéa de gloria patria servindo de.
nó a este admiravel poema que hoje se despre-
za por moda, crendo-se que nisso consiste o
romantismo. lemos numa enfiada de versos,
de que não era possivel ler vinte sem b,lcejar,
que 1 Iomero fazia dormir. :\o menos quem as-
sim calca aos pés o velho trovador da Grecia
não corre o risco de lhe acontecer o caso do
soldado lilipuliano que metteu a lança pelo na-
riz de Gulliver. I lomero já não espirra. (jue
pensariam taes criticos poetas se lhes dissessem os
que a Odyssea, quanto ás imagens e mesmo ás
fórmas, tem muitissimos caracteres proprios da
poesia romantica? Certamente não nos enten-
diam. é em chamar ridículo ao que é bel-
lo, nem em destemperas que deve consistir a
ingenuidade das modernas opinit)es litterarias. t
"\Ias passemos a \?irgilio.
1 O nosso socio o Sr. Castill10 tambt:!m o seu
ss
PI IFSI:\
Foi na epocha d'cste que Roma ctlu cm terra
c que ( 'epias se assentou sobn" uma campa da
patria. Toclos sabem a historia dos f(·itos roma-
nos e a gloria que os cerca: mas a gloria aca-
ba onde a escravidão começa. Xesta transição
apparPceu \rirgilio que, talvez exemplo unicn,
sabia nwndigar as migalhas de um tyranno e
nutrir idéas generosas. As reconlaçües da re-
·publica, as memorias de um povo que já não
existia reclamavam as cançiJes do poeta. Esta
idéa o agitava e ella gerou a Eneida. Porém o
cortesão não podia no palacio de _ \ugusto, nos
hanq uetcs da prostituição, ao som dos grilhües
de Roma, entoar um hymno em que a lembran-
ça da liberdade se associaria a quasi todas as
imagens, a quasi todos os sentimentos. l'or ou-
tro lad·> a grinalda dos louros romanos partia de
urna caverna de salteadores: nascia de um pon-
to negro como o em que find<wa. Este podia
illustrá-lo \"irgilio; uma messeniana
1
e um pu-
nhal bastavam; mas e ~ l e queria gozos e repouso:
..:\ugusto ameigava-o, c o n:1anhoso ~ l e c e n a s
quinlwm de critica na referitla moxinifatla romantica.
Cremos piamente que elle riu tanto como teria ri«lo o
hom •lo Homero se fosse nosso contemporaneo.
I .\llu«limos :ís :\Iessenianas fle B:nthelemy e ás de 1\Ir.
Dela,·ig-ne. de que tah·ez as primeiras «leram a i«léa. Das
ultimas lembránio-nos principalmente tla de \\"aterloo.
'
L\IIT.\Ç10- RELLO - l'XIDADE 59
dava-lhe os meios de satisfazer seus vergonho-
sos appelites. O mal denominado epicurismo
que dominava na cidade eterna c que tanto
contribuiu para elia deixar de o ser, o fazia
olhar a vida feliz como um bem que se devia
conservar mesmo á custa ela moralidade. Tudo
contribuiu para envilecer \Tirgilio, e notemos
que até no seu estylo encontramos a prova d'is-
so .• \quelle lavrado, aquelle mollt: atque
que I achava em seus versos não sabe-
mos o que tem de analogo ás palavras suaves
e attraclivas de um homem abjecto quando
adula o sen patrono. Porque haverá tantas si-
milhanças entre- as pessoas do tempo de Luís
x1v que dava pensües aos poetas, e as do seetllo
de .-\ugusto que lhes clava lambem de comer?
Porque serão elles nestas duas epochas modelos
ele perfeição, pelo que toca ao bem obrado d.o
estylo, sempre em proporção de seus serviços e
da sua frequencia nos passos dos Reis e dos
grandes da terra ?
Xa impossibilidade de cantar os romanos,
quando dignos d'este nome, súmente restava a
\·irgilio um meio de satisfazer essa icléa de glo-
ria patria, cl'esse Ueus que o agitava, o collo-
car um monumento espantoso no berço obs-
curo ela sua nação : elle o fez, e a Eneicla foi
este monumento. Xão tendo como Homero ao
<"ío
l'tli·.S(A
nwnos um pe11ueno cahl·ual de r('alid.ul(·, elle
arrancou da phantasia todo o seu edificio, edi-
licio o mais bem acahaJo que neste genero co-
nhecemos. Porém observemos que elle dese-
nhou os caracteres dos seus heroes mui diffe-
rentes dos da Iliada. ( )s d'esta são rudes mas
sublimes, os da Eneida são macios e cuidados,
mas geralmente mesquinhos. :\o poema grego
surgem, interessam individualmente os L\iaces,
I )iúmedcs, l'lysses, Agamemnon e _tantos ou-
tros; no latino os heroes secundarias deslizam
pelo poema, como as turbas de Roma desliza-
vam por uma existencia sem significação de-
baixo dos pés do Cesar. De todos os troianos,
acabada a leitura da Eneida, apenas nos recor-
damos do ftlho de _'\nchises: _ \chates, Gyas,
Cloantho sumiram-se como sombras. () mes-
IlJO Eneas tem um cert-> ar hypocrita que des-
agrada aos homens singellos e o colloca a seus
olhos bem longe de . .:-\chilles. Fui a influencia
do sendo que tez \"irgilio, nesta parte tão
inferior a I Iomero: se o poeta tivesse vivido
no tempo dos velhos romanos, nós não possui-
riamos hoje a mais agradavel porção do 4.
0
li-
vro da Eneida. I >ido não teria sido seduzida e
abandonada, embora isto contribua, e muito,
para satislàzer a idéa principal do poeta. Uma
immoralidacle tão vil, o ludibriar a hospitali-
DII L\Ç.\0- BELI.O-l :\'ID.Hll<: 61
dade e a fraqueza sl> podia caber a um heroe
inventado na epocha dissoluta da queda da re-
publica romana. \fóra isto nós não podemos
deixar de admirar Eneas ; e apesar da corrup-
ção do seculo e da propria, \Tirgilio soube ain-
da dar um illustre fundad•)r á sua patria. De
todos os restos ,ele Troia só cl'elle precisava o
poeta, assim é que só elle resplandece no m ~ i o ,
dos seus troianos, emquanto os guerreiros ela
I Iesperia, Turno, Pallante, Lauso, Camilla, teem
muitas vezes uma côr homerica. Estes eram fi-
lhos da Italia e a Italia era o solo que viu nas-
cer \Tirgilio. Quando \T oltaire, acabando de ler
a Eneida, achou que Turno interessava mais
que Eneas, disse que apesar ela falta ela unida-
de de interesse não ousava reprehender \Tirgi-
lio. ~ e m havia de quê: e unidade ele interesse
tem tanta validade como a de acção. (_Jualqner
elos dois que interessasse principalmente, a icléa
geral estava preenchida. ~ o s bellos dias ele glo-
ria de Roma, todos os povos elo Lacio estavam
fundidos no romano e as suas recordações nas
cl'este. Escondesse o filho ele \r enus o covil de
Romulo com o seu escudo celeste, o fim de
sua existencia estava satisfeito, e o poeta podia
na serie das yariedades buscar as que bem lhe
parecessem para com ellas tirar um som accor-
de com a idéa que o dominava. Segundo nos-
P• IESL\
sn modo dP pensar em lilteratura, muitos dc-
f,•ilns que lcem sido assacados ;í Enc•ida n;l.o
existem nell.t. Em nenhuma coisa ofl(·ndeu \"ir-
gilio os principios eternos do helio, spn;1o quan-
do o seculo com sua peçonha pôde mais do
que o genio extraordinario do poPta. Elle não
leria se tivesse sido livre .
.. \ ordem das idéas exige que desprezemos a
das ( "ircumstancias ha, como o leitor Vf'-
r.í, que nos obrigam a falar düs Lusiadas em
seguimento aos dois grandes poemas da anti-
guidade, e a unir as rctlexücs acêrca do Or-
lando ás que temos de fazer acérca da Jerusa-
lem. Os I .usiadas são o poema onde mais ap-
parece a necessidade de recorrer a· uma idéa
independente da acção para achar a impres-
criptivel unidade, e o seu titulo nos revela logo
a mente de Camües. :\ão foi, quanto a nós, o
descobrimento da India que produziu este poe-
ma : foi sim a gloria nacional. Esta idéa bel-
Ia, pura, immensa, como a alma de Camües,
gerou os Lusiadas. \ unidade, que procurada
de outro modo não póde encontrar-se neste
poema, se logo encarc1ndo-o por esta
maneira. Era o feito mais espantoso da histo-
ria portuguesa que servia de frontispicio ú lon-
ga C•)IIPcç;1o de maravilhas que ella offerecia;
foi por alli pois que rompeu a canção nacional
que enttlOU ( ·amC>es; mas todas as reC(lrdaçt•f'S
de Portugal, mesmo as suas deheis esperanças,
cstàn consignadas nos f .usiaJas. Xào é um fa-
cto que elle cantou; são mil factos, mas unidos
todos por um ponto, a idéa do renome portu-
guês. Camües lançou mão de nossos annaes,
rasgou e maldisse suas paginas negras, e arro-
jnu o resto á eterniJade. _ \s dilferentes feiçl>es
moraes traçadas no seu p:Jema teem uma indi-
vidualidade que não cede, em nossa opinião, á
das personagens da Iliada ou rla Jerusalem, mas
todas com um ideal eminente de bello ou de su-
blime. l\lucos sentimentos houve ele que o poeta
não revestisse algum de> seus compatricios, e
se ::\Ir. de ChatPaubriand accusa Tasso de ter
esquecido o mais puro de todos elles, o da
maternidade, não podPria dizer o mesmo do
nosso Camões, que por este lado, despindo-nos
de qualquPr prevenção nacional, não podemos
deixar de chamar divino. Se nisto ningu<:>m o
excede, talvez ninguem o eguale em agglomerar
num quadro selvas tão densas e variadas de
imagens e sentimentos. Diz ::\Ir. J. n. Say que a
descripçào d ~ 1 partida dos portugueses para o
tlesc lbrimento da lndia é mais do que a nar-
ração de um embarque. Xós dizemos que pouco
achamos neste genero que assimilhar-lhe.
Chegando a este trecho dos Luziadas, cremos
POESIA
csl;tr Vl'ndn ondear rM praia do J{esl!·llo um
tropel immenso de pessoas de todas as condi-
ç•-,es e f'Uades; cremos descobrir no gesto, nas
cxpressl>es de cada urna rl'cllas, a multidàll de
idéas, uc paixl1es que tal espectaculu devia ex-
citar, c quando ellas acabam de passar dean te
de nossos olhos, um velho l;í. surge e fluem da
sua b,1cca as palavras da sabed.,ria. Xús o escu-
tamos: a vida exterior nos esquece: o ancião
nos tez pensar sobre a vaidade ue nossas pai-
xúes, sobre o nada de nossas esperanças ; e o
poeta terminando aqui e com arte summa um
canto do poema, é que nos vem despertar da
nossa meditação, abrindo o seguinte canto com
estes versos, que exigem uma expressão vaga-
rosa, similhante ao modo por que um homem
embebido em reflexües as deixa, e começa a
volver cs olhos para os objectos que o rodeiam:
Estas sot!t.:nças fat-'S o velho honrado
I rociferando estava, quando abrimos
_-\s azas ao sereno t: socega do
Yento, e uu p:1rto amado nus partimos.
Tal é sempre um poeta livre celebrando as
memorias ele uma nação illustre. Tal é Camües
a queu1 não pôde envilecer nem a desventura,
nem o ar ua côrte de D. F ~ à o III e de seu illu-
L\trL\ç_\•) -r:ET.t O- l":'\ID.\DE
elido e absoluto neto, ar ja apPstado pela escra-
vid;1n. ~ \ssim talvez o unico dt>fl'itu dos I .usia-
das SE'ja o seu ahsurdn mara\·ilhoso, que ellc
dPveu ao século, e de que mesmo poderiamos
tirar um argumE'nto a favor da immensidade dn
gcnio ele Camües, se o espaço d'E'ste artigo já
demasiado longo no-lo pcrmittisse.
~ \ admiraçàÕ e o respPito que lhe consagra-
mos nos fez desviar um tanto do nosso objecto:
mas seja-nos isto desculpado. Só por Camões
n<ís os portuguPses seriamos grandes. Oppro-
brin ela Europa nos tempos modernos, era de-
baixo da sua corôa de louro e elas de antiga
gloria, que já começavam a desfo_lhar-se quan-
do elle a cantou, que nós nos abriga\·amos para
ainda entre os estranhos ousar dizer o nome
de nossa patria. E esta com que retribuiu ao
poeta? Xem com um amigo. O seu .. \ntonio
era filho ela .. \sia. E em nossos dias levantou-
se um verme ela terra para insultar sua memo-
ria. I >eshonra eterna ;íquelle que prE'tendia des-
pedaçar-nos nosso ultimo titulo de nohrPza,
nosso ultimo consolo no meio da infamia e das
desditas!
~ \riosto e Tasso não tinham patria, porque é
não tê-la o nascer numa terra de servos. 1 )'este
modo as duas idPas que dão unidade a seus
poemas são duas idí-as gPraes mas estranhas
(i()
l'tlESI.\
como t;ws ;í. Itali;t,-a cavallari.t <· as cn11.adas .
. \ segunda parece conter-se na primeira, mas
conside-rada em si é tão gc·ral c tão imleterminada
como (•lia. ()que(> a cavallaria? E' o C'Spirito 1m-
mano modilicadtl de CC'rtn modn. () que são as
cruz;tdas? ~ \ resposta dtl ( "hristianismo á terri-
vt>l pergunta que lhe Íll.(·ra o islamismo quan-
do os sarracenos invadiram a ltalia, a I respa-
nha e uma parte ua França. ~ J u a l uC'. nós
dominará a terra? Esta era a pergunta: a re-s-
posta fni o som das armas nos plainos de .:\s-
calnn, o estrondo das portas ele Jerusalem es-
talancln aos embates elos arietes clc> CoelofrC'do.
Incerta como a pi?rgunta elo mahnmetismo foi
a rPplica da cn11. \Tagas com•l o seu rC'stiltado,
estas invasc-ICS longinquas teem uma certa ma-
gniticencia moral, digamos assim, uma certa
demasia de enthusiasmo religioso, de generosi-
dade c de valor que esses gélidos filhos uo se-
culo XVIII, esses cOI11J)iladorC's e cliscipulos da
Encyclopedia escarneceram, porque eram inca-
pazes de sentir profunuamente. o beiJo e su-
blime cl'esse todo historico das cruzadas. Foi,
pois, a idéa geral ele .'\riosto uma epocha bri-
lhante; a de Tasso, a lucta e victoria da cruz
contra o crescente. _ \s variedades relativas á
primeira, eram em muitissimn maior numero elo
que as relativas á segunda; assim o Orlando é
11\11 l"-\Ç,\0- J:EI.I.O u:-;IIHDE
mats variado do que a _krus.dcm . .\lultilonn<>,
como a vida de um cavallciro, a iJade média
se apresentou a \riüsto ora sublime, ora hella,
ora ridicula nas suas variecla<lC's immensas, c ~ e
o Orlando tem muitas ve1es um caracter de
verdade objectiva, iss,J, em vez de servir de
argumento a fav,1r da imitação, unicamente
prova haver-se muitas vezes quasi realizado o
ideal nesses tempos heroicos das naçúes mo-
dernas.1 Faltam a Tasso a miudo as côres lo-
caes, a verdade dns costumes, porque a sua
grande idéa tinha um lado extremamente mo-
ral, e nos costumes e no historico das Cruzadas
havia muita cousa em deshannonia com ella. ()
poeta substituiu tudo isso por ficç··Jes de córes
muito mais bellas, e a Jerusalem ficou sencln
um canto admiravel elevado em honra do chris-
tianismo e do enthusiasmo dos baixos tem-
pos.
Tasso respeitava as regras: a Jerusalem coll-
qui.l·tada foi o fructo d'esse respeito. Felillnente
a LibtT!ada já era publica: aliás o poeta perse-
guido pelos preceitos e p<.>los pedantes tPria
I Em um curso de litteratura como nós o concehe-
mos 1laria materia esta i1lea, aqui apenas ennunciada,
a dois capítulos interessantíssimos, o da theoria do ag-ra-
davel e o da poesia nacional, ou dos objecios da poe-
sia moderna.
POESIA
destruido a sua ohra prima p;tr.t nos deixar um
poema que ningucm hoje 10. Seria mais um mal
pnHhuido pelo littcrario; c apesar de
( e de Dureau Delamallr, nós folgamos
qm· tal não acontecesse. t
Passámos de leve na applicação de uma par-
te de nossos princípios aos cinco mais celebres
poemas da velha c nova Europa, porque não
era compatível com a brevidade o fazê-lo de
outro modo; por essa razão fomos talvez obscu-
ros. Ser-nos-ha porventura dado algum dia -
tractar (l'esta materia, f<íra de uma folha
dica: então mostraremos que esta nova theoria
não é tão horrível como agora parecerá a mui-
tos; nem se nos levará tanto a mal o nossa im-
pirclade litteraria,- quando, mais miudamentr,
fizermos surgir do cháos da antiga critica suas
cnntrarlicç,-,es e absurdos
"\Ias, pretendendo destruir o systema da es-
chola classica, não somos n<ís romanticos? .t\1-
guem nos terá como taes: cumpre por tanto que
nos expliquemos. i\a verdacleir2. accepçào do
1 E' curioso yer as ohsen·ações 1le Galileo acêrca da
J erusalem Iiherta1la, as quaes jaziam ineditas e foram
publicadas em 1 í93· assim como o é ler a dissertação
ele Durem1 Tlelamalle compara111lo as dnas Jernsalens, a
qnal yem no fim do 1." tomo !la Historia elas l'ru7a1las
de l\Ir. l\Iich:nHl.
J:EI.I.O-
termo ellc o nosso symholo; porém este sym-
bolo nad.t tem em rigor com aquillo ac0rca de
que havemos falado. Tractámos das fúrmas da
poesia. i\s modernas opinit)es dos verdadeiros
romanticos versam sobre a sua essencia. Ver-
dade é que a theoria do bello, que indicámos
apenas, dá a razão da maior parte d'essas mes-
mas opinioes, cujo exame nos absteremos ele
encetar. Diremos sómente que somos romanti-
cos, querendo que os portugueses voltem a uma
litteratura sua, sem comtudo deixar ele admirar
os monumentos da grega e da romana: que
amem a patria mesmo em poesia: que aprovei-
tem os nossos tempos historicos, os quaes o
(_ "hristianismo com sua doçura, e com seu en-
thusiasmo e o caracter generoso e valente des-
ses homens livres do norte, que esmagaram o
vil imperio de Constantinn, tornaram mais bel-
los que os dos antigos: que desterrem ele seus
cantos esses numes dos gregos, agraclaveis para
elles, mas ridículos para nós e as mais das vezes
inharmonicos com as nossas idéas moraes: que
os substituam por nossa mythologia nacional
na poesia narrativa; e pela religião, pela philoso-
phia e pela moral na lyrica. Isto queremos nús
c neste sentido somos romanticos; porém na-
quelle que a esta palavra se tem dado impro-
priamente, com o fito de encobrir a falta de
TOMO I:\ lül. G
;o I'OESii\
genio e cJe f;tzer amar a irreligi;hJ, a immorali-
dade e quanto ha r)(' nf•gro e ahjeclo no cora-
ç;1o humano, rHís dPclaramos que não somos,
nem esperamos sê-lo nunca. Kossa theoria fôra
primeira a caír por terra d<·ante da barbaria
cl'esta seita miscravel quP apenas entre os seus
conta um genio, e foi o que a creou: genio sem
duvida immenso e insondavel, mas similhante
aos ahysmos dos mares tempestum,os que sau-
dou em seus hymnos de dPsesperação: genio
que passou pela terra como um relampago in-
fernal, e cujo fogo mirrou os campos da poesia
e os ckixou aridos como o areal do deserto ;
genio emfim que não km com quem compa-
rar-se, que nunca o terá talvez, e que seus
C'xaggerados admiradorPs apenas teem preten-
dido macaquear.
Falamos de I1yron. é, com efTeito, a
idéa dominante nos seus poemas? Nenhuma ou,
o que é o mesmo, um scepticismo absoluto, a
negação de todas as idéas' positivas. Com um
sorriso espantoso, elle escarneceu de tudo. Re-
ligião, moral, afTectos humanos, mesmo a liber-
dade e a esperança foram seu ludibrio. i\ lei-
tura cJos seus poemas só produz, em geral, des-
coroçoamento ou antes desesperação. I1yron P.
o -:\Iephistnpheles de Coethe lançado na vida
real.- e crime, pudor e impudencia,
l"ITA<;Ãc)-I:ELLO- UNII>\IJE
i I
gloria c inlarnia, que montarn cm seus cantos
sinistros? 0-las o homem, ser immortal, pas-
3ageiro em um mundo transitorio, não nasceu
para o scepticismo, para um estado violente),
porque elle precisa crer, quando mais não tos-
se ao menos na voz esperançosa ou anwaçado-
ra ela consciencia: infeliz, pois, d'aquelle que ao
acabar de ler Byron não sente no coração um
peso insupportavel: a sua alma será tão escura
c tão vasia como a cl'esle poeta sublimemente
destruidor. I >e sua eschola apenas restará elle;
mas como um monumento espantoso elos pri-
cipicios do genio quando desacompanhado da
virtude. Dos seus imitadores diremos ~ ó que
cllcs farão com seus dramas, poemas e cançc-Jes
em honra dos crimes, que a Europa, volvendo
a si, amaldiçoe um dia esta Iitteratura, que ho-
je tanto applaude. Xossa prophecia se verifica-
rá, se, como cremos, o genero humano tende á
perfectibilidade, e se o homem não nasceu pa-
ra correr na vida um campo de lagrymas e des-
penhar-se pela morte nos abysmos do nada. Xo
meio das revoluções, na epocha em que os ty-
rannos, enfurecidos pela perspectiva de uma
queda imminente, se apressam a exgotar sobre
os povos os thesouros da sua barbaridade: em-
quanto dura o grande combate, o combate dos
scculos, os hymnos do desespero soam accor-
-.,
1-
l'llESI.\
lks com as lit"li-<'S morac·s; mas q u ; m d ~ l algum
dia a Europa jat.er livn· e tranquilla, ninguc·m
olhará sPm cnmpaix;io ou horror os desvarios
littPrarios do nosso seCLtlo. :\Iuitns nlf'smo não
PS <'tllf'ndPràn.
Origens do theatro moderno -
Theatro português até aos fins do seculo XVI
PANORAMA
1837

O rígens do theatro modet·no -
Theatro português até aos fins do seculo XVI
r> país onde primeiro appareceu a arte dra-
matica moderna foi a Inglaterra, se arte drama-
tica podemos chamar a espectaculos tirados de
passos historicos da Bíblia, sem invenção ou en-
redo, e só copiados litteralmente em discursos e
acções. Estas primeiras tentativas theatraes, a
que depois os franceses e italianos chamaram
mysterios, appareceram na Grà-Bretanha duran-
te o seculo XI. Os monges as compunhàm e re-
presentavam, e ainda no fim do sendo XIV ell<"s
pediam a Ricardo 11 embargasse os comedian-
tes de exercerem uma profissão que julgavam
ser um privilegio seu, porque ordinariamente o
objecto dos dramas se tirava do velho e novo
Testamentu.
Pelas muitas relaçües que havia entre a In-
glaterra e a França, parece que os o1ysterios in-
gleses não tardaram em introduzir-se neste ui-
tinw país. \ Jlortc Sau/a Cathl'riua, rq>re-
scntada na ahhadia dl' Uunstaplc, cm mil cen-
to e tantos, foi no seculo seguinte posta Je no-
vo em scena no mosteiro de Sancto . \I bano cm
França, e é talvez esta a memoria mais antiga
que temos da arte dramatica francesa. lJepois
esta continuou e cresceu, chamando-se ás
prophanas jogos ou rt:prcscutaçõt:s, e aos dra-
mas Sjcros mystcrios.
A Italia começou mais tarde, com este ge-
ncro de composiç(,es barbaras: mas, te'ndo pri-
meiro que nenhuma outra nação seguido o gos-
to da litteratura grega e romana, brevemente o
tomou tambem no theatro. Os dramas de :'\Ius-
sato compostos no principio do seculo XIV, e
cm latim, são E:::::diuo e Aclzilks, imitaç,-•es de
Seneca, escriptas com um tão falso estylo como
o do dramaturgo romano. Foi no xv seculo que
appareceram na ltalia os primeiros dramas vul-
gares: Lourenço de publicou a Rt.prc-
st:utaçào tÜ 5'. 7dào e S. Paulv, e Angelo Poli-
ciano deu pouco depois a sua tragedia intitula-
da Orpht.-'o.
Desde o seet1lo XIV appareceram dramas na
. \lemanha; mas estes nada mais eram do que
imitaçües dos 1ll)'Skrios franceses, e cscriptos
em latim pelos monges. Em meado do seettlo
xv foi gue verdadeiramente começou neste país
o thcatro nacional. I Ians-Folz c Rosemhlut com-
puseram diversas farças, que se representaram em
uremberg e Calmar: estas farças, obra de ho-
mens rudes, são um tecido de grassarias e in-
decencias apenas dignas de se rtcilarem diante
ela plebe mais desfaçada. Depois de I 500 é que
appareceu 1/aus-Saclts, a quem podemos chamar
o Gil \ricente da -\lemanha.
IIespanha, ou porque os arabes o intro-
duzissem, ou porque os hespanhoes o inventas-
sem, ou, emfim, porque muito cedo o imitas-
sem dos franceses, o drama remonta aos pri-
meiros tempos da monarchia. Sô, na verdade,
do principio do seculo xtv conhecemos a sec-
na hespanhola; mas restam memorias d'ella
1nuitissimo mais remotas, e pouco depois de
1200, diLem que appareceram dramas em Va-
lenciano. Do seculo xv ainda existem muitas
neste genero de lilteratura.
Essas primeiras tentativas clramaticas eram
forçosamente um tecido sem nexo, sem ordem,
e ridículo: os seus auctores se entregavam de-
senfreadamente a todos os caprichos de uma
imaginação fervente, e as producçües d'esse
tempo são em geral monstruosas e absurdas.
Rodrigo ele Cotta começou a dar alguma regu-
lariuade ao drama na comedia de CaliSto e
Jlelibca; mas a licença de seus quadros e ex-
j8 Ul{lt;io;:\lS 110 TIIEATRO l\IOIII-:R:\'0
pressúes mancha o merecimento rl' esta peça,
que depois foi algum tanto corrigida e accres-
centada por Fernando de Roxas, auctor de ou-
tra comedia - Proguc e Plzilomda. Apesar
de assim emendada a obra de Cotta ainda é
monstruosa. Uma serie de enredos amorosos e
de crimes se encruzam e estendem ahi através
de vinte e cinco actos. Entretanto a verdade
dos costumes e caracteres e a verosimilhança
dos episodios lhe deram celebridade; e com o
titulo de Lckstina ella foi muitas vezes reim-
pressa, traduzicla em diversas linguas e até na
latina pelo celebre Barthius. . \ reputação ela
Ct.Jts!úza fez nascer os imitadores; e novas com-
posições, com o mesmo ou differente titulo, mas
que estão longe de ter o merito da original,
surgiram brevemente em 1 lespanha.
l'or este tempo floresceram mais outros dois
auctores clramaticos, o de Villena e
Jnào ele la Enzina, que foi o principal modelo
do nosso (;ii Yicente. Os dramas do primeiro
foram representados em Saragoça na côrte ele
IJ. João n, pelo meado do xv seettlo; os do se-
gundo o foram lambem, na côrte de Fernando
e Isabel nos fins d'aquella mesma era.
Resurgiam então as letras gregas e romanas,
e a admiraçào do theatro antigo despertou na
I lespanha o geni(.l da tragedia. Oliva publicou
rfiE:\TRO PoRTU(;lJÊS ,\TJ.: .\OS ITXS DO SECULO XVI jC)
duas composiçlles tragicas -- 1-llcuba triste e
La veugau:;a de A.gamcmuou, as primeiras que
neste genero se escreveram na l'eninsula. Res-
trictas e acanhadas imitações dos gregos, ellas
se podem considerar como traducções livres da
Hécuba de Euripides e da Electra de So-
phocles.
Em Portugal é prova vel começassem as re-
presentaçües scenicas pelo mesmo tempo em
que principiaram na llespanha: mas nenhuns
vestigios restam d'esse tlwatro primitivo. O que
é certo é que já nos fins do seetdo XIV havia
em Portugal entremezes. Garcia de Rezende na
chronica de D. João n, narrando as festas que
se fizeram em Evora no casamento do principe
D .. \flonso com a infanta O. Isabel de Castella,
fala, em varias capitulos, dos cutrcmezes e rc-
prcscutaçoe1ls que nessa occasião se fizeram,
dando a entender pelo modo porque acêrca
fl'elles se exprime, que eram uma coisa bem
conhecida e vulgar, e não é impossivel que
ainda se nos depare algum monumento d'esse
nosso primitivo theatro.
Porém, o mais antigo drama que hoje conhe-
cemos é um de Gil representado em
I 50.2 na côrte de D. e (;il \-icente é,
no estado actual da nossa historia litteraria,
considerado como o fundador da scena portu-
gtH·sa, pela mesm.t rat.<lo porque o podemos
ler por inventor Jus rimallccs, ou xácaras, dos
quaes os mais antigds que existem são os que
clle -entr<>sachou pelos seus e o que
ell<> deJicou á morte de el-rei I>. \Ianoel.
( Vicente dividiu em quatro livros as suas
composições dramalicas, incluindo no primeiro
toJos os autos a que chamou de de·vaçdo, por
versarem em geral sobre objectos biblicos e re-
ligiosos; mas estas obras de dt"&}açào parecem
as menos elevobs de todas, se das outras exce-
ptuannos a comedia ele Ruboltl que pertence
ao segundo livro. Taes autos são na éssencia o
mesmo que os mysterios t';-anceses, como elles
cheios de indecencias, porém ao mesmo tempo
ricos de sal e chisles. () poeta abominava cor-
deai mente o clero, sobretudo os frades, e não
desaproveitou occasi[to alguma de os presen-
tear com chascos e cpigrammas. Os autos das
barcas, que são como continuação uns dos ou-
tros, e formam a trilogia, ou drama cm lres
quadros, mais antiga da Europa, constituem com
Jlojilla Jlclldt'S e Rubt'1lll a tlor do theatro de
(;i) porque talvez em nenhuma elas
scenas que os compúem deixa de patentear-se
Pm subido gráu o genio da comedia. Este poeta
reunia á qualidade de auclor a de actor ; e com
seus filhos representava os proprios dramas na
THE.\ TRc I POR J'Uf:UJ::s A n:: ,\OS FINS no SECUI.O X\.1 SI
côrte de I>. :\lanocl e de I>. João 111 •• \pesar de
o puPta morreu pobre, em Eyora,
dcp 1is de I 5 50 .. \s suas obras se imprimiram
Pm Lisboa em I 562, c muito mutiladas cm
I ma nova edição completa se publicou
ultimamente em I Iamburgo em 1833.
(;ii \ricente teve um filho do seu mesmo no-
nw, que dizem desterrou para a [ndia, levarln
pelo ciume de este o exced<>r no genio drama-
tico. _\o moço Gil se attribue a com-
posição de um auto intitularlo D. [,ui::: de los
Turcos.
Pelo meado elo seculo x \.I apparcceram em
Portugal varios poetas que mais ou menos se-
guiram as pisadas rlo auctor ele Rubuza. 1\o
infante n. Luiz se attribue o auto de D. Ihttlrdos,
que anda impresso como de Gil ·\n-
tonio H.ibeiro Chiado. tão conhecido na côrte
de I>. João 111 e de D. Sebastião. pelos seus
gracejos e agude7as, e pela propriedade com
que remedava a voz e o gesto de todos, nos
deixou dois autos assás engraçados, o da
fura/ ln<.Jell(dO e o rle r;onçalo Cha mbào . .:\a
Primâra parlt! dcJS Autos e Portu-
gut:::as, publicada em I 587, livro hoje bastante
rar,), se imprimiram sete autos de .t\ntonio
Prestes, que rcyelam espirito comico n;1o inf(-._
riclr pc)r\'entura ao de· (;i) \'icentP, cuja PS-
v-,
n_
ORIC:I•:NS llO TIIJo:.\TRO 1\lllllEI{XII
cola 1'resles seguiu, bem como Jorge l'inlo, au-
dl)r de N.odn:t;·o c e _lerem) mo ){ihciro
Soares, audor un .luto do Fisico, que vem
naquella coll<'cçào cuja segunda parle nunca se
deu ;í Pstampa.
( l nosso Jorge FerrPira de \. asconcellos, au-
ctcx dos dois romances da Ta<}o/a Rt.:do!ldtl, flo-
resceu lambem por estes temp:ls. Tres compo-
SIÇ•,cs suas nos restam, lul([[rajia, Eupl!rosina
e C!yssipo, a que elle chamou comedias, e que,
realmente, são antes dialogos do que dramas.
1\ellas teve por alvo Jorge Ferreira reunir os
proverbies. e annexins da língua ou a philoso-
phia popular do seu tempo, e por este lado são
cllas, na verdade, dignas da maior estimação;
mas se as quisermos considerar como dramas
bem pequeno é o seu merito.
Xo reinado ele D. Sebastião, o cego Baltha-
sar Dias, poeta natural da publicou um
grande numero de autos e outras obras, humil-
des pelo estilo, mas com toques tão nacionaes e
tão gostosos para o povo, que ainda hoje são li-
elos por este com avidez. Correi as choupanas
nas aldêas, officinas e as lojas dos artífices nas
cidades, e cm q uasi todas achareis uma ou outra
das multiplicadas ediç.-1es elos .• lutos dt' S .• l/ei-
xo, dt' S. Ctltllt'rilla e da J[is!oria da lmpt'1·atri::
,
Tll F..-\TRO PORTUGUI::s .\ rtL-\OS FINS DO SECI"I.O X \"1 83
Porciua, tudo obras d'aquelle po('la cego do se-
culo xv1.
Este era o theatro verdadeiramente nacio-
nal até o anno de 1Goo, em que floresceu Si-
mão auctnr do Cerco de Diu e da PtlS-
tora .. l!jêtl. i tas composiç•-)es cl' este genero se
perderam, ou não chegaram á no!!sa noticia,
como os _-\utos de . \ntonio Pires Gongc, de
Sebastião Pires: e de 1\ntonio Peres, que dizem
que escrevera mais de cem dramas. O auto do Fi-
dalgo dt: Flonuça, composto por João de Esco-
bar, no reinado de D. Sebastião, teve ness<; tem-
po grande celebridade, e se imprimiu repetidas
vezes: porém d'elle ainda não encontrámos um
unico exemplar.
Emquanto assim a e_;;cola formada por Gil
cente progredia, e, em nosso entender, se aper-
feiçoava. independente de estranha influencia,
poetas de grande nome trabalhavam por intro-
duzir em nossa litteratura as fórmas do tlleatro
grego ou romano. Francisco de Sá dC' ::\liranda
escreveu duas comedias intituladas 1 rillzalpau-
dos e Os Estraugâros, as quaes se imprimiram,
depois de sua morte, em I 560 a prime i r a, e a
segunda em I 569. X estas procurou elle seguir
::ts pisadas ele Plauto e T erencio, como o con-
fessa no dos Estra11gâros, e com efTei-
to ellas Sf' podem c.1mparar com as dos dni<> co-
mu..:os latinos. :\ntonio FPtTf'ira compt>s quasi
twlos mesmos kmpos as conH•dias /Jristo e Ciu-
so e a tragedia I J. dt: a segunda
que appareceu na Europa conforme a todas as
r<"'gras classicas, sen< lo a primeira a 5)oplwuisba
do p•>eta italiano Trissino; mas a de Castro é
superior; e nós a por um milagre dra-
matico, attendendo ;í falta de modelos moder-
nos e ao seetdo em que foi escripta. n illustre
Cam·-,es. tambem nos deixou, com o titulo de
autos, duas comedias-Os .. ·lmph)'triocus e Filo-
d,·mo, .elas quaes a primeira (- quasi uma traduc-
çào de Plauto. Desde esta ep.Kha o theatro
português fi•i caind1l e podPnws dizer que nun-
ca mais t•lrnou a restaurar-s<"'.
NMvellas de cavallaria Portuguesas
TOMOI:!L
PANORAMA
1838-1840
FOL. 7
Novellas de Cavallaria Portuguesas
Amadis de Gaula
~ \s idéas de honra, de valentia e de amor,
que occupavam quasi exclusivamente os espi-
ritos durante a edade média, reproduziram-se cm
tndas as fúrmas sociaes e instituiç,)es cl"aquella
brilhante epocha: o sentimento religioso tradu-
zia-se em cruzadas ou em guerras de seitas: o
do prazer em justas, torneios e caçadas, que
Pram imagem da guerra, ou em serües, onde
os themas inexgotaveis dos trovadores eram ou
amores ou armas: as leis apesar de terem a sua
principal origem no direito canonico e depois
no romano, lá abriam a liça aos combates judi-
ciarias: as habitaçües eram castellos, e os ador-
nos dos aposentos corpos de armas pendurados,
lanças, e razes, onde as mãos das donzellas ti-
nham lavrado a historia de combates. 1\este
predominio exclusivo de certas idéas, como es-
caparia a litteratura de ser dominada por ellas?
S8 • .. \S llJ·:C.\V\1.1.\RI\ I'IIRTl"I;UES\S
. \ssim, !!l-pois das cantigas dtlS trovadores,
vi<"ram os mais longos, os poemas e
as novcllas de cavallaria. Era esta a litteratura
d'aquPIIes scculos, nem outra podia ser : a ima-
ginação dos podas c novellciros não alcançaria
espraiar-se além das fiírmas da sociedade de
enitto; porq uc a litteratura de todas as c>pochas
sem exceptuar a nossa, não é mais elo que
um ccho harmonioso, ou um reflexo resplen-
dente das idéas capitaes, que vogam em qual-
quer el'cllas. '\s aventuras, os amores, os feitos
d'armas elos heroes elo Boiardo eram imagem,
vista através ele um prisma, dos homens do
xv scculo: a ancia de liberelacle elescomeelida, a
misantropia, os crimes, a incredulidade dos
monstros de Byron são o transumpto medonho
e sublime cl'este seculo de exaggeraçi)es e de
renovação social.
() prazo durante o qual os portugueses toca-
ram a meta do espírito ca valleiroso, e o con-
servaram em toda a pureza e vigor, prolongou-
se por obra ele um seculo, desde os ultimos
annos do cl'el-rei D. Fernando até o
cl'el-rei D. Affonso v .. Antes d'esse tempo nos-
sos avós eram demasiado rudes para concebe-
rem e reduzirem a inteira pratica a concepção
immensamente bella da cavallaria; depois d'elle,
eram muito cidadãos para SPrem cava!leirns. D.
\S IIE C.\VJI.L.-\RI \ l'OIUTC.il"ES.\S
. \h· aro az LL\lma<la caindo morto na batalha
de _-\lfMrobeira era o symbolo da ca valia ria
expirando nas paginas da ordenação affonsina.
:\"esta compilação indigesta e essencialmente
contradictoria da legislação ele tres sectdos, não
baslaya o ser inserido o velho regimento de
guerra português, emendado por jurisconsultos,
para salvar da morte a cavallaria, que outras
disposiçües d"esse codigo indirectamente assas-
sinavam. :\"isto como em quasi tudo o mais,
das actas das côrtes portugue5as anteriores a
I l. João 11 e da ordenação affonsin2, se póJe ex-
trahir toda a substancia philosophica da historia
dos primeiros tres seculos da monarchia.
Se o espirito puro de cavallaria dominou tão
brgo periodo, os ca<.:alkiros-moddos (permilta-
se-nos a expressão) foram só os que se crearam
na côrte de D. João I ; e a poetica ficção dos
Doze de Inglaterra pinta a epocha em que se
diz succedera essa aventura. Ca\·alleiros andan-
tes portugueses houve-os nos seculos anterio-
res; mas a cortesia, a louçainha, e a galantaria
que caracterizam a verdadeira cavallaria só as
amostra a nossa historia nos guerreiros inclo-
maveis, que na batalha de .-\ljubarrota forma-
vam o esquadrão brilhante chamado a dos
.... Ya morados. Eram estes guerreiros q uc faziam
aquelles votos dotodados, em demanda de cuja
::'olllVI•:LI. \S III<: C.\ V.\ 1.1..\ RI\ I'URTUC;Ufo:S.\S
execução muitas vezes perdiam a vida : eram
estes que, discorrendo pelas terras estrangriras,
ahi deixavam pcrenne memoria ele seus esfor-
çados leitos.
Foi na luzida côrte do mestre de . \ viz onde
achou a cavallaria ele toda a Europa o seu I lo-
mero cm Vasco de l.obeira. Como antes
d'aquclla houve poetas, assim antes cl'este hou-
ve romancistas ; como l lomero eclypsou a me-
moria dos cantos elos seus antecessores, assim
Lobcira fe.t esquecer as mal tecidas in vençües
dos mais antigos nr.Jvclleiros, e o de
Gaula é a primeira e a principal novella no ex-
tensissimo cablogo dos contos de cavalla-
ria.
Poucas memorias nos restam acêrca ele \Tasco
de Lobeira. Sabe-se que foi natural do
e armado cavalleiro por D. João 1 antes ele co-
a batalha ele 1\ljuharrota. Viveu a maior
parte da sua vida em Elvas, e morreu em
I -lO 3.
Escriptu muito antes da invenção ela impren-
sa, o "'lnwdis correu manuscripto até o tempo
dJ U. Joào v; porque os nossos antepassados
nunca tiveram a curiosidade de o imprimir. Fo-
ram assim escasseando as copias d'elle, c nos
ultimos tempos se havia tão raro que
apenas se lhe conhecia um ou dois exemplares.
NOVELL.\S DE C.-\V.\LLARIA PORTUGUESAS 9 l
() conde da Ericeira, testemunha acima de toda
a excepção, o viu, e o abbacle Barbosa diz que
o proprio original estava na livraria dos duques
de veiro. O fatal terremoto de I 7 55 fez des-
apparecer este monumento precioso da nossa
litleratura, e tudo nos incita hoje a crêr que se
perdeu para sempre.
:\Ias, se já não existe o original, existem as
versões d'elle, ainda que alteradas pelos tradu-
dores. Trasladado em hespanhol se publicou
em Sevilha :em I 5 IO. \-imos esta traducção,
de que ha um exemplar na hibliotheca publica
da cidade elo Porto; e bem sentimos não ter
tomado d'ella varias notas, que ele grande uti-
lidade nos foram para o que vamos dizer. Le-
mos ultimamente a edição de Garciorclonez de
:\Iontalvo, impressa tambem em Sevilha, em
1526, da qual nenhum bibliographo, que nós
conheçamos, taL menção. Segundo o abbade
Barbosa as edições do .. A.madis, vertido em
hespanhol, se repetiram .em I 539, I 576 e I 5S8.
Esta tambem appareceu em I 5-J-O, tra-
duzida em francês e accrescentada por Xicolau
de Ilerberay: em I 583 a publicaram os alemães
na sua lingua; e Bernardo Tasso, pai do gran-
de Tasso, a reduziu em it<tliano quasi por esse
me3mo tempo, fazencl0 um poema riquissimo ele
versus pomposos, e ... de clormicleiras. Esta ac-
NOVEI.I..\S III•: l".\V.\1.1.\RI \
ccitaçào unaninw das diversas naç,-,es é o maior
elogio que se pqJja fazer á obra do nosso I .o-
beira.
<) ·lmtldis, como hoje o conhecemos, na an-
tiga versão lwspanh·,Ja, consta de quatro livros,
o ultimo dos q uaes foi grandemente alterado
por ( segundo ellc mesmo diz: • Cor-
rigi palavras do prologo·) estes tres livros
Jo que por culpa dos máus escriptJ-
res ou c•Jmpositores mui corruptos e viciados
se liam, e trasladt'i e emmendei o livro .-t-.
0
>>
Estes quatro livros, traduzidos tambem em fran-
cês, tiJram continuados por diversos auctores,
constando hoje a obra ele vinte e quatro.
Send1) impossível dar uma idéa do lmadis
de Gau.a, teia immensa de aventuras, que ao
modo das do .:\riosto formam um labyrintlu
inextricavel, buscaremos ao menos dar a conhe-
cer o tempo e o logar da acção, e o seu prin-
cipal actor, com a brevidade a que nos cons·
trangem os limites do Panorama .
. ·\ epocha escolhida pelos romancistac; de ca-
vallaria nella collJcarem os seus heroes
fabulosos é indeterminada em todas as novellas .
. \ elo .... --lmadis, ainda que bastante incerta, é
menos vaga. O lwroc viveu muito antes doce-
lebre . \rthur ou ..:\rtus, rei de Inglaterra : mas já
quando este país e o de França eram christã0s.
::\IIVELLAS DE L\VALLAH.I:\ l'URTüc;n.::;,\S
E' o que se lc no 1.
0
capitulo do .lm,ulis, e
sendo assim este guerreiro floresceu no VI ou VIl
seculo; e como a mai!)r parte dos romances Je
cavallaria, fj ue ainda e'\istem, versam sobre a
vida dos seus imaginarias descendentes, pode-
mos tambcm para elles estabelecer, ainda que
impPrfeitamente: uma especie de chronologia.
O theatro em que se passam as aventuras de
de G.ueh, é um theatro quasi tama-
nho como o mund!) conhecido no tempo de L>.
João 1. U heroe e os mais cavalleiros seus con-
temporaneos cnllavam mares E:xtensos, peregri-
navam centenares ele leguas, com a mesma ra-
pidez e facilidade com que nós fazemos visitas
dentro de Lisboa. Esta commodidade aprovei-
taram-na tuclos os novelleiros que vieram de-
pois de Lobeira; e para as distancias que seria
incrível fazer correr em curtíssimo prazo a um
cavalleiro, lá estavam as magas e os encanta-
dores, especie de espada de que o
escriptor sempre tinha á mão para cortar todos
os nós gordios que embaraçavam as narraçücs.
:'\ào nos cabendo neste Jogar tudo o que te-
mos de diLer acêrca do o deixaremos
para segundo artigo, continuando nos subse-
quPntPs com a historia das outras non·llas de
c a v aliaria portugtfesas.
o ~ :-Jtl\'Et.t..\S 111-: c.\V.\T.J..\1{1 \ p,,I{TU(:uFs.\s
ll
Amadis de Gaula
!, Continuação)
J 'romcttemos no antecedente artigo dar uma
brevíssima idt-;a d'esta ·primeira novclla de caval-
laria: cu:npri-lo-hemos aqui, tocando depois um
ponto em que de proposito deixámos de tàlar,
e vem a ser a célebre questão acêrca de saber
se esta novella é obra de um auctor português,
hespanhol, ou francês. Todas estas tres naçües
a pretendem para si; e na contenda os portu-
gueses parece estarem peior que os seus adver-
sarias, visto já não existir o original. ~ I a s , ao cabo
são Piles que teem razàn, segundo nosso enten-
der; e por isso não duvidámos de attribuir o
A madis a Vasco de Lobeira.
() rei Perion reinava na Gaula (França): o
rei (;arinter na Pequena Bretanha, hoje a pro-
víncia de França d'este nome. Levado pelo
desejo de conhecer Carinter intenta Perion
uma· louga viagt-·m
1
; e com efTeito o encontra
numa caçada; dão-se a conhecer um ao outro,
I Livro I". capitulo 1°.
llE C.\V.-\LL.\RI.-\ POR1TGUESAS 95
e Periun é conduzido á córte do seu novo
amigo. Tinha este uma filha chamada Elisena,
que se namora ele Perion, o qual d'ahi a
pouco parte para a c;aula, deixando-a grávida.
Elia para esquivar-se á infamia entrega o fru-
cto dos seus amores á mercê elas ondas, encer-
rado em uma caixa. Foi este ..:\madis. Encon-
trado por uma barca em que ía Gandales,
cavalkiro escocês, este o salva e cria com seu
filho Gandalim, depois escudeiro de A.madis.
( )s dois moços são levados á córte de Langui-
nes, rei da Escocia . .:\qui viu a I\madis el-rei
Lisuarte, que de Dinamarca yinha reinar em
Inglaterra, o qual deixou na côrte de Langui-
nes a sua filha Oriana. Foi então que começa-
ram os amores d'esta princeza com
que são o principal ohjecto ela novella. \maclis é
reconhecido por seu pai Perion, já casado com
a filha de Garinter, e cresce em poder e reno-
me. difficuldades se alevantam para elle
chegar a possuir Oriana, as quaes vence com
repetidos actos de generosidade e valentia. Em-
fim o romance acaba ele um modo incompleto
com os trabalhos que nos seus ultimos annos
cercaram a el-rei Lisuarte.
E' esta, em summa, a materia que enche o
volumoso romance de novella cheia
de muitas paginas fastidiosas, mas lambem de
muitas que grandenwnte E-xcitam a curiosidade.
< > cstylo cm que está escripto é o de uma ve-
lha chronica do seculo xv, c notamos nclle
uma grande similhança c0m os cscriptos do pai
da nossa histlria, o singelo chronisla de Joào I,
Fernào l.opes, que tantas vezes se mostra mais
poeta que muitos que se arrogam este titulo.
Traçado um leve eshL1ço da novella de ·lma-
dis dt: r;,rula, segue-se tractar a questão de sa-
ber se a d:'vemos attrihuir a um escriptor por-
tuguês.
Primeiro que tudo, é de notar que a tradição
constante cm Portugal foi sempre 11uc ú .. -lma-
dis fora composb) por Lobeira. :\ntonio Fer-
reira e o dr. João de Barros, que escreveram
no seculo xv1, nã0 duvidam dá-lo por certo: o
conde da Ericeira numa conta dada á acadP-
mia de histori;t, de certa collecçãv ele livros que
Jndava examinando, diz que ali se achava um
manuscripto do Amadis, sem que sobre isso
faça admiração ou n·paro; o que parece provar
que naquella academia nenhuma duvida havia
acerca da existencia da novella, no original
português. :\(as nãl) era s6 n,)ssa esta opinià•J :
a maio:- parte dos escriptores hespanhocs con-
vem em attribuir a Lohcira o madis de
Pretendem os ti·ancesf's (não todos os que na
materia teem cscripto) que esta novella fora
lraduLida em hespanhol <.lo idioma piGtrdo, e
J lerberay diz a vira nesta lingua: mas isto na-
da prova. impedia que os franceses tra-
du7issem o original de J .o beira? \ outra objec-
ção contra nós é ter feito o auctor os seus he-
roes franceses e ingleses; mas isto tambem nada
prova: por que prova de mais. ( )s ingleses te-
riam ainda mais razão para pedirem a gloria
cl'esi.a obra, visto. que, apesar de ser francesa a
principal, a maior parte dos acon-
tecimentos põe-nos o auctor em Inglaterra, e
quasi todos os cavalleiros nota veis são d'este
país, á excepção de .\maclis e seu irmão Ga-
laor. O certo é que Lo beira, lendo vivido no
tempo de el-rei I). Fernando I e de n. João I,
tinha visto as proezas que em Portugal obra-
ram os cavalleiros ingleses, a quem devemos os
progressos que então fizemos na arte da guerra.
I )evia elle fazer portanto alta idéa da ca vallaria
d'aquella nação. :\ada havia mais natural do
que fazer da Inglaterra o theatro das façanhas elos
seus imaginarios heroes. Como, porém, o agente
principal de todos os successos devia ser o
amor, naturalissimo era que o auctor buscasse
um principe estrangeiro que viesse tornar bri-
lhante a côrte inglesa, com os seus amores pda
dama principal, a filha de Lisuarte, que não
poderia aliás corresponJer á affeição de um
suhdilu de seu pai. Eis a radto obvia p
é francês .
.'\lem d'e::;las ohservaçl>es ha uma principal,
que ainda ninguem, que n(>s saibamos, se lem-
brou de fazer: o examinar em si a novella,
para ver se das st1as proprias entranhas se po-
dia arrancar a certeza da sua origem. Se isto se
tivesse feito, a questão estaria ele ha muito de-
cidida.
Citámos mui de proposito no primeiro artigo
as palavras ele Garciordonez, que diz emendara
os tres livros de Amadis, que andavam vicia-
dos, e trasladara o quarto. Aqui o verbo !rtlS-
ladar, é claro que não pôde sig-nificar senão
traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados
que a obra não era originalmente hespanhola.
Seria francesa?- I )izemos, sem duvida alguma,
que não. Perion encontrando Garinter diz-lhe
que viera de mui rem0tas terras para o ver. Era
possível acaso que um escriptor francês fizesse
o rei da Pequena Bretanha desconhecido do da
França, e pusesse na boca d"este um tão des-
compassado erro geographico? Além d'isto Pe-
rion e Lisuarte reunem córtt:s, nos casos difficeis
e circumstancias importantes: nestas côrtes ar-
parecem, não os barões das antigas assembleas
feudaes ela Inglaterra e França, mas os ricos-
ltomots e 11011lt'IIS-bons elas- côrtes pm-tuguPsas.
NUVELI..\S DE C:\ V.\LL.-UUA PORTU<;UESAS ~ ~ 0
Emrlm o auclor descreve a passagPm do c . .tnal
de Inglaterra como uma viagem de nove dias
com vento favoravel. \s frequentes relaçües de
guerra e de paz entre a Grã-Hretanha e a Fran-
ça permiltiam porventura que ignorasse um
escriptor francês a distancia de um a outro
país?
Xós poderíamos accrescentar muitos outros
exemplos cl'esta natureza; mas cremos serem de
sobejo os que apontamos, para que á nação
portuguesa seja cedida a palma de ter saído
da penna de um escriptor seu a mais antiga e
mais celebre elas novellas cavalheirescas.
III
Novellas do seculo XV
Quando escrevemos os dois primeiros artigos
acêrca das novellas de ca v aliaria portuguesas,
1
era nossa intenção continuar sem demora a pu-
blicação do breve resumo, que encetámos d'esta
parte da nossa historia litteraria, por ser aq uella
sobre a qual menos se tem escripto. ~ I a s por
isso mesmo era preciso fazer maiores indaga-
f l'uhlicados no Yol. de 183S, e o terceiro no Yol. de
IS-t.o.
100 11": C_\V_\1.1._\RI \ PORTtri:UI•:S_\S
que outros trabalhos nus n;ü, permittiam .
. \hrimos, pois, m<lo do intento que hoje conti-
nuamns a pé>r por ohra: nào porque julguc-mos
sufticienk o que temos colligiclo, desde ent<lo
para c;í., sobre a materia; mas porque mais va-
lem poucas noticias que absolutamente nenhumas .
. \ntes que passemos adiante cumpre-nos
accrescen ta r aqui alguma coisa acêrca do .. Ima-
dis, de que I.trgamente falámos nos artigos já
publicados, e vem a ser um testemunho que
corta por uma vez a questão da sua originali-
dade. Este testemunho é o de Gomes Eannes
de :\zurara. que os nossos leitorc-s
j:í conhecem ', e que diz o seguinte no capi-
tulo 63 da chronica do conde D. Pedro de :\le-
nezes-«e assy o livro d'.[\madis, como quer
que súmcnte este fosse feito a prazer ele um
homem, que se chamava Vasco Lobeira em
tempo (l'el-rei n. Fernando, sendo toda-las cou-
sas do dito livro fingidas do auctor. » -Este ln-
gar ele um escriptor, a bem dizer coevo, deve
tirar a última sombra ele duvida sobre a nacio-
nalidade do celebre .lmadis Gaula.
Assim como a côrte de D. João 1 foi a es-
chola dos mais famosos cavalleiros de Portugal,
assim a epocha do seu reinado se pode cnnsi-
I ( )pnsculos, tomo Y, pag. 1 o.
Z...OVELL.\S DE CAV.\LLARI.\ PORTUGUESAS I O I
Jcrar como a mais para as letras, que
Portugal viu, até o tempo de I). :\lanuel. I).
Duarte, o bom e infeliz D. Duarte, proporcio-
nalmente o mais instruido dos nossos reis, não
teve que ir aprender, nem virtudes, nem caval-
laria, nem sciencias nas cortes estrangeiras,
porque as virtudes de que foi ornado, e os vas-
tos conhecimentos que possuiu, adquiriu-os na
de seu illustre pai. O infante I>. Pedro, principe
grande entre os maiores que Portugal tem ge-
rado, se correu o mundo foi para encher de
assombro os sabios com sua sciencia, os valoro-
sos com seu valor.
O infante D. Henrique ha ahi quem não o
conheça? Quem não conheça o fundador da
nossa gloria maritima? Certo que não. Xome é
que nunca esquecerá. E todavia de todos
os quatro filhos de João 1 (contando o infante
D. Fernando) é elle quem occupa o Ioga r mais
baixo na escala das virtudes, e porventura na
sciencia apenas lhe caberá o terceiro depois de
I>. Duarte e D. Pedro.
E ainda o infante D. Fernando, esse pobre
cavallciro da cruz a quem a nação ousou negar
o resgate, preferindo alguns palmos de terra
cingidos de muralhas, á liberdade e á \·ida ele
um homem leal, que bem a servira, antepondo
uma infamia a uma perda, tah·ez facil de reme-
TOMO IX FOI. 8
102 ~ O V E L T AS IIE CAV.\1.1.!\RI.\ PllRTIJf;UESAS
diar; ainda, UiLClllOS, O hom infante sanclo, O
martyr resignado da patria c da fl-, quão ami-
go c protector foi das letras e dos que as cul-
tivavam! Fernão Lopes P Fr. João .1\lvarez fo-
ram . feitura sua; e, provavelmente, não nos
honrariamos hoje (l'esses dois homens, dos
quaes um deu o primeiro impulso á nossa lin-
guagem historica, e outro á nossa linguagem
oratoria, _se ? boa sombra de D. Fernando os
não fizesse medrar. Leia-se o testamento que
fez quando mancebo partiu para a Africa, c
ver-se-ha quantos e quão notaveis livros pos-
suia o infante; numa epocha em que, não exis-
tindo a typographia, muitas vezes em países
então semi-barbaros, como por exemplo 2. In-
glaterra, era necessario empenhar um castello
ow um solar inteiro para obter a copia de qual-
quer livro. E todavia, de todos os quatro irmãos
D. Fernando é o menos conhecido-na nossa
historia litteraria.
Os vestigiosda litteratura portuguesa do perio-
do que decorre desde os principias do reinado de
D. João 1 até o de D. Affonso v são innumeraveis;
mas !?ào apenas vestigios. Das artes ahi está a
Batalha, e ainda apesar de conPgos, S. ta :Maria de
Guimarães, dizendo o que em Portugal foi
essa era de toda a casta ele glorias, a que ver-
tPndo sangue, se acolhem os coraçCJes quP por
NOVELLAS DE CAVALL.\IU.\ PORTL"GüESAS 103
ora n<i.o renegaram do nome hoje
vilipendiado e arrastado por tabernas e montu-
ros cl"estrangeiros. Dos monumentos, porém, da
nossa velha litteratura apenas restam alguns
nom<>s, e alguns títulos ou fragmentos d'obras,
consumidas por incuria propria, e por terremo-
tos e incendios, ou roubadas por castelhanos,
franceses, ingleses, e, emfim, por todos aquelles
que teem querido tomar o leve trabalho de ar-
rebatar, ou pôr em almoeda as preciosidades
dos nossos cartorios, bibliothecas e museus.
Do já citado testament0 do infante D. F er-
nando, do de Diogo \ffonso :\Iangancha, do
inventario de Vasco de Sousa, do catalogo da
livraria d'el-rei D. Duarte, e de muitos outros
documentos publicados e ineditos, bem como
de varias passagens dos nossos chronistas, e_
ainda mais dos historiadores monasticos, se vê
quão grande era em Portugal o tracto dos li-
vros, numa epocha, que por ahi se chama bar-
bara, porque era de grandes virtudes. E não se
creia que livros eram só latinos: pelo contra-
riu, a maior parte escripta nas línguas vul-
gares de Hespanha, principalmente na portugue-
sa. . \s obras de Cicero foram traduzidas pelo
infante U. Pedro, e por sua ordem o livro do
Regimento dos Príncipes. Só a lista das obras
cl'el-rei n. DuartE' esp:wta pela variPdade dC'
101 I•IO.:CAV.\1.1.\RT\ l'ORTn;n·:S.\S
m;tt(•rias cm que este rei philosopho Pmpregou
a sua penna nada rud". :\brco l'aulo j;'i estava
tradu7ido no seu tempo. () livro da côrte im-
perial prova quP naquella epocha se tractavam
Pm vulgar as arduas materias de theologia po-
lemica. Lev.tntavam-se cartas topographicas do
reino, se é que os das cidades c ·;Ji!las
dt! Portugal, que Pxistiam na livraria <.l'el-rei
I). Duarte, não eram antes uma especie (le es-
tatistica, o que, em nosso entender, mais admi-
ra vel fôra. Entào, Diogo . \ffonso :\langancha,
Fr. Lobo, os dominicanos Fr. Rodrigo c
Fr. Fernando cL-\rrotea, e tantos outros ora-
dores, faziam descer do alto dos pulpitos pala-
vras de eloquencia e de uncção, que chegavam
ao fundo dos coraçc->es, como se viu nas exe-
quias de n. João T. Estudava-se a philosophia e
a historia, de que dão testemunho os livros
philosophicos, e historiadores romanos e mo-
dernos da mesma livraria d'el-rei D. Duarte.
Emfim o ensino da jurispruclencia, trazido de
ltalia por João das Regras, produziu uma mul-
tidàt1 de jurisperitos, a Pl1rtugal
deveu grande parte da legislação, excellente
para aquelle tempo, que se encontra no codigo
ao·onsino.
resta de tantos homens e coisas? Esse
coflign, que serviu df" base aos que o substitui-
L\V.\LL.\RI.\ 103
ram. I )os livros que ajunctnu I>. Duarte apenas
sabemos da existcncia do intitulado Corte lm-
p,,.rial e de um do Regimottv th
Prútcipt·s. Tudo o mais quasi com certeza se
poderia talvez cliLer, que, ou o tempo o consu-
miu, ou jaz sepultado por bibliothecas eslran
geiras, como succede ás obras do mesmo mo-
narcha.
Xa sua j;'< citada li\·raria existiam quatro
obras que pelos títulos se vê serem novellas de
ca v aliaria. Eram estas o Li;.:ro de Tristão, () Jit'r-
lim, o Li•:ro de Gala:, e o Li'l·ro d'lfauuibal.
O referido catalogo, que apenas merece o no-
me de rol, só declara ser em
português o Lil'ro d'lfamúbal. Incrível é quasi
que o .. --lmadis ficasse sem imitadores, e poder-
se-ia conjecturar que alguma elas citadas no-
vellas fosse original portuguesa. De todas, po-
rém, temos achado rastos nas litteraturas es-
trangeiras, vindo por tanto,·_ a serem provavel-
mente todas ellas traducçl)es d1J normando-
saxonilJ (_inglês), ou com mais probabilidade da
lingua d Oil (francesa) ou da lingua cl'Oc (pro-
vE:nçal).
Para intelligencia d'esta opinião po-
remos aqui resumidamente uma idéa geral dos
romances ou novellas ele cavallaria.
Os que teem escripto acêrca cl'esta mate-
106 NllVELI.:\S DE CAV\LT.\1{).\ PORTt.:I:UES\S
ria, e nomeadamente Sism,mdi, dividem tndos
os romances em três classes ou cyclos, conhe-
cidos pelos nomes elas primeiras 1)('rsonagens
d'essas sPries de novellas, que partindo da his-
toria de cada um d'aquelles heroes, continua-
vam pela de seus filhos e netos, alliados, ou
inimigos inclefinitamente. Estas tres classes são
a das nove lias de :\madis, a das de . \ rtus, ou
. \ rthur d'lnglaterra, e a das ele C arlos-.:\lagno.
Todavia parece nos que esta classificação é im-
perfeita. Dividiríamos antes essa multidão de
romances em cinco cyclos ou classes: a ue ...-lr-
tus, a do Saucto B1 ia!, a de Carlos 11/agllo, a
de e a dos romances a que pode-
mos chamar greco-romanos, porque eram as
vidas dos heroes antigos, que davam materia
ás invençúes dos novelleiros. Xão escondere-
mos que a do Saucto-Brial está tão ligada á de
.·1rtus, que se confunde com esta; mas logo di-
remos porque nos parece dever-se d'ella se-
parar.
( )s romances de ou da Ta·vola-rt:dou-
da são a historia fabulizada do famoso .. '\rthur,
ultimo rei d'Inglaterra, da raça dos breti)es, e
que defendeu valorosamente o seu país da in-
vasão dos angl1l-saxonios. Esta serie de novel-
las começa no romance de Bruto, composto
por micer Gasse em I I 55; a ella pertence o ro-
NOVELLAS DE CAVALLARIA PORTUGUESAS 107
mance de filho de uma· dama bretà e
do diabo, no qual se contam as guerras de Uter
e de l'andragon, o nascimento de ,\rtus, e a
instituição da Ta,·ola-redoada, isto é, de uma
especie de doze pares ingleses, que costuma-
vam comer como eguacs em uma uus.J. redon-
da nos paços d'el-rei Artus: a historia de Tris-
tão de _l.eonis lambem pertence a este cyclo,
sendo Tristão um dos cavalleiros da Tavola-
redonda; e estes dois romances cremos nós que
eram os que existiam traduzidos na livraria de
U. Duarte: no mesmo cyclo entram as novel-
las de 1\Ieliot de Logres, de Dinamar-
ca, :\licer Calvão, Lancelote dL) Lago, Vigalois,
\'igamor, e Daniel de Valdeflores, e muitas ou-
tras que fôra longo enumerar.
C )s romances do Sancto-Greal, Gral, ou
Graal (que os nossos escriptores chamam erra-
damente Santo Brial) formam um cyclo bastan-
te ligado c0m o antecedente, mas distincto pelo
pensanwnto que presidiu á sua invenção. < >
Sanclo ·Greal 1 derivado de ou Si.w-
guis-rialis) era o vaso ou copa em que Jesu-
Christo tinha comido com os seus discipulos na
noite da cêa, e em que José d'r\rimathea ti-
nha, segundo a tradição dos novelleiros, reco-
lhido o sangue derramado pelo Senhor da cruz;
vinha assim esta copa imaginaria a ser o mes-

I OX V EI.I..·\S llE C.\ V.\ 1.1. 1.\ I'PRTUf;lJES \S
mo que o .";auctv-Catiuv que os gcnovet.('S se
gabaram de ter trazido da t<'rra sancta. Este
precioso vaso Pstava guardacln, segundo os ro-
mancistas, cm um templo na l Icspanha, num
desconhecido, e só os t.:avallciros escolhi-
de s por I )cus podiam atinar com elle. Para isto
era necessario que se alevantassem á maior al-
teza, não só de feitos de armas, mas .ele virtu-
des moraes. portanto, que o pensamen-
to (l'estes romances era uma allegoria religiosa,
um typo do alvo em que devia cada cavalleiro
pôr a mira do .;eu procedimento para merecer
tal nome, ou para ser escol/tido ele Deus
1
• L\
este cyclo pertencem o l'erceval, Lohengrin,
Titurel, e uma parte dos romances de Tavola-
rcdonda, porque muitos dos cavalleiros de L \r-
tus trabalhavam por conquistar o Sancto-Greal,
que, segundo escrevem alguns dos novelleiros
d'esse cyclo, tinha sido levado pa.ta Inglaterra.
<) primeiro e principal romance do Sancto-
Greal foi escripto por Christiano de Troyes no
seculo xu, e existe manuscripto na bibliotheca
real de Paris, na sua forma original, que é em
verso.
O cyclo dos romances de Carlos :\Iagno co-
I Herzog-Geschichte der tleutschen Nat-Litt.-pg.
99 (Jen. 1831.)
XOVELL.\S llE C.\ VALI..\ H. L\ PoldT(;{'ES.\S I 0()
meça com a chrunica fabulosa do arcebispo
Turpin, publicada em 1566, por Echardt, mas
escripta, segundo a opiniào mais seguida, no
undecimo ou duodecimo seculo. Este livro pas-
sou muito tempo por historico, c as fabulas
nelle contidas foram inseridas como authen-
licas nas chronicas de S. Dinis, recopiladas por
ordem do celebre abbade Sugerio, nos fins do
seculo XII :
1
mas depois das cruzadas, a obra
attribuida a Turpin não serviu mais senão como
de éllo de uma multidão de novellas relativas
aos suppostos pares de França, ou paladinos de
() romance de Dertha, o de ( )gei-
ro de Dacia, e de Cleomadis, o de Reinaldos de
:\lontalvão, o dos quatro filhos d'r\ymãn, o de
Flora e Brancaflor, o do gigante e
variÇ>s outros, de que se aproveitaram Boiardo,
_ \riosto, Pulei, e os mais poetas romancistas
d 'ltalia pertencem a este cyclo.
O cyclo dos romances do ...--\madis começa
o d'aquelle nome, e pertencem-lhe todas
as emitaçües que d'elle se fizeram, e das quaes,
a mais notavel é o \madis de Grecia. Floris-
marte d'llircania, Galaos, Flm·estam. as Sergas
de Esplandiam, o D. Duardos, os Palmeirins
1 SismoJHli. De la litterature 1lu Mi1li-tomo I, pg.
289.
I I 0 XoVEI.LAS IIE CAV.\1.1..\RI_\ PORTUC;t;ES.\S
d'( c d'Inglatcrra, e muitissimos outros en-
tram nesta divisão. E' esta espccie de novcl-
las de cavalaria propriamente hcspanhola .• \
maior parte ll'cllas foram compostas nos idio-
mas da J'eninsula, e muitas nem d'aqui saíram.
I >esgraçadamc>ntc os continuadores c emitarlo-
rcs de 1 .o beira foram por via de regra, faltos
de tak nto e cheios de máu gosto. I >'ahi veio a
graciosa justiça que d'ellcs fez Cervantes por
mãos do ct,ra, no seu inimitavel D. (juixole .
• \ ultima classe de romances de
é aquella em que as personagens e successos
da historia antiga, conhecidos imperfeitamente,
davam largueza á imaginação dos novellciros,
que revestiam essas personagens rlos costumes,
crenças e opini1->es da eclade-:nédia, e affeiçoa-
vam esses successos pelas instituições d<..t ca-
valbria, enxerindo até os heroes da Grecia e
de Roma, nas familias fabulosas dos • \rtus e de
. \madis. Pertencem a este cyclo os
d'""\lcxandre, descendente rl'el-rei :\rtus, o
d'Eneas, o da guerra de Troia (do qual segun-
do parece, lambem existia uma traducçào em
aragonês na livraria de D. Duarte) e outros,
com os titulos dos quaes escusado é encher pa-
pel.
1
Em alguma d'estas cinco classes entram
1 Qs que sobre esta ma teria desejarem mais am pia
DE CAV .\LL\RI.-\ PllRTUGl"ES..\S 1 I I
naturalmente todas as novellas de cuja exislen-
cia em l'L)rtugal, no principio do seCLdo xv, le-
mos noticia. U Lllcrlim e o Lit.•ro dt: Tristão
indicam pelo seu simples titulo, serem, quando
muito, versões de dois romances do cyclo da
Tavola-redonda, conhecidos por aquelles nomes.
O livro de Galaa:J com toda a probabaliclade não
era mais que a historia de Galaad, filho de
Lancelote dv Lago, pertencente ao mesmo cy-
clo. E finalmente o livro d'Htzmtibtzl seria uma
traducçào de alguns dos numerosos romances
rio cyclo greco-romano
:\em nos admiremos de que na livraria d'el-
rei I). Duarte predominassem os romances da
Tavola-redonda. Todos sabem que sua mat,
a rainha l >. l'hilippa, era inglesa, e nada mais
natural do que ella e as pessoas da nação,
que com ella vieram a Portugal, fizessem co-
nhecer essa classe de novellas que, mais que
instruc ;-: > as <lissertações <le ::\Ir. Paurid
ácerca da origem da Epopeia Ca\·alleirosa, no 8.
0
,-oL
-da des D,·ux-Jlondcs (anrio se bem nos lembra, de
1S32). A opinião <le ::\Ir. Fauriel, contraria á de Sis-
mondi, põe o berço da maior e melhor parte das no\·el-
las de caYallaría na ProYença; mas antes de abraçar es-
sa opmtao cumpre lêr e pesur maduramente as refle-
xões de Sismondi, que o põe Xormanrlia. a pag.
273 e seg. rlo I." YoL da sua IIistQria Litteraria <lo
:\leio-dia da Europa.
I 12 NPVEI.I.:\S III•: C.\ V \LI..\ RI\ \S
nenhumas, lisongca vam o amor proprio dos in-
gleses.
I )e outras obras se faz mençàn no índice
d'aquella livraria, qw· vchemcntemente suspei-
tamos serem novellas de cavallaria; mas nào
passando esta opiniào de mera suspeita, guar-
daremos sobre isso silencio.
Desde a epocha de IJ. Duarte até o princi-
pio do reinado de I>. i\Ianuel nenhum rasto te-
mos encnntrado d'este genero de lilteratura.
Foi em Lt.96 que se pUblicou a /:.:storia do muy
uoúrc I rt.:spasiauo t-'mperathr de Roma, livro
de que démos noticia a pag. 16-t. do I.
0
volume
d'este jornal.
Esta 1/istoria de I rL·spasiauo, flUe examinámos
por permissão do nosso erudito collega o sr. \r asco
Pinto de I3alsemào, e da qual o unico exemplar
flUe existe pertence á bibliotheca publica da
côrte, não é senão uma novella ele cavallaria,
pertencente ao cyclo grcco-romano. I Ia ahi,
na verdade, alguns factos historicos, mas os
costumes, e as particularidades da narração não
passam ele meras ficçües. (_Jue a obra seja uma
traducçào, não nos parece duvidoso. 1\a sub-
scripçào d'ella se diz que fôra ordenada c:por
Jacob e Josep abaramatia, que a todas aquellas
cousas foram presentes». Isto indica bastante-
mente a origem estrangeira elo livro. Se, po-
)\IJ\'1-:I.L.\S llE L\V.\LT..\RIA l't)){ ITGL"J-:S.\S I 1,)
rém, nos lembramos de t}UC José de -\rima-
thea, figura nos romances elo Santo-< ;real, co-
mo tendo recebido o sangue ele Christo nesse
c e l e b r ~ vaso, é naturalíssimo que o novelleiro,
auctor da historia de \ ~ cspasiano, se lembrasse
de lhe attribuir a propria composição, tanto
mais que era quasi como lei entre os roman-
cistas dar uma origem mysteriosa, ou ao menos
remota, ao fructo das suas imaginaçües .
. \ccresce, para mais fundamentar a nossa
opinião, que :\Ir. Fauriel menciona uma lzistoria
rom.uzce da destruição de Jerusalem por \ ~ es-
pasiano, escripta em provençal, e que elle clas-
sifica como livro connexo com o cyclo das no-
vellas do Santo-Greal. Este romance, que, se-
gundo nossa lembrança, existe manuscripto na
Dibliotheca X acional de Paris, é com toda a
probabilidade, o original da novella portu-
guesa.
Eis o que lemos podido alcançar acêrca dl)s
romances de caYallaria em Portugal, durante o
seculo xv. Outros mais habeis e mais feli1cs
terão chegado a maior profundidade com as
suas indagaçües. Trouxemos á praça, em prtl-
veito commum, a nossa pobre7a. Xão eramos a
mais obrigados.
I I.J NOVELLAS li E t'AV \I. L.\ RI_\ 1'01\TU(;UES \S
:\'o artigo subsequente falaremos dos roman-
ces de c<wallaria portuguC'ses, no seculo xv1. t
t Não appareceu este noYo artigo quer nos seguin-
tes numeros elo Yol. 4.
0
, quer nos demais Yolumes, em-
quanto A. Herculano foi collahorarlor permanente do
Panorama. De outros mui Yariatlos assumptos littera-
rios o auctor se occupou nesses Yolumes. A melhor con-
jectura sobre tal interrupção não é a ele um simples es-
quecimento, mas a ele que o auctor, certo ele haver es-
clarecido a ma teria especial d' estes artigos onde mais in-
teressaYa, tencionasse poryentura ligar o proseguimento
el'ella a certos pontos ela nossa historia litterari.a que rle-
mancla\·am yagarosa lll<'elitação.
Historia do Theatro Moderno
Theatro Hespanhol
PANORAMA
:1839
Historia do theatro moderno
Theatro hespanhol
1 Lt um anno a esta parte que o th::-atro come-
ça a ter entre nós a importancia que ha muito
tinha entre as outras naçües da Europa . .c\con-
tecimcntos, vulgarmente sabidos e que não vcem
ao nosso pr,··posito, contribuíram para que a re-
forma do theatro, em todas as suas partes, que
cm todas d'ella carecia
1
, excitasse o espírito
publico : os periodicos falam já das actuaes re-
presentaçües, e julgam, bem ou mal, não só as
novas tentativas litterarias que se tePm feito,
mas o modo porque são levadas á scena e exe-
I Sem exceptuar a tlos espectadores, que, hem como
tudo o mais, permitta-se-nos a expressão, é preciso
crear de noYo.
Sobre isso publicaremos hreyemente um artigo, que,
rlizendo respeito a um objecto relatiYo á ciYilização e
moral puhlicas, entra naturalmente no plano d'este
jornal.
TOMO IX FOI. 9
118 IIISTIIRI.\ IIII TIIE.'\TRO 1\IOitERNO
cutadas pdos aclnres: e n;·w sào, por certo, esses
artigos os que se lêem com menos avidez .
.!\o segundo numero do Panorama démos nús
uma noticia do nosso theatro, precedida de al-
guns breves paragraphos acêrca do thealro das
outras naçücs: na cnnjunclura actual parece-nos
que nfhJ ser:i f•)ra de proposito o continuar
aquclle artigo com mais algun_s sobre a arte <lra-
malica dos demais povos, cuja litleratura tem
relaç;·to com a nossa, e Ctllll J do theatro hespa-
nhol veiu o português, conforme o que dissPmos
falandt> elas origens cl'este, será da origem e
progresso do drama hespanhol, que tractaremos
cm primeiro Jogar.
Em 1 Iespanha, c o n ~ o nos outros países, foi a
egreja que _fez nascer o drama: todavia a primei-
ra representação, a que Pstrictamcnte se póde
chamar theatral, e de que ha menção nos annacs
de Ilespanha, é a que se fez em L.J.L.J., na festa
da C•Jroação de Fernando o bom, r:ei de • \ra-
g;1o. Foi composta pelo marquez de Vilhena, e
só sabemos que era uma peça allegorica, em que
figuravam a Justiça, a l'az, a Verdade, e a Cle-
mencia, de modo que pertencia á classe elas mo-
1't'llidad!'S, que tiveram voga por algum tempo,
na infancia da arte dranntica hespanhola, e
que depois Cervantes fez reviver. Pouco depois
cl'esla tentativa ele Yilhena, o seu amigo, o mar-
THE-\TRO I 19
quez de Santilhana, homem, como elle, de gran-
de saber e de idéas claras, reduziu o drama,
com o titulo de Comedida Pon:;a, os inciden-
tes de uma batalha naval, dada em 1-t-35, juncto
á ilha de Ponza, entre os aragoneses e genove-
ses, em que estes ficaram venceuores. O drama
nunca foi representado nem impresso c,om as
demais obras d'este auctor, e só se sabia da
sua existencia pelas cartas do marquez, até que
o sr. de-la-Rosa, o grande poeta hes-
panhol nosso contemporaneo, o descobriu en-
tre os manuscriptos da bibliotheca real de Pa-
rís. Esta curiosa reliquia primeiras tentati-
vas do genio dramatico hespanhol é notavel pela
habilidade que nella apparece, não só no modo
rle tractar um facto historico, mas tambem no
enredo, dialogo, e versificação.
Foi pelos fins do seetilo xv que em Castella
se estabeleceu uma especie de theatro. Os pri-
meiros ensaios dramaticos nesta parte da pP-
ninsula, fe-Ios João de la Encina, mui conhe-
cido pelas suas p.Jesias soltas, e cujas obras for-
mam por si só um cancioneiro. T>epois de alar-
gar os limites das representaçôes religiosas,
compondo varios autos, onde não sómente se
acham paraphrases da biblia, mas tambem in-
vençües do poeta, formou o projecto de fazer
saír o drama dos objectes religiosos, para o que
I .20 IIISTORIA UO TIIEATRO :\IODERNU
comt,(Js peqtwnas peças pastoraes, que dPno-
m i nou cclogas. Estas pc·ças, c>m que clle pro-
prio fa1.ia os principacs papeis, se representa-
ram primeiramente c>m casa el1l almirante de
( 'astclla, c> da duquc·;a d1> lnfantado. Como a
denominação o indica, elbs de> naJa mais cons-
tavam dn que de um dialogo entre dois ou
mais pastotTS. () auctor, á imitação de \Tirgi-
lio, usou a primeira vez cl'esta invenção para
celebrar, por via ele algum aconteci-
menl·l notavcl, como a conclusão de paz<:>s ou
a v()lta de algum principe ; e depois inventou
uma acção curta e simples, na qual reduziu a
drama as paixl1es elas suas personagens. Estas
pequenas peças, cortadas por danças, e aca-
bando com vilhancicos ou cantigas, continham
tambf'm alguma scena truanesca ou gracio-
sa; de modo que nellas entravam juntamente
os elementos da tragedia, comedia e opera.
Teem estas primeiras tentativas bastante sal e
agudeza, e ao mesmo tempo naturalidade e
viveza. :'\ primeira representação d'estas come-
dias pastoris fez-se em L-t-92, anno memoravel
nos annaes ele I Iespanha, por ser o da con-
quista de Granada e du descobrimento elo
do Xovo. Foi tambem por este tempo que ap-
pareceu a famosa Ctkstiua de Rodrigo de Cota,
clP que já l:tlámos no primeiro artigo.
THI':ATRU HESPA:'\HUL 121
< >s primeiros dramas regulares hespanhoes
nasceram no principio do Seculo xvt, e, o
que é mais notavel, fúra de I Iespanha. Cm cer-
Íll Torres residente Roma, com-
pôs alli \·arias comedias, que foram represen-
tadas perante Leão x.
1
Xellas a invenção é
feliz, os caracteres bem traçados e o dialogo
vivo: e contém algumas ousadias que neste auc-
tor não eram de admirar, porque, apesar de
ser clerigo e ele viver na côrte pontifi.cia, com-
pôs satyras contra os ccclesiasticos, taes que
Lutherü não estimaria pouco ser auctor d'ellas.
Xaharro compôs tambem uma arte dramatica,
a primeira que appareceu em ca5telhano: nella
faz a distincçào da tragedia e da comedia, e
diviJe esta em duas especies, comedia de Jto-
ticia, isto é, historica, e comedia de plzautasia,
isto é, de foi tambem elle que in-
ventou os iutroitos ou prólogos e que deu aos .
actos a denominação de joruadas, seguida de-
pois constantemente pelos auclores hespanhoes
nas divisões dos seus dramas.
_ \s peças de X aharro, apenas appareceram
em IIespanha, foram prohibidas pela inquisi-
1 E impressas em Xapoles em 1517. Esta rara eclição
existe na hihliotheca publica 1lo Porto, e pertencia se-
gundo nossa lembrança, á li,-raria tlo Yisconde Balse-
mão.
T 22 IIISTORI.\ III) TIIE:\TRO l\llliH<RNO
çào, como succedeu ;í:s pouco mais recentes dP
( ·hristovam de Caslillego, secretario dns impe-
radores !\bximiliano e Fernando.' Estas, quan-
do se imprimiram as obras de Castillf'jo, pas-
sados annos, foram supprimidas c perderam-se
de lodo. Apresenta assim o lheatro hespanhol
o phenomeno singular de ter Lido duas infan-
cias. llavendo sido prohibidas, as primeiras ten-
tativas de compostçoes dramaticas regulares
nào acharam imitadores, P até parece que in-
teiramente esqueceram, porque no casamento
ele uma infanta de Castella, cm I 5-lS, foi uma
peça de .:\riosto que se representou. Entretan-
to alguns eruditos, como Villalobos, < )Jiva c
outros, trabalhavam por apresentar os antigos
como modelos clramaticos, traduzindo as co-
medias de Plauto, Terencio e Aristophanes;
mas estas antigas composições casavam-se mal
com o genio hespanhol, de maneira que, em-
quanto as producçües theatraes que a I Jespa-
nha possuia, jaziam sepultadas nas livrarias dos
curiosos, ou nos archivos da inquisição, o povo
se entretinha com as grosseiras caturrices dos
1 n mesmo sncce«leu aos dramas portugueses con-
temporaneos: d·ahi proYém, principalmente, a extrema
rari«lade «las primeiras e«lições de alg-uns d'elles, como
tle ] org-e Ferreira, que só são conhecidos nas etlições
m u til atlas.
THEATRO HESPANHOL
123
jograes truões. D'aqui nasceu que Sch legel,
Bouterweek, Sismomli, c quasi lodos os críti-
cos estrangeiros, ignorando até os nomes dos
primeiros escriptores dramaticos hespanhocs,
não s1"l cl'elles não [tbm, mas pôem a origem
do drama castelhano no meiado elo secnlo xv1.
() fundador elo theatro hespanhol a que ver-
dadeiramente se pôde chamar nacional e po-
pular, foi Lope de Ruecla ele Sevilha, que dei-
xou o seu officio de bátefolha para se ajunctar a
uma companhia de comicos ambulantes dos quaes
foi brevemente o calreça, ou, segundo a expressão
hespanhola, o autor. Este titulo, derivado, não do
latim,. auctor, mas de auto, clava-se naquelle
tempo ao que compunha e recitava peças; e
tambem lhe chamavam maestro d,_• l1acer come-
dias. Lope de Rueda tinha ambas as castas de
talento necessarias para ser um autor d 'aq uella
épocha; ganhou por isso grande reputação, e
foi unanimemente julgado grande poeta e gran-
de actor; e tão completamente esqul'Ceram as
tentativas clramaticas feitas antes d'elle que o
tiveram em conta de inventor da divisão em
jornadas ou actos, e dos prologos chamados in-
troitos, e depois loas. I Jurante uns poucos de
annos discorreu Lope de cidade em cidade;
mas por fim a sua grande reputação fez com
que fosse chamado á côrte de Philipe 11. Os
124 IIISTnRI.\ 1111 1'111':,\ rl{O !\lt IIWR:-111
poucos dramas, dialogos etc., que d'elle
restam, se desti nguem por certa graça e viveza
naturaes; c posto que sejam todos Pm prosa, elle
os escrevia em verso com a nwsma facilidade.
I Ia um facto curioso, que provll a indulgen-
cia com que os ecclesiasticos olhavam, naquel-
lc tempo, até para os dramas profanos; facto
que se lê na historia de Segovia, de Colmena-
res: na occasiào da grande festividade da aber-
tura ela cathedral d'aquC'lla cidade, a companhia
de Lope de Rueda representou em um tablado,
erecto no meio da egreja, depois de vesperas so-
lemnes, una gostosa comt'dia. O proprio Lope,
morrendo em Cm-dova no anno de I 567, foi ali i
enterrado com grande pompa, no côro da ca-
thedral.
Por este tempo (I s6 a côrte hespan hola,
que até então tinha andado vaguf'ando pelas
capitaes das differentes províncias, fez assento.
fixo em circumstancia q uc favora-
vel para a arte dramatica, porque d'ella nasceu
o haver um theatro fixo. Documentos authenti-
cos provam que um anno depois da morte de
Lope ue Rueda havia theatros em
Existiam então, tanto na capital como nas
províncias, varias companhias de actores, clis-
tinclas umas das outras por nomes extravagan-
tes e burlescos, e tão numerosas, que um es-
THE.-\ rRO I 2 5
criptor moderno hespanhnl as distingue em oito
especies differcntes.
Os progressos materiaes acompanharam J'ahi
ávante os litterarios e moraes. Por I 5/0 esta-
beleceram-se os dois theatros dt-· la cne e
princi'pe, que ainda existem, e alguns engenhos
summbs começaram a trabalhar em composiçües
dramaticas, o que até então se tinha deixado aos
directores das companhias ambulantes Cervan-
tes, tendo chegado do seu captiveiro de _-\rgel, fui
um dos primeiros que encetaram esta carreira;
mas, apesar dos seus meritos como escri-
ptor dramatico, e:-a mais inclinauo ao genero nar-
rativo, o que não se compadecia, por certo,
com o estylo proprio do drama.
Emq uanto o auctor de D. (]uh .. ·ote escrevia cm
"\laclrid, João de la Cueva fazia representar al-
guns dramas no theatro de Sevilha, rE-duzindo
a quatro o numero de actos ou jornadas, que
até então eram cinco ou seis. representação
de cada noite constava ela peça principal, e.
além d'isso, ele tres entremezes e um baile.
Tambem \ralencia, que nas artes e boas letras
era a rival de Sevilha, deu alguns passos na car-
reira dramatica. Foi um poeta valenciano Chris-
lovam de \rirues, q uc ainda reduziu o numero
de actos a que se limitaram cl'ahi ávante todos
os escriptores dramaticos hespanhoes. _-\té en-
I 26 liiSTOI{l:\ DO TIIEATRO !\IUllFRNO
tào o drama, sC'gundo o engraçado conceito de
Lopc de Vega, tinha anJado com as màos pelo
chão (a quatro pés) como uma creança, porque
eslava na idade' infantil.
_ \ pompa scenica <lo thcatro hcspanhol tinha
jti feito grandes progressos. Rojas diz que no
tempo de Lope de R ueda toda a vesl!aria e
mais aprestos de qualquer companhia dramatica
se podia carregar ás costas de uma aranha, mas
que no tempo de Cueva e \Tirues as actrizes
os seus papeis com vestuarios de
seda e veludo, e com fios de pérolas e cadeias
ele ouro; que nos entremezes se cantavam ter-
ccttos e quartetos; e <1ue até appareciam no
tablado cavallos, quando assim era necessario
para ser completa a illusão.
Digno é de notar-se que já no seculo xv1 se
acha em I Iespanha ·travada a guerra entre os
escriptores clramaticos, que pugnavam pela sua
liberdade, e os criticos, que os queriam sujeitar
aos preceitos cl' :\ristoteles. Era assim que ·em-
quanto o rllt.:lurico Pinciano clamava que respei-
tassem as tres unidades, de que nenhum caso
se fazia, João de la· Cueva tomava despejada-
mente a seu cargo cleflender as liberdades dra-
malicas no seu Ext.-"mplar Poctico. Pugnava
por <'lias porque eram o fructo de uma serie
de seetdos que tinham abolido todos os antigos
THEATRO HESPANHOL I 2j
costumes;- porque eram mais favoraveis aos
vôos atrevidos da imaginação;- e porque,
emfim, eram o mais adaptado meio de agradar
ao publico. :\Ias, apresentando tão judiciosa opi-
nião, estabelecia maximas para regular as com-
posições uramaticas, taes que serão sempre ap-
provadas pelo bom juizo e bom gosto, posto que
os seus compatriotas nem d 'estas mesmas fize-
ram caso, no seu :trdnr contra toda a casta d<:>
restricçües litlerarias.
Este desregrado fervor de imaginação era o
resultado das particulares circums-
lancias que por muitos seculos tinham concor-
rido para formar o caracter nacional em Hespa-
nha. ··Os hespanhoes, diz Schlegel, tiveram um
quinhão glorioso na historia da idade média,
quinhão muito esquecido p<:>la ingratidão dos
tempos modernos. Elles foram então como uns
atalaias soltos nas fronteiras da Europa: a Pe-
nínsula era como um exposto aos in-
cessantes commettimentos dos arahes, e des-
amparado de alheio soccorro. _\costumado a
combater a0 mesmo tempo pela liberdade e pela
religião, o hespanhol era afferraclo a esta com o
zêlo fervoroso de quem a tinha comprado á cus-
ta do mais puro sangue. Cada solemnidacle do
culto divino era para clle como um premio de
suas acçües heroicas; cada templo um monu-
128 IIISTORI:\ IIII Tlli-:.\TRO IIUIII<.RNO
mento das dos seus antcpassaclos. Em
mais rPcentes epochas nunca importou aos hes-
panhoes examinar os actos de seus supPriores,
mas continuaram nas guerras de aggr{'ssão ou
ambiçà•) com a mesma tittelidade e valentia
• que tinham mostrallo nas guerras de defensào.
:\ fama individual, e o zelo falso da n·ligiào
os cegava acêrca ela justiça das causas que os
m.Jviam. Empresas sem egual, levaram-nas
felizmente a cabo; e o :\Iundo-Xovo, elescu-
berl.) por elles, foi conquistado por um pu-
nhado de valorosos aventureiros: casos parti-
culares ele crueza e rapina mancharam o brilho
lL> mais acabado heroismo, mas estas corru-
pçúes não chegaram ao amago da nação. Em
parte nenhuma como em 1 sobreviveu
o espirito ele cavallaria á sua exislencia politica
por tanto tempo, por isso que ainda brilhou de-
pois de ter passado o preelominio de J Iespanha
e de ter sofrrido grande diminuição é\ opulen-
cia intern:1 elo país, cm virtude dos ruinosos er-
ros ele Philippe u. Propagou-se o espirita ca-
valleiroso até o periodo mais florente da sua
litteratura, e nella estampou o seu cunho, de
não duviuosa maneira. imaginaçã•> dos hes-
panhocs era audat, como as suas acç,->es: ne-
nhuma aventura intellectual lhe parecia perigo-
sa. _·\ predilecção do povo por maravilhas ex-
THEATRO IIESP.\XIIOL
I29
travaganles já se havia mostrado nas novellas
de cavallaria. I >esejavam vêr lambem o maravi-
lhoso no lhealro; e quando os seus poetas,
eminentes na cultura litlPraria, e na situação da
vida, lhes representavam esta na fiírma reque-
rida, introduziam nella uma especie de harmo-
nia, e purilica vam-na da sua grassaria real, re-
sultando do contraste entre o objecto e a sua
fórma uma fascinação irresisti\·el. Imaginavam
os espectadores que viam certo fulgor da om-
nipotente grandeza da sua nação, já muito aba-
tida, quando toda -a harmonia dos mais varia-
elos metros, toda a elegancia de agurlas allusi>es,
todo aquelle esplendor ele imagens e compara-
ções que só na sua língua se acha, se derrama-
vam por enrecks dramaticos, sempre novos, e
quasi sempre grandemente engenhosos. Busca-
vam-se na imaginação os mais ricos thesouros
de passados tempos para contentar o povo, co-
mo se r<:>almente existissem: pode-se dizer que
nos domínios de tal poesia, como nos ele Car-
los v, nunca se punha o sol.
Foi quando os animos mostravam similhante
tendencia, que surgiu Lope ele \T t>ga, para e}l.er-
cilar a sua protentosa fertilidade de invenção
dramatica, e facilidade metrica. D'este illustre
dramaturg1") falaremos no pr•)Ximo artigo.
ll
r .ope de v ega tinha o grandíssimo e principal
dote pat·a primar na carreira que seguia: era
este dote o conhecer profundamente o gosto e
paixfJes d1> povo para quem escrevia: porém do
que nunca elle deu mostras, t ~ J i do mais impor-
tante e nobre merito de estimar a arte e culti-
vá-la com enthusiasmo O eff<:>ito, segundo a
vulgaríssima accepçào d'este ·\·ocabulo, não era
só o seu principal objecto, como cumpre que
seja para todo o verdadeiro escriptor dramati-
co, n1as unico-as miras todas pô-las unicamente
em bater neste ah·o- e em verdade ninguem
o alcançou como elle ; deixando-nos assim o
mais notavel exemplo de sacrificio de alta e
duradoura reputação a troco df' inegualavel
mas temporaria popularidade. Xa grande porção
que nos resta das suas innumeraveis composi-
çües, o que mais admira é a inexhaurivel inven-
ção de incidentes, a variedade de caracteres, o
jogo das paixües, e o mimoso e subtil elo clialo- ·
go; mas todas estas brilhantes circumstancias
estão como que aftogadas na espantosa exube-
rancia com que pullulam, em cada scena, em
cada fala, e até em cada verso.
THEATRO HESPANHUL 131
Cumpre, porém, que digamos que nem no seu
país nem fóra d'elle, teve Lope da \T ega mode-
lo que imitasse, ou rival que excitasse a sua
emulação. ~ \ ltalia não tinha ainda passado da
1Vtmdragt:la de -:\Iachiavello: nem a França saído
das informes imitaç.·,es dos antigos: em Porlugal
só havia os esboços dramaticos deCil \Ticente, os
dramas-novellas ele Jorge Ferreira, e as imita-
çües classicas de Sá de -:\liranda e Ferreira; a
~ \Iemanha não tinha saído ainda dos myslt'rios;
e a Inglaterra, onde já apparecera o divino Sha-
kspeare, era, except0 pelo lado politico, uma
terra incognita para os escriptores hesp:1nhoes.
Em I 62 I, dôze annos antes da m ')r te de-
Lope da \rega, sobreveiu a do triste e devoto
Philippe lll, a qut2m succedeu um príncipe man-
cebo inclinado aos passatempos,.e mui addicto
ao theatro. Philippe IV gostava do tracto elos ho-
mens de letras, rece_bia-os na corte, e se diver-
tia em compor com elles essa especie de impro-
visos que então andavam muito em moda na
ltalia: até se lhe attribuem algumas composi-
ções dramaticas que apiJareceram anonymas; e
tal affeição tinha aos dramas nacionaes, que não
consentiu que em Hespanha entrasse a opera
italiana, que então era muito estimada em todas
as côrtes da Europa. Estas circumstancias aug-
menta vam nova força ao impulso já dado por
1,)2 IIISTORIA IHI TIIEATH.c) 1\IOIJFRNO
I .npP dl· \' Pga, c trouxeram o mais hrilhaniP
JWrindo dn drama lwspanhol. I )ur;lnlc! a viela dP
I .OJW, granuc nunwro de escriptores seguiram
as suas pisadas: lacs foram os dnutorcs
P J\lira dl· J\lescua; os licenciad•>s !\lexia e ::\li-
gur-1 SanchPz; c• conego Tarraga, ( de
Castro, .:\guilar, Luiz V elez de ( ;uevara, /\n-
tnnio c)p Cabrza, Caspar d'r\vila, l )amian Sa-
lustrio dei Poyo, e vari,Js outros; mas todos Pram
nwros imitadores de Lope de \rega, c muito in-
feri\lres a Pile; no fim cl'este dramatico reinado
é que devia apparecer um rival, que lhe dispu-
a primazia.
Foi este Calderon tk la Barca, que, não me-
nos conhecedor do genio e gusto do vulgo, do
que o proprio Lope, unia a isso o amor pela
sua arte, que ao outro faltava. Como as compo-
siçc-•es cl'este grande f'Scriptor teem a prima-
lia entre os dramas hespanhoes verdadeira-
mente nacionaes ; como ellas em nada são in-
feriores ás de I .ope, em variedade, c o seu
numero n•ais que o das de nenhum out!·o, se
approxima do numero das d'elle; e como, por
consequencia, nos d;1o os mais perfeitos monu-
mentos de cada uma das diffPrentes especies de
proclucçües dramaticas peculiarmente hespanho-
las: não ha meio nenhum de dar uma idéa cla-
ra das <' gt>nin do tlwatrn hc>spanhol na
THE.\TRO
I33
C'pocha do seu mailH" esplendor, senão caraclC'ri-
Lando breve mas distinclamente, as varias clas-
ses das peças de Calderon . ...-\ mais corrente
classificação elos dramas profanos, é para os
mesmos hespanhoes, a ele comedias lzeroicas, co-
medias de cap,l J' esp.1da e • dt: figurou.
i\s da primeira rl'estas classes tinham o mesmo
logar na litteratura dramatica, que nas ficções
narrativas tiveram as novellas de cavallaria que,
expulsas da prosa pelo n. Quichote, se acolhe-
ram ao theatro, onde por muito tempo foram
bem acceitas do publico. As da segunda clas-
se, cujo nome vinha do vestuario que se usava
na epocha em que foram escriptas, representa-
vam os costumes hespanhoes d'esse mesmo tem-
po; mas, em consequencia do grande sabor de
novella que esses costumes ainda conservavam,
• tinham um aspecto, que a homens modernos e
de outras nações parece ideal. "Isto (observa
Schlegel) não fôra passivei, se Calderon nos in-
troduzisse no interior da vida domestica ... Es-
tas peças acabam, como as comedias dos an-
tigos, por casamentos; mas quão differente é tu-
do o que precede a este desfecho! ... traça, na
verdade seus principaes caracteres de ambos
os sexos no primeiro te rvor ela mocidade; mas
o alvo a que elles miram, e diante do qual tudo
abate bandC'iras, nunca em seus animns se con-
TOMO IX F,11.. lO
I 3 J "IIISTORIA DO TIIEATRO J\IOilERNO
funde com outro qualquer descjó. 1\ honra, o
amor c o ciume, são sempre os moti\'os da pe-
ça, e o enredo nasce da impetuosa mas nobre
lucta d'cstas paixües ... I\os caracteres mulheris o
sentimento rla honra não é menos pndf·roso do
que nos elos homens: este sentimento rege o do
amor, que tern Jogar a par d'elle, porém não
acima d'elle . .1\ honra das mulheres, segundn o
modo de pc·nsar que tran.sluz nos dramas de
Caldernn, consiste em amar um homem dP re-
putação sem macula, e cm amá-lo com perfeita
pureza. ( > amor requer ahi inviolavel segredo,
até que uma legitima união permilta declará-lo
publicamente: este segredo o salva elos effeitos
da vaidauc·, que poderia misturar nelle gabos
de favores concedidos, ou prctensües . a elles, e
lhe dá a apparencia de um voto, que, por isso
que é m ysterioso, é mais pontualmente obser-
vado. No meio cl'esta moralidade dramatica, são
cm verdade, admittidas manhas c dissimula-
çúes, para fins amorosos, e a ponto de parecer
que recebe quebra a honra: mas, quando es-
. sas manhas vào de encontro a deveres, como,
por exemplo, os ela amizade, o respeito mais
pundonorclSO é constantemente guardado a esses
deveres. () poder dn ciume, sempre vivo, e re-
velado ás vezes de terrível maneira; ciume não
como o dos pnvos do oriente, rk posse, ou de

THE.\TRO IIESP:\XHOL
135
gozos materiacs, mas dos sentimento.:; suavissi-
mos elo coração, serve para ennobrecer o amor.
_ \ perplexidaue, que nasce cl'estes differentes
motivos moraC's, acaba muitas vezes em nada, e
então o desfecho é grandemente comico: ás ve-
zes, porém, a catastrophe é tragica, e a honra
se converte em uma especie.cle destino avesso,
para aquelle que com ella não pócle cumprir
sem anniq uilar o propria felicidade, ou tornar-se
para sempre criminoso. Grande numero cl'estas
peças não teem senão um papel brulesco, o do
creaclo ou gracioso, que serve principalmente
para parodiar os motivos sublimes das acçt-ws
ue seus amos, o que, por via de regra, faz com
muita graça, servindo raras VC'Zes para instru-
mento do enredo.» 1
t Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas-as
mais difficeis de todas - hom será que reparem nesta
observação de Scheleg-el acêrca do gracioso, persona-
gem especial do clrama peninsular. E ainda o grande
critico alemão não apontou o motivo principal d'este
elt>mento dramatico: o gracioso faz com que o drama
seja em Yenla•le a repre:;entação da vi,la, ot11le sempre
o terriYel e o lepido se cruzam e misturam inextrica-
Yehnente. Xão ser o gracioso elemento necessario tlo
enredo tem por motivo a natureza cl'esse papel: o
burlesco póde deixar ele ser necessitlade da acção;
mas nunca tle ser essenci\·el á_(<írma da acção: no qua-
tlro dramatico o g-racioso não é ./,·senlw. é câr: é a som-
I 3Ó JIJSTORI.\ DO TJIEATRO :\IOIIERXO
.\s comedias d" Ji.t;·llron, uu de caraclt·r, dis-
tingm·m-se da classe UP qur• tract:imos no
antccr< lc·füc· paragrapho, rm o intrresse da acç<lo
nttn ser dividido . pelas personagc·ns ele um en-
reun variadíssimo, mas concentrado em um indi-
viduo, no qual {> pcrso nalizado caracteristica-
mente algum vicio ou absunl•).
Alguns dos dramas de Calderun, historicos
ou mythologicos, não podem estrictamentc ser
classificados em nenhuma das trcs P s p ~ c i e s an-
tecedentes. Com a maior verdade aproveitou
elle algumas epochas da antiga historia hespa-
nhola; mas parece ter tido tamanho aferro ao
genio da sua nação, que não pôde produzir fa-
cilmente o caractPr das outras .. A antiguidade
classica era ini ntelligivel para elle, e por isso,
o já citado Schlegel observa que a mythologia
grega se converte, nas suas mãos, em uma de-
leitosa novella, e a historia romana em uma hi-
perbolc magestosa. ( )utra classe ele peças tem
Caldernn a que elle chama fies/as: eram estas
destinadas para serem representadas na côrte
hra elo clarão <lo helio e suhlime. A tragedia classica,
e a trage<lia. de Racine morreu, porque não ha,·ia ahi o
contraste: a comedia ele i\Ioliere ,·in;: e \'i\'erá para sem-
pre, porque nella as lagrymas tolhem :í.s yezes o riso :
na comeclia antiga apparecia n clrama: na trageclia
apenas haYia poesia.
TIIEATRO IIESPANHOL
137
em occasiúes solcmnes. l'osto que taes peças
requeressem pompa theatral, frequentes mudan-
ç a ~ de scenéirio, e até musica, todavia podf'mos
chamar-lhes o p ~ . . · ras podicas, isto é, dramas, que
pelo mero esplendor da poesia, produziam o
mesmo effeito que na opera moderna produzem
as vistas, a musica e a dança. Foi nestas com-
posições que Calderon se entregou inteiramente
aos vôos da sua in:aginaçào, podendo dizer-se
que nellas as personagens apenas pertencem a
este mundo .
.i\las é na classe dos autos sacra meutalt's,
ou dramas religiosos, que o genio e o espirito
ele Calcleron se desenvolveram com mais força
e formosura. As cerimonias religiosas dos gre-
gos tinham gerado o theatro grego: as cerimo-
nias do christianismo deram origem ao theatro
moderno. O principio fundamental elos especta-
cuJos dramaticos, introduzido ou sanccionado
pelo clero, consistia em apresentar ante os olhos
dos fiéis, em todas as festividades ecclesiasticas,
e dias de commemoraçào de certos sanctos, a
representação ao vi.vo ela passagem do Testa-
mento .1'\o\·o ou do Catalogo dos Sanctos, que
tinha connexão com essa festivid,tde. Estas re-
presentações, que no resto ela Europa se deno-
minavam mysterios, chamaram-se em I Iespa-
nha, desde o principio, tlt"vinas conu:dias e au-
I 38 IIISTORIA DO TIIE.\TRO :\11lllERNO
los StlCJ'tlllh'llfaks. Faziam-se com grandr pom-
pa, n;lo s<') nas praças e nas procissl>cs, mas
iambem nos theatros -puhlicos. Taes dramas,
n'prcscntados em dias solcmncs, dchaixo da
protecção das auctoridades civis e ccclesiasti-
cas, c em presença ele todo o povo, não só da-
vam ao auctor mais proveito, mas tambcm múr
glcria. Lope de Vega escreveu alguns centc-
narcs d'estas peças: mas Calucron tanta van-
tagem levou aos seus predecessores e contem-
poraneos, nisto como no mais, que lhe foi COD-
cedido um privilegio exclusivo de compor os
autos que se haviam de representar na capital,
monopolio de que gozou durante trinta e sete.
annos.
Temos sido talvez mais technicos e exten-
sos do que cumpria sobre o espírito e execução
dos dramas hespanhoes dos fins do seculo xv1
e princípios do XVII, porque as regras elos rhe-
toricos e pedantes, regras que se desfazem em
pô diante de um porquê,- persuadem o vulgo
da republica das letras de que qualquer dranu,
a não ser grego ou romano, ou não trazendo,
pelo menos, pós, casaca de seda e espadim, á
moda de Luís x1v, é forçosamente barbaro, rude
ou absurdo. Este p<;nsar acanhado, emquanto
se n;lo derrocar ele todo, torna impossível uma
verdadeira regeneração dramatica: os portugue-
THEATRO
139
ses devem ser em litteralura uma só nação com
os hespanhoes: se quisermos ter originalidade,
nacionalidade, e o que mais é, verdade, estude-
mos Lope, Calderon e os seus conlemporaneos;
não nos envergonhemos de folhear livros por
onde constantemente estudam os mais i!Iustres
escriptores clramaticos da \lemanha e da Ingla-
terra, apesar de não poderem tirar d'elles todo
o proveito, que nós por certo tiraremos.
voltem os ao nosso assumpto.
E' digno de notar-se, que, durante o mais
bello periodo d-o theatro hespanhol, o conselho
de Castella se atrevesse a propôr como condi-
ção para se reabrirem os theatros que tinham
estado fechados por causa de varios luctos da
côrte, desde I6...J....J. até I6...J-9, que os dramas que
se houvessem de representar se limitassem a
objectos edificativos, sem mistura das profani-
dades do amür; e que, por consequencia, to-
dos aquelles que até então se tinham represen-
tado fossem prohibidos, nomeadamente os de
Lope de que tão _prejudiciaes tinham
sido á sã moral. Felizmente o bom gosto do
monarcha, concorde com o do publico, fez com
que tosse regeitada a proposta dos austeros
conselheiros.
Durante a longa carreira de Calderon, appa-
receu :\Ioreto, que dotados de menos força in-
I ..fO IIISTORI.\ Dll TIIE.\TIHJ :\IIIIIER:-.<0
ventiva c menos f(·rvor de i S<' dis-
tinguiu principalmente por aperfci,;oar melhor
as comedias de figurou ou de caracter. Como
exemplo, taes são os seus dramas - O líudo
D. Diogo, c () marqzu.:z de Cigan·al, especic de
D. <juixote, cndoucleciclo á força de ler e reler,
sem descanso, os pergaminhos de sua casa, e
os costados da sua arvore genealogica. l'or
este lado, póde-se crer que :\loreto foi um dos
modelos de entre cujas peças, com
efTeito, de encontra uma fraca imitação do mar-
ques de Cigarrai. Xesta mesma epocha viveu
outro poeta dramatico, cuja fama emquanto vi-
vo não egualou a celebridade de que goza depois
de morto e que, por um acaso extraordinario
foi desconhecido aos mais eminentes críticos, com
o Signorclli, Sismondi e Schlegel: era este um
frade da Trindade, chamado Fr. Gabriel Telles,
que, com o supposto nome de Tirso de
põs cm scena grande numero ele dramas, ql.1e
depois fiH·am colligiuos e publicados por um
sobrinho seu. l\lenos engenhoso do que Calde-
ron, c menos delicado, excede, toda via, os ou-
tros poetas do seu país em certa agudeza ma-
ledica. Pouco lhe importam as regras, ou a ve-
rosimilhança, com tanto que lhe venham a
pello gracejos pungentes e maliciosos, usando
de uma linguagem, ás vezes licenciosa, e de
TIIFATRI) IIESP,\'\IIOL
LP
pensamentos que mostram tão pouco respeito
ás potencias da terra como ás do céu. ::\ada
p•1upa, uma vez que esse objecto lhe
ou possa mover a riso. I Ia só um escriptor a
quem elle deva com exacção ser comparado, e
com quem, com effeito, tem muitissima pare-
cença: é este o moderno dramaturgo franccs
l3eaumarchais. E assim como este auctor foi o
verJadeiro pai de Figaro, do mesmo modo
(facto certamente curioso) Fr. Gabriel foi o pri-
meiro que pôs em scena a famosa historia de
O. João e a Estatua (E! combidado de Piuira)
aproveitando-se d,t lenda inventada, segundo
dizem, pelos franciscanos de Sevilha para ex-
plicarem o desapparecimei}to do verdadeiro
D. João Tenorio, que, conforme tambem alguns
querem, fôra por elles assassinado em vingança
dos muitos vexames que lhes fazia.
Xo proximo artigo mencionaremos mais al-
guns dramaturgos hespanhoes d "esta epocha, e
concluiremos a historia do theatro hespanhol
com a noticia elos escriptores mais moder-
nos.
III
O periodo brilhante do theatro hespanhol
encerra-se na primeira metade do seculo XVII.
T.J.2 IIIST«lRIA DO TIIEAI'RO MODERNO
<) gosto do monarcha, ela cúrlc e da nação, ti-
nha lançado um grande numero de homens de
ldras nesta carreira, que então era a mais hon-
rosa e lucrativa. ~ \ssim, além dos {'minPntes
C'Scriptores mencionados no antecedente arti-
go, appareceu um enxame de dramaturgos de
segunda ordem, a cuja frente devemos collocar
Francisco ele Rojas, flUe tinha todos os dotes
de :\loreto, mas que o excedia nos defeitos. Se
guiam-se a este Cuillen de Castro, Ruis de
~ \larcon, La-I loz, Diamante, 1\Iendoza, Bel-
monte, os irmãos Figueroas (que escreviam
conjunctamente, como os modernos auctores
de farças francesas), Cancer, Enciso, Salazar e
Candamo, os quaes, posto que nenhum creasse
uma eschola sua, produziram ao menos impor-
tantes composiçües theatraes.
( )s desastres que sobre\"ieram á monarchia
hespanhola nos ullimos annos do reinado de
Filippe tv, junctos com uns poucos ele luctos
publicos, que fizeram fechar por muito tempo
os theatros, deram o p r i m e i r ~ golpe na arte
clramatica hespanhola. Em 1665 a morte d'aquel-
le príncipe, que tinha sido o seu mais zeloso
protector, foi o signal ela queda rapida e in-
teira do theatru. () successor de Filippe IV, o
parvo Carlos 11, era ainda creança; e a rainha
regente assignalou o principio ela sua adminis-
THE \ fRO HESP.\NHOL
I..J3
traçào com um decrebJ, dictado, sem duvicla,
pelo seu director espiritual o jesuíta ~ i t a r , e,
por certo, unico nos annaes dramaticos. Orde-
nava a ninha no citado decreto, que todas as
representações cessassem até seu filho ter ida-
de de se entreter com ellas. Posto que esta ex-
tra vagante ordem não pudesse ser executada á
risca. todavia é claro quão grande effeito devia
produzir numa epocha, em que a litteratura sú
podia progredir debaixo do patrociniodos gran-
des, e em que o theatro, só com a especial
protecção do monarcha podia resistir aos repe-
tidos ataques do conselho de Cast<>lla. Para
vermos o que d'aqui resultou poremos em con-
traste dois factos notaveis. De um memorial,
dirigido a Filippe IV em 1632, pelo actor Ortiz,
se vê que havia então em Ilespanha mais de
quarenta companhias de comicos, e que estas
companhias davam a somma de mil actores; e
que se tiQham edificado tantos theatros, que
poucas cidades ou villas notaveis havia que não
tivessem o seu. X o anno, porém, de I6ig, quan-
do Carlos 11 casou com uma infanta de França,
na festa do casamento, não foi possível reunir
mais ue tres companhias para virem represen-
tar na côrte.
:\''este período ele decaclcncia e desprc7o
um unico escriptor trabalhou por amparar
0
Lt...J. IIISTOH.IA DO TIIEATRO !IIOIIJo:RNO
vacillantc theatro: Sol is, o eloquente historia-
dor ela conquista do 'lcxico, dedicou tamhem
ao theatro a sua brilhante imaginação, polida
agudeza, e vigoroso Pstilo. I >cixou- nos varias
dramas dignos do per iodo a que sobreviveu;
especialmente um que intitulou -
al uso, tem grandissimo merito.
Com Solis pódc-se dizer que expirou o
theatro verdadeiramente hespanhol. \ subida
ao throno ele Filippe v, tendo dado valia ao
gosto francês, e introduzido (ao menos na côrte)
os habitos e costumes da côrte de Luís xrv, fez
que os depois de terem sido os mes-
tres c precursores clramaticos dos franceses. se
contentassem de se converter cm humildes imi-
tadores e copistas d'elles. E' verdade que, du-
rante o seCLtlo XVIII, algumas tentativas fizeram
para restabelecer o drama nacional, Zamora,
Canizares, Luzan e Jovellanos; mas estas hon-
rosas tentativas só alcançaram transitorio ap-
plauso; e para achar uma obra original (men-
cionando, todavia, os saiuctes ele Ramon de la
Cntz) cumpre chegar, no principio do seculo
actual, a o engraçado e elegante auc-
tor elo Là.ffé, do Bardo, de., e ao sr.
de la Rosa, auctor l mtit! no baile, e a fi-
IIm cm casa.
descripçào que fizemos das varias espe-
TIIEATRO IIESP.\!'\JIOL
L-JS
cies de composiçl>es dramaticas do tempn uc
Calderon, mostra que no antigo drama hespa-
nhol a tragedia classica, posto que menos que
a comedia classica, pn.dia ter amplo e effectivo
Jogar. Toda\·ia, enganados, segundo parece,
pela palavra comt'tlia, que na lingua hespanhola
teve sempre uma tão geral como a
palavra alemã spid ou a inglesa plaJ'
1
, muitos
criticos de nota. principalmente franceses, fala-
ram da total falta de trageclias no theatro hes-
panhol, como de um phenomeno singular e
inexplicavel. Tão enraizadas estavam nos ani-
mas de taes criticas e as distincç,-les classicas
com que os haviam educado, que assim o affir-
mavam com toda a gravidar\e, embora admit-
tindo ao mesmo tempo, que <<O elemento tra-
gico predominava em grande numero das mais
afamadas peças elo theatro hespanhol 1). que
é este preclominio senàJ o unico meio ele dcs-
tinguir a trageclia da comedia, unico que exis-
• Julgamos deYer notar aqui que os nossos moder-
nos actores ainda não chamam geralmente qualquer
drama, senão com cd/a, em hora e lle seja tragico. Por-
Yentura isto uma tradt{tio dt· lmsltdor.-s, consen·a<la
des<le o seculo xYII, em que entre tHís eram tão ntl-
gares as representaçl>es 1los 1lrama:-; •le J,ope e Cal•le-
ron. como na propria Ile:-;panha.
I.JÓ IIISTOI{(A I H) TIIE.\TRO :\10111- RNO
te na cssencia da natureza humana e da arte
dramatica? Segundo este systema mais r..tcio-
nal da classificação, o antigo theatro hespanhol,
pela propria confissàn dos criticos de que fala-
mos á grandenwnte ahundantcna trage<lia. !\o
ticiemos agora hrevf'mente as poucas amostras
de obras clramaticas, f)Ue na I Iespanha appare-
ceram mesmo com a dt·nominaçdo de trage-
dias.
Hoscan, que primeiro introdu1iu na I Iespa-
nha o estilo italiano de versificação, dizem que
traduzira uma das tragedias d' Euripedes, tra-
ducçãn que se perdeu. Tambem pelos annos de
1520 Fernão Peres d'Oliva, voltando da côrte
cl0 Leão x, onde vira representar a Sophouisba
de Trissino, escreveu duas imitaçües tlo theatro
grego,-a l riugança d'Agamcmuou, tirada da Ele-
ctra dt: Soplzocks, e a rlecuba , imitação de Eu-
ripedes. Estas tragedias, escriptas em elegante
prosa, ficaram desconhecidas fúra das universi-
dades, e até ha ra1ão para crer que nem ahi
foram representadas. Em I s;o, João de l\falara
deu ao theatro de Sevilha varias tragedias, de
objectos bíblicos, corno Absaldo, Saul, etc; e
cm :\Iadricl, que então f<',ra escolhida para
capital do reino, um frade, chamado Jeronymo
Bermudez, tom.mdo n nnme supposto de ;\nto-
nio da Silva, publicou duas trageclias; que me-
TBE-\TRO IIESf'AXHOL

recem fazer-se d'ellas especial menção. Sào am-
bas fundadas na celebre historia de D. Ignez
·de Castro. \ intitulada ... Yis,: Lastimo-
Sei, é uma imitaçào da Castro do nosso .. \ntonio
Ferreira: a segunda intitulada jVise Laureada.
que tem por acção a vingança, que o infante I).
Pedro, quando subiu ao throno, tomou dos as-
sassinos da sua amarla, e a coroação do cada ver
d'Ignez, é mais original que a primeira, mas in-
ferior a ella no enredo e desenlace. Estas (luas
peças, dividida cada uma d'ellas em cinco actos,
entresachados de coros, são as primeiras lrage-
dias regulares, que em verso castelhano se es-
creveram. Por este mesmo tempo, em ValPncia,
onde o primeiro edificado em 1 j 26,
era pertença ele um hospital, foram representa-
dos varios dramas, ainda mais notaveis, com-
postos por Christovam de \Tirues, de quem já
falámos, e por .:\ndres Rey d'Artieda. \Tirues
official militar, era um dos cabeças da grande
eschola que, desde o seu principio se gloriara
de menosoobar as restricções élristotelicas. Foi
a sua primeira producção La Grau Souiramis,
acção que ao mesmo tempo tractava, em Italia,
::\Iurio ::\[anfredi. Todavia, \Tirues, em vez 'de
fazer a peça em cinco actos ao modo grego, rli-
vicliu-a em tres jornadas nas quaes metteu to-
da a vida de Semiramis, passando-se o primei-
J -18 IJISTOIU.\ 1>0 TIIEATRO !\IOIJERNO
rn acto na nactriana, o SC"gun<lo cm T\inivc e o
terceiro em Hahilonia. ( "ompús dl'pnis, sempn•
com o desprPzo das unidades, as trage-
dias da Cruel Casssandra, Furioso, lnfdi:;
11/arcd!a, etc .. \ qtH' intitulou E!isa-Dido, e que
C'llc a nnuncion como escripta conforme al arte
autt:t;·lw, é com effeito, a unica, em que as re-
gras são inteiramente respeitadas. O consocio
de Virues na antiga guerra contra os preceitos
classicos, Juan de la Cueva, depois de tradll7ir
o ... 1jax de Sophocles, publicou em Sevilha duas
trageclias originaes; uma fundada em certa tra-
dição popular, e intitulada -Los 5,iette
tÜ Lara, a outra tirada da historia romana e
reunindo dois objectos tragicos, a morte ele Vir-
gínia e a de Appio Claudio, sendo La Cueva o
primeiro que pôs em scena estes sucçessos, tan-
tas vezes aproveitados depois. Entretanto no
theatro (le :\Iadrid as ·tragedias de Bermudez
eram substituídas pelas de Lupercio cl'Argen-
sola, as quaes Cervantes louva mais do que el-
las merecem. O proprio auctor do .JJ. Quh:ote
escreveu então a sua Numaucia, trageclia a
mais classica que, porventura, tem o theatro
hespanhol. porque é aquella em que mais trans-
luz a simplicidade e pureza do drama grego,
post.) quP o espírito cavallPirnso de Cervantes
fHE:\TRO JIESPANHOL
Ll9
appareça quasi sempre debaixo d'essas f(irmas
antigas.
E' claro que o espírito romantico predomina
sobre o classico, até nas producçües declarada-
mente tragicas do theatro hespanhol antigo. To-
davia, quando a subida de Filippe v ao throno
submetteu o g.)sto nacional á influencia do de
Paris, não só os pnetas tragicos franceses foram
traduzidos em língua castelhana, mas tambem
os poetas hespanhoes fizeram varias tentati\·as
para os imitar. Xo numero d'estas se devem
contar a l rirginia e o Ataulfo de l\Iontiano.
Subsequentemente,· durante o alumiado mi-
nisterio do marquez d'..-\rauda, Fernandez
ratin, Cadalso e Garcia de la Huerta renova-
ram essas tentativas: o primeiro escreveu Hor-
mesimla, o segundo D. Sa.nclzo Garcia. e o ter-
ceiro Ra.clzel, mas estas obras, posto que valio-
sas, principalmente a ultima, não eram sufficien-
temente notaveis para haverem de naturalizar
uma casta de dramas tão nova em I Iespanha.
Xo principio d'este seculo tentou o mesmo ge-
ncro, com melhor successo, D. r\lvarez
de Cienfuegos, habilmente ajudado pelo talento
do celebre actor Isidoro de algum
modo discípulo de Talma, e não indigno de
seu mestre, posto que mais se appro,imasse da
versatilidade maravilhosa do actor inglês Gar-
TOMO \I FOL. I I
ISO IIISTIJRIA ou TIIE.ATRO l\IOIJER"\0
rick, porq uc não só Pra f<:>liz nos papeis tragi-
cos, mas tamhem em quaesqucr outros, sem
exceptuar os de truão e bobo.
I )epois de Cienfuegos, que deixou um
llt..'lt, um PiftlCO c uma Zoraida, appareccram
dois outros poetas tragicos, que cremos, vi\ em
ainda ambos. Cm d'elles, <juintana, é auctor de
uma tragedia intitulada PclaJ'O, fundada na his-
toria cl'esse antigo campeão da causa perdida
da independencia hespanhola contra os arabes
tr iumphantes, peça, cm verdade, nobre e pa-
thetica, da qual os modernos hespanhoes, obri-
gados como seus avoengos a repellir o dominio
estranho, costumavam repetir as passagens mais
encrgicas, marchando para os combates. O ou-
tro, de-la-Rosa, ha pouco primeiro mi-
nistro d'Isabel 11, é auctor de uma peça tam-
bem patriotica, intitulada A 1 Tiu·va dt: Padi!la,
fundada na memoravel lucta das cidades muni-
cipaes da I Iespanha contra a aggressão tyran-
nica de Carlos v. Esta tragedia, a primeira de
tal genero, que .:\Iartinez de-la-Rosa compôs,
foi feita e representada em um theatro, cons-
truido para isso em Cadiz, quando os franceses
tinham esta cidade cercada. O mesmo auctor
compôs uma .J.UoraJ'IIttl um pouco ao modo da
de \r oltaire, e um Edipo, representado
depois em .:\ladriJ, no qual, diz um dos mais
TIIE.\TRil
I 5 l
entendidos criticos ela Iitteratura hespanhola
(:\Ir. elle trabalhou por ser original,
tractandu um objecto já tractado por Sophocles,
Corneille, \r oltaire, La-:\Iotte e Dryden.
Pelo que respeita a presente estimação thea-
tral, que se faz dl)s antigos dramaturgos hespa-
nhoes no seu proprio país, elevemos observar
que, em quanto Lope de está desterrado
nas biblinthecas, e emquanto Calderon e :\lore-
to raras no·zes sobem á scena, Tirso de :\Iolina,
de quem já falámos, apparece mais frequente-
mente no theatro que outro qualquer antign
e-scriptor dramatico. Fernando Vll gostava
muito dos ricos gracejos do licencioso frade ;
e esta declarada predilecção fazia calar o genio
vidrento e pundonoroso ele certas auctoridades,
cuja sanha podiam excitar os motejos do frade
contra os grandes .. \ comedia de Tirso, intitu-
lada D. Gil e! dt: las cal::as í.Nrdes era a de que
el-rei mais gostava; e por isso a camara muni-
cipal ele :\Iadrid não deixava de a mandar re-
presentar nos dias de gala.
Posto que a representação elos Sacrtl-
lllt'JL!aks fosse supprimida em I 765, todavia o
advento e a quaresma, e especialmente a Sema-
na Sancta, ainda se festejavam ha poucos annos
nas igrejas com taes representaç,-,es; levanta-
va-se no côro uma especie de tablado, sobre o
I
I 52 IIISTfiRit\ l>fl TIIE.\TRO !\lflllJo:H.:'\0
qual se repn·senlavam os passos da paixào de
Christo, e em que as numerosas personagens
que successivamente figuravam na peça, se apre-
sentavam com os vestuarios da idade-média,
quaes se deviam usar na origem d'estas repre-
sentaçOes, como san-benitos, mascaras pretas,
farricocos, cotas, camisolas, e, numa palavra,
toda a vestiaria de uma procissão de auto da f/.
Crenças populares portuguesas ou
Superstições populares
PANORAMA
1840
- .
'
Crenças populares portuguesas
Todas as naçl1es tanto antigas como moder-
nas teem siuo sujeitas á doença moral chamada
credulidade. Dada a crença da existencia dos
espíritos e da sua immortalirlade, os homens ven-
do diariameute morrer os seus semelhantes, e
sentindo em si uma consciencia que repugna a
anniquilaçào, perceberam facilmente que o es-
pírito não morria: a rC'velação não fez mais que
confirmar um sentimento innatonohomem. Depois
a saudade dos mortos que nos foram caros, e o
temor que experimentavam os criminosos de
f!UC as suas victimas ainda se pudessem vingar
d'elles além do sepulchro: emflm amor e remor-
sos, ajudados da imaginação, povoaram este
mundo de phantasmas .. -\ Grecia, sempre poe-
tica, formulou esta serie de factos intellectuaes em
muitas expressões materiaes : sirva de exemplo
a descida cl'Orpheu aos inferno sem busca d'Eu-
I St) CH.ENÇ.\s Pul'Ut..\tu:s t·uH.nH:ui-.ZA!;
ridice, mythu formosíssimo, com que os antigos
gregos simbolizaram o amor como capaz de unir
os espíritos que passaram com os que vivem na
terra. A imaginação multiplicou ~ variou· estas
expressc)es de um pensamento vago c primitivo.
I )'ahi vieram os lemures, as strygas, e todas
essas creações extravagantes, que ainda no pri-
meiro seculo christão o severo philosopho Pli-
nio não se atrevia inteiramente a descrer.
Entre as nações modernas a portuguesa passa
por uma das mais inclinadas a muitas d'estas su-
perstiçües. E' uma das multiplicadas calumnias
que sobre nossas cabeças lançam estrangeiros :
quem cl'isso se quiser desenganar leia o Diccio-
uario infcnwl de Colin de Plancy, e achará que
qualquer província ela França, ainda das mais
civilizadas, nus deita, como se diz vulgarmente,
a barra adiante em superstições populares. <Juasi
o mesmo se pode dizer ela nação mais allumiada
ela Europa - a allemã. Na Inglaterra, basta dizer
que não haverá ahi perro turco, ou brahmane cre-
dulo que leve vantagem em superstição ao povo
elos tres reinos unidos. As bruxas, diabos aZttes,
vampiros, e seiscentas outras diabruras surgem,
por assim dizer, debaixo elos pés dos ingleses,
como nos pinhaes do Alemtejo e Estremadura
se erguem, debaixo dos pés dos caminhantes, as
ninhadas elos sapinhos, quando sobre o pó elas es-
CRE:'>iÇAS PUI'lJL.\IU<:S PORTUGUESAS 157
tradas cai em dia de verão um aguaceiro de tro-
voaria .
. Apesar, porém, de não sermos dos povos mais
abastados neste genero de riquezas (que poeti-
camente o são) tem havido entre nós muitas
crenças populares dignas de se fazer menção
d'ellas; por isso mesmo que as mais antigas são
geralmente desconhecidas, e as mais modernas
vão diariamente desapparecendo;-que ao menos
esse bem temos tirado das nossas luctas politi-
cas e d'este espirito do seculo, qne renegou ele
tudo quanto nos transmittiu o passado; -tanto de
umas como de outras colligiremos aqui algumas
especies, que se nos não enganamos, serão Jiclas
com interesse pelos leitores do Panorama.
Um dos mais antigos documentos que nos res-
tam sobre as noc::sas superstiçües populares é a
celebre postura da camara ele Lisboa de I 38 5. Esta
postura caracteriza essencblmente o espirito re-
ligioso da epocha ele n. João I. Xella se prohi-
bem as superstiçües populares, as quaes ahi se
enumeram, como querendo a camara agradecer
assim a Deus a victoria d' . .:\ljubarrota, que asse-
gurou a indepenclencia de Portugal. T ranscre-
veremos algumas passagens do referido
sem que tentemos explicar mnitas d'essas supers-
tições a que se allucle, porque difficil fora apre-
sentar mais do que Eis o que nos
parcce mais notavcl naqll(•lle assento munici-
pal.
«Os sobrcditos rslabPlccem e ordenam, que
d'aqui em diante· nesta cidade·, nem em seu ler-
mo nrnhuma pessoa n;·w use, nem obre de fei-
tiços, nem de liganwnto, nem de chamar os dia-
bos, nem de descantaçúPS, nem de obra de vea-
dcira, nem obre de carantulas, nem de geitos,
nem de sonhos, nem cl"encantamentos, nem
lance roda, ncm lance sortes, nem obre d'advi-
nhamentos ... nem outrosim ponha nem meça
cinta, nem t:scan!t: ollzado em ninguem, nem
lance agua por jocira .. >)
«< )utrosim estabelecem que cl'aqui em diante
nesta cidade e em seu termo não se cantem
janeiras nem maias, nem a outro nenhum mês
do anno, nem se lance cal ás portas sob titulo
de janeiro, nem se furtem aguas, nem se lan-
cem sortes ... "
«Porque o carpir e depenar sobre os finados
é costume que descendt' dos gentios, e é uma
especie ele idolatria, c Í' contra os mandamen-
tos de I )eus, ordenam e estabelecem os sobre-
ditos que d'aqui cm diante nesta cidade, ne-
nhum homem ou mulher, nà'J se carpa, nem
depene, nem hrade sobre algum finado, nem
por elle, ainda qur seja pac, mài, filho ou ti-
lha, irmão ou irmã, marido ou mulher, nem
nu::.'IIÇ.\S POI'üL.\RES l'llRTU(;Ut•:SAS I 59
por outra nenhuma pena, nem nojo, não lo-
lhendo a qualquer que não traga seu dó, e cho-
re se quiser. . »
:\Iuitas d'estas disposições dizem respeito a
crenças que já não existem, ou são conhecidas
por outras deno:11inações. \s janeiras c maias
duraram até os nossos dias e ainda no :\linho
se chamam maias as flores da giesteira amarei-
la, com que se adornam as janellas n1) primeiro
de maio; alem d'isso todos os que hoje vi\·emos
nos lembramos de ver em Lisboa os maios pe-
queninos passearem as ruas cubertos de flnres,
bem como de ouvir cantar a ~ janeiras, o que
ainda dura em muitas partes rlas nossas provin-
cias .
. \s prohibiç.)es da camara relativamente aos
prantos pelos mortos, alludem ao carpirem-se
e arrepellarem-se sobre o cadaver e por elle,
depo=s d'cnt<:rracb, certas mulheres, que d'isso
vi\•iam chamadas carpideiras ou pranteadeiras,
e na falta cl'estas os parentes mais proximos. Fr.
Francisco Brandão diz que tal costume se aca-
bou no te;npo de O. JoãJ I; mas engana-se
manifestamente, porque nos nossos chronistas
se acham memorias de similhantes prantos em
epochas mm posteriores, e 1:1. diz <;ii \ricente
1(j0 I'UI'UI.:\RES I'ORTUI;t;ES.\S
Prantos fazem em 1 .is boa
Dia de Sancta Luzia
Por elrei D.
<Jue se finou neste dia.
Entre as superstiç(>es antigas podem contar-
se os reptos, requestas, ou desafios, em que se
appellava para o juizo ele Deus quando um ho-
mem accusava outro ele homicídio ou traição.
Este costume, geral em toda a Europa, vogou
muito em Portugal no principio da monarchia,
sendo até declarados nos foraes ele algumas
terras os casos em que o cluello de\· ia servir ele
prova da justiça ou injustiça da acc usação ou
querella. :\Iuito cedo porém começaram os nos-
sos reis a trabalhar, por meio de leis prudentes
e saudaveis, em pôr termo a este costume bar-
baro. D. Dinis foi o primeiro que por lei de
1318 prohibiu houvesse reptos duas leguas em
redor d 'onde estivesse a côrte.- 'X Estabeleço e
ponho por lei (diz ellc) que d'aqui adiante ne-
nhum Filho d'algo não desafie, nem mande de-
safiar outro, nem por si, nem por outrem, pe-
rante mim, nem nos logares onde eu fôr, nem
a duas leguas areclor de mim; e aquelle que
contra isto vier, morra por isso, e a desafiação
não valha,, - Successivas providencias se foram
dando a este respeito, de modo que na ordena-
NIRTUGUESAS IÓI
ção affonsina apenas são permitidos os desalios
no caso de traição contra a pessoa real, como
se pode ver no titulo 64 do Li\·ro 1.
0
cressa or-
denação.
Como. porém, os reptos não tinham logar em
todos os casos, e tal era o de cair a suspeita do
crime em mulheres, as quaes não podiam ir de-
fender ás lançadas a sua innocencia, havia ou-
trus meios de recorrer ao juizo de Deus. D'estes
eram geralmente em toda a Europa, as provas
da agua fria, da agua quente, e do ferro em
braza .. -\ que se usou em Portugal foi a ultima,
a qual consistia no seguinte: o accusado que
queria arriscar-se á prova, depois de se confes-
sar, e de jejuar rigorosamente por alguns dias,
e de receber exorcismos, bençãos e oraçües
um sacerdote, ou se punha a andar descalço so-
bre uma vara de ferro em braza, ou pegava
nella e caminhava apertando-a nas mãos por
certo espaço. Se o Jt!1TO caldo (como lhe cha-
ma\·am) não produzia o seu natural effeito, o
culpado era havido por innocente; mas se lhe
queimava os pés ou as mãos impunham-lhe a
pena do crime de que fôra accusado. Já se vê
que era difficultosa empresa achar innocentes
por meio tal; todavia algumas tradiçües existem
que a serem verdadeiras, provariam que a pro-
videncia apiedando-se dos injustamPnte oppri-
m idos, sus1wndera algumas vezes a lavor d'elles
as lt->is da natureza. Junct'' ao SC'pulcro do com-
nwnJador de l.eça I>. ( J;trcia se con-
st>rvava, segundn o testamento de J"rge Cardo-
so, um !erro de arado, q uP, posto em hraza,
transportou para alli a mulher de um fet-reiro
accusada de adulterio. Fr. Bernardo de Brito e
Fr. \ntonio Brandão ·citam uma doação feita ao
mosteiro de .:\rouca, Por r>. Tareja Soares, mu-
lher ele I>. Gonçalo de Souza, que sen-
do accusacla pelo marido d'adultcrio, recorreu,
em sua dcfeza, á prova du ferro em braza, e
saindo illesa, se recolheu ao convento d'!\rou-
ca, ao qual fez uma doação, onde se mencinna
este successo, que seria em verdade extraordi-
nario, se não fosse mais facil e razoavel crêr na
supposição do documento elo que na realidade
do milagre.
Esta superstição ela prova por fogo parece
que ainda estava muito arreigada em Portugal
no fim elo seCLdo XIV. <Juando o -:\Iestre d'1\viz
matou o conde J\.mleiro a rainha I'>. Leonor,
ouvindo na sua camara o ruiclo que soava, man-
dou saber o que era, e vieram dizer--lhe. que ti-
nham assassinado o conde. « .-\ rainha quando
isto ouviu, houve grão temor, porem disse: Oh
s.:mcta vale me mataram em elle um bom
servidor! . e sem o merecPr; cá (_porque) o
mataram, bem sei porque. :\Ias eu prumetto a
Deus que me vá de manhã a S. Francisco, e que
mande ahi fazer uma fogueira, e ahi farei taes
salvas, quaes nunca mulher fez por estas cousas.»
(Lopes chron. ele I >.João I cap 11). Santos, narrando
este mesmo successo, « \Iludiu ao
antigo costume de se purificarem, tomando o
ferro quente, as mulheres accusaclas, ou mur-
muradas d'adulterio. (:\Ion. Lusiti Liv . .::?3, cap.
81. E com etreito não é cri\·el que a rainha na
sua afflicção fizesse uma figura ele rhetorica, di-
zendo que se queria sujeitar a um costume que
já não existia; muito mais que Fernão Lopes, es-
criptor tão vizinho d'aquelles tempos, parece re-
conhecer a actuali<.hde de tão barbara usança,
accrescentanclo que a rainha tinha mui pouca
'l}OJZ!atlt: dt: o fa:;cr.
:\"ão era este supersticioso costume, que durou
por tantos seculos, apenas uma invenção do vul-
go. :\"as antigas leis d'I lespanha, conhecidas
pelo nome de Fuero juzgo, é expressamente or-
denada a prova da agua a ferver, e a do ferro
em braza, e no foral ele Baeça se particulariLam
os casos em que taes provas tinham Jogar, hem
como a maneira de as fazer. Transcreve-lo-hemos
aqui por ser grandemente curioso, tanto mais
que em parte diz respeito á prova do desafio.
<c-\ mulher, que sabiclamenle mover, sendo o
1 G.t CREN<.;.\S Pul't·J..\RES "' IRTuc;ul<:sAs
movi to por mau lPrmo seja queimada, ou sal-
ve-se por ferro quente. E se alguma uisser que
é prenhe d ~ algum homem, e ellc a não crer,
tnme ferro quente, e queimando-se, não seja
crida; mas se escapar Ii vre do ferro, dê o filho
ao pai, e crie-o como mandam as leis.»
«. \ mulher que ligar homens ou animaes, ou
quaesquer outras cousas que podem ser ligadas,
queimem-na, e se negar, salve-se por ferro quen-
te; e se o ligador for homem seja açoutado e
lançado fúra ela terra, e se negar, salve-se por
combate.»
«A mulher que der hervas peçonhentas ou
for feiticeira, seja queimada, ou se salve por
ferro quente.»
«A muU1er que matar seu marido seja q uei-
mada, ou se livre por ferro quente. Toda a mu-
lher que taes cousas faz, deve tomar ferro; mas
não por erro da sua pessoa propria, salvo quan-
do for approvada por má mulher, e que teve
parte com cinco homens clifferentes. As lt:rct'i-
1'l1S sejam queimadas, ou, se negarem, salvem-se
por ferro quente.>> ·
«0 ferro que se mandar fazer por justiça para
esta experiencia, tenha um palmo de compri-
mento, e dous dedos de largo, e tenha quatro
pés (a modo de banco) tão altos, que a pessoa
que houvPr ele fazer a salva possa metter a mão
CRE:"'JÇAS POPULARES PORTtJ(;UESAS 165
por baixo. E quando o tomarem, levem-no por
distancia d'outo pés, e tornem-no a por em terra
suavemente. \Ias antes o henLa o sacerdote, e
dt>pois elle c o juiz aquentem o ferro, e em
quanto o ferro se aquentar, nenhum homem se
chegue junto ao fogo, porque não acerte de fa-
zer alguma feitiçaria; e a que houver de tomar
o ferro primeiro se confesse mui bem, e depois
seja olhada, porque não traga escondido algum
feitiço. Depois lave as mãos diante de todos, e
depois de limpas, tome ferro, mas antes façam
todos oração, pedindo a o ~ u s que mostre a
verdade. E depois que tiver levado o ferro, o
juiz lhe cubra logo a mão com cera, e sobre
ella lhe ponha a estoupa ou linho, e depois
atem-lha com um panno, e leve-a o juiz a sua
casa, e passados tres dias vejam-lhe a mão e
se for queimada, queimam-na tambem a ella.»
\rim s que a prova dJ fog.) durou em Por-
tugal, pelo menos até o fim do seetdo XIV. ?\ão
sabemos ao certo a epJca da completa extin-
cçào cl'este abuso; todavia é sabido que elle
estava em esquecimento no seculo seguinte .
.:\ão assim a crença em feitiçarias que, como
sabemos, durvu até aos nossos dias, e ainda
hoje tem bastante voga entre os espíritos mais
rudes.
:\ primeira lei, que nos lemhre fi)sse promul-
TOMO XI FOI.. I"!
I ÚÓ CRENÇAS I'< ll'IJI.I\RES 1'< lRTLIC LJio:SAS
gada em J \H·tugal contra os feiticeiros é uma
de I>. João t, do anno de I .f03, em que' se di7.
o seguinte: ~ : T'\ã1l seja nenhum Ulo ousado, qur
por buscar ouro ou prata, ou outro haver, lance
varas, nem faça circo, nem veja f'm espelho ou
cm outras partes.» Esta lei fói confirmada no
codigo aflonsino, d'onde em substancia passou
para os que se lhe seguiram. \'ê-se por clla
que a magia portuguesa cl'esse tempo se rrdU7ia
a uma cspecie d'alchimia, ou sciencia de encon-
trar ouro, o que, em verdade, era bem pouco
se o compararmos ao incremento prodigioso
que teve a feitiçaria no s•xulo seguinte.
Da variedade ele praticas supersticiosas que
produziu este incremento, nunca encontrámos
memoria mais curiosa, que o capitulo que trata
d 'esta ma teria no rarissimo livro elas Constitui-
çües elo arcebispado d 'Evora, impressas em
Lisboa no anno ele I 53-l-· Eis aqui o textn da
constituição primeira elo titulo 25, que SC" inti-
tula- Dos fâticciros, bcn::t'da"ros c a._R·ourt'iros:
«J)efcndemos que nenhuma pessoa ele qual-
quer estado ou condição que seja, tome de Jo-
gar sagrado, ou não sagrado, pedra d 'ara ou
corporaes, ou parte ele cada uma d'ellas, Oit qual-
quer outra cousa sagrada; nem invoque diaholi-
cos espiritos, cm circulo, ou fora d'clle, ou em
encruzilhada; nem l ~ a alguma pPssoa a c0mer ou
l'l·U<:XÇAS l'Ol'UL.\RES 16j
a beber qualquer cousa, para querer bem ou mal
a outrem, ou outrem a ellc; nem lance sortes para
adivinhar, nem varas para achar haveres; nem
veja em ag-ua, ou crystal, ou C'm espelho, ou em
espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem
<'111 espadua de carneiro ; nem C1.ça, para adivi-
nhar, figuras oa imagens algumas ele metal, nem
de qualquer outra cousa; nem trabalhe de
adivinhar em cabeça de homem morto, ou
de qualquer outra alimaria; nem traga com-
sigo dente, nem baraço de enforcarlo nem ta-
ça com as ditas cousas, ou cada uma d'ellas,
nem com outra alguma semelhante, posto que
aC]ui não seja nomeada, especie alguma ele fei-
tiçaria, ou para adivinhar, ou para fazer damno
ou proveito a alguma pessoa ou fazenda: nem
faça cousa para que uma pessoa queira lwm ou
mal a outrem, nem para ligar homem ou mu-
lher, etc.»
<<Outrosim defendemos que nenhuma pessoa
doente passe por silva ou machieiro, ou por
baix•.1 de trovisco, ou por lameiro virgem; nem
benzam com espada que matou homem, ou que
passasse o Douro e l\Iinho tres vezes ; nem cor-
tem solas em figueira baforeira ; nem cortem
çobro em limiar ela 1nrta; nem tenham cabeças
de saudadores encastoaclas em ouro, ou cm
prata, ou em outras cousas; nem apreg1lem os
\
16R nu::-.JÇAS POPULARES PnRTIH:u..:sAs
demoninhados; rwm levem as imagens d'alguns
sanclos ácerca cl'agua, fingindo que as querem
lançar em e lia, e tomando fiadores, que se até
c<·rto .tempo lhes nãl) der agua, ou outra cousa
que pedem, que lançarà:) a dita imagem na
agua, nem r ~ v o l v a m peneJos e os lancem na
agua para haver chuva; nem lancem joeira; nem
dêem a comer bollo para saberem parte de
algum furto ; nem tenham menclracolas em sua
casa, com tenção de haverem graças, ou ga-
nharem com ellas; nem passem agua por ca-
beça de cão, para conseguir algum pr.weito; nem
digam cousa alguma do que é por vir, mostran-
do que lhe foi revelarlo por 1 >eus, ou algum san-
to, ou visão, ou em sonho, ou por qualquer ou-
tra maneira; nem benzam com palavras ignotas
e não entendidas, nem approvadas pela egreja,
ou com cutellos de tachas pretas, ou cl 'outra
alguma côr, nem por cintos e ourclos, ou por
qualquer outro müdo não honesto; nem façam
camisas fiadas e tecidas em um dia, nem as vis-
tam, nem usem de alguma arte ele feitiçaria »
II
Transcrevemos os titulos das constituiç,-,es
l"RF.:'-l"Ç.\S l'UI'UL.\RES l'URTUGU!<:S.\S 1 tjg
do arcebispado cl'Evora acêrcade feitiçarias, com
preterencia a 0ulro qualquer documento, por ser
o que mais especificadamente tractad'esta mate-
ria ; as outras constituições diocesanas que vi-
mos, promulgadas no seculo XVI, limitam-se em
geral a prohibir agouros e bruxedos sem os par-
ticularizar, e sem que d'ellas se possa tirar maior
luz para a historia das crenças nacionaes. ::\Iui-
tas d'essas antigas compilaçües ecclesiasticas são
hoje rarissimas, nomeadamente as que primeiro
se imprimiram, como uma da diocese do Porto, de
que nos lembra ter visto uma copia, e que pela
linguagem e o estylo nos pareceu pertencer ainda
ao seetllo xv.-Xas mais remotas achar-se-hiam,
porventura, outras noticias; mas não as pude-
mos alcançar. E de passagem lembraremos aqui
aos amigos das velhas coisas do velho Portugal,
que não ha, porventura, mais rica mina para ·a
historia dos costumes de nossos avós, depois das
compilações das leis civis, que estas leis eccle-
siasticas, que íam devassar o proceder das fami-
lias, o proceder de todas as classes, de todos os
individuos, não só nas suas relações sociaes,
como, por via de regra, acontece com aquellas,
mas tambem nas relaçües domesticas, nas rela-
çôes com Deus, tomando muitas vezes para si os
misteres e direitos, que em boa razão sú deve-
riam pertencer á consciencia de cada qual. Pe-
170 UU:::\Ç.\S l'lll'l"I..\Rio:S l'tlRITCiljJ•:SAS
las antigas constiluiçt")eS Jos bispados quasi po-
drmos seguir a existencia de nossos anlrpassa-
dos do berço ao tumulo, porLllle a religião Je
um alé oulro cabo os acompanhavJ, e ella en-
tão era essencialmente positiva e pratica. \ lei
ecclesiaslica vigiava a infancia, a puberdade, a
idade viril, e a velhice ; e para cada epocha da
vida tinha preceitos, e para cada erro castigo.
P<:rgunt-ava ao celibatario se as suas noites eram
solitarias, aos esposos se o seu leito era casto, ao
sacerdote se o seu coração era puro; batia alta
noite á porta afferrolhada das casas da devassi-
dão, do jogo, da ebriedade, e fazia tremer o de-
vasso, o jogackH·, o ebrio; porque não era uma lei
morta, mas sim lei com a sancçào de penas ma-
teriaes. Esta legislação particular que tinha por
base o Evangelho, por objecto os costumes, ele-
via primeiro que tudo conhecer exactanwnte
estes, e ser definida e precisa nas suas disposi-
Çt)es E' assim que ella nos conservou a historia
das crenças e abusües do povo: das suas paixões,
dos seus trajos, das suas festas e jogos ; e até dos
seus alimentos : é assim que talvez se possa di-
zer em rigorosa verdade, que s(} com as leis ci-
vis e ecclesiasticas se poderia escrever a histo-
ria intima, a dv 'i.'i<.-•t-r elas geraçües que
antes de nc'1s passaram nesta terra portuguesa.
desde os primeiros seCLdos ela monarchia. Para
l'OPUL ,\RES PORTUGt:ES.\S I i I
isto, t"davia, é necessario consultar as mais re-
motas com dohrada curiosidade; porque o pro-
gresso da civilização trouxe o habito de gene-
ralizar as idéas, e este habito influindo na legi-s-
lação, tornou a sua expressão mais geral, e por
consequencia, neste sentido, muito menos his-
torica. *
Para proYa tle quanto se poJem aproYeitar as I eis
como fontes da historia, não dos reis ou dos soldados,
mas do prClgresso das IWJ·õ,·s, dei-xando as leis ciYis de
que potleriamos apontar circumstancias tle
naria curiosiclaJ.e, limitar-nos-hemos a dizer que tl'estas
mesmas constituições d' E\·ora se deprebemle o uso an ·
tiquissimo tlas representaçôes nas igrejas, e de outras
indecencias semelh:mtes que o poYo julgaYa então ou
licitas ou piellosas. <· Deffemlemos, diz a constituição r o
do titulo r s. a todas as pessoas ecclesiasticas e secula-
res, ae qualquer estado e condição que sejam, que não
,-Clmallz nas egn'jas, non bt·bam, t'lll 11zc:;as, nen1 sen1 tnezas;
nem cantem, nem bailem, em ellas, nem em seus atlros:
nem os leigos façam ajuntamentos dentro dellas sobre
cousas profanas ; nem se façam nas ditas igrejas, ou
adros llellas, jogos alguns, posto que seja em Yigilia de
sanctos ou cl'alguma festa; nem rcpresoztariics, ainda que
st'jam da paú·/io de 1wsso .'icnlwr J C., Cllt da sua rcsurrt'tJ·ão
ou nascrn{a; de dia, nrm dt' JWitt•, sent nossa especial
licença; porque dCls tm·s autos se seguem muitos in-
conYenientes que muitas yezes trazem escanclalo
nos corações u'aquelles que não estão muito firmes
na nossa sancta fé catbolica, 'i'endo as dcsClrdc11s c ex-
assM qu•· nHio s··fa:;on . . n· esta passagetn se póJ.e con-
:\las, voltando ao nosso assumpl,l, de que um
pouco nos afl"astámos, obsPrvarcmos neste Jogar
que a lei civil que por este mesmo lempo fôra
leila l\Ian Liv. 5.
0
Tit. 33) fazia distinc-
çào, por assim dizer, da grande e pequena bru-
xaria; porque as feitiçarias cm que se usava
empregar pedra d'ara ou corporaes, ou quacs-
qucr outras cousas sagradas, era punida com
pena d(· morte, bem como os esconjuros e m-
vocaçõcs de diabos, feitos em circulo ou em
encruzilhada, e o dar a beber ou a comer cou-
sas enfeitiçadas para querer mal ou bem a al-
guem.
Todos os outros bruxedos, porem, que naquella
ordenação se acham especificados, e que
pouco mais ou menos, os mesmos que enume-
ram as constituiçües d'Evora, tinharn por pena
a marca de ferro nas faces, e o degredo perpe-
cluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo me-
nos do decimo sexto seettlo, sendo, além d'isso, proYa-
yel, que semelhante usança remonte a epocha muito
mais remota; porque os costumes populares leYam mui-
tos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se ; e
com effeito, ainda no fim do seetllo X\"ll o bispo do
Porto, D. Fernando Corrêa de Lacerda, fulminaYa cen-
sura.:; contra taes comedias, cotno se Yê de uma sua or-
clenança que lemos, aincla mais curiosa que a antece-
dente constituição; mas que por hreYidarle não aponta·
remos aqui.
tuo para a ilha de S. Thomé. A \s demais su-
perstiçues populares, que não pareciam depen-
der de tracto com o demonio eram punidas
com açoutes, sendo o criminoso peão, e sendo
vassalo ou escudeiro, ou mulher de qualquer
d'estes, com degredo de d1)US annos para os
Jogares d':\frica. Estas disposiçües passaram
quasi textualmente para o titulo J." do livro 5.
0
das Philippinas, conhecidas geralmente pela de-
nominação d 'Ordenaçües do Reino.
E cumpre aqui advertir que, se quando se
reformou este codigo no principio do seculo XVII
se conservaram penas tão severas contra indivi-
duas que não passavam de meros charlatães,
que por taes meios viviam á custa da credu-
lidade publica, ou que se enganavam a si pro-
prios, imaginando terem imperio nos demonios
e tracto com as potencias invisiveis, é porque
ainda então se cria que similhantes sonhos
eram realidades. E fomos sô nós acaso os que
isso acreditámos ? - Xão . .J._ \ Europa inteira es-
tava na mesma persuaçào: nessa epoca todos
os governos, e legisladores, e até homens da
mais alta cathegoria litteraria admittiam a pos-
sibilidade dos maleficios, dos sortilegios, e dos
adivinhamentos. E tào duradora foi essa crPnça,
que ainda no principio do seculo clecimo-oitavo,
quando appareceu a Jlagica amziquilada de
I i -t {"REN(,".\S I'OI'UI.AIU:S l'ORTIH:t..it<:S.\S
:\TafTcu (livro, cm nosso cntf'ndcr, muito .íquf'm
da sua reputação) se levantou uma grande Jis-
cussào a similhante respeito, o que é claro
signal de que para muitos homens instruidos a
magia não era uma coisa inteiramente vã.
Pma elas coisas mais notaveis acêrca da cre-
dulidade dos nossos an tcpassaelos no seculo XVII,
é um alvará datado de I 5 de outubro ele 165-t,
impresso no 7orna! de Coimbra e citado por J.
P. Ribeiro, em que se dá licença a um soldado,
que dizia ter o dom de curar com pa!aznu,
para continuar a fazer uso cl'esta estupenda habi-
lidade com a obrigação de empregar o seu pres-
timo em beneficio dos militares que d'elle hou-
vessem mister.
< ) progresso, porém, das sciencias foi pouco
a pouco destruindo estas abusões nos animos
elas pessoas sensatas, e os feiticein)s e bruxas,
c adivinhües viram-se obrigadns a refugiar-
se entre a plebe ignnrante das cidades, e entre
a gente boa e simples dos campos. E' ahi onde,
ha mais de cincoenta annos, apenas restam usan-
ças flUe revelam a existencia das chamadas ar-
tes Jiabolicas.
<) conllicto entre o progresso intellectual e as
antigas superstiçües acarretou por· vezes des-
gostos e perseguiç,-,es áquelles que trabalhavam
cm allumiar as nações; mas tambem deu aso a
acontecimentos mui graciosos, dl>S quaes re'a-
taremos aqui um, succedido em Evora no reina-
do de D. José.
LTm frade de certa ordem tinha sido nomea-
do mestre de philosophia naquella cidade. <Jue-
rendo dar uma vez a seus discipulos idPa da
electricidade, pôde obter emprestada uma ma-
china electrica, com a qual fez algumas expe-
riencias diante de varios padres graves do seu
convento, que ficaram pasmados de coisa tão
extraordinaria, e suppuseram lá comsigo andar
nisto obra de feitiçaria. Esperaram, portanto,
um dia em que o mestre de philosophia saísse
fóra do convento, e mandando o prelado tocar
á communidade, revestido, e de cruz alçada,
seguido dos demais frades, foi ao aposenb,, on-
de estava a machina para a exorcismar. Come-
çados os exorcismos tanta agua benta lhe deita-
ram que dentr•J em pouco ficou completamente
estragada. <.Juanclo d'ahi a dias o professor quis
trabalhar com ella, nunca o pôde alcançar; e os
padres graves, rindo uns com os outros, escar-
neciam do pobre philosopho, a quem, com es-
conjuras, tinham inutiliLaclo aquelle diabolico
feitiço.
Concluiremos este artigo dando uma noticia
do que temos alcançado acêrca das feitiçarias,
bruxas, e luhis-honwns, na opiniào do vulgo,
cuja imaginação ainda dá existencia a estes so-
nhos ridículos conservados nas tradiçücs popu-
• lares.
() povo faz distincção entre feiticeiras, bru-
xas, e luhis-homens. São as feiticeiras e bruxas,
por via de regra, mulheres velhas, pobres, feias,
immunclas, e ele genio melancholico, ou cole-
rico. Estes motivos bastam para o vulgo as
aborrecer, e para· justificar a seus olhos qual-
quer accusação que lhes façam de feitiçaria ou
bruxedo. O mister das feiticeiras é fazer male-
ficios a todo o genero de pessoas de qualquer
idade que sejam: estas acompanham ordinaria-
mente o diabo em todas as suas funcções neste
mundo . \s bruxas teem poder limitado, estan-
do apenas auctorizadas para chupar de noite o
sangue ou a substancia das creanças, matando-as
pouco a pouco d'inanição, ou de repente, se
chupam desarrazoaclamente.
< >s lubis-homens sãn aquclles que teem o
fado ou sina de se despirem de noite no meil1
de q ualq ucr caminho, principalmente encru-
zilhada, darem cinco voltas, esponjando-se no
chão em Jogar onde se esponjasse algum ani-
mal, e em virtude d'isso transformarem-sP na fi-
gura elo animal pre-tspoujado. Esta pobre gente
não faz mal a ninguem, e só anda cumprindo a
l"RF.XÇAS POPtJLARES PORTUGl"F.SAS 17 7
sua sina, no que teem uma cenreira mui galan-
te, porque não passam por caminho ou rua, on-
de haja luzes, senão dando grandes assopros e
aSSl)bins para que lh'as apaguem, de modo que
seria a coisa mais facil d'este mundo apanhar em
flagrante um lubis-homem, accendenclo luzes
por todos os lados por onrle ·elle pudesse saír
do sitio em que fosse presentido. E' verdade
que nenhum dos que conta similhantes histo-
rias fez a experiencia.
de qualquer feiticeira ou bruxa
é pela seguinte maneira .. .:\ adepta é levada alta
noite pelas feitice-iras professas a um Jogar ermo,
onde o diabo apparece transformado em bode
negro. Começa a ceremonia, como é de razão,
pela matricula, e a noviça escreve o termo da ven-
da da sua alma com o proprio sangue: então o dia-
bo lhe entrega um novello e um pandeirinho
que são os symbolos da nova dignidade que re-
cebe, e pelo que fica habil para fazer os seus
maleficios, e para se transformar no que quiser.
quer sejam corpos animados, quer inanimados.
Depois d'isto o demonio bodi.ficadose assenta no
seu lhrono cercado de candeinhas, e por bai-
xo d'este throno passa a noviça tres vezes.; aca-
bado o que, a nova feiticeira dá um beijo na
proximidade da cauda ao transformado rei do in-
ferno.
Feita esta ceremonia as circumstantes (que
são todas as feiticeiras ela provincia,
alli para assistir áquelle autn) tocam os seus
pandeirinhos, e com dansas mystcriosas levam
a nova socia a casa, onde lhe mostram os res-
pectivos novellos dr> fiado, qtw são maiores ou
menores, conforme a importancia ou
cm que ns tem o diabo.
listes novellos diabulicos Pm que principal-
mente reside a furça e poderio das feiticPiras
são compostos ele uma espccie de linha fiada
pt-!a mão do diabo, e cuja materia prima é o
pello elo bode, em quP o cão tinhoso costuma
tranformar-se. Tambem as bruxas teem por apa-
nagio uma maçaroca preta ; mas a demonolo-
gia popular não declara de que maneira, ou de
que materia seja feita, bem como as dos lubis-
homens, que tambem possuem este aclminiculo,
elo qual apenas sabemos uma circumstancia, que
é o ser de fio pardo.
Quando alguma cl'estas importantes persona-
gens, que tem pacto, ou fado, está para mor-
rer, chama a pessoa que mais estima, e a esta
entrega o fatal novello. Se lh'o não aceitam,
não pode expirar, ainda que esteja em agonias
mortaes; mas apenas essa, ou alguma das cir-
cumstantes lh'o recebe, a pobre creatura entre-
ga logo descansadamente a sua alma a satanaz.
crn::\Ç.\S l'OPl'I.\RES I'IIRTCI;l'ESAS li9
l'arece que a posse de tal herança dá um di-
reito na secretaria d'estado infernal, para o her-
ueiro ser preferido no prehenchimento elo logar
que ficou \'ago.
Tem a feiticeira obrigação, cada \·ez que quer
infeitiçar alguem, de invocar primeiramente o
diabo, e de lhe pedir.licença para exercer seu
officio, o que proya que não só na terra ha maus
systemas de legislação. _ \ formula usada em taes
casos, segundo alguns gra\'issimos auctores, é:
Tt'lza!o,Jerrato, mulato, passe por baixo, o que se
repete tres vezes .. \code o clémo ao reclamo, e
a professora de feitiços póde então ter a certe-
za de tirar a sua a limpo.
Se, porém, se não tracta de um feitiço ele se-
gunda ordem; mas sim d'algum que deva pro-
duzir a morte do individuo enfeitiçado, é pre-
ciso mais trabalho, e pelas leis infernaes não é
licito a qualquer feiticeira tomar sobre si só ta-
manha responsabilidade, d'oncle se póde con-
cluir qual seja a prudencia, gravidade e con-
sciencia do diabo, que por certo não é tão feio
como o pintam. Quando, pois, alguma cl'estas
boas creaturas quer dar cabo ele qualquer in-
dividuo, toca o seu pandeirinho e chama duas
suas companheiras para cl'ellas se ajudar naquella
boa obra. Então as taes fazem uma figura dJ.
pessoa condemnacla a morrer, e compostos cer-
1 So CRENÇAS POPULARF.s roRTIJct·J<:sAs
tns unguentos liquid,>s vào com elles unctanclo
aquelle vulto, e ;í proporçào qu<· o trabalho se
vai adiantando, vai o enfeitiçado adoecendo,
até que chc>ga ;í s ultimas. Kest<> ponto a fc>iti-
ceira mais velha tira o seu novello, püc-se a
dobá-lo, e quando o doente deve morrer uma
das outras corta o fio com uma tesoura, c no
mesmo instante expira o enfeitiçado. Depois in-
vocam todas tres o clemonio, que vem, e solda
de novo o fio que ficou cortado.
Limitamo-nos neste artigo a tractar com mais
alguma individuação a mais notavel das supers-
tiçües populares, o imaginaria pacto com o dc-
monio. Deixamos para outra occasião o falar
de muitas outras crenças e costumes que po-
deriamos ajunctar a e ~ t e s incompletos aponta-
mentos, e então daremos especi.1l noticia das
1/llt!lzcrt.:s de virtude, especie de contraveneno
com que o povo de algum modo quis destruir
os terrores que lhe causava o poderio das feiti-
CPiras qu<> elle proprio creara.
A Casa de Gonsalo
COl\.IEDIA El\.1 C I ~ C U ACTOS
TOMO IX
l'ARECEH
Memorias do Conscrvatorio
1840
FOL 13.
A Casa de Gonsalo
CI:-.;cu .ACTOS
l'AHEl'ER
_ \ commiss;"""to encarregada de dar o seu pa-
recer sobre a comedia intitulada L-"ctsa d<.: Gou-
Stllo- que concorreu aos premios destinados para
os dramas originaes portugueses, que mais se
avantajarem entre os outros no concurso abertl>
por este Conservatorio para o corrente anno de
I 8-to, vem apresentar a sua opinião a este Jury,
do::-sempenhando assim o encargo que lhe coube
em sorte .
. \ comedia sobre que versa este parecer é
precedida por um prologo, ou, como seu auctor
lhe chama, por um endereço aos censores .
. \ Com missão hesitou se devia ou não fazer
algumas observações sobre a materia nelle con-
tida : grave e importante é esta; ridícula e tal-
vez chula a fórma porque o auctor a tractou;
mas a Commissào intendeu por fim que to-
cando-se nesse prulogo a grande questão das
condiçúes da arte, que hoje agita o munJo lit-
\ C.\S.\ I 11·: (;0:'\S.\ !.11
krario, l'r;t da su;t ohrigaç;"to, l'ntrar no exame
d;ts idéas C(lntidas nelle. l'ospondo, por tanto,
os gracejos do auctor, e consiclerandn somente
as suas opini,-1es e prop:)siç.)es, atl- p.1rque Pile
parece aprescnt:í-las, como norma por onde os
ccnsorE>s houvessem de guiar-se, antes de jttlgar
o urama dirá algumas palavras sobre f) menci•l-
nado prologn.
Começa o auctor esse prolngo pela sua bio-
graphia litteraria referindo como tem composto
um hom numero de comedias comicas, e outras
lamentosas ou patheticas, de que, segundo elle
diz, são muito apaixonados os alemães. Deixan-
do ele parte as noticias biographico-litterarias,
importantíssimas para uma nova edição da Bi-
bliotheca ou do Diccionario dos ho-
mens illustres, mas que no caso presente. nada"
montam para o Conservatorio, a Commissào
apenas se faz cargo elas duas circumstancias que
deixa apontadas: a I .a de ter o auctor compos-
to comedias lamentosas, ou como, com \T oltai-
re, elle lhe chama, larmoyautcs: 2.ól. a de affir-
mar que d"este gcnero são mu.to apaixonados
os alemães. Admira com efTeito, que o auctor
tão afferrado aos sãos principias dos antigos,
tão desprezador dos desvarios modernos, gas-
tasse o seu tempo com um genero dramatico
hastardn, cm quP os antigos nem sonharam,
porque só conheceram a lragedia e a corncdia,
vendo-se daqui que houve u:na epoéa em
que o illustre auctor da Czsa de GullStzlo sacrificou
ao :\loloch t·evolucionario: não admira menos,
que um escriptor tão versado em materias lit-
terarias ignore que o drama lamentoso nasceu
em França, e que a \lemanha só conta um
auctor notavel neste genero- Kotzebue -que
não teve succcssores, e que hoje está quasi com-
pletamente esquecido naquelle país, onde exclu-
sivamente appareccm poucas con1edias, bastantes
tragedias, e infindos dramas da eschola mockr-
na que eslá hem longe de ser a de (LJ
dos dramaturgos chorúes, lamentosos ou palhe-
ticos.
Continua o illustre auctor da Casa dt-· Guusa!o
dizendo que sabe que a sua comedia não hadc
agradar porque tem mau gosto de com-
posição que recommenda -\ristoleles e IIoracic1
que eram uns rançosos e cl' esse ranço é }.Ienan-
dro, .-\ristophan.)S e Terencio etc. ; fala nos
freios da arte da eschola classica, unidade de
acção, consistencia de caracteres; paix ·,cs e affe-
ctos naturaes, verdade de costumes, (!J estabi-
lidade de logar, unida(le de tempo; fala no Sa-
les que tinha a habilidade ele fazer velhos os
rapazes iam ouvir-lhe as licçi1CS de poetica
e rhetorica (!); diz que todas as regras acabaram
com I lug-o e I >clavigne, e que os mod(•rnos des-
truiram a unidadP d'acçào, de caracter, de tem-
po, e de Jogar. I )o fJ.UP tudn conclue o auctor que
a sua comedia não hadc agradar, e 'Jllf" por isso
a apresentou sem a mandar copiar.
Se a letra em que a comedia est;'i escripta,
c a historia litteraria do illustre auctor inserida
neste prologo, nàn revelassem, aquclla a mào
trémula dP um velho, esta uma larga vida cheia
de recordações flo sapientissimo Sales, que, bem
dillerente das magas elas novellas de cavallaria,
as quaes transformavam as rugas de velhice em
viço de mocidade, convertia a mocidade em ve-
lhice: se a Commissàn, digo, não inferisse de
tudo isso que este prologo encerrava um pen-
samento ele Sansão, classico, o qual vendo mor-
ta a sua nação quer morrer tambem levando
comsigo os philisteus da nova arte, e se este
pensamento não fosse generoso, ella se teria abs-
tido dP f<vcr observaç:)es algumas acêrca das
idéas do auctor, que em um homem moço e que
nà11 tivesse essas raz.->es d'amnr ás coisas com
que se cr2ou, seriam apenas dignas ele compai-
xão muda .. \ Commissão, poréin, pertence in-
felizmente ao presente, e quando vê um campeão
do passado, c)p fJ.Uem sP ptide dizer como \Tir-
gilio:
C0:\11-:DI.-\ E:\l crxco ACTos
Et dulces moricns rcmiuiscitur
Do caro Sales lembra-se morrendo.
não pode deixar de lhe dar o extremo 'l/ale, nem
é licito que responda com um silencio que se
poderia tomar pelo silencio do desprezo a quem
vem lançar na estacada a luva do combate, por
uma causa talvez bella, mas nestes tempos irre-
verentes e dissolutos, bem mal-a\·enturada.
Senhores! guerra que os homens elo pas-
sado làzem ás opiniões elo presente é um phc-
nomeno trivialissimo, e repetido todas as vezes,
quP, ou as meditações ou as inspirações do ge-
nio, ou finalmente a accumulação das idéas e
das observações ele muitos homens, tem produ-
zido uma revolução, seja ella ele que natureza
fôr. \ razão cl'isto dá-se neste prologo. Quem
encanecenclo no estudo de qualquer ramo de
sciencia nunca pôde passar além de comprehen-
cler o que os outros pensaram, intende que a isto
se deve reduzir todo o poderio intellectual do
genero humano. Taes inclividuos são por via de
regra os representantes ela immobilidade.
longe da theoria elo progresso indefinido, crêem
que a civilização é como a praia elo mar, os ho-
mens como as ondas d'elle, que ora se aproxi-
mam ora se afastam em continuados éstos. São
taes individuos que nunca se persuadiriam de
.\ C.\S.\ 1;oNS.\I.U
que chama1las lrcv.1s da cdarle nü':dia n;.to
eram mais que a chrisalida de uma civilit.açào
maiur c melhor que a grega e romana, ele t1ma
civilit.açào cuja aura vital era a grancle lransfor-
maçà) rcligi.lsa chamada o chrislianismll. s;-tu
tacs indivíduos p.:1.ra quem fora haldada a de-
m•mslraçàn de que no objecto de que neste lo-
gar se lracta- o drama -uma nova e por
conseq ucncia uma nova fúrma tinha co:neçado
Cl)ll1 o berço das naçües modernas, c de que
entre o nosso thealt-o e o elos antigo3 devia ha-
ver a mesma elitTerença que ha entre a civiliza-
ção christà e a pagà, entre o chrislianismo e o
polythcismo; cm fim que nas respecliv JS liltc-
raluras dramaticas devia haver uma diversidade
paralle!a á que ha entre a parte material do thea-
lm antigo e a elo thealro moJcrncJ.
Era licito, p1is, a estes homens
abraçados com as pocticas e rhchricas sobre
que cncancccram; era-lhes licito desprezarem
03 fructos das c,Jgitaçücs dos modernos; era-lhes
licito lerem commcntado as regras, na impJssi-
hilidaelc ele fazerem dramas. Tud1) iss.) lhes era
licito menos ignorarem a historia da arte antiga,
os princípios da moderna, men-
tirem acêrca el'aquclla, e calumniarem esta. Isto
(> o que tem feito os admiradores elos rhetori-
cos de lodvs as naçües, isto é o que se reproduz
n>.l prolngo do çrudilo discipulo di) crudilissimo

_ \ Co•nmissão nà(._) entrará aqui no exame do
valor relativo elos prircipios da eschola antiga,
c da cschola moderna que lambem os tem mais
e por ventura mais creadores de diffi-
culdacles que os da antiga . .-\ comparação cl'esse!:-i
principios seria materia de um livro, de um nrr-
so de litteratura dramatica, e nunca de um pa-
recer que deve servir de base á espe-
cial clu merito de um drama . .:\Ias a Commissào
se mostraria pouco attenta á dignidaclc', e á honra
litteraria do Conscrvatorio se deixasse passar
com•) exactas affirmativas contrarias á historia
uo theatro e á critica, sem que rectificasse in-
exacticlües que se lhe vem apresentar como ver-
dades.
<) auctor diz que sabe que a comedia nà•J h a
de agradar por se verem nella cumpridos os de-
cretos de Aristotcles e ele 1 loracio. Desejaria a
Commissào que elle tivesse declarado cujo era
o ucsagrado em que linha a certe7a d'incorrer.
Se era o d'J publico, como tendo essa certeza
concorre ás provas publicas? -X este procedi-
mento ha pelo menos um pleonasmo tão flagran-
te como ha no titulo .de comt:dia comica que e1le
d:l a esta Se é o do Conservatorio, parece fazer
com isso grave injúria a este.
I
r\ CASA li E I.U
C) Con!=ervalorio possue nn s_eu seio honwns
de convicçüPs diOcrenles, e até certo ponto op-
poslas, em matPrias Jitterarias: uns perlrncem,
como o auctor, ás id(>as antigas, outros ás opi-
nit)es modPrnas. Para os primeiros a execução
d'essas regras é um merito; para os segundos se
as suas opiniües assentam sobre uma theoria
cornpleta da arte - e a Commissão crê que sim
--o desempenho d·essas regras é indifferente,
porque não é nPm na falta, nem na existencia
d'ellas que consiste a arte. () auctor devia saber
que a eschnla moderna colloca quasi a par de
Shakespeare e acima blvez de Calderon e Lopo
da Vega, dois escriptores da arte dos preceitos
- e Corneille: devia saber que ella re-
jeita (l'esses preceitos aquelles que não teem uma
sancção esthetica; aquelles que, ou o capricho,
ou um exame superficial das materias litterarias,
admitliu como canones imprescriptiveis; aquelles
que são mui proximos parentes dos achrosticos,
dns echos, e dos versos leoninos - mas devia
tambem saber, que a eschola moderna nunca
desprezou o dramaturgo, cujo genio, apesar d'es-
sas peias escholasticas, se remontasse a altura da
verdadeira arte, e que, por tanto os membros do
Conservatorio cujas opiniües são modernas não
rejeitariam o·drama só porque se assujeitava ás
andadeiras rcthoricas da eschola antiga. Se um
ül:\IETIL\ UI CI:'\CO .\C ros
191
pensamenb1 unico tivesse precedido á composi-
ção cresta comedia : se o ideal de um ou muitos
caracteres comicos tivessem nella revestido as
formas da vida real, embora o drama estivesse
arrebicauo de cem regras e duzentos preceitos,
os sectarios da n.wa eschola leriam dicto com
os <la antiga; cquih·s romaui p!audant!
O digno auctor da GlStl dt! Gonsalo, seguin-
do as pisadas dos homens da sua eschola pa-
rece querer tornar solidaria a arte dos gregos
e romanos com a arte do renascimento; essa arte
bella, pura, e nacional dos antigos com a arte
caprichosa, polvilhada, cortesã e regreira do
seculo de Luis XVI. Hoje não é licito ignorar
as differenças que ha d'aquella a esta: ignorar
que além de outras coisas duas regras essen-
ciaes para os modernos faltam entre os anti-
gos as unidades de logar e de tempo, e que
\·ice-versa entre os antigos ha \·ia no theatro os
coros que os classicos modernos deixaram,
bem como a musica t<\nto dos coros como da
scena, a qual fazia que o drama fosse então o
que é hoje a opera ité.lliana, ou a \·ulgar, onde
esta existe.
Senhores: o drama moderno nasceu dos !nys-
terios ou n"presentaç,->es religiosas da edade
média: o caracter essencial dos mysterios era o
vestir o ideal christà0-e o nome o está di-
/( ndo- cum as f{>rmas da vida n·al, c a vida
real (·ra então como hoje, como sempre·, uma
indistincta mistura de lagrimas c riso, de pai-
xl>cs vis c nobres, d'infamias c de gran1h:-zas.
:\os mosteiros o:1de o drama começou, se re-
uniam os extremos oppostos da sociedade: o
monge era a um tempo sacerdote e jogral: a
ignorancia vejetava ahi ao lado ela sciencia, a
crapula ao lado da modestia e da virtude, o
folguedo e o bom humor ao lado da penitencia,
os grandes crimes ao lado da pura innocencia.
Então o monge a qnem a naturPza fizera poeta,
tendo quasi p,Jr unicos estudos a historia sym-
holica dos hebreus, as sublimes invenções da
sua poesia, e esse evangelho tão ideal desde a
primeira até a ultima pagina, não conhecendo
o drama antigo, sem o saber, uma trans-
formação na arte dramatica e começava essa
Pschola moderna, salva apenas na IIespanha e
Inglaterra no seculll XVII e restaurada hoje em
toda a Europa com mais brilho, e aperfeiçoJda
pela philosophia. <) caracter d esta eschola é
na cs sencia um contraste completo com a an-
tiga: esta tomava o mundo real, posilivo e até
trivial e vestia-o de f{)rmas ideaes: os caractc-

rcs, as paixües, as situações procurava-as na
vida quotidiana: nas expressúes, na fraze é que
estava a poesia e é por isso que o poeta an-
tigo carecia dos cows p;1ra ahi principalmente
derramar as harmonias da sua alma; é pnr isso,
que S-.>phócles, ou EuripiJes não comprehende-
riam o drama em prosa: é por isso que o thea-
tro dos antigos não separava a musica da lC'-
tra, p.)rque a tragedia nà J era senão uma lar-
ga elegia sobre as amarguras da existencia or-
dinaria; a cumedia não era senão uma satyra,
um escarneo contra os vicios e as ridicularias
da vida commum. Pelo contrario o theatro da
edade média buscava no ideal paixües, cara-
cteres, situações. Onde achamos nós essas mar-
tyres tão suaves, tão aereas, tão amorosas de
um objecto sumido nas profundezas elo céu?
Onde achamos esses demonios chocarreiros e
perversos, cujos motejos e risadas infernaes nos
fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onrle es-
ses coraçôes, ao mesmo tempo tão robustos e
tão delicados, dos cavalleiros do romance e do
drama da edacle média? -:\os mysterios e nos
autos; e os mysterios e os autos são ascenden-
tes do drama actual: as. os :\iyphisto-
pheles, e os Hernanis não refusam a sua ar-
vore genealogica.
Esta familia, nobre, porque, como as famí-
lias humanas, vai entroncar-se na edacle mé-
dia, teve um tempo em que caíu na abjecção:
foi quando os paços a rejeitaram; quando ap-
.\ C\St\ III•: (;li:'I<S.\1.0
pan:ceu outra, que se chamava mais illustre;
outra qLw se di.óa de mais antiga ascPndencia,
aparentando-se com gregos e romanos: mas a
critica mostrou que isto era falso, a philoso-
phia que, ainda sendo verdade, não era tal ra-
z ~ i n bastante para a prelcrencia. Esta é em re-
sumo a historia elas vicissitudes da arte.
lia ainda duas proposições no prologo da
C1sa de Gousalo as quaes a Commissào inten-
deu que não devia deixar passar sem fazer so-
bre ellas alguns reparos. Consiste a primeira
em dizer que os modernos destruiram o prin-
cipio do desenvolvimento logico dos caracte-
res, ou como o auctor e a sua eschola lhe cha-
mam -a unidade de caracter. I >e todas as ac-
cusaçües que se podiam fazer á eschola moderna
esta é a mais infundada. Condição absoluta da ar-
te actual é essa unidade Jos caracteres, e neste
ponto a Commissão não recearia d'estabelecer
parallelos entre os melhores dramas classicos e
os dramas de segunda ordem, escriptos debaixo
da influencia dos novos principias, certa de que
a vantagem ficaria sempre ou quasi sempre aos
ultimas. Consiste a segunda proposição em af-
firmar o auctor que todas as regras acabaram
com I-lugo e Delavigne: nisto ha uma falsidade
e um t:t-ro ele historia litteraria. Falsidade por-
que não é preciso ter lido senão os prologas
de \'ictor 1 Jugo ao Cromwd, e ao Ru.y-Bias
para se ver que ainda o dramaturgo mais exag-
geradamente liberal da eschola moderna esta-
belece regras, que a Commissào não avalia
aqui, mas que incontestavelmente o são, boas
ou más . ..:\ccresce que, sem falar numa grande
multidão d'escriptos sobre a arte dramatica pu-
blicados ha vinte annos, basta ler as revistas
litterarias francesas, alemãs, e inglesas, para
ver que a critica tem já assentado muitos prin-
ci pios incontesta veis para julgar as producçües
do theatro, e que se em outros ha diversidade
de opiniões, não é isso de admirar numa es-
chola que conta apenas vinte annos como theo-
ria, e que é obrigada ·a provar a justiça da sua
causa com razões e ao mC"smo tempo com obras,
ao passo que os defensores da antiga. firma-
dos em monumentos e glorias seculares, des-
obrigados, e por ventura incapazes de crear obras
de arte, não tem outro trabalho senão d e f ~ n ­
der e amparar seus princípios, princípios que
apesar d'esses monumentos, d'cssas glorias, d'es-
sas defensões, e sobre tudo de sua antiguidade,
não deixam muitas vezes de ser incertos e até
contradictorios .. Agora quanto ao êrro de histo-
ria litteraria a Commissão julga escusado dizer
mais nada, senão que quem pôe em parallelo
I >elavigne e I Iugo, como egualmente destru-
<.:tores da ;trte antiga. lll!lSira qtH' nc·m os t:om-
parou, nem os leu, !' P' 1r t:f'rto nem utn nem
outro lhe deve ficar obrigado. I >ela vigne, o
aca<lemico I que trPme a cada passo
de pertPncPr ao seu seetdo, não julgaria em
decente cumpanhia vendo-se ao lado de \'i-
ctnr I Iugo, e este, que vai por ventura mais
longe do que devera, crer-se-ia sujo de todo
o pó dos bacamarU,es pedantes dos commen-
tadores d .. \ristuteles, achando-se collocaclo a
par elo classico auctor da .lurdia, do
hucolico auctor do Parid.
Entremos no exame da comedia.
() auctor tomou por objecto nesta composi-
ção o converter em uma acção dramatica um
dos antig,)s proverbios populares, especie de
f,)rmulas com que o vulgo exprime muitas ve-
zes idéas complexas E' este o que se applica a
qualLluer casa mal governada e arruinada por
toda a casta de : E' a casa dt• Gousalo:
-eis a expressão proverbial; eis o pensamento
que presidiu <Í. composiçã11 do \T ejamos
como o auctor o tractou.
Um viuvo e uma viLiva são casados em se-
gundas nupcias: ella tem uma filha. D. Farnacia
é o nome da mulher: elle chama-se Gonsalo -
pobre honwm que se deixa governar inteira-
mente pnr I>. Farnacia prPzada de fidalga, ca-
CO"EDL\ E:\1 CI::\CO AC roS
r gastadora. ( ;onsalu instigado por I>.
Farnacia pôs na rua seu filho Bernardo, moço
tão sisudo e composto, f}Uanto Lronor, filha ele
O. Farnacia, é tola, namnt·adeira e .
. \ família compõe-se, além elos trcs, Consal0,
D. Farnacia e Leonor, ele um .. irmão e de uma
sobrinha de D. Farnacia, chamados Bonifacio e
D. Dorothea; aquelle é um peralvilho, frequen-
tador de botequins, e que não pensa senão em
acceitar cartas d'amores; esta é urna presumida
de sábia, que em todos os seus discursos mis-
tura palavras e phrazes li·ancesa;;;, e que só lê no-
vellas, citando a torto e a direito quantos eles-
temperos tem lido. Um creado e uma creada
desobedientes, ladrões, e desavergonhados com-
pletam aquella ninhada domestica.
Gonsalo tem um amigo, Florencio, a quem
deve obrigações, e dinheiro, homem prudente
e sério, que pretende tirá-lo da vida ele abjecção
em que vive, aconselhando-o sempre para q•1e
tome o lagar de verdadeiro dono da casa, e
seguindo-se cl'isto o ser corclealmente odiado
por D. Farnacia.
Dois alindados frequentam esta casa, ou antes
torre de Babel - Constancio e Carlos: o pri-
meira é o namorado ele Leonor.
E' com estas pers magens, que o auctor con-
Juz a comeLlia a seu fim, e a Commissào seria
FOI. I.J.
A CAS.\ li E I :oNSr\ 1.0
demasiado prolixa se q uiscssc histori.'i-la por
todos os cinco actos Pm que elle a dividiu.
nastará dizer que á fôrça de gastos loucos,
( se acha finalmente no maior apuro, do
qual n livr-a o expulso e maltractado Bernardo,
oht<:ndo uma provisão para administrar a casa
paterna, ajudado por Flnrencio, que sendo o
principal credor exige para seu a mão de
Leonor, e faz casar Berna relo c0m Dorothea, a
qual tem um avultado dote, .t que por isso era
requestada por Carlos, amigo de Constancio, e
que juntamente com elle frequentava a casa de
U. Farnacia .
. !\' Commissão parece que o drama é cm geral
bem conduzido, o dtalogo cxcellentementc tra-
vado, a successão das scenas logica e natural,
e a linguagem accommodada ao assumpto, e
com poucas excepçües, limpa c corrente. Estes
são os meritos que julgou se davam no drama,
e pelos quaPs seu auctor é digno de ser lou-
vado.
Infelizmente partes e circumstancias são estas
que não bastam. Obte-las-ha para as suas com-
posições todo aquelle que escrever fortalecido
de estudo: mas só o gcnio dá vida ás obras
d'arte. As fórmas exteriores pôde-as traçar mão
amestrada; vida só a infunde o alento do poeta,
que se assimelha an vivificante de I )cus.
CO:\JEDIA E:\1 l"J:'IIL"O .\CrOS
< >s caracteres, as situaçües, e os pensamentos
das personagens de qualquer comeuia abrangem
filrçosamente toda a graça comica que nella se
pl}de dar; e nesta não ha nem um caracter,
nem uma situação, nem um pensamento verua-
deiramente comico. IJ'isto ficarão persuadidos
aquelles que se derem ao trabalh:J de ler o
drama; a Commissào está prompta a mostrá-lo
quando haja quem o conteste.
I )o que fica pondPrado se conclue natural-
mente que este drama, falho dos meios de at-
trahir a attençào dos espectadores, correr:l
grande risco em ser posto ás provas públicas,
e portanto a Commissào louvando o que ha bom
nelle, isto é, o que propriamente se p0cle cha-
mar a sua parte material, deixa ao Conservatorio
o resolver o que mais justo e acertado for
quanto ao destino que se lhe eleve dar.
Conservatorio Dramatico, I 7 ele Julho de I 4 0 .
- ~ 1 llcrculano, Relator.
Elogio historico
DE
SEBASTiÃO XAVIER BOTELHO
Memorias do Conservatorio
1842
Elogio Historico
DE
SEBASTL\0 XAVIER BOTELHO
SEXHORES:
Honrado com .:> encargo ele revocar hoje a
memoria de um nosso illustre consocio que a
morte nos roubou, não posso deixar de since-
ramente lamentar que este Conservatorio qui-
sesse que eu, intenclimento humilde, va baterá
porta do sepulchro para através cl'elle citar uma
nobre intelligencia, que repousa no seio rle
Deus, e dizer-lhe- \ ... em ouvir o processo da
t-ua gloria, o julgamento sobre o modo porque
desempenhaste a tua missão intellectual na terra.
Porque, Senhores, ou mui :o me engano, ou
é esse o principal, diria quési o unicu miste
que nos incumbe, aos que fomos escolhidos
para falar neste dia e neste logar dus nossos
fallecidos consocios. Em nome das letras, d'essa
revelação formosa e sancta do ingenho huma-
no, nos ajuntámos neste recinto: por ellas exis-
timos como corporação: ellas nos fizeram ir-
mãos e eguaes. Pelas letras as ditlerenças volun-

Lu·ias c incertas do mundo -as riqnel.<lS, o po-
dêr, os nomes d'av•>s, se convertem em palavras
SC'lll sentiJo." c\ <lemocracia absoluta, sonho im-
possivcJ, talvcL, de reali1.ar na sociedade civil,
torna-se entre nós uma condição d'existencia.
:\as associaçües litterarias a viela é de certo
modo immaterial, e as nossas distincçües são
unicamente as da SllJWrioriclacle do ingenho.
-:\las a ultima instancia onde taes preferencias
se julgam é o tribunal da posteridade. Se) a
morte abre de par cm par as portas d'este, e é
ahi que definitivamente se resolve se o nome
do que passou será lançado na herança dos se-
cuJos, na memoria perenne dos homens, ou se
tal nome deve esquecer como esquece o som
derradeiro da loisa caindo sobre a borda do se-
pulchro, onde foi repousar o que não pôde ou
não soube conquistar a immortalidade.
por este caracter clemocratico, de todas as
corporaçües como a nossa, porque alheias intei-
ramente ás concliçües da sociedade civil, que
me parece não ser nos archivos c.I'esse pobre
mundo das vaidades, a que chamam realidade,
onde hajamos ele ir buscar documentos e teste-
munhos. que provarâo muito para outro genero
ele renome e mas que de nenhum modo
\·em a ponto para as canonizaçúes litterarias,
no monwnto solcmnC' cm que devemos prepa-
SEB.\STI.\0 X.\ \.lER 1:0 rt-:l.IIU 20)
rar o processo pelo qual a posteridade tem de
julgar intelligencias ja livres d'este sudario da
vida. _ \ntepassados, haveres, granclen, cargos,
que nos importam? Outra é a nossa missão:
temos de perguntar ao que traçou algumas pa-
lavras no li,·ro eterno e immenso ela arte e
sciencia humana- <Jue foi o que fizeste ? -
<jue era o que podias fazer ? Isto é o que nos
pertence, o resto á sociedade.
<) nosso falleciclo consocio, que passando na
terra escreveu nesse livro uma das suas formo-
sas paginas, foi o sr. Sebastião Xavier Botelho.
Para se poder avaliar o merito cl'esta escriptur:t
ele que preciso eu?- De le-Ia.
Difficultosa é similhante leitura; porque as
palavras do homem ele ingenho são concisas e
profundas: soletram-nas a custo os que não
possuem esse dom de cima ; e, sem humildade
hypocrita, eu sei que pertenço a estes .
• \ culpa do máu desempenho será, pois, vos-
sa, Senhores, que medistes erradamente as mi-
nhas forças pelos meus e pelos vossos desejos .
. -\ historia intellectual e intima do sr. Bote-
lho divide-se em dois grandes perioclos: corre
o primeiro desde a epoca cm que concluiu os seus
estudos ele jurisprudencia na C niversidade ele
Coimbra até áquella em que importantes e la-
boriosos cargos, que lhe foram confiados, o
20Ó
t•:J.OCIO IIISTilR ICO 1110:
constrangeram a dedicar-se inteiramente ao
cumprimento de suas· obrigaçües, e a deixar os
ocios Iitterarios da juvPntude: o segundo abran-
ge o tempo que discorreu desde esta epocha
até á da sua morte. O primeiro periodo foi para
elle o do tracto e cultura das boas letlras: o se-
gundo o do estudo dos homens e das coisas, da
sciencia, da historia e do governo. No primeiro,
o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal:
no segundn foi historiador, economista, e poli-
tico; foi o homem do mundo real. Í ~ nestes
dois periodos que eu considerarei as obras da
sua intelligencia, e procurarei responder á per-
gunta- Q ~ e serviços fez o sr. Botelho ao pro-
gresso do espirito humano?
~ \s primeiras composiçües poeticas do nosso
illuslre consocio foram escriptas nos fins do an-
terior ou nos comêços do presente seculo: d'es-
tas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes
seguiram, pertencendo pela maior parte á litte-
ratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo
ele publicação- o da scena: mas o unico pe-
nhor de duradoiras recordações e o unico fia-
dor da perpetuidade da gloria, essa fonte de
toda a sciencia e civilização modernas- a im-
prensa- faltou-lhes como ainda ha dez annos
faltava commumente ás obras dos nossos bons
ingenhos que nasciam e morriam sem a conhe-
X:\ VIER BOTELHO 207
cerem; porque dois anjos máus a guardavam,
os quaes tinham por nome - censura e igno-
rancia.
Por esses archivos de theatros jazem sepulta-
dos os dramas do sr. Botelho, dos quaes apenas
é imperfeitissimamente conhecida a tragedia
lgnez de Làstro, e um pouco melhor a Zulmi-
ra, melodrama de que restam varias copias.
Zulmira é. como todos os melodramas, uma
composição hybrida, monstruosa, e falsa á luz
dramatica; mas considerada como um hymno
aos nobres affectos do coração humano ella nos
revela quanto era poetica e formosa a alma do
Sr. Botelho. Poucos versos haverá da epo-
ca em que foi esc ri pta, a não serem os do me-
lhor metrificador português- Bocage- nos
quaes se encontre tanta suavidade, melodia e
arte e ao mesmo tempo tão generosas icléas,
tão affectuoso sentir, expresso muitas vezes com
admira\·el precizào. Xão é um drama a ZuluU:-
ra! -E que importa ? Esther é uma elegia;
Atlzalia uma epopea; mas elegia e epopéa su-
blimes de um poeta divino!
bem salvas para a historia das letras
foram as numerosas versües dramaticas do sr.
Botelho- amparavam-nas seus originaes, lar-
gamente conhecidos no mundo. \lcm de mui-
tas operas de e de quatro tragedias
:.!08
de 1\acinP, Bt'n:nicc, Jlitridtllc.:s, I)IJcdra e fla-
;áclto, elle transportou para a scena portugue-
sa quasi todos os mais afamados dramas de Vol-
taire, como Jltzlzomet, Zaín1, Bruto, 1/ariamta,
h"'dipo e Semiramis, aos quaes accresceram mui-
tos outros ele menos ceiPbres auctores drama-
ticos.
Já vedes, Senhores, quantas e quão largas
vigilias o mancebo poeta consagrou ao theatro;
as suas poesias volantes sabe-se que foram mui-
tas, mas do naufragio do tempo apenas salvou
a imprensa a epistola a Bocage, a qual mereceu
os extremados louvores que este grande poeta
dá para me servir da linguagem ar·cadica d'aquel-
les tempos, ao vate Salicio. Vate Salicio era o
Sr. Botelho, que ainda então os poetas, por
obrigação de seu officio, se de::;baptizavam do
nome christão, íam (_.m espirito pastorear á velha
Crecia, e voltavam de lá não poetas, mas pas-
tores e vates.
Procurei, Senhores, lembrar-vos quão exten-
sos fl)ram os trabalhos poeticos do Sr. Botelho.
1\esta-me, todavia, mais difficultosa tarefa, o
recordar-vos qual foi a significação litteraria
d'elles- o averiguar como e quanto o nosso
fallecido consocio contribuiu para os progressos
da arte nesta tão poctica terra de Portugal.
Poeta elmanista, e um elos primeiros e mais
SI'B.-\STI.\0 X.\ \"lER DOTEI.IIO
distinctns sectarios d"Psta eschola, que rainha
da poesia, e dispensadora de gloria sem
partilha de imperio os dominios da arte, é no
julgamento d'essa eschola brilhante que está o
seu julgamento. Os juiLos inclividuaes em histo-
ria litteraria são tão falsos como em historia
social: o individuo que vai á frente da sua
epoca, não é mais que a idéa predominante
d'ella encarnada no homem. Julguemos a icléa,
e teremos julgado o symbolo humano que a
representa Se aquelle que passou não a com-
prehendeu, não o chamemos tambem ao tribu-
nal da posteridade, e deixemo-lo repousar na
paz de seu esquecido sepulchro.
o pensamento progressivo que agitou
uma geração ou um seetllo não vem só: vem
com elle os pensamentos dominadores das ge-
raçües ou dos seculos antecedentes que o pro-
duziram, e vem os que elle get ou. Sem isso o
processo será incompleto: errada provavelmente
a sentença. Expressão de uma serie contínua e
eterna de idéas, grandes porque vem de Deus,
o progredir humano revela o elemento intelle-
ctual de cada uma das nossas transformaçües
successivas em todas as formulas ela vida. Esse
elemento, essa idéa prolifica, busquemo-la em
toJos os aspectos da civilização, que em todos
a havPmos de encontrar. instituiçc-,es, P nos
210
1<.1.01 ;(o li IS ("c IRH"II III•:
costumes, na sci1·ncia, c na arte, l;í csl.í escripta
- cscripta pela mão <..lo anjo do S(·nhor, que
UC'ÍXa cair sobre a tPrra uma Jagrima de dó,
quando a mão <l'algum louco crê que p6uP
apagá-la, ou a voz do insensato se Prgue para
a desmentir, e ndla desmentir o brado do ge-
nero humano.
E' na arte, á qual foi completamente cleuicado
o primeiro período ela vida litteraria do Sr. Se-
bastião :Xavier Botelho, que eu buscarei princi-
palmente o pensamento ou facto intellcctual que
caracteriza e explica a sua epoca c a sua es-
chola, ligando esse facto com os que o prece-
deram e com os que d elle vif'ram. Oxalá que
para animar-me cm tractar um objecto acima
de minhas forças me não desampare a vossa in-
dulgencia!
\T ós sabeis, Senhores, que durante a primeira
metade do decimo sexto seculo uma grande re-
volução se operou e completou no -:\Ieio-Dia ela
Europa. As sociedades feudaes e municipaes,
estas no seu crescer, aquellas na sua declinação,
deram o ultimo arranco aos pés da sociedade
monarchica. Toda a vida anterior das naçC1es do
occidcnte desabou após ellas. Entre nós mudou
tudo: socialismo, sciPncia, arte, caracter religio-
so. Xinguem curou d'isso. ,\ robusta c intclli-
gente mon;uchia (l'essp LPmpo atirou á Pspan-
tosa actividade de nossos avús tres partes do
mundo para esmagar: cevou-a em poderío, c
saciou-a de gloria. Compuseram-se então todos
os aspectos da sociellade a exemplo da uniJa-
de monarchica : o senhorio feudal tornou-se clc-
pendencia completa: o municipio delegação: os
parlamentüs letra morta. _ \ chronica, essa fúrma
tão viva, tão dramatica, tão nacional ela histo-
ria, cedeu o campo aos Thucydecles e Livios
modernos: o platonismo christão e espiritual,
fugiu, combatendo como os Parthos, ante o aris-
totelismo argumentador e materialista : as artes
plasticas seguiram de longe os destinos de suas
irmãs d' I tal ia, onde as illuminuras aereas e in-
correctas dos missaes e horas, desappareciam
deante do p incei terreno e correcto ele Rafael
e as catheclraes mysteriosas e symbolicas sedes-
moronavam ao altear do templo de S. Pedro,
prostituido á luz por :\liguei r\ngelo : todas as
artes se confessaram vencidas, na sua imperfei-
ção e rudeza sublimes, pelos monumentos da ar-
te antiga. O proprio christianismo se fez intole-
rante e sanguinario, como o polytheismo roma-
no, o perseguidor dos martyres- e a inquisição
restaurou o pretório. Finalmente a poesia nacio-
nal, balbuciante ainda, retrahiu-se ante o fulgor
da litteratura latina. _ \s instituiçCJes ele Roma, a
Roma dos imperadores, annullaram as nossas
212
ELIIC;Itl IIISTORIIIO llE
instituiçúes primitiv.ts, c a pcl<'sia romana mu-
dou o carader d.t poPsia mudr·rna. .... \ socieda-
de rcprodu1ia o pcnsamentn que guiava o se-
culo. I kixou de ser christà c nacional, para ser
pagá e p(·rcgrina. Roma que, viva c
não alcançara subjugar inteiramente este canti-
nho da Europa, cadaver _j;í, profanado rwlJs p::s
de muitas raças barbaras, ·conlptistou-nos com o
esplPnclor ela sua civilização, que resurgira trium-
phanle. Xetos elos celtas, elos godos, e dos ara-
bes, esquecemo-nos de todas as tracliçôes d'avós
para pedirmos ás cinzas ele um impcrio, morto
c estranho, até o genio da propria lingua !
essa civilização violenta, enxertada em
arvore de diverso genero, devia tarde ou cedo
ceder o Jogar a outra mais homogenea com as
tracliçt>es e costumes, com as crenças e habitos
dos povos modernos. O mundo antigo fôra con-
demnado por Deus: a sua condemnaçào era o
evangelho. () ingenho humano pôde vestir-lhe
o trajo elos vivos; mas por baixo cl'este estava-
lhe sobre o esqueleto mirrado o sudario elos
mortos. :\Iais tarde ou mais cedo, repito, elle
devia voltar á sua jazida.
E a reacção não tardou os annos de tres ge-
raçl>es. O seiscentismo foi uma reacção.
I-Ia ahi acaso quem duvide de que elle era
uma rrvolta, SC'nàn contra a rssencia da arte
SEJ!.\STIÂO XAVIER J:OTEi.HO 2 I 3
romana, de certo contra as fórmas exteriores
d'essa arte? Bem sahPis, Senhores, que não l-
difticil prová-lo, e que entre a poesia anterior
ao renascimento e a dos seiscerttistas ha alguns
caracteres ana!ogos, e muitas tendencias simi-
lhantes. :\ã,J direi quaes, porque melhor o 01-
nhPceis que eu -e porque preciso de appro-
ximar-me rapidamente á epocha em que \·iveu
para honra das letras o Sr. Sebastião Xavier
Botelho.
(_Jual f_,j a origem do seiscentismo? . \ h is to-
ria litterari::t diz-nos que fl)ram :\Iarino, Gongo-
ra, e não sei quem mais. 1:: uma cl"aquellas fal-
sidades historicas, que nascem elo curto pensar.
:\ unca um ou alguns homens puderam assim
mudar nem a minima das fórmulas sociaes, em
cujo n umerv a arte de certo não é a ultima.
Sã1) as geraÇL)es arrastadas e agitadas por idéas
que nasceram e se derramaram insensivelmente,
que fazem similhantes transformaçôes. Esses ca-
beças d'eschola são o verbo da icléa, são os in-
terpretes do genero humano--e mais nada.
O seiscentismo f01 uma resolução que falhou,
uma tentativa de restauração da nacionalidade
em litteratura. que não sendo acompanhada pela
restauração social completa do modo d 'existir
português anterior ás inrluencias romanas, ficou
aleijada c rachytica, e substituiu a uma arte
TOMO 1\: FOI. t5
21.J
F.U H :lO IIISTORICO IJE
antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra
falsa e alr-m d'isso ridicula .
. \ celebre 1\rcadia, e a influencia que esta
corporação teve nas letras foi uma nova reacç;i.o
liltPraria, e o dogmatismo em que se restaura-
ram as doutrinas fllmanas, posto que reflexas
já d'Italia e d ~ ; França, fui ainda mais intoleran-
te e absolut0 que na epocha do renascimento.
O seiscentismo acabou ás mãos dos arcadPs,
que restabeleciam o predomínio da arte antiga
c rcvocavam o pensar e o estylo dos poetas do
tempo de I>. João lll e D. Sebastião, ao passo
que o ::\Iarquez de Pombal procurava restaurar
a esquecida robustez da monarchia com a aus-
teridade dos seus princípios administrativos, c
com a acção vigorosa do seu governo de fer-
ro .
. \ monarchia do :\Iarquez de Pombal era ana-
chronica em politica : a restauração da arte ro-
mana era anachronica em litteratura .• \mbas
deviam necessariamente passar - e passar rapi-
das. Assim aconteceu. Além do anachronismo
havia em ambas ainda outro elemento de dis-
solução. A f<Jrmula politica nunca fôra tão ab-
solutamente monarchica: a fórmula litteraria
nunca fôra tão mesquinhamente romana. Xunca
o motu-proprio fôra tão cabal explicaçào de to-
das as leis: nunca os nomes e exemplos de
SF.B.-\STÜO XA \'lER ROTI':LIIO 2 I 5
.:\ristotelcs e de <Juintiliano, de I Ioracio e ele
Virgílio, substituíram tão completamente o ra-
ciocínio na critica . .:\las o .:\Iarquez de Pombal
começava por discutir com a aristocracia e com
a theocracia, e a ~ \rcadia com o seiscentismo;
os homens elo futuro tinham portanto tambem
o direito ele discutir com elles. f: o que tem
leito e fará o nosso seculo .
.:\ 1\rcadia derrubara a poesia seiscentista:
cumprira com sua missão. Depois dogmatizou
e morreu. Foi d"inanição. Esta sociedade, tão
activa, tão belligerante, tão ruidosa nos seus
começos- expirou, e nem sequer o mundo lit-
tcrario deu tino d'isso. Era que a ~ \rcaclia nnn-
·ca propriamente vivera, porque nunca repre-
sentara uma idéa progressiva.
Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua
eschola, um de cujos luminares era o Sr. Sebas-
tião Xavier Botelho. Resta-me trazer á vossa
memoria o Ioga r d 'esse poeta e d 'essa esc h ola
nos annaes da arte.
Bocage vinha depois ele duas restauraçt1es
classicas: ou romanas ; assistira ao derradeiro
clarão da segunda, e fôra educado por ella. Os
seus primeiros poemas são moldados pelos dos
arcades, mas já nesses poemas ha mais inspi-
ração, porque Bocage nascera e não se fizera
poeta, COJ!l se haviam feito aquelles, se excep-
::?IÓ F.LOC;Jo IIIS I"ORICO llE
tuarmos ( ;arç;1o. ·\s varielbcles que gradual-
mente apparc·cPram no sPu Pstylo P 1wnsar fo-
ram mui pouco distinctas, salvo na nwtrificação
Pm quP cscurPceu complctanwntc os arcacl<"'s, e
na t<-ndc·ncia, Yisiv<"'l nas suas mdhores compo-
sicüPs, para substituir a mythologia pagã pela
allegoria, o que clPvcn talvez á inlluencia dos
poemas descriptivos franceses, a que o matPria-
lismo e a incredulidade do seculo xvm tinham
reduzido a poPsia d'aquella nação.
::\Ias é, Senhores, sob outro aspecto que im-
porta considerar este homem extraordinario
para avaliar a missão da sua eschola, e sa-
lwr qual transformação o apparecimento cl'ella
veio produzir na arte.
:\a litteratura dos arcades, como nas littera-
turas de epocha de I). João m e da épocha
cL \ugusto; a poesia tinha sido essencialmente
aristocratica, altiva. Os pastores da /\r-
cadia nunca assistiram aos mais sublimes espe-
ctaculos do universo, nunca sentiram no coração
essas paix<-,es violentas que devoram as existen-
cias. (jue sabiam elles dos campos de batalha, das
sediçC1es, dos grandes crimes e das grandes virtu-
des? Elles ignoravam o que são lagrimas dP des-
terro, o que são contentamentos de tornar a ter
datria. Oclios, fanatismos políticos, ancia de gloria
popubr, amhiçt,es, mir.erias humanas, não exis-
SEUASTIÃIJ XA.Vli':R BUTI':LllO 217
tiam para elles. < )s mares e os seus terrores, as
solidt)es profundas das serranias, o ruiJo Jas
torrentes, o dos ventos por gandras bra-
vias, não imaginavam o que fosse. :\s procellas
emfim da 1,1atureza, e as mais terríveis ainda elo
espírito em que parece deleitar-se o poeta cl'es-
te seculo grave e triste, p:xque o converteram
á melancholia e ao cogitar profundo os seus
destinos solemnes -tudo isso era alheio á sua-
ve existencia dos bons arcades. Sacerdotes, ma-
gistrados, e servidores Jo estado, o seu monte
era uma sala adornada de sedas e ra-
zes; a sua lyra ou rabil uma penila muitas ve-
zes dourada ; as suas inspirações uma vasta
eruJ:çào. _ \ssim os affectos e imagens elos seus
poemas vacilla\·am entre a frieza e trivialidade,
e a exaggeração e mentira- porque para elles
as paixões e a natureza estavam nos livros. Us
livros foram o seu universo.
Bocage porém não era arcade. Era um ho-
mem do povo que alimentava no espírito todas
as paixües violentas, e muitas vezes freneticas
e desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajun-
cta v a a feios vi cios nobres e generosas virtudes.
Era o trovador que improvisava os seus mais
admiraveis versos no nwio elas multidües, á luz
do sol ou dos astros da noite, nas orgias
cidades, nas festas campestres- em todos os
EI.Oc ;Jo IIISTc liHl"O UE
lngares, a todas as horas. I >epois de (
Bocage foi o nosso primeiro poeta popular; como
Cam:->es, foi p.lbre, foi criminoso, e foi malfa-
• dado; adormeceu, como elle, muitas vezes no ba-
louçar das vagas do oceano, e como. elle orva-
lhou de lagrimas o pão do desterro, e veio mor-
rer na patria sobre a enxerga da miseria. Simi-
lhanle ao infermo do Evangelho passou pela
terra abandonado, pobre, nú; mas como os a·n-
tigos romeiros trovadores, alegrou ou commoveu
os animas das classes não privilegiadas, ás quaes
tres seculos tinham feito esquecer que a poesia
era tambem e principalmente para ellas.
Bocage é o typo mais perfeito da sua escho-
la, e de feito devia sê-lo. Elia popnlarizou a ar-
te, porque poetou principalmente para o povo,
e emballou ao mesmo tempo com as melodias
da linguagem, com o sonoro do metro, essas
almas rudes mais attentas á harmonia da fúrma
que ao poetico do pensamento.
Feita assim a poesia plebea, duas consequen-
cias deviam seguir-se cl'esse passo gigante -- a
liberdade litteraria e o apparecimento do theatro.
poesia popular regeita como o povo, quando
começa a pensar e deixa de querer, todas as
leis que se fundam em auctoridade ou tradição
e não em conveniencias; e o drama é a fórma
mais completa da arte quando esta se faz bur-
SE.P..ASTit\0 XAVIER BOTELHO 219
guesa. l'\ào aconteceu todavia assim : a razão
d'isso é obvia .
... \ revolução litteraria que a geração actual
intentou e concluiu, não toi instincto: foi resul-
tado de largas e profundas cogitações ; veio com
as revoluções sociaes, e explica-se pelo mesmo
pensamento d'estas. nem Bocage, nem os
poetas que o imitavam ou seguiam suas doctri-
nas, se doctrinas havia nessa eschola, curavam
d'averiguar theorias estheticas; porque os tem-
pos da grave discussão ainda não eram vindos.
Poetas inspirados deixavam-se ir ao som das
suas inspiraçües, viviam numa especie crexcita-
mento intellectual; o estro, em que tantas vezes
falam, era uma realidade, e o improviso a forma
comraum em que davam vulto aos seus pensa-
mentos e affectos. Esses ingenhos ardentes res-
piravam numaatmosphera d'enthusiasmo, d'ebrie-
dade poetica. Similhantes á avesinha que solta
o seu gorgeio como o aprendeu da natm·eza e
·do gorgeio paterno, elles, no seu poetar espon-
taneo, acceita vam sem exame as regras que lhe
ensinara a :\rcadia. E que podiam fazer os po-
bres poetas peões senão curvar a cabeça ao voto
dos mui eruditos e cortesãos pastor<'s do monte

Por isso a eschola bocagiana preparou só
metade da revolução artistica : trouxe a poesia
220
dos corrilhos e salllCS aristocraticos para a praça
publica; mas n;i.o a fez nacional. Esta difficul-
tosa empresa estava em grande parte gl!ard;ula
para um poeta tão romano cm intençl,es e de-
sejos, quanto portugnês na indolc do seu ingc-
n h o. Francisco J\Ianuel foi quem acabou o que
J o c a g c começara, completando pela nacionali-
dade o plebeísmo da arte. Feito isto, seguia-se
a revolução- e um poeta mancebo, desterrado
como Francisco -:\Ianuel, rasgou a bandeira ro-
mana e hasteou a portuguesa. ( )s poemas - l>.
I h·anca e Camües - foram o signal da revolta .
. \s tracliçües da Arcaclia estavam irremissível-
mente condemnaclas.
Foi esse incompleto da eschola elmanista que
impediu nascesse no meio d'ella um theatro ori-
ginal. IYeste houvera sido o fundador o Sr.
Sebastião Xavier Botelho, se as suas temlen-
cias, o seu agudo ingenho, e continua appli-
cação a similhante genero de litteratura fossem
ajudados e acompanhados pelo espiritu da épocha,
e pelo caracter da eschola a que pertencia. De-
balde com a paciencia e tenacidade ele poeta,
que são as maiores cl'este mundo, não levantou
elle mão de uma empresa que era impossivel
levar a cabo, e cm que tinha ficado vencido o
incansavel -:\lanuel de Figueiredo e Garçào, o
poeta da . \rcadia. A nacionalidade não existia
J:UJFLHO 221
ainda, e nacionalidade e theatro não ha se-
parii.-lus. () theatro é para as multidücs, e o
povo não intende senão quem lhe fala na sua
linguagem e sobre as suas coisas; das suas tra-
Jições e crenças, ou das suas paixües e ela sua
vida actual.
. \ssim, com a logica do genio, o Sr. Botelho
\·ira qual era a consequenc!a da revolução lilte-
raria para que elle conlribuia; conhecera que
feita popular a poesia, e tirada elos aposentos
Je senhores e poderosos, ou do seio das aca-
demias para ser lançada no mundo - porque
ella é do mundo, devia tomar a f0rma mais ade-
quada aos seus novos destinos; mas não viu,
porque não podia ultrapassar as idéas do seu
tempo, que a transição era incompleta. Foi por
isso que se enganou nos meios, e pensou que
trazendo á nossa scena as sublimes poesias liri-
cas, epicas, e elegiacas, chamadas tragedias ele
Racine, e as dissertações dialogadas de philoso-
phia incredula, chamadas tragerlias de \Toltaire,
o theatro resurgiria; mas o lheatro deixou-se
ficar morto, porque não era a voz da
liJade nacional, que o revocava á viela.
Eis aqui, Senhores, a luz a que eu vejo a es-
chola lilteraria, a que pertenceu o Sr. Hotcllw
no primeiro perioclo ela sua viela inteiiPctual, e
como me parece deve ser julgado elle proprio
222 ELOC;(O IIISTIIRICO IIF
nas ohras do seu ingenho .• \ essa eschola cahc
um honrado Jogar na historia do progresso hu-
mano, ao Sr. Botelho toca especialmente o ter
sentido, ou antes adivinhado, que, tornada po-
pular a poesia, devia o drama vir a ser a sua
mais completa expressão. Se não logrou seus
rlescjos, segredo loi ele cima. ~ à o quis Deus
que essa mente gigante viesse ajudar-nos a
evangelizar a nova religião da arte com a clo-
quencia da palavra, e com a mais vehemente
ainda, de obras dignas da immortalidade.
Yistes, Senhores, o nosso fallecido consocio
- lidando por honrar as letras portuguesas, e
restaurar o theatro; viste-lo consagrando á
poesia os annos proprios d'ella porque são os
do imaginar; ·ve-lo-heis agora applicando na
edadc madura a meditação, a energia elo seu
vigoroso talento, e a experiencia alcançada no
serviço da patria, a estudos positivos, ao desen-
V!-llvimento das mais graves questões sociaes. ()
poeta affectuoso, delicado, harmonioso, con ver-
teu esse ingenho de que a natureza tão prodi-
gamente o <lotara, á philosophia politica, e nesta
nova carreira do mundo positivo, quasi posso
dizer, escureceu a reputação que anteriormente
adquirira no mundo da iclealidadc.
Foi na sua demorada rezidencia na banda
oriental das nossas desprezadas colonias africa-
X.\ VIER t:UTEI.IIO 2 2 3
nas, como governador de e dos
\'astos territorios adjacentes, que o Sr. Botelho
colligiu os apontamentos e noticias para a sua
:\Iemoria estatística sobre os domínios portu-
gueses na ..--\frica Oriental. Juiz incompetente,
nada direi, Senhores, quanto á materia do li-
vro: escripto por um homem da capacidade do
Sr. Botelho, e talvez em grande parte naquellas
mesmas províncias, facil é de suppór qual seja
o seu valor intrínseco. \-iolentamente acommet-
tida a obra em um dos principaes periodicos
litterarios d"lnglaterra, a Revista d'Edimburgo,
tal e tão cerrada dé! razões e provas foi a res-
posta do Sr. Botelho, que não houve mais re-
plicar, não sei se com quebra do orgulho inglês .
...-\cêrca da doutrina do livro, é esta em meu
intender a mais cabal defensào.
O que porém, naquelle precioso volume chega
a causar uma d'essas invejas que não deshon-
ram, porque são nobres e honestas, é o estylo
c a linguagem d'elle. Tão sua tinha feito o Sr.
Botelho esta formosa língua portuguesa, tão
elegante e fluente é o seu descrever e narrar,
que difficultosamente lhe levarão vantagem os
nossos principaes prosadores. I Ia no livro do
Sr. Botelho uma circumstancia que muitos teem
notado: paginas inteiras das relações dos nau-
fragios, principalmente das que escreveu o ce-
.,
lebn· I )iogo d,, l'out,,, se acham ahi reproduti-
lLls textualmente. Estas paginas, o mais exPrci-
tado leitor do Couto não será capaz de as distin-
guir entre as do nosso illustre consocio, tão ir-
mão-gemeo é o seu cstylo e linguagem com os
J'aquelle admiravcl hist01iador. ( )u esse appa- _
rente plagiato fosse uma prova incontestavC'l,
que o Sr. Botelho nos quisesse dar, de que o
seu ta.lento e saber o egualavam com os nossos
melhores dassicos, ou fossem reminiscencias
involuntarias (que não precisava elle d'alheios
haveres para ser abastado) é indubitavel que tal
circumstancia basta para caracterizar a alteza a
que chegara como prosador aq uelle de quem
como pueta dissera Bocage:
<) idioma. o tr_lll(dos numcs .
. \ Yoz que Yai. quc
Que sõa além do mundo. dos
E::;ta importante l\Icmoria foi coordenad.l e
concluída no período que discorreu desde üUS
até 1833, em que o Sr. Botelho esteve inteira-
metll<-"' afastado dos negocias publicas. Precedeu
pois a sua composição aos opusculos políticos
do nosso fallecido consocio, por a mencio-
nei primeiramente. Estes opusculos são, a Carta
a S. -:\1. I. o Duque de Bragança, impressa em
SEP.:\STJÀO XA \.lER P.OTFLIIO 5
I ondrcs cm 1833, e as Rcflcx.l,cs l'nliticas pu-
blicadas successivanlC'ntc no seguinte armo. Es-
criptos com a singC'lf:'za e sincera liberdade dP
homem que sPntia bater dentro do peito um
coração esses opusculos são, litteral-
mente consiclPrados, uma nova corôa para o
B.ltelho pela gravid;tcle (lo estyl1l e pelo pensar
profundo que nelles transluz. \rersam sobre im-
portantes successos da época em que foram pu-
blicados. tempo de paix.l1es violentíssimas,
taes escriptos pareceram talvez revelar em seu
auctor demasiado apego ás coisas do passado,
c ainda hoje assim parecerão a muitos. Toda-
via, confesso-vos, Senhores, que não vejo eu
ahi senão novos motivos de venerar a memoria
do nosso illustre con'ucio, e de arlmirar a sua
cnnsummada pruclericia, e o seu amor ele patria.
1:: um filho extremos.J que treme e desma!a
vendo applicar a seu pai velho e infcrmo, me-
dicina violenta, que póde salvá-lo ou arremes-
sá-lo ao tumulo. E quem ousaria condemnar
receios e hesitaçües'de um filho, nesse arriscado
mon1ento?
1\ epoca de 1833 foi a unica epocha revolu-
cionaria porque tem passado Portugal, neste
seculo. Xem antes, nem depois, quadra tal epi-
theto aos successos políticos do nosso país; por-
que s{, então foi substituída a vida interina da
22Ó EI.OI:IO JIISTORICO DE
sociedade por uma nova existrncia. As fôrças
sociaes antigas uesappareceram para dar logar
a novas forças; destruiram-se c l a ~ s e s ; crearam-
sc novos interesses, que suhstituiram os que se
anniquilaram: os elementos politicos mudaram
de situação. - Podia esta mudança fazer-se )('n-
tamente e sem convulsúes dolorosas, ou cum-
pria que a revolução fosse rapida e energica?
Xem saber; nem vontade tenho eu para o re-
solver. o Sr. Dotelho julgou que o mais conve-
niente methodo era o primeiro; disse-o since-
ramente, e procurou prová-lo. Eis a substancia
do que nesses opusculos póde parecer menos
progressivo a esses cujo espirito vai após o fu-
turo. 1\Ias, na verdade, nem um só dos grandes
principios de reforma, que então se converteram
em factos, foi combatido pelo Sr. Botelho. A
questão que clle tractou era a do tempo, e era
a prudencia quem movia a sua penna. As dili-
gencias para conter o rapido desabar das vdhss
instituiç{,es e costumes, era dever dos homens,
cuja cdade grave e capacidade extraordinaria
abonava d'experimentados. Inquieto e ardente é
por natureza o espirita da mocidade neste se-
culo de grandes idéas e de grandes transforma-
çües. Aos velhos, aos que, melhor que nós man-
cebos, conheceram a sociedade queexpirou, in-
cumbe apontar-nos o que ella tinha respeitavel
SEBASTIÃO X.\VIER BOTELHO 22i
e bom, e o que ha em n o s ~ a s 0piniúes exag-
gerado ou perigoso, e a n6s incumbe escutJ-lus
com respeito. Esses homens falam-nos com a
mão sobre o coração, porque entre elles e o
julgamento de Deus, e da posteridade medeia
só a grossura de uma loisa. Elles nos admoes-
tam encostados á borda da sepultura, e raro
será que até lá a hypocrisia ou a lembrança de
mesquinhos proveitos acompanhem os que
viveram sem mancha uma larga vida. Solemnes
e venerandas julgv eu as palavras da velhice,
porque a velhice é uma especie ele sacerclocio,
e quando o ancião se ergue para soltar um
brado de reprovação, se escutarmos esse brado,
elle poderá contribuir mais para o verdadeiro
progresso do que se os ultimos homens da so-
ciedade extincta saudassem covardemente a vi-
ctoria das novas idéas; se caminhando para
a morte, imitassem os gladiadores ele Roma,
nos circenses do triumpho, que nesse momento
supremo saudavam os Cezares vencedores com
aquellas horriveis palavras: u Salve, Cezar I Os
que vão morrcrte saúdam!» .r\rriscar-sc-ía com
isso a ser despenho o nosso progresso, e ao
despenho segue-se ou o perecer no abysmo, ou
um doloroso retrogradar.
Considerados a esta luz, os opusculos politi-
cos do Sr. Botelho não são mais que o comple-
EI.O<:In IIISTORI<'O DF.
Jllt•Jllt> trabalhos encaminhados
constanlenwnte ,111 aperfc·iço;mwnto inkllc·clual
dos seus compalricios. I \H!ta na Illf>cidadc·, h<'m
nwrPC<'ll da arte: historiador e <'sladista na efladC'
grave, mais ll<'m nwreceu da patria por escripto:;
proprios d'essa épocha da vida. \'"cís que o lractá-
mos, que o vim,)s no meio dP n,)s, quecomsauuade
nns lembramos elo S<'U mt-rito, fazemos-lhe inteira
justiça. Far-lha-ha lambem a posteridade -e
mais completa; porque se como homem da arte
<' d:l sciencia tão honr:ldo nome <leixou entre
n1ís, que será para o mundo, que além d'essas
razi)es de lhe venerar as cinzas, tem a rica he-
rança dos exemplos ele virtucles domesticas,
d'amor de patria, de serviços ao estado, emfim
de um nobre procecler - como homem, como
p:1i de e como cidad,t<)? Os vindouros,
que n;1n n<ís, porão o cimo c remate ao formo-
so nwnumento da sua gJ,íria. -Disse.
D. Maria Telles
DRA:\IA E:\.1 C I ~ C U ACTOS
TOMO IX
PARECEU
Memorias do conservatorio
1842
FOI, !lo
D. Maria Telles
DRAMA EM CINCO ACTOS
PARECER
~ I \ Secção de Litteratura encarregada por vós
de dar um parecer que sirva de texto á dis-
cussão dos meritos ou demeritos do drama -
D. Jlaritl Telles- que concorreu aos premios,
ofTerecidos por este Conservatorio para animar
os nossos auctores dramaticos; vem apresentar-
vos por minha intervenção as reflexôes que lhe
occorrem sobre a materia, e que rectificadas c
ampliadas pelas dos outros membros d'esta 1\ca-
demia, devem produzir a final um juizo pru-
dente e acertado que sirva não só para em es-
pecial determinar o valor litterario d'esta com-
posição, mas para illustrar os noveis que com-
mettem tão difficil genero de litteratura.
D. Jlaria Tclles- é um drama historico-
historico ao menos na intenção de seu auctor.
-.\ acção e a época escolhida pelo poeta, (>.
bem conhecida. ~ \ historia da formosa irmã da
nossa Lucrecia Horgia - de n. Leonor Telles
ll. :\1.\RL\ TFI.LES
- (- uma d'aquellas hiographias que encerram
um SIÍ f;tcto; mas <Jlle por f'SSe f ~ l c l O StlO per-
pdualllf'llte cel:hres. ~ à o ha ninguem qtw ignore
com que arte infPrnal a adultera I). LPonor sa-
hia ohtcr sempre a satisfação das suas paix·-,es:
entre estas houve uma que era pun, o unico
JWnsamcnto sancto. e suave que mora no cora-
ção d'essas hyenas com gesto humano chama-
das Telles ou H Jrgias, as quaes felizmente raro
apparecem no mundo. Este afrecto era o amor
materno. Devia ser vivo e profundo, se o ava-
liarmos pelos crimes que f>. Leonor commetteu
para segurar na cabeça de sua filha I>. Ikatriz
a corôa de ]). Fernando, que se cria seu pai e
que talvez o seria. O Infante L>. João era um
obstaculo que podia oppor-se aos intentos
d'aquella mulher diabolica. Como livrar se d'elle?
-Convertendo-o em um grande criminoso Foi
então que para o perder lhe soprou na alma as
duas paixões mais ferozes do coração humano
-a ambição e o ciume-e D. 1\[aria Telles foi
assassinada pelo marido porque I>. T .eonor pre-
cisava do seu caclaver para calçar a estrada por
onde I>. Beatriz devia subir ao throno. E' este
assassinio o desfeixo a que nos conduz o drama:
os acontecimentos quc o prepararam são a tela
onde se desprPga o lavor da imaginação do
püPta.
IJR.-\:'11.\ EM CI:\CU .\C"fUS
233
( >s caracteres introduzidos neste drama são o
de I). Telles; o do IJ. João: o de
I>. Lopo Dias de Sousa, filho de D. e de
seu primeiro marido: o de Garcia .\ffonso, Com-
mendador d'Elvas; o de João Lourenço d.1
Cunha, marido de I>. Leonor Telles; o de I>.
Fernando 1; o de D. Leonor; o de \Tasco, pa-
gcm de I>. I .eonor, e o de Fr. Soeiro, Director
espiritual, segundo parece, de D. Tellcs.
l-m carcereiro, I >amas, Cavalleiros, povo, con-
stituem isso a que se chama cheios, comparsas,
ou personagens mudos.
Xão se póde na verdade negar ao auctor
d'esta composição uma grande ousadia littera-
ria em ajuntar no seu quadro tantos vultos diffi-
cultosos de desenhar, e que por ventura seriam
rebeldes aos pinceis de grandes mestres. \r e-
jamos como clle resolveu o seu problema dra-
matico relativamente aos caracteres principaes.
D. Tellcs era uma formosa viuva, de
quem o Infante I>. João se el)amorou. Os :affe-
ctos do Principe só acharam correspoaclencia
quando prometteu casar com ella, e o casamento
effcctuou-se, porque a paixão do Infante era
ardente, mas d'esse ardor um tanto brutal pro-
prio de uma Côrte dissoluta como a de I>. Fer-
nando, e d'uma épocha cm que o amor dema-
siadamente mctaphysico nos escriptos dos tro-
vadorcs, era assás grosseiro na rPalid<H.h· dos
costumes .. \s probabilidades todas são qu<' simi-
lhante consorcio foi do lado de JJ. Maria Telles
um calculo d'ambiçào, e do lado do Infante um
meio de satisfazer seus desejos Isto é o que
resulta da historia. :\Ias o auctor podia substi-
tuir este argumento historico pelo de um amor
talvez mais lyrico, mas por ventura não mais
dramatico. ( > que não devia era dar a esse amor
a fórma e expressão que lhe deu. Expliquemo-
nos.
I). :\Iaria Telles não era uma donzella na pri-
mavera ela vida: era uma dona entrada já
naquella edade a que se póde chamar o outono
da fL rmosura. O auctor nesta parte acceitou o
argumento da historia, introduzindo no seu
drama o :\Iestre de Christo, mancebo de dezoito
ou vinte annos, filho de D. ~ I a r i a Telles. For-
çosamente esta passara por isso o viço da moci-
dade. O seu amor portanto devia ser intenso, mas
grave: revelar-se profundamente nos factos e
muitíssimo pouco em discursos. Devia ser um
amor que não tard:.1 a transformar-se em ami-
zade; que, por assim dizer, começa a ter pudor
elo si mesmo, porque as illusOes da juventude
teem quasi todas passado. Oifflcil é na verdade
o pintar esse affecto severo e intimo; mas se já
deixou de ser um merito vencer difficuldades
DRA:.\1:\ El\1 CIXCO ACTOS
235
inutPts, ainda é restricta obrigação do poeta o
conhecer as phases do coração humano, e não
as desmentir jámais porque a natureza ~ immu-
tavel. O auctor sentiu ao que parece confusa-
mente a verdade d"esta observação; quis dar
gravidade ao caracter de D. :\laria Telles: não
lhe deu senão tristeza. Tristeza tanto quando
se vai desposar com o Infante como depois que
elle começa a afastar-se d'ella, e a dar-lhe não
equívocos signaes de desamor. Porque está ella
triste até á morte, segundo a expressão de Job,
quando se approxima aos altares? E' por cer-
tos presagios; é por sonhos; é por cedo dizer
do coração; é por vergonha que tem de seu
filho. _\fora a ultima, nenhuma d'estas razües é
verdadeira, dramaticamente, e a tristeza fica
inexplicavel, porque o pudor não é melancolia.
Sereno devia ser o seu contentamento; mas
devia ser contentamento. Xão era nessa afflicção
e ludo infundados que podia revellar-se a gra-
vidade do caracter de D. :\laria Telles, quando
por outra parte todas as palavras d'esta mulher
affectuosa, como o auctor a quis pintar, só con-
dizem com o amor dos vinte annos que se di-
lata impetuoso até aos extremos horizontes da
vida. Senão nos enganamos o caracter de D.
:\laria Telles está falsificado em relação á h i ~ t o ­
ria, e o que mais é em relação á natureza.
IJ. :\IAH.I.\ TELI.ES
<) caracter do Infante apenas se p•íoc dizer
que existe: no primeiro apparece para dit.er a
I). ~ I a r i a Telles que muito a ama. Das suas pa-
lavras nào resulta inoividualidade; repete o que
em similhante materia se diz desde o principio
do mundo. No terceiro acto onde torna a ap-
parecer, é ameaçado e affronlado por João Lou-
renço ela Cunha, e fica impassivel, salvo quando
este, provavelmente aborrecido de tanta tran-
quillidade, volta as injurias e feros contra I).
Leonor que está tambem presente. E' então que
o Infante arranca ela espada; mas el-rei acode:
um dialogo se trava entre este e João Lourenço.
E o Infante? Não sabemos mais cl'elle, senão no
v acto em que já quasi persuadido de que sua
mulher é infiel, encontra as provas suppostas
d'essa infidelidade. Desde este momento não é
mais possível o desenhar I). João; porque a fu-
riosa cholera que o domina o torna necessaria-
mente similhante a qualquer outro homem em
situação analoga. .l\ honra offendida pede san-
gue; é um pensamento doloroso moralmente
necessario á situação que depois d'isso actua
no drama, não a individualidade d'um homem.
()nele está portanto o caracter elo infante?
E todavia esse caracter lá tinha os seus prin-
cipaes lineamentos traçados nos capitulos 98.
0
e
99·
0
da chronica de D. Fernando pelo grande
TI R.<\ \1.\ E\1 C l ~ C O .\C"l"US
poeta-chronista FPrnào Lopes. () genio aventu-
roso, folgazão e ousado, do filho de D. Ignel de
Castro, estudados nesses traços do grande mes-
tre, dariam facilmente a individualidade do per-
sonagem ao- auctor de - D. Jlaria Telles - e
por certo queessa individualidade variando a mo-
notonia dos caracteres produziria maior contras-
te, e por consequencia maior effeito no terrível
desleixo do drama.
_ \ monotonia dos caracteres dissemos nós. \
monotonia na invenção é na verdade o princi-
pal defeito d'esta C(•mposição. I la ahi quatro ou
cinco vingativos, quatro ou cinco vinganças em-
pastadas por toda ella. Vinga-se o Infante de
sua mulher, de quem tambem se vinga o Com-
mendador d'Elvas, cujo amor ella desprezara.
João Lourenço quer vingar-se de D. Leonor: I>.
Leonor de quasi toda a gente. Ifesta identida-
de de situaçües moraes forçosamente devia re-
sultar esse capital defeito.
Os dois caracteres que nos parecem indivi-
duados são o de I). Leonor e o do I). Lopo
Dias. D. Leonor é a mulher successivamente
hypocrita e insolente : vil e orgulhosa ; pobre
de crenças moraes, rica de paixües violentas. É
a D. Leonor da historia, salvo em uma ou ou-
tra sccna ; é o vulto principal do drama. n. Lo-
po é mancebo, poeta e triste como sua mãi,
238
LI. ;\L\RI \ Tt•:LI.t·:S
mas sobram-lhe para isso razl,es. ( I mesquinho
pelo que se collige das suas pala-
vras . .:\lnlestia é esta que tem levado muito poeta
imberbe á sepultura. Feliz ainda no meio de seus
males, a afflicção pulmonar que o consome é
chronica e por isso lenta, por tal arte que es-
perando elle morrer já no primeiro acto, ainda
no quinto, (cujos successos são posteriores mais
d'um anno, aos do primeiro) L>. Lopo vive, e
ao caír o pan!lo fica de saude, não perfeita; mas
da saude que é compativel com a existencia de
tuherculos pulmonares . ..:\pesar de que a phtysi-
ca não pareça coisa excessivamente dramatica
e possa ter algum perigo de ridiculo no thea-
tro, é certo que essa vida cuja distancia da
morte a victima póde quasi exactamente medir::
esse caminhar para o sepulchro por uma estra-
da onde não ha de retroceder, e na qual não
passa hora ou momento em que a campa senão
contemple erguida e immovel no horizonte·: esse
oratorio peior que o do sentenciado, porque
dura meses emquanto este dura apenas tres _dias;
tudo isso é tremendo e solemne, e o verdadei-
ro poeta poderá achar nas phases da longa e
cruel agonia do phtysico situaçües dolorosas e
terribilissimas. Alexandre 1 hunas as achou num
dos seus mclhotes dramas. Seguiu-o de longe o
nosso auctor, mas nem por isso deixa este ca-
IJR.UL\ E:\1 .-\C fUS
239
raclC'r de ser um dos mais bem sustentados em
- lJ. J!tzria Tt:llcs.- Os affectos de Lopo Dias
são generosos e puros : teem certa brandura de
resignação, certa saudade ele quem pela esperança
vive já num mundo melhor, mas que ainda pela
afteição preso ás tristezas da terra. Este
personagem é na verdade possível e poetico,
absolutamente falando. <) seu unico defeito é o
commum a todos; é não representar a épocha a
que o poeta que o creou quis que elle perten-
cesse.
Os outros caracteres elo drama ou são nullos,
ou reflexos mais ou menos pallidos dos que fi-
cam avaliados. Os sentimentos de que
subjugam D. João Lourenço da Cunha e o Com-
mendador d'Elvas, tornam confusos os traços
de um com os do apesar das dili-
gencias que o auctor fez para lhes variar as
situaçües; confusão esta que se augmenta com
a analogia que ha entre ambos e os de U. Leo-
nor e do Infante. Fr. Soeiro é perfeitamente
nullo; e Vasco, seide de D. Leonor, é um ca-
racter que não pode fixar-se por demasiada-
mente transitorio, posto que fortemente conce-
bido. Se tivesse passado de um esboço seria
talvez o mais dramatico de todos elles. Isabel em-
fim é a eterna confidente do theatro classico, cuja
utilidade dramatica foi, é e será sempre passi-
11. 1\1.\IU.\ "IELLES
va; substituição impt·rtinenlt- \lu monologo; <'S-
JWCic de títere que se deixa mover ;í. nwrcê du
auclor, c que por mais q_uc ( ~ d e , se esforça ou
chore, por via Jc regra, serve tanto para o an-
Jamento da acção como as polés cm que se mo-
ycm os hasticlores .
.:'\otámos acima que os pcrstmagens (reste
drama não represl'ntam a época a que historica-
mente pertencem : é este depois do uni forme, e
confuso dos caracteres o maximo defeito d'elle.
X esta parte accrescentaremos algumas considc-
raçües que não parecerão inteiramente inuteis
para os cultores principiantes cl'este genero ele
littcratura. A epocha dos reinados ele I). Fernan-
do e D. João l é incontestavelmente a mais clra-
matica da historia portuguesa ::;ãc-no os factos
políticos e a viela civil cl'esse tempo : as pessoas
e as coisas. ~ \ nobreza era chegada ao apogc u
ela sua grandeza, porque as instituic•)es feudaes
que se haviam misturado com a nossa primitiva
inclole social, tinham tocado então a méta do seu
predomínio: quando já a sua dilatada agonia
começava no resto da Europa: o povo clava si-
gnaes exteriores de que existia, e_existia robus-
to; a monarchia exgotava a sua generosidade
e os testemunhos do seu temor para com a aris-
tocracia na vespcra de dar principio ao cluello
de morte para que ia reptá-la, e que devia clu-
rar cem annos. :\estPs dois reinados operou-se
uma transformação nacional: o fim do SPculo
Xl\p foi um periodo revolucionario: re\·nlucio-
nario não tanto para as pessoas como para as
coisas; os elPmentos da \·ida s:xial foram então
chamados a uma grande lucta e, como acontP-
ce sempre em similhantes situaçtks, tanto os
que deviam ser vencidos como os que haviam
de ficar vencedores combateram energicamente.
ns grandes vultos historicos cl'esse tempo -os
personagPns extraordinarios, cliriamos quasi ho-
mericos, que então surgiram-os caractPres pro-
fundamente distinctos, e altamente'poeticos, quer
pela negrura, quer pela formnsura moral:- to-
dos nasceram da situação social do país: foram
o resultado e o resumo d'esta, e por clla sómen-
te se po=lem comprehPnder, avaliar c explicar.
Se porém essas imagens tão aproveita\·cis para
a arte, forem arrancadas do quadro em cujo
chão e luz appropriaclos a ellas, unicamente se de-
vem contemplar, ficarão convertidas em
nhos de morte-côr, e o que mais é, perderão f'S
seus lineamentos caracteristicos; serão abstrac-
Çt-leS; quando muito objectos d'estudo pa-
ra a physiologia das paixC1es: serão represen-
tantes do genero humano em geral, mas nunca
de uma geração, de uma l-poca, e cl'um pats:
darão malt'ria para o drama para
2.p 11. 1\fARJ.\ TEI.l.ES
o urama como o concelwram c,cthe em Jtrv e
Bd/y ou na Filha Natural, e Byron no 11/an-
jrL'dv; porém nào para o drama historico, para
o drama que se incarna na realidade, para o
drama que não €- um poema 1yrico como a
Atlzalia ou uma amplificação brilhante como
11/ahomd, mas uma obra d'arte que .toma por
expressão a vida humana, e que é destinada
para a scena.
() titulo do drama historico dado ás compo-
siçües mais notaveis neste genero, que no se-
cuJo passado e no presente tem apparecido na
Europa, como Goets, lVallcusteim, Htr1la1li,
e tantos outros, não foi uma phantasia ou capri-
cho dos eminentes poetas que as produziram ou
dos criticos que as julgaram. Este titulo corres-
ponde a uma realidade: representa uma theoria
litteraria verdadeira e nova substituida a outra
velha e falsa. O theatro antigo por via de regra
era uma abstracção: os seus personagens são
vultos por assim dizer desenhado na atmosphe-
ra, e que se movem nos raios do sol ; não pi-
sam a terra; não choram nem folgam humana-
mente ; não descendem como nós de Adão ;
não estão sugeitos senão a certas condiçües da
vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter
ue um tyranno, chamava-lhe Nero ; de um vo-
1uptuarin, chamava-lhe Sardanapalo; de uma in-
DR . .UL\ DI CIXCO .\CTOS
cestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypo-
crita feroz, chamava-lhe ::\Iahomet. Podia cha-
mar-lhes outra qualquer coisa; buscar na histo-
ria ou fóra d'ella outros quaesquer nomes. Cons-
td sibi: eis o que exigia d'esses caracteres a
philosophia da arte. Satisfeita esta condição bem
pouco importava se o personagem era romano,
syro, grego, ou arabe. Constd sibi.-Pouco im-
portava se as suas dimensões eram humanas.
Conste! sibi. Pouco importava quaes haviam sido
as crenças, as condições da vida civil, os va-
rios aspectos emfim da sociedade e da época
em que o individuo que se arrastava para o
theatro tinha vivido, e que forçosamente deviam
modificar-lhe de certo ou certo modo as pai-
xões ou os affectos, o pensar intimo ou o porte
exterior. Constd sibi: era o que lhe pedia a
arte antiga. E na verdade não era pedir muito.
A arte moderna que os ingenuos e innocentes
defensores do passado accusam de licenciosa
põe apenas mil vezes mais duras condições aos
seus sacerdotes; porque alem da constancia dos
caracteres dramaticos, exige nestes circumstan-
cias, que só o muito estudo e um ingenho pro-
fundamente synthetico póde fazer que se liguem
ás obras filhas da imaginação do poeta.
Se tão leves de soffrer foram outr'ora as con-
diçi)es dramaticas quanto aos caracteres, escu-
11. l\IAidA TELI.ES
sado parece diter que foram nullas q uanlo ;í.
phisiologia intima elo drama. :\Ialharalou-sc loJa
a C!:ilhdica dos antigos nas f6nnas maleriacs c
CXlf'rnas d'clle, na anatomia UOS OSSOS e carti-
lagens. Os escriptorcs lict'Jlciosos elo seculo pre-
sente sentiram n;i.o tanto que esta anatomia era
erronea, apesar Je o ser muito, quanto senti-
ram que era incompletissima. Posto o principio
inconteslavel ele que o drama não é mais do
que a arte vasada no molde da viela social, ti-
raram o corollârio forçoso de que era preciso
primeiro que tudo estudar esta, e exclusivamen-
te esta .... \ arte não se estuda ; porque a arte é
o ideal, e o ideal vem ele I )eus; é uma inspira-
ção: o que se estuda são· as formulas materiaes
cm que ella se revela, os typos em c1ue se re-
sume; para que estes possam ser claros e defi-
nidos como meios de communicaçào entre o
poeta e o mundo. Xo drama a historia é a ex-
pressão ela arte, é a voz articulada do homem
inspirado. Elle deve por isso saber perfunda-
mente a historia da épocha e do povo que vai
alevantar do sepulchro, para servir d'interprete
Pntre ellc e as gerações que hão ele escutar as
suas revelações de poeta.
Se os antigos pudessem tE'r adivinhado e se-
guido esta liuuciosa. theoria, os seus estudos
não houvE'ram siJo apesar d'isso nem largos
IHL-\:\1.-\ E\1 .\C l'OS
245
rwm cust•_,sos .. \ historia_ era falsa como a arte.
a biographias soltas e incompletas;
Pra bmhem um aggregaclo cl"abstracçües; rP-
sumia-sc nos factos p.1liticns .. \ viua social pas-
sava desconhecida: o povo dc·sapparecia nas
gigantes que derramavam cm volta de
si os homens eminentes .. \o passo, porém, que
a arte se rcc,1nstruia, reconstruia-se a historia .
. \o lach ele (-;oethc e Schiller apparecia Herder
c :\Iuleer; ao lado d'I Iugo, Guizot e Thierry.
-\mbas as ref()nnas se viram e veem obrigadas
a refutar o passado com as raz,->es e com o
exPmplo. :\las o poeta é constrangido a encer-
rar-se na f'p:Jca c no país cuja hist,)ria se acha
escripta por um systema racional, ou a ser ao
mesmo tempo hisb1riadnr e po0ta, tarefa clifficil
dr•baixo ela qual poucos homhros deixarão ele
vergar; mas que é intlispensavel levP a caho
aquc·lle que (jlliser incarnar a sua obra drama-
tica na historia elo passado, soh pena de cair no
convencional e incompleto do antigo thcatro, por-
que não basta sacaclir o jugo dos preceitos
puPris das poeticas para escrever o drama his-
torico: importa redigir-lhe a formula, e esta não
está em achar quatro datas, e seis nomes illus-
tres, mas na resurrcição completa da epoca es-
colhida para nella se delinear a concepção dra-
matica. Primeiro C} UP tu(ln, importa que Pssa
TOMO 1\.
epoca se alevante, como I .aLaro ;í. voz de Jesu:-,,
chc·ia de vigor e Jc vida.
1:: de lamentar que os nossos mancebos, cs-
Jwranças Ja litteratura patria, prefiram onlina-
riamentc as epocas historicas que passaram
para nellas traduLirem ao mundo os fructos Jo
seu ingenho dramatico, temlu aliás para isso a
vida presente que lambem é sociedade e histo-
ria. Xé1n seria melhor que estutlassem o mundo
que os .-odeia, e c1ue vestissem os filhos da sua
imaginação com os trages da actualidadP? KtLO
lhes era mais facil, mais agradavel até, este es-
tudo feito no meio elos banquetes, dos bailes,
lias convcrsaçues, do ruido, do presente, no qual
os leva irresistivelmente a lançarem-se a supcra-
hundancia de vida, o fogo da mocidade? :\luito
se enganam elles, crendo que acham a historia
em alguns pobres livros historicos que por ahi
existem. :.Jào: a histori:l não está lá I -:\;1o, vós
rüo achastes a formula m ~ l l e r i a l para a vossa
idealiJade; o vosso drama é a visão infernal
mas ridicula Je Perrault; é a sombra do co-
cheiro que alimpava a sombra de uma carrua-
gem com a sombra de uma escova. :K a vossa
obra não ha drama porque na sua forma exter-
na não ha realidade, c a ex
1
)ressão é o real.
Para achar este cumpre ter o estomago e os
braços robustos, os orgãos do olfacto endureci-
1'1!.-\ \1.\ -\CTOS
dos, a paciencia ue ferro, p{lrque é preciso re-
volver a granue !agem t}UC cobre o cauaver do
passado; é preciso aspirar o pt'i do sepulchro,
deslizar prega por prega o sutlario apudrecid,>
Jas geraçCKs extinctas: é preciso contemplar as
formosuras das sociedades que SC' transforma-
ram ou pereceram mas tambem apalpar os can-
cros que as Jevoraram: é preciso contemplar
seus monumentos sublimes de marmore; mas
tambem ler lentamente os quasi apagados e ba!·-
haros caracteres dos seus pergaminhos, e as
obscuras, tediosas e incertas sentenças da sua
; é preciso viver com os grandes
d'nutr'ora em seus paços esplendidos, mas assis-
tir tambem ás miserias e agonias dos peões, cu-
ja desventura faria hoje recuar de horror o maior
malaventurado. Tudo isto é necessario, sem con-
tar o grande e fatal risco de perderdes nPste
rude trabalho o que vale mais do que elJe- a
imaginação e a poesia. Deixai que outros a quem
alguma vocação fatal leva para este genero de
estud11, o mais tedioso talvez de todos, vos re-
construam os tempos que se dissolveram Pm
pedaços. Então podereis J.ivremente escolher a
urdidura da vossa têa. e bordá-la com os ricos
matites das \·ossas inspiraçües.
Que resulta de se escolherem para ohjPclt1S
de composiç,-1es dramaticas successos e indivi-
11 :\1.\RI.\ TEJ.LES
duos lwrtt·nct·nll's a uma geraç;1o e a uma
cit·dadt• cuj.t c nHKltl existir se igno-
ra? Resulta cair-se· no vicio elo llwalrn antigo;
ahstracçiH·s, e ch·snwntir a verdadeira artP.
E' o que succedc em-/} . . lltlria
nham-se ahi em Vt'l. d'Psscs nnmes U.o conhe-
cidos do fim do decim.) 'luarto scculn, signaPs
algehricos: cortem-se tndas as allusücs aos acon-
tecimentos políticos ou pessoas notaveis d'en-
Utl, e o drama J>Prlencer;'i á cpoca e ao país
que nos approuver. E porque? Porque falta ahi
a individualidade portuguesa d 'então: faltam o
crer, os costumes, as rclaçúes sociaes cl"essas
Pras. E sendo isto assim poder-se-ha dar a--
]). Jf,Tritl Tclks-o titulo de um drama histo-
rico, que eviJentemente quis seu auctor se lhe
Jésse?
J ulg;1mos ser n•1ssa ohriga,;;i.o dilatar-mo-nos
nestas consiJeraçúes sobre duas partes impor-
tantíssimas ele qualquer drama- os caracteres,
e a côr e verdade historica e local, porque é
preciso confessar que depois da restauraçào do
nosso theatw, é sohre estes dois pontos que a
critica litteraria attenta em demasia a averigua-
• sobre a correcção de língua, tem sido assás
nPgligente c escaça. agora examinarmos
com a brPvidade possível a disposição ou Pnredo
do drama, a propri,.,dade di) SPU estylc•, e a pu-
DR.DL\ L· :\1 ('INCO .\Cl"I>S
reza da sua linguagem. . \ traça elo drama é a
seguinte.
Primeiro acto. - O Infante D. João csl.í a
ponto ele desposar-se com D. Telles. Esta
o espera no castellu de Barcellos, onde a cere-
monia do casamento eleve celebrar-se a occul-
tas, e alta noite, a despeito dos sagrados cano-
nes. \ boa dona possuida de uma tristeza inex-
plicavel está acompanhada da sua confidente e
ora na capella, onde se vê o tumulo do seu pri-
meiro marido. l'or Isabel manda chamar Fr.
Soeiro para que venha e consolá-la, e
fica sozinha. Chega seu filho I). Lopo Dias, l>.
Telles lhe escondera o negocio do GtSJ.-
mento, mas elle o aventara não sabemos como,
nem o auctor o diz. Queixas elo filho porque
fica desamparado; razão tinha, attento o seu
estaJo ele phtysico. Promessas ela mãi, de que
toda a familia ficará junta, por que elle Lopo
Dias e o Infante são os seus unicos amigos.
touit's outro, lhe brada um cavalleiro de
armadura negra e viseira callada que apparece
á porta da capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que
entra. IJ. Lopo pergunta-lhe quem é: resposta;
sou um dLjt:Jlsor dt: 'Vossa mdi. D. Lopo diz que
lhe fica muito obrigado mas que ella pre-
cisa ele defensores. ln:sisle o desconhecido por-
que IJ. Leonor ha de persegui-la. Isso é a mim
250
11. :\1.\ RI.'. TI·.I.I.E!::i
que toca: -- acode I>. Lopo. Com hnm funda-
mento o affirmava, e por isso o cavaiiC'iro não
;tccrbndo a replicar-lhe vai-se ao trol'hcu d"ar-
mas que Pstá sobre o tumulo de "\!varo I >ias,
pega na espada do clPfuncto c entrega-a ao
mancebo recommendandn-lhc CJUC SP mostre
digno d'ella. :\ tào bom conselho não havia
fazer reparos. I l. f .opo pronwtte dar-lhe o ele-
\' ido uso. Então o cavalleiro sai, não sem offe-
rccer a I). I .opo o sPu braço e espada para
qualquer lanço apC'rtaclo; já ~ e sabe SC'lll diter
qnem é ou onde mora. Trlo o cavalleiro, I) .
.\tu·ia pergunta ao filho quem seria aquelle ho-
mem, era melhor tC'r-lho perguntado a c-lle. Se
o conhecesse como as suas mãos D. Lopo não
responderia mais confiado: E' um ho11um que
'Dos ama, c que z•z"giír sobre vós. Não diz isto
porque o conheça: mas porque o sabe ab alto,
a proposito elo que vem uma dissertação sobre
o d\)111 cl'aclivinhar que teem os phtysicos. Sain-
do Lopo, volta Isabel com Fr. Soeiro: scena
inutil.- Chega então o Infante, acompanhado
do Commcnclaclor d'Elvas; colloquios amorosos.
() Commendador (;areia _ \ITonso nas visagens
cptP fa7, nos ;í partes que murmura mostra a
raiva que llw accend(· na alma o affecto dos
dnis conjuges, que finalizam o acto ajoelhando
DRA:\1.-\. E:\1 CINCO ACTOS
junto ao altar provavelmente para receberem a
benção matrimonial ele Fr. Soeiro.
Este acto, afora a inutilidade da scena n,
involve grave falta de probabilidade. Como pode
um cavalleiro desconhecido entrar de viseira
callada e depois da meia noite na capella de
um castcllo do seculo XI\'? Como rodou a ponte
leyadiça para lhe dar passagem ? <_2uc fazia o
madraço do a1caide; que faziam os vigias das
quadrellas, roidas e sobre roidas, que assim dei-
xavam devassar a boa fortaleza cl'el-rei de Por-
tugal? Como entrou esse homem? Eis o que o
auctor não diz, nem lhe fôra facil dize-lo. De-
pois, é acaso natural que n. ~ I a r i a Telles nem
sequer deseje conhecer quem elle é? Homem
que fosse, não descansaria sem o saber, quanto
mais sendo mulher l D. Lopo indaga na ,·erdade
quem elle seja; mas contenta-se com uma res-
posta evasiva, e consente que o incognito lhe
vá buscar a espada de seu pai, e I h 'a entregue
com a comminação de que ha de fazer bom uso
d'elia. () melhor uso que I>. Lopo naquelle
momento podia fa1er cl'esse ferro era pôr-lho
aos peitos para o obrigar a erguer a viseira.
Sua mài vai celebrar um casamento occulto, e é
quasi na hot·a prPfixa para a ceremonia quC" elle
tolera venha um desconhecido devassar a capella,
sem o obrigar a descobrir-se? . \ theoria de que
., .,
-)-
11. :\1.\J.:.I.\ I u.u:s
os phlysicus adí,·inham ser<í muito hoa e v<·r-
dadl·ira; mas a pathologia ainda nào chegou a
<tlinar com essa circumstancia nas aflco.;IJes
pulmonares, c os espectadores nào pndcrào
admittir a ratão com que o auctor por hocca
de I>. Lopo pretende desculpar a
lhança de tal prncedimcnto, isto r., que elle já
tem o qu<:: que seja cl'alma do outro num-
do, c que por isso sabe que o desconhecidtl é
pessoa de Cllnfiança. <) antigo thcatro sr, con-
milagres em casos apertadissimos . .1.Ycc
Dots iutcrrit uisi ••iudiu uodus. _ \ licen-
ciosa eschola moderna em nenhum aclmitte taes
nwitlS, quer para conduzir o dram<l, quer
para desfeixo d'elle. Xatureza e yerclade são os
seus unicos elementos.
Segundo act1 '·-Tem passado um annlJ. I>. -:\Lt-
ría Tclles está em Coimbra com seu filho, c 1J
que j<í começa a eSliuecer-se de sua mu-
lher anda na côrte. [ ). Lnpo bz versos c caqw-
se: I>. ria carpe-se e ouve-I h declamar.
-:\l<1s como lagTimas c versos continuados são
duas grandes canseiras, a pobre dama abando-
nada convida seu lilho.para irem espairecer suas
maguas 1wlas margens do \ isto aco-
de I>. I .opo, que (> nwlhor irem ao monte visi-
tar a caverna elo solítario.- <_Jual solitario? Lo·
go o sabereis. U. -:\Iaria Tclles faz suas objec-
fii-U:\1.\ E\1 CIXCO ACTOS
253
ç11es: a cavl'rna do referido solilarin ou hullh'lll
dos mysto-ios tem má nomeada: ninguem se atre-
ve a chegar perto d'ella : isto acode o poeta,
com dizer que todos esses medos. são sandices
do vulgo, e que !á por certos barruntos que clle
tem, adivinha qne o solilario é pessoa de porte
e de bondade. Desassombrada de seus temores
IJ. esti a ponto de sair eis senão quando
chega "o Commendador d'EI\·as com uma carta
do Infante. Roto o fecho da carta com o punhal
lle Garcia. \ffonso, D. lê o conthe udo u' c lia
em voz baixa .. \ boa da carta era fria, fria como
gêlo: nem uma palavra affecluosa! .. :\penas lhe·
diz sua mercê o Infante que não pode ir a Coim-
bra, demorado na côrte por negocios d'alta mon-
ta. Desesperação de D. que sente por isto
que vai 11lllrrer. J\,rque? Porque 1). João! ma-
riun já de um anno, e preoccupado por graves
negl)cios, não lhe escreve uma carta de amores,
c não lhe declara que são esses flUe
lhe embargam os passos. \T êr a morte diante dus
olhos; ficar desesperaua por tal motivo seria
loucura d'uma rapariga ele vinte annos, mas em
uma dona ue trinta e seis é uma inverosimilhan-
ça inadmissivel. Se todas as mulheres casadas
ele mais ue um anno morressem por não serem
as cartas de seus maridos ausentes adubadas de
amores e requebros: a proporção das viuvas com
ll. :'lltHUA TEI.I.ES
o rrsto ua população seria mais drscommunal e
espantosa do que em Inglaterra a elos que mor-
rem de fome com os q 11(' teem ':"{UC comer. (juan-
lll ao scgrecJo que o Jnfanle guarda sobre os
negocios que o rPtcem, razão tinha I). l\laria
Tdlcs, porquf' sem os particulari-
Lar, era fazer nascer desejos vãos á insaciavel
curiosidade f<"minina, c todavia não podiam srr
materias d'estado esses negocies?- não podiam
sPr coisas que nada imporlassPm a 1 ). :\Ia ria? t
l'ara um desmaio ainda a carta teria substancia
se a dama fosse uma rapariguinha; mas pltra
· agonias mortaes em uma dona sisuda, como lhe
chama Fernão I .opes, não havia ahi motivo. Por
uns longes que se enxergam em dois á partes
do Com mendador vê-se que foi elle quem ar-
mou esta negregada invenção da carta, e que
folga com o effcito d'ella. SP o auctor do drama
tivesse concedido a I>. Maria Telles mais uma
mealha df' sPnso commum, Carcia 1\tTonso não
teria mostradn ser na tal invenção da carta, se-
nào um solcmnissimo mentecapto, se a sua in-
era, como ellc diz num monologo, Vln-
g;u-se d'ella e do Tnbnte.
Lida a carta, D. :daria chama· o filho para
irem visitar n snlitarin, porque s6 nclle poderá
achar consolaçües. ]'ois que tem o solitario
quem e lia h a um instante tremia ele medo) com
)11{.\:\I.\ E:\1 .\CI"OS
n de D. João? O poeta, que fúra o mo-
vedor cl'csta icb est:l prestes, c lá \·ão am hos
por montes e valles em cata do mysterioso ana-
chorela.
Xào tardam muit•> a encontrá-lo. E' apenas o
tempo neccssario para a mutação da scena, cair
e levantar-se o panno; não para de
acto, mas· ele quadro. O solitario está na caver-
na a sós comsigo. De seu diLer consta
que havendo amado D. Telles, e não po-
obtê-la por ser ji casaJa com. \!varo I )ias
ele· Sousa, casara com sua irmi IJ. Leonor, que
o deixou para subir ao throno. E', portanto, o
eremita- João Lourenço ela Cunha, que lida
com suas maguas, e que depois de invocar a
m;H·te e sonhar vinganças, o que não é· a mais
approvada disposição moral para esse transe tre-
mendo, cai desfallecido sobre um rochedo.
E' neste ponto que chegam Lopo Dias e sua
mài. Esta apenas entra, diz-lhe> que vem tra-
zer-lhe consolaçt->es. Impertinencia de mulher.!
Uuem lhe disse a ella que o anachoreta de cuja
caverna ninguem ousaapproximar-se, entrou na vi·
da eremilica por desventuras e pelo arn•pen-
dinwntn dP seus pPccados? Quem lhe dá a cer-
teza de que pnder:í consol.í:-lo. ella que não o
conhece, c que não sabe provavelmente o que
lhe ha de dizer? Dar-lhe consolações?! f>e que
genc-ro c de que modo? afftrmou ella ao sair
de casa? Uuc vinha peuir e não ofTerccer con-
solo. I >isse uma coisa sem sentido, sem verdade, c
agora diz solitario ofTendc-se da ofTcrta c
com razão . .:\fftrmando-se 1)(lrém na recem chega-
da, reconhece-a, e clla reconlwce-o a ellc.-Ex-
plicaçüeb mutuas. Joã(} Lourenço refere então co-
mo foi elle o cavallciro d'armas negras que
lhe appareceu na capella, e explica-lhe o proce-
der do Infante. Este occultou na côrte o seu
casamento, e a mão da Infante U. Beatriz aca-
ba de lhe ser offerecida. Cheia d'angustia, neste
Jogar, justa e bem fundada, D. ::\Jaria Telles per-
gunta : e acctitou-a?- L. ma voz que sôa na
bocca da caverna responde - E' o
Commcndador d'Elvas que assoma involto
capa, já se sabe, negra. D. desmaia e cai
o panno.
Este desfeixo do acto é natural e dramatico, e
a melhor coisa de todtJ elle. O Commendador
\·enuo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a
conversação, e em seus pensamentos de vingan-
ça não consentiu que outrem déssc a punhala(la
mortal nessa mulher de quem queria vingar-se .
.:\qui o efTeito dranl.atico vem da
situação e caracter elos 1wrsnnagens. ás
scenas anteriores parece-nos qne estão abaixo
de toda a critica.
lll{tBI.\ E:\1 .\CI"OS
_ \cto terceiro. - I>. Leonor est;'i debatcn-
d•J-sc com os rcmordimentos dt· sua conscicncia;
entra o Commendador d'Elvas. \-em tt·ater-lhc
a noticia de que fez ao Infante a proposta do
casamento com I>. Beatriz, e que achando-o nuu
de resolver lhe dera Je que sua mu-
lher o trahira. D. Leonor relucta contra esta nova
calumnia : martyrizam-na os remorsos porque
\·iu em sonhos os castigos que lhes estavam re-
servados no outro mundo a elle Commenclaclor
c a ella Rainha; nE"sses tormentos, confllrme o
direito, e em vista ela nossa moderna jurisprll-
prudencia Jramatica, ha pontas de rochedos cm
hra1a para arrasLu o miseravel Commenclador.
() triplicado da punição; as pontas, os roche-
dos e as brazas, aterram-no, mas fingP-sc re-
soluto. Xào assim a rainha a quem os sonhos
pavorosos não podem Segue-se uma
lucta moral em que os insultos refen·em entre
os dois. O Commendador sai a rai-
nha .. Apenas esta se acha sú, entra João Lou-
renço da Cunha: scena violenta entre os dois
em que a rainha successivamente treme, humi-
lha-se, amaldiçoa e ameaça, e cm que elle fala cons-
tantemente a linguagem do odio profundo. X o
meio da altercaçào sobrevem o Infante que ten-
do Jnà.l Lourenço por morto, crc que é a sua
alma em pena. Este o ameaça tamhem por querer
11. :\I \1,1\ TEI.J.Io:S
dissolver u matrimonio C11n trahido com I J. :\bria
Telks .. \ rainh;t nega o Uts;tnH·Jllo: Jc);-to l.oun·n-
çu injuria-a de novo, c o Infante arranca da es-
pada. ;\ ponto j;í. UI' brigarem acode el-rC'i aos
brados de D. Leonor. João Lourenço que enfiou
;1 ladainha elos doestos atfronta lambem I). Fer-
nando que chega a levar a m;lo á espada, mas
que lembrando-se <lP quem é, manJa-o como
C'ra de razão, metter na Partindo, o an-
tigo mariuo da rainha, pt>rgunta a si mesmo,
quem, preso clle, uefended O. :\faria Tellcs. I).
J ;opo I >ias apparecendo no fundo responue-lhe;
- Sot ji!lto!- E cai o panno.
I ·:ste acto, tem entre todos como é evidente,
a primazia no desalinhavado e absurdo elo desP-
nho, posto que não lhe falta meriln ás vet.cs n;
execução das scenas. Primeiramente como é
crivd que tendo \ffonso sido encan·e-
gado pela Rainha de propôr ao Infante o novo
casamento, c estando este na côrte, o Com-
menclador antes de dar parte a D. Leonor do
clesempeni10 da commissào, fosse a Coimbra
levar a celebre carta dn acto

o que pouia
qual.quer pagem ou correio?. Em segundo
logar, n<lo estaria doido João Lourenço, tendo
tnmado a peito defender 1 ). l\Iaria TPIIes, em
vir met!Pr-se nas garras da rainha, sti p:tra a
injuriar C' aos outros seus inimigos, porque não
llRAi\IA Ei\1 CJ:'IICO ACTliS
consta do drama que viesse faLer outra coisa?
Uue esperava elle lhe ::;uccedesse, entrando no
paço, onde todos o conheciam, para practicar
aquellas gentilezas, senão ir jazer na cadca?
Uepois como entrou elle sem licença até o q uar-
to de l >. Leonor? E' a mesma inverosimilhança
elo primeiro acto. <) paço real no scculo XIV
era menos vedado que hoje: permittia-o a elif-
ferença dos tempos; mas nem pór isso era uma
taberna, onde qualquer entrasse quanJo c conh>
lhe approuvesse; e todavia é sobre cstPs argu-
mentos que assentam os dois ui ti mos actos.
Uuanto a este abster-nos-hemos de dizer mais
nada contentando-nos com observar que tr·r-
mina por um cfTcito dramatico perfeitamente
analogo ao desleixo do segundo, isto (> pel•l
apparecimento de um personagem inesperado .
. \cto quarto.- João Lourenço está na mas-
morra em que a propria imprmlcncia o lançou.
_\hi se dúe e queixa de Deus, em vez de sequei-
xar de si. X o meio de suas lástimas passa uma bar-
ca pelo Téjo, e ouve-se nella uma voz que se
approxima da prisão. ~ \ unica prisão em que po-
dia estar João Lourenço era a elos paços dl>
Castcllo c como de lá se ouvia uma voz no rio
c esta se approximava da masmorra não ser;'i
facil dizer: to<'lavia deixemos bagatellas. Prnva-
velmentc quem cantava ·era I>. Lopo que d'ahi
2ÚO 11. \1.\IUA TEI.I.I<:S
a pnuco entra no calah.Jiço, ali;ís, n;·w inlr-nde-
m•>S que pudesse tra.t.t'r-se a proposito tal can-
tiga flUe nada tc·m com o drama. I>. l.opo vem
livrá-lo, acompanhado elo carcereiro que pro-
vavelmente para isso peilou. Jsl1> carcc,,reiros
cnmpra<l11S como meio dramalico, coisa quasi
Un velha e gctsta quantd o està > os conliden-
tes classicos. C> preso recusa a liberdade por-
C)Ue quer morrer. . \rtui fica evidente a doiuice
de Jo;lo Lourenço. :'\;lo podem ter passado cin-
co minutos desde quP elle dizia: 0/z Sot!wr
]),:us molTt.T sem ter sah.·,ldu a
illuoct.'lzft.' llim·ia.). . . Oh, 1lt.'lll uma espn·,lll(tl
11/t-' dtlÍS.) -e agora que o q ucrcm soltar rC's-
pond<> com vehemencia; d,:Lrai-m,: morrer; dt:i-
xai-mt.' 1/IOITt.'r! ,) -Polis se quer morrer para
que eslava apoquentando os céus com seus
queixumes? Isto era capaz d'impacicntar até o
sanctn dt)S sanctos Em fim depois de varias
pomleraç(,es do poeta phtysico o homem re-
solve-se a sair. n. Lopo diz-lhe que espere que
vai arranjar os meios da fuga, c parte com o
cat-cC'reiro. Fica só o prêso, porém não tarda
comp:1nhia. Cma porta secreta se abre c I>.
l.eont>r entra, tira a chave e encaminha-se
para se11 prinwiro marido. Vem dizer-lhe que
Pile ha de motTPr alli mesmo: vem saciar o sPu
odio: Jnào Lourf'nço depois de ameaças mu-
ORA:\1 \ DI CINCO A
1
TOS 2Ó[
tuas tira-lhe repentinamente a chave da porta
secreta, c diz-lhe que vai salvar IJ. Tel-
lt·s; a isto acode a Rainha que nào lhe achará
senão o cadavc·r. Desesperação de João Lou-
renço da Cunha, que supplica de joelhos, c
que D. Leonor inabalavel, ergue-se
furioso e quer matá-la com um punhal que traz
escondido: é entã.> que clla sPpplica; é então
que ellc se torna inexoravel. apu-
nhalar chega n. Lopo; a esperança amortece a
cholera no coração do marid1J ela Rainha: o
punhal cai-lhe das mãos. n. Leonor continua
todavia a ficar .. de joelhos, a pedir não llllC lhe
deixem a vida, porque esta já ella sabe que está
salva; mas que a soltem: que lhe permittam sair
d'aqueiiC' logar d'horror. Sublime hypocrisia
que encubriu o animo rlamnado com a mascara
elo susto. Recrsam-lho: então a cholera tras-
borda do peito d'essa mulher que é um abysmo
de maldade. Kem a demora d'uma hora a que
elles a condemnam sai nclo, soffrc a rainha. _ \ pc-
nas se acha só a régia hyena corre, e lança rai-
vosa as garras ás grades da masmorra; depois
ajoelha e quer orar, mas alevanta-se log•1. c
sorri. Pensa um momento, e com gesto amea-
çador exclama: D'aqui a uma lzora scr .. :i ou!nt
z·c:: n?inhn. m pPnsamentn atro1 P mPdonho
reluziu P•)r certo á luz sanguinPa que hruxulea
T0!\.10 IX FOI. 18
D. :'11.\RI.\ TELI.ES
nessa alma? ~ J u a l foi cllc? Sabe-lo-hemos no
sexto e derradeiro quadro.
Nas trcs ultimas sccnas d'estc curtíssimo acto,
tào curto que talvez a representação d'cllc não
occupe quinze minutos a sccna, revela-se um
poeta. l\ão mencionaremos defeitos porque o
quE tem excellente no-los varreu da memoria:
o auctor comprehendeu perfeitamente o cara-
cter de IJ. Leonor: ha aqui o talento profundo de
um verdadeiro escriptor dramatico. Oxalá po-
dcramos dar ele tudo e ele todo o drama os
mesmos testemunhos de louvor e admiração!
Com magua temos feito o contrario, porque {-
o nosso penoso devcr distribuir recta e severa
justiça, e corresponder á confiança que em nós
depositou esta assemblea.
Uuinto acto.-Estamos em Coimbra nos pa-
ços do Infante. _\o correr do panno I). Leonor
c (;areia i\fTonso falam a sós. L\ rainha, se-
gumlo parece, saíu da prisão e chegou a Coim-
bra antes que João Lourenço e D. Lopo. Xão
é isto provavel mas é possível; porque o odio
entranhavel costuma ser ás vezes mais diligente
que todas as afTeiçües. _ \ scena da prisão, uma
vingança falha, uma humilhação necessaria mas
cruel, espcrtaram toda a violencia do caracter
da r:1inha: os remorsos desappareceram, e ella
precisa de sangue. Incita por isso o ( 'ommen-
DR.\:\L\ DI CI:-ICO -\CTOS 2Ó3
Jador para que positivamente accuse sua ir-
má Je adultera: conhecera pelo terrnr de
Lourenço que esle a amava, e é de bom-
grado fratricida para começar pela vingan-
ça que mais deve doer a seu antigo marido.
E' este o retrato de D. Leonor, mas
o que é falso, o que não condiz com o caracter
profundamente dissimulado que lhe allribue a
historia, e o auctor lã1J bem pintou no fim do 4.
0
acto, é- o· injuriar gratuitamente o mesmo ho-
mem que está incitando para que seja instru-
mento da sua vingança. Embora ambos se co-
nhecessem bem mutuamente: embora estas duas
almas negrissimas estivessem sem máscara; mas
ainda os maiores malvados não ouzam recorJar
uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se
com elles senão nos extremos ele cholera. V e-
mos que do aspecto que toma esta scena e do seu
dcsfeixo, depende a existencia de duas ou tres
scenas seguintes: a inverosimilhança porém cb
origem diminue-lhes grande parte do merito
que possam ter . ..:-\s affrontas da rainha são cor-
respondidas por Garcia _-\ffon:;o, que acceitando
a infame commissão, e um bracellete que deve
SPrvir ele prova á calumnia, sai praguejando e
ameaçanuo I>. Leonor, e ameaçado e praguP-
jado por clla. Esta scena é evidentemente clc-
sarr<lloada, ou antes impossível. n. LPonor fica
1>, 1\1.\RI.\ rELLES
só, c num monologl) resolve a murl(• dn ( 'om-
mcndador: para isln q11C se delineou a scena
antecedente. PlH. assim dizer, n auclor fe1. num
drama o q ur> se diz fa1.ia Boilcau nos seus ale-
xandrinos, sugeitou a rima elo primeiro verso
á do segundo. Resolvitln o assassinio do seu
antigo cumplice, a rainha d,í um signal e appa-
recc \Tasco seu pagem. IJ. Leonor diz-lhe que
um homem a ultrajava: responde o pagem q uc
lhe diga seu nome c cllc nFH·rcrá: esta scena
está felizmente im:tginada e o caracter ele um
official cl'assassino dado ao pagem é rapicla P
profundamente traçadn. \r asco sai e a rainha
esconde-se em uma camara para d'alli ver mor-
rer Garcia :\fTonso. 1\penas ella se retira o In-
fante entra com o Commenclaclor cl'Elvas que
pretPncle persuadi-lo ela infidelidade de D. ":\Iaria
Telles e que por fim o convence com a prova
do bracclletc, o qual, diz elle, João Lourenço
perdera. Fraquissima é a prova, mas acceitcmo-
la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a
adaga, arrümba a porta da camara de Tel-
les e arroja-se para lá furioso. Garcia 1\fronso fica
só e tirando um frasco de venc>no, declara em urn
monologo que envenenará o Infante logo que
tPnha assassinado sua mullwr. entra então,
e gracejandn com Garcia 1\flimso, di7-lhe que
precisa de lhe communicar um segrc>dl)
1
mas
ltR,\'.IA El\1 ACI'úS
que antes cJ'isso beber;í: com ellc um trago de
vinho. <) aspecto de \'asco assustou o Commcn-
dacJor lembrado do que passou com a rainha, e
de que este pagem é o executor elas suas vin-
ganças secretas. Emquanto \r asco vai buscar o
vinho, elle lança á cautclla veneno em uma das
taças que alli estão, e qnanJo o pagem volta
enche-a e ofTerece-lh 'a, tomando para si outra.
\mbos levam as taças á bocca, mas nenhum
bebe. Garcia \ffonso p.Je a sua sobre a mesa e
pergunta ao pagem qual é o segredo; rindo
atrozmente este lhe pergunta se quer sabe-lo;
Garcia responde que sim, e que o diga
depressa porque lhe resta pouco tempo para o
revelar por estar envenenado: o pagem conti-
nua a rir e replica que é elle que o está, e que
esse era o segredo. Garcia \ffonso despejando
a taça mostra que lhe não tocara : o pagem faz
o mesmo. O Commendador então lhe diz: Pois
b,·m! llt'm um1lt'11l outro mo1TtTt'mos.- Engauacs-
vus!- torna soltando uma risada terri-
vel e dando-lhe uma punhalada. (;areia .c\tTon-
so, amaldiçoa-se a si e ao pagem, procurando
lambem feri-lo. :\este momento ouve-se dentro
a voz de D. Telles que implora piedade.
() horror appossa-se do Cnmmendador agonizan-
te, os gritos de D. redobram, e o Infan.
te sai da camara com a adaga na mão tinta em
( )s n·nHH·sos fazem o Commendador
moribundo Cl>11fesse a innocencia deU. :\faria Tel·
les. ()infante furioso quer adaga, mas
;tntcs d"isso cai morto. Carcia .\lfon5n. João
Lourenço chega já tarde seguido tk cavallc:iros
<· p11VO: o lnfatltf' desesperado pcdc que o ma-
km, c João Lourcnço quer cumprir-lhe os de-
sêjos, quando 1 ). Telles saindo ela camara
n relem e vai cair nos braços elo Infante a quem
perdoa morrendo. \pparece então D. Leonor,
apontando para os cadaveres da irm;I c clJ
Commendador diz para o marido - que veja
como se yingou uma rainha. IJ. Lopo apparc-
cendo subitamente com a espada na mão, ahre
uma janella e mostrando a praça atulhada
de povo armado, diz-lhe:- Sc11llora raiu!ta,
o jill1o 'i.-'ingur'i lambem a morte dt' sua maz, e
o fo'i·u as injurias rtet.:bidas. \ssim se conclue
o drama.
Este acto é incontestavelmente o melhor, e
o seu effeilo scenico deve ser grande .. \pesar
das imperfeiç•)cs que n'clle se pôdem e com
rat:ào rcprehender, o auctor procurou resgatar
aqui os def{,.itns q uc pullulam nos ank.cedentes,
o 11110 succcssivamcnlC' notamos em cada um

Restam algumas ohservaçúes sobre estylo e
linguagem: assim completaremos o exame d'es-
DR.-\:\Ic\ E:\1 CJXCO ACTOS
267
te drama visto a todas as luzes a que se eleve

O estylo para dizer tudo em p'Jucas palavras
é o da moda: isto é, a maior parte das vezes
falso: comparaçües frequentes, que a situação
moral dos personagens que as fazem não com-
porta: certa poesia na dicção impropria do dia-
logo: fartura d'essas exaggeraç•-,es com que em-
basbacam os parvos da platéa, e que os homens
de juizo não podem soffrer. \ 's mãos cheias
estão por ahi derramadas as maldições, os anjos
de brancas, os rochedos em braza! os in-
ternos, os demonios, e toda a mais ferramenta
dramatica, usada hoje no theatro, c que nãq
sabemos d'onde veio, porque sendo evidente
que os nossos escriptores principiantes buscam
imitar os grandes dramaturgos franceses, é cer-
to que raramente acharão lá essa linguagC'm
ôca e falsa, que só p6de servir para disfarçar a
falta ele affectos e pensamentDs: \?ictor Hugo
e Dumas não precisam nem usam ele tacs meios,
e para citarmos de casa, já que temos cá o
exemplo, que esses novl'is vejam se nos
do nosso primeiro cscriptor dramatico, se no
.lucto de Gil I ricozt e ou no llfagemc h a essa
linguagem de cortiça c ouropel, ha essas ex-
press•)es turgidas e descommunaes que fa1em
arripiar o senso commum, e que offendem a
11. 1\1.-\RL\ Tl•.l.l I·:S
verdade e a nature1a. ( > cstylo é tu<lo, dit.ia
:\<'to somo::i da sua opinião absoluta-
menlt•, mas é incontestavel que uma obra lille-
raria excellenle em todas as demais partes, se
lhe falecer a propriedade elo eslylo nunca po-
dPr<t obter para seu auctor t1111a reputação Ju-
racloira. Xào na historia littera.ria de to-
elas as nações exemplos cl'esta exactissima ob-
servação.
Uuanto aos erros de lingua e construcção,
faccis são elles de emendar: assim o fossem os
de eslylo, e ainda mais os de contextura !
Intoletaveis, mais q<1e nenhuns, nos parecem
o vicio constante elo intn)duzir um i nas se-
gundas pessoas do plural dos preteritos como
ji::csttis, ti-"•esü·is, etc.- por fizestes, tives-
tes; soifrt:r por padtcer, sendo a significação
portuguesa de soifrer a de padecer com paciencia
oucotzstaucia:o uso demasiado dos possessivos que
tanto afrancezam o nosso mui illiptico idio-ma: a
substituição escusada de preteritos simples pelos
compostos do participio e dos auxiliares: tau-
tologias indisculpaveis, como -abysmo imJJU'll·-
so e stm fim; caz•enza que parae ;ombar e es-
carneet:r, etc.;-- gradaçôes ás avessas, como:
cltâo de dcst:speraçào e pesar. l\ estes c outros
defeitos poderia o auctor dar renwdio revendo
attentamente o manuscripto, que talvez o limite
DR.-\:\1:\ E:\1 CI:'\CO .-\CTUS
Lle tempo para o concurso lhe não deixou aper-
feiçoar c pulir, e por isso intendemos dever
nessa parte ser indulgente a censura do Con-
scrvatorio.
· Temos feito longa e severamente a critica do
drama-- D. Jlaria Tell!s.- Fizemo-lo assim
por muitas e mui urgentes razües. Tem soado
queixas contra a ti'irma demasiado simples com
que se costumam exarar os pareceres sobre os
dramas que annualmente concorrem a premios:
conselhos sinceramente dados tem-se tomado
pela expressão do orgulho; imaginou-se uma
aristocracia litteraria, contraria a todos os inge-
nhos que surgem de novo. l ~ preciso confessar
•1ue pelo que toca ao não motivado, e á brevi-
dade dos pareceres, sobre tÜdo d'aquclles que
condemnam, é justa a queixa. Todas as mais
são infundadas. Os factos de quatro annos ahi
estão provando o contrario. Se alguma culpa se
pode lançar ao Consen·atorio é a nimia indul-
gencia ; já algumas das suas sentenças favoraveis
tem sido reformadas pelo supremo tribunal do
publico, ao passo que ainda nenhum drama con-
Jemnado por elle foi levado por appellaçào ao
grande jury da opinião da platea: toàavia se
os auctores d'esses dramas tinham a conscien-
cia da injustiça no julgamento, para lá deviam
aggravar-se. Esta é a nossa rlefensào completa
ll :'11.\IU.\ TELJ.ES
contra as v ~ l s accusaçi1C'S dl' parcialidade; con-
tra os sonhos cl<· uma imaginaria aristocracia
Jitteraria com que a mediocridade pretende
passar aos olhos de parvos e ignorantes, pelo
ingenho persf'guidn ou menoscabado.
_ \ Secção da l.itteratura pensa por tanto, que
importa ao bom nome do Conservatorio o fazer
scmprP miuda c inexoravelmente o exame dos
dramas que concorrem aos premios, e motivar
largamente as suas sentenças. Tanto os concor-
rentes como a nação tecm direito ele assim o
exigirem. () tempo da censura inquisitorial, que
muitas \-ezcs só serve de capa á incapacidade,
passou. 1:: nossa obrigação reslrida j·unclamen-
tar as opiniües que assentamos: julgadores aqui,
Sf'remos lá fóra réos, e o c<.:lmmum juiz que é o
publico não está adstricto a julgar por nossas
palavras. Por outra parte esta miudeza c severi-
dade de critica servirá de correcção aos aucto-
res, para cuja emenda é inutil um parecer su-
perficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes
habilita o amor proprio para crer que não fo-
ram elles, mas fomos nós os que errámos .
. \lém cl'isso, a Secção ela I -itteratura intende
que é necessario ser finalmente severa a censu-
ra do Conservatnrin, para o verdadeiro progres-
so dramatico. I >urante quatro annos este pro-
gresso tem sido unicamcntP em extensão: falta
DR.-\:\IA E\1 CINCO ACTOS
a prorundiJadc>. <) numero dos dramas augmen-
ta, mas o merito d'elles é o mesmo, sc>nào é
menor. _ \ principio convinha a tTagar todas as
tentativas: hoje é preciso afastar as não voca-
çC1es dramaticas que a facilidade Jas recompen-
sas tem tornadl> em d e m a ~ i a ousadas; e é pre-
ciso constranger aquclles flUe podem e sabem
produzir frucLJs de verdadeiro ingenho a darem
ao thcatro obras que os honrem e honrem a
patria.
Pe!o que respeita em especial ao drama -
D. Jktria Tellcs --a Secção de Litteratura ain-
da pede para elle a indulgencia do Conservatl>-
rio .. \ leitura cl'esta composição rcvéla a ver-
dura d'annus c inexperiencia do seu auctor. O
clesconnexo e inverosímil da contextura, a igno-
rancia q uasi absoll1ta dos costumes e instituiç<·les
da epoca escolhida, e ainda mais a falta de co-
nhecimento da logica das paixf>es e affectos, e
por isso da consistencia dos caracteres estão di-
zendo que o mundo e a sociedade é ein grande
parte um mysterio para ellc, mystcrio que ainda
mal as tempestades politicas e a ,·ida demasiado
energica elo nosso seculo lhe revelarão em bre-
ve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos
prudentes que para melhorar o seu cscripto l!1e
não recusarão, por certo, os membros creste
Conscr\'atorio, o drama- D. .Varia Tdks-
'lj2 11. \L\1-:1.\ TEI I.ES
poder.l subir ;\ scena, n;1o com a ccrkt.t d(•
oht(•r a apprnvaç;'lo dt• sum•no juiz o - publico
- mas ele apparccC'r ante elle sem dcshonra
sua, e sem que nt'>s sejamos accusados ele des-
leixo no cumprimento dos nossos deveres. ( l
parecer da Secç<1o da Litleratura é portanto,
que a :\lesa convide o auctor do drama a diri-
gir-se a clla para o fim aponLHln. () Conserva-
torio r c sol verá o que for mais justo c con ve-
nicnte.- .._ 111.-'.t:tllldre lft:rculano.
O. Leonor d'Aimeida, Marqueza d'Aiorna
O. Leonor d'Aimeida, Marqueza d'Aiurna ( 1)
Por grande que deva ser a gratitlJ.o que se
associa ás recordações d'aquelles que nos ge-
raram, por funda que vá a saudade insepara-
vel ela memoria paterna, no cnraç;io do bom
filho ha um a!Tecto não menos puro, e não me-
nos indcstructivel para o homem cujo espirito
allumiado pela cultura intellectual tem a cons-
ciencia de que o seu logar· e os seus destinos
no mundo são mais elevados e nobres que os
cl'Psses tantos que nasceram para viverem uma
vida toda material e externa, e depois morre-
rem sem deixar vestigio. Este afTecto é uma
especie de amor filial para com aquelles que
nos revelaram os thesouros ela sciencia; que nos
regeneraram pelo baptismo das letras; que nos
disseram: <<caminha!» e nos apontaram para a
lI) Xasceu em31 1le Ontnhro 1le 1750. Falleceu em I 1
rle Uutuhro ele 1839·
1>. I.EO::-l'OR H'AI.l\IEII>:\
send.t cl11 estudo e da illustraç;l.o, caminho tào
povoado de espinhos como de flores, e cm cujo
primeiro marco milliario muitos se tcem assen-
tado, n;l.o para rPpousarem e sPguirem ávante,
mas para retrocederem dPsaiPntados, quando
sót.inhos nào sentem mão amiga• apertar a sua
e conduzi-los após si. Tirai á paternidade os
exem pios de um proceder honesto, as inspira-
çl>es da dignidade humana, a severidade para
com os erros dos filhos, os cuiuados ela sua
educação, e· dizei-nos o que fica ? Fica um certo
inslincto, ficam os laços do habito, e para im-
pedir que tào frageis prisües se partam, fica
o preceito ele cima que nos ordena acatemos e
amemos os que nos geraram, ainda que a elles
não nos prenda senão a dadiva da existencia,
esse tão conlestavel beneficio. Pelo contrario
aquelies que foram n.1ssos mestres; que nos
attrahiram com a persuação e com o proprio
exemplo para o bom e para o bello; que nos
abriram as portas da vida interior; que nos ini-
ciaram nos contentamentos supremos que c lia
encet-ra; para esses não é preciso que a lei de
agradecimentos e ele amor esteja escripta por
I kus: a razão e a consciencia estamparam-na
no coraçào: cada gozo intdlectual elo p•1cta, do
rrudit11, do sahio, I h 'a recorda, ·e quando elles
se comparam com o vulgn Jas inlclligencias,
reconhecem plenamente a justiça elo sentimento
de gratidão _que os domina.
Estas reftexües occorreram-me ao abrir o
primeiro volume das obras ela senhora marqueza
de Alorna, condessa de ( )einhausen e Assumar,
D. Leonor d'.-\lmeida, que actualmente se pu-
blicam e de que já dois volumes se acham ni-
tidamente impressos. E foi para mim um prazer
verdadeiro escrever estas cogitaçües d'um mo-
mento. ~ \"quella mulher extraordinaria, a quem
só faltou outra patria, que não fosse esta pobre
e esquecida terra de Portugal, para ser uma
das mais brilhantes provas contra as vãs pre-
tensües de superioridade excessiva elo nosso
sexo, é que eu devi incitamento e protecção
litteraria, quando ainda no verdor dos annos
dava os primeiros passos na estrada .das !etras .
. Apraz-me confessá-lo aqui, como outros muitos
o fariam se a occasião se lhes offerecesse; porque
o menor vislumbre d'engenho, a menor tenta-
tiva d'arte ou de sciencia achavam nella tal
favor, que ainda os mais apoucados e timidos
se alentavam; e d'isso eu proprio sou hem claro
argumento. A critica da senhora marqueza de
. \!orna não affectava jamais o tom pedagogico
e quasi insolente de certos litteratos que ás ve-
zes nem sequer entendem o que condemnam, e
que tomam a brancura das proprias cãs por ti-
TOMO 1:\ FOL. 19
D, JJ.\I.MEID.\
tuJo de scit·nci;t, de gosto, e de ludo .. \ sua
critica era modesta e tinha tüo SPi o q uc d(•
natural c alfectuoso C]llC se recebia com tão bom
animo como os louvores, de que não se mos-
trava escaça quando merecidos. LTma virtude
rara nos homens d(• letras, mais rara talvez en-
tre as mulheres que se leem distinguido pelo
seu talento e salwr, é a ele nào alardearem es-
cusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a se-
nhora marqueza em grau eminente .• \ sua conver-
sação variada e instructiva era ao mesmo tempo
facil e amena. E todavia dos seus contempora-
neos quem conheceu tão bem, não dizemos a
litteratura grega e romana, em que egualava os
melhores, mas a moderna de quasi todas as na-
da Europa, no que nenhum dos noss0s
portugueses por ventura a egualou? Como ma-
dame ele Slaf"l ella fazia voltar a attençào da
mocidade para a arte de .\lemanha, a qual veio
dar nova seiva arte meridional que vegetava
na imitação servil das chamadas letras classicas,
e ainda estas estudadas no transumpto infiel da
litteratura francesa da epocha de Luís XIV. Foi
por isso, e pelo seu profundo engenho, que,
com sobeja razão, se lhe attribuiu o nome de
Stael portuguesa,
A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-
se á frente da edição das suas obras: para lá
2j )
remetto o leitor. ~ - \ h i ver.'i como em todas as
phases da sua larga e não pouco tempestuosa
carreira, ella soube dar pe;enne testemunho do
seu nobre caracter de independencia e genero-
sidade: verá que emquanto na terra natal pri-
meiro a tyrannia e depois a ignorancia e a in-
veja a perseguiam, ella ia encontrar entre estra-
nhos a just;:t estimação de principes e de illustres
personagens da republica das letras. _.\hi verá
como nascida no seculo do materialismo, viven-
do largos annos no foco elas idéas anti-religiosas,
acostumada a ouvir todos os dias repetir essas
idéas por homens de incontestavel talento, ella
soube conservar pura a crença da sua infancia,
e expirar no seio do christianismo. \hi final-
mente verá C\Hno as ausencias, por vezes invo-
luntarias, da sua terra natal, não puderam fazer-
lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda
no meio das injustiças e violencias de todo o ge-
nero.
O primeiro volume elas obras poeticas da
senhora marqucza ele ... \!orna conti-;m, afóra a
vida da auctora, e uma noticia biographica do
conde de Oeynhausen seu marido, as poesias
compostas na mocidade. Boa parte cl'estas fo-
ram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde
entrou de oito annos de idade com sua mài,
occorrenrln a prisão dn marquez de !\lorna D.
loão. Encerrada naquelle mosteiro passou I J.
Leonor d'i\lmeida os annos mais viçosos da ju-
ventude, tendo para alegrat· as tristezas de tão
longo captiveiro que excedeq dPsoito annos,
unicamente o linitivo do estudo, e os conselhos
e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse
havido mais severidade na escolha das compo-
sições d'aquella epocha, algumas das quaes des-
dizem do primor que noutras posteriores se en-
contra. Eu lamento s<í que se não pudesse ajunctar
a cada uma a sua data .• \ssim, bem longe de ter
siclü um iS1convcnicnte essa dPsigualdade innega-
vel, houvera ella sido um meio para se avaliarem
bem os rapidos progressos da joven auctora,
que nas obras dt· tão verdes annos annunciava
já o seu brilhante futuro nos rasgos frequentes
de um engenho ao mesmo tempo solido, deli-
cado e vivo.
n resto do primeiro volume e o segundo con-
tém as poesias ela senhora marqueza posteriores
á sua saída rlo mosteiro. :\a disposição d 'e lias
tambem não se guarda o methodo chronologico:
a natureza dos poemas determina a ordem d'elles.
Julgar essa grande variedade ele composições
.não cabia nos estreitos limites cl'este jornal. Os
que as teem lido, e que sabem entende-Ias
appreciam-nas devidamente. Elias sàn um illus-
tre mnmmH'nln para a historia da pcwsia por-
o' AI.Ol{NA
tuguesa, um nobre testemunho da piedade filial
que as trouxe á luz publica, e para em turlo
esta publicação ser apreciada, a sua nitidez
typographica é uma prova dos progressos que
a arte de imprimir tem feito entre nós. *
Fli\1 DO TOMO
'' X a cl'este artigo se omittiram por esquecimen-
to em seguida ao titulo as p::tlaYras Fmwrama- 1 84-l-
INDICE
AnVF.kTENCL<\.. . • • . . • . . • • • _ . . • • . • • . • . • v
<.!_ual é o estado da nossa litteratura ? <.!_ual é o
trilho que ella hoje tem a seguir?. .
Poesia : Imitação - Bello - l"nidaLle . . . . . . . . . 2 1
Origens do theatro moderno- -Theatro português
até aos fins do se.:ulo :xv1.... . . . . . . . .... _ 7:-i
:'\m·ellas de ca\·allaria portuguesas . . . . :-:5
llistoria do theatro moLlerno-Theatru hespanhol I I 5
< :renças populares portuguesas ou superstições
populares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . I5 :)
.l C.1s.1 de Gons.zlv. comedia em .:in.:o a.:tos:-
Parecer ..................... -...... . . 1l'1
Elogio historico Sehastiiío Xa,·ier Botelho... 201
[) JI.Tri.T Telies, dram.t em cin.:o actos:-Pare.:er
D. l.eonor d'Almeida. d'Alonn.. 273