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JD - O Cavaleiro Da Armadura Brilhante

JD - O Cavaleiro Da Armadura Brilhante

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  • CAPÍTULO 2
  • CAPÍTULO 3
  • CAPÍTULO 4
  • CAPÍTULO 5
  • CAPÍTULO 6
  • CAPÍTULO 7
  • CAPÍTULO 8
  • CAPÍTULO 9
  • CAPÍTULO 10
  • CAPÍTULO 11
  • CAPÍTULO 12
  • CAPÍTULO 13
  • CAPÍTULO 14
  • CAPÍTULO 15
  • CAPÍTULO 16
  • CAPÍTULO 17
  • CAPÍTULO 18
  • CAPÍTULO 19
  • CAPÍTULO 20
  • CAPÍTULO 21

O CAVALEIRO DA ARMADURA BRILHANTE

Título original: A Knight in Shining Armor

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Prólogo
Inglaterra, 1564
Nicholas estava tratando de concentrar-se na carta que escrevia a sua mãe, uma carta que, provavelmente, era o documento mais importante que jamais tinha escrito. Tudo dependia desta carta, sua honra, seus bens, o futuro de sua família e sua vida. No entanto, enquanto a escrevia, começou a ouvir algo. A princípio suavemente, mas depois cada vez com maior intensidade. Era o pranto de uma mulher, mas não um pranto de dor ou aflição, senão de algo mais profundo. Voltou a prestar atenção à carta, mas não pôde concentrar-se. A mulher precisava de algo, mas ele não sabia o que. Consolo? Alívio? Não, pensou, precisa de esperança. As lágrimas, o pranto, eram os de uma pessoa que já não tinha esperança. Nicholas voltou a olhar o papel. Os problemas da mulher não lhe concerniam. Se não terminasse essa carta e a entregasse rápido ao mensageiro que estava esperando, sua própria vida não teria esperança. Escreveu mais duas linhas e se deteve. O pranto da mulher aumentava. Não era forte, mas parecia aumentar em quantidade até encher a habitação. — Senhora — murmurou—deixe-me em paz. Daria minha vida para ajudá-la, mas está comprometida. Tomou a pluma e escreveu, com uma mão sobre seu ouvido, tratando de não ouvir o desespero da mulher.

CAPÍTULO I
Inglaterra, 1988
Dougless Montgomery se sentou no assento detrás do carro; Robert e Glória, sua filha gorducha de treze anos, adiante. Como sempre Glória estava comendo. Dougless colocou suas delgadas pernas ao lado da bagagem da moça para estar mais cômoda. Tinha seis malas grandes e custosas com os pertences de Glória e como não cabiam no portamalas do carro alugado, iam empilhadas na parte traseira junto a Dougless. — Papai — se queixou Glória como um menino enfermo de quatro anos — ela está raspando as malas tão bonitas que o senhor me comprou. Dougless apertou os punhos, fincando as unhas nas palmas. Ela. Nunca a chamava pelo nome. Só ela. Robert a olhou pelo seu ombro; só se via o cabelo castanho. — Acho que poderia ser mais cuidadosa. — Não raspei nada. Estou bastante incômoda sentada aqui. Não há muito espaço. Robert suspirou fastidiosamente. — Dougless, tem que se queixar por tudo? Nem sequer pode desfrutar as férias? Ela conteve seu enfado, e depois passou a mão pelo estômago. Doía-lhe outra vez.

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Nem sequer se atreveu a pedir-lhe a Robert que se detivesse para beber algo e assim poder tomar um Almax para acalmar o transtorno. Levantou os olhos e viu a Glória sorrindo-lhe zombando-a através do espelho. Desviou os olhos e tratou de concentrar-se na beleza da campina inglesa. Tinha campos verdes, antigas cercas de pedra, vacas e mais vacas, pequenas casas pitorescas, magnificas mansões e... E Glória, pensou. Glória em todas partes. Robert continuou dizendo. — É só uma menina e sua mãe a abandonou. Tem um pouco de consideração. Na verdade, é uma menina doce. ‘Uma menina doce’. Aos treze anos, Glória levava mais maquiagem do que ela aos vinte e seis, e passava horas no banho do hotel. A menina se sentou no assento dianteiro do carro. ‘É só uma menina e é sua primeira viagem a Inglaterra. ’ Se imaginava que Dougless devia ler os mapas e seguir as indicações, mas que quase não pudesse ver com a cabeça de Glória parecia não importar muito.Tratou de concentrar-se na paisagem. Robert afirmava que ela estava com ciúme de Glória, que não desejava compartilhá-lo com ninguém, mas que se tranqüilizava, pois seriam um trio muito feliz. ‘Uma segunda família para uma menina que perdeu muito. ’Dougless tinha tratado de se dar bem com Glória, durante o ano em que vivia com Robert a tinha levado as compras e tinha gastado nela mais dinheiro do que seu reduzido salário de professora de escola primária lhe permitia gastar em si mesma. Noite após noite, tinha ficado com ela na casa de Robert, enquanto ele ia a festas e jantares. ‘É hora de vocês se conhecerem. ’ Em algumas ocasiões, Dougless pensou que a coisa estava funcionando, já que Glória e ela eram cordiais e inclusive amistosas uma com outra quando se encontravam a sós. Mas no momento em que aparecia Robert, Glória se convertia numa criança chorona e mentirosa. Sentava-se no colo de seu pai, com seu um metro e cinquenta e sete, sessenta e três quilos, e se queixava de que ela era desrespeitosa. A princípio, Dougless negou estas acusações e enfatizou que amava as crianças, razão pela qual tinha escolhido ensinar, e não pelo dinheiro. Mas Robert sempre acreditava em Glória. Dizia que era uma menina inocente e incapaz de cometer as falsidades das que Dougless acusava à pobre. Sustentava que não podia compreender como uma pessoa adulta como ela era capaz de ser com uma menina pequena. Durante esses sermões de Robert, Dougless sentia culpa e fúria. Tinha uma classe de crianças que a adoravam, mas Glória parecia odiá-la. Era ela a ciumenta? Estava permitindo inconscientemente que esta menina soubesse que não desejava compartilhar Robert com sua própria filha? Cada vez que lhe vinham estes pensamentos, prometia esforçar-se mais para agradar a Glória, o qual geralmente significava sair e comprar-lhe um presente caro. Seu outro sentimento era a fúria. Não podia Robert pôr-se uma vez, uma só, do lado dela? Não podia dizer a Glória que sua comodidade era mais importante que suas malditas malas? Ou talvez dizer que ela tinha nome e que não devia chamá-la sempre como Ela? Mas até o momento, Robert não tinha considerado a possibilidade de pôr-se de seu lado. E ela não se atrevia a enfurecê-lo. Se o provocava, não obteria dele o que tanto desejava, uma proposta de casamento. Casar era o que Dougless mais desejava na vida. Nunca tinha tido ambições como seus irmãos maiores. Só desejava um bonito lar, um esposo, e alguns filhos. Talvez algum dia escreveria livros para crianças, mas não desejava lutar para escalar posições. Tinha investido dezoito meses de sua vida em Robert, e era o candidato perfeito para esposo. Era alto, bem apessoado, elegante no vestir e um excelente 3

cirurgião ortopédico. Era arrumado, sempre pendurava suas roupas, não perseguia as mulheres, e sempre vinha para casa quando dizia. Era digno de confiança, seguro e leal; e a necessitava muito. A Robert não o tinham querido muito quando era menino e tinha explicado a Dougless que seu coração doce e generoso era o que tinha procurado durante toda sua vida. Sua primeira esposa, da qual se tinha divorciado fazia quatro anos, era fria, uma mulher incapaz de amar. Desejava uma ‘relação permanente’ com Dougless, o que para ela significou ‘casamento’, mas primeiro queria saber como se ‘relacionariam’ um com o outro. Depois de tudo, a primeira vez o tinham ferido muito. Em outras palavras, desejava que vivessem juntos. Portanto, ela se mudou para sua enorme, cara e magnífica casa e fez tudo o possível para provar que era muito cálida, generosa e amorosa, já que sua mãe e sua primeira esposa tinham sido frias. Com a exceção de tratar com Glória, viver com Robert era grandioso. Era um homem enérgico, iam dançar, correr, passear de bicicleta. Desfrutavam muito e com freqüência iam a festas. Robert era muito melhor do que qualquer dos outros homens com os que ela tinha saído, portanto lhe perdoava seus pequenos caprichos, a maioria dos quais se referia ao dinheiro. Quando iam comprar comida sempre se ‘esquecia’ da carteira. Na bilheteria dos cinemas, e quando tinha que pagar a conta dos restaurantes, quase sempre descobria que tinha se esquecido dos bilhetes em casa. Se ela se queixava, falava-lhe sobre a nova era de mulheres liberadas e sobre como a maioria estavam lutando para pagar a metade dos gastos. Depois a beijava docemente e a levava para jantar a algum lugar caro e ele o pagava. Dougless sabia que podia suportar os pequenos problemas, como a tacanhice de Robert; mas o que a preocupava era Glória. De acordo com Robert, a ranhosa gorda, de maus modos e mentirosa era a perfeição encarnada, e como ela não a via dessa maneira, Robert começou a vê-la como um inimigo. Quando os três estavam juntos, Robert e Glória se encontravam numa equipe, e Dougless, no outro. Agora, no assento dianteiro Glória oferecia a seu pai um doce da bolsa que levava sobre o colo. Nenhum parecia pensar em oferecer um a Dougless. Ela olhou pela janela e apertou os dentes. Talvez era a combinação de Glória e o dinheiro o que a enfurecia tanto. Talvez seu enfado pelo dinheiro era o que a predispõe contra a menina. Quando conheceu Robert, conversaram durante horas sobre seus sonhos e com freqüência falaram sobre uma viagem a Inglaterra. Quando menina, viajava com freqüência a Inglaterra com sua família, mas faz muitos anos que deixou de fazê-lo. Quando ela e Robert começaram a viver juntos em setembro do ano anterior, ele lhe disse: ‘Vamos a Inglaterra dentro de um ano. Para então sabermos’. Não lhe aclarou o que ‘saberiam’, mas ela sabia que se referia a si eram compatíveis para o casal. Durante todo o ano, planejou a viagem. Reservas nos pequenos hotéis mais românticos, exclusivos e caros. Robert lhe tinha pedido com uma piscada: ‘Não poupe gastos para esta viagem.’ Tinha comprado folhetos, livros de viagem e lido e pesquisado até aprender o nome da metade dos povos de Inglaterra. Ele desejava que fosse uma viagem educativa, então ela preparou uma lista com várias coisas para fazer cerca de cada um dos pequenos e adoráveis hotéis, o qual era fácil, já que Grã-Bretanha é como um paraíso para amantes da história. Três semanas antes de partir, Robert começou a dizer-lhe que tinha uma surpresa para ela nesta viagem, uma surpresa muito, muito especial, que a encheria de alegria. Dougless trabalhou com mais afinco nos planos da viagem. Esperava a proximidade de uma proposta de casamento. Três semanas antes da partida, estava supervisionando as contas da 4

Ela deveria manter-se até os trinta e cinco anos. Finalmente. Depois somou as contas e lhe deu a fita da calculadora. estendido para uma joalheria. claro que não murmurou ela — É só que não tenho dinheiro. Recuperou quase todo seu bom humor. Tomou-lhe a mão e a beijou — Amorzinho. ao não colocar milhões no colo antes de que pudesse administrá-los. Encheu sua bolsa de viagem com os produtos de toalete necessários e livros de viagem. Seria obrigá-la a admitir sua derrota. E quer que eu pague a metade de uma viagem tão custosa? Ela tinha desejado falar-lhe sobre sua esperança de uma proposta matrimonial. Sim. sua família tinha muito dinheiro. sabia que seu pai a ajudaria. Robert tinha razão: era o momento da mulher liberal. Pensou que era uma tonta por não se ter dado conta de antemão de que devia pagar sua parte. mas sim para desinflá-lo. Preparava maravilhosas comidas para Robert. não o suficiente para explodí-lo. Ligou para um primo em Colorado e lhe pediu um empréstimo. mas uma viagem de prazer a Inglaterra não podia considerar-se uma emergência. e quando preparou as três malas de couro de Robert e a sua velha. apesar de que Robert era mesquinho nas pequenas coisas. e Robert também. Se tivesse uma emergência. estava-lhe ensinando a cuidar de si mesma. era financeiramente generoso. Conseguiu o dinheiro sem ter que pagar interesses e o único que teve que suportar foi o sermão de seu primo. O que tivesse custado tanto provava que. Depois que se casassem. trata de conseguir o dinheiro. quando viu um cheque de cinco mil dólares. Tenho uma surpresa muito. Seu pai. 5 . — Sei a importância que é para vocês mulheres hoje em dia pagar o nosso.casa de Robert. quando algo era realmente importante. murmurou com lágrimas nos olhos. Tinha falado a Robert sobre sua família centenas de vezes. não podia tolerar em pedir dinheiro a seu pai. pode ser? —Respondeu-lhe. ele tinha mudado. — Esta é sua metade. os bilhetes de avião.— Tua família tem dinheiro. mandaria para passar fora. as reservas. outra vez esperava ansiosa a viagem. — Ele é cirurgião. — Vamos.— Só envia-me o dinheiro. tu és uma professora mal paga. ‘Um anel de compromisso’. Pediu-lhe as contas da viagem. A Dougless começou a doer-lhe o estômago. muito especial para ti. Nem sequer lhe molestava quando se queixava porque não lhe tinha passado bem as camisas. — É verdade? Gasta tudo o que ganha? Deve aprender a administrar. Desejo tanto que vá. Durante semanas se sentiu como no céu. Não podem te ajudar agora? — Antes que pudesse responder-lhe. e depois herdaria. comportou-se de maneira especialmente sedutora no dormitório e fez tudo o que pôde para comprazê-lo. não. Durante os poucos dias anteriores a sua partida Dougless pensou que era justo que pagasse sua parte. — Não. mas seu pai acha que todas suas filhas deviam se sustentar. Dois dias antes de partir. tudo o que tinha. Seis meses antes um médico lhe advertiu que estava provocando uma úlcera e lhe receitou Almax para acalmá-la. — Minha? — Perguntou estúpidamente. Robert lhe fincou um pouco o balão. Não desejo que me acusem de ser um porco machista . vivem juntos há um ano. Dougless —continuou Robert com tom sarcástico—sempre estou ouvindo que tua família é um modelo de amor e ajuda. mas tinha parecido demasiado vitoriana.respondeu com um sorriso.— Sua voz se suavizou.

— Logo verás —lhe comentou com tom enigmático. Não fez nenhuma destas coisas. Observou como a moça se arrojava sobre seu pai. Robert se comportou de maneira especialmente amável com ela. — Mas é uma viagem de prazer. — Oi. Ele a abraçou. A princípio. caminho do aeroporto.No táxi. Dirigiu-se à janela das passagens bastante aturdida. Ela desejava gritar. Meu contabilista crê que posso deduzir toda a viagem. 6 . estava muito ocupada para compreender o que sucedia. Teriam seus filhos olhos azuis como Robert ou verdes como ela? Cabelo castanho como ele ou avermelhado como o dela? — Não tenho idéia de qual é a surpresa. — Mas todos os quartos dos hotéis são para dois — pôde dizer finalmente. empurrando à menina para diante como se fosse um horrível troféu ganhado por Dougless — Não é uma maravilhosa surpresa? Dougless ainda não compreendia. Glória é a surpresa. Levantou os olhos ao escutar o grito de 'Papai!’ E viu a Glória cruzar correndo o terminal e por trás dela um moço de bagagens que trazia seis malas novas. — As duas?— Murmurou Dougless. separaram-se e Robert passou um braço sobre os roliços ombros de sua preciosa filha. que levava uma jaqueta com franjas e botas de vaqueiro. pensou. — Comprou um castelo e viveremos ali para sempre como Lorde e Lady. Robert se apoiou sobre o assento e sorriu. — Minhas duas garotas vêm comigo —agregou. e ela terminou no corredor. — Põe isto na lista de gastos comuns. — Ainda não adivinhaste a surpresa? —Perguntou Robert. gritar. Durante o vôo ele lhe entregou sorrindo a passagem de Glória. ou talvez estava muito horrorizada para querer compreender. Que coincidência. Poderias tirar a passagem de Glória enquanto pergunto certa informação? Só pôde assentir com a cabeça. No avião. Enquanto ela lhe dava uma gorjeta ao moço de bagagens.contestou -Tens idéia do que custa a manutenção de um desses lugares? Creio que não poderias adivinhar algo tão bom como esta surpresa. — Sim. envergonhada ao advertir que o taxista estava observando. pode ser? É preciso um balanço detalhado do dinheiro gasto centavo a centavo. ele levantou a mão para saudar a alguém. Queremos. e isso é suficiente — tirou o braço do ombro de Dougless —Agora aos negócios. Robert sentou a Glória entre eles. não de negócios. Vem conosco a Inglaterra. Teve que pagar duzentos e oitenta dólares pelas quatro malas extras da menina e teve que lhe dar uma gorjeta ao moço. encontrar a Glória no aeroporto. Dougless se ocupou de despachar a bagagem enquanto Robert passeava pelo lugar. No aeroporto. Já sabia até como seria seu vestido de noiva. Beijou-lhe o pescoço até que ela o afastou. negar-se a ir. parecia uma artista de striptease dos anos sessenta. — Não te contaram —gritou a menina. — Ganhou na loteria? — Melhor do que isso. Ela o olhou com amor. Nós arrumaremos. Glória —lhe disse Dougless —Vais a algum lugar?Glória e seu pai começaram a rir. Robert se pôs sério. — Esta é a surpresa—lhe explicou. — Muito melhor do que isso . Momentos depois. — Então pediremos que nos coloquem outra cama.

e dois terços para ti e para Glória. pois sabia que em algum lugar da bagagem de Robert tinha um anel de compromisso de cinco mil dólares. Dougless se virou. Robert entregou a Glória uma caixa de veludo azul. Terminou dormindo na cama de rodas. E tudo o que fazia por Glória também o fazia por amor. — Vês? — Sim. E por outra parte. — Vamos casar? Acontecerá algum dia? Afastou-se dela. vejo —respondeu Dougless com frieza. Não estamos casados e não tens nenhum direito legal sobre meu dinheiro. Mais tarde. depois de que o dono tivesse dado um sermão pela inesperada chegada da menina. — Quis dizer nós dois. 7 .Robert franziu o cenho: — Não vai dar um sermão. Ele a olhou com horror e passou o braço ao redor de Glória de maneira protetora. Tratou de não se queixar à primeira noite na formosa habitação do hotel quando Glória protestou tanto pela cama de rodas que tinham colocado. Manteve a boca fechada. O dinheiro gasto não é nada comparado com a alegria que terás com sua companhia. não é? Eu um terço. . recordava que a amava para valer. Essa noite. Tratando de divertir-se durante os quatro dias que levavam na Inglaterra. — Eu sei. — Para isso que você pagou cinco mil dólares? Por uma pulseira para uma menina? — Glória se converterá numa mulher linda e merece coisas lindas. Ao pensar nisso. mas você a menosprezou. querida —respondeu Robert com suavidade — É só para dizer-te que te adoro. Glória tratou de te mostrar. Durante o resto da prolongada viagem se dedicou a ler. Também não se queixou quando Glória pediu três pratos num caro restaurante para poder ‘provar tudo’. não é? Faço o controle. sempre pensei que eras uma pessoa generosa —lhe recriminou Robert. Dougless esfregava o estômago dolorido. Dougless cruzou os braços. que Robert lhe pediu que se deitasse com eles.Deixa de ser tão avarenta. no carro. pois sabia que estavam pondo seu anel de compromisso na boneca gorducha. — Não demonstrou muito entusiasmo pela pulseira. — Mas papai. Você a feriu profundamente. e quando voltarmos para casa dividiremos os gastos entre os dois. entregando-lhe a avultada conta. em outro jantar de cento e cinquenta dólares. — Queres dizer entre três. da qual deveria pagar a metade. Tratou de dar-te mostras de amizade. fora do quarto. Agora. A olhada de Glória se acendeu quando olhou o interior. Robert se mostrou furioso com ela. A menina se mostrou com ar de triunfo.Dougless suspirou. Tomou Almax duas vezes para evitar que seu estômago se devorasse a si mesmo. enquanto Glória e Robert jogaram cartas e a ignoraram. Mas depois da noite anterior. Glória é também para que tu a desfrutes. os sentimentos de Dougless estavam começando a mudar. Dougless teve uma sensação de caimento enquanto observava como a menina a abria. não é meu aniversário —murmurou. como se Dougless tivesse querendo bater na menina. Dougless olhou a passagem de Glória. A menina tirou da caixa uma pulseira cheia de diamantes e esmeraldas. é meu dinheiro.

— Aqui! Vira à direita. Ela tomou com lerdeza o mapa e olhou. se sentiria tão traído por ela como por sua mãe e sua primeira esposa? — Dougless!—Gritou Robert—Onde está a igreja? Achei que ias se encarregar dos mapas. Robert deteve o automóvel frente à igreja e se voltou para olhar a Dougless. — O comentário de Glória está certo e não vejo a razão de teu aborrecimento. Sobressaltou-se ao ver Glória por trás dela. — Temos que ver outra igreja? — Se queixou Glória — Estou farta de igrejas. — Espera! —Gritou Glória — Ai! 8 . no carro. Pelo momento. observando distraída às antigas tumbas. Robert tomou um dos estreitos caminhos ingleses. — Aqui há uma igreja do século treze que contém a tumba de um conde isabelino. mas a tentava a idéia de tomar o primeiro avião de regresso a casa. — Você me odeia. — Dougless conferiu suas anotações. Devia ficar e passar o prazo fatal. Dougless se apoiou contra a parede. Se o abandonava. Por isso agora. morto em 1564. Sua pulseira de diamantes brilhava com o sol. Tenho que ir consolar a minha filha. sabia que Robert nunca a perdoaria. com a grande cabeça de Glória no meio. — Uns brincos de esmeraldas tirariam suas lágrimas—murmurou. deu a volta e se afastou. parece muito cara. Dougless não entrou na igreja com Robert e Glória. e se dirigiu para o remoto povo de Ashburton. Estás conseguindo que eu comece a me arrepender de ter-te trazido. se não começar a mostrar um pouco de amor e generosidade. Por que não estás lá dentro olhando a igreja? — Me Aborreci. caminhado pelo cemitério. Enquanto pensava. mas agora vejo que és tão fria como minha mãe. Tinha que tomar algumas decisões sérias e desejava tempo para pensar. Em lugar disso. Não posso conduzir e conferí-los. Em lugar disso. — Trazer-me? — Replicou Dougless. permaneceu fora. Dougless suspirou: — Eu não te odeio. — Oi. não estava segura do que ia fazer. olhou a parte traseira da cabeça de Robert e seu coração se comoveu. ou devia ir embora? Se fosse. um lugar que parecia não ter mudado em cem anos. Tua família rica que comprou? Observou à menina. sentou-se com o corpo retorcido entre as malas de Glória e sabia que não lhe fariam nem uma proposta de casamento e nem lhe dariam um anel. não é? —Respondeu Glória estendendo seu lábio inferior. com arbustos em ambos os lados que quase o cobriam. Provavelmente esteja chorando pela forma em que a trataste — entrou enojado na habitação.— Não.—Lorde Nicholas Stafford. para tratar de ver as placas de trânsito. abraçando a Glória — Estou pagando minha parte —murmurou para ninguém. Achava que você fosse diferente. e o tempo todo e o esforço que tinha investido nele teriam sido em vão. Essa é uma blusa bonita. passaria a viagem de um mês atuando como a secretária —criada de Robert Whitley e de sua odiosa filha. Ela não poderia encontrar algo melhor para ir ver? — Me disseram que você queria ver lugares históricos —replicou Dougless. — O que quer? —Perguntou com suspicácia. mas ele se afastou.

Desviamos de nosso caminho para comprazer-te.. Glória começou a chorar. e para sua consternação. sempre rondando.Robert se afastava e a deixava!Correu para a porta enquanto o automóvel se afastava. Dougless—lhe disse Robert. — Não é isso—respondeu Glória — É que você me odeia. Suspirando. Nesse momento. quero ir para casa —replicou Dougless. — O que lhe fez pensar isso? Glória a olhou de esguelha.. talvez esteja melhor sem nossa companhia —se virou. — Papai diz que você é um verdadeiro incômodo. se livraria de você. enquanto você foi ciumenta e rancorosa. — Fomos amáveis e respeitosos durante toda esta viagem. e entrou. sem cartões de crédito nem passaporte. O braço da menina estava machucado no lugar onde se golpeou contra a pedra. e as altas paredes de pedra lhe infundiam ao lugar uma sensação de calma e reverência. ele sabe tudo. recobrar o domínio de si mesma e pedir-lhe que lhe enviasse dinheiro. sem dinheiro. — Sim. Tudo foi para Glória —se lhe encheram os olhos de lágrimas —Vocês riram à minhas costas. A pesada porta de carvalho da igreja estava aberta. — Agora estás fantasiando. Dougless não podia abraçá-la. com Glória encolhida a seu lado. — Menina! Já estou farta desta menina! Já estou farta da forma em que a mimas. e se inclinou para recolher sua bolsa. Dougless retirou a mão e se endureceu. Sabe que achavas que sua surpresa ia ser uma proposta de casamento e que pensavas que o cheque para o joalheiro era por um anel de compromisso. Observou horrorizada como Glória segurava na mão pela janela com a sua bolsa pendurando. e considerar o que fazer.Dougless deu a volta e a viu estirada junto a uma lápide de superfície áspera.Tinha que pensar sobre isto. Teria que lhe explicar que sua filha menor tinha falhado outra vez em algo. mas desapareceram rapidamente de vista.A menina sorriu com malícia. Papai me disse que achavas que minha pulseira ia ser um anel de compromisso. Papai diz que se não fosses tão boa na cama. Mas o pior de tudo era que o homem que amava a tinha abandonado. úmido e escuro. Papai e eu rimos muito disso. — Não pode doer tanto. Já que não és feliz conosco. — Oh.Correu por trás deles durante um momento. Encontrava-se num país estranho. Glória correu chorando aos braços de seu pai. Já estou farta da forma em que me tratas. Dougless estava tão rígida que seu corpo começou a tremer. voltou para ajudá-la a levantar-se. olhando-o com olhos de elefante. horrorizado —Não posso crer isto de você. Teria que chamar a seu pai. Robert saiu da igreja justo a tempo para ver a bofetada. põe tua nova pulseira nesse braço e aposto que a dor cessará —disse. Olhou por trás de algumas lápides mais não tinha sinais dela. mas lhe deu umas palmadas no ombro. Levantou os olhos quando ouviu que um automóvel se colocava em marcha. que nem sequer podia sair de 9 . caminhou de volta à igreja. — Por Deus. Dougless lhe esbofeteou sua cara gorda e vaidosa. — Não fez nenhum esforço por comprazer-me. e se dirigiu ao automóvel. Ofuscada e surpresa. Não estava ali. — Me bateu —gritou — e me fez machucou o braço. Ele a olhou fixamente. Bater na menina. O interior estava frio.

Ele não era como os outros homens desgarrados com os que tinha saído. Robert parecia tão diferente. Sentia-se uma fracassada. Os olhos se encheram de lágrimas quando olhou para o final da igreja. Ela se queixou: — Certamente. se afasta. tinha os tornozelos cruzados e o capacete embaixo do braço. Deves encontrar um homem que não te precise. deu-se conta de que alguém se encontrava próximo dela. um que só te deseje. — O que acontece comigo? —Gritou.’ Robert tinha sido sua tentativa para que sua família se sentisse orgulhosa dela. A lista dava a impressão de ser interminável. e seus raios iluminavam a tumba de mármore branco que se encontrava na nave da esquerda. querida. Desabou sobre o andar. — Algo parecido. tão respeitável. um cavaleiro de armadura brilhante que desça de seu cavalo branco e me deseje tanto que me leve a seu castelo e vivamos felizes para sempre. quando de repente a realidade a golpeou e se dobraram os joelhos.Adam Montgomery riu. então correu ao colo de seu pai e lhe pediu que lhe escolhesse um homem. Caminhou para ali. — Ajude-me —murmurou.Depois de um bom momento. com as mãos sobre a tumba e a testa contra o frio mármore. Dougless. sua irmã maior: ‘E agora o que é que fez nossa pequena e atordoada Dougless. — Nicholas Stafford —leu em voz alta —conde de Thornwyck. Na parte superior da tumba tinha uma escultura de mármore branco do corpo inteiro de um homem. a armadura está bem. tão conveniente. Quando tinha vinte e dois anos e tinha encontrado o seu último amor. Talvez se tivesse controlado seu temperamento com Glória. pondo a mão sobre a mão de mármore da escultura — Ajude-me a encontrar meu cavaleiro de armadura brilhante. Através de suas lágrimas olhou a cara do homem da tumba. 10 . que levava a parte de cima de uma armadura e uns calções antigos.férias sem meter-se em problemas. Estava felicitando pela forma em que estava comportado apesar das circunstâncias. um corretor de bolsa. este foi detido por utilizar informação reservada em seus negócios. mas se leva jaqueta de couro negra e em cima de uma moto. Seu pai a tinha tirado de diversos apuros. Começou a chorar a sério. Na idade média os casais se arrumavam. era tão respeitável. mas não tinha sido capaz de conservá-lo. quando recordava os tempos em que teve que recorrer a sua família para que a ajudasse. O ‘moço’ pelo qual se apaixonou quando tinha 16 anos tinha vinte e cinco e estava fichado pela polícia. é que amas homens que te precisam muito. Agora deveria pedir-lhe ajuda mais uma vez. Levantou a mão para proteger os olhos. ou se recebe misteriosos telefonemas telefônicos pela noite. O sol penetrava pelas antigas janelas que se encontravam muito altas sobre sua cabeça. Ajude-me a encontrar um homem que me deseje. e começou a chorar mais forte. uma vez mais teria que admitir que tinha se comportado como uma tonta com um homem inapropriado. desde o mais profundo de seu ser. mas o tinha perdido. Encheram-se os olhos de lágrimas ao pensar no que diria Elizabeth. total e absolutamente fracassada.Sentou-se sobre os calcanhares. Romperam quando o detiveram por um grande roubo.. Parecia que tudo o que tocava em sua vida fracassava. O pastor pelo qual se apaixonou aos 20 utilizava os fundos da igreja para jogar dados em Las Vegas. de acordo? Chorava com mais força. Girou a cabeça e o metal brilhante a cegou de tal maneira que caiu sentada sobre o solo de pedra. com as mãos no rosto. — Teu problema..

Nas pernas. pois ele tirou uma espada muito longa e pôs a ponta afiada na garganta. soluçando. Vou embora. Adeus. armadura. olhando-a com ira. Tinha uma liga atada ao redor do joelho esquerdo. Tinha um pequeno colar ao redor do pescoço e depois uma armadura até a cintura.Parecia que não podia deixar de chorar. Um homem que parecia levar uma. Conservadoras. — Fala de maneira estranha. Olhou o braço . grita até romper os vitrais. supera-me — Olhou o lenço. pensou ela. Primeiro Robert e sua filha mentirosa. depois se pôs de pé. veio aqui e começou a gritar.Claro que é um relógio.O que levas no braço é um relógio? E que tipo de vestido é esse? . Uma bonita blusa e uma bonita saia. Nem vaqueiros nem camisetas.Dougless estava se recuperando. — Não sou uma bruxa e não faço parte de seu drama isabelino. Lamento que esteja tão molhado e lhe agradeço o empréstimo.Um homem se encontrava de pé frente a ela. e depois.se pôs de pé —Agora se me desculpa. Ela o observou surpresa. — Maldição!— Murmurou o homem. Estava só chorando calmamente.. Desde a cintura até a metade da coxa levava uma espécie de calção em forma de balão. e depois a levantou e a levou a um banco da igreja. senhora. tudo no mesmo dia. Dougless limpou o nariz ruidosamente. Que tipo de bruxa é você? Dougless agitou a mão com desespero. Permaneceu quieto. bigode negro e barba curta. Quero voltar! Era muito para Dougless.. bruxa —lhe disse com tom de barítono — me invocaste. — Não há tempo para frivolidades. mas ser abandonada pelo homem que amo e atacada pela ponta de uma espada. Era muito grande e tinha uma intrincada ponta de seda na borda — Que bonito. O tipo de roupa de Miss Marple. Observava-a com o cenho franzido. Tinha o cabelo negro encaracolado que lhe chegava até o pequeno colarinho que usava. — Não sei o que você está falando. Começou a chorar outra vez e se apoiou contra a fria parede de pedra. muito musculosas levava meias que pareciam tecidos de prata. o que queres de mim? — Bruxa? —Respondeu. ponte aguda e bem arrumada. com esse absurdo traje. Aqui está o seu lenço. mais fora de seu eixo. Mas que armadura! Parecia feita de prata e tinha fileiras com desenhos de flores gravadas com incrustações de metal dourado. Tenho muitos desejos de chamar à polícia ou ao que tenham no campo na Inglaterra. este Hamlet louco. Tirou um lenço das calças e a alcançou. Esplêndido. com a boca aberta. E estas são minhas roupas para viajar a Inglaterra. — Anula seu feitiço. e espero que sua 11 . — Escute. Era um homem extraordinariamente bem apessoado. Vou repetir: Anula o feitiço. e explique. não sei do que você está falando . — Este foi o pior dia de minha vida —se lamentou. Calçava sapatos antigos com pequenos cortes. Ele era bem mais alto do que ela. — Bom.. como alguém saído de um filme de Bette Davis — Desculpe. O homem a observava com o cenho franzido.. e trata de fazer algo divertido com sua espada. bruxa.Não disse mais nada. — Você contatou meus inimigos? Voltaram a confabular contra mim? Não lhes atinge com minha cabeça? Se ponha de pé. e você. É legal que leve uma espada como essa? — Legal? —Replicou o homem. Minha alma está em perigo e também a sua. e levava o disfarce mais autêntico que jamais tinha visto. Geralmente não choro tanto.

As lágrimas assomavam outra vez. Nos vemos. Sobre a ocasião em que ficou fechada fora da habitação de seu hotel coberta só por uma toalha. química investigadora. sem dinheiro. Começou a correr.obra obtenha boas criticas . Tivesse preferido falar com qualquer outra pessoa no mundo antes que com sua perfeita irmã maior. Catherine. se foram às montanhas. pensou. uma fonte de hilaridade interminável entre os familiares. De alguma maneira. com os olhos cheios de lágrimas. Os atores eram muito bons. Glória e eu estamos desfrutando muito. — Elizabeth. — Dougless. viu o que fazia e também começou a correr. Estou cuidando da casa e redigindo um trabalho. O Que aconteceu? Precisas de dinheiro? Esforçou-se para não responder que sim. Sobre a ocasião em que foi ao banco para depositar um cheque e foi testemunha de um roubo que os ladrões levavam armas de brinquedo. — Muito bem. — Achas que ganharás o Prêmio Nobel? Elizabeth fez uma pausa. Esta manhã vimos uma obra medieval. Espero que termines teu trabalho. Observou as antigas lápides sem muito interesse. Tinha três irmãs maiores que eram modelos de sucesso: Elizabeth. Dougless parecia ser o riso dos Montgomery. — Não. está mentindo. viu o homem vestido de cavaleiro sair da igreja e caminhar pelo caminho que conduzia ao portão. — Não. não preciso de dinheiro —respondeu —Só queria dizer um olá. Qualquer um menos Elizabeth. professora de física. Posso perceber através do telefone.Agora imaginava o riso de Elizabeth quando lhes contasse a todos os primos Montgomery como a pequena Dougless viajou a Inglaterra e foi abandonada numa igreja.Justo ela. —disse Elizabeth. Tinha o orgulho dos Montgomery. o vigário. — Dougless.. como sempre a cinquenta milhas por hora pelo caminho estreito. sonolenta. e depois se encaminhou pelo caminho para o portão. Dougless se recostou contra a cabine. dizes as coisas mais divertidas. Papai está? Ou mamãe? –Ou algum estranho da rua. 12 . né? Dougless apertou os dentes. mas carecia de razões para sentir-se orgulhosa. desde onde se via a porta da igreja.o que aconteceu? Teu cirurgião te abandonou em algum lugar? Dougless riu. Dougless se pôs de pé.se voltou e saiu da igreja. — Claro que não. Dougless. soube instintivamente que o homem ia passar em frente ao ônibus. contestou ao telefone. A sua família lhe agradava contar o que chamavam histórias de Dougless. Na esquina tinha uma cabine telefônica. Em Maine era cedo. e Anne.Sua irmã bocejou. Novamente sua irmã fez uma pausa. é você? —Perguntou Elizabeth —Estás bem? Não estas outra vez com problemas. Quando tomou impulso. — Dougless. e Elizabeth. Robert. mas sua irmã já tinha pendurado o fone. Há muitas coisas para ver e para fazer.— Pelo menos já não me acontecerá nada mais horrível —murmurou enquanto se afastava. Pelo beco se acercava um dos pequenos ônibus ingleses.. Enquanto estava ali apoiada. e como foi atacada por um ator shakespeariano. que saía da parte do fundo da igreja. advogada criminalista. pensou Dougless.

numa escrivaninha.—Trarei alguém. mas Dougless o empurrou para que se sentasse. escrevendo uma carta a minha mãe quando ouvi uma mulher que chorava. Que outra coisa desconhece? Os aviões? Os trens? Olhe. Ou talvez deveríamos chamar a sua mãe —com certeza o povo conhecia este louco que estava com uma armadura e sustentava que nunca tinha visto um relógio ou um ônibus. — Você é venturoso. mas este a recusou e se pôs de pé. oferecendo-lhe a mão para pôr-se de pé. — Creio que talvez eu esteja morto. — Creio que sim.. Morreu recentemente? Ele olhou para o céu. Deu a volta para afastar-se. o único que os ingleses aceitaram do século XX é a velocidade dos veículos. mas as palavras do homem a detiveram. — De onde você é? Parece inglês. — Faz quase quatrocentos anos.. e não quis sentar-se até que ela o tivesse feito. — Creio que deve sentar-se —apontou um banco de ferro que se encontrava ao outro lado da parede de pedra baixa. Se era um suicida. — Lamento. — Você está bem? —perguntou-lhe o vigário a Dougless. — Espere! Em que ano estamos?—Perguntou o homem. Realizou o melhor placar que tinha aprendido quando jogava futebol americano com seus primos de Colorado. não tinha cavalos. — Que tipo de carroça era essa? —Perguntou —Não o ouvi vir. —Pôs-se de pé e limpou o pó — E você está bem? —Perguntou ao homem que se encontrava no solo. Dougless começou a pôr-se de pé. mas tem um acento estranho. Dougless lhe ofereceu a mão ao homem. A habitação se escureceu. — Será melhor que traga um copo de água—comentou o vigário.. minha cabeça deu voltas e depois me encontrei de pé junto a uma mulher: Você —levantou os olhos e a olhou. — Eu estava sentado. fique aqui sentado e eu vou chamar um médico. Aquilo era carroça? — Muito bem —respondeu com um suspiro. não desejava deixá-lo só. não quis ir. 13 . como se esta fosse um pequeno bote de remos.Dougless o atingiu primeiro.. — Venha comigo—lhe disse com suavidade —Procuraremos ajuda. Vamos à reitoria para que o vigário chame o médico. Ia muito rápido. tenho que ir. Ao princípio. O ônibus se desviou e esquivou por poucos centímetros. em minha opinião. Voltou-se para olhá-lo. — Minha mãe —repetiu o homem com um pequeno sorriso —Creio que minha mãe já estará morta. em cima de sua armadura. sabia? Escute. — Que tipo de transporte era aquele que quase me atropelou? Sentou-se junto a ele. — Sou inglês. Estava pálido e aturdido. Dougless e o vigário se olharam. Não está bem. Ele não se moveu do banco. Na América é um microônibus. mas depois a seguiu. — Mil novecentos oitenta e oito —respondeu o vigário e quando o homem caiu ao solo como se estivesse extenuado. caiu sobre ele e se deslizaram sobre o cascalho. olhou a Dougless — Trarei a água —repetiu e os deixou a sós.Ele lhe agarrou da mão. Podia jogar com ele — Isso era o que os ingleses chamam de ônibus.

. Se sentiu tentada em devolver o dinheiro. Da época da rainha Isabel. Agora provavelmente me deterão por passar dinheiro falso. sua cólera. por não mencionar que estava coberto de aço e levava uma espada que parecia muito cortante. — É suficiente? O homem olhou uma por uma as três moedas. mas não tinha outra alternativa mais do que voltar e chamar a sua irmã. Provavelmente.— Venha comigo — lhe pediu com suavidade. tomou algumas moedas e as pôs nas mãos de Dougless. e se dirigiu à bilheteria para comprar seu bilhete. senhor. Voltou-se para afastar-se. já que é inglês. — Tome as dez libras. amanhã é Abraham Lincoln. Lhe devolverei o dinheiro. 14 . Creio que deveria levar a Oliver Samuelson. Vou chamar a minha irmã e a pedir-lhe que me preste dez libras. Por que não me diz onde vive? O acompanharei a sua casa. pensou. De repente Dougless sentiu vontade de rir. e depois tomarei um trem até o hotel de Robert. Que sorte. — Me dará ele um bilhete por elas? — Creio que sim. verdade? Esta será a melhor história de Dougless. Vale a pena isso e mais para livrar-se de vossa língua malévola. fizeram que Dougless retrocedesse. dê saudações ao vigário.. — Não podemos aceitar isto. a sua direita. — Essa sou eu. ou Horatio Nelson.Dougless pensou que tivesse sido mais fácil deixar só este homem se não tivesse sido tão charmoso. Seria um final adequado para um dia perfeito.. A malvada bruxa Dougless. mas sei quem sou e de onde venho.Depois de alguns minutos. Não sei por que estou aqui ou como cheguei aqui. Lindo e louco. mas ele se colocou adiante dela. pensou Dougless. fechando-lhe os dedos. Voltou-se e abandonou o cemitério justo quando o vigário regressava com a água. o homem tenha um baú cheio de vestidos. Decepcionante. era o ano de nosso senhor de 1564. Depois de hoje. um homem com boné oficial se aproximou à janela. — Quando estava na habitação. senhora. O homem se pôs de pé com rapidez e seus olhos azuis se iluminaram. como se lhe falasse a um menino que estava a ponto de saltar a um barranco — Procuraremos ajuda. nem uma mais nem uma menos.Ela nunca tinha entendido o dinheiro inglês. — Talvez apagou as luzes e não recordas ter-se vestido e vindo à igreja. — São três libras com seis peniques —lhe informou o encarregado.— Obrigado —murmurou. pensou Dougless. — E você vem do século XVI.. Não sei para que quero um trem quando tenho um bom pau de vassoura. deu-lhe a volta com cuidado e depois se esquivou. Muitas moedas pareciam ter o mesmo valor. Que outro se ocupe de suas fantasias. Sua estatura. o resto de minha vida será calmo. e espero que jamais nos voltemos a encontrar. Fica depois da esquina. Deslizou as moedas que o homem lhe tinha entregado por embaixo da janela. Era fácil encontrar a estação de transporte ferroviário no pequeno povo. Até depois. Pela manhã me abandonam e uma hora mais tarde um fantasma me põe uma espada na garganta —se incorporou —Muito obrigado. Levantou-me muito o ânimo. olhou no interior. — Ainda não estou pronto para o manicômio. onde recolherei minha passagem de volta a casa. senhorita. Tirou uma bolsa de couro de suas calças. Hoje é um cavaleiro isabelino. Rogarei a Deus que revogue vossa maldade.

digamos cinco mil libras.Levantou os olhos.Sentiu a tentação de chamar a sua irmã e esquecer as moedas. Entrou na igreja. Mas não tenho todo esse dinheiro aqui. Dougless demorou um momento para recordar onde tinha ouvido antes esse nome. comerciante de moedas. — Ou um dobro..Se tem uma de quinze chelines com uma rainha num barco. não eu acho —murmurou Dougless —Mas tenho que falar com alguém antes de vendê-las. Um homem pequeno e calvo estava sentado por trás de uma escrivaninha. . com as mãos juntas e a cabeça inclinada. Ficará com ele? Não o deixe só. eu. um bilhete de trem. começou a sorrir com suavidade. seis. verdade? Ele levantou a cabeça. Pode esperar alguns dias? Dougless não pôde falar durante um momento. O homem não estava no cemitério. conde de Thornwyck. É seu amigo? — Não. como todas as moedas estrangeiras. 15 . O homem tomou as moedas e as olhou com a lupa. Conde de Thornwyck. — Me enviou o homem da estação do transporte ferroviário.O vigário se pôs a seu lado. São autênticas? — Como regra geral as moedas antigas não são tão valiosas. com uma lupa de joalheiro na testa. Não posso comprá-la.. mas posso conseguir comprador. Caminhou caladamente até ele e lhe pôs a mão no ombro. Não é daqui? O vigário sorriu —Meus paroquianos rara vez levam armaduras —olhou seu relógio —Tenho que ir. senhorita. Depois de um momento. Com um suspiro. — Um bilhete de trem.. mas estas são raras e o cunho está em boas condições. Estava ali. mas nem um chelín mais. Dougless respondeu que sim. Caminhou aturdida de regresso à igreja. — Muito bem. — Nicholas Stafford. Dougless começou a retroceder para a porta. Respirou profundamente. Algo lhe preocupa profundamente.. — Sim? —Disse quando entrou Dougless. Conheci esta manhã. — Não tem nenhuma identificação. Ele não abriu os olhos nem separou as mãos.. Darei quinhentas libras por cada uma destas. — Tem estado aí desde que você se foi. Pareciam estrangeiras. — Cinco mil libras? — Está bem. abriu os olhos e a olhou. Um dobro de Eduardo VI. e esta vale. Disse-me que você me daria um bilhete de trem em troca disto. — Deseja vendê-las ou não? Não são roubadas. verdade? — Não. e tinha a esperança de que não tivesse ido. e depois olhou à tumba. — Quem é você? —Sussurrou. Assentiu com a cabeça enquanto saía da loja. Olhou-as. e o vigário a deixou só com o cavaleiro. Teria que ligar para algumas pessoas de Londres. Oliver Samuelson.. Tem mais? — Creio que sim. de joelhos ante a tumba branca do conde. — Eu. O nome estava esculpido em profundas letras góticas: Nicholas Stafford. Não pude fazer que se levantasse. virou à direita e chegou à loja. traga-me.

Ela permaneceu ali e o observou enquanto começava a rezar outra vez. depois a habitação. Chamou para que alguém se ocupasse da mulher.Olhou à mulher que chorava. suas roupas. O som do pranto não era estranho no lugar em que se encontrava. 1812. Mas quando examinou a igreja. Nicholas tinha posto as mãos nos ouvidos para livrar-se do som. aconselhando-a. sua maneira de falar eram tão estranhos para ele que quase não podia pensar. Por um momento. mas quando o conseguiu o solo pareceu abrir-se sob seus pés. Ainda não podia crer no que lhe tinha sucedido. a armadura que usava só para as ocasiões especiais. Rodeava-o o esvaziamento.Apesar de que se sentia débil e aturdido. não podia especificar direito. chorando ante uma tumba. Suas roupas eram diferentes. As vigas estavam sem pintar. tratando de pedir ajuda. A porta pareceu derrubar-se. Sentiu-se mal depois desta experiência e de ver sua própria tumba. quando parecia não ter mais esperança. O pranto aumentou até que não pôde ouvir seus próprios pensamentos. Nas paredes tinha placas mortuorias. 1902. retumbando nas paredes de pedra e no teto. mas o pouco dos soluços desta mulher lhe fez deixar a pluma. mas nenhum som saiu de sua boca. não estava em nenhum lugar e num instante estava de pé numa igreja. Tinha-lhe pedido que o devolvesse a sua casa. e as calças de soldado. Tinha o aspecto de bruxa que ele sabia que era. sí mesmo.. viu que tudo era diferente. as ménsulas de pedra estavam sem pintar. pensou. depois estendeu a mão e viu que podia perder a consistência. sua mãe lhe tinha escrito que por fim tinha descoberto algo que a devolveria outra vez. Sentiu que a cabeça ia estourar. mas ninguém respondeu. não pode ser. não perdeu sua postura firme e lhe devolveu uma olhada intensa. e o pranto aumentou até encher a pequena habitação. Sentiu-se tonto. Adiante dele.— Duvidas de minha palavra? Você. Num momento. seu corpo não era mais do que uma sombra através da qual podia ver a escuridão do nada. tinha que 16 . quase como se estivesse boiando. Podia ver através dela. Era muito singela. Uma bruxa! Uma bruxa que o tinha transportado a outro tempo a outro lugar. Não. quando ouviu que uma mulher chorava. e começou a observar a igreja. parecia que estava de pé sobre nada. pois o cabelo lhe cobria o rosto. Era uma escultura de mármore branco de. ouvindo só o pranto da mulher. como se atrevesse a desprezar ao homem e a Deus por igual. 1734. Seus modos. CAPÍTULO 2 Nicholas Stafford se pôs de pé e observou uma mulher jovem que se encontrava ante ele.Tratou de pôr-se de pé. de pedir ajuda. fazendo-lhe sugestões. Estava escrevendo-lhe. Cambaleou-se para a porta. sem sentir nem frio nem calor. tinha uma menina ou uma mulher. Esculpido embaixo estava seu nome e a data desse dia. No pior momento de sua vida. Enterraram-me antes de que morresse? —Perguntava-se horrorizado. é a bruxa que me fez isto? Se não tivesse medo de que me acusassem de bruxaria.O que lhe fez retroceder foi a tumba. Tão linda como qualquer mulher que tivesse conhecido. mas ainda podia ouvíla.. eu a denunciaria e ficaria a ver como se queimam. cabelo solto até os ombros. e levava uma saia curta e indecente. Agora levava a metade de sua armadura. perguntando-lhe. As toalhas da mesa do altar parecia que fora bordado por uma menina inexperiente. Não tinha idéia de quanto tempo permaneceu no nada.

que saltou sobre ele. Tinha tido dificuldades para compreender sua forma de falar. sem jóias. mas ela fazia questão de rir dele. Ouviu um som a sua esquerda. regressaria a sua época? A bruxa era a chave.’Depois de um momento. Ainda tinha muito por fazer. Frases como estas rondavam sua cabeça: ‘A chave é a mulher. Debilitado. indicava-lhe que pertencia à classe camponesa. Que podia suceder as pessoas que tinha deixado atrás? Ajoelhou-se sobre o solo frio de pedra e começou a rezar. mas não se deteve a examinar as datas. Uma das da igreja era de 1982. 17 . Sentia-se mais seguro e começava a crer que tinha sonhado com esse vôo através do nada.. Seria este seu destino. Tinha saído pelo portão e andou para o silencioso caminho. mas ela tinha começado a chorar outra vez. morrer só num lugar estranho. nem se tinha que mentir.Uma carruagem sem cavalos passou próximo dele. rezando e pedindo a ajuda e o conselho de Deus. Com independência de que o tivesse trazido de forma mal intencionada ou por um desgraçado acidente. Tinha tocado a tumba de mármore e passado os dedos pela data de morte esculpida. Não se atreveu a negar-se.’ ‘Precisas saber. um som intenso e rápido que não tinha ouvido antes. quatrocentos vinte e quatro anos depois. o sacerdote tinha dito 1988. Permaneceu ajoelhado. Sentiu-se aliviado quando ela se foi. Se tinha morrido em 6 de setembro de 1564. Nicholas permitiu que a bruxa o conduzisse ao interior do cemitério. por temor a outro feitiço. Bruxa ou não. Por que se tinha adiantado até esta época? Tinha que aprender algo? Era possível que ela fora tão inocente como afirmava? Estava chorando por alguma briga de amantes. ela tinha o poder de fazer-lhe regressar e de ensinar-lhe o que tinha que aprender nesta época. por alguma razão que ambos ignoravam. numa época estranha? Tinha tratado de explicar-lhe à bruxa que precisava regressar. enquanto Nicholas regressou ao interior da igreja. nem prata. Tinha morrido quando viajou através do esvaziamento? Quando a bruxa o tinha chamado a esta época.Era tão malvada e incisiva como demoníaca. Talvez isto era só um sonho extraordinariamente vívido. Mas enquanto rezava. Talvez. Era mais débil do que achava. e por sua direita veio a bruxa. sua mente não se detinha. Ela tomou o dinheiro e se afastou. Tinha saído da igreja e se sentia mais forte ao ver que o cemitério era como todos. devia tê-la de seu lado e não a deixar ir até que descobrisse o que precisava saber dela. e implorando-lhe que se mantivesse a seu lado enquanto fazia o que devia. poderia vencer seu poder e regressar. nem ouro. pois sua honra e o futuro de sua família dependiam de sua volta. somado ao ordinário de seu vestido. pretendendo não saber como ou por que se encontrava neste lugar. Desejava a ultrajante soma de dez libras. A mulher regressou enquanto rezava. e a única que podia fazer-lhe regressar. e isso. se suas orações eram tão fortes como a magia da bruxa. Devia ter à mulher a seu lado. caluniar ou blasfemar. e quando se queixou pelo dinheiro que ele lhe tinha dado. o tinha matado em 1564? Tinha que regressar. Nicholas lhe deu graças a Deus.. já que o peso frágil da moça o atirou ao solo. Onde estavam as pessoas? Os cavalos? As carroças que levavam mercadorias? O que sucedeu depois foi tão rápido que não podia recordá-lo com clareza.regressar. a mulher era a que o tinha trazido. e ela o chamou a esta época perigosa na que as carroças circulavam a velocidades inimagináveis? Se aprendia o que devia. deixou de rezar e começou a considerar seus pensamentos. Tinha o descaro de afirmar que não sabia como tinha chegado ele até ali ou por que. Não importava o preço. A frase se repetia. então não podia provar nada.

e bem mais para um louco que tinha a ilusão que provia do século XVI. cuidado com os automóveis. — Está bem.— Quem é você? —Perguntou-lhe Dougless ao homem do traje ridículo —E de onde tirou estas moedas? —Observou como se punha de pé. não conheço ninguém neste país e nem sequer sei onde vou dormir ou como vou conseguir uma cama. A moda punk era de dar impacto para qualquer um. — Vamos—lhe pediu com amabilidade —Essa é muito normal. Falava esta mulher em inglês? Que era uma rua? Quem era Miss Marple? Ante sua olhada em alvo. — Não posso aceitá-las —replicou Dougless —São muito valiosas. 18 . acalmou-se. sei que tem problemas. melhor estaria. mas isso não é assunto meu. Dougless suspirou. Como o homem não realizou nenhum movimento para tomar as moedas. são minhas. colocou-as na borda da tumba. Compre um pouco de roupa e registre-se num bom hotel. vire à direita. Nicholas a seguiu com tranqüilidade. Uns minutos antes estava atacando-a com sua espada. Seu cabelo curto estava tingido de roxo e vermelho. — Olhe. A três ruas da estação de transporte ferroviário há um comerciante de moedas. quando se irritava. não ia realizar nenhum esforço para ajudar um homem enfermo que. Homens necessitados. e agora a olhava como se quisesse. Quero dizer. Mas desta vez.. e pela facilidade com a que levava a pesada armadura. senhora. Tenho meus próprios problemas. senhora! Dougless apertou os punhos. — Não. viu observando boquiaberto uma moça do outro lado do caminho. e o penteado arrepiado como o de um porco espínho. Nicholas só podia observá-la. Levava sapatos negros de salto alto. Dougless se adiantou uns passos e se deu conta de que o homem não estava por trás dela. Estava vestida de acordo com a idéia da elegância inglesa: toda de negro. atacava-a com sua espada. caminhe e pela esquina vire à esquerda. seduzí-la. — Espera. Dougless suspirou outra vez. Lhe dará muito pelas suas. Quanto mais rápido se afastasse deste louco. Estou sem um centavo. Me arrumarei de outra maneira —se voltou para sair da igreja. — Eu também não — replicou o homem. e aposto que recuperará cedo a memória. mas se deteve quando atravessaram o caminho. meias negras. Quando se voltou. Miss Marple diz que há poucos problemas na vida que não possam resolver-se com uma semana num bom hotel. — Não são suficientes para suas necessidades? Ela o olhou com suspicácia. A gramática pseudo isabelina deste homem a estava pondo nervosa. depois. a ruína de minha vida. Tome um banho quente e longo. — Obrigada pelo oferecimento. — Saia da igreja.. compreendeu que devia de ter a muito tempo —São roubadas? Observou que sua olhada se acendia. talvez bateu a cabeça e não recorda quem és. Dougless sorriu. O que viu era muito horroroso para acreditar. Deveria ver as pessoas que assistem aos concertos de rock. uma saia curta de couro negro e uma enorme malha negra. tenho fome. se é que posso pagá-la. venha comigo até o telefone e lhe indicarei o caminho.

Depois disso. Não Dougless. e nem sequer ia considerá-lo. e observou com grande interesse. Talvez se perguntar no escritório de correios. e enquanto os adultos observavam Nicholas. mas. Quando pronunciou estas palavras. mas ele não se moveu —Se esta é uma forma de conquista. Ou o tinha. Myrt —comentou o homem. — Escritório de correios? Parecia tão autenticamente perdido que se sentia enternecida com ele. — Onde está meu cavaleiro de armadura brilhante? —Murmurou. não tenho nenhum interesse. agora vou ligar e vai vir me procurar. Era como um imã que atraía a homens estranhos. O homem não falou. o homem recusou deixá-la. Um raio de sol iluminou sua armadura. — O que é isto? —Perguntou o homem — Lhe fala a isto? — Me dê um tempo. os ingleses observavam só às pessoas que levavam óculos de sol). — Parece que me abandonaram —lhe respondeu com suavidade observando-o. uma sombra cobriu seu cabelo negro azulado e uma jóia da empunhadura de sua espada destelhou. os meninos riam e o apontavam. disse. Recostou-se contra a cabine e muito a seu pesar.Caminharam para a cabine telefônica e Dougless lhe voltou a dar indicações. — Vamos. — Olha isso. Já tenho noivo. — Por favor. Não. — Parece que eu também perdi tudo —lhe comentou. as coisas se sucederam com grande rapidez.lhe suplicou. Caminharam juntos e seu andar ereto fez que Dougless erguesse os ombros. para sua consternação. Ela se ergueu.. observou o homem que se encontrava junto a ela. pode ser? —Respondeu quase gritando e descarregando sua ira nele. os olhos se encheram de lágrimas. vá . A segunda telefonista lhe informou que Robert Whitley tinha cancelado sua reserva fazia um momento. Este homem tinha aparecido na última vez que tinha chorado e pedido um cavaleiro de armadura brilhante. mas passaram junto a um casal de turistas norteamericanos e seus dois meninos. Despendurou de um puxão o fone e pediu informação sobre o número do próximo hotel do itinerário que lhe tinha preparado a Robert. Era uma possibilidade entre um milhão que este ator que acreditava em seu papel tivesse aparecido no momento exato em que ela tinha pedido um homem com armadura.. não. Nicholas 19 . Na realidade. quando Dougless chamou à telefonista para pedir um telefonema a cobrança revertida a Robert a seu hotel. Um ônibus se deteve e desceram cinquenta turistas japoneses acionando suas câmaras fotográficas. Tenho. — Alguém por aqui deve de conhecê-lo. o levarei até o comerciante de moedas para mudar as suas. — Grosseiros mal educados —disse Nicholas —Alguém deveria ensinar-lhes como se deve comportar em presença de seus superiores. não podia ser. Nenhum dos ingleses com os que se cruzaram os observou (até onde ela podia afirmar. Teve um momento de vacilação quando a telefonista lhe informou que Robert e sua filha tinham ido embora há uma hora. Toda a família luzia roupa nova que sem dúvida tinham trazido para suas férias. Dougless golpeou a cabine telefônica. O homem levava duas câmaras fotográficas ao pescoço. — Más notícias? —Perguntou o homem.

e o fio da espada lhe cortou a parte superior da manga da blusa e a feriu. — Só é uma ferida superficial —respondeu. examinando-lhe a barba e o cabelo. regressando por trás do balcão. Dougless se aproximou ao comprador: — E bem. o dono lhe sorriu dando-lhe as boas vindas. está ferida. Este homem com armadura tinha uma forma de dar ordens que atemorizava. os japoneses continuavam acionando suas câmaras e os americanos aplaudiam. quase cai. parecia preocupado — Não é nada —lhe aclarou. Colocou a lupa de joalheiro sobre o olho e observou a armadura. Permitiria neste século que um nobre fosse difamado? Que classe de armas eram as estranhas máquinas negras? Que tipo de gente pequena era a que as levava? Não articulou suas perguntas. bom homem. Depois de deixar as moedas. murmurando ‘Mm. —deteve-se quando viu Nicholas. suportando este escrutínio com desagrado. Por fim. mm’ uma e outra vez. parodiando os filmes do oeste. Por trás deles. depois observou o tecido das meias e por último o calçado. isto é melhor do que o castelo de Warwick —comentou um dos meninos americanos. Lentamente. Ajoelhou-se e examinou o bordado da liga que Nicholas levava próximo do joelho. Tomou um lenço de papel do bolso de sua saia e o pressionou contra seu braço —A loja de moedas é aqui. Olhou as jóias da empunhadura da espada. 20 . — Esperava voltar a vê-la. os japoneses se amontoaram acionando as câmaras como cigarras numa cálida noite de verão. observando o lugar ensangüentado de seu braço. — Que me dá por isto? E recorde. senhor —murmurou o comerciante... — Notável. na que Dougless não tinha reparado. dirigiu-se para a janela. — Papai. o comerciante retrocedeu. Mas o homem não sorriu. Na realidade. Quando Dougless entrou no pequeno local. sem falar. mas o cavaleiro a sustentou.. As perguntas pareciam molestar à bruxa. enquanto o comerciante. Nicholas depositou uma bolsa com moedas sobre ele. o cavaleiro permaneceu de pé erguido. A turista americana gritou.. — Não esta na guia. — Senhora. Dougless fez o único que sabia que funcionaria. da mão de Nicholas que estava sobre a espada e da adaga de seu cinto. Durante toda esta inspeção. se jogou sobre o homem da armadura. não fará!— Ordenou-lhe Nicholas — Acha que vou esperar aqui todo o dia para que me vistoriem como um porco numa feira? Se ocupará do negócio ou terei de ir a outro lado? — Sim. Dougless ficou encolhida a um lado. Nunca tinha visto nada como isto. — Detenha-se. com mãos trémulas. George —disse a mulher —Creio que deveriam pôr coisas como esta na guia ou alguém poderia crer que é real. Eu. tomando-a entre seus braços e levando-a de regresso à calçada. Nicholas colocou Dougless no solo. Paralisada pela dor. Pôs-se de pé e observou o rosto de Nicholas. abria a bolsa. que sei encarregar-me dos que me enganam. — murmurou — Que viu ao examiná-lo? O comerciante olhou as costas de Nicholas. De alguma maneira —não sabia como —se tinha comportado se como um tonto.desembainhou sua espada e retrocedeu. Devo dizer-lhe ao joalheiro do lado que o veja. adiantou-se e começou a examinar sua roupa.

.pensarei. — Sou um conde. Dougless demorou um momento para compreender. parece que tudo o que você leva vale o resgate de um rei. Ela observou de perto a armadura. — Dinheiro? —Ofereceu-lhe ele. Não! disse. É indubitavelmente rico. — Vendi uma moeda por quinhentas libras. — E as outras? — Eu. — Terías a bondade de ajudar-me a escolher roupa e a encontrar alojamento para esta noite? Eu pagaria por vossos serviços. — A rainha no barco? — Exato —sustentou a moeda com cuidado — Posso conseguir um comprador. um pouco de perda e solidão que fez que se inclinasse um pouco para ele.—deteve-se e se voltou. Soluçou. Dougless tomou a moeda e a colocou junto com as outras dentro da bolsa. — Eu pagarei em dinheiro se me ajudar.Disse que me daria quinhentas libras por esta.— Sua armadura é de prata e está incrustada em ouro. — Me está oferecendo trabalho? — Sim. só preciso. Não podes relacionar-te com um homem que tens certeza de que está louco. Creio que preciso de dinheiro. As esmeraldas da espada valem uma fortuna. mas demorarei uns dias —sua voz era suave como a de um amante. Antes de vendê-las desejava pesquisar um pouco e comparar preços. trabalho. Também preciso encontrar Robert e dar-lhe explicações. olhando o dinheiro com interesse. — Não parece —se afastou dele — Creio que é melhor que eu me vá — se deu conta de do que tinha estado a maior parte do dia com este homem e ainda não tinha dinheiro nem um lugar onde ir.O homem parecia estar tratando de dizer algo que era muito difícil para ele.. Dougless se deteve e lhe entregou a Nicholas a bolsa com as moedas e os bilhetes modernos. Enguliu.. Na rua. Tinha algo em seus olhos. — Não. Sim. igual aos rubis e diamantes de seus dedos. Robert e sua filha se tinham ido de um hotel e tinham cancelado o seguinte. OH! Aqui está. — Não preciso de trabalho.— Olhou-a. senhora. — O que confeccionou seu traje gastou muito. que confeccione 21 . Seus condutos lacrimales pareciam estar conectados com as cataratas do Niágara. — É realmente prata e o amarelo é ouro para valer? — Não sou um pobre. Com este não há dúvida. — Terías a bondade de ajudar-me? — Lamento. O resto vale uma fortuna. O homem foi para a parte dos fundos da loja e uns momentos mais tarde regressou com quinhentos formosos bilhetes ingleses. não lhe estava escutando. como se suas próprias palavras fossem veneno. Talvez seja um rico excêntrico. . não um rei —replicou ele. Dougless se voltou para olhá-lo.. Na realidade. mas está enfermo. — Estarei aqui se mudarem de idéia —agregou o comerciante enquanto Nicholas e Dougless se marchavam.

mas o olhava de uma forma oculta. Fingiu ler uma revista. CAPÍTULO 3 Caminharam juntos em silêncio pela larga calçada. Dentro do pequeno local. Nicholas conteve seu crescente agastamento e assentiu bruscamente com a cabeça. — Roupas — estava dizendo —Conseguiremos roupas e depois já será a hora do chá. Dougless se voltou ao vendedor que se aproximava. mas não suas palavras. — Precisamos um pouco de roupa e que lhe tomem as medidas — se o homem recordaria suas medidas. Tinha conseguido que permanecesse com ele durante algumas horas mais. e isso é tudo. Era perfeita. e amanhã teria a valentia suficiente para chamar de novo a Elizabeth. mas se deteve com freqüência para observar os carros e as mulheres com saias curtas. — Muito bem —respondeu com brusquedade —Posso perder o resto do dia. O ajudarei a conseguir um pouco de roupa. e também Catherine e Anne. o homem se deteve e observou as camisas e as calças que estavam pendurados nos cabides. — Não. Elizabeth nem sequer consideraria aceitar trabalho de um homem que levava armadura. Sentou-se numa cadeira e esperou enquanto o vendedor se encarregava do homem da armadura. Seu fino rosto se mostrava tão surpreso que Dougless quase podia crer que nunca antes tinha visto o mundo moderno. digamos. olhando para cima e franzindo o cenho como se lhe faltasse algo. e depois se alegraria de livrar-se dele. um alfaiate —replicou. alfaiate não. E quando descobrisse o que precisava saber.Estas roupas já estão confeccionadas—comentou. — Chá? O Que é o chá? Dougless se deteve no ato. todos os Montgomery pareciam perfeitos. a encontrar um lugar onde possa ficar. O ajudaria até que se registrasse num hotel. E o farei.Não lhe fez perguntas. como e quando fazê-lo. sem dúvida fingiria que não. se alegraria de deixar esta mulher.Faltava só uma rua para chegar à pequena loja de roupa para homens. Com freqüência se perguntava se a tinham colocado no berço equivocado no hospital. só roupa. por cinquenta dólares —isso seria suficiente para pagar meu bed and breakfast. — Aqui é onde podemos comprar-lhe algo menos atraente para vestir. Mas seus olhos não diziam isso.os seus trajes e vai de povo em povo procurando mulheres sós. — Sim. Na realidade. exceto Dougless. E se tinha perdido a memória? E quais eram suas alternativas? Quase podia escutar o riso zombador de sua irmã Elizabeth se a ligasse pedindo-lhe dinheiro. Um inglês que não sabia o que era chá? Este homem era mais do que podia tolerar. Compreendeu o que queria dizer-lhe. Tinha que encontrar algo mais para mantê-la a seu lado até que descobrisse como regressar a sua própria época. Nicholas levantou os braços para que o vendedor lhe tirasse a 22 . o homem observava tudo. Ela saberia exatamente o que fazer.

armadura. Embaixo dela levava uma camisa de linho com amplas mangas, que estava aderida a seu corpo pela transpiração. E que corpo! Tinha os ombros largos e era tão musculoso como ela suspeitava pelo tamanho de sua armadura. O vendedor lhe trouxe várias camisas para que se provasse, mas ao conde não lhe agradou nenhuma. Por último, ele olhou a Dougless pedindo ajuda. — Que sucede? —Perguntou-lhe a Nicholas. — Essa roupa não tem beleza —lhe respondeu franzindo o cenho. Não tem cor, nem jóias, nem bordados. Talvez uma mulher poderia pegar uma agulha e...Dougless riu. — Hoje em dia as mulheres não costuram. Pelo menos, não assim —tocou o punho de sua camisa, que estava pendurada num cabide. O punho estava bordado com fio de seda negro, com um desenho de pássaros e flores, e um precioso enfeite colado feito a mão. Reprimiu-se. Claro que as mulheres —algumas mulheres em algum lugar —ainda bordavam assim, porque alguém deste século tinha bordado essa camisa, verdade? Pegou uma linda camisa de algodão da pilha que tinha ficado descartada. Os ingleses não eram como os norte-americanos, que desejavam algo novo a cada cinco minutos, por isso a roupa inglesa era de muito boa qualidade e estava confeccionada para que durasse muitos anos. Se um podia pagar os altos preços, a qualidade valia a pena. — Tome, prove esta outra vez –lhe pediu, quase rogando. Perguntava se tinha alguma mulher que não tivesse saído de compras com um homem e o tivesse tratado de persuadir para que algo lhe agradasse. — Olhe que suave é a textura. Ele descobriu a parte superior do corpo com recusa, e Dougless lhe sustentou a camisa enquanto a provava. Tinha as costas largas, bronzeada e musculosa. — Agora aproxime-se do espelho e olhe. Não estava preparada para sua reação ante os três espelhos de corpo completo. Olhou, tocou. — São de vidro? —Murmurou. — Claro. De que outra coisa são feitos os espelhos? Tirou um pequeno objeto de madeira do interior de sua calça e o entregou. Do outro lado da madeira tinha um espelho de metal, e quando Dougless se olhou, sua imagem aparecia distorcida. Olhou o homem e viu como estudava sua imagem. Era a primeira vez que via uma imagem completa de si mesmo? Por suposto que não, disse. É só que não recorda a última vez. Observou sua própria imagem por trás dele. Que bagunçada estava! Tinha a maquiagem dos olhos embaixo deles e não nas pálpebras, devido ao pranto. A blusa tinha uma manga cortada e estava fora do cinto. Suas meias azuis penduravam nos tornozelos. Seu cabelo, enredado e desregrado, estava muito horrível para contemplá-lo. Se virou e murmurou ‘calças’. Afastou-se enquanto o vendedor lhe tomava as medidas de Nicholas, conduzia-o para os provadores e se foi para trazer-lhe várias calças. Tudo permaneceu calmo durante um momento até que Dougless viu que se abria a porta do provador e o homem olhava através dele. Aproximou-se dele. — Não posso —lhe disse com suavidade, e abriu mais a porta para que ela pudesse entrar — Que forma de abotoar é isto? Dougless tratou de não pensar nesta situação. Encontrava-se num provador com um homem estranho que não sabia como funcionava um zíper. — Assim...— Começou a ensinar-lhe na calça que tinha posto, mas depois tomou um que estava pendurado em um cabide. Mostrou-lhe o zíper, depois os botões e observou como, igual a um menino, o homem subia e baixava aquela e abotoava e desabrochava. Começou a sair. 23

— Espera. O que é esse estranho material? Levantou um par de cuecas e esticou a cintura. — Elástico —o rosto do homem se iluminou de tal maneira com a descoberta que Dougless não pôde evitar sentir-se bem —Espere para ver o velcro —lhe comentou, sorrindo e saiu do provador—Se precisar de mais ajuda, avise-me. Quando fechou a porta, ainda estava sorrindo, olhou a roupa que a rodeava. Que singela lhe parecia um homem que estava acostumado a levar uma armadura de prata. O vendedor tinha colocado cuidadosamente a armadura, a espada e a adaga numa bolsa grande e forte, à esquerda da porta do provador. Dougless quase não podia levantá-la. Depois de um momento, o homem saiu. Levava uma camisa branca de algodão e calças cinzas do mesmo tecido. A camisa era ampla e as calças eram ajustadas. Estava absolutamente divino. Observou-o enquanto se dirigia para o espelho e olhava sério sua imagem. — Estes... estes...—começou a dizer, tocando a parte traseira da calça. — Calças - completou ela. — Não me ficam bem. Não mostram minhas pernas. Tenho boas pernas. Dougless riu. — Os homens já não usam esse tipo de meias, mas está bem. — Não estou certo. Talvez com uma corrente. — Sem corrente. Acredite, sem corrente. Escolheu um cinto de couro e meias. — Teremos que ir a outro lugar para comprar os sapatos. Dirigiram-se à caixa registradora enquanto o vendedor somava as etiquetas que tinha cortado da roupa, e Dougless se aterrorizou quando Nicholas procurou sua espada. Por sorte, encontrava-se na bolsa e não podia atingí-la com rapidez. — Quer me roubar!—Gritou o conde — Posso contratar uma dúzia de homens por menos do que pede por esta roupa sem enfeites.Dougless se colocou entre Nicholas e o balcão, enquanto o vendedor se protegia contra a parede oposta. — Me dá o dinheiro —lhe pediu com firmeza — Agora tudo custa mais do que antes. Quero dizer, logo recordarás. Dê-me o dinheiro. Ainda irritado, entregou-lhe a bolsa de couro cheia de moedas, e depois tiveram que procurar nela e entre a outra roupa os bilhetes. — Aceita papéis pela roupa? —Murmurou o conde, e depois sorriu —Lhe darei todo o papel se o desejar. É um otário. — É papel moeda e está respaldado por ouro — lhe explicou Dougless enquanto saíam da loja —Pode mudar o papel por ouro. — Alguém me daria ouro pelo papel? — Qualquer banco. — O que é um banco? — Um banco é onde se coloca o dinheiro. O dinheiro que não usa. Onde você coloca o dinheiro? — Em minhas casas —respondeu, perplexo. — Compreendo —contestou Dougless, sorrindo —Cava um poço grande e o esconde. Bem, na atualidade o coloca num banco e se obtêm interesses. — O que são interesses? Dougless gemeu. — Aqui há uma casa de chá. Tem fome? 24

— Sim—lhe respondeu, e lhe abriu a porta. O chá da tarde era um costume à qual Dougless se tinha adaptado com rapidez. Era maravilhoso sentar-se às quatro da tarde e tomar um delicioso chá quente e comer um scone, ou cinco, como fazia Glória. Apertou os punhos quando pensou nela. Sabia Robert que sua filha tinha a bolsa de Dougless? Sabia que a tinha deixado completamente desamparada, só a graça de qualquer louco? Não podia crer que soubesse. Robert não era uma má pessoa. Se fosse, não gostaria tanto de sua filha. Dougless sabia que ele se sentia tão mau porque tinha abandonado a sua filha quando se divorciou e agora tratava de compensá-la e a tinha trazido de férias. E era natural que Glória lutasse pelo carinho de seu pai. Era natural que a menina tivesse ciúme dela. Dougless sabia que se nesse momento Robert entrasse no salão de chá, ela se ajoelharia e lhe pediria perdão. — Que desejam? —Perguntou-lhe a mulher que se encontrava por trás do balcão. — Chá para dois —respondeu Dougless —e dois scones, por favor. — Também temos creme e morangos —disse a mulher. Dougless assentiu com a cabeça e nuns minutos a mulher lhe entregou numa bandeja. Pagou, tomou a bandeja e olhou ao conde. — Comemos lá fora? A seguiu até um pequeno jardim com enredadeiras que trepavam pelas paredes de tijolos. Pôs a bandeja sobre uma mesa e começou a servir. Provou o costume inglês de agregar leite ao chá no primeiro dia que chegaram e lhe pareceu delicioso. O conde caminhava pelo pequeno jardim estudando as paredes e as plantas. Dougless o chamou à mesa e lhe entregou a xícara de chá. Olhou desconfiado o chá e depois o provou com cautela. Depois de dois goles, olhou a Dougless com tanta alegria no rosto que ela riu enquanto terminava seu chá. Serviu-lhe outra xícara e lhe deu um scone.Ele tomou o scone e o observou. Era muito parecido a um docinho sul americano, mas tinha açúcar na massa, e ademais eram scones de frutas, pelo que tinham passas. Ela lhe pediu o scone, partiu-o em dois e untou com um creme espesso. Ele o mordeu e, enquanto mastigava, parecia um homem apaixonado. Nuns minutos tinha bebido todo o chá e comido todos os scones. Dougless regressou à loja e comprou de tudo. Quando voltou, ele a olhou. — Por que chorava na igreja? — Eu...creio que não é assunto seu. — Se tenho que voltar, e tenho que fazer, preciso saber quem me trouxe aqui. Dougless deixou seu scone de lado. — Não vai começar com isso outra vez, não é? Sabe o que acho? Acho que você é um estudante graduado em história isabelina, provavelmente com um nível de doutorado, que se deixou levar por sua investigação. Meu pai diz que lhe acontecia, que tinha lido tantos manuscritos medievais que depois de um tempo já não podia ler escritura moderna. Nicholas olhou à mulher com desgosto. Quando pensava em todas as maravilhas que tinha visto nesse dia, as carruagens, o vidro prodigioso, as ruas limpas, a quantidade de coisas que se podiam comprar, estava surpreendido da pouca fé no mistério e a magia do mundo que tinha nessa mulher. — Sei de onde venho, e você, bruxa... Dougless abandonou o jardim nesse momento, mas ele a segurou pelo braço antes que chegasse à porta do salão. — Por que estava chorando? —Perguntou-lhe. 25

Ela se soltou. — Porque me abandonaram —respondeu irritada. Começou a chorar outra vez, envergonhada. A tomou com gentileza pelo braço e a conduziu de volta à mesa, onde se sentou ao seu lado, serviu-lhe mais chá, agregou o leite e passou para ela a formosa xícara de porcelana. — Agora, senhorita, o que te desagrada tanto que faz suas lágrimas sairem a rodo como uma catarata? Dougless não desejava contar a ninguém o que tinha sucedido, mas, para sua consternação, relatou tudo a esse homem estranho. — A deixou só? A mercê de chulos e ladrões? Dougless limpou o nariz com um guardanapo de papel e assentiu com a cabeça. — E também de homens que crêem que vem do século XVI. Oh, lamento — agregou. Mas o homem não pareceu escutá-la. Estava caminhando pelo jardim. — Você se ajoelhou sobre a tumba, minha tumba, e pediu um...—olhou-a. — Um cavaleiro de brilhante armadura. O conde sorriu um pouco, mesmo com seus lábios escondidos embaixo da barba e o bigode. — Não levava armadura quando me chamou. — Eu não o chamei. Quando abandonam numa igreja, costuma chorar. Especialmente quando uma piralha gorda lhe rouba a bolsa. Nem sequer tenho passaporte. Mesmo que minha família me enviasse dinheiro para a passagem, não poderia ir. Terei que tirar outro passaporte. — Eu também não posso voltar para casa. Mas se você me chamou, pode fazer que eu regresse. — Não sou uma bruxa. Não pratico a magia negra e não sei como transportar no tempo as pessoas. Isso são imaginações suas. O conde levantou as sobrancelhas. — Sem dúvida vosso noivo tinha justificativas razões para te abandonar. Com seu mau caráter, eu também não ia querer estar ao seu lado. — Nunca fui mau caráter com Robert. Amava-o, eu o amo, por isso sempre era doce com ele. Fiz tudo o que ele desejava, e não me queixei de Glória. É só que a falsidade dessa menina estava começando a me cansar. — E esse homem que te deixou, permitiu que sua filha lhe roubasse? — Duvido que Robert saiba que Glória ficou com minha bolsa, e Glória é só uma menina. Provavelmente nem sequer saiba o que fez. Só desejo encontrá-los, recuperar minha bolsa e ir para casa. — Parece que temos fins parecidos. De repente, ela compreendeu aonde queria chegar. Desejava que o ajudasse de maneira permanente. Não ia carregar um homem com amnésia. Apoiou a xícara vazia sobre a mesa. — Nossos fins não são tão parecidos para que nos faça permanecer juntos nos próximos meses enquanto você trata de recordar que na realidade vive em Nova Jersey com sua esposa e três meninos, e todos os verões vem a Inglaterra, põe-se uma armadura e pratica um joguinho sexual com uma turista apropriada. Não, obrigada. Agora, se não se importa, temos um trato. Conseguirei uma habitação num hotel e depois me irei. Quando terminou, viu as bochechas dele coradas pela ira através da barba. 26

— Agora todas as mulheres são como você? — Não, só às que feriram uma e outra vez —se acalmou — Se é verdade que perdeu a memória, deveria ir a um médico, e não se unir a uma mulher numa igreja. E se tudo é uma atuação, então definitivamente deve ir a um médico. De qualquer maneira, não precisa de mim —colocou as coisas do chá sobre a bandeja para devolvê-las, mas ele se interpôs entre ela e a porta. — Que recurso tenho se lhe digo a verdade? Não acredita que suas lágrimas pudessem me trazer desde outro tempo e outro lugar? — Mas claro que não. Há milhares de explicações do porque você crê que vem do século XVI, e nenhuma tem nada haver com que eu seja bruxa. Agora, me desculpa? Tenho que deixar isto, e depois te conseguir um quarto no hotel.Com docilidade, ele a seguiu fora do salão de chá, com a cabeça inclinada como se estivesse pensando em algum problema importante. Se tinha perdido a memória, o pior que podia fazer era permanecer com ele e evitar que conferisse com um médico. Perguntou à mulher do salão de chá onde se encontrava o bed and breakfast mais próximo, e os dois caminharam calmamente pela rua. O homem não falou, nem olhou para todos os lados, como tinha feito durante toda a tarde. — Te agrada a roupa? —Perguntou-lhe, tratando de mudar o assunto. Levava a armadura e as calças de soldado na bolsa da loja.O conde, não respondeu, e continuou caminhando com a testa enrugada. Só tinha um quarto disponível no bed and breakfast e Dougless começou a assinar no registro. — Ainda insiste que é Nicholas Stafford? A mulher que se encontrava por trás do balcão sorriu. — Oh, como o da igreja — pegou um postal da tumba de Nicholas e a olhou —Se parece com ele, só que um pouco mais vivo — sorriu de sua própria brincadeira — Primeira porta à direita. O banheiro está no final do corredor. Dougless se voltou para olhá-lo e, de repente, sentiu-se como se fosse uma mãe cruel abandonando o seu filho. — Logo recordará. A caseira lhe indicará onde jantar. — Caseira? Jantar a esta hora? — Está bem — replicou, frustrada. Aposto que depois de dormir bem recordará tudo. — Não esqueci nada, senhorita. Você não pode ir. Só você sabe como me fazer voltar. — Já basta com isso. Se me der os cinquenta dólares...—eram só trinta libras, e o quarto tinha custado quarenta. Mas trato era trato — Se me der as trinta libras, eu irei. Ela tinha o dinheiro e se entregou sem as trinta libras. — Leve as moedas ao comerciante — deu a volta para ir embora — Boa sorte — dirigiu uma última olhada em seus olhos azuis, que pareciam muito agoniados. Quando se foi, não se sentiu feliz em deixá-lo, era como se tivesse perdido algo. Esforçou-se para erguer os ombros e a cabeça. Estava tarde e tinha que encontrar um lugar para passar a noite, um lugar barato, e tinha que decidir aonde ir. Nicholas encontrou a habitação à direita da escada e a princípio ficou consternado. Era pequena, tinha duas camas pequenas e duras, sem cortinas, e as paredes careciam de enfeites. Observando-as mais de perto, viu que estavam pintadas com milhares de diminutas flores azuis. Pensou que talvez com algumas faixas e um pouco de ordem nas pinturas podiam ficar muito bonitas.Tinha uma janela com esse maravilhoso vidro, com cortinas 27

estampadas aos lados. Nas paredes tinha quadros emoldurados e, quando tocou um, sentiu o vidro, que era tão claro que quase não podia vê-lo. Os quadros eram de mulheres meio vestidas e de homens com o cabelo muito longo e atado. Tinha uma porta que conduzia a um armário sem estantes. Só tinha uma vareta redonda que ia de lado a lado com estranhos objetos de aço que penduravam nela. Tinha um móvel no quarto que jamais tinha visto. Estava completamente cheio de gavetas! Provou, mas a parte superior da cômoda não se levantou. Abriu as gavetas uma por uma e funcionavam maravilhosamente bem. Depois de um momento, começou a procurar um urinol, mas não encontrou nenhum; então, desceu pelas escadas e saiu ao jardim para procurar o banheiro. Não tinha nenhum. — Mudaram tanto as coisas em quatrocentos anos? —Murmurou, enquanto urinava sobre as rosas. Manejou bastante bem o zíper e os botões.—Me arrumarei bem sem a bruxa —se disse, e voltou a entrar no edifício. Talvez amanhã acordo e descubro que tudo tinha sido um sonho, um sonho longo e mau. No andar de baixo não tinha ninguém, portanto Nicholas olhou dentro de uma habitação que tinha a porta aberta. Lá dentro tinha móveis estranhos cobertos de telas finas. Sentou-se e sua brandura o envolveu. Pensou em sua mãe e em seus ossos frágeis e cansados, e em como lhe agradaria uma cadeira como está, coberta de tecido fofo. Contra uma das paredes tinha uma escrivaninha de madeira alta com uma banqueta ao lado. Aí tinha algo que lhe parecia familiar. Dirigiu-se a ele e, depois de examiná-lo, viu a dobradiça e levantou a tampa. Não era uma escrivaninha, senão uma espécie de clavicordio. Quando tocou as teclas, o som era diferente. Frente a ele tinha música escrita e pela primeira vez, algo lhe parecia conhecido. Sentou-se na banqueta, passou seus dedos pelas teclas para escutar o tom, e depois, com um pouco de torpeza, começou a tocar a música que tinha adiante. — Isso foi lindo!Voltou-se, e viu à caseira por trás dele.— Moon River sempre foi minha favorita. Tudo bem se eu lhe der um ragtime? —Abriu uma gaveta de uma mesa pequena que tinha uma planta extraordinária e tirou outra partitura —São todas melodias americanas, meu esposo era americano. Colocou adiante de Nicholas a partitura de uma peça extraordinária chamada The Sting e ele demorou um pouco antes de tocá-la como a mulher desejava; mas, uma vez que a compreendeu, interpretou-a com prazer. — Oh, você é muito bom. Poderia conseguir trabalho em qualquer pub. — Considerarei a possibilidade —lhe respondeu enquanto se punha em pé — Poderia ter necessidade de trabalho —de repente, sentiu-se mareado e se apoiou na cadeira. — Se sente bem? — Um pouco cansado —murmurou. — Viajar sempre me esgota. Viajou muito? — Centenas de anos. A mulher sorriu. Quando viajo, eu também me sinto assim. Deveria subir ao seu quarto e descansar um pouco antes do jantar. — Sim —respondeu Nicholas com suavidade, e se dirigiu para a escada. Talvez amanhã poderia pensar com mais clareza sobre como regressar a sua própria época. Ou talvez amanhã se acordaria em sua própria cama e tudo teria terminado, não só este pesadelo do século XX senão tudo.Em seu quarto se trocou com lentidão. Como não tinha, pingentes para sua roupa, colocou-a com cuidado sobre a outra cama. Onde estaria a bruxa agora? Teria regressado aos braços de seu noivo? Era suficientemente poderosa para tê-lo

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transportado quatrocentos anos, portanto não tinha dúvida de que podia chamar seu noivo errante que se encontrava só a umas milhas. Subiu à cama nu. Os lençóis eram incrivelmente suaves e tinham um perfume agradável, ainda que não o conhecia. Em cima, em lugar de cobertor tinha um suave e fofo cobertor. Amanhã, pensou enquanto fechava os olhos. Amanhã estaria em casa. Dormiu no instante em que fechou os olhos. Dormiu mais e profundamente do que nunca e nem sequer se inteirou de quando começou a chover. Acordou horas mais tarde dando voltas na cama. Sentou-se. O quarto estava escuro e ao princípio não soube onde estava. Ouvia a chuva que golpeava o teto. Procurou um castiçal e uma vela na mesa que se encontrava junto à cama, mas não tinha. — Que tipo de lugar é este? Sem banho, nem luzes. Enquanto se queixava, ouviu que alguém o chamava. Não com palavras. Não podia ouvir o som de seu nome, mas podia sentir a urgência e a desesperada situação.Não tinha dúvida de que era a bruxa. Estaria sobre um caldeirão, com olhos de víbora, revolvendo e murmurando seu nome? Não fazia sentido lutar contra seu chamado. Enquanto vivesse e respirasse, sabia que devia ir para ela. Foi difícil vestir-se com as estranhas roupas modernas e, quando fechou o zíper, descobriu que tinha partes de seu corpo que eram mais susceptíveis de ficar pilhadas com ela. Colocou a camisa débil e saiu do quarto. No salão tinha luz. Tinha uma tocha dentro de um vidro sobre a parede, mas a chama estava fechada numa esfera redonda de cristal. Desejava examiná-la mais de perto, mas lá fora escutou um trovão, e o chamamento era mais intenso. Desceu pela escada, atravessou tapetes exuberantes e saiu à chuva. Acima de sua cabeça, na ponta de uns postes tinha mais chamas do que a chuva não extinguia. Nicholas afundou a cabeça no pescoço da camisa. Estas roupas modernas não valiam nada! Nem capas, nem casacos, nem nada que o protegesse da chuva.Caminhou pelas ruas que lhe eram desconhecidas. Várias vezes escutou ruídos estranhos e pegou sua espada só para descobrir que não era ali. Amanhã venderia mais moedas e contrataria guardas para que o acompanhassem. Amanhã obrigaria à mulher a dizer a verdade sobre o que tinha feito para trazê-lo a esta terra estranha. Caminhou por várias ruas e tomou vários desvios equivocados, mas o chamamento voltava a aparecer. Abandonou as ruas que tinham tochas nos postes e penetrou na escuridão do campo. Andou durante vários minutos por um caminho, depois se deteve e escutou, enquanto a chuva lhe escorregava pelo rosto. Virou à direita e começou a cruzar o campo, saltou uma cerca e chegou até um pequeno beiral.Abriu a porta e um raio de luz iluminou à jovem: empapada, feita um novelo sobre umas palhas sujas. Outra vez estava chorando. — Bom, a senhorita me tirou de uma cama quente. O que deseja agora? — Vá embora, me deixe só —soluçou. Não se sentiu zangado. Lhe rangiam os dentes e evidentemente tinha frio. Inclinouse e a tomou em seus braços. — Não sei quem está mais desamparado, se você ou eu. — Me deixe —lhe pediu, mas não lutou para afastar-se dele. Começou a soluçar mais forte —Não pude encontrar um lugar para ficar. Tudo é muito caro na Inglaterra, e não sei onde está Robert, e terei que ligar à Elizabeth e ela irá rir de mim. Apertou-a entre seus braços para cruzar a cerca e continuou caminhando. Ela seguiu chorando enquanto deslizava os braços pelo seu pescoço. — Não pertenço a nenhuma parte. Minha família é perfeita, mas eu não. Todas as mulheres de minha família estão casadas com homens maravilhosos, mas eu nem sequer 29

Depois gritou quando torceu o tornozelo e caiu machucando as mãos e os joelhos. Colocou-a no chão e a olhou com braveza. Nicholas seguiu à mulher. — Vejo a tina. — Moça. até uma habitação que nunca antes tinha visto. mas o que é isto? E isto? Dougless se conteve em perguntar o que tinha estado utilizando se não sabia o que era um vaso sanitário. és um grande problema —lhe disse. — Tenho visto que não traziam muita bagagem. levando a Dougless. — E quem é o conde de Leicester? — Robert Dudley. . — Os Dudley são uns traidores. — Não irá —respondeu Dougless. Ensinou-lhe o lavabo.posso conhecer um homem desses. depois o vaso. qual é o seu nome? — Dougless —respondeu —Dougless Montgomery. mas não Nick. E a rainha Isabel vai casar com o rei de Espanha. não deverias me chamar de Nick. 30 . Oh. Pode me chamar de Colin. e voltou a tomar em seus braços. mas ele lhe disse que ficasse quieta. Tire a roupa dela e coloque na banheira trarei toalhas limpas. Mas não viu nenhum balde com água. — Que tipo de habitação é esta? — É um banheiro. o homem que amava a rainha Isabel. e se sentiu como se estivesse cumprindo com seu dever para o sexo feminino se podia ensinar-lhe a um homem esta simples coisa. — É por Dougless Sheffield. foram executados um por um. um dos quais era uma tina. Robert era um bom partido. Ela começou a falar outra vez. — E nunca. têm muito mau aspecto. que vou fazer? — Primeiro. Ouvi quando se foi e soube que acontecia algo mau. senhorita. e assim o fez. O rosto de Nicholas se encheu de ira ao voltar-se e começou a se afastar. Leve ela a porta e dê um banho quente. e se envergonhou ante as demonstrações de subir e descer o assento. Deve de ter estudado muito para esquecer algo tão elementar. — Ela o que? — Foi a mãe do filho do conde de Leicester. Esteve a ponto de deixar cair à jovem quando a caseira moveu uma peça de metal e saiu água. Nicholas se deteve. Agora. mas não pude conservá-lo. Levou-a à casa onde se encontrava alojado e. mas ignorando-a. nunca deixe o assento levantado comentou. correndo por trás dele. Nicholas olhou a Dougless com interesse. já que parece que estamos destinados a nos conhecer. Uma fonte dentro da casa! — Estará quente num minuto. viu que a caseira estava sentada esperando-o.Nicholas voltou para ela. Tinha estranhos artefatos. Baixou ela e observou o seu arredor. — Um nome bom e acertado. que foi a mãe do filho ilegítimo do conde de Leicester. Oh. A você também lhe viria bem um banho —se retirou. enquanto a chuva lhes golpeava com força no rosto. — Nem pense sequer —lhe advertiu Dougless —Saia daqui enquanto me banho. pobrezinhos. Nick. A caseira voltou com mais toalhas e sobre elas um roupão de algodão com flores. — Aqui está. quando abriu a porta.

adiante dele. Parecia perfeitamente natural que soubesse onde encontrá-la e que viesse procurá-la sob a chuva. mas não tinha nenhum. — O banho é seu.Tinha um homem de pé frente à janela. para o refeitório. Os ingleses amavam seu chá e adoravam a porcelana fina para serví-lo. batatas fritas. mas acordou chorando o qual parecia ser seu estado normal nas últimas vinte e quatro horas. Enquanto chorava apareceu ele. Saiu da banheira. — Primeiro comeremos. Como a tinha encontrado? Perguntava-se. Não tenho intenção de sair na caçada outra vez. O melhor era não pensar nisso. tinha escurecido. Dougless se voltou enquanto ele se vestia. dando-lhe as costas. tomates assados. e ele deu a volta para olhá-la. Também lhe tinha parecido natural que a tomasse entre seus musculosos braços. levante. Averiguaria como tinha sabido onde estava. boa noite. Bom. e levava os quadris retos cobertos com uma pequena toalha branca. sob a chuva. como a tinha encontrado na escuridão. mas fechou os olhos um momento e o próximo que soube foi que era de dia. toucinho que era como o melhor presunto americano. abriu-lhe. manteiga. Dougless assentiu simplesmente com a cabeça quando o homem passou a seu lado em direção ao banho. Lentamente. falariam. As pernas eram firmes e fortes. Tinha umas costas musculosas que terminava numa cintura estreita. Não demorarei muito. Depois de deixá-lo percorreu tudo tratando de encontrar um lugar. secou-se e pôs o roupão de flores. que só estava de calças. Sentou-se. tomou suas roupas enrugadas e foi ao banheiro para se vestir. salmão defumado. Se olhou no espelho e pensou que se todas as mulheres tivessem que se enfrentar com o mundo com a cara que Deus lhes deu. Nicholas. e tudo o que pôde encontrar foi um beiral. e depois caminharemos —lhe disse como se fosse um desafio. geléia.— A linha aérea perdeu tudo —respondeu Dougless rapidamente. creme. A luz do sol lhe golpeou o rosto e abriu os olhos com lentidão. — Se mete nessa cama e fica ali. Gastou seis em comida num pub e começou a caminhar. Olhou-se no espelho e viu que já não tinha maquiagem. Dougless assentiu simplesmente com a cabeça enquanto descia pela escada. onde ficar por trinta libras. desde que o conheceu na igreja quando a ameaçou com uma espada até a noite anterior quando a trouxe de regresso sob a chuva. Sentaram-se numa mesa pequena enquanto a caseira lhes trazia bandejas cheias de comida: ovos batidos. O rosto dele não se distendeu. Quando voltasse. — Já está desperta —disse com rotundidade — Vamos. Deslizou-se sob o cobertor com a bata posta. 31 . três tipos de pães.. senhorita. Se penteou e saiu da habitação. Mas tinha começado a chover. Não tinha mais do que uma escova para arrumar o cabelo. teria um grande incremento de suicídios femininos. café da manhã e chá. como se as utilizasse para algum trabalho pesado. há muito que fazer.Tinha a intenção de falar com ele quando regressasse. — Isso que eu pensei. Bateu com vergonha a porta entreaberta. mas começava a esquentá-la. Nicholas a esperava no corredor. Dougless acordou e começou a recordar quem era esse homem. entrou na água quente e se recostou. e seu cabelo. Pensou que talvez podia chegar a um outro lugar e encontrar refúgio. Se encolheu e tratou de dormir. — Obrigado —lhe contestou Dougless enquanto a porta se fechava e ela ficava só com esse homem — Agora vá embora você também. E uma formosa e grande chaleira de porcelana. e não se surpreendeu ao vê-lo. Quando ficou só. Na Inglaterra se podem fazer duas comidas.. A água lhe fazia arder os joelhos e os cotovelos machucados.

— Aonde vamos? —A jovem passou a língua pelos dentes. — Acha que há algum tipo de telepatía entre nós? —Quando a olhou desorientado. mas pensou melhor.Dougless comeu até que não pôde mais. e Nicholas a conduziu a um banco que se encontrava em posição perpendicular a tumba. Quando a jovem terminou.. Parece que Deus nos reuniu por alguma razão. e esta manhã era.. — Não se trata de me acreditar ou não. Ouvi você me chamando. Utilizou a faca para cortar o toucinho enquanto o sustentava com os dedos. se eu pudesse. Ele comeu quase toda a comida que estava sobre a mesa. bruxa. cruzou as mãos por trás das costas e começou a caminhar.—Ele se aproximou mais ao seu rosto. Também lhe coçava o couro cabeludo. Dougless pensou em falar-lhe sobre os caminhões de dezoito rodas que transportavam gado.. pois não tinha outra explicação sobre como a tinha encontrado. — Ao princípio achava isso. é a chave de meu encontro aqui e de meu regresso. já vejo —começou a se irritar — Voltamos a sua crença de que de alguma maneira. Ele se endireitou e voltou à tumba. Comia tudo com a colher ou com os dedos. elogiou à caseira. e Nicholas só se deteve para contemplar assombrado um pequeno caminhão. mas não dormi desde que me chamastes sob a chuva e tive tempo para pensar. viu que a caseira observava com curiosidade a Nicholas.Caminharam com rapidez para a igreja. mas não pôde. precisamos um do outro. — À igreja — respondeu ele —Ali faremos planos. — Não se atreve a dizer que deve se ocupar de mim. ouvi que me chamavas. — Oh. mas não tocou nem uma só vez no garfo. Não tinha escovado à vinte e quatro horas. Ontem pela manhã era o ano de nosso Senhor de 1564.. você me chamou. por meio de algum ardil.. como você o chama. sensação do chamamento me acordou e a segui para te encontrar.. senhora Montgomery. — Achava que eu o tinha feito com um feitiço —lhe respondeu. com sarcasmo. estava sobre ela. impedindo-lhe com seu grande corpo que se levantasse. Finalmente. — Mil novecentos oitenta e oito —interveio Dougless.—Mais de quatrocentos anos depois e você. competir com Nicholas. explicou-lhe —transferência de pensamento.. Acordei com vosso apuro. com uma mão sobre o respaldo do assento e a outra detrás. Já tenho suficientes problemas para ter que me ocupar. mas há. — Acredite. A antiga igreja estava aberta e vazia. não tinha telefone. tomou pelo braço a Dougless e a conduziu para fora. Uma união forçada. e se o fiz. 32 . A.. Vou embora. Lemos o pensamento um do outro. Já não posso tolerar mais isto. Permaneceu quieta enquanto ele olhava outra vez a escultura de mármore e passava suas mãos pela data e o nome. — Tal como eu vejo. observando-a. — Somente uma vez —respondeu ela. Tão claramente como se ouvisse as palavras. — Eu o chamei? Nem sequer pensei em você. Quando terminou. eu o trouxe aqui para sua tumba. e depois se acalmou — Como ouviu meu. Tive de tirá-la do mato no meio da noite. — No entanto. e com segurança não pude gritar o suficientemente forte como para que me ouvisse. Sabia que o que lhe dizia era verdade. o enviaria de regresso. afastou-se.. profana. apuro. — Há um vínculo entre nós.. Antes que pudesse mover-se. Dougless permaneceu em silêncio durante um momento.

se é possível que uma pessoa viaje no tempo. Dougless começou a pôr-se de pé. No entanto. inflexível. Converteu a Inglaterra numa das maiores potências de Europa. seria intrigante. Por que não fica aqui? Por que regressar? Poderia conseguir um trabalho. — Mas você não está morto. Nenhuma mulher pode governar sozinha. a este estranho lugar por uma razão. Outras vinte e quatro horas como as últimas. Ele a olhou. está vivo. — Como pode te ajudar a encontrar Robert? — Posso alimentá-la. será melhor que alguém comece a cavar minha tumba. — Compreendo —disse Dougless. Tudo isso aconteceu faz muito tempo. — Não se casou com ninguém. Mas como não é possível. A cara de assombro do conde já estava convertendo em algo familiar para ela. olhando a tumba —Percebi. vesti-la. ele se tinha comportado amavelmente com ela. e você vai me ajudar a achar a resposta.— Talvez —respondeu. sim. — Minha vida e minha morte são uma brincadeira para você. Ao que parece. ouvir que você precisava. e ele sim. está aqui. Isabel. Manteve-se pensativo um momento. você ouviu meu chamamento. — É verdade? — Não tem que acreditar. sim. — Talvez você saiba algo que eu devo averiguar —se aproximou dela — O que sabe mais sobre as ordens da rainha? Quem te contou que formei um exército para destroná-la? — Não tenho idéia do que você está falando. é a história. Que intrigante. Não conheci outra mulher que precise mais cuidados do que você. protege-la até que o achemos. mas não para mim. sorrindo — Você acha que talvez o enviaram para descobrir algo. A conhecem como a Rainha Virgem. — Muito bem.. você sabe com quem se casará. Seria um grande professor de história isabelina.o que deseja que eu faça para te ajudar a encontrar seu caminho de volta? — Ontem à noite me falou de Robert Dudley e da rainha. — Não preciso de ninguém —replicou Dougless. Bem. talvez gritar pedindo ajuda. — Não compreendo por que ainda não está em casa de vosso pai. Estou ah —lhe respondeu.. mas não podia. suponhamos que encontramos Robert. — História. — Não posso —respondeu Dougless com rapidez —Tenho que encontrar Robert e recuperar meu passaporte para voltar para casa. mas você deve me ajudar a averiguar por que estou aqui. E isso o que quer dizer? — Vim a esta época. como que o fez muito bem. — Eu te ajudo a achar o seu noivo.. mas uma olhada de Nicholas a obrigou a sentarse outra vez. Na América do Norte há uns dois estados que levam seu nome: Virginia e Virginia Ocidental. — Que planos tem? —Perguntou-lhe com suavidade..—franziu o cenho —quero dizer. e não acreditava que vinha de outra época. — Ah. — Não só governou sozinha. Teria suficiente dinheiro para viver depois de vender 33 . não é. olhando a tumba. Tinha que ir. Tudo o que sucede é história e talvez está registrado em algum lugar. — Não! Isso não pode ser verdade. Dougless levantou as mãos num gesto de exasperação. Já terminaram minhas férias. — Não senhorita.

Faltavamme três dias quando. tinha sido sindicalista antes de regressar a casa para fazer cargo de Warbrooke Shipping. você me chamou aqui.. Sabia o suficiente de história medieval como para ter uma idéia do que estava falando — Geralmente... ou de acariciar o rosto. Não tinha razão para que lhe ajudasse a averiguar por que o tinham acusado injustamente de traição. Hank Montgomery. morreu? — Suponho que me executaram. Minha mãe é uma mulher poderosa e tem amigos. — Então você é um sortudo! Decapitação. Talvez estivesse no sangue. Meu pai poderia ajudá-lo ou meu tio J. Se não volto. Em meu apuro.. Seu avô. — A rainha ficaria com tudo? — Tudo. mas e se fosse. 34 .. Fiquei sabendo que estavam atacando. — Conte-me —sussurrou..—deteve-se. — Tenho terras em Gales. a um cavaleiro. deteve-se. golpeando o punho direito contra a mão esquerda — Minha honra está em perigo.. — Tem alguma idéia de quem lhe disse à rainha que seu exército ia ser utilizado para tirar-lhe o trono? — Nenhuma—respondeu e afundou a cabeça entre as mãos. Ele deu a volta para olhá-la —Traição—sussurrou —Como.as moedas se o investir com cuidado. confiscarão tudo. — María.Detevese e olhou ao longe. desesperado. — Disseram que o exército era para unir forças com a jovem rainha de Escócia. Talvez você.e o ajudei a realizar algumas investigações.comentou . foi me atribuído porque podia ajudá-lo com a busca. Nicholas caminhou durante um momento. — Tenho que regressar —murmurou Nicholas. Será uma indigente. Ambos sabem muito de dinheiro. rei ou rainha lhe confiscava suas propriedades quando era acusado de.. Já não fazemos isso agora. seu avô odiava qualquer classe de injustiça e arriscaria sua vida para detê-la. Disseram.. Os problemas deste homem não eram assunto seu. — Meu pai é professor de história medieval . — Não têm traições? Como castigam a nobreza? —Levantou a mão quando ela se dispunha a contestar-lhe —Não. rainha de Escócia —disse Dougless. Repugnante. não solicitei a permissão à rainha para fazê-lo. Até o dia de hoje. Se não regresso e me salvo.T. Trabalhou muito para provar minha inocência. Dougless esteve a ponto de tocar-lhe o cabelo. Dougless pensou nisso. — Trataram-me com desconsideração e me condenaram a ser decapitado. olhou a tumba e depois regressou para sentar-se ao seu lado. talvez teria algo que aprender dos livros de história. Mas a idéia da injustiça lhe incomodava. Com uma expressão dura e irada. CAPÍTULO 4 Dougless se esqueceu se vinha ou não do século XVI. e ele assentiu com a cabeça. tenho de continuar. perderá tudo. O futuro dos Stafford está em perigo.. por isso reuni um exército. — Confiscarão? —Perguntou Dougless. Claro que nada era verdade.

o ajudarei. Se for honrada consigo mesma.. — Isto é o que se crê hoje? Que as mulheres de minha época eram só para o prazer? 35 .. talvez o zíper não te machuque. — Mas hoje está fresco —disse ela.. Dougless começou a rir. pensativo. — Devo dirigir-me a você como meu senhorio? —Perguntou-lhe em tom jocoso. Não posso compreender suas leis suntuarias. — Calças.. — E isto —assinalou a braguilha para mostrar o zíper —Isto pode machucar um homem. — Calças. mas depois seu sorriso desapareceu. Tenho que contratar criados. — Roupa interior? O que é isso? —O elástico. —Sim. ontem à noite. preferiria estar quatro semanas e meia com Robert e Gloria. — No fundo. — Se colocar a sua roupa interior em lugar de deixá-la sobre a cama. aqui — pôs a mão no bolso —Não posso levar nada. com freqüência passava os verões jogando com seus seis primos. Com freqüência. — Mas você é uma mulher. e começou a sorrir. — No fundo? Quer dizer que não sou uma dama em toda regra? Ele encolheu os ombros. Esteve a ponto de dizer-lhe que seu tio era o rei de Lanconia e que. Estas roupas são iguais as demais..? —Começou Dougless. Agora posso andar sem sofrer dano. No entanto. Apertam as pernas de um homem.. E isto. esclarecemos uma coisa: neste século. Mas algo a deteve. aqui estava desejando regressar a casa depois de cinco dias. Nicholas se voltou lentamente para olhá-la. as mulheres não são escravas dos homens. estas. ou ajudar a este homem a pesquisar qual era seu passado? Todo o assunto lhe recordava a uma história de fantasmas na qual a heroína ia à biblioteca e lia sobre a maldição da casa que tinha alugado. os príncipes e as princesas. você é uma dama. — Bom. Nicholas se sentou ao seu lado. Ela sorriu. E. Deixemos que pense o que quiser. sorrindo. — Antes de mais nada. Não me posso dobrar. recorda? — Oh.. quantas mulheres abandonaram tão completamente que chegariam a considerar a possibilidade de ajudar um homem que levava espada e calças em forma de balão? Nicholas se sentiu confundido e depois aborrecido. De repente. mas agora uma camisa custa o salário anual de um homem. tomou-lhe a mão e a beijou com fervor. tinha frio sob a chuva e. Não compreendo seus costumes. eu também o faço e cresci neste século.. Não nos puseram nesta terra só para satisfazer os homens. — Já está tudo pensado.E também. — Você se refere o meu calção? Você está gozando com a minha roupa? Estas. Nicholas franziu o cenho. Dougless pensou: Que mais terei que fazer? Chorar um pouco mais? Seis de suas amigas a tinham despedido com um jantar para desejar boa viagem em suas românticas férias de cinco semanas. sim —respondeu. Dizemos o que desejamos e fazemos o que queremos..—desviou o olhar — Me conduzo como um estúpido. — Quem pode dizer por que Deus me uniu a uma plebéia? — Por que..

mas não tinha sinais de nenhum arranjo dental moderno.. — Precisa ir a um dentista. Na parte inferior. sorrindo.—começou Dougless. Enterrou três esposos.. escondida entre a erva.Era a lápide onde tinha caído Glória e depois lhe tinha mentido a Robert sobre suas feridas. O rei Enrique diz que os esposos de minha mãe desejavam ir à tumba porque não eram nem a metade de homens que ela é. Escova de dentes. arrumamos —se pôs de pé —Temos que ir. há muitas coisas para fazer. — Senhora! — Deixe-me ver seus dentes. nenhum dentista lhe teria tocado a boca. Ele a observou com uma olhada penetrante. — A qualidade dos diamantes é excelente —comentou Nicholas —As esmeraldas são baratas. dizendo que Dougless a tinha machucado. Talvez este não era o momento indicado para discutir isso. envergonhada. não se permitindo ir à escola. blush e lápis de lábios. Ontem. — Que é aquilo que brilha? —Perguntou Nicholas. você ganhou — o olhou outra vez —Voltemos aos negócios. Nicholas se jogou a rir. teria arranjos dentais. olhando uma das lápides. tratou de explicar o que era um dentista. No exterior. Pegou e a sustentou um momento sob os raios do sol. Nicholas. e apertou a pulseira na mão. — Por isso lhe faltam três? Tiraram? Esta pergunta lhe pareceu óbvia a Nicholas. aqui estão vocês—comentou o vigário. Entrou na igreja e lhe disse ao vigário que se Robert Whitley perguntasse pela pulseira. senhora dóceis não. — Os homens são nobres hoje? Não abandonam às mulheres deixando-as a graça das circunstâncias? Dougless se voltou. — Muito bem. Não estudavam? Minha mãe fala. eram oprimidas e maltratadas. Nicholas abriu obedientemente a boca e Dougless olhou o interior. — Ah. pasta dental e fio dental —se deteve e o olhou —Deixe-me ver seus dentes. Dóceis? Não.— Obedientes. fechadas em algum castelo afastado. dóceis. informasse que 36 . assim que Dougless lhe mostrou seus dentes tratados. Estou segura de que a maioria das mulheres são. e a conduziu fora da igreja. — Se era um estudante graduado que tinha trabalhado muito.. Dougless se dirigiu para a pedra. Robert a tinha deixado aí. — Então sua mãe é uma exceção. — Contarei isto a minha mãe. Depois de um momento. gestantes. Nicholas se afastou dela. Dougless se deteve e olhou o cemitério. e depois se deteve —Sim. está já preparado? Ele lhe ofereceu seu braço. A jovem sorriu. Faltavam-lhe três molares e tinha um dente cariado. estava a pulseira de diamantes de cinco mil dólares de Glória.. — Não tínhamos. quatro idiomas e discute filosofia. mas se vinha do século XVI. — Os dentes ainda não me doem o suficiente para tirar-me. que se encontrava na parte do fundo da igreja —Me perguntava se tinham arrumado suas coisas. — Agora o encontrarei —comentou —Agora voltará para mim. Primeiro iremos a uma farmácia e compraremos artigos de perfumaria —suspirou —Sombra de olhos.

sentiase jubilosa. pasta dental. escova de dentes. cabelo. enxague bucal. — Pepino —lhe comentou.Quando saiu da igreja. pastas. — Vamos as compras —lhe sugeriu alegremente a Nicholas.Dougless a tinha. e eu trarei creme e lâminas —tomou uma cesta e a encheu com shampoo. mas não está na moda. enquanto o comerciante conseguia um comprador para as raríssimas moedas de Nicholas. por suposto.. — Então procurarei um barbeiro e me barbearei. Nicholas o cheirou e lhe sorriu. — Não conheço essas palavras. Depois foram a uma drogaria. Dougless ligou ao bed and breakfast para reservar sua habitação por mais três noites. Dougless não compreendeu de que falava. satisfeito. fio dental e um pequeno grupo de rolos elétricos para viagem. — Não. todos artigos higiênicos. e uma blusa nova que não tivesse uma manga cortada. abrindo outro frasco —E isto é morango —depois lhe mostrou a loção de barbear —Não pensará em se barbear? Nicholas passou a mão pela barba. Rosto. mas de repente olhou os produtos como se tivesse feito um homem isabelino. agora os barbeiros e os dentistas estão separados. e está sem usar. de maneira que quando revisse a Robert. quem sabe? Talvez ainda iria a Inglaterra com uma proposta de casamento. Robert estaria tão agradecido de que tivesse encontrado a pulseira. Sabia pela escola que até pouco tempo atrás a gente fabricava os produtos que precisava em casa. esta por cento cinquenta libras. pentes. Nicholas tratava de chamar o atendimento. não era assim. — Isto é shampoo para lavar o cabelo —abriu um frasco de shampoo com essência de mamão papaya —Cheire. — E ele é o que vai pôr prata nos dentes estragados? Dougless riu. Deu o nome do lugar onde se hospedavam.. preparou uma lista em sua mente de tudo o que precisava. Estava olhando a maquiagem quando ouviu um ruído por trás dela. roupas. que. Quando se voltou. Tomou uma caixa de lenços. tirou um punhado e começou a limpar o balcão e seu cinto. — Isto é papel —comentou surpreendido — Pare! Não pode desperdiçar o papel. — Não vi nenhum homem com barba. Enquanto caminhavam. — Só queria cheirá-lo —comentou. — Shampoo. — Usa um lenço uma vez e joga fora. Têm barbeiros neste tempo? — Ainda temos barbeiros. — Que é isto? —Murmurou Nicholas. estaria como nunca. desodorante. como se Nicholas fosse do passado. e Dougless sentiu sua profunda perturbação. viu que tinha aberto um tubo de pasta e tinha sujado as estantes. — Seu século é tão rico? 37 . pensou. ia funcionar bem.Ele tomou outro lenço da caixa. olhando as filas de vasilhas com desenhos alegres. — Há alguns. o qual. E para dar tempo a Robert para que me encontre. Primeiro foram no comerciante de moedas e venderam outra. É muito valioso. Encarregue-se da loção de barbear. Agora tudo. A cabeça de Dougless estava concentrada em Robert e na pulseira que tinha no bolso.

Ontem só tinha olhos para a rua. — Vamos —lhe disse Dougless sorrindo. creme e lâminas de barbear. — A senhora Beasley —respondeu. Que tipo de música é essa? É ragtime? Dougless riu. 38 . Nicholas olhou a foto da rainha Isabel.Uma vez mais se encarregou do dinheiro de Nicholas. — Creio que somos ricos em produtos —disse depois de um momento. e um conjunto completo de cosméticos. mas depois recordou que no século XVI todo o papel se fazia à mão. — Tocou em que? — É como um clavicordio.. — Olhe seu vestido. — Posso comprar um cavalo pelo que custa esta garrafa —murmurou quando ela lhe deu o preço. — Não estou certa de que deve olhar o futuro. pois o aparelho do som.— Pegou Pássaros do mundo. levantado um grande volume com fotos coloridas. e Nicholas passou a ponta dos dedos pelas fotos brilhantes. mas soa diferente. Comprou creme facial. Hoje tinha descoberto as lojas e estava maravilhado com as vitrines e tocava as letras dos cartazes. Tirou-lhe o livro. os automóveis. Estava observando a vitrine de uma livraria onde. — São magníficos —sussurrou. referindo-se à caseira do bed and breakfast — Toquei para ela. Mas Nicholas quase o atirou. quer dizer que sua memória deve de estar voltando —mas enquanto o dizia. Colocou a caixa de lenços aberta na cesta e continuou escolhendo artigos. — Vamos por aqui ao hotel. O homem olhou a seu arredor. raras e apreciadas. Ele não suportava ouvir o que valiam as coisas. Deixou sua bolsa com as compras no balcão e caminhou com ele. Estes eram posses caras. que estava apagado. — Aqui está sua rainha Isabel —lhe comentou Dougless. — Onde você escutou ragtime? Não. porque os hotéis ingleses não as proporcionavam. tinha uma edição grande e formosa de um livro de armaduras medievais. Sustentou o livro com delicadeza.Dougless ainda não o compreendia. depois podemos. pois Nicholas estava de pé frente a uma vitrine. — Quem pintou? Têm muitos pintores? — Fizeram com uma máquina. Pagou e carregou a bolsa cheia de artigos e saíram do lugar.. Esta é a nova moda? Minha mãe deveria saber isto. lenços. Abriu o livro e passou a mão sobre as ilustrações. Nicholas não se ofereceu a levá-la. não acreditava. — O Que está dizendo? Mil quinhentos oitenta o futuro? — Aqui há um bom livro. Tinham fotografias. que só tinha as pessoas ricas. começou de repente a funcionar. Junto a ele tinha livros de Enrique VIII e Isabel I. Não tinha palavras para expressar o que sentia ao ver tantos livros. e o empurrou para dentro. desodorante. Dougless olhou a data: 1582. Os livros maiores e caros se encontravam sobre uma mesa com as cobertas para cima. eram gravados em madeira e iluminações coloridas a mão. tinha até se ajoelhado para tocar no pavimento e em ocasiões observava as pessoas. Esqueceu seus problemas ao ver o rosto surpreso e jubiloso de Nicholas quando tocava com reverência os livros.—deteve-se. — Não vejo os músicos.

levantando-se. este estava na seção de papelaria tocando com cautela os papéis. tomando a fita dos Stones. Escolheu Beethoven. e lhe caía em ondas suaves até o laço de seda com que o segurava na nuca. — Poderíamos levar isto ao hotel? —Perguntou Dougless. Dougless pensou se saberia ler e escrever. Cruzou a rua em direção a Nicholas. Seu cabelo avermelhado. A Dougless não lhe agradou seu tom. Não estava segura do significado de suas palavras. Deu-lhe a bolsa com os livros. Dougless lhe mostrou hidrocores. inflexível. o qual era verdade. não parecia a mesma pessoa. assinalando um banco de madeira que se encontrava embaixo de uma árvore. mas podia adivinhar a que se referia. comprou um estojo de aquarelas Winsor Newton e um bloco de papel de aquarela para Nicholas. Olhou-se no vitral. e depois lhe beijou a mão. — Tenho minha própria roupa e quando a comprei. Se ontem pensava que tinha mau aspecto. — Ainda não me disse de onde vem a música. De alguma maneira sentia que lhe agradava a pintura. um homem do século XVI. Mas Nicholas se tinha detido de novo. — Pode comprar roupa nova —lhe disse.Quando voltou a procurar Nicholas. senão fresca e saudável. eu. — É clássica —Beethoven. Saíram da loja com outra bolsa cheia de cadernos de espiral. uma blusa de seda cor ameixa e botas de couro azuis. 39 . hidrocores de todas as cores imagináveis. — Não vou viajar com uma velha bruxa —lhe respondeu. — Espere-me ali —lhe pediu. carregando a bolsa de compras. Ele desenhou alguns traços sobre o papel de prova. Os cosméticos ressaltavam a beleza de seu rosto. canetas e lapiseiras. — Aparelho —murmurou —outra vez aparelhos. pegajoso depois de tantos dias sem cuidados. mas. quando voltou. Seus braços começavam a doer pelo peso das bolsas. Três eram de viagens para Inglaterra. mas pensou em algo mais moderno e depois riu de si mesma. Num impulso. mas não eram palavras. — E então? — A beleza não reconhece épocas —lhe comentou com suavidade.— Provavelmente um piano. um pela América e dois arredor do mundo. cuidadosamente arrumado. achou que colocaram uma fita no aparelho. Era um homem que tinha perdido completamente a memória. recordou-se a si mesma. hoje se superava a si mesma. Não era uma beleza de tipo frágil. música folclórica irlandesa também aos Rolling Stones.. agora estava penteado para atrás. Também comprou um walkman barato para que ele pudesse escutar a música. Talvez a música o ajudaria a recuperar a memória. resumo da Traviata. Também comprou luvas azuis e uma bolsa de couro da mesma cor. pensou. Demorou uma hora. como se tivesse crescido num rancho de Kentucky ou num bar de Maine. Dougless começava a ver o novo que era este mundo para ele.Tinha escolhido roupa simples. mas não lhe perguntou. Numa das paredes tinha uma coleção de fitas. e era uma ordem.. verde e ameixa. uma saia de cachemira azul. desta vez em frente a uma vitrine de roupa para mulheres. e se sentiu satisfeita pela expressão de seu rosto quando a viu. fitas de música e seis livros de viagens. Também comprou um romance de Agatha Christie. Mozart é novo para ele. mas extraordinariamente confeccionada: uma jaqueta verde austríaca. Tomou a bolsa com os cosméticos e entrou na loja.

permaneça onde estas e eu conseguirei uma comida apropriada. Irei e. O jantar é magnífico se lhe agradam a manteiga e o creme. indescritível.—deteve-se enquanto a garçonete colocava os sandwiches adiante deles. e o conduziu a um formoso e pequeno pub. E um com salada tinha uma pequena folha de alface. mas o almoço é. — Onde está o dono? — O homem que está por trás da barra parece o encarregado. Dougless observou como se dirigia para o encarregado e discutiam acaloradamente uns minutos. Depois chamaram à mulher. também. — O que é esse almoço? — Já o verá —lhe respondeu. Na América. — E os primos e tios? E os filhos? — Agora não é assim. pensou. mas não são os homens que as cuidam. Não há perigo. Mas já estava de pé.. — Está pronto para ir? Temos muitas coisas que fazer. Não. — Ir? Mas onde está a comida? — Você acabou de comer.. o chá. — Prefiro sabor em minha comida e sabor em meus pubs. senhora. como quando se aprende um novo idioma. e depois fez o mesmo. Espere um minuto.Também os homens isabelinos tinham suas vantagens. Nicholas se encolheu de ombros. Nicholas observou como a jovem tomava a estranha comida e começava a comê-la. — Mais. um sandwiche de queijo era um bocado de queijo entre duas rabanadas de pão branco com manteiga. Sempre sucedia o mesmo. Dougless protestou. Deixaram a bolsa de compras num reservado e pediram dois sandwiches de queijo e duas cervejas. a cozinheira. — Não —respondeu —Aqui há escuridão e quietude. nem a cerveja —contestou. que escutou a Nicholas.Ele a escutava com atenção. O café da manhã é magnífico. — Por isso é bom. Enquanto observava.. — Há mais mulheres sem acompanhante? —Perguntou ele. pensou. o almoço. Creio que hoje em dia a maioria das mulheres são independentes —lhe respondeu —A maioria têm seu próprio dinheiro e seus cartões de crédito. Dougless observou a seu arredor e lhe perguntou se no século XVI não tinha algo parecido aos pubs. — A comida é comida. e a mulher ali. Os homens também não tinham horários. Nicholas. deixaria de ser um problema.. Dougless sorriu.. — Lhe agrada? — Não tem sabor. não provoque problemas. o que há para jantar?’ — Agora vamos provar uma das piores coisas de Inglaterra. Ele levantou as sobrancelhas. Dougless pensou que se Nicholas aprendia a comportar-se como no século XX. Momentos depois voltou ao reservado e depois começaram a chegar 40 . Aos ingleses não lhes agradam os problemas. e Dougless procedeu a explicar a Nicholas a diferença entre um bar americano e um pub inglês. diziam: ‘Estás linda.. não importa o ano. — Ainda não é a hora do chá? —Perguntou Nicholas. Os sandwiches não são como os americanos. É. Os pubs eram uma das coisas de Inglaterra que mais lhe agradavam.

— Nicholas Stafford. O clima era ideal: fresco mais morno. Dougless compreendeu exatamente o que quis dizer. sobre ele.. mas nenhum de grande importância. Enquanto ela escrevia. fragrantes. quase fincando a língua. A hora do chá. — Aqui está!—Gritou Nicholas. Mas nada do que lhe perguntou o deteve enquanto se acabava uma fonte de comida depois de outra. pensou que seria bom para ele encontrá-la com este homem fabulosamente lindo. Propriedades desde o oeste de Yorkshire ao sul de Gales. — Tenho que saber tudo sobre você antes que possamos começar a pesquisar. — Creio que poderemos encontrar algo sobre você. olhos azuis. ensolarado mais não muito. senhora Montgomery —lhe disse. por fim bem barbeado Dougless conteve o fôlego. mas não abriu a boca. scones e docinhos. Depois de 'comer' se detiveram numa barbearia e Nicholas se barbeou. — Estou bem. Quando Robert voltasse para ela.. Levaram as bolsas de compras ao bed and breakfast e a caseira informou que tinham uma habitação com banho privado disponível. Mais terras na França e Irlanda. senhor de Farlane. — Nome completo. Depois regressaram à igreja. senhorita? —Perguntou-lhe sorrindo. — Bom. Quando se incorporou na cadeira. a um açougue comprar carne. ou título se for o caso. Sentaram-se sobre ela. e por fim uma loja de vinhos para uma garrafa. — Algo mais? — Alguns títulos de barão. mas não tinha notícias de: Robert. — Passável —Lhe respondeu. poderia ajudá-lo. Nascido o 6 de junho de 1537. verduras. carne. Nicholas começou a enumerar as propriedades que possuía. talvez agora. sorrindo. com datas e lugares. quando a mesa esteve cheia de comida —Como você propõe achar meu caminho de regresso a casa? Primeiro Dougless lhe deu uma lição sobre o uso do garfo. comeram scones e olharam os livros. docinho de porco e. O jardim era verde e exuberante. Os cachos escuros lhe chegavam ao pescoço da camisa. depois tomou um caderno e um lápis de sua bolsa e começou a escrever notas. beberam chá. devolvendo-lhe o sorriso. as rosas. Cabelo escuro. — Pior para os barões —comentou. para Nicholas. Caminharam juntos de regresso a seu pequeno hotel. cerveja negra. Conde de Thornwyck. e lhe fez mais perguntas. Foram a uma loja de comestíveis e compraram queijo e fruta. nem averiguações sobre a pulseira. girando e sentando-se com tanta brusquedade que o chá de Dougless se derramou —Minha casa mais nova está aqui—lhe mostrou o livro enquanto ela apoiava a xícara. levaram a bolsa com os livros ao jardim e a caseira lhes preparou uma chaleira e deu um cobertor. Buckshire e Southeaton. Depois de um momento fechou o caderno. Dougless pestanejou. A parte sensata da mente de Dougless lhe dizia que devia pedir habitações separadas. Uma vez ali. salada. — Meu tesoureiro iria ficar chateado —comentou Nicholas. Dougless estava sentada e Nicholas tombado sobre o estômago adiante dela.pratos com comida: frango. A camisa de algodão lhe marcava os músculos das costas e a calça se aderia às coxas. 41 . e com uma mão comia scones e com a outra dava a volta cuidadosamente às páginas. Dougless estava exausta. a uma padaria comprar pão.

deu-se conta de que não estava surpreendida pela coincidência. Parecia algo que um homem maduro. invés disso. uma carta sem terminar a sua mãe.. e foi reconstruído em mil oitocentos vinte e quatro pela família James e.. —deteve-se. A princípio. sua guerra civil. quando o conde foi encontrado culpado de traição e sentenciado à decapitação. quando três dias antes de sua execução o encontraram morto em sua escrivaninha sobre uma.—Dougless baixou a voz —. — Está bem. — Pacto é pacto. Nicholas observou as nuvens e permaneceu em silêncio durante um momento.. e tinha uma bolsa de moedas que valiam centos de milhares de libras. Não lhe soltou a mão. — Tens uma língua muito afiada. — Não. Teve dúvidas sobre sua culpabilidade. Desejou um cavaleiro de armadura brilhante. — Continua —lhe pediu Nicholas com suavidade. então não vá. mas teve um alvoroço e o encarregado regressou e lhe informou que a melhor habitação estava inesperadamente disponível.. exclusivo. Ia.. e apareceu.. não a minha. sorrindo de maneira angelical. estava recostado de costas. Quando pendurou o fone. Parecia que estava atuando algum tipo de magia do desejo. — Não me apoio em ninguém..Tomou a pulseira de Glória de seu bolso e a contemplou. e por suposto as conseguia. — Minha casa é um pub? —Perguntou Nicholas. isso foi centenas de anos atrás. Agora precisava habitações num hotel. Cada vez que desejava algo. — Agora sou meu próprio antepassado. como se tivesse encontrado alguma prova de sua existência —.. mas todas as investigações cessaram quando. um louco que achava que era do século XVI. conseguia-o. Não o compreende? Talvez podemos reservar quartos.— Castelo de Thornwyck —leu Dougless —começado em 1563 por Nicholas Stafford. mas ele lhe agarrou a mão.. — Pagarei para você disse. continuou acariciando os dedos — Ficará comigo? Retirou a mão. Averiguaremos o que precisa saber. Nicholas sorriu. quando. foi confiscada pela rainha Isabel I em mil quinhentos sessenta e quatro. gordo e rico lhe daria a sua querida vinte anos menor que ele. — Nicholas. obviamente desagradado —Ia ser um centro do saber e inteligência. e talvez possa limpar o bom nome de seus antepassados.—olhou-o. Quero dizer... Que podia desejar de Robert? Que compreendesse que sua própria filha era uma ladra mentirosa? Não 42 . diz que nunca terminou e que o que tinha dele ficou em ruínas depois da Guerra Civil. — Vou ter que pagar por estar em minha própria casa? Levantou as mãos em atitude desesperada.. Começou a pôr-se de pé. conde de Thornwyck. Dougless a reservou. —levantou os olhos e sussurrou —.—..—Deteve-se —E agora é um hotel exclusivo com um restaurante de duas estrelas. só descreve o castelo. o encarregado das reservas lhe informou com arrogância que as reservas deviam realizar-se com um ano antecipação. mas sem sorrir.... Ficaremos aqui e iremos as compras durante os próximos 20 anos. Talvez possamos alojar-nos em sua casa. olhando-a. — Menciona o que aconteceu com minha mãe? —Perguntou por último.. Pôs-se de pé e entrou na casa para ligar ao castelo Thornwyck. desejou dinheiro.. foi.. mas um homem com armadura afinal de contas. — Exceto nos homens que a abandonam..

o cabelo molhado penteado para trás. rindo enquanto ela lhe secava o cabelo. — Posso ler? —Perguntou-lhe. Nicholas viu o lustre da mesinha e Dougless esteve quinze minutos mostrando-lhe como funcionavam as luzes elétricas. pensou que talvez não sabia ler. mas não lhe respondeu. e a Dougless lhe acelerou o coração. prometendo ler mais. Este lançou algumas exclamações quando lhe explicou que estes formosos ‘livros’ em realidade eram coisas descartáveis.Produziu-se um momento de perturbação quando o viu com a cara limpa. Para ela era um prazer observá-lo. Começou a olhar as revistas. Então. mas mesmo assim não acordou. Depois de vistoriar o banheiro. seguiu lutando. subiram a sua habitação e a intimidade de compartilhá-la começou a perturbar Dougless. que faria? Queria a Robert. se encolheu embaixo dos cobertores para dormir. mas ao finalizar a primeira revista. e apagando as luzes. até que. Leu em voz alta enquanto ele olhava as fotos de Gentleman’s Quarterly. Leu durante trinta minutos antes de advertir que estava dormido. perguntou pela tina. e saiu levando só uma toalha e esfregando-se o cabelo com a outra. pão e fruta. viu várias revistas americanas: Vogue. Quase a enlouqueceu acendendo e apagando. Sacudiu-lhe o ombro. para a manhã seguinte. outra vez devido a um cancelamento. À medida que decorria o tempo. — Nicholas —sussurrou. a Dougless lhe parecia mais e mais natural passar todo seu tempo com este homem tão cortês. — Pijama —murmurou Dougless —Amanhã compraremos um pijama. odiava a roupa. Para deleite de Dougless. Banhou-se com a água tão quente que o vapor filtrava por embaixo da porta. e pôde obter uma citação. estudando os anúncios e a roupa das pessoas com a intensidade de um general que estudasse campanhas militares. Telefonou à sacristia e ninguém tinha perguntado pela pulseira. Antes que pudesse entrar na habitação. A princípio. Às sete abriram a garrafa de vinho e comeram queijo. Ensinou a usar o shampoo. enquanto Nicholas fazia questão de que ela lesse mais do relato de mistério. Olhou para outro lado quando deixou cair a toalha e se meteu na cama. Dougless se banhou e lavou o cabelo. Mas Nicholas não lhe permitiu sentir-se incômoda. Mas. Dougless pegou o romance de Agatha Christie e começou a ler. sorrindo ante sua boca cheia de pasta.desejava que nenhum pai desprezasse a sua própria filha. Pela forma que olhava as fotos dos livros e as revistas. pôs uma bata branca que tinha comprado e se deslizou dentro de uma das camas. agitando-se atrás e adiante enquanto se queixava no meio de um pesadelo. Pôs a mão no ombro. Todos os dias tinha uma acalorada ‘discussão’ sobre o banho de Nicholas. Nicholas tinha aberto as torneiras e se tinha molhado com água fria. Pediu-lhe ao vigário que lhe recomendasse um dentista. mas ao final cedeu. sua recordação de Robert era mais longínqua. assentia com a cabeça como se estivesse começando a compreender. sobre uma mesa e as levou para Nicholas. Quando escureceu. Quando ia sair. 43 . À medida que passavam as horas. A habitação estava suficientemente iluminada como para vê-lo lutar contra o cobertor. — Amanhã lhe ensinarei como barbear-se —lhe disse. A idéia parecia aterrorizá-lo. mas sua filha e seu amor por ela vinham com ele. tinha um chuveiro no banho. Sentou-se na borda da cama e se inclinou sobre ele. Inclinou-se. conseguiu que se acostasse. Estava conseguindo quando as chacoalhadas de Nicholas a acordaram. Harper's Bazaar e Gentleman's Quarterly. o enxague bucal e como escovar os dentes. contemplar o mundo através dos olhos cheios de assombro. então.

Enquanto caminhavam para o dentista. É hora de levantar. mas não a soltou. Sentiu o impulso de cair em seus braços e beijar essa pele cálida. Dougless compreendeu que estava muito preocupado. levantou-se. Enquanto comia. Todo mundo faz uma careta ao pensar que tem que ir ao dentista. tem que acordar —lhe disse em voz alta. Quando a recepcionista o chamou. creio que o mereço. mas em seu interior sabia que estava tão só e assustada como ele. retirou os cobertores e se deitou junto a ele. Dougless a apagou antes de acordar aos demais hóspedes. — Você. Estás tendo um pesadelo. Está pronto para o café da manhã? Durante o café da manhã. Desde ali observou como Nicholas dormia calmamente e seus cachos negros sobre a funda branca do travesseiro. abraçou-a como se fosse um menino assustado com uma boneca e se acalmou. tirou o walkman de sua bolsa e pegou uma fita dos Stones. lutando. e se alguma se encontrava aberta ao público. Rindo da expressão de seu rosto. Nicholas permaneceu ali sentado com os olhos muito abertos. Compreendeu que aos homens isabelinos não lhes faziam graça às brincadeiras. e na sala de espera não olhou as cadeiras cobertas de plástico. disse-lhe: —Era uma brincadeira. Nicholas acordou com a música de Can 't I get no satisfaction.—jogou-lhe um travesseiro —Irá pagar por isso. resignada. — Pôs shampoo em minha escova de dentes! — Eu. —Depois o levarei a tomar um sorvete. pois nem sequer olhou uma planta de plástico que lhe assinalou. Ainda não acabava de meter-se em sua cama. desviando do travesseiro. mas não sortiu efeito. e ela deixou de sorrir. Olhou-a sem dizer-lhe nada.Utilizando todas suas forças. 44 . Ao contrário se acalmou e parecia estar perfeitamente feliz de tê-la consigo. Era seu próprio cavaleiro de armadura brilhante? Recuperaria a memória e descobriria que tinha um lar em algum lugar de Inglaterra? E se tinha que escolher entre Robert e este homem? Sentindo-se um pouco travessa. senhorita? —Disse Nicholas com uma expressão de inocência no rosto. Dougless saiu do banho protestando. além de Thornwyck. pediu-lhe que lhe desse os nomes de alguma de suas outras propriedades. tomou-a entre seus braços e a atraiu para ele.Acordou antes que amanhecesse.— Nicholas. Dougless lhe separou os braços e voltou a sua cama. acorde. saiu da cama e voltou à sua. — Nicholas.. Pôs a bochecha no oco de seu cálido ombro e dormiu. que fazia isso por ele. sorrindo antes de acordar ao sentir o corpo cálido e grande de Nicholas junto ao seu. mas como continuava impressionado. — Está bem. Imediatamente.Vinte minutos mais tarde. Dougless lhe informou sobre sua hora com o dentista e Nicholas fez uma careta à qual ela não prestou atenção. apertoulhe a mão. — Tudo sairá bem.. Suspirando. permaneceu calmo. Dougless pensou que era uma verdadeira mártir. Dougless sorriu. — Deixe-me!— Pediu. Imediatamente. — Mais música ao amanhecer? —Perguntou-lhe. — Que inferno era esse? — Música —respondeu Dougless. quando Nicholas começou a lutar e a queixar-se outra vez. Correção: homens modernos que achavam ser isabelinos. Colocou-a junto à cabeça de Nicholas e apertou o botão para que funcionasse. rindo. então poderia ir à biblioteca local e averiguar algo sobre elas. Abriu os olhos com rapidez. Voltou e ficou de pé junto a sua cama.

Os três dentes que lhe extraíram parece que foi arrancado literalmente da boca. Ou inundação. O senhor Stafford me desconcerta—lhe comentou. com livros para meninos e novelas para adultos. Não estará pensando em estudar odontologia? 45 . e colocou as radiografias de Nicholas sobre a parede —Geralmente minha política é não realizar comentários sobre o trabalho de outro profissional. e geralmente significa ter passado fome durante um ano quando menino. mas sem anestesia ou calmantes posteriores. aqui e aqui o osso está rompido e cresceu torto. — Como estavam seus dentes? Como se comportou como paciente? — Excelente em ambas coisas. duas tinham sido incendiadas em 1950. sei que é impossível. mas. Dougless. Arrumei-lhe uma cárie e lhe revisei os demais dentes —ficou desconcertado um momento —Tinha uns pequenos estragos nos dentes — vi em livros. Olhe. Fazia uma hora e meia que Nicholas estava no consultório do dentista. O senhor Stafford. Decorreram outros quarenta e cinco minutos. o arranjo dental do senhor Stafford foi. mas não pôde encontrar nada sobre a família Stafford. corrigiu-se. Dougless praticamente correu de volta ao consultório do dentista. outra não a pôde encontrar. — É só um dentista —pensou. mas não creio que o senhor Stafford tenha visto nunca uma agulha hipodérmica. Seca. Algo que provocava que se perdessem as colheitas numa época na que não tinha refrigeradores ou comida congelada ou fresca que chegasse de outros lugares do mundo. Não me pareceu um homem cuja família não pudesse comprar comida. uma era Thornwyck. dias e horários. Pergunto-me o que pode tê-los provocado. Bom. Copiou a informação pertinente sobre esta. só posso descrevê-lo como brutal. quase responde.Mas sabia que ele não tinha idéia do que era um sorvete. desagradou-lhe saber que tinham sobrevivido tanto e foram queimadas tão recentemente. — Não quis fazer-lhe perder tempo —lhe disse o dentista —estava preocupado por seu arranjo dental anterior.—sorriu—fez muitas perguntas. então. duas eram residências privadas.O dentista apagou a luz. Não se lembra do que é um sorvete. — Mas claro que devem de ter-lhe posto uma. Quatro eram ruínas. Muito descontraído na cadeira e riu quando a assistente lhe perguntou se lhe tinha doido. A biblioteca era muito pequena. e outra estava aberta ao público. sentiu-se como uma mãe que deixa seu menino. pediu à recepcionista que a chamasse à biblioteca quando estivesse a ponto de terminar. não podemos imaginar a dor que lhe teriam provocado extrações como essa. pelo menos um arranjo e uma limpeza. saltou. Quando soou o telefone da escrivaninha. — Mas não era assim à quatrocentos anos? O dentista riu. Enquanto caminhava para a biblioteca. e olhou o relógio. Nesta época. A bibliotecaria lhe informou que era o dentista e que Nicholas já quase tinha terminado. Olhou o ficheiro. Talvez lhe puseram uma quando lhe tiraram esses dentes. como pode ver aqui. — Imagino que a quatrocentos anos todos sofriam extrações assim... Deve de ter sido extremamente doloroso e também.. sabia que demoraria um pouco. Sentou-se numa banqueta na seção de viagens pela Grã-Bretanha e começou a procurar alguma menção das onze propriedades que Nicholas afirmava possuir. Este saiu a saudá-la e lhe pediu que passasse ao consultório.. Como lhe tinha marcado uma hora para uma revisão.

Dougless pigarreou e desviou o olhar. Estava tão concentrada considerando a pergunta que se assustou quando ele se inclinou e a beijou nos lábios. Tinha explicações para tudo. Observando esses olhos azuis e essas largas pestanas enquanto lambia o sorvete. Dougless o conduziu a uma mesa. — Olha-me com muita força—lhe comentou. Piscando. na realidade. paquerando com a bela recepcionista. Dougless não pôde deixar de rir. — É uma pessoa curiosa. O que ela tivesse podido verificar tudo o que lhe disse significava que Nicholas tinha que ter a mesma informação para utilizá-la na farsa que podia fazer para provar-lhe que era do passado? Na sorveteria pediu um picolé para ela e para Nicholas um cone de baunilha e chocolate. observando-a. — Um tesouro enterrado —lhe disse por fim. Podia ser um ator fingindo que tudo era novo para ele. — O que deixou inquieta? — Quem é você? —Gritou —Por que tem estriado os dentes? Por que romperam a mandíbula quando lhe tiraram os dentes? Nicholas lhe sorriu quando viu que por fim começava a acreditar nele. Tudo e todos conspiravam para fazer-lhe crer que este homem. — Não desejo saber quem foi o pai do menino de Lady Sydney —não o olhou quando Nicholas se jogou a rir. Muito obrigado por seu tempo e sua preocupação. observou-o e viu a expressão de felicidade em seu rosto enquanto comia o sorvete. Faz dois dias estava numa cela esperando minha execução e era o ano mil quinhentos sessenta e quatro. — Não é o barbeiro que fui —comentou Nicholas. O que a faria crer? Não podia pensar em nada. Não pode ser verdade.Dougless sorriu. Algo que não figure num livro.seria um prazer levar esse homem e suas máquinas de regresso comigo. Dougless lhe deu obrigado outra vez e saiu à recepção onde se encontrava Nicholas inclinado sobre o balcão. Conde de Thornwyck. perguntava-se se olharia assim a uma mulher quando lhe fazia amor. totalmente concentrado em seu sorvete. reflexionava sobre a pergunta. Poderia ter rompido os dentes jogando futebol na escola. era do século XVI. — São todas elétricas —lhe contestou Dougless. — Não posso acreditar —replicou Dougless —Não acreditarei. Buckshire e Southeaton. — Mmm? —Perguntou-lhe Nicholas. — O que faria para acreditar em mim? —Perguntou-lhe com suavidade. CAPÍTULO 5 Enquanto caminhava junto a ele para a sorveteria. — Vamos—lhe disse com brusquedade. — Sou Nicholas Stafford. 46 . — Para me provar que vem do passado tem que saber algo que ninguém mais saiba. Ele a agarrou no braço e a fez dar-se a volta para que o olhasse. sorrindo e esfregando o lábio anestesiado . — Como quem foi o pai do último menino de Lady Sydney?— Parecia como se fora a derreter-se de felicidade.

— Os donos não costumam poder manter as casas e se as cedem à Direção do Patrimônio Histórico.. enquanto lambia o sorvete —Algo valioso e escondido que ainda esteja ali depois de quatrocentos vinte e quatro anos? Dougless voltou a olhá-lo. Não me agrada escutar o que era meu desapareceu.. Alegrou-se de escutar isso..—. Dougless observou a dor em seu rosto. sua Rainha Virgem. não porque fosse importante. pode-se chegar em duas. De repente. orgulhoso. — Era só um pensamento —abriu o caderno — Deixe-me que lhe conte o que encontrei — leu as notas sobre suas casas. Quando minhas propriedades foram confiscadas por sua.— Podemos ir em. e de repente sentiu o fácil e seguro que era o século XX. — Certo. Um paga e um guia o leva de visita pela casa. Bellwood. — Bubas? Olhou ao seu arredor.. Nicholas parecia estar calculando. — Com um bom trem inglês. Tinha um. 47 . Nicholas estava esfregando as mãos e franzia o cenho.. — E caminhando.—comunicou-lhe a Dougless o que pensava dessa idéia absurda —.. mas morreu numa queda uma semana antes de que meu irmão se afogasse. Se não deseja ver os homens com cara de sebo. Doenças venéreas.. — É Bellwood a que está aberta? Dougless conferiu suas notas. — Teve varíola? — Não.. Esta tem um salão de chá e uma loja de presentes e.. — Homens com aventais — disse sorrindo. zombador—... Então. mas os isabelinos tinham pragas..... tomar o chá ali e percorrer Bellwood. — Um homem constrói algo que sobrevive.Talvez tenha uma possibilidade. — Sim.trem a Bellwood? Dougless olhou seu relógio. São muito boas excursões. Lhe agradaria voltar a sua casa? — Ver minha casa vendida a outros. — Que significa aberto ao público? —Perguntou Nicholas.. nem também bubas de outros tipos —lhe respondeu. podemos chegar a Bath em sete horas. com homens com avental e sebo caminhando por ela? Dougless sorriu. mas compartilhavam o banho. — Se o vê assim. uma pequena possibilidade de que lhe possa conseguir seu tesouro enterrado.—olhou-a. Nicholas se sentou direito. — Achei que seus filhos levariam seu nome. — Oh —exclamou ao compreender. lepra e varíola.. — Não deixei filhos.? — Trem. América tinha seqüestradores e assassinos e motoristas bêbados.— Um tesouro enterrado —comentou. — Com cavalos rápidos. para que ir? — Há uma possibilidade. — O mal francês. não lhe deram permissão a minha família para que as limpasse. Podemos ir agora.. Quando levantou os olhos. ao sul de Bath.

comentava: — Essa é a casa de Williams. Nicholas examinou a porta. onde guardavam o dinheiro? Quero dizer. Dougless achou lindo. o seguro. Pensou que os agregados eram arquitetônicamente horríveis. horrorizado. Quase todos os lugares tinham estação. Ele atuaria como se lhe parecesse algo fantástico. ao ver que o entristecia. fascinado com a ornamentação de ferro da estação victoriana. Talvez não seria tão difícil ensinar-lhe a ler. — Mas se vocês não tinham bancos. levou-o à loja de presentes. já que os trens passavam com maravilhosa freqüência. Almoçaram numa loja de sandwiches do tipo americano e Dougless pediu sandwiches. os ingleses estavam limpos. sentiu-se feliz nela. — O tesouro está enterrado nos jardins? — Estragar um jardim pondo ouro nas raízes das minhas plantas? —Disse. e uma vez dentro. e não mediu suas palavras para dizer. Nicholas ia olhando pelas grandes janelas e de vez em quando. Dougless se virou para tirá-lo fora antes que exigisse uma cabeça de javali ou algo parecido. Os jardins pareciam irritá-lo. Para Dougless era velha. Nicholas encontrou a comida saborosa. Uma vez em seu assento. A formosa Bath era uma maravilha para Nicholas. a visita já tinha começado então tiveram tempo para caminhar pelos jardins. Dougless comprou um grande guia dos castelos do sul de Inglaterra e a caminho de Bath começou a ler a Nicholas sobre suas casas que estavam em ruínas. depois de examinar o assento traseiro. enquanto jogava com os lápis e bolsas de plástico e riu forte quando viu pela primeira vez uma lanterna com o castelo de Bellwood estampada nela. pensou ela. 48 . Mas não lhe agradavam os postais e Dougless não podia imaginar o que lhe incomodava nelas. onde eles guardavam o dinheiro? Nicholas não compreendeu sua pergunta e Dougless não voltou a repetir. acostumou-se à velocidade e começou a caminhar. corrigiu-se. Caminhou ao redor da imensa casa e lhe comentou o que tinham agregado e mudado. deteve-se. Dougless pensava que Nova York ou Dallas. com seus edifícios de cristal e aço lhe pareceriam o espaço exterior. Olhou a estante de mochilas que tinham fotos de Bellwood na parte dianteira. Quando chegaram a Bellwood. Um trem para Bath estava a ponto de partir da estação quando Dougless comprou os bilhetes. Mas ao subir o automóvel afastou a mente de Nicholas dos edifícios. mas escassa. mas. Pararam em Bristol e mudaram de trem. estudando os anúncios que se encontravam na parte superior das paredes e assinalando um do Colgate quando reconheceu a pasta que Dougless tinha comprado. já que sua arquitetura datava do século dezoito. então. Os taxistas da Inglaterra são diferentes dos americanos. ali vive Robin —ao ver uma das enormes casas que salpicavam a campina inglesa quase com tanta freqüência como as vacas e as ovelhas. e não era uma coincidência muito freqüente. mas para ele era muito moderna. Nicholas estava estupefato ante tanta gente que corria. e abriu e a fechou três vezes antes de entrar.A Dougless lhe atraía a idéia de passar à tarde procurando um tesouro enterrado. bem pintadas e bem conservados. Por um momento. Depois de uns momentos de nervosismo e como um verdadeiro cavaleiro inglês. Não gritam quando um demora ao entrar no táxi. Nicholas estava absorto com a velocidade do trem. mas Nicholas quase nem olhou. — O que estamos esperando? Outra das coisas que ela adorava da Inglaterra era sua rede ferroviária. a diferença dos trens americanos.Estava tão fascinado com Bath que a Dougless não lhe agradou pegar um táxi e tirá-lo do lugar. salada de batatas e chá gelado para os dois. reclinou-se para diante e observou o volante e a alavanca de mudanças.

— Chiss. Nicholas ofegou forte. mas não disse. Nicholas. e se inclinou para sussurrar-lhe: —Para o tesouro. mas Dougless lhe deu uma cotovelada nas costelas. — Meu pai disse a minha mãe que era sua propriedade. Mas não desejava ir. — As velas eram muito caras. — Se parece com a que conheceu? —Murmurou Dougless. Dougless e Nicholas entraram na casa com outra dúzia de turistas. pois não desejava que a comprometesse.. até que se referiu à época de Enrique VIII.A guia começou seu relato: — Este era o quarto privado de Lorde Nicholas Stafford. Quando entraram.. As mulheres não tinham poder. construída como castelo em 1302 pelo primeiro Stafford. e por seu sorriso a audiência soube que vinha algo entretido. era um homem bem apessoado. A mulher estava narrando a história da casa. Chamaram o próximo grupo. pendurando sobre o paramento. por isso os homens medievais viviam na escuridão. ofegando zombadoramente de vez em quando. e para dizê-lo com gentileza. bustos esculpidos e uma armadura pendurando sobre uma parede. — Esta não é minha casa. e ele a utilizava como achava conveniente. 49 . — Agora nós vamos —lhe disse com tanta firmeza que a jovem desejou com maior intensidade ver a habitação. tinha cadeiras jacobinas. estou pronta. a varíola e as visitas do barbeiro para que lhes arrancassem os dentes. Nicholas permaneceu quieto enquanto ela falava. O atraente rosto de Nicholas tinha uma expressão de desgosto. mas Nicholas não a deixou. Seguiu à guia habitação depois de habitação. — A mulher medieval era propriedade de seu esposo. Ali. Agarrava-a com força no braço e a afastava cada vez que se acercava a estante. tinha um retrato de Lorde Nicholas Stafford. que era mais alto. Dougless fechou a porta e lhe fez um gesto de desculpa à guia. não tinham tempo para a diversão. Nesse momento. — Onde está seu tesouro? —Perguntou-lhe. uma só vez. Como podem observar. cuja mirada: fez ela se sentir como um menino descoberto com a mão na caixa de bolachas. — Quero ouvir o que pensa vosso mundo do meu —lhe respondeu — Por que sua gente parece crer que não tínhamos alegria? — Suponho que com todas as pragas..Passaram a outra habitação. Dougless abriu o passo entre o grupo. — Chegamos a nossa habitação mais popular —explicou a guia.. — Aproveitávamos o tempo que tínhamos —lhe respondeu enquanto o grupo se deslocava para a outra habitação. O interior parecia o palco para uma obra de Isabel I. A escuridão era opressiva. Nicholas começou a abrir a boca. Dougless comprou a mochila e a lanterna. olhou ao interior antes de Dougless. Nicholas abriu uma porta oculta num painel e começou a soar um alarme. — Comporte-se! —Pediu-lhe Dougless— Se deseja ir.. Os guias de turismo ingleses eram excelentes e conheciam muito bem seu trabalho. e depois de comprar entradas. mas sem dizer nada.Necessito uma destas —lhe sorriu. Estava coberto de painéis de carvalho escuro. e desejava olhar os postais. É muito desagradável que se tenha convertido nisto Dougless pensou que o lugar era bonito. era conhecido como o que agora chamaríamos um libertino. porque a guia tinha começado com as explicações. —disse-lhe Dougless.

.— Ademais. — Em mil quinhentos sessenta se produziu um grande escândalo que envolveu a Lady Arabella Sydney —a guia fez uma pausa..Você a deixou grávida. afastando-se outra vez. Claro que não era o mesmo homem. — Te levarei ao tesouro —sussurrou. Todos tomaram alento ao contemplar uma mesa de carvalho que se encontrava contra a parede. Lorde Nicholas. — Dizia-se que nenhuma mulher podia resistir seus encantos quando ele se fixava nela. mas o alarme continuou ligando e desligando. senhorita. ligava e se desligava. Ela lhe tampou a boca com a mão para que ficasse quieto. sorrindo ante o que achava que era uma história entretida. — Não. Dougless deu um salto enquanto o observava afastar-se. e seus inimigos estavam preocupados de que pudesse seduzir à jovem e bela rainha Isabel. — É verdade? O de Lady Sydney? Franziu o cenho.—baixou a voz—.. Dougless puxou Nicholas pelo braço e o afastou do alarme. Dougless não teve que olhar para saber quem o estava fazendo ou o por que. Mas Nicholas não lhe fez caso. era tão bonito como agora. seguiu-o. pensou. Quando nada sucedeu. — Quero ir agora —lhe disse definitivo ao ouvido. — Não pode entrar aí —lhe advertiu quando pôs a mão numa porta que tinha um letreiro de “PROIBIDA A ENTRADA”.. com barba e bigode. Começou a passar para atrás. Também se dizia.. irritado. começou a narrar as numerosas proezas de Nicholas com várias damas. Estava vestido exatamente igual quando o conheceu. Ela o olhou com interesse. aliviada — Dei a mesa a Arabella.. e depois o seguiu a toda pressa. e começou a afastar-se enquanto Dougless sorria. Dougless quase teve que correr para cobrir a distância que ele devorava com suas longas pernas. — Por favor! —disse a mulher. mas se estava disposta a admitir que devia de ser descendente dele. Tinha uma forma de olhar que a fazia crer que era um conde. esperando entrar em 50 . Da parte do fundo da habitação se escutou um alarme. — Devo pedir-lhe que se retire pediu a guia com firmeza — Pode sair por onde entrou. mas ele a deteve com uma mirada. Dougless o afastou com a mão. .que o menino foi concebido sobre aquela mesa. e ela conteve o alento esperando que soasse o alarme.seu Nicholas. — Veremos se esta gente torpe violou meus aposentos —lhe disse.. Que ligava e se desligava. A guia continuou: — Naquela época se dizia que o pai do quarto filho de Lady Sydney era Lorde Nicholas. —começou a dizer. A guia.. nada aconteceu sobre essa mesa —se voltou. Dougless sentiu que Nicholas lhe tocava o ombro com a mão. impedindo que a guia pudesse continuar. que era uns anos mais jovem que ela. — Que trivialidades se recordam ao longo destes quatrocentos anos —comentou Nicholas. saíram cruzando duas habitações.

—disse-lhe. — Não vai me dizer que estou mentindo? — Creio que não. Aqui o teto raso estava manchado as largas tábuas do andar estavam perigosamente podres.. E tenho que regressar.. — Chsss. Caminhou sobre as tábuas podres. mas mudou sua expressão por um sorriso. e tocou a parte do painel que ele tinha golpeado. —disse-lhe Dougless. e Dougless pensou que era uma pena ocultá-los. Mas não tinha secretárias. estou segura de que regressará. Dougless correu para ele e sem saber que fazer.. Nicholas se afastou e lhe deu as costas. e. em seus braços e lhe afogou em seus cabelos. pareciam estar cheias de guardanapos de papel e outros acessórios para o chá. Olhou-a outra vez e seu rosto tinha uma expressão de fúria. Não sucedeu nada. De repente. Por fim. — Vamos averiguar respondeu com suavidade . tomou-o. Não desejava que a recordassem por todas as coisas tontas que tinha feito. painéis quebrados.Abraçou-se a ela com tanta força que Dougless quase não podia respirar. 51 . e Dougless o viu secando as lágrimas. tinha formosos painéis.. tetos rasos pintados manchados pelas goteiras do telhado. agarrando-o pelos ombros. o conhecimento que podia limpar meu nome e salvar-me da execução.. teria mudado tudo.. Comecei a construir Thornwyck. Numa habitação alguém da época victoriana tinha empilhado os painéis de carvalho talhados e Dougless viu onde tinham estado tirando com cuidado o papel. Já está feito. — Mas se tivesse vivido.. Durante três dias por semana foi a um centro de meninos que. Nicholas tinha o cenho franzido. Por trás delas. Dougless ficou na entrada e Nicholas olhou com tristeza o lugar. — Chsss. quando a tivermos.uma habitação cheia de secretárias e máquinas de escrever. Tinha aberto uma pequena porta. pelos cartazes que tinham. Ninguém pode atuar tão bem como você —não desejava pensar sobre o que estava dizendo. Dougless o olhou e soube que lhe estava dizendo a verdade.. — Era minha tentativa de que me recordassem pelo meu saber—lhe disse. As estadias não estavam abertas ao público tinham lares rompidos. nem nenhuma outra pessoa.Pedi aos monges que copiassem centenas de livros. Nicholas a conduziu a uma pequena habitação afastada de uma maior. foi até um painel e o empurrou. — Sabe como fazê-lo? — Não. — Este era o aposento de meu irmão e esteve aqui faz quinze dias —lhe explicou suavemente. Talvez aconteça quando souber para que o enviaram. desejava que a recordassem por coisas como ter ajudado como voluntária os meninos que não sabiam ler. como se fosse um menino. tinham recebido muito pouca atenção em suas vidas. a encontraremos e. mas. Um homem do século XVI não podia aparecer nesta época.Se a informação ainda existe. Só caixas empilhadas até o teto. ‘A fechadura estava enferrujada ou alguém a selou’ —comentou. em sua maioria. Era o mesmo que ela sentia por sua família.—Olhe — disse. Seguiu Nicholas por mais três habitações e pôde ver diferença entre o restaurado e o sem restaurar. Tenho que descobrir o que minha mãe sabia. pareceu enfurecer-se e começou a golpear o painel com os punhos. depois se encolheu de ombros como para não se sentir pena. — E a única coisa que recordam é um momento numa mesa com Arabella — lhe disse. apoiado contra seu pescoço e com voz chorosa .

de lado a lado. pensando em Lady Arabella sobre a mesa. Tinha visto coisas como esta nos museus. — Pode ler isto? —Espero que sim. Nicholas avançou. Disse-me que ama . 52 . e não pela mulher que ama. sem margens. — Pus isto aqui faz só uns dias. Não contei a ninguém. Tomou a caixa. — Mas agora as mulheres não são como em minha época —lhe disse. — Esse Robert virá pela jóia. Ela voltou a olhar. Tomou-lhe o queixo e levantou o rosto. enquanto olhava a caixa. e Kit me mostrou uma semana antes de morrer. Mas espera. — Me agrada ver que a natureza da mulher não mudou nestes quatrocentos anos.. —pediu-lhe. — Robert. e o coração lhe batia desbocado enquanto ele a olhava. abriu a mochila que tinham comprado e a meteu. olhando outra vez o buraco — Ah. — Que significa isso? — Nem mais nem menos do que isso. Ia beijá-la? Pensou. mas nunca tinha tocado uma. assombrada... Robert parecia seguro. Estavam cobertos de cima abaixo. possamos arrumar as coisas. Dougless estava contra a parede. — Meu pai falou sobre este lugar só ao meu irmão. — Ah —exclamou Nicholas. Ou talvez quando receba minha mensagem sobre a pulseira venha até mim —desejava recordar Robert. — Eu não seria capaz de conquistar uma mulher como você. e Dougless compreendeu que estava brincando. já que eu o escrevi —respondeu. — Vai me fazer esperar até que tenha comido para ver que há dentro da caixa? — Não posso crer. — Se deseja dizer algo. e a olhou de uma forma que provocou que o coração de Dougless se acelerasse um pouco. Fechou os olhos. Abriu os olhos e se endireitou quando lhe deu um golpezinho no queixo como poderia fazer um pai ou um chefe com uma secretária sentimental. Nicholas riu. É um tesouro maravilhoso.. Nicholas tinha uma expressão de consternação. formosamente talhada com figuras de pessoas e animais. Dougless lhe bloqueou a saída da habitação. Talvez quando eu volte aos Estados Unidos.Esta é a era da. Dougless tomou os papéis e os desenrolou um pouco. diga... Nicholas riu. dirigindo-se para a porta. com uma escritura incompreensível. Olhou-o com vaidade. — Não seja tão convencido. baixando a voz. fechando a pequena porta secreta .—Libertação —lhe respondeu. Dougless o observou enquanto introduzia a mão e tirava um rolo de papéis frágeis e amarelados. — O tesouro está dentro. Comparado com este homem. quando ela começou a abrir a caixa — Preciso comer. Sim. aqui está seu tesouro — entregou a Dougless uma caixa amarela e branca.Nicholas a abriu totalmente. ou se esquece de que tenho seu bilhete de regresso? A expressão de Nicholas se suavizou. — É marfim? —Perguntou-lhe.. — Poderia seduzí-la de volta ao hotel —lhe disse num tom indiferente. — É linda. — Já ouviu que nenhuma mulher pode me resistir lhe advertiu.. Dougless retrocedeu. eu amo.

Na parte de cima tinha dois anéis de extraordinária beleza.— Mas claro que virá por mim! A pulseira é. Nicholas pegou os anéis e sorrindo-lhe. No salão de chá. ficou perfeitamente bem. Ela lhe serviu o chá.. Quando eles se foram. e ele lhe levantou o queixo e lhe secou uma lágrima. correndo atrás dele — Não quis dizer isso.. desceram por uma escada de pedra e cruzaram jardins. Pelo menos. Nicholas lhe passou o braço sobre os ombros. e claro que Robert acredita em mim. Dougless se sentou e esperou enquanto ele falava com uma mulher que se encontrava por trás do balcão. Muito National Inquirer. e saiu. É só que Glória é uma piralha e mentiu. Saíram juntos das habitações sem restauro. — É verdade? —Perguntou-lhe.. Depois te mostrarei a caixa. Nicholas se encarregou de pedir. E o que mais? — Primeiro o chá. Chá. viu um homem e uma mulher trazendo duas grandes bandejas cheias de chá. o recordarão pelo que fez numa mesa de operações em lugar de uma em. docinhos. pois não confiava em sua voz. é culpa nossa. Estava irritada. desculpe —lhe disse. Muita televisão. até que chegaram embaixo de uma telheira com suas brilhantes bagas vermelhas. Se não me falha a memória. pequenos sandwiches sem crosta e os scones que tanto agradavam a Nicholas. — Então vamos. mas Dougless sabia que conseguiria o que desejava. A mulher negava com a cabeça algo que Nicholas lhe pedia. os colocou.. — Nicholas. isso é tudo. Deixe de me olhar assim! Robert é um homem bom. outro com um rubi. engarzados sobre intrincadas formas de dragões e víboras de ouro. —deteve-se ante a expressão de Nicholas. Nuns minutos a chamou. nessa caixa há uma pérola grande como meu polegar. agregou leite. tirou a antiga e frágil caixa de marfim e a abriu contendo o fôlego. — Era meu jardim preferido —lhe comentou com voz triste — E ali tinha um montículo.. Já tinha se esquecido da caixa. No fundo da caixa tinha um bocado de veludo velho e rompido que envolvia algo. Nicholas os ignorou enquanto colocavam um cobertor sobre o solo e preparavam as coisas para o chá. Ele a afastou. serviu-lhe um prato com comida e lhe perguntou: — Agora? Nicholas sorriu: — Agora. Dougless tomou o veludo e o desembrulhou. Ele também a deixaria? Dougless tinha a cabeça baixa e não o ouviu voltar. Com cuidado. Olhou a Nicholas. Não é culpa sua que lhe recordem por Arabella. por favor —se deteve onde estava. Dougless procurou na mochila. — Que estão fazendo? 53 . Levou-a para fora. Em sua mão tinha um broche ovalado com pequenas figuras de ouro de.. Quando Dougless se deteve e olhou a seu arredor. Muito sensacionalismo Colin. passaram o seguinte grupo de turistas e abriram a porta de saída. o qual não agradou aos guias.. Nicholas estendeu a mão para ajudá-la a sentar-se sobre o cobertor. — Vendem aqui sorvetes? Ela riu. — Outra vez chorando? Negou com a cabeça. um com uma esmeralda. scones e sorvete.

..— Dougless pensou que era algo assim. É muito valiosa. tinham-no decapitado. — Que aconteceu com a mãe de Nicholas depois que ele morreu? — Lady Margaret? Deixe-me pensar. perguntou-lhe ao caixa se nos livros que estavam à venda tinha algo sobre Nicholas Stafford. Dougless tomou uma. — É uma bugiganga de mulher. que não tenham haver com as mulheres? — Creio que não fez nada exceto formar um exército contra a rainha. Na parte inferior tinha postais da famosa Lady Arabella. mas voltou. — Minha mãe se casou com Harewood? Dougless lhe olhou as costas e se perguntou o que estaria pensando. — Sabe se ela legou algum papel? — Oh.. — Perto de Thornwyck —lhe respondeu a mulher. sua mãe. não. — Goshawk Hall? —Perguntou-lhe. na pobreza. Deveria estar num museu. mas neste momento não temos. Lorde Richard Harewood. e todos os papéis estão em.Voltou a cara. Qual era seu nome? Ah. Harewood. sim. Ele lhe tirou a jóia e a pôs no meio da blusa. Se não tivesse morto. —não recordava o nome. A mulher sorriu de maneira condescendiente. tinha uma pérola tão grande como o polegar de um homem. Deveria.. Demorou um instante ao ver que Nicholas não desejava que visse.Dougless tomou a postal e se dispôs a ir. Creio que se casou outra vez. Embaixo do broche. ali. e pendurando de um laço. Não tenho idéia disso. — É seu —respondeu Nicholas. mas se conteve.Dougless tirou o estojo de maquiagem de sua bolsa. No caminho de regresso para onde se encontrava Nicholas. Se ele morreu acusado de traição. porque o homem estava a ponto de cortar a cabeça à mulher de ouro. — Todas as jovens perguntam por ele..— Todos os papéis dos Stafford estão em Goshawk Hall —respondeu uma voz da porta. Só nos lavabos teve tempo de contemplar a jóia e só se interrompeu quando alguém entrou.. deteve-se na loja de presentes e olhou os postais. Nicholas riu. mas com um brilho que o passo dos anos jamais poderiam escurecer. — Sim. fazendo com que Nicholas risse enquanto se punha de pé. justo embaixo do pescoço. Rodeando as figuras tinha um desenho abstrato esmaltado e ao redor das bordas pequenas pérolas e diamantes. Também viu sua cara. — É adorável —murmurou Dougless. se teria visto forçada a se casar com um déspota 54 .. Ao pagar. — Não posso.— É o martírio de Santa Bárbara —lhe explicou como se ela não soubesse nada. — Thornwyck —repetiu Dougless.. Era uma pérola barroca. — Tenho que ir ao lavabo —lhe explicou. e foi sentenciado à morte por isso. — Tua mãe se casou com Richard. com volume. — Não posso —replicou. sentindo-se incômoda. Dougless sentiu um surto. Deu obrigada à mulher e correu desde a loja até o jardim onde estava Nicholas sobre o cobertor tomando chá e terminando os scones. falhado. e quase lançou uma exclamação de alegria. Costumamos ter postais de seu retrato. Era a guia cuja visita tinham interrompido.. ainda tinha a jóia na mão fechada. Vale muito.lhe disse quase sem alento —.. Um jovem bastante pícaro. É cerca de Thornwyck. — Onde fica Goshawk Hall?— Perguntou Dougless. — Não há nada escrito sobre ele? Sobre suas atividades. Harewood . abriu o espelho e se olhou. Podes conservá-la.

e estava. Quando voltar a Thornwyck.. tomou a pequena bolsa de papel e a abriu.. Mas agora. recordando quando ia no assento traseiro do carro de Robert. rindo. — Nicholas.desprezível? Sua mãe anciã e frágil teria tido que suportar a um homem que a tratou como se lhe pertencesse?Quando Nicholas começou a sacudir os ombros. mas depois recordou as revistas americanas que Nicholas tinha estado olhando. ela também teria que se comprar mais. — Um asno. não é tua culpa.É bom saber que não ficou na pobreza. e enquanto ela alongava a mão. — Sim. mas ele já estava olhando a postal de Lady Arabella. CAPÍTULO 6 Dougless se sentou na parte traseira do grande táxi. Assim é como estava. Amanhã. ia Nicholas.Mas rico. que tinha as mãos por trás da cabeça. Não podias ajudá-la. sem olhá-lo — A postal é para pesquisar. poderia comprar-me um pouco de Armant e Rafe. Dickie Harewood —quase não podia falar pelo riso. — Conta-me —lhe pediu Dougless. disse-lhe a Dougless: — Que diria se ficássemos aqui esta noite? Amanhã. Dougless mordeu um pequeno sandwiche. tinha chamado um táxi e lhe tinha pedido que os levasse a um bonito hotel em Bath. pensou. Ainda sorrindo. pensou. Depois de um momento. sorrindo . tratando de acomodar-se entre a bagagem de Glória. Estava absorto com um vídeogame de pilha que tinha comprado essa manhã. Ontem depois de tomar o chá em Bellwood. — Não tinham uma foto da mesa também? —Brincou. Mas essa noite. Dougless lhe pôs a mão num deles. O taxista os levou a um precioso edifício 55 . rodeada de bagagem. — Dickie Harewood é um tipo calvo. essa noite estariam outra vez sós na habitação de um hotel. Que estou dizendo? Pensou. — Giorgio Armani e Ralph Lauren? —Perguntou-lhe. Olhou-a de uma maneira que Dougless sentiu desejo de jogar o chá em sua cabeça. senhorita —lhe explicou Nicholas . compras. Poderia ajudar. Mas Nicholas se voltou. com as pernas estendidas. Dougless reclinou a cabeça para trás. Olhou Nicholas. Estavas morto. — Não —começou a dizer. — Não tenho idéia do que queres dizer — respondeu. serviu-lhe outra xícara de chá a Dougless. a Thornwyck.. torpe e inútil. sentado a seu lado.— na realidade não sabia que poderia ajudar a averiguar uma foto da mãe do filho ilegítimo de Nicholas — Comeu todos os scones? Às vezes você é realmente um porco. Dougless franziu o tenho. sem compreender. onde tratariam de descobrir quem o tinha traído com a rainha. — Devia saber que se arranjaria. eu também não serei pobre.. A não ser que encontrasse Robert e sua roupa. Nicholas riu. Roupa desta época. Dougless demorou um momento em compreender o que tinha querido dizer. ao dia seguinte. muito rico —se reclinou para trás. fechou os olhos e pensou nas últimas horas.

Sentiu-se decepcionada por não ter dormido entre seus braços. 56 . — Boa noite. Mais tarde. levando só a calça e secando o cabelo molhado. e então Dougless comprou entradas. pipocas de milho. sorrindo. Era uma formosa habitação com papel de flores e colchas de jogo nas duas camas. e não de um homem que podia ou não estar louco. Desejava ir dormir. Pensou que era um pouco irônico que um cinema americano projetasse um filme inglês. faria pintar rosas e lilás nas paredes. Nicholas estava cheio de perguntas. Quando finalizou. Dougless precisou algum tempo para fazer-lhe compreender que a ambientação eduardiana era ‘antiga’. assim que. Quando viu às pessoas tão grande. pegou a Agatha Christie da bolsa. depois de dar-se um banho. Dougless se recostou sobre o travesseiro e suspirou. beijou a testa com suavidade. então. Para seu assombro. Coca cola e manteiga de amendoim. sem abrir os olhos —mas obrigado pelo elogio. Esteve desperta durante longo momento. mas xingou a si mesma. Dougless tratou de explicar-lhe o que era um filme e a forma grande que aparecia as pessoas. envolveu-se na bata fornecida pelo hotel. Tinha imagens muito piores para contemplar pela manhã do que o torso musculoso e nú de um homem atraente. tinha estado tão fascinado com os aspectos técnicos do filme que quase não tinha seguido a história. mas Nicholas queria que lesse. Estava fascinado quando apagaram-se as luzes. os únicos artigos de toucador que tinham eram os que Dougless levava na bolsa e alguns poucos do hotel. e se dirigiu a sua cama. Nicholas passou a mão pelo papel e prometeu que quando regressasse a casa. mas que louco ou não. Nicholas lhe tocou os dedos. tinha uma expressão de tanto horror no rosto que Dougless se afogou com suas pipocas de milho. sentou-se numa cadeira a seu lado e leu até que dormiu. Nicholas a olhou e franziu o cenho. — Poderíamos ir ver um filme e comer cahorro quente e pipocas de milho —lhe disse caçoando. mas sim tinham cachorro quente americano. Durante toda a projeção. Depois de registrar-se. Mas Nicholas começou a fazer perguntas. portanto compartilharam a escova de dentes. comprou um pouco de tudo e quase não puderam mover-se pelo corredor devido o peso que levavam. e perguntando-se se ele teria pesadelos como a noite anterior. Quando acordou. opinou que os cachorros quentes tinham possibilidades e quase gritou de prazer com a manteiga de amendoim e o chocolate. no hotel. Em qualquer momento podia ir embora tão rápido como tinha vindo. próximo da hora de almoçar. Mas permaneceu em silêncio e por fim. e depois quase saltou do assento ao começar a música. observar Nicholas foi mais interessante do que olhar o filme. Conhecendo o apetite de Nicholas. Ela desejava dormir com roupa por baixo. Dougless viu um filme chamado American Cinema. foram passear e a olhar as vitrines das maravilhosas lojas de Bath. caminho de volta ao hotel. com o peito nú. não lhe pertencia. Dougless se retirou. observou seu cabelo negro contra os lençóis brancos e deixando-se levar por um impulso. Saiu do banho. mas ele estava muito interessado o que sucedia em sua boca como para escutar.do século dezoito e Dougless conseguiu uma habitação dupla para essa noite. escutando atenciosamente cada som. Nem ela nem Nicholas pediram habitações separadas. ela também dormiu. — Só sou conde —lhe disse. que ela já tinha visto duas vezes.Antes de apagar as luzes. Estava apaixonada pelo Robert. afogou-se com a Coca cola. Ao ouví-la. Também não compreendeu o vestuário. meu príncipe —sussurrou. Nicholas adorou as pipocas de milho. já era de dia e Nicholas estava no banho. descalço.

cintos. duas jaquetas de seda italiana. queijo. passou a ponta dos dedos pela folha de barbear e se cortou. com seus botes. docinhos de carne e uma garrafa de vinho e comeram no assento traseiro do táxi enquanto voltava ao hotel. ele sabia exatamente o que desejava. Nicholas viu pela primeira vez as auto-estradas inglesas de seis pistas. Antes de detê-lo.O conde Nicholas avançou e Dougless ficou na retaguarda e observou. assobiou e um táxi se deteve. sugeriu-lhe a Dougless que lhe ajudasse a levar as bolsas. mas quando se tratava de sua roupa. gravatas e inclusive roupa de vestir para a noite. depois a Dougless. que ele tinha que conhecer para crer o que contavam dele. e era para comprar sapatos. acomodou-se no assento e começou a jogar com o pequeno vídeogame que ela lhe tinha comprado. A televisão. — Agora está na moda —lhe respondeu. Nicholas fez questão de que ela comprasse um par de botas verdes de couro que lhe fizessem jogo com a roupa nova. Riu pela comoção de Dougless ante um corte tão pequeno. as naves espaciais. Os dependentes ingleses pareciam reconhecer que estavam tratando com a aristocracia. enquanto ele comprava roupa e Dougless a pagava e a levava ao táxi. Quando terminaram de realizar as compras. senhor’ à direita e esquerda. o Sudoeste. mas Nicholas se burlou de sua idéia de que ele carregasse a bagagem. À uma da tarde. pensou Dougless. Ela recuperou sua energia de maneira surpreendente. Aprende rápido. quando Nicholas se deteve adiante de uma preciosa vitrine de roupa feminina. uma jaqueta de couro. os aviões. Depois de uma hora saiu com uma saia de chalí verde escuro uma jaqueta de lã a tom. Dougless utilizou a maquina de barbear e um pouco de espuma e lhe ensinou como se barbear. Nicholas fez um trato com o taxista para que os seguisse o resto da manhã. Dougless estava surpreendida pelo muito que tinha aprendido depois de olhar as revistas de moda. Olhou. Dougless estava rodeada de caixas empilhadas que continham camisas. mas odiava o couro dos sapatos modernos. Dougless pensou em todas as coisas que ainda lhe faltavam por ver e fazer. mas lhe sobrou muito pouco dinheiro. meias. Nicholas adorava a comodidade da roupa moderna. Quando saíam da quinta loja. já que lhe diziam ‘sim. Dougless não sabia o que ele sentia pela velocidade. então Dougless o convenceu de que comprasse uma bolsa de lona azul com enfeites de couro. Pararam só uma vez mais para comprar malas. E toda América do Norte: Maine. Um momento depois. uma maravilhosa capa de chuva. bonés. saíram as compras. mas a ela a aterrorizava. Vestidos e fortalecidos com um suculento café da manhã inglês. portanto voltaram de táxi. Nicholas desejava bagagem de couro. o Sul. mas ele não quis ir sem barbear-se. Dougless já tinha se acostumado a ajudar a Nicholas com as coisas mais simples. Depois de um tempo. calças. Compraram pão. O que mais lhe agradava eram os tênis. Faltava só uma paragem mais. e quase a empurrou adentro. Mas depois de três lojas Dougless o persuadiu de que comprasse dois pares de sapatos italianos que eram muito caros. Na pista lenta se viajava a 120 quilômetros por hora. Nicholas era tão generoso como bom para escolher roupa. Ela olhou com desdém e incredualidade. com seus 57 . No final. Dougless tinha sugerido que regressassem de trem. ela estava esgotada e pronta para sugerir que almoçassem. e ‘não. senhor’. Na viagem. e uma blusa de seda cor creme. Nicholas deixou de olhar os caminhões e de fazer perguntas. eram três da tarde e todos os restaurantes estavam fechados. Comer viajando era uma novidade para Nicholas.— Quer perder o dia? Temos que encontrar um barbeiro para que me barbeie isto — passou a mão pela barba escura. e não queria pensar a qual velocidade fariam pela pista rápida.

Nicholas pediu ao taxista que tirasse todas as bolsas e as colocasse no vestíbulo. não viemos aqui para brigar. senhorita —lhe disse Nicholas. Dougless assentiu com a cabeça e. Está de mau humor. Robert a beijou na bochecha. Onde está? Sabia a que se referia. e Glória a outra metade. Quando lhe dava a gorjeta. não é? Não estava certa do que fazer. não é? Talvez não regressaria. — Só? — Há uma jovem com ele. e era maravilhoso ouvir sua desculpa.. Talvez. Lessa —lhe pediu Robert esfregando o nariz contra sua orelha —volta conosco.. Poderia. — Não fiz tal coisa. mas Robert a olhou para que não o fizesse. onde estavam Robert e Gloria.Chegaram ao hotel antes que pudesse seguir pensando todas as coisas que lhe agradaria mostrar-lhe. para levar minha pulseira. e antes de recordar que estava com ela temporariamente. a um rodeio no Texas. Não a tinha sentido falta? — Onde está o que? — A pulseira que você roubou! —Respondeu Glória —Por isso me empurrou naquela tumba.. — Robert Whitley —respondeu a caseira.Robert a abraçou e a interrompeu. Não tinha precisado dele fazia vários dias. — Sei que não roubou a pulseira. Não desejava que Dougless estivesse com ninguém mais do que com ele. e ela sentiu imediatamente seu ódio dirigido a Nicholas. Glória e eu sentimos sua falta — sorriu — Deveria ter visto. Dougless começou a sentir dor de estômago e imediatamente pensou em seu Almax. mas se negou a dizer. Sorriu ao pensar em Hollywood e na praia Venice. Robert estava se comportando com tanta amabilidade. É justo. com.vaqueiros e índios.. Nos perdíamos a cada momento.. Achei que você e o senhor Stafford estavam casados. sem dizer uma palavra. Talvez ia obrigar a sua filha que a respeitasse. a caseira desceu correndo. senhorita. Podes sentar-se na frente a metade do tempo. — Até que enfim —disse Robert quando entrou Dougless —Estávamos esperando o dia inteiro. pensar que precisava dela. Foi uma sorte que você a encontrou. Nenhum dos dois entende os mapas e também não encontrávamos os hotéis. — Olha. Robert estava com ciúme? Nunca tinha evidenciado nenhum sinal de ciúmes por outro homem. entrando no lugar —vamos anular nosso trato? Robert se afastou de Dougless. — Tem estado aqui todo o dia.. Ela lhe pagou ao motorista com calma. — Bem. mas se deteve ao ver a expressão de Dougless. — Por favor. Poderia levá-lo ao noroeste do Pacífico a pescar salmões. subiu pela escada para o vestíbulo. e depois entrou no vestíbulo. 58 . Mas agora era seu cavaleiro de armadura brilhante. a esquiar em Colorado.. Dougless não sabia se sentia contente ou desanimada. e essa olhada fez que Dougless se sentisse melhor.Glória começou a falar. Você era tão boa organizando tudo e averiguando se um hotel tem serviço de habitações ou não. Veio esta manhã e não se foi. — Quem está aqui? —Perguntou-lhe com suavidade. e disse coisas terríveis.. Você caiu sozinha. com uma dor de estômago cada vez mais intenso. enquanto Dougless lhe pagava com o último dinheiro que tinham da venda das moedas. California. A queria só para olhar os mapas e ocupar-se do serviço de habitações. Nicholas estava ocupado com o taxista.

Estava te ajudando. uma bela casa e dois lindos filhos.. Teriam um belo casamento... Conhecia a ambos homens. — Você vai me deixar? —Perguntou-lhe. Robert a queria para que conferisse os mapas. amante nestes poucos dias desde que me deixaste? — Deixar-te? Você me deixou e ficou com minha bolsa.. Dougless sentiu desejos de correr para o quarto e não rever nenhum homem na vida. Toda sua vida seria simples e comum. precisamos discutir nossos problemas privados frente a um estranho? Estamos com a tua mala no automóvel. chama à polícia! Dougless. ou vens comigo agora. disse 59 . com ira —Vai com esse homem que só te quer pelos serviços que lhe presta? — Eu. permanecerá comigo —depois de dizer isto. olhou a Glória e lhe disse: — Fora! A menina correu para a porta e desceu rapidamente pela escada. Amorzinho? — Ajudando-me? Eu decidi ficar aqui? — Dougless. ele não esperava que lhe lesse.... Dougless não levantou a cabeça. e sem. Robert fez um gesto com a mão para que o escutasse. Em lugar disso. Deixou-me sem dinheiro. com a cabeça baixa. Nicholas. Como se fosse um animal aturdido. Não tinha idéia de que tinha decidido ficar aqui e não viajar conosco. Como tinha se metido nestes problemas? Nem sequer podia sair de férias sem que lhe sucedesse algo mau. enquanto tomavam um pouco de vinho. Mas uma vez ali.— Quem é este? —Perguntou Robert. para que o ajudasse a pesquisar. — Tire as mãos de cima de mim!— gritou Robert —Não pode tratar-me assim. Nicholas se aproximou à janela e olhou para fora. confunsa. — Estou um pouco cansado. Nicholas se ajoelhou adiante dela e lhe separou as mãos. Até que não tenha terminado com suas tarefas. pôs em Robert uma mão no ombro e começou a empurrá-lo para a porta. Por que não podia ter uma relação normal com um homem? Não seria maravilhoso conhecer um homem em qualquer lugar e ir com ele ao cinema ou a jogar ao minigolf? Talvez depois de alguns encontros. Não sabia o que fazer. — Quem é este? —Insistiu Robert —Conseguiste um. Nicholas se interpôs. deixou que Nicholas a tomasse na mão e a conduzisse a porta. Fizemos bem em livrar-nos deles. Vamos — a agarrou no braço e começou a sair. lhe proporia casamento.. — Já se foram e deixaram tua mala no chão. — O que acontece comigo? —Murmurou.—respondeu Dougless. Dougless se sentou numa cadeira. — E então. Glória pegou sua bolsa. — Eu contratei esta mulher. cobrindo o rosto com as mãos. eu. homens dominados por suas filhas odiosas ou homens do século XVI... Vamos para cima e me lês até que eu durma. Não conhecia nenhuma outra mulher que tivesse tantos problemas com os homens como ela. ou nunca te farei uma proposta de casamento. — Isso foi um erro. senhorita? —Perguntou Nicholas. Ambos a queriam pelo que podia fazer por eles. Não é assim. Nunca. Glória. Nicholas voltou. Nicholas decidiu por ela. Em lugar disso. nem cartões de crédito. conhecia homens que tinham estado no cárcere ou que estavam a ponto de entrar nela.— suas palavras ficaram interrompidas quando Nicholas lhe fechou a porta.

O primeiro encontro com o amante que a tinha abandonado o impressionou tanto que teve dificuldades para compreender as palavras. ele também sentia. Nicholas se reclinou contra a cabeceira e. ela dava sua ajuda em forma desinteressada o mesmo que seu afeto. para ter um herdeiro. em seu sonho apertou a rosto contra ela. quando Dougless dormiu. desejava beijá-la toda até que sorrisse e fosse feliz. 60 . Nunca consultaria a seu senhor e o que tivesse se daria a qualquer menino sem sapatos. Amor! Pensou Nicholas. mas entendeu que seu ex-amante desejava que se fosse com ele e que Dougless não sabia o que fazer. Tinha visto homens que tinham perdido tudo pelo ‘amor’ de uma mulher. Era uma cantiga suave e doce. Era como um botão que precisava um pouco de sol para abrir-se. e agora fazia tudo o que podia para fazer-lhe sorrir. Desejava passar-lhe a mão pela abundante cabeleira ruiva. Precisava de muito amor. quando estava dando instruções ao taxista com as bolsas. Sorriu. Como podia Dougless pensar em ir embora com um homem que outorgava prioridade a sua filha sobre uma mulher? Ela merecia respeito porque era maior. Não achava que Dougless pudesse ser uma muito boa senhora. Adormeceu. Nunca tinha visto uma mulher que chorasse com tanta freqüência como ela. Levava o coração fora do corpo. Não tinha idéia do que estava fazendo. Inclinou-se e lhe beijou com suavidade o cabelo. Por Deus. um sorriso.. realizado por alianças. mas ele sentia sua dor. Precisava. Como acharia a chave para regressar se ela o abandonasse? O que faria sem ela? Ainda tinha dificuldades para compreender a linguagem moderna. Esta mulher precisava que a cuidassem. Inclusive se pudesse levá-la de volta com ele. Tinha-lhe perguntado sobre os casais neste estranho e novo mundo. fora da igreja. acariciou-lhe o cabelo. de busto atraente e pernas delgadas. Aquele primeiro dia. Lady Margaret Stafford tinha tido quatro esposos e nunca pensou em querer nenhum deles. Não podia interessar-se tanto em suas necessidades. Sua primeira impressão foi que Dougless ia abandoná-lo. quanto desejava tocá-la. Bruscamente. pronto para entregar-se a quem fosse amável com ela. Os casamentos deviam ser um contrato. que alguém se preocupasse por ela. que Dougless duvidava que alguém deste século tivesse ouvido antes. Desde o princípio. Era um desperdício de energia para o homem.. não poderia fazer outra coisa mais que a converter em sua senhora. Três dias. sentiu uma ternura que não tinha sentido antes. sentiu seu grande desespero. Nicholas reagiu deixando-se levar por um instinto primitivo e se livrou do homem. Fazia três dias. acariciou essa parte do cabelo e observou seu lindo corpo. Que tipo de país era este que reverenciava tanto as crianças até o ponto de tratá-los como à realeza? Nicholas lhe tocou o ombro e deslizou a mão pelo seu braço. pois parecia que não ia acreditar nele. uma palavra amável. Era tão fácil dar-lhe prazer. um mimo. Tocou-lhe a têmpora. O que os tinha unido? Não sei se o tinha contado.para se encostar e começou a cantar. mas sentiu que estava ferida. Nicholas se afastou dela e se deteve junto à janela. quando ela sentia dor. Hoje. e as respostas não o tinham satisfeito. Desejava secar as suas lágrimas com um beijo e depois beijar-lhe a boca. ela tinha realizado o que agora sabia que era um telefonema a sua irmã. Ela dormia como uma criança e suspirava como se estivesse sonhando. Nicholas pensou no que teria dito sua mãe da idéia de casar-se por amor. Pôs a mão em seu rosto e Dougless. Até onde ele sabia. Desejava acariciar sua suave e delicada pele. sentir que suas pernas o envolviam. Mas quando Nicholas viu esta mulher moderna. Mas parecia que neste novo século os cônjuges se escolhiam por amor. pensou. Olha o que sofreu esta moça por amor.

Para ele fazia só três dias. A idéia de um homem executado por traição não lhe incomodava. talvez poderia ficar com ela. Dougless não compreendeu realmente o que ele quis dizer quando se referiu à honra. Não compreendia esta forma de pensar. tinha destruído a maioria durante a Guerra Civil.Tinha muitas coisas deste século XX que não compreendia. Voltou-se 61 . parecia alentar a desobediência infantil. Honra. dormida sobre a cama. Muita honra em jogo. se os podia fotografar maiores.Por que sua mãe não tinha trazido a evidência antes de sua morte e purificado seu nome? Em lugar disso. A vida com ela podia ser agradável. Não entendia sua forma de pensar. Isto lhe tinha sucedido por alguma razão. Ela pensou que a história de Lady Arabella era muito divertida. Encontrado morto sobre uma carta sem terminar. Mas. tinha comentado ela. Para Nicholas não fazia tanto tempo. Uma moça jovem ia casar com um homem de dinheiro. Dougless lhe tinha explicado que eram de tamanho normal. Quem se beneficiava com sua morte? Quem tinha toda a confiança da rainha para que ela cresse tudo o que essa pessoa dizia? Nada se tinha descoberto em seu juízo. pensou. e voltou para a janela outra vez. Homens de Gales tinham vindo para jurar que tinham pedido tropas. Não! Pensou. Mas antes que pudesse descobrir qual era a evidência. A Nicholas o tinham condenado a morte. era tão grande. mas que era igual que uma pessoa podia desenhar-se menor. Uma mulher que não o desejava porque era um conde ou porque tinha dinheiro. Tinha muitas perguntas que responder. Nicholas seria um homem livre. Voltou para olhá-la. Se ficava nesta época. Lady Margaret a tinha golpeado e depois tinha ordenado ao lacaio mais forte que a golpeasse. Mais tarde. a rainha Isabel se tinha feito com as propriedades dos Stafford e mais adiante. Lembrou da odiosa bruxa de Bellwood. Se sua mãe tivesse tido uma filha e esta tivesse recusado a honra de um bom contrato matrimonial. Deus lhe estava dando uma segunda oportunidade. e creu que esse era seu destino até que sua mãe lhe enviou uma mensagem dizendo-lhe que tinha encontrado novas evidências e logo se conheceria a verdade. pensou Nicholas. Demorou um tempo em poder vê-la. Logo. e a vida desses gigantes aplanados que pareciam tão reais lhe foi difícil de compreender. Em algum lugar desta época estava a resposta à pergunta de quem o tinha odiado tanto para desejar que o matassem. Dougless lhe tinha dito que a história tinha sido ‘maravilhosa’ e ‘romântica’. Depois de recuperar-se da impressão das figuras. Os fatos eram que tinha formado um exército sem pedir-lhe permissão à rainha. nesta época. que lhe perguntava se desejava um travesseiro. Tinham levado a esta época para descobrir o que precisava saber e lhe tinham mandado a esta adorável jovem para que o ajudasse. que riu de Nicholas Stafford. Ontem tinha visto algo estranho chamado filme. As pessoas desta época parecia pensar muito pouco na honra. Seria agradável viver com uma mulher tão doce. tinha renunciado ao controle das propriedades dos Stafford e se tinha casado com Dickie Harewood. A mulher de Bellwood tinha comentado que depois da morte de Nicholas. ‘Foi há muito tempo’. Muita injustiça para corrigir. com os joelhos dobrados e a mão sobre o rosto. nunca mudaria como o presente o recorda. Só ficavam quatro das muitas propriedades. além das máquinas que produziam luz e imagens. os juízes não os escutaram. Juravam que tinham evidências ‘secretas’ que demonstravam que Nicholas estava pensando atacar à rainha e voltar a implantar na Inglaterra a religião católica. ‘morreu’. uma mulher que o sustentava quando tinha pesadelos. deu-se conta de que não tinha compreendido a história. Pelo menos isso é o que a história tinha escrito dele. Se ficasse com Dougless. que não tinha mais do que um bom par de pernas. mas o deixava por um moço jovem e sem dinheiro. Uma morte indigna.

Talvez diria que desejava regressar porque amava muito a sua esposa. Levou as mãos à cabeça. Arabella e ele se entendiam um ao outro. Tinha que encontrar uma maneira de deter seu amor. Tinha usado Dougless. pensar que amaria um homem morto há mais de quatrocentos anos. Teria sido ele tão generoso se ela lhe tivesse aproximado e lhe tivesse dito que era do futuro? Pensou que não. sorrindo. Abriu-se a porta e Nicholas entrou. pensou que se negava a viajar com ele. Mas ela lhe tinha dedicado todo seu tempo. Isso costuma afastar às mulheres.para olhá-la e sorriu. não podia deixá-la ir. quando viu que estava só. As mulheres que o amavam era uma incomodidade.Agora tudo o que tinha que fazer era achar o momento e o lugar para dizer. Via-o em seus olhos. Lettice começou a procurar um novo esposo. ela se sentiria muito triste. Tinha que ir ao comerciante de moedas e vender-lhe algumas. Esse homem. tivesse seu amor.Não! Pensou. Tinha mandado ela para a fogueira por ser uma bruxa. Recordou a cena com Robert. Ela daria amor e amaria com todo seu ser. Mas quem? Arabella? Quase riu a gargalhadas quando pensou no postal que Dougless tinha comprado. Tudo era muito confuso. mesmo com um pouco de renuncia ao princípio. a quem lhe agradavam as jóias ou uma fina tela de seda. E agora se estava se apaixonando por ele. mas era muito estúpido para saber o que fazer com ele. Não podia crer que Dougless considerasse o amor mais importante do que a honra. doce Jane. Tinha que encontrar um modo para que deixasse de amá-lo. tinha recebido um pouco de seu amor. E Lettice? Apaixonado de sua mulher? Nicholas não tinha pensado nessa cachorra de olhada glacial há semanas. Saiu da habitação. Mas também não podia deixá-la nesta situação. abandonava-a. Deixou de sorrir. e olhou para outro lado. Sorrindo ante o absurdo da idéia. Quando ele se fosse.. Alicia? Isabel? Jane? Oh. saberia que fazer com ele. Que significava ela para Robert? E para Nicholas? Que significavam estes homens para ela? Por que Nicholas tinha vindo a ela? Por que não uma outra? Á alguém que não estivesse confusa a respeito de tudo. Precisava de seu conhecimento deste mundo estranho. Não podia permitir-lhe que o amasse. algo relacionado com seu mundo. Poderia fazer-lhe crer a Dougless que estava apaixonado por sua esposa? Neste filme mostravam pessoas que se casavam por amor. mas esta época era muito estranha para ele. Quando o detiveram por traição. sentiu pânico. Preferia as mulheres como Arabella. Dougless acordou e.. Se ele. 62 . Nicholas. Nicholas pensou que podia dizer-lhe que estava apaixonado por outra mulher. Explicou-lhe por que a tinha deixado. Era generosa por natureza. mas isso não lhe fazia sentir-se melhor. pois este se voltou. Talvez seria melhor uma mulher que ela não conhecesse. mas tratou de acalmar-se. Ele. No dia seguinte iam a Thornwyck e começariam a procurar as respostas a suas perguntas.. Olhou uma vez mais a Dougless e saiu da habitação. tinha jogado com seu amor e a levou a desgraça. Robert. Este homem era seu cavaleiro de armadura brilhante? Se o tinham enviado porque o precisava tanto? Sua olhada pareceu incomodar a Nicholas. e talvez Glória tinha recolhido sua bolsa sem malícia.Tinha tomado uma decisão. quando uma mulher começava a querê-lo. franzindo o cenho. Em sua época. Mas com Dougless não era o mesmo. doce. Aproximou-se dela.. Entre eles só tinha sexo. Robert se desculpou. e tinha que ser algo que ela compreendesse. havia feito o certo? Deveria ter ido com ele? Depois de tudo. — Vendi algumas moedas e somos ricos! Ela sorriu e também recordou a forma em que Nicholas tinha escurraçado Robert. A ele não lhe agradaria regressar e pensar nela aqui só.

O coração lhe batia com muita força.—Agora não devemos nos preocupar com ela. Perguntou-lhe sobre sua vida em 1564 e sobre as diferenças entre o século XVI e o XX. nem sequer sabia que existia. — Mmm — sussurrou ela enquanto ele lhe acariciava o peito e a beijava cada vez mais abaixo. pois sabia que outra vez tinha pesadelos. um homem que sabia o que queria. Nicholas a tomou entre seus braços e dormiu calmo. ele não quis falar nem que lhe lesse.mas nunca Lettice. o coriandro e a canela. enquanto Nicholas lhe beijava o pescoço. dizendo-lhe somente. Quando Nicholas acordou. Quando chegaram ao quarto. Dougless sorriu com a cabeça para trás. respirou profundamente e suas mãos começaram a tocá-la. — Parece que te importa o suficiente para dizer seu nome enquanto me estás beijando. Qual era a palavra que Dougless tinha usado? Telepatía. O que ele tinha dito a afetou de repente. pensou. E perdoa-me — murmurou. Nicholas voltou a abraçá-la. Era seu e tinha a intenção de conservá-lo. o cabelo. É minha outra metade. Foi à cama e se voltou.Tinham as pernas entrelaçadas e estavam abraçados. que nunca tinha sentido com outra mulher. pensativo. Caminharam em silêncio de regresso ao bed and breakfast. Imediatamente. uma união profunda. Minha outra metade. mas primeiro desejava prová-la. e Dougless viu muitas olhadas invejosas das mulheres das mesas próximas. Acordando. — Já me chamaram de muitas maneiras —lhe faltava o fôlego . pensou. Este homem é o que tenho estado perdendo durante toda minha vida. Dougless se afastou outra vez dele. — Esposa? —Perguntou-lhe. Nunca antes tinha sentido este anseio. Chorou e pediu um cavaleiro de armadura brilhante. Em lugar disso. esta só e única vez.. Sentiu seus corpos como se tivessem sido talhados numa só peça. e apareceu Nicholas. Tinha a esperança de poder fazer o que tinha que fazer. Acariciou-lhe o braço e depois o peito. o pescoço. Não vai regressar. Dougless permaneceu desperta durante um longo momento. ‘boa noite’. pensou. Desejou que aparecesse e aconteceu. forte. pôs a bochecha sobre o peito e dormiu contente.. divertido. — Lettice —lhe sussurrou Nicholas ao ouvido. Deixemos o tempo dizer. Já quase sabia usar o garfo. soube que seus sonhos se tinham convertido em realidade. Quando terminaram de jantar. Enquanto falava. já era de dia. Por volta da meianoite acordou ao escutar alguns ruídos emitidos por Nicholas. tratando de decifrar o que lhe tinha sucedido nos últimos dias. Dougless se acomodou em seus braços para beijá-lo. — Lettice é. e ao ver Dougless entre seus braços. abraçando-a outra vez. olhava-o nos olhos. Entre eles tinha um sentimento. foi até sua cama e se encostou junto a ele. — Me dê forças —orou —forças para fazer o que devo fazer.— Podemos jantar? —Perguntou. — Foi um deslize -lhe respondeu. —beijava-a cada vez mais abaixo —Lettice é minha esposa. passou a língua sobre sua delicada pele. Beijou-lhe o cabelo. a forma em que movia as mãos. e depois nunca mais se permitiria tocá-la. Era o homem que sempre tinha desejado: amável. 63 . Dougless se aproximou. Dougless na realidade não lhe prestava atenção. decidido. Ainda sorrindo. Afastou-se e o olhou. Sorriu. Nicholas tinha se tranqüilizado e algo parecia preocupá-lo. Foram a um restaurante indiano e Nicholas se encantou com os sabores do comino. Apoiou o rosto em seu cabelo. um beijo que ela nunca antes tinha experimentado.

seus talentos. abotoando-se. — Primeiro quem é você? É filha de um duque? De um conde? De um barão? Eu sou o conde de Thornwyck e você é minha servente. Pôs a calça e se voltou. — Explicar eu? —Perguntou-lhe Nicholas. Não sei em que estava pensando. Estavas morto e casado. — Servente —murmurou Dougless — Você a ama muito? Nicholas ofegou. Não sei. Dougless estava começando a compreender e a sentir-se profundamente perturbada. levantando-se da cama. 64 . e tenho debilidades. — Não tinha razão para falar de Lettice. — Mas nunca mencionaste uma esposa —lhe replicou com suavidade —Nem sequer uma vez. Só sou um homem. com o lençol até a cintura. Creio que me deves uma explicação. — Lamento este mal entendido. uma esposa à que amava com loucura. Ele lhe bloqueou a entrada do banheiro. Regressa com a senhora Stafford e que tenhas uma vida feliz. — Seria um pobre esposo se profanasse o nome de minha amada com minha servente. E por que não soube antes dela? Nicholas se sentou na cama. — Com tua esposa? — Sim. fechando bem a bata desabotoada.Dougless o recusou e saiu da cama. Se Atila o Huno ou Jack o estripador tivessem aparecido. Voltou-se para olhá-lo. Recolherei minhas coisas e me irei daqui. tampando-se o rosto com as mãos —Desejei que viesses. homem ou mulher. também teria vindo. Uma bela esposa e três filhos adoráveis. — Deixa isso! Isto é sério. e hoje. Como recompensa te alimento. você se meteu em minha cama.Pôs-se de pé. — Senhorita. Por que veio a mim se amavas a outra? — Você rezou sobre minha tumba. — E isto? —Perguntou-lhe. assinalando-lhe a cama. Rezei por ti. Dougless se sentou com violência sobre a cama. Usava uma pequena cueca. trabalhas para mim. Robert. Com sua sorte se apaixonaria por Gengis Khan em dois dias. Ontem. Talvez Deus sabia que eu precisaria de uma serva e tu precisarias de trabalho. Não tenho obrigação de contar a minha vida privada. Talvez se outro o tivesse feito. Claro que tens uma esposa. — Ela é a verdadeira razão para eu voltar. Tenho que encontrar a verdade e viver para regressar aos braços de minha amada esposa. darei um pequeno estipêndio. sem dúvida teria se apaixonado por eles. meu amor por ela são meus —pegou o relógio de Dougless da cabeceira —Talvez hoje podemos comprar um assim para mim. com minha esposa. Parece que cada vez sou mais afortunada. — Por que não me falas de tua esposa? —Exigiu-lhe brava. — Não compreendo —disse. Sua beleza. descubro que Nicholas tinha esposa. se o merecer. te visto e talvez. Tinha outra mulher no mundo mais tonta do que ela? Tinha algum homem sobre a terra que não tivesse se apaixonado? Passava três dias com um homem e começava a imaginar uma vida juntos. Só sei que tenho que regressar.

Achei que estava te consolando. estava tentando de acalmar depois de um pesadelo. tens à adorável Lettice e A Arabella sobre a mesa. Não tinha tentado conquistá-la. Nicholas se aproximou e baixou a voz de forma sedutora. Ela era a que tinha imaginado castelos no ar e que viveriam felizes para sempre. compreendo. 65 . idiota. não te culpo.. como uma mãe a seu filho. — Repelida? — Às vezes.— Quer romper o trato? — Sim. encontrou-a em sua cama e começou a beijá-la. — Não sou tal coisa. podemos voltar pra cama. — Se apaixonou por mim —replicou com um suspiro de resignação —A todas as mulheres lhes passa. —Lamento o que pensei. talvez não me fariam tantas perguntas sobre o homem com quem saí da América.—voltou-se.Olhou-o. Não nos agradam os vaidosos como você. Nunca tinha sido reservado com ela. Não sabe como são as mulheres de hoje. o riso que tinham compartilhado.Voltou-se e o olhou. Se voltasse para casa comprometida.. Nunca tinha insinuado que entre eles tivesse outra relação mais do que a de chefe —empregada. sim. Qualquer mulher poderia viver contigo na mesma casa e não morrer por ti. — Não estou brava contigo. Ele tinha razão.. Idiota. — Para tua informação. Desejo encontrar a informação e regressar a meu lar. idiota. Não posso passar três dias com uma mulher sem provocar que vinga a minha cama. Talvez só desejava voltar para casa com um anel no dedo. — Não vejo razão para teu agastamento. desejamos voltar a pegar o trem —Nicholas ainda parecia confuso —Pensei que talvez pudesse substituir Robert. Não precisa de mim. — Lamento tudo isto. tinha imaginado mais entre eles do que em realidade existia. É uma covarde. quando nos abandonam. — Se nosso jogo amoroso interrompido te aborrece. Pode sair do meu caminho? Preciso me vestir e sair daqui. Talvez deva procurar outra pessoa que te ajude. Por que estava brava com ele? Ele acordou. — Guarda-o para tua esposa. pensou. — Consolar? Podes consolar-me quando quiser. Estou furiosa comigo. É uma maldição que me persegue. — O que não me culpas? —A ira começava a substituir à auto.. Devido a suas brincadeiras. Fui sincero contigo. na realidade tinha se comportado como um cavaleiro. Nicholas tampou a boca para esconder um sorriso. Já tenho minha bolsa e minha passagem de avião e creio que será melhor que eu volte para casa. Talvez seria melhor que procurasses outra pessoa para te ajudar. É só que. — Jamais — lhe respondeu com um olhar aceso —Põe suas mãos em cima de mim e receberás um murro.compaixão de Dougless —Está equivocado com teus encantos. — E você? —Exclamou com as sobrancelhas levantadas — Você é diferente? Em três dias estavas em minha cama. — Estás brava comigo porque te beijei? — Estou brava porque. Nunca fui falso contigo. Dougless se voltou. e especialmente a sua ferida por Robert. Ele lhe pôs a mão sobre o ombro. Era ela que tinha imaginado tudo. Creio que me sinto repelida. Preciso de ajuda para achar a pessoa que me traiu. Não pense nisso. Nicholas sorriu. — Oh.

desalentado. — Lorde Stafford tomará o chá às oito da manhã —lhe estava indicando ao recepcionista —O almoço pontual ao meio dia. Tinha o abundante belo avermelhado penteado para trás e recolhido na nuca. só estava terminada a metade. irritado —E as torres do lado oeste nunca terminaram? Quando o automóvel se deteve. ainda que demore anos. — Não podes. Não sabia o que dizer e na realidade sabia que este era o melhor caminho. que recorde isso e que não lhe dê as pessoas à impressão de que sou algo mais. — É linda —comentou Dougless. e algumas das janelas tinham tapiado. Quando se voltou. Franziu o cenho quando o motorista virou. Dougless. senhor’. não me deixarei tentar por ti. senhor’. Você pode me resistir. pensou. Agora a chaminé estava rompida. CAPÍTULO 7 O longo automóvel negro se dirigiu para o sul através da formosa campina inglesa. Lorde Stafford. — Acho. suspirando.. mas esta era tão formosa como qualquer edifício da região. Ah. Descobrirei teu segredo e. Tomou o que conhecia e amava de suas outras coisas. No pátio interior tinha torres com cristais curvos. — Está demolida —replicou Nicholas.— Compreendo. viu a torre de Thornwyck. Nicholas desceu e observou tudo. Desde a manhã não tinha sorrido ou rido ou realizado algum comentário mais do que ‘sim. mas nestas poucas horas já a sentia falta. Era um lugar triste. Ele se voltou. Tinha estado aqui fazia só um mês. Agora que sei toda a verdade sobre teu enorme ego poderia viver contigo e não voltar a ficar louca por você novamente.Ela o interrompeu. e depois agregou —senhor. e então era nova e perfeita. Ele tinha desenhado este lugar. sua secretária. me permite entrar no banho? Nicholas se moveu para um lado e Dougless fechou furiosa a porta. Se tiveres mais pesadelos. reuniu suas idéias e criou este lugar. Devem entregar-me o menu com antecipação —se voltou para ele — precisa assinar o registro. te atirarei um travesseiro.. o que era realmente verdadeiro. e seu coração se acelerou um pouco. senhor. mas como poderei eu resistir? Um ano juntos? Um ano sem tocar-te? Ficarei louco. — Eu posso te resistir perfeitamente. Sou a senhorita Montgomery. Foi-se vestir. nenhuma mulher pode me resistir. Agora. que já falamos disto. doce Dougless. É como disse a guia. o telhado também tinha partes rompidas. pensou. eu. Parecia tão velha. Espero senhor. Demoraram quatro anos para cortar as pedras e trazer o mármore da Itália. Ele não pôde conter um sorriso. nem mais nem menos. e a outra parecia ter centenas de anos. Dougless grunhiu. — Dougless. Estava sentada muito erguida. ou ‘não. Quando o detiveram. Dougless já tinha as malas no vestíbulo do hotel. Nicholas olhou Dougless. ou devo eu fazê-lo? 66 . Um momento depois. No assento traseiro. a metade sem terminar em ruínas. minha querida. Não podes me resistir. — Posso e provarei.

Nicholas a olhou de maneira repressiva, mas ela se voltou antes de poder vê-lo. Assinou rapidamente o registro e depois o recepcionista os guiou até a habitação. Era lindo, com papel de parede rosa escuro e uma cama com quatro colunas e um cobertor rosa e amarelo. Aos pés dela tinha uma banqueta amarela e verde claro, sobre um tapete rosa. — Precisarei uma cama secundária —disse Dougless.—Uma cama secundária? — Perguntou o recepcionista. — Claro, para dormir. Não acha que vou dormir na cama do senhor, verdade? Nicholas girou os olhos. Tinha estado no século XX o suficiente como para saber que o comportamento de Dougless era estranho. — Sim, senhorita —respondeu o recepcionista —Lhe trarei a cama —os deixo a sós. — Dougless —começou Nicholas. — Senhorita Montgomery —replicou ela com tom frio. — Senhorita Montgomery —repetiu ele com a mesma frieza —que enviem minha bagagem. Vou olhar minha casa. — Quer que o acompanhe? — Não, não quero um lastro —lhe respondeu, irritado, e se foi. Dougless pediu que subissem a bagagem e depois lhe perguntou ao recepcionista onde ficava a biblioteca. Sentia-se muito eficiente enquanto cruzava o pequeno lugar, com o caderno e a caneta na mão; mas à medida que se aproximava à biblioteca sua marcha era mais lenta. Não pense nele, pensou. Foi tudo um sonho, um sonho impossível e inatingível. Com frieza, pensa com frieza. A Antártida, Sibéria. Faz teu trabalho e se mantêm fria com ele. Pertence a outra mulher, a outro tempo. Foi fácil encontrar o que a bibliotecária chamou ‘Coleção Stafford’. — Muitos dos visitantes perguntam pelos Stafford, em especial os que se hospedam em Thornwyck —comentou a mulher. — Estou interessada no último conde, Nicholas Stafford. — Oh, sim, pobre homem, condenado a ser decapitado e depois morto antes da execução. Acho que o envenenaram. — Quem o envenenou? —Perguntou Dougless com ansiedade. — Quem o acusou de traição. Ele construiu Thornwyck, e que inclusive a desenhou, mas ninguém pode prová-lo. Não há desenhos que levem seu nome. Bom, todos os livros desta estante têm algo sobre os Stafford. Tinha muito pouco sobre Nicholas, exceto o que se contava de maneira pejorativa. Tinha sido conde só durante quatro anos antes que o acusassem de traição. Seu irmão maior, Christopher, tinha sido conde desde os vinte e dois anos, e os livros narravam como se tinha feito cargo das decadentes fortunas de Stafford e as tinha reconstruído. Stafford, só um ano mais jovem, o descreviam como frívolo e esbanjador de grandes somas em cavalos e mulheres. — Não mudou —disse Dougless em voz alta, abrindo outro livro. Este era mais decepcionante ainda. Narrava a história de Arabella e a mesa. Parece que dois serventes estavam na habitação quando entraram Nicholas e Arabella, e se esconderam no armário ao ouví-los chegar. Mais tarde, contaram a todos o que tinham visto e um clérigo chamado John Wilfred tinha escrito toda a história em seu diário, o qual tinha sobrevivido até o presente. O terceiro livro era mais sério. Referia-se aos lucros de Christopher e agregava que a inutilidade de um irmão menor o esbanjou tudo numa estúpida tentativa de pôr a 67

María, rainha Escócia, no trono de Isabel. Dougless fechou o livro e olhou seu relógio. Era a hora do chá. Saiu da biblioteca e se dirigiu a um pequeno salão de chá. Pediu chá e scones, sentou-se e começou a ler suas notas. — Te procurei muito.Levantou os olhos e viu Nicholas. — Devo levantar-me até que você se sente, senhor? — Não, senhorita Montgomery, desde que me beije os pés é suficiente. — O que lês? Com frieza, contou-lhe o que tinha descoberto. Exceto por um pequeno rubor no pescoço, pareceu não reagir. — Não mencionavam em vosso livro que eu era garçom de meu irmão? — Não. Dizem que comprava cavalos e cortejava as mulheres — e pensar que podia amar um homem assim. Parecia que muitas mulheres o tinham pensado. Nicholas comeu um scone e tomou seu chá. — Quando voltar mudarei vossos livros de história. — Não pode mudar a história. A história é um fato, já está feita. E não pode mudar o que dizem os livros de história. Já estão impressos.Ele não lhe contestou. — O que dizem do mundo depois de minha morte? — Não cheguei lá ainda. Só li sobre você e seu irmão. — Leu só o mau sobre mim? — Isso era tudo o que tinha. — E sobre minha concepção de Thornwyck? A rainha o considerou um monumento grandioso. — Não está registrado que você o desenhou. A bibliotecária, disse que algumas pessoas crêem que o fez, mas que não há provas. Nicholas deixou seu scone no meio. — Verão —lhe disse, irritado — vou mostrar o que fiz. Vou mostrar o grande trabalho que deixei por trás de mim. Saiu do salão de chá, e o scone sem terminar. Caminhou adiante dela, com passos, longos e furiosos, e a Dougless lhe custou seguí-lo ao regressar ao hotel. Para ela, o hotel era lindo; mas, para Nicholas, era uma ruína. Para a esquerda da entrada tinha paredes altas de pedra que ela supôs que eram defesas, mas ele lhe mostrou que eram paredes da metade da casa que nunca foi finalizada. Agora eram só duas paredes altas com enredadeiras que cresciam sobre elas. Contou o quanto seriam lindas as habitações se as tivessem construído como ele a tinha concebido: com painéis, vidros de cores, lares de mármore talhado. Assinalou-lhe um rosto de pedra no alto de uma parede, desgastada pela chuva e o tempo. — Meu irmão. Fiz que esculpissem seu rosto —lhe explicou.Enquanto caminhavam através de longos corredores de habitações sem teto e Nicholas as descrevia, Dougless começou a ver o que ele tinha planejado. Quase podia escutar os alaúdes na sala de música. — E agora é isto —disse por fim —Um lugar de vacas e cabras e fazendeiros.—E de suas filhas —agregou Dougless, incluindo-se em sua descrição. Nicholas se voltou e a olhou com frieza. — Você acredita o que esses idiotas escreveram sobre mim. Acredita que minha vida consistia em cavalos e mulheres. — Não sou eu quem o diz, são os livros, senhor —lhe respondeu com o mesmo tom. — Amanhã começaremos a averiguar o que não dizem os livros.

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À manhã seguinte, chegaram cedo à biblioteca. Depois de empregar 20 minutos explicando a Nicholas o sistema de consulta livre do lugar, Dougless tomou cinco dos livros, sobre os Stafford da estante e começou a ler. Nicholas se sentou frente a ela e se pôs a olhar as páginas de um livro, franzindo o cenho com consternação. Depois de observá-lo lutar durante meia hora, Dougless sentiu lástima. — Senhor, talvez durante as tardes deveria ensinar-lhe a ler —lhe sugeriu com amabilidade. — Ensinar-me a ler? —Perguntou. — Na América sou professora e tenho experiência em ensinar a ler as crianças. Estou certa de que poderia aprender. — Poderia? —Repetiu com as sobrancelhas levantadas. Não disse mais nada, mas se pôs de pé, dirigindo-se para a bibliotecária, e fez umas perguntas que Dougless não pôde ouvir. A bibliotecária sorriu, assentiu com a cabeça, saiu de sua escrivaninha e, um momento depois, regressou com vários livros e deu a Nicholas.Ele os colocou sobre a mesa, abriu o de cima e seu rosto se iluminou de alegria. — Está bem, senhorita Montgomery, lê isto. Na folha tinha uma escrita incompreensível, com estranhas letras e palavras. Levantou os olhos e o olhou. — Esta é minha escrita —tomou o livro e olhou o título: —É uma obra de um homem chamado Shakespeare. — Nunca ouviu falar dele? Achava que era isabelino. Nicholas começou a ler e se sentou frente a ela. — Não, não tenho conhecimento dele —num momento se concentrou em sua leitura, enquanto Dougless seguia pesquisando nos livros de história. Encontrou muito pouco do que aconteceu depois da morte de Nicholas. A rainha se apoderou das propriedades. Nem Christopher nem Nicholas tiveram filhos, portanto o título e a sucessão tinham morrido com eles. Leu uma e outra vez o libertino que era Nicholas e como tinha traído toda sua família. Ao meio dia foram almoçar em um pub. Nicholas começava a acostumar-se aos almoços ligeiros, mas continuava queixando-se. — Jovens estúpidos, se tivessem escutado seus pais, ainda viveriam. Seu mundo aviva essa desobediência. — Que jovens? —Na obra. Julieta e... —Deteve-se, tratando de recordar. — Romeo e Julieta? Tem estado lendo Romeo e Julieta? — Sim, e nunca vi ninguém tão desobediente. Essa obra é uma boa lição para todos os jovens. Espero que os de hoje leiam e aprendam. Dougless quase lhe gritou. — Romeo e Julieta fala de amor, e se seus pais não tivessem sido tão intolerantes e estritos, eles... — Intolerantes? Discutiram durante toda a comida. Mais tarde, enquanto caminhavam de volta à biblioteca, Dougless lhe perguntou como tinha morrido seu irmão Christopher.Nicholas se deteve e olhou ao longe. — Esse dia eu tinha que ir caçar com ele, mas eu me cortei no braço durante os exercícios com a espada. Dougless observou como se esfregasse o antebraço. — Ainda tenho a cicatriz —depois de um momento se voltou, e seu rosto não evidenciava dor —Se afogou. Eu não era o único irmão a quem lhe agradavam as mulheres. 69

Kit viu uma linda mulher nadando num lago e pediu a seus homens que o deixassem só com ela. Depois de umas poucas horas, os homens regressaram e encontraram o meu irmão boiando no lago. — E ninguém viu o que aconteceu? — Não. Talvez a mulher sim, mas nunca a achamos. Dougless ficou pensativa um momento. — Que estranho que seu irmão se afogasse sem testemunhas, e que uns anos mais tarde acusassem você de traição. É como se alguém tivesse planejado ficar com as propriedades dos Stafford. A expressão de Nicholas mudou. Olhou-a com essa expressão que têm os homens quando uma mulher diz algo no que eles não pensaram, como se tivesse sucedido o impossível. — Quem herdaria? Sua querida Lettice? —Dougless apertou os lábios, para que não se notassem os ciúmes em sua voz. Nicholas pareceu não notar. — Lettice tem seu contrato matrimonial, mas perde todos seus direitos sobre a riqueza dos Stafford depois de minha morte. Eu herdei de Kit, mas lhe asseguro que não desejei sua morte. — Muita responsabilidade? Ser o chefe significa assumir o ônus. Ele a olhou, irritado. — Você acredita em vossos livros de história. Vamos, tens que ler mais. Quem me traiu? Dougless leu toda à tarde, enquanto Nicholas se divertia com “O mercador de Veneza”, mas não pôde encontrar nada mais. Pela noite, Nicholas quis que jantasse com ele, mas ela se negou. Sabia que tinha que passar menos tempo com ele. Fazia muito pouco tempo que a tinha ferido e podia preocupar-se com ele mais do que era conveniente. Como um menino triste, Nicholas meteu as mãos nos bolsos e desceu para jantar, enquanto Dougless pediu que lhe trouxessem um prato de sopa e pão a sua habitação. Comeu e voltou a olhar suas notas, mas não averiguou nada. Ninguém parecia ganhar nada com as mortes de Christopher e Nicholas. Por volta das dez, quando Nicholas ainda não tinha regressado do jantar, sentiu curiosidade e desceu para olhá-lo. Estava na formosa sala com paredes de pedra, rindo com meia dúzia de hóspedes. Dougless ficou de pé na sombra e observou; uma ira irracional e injustificada lhe invadiu o corpo. Ela o havia chamado ao presente, mas tinha outras duas mulheres loucas por ele.Voltou-se e se afastou. Era exatamente como diziam os livros. Não era estranho que alguém o tivesse traído com tanta facilidade. Quando devia ocupar-se dos negócios, provavelmente estava na cama com alguma mulher. Foi à habitação, pôs a bata e se encostou-se na pequena cama que lhe tinha proporcionado o hotel. Mas não dormiu. Permaneceu ali, sentindo-se furiosa e tonta. Talvez deveria ter-se ido com Robert. Pelo menos Robert era real. Tinha alguns problemas para compartilhar o dinheiro, e amava em excesso a sua filha, mas sempre lhe tinha sido fiel. Às onze ouviu Nicholas abrir a porta do dormitório e viu a luz por embaixo da porta que separava suas habitações. Quando lhe ouviu abrir a porta, fechou com força os olhos. — Dougless—sussurrou, mas não obteve resposta —Sei que não estás dormindo, me responde. Abriu os olhos. — Devo tomar o lápis e o papel? Temo que não sei taquigrafía. 70

Amanhã tens que descobrir mais. E o futebol americano. Afundou o nariz no livro. Você é um conde. Falou-lhe de sua esposa? Nicholas tomou um dos livros das obras de Shakespeare que a bibliotecária lhe tinha procurado. — Não somos inimigos —replicou com firmeza —Somos senhor e servente.. — Estás com ciúme? — Ciúme? Não. Dougless. Boa noite. Teremos que pedir permissão aos donos para ver os papéis —fechou a revista —Que tamanho tem a casa para que estes papéis permanecessem ocultos durante quatrocentos anos? — Goshawk Hall não é maior que quatro de minhas casas —respondeu Nicholas. pensou. Ás três quase salta da cadeira. e eu. — Dougless —sua voz era muito sedutora —não és uma plebéia. senhorita Montgomery. e imediatamente se arrependeu. — Sim? — Quis dizer o que disse. e que datam do século XVI. Quis dizer. — Não podemos ir assim. — Este artigo é sobre Goshawk Hall. Nicholas ainda sorria quando se sentou frente a ela. vê? —Nicholas o via. Recorda que é um libertino agora. viu Nicholas rindo com uma linda jovem. não desejo que sejamos inimigos. mas podia ler algumas frases. 71 . burlando-se. Nolman os está estudando. O doutor Hamilton J. acusado de traição no começo do reinado de Isabel I na verdade era inocente. como se estivesse muito satisfeito. — Percebi algo em ti esta noite. — Lhe disse que a semana passada estava na Inglaterra isabelina? —Dougless estava assombrada. Na manhã seguinte. como se o tivesse ofendido. ainda sorrindo.. — Erudito? Ah! Nicholas continuou sorrindo. Isto é o melhor. pela janela.Suspirou e avançou um passo para ela. Não tenho direito. Ademais diz que este doutor espera provar que Nicholas Stafford. uma plebéia. negou-se a tomar café da manhã com ele. — Às suas ordens. Caminhou sozinha até a biblioteca e. rodeou a mesa e se sentou junto a Nicholas —Este parágrafo. Nicholas sorriu. este tinha uma expressão quase violenta. não ceder em nenhum momento. Temos de ir a Goshawk. — Uma nova amiga? —Perguntou-lhe. e o era então. Diz que descobriram papéis da família Stafford em Goshawk. — Acreditou que era um erudito. — Olhe! Aqui está! —Excitada. — Assim que acredita que sou desagradável? Voltou a sua busca. — Esta é a razão pelo qual vim —disse baixinho —Não se podia provar nada até que se achassem estes papéis. — Está muito desagradável esta manhã —lhe recriminou. e não tive tempo de explicar-lhe. Dougless sustentava um exemplar de revista sobre história inglesa fazia dois meses. Dougless olhou a Nicholas. Sou sua empregada. capitão — respondeu ela. — É americana e me estava falando do beisebol.

amaldiçoou tudo. malditos os bons e os maus. por que não? Vá a Londres e as festas. sim. excitada. Isto era só um trabalho. Não tinha dúvidas de que esses papéis eram os da mãe de Nicholas. Hoje em dia temos muitas mesas. — Não tenho animosidade contra você —lhe contestou.. ainda come com as mãos a metade do tempo. A melhor história de Dougless pensou.. e que a prova que ele precisava para demonstrar sua inocência estava neles. para ajudá-lo a regressar com sua amada esposa. não sabe ler nem escrever. ensinando as crianças de quinta série. Nicholas se pôs rígido. mas pensando em Nicholas paquerando com a formosa americana.Terminar com isto pensou. recostou-se contra a porta e chorou com força.. Eu posso realizar a investigação. Mal sabe vestir-se. regressar a casa e não voltar a olhar a outro homem nunca mais. afundou o rosto no travesseiro e 72 . Levantaram os olhos e viram à linda jovem que lhe tinha explicado o beisebol a Nicholas. mas a americana. — Tenho que ir? — Claro. Seria mil vezes melhor se me deixasse só —agarrava com tanta força a cadeira que estavam a ponto de cair pelos joelhos. a sua própria época —levantou a cabeça —Me dei conta de que não é necessário que você esteja aqui. interpõe em meu caminho. Conheça todas as mulheres lindas deste século. Você me contratou para fazer um trabalho e eu estou fazendo. Depois o olhou. impressionada ao conhecer um Lorde. fazendo um esforço para pensar em sua carta a Goshawk Hall. malditos todos os homens. — Pensei que era você — lhe disse. Não sabe nada sobre meu mundo. — Meu humor não é de sua importância. De qualquer maneira. você não sabe ler. — Esta animosidade que tens contra mim carece de fundamento. girou e saiu da habitação. tenho que lhe explicar até as coisas mais simples. Lorde Stafford? — Lorde? ! —Exclamou a jovem — És um Lorde? Nicholas quis seguir a Dougless. sim. Por que não vai a. — Vejo que vosso humor não melhorou —lhe disse Nicholas atrás dela. Quando chegou ao hotel. Você. à Riviera francesa ou a algum outro lugar? Posso fazer isto sozinha. e a dor de seu rosto era mais do que ela podia suportar.. Nicholas começou a enfurecer-se. Uma vez em seu dormitório. não o deixou ir. e depois olhou a Dougless —É tua amiga? — Só sua secretária —respondeu Dougless. Dougless regressou ao hotel. isso era o que precisava. teria algum encontro de vez em quando. Tinha que ir tinha que deixar que aclarasse suas idéias. Vou escrever a Goshawk Hall para ver quando podemos ver esses papéis. Antes de humilhar-se com lágrimas. e lhes explicaria como foi abandonada por um homem e quase se apaixona por outro que era casado e tinha quatrocentos e cinquenta e um ano.Dougless se reclinou para trás e sentiu como se por fim estivessem chegando a algo. Minha investigação seria mais produtiva sem você. — Quer se desfazer de mim? — Sim. Muito cedo estaria em casa. pondo-se de pé — Precisa algo mais. Rompem o coração uma e outra vez. Claro que não lhe importava. — Oi. enviá-lo longe. Deitou-se. visitaria seus familiares e lhes falaria de Inglaterra. furiosa — Faço tudo o que posso para ajudá-lo.

E Dougless que tinha feito? Enfureceu-se com ele por ter-se atrevido a casar-se com outra mulher há quatrocentos anos. terríveis. crendo que era Nicholas morto. Tratou de ver a hora em seu relógio. e a luz e o calor intenso não lhe permitiram ver durante um momento. pensou. Mas era só uma sombra. seu conhecimento.Talvez Nicholas acabava de pôr-se a andar. mas tinha luz por embaixo dela. Suas roupas ainda estavam no armário e também as malas. boiando pelo ar e aparecendo no século XX. Tremeu pensando no que poderia ter-lhe sucedido durante todo esse tempo.. Parecia que eram mais de onze.Tremendo. Tinha uma mulher a cada lado e marcas de batons nas bochechas e na camisa. Olhou a porta. 73 . que ela precisava de sua ajuda. Que direção teria tomado? Começou a correr para o final da rua. A abriu rapidamente. até que começou a sentir-se melhor. — Nicholas. Sentou-se e soou o nariz. saía do hotel e caminhava sob a chuva. Correu à estação do trem. E depois ouviu um riso que lhe resultou conhecida. Nicholas com a camisa desabotoada até a cintura e um charuto entre os dentes.Viu uma sombra escura no ribeiro de uma rua longínqua e correu para ela.? Nem sequer sabia quanto para que se tinha ido. tirando o cabelo frio e molhado da cara.Provavelmente ia tão depressa pela chuva que se cruzaria adiante de um ônibus ou um trem..O que viu era como um anúncio dos sete pecados. pensou enquanto descia pela escada. Pestanejando para tratar de manter os olhos abertos sob a chuva. era quase divertido. olhou as janelas a escuras. eu. E começou a pensar com mais clareza. mas quando deu a volta na esquina viu uma numa janela. Sabia o que era a via do trem? E se tinha pegado um trem? Não saberia onde descer.—a habitação estava vazia. Ele.Tinha que encontrá-lo e desculpar-se. mas a chuva lhe golpeava a cara. e correu através da habitação cheia de fumaça. Dougless não tinha idéia do que diziam as palavras. ou como regressar se descesse. Regressou à habitação e viu uma marca no chão.Quando o pensou dessa maneira. Correu a abrir a porta do vestíbulo. maldição.. Na mesa tinha modos encantadores. Em sua cabeça ressoavam todas as coisas terríveis que lhe tinha dito. seu riso. as novelas.chorou em silêncio. maldição. Nicholas tinha sido generoso com seu dinheiro. Um pub pensou.. Perguntaria ali se alguém o tinha visto. Chorou um longo momento.. Que comportamento estúpido! O que tinha feito de mal o Nicholas? Imaginou-o sentado num calabouço. Sua habitação estava escura... Nicholas pensou.. estava sentado numa mesa que parecia que ia romperse pelo peso da comida que tinha sobre ela. ficou ali sem se mover para acostumar à vista. Que coisas lhe tinha dito! Coisas desagradáveis. Agarrou os braços com as mãos. Bem. esperando a execução por um crime que não tinha cometido e. que ele devia de ter passado por embaixo de sua porta. Ele sabia ler. dizer-lhe que não devia ir. mas em sua opinião a nota parecia uma fuga isabelina. pingando água. espirrando duas vezes. Praticamente correu para a porta. Tinha que o encontrar. baixou a cabeça e começou a correr. comida estranha e. a linguagem estranha. num instante. maldição. e a água fria lhe salpicava a parte traseira das pernas e da saia. mas estava vazia. Parecia não ter luzes em nenhum lugar. Que distância podia percorrer uma pessoa em. a uma mulher chorona que sofria pela rejeição de outro homem.Entrou. mas estava fechada. Ela devia de ter estado chorando durante horas. Ele bem que tinha assimilado tudo! Tinha-se adaptado aos automóveis.

— Muito rápido muitas palavras. e a pegou pela cintura. — Me solta —lhe disse —mas Nicholas a levou nos braços até a rua. Nicholas beijou cada uma das mulheres na boca.Está bêbado. pensei que talvez tinha cruzado adiante de um ônibus ou de um trem. — Essa é a causa de vosso temor? Que talvez eu esteja bravo? — Não.— Dougless —lhe disse com alegria —senta conosco. — Às ordens.. Dougless o separou. e amanhã iremos a Goshawk. começou a esfregar-lhe o pescoço com o nariz. Nicholas lhe sorriu. É que não sabe como funciona nosso mundo moderno.—Não faça isso. — Eu disse coisas horríveis e o lamento muito. —Levante-se daí e venha comigo —lhe ordenou com o tom de voz com que reprendía a um mau aluno. — Está chovendo. averiguei tudo o que precisamos saber. feliz —A cerveja daqui me agrada. eu. com o cabelo colado à cabeça e a roupa ao corpo. um litro de água em cada sapato e um charco ao redor de seus pés no que podia navegar um barco. você não é um peso. não estou —essa afirmação provava que a teoria de Pinochio era falsa. senhora — ainda sustentando-a. mas de tal maneira que o corpo dela se deslizou contra o seu. Lorde Stafford. Ele realmente tinha calor. — Apesar de seus conhecimentos. Minha linda Dougless olha as estrelas. — Sim. Ele a levantou outra vez nos braços. estou —respondeu. — Dou a impressão de não ter mente? — Que? — Cérebro. O nariz não lhe cresceu — Que averiguou? — Dickie Harewood é proprietário de Goshawk. As mulheres me agradam —lhe disse. divertindo-se com duas mulheres e. O fez. separando-se dele. Na realidade.. — Está bêbado —lhe disse. sorrindo. — Não. Quando vi que tinha ido. solte-me agora. e você aqui. calor —lhe respondeu como se isso justificasse seu proceder —Tens medo de mim? Sentia desejos de admitir que a tinha vencido enquanto Nicholas a apertava contra seu corpo. — Se você não o notou. pensou. — Sim? Quem está molhado e quem está seco? — Ambos estaremos molhados se continuar me levando —respondeu com presunção. depois saltou sobre a mesa e levantou Dougless em seus braços. sentindo-se como um gato molhado. Estava preocupada porque pudesse estar ferido. Ela ficou onde estava. Pareço estúpido? — Claro que não. isso é tudo. 74 . capitão —respondeu Nicholas. — Estava preocupada com você. — Como o averiguou e quem contou? As mulheres que estavam ali? O obteve com um beijo? — Está com ciúme. senhorita Montgomery? — Não. estou empapada e também gelada —espirrou como para deferir suas palavras. — Desça-me! — Você está com frio.

mas Arabella teve outros três meninos. Que estás pensando fazer? Não pode dizer a Harewood que vens do século XVI. — Você não tem batom nos lábios. Conta-me coisas sobre Goshawk Hall. Agora a gente compra e conduz automóveis. — Os trabalhadores descansam? Mas ninguém parece trabalhar. Dickie era de idade suficiente como para ser o pai de Nicholas e tinha uma filha. e parece que há outro Dickie Harewood em Goshawk Hall. ninguém arando. — A minha não sofreu dano. que tinha casado com Robert Sydney. Vêm passar o fim. Todos os empregados. O que é um fim de semana? — É o fim de uma semana de trabalho... Arabella e seu esposo se odiavam e depois de que ela lhe desse um herdeiro. Não se pode dizer a ninguém. Nicholas.. quando todos descansam. — Arabella? Que tem haver a Arabella do século XX com tudo isto? — Minha Arabella era a filha de Dickie Harewood. que tem a mesma idade que minha Arabella quando nós..— Olhou Dougless de soslaio —e Arabella está lá. incluindo às mulheres dos bares —lhe tocou o pescoço da camisa —Estragaste esta camisa. todos os visitantes dos estábulos tinham parado para observar como Nicholas tratava de controlar este animal furioso. — Sim. amanhã tenho que ver. Dougless afastou a cabeça. outro Dickie. nervoso e de mau caráter.— Mas não se casou com sua mãe? É tão velho como você? — Cuidado ou te mostrarei o velho que sou —a balançou em seus braços —Te aperto muito? — O mais provável é que estejas débil depois de paquerar com todas as mulheres. Tinha propriedades limitadas. Os papéis encontrados existem à pouco tempo. Tira-lhe a força de um homem. 75 . — Um deles é teu —disse Dougless. o fim de semana e. O que eu estava dizendo? — Que Dickie Harewood ainda é proprietário de Goshawk. e Dougless lhe tinha pedido que lhe contasse tudo sobre sua relação com os Harewood. — Temos uma semana trabalhista de quarenta horas e tratores. outra Arabella. Não vi granjeiros nos campos. O batom não sai. não me respondeu. Arabella.. CAPÍTULO 8 Dougless contemplou Nicholas montado no garanhão. Não era muito. — Sim. — Não se incomde —lhe disse Dougless. mas nunca tinha visto um. Tinha ouvido falar de pessoas que montavam cavalos como este.. e com uma filha chamada Arabella. — Fim de semana. e pensou durante um momento.À noite anterior tinham estado despertos altas horas. E conteve o fôlego. E não podes aparecer na casa de um Lorde sem avisar. Ele lhe sorriu e a balançou outra vez. separaram-se. tomando notas. — Não comece outra vez com isso. — A família Harewood ainda é a proprietária. Espero que não esteja pensando em se convidar para o fim de semana. Era como se a história voltasse a repetir.

Uma vez ali fez uma careta de desprezo ante os cavalos de aluguel. por seus primos de Colorado. mas não na Inglaterra. surpreendido a Nicholas.— Não há razão para pensar mal dela. — Está pronta? —Perguntou-lhe Nicholas a Dougless. e depois do café da manhã. quis saber o que estava fazendo. Quando ele a viu. Tinha dificuldades para seguí-lo. Assim está melhor. tratando de controlar sua égua. procurou uns estábulos próximos. observando. que reagia ante a proximidade e agressividade do garanhão de Nicholas. — Isso é fenomenal —disse o moço entre dentes. Dougless começou a chamá-lo para que perguntasse a direção. e voltaria a casa sentindo-se bem consigo mesma. Ele e seu cavalo pareciam um só. Nunca tinha visto um homem tão feliz. Na realidade.Subia a um cavalo antes que a um automóvel. como se Nicholas fosse um centauro. Levaram o garanhão à quadra. Dougless tinha se detido num cruzamento de caminhos e estava procurando suas impressões na terra. mas sua olhada se iluminou ao ver um enorme cavalo no campo. Ficou desperta até que já não pôde permanecer mais. Arabella e o menino morreram naquele parto. e Nicholas fez questão de caminhar. um moço o selou e o levou a um campo e depois lhe entregou alegremente as rédeas a Nicholas. Estavam a sete quilômetros. e Dougless saiu do cercado.Ela montou sua égua mansa e o seguiu. — Lamento —Dougless pensou que a mulher podia ter morrido por algo tão simples como que a parteira não tivesse lavado as mãos. — Nunca vi ninguém montar assim —comentou um dos moços da quadra — Você monta muito? — Sempre —respondeu Dougless . mas depois compreendeu que era improvável que alguém tivesse mudado de lugar Goshawk Hall nos últimos séculos. Ajudaria a Nicholas a regressar com sua esposa. Estava superando o de Robert e já não desejava um homem casado. — Este — assinalou Nicholas. monta um daqueles —lhe pediu Dougless. Dougless. Como se estivesse em transe. desejou-lhe boa noite a Nicholas e foi para sua cama. a limpar seu nome. Estava pastando e movia a cabeça como para que ninguém se atrevesse a aproximar-se. Nunca mais em sua vida se relacionaria com um homem inadequado. Nicholas se levantou cedo e abriu a porta que separava seu dormitório do de Dougless. Dougless sabia que na América existia o seguro. O cavalo correu para ele. Há muitos. passou bem mais tempo de sua vida num cavalo que num automóvel. pensou enquanto adormecia. — Sabes montar a cavalo? Alguém sabe montar a cavalo hoje em dia? Dougless lhe assegurou que sabia montar. Ele montou e controlou com facilidade. O dono dos estábulos se acercou e pensou que seria divertido ver como Nicholas se rompia o pescoço. Tinha suas emoções sob controle. e outra vez pensou na diferença que devia de ser este mundo moderno do que ele conhecia. Nicholas caminhou para o animal. Nada lhe faria mudar de opinião. Tratou de pensar na forma de ser convidados à propriedade dos Harewood o mais cedo possível. disse-lhe que lhe compraria alguns dos livros de Louis L' Amour e lhe leria sobre a arte de seguir as impressões. perdeu-o de vista várias vezes. — Não está pensando em montar esse cavalo. e uma delas regressou a procurá-la. mas não tinha credenciais de estudante e mesmo quando Nicholas era conde. A campina inglesa está cheia de caminhos e Nicholas foi galopando por um deles. 76 . tinham-lhe tirado o título quando o condenaram por traição.

A mulher parou o cavalo e se voltou. erguido. Seguiu por um caminho e viu a enorme fortaleza retangular de uma casa localizada entre hectares de formosos jardins cujas plantas ondulavam ao vento. Dougless começou a seguí-los. meu senhor? —Murmurou. Tinha a imagem que todas as mulheres desejavam: alta. e Dougless. — Oh. O cavalo era tão grande e arisco como o garanhão de Nicholas. sorrindo — encontramos quando caiu uma parede. — Mmmm —murmurou o homem. Parecia que alguém tinha escondido. com pernas muito. — Agora estás em minhas terras —lhe contestou. mas o garanhão de Nicholas começou a cabecear e Dougless se voltou para olhá-lo. — Os mesmos —respondeu Nicholas. Por trás da casa tinha meia dúzia de edifícios. E agora o que faço? Perguntou-se. Ouvi que tem alguns papéis de minha família. de repente. Quase estava chegando quando um cavalo e seu jóquei passaram junto a ela.Harewood olhou o cavalo. Levava calças de montar inglesas que pareciam pintados. e o cavalo deixou de cabecear. 77 . — Nicholas! — Harewood? —Perguntou-lhe Nicholas ao jardineiro. mas Nicholas já tinha desmontado e se dirigia para um homem alto que se encontrava a quatro pés num quadro de petunias.Por fim. e os seguiu levando os cavalos. Dougless chegou a um caminho e seguiu por ele até que se encontrou com uma porta com uma pequena placa de bronze que dizia: GOSHAWK HALL. — Não acha que primeiro deveríamos bater à porta principal? —Perguntou-lhe quando o alcançou — talvez deveríamos perguntar pelo senhor Harewood e dizer-lhe que desejamos ver os papéis. encontramos — respondeu. e se pôs de pé. sem se incomodar em limpar suas calças sujas — Dos Stafford daquele sem vergonhas a quem condenaram por traição? Dougless pensou que o homem poderia ter comentado algo que tivesse sucedido no ano passado. O animal tinha nos olhos uma expressão selvagem. e se dirigiu para a parte do fundo da casa. Creio que Arabella está com eles. Nicholas levava um traje de montar muito custoso. por que estava ali segurando os cavalos? — Os escova agora. Talvez ali teria estábulos onde poderia deixar aos animais.Dougless se sentia um pouco incômoda por chegar a esta casa sem convite nem aviso. cabelo loiro com cabelos brancos e a pele suave e rosada de um bebê. com botas negras altas e brilhantes. O homem alto se voltou para olhar a Nicholas. Tinha olhos azuis. — Atreve-se — lhe advertiu. e o cabelo escuro penteado para trás. e se dirigiu para o jardineiro. e sobre ele ia uma mulher surpreendente. Passe e tomaremos chá e veremos se podemos encontrar os papéis. Imaginava ser a secretária de Nicholas para averiguar os segredos que sua mãe podia conhecer. Não tinha o aspecto de ser muito inteligente. sim. e Dougless se dirigiu para um que parecia ser um estábulo. busto grande e um porte tão erguido que causaria inveja a uma barra de aço. Nos conhecemos? — Nicholas Stafford de Thornwyck. delgada de quadris. um rosto aristocrático. — Você monta isso? —Perguntou-lhe Harewood. sentiu-se mal vestida com sua camisa de algodão Levi's e suas sapatilhas Nike. — Sim. muito longas. — Espere um minuto —lhe disse. — Sim. mas Nicholas lhe pôs as rédeas do cavalo na mão e se afastou com Lorde Harewood. o que ressaltava seus formosos rasgos.

— De quem é esse cavalo? —Perguntou com uma voz que Dougless sabia que os homens adorariam: profunda. meu. — Só passava. afastou o cavalo dela e o conduziu ao estábulo. senhorita. A ver se o adivinho pensou. Dougless agradeceu e se afastou murmurando. — Escove-o —lhe disse. que não lhe falava. onde todos se detinham e a olhavam. surpreendeu-se ao vê-la. pensou. Com lentidão.. Permaneça onde está e eu segurarei os dois. — Fique quieta. é a tatara... sentado ao sol.Vou matá-lo.Dougless não se atreveu a mover-se enquanto o homem se aproximava a ela como se aproxima-se a um tigre selvagem. — A entrada da cozinha.Um homem maior. Nicholas desejará que o executem quanto terminar com ele. — É uma brincadeira? — É um descendente daquele Nicholas Stafford —contestou Dougless. A mulher palideceu. Assim era essa a Lady Arabella? —Olhou a casa — Como posso entrar nesse lugar? Supõe-se que devo estar. O homem ao qual seguia. tirou o boné e secou o suor da testa. A mulher desmontou com elegância e lhe entregou as rédeas a Dougless. ao perguntar-lhe por Nicholas. primeiramente. senão que seguiu caminhando para o estábulo. e dois dos quais parecia agradar matar mulheres antes do café da manhã. conduziu-a à cozinha. Não sou seu cavalariço. com o qual seus lábios pareciam mais vermelhos e seus olhos mais escuros. Estendeu a mão.Que boa brincadeira. — Como trouxe o cavalo de Lady Arabella e A Sugar juntos? — Sugar? — O garanhão dos estábulos Dennison. Agora tinha três cavalos. ajudando. etcétera. conduziu-a através de várias dispensas. tatara. Todos se interromperam e a olharam. Deveria chamar-se Inimigo público. Um homem respondeu ao seu chamado e.. Era um lugar enorme com eletrodomésticos novos. — Aquela porta é a entrada à cozinha. e tomou as rédeas de um dos garanhões. chefe me necessita —sorriu debilmente. pensou Dougless. O homem olhou a Dougless de cima a abaixo. mas esta gente atuava como se Nicholas tivesse morto fazia só uns dois anos. Não saberiam de quem estavam falando. — Não o posso crer —murmurou Dougless. rouca e poderosa. — De Nicholas Stafford —respondeu. Nem sequer se atreveu a olhar os cavalos. e imaginou o sermão que lhe daria sobre a igualdade moderna.Quando regressou. e ela se deu conta de que seu sotaque e sua roupa americana a delatavam. O homem não se deteve até que chegaram ao vestíbulo. uma grande habitação redonda com magníficas escadas a ambos lados e 78 . e se dirigiu para a casa. sem aproximar muito. Tratou de imaginar como reagiria uma família americana se alguém lhes mencionava o nome de um antepassado isabelino. Devo apresentar-me à cozinheira e solicitar um emprego como faxineira? Espera até eu ver Nicholas! Esclareceremos algumas coisas. mas no centro da habitação tinha uma grande mesa que parecia estar ali desde a chegada de Guillermo o Conquistador. — Sugar. neta da Arabella da mesa. Pôs-se de pé lenta e cautelosamente. onde tomava chá e lia um jornal. Um momento depois repetiu a manobra e levou o cavalo de Nicholas.

tinha-o golpeado — murmurou Nicholas. Arabella estava melhor ainda do que quando Dougless a viu pela primeira vez. A carne inglesa era uma das grandes maravilhas da terra: terna. — Triturador de lixo —completou a frase. suculenta. como se isso o explicasse tudo—. — Onde? No triturador de lixo? Nicholas a tomou pelo ombro com força. — Quem? Como? Que? Quando? Ele riu. Nicholas. e lhe explicou em que consistia. depois continuou. Parecia saber com exatidão onde estava o estábulo. — Que é um trit. — Se reuni conosco —disse Nicholas quando viu Dougless. —Dentro da parede tinha um cofre cheio de papéis. Começou a contar-lhe que Dickie Harewood era o mesmo. Dougless não pôde falar nenhuma palavra a Nicholas enquanto regressavam aos estábulos de aluguel.Dougless teve que correr para caminhar junto a ele. uns trabalhadores estavam arrumando o telhado de Goshawk Hall e ao que parece as marteladas abriram um espaço numa parede. e quando os examinaram. Nicholas e a esplêndida Arabella estavam juntos como se fossem velhos amigos. — Uma mulher sem volta. ainda suando. desejoso só de caçar e cuidar de seus jardins. Estaremos aqui para a hora do chá —pontualizou. e quando chegaram.retratos pendurados por todos os lados.. Seus formosos olhos praticamente devoravam a Nicholas. entrou no refeitório e pediu três pratos e uma garrafa de vinho. Só falou quando lhe serviram o vinho. — Se eu tivesse sido um moço tão covarde. e olhou com displicencia a Dougless. — E agora que fizeste? —perguntou-lhe — Vamos ficar o fim de semana? Não disse que eras do século XVI. atuando como se ela tivesse estado tomando ar —Minha secretária deve ficar comigo. não muito brilhante. empurrou-a para fora adiante dele. porque se dirigiu para ali. Nicholas se voltou antes que ela o visse sorrir. que imaginou como deveria sentir-se uma uva quando a convertiam em passa. — São quase tão bons como os meus —lhe disse Nicholas. No estábulo. — Que queres saber? Sua curiosidade superou seu agastamento pela forma em que a tinha tratado. 79 . — Com você? —Perguntou Arabella. Lorde Harewood. — Faz dois meses. sorrindo. — Que tens para pôr no jantar? Eles se vestirão para jantar. e antes que Dougless pudesse dizer outra palavra. — Americana —agregou. — Crês que Arabella mudará? Aposto que levará algo com um decote até o chão... era a hora de almoçar. Ser baixa tinha suas desvantagens.Deteve-se ante uma olhada de Dougless. não é? E o que é isso de me chamar de americana nesse tom? Nicholas se deteve no caminho de cascalho. o moço de quadra se manteve afastado enquanto Nicholas montava a Sugar. — Creio que podemos encontrar uma habitação —respondeu Arabella. —Só um lugar para ela — esclareceu Nicholas. Voltaram caminhando ao hotel. Dougless se reclinou para trás. sorriu.. Já não se constrói como antes —comentou Nicholas —Em minhas casas. Nicholas. — Deixa de presumir e continua —fincou o garfo em seu prato de carne assada. resultaram ser cartas de Lady Margaret Stafford. perfeitamente feita. dando-lhe as costas.

e agora deseja repetí-la. — Há problemas. e. — Da mesa? Bem. Não creio que possa esperar tanto. Lady Arabella está escrevendo um livro sobre. — Persuadi a Arabella para que me contasse o que sabe sobre mim. — O doutor da revista? Qual era seu nome? Doutor Hamilton. Para o mundo exterior podia não ser importante resolver um mistério isabelino. — Sobre você? Nicholas voltou a olhar a comida. — Que tipo de problemas? Não. entre trabalhar numa universidade grande e com uma boa remuneração.. Dougless não compreendeu bem. Vai deixar-te ver os documentos ou não? — Não pode. mas não realizou nenhum comentário. não médico. — Está bem! Você ganhou! Deixa disso! Levantou os olhos e a olhou: — Me ajudará? — Sim —lhe respondeu enquanto lhe beijava outra vez o braço. — Chegou ontem. Espero poder persuadí-la para que me conte tudo.. sob nenhuma circunstância.. o doutor como se chame está ali e lhe fez jurar a tua Arabella que guardará protegido. Um médico? Estava enferma? . senhorita —lhe recriminou com severidade. Lady Arabella deseja que a levem numa bandeja de prata todas as manhãs junto com seu suco de laranja. convidaram-nos como hóspedes. Assinou um contrato com um médico.— Isso é maravilhoso! E agora estamos convidados a sua casa para lê-las. Colin.Dougless perdeu os sapatos. mas para um estudioso.. deixa-me adivinhar. Dougless sabia pela carreira de seu pai o importante que era publicar no mundo acadêmico. Dougless se afundava na cadeira. um livro com informação nova podia significar a diferença entre a obtenção de um cargo ou não.—voltou-se. — Deixa disso! Tem gente nos olhando . Ouviu a história de. Os lábios de Nicholas lhe percorreram o braço até chegar à zona sensível da parte oposta do cotovelo. mas não a ela. Combinei ser sua secretária. — Vossa linguagem. No entanto. em especial um homem jovem que acabava de começar. e Dougless viu que se envergonhava.. Nicholas abriu muito os olhos quando o chamou assim. Nicholas sorriu sobre sua taça de vinho. um doutor. não como. 80 .. portanto não terás acesso aos papéis. Espera ganhar algo em limpar meu nome. e. Teu mundo custa muito. Que! Espera um minuto. — Sobre o homem que ela crê que é meu antepassado. Nicholas quase derramou o vinho. és um encanto. — Tenho razão ou não? — Não.. ou numa pequena. Mas Arabella diz que o livro demorará anos.Não. Esse? Nicholas assentiu com a cabeça. — É doutor.. E tu tens que falar com esse médico. Oh. Que estás fazendo? Nicholas lhe tinha tomado a mão entre as dele e lhe estava beijando os dedos um por um. estás dizendo o que creio que estás dizendo? Não vou paquerar para ajudar-te. — Então.

Um fim de semana em casa de um Lorde inglês. Tens um lápis? —Ditou-lhe a direção de Goshawk Hall. pois era uma das coisas que ele nem pensaria fazer. Estava muito preocupado para que sua roupa estivesse em condições. Dougless tramou uma complicada teia de aranha de mentiras que esperava recordar.Nuns minutos. enquanto ela levava sua própria mala. e ela não tinha mais do que uma mala cheia de roupa de lã duradoura.Dougless. Um homem a conduziu. Desejava saber por que Dougless se encontrava ali e quem era Lorde Stafford. e lhe soltou o braço de maneira tão brusca que caiu sobre seu prato sujo .Em sua habitação. Sinto que nos conhecemos. onde iam jantar. mas num extremo da mesa de trabalho tinha servido chá para dois. nem servente nem da família.Agora temos que preparar as malas. Sentindo-se como uma tutora de novela gótica. e não muito bem-vinda. Fazia isto para ajudar que um homem salvasse sua vida e o nome de sua família. nossos antepassados foram muito amigos.. — Entra. Dougless se encontrava tomando o chá com ela. Entrou na cozinha. e depois se deteve ao ver que os outros casais a estavam olhando. deixando Dougless com meia dúzia de malas aos pés. Tomou uma camisa de linho e comentou: — Precisa um pouco de ajuste. ou o vermelho com.— Está bem —lhe disse. sorriu e chamou por telefone a sua irmã Elizabeth em Maine. Dougless estás segura de que te encontras bem? — Estou bem. Sorriu. e agora desejas que assalte o armário de mamãe. Uma hora mais tarde. A senhora Anderson era a cozinheira e a fofoqueira mais incrível que jamais tinha conhecido. estão rompidas as tubulações.. que estava vazia. para uma habitação pequena e fria. e nunca poderia contar a ninguém. Dougless não demorou mais de cinco minutos em compreender que não a consideravam como uma hóspede. e depois pediu um táxi. e Dougless sentiu que desejavam que se fossem para que a senhora Anderson pudesse contar todas as suculentas novidades. — Dougless. limpou o braço e correu por trás dele. Preparou sua mala e a de Nicholas. Boa sorte com teu trabalho. sentiu-se uma mártir. querido. Dougless viu um Nicholas diferente. Não tinha uma mala o suficientemente grande para guardar sua armadura. Desejava ter o traje branco de sua mãe. Depois de tudo. suplicando —assumo a responsabilidade. — Aqui está você —lhe disse uma mulher grande com cabelo grisalho. Por que devemos ser diferentes? — Conduziu-o adentro. Hoje tem que vir o encanador. Dougless olhou seu pobre armário e sentiu desejos de chorar. tirou a roupa e a pendurou num pequeno armário. Envia-me já. Ao observar a pequena e desagradável habitação. — Elizabeth —lhe pediu. Não tinha nada que não soubesse ou não estivesse disposta a contar. Como vai teu trabalho? — Está me deixando louca. não muito longe da cozinha. E fora isso é pouco.Interrompeu-se. Por correio noturno. Adeus. — Por que devemos ser diferentes? —Repetiu com voz zombadora enquanto lhe pagava o taxista. desculpando-se. Quando saiu da 81 . — Queres que te envie dois dos melhores trajes de mamãe? Nos matará às duas. começaram a chegar os outros serventes. o das pérolas. — Assim que você vai persuadir Arabella? —Gritou-lhe. portanto a colocou na bolsa de compras maior. e saiu do lugar correndo. — Não muito. e com o encanador.Em Goshawk Hall. acenando. que sucede? Primeiro me chamas desesperada e não me contas nada. Arabella recebeu a Nicholas literalmente com os braços abertos. senão como uma servente. e em troca lhe contaria tudo.

. — Culpado —lhe respondeu. É verdade. Encontrou-o com Arabella embaixo de uma parreira. cadeiras de couro. Também pôde perceber que só media por volta de um metro e sessenta.cozinha. Dougless pôde ver que era extremamente bem apessoado.—meu chefe. e se produziu uma cumplicidade imediata entre eles. — Sim. Estava contemplando o lugar e não viu o homem loiro que se encontrava de pé frente a um estante. — Oi. e você é americano. — Brevemente a fará esfregar os banheiros. — Lorde Stafford é.o saudou. mas Nicholas a interrompeu. Deixou o livro e se aproximou com a mão estendida. talvez possa ajudar a Lady Arabella. Sim.Dougless o olhou. Dougless sabia que os homens baixos e apessoados eram tão vaidosos como galos de briga e adoravam às mulheres baixas e bonitas como ela. voltou à casa. — Oi . e quase lhe disse o que pensava dele. se estava tão loucamente apaixonado por sua esposa. verdade? — Baixou os olhos e a voz —Não vai me contar nada. E também. paredes verde escuro. tratando de parecer jovem. — Já viu um lugar como este? — Nunca. Ainda que tinha o rosto inclinado. — Sou Dougless Montgomery. Não permite mulheres bonitas próxima dela. como desejava estar tão próximo da superdotada Arabella? Demorou em encontrar a biblioteca. baixou-a. mas os olhos de Nicholas lhe suplicavam que fosse obediente e em lugar de dizer-lhes a ambos o que pensava deles.. Olhos azuis.Claro que poderia concretizar que suas tolices com Arabella no passado tinham provocado que as gerações posteriores se rissem dele. Não era de seu interesse. — Por favor. Dougless lhe deu a mão. — Deve de ter sido emocionante —lhe disse. senhorita Montgomery. não tanto como Nicholas. dentes perfeitos. O homem levantou a cabeça. Hamilton riu. sou Hamilton Nolman. Lady Arabella me enviou aqui para escrever a máquina e nem sequer trabalho para ela. — Lorde Stafford —lhe disse em voz alta —Desejava ditar-me algumas cartas? — Lorde Stafford está ocupado neste momento —respondeu Arabella —Se ocupará dos negócios à segunda-feira. mas o suficiente como para acelerar vários corações. portas de carvalho. e agora parecia que estava a ponto de voltar a fazê-lo. os dois juntinhos como pássaros em seu ninho. devia assinalar-se. É o mesmo que passa com a gente. — Não me tinha me dado conta —o olhou —É você o estudioso que está trabalhando com os papéis dos Stafford? Os que estavam na parede? — O mesmo. absorvido num livro. Foi bastante emocionante apesar de que só estou começando com eles. dirigiu-se para procurar Nicholas. ia-lhe replicar. voltou a levantá-la e terminou olhando-a com descarado interesse. Aproximou-se. Na biblioteca há notas minhas que poderia datilografar. inocente e tonta —Me disseram que os papéis contêm informação secreta. doutor Nolman? Ele sorriu de forma paternal. — Trata-se de um homem que estava a ponto de ser decapitado. Que homem tão interessante. pensou. não é? 82 . chame-me de Lee. Todas as criadas que trabalham aqui são repulsivas. A ela não lhe importava o que fizesse com outra mulher. e era como ela imaginava numa casa grande como esta: livros com tampas de couro.

Lorde Stafford me agradaria apresentar-lhe o doutor Hamilton Nolman. agradava-lhe.. orgulhoso. recordas? Estava escutando Lee com tanta atenção que não ouviu entrar Nicholas. Agradaria-lhe a seu pai um genro interessado na história medieval? Espera um momento. ele. fechando as pesadas portas. tinha me esquecido quanto a adoras.. o doutor Nolman.. Lee. Dougless. meu. — Como está Arabella? —Perguntou-lhe com doçura. na realidade ainda não leu o material. Renunciaste aos homens. A vingança pode ser doce. dizendo-lhe: ‘Achei que os americanos eram altos. Ao que parece tua Arabella tomou seu tempo para escolher entre os muitos pesquisadores que solicitaram ver os papéis. — No entanto.? —Replicou Dougless. Lee levantou as sobrancelhas. Seu coração saltou de alegria. e Dougless lhe dedicou seu maior sorriso.. Lee me contou que estava terrivelmente decepcionada porque ele é mais baixo do que ela. advertiu-se. pensou. Disse-me que Arabella o olhou e o recriminou.Nicholas passou com arrogância junto ao doutor Nolman. Ouvi que rasgou as fotografias de mulheres.Olhou Nicholas e viu que seu rosto tinha uma expressão de fúria controlada. Dirigiu-se para a janela. Pelo que pude deduzir. sem fazer caso de sua mão estendida. CAPÍTULO 9 83 . O rosto de Nicholas estava ainda enfurecido. Como está Arabella? Já lhe falaste de tua esposa? — O que falaste com esse homem? — O normal —respondeu. E ademais. Não podes falar assim com as pessoas. e um momento depois estavam sentados e ele lhe explicava as coisas como se já fosse professor. — Quem você acha que és? —Perguntou-lhe Dougless — Já não és mais um amo e senhor do século XVI. deslizando o dedo pela escrivaninha —Me disse que sou bonita. — Senhorita Montgomery! —Disse-lhe com um tom tão alto e firme que o braço em que Dougless apoiava o queixo veio abaixo e ela quase cai da cadeira. — Essa é a mesa verdadeira —lhe sorriu. Mancando e segurando o pé. pois só riu. — Deixe-nos —lhe pediu Nicholas. Oh. Nicholas a observou durante um momento e depois seus olhos mudaram. averiguei algumas coisas.. recolheu seus livros e saiu da habitação. o que sabe a respeito de escrever na máquina? Nicholas se voltou para olhá-la e por sua expressão não tinha idéia a que se referia.’ Lee parece ter seu ego intacto.Dougless apertou os punhos e depois foi e deu um pontapé à mesa. Uma espécie de disputa a beleza masculina. imagina.. — Eu. Está com ciúme? Dirigiu-se para a grande escrivaninha de carvalho —É muito bonito não é? E com sua idade já é pesquisador. amaldiçoou todos os homens. e saiu da habitação. essa tipo de coisas. elegeu o homem mais bonito por fotografia. lamento. Ele pensa que ela é uma principiante. Voltou e assinalou uma velha mesa de carvalho que estava contra a parede.— Onde estão minhas cartas datilografadas? — Datilografadas? —Perguntou —Oh. Apesar de que era um pouco ostentoso.Dougless contemplou como subia o peito. — Estava muito próxima desse homenzinho.

Dougless quase podia ler sua mente. Nicholas e Lee já estavam sentados.. Então ele é teu pai. Deteve-se ante uma porta aberta. — O que significa teu chefe para você? São. Pela forma em que o olha parece que poderiam voltar a fazê-lo sobre a mesa. e então.. Olha-os. Depois do jantar. Também pensou que deveria estar preparada para uma longa noite revolvendo velhos documentos que fazia quatrocentos anos. outra vez. todos os serventes sabiam que Nicholas era um verdadeiro descendente do outro Nicholas e desejava limpar o nome de seu antepassado. Arabella. Adam Montgomery poderia ajudar um professor jovem e lutador. claro que não replicou Dougless. olhou a Nicholas e viu que a observava. — Lee.Quando o viu levantar os olhos. Mas quando já eram quase oito horas e ninguém a chamava. levava um vestido tão decotado que lhe via quase até a cintura. Quando pensou na mesa. perguntou-se o que estava sucedendo. — O baú está em meu quarto —lhe explicou Lee. provavelmente. Dougless se afogou com o salmão e teve que beber meio copo de água para engulílo. sentou-se numa cadeira que lhe sustentou um servente. Arabella. — Ouvi-o uma vez quando apresentou um trabalho sobre economia do século treze. Levantou sua taça de vinho e bebeu. Não era boa a ambição? Ademais. — Teu chefe não queria comer até que você chegasse —lhe comentou Lee enquanto serviam o primeiro prato —Que há entre vocês dois? É descendente daquele Nicholas Stafford que quase foi decapitado? Dougless lhe contou a mesma história que à cozinheira. aproximou-se mais a Lee. quando escutou a sedutora voz de Arabella. Mas Dougless não se importou. tal como esperava Dougless. porque se. estava pensando que. e observou como Nicholas se inclinava para olhar a Arabella. creio que lhe teria dado prioridade com os papéis. Nicholas afastou os olhos. próxima de Lee. ele o tivesse pedido primeiro. e sua olhada era decididamente mais cálida depois de saber quem era seu pai —Talvez depois do jantar. Dougless voltou ao quarto para procurar suas notas e sua bolsa. veio um homem e lhe pediu que o seguisse. portanto. — Não. — Montgomery. Com a maior discrição que pôde. já que meu chefe parece estar tão ocupado. podia deixar que cresse o que quisesse se isso a ajudava a descobrir qual era o segredo da mãe de Nicholas. talvez precise de uma secretária para o fim de semana. Perdeu-se duas vezes procurando a habitação de Lee. — Alegro-me de que Arabella assinasse o contrato. seu pai. — Certo —respondeu Dougless. irritado.O jantar se servia as oito. Sabia que os serventes tinham comido mais cedo.. te agradaria. Às oito e quarto. Meu pai é professor de história medieval e tenho um pouco de experiência em investigação por tê-lo ajudado. Não seria Adam Montgomery? — O mesmo. e não a tinham convidado a comer com eles. visitá-la.. Conduziu-a através de um labirinto de habitações até um longo refeitório com uma grande chaminé e uma mesa tão longa como para patinar. e Dougless pôs sua roupa para visitar museus esperando que Elizabeth lhe enviasse os trajes o mais cedo possível. 84 . sentou-se em sua habitação e esperou. e se imaginou correndo ao redor de uma mesa tratando de escapar de seus ataques. Mostrava mais inclusive do que Dougless tinha. Talvez precise um pouco de ajuda.

aqui se vê o resultado. Dougless fez uma careta. Nicholas observou com interesse a pequena calculadora que lhe entregou e. assusta-me tanto estar só de noite.— Mas. caminhou pelo corredor e depois voltou na ponta dos pés. mas não creio que agora seja importante. Sorrindo. secos ou de qualquer outra forma. — Mostra-me como funciona. — Oh. bebeu um pouco e fez uma careta. deu uma olhada e lhe respondeu: 85 . deixa. é só uma calculadora.. Quatrocentos vinte e quatro anos para aclarar um erro e evitar que seus descendentes riem de você. oh —replicou Dougless com inocência —A incomodei? Lamento muito. Arabella lhe mostrava tudo a todos os homens em sua habitação. Tomou o martini. Digamos que você deseja subtrair este ano o ano em que seu antepassado foi acusado de traição e perdeu a fortuna de sua família para sempre. Só cumpria com meu trabalho —começou a retroceder para a porta —Por favor. — Oh. querido. Só funciona numa habitação muito iluminada. Arabella estava servindo um copo de whisky e Nicholas estava sentado no sofá com a camisa meio desabotoada. seus olhos se agitaram. — Podem somar? — E subtrair e multiplicar e dividir. Lorde Stafford — disse alegremente. Entrou na sala. o quanto estava surpreso de encontrar uma mulher tão atraente nesta velha casa. Dougless ficou perplexa. mas temo que a única que tenho é solar. foi procurar o quarto de Lee. Recebeu-a levando posto só um roupão de seda. — Preciso de luz —exigiu Nicholas .. revisou sua bolsa. Todas as luzes estavam apagadas. — Nicholas. Bastava uma olhada em seu rosto e ao martini que tinha na mão para compreender que não tinha intenções de falar de nada senão de levá-la à cama. tirou duas pílulas de sua bolsa. — Que diz aqui? Ele jogou. Depois. continuem com o que estavam fazendo. exceto uma muito tênue. encheu-lhe outra vez a taça. — É uma máquina maravilhosa. Odiava os martinis. Dougless conteve o riso. — Deixa-me encher outra vez sua taça —lhe disse Arabella —E depois me agradaria mostrar algo —baixou a voz —Está em minha habitação. Dougless ouvia os suspiros de Arabella através das paredes. pelo amor de Deus. Dougless poderia ter bocejado. quando Dougless começou a mostrar-lhe como funcionava. e satisfeita consigo mesma. Vê. abriu as cápsulas e as esvaziou dentro do copo de Lee. — Não é sério —ouviu o que lhe respondia Nicholas —acho que você já superou esses temores infantis. — Você —lhe disse Arabella.Enquanto esperava que os comprimidos lhe fizessem efeito. Viu como se escureceu o quarto. Lee começou dizendo o quanto era lindo seu cabelo. quando ele. — Até ao fundo —lhe disse alegremente. Não era minha intenção. O que é este signo? — É um signo de percentagem. com um sorriso malicioso. e começou a acender todas as luzes da sala — Aqui está a calculadora que desejava.A máquina não funciona sem luz. tão irritada que quase não podia falar —saia imediatamente deste quarto. mil novecentos oitenta e oito menos mil quinhentos sessenta e quatro lhe dá quatrocentos vinte e quatro anos. Saiu da habitação. mas em lugar disso. mostrou-lhe a nota que Nicholas tinha deslizado embaixo de sua porta. dele. o quanto linda estava vestida e que pequeno era os seus pés. Estúpido! De acordo com a cozinheira.

cerca da chaminé. — E ele? —Nicholas assinalou com sua espada a Lee. e a tinta não estava descolorida como as modernas. quando de repente a porta se abriu de uma vez. tratando de decifrar alguma palavra aqui e lá. por que ficava tão ciumado quando outro homem a olhava? E por que paquerava com Arabella? — Nicholas? —Perguntou-lhe com suavidade —Pensou que aconteceria se não conseguir regressar a tua época? — Não —lhe respondeu enquanto examinava uma carta —Tenho que regressar. — Muito bem. Se estava tão apaixonado por sua esposa. mas pensou no amor. Não mereço mais tua ajuda.— Creio que posso traduzir —tomou papel e lápis e escreveu: Pensei muito em meu vínculo contigo. — Não acordará antes do amanhecer. — E se te enviaram aqui por outra razão? Uma razão que não tem nada haver com ter sido acusado de traição? — E qual seria essa razão? — Não sei —respondeu. e depois a Dougless. dirigiu-se para a cama. — A letra de minha mãe. e Dougless se dirigiu com rapidez ao pequeno baú de madeira que se encontrava sobre a mesa. — Oh!—Exclamou. dormido sobre a cama. com a espada na mão. Enviaram-me aqui para consertar esse dano.Os papéis que tinha no interior eram velhos. Ante o tom de sua voz. fazendo-a rodar de maneira que as jóias refletissem a luz do lustre que estava sobre a mesa. Dougless riu. ao irromper na habitação. amarelos e quebradiços. Creio que poderias aprender. — Foi para cama — lhe respondeu. e não podia ler nem uma palavra. Estavam escritos nos mesmos traços da nota que Nicholas lhe tinha deslizado por embaixo da porta. Olhou-a. Estava inclinada sobre os papéis. Agora estava mais próxima de poder compreender o que quis dizer Nicholas a noite em que a deixou e ela o encontrou num pub. — Pelo amor? —Perguntou-lhe quase lendo a sua mente. — Não posso lê-los. ah! —Disse Nicholas. — Ah. Dougless esqueceu seus ciúmes. Lee passou a mão pelos olhos e bocejou.Dougless estava brincando com a empunhadura da espada. Quando Dougless se recuperou do susto que lhe tinha dado. mas a escritura era clara. sentou-se calmamente e o observou. ganhaste um ponto. Pôsse de pé. levantando as sobrancelhas — Deveria ensinar-te a ler. Dougless tirou os papéis e seu coração saltou ao vê-los. Agora sente e leia. Fizeram dano a minha família e a mim. e lhe disse: — Só um minuto — E dormiu em seguida. 86 . Nicholas pôs a espada sobre a mesa e começou a ler a carta. — Mas e senão o fizer? Se ficar aqui para sempre? — Enviaram-me aqui para achar respostas. sorriu-lhe: — Já terminou Arabella contigo? Nicholas olhou a Lee. que se estragam num ou dois anos. Como Dougless não podia ajudar. — Sozinha? Nicholas se aproximou à mesa e pegou um papel. inclinada sobre os papéis. e se sentiu incomodado.

e ela converteu a Inglaterra num grande país. Nicholas lhe lançou uma olhada dando-lhe a entender que pensava que sua idéia era absurda. ou ao oito —saiu da habitação. Era feio e nenhuma mulher se fixava nele. tudo o que era capaz de fazer era montar cavalos bravos. Enquanto se dirigia a sua pequena e triste habitação. Nicholas. E se ficava. Mas ao meter-se na cama.. Mas esta moça que o fazia rir. seguia tendo um coração de pedra. seria um grande incômodo. quando o fez. se sentiria muito bem quando chegasse o momento de livrar-se dele. pensou Dougless enquanto colocava sua bata. mas já está feito. Não me importa o que te aconteça. — Pare! —Disse-lhe. há muita gente que crê que Deus é mulher. foi a intervalos. então.— Talvez Deus pensa como mulher e que lhe importa mais o amor do que a honra. E se realmente ele ficasse no século XX.. Não podia imaginar não ver mais seu sorriso ou do que não lhe fizesse mais brincadeiras.Demorou muito tempo para dormir e. e sei que tua família perdeu as propriedades dos Stafford. — Sei que é importante. Arabella era só uma das mulheres que Dougless conhecia. Quatrocentos anos não tinham mudado a Arabella. que sucederia se não regressar? E se descobrir que precisas é mesmo ficar aqui? Digamos durante um ano ou mais. Não a abandonaram na neve ou algo assim. Conheço o homem. que o ajudava. com raiva —Não compreendes a honra. — Tenho que voltar — disse com firmeza. pensou que se sentiria bastante feliz em desfazer-se dele. fique no século XX ou regresse ao XVI. e voltou a olhar as cartas. sentia-se fatal. é sério. e fechou tão forte a porta que Lee se moveu na cama. que agora o aborrecia. Ele era tão real como um fantasma. Tua mãe se casou com um homem rico e viveu com luxo. o que faria? Que poderia fazer? Ao que parece. Diria a Dougless que se casaria com ela e correria à cama com ela? Não desejava dizer-lhe que Arabella. e o que teu mundo recorda é o que anotou um servente. — Então escreveu sobre ti. — Montgomery. Sempre teria que lhe explicar coisas. pensou. Talvez. mas sucedeu faz tantos anos e tudo parece ter funcionado tão bem. se não regressar. Provavelmente tinha centenas delas que o pobre servente desconhecia. Nicholas não desejava pensar nisso. uma vez tinha sido tão atraente para ele. Imagina-te tratando de explicar-lhe como conduzir um automóvel. — Não. Talvez se pudesse mudar a história. E fazer amor com as mulheres. empunhar uma espada e. Lamento. e a olhou. que o olhava com grandes olhos lhe mostrando tudo o que sentia. assim que talvez teu dinheiro ajudou o teu país. Seguia desejando um homem depois do outro em sua cama. Só me pergunto o que farias se tivesses que ficar.. Apaixonar-me por ele. — Está louco —lhe disse. Sim. Parecia ser muito bom nisso. Minha recordação é ridicularizada. pensou. esta mulher podia conseguir que desejasse ficar. pondo-se de pé — Fique aqui e lê. levaremos estas cartas ao meu dormitório. Arabella me contou que leu sobre mim. É assim. Era a mesma. não pôde imaginar um dia sem ver Nicholas. À manhã seguinte. — Para tua informação. mas quem saiu prejudicado? Você não teve filhos e teu irmão também não.. sem observar seu deleite pelas coisas nas que ela nem pensava. Permitirei-te que me faças amor. Também poderia apaixonar-se por um fantasma. se apaixonou por mim outra vez? Vêem. quem ficava? As propriedades passaram à rainha Isabel. e entrou na cozinha onde estava a 87 . — Não vou fazer —respondeu.

Quando a senhora descobrir.. A mesa estava coberta por umas 20 ou trinta latas abertas. lamento ontem à noite. Pôs-se adiante da cadeira. tinha-o ainda melhor. Ela conta. me despedirá. Dougless saiu da cozinha sentindo-se um pouco melhor. O estar aqui significa que tens uma segunda oportunidade. Dougless tratou de ocultar seu sorriso. conta como ridicularizaram o nome dos Stafford. Olhou-a durante um longo momento e depois lhe tomou o rosto com suas grandes mãos. poderás regressar e mudar as coisas. — Que aconteceu? —Perguntou Dougless. Quando regressei. mas em lugar de ter pior aspecto.. uma criada entrou correndo à cozinha. Nicholas tinha olheiras. mas no refeitório vazio encontrou um aparador cheio de pratos com comida. mais romântico. Sem dúvida. — Li as cartas —lhe disse enquanto se sentava numa cadeira de couro com respaldo alto e olhava para fora pela janela —Não está o nome de quem me traiu. Dougless franziu o cenho e depois perguntou à senhora Anderson: — Alguém a viu abrir a lata de pinha? — Agora que o menciona. Nicholas tinha visto o abridor de latas e decidiu prová-lo. claro que sim. — Montgomery —lhe disse Nicholas com firmeza —Estou te esperando na biblioteca — se voltou e saiu da habitação.. Descobri isso na primeira vez que abri o baú . Sentindo-se um pouco desafiante. mas não pude ler —lhe respondeu com honradez e depois se inclinou para diante — Leu o suficiente como para descobrir quem traiu a Nicholas Stafford? —Ah. Dougless se aproximou e lhe pôs uma mão no ombro. Quando entrou. — Não estou certa —respondeu a cozinheira —Abri uma lata de pinha e saí um momento. Não sabia onde ia tomar café da manhã. Encheu um prato e se sentou frente a ela — Ah. É um homem muito agradável. — Preciso de uma vassoura —parecia a ponto de chorar — Lorde Stafford me pediu para ver o aspirador e aspirou todas as jóias de Lady Arabella. E quando descobrirmos. com um aspirador. Dougless não pôde suportar a dor de sua voz. — Sempre dá esperança? Nunca crês que já não há esperança? 88 . — Bom dia —lhe disse Lee.. Lorde Stafford passou por aqui para ir aos estábulos. ajoelhou-se ante ele e lhe pôs as mãos sobre os joelhos. — Sabe o que fizeste? Lee estava a ponto de me dizer quem te traiu e ao entrar você o interrompeu. olhou irritada a Lee e se dirigiu à biblioteca. encheu um prato com comida e se sentou. alguém tinha aberto todas essas latas. tinha alguém aqui. — Averiguaremos quem mentiu sobre você.Tinha algo que o entristecia. como Heathcliffe.Quem foi? Lee abriu a boca para falar. fechou a porta.senhora Anderson e outra mulher na mesa de trabalho. eu o averiguarei. entrando na habitação. Deteve-se e me falou. mas Nicholas entrou na habitação e se calou. Lee grunhiu: Que acontece? Se levantou do lado errado da cama de Arabella? Dougless atirou seu guardanapo. Viu as cartas? — Sim. creio que peguei no sono. Nesse momento. Se Lee sabe. sim. — O que foi? Estás preocupado pelas cartas? — As cartas dizem o que sofreu minha mãe depois de minha morte.

Dougless se pôs de pé. como o teria feito uma pessoa ante uma fogueira. Abriu-se a porta e Arabella entrou na habitação. — Nicholas — disse Arabella com tom de exigência —estamos esperando. pois não suportava mais olhar Nicholas nos olhos. nunca afastas nenhuma. Colin — tentou afastar-se. Mas Nicholas a levantou do chão. Beijas qualquer mulher que te aproxime à cara. — Nicholas. o pequeno e desagradável servente que tinha escrito a respeito do episódio de Nicholas e Arabella sobre a mesa. Dougless retrocedeu. Desejava sua doçura. —Mas deixou a você um livro na biblioteca —lhe informou o servente. seguidas de outras com as virtudes de Lettice. recuperando-se. Segundo o diário. tomou-a entre seus braços e a beijou. — Armas?— Perguntou Dougless. Já a tinha beijado antes. vá matar patinhos. agora queria mais dela.. Ao voltar-se se deu conta de que não tinha nada que fazer. — Vá — murmurou com um tom muito tenso. onde estavas?— Olhou-os. mas então só a desejava. Arabella a olhou de acima abaixo e obviamente a encontrou insuficiente. As mulheres altas com freqüência sentiam assim a respeito das baixas pensou Dougless. O prólogo dizia que o livro tinha se encontrado num armário e que estava por trás de uma parede. beijando-lhe o pescoço. — Vamos caçar patos — respondeu Nicholas sem olhá-la . sua senhora não podia fazer mal e seu senhor também.Dickie vai me ensinar a usar uma escopeta. mas comigo atuas como se eu tivesse uma doença contagiosa. Eu me arranjarei —passou junto a Arabella e saiu. 89 . Perguntou-lhe a um servente que passava onde estava Lee e averiguou que se encontrava fechado em sua habitação lendo as cartas e não desejava que o incomodassem. quando uma das casas de Nicholas se queimou. Dougless se voltou. seu adorável coração. e em seus olhos brilhava todo seu desejo por ela.. Oh. irritada. Que foi? Não te estimulo? Sou muita baixa para você? Meu cabelo não é da cor apropriada? Nicholas a olhou. Nas primeiras 20 páginas se deu conta de que era o diário de um jovem apaixonado. Pôs-se a mão na garganta e durante um longo momento só se olharam um ao outro. Desejava a maneira em que o olhava. afastoua de um empurrão. e era imensamente feliz de que os homens não sentissem o mesmo.Dougless sorriu. A primeira vista soube o que era: o diário de John Wilfred. De acordo com John Wilfred. e a mulher que amava era Lettice. As armas estão carregadas. — Dougless —sussurrou. Quando lhe passou pela cabeça o pensamento de que não queria ir embora. De cima observou como Nicholas subia ao Land Rover e Arabella o levava. — Grandioso. sua ansiedade por satisfazer. e ao que parece não lhe agradou o que viu. Dougless regressou à biblioteca e sobre a escrivaninha encontrou um pequeno volume com uma nota: ‘Pensei que te agradaria este livro. — Quase sempre sou otimista. Tinha páginas inteiras com os defeitos de Nicholas. — Não te entendo. Por isso me apaixono descaradamente e espero que um deles se converta em meu cavaleiro de armadura.’ Dougless o tomou entre suas mãos. Não se sentia livre para explorar a casa de Arabella e não desejava passear por seus jardins. Levava o traje de algum desenhista inglês.Dougless se sentou no sofá para ler. a esposa de Nicholas.

as pessoas ou as coisas. a pasta. Ou. irritada. e tocou o creme de barbear. com uma cama com quatro colunas de madeira com cortinas de seda azul. blasfemando e convertendo num inferno a vida dos que o rodeavam. e se perguntou como estava se virando sem o chuveiro. De acordo com o livro. tinha-lhe beijado a testa. fechou a gaveta.. virtuosa. suas propriedades. Teria outras coisas em sua habitação que não compreendia? Quando regressou ao dormitório.Lettice era mais formosa do que as pérolas. Sua habitação estava próxima da Lady Arabella. tinham sido destruídas. o filme não tinha um significado profundo. Tinham rido juntos. saiu da biblioteca e perguntou a um servente onde ficava a habitação de Lorde Stafford. Nicholas passava o tempo fornicando. e desfrutava com elas. Tinha-o agasalhado durante a noite. O autor não tinha nada bom que dizer de Nicholas. Além da maliciosa e rancorosa história sobre Arabella e a mesa. Desde que tinha aparecido. Não se lamentava de que não fizesse as coisas absolutamente perfeitas.Na cabeceira tinha um exemplar da Times. Tudo o que ficava sobre ele eram os malévolos desejos de um jovem invejoso. Nicholas nunca se queixava quando ela apertava o tubo da pasta ao meio. Era estranho que depois de ter vivido com Robert durante mais de um ano e achado que estava loucamente apaixonada dele. a tal ponto que Dougless sentiu desejos de atirar o livro. desfrutava com coisas tão insignificantes como um abrelatas. e abriu a gaveta. todas as coisas que ela lhe tinha escolhido. a maquina de barbear. neste século as pessoas acreditavam nisso. com talento. Tinha que ser assim pensou. Dougless pensou em todas os encontros que tinha tido com homens modernos e como se queixavam de tudo.. enfrentado inumeráveis problemas. não tinha nada concreto sobre que tinha feito Nicholas para merecer a animosidade. poderia enviar o desagradável e pequeno servente com a perfeita Lettice. 90 . o atendimento era lento. para Nicholas parecia agradarlhe tal como era. Estendeu uma. Ali estavam os artigos da penteadeira.. compartilhado. sorrindo. Falaria-lhe do livro. inteligente.Terminou de ler e fechou o livro com violência. Antes de vir a Goshawk Hall. tinham estado juntos quase constantemente. pensou. e ela estava segura de que teria interesse suficiente como para ler este livro. Dirigiu-se ao banheiro e olhou a banheira.No entanto. Parecia aceitar tudo como era. Pensou em deixar-lhe o livro para que o visse. uma escova de dentes. Tinha um automóvel de brinquedo de fricção sobre um folheto a toda cor de Aston Martin. tinham conversado.Pôs-se de pé e apertou os punhos. e continuava durante folhas e folhas. seu agastamento se dissipou. Nicholas tinha razão: tinha que regressar a sua época para consertar o dano que lhe tinham feito.Uma vez em sua habitação. o vinho não era o apropriado.Na realidade. Tinham compartilhado um dormitório. Devido às falsas acusações de traição contra Nicholas. Sorrindo. irritada. De repente. compreendeu o muito que o faz falta. Mas Nicholas. sua família. Caminhou para a janela e olhou através dos campos para as árvores do fundo. um banho. e com elas a verdadeira história de sua vida. se podia acreditar em Wilfred.. e de como tinha administrado as propriedades de seu irmão e desenhado uma formosa mansão. e embaixo um exemplar de Playboy. sorriu ao recordar a forma em que tinha saído do banho levando só uma toalha e com o cabelo molhado. sem chuveiro. Talvez era porque estar com Nicholas era fácil. tinha-lhe lavado sua roupa interior. Agora já sabia ler a escritura moderna. amável. e três lápis. Dentro tinha um pequeno apontador. Estava decorada em azul. Dougless tomou o livro. dois dos quais estavam muito curtos um grampeador e dois blocos de papel cheios de grampos. e quando regressasse ao século XVI poderia mandar embora John Wilfred de sua casa. tinham tido uma agradável intimidade. sentisse que em alguns aspectos tinha tido mais intimidade com Nicholas do que com ele.

Disse-lhe que tinha encontrado uma nova informação. querido. Fechou os olhos e tensionou todo seu corpo desejando que regressasse. salada de batatas. Como poderia viver sem voltar a vê-lo? Se não podia suportar vê-lo durante um dia. regressa Nicholas’ Nicholas levantou a cabeça. Nicholas tomou o melhor. — As armas são boas —comentou. — O que desejas de mim? —Perguntou com rudeza. Mas hoje. expressavam que o desejava.Isto pareceu apaziguá-la. — Que eu desejo de ti? —Replicou. Não desperdices com Arabella este pouco tempo que nos resta.. Esta noite então? — Esta noite —lhe respondeu. Amanhã podes ir embora. mas tinha meia dúzia de cavalos atados cerca dos veículos. Foi a coisa mais difícil que ele jamais tinha feito. —Tenho que ir. te prepararei um almoço americano.. se o fizesse.Apoiou a cabeça sobre o vidro frio. Sem dúvida.. arrumando a camisa — Com elas poderíamos vencer os espanhóis. frango frito. Nicholas se olhou no espelho do armário e viu que tinha a camisa mau abotoada. mas olhou para outro lado. por favor. Tinha observado a forma em que desviou a olhada —Ao que parece era a outra a que você desejava. que penduravam aos tipos particularmente cansativos. Nicholas tinha pouco interesse na mulher. e a deixou. Só escuto você — sussurrou. onde Nicholas e outra Arabella tinham passado uma tarde agitada. 91 . estava certo de que não desejaria regressar a sua época.‘Volte. seu corpo. Nicholas se separou dela. Nicholas permaneceu ali um momento e a contemplou. pensou. Ao ver sua expressão de ira. Abriu rapidamente a porta de seu dormitório.Dougless não se surpreendeu ao vê-lo. Nicholas se desvaneceria no ar? Já está quase acabando.Arabella lhe voltou a baixar a cabeça. já que começou abotoar a roupa. A maioria dos caçadores conduziam Land Rover. pensou. Enquanto cozinho. e seu abundante busto pressionava o peito nu dele. Ela lhe tinha dito que desejava discutir o que tinha averiguado de seu antepassado. fatos que nunca antes se tinham publicado. Estavam num lugar afastado. — Alguém vem. soube que não devia inimizar-se com ela. Não podia tocá-la. Perguntava-se se os isabelinos seriam como os vaqueiros de antes. — Você ouviu? —Perguntou-lhe Nicholas. regressa.. cavalgou de regresso à casa e subiu pela escada de dois em dois degraus. e não desejo perder este tempo contigo. e sentiu que seu coração suspirava por ele..Suas palavras foram uma tentação. Se o fizesse.. não eu. Quando Nicholas iria embora? Quando averiguaria quem o tinha traído? Se Lee mencionava o nome durante o jantar. Quero conservar tua beleza para mim. pensou. irritada. sei que tem na Inglaterra. e és muito adorável para compartilhar-te com algum curioso. — Nunca conheci um homem tão cavaleiro como você. Por favor. podes olhar as bolsas de plástico e o papel de alumínio e os Tupperware. como viveria o resto de sua vida sem ele? Por favor. Seu rosto. Arabella lhe estava abraçando o pescoço. Nós ficamos tão pouco tempo.Perguntava-se como reagiria Robert se de repente se encontrasse no século XVI. exigiria isto e aquilo e se queixaria quando não o dessem. ovos mexidos e docinho de chocolate. —Nada. e tinha pago qualquer preço para averiguar o que sabia.

o suficiente para saber sempre o que mais convinha.. Nicholas se sentou à mesa e experimentou as bolsas de plástico. e depois se dedicou ao docinho. Sua mãe e sua primeira esposa tinham sido frias. A raiva de Dougless desapareceu. e quis fazer-lhe mais perguntas. Você tinha tudo o que precisava’. — Os ciúmes te iluminam os olhos. decidiu preparar uns crocantes bolos de chocolate e nozes. o papel de alumínio. Descascou batatas e ovos e picou cebolas.. — Sem vergonha! Não te ocorreu pensar que estás se comportando como um tonto pela segunda vez? A história se deleitou com tua aventura com Arabella. de teu irmão. — Me teria permitido que eu falasse dela? — É tão bonita como Arabella? Nicholas pensou em Lettice. Por que? Dougless se pôs imediatamente à defensiva e começou a dizer que Robert era um bom partido.— Inglaterra vence todos. — Duvido. — Não é como você.Quando a comida esteve preparada. — Te prometi um almoço americano. O próximo serão bombas para levar-te quando voltar. Vamos ver à senhora Anderson. onde se sentaram embaixo dos olmos e comeram.Dougless lhe contou que tinha lido o diário essa manhã. Tratei de fazer tudo o que ele desejava. Arabella era estúpida. Mas. Nicholas a levou até um pequeno jardim.Depois de pedir-lhe permissão à senhora Anderson. mas.— Achei que algum dia seria como esses homens dos filmes. e agora a estás repetindo. Isso é cheiro de comida? Estou faminto. — Não. As armas te desabotoaram a camisa? Olhou-a no espelho. e colocou tudo num grande cesto junto com um termo cheio de limonada. não é como Arabella.Caminharam de braço dados para a cozinha.’ E eu tratava de dar-lhe mais ainda. Inclusive de teu cavalo favorito. um homem não poderia manter uma conversa com ela.—Disseste que amavas o homem que te abandonou. Fala de tua mãe. — Ela sabe algo que ignoro. mas nunca dizes nada sobre tua esposa. e regressaria e me diria: ‘És a melhor mulher do mundo. perguntou-lhe por Lettice: — Nunca falas dela. Os caçadores tinham levado a comida em cestos.. Dougless limpou a cozinha. portanto a cozinha estaria livre.. mas tinha paixão. Robert continuou dizendome: ‘Nunca me dá nada. — Você ajudava a Lettice cozinhar? Nicholas riu. Em lugar deste. Robert me disse que ninguém o tinha querido tanto. Nicholas lhe tocou o queixo. mas seus ombros tinham cedido. mas sim cérebro. e enquanto Nicholas comia o quinto bocado de frango. Lettice não tinha paixão. — É como eu? Nicholas a olhou e pensou em Lettice cozinhando. — Ego. Achei que podia dar-lhe todo o amor que sempre tinha precisado. — Aposto que sim. mas ele a interrompeu. já que Nicholas se negou a ajudar. Mas não foi assim.Olhou para o céu. e abriu e fechou os vasilhames de plástico. 92 . Provavelmente tem mais experiência. e sem armas modernas. O que é isto? — Tomate em rodelas —lhe respondeu. Dougless sorriu. Parecia mais longínqua que só quatrocentos anos. Dougless se pôs a trabalhar: cozinhou batatas e ovos.

Hyde. mas Nicholas a agarrou-lhe o braço. se te ocorreu pensar que se o doutor Nolman nos diz quem te traiu. já que por sua antigüidade e originalidade poderia provocar perguntas —Já me deu muito. para surpresa de Dougless. — Preferiria uma hora contigo a uma vida com Arabella. Dougless engoliu e não se atreveu a olhá-lo. Dougless tratou de sorrir. — Tenho um primo assim — comentou. Nicholas tinha tirado seus grandes anéis quando se deu conta astutamente de que os demais homens não usavam. Este tinha uma esmeralda do tamanho de um seixo. — Vai engordar se seguir comendo assim. a metade das contas. Puf! Nicholas. e recordou quando levava só uma toalha. — Deu a sua filha uma pulseira. e a mim. — Amanhã saberei. terás que regressar de imediato? Lee diz o nome. chateada e sentindo-se uma tonta. — Um bolo —respondeu. Se tampou a boca com a mão. Precisas voltar com tua bela esposa. — Amanhã —repetiu Dougless. — Nicholas —sussurrou. te banharia em jóias. Observou seu corpo. Arabella regressará logo e reclamará se não te achar —começou a pôr-se de pé. Foi amável comigo — sorriu —Nicholas. histórias que eram parte de nossa cultura e que ele ignorava. — Não sei cantar e não conheço nenhuma canção. as pernas musculosas. mas depois viu que ele estava mostrando um anel. amanhã saberei. que estava remexendo na cesta da comida. olhando-a e acelerando-lhe o coração. — Que é isto? — Perguntou-lhe com aspereza. Levava o broche por dentro sustentando a roupa. Dizendo-me ou não... mas ele não parecia sentir o mesmo por ela.— Sim?— Perguntou-lhe com suavidade. No entanto. O que te parece uma história? — Mmm —foi tudo o que disse com a boca cheia de chocolate. Precisas. me. Dougless compreendeu quantas histórias eram desconhecidas para ele. Dougless sorriu. Ele estava dizendo a verdade ou só tratava de que se sentisse melhor? — Canta-me uma canção enquanto como isto. precisas ter herdeiros para legar essas maravilhosas propriedades e que não as confisque a rainha. e você desaparece. Desejava tanto tocá-lo que lhe doíam as pontas dos dedos. inclinando-se para ele. — Acha que estou gordo? —Perguntou-lhe. parecia que só podia satisfazê-lo com comida e bolsas de plástico..Desviou o olhar. Claro que precisas voltar. Terminou todos os bolos do prato e. — Creio que será melhor a gente voltar. interpondo entre eles um bolo. —Não quis dizer isso. o ventre liso.. e o olhou como tratando de memorizar seus traços. Me comprou roupa. a camisa ajustada nos ombros. Mas. pois temia levá-lo por fora. tinha voltado de passar a manhã com Arabella com a camisa mal abotoada — Comida —murmurou. — Já me deu o broche e se tocou no peito com a mão. Falou do doutor Jekyll e Mr. voltou e pôs a cabeça em seu colo. Tinha-a beijado umas poucas vezes. 93 . estes últimos dias foram os mais felizes de minha vida. Quem dera que você não precisasse regressar. deteve-se. — Para que é isto? — Se pudesse. mas só quando ela se jogou em seus braços.

averiguaria o que precisava saber e teria que ir. insofrível. devo enfrentar a condenação. — Quando voltar pensarei em você. Dougless o afastou e começou a descrever a vaidade dele. despótico. e riu dela. — Palerma? — Isso soa perfeito. — Para? — Para te levar de volta comigo.. Não deseje o que não vai acontecer. Logo. — Nicholas. Não devia dar-lhe esperanças. mas mudou de expressão. Demônio pensou também não podia fazer a si mesmo. nem médicos. o melhor era não a tocar. mas a idéia de deixá-la estava convertendo numa dor intolerável. Levantou-se. Uma noite mais. pondo uma mão sobre a sua. estará só. Minha época não é como a 94 . vaidoso. Não! Pensou. Dougless suspirou. para cozinhar. estava brincando —ele não a olhou —Aceitarei o anel se isso te faz feliz. Lettice a cortaria em pedacinhos. Ele se inclinou para frente. Se voltar comigo. Não desejava ferí-la. — Cozinhar?— perguntou Dougless tontamente — Seu. eu farei. Só ficaria uma noite a mais com ela. Dougless conteve a respiração.. — Sim. Nicholas tirou a mão. não posso aceitá-lo.. então. ajoelhou-se diante dela e lhe pôs uma mão no rosto. tomou o anel com a esmeralda da cesta e deu a Dougless. Já era quase de noite quando abriu os olhos outra vez e a olhou durante um momento. Não. olhando-a nos olhos. Já me deste muito. Horrorizava-lhe pensar nela em sua época. deixála chorando mais forte que quando a conheceu. — Não sabes o que dizes. Ela também podia cansar-se: — Muito bem. mas se manteve indiferente. Nicholas se retirou para trás e pareceu empalidecer. — Fecha os olhos e comporta-se —lhe disse Dougless. esfregou-lhe o cabelo com o nariz e lhe beijou o lóbulo da orelha.. — Temos que ir. Nicholas se arrependeu de tê-lo dito.. Deixou de guardar as coisas na cesta e a olhou. Regressarei contigo e cozinharei para ti. Quando voltar para casa. pois pensou que ia beijá-la outra vez. Talvez essa noite a levaria a sua cama. Não podia fazer-lhe isso. acariciando-lhe o cabelo suave e encaracolado enquanto lhe contava uma história depois de outra. Ou sobre as mesas. Sua última noite de amor e êxtase. e aos domingos pela tarde passaríamos juntos na cama. — Deixarei que visites minha cama. Ele tinha uma expressão de tristeza nos olhos: — Daria mais do que isto para. — Nicholas. Se fosse sua amante. Voltar para sua esposa fria ao vazio de mulheres como Arabella. Só mostrava algum interesse por ela quando a via com outro homem. Palerma! Se pensas que vou regressar a uma época sem água corrente.. em que os dentistas te arrancam os dentes e te rompem a mandíbula ao fazê-lo. só para te cozinhar. Começou a guardar as sobras na cesta.Parecia saber exatamente o que lhe tinha feito. — E eu em você — respondeu. pensou.

Quando Dougless chegou a sua habitação. — Uau! —Exclamou Lee. com o nome de uma companhia de envios urgentes.tua. Nicholas mal lhe fez um sinal com a cabeça enquanto cruzavam pela cozinha e se dirigiam a seus dormitórios. Elizabeth.O vestido branco de sua mãe tinha uma manga longa e deixava o outro ombro e o braço descoberto. Talvez esta noite Nicholas advirta que tem mais alguém além da impressionante Arabella. — Não sei o que está falando —lhe respondeu. suspirou. É você que veio para averiguar algo. — Só estava brincando. pestanejando inocência. e Lady Arabella. deteve-se e franziu o cenho. apertando um dos trajes contra seu corpo. CAPÍTULO 10 Quando chegaram em casa. atirando o papel para todos lados. Não desejo voltar. Quanto a Nicholas. Pôs-se de pé e Dougless advertiu que tinha a intenção de deixar a cesta onde estava. obrigada. recorda? — Tens razão —lhe respondeu.. As mulheres sós não vivem bem. A noite anterior desejava esconder-se embaixo de uma mesa ante a presença de Arabella. — Vai ver esse médico depois do jantar? 95 . Obrigada. e nenhum dos dois falou. — Muito menos que Arabella —replicou. pensou Dougless. fez-se mais intensa quando se aproximou dela. finalmente. e depois sorriu — Te agrada este vestido? Pedi a minha irmã que me enviasse. Não tenho segredos para averiguar. — O que é que você está fazendo? —Perguntou-lhe Nicholas. Lee deixou sua taça pela metade do caminho. percebeu que as duas horas e meia que tinha demorado em arrumar-se tinham valido a pena. Seu olhar se iluminou quando a viu. — Está se exibindo. você. Provavelmente recolheu porque estava alterado. Estava coberto por uns pequenos canutilhos e quando se movia. olhando-a de acima abaixo — Uau! Dougless sorriu. Mas o que tinha o alterado? Dougless levou a cesta de regresso à casa. e. Dougless lhe pôs a mão no ombro. Rasgou o pacote. marcava-lhe as curvas. pela primeira vez. por trás dele. afastou os olhos de Nicholas. sobre sua cama tinha uma grande caixa. sua reação valeu todo o esforço. mas esta noite o vestido vermelho decotado dela parecia antiquado e sem brilho. Quando Dougless entrou na sala onde a família Harewood estava servindo bebidas. Nicholas estava mais tenso do que de costume.. Inclusive Lorde Harewood deixou de falar de armas e cachorros e de suas rosas.Dentro tinha dois dos trajes de sua mãe. e tomou sua mão e a beijou.Era surpreendente o que podia fazer a roupa por uma mulher. Tinha posto a pulseira de diamantes de Glória no pulso. Se eu não estiver ali para te defender. — Boa noite —disse. pensou Dougless. — Isso é uma taça? Poderia me servir um Gin Tonic? Lee obedeceu como um menino.

. Lorde Stafford. com a camisa aberta e fora da calça. ligado e agora desligado. e depois a Arabella dizendo: ‘Desliga 96 . sentiu que Nicholas se sentava. Nicholas não pôde afastar os olhos dela. A meia-noite. Levantou da cama.. com as cabeças juntas. Dougless teve que correr para a porta. Ah. — Um filme —sussurrou Nicholas. você.— Olhe isso! É um velho filme sobre a rainha Isabel — desligou o televisor. — Boa noite. Nicholas estava encostado na cama de Arabella. Uma alça muito importante. — Não. Dougless se desculpou e se retirou para sua habitação.—disse-lhe Arabella. arrumou o cabelo e se dirigiu para a habitação de Nicholas. só televisão — deu o controle remoto —Vê. como numa cena. Dougless compreendeu que não poderia dormir.. Sentou-se numa cadeira pequena e observou zelosa enquanto Arabella e Nicholas cantavam em dueto. Bateu à porta e ao mesmo tempo girou a maçaneta e entrou no dormitório de Arabella. que não a cobria muito. e Nicholas cantou e tocou o piano.Depois do jantar passaram ao salão. Espero não ter incomodado muito. Depois de um momento. ouviu os inconfundíveis sons de uma série de Oeste. De fora escutou o que acontecia dentro da habitação. Não desejava passar a noite no quarto de Lee. Dougless não pensou no que fazia. — Olhe isso. Tinha uma voz profunda que Dougless adorava. Por trás dela. Continuava vendo Nicholas cantando com Arabella. O jantar foi uma magnífica experiência para Dougless. — Aqui está —lhe disse Lee. Não tinha luz embaixo de sua porta. — Não deve levar este vestido. O segredo de quem tinha traído a Nicholas teria que esperar para outro dia. pôs a bata. Interrompi algo? Nicholas a olhava divertido. —Oh. dando-lhe uma taça. — Você. de uma novela de Jane Austen. Lorde Stafford.. Alcançou rápido à saída antes que a porta se fechasse em seus calcanhares. Lady Arabella. colocou o controle remoto na cabeceira de Nicholas. mas sim tinha luz. — Você. poderia me prestar um alfinete? Rompeu minha alça. ruído de copos chocando e o sedutor riso de Arabella ao outro lado da porta dela. bocejou e comentou: — Puxa. para desgosto da adorável Lady Arabella. e é melhor que você vá.— Claro —lhe respondeu com doçura —Recorda que me pediu para averiguar o que sabe. Convidou-a para cantar com ele. pois Arabella vinha por trás dela com as mãos em forma de garras. — Oi. acabei de lembrar que tenho alfinetes. continuava recordando a forma em que regressou com a camisa mal abotoada. oi. Arabella levava uma bata transparente negra. — Nicholas — chamou Arabella — O jantar. aqui está o controle remoto —se sentou no borda da cama. Arabella está batendo as patas em tua mesa.. Às dez. furiosa. mas ela sabia que não tinha voz. — Levo o que me apetece. Lee se aproximou tanto que a manga de sua jaqueta raspava sobre o prato de sopa de Dougless. Este é o volume e estes são os canais. ligou o grande televisor em cor e começou a mudar de canais.. um televisor Bang e Olafson. Obrigada de todo modo. Nunca tinha visto um. Espero que não a incomode. tinha muita vontade de ver as últimas notícias.

Teu pai não estava na junta diretiva de Yale? Talvez lhe interessaria ler minhas descobertas. Ele se separou primeiro. — Com gosto lhe falarei deles. Pode vê-la. — Espera! —Gritou Dougless. e olhou para Nicholas — Se ele dizer você pode ir embora. Nicholas estendeu o braço para Dougless e ela correu para ele. — Dougless. 97 . Lee tomou café da manhã com ela. Beijou-o com todo o desejo que sentia. Afastou a espada. exasperado —Foi um homem chamado. A paixão que sentiu por parte de Nicholas a fez levantar os pés do chão. — Só direi se você o ligar. — Pensa em me dizer quem traiu Nicholas Stafford? — Mmm —foi tudo o que respondeu Lee. Levantou as costas. Oh.. Quando o jovem estava contra a parede. e depois se queixou ao cortar a mão com a folha afiada. — Estava tratando de recordar. — Por que desejas tanto esse nome? Em tudo isto há algo estranho. Dougless chama alguém antes que este lunático faça algo que terrível. e a brilhante armadura de ouro e prata.. Agarrou-lhe o cabelo com as mãos e inclinou a cabeça para baixo enquanto o beijava. mostrando os músculos das pernas embaixo das calças ajustadas.isso!’ Sorrindo. mas o nome desse traidor significa a vida de um homem para mim. Levava sua roupa isabelina. — Oh —exclamou e se afastou —Então creio que não poderei dizer. — Muito bem —respondeu o jovem. Lee se voltou e a olhou assombrado. Está jogando com uma simples carreira. Dougless o seguiu ao seu quarto. Se ele disesse o nome. portanto. Nicholas avançou nele. — Neste momento. voltou ao seu quarto e já não teve dificuldades para dormir. — O que é isto? —Disse o jovem. e ele a levantou com um braço. depois do café da manhã..Na manhã seguinte. — Achei que ontem à noite viria ao meu quarto. com a ponta da arma em sua garganta. Nicholas falou: — Quem me traiu? — Traiu? Você está louco. Mantendo a espada na garganta de Lee. Quem é Lorde Stafford? Vocês não agem como chefe e secretária. pede ajuda —disse Lee. Hoje lhe escreverei uma carta. regressaria Nicholas imediatamente ao século XVI? Mas compreendeu que seria um problema conseguir que Lee lhe dissesse algo. A receberá muito rápido. Especialmente me agradaria contar-lhe quem traiu a Lorde Stafford. apontando a espada na garganta de Lee. poderia não voltar a te ver. meu pai está nas regiões mais inacessíveis de Maine e não há forma de localizá-lo. — Como podem significar a vida de alguém uns papéis do século XVI? Ela não sabia como explicar. Nesse momento abriu a porta e entrou Nicholas. — Chantagista. Ia ler as cartas para você.. Lee se aproximou muito. Agimos mais. — Diga seu nome —exigiu Nicholas. afundando mais a ponta na garganta de Lee. Lee a olhou com o cenho franzido. — Eu falarei de você ao meu pai. Nicholas. retrocedendo — ele ficou louco.

com os olhos fortemente fechados.. — Talvez não volte. — Robert Sydney —disse Lee enquanto Dougless e Nicholas caíam no chão. ela ia também. não voltar a ouví-lo rir. — Aonde? Lá fora há automóveis ou carretas com burros? Sorrindo. — Naquele tempo não estava casado. Lee estava confuso por tudo o que estava acontecendo. Quando fosse embora deste mundo desejava que sua última visão.Tudo aconteceu ao mesmo tempo. Tenho golpes da última vez que me atiraste. por exemplo. 98 . — O homem se chamava. e quando Dougless se incorporou. — Não pode regressar comigo — levou a mão à espada —Tratou mal a minha armadura. Poderia escrever um livro e responder a todas as perguntas que as pessoas realmente desejam saber como.. seu esposo não teria te odiado. incapaz de suportar a partida de Nicholas. eu. As lágrimas embaçavam os olhos de Dougless e podia jurar que eram dos olhos de Nicholas. Dougless. — Não pode regressar comigo. fosse a dela. Tenho que ir lá e rezar. se Isabel era calva ou não. que. Nicholas lhe tomou o rosto entre suas mãos. não voltar a abraçá-lo.. olhou-a assombrado: — Chegamos.. Robert Sydney. — Sai daqui —lhe repetiu —Afasta-se de mim. saltou para ele. — Temos que ir a Ashburton. muito débil para desobedecer. Se ele se fosse. Olhou-os e disse: — Estão loucos —e passou sobre eles e saiu do quarto.. Já sabe o nome do traidor e ainda está aqui. não. Não voltar a vê-lo.. — Estava a ponto de cruzar adiante de um ônibus. ah. talvez poderia te afastar dos problemas. — Ficamos em tua época. Nicholas se pôs de pé e estendeu as mãos para levantá-la. Nicholas se sentou e a beijou docemente na boca.— Vá.. E tua esposa? Ela também deve ter ficado furiosa..? Nicholas a agarrou aos ombros e a levou para a janela. — Sydney? Mas não foi Arabella Sydney. — Ele era o esposo de Arabella. Não é difícil crer que ele mentiu à rainha sobre mim. — Bom. — Maldito seja a mesa e você! Se não tivesse sido tão. eu....— sentou -se — Pensei que poderia ser uma experiência maravilhosa ver a Inglaterra isabelina de primeira mão. onde está minha tumba.. Dougless se afastou uns passos e o observou. apaixonado com Arabella. Dougless manteve a cabeça contra a armadura de Nicholas. Nicholas baixou sua a cabeça contra seu ombro. Pedi que ficasses afastada. Se as pessoas eram felizes. Quando Nicholas se recuperou... — O nome! —Exigiu Nicholas sem deixar de olhar Dougless. — Você ainda está aqui. Obedientemente. não lhe soltou as mãos. Talvez permaneça aqui para sempre. — Nesse momento —murmurou Dougless — Talvez Robert ficou louco pelos demais momentos também —se deu a volta e o olhou —Se eu voltar contigo.

Fazia três dias que sabiam o nome do traidor. mas sabia que não tinha palavras. mas Nicholas se negava a usá-lo. Às dez da manhã entrava com as pontas dos pés à igreja e quando o via lhe enchiam os olhos de lágrimas de prazer e alívio. Se eu voltar. e cada minuto desses três dias Dougless pensou que Nicholas ia desaparecer. Pela tarde rezava outras duas horas. Desejava cheirar. É rei de Lanconia. dizendo que precisava a dor de seu corpo para recordar o que tinha que fazer. Rezava com tanta intensidade que ficava extenuado. Dougless permanecia fora e continha o fôlego. O vigário. Você me compreende? Dougless assentiu com a cabeça. com as mãos sobre seus ombros. provar. Dougless demorou em compreender que se referia a desenhá-las. Nicholas ia à igreja e rezava ajoelhado durante horas.Pensou na beleza de Thornwyck e compreendeu que tinha talento. mas cada vez que o via ajoelhado na igreja. Cada vez que Nicholas caía. Um monte de palavras chegou a sua boca antes de poder contê-las: — Poderia fazer uma faculdade de arquitetura. Cada dia. Poderia ensinar a ler melhor a escritura moderna e meu tio J. Dougless se sentou sobre a cama da habitação do bed and breakfast e olhou a Nicholas que se encontrava na outra.Desejava dizer-lhe mais. Sua família. Seu coração transbordava de alegria ao ver a doçura de seu rosto. Sabia que podia ser a última vez que o veria. assim que iam à pequena biblioteca local e olhavam centenas de livros. pensou. Talvez não regresse. Dougless não lhe perguntou por que precisava recordar assim seu dever. Nicholas tinha uma curiosidade insaciável de conhecimentos. Sabia que a honra e o nome de uma família e o futuro de muita gente eram mais importantes do que seus desejos egoístas. estavam sempre juntos. quando Dougless entrava à igreja e ele via que ainda estava com ela. desejava escutar todas as músicas. sua honra eram muito importantes para ele. pensou. atirava-a com ele e rodavam juntos pela erva. Senhor’Três dias. mas eu poderia ajudar. que estava cheia de esterco de vaca. — Nós iremos hoje — disse Dougless com suavidade —Creio que já não precisas mais ver a Arabella. Cada vez que ele entrava na igreja. Dougless sabia que ela também devia rezar por seu regresso. três dias paradisíacos. lhe iluminavam seus olhos. poderia conseguir um passaporte. Agora estamos vivendo um contra o tempo. Contra o tempo. Terias muito que aprender sobre os modernos materiais de construção. As primeiras luzes da manhã já lhe permitiam ver-lhe o rosto. seu nome. banharam-se. — Já não tens mais calculadoras e televisores para me distrair? —Perguntou-lhe divertido. Dougless o ajudava a se levantar. Dougless alugou bicicletas e se divertiu muito ensinando-lhe a andar. e Dougless alugou um aparelho de vídeo e um filme para ver no quarto. o farei só. sentindo lástima dele. — Se eu ficasse —lhe comentou uma tarde —construiria casas. dizer-lhe algo que lhe fizesse esquecer a idéia de regressar. tocar tudo. Girou-a para olhá-la. tinha-lhe colocado um almofadão. 99 . Nicholas desejava ver tudo o que tinha sucedido desde 1564. Cada manhã. Rindo pelo cheiro que tinham. sussurrava: ‘Muito obrigado. pois não desejava jogar a perder a nascente esperança que começava a abrigar. Quando Nicholas não se encontrava na igreja. pois tinha os joelhos doloridos e rígidos depois de ter estado ajoelhado durante duas horas sobre o solo frio de pedra. T. — Tenho somente que rezar. pensava ela.

Dougless comprou um par de meia preta. sentia tanto júbilo que desejava saltar sobre ele na biblioteca. preparou uma elaborada cena para levar Nicholas à cama. e lhe perguntou se lhe agradava o aroma.... As lágrimas começaram a rolar por suas bochechas. banhou-se com perfume. na banheira. Dougless estava no banho do hotel à trinta minutos. Quando saiu do banho com ela posta. Explicou a Nicholas que a única habitação que tinha conseguido era uma cama grande com quatro colunas. Pôs os jeans para molhar em água quente. mas que em breve arrumariam outro. — Nicholas —sussurrou. Outros porque era muito incrédula. sapatos pretos de salto alto e uma saia negra muito curta.. O vídeo que alugou era Corpo Quente. Voltar com sua esposa. e quando estiver seco. mas podia ver o contorno da cama. e pôs com a blusa de seda vermelha. Inclinou-se sobre Nicholas. e meu pai poderia ajudar a ingressar numa faculdade. Nicholas não a olhou. Sentia-se tão nervosa como uma noiva virgem em sua noite de casamento. cheirar. Nicholas mal a olhou.Tratou de interessá-lo. a caseira disse a Nicholas que precisava de seu quarto. porque de repente ficou sem forças. Não tratava de obter nada dela.. tocar tudo. Nicholas retrocedia. Mordendo os lábios para não chorar. a mulher que tanto ama. Mas Nicholas era diferente. Teria pensado que era homossexual se não tivesse olhado a cada mulher que passava. A habitação estava escura. Quando por fim estava pronta. Sentiu-se ridícula andando de bicicleta com saltos altos. Ele a olhou estranhando e se afastou. No quarto dia estava desesperada. Como podia se importar tanto e ele não sentir nada por ela? Os outros homens de sua vida tinham desejado um pouco dela. Com as mãos trêmulas.Tinha ocasiões em que. Vou seduzílo! Com seu cartão de crédito comprou uma camisola de seda vermelha de duzentas libras garantida para deixar louco um homem. Levou-os com uma blusa de seda vermelha sem sutiã. Ao que parece. e. Ele se encontrava no extremo mais afastado. e no verão poderíamos ir a minha cidade natal de Warbrooke. se meteu na cama: e ficou na borda. Ele se afastou: — Tenho que voltar. mas Nicholas não prestou atenção. pensou. Estendia-se da cabeceira até os pés da cama. Andou adiante de Nicholas durante quatro milhas. Sim. menos a ela. Os motoristas se metiam nas janelas dos carros para olhá-la. irá ficar tão justo que terá que se encolher no zíper e se encostar na parede para fechá-lo. Robert a queria para que o adorasse. Mal sussurrou uma resposta. Estendeu a mão para tocá-la.Lentamente. portanto Dougless fez reservas num precioso hotel de campo. num pub ou na rua. para encolhê-lo. arrumou os cabelos e saiu do banheiro. de maneira que lhe ficasse o peito descoberto. é um lugar lindo e poderíamos ir navegar. mas nem sequer a olhou. na costa de Maine. mas o fez. caminhou para ela. eram. Tinha comprado um pequeno frasco de perfume chamado Tigress. estava interessado em provar. e esta era outra barricada. regressar. Uns tinham saído com ela pelo dinheiro de sua família. — Por quê? — Murmurou — Por quê? 100 . a cama que ia compartilhar com Nicholas. quando o olhava. de setenta e cinco libras. travesseiros! Acendeu a luz e viu que Nicholas tinha construído uma barricada de travesseiros entre os dois. dando-lhe as costas. Mas cada vez que se aproximava muito.diríamos que és de Lanconia e poderia levá-lo a América. sem tocar os odiosos travesseiros. Via uma forma longa embaixo da colcha. e com a ajuda da caseira.Mas sua mão não o tocou.. Não apagou a luz.

Sempre tinha escolhido homens que a precisavam. Dougless lhe acariciou o cabelo. por que não me permite ter uma lembrança que tire a Arabella da mesa? Enquanto Dougless o observava. — Enquanto sofro. suas mãos sobre os ombros e depois. — Não vai me tocar porque não quer que eu sofra por ti? — Sim. Fez amor com muitas mulheres. — Nunca desejei tanto uma mulher como a você. Mordeu-lhe o interior das coxas. estavas chorando tanto que te escutei a quatrocentos anos de distância. Deus. A paixão aumentava enquanto sua língua. Fez uma pausa e lhe sorriu. Dói-me o corpo de te desejar. Quando sua boca quente e úmida se agarrou aos seus seios. Dougless não o viu mover-se. Oh. Ele lhe tirando a bata. — Deixa-me —sussurrou. — Nicholas? —Disse enquanto os lábios dele desciam para seu ventre — Nicholas. enquanto seu corpo se movia embaixo dele.. As lágrimas de Dougless se converteram em riso. Dougless soube que as palavras proviam do mais profundo de seu ser. Nicholas. Dougless ouviu quando se rasgou. e no segundo seguinte estava sobre ela. vou sofrer por você todos os dias durante o resto de minha vida? Vou chorar tanto e tão forte. Mas 101 . mas sem passar sobre os travesseiros para tocá-la. tonto. Com suas grandes mãos lhe acariciou as laterias do corpo. mas nada mais. Se levantou da cama e o observou de pé. Não posso deixar-te sofrendo outra vez. não poderá impedir minhas lágrimas. mas tenho que ir embora. enquanto ela lhe beijava qualquer parte que chegasse próximo de sua boca.. com a boca e as mãos em todos os lados. Nicholas permanecia ali encostado. homens que pensavam que ninguém podia dar o suficiente. não sabes quanto te amo? Tocando-me ou não. mas a mim me recusas. Num segundo Dougless estava na cama. mas a mim nunca me olhas. que me ouvirão desde o começo dos tempos. Colocou suas mãos sobre Arabella e às vezes me beija. gritou em êxtase. e se odiou por fazê-lo.. Não posso voltar e saber que te deixei sofrendo. Nicholas segurou sua perna esquerda e a dobrou enquanto se colocava sobre ela e a penetrava com tanta força que tratou de afastá-lo. A experiência sexual de Dougless tinha sido com homens que esperavam que ela desse.. agarrando-lhe as suas com rapidez e firmeza. não acho..—ele lhe acariciou as coxas e depois desceu mais e mais. Nenhum homem lhe tinha feito isso antes. — Nicholas —sussurrou —Nicholas. sentiu sua boca em sua pele.. e começou a jogar o cabelo para trás. sem se mover. Não se dá conta de que quando fores.— Dougless —lhe disse Nicholas com suavidade. Ele estava sobre ela. — Por que sou tão pouco desejável? —Perguntou-lhe. sua língua. — Idiota. enquanto seus lábios e sua língua lambiam seus seios. Este era o Nicholas que tinha desejado durante centenas de horas. Quando te vi pela primeira vez. Oh. mas já não tinha mais orgulho — Vejo que você olha para outras mulheres que não são tão bonitas como eu. Dougless arqueou seu corpo contra a parede. olhando-a acima dos travesseiros. voltando-se. lhe acariciando a parte de trás dos joelhos até que Dougless não pôde mais. o dedo polegar brincava com seu umbigo. Por quê? Sou muito baixa? Muito gorda? Odeias às ruivas? Quando Nicholas falou. só sentiu seu corpo contra o seu. — Nicholas —gemeu.

mas Nicholas lhe cobriu a boca com a sua. Dougless estava muito concentrada na forma em que ele estava movendo em seus seios como para responder-lhe. Dougless tinha a cabeça para trás. as mãos sobre os ombros de Nicholas. — Agora te banharei —lhe disse suavemente. Dougless se entregou a sua paixão. Nicholas lhe soltou a perna e ela o agarrou pela cintura e levantou os quadris para acompanhar seus movimentos. Agora eu pareço seu professor. com as pernas ao redor de sua cintura e a penetrou quase com brutalidade. Antes de abandonar-se outra vez. entrelaçando sua perna livre com a dele. — Talvez as coisas no mundo moderno não mudaram. ao outro. Quando terminou com o cabelo. seu ventre. Dougless abriu os olhos e viu que estava rindo. doce e profundamente. Quando chegou o momento final. de um lado. esqueceu sua paixão. Abriu o chuveiro de água quente e depois a introduziu com ele. Beijou-a gentilmente. enquanto ele lhe tomava os glúteos e a levantava para ele. a boca sobre seus seios.Quando por fim Dougless sentiu que Nicholas se arqueava para um último movimento. Com a água quente golpeando o corpo. 102 . pensou.Ele lhe beijou o pescoço. tocando-lhe o cabelo —Agora entendo porque Arabella arriscou tudo por você. e a acariciar-lhe os músculos das costas. sorrindo. recuperouse e recordou onde estava e quem era. — Nicholas —murmurou.Como se tivesse um interruptor elétrico no corpo. — Dormias? —Perguntou-lhe.seu corpo se uniu ao de Nicholas. Estava certa de que se Nicholas não a tivesse estado sustentando teria ido pelo bueiro. depois pegou sua mão e a conduziu ao banho. Nicholas começou a beijá-la. ombros tão largos que quase ocupavam todo o chuveiro. e a pôs de pé. e Dougless desceu mais. Tinha-lhe dito que engordaria. fora. girou Dougless e começou a lavar-lhe o cabelo. Tinha a cabeça quase contra a parede e a cabeceira e o lustre sobre ela. Depois de um momento. o peito. e ela ouvia seus gemidos de prazer. o ombro.Quase a levantou pelos cabelos quando a colocou contra a parede. seu pescoço. Dougless se inclinou contra a parede enquanto as mãos de Nicholas lhe percorriam o corpo. enquanto sua língua a penetrava igual que seu corpo. Dougless teria gritado. para baixo. começou a ensaboar-lhe o corpo. Dougless levantou as mãos para apoiar-se contra a parede.Suas mãos se afundavam no cabelo molhado de Dougless. Ele se apoiou sobre um de seus cotovelos e a olhou.. Seu corpo e suas mãos grandes e fortes fizeram que se sentisse pequena. tremendo. para dentro. foi à vez de Nicholas gemer. Nicholas se ergueu para olhá-la. tomou-lhe a mão e a levantou para que se colocasse junto a ele. — Sonhei com isto —murmurou Nicholas —Esta fonte de água construíram para o amor.. — Nicholas.. com as mãos nos glúteos dele. Quando fechou a boca em torno de seu pênis. com seu grande corpo contra o dela. frágil e protegida. para cima. foi tão maravilhoso —sussurrou —Nenhum homem.. — Oh! —Ela começou a beijar-lhe o pescoço. enquanto ele empurrava com tanta força que a levou ao outro lado da parede.A água quente lhe caía sobre a cabeça. com o corpo débil. Forte. mas a sustentou quando quase caiu. apertando-se contra ele. Ele não lhe permitiu terminar.Pendurou-se nele. Colocou-a contra a parede e a beijou. seu próprio corpo tremeu com ele. mas tudo nele era músculo. Alto. cada vez mais alto. tomou o sabão e começou a acariciá-lo com as mãos ensaboadas.

secou-lhe o cabelo e depois lhe deu a bata branca do hotel. — Caí de um cavalo —lhe disse com os olhos fechados —Tinha uma grande cicatriz no antebraço esquerdo — Um exercício de espada no dia. — Sonhei com você assim —lhe disse olhando-a no espelho —você me deixou louco. enquanto a levava para o congelador.Beijou-a para que se calasse. — Só você. —Dougless sabia que o final da frase era: ‘no dia em que Kit morreu’. Fechou a torneira e o ensaboou. eu ganhei. Tomando-lhe a mão. Sim. Era alto. Dougless se inclinou para beijá-lo e ‘acidentalmente’ lhe derramou sorvete na parte interna da coxa. Voltou a olhar o refrigerador. — Tenho fome —disse. Dentro tinha grandes vasilhas com sorvetes. Não desejava que se afastasse de sua vista nem de seu alcance. Comeram com tranqüilidade durante um momento. Olhou as costas de Nicholas enquanto ele abria a porta do refrigerador. pois lhe preocupava a resposta que podia dar. Tinha uma cicatriz na pantorrilha direita.Tinha o corpo mais lindo que jamais tinha visto num ser humano. foram procurar taças. — Morango —lhe disse. como se essa fosse uma desculpa suficiente. com os pés e as batatas das pernas entrelaçadas. Quando acabou de penteá-la. — Onde está o sorvete? Dougless riu.. cintura pequena e coxas fortes.. Tinha-se dado conta. Dougless quis pôr o roupão. Derramou o sorvete de baunilha sobre a testa dela e se pôs a lambê-lo. Ele deu a volta e a olhou com uma expressão de perplexidade e desejo. tirou-a do chuveiro e começou a pentear-lhe o cabelo.. Nicholas sorriu. seu para tocá-lo quando o desejasse. Nicholas a fez girar. mas depois Nicholas lhe derramou sorvete sobre o pé e o lambeu. Montgomery. Quando já estavam limpos. me marcou —lhe sussurrou. 103 . apertou seu corpo contra o dele e apoiou a cabeça contra seu ombro. Olhando-o. Deus pensou. Tinha uma estranha cicatriz oval no ombro. mas Nicholas. Nicholas serviu uma enorme quantidade em cada taça e guardou o vasilhame no congelador. atravessaram a escura recepção do hotel e chegaram à cozinha. — Nicholas. aumentava a emoção desta maravilhosa noite. pensou. Teu perfume —deixou de penteá-la e lhe pôs as mãos sobre os braços — A roupa que usou. fazendo-a rir. Como gêmeos siameses.. Era seu. pondo-se a outra bata. não deveríamos estar aqui. Dougless sorriu. até seus pés eram lindos. abriu a torneira e enxugou os dois. com ombros largos. — Nicholas —sussurrou —te amo tanto. pensou. Nicholas tinha uma marca de nascimento com forma de oito no quadril esquerdo. Levou-a para baixo pela escada. Depois voltou à cabeça. Não me deixe.Estar na cozinha do hotel quando ela sabia que não deviam. Lhe importava tanto ela como sua bela esposa? Mas não lhe perguntou. não permitiu. — Vêm —lhe disse. com os olhos fechados —Uma briga com Kit. Abre essa porta — a assinalou. O sorvete caiu mais embaixo e continuou lambendo até que chegou em seus cachos avermelhados. tocando-o. colheres e uma concha. com a cabeça contra ele. — No congelador. — Alegro-me que nenhuma mulher lhe tenha deixado uma marca. Dougless desejava perguntar-lhe por sua esposa. Sentaram-se à mesa de dois metros e meio de comprimento.

Lentamente. e quando desapareceu. 104 . Sorriu ao recordar seus protestos quando a conheceu. não só uma de centenas. Nicholas a beijou com veemência. Tiroulhe a bata. Como se não pesasse. e compreendeu que nenhuma ajudaria um pobre louco. não se apoderava do que desejava. Não lhe ajudava pensar em sua fria esposa: deitava-se tesa.Todas as manhãs e todas as tardes ia pedir a Deus que o fizesse regressar.. o que precisava. Nicholas levantou o queixo para olhá-la. e lhe tinha ensinado e. Fechou-lhe a bata. Não podia estar mais do que uns minutos longe dela. e depois introduziu a mão na manga da bata para acariciar-lhe o braço — Nunca conheci um homem como você. ‘Agora’.. tirou a sua. Nunca tinha conhecido uma mulher como ela. mas quando lhe acariciou o cabelo molhado. tinha-o amado.Completamente.. — Sou único. tomou-a entre seus braços e a levou à habitação. com os olhos abertos como desafiando-o para que cumprisse com seus deveres de esposo. Tinha-lhe dado seu amor livre e completamente. Em quatro anos de casamento não tinha podido deixá-la grávida. Não era mentirosa. Arabella vazia a exigir: ‘Aqui’. Nenhuma mulher lhe tinha respondido com uma entrega tão completa.. Isso não é suficiente para ser 'especial'? — Então se importa comigo? Mesmo que só seja um pouco? — Não há palavras para expressá-lo — a beijou com suavidade e lhe baixou a cabeça. pensou. em sua razão de viver. — Faz tanto tempo que desejava tocar-te —lhe acariciou o peito e o ombro. eras um homem especial ou todos eram como você? Nicholas lhe fez uma careta. Ele passou a mão sobre o ombro dela e a tampou com os cobertores. não era egoísta. continuou lambendo. seu pênis contra seu corpo nu e uma perna sobre as dela. Outras pensavam que lhe faziam um favor. Não quero ouvir nada mais sobre tuas mulheres. Dougless se apoiou num cotovelo e o observou: — No século XVI. levantando as mãos para acariciar-lhe os seios. dirigiu-se para a mancha de sorvete e a lambeu. mas uma parte de sua mente pensava sem cessar em como seria não voltar a vê-la. Dougless o beijou: — Não diga mais. — Senhorita —lhe sussurrou ao ouvido —creio que você derreteu meu sorvete. Lettice. — Você me chamou através de séculos e respondi. por isso as mulheres. o que sentia. não voltar a vê-la chorar. — Não posso suportar. Já estava dormindo quando se acomodou ao seu lado... Estava-se convertendo em tudo para ele. não voltar a tê-la entre seus braços. Pensou nas mulheres de sua época. sorrindo ao recordar esta noite. Tinha-lhe dito que não o ajudaria. Esqueceram o sorvete quando Nicholas se apoiou na mesa e atraiu Dougless para ele. a encostou e se encostou junto a ela. Importava-lhe o que pensava.Dougless lhe tinha perguntado se ela lhe importava. Mas Dougless tinha feito. pensou. enquanto Dougless se movia para cima e para baixo. não voltar a escutar seu riso. levantou-a e a colocou em cima. muito próxima de seus lábios. mas ele tinha visto em seus olhos que não podia suportar deixá-lo só numa terra estranha. ou tua esposa — baixou a cabeça — Quero pensar que sou especial. sentiu que estava tão descontraída que ia ficar dormida.Decorreu algum tempo antes que se arqueassem juntos.— Aposto que está muito gelado —lhe disse. Tinha-o ajudado. de maneira que seus seios roçassem seu corpo nu. Dougless riu e se encolheu contra ele.

que só eram fazendeiros. eram desprezados pelos americanos. Dougless demorou um momento para compreender suas palavras. E se ficasse neste século? E se tinha equivocado ao julgar os propósitos de Deus? E se o tinha enviado não para regressar. Resultava ser difícil encontrar as palavras —Não desejo regressar. em seu sonho. Escola na sua idade? Tinha-lhe perguntado.Acariciou-lhe o cabelo. e ela. deixando-a só e desprotegida? Era tão delicada. o lugar do qual Dougless falava constantemente. compreendeu o que se referia ela. tinha-lhe explicado Dougless.Pensou em sua mãe e em Lettice. e o tinham intrigado. homens como Harewood. Talvez bem para ela. mas talvez tinha sido um estúpido. Se voltasse. A ele o recordavam como um estúpido. Nicholas tinha achado graça da idéia. Tinha precisado muitas outras mulheres com uma esposa como Lettice.—conteve o alento. agradou-lhe e decidiu dar-lhe outra oportunidade. Não compreendia o mundo moderno.América. — Nicholas —disse devagar. Mas enquanto a olhava. sentando-se de um salto. ficarei aqui — a olhou — contigo. Levantou-se para olhá-lo. e ainda estava ali.Recordava como Dougless lhe tinha dito que todo o passado se tinha resolvido bem. Como podia deixá-la? Pensou. Tinha averiguado fazia quase uma semana. onde poderia aprender a planejar casas. e ele poderia ir à escola. e não por honra? Mas Nicholas tinha averiguado o nome do traidor e não tinha regressado. mas se regressava. Aprender a ser um arquiteto? Pensou. Mas Dougless. Como podia regressar a sua outra vida. a suas outras mulheres. isto o mudaria? Agarrou-se a Dougless. Então por quê? Por quê tinha vindo ao mundo moderno? — Nicholas! —Gritou Dougless. que já não estavas aqui. ocultando-lhe o fascinante que lhe parecia a idéia. e talvez Robert Sydney foi o suficientemente estúpido para provocar sua morte. não. Dougless lhe tinha dito que talvez o tinham enviado ao mundo moderno por amor. Ele a tomou entre seus braços. e teria mulheres como Arabella para tentá-lo.Acariciou-lhe o cabelo. Essas duas mulheres poderiam cuidar de si mesmas sem importar o que sucedesse. Mas o que sabia ele sobre os propósitos de Deus? Não o tinha enviado para averiguar quem o tinha traído. Todas essas tolices sobre o amor. O dever de seu pai era escolher um esposo. Ao contrário. 105 . com desdém.Então para que? Seguiria casado com Lettice. que me tinhas deixado. pensou. Viver com Dougless neste mundo moderno e planejar edifícios? Esta era a razão pela qual o tinham enviado? Talvez Deus tinha visto Thornwyck. Mesmo que pudesse livrar-se da acusação de traição. surpreso. — Não te deixarei..Acariciou o braço nu de Dougless. Ficarei contigo para sempre. consertaria todos os erros. Este cataclismo tinha acontecido por amor.. tratou de aproximar-se mais a ele. que estava a graça de homens como o que ele tinha expulsado à rua. Eram livros de casas de todo mundo. Tinha-lhe explicado que iriam a América e cozinhariam. — Sonhava que te tinhas ido. Temia que uma semana depois de deixá-la regressasse com esse homem odioso que uma vez tinha achado amar. Como podia deixála só? Não tinha ninguém para protegê-la. sorrindo ante a idéia de que Deus fosse tão frívolo. pensou Nicholas.. Nicholas lhe beijou a testa. senão para fazer algo aqui? Recordou os livros que tinha visto com Dougless.. mas não parecia ser algo ruim neste século. Nicholas sorriu ao pensar o que sentiria Dougless com um homem escolhido para ela por seu pai. interrogante: — Eu. Dougless lhe tinha mencionado algo chamado faculdade de arquitetura.

primeiro ele vai querer que você vá a Lanconia para vistoriar-te. Dougless soou o nariz e sorriu. — Conhecendo o tio J.. sentaram-se um frente ao outro e planejaram mais coisas sobre sua futura vida juntos. olha-me. — Tenho que fazer isso . Nicholas tomou um lenço de papel da cabeceira. jogava conosco beisebol. — Não caçoe de mim. e lhe explicaria o melhor que pudesse e que precisava de um passaporte para Nicholas. ligaria para seu tio J. — E sua rainha? — A tia Ariana? Bom. Quando éramos crianças. — É Canyon —lhe esclareceu. Com esses sapatos consegui o que queria. mas é realmente estupenda. rodando e fazendo amor. a forma em que.repetiu. E sobre seu tio que é rei. de seu tio que tinha se casado com uma princesa e agora era rei de Lanconia. Nicholas se voltou. Ela levantou a cabeça. — Iremos à Escócia. Mas lhe cairá bem. olhava as pessoas e a intimidavam — Te adaptarias muito bem a Lanconia. e pensou na forma em que caminhava. encontravam-se no chão.Dougless ocultou seu rosto no ombro de Nicholas e começou a soluçar. e Nicholas lhe disse: — Preferia sorvete de morango. seu cabelo negro. — E eu também. Dougless sentiu seu corpo rígido. Nicholas tinha um pé apoiado no ventre dela. que anda pelo palácio levando calças de vaqueiros e uma coroa —olhou a Nicholas. Num momento. Dougless.. e assim ele poderia ir a América. com ela. Depois de banhar-se. 106 .. e o agarrou nos braços com força. — Não —murmurou. vestiram-se. — Tome. e depois se pôs frente a ele. — Está triste de que não vá para que não possas regressar com esse Robert que dá diamantes as crianças? — Sou tão feliz. deixa de chorar e conta-me coisas sobre América. Dougless. às vezes pode ser um pouco intimidante. e ele sorriu. — O que é um caubói? O que é um passaporte? Que é o Grande Canhão? E não te afastes tanto de mim. — Achei que não tinha te falado isso. — Levarias os sapatos de salto alto para andar de bicicleta? Dougless riu. e começou a falar-lhe da América. de sua família. sorrindo —Já tenho estado ali e não aconteceu nada.. voltando a seus braços. T. Enquanto esperamos o passaporte. Enquanto amanhecia começaram a fazer planos. e Dougless decidiu ligar para seu tio J.T. seus olhos azuis. — Tenho que regressar à igreja pela última vez —lhe disse com suavidade. Depois encheram a banheira.T. Ele lhe acariciou o corpo e sorriu. É um formoso lugar —disse Dougless. Serviram o café da manhã na habitação. as vezes. Têm seis filhos —sorriu —E ela tem uma misteriosa amiga chamada Dolly. iremos à Escócia.

Surpreso. — Acabou. O vigário entrou uma vez e os observou durante um momento. minha Dougless. Riu quando se pôs de pé e Dougless. — Não tenho sangue nos braços —a reprendeu com amabilidade. — Não te largarei até que saiamos deste lugar. Agora vamos à igreja por minhas orações. mesmo com toda a intensidade e o desejo que sentia por ela. Beijou-a com ternura. e depois ligará para seu tio. quase incapacitada tratou de fazê-lo. tomou Dougless em seus braços e a apertou com muita força.apesar de seu pretendido bom humor. Permaneceram ajoelhados juntos sobre o solo frio durante mais de uma hora. — Tenho que rezar e pedir perdão porque não desejo regressar para salvar meu nome e minha honra. mas seu corpo não se moveu. Dougless não se separou de Nicholas. Ele se ajoelhou para rezar e ela se ajoelhou junto a ele. Por fim. — Te amo –sussurrou — Te amo com toda minha alma. — Só amarei você. — Eu fico —lhe disse. — Nicholas! —Gritou. e saíram do hotel. Não quero rever tua tumba. Com a mesma intensidade com que Nicholas pedia perdão. Então Dougless o sentiu: o corpo dele já não era sólido. sorrindo. CAPÍTULO 11 Na igreja.— Estás chorando outra vez? — Só estou assustada. e a Dougless lhe doíam os joelhos e os braços de abraçar a Nicholas. Do outro lado do tempo te amarei. — Ah. Nicholas abriu os olhos e se voltou para ela. Nicholas riu. mas nunca pensou em soltá-lo. Dougless sabia que tinha tanto medo quanto ela. Beijou-a. Compreendes? Dougless assentiu em silêncio com a cabeça. — Mas eu vou contigo e não vou me separar de você.Leva-me contigo!Deus! Deixa-me ir com ele! 107 . Ele lhe tomou o rosto com as mãos. abraçando-o com força. como ela temeu que fizesse e. olhou os seus pés. Compreende? Desta vez não vou te esperar lá fora. — Nicholas. Dougless lhe pedia a Deus que não o levasse. — Não voltarei a te deixar. — Vou contigo. depois se afastou silenciosamente. Não a afastou. Onde deveriam ter estado seus pés estava o solo. Sorrindo. tratou de caminhar. que o deixasse com ela para sempre. Dos joelhos para baixo não tinha nada. deixa de caçoar e vamos sair daqui. então mudou. — Nicholas — disse ela com medo na voz — Vamos sair daqui. mas continuava abraçando-o. Há trens em Escócia? — Claro. Em minha época era um lugar inóspito —a abraçou. Rapidamente.

Abriu os olhos e se sentou. Lentamente.. Tinha a garganta seca. — A levarei a um médico. Estava nebuloso.. senão de pé diante de sua tumba. Dougless correu para ele. Desejava tocá-la. a diferença de Nicholas. — Você não o viu ir. — Eu. — Nicholas. Dougless se voltou para olhá-lo. depois pôs as mãos nos ouvidos e lançou um grito. depois girou à esquerda.—sussurrou Dougless. — Vi você. — Só a você —respondeu o vigário. lhe arrepiava o cabelo — Vim e você estava atirada no chão. — Se sente melhor? Voltou-se para olhar ao vigário. Quer que chame alguém? Dougless se dirigiu para a tumba com as pernas trêmulas. Só a vi rezando. Lentamente ia recordando. Dougless caiu no chão. A tumba permaneceu fria e silenciosa. O homem com a armadura isabelina recorda? Quase o ônibus o atropela. — Não. Já não estava entre seus braços. e se afastou dele com uma expressão de horror. Baixou as pernas e apoiou os pés no solo. meu amor. Estava recostada num dos bancos da igreja. à direita. percorreu três ruas. e entrou no hotel. pouca gente reza. O vigário a olhou com tristeza. E depois já não tinha nada. — Não vi sair ninguém. como no cinema numa habitação iluminada. desbotado. próxima da tumba. mas sabia que estaria fria. Começou a correr. Esperei ele lá fora. Você me perguntou a data. levando sua armadura.Pela janela entrou um raio de sol e iluminou sua armadura. e caminhou para ele — Recorda? Nicholas! Saudou-nos quando passávamos andando de bicicleta. Quer que chame alguém? Ouvi-a gritar —lhe explicou. mas não pôde atingí-lo. estendendo a mão —Vem. — Faz uns dias a ví dirigir-se contra um ônibus.. Voltou a olhar a tumba.. A cabeça lhe dava voltas. O viu toda a semana. cujo amável rosto se mostrava preocupado e sustentava um copo de água na mão. um pouco rouca.O vigário retrocedeu. — Onde está Nicholas? — Não vi ninguém mais.Tomou a mão de quem lhe levava a xícara à boca. mas não vi nenhum homem. Ao recordar o som. recorda? —Sua voz soava desesperada. — Vêm —lhe pediu. As velhas paredes de pedra vibraram. Você entrou e nos viu. um grito que não parecia humano. Esta semana você me disse que estava surpreendido por sua devoção. as janelas se estremeceram e a tumba. — Beba isto —lhe dizia alguém. não é? —Perguntou-lhe. o homem que esta semana rezou aqui todas as manhãs e as tardes. — Nicholas —lhe disse.. — Nos viu rezando —o corrigiu. Hoje em dia.. — Nicholas e eu estávamos rezando juntos. mesmo não podendo acreditar.? —Perguntou Dougless —Mas esse foi Nicholas. Olhou ao vigário. Não respondeu à saudação da recepcionista e correu para sua habitação. atravessou o pátio. Dougless se afastou de sua mão estendida. 108 . com um leve sorriso.— Dougless —sua voz se afastava —Dougless. saiu da igreja. Dougless contemplou a tumba.

Tinha os olhos bem abertos. Tocou a metade vazia da estante. A bibliotecária lhe disse que era ela que tinha retirado os livros e sempre tinha ido só..Correu à habitação e abriu a porta do armário. suas roupas. Voltou para a habitação. temendo encontrá-la vazia. pensou. O comerciante de moedas não tinha moedas medievais e não recordava ter visto Nicholas ou a Dougless. Dougless. regressou ao hotel e agora descansava na cama. mas por desgraça sua mente ainda funcionava. fatigada.E era 109 . e se sentou na borda da cama. que ele estava com ela e sempre o estaria. Ninguém recordava de Nicholas. Seu corpo estava exausto. Não tinha radiografias. mas não suas roupas. Foi ver a bata de seda vermelha que Nicholas lhe tinha rasgado.Sentou-se na borda da cama. secos. Não recordava ter examinado suas roupas nem ter visto uma armadura de ouro e prata. mas lhe dava igual. aos ambulantes nas ruas. o anel de esmeralda que lhe tinha dado e não estava. Quase fazia sentido que Nicholas tivesse ido. teria muita gente que o recordaria. a recordação que as demais pessoas tinham dele se tinham ido. ontem à noite. Tem que ter alguma marca sua. No armário estavam os livros que tinha comprado e Nicholas tinha escrito seu nome neles. Não se atrevia a dormir. Dougless tratou de não pensar depois disso. Ontem à noite. Era tarde e não tinha comido.. Na loja de bicicletas lhe mostraram o comprovante onde constava que tinha alugado uma só bicicleta. Inclusive procurou algum cabelo negro em suas roupas. Seus artigos da penteadeira estavam. O broche. correu para ela e a abriu. A porta do banho estava fechada. nada.Cansada. e olhou a habitação vazia. Nicholas a tomava em seus braços. aos vendedores das lojas. O vendedor da loja de roupa não recordava de Nicholas apontando-lhe com uma espada. e sua velha mala.Dougless abriu devagar a porta da habitação do hotel. também não estava. Que um velho vigário não o recordasse não significava que outra pessoa não pudesse fazê-lo. nada dele. — Não! —Exclamou com os dentes apertados —Não pode afastá-lo completamente de mim! Alguém pensou.Tomou sua bolsa e saiu do hotel. Seu corpo. nem as coisas que ele lhe tinha dado. Ninguém o recordava nos pubs ou nos salões de chá. Como se fosse uma mulher possuída foi a todos os lugares onde tinha estado Nicholas e perguntou a qualquer que pudesse tê-lo visto. Ele a tinha tocado e amado. — Pensa. nem também a loção. Vazia. Não estavam nem a máquina. o lindo broche de ouro com a pérola pingente. mas estava intacta quando se irritou. mas agora as folhas estavam em branco. mas se deteve na porta e olhou para trás. — Não —murmurou. Procurou por toda a habitação. confusa pelo que tinha sucedido. Agora não estava. Se não tinha evidência física dele. Nicholas tinha escrito nele. depois se deitou. Nas gavetas também não estavam as meias e lenços dele. Pôs a mão sobre o coração e abriu a blusa. Todos recordavam Dougless sozinha. nem a espuma de barbear. nada. e hoje tinha ido. O dentista lhe respondeu que nunca tinha visto um homem com estragos nos dentes e a mandíbula rompida. As roupas de Nicholas não estavam. Nada. Só as suas estavam penduradas.Não tinha nada. a nota que lhe tinha deslizado por embaixo da porta também não. mas os dele tinham desaparecido. A caseira do bed and breakfast não recordava Nicholas e afirmou que ninguém tinha tocado o piano desde que seu esposo tinha morrido. A noite anterior tinha acordado de um sonho em que Nicholas se havia perdido.Observou a estante que se encontrava embaixo do espelho. Perguntou aos turistas nas casas de chá. cansados. riu e lhe tinha explicado que estava sonhando. No chuveiro também não estava seu shampoo. Limpas. Abriu seu caderno. pensa.— Nicholas —gritou.

tinha desaparecido.Produziu-se um momento de silêncio. enquanto fechava uma gaveta. Quero essa pulseira. Sim. mas uma vez que a tocou. — Dougless! Dougless!— Gritou Robert. — Robert —lhe respondeu com calma — me responda ou afogo a pulseira no vaso sanitário. pensou. Estava histérica. Reclinou-se na cadeira e observou a cama. Amanhã iria às casas de Nicholas e ouviria como tinham mudado a história.. — Está bem! Mas é difícil saber ao que te referes daquela noite. Tinha ficado enquanto não fizesse. lemos que umas pessoas sobem a uma plataforma e outras as decapitam com machado. Estás louca. Tirou a mala do armário e pôs um pouco de roupa nela.culpa dela. 110 . Disse-me algo sobre ajudar um moço a voltar a escrever a história. Não ajudava em nada pensar que ela tinha razão. Só que ela não tinha o consolo.. e não creio que tenha assegurado. Isso é tudo o que lembro. comprou uma entrada para a primeira visita. — Sim. Talvez ao ouvir que Nicholas tinha envelhecido e realizado grandes coisas se sentiria melhor.Quando soou o telefone da cabeceira. O que tinham averiguado o tinha salvado disso. Se não está muito ocupada com teu amante como para encontrá-la. não para corrigir algum erro. Sentou-se na grama e esperou. estás louca? Ninguém me jogou por nenhuma escada. Fechou seus braços sobre seu peito. — Tinha razão quando te abandonei. como a morte. irritado —Já te passou a histeria? Sentia-se muito aturdida como para brigar. mas tinha se esfumado entre seus braços uma vez que admitiu que a amava. Jogou-te pela escada.. sentou-se numa cadeira a esperar que amanhecesse. outras pessoas que o recordassem ou o amassem. claro —respondeu com rapidez —mas o que quis dizer quando te referiste a um ‘amante’? — Não tenho tempo para repetir a cada. Não importa que tua família não te deixe dispor de tua fortuna até que tenhas trinta e cinco anos. a mudar a história. pegou o fone: — Alô? — Dougless? —Perguntou-lhe Robert.Quando se abriram as portas. Começou a sentir-se um pouco melhor ao pensar no muito do que para ela tinha significado o nome de Nicholas. Não poderia agüentar-te tanto. — O que deseja? — A pulseira. Decapitação.. mas ela pendurou o fone. Ficou quando averiguou quem o tinha traído. Não se atreveu a fechar os olhos por medo de sonhar. isso é o que tinha vindo fazer Nicholas. Quando Nicholas apareceu em sua vida se enfrentava com uma execução. — Dougless. A partida era irreversível. A quinta vez. claro. e é melhor que nem tente —suspirou —Me estás deixando louco. Uma vez que preparou a mala. lentamente. não o ouviu. Hoje em dia lemos sobre ela. — O que? Que! Você o viu? Você viu Nicholas? Claro que sim. Mas não pensamos no que realmente significa isso. — Voltar a escrever a história —murmurou Dougless. depois. olhou-se no espelho e levou a mão à garganta. Tinha vindo a ela por amor. — Salvamos -te disso —murmurou. — Vou para o banho.Tomou o primeiro trem que saía de Ashburton e chegou ao castelo de Bellwood antes que abrissem as portas. tratando de não pensar.

e relatou outra vez a desagradável história de Arabella e a mesa. Dougless permaneceu durante um momento onde estava. mas Dougless ficou onde estava. tenho uma visita que guiar. Estava louca. e Dougless sorriu ao recordar Nicholas abrindo e fechando a porta com alarme. ia mudar a história.Não prestou muito atenção à primeira parte da visita escutando à guia. dirigiu-se para frente do grupo. — Aí. Ouvi dizer que três dias antes de que a execução se levasse a cabo. Agora Dougless escutou com todo sua atenção. Dougless sentiu vontade de tampar os ouvidos. e não Nicholas. Lorde Stafford foi encontrado morto. como lhe disse Robert? Quando perguntou as pessoas de Ashburton se tinham visto a Nicholas.. As guias que se encontravam no exterior franziram o cenho. que a olhou e lhe disse: — Ah. — Faz alguns dias um dos turistas entrou aqui. encontrava-se a habitação que tinha o armário secreto em cujo interior estava a caixa de marfim. Desde então pusemos uma fechadura e um alarme na porta.—interrompeu-se. — Oh —exclamou Dougless —Achei que era o lavabo —se voltou e saiu do castelo. — Eu não abri a porta. Era inútil explicar-lhe a esta mulher. se continuamos por aqui. e para dizê-lo com cortesia. Poderia encontrá-la? Estendeu a mão para a trava. Executado? Decapitado? Algo estava errado. Por trás dessa porta. palavra por palavra. depois de alguns corredores. Executado? Não. deteve-se adiante da porta que dizia ‘PROIBIDA A ENTRADA’. tinham-na olhado como se estivesse enferma. sobre uma carta que lhe estava escrevendo a sua mãe. o encontraram morto sobre a carta que escrevia a sua mãe. Uma vez ela tinha afirmado que a história não se podia mudar. abandonava a visita. O grupo avançou. Entre as pessoas de Ashburton que não recordava Nicholas e agora a mesma história. Quando ia saindo. — E agora chegamos a nossa habitação mais popular—anunciou a guia com o mesmo tom pícaro do que a outra vez. O relato da guia era exatamente o mesmo. mas algo no tom da guia a surpreendeu. As coisas deveriam ter mudado. era o que hoje chamaríamos um libertino. tinha aberto e fechado a porta com alarme — Você disse que Lorde Stafford foi executado. quase duvidava que as coisas que recordava tivessem sucedido na realidade. — Eu não o faria se fosse você —lhe advertiu alguém por detrás Dougless se voltou e viu uma das guias. ao pobre e encantador Nick o executaram por traição. contemplando o retrato de Nicholas que se encontrava sobre a chaminé. ansioso por ouvir histórias sobre o famoso conde. a abre portas. Agora. Agora.. Só olhou as paredes e os móveis e se perguntou quanto teria contribuído Nicholas. A guia era a mesma que os conduziu a primeira vez. em nove de setembro de mil quinhentos sessenta e quatro. se o que recordava era que Dougless. mais uma vez mais. com uma expressão muito pouco amistosa. Tinha razão? Pedindo várias vezes permissão.Tinha odiado tanto ser o motivo de riso de sua família. Nem. Quando Nicholas regressasse. 111 . Não deveria agora ser mais respeitosa? — Esta era a câmara privada de Lorde Stafford. veremos a sala do lado sul. Dirigiu-se à loja de presentes e pediu algo sobre Nicholas Stafford.Deu a volta para sair do castelo. Dougless se aproximou à guia. — Não foi assim —lhe respondeu a mulher com tom categórico —O sentenciaram a morte e a sentença se cumpriu. e agora teria o prazer de escutar como tinha mudado a história. se me desculpa. Falou do encanto devastador de Nicholas com as damas.

mas não lhe importava. que empunhava um machado? Abriu os olhos. Ninguém tem essa cor de cabelo. E todos eram tão depreciativos com ele como antes. tinha-a amado e a tinha deixado. — Se sente bem? —Perguntou-lhe a bibliotecária. levantou sua pesada bolsa. não se sentia bem.Pôs-se de pé. O libertino. Também não tinha podido destruir o diário escrito por aquele servente que tinha manchado seu nome para sempre. A bibliotecária de Thornwyck lhe deu outra vez as boas vindas e ao perguntar-lhe Dougless. E também. — Sim. na coleção de livros sobre a família Stafford. Não tinha podido persuadir à rainha de sua inocência. Desalentada. é você? Levantou os olhos e viu Lee Nolman de pé diante dela.No formoso livro ilustrado. Comprou o livro e se dirigiu aos jardins. Talvez ali. O grupo de turistas tinha sorrido quando explicaram a execução de Nicholas. começou a ler os livros dos Stafford. Não podia pensar na linda cabeça de Nicholas rodando pelo solo. — Só estou um pouco cansada. o dia em que lhe presenteou o broche. tinha só um pequeno parágrafo sobre Nicholas. quando Nicholas regressou. agarrando-se à mesa. e saiu. Tinha vindo a ela. também faminta —a tomou pelo braço e a levou como uma bolsa —Há um pub à volta da esquina. mas lhe respondeu que não. Uma e outra vez via Nicholas subindo a escada para seu carrasco.— Há muito pouco sobre ele na guia. e se referia às mulheres e a como formou um exército e o executaram por isso. Ao homem que amava. Absolutamente todos falavam sobre a execução de Nicholas. Deteve-se um momento. — Pensei que era você. — Dougless. ao que parece ninguém duvidava da culpabilidade de Nicholas. O homem que tinha tudo e o desperdiçou. na biblioteca. A guia o descrevia como um mulherengo sedento de poder.Dougless se pôs de pé. orgulhoso e doce Nicholas subindo os degraus para uma ampla plataforma. — É em minha opinião. — Te sentes bem? Tens um aspecto horrível. Achei que tinhas ido embora. Não viveu o suficiente como para realizar muitas coisas —lhe disse o caixa. Não. Teria sido como nos filmes. Vamos comer algo. Para que? Tinha regressado a um cadafalso com um machado sangrento. Olhou-a mais de perto. e começou a ler. Dougless lhe perguntou se já tinham recebido cartões de seus retratos. com um homem musculoso. Sabia que tinha que encontrar habitação em algum lugar e comer algo. Não diziam nada sobre sua morte antes da execução nem sobre a suspeita de envenenamento. Sentia-se mareada e cambaleou. 112 . Comprou um bilhete a Thornwyck. Sentou-se num banco de ferro e afundou a cabeça entre as mãos. estou bem —murmurou —Só estou cansada e um pouco faminta —lhe sorriu. tinham-lhe cortado a cabeça. Nem sequer saber o nome de quem o tinha traído o tinha ajudado. mas se cambaleou contra o banco. suas olheiras. saiu do jardim e fez a pé os três quilômetros que tinha até a estação do trem. Enrique VIII já tinha abolido o catolicismo.Quando a bibliotecária se aproximou para informar-lhe que iam fechar. Não podia pensar nisso. Encontrou o lugar onde tinham sentado e tomado o chá. O famoso conde. respondeu que nunca tinha visto um homem com ela. Dougless fechou os olhos e pensou em seu lindo. Dougless olhou à mulher.Reclinou-se contra a árvore. a tinta acinzentada em sua pele. encontraria algumas respostas. vestido de couro negro. Dougless deixou o último livro e se pôs de pé. Teria as mãos atadas às costas? O acompanhariam sacerdotes? Não.

É como resolver o mistério de uma morte que faz quatrocentos anos. Se me falar o que escreveu Lady Margaret. Lee se inclinou para frente. Esta é uma história grandiosa. quando tomou café da manhã com Nicholas e fizeram amor no chão. então era como ter um gênio que lhe oferecia um desejo. Dougless. Enganou-me para obter o nome de Robert Sydney. e compreendeu que não tinha comido desde o dia anterior. — Ratos — respondeu Dougless sem se importar com nada.Dougless demorou um momento em compreender as palavras de Lee. Nem sequer olhou o docinho de queijo. — Muito bem. — Concedido —respondeu ela. E você? Sorriu com malícia. Poderia vendê-la para realizar um filme. Sabias que durante anos seu trono não esteve verdadeiramente seguro? 113 . Se fosse necessário. Dougless quis falar. viu como o tinha incomodado pelo nome de Robert Sydney.Lee se reclinou para trás. não. — Nicholas e eu fomos a Ashburton —lhe respondeu. Sem falar. doaria um novo edifício a uma universidade. se acomode e come. Não sabia nada sobre os Montgomery. — É alguém que você conheceu? — Sim. observando-o. Com uma intensidade que ele nunca tinha visto numa olhada humana. — Conta-me —lhe pediu num sussurro. e adivinha o que encontramos. mas acreditava na sinceridade de Dougless. Se estava disposta a oferecer-lhe um milhão de dólares pela informação. como se soubesse algo muito importante.Lee estava muito surpreendido para falar. — No dia seguinte que você foi embora. Sabia que queria essa informação. O que nunca tinha lido em nenhum livro (suponho que nenhum historiador o considerou importante) é que a família Stafford alegava um obscuro direito ao trono através de Enrique VI. Quando eu cumprir trinta e cinco anos herdarei milhões.Dougless lhe permitiu que a guiasse pela rua. e quando estiveram sós. e não tinha intenções de perguntarlhe por que. mas este não. — Está bem —disse Lee—. mas chegou a garçonete com a comida. e se sua família tinha tanto poder e dinheiro como afirmava. Eram descendentes diretos pela linhagem masculina. isto vai me dar uma incrível reputação. — Nicholas —o corrigiu Dougless —Não lhe agrada que o chamem Nick. como se fosse uma leiloeira. Que lhe importava o que tinha sucedido? Dentro do pub Lee a levou a um reservado e pediu duas cervejas e comida. Lorde Harewood fez arrumar a parede da habitação de Lady Margaret Stafford. enquanto à rainha Isabel a consideravam uma bastarda e sendo mulher. incapaz de governar. — Uma pequena caixa de ferro que contém a verdadeira história do por que executaram Lorde Nicholas. inclinou-se sobre a mesa para Lee. explicou-lhe com suavidade: — Não sei se sabe que os Montgomery são uma das famílias mais ricas do mundo. Terá que esperar que publique o livro. cedo neste momento um milhão de dólares. Ninguém podia ter essa expressão e estar mentindo. então Nicholas. — Que fizeste desde que te foste de Thornwyck na semana passada? —Perguntoulhe Lee. — Quero ensinar no departamento de história de uma das universidades principais dos Estados Unidos. Dougless tomou um gole e subiu direto para a cabeça. — Oh. A história começa anos antes que o pobre Nick fora executado.

. Dougless. — E encontrou Robert Sydney. teve alguém que não o esqueceu. a Nicholas não lhe interessava se promocionar na corte ou conspirar e procurar a alguém que o respaldasse se pretendia o trono. Depois que se casaram. mas Lady Margaret afirma que era um bom nadador. Lady Margaret conta tudo isso. Que sucedeu depois de que Nicholas se casou com. Rompeu-se um estribo e. Creio que decidiu pelo dinheiro em lugar de por Lettice. está certa de que te encontras bem? Ela lhe lançou uma olhada feroz. Uma mulher chamada Lettice Culpin. Ao que parece.. O irmão maior. — Lady Margaret sugere que a morte de seu filho maior. sem se importar o quanto formosa era. — E aprender —lhe espetou Dougless .. Christopher estava comprometido a casar-se com uma herdeira francesa muito rica que tinha só doze anos. Lettice compreendeu rapidamente que Nicholas não ia fazer o que ela desejava e começou a procurar forma de livrar-se dele. — Não sei onde se feriu. — E se cortou na pantorrilha —agregou Dougless —quando caiu do cavalo.. Lady Margaret não o menciona. — Como o fez com Christopher. a formosa Lettice. Sim.. muito bem. poderia não ter sido um acidente. então. só o suspeitou. Nicholas era mais difícil de matar do que Christopher. — Sim. Muito bem. — De qualquer maneira. 114 .Lee sorriu. Lettice começou a procurar alguém para que a ajudasse. Pode ter sido um acidente desafortunado. — Tenho que ter cuidado contigo. De qualquer maneira.. Terás que me dizer onde aprendeste tanto sobre os Stafford.. Afogou-se. — Mas por que Nicholas? Por que não o irmão maior?Ao que parece..— deteve-se. Lady Margaret admite que a maior parte disto é especulação.Contratou monges para que copiassem livros. nunca o soube com certeza. mas as coisas não funcionaram como Lettice tinha planejado. Lee sorriu. queria casarse com quem tivesse o título de conde. — Enquanto os historiadores esqueceram que os Stafford estavam relacionados com os reis.. Desenhou Thornwyck. Lady Margaret crê que Lettice era uma jovem muito ambiciosa e planejou casar-se com um Stafford. ela? — Parece que estás com ciúme. um direito ainda mais obscuro do que o dos Stafford. Mas como sabes? — Isso não importa. — Isso não foi provado. — É verdade.. Lee estava assombrado. sua família também reclamava o direito ao trono de Inglaterra. o que lhe interessava eram as mulheres. — A esposa de Nicholas? — Verdadeiramente conheces a história. — Sim —respondeu Lee —.Dougless assentiu com a cabeça.. ah.Dougless pensou nisto.. mas Nicholas teve algumas advertências.e afortunado para Lettice. — Mas Kit morreu e Nicholas se converteu em conde –disse Dougless com suavidade. ter um herdeiro e pôr o menino no trono. Ao que parece. — Christopher. — Então Lettice se casou com Nicholas.

e ali estava o conde de Stafford formando um exército. — Então Lettice e Robert Sydney conspiraram para que Nicholas o acusassem e executassem por traição. — Correto. Era o esposo de Arabella Harewood. De acordo com uma carta de um amigo que sobreviveu. tinha-se autoproclamado rainha de Inglaterra e Escócia. Ou um Best Seller. mas ela era inteligente e manteve a boca fechada. o casamento de Lady Margaret os emparentava. —Foi muito oportuna ao fazê-lo.— Aposto que és muito boa para as novelas de detetives. e adivinhas sempre o final. Lady Margaret crê que Lettice tinha planejado casar-se com um duque inglês que era primo de Isabel. Ao que parece. Lee sorriu. — Então Lettice e Robert Sydney ficaram livres. portanto Sydney lhe ofereceu uma escolha entre uma granja pobre ou casar-se com seu ex-sogro. e começar tudo de novo. Finalmente. Dougless retrocedeu. — Sim. Nunca concebeu. realizou a paródia de um juízo com evidências ‘secretas’. Esse parentesco não significa nada em nossos dias. Lettice que tinha planejado tudo com cuidado. — E Arabella e o menino morreram. Em certo modo. com o pescoço rompido. Lettice encontrou Robert Sydney. Sim. e pediu a algum servente fiel que abrisse um oco na parede e escondeu ali a caixa. viu-se obrigada a casar-se com Sydney — riu — O que é realmente irônico de toda esta história é que Lettice era estéril. então. e. — Depois de casar-se com Harewood. Lady Margaret escreveu tudo. Claro que Sydney tinha outro motivo. Sem dúvida a teriam matado se o tivessem sabido. quem a toda pressa lhe informou à rainha. Talvez compreendeu que não podia provar nada. é compreensível que Isabel cresse em Sydney. Na realidade. Isabel prendeu Stafford. A rainha lhe confiscou tudo que tinha. Suponho que depois de que o senhor e a senhora Sydney 115 . Ameaçou-a contar tudo à rainha se não se casasse com ele. e lhe cortou a cabeça. portanto enviou o seu primeiro esposo à morte por um menino que nunca teria. Incrível verdade? — Sim. Desejava pôr o seu filho no trono. Uns meses antes. — Correto. mas então foi suficiente para que Isabel lhe desse a Sydney duas das propriedades de Stafford. incrível —Dougless fez uma pausa — E Lady Margaret? — Nem Lettice nem Sydney tinham idéia de que a anciã sabia o que tinham feito. Para piorar ainda mais as coisas nove meses depois Arabella lhe deu um filho com o cabelo negro. — Algo assim. Lorde Harewood. mas Sydney tinha outros planos. duas semanas mais tarde encontraram Lady Margaret morta ao pé de uma escada. — Chantagem —murmurou Dougless. Dougless suspirou. e ficou muito mau quando toda Inglaterra ria dele pela história de Stafford e sua esposa sobre a mesa. Como ainda tinha três filhos de Arabella vivos. Já te disse que isto era como um filme. não tinha tido em conta a ambição de Sydney. Lady Margaret crê que Sydney teve algo haver com essas mortes. De qualquer maneira. quando Nicholas começou a reunir homens para proteger suas propriedades de Gales. María. Depois pôs suas cartas num baú e também as escondeu. rainha de Escócia. Lee bebeu um gole de cerveja.Deteve-se. o que sucedeu depois da execução de Stafford foi bastante irônico. a parede foi selada. meteu-o numa caixa de ferro. Lady Margaret pensa que Lettice esperou a oportunidade para acusar o seu esposo de algo. Chantagem. informou-lhe a Sydney.

Terás seu cargo. já tinham tudo o que desejavam dela. sua honra. não sei. tinha-se negado inclusive a pensar nisso. — Sim. imagino. Me agradaria alojar-me no castelo de Thornwyck. Tinha perdido a sua esposa. Já volto. alguém tinha escrito senhorita Dougless Montgomery. um bastardo que numa geração arruinou as propriedades dos Sydney. CAPÍTULO 12 Em Thornwyck ninguém recordava de Nicholas. não fique tão triste.obtiveram as duas propriedades de Stafford. pensou Dougless. Lee tinha comentado que tudo isto era irônico. Sei que não tiveram filhos e que suas propriedades passaram para as mãos de um sobrinho. 116 .Enquanto olhava as paredes sem teto. seu nome. — Para mudar a história —murmurou Dougless. — Onde está hospedada? Te acompanharei. — Não —disse Dougless —Preciso ficar sozinha. Obrigada pelo jantar e pela informação. Terei que pesquisar mais para averiguar que sucedeu com Lettice e seu esposo. Te acompanharei. A quem ele teria falado de Robert Sydney? A Lettice? Ele teria visitado sua amada esposa? Teria-lhe contado Nicholas o que sabia e lhe teria pedido ajuda? Que irônico. Deixou sua bolsa na habitação e saiu para ver a parte do castelo que estava sem terminar. Espera um minuto. Um centro de aprendizagem. — O que sucedeu a eles? A Lettice e Robert Sydney? —Quase não podia suportar pronunciar os nomes. Tinha-se negado a cometer uma traição com sua esposa. e por isso foi morto. o respeito das futuras gerações. A história mudará quando escrever meu livro. Isso é o que Nicholas desejava fazer. — Arderam no inferno. — Está errado! —Exclamou Dougless em voz alta —O que aconteceu foi errado.Ontem. tinha-lhe dito. claro. e a quem não? Tens que fazer a reserva com um ano de antecipação para entrar nesse lugar. as enredadeiras que ainda penduravam nelas recordou cada uma das palavras que Nicholas lhe tinha dito sobre o que tinha planejado para este lugar. porque executaram Nicholas. A verdadeira ironia era que Nicholas tinha morrido porque era bom. Pode se hospedar agora. Os historiadores não se interessaram muito neles —sorriu —Até agora. apoiou-se contra a parede. Nunca se completou. teria voltado a sua cela? Teria regressado no momento em que estava escrevendo uma carta a sua mãe e tratava de averiguar quem o tinha traído? Que tinha feito nesses três dias anteriores a sua execução? Alguém o escutou quando revelou as mentiras de Robert Sydney? Cansada. depois se voltou e saiu do pub. e onde ele tinha assinado. e tudo por negar-se a conspirar com uma mulher sedenta de poder. Mas na realidade.Dougless se reclinou para trás e permaneceu um momento em silêncio. — Não tenho reserva. lhe deu a mão. senão uma morte pública que o tinha ridicularizado. suas propriedades. Tinham um cancelamento. Não uma morte rápida e digna. e uns minutos mais tarde regressou sorrindo —És uma mulher de sorte. quando a deixou. mas tudo o que conseguiu foi que sua execução se levasse a cabo — Tenho que ir — lhe disse com brusquedade. Olhou o registro.

e tinha falhado. Talvez se rogasse a Deus.Enquanto caminhava. e ela sabia que faria um grande trabalho. Talvez se rezasse. regressou ao hotel. por que não lhe tinha perguntado a Lee se tinham outros segredos escondidos por trás da parede? Por que não olhou? Por que. Mas quando tocou o frio mármore. nem no século XX nem no XVI. quase com um sorriso —Lamento ter falhado. começou a chorar. Era uma nota escrita pela mão de Nicholas. Comeu. soube que não funcionaria. Quando esteve em Goshawk Hall. compreendeu que não podia fazer nada. O que tinha sucedido era algo que ocorria uma só vez num século. Ao que parece não valho para nada. pensou.Não tinha outra coisa que fazer mais do que voltar para casa.. mas quando acordou. As palavras retumbavam em sua cabeça. Era a nota que Nicholas lhe tinha escrito e deslizado por embaixo da porta. permitiria que Nicholas voltasse para ela. — Nicholas —murmurou. foi embora do hotel. Só por cinco minutos. Teve a oportunidade de salvar-lhe a vida de um homem. Lá dentro estava vazio.‘Outra vez chorando —disse.? O cartaz de Ashburton apareceu na janela. agora ninguém ia tocar Nicholas. Em lugar de procurar informação. Sentindo-se mais pesada e muito velha. Esteve desperta um longo momento. Ninguém tinha morrido antes por meus erros Oh. pois a fúria não lhe permitia dormir. — A nota —murmurou. Chamaria à linha aérea e trataria de conseguir um vôo de regresso imediatamente. e desceu do trem.Perto do amanhecer dormiu um momento. pegou e o observou. meu querido Nicholas. Enquanto caminhava.. não ficaria com ciúmes. Dougless caminhou para a tumba. e procurou um lenço de papel.Apoiou a cabeça contra a janela do trem. pensou. Enquanto soava o nariz.Lentamente. viu que um bloco de papel caía do pacote de lenços ao chão. Robert tinha a sua filha e não a precisava. encontrava-se pior do que antes de deitar. Se pudesse fazê-lo outra vez. Lentamente. pudesse consertar o que não tinha feito por Nicholas quando estava no século XX. Lee podia escrever o livro sozinho. Deus! —Exclamou. O tempo para ajudar já tinha passado. Chantagem. Que irônico. Nicholas — 117 . e ela tinha falhado. Talvez se voltasse a um lugar conhecido poderia começar a se perdoar. Nicholas teve uma segunda oportunidade. e os raios do sol entravam através dos vitrais de cores até a tumba de Nicholas. Nicholas sim a precisava. Estava tão zelosa de Arabella que perdeu de vista o verdadeiro propósito de por que estavam em casa de Lorde Harewood.. pediu-lhe ajuda e ela falhou. que ainda tinha sustentado no ombro.. Inclinou-se. como se estivesse em transe. pensou. pondo-se de pé. era uma prova. não desperdiçaria o tempo que podiam estar juntos. e pela primeira vez desde que ele se tinha ido. algo que era. Ajudaria a publicação do livro de Lee a limpar seu nome? Talvez se lhe oferecia seus serviços como secretária e o ajudava a pesquisar. Saiu da estação do transporte ferroviário e se dirigiu ao hotel. Banhou-se. As lágrimas lhe nublaram a visão. e deu a volta para sentar-se na borda da tumba —Como vou viver com teu sangue em minhas mãos? Abriu a bolsa. O mármore branco se via frio e morto. Traição. vestiu-se e desceu para tomar café da manhã. caminhou para a estação do transporte ferroviário e tomou um trem de regresso a Ashburton. e seus pés pareceram dirigir-se sozinhos para a porta. Isso era tudo o que precisava para contar-lhe a traição de sua esposa. Bom. preocupou-se se Nicholas e Arabella estavam se tocando. Era algo que ele tinha tocado. Durante a viagem deixou de preocupar-se por seus erros e começou a perguntar-se o que podia fazer agora. passou pela igreja onde estava a tumba de Nicholas. Oh. Nicholas regressaria. pôs a camisola e foi à cama.

Fechou os olhos e baixou a cabeça. embaixo de uma árvore na campina inglesa. Em sua dor. não se deu conta da forma em que a luz penetrava através de uma das janelas e lhe tocava o cabelo. ao mover-se uma nuvem. a luz tocou a mão de mármore de Nicholas. De repente. Era como se seu corpo não obedecesse a seu cérebro. Voltou-se para recolher seus pertences. Dougless pestanejou. foi até os arbustos e abriu passo entre eles. Dobrou-se pela dor e caiu ao solo. Ficou de pé. sentiu como se alguém a tivesse golpeado no estômago. 118 . Nicholas. Abriu os olhos e viu o céu azul sobre sua cabeça e uma árvore perto. — Sir Nicholas —disse a mulher com um tom sonhador. Quando tratou de pôr-se de pé. sentia-se mareada e como se fosse vomitar. — Deus. Estendeu a mão. Oh. senão a do Nicholas.Afrouxaram as pernas e se deslizou para o solo com a nota apoiada na bochecha. sentou-se e olhou ao seu arredor. — Nicholas —exclamou em voz alta—. Apoiou a testa contra a fria tumba de mármore. só reagiu. e estendeu a mão para sua tumba. Crianças. Estava tão débil que sentia desejos de ficar onde se encontrava e dar um cochilo. — Nicholas? —Exclamou mais alto. incorporando-se. ajuda-me a me perdoar. Tinha saído da igreja? Fechou os olhos. e aqui estás com esta. crianças brincando. — Sim—disse. Quando começava a cochilar. muito. na erva. Quando tinha saído da igreja? Deteve-se quando viu um homem no campo. e depois mais alto: — Sim —Levantou o rosto para o anjo da janela. — Nicholas —sussurrou.Mas ao ouvir um riso masculino. mas ali não tinha ninguém. mas parecia levar uma espécie de traje curto marrom e arava com um boi. O vitral tinha um anjo ajoelhado rezando. Sir Nicholas.Nesse momento.Ali.. Não qualquer riso. Mais tarde averiguaria onde estava. como pôde? Como pode me fazer isto ? — Começou a chorar outra vez — Estava completamente louca preocupando-me com você. — Nicholas? —Perguntou. esta. Tinha que ir ao banheiro. Tinha a camisa meio aberta e abraçava uma jovem com a metade dos seios descobertos e um estranho vestido. não aconteceu nada.Levantou-se com lerdeza. com o corpo feito um novelo. Dougless não pensou no que fazia. desta vez por trás dela. Nicholas —disse entre lágrimas —Lamento muito. Não tinha ninguém na igreja. Nicholas? Bruscamente. sentia-se mareada e débil. — Por favor —sussurrou Dougless —por favor. ter falhado.começou a chorar angustiada. Estava longe e era difícil distinguílo. mas no instante tudo se pôs negro e caiu ao chão. pensou. — Eu lamento. Não podia sujar a igreja. e voltou a escutar outra vez o riso. Mas ao tratar de mover-se.— Sim —repetiu. — E agora? —Sussurrou. Estava sentada na erva. mas a visão não mudou. ouviu um riso. Ao acordar. pestanejando para aclarar sua visão. e não sabia onde se encontrava. e levantou a cabeça.. e a luz entrava pela aureola do anjo e chegava até o cabelo dela e. estava Nicholas. ouviu um riso feminino próximo. como pudeste? —Tirou um lenço de seu bolso e soou o nariz. abriu os olhos.Ouviu outra vez o riso da mulher por trás dela.

Aqui!Saltou sobre ele. Oh. — isto são diamantes? — Não trato amavelmente com ladrões. — Nicholas.. e se afastou dele —Não devemos fazer isto. ou que outra vez usava barba e bigode. Vi Lee depois que você se foi e me disse tudo sobre Lettice e Robert Sydney. já tive toda a amnésia que podia suportar. Porque não pode ter filhos. Dougless já não estava irritada. Este Nicholas parecia mais jovem. Nicholas a abraçou enquanto caíam no chão. Sabia que no final te executaram? Nicholas deixou de tentar abraçá-la. — Por que me olhas assim? Onde vai?— Vou para minha casa.. Não eram só suas roupas. agrada-me. que parecia estar decorada com. é estupendo. — Que significa isto? —Perguntou. — Colley. Nicholas tinha um casaco de soldado negro extraordinário. — Me pagar? Nicholas. Recordas o que aconteceu na última vez.. Estava. você também perdeu a memória? Ultimamente. Por formar um exército. é você. senhora não te conheço — deu a volta e se afastou. Por. Isso é novo para mim. Nicholas. senão que sua expressão não era tão séria.. senhorita? — Por traição. Dougless estava muito surpresa para mover-se. Tenho tantas coisas para te contar. Sei que você a ama. Lettice te quer fora de cena porque não vai fazer sua vontade de pôr o seu filho no trono. Ninguém nos recordava juntos —lhe beijou o pescoço — Voltou a usar barba. Tua esposa planejou tudo. Não sei quanto tempo estarás aqui antes de regressar. Nunca a tinha visto? Do que estava falando? Abriu passo entre os arbustos. com o cenho franzido girou. — Nicholas. não podes ir. mas se casou contigo só porque estás aparentado com a rainha Isabel. mas ela não sabe.Como tinha podido crescer-lhe a barba tão cedo? 119 . mas estás bem. Nicholas e a jovem tinham deixado de mover-se. Dougless permaneceu ali pestanejando.Na erva. Nicholas. e. e tratando de compreender o que lhe dizia. que acontece contigo? Age como se nunca me tivesses visto. oh. meu amor. Nicholas estava aqui com ela. Nunca tinha visto ninguém que usasse diamantes na roupa — o observou detidamente e viu que era diferente. — Não!—exclamou de repente.. com movimentos temerosos. — Não. longe de sua forma de falar como os Colley. — Se desejar terminar o que começou —lhe apontou a erva —ficarei e vou te pagar bem. Voltou-se para olhá-la. Olhou-o um momento. Ninguém te recordava.. espera. foi horrível depois que você se foi.Dougless também se pôs de pé. depois fugiu através do matagal. Escuta-me.. — Eu? Executado? Por que. não é? Temos que conversar. Dougless se interrompeu. se apoiou sobre um de seus cotovelos e olhou à mulher ruiva. abotoou a parte dianteira do vestido e saiu embaixo de Nicholas. tenho tanto que te contar. Nicholas lhe beijava o pescoço. abraçou-o e começou a beijar-lhe o rosto. — Não planejo te roubar. Abriu-lhe a blusa e a beijou mais abaixo. mas não posso tolerar esta desenfreada maneira de falar. Ou é com seu pai? De qualquer maneira. Nicholas.. realmente estupendo.

saia da minha frente. O governo inglês deveria fazer algo com este lugar. — Nicholas. O caminho piorou. surpresa e com a boca aberta. pedras soltas. que ano era? Nicholas jogou uma capa curta de soldado negro com bordas de arminho sobre os ombros e puxou um cavalo detrás dos arbustos.Dirigiu-se à primeira casa. Teria que começar outra vez e explicarlhe tudo sobre o século XX? A última vez que tinha o visto. Talvez essa mulher poderia me indicar a direção. Mas desta vez tinha regressado quatro anos antes. não a primeira vez que vieste a mim. mas ele já tinha ido. Dougless o observou. ficou de pé. os sulcos eram mais profundos e tinha esterco por todos os lados. espera! —Exclamou. gente. bruxa. detendo-se nas pernas.— Nicholas. estreito. olhou-o até que desapareceu no horizonte. com roupa suja. mostrando-lhe seus dentes horríveis.Dougless desceu pela colina. era o ano de nosso Senhor de mil quinhentos e sessenta. Dougless teve que retroceder aos arbustos para evitar que o cavalo a atropelasse. Tinha as pernas nuas desde a metade das pantorrilhas até abaixo. — Na Inglaterra usam esterco para tampar os sulcos? —Murmuro. Ouviu que num lado do caminho vinha um veículo. Tinha tempo para prevenir o que tinha provocado sua execução. Montou facilmente sobre a sela que era tão grande como a de um vaqueiro americano. Deteve-se no cume de uma pequena colina e olhou para baixo. As pessoas não devem viver assim. mas desta vez eram quatro anos antes. deteve-se. Dougless pôde ver seus dentes cariados. há alguém em casa? 120 . Agora. Mas claro! Está certo. Os caminhos rurais na América não eram tão maus e nunca tinha visto nada como isto na Inglaterra. — Quando saí de minha casa esta manhã. mas sem conseguir muito sucesso. a observava. Nicholas vinha de 1564. pensou. Um burro cansado que carregava uma carroça com duas grandes rodas. Sentiu o cheiro: animais. tudo junto. Olhou-a de cima abaixo. Dentro não tinha melhor cheiro que fosse — Oi. depois sorriu. O que aconteceu que ainda não tinha sucedido. Pôs a mão no nariz e respirou pela boca. Parecia que não o tinham lavado há um ano e obviamente não levava roupa interior. quando estiveste em casa pela última vez. Uma mulher com uma saia longa saiu de uma delas e esvaziou um recipiente redondo junto à porta principal. Mas ao chegar perto. se queixaria deste lugar. estava no cárcere e não podia fazer muito para salvar-se. pendurou no ombro e começou a caminhar na direção em que Nicholas tinha marchado. um animal que parecia tão selvagem como Sugar. senão agora. depois se sentou sobre um tronco caído e afundou a cabeça entre as mãos. comida podre.O caminho era o pior que jamais tinha visto: sulcos profundos. como cruzar outra vez frente a um ônibus. cheio de mato. Era um perigo para a saúde. Levantou a cabeça. montões de esterco. e tinha grandes chagas. onde as galinhas. pequenas construções com teto de palha e terra na parte dianteira.Completamente surpresa. Um menino de mais ou menos uns três anos. Tinha três pequenas casas. os patos e os meninos escavavam.Recolheu sua bolsa do chão. — Com licença —chamou no interior escuro da casa. E agora? Pensou. Tinha a cara cabeluda e quando abriu a boca. Quando descobriu sobre Robert Sydney. Sentindo-se mais feliz. Dougless jurou que quando resolvesse o problema de Nicholas. e o homem fez o mesmo. Ao seu lado vinha um homem com um vestido curto que parecia feito de estopa. tratando de manter limpos seus sapatos.Dougless se afastou rapidamente e começou a caminhar. Tinha que encontrá-lo antes que fizesse alguma bobagem. mas que tinha um respaldo alto de madeira na parte de trás.

Parece que me perdi. escorregando sobre algo. retrocedendo. o cabelo. atuou como se estivesse em casa. mas não lhe serviu de nada. De repente. Era difícil continuar sorrindo. — Conhece o caminho a Ashburton? —Repetiu Dougless. ao viver na sujeira em que viviam. Correu para as outras mulheres e as três examinaram os óculos. não eram muito brilhantes. o rosto.A mulher se afastou. Em lugar disso. — Ai! –Exclamou. Dougless tirou seu mapa do sul da Inglaterra e o olhou. e Dougless viu que lhe faltavam três dentes de cima e tinha outros dois cariados. já que não sabia onde se encontrava. portanto não podia averiguar para onde ir. — Roupa de bruxa. mas tinha uma mulher atrás. A mulher retrocedeu de um salto ao ouvir o som do zíper. examinando-lhe a roupa. A mulher caminhou ao redor de Dougless. — Um grupo de chifladas —murmurou. As mulheres não falaram. Olhou a casa que tinha adiante.Baixou o mapa quando viu que uma das mulheres tinha a cabeça quase dentro de sua bolsa.Dougless tentou sorrir. muito perto dela.Dougless apoiou as mãos na cintura.Ninguém respondeu. mas no século XVI as pessoas a queimavam por ser bruxa. As mulheres não estavam mais limpas que as crianças que tinha visto. quando uma das mulheres lhe segurou o cabelo. estou procurando a igreja de Ashburton. — Com licença —disse de forma terminante. Dougless se sentiu preocupada. as carroças. — Isto é demais —Dougless se dirigiu para as mulheres. Não parecia desorientado ou inseguro sobre aonde se dirigia. mas antes levou os óculos de sol da bolsa de Dougless. mas Dougless sentiu que a observavam. — Claro que não sou uma bruxa —replicou. A sujeira. a lenha empilhada. as pessoas que nunca tinha ouvido falar de um dentista. Não tinha agido como a primeira vez que chegou ao século XX. e. A mulher tinha a cabeça coberta com um tecido cheia de sujeira e gordura. — Quem é sua rainha? — Isabel —lhe respondeu uma das mulheres com um acento estranho. Afastou-se da mulher e abriu a bolsa. Uma coisa era rir de um homem no século XX porque dizia bruxa a alguém. — Poderia devolver o que me pertence? — Saia daqui —lhe disse uma das mulheres. Voltou-se e viu três mulheres e duas crianças por trás dela. e depois se afastou num cavalo com uma estranha montaria. — Bom —replicou Dougless —E quem era sua mãe? — A bruxa Ana Bolena. Uma delas tinha profundas cicatrizes no pescoço e escondeu os óculos por trás de si. tinham os vestidos manchados de comida e não se sabia que mais. Provavelmente. 121 . mas não olhou para baixo — Poderiam devolver-me? As mulheres a olhavam séria. pois a mulher cheirava mal. mas Dougless estava muito surpresa como para notá-lo. — Será uma bruxa? —Perguntou uma das mulheres. as cebolas pendurando o teto. — Desculpem. As mulheres se juntaram ao seu arredor. mas uma delas se aproximou de Dougless. Nicholas lhe tinha dito que estavam em mil quinhentos sessenta.Foi então quando começou a compreender.Uma lhe segurou pela manga.

só —Nicholas não a conhecia — numa época anterior à invenção do sabão ou pelo menos ao seu uso. Recordou a música que Nicholas tinha tocado. artigos de escritório. Vêem a mim. Estava escuro e chovia intensamente quando Nicholas apareceu montado em seu grande cavalo negro. mas parecia afetado por suas palavras —Muito bem —lhe disse Dougless. — Vêm para mim. não sou. Se funcionou naquele momento. — Oh! Nicholas. E as pessoas achavam que ela era uma curiosidade demoníaca. meteu uma mão na bolsa..Com a cabeça baixa. Tirou um guarda chuva da bolsa e o abriu. disse-se a si mesma. onde estás? Depois recordou a tarde do dia em que se conheceram e ela se refugiou naquele beiral. concentrou-se e chamou Nicholas. Quando já lhe faltava o fôlego.Tirou um dos fósforos e acendeu uma. levantou-se.Afastou-se das casas mal cheirosas e do caminho com sulcos e correu para o bosque. Já podia afirmar que não lhe agradava permanecer neste lugar com pessoas sujas e ignorantes. entrem na casa — disse com o fósforo aceso a curta distância delas. Dougless. pois as mulheres a rodeavam a impediam. Eu vivo. enquanto o fósforo lhe queimava a ponta dos dedos. isso é tudo. Tinha que dizer a Nicholas o que precisava saber e depois regressar a sua própria época. revistas. Enquanto vigiava às mulheres.. Será melhor que penses rápido.— Não... depois de desmaiar na igreja ela tinha acordado no século XVI. — Para casa. um pequeno costureiro. — Tua mãe? Tua mãe deseja me ver? —Não estava segura. A erva começava a molhar-se. Ele não sorriu. Dentro tinha cosméticos. pois começou a chover com maior intensidade. Tinha fazia anos. disse-lhe que tinha ouvido que o ‘chamava’. procurando sem saber o que.Começaram a cair às primeiras gotas de chuva. Colocou a bolsa junto dela embaixo do guarda chuva. As mulheres retrocederam com uma exclamação. talvez funcionasse agora. 122 . remédios. hidrocores. Ao que parece. Nicholas. Foi nesse momento quando realmente olhou o conteúdo de sua velha bolsa. Encolheu-se embaixo do guarda chuva. e por fim a sobremesa. e a olhou irritado. pensa. o que fazer? Talvez teria que vender as revistas para sobreviver. abacates. Dougless. o muito que tinha desfrutado com os livros e crítico que tinha sido com a roupa moderna. em outro lugar. sentindo que era seu único amigo. Encontrou uma caixa de fósforos que tinha levado de algum hotel. pela chuva.Apoiou a cabeça nos joelhos. O ano que vem todas usarão isto —não podia ir para trás nem para diante. e pensou em sentar-se sobre uma revista. Imaginou-o vindo para ela e depois pensou no tempo todo que passaram juntos. Tinha ido com ele a todos os lados e a tinha enchido com tudo o que alguém pode precisar quando viaja. E aqui estava. Neste curto tempo já sentia falta dos chuveiros quentes e os cobertores elétricos. Nicholas tinha rido como um menino pequeno. ou serás o assado desta noite. Pensa.Dougless lhe sorriu: — Sabia que virias. pensou. um pijama. Quando a encontrou. Sorriu ao recordar um jantar que ela tinha feito e que a caseira lhes tinha preparado: espigas de milho. — Lady Margaret irá te receber. sentou-se e se apoiou numa árvore. Mas. pacotes de nozes dos aviões. deu-lhe o guarda chuva e estendeu a mão para que a ajudasse a subir ao cavalo. As mulheres retrocederam e entraram. costelas de porco assadas. — Como vou contar a Nicholas tudo o que precisava saber se nem sequer o vejo? —Murmurou. Jogou e correu. sem contar o que tinha no fundo. artigos de penteadeira.

Tinha dado só uma rápida olhada à casa. Tapeçarias novas. Dougless desejava responder-lhe. Ia ele cavalgar enquanto ela caminhava? Retrocedeu até uma árvore.Nicholas se voltou e começou a subir pela escada. e permaneceu ali impaciente. — Precisa vir comigo.Quando desceu. seguiu-o. lindas e de cores vivas penduravam nas paredes. Você cavalga. O estuque da parte superior estava decorado com cenas de pessoas numa campina. Dougless agarrou a cintura de Nicholas. Dougless a agarrou. o servente abriu a porta e Nicholas entrou. sustentou-o sobre sua cabeça e se afastou. tremendo e com frio. — Tenho que ir caminhando? —Perguntou-lhe. A madeira não estava escurecida nem parecia ter quatrocentos anos. Recorde bem e não dê a ninguém. e depois lhe deu o guarda chuva. Seu Nicholas não teria feito cavalgar uma mulher na garupa de um cavalo. uma casa de pedra de três andares. Tinha que utilizar ambas as mãos. Dougless pôs a bolsa no ombro e o olhou. Nicholas sorriu levemente e depois lhe estendeu a mão. mas estava concentrada para não cair do cavalo. portanto o guarda chuva pendia inutilmente enquanto cavalgavam.Para seu assombro. enquanto se sustentava o melhor que podia. que pareciam feitos na semana passada. As paredes estavam cobertas de carvalho dourado e tinha cor por todos lados. Nicholas desmontou. enquanto você leva meu guarda chuva? É isso o que tens em mente? Por um momento Nicholas pareceu confuso. e depois de um momento Nicholas regressou. Tirou-lhe o guarda chuva das mãos e o deu ao servente. e detrás. mas ele lhe afastou as mãos e a pôs na parte traseira da cadeira. examinou-o com interesse. Nicholas tenho frio e fome. Dougless fechou o guarda chuva e Nicholas o pegou e olhou por dentro. — Sua forma de falar é muito estranha. Acima. Nicholas a olhou e bufou. e eu caminho entre o barro e o esterco por trás de ti. E embaixo de seus pés parecia ter palha. até a casa. obviamente tratando de averiguar como funcionava. Sobre uma mesa tinha um vaso de um metal amarelo que só podia ser ouro. apoiou seu pé no de Nicholas e montou na parte traseira do cavalo. ao que parece abstraída dela. por uma sacada de tijolo. —começou a dizer. e estou empapada.Um servente de ar solene esperava para tomar a capa e o chapéu molhado de Nicholas. senão na garupa do cavalo. Depois da forma em que a tinha tratado. Começava a crer que não era o mesmo homem que tinha se apaixonado. enquanto Dougless desmontava carregando a bolsa e o guarda chuva. esperando que Dougless o seguisse. algo realmente estranho. por uma escada. Adiante tinha uma parede alta de pedra. — Sustente isto sobre mim —lhe disse.. — Isto é meu.— Talvez os lave —murmurou. não ia falar com ele. Tinha bandejas de prata que brilhavam sobre as mesas. Ela correu por trás dele por um caminho empedrado. tinha móveis talhados e tão novos. Um homem com roupa similar à de Nicholas veio correndo para segurar as rédeas do cavalo. 123 .. — Por todos os. Através da chuva viu mais choupanas e mais gente trabalhando sob a chuva. protegendo-se com o guarda chuva. tomou o guarda chuva. — Não tão estranha como tuas antiquadas idéias. mas não se parecia às casas isabelinas que tinha visto nas guias turísticas. e Dougless. não na sela com ele. e golpeou o cavalo para que avançasse. deixando Dougless sob a chuva. Como ia por trás de Nicholas e ele era muito alto Dougless não viu a casa até que estiveram frente a ela. Ajuda-me a subir ao cavalo e vamos ver a tua mãe. golpeando as luvas contra a palma da mão.

Por trás das colunas extraordinariamente talhadas. borboletas e animais de vivas cores. com flores bordadas em fios dourados. Quero ver esse fogo mágico. desde o espelho até as escovas. Entrou numa formosa habitação. esquecendo o vaso e correndo por trás dele. Dor de cabeça? Espirros? Cansaço? A mulher a olhou e assentiu com a cabeça. o caldeirão embaixo da janela e a enorme cama tinham travesseiros e pingentes de seda brilhante. Era grande. — Isso é o que eu imaginava —remexeu dentro da bolsa . — Trouxe à bruxa. Parecia que tinha uns vermes negros e viscosos colados ao braço da mulher. feitos de ouro e prata. Caminhou até a cama e colocou a bolsa sobre uma mesa. soava cansada e sufocada. pareciam objetos preciosos. 124 . como se estivesse resfriada.. encontrava-se uma mulher de aspecto severo. Nicholas —lhe pediu Lady Margaret — e você também ordenou ao médico. Dougless não podia deixar de olhar às sanguessugas. A voz da mulher. — São sanguessugas? —Perguntou Dougless. com paredes cobertas de carvalho e o estuque decorado com pássaros. O homem lhe tirou as sanguessugas do braço de Lady Margaret e as colocou numa pequena caixa forrada de couro. Parece-me que só tem um resfriado forte. com uma camisola branca que tinha bordados negro nos punhos e no pescoço. se aproximando não podes. Dougless deixou de olhar a habitação e observou a cama. e Dougless se aproximou. Ah. — Disseram-me que és uma bruxa e que produzes fogo com a ponta de teus dedos. com jóias incrustadas. — Traga até mim —ordenou uma voz imperiosa. Todas as coisas da habitação.Antes que Dougless pudesse perguntar sobre o vaso. — Não dói? — Sim. Comprimidos para o resfriado — pegou a caixa. — Um momento —disse Dougless. — Não deveria permitir que esse homem lhe fizesse isso. dói. desde as xícaras até os vasos. viu que a mulher tinha o braço esquerdo estendido sobre um travesseiro e um homem..Ao se aproximar ao pé da cama. — Mãe —disse Nicholas. — Vinho! —Ordenou Lady Margaret. tirando uma formosa caixa de prata com esmeraldas na tampa. e Nicholas lhe deu uma taça alta talhada de jóias. Dougless não viu a troca de olhares entre Lady Margaret e seu filho. com um traje de veludo negro longo e volumoso estava inclinado e cuidando. — Vêm aqui —lhe ordenou. com tetos altos. Nicholas abriu uma porta e entrou.faça que esse homem lhe tire essas coisas horríveis eu curarei o seu resfriado. aqui estão. bordados com fios de seda e prata.. apesar de sua autoridade. Toda a habitação brilhava formosamente. — Meu Deus! —Exclamou Dougless com admiração. por trás das cortinas de seda escarlate. — Saia. Os móveis. Parecia com Nicholas. O desagrado que sentia ao ver as sanguessugas no braço da mulher lhe fez esquecer o temor que a chamou de bruxa.. — Precisarei um copo com água.

Ele se voltou com a mesma expressão de desgosto: — Não. Dougless se voltou.Dougless percebeu o silêncio que reinava na habitação e de repente compreendeu a força que era Lady Margaret. esperando que o comprimido lhe fizesse efeito. temos que conversar.. és o responsável. com uma expressão de ira: — Não sei quem é você ou como conhece a minha família. ao aceitar uma medicina de uma estranha. Nicholas olhou Dougless e fez uma careta. e este se retirou da habitação —Nicholas. nervosa. e Nicholas. — Digo que estou bem —confirmou Lady Margaret —Você. E se o corpo isabelino não estava preparado para os comprimidos contra o resfriado? E se Lady Margaret era alérgica? Dougless ficou onde estava. — Se lhe fazer dano. não temos nada do que falar —levantou as sobrancelhas — E eu sou Sir Nicholas. mas eu te advirto. — Mãe —começou a dizer Nicholas. — Eu? —Perguntou. mas ninguém lhe tinha oferecido uma toalha.. alimenta-a. Não Lorde Nicholas? — Eu sou cavaleiro. Ou tonta. e Dougless engoliu saliva. olhou-a sério. mas ela lhe indicou que se afastasse enquanto engolia o comprimido. — Irmão? Referes-te a Kit? Kit está vivo? Nicholas se voltou e a olhou. seca-a. Só podia ver o contorno de uma mulher com um vestido com talhe ajustado e saia longa. ele com arrogância — Eu? — Você a encontrou. e viu uma outra pessoa na habitação. Tinha o cabelo achatado contra a cabeça. leve-a. e lhe disse: — Nicholas. pagarás com vossa vida. Dougless saiu da habitação por trás dele. Ninguém na habitação parecia respirar enquanto observavam a Lady Margaret descansando sobre os travesseiros bordados. — Engole e lhe fará efeito em 20 minutos. cavaleiro do reino — deu a volta e se afastou. — Na realidade não —lhe respondeu Dougless — Estes comprimidos só encobrem os sintomas. Cedo. veste-a e traz-me amanhã pela manhã. — Venha —lhe disse. A mulher que se encontrava por trás de Dougless saiu das sombras. fazia-o rapidamente. 125 . Quando atuava.Dougless tossiu. se ferir alguém. Foram os 20 minutos mais longos de sua vida. próxima das cortinas da cama. enquanto permanecia ali com frio e nervosa. senhorita. ou se um cavalo de minha mãe mudar de cor. — Sir Nicholas? —Perguntou-lhe. sai daqui —lhe ordenou ao médico. inclinou-se sobre Lady Margaret e lhe acomodou os cobertores. Nem pense em utilizar vossa bruxaria com meu irmão. A Lady Margaret lhe destapou o nariz e já não tinha essa sensação de estar resfriada. Agora vai. jorrando água e tremendo de frio. Dougless lhe deu um comprimido. Meu irmão é Lorde.Lady Margaret se sentou erguida e com os olhos bem abertos: — Estou curada. que se encontrava ao pé da cama. você pagará por isso —lhe advertiu Nicholas ao ouvido. Dougless se deteve. Terá que permanecer na cama e beber muito suco de laranja. ou qualquer outra coisa. irritado.

Lady Margaret tinha dito que desejava ver Dougless cedo. Tinha que achar a maneira de preveni-lo. Esta não era uma formosa habitação cheia de tesouros. Mas ninguém tinha vindo. Saltou da cama e esfregou o corpo contra a fria parede de pedra. senão uma cela sem janela. Tinha que achar a maneira de impedir que Lettice e Robert Sydney o usassem. Durante a longa noite tinha se coçado tanto que tinha zonas que sangravam muito. Desta vez teria sucesso. quando o viu no dia anterior. pensou. Como poderia fazer para que a escutasse? Subiram ao último andar e Nicholas abriu uma porta: —Dormirá aqui. mas desta vez não falharia.— Maldito!—Murmurou sozinha na habitação escura. Mas quando se voltou.Mas como podia fazer se estava presa numa habitação escura e cheia de pulgas? E Nicholas não só não a escutava. — Maldito!—Gritou. não tinha nada. Tudo o que tinha era uma bolsa cheia de maravilhas modernas e seu cérebro. horrorizada. — Não posso ficar aqui —exclamou Dougless. Soube que tinha amanhecido porque um pouco de luz se filtrava por embaixo da porta. 126 .Tratou de manter sua mente ativa e de não se desesperar. No entanto. No século XX sempre tinha o sobrenome e o dinheiro dos Montgomery que a respaldavam. e supôs que era para fazer suas necessidades. mas em seguida sentiu como umas pequenas coisas lhe corriam pela pele. no século XVI. com um catre num lado e um cobertor sujo em cima. e se deslizou para o chão. Mas aqui. que o pudesse ter ofendido tanto. Ouviu quando fechava com chave. Foram seus comentários sobre sua amada Lettice? Fazia frio na habitação. e pensou uma e outra vez em tudo o que Lee lhe tinha contado dos acontecimentos que conduziram à execução de Nicholas. Mesmo que ainda lhe faltavam alguns anos para receber sua herança. Não tinha água. tinha que encontrar a maneira de persuadir esta gente de que não podiam prendê-la numa prisão e deixá-la ali. esperava que alguém a liberasse. Tratou de recordar o que lhe tinha dito.Gritou e golpeou a pesada porta com as mãos. e Dougless tremia enquanto coçava o couro cabeludo. Num lado. singelamente grandioso. Tratou de encostar-se ao catre. não era ninguém. tinha um velho balde de madeira. Dougless entrou. Ao ver à luz que entrava por embaixo da porta conseguiu ver seu relógio e se estava na hora. mas ao meio dia ainda não tinha vindo ninguém liberá-la. Tinha regressado quatrocentos anos para salvar Nicholas e ele a ameaçava de morte. mas ele não lhe abriu. tinha falhado. Grandioso. Dougless o seguiu sem falar. como que parecia odiá-la. viu que Nicholas tinha marchado. nem comida. CAPÍTULO 13 Ninguém veio liberar Dougless essa noite nem à manhã seguinte. nem luz. sem importar o que tivesse que fazer. sabia que podia contar com o dinheiro. A primeira vez que Nicholas recorreu a ela com o fim de averiguar a informação que precisava para deter sua execução.Voltou-se e começou a caminhar. e oferecer um milhão de dólares para obter a informação que desejava.

.. — Rei? —Quase gritou Nicholas —Mãe.. o rei. Lady Margaret parecia ser a resposta. Quando abriu a porta. não sou uma bruxa. A seu pai lhe encantava contar-lhes histórias sobre seus antepassados. — Nicholas.. tratando de controlar sua ira para poder pensar. Fez bruxaria a minha mãe. — Se encarregarão de mim? —Perguntou.—baixou a voz—. Os aldeanos se encarregarão de você. — Se eles podiam. — Acusa-me de traição.se voltou. mas se me escutar e me deixar explicar. apoiada sobre os travesseiros. possa vir procurar-me. — Minha mãe pergunta por você. — Princesa? —Perguntou Lady Margaret. e a vista desacostumada à luz. sei que devo te parecer estranha. Ela o agarrou do braço. Ela o seguiu cambaleando-se.Lady Margaret levantou a mão para que se calasse.. Apesar de ter fome. Pedi ao meu irmão que você se solte. Entre nós há uma união..Se pôs de pé. — Poderia me dizer por que estás tão furioso comigo? O que fiz? A olhou de cima abaixo de uma maneira insolente. quero falar contigo. Tinha que fazer algo para evitar que a arrojassem da relativa segurança da casa à sujeira das ruas. Assustaste aos aldeanos. Você. eu também posso —exclamou Dougless em voz alta —Nicholas. Sou uma humilde princesa atacada por ladrões e devo recorrer a sua ajuda até que meu tio. Tinha inumeráveis histórias sobre heróicas proezas e rápidas fugidas. com as pernas débeis pela falta de exercício. da Inglaterra. e se voltou. Manchou o nome da mulher com que vou me casar.. tinha uma expressão de ódio no rosto. e tremeu ao recordar as mulheres sujas do povo. — Não —replicou ele. 127 . me jogarias? Depois que retrocedi quatrocentos anos para te salvar. e a energia começou a substituir a letargia. — Terás que me dar outro desses comprimidos mágicos —lhe disse. — Você veio porque eu te chamei. — Não quero ouvir nada do que digas. se meteu em minha cabeça.Lady Margaret estava outra vez na cama.. Dougless se manteve junto a ele.. essas bruxas desdentadas a apedrejariam se tivessem a oportunidade — Faria isso comigo? Depois da forma em que te ajudei? —Levantou a voz —Depois de tudo o que fiz por você quando vieste a mim. e desceu pela escada. estar cansada e assustada. da América. Sem dúvida. vêm me soltar deste odioso lugar —fechou os olhos e se concentrou. os Montgomery da Escócia. Dougless sabia que devia usar seu talento. me jogaria à rua? Olhou-a: — Meu irmão decide .. imaginando Nicholas vindo até ela. — Nicholas. — Lady Margaret. Deteve-se e a olhou. e Dougless sabia que tinha se esgotado o efeito de doze horas do comprimido para o resfriado. Ouviu-a em seguida. e se me permitir explicar. eu.

parecia que Lady Margaret não via nada de mau nisso.. — Mãe. irritada. Quer retratar tua história? —Lady Margaret a olhou com astúcia. — Agora.. — Não. minha posição.—começou a dizer Nicholas —É uma provocadora. Dougless engoliu saliva. — Desejo uma habitação decente e roupa para que as pessoas não me olhem torto. Farei tudo o que possa para entretê-la —Como Sherezade. que se referia a uma mulher de má reputação. amanhã me cortará a cabeça. e tinha bichos em minha cama. 128 . — Onde vou dormir? — Meu filho te atenderá. Dougless se deu conta de que Lady Margaret estava pensando nisso. Dougless pegou um comprimido da bolsa. traga a Honoria. Dougless tratou de que não lhe tremessem os joelhos. o comprimido -lhe ordenou Lady Margaret. Uma vez. — Quanto demorará isso? — Um mês ou mais. Vão me jogar à rua e arriscar à ira do rei? —Voltou a olhar a Lady Margaret . Vai! Agora! Nicholas olhou outra vez com ira a Dougless e saiu obedientemente da habitação. claro que não. — Cuidado. pelo tom de sua voz. — Não quis ser irrespeitosa. Olha-a —interveio Nicholas.— O que sabe fazer? —. muitas histórias.posso contar histórias.. reclinando-se sobre os travesseiros — Depois podes ir. — Olha quem fala. — Diverte-me —disse Lady Margaret —Pode ficar aos meus cuidados até que um mensageiro seja enviado a Lanconia para avisar teu tio. Pela forma em que a olhava. O rosto de Nicholas ruborizou. desejo que me trate com o respeito devido a. — Não é uma princesa. Se não entretenho esta mulher. mas vacilou. Sim. — Seu filho me prendeu numa odiosa cela.Meu tio será muito generoso com qualquer pessoa que me proteja.. Voltou-se e o olhou. e Dougless viu de onde tinha adquirido Nicholas seus modos arrogantes. não pode.. Você e Arabella Sydney que não tiram as mãos em cima um do outro. pensou para si. — O rei de Lanconia. e desejo também um banho. quando era menina. pensou. e deu um passo até ela..—Posso ser muito útil —agregou Dougless rapidamente —Tenho muitos comprimidos para o resfriado e todo tipo de coisas interessantes em minha bolsa.— Quem é seu tio? Dougless respirou profundamente. O potro. e Dougless soube que estava decidindo seu destino.. Lady Margaret a estudou durante um momento.Lady Margaret tossiu para ocultar seu riso. Lady Margaret a olhou com uma expressão fria e austera. E. tinha visto uma câmara de tortura medieval num museu de cera. Meu tio é o rei de Lanconia —ou será.Dougless interpretou. pensativa. — Nicholas.. senhora —lhe aclarou com suavidade — ganharei minha manutenção. não me divirtas muito. — Ouvi falar desse lugar —disse Lady Margaret. — Isto é o tipo de roupa que se leva em meu país. As correntes.

Honoria. tocando tudo. Dougless a abriu. E. — Há um banheiro por aqui? —Perguntou-lhe.Por trás deles entraram quatro mulheres com baldes de água fervendo.Agora se sentia melhor. Seguiu a Honoria pra fora da habitação. Ao ver a habitação. mas mesmo assim era grande. e muito agradável. Sem voltar-se. Lady Margaret. sabendo que Lady Margaret demoraria em averiguar que não era uma princesa. e dentro tinha um assento de pedra com um buraco. maravilhando-se ante o brilho de tudo. Lhe ensinarei a jogar póquer. — Oh. Duas delas tinham cicatrizes de varíola na cara. O mago de Oz e My Fair Lady. Quando voltou à habitação. — Assim é o que aconteceu com todos os documentos medievais —murmurou. Lhe contarei histórias. abriu a porta e entraram dois homens com uma tina grande e funda de madeira. Levavam saias longas de lã com talhe ajustado e pequenas coifas na cabeça. Ela ficará contigo. Dougless começou a sentir-se mais calma. coçando as costas. mas eram antigos e descoloridos. observou como Honoria tirava a roupa de um baú e a colocava sobre a cama. Na habitação Dougless começou a vistoriar. duas cadeiras talhadas e um baú ao pé da cama. 129 . Lhe contarei. Lhe contarei todas as obras de Shakespeare. Honoria. Tinha uma chaminé de mármore branco. melhor não. a mulher lhe assinalou uma pequena porta. O sol entrava por uma janela que tinha pequenos painéis de vidro com forma de diamantes. Aqui os almofadões eram brilhantes e não estavam desgastados pelo tempo ou o uso. pois a mantinha oculta. como a de Lady Margaret. — O comprimido. não lhe importaria se era uma princesa ou não. — Significa que posso ficar? Oh. Tinha muito mau cheiro. Era a metade do tamanho da senhora. e Lady Margaret a tomou.Depois de um momento. Não. claro —Dougless e a deu..— Agora deixa-me descansar. pensou. um mês era suficiente para fazer o que devia. duros e todos escritos. alguns bancos. — E comida e um banho —agregou Dougless. A mulher não se voltou. Mentir a uma dama se castigaria com a morte ou com tortura? Talvez pudesse entreter bastante bem a Lady Margaret. Dougless não tinha ouvido entrar à outra mulher. — Um reservado? —Explicou-lhe Dougless. Esta habitação não tinha enfeites de ouro e prata. Parecia ser a mesma que estava na habitação na noite anterior. Mesmo tendo inventado para que não a arrojassem à rua. A habitação de Honoria estava ao lado da de Lady Margaret. Ambos tinham pernas fortes e musculosas. Há coisas que se deveriam resgatar da época isabelina. Antigüidades novas. — Honoria! —Chamou Lady Margaret — Leva-a e veste-a. Levavam jaquetas de lã vermelha ajustadas.. pensou. Usou o reservado e saiu rapidamente.Quando a tina estava meio cheia de água quente. não se arrependerá. Mexeu. calções como os de Nicholas e calças negras. Dougless tinha visto alguns exemplos de bordados isabelinos em museus. Honoria te atenderá.. mas ainda não podia ver-lhe a cara. o equivalente a uma privada. Talvez possa recordar algumas letras e melodias —começou a cantar— ‘Could Have Danced All Night’.— Você me servirá. Junto ao assento tinha papéis grossos.. poderia piorar as coisas. talvez também. eu prometo.Apertou sua bolsa e seguiu a Honoria. mas tinha telas bordadas por todos lados. enquanto admirava as pernas dos homens. uma grande cama.

Sua caixa toráxica não podia expandir-se. sustentando-o. — Poderia pegar a minha bolsa. Estava confeccionado com finas bandas de aço flexível.Primeiro uma espécie de anágua longa de linho. Negava-se a fofocar. tinha regressado a tempo.. Honoria parecia não saber o que fazer. com ganchos de aço. mas era como uma versão dura e a mesma espuma que uma pedra.Dougless tomou o sabão que lhe tinham trazido. mas esta ainda parecia confusa. Era uma mulher de rosto comum. e começou a lavar-se. e John Wilfred era tão insignificante que Honoria não sabia quem era. Nicholas ainda não tinha estado na mesa com Arabella. —murmurou. mas não emitia sua opinião. Tirou um sabonete. Honoria lhe deu um corpete.Dougless não estava preparada para a seguinte parte da roupa.. Honoria o deixou no solo junto a ela. A única experiência que tinha com um corpete era ter visto a Mammy apertando os cordões de Scarllet O' Hara no ‘E o vento levou’. Lady Margaret me pediu que você ficasse comigo — Tinha uma voz suave e agradável. então Dougless lhe tomou a mão e a estreitou. viase o óxido através da tela.Dougless começou a tirar a roupa e Honoria se voltou para ela. nem bela nem feia. contemplando como Dougless utilizava o maravilhoso sabão e depois lavava o cabelo. cobertas com seda. — Oi. Honoria a olhou desconcertada. — Aço? —Perguntou Dougless. — Meu Deus —quem teria pensado que a roupa interior era um invento recente — Quando em Roma. mas este corpete era de. ajudou-a a vestirse. por favor? —Perguntou-lhe a Honoria. Então. talvez vinte e um ou vinte e dois anos. A donzela lhe narrava todos os fatos que desejava. — Não vai nada embaixo —lhe disse a donzela. — Seremos parceiras de habitação. e deixou as calcinhas.Honoria parecia confusa.. — Poderia me falar deste lugar? —Perguntou-lhe Dougless — Quem vive aqui? Conta-me coisas sobre Kit e Nicholas. Honoria a ajudou a colocar. Sustentou-se contra uma coluna da cama. com rasgos indescritíveis. e com o cabelo penteado.Quando terminou de banhar-se e de lavar o cabelo. e Dougless observou que era bastante jovem. pois sempre guardava as dos hotéis. — Calcinhas —Dougless tomou suas calcinhas de encaixe rosa de cima do baú onde as tinha deixado Honoria. Honoria já não tentava ocultar sua curiosidade enquanto observava como se lavava. metade molhada. e depois olhou como Dougless o abria. 130 . Tirou facilmente a roupa e entrou na tina enquanto Honoria pegava a roupa moderna e a examinava com cuidado. — Sim. — E a roupa interior? —Perguntou Dougless. e como não era novo.Pelas palavras de Honoria. Já se comprometeu com Lettice? E Arabella Sydney? Honoria se sentou numa cadeira e tratou de responder-lhe às perguntas. sua cintura era bem menor e tinha os peitos achatados. Observando o nailon da bolsa com cuidado. — E pensar que me queixava de que as meias modernas eram incômodas — murmurou. já que só se tinha levado a cabo o compromisso de Nicholas. estendendo a mão para saudá-la. uma vez que esteve metade seca. sou Dougless Montgomery —lhe disse. Honoria lhe deu uma toalha de linho áspera e.. e Dougless pensou que ia desmaiar.

embaixo de uma banda bordada. — De quem é este vestido? 131 .Caminhou lentamente até a janela e regressou.Olhou a Honoria. Pôs os sapatos de couro com sola de cortiça. com a cabeça erguida. Dougless tratou de caminhar. nunca se tinha sentido tão formosa em sua vida.Sobre esta anágua ia outra esta de tafetá verde esmeralda. não caiu. olhando-a estranha por não conhecer essa coisa tão simples. difíceis de levar. Levava pérolas. As roupas eram ridículas. trançado e depois lhe sujeitava as tranças com alfinetes de osso. pôs-lhe ao redor um terceiro cinto de elos de ouro. levava-o para trás. Eram pesadas.Depois Honoria tomou o vestido. estendeu-lhe as pernas e lhe pôs umas meias de lã tecidas a mão até os joelhos e depois as sujeitou com uns bordados. — Sim —afirmou.Levava já uma hora e meia pondo-lhe o vestido e ainda não tinha terminado. Pôs-se as mãos na cintura. chegou até um banco e desabou. Para cobrir a união do pescoço com o vestido. tirando um pouco da blusa branca das mangas. a gola de Nicholas era engomada. de pé. e depois se estreitavam até os pulsos. Tinham faixas de tafetá esmeralda. — Um guardainfante —lhe respondeu Honoria. com um instrumento parecido a um alfinete de chapéu. Honoria lhe pôs uma meia anágua de lã ligeira sobre o laço de arame. com rapidez e eficiência.. e Honoria as colocou por separado sobre as da camisa de linho. No entanto. mas com pérolas em cada união.Agora era o turno das jóias. Há mais? —Perguntou Dougless. e o corpete de aço lhe impedia de respirar. movia-se a seu arredor. enquanto Honoria. — Lady Lettice também é muito bonita —respondeu Honoria. terríveis para seus pulmões. Não era fácil pôr. Dougless sorriu. abotoadas nos braços. O tafetá rangia quando se movia. sorrindo—. Honoria tomou uma gola de linho franzido.Dougless tocou as pérolas. Um cinto com elos de ouro e esmeraldas ia agora na diminuta cintura de Dougless. e uma pérola em cada união. Dougless averiguou que em 1564. Mais tarde. Tato. e a tela era preciosa. o pôs e o abotoou atrás. Dougless começou a alegrar-se. e apesar de que quase não podia respirar e lhe doíam os ombros pelo peso. Na cintura um laço ao estilo Scarlett O'Hara. muito tato. com uma armação de arame que lhe fazia manter a forma de um sino perfeito. com colchetes que pareciam o suficientemente fortes como para manter unidos uns tanques do exército.. Sobre os ombros levava uma rede de cordas de seda. O corpete se abotoava na frente. — Já é bastante pesado. com o pescoço franzido e os punhos bordados em seda negra. O vestido não tinha mangas.Sobre o corpete ia uma volumosa blusa de mangas longas de linho. A donzela a ajudou a sentar-se na borda da cama. Tesa. sujeitas por quadrados dourados enfeitados com uma pérola. com um desenho entrelaçado. Sobre as tranças lhe pôs uma pequena coifa que era como uma rede para o cabelo. e duas correntes de ouro saíam para cada lado. mas que quatro anos antes ninguém conhecia a goma. Praticamente podia abraçá-la. e no entanto. ouro. claro. — Tão bonita como Lettice? —Perguntou Dougless sem pensar. mas levava uns 20 quilos de roupa. Era de brocado com um imenso desenho abstrato de flores em negro. e Dougless voltou a pôr-se.Ajudou Dougless a pôr-se de pé. Ninguém cai quando leva um corpete de aço. No ombro eram grandes e campanados. és muito bonita. esmeraldas. — Pode sentar —lhe disse a donzela. Sentou-se rígida enquanto Honoria lhe penteava o grosso cabelo avermelhado. No meio do corpete levava um broche esmaltado com pérolas ao redor.

com uma parede baixa a seu arredor coroada por um balaústre de pedra. — Tocar? —replicou Dougless. um homem lhe trouxe pão. Agora. era baixa no século XX e baixa na época isabelina. Eu serei a regente de orquestra. coisas como essas. A donzela saiu da habitação e Dougless demorou uns poucos minutos em maquilarse suavemente. Adiante dela. Talvez não podiam aumentar de importância devido a toda atividade que desenvolviam. Tinha gente por todos os lados. literatura.. Confusa e sem graça. — Não ensinam música em vosso país? — Sim. Pareciam também bem mais delgados. Sempre tinha ouvido falar que as pessoas da Idade Média era bem menores que na moderna. que tal eu te ensinar algumas canções e você me ensina a tocar e a cantar? — Mas Lady Margaret. Para a esquerda se via outro jardim de árvores frutíferas e uma estranha colina no centro. 132 . outros calções como Nicholas. tinha um labirinto de cercas-vivas. No centro tinha um pequeno edifício octogonal. e. — Onde fica a habitação de Nicholas? —Perguntou Dougless. Sabes tocar algum instrumento? Cantar? — Certamente. outros de seda. e Dougless entreviu formosas habitações com mulheres alegremente vestidas inclinadas sobre marcos de bordados. — Então. detiveram-se numa sacada de tijolo. — Muito obrigado por emprestar-me. pois não queria parecer uma qualquer. Meninos que subiam e desciam pela escada levando coisas. Dougless observou pela primeira vez um jardim isabelino.— Meu —respondeu com suavidade — Temos quase a mesma altura. mas ao sustentar o brocado com a mão a fazia sentir rica e elegante. olhava com calma ao seu arredor. Mas descobriu que com sua altura. Sobre ela tinha um balaústre de madeira. e o que mais surpreendeu a Dougless foi que eram tão altos como as pessoas do século XX. mas a mim não me deram aulas. — Não se preocupe. Honoria estava assombrada.. Quase toda a gente parecia jovem. Um momento depois. Para a direita. Uma vez fora. outros não. — Lady Margaret deseja que toques para ela esta noite. queijo e vinho e saíram para o horto. olhando as mangas do vestido. Como lhe teria agradado ter um espelho de corpo inteiro! — Tocar o que? Referes-te a tocar um instrumento? Não sei tocar nada. Alguns levavam roupa de lã ou linho. Ouro verdadeiro. portanto. Teve que baixar pela escada com cuidado. Dougless já não estava preocupada que a metessem num calabouço. Honoria regressou com um alaúde. Honoria se afastou. devido às saias longas. e Honoria lhe assinalou uma porta fechada. É muito generoso de tua parte —a beijou na bochecha. Saíram pela parte do fundo da casa. história. uns levavam peles. e alguns homens trajes longos. Honoria sorriu. tinha outro jardim de ervas e plantas. uns tinham jóias. — O que aprende uma mulher em vosso país que não seja costura e música? — Álgebra. — Iremos ao horto. Dougless se aproximou dela e lhe pôs as mãos sobre os ombros. baixando alguns degraus. homens e mulheres correndo de cá para lá. disposto em quadrados perfeitos.

Imediatamente. Agora compreendia por que Nicholas se tinha enfurecido tanto no jardim de Bellwood. Honoria sorriu. Agradaria-lhe seu vestido? Agradaria-lhe ela mais agora do que vestida como as demais mulheres de sua época? Começou a levantar-se. O laço sustentava o peso das saias. Também sabia a canção de Gilligan's ‘Island’. Fez rir Honoria com o título da canção de Hair. da cintura para baixo se sentia livre. e se dirigiam correndo pelo caminho para o vinhedo. — Isto é muito belo. seguramente estaria suja. sempre tinha achado que a contaminação da água era um problema do século XX. muita gente. mas não a cantou. Dougless percebeu que apesar do vestido ser muito ajustado no talhe. A diferença de sua vida cotidiana. Dentro tinha um grande pedaço de pão. Se essa gente tinha acesso a água. mas viu que alguém entrava por trás dele. mas adorava os musicais de Broadway e tinha visto a maioria em vídeo. Que estranho. Viu pelo menos quatro homens e dois meninos rastelando. Dougless se pôs em guarda e seu coração se acelerou. tocando seu alaúde.— O que é isso? —Perguntou Dougless. Dougless se sentia feliz de estar ali sentada. Maldito. mas para manter um jardim assim se requeria os serviços de muita. Tudo estava plantado de forma simétrica e perfeitamente limpo.Honoria se dirigiu pelo caminho de cascalho da borda do horto para um vinhedo. — Ninguém bebe água? — A água é ruim —respondeu Honoria. bebendo o vinho fresco na taça de prata. ainda verdes.Vamos. Esta é o tipo de 133 . No outro extremo do horto. — Um montículo —respondeu Honoria . O queijo era saboroso e fresco. Era uma formosa jovem a quem não conhecia. Dougless se pôs de pé com os punhos apertados. comendo pão e queijo. quando começou a pensar. Nicholas a levava na mão. e o fato de não usar calcinhas lhe provocava a estranha sensação de estar nua. e. como um gato sob o sol. atravessaram um passeio elevado junto a uma parede coberta de rosas. Era mais pesado. e as uvas. Desceram com rapidez por uma escada de tijolos. Não tinha folhas secas. Sabia ‘Could Have Danced Ah Night’ e ‘Get Me to the Church on Time’ de My Fair Lady. Também tinha uma pequena taça de prata. limpando e embelezando o jardim. muito fresco. Honoria abriu uma porta de carvalho e chegaram ao horto.Honoria levantou a mão para que se detivesse. pensou. Era fácil advertir que eram amantes procurando um lugar privado. mas não como o moderno. observando as jóias de seu vestido e de Honoria e olhando como trabalhavam os jardineiros. abriu-se uma pequena porta e viu que entrava Nicholas. mesmo que tinha estranhos buracos na crosta. Não sabia muitas canções. pão branco. — Vai me ensinar agora? Dougless se sentou junto a ela e desembrulhou o pacote que lhe tinha entregado um dos homens. — Tenho que anotar isto —e regressou à casa a procurar papel e pluma. penduravam em abundância. sentou-se num banco frente a uma pereira e colocou o alaúde sobre sua saia. — Ruim? Queres dizer que não se pode beber? —Pensou nas pequenas casas que tinha visto o dia anterior. deu-se conta de que sabia mais do que achava. Dougless passou duas horas encantadoras com Honoria no horto. O horto era adorável e estava perfeitamente cuidado. não sentia urgência de ir a algum lugar ou de fazer alguma outra coisa. Era delicioso. vamos ao horto. Dentro de uma garrafa de couro tinha um vinho de sabor amargo. Nunca tinha visto um jardim tão formoso —comentou Dougless.

tinta e três folhas de papel. e pensando que fazia isso pelo próprio bem de Nicholas. Ainda assim isso não era o caso. Tinha uma olhada sonolenta que lhe tinha observado só depois de fazer-lhe amor.. viu que Nicholas tinha levantado a blusa da mulher e a estava acariciando. — Creio que é melhor você ir embora —lhe disse Dougless tremendo à mulher. Como ia conseguir algo se ele não a escutava? Nem sequer permanecia dez minutos em sua companhia. mas se manteve firme. mas ele parecia não poder deixar de beijá-la. mas levantou os olhos. temos que conversar. — Nicholas! —Exclamou Dougless com sua voz de professora. controlando seu desejo de saltar sobre eles — Nicholas.À sombra do vinhedo. Passou junto a ela com tanta violência que Dougless quase cai contra a parede. não creio que este seja o comportamento de um cavaleiro. atá-lo e explicar-lhe que vinha do futuro e que tinha retrocedido no tempo para salvar-lhe o pescoço. e na sacada da casa viu a cabeça de alguém que se parecia a. —E estou segura de que me acreditará — murmurou. Nicholas caminhou para ela e desta vez não retrocedeu. escrevendo as notas. e ela também o acariciava enquanto se beijavam com entusiasmo. e deixou descer a blusa da mulher. 134 . — Enfeitiçou a minha mãe —lhe disse baixinho —mas a consumindo.coisa pela qual teve tão má reputação no século XX. Tinha que lhe pôr fim a esta aventura pela futura recordação de Nicholas. pensou. Entristecida.O que poderia fazer amarrá-lo com um laço? Muito bem. grandes plumas. — Nicholas. pensou Dougless. A mulher se retirou primeiro e olhou a Dougless surpresa. — É verdade. e se foi a toda pressa. Nicholas olhou a Dougless de cima abaixo. mas Deus não.Sentindo-se uma santa.A expressão de Nicholas se tomou furiosa. — Nicholas. Esta olhou a Dougless e a Nicholas. galanteia todas as mulheres? Honoria se interrompeu e olhou a Dougless. — Não tens que perder o coração por Sir Nicholas. A gente morre. a gente pode fazer que a vida valha a pena ou não —ia continuar. Seu primeiro impulso foi correr por trás deles e arrancar-lhe o cabelo da mulher.Nicholas girou a cabeça para olhá-la. assinalando-a. mas enquanto estamos vivos. literalmente. Sua opinião sobre a educação de Dougless diminuiu mais ainda ao inteirar-se de que não sabia ler nem escrever música.. Uma mulher deveria entregar seu coração só a Deus. dirigiu-se para o vinhedo. que cortou com habilidade. Começou a se afastar de Nicholas. — Olá! —Disse Dougless em voz alta. Se você se interpor outra vez em meu caminho vou te golpear com uma palmeta. — Que é uma palmeta? — Usa-se para tirar o pó da roupa —respondeu Honoria. — Quem é aquela jovem? —Perguntou. Tenho que te explicar quem sou e por que estou aqui. Dougless conteve o fôlego. Pulsou as notas das canções e depois pediu a Dougless que as transcrevesse. Dougless suspirou. Honoria regressou com uma escrivaninha portátil de madeira. Tinha a jaqueta e a camisa aberta. Não era uma casualidade que os livros de história não tivessem nada bom que dizer sobre ele. mas isso não mudava que ela fosse a mulher que amava. Advertiu que todos os jardineiros tinham deixado de trabalhar e a observavam. viu como se afastava pelo caminho e depois se metia pela porta da parede. e a fúria de seu rosto quase a fez retroceder. Talvez Nicholas não recordava...

CAPÍTULO 14 Aquela noite. Christopher morre. Kit se casaria com Lettice? Honoria estava surpreendida pelo uso dos nomes cristãos que fazia Dougless. ruborizada. parecia-se com Glória. Todos na casa tinham uma linhagem concreta. Entre o corpete de aço e a atividade constante. segundo lhe explicou Honoria. É uma menina enferma. Olhou para a sacada e viu que a herdeira francesa gorda e enferma voltava a entrar na casa — Sir Nicholas se converteria no conde —repetiu pensativa. se a menina morresse. nem que as mulheres tivessem cinturas diminutas. — Então. Lady Lettice é um bom partido para ele. Lady Lettice não está à altura de sua classe. Não herda as propriedades nem os títulos. Não viu que Nicholas os observava e franzia o cenho. era o mordomo. Dougless tinha lido que nas casas victorianas os serventes trabalhavam desde muito cedo até muito tarde. Não lhe estranhava as poucas pessoas gordas que tinha visto. Honoria e outras quatro mulheres. Nicholas seria o conde. e Christopher está comprometido com uma menina. estava exausta. a sua vez. — Sir Nicholas é um irmão menor. tão gorda e petulante como ela. cerveja amarga e coelho frito. e deixou de escrever as notas. Na capela viu pela primeira vez Christopher. o peso não tinha possibilidade de estabelecer-se no corpo de uma pessoa. tinham serventes. verdade? — Sim —respondeu Honoria. daquela distância. No jantar. couro. Irradiava uma força pacífica que atraía Dougless. explicando assim os buracos do pão de Dougless. Parecia-se a Nicholas. Ele a olhou com tanto interesse que Dougless afastou os olhos.A menina.— Vai se casar com Lorde Christopher quando tiver a idade. Dougless não podia concentrar seus olhos e seus ouvidos na cerimônia por olhar os trajes dos homens e mulheres que a rodeavam: seda. E também tinham horas determinadas para suas tarefas. digamos. Diga-me. Se viver. cortou pedaços da crosta de uma fogaza de pão e se serviu. As outras mulheres eram as damas de honra de Lady Margaret. e as damas lhe 135 . No entanto. — Mas Nicholas sim. peles e jóias. — Lorde Christopher herdará um condado e está aparentado com a rainha. Honoria e ela saíram do jardim e assistiram à missa vespertina na capela do térreo da casa. Ouviram um sacerdote luxuosamente elegante celebrar a missa em latim e estiveram bastante tempo ajoelhadas. quando Dougless se deitou junto a Honoria. mas Honoria lhe explicou que na casa dos Stafford tinha tantos serventes que nenhum trabalhava mais de seis horas. Dougless jantou no salão de audiências com Lady Margaret. e os serventes tinham serventes que. Dougless foi apresentada. brocado. Dougless recordou que Lee lhe explicou que o irmão maior de Nicholas ia casar com uma herdeira francesa e por isso recusou a proposição matrimonial de Lettice. — Mas se Lettice se casa com Nicholas e. Nicholas vai casar com Lettice. mas mais longínqua. Um homem. Seu país devia de ser muito diferente. seu dote não é muito grande. que.Depois da missa. ainda que não era tão jovem nem tão bem apessoado. O menu consistiu em sopa de verduras. Ela também é parente da rainha.

136 . Como não tinha televisão e ninguém tinha visto uma atuação profissional. Era muito parecido a Nicholas. pôs a mão sobre ela. — Nicholas! —Exclamou. e não ouviu a ninguém. um alaúde enorme. Foi uma tarde cheia de risos. Começou a caminhar para a direita. Abriu uma porta e não se surpreendeu ao ver Nicholas sentado numa cadeira. Parecia que tinha estado bebendo. Dougless respirou várias vezes profundamente e. Num instante. saiu da habitação e depois ficou escutando depois da porta fechada. Olhando as costas de Honoria. ela lhe sorriu e depois se retirou com Honoria. Kit lhe beijou a mão. Dougless se sentiu atraída pelo Kit. todos estavam cantando a divertida canção. meteu-se na cama. Todos pareciam saber tocar um instrumento e em seguida Lady Margaret e suas cinco damas estavam interpretando as melodias em instrumentos de estranhas formas e sons. mas o colchão era de plumas de ganso e suave como um suspiro. podia ouvir qualquer pisada. os assistentes não tiveram vergonha em cantar ou dançar. Depois do jantar. mas não sentiu nada. observando com uma olhada furiosa. Levantou a cabeça. que não levava merinaque. mas os sapatos eram divinos. Ele não a olhou. sentando-se. e depois introduziu os pés nos sapatos amplos e fofos.Quando acordou. continuando com a mentira. Sentiu como se alguém a chamasse. não sabia quanto tempo tinha dormido. veio para ajudar a se trocar às duas mulheres. pois sentia o chamamento mais forte nessa direção. Honoria lhe ensinou ‘They Call the Wind Mariah’ e ele a tocou no alaúde. Num determinado momento. Não tinha nenhum ruído. — O que desejas de mim? —Perguntou-lhe. O fogo estava aceso na lareira. Dougless nunca antes tinha cantado em voz alta. Tinha uma viola com forma de violino. ao Nicholas que conheceu no século XX. os calções com forma de balão e uma ampla camisa de linho aberta até a cintura. só observava o fogo. Os corpetes isabelinos eram a morte. Cantou ‘Get Me to the Church on Time’ e Kit captou em seguida a melodia. mas antes que terminasse a vela. Dougless se deslizou fora da cama. Uma servente. Mas a sensação de que alguém a precisava não desapareceu.Christopher se uniu a eles. Não se parecia nem remotamente ao homem que tinha conhecido. Acercou-se a uma porta fechada. um violino de três cordas. com suas calças ajustadas. Os lençóis eram de linho e não estavam muito limpas. negou-se a entrar. Sentiu o chamamento na terceira. e como os andares eram de palha. murmurou uma resposta e depois lhes perguntou sobre seus vestidos. cantou sozinha. Estava bastante preocupada por este Nicholas. Silenciosamente. a donzela de Honoria. Deram-lhe uma informação fascinante sobre o estilo de roupa espanhol. não a este do século XVI que ia de mulher em mulher. mas não podia livrar-se da sensação de que alguém a precisava. Dormiu antes de tampar-se com o cobertor. francesa e italiana. O mesmo na segunda. Ela. vários tipos de flautas e dois chifres. os serventes limparam a mesa e Lady Margaret solicitou ouvir as canções de Dougless. A habitação estava em silêncio. um piano diminuto. Quando Lady Margaret o chamou.perguntaram sobre Lanconia e seu tio o rei. e ele tinha uma jarra de prata na mão. e a moda inglesa. Nos pés tinha uma pesada bata de brocado e a pôs. porque sabia que era horrível comparada com os cantores dos discos e da rádio. Dougless se interessou tanto nisto que começou a desenhar-se em sua imaginação num vestido de estilo italiano. viu Nicholas de pé na porta. Eram as nove quando Lady Margaret comentou que era hora de retirar-se. com a roupa interior longa de linho que tinha levado embaixo do vestido e uma pequena toca para proteger o cabelo.

. enquanto Nicholas introduzia a mão embaixo da bata e lhe desatava a gola da camisola. — Veio a mim esta noite. Dougless se sentou junto a ele frente ao fogo. e você apareceu. diga o que desejas e poderei ir. mas ele não a soltou.. 137 . Deitou-se ao seu lado. Se é que podes manter tuas mãos afastadas da blusa de alguma mulher. Abraçou-o e o beijou. tudo vai suceder de qualquer maneira. — Qual é o nome do Deus que você adora? Dougless mal o escutava enquanto ele deslizava uma perna sobre as suas. — quase disse amor. e Dougless fechou os olhos. não posso explicá-lo. — Colin. Jehová. Fiz o que fiz para entrar em tua casa e prevenir-te —se pôs de pé. Agora parece que é meu momento. — Não tens que ser tão cínico. e o empurrou com todas suas forças. estou muito cansada e quero voltar à cama. Já que vim até aqui.. Disse-te mil vezes. tomou-a em seus braços e a levou à cama. sorrindo. vens da cama de meu irmão? Dougless não pensou no que fazia e o esbofeteou. como se chama? — Que homem adora esse deus? Dougless começava a escutá-lo. o lóbulo. — Você que usa sua bruxaria para confundir a minha mãe. mas se não me escutar. Fui enviada para prevenir-te. Dougless viu como seu rosto ruborizava de fúria. o homem de quem nem sequer o tempo podia separá-la. e este homem lhe parecia um estranho. Abriu os olhos. — Homem? Deus? Do que você está falando? Nicholas lhe acariciou os seios. Este era Nicholas. Alá. perguntou-lhe: — Quem te enviou? — Mmm —murmurou Dougless — Suponho que Deus. Beijou-lhe a orelha. Em certo modo aquilo parecia muito longínquo. Vim te prevenir. e tratou de acalmar-se —Nicholas.A Dougless não lhe agradava que um homem utilizasse a força para beijá-la.— Nicholas. — Podes ver tudo o que desejas de mim —lhe respondeu ele. Achei que não voltaria a ver-te —sussurrou. pelo menos poderia me escutar. sim. Kit. Dougless lhe tocou o cabelo das têmporas e lhe acariciou as bochechas. enquanto lhe acariciava os peitos. e depois deslizou a língua pelo pescoço. Precisava de você e você ouviu meu chamamento. Com uma mão lhe sustentava a cabeça e com a outra lhe apertava o corpo contra o seu. meu amado Colin —murmurou Dougless. Olhou-a. surpreso. Disse-me. — Achei que tinha te perdido. te atreves a falar-me assim? — Não sou uma bruxa. Nicholas a apertou contra ele. o Nicholas que tinha vindo amar. Eu chorei pedindo ajuda.. — Prevenir-me? Ah. assim se não se importa. Ele afastou sua cara dela. — Quem é você? —Perguntou com suavidade — De onde te conheço? — Estamos unidos de alguma maneira. temos que deixar de discutir. Dougless não lutou mais com ele. Ele se pôs de pé e a interrompeu. Nicholas lhe beijou o pescoço. empurrando-a com o corpo para trás enquanto a beijava com paixão.Acariciando-lhe os mamilos e respirando em seu ouvido. que te exibes diante de meu irmão. — Deus. As pernas lhe tremiam. Não devo cometer uma traição.

Afastou-se dele. porque provavelmente desapareceria. Espero que assim seja.— Que homem te enviou a minha casa? Começava a compreender. saberei que você o provocou. do século XX. Saiu da cama e o observou. Quando nos conhecemos. — Estavas reunindo um exército para proteger tuas terras de Gales. 138 . tratando de controlar sua fúria —Esta é a forma em que obténs o que deseja das mulheres. Agarrou a maçaneta. — Não posso casar-me contigo. sentou-se e fechou a camisola e a bata. E agora crês que não sou boa e decidiste seduzir-me. provavelmente vou desaparecer. enquanto se incorporava e tomava a jarra. mas ele fechou a porta e não a deixou sair. Se meu irmão tiver uma só dor. — Agora compreendo por que minha mãe quer que a entretenha. O rosto de Nicholas mudou sua expressão de surpresa para ira. e pagarás. Também não posso ir à cama contigo. E a você tudo o que te importa é o número de mulheres com as que podem se deitar. Conta-me mais. — Te vigiarei. e isso é tudo. e estavas sentado numa prisão esperando que te executassem por traição.— Escuta-me. Pôs-se de pé e avançou para ela. e Robert Sydney e tua amada Lettice lhe tinham mentido à rainha. Nicholas Stafford. e você não solicitou permissão à rainha para fazê-lo. vou te dizer quem me enviou e por que estou aqui. não desejo casar-me contigo. e você foi para lá. Era um libertino. mas Dougless levantou a mão. era inocente. surpreso. Alguém lhe disse que estavas planejando apoderar-se do trono. — Não cometeu. Por que me incomodo em tentar salvá-lo? Deixemos que os livros de história afirmem que era um libertino. Nicholas pestanejou. — Muito bem. O Nicholas que conheci era um homem que se preocupava com a honra e a justiça. Passamos vários dias inesquecíveis. Nicholas se acomodou na cama sem se incomodar por seu comportamento volúvel. — Deixa-me dizer-te algo. Espero não voltar a ver-te. Nicholas se sentou e a olhou. não é verdade? Em Thornwyck tudo o que tiveste que fazer foi beijar-me o braço e eu cedi a tudo o que desejavas. — Entrou nesta casa para ameaçar a vida de meu irmão? Pensas lançar teus feitiços sobre mim para fazer o mesmo que você e me case contigo e te converta em condessa? Não te deténs ante nada? Sujas o nome de minha noiva e meu primo para obter teus desejos? Dougless retrocedeu. — Oh — replicou. Que traição cometi? Dougless apertou os punhos. não és o homem que eu pensava. — Venho do futuro. — Já percebi —lhe disse. temerosa. Agora que dei.— Eram tuas terras e teu exército porque Kit tinha morrido. Dougless estava tão indignada por sua atitude que desejava retirar-se da habitação. caçoando — A cometerei. aqui era setembro de mil quinhentos sessenta e quatro. Respirou profundamente. — Diga-me quem mentiu à rainha sobre essas terras que não me pertencem e o exército que não possuo. e ademais. Dougless se ergueu mais. Regressei para darte uma mensagem. surpreso. Nicholas começou a falar.

Esta coisa extraordinária e incrível de transportar duas pessoas através do tempo lhe tinha sucedido a Nicholas e a ela. que se encontravam num baú aos pés da cama. quando abriu a porta e entrou uma servente. lhe teria salvado a vida de Nicholas. Nicholas retrocedeu. erras-te de homem. com grande experiência. Os cristais com forma de diamante eram muito grossos para poder ver através deles. Agora. Estava permitindo que suas emoções se interpusessem no que tinha que fazer. nem sequer era o mesmo homem que tinha conhecido e amado. Pensou que tinha perdido Nicholas quando regressou ao século XVI. era para salvar uma vida e fortuna. Uma vez mais. mas a Dougless não lhe importava ver o que tinha. Correu as cortinas da cama. tratava com o que pareciam ser centenas de serventes: maestros de cerimônias. alabardeiros dos criados. e os sacudiu. tomou os vestidos de Dougless e Honoria. senão que se dirigiu ao salão de audiências e se sentou junto à janela. Quando Nicholas regressou.— Deixei minha boneca de vodu no avião. pensou. Agora. Conquanto não era um homem com um pé no cárcere. Fez-lhe a Honoria milhares de perguntas. estava-a beijando. Quantas vezes ia perder o homem que amava? Este Nicholas que a tinha beijado era o que tinha ido a ela no século XX? Apesar do aspecto. Num momento. e tinha que fazer sem permitir que seus mesquinhos sentimentos se interpusessem em seu caminho. — Te compreendi perfeitamente. tomar café da manhã com carne. com a cabeça erguida. Tinha um trabalho para fazer. Tinha que assistir uma missa e depois ocupar-se dos serventes. tinham-no executado porque não tinham suficiente informação. abre a porta e deixa-me sair daqui. verdade? Agora. me deixas sair. mas não tenho nada que temer. secou as lágrimas e deixou de compadecer-se.Quase ao amanhecer. Honoria lhe explicou que estes eram só os encarregados da casa e que cada um deles tinha 139 . acompanhou a Honoria nas atividades enquanto esta ajudava a Lady Margaret a organizar a grande residência. cuspindo numa preciosa bacia de cobre. Agora tinha uma segunda oportunidade e estava repetindo os mesmos erros. como Lady Margaret atendia cada problema e escutava cada queixa. Nicholas a amaldiçoava por ser uma bruxa. Rapidamente. Se tivesse passado mais tempo pesquisando e fazendo perguntas. Comportava-se como uma estudante zelosa porque um homem adulto namorava com uma mulher num vinhedo.Regressou ao dormitório de Honoria e se deitou junto a ela. mas essa sensação não era tão contundente como a de agora. Dougless pensava que a tivessem obtido se ela não tivesse desperdiçado o tempo tendo ciúmes de Arabella. Pôs-se de pé. saiu. alabardeiros de audiências. já que não sou uma bruxa. Honoria começou a limpar os dentes com um pano de linho e com um sabão que Dougless não quis pôr na boca.Não regressou ao dormitório de Honoria. e ao seguinte. Observou. No dia seguinte começaria a pensar como impedir a traição de Lettice Culpin. mulher. e Dougless. corria por trás de todas as mulheres que se encontravam ao seu arredor. enquanto Lady Margaret. Dougless se encontrou atrasada no alvoroço do dia: vestir-se outra vez com o melhor vestido de Honoria. surpresa. abriu os postigos das janelas. ou terei que gritar? — Tem cuidado. assim que lhe prestou uma escova e pasta dental e limparam os dentes. Depois de tomar café da manhã na habitação. Mal tinha fechado os olhos. e ela tudo o que fazia era pensar se ele a seguia amando ou não. Percorreu todo o corredor que conduzia à habitação que compartilhava com Honoria antes de começar a chorar. não pareciam ter nada em comum. cerveja e pão.

assomava uma mulher de aspecto severo. e os serventes lavavam as taças antes de servi-los. carneiro e carne de vaca salgada. robalo. de cabelo escuro. O primeiro prato de carnes trouxeram em enormes bandejas de prata: carne de vaca assada. perdiz. pescada. conversando com uma mulher alta. para cada pessoa. — Muitos mais.‘Não mencionam em teus livros de história que eu era garçom de meu irmão?’. O vinho. estava agradecida de que o corpete lhe impedisse arrebentar.—tinha-se preocupado tanto com Nicholas que não tinha pensado em seu trabalho — A valsa. etc. que quando menina dobrava mal o guardanapo. Honoria e as demais damas ao salão de inverno.. cenouras e espinafres. com uma toalha de mesa de linho branco e.Dougless lhe sorriu. os pratos eram de ouro. Dougless não podia crer o que via. bezerra. Não tinha dúvidas a respeito da linhagem. Depois de uma manhã esgotante. mas era muito elegante. mais três lugares longe. É o baile nacional de meu país. onze dos serventes foram despedidos e Dougless seguiu Lady Margaret. Olhou para outro lado. faisão e codorna.Desta vez. Kit lhe sorriu. Recordou que lhe tinha perguntado Nicholas. senão alface cozida e inclusive brotos de violeta cozidos. uma bacia e uma toalha para que cada convidado lavasse as mãos. fica bem. mas a menina a observou séria e a mulher a olhou como se tivesse ameaçado seu cargo. de peltre e. serviram as sobremesas. Não as que ela conhecia. queijos macios e duros e morangos frescos. e Dougless lhe devolveu o sorriso cálidamente. Depois da comida trouxeram de novo a jarra com água. pepinos. uma colher e um grande guardanapo. Não levantavam-se.muitos serventes a seu cargo. ao final. já que tinham comido com as colheres e as mãos. frango com alho poros. Junto a ela. Depois o pescado e o marisco: linguado. depois de três horas. Sua concentração se viu interrompida quando um servente trouxe uma jarra. A Dougless não lhe pareceram tão bons como o demais.. com o cenho franzido. e que Lady Margaret tratava pessoalmente com os serventes da casa. frente a Kit. Por último. 140 . mas é Sir Nicholas quem trata com eles.Cada prato se servia com um molho diferente. amêndoa e todas as frutas imagináveis.. serviram-no em magníficas taças de cristal veneziano. — Que entretenimento tens planejado para esta noite? —Perguntou-lhe.Dougless se alegrou ao ver que Honoria a conduzia para um prato de prata. Tinha uma grande mesa formosamente posta. mas parecia não lhe importar. — Ah. pois estavam desfeitos. todas muito temperadas e deliciosas. Depois das verduras vieram as saladas. Tinha cadeiras por trás dos pratos de ouro. capão fervido.O seguinte prato eram as aves: peru. — Há mais serventes? —Perguntou Dougless. Ninguém falava com ela..Quando Dougless estava já tão cheia que sentia desejos de dormir toda à tarde. e bancos e banquetas para os demais convidados. No centro da mesa os pratos eram de. E uma comida como essa merecia uma cerimônia. Viu que Nicholas estava sentado do outro lado da mesa. Quando chegou a comida. caranguejo. Os seguintes eram de prata. o grupo se separou e Dougless se dirigiu à habitação de Honoria e se arrojou sobre a cama. que se mantinha frio em recipientes de cobre com água fria. lagosta. que não era formosa. A Dougless lhe resultava estranho ver às mulheres sem maquiagem. ervilhas. de madeira.Com cada prato tinha um vinho diferente. Dougless observou que tinham preparado com muito esmero. mas claro que se preocupavam com sua pele. Ao outro lado de Nicholas estava a herdeira francesa que ia casar-se com Kit. lavavam-se a cara e saíam. Tortas e docinhos de marmelo. A menina calada. um prato grande.Depois vieram as verduras: nabos.

— Estou morta. Lady Margaret e seus acompanhantes saudaram aos aldeanos. Pela dor nas costas que tinha. — Não têm cavalos em Lanconia? —Perguntou-lhe um dos homens. O pior não era o que via ou cheirava. A limpeza não fazia parte da vida dos aldeanos.Os aldeanos saíam de suas casas. na qual lhe custava manter-se. — Cavalos sim. Quando pensou em tudo isso. deixavam de trabalhar nos campos e contemplavam a procissão de pessoas formosamente vestida em seus cavalos. Os desperdícios da cozinha e os excrementos se arrojavam adiante das pequenas e escuras casas. Dougless descobriu em seguida que os isabelinos trabalhavam tanto como comiam. Dougless contemplou a formosa vista. começou a ter menos medo e pôde olhar ao seu arredor. pensou Dougless. e Dougless se dirigiu até o lugar onde Honoria estava sentada num pano. porque utilizava ambas mãos para sustentar-se. e depois através de um formoso jardim. Somos estrelas de rock. Perguntou-lhe a Honoria por que Nicholas se referia a Robert Sydney como a seu primo. bócio e chagas no rosto. Tinham marcas de varíola. tratando de não pensar em seu encontro com Nicholas à noite anterior. — É uma mulher muito forte. e estes lhes devolveram a saudação. Permaneceram em silêncio um momento. Honoria riu dela. ou de Beverly Hills a Calcutá. senão que a maioria das doenças poderiam curar-se com remédios modernos. suas cinco damas e quatro homens com espadas e adagas começaram a cavalgar a toda pressa. porque a essa idade tinha sofrido uma operação urgente de apêndice. Um dos lacaios a ajudou a desmontar. E pensar que esperei que Nicholas se conformasse com um sandwiche para o almoço. Em várias ocasiões viu pessoas aleijadas e mutiladas. e também saudou. olhou a essa gente de maneira diferente. Viu que tinha muito pouca gente com mais de trinta anos e pensou se tivesse nascido no século XVI não teria vivido mais de dez anos. sobre a erva úmida. Que 141 . Assim que Nicholas e Robert Sydney eram muito amigos. Com a mão sobre o ventre. Talvez nem sequer tivesse nascido. pareceu-lhe que tinham cavalgado durante horas antes de deter-se numa pequena e bela campina que dominava um campo cheio de ovelhas que pastavam. Sentiu desejos de vomitar. e depois Lady Margaret. e os que tinham eram negros. — Tanto como do sarampo e de um resfriado colossal —respondeu Dougless— Vejo que Lady Margaret já se curou do resfriado. Não poderei voltar a caminhar. Ir da formosa casa dos Stafford à campina inglesa era como ir de um castelo a um bairro baixo. Eram sobreviventes. Depois de uma hora. já que o fez em posição investida e sua mãe sofreu uma hemorragia. Não era estranho que não cresse nada mau sobre ele. A Dougless lhe resultava muito difícil atingí-los e sabia que seus primos de Colorado não se sentiriam muito orgulhosos dela. até chegar aos estábulos.Dougless suspirou. E ninguém que tivesse mais de dez anos parecia ter todos os dentes. — Já percebi. E as doenças! Dougless os observou ao passar. — Desfrutastes do passeio? —Perguntou-lhe a donzela. As pessoas estavam muito sujas e suas roupas eram ordinárias e estavam impregnadas de gordura. Ajudaram-na a montar sobre um cavalo com uma cadeira de amazona. Os animais e as pessoas viviam nos mesmos lugares e com o mesmo nível sanitário. — Agora devemos atender Lady Margaret. cadeiras de amazona não —lhe respondeu. estrelas de cinema e Lady Diana tudo em um. — Porque são muito amigos. seguiu a Honoria ao térreo.

subiu pela escada. Vou te acompanhar com um lacaio. 142 . Dougless perguntou: — Quem era a mulher de cabelo negro que estava sentada junto a Nicholas hoje no jantar? — Lady Arabella Sydney. saltou da cadeira. Uma das mulheres. — O conhece? Você se interessa? — Não.Mastigando. tossiu e cuspiu alguns pedaços de bolacha. Quando chegou a casa. Atirou com violência as rédeas para esquivar de um menino que cruzava o caminho. e entre elas a de Kit. — Lady Arabella? Faz muito tempo que está aqui? Quando chegou? Quando irá? Honoria sorriu. — Ótimo.amizade. serviu pequenas bolachas de amêndoas.. não o conheço e não me interessa. e vieram despedir-se de Lady Margaret. que era servente de Lady Margaret.Deteve-se e contemplou a escada. — Mas. Se Nicholas ainda não tinha estado com Arabella sobre a mesa e no dia seguinte ela ia embora. Tenho que regressar à casa.Dougless teve que saltar duas vezes. e este planejou a execução de seu amigo. Honoria se pôs de pé e se dirigiu para Lady Margaret. Nicholas deu um amasso numa mesa com a esposa de Robert. Honoria parecia surpresa. esforçando-se por manter-se a sua altura. Mas não perdeu tempo.. e alguns minutos depois regressou. correu pelo caminho empedrado. — Temos permissão. — Chegou ontem pela tarde e vai amanhã mesmo embora. Dougless pensou com rapidez. cruzou a sacada e entrou pela porta principal. — Que sucede? —Perguntou-lhe Honoria.Tivesse passado a perna acima da cadeira. pensou. Vamos rápido. Não regressarão até dentro de alguns anos. Honoria ficou confusa ao ver Dougless correr para os cavalos. inclinou-se com as mãos no estômago e começou a queixar-se. — Robert Sydney é um traidor —murmurou Dougless. Correu para ele. — Sabe onde há uma mesa de dois metros de comprimento e por um de largura? Os pés têm forma de espiral. e o cabelo lhe caía até os ombros. — Algo que comi. — Tenho que regressar à casa. — Temos muitas mesas assim. Tinha que o impedir!De repente. mas só tinha estribo de um lado. Viajará a França com seu esposo. preocupada. Passou entre vários gansos. Tomou um pequeno chicote e golpeou os flancos ao cavalo. Tinha o rosto sudoroso. Por trás dela vinham o lacaio e Honoria. Onde? Onde estava Nicholas? Arabella? A mesa?A sua esquerda se ouviam vozes. uma sobre a impressão de uma carroça e outra sobre um pequeno carrinho de mão de madeira. Dougless se afogou. Kit sorriu ante a urgência de seu tom. a coifa um pouco desprendida. que gritaram ruidosamente. Quando um lacaio a ajudou a montar. tropeçou com as pesadas saias e caiu para frente. abriu a porta. então este devia de ser o dia. Inclinou-se para diante e se sustentou enquanto o animal galopava pelo caminho sujo e cheio de sulcos. não parecia nada enferma.

Dougless o empurrou e entrou. Estes dois espiões teriam visto tudo o que estavas a ponto de fazer. ias levar Arabella à mesa. Olhou-o séria e se dirigiu para a porta.. Ali. mas o corpete lhe oprimia o peito — Está numa habitação que Nicholas usa. escondidos entre as estantes. — Se souberem uma só palavra disto. 143 . o qual não era nada novo. — Salvei-te a vida. — Por isto queria que me abrisses a porta —lhe explicou.. E sentada numa cadeira. e Dougless compreendeu que um armário na Inglaterra isabelina não era um lugar para pendurar roupa. Tentava respirar. Nicholas e Arabella a observavam boquiabertos.Não pôde sair. pensou Dougless. Sabia que. a compreenderam. Arabella teve um filho teu e Robert Sydney a castigou. e se voltou para Arabella.—começou a dizer Nicholas. fora daqui. Dougless o ignorou. John Wilfred escreveu a história. porque Nicholas lhe fechou a porta na cara. e começou a protestar. Ali. tratando de parecer inocente. e este sorriu. — Armário? —Perguntou Kit. Os serventes contaram a todo mundo.. contra a parede. Dougless não escutou o resto. porque já o fizeste. mas depois pensou no caráter de seu esposo e saiu a toda pressa da habitação. — Nicholas! Se estás aí. mas a porta intermédia também estava fechada. sem dizer nada. — Me espionas? —Perguntou-lhe. Nicholas abriu a porta com uma adaga na mão.. e junto a ele tinha uma porta. tratando de manter a calma. assombrado. saberemos quem foi. — Minha mãe passa bem? —Perguntou-lhe. — Você. e há um armário. porque vosso esposo se teria inteirado disto. cruzou-a a toda velocidade. Arabella não estava acostumada que lhe falassem assim.. Respirou profundamente. um lugar que podem esconder-se duas pessoas. — A habitação contígua ao dormitório de Nicholas tem uma mesa assim. Tratou de abrí-la. mas sem conseguí-lo.Golpeou a porta com as palmas abertas. Era quatrocentos anos mais nova. Correu para sua habitação.. mas estava fechada. Nicholas! Nicholas! —Gritou.. já que não a tinha olhado de outra maneira desde que chegou. posso ir? Viu a fúria e a confusão no rosto de Nicholas e sentiu lástima por ele. — Agora. tinha dois serventes. ou melhor. segurou a saia e subiu pela escada correndo. Você se diverte observando o que faço com outras mulheres? Conta até dez. Creio que seria melhor que você ir embora.. estava a mesa que tinha visto na biblioteca dos Harewood. Saíram com a rapidez de um rato. estava Lady Arabella. até 20. mas era a mesma mesa. — Não me divirto observando como se comporta como um tonto com as mulheres —lhe respondeu com calma — Já te disse por que estou aqui. Dougless se voltou para Nicholas e viu a fúria de sua expressão. deixa-me entrar. Mas Dougless o interrompeu ao abrir uma pequena porta que se encontrava à esquerda da janela.— Esta é especial —lhe explicou.Dougless olhou os dois serventes. —Começou a dizer Nicholas. ainda. O dormitório de Nicholas estava localizado para a direita. Ele costuma. Agora. Me compreende? Apesar da estranha forma de falar de Dougless. — Você.Um homem maior que se encontrava por trás de Kit lhe sussurrou algo.

Nicholas a olhou. Talvez posso evitar a morte de Kit. Viu uma moça num lago e foi atrás dela. beijar. ultimamente as pessoas do castelo falava de umas pessoas chamadas Scarllet e Rhett. Quando vieste a mim. — Quando veio a mim eu também não te acreditava. Agora deixame sair. esta Dougless que o enfurecia.Sua olhada a fez deter-se. inclusive a forma em que se pintavam a cara afetava a todos. Lettice tinha traços mais perfeitos. venho do futuro e me enviaram para evitar que sucedam algumas coisas terríveis. Disseste que Kit te mostrou a porta uma semana antes de morrer —não lhe agradava pensar na morte de Kit. pensou. Ele a observava com hostilidade. levaste-me A Bellwood e me mostrou uma porta secreta que escondia uma pequena caixa de marfim. Lettice. és menos homem do que teu irmão. Desde o primeiro momento em que a viu. Nicholas não se moveu. tinha algo que não podia respirar. Suas canções. Agradava-lhe dominar às mulheres. Disse-me que estavas praticando com a espada e que cortaste o braço. sua inteligente e sábia mãe tinha tomado uma medicina de sua mão com a inocência de uma criança. Nunca tinha visto uma mulher tão linda. e vou fazer tudo o que possa.Mas ao contemplá-la. compreendeu que resistir não seria fácil. Era uma bruxa. Não és o homem que conheci. porque Kit lhe tinha mostrado a porta escondida em Bellwood a semana passada. — Idiota vaidoso! Não me importa com quantas mulheres se deite. eu também não podia crer. Era uma feiticeira e pouco a pouco estava enfeitiçando a todos. tinha perturbado tudo. as histórias que contava. Nenhum dos diferentes proprietários do castelo tinha encontrado a porta. Enviaram-me para corrigir um erro. — Que conseqüências podem ter algumas histórias e canções? —Disse-lhe. suas danças. Contou-me coisas que não estavam nos livros de história. Nicholas. Isso é tudo o que sei —além de que Lettice podia ser a responsável.Ele era a única pessoa que tentava resistir-se. Ia resistir-se. Não podes entender isso? Sou uma pessoa comum que está envolvida em estranhas circunstâncias —se voltou para ele — Não sei tudo o que sucedeu quando Kit morreu. Finalmente. seu irmão riu. Nos poucos dias que estava em casa dos Stafford. mas não tinha intenção de cair tão facilmente sob seu feitiço como os demais. sem importar o difícil que resultasse.. foi como se tivesse algum poder secreto sobre ele. mas. Kit a observava com a intensidade de uma ave de rapina. — Acusas a uma mulher inocente? Ou está zelosa de todas as mulheres que toco? A promessa de controlar suas emoções desapareceu pela janela. Quando tratou de falar com Kit sobre o poder que a mulher estava ganhando. Afogou-se. Não sabia o que desejava a mulher. sentí-las contra seu 144 . Sua mãe. Que lhe tinha feito ao seu irmão para persuadí-lo que lhe contasse o segredo dessa porta que só deviam conhecer os membros da família? O que ela estava fazendo a sua família e a sua casa? O dia anterior tinha ouvido um homem nos estábulos cantando uma canção chamada ‘Zippity Doo Dah’. — Não sou uma bruxa. mas esta mulher. sem importar-me com seus esforços para impedir-me. por isso não pudeste acompanhá-lo a cavalgar. Isso não significa nada para mim. salvar as propriedades dos Stafford e ninguém tratará de que deixes de ser um sátiro. mas mesmo assim não acreditava. Na verdade. O cabelo lhe chegava aos ombros e tinha a pequena coifa de pérolas na mão. mas não o disse..— Sei que o que te estou dizendo é impossível de crer. Três das damas de sua mãe agora pintavam as pestanas e diziam que ‘Lady’ Dougless lhes tinha ensinado.

e não podes ir até que Kit esteja a salvo e se descubra a traição de Lettice. Em três ocasiões.Sydney se voltou. regressará. Perto dela tinha um homem que supôs que era seu esposo. Atuava como se tudo fosse novo para ela. deixando Dougless só e com uma sensação de abandono. — Não me enfeitiçará como a minha família —lhe disse. Se o tocar. mostra-me o caminho. Mas tinha algo estranho nela. É uma coincidência. eu te vigiarei. Quanto a sua história sobre o passado e o futuro. mulher. Agradava-lhe o desafio de conquistar uma mulher difícil. não fez mais que a escutar. — Por favor. o homem com quem uma vez tinha pensado em casar-se. esteve a ponto de ir vê-la. mas a Lady Margaret lhe agradavam suas canções estranhas e sua forma tão rara de falar. Nunca antes tinha se preocupado com as lágrimas das mulheres. mostra-me como devo ajudar a Nicholas.corpo. Não tinha intenção de permitir-lhe saber que tinha poder sobre ele. mas se conteve. que nunca choravam. quando não faz o que desejam.Nicholas a olhou. Mas a noite anterior. Dougless viu o anseio em sua olhada. esta mulher tinha passado a noite chorando. não quero te enfeitiçar. Desejava vê-lo. e não volte a espionar-me — deu a volta e saiu da habitação. Senhor. CAPÍTULO 15 À manhã seguinte.. Choram quando as deixam. nem também não pensou que sua mãe lhe cresse. pensou. recordou que 145 . Agora vai. Dougless viu Arabella subir num apoio para montar em seu formoso cavalo negro. Por favor. a forma em que pestanejava. Seu coração se acelerou. porque sabia que ela estava chorando. tinha sentido suas lágrimas. saiu da habitação. a sensação de poder que sentia quando a deixava. Agradavamlhe as mulheres como Arabella e Lettice. Quando descobrirem que não tens um tio rei. cada vez que sorria ou se ria. Nada mais que uma coincidência. As mulheres sempre choram. Depois que se foi de sua habitação. desejava ver o rosto do homem a quem Nicholas considerava seu amigo e que o tinha enviado a uma execução. pensou. Tinha-a observado bem mais do que ela a ele. e ainda que não podia vê-la nem ouvir. e Dougless conteve o alento. eu pessoalmente vou expulsá-la de minha casa. Mas de repente sentiu um desejo intenso por ela e retrocedeu contra a porta. e não fiz nada a tua família que não tenha sido para sobreviver —estendeu a mão para tocar-lhe — Se me escutasses.Dougless se voltou. como querendo -se convencer. Estava alerta cada vez que olhava a Kit ou a um servente atraente. Mas desde um princípio esta mulher tinha sido diferente.Sentindo-se mais cansada que quando entrou. Robert Sydney. Seu poder sobre ele o enfurecia.. desde a comida e a roupa até os serventes. Mas. mais tarde. quando dizemos que não a amamos. não tinha idéia do que Dougless lhe tinha estado dizendo. Robert Sydney se parecia muito ao doutor Robert Whitley. Não acreditou nem por um momento que fosse uma princesa de Lanconia. Deixa-me fazer o que não fiz na primeira vez. — Nicholas. Observou-o enquanto se afastava. não tinha dormido. — Escutar vossa história do passado e o futuro? —Aproximou seu rosto ao dela— Cuidado com o que fazes. com as mãos trêmulas.

pensava que ‘deveria’ estar praticando ginástica para reduzir suas coxas. Não podia ser outra coisa. As pessoas não viviam sozinhas e isoladas. Sentia-se culpada quando. aqui no século XVI. ignoravam a medicina. As pessoas morriam de pneumonia. Tratou de manter-se no campo do entretenimento e não falar sobre religião e política. Com a ajuda de Honoria. mas as pessoas do século XVI sofriam muitas doenças. Estas mulheres do século XVI não tinham que ser executivas brilhantes. A vida das pessoas do século XVI não era prolongada. Se descansava. etc. e realizar um trabalho fora de casa. e o único de que podia falar-lhe era do adubo e de como utilizá-lo. Enquanto passavam os dias na Inglaterra do século XVI.Enquanto ensinava. Podia ajudá-los 146 . cozinheiras e anfitriãs perfeitas e amantes imaginativas com corpo de atleta. As mulheres modernas eram responsáveis de seu próprio sentimento de culpa. costuravam. quase não viu Nicholas. não esperavam viver além dos quarenta.. curava feridas com Neosporin. dedicavam-se a cuidar da casa e se divertiam.Além disso. Não podia caminhar pelo jardim ou a casa sem que alguém a detivesse e lhe pedisse um pouco mais de entretenimento.Dougless sabia que as damas de Lady Margaret estavam consternadas por sua pobre educação. Às vezes desejava estar três dias na cama e ler novelas de mistério. porque falava só um idioma. Quando o via estava-a observando de forma ameaçadora desde alguma porta ou franzindo-lhe o cenho do outro lado da mesa. Passava longas horas tratando de recordar tudo o que tinha lido ou escutado. Depois de tudo. exausta. Uma só mulher cansada não tinha que cozinhar. ou planejando um jantar elegante para os colegas de Robert. Uma coincidência pensou outra vez. sentia-se culpada. pois lhe pediam jogos. uns anos antes a rainha María tinha queimado pessoas que professava uma religião diferente. as pressões dos dias modernos pareciam muito longínquas. Mas agora. Por suposto.. Ela repartia aspirinas. servia uma pizza tirada do congelador no jantar. Eram ricas. tinham-se produzido quatro mortes na casa. resfriados ou de uma faca que se infectava. histórias. porque não sabia ler sua escritura. Desde que Dougless chegou. também aprendia. mas sempre tinha muito que fazer como para pensar em vadiar. e limpar a cozinha uma e outra vez. parecia que tinha visto um fantasma. limpar. era uma casa com cento quarenta pessoas para realizar setenta trabalhos. temiam ao desconhecido. Tinha que fazer para poder cumprir com as tarefas diárias. tinha dado qualquer coisa por ser médica e poder deter a hemorragia. começou a contar-lhes histórias sobre América. Esteve muito ocupada na casa. criou uma versão simplificava do Monopoly. suas demandas de entretenimentos era insaciáveis. fazer a compra. que encantavam Lady Margaret. Mas às vezes Kit lhe perguntava sobre a semeia em seu país. dava colheradas de PeptoBismol. e todos podiam ter-se salvado de ter contado com uma unidade de urgências.quando Nicholas conheceu Robert no século XX. mas pelo menos não estavam sob a constante pressão de fazer mais e ser melhores durante seus poucos anos de vida sobre a terra.Quando se acabaram as histórias dos livros que tinha lido. porque não sabia tocar um instrumento musical. E em seu ‘tempo livre’ tinha um emprego a tempo completo. Esta não era uma casa com uma mulher para realizar 20 trabalhos. arrumar a casa. e a morte sempre estava presente e ao espreito. O alarme do despertador soava as seis e começava a correr. Quando Dougless o viu. Nos dois dias seguintes. E Robert o tinha olhado com ódio. Dougless recordou sua vida com Robert. mas lhe perdoavam quase tudo. Robert tinha uma pessoa que lhe limpava a casa uma vez por semana. Tinha que preparar as comidas. Aqui cada pessoa tinha um só trabalho. Hemorragia interna. mães afetuosas. canções. Um homem morreu quando uma carreta lhe caiu em cima. lavar.

Para surpresa de Dougless. Nicholas e Kit se uniram ao grupo. Dougless tinha aprendido que a idéia de igualdade era algo que provocava riso. ela não se preocupava muito pela roupa. pelas roturas de ligamentos que os deixavam aleijados na vida ou pelos apêndices que produziam a morte às crianças.No século XX. não uma missionária. Honoria riu e lhe disse que cada um usava o que podia comprar. Aos criminosos ricos lhes impunham sentenças leves. sentenças máximas. Lavavam-se a cara. Nos poucos dias que levava no século XVI tinha descoberto que as pessoas estavam obcecadas com a roupa. As novelas ambientadas na época isabelina que tinha lido lhe tinham produzido a impressão de que as pessoas não faziam nada mais que falar de política. rádio e revistas semanais. mas pelo demais não lhe prestava muita atenção. E Dougless se viu metida no alvoroço que produziram as mulheres ao brigar pelas telas. mas não podia fazer nada pela dentadura. e o recebeu junto com seus tecidos no salão de audiências. mas não em sua túnica. Uma vez tratou de falar com Honoria sobre a imensa diferença entre a vida que levava a família Stafford e a dos aldeanos. as mãos e os pés. estes formosos trajes isabelinos eram outra coisa. Mas Dougless descobriu que os isabelinos. encantava-lhes ver rodeados de formosas mulheres sorridentes e alvoroçadas. igual aos americanos. e se um o descobriam pagava uma multa e continuava pondo-se o que queria. e era a falta de higiene. na cama. Honoria lhe advertia sobre a ‘freqüência’ de seus banhos (três semanas). as peles. Se um homem tinha um rendimento de cem libras ou menos ao ano. No entanto. dizendo-lhe que já era tempo de que tivesse sua própria roupa. mas não achava que seu labor fosse mudar a vida do século XVI. os americanos não estavam nem a metade informados como os atores das obras medievais. As damas de Lady Margaret passavam horas ocupadas com os trajes. Kit escolheu tela para dois vestidos para ela. Ainda com televisor. a roupa. Tinha sido enviada para salvar Nicholas.Essa noite. à gente pobre. podia levar só gibões de soldado ou túnicas de seda. Os condes podiam usar capas. O esforço para preparar o 147 . era esta gente de sua própria época. No século XVI. Mas ninguém achava isso. A Dougless lhe permitiam vestir como uma condessa. Igual a maioria dos homens. esteve desperta durante um momento e pensou que diferente. As pessoas não era iguais. mas os barões. Então aprendeu sobre as leis pomposas. e por lei nem sequer lhe permitia vestir da mesma forma. podia usar veludo em seu gibão. porque era uma dama de Lady Margaret. e. e isso era no que ia concentrar-se. as cores. estavam bem mais preocupados pela roupa e as fofocas que pelo que fazia a rainha. Os serventes não podiam levar túnicas que lhes chegassem por embaixo da pantorrilha. Também não podia fazer nada em relação à pobreza.em pequenas coisas.Um dia chegou um comerciante da Itália.Tinha um aspecto da vida medieval que não podia suportar. Um que ganhasse dez libras ou menos não podia usar panos que custassem mais de dois chelines à jarda. como se tivesse descoberto a cura para as picadas das pulgas. dizendo que um homem milionário não era melhor do que um moço que ganha a vida com o suor de sua testa. Agradava-lhe que fosse cômoda e duradoura. As regras abarcavam os rendimentos. no entanto que parecida. Assombrada. Era uma observadora. Na América todos pretendiam serem iguais. Se ganhava 20 libras ao ano. e Dougless odiava que os serventes tivessem que trazer a tina ao dormitório e depois enchê-la com baldes de água quente. Dougless lhe pediu a Honoria que lhe explicasse estas leis pomposas. Dougless decidiu fazer o que pudesse. Finalmente. Os aprendizes vestiam de azul (razão pela qual as classes superiores raramente usavam essa cor). só macacão ártico. mas um banho completo era algo raro.

. e depois viu que era a herdeira francesa . até que Honoria lhe mostrou uma fonte no jardim dos nódulos. Nunca se tinha sentido limpa utilizando a tina. senão passou junto a ela com a cabeça erguida. uma toalha grande e outra pequena. sempre estava acompanhada por sua altiva babá — guardiã — Não pretendia.. Sorrindo satisfeita. mas sorrindo. e depois de várias semanas sem banhar-se se sentia suja. Levava shampoo. —Brilhavam-lhe os olhos—. No centro de cada nódulo. Sempre achavam que eram o suficientemente grandes para cuidar de si mesmos. Para ela eram contaminação. — Glória! —Exclamou. Tirou a bata emprestada e a longa saia de linho e se pôs embaixo da fonte. assobiou para que o menino deixasse de acionar a roda.Que fazes aqui? Dougless olhou a fonte e viu que estava cheia de bolhas de sabão. Trabalho missionário não recorda-o. O banho estava se convertendo numa obsessão para ela. Divino. depilou as pernas e as axilas e se enxugou. mas se interrompeu. Dougless sorriu ante a atitude da menina. — Ronca —lhe respondeu com um pequeno sorriso . prestado por Honoria. A herdeira não a escutou. À hora fixada. não és Glória.banho era tão enorme que depois de que ela se banhava. Lavou o cabelo três vezes. — Banhar-se não faz mal —começou a dizer-lhe..Saiu da fonte. Para deleite de Dougless. um chuveiro. verdade? Onde está a leoa? —Dougless se surpreendeu pelo que tinha dito. mas ainda estava bastante escuro e faltava um bom tempo para que o resto da casa acordasse. Se aproximou à menina e a observou detidamente —Quem te disse que és delicada? — Lady Hallet —olhou a Dougless —Minha babá leoa —se lhe formaram diminutas covinhas nas bochechas.Quero dizer. Falou em privado com o menino que sabia como acionar a roda e lhe prometeu pagar-lhe um penique se encontrasse com ela às quatro da madrugada. mas se chocou com alguém.. Talvez sorria muito para ver com clareza ou talvez ainda estava muito escuro. Quer se banhar? A menina tremeu ligeiramente. Sentiu que estava lavando anos de sujeira e suor. Honoria fez um sinal a um menino que estava regando o jardim. O menino. num pequeno estanque. depois o arrumou. com flores brilhantes nas interseções.. e foi dar voltas à roda. O menino estava movendo uma roda. — Escapou. Os ‘nódulo’ eram cercas-vivas plantadas em intrincados desenhos. tomou o penique. Foi nesse momento quando começou a criar um plano. Numa ocasião teve que se banhar em terceiro lugar e encontrou piolhos boiando na água. A menina se voltou com rapidez e olhou a Dougless. tinha uma fonte alta de pedra.Nunca ninguém tinha desfrutado tanto um chuveiro. mais duas pessoas usavam a água. sorrindo. Dougless saiu da habitação de Honoria. e este correu e desapareceu por trás de uma parede. não é verdade? —Perguntou-lhe.. secou-se e pôs a bata. mas à herdeira lhe pareciam maravilhosas e tomou um punhado de espuma. — Já tenho a idade suficiente como para cuidar de mim mesma. começou a sair água desde o alto da fonte. — Que lindo! —Exclamou Dougless — Como uma cascata ou. Dougless duvidou um momento se tirava ou não a roupa. — Estava-me banhando. empreendeu o caminho de regresso a casa pelo caminho. 148 . desceu pela escada e chegou ao jardim. Parecia um de seus alunos de quinta série. meio dormido. —começou a desculpar-se. sabonete. — Não. Raramente via esta menina e quando a via. minha saúde é muito delicada.

e olhou para o céu — creio que é melhor que regressemos. sentado frente a uma mesa cheia de papéis. Levantou a cabeça e olhou com ódio a Dougless. — Nem sequer olha para mim —murmurou a menina entre soluços. suspirou. e o pequeno repertório de Dougless já estava esgotado. Parecia estar somando uma coluna de números. — Palestra disparatada! —Disse ela — Olhou-a outra vez para que ficasse calada e voltou à coluna de números. Marcou os números. Estes não faziam sentido para Dougless. e era nesse momento quando estranhava a comodidade das camisetas e as calças. orgulhosa. — E teus amigos como te chamam? A menina ficou assombrada um momento. Alguma vez terá que me escutar. aqui não és bem vinda. e Dougless acostumava somar e subtrair para que os desenhos fossem precisos. Portanto.Não é de sua conta. Pôs a calculadora junto à mão de Nicholas. Não me incomode com vossa palestra disparatada. Voltou a casa. — Minha primeira babá me chamava Lucy — Lucy —lhe disse Dougless. Pediam-lhe novas canções. — Nicholas. Depois do café da manhã. Mas hoje tinha que ver Nicholas. porque alguns eram romanos. tomou a calculadora e começou a teclar os botões. Nem eu. Abriu a pequena bolsa bordada que lhe pendurava da cintura e tirou a calculadora solar.À mesma hora —não estava segura se Lucy a tinha ouvido ou não. e depois sorriu. depois recolheu sua pesada e custosa saia e começou a correr.. Bom. anotou o total na folha de papel. Lady Hallet diz que és uma. apertou a tecla para somar e ao final dando o resultado.. — Muito? —Disse Dougless.. As pessoas nos estarão procurando. ruborizada. — Estou ocupado. não pode me ignorar. e depois voltou a olhar os papéis. — Não me diga.Ele levantou os olhos e a olhou. Já me chamaram antes. Nada ia mudar em relação a sua execução se não falasse com ele. Obviamente estava aterrorizada de que descobrissem que tinha escapado.Lucy parecia surpresa. sem fazer caso das olhadas dos serventes. Como te chamas? — Lady Allegra Lucinda Nicolletta de Couret —respondeu. — Agradas a todos os homens. não era estranho que lhe custasse somá-los.. que observavam seu cabelo molhado e sua bata. — Lorde Kit —replicou Nicholas de forma categórica . Dougless observou como. Falando ainda. outros estavam escritos com um jota em lugar de um i e outros eram arábicos. e nesse momento era exatamente igual a Glória— Olha você. Quando abriu a porta do dormitório de Honoria.— Te agrada Kit? A menina baixou os olhos e olhou as mãos. em sua irritação.. Levava-a consigo porque Honoria e as outras damas sempre estavam contando as pontas de seus bordados. O encontrou numa habitação que só podia ser um despacho. separou-se das demais mulheres para procurar a Nicholas. Senhorita.. Nem a casa de minha mãe. — Kit te mostrou onde está a porta secreta em Bellwood? —Perguntou-lhe. — A mim? Kit não está interessado em mim. Temos que conversar. — Amanhã de madrugada —lhe gritou Dougless . Agora começava o longo e doloroso processo de vestir-se. 149 . Estava cansada de cantarolar toadas e de persuadir às mulheres para que inventassem as letras.

— E. Não ia ser como o resto dos ocupantes da casa e a seguí-la e pedir-lhe favores. Dougless sorriu. Para Dougless foi toda uma revelação vê-lo usar a calculadora. mas nunca será. Ajoelhou-se junto a ele e lhe pôs as mãos num braço. De um puxão. tirou o braço embaixo de suas mãos.. — Nicholas. talvez depois de que Kit se salvasse. — Não me lembro —replicou. escuta-me —lhe rogou. Que tinha esta mulher? Era linda.. — Não sei nada sobre essa porta —mentiu Nicholas. olhando-a nos olhos. Qualquer dia pediria uma bolsa com ouro em troca de outra canção. mas esta mulher. por favor. Nicholas. é questão de dias. então a recordaria ela. quase lhe disse. Nos daria uma idéia de quanto tempo temos antes que. Deu-se conta de que a tinha estado usando. Estavam-lhe sucedendo tantas coisas estranhas que não podia questionar o conhecimento que Nicholas tinha das calculadoras. olhando-a. por outra parte. Olhou seus olhos azuis e recordou a noite em que fizeram amor.. esta mulher estava sempre em sua mente. — Parece um rapaz agradável. Se Kit não morresse. Tinha estado com mulheres mais condescendentes do que ela. Ainda faltavam quatro anos para que sucedesse. afogue-se —antes de que Lettice ordene que o matem. tinha sabido somar com ela. mas enquanto falava. E sua mãe estava tão encantada com ela que não vacilaria em dar-lhe o ouro. —começou a dizer. — Por favor. Pois se tinha sabido usá-la. Lady Margaret lhe tinha dado a esta mulher vestidos e leques.. aliviada. — Você se interessou pelo meu irmão? —Perguntou-lhe Nicholas. Até agora. — Bem. irritado. De alguma maneira.. pensou— Podem ser semanas ou meses. Teria me agradado se tivesse tirado a coifa.—continuou. Dougless se pôs em cócoras e suspirou. mas agora o conhecimento sobre o que era e como se utilizava o tinha abandonado. Mas se recordava disso. bem —não desejava pensar que Kit estava perto da morte. ‘O amor de minha vida’. Atirou-a como se fosse algo demoníaco. como pode usar a calculadora? — Eu não. mas também faltavam quatrocentos anos para o nascimento dela. —deteve-se. observou a calculadora em suas mãos. — Nicholas —murmurou Dougless — você se lembra —Depois lhe disse mais alto: — Você se lembra. não feche tua mente. — Não me lembro —replicou com firmeza.. mas não podia. e começou a somar a segunda coluna.. Ele não ia permitir que o controlasse. 150 . podes recordar? Nicholas desejava se afastar dela. — Se você se lembra. mas se te mostrou a porta. além disso. Fazia uns dias que Kit a tinha mostrado. talvez Lettice não teria oportunidade de pôr suas garras sobre Nicholas e se evitaria a grande injustiça. mas tinha visto mulheres mais formosas. Não lutes contra mim... — Deixa-me. ela regressaria ao século XX. E se não. Poderia lembrar mais se quisesse. não lutes comigo. e tinha rebuscado nos baús de jóias dos Stafford para prestar-lhe todo tipo de coisas.. o que tinha experimentado no século XX estava enterrado em sua memória. e observou o aparelho que se encontrava sobre os papéis. Por favor. — Nicholas. E. Deves dizer-me se Kit te contou sobre a porta de Bellwood ou não.

— Pode ficar e usá-la se desejar. mas não parecia sentir o mesmo por ele. vendo que o momento tinha passado. Olhou-a furioso. Precisarás mais do que uma canção para encantar-me. odiava sua animosidade contra ela.Recordou seu riso. Os americanos podiam ter a comida que desejassem em qualquer época do ano. Nicholas lhe soltou a mão e Dougless. Todas as tentativas que tinha realizado para falar com Nicholas tinham fracassado. E o aroma a jasmim sempre lhe recordava a sua mãe. pensou no picnic americano que lhe tinha preparado a Nicholas: frango frito. verdade? Devemos vigiar Kit. Já que não recordava tê-la conhecido. Perguntava-se se recordaria outras coisas e começou a pensar no conteúdo de sua bolsa. Sabia que determinadas comidas lhe recordavam a sua avó Amanda. a forma em que às vezes a ‘ouvia’. Que poderia mostrar-lhe para estimular-lhe a memória? No salão de audiências todos estavam impressionados. Ao que parece. desejava regressar a uma provável execução para salvar a honra de sua família. tinha chegado o fornecedor de alimentos. No século XX. Este mês tinha enviado pinhas e chocolate levado de México a Espanha e depois a Inglaterra. Pelo menos agora começava a compreender que ele pensava que estava protegendo a sua família dela. o único hostil era Nicholas. Nicholas não a olhou. Dougless se inteirou de que este homem viajava por toda Inglaterra e comprava produtos especiais para a família Stafford e os enviava uma vez por mês. Também tinha açúcar do Brasil. Devia desconfiar dela. Nicholas a tomou e a levantou para seus lábios. Com um suspiro. tinha razões para crer que era uma bruxa. — Saia —murmurou. Sem pensar no que fazia. O resto da família não podia ser mais agradável. salada de batatas. e depois mais alto: — Vá cantar vossas canções aos demais. tinha-se parecido ao libertino que descreviam os livros de história. — Colin —sussurrou. Seu pensamento era só para Kit. — Senhor —disse uma voz desde a porta — Desculpe.Recorda. Tinha ouvido que os cheiros e os sabores eram um dos estimulantes da memória mais fortes. já que o Nicholas que tanto amava também tinha anteposto a sua família. seu interesse pelo mundo moderno. Tinha entrado em sua própria mente. Este homem sim era o Nicholas que tinha vindo amar. Não pôde deixar de sorrir ao pensar nisso. pensou. De repente lhe ocorreu uma idéia. Nicholas disse que não recordava de nada. e pela união que tinha entre eles. — Não sei como usá-la. Se servisse a Nicholas a mesma comida que tinha experimentado no século XX. pôs-se de pé e arrumou a saia. Dougless ficou atrás e observou como as mulheres lançavam todo tipo de exclamações a respeito dos produtos exóticos e não pôde deixar de pensar como no século XX a comida se dava como seguro. Dougless recolheu a calculadora e saiu da habitação.E se ela tivesse tido algum outro motivo para desejar estar perto de sua família? Não era bom ser tão confiado como era a família dele. ovos e bolachas de chocolate. mas se tinha lembrado da calculadora e a tinha utilizado de forma correta. não tinha por que confiar nela. Nicholas tinha razão. o ajudaria a recordar o 151 . — Me avisarás sobre a porta. pois em sua casa sempre tinha uma surpreendente variedade de comidas. Na superfície.Enquanto olhava o chocolate em pó cuidadosamente envolvido num pano. Ela só falava de seu irmão. E leve isso —olhou a calculadora como se fosse algo demoníaco. com a mulher na mesa e no vinhedo. E claro. estendeulhe a mão.

Para obter a farinha para preparar o frango e as bolachas. estava inteira. e depois de que Dougless foi capaz de fechar a boca. A comida. não o era no século XVI. areia e sujeira. dois padeiros. que era tão fácil de preparar numa cozinha moderna de Inglaterra e em pequena escala. guardada sob chave. meninos que realizavam trabalhos estranhos e um homem cujo labor consistia em voltar a pôr o gesso quando se caía. Também tinha criados que registravam a cada penique que se gastava. As mais suaves as guardavam para os travesseiros dos serventes. mas horrorizada de que Dougless quisesse trabalhar na cozinha. Dougless se dirigiu à cozinha e se surpreendeu pelo que viu: habitação depois de habitação com enormes chaminés. imensas mesas e muita gente correndo daqui para lá. e além disso Lady Margaret tinha concordado seu interesse pela cozinha. Tinha armazéns que eram maiores que casas e estavam cheios de barris. outras a ferver ovos. Quanto mais baixa era a posição de uma pessoa na casa. que tinha aberta de assombro ante o tamanho do lugar e pela quantidade de comida. chamado manchet.tempo que passou com ela? Pediu-lhe permissão a Lady Margaret para preparar o jantar. A pimenta.Dougless supervisionou. começou a dizer-lhe o que desejava. Só a família e seus assistentes mais chegados consumiam pão perfeitamente limpo. sobretudo porque sabia que a melhor farinha não tinha salvado e por isso perdia muitas vitaminas e não era tão nutritiva como a que se tinha tamizado menos vezes. Tudo devia preparar-se em enormes quantidades e a partir de zero. Que era uma encarregada de cozinha para a boca? Depois do longo e magnífico jantar. um preparador de malta. Cada pessoa tinha um trabalho. observou e aprendeu. Começou a compreender por que o pão branco charuto. mais ordinário era seu pão. Puseram a ferver água para escaldar os frangos e poder tirar-lhes as plumas. lavandeiras. era tão caro. Propôs-lhe que lhe dissesse à encarregada da despensa o que precisava e falasse com a encarregada da cozinha para a boca. Tinham dois açougueiros. Concentrou-se em preparar comida como para alimentar a um exército. mas não as consumiam com freqüência.Dougless insistiu. Dougless não ia dar uma conferência sobre a igualdade. Salsichas gordas como um braço e muito longas penduravam dos altos tetos. dois cervejeiros. Uma das cozinheiras a ajudou a decidir quanto frango devia rebozarse com farinha da primeira peneira e quanto com a do seguinte. dois homens que misturavam. e alguém tinha que ir procurar pedras e depois moer num morteiro do tamanho de uma banheira. Ali se depurava uma e outra vez a farinha através de peneiras de tela cada vez mais finas. As nozes para as bolachas não vinham numa bolsa de plástico. A encarregada principal a levou através das habitações. Não tinha mostarda nem maionese para os ovos e as batatas. levaram Dougless à habitação onde peneirava. Em duas habitações localizadas por trás das chaminés tinha camas com colchões de palha onde dormiam muitos dos que trabalhavam na cozinha. que eram bem menores do que os do século XX.Enormes rêses e porcos entravam à cozinha em vagões e passavam para o matadouro. Engoliu saliva ao ver como traziam canastras com frangos e depois uma mulher robusta começava a retorcer-lhes o pescoço. O pão só uma vez tinha muito salvado. mas que as bolachas do precioso e custoso chocolate seriam só para a família.Dougless sabia que teria suficiente frango. senão que tinha que as arrancar. Surpreendeu-se ao ver que os moldes de confeitaria estavam forrados com papel escrito. Algumas mulheres começaram a descascar. Viu como derramavam chocolate batido sobre uma escritura que estava segura de 152 . ovos e batatas para toda a casa. Esta se sentiu satisfeita com a idéia.Surpreendeu-se ao ver que tinha batatas numa casa do século XVI.

Se suas boas obras eram um engano. Quando a comida já estava quase pronta para servir. enquanto comia essa magnífica bolacha. Viu-a nua e caindo-lhe água sobre seu lindo corpo. ele era o único que poderia vê-la tal como era em realidade.Dougless observava a Nicholas: mordeu e mastigou. irmão —lhe disse Kit a Nicholas. — Nicholas. No jantar tinha mordido uma das bolachas de chocolate que a mulher tinha preparado e. pensou. mas. Tome — e tirou o anel de ouro e o deu a Dougless. Por último. ele foi a única pessoa sensata da casa. de repente. — Já me tinha dado este anel antes —lhe comentou com suavidade — Quando te preparei esta comida. algo que ele não podia compreender. sem saber por que. Pôde ver em sua expressão que estava surpreendido por sua ação. Enviou homens ao horto para que estendessem cobertores no solo e depois pediu travesseiros. nada estimulava sua memória. viu-a apertando o anel de esmeralda contra o peito e olhando-o com amor. Viu-a com o cabelo solto. o anel de Nicholas teria seguido tendo bem mais valor para ela. Recorda algo. e voltou a olhar a Nicholas. Até onde podia ver. Depois a olhou. Dougless se sentou frente a Nicholas e o observou tanto que quase não comeu. soube sem palavras que ela não era sua inimiga. Ainda que lhe tinha entregado seu anel. Dougless estendeu a mão trêmula e o tomou. me deu este mesmo anel. Recorda. imagens e recordações cruzaram por sua mente. Mas ele estava olhando para outro lado e seguramente o que recordou tinha desaparecido. Não desejava estar perto da mulher. Nicholas só podia olhá-la. Sorrindo e franzindo o cenhoo ao mesmo tempo. sorrindo — Deverias vir e divertir-se. o tirou do dedo e o entregou. — Estás muito calado. Era o único que não achava que era um presente de Deus.Nicholas deixou a bolacha e. Começou a pedir-lhe que lhe explicasse. Pensou que quando chegou esta mulher. Sem pensá-lo. pela expressão dos convidados. tomou o anel. — Obrigada —murmurou. Algo tinha sucedido esta noite.que tinha sido assinada por Enrique VII. mas se tivesse sido ao contrário. se sentes bem?— Perguntava-lhe Kit. sentada sobre um estranho aparelho de metal com duas rodas. Esta noite. — Não te culpo —Kit riu — Estas bolachas valem seu peso em ouro. tirou o anel da mão esquerda e a deu. pensou que era um estúpido. às seis. Esse dia o jantar se serviu tarde.Nicholas olhou para outro lado.Ao finalizar a comida. não desejava que lhe fizesse ver imagens de algo que sabia que não tinha sucedido. Não valia nada comparado com a esmeralda de Nicholas. e a ela lhe pulou o coração. Se passava um tempo com 153 . o trabalho valeu a pena. Mas esta noite. Era um anel de esmeralda o que lhe tinha dado em casa de Arabella quando lhe preparou bolachas pela primeira vez. as pernas nuas. Comeram a salada de batatas com colheres e devoraram pratos cheios de ovos. Dougless pensou que devia ser um piquenique. Parecia que o anel lhe pertencesse. estou bem. Encantou-lhes o condimento do frango. mas o riso de Kit rompeu o encanto do momento. os serventes trouxeram bandejas de prata com grandes quantidades de bolachas de chocolate e nozes. — Vens conosco? — Não —respondeu. — Sim. Dougless vai ensinar-nos um jogo de cartas chamado poquer.

com o cabelo solto até os ombros. tens estado com alguma mulher na cama desde que chegou Lady Dougless? — Ela não é. E se te equivocas e Kit morre porque não queres escutar? Nicholas acordou suando. De repente. — É assim. Trabalho esta noite. perguntando-se se tinha algo na casa dos Stafford que Lady Margaret ignorasse. O vinho lhe fez efeito durante um momento e pôde dominar as imagens de sua mente. Nicholas se sentou e tratou de concentrar-se nos números. Tomou uma segunda e uma terceira tão rápido como lhe foi possível. Dougless saiu da casa para ir banhar-se à fonte.Pôs-se de pé e caminhou para a janela.. Beberia até que não pudesse ouví-la. Leve-a contigo. Sabia que se ela não era feliz.Retirou-se da janela e a fechou. Não permitiria que esta mulher o pegasse. desfrutando do que estava fazendo. O dia anterior duas das damas estiveram falando sobre as pompas de sabão da fonte e Lady Margaret a tinha olhado com suspicácia.. Kit riu. rindo forte. barbeado e levando estranhas roupas. Se não fosse correto que usasse a fonte para banhar-se. As imagens regressaram em forma de sonhos. A converterás em tua amante depois de teu casamento? — Não! —Replicou Nicholas de forma contundente —Não é para mim. mas tudo o que podia fazer era pensar na mulher ruiva. e lhe fechou a porta na cara. —Não. depois esfregou os olhos com as mãos como para aclarar sua visão.—começou Nicholas. Sorriu ao recordá-lo. surpreso — Agora que eu penso. Não devia permitir-lhe que controlasse sua mente. Nicholas se pôs de pé para brigar. Kit retrocedeu. — Trabalho? Não há mulheres? —Perguntou Kit. Viu-se embaixo da chuva. Tinha que fazer algo. Era de noite e estava chovendo. Tinha que fazer algo com a mulher se não o deixaria dormir. Sentindo-se mais calmo. — Deves me dizer se Kit te mostrou a porta —ouviu o que lhe dizia a mulher — Diga-me se te cortaste o braço. e inclusive a crer suas absurdas histórias sobre o passado e o futuro. — Assim que o raio deu na mosca —disse. Mas Kit retrocedeu para a porta e. Agora estava rindo. sorrindo ainda.ela. Kit morreu e você se sentiu culpado. estranhas luzes azuis sobre postes. sem dúvida Lady 154 .. destrancou o ferrolho. Saiu do despacho e se dirigiu para seu dormitório. talvez começaria a escutá-la. desfrutando do sofrimento de seu irmão.Tomara nunca tivesse visto. saiu da habitação. abriu a janela e olhou para o jardim. Afogaria suas imagens dela. temeroso de voltar a dormir. recordá-la. nem voltar a ouvir sua voz. Viu outro jardim. se deitou e dormiu no instante. serviu-se uma taça de vinho branco e o bebeu. e permaneceu o resto da noite com os olhos abertos. E se tiver se enganado? —A voz da mulher era cada vez mais intensa e desesperada. é linda. Não desejo voltar a vê-la. não vou. Apresentou-se outra imagem não desejada. quando Nicholas se acercou. vê-la. Viu luzes. Não posso culpar-te. e a mulher o chamava. Dougless se ruborizou e olhou para outro lado. voltou a ter outra imagem dela sorrindo-lhe. cheirá-la. CAPÍTULO 16 Às quatro da madrugada. até que sentiu o calor do vinho em suas veias. o sentiria..

Depois de tudo. ao longo dos séculos. Como poderia atrair a atenção de um partido como Kit uma adolescente não muito bonita e gorda? — Ele fala de ti —lhe disse Lucy de mau humor. morriam facilmente e suas almas não estavam formadas até que eram maiores de idade. não irei. Elas achavam que se devia fazer caso omisso dos meninos até que tivessem idade para casar-se. Dougless pôde ver a Lucy esperando-a. Pobre menina solitária pensou. Tinha averiguado que a Lucy e a sua guardiã as tinham trazido a Inglaterra. As mulheres se horrorizaram ao escutá-la. além da roupa e a política. Quando Lucy esteve bem. que se tinha posto muito enferma pela travessia do canal e depois pela viagem para Inglaterra. coisa que elas faziam muito bem e Dougless com muita torpeza. Era uma estranha numa casa onde vivia desde que era muito pequena. Deu um respingo por causa da água gelada.Margaret o teria dito. — Não. Sempre tinha pensado que os pais. Parece muito respeitoso e amável — Kit fala de mim.— Kit fala de mim? Quando o vês? — Visita-me quase todos os dias. Pensou que as mães sempre estavam preocupadas por se tinham dado o suficiente a seus filhos. mas não se foi e Dougless sabia que desejava algo. Uma vez. — Acho que não. Dougless tinha voltado ao seu bordado. pensou Dougless. um dos quais ficavam a mais de cem quilômetros. mas o que você fala? 155 . entretendo-os. Surpreendeu-se ao averiguar que a maioria das damas de Lady Margaret eram casadas. Lady Hallet não tinha permitido que ninguém se aproximasse da menina. Mas desde o momento em que Lucy chegou. Acahvam que seria melhor esposa se conhecesse os costumes ingleses e a família de seu esposo antes de casar-se. Dougless secou o cabelo molhado e olhou a Lucy pensativa. adoravam seus filhos. Talvez te apeteça vir conosco. Lucy sorriu e depois se pôs séria. e que duas delas tinham meninos pequenos em seus lares. entre o século XX e o XVI. tratando de que não se aborrecessem. Seguramente que sim. Mas parecia ter outras diferenças. enquanto bordavam. Saiu da fonte. quando Lucy só tinha três anos. — Oi —lhe disse.Ao olhar para Lucy sentiu a solidão da menina. Lucy se sentou no banco como se fosse uma bola de praia que tivesse desinflado de repente. Dougless se sentou no banco junto a ela. à casa dos Stafford. mas valia a pena passar alguma incomodidade para ter um corpo limpo. — Bom dia —lhe respondeu formalmente — Vai fazê-lo outra vez? —Perguntoulhe enquanto Dougless tirava a bata. comentou-lhes que em seu país as mulheres passavam dias inteiros com seus filhos. — Vai ir Lorde Christopher? —Perguntou rapidamente. secou-se e se voltou para Lucy. As mulheres não pareciam preocupar-se pelo tempo que dedicavam a seus filhos. ensinando-lhes. Talvez só uma amiga. ninguém pareceu recordar que vivia com eles. Algo que Dougless tinha observado sobre o século XVI era que os adultos não idolatravam as crianças da forma em que o faziam no século XX. — Todos os dias — Dougless entrou na fonte e assobiou ao menino para que acionasse a roda. — Hoje vamos jogar charadas.Ainda com a pouca luz que tinha.Lucy se voltou enquanto ela se banhava e lavava o cabelo.

Não teve que dizer nada mais para que Dougless compreendesse. A donzela estava fazendo um formoso punho de camisa com o nome de Dougless rodeado de pequenos e estranhos pássaros e 156 . pois não tinha segredos na casa. — De nada.Sorrindo. Tu és a herdeira. lady Margaret estava muito ocupada para querer novos jogos. o que desejas é que Kit se fixe em ti e o que precisas é um pouco de confiança em ti mesma.. portanto Dougless passeou pelos jardins e lhes ensinou a jogar o jogo da velha a três meninos que trabalhavam na cozinha. — Nada? Não lhe dizes nada? Vai visitar-te todos os dias e você fica ali sentada como um coelho sobre um tronco? — Lady Hallet diz que seria indecoroso que eu.. — Essa não era uma dama. Dougless riu.. Lucy riu ruidosamente. de ensinar-lhe a fazer encaixe com um pouco de fio. Eu. Pelo menos sabia que Kit não lhe tinha mostrado a porta secreta em Bellwood. Dougless jurou que depois da comida procuraria a Nicholas e trataria de voltar a falar com ele. Nem Kit nem Nicholas se apresentaram. — O farás —lhe disse Dougless — farás muito bem. recorda. e que. — Lady Hallet! Esse ogro? Essa mulher é tão feia que sua nuca romperia um espelho. Sabia que muita gente estava inteirada do que fazia cada manhã. Estava pensando em fazer uma comédia com Honoria.. Lucy ficou com a boca aberta. Agora. Também precisas confiar em teu próprio juízo. e nos divertiremos.. e depois sorriu. Quando podemos nos reunir? Sem desculpas. o ‘acidente' não estava próximo. Kit verá que já não és uma menina. Talvez possamos conseguir algumas destas coisas preparando um espetáculo. levantou-se da mesa e permitiu que Honoria tratasse. deves lutar por ele. — Onde se senta um canário de trezentas libras? —Dougless fez uma pausa — Onde lhe apetece. depois tampou a boca. outra vez. Lucy riu mais forte.. Quando se deu conta. — Com o bico que tem.Lucy retorceu as mãos sobre a saia.. posso compreender o erro. essa era minha esposa. mas ninguém se atrevia a perguntar-lhe. Se pudesse fazer rir ao meu Kit. Meu Kit. — O que disse um duque a outro duque? Lucy se surpreendeu. Agora temos que nos organizar. — Queria ser como tu. — Talvez podemos encontrar uma forma de fazê-lo rir. e não no dos demais... mas talvez possamos fazê-lo juntas.Pela manhã. Creio que a confundiu com um colega. — Comédia? Não creio que lady Hallet. — Lucy —Dougless lhe tomou a mão — algo que aprendi e que não mudou ao longo do tempo é que se queres um homem. já era de dia. Quando Dougless regressou a casa.não sei. e lady Hallet também... e lady Hallet trabalha para ti.. já era hora de jantar. como meu Nicholas. Lucy soltou uma risada. portanto. Que me dizes? — Eu. — Uma vez um falção em lugar de ir com seu amo se foi com ela.

e a espada do homem lhe cortou o antebraço esquerdo quase até o osso.Não tinha tempo de preocupar-se pela dor. sem ver a expressão de surpresa no rosto do cavaleiro. estava atirado no solo. mas parecia que não lhe interessava. ele estava no sonho. com rodas. Agora que sua memória tinha acordado. — Vende o meu braço para deter a hemorragia e depois sele dois cavalos com cadeiras de homem. e se detinham frente a um edifício com janelas de vidro. — Senhor? —Disse-lhe o homem.Inclinada sobre seu pano de bordado. Saiu do sonho tão bruscamente como tinha entrado.animais. seguramente em breve recordaria mais. A Nicholas lhe doía a cabeça e não podia permanecer de pé. Mas não só lhe veio. quando sentiu uma dor forte 157 . — Selado dois cavalos. — Para a Montgomery. antes que o quarto o vencesse. e voltou a darlhe uma estocada. surpreso. Deu-lhe uma estocada ao homem que tinha adiante dele. se sentia agressivo. Moveu-se para a direita quando deveria tê-lo feito para a esquerda. não perca tempo —ordenou com voz débil. mas hoje. — Virá por si só —respondeu. confiante. e quando regressou ao presente. O cavaleiro retrocedeu e se afastou de seu caminho. Talvez se cansava o suficiente. Estava-lhe contando que Kit tinha se afogado no dia em que o feriram no exercício de espada. Nicholas derrotou três homens. e um deles tratava de deter-lhe a hemorragia. Passava uma máquina grande e estranha. Não tinha visto mais imagens depois que deixou de dormir. com a dor de cabeça e o desgastamento. com o braço alto enquanto o vendavam com um pano ajustado. Deu-lhe uma e outra estocada. ‘E se estás equivocado?’ Continuava ouvindo a voz da mulher. Dougless se inclinou sobre o bordado para escutar uma das mulheres que estava contando uma suculenta história sobre uma mulher que tinha tratado de levar à cama o esposo de outra. Ela ia conseguir aquilo que tinha fracassado a primeira vez. Estava escutando a história com toda atenção. Equivocar-se em que? Em que ela era uma bruxa? As imagens provavam que ele tinha razão. um com cadeira de amazona. e de repente lhe veio uma imagem. Nicholas se pôs de pé. rodeado por seus homens. Observou o grande anel de esmeralda que levava no dedo. ela..Nicholas se voltou e o olhou sério. mas cheia de autoridade. e ontem Nicholas tinha recordado algo sobre a temporada que tinha passado no século XX. Poderia ajudar a Lucy. — Vai cavalgar? —Perguntou-lhe um dos homens — Vai cavalgar com uma mulher? Vosso braço.Ia caminhando junto à mulher ruiva por um lugar estranho. Só estava interessado em falar com a mulher e contar-lhe a cicatriz de seu braço. mas nesta manhã tinha sido assediado pelos sonhos. Dougless se sentia em paz. umas janelas que nunca sonhou que existissem.. Vamos. olhou para as janelas da casa. Nicholas se deteve e olhou seu braço ensangüentado. Não costumava ser agressivo nos exercícios de espada.. — Trago à mulher? —Perguntou um a Nicholas. um vidro tão transparente que não parecia estar ali. não veria nem ouviria à mulher. — Só sabe montar o suficiente como para não cair do cavalo —agregou outro dos homens.. — Vai oferecer-me uma boa briga ou não? —Desafiou-o Nicholas.

— Onde praticam com a espada os homens? —Perguntou. segurou as rédeas e olhou a Nicholas. — Vamos! —Gritou.Cruzaram campos semeados. Uma vez que a tirou. — Sinto o corte —murmurou. porque um homem a levantou em seus braços e a montou sobre um cavalo. algo me feriu no braço —o contraiu.Uma vez fora dos jardins. tratando de não parecer histérica. um depois de outro. mas esta era muito estranha. com o braço vendado estava sobre um cavalo e a olhava. No salão. Nicholas deixou o caminho 158 . Por trás deles. correu tão rápido como pôde. Atravessaram os bosques. como se fosse uma saltadora olímpica de cercas estranhamente vestida. enquanto lhe desabrochava rapidamente a manga no ombro e começava a tirar. ouviu a voz de Nicholas em sua cabeça.O vento lhe incomodava os olhos. subiu-lhe a manga da roupa Interior de linho para examinar-lhe o braço. não deixem que desmaie —ordenou. ainda correndo—. mas Dougless se olhou e não viu nada. tratando de não chorar. — Não vejo nada —comentou.no antebraço esquerdo. — Meu braço.Lançou um grito de dor. repentinamente preocupada. A pele nem sequer estava enrijecida. levantou o pé e a forçou com um pontapé. Senhor.Nicholas.Pôs-se de pé ao instante. Dougless já não a surpreendia. atravessando a porta nordeste.Esfregou-se com a mão direita o antebraço. como se Dougless não estivesse muito sensata. passando o labirinto. Era esta dor uma manifestação de sua bruxaria?A dor do braço era intolerável. não permitas que chegue muito tarde. Cavalgaram através de sujos pátios de camponeses. Dougless assentiu com a cabeça e não perdeu mais tempo. Subiu as saias. Estavam juntos na cama e ela lhe tocava a cicatriz do antebraço esquerdo. Sir Nicholas a tinha acusado de ser uma bruxa. Passou junto a lady Margaret ao sair do labirinto e não lhe falou. saltou sobre ele. e espoleou o seu cavalo. Honoria se pôs de pé de um salto e correu a ajoelhar-se junto a Dougless. mas Honoria respondeu. agradecendo ao céu que o laço a mantivesse afastado de suas pernas. e o braço ainda lhe doía. quando caiu. Dougless se agachou e passou por embaixo de seus braços. e começou a correr. e por uma vez Dougless deixou de pensar na igualdade enquanto os cascos dos cavalos destruíam semeados e algum beiral. — Kit! —Gritou Dougless.De repente.As outras mulheres pareciam seguras de que Dougless estava louca. Um carregamento de barris tinha vindo sem atar e Dougless saltou cinco barris. Retrocedeu para estender o braço de Dougless e assim poder tirar a manga. a ferida que recebeu o dia em que Kit se afogou. Uma mulher da cozinha estava baixando um pouco de uma estante alta. Por favor. — Sinto como se me tivessem cortado —sussurrou. e começou a chorar. que felizmente tinha cadeira de homem. plantação de repolhos e nabos. Quando a porta na parede da parte traseira do labirinto não se abriu. — Atrás. Temos que salvar Kit.Não tinha nada. como se alguém me tivesse cortado com uma faca. Dougless baixou a sua contra o pescoço do cavalo e continuou. — Esfreguem-lhe as mãos. três homens tratavam de atingí-los. mas quase não podia suportá-lo. caiu para trás sobre a banqueta e depois ao solo. As mulheres que se encontravam ao seu arredor a olhavam de maneira muito estranha. Não disse nada mais. atropelou um homem e. com os ramos das árvores quase roçando-lhes as cabeças. mas estava concentrada em seguir a Nicholas. Meteu os pés nos estribos. Tinham-lhe encarregado que cuidasse de Dougless.

Igualmente soube que ela vinha quando se feriu no braço. aplicando as técnicas modernas para tirarlhe a água dos pulmões. tampou o rosto com as mãos e começou a chorar. fora. Dougless levantou os olhos e secou os olhos com a mão. com o longo cabelo negro pendurando e o pescoço frouxo e sem vida. Não há ninguém que se alegre de que ainda esteja vivo? Pelo menos. vive. que ficou enganchada na cadeira. Tinha o cabelo caído. olhou o braço de Nicholas que estava contra seu peito. Kit tossiu uma vez e depois outra. Quando cambaleou.Nicholas se ajoelhou ante o corpo inerte de Kit e lhe pôs as mãos sobre a cabeça molhada. duas. depois inclinou a sua e fechou com força os olhos. sabia onde estava seu irmão. 159 . Um cavaleiro lhe deu um lenço. — Deixem-no aqui. que estava chorando. — A donzela o salvou —disse um dos cavaleiros — É um milagre. Nicholas estava de pé e contemplava seu irmão. tinha uma linda lagoa.Dougless lhe deu a volta.Nicholas sustentou pelos ombros o seu irmão enquanto este expulsava a água. Os homens de Kit vacilaram. como até os raminhos que precisavam para a chaminé.Dirigiram-se por entre as árvores para um claro. — Obrigada —lhe disse. Dentro. não viverás o suficiente para repetir as palavras. Um cavaleiro lhe tampou o corpo com sua capa. apertou-lhe os pulmões e depois lhe levantou os braços para que respirasse. Nenhuma resposta. juntaram as mãos e inclinaram as cabeças. faltava-lhe uma manga e tinha sangue de Nicholas na outra. Todos a observavam como se fosse metade santa e metade demônio. e adiante deles. Sobre seu estômago —lhes ordenou. Cansado. Por favor.Dougless continuou trabalhando. Quando já ia abandonar. que talvez agora a escutaria. Soou outra vez o nariz e tratou de pôr-se em pé. e uma mulher derrama lágrimas. tinha perdido um sapato. fora. e depois vomitou água. Dougless se pôs a trabalhar de imediato. O corpo estava de bruços. dentro. Nicholas desceu com o cavalo ainda em movimento.Kit deixou de tossir e se reclinou contra seu irmão. enquanto os demais observavam a Dougless. mas estava segura de que o sabia. — Não —disse. Olhou a seus homens e viu que os seis contemplavam a Dougless. Os homens se ajoelharam. Uma. Nicholas o abraçava com força. Nunca pensou em perguntar como Nicholas sabia onde estava Kit. rodeada por mais árvores. — Obedeça-a! —Rugiu Nicholas. — Se voltar a chamá-la de bruxa. e o que viu a estremeceu.e se meteu no bosque. o vestido rompido.Correu para a lagoa. Subiu sobre ele. — Reze —lhe pediu ao homem que se encontrava mais perto dela — Preciso de toda a ajuda possível. e soou o nariz. O homem compreendeu que falava a sério. três vezes. Peça um milagre. e Dougless o seguiu. — Kit. e depois: NÃO! Dougless passou junto a ele e se dirigiu para os homens que sustentavam Kit. O solo não tinha armadilhas e. — Bruxaria —murmurou outro homem. — Isso é forma de tratar um homem que voltou da morte —comentou Kit— Meu irmão sangra sobre mim. Nicholas o olhou. rasgando a longa saia. O sangue lhe jorrou pelo peito nú e molhado.Dougless olhou a Nicholas e soube que já não a odiava. estava limpo. Três homens estavam tirando da água o corpo nú e imóvel de Kit. por favor —sussurrou. um dos homens a ajudou.

. — Agora quero que todos se ponham a trabalhar. Vocês dois ajudem a Kit. — Tens uma harpía nas mãos. quero ver o que fizeste. — Um não de mulher me satisfaz muito —lhe disse Nicholas com suavidade. levanta-te. sensual.— Oh. teu braço é um desastre. como se estivesse preocupado de que pudesse morrer outra vez se o soltasse — Por que não me trazes a roupa? —Pediu-lhe com suavidade. Tinha esse olhar terno. — Este se parece mais ao irmão que conheço —levantou a vista ao ouvir que seus homens regressavam. — Não —replicou Dougless. mas cambaleou. Dougless retrocedeu e observou como Nicholas se dirigiu lentamente para a orla. Nicholas soltou seu irmão e começou a pôr-se de pé. por fim. Nicholas. As sanguessugas. — Estás chorando outra vez? Suas palavras. levante. deve estar gelando. Seus lábios não se tocaram. Regressaremos para ocupar-nos desse braço —lhe indicou Dougless. tão familiares. levantou o braço e Dougless se impressionou. Este era. Isto é muito comum em meu país. — Nicholas. Ficaremos os dois aqui. seu Nicholas. —Levantou os olhos e viu que Kit estava vestido. irmão —lhe disse Kit com alegria. Temos que regressar para casa. — Como está?— Creio que não vou perder o braço. e vocês vejam se têm vendas limpas para o braço de Nicholas. A perda de sangue. Vamos! Corram! Uma das vantagens que tinham as mulheres de todos os tempos era que o menino pequeno que tinha em todo homem sempre recordava a época em que as mulheres eram toda poderosas. Nicholas. — Sanguessugas! Não pode perder mais sangue. que lhe indicava que a faria sentir-se feliz. — O vento – respondeu — Nada —mais lhe sorriu.Dougless observou Nicholas e lhe acariciou o cabelo molhado. Este retrocedeu e Dougless o sustentou entre seus braços. e como estava débil. levantando o braço que não tinha ferido para ela. Nicholas se voltou e apoiou a cabeça sobre sua saia. seus homens o conduziam até seu cavalo. vamos. Não vai falar-me com doçura para fazer-me fazer o que desejas enquanto te produz uma gangrena no braço. — Não —lhe respondeu. Chocavam-se uns com outros enquanto corriam para cumprir suas ordens. — Não.. não faças isso —repetiu Dougless com firmeza — Vamos! Digo a sério. irmãozinho —lhe pediu a Nicholas.Lentamente. — Honoria? 160 . Dê-me o seu braço. que estava amontoada à orla da lagoa.Kit riu. Aqui estava outra vez o homem que tinha amado e perdido. Obediente. lhe encheram os olhos de lágrimas. Nicholas ainda o sustentava com força. As vendas estavam empapadas de sangue. a mão e a manga tinham sangue seco. e depois mexeu a cabeça ao ver que Dougless se dirigia a procurar sua roupa.Kit tomou a roupa com solenidade de um rei que aceitava a coroa em seu coroamento e depois sorriu: — Senta-te. Temos muita água. combinada com a cavalgada e o medo. limpar a ferida e deixar que Honoria a cuide. e que alguém comprove selas para os cavalos resistirem a viagem. viu que os homens acreditaram nela. e as pessoas sempre se afogam. deixem de me olhar assim. recolheu a roupa e a deu a seu irmão. provavelmente porque desejavam fazê-lo. Para sua tranqüilidade. tinham-no debilitado. ajudou-o a sentar-se e depois se sentou junto a ele. não é um milagre. Pobre Kit. Para valer.

permita-me ocupar-me dele. recordou que tinha passado junto a lady Margaret sem falar-lhe. — Por favor. Lady Margaret e todas suas damas os esperavam para recebê-los. só sabão. Um dos cavaleiros se tinha adiantado para dar a notícia do acidente de Kit. — Éramos amantes? Dougless respirou profundamente. ensangüentado e sujo. Dougless pôs água para ferver na chaminé. levantou a cabeça da saia de Dougless. — Vieste a mim em minha época— agora que estava disposto a escutar. uma panela com água fervendo.Lady Margaret se adiantou para abraçar a Kit quando desmontou. cera de abelhas. E agora regressava toda bagunçada. mas este que a olhava com olhos resplandecentes a fazia estremecer. Tinha perdido sua pequena coifa de pérolas.Cavalgaram a passo lento para a casa dos Stafford. cavalgando e com as saias subidas até as pantorrilhas. agulhas de prata e fio branco de seda. Ele a olhou surpreso. Lady Margaret olhou a Nicholas e depois assentiu com a cabeça. — O sabão mais forte que tiver. Mas seu vestido rompido. O Nicholas que a acusava de bruxaria não tinha poder sobre ela. — Eu não me movi. Dougless engoliu saliva. água e desinfetante. tomou umas pequenas tesouras de costura e começou a cortá-las. — Fala-me do que fomos um para o outro. mas depois olhou para adiante quando viu a casa.. e quando estiveram perto Dougless tratou de manter-se erguida e arrumar sua roupa. — Para mim és linda. Quando esteve a sós com Nicholas. Lady Margaret lhe tomou a cara e a beijou em ambas bochechas. senhora posso ocupar-me do braço? Por favor. já não tinha arranjo. — Não posso fazer isto senão ficar quieto. e depois a observou um momento — Estivemos muito juntos? Nos amamos muito? 161 . e enquanto Dougless tratava de atuar com eficiência podia sentir sua intensa olhada. e também que praticamente adiante da cara das damas tinha dado um pontapé à porta para que se abrisse. lavou-lhe o braço ferido num grande recipiente de cobre com água limpa. foi você —lhe respondeu. Dougless lhe entregou a Honoria uma lista das coisas que precisava. — Perdão. observou seu braço ensangüentado e gritou: — Sanguessugas!Dougless se interpôs entre a mãe e o filho.Uma vez no dormitório de Nicholas. beijou-a rápida e docemente. Tinha o torso nú. minha bolsa e o pano mais branco e limpo desta casa —três serventes correram a cumprir suas ordens. Honoria me ajudará. e depois se voltou para Dougless. Quando estavam a ponto de chegar. Por favor.Dougless sentiu o rosto quente de turbação e prazer. — Dói-me um pouco —devagar e com expressão contrariada. ela não tinha muitos desejos de falar. mas quando passou junto a sua cabeça. — Tens comprimidos para as feridas? — Não. senhora —se desculpou — por minha aparência.— Ela costura melhor que ninguém.Regressou com ele e viu que o sangue seco se tinha tirado das vendas.. Nicholas franziu o cenho. — Creio que não vou poder enfrentar tua mãe —lhe disse a Nicholas. algo com alvejante. Lady Margaret se voltou para Nicholas. Eu.

mas não a tinha escutado. Seus ciúmes quase lhe tinham custado a vida de seu irmão. porque tinha mentido quando ela lhe perguntou pela porta de Bellwood. Se esta mulher não tivesse estado ali. com a esperança de que lhe dessem sonho. Vieste a mim por uma razão. Eu averiguei a verdade depois que você se foi. dele e de ninguém mais. ainda não. perdendo sua expressão sensual. e ele ainda não lhe acreditava o suficiente. Era muito cedo.Nicholas se reclinou sobre os travesseiros.. As quatro mulheres arregaçaram até os cotovelos e depois lavaram as mãos e os braços. Continuou tirando-lhe as vendas da ferida até que por fim viu o profundo corte. Dougless o vendou com um pano limpo. Precisaria mais tempo antes que tivesse a suficiente confiança como para falar-lhe de Lettice. Você e eu pesquisamos para averiguar quem te tinha traído.—olhou-o. Quando o braço esteve costurado. tenho que me ocupar de teu braço. Nicholas —lhe respondeu. portanto pensou que Nicholas poderia viver com um pouco de seda dentro do braço.Nuns minutos. não a averiguamos.Honoria e as serventes regressaram com tudo o que Dougless tinha ordenado. Não podia seguir desconfiando desta mulher. Mas agora tinha tempo. e ela as pôs a trabalhar. — Te contarei tudo mais adiante. Culparam-te de traição e vieste a minha época porque encontraram os papéis de lady Margaret. Dougless lhe pediu a Honoria que lhe costurasse o braço de Nicholas. estava dormindo. mas Dougless insistiu. pois seus pontos eram limpos e precisos. Uniu a capa superior da pele enquanto Honoria a costurava com cuidado. Só ouviu que falava sobre Kit.— Oh. Seu coração lhe golpeava no peito quando pensou o perto que tinha estado em perder seu irmão. mas não pôde. e. Os únicos comprimidos sedativos que tinha em sua bolsa eram Librax para acalmar seu estômago quando estava preocupada. para ajudar aos meninos. Os pontos internos ficariam dentro do braço para sempre.Não estava segura do que fazia. mas depois de anos ensinando na escola primária tinha aprendido a olhar dentes quebrados.. Sabia que amava a Lettice e que tinha desejado tanto abandonar o século XX e a ela para regressar com sua amada esposa. depois de que. Tinha-lhe advertido que Kit lhe mostraria a porta uma semana antes de morrer. agora. Dougless ferveu agulhas e fio de seda. depois de que te executaram. Soube dos serventes metidos no armário quando Arabella e ele estavam se apalpando sobre a mesa. Nunca lhe tinham se dado bem com feridas ensangüentadas. A donzela palideceu. O rosto de Nicholas foi mudando. pensou. Kit teria morrido. e se envergonhou ao sentir que lhe enchiam os olhos de lágrimas —Não foi assim. Honoria não lhes permitiu que questionassem nada que Dougless lhes pedia que fizessem. Sabia que a ferida de Nicholas precisava de um médico e também sabia que por agora ela era o melhor que dispunham. Seria bom se tivesse Valium. — Que mais sabes? Abriu a boca para falar-lhe de Lettice. feridas ensangüentadas e membros rompidos com um sorriso. Isto não era tão urgente como o caso de Kit. E soube de Kit.Quando tudo esteve limpo. Começou a tirar-lhe lentamente as vendas. Deu dois Librax a Nicholas. mas o pai de Dougless tinha uma placa de aço na perna desde a Segunda Guerra Mundial. — Averiguamos a verdade? — Não. e 162 . Indicoulhes às serventes que desejava que fervessem mais panos para utilizá-los no dia seguinte. E tivesse sido um erro seu. mas não o tinha. mas lhe indicou a Honoria que costurasse a incisão do braço em duas camadas.

Não era como o moderno veludo de rayon ou o pesado de algodão. para não incomodar Nicholas — Deve de ficar bem em você. — Vou trazer uma bata —lhe disse Honoria. Honoria lhe disse que se ocuparia disso. sentou-se numa cadeira junto ao fogo e se pôs a esperar. É. Estava quente.Dougless despediu a todas. Nos relatos de lady Margaret que se tinham encontrado na parede. — Só quero que Nicholas esteja a salvo. ela afirmava que a Kit o tinham assassinado. então talvez Nicholas morreria. — Creio que se pedísses as escrituras da metade das propriedades dos Stafford. com uma bata de bordado vermelho. Não teve magia nem feitiçaria —replicou Dougless. Dougless observou a Nicholas. — Devería descansar e mudar de vestido —lhe disse a donzela. — Como está Kit? —Sussurrou Dougless. só algumas aspirinas. mas creio que deveria provar. não tinha penicilina. agarrou-lhe a perna e puxou ele para baixo. Se a Nicholas lhe subisse a temperatura. lady Margaret não a negaria. este era tudo de seda e brilhava como só podia fazê-lo esse tecido. tivessem as mãos muito. Afirma que alguém tratou de matá-lo. Se Kit não tinha morrido. — Eu não devolvi ninguém da morte. e também o corpete de aço. — Dorme. Alguém nadou por embaixo da água. Quando ele acorda. Honoria a olhou com seriedade. nem antibióticos orais. Crês que a lady Margaret se incomodará se eu ficar aqui? Honoria sorriu. Talvez tinha algo mágico. mas não parecia ter mais de uns graus de febre.—interrompeu-se. A cada momento colocava a mão na testa de Nicholas. neste caso. Dougless também sorriu. — Se você não o tivesse devolvido da morte.. e se retirou... Nos braços trazia um vestido de veludo roxo. só me dói um pouco. — Lady Margaret vos envia isto —sussurrou. Uma hora mais tarde. e quando a Nicholas lhe cortaram o braço. ela sentiu sua dor. — Já não dói o braço? — Já está melhorando. mas hoje ela tinha mudado a história. Pensou que não devia preocupar-se. com mangas largas de arminho branco. Dougless tomou o vestido e tocou o suave veludo.. que sua morte não tinha sido um acidente. e se encontrava sentada frente à chaminé.—disse Honoria. Estava cochilando na cadeira quando abriu a porta e entrou Honoria. 163 . porque conhecia o futuro de Nicholas. Não quero que lhe suba a temperatura. e não quis olhar a Honoria nos olhos. as pequenas filas estavam costuradas a intervalos. Dougless tinha tirado o vestido sujo e rasgado. Regressaria ao século XX e averiguaria que Kit tinha vivido muitos anos e seu irmão menor tinha morrido de um corte no braço? A história ou. Dougless desviou o olhar. quero estar aqui. — Tenho que ficar com ele. que ainda dormia. muito limpas. Tinham-na enviado ao século XVI. o futuro seria diferente.que quando os tocassem.

e Dougless sorriu ao olhá-las. — Tens estado olhando muito tempo os desenhos? —Perguntou-lhe entre bocado a bocado. Sentou-se junto a Nicholas e começou a darlhe de comer. percorreu a habitação. E ao fundo estava Nicholas. — Mostrou isto a alguém mais além de mim? — Eu não te mostrei —replicou. tudo o que possuíam o transformavam em formosos objetos de ouro e prata decorados com jóias.CAPÍTULO 17 As sombras da habitação se engrandeciam e Nicholas ainda dormia. e Dougless soube de imediato que era Thornwyck. mas Nicholas não acordou. mas Dougless o retirou. mas depois. e quando viu que não tinha sinais de febre. e se dirigiu para ele. Quando chegou a noite. todos realizados em extraordinárias cores. A maior parte pertenciam a pessoas que não conhecia. — Estás rezando? —Perguntou-lhe Nicholas da cama. Dougless acendeu velas e o observou. tocou um jarro e pensou que seria maravilhoso que as ações de sua família se convertessem em louças de ouro. Agora compreendia o que se referia Nicholas quando lhe disse que sua riqueza estava em sua casa. Débil. desatou-o e o estendeu sobre o chão. A estante da chaminé tinha vários pratos e copas de ouro e prata. Era o plano de uma casa. como correspondia a um filho da casa. Como não tinha bancos para guardar as riquezas de uma grande família como a dos Stafford. Que tinha sucedido com estes retratos no século XX? Teria algo pendurado em algum museu com um cartão de pessoa desconhecida ao lado? Com o retrato na mão. Tinha um homem maior que tinha a mesma mandíbula que Nicholas. com o cabelo escuro contra a tez branca. começou a distender-se e a ocupar-se de si mesma. recostou-se contra os travesseiros. e Dougless saltou. e tratou de agarrar a ponta do papel. mas um deles era de lady Margaret quando era jovem. ainda que não muito forte. Tomou um. Seu pai? Perguntouse. Sabia que a tampa se levantava. Tinha um óleo em miniatura de Kit. Olhando-o para assegurar-se de que estava dormido. — Só abri um. tão pacífico na cama. Dougless meteu o plano no assento. Primeiro. — Como te sentes? — Me sentiria melhor se não tivesse uma mulher remexendo em minhas coisas privadas. Seus olhos se pareciam aos de Nicholas. cedeu. Uma servente trouxe uma bandeja com comida.Se aproximou dele e lhe tocou a testa. Crepitou. colocou o retrato na estante e levantou a tampa. Levantou o plano do solo. e se perguntou que guardaria Nicholas dentro. — Tens fome? —Serviu numa malga de prata a sopa de uma panela que se encontrava na chaminé para mantê-la quente. sustentou-o um momento e o acariciou. Durante quatro horas não fez outra coisa mais que o contemplar. Junto à chaminé tinha uma longa fileira de pequenos retratos ovais.A habitação estava decorada com riqueza. Quando pensas começar a construí-lo? 164 . Sorrindo. Dougless pensou que parecia um menino cuja mãe tivesse olhado sua caixa de segredos. Junto à janela tinha um assento com um almofadão. Dentro do assento tinha rolos de papel atados com pedaços de fio. como todos os homens. protestou.Tomou o retrato da parede.

Já recordei todos os jogos e canções que sabia.Assinalou-lhe a metade vazia de sua cama. — Fui executado —agregou Nicholas. e na 165 . Abriu os olhos e lhe sorriu. e também a de meu irmão. — Creio que provocarias um problema a uma mulher mesmo se estivesse com ambos os braços e pernas vendadas. — Se vivo. — Agora que Kit está a salvo. — Acha que posso fazer algo estando tão débil? —Perguntou-lhe com os olhos meio fechados pelo cansaço. você. — Está bem meu irmão? —Perguntou-lhe. como fez antes.. Não. não tire os pontos. não te sentes ali... já tinhas começado a construir Thornwyck — quase riu da expressão de seu rosto. Tens que te ficar quieto. a respeito de ti.. Às vezes não compreendia suas palavras. era 1564 e já o tinhas feito.— É uma tolice. tenho tempo. por favor.. pensou.Uma noite não tivemos vergonha um do outro. Olha-me com olhos de amor. Aqui. Que posso fazer para recompensar-te? Me ame.. caía-te água e estavas nua —a observou de cima abaixo.. só o tinha começado. mas sim o significado. — Não desejo nada. e ele lhe tomou os dedos e os beijou. como se pudesse ver através da grossa bata— Não creio que sempre tenhas sentido tanta vergonha comigo. Quando fostes para mim no futuro. Na realidade. não posso deitar contigo —só de pensar em estar perto dele lhe acelerava as batidas do coração.. — Nicholas. Nunca terminou porque você. — Perfeitamente são. — Desde o princípio? —Perguntou-lhe Dougless —Demorarei muito. Deixaria de lado os automóveis. quase lhe responde Dougless. Teu braço precisa cicatrizar. —interrompeu-se e sorriu. Quando vieste a mim. — Já dormi tudo o que precisava. Fica e entretém-me. devo-te a vida. — Nicholas. Kit poderia. Sei tudo sobre teu amor pela arquitetura.. Ele não perdeu sangue como para encher um rio —lhe limpou os lábios com um guardanapo. recordando quando esteve no chuveiro com ele. Até que Lettice te pegue. — Como soube que este plano era para Thornwyck? — Já te disse. Ficaria no século XVI para sempre se me amasses. e pela primeira vez realmente acreditou em suas palavras — Quero que me contes tudo. Dougless soube que estava pensando no perto que tinha estado de perder a Kit. Apaixona-se por mim outra vez. mas Dougless o empurrou sobre os travesseiros.— Por que choravas? Por que estavas em Ashburton? Não podes estar de pé e contar-me esta longa história. Melhor do que você.. — Já deixei os entretenimentos. — Tive um sonho. Estavas numa espécie de caixa branca. — Não — respondeu com voz rouca. Só desejo que vocês dois se arrangem bem e que a história se desenvolva corretamente —pôs a malga vazia sobre uma mesa — Tens que dormir mais. a ‘caixa branca’ de seu sonho . — Eu estava chorando numa igreja de Ashburton e. os dentistas e os banhos se me amasses outra vez. — Por quê você não me entretém? —Tirou os planos do assento — Por quê não me falas disto? — Não —replicou no instante — Deixa-os onde estavam! —Tratou de sentar-se. Dougless fez uma careta. Nicholas lhe sorriu.

— Mmm. —deteve-se. os homens e as mulheres são mais semelhantes. As mulheres podem escolher livremente. Um desses idiotas que chamas de médicos se tivesse te tocado nesse corte com as mãos sujas e zás! Terias morrido. Sim. Em minha época. estaria muito agradecido. não é assim.. provavelmente terias perdido o braço ou sido morto pela ferida. Vêm. nem compartilhou suas coisas contigo ou exigiu que sua filha te respeitasse. já que lhe averiguou coisas que ela não desejava contar-lhe... ‘bons momentos’. Todas as mulheres de tua época se vendem tão barato? —Não é barato. seu adorável Nicholas pensando sempre primeiro nos demais. já vejo. suspirou — Juro por minha honra que não te tocarei. já que este conseguia tudo o que desejava de ti.. — Claro que desejam respeito. e os pais não lhes dizem a suas filhas o que devem fazer. podia ver que a convivência com um homem a tinha rebaixado. Preocupa-me que se agora te toco posso regressar a minha própria época. mas em lugar disso. Terminou contando-lhe tudo sobre Robert. pois estava um pouco elevada do solo. E dizes que escolheu isso livremente? — Eu. Sorriu.—não sabia como lhe explicar sua convivência com Robert a um homem do século XVI. Você não entende. Tenho mais coisas que fazer. e sentiu que podia confiar nele mais do que em si mesma. Muita gente vive junta antes de casar-se. — Mais? —Perguntou-lhe — Vai morrer mais alguém? Minha mãe? Kit ainda não está a salvo? Dougless lhe sorriu. Afundou-se no colchão de plumas. — Não pode! Se eu não tivesse estado aqui. mas por que não tinha enfrentado Robert e falado como ele se atrevia a tratá-la assim. As coisas só se estragavam quando aparecia Glória. — Posso me cuidar sozinho. como tu dizes. achei que Robert ia pedir que me casasse com ele. — Está bem —lhe respondeu. ou que não ia pagar a metade da 166 . bom.. e ainda não posso ir.. E. agora. Passamos alguns bons momentos juntos. Era mais do que um bom ouvinte. isso é tudo. — Ao que parece os homens seguem mandando. De uma coisa estava certa: era um bom ouvinte. aliviado. — Vivias com ele sem ter-se casado? Teu pai não o matou por raptar-te? — No século XX não é assim. depois. por dizê-lo assim. vivendo no mundo isabelino. — Falas de um modo muito estranho. — Por que choravas na igreja? —Perguntou-lhe com suavidade. É para provar a água. Seu Nicholas. mas não te converteu em sua esposa. Robert foi muito bom comigo. senta ao meu lado e conta-me tudo — como Dougless não se movia. Na realidade. — É você quem está em perigo. As mulheres já não desejam que o homem as respeite. Dirigiu-se para o outro lado da cama e saltou para subir. Nicholas a fazia sentir como se pensasse muito pouco em si mesma — você não entende. — Se uma mulher linda me desse tudo e em troca eu só fosse dar-lhe.manhã seguinte te foste embora. Claro que o casamento não era uma garantia de que a respeitaria.. é só que. desejam um ‘bom momento’. Nicholas a olhou surpreso.. Os homens e as mulheres são diferentes no século XX.

. Nicholas lhe pediu que lhe descrevesse um telefone. Depois de responder suas múltiplas perguntas sobre sua relação com Robert. mas depois compreendeu que agora que lhe acreditava. continuou. teria mais tempo no futuro para contar-lhe tudo.. antes de que me exec. mas você diz que isto estava no meio da construção antes de que me. Na Inglaterra.Dougless estava começando a exasperar-se porque não podia continuar com a história. Creio que agora que Kit está vivo terás que ter sua aprovação para construir este lugar. contrataria alguém. A igreja está ao lado. tomou um hidrocor e realizou alguns formosos esquemas em perspectiva das janelas.Quando já não pôde encontrar fotografias para mostrar-lhe. Nicholas se pôs encostado. — Assim eram as janelas? — Sim. Tirou três revistas e procurou fotografias. — Só depois de que Kit morreu. — Quando vi Thornwyck. — Quero ouvir toda. Nicholas se recostou nos travesseiros e sorriu. e a guia explicou que tinha um caminho de madeira entre a igreja e a casa. Falou-lhe de seu pranto junto à tumba dele. Estávamos numa dessas habitações e se via o jardim abaixo. Desejava saber o que era um ônibus. Em meu século todos trabalham. exatamente... Ao que parece. tomou um caderno e com as hidrocores se pôs a desenhar. Nicholas se reclinou e começou a desenhar. pois Nicholas começou a fazer-lhe mais perguntas. Dougless não podia descrever-lhe tudo o que desejava saber. E onde estão os vidros curvos? — Vidros curvos? — Assim —Dougless começou a fazer um esboço. mas não era muito boa no desenho. — Vou ter que me fazer artesão? — Nicholas —replicou com severidade —há muitas coisas que me agradam em teu século. É desagradável ser um ‘rico ocioso’. — Contratar alguém? Por quê? Você pode fazê-lo. Estes desenhos são perfeitos. mas teu sistema de classes e as leis suntuarias não fazem parte delas. — Quer ouvir a história ou não? —espetou-lhe. E a princesa real também. tinha tido uma visão dela sobre um veículo de duas rodas e desejava que o explicasse. As hidrocores e o papel provocaram mais perguntas. tiveste total liberdade para fazer o que desejava. a torre da esquerda era diferente. não podia recordar por que tinha permitido que a dominasse assim. canso-me de ler seus compromissos. acabaram-se as esperanças de continuar com a história. Nicholas tinha uma curiosidade insaciável e lhe fazia perguntas mais rápido do que ela podia respondêlas. a nobreza também trabalha. o príncipe Miguel 167 .passagem de Glória ou que não ia passar-lhe as camisas? Agora mesmo. sua repentina aparição ali e sua incredulidade a respeito de quem era. O príncipe Andrés é fotógrafo. Eu vi Thornwyck e me pareceu lindo.Não pôde prosseguir. A princesa Diana viaja por todo o país cortando fitas e fazendo buracos para árvores com o fim de coletar fundos para obras de caridade. Quando Dougless lhe contou que tinha ligado a sua irmã. então se levantou da cama e tomou sua bolsa. — Não sou mestre de obras —replicou Nicholas olhando o plano — Se Kit precisasse de uma casa nova. Também lhe falou de quando quase o atropelou um ônibus.Quando lhe mostrou as revistas. — Nunca falei a ninguém sobre meus planos.

não sucedeu? Nicholas lhe fez uma careta. verdade? Não quer ser um de seus jovenzinhos. não estarás pensando em ir à corte. Nunca tinha tido que pensar em satisfazê-lo. De menina se tinha esforçado por ser tão perfeita como suas irmãs maiores. mas Dougless só tinha que observar os lucros de suas irmãs para saber que precisava fazer mais...escreve livros. humilhante.. por favor.. 168 . e seu pai o tinha pendurado. Dougless sonhava desperta. Apareceu naquela igreja.. tinha tratado de satisfazer aos outros toda sua vida. Crês que nossa adorável rainha está ociosa? De repente. A amarela parecia estranha e. Ao que parece. assim que a tirou. para Dougless. mas suas irmãs se tinham destacado. mas Dougless sempre era um pouco vergonhosa. — Não faças isso! Seja o que fizer.—interrompeu-se e o olhou. troféus de beisebol. vai deixar-me que te conte o resto da história. Não tinham tido o que fazer. troféus de montar a cavalo.. não é? — Um de seus. sempre se sentia como uma estranha.Ao que parece. orgulhoso. falaria América do Norte em inglês? — Com quem se casará Isabel? —Perguntou Nicholas — Quem levará no trono junto a ela? — A ninguém. O príncipe Carlos trata de que Inglaterra não pareça um complexo de escritórios de Dallas. Dougless se perguntava se não estaria mudando a história. Com Nicholas podia ser ela mesma. Uma vez Dougless ganhou uma fita amarela pelo terceiro prêmio ao melhor docinho de maçãs na igreja. afastou-a de um homem que não a amava e lhe mostrou a verdadeira reciprocidade do amor. e. todos seus professores lhes tinham ensinado a elas antes que a Dougless. tivesse existido uma época que Inglaterra foi a nação mais poderosa do mundo? Se a Inglaterra não tivesse sido uma potência mundial. parecia agradálo de forma natural. E esta sempre era uma decepção. ou vais continuar dizendo-me que o que sucedeu. pasmado — O que sabes desta mulher? Alguns afirmam que a verdadeira rainha é María de Escócia e que os Stafford deveriam unir suas forças com outros para pô-la no trono. fitas de feiras de ciências por todos lados. Seu pai sustentava que qualquer coisa que fizesse estava bem para ele. — Se entregaste livremente a um homem e eu fui salvar-te. Seus pais nunca a tinham comparado com suas irmãs. — Nicholas. Elas tinham milhões de amigos. Ele a tinha salvado. medalhas. já tivemos esta discussão. Dougless não era muito boa para os esportes. —perguntou Nicholas. não invista teu dinheiro em ninguém mais do que em Isabel —enquanto falava. teria aceitado ela o trono? Se Isabel não tivesse sido rainha. continua. Dougless recordou de ter lido que uma das razões pelas quais Nicholas foi executado foi que algumas pessoas estavam preocupadas de que pudesse ter acesso à corte e seduzir à jovem rainha Isabel. seus irmãos jamais. — Não é tão estranho que a realeza trabalhe. com sua brilhante armadura. Isabel não se casa com ninguém. Sim. e realiza um excelente trabalho governando o país e grande parte do mundo. que tinham ganhado os dois primeiros prêmios. junto às fitas azuis e morada de suas outras filhas. e não comeces outra vez. Se os Stafford e todo seu dinheiro tivessem posto a disposição de María. — Não é assim exatamente. pois tinha troféus de tênis. Agora. mas nunca o tinha conseguido.

Robert tinha sido uma tentativa de satisfazer a sua família. Talvez ele, um distinto cirurgião, fosse o maior troféu. Nicholas a tinha salvado, pensou, mas não da maneira em que ele achava. Não a tinha salvado ao jogar Robert pela escada. Tinha-a salvado ao respeitá-la, e ela tinha começado a ver a si mesma através dos olhos de Nicholas. Dougless duvidava que suas irmãs tivessem podido enfrentar-se com o que sucedeu tão bem como ela. As três eram tão sensatas e judiciosas que provavelmente tivessem chamado à polícia se um homem com armadura lhes tivesse dito que era do século XVI. Nenhuma delas teria tido o bom coração suficiente para ter lástima de um pobre louco. — Do que ris? —Perguntou-lhe Nicholas com suavidade. — Estava pensando em minhas irmãs: são perfeitas, não têm um defeito. Mas me dei conta de que a perfeição às vezes pode ser um pouco solitária. Talvez eu trato de satisfazer as pessoas, mas há coisas piores. Talvez tenha que encontrar à pessoa adequada a quem agradar. Nicholas estava obviamente confuso. Tomou-lhe da mão e começou a beijar-lhe a palma. — A mim me agradas muito. Ela retirou a mão. — Não podemos... nos tocar lhe explicou, gaguejando. — Mas já nos tocamos, não é? Lembro ter-te visto. E me parece ter-te tocado —lhe disse, baixando a voz. — Sim —sussurrou Dougless —nos tocamos —estavam sós na cama, e a habitação estava escura exceto pelo brilho dourado de três velas. — Se nos tocamos já, então não importará que o façamos outra vez nesta vida — estendeu as mãos para tocá-la. — Não —lhe suplicou — Não podemos. Regressaria a minha época. Nicholas não se aproximou mais e não pôde compreender por que se deteve. Mas sentiu o desespero de Dougless. Nunca o tinha detido um ‘não’ de uma mulher. Em seguida tinha averiguado que as mulheres não queriam dizer que não. Mas agora, na cama com esta mulher apetitosa, descobria-se fazendo-lhe caso.Recostou-se sobre os travesseiros e suspirou. — Estou muito débil para fazer algo. Dougless riu. — Certo, acho que tenho algumas terras para vender-te na Flórida. Nicholas sorriu e compreendeu o significado de suas palavras. — Vem, senta perto de mim e conta-me mais de tua época e do que fizemos ali — levantou o braço ferido, e Dougless, contra seu são juízo, aproximou-se. Nicholas a atraiu muito perto e a abraçou com o braço direito. Ela se opôs num instante, depois suspirou e se acomodou contra seu peito nú. — Compramos roupa para você —continuou, sorrindo ao recordar — Atacou o pobre vendedor porque os preços eram muito elevados. E depois fomos tomar chá. Encantou-se com o chá. Depois procuramos um hotel —fez uma pausa — Isso foi à noite em que me encontraste sob a chuva.Nicholas a escutava. Não estava seguro de crer em sua história sobre o passado e o futuro, mas sim estava seguro do que sentia com ela em seus braços. Seu corpo junto ao seu era algo que recordava muito bem. Explicou-lhe que parecia que ele podia ‘ouví-la’. Disse-lhe que não estava certa de como funcionava, mas que o tinha utilizado no primeiro dia que chegou ao século XVI. 169

Tinha-o ‘chamado’ sob a chuva, e ele tinha ido até ela. Recriminou-lhe de sua rudeza e que lhe tivesse feito cavalgar na garupa do cavalo. Mais tarde, quando estava na habitação do último andar, tinha-o ‘chamado’ outra vez.Nicholas não precisou mais explicações sobre isto, porque sempre parecia sentir o que ela sentia. Agora, enquanto a tinha entre seus braços, com a cabeça sobre seu peito, podia sentir seu bem-estar, mas também sua excitação sexual. Nunca tinha desejado tanto fazer-lhe amor a uma mulher como a ela, mas algo o detinha. Dougless lhe estava falando sobre a visita a Bellwood e quando ele lhe mostrou a porta secreta. — Depois disso acreditei em você —lhe disse - Não porque soube da porta, senão porque estavas tão ferido de que o mundo te recordasse por tuas travessuras em lugar de por todas as coisas boas que tinhas feito. Ninguém no século XX sabia que tinhas desenhado Thornwyck. Não ficou nada que provasse que fosse o desenhista. — Não sou um artesão. Não... Ela se inclinou para olhá-lo. — Já te disse que em nosso mundo é diferente. O talento se aprecia.Ele a olhou e lhe tomou o queixo. Lentamente, aproximou seus lábios a ela e a beijou com delicadeza. Afastou-se, sobressaltado. Dougless tinha os olhos fechados e seu corpo suave e dócil contra o seu. Podia tomá-la, o sabia, mas algo o detinha. Quando afastou a mão de seu queixo, viu que tremia. Sentia-se como um moço com sua primeira mulher. Exceto que a primeira vez que se deitou com uma mulher, tinha-se comportado de forma entusiasta e veemente, e não tinha tremido como agora. — O que me fizeste? —Sussurrou. — Não sei —respondeu Dougless com voz suave - Creio que talvez estávamos destinados a estar juntos. Mesmo nascendo com quatrocentos anos de diferença, somos feitos um para o outro. Nicholas lhe acariciou o rosto, o pescoço, o ombro e o braço. — Ainda não posso deitar contigo? Não posso tirar-te a roupa e beijar-te os seios e as pernas, beijar-te... — Nicholas, por favor —lhe afastou os braços - Tal como já é bastante difícil. Tudo o que sei é que quando estávamos juntos no século XX, depois de que fizemos amor desapareceste. Estava te abraçando e você desvaneceu. Agora te tenho outra vez e não desejo voltar a perder-te. Podemos estar juntos, conversar, estar unidos de qualquer maneira menos fisicamente; isso se desejar ficar contigo. Nicholas a olhou, viu e sentiu a dor que ela sentia, mas nesse momento desejava fazer-lhe amor mais do que compreender. Dougless se deu conta do que estava pensando e, quando tratou de tocá-la, levantouse da cama. — Um dos dois deve manter a sensatez. Quero que descanses. Amanhã falaremos mais. — Não quero falar contigo. Dougless riu e recordou todas as coisas que tinha feito para seduzí-lo. — Amanhã, meu amor. Agora tenho que ir. Já vai amanhecer e tenho que me encontrar com Lucy e... — Quem é Lucy? — Lady Lucinda não sei do quê. A menina que vai casar com Kit. Nicholas bufou. — Essa gorda. 170

Dougless se irritou. — Não é tão formosa como a mulher com a que vais casar-te, não é? Nicholas sorriu. — Está com ciúme. — Não estou com ciúme. Eu... — voltou-se. O ciúmes não descreviam o que sentia por Lettice, mas não disse nada. Nicholas já lhe tinha aclarado que amava a mulher com a que ia casar-se, e não escutaria nada que Dougless dissesse contra ela. — Tenho que ir e quero que durmas. — Dormiria melhor se ficasses comigo. — Mentiroso —replicou, sorrindo. Não se atreveu aproximar-se outra vez. Estava cansada por tudo o que tinha sucedido durante o dia e por uma noite sem dormir. Recolheu sua bolsa, dirigiu-se para a porta, olhou-o por última vez, com o torso nú e o cabelo escuro contra a brancura dos travesseiros, e se apressou a sair antes de mudar de idéia.Lucy a estava esperando junto à fonte, e depois de que Dougless se banhasse, repassaram o ato da comédia. Dougless faria o papel simples, a tonto que fazia as perguntas para que Lucy levasse todos os risos.Quando amanheceu e Dougless regressou a casa, Honoria a estava esperando com o vestido de veludo roxo preparado. — Creio que deverias descansar —lhe disse à donzela, bocejando.Lady Margaret e Lorde Christopher te esperam. Vão recompensar-te. — Não quero nenhuma recompensa, só dormir —enquanto o dizia, sabia que era uma mentira. Queria viver com Nicholas o resto de sua vida. No século XVI ou no século XX, não lhe importava em qual se podia estar com ele. — Deve ir. Pode pedir o que desejar. Uma casa. Um esposo. Um... — Acha que me permitirão pedir a Nicholas? — Está comprometido —respondeu suavemente Honoria. — Sei muito bem. Podemos começar com a roupa? Depois de que Dougless se vestisse, Honoria a conduziu ao salão de audiências, onde lady Margaret e seu filho maior estavam jogando uma partida de xadrez. — Ah... —exclamou Kit quando entrou Dougless. Tomou-lhe a mão e a beijou-O anjo da vida que me devolveu a minha. Dougless sorriu e rubrou. — Vem e senta-te —a convidou lady Margaret, assinalando-lhe uma cadeira. Uma cadeira, não uma banqueta; então Dougless compreendeu que a estavam honrando.Kit permaneceu de pé junto à cadeira de sua mãe. — Quero te agradecer por ter salvado a vida e desejo dar-te um obséquio, mas não sei o que te agradaria. Diga-me o que desejas de mim. E pensa em algo muito importante, minha vida vale muito para mim. — Não desejo nada. Vocês me trataram com amabilidade. Alimentaram-me e me vestiram suntuosamente. Não desejo nada —mais exceto a Nicholas, pensou. Poderiam envolvê-lo para presente e enviar-me a minha casa de Maine? — Vamos —lhe disse Kit, rindo-se — Deve de ter algo que deseja. Um cofre de jóias. Tenho uma casa em Gales que... — Uma casa —repetiu Dougless — Sim, uma casa. Quero que construas uma casa em Thornwyck, e que Nicholas faça os planos. — Meu filho? —Perguntou lady Margaret, assombrada.

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— Sim, Nicholas. Preparou alguns esquemas para uma casa, e será linda. Mas deve ter o respaldo de Kit... quero dizer de Lorde Christopher. — E tu viverias nessa casa? —Perguntou Kit. — Oh, não; quero dizer, não desejo possuí-la. Só quero que permitam que Nicholas a desenhe. Kit e lady Margaret a observaram. Dougless olhou às mulheres que se encontravam ao seu arredor, sentadas bordando. Elas também estavam surpresas.Kit se recuperou primeiro. — Terás teu desejo. Meu irmão terá sua casa. — Obrigada, muito obrigada. Ninguém voltou a falar na habitação, então Dougless se dirigiu a lady Margaret. — Creio que lhe devo uma charada. Lady Margaret sorriu. — Já não precisas ganhar-te a manutenção. Fizeste-o salvando a vida de meu filho. Vá e faz o que desejar. A princípio, Dougless protestou de que não saberia o que fazer, mas depois compreendeu que já pensaria em algo. — Obrigada, senhora —lhe disse, e saudou antes de retirar-se da habitação. Liberdade pensou, enquanto regressava ao dormitório de Honoria. Não ter que entreter mais as pessoas. Isso era bom, seu repertório já estava esgotado.Uma servente de Honoria a ajudou a tirar o vestido novo e o corpete e Dougless se foi deitar sorrindo. Tinha impedido que Nicholas deixasse gestante a Arabella e lhe tinha salvado a vida de Kit. Tudo o que faltava era livrar-se de Lettice. Se pudese fazer isso, mudaria a história. Dormiu sorrindo.

CAPÍTULO 18
A semana seguinte foi a mais feliz da vida de Dougless. Todos na casa dos Stafford estavam satisfeitos com ela, e ao que parece tudo estava bem. Pensou que isso se terminaria em uma semana, mas pensava desfrutá-lo enquanto durasse.Passava cada minuto que podia com Nicholas. Ele desejava saber tudo sobre seu mundo do século XX e nunca se cansava de fazer perguntas. Custava-lhe crer o que lhe contava sobre os automóveis, e sobre os aviões não acreditava nada. Vistoriou tudo o que tinha em sua bolsa. No fundo tinha dois saquinhos de chá, e Dougless lhe preparou uma xícara de chá com leite. Igual que tinha feito na primeira vez que provou o sorvete beijou-a ruidosamente, satisfeito pelo gosto. Como agradecimento por ter-lhe contado tantas coisas sobre o século XX, falou-lhe de sua vida. Ensinou-lhe dançar músicas dos bailes, um dia a levou a observar a caça do falção e riu quando Dougless se negou que o adorável pássaro se posasse em seu braço. Mostrou-lhe falções que se alimentavam só com pão branco durante dias para limpar a carniça de seu buche antes de matá-los e comê-los.Discutiram sobre a educação das classes ‘baixas’. E isso conduziu a uma disputa sobre a igualdade. Nicholas lhe disse que sua América parecia violenta e solitária, e Dougless pensou que talvez tivesse sido melhor não lhe contar tanto.Fez-lhe centenas de perguntas sobre o futuro imediato de Inglaterra e em

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Nicholas lhe deu uma taça de vinho forte. nem força policial. as carroças. alguém golpeava um metal com um martelo. Mas parecia ver só o mal. sentia rejeição quando a tocavam. As casas estavam tão juntas que as mulheres passavam as coisas pelas janelas. e Dougless. enforcavam a quem queriam e respondiam só ante a rainha.Ao chegar outra vez ao ar livre. os animais gritavam. as ruas. 173 . tinham também todo o poder. Enquanto cavalgavam.A cidade estava mais suja do que Dougless podia imaginar. — Desejas ficar-te em minha época? Olhou-o. Os nobres. além de ter todo o dinheiro.Acomodou-se ao seu lado enquanto ela se sentava e bebia do vinho. Se regressava a sua época. mas não viviam como esta gente. essa cidade seria parte de sua vida. Dougless olhava cada sombra por trás das árvores. só se encolheu de ombros e respondeu que algum rufião. Viu adultos que estava segura de que nunca se tinham banhado. porque não são minhas. Nicholas ordenou que se detivessem e estendessem toalhas de mesa embaixo das árvores e sacassem a comida.. meu futuro não se cumprirá. — Mas você estará aqui. casado com Lettice. ordenou a seus homens que regressassem a casa. tinha altas armadilhas com cabeças humanas no alto. mas a levou. Com as mãos trêmulas. Dougless pediu a Nicholas que a levasse a ver uma cidade. Tratou de olhar tudo. desejava contar-lhe a seu pai o que tinha visto.Tinha razão. — Verdade —respondeu Dougless. e suas perguntas tinham incluído os banhos e os sistemas de esgoto. Tratou de memorizar como eram as casas. eram afortunados. Julgavam as disputas. As pessoas fediam os desperdícios da cozinha e os excrementos nas ruas. e entre eles estavam as imagens do que Dougless tinha visto. de ver o bom. mas isso não afastava o fedor — Verdade. Dougless desejava recordar mais para contar-lhe. uma cidade moderna não é assim. Nicholas não a escutava quando lhe falava de sua execução. Quando Nicholas se voltou e lhe viu o rosto pálido. tratando de não recordar o aspecto e os cheiros da cidade. Dougless pôde respirar. Parecia fascinado com a idéia do mar e a exploração do país dela. Os homens de Nicholas os afastavam a pontapés. Dougless ainda não podia acostumar-se à idéia de uma terra onde não tivesse um governo federal. de que nada podia ferí-lo. Durante os dias anteriores lhe tinha perguntado sobre cada aspecto da sociedade moderna. — Não formarei um exército para proteger minhas terras em Gales. Um dia.. Num extremo de uma ponte que cruzava um pequeno rio. veria cabeças no alto das armadilhas e ruas cheias de excrementos. mas na realidade duvidava que os bandidos reais fossem algo mais do que criminosos. Quando lhe perguntou quem achava que tinha tratado de matar a Kit. senão de Kit. Tinha a crença de que era invencível. Ele lhe advertiu que não lhe agradaria. Meninos sujos e enfermos corriam para eles. Por suposto que tinha visto algumas pessoas bem vestidas na cidade. Se os camponeses tinham uma boa família que os governasse. em lugar de sentir lástima. As pessoas gritavam. ainda que não todos tinham essa sorte. se viver. tocando-lhes as pernas e pedindolhes. Na América tinha muitos que não tinham lar.Dougless não podia rebatê-lo. Se não te executam. Cada vez que deixasse a segurança da casa dos Stafford.especial sobre a rainha Isabel. Ser atacado por um bandido numa novela romântica era uma coisa. e como ele está vivo. Oito dos homens de Nicholas os acompanharam para protegê-los. — Nosso mundo não é como o teu —lhe comentou Nicholas. Dougless a tomou e bebeu um bom trago. Não podes ir a nenhuma parte. Se ficavasse com Nicholas. A paz e a relativa limpeza da casa dos Stafford não a tinham preparado para a sujeira de uma cidade medieval.

que tinha os olhos meios fechados. mas Nicholas afirmava que o menino estava bem — Desça -o. mas sentia seus lábios mornos através da roupa.— Sim —lhe respondeu.. mantendo-o afastado de seu corpo para que jorrasse sobre o piso e não sobre seu pai. olhando-o nos olhos — Se pudesse. tens um filho? — Sim. Deixou um homem para que recolhesse a comida. A levou ao terceiro andar. — Mas faria que as parteiras lavassem as mãos. Que tinha dito Nicholas? ‘Tinha um filho. Se no século XX um menino fosse tratado assim. — Parteiras? Então pensas em ter meus filhos? Ela só pensar em criar uma criança sem médicos nem hospitais a aterrorizava. os outros sete e Dougless corriam para a casa dos Stafford. menos de um ano. — Nicholas. — Desça! Com uma olhada de resignação. — Como vou saber isso? 174 . — Pelo menos uma dúzia. Saltaram de seus cavalos na porta principal.Dougless tinha a manga muito ajustada para que subisse. voltou-se para Dougless. estava envolvido do pescoço até os pés com vendas de linho ajustadas e estava pendurado por uma cravelha na parede. o tirariam de seus pais e os levariam a juízo. e abriu uma porta. no solo tinha uma cuba de madeira para recolher a urina. Tinhalhe dito que não tinha filhos. As vendas de baixo estavam sujas e não tinham sido mudadas. Embaixo dele. Não há razão pára. — O menino está bem —lhe explicou Nicholas — Não sofreu nenhum dano. enquanto ele. Dougless levantou as saias e correu por trás de Nicholas. eu ficaria. — E daí o que faço com ele? — Vamos banhá-lo e a vesti-lo como é devido. O que Dougless viu a horrorizou mais do que qualquer das coisas que já tinha visto no século XVI. — Mas primeiro vamos comer. Um menino pequeno. — Desce-lo? Mas está seguro. Dougless se concentrou. mas morreu numa queda uma semana depois que meu irmão. Nicholas agarrou o menino dos ombros e. Que lhe tinha dito exatamente?Afastou o braço.’ — Temos que voltar. — Mais? —De repente recordou algo que Nicholas lhe tinha dito. mas não disse. Amanhã se cumprirá uma semana. Mas não tens por que se preocupar.. um pequeno. Ele lhe tomou a mão e a beijou. faz muito tempo que larguei à mãe. — Quando começaremos? Desejo ter mais filhos. onde nunca antes tinha estado. Caminha? Fala? Nicholas estava surpreso. Tinha os braços e as pernas envoltos como uma múmia. Temos que o encontrá-lo já. Um filho. Você me disse que ele morreu uma semana depois de que Kit se afogasse. Nicholas não vacilou.Dougless não podia se mover enquanto olhava horrorizada ao menino. — Não — se pôs de pé — Temos que procurar seu filho. mas tinha um. Ela fechou os olhos e jogou a cabeça para trás. — Nenhum dano? —Exclamou Dougless.

mas Dougless o olhou. Celebraremos a limpeza de meu filho —lhe tomou a mão e a passou por seu braço. provavelmente porque estava de acordo com a babá. e quando foi se encostar descobriu algo mais sobre os cuidados dos meninos isabelinos. com o cabelo escuro e olhos azuis como seu pai. 175 . Já inventaram os alfinetes? Dougless teve que improvisar uns cueiros. chorará mais forte. A cama de James tinha um buraco no meio. No princípio. Nicholas não quis intrometer-se.Nicholas ria ao sair da habitação. mas conseguiu que lhe trouxessem uma cuba grande de madeira e água quente à habitação. Nicholas permaneceu com ela durante uma hora enquanto brincava com o menino. mas tomou o menino e. e ele pediu à mulher que se fosse. e Dougless pensou que as vendas estavam tão ajustadas que o menino se encontrava num estado de embotamento. protestou e amaldiçoou. dizendo que Dougless ia matar o menino. A babá fez o que Dougless ordenou.Dougless pestanejou. e como iam limpar as plumas de ganso? Resolveu o problema colocando um pano impermeável sobre o colchão. E comentou a Nicholas. graças a outra mostra de hotel que levava em sua bolsa. até lhe sorriu. Dougless tomou o menino. Fala algo mais do que tempo entre seus mundos. — Vejamos se pode caminhar. Nicholas protestou quando Dougless utilizou um broche de diamantes e outro de esmeraldas para sujeitá-lo. ao menino lhe atavam o pubis sobre aquele buraco e colocavam um balde embaixo dele. Num determinado momento entrou a babá e a desagradou muito.A água quente reanimou o menino. Se afrouxar os cueiros. depois de um momento. caminhou para seus braços estendidos. deu ele a seu pai. Quando por fim esteve limpo. mas estava se queixando quando ela e Nicholas se foram. Se o menino não tinha cueiros. — James. — Yale? — Não importa. Custou-lhe um pouco. Ainda bem que tinha um pouco de pomada para curar-lhe a irritação. à manhã seguinte o colchão estaria sujo. O pobre menino tinha a pele irritada dos cueiros da cintura para baixo. —Pôs o menino no solo. — Assim ficaria calado. pendurem você em uma cravelha e vamos ver se não gritas forte. e este. — Como se chama? —Perguntou Dougless. — Que envolvam a você em cueiros como esses. depois de alguns tropeços. Nicholas a olhou surpreendido quando pediu que lhe dessem ao menino um colchão adequado. mas desembrulhou o seu sujo e fedorento filho e o meteu na água morna. — Vem e jante comigo. A babá se queixou. Dougless utilizou seu suave sabonete para lavá-lo. — Um menino não tem juízo —estava desconcertado pelas ações e idéias de Dougless. O menino também lhe sorriu. e Dougless compreendeu porque. Já era um menino muito atraente. seco e entalcado. Nicholas parecia horrorizado e surpreso ao mesmo tempo. Nicholas grunhiu. — Tem o mesmo cérebro agora com o que irá a Yale.

sentia-se em paz. caminhavam. então. fazer-lhe amor. Falava da limpeza até que ele não podia agüentar mais. tê-la. mas tinha vezes que desfrutava com seus sorrisos.. que começou a realizar novos desenhos. e durante esses três dias o menino tinha desfrutado muito com eles. Durante o anoitecer estavam juntos em algum canto deserto observando as estrelas através de uma janela aberta. Ela lhe tinha insistido tanto sobre os desenhos que encontrou enquanto remexia em seus pertences. porque sabia que ela tinha feito este trabalho para Kit. O sol brilhava. recostado contra a parede do jardim e observando-a enquanto lhe lançava uma bola a seu filho. Sábia que o último esposo de sua mãe lhe tinha pedido com freqüência sua opinião a lady Margaret. e no dia anterior tinham representado uma ridícula obra. Nicholas não quis rir. levando ridículos trajes camponeses. Mais tarde.Nicholas se reclinou no banco e observou como Dougless brincava com seu filho. o ar estava perfumado com o aroma das rosas e para Nicholas tudo era perfeito no mundo. Ciumento? Nicholas Stafford ciumento? Podia ter qualquer mulher que desejasse. O sol brilhava em seu cabelo. mas não recordava que seu padrasto dissesse: 'Como foi seu dia?’ E também estava o menino. Todas as manhãs ‘ensaiava’ com a pequena e gorda herdeira. e rir. cantavam. Tocava-a. Durante o dia. Nicholas estava surpreendido pelo bem que tinha se adaptado Dougless no pouco tempo que tinha estado com a família Stafford. Ela lhe tinha explicado que em sua época os homens e as mulheres eram parceiros e compartilhavam idéias e pensamentos. Falava do que ele devia fazer quando ela tivesse ido. começava a perguntar-se se poderia viver sem ela. Tinham decorrido três dias desde que desceu o menino da cravelha e lhe tirou as vendas. um pintor de retratos tinha vindo a casa e Nicholas lhe tinha encarregado que pintasse um óleo em miniatura de Dougless. cantando uma canção. Dougless riu por algo que fez o menino. Mas com Dougless tudo o que tinha feito era falar. Não demoraria muito em terminá-lo. por que ia estar com ciúme? Ela tinha sorrido com tanta astúcia que.. O resto da família tinha rido muito com a obra.Dois dias atrás.’ e depois contaram anedotas que lidavam com a blasfemia. mas ela continuava dizendo que a limpeza era de suma importância. O menino era um incomodo. Era isto o amor? Perguntou-se. O dia anterior Nicholas o tinha levado na cadeira de montar diante dele. Olhava-o como se seu pai fosse um deus. A possibilidade de que se desvanecesse 176 .. mas nada mais. De tanto em tanto. tocava cada parte de seu corpo que podia atingir... Era isto o amor sobre o que cantavam os trovadores? Como podia apaixonar-se de uma mulher com a que não se tinha deitado? Uma vez pensou que tinha se apaixonado por uma moça meio cigana que lhe tinha feito coisas esplêndidas ao seu corpo. mas a ameaça de seu desaparecimento lhe impedia de dormir com ela. Contava-lhe coisas sobre si mesmo que jamais tinha contado a ninguém. e Nicholas regressou ao presente. cavalgavam. Beijava-a cada vez que podia. para detê-la. Conversavam. Agora. quando estiveram sós Dougless riu dele e o acusou de estar ciumento. claro. muitas vezes pensava que devia dizer. abraçava-a. Cantaram uma canção que dizia ‘Viajando. falava de sua partida.Durante toda a obra. Não podia suportar a idéia de não estar com ela.Quando se fosse. Contemplando-a. abraçou-a e a beijou até que não pudesse pensar em outro homem. e o sol parecia sair quando ela estava perto. Desejava tocá-la. mas Nicholas se negou a fazê-lo.. Inclusive tinha contado a Nicholas. e os risos do menino o tinham feito sorrir. Kit lhe tinha dito que a construção em Thornwyck podia começar na primavera.

Não podes desperdiçar isso por esta mulher que não é nada. — Achas que és o primeiro a se apaixonar? Quando eu era menina. — Não diga —lhe disse Nicholas. Casase comigo só por meu parentesco com o trono. — Como posso casar-me com uma mulher quando meu coração pertence à outra? Lady Margaret riu. mas para mim se converteu em algo mais importante do que a linhagem e a propriedade. Teu pai me deu dois filhos. e meu primo gastou toda a sua fortuna. Apesar de que ela lhe deu três filhos e a mim só um. Não creio que em seu país se façam essas coisas. pois não tinha necessidade de dizer mais nada. — Não. Tem terras e um bom nome. Nicholas não precisava que lhe aclarasse a que se referia. Nicholas se dirigiu à janela. — Não te criei para que fosses um tonto. — Dougless não desperdiçara minha fortuna. — Não creio que Dougless estivesse de acordo com algo assim. deixou o jardim e a Dougless e se dirigiu a casa. Sua mãe o esperava em seu gabinete privado. com apatia. Também não a incrementará! —Lady Margaret tratou de acalmar-se — O que te sucede? Kit vai casar com uma menina goducha. enquanto você vai casar com uma das grandes belezas de Inglaterra. O dote de Lettice Culpin já foi aceito e parte dele já se gastou em comprar ovelhas. Era um arranjo que eu tinha com meu segundo esposo. Abaixo estava Dougless. então. — Ela é tudo para mim.—interrompeu-se.. Nunca acreditei que tivesse sangue real. Minha mãe me golpeou até que cedi —o olhou com o cenho franzido — E tinha razão. Lady Margaret fechou a janela de uma vez e olhou a seu filho. amava meu primo e me negava a casar-me com teu pai.. que morreu —agregou com amargura. Nicholas se afastou de sua mãe. — Ela não é nada. Faz dois dias o enviado regressou de Lanconia. Teus filhos estarão aparentados com o trono. — Está falando em romper teu compromisso? —Lady Margaret estava horrorizada. zombadora. — Não pode. Que procure a outro que suporte sua falta de calidez e só veja a perfeição de seu rosto. Não há um rei Montgomery. Converte-a em donzela de tua esposa. Creio que a Lettice não lhe importará que a atenda todas as noites. abriu-a e olhou para o jardim. Lady Margaret o voltou a olhar. e não me incomodava. 177 .. — Já disse a ela? —Perguntou-lhe lady Margaret com tom adusto. Lettice é bem mais bonita que essa Montgomery.Um menino se aproximou para dizer a Nicholas que lady Margaret desejava vê-lo. Fui indulgente com ela porque lhe salvou a vida e a Kit. Dá-lhe um filho e depois vai com a outra. mas teu comportamento.. — Passaria minha vida com Dougless Montgomery —disse com suavidade. Tinha uma olhada que podia atravessar um homem. não disse. Esta Dougless Montgomery nada mais é do que uma charlatã.era muito grande como para arriscar-se. — Que me importam a beleza e o dinheiro? Lettice tem um coração de pedra. isto já foi muito longe. Lady Margaret se queixou. — Nicholas. Deixa a Montgomery para depois de teu casamento. interrompendo-a.

Enviara-na. Não seria ela que planejou que o afogassem para depois salvá-lo? Com um truque assim poderia obter muito de nossa família. Mentiu ao dizer que tinha um tio que era rei. — Não.. Se Kit tivesse morrido.. Quem é? A filha de um artesão? — Seu pai é o professor. por isso duvido que tenha algum familiar que valha a pena. Nicholas. Vem de. Que pode oferecer-lhe à família Stafford? Não tem nada —lhe pôs a mão no braço— Não te peço que a abandone. ame a teus filhos. mas não lhe entregues teu amor a uma mentirosa. não. Vem do inferno? Quer viver com alguém que pertence ao demônio? — Não é uma bruxa.— Vacilou — Intromete-se muito.. Dougless Montgomery tem que entender que não tem dote para o casamento. E agora me divertiria se meu filho mais jovem não tivesse apaixonado por ela. — Então por que deseja evitar teu casamento? — Não deseja —Nicholas se voltou. Pode ficar nesta casa contigo. mas que isso se esqueceria logo. porque lhe menti sobre a porta de Bellwood.. Você tomou o comprimido que ela te ofereceu. Tenha filhos com ela. Não sei nada mal dela. — Ah —exclamou lady Margaret —Por fim a verdade.— Seu país? Qual é seu país? Lanconia não. como se isso fosse necessário. — O que sabes dela? — Nada.. — Enviado? Quem a enviou? Quem? O que pode ganhar? —Lady Margaret abriu descomedidamente os olhos — Kit disse que alguém tratou de arrastá-lo ao fundo quando quase se afogou.Lady Margaret olhou a seu filho. A princípio. não —respondeu Nicholas — Ela não é assim. Ou talvez queria que morresse. cuida-te dela. só deseja o bem para nós. — Então desejará o melhor para você. surpreso — Eu fui o único que pediu precaução quando ela chegou. O rosto de lady Margaret refletia sua confusão ante suas palavras.. Nem sequer sabia de Kit. —Lady Margaret se serenou e lhe pôs a mão no braço — Ame a Deus. Está mudando muitas coisas em nossa família. entretinha-me muito. ela lhe tinha dito muitas coisas más sobre Lettice.. Faz-te desenhar casas como um artesão. Ela. ou ir contigo e com tua esposa. tu serias conde e . Tem comprimidos que são mágicas. Deve acreditar. — Te vendeste a ela? Ela cria histórias e você acredita? É uma mentirosa e.Lady Margaret se pôs frente a seu filho. Tira as crianças da creche. mas depois se tinha calado. — Não —replicou Nicholas com suavidade — Só deseja ajudar. Ensina a ler e a escrever os filhos dos serventes.. Advertiu que as palavras de sua mãe o estavam fazendo duvidar sobre Dougless. —interrompeu-se e olhou a sua mãe. Não tem intenções malignas. Esta tinha feito um comentário sobre o amor com que a tratavam na casa por ter-lhe salvado a vida de Kit. Faz o que quiser com ela —sua expressão voltou a fazer-se austera — Mas não podes 178 . Quando conheceu a Dougless... De onde ela tira seus jogos e entretenimentos? De onde provem esses estranhos instrumentos que tem? Soma contas com uma máquina. Ame-a. Não podia dizer-lhe a verdade sobre Dougless. Que deseja de ti? Que deseja de todos nós? Escuta-me. — Sim eu fiz. — Mas você estabeleceu tudo isso —agregou Nicholas. — Te ama? — Sim. E Lettice Culpin é o melhor. Faz a menina que vai se casar com Kit se vista como uma camponesa.

somandoos. 179 . mais que ninguém. mas maligna? Dougless apertou os punhos. e não porque Lettice não o desejasse. — Compreendi muito bem. — Bem —contestou lady Margaret. seus olhos refletiam cólera. sem importar o podre que esteja por dentro. Eu. Cumprirei com meu dever e me casarei com a formosa e insensível Lettice. Ainda que pensasse na melhor forma de dizer. — O que você sabe sobre a maldade? Os homens são todos iguais. Se uma mulher é linda. Encontravam-se no centro do labirinto. mas se deteve. e baixou a voz — Odiaria que sucedesse algo a Dougless Montgomery. — Dougless —murmurou. apoiou-se contra a porta e fechou os olhos. não importa quando tenha nascido. E creio que você me deseje também. É assim? Uma esposa e uma amante? Só que eu não posso ser sua amante. Beijá-la era como beijar um pedaço de mármore morno. ficou cativado por sua beleza. Não podia adiar mais. Se dormir contigo.Dever pensou. calculando quanto ouro e prata possuíam. isso evitaria que te casasses com essa mulher maligna? Nicholas se dirigia para ela para abraçá-la. Nicholas baixou as mãos. — Maligna? Lettice é cobiçosa. Tudo o que vê é o exterior de uma pessoa. Lettice percorreu a casa dos Stafford observando os recipientes de ouro. — Devo casar-me com ela. Olhos escuros. sinto o peso do nome de minha família sobre meus ombros. caminhando para ela com as mãos estendidas. Recordou que tinha um trabalho a cumprir e que tinha que explicar a Nicholas por que não podia casar-se com Lettice. pensou. lábios atraentes. — Meu amor —replicou Nicholas. o lugar ao que a tinha levado para comunicar-lhe a novidade. Dirigiu-se para seu dormitório e uma vez ali. e fechou os olhos. cabelo escuro. Nicholas tinha tratado de seduzí-la. e portanto era menos provável que fugisse dele. Sabia que Dougless não conhecia o caminho de saída. sabia como reagiria Dougless ante seu casamento com outra mulher. Essa noite tinha que lhe comunicar a Dougless seu iminente casamento. Apostaria que tens medo. Não ficaria em sua casa como donzela de sua esposa. A primeira vez que a viu. senão porque não estava interessada. — Não pode casar com ela —lhe disse Dougless com bastante calma. pensou. não é? Ou talvez sim possa sêlo. Seu dever era casar-se com uma mulher que tinha mais dinheiro. sozinho. Nicholas olhou a sua mãe um momento e depois se retirou da habitação. Dougless tratou de manter a calma. senhora —respondeu Nicholas com expressão irritada —. de sangue mais azul. Mas quando o homem que amava lhe dizia que ia casar-se com outra. Compreendes-me? Os Stafford não se casam com as filhas pobres de professores. Mas Nicholas tinha tratado o suficiente com mulheres formosas como para ver além de sua beleza.Perder a Dougless e ganhar a Lettice. sua lógica a abandonava. pode ter o homem que desejar. Agrada-me. É meu dever para minha família. As palavras de sua mãe tinham sido o suficientemente claras: cumpre com teu dever e casa-te com Lettice Culpin ou a Dougless lhe sucederá ‘algo’. — Dever? Sem dúvida é um grande sacrifício para você casar com uma formosura como Lettice.convertê-la em tua esposa. mas tinha fracassado. Mudar a olhada amorosa de Dougless pela fria e calculista Lettice.Essa noite deve dizer.

— Quando estive antes contigo.— Dougless estava se acalmando e começava a recordar o que tinha que lhe dizer. Dougless sentiu como se a tivesse esbofeteado. Não pode casar com ela.. — Oh. mas sabia que não conhecia a saída. Na última noite que estivemos juntos. fazia quatro anos que estavas casado com ela. Sabia que farias o correto. enquanto ela chorava contra seu peito. Queria que confiasses mais em mim antes de contar. Te matará. — Amo? Eu amo a Lettice Culpin? Quem te disse isso? — Você. sabia que devia regressar. Oh. Dougless abriu muito grandes os olhos.Por último. Eu não desejo. — Oh. e é meu dever ter um herdeiro. tampando a cara com as mãos. Talvez não queria que sofresses quando eu fosse. — Que? — Conta-me mais sobre esse amor que sentia por minha esposa. — É algo que devo fazer.— Se. Você me disse que essa era uma das principais razões pelas quais desejava regressar ao século XVI. — Regressei para amá-la? Dougless soou outra vez o nariz. Ele tirou um lenço e o entregou. Sabia que não te casarias com ela. isso fosse a única coisa que me interessa. Nicholas. Voltou-se para sair do labirinto. Dougless tinha um nódulo na garganta e não podia falar. Se algo acontecer a Kit. Dougless lhe tomou uma de suas grandes mãos. a família ou a mulher que amo. — Lettice não pode ter filhos. Agora tudo sairá bem. Está tudo arranjado. mas fez tudo o possível por explicar tudo o que ele lhe tinha dito. Voltou-se e se sentou num banco. mas pensei que tínhamos que estar mais tempo juntos. mas é o que devo fazer. não agora que te tenho. Afastou-se dela e se pôs de pé. Nicholas lhe tomou o queixo e levantou sua cabeça. porque a amava muito. enquanto respondia. Deus —exclamou. Não te executarão. eu seria conde. — Lettice não pode ter filhos.. — Como sabe? — Lettice foi quem provocou tua execução. Talvez quis evitar que amasses um homem que não ia ficar. Ele lhe perguntou sobre os últimos dias que passaram juntos. porque sofreria muito por ti. Nicholas —o abraçou e começou a beijá-la. disse que não me tocaria. Nicholas lhe sorriu e lhe tirou uma mecha de cabelo úmido do rosto. — Quando veio a mim. — Isso foi o que você me disse. Não me importa o dever. — Precisariam mais de quatro anos para fazer-me amar essa mulher —replicou Nicholas.— Eu ia te contar. — O que? Dougless soou o nariz. Tirar a roupa ao corpo divino de Lettice é a única coisa que me interessa. não se case com ela. Nicholas se sentou ao seu lado e a abraçou. por favor. Lettice não terá 180 . — Não amaria a Lettice ainda que eu vivesse mil anos com ela. Sei o quanto amas a Lettice e.

— a dor daquela manhã na igreja quando Nicholas desapareceu ainda estava vivo — Fizemos amor e você voltou. Repetiu-lhe a crença de lady Margaret de que Lettice tinha matado Kit para casar-se com um conde em lugar do irmão menor. Ficou . Dougless se voltou e o olhou. Nicholas esboçou um sorriso. ter um herdeiro e pôr um menino no trono da Inglaterra. — Se eu fosse o conde. Oh. — Pode rir de mim se o desejar. Enfrentar-se com um carrasco não faz uma pessoa se sentir jovial. mas não foi assim. Muita gente conspira uma contra outra. mas depois. a segurou com firmeza — Meu caminho não é o seu. sabia que não se casarias com ela. — Lemos os papéis e estivemos perguntando todo o fim de semana. porque Arabella não terá um filho teu. longe dele. Dougless se livrou e caminhou até o outro extremo do centro do labirinto.. tratou de te persuadir para que te apresentasses como aspirante ao trono. ameaçou com tua espada a Lee e ele te disse que o nome do traidor era Robert Sydney. — Não me agrada a corte. contando-lhe sobre os papéis de lady Margaret que tinham encontrado num buraco da parede.. Sem dúvida minha mãe me casaria com tua rechonchuda Lucy.nenhuma razão para tentar matar você ou a Kit. O que me contar me ajudará a evitar uma acusação de traição. Respirou profundamente e prosseguiu. Ambos pensamos que regressarias ao século XVI depois disso. — Poderia evitar tua execução como poderia ter evitado que Kit se afogasse. teu irmão estaria morto e tua adorada Lettice se casaria com um conde. mas averiguamos muito pouco.Contou-lhe como Lettice tinha planejado casar com um Stafford. Contou-lhe como ele tinha conseguido que o convidassem à casa dos Harewood. Contou-lhe seu encontro com Lee e como este lhe tinha falado de sua descoberta do relato de lady Margaret sobre o que tinha sucedido.Inclinou-se e lhe pôs os lábios na bochecha. E Robert Sydney não conspirará com ela. Se eu não tivesse estado aqui. Minha época não é a mesma que a sua. Vai falar-me de Lettice? Vai me contar tudo o que sabe? Dougless se sentou no banco. não ria. mas você negou. a verdade que só se conheceu depois de sua morte. tomou-lhe as mãos e a olhou nos olhos. Não tenho a liberdade que você tem.fechou os olhos um momento —Passamos lindos momentos juntos. não me casaria com Lettice. onde conheceram Lee e Arabella. Nicholas. no extremo oposto. Nicholas se pôs sério. Não o olhou. Minha esposa contribuirá propriedades e relações à família Stafford. Meu casamento está arrumado a muitos anos e é uma boa aliança.—Tens que me entender. Não posso me casar só para me satisfazer. 181 . Desejava ganhar o respaldo de tanta gente como fosse possível. — Me comprometi a casar com Lettice e irei dentro de três dias para o casamento —quando Dougless quis retirar as mãos. — Te ajudarão essas propriedades e relações quando o carrasco te cortar a cabeça? — Perguntou-lhe com tristeza — Irá a tua morte pensando no bom que foi este casamento? — Tens que me contar tudo. mas te asseguro que quando você veio até mim.— Depois de casar-se com ela. Ele lhe afastou os braços. Começou lentamente ao princípio. — Não. Mais tarde averiguei que te tinham executado. No final.

e se Kit tivesse que reunir um exército está certa de que primeiro eu lhe pediria autorização à rainha. Ela compreendeu o que lhe dizia. então tratou de matar-te. — Harewood?! —Exclamou Nicholas. e Robert Sydney à casou com Dickie Harewood. — O que me contou pode ter sucedido antes. — Depois disso. a rainha Isabel estava inquieta por María de Escócia. — E minha mãe? — A rainha confiscou tudo que possuíam os Stafford.. Nicholas se pôs de pé e caminhou para a cerca-viva. e talvez ouviu rumores de que os Stafford estavam pensando em unir-se com ela. Não podia ter filhos. Lady Margaret pensa que ele matou a Arabella e ao menino. Dougless se pôs de pé.— Você negou a levar Lettice à corte. só que a formosa Lettice. Disseste que alguém tinha afrouxado a cinta de tua sela. Lettice destruiu a família Stafford por um menino que jamais teria. era estéril. De qualquer maneira. então Dougless continuou. — Depois de tua. a mulher por cuja causa tinha morrido um homem. — Lee comentou que tudo isto era irônico. — Mas não engravidei Arabella —replicou Nicholas com suavidade. — Cortaram-te a cabeça —murmurou. Interrompeu-se ante o assombro de Nicholas. Nicholas lhe beijou a mão. Estendeu a mão e com a palma lhe tocou a suave e escura barba. A fúria começou a percorrer-lhe as veias. pensando em suas palavras antes de regressar para ela. descontente. Dougless a afastou e olhou para o outro lado. contendo o pranto. Permaneceu ali em silêncio um momento. Nicholas não falou. A rainha lhe deu duas de tuas propriedades a Sydney e depois alguém empurrou a sua mãe pela escada e quebrou o pescoço. — Quando começou a reunir um exército para brigar em Gales. — Odiava-te porque tinhas deitado com sua mulher sobre uma mesa e a tinha engravidado. mas não agora. tinhas uma cicatriz longa e profunda na pantorrilha.Dougless fez uma careta. 182 . — Não será tão tonto de casar-se com ela depois do que te contei. Quando te conheci. morte. seus brilhantes olhos azuis. nenhum dos dois falou. pois um ano depois de teu casamento tinhas caído de um cavalo. a Lettice lhe resultou fácil que Robert lhe contasse à rainha tua traição. verdade? — Mas agora tua história não pode suceder. que agora estaria bem casando com Lettice. Lettice tinha feito de tudo para fazer desaparecer os Stafford. Explicou-lhe que Lettice tinha começado a procurar alguém para que a ajudasse a livrar-se dele. Voltou-se e o olhou. assim que Robin não tem motivo para me odiar. assim não tenho motivo para reunir um exército. e tinha encontrado Robert Sydney. — Era isso ou morrer de fome. Por um momento. Arabella não espera um filho meu. Seu rosto estava pálido. Desejava pôr o seu próprio filho no trono. Robert Sydney chantageou a Lettice para que se casasse com ele. não teve mais Stafford.. Kit está vivo. Dougless olhou seu lindo rosto.

Abraçou-a.. Minha família é muito rica. Afastou-se dele. serei cuidadoso. — Para tua informação. falavam de tua execução. a de Kit. porque és pobre. os filhos e um lar. mas que tinha três casas e muito ouro. — Nicholas.. — Então vives na pobreza com alguém a quem amas. — Em tua época não se fazem contratos de compra e venda? Compras e vendas legais com papéis? — Claro.. e ter segurança e um amigo. inclusive contratos matrimoniais. Mas ter dinheiro não significa que eu não deseje amor ou que vá vender-me ao melhor concorrente. que são capazes de compreendê-las? — Dougless. — Um ou dois. — Pensas como um homem —o acusou — Acredita que nenhuma mulher pode fazer-te dano. os livros diziam que tinhas morrido três dias antes de tua execução. Portanto. não por amor. O casamento tem haver com o amor.. por favor —estendeu as mãos. Sua voz e seu corpo expressavam sua irritação. Guarda tuas carícias para tua adorável Lettice. quando eu regressar. Não podemos. verdade? Contei tudo e você me caçoa. o fim da nobre família Stafford? Nicholas deixou cair os braços. Esse amor te alimenta. tão íntimo. Nicholas sorriu. não. é bom que te preocupes tanto. mas os casamentos devem ser realizados por amor. é tão linda que vale a pena toda a tragédia que provocará? Tua morte. — Como obteve sua riqueza tua família? 183 . — Vai arriscar tudo pelo que possa dizer as pessoas? Nicholas apertou os punhos e tratou de encontrar a maneira de explicar-lhe o que devia fazer.. Diz. Depois de teu regresso. e você rí de mim. casados por contrato. Se você casar com Lettice. e também que me tenhas advertido. vou ler que mataram a Kit de outra maneira? Que talvez Lettice encontrou outra forma de que te executassem? Talvez encontre um outro que a ajude. Não é como assinar um contrato de trabalho com alguém. — Não me toque. Tem muito dinheiro. — Meu amor.. dá o calor no inverno? No casamento há mais do que dizes. de maneira que pudesse compreendê-lo. Por que não me piscas um olho e me acaricia a cabeça também? Por que não me diz para eu regressar ao meu bordado e que deixe coisas como a vida e a morte para os homens. — Não compreende que não tenho escolha? Vou dizer-lhe a minha família e aos Culpin que devo romper meu compromisso porque uma mulher do futuro afirma que minha noiva poderia matar todos os Stafford? Considerariam-me um estúpido. a de tua mãe. — Nós não nos casamos por amor. te veste. Estou certa de que há outros homens com belas esposas que te odeiam. Vê a riqueza desta casa? Estas riquezas provem de meus antepassados. não sou pobre. — Está rindo de mim! Estou falando da vida e a morte.Olha o teu arredor. Meu avô se casou com uma mulher que era uma malvada. mas o casamento é algo tão. e a ti. Temos contratos para tudo. não te tratariam nada bem. A história é muito fácil de mudar. compreendo a teoria. não compreende que não conhece o futuro? Quando esteve em minha época. Não podes compreendêlo.— Nicholas.

Nicholas a separou dele para olhá-la nos olhos. Não compreende? Ninguém conhece o perigo que ela significa. — Case por dinheiro. — Mulheres ricas. posso me salvar e salvar a minha família. Você agrada a muitas mulheres. não se case com Lettice. só permaneceu ali observando-a. Dougless demorou um momento para reagir. não será tão mau. Se tens que se casar com alguém por dinheiro.. mas não ambicioso como Lettice. — Com ou sem a permissão de tua esposa? — Dougless —lhe suplicou.— Não sei. Que vou fazer durante a noite quando estiver tratando de dar-lhe um herdeiro? Nicholas replicou: — Não pode me pedir que seja celibatário. — Você pode me pedir isto depois da forma em que falou de minha relação com Robert? Pelo menos com ele. Me ajudarás a manter-me alerta. Sou afortunado de que me permita viver a seus gastos. eu era a única mulher.. senhor Macho. O que fará nas noites que Lettice te dizer não? Vai perseguir às serventes pelo alpendre? 184 . Agora que eu sei. Te fará mal. Lettice é um bom partido para mim. Diz que não pode se deitar comigo por temor a voltar. a verificar que a água de seu banho não esteja muito quente? Esse tipo de coisas? — Dougless. Dougless se dirigiu para ele e o abraçou forte.. está me pedindo que viva com essa. É má.. eu devo ser celibatário. Meu pai disse que nossos antepassados se casaram com. Case com a mulher mais rica do mundo. não franze o cenho. pode ter uma mulher diferente todas as noites. Passaremos muito tempo juntos. por favor. — Teus antepassados se casaram com quem? — Nada. — Ah. Sempre a tivemos. Nicholas sorriu. Alguém rico. — Vai comprovar todas as cintas para ver se cortaram? E o veneno em tua comida? E um arame cruzado na escada? E se contratar assassinos? E se te afoga ou provoca um incêndio? — Me agrada saber que se preocupa comigo. só um cavaleiro. —interrompeu-se e o olhou. Mas você. Não. — Com quem? —Perguntou Nicholas. Tenho só o que Kit me permite. assassina. As terras que Lettice contribui com a minha família nos beneficiarão. fará mal à todos. Sou um filho menor. mas. procuraremos. meu amor. Era uma brincadeira. Podes ficar em minha casa. — Lettice Culpin é o máximo o que posso aspirar. Como não vou fazer isto por um irmão que me deu tanto? — Lettice não é o melhor que podes aspirar. Podes atender minha esposa. Mas você. Deves confiar em mim. — Deitar com uma mulher não é o mesmo que uma aliança matrimonial. — Atender a tua esposa? Referes-te a ajudá-la a vestir-se. — Eu? —Afastou-se dele — Eu? — Sim.. meu único amor. compreendo. Disse que nossos antepassados se dava muito bem casando-se com mulheres ricas.. Nicholas não disse nada. Pode conseguir outra. Nicholas.

e só se falava disso. tirou a camisola de seda de sua bolsa. Quando encarceraram o seu noivo o corretor de Bolsa. Mata a Kit. tirou o pesado e volumoso do século XVI e colocou-o. senão também móveis e serventes. podia sentí-lo. — Dougless –sussurrou — não se case com ela. e tinha o torso e o ventre nú. Nicholas se aproximou. Mata a tua mãe. Tentou.— Não deve falar-me assim —lhe respondeu. Todos estavam muito excitados na casa. — Oh. olhou-a e o vinho derramou da taça. Talvez estava predestinado que Kit morresse e Nicholas fosse executado. aquilo não tinha sido nada comparado com isto.Pôs a mão na maçaneta. Tirou a bata. Seguiu-o em silêncio para a saída do labirinto. Quando esteve perto. CAPÍTULO 19 Os três dias seguintes foram um inferno para Dougless. Com a bata que lhe tinham prestado sobre os ombros. Está bem. Não renunciaria o seu dever para sua família por nenhuma razão. o profundo decote e o tecido aderente não deixavam nada livre à imaginação. Estava sentado na cama. os convidados. Tratou de falar com Nicholas. mas ele não a olhou. então esse alguém pode dizer o que lhe agrada. Sabia que as palavras não mudariam o que cada um sentia que devia fazer.Aproximou-se à cama como um tigre a espreita. Para ela cada coisa que carregavam nas carroças era como um peso mais para seu coração. o lençol lhe cobria as pernas. As finas alças. O dever significava mais para ele do que qualquer outra coisa no mundo. — Não. nem por amor. 185 . pelo iminente casamento de Nicholas. irritado. A noite anterior à partida de Nicholas sentia-se pior do que nunca. Todas as conversas se referiam à comida. Nicholas e Kit não só levavam roupa. — Temos que falar —murmurou. — Nicholas —sussurrou. mas não lhe falou. Estava bebendo uma taça de prata e não levantou os olhos quando ela entrou. Dougless observou os preparativos para a longa visita com grande pena.Pela noite. Talvez uma pessoa não pode mudar a história. o que tinha sucedido em outros casamentos. nem sequer pela possibilidade de sua própria morte. e Dougless se alegrou. cegada pelas lágrimas. Talvez ninguém muda o que vai suceder. a roupa. Perde as propriedades que te parecem tão valiosas. Só podia compará-lo com o dia em que Nicholas tinha regressado ao século XVI e a tinha deixado na igreja. não temos mais nada que nos dizer —lhe respondeu — Ambos devemos cumprir com nosso dever. dirigiu-se ao dormitório de Nicholas. abriu a porta. verdade? Se alguém viaja quatrocentos anos só para advertir a outra pessoa e essa pessoa não o escuta por vaidade. depois começou a correr pelo labirinto. Sabia que estava desperto. casa-te com Lettice. Talvez a família Stafford não devia continuar vivendo. tentou e tentou. não deveria. Perde a cabeça!Gritou as últimas palavras. Mas não a escutou. Sem bater. Tinha enormes carroças com as mobilias que levariam Nicholas e Kit.Em três minutos estava perdida e ficou ali chorando. A habitação estava silenciosa exceto pelo ruído do fogo e o crepitar das velas. A camisola que levava era espantosamente revelador para a moda isabelina.

e Dougless conteve o fôlego. tremia-lhe. aproximando o rosto.. como se fosse uma desculpa — Faria qualquer coisa para impedir teu casamento. — Uma só noite —murmurou. mas as carícias de Nicholas afastavam os pensamentos de sua mente. — Só esta noite em troca de tua promessa —lhe disse Dougless com a cabeça para trás. de teus costumes.. vestida como uma. Tens que me jurar. — Podes me ter em todos os amanhãs. Ele a olhou um longo momento. — Não posso deixar que arrisques sua vida por. Não lhe tinha sido fácil chegar a esta decisão. Nicholas levantou a cabeça e a olhou. — Por favor. — Não me ocorreu outra solução —replicou. Sua mente estava concentrada nas sensações que lhe provocava tocar a esta mulher que significava tanto para ele. com seu corpo nú sobre o dela. e.— O que está fazendo? —Perguntou-lhe. pôs-se uma bata e se dirigiu para o fogo. — E tu arriscas nossas vidas por ela! Disse-me uma e outra vez que não podia se deitar comigo. Subiu a camisola. A tela da camisola se deslizou enquanto suas mãos e seus lábios percorriam seus seios. No entanto. Ele se aproximou da cama. Nicholas reagiu no instante. Não sabe? —Replicou ele enquanto seus lábios desciam por seu corpo. Esta noite pelo amanhã. Nicholas se levantou. Acha que o teu é o único modo? Este casamento não significa nada para mim.. Não estarei aqui. — Nicholas. no entanto é tudo para você.. Tinha as mãos em seus quadris. assombrado. Dougless tampou os ombros com o lençol. e quando estendeu a mão para tocar-lhe o ombro. mas começava a escutá-la. quase chorando. Tratava de recordar o que tinha que fazer antes de que as mãos e os lábios de Nicholas apagassem todos os pensamentos de sua mente— Jura-me.. 186 . Abraçou-a e a beijou como tinha desejado desde sempre. como uma. — Só tratava de que me prometesses que não ia se casar com ela —lhe explicou. — Talvez passemos a noite juntos —lhe disse.. mas sabia que ainda que significasse perder a Nicholas para sempre e regressar a sua época. Depois de um momento. — Então não vá amanhã. — Tudo o que tenho é teu. devia deter o casamento. com uma olhada emocionada. sua voz era baixa. e a camisola se deslizou mais abaixo. sentindo-se como uma prostituta.Nicholas olhou o decote da camisola. — Passarei esta noite contigo. — Acha que eu me arriscaria a perder-te por uma noite de prazer? Se considera tão pouco como para me fazer te entregar por uma promessa? Suas palavras a faziam sentir-se muito mal. por favor —Dougless tratava de recordar o que tinha que dizer. Quando lhe falou. — O que quer que te jure? Dougless levantou a cabeça. dando-lhe as costas. e se aproximou mais. se me jurar que não se casará com Lettice depois que eu for. meu amor. estás aqui. Nicholas levantou seus quadris. Nicholas se voltou para ela. — Falou me de teu país.

nem possui amuletos de poder.. nem comida. não poderá fazer-nos mal a minha família nem a mim. — Estou assustada..Nicholas lhe apertou os punhos. — Sempre? Enquanto viver com outra mulher? E dormes com ela? E faz amor com ela? Nicholas lhe soltou as mãos. Já te contei o que fará. — Ao teu lado? —Acariciou-o—. — Certa —respondeu com firmeza — Pelo menos acho que estou certa. nem mais nem menos... — Só uma mulher. Mas aqui não posso. — Não pode deter o que deve ser feito. Não posso tolerar isto. — Estás certa de que regressarás se. — Kit não é assim. Sentou-se na cama junto a ela e a abraçou. Escolhe outra mulher. Não sei se poderia te ver com outra mulher. Lettice é.— Que tipo de amor é este que sentes por mim? Vem a minha cama. — Como? Como posso te ajudar? Posso deter o machado de um carrasco? — Sim. não poderia te alimentar. Apesar de tentar se controlar. Seguramente encontraríamos uma maneira de viver. — Não me arriscarei em te perder nem por cem mulheres como Lettice. não... Nunca pretendi. por favor. os olhos se encheram de lágrimas.. olhando-lhe os ombros nús embaixo do lençol — Te irias para sempre por não me ver com outra mulher? — Não. — Não. Se ajudar Kit com as propriedades. — Não escuta? Não compreende? Devo me casar.—Tens idéia do quanto temo o dia de amanhã? Do medo que tenho à mulher que devo converter em minha esposa? Se fosse livre. Dougless apoiou a cabeça em seu peito. abrindo-lhe a bata para que sua bochecha lhe tocasse a pele. Ele lhe sorriu. não te fará isso. se estivesse em tua época. Se estás ao meu lado.. Não tem grande sabedoria. ele. Nicholas. que deixe de lado tudo o que considero mais importante. É só que Lettice é malvada. Só pode me ajudar. Nicholas. Só que não deseja ouro. pode. 187 . — Não —sussurrou — Não. ser a tia solteira dos filhos de Nicholas? Que se sentiria quando todas as noites se deitasse com a outra? E quanto tempo mais a amaria se não podia tocá-la? Seriam o suficientemente fortes para um amor platónico? — Não sei. Dougless tampou o rosto com as mãos.. — Me permitiria ter outra esposa? Permitiria-me tocar outra mulher quando não posso tocar-te? Estás disposta a ficar relegada pelo resto de nossas vidas? Dougless engoliu saliva. não é isso. Pode ficando comigo para sempre. deseja que desonre a minha família. não sei o que fazer.ele se sentou na borda da cama e lhe afastou as mãos. Posso permanecer ao teu lado e não te acariciar? Ele lhe tirou a mão de embaixo da bata. Poderia viver na mesma casa que ele enquanto ele vivia com outra mulher? Que faria. mas sem alegria. Deus te enviou e vou conservar-te.Sustentou sua mão no alto e a observou como um homem faminto observaria um banquete. poderia escolher sem entraves a quem amar. suplicante como se fosse uma prostituta. — Por isso fazes isto —replicou. És tudo para mim. Kit não me daria um lugar para viver. Se me casasse contigo.. nem roupa.

Nem sequer podia afastar-se três quilômetros da casa sem temer que a atacassem ladrões. Viu Nicholas levando a Lettice nos braços até a habitação que compartilhariam. É tão bom amante contigo como foi comigo?Imaginou Nicholas e a sua bela esposa rindo por alguma brincadeira privada. Sou um homem. Imaginou Lettice torturando um cachorrinho frente a Nicholas. Dougless sabia que tinha que ir. pensou. se lhe agradavam ou não ter filhos. Imaginou-se em sua casa de Maine. Tocou-lhe de novo a pele. o que era? Talvez estava se reservando para Lettice. o homem que amava. Era como se não pudesse deter-se.A libertação feminina não prevê esta situação. Podia ficar no século XVI e observar Nicholas com sua esposa.Saiu do sol e Dougless ainda chorava. Rapidamente se afastou dele e saiu correndo da habitação. Deixá-lo significava a absoluta e eterna solidão para ela e provavelmente a morte para ele e 188 . física e mentalmente. mas nada funcionou. Dougless não podia ver. Que outra coisa ia fazer se não podia ir nem ficar? Podia esforçar-se para seduzir a Nicholas e então. amável. Regressou à de Honoria e se deitou. e começou a chorar. isso significaria que ele cairia nas mãos da intrigante Lettice. O que faria? Como ganharia a vida no século XVI? Conduzindo um táxi? Convertendo-se em secretária executiva? Dava-se bastante bem com os computadores. Ou podia exigir que Nicholas deixasse a sua esposa ou se iria.— Perderíamos muito se nos arriscássemos. Nicholas não se tinha deixado seduzir nesta noite. para conversar outra vez. porque a querida Lettice o tinha olhado de maneira sedutora. observar como conversavam. verdade? — Sim. — Homens —murmurou. Só. regressaria ao século XX. — Vá! —Ordenou-lhe. mas não dormiu. muito. Juntariam as cabeças nos jantares e se sorririam? Bateu o travesseiro com o punho e Honoria se moveu.E se pudesse deixá-lo. Para ter Nicholas teria que compartilhá-lo. o homem que significava tanto para ela que nem o tempo tinha podido separá-los. porque temia perdê-la. Tinha estado na época isabelina o tempo suficiente como para ver o mal que passava uma mulher sem um homem. As opções que tinha eram tão horríveis que só de pensar nelas a fazia chorar mais forte. Honoria fez tudo o possível para acalmá-la. mas vacilou. ouvir ou pensar nada mais que em Nicholas e na formosa mulher com a que ia casar-se. Nunca deixavam passar uma cara bonita. Demais —respondeu com tristeza. Soltou-lhe a mão. Nenhum homem perguntava se uma mulher tinha moral. Os homens eram uns tontos. e ele sem advertí-lo. não. e me tentas mais do que posso suportar. Se isso não era amor. Não lhe importaria que estivesse com cem mulheres se pudesse voltar a vê-lo uma vez mais. Deveria saudá-la e felicitá-la? Dizer-lhe algo como: ‘Espero que o desfrute. Era tudo ou nada. A libertação feminina dizia que uma não devia permitir que seu noivo tivesse aventuras. pensou. iria embora para casar-se com outra mulher. Quando um homem perguntava por uma mulher. — Tens que ir. Nunca voltaria a vê-lo. se era honrada. observar enquanto Lettice lhe outorgavam um lugar de privilégio como esposa de um filho da família. No dia seguinte. Que faria quando Nicholas regressasse com sua bela esposa? Dougless tinha ouvido falar tanto sobre a beleza de Lettice que já tinha odio ainda que não soubesse nada dela. depois de uma adorável noite de paixão. assim que se supunha que ela não devia permitir-lhe que se casasse com outra. sentada sozinha pensando que daria tudo o que tinha para ver Nicholas. Sem Nicholas. tudo o que desejava era saber se era bonita.

seu filho tinha trancado Dougless numa cela suja na parte superior da casa e a jovem tinha permanecido ali. Sua mente só pensava em Nicholas. Sabiam por que chorava. Não achava que Nicholas o fizesse.sua família. Alguns deles suspiravam e recordavam seu primeiro amor. A jovem era incrivelmente adorável e entretida. como vestir-se e inclusive comer. Sentiram pena quando Nicholas teve que usá-la para casar-se e ela chorou desconsolada. Não o mereço. com a cabeça baixa. Sabia mais de medicina do que qualquer médico. comida pelas pulgas. Ao que parece. mas a metade da casa levantava bem cedo e se 189 . No entanto. tinha um caráter forte.. Passavam os dias e seguia chorando. débil pelo jejum e o pranto. e agora Dougless não lhe dava nada em troca. Não lhe importava comer ou dormir. E a presenteou a lady Margaret. Nicholas acharia já que não podia cumprir com seu dever e casar-se com Lettice Culpin. Lady Margaret não lhe tinha acreditado em nenhum momento. Tinha criado uma cadeira larga e baixa que estava forrada com tela. — Basta! —Ordenou-lhe — Estou cansada de teu pranto. muito inteligente para muitas outras coisas. mas a disparatada história lhe tinha dado uma razão para manter à jovem perto. Mas sua compaixão cessou ao ver que chorava e chorava dia após dia. contra os enérgicos protestos de Nicholas. apresentou-se ante ela. algo dentro dela fez que se opusesse a expulsar à moça. mas Nicholas era igual ao seu pai. — Meu filho foi um tonto ao acreditar que te amava. as bochechas molhadas e o rosto riborizado e inchado. saiu da habitação e foi procurá-la. as pessoas da casa sentiram compaixão por suas lágrimas. enquanto ela discutia com ele sobre seu caso. — Não posso. mas e se regressava e via a cara avermelhada desta Dougless e tentava deixar de lado seu casamento. e se tocavam. quando de repente se levantou. Era tonta para muitas coisas. No entanto. Aqueles primeiros dias tinham sido divinos. Suas ações sempre eram assombrosas. Honoria supervisionava que se vestisse e tratava de que comesse.? Continuou olhando a cabeça inclinada de Dougless. era muito. — Estou de acordo. Tinham visto a forma em que Nicholas e ela se olhavam. Cada pensamento a fazia chorar mais forte. Nicholas queria jogá-la à rua. lady Margaret a tinha olhado tinha acreditado nela! Tinha confiado nela com sua vida. Começaram a perguntar-se o que estava fazendo ali. Sou incapaz de parar. dizia que a Terra era redonda. lady Margaret mandou chamá-la.No princípio. Contava curiosas histórias sobre a lua e as estrelas. Esta mulher tinha que ir embora. Estava tratando de raciocinar com sua mãe. encantadoras e fascinantes. e lady Margaret sabia que tinha razão.. sabia que as lágrimas desta mulher comoveriam seu coração. Foi Nicholas que liberou à jovem. Lady Margaret se sentou e contemplou a cabeça inclinada de Dougless. Como ia funcionar seu casamentp se regressava e encontrava esta ramera ruiva chorando por seu amor? Sempre tinha podido raciocinar com Kit. por que vacilava? Por que tinha deixado entrar esta mulher em sua casa? No princípio. mas Dougless não podia comer.Sorriu ao recordar a absurda história da jovem de que era uma princesa da longínqua Lanconia. Nicholas tinha ficado irritado porque sua mãe tinha confiado tanto na jovem que vestia e falava de forma estranha como para tomar um comprimido desconhecido. Ela não sabia. Lady Margaret lhe tinha dado tudo. Lady Margaret sorriu ao recordá-lo. as novas canções? No quarto dia. Inclusive sua linguagem era divertida.Depois disso Nicholas tinha se irritado muito. Mas algo a deteve.Lady Margaret permaneceu em silêncio um momento enquanto observava a cabeça inclinada de Dougless e escutava seu pranto. Onde estavam os novos jogos. e no entanto.Dougless. Conhecia muito bem o seu filho menor.

ninguém especial.. onde trabalhava uma jovem servente voluptuosa. Dougless demorou um momento para compreender. e depois o enviou à cozinha. confirmando tudo o que lady Margaret dizia. como Dougless o amava. No começo. não se veria tentada de deixar a casa dos Stafford. Quem és afinal? — Só uma mulher. Não tens parentesco com ninguém da casa real. ‘Dougless diz que meu esposo não tem direito de me bater’. Nicholas se casaria com sua formosa Lettice. — Sim. Dougless diz. ela tinhase alegrado quando Nicholas mostrou um interesse tão extraordinário nesta Dougless Montgomery. Este nunca precisou instruções com as mulheres. Tem que ir embora. sobretudo. mas não seu coração. Pensava que quando Nicholas regressasse com sua mulher. Seu filho menor amava essa mulher quase com obsessão. utilizando uma maravilhosa espuma para o cabelo e a pele.Mas com o decorrer dos dias. No princípio. esta mulher a quem ela lhe tinha dado tanto.Mas. ‘Dougless diz que uma mulher deve ter o controle de seu próprio dinheiro’.Não tinha tido essa tipo de problemas com Nicholas. que esteja aqui quando regresse. Kit tinha se apaixonado por ela.A Jovem. afetavam a Nicholas. a Lady Margaret não lhe tinha importado. — Ir? Mas Nicholas deseja que eu fique. Lady Margaret se encarregou de que a mulher levasse Kit à cama e lhe ensinasse uma ou duas coisas. Se Nicholas não cumpria com o contrato que tinha com a família Culpin. e irá embora para sempre da casa dos Stafford. Os jovens se apaixonavam com freqüência. pensou lady Margaret.escondia nos jardins para ver como se banhava na fonte. Lady Margaret apertou os dentes quando pensou como estavam afetando a todos as lágrimas desta mulher. Ao longo dos anos tinha entregado livremente seu corpo. Numa semana.. Não. Kit tinha se apaixonado de uma de suas damas de companhia. não desejava pensar no que podia suceder. em realidade. Nicholas. que tinha falado de romper um compromisso por esta mulher que não tinha nada. que não era ninguém. O resto da casa também falava dela: ‘Dougless diz que as crianças não podem ser vendadas’. Seu filho maior falava de dar-lhe grandes riquezas. nada mais. Lady Margaret tinha examinado as maravilhas de sua bolsa. O casamento iria acontecer nessa mesma manhã. e você mentiu. Agora já não desejava que se fosse. Não és uma princesa. Quando por fim olhou realmente sua casa. negava-se a ver o muito que se estava afeiçoando Nicholas a Dougless. Dougless diz. Levarás a roupa com a que chegaste. ela sentiria falta do humor e dos conhecimentos da jovem. Quem dirigia a casa dos Stafford? E agora estava diante dela chorando. 190 . que tinha dito que a amava.Lady Margaret lhe disse com rosto austero: — O enviado regressou de Lanconia. menti —Dougless permaneceu com a cabeça baixa. e a futura esposa deste não falava de outra coisa mais do que dizia ou fazia. ‘Dougless diz que as feridas devem se lavadas’. não lhe agradou o que viu. Não tinha nada que lhe pudessem dizer para fazê-la sentir pior. Se fosse. Lady Margaret respirou profundamente. No entanto. — Amanhã irá embora. era entretida. — Dei-te tudo o que há em nossa casa. Mas Nicholas tinha se apaixonado por ela. tal como levava desde fazia dias. Deveria ter sabido que quando Nicholas entregasse seu coração. agora ameaçava toda sua família. o daria tão completamente que nem cem serventes voluptuosas poderiam devolver-se. Aos 16. inclusive tinha usado a pequena escova e algo chamado pasta dental.

Esta lhe olhou ao rosto e soube o que tinha sucedido. — Vou deixar Nicholas nas mãos dessa malvada mulher. Quem és? A filha de um camponês? — Meu pai ensina. e Nicholas precisa de mim. — Mas. não pode me dispensar.Lady Margaret levantou a mão. absolutamente nada. quase sorrindo— Nunca me disse. — Lady Margaret te dispensou? Dougless assentiu com a cabeça... Dougless se voltou e saiu da habitação. Não podia dizer nada. Graças a ti. — A entreterei. Não quero voltar a ver-te. Não posso alimentar-te e vestir-te. — Ele fez? —Perguntou Dougless. Agora a aceito.—Dougless estendeu as mãos em atitude suplicante.Não te quero mais em minha casa. Não queremos mentirosos aqui. — Pediu uma recompensa e a obteve. — Lavarei os pratos —lhe disse Dougless.. Agora vá. assombrada . com essa gente? Afastar-me de Nicholas? Lady Margaret se pôs de pé e lhe deu as costas. Poderia falar-lhe dos aeroplanos e automóveis. e eu também. — Trouxe a desordem a minha casa. — Se sentirá melhor? Jogar-me. sua vida não valeria nada e não teria oportunidade de rever a Nicholas. — Irá embora! —Replicou Lady Margaret. Conheço mais canções. Vim para salvá-lo. — Tens aonde ir? Alguém que se ocupe de você? Dougless negou com a cabeça. Meu filho pediu que eu a liberasse de seu compromisso contigo. Não tenho aonde ir. suplicando —Serei o médico da família. Honoria tinha aprendido a ignorar estes estranhos comentários de Dougless. recorda? Então. Enfeitiçou o meu filho a tal ponto que não sabe qual é seu dever. Despede-te hoje. Alegra-te de que não te açoite. Regressou com Honoria. Talvez não desejava saber tudo o que devia sobre ela. — Você sim? — Sei muito sobre ela.É um pouco fria. Salvei a vida de Kit.. mas não creio que seja malvada. Irá fazer mal a ele. E posso contar-lhe mais histórias sobre América. mais jogos... Se lhe dizia a verdade a lady Margaret. — Não vou discutir contigo. — Irá embora. Esperava que ocorresse algo assim. Seus olhos brilhavam como pedras preciosas . Lady Margaret a olhou detidamente. você me ofereceu uma casa.. quase gritando..— Acha que sua mulher desejará ver-te? O tonto de meu filho se apegou demais contigo. — Você não a conhece. — Nunca faria dano a Nicholas. — De onde és? Onde vivias antes de vir aqui? Dougless manteve a boca fechada. Sei o que vai fazer. e. Não posso fazer mais mal do que as sanguessugas. e amanhã irá embora de minha casa. — Estou cansada de teus entretenimentos. meu filho trabalha como um artesão. Lady Margaret. — Lady Lettice? —Perguntou Honoria. não para ferí-lo. Eu. Tenho que o proteger como protegi Kit. — Aonde vai? 191 .

— Estou mais do que enferma —replicou Dougless enquanto deixava que Honoria a levasse à cama. Não tinha saído desde sua partida. abraçando-o.Cruzou a sacada de tijolos. estava Nicholas. Estava em seus braços. quando ficou dormida. desceu pela escada. Nicholas. Tinha só um quarto de lua e estava muito escuro. Honoria palideceu. O travesseiro estava molhado. — Deus —murmurou Dougless. — Poderia ficar com minha família —lhe propôs Honoria— Lhes encantariam vossos jogos e canções. junto à parede e chegou ao jardim. preocupada. mas não precisava ver. Voltou a fechar os olhos. que ia matar todos os Stafford. sem gentileza. — Provavelmente. Recordou que lady Margaret lhe tinha dito que devia afastar-se da família Stafford.— Não tenho idéia. — Mas não conhece? — Só conheço a Nicholas que sem dúvida nesse momento já está casado. pensou Dougless. era de noite e a habitação estava muito escura.Quando chegavam ao clímax. — Tens familiares? Dougless sorriu. Seus corpos sudorosos permaneciam muito unidos enquanto subiam e baixavam uma e outra vez. Descalça. beijando-o com medo e desespero. Honoria estava dormida ao seu lado. Algo vai muito mal. Mal sentiu as mãos da donzela que lhe desabrochava o vestido.Tudo sucedeu muito rápido para deter-se e pensar. depois no solo. Já estava casado. Nicholas precisa de mim —murmurou. e agora tudo está saindo mal —fechou os olhos — Por favor. Tinha achado que tinha opções. tocou-lhe a testa.Cuidariam de você. e se encheram os olhos de lágrimas — Deus me fez isto.Enquanto se aproximava ao jardim. — Nicholas —sussurrou. Entregaram-se com fogo e um desejo tão reprimido que fez que Dougless gritasse. — Nicholas. colocou-a sobre um banco de pedra e a penetrou com força. seguindo seu instinto e algo indefinível que a guiava. Está enferma. com a camisola de linho e o cabelo solto. Por favor. arranhando-o.Ali. Casado com a mulher que ia o matar. não se cases com ela. — Tens febre. tinha estado chorando enquanto dormia. Creio que deve de ter alguns Montgomery do século XVI em alguma parte. deve ficar na cama. a fonte onde se tinha banhado todas as manhãs até que Nicholas se foi. que podia escolher entre ficar ou ir. Num instante estava em seus braços molhados. te suplico. não raciocinou. mas tinha algo mais. Estava na cama de Honoria. Ela se agarrou a seus ombros. depois nua.Horas mais tarde abriu os olhos e viu uma habitação escura. Nicholas pôs as mãos embaixo de Dougless 192 . Nicholas. Levantou-se da cama e saiu ao corredor. não quero estar aqui. ouviu ruídos na fonte. nú na fonte. mas agora parecia que seu destino o decidia a outra pessoa — Conheço a Nicholas e sei o que sucederá.Algo não vai bem. desceu pela escada. Quando voltou a acordar. — És muito amável. e lhe prendeu a cintura com as pernas. Dirigiu-se para a parte do fundo do jardim. Dougless esboçou um pequeno sorriso.Dougless não pensou. coberto de espuma. — Suicidar-se vai contra Deus. Honoria. pois tinha uma visão interior. mas se não posso estar com Nicholas. Tudo estava calmo.

Nicholas. tocando-o. Promete-me? —Quando assentiu com a cabeça. — Sim. Duvido que me voltem a pedir —disse sarcasticamente. A última vez — Nicholas. A última vez. — Conseguirei o melhor marido. Procurou sua bata. Não és uma mulher do futuro. podia ver sua felicidade.Demorou um momento para recuperar-se e poder pensar outra vez. — Acontecerá o mesmo quando eu me for. — Eu a ti também não —levantou . Percorria-lhe o corpo com a mão. o melhor.Ela o observou tratando de que sua mente funcionasse. a bochecha.— Temos que falar agora. e brinque com ele de vez em quando. Era como se eu tivesse te inventado. quando o sol tocar teu cabelo. mas devo falar. — Provavelmente sim. rirá disto. — Não —replicou Dougless e se afastou dele. Dougless o afastou. — Cuida de Honoria. beijar-lhe as pestanas. para acariciar-lhe as sobrancelhas. Foi horrível para mim —apoiou a cara em seu ombro — Tinhas vindo e tinhas ido. Agora não terei que ler sobre tua execução —lhe passou a mão pelo pescoço — Prometa-me que cuidarás de James: sem mais vendas. mas ele a tomou entre seus braços. — Nunca te esquecerei. mostrando-lhe sua branca dentadura. mas não pôde — Quero que me jures algumas coisas... — baixou a voz e engoliu saliva. muito bem. E 193 . Nicholas afastou as pernas de sua cintura e a pôs de pé diante dele. — Ninguém esquecerá. porque seu corpo tremia ao tocá-lo. — Amanhã. Nicholas lhe estava sorrindo. — Não me casarei com Lettice. mas ninguém te recordava. Seus mamilos tocavam o peito de Nicholas e lhe formigavam. continuou . escuta-me. Ficarás comigo para sempre. Deus. Agora vou fazer o que desejei tanto. Não terá mais tempo.Mas Dougless começava a pensar. Beijou-lhe os dedos e assentiu com a cabeça. — Quando você voltou. Não. Pese à escuridão. te escutarei e depois faremos amor outra vez. Era como se não tivesses existido. não te enlouqueças tratando de fazer-lhes recordar. — O que fizemos? —Murmurou. — Agora teremos muito tempo. Agora estás aqui comigo.. Nicholas! —Levantou a voz — Não teremos mais tempo! — Eu preciso falar. E se recordar as canções que te ensinei? Isso poderia arruinar algum bom espetáculo de Broadway no século XX —tratou de sorrir. ninguém te recordava.. Dougless gritou. seu corpo se pôs tenso e depois se relaxou. Quero que estejas preparado se ninguém me recordar. e quando quis fazêlo outra vez. por favor. — Não fizemos mais do que começar.E quando trouxer alguma criança ao mundo deve lavar-se primeiro as mãos.e a levantou para acabar. — Sou muito ‘esquecível’. foi muito boa comigo. — Não o mais rico. para tocar-lhe a barba. — Bem.se para beijar-lhe os lábios. — Tomara. Desejaria com todo meu coração não ter que fazer. Apoiou-se no cotovelo para olhá-lo. — Por que estás aqui? Oh. o que fizemos? —tratou de sentar-se no banco.

— Eu faria —murmurou. — Algo mais? Terás que ficar ao meu lado para recordar-me tudo isto. — Não fales de morte. não posso suportar.Dougless se separou para olhá-lo. até que Dougless ficou por cima. e Dougless se esqueceu de tudo. Contigo me sinto cheia. Dougless olhou para o céu. Arquearam-se juntos ambos com a cabeça para trás. e coloca-a por trás de.— Vão se irritar muito. Se morrer amanhã. — Não há nada mau que suportar —replicou ele.Ele lhe acariciou o cabelo úmido. Kit chegará cedo. Contigo me sinto viva. Acima e abaixo. os peitos.. — Te amo —sussurrou — Sempre te amarei. abraçando-a muito forte. e enquanto ele a penetrava com paixão. estou preocupada. E eu não vou servir-te de muita ajuda. vem comigo.Nicholas rodou com ela. Nicholas lhe acariciou os quadris. — Me escutou? — Escutei tudo. Direi ao meu irmão que nos dê um lugar para viver por tê-lo salvado.Talvez Kit me dê uma pequena propriedade e. — Nicholas. — Sim. levantava o corpo para uní-lo ao dele.. Estava-lhe beijando os seios. meu amor. Quero que a história saiba. Como se chama aquela pedra que sustenta as vigas? — Ménsula. minha alma e minha vida. enquanto se moviam juntos. Nicholas olhou para o céu. alegrando-se com cada minuto que passava. Nicholas lhe sorria. Parteiras. Envolve a pintura e coloca-a por trás dela. o ombro e os lábios . Posso ficar com teu retrato em miniatura? — Podes ficar com meu coração. beijando-lhe o braço.deves construir Thornwyck e deixar constância de que você o desenhou. 194 . — Em Thornwyck farás uma ménsula com o retrato de Kit. — Me recordarás? Não me esquecerás? — Nunca. — Nicholas. Devo dizer-lhe a minha mãe o que fiz. James. O retrato de Kit — pronunciava cada palavra com um beijo no seio — Agora. rindo. Toda uma vida. — Envolve a pintura num pano com azeite. — Terei toda a vida para fazer que me perdoes. nunca te esquecerei. Sem dúvida. Não terei vergonha. mas não posso. Faria. — Temos que ir. Nicholas sobre ela. Quando regressar. Está saindo o sol. e depois com maior intensidade. Sim. exceto das carícias deste homem que tanto amava. Fale da vida. A levantou e a colocou sobre ele. minha alma te recordaria.. para protegê-la durante os próximos quatrocentos anos. — Preocupada porque te vejam tão nua? Não é nada que não tenhamos visto antes. Ela lhe tomou a cabeça com as mãos.. irei procurá-la. — Oh! Nunca te perdoarei por não ter-me dito —lhe disse. — Tens que me acompanhar a ver a Kit. Honoria. — E eu contigo —se colocou de lado e a abraçou. Já quase achava que ia poder ficar com ele. Dougless o abraçou tão forte como pôde. Tontamente ao princípio.. Thornwyck. Olha..

Teremos poucos serventes. — Sempre. 195 . uns cinquenta nada mais . sorrindo — E teremos uma dúzia de filhos. — Talvez deveria ver um médico —lhe sugeriu. Ela estava acostumada a ver os extraordinários trabalhos artesanais das damas de Lady Margaret. perguntava-lhe quanto tempo tinha estado ali. e num instante. Dougless estava em seus braços. Os educaremos como é devido e lhes ensinaremos a lavar-se.. — Só uns minutos —lhe respondeu. Estava sentada no solo da pequena igreja de Ashburton e sabia que por trás dela estava a tumba de mármore de Nicholas. encontrava-se na igreja de Ashburton e fora passava um avião. e os andares de pedra não tinham marcas. O que sentia era muito profundo para chorar. O vigário franziu o cenho ante esta mulher tão estranha. Agradam-me as crianças. — Quanto tempo faz que estou aqui? —Perguntou-lhe. Meus filhos não. No princípio. Num momento. sorrindo. Só preciso regressar ao meu hotel e. Dougless esboçou um débil sorriso. Sua pronuncia e seu acento eram muito estranhos. — Demorará muito? — Cerca de quatrocentos anos.agregou. quase lhe responde Dougless. beijando-o. ver a cálida figura de Nicholas transformada em frio mármore. estou bem —murmurou. Parecia tão velha.. — Se sente bem? —Perguntou-lhe o vigário. Te amarei para sempre.A porta da igreja se abriu e entrou o vigário. Ou a um psiquiatra. Beijou-a intensa e prolongadamente. Semanas no século XVI. Permaneceu onde estava durante um momento e contemplou a igreja. e tinha estado fora só uns minutos.. — Então te concederei esse tempo.Pôs-se de pé e a abraçou..— Viveremos numa pequena e formosa casa em algum lugar. As vigas e as paredes não tinham cor. e agora. CAPÍTULO 20 Dougless não chorou. escreveria um livro e converteria o que lhe tinha sucedido a Dougless num best seller? — Não. Dougless não lhe entendeu. fazia questão de que estava com um homem quando estava só. Só uns minutos. Não poderia suportar olhá-la. Nos primeiros bancos tinha alguns almofadões que a Dougless lhe pareciam muito singelos. — Tempo. Teremos o tempo todo que precisemos —agregou. Se lhe contava sua história a um psiquiatra. Vou ter que te falar sobre a liberdade feminina.. Cruzava-se diante de veículos que iam a toda velocidade. depois de ter entrado à igreja. Dougless ficou onde estava. — Você lava demais. Nicholas sorriu.. Quando tratou de pôr-se de pé. suas pernas estavam débeis e o vigário a ajudou a levantar-se. —E daí? Que tinha que fazer ali agora que Nicholas tinha ido? Deu uns passos para sair. — Nossos filhos.

levava largo até o joelho do ano 1599. observando tudo como se nunca tivesse visto o século XX. Estavam todos os comprimidos contra o resfriado.Recolheu a bolsa. morto em sua juventude. nem porcos. Dougless leu a inscrição duas vezes antes de dar-se conta de que era diferente. Deteve-se um momento na porta e observou. Sentia que não tinha nada nas costas. tão calmo. sentiu-se unida a ela. pôs-se a alça ao ombro e se afastou. Os objetos que levava nela a tinham ajudado durante sua estada na época isabelina. Quem sabia lê-los? Pensou. Não teve que revisar o conteúdo para saber que tudo estava ali. pensou. Olhou-o de cima abaixo e viu que sua roupa era diferente: em lugar de levar calção curto. mas agora era muito diferente. Caminhava lentamente pela rua. Que estranho era ter cimento sob os pés.Que limpo estava tudo. junto à tumba. Nem barro. Pediu seis pratos. sem dar-se conta da cara de assombro da garçonete. Durante um momento teve uma intensa sensação de que tudo estava mal. O vidro gordo do copo era 196 . As pessoas sentadas nas mesas estavam separadas umas de outras. não faltava nenhuma das que tinha dado. As tumbas eram tão velhas. — A data —murmurou. O aroma da comida a fez entrar num pub. Não 1564. Não era de um homem jovem. saiu da igreja. sim a tumba é bastante velha. recordando que onde tinha estado muita pouca gente sabia ler e os cartazes tinham desenhos para anunciar o que se vendia. Nicholas. — Desculpe —lhe disse o vigário. nem damas com pérolas nas blusas. Supunha-se que o lugar era uma cópia de uma taberna isabelina. — A data? Oh. Acaricioulhe a bochecha fria e percorreu as linhas que o escultor lhe tinha esculpido nas pálpebras. Inclinou-se e tocou os números para assegurar-se de que via corretamente. tinha uma lousa com o menu. abriu-o e saiu à rua. — Conseguimos —murmurou. Trinta e cinco anos. Caminhou até o portão. Era tão limpo. e a velocidade lhe provocou vertigem. As pessoas da rua também pareciam estranhas. mas não se parecia muito. A pasta dental estava também cheia. Tinha estado em todos os lugares com ela. ainda sorridente.Ao fundo. meu amor. Mas se deteve bruscamente e olhou a parte inferior da tumba. mas algo tinha mudado. Dougless se horrorizou ao vê-lo.— Não esqueça sua bolsa. senão de um homem maior.Só depois de ter tocado a data. Olhou com desagrado sua saia e sua blusa. e as botas de couro lhe incomodavam. E todos pareciam iguais. observou a base. — Sucede algo? —Perguntou-lhe o vigário. Dougless se voltou e viu sua bolsa no solo.. olhava assombrada os edifícios que a rodeavam. Tudo estava igual. Enquanto caminhava. levantou os olhos da tumba. conseguimos. e as folhas de seu caderno. A data da morte de Nicholas era 1599. Dougless o olhou e sorriu. Dirigiu-se para ela e a abriu. Sentiu-se nua e desalinhada com sua roupa tão singela. pensou.. que tinha conseguido viver sua vida. A escultura era de Nicholas. sentindo-se desorientada. tão solitário. O frasco de aspirinas estava cheio. sentiu que se lhe expandiam os pulmões. Imensas placas de vidro Letreiros nas lojas. Todos levavam a mesma roupa monótona que ela. não tinha mendigos com trapos. Deteve-se no cemitério um momento. — Mudamos a história —respondeu e. Tinha vivido mais trinta e cinco anos desde a data em que se supunha que iam-no executar. e. Não estava segura do que. e se sentou numa mesa para tomar sua cerveja.Cuidando de não olhar a escultura de Nicholas. Não como o buliçoso isabelino. Passou outro automóvel. Ao dar um respingo. Algo era diferente. agora que não levava o corpete. nem excrementos. Ao olhá-la. no entanto um automóvel passou diante dela.

o brilhante erudito Nicholas Stafford. teus descendentes são duques.A guia não encontrava mais superlativos para descrever Nicholas. desta vez ao entrar a viu monótona e sem vida. — Era um verdadeiro homem do Renascimento —lhes explicou—a personificando que sua época esperava conseguir. —‘Brilhante erudito’.Dougless comprou a entrada e a guia para a visita. Agora a história era muito. Também era uma residência particular. Se permanecia muito tempo num lugar. mas pagou.Praticamente correu até a estação de transporte ferroviário para tomar o primeiro trem a Bellwood. A guia dizia que a família Stafford era uma das mais antigas e ricas de Inglaterra. suficiente para comprar cem jantares medievais. mas uma pequena parte estava aberta ao público às quintas-feiras.Colocou a bolsa sobre o banco que estava ao seu lado e começou a revisá-lo. Durante a viagem. Nada de libertino. todas as casas de Nicholas eram residências particulares e não estavam abertas ao público. E três delas as possuía a família Stafford. Já não estavam catalogadas como ruínas. é que. Tinha que ver que tinha mudado. mas muito diferente.Dougless pestanejou e voltou a ler o parágrafo. colocando todos os pratos sobre a mesa ao mesmo tempo. como o tinham chamado. — Teve algum problema com seu garfo? —Perguntou-lhe. Bem. Dougless permaneceu em um lado. Exceto Bellwood. Chegaram à habitação de Nicholas antes que pudesse recuperar-se de sua sensação de desagrado. senão um ‘brilhante erudito’ —murmurou. tinha visitado a casa o dia anterior. em voltar a vê-lo. Todas as onze seguiam em pé. A garçonete a estava olhando com uma expressão de surpresa no rosto. Começou a comer e continuou lendo a guia. Junto a ele tinha um garfo sem usar. não desejava ficar quieta. A garçonete continuou observando-a. sabia que começaria a pensar em Nicholas. que no século dezessete tinham aparentado com a família real e que o duque atual era primo da rema. Chegou a comida e Dougless se surpreendeu pela forma em que a serviam. Não tinha pratos de ouro nem de prata. De acordo com o tempo do século XX. até que Dougless olhou seu prato vazio.estranho e a cerveja tinha sabor de água. No fundo estava a guia turística das casas históricas de GrãBretanha. nem almofadões nas cadeiras. deve compartilhar-se com todo mundo’. ‘O duque atual crê que a beleza de Thornwyck. nem música.. Nada de mulherengo. Dougless tinha comido só com a colher e a faca. fez ela palidecer.Apesar de que antes pensava que a casa era formosa. Desenhou formosas casas que se adiantaram centenas de 197 .. olhando o retrato de Nicholas e escutando a guia. — Garfo? —Não sabia do que ela estava falando. o dia em que se inteirou da execução de Nicholas. leu o guia para entreter-se. Bellwood figurava nela e estava aberta ao público como antes. em que o tinha perdido. e quando se colocou na fila. Mas o mais importante era que não tinha gente luxuosamente vestida. Quando chegou. já conhecia muito bem o caminho desde a estação a Bellwood.Outra vez fora. Fechou a guia e levantou os olhos. leu. —não sabia o que dizer. Voltou a olhar Thornwyck. assim que lhe sorriu e olhou a conta. A guia não tinha sido muito amável. A quantidade. — Duque —murmurou Dougless— Nicholas. a mesma guia encabeçava o grupo. nem risos. sem cerimônia. desenhada por seu antepassado. depois de tudo recordava que Dougless tinha ativado o alarme da porta e a tinha molestado. Procurou as outras casas de Nicholas. nem extraordinárias toalhas de mesa bordadas sobre as mesas.

e em especial sobre o brilhante Nicholas Stafford. nada sobre a execução. Kit tinha administrado bem as propriedades dos Stafford. que os doutores e as parteiras deveriam lavar as mãos. pôsse sua camisola e se sentiu como uma mulher impúdica. A guia a olhou séria. quando estavam abrindo as portas. Nada sobre traição. ‘Seu uso do vidro se adiantou à época’.Depois de três esposos. Para esta gente só tinham decorrido vinte e quatro horas desde que ela chegou à cidade. e se sonhou. E. — Nunca se casou.Nicholas tinha vivido até os sessenta e dois anos e durante sua vida tinha feito grandes coisas. teve dificuldades para adaptar-se à modernidade. Quando leu que nunca tinha se casado. veremos. e se sentiu mais cômoda.Passou a tarde lendo os livros de história. Ainda tinha uma habitação no hotel e sua roupa estava ali. nem sobre o mulherengo que era Nicholas. o mais importante.Surpreendentemente. lady Margaret não voltou a casar-se e viveu até os setenta. o condado e as propriedades passaram a Nicholas. dormiu de imediato. ‘Se seus conselhos tivessem sido levados em conta escreveu outro autor — a medicina moderna tinha tido seu começo há centenas de anos. especialmente no banho. teve problemas quando pediu carne e cerveja para o café da manhã. Chegou a Thornwyck às dez.Depois de jantar na habitação.Reclinou-se para trás.anos a sua época. Não tinha nada sobre Arabella e a mesa. Agora a informação era diferente. saiu e se dirigiu à biblioteca. — Que dizia o livro? —Perguntou Dougless. Realizou grandes avanços no campo da medicina e escreveu um livro sobre a prevenção das doenças que se tivesse utilizado.. não recordava. Dougless sorriu. e quando morreu ele. repetiam os livros uma e outra vez. se me seguem. mas os ingleses. aos quarenta e dois anos.Dougless se separou do grupo. mas. entendiam os excêntricos. pois era óbvio que recordava o incidente da porta. nem conspiração entre sua esposa e seu amigo. Nicholas herdou. até que morreu de uma doença do estômago. recordando ao doce menino com o que tinha brincado. mas teve um filho chamado James —comentou a guia — Quando o irmão maior de Nicholas morreu e não deixou filhos. A bibliotecaria a olhou e sorriu. Para os outros leitores. Agora. Os livros detalhavam a beleza e criatividade dos edifícios que tinha desenhado. Banhou-se. para ela.À manhã seguinte. as propriedades dos Stafford passaram a James. Uma vez nela.’‘Adiantado a sua época’. só eram nomes nos livros de história. Leu os nomes de pessoas que tinha conhecido e querido. sentiu-se só sem Honoria ao seu lado. eram pessoas de carne e osso. lhe encheram os olhos de lágrimas.Foi embora quando a biblioteca fechou. Kit se casou com a pequena Lucy. E quando se deitou. escreveu um autor.Enquanto lia sobre Nicholas. que ainda era proprietária da casa. Outro livro comentava as idéias de Nicholas sobre medicina e sua cruzada pela limpeza. Comprou a entrada e começou a visita.A guia continuou. teria salvado milhares de vidas.. Abriu a água fria e regulou o chuveiro.respondeu. melhor do que ninguém no mundo. mas não podia suportar a água quente ou a força do chuveiro. caminhou até a estação e regressou em trem a Ashburton. A guia falou muito sobre a família Stafford. — A coleção Stafford? — Sim . — Basicamente. tocava as palavras impressas como se elas pudessem fazer-lhe parecer mais próximo. Como Lucy e ele não tiveram filhos. 198 . e num livro dizia que ela tinha convertido um grande patrocinador que apoiava a músicos e artistas.

Dougless conteve o alento enquanto a mulher arrumava o cobertor da cama e depois se afastava. mas por fim pôde tirar a cara. Foi por meio dele que a família Stafford realmente obteve fortuna.. Uma vez no segundo andar.Dougless prestou muita atenção.Dougless teve que esperar que os demais turistas se movessem para ver a caixa. regressou ao trabalho. Vistoriou três habitações antes de entrar num dormitório e encontrá-la.Desta vez a criada entrou com uma pilha de toalhas. Devia ter tido a previsão de ter trazido um desandador ou uma pequena alavanca. Acabava de pôr a mão na antiga ménsula de pedra quando abriu a porta..Apoiada nas pontas dos pés. depois de três tentativas. Sentindo-se como uma espiã. mas Dougless se separou do grupo. Dougless olhou por trás da ménsula. E teria morrido se Dougless não tivesse intervindo. vocês me entendem —moveu a mão realizando um gesto afeminado. o segundo andar não estava aberto ao público. Dougless falou antes que a guia. mas ninguém a viu. Dougless não respirou até que a mulher se foi. Não teve tempo de voltar a colocar a cadeira em seu lugar. rindo .Escondeu-se entre o armário e a parede enquanto uma criada saía do banheiro ao lado.Talvez o velho Nick não se casou porque era um pouco. já que significava muito para seu amado pai. mas sabendo que tinha que fazer. Por desgraça.Encontrou uma escada e subiu no segundo andar. Teve que se esconder duas vezes ao ouvir passos. colocou a ménsula outra vez em seu lugar e desceu.Quebrou as unhas e esfolou os joelhos. Ali. coberto por um vidro. Dougless se achatou contra a parede. Quando a porta se fechou. Dougless se voltou e tocou a cara de pedra de Kit.— James realizou um brilhante casamento e triplicou a fortuna da família. vocês me entendem —passou adiante dele e saiu da casa. Dentro. — Apesar de que Lorde Nicholas Stafford nunca se casou. ao que parece teve uma misteriosa mulher em seu passado. — E aqui temos a exposição de peças de renda —dizia a guia— A maioria são victorianos.. Na casa de Nicholas tinha tantos serventes que tivesse sido impossível que um intruso chegasse até o segundo andar sem que a vissem. tinha um pacote envolto num lenço. A primeira vez que esteve em Thornwyck estava quase em ruínas e Nicholas lhe tinha mostrado a ménsula com o rosto de Kit sobre a parede do que tinha sido o segundo andar. pediu que o enterrassem com esta peça de renda. e posso assegurar-lhe que Nicholas não era nem um pouco. Colocou uma pesada cadeira junto ao armário. — Dougless? —Comentou um turista. mas esses dias tinham ficado para trás. pois saiu correndo da habitação.Outra vez sozinha. amarelado. Em seu leito de morte. num buraco. mas temos uma peça especial do século XVI. assomou-se e observou. no alto de um formoso armário de nogueira. Seu filho James disse que a renda sempre deveria guardar-se num lugar de honra na família. — Para sua informação.Abriu uma porta onde se lia ‘PROIBIDO PASSAR’ e entrou numa pequena sala de espera decorada ao estilo inglês. teve dificuldades para orientar-se. e já estava a ponto de abandonar quando a pedra se moveu. A guia passou à seguinte geração da família e à seguinte habitação. Dougless era um nome de mulher no século XVI. O nome de Dougless estava bordado nele. estava o punho de renda que Honoria lhe tinha feito.. 199 . mas teve alguma confusão e Lorde Nicholas foi à tumba sem ela. se trepou na parte superior. Bateu e se atirou. Rapidamente. enquanto tratava de recordar onde podia estar a ménsula. subiu e. assim que avançou nas pontas dos pés. tirou-o. guardou-o no bolso. O trabalho parecia sólido. A sala estava vazia.Saiu sem ser vista e regressou ao grupo quando este se encontrava na última habitação.

quando lhe deu a volta. A menina já não tinha essa expressão de superioridade. sentouse num banco e tirou o pacote do bolso. Pelo momento não achava que pudesse sustentar uma confrontação. Robert a agarrou do braço e a deteve. para ler. Não almoçou..Lentamente.. tocou-a e. volta. Cansada. — Dougless. Pensou em como Nicholas e ela tinham mudado a vida dessas duas pessoas. estavam-na esperando Robert e Glória. James tinha vivido e Nicholas também tinha vivido.. Pônha à luz. 200 . Glória se parecia muito à noiva de Kit e este Robert se parecia muito ao do século XVI. Quanta gente tinha tido a sorte de mudar a história? No entanto. a América. tão brilhante como o dia em que o tinham pintado. Que importava o amor entre duas pessoas se ao renunciar a ele tinham mudado a história? Kit tinha vivido. lia. que Nicholas tinha tocado fazia tanto tempo. é verdade que te perdi ? Se foi para sempre? Olhou a miniatura. mas foi ao salão de chá e se sentou para tomar chá com leite. Tinha comprado uma guia em Bellwood e outra em Thornwyck e. — Por favor —lhe pediu com uma mirada terna. Permaneceu ali sentada um longo momento antes de pôr-se de pé. caminhou lentamente para o hotel. preparando-se para sua réplica. e enquanto os demais turistas lançavam exclamações ante sua beleza. — Nicholas —sussurrou. — Nicholas.Apareceu o retrato em miniatura de Nicholas. enquanto comia e bebia. Robert Sydney não tinha razões para odiar a Nicholas. E Dougless tinha ajudado que Lucy tivesse mais confiança em si mesma. e na parte superior tinha um D. que significava uma pequena aventura amorosa? Saiu do salão de chá e caminhou para a estação ferroviária. porque Arabella não tinha ficado gestante sobre a mesa. com um prato de scones. Dirigiu-se a um lado calmo. tremeram-lhe os dedos. desembrulhou-o. a honra da família se tinha salvado.Na viagem de regresso a Ashburton. Agora podia regressar a casa. Graças a seus esforços. lady Margaret tinha vivido. Ao tocar o lenço oleado.Dougless olhou a Glória. já que em realidade se sentia muito mal. Tinha formosos edifícios porque tinha alentado a Nicholas para que usasse seu talento arquitetônico. com sua família. e atualmente um Stafford era duque e parte da família real. Lucy e Robert Sydney. Nicholas. Tinha. Em Ashburton. e tocou a pintura com a ponta dos dedos — Oh. Apoiou a cabeça contra a velha parede de pedra e secou algumas lágrimas. Dougless pensou que estavam descuidados. Ela e Nicholas tinham conseguido muito. Dirigiu-se até Robert e lhe disse: — Tenho a pulseira —e se voltou rapidamente antes que pudesse dizer-lhe algo. E com suas vidas. e nunca mais teria do que aparentar ser alguém do que não era. volta para mim. — Já te disse que tenho a pulseira e me desculpo por ter ficado com ela.Com cada palavra pensava que o que tinha sucedido valeu a pena a dor de perder o homem que amava. No vestíbulo. a família Stafford seguia viva. podemos falar? Ela se ergueu. Tinha que chamar à companhia aérea para realizar a reserva. O tempo não significa nada O amor perdurará Tinha assinado com um N. sentou-se numa cadeira frente ao pai e a filha. pensou que devia sentir-se feliz.. Por favor. viu algo gravado detrás.Caminhou pelos jardins.. Já não seria uma estranha. pensou.Comparada com tudo isso. ela tinha tido essa oportunidade.Não fazia sentido tratar de pensar como deveria sentir-se.

Já não era a pequena da família que não era tão boa como suas irmãs maiores. espero.E escolherei minhas próprias madrinhas. compreendeu que ele nunca a tinha amado. Dirigiu-se para a escada e Robert a seguiu. Aqui estava o que tanto tinha desejado: um casamento com um homem estável e respeitável. Agora. Estou bastante cansada e amanhã me espera uma longa viagem. Era uma mulher que tinha sido transportada a outra época e não só tinha sobrevivido. senão que tinha conseguido levar a cabo uma tarefa monumental que já não precisava provar nada a sua perfeita família levando a casa um marido de sucesso. há alguém mais? Tirou a pulseira de diamantes da mala onde a tinha escondido e a entregou. — Pode sentar-te no assento da frente —agregou Glória. — E papai me disse que podia ser tua madrinha —agregou Glória. pois Robert sempre se desculpava para obter o que desejava dela.. Seguiu-a e fechou a porta.. — Casar-nos? — Por favor. verdade? Sim. assombrada. Fui um tonto ao não ver o bem que estávamos juntos. atribuía-lhe qualidades que não tinha. cansada. — Não há ninguém —respondeu. Num momento de sua vida tinha olhado a Robert com uma venda nos olhos. — Não. Quando chegar aos Estados Unidos levarei as minhas coisas que tinha em tua casa. creio que será melhor que nos despeçamos.— Glória e eu temos estado falando e achamos que fomos um pouco injustos contigo—lhe explicou Robert. À casa que será nossa tão cedo quando nos casarmos. estou-te pedindo que te cases comigo. — Mas eu achava que desejavas casar-te —estava autenticamente surpreso. e depois olhou a Glória . mudei —se pôs de pé— Vou buscar a pulseira. Dougless. Não.Tomou a mão de Robert e a retirou. — Mudas-te Dougless —lhe disse Robert com suavidade. sentindo a perda de Nicholas. — Nem sequer o moço a quem disseste que estavas ajudando a pesquisar? — A investigação terminou e se. 201 . — A minha casa. amanhã vou para casa —respondeu com suavidade. Glória se ruborizou e olhou as mãos. Não lhe falou até que Dougless abriu a habitação e entrou. foi. mas não. Dougless esboçou um pequeno sorriso. Dougless olhou aos dois. — Obrigada. — O que desejas de mim? —Perguntou-lhe. porque de repente já não sentia desejos de venderse tão barato. enquanto Glória ficava no vestíbulo. — Sim. Era como se realmente sentissem o que estavam dizendo. — Dougless. recordando sua vida juntos. — Quando me casar. não por suas palavras. será com alguém que eu desejo —replicou Dougless. Via só o que desejava ver. — Para sempre? — Tão para sempre como o tempo —olhou ao longe um momento e depois voltou a olhar—. Respirou profundamente e sorriu. senão pela sincera expressão de seus rostos. — Só queremos desculpar-nos —replicou Robert— e que continues conosco o resto da viagem. agora o sucesso era dela mesma. Dougless o olhou assombrado. Robert lhe tomou da mão.

Por quê? Porque Nicholas tinha engravidado a sua esposa?E Glória já não estava brava com ela.. Afastou-se dela e Dougless se alegrou ao ver que não estava irritado. Não temos que nos casar se não o desejar. quem sabe. sem dinheiro. Naquele tempo. Se me permitir te enviarei flores. Nos amamos.. — Mas ontem tudo mudou. e durante sua estadia com Nicholas tinha dissipado a irritação de Robert e Glória. olhou-o com raiva. como se nunca tivesse existido. — Não. porque sabia que podias ter todo o dinheiro que desejasses só pedindo-o. tinha-lhe dito Nicholas. Queria que soubesses o que é sobreviver sem dinheiro. como se seu ego suportasse melhor a rejeição ao pensar que tinha escolhido outro. Eu fiz a carreira pagando por ele e comendo comida enlatada.Respirou profundamente. Robert e Glória eram as almas das pessoas que tinhma vivido antes? — Me dá outra oportunidade? —Repetiu Robert. a relação era unilateral e Dougless fazia tudo o que lhe pedia e tratava de satisfazêlo. doces e. Se me permitir. — Te peço desculpas por isso —voltou a olhá-la e seu rosto estava cheio de sinceridade e mostrava um pouco de confusão— É algo muito estranho. Todo seu dinheiro me deixava furioso. Quando te deixei naquela igreja. Que dizes? Dá-me outra oportunidade? Dougless o olhou. 202 . por favor. Não podemos jogar a perder o que tínhamos só por uma pequena discussão. Já não estava irritado contigo. — Algo assim. minha alma te recordaria’. faz só uns dias. reconsidere. — Se tivesse comprado um anel de compromisso em lugar desta. Todos seus dias no século XVI tinham decorrido em só uns minutos do século XX. Dougless permaneceu quieta na habitação vazia durante um momento e depois se dirigiu ao telefone para chamar seus pais. mas te agradeço muito o oferecimento. Tem sentido? Toda a irritação que sentia por você se evaporou. e me alegrei. — Há alguém mais? —Perguntou outra vez.. Desejo-te toda a sorte do mundo —saiu da habitação e fechou a porta. e seu rosto se distendeu. e agora estás aqui pedindo-me que me case contigo? Robert se ruborizou um pouco e desviou a olhada. —voltou a olhá-la— É um caro afortunado. enquanto você tinha de tudo. seja quem for. sabia que Glória tinha tua bolsa. Olhou-o e pensou como numa época de sua vida tinha achado que o amava. Robert dizia que sua irritação tinha desaparecido ontem. Deveria-se o enfado dele a sua amargura pelo que sucedeu no século XVI? Quando Robert conheceu Nicholas. Dougless lhe sorriu e lhe beijou na bochecha. Odiava a forma em que vivias de teu salário de professora. Robert olhou a pulseira. Foi-se. Tens uma família que te adora e uma história de riqueza de vários séculos. copas.Como pudeste deixar-me num país desconhecido.Aproximou-se dela e lhe pôs as mãos sobre os ombros. — O que te fez mudar? —Perguntou-lhe Dougless .— Dougless. passaria o resto de minha vida satisfazendo-a. Glória e eu estávamos num restaurante e de repente senti desejos de que estivesses conosco. Bom. Não temos que viver juntos.. — Fui um tonto em deixar que alguém como você se afastasse. ‘Se morresse amanhã.. ter que depender de você mesmo como eu sempre fiz. Porque a tinha ajudado numa encarnação anterior?Dougless sacudiu a cabeça..

— Elizabeth —lhe disse com firmeza— te agradeceria que não me falasses dessa maneira. Estarei aí amanhã. — Oh —exclamou Elizabeth— Não quis ofende-la. Ali estaria mais perto de Nicholas. Você cozinha e eu limpo os pratos. Ouviu a chamada para subir ao avião. Não vá procurar-me. 203 . senão também o presente. Dougless pendurou o fone e sorriu. Mas não foi assim. desculpe-me. E a revista Playboy na casa de Arabella. — É um trato. Dougless não respondeu. — Não. Agora se sentia muito cansada e muito só. Como não o fez. Elizabeth senti saudades. amou-a com a mesma intensidade. Sabia que não voltaria a ser o alvo das brincadeiras familiares. Recordou sua fascinação quando o taxista mudava de marcha. pensou que tinha mudado. Queres que vá ao seu encontro. fazendo uma pausa para que Dougless lhe explicasse. será melhor que me diga. E quando começou a incluir Dougless nela. Ao que parece. Alugarei um automóvel. ou Robert tem automóvel — Robert não vai voltar comigo. é que geralmente tens alguns problema. Chamei para dizer que estou votlando para casa. CAPÍTULO 21 Dougless teve que se levantar muito cedo para tomar o trem para Londres e depois realizar a longa e custosa viagem em táxi até o aeroporto.ainda não. Não está presa. para ajudá-la. — Muito bem. — Quando disse que regressasse mamãe? — Está bem. A sensação de triunfo que tinha sentido desde que deixou o século XVI se ia dissipando. Dougless. Quando ela foi ao século XVI e pareceu que não a recordava e que a odiava. — Oh —exclamou outra vez Elizabeth. Não sou a melhor cozinheira do mundo.Contestou Elizabeth. Está com problemas outra vez. reservou a passagem e começou a preparar as malas. não só a história tinha mudado. Tinha-se apaixonado duas vezes por Nicholas. ainda era o homem que pensava primeiro em sua família.Chamou Heathrow. Produziu-se uma pausa e depois Elizabeth lhe disse: — Quando regressar. — Dougless! Eu também senti saudades. exijo que me digas o que está acontecendo. Talvez não devia ir embora da Inglaterra. porque já não sentia um desastre incapaz de responsabilizar-se de sua própria vida. Recordou a temporada que ele esteve no século XX e sua cara de assombro quando tocou um livro com fotografias em cor. não é? Dougless estava surpreendida de que as palavras de sua perfeita irmã maior não a fizessem sentir-se culpada. e Dougless esperou até o último momento para fazê-lo. te prepararei um jantar de boas vindas. — Eu também. — Já regressaram mamãe e papai? —Perguntou Dougless. agregou: Dougless nos alegraremos muito te ver.

Desculpe — disse ele.. — Você é. seu coração se acelerou. Igual de Nicholas. Não era Nicholas. — Oh. Creio que será melhor que tome seu champanhe e regresse a seu assento —estava tratando de mostrar domínio de si mesma.. — Desculpe —disse. Tratou de pensar em tudo o que tinha conseguido e de recordar que ter perdido Nicholas era um pequeno preço por todo o bem que tinha feito. Maine — tomou a taça e bebeu muito rápido o champanhe— Tenho. primos em Colorado. Ele a olhou. se sentirá melhor. Não voltaria a vê-lo. onde? — Em Chandler — já não chorava.. Sou Reed Stanford —estendeu a mão para saudá-la. começou a chorar. não sei se lhe dei a impressão de ser uma mulher fácil.Recolheu a bolsa enquanto ele a observava com interesse. observando-a. — Não serão os Taggert? Olhou-o. mas posso assegurar-lhe que não sou.Talvez deveria comprar uma casa em Ashburton e visitar sua tumba todos os dias... O homem do assento ao lado. — Sente-se. tropeçou-se contra alguém e lhe caiu a bolsa no colo de um passageiro de primeira classe. Cabelo negro e olhos azuis..Quando o avião se encontrava já no ar e o aviso de Apertem ‘Os cintos’ estava apagado. Americano. O passageiro de primeira classe.Tratou de controlar-se. sem dizer nada. — Senhor Stanford. — Costumava ir com meu pai a Chandler.Dougless começava a irritar-se. e quando viu que Dougless não lhe correspondia. colocou a bolsa embaixo diante dela e olhou pela janela. terei que chamar à aeromoça. O único homem que lhe interessava estava dentro de uma tumba de mármore. tinha-lhe pedido ao que estava ao lado de Dougless que lhe mudasse o assento. Através das lágrimas viu como lhe oferecia uma taça de champanhe. até que Dougless a retirou. mas seu nariz vermelho. Quando o avião começou a girar pela pista e se deu conta de que se ia da Inglaterra. Mas cada pensamento a fazia chorar mais. — Senhor. tome. Dougless tentou não chorar. Dougless chorava tanto que não se deu conta do que tinha acontecido.encantado de conhecê-la — seguiu segurando-lhe a mão. E você? — M. Ele não recolheu a taça nem se foi. e conheci os Taggert. e viu um homem muito atraente de olhos azuis. mas depois se recuperou. Nicholas se tinha ido realmente para sempre. tomoulhe a mão dela . Talvez se rezasse o suficiente regressaria com ele. Assentiu com a cabeça. Por um momento. — Sou de Colorado. e quando subiu ao avião. nem a tocá-lo. nem a ouví-lo. ocultou sua cara no jornal. mas começou a chorar. Mas Dougless não estava interessada... seus olhos inchados e as lágrimas nas bochechas não o permitiam. um inglês.? — Stanford. Era alguém misterioso a quem lhe agradava as mulheres que choravam? Que lhe tinha sucedido durante sua infância para que o atraíssem as lágrimas? — Se não se vai. — Vamos. seus olhos não eram os dele. com uma garrafa de champanhe e duas taças na mão.As lágrimas já não lhe permitiam ver. 204 . Dirigiu-se para seu assento.

— Não acreditaria se eu dissesse. Não desejava ser. Meus pais achavam que eu estava louco e disseram que uma miniatura isabelina não era algo para um menino. — Sou arquiteto. 205 . — Ao recordá-lo. O retrato era bastante caro e minha mãe se negou a escutar minhas exigências. meu pai me levou à loja e me comprou —se reclinou no assento como se esse fosse o final da história. deulhe a volta e o olhou à luz. Minha mãe levava meu irmão e a mim a lojas de antigüidades. Então. começaram a me ajudar. Só sei que o queria. meu irmão maior. — Tem o retrato? —Perguntou Dougless. Nicholas às vezes fazia o mesmo. e tinha algo em seu olhar que fez que Dougless se detivesse antes de apertar o botão de chamamento. Meu pai tinha um trabalho aqui. antes de ir-nos de Inglaterra. — A que se dedica? —Perguntou ela. Dougless o escutou com atenção. Sem pedir-lhe permissão.Interrompeu-se e encheu a taça de Dougless. Creio que eram quase cinco libras. Voltou-se para ela e lhe sorriu. quando achei que nunca teria o dinheiro suficiente para comprá-lo. — Era um óleo em miniatura. Nunca fiz algo assim em minha vida. Tinha que o ter —sorriu— Creio que então não era muito educado para expressar meus desejos. e está assinado com um C. — A quem? — se Perguntou. você me lembra a uma dama de um retrato. realizado no século XVI. mas eu nunca aceitava um não como resposta. tirou-o do estojo. — Como sabe? — Saber o que? — Colin é meu segundo nome. — Colin —replicou Dougless sem pensar. sim. É que você me recorda a alguém. Reed tirou um pequeno estojo de couro do bolso e a deu. só desejava esse retrato. Sempre me perguntei que significam essas palavras e esse C. Até que um sábado numa tarde vi um retrato. Dougless o abriu devagar. — Está bem. Ele fez uma pequena careta. Tinha algo familiar na maneira em que ele movia a cabeça. creio que o ancião dono da loja pensou que eu desejava ser colecionador. e era de uma dama —a olhou com ternura — Queria esse retrato. Nunca o deixo. — Conseguiu? —Murmurou Dougless. e o coração de Dougless deu um pulo. Reed Colin Stanford. e lembro que não me agradava muito ir. envolvido em veludo negro. — Sempre. Isso é o que diz. creio que tinha onze anos. É muito fantasioso. — Oh. Agradaria-lhe vê-lo? Dougless só pôde assentir com a cabeça.Dentro. Dougless já não chorava. — ‘Minha alma encontrará à tua’ —disse Reed—. meus pais e eu viemos viver à Inglaterra durante um ano. Ele olhou o retrato e depois a olhou da mesma forma em que fazia Nicholas. Não posso explicá-lo. — Acredite. não o faça —lhe pediu. mas quando viram que semana após semana gastava toda a minha mesada. — Quando era menino. Ou em bares. regressei à loja de antigüidades e deixei tudo o que tinha como adiantamento pelo retrato. Tenho muita imaginação.Dougless o olhou detidamente. O sábado seguinte tomei o Metrô. estava o retrato que Nicholas lhe tinha feito pintar.— Por favor. Nunca antes me tinha dirigido a uma mulher num avião. — Tente.

— Leticia. nunca me casei. verdade? Não. Foi a pior coisa que fiz em minha vida. Almas. — Sim. pensou.Tem estado casado alguma vez? — Você vai direto ao fato. não corpos. e era o sorriso de Nicholas. Nesse momento. mas lhe direi a verdade: uma vez deixei uma mulher praticamente no altar.Dougless respirou profundamente. jantarei contigo. Senhor. Muito obrigada. FIM 206 . Ele lhe sorriu. Obrigada. a aeromoça se deteve frente a seus assentos. tinha escrito Nicholas. — Esta noite temos carne assada ou frango à Kiev para o jantar. senão almas. — Como se chamava? Dougless baixou a voz.O que preferem? Reed lhe perguntou: — Janta comigo? ‘Minha alma encontrará à tua’.

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