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A LITERATURA NO BRASIL Direção de AFRÂNIO COUTINHO VOLUME II ROMANTISMO RIO DE JANEIRO EDITORIAL SUL AMERICANA S. A.

1969 COPI'RIGHT 1968 BY LF.ONfDIO RIBEIRO SEGUNDA EDIÇÃO IMPRESSO NO BRASIL Número de classificação decimal8 869.09 DISTRIBUIDOR EXCLUSIVO DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A. EDITORA E DISTRIBUIDORA DE LIVROS R. PEDRO ALVES, 150'-ZC14-Tel. 52-4128 C. POSTAL 884 - END. TELEG. "RECORDIST" R I O D E J A N E I R O - GB R. JOSÉ ANT8N10 COELHO, 801 SAO PA U L O SP Composto e impresso pela EDITORIAL 81JL AMERICANA, S. A. Rua Pedro Ales. 187 - Tel. 43-5288 F.R.R.I. 128.174 - C.G.C. 33.429.242 Rio de Janeiro, G13 - Brasil NOTA DO EDITOR A primeira edição desta obra, em quatro tomos, com mais de duas mil páginas e uma tiragem de vinte mil exemplares, apareceu entre 1955 e 1959, por minha iniciativa e sob o patrocínio da Instituição Larragoiti, de que era então Diretor Executivo. Confiei o planejamento e a escolha dos colaboradores, assim como a sua

direção, ao escritor Afrânio Coutinho por mim convidado para tarefa de tanta responsabilidade. Esta publicação, cujo tomo quarto foi editado pela Livraria São José, graças à boa vontade do Sr. Carlos Ribeiro, está esgotada há muitos anos, não tendo sido impresso o último volume que se incorpora à presente edição. Tomei a decisão de reimprimir este livro, por ser a única história completa da literatura brasileira até nossos dias, publicado nestes últimos cinqüenta anos, com a participação de várias dezenas de escritores. Para isso, obtive os seus direitos autorais, graças à gentileza de meu velho amigo Antonio de Larragoiti Júnior. A Literatura no Brasil é agora lançada, sob a responsabilidade única de seu Editor, revista e atualizada pelo acadêmico Afrânio Coutinho, a quem agradeço a colaboração que de novo me prestou, com tanta competência e dedicação. 01 INDICE GERAL Prefácio da Segunda Edição 1. Introdução Geral t I PARTE GENERALIDADES 2. O Panorama Renascentista 3. A Língua Literária 4. O Folclore: Literatura Oral e Literatura Popular 5. A Escola e a Literatura 6. O Escritor e o Público 7. A Literatura e o Conhecimento da Terra II PARTE BARROCO-NEOCLASSICISMO-ARCADISMO 8. Do Barroco ao Rococó 9. As Origens da Poesia 10. A Literatura jesuítica, 11. Antônio Vieira 12. Gregório de Matos 13. O Mito do Ufanismo 14. A Oratória Sacra 15. O Movimento Academicista

16. Neoclassicismo e Arcadismo ROMANTISMO 17. O Movimento Romântico 18. Os Pródromos do Romantismo 19. Gonçalves Dias e o Indianismo 20. O Individualismo Romântico 21. Castro Alves 22. José de Alencar e a Ficção Romântica 23. A Crítica Romântica 24. Manuel Antônio de Almeida REALISMO-NATURALISMO-PARNASIANISMO 25 , Realismo-Naturalismo-Parnasianismo 26 , A Crítica Naturalista e Positivista 27. A Ficção Naturalista 28. A Renovação Parnasiana na Poesia 29. Machado de Assis 30. Raul Pompéia 31. Joaquim Nabuco. Rui Barbosa 32 , Euclides da Cunha 33. Lima Barreto. Coelho Neto 34. O Regionalismo na Ficção SIMBOLISMO-IMPRESSIONISMO-MODERNISMO 35. Simbolismo. Impressionismo. Modernismo 36. Presença do Simbolismo 37. O Impressionismo na Ficção 38. A Crítica Simbolista 39. Sincretismo e Transição: o Penumbrismo 40. Sincretismo e Transição: o Neoparnasianismo 41. A Reação Espiritualista ROMANTISMO 42. A Revolução Modernista 43. O Modernismo na Poesia 44.O Modernismo na Ficção 45. A Crítica Modernista III PARTE 46. 47. 48. 49. 50. 51. 52. 53. 5-1. Nota Explicativa Evolução da Literatura Dramática Evolução do Conto Literatura e jornalismo Ensaio e Crônica Literatura e Filosofia Literatura e Artes Literatura e Pensamento jurídico Literatura Infantil

55. li.

Conclusão ' Bibliografia índices. O MOVIMENTO ROMÂNTICO

Origens do movimento. Definição e história da palavra. O Pré-romantismo. A imaginação romântica. Estado de alma romântico. Carac teres e qualidades gerais e formais. Os gêneros. As gerações românticas. O Romantismo no Brasil: origem, períodos, caracteres. O india nismo. Significado e legado. ORIGENS E DEFINIÇÃO 1. Aos olhos do comparatista e do historiador estilista - "stylistician qua historian" chama-lhe Hatzfeld, l - o Romantismo aparece como um amplo movimento internacional, unificado pela prevalência de caracteres estilísticos comuns aos escritores do período. É, portanto, um estilo artístico - individual e de época. É um período estilístico, consoante á nova conceituação e terminologia, e a perspectiva sintética, que tendem a vigorar doravante na historiografia literária. 2 É, ademais, um conjunto de atividades em face da vida, e um método literário. O uso da palavra Romantismo e seus derivados em crítica literária já foi historiado de maneira completa. 3 Remonta ao século XVII na França e na Inglaterra, com referência a certo tipo de criação poética ligado à tradição medieval de "romances", narrativas de heroísmo, aventuras e amor, em verso ou em prosa, cuja composição, temas e estrutura - particularmente evidenciadas em Ariosto, Tasso e Spencer -eram sentidas em oposição aos padrões e regras da poética clássica. Assim, romântico, romanesco, são têrmos encontradiços no século XVII, e, segundo Wellek, deve-se a Warton (1781) o primeiro emprêgo da oposição clássico-romântico, que teria fortuna, embora nêle a antítese não tivesse a plena significação que lhe foi posteriormente adjudicada. Da palavra francesa "roman" ("romanz" ou "romant" ) , as línguas modernas derivaram o sentido corrente no século XVIII, e que penetrou no Romantismo, designando a lite1 in J. Aesthetics and art criticism. December, 1955, p. 156. 2 Sôbre o problema da periodização, especialmente da periodização estilística, ver a -Introdução Geral" desta obra, bem como a Bibliografia, Introdução, 2 e 6. Particular atenção merecem os trabalhos de R. Wellek, H. Hatzfeld, P. Frank, C. Friedrich. Os estudos de Frank e Friedrich colocam os postulados teóricos

da periodização estilística em têrmos bastante esclarecedores. 3 Baldensperger, F. Romantique, ses analogues et équivalents. (in Harvard studies and notes in philology and literatura, XIV, 1937, pp. 13-105); Lovejoy, A. On the discrimination of Romanticisms. (in Essays in the History of Ideas. Baltimore, 1948); Smith, L. P. Words and idioms. Boston, 1925; Van Tieghem, P. Le Romantisme dons Ia littérature européenne. Paris, 1948. pp. 2-5; Wellek, R. The concept of Romanticism in literary history. (in Comparativa literatura. I, n. 1, Winter, e n. 2, Spring, 1949, repr. em: Concepts oj Criticism. Yale uniu. pr., 1963). _1 ratara produzida à imagem dos "romances" medievais, fantasiosos pelos tipos e atmosfera. Quanto ao substantivo "Romantismo", seu uso é mais recente, variando nos diversos países europeus pelas duas primeiras décadas do século XIX (na França, 1822-1824).4 Em Portugal,. a palavra "romântico" foi introduzida por Almeida Garrett, em 1825, no Camões, e no Brasil ainda não aparece nos trabalhos de 1826 de Gonçalves de Magalhães e Tôrres Homem, mas é empregada pelo primeiro no prefácio à tragédia Antônio José (1839), em oposição a clássico. Qualquer que tenha sido a época de introdução do têrmo "romântico" e seus derivados, o fenômeno, em história literária e artística, hoje conhecido como Romantismo, consistiu numa transformação estética e poética desenvolvida em oposição à tradição neoclássica setecentista, e inspirada nos modelos medievais. A mudança foi consciente, generalizada, de âmbito europeu, a despeito de não haver o mesmo acôrdo quanto à introdução da palavra que designaria o movimento. A nova era literária, o nôvo estilo, nasceu em oposição ao estilo neoclássico anterior, embora a etiquêta só depois tivesse aceitação geral. Mas o que ela veio designar foi cedo geralmente entendido: o movimento estético, traduzido num estilo de vida e de arte, que dominou a civilização ocidentais durante o período compreendido entre a metade do século XVIII e a metade do século XIX. Conforme a concepção de história literária sintética, é um movimento conjunto e unificado, com características gerais e comuns às várias nações ocidentais, elementos positivos e negativos no plano das idéias, sentimentos e formas artísticas, e, no dizer de Wellek, a mesma concepção da literatura e da imaginação poética, a mesma concepção da natureza e suas relações com o homem, o mesmo estilo poético, formado de imagística, símbolos e mitos peculiares. A história das transformações operadas na mentalidade ocidental, no século XVIII, que redundaram na revolução romântica, foi narrada esgotantemente, à luz

da perspectiva comparada e sintetizaste, por Paul Van Tieghem em vários trabalhos. 5 Deve-se-lhe, sobretudo, o relêvo dado à fase pré-romântica, noção recente na história literária, cuja fixação é necessária à compreensão da maneira como os elementos românticos foram de camada em camada penetrando a alma ocidental e dominando a arte e a literatura. Durante o período pré-romântico foi que ocorreu a luta contra o Neoclassicismo, contra as regras e gêneros regulares, que êle estabelecera, e que o Romantismo revogaria, realizando o ideal já anunciado pela Querela dos Antigos e Modernos. Não se pode fixar o lugar onde primeiro surgiu, porquanto os movimentos literários se formam gradativamente, ao mesmo tempo 4 Para maiores detalhes, ver R. Wellek. loc. cit. em nota 3. S Paul Van Tieghem. Le Romantisme dans Ia littérature européenne. Paris. A. Michel, 1948; idem. Le Préromantisme. Paris, Alcan, 1924-1947. 3 vols., idem. Histoire littéraire de 1'Amérique. Paris, Colin, 1941; idem. Le Sentiment de Ia Nature dans le Préromantisme Européen. Paris, Nizet, 1960. - Ver também: M. Magnino. Storia dei Romanucisrno. Roma, Mazara, 1950. em diversos lugares, sem ligação entre si, como o resultado de evolução interna das formas e sensibilidade, e segundo leis imanentes à natureza dos estilos. As novas tendências que se opuseram no meado do século XVIII aos ideais neoclássicos, preludiando o Romantismo, refletem um estado de espírito inconformista em relação ao intelectualismo, ao absolutismo, ao convencionalismo clássicos, ao esgotamento das formas e temas então dominantes. A imaginação e o sentimento, a emoção e a sensibilidade, conquistam aos poucos o lugar que era ocupado pela razão. A noção de natureza e seus corolários - a bondade natural, a pureza da vida em natureza, a superioridade da inspiração natural, primitiva, popular, - atraem cada vez mais o interêsse e o pensamento dos homens. Uma série de fatos relevantes constituem os marcos dessa "longa incubação" pré-romântica, em que se produziu a desintegração do Neoclassicismo: a mudança do foco de irradiação do temperamento nôvo da França para a Inglaterra, de onde irrompem as fontes da poesia popular e natural, produzindo um intenso movimento europeu - o ossianismo -iniciado pela fraude memorável de Macpherson (1760-1763). A redescoberta ou revelação de Shakespeare, por outro lado, constitui a outra face da contribuição inglêsa à renovação em curso. Da Alemanha, o Sturm und Drang (década de 1710), a ressurreição dos contos medievais e das lendas germânicas, ao lado da mitologia escandinava e nórdica, concorrem para orientar os espíritos na direção nova. Herder e Goethe, os irmãos Schlegel, Klopstock encabeçam a renovação, no sentido do irracionalismo, tornando o período o mais importante da história literária

alemã. Rousseau é o outro grande europeu, cuja presença no século serve de ponto de irradiação e de convergência das principais tendências que definirão a fisionomia romântica, a ponto de ser, por alguns, cognominado o "pai do Romantismo". Chateaubriand, em Le Génie du Christianisme (1802) e Mme. de Staël, com De la Littérature (1800 ) e De l'Allemagne (1810 ) , oferecem o conteúdo da poética e da doutrina literária românticas. Como afirma Van Tieghem, é em fatos aparecidos nos treze anos entre 1797 e 1810 que se deve situar o início do Romantismo pròpriamente: a aparição da escola alemã, dos lakistas inglêses, de Walter Scott, Chateaubriand. Mme. de Staël. Esses os marcos principais, ao lado dos quais outros, em diferentes países, constituem a linha sinuosa que configura o período. Assim, ainda segundo Van Tieghem, 1795 para a Alemanha; 1798 para a Inglaterra (a data inicial para a Inglaterra é adiantada por Bowra, para 1789, publicação dos Songs of Innocence de Blake); o início do século XIX para a França e os países escandinavos; 1816, para a Itália; e um pouco mais tarde para a Espanha; 1822, para a Polônia. Na altura de 1825, todos os países estão mais ou menos conquistados pelo movimento, que, por volta do meado do século, denotará completo esgotamento. 2. Sem perder de vista o critério comparatista e sintetizaste e a noção da unidade do movimento, as suas características ressaltam de uma análise parcial ou de conjunto. E essas qualidades constituem, reunidas, a melhor definição do fenômeno, revelando que a sua unidade provém, no dizer de Wellek, da mesma visão da poesia, da mesma concepção da imaginação, da natureza e do espírito, ou, por outras palavras, é uma visão da poesia como conhecimento da realidade mais profunda por intermédio da imaginação; uma concepção da natureza como um todo vivo e como uma interpretação do mundo, e um estilo poético constituído primordialmente de mitos e símbolos. Se quisermos reunir numa qualidade o espírito romântico esta será a imaginação. Mostrou C. M. Browa, em The Romantic Imagination, a importância que os românticos emprestaram à imaginação e a concepção especial que dela tiveram. Parte integrante da crença contemporânea no eu individual, a crença na imaginação comunicava aos poetas uma extraordinária capacidade de criar mundos imaginários, acreditando por outro lado na realidade dêles. O exercício dessa qualidade era que os fazia poetas. Por outro lado, a ênfase na imaginação tinha significação religiosa e metafísica. Graças à imaginação criadora, o poeta era dotado de uma capacidade peculiar de penetrar num mundo invisível situado além do visível, a qual o tornava um

que é absolutista. e não reproduzi-Ia. selvagem. têm como contraparte a necessidade de fugir da realidade. o individualismo. A intuição. o romântico é exaltado. o empirismo. a paixão. Enquanto o temperamento clássico se caracteriza pelo primado da razão. o senso do concreto. resultantes de correntes que convergiram paralelamente da Alemanha e da Inglaterra. O romântico é temperamental. Os elementos novos assumiram na Inglaterra a forma de uma reação contra o racionalismo cartesiano. temas literários e tipo de sensibilidade. até encontrar no século XVIII o instante supremo de realização. Ao contrário do clássico. Essa visão de outro mundo ilumina e dá significação eterna às coisas sensíveis. exaltado. no curso do século XVIII. aspirando saudoso por um mundo diferente. por meio das quais a humanidade exprime sua artística apreensão do real. colorido. em um movimento universal e unificado. Essa reação realista invade o sensualismo de Condillac. buscando satisfação na natureza. em nome de uma teoria do conhecimento através dos sentidos. de evadir-se do . de ver além da razão. entusiasta. escapar do mundo real para um passado remoto ou para lugares distantes ou fantasiosos. Seu impulso básico é a fé. conjungando-se com um sentimentalismo místico. Procura idealizar a realidade. O estado de alma ou temperamento romântico é uma constante universal. cuja percepção se torna vívida por essa interpretação do familiar e do transcendente.durante o período hoje definido como Pré-romantismo. É interessante mencionar aqui certo parentesco dos espíritos romântico e barroco.visionário. tanto em Ovídio quanto em Dante. Essas qualidades básicas do temperamento romântico reúnem-se em artistas de diversos tempos e nações. . o romântico é relativista. pela imaginação. sua norma a liberdade. Assim. No estudo do Romantismo. suas fontes de inspiração a alma. do decôro. e procurando. em diversas manifestações do Renascimento. melancólico.caracterizou-se o movimento romântico por um conjunto de novas idéias. emocional e apaixonado. a eníoção. no regional. pitoresco. da contenção. oposta à atitude clássica. outro mundo mais satisfatório do que o familiar. no passado ou no futuro. na literatura lírica da Idade Média. realismo e sentimentalismo entronizam a idéia de natureza. como o lugar onde se encontram a fonte de tôdas as coisas e a origem do lirismo. Desencadeado como uma reação contra o Classicismo racionalista que constituíra o dogma literário reinante desde o Renascimento . há que estabelecer primeiramente uma distinção entre o estado de alma romântico e o movimento ou escola de âmbito universal que o viveu entre os meados do século XVIII e do século XIX. o inconsciente.

o sentimentalismo. cedendo os seus bastiões de defesa. mais tarde. exaltação apaixonada e sofrimento amoroso. Sentimento da natureza. aliando sensibilidade e misticismo. fantasmas e feiticeiros. acima de tudo. o torna distinto em oposição ao clássico ou ao realista. encontraram defensores em Klopstock. a fortaleza francesa do racionalismo clássico. o gôsto do passado medieval germânico. ao mundo de magos. para uma época passada ou um universo sobrenatural. melancolia. renunciar a reduzir o espírito romântico a uma fórmula. desde cedo no século XVIII. Na Alemanha. o gôsto das orgias e o "mal do século". túmulos. cuja presença.mundo. Sob o impacto da influência convergente das correntes inglêsa. ao passadismo de Gray.: gôsto do passado e das ruínas. e alemã. Em conformidade com um trabalho de Hibbard. Herder. conduzem a literatura no mesmo sentido da Inglaterra. ao mundo fantástico de Ossian. de angústia e pessimismo. Para a compreensão e definição do Romantismo como movimento histórico que deu forma concreta . eis os traços que o espírito romântico deveu à Inglaterra. à Idade Média. Goethe e Schiller. E o redescobrimenta do tema da infância. Do romance sentimental de Richardson. os irmãos Schlegel. sobretudo mercê do ímpeto liberal e revolucionário que adquiriu o movimento no contato com a Revolução Francesa (1789). religiosidade. mormente pela influência poderosa de Rousseau.em determinado tempo e lugar . como tentaram inúmeros críticos e historiadores. particularismo e desconhecido. o lirismo da natureza. melancolia e mistério. faz-se mister. ao romance gótico e ao romance negro. vindo afinal desabrochar no movimento 'do Sturm und Drang (17'70). uma constelação de qualidades.a um estado de espírito ou temperamento. ruínas. Daí o senso do mistério. em número suficiente. Da França o Romantismo se espalha por tôda a Europa e América. das baladas populares. passou-se ao lirismo sonhador e melancólico de Young. a atitude de sonho e melancolia. e. desolação. culto do eu. o culto da imaginação. sentimento da natureza. Essa combinação de qualidades. sobrenaturalismo. vai aos poucos. desejo de evasão. sensibilidade. e procurar caracterizá-lo antes como um conjunto de traços. melancolia. s pode-se apontar as . Tieck. e a marcha progride também lá com a vitória do individualismo. paixão. que carreiam para o Romantismo os temas da morte. é que serve para identificar o espírito romântico. Daí também a volta ao passado. variando naturalmente a composição. Novalis. revolução literária dirigida ao "assalto'' da tradição clássica. graças à imaginação. ao longo do século XVIII.

Supervalorizada pelo Romantismo. 4) Escapismo. a terra incógnita do sonho. Boston. que Rousseau exprimiu. proteção amiga. Pela liberdade. é o primado exuberante da emoção. como acontece com o realista ou o classicista. guia. Não há lógica na atitude romântica. a melancolia. êsse escapismo romântico constrói o mundo nôvo à base do sonho. O espírito romântico é atraído pelo mistério da existência. Em vez da razão. aspirando a outro mundo. e da "paisagem" na pintura e na literatura. lugar de cura física e espiritual. à sua imagem. revolta. é a fé que comanda o espírito romântico. intuição. o estado de alma provocado pela realidade exterior. Relacionada com êsse culto. 8) Culto da natureza. acredita no espírito. pois tudo . 7) Fé. e na sua capacidade de reformar o mundo. Não é o pão sòmente que satisfaz o romântico. Houghton Mifflin. independentemente de convenções e tradições. fé e natureza. muitas vêzes representada em símbolos e mitos. Writers oj the World. o mundo interior. ligado aos movimentos democráticos e libertários que encheram a época e na devoção a grandes personalidades militares e políticas. e a regra é a oscilação entre pólos opostos de alegria e melancolia. A natureza era a fonte de inspiração. idealista. Romantismo é subjetivismo. É o mundo visto através da personalidade do artista. Romantismo é liberdade do indivíduo. Valoriza. em comunhão com o passado ou aspiração pelo futuro. 1942. 5) Reformismo. a faculdade mística e a intuição. que teve tão avassalador domínio em todo o Romantismo. puro. 6 Hibbard. e mediante a imaginação.seguintes qualidades que caracterizam o espírito romântico: 1) Individualismo e subjetivismo. O que releva é a atitude pessoal. que lhe aparece envolvida de sobrenatural e terror. 3 ) Senso do mistério. É o desejo do romântico de fugir da realidade para um mundo idealizado. de homem simples e bom em estado de natureza. paixão. foi a idéia do "bom selvagem'". Essa busca de um mundo nôvo é responsável pelo sentimento revolucionário do romântico. 2 ) Ilogismo. imaginação. criado. A atitude romântica é pessoal e íntima. entusiasmo e tristeza. liberdade pessoal e interior. o romântico encara o mundo com espanto permanente. 6) Sonho. . à imagem de suas emoções e desejos.a beleza. Também é responsável o desejo de um mundo nôvo pelo aspecto sonhador do temperamento romântico. pp. Em lugar do mundo conhecido.lhe aparecem sempre novos. é a libertação do mundo interior. 389 as. a Natureza era um lugar de refúgio. foi também a voga da ilha deserta. do inconsciente. Individualista e pessoal. a própria vida . de nôvo. e sempre despertando reações originais em cada qual. não contaminado pela sociedade. Nem fatos nem tradições despertam o respeito do romântico.

O escapismo romântico traduziu-se em fuga para a natureza e em volta ao passado. o Romantismo distingue-se ainda por traços formais e estruturais. Ao passo que o clássico tende a simplificar as personagens. situado no passado. Por isso. construindo tipos multifacetados. geradora da saudade e da dor de ausência. o romântico é movido pela vontade do artista e pelas suas emoções e reflexões. A história era valorizada e estudada (historicismo). espontaneidade e individualismo. um mundo de perfeição e sonho. 11) Exagêro. idealizando uma civilização diferente da presente. de excitação de sensações. ricas de pitoresco. o Romantismo oferece fisionomia bem distinta podendo ser considerado um período estilístico. tão características do Romantismo. no futuro. É o gôsto das florestas. O pitoresco e a côr local tornaram-se um meio de expressão lírica e sentimental. É o caminho para o Realismo. envoltas em mistério. bravo. ou simplesmente de diferentes fisionomias e costumes. a Como decorrência da liberdade. por fim. selvagens. Na sua busca de perfeição o romântico foge para um mundo em que coloca tudo o que imagina de bom. ou em lugar distante. amoroso. Ao lado dessas características. Helmut Hatzfeld assim resume as qualidades que definem estilìsticamente o Romantismo: Romanticism is the preferente given to metaphor in contradistinction to Classicism which is mainly relying on metonymy. 10) Pitoresco. um estilo individual e de época bem caracterizado. resumidas de Hibbard. Épocas antigas.paisagens exóticas e incomuns (exotismo). o romântico encara a natureza humana na sua complexidade. A regra suprema é a inspiração individual. É a melancolia comunicada pelos lugares estranhos. o entusiasmo. o passado nacional. 9 ) Retôrno ao passado. mais naturais e mais humanos. das longes terras. Do ponto de vista estilístico. os tipos e argumentos para a literatura romântica. Daí o predomínio do conteúdo sôbre a forma. puro. e. orientais. be it in epic (novelistic) description. O estilo é modelado pela individualidade do autor. mas também no espaço atraía o romântico. be it in lyrical symbolism or . Não sòmente a remotidão no tempo. no romântico há ausência de regras e formas prescritas. o que o caracteriza é a espontaneidade. que dita a maneira própria de elocução. a Idade Média. Enquanto o classicista é prêso às regras e o realista aos fatos. o arrebatamento. forneciam o ambiente. The consequente of this linguistic behavior is a propensity to imagery in general.

à imagem de Aristóteles e Horácio. os assuntos. o espírito clássico não admite na arte a pluralidade de emoções e sentimentos num mesmo gênero. tal como foi consagraria pela poética neoclássica. pois. Aliás. The intoxication of the eye and the stressing of sensation versus catharsis ftrrthermore recurs to showy substantives and colorful epithets which in the long rui shift the stress from the necessarily paler verbal style to a painterly nominal style in which even psychological shades are only expressed by physiognomical traiu and gesttues. considerando arbitrária a separação e reivindicando. foram postos em xeque pela polêmica romântica. reação que culminaria com Croce. Guizot pôs em relêvo a impossibilidade de manterem-se as classificações e separações. v O Romantismo distinguiu-se também quanto ao problema dos gêneros. sem a tendência à fixação de regras. abolindo. "Ia seule distinction véritable dans les oeuvres de 1'esprit est celle du bon et du mauvais". a sua mistura.alle• gory. as regras. líodiernamente encarado . que vigoravam quanto aos gêneros segundo os postulados neoclássicos. Para o romântico. refletia-se nessa anulação das fronteiras entre as formas literárias. ao contrário. A noção de gênero fixo. transformação. no dizer de Hugo. desaparecimento dos gêneros. o espírito sistemático e absolutista que dominava a compremsão do problema. rompendo com a antiga hierarquização. correspondente a uma hierarquização social. imutável. Assim. Por outro lado. o Romantismo insurge-se contra a distinção dos gêneros. evolução. seu enriquecimento ou esclerose. o que é prerrogativa do romântico. as classificações e separações. depois de subvertida por sentimentos e necessidades contrastantes. a concomitância de diversos numa só obra. que se compraz na apresentação misturada e íntima de coisas e estados de alma opostos. sobretudo por Boileau. "O Romantismo é a preferência pela metáfora. A própria subversão social conseqüente à Revolução Francesa. o Romantismo começou a opor as idéias da possibilidade de mistura. destarte. o nascimento de novos. mais seduzido pela complexidade da vida. Em nome da liberdade. puro.diga-se de passagem através de uma visão antes discritiva e analista. por contraste com o . é quando se inicia o processo revisionista da própria noção de gênero. é em obediência a essa complexidade e à sua aparente desordem que se impõe 7 . a literatura neoclássica aparecendo nitidamente esgotada e esclerosada pela submissão a um sistema de regras para cada gênero. acordes com uma sociedade estável e ordenada. isolado.

como a forma natural e primitiva. salvando-se a unidade de ação ou de interêsse. explorando. o sublime e o grotesco. a&poesia romântica foi pessoal. e sua substituição pelo drama de estrutura e forma livres e diversas. canção. A revolução no teatro. políticos. criada pela personagem. além do narrativo com tonalidade épica. assuntos vastos. acompanhando o declínio ou a substituição dos gêneros que designavam. também. seja na descrição épica (novelística). da paixão e do amor. reunindo problemas sociais. o divino e o terrestre. elegia. seu sentido preciso ou desapareceram de uso. b) Quanto ao teatro. para um estrio nominal pictórico. processou-se contra as regras ou unidades de tempo e lugar. religiosos. abruptamente. "A exaltação da visão e a ênfase na sensação contra a catarse recorrem. que não se processou. psicológicos. as denominações genéricas de poesia. o primeiro gênero a atrair o espírito romântico. llelinut Hatzfeld. oriunda da sensibilidade e da imaginação individuais. através de longos debates e experiências. não esquecer que teve um aspecto social e reformista. morais. no teatro. aliás. o sério e o cômico. Foi a própria exigência do drama romântico. necessàriamente mais pálido. Assim.de fundo histórico. a temática filosófica e religiosa. aparecendo lado a lado a prosa e a poesia. personagens numerosas tratadas na . e no qual se realizou principalmente. seja na alegoria. intimista e amorosa. poema. não deixaram de se fazer sentir na poesia. É mister. Poesia tornou-se sinônimo de auto-expressão. da poética neoclássica. lirismo. foram substituindo as antigas denominações específicas de ode. que forma o seu centro. melhor apropriado às tendências do espírito do século. as quais. além disso. seja no simbolismo lírico. "A conseqüência dêsse comportamento lingüístico é a propensão à imageria em geral. a substantivos vistosos e a epítetos coloridos. a vida e a morte. perderam. .Classicismo que confia principalmente na metonímia. poesia lírica. As conseqüências dessa formulação do problema dos gêneros. dela resultando. escrito especialmente para esta obra. e de que à arte cabe apenas a operação de fazer versos. ainda. onde reside a suprema fonte. no qual até as nuances psicológicas só logram expressar-se por traços e gestos fisionômicos". no romance. o Romantismo reduz tôda poesia ao lirismo. mudando a tônica de um estilo verbal. os quais acabam. a mistura dos gêneros. Em conseqüência. a revolução ainda é mais drástica. ao contrário. afinal. inclusive. a) A partir do conceito de que a poesia se origina no coração. como acentua Van Tieghem. no dizer de Van Tieghem. a destruição da tragédia como gênero fixo e consagrado por leis imutáveis.

passados em castelos. Por último. não foi menor a importância que o Romantismo lhe emprestou. . o drama romântico virou-se para o passado nacional e. histórica ou social. atenderam à tendência para a liberdade.que impôs a ruptura das unidades.além de proporcionar-lhe melhor atmosfera para o sentimentalismo. cujos exemplos máximos são Stendhal e Balzac. dos motivos e personagens. o Romantismo cultivou principalmente a poesia lírica. façanhas perigosas. na temática. com muita ação. Mas o drama romântico distingue-se ainda pela união do nobre e do grotesco. c) De referência ao romance. os costumes. Em suma. no estilo. O romance. base da realidade e característica essencial da sociedade. armado com incidentes misteriosas. . do grave e do burlesco. é de tal maneira disseminado. do belo e do feio. gótico e de aventuras. . em lugar da antiguidade greco-latina. pode-se afirmar. e histórico. o drama e ~ o romance . que imprime ao gênero uma de suas formas principais na época: o romance histórico. podendo encontrar-se combinadas as duas formas. e buscando deliberadamente a impressão de horror. cheio de fantasmas. houve que acrescentar reformas na língua. o gôsto da história. de conteúdo fantástico ou terrorífico. Mas a simples realidade não prendia os romancistas românticos.sua evolução. além de assim mostrar-se mais fiel à realidade. o idealismo. na inspiração. e a preocupação social. Renunciando a essas unidades. fundiria realidade e fantasia. sem saltos. reunindo traços variados e de origens diversas na composição de uma personagem. em busca da forma nova. de tema medieval ou nacional. "o romance negro". psicológico e sentimental. e. no pressuposto de que o contraste é que chama a atenção. o senso do pitoresco e do histórico. Com o Romantismo. extraordinárias e emocionantes. histórico ou sentimental. o drama romântico misturou o verso e a prosa. aparições e vozes sobrenaturais. análise e invenção. na técnica da versificação.fôsse na linha psicológica. De modo geral. Mas. o gênero ofereceu ao espírito romântico as melhores oportunidades de realização de seus ideais de liberdade e realismo .social e de costumes. que também buscavam a verdade através da construção de sínteses ideais e tipos genéricos. Também o romance de aventuras. claustros ou solares assombrados. inaugura-se o gôsto da análise precisa e do realismo na pintura dos caracteres e dos costumes. Outra variedade que gozou de extrema popularidade foi o romance gótico. a "côr local". destarte. 'Assim como no teatro. pela necessidade de maior margem de tempo e lugar para movimentar a ação. para a história moderna. no romance. às inovações introduzidas na estrutura dos gêneros.

Novalis. O movimento romântico ocidental. aquêles que mais influíram na eclosão e desenvolvimento do movimento no Brasil foram: Chateaubriand. sem ênfase. Burns. Atterbom. Merimée. e se notam. Manzoni. Hazlitt. etc. A terceira geração compreende figuras nascidas entre 1810 e 1820: Musset. concretização do espírito romântico num estilo de vida e de arte. A segunda geração romântica é a mais numerosa. seus representantes. De Quincey. Tieck. De Maistre. em geral. Espronceda. Cowper. Walter Scott. Wordsworth. Cooper. simples. Lamb. Keats. Irving. Chateaubriand. estendeu-se pela Europa e América em ondas concêntricas formadas por sucessivas gerações de indivíduos. mais rica. nascidos entre 1788 e 1802. Ranke. Beethoven. Hugo. Gray. Gautier. Nerval. Leopardi. Klopstock. Schopenhauer. Vigny. e desde a juventude avivem revolucionária e conscientemente. Balzac. vem a primeira geração romântica. 3. com formas métricas mais variadas. de Staël. Stendhal. Fichte. Kleist. George Sand. Southey. a fim de fugir à monotonia das formas clássicas. denotam plena posse de sua novidade. Belinsk. Schiller. O Romantismo nêles não está completamente formado. Mickiewicz. Mme. Bello. Pouchkine. Petoeff. Collins. que constituiu o movimento atualmente conhecido como o Pré-romantismo. Formam êsse grupo: Macpherson. que considerava incompatível com o natural e o real. Heine. Carlyle. Nisard. Foscolo. Em seguida. O Romantismo foi preparado por uma primeira geração. Garrett. Chatterton. Essas ondas possuem fisionomia especial. e enquanto a primeira só atinge a plenitude mais para a idade madura. Herder. Sue. etc. Coleridge. desenvolvido sobretudo na Inglaterra e na Alemanha durante o século XVIII. Dos escritores românticos. Goldsmith. Lamartine. Senancour. Chamisso. Herculano. Hoffmann. etc. ritmos novos e mais harmoniosos (Van Tieghem). Shelley. Compõem-na: Byron. em muitos. Bernardin de Saint Pierre. Eichendorff. . Guilherme e Frederico Schlegel. resultado da diferenciação das qualidades românticas à custa do predomínio de umas sôbre outras e de preferências ' ideológicas e artísticas reveladas pelas gerações que as compuseram.Sem renunciar à sintaxe e à disciplina poética. coloquial. certos resíduos clássicos. Villemain. Lenau. o romântico reagiu. Michelet. Walter Scott. Goethe. constituída de figuras nascidas por volta de 1770: Blake. Brentano. Schubert. Grillparzer. na luta por impor uma nova sensibilidade. Uhland. maior mobilidade e variedade de cesuras e riquezas de rimas. Courier. Young. Poe. e defendeu o uso de uma língua libertada. Andersen. Por outro lado a versificação deveria passar por um processo de adoçamento. Emerson. Macaulay. Avellaneda. contra a tirania da gramática e combateu o estilo nobre e pomposo. Dumas ( pai ) .

a evolução do processo literário. em uma palavra. na autonomia de sua tonalidade nacional e de suas formas e temas. além de acelerar. símbolo da revolução literária então realizada. passando-se das penumbras de uma situação indefinida. A penetração do movimento romântico no Brasil é relatada no eap. em lugar da simples imitação servil. Lamartine. Musset. Heine. O período de meio século. Assim. no Brasil. Sobressai nesse instante a figura de José de Alencar. . mostra um grande salto na literatura brasileira. entre 1800 e 1850. consolidando.Merimée. de A Literatura no Brasil. Cooper. evidenciam a gênese dessa conciência de uma literatura que atingia sua independência. valorizando-a. que o filiam ao movimento europeu. O estudo da evolução e características dos diferentes gêneros. Sue. e a análise das teorias literárias e críticas que informaram o movimento. o patriarca da literatura brasileira. porquanto foi a êle que deveu o país a sua independência literária. assumiu um feitio particular. exigindo o enquadramento da região e do regionalismo na literatura. para a literatura. tem uma importância extraordinária. apontando a necessidade de ruptura com os gêneros . mista de neoclassicismo decadente. Espronceda. reivindicando os direitos de uma linguagem brasileira. Hoffmann. acentuando a necessidade de adaptação dos moldes estrangeiros ao ambiente brasileiro. a literatura brasileira. I. sobretudo indígenas. Incitando o movimento de renovação. Hugo Leopardi. ao lado dos elementos gerais.eiência técnica e crítica dessa autonomia. a cuja obra está ligada a fixação dêsse processo revolucionário que enquadrou a literatura brasileira nos seus moldes definitivos. vol. Foi graças ao próprio senso de relativismo do movimento que êle se adaptou à situação local. Garrett e Herculano. Stendhal e Balzac. em que se reúne uma plêiade de altos espíritos de poetas e prosadores. colocando a natureza e a paisagem física e social brasileiras em posição obrigatória no descritivismo romântico. com caracteres especiais e traços próprios. De qualquer modo. que se prolongou pela fase realista da literatura brasileira. Dumas (pai). conquistando uma liberdade de pensamento e de expressão sem precedentes. de acôrdo com a regra romântica de exaltação do passado e das peculiaridades nacionais. Os grandes romancistas românticos .tiveram influência duradoura. defendendo os motivos e temas brasileiros. o Romantismo. CRONOLOGIA E CARACTERES DO ROMANTISMO BRASILEIRO 1. e na autocon:. 17. para uma manifestação artística. iluminismo revolucionário e exaltação nativista. que deveria ser a expressão da nacionalidade. de modo imprevisível.Byron.

como mostrou Gilberto Freyre.neoclássicos. intelectuais e políticas. formas de veia épica e narrativa se hajam cultivado com valorosas expressões. inegàvelmente. pràticamente. . que acompanharam o processo da independência. Importância e significado tanto mais reley. a criação da ficção brasileira. foram de todo superados. Tudo assim põe em relêvo a importância e o significado do Romantismo na literatura e na cultura brasileira. Particularmente. todavia. assim.a ascensão da burguesia tornou-a um aliado ou concorrente poderoso da aristocracia rural. conferindo-lhe. É bem verdade que o Arcadismo constitui a primeira grande manifestação literária coletiva de valor no Brasil. Depois da presença da Côrte portuguêsa e da Independência. Para melhor acentuar essa nota revolucionária. êste processa é ascendente e constante. O momento. relegando para o limbo das formas cediças a epopéia que Gonçalves de Magalhães tentara reabilitar ainda em plena metade do século . quando se desenvolve realmente . E se cabe. A ascensão da burguesia. como a da época da Regência (1831-1840 ) . transplantada para o plano íntimo.antes quanto contrastam com o que realizou o período imediatamente anterior. como a figura que encarna e simboliza. o progresso cultural é tal que dificilmente se poderá apontar época de maior significação na história da cultura brasileira. portanto. mesmo quando sobressaltado por crises momentâneas. sobretudo em Gonçalves Dias e Castro Alves. quando não a substituiu ou se fêz o seu representante nos parlamentos. à custa da atividade comercial e das profissões liberais. talvez. e também pelo processo de qualificação social do mestiço graças. Mas os tipos que caracterizaram os neoclássicos e mesma os pré-românticos. Basta o registro da galeria de poetas do Romantismo para comprovar a assertiva. O mesmo processo revolucionário segue a poesia. Teve. há o paralelismo com as circunstâncias sociais e políticas. uma posição igualmente influente e direitos tão fortes ao gôzo dos benefícios da civilização. no govêrno. embora. também de natureza nitidamente revolucionária. às cartas de branquidade que o enriquecimento. obra de um só homem. o movimento romântico tôdas as qualidades de uma revolução.Alencar deu um enérgico impulso à marcha da literatura brasileira para a alforria. essa revolução. no plano literário. como isso poderia fazer supor. o casamento e o talento literário e político concediam. não foi ela. em nome de uma renovação que teve como conseqüência imediata. dando largas às manifestações do temperamento poético e literário nacionais. na administração pública. é de prosperidade geral e progresso em tôdas as direções. sob a árvore frondosa de um trono estável e respeitado. a Alencar um pôsto sem igual. em 1822. ao lado do lirismo.

e sim um dos aspectos por que se afirmou a consciência da Nação.a poesia e se fixa profundo sentimento nacionalista. Todavia. arcádias. Dessa maneira. Antônio Dinis da Cruz e Silva . mormente na forma. deixando para o Romantismo a conquista de um nativismo também de emoção e motivos. bem como os de Nicolau Tolentino. ao lado de Garrett e Herculano. Contraste que ressalta ainda com a substituição da influência lusa pela inglêsa e francesa. Entre os dois momentos medeia.outras mergulhando raízes na terra brasileira. por si mesmo já ocupando um pôsto de transição. Destaca-se. mas formal. a qual se desenvolveria numa das mais fortes características do Romantismo. legando aos pré-româmticos a grande herança do verso branco. muito atuante na fase de transição. aos modelos clássicos e lusos. o influxo de Borge. conquistaram uma posição de influência impossível de ser negligenciada. e ressa tal hesitação na mistura e interpenetração de tendências estéticas. Filinto Elísio. A transição não é cronológica. Fomentando a reação ao cultismo decadente. Reis Quita. elevando como regras poéticas a simplicidade. prenunciando traços que marcarão a futura fisionomia literária brasileira. a naturalidade e a fantasia. a despeito de vir também do Arcadismo o germe da exaltação da natureza. José Agostinho de Macedo.a que os brasileiros estiveram ligados. ainda mais destacada pelo contraste com os elementos arcádicos. tudo mostrando a indefinição e incaracterização da época. os árcades portuguêses . e outros. Mas a eclosão do Romantismo não foi fenômeno isolado. em trabalho de autonomia. iniciando o lirismo pessoal.préromântica .portuguêsa e francesa.Correia Garção. até a primeira fase do Romantismo. aliás. rococôs. neoclássicas. Há que registrar. a contribuição do Arcadismo português. uma fase de transição . quando se deu o rompimento com a Metrópole. ou precursora do Romantismo. oriundas a maioria de fontes européias . muitos dos quais penetraram. alguns dos quais. na gênese do Romantismo brasileiro. o que parecerá paradoxal. nas suas tendências rústicas e alusões à flora e fauna locais. sob forma de resíduos. insistindo no culto da natureza. evidencia-se a novidade do Romantismo. de formas novas com temas cediços ou de assuntos novos com gêneros superados. por intermédio da França. o Arcadismo manteve-se fiel.. incentivando a imitação antiga. . . barrôcas. românticas. Pode considerar-se a primeira manifestação romântica. justamente. tiveram influência que se prolongou por todo o Romantismo brasileiro. iluministas. Correntes diferentes cruzam-se e misturam-se.em que lutam as tendências novas e o espírito antigo. dominada por um subarcadismo ou pseudoclassicismo. outrossim. depois do que foi fácil a transição para o exotismo americano.

e. seja no das idéias. além do interêsse pelas ciências naturais. Anais Fluminenses de Ciências. A isto se deve a primazia do "diletante" sôbre o "profissional" no exercício das letras. medicina. filosófica. com altos e baixos. em que se misturavam a literatura e a política numa feição bem típica da época. a essa fusão de política e literatura se devem também muitos malefícios à produção literária. pela mineralogia. Guanabara (1850). O Patriota (1813-1814) . conteúdo e substância. desencadeou-se intenso movimento de imprensa por todo o país. capaz de borboletear por todos os assuntos sem se fixar em nenhum. primeiro jornal literário do Brasil. que são traços de nossa literatura. Contudo. além da sede do govêrno. a capital literária. político e homem de letras. Foi relevante o papel da imprensa política e literária na fase estudada. falta de calado. não se pode desdenhar o papel que teve a imprensa literária e política na fase da gênese do Romantismo no Brasil. no Brasil. a orientação. crônicas e genealogias. porém. A agitação intelectual que caracteriza a fase posterior à Independência. ao mesmo tempo que estabelece um laço entre êle e os escritores. flora e fauna. Como bem define Virgínia Côrtes de Lacerda. de Hipólito da Costa Pereira. sua raça. Minerva Brasiliense (1843-1845) . que terá vida longa no país. Criou ou implantou entre nós. de graves conseqüências para a qualidade da produção.O progresso geral do país durante a fase da permanência da Côrte portuguêsa (1808-1821). "observando o local e a data do aparecimento. política ou literária. misto de jornalista. Sua vasta atuação mostra o alargamento do público. O Jornal Científico. sua vida social. a moda do "publicista". Revista da Sociedade Filomática (1833 ) . mas sempre presente. teve indisputável expressão cultural e literária. De qualquer modo. de Evaristo da Veiga. o conteúdo dêsses órgãos da nossa imprensa de então. . Imprensa representada sobretudo pelos seguintes órgãos: Correio Brasiliense (1808-1822). a duração mais ou menos efêmera. encamhinando-se para a orientação moderna.de que resultou a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838). há que aliar uma grande curiosidade acêrca do país .sua história. seja no terreno da literatura de imaginação. O Rio de janeiro tornou-se. numa popularidade. com a liberdade de prelos. Artes e Literatura (1822) . As Variedades ou Ensaios de Literatura (1812). O Beija-Flor (1830-1831) . Niterói-Revista Brasiliense (1836) . Não será injustiça responsabilizar-se êsse espírito pela superficialidade. Econômico e Literário (1826) . podemos . imediatamente seguida pela Independência (1822 ) . química. Os estudos históricos libertaram-se do tipo de memórias. econômica e comercial. Aurora Fluminense (1827).

contribuindo para alargar os horizontes. vinda de Londres. de larga voga na época. científicas. os poetas do grupo que Veríssimo chamou "os predecessores do Romantismo". de literatura de idéias ou de ficção. no período pré-romântico que se deve colocar o germe da independência intelectual do Brasil. pela divulgação que fêz da cultura estrangeira. Foi uma forma extremamente popular. e sòmente nos anos mais recentes. forte impregnação na mentalidade e nos hábitos literários brasileiros. cessada a proibição lusa. e de Paris. $ É. atraídas pelo brilh e eloqüência dos pregadores e dos políticos. 5) cos. primeiro. à importação intelectual. 4) o estímulo das leigas brasileiras. Rio e S.político ou literário. portanto. através dos púlpitos e parlamentos. artísticas) . lana persistência do filintismo e do elmanismo na expressão literária do tempo". divulgada em livra ou jornal. A voga da oratória resistiu todo o século XIX. com predominância. Assim. e Sílvio Romero os "últimos poetas clássilocalizados em Bahia. sobretudo nas esferas mais cultas. graças á qual as novas doutrinas alcançavam as camadas altas e as populares. A oratória foi outro meio importante e de largo cultivo no período. se abriram livremente as portas às idéias. secretas ou literárias na orientação do proveniente dos apelos de nacionalização çadas por Ferdinand Denis e Garrett. produzindo ràpidamente os seus frutos. como relembra Virgínia Côrtes de Lacerda. desde que. revolucionários e românticos tiveram livre curso no país. os ideais iluministas. E nesse trabalho distinguiram-se José . Situada. Mas foi a poesia lírica a expressão literária dominante nessa fase de transição. porém. Mas essa função foi também preenchida pela tradução. à luz dos ideais liberais e do nacionalismo inovador. após a revolução modernista. Teve influência poderosa na renovação intelectual. literárias. Paulo. pela notícia e pela tradução . enciclopedistas. ideais difundidos largamente ao impulso do Iluminismo e da Revolução Francesa. e Ronald de Carvalho os "últimos árcades".o incipiente e rarefeito meio cultural brasileiro mantinha-se em contato espiritual com os grandes centros estrangeiros.chegar a determinadas conclusões bastante elucidativas do nosso Pré-romantismo: 1) a influência estrangeira. 2) os focos culturais do período 3 ) a influência das sociedades pensamento e da ação (sociedades maçônicas. depois. feita por penas ilustres. retardatários e de transição". no tempo. Deixou. que refletem o gôsto do discurso. política e literária. até na prosa de ficção e na poesia. é que ela não mais desperta o mesmo eco e igual receptividade. porém. pela eloqüência de agitadores em quem se concentravam os melindres e anseios da nacionalidade. Através do jornalismo . em que se exercitaram. a oratória política e religiosa representou um papel importante no plasmar a estrutura política e social brasileira.

mas conservadores e religiosos'". .conserva ainda. da primeira fase. epitalâmios. como assinalou José Veríssimo. Hugo. asclepiádica. Eram de inspiração nacionalista. . A singularidade do fato reside em que tal trabalho haja sido realizado por um espírito de tendências conservadoras. herança greco-romana vestida à neolatina. o Visconde de Araguaia. . Lamartine. idílios. filosóficas ou graciosas). Mas êsse caráter híbrido é típico da época de transição. porém. aos remanescentes clássicos. epitáfios. ressuscitadas muito tempo depois de implantado o Romantismo. já se . poetas medievalistas. éclogas. Wordsworth. nesse tempo as suas formas mais remotas. e de românticos conservadores e religiosos (Scott.Bonifácio. Heine . Assim. O papel revolucionário que desempenharam foi a despeito de seu caráter híbrido e transicional. ou decorrentes da própria vida do país. embora seja greco-romana a formação literária dos poetas de então. cantaras (odes postas em música tão do agrado do século XVIII). são odes (religiosas. "já se reconheceu que os nossos pré-românticos tinham laivos dos pré-românticos europeus (Sturmistas.. e quem iniciou a carreira literária entre nós. Chateaubriand. de linhas nitidamente tradicionais. e se infiltraram em tôdas as literaturas do tempo. . o promotor da independência literária. essa poesia lírica da época: "Poesia lírica para ser cantada e portanto estrófica em sua primitiva significação . A tarefa de introdutor do Romantismo no Brasil coube. embora os temas poéticos eternos sejam ainda tratados à maneira antiga. até que o Romantismo as viesse banir. sobretudo na Alemanha e na Inglaterra. sáfica) foram muito usadas no século XIII. procedem alguns. começa a tradução dos poetas românticos (José Bonifácio). e Sousa Caldas. Wieland.. ) e ainda nada do Romantismo liberal e revolucionário ( Shelley. Young. e adotaram atitudes e formas inovadoras. singularmente a uma figura que foi. o nosso primeiro homem de letras. inspiradas no Pré-romantismo e no Romantismo europeu. ). . Hugo. sonetos. como gênero mais nobre. aliam-se traços e índices de 8 Assim se define. Domingos José Gonçalves de Magalhães. e no próprio Magalhães. ) . epístolas. conforme ainda Virgínia Côrtes de Lacerda. além disso. pois se conservaram neoclássicos por certos aspectos. As diversas espécies de odes gregas (alcaica. Mas. e ainda na fidelidade a certas formas clássicas. formas encontradiças em quase todos os poetas do período. .). embora se cultivem ainda os gêneros antigos. Carlos. expressas no seu primeiro livro de poesias (1832 ) . consciente e propositadamente ao abandono da mitologia (Sousa Caldas. começa a preocupação de renovar as formas poéticas. quando deu a lume o poema A Confederação dos Tamoios (1856). heróicas. S. embora continue a imitação dos clássicos.

Assim. não esquecer a repercussão da figura de Almeida Garrett.adotam novos motivos (Borges de Barros) e já se tentam caminhos de renovação (Gonçalves de Magalhães). expostas na introdução ao. A esta nova finalidade da poesia. por Ferdinand Wolf.fusão de política e literatura. há que acrescentar os de Chateaubriand. de onde. como acentua Paul Hazard. Bosquejo (1826 ) . como "pai do Romantismo brasileiro". segundo o próprio Magalhães. foi excitadora. O fato. favoreceram o verdadeiro Romantismo nos outros povos novilatinos". uma reforma de gênero abandonando-se renovação. no entanto. fazendo "vibrar as cordas do coração" e elevar "o pensamento nas asas da harmonia até as idéias arquétipas". expressa no manifesto com que lançou a revista Niterói (1836) . com a indicação de transferir para a França a fonte de inspiração literária e artística. essa incoerência entre pensamento e ação. é mister. Daí essa desproporção entre fundo e forma. de renovação total da literatura brasileira. êsse ecletismo de gêneros literários. nos Resumes (1826). em favor da liberdade e nacionalização da literatura brasileira. mais precisamente de 1825. correm de par com as. de Ferdinand Denis. porém. simbòlicamente. Musset. no sentido do Romantismo. a preferência dada ao tema do indianismo. quando publica o poema Camões. em vez de opressiva. até que Gonçalves de Magalhães viesse indicar "uma nova estrada aos futuros engenhos". cuja obra renovadora na implantação do movimento em Portugal é anterior a 1830.a intenção antilusa. Ao papel de Ferdinand Denis. "Foram os românticos franceses que. O fato já fôra registrado por Ferdinand Denis e. a sua atitude intencionalmente revolucionária. lançou a revista e o seu livro Suspiros Poéticos e Saudades (1836) . Não obstante a reação antilusa do Romantismo brasileiro desde a fase preparatória. a não ser por si mesmos. a . ambas trabalhando para a autonomia cultural e política do país. tudo justifica a posição de introdutor do Romantismo que detém Gonçalves de Magalhães na literatura brasileira. que tornam difícil. fazendo-os libertarem-se dos grilhões classicizantes. em O Brasil literário (1863) . As suas idéias. Victor Hugo. Há. diferentes graus de iniciação romântica nos poetas dêsse período de transição desde que José Bonifácio nos apresentou suas primeiras traduções românticas. é que os melhores espíritos de então já sentiam os . O fator essencial na transformação operada no Brasil. devia corresponder. . Lamartine. e outros vultos pré-românticos e românticos. a caracterização nítida do momento poético. Essa influência. depois. por isso mesmo. em grande parte. foi o influxo proveniente da França. aliás.

há um período de transição para o Realismo e o Parnasianismo.. de 1836 a 1860 para o Romantismo pròpriamente dito. dessa poesia só então verdadeiramente nova e verdadeiramente ro mântica. só pode ser verda deira e profundamente compreendido. 2. que constituem subperíodos ou grupos mais vista ideológico e temático. A adolescência do Brasil coin cidiu com a adolescência de muitos dos seus valôres literários de então (Alvares de Azevedo. a regularidade das rimas. Introdutores oficiais do Roman tismo no Brasil. através de ondas de gerações sucessivas. abando nando "a igualdacj& dos versos. daí a completa aceitação. Casimiro de Abreu . Castro Alves. faltando à sua poesia a verdadeira fibra romântica.. pelo público. e Configura-se. Base fato. O Pré-romantismo brasileiro (Estudo inédito). a de fugir à monotonia. e as tentativas . por vêzes. Comentando os esforços baldados de Sílvio Romero. como povo. como o europeu. pois. divergentes. ). realizando a fusão jamais depois verificada da inspiração das vocações individuais dos nossos grandes poetas românticos (que então atravessam a adolescência e a primeira mocidade. apenas pré-românticos.. em germe. entrecortado de correntes cruzadas e tendências variadas e. no Brasil. momentos românticos da vida e de cada um) e da inspiração coletiva. quanto à língua. e de forma. a grande exaltação da nacionalidade. $ problema dos mais complexos a classificação e distribuição dos escritores românticos brasileiros. quando analisamos detidamente a produção literária dêsse período até hoje tão pouco estudado. mas tão cheia de propósitos de renovação. e Gonçalves de Magalhães. tão pouco poesia. a simetria das estâncias". Virgínia Côrtes de Lacerda. singular em tôda a nossa história literária. que foi a obra dos nossos pré-român ticos". O movimento romântico no Brasil processou-se. entre as datas de 1808 e 1836. resultante da própria complexidade do movimento. Depois de 1860. quando procuramos penetrar no âmago dessa poesia. que é a de não seguir "nenhuma ordem" na construção material das estrofes. que se firmara e afirmara realizando a sua autonomia. como José Bonifácio os "antigos e safados ornamentos". no sentido de uma forma nova adaptada ao nôvo assunto. sem esquecer que. que foi o nosso Pré-roman tismo. para o Pré-romantismo. tôda a revolução romântica que Magalhães e Pôrto Alegre pre garam 'mas não conseguiram realizar de todo. o Romantismo. pois vivíamos.. "uma nova idéia pede um nôvo têrmo". são. que tão profundamente havia de vibrar depois identificando-se com o estado coletivo e pessoal do espírito brasileiro no momento. por suas obras.mesmos anseios. sendo que o apogeu do movimento se situa entre 1846 e 1856. Aí está.

dez anos antes do Discurso (1836). Queiroga (v. Deve finalmente a América ser livre em sua poesia como já é em seu govêrno". 643). brilhante de mocidade. na História. 1927. p. XX). 4. de 1848. Junto aos momentos. A Literatura no Brasil. que rompe completamente qualquer esquema de agrupamento por gerações. porém... Ferdinand Denis foi o pai de nosso Romantismo". 3 °. t. os precursores. deve ter novos e enérgicos pensamentos. Rio de Janeiro. dez anos antes do livro de Magalhães: "O Brasil já sente a necessidade de beber as suas inspirações poéticas numa fonte que de fato lhe pertença e em sua nascente glória não tardará em apresentar as primícias dêsse entusiasmo que atesta a juventude de um povo. I. confessa Oto Maria Carpeaux. 1930. de 1830. Baseado. Letras. 10 Estas foram as principais tentativas de classificação dos escritores românticos: Silvio Romero.a série. l° 9 "Ora. como acentua. n. escrita em 1826. todos sabem a grande influência de Ferdinand Denis s8bre os nossos primeiros românticos e se recordam da sua frase famosa.. deve rejeitar as idéias mitológicas devidas às fábulas da Grécia. E. Estudos. etc. de 1855. Trintão de Atafde. Se adotou esta parte da América uma linguagem que aperfeiçoou a nossa velha Europa. dificuldade resultante. II. . de 1862 a 1870. do número de escritores aparecidos num curto período de tempo do entrecruzamento da cronologia. 69). p. Brasil.°. o Bosquejo é de 1826. a influência de Garrett não pode ser descontada nem diminuída. com a primeira escola paulista. Em verdade. no Bosquejo. porque não estão em harmonia nem com o seu clima.simplificadoras de José Veríssimo e Ronald de Carvalho. julga Sérgio Buarque de Holanda infundada a suspeição de José Veríssimo que Gonçalves Magalhães tivesse lido 0 conselho nacionalizaste de Garrett. 3 . 1939. Vol. "publicado dez anos depois do Discurso de Magalhães". que reduz mais tarde. há que assinalar ainda o testemunho de J. p. Prefácio a Suspiros poéticos e saudades. com a segunda escola fluminense e a segunda escola baiana: 2. A propósito. e não de 1846 como afirma (v. refere os divergentes. M. A América. fala em seis fases. para cinco momentos: 1 °. em êrro de data. A propósito do papel de Ferdinand Denis na origem do Romantismo brasileiro particularmente sua influência no grupo da Niterói ver o estudo de Paul Hazard (Rev.°. 156. 5 °. "que é quase impossível distinguir com nitidez as diferentes fases da evolução do Romantismo brasileiro". S. 2.. na Evolução da Literatura Brasileira (1905). com a escola maranhense. nem com as suas tradições. Rio de Janeiro.. com os coadoreiros. Aead. S. Por outro lado. os retardatários. aliás. de 1858. A Ordem.

a nova estética envolveu a ficção e o drama. há as figuras maiores. e as secundárias que se ligam às principais de maneira descolorida. é mister distinguir o Pré-romantismo e o Romantismo pròpriamente dito. diante da dificuldade e sem dispor de segura metodologia. idéias. adaptando-se a grupos sucessivos. ou que se ligam a um grupo por identidade espiritual e estilística. os que não pertencem a qualquer grupo. Em primeiro lugar. bem representativas.José Veríssimo. Essa evolução efetua-se em várias etapas. PRÉ-ROMANTISMO (1808-1836). $ um corpo de tendências. considerada de importação e de opressão nesse momento de luta pela autonomia. e uma terceira de "últimos românticos". e em cada grupo. que não se fixam ou evoluem. que ordena em ou menos diferenciados do ponto de Há representantes de uma geração que a ultrapassam espiritualmente e tomam parte em outro grupo. este último com quatro grupos. Muitas das figuras duas fases ou gerações. podemse estabelecer grupos estilísticos e ideológicos na evolução do Romantismo brasileiro. Há figuras de transição. Ora como antecessores. temas. De modo geral. variando de acôrdo com as gerações. fixando-se datas como simples marcos flexíveis de referência. sem constituir doutrina literária homogênea. além dos precursores. Abrangendo a poesia. com remanescentes classicistas e arcádicos. o sentimento e a tonalidade. O objetivo era a criação do caráter nacional da literatura. verifica-se a formação progressiva de uma estética e de um estilo em que se reúnem lementos formais e espirituais. ora como precursores. de que participam grupos ou gerações de poetas. hesitante. os temas. Já se encontram algumas notas esptbcíficas do Romantismo. ora como figuras de transição. Sem respeito à estrita cronologia. os retardatários. e elementos novos. quanto à mais conveniente estratégia de realização dêsses ideais. Acompanhando-se a evolução das tendências e formas literárias através do Romantismo. ficcionistas e cultores de outros gêneros. opta por uma simplificação e seleção dos val8res românticos. como nota Manuel Bandeira. em oposição à marca portuguêsa. há os diletantes e marginais. formulando também teorias críticas e literárias quanto à natureza e finalidade da literatura. incaracterística. anunciam. a forma é a mesma. já violentada pela realidade. preparam ou veiculam as qualidades românticas. e quanto aos gêneros adequados à sua expressão. . mas que não é o da sua geração.

Chateaubriand. que se seguiriam à de Classismo pré-romântico (arcadismo mineiro). o Romantismo.). sem contudo se realizarem plenamente. como diletantes ou marginais. etc. José de Sousa Azevedo Pizaro e Araújo (1753-1830). influência inglêsa e francesa (Marmontel. a poesia lírica. (1756-1834). Padre Domingos Simões da Cunha (1755-1824). Antônio Pereira de Sousa Caldas (17621814). distingue os grupos de: Romantismo nacional e popular (Gonçalves Dias. etc. etc. com o manifesto romântico de 1836: Niterói. Dutra e Melo).) e Romantismo liberal (Castro Alves. "O Perereca" (1767-1844). Baltazar da Silva Lisboa (1761-1840). Francisco de São Carlos (1768-1829). com resíduos classicistas. Cipriano José Barata de Almeida (1762-1825). Lucas José de Alvarenga (17681831). a história.). a eloqüência sacra e profana. 2) a poesia da natureza (Gonçalves Dias. Alencar. na maioria misturados). Varahagen. José Elói Otôni (1764-1851). Resista Brasiliense. José Bonifácio de Andrada e Silva. P8rto Alegre. 4) a poesia social (Castro Alves. Silvestre . etc. e aponta outros como figuras de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo (Machado de Assis. Compreende mais ou menos figuras nascidas antes de 1820. de conservadorismo.).). caracterizadas pelas tendências dominantes: 1) a poesia religiosa (Gonçalves de Magalhães. dessa fase.). José Arouche de Toledo Réndon. Américo Elísio (17631838). Luís Gonçalves dos Santos. as ciências naturais. pseud. estabelecendo os seguintes grupos: Pré-romantismo (Gonçalves de Magalhães. por incaracterísticas. Cultiva-se intensamente o jornalismo (político e literário.). As 11 Representantes do período pré-romântico: Manuel Aires do Casal (17541821). Iniciação pelo grupo fluminense. Primeiro grupo. Vigny. ao lado de marcha deliberada para a nova estética. e inglêsa. Frei. etc. corrente paralela de outras de Neoclassismo e de Romantismo trivial e diletante. Romantismo individualista (Alvares de Azevedo. Borges de Barros. Tendências contraditórias. Agrega ainda alguns poetas menores. 3) a poesia da dúvida (Alvares de Azevedo. Oto Maria Carpeaux (Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira) adotou o critério de divisão estilística. Poesia religiosa e mística. Hugo. nacionalismo. José Joaquim Azeredo Coutinho (1743-1821). aproveitando os recursos formais ou temáticos. etc.Ronald de Carvalho estabeleceu quatro grupos ou fases. A influência partuguêsa vai cedendo o lugar à francesa.11 ROMANTISMO. Lamartine). No Romantismo pròpriamente dito. etc. atravessam. lusofobia. José da Silva Lisboa (1756-1835). o que o faz não mais pertencer à fase pré-romântica de maneira completa e desempenhar o papel também de iniciação e introdução. Luís Guimarães).

Inácio Acióli de Cerqueira e Silva (1808-1865). . José Maria do . Hipólito José da Costa (17741$23). José Joaquim Machado de Oliveira (1790-1867). nova sensibilidade. Frei Francisco de Santa Teresa de Jesus Sampaio (1778-1830). Francisco Sotero dos Reis (1800-1871). 20 -idéias româatticás procuram impor-se através de novos. marquês de Maricá (1773-1848). Padre José Joaquim Corrêa de Almeida (1820-1905). aspirações espirituais e religiosas. Evaristo Ferreira da Veiga (1799-1837). Lopes Gama (1791-1852). Miguel Cahnon du Pine Almeida (1794-1865). Padre Srlvério Ribeiro de Carvalho. Justiniano José da Rocha (1812-1862). Agostinho Marques Perdigão Malheiros . filosófico. a ficção esboça-se. e continua o intenso cultivo ao jornalismo. Francisco de Paula Meneses (1811-1857). José Feliciáno Fernandes Pinheiro (1774-1847). João de Barros Falcão (1807-1882). Álvaro Teixeira de Macedo (807-1849). José Maria da Silva Paranhos (1819-1880). Caetano Lopes de Moura (1780-1860).Andrada (1773-1845). Joaquim Gonçalves Ledo (1781-1847). o gôsto pela natureza espalha-se. João Salomé de Queiroga (1810-1878). Firmino Rodrigues da Silva (1816-1879). Bernardo Pereira de Vasconcelos . Dom Romualdo Antônio de Seiras (1787-1860). Januário da Cunha Barbosa (1780-1846).Pinheiro Ferreira (1769-1846). Frei Francisco de Xaxier Baraúna (1785-1846). Padre Francisco Ferreira Barreto (17901851). Manuel Odorico Mendes (1799-1864). Antônio Joaquim de Melo (1794-1873). de~. Francisco Bernardino Ribeiro (1815-1837). 1822). Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804-1868). Frei Francisco de Mont'Alverne (1784-1859).. Cândido José de Araújo Viana (1793-1875). Frei Joaquim do Amor Divino Caneca (1779-1825). José Rodrigues Pimentel Maia (1785-1837). José Inácio Abreu e Lima (1796-1869). histórico.Amaral (1813-1885). José da Natividade Saldanha (1796-1830). 12 .(17951850). Ladislau dos Santos Titara (1801-1861). Domingos Borges de Barros (17791855). Francisco de Montesuma (1794-1870). Antônio Carlos Ribeiro. João Francisco Lisboa (1812-1863). Joaquim José Lisboa (17753811). José Maria Velho da Silva (1811-1901). (1824-1881). Manuel de Araújo Ferreira Guimarães (1777-1838). sociológico). O gênero preferido é a poesia lírica. dito Silvino Paraopeba (?-1843). José Lino Coutinho (1784-1836). Manuel Joaquim Ribeiro (-ca. Francisco Muniz Barreto (1804-18b8). mas a ficção e o teatro dão os primeiros passos. Antônio Augusto de Queiroga (1812?-1855). intensifica-se o interêsse cultural (científico. Miguel do Sacramento. temas. Joaquim Caetano da Silva (1810-1873). Francisco Muniz -Tavares (1793-1876). Mariano José Pereira da Fonseca.

Antônio Gonçalves Dias (1823-1864). Barão de Paranapiacaba (1827-1915). João Duarte de Lisboa Serra (1818-1855). Trajano Gaivão de Carvalho (1830-1864). Apesar de incluir figuras pertententes à geração do grupo anterior e mesmo alguns retardatários. por influência de Walter Scott. Influências de Chateaubriand. os laços ao passado classicis'ta: e lusa. também. Predominam a descrição da' natureza. com intenções nacionalistas. Surge. além da história e jornalismo são. A' crítica. Leopardi. figuras nascidas entre 1820 e 1830. de Macedo (1820-1882). e que começaram a exercitar-se na década de 1850 a 1860. e a despeito de continuarem. do século". a crítica. adquire consciência de sua missão e técnicas. Walter Scott. ficção. Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878). e acentua-se a variedade urbana. que começaram a atuar pela década 1840. Muss~et. Emílio Adet (1818-1867 ) . Macedo. o selvagem como símbolo do espírito e da civilização nacionais em luta contra a herança portuguêsa.13 Terceiro grupo (1850-1860). sertanista. os gêneros cultuados. crítica. regionalista.0 grupo romântico: Francisco de Paula Brito (18091861). usando material local e ambiente nativo. "mal. desilusão. Fenimoré Cooper. 13 Representantes do 2. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro (1825-1876). a ficção histórica. Individualismo e subjetivismo. a idealização do selvagem. com muitos dêles. A ficção consolida-se com Alencar. na maioria. Joaquim Norberto de Sousa e Silva (1820-1891) . de Azevedo Coutinho (?-1878). Eugène Sue. Lamartine. Poesia lírica. Vicente Pereira de Carvalho Guimarães (1820-?). `Bernardo Guimarães. . Luís Carlos Martins Pena (1815-1848). Os gêneros mais cultivados são a poesia lírica e narrativa. a história e o jornalismo. Balzac. sob a forma indianista. o indianismo. Espronceda. Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa (1812-1861). o teatro. iniciada antes sob a fama de notas biográficas e antologias. Domínios José Gonçalves de Magalhães (1811-1882). portanto. o panteísmo. formam um grupo bem caracterizado e diverso do anterior. Joaquim M. Cândido M. Franklin Távora. José Martiniano de Alencar (1829-1877). expressão original do nacionalismo brasileiro. poesia byroniana ou satânica. Bernardo Joaquim da Silva Guimarães (18251884). dúvida. Francisco de Sales Tôrres Homem (1822-1876). Compreende figuras nascidas por volta de 1830. cinismo e negativismo boêmio.Segundo grupo (1840-1850) . a ficção. João Cardoso de Meneses. Influência de Byron. Compreende. João Manuel Pereira da Silva (18171898 ) .14 12 Representantes dó 1 ° grupo romântico: Manuel de Araújo Pôrto Alegre (1806-1879). Antônio Francisco Dutra e Melo (1823-1846). Joaquim Felfcio dos Santos (1828-1895).

seja na naturalista. O movimento ramântico. No Brasil. Caracteres. a fórmula romântica. Franca reação antiromântica na década de 1870. 3. Pedro Luís Pereira de Sousa (1839-1884). José Bonifácio de Andrada e Silva. Sousândtade (1833-1902) Luís Delfino dos Santos (1834-1910). todavia. depois de 1870. Joaquim José da França Júnior (1838-1890). de análise de costumes e caracteres. muito embora subdividido em nuances estilísticas. consolidada. Manuel Antônio de Almeida (1831-1861). o Môço (1827-1886). começa nova influência nas letras. É a ficção nacional. Romantismo liberal e social: intensa impregnação político-social. que se esgota no sentimentalismo e no sertanismo. comunicada pelas peculiaridades do meio a que se acomodou. que se batizou (Capistrano de Abreu) de poesia "condoreira" ou "condoreirismo". Joaquim Maria Machado de . Manuel Antônio Alvares Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas. com a única intenção de que seja bem utilizado por seus companheiros cegos Quarto gyuPo (Depois de 1860). Os gêneros adquirem maior autonomia estética. já com uma nota bem forte de erotismo. aliadas ao clima de realismo literário e filosófico. Antônio Joaquim Rodrigues da Costa (1830-1870). libertando-se da política e do jornalismo. Laurindo José da Silva Rabelo (1826-1864). algumas figuras penetrando mesmo o Parnasianismo ou servindo de traço de união entre os dois estilos. autônoma. Tobias Barreto de Meneses (1839-1889). nacionalista. Aureliano José Lessa (1828-1861).14 Representantes do 3 ° grupo romântico: Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889). de "romantismo realista". seja na maneira urbana. por influência de Victor Hugo tende para um lirismo de metáforas arrebatadas e ousadas. A ficção supera. Compreende. ainda em conformidade com o senso do relativo e a historicidade que 15 Representantes do 4. nessa fase. além de um lirismo intimista e amoroso. ligada às lutas pelo abolicionismo (especialmente depois de 1866) e pela Guerra do Paraguai (1864-1870) . figuras nascidas por volta de 1840. assumiu uma tonalidade própria. Grande preocupação formal leva o grupo a experiências que. a forma realista. Na poesia lírica. É quase um grupo de transição. na maioria. Com a geração de 1870. denota unidade em seus caracteres fundamentais. brasileira. conduzem a poesia na direção do Parnasianismo.° grupo romântico: Joaquim de Sousa Andrade. pteludiando a "arte pela arte". invadindo. a da filosofia positiva e naturalista. Joaquim Maria Serra Sobrinho (1838-1888). Luís Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882). seja na regionalista.

Assis (1839-1908). o jornalismo. que realizou. b) Pela ênfase dada à inspiração. Como muito bem asseverou um crítico. Aureliarno Cândido Tavares Bastos (1839-1875). procurando afirmar.o literário e artístico. "o Romantismo brasileiro tem muito de seu a fusão. João Franklin da Silveira Távora (1842-1888). Casimiro José Marques de Abreu (1837-1860). pensado de maneira idêntica. Antônio de Castro Aves (18471871). o romance. e sentido. Pedro Américo (1843-1905). através dêle. José de Morais e Silva (1832-1896). cantado. Joaquim Maria Serra Sobrinho (1838-1888). cujos anseios e qualidades sentiu e exprimiu. Antônio Joaquim Macedo Soares (1838-?). Salvador de Meneses Furtado de Mendonça (1841-1913). Era um instante de exaltação individual que se aliava à exaltação coletiva. Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836-1931). Pedro de Calasans (1837-1874). Melo Morais Filho (1844-1919). envolvendo gêneros variados como a poesia lírica. o político e social. Mais do que um movimento literário estrito. Francisco Pinheiro Guimarães (1832-1877). Júlio César Leal (1837-1897). a eloqüência. do momento pessoal ao momento coletivo". Veríssimo José do Boro Sucesso (1842-1886). 16 É possível resumir come se segue as suas características: a) Coincidindo sua eclosão com o alvorecer da nacionalidade. Agrário de Sousa Meneses (1834-1863). Luís José Junqueira Freire (1832-1855). José Carlos do Patrocínio (1842-1905). José Alexandre Teixeira de Melo (1833-1870). ajustou-se à alma do povo. a sua individualidade e a alma coletiva. de Azevedo (1831-1852). Vítor Meireles (1823-1903) Antônio Ferreira Viana (1833-1903). Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo (1837-1918). nacional. Carlos Gomes (1836-1896) Franklin de Meneses Dória (1836-1906). Luís Nicolau Fagundes Varela (1841-1875). indo ao encontro de qualidade . Daí o Romantismo possuir vários aspectos . o Romantismo estabeleceu um padrão que. Bruno Henrique de Almeida Seabra (1837-1876). Vitoriano José Marinho Palhares (1840-1890). Júlio César Ribeiro (1845-1890) Luís Caetano Pereira Guimarães Jr. José Joaquim Cândido de Macedo Jr. (1847?-1898). todo o povo tendo vivido de acôrdo com suas formas. Quintino Bocaiúva (1836-1912). o ensaio. Rosendo Muniz Barreto (1845-1897). Apolinário PôrtoAlegre (1844-1904). foi antes e acima de tudo um estilo de vida. João Barbosa Rodrigues (1842-1909). o drama. e encontrava na estética romântica o meio adequado de realização. como guia supremo da criação literária. são alguns de seus traços definidores. Alfredo d'Escragnole Taunay (1843-1890). (1842-1860).

a ed. n. B. suas características e significado. New York. Unidades literárias. Nac.. 2 vols. idem. Rio de Janeiro.. Rio de Janeiro. 1942). Carvalho. Garnier. que correspondeu e ainda corresponde a uma exigência natural do povo. 1944. H. Fernandes Pinheiro. Alves. Ureíia. As origens do Romantismo no Brasil. a um gôsto 16 Sôbre o Romantismo brasileiro. 1927. Putnam. (in Esboços e individualidades. Inst. Rio de Janeiro. 1888. 1928. Acad. Cultura Brasileira. Anuário do Brasil. Conseqüência disso é a extrema popularidade da literatura romântica. Elogio do Romantismo brasileiro (in Suave convívio. 69). Cambridge. Briguiet 1919 (ref. Knopf. 1949. Letras. . A sensibilidade romântica (in Rev. Andrade Murici. 1884). S. Cia. Rio de Janeiro. História do Romantismo no Brasil. Editôra. E. 1922). Ensaios e estudos. Briguiet. Nac. Paulo. Pequena história da literatura brasileira. (in Rev. Cia. 1916. Letras.a ser. S. Afrânio. R.. S. bem brasileiro. S. Bem brasileiros e bem românticos são o sentimentalismo e o sensibilismo. 1893. Letras. 1937-1938. Ed. Monteiro. se entronizou em norma estético-literária que dominaria grande parte de nossa atividade literária. C. Veríssimo. Acad. n. Rio de Janeiro. Mas é. História da literatura brasileira. Paranhos. H. Noções de história da literatura brasileira. Livro. Côrtes de Lacerda. 3. F. Paulo. Garnier. Nac. 1946. Traços do Romantismo na poesia brasileira. l. Esbôço sintético do movimento romântico brasileiro. (in Rev. 1929). Rio de Janeiro. J. Rio de Janeiro. C. o que prova a sintonização da alma brasileira com a alma romântica. 1948. Literatura nacional. n. Ed. O Aleijadinho e Alvares de Azevedo. Rio de Janeiro. 1929. Literary currents in Latin America. R. 1931. (in Pipitas. Andrade Mário de. 1931. Garnier. 1927. Marvelous Journey. Harvard. Briguiet. Apresentação da Poesia brasileira. Brasil. É bem romântico o culto brasileiro da inspiração. 1935. O Romantismo liberal. Hazard.a ed. História da literatura brasileira.inata no povo brasileiro. entre outros: Alves. Alves. 4. Rio de Janeiro. O romantismo e seu significado. A. C. Acad. 1945. Magalhães. Beviláqua C. (in Filocrítica. Romero. V. P. Teorias literárias no Brasil.. J. por outro lado. Brasil. Peixoto. Orlando. Wolf. da improvisação e da espontaneidade como fontes de criatividade. 69). Prefácio à Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica. C. 73).. Rio de Janeiro. P. Rio de Janeiro Garnier. Rio de Janeiro. Bandeira Manuel. J. ver. Rio de Janeiro. J. de. Rio de Janeiro. 1888). idem. S. Capistrano de Abreu. A. Paulo.

política. que fêz elevar-se a figura de José Bonifácio de Andrada e Silva. arroladas como licenças poéticas. o maior e mais culto dos brasileiros . arma na luta e o veículo literário do nascente nacionalismo do Brasil e outros países latino-americanos". Ed. "nunca foi tão íntima a relação entre arte e sociedade".. a tuna tendência por assim dizer permanente da sua alma.essa norma conduziu à ruptura com as obrigações de respeito às tradições na linguagem. c) O Romantismo brasileiro teve colorido fortemente político e social. social. José de Alencar. Nac. pois. introduziu o desprêm pelo artesanato e o conseqüente descuido. Ao lado do princípio romântico da liberdade . 1955. os homens de letras deixaram. que. Mas a norma romântica da inspiração e da improvisação. a opressão política.F. com deslocar as regras e a retórica da base da formação literária. à autonomia de consciência. na ficção. Macedo.Gonçalves Dias. A liberdade política. Também aqui a revolução burguesa triunfava com a Independência e a democracia. São os românticos dos escritores brasileiros mais populares. sôbre ser um "sábio. estadista. poeta. 17 Acresce 17 Afrânio Peixoto considera José Bonifácio o "prócere do Romantismo". Portugal representava tudo o que abominavam os brasileiros. Daí essa consonância de ideais entre a política e a literatura. o conservadorismo literário. a exploração econômica. Formara-se com o tempo uma nova sensibilidade. . como afirma Samuel Putnam. depois de longo processo de amadurecimento. Ed. O Brasil literário. É o seu lado democrático-popular que se torna mais visível e atuante. como o patriarca da independência política e o pioneiro mais forte da revolução literária. acompanhando lado a lado a revolução burguesa e o movimento pela independência e democracia. político. em reação contra os postulados classicistas. relaxação e negligência em relação a todos os aspectos técnicos da arte. Castro Alves. Alvares de Azevedo. dos que mais eco despertam no público .literária. como repercussão da era inaugurada pela Revolução Francesa. Paulo. O Romantismo fêz soarem os clarins da liberdade em todos os setores. que procurava expressar-se por outra forma artística.23 específico. o que o transformou em "poderosa.. de olhar para a Metrópole portuguêsa em busca de padrões de expressão literária na poesia. Cia. Casimiro de Abreu. correu paralela a rebelião literária. no drama. . se trouxe um bom resultado quanto ao enriquecimento do vocabulário e alargamento dos assuntos. produziu certa anarquia e desordem. Brasil. S. Diante dos materiais de uma nova civilização.

p.é a que melhor cabe a José Bonifácio. É do mesmo autor a teoria da precedência de José Bonifácio. grassava o idealismo romântico. no Brasil. em Álvares de Azevedo. sob a forma do indianismo. Imprensa Nacional. Essa posição de transição . social e literária. . no dizer de Clóvis Beviláqua. Mesmo entre o clero. subscreveu o Romantismo" (Ver "O Primeiro livro do Romantismo no Brasil".tivesse mais êxito o aspecto liberal e revolucionário. o único país em que frutificou alinha de rebeldia individualista e de mal do século. surgindo da própria massa da originalidade nacional e constituindo o ponto de partida. Casando a doutrina do "bom selvagem" de Rousseau com as . mas tinha fundas raízes na literatura popular. à luz dos próprios argumentos de Afrânio Peixoto. tema que encontrou. 1942. como demonstrou Capistrano de Abreu. História da literatura brasileira. Publicações da Academia Brasileira. 1942).a despeito de ser. Afirma êle que as Poesias de Américo Elísio são "o primeiro livro que. "o primeiro passo da estética brasileira procurando o seu tipo especial e próprid'. de tôdas as tentativas posteriores de encontrar materiais peculiarmente brasileiros para dar expressão literária à consciência . aliás. Buarque de Holanda. Foi o que demonstrou ainda Antônio Soares Amora. como salientou Urena. conservou-se fiel ao credo clássico. desde a Independência. o significado do indianismo. Parece mais correto atribuir a José Bonifácio a posição de um precursor pré-romântico. em relação a Magalhães (1836). Ver S. em contraposição com o conservador e religioso. Rio de Janeiro. da América Latina. às Poesias. pré-romantismo . e "Américo a circunstâincia de muitos escritores terem sido também políticos de destaque. Essa relação entre a literatura e a política fêz com que.de seu tempo". neoclassicismo. Instituto Nacional do Livro.tendências lusófobas. Prefácio às Poesias. uma arma de ação política e social. Rio de Janeiro. político e social. não somente pela produção poética. para quem o indianismo não era planta exótica. de Américo Elísio. pp. no Brasil. o indianismo estava. . em Alencar e Gonçalves Dias. a despeito de suas familiaridades românticas. senão também pela doutrina poética. d) O nacionalismo romântico assumiu um caráter muito próprio no Brasil. o nativismo brasileiro encontrou no índio e sua civilização um símbolo de independência espiritual. o que concorria para aumentar-lhes a popularidade. Além disso. política. profundo. pois.arcadismo. Pref. dessa maneira. 177. XIII. portanto. cheio de sugestão. estreitamente relacionado com a restauração do mito da infância e do retômo à inocência infantil característica geral do Romantismo. com suas poesias de 1825. em dois artigos: "Um Alter ego comprometedor". 154. outra forma de expressão. A literatura romântica foi.

tiveram grande desenvolvimento. a feição mais alta que ainda gerou êsse brasileirismo. em oposição à Elísio desagravado". Isabel. Mas foi no grupo de Alvares de Azevedo. acima de tudo. dos romances de Macedo. com a sua melancolia. embora suas raizes mergulhem até Gonçalves de Magalhães. É dai que resultam o culto do sertão e do sertanejo. e o estabelecimento de um tipo de realismo baseado na verdade interior e na efusão do coração. No Brasil. sentimentos. com Varnhagen como o seu grande propugnador.. Inocência. etc. Supl. afinal. 11. o caipirismo. Taunay. na direção da natureza do coração e do espírito. negativismo e melancolia. como Lauro. em estados mórbidos de dúvida. acentuando êsse caráter de sincretismo e transição. e. Raquel. Honorina. larga difusão através dos heróis e heroínas dos romances românticos. que foi. Ésse aspecto bem típico do Romantismo teve. e) A corrente individualista e boêmia floresceu na metade do século. de que resultou o primado do lirismo. Junqueira Freire. R. o caboclinho. inspiração greco-romana que dominou a poética neoclássica. Casimiro de Abreu. O outro passo orientou-se para a valorização da "côr local" e o pitoresco. O primeiro passo nessa busca de novas dimensões foi dado no sentido interior. de que são índice a fundação do Instituto Histórico e Geográfico (1838) . 25 julho 1964). captar a sua verdade na diversidade exterior e interior . Jornal do Comércio. J. pessimismo. a Etnologia. A História. f) Pela necessidade de alargar o horizonte literário. A História foi uma das atividades intelectuais que maior favor . as numerosas publicações e obras que marcam o início da historiografia brasileira em bases modernas. linguagem .costumes. in Estado São Paulo. Cirino. Alencar. dúvida e religiosidade e o seu senso da inanidade das coisas terrenas. que constituem uma grande galeria de mórbidos e melancólicos sonhadores. o Romantismo dirigiu-se para fontes de inspiração nacional e local. mas ela serviu de base também para a valorização da história local e das criações populares ou folclore. o regionalismo. procurando em virtude do princípio relativista de que o homem varia conforme os tempos e lugares. 30-3-1963. Estácio. por outro lado. 18. que o "mal do século" pôde empenhar sua fôrça máxima. a Lingüística. como a forma natural e primitiva da poesia.que o tornam típico. 27-4-1963.nacional. irmãos e primos de Werther e Renê. a valorização da história e do passado nacional constituiu uma das mais importantes atividades durante o Romantismo. Essa teoria encontrou clima sobretudo no romance. Literário. Também Josué Montelo coloca-se em atitude compreensiva a respeito da poesia do 'Patriarca. embora reconhecendo-lhe o valor documental para a interpretação de sua personalidade (Ver "O Poeta José Bonifácio". Inesita.

de inspiração nacional. o brasileiro encontrou nas recordações da história local. para os românticos. Em vez dos assuntos da Idade Média. cora o Romantismo o sentimento da natureza transformou-se num dogma e num culto. Houve um largo interêsse por tôdas as formas da criação popular. Se essa inclinação já vicejava fortemente na literatura brasileira. poetas ou romancistas. José de Alencar. Araripe Júnior. aliás de todo o espírito e civilização brasileira. que os árcades acentuaram. exerceram verdadeira fascinação sôbre a mente dos escritores. ressaltando a valia e o significado da poesia popular como forma de tradição.gozaram sob a égide do Romantismo. fixando-se na literatura de prosa e verso com sua presença absorvente. cujo maior representante foi José de Alencar.. Mas ela frutificou também na voga do romance histórico. ainda impregnada de visões clássicas. Vale Cabral. nas lendas do nosso passado e na glorificação do indígena. seriam o fator diferenciador da literatura. sua beleza. por certos aspectos. embora com a imagina%ão. g) O sentimento da natureza. traduziu-se na literatura brasileira de maneira exaltada. transformando-se quase numa religião. Como que se desenvolveu um estado de comunhão ou correspondência entre a paisagem e o estado de alma dos escritores. e homens como Celso Magalhães. herança da época do descobrimento e primeira colonização. por efeito do relêvo que lhes deu o Romantismo. elevando à categoria . a que deviam a sua moldura ideológica os imitadores neoclássicos e arcádicos. residiria o caráter original da criatividade literária. à Walter Scott. A atração da natureza americana. ao mesmo tempo que se deixavam prender panteìsticamente aos seus encantos e sugestões. no momento em que a procura de uma tradição válida constituía objetivo de tôda a inteligência brasileira na ânsia pela autonomia e em reação contra a tradição lusa. onde. Em lugar da mitologia clássica. e de onde partiria o veio formador da literatura. as sugestões para uma desejada volta às origens próprias. os românticos preferiam povoar a imaginação com os mitos e cosmogonias ameríndias. na frescura de seu lirismo e de sua veracidade. A procura do colorido local peculiar conduziu à compreensão da literatura popular. Correspondeu ao desejo de valorizar a temática nacional em oposição à lusa.. sua hostil e majestosa selvajaria. que se lançaram à sua conquista e domínio pelas imagens e descrições. que seriam a fonte de inspiração da arte e da literatura. Melo Morais. dedicaram-se à coleta ou ao estudo do folclore. Sílvio Romero. As formas tradicionais e folclóricas. um dos caracteres essenciais do Romantismo. sôbre os quais recaiu geralmente a tônica do Romantismo europeu.

Fixadas as qualidades especificas do Romantismo brasileiro. as condições peculiares . não só quanto ao aspecto temático. para tornar-se a expressão estética da alma do povo para o seu supremo devaneio espiritual.27 Tanto quanto a poesia brasileira. e mesmo com a produção pré-romântica. há lugar para levantar a questão do seu legado e importância. Significado e legado. Em verdade. mesmo a despeito da voga da história romanesca. a poesia recendia a impregnações clássicas e portuguêsas. com o Romantismo. Os escritores não mais seriam obrigados a buscar inspiração na paisagem física. graças ao esfôrço autonomista dos românticos. neoclássica e arcádica. O romântico instaurou o prazer estético da paisagem. mas que no Reino se formaram e a seu modo sentiam. a ficção brasileira foi criada no Romantismo. Bastava olharem ao derredor de si. Mesmo considerada a sua fusão com a política. social e humana de Portugal. em franca evolução para a autonomia e especialidade de atuação e de formas. de igual modo. a) Os gêneros literários pròpriamente ditos ganharam autonomia e consistência.. e a literatura que produzissem não era necessàriamente inferior à dos seus êmulos portuguêses. Antes dêles. O Romantismo quebrou tal submissão. sentimental e idealizada. introduzindo na literatura a maneira brasileira de sentir e encarar o mundo. deixou de ser instrumento de ação religiosa e moral. Deu-lhe foros de cidade. passando para o plano de igualdade. ou de torneios de salão. a ficção. por homens que aqui residiam. descobrindo-a defir. -. Do Romantismo. consolidou-se nessa época. como estilo artístico e como movimento literário recebeu a literatura brasileira contribuições definitivas.distintiva o poder descritivo do escritor e mobilizando a capacidade humana de admitir e espantar-se diante da grandiosidade e mistério da natureza tropical. mas também quanto ao estrutural. sobretudo na fase pré-romântica. reconheceu o direito a essa atitude nova de entrar na literatura. Era uma poesia portuguêsa escrita no Brasil. Mesmo com o predomínio do descritivo e da pintura sôbre o narrativo. há no Romantismo um superior senso estético a comandar a sua criação. É a própria consciência literária que se configura. mais do que isso. ao mesmo tempo fazendo conhecer o Brasil pelas suas descrições. Ávamente para a literatura. A um cotejo com a literatura da era barrôca. de traduzir os sentimentos e reações. realizam os românticos a criação dos gênerosi literários com feitio brasileiro. ou que no Brasil se tornaram específicas. De expressão espúria. a nova literatura adquiriu direito de cidadania. ressaltará claramente que foi a própria literatura que. Ou melhor.

conscientemente. para afeiçoa-lo segundo padrão estético. com as Memórias de uns Sargento de Milícias. os quais só terão que aprimorar a técnica. a uma lei geral de evolução a história do romance nacional. e o espírito de isolamento acadêmico. É um momento crucial. a fabulação complica-se mais. portanto. como o polarizador dos anseios e esforços do espírito nacional pela posse de uma consciência técnica no tratamento e na compreensão do fenômeno. na sua primeira fase. como pensava Magalhães. veremos que. isto é. de que resultou. tanto na pintura dos quadros como na dos caracteres. A Alencar. por 18 "Reduzindo. na segunda fase. e já se vislumbram as intenções . na temática e na estrutura. da evolução da crítica literária brasileira. sem preocupações outras que não fôssem as da fantasia do autor. os Romances e Novelas (Norberto) e outras produções de somenos. literário. com a Moreninha e o Guarani. que transmite-a herança. já o sentimento de uma tese se esboça. entretanto. não sòmente no que respeita à própria conceituaçãa de sua natureza e finalidades. Deixando para trás a preocupação biográfica e antológica. a construção dos tipos e das cenas é mais observada. agora. o estilo torna-se mais dúctil. senão também quanto à compreensão da estrutura e temática dos gêneros literários que poderiam e deveriam ter cultivo em consonância com o meio e o espírito brasileiro. quanto ao esfôrço com que procurou demonstrar a necessidade de enraizamento da literatura na vida brasileira. E. predominou o caráter local. com O Filho do Pescador.do meio brasileiro favoreceram a formação do gênero. já configurada. em vez de reproduzi-Ia. deve-se a compreensão de que o romance era o gênero mais adequado à expressão brasileira do que a epopéia. de Teixeira e Sousa e Escragnole Taunay. aos seus sucessores. em que José de Alencar representou o pensamento mais avançado. máxime da narrativa. 111 Embora a poética romântica o induzisse a idealizar a realidade. De referência à crítica e às idéias literárias é das mais significativas a contribuição romântica. O Cabeleira e Inocência nota-se um movimento de reação contra o gênero puramente idealista. pelo terreno das idéias literárias. na terceira e última fase. meramente descritivo. que caracterizou os primeiros historiadores da literatura brasileira durante o século XVIII e início do XIX. A tendência atingiu o clímax com a polêmica em tôrno de A Confederação dos Tamoios (1856) de Gonçalves de Magalhães. os escritores românticos enveredaram corajosamente. sobretudo Machado de Assis. finalmente. a realidade passa para o primeiro plano. A Escrava Isaura. mediante sobretudo as experiências altamente conscientes de Alencar.

brasileira. etc. foi ao Romantismo . Dentro delas se moveu o romance nacional. e se fixaria definitivamente com Castro Alves. até então. sua solução.). o movimento romântico desempenhou papel revolucionário. na ordem da frase. fêz reconhecer a necessidade de sujeitar o modo de exprimir e pronunciar às imposições da sensibilidade brasileira. nem a dúvida irônica de Dom Casmurro.que se deveu a libertação dos clássicos portuguêses. o matuto e o burguês das classes remediadas.com suas ousadias e liberdades na medida. a despeito de ainda a êles estar demasiado prêso. o caboclo. e a anedótica. oscilando entre a selva e a cidade. se desenvolveria.. Reivindicando os direitos de um dialeto brasileiro. descrita ou realista de Machado. que. 28 outro lado. 293). numa revolucionária aproximação da língua falada com a escrita. se não podem mais passar despercebidas. e como tal deve ser historiada (Sílvio Romero. em cuja caracterização antilusitana tinham lugar as peculiaridades da fala popular brasileira. o empregado subalterno e o militar. da língua coloquial e da literária. oferecendo. "Duas tendências. Dias. dominaram durante o período romântico: a sertanista campesina ou indianista de Alencar. a figura de Alencar. pelo timbre e pela visão e sentimento .a ed. o comerciante.psicológicas de Machado de Assis e Aluísio de Azevedo. Ainda não conhecíamos. baseada no conceito de que a literatura é uma expressão social. Mais do que a linguagem como expressão literária. todavia. formulou o problema da linguagem poética. Distanciando-se dos portuguêses. com Álvares de Azevedo. com seu exemplo. p. A uma nova maneira de sentir há que corresponder uma expressão adequada. no que ressalta. se não vingou completamente. ao mesmo tempo. 1929. nas construções "erradas". já então livre das peias portuguêsas. ls b) Também no concernente á linguagem. o que seria impossível sem quebra da unidade lingüística. paradoxalmente através de uma singular experiência de retroceder à língua lusa primitiva. Briguiet. a fundação da historiografia literária. na cesura. 4. ainda aqui. na prosódia. na colocação dos pronomes . as sementes de. foi a própria linguagem poética que o Romantismo criou no Brasil. quando o lirismo brasileiro atinge a sua feição mais límpida. os românticos tentaram uma reforma que. Rio de Janeiro. e as transformações por que vêm passando a prosódia e a língua literária brasileira. entre o índio. Pequena História da Literatura Brasileira. Gonçalves. nem os paradoxos amorais de Brás Cubas" (Ronald de Carvalho.

Um traço peculiar da concepção do homem de letras devida ao movimento romântico. nesses dois poetas. progressiva. o Parnasianismo. uma nova fisionomia. J. Olímpio. e os ideais nativos adquirindo Uma nova forma. na condução da vida da comunidade. E José de Alencar quem a elevou à mais alta estatura e a dignificou para exemplo e modêlo da posteridade. Arte é forma. Através dêsses poetas. a exercer junto aos contemporâneos. fazendo caminhar a forma poética segundo impulso intrínseco e por canais interiores. sente-se o fio de uma evolução interior que os. uma vocação particular. a matéria entrando nos moldes novos e se lhe adaptando. liga entre si. est de Alvaro de Azeved Alves. . e que logrou larga aceitação no Brasil. do homem de letras. estaria destinado a influir na marcha dos acontecimentos. onde dominou. Tanto isso é verdade que. que. em germe os estilos futuros: no subjetivismo o Simbolismo. ão o. 1968. foi o da missão civilizadora do escritor. tornando o escritor mais apto a agir e a ser julgado pela atuação política e social que porventura exercer. na compreensão de seu papel na sociedade.de nossa realidade. da carreira literária e a compreensão da figura do homem de letras na comunidade. por dentro. Rio de Janeiro. e uma forma nova gera-se e desenvolve-se gradativamente. É o protótipo do escritor. graças à inspiração ou iluminação suprema. Gonçalves de Magalhães foi quem a encarnou pela primeira vez. c) Ao movimento românico se deve a constituição. do que . e nêle se miraria Machado de Assis para construir sua personalidade e sua obra. na fidelidade à vocação e ao mister. Esse conceito encontrou guarida na sociedade brasileira. um papel de reforma social e política. na visão objetiva de Castra 19 Ver sôbre o assunto: Afrânio Coutinho. uma função educadora. moralizante. na consciência do ofício. A Tradição Afortunada. penetrando até os dias presentes. mago e profeta. Cabia-lhe uma responsabilidade. sem queimar etapas necessárias. a obra máxima da literatura brasileira. a experiência .29 do "scholar". no Brasil.

e não de alguma vista através de livros. É a partir do Romantismo que começa a existir no Brasil uma literatura própria. porém as de tôda a sua gente". a poesia. a extensão do lazer. como nunca. em tôdas as suas variedades. criando nexos maiores de interêsse entre os dois pólos da atividade. Por isso. ao articular mais sòlidamente o homem de letras e a sociedade. "encarnaram efetivamente. a criação e ascensão da burguesia. o Romantismo possui em germe . e o Romantismo constituiu-se o nervo dêsse processo que determinou a autonomia da literatura brasileira. inclusive captando a atmosfera local interior e exterior. E noutro ponto de seu ensaio: "O Romantismo dera a medida mais alta das possibilidades do estro peculiar à raça brasileira tal como ela está. "Os poetas". visto ter tido manifestações que só entre nós seriam possíveis. que vigorou no Classicismo. porque então. a crescente popularidade da imprensa. no conteúdo e na forma. no Brasil. teve o Brasil um movimento com raízes bem fincadas no solo e na realidade nacionais. o teatro. Esses e outros fatôres dinamizaram a vida intelectual brasileira. a melhoria da difusão do livro pelo comércio e bibliotecas. a restrição do analfabetismo. Maior público suigiu vara o romance. Pela primeira vez.pela obra literária que produzir. Substituindo a visão idealizada do mundo. jornalística.o princípio realista. amalgamada". inspirado exclusivamente nas grandes emoções coletivas. despertando mais forte simpatia e mesmo a popularidade em relação aos escritores. e mais particularmente a literária. considera o crítico que "o Romantismo é das nossas glórias maiores e mais brasileiras. afirmou Andrade Murici. no campo da imaginação ou da crítica. os acontecimentos sociais e políticos refletiram-se fundamentalmente na poesia e sofreram por sua vez a poderosa e benéfica reação desta". depois desenvolvido na forma superior da ficção .como traço essencial e primitivo . o alastramento da educação média e superior. não as angústias dum indivíduo aristocrático e refinado. a multiplicação das tipografias e casas impressoras. são sempre uma atração para o homem de letras. com o crescimento da classe média. a valorização e cultivo da mulher. o acesso do mestiço. A ação política. por uma imagem real e direta. administrativa. porque trouxe representações da natureza e da alma humana. d) A melhoria e ampliação do público foi outro resultado do movimento romântico. muito comumente incontentado e insatisfeito com a dedicação pura à atividade literária. por enquanto.

pode meter o dente no rosbife naturalista. 20 Aí está. e que constitui. desde então. a sua notação específica. . A Semana. a sua contribuição e a sua mensagem ocupam um lugar sem igual na literatura brasileira. nas obras que legou. Garnier. deixa o melhor pedaço de carne para correr à bebida da infância". social. menos como uma doutrina que como surto vital. seja no da estratégia de realização. em The Arts and the Art of Criticism. seja no plano da estética geral e dos gêneros. e que é típico do acordar da literatura brasileira. Digamo-lo claramente: no Brasil o Romantismo foi uma fôrça religiosa. Desta sorte. nacional. Daí a importância de sua contribuição. aquela lei apontada por T. e continuando com as mesmas preocupações e problemas. na metade do século. The historic styles in art are. Foi Machado de Assis quem o afirmou: "Gente que mamou leite romântico. accordingly. Como afirmou Paul Hazard. 49. 1910. da relação entre o estilo e a coesão espiritual do povo: "In each case. P. portanto. a pintura perfeita do estado de espírito que impregnou os escritores brasileiros na segunda metade do século XIX. o que ressalta inclusive do fato de muitos escritores passarem insensivelmente de um a outro. destarte. Durante o Romantismo. 20 Crônica da 25 de dezembro 1892. dos dois estilos no Brasil. de onde retirou sua fôrça e a sua unidade. notàvelmente definido por Machado de Assis. jamais se libertando do primeiro. M. Assim. Se nem sempre. a unidade do estilo e da vida mostram que o povo brasileiro atingira a coesão espiritual. Ao conciliar a imaginação romântica e as realidades da vida brasileira. Ele não deu apenas a mais abundante florescência de romancistas e poetas. aqui. Sobretudo. o engavetamento. the vitality of the style is intimately proportional to the spiritual cohesion and wisdom of the social group. ao colocar no primeiro plano a preocupação brasileira na literatura. para interpretar sua natureza e qualidades. é no período que vai do Romantismo ao Realismo que se deve focalizar o estudo compreensivo da literatura brasileira. considerada em bloco. A falta de unidade de estilo corresponde. 386) . accurate índices to the temper and spiritual atmosphere of the social group" (p. o Romantismo comunicou-lhe um sentimento brasileiro.brasileira. mesmo a identidade em muitos aspectos. apesar da aparente oposição. em assuntos e tipos. uma nota de intimidade com o meio. Confirma. foi positiva e perfeita. releva acentuar. o movimento criou um sistema de pensamento e -de sentimento profundamente radicado no solo nativo. Rio de Janeiro. a continuidade. "o Romantismo aparece. aquêle "instinto de nacionalidade". Greene. mas em lhe cheirando a têta gótica e oriental. a estados de confusão e desordem espiritual. nessa nota de desengano.

A literatura brasileira encontrara o momento de sua definitiva afirmação. E mesmo Ronald de Carvalho. Maciel Monteiro. os quais. Gonçalves de Magalhães. do sugestivo ensaio de Paul Hazard. José Bonifácio. Estava completo o idioma de ser o mesmo o processo de constituição orgânica de uma nova literatura . as perspectivas da crítica no século XIX não ofereciam possibilidades apreciáveis a historiadores como Sílvio Romero e José Veríssimo. nem por isto. As revistas literárias. por sua vez. dados. a literatura produzida no Brasil não mais poderá ser considerada. como antes dêle. nem sempre simpàticamente aceitas. OS PRÓDROMOS DO ROMANTISMO Início do Romantismo. 'o que se pode dizer hoje do assunto escapa a sugestões. em particular sôbre as origens do Romantismo no Brasil. e do ponto de vista histórico pequena contribuição nos ofereceu. confundiu-se com a liberdade. como historiador de nossa literatura quase um diletante. 1 Mas. zzz 18. A vida literária na colônia. devem muito às inspirações da crítica romântica. Borges de Barros. . De então em diante. para que pudessem chegar a visões o quanto possível seguras. no rastro de Sílvio Romero. foi. um simples ramo da portuguêsa.pelo menos de certa maneira esquemática. parece indispensável a delimitação histórica dessas fases em nossa evolução literária. De resto. a despeito em que se expressam. Sem dúvida. não apresenta a sistematização e segurança. constituem preocupações recentes. esboços de classificação dos dois historiadores quase rivais.através do transplante de uma cultura refinada para uma área primitiva. pelo menos com tôda a franqueza. contudo. portador de evidente vocação de crítico e de ensaísta.não restabeleceu sómente as letras na alta dignidade que lhes competia. PARA SITUAR o Pré-romantismo e o início do Romantismo no Brasil.. as pesquisas em tôrno das origens do Romantismo no Brasil e da existência de fato de um momento precursor . com a existência mesma da jovem nação". João VI: a renovação cultural nos diversos aspectos. com diferentes necessidades e visão do mundo. O Arcadismo e o Pré Romantismo. A imprensa. por exemplo.pré-romântico . O que dizem os dois guardiões de nossa história literária. A era de D.

não encararam com a devida seriedade sugestões ricas e trataram com certa indiferente superioridade. do literário. lança à compreensão do leitor meia dúzia de presI Paul Hazard. Consideremos. Readers. quando a publicação do poema Camões de Almeida Garrett atesta . social. o que os levaria a outros tantos esclarecimentos. As origens do Romantismo no Brasil (in Rev. quando se funda a Arcádia Lusitana. o Arcadismo. Partindo de uma revisão crítica dessas fontes. enquanto o século XVI foi. as épocas barrôca e arcádica apresentam seus correspondentes transplantados para o Brasil e submetidos a um processo de assimilação. Quelques origines du Romantisme brésilien (in D. 1950. 5. Em Portugal. fora a herança deixada pelos cronistas. econômico. Brasil. ag8. G. S.). (in Diário de S. além das diversas histórias literárias brasileiras. J. na memória que escreve para o Livro do Centenário. Confrontada a nossa evolução literária com a de Portugal. certos esclarecimentos básicos que. Rio de Janeiro. Paulo. set. aqui. em ambos muitas sugestões. SBbre o assunto. particularmente na obra crítica de Gonçalves de Magalhães. acentuada pela excelente política do Príncipe Regente. o que há de mais positivo é o eco da influência camoniana. até 1825. . por sua vez. Encontramos. Pesquisas francesas s8bre o Romantismo brasileiro. é preciso. como também na crítica romântica. verificamos que. A introdução do Romantismo no Brasil. depois D . sua evolução concentra-se de 1756. da fase colonial. na edição de 1902. José Veríssimo quase se irrita com o assunto. destacado dêsse complexo de reformas e de mudanças os elementos caracterizadores de nossa formação literária. um século pré-colonial. Acad. do cultural. 26). (Tese. para o caso presente. Sílvio Romero. contudo. com seguro critério. 1927 pp. cercado de auxiliares esclarecidos.As vêzes. uma vez criticado pelo que diz na edição de 1888. a caracterização das etapas de nossa evolução literária. A interdependência é íntima. embora inconsistente. João VI. 69. Almansur Haddad. porque não é possível separar o desenvolvimento histórico. aliás. Por exemplo. no Compêndio de História da Literatura Brasileira. mimeogr. ver ainda: J. com indisfárçavel menosprêzo. Mas. 24-25). de parceria com João Ribeiro. 1944. Casmurro. Castelo. pp. como assunto de somenos importância. 10 dez. onde. isto é. Paulo. que mais de perto interessa ao nosso vroblema. não sabemos se com o intuito de hostilizarem tal contribuição. Let. XXV. Aderaldo. mas suficiente para oferecer elementos diferenciadores. 1946). não puderam abandonar.33 supostos. a data histórica de 1808 impõe-se como o marco que divide dois momentos bem caracterizados de nossa evolução: o colonial e o autonômico. político. esclarecer melhor a sua significação histórica.

Gonçalves de Magalhães. possível para o Arcadismo e o Pré-romantismo em Portugal. lembre-se a propósito o nome de Felinto Elísio.3 Coexistem. predominantemente árcade. e por exigência da melhor compreensão do nosso processo histórico. Fidelino de Figueiredo. uma. simultâneamente com as manifestações arcádicas. o Neoclassicismo arcádico e o Pré-romantismo. a 1795. manifestações literárias que já se apresentam contaminadas pela renovação filosófica da época. a rigor. 2. Lições de cultura e literatura portuguêsa. perfeïtamerite caracterizadas. Tomás Antônio Gonzaga. Tivemos. dentro do espírito legitimamente arcádico. Mas. sem falar em têrmos de Pré-romantismo e 2 v. v. digamos. até que Garrett. vol. Literatura portuguêsa. p. ainda que. Frei José de Santa Rita Durão.a sua extensão até aos Suspiros Poéticos e Saudades (1836) de. 23. entre nós. do ponto de vista literário. Assim. perfeitamente. possamos apontar em um ou outro prenúncios românticos. Inácio José de Alvarenga Peixoto. 3 . préromântica. mas antes de autonomia literária. cuja obra foi realizada e divulgada no último quartel do século XVIII.admitindo ainda . 1941. convertidas em atitudes perfeitamente préromânticas. Rio de Janeiro.aos primeiros limites (1768-1795) sugeridos por José Veríssimo com as figuras destacadas de Cláudio Manuel da Costa. o rigor da visão histórica de conjunto.4 ed. Coimbra. numa interpretação ampla. um romântico carregado de elementos neoclássicos sempre vigilantes. proclama a existência do Romantismo em Portugal. Essa primeira fase . publicação das -Obras Poéticas de Cláudio Manoel da Costa. predominantemente neoclássica.merece revisão. mas sob muitos aspectos pré-romântico. duas fases do Arcadismo no Brasil. 1939.a consciência critica da renovação romântica de sua literatura. limitando-o de 1768. corresponde . José Basílio da Gama. II. 34 de Romantismo.2 Reconhecem os historiadores de literatura portuguêSa. Herrtâni Cidade. à semelhança do que vemos entre nós com Gonçalves de Magalhães. sobretudo se o apreciarmos sob a visão geral da evolução dos temas na literatura brasileira. A primeira fase predominantemente arcádica. e de transição do ponto de vista histórico. . bipartese. outra. A Noite.' realmente .' Manuel Inácio da Silva Alvarenga. Aquilo que José Verfssmo estabeleceu como período a que se pode reconhecer um carátE# de transição. definidamente neoclássicas. certas premunições românticas em alguns de seus representantes. presente no Arcadismo e no Pré-romantismo do Brasil. nessa época. mais amplo.

. de resto paisagem de sugestão física simplesmente motivadora de exaltação nativista - . apreendermos o duplo sentido que entrevemos. É exatamente o estudo dessas transformações radicais. José Veríssimo. de mais ampla sugestão do que a data literária. leva-nos à impressão desoladora da ausência quase 4 v. nessas condições. passa a ser uma data mais sugestiva. Veríssimo só indica datas. Então. na pesquisa do sentimento. pp. precisamente. interdependente. para explicar a fase seguinte. e o marco de 1808. que se cultivou no Brasil-Colônia. tomando agora a data histórica. Torna-se possível. a segunda fase abre-se livre . que para aqui vieram em situações especiais. por intermédio de brasileiros ou filhos de portuguêses que podiam estudar em Coimbra. a 1808. limitada de 1808 a 1836. a partir do triunfo pleno do Romantismo entre nós. permanecendo além-mar.a variadas influências. tornada elástica para melhor favorecer a compreensão do processo histórico. mas interdependente.5 Reproduzíamos.deve limitar-se. de duplo sentido. A primeira fase está subjugada pela influência portuguêsa. do caráter. de 1768. . à sua história civil e cultural. a grande sedução que essa segunda fase oferece à compreensão de nossa formação. interdependente. do Uraguai) e 1795 (morte de Basilio da Gama). Uma rápida excursão no panorama da literatura. fica em posição de relêvo a segunda fase.. o que era o mais raro. o que a literatura e em geral a cultura portuguêsa podiam oferecer-nos.a ed. mima atitude de emulação servil. ou de português~s. História da literatura brasileira. a saber . sem qualquer explicação: 1769 (l.1808-1836 como marco divisor do colonialismo para a autonomia. dentre elas a portuguêsa. exclusivista do ponto de vista colonial e portanto constrangedora. sobretudo. De fato.35 total de Çondições indispensáveis à produtividade literária. estimuladoras. esquece qire a 1 â ed. 5 e 125 ss.a fase de 1808 a 1836. É justo o pequeno recuo. realizou a sua obra fora da paisagem de seu país natal. simultâneamente. da segunda fase arcádica. das ideais nacionais. como ficou assinalado. que lhe atribuímos.por extensão ainda denominada arcádica. é por excelência o momento de transição da condição colonial do Brasil para á conquista de sua autonomia. 1916. cujas datas ao mesmo tempo se fundem . interessando. Não foi mesmo excepcional o caso de brasileiro que. tôdas. Na verdade.1808/ 1836.porque os fatôres agora renovadores do nosso desenvQlvimerito geral assim o peumitem . das Obras poéticas de Cláudio é de 1768. donde o duplo sentido. que divide o colonialismo da autonomia. das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa. possibilitando a eclosão de uma literatura firmada numa consciência crítica que se expande e.

deve ser estabelecido não só pela contiriuidáde temática como também pela evolução do sentimento que caracteriza. Daí encontramos uma justificativa para aquela at~tude aparentemente hostilizadora da mentalidade. o de igualdade e o de superioridade em relação ao português. Briguiet. em especial no caso de nossa f~brknaçã literária. nossa formação colonial: o sentimento de inferioridade. a partir do Romantismo. Rio de Janeiro. 6 v. o jornal e a tipografia no Brasil (15001822). sugestões que ela forneceria às próprias criações literárias . na literatura. mas em outro tons. Primeiro. da pai5 v. em situação constrangedora por falta de condições propícias que nos foram negadas pelas conveniências da política colonizadora.posteriores. depois o balbuciar da consciência de nossas próprias possibilidades culturais. e l. universalizante. Capítulos de história colonial (1500-1800). o correspondente daquelas três fases que refere Capistrano de Abreu. reflexão e conseqüentemente de apreciável profundidade.como também alguns episódios relacionados com os contatos entre colonizadores e indígenas . 1946. Em Mltima análise. uma vez libertas.num momento em que não era possível qualquer sentimento nacionalista. na política. de possibilidades. desde que os primeiros rómântico~s tocarão nessa tecla. em geral. podemos reconhecer nessa atividade literária transplantada. descaracterizadora. tôda a nossa literatura. 1954. salvo sempre as exceções. a partir do Romantismo. ao apreciar 2. uma exaltação da paisagem e das possibilidades . Rio do Jan%uo Kosmos.á de volta penetrando adentro do Romantismo. carente de maturidade. . coi~n a intensidade de tôdas as fôrças até então contidas ou adormecidas por falta de estímulos. s De fato. responsáveis por l~tma obra numerosa. A cultura clássica. d~. Pode~zamos mesmo buscar Ira atividade literária do Brasil-Colônia. tão ' apare. tornár-se-Ê inevitàvelmente. rica de talento. o nexo da literatura da era autonômica com a da era colonial..ntemente opostas. é preciso registrar. Ç~u1os Riffiny O livro. uma esperança profética Nda grandeza do grande império que aqui se formaria.da terra. pelo vigor criador que ela apresenta desce o momento em que pôde expandir-se. Em todo caso. embora taml~ém. além do acúmulo de preciosos elementosN dados. sem falar dos estudos mais amplos no campo geral da cultura brasileira. mas. que não foram sòmente % restrições da política colonizadora que impediram o desenvolvimlènto franco das sementes formadoras de nossa nacionalidade literária nos tempos coloniais. Ç-apistrano de Abreu. nas ciências. o desenvqlvimento crescente do sentimento nativista.

36 sagem e . Antes de tudo. lembrassem o Portugal distante. condições favoráveis ao seu progresso geral.gerais da produtividade literária no Brasil. expressa no prólogo das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa e na própria "Rábula do Ribeirão do Carmo". pensou antes em criar. do ponto de vista político. é a presença transitória da côrte portuguesa no Rio de janeiro. a nós . . o perigo dê êsse corpo espoliado levantar a cabeça num gesto de libertação definitiva. ao lado de outras manifestações culturais e políticas. Certo também que em grande parte . E é a mudança radical das condições . social. antes lhe ofereceram instituições. e aqui delimitado de 1808 a 1836. na cidade pacata e atrasada que a abrigava. . não se cogitou do maior perigo. aqui como na Europa. quiçá com certa precipitação e muito de autosuficiência. a situação e as condições gerais que no Brasil-Colônia. a sua colônia ultramarina.o que nos abre o pensamento e a emoção para os ideais de liberdade. E todo êsse processo de transformação.das possibilidades literárias no Brasil-Colônia.o govêrno reconheceu o abandono geral votado à fonte principal do seu poderio econômico e ministros esclarecidos realizaram reformas. com todo o seu aparato burocrático e com tôdas as exigências dos padrões da fidalguia que a acompanhava. O que avulta. transitória. mas já espoliado e prenhe de revoltas e fôrças contidas.incorporado. identificando-nos com o movimento romântico.entremos no campo político. a obra de publicistas. nesse momento em que nos emancipamos. Mas não . socorrendo-se dêsse corpo ainda jovem. se fêz menção em nossa história literária.dica entre nós. para a pesquisa do caráter e da sentimentalidade de nosso povo. transição especial do Neoclassicismo.transição do colonialismo para a autonomia. assim compreendido histórica e literàriamente. econômico. os periódicos que então surgem contribuindo com pequenos ensaios para a formação da consciência crítica da literatura que se cultiva. quando se disse que êle. ou naquele mesmo Romantismo político de que já . impõe-se o -bosquejo das condições de nossa produtividade literária. cultural. Contudo. de nossa cultura em geral. precedeu o Romantismo literário. à expansão de suas reais possibilidades. num momento crítico em que periclitava a integridade da própria monarquia lusitana. arcádico para o Romantismo .é realmente o que constitui o_ Pré-romantismo brasileiro. o sentimento patriótico. tôda essa fase de transição . como primeiro plano do panorama que se segue. de início. É que a côrte. o primeiro em tôda a nossa literatura realmente assimilado. a obra poética das figuras centrais da segunda fase arcá.

e as conseqüências. a proteção ao comércio. hostil mesma. . acarretando transformações na vida social. a partir de 1808. as possibilidades para o comércio do livro. que se realizou. quando as atividades literárias foram predominantemente locais e limitadas.37 vação de Oliveira Lima. A abertura dos portos do Brasil ao contato franco com as nações amigas. profetizado pelo nativismo colonial e advogado pela literatura de exaltação ainda fértil na permanência de D. arquivos. museus. da política do monarca português e de seus ministros. de 1808 a 1821. do ato de 1822. ligado em vínculo realmente indissolúvel a Portugal. Portugal e Brasil. no sentimento e na mentalidade do povo brasileiro. a instalação de biblioteca pública. à indústria. . para um destino comum ? Verdade ou não. nada disto tivéramos em três séculos de vida colonial. Houve de fato uma precipitação. um êrro sério mas quase inevitável. de criação de uma universidade. antecipação irremediável. rais estrangeiras. a criação de tipografias. o cultivo da oratória religiosa" e das representações cênicas: tudo pela primeira vez devíamos às iniciativas esclarecidas do govêrno de D. o sonho se realizaria. no setor das artes e das ciências. numerosas. nessa oferta que se reverteu em presente de grego para os próprios portuguêses. Desenvolvem-se a mentalidade. imprevistas ou imprevisíveis. iludiram as intenções de qualquer forma simpáticas. a elevação do Brasil à categoria de reino unido a Portugal e Algarves. dos destinos comuns. exercícios que reproduziam a vida literária da Metrópole. na obser~. O certo é que nesse curto período. transformar de fato o Brasil-Colônia no império sonhado. na vida econômica. de que o fato literário de então existiu sòmente para os seus próprios cultivadores. convidadas e aceitas pela hospitalidade oficial. à agricultura. política. E aqui foi onde faltou previsão ou onde os fatos traíram. cultural. empreendidas aqui pela côrte portuguêsa. Ora. princípios de atividade editorial e da imprensa periódica. deixando ao mesmo tempo impressão estreita. João VI. criações de escolas de nível superior e até plano. as reformas do ensino. podemos falar de fatôres externos e internos da atividade literária. ao mesmo tempo o mais significativo de sua história. agora irmanados. como nos sugere Varnhagen. mas na separação definitiva. trabalhadas sôbre o substrato colonial. Agora. as possibilidades aquisitivas do brasileiro.Pensaria em manter-se aqui. João VI no Brasil. São demais conhecidas as reformas. o Brasil recebeu tudo o que não teve e que lhe fôra negado durante os trN séculos da era colonial. as missões cultu.

na história. uma revisão meticulosa e exaustiva de tôda a produção mental da época. é um peneiramentp paciente. as premunições românticas manifestadas até a implantação do Romantismo entre nós. João VI. contatos com o estrangeiro. capacidade adolescente de quem se basta a si próprio. através de uma reforma de sentido predominantemente crítico. intensa e complexa dá à vida mental do Brasil uma multiplicidade de caráter que é bem o prenúncio de sua definitiva emancipação. Iniciam uma obra voltada conscientemente para a nossa realidade política. nacionalismo e soluções políticas. é um rigoroso corolário ao clima criado pela administração do Príncipe Regente do govêrno de D. no jornalismo. tudo se converte. conduziram-nos a essa obra variada e desigual que. João VI não podia ao mesmo tempo oferecer a experiência que só o tempo acumularia. com a nossa sentimentalidade. e acompanham a onda renovadora da época não importa que em muitos casos sob os velhos moldes. ao mesmo tempo que reflete a efervescência renovadora da época. exigimos para nós o que nos cabe de direito. até certo ponto demasiado autosuficiente de sua capacidade. necessidade de encarar a realidade brasileira e a situação política de Portugal. procura-se o contato com o Velho Mundo. oferecidas pelas circunstâncias e também procuradas. trabalho que nem . A política reformadora de D. emancipada mas ainda imatura. São influências externas. No campo definidamente literário. a hostilidade a Portugal. Maria I no Brasil. estimuladoras. manifestam-se constitucionalistas e liberais. além fronteiras de Portugal. ao mesmo tempo que é o Romantismo ainda històricamente pressentido nos ideais de vida que coincidiriam com os nossos anseios. Estabelecimentos tipográficos. comércio do livro. Os homens públicos da época são também os representantes de nossa cultura. sobrar tudo porque aquela reviravolta intensa do período de D. històricamente. E a exaltação patriótica. que encara a realidade 1-(*cional que o envolve. Estabelece-se um regime de intercomunicabilidade no país. discutimos os nossos destinos. que surpreende um sentimento próprio que desabrocha. João VI. sugestivas. na preparação da ambiêricia propícia à aceitação do Romantismo. na literatura. O que é preciso. biblioteca. logo mais D. a volta para os ideais libertadores e de liberdade do espírito são próprios da jovem nação. de 1808 a 1821.o interêsse consciente pelos seus próprios destinos. 38 Em síntese. na ciência. que atuam sôbre as possibilidades de um pensamento que se abre pela primeira vez. forma-se uma elite representativa de sua vida política e cultural. para avaliar-se exatamente o sentido de tudo. mantém compromissos com o colonialismo e conspiram pela autonomia definitiva.

porque cria a ambiência para a aceitação da cultura romântica. que se contam. de José da Silva Lisboa. ultrapassando-se aqui o conceito puramente literário de Pré-romantismo. literatura. o conhecido Marquês de Maricá. de 18151830. Nac. como membros de suas duas primeiras juntas diretórias. nos fornece o roteiro inicial para apreciarmos. o conjunto dessa atividade mental. matemáticas. da oratória. dos Anais da Imprensa Nacional .. a fim de melhor . Rio de Janeiro.sequer se aproxima ainda da contribuição inicial da fase monográfica. entre outras. filosofia. foram feitas cêrca de 1251 publicações. apresentando-se como seu primeiro diretor. Silvestre Pinheiro Ferreira. engenharia. as generalizações existentes carecerem de seguro fundamento e até parecerem suspeitas. acompanhando o nosso desenvolvimento político e cultural. João VI no Brasil. e em outras tipografias particulares estabelecidas no fim dêsse período. do teatro. São figuras como as de Mariano José Pereira da Fonseca. na Impressão Régia. Anais da Imprensa Nacional do Rio de Janeiro de 1808 a 1822. Tip. em particular literário. as conclusões. pronunciamentos políticos. de 1830-1834. feito dentro de segura orientação histórica. agricultura. e a da vigilância esclarecedora e orientadora da imprensa periódica. De 1808 a 1822. é preciso aqui levar em conta todo. de divulgadores de pensamento filosófico. de Alfredo do Vale Cabral. por exemplo. da literatura em geral no seu esfôrco inicial de afirmação. etc. Januário da Cunha Barbosa. trabalho preliminar de pesquisa. Daí. de 1808-1815. 1881. Encontra-se de tudo que traduz a situação geral 7 A. num estudo mais aprofundado que ainda está para ser. Que há de definitivo sôbre o pensamento da época que não seja visto com certa displicência ou com a pressa dos julgamentos generalizados ? Um exame rápido que se faça. gramática. Januário da Cunha Barbosa. criada pelo Príncipe Regente em 1808 e que passou a ser a Imprensa Nacional. Só o repassar daquele repositório bibliográfico citado. 1154. Manuel Ferreira de Araújo Guimarães. abrenos os olhos para as sugestões sérias e criações de possibilidadeRs definitivas do período de D. 7 uma vez pôsto em confronto com o acervo da cultura colonial e relacionado com a renovação aberta e fecunda a partir da implantação definitiva do Romantismo no Brasil.do Rio de Janeiro de 1808 a 1822. incluindo-se periódicos. E por isso mesmo há que insistir: é período pré-romântico. moral. à frente da Impressão Régia. e o pensamento da época: medicina. do Vale Cabral.. geografia. as contribuições de publicistas. economia política. só na Impressão Régia. do balbuciar do pensamento crítico. direito. Qualquer que jsçja o critério do historiador de nosso literatura. o famoso Visconde de Cairu. política.

ministro de D. .Corografia Brasílica. publicadas em livro. deve sua fama às Máximas. de quem já ocupei-me". Marquês de Maricá.. de 1849. Cairu (17561835) . José de Sousa Azevedo e Araúio . 1850. Avulta o nome de Mariano José Pereira da Fonseca (1773-1848) . a figura sugestiva de Silvestre Pinheiro Ferreira (17691846)~. por ordem do Conde de Resende. Vieram posteriormente as Novas reflexões. e só depois foram reunidas em volumes. e as últimas máximas. Principiou a publica-las nas páginas do periódico O Patriota (1813-1814). logo mais continuados por Frei Francisco de Mont'Alverne.esclarecer o panorama da afirmação romântica e autonômica de nossa literatura. para o Brasil. e a Cosmologia (1813) . há algumas postas em música pelo padre José Maurício Nunes Garcia. edição revista e aumentada pelo Autor. suas composições poéticas nunca se fez coleção. pensamentos e reflexões. da Silva Alvarenga. a propósito da atividade poética do Marquês de Maricá escreve: "De . ao lado de M. João VI.Anais da Capitania de S. pensamentos e reflexões. quando extinta. Foi tudo reunido sob o título Coleção completa das máximas. com a obra de Nuno Marques Pereira e de Matias Aires Ramos da Silva de Eça. E a figura 8 Mariano José Pereira da Fonseca (1773-1848). Rio de Janeiro. aumentada c~ máximas. Pereira da Fonseca estêve ligado à Sociedade Literária do Rio de Janeiro. São Aires do Casal . pensamentos e reflexões publicadas em 1844 e 1846 e com as últimàs máximas. com o movimento academicista. o moralista das Máximas. Pensamentos e Reflexões. a Estética. 1839 e 1841. 8 que pode ser 4proximado á tradição de raízes coloniais. p. exatamente por se considerar suspeita a atividade da agremiação. pensamentos e reflexões. de 1846. São as traduções do Ensaio sôbre a Crítica e dos Ensaios Murais de Alexandre Pope.Memórias Históricas do Rio de janeiro. com quem foi preso. direito mercantil. autor de numerosa bibliografia sôbre assuntos econômicos. Novas máximas. 239). Visconde de . I. de 1844. no capítulo "Predecessores do romantismo". Sacramento Blake (Dicionário bibliográfico brasileiro. de resto. é a tradução da História do Brasil de Afonso de Beauchamp. o critério de José Veríssimo ao falar. José Feliciano Fernandes Pinheiro . pensamentos e reflexões (. feitas pelo Conde de Aguiar. em 1794. pensamentos e reflexões. que certamente evidencia o grau desses estudos entre nós. Pedro. VI. Foi este. máximas e pensamentos. centralizadora de José da Silva Lisboa. dos chamados publicistas do período em apreço.. são as Memórias para Servir o .). o autor das Preleções Filosóficas Sôbre a Teórica do Discurso e da Linguagem. a Diceósina. em 1833. em três partes. problemas de importância econômica e política.

ao lado de outro pregador igualmente famoso. José Joaquim 9 Sôbre o. A missão artística de 1816. 2. professor da cadeira de eloqüência do Seminário de S. Rio de Janeiro. J.a ed. 1911. S. Carlos (1768-1829) . Oração sagrada. Maria da Glória. Dom João VI no Brasil. 1955. 11 De Januário da Cunha Barbosa: Sermão de ação de graças pela . instruído por D. fundador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Cia. fundada por D. ibidem. 3 vols.. 1° Também o Cônego Januário da Cunha Barbosa (1780-1846) que avultaria em nossa história literária por outras contribuições.. Frei Francisco de S. Paio (1778-1830) . . divulgador da poesia colonial. como Frei Francisco de. João VI manifestou pelas cerimônias e pelas representações cênicas. na Impressão Régia. Ed. 9 Ficou conhecido o gôsto que D. Paulo. Perereca: . o Pé.princípio da extensão dêsses estudos que se intensificariam com a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) . aperece como autor de sermões que o colocaram em evidência. etc. F. recitada no dia 7 de março de 1809 na Capela Real. João VI. Almeida Prado. S. ver: Oliveira Lima. etc. Rio de Janeiro. ainda que sua história seja um tanto periclitante. José. alargando ao mesmo tempo a vida social da época. embora saibamos da existência apenas de três dos seus sermões publicados na época. Afonso E. Taunay. Nac. 1816. Oração fúnebre (. Olímpio. Maria I. poeta de acentuado nativismo. o poeta religioso da Assunção de Nossa Senhora. como já se disse. ) nas solenes exéquias da senhora d.Reino do Brasil (1825). MDCCCIX. Carlos: Oração de ação de graças. pregador da Capela Real do Rio de janeiro. ibidem. sem falar na preciosa contribuição dos visitantes estrangeiros francamente aceitos em nosso meio. quebrando a pacatez. 18201821. 10 De Frei Francisco de S. do velho viver colonial e sustando os hábitos de reclusão. que na solene ação de graças pelo muito feliz e augusto nascimento da sereníssima senhora d. foi orador sacro de fama. J. na observação do famoso Padre-Mestre. Rio de Janeiro. consagrado pela tradição. 1819. 11 Integram um clero brilhante e distinto.. alguns integrando missão cultural de amplo programa. dia aniversário da feliz chegada de sua alteza Real a esta cidade. . 1945. de Luís Gonçalves dos Santos. assunto. Verificou-se assim o surto da oratória religiosa que prenunciou a figura de Frei Francisco de Mont'Alverne e podemos dizer que a implantação definitiva do teatro no Brasil. etc.. Tomas Ender.

e fora do país. . Oração de açdo de graças (. excedem-se em brilho. quando a cegueira o levou ao recolhimento. E êsse famoso orador sacro brasileiro. . religiosa e patriótica. . . MDCCCIX. João VI. encontra de fato suas raizes na ação educadora de Mont'Alverne. conforme depõe Mont'Alverne: Era a época dos grandes acontecimentos. pressentida já na época e atestada pela própria obra de Mont'Alverne. de acidentada história.. ofereciam amplos materiais à eloqüência do púlpito. etc. ainda sob êste aspecto deixou a sua marca no Romantismo brasileiro. e os sucessos. estendendo a sua carreira de .pregador até 1836. uma visão sucinta do sentido e do valor da oratória de então. devia realizar todos os prodígios. . etc. a doçura e a amenidade da expressão aumentava os encantos e a magia da ação. etc. Nós podemos afirmar com todo o orgulho da verdade. ibidem. é o ponto de partida da oratória legitimamente brasileira. que nenhum pregador transatlântico excedeu os oradores brasileiros. A poesia de Deus e Natureza. Discurso no fim da missa solene do Espírito Santo celebrada na Igreja dos Terceiros Mínimos. uma observação de particular interêsse para a história da estética romântica no Brasil. 1821. Discurso no fim da missa solene do Espírito Santo.ibidem. Foi sòmente com D. João VI que tivemos o Real Teatro de São João (1813) .12 Eis um depoimento que é ao mesmo tempo uma apreciação crítica. de sabor acentuadamente romântico.. ) celebrando-se o quinto aniversário da chegada de s. É o princípio da. .. A riqueza da dição reunia-se à pureza do estilo. espiritualista. etc. celebrada na Real Capela. Rio de Janeiro. na Impressa régia. Oração de ação de graças (. Oradores consagrados e jovens pregadores nessa atmosfera favorecida pela paixão do púlpito em D. Oração de graças ( . Surgiu em 1816. que se reproduziam dentro.. a. 1813. ibidem 1818. Assim verificouse êste pensamento de um escritor francês: "Que a língua de Camões. ) Justiniano Mascarenhas Castelo Branco. r. e tôdas as seduções da Harmonia". . sugestão que a palavra passa a exercer pela sua musicalidade. e à fôrça da argumentação: a para que não faltasse uma só beleza. 1821. responsável que foi pela formação religiosa e em parte filosófica de Gonçalves de Magalhães. a rigor o nosso primeiro edifício público de teatro condizente . de maneira geral. de sentimento nacionalista bem desenvolvido.restauração do Reino de Portugal. ibidem. de Magalhães e Pôrto-Alegre..) o décimo aniversário da chegada de sua majestade a esta cidade etc. ) celebrando-se (. . pronunciada por um brasileiro. Professor de teologia e de filosofia.

. que na. mas entendida em todos os aspectos que a for12 Frei Francisco de Mont'Alverne. . etc. solenizando-se ( . a história do teatro no Brasil data dos tempos. Garnier. MDCCCXXII . De fato.. do romance de Bernardin de Saint-Pierre. Oração fúnebre pelos mortos.Frei Francisco de S.. Nac. ) a Constituição lusitana. em traduções de autores estrangeiros. quatro orações fúnebres. Imprensa Nac. em memória dos dias 24 de agôsto. Datam de 1810 a primeira edição brasileira de Marília de Dirceu. Paio ainda redigiu. A atividade literária estende-se por outros setores. realmente a partir da permanência fecunda do Príncipe Regente entre nós. . Rio de Janeiro. 1812 1817. Nova ed. Rio de Janeiro. sobretudo na preparação do gôsto e na dignificação da atividade cênica. Tip. na Tipografia Nacional.. na tradução de Tomás de Aquino Belo e Freitas. Paio encontram-se publicadas. prenunciando certo refinamento. 1 f igênia e Fedra. etc. prosa e poesia. m. e 15 de #embro de 1820. em especial o "Discurso preliminar" (1. Paulo e Virgínia (tradução de Bocage . público. Rio de Janeiro. . ). pp.. Nacional 1821. e Sermão. Obras oratórias do Padre Mestre (. 1822. além dos seguintes: Sermão de ação de graças. . na Imprensa Nacional. . as Obras Completas e traduções de Bocage. 1822. etc. peça. repre sentação. que. ao mesmo tempo que a Henriada de Voltaire. Antecede-se a obra definitivamente reformadora de Gonçalves de Magalhães. MDCCCXXII. feitas respectivamente por Antônio José de Lima Leitão e Manuel Joaquim da Silva Pôrto. em edições e reedições de autores portuguêses e brasileirots. Representam-se então peças originais e traduções e. s/d. . respectivamente de 1810. i. companhia de atividade regular. João Caetano e Martins Pena. . etc.. mam.cerimônia da sagração e coroação de s. Sermão de ação de graças pela prosperidade do Brasil..V. ) o primeiro aniversário do juramento ( . a segunda edição do Uraguaà de Basílio da Gama. V-XX). coloniais. com Antônio José da Silva Loureiro. só se esboça. no cultivo da poesia. 2 vols. que foram assassinados na cidade da Bahia recitada na augusta presença de sua alteza real o príncipe regente constitucional etc. autor. na Impressão régia. De Frei Francisco de S. edifício. o periódico político O regulador brasílico-luso (a partir do IL O número passou a denominar-se 0 regulador brasileiro de 1822-1823). 1817. Rio de Janeiro. na Tip. Rio de Janeiro. publicamse as Obras Poéticas de Correia Garção..com essa atividade que passa então a ser estimulada. encontramos até traduções de Racine.. Rio de Janeiro.

Frei. em tudo isso. embora sentimento e ideais da época estejam literàriamente sugeridos. A Infidelidade Vingada. Antônio Pereira de Sousa. de raízes portuguêsas. ainda na tecla do verso laudatório .?). em livros. até mesmo Romantismo e o despontar da literatura folclórica. como todos os demais presos à formação arcádica de fins do século XVIII. traduzidas por Antônio José de Lima Leitão. em opúsculos. já por ocasião da Independência. Triste Efeito de uma Infidelidade. Antônio Pereira de Sousa Caldas. evidente testemunho de fontes pré-românticas.mas que se sobressairia pelo lirismo amoroso ainda vazado em linguagem arcádica. encomiástica à maneira da. Francisco de . com nomes brasileiros como os de Pereira da Silva. Castigo da Prostituição.o que de resto se manteve freqüente . pré-romântica. Autores portuguêses. Traduzem-se os romances tradicionais: História da Donzela Teod. além de outras sem qualquer indicação: Amante Militar. Metusco ou os Polacos. a. mistura de Arcadismo. Gonçalves de Magalhães. Varnhagen. de 1836 em diante. As Cantatas de João Batista Rousseau. Lausus e Lídia. Difunde-se. Martins Pena.ora. algo galante a prenunciar Maciel Monteiro. tradição colonial. Joaquim Norberto até Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. As Duas Desafortunadas. ademais. num gesto galante de Domingos Borges de Barros. Evaristo Ferreira da Veiga (1799-1837) compõe e divulga composições de clara exaltação patriótica. O Bom Marido. Caldas. a tradução de O Merecimento das Mulheres de G. A Cadelinha pelo Autor do Piolho Viajante. Legouvé. Principia o gôsto da literatura de ficção. num. la atitude principiada pelo Pé. Se tôda essa produção poética oferece real interêsse para o historiador e um mínimo de emoção para o leitor. de maneira geral. e pelas traduções ou paráfrases dos Provérbios de Salómão e de O Livro de Ió. a nossa atenção pode ser concentrada em três ou quatro poetas. É um gôsto que continuaria até as manifestações verdadeiramente iniciais da nossa ficção. Justiniano José da Rocha. Préromantismo. nativistas e também patrióticas. História Verdadeira da Princesa Magalona. com traduções francesas (trazem simplesmente a indicação "novela traduzida do francês") de novelas com esses expressivos títulos que por si sós falam de uma antecipação romântica: O Amor Ofendido e Vingado. 14 como outros. É José Elói Otôni (1764-1851). mas com premunições românticas e obra divulgada no decorrer das três primeiras décadas do século XIX: Pé. Há. em revistas. Combate das Paixões. copiosa produção poética de brasileiros e portuguêses que aqui se encontravam. reflexo do sentimento nacionalista que se intensificaria e sie caracterizaria com os românticos. brasileiros e estrangeiros integram o clima do momento.rcádica. A Boa Mãe. que tanta influência exerceria em românticos de relêvo. O Amigo Traidor.

tinha conseguido copiar algumas cart#. 1852. em Roma. IV.. e jul. 409-411. Antônio de Sousa Dias. Paris. dados à luz pelo sobrinho do defunto poeta.. tomou ordens... G. Regressou ao Brasil. bibliog. Rio de Janeiro. por iniciativa de seu íntimo amigo Francisco de Borra Garção-Stockler.. pp. Stockler. lê-se. pp. ló. bras. 144-148 e 216-221. estudou na Universidade de Coimbra. Obras poéticas.15 13 De José Elói Otôni: Paráfrase dos Provérbios de Salomão. Antônio Pereira de Sousa Caldas (1762-1814) foi aos oito anos para Lisboa.. na Oficina de P. Antônio Pereira de Sousa Caldas. Obras poéticas (. que desgraçadamente se perdeu sendo levada para a Europa a fim de imprimir-se. porém o Sr.. Poesias (in Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.8 ed. em verso português. etc. 1820. Antônio de Sousa Dias sobrinho do mesmo Caldas. n. Imprensa de Trovão e Cia.. 1872. José Bonifácio de Andrada e Silva e Domingos Borges de Barros. com as notas e observações de seu amigo o Tenente-general Franco de Borja Garção-Stockler.S... Antônio Pereira de Sousa Caldas.de J. autógrafo.) com as notas e aditamentos de F. 2. 15 Do Pe. XXXIII. 145-331).. publica duas Cartas de Sousa Caldas. etc. O livro de ló. Pereira da Silva (Varões ilustres do . 1841. etc. de 1820-21. Rio de Janeiro. Bahia.. etc. Rio de Janeiro. de publicação póstuma.. nem mesmo hoje possuirfamos as Poesias que foram impressas em França". antes. à imitação das cartas de Montesquieu. Leite Ribeiro. 1821. à p. onde. traduzido em verso. e felizmente o nosso consócio o Sr. Hist. . 1923.. Tomo segundo: Poesias sacras e profanas (. foi orador sacro de renome e dei-. Dic. e Geog. 1911. e dados à luz pelo sobrinho do defunto poeta tradutor. Carlos.A Revista do Inst. 2 â ed. xou apreciável obra poética. ibidem. L lástima que se perdessem as produções de tão ilustre brasileiro e se não fôssem os esforços de seu sobrinho. N.. 14 . Rio de Janeiro. de B. Oficinas gráficas da Biblioteca Nacional: 1915. . Elói Otôni: Sacramento Blake. 144. III. do Ms. Poemas sacros (. Rougeron. 1836.Evaristo Ferreira da Veiga.). Tomo primeiro: Salmos de Davi vertidos em ritmo português pelo Revdo. Rio de Janeiro.) nova edição para uso das escolas públicas da instrução primária do Município da Côrte.os 9 e 10 (abr. 1841). outras produções.) com as notas e aditamentos (. O Pé.. V. Coimbra. 1815.: Atafde Moncorvo pôde obter a cópia das ditas cartas. completou a sua formação em viagem à França e à Itália. Vol. e as oferecer para a biblioteca do Instituto. Bras. a seguinte nota: "O Padre Antônio Pereira de Sousa Caldas tinha composto uma obra.

narrativa e epílogo. publicado pela primeira vez em 1819. renega-o ao mesmo tempo. de Rousseau. pp. se se apresenta ligado ao estilo mitológico. de filosofia e de religião. deve ter sido também figura central de um grupo que se reunia na época em tertúlia literária. Está prêso à tradição camoniana e modelou-se como êle mesmo o diz. 197-208) informa. II.que lhe deu reputação em nossa história literária. Escreveu em forma predominantemente tradicional. constituída a narrativa de episódios que obedecem à ordem normal dos fatos. a consciência literária que teve da teoria da bondade do homem primitivo. portanto. a poesia religiosa que se alastra na obra de Gonçalves de Magalhães.. invocação. Talvez mais discutível seja. O assunto principal é a assunção da Virgem Maria. em Sannazaro.composto em honra da Santa Virgem. Paulo e Minas Gerais. a sua glorificação. à p. hinos. entre outras atitudes. Mas. Não é só influência da Bíblia. poeta que muito o admirou. 1868. à semelhança de 16 Melo Morais Filho escreve que "é tradição no convento de Santo Antônio desta Côrte ter aí existido. traduções dos Salmos de Davi. que teria deixado copiosa produção poética hoje ignorada. o primeiro a divulgar uma interpretação que marcou o nosso Romantismo. em particular. franciscano que teve a sua formação em sua terra natal. em que se entrevê o sentimento de Deus e Natureza e a intenção moralista.Brasil. como se indica. que Sousa Caldas "compôs tragédias. 208. e cuja maior parte não chegou ao nosso tempo". Pende. sermões. cantatas. composições de inspiração religiosa. o Rio de janeiro. em têrmos renovadores. dedicatória. uma espécie de arcádia. como se vê pela "Ode ao homem selvagem". predominantemente para o tradicional. vol. Rio de Janeiro. uma arcádia. dêsse ponto de vista pré-romântico. como de resto Rousseau foi presente em todo o Romantismo europeu. 44. 3 â ed. Compõe-se de oito cantos escritos em versos decassílabos de rima emparelhada e estrofação livre e com divisão em partes perfeitamente reconhecíveis: proposição. Garnier. is Foi o seu poema religioso A Assunção -. o que coloca Sousa Caldas no movimento pré-romântico brasileiro. de onde só se deslocou para S. e obras de crítica. que' conheceram os seus contemporâaeos. certo que por influência de seu espírito religioso. no século passado. E. Carlos (1768-1829).17 . a exata posição de Frei Francisco de S. de fins do século XVIII. Pregador de grande fama. havia mesmo uma espécie . composições que exprimem o progresso.

nova ed. e precedida da biografia do autor e dum juízo crítico acêrca do poema pelo cônego dr. o culto da Virgem tão da tradição da poesia colonial. Imprensa Régia. Bernardo de S. Pulquéria. Rio de Janeiro. ed. pp. 15561840. vol. Inácio das Mercês Malta. I. da sensibilidade e de certa consciência inovadora. portador de vasta cultura. Eulália e Francisco de S. correta. Dionísio de S. Garnier. fugi: que é crime Mancha-la da falaz mitologia. Rosália. Raimundo Penaforte da Anunciação.de outeiro". na verdade exprimem atitudes tradicionais com prenúncios renovadores. deixou também uma obra em prosa que esclarece o seu pensamento político. 17 Frei Francisco de S. Francisco de S. E aponta. Carlos havia corrigido o seu poema. pois pediam por elas "uma quantia relativamente fabulosa". Proscrita sem mais templos. 1819. Informa Fernandes Pinheiro que. 296-313 e 14 das "Notas e comentários". J. XLIV). Garnier. foram José Bonifácio de Andrada e Silva e Domingos Borges de Barros. como representante dela. a qual ao . a esperança numa grandiosa monarquia lusobrasileira. num mundo de pecados. Banida já das terras. Antônio das Neves. V. nem altares.Wme mundial. sôbre a edição de 1819. certo sentimento de natureza.) Rio de Janeiro. nota 10.verdade. Francisco das Santas Virgens Salazar. mas infelizmente não pôde obter dos herdeiros do poeta as correções que êle havia feito. o seu interêsse por problemas brasileiros. Poema composto em honra da Santa Virgem (. 1885. a idolatria. Rio de Janeiro. o nativismo "luso-brasílico". A Assunção. dos quais dá uma seleção de poesias. 1862. prenunciando uma atitude romântica. á morte como refúgio. Francisco da Candelária. de sentimento antilusitano. a questão dos índios e da escravidão. em vida. por exemplo. Gonçalo. Inácio de S. cit. . S. emri= bora sem a consciência crítica: Fugi do canto. Século XVI-XIX. Com que a filha do Caos. e dos marés. Úrsula Rodovalho. C. consoladora. Mais poetas do que os dois últimos. Gonçalves de Magalhães. Parnaso brasileiro. refletidos mui diretamente na poesia e na orientação religiosa e filosófica de Gonçalves de Magalhães. idem. cientista de ren. Fernandes Pinheiro. Inda quer ostentar de majestade Nas inóspitas aras da . os franciscanos Antônio de S. nesse caso. no sentido mesmo da criação literária. O Patriarca da Independência (*) . V. ó fábulas vãs.divinal.. Carlos. p..18 e uma obra poética elaborada da mocidade à fase do exílio em Bordéus. famoso pela sua ação política. revestidas naturalmente. Carlos. a Arcádia Franciscana Fluminense. Vós. (V.sublime. E o sentimento religioso de atitude moralizante.

Alemanha. Brasil. Rio de Janeiro. c/ pref. Bibliografia: Poesias avulsas de Américo Elísio. S. J. foi publicada a 2.Se a formação do poeta é coimbrã. os seus estudos e sua sensibilidade foram ampliados em contatos com a Europa . . Sob a denominação de Poesias Avulsas de Américo Elísio. Buarque de Holanda. José Bonifácio. manteve' contato direto com o Pré-romantismo europeu. O pensamento vivo de José Bonifácio. na "Dedicatória" das Poesias Avulsas. Afrânio. não precisa. Buarque de Holanda. pré-româlntica e voltada para a realidade política brasileira que o (*) José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos. 1763 . S. saiu uma ed. 1944. porque a nossa bela língua. Arq.França.até que em 1819 regressou ao Brasil. embora sob a pressão. Inglaterra. (in Rev Inst. absolutamente falando. ed. 1944. bem como a inglêsa. 1846. de sua formação arcádica. S. 116-140). Patriarca da Independência do Brasil.Niterói. 1942. S. Livro reeditou-a. 1938. em cuja universidade foi professor. Santana. Nuno. Olímpio. Itália . publicação da Acad. de S. Hist. Apurou assim o seu gôsto literário. que o leitor fàcilmente percebe. Figueiredo Neiva Resumo biográfico de José Bonifácio. Prefácio às Poesias. em 1825. por Joaquim Norberto de Sousa e Silva. 18 v.. S. Brasil. O. pp. Hist. Otávio .mesmo tempo é accádica. Martins. facsimilar. foi -publicada mesmo em Bordéus. Rio de Janeiro. O certo é que pôde escrever.a ed. Geogr. E. 1946. Prefácio às Poesias ed. 1942. Ramo de louro. Em 1946. Peixoto. Paulo. Consultar: Barbosa Lima Sobrinho. José Bonifácio (in Rev. o Inst. em 1825. Paulo. espanhola e italiana. J. por Otávio Tarquínio de Sousa. a propósito de seus versos: Fui nêles assás parco em rimas. Martíns. 1945. 1938. de Letras. para ser exilado em 1823 e retornar sòmente em 1829. A prosa foi coligida em: O pensamento vivo de José Bonifácio. 173.Taìquínio de Sousa. por Afrânio Peixoto. idem. 1938). 1838). n. Geogr. envolveu. Mun. Paulo. Inst. Brasil.° 46. VIII. Elogio histórico de José Bonifácio (in Rev. Em 1942. Pongetti. José Bonifácio. Em 1861. Paulo. Tarquínio de Sousa. do zum-zum das . 662#81). Nac. 1825. Silva Maia. pp.

José Bonifácio é bem um poeta de transição.deleitar o ouvido. a exaltação das virtudes. O seu. escrevendo odes anacreônticas. o culto da amizade.. dos versejadores nacionais de freiras e casquilhos. certo não acharás o menor sabor épico nos que ora te ofereço.consoantes para fixar a atenção e . isto é. Píndaro. verdadeira atitude crítica. fuja desta minguada rapsódia. sobretudo o sentimento patriótico e . sensual. confirmado pelo conteúdo geral de sua poesia. Tradutor de Walter Scott. para descargo de minha consciência. o que ganhou corpo e importância crítica com Alencar. morramos . Young. que seguem à risca franceses e italianos. Quem folgar de Marinismos e Gongorismos ou de Pedrinhas no fundo do ribeiro. Desde a "Ode à poesia". o de Gonçalves de Magalhães. pouco depois. Rousseau. basta-lhe o metro e ritmo: e quanto à monotônicalregularidade das estanças. um préromântico. a qual merece destaque dada a sua intenção patriótica. datada ainda de 1785. sente-se em José Bonifácio o sôpro das premunições românticas. a altivez se confundém com os ideais de pátria e de liberdade.. a ponto de nos evocar os ardores e a audácia de expressão de certos românticos Deixa com beijos abrasar teu peito: Une-te a mire. cisnes da Inglaterra. até as últimas composições. Ossin. impregnado de Voltaire. ou pelo menos os cantos da soberba Aibion. entre elas a "Ode aos naianos" e a "Ode aos Gregos". em que o orgulho. ardente. ou folheado as composições gregas e latinas. e da Germânia culta. usando da mesma soltura e liberdade. parafraseando a Bíblia. como de febre amarela. Para que mais claro pronànciamento de uma atitude inovadora ? Temos aí um perfeito manifesto pré-romântico. Devo prevenir-te também. alusões um tanto veladas à poesia laudatória da época. Byron. com indicações mesmo de fontes primordiais do nosso Romantismo. primeira expressão -evidente dêsse traço predominante de nossa poesia. sentimento de liberdade. que nos restam. e com preocupação de vocabulário que nos lembra o ideal de "estilo brasileiro" de Salomé Queiroga e. como traduzindo Hesíodo. lirismo amoroso. que se de antemão não tiveres saboreado as poesias. como Scott e Byron. além de sugestões estéticas. que vi novamente praticados por um Scott e um Byron. a que damos hoje o nome de Antigo Testamento. dela às vêzes me apartei de propósito. que fazem a parte aestethica da antiga Coleção hebraica.o seu sentimento da natureza quase identificado com os estados de alma. Virgílio. citando Pope e Newton.

É importante.. V. 112). a maior parte dos quais só tiveram por testemunha o Impe rador e o autor". Domingos Borges de Barros (1779-1855). XIII.a • palmeira que. o aperfeiçoamento de seus estudos. 112 115. Um. intitulado "Sonho". . já em 1825. e o terceiro. de Drummond à sua biografia (in Anais da Biblioteca Nacional. 19 Antônio de Meneses Vasconcelos de Drummond escreve ter sido portador de três poemas de José Bonifácio. versos soltos: "O assunto dêste poema era a dissolução da Assembléia Constituinte e a sua prisão e deportação. que. Os altos topos da floresta espessa: Tal bem presto há de ser no mundo nôvo O Brasil bem fadado. estudou em Coimbra e buscou em contatos com o restante da Europa. V ol. Gabriel Legouvé. 1 20 De Domingos Borges de Barros: O merecimento das mulheres. V. sobretudo Paris. 2° Numa comparação rápida. outro. o segundo quase todo de poesias traduzidas. quando publica. em princípios do século. destacada. um poema em oito cantos. enriquecido de vários episódios onde se revelavam com os ornamentos poéticos acontecimentos que diziam respeito à Independência. por um baiano. pp. Rio de Janeiro. Baianos. do Instituto de França. • nobres. Gratos serão a quem lhes deu socorro Contra o bárbaro Luso. Deu-lhe o título galante de Poesias Oferecidas às Senhoras Brasileiras. ao lado do seu contemporâneo Domingos Borges de Barros. e briosos. 19 Como José Bonifácio. lá mesmo. domina' ufana.já parecem atitudes suficientes que confirmam a posição pré-romântica de José Bonifácio. "Amôres da Mocidade". dos quais dá noticia. Cit. encerrando-se com o primeiro canto do poemeto "Os túmulos". do Rio de Janeiro. Anotações de A. a sua primeira obra poética. para onde regressou em 1811. a permanência de Pedra Branca em Paris. no conjunto do gôsto da época. da p. a quem o Luso Oprimia sem dó. Os teus. . e pouco depois da Independência do Brasil. recebeu o título de Visconde de Pedra Branca. e lamenta a perda dos manuscritos que ficaram em seu poder. e a -independência Da doce cara pátria. de aperfeiçoar-se para ser útil à Pátria. Traduzido do Francês. e pelos contatos com o Pré-romantismo europeu. sob êsse duplo aspecto. pelos serviços diplomáticos prestados ao Brasil depois da Independência. com riso e môfo Eis o meu crime todo.os ideais de liberdade Amei a liberdade. Qual . 1885-1886. e a liberdade Meteu no solo escravo. onde viveu alguns anos. e conviveu com Felinto Elísio. Poema de M. M. muitas delas de poetas pré-românticos europeus. era uma epís tola política. Forma dois volumes.

das Poesias. essa preocupação de ilustrar a Pátria. divulgado em 1825. uma das correntes de inspiração mais intensa dos albores do Romantismo europeu. A exaltação da vida campestre. Tipografia de Carlos Poggetti. da amizade. Os túmulos. ó noite. como se lê na "Epístola" a Paulo José de Melo Ansioso pela pátria. de modo geral. Poesias oferecidas às senhoras brasileiras. como já vimos. publicados em O Patriota. MDCCCXXV. a pátria busco Quais dela são meu braço. tendo sido o segundo editado sòmente em 1850. ed.dão a êste poeta uma posição que realmente o distancia das atitudes ou intuitos da poesia anterior e o aproximam dos ideais românticos.$ ed. faz parte do 2 ° vol. além do lirismo amoroso um tanto prêso ao Arcadismo. além dos seus próprios estudos. antes e depois da Independência. não . . do ponto de vista predominantemente literário. sejam Meus pensamentos todos.° vol. e a vida. De fato. a saudade da Pátria enternecida. no 2. auxiliar pelo saber o seu progresso. poesia realmente sentida.primeira edição completa: dois cantos. da maior sensibilidade poética que revelam.. como exemplificam a "Epístola" ao Dr.. o que mais sobressai é o poemeto "Os túmulos". citada a seguir). a chamada "literatura dos túmulos". onde também colaborou como poeta. (A 2. por um Baiano. Rio de Janeiro. é certo. o interêsse em dedicar-se a ela. Destacam-se ainda em suas composições a repercussão de acontecimentos históricos e mesmo pessoais com êle relacionados. Aflaud Libraire. o que apresenta. talvez.1813. é intenso nêle o sentimento patriótico. Francisco Elias da Silveira e a "Epístola" a Filinto Elísio. princípio de poesia saudosista como em José Bonifácio também. pela primeira vez. a exaltação da natureza. 1841. embora seja. de caráter científico. O autor transfere para a literatura brasileira. Bahia. Mas de tôda essa produção poética. com o primeiro canto. subjetiva. expressão mais libertada. Paris. não identificada. de libertá-la. de todos os poetas da época. por um Baiano. No caso dêle. Novas poesias oferecidas às senhoras brasileiras. Laemmert. as composições originais do primeiro volume apresentam uma temática que pode ser aproximada da poesia de José Bonifácio e em parte da de Sousa Caldas. de 1825. mas associada à idéia de Deus. 1850 (é a. o que ainda pende para o Arcadismo. com a vantagem. 2 vols. manda favoráveis auras Que o espaço encurtem: Ah! já são mui longos Tão míseros errores. é motivada pela morte do filho.

Rio de Janeiro. etc. Poesia fúnebre. ao mesmo tempo que nos ofereciam os elementos para estabelecermos o nexo entre as duas condições literárias correspondentes. Publicações da Acad. esta é a 2. carregada de atmosfera sombria. menor ou nenhuma consciência crítica êles realizavam uma obra pré-romântica entre nós. Pedra Branca colaborou em O patriota (1813-1814). sentiu o problema da nacionalização de nossa literatura. desde que a política de D. pelo menos completa. (?) com um estudo sôbre o poeta. 1945 (ed. com Pedra Branca.a edição. introdutor do Romantismo em Portugal. certo conteúdo filosófico. refletindo o clima de Leu momento. aqui. e não a 4. três anos depois da edição completa. das Poesias. Este.ano em que publica o "Bosquejo da história da poesia e língua portuguêsa" como introdução ao Parnaso Lusitano . De tal forma foi bem recebida a sua sugestão. c/ reprodução fotografada de algumas poesias e do primeiro capto. João VI lhes abriu essa possibilidade. ed. 1857. onde publicou poesias e vários trabalhos de natureza científica. pp. as Poesias. até a simplicidade poderosamente sugestiva e enternecedora de "O pequenino morto" de Vicente de Carvalho. do poema. A rigor. com quem já se despe a capa agourenta que a caracterizou e o lirismo ganha em espontaneidade e comoção sem revolta e sem busca de solução.$ ed. 1825. 175-191. Bras. estavam integrados. do Florilégio da poesia brasileira. Com maior.a. idem. dois nomes das letras estrangeiras lançavam os fundamentos de um movimento de consciência crítica renovadora de nossa literatura: Almeida Garrett e o francês Ferdinand Denis. de 1850. Rio de Janeiro. ainda Grinalda de flôres poéticas.se tornou fonte de influência benéfica em nossa literatura. e simpàticamente nos instruiu. acha-se o primeiro canto. . nas aspirações e sentimentos daquele período fundamental de nossa formação. o desencanto total da vida e a volta para a morte. Laemmert.obstante a tendência reflexiva. onde estêve em 1816. período de transição da condição colonial para a autonomia. embora ligados à idéia de Deus. 1825. como a nomeou Afrânio Peixoto). V. pôde visitar o Brasil. que desde 1826 . de Letras. Enquanto isso.publicação completa do poema. precursor do Romantismo. a ed. como outros estrangeiros. O primeiro. Melo Morais. coleção de produções modernas dos melhores poetas brasileiros e portuguêses. Varnhagen reproduziu ambos os cantos no 3 ° vol. é uma antecipação dos Cânticos Fúnebres de Gonçalves de Magalhães e mesmo do "Cântico do Calvario" de Fagundes Varela. de Afrânio Peixoto. seguida da . cf. Verificamos que os poetas ressaltados. só o Romantismo realmente a conheceria. 4. cf. tanto quanto a literatura então o permitia.

Econômico e Literário. Destacam-se como periódicos de feição literária. por Diogo Soares da Silva Bivar. Ferdinand Denis escreveu primeiro sôbre a sugestão da natureza dos trópicos como fonte de poesia para a Europa. 1824. sentimento patriótico de defesa da nacionalidade que se forma. A repercussão do pensamento dos dois estrangeiros que se preocuparam com o destino de nossas letras foi realmente considerável no momento da afirmação crítica do Romantismo no Brasil. Luis Janet. o que exprime a urgência da opinião pública. O jornal Científico. desejo de difusão cultural a serviço do progresso do Brasil. 21 Foi aí que traçou o primeiro programa. Artes e Literatura. dirigida por Frei Tibúrcio da Rocha. escrevendo um bosquejo de nossa história literária como complemento à portuguêsa. Todos dentro dos limites do período aqui esboçado.projetando-se até Machado de Assis. As Variedades ou Ensaios de Literatura. Confirma-se a visão dêsse período reformador com a ação da imprensa periódica. no Rio . num abandono total da imitação européia e em particular do Classicismo. também com propósitos moralistas e veleidades filosóficas. em 1826. Lecointe et Durey. Resumé de I'histoire litteraire du Portugal. é O Patriota. principiou a imprensa periódica no Brasil. em 08 com a fundação da semi-oficial Gazeta do Rio de janeiro. é a nossa primeira revista literária: planejou um programa de orientação e formação do gôsto literário. Anais Fluminenses de Ciências. expande. Conforme assina Hélio Viana. científica e filosófica: As Variedades ou Ensaios de Literatura." fundado e dirigido por Manuel de Araújo Ferreira Guimarães. Desde então. o pensamento que se esboça em vários setores. O Patriota. voltou-se para o Brasil. da nacionalização de nossas letras indicando ao mesmo tempo a inspiração romântica que deveríamos seguir. O Beija-Flor. propagação de idéias liberais. político. torna comunicável o fato literário ao mesmo tempo que centraliza por assim dizer a atividade dos homens de letras. idem. suivi de resumé de rhistoire littéraire du Brésil. Paris. Reflete a vida política da época. depois. "jornal literário. João VI. lançadas em 1812. com Gonçalves de Magalhães. 1826. Mas a primeira revista. na Bahia. surgiram muitas revistas e jornais. Scènes de Ia nature sous les tropiques et de leur influence sur Ia poésie. na maioria efêmeros. refletem preocupação política. mercantil. sementes de órgãos que se tornaram tradicionais. etc. possibilitada pelas iniciativas de D. e sobretudo depois da Independência. Paris. 21 Ferdinand Denis. realmente importante e que ainda hoje podemos consultar. outros.

101. Enquanto na era colonial não podemos falar . artes. eloqüência. política nacional e estrangeira. em 1813. constitucionalista. vigia da ação e da política do monarca português no Rio de janeiro. da tradução de O Colar de Pérolas. Atingiu 18 exemplares. na ordem citada acima. Olaia e júlia. ou Clorinda. e da novela nacional. por outro lado. de Walter Scott. história. em particular da crítica noticiosa. publicado em Londres pelo brasileiro Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça. que de Londres apontava a sua fundação. A continuidade do pensamento e da ação renovadora dêsse período em relação ao momento de consciente afirmação crítica do 22 Apud Vale Cabral. Os demais órgãos mencionados. o seu maior acontecimento . no último deles. militante. da fundação de escolas superiores e de sociedades culturais. mas evidentemente a nós destinados. ou a periquita.a não ser com o esfôrço malogrado do movimento academicista.' Circularam. botânica. De então podemos dizer que data a centralização da vida política e cultural do país-nação.. Foi saudado com entusiasmo pelo Correio Brasiliense. poderoso instrumento da formação da mentalidade política da época. marca de fato o início da crítica no Brasil. Romantismo no Brasil e conseqüentemente de nossa nacionalidade literária. de 18081822. agricultura. anônima.22 Teve colaboradores como José Bonifácio de Andrada e Silva. O Beija-flor. estabelece-se ainda através da imprensa periódica. periódicos editados fora do país. de 1822. isto é. comércio. com a notícia de obras publicadas na Côrte. "Obras publicadas". ainda que simplesmente divulgadora. hidrografia. os árcades Antônio Dinis da Cruz e Silva e Manuel Inácio da Silva Alvarenga e até fez publicações póstumas de Cláudio Manuel da Costa. ou ainda pela presença ou atuação de figur rãs cuja projeção já datava do período da permanência da côrte portuguêsa no Rio de janeiro. p. 1830-1831. navegação. 1826. Apenas é digna de relevo a publicação. a ação de O Patriota. Domingos Borges de Barros. Mariano José Pereira da Fonseca. química. gramática filosófica. continuando a tradição já anteriormente mencionada. mineralogia. Manteve seções de literatura. cit. medicina.de Janeiro. loc. juntamente com a tradução da Henriade de Voltaire. topografia. fundados no Rio de janeiro. da "novela alemã do século XIV" Hermione. A seção "Obras publicadas". sem brilho. matemática. como O Investigador Português e notadamente o Correio Brasiliense. secundam. como atestados de uma revolução radical em nossa mentalidade e nas restrições da política colonizadora portuguêsa. quando não pela ação pessoal de um Frei Francisco de Mont'Alverne sôbre um Gonçalves de Magalhães. estatística.

exatamente depois que as sedes das duas províncias são as escolhidas para a localização dos 23 V. de curiosidade reformadora. ao mesmo tempo. com as vistas voltadas para a administração central e interêsse geral da nação. em muitos casos incipiente. na mesma tipografia que editou a noss. A partir do período de D. o centro da irradiação do pensamento. em Minas Gerais. com raízes no enciclopedismo. Castilho. insista-se. tendente a confirmar a nossa própria unidade literária. portanto. João VI tôdas as atenções e os interêsses da nacionalidade em formação convergem de fato para a sede da Côrte.cultural de uma atividade literária centralizada ao mesmo tempo irradiaria. anteriormente mencionada. Clóvis Beviláqua. em S. de âmbito estreito. quase ao mesmo tempo. O que as províncias possuem de melhor aí se concentra. confinadas em centros pràticamente isolados por fôrça da ausência de intercomunicabilidade. na Bahia. Rio de Janeiro. 1927. História da Faculdade de Direito do Recife. Mas. no Ceará. enquanto a ação reformadora de D. Torna-se. etc. 23 como -em outras capitanias. a Pernambuco e a sua ação será de grande importância na vida política e literária da jovem nação. Desde êsse momento. de fins do século XVIII e princípios do seguinte. por exemplo. Memórias do Distrito Diamantino. não nos privamos de lembrar a primeira edição brasileira da Arte Poética de Horácio. Felício dos Santos. e não tardará a chegar a S. Paulo. províncias. já isto não acontece depois de 1808. ou do govêrna central. João VI se converte em estímulo dela. criada na Côrte. Atesta-~e a sua efervescência em Minas Gerais. Paulo. será inaugurada. Por exemplo. ou melhor. renovadora. na Bahia. O mesmo podemos dizer da atividade mental. 1924. No plano político.. só se exprime realmente êsse ideal de participação exatamente durante os antecedentes imediatos ao pronunciamento de 1822. . . publicada na Bahia em 1818. vigiada. Rio de Janeiro.~ primeira revista literária. mas feita de boa vontade. em Pernambuco. Paulo. a ação literária da imprensa é posterior à independência. e o que aí se faz é padrão de valôres. no Rio de janeiro. 2 vols. no campo estrito da atividade literária. A imprensa. na filosofia sediciosa. nos distanciamos cada vez mais de atividades simultâneas ou sucessivas. por isto mesmo. em Perrkmbuco e em S. de irradiação e sobretudo pela ausência de um interêsse de participação na comunhão nacional. pela censura portuguêsa. da atividade mental do país. imbuída de pensamento liberal e de ideais republicanos que se propagavam.

médico formado em Paris. de Antônio Carlos. com Arruda Câprnara. Visconde de S. em 1839. neste momento dos albores do Romantismo. op. é a . Então. a hoje tradicional Faculdade de Direito de S. fundação de academias . promovendo discussões de idéias políticas. que foi diretor da Faculdade de Direito de Olinda.. por fôrça da lei de 11 de agôsto de 1827 (referendada por José Feliciano Fernandes Pinheiro. no cenário de nossa atividade literária. cujas obras reunidas anos depois de sua morte (em 1825 foi fuzilado como réu político) sob o título de Obras Poéticas e Literárias 25 oferecem particular interêsse para a história da crítica no Brasil. Assim. liberal. a Oficina de Iguaraçu. preparando as revoluções de 1817 e 1824. cie. Oliveira Lima. pelo bispo Azeredo Coutinho. germe de iniciativas como criação de biblioteca. a datar de 1808. De qualquer forma . dos irmãos Cavalcânti de Albuquerque. a Universidade Democrática. Pernambuco e seu . Paulo projeta-se antes que a de Olinda. ainda era precaríssima. 2s o mesmo já não se pode dizer em relação a São Paulo. do Seminário de Olinda. liberais. João VI) foram tão sugestivos em Pernambuco. projetar-se-ia um pouco mais tarde em nossa vida literária com o movimento que 24 Clóvis Beviláqua. em Pernambuco. Se os antecedentes da criação dos cursos jurídicos inaugurados em Olinda e em São Paulo em 1828.e como a criação dos cursos jurídicos . afora a efervescência revolucionária de 17 e 24.reSS028 em que também o mesmo Maciel Monteiro colaborou. como no caso de Pernambuco.aquela ação da imprensa está ligada aos ideais renovadores que nascem com a fase inicial de nossa emancipação. a mais notável instituição de ensino que tivemos ainda dentro do colonialismo. de Francisco Xaxier de Morais Cavalcânti. A hoje Faculdade de Direito do Recife. É à última delas que se liga a figura de Frei Joaquim do Amor Divino Rebêlo Caneca.27 Contudo. em 1800. ou a publicação do periódico O Pro. cuja participação em nossos destinos data do período de D. 24 Foi foco de idéias liberais.. e mesmo de antes. Leopoldo. tão tradicional como a sua congênere paulista. fundados em 1827.82 cursos jurídicos. as academias Suassuna. João Ribeiro Pessoa. de efervescência cultural. e Paraíso do Pe.como o Areópago de Itambé. há que partir da fundação. poeta. depois Recife. cuja vida social e em particular literária. tôdas voltadas para os destinos do país. revolucionário. se é que podemos usar a expressão.presença de um Maciel Monteiro. o que podemos ressaltar de mais sugestivo.

Imprensa industrial. da década de 1869 em diante. pp. porém. literária e científica). sacrificado quando iniciava uma carreira de prognósticos brilhantíssimos. afirmando a consciência que então já. A de São Paulo. portanto. Prefácio de Amaro Quintas. 28 O progresso (Revista social. pela nossa atividade literária. vol. Brockhaus. Por êste momento. para confirmá-la com a geração byroniana. Paulo.desenvolvimento econômico. História da revolução de Pernambuco em 1817. Paulo recebia estudantes que vinham de Coimbra. 77-81. Antônio Joaquim de Melo. Imprensa oficial. Recife 1876-1877 2 vols. 1895 (particularmente o cáp. fundada em 1833 por elementos representativos do seu corpo docente e discente: José Inácio Silveira da Mota. 17-21. Paulo para a atividade literária do Brasil é. foi o principal fundador da Sociedade. fazendo convergi-Ia para a sede da Côrte. '. Môço. sem falar na sua finalidade precípua. Sílvio Romero denominou "Escola do Recife". De qualquer forma êstes dois centros de cultura. 27 V. Memórias para a história da Academia de S. Paulo. Dic. antecede-se.. Leipzig. divulgavam Castilho Antônio. João Salomé Queiroga. principia a sua projeção ainda no Pré-romantismo. Sacramento Blake. os doutôres Carlos Carneiro de Campos. a Faculdade de Direito de S. pp. 25 Frei Caneca. João Salomé Queiroga prestou um curioso depoimento.a ed. I. Spencer Vampré. cuja Universidade D. Recife. 26 V. o grupo da Sociedade Filomática. bras. os focos de irradiação da atividade mental do Brasil sobretudo no século XIX. grandemente responsáveis pelo nosso pensamento político. cit. a iniciativa cultural da Sociedade Filomática. e as anotações de Oliveira Lima a Francisco Muniz Tavares. S. 1917. Miguel mandara fechar.950. Francisco Bernardino Ribeiro. Col. em 1870. Traziam o seu protesto e aumentavam a onda -de entusiasmo em tôrno da liberdade. um esfôrço de afirmação da unidade de sentimento e de pensamento de tôda a nação. estudante excepcional. possuíamos da . mas certamente revivendo os ideais e atitudes de seu grupo. Alexandre Herculano. XIX). Garrett. IV. (Circulou de 1846 a 1847). na fase pré-romântica. Obras políticas e literárias. 1924. Recife. Justiniano José da Rocha. foram. prefaciando uma de suas obras. Mais tarde. V. José Joaquim Fernandes Tôrres e Tomás Cerqueira. Reedição feita pelo Govêrno do Estado de Pernambuco como parte do programa das comemorações do centenário da Revolução Praieira.. ?.29 Francisco Bernardino Ribeiro. Clóvis Beviláqua. A primeira contribuição da Faculdade de Direito de S. oó. sobressai-se e merece um lugar na literatura pré-romântica ao lado de outros como Antônio Augusto Queiroga. desde a sua fundação. completando-se. do Romantismo. contribuindo para intensificar a corrente de influências que êstes românticos portuguêses exerceriam entre nós. I. bibliog.

e também de raízes européias. Paulo Antônio do Vale. A propósito dessa primeira obra poética de Magalhães. Spencer Vampré. romântica. Paulo. a intenção renovadora. 31 confirma. cit. pp. Passamos então à fase de início do Romantismo no Brasil. Canhenho de poesias brasileiras. do grupo que a realizou.. 30 J. Rio de Janeiro. o crítico traça . o amor da pátria. que chega à sua primeira fase consciente com a Revista da Sociedade Filomática. em proveito do progresso geral do país. da qual são conhecidos apenas -os dois pri29 V. já processada conscientemente.necessidade de reformar definitivamente o nosso gôsto literário. embora no mínimo estreito do vocabulário. Tip. Por outro lado. a posição de J. é a defesa dos oprimidos. o cultivo da "linguagem brasileira". além dessa poesia de inspiraçãolnacional na paisagem. notadamente do campo fértil do pensamento francês. dando consciência à atitude entrevista em José Bonifácio e antecipando as de Gonçalves de Magalhães. em condições que lhe foram propícias e cujo processo de criação data da política reformadora de D. se o filiarmos no pensamento de Ferdinand Denis e Garrett . destacamos dois artigos no segundo número da revista. op. Parnaso acadêmico paulistano. chegando a pretender. Laemmert. "Prólogo"). 1881. é o ódio à tirania. no momento da reforma romântica no Brasil. no folclore. I. . No campo da reforma literária.. S. 255256. 30 com o que podemos estabelecer um nexo entre o pensamento renovador de Ferdinand Denis e Almeida Garrett e o de Gonçalves de Magalhães. Queiroga. dentro da ambiência pré-romântica.um programa de nacionalização. 6 ss. apesar de sua feição ainda predominantemente arcádica. ganha corpo definitivo com o grupo de Gonçalves de Magalhães. notadamente um de Justiniano José da Rocha. 54 meiros números. S. É a paisagem brasileira. de acompanharmos o progresso do século. que seriam apreciàvelmente amplas em José de Alencar. em Paris. S.ou retraça. E tôda essa obra reformadora. porta-voz do grupo. o que defende como matéria de nossa poesia. 1870. sem dúvida. da liberdade. de realizarmos uma poesia de inspiração nacional. como êle mesmo a realizou. coincidindo com a repercussão entre nós dos novos ideais com origens no sentimento nacional que se esboça. prenunciadora da afirmação romântica bem próxima. "Correio Paulistano". nas tradições. João VI. de nossa literatura. pela sua finalidade e matéria divulgada. Curiosa. no mesmo ano de 1833. (v. em crítica às Poesias (1832) de Gonçalves de Magalhães. pp. a criação da Revista da Sociedade Filomática. é a natureza dos trópicos. Queiroga. 1808 a 1836.

achava-se novamente em Paris. de São Paulo.O grupo que em Paris. e em 1836. viajou para a Europa. que veio para o Rio de janeiro em 1827. M. Debret. J. de Azeredo Coutinho. vol. logo depois de formado em medicina. Explicam-se.indicava muito bem o intuito patriótico de seus organizadores. companheiros. de Paris. depois de visitar a Bélgica e Portugal. A imprensa periódica de S. científica e artística. Manuel de Araújo Pôrto-Alegre. 1914. ressaltando-se o "Ensaio sôbre a história da literatura do Brasil". Pereira da Silva.processada no campo amplo da atividade literária. Paulo. e as agitações que se sucederam à Independência. os seus ideais patrióticos. literária e artística. inicia definitivamente a reforma romântica no Brasil . Antônio Félix Martins. C. Publicação mensal de literatura e ciência. Então. em particular no Brasil e do Brasil. Francisco Sales Tôrres-Homem e C. passou à Itália. Afonso de Freitas. poesia. fundou a Niterói-ReUista Brasiliense. E Maciel Monteiro foi sócio da Arcádia Romana. sentindo ainda bem vivos os efeitos da ação reformadora de D."Tudo pelo Brasil e para o Brasil" . São seus colaboradores os quatro diretores indicados. em 1836. em companhia de PôrtoAlegre. de Gonçalves . e os traços. Acercavam-se de Gonçalves de Magalhães. dessa forma. num movimento que se estende até 1846 . De fato. Gonçalves de Magalhães. Miguel Calmon Du Pin e Almeida. no caso especial de Gonçalves de Magalhães (e também de Maciél Monteiro) ainda bem acentuados dos remanescentes da cultura neoclássica. João VI. Hist. 31 Revista da Sociedade Filomática. com nome pastoril. M.55 Em 1833. crítica. (in Revista do Inst. impressa na Tipografia do "Nôvo farol paulistano". Taunay. Gonçalves de Magalhães foi discípulo bem como admirador entusiasta do pen. cuja epígrafe . Francisco Sales TôrresHomem. os seus anseios de servir o progresso geral da cultura. . história. pp. prosa de ficção. v. no Rio de Janeiro. entre êles o citado Pôrto-Alegre. XIX. através da Escola Nacional de Belas Artes está ligado à missão artística francesa. com repercussão igualmente na vida política. e Geogr. o pensamento muito voltado para a liberdade. 32 órgão de difusão científica. sem dúvida ouviram de perto a sugestão de Ferdinand Denis. juntamente com Pôrto-Alegre. teatro. 381-383). A. e mais Silvestre Pinheiro Ferreira. quando ainda estudante no Colégio Médico-Cirúrgico. no Rio de janeiro. B. samento e da oratória de Frei Francisco de Mont'Alverne. em Paris mesmo conviveram com J.conviveu antes. A matéria é literária. colegas que se tratavam por nomes arcádicos.

reconhecida como chefe da reforma definitiva e cuja obra Suspiros Poéticos e Saudades. Dauvin et Fontaine. Melo Morais. ao teatro. E a reforma completa-se no espaço compreendido entre o regresso de Gonçalves de Magalhães.canto -sôbre. Francisco Sales Tôrres-Homem. à poesia. De fato. com Manuel de Araújo Pôrto-Alegre. Novamente o Rio de Janeiro realiza o esfôrço de síntese para a confirmação da reforma que se alastra pelo país. 32 Niterói Revista brasiliense. ligados ao pensamento reformador que se manifesta conscientemente desde Ferdinand Denis e Garrett e concebidos agora sob a atmosfera direta da reforma romântica européia. as ruínas de Cumas". à prosa de ficção. Pereira da Silva. 1836. que desde então se tornou a grande atração de nossos homens de letras. a obra interrompida. I. marcando a revista e essa obra a inauguração consciente do Romantismo em nossas letras. S. vemos no Rio de janeiro uma plêiade ativa de intelectuais promovendo um amplo movimento de difusão cultural. J. M. a composição poética "A Voz da Natureza . com Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. Vol. Pereira da Silva. João Caetano. E é nessas condições que a atitude de Gonçalves de Magalhães se completa com a elaboração da obra poética Suspiros Poéticos e Saudades. no segundo os "Estudos sôbre a literatura" de J. com Gonçalves de Magalhães. M. n. n. publicada também em Paris em 1836. Adolfo Varnhagen.° 1. à crítica. Curioso que isto se realize mesmo em Paris. 187 pp. Tôrres-Homem aos Suspiros Poéticos e Saudades. Martins Pena. Gonçalves de Magalhães e outros do grupo de Paris já se achavam no Rio de janeiro.. a crítica de F. 262 pp. em 1837. de revistas e com obras . a figura que se torna central. é tôda ela matéria de difusão dos ideais românticos no Brasil. Contamos então ainda com Mont'Alveme. Gonçalves Dias. Estende-se à história. No segundo e último número da Niterói-Revista Brasiliense. Paris. depois de 1837. dentro dos ideais da reforma ron-iAntica. de intenção conscientemente romântica. Joaquim Norberto de Sousa e Silva. através de sociedades. Sô e a fundação. ao mesmo tempo que a divulgação de um amplo programa de reforma. de Pôrto-Alegre. J. publicado no primeiro número. mas seus autores prometiam continuar. é proclamada pela crítica da época como a inauguradora do Romantismo no Brasil.. de Macedo. Em 1837. em 1850. Crítica poética.' 2.de Magalhães. lê-se que por motivos superiores cessava a sua publicação. M. programas de reforma e nacionalização de nossas letras. no Brasil. da revista Guanabara.

João Caetano dos Santos havia organizado a primeira companhia de teatro nacional e agora.publicadas. em 1838. Macedo. também redigida por uma "Associação de literatos" e dirigida por Pôrto- . os seus colaborados. da Revista. Gonçalves de Magalhães escreve. para trabalhos críticos e de divulgação revalorativa de nossa produção poética desde suas manifestações iniciais. Dutra e Melo. da ficção voltada para o mistério. Justiniano José da Rocha. em 1838. A Moreninha (1844) . Sua continuadora foi a revista Guanabara. Martins Pena. uma peça considerada de assunto nacional Antônio José ou o Poeta e a Inquisição. Magalhães. Geográfico e Etnográfico Brasileiro. Pereira da Silva que se vê a primeira grande influência marcante de Almeida Garrett em nossas letras. cuja importância é de todos conhecida. voltam-se para a pesquisa biográfica. Santiago Nunes Ribeiro. 34 e é num 'J. do Instituto. M. evidentemente. Varnhagen. que também foi poeta e cultivou o teatro. Joaquim Norberto. do Instituto Histórico. 1839. Magalhães. Amplia-se êsse esfôrço com a publicação. É acontecimento importante a fundação. O Filho do Pescador (1843) e Joaquim Manuel de Macedo. de 1850 a 1855. Varnhagen. Pereira da Silva. Januário da Cunha Barbosa. complemento dessa obra de renovação geral. para um esfôrço organizado de estudos e pesquisas em tômo de nossa cultura. um importante órgão de difusão cultural. 33 modêlo de tantos outros fundados posteriormente. no Rio de janeiro. J. com o desenvolvimento do drama apoiado na luta do bem contra o mal. M. Aeolheu as principais figuras da intelectualidade brasileira da época. Pôrto-Alegre. São os antecedentes da inauguração definitiva do gênero com Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. E são êles. Teixeira e Sousa. daria exemplo. e Martins Pena estréia com O Juiz de Paz na Roça. da novela sentimental. Surge em 1843. Odorico Mendes. espécie de literatura de capa e espada de que Teixeira e Sousa. Já em 1833. Emílio Adêt. substituem as novelas traduzidas ou adaptadas do francês por composições originais em que se nota o balbuciar do romance histórico. ao escrever a novela jerônimo Côrte Real decalcada no poema Cantões. jornal de ciências. para que êle represente. letras e artes que se dizia publicado por uma "Associação de literatos". Magalhães. Figuras como as de Januário da Cunha Barbosa. Pereira da Silva. Joaquim Norberto de Sousa e Silva. que foram sócios do Instituto. Martins Pena e o grande ator dramático João Caetano esforçam-se pela criação de fato do teatro brasileiro. a Minerva brasiliense. Araújo Viana. Tôrres-Homem. tendo durado até 1845. por iniciativa do Cônego Januário da Cunha Barbosa. nomes cujo registro é necessário: Cândido de Azeredo Coutinho. a partir do ano seguinte.

As principais associações literárias e científicas do Brasil de 1724-1838. de Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889).5. O pequeno trecho adiante transcrito do artigo de apresentação da Guanabara. 1919). tipógrafo de profissão. 35 Refletindo um interêsse geral de participação.. como Teixeira e. E impõe-se. 34 J. poeta também de inspiração lírica e patriótica. nos antecedentes do movimento pré-romântico no Brasil: L ainda a continuação do pensamento que presidiu à publicação da Niterói e da Minerva. que avulta pela projeção política.5'T Alegre. Rio de Janeiro. em S.Maciel Monteiro. Max Fleiuss. e outra parece um tanto deslocada. (in Diário de S. data ainda dessa fase a presença curiosa de Francisco de Paula Brito (1809-1861). E a figura. do último canto do "Childe Harold". de quem há que ressaltar a tradução.33 V. inesgotável e insuperável conforme o testemunho de contemporâneos. de 1848. através de um processo de evolução de crescente formação de consciência crítica. Paulo. êle mesmo com veleidades de escritor. finalmente. denominação dada à sua casa comercial. Lembra-se aqui a famosa Petalógica.Gonçalves de Magalhães. pelo seu isolamento . protetor de alguns jovens iniciados nas letras. e os Harpejos Poéticos.. confirma a filiação dêsse momento de reforma definitiva. a Aurora Olindense. Gonçalves Dias e Macedo. 22. em conversas diárias. Aderaldo Castelo. marcando o início de um hábito que se tornaria constante. em cuja Faculdade de Direito estudou. a Voz da Juventude. e mesmo na capital. tão ressaltada pelos historiadores de nossa literatura. . 1. Antônio Peregrino Maciel Monteiro (*) foi uma verdadeira vocação de D. Sousa. poeta original e sobretudo famoso tradutor. Nac. entre os quais se distinguem o íris.. 29 mai. (in Páginas brasileiras. tendo fundado a sua tipografia em 1831. Foi diretor do periódico A Marmota. enquanto Pôrto-Alegre a rigor secunda a obra do primeiro. os Ensaios Literários. 1949). e pela Revista Nacional e Estrangeira nesta Capital . publicada no Cruzeiro do Sul. pois a seu exemplo se publicaram muitos periódicos literários nas províncias. É evidente que uma figura assoma em nossa história literária neste momento de afirmação inicial do nosso Romantismo . As origens do romance brasileiro. . a presença do famigerado repentista Francisco Muniz Barreto (18041868) . pensamento que foi nobremente secundado pela Revista Filomática. periódico acadêmico de São Paulo. Imp. editor em cuja casa comercial contou com a freqüência de intelectuais e políticos de destaque. Paulo.. . em São Paulo.

e lhe deram por vêzes aquêle tom condoreiro que fêz Sílvio Romero apontá-lo como precursor do lirismo condoreiro.. elementos da sensibilidade e da expressão românticas que se ajustaram aos seus impulsos líricos. amorosos. entre nós. uma posição equiparável à de Gonçalves de Magalhães. Faelante da. então. estava em verdade em função de seu donjuanismo e elegância. porque. Teria deixado copiosa produção poética preparada para uma edição. João Batista Regueira da Costa e Alfredo de Carvalho. Industrial. mas desperdiçador de seu talento. traria nos salões da côrte e na carreira diplomática o ideal de sua vida. num momento de arrebatamento amoroso. Maciel Monteiro.Juan. o reflete. j (') Antônio Peregrino Maciel Monteiro. ou a inscreveu em álbuns. nesse . 1905. pelo cultivo de certas formas ainda de características tradicionalistas. de Lamartine. galantes. Mas misturou essas influências com remanescentes neoclássicos e pré-românticos. E é exatamente por isso. ao gôsto da época. 1-2. (ia Rev. Brasil. nos grupos da época. Em todo caso. E tudo o que fêz. 1920). pela inspiração sugerida pela Bíblia. Certamente situa-se em seu momento. como já o fêz Sílvio Romero. assimilou de Victor Hugo. reconhecidos em parte pela linguagem de algumas de suas composições. Regueira da Costa. modêlo de elegância e de bom gôsto. Recife. em revista. Let. por certa revivescência ainda da divinização da mulher. n.Lisboa. 1905. 1804 . pouca margem oferece para um julgamento definitivo. Imp.° 16. I. é suficiente para firmar o seu lugar no início do lirismo romântico no Brasil. Maciel Monteiro. e bom poeta. Acad. . Havia nêle algo de garrettiano ou que nos lembra Garrett cuja influência na poesia que escreveu é evidente. Acad. mas só a publicou. Câmara. embora não se tenha integrado. de quem foi excelente tradutor. Barão de Itamarac£. para as suas inspiradoras. de influência hugoana. 1905. Pref. que não podemos reconhecer. como de Almeida Garrett. Ed. ou a escreveu. pD. Cult. Bibliografia: Poesias. para Maciel Monteiro. Dantas Barreto. pela influência camoniana. jornais. e pela escassez de sua obra divulgada. numa atitude crítica. que não escondeu o entusiasmo que teve pelo poeta. Formado em medicina em Paris. E como foi poeta. Poesias. só recentemente aliás reunido em livro. Recife. (Recife. mas o que hoje temos dêle. 1868). que encon35 Guanabara. Realizou sua obra poética ao mesmo tempo que Magalhães processava a reforma romântica. encontrou ai de fato o que aspirava para os seus ideais mundanos.

Paulo. A alma e o cérebro). 1946. isto é. Assunção. Realizou. sem completa consciência de suas limitações. além de exprimir uma formação tradicionalista. de efetuar a reforma romântica e nacionalista de nossas letras. A sua ação deveria ser essencialmente estimuladora. Alcântara Machado. 1836. 1933-1934). 1864-1865. Introdução. Suspiros poéticos e Saudades. mos 137. Rio de Janeiro. Precisava ser um homem ativo. A polêmica sôbre "A Confeatitude crítica consciente. 1939.trabalho de difusão geral do Romantismo. Garnier. seleção e notas de J. (Rio de Janeiro. que não se limitaria pela consciência crítica do que fizesse. A confederação dos Tamoios. uma obra critica e de criação literária quê confirma a sua posição de escritor de tradição. Tragédias. S. Aderaldo Castelo. Consultar: Alcântara Machado. e conter rasgos de genialidade. Bras. coordenadora e centralizadora de uma figura de reformador. o esfôrço constante. Paulo. . que o coloca como elemento destacado da ligação que estabelece. Rio de Janeiro. De fato. Gonçalves de Magalhães (ia Rev. Let. Urânia. para afirmar a consciência da reforma. 1882). S. tôda a obra de Gonçalves de Magalhães como um manifesto amplo. S. sob todos os aspectos louvável. Gonçalves de Magalhães ou o romântico arrependido. 142. Opúsculos históricos e literários. M. exigia a presença. 1936. 1811 . Afigura-se-nos. 1856. até mesmo vaidoso e medíocre. Não podia ser um grande artista. Cânticos fúnebres. pelos antecedentes. EDIçõES: Obras. A confederação dos tamoios. digamos. Suspiros poéticos e Saudades. momento histórico que. enquanto a reforma se impunha nos limites indicados. complexo. de segura afirmação pessoal. 1865. CRÍTICA E ENSAIO: Opúsculos históricos e literários. (Col. E êste foi o caso de Gonçalves de Magalhães. Gonçalves de Magalhães. 8 vols. do ponto de vista crítico. 1832. é a sua Domingos José Gonçalves de Magalhães. Visconde de Araguaia. assim. com intuição do momento. capaz de refrear os excessos da reação romântica. E. POESIA: Poesias. Acadêmica. Suspiros poéticos e Saudades. J. definitivamente. realizador. Acad. E foi grandemente favorecido pela oportunidade. para tanto. oportuno. 1839.Roma. o que confirma o grande valor de Domingos José Gonçalves de Magalhães (*) em nossa história literária. TEATRO: Antônio José ou o Poeta e a Inquisição. Fatos do espírito humano. (Poesias avulsas. Pequena biblioteca de literatura brasileira). entre as manifestações pré-românticas do início do século e a definição do Romantismo.

Brasiliense. vigilante . Suspiros poéticos. Fac. de orientação crítica em função da reforma romântica em geral e conduzida no sentido de demonstrá-la entre nós. Deixou uma obra extensa e variada. por J. a evocação da infância. no "Ensaio sôbre a história da literatura do Brasil". de maneira geral. Paulo. cujo maior mérito foi o de ter provocado a polêmica que nos deu importantes páginas críticas para o estudo da estética romântica. até 1880. Rio de Janeiro. quando publica em Paris o "Ensaio sôbre a História da Literatura do Brasil" e os Suspiros Poéticos e Saudades. de 1836. Artur. e outros.° 4. a exacerbação. Textos críticos coligidos. Introdução: Suspiros poéticos e Saudades. o que apresenta. sempre acompanhada de pensamento. 1865 e 1939). Repr. através do pensamento crítico e da realização literária. Fil. Acad. à crítica. 1939. Autores e livros. e tantos outros temas e atitudes em que fàcilmente se reconhece ainda á presença da herança neoclássica.O 77. Castelo. Ciências. a poesia tumular.. ed. com José de Alencar deração dos tamoios". Let. S. a poesia das ruínas. até mesmo no poema A Confederação dos Tamoios (1856). Aderaldo Castelo. Em tudo isto. florilégio. prolongando-se em realizações posteriores. ao teatro. É que sua poesia não logrou impor-se ao Classicismo agonizante. Paulo. nas Poesias. Aderaldo.. Assunção. com introdução. mas já um tanto obsoleto na sua persistência posterior 'as afirmações de um Gonçalves Dias e de um José de Alencar. E. S. M. S. 3s Se Gonçalves de Magalhães introduziu os principais temas da poesia romântica no Brasil . V. n. sobretudo moralizadora. nos Suspiros Poéticos e Saudades. J. o sentimento patriótico. histórica. o desespero. Bras. a poesia de sentimento religioso e guiada pela filosofia espiritualista. a noção da origem divina da poesia e do poeta e da sua missão reformadora. as reflexões sôbre a mocidade e a velhice. quando estréia com as Poesias. juntando . é a discussão ou a posição do pensamento crítico. o lamento.isto é. 1943 (Nota biográfica. idem. (in Rev. de 1836 a 1846/50. em sua obra.o que parece mais sugestivo. Mota. S. crítica).. obras que confirmam a sua posição de reformador de nossa literatura. sem maiores inovações. à poesia. De 1832. 1 agô. n . Paulo. 1953. a visão amargurada do mundo. à história.Deus e a Natureza. pref. o amor da liberdade. 1946. Let. à tentativa da ficção. sempre com aquela preocupação crítica de reforma. Introdução a Gonçalves de Magalhães. 1836. S. 1928). o saudosismo. 1953. Gonçalves de Magalhães (in Rev.. o combate à tirania. Tôrres Homem. Introdução a A polêmica sôbre "A confederação dos tamoios". Sales. às lucubrações filosóficas. já se esboça. Buarque de Holanda. em todos os seus elementos essenciais. quando publica os Comentários e Pensamentos. a inspiração medievalista e. Gonçalves de Magalhães se dedica. F.

Rio de Janeiro.° 6. de um exemplar do Colombo com profundas alterações do punho do autor). Paranhos Antunes. reveste as suas composições de um tom épico. 1943. (Informa Francisco da Silveira Bueno a existência. Consultar: Autores e livros. Rio de Janeiro. D pintor do Romantismo. enfadonhas. no propósito nacionalista de sua obra e de sua atividade. Rio de Janeiro. em Pôrto Alegre. o poeta é de linguagem às vêzes espontânea. não atingindo o épico. na Minerva Brasiliense. de que o trecho acima é uma condensação. Bibliografia: Brasilianas.. 1953. ver J. 1863. é pensado e medido. Introdução ao volume antológico da Liv. Nada melhor define a sua posição do que as próprias palavras que escreveu à guisa de prefácio nas Brasilianas. 37 Para maiores desenvolvimentos. V. Nac. embora lhe possa ser real.37 Representa uma verdadeira complementação do programa reformador de Gonçalves de Magalhães a colaboração realizada nesta fase inicial de nosso Romantismo por Manuel de Araújo Pôrto-Alegre (*l. em 1863. pesadas. não faz. E tudo isso envolto pela capa da filosofia espiritualista. 1806 . Manuel de Araújo PSrto Alegre. Contudo. S. pela metafisica. Lôbo. aparece na Niterói-Revista Brasiliense.artificialismo de inspiração a uma prolixidade exaustiva. porém. por José Aderaldo Castelo. Magalháes. Manuel de Araújo Parto Alegre. a comparações retumbantes e a um sentimento de tristeza que. Há nela a idéia constante da morte. 1945. Fil. (g) Manuel José de Araújo PERTO-ALEORE Barão de Santo Ângelo. na Guanabara. retratada com imagens tétricas. mesmo insistindo no tétrico e no lamentoso. imagens descoloridas. M. 1866. RS. embora freqüentemente bombástico. com uma introdução. na defesa do poema A Confederação dos Tamoios. Fac. quando reuniu uma seleção de sua produção poética eleborada desde aquêle momento inicial da . e. ligado por estreita amizade e emulação ao autor dos Suspiros Poéticos e Saudades desde 1827. Pôrto Alegre (Ensaio biobibliográfico). e pelo sentimento religioso e moralizante.. Aderaldo Castelo. Assunção (1946). Magalhães. para infundir terror. n. 1938. A. 1943. 1879). (Rio Pardo. Imp. Valverde. Paulo. senão prosa rimada.. 15 agô. quando veio do Rio Grande do Sul para a Academia Militar que substituiu pela Escola de Belas Artes. Basílio de.. Let. Agir. Textos críticos coligidos. Hélio. Viana. Hélio.Lisboa. Com 36 A polêmica sôbre "A confederação dos tamoios". Colombo. 1917. ABC. meio descritivo. sobretudo quando. Cienc. Rio de Janeiro.

de inspiração americanista. feita por êle em 1836. exerceu em sua época. e se fôr feliz. que trilharam a mesma vereda.reforma. como natural é que o deseje. as atenções dos estudiosos devem permanecer voltadas para ambos.nesta. como da obra de Pôrto-Alegre. aqui no Brasil. com a publicação dos Suspiros Poéticos. Homem bastante viajado. depois das revelações. conhecedor dos museus e obras de arte da Europa. da obra de Gonçalves de Magalhães. Assim pois. cobrarei ânimo para oferecer ao público uma composição mais longa. e uma complementação o restante de sua atividade no setor da preferência a que se refere no trecho acima citado. sem a preocupação vigilante da . então em franca liberdade criadora. Versado em outras disciplinas artísticas mais do. Todavia a produção poética de Pôrto-Alegre é apenas um eco da ação renovadora de Magalhães. ainda que a nossa sensibilidade não se comunique com o mundo lírico que julgaram criar. e da intenção que tive. porque a sua Urânia data de 1847. não obstante os momentos realmente felizes. porque foi logo compreendida por alguns engenhos mais fecundos e superiores. o gôsto mesmo da época. esta pequena coleção não tem hoje outro merecimento além do de mostrar que também desejei seguir e acompanhar o Senhor Magalhães na reforma da arte. E quase nas mesmas condições avulta a importância da outra obra extensa que prometia. Evidentemente. uma ação realmente digna de ser apreciada no campo da arquitetura e das artes plásticas. o poema Colombo (1866). caso de merecer alguma indulgência daqueles que me honraram com sua benévola crítica. Sobretudo por isto. . em que trabalho. pelo que realizou e pela atividade crítica que desenvolveu. a qual me pareceu não ter sido baldada.creio-me . Aliás. Sem dúvida essa obra de conteúdo poético já ultrapassado no momento em que foi editada. pela sua importância históricoliterária. com todo o seu rigor. pôsto que só aparecesse em 1862. e igualmente patriótica. se coloca em segundo plano em virtude da importância histórica que ela representa em nossa evolução. em si. vale pelo sentido documental que representa para a nossa história literária. verdadeiros rasgos de inspiração grandiosa e fôrça descritiva. que . O nome de Brasilianas que dei a êste livrinho.no. a ser apreciada no campo mais amplo da história cultural. ainda o recomendasse à leitura mesmo do não especialista. o valor literário. provém das primeiras tentativas que se estamparam há vinte anos na Minerva Brasileira (sic). e completada em 1836 com o seu poema da Confederação dos Tamoios. o que fêz com que José Veríssimo. mais variada. de um Gonçalves Dias e de um José de Alencar.

Foi um capricho da história que lhe reservou um lugar preeminente. converge numa síntese de afirmação definitiva tôda a revolução processada em nossa formação a partir da ação renovadora de D. os seus primeiros grandes frutos com aquelas obras de Macedo. já se manifestou distante da atitude dos dois escritores. Depois de 1844. diga-se de passagem. Franklin Dória. com A Moreninha (1844). Originalidade e influências. como dissemos. Prosa poemática.reforma tomada em seu sentido histórico. Gonçalves Dias e Alencar. mas como os primeiros frutos dela. Sextilhas de Frei Antão. enquanto PôrtoAlegre durante anos continuaria a insistir no seu papel reformador. Linguagem poética. figura central de um grupo. Contudo. Contemporâneos e sucessores. GONÇALVES DIAS E O INDIANISMO (*) Gonçalves Dias e o Romantismo. O poeta dramático e o poeta épico. como se a reforma já não tivesse sido consumada e não tivesse oferecido. Intenções e exegese. De fato. numa 62 evidente demonstração de uma sensibilidade nova. a história literária recobra as suas peculiaridades. a partir delas se expande o Romantismo no Brasil com a progressiva consciência da expressão criadora de uma literatura que ganhou a sua autonomia. Por isto mesmo foi que cessou o papel de Gonçalves de Magalhães. e de maneira geral do último momento da transição do colonialismo para a autonomia e do Neoclassicismo para o Romantismo. Bit tencourt Sampaio. de 1808/ 1836 a 1846/ 1850. A poética de Gonçalves Dias. com a polêmica sôbre A Confederação dos Tamoios e com o Guarani (1857). com a renovação geral da mentalidade. tem-se a impressão de' que os contemporâneos apenas respeitavam Gonçalves de Magalhães. ela talvez exprima melhor do que qualquer outra atividade. Porque. o que se fêz até mesmo com certa injustiça. que se intensifica progressivamente. o sentido fundamental de tôda a vida do país. num trabalho de notável pesquisa da realidade nacional. O Indianis mo: origem e diversos tipos. como se nota a partir da poesia de Gonçalves Dias e do romance de José de Alencar. João VI. ao mesmo tempo que se sacrificou o possível valor literário de sua obra: para êle. 19. realmente. daqui por diante a atividade literária não se confunde tanto com a participação política. O lirismo Gon çalvino. pode ser reconhecida em sua legítima pureza. isto é. Almeida . com os Primeiros Cantos (1846).

castelhano e tupi 2 ficaram restos 1 O manifesto romântico foi publicado na revista Niterói. Faleceu em naufrágio do Ville de Boulogne. Joaquim Serra. Araújo Pôrto-Alegre. português. A. Filho de pai reinol e mãe cafusa. Anchieta figura como o iniciador da nossa literatura. em 1836. . de serem instrumentos preciosos de educação . para estudos. Nosso primeiro indianismo foi Anchieta (q. Viaja em 1851 pelo Amazonas. I e Gonçalves Dias é o criador. FIcuxA Gonçalves Dias na segunda fase do Romantismo. Dramaturgo e poeta. fundada em Paris por Gonçalves de Magalhães. v. em missão oficial. Assim. próximo a Caxias. pelo Ceará e Amazonas. em 1823. à Europa. ANrórrlo GONÇALVES Dtns (Nasceu em Boa Vista. e faz jornalismo. 13. de volta ao Brasil. O seu "indianismo". não foi feliz no matrimônio. a fase que aqui interessa se inclui no binômio Romantismo-indianismo. de saber o que existe como relação causal. em 1864). 2 Primeiras letras (Clássicos brasileiros).Braga. em comissão da estudos. Juvenal Galeno. Com dificuldade. Em língua indígena. como chefe da seção etnográfica de uma Confissão cientifica. Ed. é professor de latim no Liceu de Niterói. ou de simples coincidência. no Maranhão. Gonçalves de Magalhães havia sido o autor do nosso Prefácio de Cromwell.) com as suas produções catequistas. Viaja. No ano seguinte. O INDIANISMO a) Indianismo barroco. p. Teria sido êle indianista só porque foi romântico ou viveu no período româlntico ? Pergunta-se ainda: até onde Gonçalves Dias obedeceu às exigências do Romantismo ? I . faz parte do Barroco.. elas realizaram não só primazia igual mas ainda a outra. Peixoto. Daí a necessidade de indagar o que há de romântico na obra de Gonçalves Dias. entre o seu indianismo e o seu romantismo. à vista do Maranhão. Em 1859 está de aôvo no Brasil. Casado. Em latim. Bruno Seabra. Sales Tôrres Homem. feição original que o caracteriza. estuda direito em Coimbra. em meados do século XIX. no baixio Atiras. 1860-61. que marca a literatura jesuítica (1554) do século XVI. trabalha no comércio com o pai. tão bem caracterizado nos "cateretês católicos". onde se forma em 1844. em 1854.05 de suas obras. o poeta do indianismo. como o registra Afrânio Peixoto.

por Josué Montelo. da Silva Ramos. Paulo. por Antônio Henriques Leal. 1846. Garnier 1 S. Poesias. Garnier. Garnier. p. Rio de Janeiro. 1944.. 1942. Poesias. por M. bem como orações em tupi para instruir os índios. Comp. ed. Z. por J. Ed. M. Bibliografia: Poesia: Primeiros cantos. Ed.a ed. S.. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Poesias. Aguilar. Bandeira. últimos cantos. até hoje. ed. Rio de Janeiro. 2. não tenham. 2 vols. Consultar sôbre o assunto: Nogueira da Silva. Noberto de Sousa e Silva. ed. 6 vols. Se algo há de estranho é que os historiadores. Poesias completas. 7. era mister "ficar sendo índio" o mais possível. regressando em 1864. 1848. S. em oposição a 3 Couto de Magalhães.. feito alusão ao seu evidente indianismo. O selvagem. Rio de Janeiro. crítica. 1857. Paulo. 6. Garnier. 1910.. S. Foi o que fêz Anchieta. Para civilizar o índio era preciso antes assimilar-lhe os padrões culturais. Teatro. Rio de. regressar ao primitivo. escreveu diálogos a que dava o nome de "comédias". O auto "Nheenga apiaba pé awaré joseph Anchieta recê" (Fala aos índios pelo padre José de Anchieta) no qual são personagens índios. por Domingos Jaci Monteiro. 203 p. Mário da Silva Brito e F. quando perece em naufrágio. ed. 1851. anjos e demônios. Obras poéticas. Paulo. Cantos. 1909. 1896. 1950. 1928. Antônio Houaiss.8 ed. 1870. 326. O Brasil e a Oceania. Rio de Janeiro. 1910. E. M. parte em 1862 para a Europa. Consultar: . Ed. d. 1959. Laemmert. ed. Com saúde precária. Poesias completas. Edições Póstumas: Obras póstumas. Janeiro. Poesias. 1868-69. Garnier. 2 vols. Bibliografia de Gonçalves Dias. Anuário do Brasil. Rio de Janeiro. 1944. Garnier. Poesia Completa e Prosa Escolhida. Aprendeu Anchieta a língua brasílica da qual organizou um vocabulário e uma gramática. 1857. Rio de Janeiro.dos nossos aborígines. 6 Virgem Maria Tupã cy etê Abe pe ara pora Oicó endô yabê. 1910. Poesias póstumas. Rio de Janeiro. J. Os timbiras. Segundos cantos e Sextilhas de frei Antão. que nunca negaram ser Anchieta o nosso primeiro escritor.a ed. 1. Rio de Janeiro. Saraiva. Poesias. Nae. Indianismo que pode chamar-se "indígena". Valverde. s foi muitas vêzes representado por meninos no "pátio do colégio" em S.

Gustavo Barroso. das Obras poéticas. Academia Brasileira de Letras. Letras. Durante muito tempo. S.a ed. Apresentação da poesia brasileira. Críticos de poesia moderna. v. em tupi. José Veríssimo assinala a originalidade do Uraguai. Paulo. pode ser lida com emoção até hoje. 5 lhe reconhecem os méritos. Guilherme "alienígena". IX. 34. 4 Os poemas de Anchieta. p. É daí o verso famoso: "Tanto era bela no seu rosto a morte". Acad..). iJnico afirma. de estilo "jesuítico". da literatura brasileira. S. 122). G. Múcio Leão. A morte desta. (in Acad. P. Brasil. ou de fazer lembrar. baseado em motivo histórico. muita tinta havendo corrido nessa controvérsia inútil. Manuel Bandeira. (in Rev. 1940. Rio de . p. (in Gonçalves Dias. 9 nov. embora grande parte da bibliografia sôbre êle seja de natureza biográfica. 1. idem. Introdução à ed. Acad. Gonçalves Dias (conferências de J. 13. Paulo. do Brasil. b) Indianismo arcádico. p. A obra poética de Gonçalves Dias. M. C. b. de apêlo mais aos sentidos do que à razão. Letras.É vasta a crítica a Gonçalves Dias. estando sua obra bastante estudada. foram em sua maioria traduzidos para o vernáculo (1732) pelo padre João da Cunha. Ronald de Carvalho. particularmente em relação a Castro Alves. vol. são os trechos líricos sôbre Cocambo e Lindóia. que se deixa picar por uma cobra. F. 1946. 1944. Nac. Casa do Est. Basílio da Gama (q. Pedro Calmon. D. Dep. Ackermann. 1948. que o indianismo já está em nossas "primeiras letras". O Uraguai. Letras. S. Paulo.entre todos os épicos daquele momento literário que não quis ou não procurou imitar Camões. referindo-se ao poeta . 38. Pequena hist. Rio de Janeiro. vol. I. "A poesia brasileira na época colonial". o poeta lhes celebra a intrepidez. Rio de Janeiro. Amaral. M. Brasil. Autores e livros. Apresentação da poesia brasileira. 1924. A poética de G. Airosa. de cunho edificante. Múcio Leão. 1941. D. Ed. Elogio da mediocridade. e barroco. Curso de Poesia. Macedo Soares. no que tem de bilíngue. Comp. idem. a correção e o brilho da forma. E o que se salva no poema é justamente a parte indianista. é uma exaltação dos portuguêses e ataque aos jesuítas na luta contra os índios das Missões. 162. e ainda hoje em certos setores. essa crítica de paralelo demonstrou sua esterilidade. A. Roquete-Pinto. enfim. Paul. em vez da análise da obra. Bandeira. Conquanto vencidos os aborígines. Bandeira. de Cultura. 5 Ronald de Carvalho. de Almeida e Manuel Bandeira). a o indianismo. junho 1936. a crítica perdia-se em debater a superioridade do poeta sôbre outros. 4 O fato é importante principalmente no sentido de provar. Nova Era. Viriato Correia.

Gonçalves Dias e a poesia alemã. Manhã. B. C. quando diz que "os sucessos do Brasil não mereciam menos que os da índia". Besouchet. 1941). Imp. Literatura dei Brasil. (in Autores e livros. Gonçalves Dias. 1874. Rio da Janeiro. idem. vous y trouverez le goust de votre propre chair". Y. Martins. José. já de torna-viagem. Ed. H. A literatura brasileira contemporânea. Paulo. Castro. no oferecimento a D. Olímpio. Rio de Janeiro. Monteio. 30 abril 1944). A linguagem das Sextilhas de Frei Antão. O. A H. Soe. 1927). (Introdução à 6. A vida de Gonçalves Dias. Alves. de lás Espaãas. D. v. das Poesias. J. ao mestre francês. F. de A. 1948). (in Cor. Lima. Quem se apegou ao modêlo camoniano foi Santa Rita Durão (q. E. recolhida por Montaigne: "Savourez les bien. Rio de Janeiro. (in Brasília.ês. Jucá Filho. Rio de Janeiro. Melhoramentos. 3 dez. A margem da Canção do Exílio. Antônio Gonçalves Dias. das Acad. A linguagem das Sextilhas de Frei Antão (ia Anais do 2. São Luís do Maranhão. de C.° Cong.. Curiosíssimo é o trecho (Canto V) em que o poeta alude à canção do índio prisioneiro. 1943. (in Panteon maranhense. (in Cor. g Se Basílio da Gama é mais brasileiro na forma. idem. Cardoso. Naturalmente a teria aproveitado. Fernandes Pinheiro. Inst. O episódio da morte de Moema é tido e havido pelos críticos como uma bela página de nossa melhor poesia colonial (Canto VI). D. Bilac. (in Ensaios e estudos. Dias. Durão parece mais brasileiro na essência. Conferências literárias. Não se menciona um só português indianista.a ed. Nac. N. I). D. Bastide. (in A semana. parece fazer um reparo ao épico . 1942. de Letras. Feder. S. 27 maio. embora o nosso primeiro documento escrito sôbre os índios tenha sido a "carta . ensaio biobibliográfico. Poesia afro-brasileira. D. Gonçalves Dias.portugu. Locubrações. The Indian in Brazilian literature. J. T. 1946. D. I/38. Paulo. 1874. 1923. 1939). Gonçalves Dias em Portugal.Dias sôbre Beatrice Cenci. Ipê. importado. a situação dos nossos indígenas espoliados de suas terras. vol. como no amor da princesa Paraguaçu e no da humilde Moema por Diogo Álvares. Acad. N. Rio de Janeiro. 1943). aC. G. Rio de Janeiro. III). de Abreu. Os amôres de G. c) Indianismo exótico. Driver. 1949). 1943. I. Aquêle celebra o índio. A. Melsmo o tema está mais próximo do indianismo. C. S. de. 1939. 1912. E. mas êste já o defende. Vida de G. O sentimento de piedade em G. Manhã. vol. 1955). Coimbra. A. Garnier. S.Janeiro. J. vol. 9 nov.. Leal. 2. Paulo. Capistrano de Abreu. Rio de Janeiro. Aires. Amorico. J. Buarque de Holanda. L. sudamericana. Manhã. Os dramas de Shelley e Gonçalves .. 1 e 1 Freitas. A. L. Guerra. 1870. Lisboa. 1885). R. Noticia sôbre a vida e obras de A. Bras. Miguel Pereira. expondo. (in Espelho contra espelho. (in Cor.) cujo poema Caramuru é escrito èm oitava rima. Gomes. Cap. 19 set. F. 1931). Não obstante.

Comérc. 1949. de Letras. 1935. 1937. Sôbre o im~Mo. Sousa Pinto. 6 Pode-se ainda. Rio de Janeiro. G. . 1942. n. Estudos de literatura brasileira. Espaãa. 1). de Letras. Nac. 1929). J. 1952). Gonçalves Dias et le Portugal. e bras. D. Ferreira. 1928. das Poesias. Editôra das Américas. . Gonçalves Dias.° 88. 11. A. sua obra O Brasil e a Oceania. idem. O indianismo na poesia brasileira. The Indian in Brazilian literature. de Letras. Bandeira. 22 set. de Vaz Caminha. Viúva Moré. 12 março 1938. Ensaios e estudos. O indianismo na literatura romântica brasileira. seus Segundos Cantos. 1937. Gonçalves Dias (in A semana. 1866)... 1942. São Paulo. vol. idem. Antônio Gonçalves Dias. Paulo. Pinheiro Chagas. 1888). Bras. 1931. Y.a sér. Nogueira da Silva. Bras. Manhã. 1964. Rio de Janeiro. M. Piccarolo. Inst. 17 nov. autor da "Ode ao homem selvagem".do achamento". Inst. Rio de Janeiro. M. A. L Rio de Janeiro. São Paulo. D. Gonçalves Dias (in Ensaios críticos. Imp. (ibidem. A Noite. M. 16 fev. 19. 1933). Gonçalves Dias e Camilo Castelo Branco (in Corr. Manhã. seu drama Boabdil. C. français. Briguiet. Pôrto. A. Said Ali. 1936). Coimbra. idem. da Acad. N. Mota. Luís do Maranhão. J. Raeders. entre outros. Ribeiro. idem. Gonçalves Dias. Gonçalves Dias e Castro Alves. abril 1929). Rio de Janeiro. seus últimos Cantos. A obra de F. Rio de Janeiro. na qual' se exaltam "os doces anos de vida primitiva dos humanos". Laemmert. Távora. Seu poema épico Os Timbiras (in Curso de lit. (Nota de 1969). Melo Franco. mencionar Sousa Caldas. vol. Notícia sôbre a vida do autor (Prefácio da ed. Acad. Garnier. patriota (in Corr. Tip. Driver. O índio brasileiro e a Revolução francesa. F. 1901. 8 set. ver: Capistrano de Abreu. Gonçalves Dias (in Rev. O pressentimento da morte em Gonçalves Dias (in J. 2. Rio de Janeiro. 1935). J. seus Primeiros Cantos. Um grande poeta romântico em Coimbra: Gonçalves Dias (ia J. especialmente a de Sílvio Romero. Manhã. Estudos gonçalvinos (in J. idem. a carta de Vespucci (1503) traduzida em várias línguas. de. o poeta nacional (in Clássicos e românticos brasileiros. 61-107. pp. V). S. Olímpio. 12 nov. 1896. vol.Ver ainda: M. J. 1873. Ackermann foi reeditada pela Comissão de Literatura do Conselho Estadual de Cultura. Veríssimo. F. Sotero dos Reis. Lisboa. além das histórias gerais da literatura. escrita em 1873. 1943. do País. IV). 25 fev. port. A. Antônio Gonçalves Dias. M. S. M. O maior poeta. Rio de Janeiro. idem. Comérc. sua biografia. 1938. No entanto. 1962. Poesia e Vida de G.

com as suas "vergonhas tão cerradinhas" $ e demais encantos. quem escreve El Brasil Restituido. Os índios eram gente "bestial. no qual aparece uma índia de nome Brasília. 9 Gilberto Freyre. em L'Apport Intellectuel des Colonies à Ia France. Thevet (1558) Jean de Léry (1563) . se chamaria luta de classe e revolução social". 1° mais apetitosa que a do reino. inspirado no índio brasileiro. As origens do Brasil. ouve a palestra do rei com os tupinambás e traça 13 "um claro panorama daquilo a que. por uma ordem régia (1727) . narram em França as "singularidades" admiráveis dos nossos aborígines. é Lope de Vega. praticava um regime social tão livre e tão feliz ?". 8 Carta de Vaz Caminha. I. . p. in Jaime Cortesão.a ed.. sim. Le Roy. p. 163. 7 Na Carta de Vespueci. a mais famosa. Polígamo por excelência. proíbe o uso da língua brasílica . ou porque fizesse de conta que ela era a "mpura encantada". além de viver em estado de natureza. 88.inclusive o latim. 11 apesar de "muito mais nossos amigos do que nós seus". 9 o caso é que a mulher do mato lhe pareceu mais bonita.introduzir na literatura francesa a idéia do homem "naturalmente bom ao sair das mãos do Criador". O interêsse intelectual coube ao francês. 7 O português fica encantado com o nosso índio. da índia. como nos adverte Gabriel Hanoteaux. de pouco saber e por isso tão esquiva". os exotismos decorrentes do tupi já figuram nos léxicos franceses. Na Espanha. 11 Idem. Casa grande e senzala. 149. Seguem-lhe o exemplo outros poetas da "Pléiade". a. O mito do "bom selvagem" aparece em Charron. 156. p. no Brasil. que esta. p. gostou mais. mais tarde. vol. Mas já em 1559. Claude d'Abeville (1614) . lhe aguça a concupiscência desde o primeiro instante. que lhe pareceu pitoresco e irá escraviza-lo na colonização. em Ruão. 14 enquanto Portugal. já é a fonte em que bebeu Thomas Morus para escrever a sua célebre Utopia. no comêço do século XVII. 4. o florentino vê no índio "una scelerata libertá de vivere Ia quale l piu tosto se conviene agli Epicuri che alle Stoici". Ronsard publica o seu poema indianista "Ode contre Fortune". A essa altura. Pasquier. 10 Jaime Cortesão. Ou porque a nudez já lhe fôsse um afrodisíaco. op. Montaigne é o primeiro. O grande autor dos Essais conversa com três índios brasileiros na côrte de Carlos IX. que viu no brasileiro primitivo uma idéia nova para o mundo: "Pois havia gente que. cit. um convite irrecusável. 12 Mas não há exemplo de nenhum escritor português indianista.

Dá-se. d) Indianismo popular. Chateaubriand publica Atala. não obstante paradoxal. em 1750. o que já era nosso. então. e) Indianismo português. literário) o Brasil não fugiu ao seu destino de nação colonial e de mercado de consumo. por último o caboclo ainda. o indianismo que Capistrano descobriu nos contos populares cujos heróis são o marinheiro e o caboclo. Voyage en Amérique e Fenimore Cooper The Last of the Mohicans. nos contos populares. LXIV. 13 Afonso Arinos de Melo Franco. p. O índio brasileiro e a Revolução francesa. Esses contos. um caso curiosíssimo. glorifica o "bom selvagem" já num sentido social: "ces. através do francês. Les Natchez. o que já estava na origem da nossa história literária. 15 tendo por herói eterno o caboclo e o marinheiro. o caboclo em luta contra a civilização. O indianismo no Brasil . Imitávamos. 131. Ainda na colônia surgem os primeiros poetas indianistas. que nada tinha de exótico. em 1753. Paulo. S. le tien et le mien". 14 Sôbre exotismos: Rodolfo Garcia. são os documentos mais importantes para a nossa história e escrevê-la sem estudar os contos satíricos é tão ilusório como apanhar o caráter nacional sem interpretar os contos "épico-fantásticos". Nunca havia deixado de existir. Os nobres índios de Cooper. um indianismo local.. entram em cena. a fim de o escarnecer. que mesmo no terreno ideológico (acrescentaríamos. como ficou dito. Ao que diz Capistrano não será demais acrescentar que a astúcia do nativo vencendo sempre o marinheiro. na expressão de Margaret Murray Gibb. é importado pelos nossos escritores como uma planta exótica. diz Afonso Arinos de Melo Franco. através. p. As matérias primas com que se fabricavam as doutrinas futuras daqui saíam para a Europa e de lá regressavam. O indianismo francês. Anais da Biblioteca Nacional.12 João Ribeiro. Colméia. faz lembrar logo a do jaboti vencendo o homem e o gigante nos contos indígenas. 1923. vendo-o perdido na floresta. 191. D. pasmado de vê-lo saber ler. mas o ridículo como que está esfumado e. 1942. e. no Discours sur L'Inégalité. no Brasil.indianismo colonial nasce com Anchieta. nascido do índio brasileiro. mots affreux. 171. comendo os ovos do pássaro "biabo". em Discours. Por aí se vê. é outro exemplo. sob a forma de artigos importados. sente-se não só a fraternidade como o desvanecimento. vol. porém. A fábula do corupira ensinando caminho errado ao intruso. folclórico. Não deixa de existir nos contos populares (Capistrano). nascidos no Brasil . O mestre fala em três fases: o marinheiro em luta contra a natureza brasileira.os . É então que Rousseau.

tinham êles as do padre Cardim. publicava na. 17 Nada mais natural. além de Léry e Thevet. escrita na segunda metade do século XVIII por Filinto Elísio. Ao lado das portentosas descobertas marítimas que constituíram objeto obrigatório das obras literárias portuguêsas do século XVI. paradoxalmente. Mais tarde Vieira defende os aborígines mas é no Brasil que o faz. Espanha. exerce inegável sedução literária a respeito do nosso indígena. A omissão não passa despercebida dos próprios comentaristas de ultra-mar. ou como a peça que Lope da Vega. O pau vermelho. Além das de Nóbrega e do próprio Anchieta. de Gabriel Soares. sequer. entre os franceses. Uma carta de Nóbrega. já em 1559.°'. 2° mostrava que seria mais justo o . 15 Manuel Bandeira. Surge um Antônio Dinis. pois. Nem através do mito do "bom selvagem" que se propaga pelos séculos XVII e XVIII. um dos informantes. cheias de palavras indígenas 19 e também no Brasil escritas. falando a propósito do Caramuru. escrito em Portugal. Jerônimo Osório. Uma "Ode à Liberdade". vem da França. de Pero Lopes de Sousa. do que aparecer o índio em algum poema épico ou lírico. a descoberta do homem em sua "primeira inocência" 18 tinha algo de bíblico. notadamente no instante em que os navegantes lusos revelavam ao mundo a criatura humana que o mundo não conhecia.mineiros. Contudo. da Nova Gazeta da Terra do Brasil (já em 1515 editada na Alemanha mas traduzida para o português). utilizados por Montaigne nos seus Essais. relativa aos "brasis". segundo Villey. Por que nenhum indianista português ? Aos artistas lusos não faltaram informações. Mereceria bem algum poema como o que Ronsard. refugiando-se em Paris (1778) . $ um português. tanto que José Maria da Costa e Silva. uma hipótese de indianismo. o nosso indianismo é também de importação. via Chateaubriand. mas longe de constituir. lg com o Vida e Feitos d'el Rey D. e num gênero que não representa o índio como tema literário. Manuel. No entanto. mas traduzido para o francês. é que mereceu ser notado pelo grande épico. escrevia na França. logo ao início do século XVII. escrito em latim. com as suas Metamorfoses. Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica (prefácio). aquêle que escapou de ser queimado pelo Santo Ofício. e eis tudo. limita-se a mencionar a parte da América "que o pau vermelho nota. de Gandavo. os escritores lusos se interessam pelo índio brasileiro. não o índio. Camões nos Lusíadas (Canto X) quando Tétis descreve a Gama o orbe terrestre. divulgada em Paris (1556). não é isso o que ocorre. dos Diálogos das Grandezas.

Já Gonçalves de Magalhães. f) ladianismo romântico. aludia à "poesia cultivada pelos nossos aborígines" (1836) para depois publicar (1856) a: sua Confederação dos Tamoios. pelo menos. 179. pelo menos no Brasil. como sinônimo de independência (a Independência não deixa de ser um ato principalmente indígena). 20 Ensaio biográfico-crítico dos melhores poetas portuguêses. Para o autor das Cartas Devolvidas. Com a Independência. e por motivos óbvios.o indianismo transformado em teoria social. menos em Portugal. penetrando na corrente universal do Romantismo. No indianismo romântico. Mas em 1844 Teixeira e Sousa (1812-1861) inicia a nova fase do indianismo brasileiro com um poema em cinco cantos Os três dias de um noivado. ed. esclareça-se que é o juiz da devassa contra a Inconfidência e contra a sociedade literária fundada por Alvarenga Peixoto. Versos medíocres. p. que é a do patriotismo. Tratava-se de indianismo como sentimento nativista. Literatura portuguêsa. 1852-1855. de imitação francesa. porém com a primazia. 19 Fidelino de Figueiredo. Vi. o Romantismo a que o próprio índio deu causa e o nacionalismo de que. tomando por base uma lenda indígena. Cooper e Chateaubriand refletem-se de pronto no Brasil. com as suas criações indianistas. 22 duas fases do indianismo: uma de feição patriótica.. forma a nossa epopéia original e talvez a única que na história de nossas letras possa acusar uma fonte e origem profundamente nacional. não se nega. 54. Gonçalves . Sôbre Dinis. a que alude d. p. p. do que pelas imitações clássicas de gregos e romanos. 223. nossos irmãos poítuguêses já não admitiriam o índio em suas obras poéticas ou ro16 Afonso Arinos de Melo Franco. em seu manifesto. op. era a do "homem em sua primeira inocência". colheu já fria e morta. a ilusão patriótica mas rejuvenesceu-a. na segunda fase. 21 João Ribeiro nota. contando-se o primeiro em Anchieta). enquanto Romantismo quer dizer nacionalismo. cit.interêsse luso pelos quadros brasílicos originais. 17 René Gonsard. a um Gonçalves Dias. Manuel na carta aos soberanos espanhóis. na introdução do nosso segundo indianismo (aqui se dirá terceiro. em verdade. Portugal provava ao mundo que a Bíblia não era fábula. na opinião de José Veríssimo. e que é uma modalidade do indianismo romântico. Caberia fazê-lo aos brasileiros. La légende du bon sauvage. a um José de Alencar. é que se reúnem pela primeira vez três palavras já então densamente carregadas de sentido ideológico . outra de imitação francesa. 18 A descoberta não era só geográfica. Na primeira fase. Afinal. passa a ser símbolo. manescas.

estava-lhe no corpo. Nestas. O seu índio dos poemas líricos ou épicos seria índio mesmo. é a substância mesma dos poemas . o índio residia dentro dêle. nas "Poesias Americanas". Não estava importando êle o que já pertencia ao seu sangue. relação têm com o indianismo das narrações folclóricas. autobiográfico. em seu sentimento. 23 sendo certo que os poemas de Gonçalves Dias nenhuma.substância poética sem a qual não se compreenderia a sua obra. Viajasse pelo Rio Negro ou residisse em Paris. Cartas devolvidas. 243 ss. Nada êle parece dever à literatura francesa. Naquelas. nas suas leituras ou confissões ? O que há é uma frase do autor de Atala inscrita. porém. que o antecederam ou sucederam. a superioridade do nativo sôbre o forasteiro se exerce pela manha. Não lhe vinha de torna-viagem. opúnhamos o nosso pr&cabralismo. em estado de legítima defesa. nos Primeiros Cantos e que são: "Canção do Exílio". 21 Para Sérgio Buarque de Holanda. natural de traduzir em têrmos nossos a temática da Idade Média. Como quem pergunta: por que não o havemos de fazer nós ? A sua obra indianista está contida. desde menino. alimentava-lhe a personalidade. que êle compreendeu e defendeu. mas isso demonstra. Querem alguns exegetas que o indianismo popular tenha influído em sua poesia. como para outros indianistas do seu tempo.Dias se encontra bem na primeira fase. em prefácio às obras completas de Gonçalves de Magalhães. ornamental. o índio é apenas acessório. na sua imaginação poética. pela astúcia. 1926. e não mesmo. Era o índio que havia nêle e era o índio que êle conheceu. como os seus poemas de amor. específico. a beleza moral do "I Juca Pirama". 22 João Ribeiro. como se sabe. p. apenas. Era uma fôrça secreta. Pôrto. Onde as provas disso. naquele. o culto da lealdade. O seu indianismo seria. Nenhuma influência existe do indianismo anterior. g) Indianismo gonçalaino. o desejo de "mostrar" que a literatura alienígena já fazia do nosso índio d seu tema. que já figuram. o chamado clássico (areádioo) sôbre o seu. o indianismo foi a maneira . é originalmente brasileiro. com as suas "Poesias americanas" é. em parte. Ao medievalismo dos franceses e portuguêsee. . Essa tese já foi contraditada. e reconheceu no Rio Negro. ou em Dresde. Pergunta-se se o indianismo marca Chateaubriand e Cooper teria contribuído para o seu estro. ou em Coimbra. O caso de Gonçalves Dias. e não índio de cartão postal. Já se respondeu que não. no pórtico dos Primeiros Cantos. no seu.. o que há é o "sentido do heróico.

. intitulado "Tabira". liter. grande poema épico do qual só chegaram a ser publicados os quatro primeiros cantos. Mas a sua obra capital. lingüística. "Canção do Tamoio". Couto Magalhães. a "Deprecação". Compreende a própria cultura indígena "como base de nossa autenticidade americana" (Gilberto Freyre) . Staël. Supl.. Minha terra tem palmeiras (in Autores e Livros. o "Leito de Fôlhas Verdes". em Os Timbiras. em "I Juca Pirama". devia ser Os Timbiras. sociologia. Capistrano. Quem diz índio diz Rousgeau (a bondade natural). n .como diz Thibaudet . "O Canto do índio".. notadamente por ser indígena na parte formal (palavras como palmeiras. O indianismo cultural. em "Leito de Fôlltas Verdes". Para se dar o devido valor ao seu indianismo. "Marabá". típico das canções indígenas. etc). Uma palavra é que explica a outra e a explicação só surge . diz (com referência ao Brasil) nativismo. de A Manhã. justamente. RoqueterPinto. Independência. sabiá) e no próprio sentimento ingênuo de saudade. diz igualitarismo. o "I Juca Pirama". h) Indianismo ideológico cultural. Sem dúvida. Guatemozim no Ipiranga. Rondon."O Canto do Guerreiro". São temas que escapam a esta obra. embora Gonçalves Dias tenha sido. o do mito do "bom selvagem" 23 João Alfonsus. e das idéias revolucionárias que suscitou no domínio social e político. o dramático. I). por seu turno. define Mme. Nas poesias póstumas se encontram "Poema Americano" e "O índio" ("Visões". e mostrar que é esta a parte dos seus poemas que o imortalizou. será o que compreende os estudos de etnologia. hoje em franco desenvolvimento.quando se tornam adversárias. "O Canto do Piaga". Fora da poesia e da literatura de ficção não será demais falar-se (porque com elas vivamente relacionado) no indianismo ideológico. Nos últimos Cantos se incluem "O Gigante de Pedra".O 13). Nos Segundos Cantos figura outro poema indianista. Romântico é o que não é clássico. . revolução russa. a. "A Mãe d'Água". Ainda quanto ao indianismo gonçalvino há que notar que abrange os três principais gêneros poéticos a que se dedicou o vate maranhense: o lírico. o épico. a que ainda hoje o faz presente de modo tão vivo à nossa emoção. "Canção do Exílio' pode ser considerada um poema indianista. Mas é preciso atender: . bastará acentuar que os seus dois poemas tidos e havidos como verdadeiras obras primas pertencem às "Poesias Americanas": "Canção do Exílio" e "I-Juca Pirama". diz "o índio brasileiro e a revolução francesa". o precursor de tais estudos. pelos motivos a que se fará referência logo criais. antropologia (Batista Caetano. pela extensão que teria.

Vem o Romantismo do século XIX. portanto. antes. embora o nosso índio figure nas origens do movimento. Além do mais.nismo três vezes autêntico. uma virtude romântica? . no Brasil. U arrependimento já não é. (Houve um "clássico". E isto porque Gonçalves Dias não tem o seu indianismo ligado ao do mito. principalmente no "épico" e no "dramático".. conquanto implique a projeção do seu caso pessoal. A princípio parece que todo indianismo é romântico. de negai a si mesmo. ninguem é obrigado a ser o que não é. Mas no caso de Gonçalves Dias. o caso de Gonçalves Dias. India. não. . pelo que se diz) . >. .O Romantismo. porque pode haver um Romantismo clássico. Santa Rita Durão) . Indianismo que difere do "exótico" (Cooper. lhe é contrário.que foi indianista pergunta-se se é obrigatório o binômio Romantismo-indianismo. mas coexiste com o clássico. transformado em mito do "bom selvagem'. porque o Romantismo dá. Aliás foi o nosso índio (insista-se) que despertou. e um indianista que se fez "clássico". num sentido de "modelar") . o de Gonçalves Dias: a) pelo sangue (era ele filho de uma guajajaxa com um português) . mesmo no Romantismo. Ora. que se fez indianista. não fala de si mesmo. o seu indianismo. via Montaigne. Como se trata do Gonçalves Dias . liberdade para tudo. precede a si mesmo (os árcades já eram românticos. em que o poeta não obedece ao Romantismo.O Romantismo dá também ao romântico o direito de se arrepender. substitui a ideologia pela realidade humana do índio. pai do Romantismo. . inclusive para não ser romântico. não raro pedante. as idéias que culminaram em Rousseau.uma vez que todo nôvo ciclo literário começa romântico e termina clássico. um Musset. literàriamente. antes. não deixava de falar em causa. primeiro. se realiza. segundo. convencional (Basílio da Gama. Chateaubriand) e do nosso indianismo que o precedeu. Neste último caso estão. com sangue índio no coração. O seu indianismo nada tem que ver com o Romantismo europeu. a quem o adota ou sofre. se despersonaliza. um Gonçalves de Magalhães. se ele dá ao poeta liberdade de não ser romântico isto quer dizer que.O Romantismo continua a existir depois de si mesmo do seu período histórico . um Heine. por si mesmo. Razão claríssima do seu indianismo original. Não só por isso como ainda porque. por exemplo. própria.

b) Adotei todos os ritmos da metrificação portuguesa e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia exprimir. pelo menos em quatro momentos típicos da nossa história literária. foi ainda ele diferente de si mesmo quantas vezes quis. mais tarde. O POETA LÍRICO Os três gêneros . e mesmo no início do nosso século (já esporàdicamente). e as idéias que em mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano .integram a poesia de Gonçalves Dias. é sempre certo que tive o prazer de as ter composto. c) Não têm (as suas poesias) unidade de pensamento entre si porque foram compostas em épocas diversas . Machado de Assis (Americanas) e Olavo Bilac ( "A Morte do Tapir"). surgem Basílio da Gama e Santa Rita Durão. sôbre as vagas do Atlântico e nas florestas virgens da América. purificar tudo isto com o sentimento da religião e da divindade. etc). Releia-se o prólogo dos Primeiros Cantos (1846) : a) Menosprezo (menospreço.colorir tudo isto com a imaginação. Oswald de Andrade e Mário de Andrade.e sob a influência de impressões momentâneas. ressurge o indianismo no grupo da "Anta". Vocabulário da Língua Tupi. e) Com a vida isolada que vivo. e se não. dizia) as regras de mera convenção. gosto de afastar os olhos de sôbre a nossa arena política para ler em minha alma. f) Casar assim o pensamento com o sentimento . Mas há que averiguar qual a sua concepção de poesia. II. .a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir. Em síntese: 4 indianismo ocorre. no XIX.lírico. já no século XVI ( f554) . d) Escrevi-as paia mim. g) A Poesia grande e santa . Sob as três faces.o aspecto enfim da natureza. Canto. no Brasil. .. no da "Antropofagia" e no Macunaíma. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos píncaros enegrecidos do Gerez . Em 1922.b ) pelo conhecimento direto dos indígenas com os quais conviveu (quando menino e nas excursões pela Amazônia) . épico e dramático . No XVIII. eis a Poesia. reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso. contentar-me-ei se agradarem. foi Anchieta. ação e narrativa.. e não para os outros. c) pelos estudos que realizou (Brasil e Oceania. Gonçalves Dias e seu grupo. O primeiro indianista.no Doiro e no Tejo.o coração com o entendimento a idéia com a paixão .debaixo de céu diverso . fundir tudo isto com a vida e com a natureza. com Plínio Salgado.

a) Lirismo idílico.como se vê pelo prólogo dos Primeiros Cantos. trovadoresco. pelo que tem de "caprichosa imagem da cidade". que a poesia. etc. Tanto êle escreve no Doiro como sôbre as vagas do Atlântico. tendo recebido em cheio o contato com os portuguêses.. a francesa. Versando em várias línguas e na literatura de outros países ." Em "O Vate" vê-se. para o autor dos Primeiros Cantos. tanto nos píncaros do Gerez como nas florestas virgens da América. Mas o seu brasileirismo é às vêzes feito de agreste pureza: Minha terra tem palmeiras. tudo isso explica a qualidade da sua dição e do seu espírito à luz do conhecimento..Quanto à letra b) esclarece melhor o poeta o seu ponto de vista no prólogo dos Segundos Cantos: . Ninguém desconhece o conselho de Rilke sôbre o quanto as viagens ilustram a sensibilidade poética.considerado o poeta em seu. épico.mais fácil. enriquecido o seu estro. Sublime por quê? . Mas. "o pensamento dominando em todo o verso.. mas é educada. Não haverá outro poema . mas que seja menosprezada a metrificação . . depois. amor à natureza. bíblico. a italiana e a inglêsa. de feição quantas vêzes lhe apraz . não só muda. circunstancial. assim.lírico. à européia. . que tinha. A lira gonçalvina é variada e experiente. as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Há também uma verdadeira topografia poemática na sua poética . não há dúvida . dramático. a que se refere Charles Morgan. e do amoroso ao panteísta.e a rima que naturalmente se lhe sujeita . onde canta o sabiá. o certo é que o seu lirismo vai do anacreôntico ao amoroso. Agrada tanto que é tido como "quase sublime" por José Veríssimo e promovido a "sublime" por Manuel Bandeira. é o poder de recriar as coisas: .ao que se saiba . mais singelo. . a espanhola. etc.como muda de lugar. As viagens terão. pela civilização que nos revela. embora pergunte De Anacreonte o gênio prazenteiro de que me serve a mim ? ("A Minha Musa") e embora diga que a sua fonte de inspiração não é o amor. satírico. o inferno Dante.como a alemã. realmente. frei Antão. é feita de um ramo em flor. em sua geografia sentimental ou psicológica (como diria Georges Hardy) .. pela poesia da "experiência humana". Homero o mundo criou segunda vez. O poeta. dos grandes problemas literários do soeu tempo.e o metro que se desdobra em todos os sentidos. Milton o paraíso.

p. a sintaxe lírica. cantando em lugar certo . O sabiá. Gonçalves de Magalhães havia sido mais exato que Gonçalves Dias. . o que se tornava muito importante numa hora de reivindicação nativista. Por causa de certas palavras-chaves.parou de . como "sabiá". 2s 24 Polêmicas em Portugal e no Brasil. para ouvidos mais exigentes. e não na palmeira. por causa de certas palavras-chaves. sem resultado algum. poético. O que canta é o "laranjeira". Revista de filologia. "sublime". Rio de Janeiro. pois o seu sabiá cantava na laranjeira.g. o sabiá gorjeia nos versos de Gonçalves de Magalhães. Sel. no ataque a Fagundes Varela. em agudo. por causa da rima por aliteração de fonemas iniciais (primores. que nela gorjeia quatro vêzes. e mui legitimamente. Mesmo mais tarde Pedro Luís censura a Casemiro por causa de seu rouxinol. e êstes não cantam em palmeiras. também não. essa faz o sabiá cantar na palmeira. não.77 Portanto. por não possuir um único adjetivo qualificativo. em seus Suspiros Poéticos e Saudades. o sabiapiranga. O sabiá passava a ser um argumento ideológico.Apontam-se vários motivos: por causa da melodia. ainda sob êste aspecto. por não ter outro qualificativo senão o que lhe dão. Aqui caberia uma réplica: se o sabiá não substitui a sintaxe. Pinto. 25 Pedro A. porque o leitor não dará por isso. aquêle "por cá" nada possui de melódico. tudo isso poderia ser. v. a. Mas quem descobriu o sabiá para a poesia foi Marques Pereira. p. "quase sublime". Tanto que o sabiá de Gonçalves de Magalhães. é também o sabiaúna. por ser uma canção mais do que um poema. contestado. como foi. como o indígena. no Peregrino da América. Por não possuir um só adjetivo.. Enfim. palmeiras). (Alcdatara Machado. também não. E note-se: Magalhães empregou o sabiá em oposição a rouxinol. 45). já havia sido empregado por Gonçalves de Magalhães. 130. por causa do "á" de sabiá.na laranjeira . ~ com o seu sabor de vogal indígena ao fim de cada estância. Já antes de Gonçalves Dias. V: L£ cantava o sabiá um recitado de amor em metro doce e sonoro. Gonçalves de Magalhães. Costa Rêgo. proclama que "sabiá não substitui a sintaxe". 24 Alega-se ainda que o sabiá que freqüenta as palmeiras é justamente o único que não canta: o sabiapoca. ou o romântico arrependido. ao mesmo tempo que Camilo. 1944. Por causa da melodia. Ora.. Cap..° 2.

voz da saudade. As verdades poéticas se irmanam com os mitos. da linguagem indígena. e o de Gonçalves Dias gorjeia até hoje. Brasil não era só a Terra Papagalorum. mas o poeta disse "minha terra tem palmeiras" mui acertadamente. evidentemente. o mais singelo que se possa conceber . a Vênus. yara rama ae recê. quem afirma: há uma verdade que não exige prova. por seu lirismo tão à mostra. Sabe-se que é sublime. a elevação que o canto obtém quando cantado na palmeira e não na laranjeira. dão a volta e vão saber o que existe atrás dêle. São mais duas verdades poéticas que ninguém irá contestar. imagem da pátria. não faço o que fazem certas outras crianças que.. Nossas várzeas têm mais flôres. citado por Julien Benda.cantar. e não há lógica nem filologia capazes de reduzi-Ias nela análise. tão nu. Para que o leitor se contente com a sua singeleza. não se sabe porquê. a música não precisa ser provada. ficou mudo ou foi silenciado pelo olvido. era o Pindorama. havia dado ao que não canta o que devia ter dado ao que canta: a altitude.uma comparação entre coisas de lá e de cá em têrmos de saudade tenha dado margem a tantas explicações. o 26 Mesmo à luz da concepção moderna de poesia (de um Valery. No mesmo poema.poderia ser invocado. Houve quem objetasse ainda que no sul não há palmeiras. estatisticamente. itamarana po anhatin.vá lá . Gonçalves Dias diz: Nosso céu tem mais estrêlas. Um certo surrealismo.. ou são mitos elas mesmas. explicável numa hora de exacerbação ou de angústia desfiguradora causada pelo sentimento de ausência . como diz Goethe a Eckermann. O que surpreende é que um poema tão singelo. para citar um mestre) o próprio instinto poético conduz cegamente à verdade. idem. Vem o poeta e corrige o que estava errado na natureza. ou quase sublime. A pequena obra-prima é o que é. Trata-se daquela "verdade poética" que não precisa ser provada. para não ser preciso saber o que está no outro lado. Ninguém o conseguirá emudecer. ao se verem no espelho lhe. $ um cartesiano como Alain. Ya so Pindorama koti. . A natureza errou. ná palmeira. em La France bysantine. 26 Poder-se-ia recorrer ao símbolo: o canto do sabiá. Faz mesmo lembrar aquelas figuras que as crianças desenham de perfil (como os egípcios o faziam) e com os dois olhos do mesmo lado do rosto. de Milo. era um direito seu. tão de uma só face. já que "êsse passarinho triste é a voz de nossa paisagem".

.em rumeno. p. tamanha é a sua ingenuidade e ainda porque o poema evoca. erú. mas Paulo Quintela. como realmente a empregou. Cultura. Dep. o amado ausente é um tema indígena. não obstante existir .cuja missão é justamente despertar ternura no coração dos homens e fazê-los voltar para tribo. criticandoo. embora sem nenhuma complexidade. no seu sentido português. um vocábulo que exprime a mesma coisa.79 . a saudade gonçalvina da "Canção do Exílio" chega a ser indígena. Fritz Ackermann 27 havia observado que a saudade contida na "Canção do Exílio" é um sentimento tipicamente brasileiro. que Quintela tem tôda razão quanto à palavra saudade como exclusivamente portuguêsa. Paulo. onde canta o sabiá passarinho triste que figura já nos poemas indígenas (uirachué. 783.como nos informa Couto de Magalhães . não pára aí.diga-se de passagem . Aqui é a índia que de saudade 27 Fritz Ackermann. e não brasileira . Paulo). citando em seu favor Carolina Michaelis e Karl Vossler. Catiti e Cairé são as mensageiras sistemáticas da índia amorosa. que afinal nem se referiu ao vocábulo na "Canção do Exílio". Além disso. Lá é a nostalgia que o leva a falar no sabiá e no país das palmeiras. o país das palmeiras. Há até um deus. num sentido geográfico. em oposição ao lugar onde o poeta se sentia exilado. uma saudade antiportuguêsa. S. II. chamado Rudá . t.A história crítica do pequeno poema. superficial. 28 diz tratar-se de uma afirmação abusiva.afirma o escritor luso. ou hoã-pyi-har). Uma coisa é certa: menos nesse poema. menos ainda no "Leito de Fôlhas Verdes" A saudade indígena é que está retratada admirávelmente por Gonçalves Dias em ambos. A obra poética de Gonçalves Dias (in Revista do Arquivo Municipal. em folheto. terá empregado "saudade" em outros poemas. 28 Paulo Quintela. Pode-se falar então numa saudade indígena? É sabido que os nossos índios conhecem êsse sentimento. cika Piape emú O manuara ce recé Quaha pituna pupé. com as mesmas conotações líricas. 1940). Ora. (Repr. porque sentida em Portugal. 29 Cairé. cairé nu Manuara danú çanú Eré ai. Em seu favor se poderá alegar ainda que o próprio Gonçalves Dias. arbitrária. constitui um refrão nos poemas rudimentares do nosso selvagem. É até. o Pindorama. sem nenhum desprimor. A palavra "saudade" é portuguêsa. insuficiente. em seus momentos de mais aguda saudade. portanto. S. porém. Brasília. 29 Fazei chegar ao coração dêle (o amante) a minha lembrança! Admita-se. contudo.

seja a punição dos insensíveis. mesmo hoje. em seu estudo sôbre Gonçalves Dias . Tarde") e a "rainha do passado" ( em "A Saudade" ) . a palavra. Será aquêle "fantasma. implicam numerosos motivos de separação (geografia) e no amoroso apêgo do português ao seu passado tão rico de tradição. impacientes. Torna-se mais complexa. . A diferença está nos poemas de Gonçalves Dias: entre a "sócia do forasteiro" (Em "A. etc. a canção do exílio. vai seguindo após ti meu pensamento e que está ligada à separação pela idéia da distância e não do tempo. entretanto. com saudade do reino. francesa. frívolos. o do português. na maior parte. ou dia ou noite. Diferença que bem se compreende quando se pensa nas distâncias que no Brasil. não a sentir jamais! b) Lirismo amoroso: Celebram-se amiúde os amôres de Gonçalves Dias. é preciso ponderar que ela será (em "geografia psicilógica". mais dolorosa. em forma não . Oh. que ama o amor quase profissionalmente. ou da Angola. O que aconteceu ao poeta dos "Olhos verdes" foi caso vulgar e cotidiano. No caso do brasileiro. já apenas semânticamente.gente volúvel. vão desabrochando no correr da noite. João Ribeiro acha que a imaginação humana é muito fértil e valoriza os amôres dos poetas .exílios (o sabiá pelo meio) : o do índio. como diria Georges Hardy) brasileira. com saudade do Congo.observa Fritz Ackermann. o seu sentido brasileiro se agrava. sugestão e fôrça lírica incomparável. o do prêto. A primeira será a poesia da distância. vivia êle contando. os seus amôres foram. Resulta que. a segunda é das coisas que o tempo levou consigo. pela soma de três . pouco nos interessariam os amôres de Goethe ( João Ribeiro se esqueceu disto. já conotivamente. romena. mesmo sendo a palavra "portuguêsa". pelo menos. com saudade da taba.passa a noite em vigília. ouvindo o desabrochar das flôres5 sentindo o cheiro do bogari mais intenso ao amanhecer. de revelar a diferença que desde logo parece existir entre a saudade brasileira e a portuguêsa. O pormenor não deixa de ser sugestivo no sentido. mas em estado de pureza nativa: Onde quer que tu vás. como goetheano que era. Realmente. Além de não pensar em outra coisa. admirável) se não houvessem produzido algumas das suas obras primas. Saudade ainda não contaminada. uma após outra.ela contou as flôres que.. Como na canção indígena: "Fazei chegar esta noite ao coração dêle ( o amante) a minha lembrança". consumidor" em "Ausência'. Filha da natureza .conforme a nacionalidade de quem a sente. Por mais portuguêsa que seja.

os seus amôres aos amigos.era ser `. chora de dor. porém. para ser grande (e romântico). tão pouco interessante. Mas a que valeu. . Sabe-se o que houve.. ou a francesa Eugénie. Perdão! de não ter ousado Viver contente e feliz! Perdão . circunstâncias que não o recomendam. pela amada que o acusa `de não ater. ou á viúva de 30 anos. que passa à temeridade". OU a brasileira Anélia R. ao mesmo tempo. ` Dois dos seus amôres. como o definiu San Juàn de Ia Cruz. resgatam as suas culpas e o mal da sua "volubilidade frascária". O que mais conta Iiteràriamente é o de Ana Amélia. de sangue azul.da minha miséria. nem ao menos era filho legítimo". De náda valeram poemas discorrendo sôbre "Minha Vida e Meus Amôres". que lhe ia custando um duelo. que t'imploro Perdão. que nos deu "Se se Morre de Amor". escrito por: ocasião do seu reencontro. 'sem dúvida. A "polida imágo mortis" não teve senão conseqüências domésticas.raro de pura gabolice. 31 Repelido pela família da môça. então. em situação irreparável. . sem nenhum roman80tismo. a teus pés curvado. e o de Ana Amélia.amor à altura do que se exige a um grande poeta para lhe sair da pena esse "Ainda Uma Vez Adeus" . corajosa. teria que ser cego a tôdas as contingências. a portuguêsa Engrácia. uma das quais lhe inspirou "Os Suspiros"? Mesmo o seu casamento com Olímpia se reveste de.a que conhecera num baile de máscaras 3° . um realista cru. ou sôbre "O Amor" (enlêvó d'alma). ou a belga Céline. Nem é sem razão que Céline lhe diz: -"Je sais que quoique poète voos êtes três positif" . etc.certa apaixonada . o dos "Olhos verdes". o poeta "não tinha fortuna. ou a alemã Leontina. e se do mal que te hei feito também do mal que me fiz Ë que o amor é aquela "Ilamà que arde :com apetito de arder más'". O maior defeito que descobre numa . experimentasse UM . é censurado como covarde. p. em silêncio. Era. raptado. em Lisboa. . ou três raparigas ao mesmo tempo. Que nos importa a nós houvesse êle amado a filha da dona da pensão. nem como homem. 32 Ninguém terá sido tão patético no sentimento de `T 30 Manuel Bandeira. "romântica exagerada. ou a israelita. como o exigiria um grande amor que. foi preciso que Gonçalves Dias ardesse mais. da dor que me rala o peito.`romântica". longe de ser nobre. 75. nem como lírico amoroso.dolorosa página de psicologia como raramente se há escrito. Gonçalves Dias. foi o "Ainda' Uma Vez Adeus". cora aquela que o amava ainda: Dói-te de mim.

tão amiúde. Alguns críticos dão muito aprêço ao fato de apelar o poeta. Gonçalves Dias e Ana Amélia. Academia Maranhense. etc. Por certo Gonçalves Dias não aceita a natureza em bruto. ou em suas relações líricas com a paisagem (e quando se diz paisagem se diz natureza de um país). VII. sem nunca ser a natureza pela natureza. Idilicamente. por exemplo. Lúcia Miguel Pereira) : "fresca rosa. Viriato Correia. p. . Talvez se possa até classificá-las: . e eterno.pelo menos na parte indianista . Letras. n. (in Rev. olhos da côr do mar". Mesmo quando o poeta exclama: "Tudo existe contigo e tu és tudo". 32 Mário Meirelles. 31. d)' Lirismo romântico-sentimental. Vol.á alguém o disse. no "Leito de Fôlhas Verdes". quem foi aue disse ? Mas daí a um permanente "idílio". como quer Ronald de Carvalho. Gonçalves Dias. eu nunca o senti. c) Lirismo panteísta. culpa. . E a paisagem ? E o homem na paisagem ? Então há. vai uma grande distância. o assunto tem que ser encarado: ou "idilicamente". não.de sua temática aborígine ? Em todo o caso. A vida amorosa de Gonçalves Dias: (in Acad. na "Canção do Exílio". A correlação psíquica entre as coisas da natureza e os nossos sentimentos é tão comum e tão antiga que o estranho seria justamente uma exceção no poeta de "Canto do Piaga".as lágrimas que ele vê na natureza (o talo agreste do cipó verte compridas lágrimas cortado) .31 . Brasil. o seu panteismo não é uma descrição impessoal das coisas. . não constitui uma nota capaz de identificar "um" poeta. a comparações com a natureza (Ackermann. ou no canto inicial de Os Timbiras. 29). nem ao menos capaz de provar o seu amor à natureza. em "O Romper d'Alva". em suas relações com a natureza. Ninguém negará assim o que há de natureza em grande parte dos seus poemas. . Parte inglória que constitui o motivo da sua anterior auto-acusação O amor sincero. e fundo. coisa que faz esquecera parte inglória do seu lirismo amoroso. Uma realidade em estado bruto não é uma realidade. é antes uma interpretação que vai do animismo ao antropomorfismo. mesmo em se aceitando a observação de Ronald. O seu amor à natureza não será antes a imposição . Nos poemas de Gonçalves Dias não faltarão lágrimas. e firme. e mesmo em temas de amor. êsses dois esclarecimentos que dão à natureza tuna significação geográfica (paisagem) e humana (o índio. habitante desse quadro paisagístico) . mas isso é corriqueiro em "todos" os poetas. "não havia pechas maiores do que a ' bastardia e a mestiçagem".

seriam irremediàvelmente autobiográficas. que cri nuestro vulgar "gaya sciencia" llamamos . muita pela vocação brasileira para a tristeza sem motivo (o prazer secreto da tristeza). pelo que o poeta tem de fundo índio.um grito patético que só ele. várias vêzes chora. .sinon un fingimiento de cosas utiles ?" E Fernando Pessoa o confirma bem modernamente.as lágrimas que ele mesmo. num determinado momento de vida.as lágrimas que os seus índios choram. nos poemas indianistas. outras "em silêncio". diz Gonçalves Dias. poderia . O chefe dos seus timbiras exclama: E inveja: Não sei chorar. ora o "pranto ignóbil". são reais. muita lágrima se explicará. diz: Nada melhor que êste pranto. Com Romantismo ou sem ele. Será o mesmo a que hoje se refere Claudel: "Hereux celui qu'i souffre et qui sait à quoi bon". causados pelo seu complexo e pelas doenças que tão cedo lhe minaram o organismo. muita pelo seu mal de origem. 11 A quem feliz de lágrimas se paga. em cuja sensibilidade o "fingido" passa a ser verídico. que tanto 0 acabrunha.já perguntava Santillana. no que ele finge sentir. umas "que consolam".. Na "Consolação das Lágrimas". num sentido humano. estará no leitor. em seu tempo . Nenhuma por fingimento. outras "fictícias". fingidas. Em verdade não há como levar à conta do Romantismo os seus padecimentos de ordem moral e física. tanto física como moralmente. sim. Fácil a explicação: por mais que finja. o que o poeta diz é sempre verdadeiro. bem sei. em seus poemas como nas cartas. O seu pranto. ora o pranto de orgulho e alegria. O seu "Ainda uma Vez Adeus" seria o mesmo . A verdade. O que não se lhe descobre são lágrimas falsas. sentir macias lágrimas correndo. em silêncio gotejado. silencioso. Os males de que se queixa. desaltera as dores fictícias. a sós comigo. Antes. a sua mágoa racial e a sua origem espúria seriam as mesmas. Mas o certo é que Gonçalves Dias não fingiu. que o seu tom severo até no sofrer não permite. se não está. mas fora grato Talvez bem grato! à noite. então. que "não desonra" (coisa natural uorque as lágrimas fazem até parte do ritual e das festas indígenas)'. "Lágrimas Livres". E que houvesse fingido: "Que cosa es Ia poesia. o poeta. "o poeta é um fingidor''. e em condições pessoais autênticas.

188). 34 a que alude Nogueira da Silva. pela carga lírica que encerra. em tom patético: no diálogo. Até então o homem se envergonhava das suas emoções. que não obstante o seu teor de poesia dramática. em tom de susto (o susto que ainda causa o recordar a cena. t. O Romantismo lhe deu. ao contrário. Parece. terrível beleza e cólera sagrada. 36 em assunto de maldição. num "canto.que muda de uma parte para outra . p. Pois choraste. o "I Juca Pirama" é extraordinàriamente belo para ser lido. mas como composição poética integral. de melopéia. a decorrência de um caso pessoal. orgulhoso das suas idéias. O seu autobiografismo é. embora a tentativa de a transpor para a cena.conforme a situação que traduz. na voz do velho timbira que recorda a façanha do prisioneiro. eu vi !") . pela linguagem em que foi expresso. de morte". o direito de não tse envergonhar das suas emoções 33 e ele se contentou com isso. não o produto do contágio romântico. meu filho não és! Na descrição . de uma obra-prima. V.ritmo em tom narrativo. É o ritmo associado à semântica e à técnica de expressão. pela variedade de ritmo .35 Trata-se. diríamos seu teor de dramaticidade incontestável. B) Terá razão Afonso Arinos de Melo Franco quando afirma que o "canto de . as lágrimas à Lamartine com Casimiro. O POETA DRAMÁTICO. em tom colonial. hoje: "meninos. notável pelo argumento humano. impessoal por natureza? O aspecto "social" de muitos dos seus poemas e a despersonalização da sua poesia dramática (dramática no sentido do "I Juca Pirama") não constituem outras claras negações do Romantismo ? A) No tocante à poesia dramática. ao trecho em que o pai condena o filho à execração universal: Tu choraste em presença da morte ? Na presença da morte choraste? Não descende o cobarde do forte. História 'de Ias Was estéticas.exprimir. 33 Por certo o Romantismo significava o triunfo do sentimento. (Menendez y Pelayo. Não como poesia "teatral". III. na expressão de Ortega y Gasset. o "I Juca Pirama" é apontado como uma verdadeira obra-prima e há várias razões que o justificam. pois. algo que se compare em fôrça poética. na vociferação. O "mal du siècle" surgiria posteriormente com Álvares de Azevedo. realmente. em tom agudo. isso sim. Em nenhuma passagem da Bíblia se encontra.' E que dizer do "épico". sob pretexto de adaptar-se a êsse desiderato. a imaginação arrebatada com Castro Alves. não para ser representado.

Embora não se esteja tomando a palavra só no sentido que tais requisitos lhe emprestam. Ambas as atitudes são verdadeiras. idealizado por Montaigne. o prisioneiro alega que é arrimo de pai doente e cego. 107. identificando-se a si próprio. em razão do seu canto que tomaram como sinal de fraqueza. notou Pereira da Silva (Rev. êle é corpo. Podia o índio de Santa Rita Durão dizer: Corpo meu não é já. em verdade do inimigo. mais patético e não menos poético. mas elaborou outro canto de morte. nas veias. as requisitos que êsse gênero impõe. p. Carne vil só serviria para enfraquecer os fortes.morte" do prisioneiro. e esta em favor do poeta de "I Juca Pirama": a canção do prisioneiro referida pelo francês. Acad. resigna-se. mais poético e não menos verdadeiro. Se sofre. 36 Há alguma coisa de surpreendente. Entre os indígenas uma terrível dialética antropofágica os leva a ter. antes mais verdadeiro porque mais poético. por Santa Rita Durão. se anda comigo. 84 sua carne a carne do inimigo. a . inclusive as personagens. p. os diálogos. é muito mais fiel às narrativas feitas pelos cronistas do que o de Gonçalves Dias no "I Juca Pirama"? Ou Amadeu AmaraL37 para quem basta. p. uma verdade aproximativa e idealizada? No canto recolhido por Montaiáne o prisioneiro havia comido a carne dos pais daqueles que n iam agora comer: "Ireis saborear em mim a carne dos vossos pais". Com uma só diferença. 1851. Letras. é a do inimigo por êle incorporado ao seu ser. como já se disse. Não. O elogio da mediocridade. Brasil. uns o sangue dos outros: leva uns a incorporar à 34 M. Bibliografia de Gonçalves Dias. Numa espantosa "fraternidade" simbólica que é a da comunhão pelo sangue. 37 Amadeu Amaral. C ) A poesia dramática do autor de "I Juca Pirama" contém. 175. Paulo. em tudo quanto escrevo. ou vinga-se. vol. 35 Publicado nos últimos cantos. de torna-viagem. A carne que está sofrendo não é a sua. 1924. entre os selvagens. em suas Páginas de Doutrina Estética. no caso. 58. já havia sido aproveitada. 139) na cadência métrica dessa interjeição que chega a ser o reflexo psíquico da cólera de um guerreiro. de Gonçalves Dias. Gonçalves Dias não quis repeti-la. S. naturalmente. Nogueira da Silva. No canto de morte. Lembre-se que Fernando Pessoa. afirma: "Tenho. E com um mérito a mais --o da originalidade. os que se aprestavam para comê-lo desistem do intento.

Imaginei um poema. o sabor poético que possuem. guerras entre êles e depois com os portuguêses. o seu elemento Bine qua non. dentro do ritual mágico característico de tal sacrifício entre os selvagens. mulheres feiticeiras. sentisse. em derivação. Com estas palavras é que Gonçalves Dias anunciava ao seu amigo Antônio . o que faz Gonçalves Dias: transfere para as personagens do "I Juca Pirama" o que êle. é o indígena. dessas composições indianistas. é especificamente indígena. Fora dessa situação. perderiam. um gênesis americano. 1) Não teriam sequer sido escritas. tránspostas para um meio civilizado qualquer. não diria de modo tão viril e tão patético. O primeiro canto já está pronto. por isso. O ÉPICO. aí. construindo na emoção de uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente e. puramente eu. enfim. já que o elemento delas.. Só mesmo a psicologia do selvagem autentica. O natural para nós é sobrenatural para o primitivo e . IV. conservariam inteiramente o seu valor poético. uma criação recriada. mesmo que nunca tivessem existido selvagens no Brasil. só se concebe nas circunstâncias em que ia ocorrer. e só é verdadeira por ser indígena. de cascavéis. Em que outra situação o pai amaldiçoaria o filho. sapucaieiras e jambeiros. com o indispensável recuo no tempo. de quatis. É. a bem dizer. É o material que as constitui. que só é humana por ser verdadeira. sapos e jacarés sem conta.o que nos é sobrenatural lhe é natural. porque êste chorou em presença da morte ? A concepção de morte. Graebner 39 .exaltação íntima e a despersonalização do dramaturgo. D) Outra questão curiosa é a de saber se as composições indianistas do nosso grande poeta. por certo. 2) Qualquer compêndio de antropologia cultural nos mostra 3$ a mudança de significado que se opera nos elementos e complexos de um grupo quando transpostos do seu ambiente original para qualquer outra cultura (receptora). imaginei mangueiras e jaboticabeiras. me esqueci de sentir". como nunca ouviste falar de outro: magotes de tigres.como ensina F. uma Ilíada brasileira. em que o prisioneiro triunfa. Passa-se a ação no Maranhão e vai terminar no Amazonas com a dispersão dos Timbiras.. o seu valor poético. Transmuto automàticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti. a cena da maldição e a da luta. o segundo começado. jequitibás e ipês arrogantes. física e psicològicamente. outras emoções que eu. de palmeiras nem falemos. só êle. guerreiros diabólicos.

mas que ficou incompleto. Seu pai havia sido morto por Itajuba em combate traiçoeiro. pensa em Jatir. Martins. como que por provocação. Juçarana. A) Itajuba é o chefe dos timbiras. Brasil. que traz a Ogib uma mensagem da morte. De uma onça bicolor cai-lhe na fronte a pel' . Os presságios têm um grande sig. No quarto Canto figura Juruceí. p. Também está em vigília o pai de Jatir. Ed. Catúcaba. Um dos presentes. 438. O emissário repele-o. narra o mau sonho que o assaltara. o chefe. 39 F. que fôra espôsa do Chefe. ama acordar contigo. não obstante o verso medido. toma do arco e despede uma flexa contra um pássaro em pleno vôo e o derruba. que depois se transforma em diálogo desesperado entre Ogib e o louco. Discute-se sôbre se é caso de harmonia ou de guerra e Gurupema. fere o próprio emissário. jacaré. em luta pessoal. mas Gurupema. Mas onde está Jatir? No segundo Canto. Não obstante convoca os maiores da tribo. No primeiro Canto o chefe timbira manda então um emissário entender-se com os inimigos. Japeguá. o verso branco. Madrid. Tendo morto. EI mundo del hombre primitivo. já fogo. já tímidos reflexos. O terceiro Canto começa pelo alvorecer na floresta: Ama o filho do bosque contemplar-te. cuja ausência lhe parece estranha em momento tão grave. Antes o mar não nos houvesse trazido a nós "o ferro e as cascavéis da Europa. o chefe dos Gamelas. Narrativa que lhe identifica o épico: Vem primeiro Jucá de fero aspecto. o louco. 1943. Croá canta. êstes se aprestam para uma luta de tribo contra tribo. Outra flexa. se desenrola vigoroso. nificado nos destinos da tribo. 1925. S. chamado Ogib." Amanhece e . Desenvolve-se aí um monólogo. já torrentes de luz que fere oblíqua os altos cimos. etc. já carmim. A narrativa é cheia de côr e movimento. até aí. ou rósea ou branca.com que Juruceí se retira rumo à taba dos seus. Paulo. O Homem. em vigília. ama espreitar no céu a luz que nasce. B) O poema. recordando Coema. num sentido de harmonia. nada diz. p. Graebner. Impossível o entendimento proposto e daí as palavras de reprovação e ameaça .cada um dos guerreiros conta-o seu sonho. Interpelado pelo Piaga. o Piaga pede a Tupã que inspire os guerreiros. Japeguei. já morta.Henriques Leal (1847) o poema épico que teria o nome de Os Timbiras. 38 Ralph Linton. É o trecho em que o poeta alude ao assassínio dos povos selvagens pelo conquistador branco. Todos vêm: Jucá. os gamelas. Nisto entra Piaíba. esta anônima. opta pela luta. Itajuba. Seria de 16 cantos e só chegaram a ser publicados quatro (1857) . risonha aurora. 19. Majacá. salpicado de trechos líricos admiráveis. que chega à taba dos gamelas. de fundo lírico. o emissário.

e não de uno. na rapidez fulmínea do salto. só lhe restava beijar o chão que as garras inìztilmente morderam. Aparentemente.as garras "mordem" o chão que a onça bicolor "beija" .vistosa. No bosque. posta assim em câmara lenta. no caso. 2) Ou melhor. se o poeta dissesse: a "onça enganada" não daria a sensação que dá. e que "beijar". fulvos. porém. beija a terra a fera exangue e.mostra que assim foi. uma fração de segundo entre uma coisa e outra.. morta. a traiçoeira fera a cauda enrosca e mira nêle o pulo: do tacape Jucá desprende o golpe. se. sob as hirtas cerdas. Bastará êsse pequeno trecho para nos mostrar o quanto é rica de intenções a sua linguagem poética. Além de simultânea. do animal exangue. 6) O verso "como sorrindo alvejam brancos dentes" parece pleonástico. no . de tocaia. e o que há de ação contínua no gerúndio (sorrindo). 5) Note-se ainda que "morder". ao vencedor tributa um nome.. Mas em verdade ela está morta e "sorri". será examiná-lo em câmara lenta 1) Veja-se que já em garras "enganadas". ela só. maus. A insistência na côr branca. e a vemos saltar sôbre Jucá. 7) Gonçalves Dias vai além. recorda apenas a . de que o engano só se verificou depois do salto. o adjetivo é acidental. mas suficiente para. mordeu. por associação. de Jucá. o ato. e não una. dão bem a idéia do ricto da fera morta. a cena é descrita em dois planos. não significasse. o "sorrir" de agora é mais humano.(ou beijou). enroscada no galho. 4) Por que não disse o poeta que a onça bicolor. em se tratando de uma fera. seu salto. e mesmo porque se trata de um salto de onça. e furta o corpo. simultâneo. as garras. um dia. quem errou o pulo. não. vemos a onça bicolor viva. distinguir-se a diferença. é muito mais expressivo do que empregado em relação a dentes. alvejam brancos dentes e nas vazias órbitas lampejam dois olhos. em se tratando de garras. 3) A ação ficou dividida entre "morder" e "beijar". o solo ao dar o pulo sôbre o caçador ? Pelo que há de.. já sem fereza. como sorrindo. e onde as garras morderam. o salto era certeiro. dado o movimento. 8) Do mesmo modo que "beijou" o chão. o engano se dá quando as garras atingem o chão em falso. agora imòvelmente "sorri". O pormenor: . Onde estavam seus pés as duras garras encravam-se. elètricamente. na sua minuciosidade. Mas. quem se enganou foi a própria onça bicolor. rapidíssimo. O curioso até. de idéias. ao "furtar o corpo". no sêco troféu que agora o índio ostenta. Atingido em cheio pelo tacape. Como o "beijar" do salto. enganadas.seria impróprio. por exemplo. Não vemos só a "pel' vistosa".

aliás. D) É uma espécie de natureza animada. a sua. não é fácil. por exemplo. O tronco. não se separa da realidade física. a rocha. o papel do sonho. tudo é desenho animado. nada é estático.descrever Jucá com. onde é tão fácil parecer vivo o que está morto. Associar o processo anímico ao lógico . Uma espécie de memória involuntária que o índio deve possuir em alto grau. poema. É preciso ser. do. De modo que seria impossível . fantasmagórica. paralelamente. do maravilhoso na epopéia .intercalar ingredientes primitivos na técnica de expressão. O poeta retrata êsse mundo. C) No mundo primitivo.é de flagrante verdade em tal sentido. do mesmo modo o natural é o . Em se tratando do índio. Talvez caiba lembrar. do mito.e nisto Gonçalves Dias foi sàbiamente indígena avistar-se o couro da onça bicolor sem a cena que a imaginação de pronto ressuscita. porque até hoje a poesia é a recriação lírica da realidade. etc. o seu troféu e as imagens que êste suscita . Não cabe relatar aqui a parte onírica. presente a tôdas as suas decisões e o sonho. em que cada um dos guerreiros conta o seu sonho (day dream. consideram como típicos do épico. pois vive o primitivo numa constante atmosfera fabulosa. A parte do Canto III.mostra o quanto a sua concepção poética está certa. O Piaga está. o objeto inanimado.à esfera mágica da realidade. A palavra que êle usou .para o conseguir como num afrêsco.elementos que os exegetas de Homero e Virgílio. o arbusto. virginal . É o que consegue Gonçalves Dias. é que é o natural. da fonte dialogando com a flor ("Não Me Deixes"). a pedra convertem-se em guerreiros. Mesmo na poesia lírica não faltam exemplos da flor falando à borboleta ("A Triste Flor"). Rodrigo ("Profecia do Tejo")~. a moita.ferocidade perdida. Daí o modo por que Gonçalves Dias descreve o sonho que cada um teve ao nos dar uma sensação concreta e viva das coisas (Canto III). ao mesmo tempo. por êle explicado. Num ambiente carregado de magia e de animismo. Compreendeu bem o poeta que o sobrenatural. o elemento onírico mais se justifica. mas diga-se que é um quadro vivo diante dos nossos olhos. de uma terrível evidência. em sua narrativa épica. do rio falando a el rey d. uma "pel' vistosa" de onça faz lembrar imediatamente a onça viva e o momento emocional em que ela saltou sôbre Jucá."recriar" a criação . como diriam os americanos) para decidir dos destinos da tribo . inclusive o que há de sobrenatural nos fenômenos da vida primitiva. Movimento e côr são manifestacões anímicas inerentes como se sabe . para o índio.

Gonçalves Dias não se deixou seduzir por êsse aspecto do nosso indianismo. concluísse pela não existência das mulheres prodigiosas. Se não existiram . Foi preciso que um poeta. em outros poemas. aludiu Gonçalves Dias ao monstro marinho. Gánçalves Dias e os índios. indaga-se por que não os teria o poeta melhor aproveitado. Antes. e ao Gigante de pedra . à "mãe d'água". porque sob certo aspecto tôda linguagem poética já é mítica. que parece confundir-se com o "upupiara" tão falado pelos cronistas coloniais como Gabriel Soares e Simão de Vasconcelos. É verdade que. E) A respeito de lendas e do fabulário indígena. não do sangue de Omanos mas da confusão de promontórios com sêres fantásticos pela sua grandeza. que as amazonas gregas fundaram. tout art. um Gonçalves Dias.). para nos asseverar a sua existência. salvo num fragmento do "Poema Americano" (versos póstumos) "destinado a descrever uma das mais poéticas lendas da teogonia tupi". não raro cientistas. Então. chega a afirmar que "toute pensée. como acentua Roquete Pinto. seu fiador. Francisco Manuol de Melo..o que parece paradoxal. porém. Valéry. é Gonçalves Dias. na "Petite lettre sur lés mythes". pelo menos enquanto se diferencia da linguagem de ficção. quer sociológica e até biològicamente. mesmo apenas em sua poesia.que motivos tiveram Orellana e Cristóvão da Cunha. por ex. s° foi definitiva. acharam que sim. de "temerosíssima grandeza" a que alude D.. tout verbe est mythe. coube-lhe destruir um dos nossos mitos: o das amazonas . 40 Roquete Pinto. não fazer a mais leve alusão a um mito que até hoje é extremamente sedutor e objeto de poemas como o de Mallarmé: . (in Acad. ébauche ou résidu de mythe". se Gonçalves Dias destruiu um mito. Brasil.sobrenatural. da prosa. uma "náiade moderna" que habita no fundo dos rios. Letras. a verdade é que terá criado muitos outros. Gigantes que nasceram. De fato. Existiram amazonas no Brasil ? Homens práticos. Gonçalves Dias).queria saber ainda o conspícuo Instituto Histórico . E é nesse sentido que se fala aqui em mitos (veja-se La Génèse des Mythes de Krappe. quer histórica.mito que corresponde àqueles gigantes armados. E registre-se: a crítica gonçalvina a respeito das amazonas. Mais curioso. au sein brulé d'une antique amazone ao pensar em Pafo. pois todo poeta é um criador de mitos. não só em assunto de mitos verbais como no das verdades poéticas: o .

talvez isso esteja compensado pelo índio em carne e osso da sua poética. 42 Fritz Ackermann. Não usa êle da tuba belicosa. etc. cit. anti-romântico. A atitude épica assumida é muito outra. se lhe faltaram motivos "fabulosos". dirigida a d. Enquanto o velho dorme não me expulsa d'ao pé do lar. p. se êle o houvesse concluído.. engrinalda a lira com um ramo verde e escolhe um tronco de palmeira junto ao qual desferirá o seu canto. quando acordar! Eu vi a morte. o fogo aquece muito.. loc. 70. repudiou a mitologia grega. assim como Basílio da Gama. dão a transparecer a intenção do poeta que não faz o louco desenvolver lògicamente o seu pensamento mas desenrolar as suas idéias em séries associativas. como o exige a linguagem épica.. via-a bem de perto. Aludida ainda ao espanto de quem vê "cavala canga" e "lobisomem". Maria Luísa do Vale dizia o poeta: "Desejava não o chamassem de poeta mas que dissessem: "é. o mito do "nosso céu tem mais estrêlas". O que está patente é que o nosso poeta. dou-lhe a mensagem que me deu a morte. um dos nossos mitos populares. tem qualquer coisa de embalador. se o prejudicou sob êsse aspecto. o louco. por arte do Capeta de mão furada. verdade que em tom de humour. que bem ressaltam o que seria o poema. observa Ackermann. Via-a de perto. não me quis consigo. em meio a uma rude epopéia. . entretanto. por ser tão má. 42 41 Numa curiosa carta de 1846. a uma rima. por fôrça do seu caráter romântico. F) Além da descrição em alto relêvo. Como se vê. cantor humilde. tira o sofrer. o fogo é bom.mito do sabiá cantando na palmeira. o seu dom realista (no sentido lógico). Não cabe aqui o que sôbre vocação para o mito já se disse a respeito de Camões. reagiu contra o modêlo camoniano e. se dizia vítima do Capeta de mão furada. Antes. em hora má. O tom lírico.41 Mas o seu feitio severo. Veja-se como Piaíba. mas não é". não diz que outra voz mais alta se alevanta. mas não parece". anuncia a morte a Ogib: Enquanto o velho Ogib está dormindo vou-me aquecer. inverteram-se as coisas e diziam: "parece. figuram em Os Timbiras trechos líricos cheios de noturnidade. Os versos assonantes. sem excluir o que há de tétrico na mensagem do Piaíba. (Terá o "Gigante de pedra" algum parentesco com o Adamastor ?).

a sua importância. nos valôres secretos. c) o preterintencional. que é uma réplica do inconsciente. abeirando a costa da Província. onde se tresmalha. Poetas. Quer-se dizer: não se trata de uma poesia sem problemas. já passados a limpo. filólogos e críticos a freqüentam até hoje. no seu caso. pode ser encarada sob três aspectos. e o grosso da tribo. não obstante a sua aparente simplicidade. V. o poeta governa o seu poema enquanto submete os valôres com que lida à sua técnica de expressão.Não me assentei nos cimos do Parnaso nem vi correr a linfa de Castália. Ora.também sob êste aspecto . em 1853. Torna-se então supersticiosa a indagação e surgem hipóteses em tôrno daquilo que já é sortilégio poético. sem dúvida a mais complexa do nosso período romântico. principalmente de poesia. Mesmo porque a poesia (máxime quando grave e complexa como a do autor do "Canto do Praga") suscita questões não apenas fáceis de resolver à luz de um código de valôres. e enriquecendo-lhe o sentido com estudos que bem demonstram. dos quais os doze primeiros. todos sabemos que a obra de arte. mas que se prolongam além da análise formal das estruturas líricas. INTENÇõES E EXEGESE A obra poética de Gonçalves Dias. que compreende o involuntário (elementos poéticos fortuitos) . mas passa a ser governado pelo poema. interna-se pelo Amazonas. como é sabido. saem os gamelas vencedores da pugna e são repelidos os timbiras de Tapuitapera (Alcântara). b) o inintencional. insuscetível de análise. Assim. . não raro. Assim resume o seu amigo a parte final do poema: De pós o encontro das duas tribos inimigas. na pesquisa dos elementos que entraram em sua composição: a) o intencional. da língua em que é escrito. que identificam o fenômeno lírico. resultado além do previsto (efeitos poéticos em que o autor não chegou a pensar no ato de escrever o seu poema). no sortilégio. foi também uma expressão de cultura. Já não se fala no mistério do "enfantement poétique". pelo menos. discutindo-a. como acontece. com referência a autores cujo prestígio se associa fortemente ao exame da sua obra. das palavras . G) A epopéia teria ao todo 16 cantos. Chegam alguns exegetas a descobrir-lhe intenções que o poeta não teve. dá margem a uma ampla série de pesquisas ligadas à poesia que. foram lidos pelo poeta a Antônio Henriques Leal. perecendo o chefe que ao acolher-se no cimo de uma copada árvore onde procurava abrigar-se de uma bandeira de resgate é aí picado por uma cobra coral. aquilo que constitui o "intensity of the artistic process". parte recalcados para o Mearim e Itapecuru.

minha musa". observada por Aurélio Buarque de Holanda. inanalisável. e em diversas cartas escritas a seus amigos. b) Quanto ao inintencional há que notar os problemas que. até. quis realmente fazer. resultante de haver o poeta assim procedido intencionalmente ? Claro que não. que Goethe considerava irredutível e. a) Quanto às suas intenções: estão elas. Algumas das suas intenções: o pensamento poético acima das contingências miúdas da versificação. sôbre projetos literários que pretende executar (o caso de uma "Ilíada Americana".se verá o que Gonçalves Dias. dos equívocos que também colaboram na ocorrência poética. de modo expresso. as rimas. os seus poemas nos oferecem. em particular. que representa uma definição de sua atitude poética como "cantor de um povo extinto". tanto que cria um ritmo novo. por mais paradoxal que isto pareça. portanto.insubmissas. uma orientação capaz de identificar as intenções do autor e surpreendê-las (ontogenetic criticism) mesmo quando ocultas. o que êle não quis fazer. ser aquêle "dom demoníaco". o aprêço ao ritmo. o que êle fêz sem pensar nisso. à qual toma as palavras. plurissigno. nos vários prólogos dos seus livros. exigindo chaves para a decifração dos seus enigmas. como elemento de expressão. Há muita ocorrência. quer dizer é que se trata de uma poesia complexa. a morfologia. e o que está acima dessa indagação por. O que se. a prosódia . Em poesia. É outro aspecto da questão. que age contra a vontade do poeta. para cuja análise será útil estabelecer um critério. do ponto de vista da forma ou da linguagem poética. Só assim . Nada disso. "sus giros y su matéria fonética se comportam . o poeta tem diante de si a parte que lhe foi imposta pelo próprio poema. Não se quer dizer que a poética de Gonçalves Dias envolva problemas de obscuridade. notadamente no dos Primeiros Cantos. na poesia brasileira. na introdução de Os Timbiras. Por exemplo: a ausência de qualquer adjetivo qualificativo nas quatro estâncias da "Canção do Exílio". o emprêgo de todos os metros existentes em nossa língua. em vários dos seus poemas. na observação de Amado Alonso. específica. por exemplo). não em sua poesia mas em sua poética. Mas como a linguagem poética deriva da outra. Trata-se daquela construção idiomática em que as palavras. como tôda alta poesia universal digna dêsse nome. tes ao instrumento de expressão. a que já se fêz menção.já ineren92. hermetismo. como nas Sextilhas de Frei Antão. como "A. a criação de uma linguagem poética. Teria ela uma explicação artística. o ritmo. Ninguém desconhece os fatôres estéticos que identificam cada língua.

sa plénitude.de bom gôsto. Mas tal pesquisa não consistirá apenas em saber quantas vêzes o poeta elidiu uma vogal ou quantas vêzes lhe conservou a autonomia silábica. ou num produto da chamada poesia pura. sa richesse". naquela mosca azul que o poleá dissecou. com intenção de as observar. a rima resultante de fonemas iniciais (primores. não previsto. o das palavras arcaicas das. Não estará aí um resultado além do previsto ? Outro exemplo: o poeta escreveu as Sextilhas com o objetivo de realizar um "ensaio filológico". p. em nossas mãos. Pois correríamos o risco de matar. . Declarou mesmo que as "menosprezava". 9. aos pequenos fatos que não são a poesia 44 e que. no poema. em assunto de musicalidade. Madrid. nos ajuda mesmo a classificá-la segundo as tendências de cada época. Matéria y forma en poesia. Incluem-se aqui o caso do sabiá que não canta na palmeira. 54. o que êle tem de poesia. palmeiras).de manera especifica en cada lengua". foi o admirável lirismo dos seus solaus e loas. Mesmo em relação às regras que Gonçalves Dias observou (não as de mera convenção). se há a parte que êle "quis" fazer. por exemplo. 1950. Sextilhas apontadas como incabíveis na época de frei Antão e a toponímia errada do tupi nos cantos do vate maranhense. Rio de Janeiro. a métrica.e aqui cabe uma observação de Chesterton como quem respira e transpira ? Par certo que é preciso descer às coisas mais insignificantes. num poema clássico ou parnasiano. À margem da poética trovadoresca. Num poema dirigido. como prova . reduzindo-a a vil matéria. há também a que êle não quis fazer. como aqui se propõe. Cada poema se transformaria. Mas isto não quer dizer que não houvesse criado as suas próprias regras. Gredos. Ex. a parte intencional oferecerá ne43 Amado Alonso. 44 Celso Cunha. Dáse. ajudam a compreendêla: "à montrer sa naissance. mas o resultado. 1955. no entanto.: não quis observar as "regras de convenção". 43 c) A parte preterintencional dos seus poemas (efeitos que o poeta não previu) é também extremamente rica de sugestões como se verá mais adiante. Este critério que consiste em examinar o que há de intencional. Ou teria considerado tais regras tão assimiláveis ao ponto de lidar com elas . d) Ainda com referência às suas intenções. p. de inintencional e de Preterintencional na obra poética. é oportuno indagar até que ponto ele o fêz conscientemente. à lui donner son Bens.

idem. sem a poder definir". como também para. Todos são válidos mas não se pode negar o maior mérito do "intensity of the artistic process". Os que lhe increpam os erros acham que estão errados versos como êste: Tal vinda. ritmo."ao coração do poema como poema". entretanto. outros tentam justificá-los. desperta particular curiosidade. inanalisável. ora uma sílaba a menos. a questão da métrica.como Alberto de Oliveira. entre uma coisa e outra entre o intencional. A confusão é que não parece justificável. o que importa.93 Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas. rima. a não ser que o audaz Timbira Os que lhe justificam os supostos erros dizem que se trata de versos os de uma sílaba a menos . não é o que o poeta se propõe a fazer. e até em contradição com o fim que teve em vista. imagística.como o esclarece Afrânio Coutinho . É o fio que nos conduz . Os primeiros e os segundos -. com o mistério poético. mas apenas o que êle fêz. citado por Croce. temática. em estrofes obedientes à regularidade métrica se encontram versos que ora têm uma sílaba a mais.não só por uma questão de método. com a única intenção de que seja bem utilizado por seus companheiros cegos cessàriamente maior soma de realização.os que acusam e os que justificam ..se esquecem. o inintencional e o preterintencional . já o disse De Sanctis. entre elementos fortuitos e intencionais. justamente. já num poema apenas lírico. a ciência das palavras se reduz ao mínimo. técnica expressional. . de que Gonçalves Dias "'menosprezava a metrificação". Não se quer dizer com isto que só interesse à poesia o "intencional". como Manuel Bandeira. realçar a parte que coube a cada um dêles nesse jogo de palavras com o equívoco. Uns acham errados êsses versos . Claro que restará sempre algo em poesia que é indefinível. mesmo inconscientemente. e até o fazem hàbilmente. pretendidos ou não. linguagem. Discute-se porque. O "inintencional". VI. a imaginação prevalece cora a diminuição da lucidez poética. ou romântico. A POÉTICA DE GONÇALVES DIAS Quando se trata da poética de Gonçalves Dias. ou do raciocínio lírico.em que esta ou aquela vogal não devia ser elidida. sem negar valor a nenhum dos elementos. 't5 O que se quer fazer é a distinção. Gonçalves Dias já havia prestado atenção a êste ponto: "poesia como eu a compreendo.

1951. O exame do "intencional". 1. como no caso das canções de gesta. mas na primeira e quinta. Croce. A) Quanto à métrica: praticou êle intencionalmente todos os metros. a terra e tudo (9) Co. quer adotando tôdas as medidas dentro de um mesmo poema -. às vêzes violenta (ou também por aférese. Ed. Veja-se agora um octossílabo (um iambo seguido de uma série anapéstica) . não raro engenhosos . mesmo que se aceitasse a tese dêstes últimos. 222. 5) Sílaba a mais que é deslocada para o verso anterior. enfim. na estrofe regular (digamos constituída só de decassílabos) de versos de nove ou de onze (eneassílabos ou hendecasslabos). Quanto ao caso n. 2) Sílaba a mais. quer variando de metro de trecho em trecho. Ao mesmo tempo verificar até onde Gonçalves Dias realizou a sua concepção de poesia e a sua poética. francesa. dão margem a "um ritmo sensìvelmente igual ao dos decassílabos acentuados na segunda e sexta sílabas". como no "I Juca Piranga".o vértice sublime os céus roçando (10) E sulfúrea chama pelos ares lança (I1) O próprio autor da "Poética de Gonçalves Dias" alude aos versos de 9 sílabas que.como o fêz em "A tempestade'". Dara ser suprimida no ímpeto da onda vocal. não ria terceira e sexta sílabas.dada a sua autonomia silábica . 4) Sílaba a mais que se elide por sinérese.conviria 45 B. sugerem-se várias explicações: 1) Sílaba a mais por semelhança de ritmo em versos mètricamente dessemelhantes. p. b) quando se trata de sílabas a menos. 3) Sílaba a mais para ser suprimida no ritmo. Em outras palavras: verificar até onde os supostos erros e as explicações dos que justificam tais supostos erros correspondem às suas intenções. No tocante à quebra de medida pela presença. Ora. quer no conjunto de sua obra. síncope ou apócope) . o ritmo pode realmente ocasionar a ilusão de que o eneassílabo e o hendecassílabo sejam decassílabos: Rápido rolava. dentro da mesma composição. Paris. La poésie. por haplologia ou síncope ideológica. pròpriamente dita.ou que a sílaba em excesso deve ser elidida pelo ímpeto da onda vocal. Nem lhe faltou o verso de uma só sílaba ("Tens mais poesia'') intercalado na redondilha maior. a) quando os versos têm sílabas a mais. 94 verificar a ocorrência. por terem acentuação.já que a dos erros deve ser posta de lado .

Infante e velho !princípio e fim da vida "Las canciones de gesta .intencionalmente (para se justificar outra hipótese de sílaba a mais) parece que o exemplo de D'Annunzio. pelo poeta brasileiro . a predominância do anapesto torna o ritmo igual em versos silàbicamente desiguais.o trombudo quati. não raro. obedecer regularmente a tal modalidade do decassílabo. constituído por um iambo e três anapestos: A corça ligeira . 2. o eneassílabo com os decassílabos. Nada más monótono que Ia versificación de esos interminables poemas en series asonantadas". Daí a explicação fácil de Gonçalves Dias misturar. não servirá de argumento. até . a redondilha menor que corresponde ao hendecassílabo com cesura (um iambo seguido de um anapesto) A vida é combate que os fracos abate. versos de cinco sílabas com os de onze ("Seus Olhos".).son un farrago y entan escritas en una jerga semi-latina.Humilde labor da pobreza Agora um eneassilabo. Esnoràdicamente. Veja-se ym decassílabo. era a lua já morta Anhangá me vedava sonhar. Como se vê. etc. semi-germanica. pois é muito diverso. contendo três anapestos: 6 guerreiros da tribo sagrada que era o da predileção de Gonçalves Dias: Esta noite. Ou um de oito com os de nove. A êstes junta-se. o brasileiro só o faz neste ou naquele verso. ou um de nove com os de dez. O poeta italiano emprega o metro do velho verso francês em todo um poema. que assim o fêz. citando Brunetière .primeira série. é iâmbica mista. A respeito do n. por ex.explica Menendez y Pelayo. 46 Para que o nosso poeta houvesse tido a intenção que se lhe atribui era preciso. antes de tudo. e a segunda anapéstica pura: Ela tão meiga e tão cheia de encantos Veja-se agora um hendecassílabo. ou um decassílabo com os eneassílabos. ou um de dez com os de onze: octossílabos com eneassílabos. em que a . o emprêgo de versos decassilábicos de estrutura francesa medieval.

Hist. Hist. Outro exemplo Porque a vida é breve como a flor na terra em que a primeira sílaba do "porque". V. cabe êste exemplo Curvado e prêso à tua lei que só é um heptassílabo. Sílaba a mais. átona. será ainda a que o poeta pratica quando. aí. 22.com a insistência que torna monótona a "versificación de esos interminables poemas". Uma guirlanda Nesse verso de Domingos Carvalho da Silva. Ou êste. Como no caso anterior. Tal praxe é hoje usual nos proparoxítonos em meio do decassílabo Já o sol desceu ao túmulo. menospreçada pelo ritmo sáfico. G. no decassílabo que obedece a essa estrutura. p. numa só sílaba rítmica. obedecendo à medida fixada no poema. o ritmo sáfico faz com que essa haplologia se opere insensivelmente. de Ias idéas estéticas. palavra que se conta fundindo numa sílaba só as duas sílabas átonas: Ou nos últimos bocejos da existência Acontece também recair o acento na sexta sílaba Que também são recíprocos os agravos A acentuação da sílaba tônica na palavra proparoxítona "recíprocos" é. reduzindo a decassílabo um hendecassílabo incontestável. e o que . 3 . Lanson.. 46 Menendez y Pelayo. ou melhor. Vol. a supressão da sílaba excedente é ideológica. 170. A respeito do n.sílaba a mais para ser aglutinada no ritmo. também. recai numa palavra esdrúxula. p.se menciona (?) é um único verso. mais curioso: Rudos e feros os corações se enlevam em que se viu um caso de haplologia sintática. o acento tônico da terceira sílaba. desde que se pronuncie "tua" como uma única sílaba. tão forte que esmaece as duas átonas ao ponto de poderem ser pronunciadas brevíssimo. de Ia littérature française. . não conta. em meio aos decassílabos regulares. para citar um só exemplo. por síncope não declarada. por ex.

). A ocorrência do n. que é um elemento de expressão na poética de Gonçalves Dias. Não são 47 computadas.é assim aproveitada. Como neste caso Êste só galardão recebe ao menos.97 2) quando parece resultar do hiato (verso frouxo). A sílaba átona. é contado como quatro sílabas: intercalação de vogal entre consoantes seguidas. graciosamente. dito com ênfase. como os demais do poema a que pertence. pois valem pelo tempo que ocupam no intervalo entre um verso e outro. B) Explicam-se os casos de uma sílaba a menos. por ex.. 6) quando o sinal de pontuação tem o valor visual de sílaba. 5 é numerosa. 3) quando um monossílabo (o advérbio não por ex. paga-te sequer de . ou da ressonância de uma palavra preenchendo o lugar de uma silaba. em versos que deviam estar conformes à medida regular do poema ou da estrofe: 1) quando o verso não perfaz a sua medida senão com a última sílaba do verso anterior. e não obstante a sisudez clássica. como sugere Sousa da Silveira.alude a silabas que ficam sobrando depois da última tônica. 2: realmente. é sensível a tal sutileza.veja-se :o de Mário de Alencar . Quanto ao caso do n. pelo menosprêzo da métrica em favor do hiato. então. acomodando a sílaba que.(Os casos de sílaba a mais (n. da pausa. tornando-se ocioso citá-los). que não formariam sílaba."e par'ceu-me acordar ! uma clareira" .ou por síncope . 1. A ocorrência. que nesse ponto. mas não deixam de "influir no ritmo". 5) por efeito estilístico. convém lembrar que qualquer tratado de versificação . 4) no caso de "anaptixe". no primeiro verso. Quanto ao n. deva repetir-se. por sobrar depois da última tônica .ver mais bela. 4) que se elide por apócope "a pel' vistosa sob as hirtas cerdas" . muito decassílabo só se explica como tal pela autonomia silábica nos encontros intervocálicos. que tem só nove sílabas e que. . Aproveitada para fins rítmicos menosprezando-se os fins métricos ou de-mera convenção. pode ser uma imposição de ritmo.são mais comuns.. que sobra depois da última tônica. bastando êste exemplo senão quando escuta o grito Tratando-se de trissílabos o "escuta o grito" estaria fora da medida se a sua primeira sílaba não se embebesse na última de verso anterior.no fim do verso . passa a ser um decassílabo. quando "ignóbil". se incorpora ao segundo.

Rio de Janeiro. Ou porque a sílaba tônica. 1906. a ocorrência poderá ser incluída no n.ou pela pausa. 6. De um modo geral. ritmo pelo silêncio. 1: a última sílaba do verso anterior servindo de primeira. invisível. dissociando-se as vogais do ditongo Não! não são as queixas amargadas Para exemplo do n. 98 sílaba silenciosa por efeito do chamado ritmo negativo. e o melhor de tantos coligir. em função rítmica. não faltam exemplos realmente sugestivos: raça. isto é. Contudo. 5 é apontado nos seguintes versos de Os Timbiras: Nos sonhos bons e maus mas acordá-los disparatados.Já nos outros casos. 47 Dicionário de rimas. e tal é o caso do n. Entretanto. guerreiro adventício que é um decassílabo mas por suarabácti na palavra "adventício". se torna tão intensa queí vale por duas. não se dirá que se trata de recursos praticados conscientemente. o da pausa. era missão mais alta. teus feitos canta! Como preencher a ressonância do grito no primeiro caso ? Como atender. 4 é suficiente êste verso: Um tapuia. ao verso que se lhe segue: tantos coligir era missão mais alta No caso do n. 11. o fenômeno se verifica sempre que se trata de um gesto exclamativo ou imperativo. de que fala Said Ali. à pausa exigida após uma palavra dita com ênfase ? Ou pelo eco sílaba de ressonância . haverá razão para que em tais casos certos) decassílabos acusem sílaba a menos. O efeito estilístico do n. Garnier. que é o da sílaba a menos substituída pela notação gráfica. a quem os raios prontos servem . o da ressonância ou eco preenchendo o lugar de uma sílaba ou se prolongando em sílaba suposta. ou de um "cri émotionnel" (como diria Marcel Raymond) 1) Oh! como os cabelos 'esparzidos 2) Dize-nos quem és. 3. no segundo. p.

Nem como "erros". respectivamente. e curva. a que já se fêz menção. o que aparece fortuitamente. como coisa natural. antes menosprezava as regras de convenção. em seu excelente . 48 contava-se sempre uma sílaba final átona. desde que se possa admitir o ritmo gráfico. o hiato. em conclusão. e mencionadas por Manuel Bandeira. "tirano das sílabas". Outro caso visível de vírgulas servindo de sílabas está neste decassílabo Baixa. "sílaba suposta". 1 . explicará também. dar tanto aprêço ao que êle "menospreçava". mais grave será transformar em "intensity of the artistic process" inadvertências que só em virtude de tal meno~ipreço se explicam. mediante "sílaba de ressonância". ao mesmo tempo. assim o decassílabo chamava-se hendecassílabo. estudo sôbre a poética de Gonçalves Dias.Não se poderá. 1 a 6) inclusive os que se referem a versos cuja medida só se regulariza. Ao tempo do Romantismo. dizendo-se que tinham. e o decassílabo se completa com justeza. enfim. onze e dez sílabas. e calva. O mesmo se poderá dizer talvez de quase todos os exemplos de sílabas a menos (os de n.. como pareceu a Alberto de Oliveira. iludido pelo ritmo ou pelo fato de a sílaba excedente no comêço do verso encaixar-se na átona do verso anterior. tão curiosas e alcoviteiras na poética do autor de Os Timbiras.A vírgula. Se Alberto de Oliveira. desempenha aí o papel de sílaba. fortemente grifada. nas anotações que apôs a um volume de Os Timbiras. "sílaba silenciosa" e "silaba visual". respectivamente. existisse ou não. a prática inadvertida dêste ou daquele verso desigual dentro da estrofe mètricamente regular. 2 . C) A conclusão a que se chega nos casos de sílabas a mais é que não se pode tomar como "intencional" o que não se enquadra num sistema. ou fôsse proparoxítona a palavra final do verso. o verso de nove sílabas era decassílabo. etc. e as faces Observe-se a graça com que as três vírgulas que separam os três adjetivos insistem em evitar a elisão e. .Admitido êsse expediente. A igualdade do ritmo. perpetra uma sílaba a mais num dos seus poemas. que não tinha o feiticismo da métrica. como o foi Malherbe. 49 nada de estranho haverá em Gonçalves Dias.

em nossa poesia. ou seja. c) o ritmo obediente à técnica de expressão. As leis do espírito são "métricas". Bachelard. até hoje. 4) como elemento de expressão. cometida apenas por igualdade de ritmo (quando não seja por isso se explicar no uso romântico) não podem ser levados à conta de arte poética ou da técnica expressional. 49 O cochilo de Alberto. ou quando o ritmo se faz seu único meio de expressão. tôda. que é "convencional". 100 As soluções sàbiamente obtidas obedecem a esta ardem: a) todos os ritmos." $ aquela "realité pneumatique".3 . D) A obra poética de Gonçalves Dias é. poema. p. decassílabos e hendecassílabos. Para Gonçalves Dias o ritmo é o elemento básico da poesia. (in A literatura no Brasil. o "existencial" em face do metro. "1'haleine et Ia reprise de 1'haleine". o involuntário e o que representa o "dom angélico". a mistura de eneassílabos. 287). no caso aludido por Bandeira. 4 . as rimas toantes ocorridas involuntariamente. logo de tão alto ao Barh-al-Abiah de água clara baixou e ao saibro de fogo do Saara. uma demonstração rítmica notável. o preterintençional. está entre o terceiro e o quarto verso: Subiu ao Atlas de um salto e ao Kilimandjaro. provam os efeitos que êle obteve inaugurando mesmo um ritmo que ficou bem marcado. através de apoios rítmicos como a rima. rythmus etiam in corporis motu est. 3) em relação a todo um. o encadeamento e o paralelismo. Vol. b) metro e rima subordinados ao ritmo. II.Por certo que em tôda obra de arte há o inintencional. Mas . Não é outro o pensamento de Gonçalves Dias.As aliterações ocasionais.. ensina Hôlderlin : quando 0 pensamento não se traduz senão pelo ritmo. tôda vez que "quadrar melhor" com o que o poeta deseja exprimir.. o "enfantement poétique". Como já o entendia Quintiliano: "metrum in verbis modo. E que o poeta tinha razão para assim pensar. A renovação parnasiana na poesia. da famosa frase de G. como diria Claudel. sendo necessário considerá-la: 1) quanto ao ritmo dentro do verso.. mas isso nada tem que ver com descuidos formais. 2) nas relações de um verso para com outro. só assim é que ocorre a poesia. 48 Péricles Eugênio da Silva Ramos.

que êle chega a substituir um decassílabo . a cadência como primeira causa da poesia (poesia do ponto de vista antropológico-cultural. Existe naturalmente uma cadência regular. dos poemas indianistas a verdadeira intenção do poeta. a explicar em certas passagens. Em segundo lugar. como em sua Meditação. 1928. Guilherme de Almeida (ou Whitman. E assim como não lhe faltou a presciência 51 do Simbolismo. em poemas modernos. algumas vêzes o sugerir ao invés de nomear. Tamanho o aprêço do poeta ao ritmo sáfico. so Tão curioso pormenor ajuda. admiravelmente. com o seu ritmo evidentemente selvagem. a poesia deve ser melódica. também. como se ouvíssemos a dança. Os pés dos selvagens é que determinam a cadência do verso. talvez. 12. O ritmo da parte II do "I Juca Pirama" se enquadra. 53 . p. reina o festim. por exemplo. em que se ouve a soturna melopéia do índio louco. muito mais próxima do poema do que da prosa. feita por Carlos Drummond de Andrade. Primeiro. na poética (os metros ímpares.. "a presciência do verso moderno" (como lembra Jamil Almansur Haddad). o poeta não perde de vista a lição goetheana: além de rítmica. Porque muitos trechos da prosa gonçalvina. do seu indianismo. que entremeia os decassílabos. ocorrerá o que Gummere chama "the cadence of consenting fest". ou Valery Larbaud do Barnabooth) poderiam assinar. 52 de um poema em verso livre desentranhado de um trecho de prosa . Em fundos vasos d'alvacenta argila ferve o cauim. o batepé dos selvagens no festim. o prazer começa. pelo seu ritmo (não por aquêles "versos aritméticos" a que alude Pius Servien. o Piaíba. associado ao verso curto.há que considerar o ritmo em face. Londres. naquele trecho. a musicalidade).. no conceito de Gummere. assim como não lhe faltou.a dolorosa dedicatória dos últimos Cantos . não lhe faltou também. em rima aguda. Nem faltou a descoberta. já referido linhas atrás. Phases of English poetry. dada a variedade rítmica. diga-se). sequer. Claro que todo sistema rítmico (Sapir) procede também do hábito dinâmica Inconsciente da língua. de Os Timbiras.única e exclusivamente para o igualar ao dos demais decassílabos do poema ("Quando nas horas"). 50 Herbert Read. os pés dos selvagens tornam-se os pés de um "dissyllabic metre". É o que passa a ocorrer. a presciência do verso livre. que fica ressoando em nossa memória auditiva . encontradiços em La Nouaelle Héloise de Rousseau) resultam em versos livres. .e que Ronald de Carvalho.por longo tempo."unidos na mansão viver dos morto" por "viver unidos na mansão dos mortos" . enchem-se as copas.

Até onde Gonçalves Dias se libertou do metro? Relembre-se que é êle o primeiro poeta brasileiro que praticou versos de tôdas as medidas, desde o de uma só sílaba até aos de onze, inclusive alguns de 12, excepcionalmente, em ritmo igual ao dos de onze. Pode-se, em síntese, dizer que o autor do "Tabira" se libertou: 1) teòricamente, desprezando a métrica; 2) na versificação, empregando todos os metros para não se escravizar a nenhum; 3) empregando vários metros dentro do mesmo poema; 4) empregando vários ritmos no mesmo metro; 5) empregando vários versos de outro metro em poemas que obedeciam a um metro prèviamente determinado; 6) na técnica expressional, pelo "enjambement". E) O regime da elisão - que às vêzes força Gonçalves Dias a escrever: "derramar seu ignóbil pranto", como um setissílabo estava ligado, também, ao ritmo. Quanto ao hiato, caberia averiguar o motivo da sua valorização na poética gonçalvina. Era uma questão de musicalidade, apenas, ou teria refletido uma obscura exigência da sua sensibilidade (ou da sensibilidade da época) ? Ou teria cedido a imperativo do próprio idioma ? Sabe-se que o hiato ocorre: 1) quando vale como recurso para igualar o metro; 2) quando corresponde a um lnódulo aconselhado pelo pensamento; 3) quando é simples imposição (não recurso) dos encontros vocálicos interverbais ou intervocabulares (diérese) ; 4) quando contribui para o sentido, a graça poética, a expressão. O nosso poeta pratica o hiato sob êsses vários aspectos, menos para igualar (intencionalmente) o metro. Um exemplo citado por 51 Onestaldo de Pennafort. Gonçalves Dias e o romantismo (in Correio da Manhã, 7 maio 1950). 52 Carlos Drummond de Andrade. O sorriso de Gonçalves. Dias (in Autores e livros. n. 13). 53Pius Servien. Science et poésie. Paris, Flamarion, 1947. p. 135. Manuel Bandeira 54 nos induz a crer que o hiato, para Gonçalves Dias, era principalmente um recurso de expressão; era o hiato em seu melhor sentido; naquele sentido que os latinos lhe atribuíam (como forma de harmonia). Os parnasianos, como se sabe, o aboliram. Também terá perdido o hiato, com o verso livre, a sua razão de ser (e quando se diz verso livre não se quer dizer polimétrico). Valeram-se dêle, entretanto, os trovadores com admirável efeito; os românticos, os simbolistas também o cultivaram, assiduamente. Gonçalves Dias fêz

dêle, intencional ou inintencionalmente, uso constante. Mas o principal é que o tenha feito em função lírica, valorizadora. F) Já a respeito de sua imagística não se lhe nota qualquer ousadia de ideação. Conserva-se o poeta na atitude discreta que nunca chega, pròpriamente, à metáfora. Limita-se a comparações, a imagens, por certo felizes mas sem nenhum arrôjo que se nossa dizer surpreendente. "Qual", "como" são as suas chaves prediletas Qual foi Mazepa no veloz ginete ("A Tempestade") És engraçada e formosa como a rosa. És como a nuvem doirada ("A Leviana") Antiornamental e insistentemente direto em face da realidade, pôde o poeta dispensar quase sempre a imagem, a metáfora, como dispensou o adjetivo na "Canção do. Exílio", sem prejudicar a fôrça poética da sua linguagem. Assim, o mundo físico e a imagem de que nos socorremos para representálo tem, na sua técnica expressional, um tratamento típico. Consegue o autor da passagem de Os Timbiras referente ao amanhecer na floresta pintar o seu quadro com um mínimo, de apêlo à imagística. Sem incorrer no excesso da imitação literal que poderia desandar em prosa quanto à linguagem, e na simples cópia fotográfica da natureza, o que seria bem pouco artístico. 5' Sôbre o seu poder de descrição, aliás, já se falou na parte rdferente aos poemas indianistas e paisagísticos. Mas cumpre lembrar o quanto êle se enternecia diante das coisas de nossa terra, "a vista da paisagem, ou do oceano, enfim, o aspecto da natureza". Tinha êle o prazer dos olhos, a que se refere Baudelaire: "J'admets tous les remords de Saint Augustin sur le trop grand plaisir deli yeux". A natureza, para êle, (e aqui ocorre a observação de um Delacroix), não era mais do que um dicionário. Um dicionário que êle lia e que lhe despertava emoções e idéias, mais do que imagens. 54 Manuel Bandeira. Obras poéticas de Gonçalves Dias. 11, p. 264. 55 Viajando pelo Amazonas, podia ter caído prisioneiro das imagens. Pois o próprio rio fabuloso não o seduz imagìsticamente, com tôda aquela grandeza que levou Humboldt a pensar na "coluna d'água do dilúvio". Não; a imaginação do nosso poeta se conservou enxuta. Para Gonçalves Dias, o Amazonas era apenas um rio o rio que estava vendo com os seus próprios olhos, adstrito ao seu ângulo visual; só a reflexão - disse - o faria portentoso. A "reflexão" (veja-se a palavra que usou) não a imaginação. 'Será isso uma atitude romântica? Não se quer dizer, com isto, que as suas imagens, quando surgem e merecem êsse nome, não sejam realmente belas:

Logo o mar todo bonança a praia cansa com monótonos latidos ("Rosa do Mar") Como! £s tu? essa grinalda de flôres de laranjeira ! Branco véu, nuvem ligeira... ("Como Ç'Como? És tu?") Uma análise mais demorada dos seus poemas, no setor imagís tico, nos mostraria, embora discretamente, versos como êste E os cabelos do sol por sôbre a terra ("Visões") Esses "cabelos do sol" constituem uma imagem indígena, talvez, contida na palavra "coaraciaba", que é como os, indígenas definem o beija-flor. Assim, quando o poeta chama "formosos como um beija-flor" aos cabelos de Marabá, está dizendo que êles são "cabelos de sol". Mas por que beija-flor quer dizer "cabelos de sol"? Parece haver ai uma conotação que também se explica num mito indígena: o do beija-flor que é tido, entre certas tribos, como o pássaro que furtou o fogo aò sol 56 e o trouxe para a terra. Talvez se enquadre no mesmo sistema imagístico um verso dó trecho de Os Timbiras em que jucá matou a onça bicolor, "ganhando um nome". Qual a razão dessa imagem ? Não se trata do renome que alguém adquire por um feito heróico (num sentido de fama). Ganhar um nome é acrescentar mais um nome ao que já possui o herói. Cada índio possui mais de um nome de acôrdo com as ações heróicas que pratica. 57 Além dessas imagens "ocultas", digamos assim, há outras que se diriam "aparentes". Sabia êle deixar alguma coisa por conta do leitor E escancarando as fauces mostra nelas em sete filas alinhada a morte (Os Timbiras) Essa morte alinhada em sete filas, na bôca de tubarão que aportou. à praia, refere-se às filas de dentes do terrível seláquio, que são em número de sete. Pensa-se que é uma imagem - como realmente o é a quem não lhe saiba do motivo. Vai-se ver, é a realidade direta. Tão severo é o poeta sob tal aspecto que se lhe encontram coisas como esta: Já restam bem poucos dos teus qu'inda possam dos seus, que já dormem, os ossos levar ("Deprecação") 56 G. J. Frazer. Myths oj the origin oj fire. Ed. esp. Buenos Aires, 1942. p. 35.

57 Estêvão Pinto. Os indígenas do Nordeste. S. Paulo, Cia. Ed. Nac., 19351938. Vol. 11, p. 291; A. Fernandes Brandão. Diálogos das grandezas do Brasil. Rio de Janeiro, Dois Mundos, 1943. p. 285. Pensa-se que é uma imagem, mas não é. É uma alusão ao costume dos índios levarem os ossos dos seus entes queridos para onde vão, nas suas andanças. Também as imagens-símbolos são do seu agrado Debruçada nas águas dum regato a flor dizia em vão à corrente, onde bela se mirava: "ai, não me deixes, não ! "Consigo fica ou leva-me contigo dos mares à amplidão: Límpido ou turvo, te amarei constante; mas não me deixes, não!" E das águas que fogem incessantes à eterna sucessão dizia sempre a flor, e sempre embalde: "ai, não me deixes, não!" Por fim desfalecida, e a côr murchada, quase a lamber o chão, buscava inda a corrente por dizer-lhe que a não deixasse, não. A corrente impiedosa a flor enleia, leva-a do seu torrão; a afundar-se dizia a pobrezinha: "não me deixaste, não!". O poeta não julgou necessário explicar o símbolo da sua poesia - ensina Manuel Bandeira 5$ - que parece referir-sé à ânsia com que muitos de nós buscamos a nossa perdição e gostosamente nos entregamos a ela. Não lhe faltaram imagens simbolistas como a que Onestaldo de Pennafort aponta, lìtcidamente: os versos finais do poema "Zulmira", ao invés de dizer, sugerem; estão cheios do vago e do colorido de um nome que, inexpresso no texto, é sugerido por uma imagem em que há a mesma transposição de sentidos que se verifica no fenômeno da audição colorida E pergunto quem és. Então me dizem, ciosos de guardar o seu tesouro, nome tão doce aos lábios que parece escrever-se em cetim com letras de ouro. G) A arte de Gonçalves Dias está, como atrás se procurou demonstrar, mais na ciência do.ritmo, do metro e, agora o veremos, mais na ciência da rima, do que da metáfora. Usou êle o verso branco - em que é mestre jamais igualado - e o fêz com exata compreensão da oportunidade. Numa língua como a nossa, já por si mesmo rimada, o verso branco precisaria, não raro, fazer esquecer a rima, para que o leitor brasileiro não se

58 Obras poéticas de Gonçalves Dias. Vol. 1, p. 336. sentisse logrado, pela omissão. Em Gonçalves Dias essa omissão tem sempre um significado estético admirável. Ocorre só com perfeita razão de ser, como nos versos heróicos, nos de índole narrativa ou social. Significado que se torna visível em certas passagens do "I Juca Pirama", que necessàrïamente estão .despojadas de rimas para melhor exprimir as intenções do poeta, em contraste com as rimas que afluem numerosas em outras passagens do mesmo poema. 59 A rima vem, com precisão, no galanteio, nas canções, no "canto de morte", no poema lírico que a exige até coma graça e delicadeza. A fúria sonorosa e a graça idílica encontram, na sua "arte de não rimar" e de rimar, o meio de expressão adequada a cada um dêsres estados de espírito e sensibilidade. Já se mencionou a sábia conjugação e entrelaçamento das rimas agudas nesse poema, como em outros. Quem terá empregado a rima aguda com maior senso artístico, tôda vez que o som áspero, duro, repetido, é elemento expressional ? Não é o caso, pois, de estranhar o verso branco como sendo a sua "arte de não rimar". Arte de não rimar tanto mais importante quanto é certo que ;a rima não é apenas, na poética gonçalvina, um apoio rítmico; é isso, sem dúvida, mas aí se pode ir mais longe, dizendo que ritmar é um contínuo rimar, como diria Croce. Em outras palavras: na poética do vate maranhense não será demais dizer-se que, no verso branco, o ritmo substitui a rima. Em seus poemas não rimados o ritmo é uma "rima branca", constante, como no poema "Leito de Fôlhas Verdes". Aí a rima seria obrigatória, como urna flor em cada verso no ramo agreste da estrofe - uma vez que . a poesia lírica do seu tempo exigia a rima até como condição para a eficácia do galanteio amoroso. No entanto, a falta de rima não só dá ao poema certa graça lírica como o ritmo a dispensa; porque aí "ritmar" é o mesmo que "rimar". Ainda a respeito de rimas: 1) as com consoante de apoio são meramente ocasionais (tendas, contendas; ligeiras, laranjeiras, etc); 2) as toantes, embora empregadas sem disciplina e constância, é possível que o tenham sido intencionalmente (amiga, exígua, etc) ; 3) certas rimas encontradiças em poemas constituídos só de versos brancos, são fortuitas, e até disparatadas - meros descuidos do poeta; 4) as chamadas rimas por aliteração s° não correspondem ao quer o poeta declara no prólogo dos Primeiros Cantos porque despre-

59 O filho caíra prisioneiro mas havia sido demasiado romântico, quando devia ter sido épico. O pai apalpa-lhe a cabeça e percebe pelo tato que êle fôra "despido então do natural ornato". A falta de rima corresponde ainda a êste pormenor - a rima seria um ornato e o seu despojamento responde ao sentido da realidade então descoberta. 60 "Sei bem que não houve intenção - esclarece Bandeira - nessa rima por aliteração" (De poetas e de poesia. Rio de Janeiro, 1954. p. 118). Mas, se não houve intenção não há pròpriamente mérito artístico... zava êle as convenções e, portanto, com maior motivo, pormenores tão invisíveis como os de "1" de ligeira rimando com "1" de laranjeira; 5) Sempre nos pareceu que "rimar" é mais brasileiro do que "não rimar". Mesmo sem a riqueza de rimas agudas que o vocabulário indígena nos oferece, vive-se rimando sem querer, com o nosso "ão" tão característico (que Gonçalves Dias adotou, irrepreensivelmente, em "Não me deixes"). Tristão de Ataíde faz crer, num dos seus Estudos, que há até umas rimas mais brasileiras que as outras: as rimas em vogal ,surda, por exemplo. Pode-se acrescentar que há rimas diurnas, as indígenas; e noturnas, ws africanas. As palavras indígenas, além disso, já se apresentam rimadas, sem atritos. Arara rimando com coivara, tajá com inajá, cunhã com Tupã, membi com taquari, sabiapoca com taboca, etc. No "Poema Americano" (para só citar um dos poemas indianistas de Gonçalves Dias) figuram numerosas palavras dêsse gênero: acauã, ipê, braúna, gravatá, canarana, aipi, Tupã, igara, igaretê, marajá, juçara, tapera, cariri, guará, Peri, etc. O convite à rima é evidente, como se vê. No entanto, o poema está , escrito, todo em versos brancos - prova de que o nosso poeta sabia evitar o perigo de enfeitar-se com rimas indígenas que poderiam parecer de empréstimo. Expediente tão ornamental - se não obedece a uma segura intenção artística - como o de fazer alguém uso de penas de arara ou tucano para se fingir de bugre. Contudo, quando Gonçalves Dias, autor de um vocabulário da língua tupi, recorre à rima indígena, é com grande finura que o faz. Assim, porque o tupi possui, como afirmam os entendidos, "uma linguagem doce e harmoniosa, tôda intercalada de vogais", isto se reflete, desde logo, na sintaxe lírica do poeta, apesar da língua, às vêzes tão aportuguesada, em que êle se exprimiu. Veja-se "Marabá", em que a vogal "a" se repete, admiràvelmente, misturando o som tupi ao fim de cada verso; vogal clara, diurna, como aliás convinha ao poema relativo a uma mulher de cabelo de

ouro (não côr do anajá). H) O mal da adjetivação numerosa estava em pleno furor. Eram tantos os adjetivos que Musset, ao se arrepender do Romantismo, pensava que "si on rayait tous les adjectifs des livres qu'on fait aujourd'hui il n'y aurait qu'un volume au lieu de deuX". Ora, o nosso poeta escreve a "Canção do Exílio" sem um único adjetivo. Foi visceralmente anti-romântico em assunto de adjetivação. Não se quer dizer, é claro, que, ao adjetivar, não o tivesse feito - as mais das vêzes - com alto senso estético e até coar surpreendente originalidade. Já se notou mesmo, no relativo ao épico, o admirável efeito que o poeta obtém, em sua técnica de expressão, quando, por exemplo, adjetiva obliquamente; quer-se dizer, quando lança mão da hipálage, adjetivando uma coisa por outra. No caso, aí citado, da onça bicolor que salta de um ramo de árvore sôbre Jucá, as suas garras é que mordem o chão enganadas. Não é a onça a enganada; enganadas são as suas garras. O mesmo processo de deslocação do adjetivo é magistralmente usado no "I Juca Pirama". O pai, que é velho e já cego, adquire, pelo tato, uma terrível certeza; descobre a falta de certo ornato no corpo do filho e por aí verifica que êste, tendo caído prisioneiro dos timbiras, se livrara sem ter lutado, desonrando, assim, o nome da sua tribo. A certeza é que é "dolorosa", sem dúvida; mas o poeta desloca o adjetivo, dizendo que o cego, tateando na treva, apalpando os membros gélidos do filho, se certifica da verdade ao tocar "a dolorosa maciez das plumas?' que ainda o enfeitam. Não só o adjetivo "dolorosa" adquire extraordinária beleza como dá um grande sentido ao tato, de que se serve o pobre velho para se certificar da ignomínia. Maxime cognascitivi - dizem da vista e do ouvido os escolásticos. Da Vinci reputa os olhos o mais digno dos nosso sentidos. No caso em aprêço, o tato é, entretanto, o que se faz mais digno, o mais cognoscitivo. Não se falando na antítese entre o adjetivo "dolorosa" e a "maciez" das plumas; "maciez dolorosa" reunindo duas palavras que jamais se haviam encontrado em nenhuma técnica de expressão. Veja-se ainda outro caso, o daquele "fulminados" para os olhos do cego, quando êste percebe a desonra do filho e, como se estivesse vendo a cena, leva as mãos aos olhos: Recua aflito e pávido, cobrindo às mãos ambas os olhos fulminados. O "fulminado" foi êle, não os olhos que já eram cegos. Mas que fôrça poética adquire o qualificativo deslocado para os olhos, num tremendo ajuste da alma com o corpo, em que a fulminação moral sobrepuja a física. Olhos fulminados;

diz Gonçalves Dias No silêncio que a veste. gentil canitar. por efeito da figura que atribui a uma palavra da frase o que pertence a outra. dá a êsses verbos três funções adjetivantes que êles nunca tiveram e que os tornam. se lutei. meigo sentir. Não só pela originalidade. e a sua predileção pelo adjetivo "meigo": o céu. . penas gentis. Ex. mas devera expor-te em pública praça como um alvo à populaça' Não se quer afirmar que o autor de "Leviana" Gempre consiga tais efeitos. um significado próprio. e ainda por dois motivos. sendo.. . porque vistosa... a gentilidade não exclui a gentileza. Povo gentil. adjetivamente. pela beleza e concisão com que foram usados. I) Falando da "noite. ho6pitáleiro (como na carta do achamento). Só nas oito estrofes da primeira parte do "I Juca Pirama" usa o poeta três "gentis". que a palavra "fulminados" . significando qualidade e ação ao mesmo tempo. além disso. mui judiciosamente. "Quando o tempo fôr bonança" ("Solidão").aí com tamanha carga lírica . e.. sobremodo destoante num poema tão lírico como o "Ainda Uma Vez Adeus" com a simples transposição do adjetivo: oh. porque extremamente delicadas. extraordinàriamente poéticos.: "O mar todo bonança" ("Rosa do Mar"). segundo. senão também pelas imagens e conotações que despertam. mais que cegos. mas o certo é que cada "gentil" tem. Afinal. de dupla função expressiva. segundo certo tipo (simbólico) de emplumação.funciona como um plurissigno.isto é. adornando e honrando a noite. solitária e muda". (que! toma tanto relêvo na técnica parnasiana). Primeiro. vestindo. Haverá expressão mais prosaica do que "praça pública"? Pois o poeta evitou o prosaísmo de praça pública. meigo luzir. adorna e honra Veja-se que o silêncio. etc. mais. a finura com que o poeta usa o substantivo "bonança". Também o adjetivo "gentil" aplicado a coisas selvagens provoca logo certa estranheza. meigos sons da meiga lira. por se tratar de um "particípio". alegre. como é. meigos infantes. . Múcio Leão acentua. da mesma frase. tão meigo. olhos tão meigos. se não é êle um devoto do mot juste. meiga harmonia. no poema. Observe-se. adjetivo e verbo simultâneamente.

sem pensar no sentido que tais palavras tomam na linguagem gonçalvina. É um caso de identificação lírica. com tôda a carga . saudade. saudade. palmeira. servindo apenas para suas comparações lírico-amorosas. Colocada a questão nestes têrmos.a rosa. A graça que adquirem uns "olhos verdes".porque em Mallarnié (também por exemplo) rosa Já é coisa muito diversa: Cette rose. para que cada leitor a interprete a seu modo (outro fascinante problema da poética moderna) . ou adquiriram. uma vez que se lhe identifique o autor. alude-se à vivência. a sua linguagem é simples. líricos ou épicos.109 Em assunto de linguagem poética. o monossilabo "vi". . à impregnação simbólica que cada palavra representa no contexto do poema. . os olhos da côr do mar. que o matou. "uns olhos côr de esperança" quando o poeta diz: "Eram verdes. em "A minha rosa". Explica-se: para se saber o verdadeiro sentido de certas palavras é indispensável saber qual o poeta que as empregou.como quem diz. precisamos saber sé uma rosa de Rilke .. palmeira. em rima aguda. ao fim de cada último verso. sem esp'rança". Já não se trata aqui do plurissigno. J) Note-se ainda que o nosso poeta raramente emprega palavras rebuscadas e preciosas.sabiá. nem sempre mudam de sentido em sua poética. que figura no seu epitáfio. é de uma insistência clamorosamente bela ("ah. Rosa é rosa mesmo. bem se compreende a importância que algumas palavras . em seus poemas. le trop grand plaisir des yeux!"). a palavra oferecendo muitos sentidos. desataviada. simplesmente porque as empregou Gonçalves Dias. num pleonasmo implícito: vi. Para se conhecer o significado de rosa. Nem já sei qual fiquei sendo depois que os vi. . O poeta "viu" .lírica da sua significação rilkeana . Mas não se pode falar em sabiá. Raro é um "alibrilhante" ("A Triste Flor"). às conotações líricas.. No estribilho "depois que os vi".a verdade é que as palavras . um "circunfusa" (Os Timbiras) um "aurinevada" ("A Tempestade"). anhangá. por exemplo.podem adquirir. com os meus olhos. ne 1'interromps. de seu natural. não há como desprezar tão sedutor trabalho de identificação lírica. é a sua amada.. um "auribranco" ("O Amor") à Odorico Mendes. seguramente. Quando muito. Mas que graça poética adquirem certas palavras dentro das estruturas líricas do poema.

rutila e fugiu". assim usado por quem continua vivo.em que aparece o pretérito perfeito "fugiu" ("A tempestade") vindo depois de três presentes do indicativo: efeito dinâmico que em outros passos da obra de Gonçalves Dias se encontra. é. entretanto. não raro. A idéia de dois seres que se confundem num só se representa aí pela sintaxe gramaticalmente confusa mas amorosamente muito clara. Mas uma tem a "luz mais branda. isto é. lírica. uma. ideológica. Por que ? Pois não eram "duas esmeraldas. não palavras. 61 no pretérito perfeito. outra amor". tão "semânticamente" empregado pelo poeta: "Uns olhos por que morri". e unidos.Será oportuno ainda chamar a atenção para o verbo "morri". de uns olhos verdes que eu vi. Se ele houvesse dito: "uns olhos verdes por que morro". exprime bem a metamorfose por que passou o poeta. fulge.. ou já viram aí um êrro de concordância. côr"? Eram. muito acima das categorias gramaticais? VII. a uma questão de palavras. Que eu vivo só da lembrança de uns olhos côr da esperança. Os olhos verdes tão fàcilmente se inflamam que derramam ao mesmo tempo "fogo e luz" no coração. morte por encantamento. entendem-se.em puro céu d'êxtases puros. e mais pròpriamente. por ter visto uns olhos verdes. "Uma é loucura. se tem na terra o galardão devido em recíproco afeto. A sua sintaxe. Trata-se aliás de um verso de rara beleza: o morri..notado por Bandeira . ou "por que morrerei". que tinha. outra mais forte". nenhum porém tão imprevisto como êste: "O corisco. ORIGINALIDADE E INFLUÉNCIAS . Se tal paixão porém enfim transborda. iguais na forma e na. mas uma palavra nova a dizer ao mundo. há outro exemplo deveras curioso . Não se deve esquecer a sutileza entre "fogo" e "luz". os exegetas mais lúcidos "um curioso efeito de estilo". Os filólogos verão. A linguagem poética de Gonçalves Dias não se limita. "Uns olhos por que morri" (olhos verdes) significam uma morte mágica. dois sêres duas vidas se procuram. confundem-se e penetram juntas . brilha. todo o encanto estaria desfeito. um caso típico de sintaxe lírica. como se vê nesta passagem tão expressiva 61 Ainda a respeito do tempo dos verbos. Mas por que não. Se há um poeta para quem os poemas não se fazem só com palavras é ele.

conhecendo o alemão e fazendo-se tradutor de Heine. O seu lirismo é garrettiano. é assás rico para inspirar e nutrir os poetas que cresceram à sombra das suas selvas primitivas. o poeta de "I Juca Pirama" é vítima de uma pesquisa miúda a respeito de influências que terá recebido a sua poética. Estudando e aprendendo italiano para freqüentar Tasso. aconselhava os escritores brasileiros a adotarem uma poesia "livre como já o era o Brasil em seu governo". pois já vimos que justamente êsse aspecto da poesia gonçalvina é nitidamente original. tendo freqüentado o meio português. 62 que por sua vez foi um grande estu62 Como se sabe. Schiller. familiarizando-se com os franceses. Musset e a do próprio Sainte-Beuve. em verdade. e pertencido ao grupo de Crônica Literária e de O Trovador. a influência portuguêsa é indisfarçável. Ackermann 63 descobre em Victor Hugo certas passagens depois utilizadas pelo brasileiro . Nada tem com o indianismo europeu. Mas Gonçalves Dias citava Chateaubriand: "Les infortunes d'un obscur habitant des bois auraient-elles moins de droits à nos pleurs que celles des autres hommes"? Então se viu nessa citação a influência francesa sôbre o nosso poeta. Entre elas estão as de Lamartine. Assim. entusiasmado com o seu indianismo: Quiséramos que as "Poesias Americanas" que são como o pórtico do edifício. ocupassem nêle maior espaço. em Coimbra. Nos poetas transatlânticos há por via de regra demasiadas reminiscências da Europa. sede apenas cordiais para conosco". Dante. afirmam.Como Machado de Assis. Êsse conselho viria a ser repetido. dioso das coisas brasileiras. Não se notou que a maior influência que recebeu é no sentido de que não imitasse os portuguêses. um século depois (por ocasião da Semana da Arte Moderna) na mensagem em que os escritores franceses com Benjamin Ciémieux à frente. dessas facêtas de sua curiosidade literária nasceram numerosas influências que os exegetas buscam verificar minucioeamente. Ariosto. em seu Resumé de 1'Histoire littéraire da Portugal et du Brésil. fazendo-se amigo pessoal de Ferdinand Dénis. é o conselho que lhe dá justamente Alexandre Herculano. Petrarca. Ferdinand Dénis. quando. quatro anos após a proclamação da nossa Independência. o que há aí é apenas uma advertência: se o próprio francês é indianista. Gautier. que deu tanta poesia a Saint Pierre e a Chateaubriand. nos pediam: "Não nos imiteis mais. Victor Hugo. Bsse nôvo mundo. por que não o ser um brasileiro ? Nada mais que isso.

por exemplo: Nascer. que a linguagem de Gonçalves Dias. desde a época dos trovadores até Augusto Frederico Schmidt. 65 Emesto Féder. mas só êsse poema não bastará para caracterizá-la. o que parece influência será o processo da "alusão". originais do poeta. praticado hoje tão freqüentemente por Eliot. Mesmo quando se quer descobrir que Gonçalves Dias emprega o recurso de estilo. mais avêsso (quanto à poética) às imagens alucinantes. (ir) Autores e livros. nada. b ) Outras vêzes. Nogueira da Silva sôbre a origem de certos poemas que Gonçalves Dias dá como "traduzidos" sem dizer de quem. ss . dividida em duas hipóteses: a) João Ribeiro lembra a possibilidade de que alguns sejam 63 Fritz Ackermann. loc.é uma observação de Ernesto Féder 65 . então. do poema "Zulmira". Assim "amor de árabe" nada mais é que o "Asra" do Romanzero do poeta alemão". De um modo geral. "helàs. imagìsticamente sóbria. E aqui surge uma questão interessante. A influência francesa estaria. consistente em repetir as mesmas palavras ou as mesmas expressões adverbiais em versos ou estrofes sucessivas. 64 "Outras vêzes . a suposição parece descabida. Gonçalves Dias e a poesia alemã.se encontram nas poesias de Gonçalves Dias adaptações de poemas de Heine sem menção do autor. E uma observação mais a fundo demonstra que a maior parte das influências capazes de determinar êste ou aquêle comportamento de Gonçalves Dias. Ezra Pound e outros grandes poetas. do poeta francês.Oh. ainda hoje. sofrer eis tôda a minha vida Só mesmo com muito esfôrço se poderá dizer que tais versos foram influenciados pelo de Victor Hugo. Esta. Tal recurso é comum a centenas de poetas. naitre pour vivre en desirant Ia mort". É possível. cit. Por que teria ocultado o nosso grande poeta do período romântico os verdadeiros autores ? Pergunta João Ribeiro a propósito da indagação feita por M. 64 Onestaldo de Pennafort. para conseguir maior fôrça de sugestão e uma explicação mais viva. que por modéstia os quis apadrinhar com autoria estrangeira. é pura suposição. lutar. no seu orientalisrno à Gautier. singela. quand je dors. às sobejidões verbais de Hugo. viens auprés de ma couche et qu'en passant ton haleine me touche Vem junto ao meu leito quando eu fôr dormindo que eu sinto o perfume que exalas passando. cit. loc.

. E. ali citado. Aludindo a pontos de contato entre Gonçalves Dias e Goethe. no setor das influências. uso comum. W. 67 Op. quando Yeats escreve: "birds in the trees Those dying generations . acha que a alusão só é possível onde haja um corpo de literatura clássica bastante difundida. seriam alusões. p. cit. parte IV) e como de Victor Hugo. Em Poetry direct and oblique. 14 de maio de 1950. é porque se refere a um trecho de Keats.. guardadas as devidas proporções. .6 tu que tens de humano o gesto e o peito ("Que Coisa é Um Ministro") A rosa do Sarão lá se despenha nas águas do Jordão ("Sempre Ela") Será vencida a morte. É ainda provável que os versos: . O processo que varia de medida de estrofe a estrofe. a régia c'roa que o feliz condenado achou na Ucrânia ("A Tempestade"). mesmo tempo. arroladas por Macróbio. Tillyard. em sentido ascendente. ("Les Djins"). Mas ex66 Sôbre "alusão" convém ler o trabalho de Péricles Eugênio da Silva Ramos..um arcanjo Conta prodígios de uma raça estranha tão alva como o dia (Os Timbiras) sejam também uma maliciosa alusão ao Gente assim como nós da côr do dia de Camões (Os Lusíadas). Chega-se .a do modêlo que serviu a "A tempestade" para dois autores ao. plica-se: o mito da "mãe d'água" (Iara) chama-se Lorelei na lenda germânica. M.. . Num poema apocalíptico.para depois voltar gradativamente até o de duas sílabas na última estrofe. 136. Paulo. uma delas . é apontado como de Espronceda ("Estudiante de Salamanca".at their song". As imitáções de VirgMio. Mas isso apenas prova o seu. "Dies Irae": da vida o livro volumoso sela com sete brônzeos selos. O Mors") . na "Ode a um rouxinol": "Thou wast not bom for death. indo da de duas sílabas até o de onze . immortal Bird 1/ No hungry generations tread thee down". . Para Tillyard. ("Ero Mors Tua. nota Lúcia Miguel Pereira 67 que a "Mãe d'Água" lembra o "Erlkoning" do grande alemão. a disputar. s$ Simples coincidência.ponto culminante da tempestade .. publicado no Jornal de S.

está sujeita a con68 Francisco S. um estado de espírito dos povos ibéricos. tomada assim parcialmente. aparecem nesses poemas e ainda em "Espera". . Ao lado desta influência... deviam ter sido apontadas pelos exegetas preferentemente. Mas é preciso não perder de vista êstes dois pontos: assim como o indianismo já estava na tradição popular. etc. valem como indício de influência. na explicação que dá às Sextilhas de Frei Antão. índios e caboclos.Invejosos do poeta 69 apontaram o "Ainda uma Vez Adeus" como plágio do "Rojas secas" de Zorrilla. Mun. vol. O capítulo das influências. em várias cartas (Pallida Imago Mortis.. Non Omnis Morior. 71 Ou a influência trovadoresca não é. Coimbra explica a sua linguagem aportuguesada. e que a melhor tradição do nosso lirismo está ligada à poética do medievo. mas uma constante de nossa poesia. quando em Coimbra se deixou seduzir pelas letras clássicas. o Maranhão. não faltaria a trovadoresca. a Atenas brasileira. 7° Mesmo as características horacianas. . onde tanta gente se notabilizou por escrever bem. como se tem feito em relação ao poeta do "I Juca Pirama". (in Rev. na opinião dos críticos. Paulo. não obstante brasileira na intenção e nos temas. Shaden. que são a ode quanto à forma. 72 Tudo isto pode até certo ponto ter a sua razão. quanto ao Brasil. uma herança do medievalismo português (ou do francês. êle mesmo. e a confiança nos valôres da vida. está presente ao seu estilo clássico. quanto ao sentido. quando a verdade é que se trata de um poema puramente autobiográfico. Gonçalves Dias. porém. ) . convindo lembrar apenas que a designação "influência". G. mais do que um modo de ser poético. Se as citações. por motivos ainda há pouco explicados por Gustavo Barroso. ou melhor.). Arq. além de traduzido por Gonçalves Dias. como sugere Onestaldo de Pennafort) ? Perece correto dizer-se que. atinge o seu próprio modo de escrever. CXXV). falou em versejar à moda dos trovadores. um fato que só se verifique em Gonçalves Dias. . o trovadorismo já é encontradiço. em "Ainda e Sempre". o que ocorre é. no poetar típico dos sertanejos do norte... implicitamente. inscrições.. de Horácio. Horácio é citado no "O Homem Forte" (impavidum ferient. então as que o poeta faz. S.

aí. alusão. a romântica..69 Panteon maranhense. d) . como em seus poemas iniciais ( "Inocência". etc. a vielle do troubadour é a viola dos cantores. é dos olhos verdes. 71 Justificando a sua observação. III. algo de irredutível em Gonçalves Dias. o poeta esclarece que "a sua musa não é de Horácio". Nos "Olhos Verdes" está. português saborosamente "aportuguesado". enfim. a sua arte maior compõe-se de longas poesias sôbre a vida dos cangaceiros formando verdadeiro ciclo heróico das canções de gesta. Gustavo Barroso (Trovadores e cantores. e que outros jamais poderão imitar sem repetir. p. VIII. a sua origem. que lhe dão certa graça antiga. ou coincidência 7 72 Josué Montello. o seu indianismo que êle não imitou de ninguém. a influência clássica. a das idéias de seu tempo.quanto apenas a não residir "nos soberbos alpendres dos senhores". que correspondem aos debatz do medievo. A arte menor dêstes está na quadra heptassilábica. sem copiar. Mas se o poeta "não sabe qual ficou sendo" a influência. em "A minha musa". etc. p. o que poderia ser uma definição de influência: Nem já sei qual fiquei sendo depois que os vil Camões Alguns comentadores menos atentos verão aí uma influência de Eles verdes são: e têm por usança na côr. Herança do medievalismo português.. simples impregnação de leitura. 15) lembra composições poéticas dos nossos sertanejos denominados debates.. Vol.0 Congresso brasileiro de folclore (IBECC).lá está . in Anais do v.. Gonçalves Dias. embora em plano diverso. SEXTILHAS E LINGUAGEM POÉTICA. linguagem gonçalvina apresenta várias soluções: a) a de acento brasileiro. O nosso desafio é a tenson dos provençais. mas .b)a mescla indígena com o seu . quem o contestará ? Quanto a modelos seguidos por Gonçalves Dias é que o problema se torna grave. 272. não é de Camões. sem plagiar. dada a sua originalidade inconfundível. (ensaio biobibliográfico). Influências. de um modo geral. esperança e nas obras não. ). Havia. "Canção do exílio". 70 Verdade que. fusões gratuitas com coincidência. c) a linguagem portuguêsa salpicada de arcaísmos.

de impropriedades". inclusive de concordância erros que os exegetas explicam. às vêzes. tal revisão força o leitor a prestar atenção. em edições criticas às obras poéticas do vate maranhense. são obrigados a fazer anotações gramaticais. "O que é brasileiro é brasileiro. com a linguagem arcaica das Sextilhas. e) como depois desejaria êle passar para outro extremo. como cometidos para efeito estilístico. sob o fundamento de haver nela "erros crassos de linguagem". o de "te apiade" (do "Ainda uma Vez Adeus'") objeto de viva polêmica entre Medeiros e Albuquerque e Carlos de Laet. os seus "indignos poemas" para a linguagem cabocla. na sua obra poética. embora injustamente. Mas o poeta teria cometido tais erros. nem mesmo os inúmeros descuidos a respeito de crase. não raro penosas e antipáticas. traduzir. quis o autor mostrar aos seus censores que sabia a língua de Camões como os que melhor a soubessem. 75 de "Harpejos". pontuação. Até hoje certos gramaticólogos lhe apontam erros. Quem nos dá esta informação é o seu primeiro biógrafo e amigo íntimo Antônio Henriques Leal: "Desfecharam os censores os mais desapiedados golpes contra o pobre escrito desapadrinhado e o reprovaram. entre muitos outros. No mínimo. a quantas vêzes foi preciso crasear. I) Conta-se o motivo que levou o poeta a escrever as Sextilhas de Frei Antâo. do "I Juca Pirama". te procuro". É o outro caso. e que Said Ali procurou corrigir para "te apiede". prosódia e ortografia que tanto trabalho hoje dão aos que. 74 Não foi só Bernardo Guimarães quem. explicar que a verdadeira prosódia é esta ou aquela (múmia e não . se isto desagrada a Portugal é grande pena mas não tem remédio". Os aristarcos daquela época não lhe teriam perdoado jamais aquêle "te vejo. assacando-lhe erros crassos de linguagem e isto num português de contrabando".mas agora a sua experiência vai ao extremo. corrigir erros (tipográficos ?). nem o "cabe as honras" da parte III do mesmo poema. É o caso. ao ponto de merecer a palmatória dos censores ? Sempre não se havia esmerado no modo de escrever. com prejuízo para a emoção poética. Foi o ter sido recusada a sua peça teatral Beatriz Cenci pelo Conservatório Dramático. do que ocorreu num dos mais belos trechos de "Se Morre de Amor". embora a sua sintaxe fôsse "menos invertida que a de Portugal"? José Verissimo 73 identifica-lhe a "correção da forma. Em revide. pôr e retirar vírgulas. da língua". lhe increpou a linguagem de "inçada de pleonasmos. a pureza. como Manuel Bandeira. aquêle "possas tu seres' da 1@1 estrofe da parte VIII. Mas acrescenta: "sem ter talvez uma constante e rigorosa pureza gramatical".

mas Sousa da Silveira achou uma saída hábil para Gonçalves Dias. mais ao acento de nossa fala. . nem enforcado. o intuito de Gonçalves Dias foi "celebrar glórias portuguêsas" em suas Sextilhas. fazer ver que é forma não registrada nos dicionários (pulvurento). ao contrário do que se pensa. Vol. E que dizer das próprias Sextilhas. dando um tom de carinho à busca e à procura. dentro dêle. Ora. p.lin73 José Veríssimo. senão porque desejava demonstrar que podia escrever em "língua de branco". Ao passo que "Busco-te. antes de mais nada.mumáa). Nogueira da Silva. Para não se admitir como verídico o episódio da censura seria preciso. 125. de que fala João Ribeiro. disposição e estilo". Bibliografia de Gonçalves Dias. 74 M. 1901. Sensibilizado. não há dúvida. disse espirituosamente Carlos Drummond de Andrade do "Te vejo. não só a do seu tempo como a arcaica. Estudos de literatura brasileira. provocando a crítica dos censores. Mesmo Alexandre Herculano havia. guagem simples mas severa . p. é a brasileira. b) que. aludido a "imperfeições da língua" de que os seus poemas se ressentiam.realizar uma memorável façanha poética. No mínimo. II) Talvez não proceda nenhuma das duas hipóteses. como "me dê" em lugar de "dême". na linguagem dos trovadores . II. 28. te procuro" atende . Assim. Nem é lícito compreender o motivo de haver êle denominado "ensaio filológico" ao seu trabalho. um purista. Gonçalves Dias resolveu demonstrar que não só sabia a língua como também poderia escolher um dos períodos por que ela passou e. porém. porém. não obstante o grande elogio que lhe fêz. hoje: a) que a sua intenção não foi a de se vingar dos gramáticos (não obstante a sua declaração de "ensaio filológico") porque o parecer dos censores do Conservatório reconhecia "invenção. etc. portuguêsmente. o "Te busco. onde se respigam erros de cronologia para os vocábulos alue não podiam estar juntos em semelhante experiência arcaico-filológica Que o poeta incorreu em "erros". procurote" é áspero e atropelado. Rio de Janeiro. impugnando Beatriz Cenci apenas por imoral. 75 "Prenda-se e enforque-se". Alega-se.. que "sembram" quer dizer "semelham" (arcaísmo). é um caso de colocação de pronomes resolvido brasileiramente. em trabalho publicado em A Ordem (junho 1942). te procuro". e mesmo os que mais o aplaudiram . A única solução. o poeta dos "Harpejos" não foi prêso.. que o poeta nunca houvesse sido acusado de deslizes gramaticais.êle próprio nunca pretendeu ser um gramaticalista.

o tê-ias escrito em português arcaico. Érro maior seria fazer do estilo um exercício de bons alunos às voltas com a sintaxe. o estilo que quer dizer concepção particular da obra de arte. sem que o autor prime pelo 76 "Individual style" e "epoch style". não terá sido até uma ~ forma de ironizar o português ? Ferido no seu amor próprio. escrever gramaticalmente certo.a que aludem os censores. em absoluto. . misturando conceitos tão diferentes. 33). sem a preocupação de "escrever bem" (portuguêsmente) . é a de que . portanto. esteja enquadrado num dos casos acima sugeridos e não na de simples correção gramatical. Note-se que o poeta nunca fêz essa confusão. Pedro Nunes Leal. Dizendo que Beatriz Cenci continha "invenção. $ o que também se depreende daquele sorriso notado por Drummond e que . de modo que as três palavras empregadas pelo Conservatório não infirmam. não terá o Conservatório confundido êsses requisitos com "correção gramatical". pelo assunto e pelo estilo que Gonçalves Dias habilmente fêz antiquado. (p. 77 Todos sabemos disso. incontestável sob êsse aspecto. nunca o poeta foi mais brasileiro. sobravam-lhe razões para isso contra a "canzinada" do Conservatório. É de supor que o estilo. e ao mesmo tempo ter espiolhado "erros" no trabalho do autor. com que êle escreveu a sua obra. pode haver disposição. o estilo como marca de identificação pessoal ("le style c'est 1'homme") . Realmente. Gonçalves Dias criou nôvo estilo. Em resumo pode haver "invenção". a informação de Antônio Henriques Leal. o estilo da linguagem. conseqüência da maneira original e.numa definição de Álvaro Lins . e pode haver "estilo" com ousadias e até com a subversão da linguagem. que não pode ser esquecida. em grande parte. é claro) incorreções de linguagem. chega a dizer que as Sextilhas. separa muito bem as coisas: "O instrumento e a arte. dentro de um gênero. nôvo estilo dentro de um gênero. cit. Qual o "estilo" de Gonçalves Dias ? Conhecem-se vários estilos: o estilo que interessa à técnica de expressão. em português tão aportuguesado. nova maneira. pertencem à literatura portuguêsa. como propõe Hatzfeld. testemunha presencial dos seus atos. sempre tão agudo em sua crítica. 76 A técnica empregada pelo escritor é. o estudo da língua e o estilo". Na carta ao Dr. em sua composição. a) Machado de Assis. Mas há outra significação da palavra estilo. até certo ponto. o estilo de uma época e de uma cultura.mais do que seu biógrafo. em relação à tradição portuguêsa. disposição e estilo".uma obra original cria nôvo tipo. ao contrário. O depoimento de Antônio Henriques Leal é. Podia dizê-lo. Também se pode dizer exatamente o contrário. única. isto é.4he atribuem (com certa impertinência. na "Introdução Geral" dêste volume.

gostaria de ter escrito os seus "indignos poemas". Simples dialética do amor próprio ferido. e os arcaísmos portuguêses . Ed. e tipicamente alemão ? Cassirer nos dá a resposta. que o poeta. esp. "compensatório". Os nossos matutos dizem "mas porém". não faltarão dois curiosos pormenores: o trovadorismo sertanejo do nordeste. Lá estará aquêle entonces das Sextilhas. 1951. então.secretamente abre caminho na poesia carrancuda do autor do "ensaio filológico". O próprio Gonçalves Dias pergunta: porque escreveu "pocemas" e "taperas" Vieira ficou menos Vieira ? c) E se quisermos examinar a invenção de Gonçalves Dias mais brasileiramente ainda. em Dialeto caipira.que se transformaram em "brasileirismos" ou são. a pesquisa de Amadeu Amaral. 342). Naquela linguagem cabocla em que Gonçalves Dias. n. em A vida de Gonçalves Dias. pelo menos encontradiços em nosso linguajar inculto. 80 d) Compostas as primeiras estrofes. Las ciencias de Ia cultura. e mais valia o lirismo da sua invenção . 79 Cassirer. mais brasileiro .. "fermoso". 77 Registra Lúcia Miguel Pereira. repetindo Camões sem o saber. 13). porque um Goethe escreveu as Elegias Romanas ou o Divã Orientalocidental deixou de ser Goethe. que sob mais de um aspecto revive o dos medievais. ou fingir que o era. b) Se o assunto é português é porque o intuito do poeta foi melhor caracterizar a linguagem que adotou no seu "ensaio filológico". Então. . 79 Nem os "arcaísmos" o transformariam em menos brasileiro. por lhe parecer que ia nisso "excesso de lusitanismo". viu o poeta que a sua experiência redundava em poesia e da melhor. alisar o que seria áspero. como depois confessa.intimamente . Quanto mais português conseguisse o poeta ser. Resolve. Ao atingir o tronco. admirador de Odorico Mendes. do que a sátira. México.. Leiase. "despois". O sorriso de Gonçalves Dias. dêste divergia quanto ao seu purismo. como no verso da "Introdução" a Os Timbiras. 78 Carlos Drummond de Andrade. como o confessa. p. 80 Sôbre arcaísmos que se tornaram "brasileirismos" há os numerosos exemplos que Renato Mendonça citou em O português do Brasil (p. 78 Sorriso sintomático. saiu-lhe mel na segure.seria. (in Autores e livros. acêrca da presença de elementos arcaicos em nossa linguagem inculta. 184.

bem marcados. buscando palavras. III) Mas surgiu. Plínio Airosa. Um filólogo moderno. bem que as mais das vêzes em sentido antiquado". em que viveu o poeta. .tais incongruências em Gonçalves Dias. específica. não estava êle construindo justamente uma linguagem poética. O resultado foi o mais feliz. mesmo na opinião dos filólogos. contudo. caracterizando a sua linguagem poética. onde o fundo-forma é indissociável. o que ocorreu às vêzes na mesma página. Ao invés de carregar na sátira. o ilustre professor de tupi. vazando as Sextilhas de modo como "nunca. O "ensaio filológico" se transformou num verdadeiro ensaio lírico. de um "ensaio filológico". O dom poético tem dêsses recursos mágicos. Os períodos históricos em geral não podem ser rigorosamente extremados.acham-se todos no Dicionário de Morais. de forma caída em desuso e forma vigente do mesmo vocábulo. de incontestável beleza. não dependem de calendário nem do ano em que o século acaba ou começa. O que é característico de um período pode encontrar-se em outro. várias vêzes. arcaísmos de várias épocas. sustenta que não houve incongruência alguma. apontou . 81 Cândido Jucá Filho. Mutatis mutandis. inçaria de. embora houvesse pensado que iria desagradar ao maior número dos seus leitores. Alfredo de Assis Castro. "Quanto aos vocábulos que emprego .. cabendo indagar. Natural. de Letras. A questão é realmente fascinante. se quando Gonçalves Dias lançou mão de uma linguagem envelhecida. em tempo algum. O "intencional" e o "preterintencional" estão. algo obscura em relação ao idioma corrente. preferiu o poeta dar ao pensamento a côr forte e carregada daqueles tempos. outro estudioso da questão. que a linguagem das Sextilhas é fundamentalmente a do século XIX. esta ou aquela discussão entre filólogos a respeito das Sextilhas. aparentemente. (in Anais do 2.Pesar de ser português o tronco atingido lhe põe flôres nas mãos. específica. Candido Jucá Filho. aí. que se lhe notam até algumas formas e construções pré-históricas ou cerebrinas. falou ou escreveu quem quer que seja". sabor e graça. como nenhum outro poeta a teria construído. específica.0 Congresso das Acad.é o poeta que o esclarece . porque se tratava. . Procurou-se demonstrar que o autor foi inconseqüente quando se utilizou. 81 como o fêz. intitulado A linguagem das Sextilhas de Frei Antão. a respeito de têrmos indígenas. em seu sentido etimológico. não é outro o processo de Mallarmé que construiu a sua linguagem poética.na lição de Said Ali. Alterações lingüisticas.em estudo deveras interessante . Em trabalho sôbre o assunto.

a bem dizer. Nós outros. Mas o sábio autor de Materia y forma en Poesia esclarece "A base técnica de todo estudo dos estilos literários tem que ser o conhecimento especializado dos valôres extralógicos da linguagem". Por um método que se baseia em nossa competência profissional. foi muito além: atingiu a linguagem poética tal como hoje a entendem os que modernamente a tentaram ou realizaram. Transformar o exame das Sextilhas numa pesquisa estritamente filológica é esquecer-lhes. Leiam-se as revelações surpreendentes feitas por Charles Chassé sôbre a técnica do mestre francês. que não precisava usar de palavras só existentes na época figurada afim de apenas caracterizar o seu objetivo.é uma confissão de. 120 no dicionário de Littré. tomada em primeiro plano. Variou o ritmo e adotou uma posição que . Fôsse o objetivo principal. não o objetivo principal. subverte o problema da linguagem poética. fazendo da filologia um instrumento de ciência poética. IV) O que Gonçalves Dias quis fazer foi outra coisa e não apenas o que supõem os filólogos que só viram um lado do problema. o poeta não se limitou a uma pesquisa que. A coexistência das palavras não faz parte. Também a chave do nosso grande poeta do período romântico está no Dicionário que êle mesmo indica. Não se trata .. em caráter científico. no conhecimento dos valôres lingüísticos. a secreta intenção lírica de uma linguagem criada pelo poeta. Amado Alonso também podemos cooperar na busca do conhecimento poético e o teremos que fazer à nossa maneira. em seu estudo sôbre Les Clefs de Mallarmé. de maneira a "não desagradar aos ouvidos de hoje". 82 É preciso entrar mais a fundo na festa semântica ou sintática das Sextilhas. aquêle estado "afilosófico" (como diria Croce) de "docta ignorantia" que é o da criação lírica . Porque. Não será lícito desprezar.1939).como muito bem observa Mário da Silva Brito. já na antiguidade. numa experiência dessa natureza. do seu contraponto poético ? O exame unilateral do problema inverte a ordem dos valôres. possivelmente. com o seu dialeto idílico (Teócrito). Não será correto subordinar o principal (a linguagem lírica) ao pretexto (o ensaio filológico). com o dialeto homérico e com o ático. os filólogos . o fizeram os gregos.ao lado do argumento lingüístico. não precisaria ter sido feito no setor da poesia e sim no da prosa. Tal como. em verdade. Por isso mesmo cuidou o poeta de tornar "o estilo liso e fácil". o "ensaio filológico" foi apenas um pretexto. de uma cópia naturalista do tipo português de poetar.

0. na fronte finos ramais. de um simples desencanto. cadeixo de fios d'oiro franjas de templo sagrado. obra de "recriação" não de imitação. Fêz. Sahio a real princesa sahio dos Paços reais. . se a sua linguagem é. pois. tornando-se a chave. cit. c) mas como foi preciso "recriar" a linguagem. E mostra o quanto é perigosa a exegese quando a filologia não obedece a nenhuma pesquisa lírica. Pois isso ' é o que fêz Gonçalves Dias com a sua linguagem poética. o pretexto: um "ensaio filológico". mesmo apenas sob êsse aspecto. Um dos nossos mais agudos exegetas da poesia moderna. 120. que já é importantístsimo. e as largas roupas na cinta prendia em muitas laçadas.principal. p. era ella sancta às ocultas o anjo no parecer!. e êste fato lhe dá o papel. Vinha assi a régia Dona.lhe permitisse captar os módulos. em amputar às loas e aos solaus . arcaica ou arcaizante. das Sextilhas não é saber apenas. ou não. pelas costas debruçado. quando a via. É ser o exemplo de uma primeira tentativa de linguagem poética. em tal domínio. entre nós. a atmosfera. de um verdadeiro precursor. que também pudessem ser brasileiras) . 82 Amado Alonso. das Sextilhas. Traçava hum mantéu vistoso sobolas suas espaldas. pois. é a sua intenção nítida de criar um dialeto lírico destinado a temas que só assim podiam ser . V) Em síntese a) o motivo determinante: mostrar o poeta que sabia a língua. por mais erudita que seja. vinha muito pera ver: o povo em si não cabia. b) para melhor caracterizar essa linguagem. o clima. Fala-se hoje em cada poeta criar a sua linguagem.o seu intuito de recriação da linguagem. É êsse um dos problemas mais sugestivos da poesia moderna. a côr forte e carregada daqueles tempos. op. a sua experiência importou necessàriamente na criação de uma linguagem poética. O mal está. portanto. nem sempre compreendida pelos filólogos. ainda há pouco.objeto de sua técnica e da sua aventura criadora. chamava. Euríalo Canabrava. de longe seguem-lhe a trilha muitos bons homens segrais. solto o cabelo em madeixas. específica. nos pulsos ricas pulseiras. como se um filólogo os tivesse escrito e não um poeta. a atenção sôbre tal aspecto da admirável realização gonçalvina. o assunto português (sem pensar em glórias portuguêsas. Tinha elevada estatura E meneyo concertado. de prazer. específica. seus olhos valiam tanto como duas esmeraldas.. exercício de linguagem.

dI-amático e épico. pregando a religião de Cristo com armas ensanguentadas. a parábola. precursor que se fêz de um idioma lírico. III é um velho quem diz: "Eu falarei em parábolas porque . o símbolo. porém. Numerosas visões povoam a Meditação. MEDITAÇÃO E PROSA POEMÁTICA Sempre diferente de si mesmo. que resultaram dessa criação. direta. aí . preterintencionalmente. com as Sextilhas. estará situada naquela zona de expressão híbrida a que se referiu. em seu anátema contra a escravidão do negro e do índio. ou o verso polimétrico. tratando os indígenas como escravos. como preferirá dizer Manuel Bandeira) da "Dedicatória" dos últimos Cantos não será bastante revelador. Trata-se de algo que lembra uma fuga aos seus meios habituais de expressão. com Meditação leva a sua experiência à prosa poemática. as fezes da sua população. em sua poesia. E o faz intencionalmente. (§ 2. Gonçalves Dias. O que vale. envilecendo-os com a escravidão e açoitando-os com vara de ferro. citando Cazamian.O que interessa: a linguagem poética que êle criou. II é uma página feita só de reticências (símbolo gráfico em que precedeu Machado de Assis). o livro foi incluído nas Obras póstumas. aí objeto de sua inspiração: o social. os deliciosos poemas líricos de sabor arcaico. E o país tornou-se a sentina impura de um povo pigmeu que para ali reservava os seus proscritos. IX. Eram homens que pregavam a igualdade. de linguagem enxuta. Mas o poema. C. severa em seu sentido imagístico: a alegoria. Para dar um tom profético às verdades que aí expõe. que Drummond extraiu (ou desentranhou. tal como nos livros santos. Não chegava êle ao verso livre. . como em "A Tempestade". Os homens civilizados . Terminado em 1846. por ser êsse o gênero que melhor se coadunava com o assunto. No § 8 do cap. embora já houvesse adotado a livre métrica. . o crítico Sérgio Milliet. No mínimo. culminou na realização de uma linguagem poética extremamente rica de sugestões. é o seu sentido social. eram homens sòrdidamente cobiçados que procuravam um pouco de oiro. especifico. O § la do cap. os seus forçados. em verso livre. em tal sentido ? De qualquer modo. a Meditação pode ser considerada como um primeiro passo para o poema sem metro. Gonçalves Dias foi lírico. a propósito de outro caso.é isto é o que mais chama a atenção de quem o lê lança mão de recursos que o distinguem do poeta que êle é. os seus malfeitores. Escreveu-a êle em tom bíblico e isto lhe explica a forma adotada. III).

Gonçalves Dias cultivou com igual grandeza o lírico. realista.elas são símplices como a verdade. se se identificou com o índio muito mais do que com o negro. Ei-lo historiador. pseudônimo de Frei Antão de Santa Maria de Neiva. mesmo em poesia. Não contente com as várias formas de 5e distinguir de si mesmo. desdobra a sua atividade literária em outros setores de criação e de estudo.assevera Lúcia Miguel Pereira . quando pretendeu assinar as Sextilhas com o nome de Frei Antão de Santa Maria de Neiva. primeiro passo para o atual verso livre. Ensaiou a prosa poemática. nunca deixou de ser exato.. . 4). nas Sextilhas de Frei Antão. como a princípio "se lembrou de fazer. De qualquer modo . deram-lhe circunspecção. explicava a sua idéia: "Só tenho a dizer que era minha intenção publicá-las com o. Domingos (P. cônscio da sua arte.e se preferia ser mameluco a mulato. teatrólogo. como se vê pelo prólogo de Leonor de Mendonça. Tão diverso de si mesmo foi o poeta. 2. Mudei de resolução conservando-lhe todavia o título. que podia ter usado vários heterônimos. Um historiador como Capistrano diria. o dramático. que foi. X. cuja vida poderão ler os curiosos na História de S. que a integram. Quanto ao título Sextilhas de Frei Antão. etnólogo. AS OUTRAS FACES DO POETA Como poeta complexo. porque sem êle muitas das Sextilhas seriam ininteligíveis". agitou a questão prosa-poesia no drama. e tôdas as inteligências podem alimentar-se com a sua substância". Que se dirá de uma personalidade de múltiplas facêtas como a do autor da "Mãe d'água"? Os vários "selves?'. 3. explicam a sua manifesta tendência para os heterônimos.. Os seus índios eram idealizados ? O etnólogo provaria que não. em cada criação. que escrever a história dos jesuítas era escrever a História do Brasil ? Mas quem primeiro o disse foi Gonçalves Dias. Outra prova da sua vocação para a heteronímia está em ter escrito numerosos poemas. não pode ser acusado de haver esquecido nenhuma das faças de que se formara.cabe-lhe a glória da primazia . L. criou uma linguagem poética. que ao invés de assinar publicou como "traduzidos". Já o dualismo de culturas produz dualismo de personalidade um "self" dividido. influíram no seu comportamento. C. 83 E a verdade é que tôdas essas outras faces de Gonçalves Dias completaram o poeta. suscitou polêmicas ligadas ao seu ofício. mais tarde. Como todo grande poeta. o épico.na defesa dos negros . Traduzidos por quem ? Naturalmente por algum colega de Frei Antão. característica. autenticaram o homem que.

. num dos camelos que Capanema havia mandado vir da África para viagens no nordeste. sôbre o teatrólogo.são tidas como estudos da mais alta categoria no gênero. em Gonçalves Dias (ensaio biobibliográfico). viaja em ubá na . que mais tarde Rio Branco chamaria "operário da floresta". 85 A respeito do seringueiro. convive com os índios bolivianos cuia língua estudou. de aplicação e de engenho. Em relatório acêrca da Exposição Internacional de Paris. de cuja navegabilidade se tornou adepto. como é Leonor de Mendonça. A propósito do operário da cidade. 113-121. Leia-se. Beatriz Cenci e Noiva de Messina. mas em contato permanente com índios e caboclos para melhor conhecer a região. como não o faria melhor um estadista. . desde que lhe fôr permitido o ingresso em alguma das nossas câmaras. Patkull. e que nos persuadirmos de que um homem pode chegar a uma posição elevada mesmo tendo principiado por ser um homem de ofício. Noiva de Messina selva a dentro.123 Viaja em camelo no Ceará. A sua etnografia. Citam-se ainda Boabdil. Também as memórias que escreveu para o Instituto Histórico. defende o seringueiro fazendo ver. Mas o poeta foi constantemente fiel à ciência do seu tempo. Gonçalves Dias não foi menos arguto.83 Mesmo no campo da criação literária. o que escreveu Josué Montelo. desde então dever-se-á contar com uma nova era nos anais do Brasil. e outro copiava no verso do seu testamento um trecho de Camões. fumo. o poeta não impediu o autor . é sempre certa. que a cultura sistemática da hévea seria o meio de corrigir o seu nomadismo. excursiona pelo Madeira. o rio e a população selvagem. O Brasil e a Oceania e uma monografia sôbre as amazonas .a que já. pp. através de muitos óbices. E assim como um bandeirante do século XVII levara pelo sertão um exemplar das Novelas exemplares de Cervantes. se fêz referência . na viagem pelo Rio Negro foi até a Venezuela. Não lhe faltou uma série de observações agudas sôbre a questão social. em que tratou dos nossos produtos. à fôrça de indústria. dizia: Desde que entre nós um homem de ofício conquistar para si uma posição social. esta última uma tradução de Schiller. café e borracha. Amazônia. de uma obra-prima do nosso teatro. A não ser Rondon conclui Roquete ninguém enriqueceu mais as nossas coleções etnográficas do que Gonçalves Dias. 84 É possível encontrar-se aqui e ali um pequeno senão. no juízo de um sábio como Roquete Pinto. Gonçalves Dias levava Schiller da. uma variante. como algodão. uma surprêsa.

inclusive a sátira "Que cousa é um Ministro". Com uma diferença (acrescente-se). etc. ter sido um grave erro a publicação de tais composições. não está só na Meditação. "No Álbum de d. nem na sátira.não se limita às idéias. Figuram todos. "A Tempestade". Se as virtudes do pobre não têm preço também dos vícios seus a nódoa exígua não conspurca as nações. "Ao Quasímodo". "0 Meu Sepulcro". Luísa Amat". Segundos . tendo tôda razão Mário de Andrade quando afirma que. publicadas por seu amigo Antônio Henriques Leal.único que fêz . como os que se intitulam "Hino ao dia 28 de julho".) alguns sonetos como os da série sem título (cinco) e os que têm por epígrafes. escreveu êle diversos hinos. em favor de Gonçalves Dias: o mérito da prioridade. "A Independência do Maranhão". Parece. L". ou quase todos. em 1847. nesse setor. datas históricas e relações de amizade: "A Restauração do Rio Grande do Sul". "sórdida manceba". tanto o indianismo como o negrismo são causas de proteção. Gonçalves Dias e os índios. e o da concepção de uma pátria nova. mas ai dos grandes! ("0 Cometa") Para que nada faltasse às várias faces do poeta. que êle próprio havia excluído dos seus Cantos (Primeiros. "A Notre Dame de Victor Hugo". 0 seu socialismo . "A Certa Autoridade". "A Partida da Atriz". "A Esmeralda". "A Noite".Mas voltemos ao poeta que . embora a princípio afagasse a idéia. Defende êle a causa dos índios sob vários aspectos e às vêzes com palavras duras a respeito do escravizador português. "A Cláudio Frollo".acentue-se bem êste ponto . ao 84 Roquete Pinto. numerosos poemas de circunstância.sabia pôr em seus poemas tão forte acento social. Emília". a que se refere na "Desordem de Caxias" (1839). nas suas Poesias Póstumas. diga-se de passagem. etc. "D. cit.se detestava a política.na inauguração do Liceu de Niterói. "Hino dos Reis Magos" (além dos hinos "A Tarde". e que o "1 Juca Pirama" nada fica a dever ao "Navio Negreiro". O indianismo dos seus poemas é eminentemente social. admitindo ser votado por saquaremas e liberais . o sonêto "Ao aniversário de S. 85 Discurso de Gonçalves Dias . loc. M. na prosa. como os que se referem a aniversários. 124 ponto de haver depois desistido da cadeira de deputado geral que os seus amigos lhe ofereciam. respectivamente.

alguns historiadores aludem ao "sertanejismo" como uma forma. Veja-se. para a sua glória. e interessar como documentação humana e biográfica. Franklin Américo de Meneses Dória (1836-1906). O Brasil e a Oceania e uma monografia sobre as amazonas . é uma modalidade deteriorada da "Canção do Exílio". E assim como um bandeirante do século XVII levara pelo sertão um exemplar das Novelas exemplares de Cervantes. Santa Rita Durão). através de muitos óbices. A propósito do operário da cidade. cujos representantes são: Francisco Leite Bittencourt Sampaio (1834-1896) com as suas Flôres Silvestres. antes a enxertam de produções medíocres e temas repetidos. excursiona pelo Madeira. É que não fazem nenhuma falta à obra do poeta. embora convencional. de indianismo mitigado. Com Gonçalves Dias. Mas ao lado do seu. como as satíricas. Tais composições.a que já se fêz referência .e últimos) naturalmente por uma questão de autocrítica e escrupulosa consciência literária. Mas o poeta foi constantemente fiel à ciência do seu tempo. a existência do indianismo prégonçalvino. em quem Sílvio Romero aponta um lirismo popular e campesino como nos poemas "A ilhoa" e a "Missa do galo". temos o nosso autêntico indianismo. viaja em ubá na Amazônia. Gentil Homem de Almeida Braga (1834-1876) que dedica um dos seus poemas a GonViaja em camelo no Ceará. Nada representam. Também as memórias que escreveu para o Instituto Histórico. entretanto. Gonçalves Dias levava Schiller dá Noiva de Messina selva a dentro. dós árcades (Basílio da Gama. 84 É possível encontrar-se aqui e ali um pequeno senão. o poema "Minha Terra". em página anterior. de cuia navegabilidade se tornou adepto. também. pelos motivos já mencionados. num dos camelos que Capanema havia mandado vir da África para viagens no nordeste. poderão constituir outra face do poeta. e outro copiava no verso do seu testamento um trecho de Camões.são tidas como estudos da mais alta categoria no gênero. é sempre certa. A sua etnografia. convive com os índios bolivianos cuja língua estudou. dizia: . CONTEMPORÂNEOS E SUCESSORES Já se notou. Não lhe faltou urna série de observações agudas sôbre a questão social. o rio e a população selvagem. por exemplo. na viagem pelo Rio Negro foi até a Venezuela. XI. uma surprêsa. A não ser Rondon conclui Roquete -ninguém enriqueceu mais as nossas coleções etnográficas do que Gonçalves Dias. uma variante. no juízo de um sábio como Roquete Pinto. como já havia ocorrido com Anchieta. mas em contato permanente com índios e caboclos para melhor conhecer a região.

85 Discurso de Gonçalves Dias . que a cultura sistemática da hévea seria o meio de corrigir o seu nomadismo. de aplicação e de engenho. O seu socialismo . como os que se intitulam "Hino ao dia 28 de julho". "Hino dos Reis Magos" (além .Desde que entre nós um homem de ofício conquistar para si uma posição social. e o da concepção de uma pátria nova. em que tratou dos nossos produtos. na prosa.se detestava a política. a que se refere na "Desordem de Caxias" (1839). defende o seringueiro fazendo ver. Em relatório acêrca da Exposição Internacional de Paris. não está só na Meditação. como não o faria melhor um estadista. que mais tarde Rio Branco chamaria "operário da floresta". e que nos persuadirmos de que um homem pode chegar a uma posição elevada mesmo tendo principiado por ser um homem de ofício. desde então dever-se-á contar com uma nova era nos anais do Brasi1. 124 ponto de haver depois desistido da cadeira de deputado geral que os seus amigos lhe ofereciam. desde que lhe for permitido o ingresso em alguma das nossas câmaras. Com uma diferença (acrescente-se). Gonçalves Dias não foi menos arguto. Mas voltemos ao poeta que . mas ai dos grandes! ("O Cometa") Para que nada faltasse às várias faces do poeta. nem na sátira. Defende êle a causa dos índios sob vários aspectos e às vêzes com palavras duras a respeito do escravizador português. admitindo ser votado por saquaremas e liberais .sabia pôr em seus poemas tão forte acento social.85 A respeito do seringueiro. escreveu êle diversos hinos. O indianismo dos seus poemas é eminentemente social. fumo. como algodão. "sórdida manceba".não se limita às idéias. tanto o indianismo como o negrismo são causas de proteção. embora a princípio afagasse a idéia. café e borracha. tendo tôda razão Mário de Andrade quando afirma que. e que o "1 Juca Pirama" nada fica a dever ao "Navio Negreiro". ao 84 Roquete Pinto. à fôrça de indústria.na inauguração do Liceu de Niterói. nesse setor. em 1847.único que fêz . cit.acentue-se bem êste ponto . Se as virtudes do pobre não têm preço também dos vícios seus a nódoa exígua não conspurca as nações. loc. em favor de Gonçalves Dias: o mérito da prioridade. Gonçalves Dias e os índios.

destaca. Com Gonçalves Dias. Tais composições. XI. contudo. preocupado com as questões do seu tempo. etc. antes a enxertam de produções medíocres e temas repetidos. dós árcades (Basílio da Gama. Nada representam. como os que se referem a aniversários. alguns historiadores aludem ao "sertanejismo" como uma forma. cantor de cenas e costumes do povo. cheios de interessantes descrições da vida campesina. de manter em si uma certa flama lírica que o torna legível até hoje. "A Partida da Atriz". "No Álbum de d. temos o nosso autêntico indianismo. M. "A Independência do Maranhão". O poeta de Os Timbiras havia. CONTEMPORÂNEOS E SUCESSORES Já se notou. inclusive a sátira "Que cousa é um Ministro". "A Certa Autoridade". realmente. o sonêto "Ao aniversário de S. entretanto. poderão constituir outra face do poeta. "A Noite". embora convencional. nas suas Poesias Póstumas. a existência do indianismo prégonçalvino. por seu amigo Antônio Henriques Leal. diga-se de passagem. Luísa Amat". Emília". "A Tempestade". Gentil Homem de ÀImeida Braga (1834-1876) que dedica um dos seus poemas a Gonçalves Dias. "Ao Quasímodo". Veja-se. Pedro . na famosa carta ao Dr. com os seus Quadros. como as satíricas. ou quase todos. e interessar como documentação humana e biográfica. Espírito confiante nos valôres da vida. Bruno Seabra (1837-1876) autor de Flôres e frutos. "A Notre Dame de Victor Hugo".dos hinos "A Tarde". por exemplo. "A Cláudio Frollo". Figuram todos. É que não fazem nenhuma falta à obra do poeta. "D. etc. ter sido um grave erro a publicação de tais composições. cujos representantes são: Francisco Leite Bittencourt Sampaio (1834-1896) com as suas Flôres Silvestres. datas históricas e relações de amizade: "A Restauração do Rio Grande do Sul". é uma modalidade deteriorada da "Canção do Exílio". em estilo agradàvelmente brasileiro. também. Mas ao lado do seu. Joaquim Serra não deixou. "O Meu Sepulcro".) alguns sonetos como os da série sem título (cinco) e os que têm por epígrafes. em página anterior. L". numerosos poemas de circunstância. o poema "Minha Terra". publicadas. em quem Sílvio Romero aponta um lirismo popular e campesino conto nos poemas "A ilhoa" e a "Missa do galo". que êle próprio havia excluído dos seus Cantos (Primeiros. para a sua glória. Parece. Segundos e últimos) naturalmente por uma questão de autocrítica e escrupulosa consciência literária. pelos motivos já mencionados. Franklin Américo de Meneses Dória (1836-1906). Santa Rita Durão). como já havia ocorrido com Anchieta. Mais apreciável como jornalista. "A Esmeralda". respectivamente. Joaquim Serra Sobrinho (1838-1888).-se dos demais pelo tom de graça e jovialidade que imprime aos seus versos. de indianismo mitigado.

que recebendo as virgens inspirações do torrão onde nasceu solidificará uma literatura própria e original. 4 mar.Nunes Leal. cujo 86 Pinheiro Chagas.a do grupo que fundou Niterói em Paris (1836 ) . afirmava Pinheiro Chagas. guarda-peito de pejes curtidas. A vida que eu levo ouvi-me cantar 1 É assim que o poeta das Lendas e Canções Populares inicia o monólogo do vaqueiro. que lindo trajar! Com minha guiada. 126 único mérito foi ser atacada memoràvelmente por José de Alencar. chapéu.produto já da intensa cruza entre aborígines e luso-descendentes. entretanto. reclamado um lugar para os jangadeiros. em nosso linguajar brasileiro. montado o ginete que rincha fogoso. de Juvenal Galeno. escritores de tendência lusa alegavam que o brasileiro não era descendente direto do índib. in "Juízos críticos" a Lendas e canções populares. O "sertanejismo" não interrompe. e principalmente substituiu-se a êles". pelo Imperador. seria talvez o precursor de uma plêiade brilhante em gênero diverso ao do saudoso Dias. sob o pseudônimo de Ig. a respeito das Lendas e Canções Populares de Juvenal Galeno. Embora pertencendo a uma geração anterior à de Gonçalves Dias . e defendida. 86 Juvenal Galeno da Costa e Silva (1836-1931) na observação de Araripe júnior. 1946. os piraquaras. que continua marcando a nossa poesia da fase romântica. 88 Quer dizer: a Confederação saiu cinco anos depois dos últimos Cantos em que figura o "1 . 87 Múcio Leão.juta . in Jornal do Brasil. Se se pode dar o nome de indianismo a êste aspecto de certa poesia lateral à do vate maranhense será um indianismo mestiçado . 2. os vaqueiros. que a fizera imprimir e acreditava nas excelências da obra. Mas o certo é que 87 o poeta cearense recebeu justamente de Gonçalves Dias o conselho de explorar a corrente de inspiração popular. Por seu lado. à sombra das tuas fôlhas venho cantar meu amor. a linha puramente indianista. Muito conhecido é o "Cajueiro Pequenino" Cajueiro pequenino carregadinho de flor. só em 1856 Gonçalves de Magalhães publica a sua Confederação dos Tamoios. p. que sabe pular. De véstia e perneiras.. "A raça conquistadora pouco se misturou com os selvagens. 1892.. sob o disfarce de "Um amigo do Poeta".

sou linda. com os seus Harpejos Poéticos. poeta dos 88 Ler o que conta Alcântara Machado. O primeiro é. O prudente Iruama. p. p. autor de "A Maldição do Piaga" e do "Canto da Indiana". que eu sei com dextreza. ou melhor. no Colombo (1866). O poeta faz de Anchieta a sua principal personagem. Não há dúvida que Junqueira Freire merece a classificação de indianista Sou índia. ó tapes. em Araújo Pôrto-Alegre (1806-1879) porque descreve. sou débil. o caso de Fagundes Varela (q. em Joaquim Norberto (1820-1891) com as suas "Americanas" (1855-6) .Pirama" (1851) e um ano ates do aparecimento de Os Timbiras (1857 ) . >ã quanto vós outros. bravos tapes. e Santa Helena Magno. Ubirajara. Dotado de notável sentimento poético. O interessante está em que se glorifica. O tema é realmente sugestivo. 89 Manuel Bandeira. dizeis. assim o indianismo do Apóstolo. Talvez caiba uma referência (posteriormente) a Vilhena Alves e Severiano Bezerra. cravar minhas setas no peito dos reis! Sílvio Romero menciona ainda dois "cultores sistemáticos e teimosos do indianismo": Macedo Soares. como se sabe. os três primeiros cantos de Os Filhos de Tupã. embora Varela.) com o seu O Evangelho nas selvas. em seu Gonçalves de Magalhães. os filhos da Tupã conduz à guerra. . o papel que coube ao nosso primeiro indianista. as cenas da vida de Cristo aos índios. Mas Alencar escreveu também (1863 ) em versos que Manuel Bandeira 89 considera "tesos e tersos. O Guarani. pela bôca do santo canarino. escultural da poesia parnasiana". e que acusam já em seu tempo o caráter plástico. com o seu "Hino à Cabocla". v. Fala-se em Junqueira Freire (1832-1855). 76 ss. um dos nossos romances líricos de maior repercussão popular. o repasto que o índio Guaranaguari oferece ao Descobridor. sob a influência direta de Gonçalves Dias. que teria dez cantos e seria o seu grande poema épico indianista. Digno de especial menção será. Sabei. expondo. José de Alencar se torna famoso principalmente por seus romances Iracema. no barão de Paranapiacaba (1827-1915) com a sua Imprecação do índio (1883 ) . agora numa espécie de catequese lírica. Antologia dos poetas brasileiros da fase romântica. o grande chefe. sou virgem. ou o romântico arrependido. 301. e ainda na linha romântica.

A notícia da morte de Naída interrompe a narração divina. que morre de definhamento e saudade por haver jatir..) com as suas "Americanas". ó mestre.127 mais altos que teve o Romantismo. Mas. . Nem Varela. O autor de Macunaíma se espanta por haver Machado atingido. cuja autenticidade e originalidade. e vive agora tua alma gloriosa. não houvesse conseguido. 131. nesse poema indianista. apenas meu santo empenho vencerei contente! Depois de Varela a tentativa indianista é de Machado de Assis (q. o autor das Americanas não deixou de celebrar a memória de Gonçalves Dias. mas que jamais seria compreendida pelos aborígines. Aspectos da literatura brasileira. por muito marcante. seu amante. partido para a luta contra o invasor francês. também fôrça de ideação e forma poética tão lapidar.. é morto o cantor dos meus guerreiros. quando a verdade é que ninguém falou aos "brasis" com maior angelitude para poder entrar no inocente mundo primitivo. realizar o seu intento. envia-me o segrêdo da harmonia que levaste contigo! Assim. suspirai comigo ! Verdade que Mário de Andrade. Nunca tão puro seu gracioso rosto se mostrara parecendo que o poeta. frisando a mediocridade geral das Americanas. faz uma grande ressalva: a "última jornada". o 90 Mário de Almeida. nó Uraguai. aí. virgens da mata. se lembrava do rosto de Lindóia. Rio de Janeiro. Tão séria a influência gonçalvina que Fagundes Varela celebra a glória do mestre indianista: Grande Gonçalves Dias ! dêsses páramos onde viver sonhava. senão em parte. Figuram no poema um ataque de índios inimigos e o caso da índia Naída.. cujo defeito começa por ter sido escrita em alexandrinos dentro dos quais as palavras indígenas não chegam a interessar-nos. Como Varela e Machado. envia. como o autor de O Evangelho nas selvas. em sua "Nênia da Virgem Indiana" Morto. Anchieta vai vê-Ia: . p. continuaria solitária. 1943. v. O seu Anchieta fala uma língua edificante. mas em outro gênero de inspiração) conseguiram rivalizar com o mestre. nem Machado (ambos grandes poetas. 90 Outro exemplo de indianismo haurido em Gonçalves Dias é o de Olavo Bilac em "A Morte do Tapir".

é costume afirmar-se que consistiu em explorar o poético da lenda e do mito. Osvald de Andrade escreve deliciosos poemas em linguagem "pau-brasil". tornando-se o verdadeiro precursor da nossa etnografia. mais feliz que o seu sonêto e o seu indianismo. era o estudo da cultura indígena não como um tema apenas literário. Revivia-se Gonçalves Dias. Roquete Pinto . O que interessava a êsse grupo era. Raul Bopp. Batista Caetano. o tropel fremente da guerra bruta.128 grande poeta da "Via Láctea" não se limita. 91 Os dois manifestos da época. Capistrano de Abreu.estudo a que se incorporam. o indianismo sôbre base humana e cultural. Carlos Hartt. Plínio Salgado. o primeiro de Plínio Salgado. Guilherme de Almeida consagra ao índio um dos mais sugestivos trechos do seu poema Raça.escreveu Olavo Bilac luminosa página sôbre o poeta de Os Timbiras. Retomava-se o indianismo na formação brasileira. num dos poemas da Chuva de pedra.o que de melhor fêz . que o Caapora havia de espantar os deuses gregos com as baforadas do seu "anestesiante cachimbo". porém. Plínio Airosa. escreve um sonêto a Gonçalves Dias: Celebraste o domínio soberano das grandes tribos. A cadeira de língua tupi. em nossas universidades. que não só celebrou o índio como o estudou. Continuava-se o estudo à luz de Couto de Magalhães. Mário de Andrade é o indianista de Macunaíma e de "Toada do Pai de Mato" A môça Camalalô foi ao mato colhêr fruta Raul Bopp é o indianista da Cobra Norato. etc. Menotti Del Picchia publica A outra perna do Saci e proclama. A respeito do nôvo "indianismo". ao poema. Menotti Del Picchia e Cassiatio Ricardo. Alarico Silveira. etc. então. no dizer de Gilberto Freyre. Nem se diga que o nosso indianismo se limita hoje ao "Serviço de Proteção aos índios". Barbosa Rodrigues. em 1922. O manifesto da "Anta" prova exatamente o contrário. E . e o segundo de Osvald de Andrade. mas como base. o da "Anta" e o da "Antropofagia". principalmente. Valoriza-se o tupi como nos tempos de Anchieta. Rondon. os . o entrechocar insano dos tacapes vibrados rijamente. de "nossa autenticidade americana". o de 1922. dão ao indianismo um grande papel (192&) no movimento modernista iniciado pela Semana de Arte Moderna.

Francisco Otaviano. publicaram-se Obras completas. em várias edições Garnier. 1942. São poetas. não chegando porém a formar-se. E. Obras (vol. Bibliografia: Poesia: Poesias (Lira dos vinte anos) 1853. e durante êsse tempo escreveu a maior parte de sua obra. DESTACA-SE no Romantismo um grupo de poetas de fisionomia bem caracterizada. 1941. em ediçáo critica por Homero Pires. . estudou humanidades no Colégio Pedro II. e A noite na taverna e Macário. alguns dêles. São Paulo. . 1852). Macário. no delírio doloroso e desesperante. na melancolia. Obras Compl. no "mal du siècle". Precocemente amadurecidos. Seus modelos literários foram Byron e Musset. Ed. foi aluno aplicado. ('") Manuel Antônio Alvares de Azevedo (São Paulo. Laurindo Rabelo.. ALVARES DE AZEVEDO Alvares de Azevedo é a primeira afirmação realmente notável do individualismo romântico no Brasil. Pedro Ivo.estudos etnográficos e sociológicos que aí estão.129 20. 1831 . apesar da vida boêmia. 2 vols. prematuramente. Bernardo Guimarães. em São Paulo. na exacerbação do sentimento e da paixão. O INDIVIDUALISMO ROMÂNTICO Ultra-Romantismo e individualismo lírico. A noite na taverna. Além das Obras. colhido pela morte prematura. no desespêro. 91 Plínio Salgado. Imaginação. de grande ressonância popular. Casimiro de Abreu. provam que o indianismo está vivo. ete. "A Anta e o Corupira". devido à sua imaturidade. Comp. Fagundes Varela. incompreendidos na sua morbidez e originalidade. Álvares de Azevedo. Lira dos vinte anos. e a obra dos modernistas de 22. sôbre base indígena. 2. 49. O byronismo. X. Martins. na consciência do país. no estilo de vida. tiveram disso como que a presciência. aparentados por traços de individualismo. vol. e mortos. Em 1848 ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo. junqueira Freire. por E.Rio de Janeiro. subjetivismo. Conde Lopo. p. Nos quatro anos que freqüentou a Faculdade. numerosos. 1886. 1855). Vol. psicologia. vivendo uma vida desenfreada e de orgias. Aureliano Lessa. 1. Constituem a fase do individualismo romântico ou do Ultra-Romantismo (1845-1865) . Nac.. organizadas por Domingos Jaci Monteiro e Joaquim Norberto de Sousa e Silva. Cavalheiro. a maioria.

n. Álvares de Azevedo. dos Tribunais. só se preocupava com o lado noturno: as sombras. os túmulos. Rio de Janeiro. com o predomínio das fôrças elementares em suas manifestações externas mais álacres e despóticas. A Manhã). mas principalmente porque a qualidade congênita de sua imaginação o predispunha a realizar essa vaga e vertiginosa experiência subjetiva. o crepúsculo. A Noite. não fizeram mais que reforçar um estado de espírito anterior e que. V. sob o pressentimento de um fim próximo. Letras. 1931. 1953. M. Melhoramentos. criaram-lhe um mundo insólito que contribuiu para estabelecer uma divisão ainda mais profunda em si mesmo. por diversos.Consultar: Amaral. Paul. Melhoramentos. Onde tudo eram sugestões de vida e de luminosidade. Álvares de Azevedo. Desinteressado da realidade. haveria de afirmar-se com as mesmas e sombrias tendências por um imperativo inelutável. Parecerá por isso absurdo e artificial. Paulo. S. Álvares de Azevedo. O culto do Sonho impediu-o por conseqüência de sofrer uma derrota cabal. dada a sua inadaptabilidade às seduções agrestes da natureza circundante. 1943. sem tais sugestões. Eugênio. Ano III. (in O Aleijadinho e Álvares de Azevedo. 20 set. Gomes. . de P. editôras. porém. absorto no pensamento da monte. no qual o abstrato emocional resulta de um estado afetivo. V. em . IV. Homenagem a Alvares de Azevedo. S. que consistiu na índole de sua própria imaginação. congenial às criações do elemento gótico. E. A. 9. Ésse tipo de imaginação é justamente aquêle que produz. A causa decisiva do seu êxito. as imagens de caráter impressionista. Era o que restava à desilusão precoce de Alvares de Azevedo. Paulo. Andrade. voltando-se deliberadamente para si próprio. pela porta inefável e flutuante do Sonho. Antônio Álvares de Azevedo. de. 1942. Cavalheiro. Nessa divisão acabara tomando o rumo que consultava à sua índole. Azevedo. segundo Ribot. Mas. não tinha o poeta outro caminho que o de explorar as reservas de sua imaginação. Acad. foi paradoxalmente aquilo que o indispunha com a natureza exterior: a sua imaginação de índole caracteristicamente crepuscular.131 As idéias metafísicas ou meramente literárias. 14 jun. Acad. a noite. Rev. Paulo. Rev. Alvares de Azevedo. Autores e livros (sup. bem como a pressa de escrever. desencaminharam-no freqüentemente. Prata da casa. umas e outras estrangeiras. R. prejudicando-lhe a maior parte de suas produções. É verdade que as influências estrangeiras. 1941. Guerra. por sua esquisita e desconcexrtante multiplicidade de matizes e feições. 1953). se algumas influências o arrastaram a êsse ambiente de noturnidade. S. do. 1924. (in Rev.

é de cunho merencório a sua linguagem poética.. Young ou Ossian houvessem criado um ambiente lúgubre e natural. descrevendo-lhe alguns aspectos em suas evocações. Era sincero consigo mesmo. que foi _ a ponte sutil por onde Novalis e outros sonhadores nórdicos transitaram. é contudo fora de dúvida que Álvares de Azevedo tinha na própria imaginação o móvel natural de suas tendências para as formas indefinidas do pensamento devaneador. Admitindo-se. que não deixa dúvida a respeito Ali na alcova Em águas negras se levanta a ilha Romântica. Em conseqüência. Quando Silvio Romero abusivamente o julgava um talento supexzor a Baudelaire ou quando Ronald de Carvalho entreviu. os abstratos emocionais. El-Dorado de amor que a mente cria Como um Éden de noites deleitosas. a permitir extravagâncias dêsse teor em tôda a parte. operando à vontade naquela direção que o pensador francês denomina: "un réalisme affranchi".. em que abundam as suas associações. quando pensava em dar o título de Crepúsculo a rim jornalzinho que pretendeu fundar.. Um sonho de mancebo e de poeta. como precursor do Simbolismo. conduziram-no progressivamente a uma escala impressionista. mas o desencantamento que aí transparece não tornava o poeta de maneira alguma incompatível com o culto do Sonho. no poema "Meu anjo". mesmo. mas como se a visse ou contemplasse . Como quer que seja. uma antecipação da poesia decadentista. Era ali que eu podia no silêncio Junto de um anjo. ordinàriamente em meio-tons. Geralmente. sombria à flor das ondas De um rio que se perde na floresta. rompendo com as limitações normais da escola dominante. Há uma passagem do poema "Idéias íntimas". em demanda do transcendental. Está visto que o imaginativo dêsse tipo propende a idealizar e refazer o mundo exterior inteiramente ao capricho de suas fantasias. é que pela excentricidade de suas visões e pela fluidez de sua linguagem poética. que as traduções de Hoffmann. Álvares de Azevedo introduziu o culto do Sonho em nossa literatura com um movimento tão espontâneo de sensibilidade que reproduziu em nosso país a aventura estética e desvairada de um Gérard de Nerval. menos por simples mimetismo do que pelo subjetivismo difuso que lhe era uma qualidade natural.. Além o romantismo! É um exemplo típico da verdadeira ironia romântica. Álvares de Azevedo fôra mesmo além do Romantismo convencional.cuias evocações prevalecem as idéias crepusculares e em que a ordem ou a conexão das coisas depende exclusivamente da disposição variável do espírito. o poeta entendeu-se melhor com a natureza exterior... Com os olhos do sonho.

O véu ou a misteriosa vestimenta do Invisível. sugerido por uma bela manhã tropical. Característico dêsse fenômeno de subjetivismo recalcitrante. com o sol a acender rebrilhamentos na água da várzea. 1900). nesse poema. mediante palavras. Essa percepção tê-lo-ia mais tarde talvez conduzido a um misticismo religioso. as sugestões crespusculares ou de noturnidade dominam lìtgubremente todo 0 quadro.2 Está visto que. Alcan. como o denunciam as suas poesias. Evidentemente. expressões ou imagens reveladoras de um estado de espírito em que só prevalecia a tonalidade descendente. Como de noite no pinhal sombrio Aéreo canto de não vista sombra. a propósito da percepção de Novalis. Em suma. no meu peito") Na mesma ordem de indefiníveis associações empregou o poeta consecutivas vêzes o vocábulo "sombra". ainda conforme Ribot. "a employer les mots usuels en changeant leur acception ordinaire ou bien à les associer de telle sorte qu'ils perdent leur Bens précis. especialmente nestes versos Se num lânguido olhar. Lá onde o rio molemente chora Nas campinas em flor e rola triste. de que fala Carlyle. que dava a tudo algo de sobrenatural. porque resistiu às representações mais vívidas da paisagem matinal e ensolarada. fazem germinar a imageria realmente característica. no qual as idéias crepusculares 2 T. Paris. Álvares de Azevedo. não viu ou não procurava ver as coisas senão através de um véu. no véu do gôzo Os olhos de Espanhola a furto abrindo Eu não tremia . no sentido de coisa diáfana e inalcançavel como um . na percepção de Alvares de Azevedo.através de um véu imponderável. (in Essai sur 1'inurgination créatrice. L'imagination diffluente. qu'ils se présentent effacés. mystérieux. a natureza exterior passava por um processo de transmutações arbitrárias que só tinha uma lógica: a do Sonho. como nesta passagem Lá onde suave entre os coqueiros O vento da manhã nas casuarinas Cicia mais ardente suspirando.0 contigo. ce sont "les mots écrits en profondeur". o poema "Na várzea". mas nêle só obedeceu a um impulso erótico. Ribot. condicionada ao culto do Sonho.o coração ardente No peito exausto remoçar sentindo! ("Quando 1. Essa nebulosa percepção do mundo externo era uma das características da imaginação difluente e que levava todo o poeta a ela subjugado. acompanhando aliás uma tendência romântica de fundo nórdico. Que enche o ar de tristeza e amor transpira.

. pálida sombra! Amantes •que . o perfume e a sombra. por efeito de sua percepção voluptuosa e difusa. O angélico perfume da pureza. Com a mesma tendência a mesclar o mágica e o natural. que.. Palpitante e abatida. Brancas sombras.. A amante de meu amor! Os cabelos rescendendo Nas minhas faces correndo Como o luar numa flor! 136 O perfume teve. ("Teresa") Um dos momentos de verdadeira sublimidade espiritual que Álvares de Azevedo pôde atingir. quase sempre desencadeando um jôgo imprevisto de sinestesias. como símbolo de pureza e castidade. Assim. bem definido neste verso: "Pensamento de mãe é como um incenso. em "O poeta" No meu leito . O perfume do céu abandonou-a.amaria Com todo o fogo juvenil que ainda Me abrasa o coração.adormecida. ergue-te ainda.. em meio à lufa-lufa de suas elocubrações mentais.. eu . um papel muito significativo. tão profundo como o de Wordsworth fixado em seus versos: To me the meanest flower that blows can give Thoughts that do often lie too deep for tears.véu a esvoaçar pelo espaço Se inda podes amar. o perfume que circula em outros versos: E o perfume das lágrimas divinas. imprime um frêmito peculiar à poética de Álvares de Azevedo. Como gôta de mel em cálix branco Da flor das selvas que ninguém respira.. Alvares de Azevedo fundiu os elementos transfiguradores que tanto o empolgaram: o véu. sonhei. de maneira muito . ("Anima mea"). do' céu das esperanças? ("Glória moribunda"). nesse particular. obteve-o nessa mesma linha de inspiração. O vago dessas associações. eu. A cristalização dessa imagem pressupõe um trabalho obscuro mas profundo. por que fugistes." ( "A minha mãe") Ainda.. com os versos a seguir: Neste berço de flôres tua vida Límpida e pura correrá na sombra. Une teu peito ao meu.. como emanação de algo sagrado.

deliciando-se em entrevê-Ias ou aná-Ias em seus devaneios.. esse cândido libertinismo..expressiva.. a quem seguiu em sua obsessão de pintar mulheres adormecidas. Embora intimidado pela natureza exterior. quando. mas por ser temerário querer encontrar completa identidade entre a atitude espiritual do poeta e o comportamento individual do homem. não já sòmente à luz de outros exemplos. Álvares de Azevedo preferiu divisar a mulher ideal ou idealizada em um raio de luar a vê-Ia em carne e osso à crua luz do sol. constantemente extraiu imagens para definir certos estados de alma. Dêsse mundo. não passava na verdade de um fenômeno de ninfomania. . ("A T. Concepção discutível.. aí o melhor flagrante da organização imaginativa e psicológica do poeta ? E êsse poema revela não só a sua inelutável inclinação para o lado noturno da vida. a exemplo desta: Meu amor foi a verde laranjeira Cheia de sombra. naquele. enfim. também. o amor abriu suas flôres à noite melhor que ao meio dia. como decorrência natural dêsse estado de espirito. tão inocente que só grupava anjos em tôrno de suas fantasias. E ela mesma suave descorando Os alvacentos véus soltar do colo. Embora ainda nisso estimulado ou superexcitado por influências estrangeiras. obedecia a uma imperiosa tendência imaginativa. conforme sua metáfora. Eu sinto-a de paixão encher a brisa. Um canto do século"). como o de Musset. como é o caso. adotava Alvares de Azevedo uma terminologia biológica reveladora de íntima comunhão com o mundo vegetal. em que Mário de Andrade viu antes um fenômeno de fobia sexual. .137 Pois não está. senão."). Era. uma fantasmagoria lunar.. à noite abrindo as flôres Melhor que ao meio dia ("Hinos do profeta. à margem da realidade da vida. A exemplo do criador de Annabel Lee. em Álvares de Azevedo tocava às raias de um delirante idealismo amoroso êsse sentimento. Nêle. que teve em Edgar Poe um de seus paradigmas mais representativos entre os românticos do século passado. nesta passagem: Quanto sofro por ti! Nas longas noites Adoeço de amor e de desejos E nos meus sonhos desmaiando passa A imagem voluptuosa da ventura. o culto do Sonho.. Embalsamar a noite e o céu sem nuvens. Cheirosas flôres desparzir sorrindo Da mágica cintura. a ninfomania pela qual foi induzido a ansiar por mulheres imaginárias.

mormente 3 in "Como e porque sou romancista". Com os tateies e imprecisões de quem assimilava às pressas as idéias.franceses. Em seus estudos literários condena o desregramento em que descambara a liberdade poética. O poeta francês tornara-se o polarizador universal. Em suas confissões (La Confession d'un Enfant du Siècle). quando essas idéias passaram sôbre os cérebros franceses. onde. enriquecendo-lhe o pensamento criador e encaminhando-o a incertezas e mistérios fertilizadores desse pensamento. contagiou-se rápida e irremediàvelmente daquele vírus literário. por volta de 1845. Há. Convulsão que Álvares de Azevedo veio a experimentar de maneira mais perturbadora do que qualquer outro. As idéias germânicas e inglêsas. grassava entre a estudantada a mania de byronizar: "Todo estudante de alguma imaginação queria ser um Byron. revela que. seguido de uma convulsão terrível". não lhe era necessário ir às fontes diretas para as colhêr. O byronismo era a mais sedutora dessas experiências. 138 de João Paulo Richter e Byron. recaiu numa duplicidade muito significativa. Musset foi com efeito o poderoso foco de que recebeu a maior e mais fecunda irradiação. e tinha por destino inexorável copiar ou traduzir o bardo inglês". com a observação de que ela se processou sobretudo através de Musset.3 Álvares de Azevedo. nesse particular. Mas. que encontraram frenética receptividade em Álvares de Azevedo. por outro lado não lhe dava azo a perpetrar com todo o êxito certas experiências poéticas que ostentaram à época a marca atraente de uma novidade irresistível. passando a ter em Byron um de seus principais orientadores ou desorientadores. Álvares de Azevedo adotou os mesmos sestros dêsses modelas estrangeiros. dessas idéias para todo o mundo que procurava orientações estrangeiras através dos canais . uma ressalva a fazer-se quanto a essa influência. Paulo. conforme o testemunho de José de Alencar. com o culto do Sonho. que ia recebendo em suas leituras. embora fôsse exatamente a contrapaxte de sua personalidade ou talvez por isso mesmo. contra o que tomava posição ostensiva afirmando que era daqueles que a . como seria natural. por sua vez devorado por uma sêde interminável de conhecimento intelectual. que para lá seguiu dois anos depois. "foi com um desgôsto morno e silencioso. por assim dizer. porém. para justificar ou atenuar as imperfeições de sua obra poética. quando sua sensibilidade juvenil começava a abrir-se às direções encontradas do espírita. e não apenas diretamente.Se o subjetivismo difuso levara Álvares de Azevedo a obter extraordinários efeitos. com estrepitosa repercussão em S.

p. seguindo Byron e Musset até mesmo em suas negligências. preferimos seu poetar de Roída. reflexo por sua vez do bardo inglês. com o poema "O Conde Lopo". pálida a rima.quanto a Musset. 284). . mas também o reflexo de uma atitude mais ou menos estudada e que se revela declaradamente nesta estrofe: Frouxo o verso talvez. não obstante Álvares de Azevedo tê-lo criticado precisamente por causa do desalinho de algumas obras.mas nunca seu metal emendo. em carta a um amigo."O poema do frade" e o "Conde Lopo" . O byronismo de Álvares de Azevedo não obedeceu absolutamente a um imperativo natural e isso pode ser visto através de suas narrativas dramáticas. Se a estátua não saiu como pretendo. em que se percebe claramente a influência cruzada de ambos . em prosa ou verso. não era menos desenganado o julgamento: ". ("O poema do frade") Não se encontra a confirmação disso em seus manuscritos conhecidos. Conquanto o poeta haja revelado. as sextilhas. 4 Assim pensava o crítico. Por êste meus delírios cambeteia. a verdade é que a imitação reclamava um . não apenas trabalho de afogadilho. sobretudo de Musset. na urdidura formal. quase ilegíveis pela abundância de emendas. II. que estava a fazer byronismo. mas o poeta agiu de maneira diferente. servindo quase sempre pela mão de Musset. não tantas vêzes truncadas.. em certa altura. Mas a imitação era 4 Marion. de Namouna". Beppo e da Visão do Juízo. algumas vêzes intencionais. em que de resto predominava o gôsto irônico e maligno de menoscabar o leitor. Em seus poemas dramáticos. ao desalinho de Mardoche e. por isso mesmo. ainda a êsse último. ou ainda quando quis resumir. mas era forçoso não ficar aquém do Byron que blazonara antes: "If I miss my first spring. Vol. Porém odeio o pó que deixa a lima E o tedioso emendar que gela a veia! Quanto a mim é o fogo quem anima De uma estância o calor: quando formei-a.o que há em desmazêlo ou tumulto. Obras Completas.reprovam e. (in Estudos literários. Quebro-a . . representa.em Musset. I go grumbling back to my jungle" . a sua arte poética. engendradas sob a ação dêsse poderoso cordial. onde menos se abunda isso. (. dizendo "qti il faut déraisonner".. Não tinha outra intenção quando abriu um de seus poemas com a advertência: "Ce que j'écris est bon pour les buveurs de bière". preferia Byron por mais perfeito em algumas páginas do Chidde do que noutras de Don )uan.

anunciando-lhe que. por isso. dada a maneira tumultuária como produziu em tão poucos anos de existência e da qual se pode ter uma idéia pela informação mandada em carta a um amigo em 1851. é claro que não podia deter-se em pormenores formais. Essa expressão representava um milagre. Faltava-lhe a sinceridade que Byron. Byron não deixava de ser um retórico. deu às crônicas rimadas do Childe ou do D. uma análise do jacques Rolla de Musset. mais difícil de entender que as Sextilhas de 140 Frei Antão. como um de seus melhores exemplos. Não exagera portanto Sílvio Romero chamando-lhe "um Childe Harold de gabinete". tinha elaborado: um romance de duzentas e tantas páginas. durante as últimas férias escolares. referindo-se à "nudez das formas com a unção do sentimento" e de que se pode indicar. de Chatterton.. entre os quais avulta um Castro Alves. Em Álvares de Azevedo a naturalidade estava antes numa nota íntima e discreta que se caracteriza pela delicada mistura. noutro gôsto porém.. nascido cinco anos antes de sua morte. apesar de todos os seus artifícios. ("Desânimo") Essa melódica urdidura da expressão poética. mais ao jeito do "The Rowley". . encontrando. e tratava-se de um estudante sisudamente dedicado às ciências do curso de direito. a que o poema "Se eu morresse amanhã" deveu em grande parte a sua enorme popularidade no passado. a estrofe a seguir: Tu não pensas em mim. foi o traço de originalidade legado por Álvares de Azevedo às novas gerações. ainda em seu tempo. dois poemas. alguns imitadores de talento.tom convincente que não pôde imprimir a nenhuma de suas produções dêsse gênero. tornando-se por isso convincente naquilo que constituiu o fulcro de sua rebeldia individual. inclusive em seus poemas em que prevalece aquêle tom.5 Quem assim trabalhava. Na tua idéia Se minha imagem retratou-se um dia Foi como a estrêla peregrina e pálida Sôbre a face de um lago. bastante volumosos. a que aludiu Machado de Assis. Juan. um fragmento de poema em linguagem muito antiga. e uns estudos literários sôbre a marcha simultânea da civilização e poesia em Portugal. mas o poeta brasileiro até mesmo na sua correspondência amistosa ou íntima empregava o jargão romântico como se não pudesse falar ou escrever em outra linguagem. um em cinco e o outro em dois cantos.

em regra prolixa ou difusa. a representação sugerida pela alvura dos lençóis sôbre que dorme a virgem. de Rio de Janeiro. mas que. sobretudo nas duas linhas iniciais. Do Reno o vinho em taças d'esmeralda E sôbre o campo adormecer contente! É bela a noite que a volúpia escalda E acorda aos seios um suspiro ardente! Atentando-se melhor no valor representativo ou enfático do "e". entre as suas poesias. Ribomba e rola o raio .. Alaga a serra bronca. Esbarra pelo abismo.nos abismos Sibila o vendaval. entretanto. não são raras as realizações técnicas. Está nesse caso o poema "Glória moribunda".Cede a floresta ao arquejar fremente Do rijo temporal. no sonêto que abre com o evocativo verso: "Pálida. Cabeça de poeta e libertino Que fogo incerto de embriaguez corava. Com essa caprichosa variação do esquema rítmico. observa-se idêntico fenômeno de representação. à luz da lâmpada sombria" . . p. por um pormenor também melódico e delicioso. compreende-se como essa vogal. Particularmente expressiva de uma transição quase imperceptível para o Simbolismo. Na fronte a palidez. 5 Carta a Luís (Luís Antônio da Silva Nunes). . II. sobretudo através de uma estrofe em que o. a vogal "e" É belo ao fresco da relvosa espalda Os serenos beber à flor pendente. de uma convulsão da natureza. 1 março 1850. (ia Obras Completas. Vol. que o reabilitam soberbamente da vertiginosidade com que as escreveu. dada a facilidade com que o tema era tratado à época do Romantismo: Da gruta negra a catarata rola. Nua ao vento da noite que agitava As louras ondas do cabelo sôlto.submetendo seus versos a um tratamento esmerado. do 3° canto. em que influi . escuma uivando E pelas trevas ronca. a exemplo do poema a Pedro Ivo. concorreu para exprimir a languidez ou o torpor peculiar à cena evocada nessa estrofe. No "Poema do frade" sobressai a estrofe XIV. embora fraca ou por isso mesmo. jôgo de tônicas alternadas livra o pensamento ou a ideação. no olhar aceso O lume errante de uma febre insana. com as palavras e o ritmo. de tornar-se musicalmente monótona. Em "A tempestade''". adquiriram os versos um tom melódico verdadeiramente empolgante Era uma fronte olímpica e sombria. constitui antes um exercício de virtuosismo métrico.. 511).

o senso da ironia romântica. O crítico . com a qual pôde evitar um soçôbro. se persistisse em suas abordagens pelos mares revoltos de Byron. a qualidade extremamente específica dêsse "humour". repassado de límpida doçura.que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram êste livro. Derrame fel em cada riso Alma estéril não sonha uma utopia. no prefácio . poeta ardente Que ilumina o clarão das gôtas pálidas Do nobre Johannisberg! Em verdade. embora com ar de gracejo. É certo que. não era dessa natureza a ironia que passara a earlpregar. Anjo maldito salpicou veneno Nos lábios que tressuam de ironia. "Duas almas adverte-se. nesse nôvo contato. 142 Afrânio Peixoto colocou-o entre os nossos primeiros humoristas.. pelo visto. Vem tu agora. mas precisamente daquele gênero amável que induziu Novalis a esclarecer que "por vêzes. em que as fundiu até certo ponto.. Sem optar definitivamente por nenhuma dessas direções. verdadeira medalha de duas faces". sem dúvida o mais significativo conjunto de tôda a sua obra poética. mas há que distingiur. como quem encontra finalmente o caminho que procurava em vão por outras bandas Basta de Shakespeare.Era a virgem do mar! na escuma fria Pela maré das águas embalada! Era um anjo entre nuvens d'alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia! O poeta hesitava talvez entre êsse tipo de lirismo. Embora o poeta haja também derramado um pouco de amargura em seus poemas. se não fortaleceu. no bardo inglês. o sonho pode desempenhar o papel de ironização da vida". Fantástico alemão. Não era sem um impulso realmente sincero que. Álvares de Azevedo adquiriu. escolheu outra. embora disfarçado. É o que corresponde às composições da segunda parte da Lira dos cinte anos. e as extravagâncias literárias em que predomina a retórica afetada do Romantismo em suas manifestações de gôsto duvidoso. mas latismàvelmente cedeu demais a essa última tendência. o conflito entre a inteligência derivara em ironia venosa por seus resíduos de mórbida insatisfação. Descrê. no começo dêsse poema. o poeta de "Idéias íntimas" bradava. binômio individual. com deliberado tom de mofa. por aquêle em que a unidade interior provém de um angustioso. Essa a ironia que Álvares de Azevedo introduziu. Dir-se-ia que era do mesmo estôfo a ironia que Alvares de Azevedo preconizava em seu poema "Lélia".

dizendo que o romântico por êle dominado pensava numa coisa. 5. 26. Rio de Janeiro. jan. Cap. em conseqüência de uma crise moral. Z. em 1851.norte-americano Irving Babbitt definiu o drama individual que dava impulso a êsse espírito de complexíssimas essências. vol. Valverde. 1931). edição critica por Roberto Alvim Correia. Capistrano de Abreu. Rio de Janeiro. 1951). n. Bibliografia: Poesia: Inspirações do claustro. Rio de Janeúo. embora exposto a conflito insolúvel em si mesmo entre o ideal e o real. mas a morte o colheu antes que pudesse converter essa revelação numa substância poética perdurável. Agir. Obras poéticas (Inspirações do claustro e Contradições poéticas) sal. 2. (in Ensaios e estudos. de Abreu. (in O mito de Prometeu. 1928). Acad.° 2. Discurso de posse. Dessa instabilidade ninguém escarneceu mais do que o próprio ironista.. 1867.° 73. de. 1912). n. J. estudou no Liceu Provincial. Soc. A sensibilidade romântica (in Rev. v. Sob o nome de Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freire. Leras. A ManhB)~• (Rio de Janeiro. Luís José Junqueira Freire (Salvador. Rio de Janeiro. ingressou na Ordem Beneditina. Foi Alvares de Azevedo o mais perfeito representante dessa singular entidade em nosso país e tão importante é a sua contribuição a respeito que algumas de suas melhores composições são justamente as sue têm o travo dêsse diabólico licor. Ano III. A. Artur Orlando. A. Brasil. 1944. 1832-1855). 19 e . J. 1885. Macedo Soares. Autores e livros (sup. (in Cor.3 vols. n. jan. (in Rev. 1943). Obras. afastando-se da Ordem e obtendo. Correia. não permaneceu aí mais que três anos. Faltando-lhe a vocação.a ed. cujo pathos foi a mais frenética nota do individualismo romântico em nosso país. JUNQUEIRA FREIRE A obra poética de Junqueira Freire não pode ser dissociada do singularíssimo drama de sua existência. Sob os seus efeitos descobriu instantâneamente a face da verdade. Mercantil. Letras. Bahia. oriunda de questões de família. sentia outra e aspirava a uma terceira. Luís Junqueira Freire. Brasil. Consultar: Alves C. Acad. em 1854. R. Ano 19. um breve de secularização. 11 jul.° 7. Ensaio critico sôbre Luís Junqueira Freire.

tamanha a sua incompatibilidade com a vida monacal. Paulo. Peixoto. que oscilava entre o Cristo e Voltaire. 7.a Ed. in O Globo. Inspirações do claustro. (in Ramo de louro. O Romantismo. nisso consistindo uma de suas incongruências ou contradições. Nac. Vítor. . recebeu tamanho influxo que Bernardo. Fazendo-se frade antes dos vinte anos de idade. idem. idem. Brasil. Junqueira Freire. não há dúvida. 1945). e 5. Rio de Janeiro. A. Junqueira Freire. 2 â fase. n. 1926). H. S. envolveu-lhe a personalidade. Universidade. entrecortada de preces e blasfêmias. A Ordem. Discurso de posse na Acad. Rio de Janeiro. Letras. C. dez. Mota. transmitindo-se às suas produções. Coimbra. W. o clássico resistiu tenazmente a uma capitulação definitiva. Junqueira Freire. com tal estrépito o fêz. principalmente por efeito da lenda em tôrno de suas terríveis contradições.. por assim dizer vocal. Mas. Brasil. 1935). Junqueira Freire. M. Rio de Janeiro. . ainda parece repercutir pelo tempo afora. e. 1926). que a sua voz. D. . notadamente Gonçalves Dias. A. ao criticar-lhe as Inspirações do Claustro. (in Crítica literária. no qual aplica as convenções tradicionais com exemplos de autores brasileiros. Morais. Quental. Guimarães atribui a isso a dureza de seus versos. Entre a fé e a dúvida. Mota Filho. ainda não esclarecido. deve ter-se em vista que compôs um tratado de retórica. de Letras. Machado de Assis. Acad. Ed. 1921).143 Um mistério de vida. Martins. aliás. 2. J. set. 1859). Rio de Janeiro. 1929. Paulo. onde repercute o conflito interior de uma consciência lacerada de angústias. (in Introdução ao estudo do pensamento nacional. mas sem suficiente vocação religiosa. de (in Cartas. (in Rev. Como era natural. convulsionando a vida em geral. Comp. era a de um romântico.I. Preliminarmente. Essa atitude. A. (in Cor. Manhã. permitindo-lhe dar libérrima expansão às complexas reações do "eu" incontentável. Hélios. F. a bradar suas rebeldias e desesperações numa época em que o sôpro do Romantismo agitava o ambiente brasileiro.. 1929. Dêste. Rio de Janeiro. Junqueira Freire (in Rev. 15 dez. Acad. 1942). Jackson. o primeiro satanista (in Cor. 17 jun. Essa estranha figura de monge-poeta. dava a impressão de uma personagem que tivesse sido criada pelo cérebro de um poeta satânico. Baiana de Letras. atraiu para a sua poesia um interêsse desmarcado. Bras. Vocação e martírio de Junqueira Freire. 1931. Nestor. 1938). J. dez. Pires. da. S.20. o Romantismo favoreceu-o amplamente. Manhã 28 nov. 4 fev. em Junqueira Freire. 1926).° 168.

bem como dos salmos e da poesia bíblica em geral. bem como a de alguns autores antigos. O chão que pisas A cada instante te oferece a cova. Herculano e Garrett. porém. o traço dominante de sua ardente e impetuosa personalidade. Tolentino. em suas catorze linhas sòmente cinco apresentam uma expressão poética realmente substancial. nessa altura do século) com o ritmo bíblico por modêlo. com Bocage. Pisemos devagar. entre os quais o poema "Dertinca" será o mais expressivo. prendendo-o a regras ou modos de expressão que constituíam um obstáculo à liberdade insuflada pelo Romantismo. ao gôzo. O poeta inglês submeteu à prova um sonêto de Milton. esclarecendo: "Pelo lado da arte. não há como inferir de suas composições que Junqueira Freire quisesse de fato adotar o verso livre. Olha que a terra Não sinta o nosso pêso. E nem só não se cingiu passivamente àquelas regras como quis criar algo de nôvo. de cuja influência existem vestígios em sua obra. segundo me parece. O inconformismo era. . introduzindo em seu país o verso livre e tornando-se. como é de supor. Não há dúvida que o verso branco permitiu ainda mais essa inevitável coparticipação de poesia e prosa ou prosaísmo em um mesmo poema. 144 Se. não difere da de uma boa prosa. A essa impregação junta-se a da poesia lusitana. É claro que êsye círculo de influência era de natureza a restringir-lhe o comportamento formal. aspiram a casar-se com a prosa medida dos antigos". Por coincidência. amiga. que tanto preocupava Junqueira Freire. Wordsworth demonstrou que poesia e prosa podem coexistir perfeitamente em um poema. consoante a observação de Homero Pires. conforme deixou transparecer no prefácio às Inspirações 'do Claustro. meus versos. (sinal da inquietação reformadora que lavrava geralmente. havia de ter presente em suas cogitações o verso livre e encantatório dos poemas ossânicos. afirmando que a linguagem de uma larga porção de todo bom poema..logo após o aparecimento do livro. Certamente era êsse o sentido da expressão "prosa medida". dava então Walt Whitman vigoroso impulso à arte poética. Sob a sua influência escreveu a poesia "Temor'". No prefácio às Lyrical Ballads.em que era versado. o precursor do modernismo de um Paul Claudel. tendente a considerá-lo um antecipados do gênero no Brasil. sobretudo Horácio. dêsse modo. mostrando que. Entretanto. o poeta baiano ignorava o bardo de Leaves o f Grass. cuja primeira estrofe a torna inesquecível: Ao gôzo.

num ou noutro poema. espalhando a tristeza. encontrando-se alguns reflexos disto em suas composições da última fase. que resumiu numa esperançada e significativa conjetura: "Chegará o dia a literatura a um tal grau. Bernardo Guimarães foi mesmo induzido a afirmar que o poeta baiano desdenhava completamente a forma. onde . como em "Noviço". por isso.dada a grande porção de prosa que contêm os seus principais poemas em versos brancos. confessando que isso resultava da sua hesitação entre "a naturalidade da prosa" e "a cadência bocagiana". que se infiltra ali furtivamente como um raio de sol numa paisagem sepulcral. tão freqüentemente recorreu a tais figuras que só por êsse pormenor será possível distingui-lo de qualquer outro poeta contemporâneo. mesmo de um Gonçalves Dias. o sestro retórico exerceu papel adequado. Quanto à harmonia métrica. a exemplo de outros poetas modernos de sua época. levado a exemplificar figuras de retórica. despercebido que fracassara de algum modo em suas tentativas para imprimir a seus versos um ritmo nôvo ou uma expressão nova. em suas lições. de que falava Coleridge. diácopes e anáforas. apesar de Homero Pires considerá-lo um técnico do verso. consoante o meticuloso reparo de Macedo Soares. Não lhe passava. que também usava e abusava delas. Minguava-lhe dom melódico em escala ponderável e. que inutilizava os seus esforços naquela direção. recaiu sempre numa dureza verbal e às vêzes também métrica. sobressaem: repetições. a propósito da sutil conjunção de prosa e verso. quase geralmente. conseqüentemente. agravado pelos resíduos de uma filosofia moral em que o pensamento da morte paira sôbre tudo. Dir-se-ia que. observada pelo crítico em Samuel Daniel. um aspecto didático e enfadonho. estabelecem êsse ar monótono em suas obras. como "O Banho". Como quer que seja. aliás. não mais pudera varrê-las da memória ou da imaginação. Não obstante as excessivas reincidências nesse particular é certo que. reduplicações. a desolação e o tédio. que distinga a prosa e a poesia tão sòmente pela nuance dos pensamentos?" O fato é que não conseguiu fertilizar convenientemente aquêle "neutral ground". embora tivesse introduzido inovações no sistema métrico. tal o emprêgo abusivo delas em suas poesias. pelo excesso de uso. não foi absolutamente feliz em suas experiências. Dentre as figuras que. Estas adquiriram. Tudo indica que o mestre de retórica em Junqueira Freire contribuiu para lhe prejudicar a frescura e naturalidade da imaginação poética. Como quer que seja. sobretudo entre as canções bucólicas. o que Homero Pires atribui a influência direta de Alexandre Herculano. Empolgava-o realmente a idéia.

não permanecer indene de influências ou não tê-las em grau 6 ia Crítica literária. tão fino. e. mas também da feição própria do seu talento". em . A que não desperta. 1953. Jackson. produzido com o emprêgo da vogal "i".'~___.Brás Cubas daria depois um alto exemplo no sentido de que. referiu-se à sua "grande originalidade". ferindo os ouvidos. Rio de Janeiro.o elemento onomatopaico.__~ reduzido ou medíocre. Roberto Alvim Correia. que sono que dormes. 146 . afirmou que o seu único êrro consiste em não ter apresentado alguns versos como exercícios. pura e simplesmente. Ao contrário do que ocorreu com êsse escritor e anteriomente com Álvares de Azevedo. Um som de garrida. tão crebro. Além de retardatário. o folclore. enquanto Alvim Correia as resumiu em três: a religiosa. a filosófica. e Mas o criador de . Mostraram-lhe seus críticos outros pormenores interessantes de técnica. as composições desse gênero passaram a ser havidas como as mais características do autor. mais recentemente. para dar à sua obra. no que teu.__ •l. Ed. Distinguiu-lhe Sílvio Romero quatro notas gerais: a religiosa. e. A admiração do crítico ainda incipiente levara-o até a afirmar que Junqueira Freire não imitava ninguém. o indianismo de Junqueira Freire tornara-se um instrumento de ação política antilusitanista ou simplesmente nativista.. era antes suficiente influência. de sua obra poética. Ao fazer aquela classificação. Que sono que dormes! não ouves o sino. Machado de Assis. a amorosa e a popular ou sertaneja. querendo exculpá-lo de certas dóficiências. como muito bem evidenciou Nestor Vitor. é condição indispensável à evolução de um grande espírito. o velho crítico obedeceu à sua tendência favorita de valorizar as formas populares do lirismo. mostrando que esta deriva "não só das circunstâncias pessoais do autor. algumas vêzes. Quaisquer que sejam as restrições s$bre o aspecto formal ou o fundo filosófico. o que faltava a Junqueira Freire. Junqueira Freire nela deixou os traços de uma forte individualidade. a lírica e a social.. noviço. num entusiástico estudo de 1866. em suma. em conseqüência. corresponde ao som do sino que tocava às matinas impertinentemente: Noviço. com a infalível inserção do "Hino da Cabocla" em tôdas as antologias. como foi observado por mais de um de seus críticos.

revela. o poeta baiano não pode evitar a esfera de influência que tinha em Portugal o mais direto e prolífero centro de irradiações para o nosso país. que. já pelo título. cedendo à sedução irrefugível de Ossian ou Chateaubriand. 7 No particular. Ter-. E. 4 fev. (in O Globo. que o vinculava inevitàvelmente às hostes do Classicismo. e nisso não diferiu de Gonçalves de Magalhães.formos obrigados a seguir um norte. dizia: "Enquanto não a tivermos e . entre a consciência moral. embora dissimulado sob os luxuriantes disfarces da nova escola.conjunto. sigamos a França. lusitanizante a sua linguagem poética e até com o acréscimo de expressões arcaicas. embora sob a carga esmagadora de um penoso condito emocional. visto que sua impregnação romântica não foi absolutamente além dessa fase inicial. trepidava por isso em afirmar. Em suma. Apesar dessa atitude. as suas limitações advieram de um tumulto interior que o obstou de fertilizar melhor as suas tendências literárias: a luta que sie travava em si mesmo.jugo de Pope. nesse afã.o pendor nacionalista que o induziu a acompanhar as tendências revolucionárias do século. pregando a libertação do Brasil literàriamente de Portugal.Não 7 Junqueira Freire. que também pregava a libertação da poesia do . o mais poderoso. ainda na introdução às Inspirações do Claustro: . impelido por cuja fôrça tentara inìztilmente abafar as suas paixões numa clausura religiosa. . A agravar essa situação. Não obstante essa frase. e a consciência social que o levava a vibrar com o meio cívico. estava Junqueira Freire numa situação idêntica á de Young (o de Night Thoughts). quis fazer prevalecer em sua poesia a razão sôbre o sentimento. portanto. 1929). Manteve-se. na sua Retórica Nacional. Janeiro. Porque ela é o farol que ilumina o mundo civilizado". se-á uma idéia da espécie de Romantismo para o qual se voltava. Rio de. mentalmente prêso à literatura lusitana. por um tópico de sua interessantíssima autobiografia: "Deixemos as figuras e as formas asiáticas para a poesia romântica". as idéias literárias que buscava em França eram principalmente do Pré-romantismo. coloração capaz de pô-la em mais ou menos perfeita correspondência com o que o "mal do século" produziu na Europa.. no qual o elemento clássico ainda estava presente. Em 1852. mesmo. mas sem abrir mão completamente de certo preconceito formal. só aparentemente lhe repugnava a tropologia oriental em que a poesia se engolfava na fase préromântica. onde os ~anescentes coloniais ainda estavam bem vivoS. Esse última impulso era de fato o mais sincero. Por outro lado. o mais perdurável e. o poeta baiano era um romântico. algumas não estranhas ao meio local.

na verdade. De fato. o sentimento nestas composições a quem presidia a solidão. pela primeira vez. O poema "Louco" é mesmo a que melhor ilustra êsse fenômeno. forma na qual não teve imitadores". Procurando justificar essa imprevista conclusão. por mais etéreo que seja aquêle momento.é o limite ou circunferência exterior da energia.mas também não sou cabalmente um poeta. delírio. cantei tão sòmente o que o imperativo da razão inspirou-me como justo. de maneira insólita. eu tenho consciência de que. confessava ter o pensamento "sob a reflexão gelada de Montaigne" e que. mas arrimado a uma filosofia moral de caráter eclético ou pròpriamente enciclopédico que. É compreensível portanto que as suas composições mais reveladoras de um momento poético fecundo sejam exatamente aquelas em que a razão. Esse propósito utilitarista impeliu Junqueira Freire a girar freqüentemente no mesmo círculo monótono. a propósito dessa composição. se deixava quedar "sob a. -por Homero Pires. inquietação e dúvida. Está visto que a intensa energia espiritual de Junqueira Freire só tinha a 'perder quando. feita de raiva. sofreando-lhe o impulso instintivo exarcebado por suas paixões. Portanto. abafados em conseqüência os seus ímpetos. quando deixava falar o inconsciente. observou judiciosamente que Junqueira Freire primava por "uma forma de imaginação física. cede lugar a um estado de espírito vizinho da loucura. . A utilidade . o frio e calculado raciocínio. Não é para surpreender portanto que haja dado por epígrafe àquele prefácio um pensamento de Courier: "O que entenderdes que é útil.já o dizia Blake. que tinha em vista era enfim a de projetar as luzes da razão sâbre aquelas almas fortes. a quem se dirigiu intencionalmente. "A razão .A hora da inspiração é um mistério de luz que passa inapercebível. quando. sem influência de um sôbre o outro. sob o influxo do Humanismo. reflexão gelada de Montaigne". com Álvares de Azevedo e Junqueira Freire. podeis sem receio publicá-lo". em nossa literatura. Contudo. tornara-se-lhe impossível acompanhar os vôos de Klopstock. Não excluí. sem lhe apaziguar o espírito. na sua poesia. porque ninguém o pode . ao passo que esta é a voluptuosidade eterna". por não estarem ainda eivadas "do cancro do cepticismo" ou "da mania do misticismo". Era uma conseqüência natural da liberdade de criação que o surto romântico propiciou na altura em que o individualismo adquiriu um aspecto mais ousado. na sua linguagem simbólica . bem fixado. a participação dêsse elemento sobressai. aliás. conteve seguidamente os surtos de inspiração. desespêro.

Esse poema representa. Entrou agora em sua própria essência. Essa particularidade não é a rigor um sinal de falta de subjetivismo. É explicável que tangenciasse! para as . amaldiçoando-o por ter transgredido. naquele significativo poema: Agora está mais livre. mas é um índice disto no poeta baiano em conseqüência de sua organização imaginativa. a que deu sempre grande ímpeto e mais significativamente quando quis traduzir. é uma representação típica da inspiração alegórica de Junqueira Freire. em "Meu filho no claustro". Digna festa dos filhos da morte ! O espetáculo dessa mãe desesperada.e no meio das chamas Dos demônios ouviu-me a coorte: E rompeu numa horrível orquestra. Não estava longe do pensamento de Blake.Em realidade. formas violentas do pensamento. segundo outra e arguta observação de Homero Pires. onde desferiu os móis audazes vôos. cujas imprecações dirigidas a Deus só encontram ressonância no inferno. mas também pelo movimento de transição expressional que se aproxima da "prosa medida" consoante a aspiração estética lançada no prefácio às Inspirações do Claustro. A mãe do poeta dirige antes a Deus as suas apóstrofes.. Torturado pela dúvida metafísica e corroído pelo mesmo mal do cepticismo que abominava em outros. não se encontrava enfim em si mesmo senão quando a êle se aplicava o que dizia do louco. flagrante imitação de Gonçalves Dias. Esse poema não é apenas altamente significativo pela audácia do pensamento. como prêsa de guerra. De resto. ao saber de seu ines.. nas suas "horas de delírio" é que tomava livremente o monge-poeta o rumo do absoluto. exprobrando-lhe o haver inspirado aquela decisão extrema do filho: Blasfemei ! . o código de uma tradição sagrada entre as tribos selvagens.perado ingresso na Ordem dos Beneditinos. como a apóstrofe.. Contém ainda outro pormenor interessante: o de serem geralmente objetivas as imagens metáforas. acabará por converter-se em sábio". como é comum à arte de Junqueira Freire. o profundo abalo que sofreu sua mãe. na parte do "I-Juca-Pirama" onde o velho indígena blatera contra o filho. Algum atilho Saltou-se-lhe do nó da inteligência: Quebrou-se o anel dessa prisão de carne. consubstanciado em um de seus memoráveis provérbios do Inferno: "Se o louco persistir em sua loucura. a atração do inferno o perseguiu terrivelmente e foi impelido por uma verdadeira fascinação luciferina que concluiu a poesia . aliás.

a Carducci. Esse monge que afinal era um homem de pouca fé. Rio de Janeiro. de Baudalaire. o gênio poético rebelde e delirante se tenha atrevido". através de várias poesias sertanejas. através do poema "O apóstolo entre as gentes" dera um arrebatado . 1927) . a bracejar com a desilusão. após estudar-lhe minuciosamente a vida e a obra. Quero vencer o inferno! Dizia Afrânio Peixoto não conhecer "gesto de desengano mais ousado e que exceda a quanta hipérbole. Bocage e Nicolau Tolentino. com a exaltação peculiar à sua índole malferida. "procurava a fé. já em Inspirações do Claustro. $ E não lhe escapara o que havia de sádico nessas e 8 Vocação e martírio de J. tinha um espírito combativo e não vacilava em querer "vencer o inferno". Na sua autobiografia. Nessa alturas era a Bahia um rumoroso centro de agitações políticas e o poeta deixara-se impregnar do nativismo dominante e. Não era sexualmente normal. . mas a sua constante era o sentimento da nacionalidade. dava a impressão de haver encontrado a cobiçada paz. em que o sentimento da morte o leva a desviar os olhos da paisagem estuante de vida para os túmulos. revela Junqueira Freire que. como fonte pura de poesia. não há melhor testemunho da luta interior em que o envolveram as suas contradições de sentimentos e idéias que as poesias de cunho religioso. de Byron a Espronceda. e. F. Numa carta de 1853 a Franklin Dória deixara mesmo transparecer a preocupação de voltar-se para a natureza. em certa época. As suas manifestações nacionalistas. em que apesar de algumas vacilações. a crença. sem achar segurança em nada". apresentam um saudável contraste com a inspiração melancólica de outras. E já por isso. A compensação desse malôgro veio a ser de algum modo o lado cívico de suas trepidações. que se enfileiravam entre os claustros. (in Ramo de louro. já pela reclusão claustral."Desejo". com a arrogância de um réprobo Estou cansado de vencer o mundo. no que parece terem influído Gregório de Matos. em que condena desenganadamente o ascetismo monástico. a convicção em tudo. tinha um derivativo às solicitações da carne sublevada compondo poesias fesceninas. ao "gôzo de sensações terríveis".antilusitano. e "O Monge". concluiu Homero Pires. indígenas e cívicas.149 noutras manifestações da sensibilidade pervertida do monge-poeta e que se cristalizaram em algumas frases insólitas. Aliás. sobretudo "Claustros". como quando se refere a "inefáveis dores" ou .

não obstante haver procurado aliená-la de si mesmo metendo-se em um convento. especialmente em suas poesias: "Frei Ambrósio". quanto à poesia social. que o tornava extraordinàriamente caroável a todos os movimentos da vida nacional. "Gonzaga" e "Padre Roma".porque somente vós podeis dominá-lo.não deveis de aborrecer nem fugir a êate vulgo profano. de purificá-lo . Junqueira Freire atirava-se à Razão como o náufrago a um pedaço de terra firme. com tendência à vida primitiva. de instrui-lo. Se não. concitava à ação pública. não contente com transformar sua poesia em tribuna demagógica. Sôbre o movimento baiano denominado "A Sabinada". E com procurar sobrepô-la ao sentimento.testemunho de fervor nativo. assumiu uma atitude mental que pressupunha tua culto esmerado da forma. era apenas um passa e Junqueira Freire. a eloqüência representativa do país: Oradores verdadeiros 1 . segundo o profundo Cousin .por que não somos Ainda agora os índios das florestas? Por que degenerado em nossas veias Gira tão raro o sangue do Tamoio ? Do nativismo às idéias republicanas. de inspirá-lo. sublinhou-as conscienciosamente: A inspiração ou a razão. que tinha a paixão da liberdade. foi o mais vibrátil e ousado precursor de Castro Alves. entre os românticos. Eu tenho o sangue plebeu. O instinto político. para Voltaire ou para a Pátria. O heroísmo brasileiro teve nêle um fixador assomado. como fazia Horácio: deveis de amá-lo. era o de quem se arrogava o direito de converter-se em legítimo cantor do povo Consagro aos cantos do povo A lira que Deus me deu! Instintos do povo eu tenho. quer quando se voltava para Cristo. de buscá-lo. encontra-se entre os seus manuscritos o esbôço de um drama apenas iniciado. de que surgiram algumas de suas composições). como evitar que viesse a tornar estéreis e duras as suas produções? Não ignorava as limitações que se traçara com essa disposição e. sôbre a luta holandesa.profundo apesar dos . pelo qual manifestava extrema simpatia. numa nota ao poema "O Monge". quando proferiu esta apóstrofe: ó destinos do céu! . 150 Em sua loucura cívica (chamemo-la assim de acôrdo com a terminologia do próprio poeta referindo-se à loucura religiosa ou a lottr cura erótica. Talvez justamente pela superefusão dos sentimentos que davam tão grande intensidade às suas vibrações.

pádres . Significativamente. que estava longe de performar uma substância poética à altura de suprir a flama do sentimento.só tu podes Co'os sentimentos na mão. A poesia. isto é. Acresce que êsse idealismo moral em Junqueira Freire era antes a máscara com que tentava. Não era por isso gratuitamente que. de resto. enganando-se a si mesmo. Neste sentido. estava na linha de. Uma de suas tentativas para grafar o sentimento ao . Falar palavras ardentes. the emotions provoked by particular events in bis life. S . já o afirmava Francesco de Sanctis. Eliot. 9 Idêntico o ponto de vista de um crítico moderno. e dá mais. pois. e dá menos. Espera-se mais. serve de epígrafe a essa poesia um pensamento de Chateaubriand: "Não é verdade que se possa escrever bem. Há alguma coisa de máquina cartesiana na primeira: porém que máquina sublime l A filosofia moral com que desejava transmitir os movimentos desta "máquina sublime" às suas poesias era um complexo de tendências. espera-se menos. no seu estudo sôbre o talento individual. tomava por modêlo a Gonçalves de Magalhães. "traduce tutto in immagini e le vagheggia e se ne sta lontano a rappresentarla". considerando-o "o primeiro dos nossos líricos".ny way remarkable or interesting". sua orientação estética revelada no prefácio às Inspirações do Claustro? Como quer que seja. that the poet is in a. Io Não há dúvida que algumas deficiências do poeta baiano resultaram de seu frenético esfôrço de escrever "co'os sentimentos na mão". dissimular o extravasamento irreprimível de suas paixões. em verdade. por isso. Labaredas de paixão. "Il sentimento non è in sé stesso estetico". a frase de Chateaubriand exprime uma realidade que encontrava em Junqueira Freire um exemplo gritante. o pensamento inspirado não vem segundo o desejo. duas linguagens para o poeta: uma da inspiração ou da razão: outra do raciocínio ou da inteligência. "o nosso poeta filósofo". por ter desafiado sempre o perigo da transcrição direta da sua experiência emocional. enfim a substituir o agradável. quando.a inspiração ou a razão não é voluntária. quando a Razão o deixava livre de agir por si mesmo. assevera paradoxalmente: "It is not his personal emotions. acrescentando que o verdadeiro artista. T . nada estava mais em concordância com a sua tempestuosa maneira de ser. Há. mas lastimàvelmeate não é apenas com a razão metafísica que se cria uma grande poesia. na sua poesia "Pedido". que. que deixara de acender-lhe a inspiração. Até onde influiu no espírito do poeta êsse pensamento. quando se sofre". abrasado de paixão. passara a exaltar o férvido impulso do sentimento ou mesmo da paixão: Belo jovem . O sentimento em grau superlativo é antipoético. O útil era chamado .

seu ato dramático. Sonzogno. 1. p. monstruosa. Seria precipitado concluir disto que o poeta só alcançava a verdadeira poesia quando estava fora de si. 152 sileira. João e Nova Friburgo. à juventude e ingenuidade de sua expressão. Esse fato. que corri a escrever. ao tom coloquial. . Camões e o Jau. tanto quanto Junqueira Freire. êsse espetáculo medonho.vivo é o poema "A morte no claustro".). Faber. mas a verdade é que raros demonstraram no Brasil. eram perturbadores demais para se acomodarem pacificamente às linhas de uma composição e `delas extravasaram sempre sem deixar qualquer essência perdurável. está a indicar o caminho a percorrer para que sejam encontrados. e entretanto. Em 1856 vê montarse o . as quais a crítica costuma resumir nas referências à simplicidade de sua lingugem. 1839 . ao viva. 2 . outros autores sustentam como tendo sido Barra de S. Em 1852 transfere-se para o Rio e. de haver sua poesia merecido a preferência do povo. 20. 1934. era filho natural de um comerciante português e uma viúva fazendeira. com ânsia. revelador da confluência entre a obra de arte e o homem comum. Est. Tais sentimentos. a exemplo do poema "Louco". tanto antigos quantos modernos. ao menos as características fundamentais de sua poesia. Londres. que a chispa da insânia era indispensável à inspiração romântica. Fui tão impressionado. os locais de nascimento e morte). à exacerbada sentimentalidade do seu verso e à correlação entre essas virtudes e a sensibilidade popular. constitui fator da maior importância o assinalado pelos historiadores da literatura bra9 Saggi critici. Em Lisboa. cuja gênese explicou numa nota: Eu assisti it morte dêste monge .Indaié-açu. Estudos primários em Correntezas e em Nova Fnburgo. leva uma existência despreocupada. (_) Casimiro José Marques de Abreu (Fazenda da Prata. Saiu uma coisa comum. senão os méritos. 10 Selected essais. Vol. pp. 1860. 226-227. Milão. O que as aquece de um calor humano é antes algo de vezânico. embarca para Portugal.e pela primeira vez it morte da um homem. CASIMIRO DE ABREU (#) Na análise da obra de Casimiro de Abreu.a Ed. (s. no ano seguinte. d. do Rio. Capivari Est. germinado sôfregamente em seus delírios. do Rio. repita-se.

Retorna ao Brasil em 1857 e. verificou-se em Casimiro de Abreu. Rio de Janeiro.êste sim. amor e saudade. Lisboa. porque sua poesia correspondeu às tantas tentativas de realização frustadas dos jovens de tôdas as épocas. vítima da tuberculose. 1859. naquela senda. porque já não lhe permite o mundo a vivência romântica.sua expressão adquiriu permanência. estabelecendo relações entre idades e estados de alma. As demais. então. certamente por circunstâncias históricas. Poesia símile de juventude . Este . outrora. A edição crítica das Obras Completas. Entre os dezesseis e vinte anos realizou sua obra. Sua imaginação cria. nela pôde encontrar a fonte de sua potencialidade. transformando-se na voz comum dos que não são capazes de criar com a palavra og mundos desejados. pela carga de significações vulgares. salvo raríssimas exceções. começa a praticar no comércio. quanto as situações focalizadas pelo poeta. do gênio e do romântica adolescente.morre em 1860 e poucos meses depois segue-lhe o poeta. individual e exclusivo . 1856. devido à semelhança . constituem manifestações simples de sentimento do comum das homens. Nesse sentido (e êste é um fato sobretudo da adolescência) se o adolescente se dá à prática de poetai. Poeta popular. também denominados românticos n_ or extensão de conceito. 1940. Repetem-se as gerações jovens na expressão não literária daqueles sentimentos. o gênio poético não se manifesta.primaveras . no qual êle é a vítima de um pai que lhe contraria a vocação. Nac. mas eivadas de erros.que continuava solteiro e residindo sòzinho . a instâncias do pai.ou. mormente dos adolescentes. Sousa da Silveira. esperança. Comi Edit. são numerosas as edições de suas obras. restabeleceu os textos originais (São Paulo. A primeira é o próprio título de seu livro. Ésse encontro. como diria: "raramente de flôres num dos teatros da capital portuguêsa. Rio de Janeiro. o faz româmticamente. sem dúvida.Na busca das palavras capazes de indicar a dominante psicológica sobressaem: primavera. Nêle principalmente dentre os demais. . Pelo sena dom .no sentir e no dizer . Bibliografia: TsArtto: Camões e o Jau. êle destaca no poema "Três Cantos".. um drama. Tanto essas palavras. Mas a vida literária e boêmia tinha para êle mais sedução. organizada pelo Prof. POESIA: As primaveras. E se já agora.com certas características do romantismo literário.

Seus poemas.153 próprias da estação.L. universal e cansada. "Quando?!". . a essência do canto adolescente. Consultar: Almeida. e integrando a significação. A. .. "Infância". Brasil. Com introdução de Afrânio Peixoto. compôs o seu hino à primaveramocidade. Casimiro de Abreu. Brotam aromas do vergel florido. Mocidad 1 primavera delia vita. revelando as ansiedades dos que jamais desejariam perder a mocidade . palpita. . Na primavera . E se a idéia da morte se lhe afigurava dolorosa. Deus fita o mundo com celeste afago. F. Viver significaria fundamentalmente ser môço..flôres que o vento esfolhará amanhã. Poetas fluminenses (in Federação Acad. Let. Ama-se a vida . em Casimira de ?rbreu.na manhã da vida Deus às tristezas o sorriso enlaça. Na mocidade. 1955). Ed. cujo dístico Primaveral "juventud dei asno.na .. estação fogosa.eterna primavera. Na primavera . da leveza bucólico-româpntica de sua poesia: A primavera é a estação dos risos. Versos que um dia lhe propiciariam as palmas do cantor. despido de qualquer preocupação conceitual. Inúmeros são os poemas em que se encontra a apropriação pelo poeta dêsse sentido popular da palavra primavera! "No Lar". Na senda de Metastásio. Na primavera tudo é viço. rosas.a mocidade é crença. Min. na própria essência da vida. s'extasia e goza Esse deslumbramento pela mocidade transformava-se. e que apenas valem como promessa dos frutos do outono". Poesia: perfume de rosas desfolhadas. em Primaveras. . 1952). de. que lhe serve de mote..tudo • é. definindo-a num e noutro verso. e gala.. LN. "De joelhos".riso •e • festa. e Cult. publicou-se o jacsímile da edição original de As primaveras (Rio de Janeiro. constitui terrível lugar comum em tom de pretensa filosofia. E a alma virgem nesta festa imensa Canta.

Valverde. 1947). Rio do Janeiro. I. Porque é linda a primavera. n° 9. de. mas viver sempre em primavera: Quisera a vida mais longa Se mais longa Deus ma dera.te . A Manhã). edit8ra. viu-se. Ariel. Porque é doce êste arrebol. em sua poesia . Bruzzi.aflorou a angústia quando. Rio de Janeiro. N.e êle."Meu Livro Negro" . 1. a alma ~ deixo-a ~ aqui. Andrade. eu ~ não . 154 a verdadeira dor não estaria em deixar a vida. estaria respondendo ao poema de Álvares de Azevedo. 1941). M. Autores e livros (supl. 1949. das Poesias. Casimiro de Abreu. voltado principalmente para as glórias futuras . Rio de Janeiro. 1935). . Revisão de valdres. A morte pura e simples. olhando para trás. transportado pelo desencanto para imaginárias paisagens.odeio Porque.. Casimiro. O morrer amanhã .Rio de Janeiro. a poesia e a infância (in Prefácio da ed. Rio de Janeiro. 1939. Casimiro de Abreu (in Bol. 5. 1939). irremediàvelmente banido do seu mundo primaveril: E os galhos todos nus ao céu s'elevam ..ílvores de Azevedo. conforme transluz dos "versos escritos numa ocasião em que julgava morrer". Casimiro de Abreu (in Movimento Bras. (in Confissões de Minas. idem. Rio de Janeiro. VIII. 12 out. D. Porque é linda a flor dos anos Banhada da luz do sol ! Pelo ardor dêsse desejar a mocidade eternamente.. C. São Paulo. ouço-lhe os passos E o farfalhar do vestido Como um perfume de flor! Podes ~ crer. da qual só o seu corpo se desprenderia: Sinto a morte. R. em "No Leito". Almeida. Americ-edito. 1945). de (in O Aleijadinho e . fev. mas na circunstância de perdera mocidade. Acad. Vol. êle receberia como uma componente da paisagem da sua primavera. Z. Andrade. S. Goulart da Andrade. Rev. maio 1929). Aurora.só lhe importava enquanto representasse um corte na sua vida romântica de adolescente. A destruição fria daqueles anos de então. M. Araújo. Desejava viver.

e então "as primeiras ilusões da vida. 1950).. . H. Acad. 4.. Américas. Guerra. Descoberta de Casimiro de Abreu (in Rev. poeta do amor. 1951). Mendes. . O Poeta não poderia aceitar impassível a derrota. abr. 1950). C. a mocidade. Flum. Enquanto ( "Três Cantos") "Ao despontar da existência/ (. Braga. Paulo. Casimiro de Abreu (in Rev. 3 â fase. N. 3. nem ao menos no mundo encontrar.Na súplica de dó l No campo a primavera estende os mimos. maio. percebe não poder realizar. Rio de Janeiro. S. Viana. Nela surgem as primeiras decepções. Letras. Múcio. Acad. 1965. Flum. o poeta do amor e da saudade. 1939). Let. Casimiro de Abreu. Sua posição ("A J . Acad. . jun. Brasil. 53. o poeta não se entregou ao desânimo aos primeiros encontros com as realidades da vida: um mar que é turvo. que desabrocha/ (. dos homens de metal. jun.O 14. São Paulo. 1939. 2. 58. Coelho Branco. incapazes de adotar a sua interpretação lírica das coisas. Magalhães Júnior. ainda se dispôs a rasgar em hinos d'esperança as agruras de um mundo que êle apenas começava a sentir em suas distorções conceituais. ) É tôda um hino: . abertas de noite . os quais sobrepunham a moeda de cobre a uma página de Lamartine. Nunes. Sousa da Silveira (Introdução das Obras. M. IV-34. Ed. Rio de Janeiro. 1950. J . Maul.. Casimiro de Abreu em Portugal (in Rev. com sua sensibilidade de romântico: "Oh! canta e canta sempre! êsses teus hinos". A. Liv. Todavia. procurar pela canto levar ao mundo a sua redentora contribuição: "Canta! e que teus hinos . muito do que na infância constituíra as suas esperanças. A poética de Casimiro de Abreu (in Rev. Melhoramentos.. idem. O mundo dos homens sérios.esperança!" depois.. Maul. Letras. Comp. Casimiro de Abreu (in Rev. jul. Casimiro de Abreu.. Casimiro de Abreu. Poesia e Vida de C.. Flum. Brasil. 1941).. ) A alma. Mas ai ! no inverno eu só! J. H. vol. out. Casimiro de Abreu (in Rev. Ainda quando apenas lírico. 3. S. /e/ Lacerda Nogueira. vol. Lima. A. Leão. ed. Macedo júnior") haveria de ser de luta pela felicidade desejada. Acad. out. 1947. São Paulo. C. Paulo. nem por isso é suma perfeição. Lutar com suas armas de artista. A. ifet. Ed. Em defesa de Casimiro de Abreu (ia Rev. Nos verdores febris da mocidade. Mun. vol. F. Brasil. vol. vol.. 1937). 1923). Tudo é verde no monte e na colina. n . Nac. Acad. . na poesia de Casimiro de Abreu. se bem que a melhor das estações da vida. 1920). A. Niterói. Letras. Arq.caem pela manhã como as flôres cheirosas das laranjeiras!" Sem dúvida. 1939). C . vol.

. trabalhando no comércio .d'esperança / Desertem dêste mundo de misérias / A estúpida mudez".das contigências sociais. porém. tal como o fêz no poema "Na Estrada". com apoio na informação de alguns de seus biógrafos) . ao menos procurou constatá-los de forma a despertar sentimentos de humanidade.") sentir-se-ia inteiramente . não ocultava êsse estado de espírito: "espero poder vencer a espécie de repugnância instintiva que até hoje tenho tido ao comércio".. confdrme se pode crer. os que tão sòmente se preocupavam com a moeda de cobre. mesmo escrevendo a seu pai. partindo do mais profundo de sua alma. o peito De santas ilusões. Com efeito. Veste-se. de crenças cheio". em busca de outro destino para o ser." e ao julgamento pessimista da destinação do homem: O homem nasce. se transmudaria em verso. Aquêle que podia perceber a injustiça . os fatos de sua intimidade. cresce. em "Fragmento": "O mundo é uma mentira. belo ~ d'ilusões douradas. desconhecendo o lado humano. consciente ou inconscientemente. as determinantes das suas observações sôbre o homem e a sociedade. . O seu temperamento. suspira. E um dia o vendaval do desengano Varre-lhe as flôres do jardim da vida. ("A. E se não se lançou condoreiramente na liça. vislumbrando na temática da esperança um Casimiro de Abreu participante. não se poderia conformar em aceitar.. crê."Cena Contemporânea".o humanamente injusto . : forçosamente. Não passou assim o poeta pelo mundo desapercebido dos grandes equívocos psicológicos e sociais.homens sérios. não aceitava o comportamento daqueles aos quais denominava . ao qual acrescentou o sugestivo subtítulo . sente esperanças. Não se exagerará. Poeta extremamente voltado para si mesmo no seu lirismo. malgrado ainda ter ".com desprêzo e revolta . por vêzes. homens de metal. Pode-se considerar certo. E o poeta que ao primeiro entrevexo com a realidade e as knisérias do mundo não se deixara abater e pregara com o seu canto 0 cantar das esperanças. haveriam de ser. talvez estivesse retratando o seu próprio pai. As biografias de Casimiro de Abreu são inseguras e. Canta. os seus problemas individuais. contraditórias no apresentar os acontecimentos de sua vida. alegre e crente Entra no mundo c'o sorrir nos lábios.a vida de escritório ou do armazém o alienava. que. Essas contradições de sua vida íntima teriam-no levado ao grito de desencanto que. a posição do homem de metal (no qual. ..como meio de subsistência ou apenas para aprendizado tendo os seus gastos custeados pelo pai .

AÌfirmações suas. Aurora. ("Três • Cantos"). •. Pelo contrário. sem nenhuma autenticidade. Z mas o amor conforme transluz de sua poesia. Nada importando que essa imagem não se explique pela sua vida e sim pelo estado de alma em que a concebeu: aquela adolescência-romântica antes referida. Rio de Janeiro. 1957. p. ou de encomenda. 2. na introdução às "Primaveras": o fruto "do coração que se espraia sôbre o eterno tema do amor". ou ainda "Parece-me que vou namorar-me duma estampa deliciosa que encontrei há dias num livro . não está correlacionada diretamente com fatos motivadores de sua poesia. face as inúmeras contradições das informações e interpretações. ao criar a sua imagem do amor. mas o mesmo não se poderá dizer do poeta.. não saía de lupanares". portanto. 112. depois de tantos desencantos e desenganos ( "Meu Livro Negro"). diria ainda o poeta: "A alma que então se expande Soletra ~ em ~ trovas:. Ainda aqui as observações biográficas longe de auxiliarem a pesquisa de certa forma a conturbam. História da Literatura Brasileira. eventualmente confirmatório dos fatos apontados em suas biografias. Casimiro de Abreu. quem ama e é amado! Não se pode ser môço sem amar... e com o meu gênio esquisito não acho pequena que goste de mim". não é a possibilidade da existência éle.. essas afirmações poderiam levar a dizer-se que Casimiro de Abreu fôra um homem vazio de amor (pois apenas gôzo e não amor lhe dariam as suas "mulheres de mármore"). 2 Nilo Bruzzi. Ainda quando não houvesse conhecido mulher o que não é de se crer. Rio de Janeiro. ou "Feliz 1 José Veríssimo. Mas. Esse é o terceiro dos principais temas da poesia de Casimiro de Abreu. com exceção do que revela quanto ao fato de haver escrito um poema ( "Clara" ) de encomenda. face inúmeras passagens de sua vida . sendo um mero fazedor de versos à moda de. "um amor infeliz que lhe deixou a alma ferida e para sempre dolorosa" 1 ou a afirmativa de que "não encontrando nenhum prazer no convívio com mocinhas de família. e é por isso que eu sou môço etn anos e velho caduco na alma". na plenitude de sua crença na mocidade. Há de ser a minha amante essa muáilter de cabelos -compridos que me há de ser fiel e me acompanhará sempre". também sua correspondência. 1916 p.. Ao que parece.nem assim seria legítimo afirmar haver o poeta desconhecido o amor. Ou como êle mesmo diria. em cartas: "Vivo como um monge. amor!" . antes das desilusões.perdido. Alves. 308.a ed. . Casimiro de Abreu.. é um poeta autêntico. O que deve importar.

cujos beijos tão doces e caricias valeriam mais do que tudo mais dêste mundo. ora pela configuração em algum tipo feminino concreto. Nenhuma filosofia. a pouco e pouco. a marca da solidão. êle exalta. e cujas raízes se encontrariam na sensação de vazio da timidez da infância e no temor do mundo pelos seus fantasmas e realidades. o ideal dos seus sonhos. suspirando am8res: . A inocência. E da mesma forma que sonha. a confissão dos seus desejos de adolescente-romântico. ora desenvolvido em puro sonho. a pureza do amor e a graça feminina. encontrem-se ou não motivações evidentes no subconsciente recalcado. e. em "Sempre Sónhos") êsse amor se foi transferindo para. em Casimiro de Abreu. As manifestações dessa temática. oh ! bela. referir-se-ia em `=Meus Oito Anos". pode-se dizer que o poeta procurou situar-se face ao problema. tenha tido ou não o seu amor existência real. também a sonhar se encontra aquela que representa o seu ideal de amor. num prolongamento dos cuidados maternos. A confissão de sua timidez. 158Tudo é sonho. a eterna virgem dos seus amôres. encontrando-se os versos . do qual o centro de gravitação era a figura de sua mãe. O poeta vê a amada num ato de pura imaginação. E êsse amor. a simbologia das flôres. e traduz repetidamente essa exaltação através da simbologia consagrada pela.Sua autenticidade é a de todos os adolescentes no seu sonho de um ideal de amor. Contigo dizes. Essa necessidade de amparo fêz com que concentrasse a imaginação em sua mãe. Tudo isso na formação do que Mário de Andrade teria chamado de "complexo do amor e mêdo" 3: Quando eu te fujo e me desvio cauto Da luz de fogo que te cerca. por isso mesmo. Em "Amor e Mêdo". conforme se afere do poema "No Lar". A sua visão da mulher. inclusive através de esparsas referências à irmã (aos beijos de minha irmã. Nesse poema estão fixadas as linhas principais do tema. lírica amorosa. haja ou não a correlspondência física de um amor real. apenas confissão. como na "Canção do Exílio".A pudibunda virgem do meu sonho/Seria minha irmã!. a sua imagem do amor. elevando um hino a êsse grande amor ("Minha Mãe") . sobretudo da rosa. "Moreninha" é exemplo do segundo caso. dentre estas. inicialmente encontram-se ligadas à necessidade que o poeta sentia de ampare e trazem.

. não a determinada mulher contra cuja inocência houvesse realmente tentado. Ao clamor que aquêle símbolo impoluto. à môça-donzela símbolo da adolescência-romântica. do condor das asas? .. que frieza aquela!" Como te enganas! meu amor é chama Que se alimenta no voraz segrêdo.Tu te queimaras.. .desfolhou-a o vento!. .eu mêdo!.qu'é da minha c'roa ?..como um vão lamento. Oh! não me chames coração de gêlo ! Bem vês: trai-ma no fatal segrêdo.. o amor abençoado. desperta no febril delírio. Tôda ela gira em tôrna da . aquêle capaz de transformar a mulher possuída em filha do céu.Olhos pisados ... E se te fujo é que te adoro louco. Por ela. Das vestes alvas. então. . Tu perguntaras: . machucara com meu dedo impuro As pobres fl8res da grinalda virgem ! Vampiro infama.eu m8ço. . 3 Manuel Bandeira. 8s bela . a pisar descalça.. És bela . . O poeta pedia perdão. que seria da pureza d'anjo. eu sorveria em beijos Tôda a inocência que teu lábio encerra. elevava suas preces: "Senhor! mil graças eu vos rendo agora!/ Vós protegestes com o manto augusto / A doce virgem que a minhá alma adora!" Tal é a psicologia do amor do principal das composições de Casimiro de Abreu.. de mulher digna de ser amada cedesse aos seus ímpetos ardorosos. Apresentação da Poesia Brasileira. porque no seu canto procurara desnudar-lhe e possuirlhe o corpo.mêdo! . o poeta pediria que o perdoasse a virgem dos seus sonhos pelo quanto se manifestava lascivo o seu comportamento imaginário ( "Perdâo" ) . O seu mêdo seria o de transformar o amor puro das almas inocentes em lascívia.Meu Deus! que gêlo. Por isso. 9e de ti fujo é que te adoro e muito.. mas a tôdas as virgens do mundo. eu . de 1946. . Ed. 76. perdendo por isso mesmo o trono que lhe erguera e nêle a colocara como sua visão ideal: . Eu te diria: . tens amor. Depois. criado por sua imaginação. quando só a deveria ter desejado com amor nubente.eu mdço. E tu serias no lascivo abraço Anjo enlodado nos paúis da terra. p. tens amor .s8bre um chão de brasas ! No fogo vivo eu me abrasara inteiro I Ébrio e sedento na fugaz vertigem Vil. Em transformar o sonho no prazer sensual destruidor do amor santo.Criança louca .. maculando-a com amor espúrio.

êsse é outro sentimento fundamental. . quanto depois. da expressão de um amor verdadeiro . mas real . porém. Na poesia de Casimiro de Abreu. Sem fogo para amar E a fronte jovem que o. Francisco Manuel de Melo 5. mas fora da linha do sonho.. Dorme-se môço e despertamos velho. . Pela linguagem e pelo sentido (e note-se que a palavra flor.. É interessante notar.amor por alguém existente e não apenas manifestação de sonhos genéricos da adolescência. que ao menos uma vez Casimiro de Abreu compôs. interpretando a adolescênciaromântica e sua reação contra a realidade da vida. apenas acompanhando a expressão do sentimento na poesia de Casimiro de Abreu. Da temática do amor. a doce virgem pensativa e bela. dentro da temática do amor. êle não os desejava para suas virgens. aliás. A pálida mulher Das minhas fantasias . . mármore" dos bordéis. nenhuma felicidade o homem encontraria.. Sem nenhuma preocupação etimológica. Ronald de Carvalho 4 considerava-o. . Esses prazeres.. para com ela construir tôda uma linha poética.. reclinada sôbre um colo impuro. não representa imagem de pureza. . No vocabulário usado pelo poeta nessa composição não há sonhos nem virgens. mas ternura de tratamento) êsse poema talvez constitua o único exemplo. Tanto antes dêle.pesar sombreia Vai.A pudica vestal Que eu criei numa noite de delírio Ao som da saturnal. na obra do poeta fluminense. ("Horas Tristes") Em tôrno de um sonho que êle traduzia em poesia.. à da saudade. talvez não tenha havido poeta que melhor se apropriasse da tradição semântica da palavra saudade. A terrível realidade em que Murcha-se o viço do verdor dos anos. apenas dor.. Jamais poder-se-iam confundir com as "mulheres de. Trata-se do poema "Cena íntima". pode-se verificar que suas composições cobrem tôda uma gama de significações através das quais a palavra evoluiu até alcançar a "generosa paixão" de que fala D. "a quem .romântico. linda filha do meu sonho. Dormir no lupanar! Aí. uma só vez empregada.. "o mais esquisito cantor da saudade na velha poesia brasileira".

quanto daquele estado de alma a que se refere Antenor Nascentes.abandonando quaisquer outras significações. de resto. .instintivamente. Esse complexo tanto aflui das manifestações de solidão e desamparo. p. sem dúvida sentimento correspondente à evolução da palavra. . alvo e cheiroso. sem. 6 Carolina Michaelis de Vasconcelos. pelo clássico português. E da longa conceituação de saudade. 140. assi a Saudade modesta e regulada dá indícios de hum Amor fino. Rio de Janeiro. e por isso tão sutil que equivocamente se experimenta deixandonos indistinta a dor da satisfação.amor e ausência . a pátria. encontram-se na poesia de Casimiro de Abreu. destaquem-se êstes trechos: "hua mimosa paixão da alma. . p. e nas formas vocabulares precedentes. 1926. passou ao do sentimento de quem se encontra solitário. estudando a evolução da palavra saudade: "Do significado de solidão e desamparo. longe daquilo que ama. formando o que se poderá chamar de complexo da saudade. a estas dando desusado vigor pelo retôrno às origens. Quase todos ou mesmo todas os matizes da saudade . "Não necessita de larga ausencia : qualquer desvio lhe basta paia que se conheça. na qual. 7 4 Pequena História da Literatura Brasileira. op.sòmente nós sabemos o nome. compõe a sua expressão da idéia. Rio de Janeiro.conforme os assinala e descreve Carolina Michaelis de Vasconcelos. roubar à palavra aquêle encanto de que tem primasia a língua portuguêsa entre as demais. . trocasse a outro mayor contentamento. e hum bem que se padece. A Saudade Portuguêsa. . Daí guardar sua conceituação (aferida do emprêgo que faz em sua poesia de saudade) antigas e novas significações. tudo quanto se contivera e se continha em saudade. chamando-lhe Saudade". contudo. cit. 1932. Assim. nem sempre usa especificamente a palavra saudade e sim imagens correlatas. 259. Alves. Assi prova ser do natural apetite da união de todas as cousas amaveis e semelhantes. quando fenece. 7 Dicionário Etimológico da Língua Portuguêsa. ou ser aquella falta que da devisão dessas taes cousas procede". s E D. 142. He hum mal de que se gosta.. Já Casimiro de Abreu teve .da primitiva idéia à atual . mas não que formalmente se extinga. Francisco Manuel de Melo resumia as causas da saudade em duas idéias . 5 Carolina Michaelis de Vasconcelos. casto e puro. a família". 1922 p. ella he hum suave fumo do fogo do Amor e que do proprio modo que a lenha odorífera lança hum vapor leve. .

o estado da pessoa que está só ou solitária. em suas palavras: "a saudade havia sido a minha primeira musa". carencia. Todbs os desabrimentos. e o de soidade suidade foi retirado do representante moderno e trespassado a soidão solidão. o lar e a família. de Garrett a Antônio Nobre. 72-73. em abstrato . lo Na introdução às Primaveras. 75-76. falta.. ou de que estamos ausentes. melancolia Finalmente chegamos àquele dó de alma que se costuma apoderar de quem está só e senheiro. abandono. designa sobretudo o vácuo nostalgico ou peso esmagador que nas ausencias dilata ou oprime o coração humano . a vontade de volver a desfrutá-lo no futuro. ou o bem-amado. nascido da fusão de soidade com saudadesalutate saudar saude saudações. (Heimweh. sem companhia.. começou o poeta por falar do seu isolamento e . misterioso e apaixonado e melancólico se desentranha da alma nacional". quer apartada do mundo. referindo-se à separação da "idéia originária" entre saudade e solidão. e desejos da solidão. pelo arranhar da consciência (o "gato" de Heine) .agravado. e o de desamparo. leiam-se algumas passagens de "A Saudade Portuguêsa" : "Soedade designava um . pode ser: tanto a terra em que nascemos. mingua. e de Camões a Garrett. a npstalgia. e desejo e esperança de tornar a gozai dele b ) expressão dêsse afecta dirigido a pessoas ausentes.. quer no meio do mundo. quantas vezes. 8 idem. Correia de Oliveira e Afonso Lopes Vieira que encheram a saudade de tudo quanto de vago. lugar ermo. tristeza. Ao expor o seu sentimento. mas tombem de coisas necessárias ou desejadas. pp. 8 Adiante. e mesmo a de possuir aquilo que nunca se possuiu: a bem-aventurança. o desejo de revêr o honre. Por extensão designa o mal de ausencia. sweet honre). a mesma autora. de Bernardim Ribeiro a Camões. foram os poetas. ficou apenas com os sentidos derivados de a) lembrança dolorosa de um bem que está ausente. Do sentido isolamento derivaram muito cedo outros empregos abstratos: o de auscncia. como a bem-amada.Para que bem se possa justificar a afirmativa. o céu". aproveitado e efusivamente reconhecido o bem que possuíamos". 9 pp. revelaria Casimiro de Abreu que o seu nascimento como poeta havia decorrido da saudade. a mágoa (conforme já defini a saudade) de já não se gozar um bem de que em tempos se fruiu. os companheiros da infância. Psse bem desejado. 9 Concluindo: "O sentido primitivo de soedade-solitate. Teixeira de Pascoaes. ou. "esse representante moderno. não só de pessoas. pelo remorso que nos acusa de não havermos estimado. Com respeito a esse sentido. 10 pp. cuidados. ausente. acrescenta: "Uma vez feita esta separação. face à posterior análise poética. 74-75. Mas também significava isolamento.

pois seus amôres lá ficaram. Ainda no poema que intitulou "Saudades". De igual modo. . no poema "Canção do Exílio". provocou a nostalgia. Tão sòmente a solidão. o sentimento lhe nasceu da solidão sem ausência. naquele cenário do qual êle. a solidão em meio a natureza. somando-lhe ao significado as demais sensações. Nessa passagem. . à sensação de ausência . bàsicamente. independentemente de qualquer lembrança ou sensação de ausência. E bem fixou essa sensação de ausência ao descrever o êrmo que a provocou: "Era tarde. Era a hora da merenda em nossa casa e pareceu-me ouvir o eco das risadas infantis de minha mana pequena! As lágrimas correram e fiz os primeiros versos da minha . mesmo quando em nenhum exílio ae encontrasse. pois não se encontra distante do solo amado. humanizado pelo poeta. / .da falta que então sentiu do lar paterno. É a idéia original de solidão integrada no significado de saudade. atingiria o proscrito os "Suspiros dessa saudade / ( . as sombras estendiam-se pelo leito dos vales é o silêncio tornava mais solene a voz melancólica do cair das cachoeiras. logo de . não um desterrado.a saudade havia sido a minha primeira musa". era um ausente. onde se referiu. Assim. suspira.início. / Suspiros o sabiá!" O sabiá é apenas um solitário. ) . nas quais de longe ouvia.Saudades da minha terra!" através do doce meditar "Nas horas mortas da noite / ( . nela integrado. / Daqueles campos natais!". mas não a ave: "Onde canta nos retiros / Seus suspiros. mesmo para o ser que. face apenas à natureza. não se poderia apartar a idéia de solidão da idéia de ausência ou lembrança para bem se entender a saudade do poeta. ) Nessas horas de silêncio. "O sino do campanário / Que fala tão solitário". "Oh! que saudades tamanhaq / Das montanhas. O êrmo.dos meus amôres. .Saudades . a cena que o seu espírito romântico transmitiu em poesia já lhe provocara o estado psicológico que também exprimiu no uso da palavra saudade. e do pranto provocado. tal como no caso anterior. dentro da idéia traduzida pelo significado dito moderno da palavra saudade. no entanto. / De tristezas e de amor". além dos mares e em que dizia. que entitulei Às Aventaria: . Em "No Lar". o poeta. nostálgica mesmo sem exílio. apesar de o sentimento corresponder ao significado mais comum de saudade. portanto. o crepúsculo descia sôbre a crista das montanhas e a natureza como que se recolhia para entoar o cântico da noite. mas apenas só em sua própria alma. sua manifestação pelo canto já é de saudade para a sensibilidade do poeta. . o sabiá.vida. a compõe. é interessante notar a estreita ligação que o poeta mantém com .

a ausência. . o desaparecimento da saudade. Queixume do mar que rola. a imagem da primeira estrofe não é a do ser cuja dor resulte da ausência daquele algo desejado. Cantiga em noite de lua Cantada ao som da viola ! . ) Folguei nos campos que meus olhos viam".163 "Foi aqui. contudo. porquanto continuava só: . divina.a cessação da ausência . nos versos: "No mar . . Todavia. e sobretudo naqueles versos em que. já descrevendo as sensações do retôrno . Canção de santa doçura Da mãe que embala o filhinho! .Calado e só . .recostado Na pedra dalgum caminho. No poema "Assim!". mais longe.a idéia de solidão. constituiu para formar um só sentimento: Vozes de flauta longínqua Que as nossas mágoas aviva. A alma sentida do poeta seria "A dor do nauta / Suspirando no alto mar". Seria a rôla sem ninho ou o mesmo que a barca perdida. além. no qual é caracterizado o ser que vive permanentemente em saudade (malgrado Casimiro de Abreu não empregar essa palavra) a dominante é o aspecto da ausência. / que eu sentei-me a chorar no fim do dia". foi ali. Como o lírio assim sou eu ! Já em versos de "Fôlha Negra". Saudades do pegureiro Que chora o seu lar amado. ... Repetem-se comparações dando ênfase a essa idéia. a saudade é um sentimento que decorre e se confunde com a solidão: Viste o lírio da campina? Lá s'inclina E murcho no hastil pendeu! .de noite .solitário e triste / ( . . . .Viste o lírio da campina? Pois. .Abreu. a solidão e o amor e amalgamaram Nem sempre. .. Soluço da patativa.. Nela.não demonstrou.

"Meus Oito Anos".. desbotada.saudade . nela encontrando tudo quanto de possível houvesse na natureza. o exílio e a falta que sentia do carinho materno são as dominantes: Da pátria formosa distante e saudoso. flor . A terra pátria seria. em língua portuguêsa. Pálido emblema de amor. e. para êle. Um canto imenso de dor! Oh ! ~ esta . a mais importante composição.Minha Mãe! O trespasse do amor mal ferido a saudade o poeta exprimiu nestes versos de "No Álbum de Nicolau Vicente Pereira" : "Tudo muda com os anos: / A dor . resume. a pátria.a importância para criar sonhando . ainda. do que por ser moda do romantismo. / Também vou cantar a minha''. Muitas vêzes encontra-se na sua expressão apenas o aspecto denominado por Carolina Michaelis de Vasconcelos de sentido moderno. Nesse mesmo poema.porém. transformar-se-ia em saudade ( "Os Meus Sonhos").que tanto serviram à eloqüência de outros poetas de sua época porquanto era essencialmente um lírico. no entanto. "Três Cantos" e em versos de outras composições. pois . Nos primeiros versos de "Minha Mãe". na temática de Casimiro de Abreu. que também serviu de inspiração ao seu mais belo ou. Sem ter sido um cantor preocupado com os grandes lances políticos e sociais . Em "Rosa Murcha". É uma fôlha caída Do livro da minha vida. Sua axaltação foi puramente ufanosa e lírica.em doce saudade". talvez. relativamente ao tema . outros aspectos que merecem ser mencionados. rainha. em Casimiro de a manifestação integrada daquelas idéias. o complexo da saudade. cantaria a profunda tristeza causada pelo amor perdido: Esta rosa desbotada Já tantas vêzes beijada. Podem-se entender como uma confissão dessa origem os primeiros versos de "Minha Terra": "Todos cantam sua terra. do mais santo amor: . E quantos prantos também! Até mesmo a ausência do sonho . ao menos.na sua lira. o poeta traria a lume a saudade da infância. como em "O Quê ?". Há. Chorando e gemendo meus cantos de dor. foi objeto de sua poesia menos talvez porque o empolgasse. Eu guardo no peito a imagem querida Do mais verdadeiro. Quanta . ao seu mais famoso poema.

em verdade. decorrentes da idade c do momento histórico. Suas imagens são falsas. sob o título de "Sete de Setembro". em verdade.165 ção poética. a forma adequada de expressão de sua sensibilidade. entre menções ora à beleza. nada acrescentaria à sua obra não fôra a singeleza lírica das comparações. Na tentativa de filosofia da vida. por se conservar totalmente lírico.. naquelas ocasiões em que tentou penetrar nos mistérios da vida e de Deus. no sentido popular que lhe deu. amor e saudade. nas quais procurou situar fatos históricos como motivação da cria. do seu tempo. malgrado as deficiências porventura existentes. suas manifestações patrióticas foram sobretudo chôchas. antes dêle. o que principalmente lhe importava era ser o gigante Santa Cruz. sua construção não se sobrepõe ao prosaísmo. Pedro II. uma terra de amôres Alcatifada de flôres Onde a brisa fala amares Nas belas tardes de Abril. alcançar o verdadeiro conceito de poesia e ultrapassar a faixa quase infantil do sentimentalismo popular. por exemplo. variadas. quando quis manifestar a sua admiração pelos que. encontrou êle. conseguiu realizarse poéticamente. em "A Vida".. Avêsso à épica. não se poderá dizer que haja sido um poeta original no sentido de haver criado uma forma de expressão poética. esperança. à grandiloqüência e sentimentalidade chãs dos recitativos piegas dos saraus provincianos ou de escola primária. Nenhuma profundidade se encontrará. por circunstâncias várias que não vêm à oportunidade. e mesmo de agora. em sua poesia.no mundo. pela qual se revelariam os dons individuais de genialidade poética do adolescente. entre os que não conseguem. Fora da órbita do lirismo característico de sua poesia. como o exemplo das estrofes dêsse poema. hoje Brasil . Pelo exame da temática de Casimiro de Abreu. já as haviam cantado. Encontram-se. haviam tocado a . sim. a partir da nona. já em "Deus". seu verso é duro. que Deus fadou-a dentre tôdas a primeira. não pôde transformar em poesia as ansiedades face o mistério do Todo Poderoso. ademais. verifica-se que. Terá sido original. não tem igual. Todavia. ora à majestosidade das paisagens. diria. e as referências aos que. concebida no poema "A Vida". vivendo intensamente sua época. Se. antes do romantismo. As fontes de sua temática e de suas imagens foram. Mas. referências a Tomás Antônio Gonzaga. deixando de ser apenas o cantor do que na natureza e no homem se exteriorizava em primavera. E totalmente sensaborona é a composição dedicada a D.

ferver de idéias / Que a mente cala e o coração suspira". e Saudades". "Vida". "Cismar". finalmente. foi também. E antes de Casimiro de Abreu o romantismo já havia sido desbravado. "C . Com Almeida Garret muitas são as aproximações. 1836. Gonçalves Dias e Álvares de Azevedo. como o de "Rosa Murcha" "É uma fôlha caída". Conforme se vê. não constituíram criações em primeira mão do poeta fluminense.no qual o chama de poeta divino. de confundir poesia e dor da alma. "Sonho" ou "Menina e Môça". Também. os temas são idênticos. conforme se lê tanto no autor de "Suspiros Poéticos. quanto em Casizniro de Abreu. de pureza. De Álvares de Azevedo. de técnica e de elocução.de Abreu.lira no mesmo diapasão. Nem se poderá. Do primeiro. a saudade e os amôres fugidios. "A Cantiga do Sertanejo". p. e fragili= dade. e identificáveis. ". )J certo que ao romantismo não pertence a primazia do uso poético do suspiro como manifestação das tristezas dos espíritos apaixonados. Lamartine. "Pálida Inocência". Da mesma forma que Gonçalves Magalhães diria. o poeta também "Em vez de cantar suspira" ("Minha Terra") e o poema seria o ". dentre os poetas de língua francesa aquêle cuja influência terá sido da mesma extensão dos precedentemente citados . 287. como "Quando Eu Sonhava". quanto à temática. muitos títulos são os mesmos. em poemas como "No Mar". Não é só a admiração revelada no poema em sua memória . Aquela característica marcante do romantismo. de Gonçalves Dias e de Álvares de Azevedo. no seu "O Canto do Cisne": 11 "Meus versos são suspiros de minha alma". desconhecer a influência dos poetas franceses. e dentre êles. As aproximações são pressentidas em versos. cujos versos foram usados nas epígrafes de suas composições. aliás. em poemas como "Inocência". as flôres como símbolos do amor. nome que Casimiro de Abreu adotaria também em um dos seus poemas) e "Rosa Pálida". pelos quais. . os temas e as imagens já haviam sido de muitos poetas românticos. Anteriormente a êle. . as virgens sonhadas e de dourados sonhos de amor. O que se quer anotar é a adoção pela escola romântica da conceituação poesia-suspiro. . . dentre outros menos importantes. no Brasil. "Sonhando". como Ghateaubriand. não há diferenças fundamentais. pelo confronto da obra de Casimira de Abreu com alguns poemas de "Fôlhas Caídas". de Casimiro. no Brasil. ( "No Lar") il Suspiros Poéticos e Saudades. não ocultava as suas preferências. "Saudades" ( "onde Garret se dirige a uma certa Pepita."O Túmulo de Um Poeta" . por Gonçalves :Magalhães. para Casimiro de Abreu. Destaque-se. Lamartine e Victor Hugo. também.

E as virgens sonhadas. em certos meios quase anônimo". 12 História da Literatura Brasileira. estrofes. 284. canta-o. recita-o. encontram-se exemplos significativos. Ama-o.. há êste verso: "Morena . Casimiro de Abreu se destacou dos demais poetas pela circunstância de haver singrado. do amor do torrão e da mulher querida. 13 História da Literatura Brasileira. se possa dizer existir alguma inspiração em Tomás Antônio Gonzaga. nenhum outro lhe levar a palma da popularidade. no primeiro. conforme se observou de início. Com efeito.ou ainda maior. Estrofes. o que corresponde à observação anterior de José Veríssimo 13: "o nosso povo. idem. não por obra do acaso. p. p. versos e frases de Casimiro de Abreu. / Saltando a moita de murta / Mostraste.. E se já poucos se recordam da cena descrita pelo poeta. que são flôres.não tens rival!". 309. Pelo que é Casimiro de Abreu o poeta brasileiro que o nosso povo mais entende e a quem mais quer. J. Todavia. que bailam e que morrem de amor. fazendo-o um poeta popular. mas por coincidirem os sentimentos originários. Não sòmente fatôres temáticos terão determinado essa preferencia. os caminhos da expressão do sentimento do homem comum brasileiro. pelo menos até época recente. frases. e não se duvidaria de encontrar êsses três versos nas modinhas de fins ou princípio do século. são encontradas em "La Roso Fanée". também fatôres decorrentes da linguagem e da construção.. Ainda quando. primárias. grande é a semelhança de sentido e construção de versos de Casimiro de Abreu com os de "A Une Fiancée de Quinze Ans". malgrado essas influências quanto a características da escola a que pertencia. donde. sobrevivendo até hoje em marchas e sambas carnavalehcos. Com justeza afirmou Nelson Werneck Sodré 12 haver êle restituído "ao leitor médio aquilo que êste desejaria criar". Rio de Janeiro. tantas as modificações da moda feminina. 1960. não justificando mais a ansiedade masculina pela visão do pé da donzela. No mesmo poema. é certo que o fato teve sua época. Fenômeno idêntico ocorre com êste de "Noivado": "Vem! a noite é .. que ainda hoje pertencem à linguagem comum e ao cancioneiro popular. 3 â ed. em poesia. é na sensibilidade e nos ditos do comum do povo que se acharão as raízes dêstes versos: "Tu ias de saia curta. Olímpio. 167 achou por ventura em Casimiro de Abreu o mais fiel intérprete das suas próprias comoções elementares. versos. mostraste o pé!». Nos poemas "Moreninha" e "Borboleta". foram.

sobretudo diante da estrofe principal. das flôres brio Que em serena madrugada Abre o seio descuidada A doce manhan d'Abril ! . II. p. Porque és volúvel assim ? Porque deixas. Como a outra sôbre as flôres.linda. também. mormente aquela mencionada por Sílvio Romero 14 . dando ênfase a essa face do romantismo. Porque deixas tu a rosa E vais beijar o jasmim ? Motivo. imprópria para moços. não transpondo o que seriam os cânones de tratamento literário de assunto dessa natureza. sob eufemismos talvez por vezes excitantes . face a audácia das imagens. 14 História da Literatura Brasileira. Sua poesia. Rio de Janeiro. aquêle espetáculo de ninfas nuas correndo pelos bosques e pelas praias que provocara o grito de espanto de Veloso. o que produziria interêsse incomum. Em língua portuguêsa. a linguagem é abstrata e fria. tudo de preferência se ocultava. ls Apesar de certa objetividade descritiva. os versos de "Borboleta".Roupas de sêda que leva Alvas de neve que cega Como os picos do Gerez Quando em Janeiro lhe neva. ao tempo de Casimiro de Abreu. seriam raras. Tão comuns são. T. os encantos femininos eram objeto do canto poético 15: Tam ingenua. nem faltado o que se pudesse considerar irreverência. ao menos. Em nenhum se encontrará ( alguma exceção resultante de pesquisa mais perfeita não invalidará a afirmativa) a linguagem. poetas em que a exaltação do sexo houvesse servido à boa literatura.". ou. Todavia. teria algum sabor de leitura proibida.. altamente impregnada de sensualidade. 1903. 314. caprichosa.mas tudo de preferência se ocultava em delicadezas líricas..se encontra na linguagem. . tam formosa Como a flor. antes de Casimiro de Abreu. em sua época. como a de' Francisco Vilela Barbosa. por certo."tem sido o predileto dó belo sexo nacional" . do pintor diante dos seios da Mulher. usada na descrição de encantos femininos e de fatos do amor. o grande capitão. as estrofes do canto nono dos Lusíadas. que no leitor. que se nos afigura da maior importância para explicar a popularidade de Casimiro de Abreu. porém. não teriam faltado. se produz a sensação do folclórico: Borboleta dos amôres. corroborando o já despertado pela própria temática. despida de sensualismo. Descrições. de Casimiro de Abreu. Desde o cancioneiro medievo. que se poderá chamar direta. Famosos ainda seriam.

Gonzaga foi além das fixações pictóricas. Gonzaga também não se esquivou de falar nos beüos dados em Marr'lia. Todavia. Jesus!" E também em "Vida" cujas imagens conduzem ao momento da posse. que . contudo. e que correspondia e corresponde. 1848. escrever teus louvores nos olmeiros. nem o ardor do seu comportamento enamorado. de Pereira da Silva. foi Tomás Antônio Gonzaga.169 lar a natureza do seu sentimento. . porém. como . "Ai. Ed. sem abstrações. como em "Rosa no Mar!". p. a dos poetas do romantismo. 34. nem êsses nem nenhum outro poeta seu predecessor terá usado a linguagem de Casimiro de Abreu. Era mulher que ansiava pelos prazeres do amor e os seus seios o manifestavam ( "Lira 33" ) . como nestes versos que. no qual prevalece o abstrato das imagens. nova na poesia brasileira. à maneira concreta de expressão dos desejos de todos quantos. Ainda quando respeitosamente resguardasse a inspira.Aquêle que talvez haja. A linguagem de Tomás Antônio Gonzaga ainda não é.dora de seus poemas. p. em Álvares de Azevedo a linguagem é mais clara e sua sensualidade surge em atos declarados: "No Mar". empregado linguagem mais audaciosa. 1853. Foi a êstes que se desvelaram o sabor lírico e a intensidade sentimental das descrições dos encantos femininos e dos ardorosos instantes de amor. Marília não era estátua.malgrado quase sempre ser o seu amor um sonho e a mulher uma visão é direta. apresentando versos apenas prenunciadores ( "Sonho" ) . apesar do delicado lirismo das imagens. Romanceiro. ainda quando apenas em suas mãos. 16 Parnaso Brasileiro. toucar-te de papoilas na floresta. "Sonhando". 51. T. são de incontestável sensualidade: Propunha-me dormir no teu regaço as quentes horas da comprida sesta. Talvez apenas fruto do anseio do adolescente face o despertar do sexo. antes do romantismo. na sua simplicidade. não ocultou o encantamento que lhe produziam os seios da amadas nem o calor dos seus desejos. E ao lado de versos realizados de acôrdo com os padrões até então usados ( "Lira 97" ) . I. Com efeito. em outros os seios da amada constituíam objeto concreto para o amor ( "Lira 76" ) . como parecia ser a musa de Francisco Vilela Barbosa. alguns de seus versos trouxeram nova contribuição de sensualidade à poesia escrita em língua portuguêsa. com riqueza de detalhes descritivos. Nem deixou de reve15 Almeida Garret. Se Gonçalves Dias ainda é um poeta cerimonioso.

constituía quase sempre o prelúdio do ato amoroso. em seus versos. afagava-os. "Na Rêde". "Lem bras-te?". "Noivado". Casimiro de Abreu usou de imagens poéticas. Passagens de À Ilha da Maré. e que hoje poderão parecer vulgares em literatura. "Sonhando". A crítica tem realmente reconhecido tal intenção no emprêgo dêsse vocabulário e na descrição das cenas brasileiras. a ~ "Lira 26". Vejam-se os seus versos mais exemplificativos em "No Lar". Nêle não havia apenas o encontro superficial dos lábios. dando largas à imaginação dos prazeres do sexo. à época terão constituído audaciosa poesia. "Desejos". "Meia »«« "Violeta". a qual pelo fato já assinalado de ir de encontro à sentimentalidade e à sensualidade da maioria do povo. mas bôcas a sorverem-se apaixonadamente. "Pepita". ora se anunciaria na carícia dos cabelos. há o aspecto do emprêgo de palavras relativas à paisagem brasileira. são bastante elucidativas. Noite % Amor-. Nem só os contemplava. afora as suas qualidades poéticas inegáveis. Desde o tempo de colônia. "Moreninha". mas que ainda brotam do espírito amoroso do adolescente. "Palavras no Mar". Sem dúvida. Ainda no terreno da linguagem. No entanto. desejou dizer tudo quanto dizer pudesse em sua linguagem lírica. e em muito 170 haverão de ter contribuído para a súbita divulgação da obra de Casimiro de Abreu. a idéia de poesia nacional se confundiria com o uso abundante de palavras representativas da fauna e da flora brasileiras. Suas descrições não foram de cru realismo. dentre outras. se perpetuou. Os seios da mulher surgiam como maravilhosos monumentos ante os seus olhos. nesses poemas. não procurou ocultar. Suas imagens. ora se revelaria no quedar de amantes entrelaçados à sombra de arvoredos ou seria a revelação do próprio gôzo em que a donzela entregava a sua virgindade. "Amor e Mêdo". por êsse só motivo. sobretudo na idade romântica. de Manuel Botelho de Oliveira e do Caramuru. de Santa Rita Durão.o poeta. saboreava-os. de . O beijo. "Segredos". ora no encontro de sua bôca com o seio da amada. "Quando Choras". pelo contrário. E o ato amoroso. files se lhe ofereciam intumecidos. se abismavam e se abismam ante a beleza física da mulher. muito exaltada havendo sido.

em que apenas a curiosidade ou a sonoridade da palavra. um se destacou sobremodo: o sabiá. porquanto deixou de ser.Gonzaga. assinalou Carlos Drummond de Andrade 18. as mangueiras. de Gonçalves Dias. no século XIX". êsse vocabulário se integra num cenário mui caro a tantos quantos tenham conhecido certa paisagem que hoje vai rareando à aproximação do progresso. 155. Da selva o vate inspirado. os cajuzeiros. Se em algumas ocasiões é pressentida a sombra do seu predecessor. escreveria: "Cremos que foi Nuno Marques o primeiro poeta a descobrir na espessura dos bosques meridionais. não 'pela simples enumeração. para constituir fator de beleza lírica. porém. O cenário da vida natural. confundidas com o campo". que sonhos. enumerativo. as borboletas. Naquelas tardes fagueiras A sombra das bananeiras. pássaros que nos distraem com seu canto e que apanhamos em armadilhas. Debaixo dos laranjais! ("Meus Oito Anos") Em sua poesia. Dentre os elementos da paisagem brasileira. Na poesia de Casimiro de Abreu. a ave que seria mais tarde a preferida dos nossos românticos. "entre árvores frutíferas. também cantou o sabiá. Na laranjeira pousado Soltava ternos gorjeios. p. 17 fixando a origem dessa associação. E não só com ela. . as palmeiras. mas com tôda uma flora e uma fauna enriqueceu o vocabulário poético nacional: as bananeiras. como na maioria dos casos anteriores. e o mais que compõe o quadro singelo das pequenas cidades do interior. como as que defluem dos famosos versos: Que amor. porém. Deu-lhe fama a "Canção do Exílio". as juritis e tantos outros. em outras o pássaro é um elemento inteiramente integrado no lirismo do poeta fluminense Quando Dirceu e Manha Em terníssimos enleios Se beijavam com ternura Em celestes devaneios. Mas foi no romantismo que o problema se situou poèticamente. que flôres. Todavia. Casimiro de Abreu terá sido o maior cantor. e Ronald de Carvalho. constituiriam o elemento da construção poética. Antes dêle. 17 Pequena História da Literatura Brasileira. O sabiá namorado. as açucenas. outros já haviam associado o canto da ave à expressão de sentimentos líricos. ("Minha Terra") Da laranjeira. mas através de um mundo de sugestões. os gaturamos.

quando ocorre a evocação de uma palavra nela outra. Há quem fale mal da adjetivação abundante. com o só objetivo de destacar para condenar a abundância e a vulgaridade da adjetivação. Bocage por exemplo. No caso de Casimiro de Abreu. por Casimiro de Abreu. pretender-se justificar històricamente o . não se poderá desconhecer que êsse estilo correspondeu à exigência de uma época e que nem tôdas as formas seriam. mimoso jardim. 1964. Em poesia. Rio de Janeiro. sobretudo da adjetivação do romantismo. Casa Rui Barbosa. o mais comum. certamente contribuirá. deve-se à circunstância de constituir o seu emprêgo.É êsse rura. 1955. porque indispensável à significação do substantivo é a impregnação daquela qualidade que êle lhe atribui. p. o estilo do romantismo não corresponde à atual tendência literária e certas ïormais se tornaram cansadas pelo abuso da seu emprêgo. passa por outros poetas. 50. ao uso desnecessário. Se muitas dessas observações se justificam.. doce virgem. O adjetivo torna-se então indispensável. em verdade. O importante não será.. virgem formosa. Vindo de longe (cf. não há como distinguir as palavras em melhores ou piores face a sua categoria. outras não passam de preconceitos nascidas do fato de existirem composições poéticas elevadas a modêlo de perfeição nas quais o adjetivo está ausente. numa lição que se 18 Obra Completa. contudo. esgotadas ou de má origem. santas ilusões. A critica à adjetivação é justa quando se dirige ao mau uso. laboram em equívoco aquêles que isolam expressões como rosas gentis. estro ardente.lismo poético que se encontra em "No Lar". e tanto isto poderá ocorrer com adjetivos ou com outra qualquer categoria gramatical. Se. 19 Obras de Casimiro de Abreu. para a beleza lírica. "Alma minha gentil. Vai aparecer repetidas vêzes. Aguilar. visão dourada. claros riachos e tantas outras. casto ninho. Aliás. O acompanhamento do substantivo pelo adjetivo. nem bastantes por si mesma para desmerecerem a poesia. ao tempo.. vale ressaltar a comentário de Sousa da Silveira 19 a respeito do uso de gentis. Rio de Janeiro. 515. que te partiste" de Camões). dos deslizes poéticos dêsse tipo. "Confissões de Minas". p. e adquire também freqüente emprêgo em Gonçalves Dias". O único critério legítimo de distinção é a sua adequação ao texto. E se aquêles foram sempre os mais focalizados. 172 aplica a tantos outras vocábulos semelhantes: "Adjetivo gratíssimo ao poeta.

traduzindo não apenas beleza . Essas duas idéias da qualificação êle ais completou.uso de certas palavras. Demais. igualmente intensa (o advérbio reforçando a idéia). Já no poema epígrafe de "Primaveras" encontram-se vários dêles. A cadência produzida pelas tônicas. conforme a locução comum horas tristes.sem que o caráter de obsessão destruísse sua pureza. não instantânea nem delimitada. O importante deixa de ser o momento. o poeta ressaltou a intensidade e a integração do sonho em sua vida.e novamente sobressai um adjetivo . alguns cujas características já foram apontadas e outros que a seguir serão. Ora. mas procurar verificar qual a sua contribuição ao processo encantatório. Também a substantivação do adjetivo. deu à amada. imprime mais fôrça à imagem. Na substituição de sonhos por cismar. se constatará que o adjetivo. mas responsáveis pela construção de alguns dos mais belos versos da língua portuguêsa. entrelaça o ritmo à expressão significativa de ternura da frase. aliás. passando o destaque à continuidade do sentimento: aquêle . não de desqualificação de sua poesia. Destaque-se o segundo verso. sem apagar completamente a sensualidade. a indeterminação das figuras santificadas.celeste beleza . Vir pelas horas é expressão de muito maior sabor lírico do que vir nas horas. certamente.mas algo a ser esperado. em horas das tristezas. de Abreu. pois sòmente sendo puro êle poderia corresponder à imagem concebida do ser amado. Tu vinhas pelas horas das tristezas Sôbre o meu ombro debruçar-te a mêdo. a outros recursos de linguagem. no exame da técnica de composição de Casimiro. usando o qualificativo em função de uma abstração e não de uma realidade feminina. em sua imagística. a troca da preposição dá àquela presença. a vaga flutuosidade apropriada às visões. e de um pensamento obsessivo e não apenas de um sonho ocasional. O elemento encantatório dêsses dois versos se encontra. sobretudo pelo acompanhamento do adjetivo dourada. associada às assonâncias da 21~ e 9k1 sílabas e da 4~ e 8â. Falo a ti . o adjetivo foi um dos elementos. na construção sintática. Ao substituir virgem por visão. mais do que desejado. O poeta valorizou a idéia de sonhar com mulher-môça. mas . associado. Visão dourada dum cismar tão puro.doce virgem dos meus sonhos. na seqüência da estrofe: Que sorrias por noites de vigília Entre as rosas gentis do meu futuro.

Assim. onde sobressai. dos três primeiros versos. no entanto. Palmas na fronte . de mecânico e irrefletido. passa a ser essencial. Chora. No segundo verso. porque tem prantos.no regaço flôres ! A complementação que o poeta deu ao primeiro verso. sim. o uso pouco comum da preposição a. valorizado pela simples supressão da preposição de entre fala e amôres. com seu colorido e perspectiva horizontal e vertical. Em "Minha Terra". por transformar o gesto e o sentimento. Queria de harmonia encher-te a vida. Versos há. em debruçar-te a mêdo. Sem êle . em carinhoso aconchego de amor. sobretudo. o verso ornamento. Deu-lhe êsses campos bordados. além do ritmo devido à repetição do verbo. através da delicadeza da vestidura simbólica pela qual se . dando à frase o tom de arcaísmo. torna poético o que poderia apenas ser conceitua). E são sentidos e santos Se chora pelos encantos Que nunca mais há-de ver. a representação da paisagem. numa evidente busca de rareza expressiónal.de resto belíssimo na sua singela realização . podem ser colhidos êstes exemplos Onde a brisa fala amôres. correspondente à diluição de qualquer esperança de retôrno. a fim de servir à significação do segundo verso: a necessidade de satisfação do viu puro. cujo efeito lírico o poeta obteve. à cadência diluente do último verso. Ai de mim . em Casimiro de Abreu. nos quais procurou justificar as reações de revolta sentimental do exilado.se o relento de teus risos Não molhasse o jardim dos meus amôres ! O achado lírico de Casimiro de Abreu está em haver criado 0 símbolo do relento para o riso da amada. produz todo o encantamento. portanto dispensável à apropriação do sentido.define o seu desejo.pouco restaria da imagem em têrmos de poesia. de amor no devaneio de suas tristezas. que se desfaçam pela beleza dos efeitos sonoros obtidos através de aliterações e assonâncias: . farto e multiforme amor. pela repetição do verbo. Não só e mais do que pelo ritmo que permite ao verso. passando do ritmo modulado. pelas aliterações dos fonemas te e se. e.permanente viver. pela rima. Deu-lhe os leques de palmeira.

cachoeiras altas. Cantai. correi. em "última Fôlha". Perfumes da floresta. Assim. encontram-se igualmente alguns dêsses extraordinários momentos poéticos de Casimira de Abreu. brilhai . tanto pelo . Macedo Júnior") Em outros versos. Da luz. sabiás da praia. Nuvens douradas que correis no ocaso. brisas das montanhas. Ondas tranqüilas que morrais na areia. na abundância dos objetos apontados. pela qual. de tudo. se revelam a razão e o mundo de suas alegrias: Oh! céu de minha terra .atributiva.minh'alma em ânsias Treme de gôzo e de prazer desmaia ! ( Notem-se a essencialidade e a excelência da construção . Das horas longas a correr velozes. Névoas da tarde que cobris o monte. dando às imagens a plasticidade das visualizações. No poema "No Lar". Bem-te-vis do campo. na recordação dos tempos de criança: Beijando em choros êste pó da infância! A enumeração de fatos da paisagem pátria. O seu viver em ansiedade. Também em "Amor e Mêdo" Tenho môdo de mim. Aquela concretização de lembranças em suas retinas: Folguei nos campos que meus olhos viam. J. no verso A doce virgem se assemelha às flôrec. Mansa lagoa que o luar prateia. vozes doces. revelando pela disposição verbal estados de alma ou transformando o conceitua) na mais pura expressão lírica.azul sem mancha Oh! sol de fogo que me queima a fronte. Claros riachos.Sonhando êsses sonhos dos anjos dos céus ("Minha Mãe") Já dorme o sono profundo E despediu-se do mundo ("Rosa Murcha") Do nardo o aroma e da camélia a côr ("Perfumes e Amor") Vive e canta e ama esta natura ("A J. do chorar das fontes. elevou-se o poeta além do ritmo e da musicalidade da frase.. Aves dos bosques. da sombra. Das fôlhas sêcas. do silêncio ou vozes.. C. de ti.

a feminilidade do tímido e recalcado poeta. no verso em que retratou o sofrimento de certa mulher face a morte simultânea do marido e do filho. buscando compaixão. revelou a face artezanal do poeta.uso direto do qualificativo. p. Através dêle. lânguida ou nervosamente nos braços de outro". Rio de Janeiro. a sua melancolia. Quer pela raridade do verso de duas sílabas. Esse é. a mais ontológica. ("No Túmulo dum Menino") E também na singeleza verbal da descrição do alvorecer da vida: A natureza se desperta rindo.. 1281. traçou excelente retrato psicológico de Casimiro de Abreu. ainda. na aurora apenas. ibid. tantas vêzes antes negada. Disse adeus ao brilhar das açucenas. como pelo relacionamento preposicional e pelo emprêgo de orações adjetivas). si só.Estátua da aflição aos pés dum túmulo! ("Bálsamo") liem como na fixação em imagens das tristezas da alma e do sentimento da morte: Minh'alma é triste como a flor que morre. o qual. Carlos Drummond de Andrade 2°. onde a "amada rodopia. 21 Poesia e Prosa. 518. em estudo relativo à métrica. habitualmente classificado como imitativo. p.uma elegia: . Também Manuel Bandeira 21. desvendando daquela cena de baile. . quer pela excelência de sua arquitetura. ("Minh'Ahna é triste") . o poema tem sido objeto de depetidas apreciações. Vol. ao desta20 id.. II. sob o aspecto do ritmo.Lírio pendido a que ninguém deu prantos! ("Berço e Túmulo") Um anjo dorme aqui. ("Primaveras") Como exemplo de encantação obtido sobretudo através de processos rítmicos„ destaca-se na obra de Casimiro de Abreu o poema "A Valsa". "De Poetas a de Poesia". sem dúvida. das suas composições. 1958. comparando-o com poema semelhante de Gonçalves Dias. aquela satisfação em só deplorar e disfarçar a dor. Agutlar. vale . por. Aquêles mesmos efeitos poéticos encontram-se.

São Paulo. 1841 . Educação e Cultura. Gonçalves Dias e Laurindo. Todavia. e Rio de Janeiro.. 1940. Min. 19. constituindo versos desde duas sílabas até doze. Bastante exata. escrevendo lentamente o seu extenso poema. Seus poemas obedeceram sempre a um determinado metro tradicional ou a uma combinação dêles. mais nada produziam. quando apareceu seu primeiro livro (Noturnas. p. um dedicado quase que exclusivamente à filosofia.cor a abertura . 1955. contudo. rimando das mais diversas maneiras. fêz estudos primários sem regularidade. Comp. à moda do romantismo. o outro calado. nas duas edições 23 da obra do poeta fluminense publicadas sob a sua responsabilidade. Esse assunto. E dentro dêsses esquemas. é a observação de Silveira Bueno 22: "Querer. Saraiva. um opúsculo de apenas 32 páginas). porém. Editôra Nacional. quer por se apoiarem em textos tipogràficamente imperfeitos. 1875). vale ressaltar o trabalho de Sousa da Silveira. em seguida ao final esdrúxulo dos versos nove e onze da estrofe nona. Caaimiro de Abreu e Junqueira Freire tinham emudecido no sepulcro. Casa Rui Barbosa. Poesias Completas. a torto esfôrço. quer por não atentarem para as características específicas do romantismo. cujas anotações desfazem inúmeros julgamentos precipitados daqueles que apontaram erros demasiados em sua poesia. E como exemplo de lucidez na apreciação do problema. 22 Obras de Casimiro de Abreu. prematuramente cansados e próximos da morte. menos por ignorância da versificação portuguêsa do que pela despreocupação em ser rigoroso. Magalhães e Pôrto Alegre ainda viviam no estrangeiro. já foi objeto de muitos debates. em outros desapercebidamente. Província do Rio de Janeiro. FAGUNDES VARELA A posição de Fagundes Varela na cronologia do Romantismo já foi acentuada por vários autores: em 1861. apresentar Casimiro de Abreu sem defeito algum é tese absurda como absurdo também seria o propósito de só ressaltar seus pontos fracos de linguagem e de técnica".Niterói. (*) Luís Nicolau Fagundes Varela (Santa Rita do Rio Claro. em vogal e a quebra de verso usadas. se permitiu tôdas as liberdades. tendo . 1961.. a fim de não sacrificar o ritmo. tanto quanto o das possíveis impropriedades gramaticais. Alvares de Azevedo. "a poesia brasileira estava completamente muda. Luís Delfino não se havia ainda revelado o potente lirista que veio 22 Casimiro de Abreu. São Paulo. por certo conscientemente em inúmeros casos. Casimiro de Abreu não fugiu à regra geral do romantismo no que diz respeito à técnica da versificação e aos esquemas silábicos.

Fagundes Varela foi quem tomou aos ombros os encargos da arte essencialmente querida dos brasileiros". havendo até certa semelhança nos dois versos iniciais ( "Na sala espaçosa. 0 indianismo .é em Varela puramente acidental e sem maior expressão.177 a ser no correr dos últimos trinta anos. cobertos de flôres" ) . tenta prosseguir os estudos no Recife. A do primeiro e do último haveria de diluir-se com o tempo. aos vinte anos. com a filha de um proprietário de circo. E ao índio. cujos "tacapes e borés" êle ironizou no prefácio dos Cantos Meridionais. Em 1860.tal como se pode observar no poema "Esperança". Mas em "Mauro. cercado de escravos / nascidos nas selvas. Se a aparente ingenuidade de Cayimiro de Abreu transparece nas do pai. A reduzida influência de Gonçalves Dias se fêz principalmente sôbre os padrões métricos e a técnica da poesia narrativa. matricula-se novamente na Faculdade de São Paulo. em Rio Claro. mas no mesmo ano morre-lhe a mulher. diz Varela. o bucolismo. trouxesse a marca dos três grandes poetas do Romantismo que o antecederam: Gonçalves Dias.aos 10 anos viajado com o pai para Goiás. Nada mais natural. e voltar para a fazenda . que o livro de estréia de Varela. Tendo vivido muito mais tempo do que Álvares de Azevedo e Casimiro. sendo o seu índio ainda mais impreciso e fantástico do que o idealizado pelo cantor dos timbiras. robustos e bravos". continuou levando vida errante até o fim da existência. por exemplo . no meio do ano. Álvares de Azevedo e Casimiro de Abreu. e muito umidamente. conseqüentemente. Compêndio de História da Literatura Brasileira) . . da mais romântica biografia do nosso Romantismo. (Sílvio Romero e João Ribeiro. Em 1866. Varela pôde deixar obra mais extensa e. Em 1865. por exemplo. êle prefere a figura do escravo. Apesar de nôvo casamento. matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo. portanto. predominam a métrica. na poesia. para abandonar definitivamente os estudos. a narração. mais variada: o subjetivismo byroniano. em 1862. o misticismo e até a preocupação social misturam-se nesse poeta de vida atormentada. e Gonçalves Dias: "No meio das tabas de amenos verdores / cercados de troncos.talvez fôsse melhor dizer a marca da época . o mesmo ritmo anfibráquico e a mesma estrofação do início do "I-Juca-Pirama". em condições extremamente rudes. o escravo" (de Vozes d'Amêrica).permaneceria em quase tôda a sua obra. e desiste. não interrompida nem mesmo pelo casamento. cujas aulas pouco freqüentou. Machado de Assis começava apenas. preferindo a vida boêmia. Destarte. retocada e aformoseada como convinha ao gôsto romântico. sòmente a de Azevedo .

5 fev. (supl. 1863. sempre na peregrinação de que tanto se queixava. 1869. retomando o mesmo poema: Minh'alma é como um deserto por onde o romeiro incerto procura uma sombra em vão. 1869. 1865. Rio de Janeiro. 1939). 1880. Garnier. Aquêles versos de Noturnas: De plaga em plaga como o hebreu maldito refugiei-me em vão. Editôra Cultura. voltara a São Paulo. é como a rocha isolada. É como a ilha maldita que sôbre as vagas palpita queimada por um vulcão! Já então perdera a mulher e o filho. 1864. e Varela poderia repetir a sério. C. Briguiet. pelas espumas banhadas. Rio de Janeiro.. (in Federação Acad. 1875. mas que nunca procurou deixar. Araújo. 1943. preparada por Atílio Milano. Minas. Ataíde. Ariel.. de (in Poesia brasi178 cenas de roça e nas descrições bucólicas. 3 vols. O Evangelho nas selvas. T. F. de. estivera em Recife. Cantos do êrmo e da cidade. VIII. (in Confissões de. Era o mal do século. Americ-ed. 1943. Rio de Janeiro. em 1869. Consultar: Almeida. Letras do Brasil. O diário de Lázaro. que aos vinte anos já fazia Varela lastimar-se: Minh'alma é como o deserto de dúbia areia coberto. leira contemporânea. Valverde'. o desejo de morte. P. Z. d. de. dos mares na solidão.Bibliografia: POESIA: Noturnas. Ernestina Fagundes Varela). . 1861. E a insistir. já o pessimismo violento. D. M. 3 vols. 1945). 1886-1892. Cantos e fantasias. buscando d'alma expulsar o pesar que me roía! mostravam-se estranhamente proféticos. O estandarte auriverde. Belo Horizonte. o que em 1861 dissera talvez por simples atitude literária: "Vi minha vida desfazer-se em fumo". batido pelo tufão. São Paulo. oito anos depois. Obras completas. Cantos meridionais. preparada por Visconti Coaraci: Rio de Janeiro. 1878. Poetas fluminenses. Andrade. (in Boi. Rio de Janeiro. ou o Evangelho nas selvas. Autores e livros. PósTOMOS: Cantos religiosos (em colaboração com a irmã. Bluhm. A. 1941). a amargura e o sofrimento sombrios mais o aproximam de Álvares de Azevedo. Anchieta. Vozes d'América.. 1939).

Acad. Rio de Janeiro. l. 24 agô. A. o cantor da natureza. C. de Obras completas. 1940. de. n.a ed. a "incompreendida". vol. fev. 1917). 1931. n. set. 1944). S. Fagundes Varela. II. vol. prêsa a alguns pretextos já na época bastante explorados: a solidão. de. Letras. Brasil. e a qualidade elegíaca de acentuada simplicidade e indiscutível autenticidade. A. o byroni"o sombrio que se aproxima do ultraromantismo. Rio de Janeiro. 1926). Nem era possível esperar que. 1945). out. Brasil. 1922). J. Paulo. E. Rio de Janeiro. O Diário de Lázaro (in Rev. (in Rev. Melhoramentos.. O byronismo de Varela reduz-se . 1938). Martins. idem. O poeta Fagundes Varela. Flum. o desejo de morrer. vol. 1886. (in Rev. Magalhães Júnior.179 Na poesia subjetiva de Varela delineiam-se duas tendências quase opostas: a grandiloqüência. 1-4. Fagundes Varela (in Rev. com a vida dispersiva que levou e a escassa cultura . 7. voluntária ou forçada. jun. A. Paulo. Fagundes Varela (in Rev. 1943). P. Letras. e que tem no "Cântico do Calvário" uma das mais altas expressões. São Paulo. 1943). Liv. maio. (in O Estado de São Paulo. Mota. Poesia e Vida de F.° 77.a uma temática pobre. Buarque de. Ramiz Gaivão. Rio de Janeiro. Azevedo. Holanda. vol. Interpretação de Fagundes Varela. São Paulo. Martins.. Niterói. Fagundes Varela (in Rev. M. Távora. (in Prefácio da 1 . Paulo. Mota. Vicente de. S. V. Lisboa. Lima. (in Cobra de vidro.. 5. Rio de Janeiro.. n° 7. Rezende.lit. 1923. Garnier. 16. prazer em ostentar desperdício da vida. S. Paulino Neto. Fagundes Varela. Fagundes Varela.a fase.. Vilalva. sua obra.. Helios. abril. B. 1928). 1). o que não impede que se lamente (e não poucas vêzes) de tê-la desperdiçado. F. 3. 1941. idem. Oliveira. 1950). de. F. Mota Filho. Cavalheiro. Pongetti. n . Fagundes Varela. Haddad. O. sua glória. 3.. idem.a fase. I. sem dúvida o seu melhor aspecto. Brasil. Fagundes Varela.O 81. Martins. 1. Brasil. Melhoramentos. Fagundes Varela. a "noiva". (in Leitura. set. Notas sôbre Fagundes Varela (in Atlântico. 1966. Fagundes Varela. Freitas Júnior. sua vida. (in Investigações. Retôrno de Fagundes Varela.. out. Acad.° 2. n. A Manhã). A.como em quase todos os românticos . C. S. S. sua vida e sua obra. sal. . 1965. 1880). 1923). Rohe.. Língua Port.° 25. (in Introdução do estudo do pensamento nacional. que se manifesta nas constantes invocações e chamamentos da morte. A. O Romantismo. 1920. Editôra das Américas. Guerra. Jorge de. n. Paulo. Fagundes Varela.

talvez num ressentimento mórbido: "Quero escutar nas praças. a moda impõe-lhe poemas como "Sôbre um túmulo". . é uma constante do poeta. tormenta horrenda e fria! Debalde a douda conjurá-la tenta. que só desaparece. Nessa motivação eminentemente romântica. desprezando ou desprezado pelos homens. ao vento das paixões. numa linguagem simples e comovida. desespêro. como o demonstrou Carlos Drummond de Andrade. soe em teu leito a voz da maldição! Teu castigo será gemer debalde buscando o sono que o sudário deixa. dificilmente suportando o isolamento que cle próprio buscava. uma vida desregrada e destruída de qualquer lógica justificaria o tom sombrio. as sombras se aquietam. / Erguer-se retumbante a voz das multidões!". sem os exageros outras vêzes tão freqüentes. na poesia subjetiva de Varela: há um momento em que os ventos se acalmam. Não obstante. como nos Cantos do Ermo e da Cidade: Tenho n'alma a tormenta. nenhuma razão biográfica há que o justifique: Varela 'brilhava na vida estudantil de São Paulo. Seja-te o orvalho das manhãs negado. porém. nas vascas da agonia! Ou então: 180 Amo o sinistro ramalhar dos cedros ao rijo sôpro da tormenta infrene. nos poemas de fundo religioso ou místico. onde seus versos lhe assesttraram logo posição destacada. e sua obra reflete a solidão que nessas ocasiões o envolvia. e surge o poeta elegíaco que chora a morte do filho ou a partida da mulher amada. e ansiava pelo contato humano. Mas nem tudo são sombras convulsionadas. onde se pode notar a sombra de Álvares de Azevedo Torce-te aí na sepultura fria onde passa rugindo o furacão. ouvir nas trevas de uma noite horrenda de errantes larvas a funérea queixa! Mais tarde. que pode ser traçada do primeiro ao último livro. quando antevendo a inevitável queda mandam aos ermos um adeus solene.que possuía. que por outro lado se adaptava muito bem a essa facêta do seu temperamento agitado. vacila e tomba macilenta. ou procurasse fugir. Varela vagava longos meses pelos campos e florestas. à influência da moda. tem especial relêvo. em Confissões de Minas. Luta. se ameniza. se concentrasse o poeta no aspecto formal de seus versos e fugisse. ou antes. Em Noturnas. êle era um falso solitário. O :ntbjetivismo grandiloqüente. no íntimo. a figura do poeta solitário. que era a boêmia trágica. agitação.

o porvir de teu pai! . "névoa de inverno" e "pegureiro" na segunda. Eras a messe de um dourado estio! .. É daquele livro a série de poema:f intitulada "Juvenília". escrito sob a inspiração da morte de seu primeiro filho. Com isso. por sua vez. o poeta simboliza o nascimento e a morte do seu filho: Eras na vida a pomba predileta que sôbre um mar de angústias conduzia o ramo da esperança!. que vão terminar em quatro anacolutos relacionados com as metáforas iniciais. Curvado ao pêso de tremenda cruz! Nâo seria possível falar de Varela elegíaco sem examinar a sua obra máxima. Iná. talvez a mais conhecida produção do poeta. Estudá-las uma por uma seria matéria para um livro. o motivo é tratado com a maior singeleza: Lembras-te.caíste! Crença . cuja existência parecia ter dado um sentido à vida do poeta. O poema. longo e em decassílabos. que descreve a importância afetiva do morto para o poeta.. Eras a glória. que dão a exata idéia . das quais constam nada menos do que seis imagens: "pomba". o "Cântico do Calvário". dessas noites cheias de doce harmonia. no entanto. abre com duas metáforas desdobradas em seis versos. . Seguem-se várias metáforas simples. a inspiração. A primeira estrofe. E enquanto os versos iniciais provocam sugestões de movimentos ascendentes. também minh'alma teu sofrer partilha. e "estrêla". Se não traz nada de pròpriamente nôvo. os anacolutos servem para o corte violento dêsse movimento. é um impressionante fluir de metáforas. a pátria. . depois do "Cântico do Calvário". pomba . "mar de angústias" e "ríamo de esperança" na primeira.já não vives! O jôgo de metáforas prossegue nos versos seguintes. .engoliu-te o temporal do norte! Teto .. Eras o idílio de um amor sublime! . observável principalmente em Cantos e Fantasias. livro através do qual êle nos dá a sua medida de poeta lírico e elegíaco.Ah. não! Se tu padeces.>J o aspecto mais importante da obra de Fagundes Varela. duas novas metáforas. que dificilmente encontra par na língua portuguêsa.. . quando a floresta gemia do vento aos brandos açoites? A densidade de um poema como "Sombras!" mostra que Varela sabia conseguir dramaticidade e tensão em seus versos sem ter de recorrer à oratória romântica: Não me detestes. É como um turbilhão de imagens. e onde há. Eras a estrêla Que entre as névoas do inverno cintilava apontando o caminho ao pegureiro!.varou-te a flexa do destino! Astro . em compensação sua pureza é mais convincente do que a de Casimiro. E sigo em prantos do suplicio a trilha.

um poeta rico e contraditório. principalmente nas de3crições das cenas da roça. o filho volta à casa trazendo a mão do homem que lhe assassinara o pai. Fagundes Varela foi. quando no céu azul. das canções sentidas. De um lado. O filho recostado num canto. sem nada que lembre "as ventanias que no deserto rugem" Punha-se o sol. as sombras sonolentas mansamente nos vales se alongavam. está presente na poesia narrativa ou descritiva.. e não da alma angustiada do poeta: Era no mês de agôsto. E no final. os cacoetes românticos se agravam a ponto de atingir o ultra-romantismo popularesco. É o oposto o que se sente. De outro. o mês dos risos. Manchado há muito tempo de sangue e de ferrugem. Quando voltam do exílio as garças brancas. ou dos poemas que no gênero escreveram Bittencourt Sampaio e Bruno Seabra. êrmo de nuvens. assim. a pálida viúva Escuta as ventanias que no deserto rugem. Outras vêzes. a impressão de que o poeta pudesse levantar sequer os olhos do papel para pensar a comparação. como "Antonino e Corá". das doces queixas. Não se tem. O primeiro. . quando sôbre a corrente dos ribeiros pende o canavial as alvas plumas. à grande beleza descritiva se casa uma suave melancolia.. Observe-se a exatidão da descrição dos costumes roceiros. junto ao muro De uma arma gigantesca areia o cano escuro. também a poesia narrativa e descritiva se vai enquadrar na linha da elegíaca. onde os tropeiros sôbre fulvos couros entregavam-se ao culto do pacau. Bebiam na taverna os arrieiros e as bêstas na poeira se espojavam. ao qual se junta boa dose de misticismo. impregnada de tranqüilidade. aproximando-se então da ingenuidade meio casimiriana. em nenhum momento. como em "A flor de maracujá". parece que as metáforas lhe acudiam em tal abundância que êle não podia anotá-las tôdas. com um talento de muitas faces. tipo "Douda d'Albano".da poesia jorrando aos borbotões. do qual é exemplo o "Vingança" A noite vai em meio. e no qual há ainda a assinalar o aspecto religioso e a preocupação social e nacionalista. passam as andorinhas foragidas. ou nos casos pitorescos. A mesma dualidade que se observa na poesia subjetiva. consubstancia-se principalmente no longo poema em vários cantos e decassílabos brancos. . quando as manhãs são ledas e sem brumas. O fogo ardia vívido e brilhante no vasto rancho ao lado do girau. que parece oriunda da própria paisagem.

ironizando as modas. e como crítico literário foi de um vigor e uma técnica impressionante em relação ao que se fazia na época. e numa coletânea em colaboração com a irmã. tanto as do traje como as literárias. Manuel Bandeira. modinha de Lessa então muito popular. Das figuras de segundo plano do Romantismo brasileiro.Varela não deixou nunca de ser um individualista. Na poesia séria. em São Paulo. foi lírico. Em conjunto. Foi na poesia humorística que êle mais se aproximou do espírito romântico. que não são nêle tão freqüentes como as descrições. apesar de suas inseguranças de métrica. incluindo-o na Antologia de Poetas Brasileiros da Fase Romântica. Foram publicados depois de sua morte. ocasionais manifestações contra a escravatura e hinos de exaltação a figuras heróicas. e seus melhores momentos são aquêles em que o poeta lírico predomina. pertenceram dois escritores mineiros: Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa. Ao grupo estudantil de Álvares de Azevedo. rebelava-se contra as limitações impostas pelo positivismo e pelo Naturalismo. A preocupação social e nacionalista surge em Varela com a patriotada de O Estandarte Auri-Verde. Cantos Religiosos. E .Bernardo fêz da "Lembranças do nosso amor". Assim do defluxo a praga Em meu peito vem chiar. O poeta Bernardo Guimarães é de tendência classicizante. No prólogo das Fôlhas de Outono. Proclamava a necessidade de os poetas brasileiros se libertarem das influências européias. composição de intenções filosóficas. como o dedicado a Juarez. etc. Bernardo Guimarães (1825-1884) é talvez a mais interessante: como poeta. etc. principalmente no "bestialógico"." e pepsava que a inspiração não se devia prender à "pesada charrua da crítica moderna. humorístico e até pornográfico. sua despreocupação com a forma. como romancista. uma paródia que começa assim: Qual berra a vaca do mar Dentro da casa do Fraga. tão cheia de teorias sibilinas e ainda mais carregada de erudição `do que a antiga". Bernardo Guimarães fêz a sua profissão de fé poética.Anchieta ou o Evagenlho nas Selvas. reagindo um pouco ao sabor das circunstâncias. êle se volta de preferência para os motivos exteriores caracterizando-se por um lirismo objetivo. tem palavras de louvor para "O devanear do céptico". tão em moda entre os estudantes daquela geração. Não desprezou a sátira. elegíaco. que reviveu o nome do poeta.: não aceitava nenhum "sistema crítico-filosófico-histórico-etnográfico-sociológico. essas manifestações não chegam a constituir tendência ou atitude . cantes sôbre a questão anglobrasileira e se estende a esporádicos ataques ao Imperador. é considerado o introdutor do regionalismo em nossa ficção. nem o amigo Aureliano Lessa escapou à sua veia humorística .

O Ermitão de Muquém. Tem certa fama como paisagista. Bernardo estava "impregnado do mais insosso e falso Romantismo da época. detém-se nos seguintes versos" ". para a roça. Seu título maior é o de introdutor do regionalismo no romance. de cristal oj dedos". 11 Cidades Mortas. il A crítica literária é o aspecto menos conhecido e mais curioso do talento de Bernardo Guimarães. Bernardo falsifica o nosso mato".era um espírito capaz da análise justa. Bernardo descreve a natureza coma um cego que ouvisse contar e reproduzisse as paisagens. Vinte vergéis que descreva. cuja "metrificação é sempre pesada e monótona". disse Tristão de Ataíde em Afonso Arinos. para perguntar . o poeta dá-lhe dedos de cristal?" Não era o espontâneo que se tem querido ver . porém não injusta. mas Monteiro Lobato não o perdoou: "Lê-lo é ir para o mato. etc. mas uma roça adjetivada por menina de Sião. S. A opinião da crítica é hoje quase unânime em colocar o poeta acima do prosador.). exprobrando-lhe a contradição (hoje tão explorada pela crítica) entre a linguagem castiça e figura dos selvagens."Qual a razão por que.de neve o seio / de neve os braços. Analisando o poema-romance de Joaquim Manuel de Macedo. as rolinhas meigas. Sua crítica se destaca nitidamente dos artigos laudatórios de então. as matas viridentes. os rios caudalosos. Censurou o falso brilho de Junqueira Freire. 1919. Suas novelas foram o que a sua poesia não foi: acentuadamente românticas. são vinte perfeitas e invariáveis amenidades. Não existe nêle o vinco enérgico da impressão pessoal. que só na idealização artificial das coisas via o encanto e o valor da arte". os sabiás sonorosos.era contra o verso alexandrino. José Veríssimo definiu-o como o "criador do romance sertanejo e regional. sendo de neve o seio e os braços dessa gentil criatura. preferindo o exame objetivo do texto à divagação elogiosa. Exerceu-a entre 1859 e 1860.. em A Atualidade. mas apesar disso foi como romancista que Bernardo teve seu nome popularizado. sob o seu puro aspecto brasileiro". E incursionou até pelo indianismo (O índio Afonso. e o fêz de maneira violenta. com os qualificativos surrados do mau contador. capaz de evitar muitos . prêsas aos moldes e ao gôsto fácil de estilização da época. os píncaros altíssimos. A Nebulosa. Paulo.. os vergéis floridos. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas morenas côr de jambo. onde os prados são amenos. capaz da sátira aos vícios da poesia romântica. Atacou Os Timbiras de Gonçalves Dias.

o poeta não tem arroubos. que o tornavam completamente ininteligível". Aureliano Lessa (1828-1861) não fugiu à influência do Romantismo. entre outros. Mais adiante: "Q pendor de seu espírito para as concepções transcendentais da filosofia reflete-se até em algumas de suas composições poéticas. evitálos na prosa de ficção. o emaranhavam às vêzes em tal confusão de raciocínios. que abre as asas sôbre nuvens. E além dos "tormentos sem nome" e dos "desenganos mais negros que o rumor da sepultura". o mesmo anseio da morte e desalento da vida. Sua poesia. Quais prófugos do inferno Levando aos astros dos confins da esfera Os decretas do Eterno. pela incapacidade de enfrentar os problemas da vida prática. Laurindo Rabelo teve uma vida trágica e boêmia. o mesmo sentimento às vêzes sombrio. não soube ou não pôde. mas sem a mesma intensidade. A essa poesia não . que prejudica grandemente a clareza". certa fé e confiança na vida: a descrença romântica não. um espírito mais simples: transformou- . nas quais o conceito é por vêzes tão sutil e alambicado. o amor e a melancolia . se não foge das linhas gerais do Romantismo. Sua leitura. "Leviatã nos mares". Versando quase que excluisvamente três motivos româtnticos a metafísica confusa. mas em essência são as mes2nas dores fundas. é como se a melancolia já lhe fôsãe natural. hoje. ao jeito de Álvares de Azevedo. Laurindo Rabelo (1826-1864) não perdeu. Em compensação. na mediocridade incolor dos seus versos. o poeta não é indiferente às solicitações amorosas nem à grandiloqüência Os cometas correram desgrenhados. Era.dêles nos seus próprios poemas. pelo gôsto de perambular. também não lhe participa dos excessos."Adeus ao mundo" . o atingiu. sua tristeza é mais convincente porque menos eloqüente. e idêntico sentimento de exílio. nem ao "mal do século" que. porém. está presente em sua poesia. que justifique isso. Prefaciando as Poesias Póstumas de Lessa. leva a estranhar-se a benevolência com que o trataram. mas que não quis. falta nem o condor. em muitos pontos parecida com a de Fagundes Varela. Tendo de Fagundes Varela e Alvares de Azevedo a mesma dor profunda.a poesia de Aureliano Lessa não fugiu nunca ao lugar comum.manifesta um temor de morrer longe da pátria semelhante ao que é característico de Casimiro de Abreu. Sílvio Romero : nada há. assim o definiu Bernardo Guimarães: "Essa mania do paradoxo. Seu poema antológico . porém. É simples e direta. e o gôsto de metafisicar (deixem passar a expressão).

Sousândrade. principalmente de Byron e Ossian. A influência de Gonçalves Dias permanece nítida em todo 0 Romantismo brasileiro. Siqueira Filho. só os derradeiros ecos do Neoclassicismo e uns prenúncios de Realismo obstam à unanimidade. Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889) dividiu seu tempo entre o jornalismo e a política e como poeta não passou de diletante. Vitoriano Palha res. que resiste ainda em nossas antologias graças a um poema que começa "Quem passou pela vida em branca nuvem". Luís Delfino. embora tenha gozado de nomeada em sua época. a fonte de inspiração é alheia. Foi um talento medíocre. Narcisa Amália. encontrará em 1859. O subjetivismo lírico (expressão imprópria. Tobias Barreto. em rigor. Pois o Ultra-Romantismo no Brasil é. foi repentista. declinará mais cedo que no Norte e Nordeste. não esconderá sua face ultra-romântica. ANTECESSORES 0MOVIMENTO ultra-romântico. Em ambos. do Trocador. e do Romantismo tomou o que havia de menos ousado. Ma chado de Assis. Melo Morais Filho. A década de 1870. Quirino dos Santos. o Poeta lagartixa. mais uma fase. um período. A poesia e a poética de Castro Alves. cujo marco miliário é a publicação. Graças a Machado de Assis. e a um sonêto baseado no solilóquio do Hamlet. Nêle se mesclam três correntes cada vez menos distintas: o indianismo. do que um movi mento. Carlos Ferreira. de Espronceda. o predomínio do Ultra Romantismo é flagrante. CASTRO ALVES Antecessores. mas elucidativa) começará entre nós com a influência de Lamartine. 21. em 1853. no Sul. Realismo. humorista e até poeta pornográfico. Entre 1845 e 1865 (datas redondas). repercutirá fundo no Parnasianismo. de Herculano. Pedro Luís. Hugoanismo. o subjetivismo lírico e o subjetivismo realista (a classificação adotada é a costumeira nos românticos). Francisco Otaviano guarda ainda uns traços de Classicismo.se num tipo popular. O próprio Gonçalves Dias. em As Primaveras de Casimiro de Abreu. Traduziu muitos poemas inglêses. muitas vêzes mais um pré-romântico do que român tico. Olavo Bilac e Artur Lôbo. o seu esquema afe tivo. Atingirá sua culminância com As Primaveras. nas quais por assim dizer se . das poesias de Álvares de Azevedo.

dos colaboradores do Trovador. Xavier Rodrigues Cordeiro. vai cedendo o Ultra-Romantismo e vão-se fundindo sübjetivistas "líricos" e "realistas". João Silveira de Sousa. "industrialismõ" ou mesmo "romantismo extravagante". condensava uma pequena tradição a que poetas como Francisco Otaviano. quais Soares de Passos. Palmeirim. de grande maleabilidade. o Môço. idealismo elementar e espiritualismo superficial. "lamentações" e "inspirações" pudibundas. êsse subjetivismo lírico talvez devesse muito mais a nomes. para só mencionar os portuguêses. "álbuns". ou simplesmente coletâneas de autores lusos eram freqüentes .cristalizou o sentimento poético ultra-romântico: Casimiro de Abreu vinha propor uma linguagem perfeitamente de acôrdo com o pathos da época. e abusivo.na primeira metade e meados do século XIX. alimentaram-no outros mais favorecidos. uma bolorenta moral de adjetivos. sairá a campo contra o naturalismo de 1880. Musset e Hoffmann. "rneditações". prestava-se excelentemente a servir de estôrvo ao avanço do que então se denominava "materialismo". Pedro de Calasans e. menos que da arte. Os Primeiros Sonhos de Raimundo Correia (1879 ) ainda se inscrevem nessa ala. os nossos ultra-românticos tomaram conhecimento. e uma literatura de "oraçõçs". É a partir de 1865 que "se inicia uma reação de maior âmbito contra esse subjetivismo. e só em' face do Simbolismo perderá sua razão de ser. Millevoye. Houve um momento em que o subjetivismo lírico chegou a pretender foros de doutrina poética. do Nôao Trocador e seis contemporâneos em Lisboa e Coimbra: Os "arquivos". "indiferentismo moral". poder de infiltração e virtualidades mnemônicas. "flôres e frutas". Ao contrário do que declarou. Essa linguagem. João de Lemos. A linha subjetivista continuará. e Direito mas visceralmente reacionário em matéria de poesia. criara uma legião de crianças e mulheres divinizadas ou angelizadas. Depois de 1865. Colocado sob o signo de Lamartine. "mosaicos". O extra-realismo frenético em que descambara. Não é possível distinguir com segurança a ascendência de um poeta numa geração em que se caldeiam Heine e Victor Hugo. Teixeira de Melo haviam dado forma entre nós. o mais ilustre dos quais seria Tobias Barreto. Ossian e Klopstock. Byron e Quinet. Serpa Pimentel. É também por essa ocasião que se revelam os anti-realistas forrados de moralistas. sobretudo. numa de suas raríssimas afirmativas. Casimiro de Abreu e Mendes . Tomes Ribeiro e Gonçalves Dias. subordinados cada vez mais a influências comuns. Luís Delfino (da primeira fase). a serviço dos costumes. José Bonifácio. inovador em Filosofia. hoje obscuros. Foscolo e Zorrilla. Após enfrentar o realismo de 1870. êsse "idealismo". o historiador José Veríssimo. como Turquety.

com respeito ao conceito de "realismo" vigente no seio dos românticos: realismo como sinônimo de erotismo. pela primeira vez no país. Palmeirim. Na peça Uma Cena de Nossos Dias (1864). notadamente na prosa. no nascedouro do Romantismo. A moda vicejará. Versos. As relações entre o homerh e a mulher. O "realismo" do Estudiante de Salamanca. Em Wiesbade (1864 ) . esse lirismo costumbrista (poesia urbana. na literatura acadêmica. na poesia brasileira. Garrett. Últimas Páginas. uma conquista do nacionalismo. etc. O hibridismo.".. de "Uma página de escola realista. o sergipano Pedro de Calasans (1837-1874). ousado ( F. estas mais ou menos. sim. amiúde galante e não raro licenciosa. por certo tempo. Por volta de 1860. mas não é o "humour noir" dos subjetivistas realistas. 1863) e mesmo atrevido (Celso da Cunha Magalhães. ) representa um avanço no sentido do Realismo. ela é a resposta romântica ao pastorismo dos árcades. evoluem para um tom coloquial ( Tobias Barreto). de rebeldia moral. não esconde suas dívidas para com Béranger. . com obras de bom nível. nismo.Leal. estandardizadas. Quando se fizer a história (tão necessária) das epígrafes no Romantismo brasileiro. a inspiração cosmopolita. Estrêlas Errantes. no estiló do Rolla de Musset. é-nos lícito dizer que a atitude casimiriana estava muito mais próxima da realidade que a azevediana. atribuído a seu irmão Joaquim. de cinismo. Menos. quais Bruno Seabra. Quirino dos Santos. da Noite na Taverna. como já representara. 1858). Azevedo e Lamartine. apanha o fio do índia.. A poesia fúnebre de ambas as correntes é idêntica. recolhe pequenas contribuições folclóricas ou regionálístiças. cultiva um nacionalismo garrettiano e dá origem a um grupo de poetas menores. o humor macabro. O subjetivismo realistg (designação ainda njais imprópria 'e não menos útil) misturará suas águas com as do "líricos". O humorismo está presente. De certa forma. particularmente quando se tratar do tema da morte. sertaneja. ou pouco diferem entré si. Goethe e Shakespeare. 1870). Já não se dá o mesmo quanto à posição em face da vida: nisso Azevedo e Casimiro não correm paralelos. Gentil Braga. campestre. que se firmara como ultra-romântico (Páginas Sôltas. Essa poesia. 1855. antecipará a afetação da "belle époque" brasileira. de individualismo exacerbado. recheada de vocábulos estrangeiros. poderemos compreender como era possível conciliar Virgílio e Milton com George Sand e Manzoni. entra a florescer uma poesia "campesina". Hoje. o Romantismo é metido à bulha e tenta-se. insere um poema "d'après-nature". de costumes e situações. Bittencourt Sampaio.

Deixando de lado o provincianismo e a falta de inspiração própria. noutros. Victor Hugo não foi sòmente um nume inspirador. o "arrependimento" (Magalhães). datado de 1873. do mestre da Noite' do Castelo). nada obstante. Há uma corrente. buscando o impossível apaziguamento da forma neoclássica pelo tema romântico. que não se interromperia dentro do nosso Romantismo: a clássico-romântica. autêntica e autônoma. a manutenção da linha de Castilho (o caso de Bernardo Guimarães. Les Contemplations. Mas o que vai caracterizar essencialmente a década 1860-1870 é o surto do hugoanismo. Contudo. um semeador de leitmotiae: é mesmo possível que alguns dos que o imitaram nunca o tenham lido senão em traduções. Bernardo Guimarães levá-la-á. nuns. Pedro de Calasans sentir-se-ia perfeitamente à vontade para descrever os ambientes burgueses da Alemanha. De maneira atenuada. de Musset. Para nós o momento era psicológico. de Pôrto-Alegre.oléore le Petit. de Magalhães e Pôrto-Alegre. um pouco temerária. há outra explicação: a consciência de nação em pé de igualdade. o primeiro volume da Légende des Siècles.Parecerá estranho que o Romantismo. como as que . permitia inclusive o comércio idiomático. diluída. do prefácio aos Cantos do Fim do Século. Pedro de Calasans a ela se converterá (Ofenísia. quase até o fim do século. é o fim cronológico dêsse Neoclassicismo anacrônica. Colombo. o. mercê dos Châtiments. depois do noviciado ultra-romântico. conflito seria mais violento . Após a hegemonia de Lamartine. fora daquelas três. A citação dêsses nomes prova como a estrada se bifurca. é o simples retôrno. Essa consciência.189 ao Classicismo ou adesão ao Realismo. a penetração nas problemas universais. Pode-sé ver. Sua glória estava em ascensão desde as Orie. levando-se em conta o natural atraso de um decênio e mais com que adotávamos as novidades de França. Em Portugal. A uma geração que ainda discutia o prefácio de Cromwell. quando ataca o "quinhentismo" de Gonçalves Dias e lhe contrapõe a poética.ntales. Castro Alves. incorra de mais a mais na dependência européia. para se justapor a Hugo. 1864) . Les Châtiments. Composições como "Sara Ia baigneuse" fizeram longa carreira em nossa literatura. tentando oferecer-nos uma poesia nacional. ela encontrará simpatia em Machado de Assis. como o poeta Sílvio Romero ainda defrontara a encruzilhada onde os anti-românticos deviam tomar sua decisão: retrocesso . tão glosadas. nada se comparava ao impacto de quatro livros decisivos em menos de dez anos (18521859) : Nap. aparecido em 1866. Tobias. Victor Hugo passa ao primeiro plano. pouco se lhe dava o ruidoso fracasso dos Burgraaes em 1843. para debater as altas questões do Pensamento. e das Feuilles d'Automne.

ou apenas antimonárquicos.. na conferência Castro Alves e seu Terreno. com a sua autoridade soberana. Plínio de Lima e outros escreveram sôbre os alexandrinos do autor de Idéias e Sonhos.Múcio Teixeira reuniria nas Hugonianas.. a Emílio Castelar. Foi um estado de espírito. agora assoprados através da trompa hugoana. nem democracia". em sintonia com a fermentação do Brasil naquela etapa. Um dos últimos românticos... a quem pedia a epígrafe: "Com 190 os reis. se salvou dos milhares de poemas cujo . Nada. com o seu privilégio monstruoso. não pode haver liberdade. porque tem o seu manto crivado de balas. declama Tobias Barreto: O pendão que os relâmpagos rasgaram. transformaria Hugo em profeta de uma nova religião. a repercussão foi expressiva: Luís Guimarães Júnior. Poucos foram os poetas brasileiros de então que não pagaram tributo à musa guerreira.. o português Sousa Pinto (depois naturalizado) dedicava um poema. A guerra do Paraguai (18641870 ) encerraria brutalmente o decênio. um levantar de braços. para quase todos as nossos poetas republicanos. se propiciavam aos áulicos louvaminhas ao cetro ou hinos belicosos. Vitoriano Palhares não se fartou de alusões acres à coroa imperial. ara divergindo nos princípios e nas finalidades: a Abolição e a República. "Osório não precisa de púrpuras. Luís Murat. numa progressão que obrigou o general a interromper o orador com um viva à Sua Majestade. As idas e regressos dos soldados brasileiros. Brasil e Portugal irmanavam-se no assédio. Das mãos da guerrá bravamente escapo. êste farrapo! Ficou famosa a saudação a Osório feita no mesmo ano pelo então acadêmico Celso da Cunha Magalhães na Faculdade do Recife. também rasgavam oportunidade a que se desagravassem os "Voluntários da Pátria". Agitavam-se duas campanhas paralelas. saudando 0 53° batalhão que retornava do Sul. ou quase nada. traçou as linhas gerais dessa época.. e assim por diante. o canhão que deveria derrubar o trono de Pedro II. Dai ao rei por esmola. Euclides da Cunha.". Em 1869. De que pode servir? O rei tem frio. A guerra contra López desencadeará os ventos da epopéia. Estampado na imprensa pernambucana. Sua luta contra Napoleão III era. que atestam o seu civismo. Bastava um adjetivo. Nem sempre a metáfora velava a intenção. "Ecos democráticos". indiscutível. hereditário. Em 1870. Osório não precisa de trono. ora ajudando-se entre si. uma hipérbole.

A última e única repercussão dêsse Ultra-Romantismo no século XX digna de atenção haveriam de ser os Gritos . sobras espúrias de Castro Alves. o estacionamento em velhos caminhos. produzindo uma libertação emotiva. quando não o favor do Monarca. Isso explica o "hugoanismo épico" em datas muito recuadas. o anacronismo se torna cada vez menos. quando os chamados "precursores" ainda não haviam embocado a trombeta. Tomás Ribeiro. da Retórica. teve o mérito de aproximar-nos ainda mais do Realismo e de. quer na contemplativa (no sentido puramente alusivo). Como o byronismo. por necessidade metafórica. Gonçalves Dias. de um poeta enfático e apaixonado emprestando a uma legião de enfáticos e apaixonados a nota mais suave da paixão . Daí por diante. Mendes Leal. O que êsse tipo de dição. na poesia de clangor. o próprio Lamartine. é em parte responsável pela continuação do UltraRomantismo e do Romantismo no Brasil. Teófilo Braga. o lamartinismo. passa para fora da literatura.. antíteses.. na verdade. atravessa inúmeros sedimentos: Musset. forneceria a nota lírica. quando mesmo em Portugal a reação se processava com celeridade. nada tem de comum com a linguagem pura e opulenta do gênio das Contemplations. na reflexão filosófica (observem-se. Espronceda. também o hugoanismo. porém. suportável e. A literatura épica. Gautier. apóstrofes. O hugoanismo. são freqüentes as manifestações hugoanas ao cunho de 1865-1870. elipses e rimas agudas. especialmente as de Castro Alves). provocou ao mesmo tempo. da antítese vertical.a ternura.g. o nome nos jornais. Pois o hugoanismo considerado como escola da ênfase. se deve ao exilado de Jersey o modêlo estilístico-retórico. que a influência de Hugo se fêz sentir mais imperiosamente.. das metáforas arrojadas. $ um aspecto bem pouco examinado. deve a Victor Hugo é a autoridade do seu nome glorioso para manter em circulação uma fórmula que na França já se ia fazendo anacrônica. por fim. quer na sua linha enfática. as traduções hugoanas feitas por aqui. sob a ilusão de um nôvo rumo. introduzir uma série de recursos novos na linguagem. mais retórico do que poético. nas apóstrofes.único objetivo era o aplauso imediato. dos apelos ao Direito e das invocações à Liberdade. Béranger. na historieta metrificada. nas suas diversas etapas indígenas. onde tudo se resolve através de exclamações. Vivendo. Ela ia derramar-se no verso moralista. são antes. Vigny. como vivia. Não foi. Essa mistura de poesia e oratória. v. êsse de um poeta velho tansmitindo a um punhado de jovens a linguagem do amor. não deve menos alguns de seus elementos de dição a vários outros poetas. Até o advento da República.

dificilmente subsistiriam. Embora essas três composições permitam situar em 1859 o início de uma poesia de aspecto regionalista. Tip. de Macedo Soares. na Arcádia. 1 em 1887. . de Pinheiro & C. 1859. de outra sorte. Sua obra. Tobias Barreto e Vitoriano Palhares. sem exceção. São Paulo. Américo Elísio . Dous de Dezembro. como José Bonifácio e Luís Delfino. "Saudade" e "Olinda". apareciam "O tropeiro" de Bittencourt Sampaio e "O tropeiro" de Duarte de Azevedo. não só porque em nenhuma linha hugoanoenfática é predominante (muito menos em Castro Alves). de Carvalho Guimarães deu à estampa o seu Álbum poético. Estão nesse caso Pedro Luís. 130 pp. "Teu nome". "O tropeiro" está datado de 1850 e foi publicado nas Trovas no mesmo ano erri que nas Harmonias brasileiras. apenas José Bonifácio. Rosas e Goivos (fins de 1848 ou princípios de 1849 ) . jaz em quatro publicações das quais apenas uma. Na edição de 1861 (Rio de Janeiro.apresenta uma das mais curiosas trajetórias em nossas letras românticas.Bárbaros de Moacir de Almeida. Dos cinco. Seja como fôr. ano em que o português V. e Luís Delfino podem aspirar à sobrevivência. "Prometeu". contemporâneos e sucessores do baiano. o Patriarca da Independência e. dada a lume por êle próprio. "A Garibaldi".José Bonifácio. foram incluídos. Essa edição é da Tip. P. se inscrevem numa linha geral de subjetivismo lírico mesclado de subjetivismo realista. José Bonifácio de Andrada e Silva (1827-1886). simultâneamente antecessores. Em 1859. o hugoanismo trouxe um cômodo denominador comum para juntar elementos que. de Antônio Louzada Antunes. O epíteto de precursores a todos êsses poetas raia pelo disparate.José Maria Vaz Finto Coelho reuniria deficientemente o seu espólio e em 1920 Afrânio Peixoto dividiria entre os dois José Bonifácio uma antologia lusobrasileira. Rsse livro já pode ser considerado um livro romântico. dito o Môço para o distiguir de seu avô. relativamente escassa para uma existência bastante longa. embora o autor não esconda seu arcadismo nalgumas composições . o poeta negro Luís Gama incluiria nas suas Primeiras Trovas Burlescas de Getulino algumas composições de . mais: "A Rodrigues dos Santos". "Saudades do escravo". como também porque todos. ( # ) 1 Na primeira edição das Trovas burlescas figuram apenas dois poemas de José Bonifácio. lírico em perene transição. apontados como antecessores de Castro Alves e. o Môço: "Calabar" e "O tropeiro". "Enlêvo".). sem precisão de se verem atrelados ao carro triunfal do criador das Espumas. além dos citados. o trabalho pioneiro remonta a 1842.

conseguiu. em momento algum. em 1962. mas não seria impossível demonstrai que. tiveram finalmente uma edição definitiva. que constitui uma das notas mais pessoais da inspiração andradina. Donde Enéias fugiu. de um anti-romantismo extremo .). organizada. amoroso e humorístico. prefaciada e anotada por Alfredo Bosi e Nino Scalzo. São Paulo. o Môço. e publicada pela CL/CEC. (*) As poesias de José Bonifácio.nísticos do tempo Oh! sol! oh! sol! cabeça de palito. foi estranha a Castro Alves. um grande poeta. v. "0 tocador de lote" (um dos subtítulos do "Tropeiro" de José Bonifácio) é de boa qualidade e. tranqüila e terna.medíocres. ainda que só o primeiro houvesse deixado uma peça poética em testemunho: O Barão e seu Cavalo. "O trono do Curai'ba" é indianista antes de Gonçalves Dias. espécie de ato cômico. nos poemas de José Bonifácio posteriores a 1868. nos três planos . 192 Sem ter sido. Brasa acesa nas costas de um mosquito ou Oh! raios. ademais de resultados políticos. publicado em 1868. O vocabulário é típico e autêntico. não pecando pelo pitoresco. oh! clarabóia. não merece o relativo esquecimento a que vem sendo relegado. possui curioso parentesco com as Tropas e boiadas de Carvalho Ramos (q. Como professor e como poeta exerceu determinada influência no autor das "Vozes d'África". antecipando alguma coisa do "Caçador de esmeraldas" de Bilac. Sua poesia é a que talvez possua. A veia satírica de ambos era notória. o que se deve talvez ao fato de que ambos tiveram contato direto com o "hinterland". adotando recursos bestialógicos. maior número de afinidades com a de Castro Alves. deixar uma engenhosa paródia dos vezos hugoanos e elma. Sua poesia amorosa difere da castroalvina no tipo de lirismo: a experiência conjugal. do lado regionaifstico. em conjunto. no qual José Bonifácio. oh! trovõesl. A xácara "A noiva do tropeiro" (tema depois muito explorado) tem seus méritos.épico. haja alguma centelha devida no seu jovem discípulo. cujo pábulo erótico eram as explosões do amor sem regime. deixando Tróial ou esta.

Era um panteísta de vôos moderados. A seu crédito. O que seu discípulo dos Cantos do Fim do Século se furtou a ver na obra do mestre foi a torrencial imitação que de Casimiro de Abreu fêz o sergipano. alguns versos são transcrições quase textuais.193 mas estrofes. Os temas da saudade da infância. José Bonifácio nunca mais incidirá nesse romantismo paroxístico. ou melhormente. um tom mais íntimo do lirismo. que a esmaga. Turquety é copiosamente solicitado. ninguém falaria nêle como poeta. para um préparnasianismo. O sonêto "Não e sim" é puro Bilac. pela benevolência dos pósteros. Seus Dispersos nos dão a medida de um citaredo medíocre. e o que é a. Pedro Luís (1839-1884) deve a permanência de seu nome ao fato de haver influenciada algumas vêzes o estro de Castro Alves. mais tarde. composições quais "A sombra de Tiradentes" e "Voluntários da morte" repercutiram aqui e ali no trabalho do provinciano.Que perfumes que vêm pelas janelas. Esse influxo é perceptível com particularidade na fase de 1864-1865. essa de Pedro Luís. goivos de tôda a vida". desde a abertura do volume até às epígrafes internas. demasiado favorecido pela crítica de seu tempo e. Foi uma influência nociva. Sua poesia evoluirá para um romantismo atenuado e. em menor escala. pré-românticos. infelizmente sempre a descair no mau gôsto e na banalidade. à maneira de Luís Guimarães Júnior. com senso de equilíbrio e economia de metáforas. Nêle a influência dos componentes. pudesse o autor de "O Redivivo" realizar-se dentro dos moldes pósromânticos melhor que nas fórmulas de transição em que poetou. há uma vaga emanação simbolística. Não é de surpreender que. do Trovador é clara. deslumbrado com o vidrilho da adjetivação tonitruante e dos pontos de exclamação reticenciados. rosas de um dia. José Bonifácio é um legitimo precursor de Azevedo e Casimiro com seu livro Rosas e Goivos. De Tobias Barreto (1839-1889 ) o que se pode dizer é que. devidos talvez à sugestão de Américo Elísio. Nalgu. como Luís Delfino. Das roseiras plantadas nas panelas! 7 O ditirambo de Guimarães ao Barão só poderia ter sido escrito por um escritor consciente dos ridículos do Ultra-Romantismo da época. Se quisermos dar a precursor o sentido puramente cronológico. da "valsa da perdição" e da morte surgem de permeio com ainda acentuados resíduos arcádicos. . existência senão um cadáver? caiam pois sôbre a lousa. que não tapizem algumas flôres sem perfume? e o que é o passado senão um sepulcro. O fúnebre antelóquio é paráfrase de uma passagem turquetyana: "Que sepulcro aí pela terra se encontra. não fôra a insistência de Sílvio Romero. Os Dias e Noites (1881) nada valem.

nesse ano pràticamente reviu e retocou sua obra. saem as Perpétuas. conquanto nem sempre pela porta do gôsto. Ninguém teve mais triunfos na praça pública. A estréia remonta a 1866. com Mocidade e Tristeza. lançou um opúsculo que hoje circula em várias edições populares. que se transformou numa espécie de poeta oficial da guerra do Paraguai. o pernambucano afastava-se da rotina. o mais po194 pular. o ano de 1870 funcionar como uma espécie de fiel da balança em cujos pratos se encontram As Primaveras (1859) e os Sonetos e Rimas (1880) . Sua retórica jamais se detinha: Nas pelejas do direito O ferro que vara o peito Não encontra o coração. o enfant gâté das multidões. como Carlos Ferreira e Melo Morais Filho. De tudo isso. As últimas composições são de junho de 1871. As Centelhas são o calendário épico dessa campanha.Vitoriano Palhares (1840-1890) poderia. "Vitoriano (escreve Afonso Olindense) foi sempre o mimoso das turbas. restam duas ou três poesias. Entrementes. O fecho da Cachoeira de Paulo Afonso leoa a data de 12 de julho de 1870. descarte. a de Pedro Luís e Tobias Barreto. que ficariam sendo definitivos. ano em que apareceram as Peregrinas e Centelhas. Teve dias de glória. e um dom de síntese muito apreciável em quem devia empolgar a multidão poetizando-lhe fatos sabidos. o ponto ideal da transição entre o Ultra-Romantismo e o Parnasianismo. datando de 1870 os manuscritos. CASTRO ALVES (*) Em 1870. nem obteve mais pronta a sagração dos seus talentos". o mais aplaudido de todos os poetas brasileiros. no meio de centenas de versejadores medulados na imitação. variando das mais arrojadas metáforas ao enumerativo mais chão. se por um lado as Espumas ainda guardam muitos pontos de contato com a . Castro Alves deu à estampa o único livro seu que viu impresso. Todavia. pois. Possuía o segrêdo dos movimentos de cena. todavia. Vitoriano Palhares estava longe de ser um talento desdenhável. do ciclo dos Escravos. Pràticamente silenciou depois de 18'70. Seu romantismo é sem maior originalidade enquanto lirismo sentimental. Sua geração é. as Espumas Flutuantes. dos jogos imagínicos. Em 1868. na poesia heróica. Tinha quase um estilo próprio. O lustro 1865-1870 foi o mais ativo e o mais triunfal para Vitoriano. As Noites da Virgem. ser situado entre os contemporâneos não-antecessores de Castro Alves. Seria. Pode.

em Recife. em S. 1870. ao Rio e S. as rivalidades dos grupos acadêmicos entre as atrizes teatrais. Novas edições em 1875. não o é o estudo de sua posição em face do Realismo. sobretudo como afirmação da estética (*) Antônio de Castro Alves (Fazenda Cabaceiras. 8 o único livro aparecido em vida do poeta. esta última pela pena de Alencar e Machado de Assis. sua poesia investe-se de uma dupla significação histórica: retoma a tradição azevediana. por outro se avantajam nalguns sentidos às produções de Guimarães júnior naquilo em que estas hajam contribuído à instauração de uma nova corrente poética. então. em tôrno da campanha abolicionista. seguiu o curso jurídico. como era comum no tempo. vai à terra natal.Salvador. que veio a ser amputado no Rio. é o poeta mais lido e admirado do Brasil. 1944. havendo ainda as simultâneas por editôras diferentes. 1915. 1878. 1898. Em 1868. chefiado por Tobias Barreto. Educação iniciada em S. 1923. sob cuja influência se desenvolveu o pendor literário do poeta. viveu intensa atividade acadêmica. que não completou. Bibliografia: Poesia: Espumas Flutuantes. Paulo. Termina a Cachoeira de Paulo Afonso e publica as Espumas flutuantes. foi ferido num pé. 1926. aos 24 anos. Bahia. e várias sem data. A julgar pelo número de edições e estudos críticos. 1909. como poeta e tribuno. 1904. num acidente de caça. Obras Póstumas: Gonzaga . 1871). Félix e completada na capital da Bahia. 1883.195 . Já é. 1928. em busca de melhoras para a saúde. ou em conjunto de obra. 1901. atraiam o poeta. no Colégio Sebrão e depois no Ginásio Baiano de Abílio César Borges. Se a classificação de Castro Alves dentro desta ou daquela escola é de somenos importância. 1943. e da guerra do Paraguai. 1932. De 1859 a 1861 datam os seus primeiros ensaios. Os desafios públicos entre os poetas empolgavam a mocidade. 1889. 1897. Paulo. Aqui. Em Recife e S. Nessa fase. Paulo. De retôrno à Bahia. O amor da atriz conduz Castro Alves à Bahia. Morre em 1871. em oposição ao grupo de Adelaide Amaral. onde a glória pública e a crítica o consagram. minada pela tuberculose. intensa a sua produção poética. A vida boêmia. e portanto se coloca frontalmente na linha anticlássica. que se fêz o paladino de Eugênia Câmara. 1947.lírica de Casimiro de Abreu. Cinqüenta edições assinala Afrânio Peixoto em 1931. 1881. no palacete do Sodré. 1847 . C`urralinho.

Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Jamil Almansur Haddad. 'Edições: Obras completas. 1946. 1921 (3. Brasil. Eugênio Gomes. Estante da poesia brasileira. Não foi Castro Alves. Letras. Uma das maiores dificuldades antepostas aos estudiosos dêsse poeta é a ignorância reinante. rev. S. ou da influência exercida. apareciam as Vozes d'América e em 1865 os . constituindo-se no principal artífice de uma nova concepção da realidade na poesia brasileira. Cia. Saraiva. 1966). 1960. Rio de Janeiro. Acad. Paulo. José Aguilar. J. 1875. Qualquer de suas facêtas pode ser defrontada na obra de antecessores e contemporâneos. Org. Castro Alves (ensaio bio-bibliográfico). 1952 (Col. indispensável embora exigindo atualização. Agripino Grieco. Ed. Os escravos. Intr. Nac. Poesias escolhidas. Paulo. Nac. Cia. e a quase inanidade de justificativas históricas a ser formuladas pela primeira vez.). onde as contradições são numerosas. da Silva Ramos. Bibliografia de Castro Alves.a ed. . Nesse ano. nem desligado de antecedentes e ambientes. Horek. Int. Obra Completa. Poesias completas. qual a castroalvina. S. 2 vols. A eventual contradição latente nesse duplo aspecto não deve surpreender-nos. Homero Pires. S. Nac. 1931. mesmo entre exegetas. 1883. como se tem dito. Ed. Pref. Para a bibliografia de e sôbre Castro Alves o ponto de partida. A Cachoeira de Paulo Afonso. Inst. notas de F. H.a ed. Ed. 1876. 1953 (Col. sem embargo da projeção de que tenham gozado. Z. agravada pelo fato de não infundirem respeito (ou confiança) as contribuições válidas de nomes hoje obscurecidos. Poesias completas. . Valverde. Navio Negreiro. 2 vols. W.. numa obra. Ed. Poesias completas. Livros do Brasil. conforme acreditava Euclides da Cunha. Datam de 1864 as primeiras composições castroalvinas dignas de referência. Org.Vozes d'África. Org.. (2. Rio de Janeiro. ao mesmo tempo. Livro. um fenômeno à parte em nossa literatura.Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas. uma oposição de qualidade à acomodação do UltraRomantismo como sistema lírico. J. 3).ou A revolução de Minas (teatro). Paulo. Nac. com a única intenção de que seja bem utilizado por seus companheiros cegos romântica em face do já mencionado movimento de retôrno ao Classicismo. 1880. Afrânio Peixoto. e estabelece. Rio de Janeiro. Org. 9944. Daí o perigo de afirmações e classificações aligeiradas do aparato documental. 1947. 9). do que se fêz e fazia naquele tempo. é: Afrânio Peixoto. Jamil Almansur Haddad.

Livro, 1960. Ver também: Arquivos. n. 2. mar-abr. 1947. pp. 186-200. Rio de Janeiro, M. E. S., 1947. A Questão Castro Alves. Considerado como o Poeta da Raça, pela notável congenialidade com o gôsto poético do povo brasileiro, que lhe dá a sua preferência, Castro Alves tem oscilado, entre os críticos, da exaltação à negação. Sobretudo atraída pelo aspecto biográfico, pela sua ideologia, pelo papel que desempenhou como poeta social, máxime na propaganda abolicionista, a crítica brasileira dividiuse muito tempo em uma polêmica sôbre a superioridade poética de Castro Alves ou Gonçalves Dias. Além dessa discussão, iniciada por Lúcio de Mendonça e Olavo Bilac respectivamente, há ainda a mencionar, a respeito de Castro Alves, a atitude de Sílvio Romero, que, em tôda a sua carreira, tentou opor-lhe a figura de seu amigo Tobias Barreto, o êmulo do poeta baiano nos Cantos e, Fantasias, de Fagundes Varela. O Ultra-Romantismo brasileiro estava encerrado. As obras subseqüentes do próprio Varela pouco iriam acrescentar à sua glória literária, ainda que tenham enriquecido, para nós, o conhecimento de sua figura humana. Na década 1860-70, a escola caminha a velas pandas para a abstração e o ridículo, inteiramente desligada de qualquer tipo de realidade. A maior parte dos livros de gente nova assemelham-se a paródias. O patético e o grotesco são gêmeos. Os Cânticos Juvenis, com que estreou Carlos Ferreira em 1865, ou o poema Leonor de Almeida Cunha (1866) não podem ser lidos senão às gargalhadas. Existia consciência dessa anomalia principalmente entre os acadêmicos, em cujos volumes de versos as bulhas antiromânticas se fazem mais assíduas. A importância de tais epígonos é mostrar-nos de forma clara quais as influências dominantes, os cacoetes metafóricos, a engrenagem automática das rimas, dos metros e das estrofes. Sob êsse aspecto, atingem em certos casos o valor do documento: assim as Canções da 1% ida de Fábio Joaquim Ewerton, poeta-bacalhau que sòmente por crueldade o editor Relarmino de Matos editaria em 1869. Depois de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, nada mais poderia ser feito com o material ultra-romântico. Nem o foi. O que vem depois é rescaldo, é superfetação. Arrasta-se até os primórdios do penúltimo decênio do Oitocentos um pseudo-romantismo de retardatários, medíocres ou de estreantes desarvorados. O próprio Varela já se dilui na adjetivação estereotipada. Quando nos fala em "tredos", "gentis'", "fatais", "celestes", "pálidos",

tempos do Recife. A posteridade encarregou-se de demonstrar a sem-razão da doutrina. Eram essas posições evidentemente acríticas, e a tendência mais recente mostra-as superadas, em proveito da análise e da interpretação. Alguns estudos dedicados à sua obra ìrltimamente revelam preocupação mais crítica, indicando os rumos que deverão seguir-se em relação a uma poesia rica de sentido, e sobretudo extraordinàriamente brasileira, pela sensibilidade, pela linguagem, pelo colorido, pela pujança, pelos ideais, pela correspondência com a Natureza. Consultar: Alencar, J. de. Um poeta. Carta a Machado de Assis (in Correio Mercantil. Rio de Janeiro, 22-2-1868; Almeida, R. Revisão de valôres (in Movimento Brasileiro. Abril, 1929); Alves, Constâncio. Castro Alves, no 50.° aniversário de sua morte (in Revista da Semana. Rio de Janeiro, 9 jul. 1921); idem. (in Figuras. Rio de Janeiro, Anuário do Brasil. 1921); idem. As obras de Castro Alves. (in J. Comércio. Rio de Janeiro, 7 jul. 1921); Amado, Gilberto. Castro Alves. (in Boletim de Aried. Rio de Janeiro, nov. 1932); Amado, Jorge. ABC de Castro Alves. São Paulo, Liv. Martins, 1941; Andrade, M. de. Castro Alves. (in Revista do Brasil, ano 2, n .O 9, mar. 1939); Ataíde, T. de. Castro Alves. (in O Jornal, 6 jul. 1921); idem. Estudos. Rio de Janeiro, 2.a, 4.a, e 5.a séries); Autores e livros. 111, n.° 8, 13 set. 1942; Azevedo, F. de. A poesia social no Brasil. (in Ensaios. São Paulo, 1929); Bandeira, M. (in Apresentação da poesia brasileira. Rio de Janeiro. Casa do estudante do Brasil, 1946); Barbosa, R. Elogio de Castro Alves (in Diário da Bahia, 8 jul. 1881); idem. Decenário de Castro Alves. Elogio do poeta. Bahia, 1881 (tirada à parte do primeiro); Barreto, B. Discussão com F. Lisboa e outros acêrca das poesias de C. A. no decenário. Cachoeira, Bahia, 1881. 2 vols.; Bastide, R. Castro Alves e o romantismo social. (in Letras e Artes, sentimos que a função romantizadora dêsses adjetivos não mais existe; são enchimento, escória. Até às Primaveras, tais recursos vocabulares propiciavam de fato a atmosfera romântica, expressavam a reação do subjetivismo contra o formalismo clássico-arcádico, da criação individualista contra o mimetismo ilustrado. Logo se converteram em parasitos sentimentais. Os clichês enraizavam-se por tal jeito que amiúde colidiam com o pensamento do poeta. É assim que Castro Alves, no poema "Um raio de luar", fala no níveo seio da escrava morena e constrói suas imagens à base exclusiva de brancuras convencionais: "gelada, como a garça", criancinha loura , asa de pombo", pálida

.. . Num país riquíssimo de borboletas coloridas, tôdas são "azuis". O adjetivo "sutil", um dos poucos que recuperariam mais tarde sua independência semântica, freqüenta os mesmos substantivos: "vagalumes sutis" em Varela, em Castro Alves, e assim por diante. Com as rimas sucede o mesmo. Pobre delas como foi o Romantismo, qualquer solução num instante se banaliza. "Asas: gazas" ainda não é cediça em Pedro de Calasans, em Casimiro, em Guimarães júnior, em Castro Alves; mas de Carlos Ferreira em frente ninguém mais detém o automatismo. Os versos de 9 e 11 sílabas, conquanto permitissem larga variedade de movimentos, fossilizaram-se nos de alternância uniforme. Abusou-se cios esdrúxulos finais, notadamente nos versos de arte menor. O tetrassílabo e o hexassílabo terminados em dáctilos têm papel notório no processo de saturação da métrica romântica. O proparoxítono interior é de não menor significação no comportamento rítmico dos nossos poetas do século XIX: êle é respeitado ou não em sua integridade silábica de acôrdo com a linhagem do autor, 2.a seção, n.° 34, Rio de Janeiro, 9-3-1947); Calmon, P. História de Castro Alves. Rio de Janeiro, J. Olímpio, 1947; idem. Vida e amôres de Castro Alves. Rio de Janeiro, A Noite, 1935; Cardoso, F. M. Castro Alves. São Paulo, Revista dos tribunais, 1945; Carneiro, E. Castro Alves. Rio de Janeiro, J. Olímpio, 1937; idem. Trajetória de Castro Alves. Rio de Janeiro, Vitória, 1947; Carneiro, Humberto. A imagem, a paisagem e o estilo de Castro Alves. (in Revista do 1. C. L. de Pernambuco. I/1, jan: março, 1922); Carpeaux, O. M. Aproximando-se de C. A. (in O Jornal, 9-3-1947); Carvalho, R. de. A aurora de Castro Alves. (in O País. Rio de Janeiro, 6-7-1921); Castro, T. L. de. Castro Alves. (in Questões e pro blemas. São Paulo, Emp. de prop. lit. luso-brasileira, 1913); O centenário de C. A. (in A Tarde. Salvador, 14 mar. 1947); Cunha, E. da. Castro Alves e seu tempo. Rio de Janeiro, Grêmio E. da Cunha, 1919. 2.a Ed.; Dantas, M. O naciona lismo de Castro Alves. Rio de Janeiro, A Noite, 1941; Dias, T. A literatura brasi leira e os poetas abolicionistas. (in A privíncia de São Paulo, 25 jan. 1881); Falam de Castro Alves poetas moços de São Paulo. (in Correio Paulistano, ano 93, n.° 27.896. São Paulo, 14 mar. 1947); Feder, E. Castro Alves e Heinrich Heine (in O Jornal, Rio de Janeiro, 16 mar. 1947); Ferreira, J. L. R. Castro Alves. Rio de Janeiro, Pongetti, 1947. 3 v.; Gomes, E. O esbôço da Ode ao dois de julho. (in Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 mai. 1953); idem. Castro Alves e o sertão. As imagens do movimento em C. A. Poema atribuído a C. A. (in Prata da casa. Rio de Janeiro, A Noite, 1952); idem. Lord Byron e Castro Alves. (in Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 3 abr. 1953); idem. Os textos de C. A. (in Correio da Manhã. 19 dez. 1953); Grieco, A. Castro Alves. (in Vivos e

mortos. Rio de Janeiro, 1947); Guimarães, Adelaide de Castro Alves. O imortal. Rio de Janeiro, Ed. Marisa, 1933; Guimarães, A. A. Biografia de Castro Alves. (in e caracteriza indica fenômenos prosódicos no Ultra-Romantismo, algumas vêzes as tendências rítmicas. Não uma evolução e sim uma degenerescência, o Ultra-Romantismo vai exaurir a tal extremo as virtualidades estéticas do Romantismo que no fim da centúria seus remanescentes caem fora dos quadros literários. É necessário ter sempre em vista êsse estado de coisas para compreender a evolução poética de Castro Alves, medir sua importância como elemento renovador e distinguir, na sua obra, o que é resíduo e o que é fermento. As ligações entre o poeta das Espumas Flutuantes e o das Noturnas são ostensivas. A transmissão do facho, tão do agrado de nossos historiadores, que se fêz de Azevedo para Casimiro e de Casimiro para Varela, poderia ter continuação de Varela para Castro Alves. Não sòmente os "tredos", "sutis", "gentis" coaram daquele para êste; também alguns verbos altamente metafóricos como "embuçar" (ex. de Varela: "as montanhas se embuçam nas trevas"), "debruçar" ( id. : "lírios debruçados"), outros quais "rumorejar", "doudejar". Ao lado de expressões mais ou menos típicas, como "brisas forasteiras". "Errante", adjetivo que é para Castro Alves o que "pálido" teria sido para Álvares de Azevedo, prolifera no elegíaco do "Cântico do Calvário". Descendem de Varela alguns esquemas estróficos, como por exemplo a oitava seguida de dístico ( "A Enchente", F. V., e "Mocidade e morte", C. A. ) , ou rítmicos, qual o alexandrino espanhol de andamento binário. Não se trata aqui, exatamente, de influência ou aprendizado. De ambos houve no baiano mais de um reflexo (Varela, dos brasileiros vivos, era seu poeta favorito). Trata-se dé ilustrar a passagem Gazeta literária. Rio de Janeiro, 15 out. e 1 dez. 1883); Guimarães Júnior, L. Castro Alves. (in Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 1881); Haddad, J. A. Revisão de Castro Alves. S. Paulo, Saraiva, 1953. 3 vols.; Homenagem do Grêmio Literário Castro Alves ao laureado poeta... 10 jul. 1881. Rio de Janeiro, Tipografia nacional, 1881; Homenagem do 1. G. H. da Bahia ao grande poeta... organizada pelo 1 ° sec. Conselheiro João Tôrres. Vol. I. Bahia, Cincinato Melquíades 1910; Jornal de Ala. Bahia, outubro 1939. (Dedicado a Castro Alves, com estudos de C. Chiacchio, Nobre de Lacerda F.°, Alves Ribeiro, etc., e vasta iconografia); Jucá Filho, C.

A estrutura sonora do verso em Castro Alves. (in Cadernos. Bibl. Acad. Carioca Letras, n .O 19, Rio de Janeiro, 1949); Le Gentil, G. Castro Alves e a literatura universal. (in Revista da Acad. Brasil. Letras, n .O 22, abril-junho, 1922); Leite, A. Depoimento da atual geração literária sôbre C. A. Reportagem. (in O Jornal, 9 mar. 1947); Machado de Assis, 7. M. Resposta a José de Alencar sôbre C. A. (iri Correio Mercantil. Rio de Janeiro, 1 mar. 1868); Machado Filho, A, da M. História de Castro Alves. Belo Horizonte, Ed. de Rocha-desenhos, 1947; Marques, X. Castro Alves no decenário de sua morte. (in Revista Acad. Brasil. Letras, n .O 96, dez. 1939); idem. Vida de Castro Alves. 2.a ed. Rio de Janeiro, Anuário do Brasil, 1924; Martins, W. Interpretações. Rio de Janeiro, 1946; Mattos, V. A Bahia de Castro Alves. 2.a ed. São Paulo, IPE, 1948; Melo, G. C. de. Castro Alves e a liguagem brasileira. (in O tonal, Rio de Janeiro, 30 mar. 1947); Mendonça, Lúcio e Bilac, Olavo. Polêmica. (in Rev. Acad. Brasil. Letras. n.° 93); Milliet, S. Diário crítico. 2 ° e 3 ° vols. S. Paulo, 1945; Monteio, J. Uma fonte de C. A. (in Correio da Manhã, 1 mai. 195); Montenegro, T. H. Na poesia brasileira... Castro Alves (in Tuberculose e literatura, Rio de Janeiro, 1949); Mota, A. Vultos e livros. S. Paulo, 1921; Nabuco, J. Castro Alves. (art. publ. na - 199 de matéria romântica, sem nunca nos descuidarmos da cronologia vareliana. As dívidas de Castro Alves para com seus antecessores são múltiplas: Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Alvares de Azevedo, Junqueira Freire - e outros bem menores que êle próprio. Além-mar, chamam-se Hugo, Musset, Espronceda, Byran (mais a legenda que a obra), Soares de Passos, Tomás Ribeiro, Lamartine, Quinet . . . É a partir de 1868 que sua personalidade poética se afirma com autonomia e entra, por seu turno, a influenciar os contemporâneos. Ele continuaria agrilhoado, no entanto, a matrizes temáticas - o que se observa, de maneira paradoxal, principalmente quando o motivo lhe tocava mais de perto. O rompimento com Eugênia Câmara e o derradeiro amor de Agnese Trinei Murri mergulharam-no de nôvo no oceano de lugares-comuns ultra-românticos, quase todos já então superados pelo seu próprio acervo. A muitos respeitos, a trajetória poética de Castro Alves é desconcertante e parece ajudar a tese - por certo extremista - de que o poeta era um "realizado".2 A falta de uma edição crítica definitiva (*) impossibilita afirmações e reduz as pesquisas formais a especulações afetivas. Dentro de estreito limite, é possível

aludir a certo progressivo esgotamento de sua lírica depois de 1869. Em compensação, nos três últimos anos de vida (a contar de meados de 2 "Nada promete. Não se percebe na obra dêle a menor possibilidade de acréscimos futuros. É um realizado, como finamente salientou Andrade Murici. Assim, teve a felicidade de morrer a tempo, para não arrastar pelos anos uma juventude brilhante, genialmente brilhante e insatisfeita. Mas insatisfatória também". (Mário de Andrade. Aspectos da literatura brasileira. 1943. p. 149). Para um de seus entusiastas, Mesquita Pimentel (Prata de casa. 1926), depois de 1867 Castro Alves "nada escreveu de melhor do que até então". (*) Em 1960, a admirável edição crítica de Eugênio Gomes veio preencher essa lacuna. Reforma. 20, 24, 27 abril 1873. Rio de Janeiro, Tip. da Reforma, 1873. Transe na Rev. Acad. Brasil. Letras, n° 18, 1921); Palha, A. Castro Alves. Rio de Janeiro, Inst. Brasil. de Cultura, 1942; Passos, A. Castro Alves, arauto da democracia e da república. Rio de Janeiro, Pongetti, 1947; Peixoto, Afrânio. Castro Alves, O poeta e o poema. Paris, Lisboa, 1922; idem. Cinqüentenário da Cachoeira de Paulo Afonso. (in Revista Acad. Brasil. Tetras, n.° 63, março de 1927); idem. Vida e obra de Castro Alves. (in Diário da Bahia, 1896); Pires, Homero. Castro Alves, poeta social (in Revista do 1. G. H. da Bahia. Vol. XVIII, ns. 37, 38 e 39); idem. Imagem de Castro Alves. Prefácio da ed. de poesias escolhidas. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1947; Pontes, J. Castro Alves, variações em tõrno da poesia social d"`Os Escravos". Recife, Diretoria de doe. e cult., 1947; Revista Acad. Brasil. Letras. Ano XII. jun. 1921, n .O 18 (Comemoração do cinqüentenário de Castro Alves. Páginas recolhidas dos maiores escritores nacionais sôbre o poeta); Revista da Acad. Letras da Bahia. V. X. (Dedicado às comemorações do centenário de Castro Alves). Bahia, Imp. oficial, 1949; Rodrigues, Lopes. Castro Alves. Rio de Janeiro, 1947. 3 vols.; Segismundo, Fernando. Castro Alves explicado ao povo. Rio de Janeiro, F.d. Letfcia, 1941; Távora, F. Castro Alves. Prefácio das "Espumas flutuantes". Rio de Janeiro, Garnier, 1884-1904; Teixeira, M. Prefácio de edição de "Os Escravos". Rio de Janeiro, S. I. Alves, 1883); Veríssimo, José. Estudos de literatura brasileira. Vol. II. Rio de Janeiro, Garnier, 1901; idem. Estudos brasileiros. Vol. I. Belém, Tavares Cardoso, 1889; Barros, Frederico P. de. Poesia e Vida de C. A. São Paulo, Ed. Américas, 1962; Cunha, Fausto, Castro Alves e o realismo romântico. Separata da Revista do Livro, INI, n .O 23-24, 1961.

200 1868), as traduções feitas por êle são proporcionalmente numerosas. A pausa amorosa e o acidente que o obrigaria a amputar um pé, se lhe facultaram pensamentos ou sugestões para o lançamento das Espumas Flutuantes, como que influíram de modo esterilizante no seu comportamento estético. Talvez o poeta, nos seus dias finais, estivesse mais interessado em retocar ou reunir seus trabalhos cio que em multiplicá-los. As traduções e paráfrases, que começam a avolumar-se desde 1868, não dão muita consistência a essa hipótese. Há um momento em que todo grande poeta, feitas as experiências em território alheio, sente-se capaz de rasgar o seu próprio caminho; recebe a revelação de sua própria linguagem e nela se realiza. Se a obra de adolescência de Castro Alves está riscada de pastichos, a de maioridade vai ressentir-se de interferências completamente desnecessárias; a inspiração, em vez de alçar vôo direto, socorre-se daquele arbusto de que falava Euclides da Cunha. A impressão que nos deixa, na fase derradeira, não é bem a de um "satisfeito", de um "realizado": é de um aniquilado - com as peculiares explosões de otimismo e energia. Os sofrimentos que atribularam a existência do poeta deveriam despertar nêle o elegíaco. Em sua vida amorosa, quase nada justificaria o lírico. Dificilmente, porém, vislumbraríamos em Castro Alves o elegíaco; e sua libertação do lirismo subjetivo é menos uma conquista estética do que uma imposição do temperamento sensual e objetivista que possuía. As semelhanças com Victor Hugo são patentes ressalvado que do francês podemos ter um retrato de corpo inteiro, da mocidade à velhice, ao passo que de Castro Alves não nos resta senão o esbôço dos vinte e quatro anos. Um ponto de seu lirismo contraditório, como adiante se verá, é a sexualização da natureza, a infiltração do erótico no descritivo e no heróico, em contraste com a rarefação sensual e com o realismo semi-romântico de suas composições pròpriamente amorosas. Pouco mais de dez anos após o seu desaparecimento, defendia-o Tito Lívio de Castro da pecha de "poeta sem coração". A acusação, se o era, não vinha dos parnasianos. Note-se, o ensaísta das Questões e Problemas era um antiparnasiano; bem mais sintomático, o detalhe de investir, a trinta anos de distância, contra o "pieguismo" de tUvares de Azevedo. Ainda que errada, ou pelo menos falsa, a sua visão de Azevedo, Lívio de Castro voltava a arma contra o peito de seu defendido. Acusar o vate baiano de tibieza de coração parece-nos hoje impertinência. Seria injusto? Talvez não, se quisermos considerar que, na sua época, isso era antes uma

que Castro Alves compusesse um poema cujas cinco primeiras estrofes não traem a menor comoção interior. Em outubro. ao longo de uma etopéia nem . O verso "Não bôca de mulher. Tendo diante de si apenas os textos castroalvinos e o código vivencial estabelecido pelos biógrafos. em considerar como pessoal o que era coletivo e é mesmo induzida a ver numa composição a sensibilidade e o pieguismo existentes tão só no seu juízo apriorístico. com as generalizações decorrentes de qualquer posição sumária. Hugo não temeu o ridículo em suas manifestações de carinho familiar. essa opinião não hesita em passar-lhe o pergaminho da sinceridade. que por vêzes se aproxima do de Mário de Andrade. a dor moral e a dor física. Das nove estâncias apenas duas trazem a participação pessoal do autor. Gustave Lanson (Histoire de Ia Littérature Française) formulava a questão em têrmos razoáveis.. não distingue a sentimentalidade de Castro Alves da de seus companheiros de Ultra-Romantismo. quando assinalava em Vicio Hugo não uma sensibilidade aguçaria e sim "une puissance illimitée de sensation". Chegou a estar desenganado. na tradição. mas de fatal serpente!" é puro idioma ultra-romântico. porém. Nenhum livro ainda. aliás. Não fôsse a diferença de medida entre os dois poetas. aos 22 anos. afeita ao realismo total da literatura dêste século. não refletem a mínima interferência subjetiva. Há cinqüenta anos.qualidade e se não virmos nisso a negação de seu caráter e de sua autenticidade na poesia ideológica. Os estudos acadêmicos interrompidos. O amor hugoano desce como um raio abrasador sôbre as eleitas. a tuberculose declarada. Esquema. "Immensis orbibus anguis" é. seria tentação das maiores construir o retrato castroalvino dentro do esquema lansoniano. sua vida era uma ruína. Nada obstante. um libelo contra Eugênia Câmara.. retirado o denominador comum da linguagem e dos sentimentos do tempo. o pé amputado em condições atrozes. Esse ano foi terrível para Castro Alves. Ninguém praticou mais intensamente e com melhores resultados a poesia humanitária e política do que o autor dos Châtiments. são bem poucos aquêles que ainda acreditam na sua imensa sensibilidade. Nêle se exprime tôda a queixa contra a amada infiel. A opinião hodierna. e parece contaminar o poema'inteiro.201 sempre crítica.. "Immensis orbibus anguis" é a visão fria de uma . Um exemplo.. Vejamo-lo de mais perto. Nada impediu. "Immensis orbibus anguis" leva a data de outubro de 1869. Por muito menos Casimiro e Varela haviam escrito versos lancinantes.

. Eles poderiam. indagar algum tempo depois de sua morte "Qual foi sua propaganda?". como um dos inimigos pessoais do poeta. tão rijos e inteiriços: "Resvala em fogo 0 sol dos montes sôbre a espalda". O tema ruge a um passo do poeta.. Os nossos poetas (e os do mundo) sempre gostaram do efeito: o moralismo é próprio do homem. em vez de românticas lamentações. . . menos até se ela se chama "Tragédia no mar". Era a insensibilidade (sensualismo não é sensibilidade). Mesmo que tivessem do acervo castroalvino o conhecimento de conjunto agora a nosso alcance.. As estrofes sexta e sétima. onde surgem vocábulos afetivos (de resto. genéricos). Esperai! .ocorrência transformada em fábula. A transição entre o descritivo e o patético (III parte) é feita numa estância onde os lugares-comuns e as exclamações de palco se atropelam: o orador gagueja. não alterariam a . Nas quatro primeiras estrofes de "Immensis orbibus anguis" o descritivo se entrelaça a um sensualismo sadio. logo mais o próprio Deus será apostrofado: mas o pintor não se interrompe até que seja completado o painel marítimo. Se as cinco estâncias iniciais nos põem diante da maneira impessoal de Leconte de Lisle. e pede aos fantasmas impacientes que esperem. quase diríamos otimista. "Na selva zumbe entanto o inseto de esmeralda". O que não é freqüente é êsse "poder de sensação" a permitir que um poeta romântico se deixe empolgar por sua fôrça descritiva a tal ponto que o desfecho do poema se afigure mais uma anamnese. cujas 15 estrofes iniciais (em 34) não se ligam nem estética nem psicològicamente ao título da composição. "E a pluma dos bambus a tremular imensa". são meros recursos de um fabulista aferradíssimo ao jôgo das antíteses hugoanas. a "falta de coração" do poeta que lhe propiciavam.. as últimas nos recordam a técnica de Raimundo Correia. dentro de mais algumas redondilhas os negros se estorcerão nos tombadilhos sinistros. . livre poesia. deixai que eu beba Esta selvagem. . Tôdas essas nuanças e muitas outras que hoje nos escapam (sem esquecer que o Parnasianismo corrompeu o nosso gôsto romântico) não escapavam aos contemporâneos. esperai! .. alguns belíssimos alexandrinos espanhóis cujo binário quase não se percebe. e asseverar que Castro Alves consagrara às causas humanitárias uma parte relativamente pequena de sua obra. Nem se diga que a fabulização é freqüente no Romantismo.. 3 Essa neutralidade sentimental é ainda mais flagrante no "Navio negreiro".

No P. sem embargo dos copiosos trabalhos que o futuro sonetista parnasiano havia dedicado às mais diversas questões. estabelecendo-se um elo mais firme. o desaparecimento paulatino de adjetivos expletivos. as poesias de A. O que deve caracterizar mais de perto êsse realismo é o despojamento de chavões ultra-românticos. Deixe-se de banda. O realismo de Castro Alves justifica-se plenamente em face dessa faculdade de se desligar do subjetivismo em favor de melhores soluções poéticas. o conceito que estabelece vínculos de sinonímia entre êsse vocábulo e sinceridade. etc. enquanto linguagem. igualmente. A. retornando (particularmente nos últimos 3 Criticando. Foi a mesma que Sílvio Romero dirigiu a Luís Delfino. é certo. entre o significante e o significado. mas em ziguezagues. Em suma. A originalidade é um estágio muito avançado da criaç~o e mesmo aquêles gênios que deram estrutura literária a uma língua só muito limitadamente foram originais. gle não incidiria no mesmo êrro. de Mendonça. Não progredia em linha reta. Não se trata de soluções formais do tipo de rimas ricas. pelo desesperado afêrro aos ditames banvilleanos. A ars poetica que regeu o movimento romântico obedeceu. das quais nunca se libertaria. no campo estilístico. Faltoulhe o tenpo necessário. Antônio de Castro Alves ergueu um mundo de contradições. Sua cultura romântica lhe deitou as algemas 3e certas constantes. a um espírito de despersonalização. a descoletivização e a depuração do poético. A técnica do Parnasianismo resultou bastas vezes num empobrecimento das conquistas românticas. Em todos êsses campos. de uniformização. por supéà'luos. hiatos abolidos. em 1864. autenticidade. semelhante ao que presidia ao Arcadismo. esfontaneidade. alexandrinos franceses.omantismo. sinalefas obrigatórias. Não seria prudente afirmar que êle sempre teve consciência de sua evolução. a busca de imagens novas. é o da originalidacL. escrevia Castro Alves que "êsse soluçar contínuo por um amor perdido é um defeito para o livro". O tempo que ao Luís Guimarães Júnior dos Corinbos de 1869 consentiu os Sonetos e Rimas de 1880. léxico ou metafórico. maior poetização da linguagem (às vêzes em detrimento do assunta) e a atribuição de um sentido pessoal e específico ao vocabulário. anos) a etapas já vencidas.pergunta. e no caso particular do Romantismo brasileiro. Não esquecer . ela é quase sempre mera questão de precedência. nem sempre assume forma visível. um dos pontos qxe precisam ser postos de lado. No campo temático. qualquer conclusão baseada no texto literal está a um passo do malôgro. No estudo do pensamento criador de Castro Alves. proibição de síncopes.

1947). sublime. No Brasil. enxergam aí "o orgulho elevado ao auge". antigo. a disciplita formal funcionava secundàriamente. suilime são outros tantos têrmos vagos. gentil. O poeta não se deu ao trabalho de colocar um ponto de exclamação no final do verso. ao passo que as fórmulas coletivizantes do Romaitismo se colocavam a serviço do individualismo.. . no entanto. moderno. comenta o via de regra sagacíssimo Mário de Andrade. as Julietas. a inteligente Dorothea Schlegel es:revia no seu diário a propósito dos primeiros românticos alemães: "ales me ecarnecem com freqüência e sentem-se superiores a mim porque não me vêem empregando as palavras costumeiras e as expressões em moda. A linguagem era uma senta. Com esta diferença: o Arcadismo era a de. seria impossível a diferenciação entre clássicos e romântcos (diferença hoje difícil de estabelecer em países. sepulta rotinas e igualanças. diz Henri Brunschwig: "Felicidade. pois todos indicam o mesmo estado indêinível. o milagre que permitiria a cada um sair da mediocridade". tanto sabia de sua inexpressividade. lançado em 1801. e outras". Sem esta. Os menos afetuosos. A inspiração coletiva impusera uma série de idéias e situações que cir4 A s. como a França. Exceção dum Gonzaga enleado.. nessa direção. as Consuelos. é o que se tem cometido com o vew de "Mocidade e Morte": "Eu sinto em mim o borbulhar do €ênio".caracterização do indivíduo em prol de determinadas fórmulas paramente retóricas. miraculoso. (La crise L* Mat prussien d Ia fin du 18e siècle et Ia génèse de Ia mentalité romantique.que as Celutas. infinito. Paris. pastôres setecentistas. divino. celeste. dum Bocage libidinoso. Comentando o primeiro número da rrvista Eumonia. gótico.nha vinha de longe. como Jamil Almansur Haddad. A distância. 4 Equívoco ilustrativo. onde o Romantismo encontrou a língua num alto grau de maleabilitade semântica). linguagem é quase sinônimo de vocabulário. Em fins do século XVIII. de maneira que hoje se vê nesse decassílabo um grito premonitório. quando não de um desafio. o problema poético do árcade começava e terminava no poema: o poema romântico era o ponto fe partida de uma afirmação. com que designan fàcilmente qualquer coisa: grande. 204 culavam de poema em poema. sem que ninguém se preocupasse com a gratuidade do conteúdo. "Acredita no seu próprio gênio e o afirmou". Elviras e Marias ultra-românticas eram tão convencionais (tão irreais) quanto as Marílias e Nizes do.

especialmente o verbo "borbulhar". pede o sergipano Gomes de Sousa à sua amada. como os demais do poema (sabidamente influenciado por Álvares de Azevedo). Noutra êle se alinha entre os "gênios do infinito". repetido em vários metros: Artista. diz Fagundes Varela. 1858). Em 1855. isto é: o anjo ao gênio". embora os dois assuntos não possuam . De outra forma não se compreende como se extraem sugestões biográficas de uma expressão rotineira. Jaime. aconselhava Musset num Impromptu sôbre a poesia). Pais de Andrade construía uma cena dramática em tôrno dêste motivo. Num péssimo volume de versos editado em 1865. carpia Luís Delfino a certo colega morto. sem que vá nisso nenhuma soberba. Bernardo Guimarães incluiria seu "Hino à tarde".205 Adiante-se que a matriz de "A Tarde" é outra.O tropo "borbulhar do gênio". sinto n'alma a luz do gênio. "Pensamentos borbulhamme no cérebro". julgou-se no dever de mencionar alguns que o haviam precedido. Nessas três peças. ressonância do espírito do tempo. a cuja estrofação se subordina. nos Cantos da Solidão. com posfácio de Tobias Barreto. "Une-te a mim. talvez seja o responsável pelo extravio dos exegetas. em cujo cérebro. Pois o citado verso é. um dos que mais abusaram da palavra "gênio" Eu lembro-me de ti. Quando Gonçalves Dias publicou nos Primeiros Cantos uma composição com êsse título. "A Tarde" servirá de exemplo. Em busca do porvir!. de grande efeito visual-auditivo. Pedro de Calasans. a motivação e os elementos retórico-poéticos se acham mais ou menos definidos. etc. quer no plano estético ("$couter dans son coeur 1'écho de son génie". Estudo e aspiro aos louros do talento. o pretexto) era tradicional nos românticos. porque tu'ahna É o sol de minh'ahna e de meu gênio. reza uma das "Estâncias" (Vozes d'América). O "Hino" de Bernardo Guimarães tem desenvolvimento análogo ao de Castro Alves. na sua ode. provàvelmente o "A Portugal" do D. um dêles Odorico Mendes. sem recear o ridículo. Mas é também o conhecimento dêsse contágio estilístico que nos leva ao que há de nôvo e pessoal na obra de Castro Alves. em meio às constantes e generalidades. dantes. Odorico Mendes dedica. O motivo (dar-se-ia melhor. umas dez linhas ao escravo africano. quer no plano metafórico ("Eu sinto o borbulhar do entusiasmo". e várias particularidades em comum. Posteriormente. . "a idéia borbulhava".

.. >` ocioso pensar em influência.. Em que a brisa no ar soluça e geme. ó mimosa do infinito"... A linguagem liberta-se da crosta de rotina para se adequar ao sentimento individual. / Se debruça nos . sãa abundantes no Romantismo. / Ó pálida tarde.O 2. vinha um poema de seu amigo Maciel Pinheiro que assim começava: É a hora da tarde longa e triste. a imagem inicial: "Enquanto 0 ocaso."Eu amo-te". o poeta 5 Seria longo reproduzir exemplos. em Bernardo ( "formosa filha do Ocidente". No azul-Joio das vagas. era difícil ser original. "eu te saúdo" . verter os meus prantos". 5 Nada impede que dêsse material eclético tenha brotado uma das composições mais pessoais. como nesta passagem do citado Gomes de Sousa (Poesias Líricas. porque tais expressões . Quase tudo fôra explorado nos mínimos pormenores.ponto aparente de contato. em pés s&bre as colinas. É que se verifica na "Tarde" um fenômeno semelhante ao de Tomás Antônio Gonzaga nas liras arcádicas : seu realismo é autenticado por um contato direto com a natureza. à noite. Em "Ao crepúsculo" utiliza Teixeira de Melo o verbo "gaguejar": "Como é tristonho o canto que nest'hora / Gaguejam sabiás. No caso de motivos como a tarde. ao mar. "pálida donzela") ocorre em Odorico ( "môça meiga e sossegada" ) . etc. senão a mais pessoal de Castro Alves. a saber.dirigidas à tarde. Na borboleta a doudejar no vale. intransferível." classifica-se entre as expressões mágicas muito do gôsto dos românticos. E os ares nos vergéis decantam nênias E o mar em solidão na praia freme. tarde formosa!") corresponde ao castroalvino "Eu amo-te. Neste. Os elementos às vêzes são dispostos indiretamente. A comparação da tarde à mulher ("mimosa do infinito". nos suspiros Que a tarde soluçou da flor no cálix. No mesmo livro: "Que hora tão meiga! Apraz-me em teus seios. O exórdio "Era a hora. 1868) Que mais querias tu? Amei-te tanto Que em tudo quanto a natureza encerra Via o teu rosto. No mesmo número de O futuro em que Castro Alves publicava "Recordações" (n . Basta lembrar um que tem valor circunstancial. "gentil pastôra" ) . a fala amorosa ("Quanto eu te amava. então. a realidade coexiste com sua expressão literária. à lua.". no perfume santo Da bonina a florir no alto da serra. 1864)..

Nem mais tarde.. "ramos da embaíba") e transmutações metafóricas instantâneas: "as tranças mulheris da granadilha".. é se a natureza foi vista ou apenas visualizada. passando a atuar no plano alegórica. / . "fogosos" também está longe do sentido desmetaforizado de "fogoso" (em "fogoso corcel". . "mulheris". Apenas quatro adjetivos para catorze substantivos: "selvagem". triviais: "lânguidos" e "fogosos". E as tranças mulheris da granadHha! . . melancolia e ternura. onde se misturam malícia. podese falar numa alta fidelidade vivencial: Mas não me esqueço nunca dos fraguedos Onde infante selvagem me guiavas.. "lânguidos". semelhante e alguns .. Para se compreender melhor essa autenticação da linguagem pelo sentimento da realidade. / Suspender-me no abismo. Em ". Mas o primeiro está numa acepção raríssima. aproxime-se essa oitava de outra. fitar-te ainda!". A recordação da infância é uma constante na série. Não é a simples atribuição (arcádica) de sentimentos a uma entidade abstrata: é sobretudo a caracterização erótica de um tipo de sentimento. Componentes da paisagem exterior. e a obsecraçâo final: "Luz do crepúsculo. "nenufar". E os ninhos do sofrer que entre os silvedos Da embaíba nos ramos me apontavas. "tranças mulheris" e "abraços fogosos". "fogosos". são metaforizados desobjetivados . erguer-me às nuvens / E. Atingidos pelo metaforismo... E os abraços fogosos da baunilha!. tão perto do céu. de tendência nitidamente erótica. "Fogosos" se investe.. dos lânguidos segredos / Do amor do nenufar que enamoravas" o tom prosopopéico da oitava se define e adquire valor imprevisível. de anotações descritivas objetivas ( "ninhos do sofrer".. nos lânguidos segredos Do amor do nenufar que enamoravas. como no caso de Gonzaga. essa libertação é total. integram-se na fórmula encantatória. por igual. / Quero a última vez cismar contigo / .pela proximidade de "enamorar". "fogoso mancebo"). O que há de mais impressionante nesses decassílabos é a simultaneidade metafórica obtida pela síntese de paisagem e sentimento. O que menos importa. "granadilha". Dois. 206 capta a sua própria paisagem.. Na quinta estrofe. "baunilha". Ambos exercem função imagínica singular. "os abraços fogosos da baunilha"..prados!".

. Não é só nesse campo. arquejante. os dois únicos adietivos ("sinistra" e "erran. . deixando sôbre a estrada O marco milisrio de uma ossada. O sexto verso.. não porém um sentido. que sinistra ventania Muge nas selvas. errante caravana Se perde nos desertos. múltiplamente válido. devido à inanidade do conjunto. Buscando na cidade muçulmana Do sepulcro de Deus a vasta ruína. Ë que em 1865 (data do poema) Castro Alves ainda não se assenhoreara de uma expressão própria e indissolúvel. errante. subsistirá dentro da estrofe o mesmo pensamento metafórico. Deixo-te entregue ao vento da desgraça. uma das melhores da sua e da nossa poesia: De Tebas nas colunas derrocadas As cegonhas espiam debruçadas 0 horizonte sem fim. Tomemos outra passagem do "Adeus. do "Adeus.207 te") são vazios de carga útil. através de melhor aproveitamento de recursos metafóricos. E o camelo monótono. estabelece contradição de idéias. Essa estância possui uma interpretação. a topografia não diferiria em essência.. Morre feliz. Onde branqueja a caravana errante. com essa argila cansada. meu canto" Tu fôste a estrêla vésper que alumia Aos pastôres da Arcádia nos fraguedos! Ave que no meu peito se aquecia Ao murmúrio talvez dos meus segredos. No entanto. que esvoaça. Pensa em Jerusalém sempre divina. O afluxo de adjetivos sem caráter definido ou rotineiros empobrece ainda mais a passagem. Mas. antes. Castro Alves construirá a melhor estância do poema. que a evolução do poeta pode ser assinalada. Nas "Vozes d'África" seria utilizado o mesmo vocabulário. Olha o sol que se esconde na savana. ruge nos rochedos. cujo argumento repousa numa vaga tentativa alegórica. hoje. Que desce de Efraim. Condor sem rumo. a abertura "estrêla vésper que alumia / Os pastôres da Arcádia" retira qualquer possibilidade de adequação da linguagem ao tempo e à vida. Qualquer dos versos pode significar uma coisa diferente do sugerido pelo texto. peregrina. Esses versos estão ligados aos imediatos por um "assim" que não os torna mais inteligíveis. Ela às vêzes se processa dentro da própria obra. o da adequação da natureza à personalidade e da linguagem ao estado de espírito. meu canto" Quando a piedosa.anos anterior.. A imagética é pobre e consueta. arruína-se num simples efeito de sonoridade.

O poeta. não o faz didàticamente. ela os revitaliza. A figura do "eco. a interação das palavras existe de fato no corpo do texto. Isso é tanto mais importante quando se guarda sob os olhos o fato de que êsse trecho pertence à composição mais pungente do poeta. um quadro dos mais completos em seus meios-tons e na minúcia das imagens visuais distribuídas no retângulo. o poema inteiro). Os dados fornecidos ~ à emoção. tem como última sextilha: Tu não vês? Qual matilha esfaimada. cada verso contém o usual: "colunas derrocadas". Outro exemplo no terreno da imagem. Esfaz-se o tropo. Lido de perto. "horizonte sem fim". "Tebas". O pintor de crepúsculos que foi Castro Alves nos transmite. os adjetivos estão em função da rima. os coordena e os reintegra na expressividade primitiva. O verso "Lá dos morros por sôbre a quebrada" é uma aderência informativa. entregue como se acha à própria sorte. com admirável economia de tintas. O comparativo "qual" antecipa e desnatura o impacto metafórico de "ladra". vestem-se de estrita objetividade científica. "camelo arquejante".A sugestão que emana dessas linhas é fortíssima. de 1870. ainda que nos comunique sua visão da paisagem. "cegonhas" intensificam o déjà vu. funcionando em segundo plano. a eliminação da comparação em favor da metáfora. Mas êsse fracionamento é artificial. enquanto fenômenos. Basta um pequeno deslocamento sintático. cavaleiro maldito ? Mesmo oculto nos véus do infinito Tua sombra te morde nos pés. porque decompõe lèxicamente uma estrutura coesa e indivisível. O poema "Remorso". "caravana errante". a imagem não prescinde de nenhum dos semantemas propostos. Tal não se dará em "O Hóspede". A penúria do texto vulnera o valor intrínseco da concepção.. e a elevação desta ao primeiro plano: . Ladra o eco gritando: quem és? Onde vais. Lá dos morros por sôbre a quebrada. agora caracterizando não apenas a evolução criadora senão também a consciência dessa evolução. e não deriva apenas do hexassílabo final do concurso de rimas e assonâncias nasais. quase como enchimento material da estrofe. inspirado no "Meu sonho" de Alvares de Azevedo.... Os 208 signos utilizados permanecem fiéis à realidade dos sêres e dos objetos. na longa montanha / Um tropel teu galope acompanha" (cp. qual matilha esfaimada" é uma inteligente transposição da correspondente em Azevedo: ".

decerto sua obra-prima. Podem ser estendidos a poemas inteiros. Sua tendência era fugir do interior para os exteriores. a visão genesíaca de Castro Alves atinge o grau mais agudo em sua obra: o trecho é uma prosopopéia densamente erotizada. do tema para os acessórios . (Há um pequeno conflito de tempos entre "nitrindo" e "lambe".. como em tôda metáfora bem realizada. v. a que se poderia juntar "Teu cavalo nitrütdo na savana". Castro Alves só empenhava 6 espírito. g No tocante à linguagem poética. do Romantismo. modalizada pela subordinação a "matilha" e pela proximidade de outra imagem visual: "De lajedo em lajedo as corças descem". integralmente. No caso. Ao contrário de quase todos os românticos. que foi o maior problema estético dos românticos. ela invade o território do visual. teve aí uma de suas raras efetivações. de natureza auditiva. duradouro e perfeito na criação castroalvina.conferindo unidade metafórica ao conjunto e deixando. temos uma peculiaridade que se desenvolve mais amplamente em "O São Francisco" e "A Cachoeira". nenhum trabalho do poeta se compara ao "Crepúsculo sertanejo". do todo para os detalhes. cães) . No primeiro. A Cachoeira de Paulo Afonso é o desdobramento plástico de uma idéia vagamente .do ideológico para o descritivo. Em "O Hóspede". A matilha dos ecos te acompanha Ladrando pela ponta dos penedos. Exemplos dêsse tipo são suscetíveis de multiplicação. de "A Tarde". o que há de vívido. cavalo.g. era retida em seus limites lógicos.Teu cavalo nitrindo na savana Lambe as úmidas gramas em meus dedos Quando a janJarra tocas na montanha. sem maior importância). essa página é o "Crepúsculo". Merece consideração o fato de que seus melhores momentos são os descritivos. a fim de que a demonstração não se confine a detalhes. encontrou o poeta em si mesmo os recursos necessários à evasão do Ultra-Romantismo e mais de uma vez. que empenhavam na poesia dita social o espírito e o verso. Havia nêle um sentido divinatório que lhe insuflava soluções difíceis de esperar no seu tempo. o rio transformado em garanhão que sai possuindo. De tudo resulta um grupo ópticointuitivo formado de animais (corças. Nos domínios da invenção poética e da linguagens. Se no acervo do autor das Espumas Flutuantes alguma página pode aspirar ao privilégio de representar. quando a criação era verdadeiramente livre. A unidade qualitativa. Pela própria construção interrogativa em "Remorso" a figura do eco. e os sentidos predominavam sôbre o raciocínio e a adesão sentimental. o fenômeno concreto ( "quando a fanfarra tocas") fora da órbita imagínica. como a fêmeas. as terras que percorre.

Houve. ficaria sendo o poeta dos Sonetos e Rimas.sabendo que o tráfico de escravos havia sido extinto dezoito anos antes. o fato pela metáfora. que estreara em 1869 com os Corimbos.) . Somente um artista absolutamente desinteressado da validade histórica de . sua obra poderia construir um dos seus mais arrojados e mais valiosos trabalhos sôbre um anacronismo. Luís Guimarães júnior (q. ou o sentido de que se imbui. ou percalços. sòmente Castro Alves se empolgaria. Era também. onde a Natureza é a personagem central e triunfante. Seu ginotropismo nunca lhe permitiria dizer "irmã do sol". por uma concepção altamente plástica . ~ É sua qualidade. entre muitas outras coisas. O ridículo que naturalistas e parnasianos deitaram sôbre o "Lirismo" forçou a conversão de muitos.a dos negros chicoteados num tombadilho . v. A utilização extraliterária de uma obra que sobrevive são os frutos. Ele compreendeu. a crer nas datas dos manuscitos. onde a imaginação tomava as rédeas nos dentes e punha em ação a engrenagem de suas leituras. ou pelo menos sentiu. o real pelo idealizado. José Maria Gomes de Sousa. mártir eterno". a cada instante o pensamento social é soterrado pelo pensamento poético.abolicionista (nem Lucas nem Maria representam o negro escravo). no formidável clamor em nome da África. da sua permanência. Alguns repudiariam suas primícias românticas ou as retocariam convenientemente. um poema inseguro em favor do "povo infeliz. noiva do sol". Não foram poucos os que deram por esquecidos os versos "subjetivistas" da juventude. arrastar pelos novos cânones estéticos. isto é. OUTROS POETAS Os românticos que tiveram a experiência do Naturalismo e do Parnasianismo deixaram-se. o verso "Espôsa do porvir. 0 mesmo faria Melo Morais Filho. Nas "Vozes d'África" e no "Navio negreiro". Tanto "espôsa" como "noiva" são para Castro Alves simples expressões metafóricas. na maioria dos casos. . o que nenhum contemporâneo (exceto Varela) parecia compreender ou sentir: o que confere 6 Afrânio Peixoto não compreendeu. como o fez no "Navio Negreiro". dentro de sua imagética preponderava a componente erótica. que em Mocidade e Velhice lhe pediria emprestado o "noiva do sol". Entendeu-o bem melhor outro romântico. a uma obra de arte poder sôbre o tempo não é a causa que ela defende. Homero Pires não lhe ficou atrás: levantou uma biblioteca filológico-sociológico-jurídica para defender a imagem "noiva do sol". o império do poeta sôbre o homem que o levaria a transformar "Prometeu" em "Vozes d'África". que aboliria o sexualismo latente na concepção. os que se . no entanto.

conservaram fiéis. há uma dição que se aproxima da parnasiana. pela ausência de introspecção e subjetivismo. nas Nebulosas (1872) de Narcisa Amália. interfere a cada momento. Seja nos Cantos do Equador (1881) seja nos Mitos e Poemas (1884). Nacionalista convicto ("Nacionalismo" é o subtítulo de Mitos e Poemas). quer prosseguindo na estrada familiar ou defendendo-a. de maior êxito que os de Castro Alves. Românticos não deixariam de ser os egressos do ripo de Carlos Ferreira. Românticos eram de certa forma. pode-se vislumbrar na geração pósromântica (a que pertence Castro Alves) tudo aquilo que caracterizará. antes um equívoco de sectários do que uma linha poética. "A Reza. os poetas parnasianos. Seus versos abolicionistas. Pode ainda exemplificar as pÍ ilidades de conciliação entre a poesia nativista (não indianista) ossib e o Realismo. Por sua própria natureza. Mas é inútil querer apanhar um sólido fio condutor nessa fase de transição. a contribuição de Melo Morais Filho nem sempre é original. Nem podia ser de outra sorte nesse perpétuo enamorado de nossos fastos. a versalhada filosófico-científica. romântico. de nossas tradições. de nossa natureza.". A década 1871-1880 é tôda ela marcada por um Pós-romantismo parte comprometido com a tradição ultra-romântica. "Túmulo selvagem". os príncipes do Parnaso nacional: Alberto de Oliveira. apelavam para sentimentos burgueses. vício. parte dirigido para o que seria depois o Parnasianismo. Admitindo-se um lirismo parnasiano. "A Sucuruiúba". E foi na poesia folclórica e tradicionalista que produziu as melhores . ficando a emoção em plano subalterno. A falta de unidade estilística. nas Americanas (1875) de Machado de Assis. sem perda das características líricas. por vêzes se lhe equipara e até a ultrapassa como realização formal. Suas dívidas para com o autor do "Navio negreiro" são pacíficas em composições como "Ponte de lianas". Raimundo Correia. tais são os exemplos de Vitoriano Palhares. colocou sua vida e sua arte a serviço da pátria. com a devida ampliação de escala. Tobias Barreto e Bernardo Guimarães. De permeio. quer silenciando. Olavo Bilac. para o distinguir da impassibilidade (temática) que só os epígonos atingiriam. predomina o descritivo e o documental. nas Estrelas Errantes (2~I ed. à apóstrofe das "Vozes d'Africa" preferiu o melodrama. ilustra os pontos de contato entre a dição do poeta das Espumas Flutuantes e a dos Realistas. em Carlos Ferreira e nalgumas das escassas produções que se salvaram de José Jorge Siqueira Filho (Parnaso Sergipano).. e continuariam sendo. 1876) de Quirino dos Santos. Nas páginas castroalvinas. talvez a única de importância dentre quantas podem reivindicar para si o estípite castroalvino. "Tarde tropical". A poesia de Melo Morais Filho (1844-1919) .

Rosas Loucas. "A arte saúda a indústria". Sua inadaptação a miudezas formais (ou talvez sua fidelidade a si mesma) limitou essa acomodação ao afrancesamento dalguns alexandrinos primitivamente escandidos à espanhola. não se importando de manter as síncopes. Reeditando em 1900 seus poemas sob o título geral de Cantos do Equador. envolvendo-se na . Mesmo como remanescente do Romantismo de inspiração castroalvina. Viriam depois Alcíones (1872) e Redivivas (1881) .páginas. ei-lo engolfado nessa poesia utilitária. a obra de Melo Morais Filho não deve ser menosprezada. as elisões e certos hábitos prosódicos menos tolerados no fim do século. porque decididamente o mundo não se leva por cantigas". mais tarde. sociólogos. influenciadíssimos por Teixeira de Melo e Gonçalves Dias. se rebelara Leconte de Lisle. à Criança. os hiatos. trinta anos antes. No prefácio a Alcíones (vocábulo que parecia pronunciar como paroxítono). deixou antologias e cancioneiros. cantava êle. com engenhosas transposições da lira popular. à Caridade. talvez para felicidade de todos. etnólogos. Os sonetos dêsse volume correm tranqüilamente nos trilhos parnasianos. versejando ao Progresso. a contribuição do poeta de "A Mulata" era o que havia de mais válido. mostrava-se aclimatado à nova ordem poética. algumas històricamente importantes como "A Véspera de Reis". Já seu companheiro de geração Carlos Ferreira (1846-1913). Dez anos depois. Na poesia folclórica. seria seu melhor livro. embora prejudicada como está pelo pitoresco e pelo documentalismo. declarava: "Eu compreendo a gravidade dos homens de meu século. Sua vasta bagagem é ainda hoje preciosa para os nossos historiadores. O futuro converso das Plumas ao Vento era o mesmo que.Modernismo libertasse o lirismo intrínseco da tradição e do folclore. Enquanto isso. cônscio do grotesco de muitas de suas páginas. procurou acomodar-se a exigências parnasianas. editado em 1871 e reeditado em 1883. Mas é um livro da decadência. Praticou a ficção em prosa e o teatro. Sua estréia se deu em 1865 com os Cânticos juvenis. dentro de uma obra que primou pela irregularidade. ao Operário. nas Redivivas. o poeta não se referiria a êsse lançamento prematuro. ao lançar Plumas ao Vento em 1908. celebrando essa "alliance monstrueuse de 1'art et de 1'industrie" contra a qual. e não ignoro o quanto destoa uma canção lírica no meio dessa orquestra de idéias utilitárias que por aí se agitam. Antes que o . ninguém do seu tempo lhe tomou a frente em conjunto de qualidades. o poeta foi ficando esquecido. em alexandrinos bem intencionados mas nem por isso de 212 melhor qualidade. sempre informando e documentando.

1833-1902). a quem traduziu e imitou. tantas vêzes "lúcida crisálida". Amigo e companheiro de Castro Alves. visto que no próprio Baudelaire essas duas arestas não chegaram a ser aparadas. que Alberto de Oliveira assinaria.' nunca poderia ser um bom parnasiano. SOUSÁNDRADE Nada existe de semelhante à obra de Sousândrade em seu tempo. Contudo. que horrorizariam as potestades da sinérese e da sinalefa: Terno rumor do êrmo. um dos poucos românticos de 1870 que sofreram confessadamente o influxo de Baudelaire. Nada há que estranhar. O poeta assinou. voltado para o amor e a sentimentalidade. Das Rosas Loucas em diante não mais nos achamos em face de um ultraromântico. há dêstes. 1866. Bibliografia: Harpas selvagens. era também "víscera cruel". Tinha de ser por fôrça um Baudelaire romântico. sucessivamente. 1868. Hora solene e calma. Daí o fiasco de sua produção de cunho humanitário. só muito superficialmente foi influenciado por êste. no entanto. Sousa Andrade. Eólias. entretanto. Foi deficiência e não êrro de perspectiva o que fêz os nossos autores dessa fase de transição considerarem o genial precursor da poesia moderna como romântico ou como realista. Obras poéticas. esta última forma.. Impressos. . O poeta das Redivivas foi. Os temperamentos poéticos não se harmonizavam a ponto de permitir uma transfusão de estros. o ouvido afeito à doçura dos hiatos e das diéreses."batalha do Parnaso". já falava em "mônadas". Carlos Ferreira era um lírico de formação lamartineana. Sousa-Andrade e por fim Sousândrade. metia à galhofa os realistas de 1880. jamais se coadunaria com o Naturalismo e com os requintes bilaquianos. oh! voz misteriosa Das noites de luar. acentuada na antepenúltima silaba. É impossível determinar os limites entre a inspiração e a Joaquim de Sousândrade (Maranhão.. 1 ° vol. Coartado como se viu por uma doutrina poética em luta aberta com a do Romantismo. Seu realismo. Sua sensibilidade não aprenderia nas Fleurs du Mal os eflúvios do símbolo. oh! puro céu do outono. "tranformismo". na tradição. 1857. o coração. Se nas Plumas ao Vento figuram alexandrinos tersos como: Musa! É a hora do ocaso.

Invenção. em nível estético. São Paulo. Costa Lima. 1966). n . Luís. A. Walmir. Campos. Brasil. 1893. no canto VIII.se a todos êsses nomes não estivesse adstrita uma linha de pressupostos que invalida a aproximação. antologia. Rio de Janeiro. out: dez. Augusto e Haroldo de Campos. Escreveu sempre fora de seu tempo. Lautréamont. No "Memorabilia" proemial aos Cantos V. work. e H.). alusão facêta à diferença entre as duas personagens. 1876). várias edições parciais. reflexiona: "Ouvi dizer já por duas vêzes que o Guesa Errante será lido cin qüenta anos depois. Sousândrade: o poeta e a consciência crítica (in O Estado São Paulo (Supl. Lago.O 25). em Gérard de Nerval. VI e VII (Nova York.1874: reunindo Eólias. O que dificulta a apreensão do fenômeno sousandradino é a carência de poemas ou trechos representativos no plano do valor poético. Afonso. was what Guesa errante (12 cantos. Descamba dos versos mais belos. São Paulo. No prefácio de 1877 ao Canto VIII. mar. 1964. Rio de Janeiro. Ayala. Edições Invenção. (in Estudos Universitários. (in Diário São Paulo. O Guesa Errante. das soluções geniais. 1964. glossário bibliografia). (in Rev. 13 fev.Li f e. Ed. A Questão Sousândrade. Sousândrade Cem Anos Depois. Rio de Janeiro. Consultar: Ávila. 1866. Nossos Clássicos). Campos. Ainda Sousândrade. 13 . 6. Montagem: Sousándrade. entristeci . II. talvez em Blake . (in O Estado São Paulo (Supl. 1966 (Col. Poesia. O Inferno de Wall Street. Sousándrade: o Terremoto Clandestino. 1964. 9. Baudelaire. e H. 1964. poema ininteli gível. A. no mesmo diapasão: é do Tabor à vala comum. Burnett. Sousândrade. Harpas e os três primeiros cantos do Guesa errante. aberração. not f orm. not ritual. Revisão de Sousândrade. o maranhense lhes é sempre inferior. Texto de A. Sousândrade. e H. 8 agô. 1964). Rio de Janeiro. para versos grosseiros e soluções elementares. 1962). entre a inovação poética e o desarrazoado patológico. (in 1. Lit. 2 agô. incompleto). fêz êle uma espécie de declaração de princípios onde revela uma posição poética extremamente avançada para a sua época. saiu em 1893. A casca da caneleira (um dos capítulos). Braga. Porém se . Edgard. Campos. abeberado no Childe-Harold. 16 out. Nunca se mantém à mesma altura. (in Correio da Manhã. prosa. só muito remotamente se liga a Byron. Há mesmo. Recife. 1965).decepção de quem escreve cinqüenta anos antes.). (Crítica. Nôvo Éden. Idem. Agir. Suas Harpas Selvagens são anteriores às Primaveras de Casimiro e o Nôvo Eden. Lit. Livro. Ressurreição de Sousândrade. além do fato de que. A respeito de Sousândrade poderíamos falar em Hõlderlin.

Nogueira. (in O Estado São Paulo (Supl. Lit. Sousândrade. (in O Estado de São Paulo (Supl. Rio de Janeiro.. sadio. Astolfo. Moutinho. Acad. (in Revista de Cultura Brasileira. Rio de Janeiro. Clarindo. Sousândrade Revisitado. a intuição de uma poesia universal. Madrid. A nossa música e os nossos literários esplendores de certo que transportam e deslumbram os sentidos. flôres e fulgores. Santiago. Fausto. (in O Globo. Oliveira. porém de poucas será o corpo belo. 1965. 1965). Antônio de. Sousándrade . estudando os outros. Oliveira. tratamos então de elegantizá-los em nós. Franklin de. Marzo 1965. 20 jul. O Fim de um Mito. cit. Lit. Rio de Janeiro. Pierre. Letras). O Solitário da Vitória. (in 1. (in Letras e Artes. n. E afirmará mais adiante: "É em nós mesmos que está nossa divindade". Poeta Rebelionário. pela primeira vez entre nós. graças e tesoiros. 1965). n. Sousândrade . Literatura Soterrada.. (in Fôlha São Paulo. (in Revisão de Sousdndrade (op. forte. Wilson. Luís. Mais uma vez Sousândrade. Seu lema cifrava-se neste "conselho dos mestres": "ser absolutamente o eu livre". Serra. J. roupagens e adornos. Teve.). ãrasil. Sons e perfumes. viajado pelos quatro cantos do mundo.diz um swedenborgiano pregador. o que imputava à "falta de ciência e de meditação". Sousândrade e a Colocação de pronomes. e pelas formas alheias destruímos a escultura da nossa natureza. falando da Religião: não poderíamos dizer o mesmo da Poesia?". 1964). 28 nov. Maranhense Letras.° 3). Homem Estilhaçado. 1965). Rio de Janeiro. 17 agô. A. (in Rev. 1965). O campo visual de uma experiência antecipadora. 17 maio 1964).o Terremoto Clandestino. Rio de Janeiro.). 2 dez. Costa Lima. (in Rev. (Jornal Comércio. Rio de Janeiro. Cunha. 1962). Antônio de. 31 out. Aead.) 27 fev. (in O Globo.. 1954).° 12.mar. a nossa escola não é nossa e nada ensina aos outros. Oliveira. que é a própria forma de todos. Vivendo no exterior. Antônio de. 214 the Lord demanded . 20 nov. Comércio. Furter. 1967). 6 mar. Comércio. e a alma com a dor da humanidade e com a existência do que é eterno. Martins. o poeta maldito. Sousândrade. são sem dúvida grandes dotes de muitas princesas. afrouxam a idéia do homem. 13 set.O Guesa Errante. . Pois os Mortos Retornam. Notícia de Sousândrade. mas também adormentam o pensamento. Oliveira. S. compreendia quanto nossa poesia não interessava ao estrangeiro. Acrescentava: Até a nossa ortografia portuguêsa não se entende entre si.

lembra a elegia "Sombras". se encadeiam harmoniosamente com o português e expressões indígenas. "laços-serpentes". "seios-céus". espanhol. o ultra-romântico são visíveis. Do emaranhado fraseológico dos seus versos se extrai tuna linha embebida no Neoclassicismo de Odorico Mendes e Gonçalves Dias. corrompe os vocábulos à sua conveniência criadora. situam-no na vanguarda da mais exigente técnica poundiana. Hábito morfológico do gôsto dos simbolistas encontraria nêle antecessor: "mármoro luar". . Quase com a mesma objetividade. soluções (não estranhas às línguas anglo-saxônicas) como "os longes longe-ignotos / Nunca ouvidos cantares". "ares tênebros". no sentido pejorativo. rascáls". A verdade caminha por veredas tortas. Nas Eólias e nas Harpas Selvagens o romântico. Humberto de Campos viu-o. o sentido ambíguo. das Harpas sousandradinas. Quando o paraibano. onde vocábulos e frases em francês. grego. diante do cadáver do pai. os clássicos. feita meio século antes. A construção da frase obedece amiúde a torneios latinos ou anglicanistas. Praticou o hibridismo idiomático numa escala nunca vista em nossas letras . . etc. alemão. esperaria o Eu de Augusto dos Anjos. Vai ainda mais longe: antecipando-se à lição de Ezra Pound e de Joyce. "ônçiulos cabelos". com um emprêgo moderníssimo da tmese. No Guesa. no Brasil.Não ficou na crítica. em vez de se lançar à lamentação e ao elegíaco. dentro de moldes universais. sínteses como "lírios-luz". volta-se para a descrição do processo fisiológico da putrefação situa a morte como um fenômeno orgânico e não como uma abstração metafísica. Versos como "Sobre-rum-nadam fiends. Há nêle uma forma de Realismo que. Foi mais além: subverteu a ortografia. Segue-se a obscuridade. a semântica. a elipse no significado. algumas constituem pontos-chave da poesia moderna. Sousândrade vai descrevendo o apodrecimento do corpo da criatura amada. O Modernismo homologou muitas de suas proposições. burlescamente. como um "futurista" avant la lettre. José Veríssimo. embora sem exacerbamento. Parece que Sousândrade tinha diante de si. Inovações sintáticas do tipo de "ôlho-azul Marabá" (recordando o "blue-eyed" anteposto do inglês) seriam de aceitação mais duvidosa. a sintaxe. ou intrinsecamente simbolista. Tentou a poesia universal. italiano.hibridismo funcional.215 sua dição é por vêzes limpidamente parnasiana. como um pré-simbolista. Assim aglutinações metafóricas como "Florchameja das matas o dossel". dentro duma concepção filosófica não muito distinta (o materialismo de Augusto é aparente). mais que os poetas românticos. inglês.

Alencar. JOSÉ DE ALENCAR E A FICÇÃO ROMÂNTICA Romantismo e Romance. Seu levantamento crítico exige dedicaçÃo de muitos anos. Como de sombra e solidão me enluto. se concretizou. em contrapartida. conferiram drade o direito de figurar como um precursor. "bebem: cedem". na sua imagética. a monotonia dos sons de uma só corda. Na poesia desigual e tumultuária de Sousâpndrade é difícil tomar pé.. "cego: meigo". "esgarçado noturno de colmeias". as assonâncias. como êle previra. mas simplesmente da narrativa. Lucas José de Alvarenga. "lôbrega: negra". "depende: concede".Exceção de algumas cenas e trechos intercalados. mas que pela severidade sua dá ao pensamento maior energia e concisão. o Guesa Errante é todo construído em quartetos decassilábicos. e como se até lhe fôsse necessária. Joaquim Norberto. adotei o verso que mais separa-se dos esplendores de luz e de música. Pereira da Silva. "tardes: arrabaldes".. rimando ora AasA ora ABAB. etc. são em pequeno número. re . 216 22. no Guesa. "nuvem: enturvem". com ligeiras variantes.%ustiniano . Precursores. "O Guesa nada tendo do dramático. "pirilampos: relâmpagos". valorizando a criação no a Sousânabsurdo e a vtolentaçao do organismo verbal. Mas a projeção do criador do Guesa na atualidade. Há. . As direções tomadas pela poesia moderna. O Primeiro Romance Brasileiro. O mesmo sucede nas Eólias e nas Harpas Selvagens. Teixeira e Sousa. histórico. A obra alencariana: romances urbano." As rimas agudas. Varnhagen. largos traços de nobreza e de originalidade: "as rosas e os jacintos do nevoeiro". adotei para êle o metro que menos canta. que estou como os que sobem Tontos do abismo à luz dos oceanos? Vê-se como tão rápido anoiteço. do lírico ou do épico (explica êle). as imperfeitas.José da Rocha. deixando o poeta na plenitude intelectual. Onde vivi. Talvez provenha dessa dificuldade inicial o prolongado silêncio em tôrno de seu nome. as audácias: "pálido: assombrado". "bárbaros: lábaros". Macedo. Abundam. rompido vagamente por Sílvio Romero. "Luar em luz de pérolas e lírios". "mádida: esquálida".

a se debaterem na maré revôlta de anseios de justiça e de aspirações reivindicatórias. O frio equilíbrio racional das idéias e sentimentos neoclássicos era uma linguagem estranha a êsses novos valôres. O romance. para o 1 Paul Van Tieghem.217 homem atordoado do início do século XIX. surgiu como resposta a necessidades de expressão. Paris. Características temáticas: solidão. 483. de luta contra o que até então vigorava e. Ao ideal renascentista de uma cultura integral. amor e morte. Michel. Taunay. Na raiz dessas necessidades está o Romantismo. 1948. . "création du Romantisme. da parte do leitor. novos anseios. E se examinarmos com atenção o processo de desenvolvimento do romance burguês. valôres novos. onde a existência de importante tradição levaria o romance romântica à condição de mero prolongamento do romance dos séculos precedentes e. em especial. o liberalismo burguês respondia . substituindo por um ideal nôvo o ideal superado dos clássicos. com o progresso da técnica.gionalista. comparando-o ao do próprio Romantismo. não faria o mesmo com a ficção. p. Inglaterra e Alemanha. lealdade. qui apparut aux contemporaines eux-mêmes comme une franche nouveauté". Esses fatos permitem compreender o que tem sido apontado como característica fundamental do Romantismo. A. baseadas na especialização. veremos que as coisas não poderiam ter ocorrido de outro modo. Le gado do romance romântico. emergindo em conseqüência elementos novos das camadas inferiores da estratificação sócio-econômica. ou seja. pôs em vigor novas formas de trabalho. natureza. O industrialismo. Machado de Assis. Uma nova atitude em face da vida. cujas sementes se encontravam fecundadas desde a segunda metade do século XVIII. Caracterís ticas estruturais do romance romântico: influ ências da literatura oral. do folhetim. principalmente na França. e a determinadas aspirações. Bernardo Guimarães. foi no romance que o Romantismo encontrou o melhor veículo para a propagação de suas idéias. ao mesmo tempo. viria a ser o romance histórico. A única exceção. tendo inovado completa e J sistemàticamente a poesia e o drama. forma narrativa moderna. do teatro. ao mesmo tempo. surgiram. da parte do escritor. como acentua Paul Van Tieghem. Os movimentos revolucionários dessa época fizeram ruir a velha estrutura social. nacionalidade. Le romantlsme dans Ia littérature européenne. a sua atitude de permanente oposição. Franklin Tá vora. de protesto contra as novas formas de existência. das obras mais significativas dos pré-românticos. ROMANTISMO E ROMANCE á Foi observado que o Romantismo. 1 Apesar disso.

1941. em última análise. le développément du réalisme. como reclama seus direitos e sua liber2 Arqueles Vela. 443. pelo menos daquelas tendências mais profundas e por isso mesmo universais. o romance romântico europeu apresenta uma série de características gerais. o que. México Fuente cultural. emergiriam. de Pexpression des passions. E se a arte requer um mínimo de ressonância na coletividade para satisfazer seu impulso criador. Y como el hombre no puede vivir fuera de Ia sociedad. cit.. sua inspiração e seu motivo. que os movimentos revolucionários haviam trazido para a realidade social. p. 4 Paul Van Tieghem. 484-486. 3 Philippe Van Tieghem. era o meio adequado à difusão das idéias românticas. que pouco variam nas diversas literaturas nacionais. Fayard. não obstante sua tendência à embriaguez metafísica. de Rousseau. 218 - . tout cela devait naturellement profiter à un gente qui est avant tout de Ia peinture de Ia réalité. sendo mais importantes aquelas já indicadas por Van Tieghem: 4 o predominante papel que exerce a personalidade do autor.3 Encarado em conjunto. 1'expression plus directe du sentiment. para as páginas dos romances e para os versos dos poemas. Evolución historica de Ia literatura universal. que elas encontrariam sua melhor expressão. também. a importância conferida à paixão. Paris. assim. de Ia liberté de 1'imagination. Seria nas primeiras. que já agora não só proclama seu valor intrínseco. O romance. 1940.com o processo de individualização derivado dos novos métodos de trabalho. 293. pp. Ao destruir as bases da sociedade. e cujas origens residem na Nouvelle Héloise. Surgia. Lã forma política rompia los nexos entre el hombre y Ia sociedad. "Ia literatura desde el siglo XIX carece de esa primordialidad social. o liberalismo burguês impedia a estruturação da atmosfera necessária à arte de expressão extensa. Daí o sentimento de solidão que domina o Romantismo. Ia inventa para proyectarse socialmente". essas tendências eram particularmente propícias ao enriquecimento do romance La réhab0itation de 1'imagination. p. Por outro lado. op. desligava o homem da sociedade. as camadas. sobretudo. mais do que a poesia e o teatro. e fêz dos ideais de liberdade. igualdade e fraternidade. Histoire de Ia 1ittérature française. uma nova temática para a literatura. 2 Acrescente-se a isso que o Romantismo permaneceu sempre ligado às lutas políticas.

o amar ao exotismo. O PRIMEIRO ROMANCE No caso brasileiro. 1682. Máximas de virtude e formosura . obras como a História do Predestinado Peregrino e de seu Irmão Precito. Era o romance essa forma. 6 Nuno Marques Pereira. sem qualquer continuidade. embora já conhecida. o que confere às emoções das personagens ressonâncias mais profundas. técnica que apresenta certas vantagens para a expressão direta das grandes paixões. na Europa. as duas primeiras podem ser consideradas como antecedentes embrionários e isolados do nosso romance. menos pelo descrédito da nossa poesia. quanto ao estilo. a evocação do passado histórico. de regra o nacional. ao lado da narrativa impessoal. ao maravilhoso. como querem alguns. brilhante e sonoro. o sentimento da natureza e a pintura de paisagens nas quais se desenvolva a ação. são mais evidentes e melhor fixadas naquelas literaturas onde o romance prolonga tradição já existente. que tão bem nos calhava. 7 Quando muito. influíra de modo decisivo para a criação do romance moderlto. Aderindo às idéias românticas como recurso para conseguir a emancipação literária que. Essas características. abundante no uso de hipérboles. mas incorporar à nossa atividade literária uma nova forma de expressão ainda não realizada entre nós. de detalhes da vida familiar. impetuoso. e com freqüência apaixonado.dade em face de restrições ou preconceitos de ordem moral e social. em forma de romance epistolar e autobiográfico. da que por sermos uma jovem nação. a nascer sob o signo da classe cuja ascensão. 1728. à aventura. declamatório para o gôsto atual. em cuja defesa se empenham 5 Alexandre de Gusmão. Compêndio narrativo do peregrino da América. Dizer que o romance ainda não fôra realizado no Brasil implica não incluir nessa categoria. exclamações e imagens. iríamos não sòmente assimilar do dicionário romântico aquilo que melhor se adaptasse à realidade e às aspirações do país. Quanto ao livro de Teresa Margarida. PRECURSORES. sem uma linha de desenvolvimento unitária. certo realismo na adaptação e fixação de aspectos do mundo objetivo. a narrativa pessoal. Veio criar o romance. 5 0 Compêndio Narrativo do Peregrino da América 6 e Aventuras de Dió f artes. geralmente mais concreto e mais colorido do que os dos romancistas do século XVIII. como é natural. já vínhamos tentando desde época anterior. 7 Dorotéia Engrassia Tavareda Dalmira. sob a inspiração da mesma filosofia política que informara os movimentos revolucionários europeus. o Romantismo não veio fecundar um romance porventura existente. A história do predestinado peregrino e de seu irmão Precito.

Paulo. O primeiro . como o adotado por Sílvio Romero. e Geog. prestaram ao desenvolvimento do nosso romance. de nossa vida e de nossa gente. é de completa formação européia. S. e suas primeiras manifestações pertencem. 11 Pequeno volume de 58 páginas. esclarecendo que por muitas razões não lhe convinha o método sentencioso. a primeira novela que se publicou no Brasil foi Statira. tendo sido durante pouco 8 Ernesto B. Ao que tudo indica. de Caldas Barbosa. entre outros motivos porque não sendo a Novela senão um discurso inventado para instrução dos homens debaixo da alegoria de uma ação. companheiro. de Alexandre Gusmão. principalmente na França. confessadamente uma imitação de Fénelon. Paulo. na introdução. aqui viveram e escreveram a respeito de nossa história. entre outros. poeta. muita vez impossível. S. O próprio autor indica essa filiação quando. 1938). militar e político. de consulta difícil. em Coimbra. ao domínio pouco acessível da arqueologia literária. XXXV. vol. . nascidos no estrangeiro. estaríamos impedidos de classificar como nossa a obra de Anchieta. dez. 1752.com que Diófanes.12 Mineiro rico e instruído. Climenéia e Hemirena. Inst. hoje. nem exerceu a mínima influência em nossa literatura. Príncipes de Tebas. de Lucas José de Alvarenga. pela contribuição que. não diz respeito ao Brasil. 9 e no qual se escudou Rui Bloem 1° para tentar justificar a nacionalidade brasileira do livro da irmã de Matias Aires. antes do advento do Romantismo. venceram os mais apertados lances da desgraça (Aventuras de Diófanes). 8 não é brasileiro. filia-se essa novela à literatura didática. e Zoroastes (1826). Sua autora aqui apenas nasceu. não pode ser incluído nos quadros da literatura brasileira senão por fôrça de um critério de classificação bastante discutível. e por isso pertencem ao nosso passado intelectual. pareceu-me êste meio o mais conveniente para aproveitar a oportunidade de dar algumas idéias de Moral e de Política. nos quais não deveriam faltar. pois. A prevalecer êsse critério. que tanta voga teve na Europa. Uma escritora portuguêsa do século XVIII. misturando agradàvelmente o utile dulci que recomenda Horácio.219 nomes ilustres. já não figuram nem mesmo nos estudos especializados. e o livro. Rui Bloem. diz ter preferido o alegórico. Hist. Enes. Com o Romantismo. (in Rev. como inauguradoras da forma. de Gonzaga e muitos outros que. nasceu a novelística brasileira. de Vieira. de moral edificante.

mas aquela presunção de direito.. tinha mais propósitos políticos que literários. Predominava a poesia. e Zoroastes. naturalmente.romance brasileiro.. Teresa Margarida da Silva e Orta. cit. ao escrever essa obra. constituindo o fenômeno precursor. é evidente. e por isso ousava levantar a voz para falar sôbre esta importante.. que outros sem estas favoráveis circunstâncias tão liberalmente se arrogam. 9 Sílvio Romero. é que apareceria um grupo de autores se encaminhando para o romance. XVI. out. e demorar-se algum tempo nas duas capitais da França. Rio de Janeiro. quando nenhum outro escritor. J.] é sem dúvida que tem a seu favor não a sua própria presunção. ao que saibamos. o fato é que Lucas José de Alvarenga publicou sua pequena novela em 1826. em Direito Civil [ . 220 tempo governador em Macau. o seu propósito. precursora do romance brasileiro. 14 Qualquer que tenha sido. A. treze anos depois de Statira. 1826. 13 Daí. 11 Lucas José de Alvarenga. julgava-se no dever de prestar . . 12 Alvarenga.. pois que sendo êle [o autor] ao mesmo tempo da Profissão das Letras.. A Imperatriz do Brasil. Statira. está cheia de citações eruditas. pp. e delicada Ciência [Política]. História da literatura brasileira. 1952). 297. 1938). tinha adotado essa forma literária no Brasil. II. O Cruzeiro. tratado adiante.serviços à pátria. p. e Zoroastes. e da Inglaterra (esta rival de Sparta e ambas rivais de Atenas) sem outro fim mais. O autor.. cit. Arquivo Municipal. Tristão de Ataíde. Rio de Janeiro. Olímpio. formado na Universidade de Coimbra. (in O romance brasileiro. op. porém. 10 Rui Bloem. op. porque a sua novela. que os seus ardentes desejos pudessem conseguir. a respeito de literatura ou de política. vol. p. (in Rev. 1943. 41-42. Imperial Tipografia de Plancher. novela dedicada a S. Rio de Janeiro. para o que estava prevenido desde muitos anos antes com o conhecimento das respectivas línguas. 1. para assim poder tirar dêste tão dispendioso trabalho e das suas penosas fadigas os melhores frutos. 3? ed. é o próprio Lucas José de Alvarenga quem confessa haver tomado a resolução de despender o resto de sua fortuna em passar da Ásia à Europa. São Paulo. e só em 1839. que limar e polir a sua própria instrução. sob a influência de um gênero que êle conhecera de perto. .

c) numa possível alusão a José Bonifácio. 1830. conforme depoimento do autor. (in Anuário brasileiro de literatura. de uma Constituição "ao nível das idéias do século e todavia digna do Trono". grão-mestre da maçonaria e criador do carbonário Apostolado. na proclamação da soberana dos lícios.15 Esse depoimento do novelista serviu de apoio a Hélio Viana. e objeto. e Zoroastes. como : a) na passagem inicial de Zoroastes com os príncipes persas. X e XI. op. Valverde. J. com as suas notas e um resumo da sua vida. 15 Alvarenga. tal como foi feito no Brasil.Statira.. nasceu de uma extensa peça. e Zoroastes.221 flexa os misteriosos cavaleiros que raptaram Statira e seu pai. como fêz D. ns. na qual diz que o Particular Motivo de imprimir-se esta Novela. do Diário. . àquela época. Observações d Memória de Lucas José d'Alvarenga. Pedro em 1824. Rio de Janeiro. pp. ainda que a tudo isso se acrescente a manifestação do autor. talvez em mais de três partes (e bem interessantes) vim (o autor) por motivos imperiosos (ou imperiais) a dá-Ia em 1826 ao prelo redigida e já debaixo da forma de novela com o título de . Tip. merecido unânime aprovação. como se pensou em fazer no Brasil. Maria Leopoldina Josefa Carolina. op.. d) nessa mesma proclamação. 7 e 8. que então passaria a ser denominado Magistrado d'Alta Polícia. a suspensão da liberdade individual e a manutenção apenas da de imprensa. b) no fato de estarem armados de arco e 13 Alvarenga. pela soberana. que mutilada depois. a . XIV e XV. 14 Alvarenga. passando logo a Constituição do Estado. cit. pp. 16 Em mais de um ponto o historiador descobriu alusões ou mesmo identificou episódios da novela com fatos da história nacional.17 Mas. cit. 16 Hélio Viana. constante da dedicatória que fêz à Imperatriz D. escrito pelo mesmo L. e) o oferecimento.Sabe-se que Statira. em que chamou a atenção para as "localizações cariocas". f) o fato de haver o projeto dessa Constituição. após a fala da soberana. 1943-1944. em 1823. A Revolução. Z. 234-243. "A primeira novela brasileira "à clef". A. o seu contexto. escrita em 1822. através dos aprazíveis passeios da Quinta e de um jardim Filosófico (Botânico). quando. para o estudo de Statira. e Zoroastes como a "primeira novela brasileira à cle f". pp. aparece mencionado o grande Sacerdote. Rio de Janeiro.

19 Alvarenga. Esgota-se em si mesmo. O amor de Zoroastes. M. vestal consagrada ao culto do fogo e por isso impedida de contrair matrimônio . com a propaganda ideológica do autor. para difundir idéias novas e revolucionárias a respeito dos direitos políticos e sociais femininos. e Zoroastes é um romance alegórico ao gôsto clássico. op. principalmente. Nela não há uma realidade disfarçada. Só mais de dois lustros após a publicação de Statira„ e Zoroastes é que apareceriam romances e novelas de outros autores.que vai depois subir ao trono materno. e jerônimo Côrte Real. Religião. por fim. em síntese. de moral edificante. Românticas. vários nomes. aprareceriam de Pereira da Silva 20 O Aniversário de D. daí porque uma de suas principais características é a intemporalidade. Só nesse ano. casar com o próprio Zoroastes e logo em seguida morrer . cujos receios.constitui. inclusive com a pregação de uma república de mulheres. cit. Statira. já conhecidos como poetas. 1. passariam a assinar obras de ficção em prosa. escrito não apenas para exaltar as virtudes da Imperatriz. de que as suas idéias fôssem talvez exageradas. após modificação nas leis do país. com os dados até agora conhecidos. as sublimes virtudes da Princesa Heroína. manifestados através da pregação final de Zoroastes. 18 Alvarenga. cit.. Amor e Pátria. M. a Statira.18 ainda assim não há por que se possa. o núcleo central da intriga da novela. p. 242-243. classificar a obra como novela à clef. mas. pp. Miguel erro 1828. De conteúdo político inspirado em princípios da revolução francesa.analogia. após a interrupção assinalada. príncipe tibetano. filhas de uma imaginação exaltada 19 são mera figura de retórica. A história é mero pretexto para a divulgação de idéias políticas e sociais. mas analogia e mesmo alusão a fatos de nossa realidades histórica.. que no final de contas se tornou o essencial. com personnages déguisés. A partir de 1839. op. que tem com as de V. instalar na Lícia a República das Mulheres e. historiadores ou críticos. como convém ao gênero. op. e de Justiniano . constituindo-se o restante. a ausência de decurso temporal. tudo isto inspira a lembrança de a Dedicar a V. cit. mas não lhe fornece maior substância narrativa. 17 Hélio Viana. prefencialmente nos jornais e revistas da época. 54. o que por si só não autoriza a classificação.

professor. 23 As Duas órfãs. 1839. 1954. jan: mar. Uma paixão de artista. 1878). Manuel de Morais (crônica do século XVII). enquanto o ano de 1841 veria surgir a primeira novela de Norberto. historiador. 1855. 21 Justiniano José da Rocha (Rio de Janeiro. cujas intrigas. Rio de Janeiro. ou simples 20 João Manuel Pereira da Silva (Rio de Janeiro. sobreviveu como romancista. crítico. Inst. E o centro do mundo para nós já era a França. jornalista. ou mesmo como atividade principal. Rio de Noronha (crônica do século XVIII). onde o romance. poeta e romancista. na grande maioria dos casos. Religião. Religião amor e pátria. político. historiadores ou críticos. ou divertimento de letrados. veículo nôvo para as suas idéias. poetas. Romances: Os assassínios misteriosos ou a paixão dos diamantes. romancista. 1955). Rio de Janeiro.Paris. Rio de Janeiro. 224. ávidos de atuar em todos os domínios da literatura. seriam publicados mais dois romances de Pereira da Silva. da qual não se conseguiu indicação de publicação. Rio de Janeiro. 1866. 1812 . Miguel em 1828. (in Rev. 1898). eram evidente imitação do romance negro e do folhetim. bacharel em Direito pela Universidade de Paris. Romances: O aniversário de D. 1820-1891).José da Rocha 21 a "novela histórica" Assassínios Misteriosos ou A Paixão dos Diamantes. 226. que viam na forma narrativa a novidade digna de atenção. 11152 . n. em grande parte. . de categoria inferior.1862). Rio de Janeiro. como já foi dito. Sumé. sobretudo pelo favor que lhe concedia um público cada vez mais interessado. 1840. Rio de Janeiro. e Varnhagen 22 estrearia com a Crônica do Descobrimento do Brasil. 1839.Viena. 225. escravizava à sua sedução milhares e milhares de leitores. jornalista. Rio de Janeiro. 1819 . Rio de Janeiro. jul: set.Sôbre Varnhagen. [1872?]. também nenhum dêles se dedicou ao romance como atividade literária única. tradutor e romancista. Nenhum dêsses escritores. n. Caramuru. Para êles. Romances: Crônica do Descobrimento do Brasil. 1866. Hist. Vida e obra de Varnhagen. Aspásia. bacharel em Direito pela Faculdade de São Paulo (1833). Esses fatos. Rio de Janeiro. Brasil. Vis conde de Pôrto Seguro. Rio de Janeiro. lerônimo Côrte Real (crônica do século XVII). 1816 . Eram. 1954. humanidades na França. sobretudo o de gôsto popular e em forma de folhetim. explicam a má qualidade do que então se produzia: narrativas sem maior interêsse. Geogr. 1838. O pária da sociedade brasileira (novela anunciada em 4 tomos. No ano seguinte. 23 Joaquim Norberto de Sousa Silva (Rio de Janeiro. o romance era simples instrumento de divulgação histórica. amor e pátria. de intelectuais que procuravam ficar em dia com o que estava acontecendo no mundo. Rio de Janeiro. ver: Clado Ribeiro de Lessa. porém. 1840. historiador. historiador político e literário. 1839. 22 Francisco Adolfo de Varnhagen (São Paulo. abr: jun.

223 crônicas históricas romanceadas. porém. não merecendo os seus autores. teatrólogo e romancista. 1843-44. o público só poderia satisfazer o seu gôsto . por insuficiência de requisitos indispensáveis. ]anuário Garcia. filia-se essa obra à linha do romance francês do tipo heróico-galante dos séculos XVII e XVIII. Rio de Janeiro. ou As sete orelhas. Na verdade. do relato. 24 quando acertadamente classificou a sua obra como "pequena crônica" e "ensaio de romance". basta verificar que. do que ao aproveitamento dêles como material de romance. Rio de Janeiro. contra o qual o nosso Romantismo procura ressuscitar e mesmo criar raízes indígenas. Entre outras considerações. Essas primeiras obras visavam antes à divulgação dos fatos históricos como História. Romances: As duas órfãs. Não nos é possível nem mesmo falar em romance histórico. enquanto o romance histórico do Romantismo europeu. à moda do autor de Waverley. não apenas pelo fato de não merecerem o nome de romance. não podem ser consideradas romance histórico. e isso foi inclusive sentido por um dêles. sendo pouquíssimos os romances nacionais. essas obras participam muito mais da crônica. (in Romances e Novelas. responde quase sempre a uma necessidade de exaltação do passado nacional . havia a forma nova de romance histórico que interpretaram apressadamente como modalidade de fazer (ou de falsear) História. (in Romances e novelas. Maria ou vinte anos depois.e inclusive tê-lo formado . Varnhagen chegou mesmo a confessar que a sua Crônica do Descobrimento do Brasil era escrita em forma de romance para melhor adaptar-se ao gôsto do país. poeta. histórico. 1852). Niterói. crítico. Niterói.na leitura de originais e traduções de romancistas estrangeiros. o ajuizamento de suas possibilidades e de seu poder de penetração popular. maior atenção da crítica ou da história que dêles se ocupou. 1841. no caso das obras de Pereira da Silva e de Varnhagen. "d'une humanité plus voisine de Ia sienne". do que do romance. . O testemunho falso. senão porque lhes faltavam aquelas características que deram corpo e prestígio à forma inaugurada por Scott. 26 Data essa confissão de uma época em que. Mais do que ao romance histórico. como romancistas. Aos nossos precursores.historiador. 1832). ensaios. São bem tentativas.o leitor a querer heróis que lhe sejam próximos. a lição dêsses romancistas não foi útil senão em proporções bastante reduzidas: o conhecimento da nova forma de expressão literária. . ao lado do romance negro e do folhetim de capa e espada ou de intriga sentimental.a obra dos nossos precursores se encaminha preferentemente para o passado português. 25 . a verificação de que.

a desorientação quanto à escola a ser seguida. 26 Cf. tão mudado de forma que quase me parece outro. 1-2.a assimilação dos temas mais vulgares e superficiais. uma nação livre a tomar consciência de sua destinação histórica. 2-3. 25 Paul Van Tieghem. Os poetas mineiros. não era somente a despreocupação no que diz respeito ao aspecto técnico que fazia da novelistica dessa época o que ela foi. mas da própria confissão do autor: Aproveitando algumas cousas. p. e levaria alguns a modificar e melhorar. ali já decadente. oferecer-lhe um mínimo de arquitetura capaz de fazê-la sobreviver. haviam iniciado a preparação do terreno para a mudança de rumo. Vol. como se pode deduzir. 1940. o que a essa época haviam escrito. apontando-o como o caminho que deveríamos eleger. e acrescentando-lhe episódios mais largos e variados. o espírito nacional estava trabalhando pelos acontecimentos que abalaram e destruíram o regime colonial. Garnier. a falta de rumos em que ainda se debatia a nossa literatura. Deux exemples de Ia formation de gemes nouveaux dans le roman du XIX siècle.27 Mas. 184). 373. e terminaram por fazer do Brasil um império. Era também. dar-lhe unidade e coerência. quando já 24 Pereira da Silva. Dicionário bibliográfico. entre outros. porém já bastante modificado e com o evidente intuito de melhor estruturação. Estava ausente dêles a preocupação de estruturar a narrativa em bases sólidas. é certo. de Pereira da Silva. Amsterdam. pp. publicado no jornal do Comércio (1839) e só editado em livro em 1865. Num como noutro caso. $ o caso. Essa preocupação só viria depois. de revolta e de anseio de . e quase diríamos principalmente. E isso equivale a dizer que estávamos trabalhados pela atmosfera de reivindicação. Rio de Janeiro. 1865. Blake. em 1836. e indecisa ante a nova orientação que se lhe apresentava. do Jerônimo Côrte Real. (in Helicon. II. 11. não apenas do cotejo das duas publicações. eis um rápido balanço do que os nossos primeiros romancistas revelam ter aprendido da lição que lhes davam os de literaturas mais adiantadas. estivesse resgatado o pesado tributo da experiência inicial. em que sempre andara metida. viciada pelas deturpações do Classicismo. sobretudo da novela sentimental. descobria em Paris o Romantismo. desprezando outras. Jerônimo Côrte Real. e não o mesmo filho querido dos meus vinte anos e das minhas primeiras inspirações literárias. p. e Magalhães. tempos mais tarde. siga o livro o seu destino. S.

particularizando-o nacionalmente. porém. mesmo a de poetas secundários. op. 30 cujo capítulo de introdução pode e deve ser considerado como o manifesto do Romantismo brasileiro. no desejo de liberdade. complexidade e profundidade de sentimentos. inclusive mais tarde do que no romance. Ia jeune . 29 Joaquim Manuel de Macedo. qu'on s'en débarasse moins aisément que d'un régime politique. compreenderam o sentido e a significação do Romantismo e o realizaram em suas obras. 28 Gonçalves Dias. forma de narrativa em prosa. nada disso nos faltava desde 1826. quando os nossos escritores. O amadurecimento de nossa consciência nacional fôra realizado em ritmo acelerado. não era intérprete muito fiel da alma brasileira. cit. que refletiam indecisa e fracamente a preferência dada à 27 Pereira da Silva. ou. Êsse fato foi perfeitamente sentido e aceito no plano político. tinham adquirido as tendências mais superficiais. sujeita que estivera ao bacharelismo português. procurávamos igualmente romper em matéria de cultura. não sabiam como expressá-la em suas obras. amadurecidas as idéias que nos vinham da França. data em que apareceu a história literária de Denis. elle remonte si loin. no embate dos choques políticos e militares. pelo menos. mas não foi realizado no plano literário senão tardiamente. mas a nossa literatura naturalmente se atrasara. como Pôrto-Alegre e Dutra e Melo. porém. sem o que a postura romântica resulta quase sempre ridícula. Exceto a obra de Magalhães. 29 já circulavam entre os leitores. na qual crescera e vingara o Romantismo europeu. não seria anterior à dos precursores do nosso romance. o nosso Romantismo vingou tarde. no que tinha de tópico e estéril. Ainda não haviam êstes. estratificação cultural. Da nova estética. assimilado a essência da temática do Romantismo. mas da fase inicial. elle est si profondément ancrée dans les esprits. réduite à ses propres forces. que se plasmava no orgulho e no amor à terra. devia a que estávamos vivendo fase de transição durante a qual. Mesmo em poesia. pois: Cette tradition portugaise a tant de valeur en elle-même. tendo rompido com a tradição portuguesa em matéria de política. de arte. na vontade de construir uma nação livre e independente. 28 quando dois romances de um dos mais populares escritores da época. o romance. para a qual havia o auxílio de uma tradição artesanal. Orientação panorâmica. o nosso primeiro grande poeta romântico veria publicado o seu livro de estréia. E se ela refletia mal as aspirações nacionais. Faltava-nos. La difficulté est grande. se confondant avec les origines même du peuple brésilien.liberdade. e aqui as dificuldades eram na realidade bem maiores. princípios de ordem geral da ideologia romântica.

qu'elle ira chercher le romantisme. 31 Foi durante essa fase de transição que surgiram os precursores do romance nacional. O deficiente aspecto técnico de uma novelística que estava a nascer. Mais elle a encore besoin de I'Europe: c'est en Europe. mais exteriores.mas estudar nos textos brasileiros de que modo assimilamos as características da literatura européia. et du Brésil. Champion. 1927). geralmente o protagonista. em que á consciência política não correspondia uma consciência literária igualmente amadurecida o que impedia a imediata assimilação e aproveitamento dos temas dominantes do Romantismo .eis. filho do Romantismo.não será permitido ignorar que o nosso romance. Janvier-Mars. O romance romântico europeu foi. 31 Paul Hazard. uma como que explosão da sensibilidade do indivíduo em face da sua . foram fatalmente tentados a prolongar no romance. refletir a temática romântica senão naquilo que ela apresentasse de mais superficial e menos definitivo. en effet. Elle refuse d'aller prendre le mot d'ordre à Coimbre ou à Porto. Paris. que se estava a iniciar. impedindo-a de elevar-se a um nível mínimo capaz de assegurar-lhe a sobrevivência.. dele não herdaria senão aquelas tendências mais populares. em síntese. cujos versos são cuidadosa e integralmente transcritos no corpo da narrativa. desse modo.nation arriverait malaisément à Ia résoudre. que pertenciam à fase de plena decadência do Romantismo e de transição para o Realismo. num país que a não realizara até aí. E o que é mais: poetas todos êles. Paris. transformando-as nacionalmente . raro é o romance dessa fase que não contém pelo menos uma personagem poeta. e mais o fato de estar sendo iniciada numa fase de transição. 226 A FASE DEFINITIVA A observador mais atento. e que não pretenda prèviamente adaptar conceitos e critérios de classificação europeus ao processo de desenvolvimento da nossa literatura . os fatôres que condicionaram a obra dos iniciadores do romance no Brasil. inicialmente. et de preférence à Paris. E por isso nem sempre seguiu o mesmo caminho do romance europeu. 30 Ferdinand Denis. muitos dos erros e vícios que cometiam na sua medíocre produção poética. De 1'ancien au nouvean monde: les origines du romantisme au Brési7. Legointe et Durey. 1826. (in Revue de littérature comparée. Resumé de l'histoire littéraire du Portugal. não podendo as suas obras. uma espécie de confissão pessoal.

dessa tradição. observou-se um descompasso entre a consciência política e a consciência literária. tem de ser examinado de um ângulo que não suprima a visão dos aspectos mais importantes da nossa vida cultural.nova circunstância histórica. pois o brasileiro apenas nascia àquela época . os sentimentos íntimos e pessoais que deram fama e eternidade aos heróis românticos. A França. é que havíamos recebido o nosso instrumento de expressão. ao descobrirmos o Romantismo francês. o que' é mais. foi uma confissão pública. E o nosso fenômeno. O nosso Romantismo é mais produto de importação do que resposta a anseios de renovação estética ou simplesmente expressional. para só depois preocupar-se com a recriação do passado histórico e. a portuguesa. por estarmos habituados a uma tradição. subjetiva e apaixonada. Além disso. não podíamos dele aproveitar senão o mais superficial. o mais exterior. na qual a observação da realidade tinha lugar mínimo ou nenhum lugar. porque era isso que coincidia com os nossos sentimentos coletivos de jovem nacionalidade. Corinne e Renê. são fruto de fatôres mais de ordem política e cultural no sentido amplo. a exemplo de Werther. Foi pelo caminho desse extravasamento de vida interior que o Romantismo primeiramente se manifestou. pois só desse modo será possível chegar a uma compreensão justa e adequada desse período de nossa literatura. passaria a ser o nosso modelo. e a sua literatura. e. do que de fatôres puramente literários ou artísticos. e. a inspiração e os sentimentos pessoais ocupavam tudo. que vão dos poetas mineiros às primeiras grandes obras do Romantismo. formado a nossa personalidade e educado o nosso gôsto. até pela forma epistolar de que em alguns casos se revestiu. La Nouvelle Héloise. tudo isso não podia aqui encontrar muita correspondência. e isso é que pode explicar os cinqüenta anos de péssima ou de incaracterística literatura. do ponto de vista histórico. No Brasil. e ainda mais do que o europeu. muito das nossas idéias e dos nossos hábitos mentais. que não era a francesa. más não o assimilaríamos de pronto e de logo. com ele. passar à sociedade contemporânea. . política e econômica na primeira metade do século XIX. E isso simplesmente porque os escritores dessa época. o caminho não foi o mesmo. com a qual já tínhamos algumas afinidades. na qual havíamos plasmado a nossa consciência. Ao cortarmos as amarras que nos prendiam cultural. econômica e politicamente a Portugal. Adolphe.227 O problema mais profundo e mais interior do homem. daí.

era fatal que lhe acontecesse o pior. a inclusão da natureza como elemento fundamental do nosso romance romântico. na poesia e no romance. presente na história intercalada de Aí e Aiotin. A qualidade técnica. Inexperiente e estando a inovar. a verdade é que essa pequena novela. que seria melhorada nos livros subseqüentes dêsse autor. principalmente. em que se representavam as tendências do gênero. Isso significava. em especial. de Macedo. apresentava-se com características que a situavam em posição diferente da dos precursores. 'o que até então não existira. talvez. e também uma tendência ao realismo de detalhe. Essas características seriam logo depois. Por mais que isso possa significar um mau começo. Dominou mais o nosso Romantismo. a ação de O Filho do Pescador se desenrola nacionalmente na praia de Copacabana. Enquanto dominara na obra dos precursores a narrativa de personagens históricas e de ação especialmente abstrata ou localizada com preferência fora do Brasil. algumas . contada por uma das personagens. aos problemas do espaço e das personagens. melhor acentuadas e mesmo definitivamente fixadas. em sua maioria. que seria dominante a partir dessa época. Esse era um romance nôvo em nossa história literária. embora a sua aclimação ao nosso meio sofresse transformações muita vez desfiguradoras. não podendo os seus sentimentos ser os mesmos que os dos europeus. de qualidade técnica bastante evoluída para a época. As inovações de Teixeira e Sousa diziam respeito. ou seja. Í com O Filho do Pescador (1843) . e as personagens. em 1844. o que representa a primeira manifestação do . ao fato de haver ele lutado com problemas novos e bem mais complicados do que os precursores. devia-se isso. E dominou porque o seu conteúdo reivindicador e reformador melhor atendia às nossas necessidades de nação que procurava afirmar-se e resolver problemas graves que herdara de sua recente condição de colônia.para a independência. além de dar início a uma obra de romancista. a tendência orientada pela filosofia e pela estética dos socialistas utópicos. mas. desse uma narrativa com todos os vícios e defeitos da pior novela romântica. era igual e em alguns casos inferior a certas obras publicadas anteriormente. desde então. resultado do amadurecimento secular de autênticas aspirações filosóficas. de Teixeira e Sousa. e mais aquêles que eram natural conseqüência da sua condição de estreante em país sem tradição novelística. são retiradas do quotidiano. Foi a primeira das grandes obras de nossa novelística romântica. que se inicia a fase definitiva do romance romântico no Brasil. que nos. não só à inexperiência de Teixeira e Sousa.é certo ainda em estado embrionário: nem mesmo lhe faltaria a feição indianista. com o aparecimento de A Moreninha.

228-indianismo em nosso romance.Rio de Janeiro. Foi depois dêle. como foi assinalado. 1841 e 1842). jornalista. Teatro: Cornélia. filho de um comerciante português arruinado. menos em obediência a um imperativo de natureza estética ou expressional. O cavaleiro teutânto. 1812 . 1859. foi carpinteiro até 1830. Isso mesmo percebeu e registrou a critica que lhe foi contemporânea. A Providência.a e 2. Gonzaga ou A conjuração de Tiradentes. Daí por diante. As fatalidades de dois jovens. Poeta. 1861) de origem humilde. 1848-51. Poesia: Cânticos líricos (1. e graças ao seu esfôrço perseverante. Bibliografia: Romance: O filho do pescador. historiadores e críticos que se encaminharam para essa forma literária. 1844. TEIXEIRA E SOUSA (*) São de ordem histórica as razões que aconselham o estudo de Teixeira e Sousa entre as principais figuras do romance romântico. O estudo dêsses aspectos será feito em seguida. Consultar: . do que por fôrça da atração fácil e sem compromisso que a novidade representava. 2 vols. 1847-57. que o romance ganhou entre nós posição mais definida.. através da consideração das principais figuras do nosso romance romântico. Maria ou A menina roubada. em nenhuma oportunidade. 1840. 1854. Pedro II pedindo o lugar de escrivão de órfãos no têrmo de Cabo Frio. O que antes havia. Três dias de um noivado. 1843. foi nomeado escrivão do juiz da 1 a Vara do Comércio na Côrte. Sua obra não alcançou. Tardes de um pintor ou As intrigas de um jesuíta. seria possível distinguir três aspectos da evolução da nossa novelística romântica: o romance histórico. eram romances e novelas de poetas. A Independência do Brasil (poema épico). Província do Rio de Janeiro. levando outros escritores a realizá-lo de modo permanente e deliberado. depois mestre-escola. e (*) Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa (Cabo Frio.11 sér. teatrólogo e romancista. a novela urbana e as narrativas regionais. mas tem o não pequeno mérito de ser a primeira obra de romancista no Brasil. 1856. Em 1855. o mesmo nível daqueles que ao seu lado se alinham. um memorial em verso a D. em virtude de haver encaminhado. 1847. por intermédio de Nabuco de Araújo.

antes que Macedo o seguisse em 1844 com a Moreninha. (in Minerva brasiliense. As personagens são demasiadamente convencionais. 10 jul. tantas são as peripécias. Castelo. Cruz Coutinho. em nada influindo no destino das personagens. o mérito de conferir importância à presença do mundo exterior. II/24. Cornélia . Moreira de. B. Cultura brasileira. no qual a ação se desenvolve de modo abstrato no tempo e no espaço. "romance brasileiro". sempre tão parcimonioso e comedido. 1. Foi preocupação de Teixeira e Sousa. 1876). (in O Jornal. Santiago Nunes (in Minerva brasiliense. principalmente na prosa de ficção. 1854). H. Notícias sôbre Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. 6-12-1868. 1938. Benard. Rio de Janeiro. XXXIX/ 1. Burgain. Traços biográficos de A. sua fabulação parece o resultado de demoradas leituras do romance negro e do folhetim de capa e espada. ganhou Teixeira e Sousa direito inconcusso ao título de criador do romance brasileiro. 2 â ed.. era êle o único a cultivar. [186. Pequeno volume de umas poucas dezenas de páginas. Rio de Janeiro. 1949). . Vol. Holanda. G. O Cruzeiro.tragédia em 5 atos por Antônio Gonçalves Teixeira e Sousa. (in Atheneum (rançais. 1844). (in O romance brasileiro. 1952). . sendo sua presença acidental ou episódica. contudo.1. Thalés. Ferreira. Ribeiro. os crimes e os pactos diabólicos que se sucedem. cujo subtítulo. L. por deliberação do autor.Azevedo. Teixeira e Sousa: O filho do pescador e As fatalidades de dois jovens. José Aderaldo. que já existia difusamente e daí para a frente passaria a ser dominante em nossa literatura. o mundo exterior tem função secundaríssima. Félix. (in Rev. II. ainda que a situação não seja a mesma do romance moralista. Marmota fluminense.32 O livro que inaugurou o ciclo da produção novelística de Teixeira e Sousa foi O Filho do Pescador.229 o próprio José Veríssimo. . Rio de Janeiro. G. Teixeira e Sousa (in Tardes de um pintor ou As intrigas de um jesuíta. Aurélio Buárque de. História do romantismo no Brasil. 1868). Paranhos. estava a indicar uma preocupação nacionalista. não hesitou em afirmar que por esta constância num gênero que. Os iniciadores do romance brasileiro. A. evidenciada desde o subtítulo. Silva. Tem o romance. . Esboços biográficos. 1844).. n. 1323. São Paulo. Joaquim Norberto de Sousa e. Haroldo. Na obra dos precursores. 2 a sér. sem vida própria e sem outra característica além da idéia ou princípio que encarnam.

J. Isso significava. como é compreensível. Trata-se.localizar a ação no espaço do mundo objetivo do leitor. inicialmente. História da literatura brasileira. 9. Não é por outro motivo que o primeiro capítulo de O Filho do Pescador tem a seguinte e significativa epígrafe: A descrição das cenas da natureza é a pedra de toque do escritor. já nos oferece uma idéia das pretensões do autor.-que Wolf. e tendo em vista as reduzidas proporções do primeiro.33 O próprio capítulo é. à moda romântica. D. podia assinalar que êle tinha o mérito de haver dado lugar de destaque às particularidades nacionais. já não mais de um ponto de vista abstrato. 3' ed. Desculpaime. é sem dúvida o ponto mais difícil de atingir na poesia descritiva ou pintura da natureza. 33 Teixeira e Sousa. 230 nalmente. tanto na escolha quanto no tratamento dos assuntos. o certo é que êle aí se manifesta. E tão singular era o fato. que iria ser progressivamente tratado até alcançar a exaltação vigorosa e entusiástica de Alencar. que tantos crimes vai cometer logo depois e em tão poucas páginas de intriga. e mesmo . mas empregar nesta pintura as verdadeiras côres precisas e nos seus devidos lugares. o que por si só. 8 sempre no meio dêsses belos quadros da natureza que amor ama revoar. Rio de Janeiro.34 Esse mérito. 1859. mas com o intuito de valorizá-la nacio32 José Veríssimo. a assimilação de um tema fundamental do Romantismo. 1955. nesse como em outros livros do autor fluminense. exterior. em três volumes. Teixeira e Sousa publicaria Tardes de um Pintor ou As Intrigas de um jesuíta. melhor arquitetado que o anterior. Ainda que o sentimento da natureza. na realidade. não lhe seria dado apenas pelo livro de estréia. no romance. exagerada descrição de clara manhã de primavera. que é a exaltação da natureza. O filho do pescador. olímpio. Paula Brito. Quatro anos depois dêsse primeiro romance. hoje inteira e merecidamente esquecido. na qual cisma e medita. e isso lhe permitiu atender a uma das tendências mais universais do Romantismo. pois. a bela e loura heroína de olhos azuis. Rio de Janeiro. de um romance mais bem construído. seja puramente descritivo. se mal o vou fazer. descrever estas cenas está ao alcance de qualquer gênio medíocre. antes mesmo de conhecer tôda a obra novelística de Teixeira e Sousa. com a evidente preocupação de exaltar a natureza.

S. o fato de haver Teixeira e Sousa. que nunca exerceu. Cia. Macedo anunciava que êsse romance não era o único que então 34 Ferdinand Wolf. como Alencar. porém melhor urdida e de maior significação do que a dos seus outros livros. um quadro curioso da vida nas plantações do Brasil. e disso tiraria muito proveito para criar e educar melhor os outros "filhos". Dêsses três romances de que falava Macedo. O Brasil literário. que pretendia "educar com esmêro". Ao lado disso. dramaturgo. Ed. Privíncia do Rio de Janeiro. também. Teixeira e Sousa compôs uma intriga ao gôsto da época. frutos da sua ignorância. Pedro' II. p. apesar dessa tentativa e da de outros autores.Rio de Janeiro. quando ainda estudante. não só do ponto de vista da fabulação. Trad. como notou Wolf.entre os posteriores só encontraria parelha no A Providência. publicado doze anos após o da estréia. usos e costumes. Localizando a ação durante o período colonial. em 1844. de Corografia e História do Brasil no Colégio. 350. também. o exotismo. como ocorre em quase tôda a sua obra. morreu quase esquecido e em pobreza Poeta. Apesar de haver sido o mais lido dos escritores da época. Paulo. Pedro II. nesse seu romance. . atuou no desenvolvimento literário e artístico que se processou nas três primeiras décadas do seu reinado. 1820 . foi várias vêzes reeleito deputado à Assembléia Provincial do Rio de Janeiro e deputado geral (legislaturas 1864-68 e 1878-81) como representante do partido liberal. rogando aos leitores que acusassem os defeitos dêle. 1882). amigo de D.. que entre nós não vingou. Ingressando na política. foi sócio-fundador. dando-nos. MACEDO Ao publicar A Moreninha. progrediu também na fixação das personagens e na descrição de paisagens. jornapossuía: tinha êle três irmãos. Gozou de extrema popularidade e. o que parece significar uma tentativa de atender a tendência bastante acentuada do Romantismo europeu. e para isso solicitava inclusive o auxílio do público. Joaquim Manuel de Macedo (São João de Itaboraf. Deve ser assinalado. mas. diplomado em Medicina. incluído episódios cuja ação transcorre no Oriente. secretário e orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro durante muitos anos e professor. desde muito cedo. Nac. Jami7 Almansur Haddad. O progresso realizado entre um e outro é realmente considerável. historiógrafo. 1955. no que diz respeito à expressão da temática do Romantismo.

Bibliografia: Romance: A moreninha. A luneta mágica. 3 vols. Campos. 1849. O forasteiro. lista e romancista. Edição do Estado de Sergipe. 1861. O naturalismo no Brasil. para só publicá-lo. Martins. Memórias da rua do Ouvidor. 1856. 1848. Brasil. S.. Os doas amôres. 1872. Tobias. 1869. O nôvo Otelo. 1863. As mulheres de mantilha. 1876. 1858. Vol. quanto se sabe que o autor de O Môço Louro produziu ininterruptamente durante trinta anos. 1952). Os quatro pontos cardeais e A misteriosa. conforme o depoimento de vários críticos e historiadores. 1870. 1860. 2. A tôrre em concurso. Estudos alemães. 1895. Cincinato Quebra-louças. é o patrono da cadeira n. Romances da semana. aparece um grupo de narrativas assinadas por nomes já conhecidos.sabe-se apenas que um dêles era O Forasteiro. Wolf e Sílvio Romero. Remissão dos pecados. II. 1878. Rio de Janeiro. Aderbal de. 1942. Teatro de Macedo. Além de grande número de manuais escolares e obras diversas. 1855. em 1855.José de Alvarenga. Garnier. 1926. 1876. Outras: Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Cobé. 1873. São . Ano biográfico brasileiro. 1865. III das Obras Completas. Antônio. 1920). depois do ensaio isolado de Lucas . Carvalho. Esse interêsse é tanto mais explicável. A carteira do n:eu tio. Macedo. Memórias de um sobrinho de meu tio (continuação de A carteira do meu tio). Consultar: Autores e livros. Rosa. 13. A baronesa do amor. Barreto. 1857. 1869. Um noivo e duas noivas. 35 O fato é importante. na época em que ainda não o produzíamos. O primo da Califórnia. 1845. 1880. 1849. 1869. Poesia: A nebulosa. 1870. Teatro: O cego. 1844. As vítimas algozes. n. 1863. O culto do dever. Antonica da Silva. e du35 José Veríssimo. Letras. e foi nesse mesmo ano que Macedo escreveu O Forasteiro. Cândido. Vicentina. As modas e os modos no romance de Macedo (in Rev. 1863. 1862. out. Luxo e vaidade. 1845. 1871. pois comprova o interêsse que já manifestava Macedo pelo romance. 1853. Paulo. Humberto de. 1870-71. O môço louro. 1839 é a data em que.O 15. realista e romântico (in A Moreninha. 1855. Acad. certamente bastante modificado. A namoradeira. 1867-1868.a ed. Lusbela. O rio do quarto. O fantasma branco.° 20 da Academia Brasileira de Letras. n . 26 abr.

Dutra e Melo. Fleiuss. e com certeza na indiferença do público. já lhe vinha sendo menos favorável do que nos primeiros tempos. Paris. na realidade. o homem que fôra a figura central das reuniões elegantes ou literárias do seu tempo. out. já por sua reputação. 1902.a). 1894. Brasil. E isso foi. Rio de Janeiro. 113. XXXV. já por seus talentos. o romance mücediano passaria a perder prestígio. Benedito. uma rápida e extensa aceitação. por Joaquim Manuel de Macedo. Perfis acadêmicos. Ano 1/2. Um exame sumário das características do romance mücediano explicará muito do seu êxito inicial. vol. mesmo antes da seu falecimento. G. Brasil. vol. e foi depois caindo de modo sensível e acentuado. Machado de Assis. 36 é a de que o romancista fluminense pertence àquela categoria de escritor cuja obra literária se preocupa menos com a mensagem do que com a capacidade receptiva-do leitor. ocupou lugar de relêvo nas preferências do público brasileiro.. de 1931). vol. o mais popular e festejado dos escritores de então. Artur. o que sucedeu. Garnier. cadeira n. José. Uma primeira consideração a ser feita. com os seus romances e o seu teatro. Jackson. A crítica. 1937). A. t. 1. e por isso os seus romances. Crítica e polêmica. F. Júlio Ramos. Mota. até o ponto de não ser mais aceito. de J. a curva do prestígio literário de Macedo manteve-se nessa média durante muito tempo. Letras. Rio de Janeiro. J. A morte veio encontrar quase no olvido. Joaquim Manoel de Macedo. Gurgulino. prevenindo que o autor da Nebulosa e da Moreninha tem jus ao nosso respeito. M. mai. M. O teatro brasileiro (in Rev. XL. 141). n. Rio de Janeiro. como tiveram. 1910). satisfazendo às necessidades e ao gôsto do público. 232 rante trinta anos. Le roman au Brésil. Ano XXII. Frota Pessoa. H. Dessa consideração se deve inferir que. 1887. B. 1. (in Rev. Max.. (in Minerva bras8iense. Elogio histórico do dr. B. precário que êle se mostra de qualidades capazes de despertar interêsse permanente. H. O culto do dever. (in Rev. Acad. 20. Macedo (in Rev. O cuidado com que Machado de Assis inicia a severa crítica ao romance O Culto do Dever. 87. A. 37 é claramente indicativa do grande prestígio que então ainda desfrutava Macedo. A Moreninha. modificados o gôsto e as necessidades da massa de leitores. lembrada por Antônio Cândido. . 1918. 15-10-1844). Tendo alcançado rápida ascensão desde o aparecimento de A Moreninha. M. G. Acad. não poderiam deixar de ter. de Macedo (in Crítica literária. 2. Veríssimo. Silva José Franklin de Massena. II. Letras. J.° 24.Luís do Maranhão. n. Costa.

51. 38 mais recentemente. a têrmos de quase insignificância. como conseguiu. e nenhum obteve da posteridade a mesma generosa acolhida.38 Demasiadamente influenciado pelo teatro. na verdade. Não demoraria muito que a crítica. Na realidade. Astrojildo Pereira assinalou que não se podia esquecer que Joaquim Manuel de Macedo pouco progrediu em relação a si mesmo. os seus últimos romances e novelas foram escritos e editados cinco lustros depois de publicada A Moreninha . seguramente.Era essa reputação que obrigava Machado a procurar colocar-se num plano de insuspeição que lhe permitisse reduzir o aludido romance de Macedo. que capta e fixa com objetividade aspectos do mundo real e até pequenos detalhes da vida . poucas linhas concedeu ao romance do autor de Rosa e assim mesmo para uma simples enumeração de títulos . Essa influência foi tão acentuada. disso se ressentiria sua técnica narrativa. pelo fato de haver atendido a certas tendências muito populares do Romantismo. Crítica literária. 1937. Bastenos apenas um exemplo. O autor de A Moreninha foi um romancista cuja qualidade técnica não progrediu muito. para o qual tinha realmente vocação. E isso.ocupando todo o espaço em examinar-lhe o teatro. o de Sílvio Romero: 40 das quase setenta páginas em que estudou Macedo. Martins. em especial àquela de caráter realista. Jackson. Rio de Janeiro. teria os seus defeitos melhor evidenciados e postos a descoberto pelo inevitável cotejo com a de escritores como Alencar e Machado. então em plena atividade. tal como deveria êle ser durante tôda a sua longa atividade. que não sendo pior nos últimos livros. p. do primeiro ao último livro. revelasse pouco respeito e cerimônia diante da antiga reputação de Macedo. . porém. Quase seria permitido afirmar que o primeiro dêles já revelava ao público o romancista fluminense. p. E. (in A Moreninha. que muitos historiadores e críticos se inclinaram a dar maior importância ao comediógrafo do que ao romancista. 10). 37 Machado de Assis. S. Macedo.233 por José Veríssimo. O fato já fôra observado 36 Antônio Cândido. Paulo. de modo geral. foi o romance que conferiu a Macedo a grande popularidade que desfrutou. e deixasse mesmo de considerar a sua obra como objeto digno de estudo. realista e romântico.e os seus méritos de romancista não ficaram muito acrescidos com êles. pouéos dos seus livros conseguiram atingir posição semelhante à de' A Moreninha. 1952.

os saraus familiares. as festas. resultando daí que o melhor e mais perdurável nos seus romances é sempre a pintura realista dos usos e costumes da época. sugere o título do aliás lúcido e inteligente estudo de Antônio Cândido.a que foi por êle adotada . Se os seus heróis românticos são convencionais. os 38 José Veríssimo.familiar. do acanhado sôpro de vida que as movimenta na atmosfera reconstituída da sociedade brasileira da metade do século XIX. Foi a predominância da pintura realista do ambiente social sôbre o mundo íntimo das personagens. 39 Astrojildo Pereira. loc. C. Interpretações. História da literatura brasileira. a melhor forma de ser romântico. 11-73. porém. muita vez indicados como estudantes. funcionários públicos. não . Sua observação fixa geralmente aspectos da vida pequeno-burguesa dos meados do século XIX. por exemplo. Mais de um crítico. 40 Sílvio Romero. pelo menos a conferir-lhe uma posição de quase equidistância entre o Romantismo e o Realismo. levado por essa tendência. pp. declamadores de frases feitas. de princípio a fim. Mas. os únicos sem profissão definida constituindo a galeria dos heróis românticos. cit. não foi sòmente êsse "pequeno realismo" que restringiu sua visão de romancista. 234 hábitos. apesar de certo colorido. 41 AntÔnio Cândido. políticos e caixeiros que povoam as suas páginas. Rio de Janeiro. V.. sem vida. foi. quando não a retirar Macedo dos quadros da estética romântica. E. No autor de O Môço Louro. uma de cujas variantes .se alimenta sempre do conflito entre as românticas aspirações sentimentais das personagens e a realidade imediata. na época. como. tem sido tentado. 41 O realismo de Macedo é próprio do Romantismo. particularmente do romance romântico. ou de simultaneidade numa e noutra escola. como tem sido afirmado. As próprias personagens são retiradas do quotidiano da classe média. B. quase diríamos a inautenticidade dos sentimentos íntimos das personagens não permite maior contraste com o ambiente social. 1944. p. as outras personagens. História da literatura brasileira. a debilidade. também sua condição de homem típico da classe média urbana que não lhe permitiu observar e aspirar senão de acôrdo com os hábitos e os anseios dessa classe. basta ver os negociantes. eis o que enche os seus romances. o que era. os costumes e as tradições da sociedade do seu tempo. os namoros de estudante. as conversas de comadre. que fêz de Macedo um cronista do seu tempo. 78.

resultado de observação passiva e sem compromisso. o amor macediano. vive das pequenas coisas. tipos caricaturais. Quadros da . espécie de divertimento caprichoso de adolescentes ou de obrigação fastidiosa para as gentes adultas. 318. ainda que de caráter acentuadamente romântico. porque o autor parece ter tido em vista não a criação de tipos. op. antes disso. também.mesmo aí seu realismo tem muito de convencional e está limitado por sua condição de homem da classe média urbana. inclusive quando se intitulou pobre escritor de acanhada inteligência. de suas duas dimensões. .235 não percebe as grandes coisas. o tratamento do amor no romance macediano. por isso mesmo.. para adotar feição de sátira social. o que parece mais exato. que é o de conferir classificação social por intermédio do casamento. Dêsse modo. São. como a classe média que lhe serviu a temática. aceitou ou reconheceu essa sua condição.o problema do amor . pois de Macedo se poderia dizer. Sem preocupação ou sem possibilidade. As suas personagens femininas têm desenho muito artificial e pouco diferem de um a outro livro. Ainda aí seria o ôlho do cronista. não podia ser outra senão o matrimônio. é. rude e simples romancista sem arte que sòmente escreve para o povo 43 para justificar as novelas contidas em As Vítimas Algozes. de êxito. cuja forma. por sua condição na sociedade burguesa do tempo. o que Arqueles Vela 42 disse de Dickens: 42 Arqueles Vela. mais do que a visão do romancista. Tanto para o homem como para a mulher. Mesmo naquilo que representa o núcleo central do seu romance . a procurar fixar o aspecto mais exterior da realidade.passam de simples transcrição da realidade. mas tudo arranjado de maneira que êle possa cumprir seu papel fundamental na moral burguesa. mas. sem qualquer preocupação de apreender a realidade como um todo e em seu processo. pelo menos no Romantismo exaltado e apaixonado das confissões íntimas. que nunca levou o autor a pensar nas sugestões que a realidade circundante lhe podia oferecer. em especial a da mulher. cit. como ou nada diferem também os seus sentimentos. em mais de uma oportunidade. sendo forma de protesto contra os preconceitos vigentes. guardadas as distâncias que separam um do outro. muita vez refugiu do que era habitual no Romantismo. sem uma análise que empreste profundidade aos seus sentimentos pessoais ou à sua condição social. p. O próprio Macedo. a fixação de determinadas situações sociais. limitando-se invariàvelmente à pura e simples transposição do que estava no pequeno campo de sua visão.

Rio de Janeiro. onde divulgou os seus primeiros romances. mas por hesitante sentimento de dever que. 1862. Colaborou em vários jornais e dirigiu o Diário do Rio de Janeiro. O início do seu renome data da publicação de Cartas sôbre a Confederação dos Tamoios (1856). teatrólogo. professor. à vida privada e. de lá regressa no ano seguinte. pìzblicamente. Americana. reiniciando o labor literário. XIII. em seu tempo. Viajando à Europa (18761 para tratamento de saúde. também. e à eleição. só fêz prejudicar a sua contribuição ao problema abolicionista. Alfarrábios. Viuvinha. A pata da gazela. Recolheu-se. Iracema. 1872. quando faleceu. campanha que teria sido empreitada pelo próprio Imperador. 1877). o permanente desentendimento entre êle e D. 1860. já na qualidade de deputado geral pelo Ceará (1861). Novelas que escreveu não porque a isso fôsse levado por natural vocação de romancista. 1870. 1865. ALENCAR Machado de Assis disse uma vez a Alencar. Til. 1864. Bibliografia: Romance: O Guarani. crítico. I. As vítimas algozes. a sua grave situação interna. causando "espanto e lástima" escolheu dois outros que não o primeiro colocado e seu ainda recente Ministro. Sonhos de ouro. Lucíola. 1873. Escabiosa (Sensitiva). Tip. Diva. dirigiria duas séries de Cartas a Erasmo (1865. que jamais participara de sua roda literária nem lhe fôra áulico. 1874. quadros da escravidão. A guerra dos mascates. Pedro II. Ubirajara. O tronco de ipê. 1857. política o levou ao cargo de Ministro da Justiça (18681870). de senador pelo Ceará (1869). 1873.Rio de Janeiro. 1869. (*) José Martiniano de Alencar (Mecejana. poeta e romancista.Escravidão. 1851). diplomado em Direito (São Paulo. que contra a conspiração do silêncio o ilustre escritor teria por si. 1865. onde parece ter origem. O Imperador. em primeiro lugar na lista sêxtupla. . iniciou sua carreira na imprensa como folhetinista do Correio Mercantil (1854). e apela para que o Imperador use o poder moderador como única solução. 1871. Alencar. 1872. dêle foi dito que era impossível encontrar outro brasileiro que abarcasse tão largo campo de atividades e revelasse tantas e tão diferentes aptidões. 1863. Sua atuação. 1867) nas quais analisa a vida do país. As minas de prata. enciumado da glória literária de Alencar. sofreria terrível campanha da parte de José Feliciano de Castilho e Franklin Távora. O gaúcho. Ceará. A êste. porém. um 43 Macedo. 1829 . no final de contas. 1870. Jurista. Cinco minutos.

e as poesias. O pagem negro (romance histórico incompleto). crítica e ensaio. Edições: São inúmeras as edições populares da obra de Alencar. Dois fatos tornam essa posição bastante singular: primeiro. também. Depoimento: Como e porque sou romancista. Rio de Janeiro. O que tinha de ser. Dramas: Mãe. O demônio familiar. O jesuíta. Flor de amor. de caráter popular. 1911. a sua obra de ficção. 228. Teatro: Comédias: Verso e reverso. "de todo ininteligente. Trovas de um palernur. Crítica literária. a Livraria José Olímpio reuniu em 16 volumes. Mais completa. 45 José Veríssimo. 1857. bibliografia. 1875. 1873. Borboleta. não corresponder nem mesmo o simples interêsse da 44 Machado de Assis. As asas de um anjo. notadamente as circulantes. O sertanejo. Inéditos: Dramas: O abade. Comédia: Flor agreste. 1876. 1857. Em 1951. 1862. A neta do Anhanguera. o de continuar sendo um dos autores nacionais mais lidos em todo o país. 45 basta ver a posição que Alencar hoje ocupa nos quadros da nossa literatura em relação à crítica e ao público. Memórias de um botão. 1875.Senhora. É uma excelente edição: infelizmente não inclui a parte de teatro. 1858. o nome e a obra de Alencar pertencem indiscutivelmente à posteridade. 1895-96. O crédito. Deixando de lado a crítica contemporânea do romancista. Encarnação. ilustrados. A expiação. p. A filha do Belchior (crônica). Inéditos: Um aprendiz de ministro (projeto de romance). o qtie pode ser fàcilmente comprovado pelo número de edições dos seus romances e. a conspiração da posteridade. pelas estatísticas de bibliotecas. A noite de São João. 1877. 1867. Temara. Gabriela. 1912. como percebeu Veríssimo. 44 E ainda nisso foi profético o autor de Brás Cubas. Inéditos: Niterói. incluindo estudos. o fato de a êste prestígio permanente. . O Flota no Brasil (fragmentos). com texto cuidadosamente estabelecido. A divina sátira. Um desejo de Sênio (projeto de romance) 1916. p. segundo. ou a que lhe foi imediatamente posterior. 236 dia. Foi a utilizada neste estudo. e cada volume enriquecido de introduções e estudos por críticos e eruditos de nomeada. a prosa crítica e política. 1860. História da literatura brasileira. Poesias diversas. (poema lírico) 1863. acaso por ser de todo malévola". 333. Poesia: Os filhos de Tupã. mas a posteridade precisou e ainda precisa de conspirar para valorizá-los.

Paulo. Ceará. de São Paulo. 1965. Inst.° 1. Em 1968. (in Rev. (in O romance brasileiro. José de Alencar. idem.227 grande maioria dos nossos intelectuais. VIII das Obras Completas). Donato. José de Alencar. C. Rio de Janeiro. 1926. F. José de Alencar. Gilberto. Rio de Janeiro. José de Alencar. (s. M. e já de leitores de gerações diferentes.). Gomes. Cartas literárias.. . 1959. Brasil. n° 89. Ver ainda: Raimundo de Menezes. Vital. Letras. M. J. Ataíde. Caminha. de cultura). A polêmica. C.. Eugênio. idem. Letras. II. Fac. vol. Aguilar. Edição do Estado de Sergipe. José de Alencar.. Vol. Rio de Janeiro. Monteiro Lobato. Barreto. tendo exercido um papel de importância indiscutível. Para a bibliografia de Alencar. S. Castelo. 1942. Driver. E. 1952). (in Rev. de tal sorte que. Dantas. 1953.é: Obra Completa. de. Paulo. Estudos. Leão. 1914). A. 1882 Arquivo de José de Alencar. T. José de Alencar. e a nacionalização da língua. RJ. Observações sôbre J. 1955. do Brasil.a sér. n. A. Acad. 1954). 4'. Aderaldo Castelo. Centro D. Múcio. (in Correio da Manhã. D. Cultura. (in Rev. Rio de Janeiro. 1952 (Cad. J. T. 1967. foi publicada nova edição da J. O Cruzeiro. S. A Polêmica Alencar-Nabuco. 1930. Rio de Janeiro. Brasil. d. (in Estudos alemães. no seu . Mun. o que levou Nélson Werneck Sodré a dizer que ocorreu com a personalidade do romancista cearense e com as suas obras um caso curioso: na proporção em que os seus romances penetraram na massa de leitores. Cons. O romance brasileiro. 9 out. A. Tobias. 25-26-29-30 e 35). Fauchon. Cartas e Documentos de José de Alencar. H. Rio de Janeiro. 1954). Coutinho. 1922. 11 jan. Aldina. 30 abr. São Paulo. Paulo. de cultura). Rio de Janeiro. Est. de A. J. S. foram sendo esquecidos pelos homens de letras. XIII. 1942. maio. ns. Inst. (ib. Barroso. de A. idem. cie filosofia. N. ver: J. Ed. de. Capistrano de Abreu. G. Consultar: Alencar. Y. 1949). de Espanas. José de Alencar. 4 vols. Mário. Bibliografia e plano das obras de José de Alencar (in Boletim bibliográfico da Bib. XXVIII. Araripe Jr.. Freyre. P. The Indian in Brazilian literature. 1895. Olímpio. 1929). E. Rio da Janeiro. Rio de Janeiro. Autores e livros.. Sôbre a "Confederação dos tamoios". Tempo Brasileiro. Reinterpretando José de Alencar. José de Alencar (Ensaio bibibliográfico). Melhoramentos. Acad. 1955 (Cad.

F.a sér. Garnier. Vivos e mortos. Rio de Janeiro. deve preocupar-lhe a estimação dos valôres esté46 Nélson Werneck Sodré. G. "Iracema". Brasil. Ensaios contemporâneos. de Medeiros. de J. Uma carreira literária. Jackson. W. 422-426. 1949. Machado de Assis. 1955). 1933. Rio de Janeiro [s. ainda não se habituou a procurar compreender os fenômenos antes de julgá-los. sintaxe e fraseologia. O teatro de J. Vol. Coelho Branco. em têrmos de história e crítica literária. idem. 1. Vocabulário. 1931. 1921. pp. 11). 1950). C. 371-377. Ribeiro.]. Recife. José de Alencar. José de Alencar. 629-636).° 146). W. Cartas a Cineinato. H. 3. Simões. morfologia. 1952). 520-524. 1872. como se só merecesse êsse nome quando dogmática ou impressionista. J. (in Edição José Olímpio. 1943. M. vol. Rio de Janeiro. Crítica. Rio de Janeiro. Ortigão. A. Távora. 1954). José de Alencar. e como se falhasse a seu objetivo caso não condenasse ou consagrasse. vol. Veríssimo. dez. 11. Luís. Jackson. XI.46 Na realidade. pp. Artur. pp. B. 1936). 1903. (in Studia. (in Rev. Rio de Janeiro. idem. 1952. Lisboa. pp. Acad. 1873. Urna obra clássica brasileira. Letras. . out. III. fev. de. n. 1951). Meyer. Letras. O Gaúcho de Alencar. Vol. (in Rev. ed.Janeiro. N. Briguiet. Leão. Rio de Janeiro. Agripino. J. J. O Gaúcho. Lima. Rio de Janeiro. Org. Rio de Janeiro. (pref. Posição de José de Alencar. Rio de Janeiro. III. 9. Múcio. J. p. Clássicos e românticos brasileiros. Rio de Janeiro. $ que a critica brasileira. 480-484. de A. 1925. R. Iriema (pseud. Rio de Janeiro. A.. S.. apesar de sua fundamental importância no desenvolvimento da nossa literatura. R. II. Il. (in O romance brasileiro. Acima de tudo. Pôrto Alegre. 12. (in Crítica literária.. Grieco. de modo geral. Mota. idem. set. 1878. 22 jan. 1874.tempo e fora dêle. Estudos brasileiros. 1934. (ib. de A. Estudos de literatura brasileira. O Cruzeiro. I/1. de A. Brasil. 1873. Rio de . José de Alencar. Oiticica. De um leitor de romances: Alencar. Crítica e Literatura. Laemmert. entretanto. 10 out. 1873. pp. 2. Jucá Filho. José de Alencar e o romance histórico. 1930). Sodré. Estudos críticos de Semprônio sôbre "O Gaúcho" e "Iracema". nov. dez. 2. 1894. (in Partenqn literário. Rocha Lima. II. Farpas. (in Correio Paulistano. Acad. Evolução da prosa brasileira. Rio de Janeiro. idem. A estética de J. Alencar permanece um assunto a explorar. 1873. 1936). III. idem. II. Iracema. Apolinário Pôrto-Alegre). (in Crítica teatral. CVI. o romancista de As Minas de Prata ainda permanece assunto a explorar. 10. fev. A. II. J.

Oscar. porém. ou da consideração dos fatos da biografia. é útil ler os estudos de Brito Broca. M. R. são dignas de menção as tentativas de interpretação da sua personalidade à luz da psicanálise. vão ao ponto de atribuirlhe falsificação de fatos sob a única inspiração de vaidade desmedida. Brasil. São Paulo. 238 ticos e até mesmo dos fatos históricos. 1966. Acad. (in Correio da Manhã. Menezes. (in Revista brasileira. 1. Rio de Janeiro. in José de Alencar. mas do fenômeno literário alongado do cultural e do social". Osmar Pimentei e Nélson Werneck Sodré. Olímpio e Aguilar incluem numerosos estudos críticos e biográficos. Gládstone Chaves de Melo. a crítica em relação a Alencar raramente saiu do plano do sentimento. que aparecem nas obras de ficção de Alencar. Eugênio Gomes assinalou que "a personalidade emocional do romancista tinha deveras na infância o espelho em que se mirava incessantemente". levando-o a trair a tendência narcisística. Rio de Janeiro. Posição de José de Alencar. S. Brasil. cultura). de. analisa o gênio criador do romancista. pp. José de Alencar. Olímpio. e a compreensão justa e adequada do fenômeno que estuda. 47 Há outros críticos. Eugênio Gomes. Letras. 1954). especialmente a vaidade e o orgulho. Mário Casassanta. Baseado em formulação psicanalística. Nesse particular.Além dêstes trabalhos. Pedro Calmon. 157-170). E. (in Edição J. à luz da história sociológica e psicológica da família. negando-lhe maior valor. acima referida. (Repr. Liv. Luís da Câmara Cascudo. Wílson Lousada. 11-32). José de Alencar. a criança era o mais veemente . José de Alencar. baseada em leitura analítica da obra. Agir. de interpretação não pròpriamente literária. Cavalcanti. M. Rio de Janeiro. ao mesmo tempo sociológico e psicológico. Letras. Brasileira. de modo geral. da vida sexual. Proença. edição José Olímpio. X. como fôrça biológica e social. atraída por certos traços do temperamento e do caráter complexo do escritor. Martins. As edições J. Josué Montelo. 30 mai. Para êle. Gilberto Freyre aplicou à obra de Alencar o seu "critério familista. Mendes. 1968.° 89. José de Alencar. Assim. 1965. renovador das letras e crítico social. vol. 1929. 48 47 Rosário Fusco. da Revista Acad. que. Usando uma psicanálise mederada. 1952 (Cad. Civ. Rio de Janeiro. n.. Gilberto Freyre. Gilberto Freyre. Rio de Janeiro. Ver também o volume comemorativo do centenário de Alencar. 1941. pp.. em vez da compreensão da obra. Romances Indianistas. José de Alencar na Literatura Brasileira.

sobretudo relacionados com a ojeriza que dedicava à dança. passando assim o indígena a representar para o romancista. diz que o autor do prefácio a Sonhos douro.. conforme ensina a doutrina de que o menino se repete no adulto. um ano antes do aparecimento de O Guarani. Paulo. a psicologia infantil. Alencar publicava. pp. p. assim como o primitivo repete a tradição ancestral. ilustra. 52. Ademais. O romance brasileiro.. Martins. as suas famosas Cartas sôbre a Confederação dos Tamoios.239 Em 1856. Referindose a uma inexistente contradição de Alencar.. não apenas um ideal de integração nativista. Rio de Janeiro. as heroínas são castigadas e vencidas depois de exporem os apaixonados (transferências do escritor) a humilhações e vexames. também. conforme a análise de Eugênio Gomes. Ora.a ed. em Salões e Damas do Segundo Reinado (S. Em Diva e Senhora. vinte e dois anos depois do Sonhos douro (1872). ao mesmo tempo que realizava a crítica do poema de Magalhães. 141). tido como "penetrante estudo psicológico" (O. como . cit. Quis o crítico. portanto em 1894. se "desmente nas suas memórias escritas vinte e dois anos depois" (op. traduzir-se-ia na ficção alencariana pela imaturidade mental e pelo comportamento infantil de diversas personagens. Olímpio. 48 Olívio Montenegro. 1942. Já na primeira carta. 49 nas quais. êsse tipo de crítica. vai muito mais longe na sua preocupação de negar Alencar. O capítulo que dedicou ao romancista cearense. e. já estava Alencar morto havia dezessete anos. em que mostra como a vaidade malferida de Alencar procurava compensações e desforra nas páginas de seus romances. de fácil comprovação. 1953. p. sob o pseudônimo de Ig. J. desde 1877. na verificação de fatos concretos.. no caso. bem como dos muitos silvícolas e crianças. como são as datas. tendo inventado fatos para satisfazer a sua vaidade doentia. Também inspirada em interpretação psicológica é a página de Wanderley Pinho. Olívio Montenegro foi ao extremo de descuidar-se. 99). p. ia fornecendo sem querer o que é muito importante . 2. como nenhum outro.duplo do próprio romancista. aparecendo nas suas criações infantis. M. "uma galeria de meninos sofredores ou revoltados" (Araripe Júnior). mas sim uma transferência do estado psicológico do escritor. aliás. prêso às impressões infantis. após dizer que se algum dia fôsse poeta e quisesse .valiosos elementos a respeito de sua formação literária e sôbre o que acreditava ser necessário à literatura brasileira. Sem ter apreendido o romance alencariano como um fenômeno em movimento. 51-52). Pequena bibliografia. isso devendo ter influído no defeituoso ângulo em que se colocou para examinar o romancista de Iracema. Carpeaux. O crítico pernambucano.

e redigida. mas não um poema épico. apenas dez meses após o "Bênção paterna" do Sonhos douro. Rio de Janeiro. cit. Porventura não haverá no caos incriado do pensamento humano uma nova forma de poesia. 24 e 25. acrescenta: E se tudo isto não me inspirasse uma poesia nova. op. A sua formação literária. quebraria a minha pena com desespêro. cit. para aprender nas matas seculares a nova forma de poesia digna da natureza americana. um nôvo metro de verso? 51 49 José de Alencar. de perfeita consciência da necessidade de formar uma literatura nacional. desde o pensamento até a forma. e a convicção de que dela é que deveria originar-se a nova poesia. 1856. op. 51 Alencar. e depois completada pela leitura cuidadosa dos românticos. 50 Êsse orgulho da sua terra. conjugada à observação da história brasileira. não pode exprimir as tristes endeixas do Guanabara e as tradições selvagens da América. Diria ao amigo. Cartas Sôbre a Confederação dos Tamoios por Ig (publicadas no Diário). não o impediria de ver mais longe do que os seus contemporâneos. que se juntos estivessem poderiam escrever um poema. mas não a mancharia numa poesia menos digna de meu belo e nobre país. na segunda carta. Como e porque sou romancista. feita no amor dos clássicos. o que é particularmente significativo. que está . referir-se à autobiografia literária de Alencar. um verdadeiro poema necional.. Ao contrário. mas na forma. se não desse ao pensamento outros vôos que não êsses adejos de uma musa clássica ou romântica. p.. onde tudo fôsse nôvo. 50 Alencar. pp. seriam ainda mais de uma vez manifestados e presidiriam à elaboração de sua obra. tal como se pode ver no final do texto dessa edição. portanto. confessa mais adiante. mas escrita em maio de 1873. terá sido ela própria. A forma com que Homero cantou os gregos não serve para cantar os índios: o verso que disse as desgraças de Tróia e os combates mitológicos. que levou Alencar a essa posição singular para a sua época.cantar a sua terra faria tudo por esquecer a sua condição de homem civilizado. desde a imagem até o verso. publicada em primeira edição no ano de 1893. não apenas no conteúdo. 7. Emprêsa Tipográfica Nacional do Diário.

Byron. p. não percebia as particularidades de nossa dinâmica social e política. analisando. Foi êsse estudo que o levou a negar. provando porque negava. A êsse tempo. que tinha freqüentado Paris e vivido a atmosfera do Romantismo europeu .do qual foi um dos introdutores no Brasil . a análise das condições históricas brasileiras. não tinha. um escritor como Magalhães. aliás.datado de julho de 1872. antes de ser publicada na já referida primeira edição. Foi pensando exatamente o contrário que Alencar saiu a campo para criticar a Confederação dos Tamoios negando-lhe validade como expressão da nossa literatura e da nossa nacionalidade. compreender que a nossa incipiente literatura pedia outros fundamentos e orientação mais moderna. como expressão literária adequada para o tempo. 80). V. finalmente. para. foi apresentada na exposição de história pátria de 1880 (cf. Blake. para saber em que medida e até que ponto elas correspondiam a uma exigência de afirmação nacional. quando ainda não iniciara a sua obra de romancista. Esse caminho foi. o do estudo cuidadoso das formas literárias clássicas e posteriormente do romance moderno. como outras passagens das Cartas. O Cruzeiro. Dicionário bibliográfico. Milton 13. uma compreensão muito justa do problema brasileiro.ainda procurava escrever longos poemas épicos. a leitura das grandes epopéias da literatura universal. 1952. S. Seu trabalho é o resultado de estudo que parece haver realizado em três sentidos: os tratados de retórica. que essa autobiografia. cita Homero 24 vêzes. portanto. quase . e. Virgílio 17. são bastante indicativas do caminho que Alencar teve de seguir até identificar o romance como a nova forma de poesia capaz de atender às exigências de nossa literatura em formação. vai Pedro Dantas. ao lado da análise meticulosa do nosso processo de desenvolvimento histórico. para captar as regras e os princípios orientadores das formas e gêneros literários então vigentes. p. a única diferença consistindo numa pretendida atualização da temática. Chateaubriand 18. a repetição do que haviam feito poetas anteriores e em especial os árcades mineiros. de Homero a Chateaubriand. no estudo em que nega a contradição lembrada por Olívio Montenegro (in O romance brasileiro. Lamartine e Tasso 7 e Dante 5. Camões 8. estabelecendo as necessárias diferenças entre o Brasil e países mais adiantados e mais velhos. o caminho seguido por Magalhães. sob imediata inspiração do que então se fazia no velho continente. 80). e pensava ser ainda possível. escritas aos 27 anos. Sabe-se. Rio de Janeiro. Na mesma esteira. 240 Não só essa.

alguns apenas começados. a pedido do amigo Sombra que dela participara. dar-lhe-ia um encanto e um interêsse que obrigariam o leitor que folheasse as primeiras páginas do livro a lê-lo com prazer e curiosidade. lhe vinha de longe.que se Walter Scott (. levava na bagagem fragmentos de romances.. 8. não era um principiante a hesitar na solução dêsse ou daquele problema narrativo. fêz um romance com tal encanto e interêsse que obrigou o público a diàriamente disputar o jornal que o publicava. ali mesmo nas ruas. op. a origem dêsses povos desconhecidos. dá início à publicação de O Guarani.. na base disso. do ponto de vista da técnica em relação aos clássicos e modernos. .Estou bem persuadido .53 E o certo é que já no ano seguinte.. e aos 14. que confessou possuir. outros já no desfecho. é verdade. dono de uma técnica que não fôra antes revelada e.. de sólida estrutura e mesmo de ousada arquitetura. sem aparato. fôra o leitor de novelas nos saraus da família. "em tôrno dos fumegantes lampiões da iluminação pública de outrora". mostrava-se..) fizesse dêsse poema um romance. aos 13 anos escrevera um rascunho de romance histórico sôbre a sedição de Exu. que talvez um dia alguém apresente sem ruído. o autor não aproveitou a idéia mais bela da pintura. estuda o poema de Magalhães. mas ainda sem princípio. para lê-lo impaciente. quando partia para estudar em São Paulo.55 Se os dois primeiros são apenas duas novelas bem construídas. para concluir que em ambos os aspectos êle era inquestionàvelmente falho. Sabia. p. A veia do romance. matéria a um grande poema.56 . que não era isso o que nos convinha. . de certeza certa e convencida. ao contrário.. o caráter e a significação da epopéia.Demais. então. como modesto fruto de suas vigílias. e do ponto de vista temático em relação ao Brasil. embora não a indique claramente em nenhuma oportunidade. mesmo depois. um romancista senhor do seu ofício. a permitir a afirmativa de que Alencar. davam. as tradições primitivas dos indígenas. depois de Cinco Minutos e de parte de A Viuvinha. Há. ao publicar os primeiros livros. por si só. 52 52 Alencar. em folhetins diários no jornal de que era redator-chefe. E tudo leva a crer que também já soubesse que nova forma de poesia deveríamos adotar. 51 Dentro do assunto do poema de Magalhães. o esbôço dessas raças extintas.241 .como um preceptista. O Guarani é romance bem feito. alusões como estas: . só seria ultrapassada por Machado de Assis. cit.

(in Edição J. Em um mês. E foi durante a vida acadêmica que melhor e definitivamente se fixou em seu espírito a atração do romance.casualidade aquêle arrôjo de criação a tecer uma novela com os fios de uma aventura real. acabaria o volume de 53 Alencar. Confessa que nesse período leu Balzac com tamanha avidez. op. como eu agora o admirava. e muitas. Olímpio. 57. ou nalguma capela gótica frouxamente esclarecida pela lâmpada. fui encontrá-lo fundido com a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar. cuja luz esbatia-se na lousa de uma campa.. O outro molde. cit. 54 No Diário do Rio de Janeiro. era risonho. porém.e já possuía dois moldes para o romance: Um merencório. pelos tesouros que nêle imaginava escondidos e defesos à sua ignorância. me aparecia na altura dessas criações sublimes. Como e porque sou romancista. 57 Alencar. Tudo isso. Registrou o resultado dessas leituras: O molde do romance. cheio de mistérios e pavores. encerrado com o livro e armado de dicionário. 56 Alencar. que a Providência só concede aos semideuses do pensamento. p. Vol. 58). O romance. cit. loução. 1. p. além de muito .. 55 Visconde de Taunay. 242 Balzac e passaria a ler Dumas e Vigny. op.de Chateaubriand e Victor Hugo. e regada pelo sussurrante arroio que a bordava de recantos cristalinos. que me fôra inspirado pela narrativa pitoresca de meu amigo Sombra. Nêle a cena começava pelo baço clarão da lua. em 1857. Reminiscência. marchetada de flôres. 59. Demoraria os . p. p. 81. brincado. poema da vida real. viria a ser apenas modificado. era esfumilho que mais tarde devia apagar-se. êsse. que o fariam eleger definitivamente o romance como forma de expressão literária da sua predileção. qual mo havia revelado por mera . que lhe não foi obstáculo o pouco conhecimento do francês. o recebera das novelas que tinha lido. rescendendo graças e perfumes agrestes. Aí a cena abria-se em uma campina.57 A verdade é que não se apagaria nunca. 58 Viriam outras leituras.

para que a posteridade . que tenha alguma vez querido vestir de fantasia a realidade de sua formação literária. No prefácio a Sonhos d'Ouro. feito através dos tratados de retórica e da leitura de numerosos romancistas. Ao escrevê-la. Isso em nada altera o julgamento que deve resultar da leitura de sua obra. doutrina que. p. Uma conclusão. 59 Entre as influências. na polêmica com Gonçalves de Magalhães. . e a ela pertencia Iracema. longe de um instintivo. E só depois é que realizaria o primeiro esbôço regular do romance Os Contrabandistas. Compreenderia a primeira. É possível. 66. encaixando em cada uma delas determinada parte de sua obra. foi vocação que se apurou e se disciplinou graças a estudo paciente e continuado. Há aí muita e boa niossa . e admiraria Macedo. op.lhe não regateasse admiração e fidelidade. de caráter histórico.. já era um escritor de romance e no auge da sua carreira. cuja estética assimilou para fundamentar a sua concepção do romance poemático. como a que melhor se ajustaria à intenção de celebrar èpicamente os feitos dos indígenas. Soulié e Eugène Sue. avulta a de Chateaubriand.. cit. e estudo do processo histórico brasileiro. acidentalmente perdido.sua grande e permanente preocupação . da preocupação ornamental. as tradições que teriam embalado a infância do nosso povo. quatro anos antes de falecer. O segundo período. graças ao que lhe foi possível realizar não apenas um romance de boa estrutura técnica mas igualmente representativo da então florescente nacionalidade. da forma lírica. o romancista cearense divi58 Alencar.' da poesia como pintura. desenvolveu. completaria o que faltava de Dumas e Balzac. 61. dêsse modo. Estudo . Já houve quem colocasse em dúvida algumas das afirmativas que Alencar inseriu na sua autobiografia literária. A êle pertencem O Guarani e as Minas de Prata. representaria o consórcio do povo invasor com a terra americana e termina com a independência. "que se pode chamar de aborígine". primitiva. como demonstrou Eugênio Gomes. as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada.243 diu o que chamou "período orgânico de nossa literatura" em três fases. op. os de Marryãt. p. escrito em 1872 para responder às arguições de alguns dos seus censores. 59 Alencar. cit. do tom melódico. porém. leria o que encontrasse de Arlincourt. deve de logo ser inferida dessas suas confissões: a de que Alencar. e êsse é o único julgamento que prevalece. àquela época ainda não concluída.romances marítimos de Scott e Cooper.da forma literária que elegeu como preferencial.não é demasia repetir .

deturpasse êsse viver singelo de nossos pais. antes que o espírito de imitação.. a infância de nossa literatura. cit. porém. por mais engenhosa que fôsse. não apenas à classificação em si mesma. Til. nesse esbôço de classificação. Sonhos d'Ouro e Senhora. (in Edição J. Fauchon. A terceira fase.a colhêr para o nosso romance histórico. 60 Pretendia Alencar. Bênção paterna. trabalhado pelo exemplo de civilizações mais desenvolvidas. Araripe júnior foi um dos primeiros a considerar que essa "sistematização post-factum". o que acertadamente entendia importante. é o fato de haver Alencar tentado a elaboração de uma obra esquematizada de modo a abranger tôdas as fases do nosso desenvolvimento histórico. 61 Alencar. nessa terceira fase. mas não o exótico e raquítico como se propôs a ensiná-lo. devem por fôrça de comover uma sociedade nascente. vol. O que é particularmente importante. Há. p. cit. José de Alencar. ao fato de ter ela servido de base ao planejamento da obra. é verdade.. pois A importação contínua de idéias e costumes estranhos. 62 O primeiro aspecto dessa terceira fase está representado em livros como O Tronco do Ipê. um escritor português. O Gaúcho e O Sertanejo. já que não o podem pelo braço.racterístíco e representativo. era de "uma considerável inconsistência no intuito". 34 e 35). p. 63 Araripe Júnior. os que oferecem reservas. naturalmente inclinada a receber o influxo de mais adiantada civilização. XI. espera escritores que lhe dêem os últimos traços e formem o verdadeiro gôsto nacional. flagar a vida nacional em seu processo. 1882. 63 60 Alencar. de nos recolonizarem pela alma e pelo coração. 35. ainda não terminou. enquanto 0 segundo o está em livros como Lucíola.(ïl como também pretendia fixai o conflito do espírito nacional incipiente em face das influências estrangeiras. pp. op. que dia por dia nos trazem todos os povos do mundo. costumes e linguagem. Dica. A Pata da Gazela. 244 - . captando o que nela se contivesse de mais ca. tradições. op. Olímpio. fazendo calar as pretenções hoje tão acesa. com um sainete todo brasileiro. começada com a independência política. a nós beócios. 62 Alencar. Rio de Janeiro. 35.

E tão bem traçado êle se mostrou. Foi compreendendo isso que Artur Mota s8 dividiu a obra de Alencar em quatro grupos: a) romance histórico. Alencar já acreditava que a vida primitiva dos nossos indígenas fôsse excelente material para o romance histórico brasileiro. como pretende Rosário Fusco. . de abranger os aspectos fundamentais da vida brasileira. 69 E mais. mas não se cingiu apenas a uma única modalidade dessa forma. G7 A evidência desse propósito se manifesta. por mais correto. b) romance da vida da cidade. 169. A forma de expressão literária que preferiu foi o romance.difícil atinar com essa inconsistência. 64 O que é fora de dúvida é que o escritor elaborou êsse esquema tendo em vista o nosso processo histórico. no seu romance. cit. pela natureza do seu conteúdo em relação à realidade que pretendem recriar. Dir-se-á que. g5~ publicado um ano depois do prefácio a Sonhos d'Ouro. na parte do seu "Instinto de Nacionalidade" em que estuda o romance brasileiro. que se inicia com a temática limitada do indianismo e evolui no sentido de ampliar o seu mundo no tempo e no espaço. op. e a sua época e o período colonial. que se atentarmos no 64 Rosário Fusco. tal como o criou o Romantismo europeu. Parece muito claro o propósito que teve Alencar. ou tido como exato pelo autor e pelo leitor. "A Literatura Brasileira Contemporânea". de.. observou Sílvio Romero quando dêle afirmou: Pode dizer que não ficou recanto de nosso viver histórico-social em que €le não tivesse lançado um raio de seu espírito. Ao criticar a Confederação dos Tamoios. Magalhães. classificar o romance alencariano em três grupos: a) romance histórico. Também não é difícil vislumbrar as sugestões que êsse prefácio terá fornecido ao ensaio de Capistrano de Abreu. adotou variantes que se caracterizam. a partir da sua própria. E realizou na verdade êsse propósito. e muito menos aceitar que ela provenha "da falsa noção que Alencar tinha da sua f orrrW". Será talvez preferível. a sua obra tem suscitado. p. inclusive nas várias tentativas de classificação que. o romance histórico pretendia fixar caracteres e sentimentos verossímeis num ambiente histórico exato. ss no capítulo em que o historiador estuda e fundamenta o indianismo. como. além de Machado de Assis e José Veríssimo. que parece ter servido de base para Machado de Assis estabelecer as diferenças existentes entre a Capital e o interior. sobretudo. c) romance da vida campesina e d) lenda iridianista ou pastoral.

como é.sentimental situada em quadro histórico e local bem estudado. e os índios de modo particular. graças ao qual queríamos ser independentes.. 1 . loc. que é o de afirmar e exaltar o passado nacional. e coloca em maior relêvo a intuição do autor. Soc. todos êsses elementos combinados por mão de mestre e de modo a alcançar o objetivo precípuo do romance histórico. 187. p. acaso existam. um pitoresco realista e freqüentemente familiar. à reconstituição de paisagens exatas. Briguiet. e que as personagens históricas não confiram muito com os comprovantes reais. Isso nada altera o sentido e a significação do romance alencariano. 75. p. que alcançaríamos aquêle nível mínimo de orgulho nacional. que os costumes indígenas tenham sido algo deturpados pela fértil imaginação do romancista.. 133 e 134. o romance indianista de Alencar não deixaria de ser. 67 Sílvio Romero. sobretudo em Waaerley Nozels. V. o local.245 sucesso de Scott.). às cenas de . Enquanto isso.. encontraria no Brasil a melhor receptividade. 69 Paul Van Tieghem. pp. op. sendo mais fantasia de sua imaginação do que tentativa de autêntico levantamento de nossas raízes mais profundas. não só do ponto de vista político. mas também do ponto de vista cultural. a civilização primitiva. 68 Artur Mota. Seria através da valorização poética das raças primitivas no cenário grandioso da natureza americana. 66 Capistrano de Abreu. A tendência universal do Romantismo. História da literatura brasileira. à evocação de figuras lendárias ou históricas com a maior precisão psicológica possível.. Rio de Janeiro. o mais recôndito e autêntico do nosso passado teria de ser. Era o europeu quem . os fatos. . É possível que a vida dos selvagens esteja demasiadamente poetizada. Deux exemples (. Rio de Janeiro. de rebuscar nos escombros medievais o que de melhor aí ficara da alma e da tradição de cada povo. 1931.a sér. précabralina. as personagens de modo geral. cit. cit. dando lugar à descrição de costumes. e não é o caso. 1921. de que carecíamos para uma classificação em face do europeu. o indianismo de Alencar pouco ou nada teria de històricamente exato. Capistrano da Abreu.se encontra é uma intrigá . E não é difícil dizer porquê. Sua vida e sua obra. de remexer no passado nacional. José de Alencar (o escritor e o político). veremos que o que aíc. Ensaios e estudos. legítimo romance histórico brasileiro. 44-116. pelo menos poèticamente. A nossa idade média.65 Machado de Assis. pois um dos nossos problemas era o de afirmar frente a Portugal o espírito nacional brasileiro. Ainda que essa objeção fôsse inteiramente verdadeira. pp.

. que encontrou perfeito ajustamento com a estética de Chateaubriand por êle assimilada. suas lendas e tradições não podendo sobreviver nem mesmo através dos catecúmenos. O conceito alencariano emprestou. E havia sido o europeu. como em Alencar. que dêle não mereceram senão a rotulação de lendas. acima da realidade. um mundo de sentimentos e virtudes ideais. cândidos e pastorais. ao contrário. para aqui tinha vindo escravizado e aviltado. que elevou o indianismo a uma posição conseqüente e significativa. jamais fôra. às vêzes. para afirmar a nossa nacionalidade. E não apenas O Guarani. o negro. Alencar criou. Pertencem. ao idealismo romântico. Era o que convinha. pelos repetidos exorcismos que êstes sofriam até a completa descaracterização. era a escravidão e a invasão. com base mais lendária do que histórica. O procedimento. é lícito incluir sua obra indianista nos limites do romance histórico. O índio. não era escravo nem representava o trabalho. quem massacrara grande parte dessas raças. alçado à categoria de valorizador da nacionalidade. para a época. mas Iracema e Ubirajara. ao domínio do romance histórico. só 246 iria aproveitar o que fôsse favorável ao índio ou conviesse aos seus propósitos. mas porque não era filho da terra. sendo raros os cronistas que se manifestavam em sentido contrário. o mundo poético e heróico de nossas origens. para provar a existência de nossas raízes legitimamente americanas. anteriormente ainda não alcançada. era americano e queria ser livre. o descobridor e o invasor. todos êles. por êle próprio assim classificado. Por todos êsses motivos. Por outro lado. não como o realizaram os europeus. porém tal como o idealizou e praticou o nosso Romantismo. e de romancista romântico. numa sociedade em que o trabalha era motivo de desclassificação social. 7° qual a de projetar. no caso. resultando disso o tipo do romance poemático. e não de historiador. a essa variedade de romance um caráter mítico e poético. não só porque representava o trabalho. não se prestava ao papel de valorizador da nacionalidade. Se o índio já servira de tema à poesia e mesmo ao romance.afirmava que essas raças representavam a decadência dos primitivos troncos. Propósitos de romancista. Era o que convinha a Alencar. era não apenas válido. mas necessário e oportuno. que tendo estudado os velhos cronistas e a vida dos nossos selvagens. eram preguiçosos e pouco inteligentes. E nascia da melhor tendência revolucionária do Romantismo. sob medida. já identificada como de tons crepusculares.

em contraste com a rudeza e ambição desenfreada e sem escrúpulos do branco europeu. se é falha por vêzes a realização técnica. São o próprio conceito de indianismo e a sua visão do índio que têm. como O Guarani encerram mitos de significação nacional. não ficaria Alencar. nos quais pretendeu integrar aspirações e ideais da alma brasileira. avultam justamente o valor de símbolo e o conteúdo poético. senão em parte e indiretamente. José Alencar e o romance histórico. que compreende o segundo aspecto da terceira fase do esquema de Alencar. 1951. aos propósitos do autor. só de longe e em rara oportunidade é que o pretendido conflito assoma à evidência. 55. (in Studia. 43). de um total de nove . não encontraria similar na sua obra nem na literatura brasileira. Rio de Janeiro. Buenos Aires. y. pertencem aó grupo dos romances históricos: O Garatuja. para concluir que êles não correspondem. no particular do romance histórico. Tanto As Minas de Pratu. Basta conhecer. Ano I. ao analisar o citado romance. em si mesmas. No primeiro. Aí. 71 José Oiticica. aquêle meio urbano no qual a mentalidade nacional em formação ia recebendo e aos poucos assimilando os exemplos que lhe chegavam de fora. iria atingir. I. com As Minas de Prata. cujo principal modêlo para Alencar terá sido a George Sand da primeira fase. Colégio Pedro II. o Ermitão da Glória e A Guerra dos Mascates. porém. cujo teatro era naturalmente a côrte. Em alguns dêsses. 1950. do que no seu próprio.247 b) romance urbano. n. os romances que se classificam nesse grupo. um nível técnico e artístico que. visivelmente influenciadas pelo romance estrangeiro. Foi êsse nível que José Oiticica tanto salientou. Problematica de Ia literatura. a capital. 70 Guillermo de Torre. porém. p. e isso porque as narrativas dêsse grupo é que se apresentam. A influência a que se referia o autor parece menos no espírito coletivo. para êle. Nos outros dois. Evoluindo do âmbito do indianismo. pela novela sentimental. dez. Locada. mais precisamente. 71 Além dos já referidos. da pureza do americano. como Iracema. o objetivo aqui seria o de captar o conflito do espírito nacional em face de influências estrangeiras. que arrastou para os sertões brasileiros a onda de aventureiros e bandeirantes a que se deve o seu povoamento.Muitas das criações dêsses romances participam da natureza do mito e do símbolo. o mito do bom selvagem. valor mítico. . o mito do tesouro escondido. E não será por mero acaso que. nacional ou simplesmente fluminense. Conforme o romancista.

direta ou indiretamente filiadas ao mesmo tronco comum do romance sentimental ou lírico do Romantismo europeu. Encarnação e Luciola. Seus romances urbanos representam um levantamento da nossa vida burguesa do século passado mais considerável do que o levado a efeito por Machado. representa a sólida base em que se havia de fundamentar tôda a nossa novelística. Como em Macedo. cit. seria mais na escolha inicial dos assuntos do que no desenvolvimento dêles. como é natural. em face do casamento e do amor. pela 72 Artur Mota. pois ainda aqui. lembrou outras. 82-84. em tôrno da situação social e familiar da mulher. sem dúvida. até o protocolo do amor verbal e os formulários da exigência no plano d0 bom gôst0. ou. 248 reconstituição cuidadosa da nossa vida social em seus menores detalhes. as danças. que foi também uma de suas fontes de inspiração. o escritor cearense iria superar a novela sentimental de Macedo. 72 com muito acerto. cujo conjunto de obra. as recepções. e em alguns casos não terá sido a principal influência que Alencar sofreu. Senhora. para ser mais exato. perceber o quanto Lucíola deve a La Dame aux Camelias e Diva a Le Roman d'un jeune Hommel Pauare. e das não menos importantes. nesses como em outros exemplos. e apesar das aproximações. pp. Até mesmo no atendimento à tendência realista do movimento romântico foi mais longe o autor de A Pata da Gazela. como na sociedade burguesa do . Embora não seja nesse terreno onde melhor se manifesta o seu realismo. Não é difícil. Mas. tôdas elas. Realizando êsse tipo de romance. a dívida.. também nêle ocupa lugar de destaque e de importância. Não só as obras de Alencar são de qualidade técnica bastante superior . os saraus familiares. a exemplo da escritora francesa. É verdade que essa não foi a única. se confirma o poderoso e original romancista da vida brasileira nos meados do século XIX.romances e novelas. porém. na verdade. quatro foram classificados pelo romancista como perfil de mulher e têm como título um nome de mulher.algumas. Artur Mota. por exemplo. devendo mesmo ser consideradas de excelente estrutura narrativa . gira em tôrno do problema do amor. 73 A intriga desses romances. desde a moda. op.como desenvolvem melhor e mais conseqüentemente os temas essenciais do nosso Romantismo.

. Macedo já havia exposto a teoria do casamento por conveniência. Encarnação. III. Esse protesto. o mundo ideal acima da realidade circundante. as heroínas de Alencar protestam contra o casamento por conveniência. ao mesmo tempo. . da Câmara Cascudo. vol. incompreensiva. que é o tema central de todos os seus romances desse grupo.simples contrato de interesse econômico . e vale como proclamação dos direitos que tem a mulher ao amor e à liberdade. Lucíola. de prazeres e trabalho . p. Dica. 75 Dentro da boa tradição romântica. fruto de uma sociedade autoritária. vol. Sublinhou. (in Edição J. Senhora. Considerava o estado conjugal uma simples partilha da vida. da qual era necessário fugir. loc. E são eles: Cinco Minutos. 300). IV. Pata da Gazela. Encarnação. p. pp.tempo . 19-20. evadir-se em busca do mundo íntimo que cada romântico deve levar em si mesmo. Daí por que a mulher é o centro de interesse em volta do qual gravitam quase todos os problemas econômicos e políticos. 14).. fator de categorização social.. e é por intermédio de um "bom casamento" que os homens pobres também procuram classificação social.aceitava (o casamento) como uma solução natural para o outono da mulher. cit. é quem representa e transmite os bens de família e confere ao homem inteligente e pobre a oportunidade de realizar-se. A. embora revestindo muita vez feitio diferente. não acreditava no amor e .. Olímpio. e Escabiosa: 73 Luís. Em Senhora. (in Edição J. de bens. que é dos romances mais bem constituídos do autor. e esse mesmo tema reaparece em vários dos romances de Alencar.classifica-se a mulher socialmente pelo casamento. A Viuvinha.já anotou Antônio Cândido 74 . 75 José de Alencar. ao casamento por conveniência . realizou Alencar uma boa crítica à educação tradicional. . é sempre talhado sob a inspiração do amor ideal. Em Encarnação a própria heroína da intriga à semelhança de Raquel em Os Dois Amôres. O folclore na obra de José de Alencar. o caráter do amor romântico como retificador de conduta e portador de substância. Olímpio. Sonhos d'Ouro.construindo. dessa forma. de Macedo. 74 Antônio Cândido.tinha sôbre o casamento idéias mui positivas. com as mesmas personagens que haviam sido vítimas de casamento por dinheiro.

o primeiro a publicar romance regionalista no Brasil. o centro e o sul. Depois de haver iniciado o registro da vida brasileira como um todo. Mas. sòmente em 1853. O romance regionalista. é que . seus costumes. vai fazer o romance representativo de determinadas regiões. que significa o deslocamento do interêsse de Alencar. com Les Maâtres Sonneurs. Iria percorrê-la a partir de 1870. em certo sentido limitando o seu campo de observação. como possível fruto da reação contra o subjetivismo exagerado. na literatura universal. seu objetivo é o de reencontrar o homem. 76 visa a eliminar ou pelo menos debilitar a personalidade do autor como-centro único e indivisível do mundo do romance. Esse cuidado do romancista representa. identificá-lo pelos traços particulares que o situam no tempo e no espaço. de sentido humanista. foi o romance histórico e depois o exótico. um passo bastante significativo. seus hábitos.249 c) romance regionalista. cujo desenho se faz com a ajuda da pintura dos ambientes regionais que os caracterizam. Antes de O Gaúcho. que é de 1870. àquela época: o norte. O primeiro sintoma dessa reação. Não foi Alencar. inclusive porque evidencia . uma de cujas dominantes fundamentais era e continua a ser o contraste entre a vida das capitais e a das cidades do interior. E ainda nisso se mostrou Alencar cuidadoso observador do nosso processo de desenvolvimento. numa visão de conjunto que abarca o que há de mais característico no amplo panorama do país. nasceu da atitude e da estética românticas. porém. E dentro de cada uma delas focalizaria o aspecto interior. os pormenores da vida coletiva. a vida agrícola e pastoril com suas peculiaridades. numa direção que êle apenas sugerira sem ter ainda percorrido.. suas tradições. para a época. aparecendo mais tarde o de costumes rurais à maneira de George Sand. para refletir outros sêres. na literatura francesa.da concepção à execução das obras . avançando. abandonando o aspecto urbano das capitais. do geral nacional para o geral regional. ou porque essas regiões lhe pareceram mais diferenciadas e de características mais fortes. já Bernardo Guimarães e Franklin Távora haviam iniciado a publicação de suas obras.um predomínio da tendência realista já manifestada no romance histórico e no urbano. e levaria indiscutível vantagem sôbre os dois autores citados. é certo. evidentemente sob inspiração do romancista cearense. ou porque nelas naturalmente se dividia o país. que lhe serviu para outro tipo de romance. cujo epifenômeno era a hipertrofia do eu. Essa reação. o romancista. as relações sociais aí verificadas.

cit. O romance regionalista de Alencar. Nela. e não o é apenas em seu aspecto físico. A região em que se desenrola o drama de O Sertanejo. p. no particular. 44. Não é muito para estranhar que Arnaldo se assemelhe a Pari.se pode conceituar verdadeiramente o romance regionalista. aquêle . uma unidade regional está tanto quanto possível fielmente representada e tem lugar de importância dentro da obra. Um e outro são produtos de meios diferentes.. Dominou sempre em nosso romance romântico.78 A partir dessa conceituação é lícito assim classificar essa parte da obra de Alencar. êsse tipo de romance também nasceu da estética romântica. porém não de uma reação contra o subjetivismo exagerado. Roger. Paris. 45. que nunca tivemos. porém sob um ângulo de visão determinado. Roger. op. Todavia. feito na base da acentuação dessa tendência realista. 1951. aliás. province. Situation du roman régionaliste français. que os caracterizam e autenticam de modo diferente. o romance regionalista de Alencar talvez represente. em virtude de particularidades já referidas. est fidèlement representée et tient une placa au moins aussi importante que celle de 1'un das principaux personages imaginés par 1'ecrivain. identificar a figura do sertanejo com a de Manuel Canho. mas em todo o seu complexo de características geográficas e culturais. mais toute création littéraire dans laquelle une unité regional0. é regionalista non pas toute oeuvre qui prend pour cadre une unité regionale. p. a tendência realista que deu corpo ao romance histórico e forneceu substância inclusive à nossa novela sentimental. Jouve. 77 G. No caso brasileiro. é bastante diversa daquela de O Gaúcho. dentro da sua obra e mesmo no conjunto do romance romântico. E êsse ângulo de visão era romântico. e edificado tanto sôbre o senso do pito76 G. como pretendem aquêles que reprovam Alencar por não ter aprofundado o seu regionalismo. de boa-fé. hameau ou ville. Situado convenientemente. 250 rasco quanto do extravasamento do eu e da preocupação de ação social. por exemplo. os historiadores e críticos que não incluem o romance regionalista em nosso Romantismo. que é o que menos interessa no caso. é natural desdobramento do romance histórico. sem dúvida. mas nenhum crítico poderá. como o de Távora e Guimarães. 77 beneficiário do que de fecundo apresentavam tôdas as tendências do Romantismo. e nem se poderia exigir que o não fôsse. Não são poucos. que é o do autor.

. Maisonneuve. pelo qual julgava aquilo que lia. 6. Paris. de extremo a extremo. todo o homem que usa da palavra. orador. e se tornou o grande poeta. op. mas sim para cumprir uma alta missão social. 79 Luís da Câmara Cascudo. não por uma necessidade da vida. Til (1872) e O Sertanejo (1875). com a adequada expressão dos sentimentos e das idéias. Foi preocupação sua. p. 81 e se mostrava preocupado com o estilo. p. até o registro do folclore.aspecto em que mais e melhor se desenvolveu e fixou a tendência realista do nosso Romantismo. em desacôrdo com a nossa própria realidade lingüística. onde se pode ler que todo o homem. mas como um instrumento de trabalho. todo aquêle que faz da linguagem não um prazer.8o Classificam-se no grupo dos romances regionalistas: O Gaúcho (1870). aos quais Alencar chama de romances brasileiros. entre outras coisas: Foi o autor que pretendeu ver um país em conjunto.. 79 78 Pierre Brodin. escritor ou poeta. Dai as longas considerações sôbre o valor da palavra como instrumento de trabalho. deve estudai e conhecer a fundo a fôrça e os recursos dêsse . Compreendeu desde o início que o problema da obra de arte literária era tanto uma questão de conteúdo como de forma. não como um meio de comunicar suas idéias. 16. todo aquêle que fala ou escreve. Já nas Cartas sôbre a Confederação dos Tamoios confessava possuir gôsto literário pessoal. O Tronco do Ipê (1871). ainda que essa obra fôsse o romance.251 Gomo não é por acaso que um crítico como Agripino Grieco dêle disse. cit. Le roman régionaliste américain. o grande pintor dêsse país. Uma das primeiras preocupações de Alencar. é a que se refere ao estilo. E não é por outro motivo que para os estudos de folclore brasileiro a informação cie José de Alencar é de indiscutível autenticidade e marca a existência de fases sociais de transformações nos costumes. desde o comportamento individual e as relações domésticas. aqui ou nos temas indígenas. E mais: percebeu que não era possível haver independência cultural e literária. registrar o que havia de típico em nossa sociedade rural. 1937. se continuássemos a escrever segundo os modelos portuguêses. o grande historiador. mas uma bela e nobre profissão. daquelas que não o abandonariam nunca.

10 e 11. 4. jamais perseguiu. p. sem que esta repetição seja daquelas que se permitem para dar mais fôrça e vigor às idéias. fruto 80 Agripino Grieco. por falta de outro que o substitua. opõe severa crítica ao estilo de Magalhães. um preocupado do estilo. 252 de perseverante estudo e esclarecido esfôrço no sentido de incorporar à linguagem erudita peculiaridades do falar brasileiro. Pinheiro Chagas lhe reprovou vários aspectos. lamenta que talento tão superior como Alencar não se aplique ao estudo da língua com mais interêsse . como revela o poema da Confederação dos Tamoios. nem sempre foi bem compreendido e aceito pelos contemporâneos. (in Edição J. Olímpio. 51. mesmo jornalista. cit. Por enquanto sua linguagem e estilo são descuidados e.. na realidade. op. p. Nem um escritor. 81 Alencar. $4 Nesse mesmo êrm incorreu Henriques Leal quando. porém. Mais longe foram. E dessa preocupação. na revista-panfleto Questões do Dia.83 O jovem crítico de 26 anos era. ia "Notas". IX. Muitas e muitas vêzes encontra-se em poucos versos a mesma palavra repetida três vêzes. José Feliciano de Castilho e Franklin Távora. 36. ou tanta pobreza de conhecimento da língua portuguêsa. editada para servir à campanha mesquinha que . considerações sôbre o estilo. qual o de querer criar uma linguagem brasileira. escrevendo currente calamo. Seu estilo. desiguais e frouxos. a de n. ademais. de referência principalmente a O Guarani. atribuindo a Alencar um objetivo que o escritor. 85 reprovando-o. Alencar. Cartas sabre a Confederação dos Tamoios. acrescentando em nota final. nasceu o grande escritor que foi José de Alencar.elemento de sua atividade. 82 Alencar. op. mostraria tanto descuido e negligência.. pela "monomania de criar um idioma brasileiro". como se vê. tais como as que se seguem: . por vêzes. a propósito de Iracema. 83 Alencar. vol. que o tempo aprofundaria ainda mais. Alguns chegaram mesmo a considerá-lo defeituoso e incorreto. 82 Em outro passo. p. é simples reprodução do mesmo têrmo. cit. pp. e sem prevenções. 11).

seria impossível evitar os francesismos na expressão ou na pintura de costumes e de personagens. 20.88 Sua peocupação. Não foi nunca pretensão sua. Observações políticas e literárias escritas por vários e coordenadas por Lúcio Quinto Cincinato. Semprônio. Lucubrações. assim se manifestou: É uma campanha de desmoralização e de descrédito.253 Que a tendência não para a formação de uma nova língua. a criação de um idioma brasileiro. no falar do povo. Novos ensaios críticos. Olímpio. Rio de Janeiro. É crítica soez. para ser coerente com sua teoria. 86 a respeito da qual Gládstone Chaves de Melo. com exemplos dos clássicos do vernáculo. e por isso muita vez refutou as acusações de incorreto. como observou acertadamente Gládstone Chaves de Melo. pp. ss Tanto a êstes últimos como aos primeiros respondeu Alencar. 1874. numa época de geral influência francesa. 214 e 215. Pinheiro Chagas a nós escritores brasileiros do crime de insurreição contra a gramática de nossa língua comum. era criar um estilo brasileiro.intentaram contra Alencar. XV da Edição J. e Franklin Távora. ao jurista. um modo de escrever que refletisse o espírito do . 87 Gládstone Chaves de Melo. quase sempre com vantagem. existe no Brasil. buscar o germe dela e seu fomento no espírito popular. 3 vols. mas para a transformação profunda do idioma de Portugal. Introdução ao vol. no estudo que lhe dedicou. sabia manejá-la. Cincinato. . feita a retalhos. 85 Antonio Henriques Leal. Ademais. arvorando-se em mestre do bom gôsto. êsse "ignorante sublime" como lhe chamou. 86 Questões do dia. xos. gramaticóide estreito. exsudando latim e erudição clássica por todos os poros. ao dramaturgo. diferente do português. é fato incontestável. em vez de atribuir-nos a nós escritores essa revolução filológica. Imparcial. e em mais de um passo assim se exprime sôbre a questão Acusa-nos o Sr. como se afirmou. apostados em reduzir os méritos literários de Alencar. um ataque sistemático e constante ao político. Castilho é o tipo do caturra. ao romancista. Pinheiro Chagas. Mas.. afrancesado ou vulgar. pp. Conhecia bem a língua portuguêsa. p. devia o Sr. ao escritor. 1867. Sobressaem nessa mesquinha atividade José Feliciano de Castilho. 316-319. 1871. Em sua opinião estamos possuídos da mania de tornar o brasileiro uma língua diferente do velho português! 84 Pinheiro Chagas. organizada e levada a efeito com técnica e minúcia. Lisboa. Pôrto. p. 221.

poucos darão. mas à custa de observação e estudo.robustecer o estilo e dar-lhe vigor. se não tanta importância à forma do que eu. Para meu gôsto. imprimem em geral ao chamado estilo clássico certo caráter pesado. quando não é a pecha de escritor incorreto e descuidado. Como se explica. a repetição próxima das partículas que servem de atilhos. mas está bem longe de prestar-se ao perfeito colorido da idéia. especialmente as conjunções. 91 E passa. os nervos do estilo são as partículas. mais. muitas vêzes senti a importunação dêsse reflexivo se. e serviam de elos à longa série de orações amontoadas em um só período. respondendo às arguições de Pinheiro Chagas. O grande número de monossílabos derramados pelo discurso ecoando com uma mesma consonância. em meu conceito torna o estilo frouxo e monótono. em vez de . Há energias do pensamento e cintilações do espírito. Suas constantes reflexões sôbre o problema do estilo fazem prova disso: Minhas opiniões em matéria de gramática têm-me valido a reputação de inovador. e prolixo. o torneio regular das orações a sucederem-se umas às outras pela mesma forma. antes realça-lhe a graça ou elegância. a principal condição do estilo é a sua concisão e simplicidade: o que não exclui. porventura muito superior a qualquer das outras destinadas à revelação do belo.. essa acumulação de orações ligadas entre si por conjunções relaxa a frase. monótono. a comentar o estilo de um trecho de Frei Luís de Sousa. Entretanto. tornando o pensamento difuso e lânguido. não por intuição ou inspiração sobrenatural. que é impossível exprimir com semelhante estilo.nosso povo. que zune em tôrno da frase como uma vespa teimosa. então. Escrevendo. porém. que teciam a frase dos autores clássicos. oferece-nos passagens como esta Em minha opinião. para quem o autor de O Guarani tinha um estilo frouxo e desleixado: No conceito do distinto literato. que tem sua beleza histórica. essa contradição? 89 Pouco adiante. sem dúvida. E sem dúvida que alcançou o que pretendia. 90 Ainda mais significativa seria a resposta a Henriques Leal. reescrevendo-o à moderna para ilustrar o seu ponto de . As transições constantes. portanto. pois entendo que o estilo é também uma arte plástica. a grandeza ou majestade. as particularidades sintáticas e vocabulares do falar brasileiro.

88 Alencar. Pós-escrito à 2.a ed. de Iracema. (in Edição J. Olímpio, vol. VIII, p. 192). 89 Alencar, op. cit., p. 190. 90 Alencar, op. cit., p. 195. 91 Alencar, op. cit., p. 200. 254 vista a respeito do estilo, finalizando com a seguinte afirmativa, que o tempo e os estudos sôbre Alencar só fizeram confirmar: Não posso transportar para aqui tôdas as observações que tenho feito a respeito dos clássicos; limito-me por enquanto a manifestar minha opinião, ou antes, meu gôsto em matéria de estilo. Assim aquêles que censuram minha maneira de escrever, saberão que não provém ela, mercê de Deus, da ignorância dos clássicos, mas de uma convicção profunda a respeito da decadência daquela escola. 92 Na verdade, o romancista conhecia, e conhecia bem, os clássicos portuguêses. Estudou-os com cuidado, com vontade de penetrar a intimidade do estilo dêles para só então construir o seu próprio, diferente, brasileiro, que atendesse, não só às exigências da forma narrativa, mas também traduzisse as peculiaridades do nosso falar. Por outro lado, na técnica estilística de Alencar, ainda aqui em consonância com a lição recebida de Chateaubriand, há elementos que sobressaem. Para êle a arte de narrar consistia em pintar com as palavras. Daí o predomínio do elemento descritivo, a descrição tendo mais importância do que a coisa descrita. Foi o próprio romancista, citado por Eugênio Gomes em seu ensaio sôbre a estética de Alencar, quem definiu o elemento de pintura que a palavra significa: O pincel inspirado do pintor que faz surgir de repente ao nosso espírito, como de uma tela branca e intata, um quadro magnífico, desenhado com essa correção de linhas e êsse brilho de colorido que caracterizam os mestres. A poesia identificava-se com a pintura e as descrições eram como quadros ou painéis nos quais a verdadeira, a sublime poesia revela tôda a sua bela estética e rouba por assim dizer à pintura as suas côres e os seus traços, à música as suas harmonias e os seus tons. Pode o estilo de José de Alencar parecer declamatório ao gôsto da nossa época, um tanto brilhante e sonoro. Isso era próprio do Romantismo. Ninguém lhe negará,

porém, essa suave musicalidade, que muita vez faz do discurso um verso polirrítmico bem acentuado e melodioso. Também o fato de haver enriquecido a língua literária, acrescentando-lhe numerosos tupinismos e brasileirismos, construindo suas imagens ou fazendo suas comparações com elementos da natureza americana, também isso contribuiu de modo decisivo para a singularidade do seu estilo. O estudo da estrutura de sua frase revela, além de sensata fidelidade à boa tradição literária, o desejo de inovar, de refugir do trivial e do fatigado para a criação de ,algo realmente nôvo e caracterìsticamente brasileiro. Tão evidente isso se mostra, que Nabuco procurou, na maturidade, penitenciar-se de uma possível injustiça da juventude, ao escrever: 92 Alencar, op. cit., p. 203. - 255 Apesar de tudo, porém, o romancista mineiro desempenhou papel não pouco importante no desenvolvimento do romance. nacio= nal, assegurando o seu lugar na história de nossas letras. Grieco chegou a dizer que ... a contribuição de Bernardo Guimarães constitui aperfeiçoamento dos mais valiosos. Bernardo encontrou em sua província muitas coisas a explorar, desentranhando notas interessantíssimas do aparente rudimentarismo da vida do interior: Enquanto outros, sequiosos de ouro, cavavam a terra, êle remexia nas tradições. ag E Sílvio Romero, antes dêle, afirmava: O romancista em Bernardo Guimarães é merecedor de atenção pelo caráter nacional de suas narrações, pela simplicidade dos enredos, pela facilidade do estilo. eT Na verdade, a escolha dos assuntos, em Bernardo Guimarães, foi um passo à frente na evolução do romance brasileiro. Mas, essa escolha era inevitável, pelo desenvolvimento da tendência realista do nosso Romantismo, e, por si só, não pode conferir ao autor a classificação de realista e até de precursor do Naturalismo, que lhe veixì sendo dada, quase sem exceção, a partir de Sílvio Romero. Para uma tal classificação era necessário que, além da simples escolha, fôssem os assuntos tratados de outro ponto de vista que não o român= tico, e não é isso o que ocorre no autor de A Escrava Isaura. ` A origem dessa classificação, ao que tudo indica, reside no prefácio do próprio Bernardo Guimarães ao seu primeiro romance, O Ermitão de Muquém, que nos mostra o herói da história - um sertanejo - vivendo primeiramente em sua terra natal, depois isolado da civilização, em contato com os indígenas e, finalmente,

transformado em santo, perdoado dos crimes pela visão, da Virgem; a receber devotos que fazem penitência em busca de salvação. A cada uma dessas três partes da história procurou o autor caracterizar do seguinte modo: A primeira parte [...) é escrita no tom de um romance realista e de costumes; representa cenas da vida dos homens do sertão, seus folguedos ruidosos p um pouco bárbaros, seus costumes silenciosos, seu espirito de valentia e suas rixas sanguinolentas. [...1 Aqui (na segunda parte) é fôrça que o meu romance tome, assim, certos ares de poema. Os usos e costumes dos povos indígenas do Brasil estão envoltos em trevas, sua história é quase nenhuma, de suas crenças apenas restam noções isoladas, incompletas e sem nexo. O realismo de seu viver nos escapa, e só restá a idealismo, e êsse mesmo mui vago, e talvez em grande parte fictício. Tanto melhor para o poeta e o romancista; há largas ensanchas para desenvolver os recursos da imaginação. O lirismo, pois, que reina nesta segunda parte, a qual abrange os Pousos segundo e leiteiro, é muito desculpável; êsse estilo um pouco mais elevado e ideal era o único que quadrava aos assuntos que eu tinha de tratar. e às circunstâncias de meu herói. O misticismo cristão caracteriza essencialmente a terceira parte, que compreende o quarto e último Pouso. 96 Agripino Grieco. Evdtuçãò da prosa brasileira. 2.$ ed. Rio de JaneirJ. Olímpio, 1947. p. 35. 97 Sílvio Romero. História da literatura brasileira. III, 307. Aqui há a realidade das crenças e costumes do cristianismo, unida à ideal sublimidade do assunto. Reclama pois, esta parte, um outro estilo; em tom mais grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine sabem falar quando tratam de tão elevado assunto.9g Segundo indicam os trechos acima transcritos, O Ermitão de Muquém, ao mesmo tempo que romance realista e de costumes, seria escrito de acôrdo com os moldes do mais acabado Romantismo, no estilo grave e solene de Chateaubriand e Lamartine. Numa época. em que a imaginação tinha maior lugar que a observação,' o aparecimento .de um romance que descrevesse aspectos da vida dás pdpu= loções sertanejas; .inclusive com registo de usos e costumes; de 'festas e tradições, devia perturbar a crítica, como foi o caso do Ermitão de Muquém, agravando-se a desorientação em face- da classificação feita pelo próprio autor. E terá sido a partir disso, provàvelmetife;

que se vem repetindo a inclusão de Bernardo Guimarães nos quadros do Realismo do século XIX, posterior ao Romantismo. Sílvio Romero, para quem '& conceito de Naturalismo tinha uma elasticidade hoje inaceitável, chegou a ver em Bernardo Guimarães um precursor do Naturalismo, rotulando o do autor mineiro como naturalismo ' aldeão e campesino 98 tal como Clóvis Beviláqua encontrara em Távora um naturalismo tradicionalista. A leitura 'de qualquer dos romances dê Bernardo Guimarães, porém, não pode levar o crítico atual a essa mesma conclusão, por maior que seja a sua vontade de engrandecer o papel desempenhado por um escritor de mérito e de cativante simpatia humana, como é o caso do romancista mineiro. José Veríssimo, no particular, foi mais prudente, pois, não incluindo Bernardo Guimarães nos capítulos em que estuda o Realismo ("modernismo") e o Naturalismo, colocou-o entre os prosadores da "segunda geração romântica", embora advertindo que era um espontâlneo, sem qualquer prevenção literária, propósito estético ou filiação consciente a nenhuma escola. l°° O Ermitão de Muquém, com que Bernardo Guimarães inicia a sua carreira de romancista, está datado de Ouro Prêto, 10 de novembro de 1858, mas só uma rigorosa e hoje difícil pesquisa poderá assegurar a autenticidade dessa dotação. Quem melhor até agora estudou a vida e a obra do romancista, Basílio de Magalhães, afirma ter elementos para assegurar que naquele ano o escritor se encontrava no Rio, e não em Minas, sem perceber que a sua afirmação coloca em dúvida a prioridade de Bernárdo Guimarães como iniciador do regionalismo romântico. Esses elementos são, em grande parte, as datas de vários poemas de Bernardo Guimarães, ,que assim entrariam em choque com a data da elaboração de 0 Ermitão de Muquém. O certo é que esse só foi publicado, primeiramente, em 1866, no Constitucional da capital mineira, lol e depois em primeira 98 Bernardo Guimarães. O ermitão do Muquém. São Paulo, Martins, 1952. pp. 23-24. 99 Sílvio Romero, op. cit., p. 310. 100 José Veríssimo, op. cit, p. X38. 101 Basilio de Magalhães. Bernardo Guimarães (esbõço biográfico e crítico). Rio de Janeiro, Anuário do Brasil, 1926. p. 135. - 259 edição pela, Gannier, em 1869. Ora, em 1866, Franklin Távora, tendo publicado A Trindade Maldita em 1861 e o romance histórico Os índios de Jaguaribe em 1862, também entregaria ao público o seu primeiro romance de caráter regionalista, A Casa de Palha. foz Quanto a Alencar, que até 1866 publicara, entre outros, O Guarani

(1857), Iracema (1$65) e As Minas de Prata (1865-1866), não daria O Gaúcho senão no ano seguinte à primeira edição de O. Ermitão de Mttquém, portanto em 1870. Afirmase, porém, que é a Bernardo Guimarães que cabe a glória de ser, històricamente, o iniciador do regionalismo romântico em nossa literatura,, cujas origens já, foram sugeridas, na capitulo referente a Alencar. Contudo, o que é mais importante, no caso, é observar o simultâneo encaminhamento de vários escritores para o regionalismo. Deve-se isso ao fato de haver a tendência realista do Romantismo brasileiro alcançado, àquela época, um desenvolvimento que começava a reclamar o quadro regional, pelo início de esgotamento das possibilidades do romance histórico e do urbano. Para atender a essa reclamação; Bernardo Guimarães estava em situação mais privilegiada do que os outros, do que Távora sobretudo, pois a êsse fato de caráter geral alia duas circunstâncias não menos importantes. A primeira, pelo intimo e demorado contato com as tradições de sua província, é a de ser um narrador verbal de histórias à beira do fogo, nas fazendas ou humildes hábitações da roça, sabendo tocar viola para entremear as narrativas de canções 103 fato que, segundo a tradição, levava os fazendeiros a disputar a preferência de hospedar o alegre e boêmio contador-de-histórias. A segunda circunstância é a de haver Bernardo Guimarães começado a publicar romances tardiamente, quando já havia abandonado um dos maiores centros da agitação romântica no país - a Faculdade de Direito de São Paulo - e escrito dois livros de versos saturados de Romantismo, para retornar às paisagens e aos costumes da 'província natal, que tão profundamente lhe marcaram. Vacinado, dessa forma, contra os excessos do ultra-romantismo, e em contato demorado com a realidade da vida rural de sua província, ouvindo as histórias, lendas e tradições que povoavam a imaginação popular,. não lhe era difícil; como não foi, recriar nos seus romances, ao jeito de quem despretensiosamente conta uma história, tudo o que viver+ sentira, que ouvira contado e contara êle próprio com ajuda da imáginação e da viola. Depois dêsse primeiro livro, que não é o melhor nem o mais regionalista, Bernardo Guimarães voltaria ao regionalismo em A Filha do Fazendeiro, O Garimpeiro, O índio Afonso e O Seminarista, enriquecido êste último: corri o estudo do problema do. celibato clerical; 102 Em rodapé, na primeira página do Jornal do Recife, de 5 de jus. a 6 de 40.. de 1866. 103 João Alphonsus. Bernardo Guimarães, romancista regionalista. (in Q

romance brasileiro. Rio de Janeiro, O Cruzeiro, 1952. p. 94. 2P(ï também atenderia a outros aspectos do nosso. Romantismo, com o romance histórico em Maurício e O Bandido do Rio das Mortes, o problema social da escravidão em A Escrava Isaura e Rosaura, a Enjeitada, e a feição indianista, mais em O Ermitão de Muquém e Jupira do que em O índio Afonso. Quanto a êste último aspecto, devese notar que, embora sensível seja nele a influência de Alencar, o caminho escolhido por Bernardo Guimarães foi outro. Enquanto Alencar exaltou o passado indígena com o intuito de afirmar a nossa nacionalidade em face do europeu, o romancista mineiro procurou fixar a realidade do mestiço na comunidade rural. Daí porque o melhor dos seus biógrafos disse que êle n ao se filiou na escola "indianista" pura; ao contrário, marca a diferenciação .da nresnia, poro obcopo de integrar na nossa literatura, em vez dos tipos extremos de meseta, dN de cruzamento mais comum, isto é, o mameluco e o ca¡uso, nos quais saci :;,ategortzavers luprru e U l'naio Afonso. 104 \, Seus romances regionalistas ainda hoje podem oferecer interêsse, pelo que reproduzem de usos e costumes, paisagens e tradições da vida rural mineira ou goiana, no século passado. Eoi geralmente com lidehdade que Bernardo Guimarães fixou os cenários de suas histórias, quase todos conhecidos seus de velhas e longas andanças: U registo de aspectos característicos do viver sertanejo da época è o que de mais importante existe em seu regionalismo: quer ao lixar a cata dos diamantes na região de bagagem (c>iartmpecro), a briga de sertanejos (Ermitão de Muquém); o motirão e á quatragem (a'emtnartssa), quer quando anota crendices e hábitos, costumes e tradições, é geralmente com fidelidade que a escritor descreve ou narra; e nisso leva indiscutível vantagem sobre Fránklin 'hávora Ï Ligado a isso está o problema da linguagem, contra a qual incidem, de preferência, as críticas que lhe coram seitas. Veríssimò observou.que escrevia mal, sem apuro de composição nem beleza de estilo, lu° e mais de um crítico lhe apontou erros grosseiros, flagrantes desrespeitos à gramática. .É certo que os cometeu, o que não impede a afirmativa de que sua contribuição ao enriquecimento de nossa língua literária é importante, pela incorporação de numerosos brasileirismos ou mineirismos; anotados à farta por Easílio de Magalhães, 106 ou pelo registo de particularidades sintáticas do falar sertanejo. Sílvio Romero chegou mesmo a dizer que Bernardo Guimarães pode ser tomado como um documento para se estudarem as

tranformações da língua portuguêsa na América. 107 Embora incorreto no perigo das generalizações, pois uma que outra vez se pode perceber em seus romances a inútil preocupação de escrever bem, é possível dizer que, ainda aqui; Bernardo, Guimarães 104 Basílio de Magalhães, op. cit., p. 181. 105 José Veríssimo, op, cit., p. 239. IOG' Basflio de Magalhães, op. cit., p. 180. 109 Sílvio lìomero, op. cit., p. 307. foi espontâneo - talvez seja melhor dizer primitivo - escrevendo numa linguagem simples, popular, quase em tom de conversa, muita vez em desacôrdo com os preceitos da gramática normativa. Ignorância, propósito de escrever para ser mais fàcilmente lido e compreendido ou consciente contribuição à formação do dialeto brasileiro? los Como quer que seja, o fato é que os seus romances estão cheios de particularidades sintáticas e vocabulares de certa área do nosso sertão, e podem, por isso, constituir documento importante para estudos de dialetologia brasileira. FRANKLIN TÁVORA ( A má qualidade dos romances de Franklin Távora fêz com que a sua obra permanecesse assunto quase inexplorado pela crítica mo108 Basílio de Magalhães, op. cit., p. 143. (*) João Franklin da Silveira Távora (Baturité, Ceará, 1842 - Rio de Janeiro, 1888) bacharel em Direito, pela Faculdade do Recife, exerceu cargos de destaque na administração pernambucana, foi secretário da Presidência do Pará e oficial da Secretaria dos Negócios do Império. Fundador da Sociedade dos Homens de Letras, foi sócio do Instituto Histórico e de outras associações nacionais e estrangeiras, militou na imprensa da província e da côrte. Espirito polêmico, tornou-se irreconciliável adversário de Alencar, contra quem moveu, de parceria com José Feliciano de Castilho e outros, exaltada campanha de desmoralização e descrédito, sob o pseudônimo de Semprônio (1871). Ainda com o objetivo de combater Alencar, cuja glória não perdoava, criou uma "literatura do norte" (1876), que consta de uma série de quatro romances, sob o argumento de que era no norte, e não no sul, que se encontravam os elementos capazes de conferir caráter nacional à literatura brasileira. Como historiador, escreveu História da Revolução de 1817 e História da Revolução de 1824, das quais restaram apenas os fragmentos publicados na Rev. Brasileira e na Rev. do Inst. Histórico, pois os originais completos foram por êle próprio incendiados, num momento de desespêro, quando se viu pobre e em estado de quase miséria,

Sacrifício. Lúcia. F. segundo José Veríssimo. 3946. 1870. Távora. F. portanto. J. contista e romancista. 1878. Casamento no Arrabalde . 1929. 12-52). 1879. Veríssimo. tratei de descobrir-lhe os livros. 1861. V. Rio de Janeiro. Vol. (in Rev. conclui que não existe o romancista em Franklin Távora.o melhor livro do autor. Em toda caso.desamparado e esquecido daqueles a quem ajudara. Aead. Rio de Janeiro. Consultar: Autores e livros. TEATRO: Um mistério de família. A casa de palha. ioa . 1912. Acad. 1861. Olímpio. (in Rev. Lourenço. Berna. 129-140) . por falta de novas edições e extrema raridade das antigas. Studart. 2. Pelo que li. Távora e a literatura do norte. seja pela dificuldade de leitura de obras hoje quase inacessíveis. pp. Brasil. Três lágrimas. não hesitou em confessar que dêle nada conhecia. José. Não tendo. 1862. 1869. Um casamento no arrabalde. Lendas e tradições populares do norte. que o compara a Inocência não poderia dar sôbre o autor uma opinião segura. historiador. pp. notadamente. I.0 9. faltando.° 87. 1876. jornalista. F.° 3. Miguel Pereira. 1871. Advogado. pp. 1910. pp. CRÍTICA: Cartas de Sempiõnio. 482484. teatrólogo. e não tinha o menor desejo de travar agora relações com o detrator de José de Alencar. A. Vol. n. 279287. V. O Cabeleira e Lourenço. lido a obra tôda. n. introdução a Diário de Lázaro. Letras. 1905. Beviláqua. 1880. em péssima edição popular. Bibliografia: Romertes: Os índios do laguaribe. Fortaleza. Dicionário biobibliográffco cearense. idem. Couro: A trindade maldita. t i. 1866. G. autora de recente trabalho sôbre Távora. Letras. Mota. Brasil. 25-1-1942. "Estudo critico sôbre Fagundes Varelá'. 1952). O Cabeleira. 1881. Três romancistas regionalistas. só encontrando dois. O matuto. Távora. (in Estudos de literatura brasileira. (in O romance brasileiro de 1752 a 1930. Clóvis. pp. crítico. seja pela natural falta de estímulo ao estudo de um escritor assim caracterizado. mar. jul. Prosa de ficçãq. 1878. Lúcia Miguel Pereira. 1950. Garnier.

em conseqüência do já estudado desenvolvimento da tendência realista do nosso Romantismo. 97. F. evidencia. encaminham-se para uma temática que só então começava a ser utilizada. p. certo caráter geográfico. filha da terra. 112 José Veríssimo. lls é sempre com louvores que lhe registam o nome os que dêle se ocuparam. a influência de Alencar na escolha e no tratamento do assunto. 270. O da estréia. tendo em vista sobretudo opor-se a José de Alencar. (in O romance brasileiro. não abandonando o ponto de vista romântico. 114. cit. mais do que essa filiação. cujos 109 Lúcia Miguel Pereira.O depoimento é importante. op. manifestados principalmente na carta que incluiu no O Cabeleira. Eram tentativas de romance de costumes. como a política. op. entre outros aspectos porque nega o que críticos e historiadores dos fins do século passado e começos dêste reconheceram: o romancista Franklin Távora. .Os índios do Jaguaribe (1862). p. Jnicamente . O Cruzeiro. 113 Coelho Neto. Alves. (. V. 1913. 102). porém. abundam os elementos para a formação de uma literatura prbpriamente brasileira. 110 Sílvio Romero. História da literatura brasileira. llz ora considerado um dos vultos de mais alto relêvo da nossa literatura. Os dois outros. A Casa de Palha (1866) e Um Casamento no Arrabalde (1869) não oferecem maior dúvida quanto à filiação do escritor ao Romantismo. onde afirma que As letras têm. Rio de Janeiro. 1952. como espécie de manifesto da sua "literatura do norte".. um . Ora chefe de um naturalismo tradicionalista e campesino na novelística brasileira. Ao lado disso. p. 111 Silvio Romero. Por mais que tenha sido maltratado pelos literatos do seu tempo llo a verdade é que ficou do autor de "literatura do norte" um conceito de modo geral honroso. a sua representação da natureza e da vida sendo mais exata.. cit. princípios básicos estão consubstanciados na carta-manifesto editada ao primeiro romance. . mais no norte. D. sobretudo. 95. Três romancistas regionalistas. anteriores ao lançamento da "literatura do norte" . 2 á ed. do que no sul. ) A feição primitiva. Os primeiros romances de Franklin Távora. Compêndio de literatura brasileira. 111 ora dotado de excelentes qualidades literárias. foi que Távora deu início à série da "literatura do norte". até princípios dêste século. Rio de Janeiro. e só depois dêles. tendo em vista menqs talvez os seus romances do que os seus propósitos. classificam-no como realista e mesmo precursor do Naturalismo. p. se não mais expressiva do que a de Alencar.

Mais importante do que isso. mas não é romance. 1905. por exemplo. 115 De fato. a urna das dominantes da vida brasileira. que regionalistas. assim. PBrto-Alegre. que atendeu a todos os três. W i José Veríssimo foi dos primeiros a criticar essa teoria de Távora.modificada pela cultura. e dêle já se disse que pode ser histórico. e o fêz com acêrto. em lugar de estabelecer oposição entre o norte e o sul. 1902. Pretendendo fundar uma literatura do norte.o fato é que os romances da série são mais históricos que de costumes. dizendo que havia nela. 131). Alencar. . se conserva ali em sua pureza. p. brasileiro. O Matuto e Lourenço. tomaram como assunto episódios da guerra dos mascates e. por entender que nessa região é que se encontravam os elementos capazes de conferir caráter verdadeiramente. (in Estudos de literatura brasileira. uma ilusão de bairrista e de romântico. . em qualquer que f8sse a região. J. 29-38. O Cabeleira. Rio de Janeiro. vol. XI. (in Sonhos douro. já havia publicado a sua divisão e caracterização do "período orgânico de nossa literatura" llg na qual. pp. 5. op. que as raças. p. 117 Lúcia Miguel Pereira. XII-XIII. como se não bastasse. Rio de Janeiro. com uma parte mínima de verdade. 116 Alencar. 103. mais fácil ainda é a classificação. é observar. Em 1876. filha da terra) no centro e no sul do país. e mal escrita. transcrevendo 114 Franklin Távora. Mais ainda: reconhecendo a validade de qualquer dêsses aspectos do regionalismo. Franklin 'Fgvora e a "literatura do norte". o autor documenta fatos e até personagens. já Bernardo Guimarães. E uma biografia romanceada. 117 (quanto aos dois outros. mal romanceada. do centro e do sul. em sua genuína expressão.a sér. as índoles e os costumes recebem dos tempos ou do progresso.pode-se afirmar que ainda .. repetidas vêzes. obedecendo.que entre a teoria e a 'prática de Távora existe evidente descompasso. ed. o que já é suficiente para afastar as dúvidas. nacional. êrro que se agrava em virtude da época de sua divulgação. entre outros motivos porque não admite a possibilidade de regionalismo (literatura brasileira. é por êle próprio classificado como romance histórico. preferiu opor a vida do interior à das cidades. Alencar e o próprio Távora haviam escrito romances regionalistas do norte. Garnier. Oífmpio. à nossa literatura e isso seria regionalismo. Garnier. ainda que Távora não tenha usado a expressão . cit. p. a teoria é falha. 115 José Veríssimo. Ostentando o subtítulo de crônica pernambucana. O Cabeleira. porém. Bênção paterna.

Em uma palavra. que até certo ponto acompanha o teatro em suas vistas de conquista do ideal social . prática. que moraliza. em pé de página. o caráter histórico de detalhes ou fatos de suas narrativas. que êle era um mau romancista. Parecendo-me. num escritor cujas opiniões a respeito do romance. 119 A teoria de Huet informara as primeiras tentativas de romance no Brasil. eram primárias e falhas. particularmente. e até o realista. alheado da idéia romântica de romance como entretenimento. por exemplo. de romance realista. . izt Externava. o romance realista pertencia a passado bem distante Não condeno. Távora semelhante opinião em 1871. que o romance tem influência civilizadora. seu conceito de Realismo. prefiro o romance verossímil. porém. . Romance realista. como instrumento de elevação moral e dignificação do homem por meio de doutrinação indireta. forma o sentimento pelas lições e pelas advertências. Isso não prova. de costumes. numa época em que o romance já se havia fixado no Brasil. t. ainda que êste me não pareça característico dos tempos que correm. como observou José Aderaldo Castelo: É curioso que tais fundamentos teóricos (de Huet) atribuídos ao romance da era clássica possam ser observados. quero "o homem junto das cousas". possível. Continuava a entender romance como o citado clássico francês. educa. E não podia ser de outro modo. in liminé o romance de fantasia. cujos elementos básicos perduram na tradição de que é resultado o atual romance do nordeste. Tido. mostra o considerável atraso em que se encontrava. sem imaginação. apenas. nos primeiros romancistas românticos nacionais quando se tentava a introdução definitiva do gênero na literatura brasileira. de movimentos ou escolas literárias. definição da arte por Bacon. 120 Para Távora as coisas permaneciam mais ou menos no mesmo pé. segundo a sua concepção.prefiro o romance Intimo histórico. do que se pode deduzir que . realista e precursor do Naturalismo. também. quando o tempo das primeiras tentativas já estava longe e Alencar fornecera uma teoria e uma. Franklin Távora concebia o romance quase como o concebera o erudito clássico francês Pierre-Daniel Huet. entendia-o como literatura edificante. que os romances de Távora eram históricos e não regionalistas.trechos de memórias históricas 118 ou afirmando. como. Prova. ou seja. pois.não possuía êle melhor noção dêsses fenômenos. sem capacidade inventiva.

15-22 mai. ou o desconhecimento dos textos. 120 José Aderaldo Castelo. 1670. 1949). 119 Pierre-Daniel Huet. o romance moderno. Sua preferência era o romance histórico.que admitia em última hi118 Franklin Távora. ou não o entendia até o ponto de ser capaz de perceber-lhe a significação e indentificár-lhe as características. de La Fayette. mas preferiu dizer que a "escola" do romance histórico ainda não se achava fundada no país.° 14. o que é mais. pois. não só classificaria o romance que a inicia como histórico. 197 e outras. pode conduzir-nos a ver regionalismo onde êle . Notas sôbre o romance brasileiro. Hayde. p. Rio de Janeiro. Só um êrro de interpretação. e não é por outra motivo que a sua "literatura do norte" assim se classifica. Vol. conforme esclarece logo adiante. 10. Lourenço. negando a O Gaúcho a condição de romance histórico . ao lançar a "literatura do norte". há outra circunstância. É difícil saber se a essa altura já imaginava fundá-la com a "literatura do norte". era sòmente o Lazarillo de Tormes. Segrais sur I'origine des romana. n. em outro passo Féz acaso outro tanto (de referência a Scott e Herculano) Sênio no seu Gaúcho. imparcial. t2= Ao escrever isso (1871) . 1. Rio de Janeiro. íntimo histórico como chamou êle próprio. (Prefácio à edição da novela de Mme. Lettre à M. Ademais. que injustificadamente vem sendo repetido. sôbre o mesmo assunto históricó que antes fornecera inclusive o título de um romance de Alencar. E o fato é que. (crônica pernambucana). não há de ser decerto a obra de Sênio que servirá de modêlo. Garnier. A Guerra dos Mascates (1873-74) . 7. Questões do dia. Não conhecia. tão certo é faltar-lhe a possança e a firmeza de ação e de critica imprescindíveis em trabalhos tais de iniciativa ao gênero. aliás. pótese e achava não ser característico dessa época. (in Diário de São Paulo. pp. mas não é possível que isso tenha ocorrido. 121 Franklin Távora (Semprônio). para pretender com razão um lugar na ordem dos romancistas históricos? Se acaso se não acha ainda inaugurada no pais a escola. mas escreveria os dois seguintes dentro do mesmo espírito e. do mesmo modo esclarecedora. não desconhecia Távora que os seis volumes da primeira edição de As Minas de Prata já estavam publicados (1865-66). 1871. 1902.diz Távora.que Alencar. jamais pretendeu . poblicada como de autoria de Jean Regnault de Segrais).

op. Permaneceu sempre um mau romancista. ou melhor. daria ao escritor cearense um bom conselho: 122 Franklin Távora.. não se. porém. Bernardo Guimarães e Macedo: a aliança da inteligência com uma poderosa imaginação. Escrevendo o manifesto da "literatura do norte". p. romances são escritos num tom de relatório ou. Nisso consiste.. por entender que o "romance" tinha mérito e lhe havia conquistado mais aplausos do que o primeiro livro da (deixa-me chamar pseuda?) literatura do norte. Escravo. lhe deve negar. Seu espirito fundido nos mesmos moldes conseguirá fàcilmente descobrir o segrêdo que levou o autor da Comédia Humana a fazer viver na grande tela de suas composições a humanidade inteira representada por algumas centenas de tipos. 123 Franklin Távora. dos romancistas principalmente. romancista. cit. além de poeta e crítico. suas fisionomias apanhadas. 124 Rangel de Sá Paio. porém. . (in Um casamento no irtrabáldr.na realidade não existe. p. o seu regionalismo. 75. da observação. 8. os caracteres bem acentuados. romancista como Távora. Carta a Franklin Távora. op. como confessa 123 em resposta a um amigo. embora menos. 124 Esse amigo. como observou Lúcia Miguel Pereira em O Cabeleira. a natureza bem reproduzida. 92). 11 Estude-ti.chamou a atenção dos escritores. O próprio Távora sentiu essa falha. Na oportunidade de nova edição da "literatura do norte". já agora fazendo parte da "literatura do norte" e dando ao conjunto a única nota regionalista porventura nêle existente. acrescentou à série Um Casamento no Arrabalde. e procurou corrigi-Ia. .. seus hábitos e costumes bem descritos. 125 Ao que tudo indica. no de um compêndio histó rico-geográfico. Se acaso leu e estudou Balzac. por isso mesmo. que aconselhara a reedição. cit. talvez ao perceber a interpretação regionalista que foi sendo dada ao manifesto que acompanha O Cabeleira. o seu papel como um dos . essencialmente.`Disse real: leia quem quiser. seus . Carta a Rangel de Sá Paio. e a sociedade brasileira ficará conhecida. 1903. para os recursos temáticos que o Norte lhes poderia oferecer. Fal tava-lhe o que sobrava em Alencar e. seus vícios e virtudes bem estudados. 126 Um mérito. p. . do documento. inteiramente esquecida do próprio autor. o conselho seguido foi o da reedi ção de Um Casamento no Arrabalde. acanhada tentativa de romance de costumes. Rio de Janeiro. mas estude Balzac. não lhe aprendeu as lições. Leia Balzaò. Garnier.

Na França. na Suécia.como um todo órgâpiico. (*) Alfredo d'Escragnollç Taunay. foi inventariar aspectos exteriores da realidade. cit. não foi observar e explicar a realidade e os elementos que a compõem . 88-89. do que êles. 1899). A concepção do mundo e da vida é a mesma dos escritores dessa escola.. b impressionante verificar quantos jornais estrangeiros o publicaram em folhetins. Sócio do Instituto Histórico 0 Geográfico. renunciou ao título de sócio ' dessa agre59offiffiffiffiffi---r Brasil. Inac2ncia. mas sem capacidade inventiva para organizá-los num mundo ideal de fantasia e de sonho. na Alemanha. é de caráter romântico. bacharel em ciências físicas e matemáticas e engenheiro geógrafo. 111o . 105. aluando outros folhetins. pp. ou menos. na Dinamarca. Renunciou il carreira militar para dedicar-se à põlftica è -às letras. 1843 . Visconde de Taunay (Rio de Janeiro.Rio de Janeiro. geologia e botünica no curso `superior. e mineralogiá. durante certa tempo. também disputaram a preferência dos leitores. alcançou o pôsto de major do imperial corpo de engenheiros e participou da campanha do Paraguai. de caráter polêmico. op. sujeito a leis igualmente válidas para todos. tendo lecionado história e línguas no cesso preparatório da Escola Militar. na Itália. o que basta para comprovar o enorme prestígio que desfrutou. no Japão 127 foi leitura diária de numeroso público nas duas últimas décadas do século passado.' tendo sido deputado.fundadores do regionalismo no Brasil. ao qual o seu nome está definitivamente vinculado. cultas modernas. descendente de franceses. Afora as numerosas edições em livro. na Polônia. nos fins do século passado. na Argentina. puramente descritivo.o homem inclusive . senador por Santa Catarina. uma das primeiras manifestações públicas. a que muito se dedicòu. Traduzido para quase tôdas as línguas. a êsse respeito verificadas no Brasil. p. Militar. foi leitura popular em t&das elas. o único que conseguiu sobreviver foi exatamente o que lhe deu nomeada e o tornou conhecido fora do 125 Rangel de Sá Paio. na Bélgica. op. e presidente destà` província e 'dá do Páraná. Quanto ao seu realismo.. e o que fez mais. inclusive o japonês. TAUNAY (*) Dos romances de Taunay. uma vez que foi aquêle manifesto. de autores consagrados. 126 Lúcia Miguel _ Pereira. cit.

0 85. 1934. NAttaATIVAS E Couros: Ia retroite dá La Laguna. Narrativas militares. Acad. 1948. Vol. jan. 1899 (nova versão de Lágrimas do coração). Látía Migt1E1. em que estão representados vários gêneros e assuntos. principalmente do interior. mas a ela confiou suas memârias para suem abertas no centenário do seu nascimento (1943). Ensaios contemporâneos. Mootenegro. de língua portuguêsa. ainda perdura. . Ftan cisco de. Autores e livros. t i. 1900. Visconde de Taunay. 1933. DZCAMA: Amélia Smith. Letras. pintor e romancista. as edições nacionais se repetem. cearense. não será demasiado dizer que o prestígio. J. Acad. O visconde de Taunay. 1871. musicista. (in Rev.$ ed. Artur. 1872. 1929).w ed. 12 abe. Melhoramentos. alcançando já mais de cem mil exemplares. Bezerra. 1894. vida e obra. suas obras litetá<'W for= petblieadss e~ os pseudônimos de Silvio Dinarte e Heitor Malheiros. litaténeis. 1871. Visconde de Taunay. Ttés roman cistas regionalistas. Agir. Rio de Janeiro. 1899. Artur. Consultar Ataíde. Garcia Morou. Alcides. 1942. Primeiros estudos. 2. Taunay. Rio de Janeiro. Barbosa. miação. (in O romance braritstro. manuscrito de uma mulher. 1923. No declínio. Carvalho. Ver~ Prefácio a O encalhamento. (in Discursos acadêmicos. El JtrasiJ inte lectual. 1874. Mota. Arquivo Nacional. Vol. Oümpio. 1901). Domingos de Magalhães. 1937. Rio de Jato. O eneilJuemeìtto. Lego. 1887. Civilização Brasileira. crítico do asts. 1874. 1899. São Palito. Jornalista. S.. Antonio da Cunha. C'ft'icA: Estudas críticos. Múcio. VI. Chastsl. Buenos Aires. Histórias brasileiras.O 12. CllaiVy. Tristão de. 1882. Apêndice à 20. Acad. Paris. (in Rev. d. Vol. 1952.Brasil. MorltEnegto. confirmando o vaticínio de 127 "Bibliografia de Inocência". Elogio do Visconde do Taunay. Castro. Qüvio. 1878. Prefácio da tradução francesa de Inocência. (in Rev. 1894. Oliviec de. e Inocência ainda hoje é leitura habitual de grande parte do público brasileiro. 181-83. Manuscrito de uma mulher. Pereira.]. [s. IV. Brasil. Paulo. Duro sâbre azul. Rio de Janeiro. I. Suas obras completas. Rio de Janeiro. ~tiaior. Lajouane. Melhoramentos. da Rev. Bibliografia: ROMANCE A mocijadt de Trajano. II. embora diminuído. O romance brasileiro. n . são editadas pela Cia. cearense. Ed. Rio de Janeiro. O Cruzeiro. 1873. Ldgrintas do coração. Citas t terras do Brasil. 18%. Rio de Janeiro.

ó. da leveza e naturalidade dag diálogos espontâneos e vivos que pontuam a narrativa. 1905. A ~ta. mesma matéria narrada. Olfmpio. provém do realismo e certa graça com que fixou os costumes sertanejos. disse modo. Impressões de Inoclneb. predominam estas. J. em 1884. Rio de Janeiro. havia a nota exótica da inclusão de um naturalista estrangeiro como perso nagem de importância na história. Taunay transportou para a sua narrativa -grande parte de experiência regio nal que adquirira nas viagens e campanhas militares. 1949. Sua concepção do mundo tem muito de romântico. carioca leiras. ao regionalismo de Menear e Bernardo Guimarães. 1944). da descrição e. de 1870 a 1928. E predominam de tal forma que Lúcia Miguel Pereira. mesmo do público estrangeiro. (in Itsv.. Sánchea-S$ez. Etcilla. episódios e cenários da vida sertaneja. e.ssirMO. Esse fato permitiu considerável alargamento do mundo ode lxocéteciá. Saamr. á que também gozava ü ltetàtreda da Laguna. à maneira natural e simples com que movimentou personagens e fatos do romance. de cuja fusão resultaram qualidades novas capazes de despertar a curiosidade e o interêsse. alguns áêles gtlficierltes i caracterização das personagens. junta Inocência uma descrição realista de hábitos e costumes. Setpa. autor que era de outras livros par êle considerados de igual merecimento. Outros estudos de literatura eontempordnta. que sé passa no ulterior do Brasil. até então inédita em nossa literatura. Taunay deve ser situado mais prbxitno daquele do galé déste. CLX?Ofi. A uma história de amor de acentuado sabor romântico.. 1943. Pinho. . finalmente. 1935.. a partir da segunda edição.. nos valôres secundários da história. Sílvio. quase explicação dos cenários da história. SasEiato. alguma vez. Lisboa. Prosa de ficção. Tendo conhecido de muito perto as regiões nas -quais se desenrola a história. assa devendo ter contribuído para o ilsterêsse que o romance despertou em outros países. fato que desgostava Taunay. Além disso.pontos de vota face á. Escritor de transição entre o Romantismo e o Realismo. . G. embora depois -de ter defendido a duvidosa tese de que . O Visconde de Taunay. lago no seu aparecimento. Wanderley. 1. Rio de Janeiro. 129 A que se deve essa impressionante popularidade de Inocência? O ségrêdo disso parece residir na conjugação de vários fatôres do mesmo moda importantes.Caderno 11.porém. na obra do autor. gim longa -vida que lhe fta Francisco Otaviano. na região central. pela dominância do idealismo sentimental sóbre x observação e a análise. devendo datar-se daí a sua crescente popularidade. O cunho de novidade que lhe registaram os contemporâneos. Vista y nueva dterairra dtl DfasU. Romero. adiantando-se... Phócfon. o romance foi muito corrigido e melhorado. H. Bráulfo. pela possibilidade de coexistên cia de dois . 1~ Segundo Veri. (à ~~ Acad. do registo de brasileiriamos peculiares à região ou de particularidades do falar local. s8 comparável.idem.

. 130 Lúcia Miguel Pereira."O sertão e o sertanejo". já registada por Olívio Montenegro. 129 José Veríssimo. objetivos. eit.o cenáìio de ação que vai ser narrado . se afasta do espírito panteísta das duas epígrafes evocadas e descreve a natureza . de um etnógrafo mais do que de um puro romancista. porém. foi capaz de utilizar esses valôres como romancista. no correr da narrativa. observa com muito acÉrto quen¢ fundo os heróis do toaáapte .o êxito do livro w devia à melhor acomodação -das qualidades e defeitos do sulco' ao ~m do romance rural. 268. Aceitável no capítulo de introdução. Nem sempre. p.valendo como espécie de prólogò. talvez pela excessiva preocupação de fidelidade. Taunay quase sempre se perde nas descrições da natureza ou nas anotações de costumes. Tal objetivo se denuncia mais claramente. que o autor chega a deixar. op. 104.quase com precisão de geógrafo e de botânico. mas ainda longe de ser a visão realista do mundo. p. do que resulta certa falta de unidade.a impressão de um hómem de ciência mais do que de um puro escritor. retirados da vida imediata. e estruturando-a segunda os moldes do melhor romance romântico. Estudos de literatura brasileira. quando. e Girino do que Pereira s os costumes sertanejos:ISe 128 Apud José Veríssimo. A essa observação será conveniente acrescentar que. iaí Concebendo uma história sentimental. op. p.C3arnier.a q morenos ela (IttocEncin). certo desequilíbrio no tônus do romance. 2 â ter. disso decorrendo a observação. Compreende-se. Inocência. . que a narrativa de Inocência só tenha inicio no segundo capítulo. com o qual o autor objetiva situar o leitor no mundo que vai ser_ narrado. 263. por exemplo. se percebe que esse primeiro capítulo.procedimento. retira do romance o seu caráter de fábula. não raro cede lugar ao cronista ou ao botânico. de integrá-los de modo adequado no mundo de.. que apareceria em romancistas posteriores. zit. Taunay quis enriquecê-la de valôres secundários reais.. Rio de Janeiro. que se mostra hábil na construção da história. esse . cópia fiel de alguns detalhes da realidade. O romancista. sabendo conduzir a intriga e movimentar as personagens. . 1901. Daí o seu realismo descritivo. escrito sob a romântica evocação de Goethe e de Rousseau. o primeiro .

o que ainda hoje sobrevive. -Rio de Janeiro. distin131 Olívio Montenegro.que termina em 1878 . 270 guindo a melhor dos romances desse escritor. diferente daquele que Taunay usara nos livros anteriores. O romance brasileiro. em que as soluções técnicas e for= mais obedecem às inspirações de seu gênio e de sua visão estética. está sendo injusta. l. Helena. Todavia Ressurreição (1872). foi Inocência o romance que 'ficou. conseguiu a repercussão daquele. a respeito da qual surgiram tantos comentários.Inocência é o único romance de Taunay que fixa aspectos' da vida rural brasileira. 71. seja no tratamento de certos temas. .participam do espírita romântico. seja na atmosfera geral de sentimentalismo. escondido no pseudônimo de Heitor Malheiros. 1891 e 1892". Era um romance à cle f. mormente os tipos femininos. seja nas descrições das perco= nagens. A Mão e a Luva (1874). o livro foi sendo esquecido. o teatro e o romance estrangeiro. E não se pode dizer que á posteridade. Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia Noite (1873 ) . (1876). Esgotados os motivos circunstanciais desse interesse. O interesse que despertou vinha disso. D. as personagens reais disfarçadas com outros nomes. CARACTERÌSTICAS ESTRUTURAIS O romance romântico brasileiro repousa sua arquitetura na base de três principais influências: a literatura oral. aquele que lhe conferiu lugar na história literária como um dos marcos entre o Romantismo e o Realismo. são romances e contos que traem o escritor que. não obstante suas tendências mais fortes o conduzissem por caminho próprio. no sentido de uma arte pessoal. O próprio O Encilhamento. O quadro do romance romântico fica incompleto se não compreender a menção à produção de Machado de Assis (q. e também do próprio disfarce do autor. que ao leitor de hoje custa identificar.). As tentativas machadianas da sua primeira fase . mesmo na época da publicação. a narrar "cenas contemporâneas de Bôlsa em 1890. Olímpio. Da obra de ficção de Taunay. havia bebido o leite romântico. laiá Garcia (1878). embora com a popularidade bastante diminuída. na sua própria expressão. como os demais. Os demais contam histórias que se passam na capital. 2.a ed. J. v. realista. ela não faz senão ratificar o julgamento dos contemporâneos do autor. e nenhum deles. ' não alcançou igual popularidade. 1953.

Mais do que isso. tenham vindo. O conhecimento desses fatos é da maior importância para uma análise compreensiva da narração romântica. sem o preconceito de querer encontrar nesse mundo uma atmosfera diferente daquela que o Romantismo. não pertencendo à nossa literatura oral. e nas quais a lenta evolução dos gêneros . através de leitura. apenas. E. sem maiores dificuldades. realizar-se.271 exposição. será preferível conduzir a análise na direção de alguns dos problemas fundamentais da narrativa.possibilitou o aparecimento e desenvolvimento. uma observação a respeito da orientação que se adotou para o estudo da contribuição estrangeira à formação do romance brasileiro. tão sòmente. Já foi dito que ninguém pode ser romancista sem haver lido romances. assimilados pelos nossos escritores através da leitura de romancistas de literaturas tradicionais.. universalmente fecundou. rigorosamente. em outras palavras. Para examinar as influências que serviram de base à arquitetura da nossa novelística romântica. do que aquela que fatalmente haveria de ter. confrontar os exemplos com os originais. tal como ocorrera em literaturas européias e em algumas americanas.Dessas fontes foi que ele retirou os elementos de que necessitava para construir seu mundo. finalmente. o desenvolvimento da intriga. do romance estrangeiro. mais desenvolvida e mais sólida. através dos elementos interiores e exteriores que o caracterizam. será impossível. pelo menos no momento. A intenção é. É compreensível que êsses recursos técnicos.. de novas formas literárias. a de que o estudo das influências em parágrafos isolados não tem em mira sugerir que elas devam ou possam ser separadas em compartimentos estanques. ser feitas: em primeiro lugar. em nosso romance romântico. que . a rigor. é pelo conhecimento desses fatos que nos guardamos de pretender exigir do romance romântico outra estrutura. registar o aparecimento. de logo. a de que a exerizplificação foi feita na base de amostras significativas. não encontraria uma tradição nacional em que se apoiar. pois é a partir deles que poderemos penetrar o mundo criado pelos nossos primeiros romancistas. Algumas observações devem. pois isso obedeceu. como a divisão externa. Inaugurando. a configuração do tempo dentro da história e o processa narrativo. nestas últimas pela sobrevivência e desenvolvimento de lendas indígenas. mais adiantadas do que a nossa. precisar. e não tendo sido pedidos ao teatro. laz Mas. a um propósito de maior facilidade na . de procedimentos técnicos mais desenvolvidos. a forma no Brasil. em segundo lugar. como o romance burguês.

externa da narrativa.Tardes de um Pintor sem todavia desprezar o nome que o pintor dava à sua história que era . relatados. A duplicidade de títulos é mesmo um indício. teria sido adquirida. no romance europeu e um pouco no norte-americano. à falta de tradição novelística e do exemplo de técnica mais adiantada. não é possível ir além do registo de uma técnica narrativa que. Educação nacional. sucessivas por um fictício narrador. Será isso muito menos perigoso. ' além de contemporânea. fonte mais imediata e de mais fácil acesso do que nenhuma outra. E mesmo :para a_ própria construção externa da narrativa. obra ou trecho de obra estrangeira serviu de exemplo ao procedimento apontado. ademais. como êle fêz. nela se inspiraram. recorreram aos processos utilizados pela literatura . do enrêdo. . um. em dois aspectos fundamentais da técnica narrativa: o desenvolvimento da intriga.emprestar às suas histórias o caráter de contos orais. do que aventurar uma indicação geral de fonte. . por isso lhe dei o nome de . e hoje fiel à palavra que dei ao pintor. simplesmente porque essa fonte. e o foi com certeza.autor. foi. mais do que apor qualquer outro motivo. 1944. ainda. 1. D• 8. do tempo dentro da história. Foi para resolver êsses dois difíceis problemas.. iss Terminado êsse capítulo. intitulado "Como o autor soube desta história". Ensaio sôbre a criarão no romance. referida por algum dêles corno modêlo ou influência. alguns dêles. quando não recorreram diretamente a essa fonte. Pôrto. principalmente. 272 .. Em Tardes de um .Intrigas de um Jesuíta. e a configuração. refugindo das duas influências outras. que êle e amigos da -mesma idade. .Pintor ou As Intrigas de . em sessões. de Teixeira e Sousa. que os nossos romancistas. procurando . referindo-se ao fato de haver ouvido a -história contada por. ai dou ao mundo esta história. pois. seguindo quase o mesmo método que o pintor quando ma contou. A influência da literatura oral nas primeiras manifestações do romance brasileiro recai. quando. oral. encontramos um dos primeiros exemplos dessa utilização de elementos caracteristicamente orais na construção. Literatura oral. dividindo-a nas mesmas tardes. Jesuíta. Dêsse modo. confessa o autor no final do capítulo primeiro: 132 João Gaspar Simões.adolescentes. das autores em estudo. . e melhor. haviam por acaso encontrado em uma tarde de terripestade. um pintor.

. 32. porém. 23. e se não esquecermos que a história está sendo narrada em sessões diárias. taa 133. nenhum dêles atingindo trinta páginas.que tem a mesma função do primeiro capítulo de Tardes de um Pintor assim termina: Como o romeiro do Muquém tinha de seguir sua viagem por . p.e que não pertence ao corpo do romance. Isso parece indicar que o autor teve a preocupação de conferir a cada tarde aproximadamente a mesma extensão. ao examinarmos outros aspectos da narrativa romântica. mais tarde. e apenas duas possuem um único capítulo . é uma prova bastante . durante quatro noites entreteve-nos éle os serões do pouso com a narração da história que vamos reproduzir. melhor compreenderemos a importância que o autor emprestou a essa divisão. Tardes de um pintor ou As. cuja introdução . desenvolvimento da intriga.as de na VIII e XI . 134 No caso de Guimarães.á ed. . e demonstram que os elementos exteriores da narrativa não são fruto do acaso. de fiel registo daquilo . dividindo-a em vinte tardes e trinta e oito capítulos.tiês e trinta e sete páginas. uma média de 6-8 páginas. obedece a uma técnica extremamente simples e pouco variável. os capítulos guardam uma unidade mais rigorosa do que a verificada em. E essa influência ficará ainda melhor comprovada. por Câmara Cascudo.com. 1868. durante vinte tardes. inicia Teixeira e Sousa a narrativa. que os outros personagens entrem em cena na hora exata da deixa. Como já foi observado. 134 $érnardo Guimarães.que fôra oralmente narrado. no particular. em O Ermitão de Muquém. trinta e . o segundo possui sete e o terceiro seis. O . os detalhes dessa divisão revelam uma clara vontade construtiva. Essa preocupação de conferir à construção externa o caráter.evidente da influência que. Teixeira e Sousa. Entretanto. O ermitão do Muquém. pode esperar. na literatura oral. o nosso romance sofreu. intrigas de um jesuíta. Cruz Coutinho. imóvel.. se o primeiro e o quarto possuem quatro capítulos. 2.-Teixeira e Sousa. pois. não' sé: abandona o principal pelo acessório embora de inapreciável efeito temático. dezoito possuem dois capítulos. O mesmo processo iria ser utilizado. Literatura oral (Hist. 135 Luís da Câmara Cascudo.alguns dias na mesma direção que nós levávamos. . por Bernardo Guimarães. da lit. os pousos não terão a mesma unidade. respectivamente.: ~ Segue a estória em linha reta. uma verdadeira gesta. com. p. Só se volta para acompanhar outro fio da narrativa quando o essencialmente característico. brasileira. Das vinte tardes. ação por ação. Rio' de Janeiro. e que por essa razão dividiremos em quatro pousos.

1952. bem maior. 215. inclusive como solução para determinados problemas narrativos.. 140 E a verdade é que Franklin Távora procurou ser o mais fiel possível às fontes populares ou históricas a que recorrera. 12. ainda são aquêles que nos oferecem . e não inventada. que êle recebeu do teatro. ou foram por elas próprias vividas. e ainda que a cerecer de exame e interpretação mais cuidadosos. em O Cabeleira. porém.13s com a lenda indígena de Aiotin e Aí. o fato de algumas personagens macedianas contarem histórias que ouviram narradas em tempos anteriores. Aqui mesmo não há entrecho algum. mas confessada pelo autor: Vou contar uma história para quem não tiver que fazer. a influência da literatura oral não é apenas fácil de ser pesquisada.Dir. será singularmente difícil isolar a influência da literatura oral daquela.laa Autorizam-nos a formar êste juízo do Cabeleira a tradição oral. palavra de honra. A falar a verdade.. contada por Celina em Os Dois Amôres. 253. foi uma história acontecida. Rio de Janeiro. p. pode ser exemplificada com a introdução de "Um Conto" em "Maria ou vinte anos depois". 60. não só transcreve ou introduz várias quadras no corpo do romance (pp: 214. Mas. Olímpio. é um indício de que a literatura oral estava presente nas preocupações do autor. 137 ou com a história do botão de rosa. 216 e 252). os diversos fios da narrativa como que escapando das . que resultou uma construção defeituosa. 227 e 228).Joaquim Norberto. num autor sem maior iniciação nos difíceis segredos da arte de narrar. como é natural. dos versos populares em que êles se haviam inspirado (pp. J. isto afirmo eu. Essa prática. Teixeira e Sousa. 32. Álvaro Lins. Franklin Távora e Bernardo Guimarães. Entretanto.273 Os melhores exemplos dessa prática. para confronto. também utilizada por outros romancistas da época. Ana em A Moreninha. falta-lhe por isto certo tom de imaginativa. No caso dêste último. vol: VI). caótica. só sim que é tudo verdadeiro. que prenda pelos entrechos. . 13.las Em Franklin Távora. ao piedoso leitor que ainda tiver curiosidade de saber coisas de casamento. embora possamos encontrá-los em autores como Macedo. foi dêsse propósito de fidelidade histórica. os versos dos trovadores e algumas linhas da história que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição. narrada por D. como vai ao ponto de justificar trechos da narrativa com a reprodução em pé-depágina.

Outros. [s. absolutamente linear. Maria ou Vinte anos depois. Garnier. S. em numerosas oportunidades. 138-145.mãos não muito hábeis de Távora que. os dois romancistas dessa época que melhor assimilam essa lição. que já lhe inspirara a temática. tão característico da literatura oral: Viram-se. não sofra alteração. São Alencar e Bernardo Guimarães. pp.143 .O 11. Rio de Janeiro. muita vez.. Paulo. assimilar de modo suficiente as lições que essa rica fonte. d. 139 Franklin Távora. inclusive citações ou referências do autor à literatura popular. em uma. p. 112124. então. interrompe a intriga para longas digressões de caráter histórico. 322). podem ser invocados. a fim de que o desenvolvimento da intriga. São Paulo. como demonstrativos da permanente e definitiva influência que Bernardo Guimarães sofreu. Um casamento no arrabalde. lhe poderia dar no particular da técnica narrativa. Rio de Janeiro. 2. tal como ocorre em O Garimpeiro. 138 Macedo. 1844.há um só aspecto de sua narrativa no qual não se encontrem exemplos marcantes dessa influência. 137 Macedo. pp. O Cabeleira. (in Minerva Brasiliense. E como a ação está determinada apenas pelos acontecimentos de primeiro plano. 140 Franklin Távora. que não . p. duas e três linhas faz passar períodos e mais períodos da vida das personagens. para citar apenas um aspecto. surgindo. Martins. A configuração do tempo. O escritor mineiro estava de tal modo trabalhado pela tradição oral. abr. Tendo recorrido à tradição oral como base para a sua "literatura do norte". 1903. n . ou para interca136 Joaquim Norberto de Sousa e Silva. 1. o autor. 142 E se não bastarem êsses exemplos. 1952. Melhoramentos. Os dois amóres. e muitos. A moreninha. p. Garnitr. inquestionàvelmente. o fato é que não soube. pela literatura popular. 274 -cações histórico-comparativas 141 ou meramente explicativas.. o velho recurso da acumulação verbal. de sugerir o fluir do tempo ou a ação secundária sem quebra da continuidade. aparece a necessidade. como Bernardo Guimarães e Alencar. Rio de Janeiro. à semelhança da literatura popular. 1902.]. amaram-se e sabiam que eram amados. obedece a uma técnica bastante simples.

o nordeste. op. antes de . veremos que enorme. (in ed. enquanto se desenrola a cena de montaria e perseguição ao boi Dourado. p. Teatro.Em Alencar. O Garimpeiro. I. 207. 142 Bernardo Guimarães.. a história do valente boi Dourado e a de Arnaldo não pertencem apenas a êles. acrescente-se. haveria a considerar. no qual o sertanejo e o boi são os heróis de todos os dias. E certo que. 1952. e a necessidade de reler uma e muitas vêzes o mesmo romance. 144 José de Alencar. cit. dessa integração dos acontecimentos de primeiro plano no mundo maior dos versos declamados.275 já citado O Cabeleira. Enquanto Távora. Como e parque sou romancista. cit. vol. A atitude narrativa dos nossos românticos varia de acôrdo com as influências que êles sofreram. 209. como já foi dito. p. 2. por exemplo. como nenhum outro faria. 56). Saint-Clair das Ilhas. Esta mesma escassez. Se compararmos. determinados trechos de O Sertanejo com o 141 Franklin Távora. Martins. 144 Não só do nóvel. Alencar faz uma personagem ir recitando quadras do Rabicho da Geraldo e um ou outro versos de Camões. . quiçá contribuiu para mais gravar em meu espirito os moldes dessa estrutura literária. 15. Celestina a outros de que já não me recordo. por exemplo. mas do velho e experimentado escritor. São Paulo. Olímpio. o depoimento pessoal do romancista: Nosso repertório romântico era pequeno. utiliza-se Alencar. dos elementos estruturais da literatura popular.diferença na utilização de versos do romanceiro popular. altura de privilegiada técnica de narrador. Macedo solucionou como um autêntico autor de teatro. dono a essa. que mais tarde deviam servir aos informes esboços do nóvel escritor. op.. p. como Senhora e O Sertanejo. limitou-se a transcrever pura e simplesmente os versos do cancioneiro. resulta um alargamento do espaço e do tempo do romance.. 143 Bernardo Guimarães. p. entre as quais primavam a Amando e Oscar. antes de tudo. Determinados problemas técnicos. que Alencar iria resolver com processos peculiares ao gênero épico e à forma romance. J. de 1 ávora. mas fazem parte de um mundo mais vasto. pois mesmo em alguns dos seus últimos romances. compunha-se de uma dúzia de obras. assimilados naquela experiência inicial de leitor de novelas para o auditório familiar.

ainda mais. porém. 215. Saraiva. o teatro moderno e o cinema. S. representação em tempo presente. 146 Wolfgang Kayser. é que o narrador . Seria êsse fato. sendo dos mais importantes aquêles originária e caracteristicamente dramáticos. Buenos Aires. que os romances de então parece terem sido escritos para uma leitura em voz alta. dêsse modo. Fundamentos da interpretação e da análise literária. graças à qual procurou suprir suas deficiências como narrador. Em Macedo. será também. a utilização de elementos dramáticos decorre da maior experiência que êle possuía no campo do teatro. op.1900. o criador. I4s a narração encontrava na experiência real e no teatro as suas duas principais fontes de evocação visual. A essa altura. o narrador é conditio stne qua nor. 147 Observa-se que sòmente mais tarde. p. ou mesmo . 212. porém. 276 romance já não será apenas narração em tempo pretérito. além disso. e sabe-se que. Esse fato aconselharia. 147 Kayser. feita por uma pessoa para um grupo de pessoas durante os sermões familiares da sociedade brasileira do século passado. 146 Convém não esquecer. do destino ou aventura das personagens para a própria presença destas. Embora se possa fazer restrições à interpretação do fato. carência que acarretaria 'o deslocamento do interêsse do leitor. Paulo. Vol. cuja figura se encarnaria na pessoa escolhida para realizar a leitura em voz alta. o certo é que êle existe. a presença do narrador intermediário. pelo menos até determinada altura. configurando-se. para que a ação se ofereça diretamente ao leitor. segundo Ortega.o homem que declaradamente vai contar uma história acontecida . e na maior parte das vêzes principalmente. II. p. 1948. . assimilados no processo de interação que se opera entre as formas narrativas.14g uma conseqüência da carência de temas novos.ou será eliminado. já terá ocorrido a introdução de novos elementos na arquitetura do romance. a situação primitiva do mundo épico: um narrador conta a um auditório alguma coisa que aconteceu. e a êle corresponderia o deslocamento. 1949. de tôda a literatura épica. p.. Um primeiro exemplo a ser indicado é o da ausência de narrador intermediário no romance de Macedo. o 145 Alex Comfort. cit. Ao assimilar tais elementos. como observa Comfort. com o desenvolvimento da técnica novelística. La novela y nuestro tiempo. 56. Realidad. ou terá sua função bastante modificada.

a se movimentarem como sêres vivos dentro do seu universo. imutável. em que a narração deve apresentar-se como passada. tudo ouve e vê. é o de apresentar ao leitor o movimento de uma cena de teatro. disso resultando uma construção épica defeituosa. 1932. Bastante ilustrativa. oriunda do teatro grego: a de quem está observando algo que se desenvolve apenas sob seus olhos. que é o pretérito. Não houve assimilação. não participando da ação. à medida que vê. a clara expressão lingüística do processo épico. E quando se sente incapaz de relatar. As personagens passam a ter vida própria. sem que o espectador os visse. Ideal sobre ta novela (ia Abras. isto é. Além disso. o que poderia ser um traço estilístico elogiável. mas. cujas paredes mal rebocadas. como qualquer coisa. de transmitir. situou-se e situou o leitor. Madrid. 922). transferência de elementos de construção dramática para o romance. pura e simplesmente. oD. p. senrolar. ameaçam desabar bem cedo. Torna-se um autêntico criador de mundos. e em alguns momentos do terceiro. tendo ciência do que ocorre através do relato de uma terceira pessoa que. mas incapacidade técnica. e já aqui e ali fendidas. modifica-se a posição do autor e a do leitor em face da ação. em face da matéria narrada. fixa. dêsse modo. No caso de Macedo. não com o intuito de chamar a narrativa para o praesens historicum. não de integrar o local na dinâmica da ação. D. no caso. porém. numa posição sui generis. funcionalmente muito semelhante ao recurso da teichoscopia. tábuas já meio . 149 Kayser. como se as personagens estivessem representando num palco. como metteur-en-scìne. mas de compor. 212. fácil de perceber. Esposa Calpe. que passa a ser descrita preferentemente no presente. é a comparação de um trecho do romancista com uma anotação do comediógrafo: Uma luz pálida e fraca alumia uma rude câmara. seu objetivo. A atitude narrativa de Macedo é claramente indicadora da constante influência que o teatro exerceu na arquitetura dos seus romances. No segundo capítulo. O romancista deixa de ser um simples contador de histórias. as descrições de interior revelam o meticuloso cuidado.. quase sempre no pretérito perfeito com auxílio do gerúndio. o primeiro dêles é tôda uma longa dialogação contracenada. o cenário estático no qual a ação se vai de148 Ortega y Gasset. a utilização de elementos dramáticos não significa aperfeiçoamento de técnica. Na grande maioria de seus livros. porém. como intermediário entre a ação e o leitor. crt. e vai transmitindo os fatos à medida que êles acontecem. Macedo passa a descrever a ação em tempo presente. e relata para terceiros aquilo que vê. modificando. 149 Os três capítulos iniciais de A Moreninha constituem um bom exemplo. que pouco tem de épica.a eliminação do narrador.

por princípio e em conseqüência da situação primitiva do contar. mas. que se abrem uma para cada lado. tem muito mais possibilidades e liberdades na configuração dó tempo do que o dramaturgo. fora: enquanto vou ensinar o gamão a vosso pai. como de modo geral em tôda a sua obra. . que abdica da sua liberdade de narrador.Hoje governo eu aqui e muito melhor do que se governa lá. ação por ação. que vem inundar o interior daquele aposento resfriado incessantemente pelas brisas da noite. 152 Não será necessário muito esfôrço para que se chegue à conclusão de que Macedo só usou o tempo como narrador em raríssimas oportunidades. fazem o assoalho dessa câmara. dá às filhas de seu compadre moedas de ouro para que elas mandem comprar limões de cheiro. tôdas três se acham fechadas. p. o narrador não se encontra ligado a uma seqüência telitporál rígida e não precisa colocar os acontecimentos sob o domínio do tempo 'em decurso contínuo e implacável. e assim se expressa: . invariável. tas 150 Macedo. e iguais a esta duas outras. ao contrário do dramaturgo. ao fundo uma casa de campo de bela aparência. perto dêle um portão de frades de ferro. ditada. pelas janelas abertas vê-se brilhar as luzes. o velho Antônio Pires. Os dota amóres. pela evolução dos acontecimentos de primeiro plano. uma fenda larga de três dedos deixa passar os raios da lua. como o dramaturgo deve fazer. medi-lo rigorosamente como no teatro. que entram pela fenda da janela. um caramanchão coberto de jasmins. Melhoramentos. apesar da proibição. e que rangem ao pisar de um pé menos leve. vê-se uma pequena janela. 1949. Em As Mulheres de Mantilha. naquela que fica à direita. prendendo-se a uma seqüência temporal rígida. puramente exterior. e -o maior ou menor uso que faz dessas possibilidades e liberdades diz muito do estilo duma obra narrativa. sabendo que o vice-rei mandara proibir o entrudo. à esquerda. que nem ao menos é forrada. Sabe-se que o narrador. 27. assobradada e com escadaria na frente. São Paulo.apodrecidas. Sua liberdade está sempre limitada pela preocupação de marcar o tempo. E isso porque. e de tal modo é sua preocupação em não interromper êsse decurso horizontal. iso Jardim espaçoso e todo iluminado. bancos de relva no jardim. tat O exame da configuração do tempo no romance macediano é particularmente importante. pelos dados reveladores que êle pode apresentar. de modo exclusivo. no fundo. conduz a intriga linearmente. mandem vocês comprar limões de cheiro nas casas em que os vendem. Veja-se o seguinte exemplo: no capítulo XIV.

o curioso estudante recém-chegado examinava o lindo quadro que a seus olhos tinha e que. porém. tomando "ao pé da letra a ordem de Antônio Pires" e mandando comprar algumas . iso A economia de palavras. 295-296. que não foi narrada. e continua a narração. se dirigiam à elegante casa. Mas. o mesmo contra-regra que pouco antes marcara trinta braças com a distância que as personagens tinham de andar. (in Teatro do doutor Joaquim Manuel de Macedo. Garnier. 121. prolongando-se isso até o final do capítulo XVI. nas quais descreve o curioso costume da época.151 Macedo. vol. a insegurança narrativa de Macedo. pp. Garaíer. cuidado que o leva inclusive a intercalar descrições à espera de que se gaste o tempo requerido para a finalização de ação secundária. ornada de belos coqueiros. I. op. daremos idéia em duas palavras. mostrando o jôgo e a palestra dos dois compadres. 2 vols. 1. o autor interompe a ação Enquanto não chegam os compradores de limões de cheiro que as meninas despacharam. vol. a preocupação de medir o tempo de partida e chegada das personagens com a exatidão de rigoroso contra-regra. no seu extremo cuidado de medir o tempo exterior dos acontecimentos. p. Uma vez calculado que o tempo objetivo do percurso das trinta braças se esgotara. Em A Moreninha há exemplo ainda mais ilustrativo: Leopoldo deu-lhe o braço. mas sugerida.dúzias de limões de cheiro. para em seguida interromper bruscamente a descrição e finalizar o capítulo com o aviso: Os portadores das duas meninas chegaram. enquanto por uma bela avenida. I. As mulheres de mantilha. 27f3 Logo após.. conversando sôbre o entrudo. não era antiprolixidade. 154 Esse matar de tempo ocupa três ou quatro páginas. o autor abandona a descrição do "lindo . tão sòmente. mas. Só no início do capítulo XVII é que reaparecem as "meninas". vol. 152 Kayser. 1863. Luxo e vaidade. 155 Percebe-se. para não ser prolixos. Rio de Janeiro. e. e prudentemente avisara que elas "se dirigiam à elegante casa". enfim. 153 Macedo. Rio de Janeiro. que lhes ficava a trinta braças do mar. cit. claramente. o autor avisa que as meninas saíram correndo. 93). 3 vols. matarei o tampo. p.

São Paulo. cit. na provrovíncia. p. Foi precisamente o folhetim êsse exemplo. ao que a fama tanto apregoa da obra)bra. durante largo período do do processo de formação de nossa novelística. porque Filipe acaba de receber Augusto com tildas as demonstrações de sincero prazer e o faz entrar imediatamente para a sala. 58. o que há é 154 Macedo. Se alguma coma precisamos acrescentar. op. dal por que o processo épico do seu romance está determinado exclusivamente pelos acontecimentos de primeiro plano.:ia.quadro" E fizemos muito bem em concluir depressa. Assassínios Misteriosos ou a Paixão dós Diamantentes. 157 Matado. 10 volumes em em 8. Martins. 157 Isso diminuiu a visão e restringiu a liberdade de Macedo. op. cit. como em Alencar. um dos quais. mamas dos próprios anúncios de jornais da época. cuja ação se passa em Paris. 155 Macedo. Não são poucos os os romances românticos brasileiros publicados primeiramente em fol!folhetins. Até a fo forma inicial de publicação revela essa influência. a tentativa de construir um mundo. entre os .. são os devidos louvores a esta perfeita tradução. não apenas da número dessas traduções. de integrar as personagens e os acontecimentos de primeiro plano na plenitude e profundidade de um mundo total. 1952. p. 37-58. publicando o Judeu Errante. e só depois é que apareceriam as edições em livro. não sòmente entre os leitores. na côrte como na província.. Como exemplnplos. cit. podem ser citados. Bernardo Guimarães e Taunay.. 142. 156 Macedo. 147. vai uma pintura fiel e minuciosa dos costumes. op. tRt Tudo issoisso contribui para demonstrar o grande interêsse que aqui despertava o o romance em forma de folhetim. p. O interêsse que despertava o folliolhetim pode ser deduzido. talvez primeirceiro folhetim brasileiro. Não há. mas as também e principalmente. na imprensa diária ou periódica. prejuízjuízos e índole da época. A moreninha. estampava também anúncios dêste~ste teor Nas livrariaarias de Carlos Poggetti se acham ü venda os Mistérios de Paris. entre os escritores que desejavam fazer ir romance e não tinham modelos nacionais que lhe servissem de exexxemplo. êste romance ér considerado. um modêlo das composições dêstdêste gênero: a par do interêsse e excitação que a imaginação sempre deseja encontrar sar nesta espécie de obras. pp. apresentando os caracteres com tõda a exatidão históricárica. e com justiça.

decisivo. foi largamente utilizada no romance brasileiro. 41. . dando-lhe recursos técnicos que seriam depois melhoihorados. A Carteira de meu eu Tio. são os acontecimentos de primeiro plano que fornecem substância e organizam o mundo -no~romance româlntico. O Guarani. publicado ou não em folhetim. Bahia.. ela introduziu numerosas mo modificações na estrutura geral do romance. de Távora. para que o leitor voltasse ao rc romance na publicação imediata. por isso mesmo. algumas de suas conseqüêlüências são o equilíbrio dos capítulos como unidades equivalentes. de Macedo. Amor e Pátria. A construção dêsse mundo. e da fase definitiva O Forasteiro. que representam elos os de uma cadeia de eventos. de prender o leitor à revolução da intriga. 19 fev. A Crônica do Descobrim•imento do Brasil e Sumé. e continua a ser empregado até muito depois do romance romântico. 1845. a importância confenferida aos acontecimentos de primeiro plano. Rorryance da Semana. vem desde O Filho do Pescador. por conseqüência. o desenvolvimento da capacidade de movimentação dramática. 4. a fim de subjugar a atenção do leitor. de uma cena ou seqüência de cenas. Cinco Minutos. Lourenço e O Sertanejo. m mas é fácil perceber que. p. disscisso resultando certa simetria na divisão externa. Os índios do do Jaguarihe.is. finalmente. . de Alencar. O ErmAo de Muquém m e O índio Afonso. de Pereira da Silva. o desenvolvimento linear. A Trindade Maldita. Jerônimo Côrte Real e Religüigião. das personagens e. porém. A Viuvinha. Essa técnica. Romance de evento. modernamente. A técnica do corte no momento culminante d. O corte no momento . de Guimarães. do tempo. como característica essencial do folhetim. vítima do destino. nem sempre ou quase nunca é estritamente determinada pelo decurso da ação. de Norberto. aquela que realmente contribuiu para formar ar o nosso romance. A Casa de Palita. processando-se ó decurso da ação em rigorosa sucessão cronológica. r.precursores. n. de Varnhagen. a simplificação e tipificação 167in 0 0 comércio. na configuração do te tempo dentro da história. Maria ou Vinte Anos Depois. 168 . horizontal. foi a que mais universalmente se te difundiu. Til e Encarnação. muito mais que de figura ou de espaço. A influêruência definitiva. como é sabido. de Teixeira e Sousa.E ligado a êle está. ao lado da perspectiva mais restrita sôbre as criàturas.. essa influência foi a que se manifestou no problema do desdesenvolvitnento da intriga e. ó romancista sempre oferece uma vasta perspectiva sôbre as fôrças do destino. remetendo-se o leitor para o capítulo imediato. O seu objetivo ro mais imediato era êsse.

halütué . o decurso do tempo correndo em paralelo. p.aux . Mercel Didier. Para ã época. definido pela ciência atual. Guy de Maupassarít et t'art du roman. C'est à ce point que le lecteur . oferece aos olhos do leitor atual uma técnica muito primitiva. principalmente o romântico. que sé representa e evolui nóespaço de quatro dimensões. 455. Em todos êles se observa o simples encadeamento de acontecimentos de primeiro plano.Além disso. em rigorosa e invariável sucessão cronológica. clássico. ques contemporains se trouve dépaysé dons les. Paris. op. 1954. através da presença do mundo exterior. p. romans du siàcle dernier: il y manque. 1954. que se tornou não apenas indispensável. que os nossos primeiros romancistas construíram suas histórias. nantes. forneceu ao romancista uma clara noção temporal. A variação consiste no modo de fazer a intriga passar de um capítulo a outro. vol.o que pode ser verificado em . lss é antes de tudo o tempo vivido pela personagem ou personagens. sofre limitações ou ampliações segundo as . que essa quarta dimensão dá ao romance. mas.je ne sais quelle profondeur d'orchestration. e mesmo ingênua. Paris. A construção da narrativa se efetua pelo decurso -da ação. chamar determinantes. p. o romance do século XIX. e o fluir do tempo é marcado por êssé decurso. 170 Em verdade. mas o problema fundamental do romance contemporâneo.variações que afetam o ritmo de vida das personagens. I. (In Revue de littérarure comparée. Ora utilizam a técnica do corte no momento determinante. L'expreesion du temps dons le roman contemporain. = Já` se observou.atual une espèce de reliet saisissant. A técnica do folhetim contribuiu de modo decisivo para êssé progresso. a integração de elementos múltiplos que caracteriza o romance moderno. ó romance moderno. não só deu consistência à história. ao lado dos elementos de literatura oral e de teatro. 300). Juil1et-Septembre. . Foi de acôrdo com essa técnica de organização narrativa. quase diríamos de modo objetivo. 253. também-. levando o restante da ação para o capítulo imediato .seu tempo não é homogêneo. isso s'ìgrüfica considerável progresso sôbre o romance anterior. 170 = Jean Onimus. o que permitiu.. que é seriada segundo momentos que poderemos. Nizet. A organização da narrativa segundo momentos detérmi-. daí porquëo. techni~ . 169 André Vial. 168 Kayser. cit. inclusive. em primeiro lugar pelas inovações referentes à própria duração do tempo e sua configuração.

e só um autêntico romancista poderia com êxito utilizá-la. 174 Alencar. 218-219.a ed. 176 Alencar. As minas de prata. 2. Cinco minutos. 1910. que vai explicar tôda a primeira parte já narrada. op. pp. porém iniciam o imediato como seqüência do anterior. 1868. sob outra perspectiva. Alencar aprimoraria ainda mais essa técnica. A escrava Isaura. 760. 178 Alencar. porém. 173 Bernardo Guimarães. pp. pp. Em lugar do decurso horizontal e linear da intriga e do tempo. pp. fazendo com que a ação principal. só venha a ser retomada dois capítulos adiante. p. que também a utilizou largamente. Alencar. 78-79. no desenvolvimento da intriga e do tempo. 175 $ com Alencar. numa época em que nenhum autor se atrevia a tais liber171 Teixeira e Sousa. Em Senhora. 69-71. o desenvolvimento da intriga sofre recuo de considerável efeito estrutural: o início da história. 177 Tempos depois. o intermediário mostrando outro aspecto da história. 767. complicando-se o desenvolvimento da intriga e alterando-se a sucessão cronológica. 171 Macedo. 174 Ora finalizam a ação ao mesmo tempo que o capítulo. 172 Macedo. 177. 14-15. O guarani. O guarani.. Sob possível inspiração de romancistas como Balzac. que é dos seus romances o que talvez. 17s Essa liberdade na evolução da intriga e do tempo era novidade no romance brasileiro daquele período. já neste seu primeiro grande livro.seguir ao capítulo imediatamente posterior. dades. 448. 183-230. Cruz Coutinho. 430-431-439. 55-57. pp. Tardes de um pintor ou As intrigas de um jesuíta. cit. pp. logo . Stendhal e Flaubert. é a intercalação de planos narrativos dentro de um mesmo capítulo. Senhora. só vai ser contada do 19 ao 89 capítulo da segunda parte. 172 Bernardo Guimarães 173 e Alencar. Alencar por vêzes altera a seqüência narrativa. o autor de O Guarani. apresente melhor arquitetura narrativa. e que bem revelam a sua autêntica vocação de romancista. Garnier. 176 Mais significativo. 39-40. com a ação e o tempo retroagindo até um ponto anteriormente narrado. que se deveria . pp. que essa técnica vai começar a ser melhorada. 175 Macedo.Teixéira e Sousa. permitiu um progresso de certo modo rápido. aproveitado que foi. pp. Essa contribuição de Alencar à evolução da técnica do nosso romance. e processo técnico bastante avançado para a época. A moreninha. 57. Rio de Janeiro. introduziria modificações de considerável valor expressiva para a época. Rio de Janeiro.

por outros romancistas. sem que a isso correspondam elementos de construção externa ou interna capazes de organizar a narrativa. porém. O homem clássico aceitava a vida e a sociedade. 1. porém. já tendo contado a . às Noites. o Romantismo foi consciência de solidão. o autor o faz de modo anárquico. da inquietude diante da vida e da tristeza sem motivo. ou às Meditações. principalmente entre a V e o X capítulos. mas apenas estuda os temas que parecem mais significativos. de Young. mas em seus romances a experiência resultou negativa. a constância do tema em todo o Romantismo europeu. Ao fim do século XVIII. Já foi mesmo dito que. Ao fim da leitura. e do cristianismo. da Romantismo brasileiro. 17s E é isso que explica. não era senão uma tradição. preferentemente naquela poesia que vem da elegia a um cemitério. decorre daquele estado de alma que é fruto da insatisfação do mundo contemporâneo. É bem de ver que tais características não são próprias. essa atitude começa a modificar-se. no sentido de organizar com mais liberdade a sua história. que o leva a procurar a natureza. apesar das imperfieições nelas contidas. enquanto o Classicismo era consciência de companhia. de I. apua Guillermo Diaz-Plaja. recuar a intriga para narrar os vários antecedentes dessa morte.amartine. latroducción aí estudio . variando no caso a fonte original. morte de uma personagem. O frio equilíbrio racional das idéias e sentimentos clássicos ou neoclássicos já não exerce influência sôbre os espíritos. A solidão do homem romântico. Franklin Távora foi dos que imediatamente fizeram uso dêsses recursos técnicos. e a fé cristã. trecho no qual se percebe com facilidade a inútil tentativa do autor. 179 Eugenio Montes. o que resulta é a impressão de caos: Obrigado a narrar três vêzes o mesmo decurso temporal. desordenado ao ponto de. de Gray. mesmo para a maioria daqueles que a respeitavam.TEILÌSTICAS TEMÁTICAS A análise a seguir não esgota a temática romântica. Solidão. numa atitude moral e espiritual essencialmente estática. a experiência de Alencar estava lançada e teria decisiva influência no progresso da nossa prosa de ficção. CARAC. porém na maioria de importação estrangeira.. derivada do mundo antigo. pois acontecimentos de primeiro plano ocorrem simultâneamente em espaços diferentes. 1$° Da desagregação dêsses dois elementos. em cuja base se assentava a atitude clássica. De qualquer sorte. fazendo a falecida personagem novamente entrar em cena. É quase impossível falar em Romantismo sem pensar em solidão. O caso narrativo de O Cabeleira é disso uma prova. já esvaziada de conteúdo vivo.depois.

. quase sempre circunstancial. o conteúdo apaziguador ou purificador do Romantismo europeu. enquanto suas músicas se empoeiram. No .Brasil. em Vicentina. rosas efémeras e sem perfumes. essa atitude solitária foi também um dos temas dominantes do Romantismo.. e dela ~ o nôvo estado de ~ espírito. a atitude solitária do homem que deseja uma nova fé.mas que êle sente não estar nas formas de vida contra as quais protesta. contra os preconceitos vigentes que se opõem à realização do amor sonhado. é o exemplo que nos oferece Macedo. antes mesmo de ter plena consciência do amor que lhe vai chegando mudou todo o seu viver. tss Mais expressivo. ainda que de modo acidental. "irreconciliável inimiga da tristeza" e que não sabia "o que era estar melancólica dez minutos".. suas bonecas não mudam de vestido. e só achava prazer na solidão. quais serão os solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?. Sentia um tédio indefinível pelos divertimentos. que aspira vaga e indefinidamente :a um ideal 'que êle próprio é incapaz de precisar. para seu espírito mais calmo. A solidão dos nossos heróis românticas é uma forma de isolamento social. A irrequieta e travessa Moreninha. sentada no banco de relva da gruta. flôres do vento.. Uma personagem apaixonada e em desespêro Procurava um retiro seguro e silêncio onde pudesse conversar a .del romanticrrmo espanol.. de protesto passivo. perdendo seus belos olhos na vastidão do mar. descansa a cabeça em sua mão e pensa. como no exemplo anteriormente citado. há outra passagem que. Madrid. em Encarnação. não apenas espiritual.a ed.. p. seu piano passa dias inteiros fechado.. em . 248. a revolução romântica. Nesse mesmo livro. abandona o ar alegre. foge da família que a busca. em certos aspectos. 2.grande parte. Em quê?. Amália. cit. expansivo e juvenil de adolescente: As futilidades brilhantes que dantes a alegravam e que ela chamava as flôres da vida. ela vaga solitária pela praia. mas social de Hortênsia Vicentina e sua filha.. ou. com o isolamento. na ermida arruinada que aos olhos de uma personagem "tinha não sei que de romântico". resultou. 83. tornaram-se. p. porém sem a profundidade e a significação que lhe emprestaram os europeus.. 1942. 181 O mesmo ocorre com a. sós consigo mesmo e entregar-se a todos os sonhos que lhe inspirasse o seu amor. conferindo ao recolhimento.. op. Espasa Calpe. aliás. 180 Paul Van Tieghem. e foi assim que a pouco e pouco se isolou do mundo. no qual já se identificou certo cunho naturalista. e. ' liga a solidão à natureza. 182 Quando começa a ser envolvida pela fascinação de um sentimento apenas insinuado. .

Dentro dessa concepção. p. Paulo. o do papel da religião no comportamento do homem. que deve ser invariàvehnente castigado. A individualidade romântica é uma unidade ideal. p. Para não alongar a exemplificação. op. como concepção e inspiração da vida de heróis e heroínas. com pequenas variantes. d. o do retôrno à natureza.simbolizam o mal. mas também o subterra da posição do padre. e à sombra de árvores corpulentas e majestosas. -Essa unidade não será quebrada. e. A transformação de Gonçalo. êle é uma das constantes características dos nossos heróis românticos.. do pároco de aldeia na ficção romântica. baste a citação de O Ermitão dê Muquém. no particular. 182 Araripe Junior. no ermitão arrependido e perdoado pela visão da Virgem. sob cujo signo se desenvolvem tôdas as suas ações. em cujo esbôço a cavalheirismo medieval entra com uma parte não muito pequena. para os quais nasce o homem bom ou mal e assim se conserva durante tôda a vida. há a considerar ainda o tema da religião. 332. ou Itagiba. 184 Macedo. porém que deve ser. op. são assuntos presentes a todo o Romantismo. .] p. Encarnação. 2. mostra o enriquecimento do tema da solidão pela interferência de dois outros: um. feita de atributos e qualidades que lhe são emprestados pelos princípios filosóficos que fundamentaram o movimento romântico. 183 Alencar. não um tipo que é. cit. 26'7. S. Vicentina. o segundo. Antes disso. onde o rio corria docemente sôbre um leito de pedrinhas claras e miúdas. uma das qualidades fundamentais do herói romântico é a lealdade. 184 181 Macedo. Os autores que o esquecem. O Romantismo brasileiro não esqueceu o tema. 249. Lealdade. a constante presença do tema em todos os nossos romancistas românticos.e não são nunca os protagonistas da história romântica . a educação devendo exercer nessa transformação papel de decisiva importância. que mostraria. dada a sua importância no Romantismo: não sòmente o papel da religião em geral. senão no momento em que a observação realista influir também na fixação dos tipos e se concordar em que a sociedade pode transformar o homem que nasceu bom ou mau. Ao contrário. e foram tratados em nossa literatura. Aliás.Havia ali no centro daquele bosque um sítio abrigado e aprazível. Melhoramentos [s. o herói romântico é um tipo ideal. cit. Os que fogem a essa regra . . tão rico de conteúdo êle se mostra. de Bernardo Guimarães.

seduzir-lhe a mulher. como convém a um bom romântico. traidor que não pertence à tropa e nela aparece como símbolo do mal. porém. 185 Nos romances urbanos. Loredano. Passam a agir segundo as oportunidades e as conveniências. bem como a da tropa a êsse fidalgo português. mas não chegou a retesar a seta. era no conceito de Seixas. o tema tem tratamento diferente. Alguns dos heróis de suas histórias já não são definitivamente bons. insinuar-lhe uma esperança de casamento. 186 Em Távora e Táunay. é a própria deslealdade em ação. outro não é o procedimento. Em tôdas as obras do romancista cearense. são aquêles que já começam a se distanciar do Romantismo. e em sua obra são freqüentes passagens como esta: ergueu a mão. avolumando em seus livros a tendência realista. cavalheiros leais. e nêle procura mostrar a lealdade de D. deu a um capítulo (o segundo da 141 parte) o título de "Lealdade". ato que desairava um cavalheiro. A moral social. tudo podia permitir: mentir a uma senhora. feita de convenção e de mentira. Poti é leal 287 a Martin. por excelência. Faltar. nada tinha que ver com as distrações da gente do tom. como Iracema ao guerreiro branco. e não de acôrdo com o . não se contentou. A água não persegue a andorinha. eram passes de um jôgo social permitidos pelo código da vida elegante. e por isso é finalmente punido. empregar seu valor contra um menino. apenas. José de Alencar. quanto mais de um chefe. os heróis são homens difinitivamente românticos e. No momento em que isso ocorre. Antônio de Mariz aos reis de Portugal. Era indigno de um guerreiro. o sertanejo e ó gaúcho são exemplos de dedicação e lealdade. torna-se o homem anjo e bêsta ao mesmo tempo. passa a existir o dualismo psicológico. em O Guarani. a individualidade deixa de ser unidade. retirar sem motivo uma promessa formal de casamento. A moral inventada para uso dos colégios. romancistas que podem ser considerados de transição entre o Romantismo e o Realismo. como se observa no penetrante realismo de Machado de Assis. essa quebra de palavra tornava-se mais grave. já não se mostram leais em tôda e qualquer circunstância. No caso especial em que se achava.ou lhe dão tratamento diverso. em desenhar os tipos românticos como homens leais. trair um amigo. it palavra dada. nem definitivamente maus.

cometidas por um homem . ias . agrilhoava os bons instantes e deixava sôltas as paixões canibais. 1-2. e ò própria fato de ser um bandido transformado em herói de romance' é. . 187 Na obra de Franklin Távora os exemplos são numerosos. na vida dos quais as mulheres exerceram papel importante. 20. em quem hoje veneraríamos. não são raros os exemplos de deslealdade. p. tratando-o de modo diferente do que até então fôra feito.a ed. 288 Romantismo brasileiro. Ubirajara. lss No Brasil. menos por maldade natural do que por crassa ignorância. história de traição e deslealdade. um sinal diferenciador. não concederam a essas mulheres senão um pequeno lugar na obra que publicaram.c1~ deslealdade.caráter reto e firme que porventura tenham trazido do berço. é possível afirmar que foi êsse tema que forneceu substância a todos os demais. é necessário acrescentar é que essa diferença ainda não é suficiente para retirar o autor de Os Indios do Jaguaribe dos quadros . Garnier.que existe entre os citados trechos de Távora e de Alencar. Rio de Janeiro. Se. Inocência. que são decisivos no desenrolar da intriga. talvez. modelos de altas e varonis virtudes. 3. Exaltação da sensibilidade e da imaginação. Melhoramentos [s. O que . tenha dado ao amor lugar de importância singular. é natural que o Romantismo. pois vários escritores. 186 Alencar.]. É verdade que. S. Paulo. Senhora. por si mesmo. p. É fácil perceber a diferença. o qual se celebrizou na carreira do crime. na poesia ou no romance. em Lourenço. 187 Taunay. que em seu tempo. que decidem dos destinos das nações e até da humanidade. O Cabeleira. não pudessem desnaturar os homens. na Europa. que em sua obra deixou marcas tão profundas. no comportamento dos heróis. pp. do ponto de vista do romance. d. 210. A idéia central do nosso romance romântico não . Amor e Morte. O Cabeleira é tôda uma. tornando-os açoites dás gerações coevas e algozes de si mesmos. todos os românticos elegeram o amor tema fundamental de suas obras e. Entra neste número o protagonista da presente narrativa. p. A romântica história de Inocência apresenta dois episódios . 243. o amor não inspirou a todos os românticos. ' 188 Franklin Távora. se certas circunstâncias de tempo e lugar. sendo o mais importante o assassínio de Girino pelo rival. 1902.dó I$5 Alencar. 315.

essa face material. seja êle urbano. 265.289 290 interêsses de qualquer outra espécie. 190 Jacinto do Prado Coelho. Para o homem romântico. 191 Astroj$do Pereira. cit.difere daquela que já foi caracterizada como núcleo central da novela camiliana: lso todo o ser tem direito de realizar a felicidade pelo amor. bem como no regionalista. e nessa espécie de romance a realidade nacional da época se encontra bem desenhada. e o casamento só é aceito quando realizado por amor. a novela. 192 Antônio Cândido. e não por conveniências ou 189 Paul Van Tieghem. p. É do conflito dêsses três elementos que resulta a história. através do casamento de conveniência. que confessava não sentir o menor entusiasmo pelo casamento. op. que se vê de fora. caso os conflitos não se resolvam românticamente. 1944. Uma heroína de Alencar. Essa luta é feita de sofrimentos e provações. heróis ou heroínas. e compõe sua fisionomia social. Bons observadores. O patriarcalismo da sociedade brasileira do século passado regulava a constituição da família e legitimava a intervenção discricionária dos pais no casamento ou nos projetos de casamento dos filhos. o casamento e o amor. a mulher devia desposar e amar aquêle que lhe indicassem os pais. Agora compreendia por que essa . p. 192 Contra essa moral burguesa é que lutam os românticos. defendendo os direitos do sentimento e do coração. op. cit. pelo amor. p. perfil de mulher quase sempre. AUântida. histórico ou regionalista. No romance urbano. pp. Introdução ao estudo da novela camiliana. quando se apaixona explica que Até então não conhecia senão a aparência do casamento. como ocorre quase sempre. Tal é a conclusão que se pode tirar do exame de conjunto do romance romântico. amar é um destino. 19-20. o companheiro ou a companheira da sua vida. 503. Coimbra. constroem-se as intrigas em tôrno de três elementos fundamentais: a família.. pois sua posição na sociedade lhe exigia o papel de guardar e transmitir riqueza. Interpretações. Rio de Janeiro. os casamentos tinham de ser ditados. 22. 1946.. servindo-lhe de contraponto a permanente idéia de que a união de duas almas. sem constrangimento. tem direito a escolher. os nossos romancistas nunca se desligaram da realidade. lsi para defesa da família e da sociedade. na forma por que todos êles reproduziram os conflitos resultantes do jôgo de interêsse no problema do casamento e do amor. poderá ser conseguida na morte. mas pelos interêsses familiares e sociais. Macedo. CEB. realista e romântico. . não pelo amor.

Aurélia. Exemplo claro dessa afirmativa é o que nos dá Encarnação. 194 Alencar. que Alencar não receou o ridículo de materializá-lo. esse é um símbolo acentuadamente rico de conteúdo. que vai depois amá-lo e reconstruir-lhe o mundo. o problema não é diferente. muita vez. o único elemento capaz de unir duas almas românticas. que tinha o seu mundo em si. que não permite dúvida quanto ao fato de ser o amor. mas. por fôrça de um amor que triunfa sôbre os preconceitos. Era. .. do amor-princípio divino. na vida real ou na literatura. um destino.193 No romance histórico. é nela que se alicerçam os demais temas que deram corpo e forma ao nosso romance romântico. A partir do gesto desesperado de Werther. p. devia ser. 193 Alencar. Nesse habitava uma alma. De tudo isso é possível concluir que o mundo dos nossos românticos. foi inundado de suicídios e de mortes. 329. está construído na base do amor ideal. passa a distingui-lo dos outros homens. cuja personagem principal era tida por todos como um viúvo doente mental. sôbre a lei dos homens. o Romantismo. e é precisamente essa base que permite a edificação de tudo mais. p. cit. Encarnação. sôbre a tradição de uma e de outra raça. E náo sòmente à idéia ou à consciência da morte. há um aspecto que merece particular atenção: é a permanente vinculação do amor à idéia da morte. à própria necessidade da morte. op. bem diverso da gente que povoava as salas e as ruas. modificando-se apenas certos elementos particulares. que adquiriu direitos imprescritíveis dos quais não se afasta. daqueles que procuravam o seu dote antes de desejarem o seu amor: Parecia-lhe que via nêle pela primeira vez um homem. ao descobrir que a doença de Hermano era obstinado amor e fidelidade à espôsa falecida. enchendo de figuras de cêra e reminiscências da espôsa morta o mundo subjetivo e doentio do viúvo de Encarnação. aquêle mundo íntimo que se projeta acima do real pelo extravasamento de aspirações e anseios contrariados. inclusive pela bonita e jovem vizinha. por maiores que sejam as suas diferenças de raça ou de fortuna. mais do que um hábito e uma conveniência. que já começava a amá-lo sem saber. e era uma alma superior ao mundo. em lugar da riqueza ou do sangue. E mais não se necessita fazer do que lembrar a união do indígena com o branco. mesmo no de feição indianista.união era mais do que um modo de vida. 331. 194 Essa idéia do mundo íntimo é tão forte no Romantismo. No estudo do amor romântico.

cuja idéia atravessa todo o processo da existência. sentem o absurdo da vida que os leva a experimentar as maiores vicissitudes e os maiores sofrimentos. quase sempre com os exageros . enfrentam e vencem tôdas as provações. E quando é de todo impossível resistir. a união. ambos nobres de alma e de coração. coberta com um manto prêto salpicado de cruzes brancas. o protagonista que dá o título ao romance não pode desposar a mulher que ama. e simulando um cadáver. entrando no convento num dia em que nascia para o mundo uma formosa manhã. há nêles perfeita consciência da fatalidade que espiritualmente os uniu. 198 Teixeira e Sousa também desenvolveu o tema. O tema já está mesmo nos precursores. sua antiga amante. por preconceitos de casta. quando a conjuração dos preconceitos de casta ou dos interêsses familiares é materialmente mais forte. a união entre os dois sêres se realiza pela morte. A êsse respeito. mas não cedem nunca do objetivo que lhes indicou o destino . 196 E a tal extremo de detalhes leva o autor a descrição dêsse episódio. prepara-se para morrer e pede à "parca amiga" que venha arrancá-lo do mundo e reuni-lo a Lianor. encontra na morte a forma mais pura de realização. ao saber que falecera a monja.fôrça superior e exterior aos homens. e morria para o mundo uma formosa donzela. carregado sempre de violenta paixão e de subjetivismo extremo. mas nenhum dos dois cede um passo no seu amor: Lianor morre simbòlicamente para o mundo. lss é um símbolo fortemente sugestivo. ainda mais. estendida sôbre êle. que independe do objeto amado. os heróis românticos não abdicam nunca do direito de serem felizes pela realização do seu amor. 197 Acentua-se. a bela História dos amantes de Verona tenha exercido influência poderosa. que figura Lianor sendo conduzida ao túmulo. divindade a cujo império ninguém pode fugir. do monstruoso Quasímodo e da bela Esmeralda. o amor romântico. entre os quais Pereira da Silva nos oferece bom exemplo.Sêres apaixonados e em luta contra uma sociedade injusta. a vinculação do amor à idéia da morte é uma constante. na morte. no desenvolvimento dêsse tema. e por quem é amado. quando Côrte Real. É possível que. no seu Jerônimo Côrte Real. em céus mais puros e mais ditosos ares. o papel da morte como solução para o amor terrenamente impossível. saturada de preconceitos e interêsses materiais. Em nosso romance romântico.

~ee casta pudera atuar em vida. .Sim! eu te convido para um himeneu. lhe falta nem mesmo a morte aparente. em virtude da morte real de Clara. muita vez. Em A Viuvin de um espôso que finge suicídio na madrugada' m~ hem sua honra casamento.. para lutar pelo resgate de dívidas qu é cinco anos. a viúva e a memória de seu pai. Elo ó s R Romantismo. em ardes de um Pintor. então. 2°° tão poderosos eram os preconceít4 vem sôbre a sociedade brasileira dos tempos G°loniais. não o tema ganha todo o relêvo que lhe emprestoJ os funerais. 197 Pereira da Silva. sirrtbblicas. e vai cosi ele. de Inês. op. 195 Philippe Van Tieghem. 196 Pereira da Silva. p.Vicentina! compreendes bem o pensamento que eu adivinho nas tuas palavras? . Prata. cit. Álvaro e Isabel Peri e Cecília Martin e Iracema.ento.salheroína ésviúva conceitos para uni-los em espírito. Uma de suas heroínas amado . que antes já tentara o suiGidio. 80. ao pretender regener~I r-se Lui antmordta antiga namorada dos tempos de menino. na dependência da intriga amorosa.. melo drama de pior gôsto. há uma aparente morte de Juliano. op. op. p. e o Cabeleira. exemplo. cit.O túmulo será a porta do templo da nossa eteria união. p. enlutada durante êsse tempoPnoites. e leva o tema. aparentes e reais. .. 228. reiniciar a vida interrompida pela morte simulada. No decorrer da história. tôda ela entremeada de mortes simuladas. 198 Pereira da Silva. só depois desama sombra que lhe aparece à janela.291 Basta lembrar a história de Clara e Juliano. Macedo não foge à regra. Jerônimo Côrte Real.' amor não Até mesmo em romancistas como Taunay em conseguir ddesposar se desliga da idéia da morte: Cirino morre s1~ Inocência. e no fin~ a morte simbólica dessa mesma personagem entrando para um con~. cit. p. qu hd. ao gôsto do folhetim. 454. 77. tôdas as carne e osso máis cobre que essa sombra era o próprio marido efn ' honrado e mais digno do que antes.de uma intriga cheia de peripécias. cujo tálams deve ser a sepultura! isa Na obra de Alencar o tema está largamente desenvolvido.. tido por morto duram resiste ao amor de se conserva fiel e.. sues durante a fuga que empreendiam para . e ate que se prometera ao amado no túmulo porque s d. t°d°s êsses são pares românticos marcados pela morte redentora.

era um anjo. As minas de prata.2a2 . enobrecer e fortificar sua alma. num caso como noutro. tendo a poesia feito da segunda um dos temas de sua preferência. realistas. p. com que o dicionário romântico indiscutivelmente as define. anjo e demônio.eocádio. mas em cuja bagagem as peças 1~anticas ainda são 0 maior péso. se deixariam dominar pela idéia da mulher demônio. e menos freqüentes no romance brasileiro. na opinião de Camilo. onde. por vêzes. cit. das personagens não tem a ambiência romântica dos exemplos antefl°rmente citados. as duas expressões.uma nwa vida. Quando a idéia se insinua em algum dêles. é para logo depois se desfazer o mistério ou a impressão anterior. op. está em que. de Macedo. era o demônio. p. não só se contrapõem as duas concepções da mulher amada. à região onde se desenrola a intriga. que a sociedade impedira fôsse realizada em seu meio. era a doida. A heroína. transfigurando-se a suposta mulher fatal ou feiticeira no anjo da felicidade e do amor. que dá nome ao romance. segundo o pensar do I. São mortes naturais. $ êsse úe umransi que distinguem Taunay e Távora como escritores que par o realismo. concepção da mulher amada: anjo mandado dos céus para purificar o coração do amante. encerra-se com a morte. ou demônio que. Só por exceção os nossos romancistas. quando aparece ao leitor é com os prováveis traços da mulher fatal. por exemplo. no desenho de suas heroínas. porém. conforme dizia o povo. em companhia de uma velha e uma criança. 199 Macedo. O amor de Cirino e do cabeleira não se realiza além da morte. solitária e desconhecida Era a bela e misteriosa ermitoa. e ainda assim sem as marcantes características que deram fama ao tipo.. o que é mais significativo. Não é outra coisa o que ocorre. Zol No romance nacional prevaleceu a primeira concepção. Há. 331. outros aspectos menos importantes. em Vicentina. 200 Alencar. se liga ao coração do amante para perdê-lo e torná-lo infeliz. a morte. almas apaixonadas. europeu. no estudo do sentimento do amor entre os românticos. não são mortes rom~nticas. 998. pela fatalidade implacável de funesta paixão. não implicam a união dos dois amantes. Está nesse caso a dupla. e só o jovem que a ama não percebe êsses traços: recém-chegada. porém que merecem referidos. não transferem do mundo dos portaisa para omunhão das românticamente concebido no íntimo de cada ser.

acha que o negro dá à mulher o quer que seja de satânico e lembra que ela também gerou-se da terra. nesse livro. ou uma doce inspiração. op. a ser mencionado. 204 Alencar. Deus a tinha encarnado nesse misto incompreensível do sublime e do torpe. de lodo e néctar. que tem algo da filosofia de D. leitura predileta da protagonista da história. comparando-se a uma serpente e dizendo que é maldita e por isso não deve ser amada. . que arranjara o trajo puro e simples que ela trazia? Tudo era branco e resplandecente como a sua fronte serena: por vestes cassas e rendas. a purificação de sua alma e de seu corpo pelo sentimento 201 Paul Van Tieghem.Espere!. p. não é sòmente filha do céu. Lúcia demorou-se algum tempo. é o da redenção da mulher perdida. o verbo da criação. A mulher era para éle a obra suprema. cit. 269. mas existem. aconselha-o a fugir do seu contato. cit. 204 Outro aspecto. A idéia da purificação. A pata da gazela.. 172-176. subterra largamente difundido no Romantismo europeu. No Brasil.. saía do banho fresca e viçosa. tôda a ciência como tôda a poesia. Creio antes na inspiração. ao recusar o amor do jovem apaixonado.. do amor. p. aliás. Lúcia tinha no coração o germe da poesia ingênua e delicada das naturezas pri . pp. os exemplos de Marion Delorme ou da Dama das Carmélias não são muitos. tudo se esclarece. do celeste e do satânico: amálgama de luz e cinzas. 223. encontra sua melhor expressão na cena em que Lúcia. cuja arquitetura sofreu visível influência do romance de Dumas. não é sòmente anjo. op.. Uma personagem de Alencar. a quem ama em segrêdo. op. Nem uma fita. que depois de tão violento abalo parecia criar nova seiva e florescer com o primeiro raio de felicidade! Fôra o acaso. 220.E ela própria. Quando apareceu. 203 Macedo. 203 Pouco depois. Rica e inexaurível era a organização dessa môça. cit. e a pele rorejada de gôtas d'água.. transfigurando-se o demônio em anjo aos olhos de todos. manchava essa nítida e cândida imagem. porém. por jóias sòmente pérolas. Alencar configura a purificação com detalhes significativos. prepara-se para entregarlhe aquilo que resguardara dos homens aos quais vendera prazer seu amor de corpo e de alma. T8da a religião como t8da a felicidade. nem um aro dourado. Trazia os cabelos ainda úmidos. inclusive com um simbolismo de côr que é freqüente em sua obra: Fui eu que procurei então o lábio que ela há pouco me oferecera. Eo melhor dêles é Lucíola. resistindo ao primeiro impulso do amante. que empesta. de Alencar. 202 Macedo. Juan. p.

a que não foi alheio o nosso romance romântico. É possível que pesquisa mais demorada revele a freqüência de outros. O filho do pescador. Z°7 Como quer que seja. A viuvinha. mesquinha e pequena no meio do grandioso espetáculo da natureza que se desdobra com tanta pompa. que estava tão pura como eu a tinha deixado. cujas nuvens se ensanefam. G. tal como aconteceu na literatura européia. uma cadeia prodigiosa de montanhas de píncaros mais ou menos elevados que a órgãos se assemelham. . 1906. que se inicia o primeiro romance de Teixeira e Sousa. de Bévotte. e se tingem de rubro com a luz do sol do ocidente.2os „. pela freqüência com que aparecem nas nossas obras românticas. como se pode observai na seguinte passagem divisou a cidade do Rio de Janeiro. essa abóbada de safira. 294 seria o representado pela exaltação da natureza brasileira. lá. La légende de Don Juan. 122-123. e que se estendem como uma falange de gigantes. 295. Ubirajara. 207 Como exemplos do subterra podem ser citados: A moreninha. o rochedo enorme. 208 Teixeira e Sousa. em forma de epígrafe ao capítulo de abertura. E o progresso maior 205 Alencar. Lucíola. 513. eliminando os vestígios da postura clássica que ainda se encontravam no trecho de Teixeira e Sousa. p.mitivas. porém. onde o Romantismo renovou a lenda e reabilitou Don Juan como símbolo de afirmação dos direitos do indivíduo em face dos direitos da sociedade. p. 9. em lugar da descrição ideal e abstrata. Hachette. os aspectos acima estudados parecem mais significativos. 206 G. sob êsse pavilhão imenso. Zo$ Pouco tempo depois. pp. uma novela de Norberto avançaria mais. com seus edifícios de diferentes formas. São êsses os aspectos da temática do amor que mais interessaram aos nossos românticos. sor évolution dares Ia littérature des origines au romantisme. Natureza. mas. com suas tôrres. p. do contato de outro homem. Ela me dizia no seu trajo. 81. pois é sob a evocação da natureza. aqui. O guarani. 4. coroado de nuvens coloridas pelos últimos raios do astro do dia. Zos Outra indicação seria a do subterra da castidade. e uma primeira indicação é a da presença da legenda de Dom Juan na formação do herói-tipo do nosso romance romântico. pp. 427-429. Em nenhum dos escritores românticos deixou de estar presente o sentimento da natureza. Paris. o que nunca se animaria a dizer-me em palavras. Já em O Filho do Pescador êle se manifesta. p. que se revela por um emblema e por uma alegoria.

ses ascètes. oriundo daquela vaga aspiração a um ideal mal definido. . Rio de Janeiro. avec ses passion "desmesurées".2li 209 Joaquim Norberto de Sousa e Silva. enrichi par le classicisme.tendo a seus pés essas ondas azuladas de um mar de ouro.. avec sa fantaisie sans borres et sor mysticisme exalté. Ni fleurs. Quase nunca assume o sentido de fuga. Zio conduz os românticos para os campos. sor outrance. avec ses anarchies de 1'esprit et ses désordres du sentiment. ses haines. Naqueles. o sentimento da natureza. o sentimento da natureza difere do que foi habitual no Romantismo europeu. do que para alimentar seus próprios devaneios e embalar sua melancolia. Et ce fut le Romantisme. tout le Romantisme n'est auue chose que Ia renaissance du moyen âge. como já foi observado. que sentem os pessimistas e desesperados portadores do mal du siècle. ficelée dans son linceul grossier. senão a primeira preocupação dos nossos escritores. do outro lado do Atlântico Une momie sommeillait. ses hailucinés. que como uma campina se dilata. pour elle. por vêzes. ses terreurs. sombre et barbares avec sa nature primitive et grandiose. ses innombrables contradictions. ses névroses. liée. à un certain moment. compliqué. Car le Romantisme. neste como em outros temas. les Bens se relâchèrent. raffiné. avec ses forêts. Ia momie sortit de sor linceul. se brisi. Maria ou vinte anos depois. romancistas ou poetas. Zoa Daí por diante. sorrindo-se ao beijar da brisa vespertina. ni regrets mais plutôt des sarcasmes et des anathèmes. P• 327). de início. n. ses aventures. Certo que alguns dos nossos heróis foram. de evasão melancólica em busca da solidão necessária ao monólogo lírico. pois. No Brasil. levados à adoração panteísta da natureza. avec Mort et Destinée. como se fazia no século XVIII. ses amours. particularmente. avec Ia Vierge et le Diable. Car c'était le moyen âge. a que foram levados os sacerdotes da dúvida. depuis deux siècles. Para o romântico europeu. O nosso Romantismo.. as montanhas ou o mar. ses "fous". evoluiu de modo diferente do europeu. é a mais simples forma da sua necessidade de evasão. abril de 1844. (in Minerva Brasiliense. mas não foi essa atitude a que prevaleceu.rent: ivre de vie. 11. ses mélanges cocasses. D'un moyen âge passé a travers le classicisme. Et. a natureza brasileira passaria a ser uma das primeiras. os bosques. ses héros. pela busca de solidão que. a atitude romântica em face da natureza foi diferente. E nem podia ser de outro modo. traduzida. menos para descrever-lhes a beleza.

um povo em formação. dos bandeirantes. exaltar e engrandecer tanto a natureza brasileira como José de Alencar. de modo geral. François Yillon et les thèmds Poétiques qu moyen 6ge. passou a ser elemento identificador. . capazes de permitir a profundidade de sentimento do Romantismo europeu. O nosso sentimento da natureza era menos individualista e mais de afirmação nacional. inclusive no Brasil. Não há engrandecimento ou exaltação. uma jovem nação iniciando o seu processo de desenvolvimento histórico. para demonstrar a nossa vitalidade e o nosso direito de ser livres e independentes. Le romantisme dares Ia littérature européenne. apenas. Colin.295 Éramos nós. Exagerar é próprio do Romantismo. de preferência. e em Alencar o exagêro. índios. porém. A natureza brasileira era o cenário majestoso das grandiosas ações dos índios. imprescindível aos seus objetivos de elevar nossos heróis. Não tínhamos densidade espiritual nem complicações filosóficas. cuja teoria de volta ao meio natural informou tantas obras. Costuma-se dizer que exagerou. que fôra mero assunto poético durante o Classicismo. como idealização de um mundo superior à realidade e cuja base é o sentimentalismo fácil dos amôres contrariados. para o qual a natureza. para nela projetar e ampliar o mundo ideal que constrói acima do real. A origem mais imediata do tema está principalmente em Rousseau. e querendo achar-se a si mesma nas raízes confusas das três etnias que a geraram. o homem romântico exalta e adora a sua própria individualidade. a) atitude de contemplação sentimental. o problema era outro. correndo por conta de um legítimo orgulho de sua terra e de seu povo. à . sertanejos ou gaúchos. podemos classificá-las em três grupos: . Foi essa atitude a que dominou em nosso Romantismo. Paris. que foi a preferida por Macedo. na pintura da natureza. dos sertanejos. que era preciso criar. 212 Para nós. dos heróis nacionais. era necessário. antes ou depois dêle. O nosso Romantismo engrandece a natureza brasileira. Nenhum escritor conseguiu. PP. que se observa principalmente em Alencar e Bernardo Guimarães. Sem dúvida que outras atitudes podem ser observadas. ao exaltar e adorar panteìsticamente a natureza. 257-258. com ou sem base histórica. b ) atitude de calorosa exaltação e engrandecimento. 531. foi dêsse modo que. contemplação. que pintou com tintas doces e amenas. mas. mas. 211 Italo Sicr7iano. uma natureza hostil e mesmo agressiva. tratamos o tema da natureza. o eu hipertrofiado que nela projetou. 1934. de sabor bucólico.210 Paul Van Tieghem. porém. p. que é dominado pelos colonizadores.

quando descreve com realismo a paisagem sêca do Ceará. ficou reduzido a uma cinza espêssa que o menor bafejo do vento levanta em nuvens pardacentas.. 213 E. O capim. pelo tratamento nitidamente realista de certos aspectos. 215 Franklin Távora regista com realismo e sem entusiasmo romântico a paisagem seca da fuga do Cabeleira com Luísa: Estava em pleno deserto. também já não se observam nem a contemplação sentimental nem a exaltação. como chamavam poèticamente os indígenas. respectivamente. pp. como ensinou Rousseau.. embora não haja ainda compreensão e explicação da natureza. 213 foi também por êle empregada. Enquanto Alencar. mero registo de paisagens sem o entusiasmo sentimental dos românticos. Essa metáfora.. para identificar o sertanejo com a natureza que o criara. tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da sêca. Ed. é um livro superior a todos os outros. Literatura europea y Edad media latina. Curtias. algumas características da escola. . 214 Alencar. nos romances da "literatura do norte". 448-45T. I. de Bernardo Guimarães. não foge ao modo de ser romântico. que outrora cobria a superfície da terra de verde alcatifa. esp. Em Franklin Távora. México. 1955. Fotldo de cult. sem uma habitação. sem viva alma. atitude comum nos livros que. ecoa. p. O sertanejo.categoria de símbolos de uma nacionalidade tão digna quanto as demais. 94. 214 c) compreensão e explicação da natureza. O que há é simples descrição. que é o sorriso dos campos e a gala das árvores. que figuram o vasto ossuário da antiga floresta. R. ou o seu manto. dir-se-ia que por aí passou o fogo e consumiu t8da a verdura. não esqueceu nem mesmo que a natureza. roído até à raiz pelo dente faminto do animal e triturado pela pata do gado. filiados ao regionalismo romântico e ainda apresentando 212 O ermitão de Muquém. que vem desde a Idade Média latina até o Romantismo. No tratamento do tema. Pula vasta planura que se estende a perder de vista se erriçam os troncos ermos e nus com os esgalhos rijos e encarquilhados. Do lado direito protegiam-no estendidos tabocais e profundas gargantas de serra inacessíveis. A chapada. habituais em Macedo e Alencar. dela começam a se distanciar. em O Sertanejo. Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta.

que nunca fôra amena. 216 Franklin Távora. o romance procurava sempre a côr local e reproduzia geralmente a vida brasileira em seus diferentes aspectos e situações. estava inóspita. alguns serrotes escalvados. É essa tendência que explica a permanente ligação do Romantismo às lutas políticas de seu tempo. a introdução do Romantismo coincide com o processo político de nossa independência. reconhecer como primeiro traço de nossa literatura um certo instinto de nacionalidade e dizer que.o histórico. em qualquer das três grandes divisões em que se pode classificar o nosso romance romântico . ao criar a figura do cientista que estuda e explica a natureza. em cada país. Taunay foi mais longe. e com êle mantém relações de causa e efeito. que se traduz. crue1. brejos combustos do calor do sol completavam o largo amparo que lhe abria em seu seio a natureza. O Cabeleira. capaz de afirmar a . p. cit. tanto na substância como nos acessórios. como tentativa de reconstrução de um passado próprio. em 1873. No romance histórico. na busca e exaltação do passado comum. também. foi essa tendência romântica que permitiu o desenvolvimento de características nacionais na obra dos nossos escritores. Rio de Janeiro. 215 Alencar.. mas. o regionalista e o urbano .é evidente o propósito de valorização nacional. árida. Uma das tendências mais universais do Romantismo é o seu culto à nacionalidade. o tema nacional preferido foi o índio. caatingas sem fim.218 A atitude de compreensão e explicação da natureza está presente num livro em que predominam as características românticas. . contemporâneos ou não do movimento romântico. A criação da personagem Meyer. ou na valorização de aspectos nacionais. Em virtude dela foi que Machado de Assis pôde. que se aprofundaram e contribuíram de modo decisivo na formação de uma mentalidade nacional. Com a sêca abrasadora. Descrevendo com realismo os cenários e paisagens de sua história romântica. 1902.297 No Brasil. p. 182. 5. ainda na fôrça do verde. Do ponto de vista literário. Garnier. inicia a mudança de atitude em face da natureza.217 Na verdade. Nacionalidade. como é Inocência. essa região.do outro lado do rio um espinhal basto. 30. op. naturalista alemão que vem caçar borboletas no interior do Brasil. uma antecipação do Naturalismo. Essa personagem não é apenas um elemento anti-romântico.

as suas relações entre pais e filhos.nacionalidade brasileira em face do europeu. cujo objetivo. insinuado em seus romances certos pormenores nacionalmente significativos. em ambos os casos. bastando para comprovar essa afirmativa o Minas de Prata. pp. de Alencar. Embora aparentemente pouco importantes. e o derriba pela cauda com admirável destreza. e a êle está intimamente ligado o sentimento da natureza. que atravessei há tantos anos na aurora serena e feliz de minha infância? 218 Se o romance histórico fôra a projeção de uma nacionalidade acima e anterior à realidade.com os seus salões. a voz saudosa e plangente do rapaz que abóia o gado para o recolher aos currais no tempo da ferra. o romance regionalista. como ficou assinalado anteriormente. as suas modas. Do mesmo modo. Fora da temática indianista. No romance urbano. que à unha de cavalo acossa o touro indômito no cerrado mais espêsso. já no modo por que êsses romancistas reproduziram o conjunto da sociedade fluminense da época . O sertanejo. O indianismo brasileiro é uma exaltação romântica de nossa nacionalidade. que se dilata por horizontes infindos. Jackson. valorizar o ethos brasileiro.já por terem êles. Rio de Janeiro. era o de reencontrar o homem e identificá-lo pelos traços particulares que o situam no tempo e no espaço. mas não deixa de estar presente. Aí campeia o destemido vaqueiro cearense. o romance regionalista foi o encontro do espírito nacional com o mundo real. reboa entre os mugidos das reses. e. 217 Machado de Assis. por definição mesmo. 218 Alencar.. de modo geral. o nosso romance histórico também foi engrandecimento de qualidades e virtudes nacionais. ou às personagens que os simbolizam. ao morrer do dia. (in Crítica literária.. quando examinadas em conjunto ganham significação anotações como a que esclarece que a casa de uma chácara é . pretendeu e realizou uma valorização do ethos brasileiro. é o sertão de minha terra natal. p. sem perfeita consciência do valor fundamental do detalhe. 27. se referem à região e aos costumes que reproduzem. Instinto de nacionalidade. sertão da minha terra. Aí. é claro indício do consciente propósito valorizados de que estavam animados: Esta imensa campina. as suas partidas. esparsas anotações caracterizadoras do tipo humano brasileiro ou da nossa paisagem urbana. o objetivo motivador era o propósito de afirmar a nacionalidade. O orgulho com que êsses romancistas. 1937. os seus divertimentos. os seus namoros. Quando te tornarei a ver. 125-133). o seu funcionalismo público . o sentimento de nacionalidade é menos acentuado.

além do mais. 220 Alencar. É que o período romântico legou à sua posteridade uma série de contribuições. 11. tizá-las em cinco itens: 1.298 em cuja raiz se encontra a explicação de muitos dos nossos fenômenos literários. É possível esquema.. 137.. 219 ou a que indica que a porta da casa de pequena e modesta propriedade aparece por entre duas linhas de cafèzeiros. op. particularmente da sua prosa de ficção.. Rio.224 Foi principalmente êsse amor às coisas pátrias que lhe conferiu o caráter nacional. A adaptação da forma narrativa moderna. p. instinto do belo. que permite a indispensável . enfim.222 Ainda mais significativas se mostram essas anotações. Machado do Assis afirmou que nêle havia geralmente viva imaginação. . doas olhos brasileiros. uma personagem fuma seu charuto sentado à janela do sótão donde avista as verdes encostas de Santa Teresa e mais longe o Corcovado.. 223 Macedo. e delgada cintura. LEGADO DO ROMANCE ROMÂNTICO O exame do romance romântico conduz a conclusões que. cit. p. p. com o estabelecimento de uma tradição novelística. que é um dos seus títulos de glória. facilitam a compreensão do processo evolutivo da literatura brasileira.. seja dito de passagem. 356. ) e que. ingênua admiração da natureza e amor às coisas pátrias. 222 Alencar. faiscantes. . Procurando resumir as características do nosso romance romântico. 82.. 221 ou a que protesta contra a modificação que os usos e costumes estrangeiros trouxeram aos íntimos e tranqüilos serões de família da bela cidade do Rio de Jaueiro. belos. que se tornou símbolo da adolescente brasileira.' que parecem haver passado para suas vistas todo o ardor da zona em que vivemos. como as brasileiras de seus lindos olhos prêtos. tanto orgulho podem ter as espanholas de seu pequeno pàzinho. 71. ao gôsto paulista. A viuvinha. d. quando dizem respeito a detalhes que caracterizam o tipo humano brasileiro . estranha ao nosso meio.22o ou a que regista que. p.. era animado por doas olhos vivos. quem prestou maior contribuição nesse sentido. viu êle um engraçado semblante que atirava o seu tanto para o moreno ~ (. criando o tipo da travêssa moreninha. p. op. uma vez aceitas. O môço loiro. Garnier [s. enquanto pensa nas ocorrências do dia.. 219 Alencar.abarracada. p.223 Foi o próprio Macedo. cit.. . ainda hoje mal compreendidos. op. Sonhos douro. cit. 367. 221 Alencar. aliás. porque. 224 Machado de Assis..l.

Na verdade. Joaquim Nor berto. recebida pronta e alicerçada em rica e absorvente tradição. tanto no que concerne ao aspecto estrutural. 2. porém em cuja elaboração não se esqueceu o aproveitamento de elementos populares nacionais. fazendo com que o gênero lograsse firmar. desenvolvida sob formas e temas peculiares. ou melhor. Machado de Assis crítico: sua doutrina estética. José de Alencar. 23. sua prática. de uma língua literária. Foi. a adaptação. no Brasil. logo evoluíram para um realismo. 5. Soares. A incorporação de assuntos brasileiros à sua temática. além disso. essas características nela se apresentam. criação e crítica literária marcharam a par. DURANTE O Romantismo. O desenvolvimento preferencial que deu à tendência realista do Romantismo. ressalta a contribuição de José de Alencar. Literatura da Fase Colonial. Início da historiografia literária. 3. já não apenas de observação e captação da realidade. uma tradição. ponto máximo. A CRÍTICA LITERÁRIA ROMÂNTICA Origens. os jovens reunidos na recém fundada Faculdade de Direito de São Paulo (182'ï) debatiam idéias e formulavam proposições já perfeitamente ao sabor das correntes que iriam corporificar-se .continuidade. a ponto de se alçar à categoria da mais importante novelística sul-americana. A criação de um estilo brasileiro. Definição de "escritor brasileiro". O Ideário crítico: sentimento da natureza. foi com êle que a ficção romântica atingiu o seu. Desde antes de 1830. Sociedades e Periódicos. mas de concepção e interpretação da vida. às peculiaridades nacionais. 4. segundo testemunho de João Salomé Queiroga 1. quanto ao temático. ou anteriormente adaptados. Ou tros críticos. Macedo. graças ao vigor e originalidade com que o escritor fixou na sua obra as inovações técnicas oferecidas pelo Romantismo e à permanência com que. Da consideração em conjunto da ficção romântica. diferentemente dos demais. nascidos de sua estética. Indianismo. por intermédio e pela influência de Alencar que o legado romântico se transmitiu aos romancistas posteriores. Problema da periodização. abreviando o seu próprio período de vida e permitindo a emancipação de escritores que. e do registro de seu resultado. A criação de uma técnica narrativa pelo exemplo de literaturas mais adiantadas. idéias da nacionalidade e originali dade: Santiago Nunes Ribeiro.

nas doutrinas poéticas e críticas do Romantismo. de motivos populares e em linguagem brasileira. e Afrânio Coutinho. servindo de embasamento à concepção da literatura brasileira e ao pensamento crítico a ela pertencente. poeta e crítico. Mas eram manifestações esporádicas. Liv. E que constituem. pp. senão também. V. Textos. embora considerando como portuguêses os escritores nascidos no Brasil por causa do vínculo . E quais as respostas que foram propostas? a) O Sentimento da Natureza.301 ser o nacional em literatura? Que deveriam fazer os escritores para tornar nacional a literatura a ser produzida no Brasil? Qual ou quais as fórmulas para a nacionalização da literatura? Quais as características nacionais da literatura brasileira. em 1828. Rio de Janeiro. A Tradição Afortunada. antologia de "poesias seletas de autores portuguêses antigos e modernos". porquanto muitas delas se prolongaram pelo Realismo. do seu Parnaso Lusitano. Em 1826. em São Paulo. José Olímpio. aos membros das academias do século XVIII e aos árcades. ou do caráter que devia assumir a literatura no Brasil para ser uma literatura nacional. em verdade. mesmo levando-se em conta os esboços de crítica devidos. Sua posição é de um doutrinador romântico. e não constituem um corpo de idéias literárias. 21-64. difundindo a nacionalização temática e lingüística da literatura no Brasil.O IDEÁRIO CRÌTICO O ponto de partida do ideário crítico romântico foi a busca do caráter brasileiro da literatura. em grande parte. se é que já as possuía? Que deveria ser uma estética brasileira? Essas as questões que pairavam no ar ou que se faziam nas rodas literárias ou nos artigos e manifestos da época. muitas em verso. no prefácio intitulado "Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguêsa". Estas só vieram a formar um sistema coerente e autônomo no Romantismo. I . onde se diplomou em 1837. Almeida Garrett. 1968.1878). nascido em Minas Gerais (Sêrro ou Ouro Prêto). Fundou e fêz parte da Sociedade Filomática. estudou direito em São Paulo e Olinda. do século XIX. Ver Castelo. pois. Que vinha a 1 João Salomé Queiroga (1810? . 3. I. com outros colegas. Foi um nacionalista convicto e exaltado. . A partir de 1830. desenvolveram-se as idéias literárias características não sòmente do Romantismo. Sua poesia é de intenção nacional. o início da crítica literária brasileira.

ou influência da natureza na poesia. como Gonzaga. tudo isso como locais de refúgio e sonho. o mar. Passaram os críticos e criadores literários a defender a necessidade de incorporar a natureza exterior brasileira à criação literária em ordem a tornála genuinamente brasileira. a paisagem.político ainda existente entre os dois povos no tempo a que se referia. quadros inteiramente europeus". o campo. em vez de se deixar levar. para "debuxar no Brasil cenas da Arcádia. o luar. op. os poetas daquém mar deveriam deixar-se influenciar pelo que havia de nôvo nas "majestosas" cenas da natureza brasileira. com a sua solidão e melancolia. expressões e estilo. A literatura . e daí lhes vem uma afetação e impropriedade que dá quebra em suas melhores qualidades. ou objeto de culto e contemplações. em vez da imitação dos antigos. Para ser originais. os astros. européias e americanas. procura fundir-se com ela. o céu. expressão que pegaria e seria muito tempo usada pelos brasileiros. O poeta identifica-se 2 Acêrca do problema da Natureza e do sentimento de Natureza na literatura ocidental. idéia que caracterizou o Pré-romantismo nas literaturas ocidentais. Os poetas novos. isto é. 302 com a natureza. as montanhas. É a doutrina resultante da entrada na crítica e criação literárias do século XVIII da "idéia de natureza" ou "sentimento de natureza". pintando "os seus painéis com as côres do país onde os situou". lamenta que os brasileiros não dessem o devido lugar na sua produção à natureza brasileira: Certo é que as majestosas e novas cenas da natureza naquela vasta região deviam ter dado a seus poetas mais originalidade. Essa sugestão de Garrett veio a tornar-se uma das teses centrais da doutrina literária romântica no Brasil: a nacionalidade literária confunde-se com a originalidade e esta decorre da adaptação da literatura à natureza local. as árvore. ama-a. da paisagem. os poetas deviam incorporar a natureza. Implícita nesse trecho era a tese de que o caráter original e nacional de uma literatura decorria da influência da natureza. do que nêles aparece: a educação européia apagou-lhes o espírito nacional: parece que receiam de se mostrar americanos. mais diferentes imagens. Aí estava a sugestão de que para ser mais originais. a floresta. deveriam antes preocupar-se em reproduzir a natureza. 2 Que o espírito nacional se confundia com a Natureza. mais "americanos". vive no seu seio. cit. descreve-a em verdadeiro êxtase. ver Afrânio Coutinho.

para ser verdadeiramente nacional. Garrett não foi ju:ito. Tavares Bastos. o lirismo já incorpora a natureza brasileira. e. Em todos os momentos por que passou o pensamento literário encontra-se explícita ou implícita a idéia da natureza brasileira incorporada à . mais que isso. E o Arcadismo foi a fase de transição. o índio e o gênio criador. consolidando-se o processo de definição da literatura nacional brasileira. adquirindo a côr local de sua caracterização nacional. José de Alencar. sob a égide do nacionalismo. Os árcades bebiam na natureza as sugestões para o lirismo. Com Cláudio Manuel da Costa. Justiniano José da Rocha. A própria fórmula da "poesia americana". Silva Alvarenga. até Machado de Assis na década 70 e Sílvio Romero na de 80.brasileira. os poetas árcades não haviam sido indiferentes à natureza brasileira. com Cláudio e Silva Alvarenga. inclui o sentimento . A individualidade criadora. 4 os "princípios ativos" de originalidade que marcariam a nacionalidade literária brasileira seriam: um céu (ou uma natureza). essa incorporação faz-se com uma nítida consciência crítica. em favor da autonomia literária e lingüística. Joaquim Norberto de Sousa e Silva. agora exacerbado. que é uma constante da poesia do século. como eram possuídos de consciência crítica a respeito do problema. a despeito de sua fidelidade à natureza arcádica. A década de 1830 é decisiva para o nacionalismo literário. E não só reproduziam a natureza.que meditaram e discutiram o problema da nacionalidade literária brasileira a idéia da natureza está subjacente. Pereira da Silva. Era a realidade americana brasileira que despontava para a poesia. Sousa Caldas. Antes do Romantismo. Tendolhes exprobado êsse defeito. Esses três elementos constituíram os pólos do pensamento crítico do Romantismo. ao contrário dos poetas do século XVII. No Romantismo porém essa incorporação obedece a um impulso consciente e coletivo. Basílio da Gama.literatura como expressão de independência. em todos os escritores . Para Gonçalves de Magalhães. contra Portugal.poetas ou ficcionistas . Santiago Nunes Ribeiro. Tomás Antônio Gonzaga. Gonçalves Dias Macedo Soares. tinha que olhar em tôrno e reproduzir a natureza "americana". 3 A preocupação com os motivos oferecidos pela natureza brasileira cresce progregsivamente a partir dos poetas arcádicos. Varnhagen. para quem a natureza só interessava pelo pitoresco. a natureza e a tradição indígena se harmonizariam nos críticos românticos. João Salomé Queiroga.

ao se confessar um leitor do "livro da natureza". como um dos aspectos por que se distinguem a nacionalidade e originalidade da literatura do Brasil. podem ser apontados nos eEcritos dos pensadores literários ao longo do século. a forma graciosa das suas flôres. o do início da literatura brasileira (periodização). a conscientização crítica do problema. 5 Para acentuá-lo. do problema da nacionalidade literária e o estabelecimento do divisor de águas entre a velha literatura geradora e o nôvo rebento ultramarino. cit. nas Cartas sôbre a Confederação dos Tamoios. basta rememorar o que diz Alencar. publicado na Niterói. Dois aspectos dividem o problema: de um lado. os conceitos da nacionalidade literária. 5 Para maiores minúcias.O presente capítulo é uma síntese dêsxe trabalho. quando. b) As idéias da nacionalidade e da originalidade. encontra-se o esfôrço por encontrar a nacionalidade para a literatura que se produzia no país. tem que refletir a luz 3 Ver sôbre isso Afrânio Coutinho. afirma que o poema. deveria "procurar o belo das coisas". 4 No "Discurso sôbre a história da Literatura no Brasil". as sugestões estéticas.303 e a beleza do país. a fim de ser brasileiro. . Há uma constante nesse pensamento. Será neste ponto examinado o primeiro dêles e adiante o segundo. Mas o problema da nacionalidade.de natureza. o da definição da nacionalidade literária. Era a busca do espírito brasileiro para estabelecer a fórmula que criaria a "literatura nacional". Revista Brasiliense (1836). Que é nacionalidade literária? Que devem fazer os escritores para tornar "nacional" a literatura que produzem? Questão complexa. teria de ser como "essa tela brilhante de uma natureza virgem e tão cheia de poesia". E definitivamente integrada na consciência crítica brasileira. do outro. ver Afrânio Coutinho. Foi estudado no item anterior a fórmula da incorporação da natureza. Constitui uma das respostas. Os caminhos seguidos. as côres. A Tradição Afortunada . estritamente ligado ao da . a que deram várias respostas os pensadores literários e críticos brasileiros. sutil e de máxima importância. que evolui gradativamente e coerentemente: a procura da definição acêrca. controversa. op. Através de todo o pensamento literário romântico.

Os artigos de Nunes Ribeiro saíram na Minerva Brasüiense. 24. Assim. Desta teoria decorre a periodização da literatura produzida no Brasil em "literatura colonial" e "literatura nacional". essa concepção extremista nega a possibilidade de existência de literatura brasileira. 1843. pela sua generalidade. e que revela sentir de modo perfeito o problema . Abreu e Lima e o português José da Gama e Castro. como a consciência brasileira se preocupava então com a nacionalização cultural. e de importância excepcional. paralela à independência política. 1842. op. independentes. a portuguêsa. Mas há outra teoria. "Os literatos são br Áeiros. toma 6 Sôbre o assunto. o nome da língua". porquanto são escritas na mesma língua que a portuguêsia e não há diferença de qualidade entre brasileiros e portuguêses. IV. periodização que foi adotada não só por hi3toriadores portuguêses como também por muitos brasileiros. 29 jan. no Rio de janeiro. cit. periódico publicado entre 1843 e 1845. fase. 1 e 2. Revela. Por isso. mas que até não pode ter existência possível". ()3 de Gama e Castro e outros vieram a lume no Jornal do Comércio.. para a qual a literatura escrita no Brasil é brasileira.originalidade. chileno de nascimento mas radicado no Brasil desde a infância. g A essência da polêmica é a tese. "enriquecida com as obras dos brasileiros". relativas às duas fases da evolução política brasileira. ver Afrânio Coutinho. de que as produções literárias dos brasileiros pertencem à literatura portuguêsa. a literatura da língua é uma só.. "a literatura não toma o nome da terra. defendida pelo jornalista luso. só existindo literatura nacional quando corresponde aos estados-nações. 19. Daí falar-se em literatura brasileira por hábito ou por vício ou por excesso de patriotismo: ". SANTIAGO NUNES RIBEIRO Nesta altura. porém a literatura que êles escreveram é portuguêsa". 21. vol. é a polêmica da Minerva Brasiliense. tese igual à de Garrett. É a doutrina que faz a literatura depender da política. foi o mais agudo problema intelectual do Romantismo. travada por Santiago Nunes Ribeiro. cap. I. Abrindo os debates.literatura brasileira é uma entidade que não só não tem existência real.. Rio de Janeiro. Para êle. tendo dado lugar a um permanente debate entre os escritores. . mas apenas na parte posterior à Independência política. aparece a figura dêsse escritor.

em companhia de um tio padre. mostra ser necessário identificar-se os predicamentos . alinha a influência do clima e do meio social. de um centro.do ponto de vista brasileiro. modificadas umas pelas outras". embora falem a mesma língua. Para isso. Em primeiro lugar. dimanente dessas diversas causas. mesmo se escritas nas línguas européias. de um foco de vida social". pertenceu ao Instituto Geográfico e Histórico. se tem caráter nacional baseado (*) Santiago Nunes Ribeiro. mas com respeito ao princípio íntimo que as anima. a sem-razão dos que identificam literatura e língua. aprofundando-se no estudo das línguas e letras. nascido no Chile. Em dois artigos sôbre "Da Nacionalidade da Literatura Brasileira". fêz as humanidades. e que podem ser muito diferentes entre alguns povos. usos e costumes próprios. da inteligência social de um povo ou de uma época. di~cutiu êle as teses defendidas por Gama e Castro. isto é. de Retórica e Poética. "um modo próprio de sentir. de um sistema. exemplificando com inúmeros casos em que duas literaturas diferentes se escrevem numa mesma língua (quatro literaturas em língua inglêsa). Prova. terá uma produção intelectual própria. Sua argumènt4ção lücida é ainda atual como doutrina sôbre o assunto. isto é. do caráter. do Pedro II. . veio muito môço para o Brasil. em seguida. e às tendências que as distinguem. dos costumes e hábitos peculiares a um certo numero de homens. à idéia que preside aos trabalhos intelectuais de um povo.305 em instituições. das criações. que anima. E conclui que a classificação das literaturas deve ser feita não em relação às línguas. conceber. depois. Se o povo tem uma índole especial. Fundou e dirigiu a Minerva Brasiliense. do sentimento. exilado político. E continua: B. Não acredita possível que as condições sociais e o clima do Nôvo Mundo não modificassem as obras escritas aqui.ste princípio literário e artístico é o resultado das influências. sabendo-se quão influenciáveis são até os organismos vivos. Foi professor particular e. A literatura é a expressão da índole. que estão em certas e determinadas relações. refutando-as cabalmente em nome da nacionalidade da literatura brasileira e sua expressão autônoma e original. contesta' a idéia da classificação das literaturas pelas línguas em que se escrevem. Ao lado dêsses fatôres. Prefere a divisão que atenda "ao eopírito. Foi empregado no comércio.

Imitativa é tôda literatura. em Paris. de poderosa influência na literatura popular. Daí que os poetas daquela época pintassem a natureza doutra maneira pois a sociedade não os entenderia. E afirma que não se deve reduzir à consideração dos aspectos exteriores da arte. não sendo "lícito exigir de um século aquilo que êle não pode dar". Sua teoria está em consonância com a de Mennechet. de que se acusam os poetas dos tempos coloniais. Em suma. quando em congresso em 1843. numa posição equilibrada para falar da influência do meio físico ' e geográfico. à intimidade". mas sobretudo "ao sentido oculto. E o faz através de três partes: a refutação da tese da imitação da literatura brasileira. para êle. reivindica um sistema de periodização independente da evolução política. leis e história do povo que o habita. aliás. Coloca-se. Igual símile nos . Nunes Ribeiro. e o uso da mitologia. do caráter. "expressão da índole. costumes. não podemos deixar de sentir o eco das palavras de Nunes Ribeiro quando realça o "sentido oculto" ou a "intimidade" do fenômeno. pois ela foi "o que devia ser". a diferenciação brasileira deu. 306 Ao ler em Machado de Assis. lugar a uma literatura própria. no ensaio sôbre "Instinto de Nacionalidade". da inteligência social" de um povo que se diferenciou através dos séculos. merece lugar de relêvo na história da crítica e das idéias literárias brasileiras.peculiares e os traços característicos que as diferençam entre si. E com agudo senso do problema. de 1873. Salienta a peculiaridade nacional da literatura anterior à Independência. é também encontradiço nos posteriores à Independência. antes atendendo "às evoluções íntimas da literatura" e ao princípio que as determina. uma tentativa de periodização da literatura brasileira. sob a nova ambiência geográfica e os novos hábitos sociais. É uma antecipação das modernas tendências periodológicas de sentido pròpriamente literário. pensa que a literatura brasileira começou com Anchieta. De referência à periodização. um paralelo entre poetas portuguêses e brasileiros. pela justeza e segurança de sua doutrinação. referência ao "sentimento íntimo" como a marca essencial da nacionalidade literária. afirmou que A literatura é nacional quando está em harmonia perfeita com a natureza e clima do país e ao mesmo tempo com a religião.

crítico e historiador literário. enriquecidas de estudos biográficos e históricos. biografias de Bento Teixeira. reconhece a nacionalidade da literatura brasileira. Laurindo Rabelo. ou ainda com as de José Osório de Oliveira ao afirmar a existência de um "estilo de vida nacional e social". e falecido em Niterói. com alguns dos quais discutiu o problema da nacionalidade e originalidade. da inspiração que a Natureza oferece aos poetas. Casimiro de Abreu. Afirma.é licito encontrar entre suas expressões e as de Mário de Andrade sôbre o "caráter psicológico" que deve exibir a literatura nacional. sua condição de literatura própria. ? Assim. Os críticos românticos estabeleceram os alicerces dessa compreensão. membro e presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. etc. funcionário público. e pôs em grande destaque a contribuição indígena. que o Brasil ainda não era uma nação polìticamente independente e já o era pela sua literatura. poeta. erudição e história literária. romancista. Teixeira e Souza. Mas o que releva sobretudo as-?inalar é a sua tomada de posição nítida em favor da caracterização da literatura brasileira. destacam-se as edições de diversos escritores. Publicou uma série de edições de escritores brasileiros. a sua existência antes da Independência. estudando a tendência dos selvagens para a poesia. de uma parte. Cláudio Manuel da Costa. nascido no Rio de Janeiro. constituem fonte obrigatória de consulta. o seu início no século XVI. Em colaborações na Regista Popular deu comêço à publicação dos capítulos da história. JOAQUIbI NORBERTO DE SOUSA E SILVA É o caso dêsse crítico e historiador literário. na qual estabelecia critérios de periodização e determinava. Planejou uma história da literatura brasileira. na Minerva Brasiliense (1843) e na Revista do Instituto Histórico e Geográfico (tomo 16) publicou alguns capítulos de uma projetada história da literatura . Na Revista Popular (1862). o que significa a separação Joaquim Norberto de Sousa e Silva (1820 . È valiosa a sua contribuição à literatura brasileira. Tudo isso demonstra que houve uma continuidade e coerência na evolução do pensamento crítico brasileiro em relação à idéia de nacionalidade. então. em especial no terreno da crítica. ainda hoje. por cujos trabalhos extremamente meritórios merece o maior acatamento. sua qualificação nacional.1891). que. memórias e estudos da literatura brasileira. de outra. De sua vasta produção.

o testemunho de suas inspirações. Ver ainda Afrânio Coutinho. entre nacionalidade literária e nacionalidade política. a voz da inteligência de qualquer povo. caráter. A língua não é mais do que o instrumento para traduzir o pensamento. Paula Meneses. a doutrina da nacionalidade literária. quer marche em progresso. pensamento de extrema coragem e novidade na época (1859) e ainda atualmente. analisa o cultismo. Nunes Ribeiro e Joaquim Norberto foram os principais artífices dessa doutrina. religião. Revista Popular. de acôrdo com os seus usos. Era a fixação da noção da autonomia e nacionalidade da literatura brasileira . cit. Gonçalves Dias. Em 1848. no prefácio às Sextilhas de Frei Antão. atinge o seu têrmo em 1860. quer em decadência. 7 "Introdução Histórica". estuda o teatro jesuítico. iniciada em 1840. provenientes de seu caráter. Para os brasileiros é ela mais que líquida". historia o movimento nativista. mas sim a expressão. Trata ainda do problema da periodização. que.brasileira. pp. revida a teoria da identificação da língua e literatura como critério classificatório das literaturas. nos quais estudou os problemas da nacionalidade e originalidade. chega a asseverar que é a nacionalidade literária que prepara a política. reitera (em 1860) a tese de Nunes Ribeiro sôbre a existência da nacionalidade literária. o espelho de suas tendências. o representante do espírito de suas diversas épocas. Identificavam-se no seu pensamento as idéias da origem remota da literatura brasileira e da sua nacionalidade desde o início da colonização. coloca em têrmos definitivos a tese brasileira: . costumes. através do processo de diferenciação cedo operado na consciência do povo. instituiçõesy fisionomia do país. como um índice da :. Destarte. tomo 4. a influência dos indígenas. op. e de sua religião.reparação espiritual e social dos dois povos. de suas leis. pois não são as literaturas a representação ou símbolos das línguas. E cònclui: "Passe em cresto a questão da nacionalidade da nossa literatura. $ o mesmo pensamento de Nunes Ribeiro: "A identidade da língua não pode pôr em dúvida a nacionalidade de suas literaturas". Outro escritor da época. bem precoce na história brasileira. 357-358. Para mostrar a diferenciação que houve entre os dois povos desde o início da colonização. continuados por todos os demais críticos românticos. a literatura do século XVII. é moldado pela inteligência. leis. por sua vez. usos.

o que tornou o indianismo um movimento verdadeiramente nativo. A êsse indianismo exterior e pitoresco opôs-se uma reação vigorosa. da tecnologia e cosmologia indígena. assim. seus costumes. a primeira manifestação indianista no Romantismo. mas semelhantes a parecidas. A literatura deveria. aliás. Para ilustrá-lo.índio é tema literário. do Realismo. que descendem de um mesmo tronco. Ao procurar a fórmula para dar expressão literária à nacionalidade e à originalidade da literatura brasileira. quer sob a égide do Romantismo. suas lendas. com diverso gôsto. Depois dêle. O indianismo. o . dos trajos. com outro porte e graça diferente. o índio. embora os trajem por diversa maneira. o representante legítimo da nova civilização. já caracterizada. nasceu com a própria civilização brasileira. Era o verdadeiro brasileiro. aliás. primeiro habitante e proprietário da terra. ao uso do vocabulário indígena. ou afinal do Modernismo. 8 Mas foi Gonçalves Dias quem melhor utilizou o tema indianista na poesia fundindo-o com o sentimento da natureza brauileira. suas tendências líricas. c) Indianismo. segundo uma maneira puramente descritiva. seria o ideal que melhor encarnaria o brasileiro típico. e realmente o verdadeiro intérprete da "originalidade das formas nacionais". na "Nênia" (1837). pois o índio era parte da natureza local. Era uma forma de incorporação do sentimento da natureza. iniciada com as "poesias americanas" doy Primeiros Cantos (1846) de Gonçalves Dias (1823-1864). como irmãs. todos os críticos brasileiros sustentam a mesma teoria. com ser objeto de catequese. Já em Anchieta. basta relembrar as teorias de José de Alencar. sem o sentimento e a autenticidade necessárias. dos utensílios. .As literaturas brasileira e portuguêsa hão de ser duas. o pensamento literário do Romantismo foi levado à idéia do Indianismo. A princípio Lse "indianismo" reduziu-se ao pitoresco. O índio. A busca da originalidade brasileira não podia ser melhor atendida senão com a introdução na literatura daquilo que a civilização americana oferecia de mais peculiar. Na imaginação do europeu. o índio e a terra americana identificavam-se. incorporá-lo com a sua cosmoviyão peculiar. Machado de Assis e Mário de Andrade. de Firmino Rodrigues Silva (18151879). e que trajam os mesmos vestidos.

e C<zramuru (1781) .a do sentimento da .No século XVIII. o indianismo forma uma linha constante nas letras brasileiras. . São Paulo. como o sertanismo. conjugando na sua obra teórica os debates críticos em tôrno das idéias literárias que apaixonavam os espíritos . Araújo Pôrto-Alegre. Fagundes Varela. até reaparecer mais tarde sob a égide do Modernismo. Para o Romantismo. 44. Os Primeiros Cantos (1846) constituíram a sua primeira grande expressão literária. e. 1965. o indianismo foi a realização legítima da nacionalidade na literatura brasileira. No Romantismo. o caboclismo. Seguiram-se-lhes obras de Teixeira e Souza. os românticos colocaram a exaltação mítica do índio. de Santa Rita Durão. Uma série de obras indianistas marca. Bernardo Guimarães. ainda reencontramos o tema em Araripe Júnior e Olavo Bilac. Apóia o ponto de vista de Gonçalves de Magalhães sôbre a necessidade de se recolherem as manifestaçôes poéticas dos indígenas. costumes. p. Gonçalves de Magalhães.. foram incorporados à literatura desde então. que encerrou a fila em 18'75 com as Americanas. Daí em diante. o regionalismo. Concepção de vida. de 1837. em poesia e ficção. op. cit. Luís Guimarães. de Basílio da Gama. a sua poetização e idealização como personagem e motivo literário. a evolução do tema desde a "Nênia" de Firmino Rodrigues Silva. Oriundo das próprias raízes da nacionalidade. Ganhou com isso a tradição india nista brasileira uma dimensão nova. Mas no Realismo e Parna:danismo. cosmogonia. No pensamento crítico. Machado de Assis. aparece desde 1843 em artigo de Joaquim Norberto na Minerva Brasiliense. torna-se um estímulo interno sobremodo forte. Também em Ferdinand Dénis há idêntica sugestão. tanto no pensamento dos críticos como "na realização" de poetas e ficcionistas. ideais. máxime atingido o auge durante o Romantismo. Ao lado dessa preocupação com o gôsto do índio pela poesia. características da vida 8 Sôbre o assunto ver: Afrânio Coutinho. Nos meados do século. transformando-se em outros tantos movimentos centrífugos. a teoria do "bon sauvage" e da bondade natu ral de Rousseau deu ao americanismo um sentido de _ exaltação da terra e do personagem nativo. e Péricles Eugênio da Silva Ramos. Joaquim Norberto. Junqueira Freire. Poesia Romântica. de que são expressões os livros Uraguai (1761) . Couto de Magalhães. o indianismo penetrou mui precocemente. gostos. José de Alencar. Melhoramentos.309 indígena. com os grupos da Anta e do Antropófagismo.

1859 (rom.9 Compara o uso da natureza nos poetas norte-americanos e brasileiros. Aderaldo Castelo. que assim oferecem interêsse relevante para a história da crítica e idéias literárias do Romantismo. Condena as formas de cosmopolitismo. a nacionalidade era a palavra mágica que apaixonava intelectuais e homens de estado. A sua produção critica foi dispersa pelos jornais do tempo: Revista Mensal do Ensaio Filosófico Paulistano. deputado provincial. Correio Mercantil. chefiada por Gonçalves Dias. de maneira equilibrada. J. Lamartinianas. contudo. a da nacionalidade e originalidade e a do indianismo. Coleção Textos e Documentos. MACEDO SOARES Pela segurança e justeza do pensamento.). embora "com mais fogo.natureza. RJ. bem como o byronismo de Alvares de Azevedo. sustenta as idéias da nacionalidade literária e do sentimento da natureza.). com mais brilhante imaginação. Bittencourt Sampaio e Gonçalves Dias. e pensa que há um defeito nos últimos: o de se deixar ficar pela rama. Pertenceu ao grupo da sociedade Ensaio Filosófico Paulistano. na exterioridade. sem extremismos. A propósito de Teixeira de Melo. . magistrado. mais sentimentalismo". São Paulo. 1869 (poes. Para êle. em Gonçalves de Magalhães. Com integrar-se no conjunto de idéias defendidas pelos críticos românticos. Bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo. as de José de Alencar e Macedo Soares. Revista Popular. Bibliografia: Harmonias Brasileiras. 1905).). Corroo Paulirtano. O pensamento clássico e estrangeiro foi derrotado pela inspiração da selva (a) Antônio Joaquim de Macedo Soares (Maricá. Comissão Estadual de Cultura. Diversos ensaios seus estão hoje reunidos em: Textos que interessam d história do Romantismo. em ensaios de extrema argúcia. Org.Rio de Janeiro. 1889 (posa. pela coerência de princípios. . pela lucidez de idéias.. Macedo Soares merece lugar de destaque na história da crítica brasileira. 1838 . em oposição aos "brilhantes resultados da escola nacional". Concorda em que a nacionalização era uma necessidade "em tôdas as ordens de conhecimento". Nininha.). 1859 (poes. 1960 e 1963. 310 brasileira e pela fôrça da tradição indiana. Meditações. estas duas obras são antologias de diversos poetas. êle o fazia. 2 vols.duas grandes figuras se impõem pela elevação e segurança doutrinária.

Acredita que a causa disso é a "maneira errada por que tem sido compreendido o nacionalismo na arte", porquanto "tem-se feito dêsse caráter de tôda verdadeira poesia um sistema, quando não devia ser senão uma condição local, necessária embora, de sua projeção no espaço e no tempo". Em Gonçalves Dias mesmo êle aponta o defeito no excesso de imagens e na profusão de côres e ornatos, que "obscurecem a marcha da idéia no seu desenvolvimento lógico", ou "prejudica ao fundo da ação épica". Para êle, não se pode separar a originalidade da nacionalidade. Combate o cosmopolitismo porque não se funda na imaginação popular, nas crenças e tradições, nas côres locais. Pensa que "ser nacional, isto é, de seu século e país, equivale a ter feições próprias suas, um caráter distinto e peculiar, uma fisionomia original"; e que "não é nacional a literatura que não distingue um povo na comunhão dos outros povos". Mas pergunta qual o caráter dessa "originalidade das formas nacionais", que é, a seu ver, o "assunto vital, questão de ser ou não ser da poesia brasileira". A propósito, diverge dos que anteriormente haviam discutido a questão, os quais teriam sido levados a exageros tais como o uso de vocabulário tirado aos dialetos indígenas. Resultou uma poesia ininteligível, meramente descritiva de usos e utensílios indígenas, "tudo exterior, tudo falso e descorado, sem a luz do sentimento". Afirma que "a nacionalidade não podia estar nas palavras" e que a Gonçalves Dias é que se deveu a reação justa num indianismo e numa representação da natureza que, apesar de certos excessos, não permaneceram no puro pitoresco, alçando-se ao plano das idéias, da interpretação, do símbolo. Vê-se, pois, como Macedo Soares acompanhava, não sem originalidade, a marcha do pensamento nacionalista, procurando, como os seus companheiros, caracterizar a idéia da nacionalidade em literatura. Em 1860, afirma que "ainda não estão firmemente assentadas, creio eu, as bases da nacionalidade literária". Sua posição era a favor da idéia, mas sem ser "de maneira muito exclusiva", como diz a propósito de Gonçalves Dias. Em 1873, Machado de Assis desenvolve de modo definitivo as idéias que estão em germe no pensamento equilibrado de Macedo Soares. E a despeito das restrições, considera que "as Poesias Americanas foram a pedra angular da poesia nacional". 9 Ver Textos que Interessam d História do Romantismo, vol. II, pp. 83-4. Ver também Afrânio Coutinho, op. cit. JOSÉ DE ALENCAR

A posição de Alencar (1829-1877) é da maior importância para a crítica brasileira. Escritor consciente, quanto à teoria literária, tendo feito a sua formação, como êle mesmo relata em Como e Porque sou Romancista, na leitura e meditação dos grandes doutrinadorei literários antigos e modernos, e na observação da prática dos criadores nos diversos gêneros, formou para si uma concepção acêrca do fenômeno literário, que procurou aplicar não só em suas obras de imaginação, mas também na discussão teórica através de polêmicas, prefácios, ensaios, em grande parte na defesa de sua própria produção. Em três grandes polêmicas: sôbre a Confederação dos Tambios de Gonçalves de Magalhães; com Franklin Távora e J. Feliciano de Castilho; e com Joaquim Nabuco, além de em uma série de ensaios está a sua obra crítica e doutrinária. A primeira manifestação é a polêmica em 1856 em tôrno de A Confederação dos Tamoios, poema épico indianista, estampado por Gonçalves de Magalhães, então o chefe incontestado da literatura brasileira, inclusive com apoio do Imperador D. Pedro II. Em uma série de cartas, publicadas na imprensa, sob o pseudônimo de Ia., Alencar submete o poema a uma severa análise, tanto mais audaciosa quanto partida de um jovem sem qualquer nomeada, iniciando timidamente a carreira literária. A justeza das críticas mostrou o malôgro da tentativa de Magalhães. Discute pontos técnicos de gramática, m