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Do Bom Uso Dos Mitos

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Published by: Daniel Reinoldo Priester on Jun 20, 2013
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DO BOM USO DOS MITOS

À margem da vaidade literária – que em meu voluntário exílio da poesia já não pode existir senão, em essência, como uma nostálgica rememoração de outros tempos –, a publicação pela Alcor dos meus poemas inspirados no mito da criação e destruição do mundo dos Apapokuva-Guarani, deparou-me a satisfação de mui distinta ordem: a de descubrir que, depois de mais de duas décadas, aqueles rascunhados exercícios poéticos serviram, no mínimo, como pretexto para demonstrar os avanços que se estão operando em nossa atividade cultural; neste caso, nos marcos da linguística, da literatura e da etnologia, três disciplinas estreitamente vinculadas entre si no campo das ciências humanas e sociais. Os respectivos prólogos do padre Bartolomeu Meliá, de Rubén Bareiro Saguier e Miguel Ángel Fernández demonstram esta atitude crítica e científica em três enfoques formulados desde ângulos diferentes. Não me refiro, é claro, ao entusiasmo com que os dois últimos elogiam os “méritos” – estes sim discutíveis – de ditos poemas, mas ao critério que postulam para um legítimo aproveitamento por parte de nossa literatura “culta” deste precioso canteiro da tradição oral e mística de nossas culturas chamadas primitivas. Em outras palavras, a necessidade do bom uso dos mitos que é como intitula o padre Meliá seu ensaio crítico.

O espelho partido
Sem esta parte em sombra do mundo e da cultura do índio, que ficou integrada e estruturada na realidade global do país, esta sofreu um falseamento e uma mutilação dos que até agora se ressentem profundamente. Em lugar disso, o mundo indígena foi submetido a um multissecular processo de desintegração. Não só foram destruídos os fundamentos de sua civilização material. Também os relacionamentos de sua cultura. Como explica Bareiro Saguier: “os novos cruzados da „civilização ocidental e cristão‟ tiveram o cuidado de marginalizar, sistematicamente, a produção literária – mítica, ritual, religiosa – para conseguir mais eficazmente a substituição cultural e naturalmente a exploração econômica”. Quem perdeu fomos nós, os “civilizados”, que nos jactamos sem dúvida de nossos valores “autóctones” e renegamos as normas “estrangeiras” ao mesmo tempo em que nos valemos delas para negar e destruir estes valores de nossa “autoctonia” cultural. Há, pois, uma tripla situação de falsidade, injustiça e desequilíbrio humano social e cultural. Reconhecê-lo é já uma maneira de fazer um bom uso dos mitos. Uma sociedade primitica apresenta uma situação global de grande consistência, mas muito vulnerável aos choques de fora – dizia o padre Meliá em outro escrito –. Como um espelho fácil de partir a imagem única se reparte em mil cacos que já nunca encontrarão sua consistência interna. É assim que encontramos tantos índios dispersos na geografia paraguaia vagabundos, enfermos, desavergonhados e atemorizados: são fragmentos do espelho partido e o espelho não voltará a refletir uma verdadeira cultura, porque os seus homens foram desumanizados. Isso, por desgraça, é uma carga irrecusável. Os novos “cruzados da civilização ocidental e cristã” temos destruído e expropriado as terras e a cultura do índio. Temos confiscado seus mitos extraindo-os e isolando-os de seu contexto sistemático, de uma parte. De outra, temos fabricado por nossa conta falsos mitos; temos mitificado e mistificado a realidade à imagem dos nossos interesses e conveniências “culturais” como quem fabrica um colar não com resíduos do estalido de algum mito autêntico, mas sim com a simples justaposição de elementos parasitas segregados por uma imaginação impura.

Deste modo. esta intuição antropológica de uma conotação idealista. nesse charlatanismo metafórico que acabamos por confundir com o exercício da poesia mistificando falsos mitos individuais com as falsas palavras do “civilizado”.). de vida e verdade surgido das nebulosas do espírito primigênio? Mito e literatura Em seu comentário crítico – que conceituo como um excelente modelo de análise estrutural – àqueles poemas que se inspiraram no mito do Gênesis e do Juízo Final dos Apapokuva-Guarani... simultaneamente. com este deslumbrante universo de poesia. Coisa que não ocorre com o pensamento mítico. em que a morte indígena “virá por incoerência. com verdade. se inscreve em um sistema de significações que não é já o das tribos guaranis. lamentando-nos às vezes com lágrimas de crocodilo comedor de mariposas. Sem dúvida.Fernández.” Os mitos significam – agrega citando Lévi-Strauss – o espírito que os elabora através do mundo do qual faz parte ele mesmo.Deste modo não estamos em condições – o que poderia chamar-se o estado de graça do natural – para conceber “a consciência mítica como estrutura do ser no mundo”. com o pensamento selvagem. para situá-la ao contrário como núcleo de uma complexa constelação de estruturas significativas no movimento da sociedade e da história. de-sistematizar um mito. depois de uma enfermidade de imprecisão nos costumes”. em monstros de uma “culturologia” canibal. a separação e incomunicação das culturas – a guarani e a paraguaia – têm sido também advertidas criticamente por M. quando ao analizar o poema a nível etiológico agrega. “que faz parte dele”. mas o de uma nova esfera cultural”. Isso despoja. Nos previne sobre o perigo de des-mitologizar. Vivência do mito A impossibilidade de traduzir o mito. Não podemos assim.nos tranquiliza Lévi-Strauss. . ainda a recordação idealizada pelo subconsciente coletivo em que cristalizam as experiências reais e imaginárias da espécie como formas da consciência mítica. Em uma sociedade alienada também a linguagem está alienada. desmitificar o cúmulo de falsidades que convertem a essência do ser no nas aparências do parecer: esta disjunção traiçoeira que aceita em todo o momento o pensamento antropocêntrico. de dissolver seu profundo significado em literatura. Estaria por aqui a brecha de escape no corredor sem saída? Só o mal uso das palavras pode nos prender na irrealidade. os mundos originados pelo sopro do espírito “civilizado”. Neste elemento sintagmático “o espírito que é sua causa” está significada a integração dialética entre o mundo e o espírito. As palavras não servem mais que para esconder os fatos. podemos acaso comparar siquer as “criações” de nossa cultura branca. “O mito – nos diz o padre Meliá – se desenvolve como um sistema de transformações que fazem passar da natureza à cultura. o padre Meliá nos dá aos literatos uma lição inteligente e sensível sobre os riscos de percorrer um caminho calçado unicamente de boas intenções. “o mito está na linguagem e ao mesmo tempo além da linguagem”. os mesmos mitos pelo espírito que é sua causa. os mitos podem engendrar “uma imagem do mundo inscrita já na arquitetura do espírito”. A. e pelos mitos uma imagem do mundo inscrita já na arquitetura do espírito... que apesar de apoiar-se “em alguns elementos nuclearesdos mitos aborígenes (. neste ocaso de sua longa agonia. por completo. para institucionalizar as mentiras mais flagrantes: nos vão convertendo a todos em malfeitores e cúmplices. Assim podem ser engendrados. que descreve Miguel Ángel Fernández citando Gusdorf. Mas ainda assim. nem talvez o queiramos.

para uma leitura da realidade? Recordo a propósito. a forjar a ferramenta de um saber crít ico que se constitui criticando-se a si mesmo. Uma sociedade enferma. também a cultura dos paraguaios. O pensamento simplesmente denotativo é incapaz de compreendê-lo. uma regressão à matriz atemporal da fábula. As coisas tem um significado na medida em que existem. assim como o fizeram a etnologia e a etnografia. de uma perpétua cólica moral.. quando as sociedades já não suportam a pressão dos fatores que as desintegram e desumanizam. E aqui o bom uso dos mitos volta a mostrar sua função libertadora. nossa literatura. O bom uso dos mitos nos ajudará a fazer uso da linguagem. em um primeiro momento e que. pensando: “Mba‟eve. Barthes aponta. Uma adivinhação Em que contribui nossa cultura. o presente e o futuro na magnitude de um tempo vivente no qual o indivíduo e a sociedade podem intuir em um relâmpago o secreto de sua identidade e colocar-se sua interrogações fundamentais. Vivemos com as torturas de uma má consciência. Logo vem a palavra que trai as coisas e o pensamento. está igualmente ferida de morte. imprevisível e delirante. de captar as coisas. E as trai. a quem os indígenas culpam por sua destruição social e cultural. seria então aquela cujos males psíquicos são o produto de diversas censuras e repressões que aniquilam todos os seus símbolos.Saber ler a realidade Eis aqui a utilidade do bom uso dos mitos: ensinar-nos a ler corretamente a realidade. Esta leitura da realidade por meio do mito não é. Só pode escapar às vezes pela ação. antes de ter engendrado seus mitos fundamentais? O exagero das mariposas nos causou indigestão.. como muitos crêem. então. Logo que ouvi que o velho emboscadeño propunha uma adivinhação: “Mba‟epa umi omanova ho‟uva. Os elementos do mito. suas unidades constitutivas. e então a vontade do que enfrenta a fatalidade do destino.. o velho rompeu o silêncio em que todos ficáramos. a propósito. se expressa em fatos ou em uma linguagem que tem a força dos feitos da palavra em ato. uma fuga ao passado. E neste triângulo de falsidades. a ciência dos signos na vida social. viva e morta a um tempo. segundo a charada daquele platônico ancião de Emboscada. “Nada se assemelha mais ao pensamento mítico que a ideologia política” – disse Lévi-Strauss. que a maior parte dos bloqueios neuróticos são problemas de simbolização. Aipó la nada ndayé. Era um caso sério e um destes “casos rei” dos velórios: o que era o que comiam os mortos e que se os vivos comessem os matava. podem ajudar-nosa construir modelos que sirvam para explicar o funcionamento de outros sistemas ideológicos. quando era menino. há oikovena ho‟uro oyukava ichuyé?”.”. Um bom tempo depois. Termino por pensar que este é o alimento tradicional de nossa cultura. leva a identificar a palavra e a ação. toda a realidade. disse o velho por fim e ficou calado. ter escutado um velho que contava histórias em um velório de Emboscada. nos sistemas visíveis e invisíveis que a significam e a fazem inteligível como um feixe de múltiplos relacionamentos. Quando nossos antigos camponeses livres não . tal como o demonstra precisamente a função simbólica da linguagem. Esta capacidade de uma “leitura simbólica” a todos os níveis da realidade permite integrar o passado. Sua cura se produzirá assim que se logre reestabelecer nela a função simbólica. a terminar com as traições e pretextos do pensamento “civilizado”. por definição. o homem caminha de costas para a realidade. Era um desses plácidos velórios de nosso campo e o velhinho um destes típicos depositários da “memória tribal”. neurotizada.. o refúgio em uma imobilidade fetal. Mas. adaptando os modelos da linguística e da semiologia que é. em última instância.

PREFERIMIENTOS isolados. Acumulações desordenadas. É a que nos impõe o bom uso dos mitos desmitificando os falsos: estes mitos genuínos que. que fazemos os homens cultos por encontrar as chaves verdadeiras de nossa sociedade e nossa história? Pouco ou nada. Improvisações. nos permitem o honrado exercício de nosso espírito. . desestruturado de nossa culturano qual nos movemos como sonâmbulos. da desgraça à resignação. Balbucios. Que fazemos por encontrar o sentido profundo deste mundo entumescido. que se reabsovem em si mesmos e que não significam nada porque não se inscrevem em um sentido coerente nem correspondem à pertença de nossa vida histórica e social. E assim encontrar-nos a nós mesmos. como bem o disse o padre Meliá. os braços e os olhos erguidos como que a espera de alguma revelação messiânica? Esta é a pergunta que nos questiona a todos por igual.estão muito melhor que nossos indígenas condenados a migrar da desconfiança à desesperança.

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