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A possibilidade da superação do ser segundo Sartre

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  • INTRODUÇÃO
  • 1. A CONCEPÇÃO DE SER SEGUNDO SARTRE
  • 1.1 Percepções sobre a visão fenomenológica de Sartre
  • 1.1.1 Fenômeno e consciência
  • 1.2 O olhar sobre o ser-em-si
  • 1.3 O olhar sobre o ser-para-outro
  • 1.3.1 O olhar do ser-para-outro: o domínio sobre a imagem de ser
  • 1.3.2 Olhar do inferno
  • 1.3.3 A relação do amor
  • 1.3.4 A relação do masoquismo e sadismo
  • 1.3.5 Deus como um ser-para-outro
  • 1.3.6 Considerações das relações com o ser-para-outro
  • 1.5 A relação do ser-em-si e do ser-para-si
  • 1.6 Justificativa do fundamento da possibilidade de ser
  • 2. A POSSIBILIDADE DE SER: TEM UM FUNDAMENTO?
  • 2.1 A existência
  • 2.1.1 A origem do existir
  • 2.1.2 O “nojo do existir” e a morte
  • 2.1.3 A existência como possibilidade de ser
  • 2.2 A consciência
  • 2.2.1 O movimento na existência
  • 2.2.2. A possibilidade da liberdade
  • 2.3 A liberdade, como caracterizá-la?
  • 2.3.1 O projeto
  • 2.3.2 A liberdade destacada
  • 2.4. A superação
  • CONSIDERAÇÕES FINAIS
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
  • OBRAS CONSULTADAS

FACULDADE SÃO LUIZ ALEXANDRE DE OLIVEIRA

A POSSIBILIDADE DA SUPERAÇÃO DO SER SEGUNDO SARTRE

BRUSQUE 2012

ALEXANDRE DE OLIVEIRA

A POSSIBILIDADE DA SUPERAÇÃO DO SER SEGUNDO SARTRE

Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do grau de bacharel em Filosofia pela Faculdade São Luiz.

Orientadora: Dittrich.

Prof.

Dra.

Maria

Glória

BRUSQUE 2012

Dedico este trabalho em primeiro lugar a Deus e a minha família: Augusto de Oliveira (pai), Inês de Fátima (mãe), Sandra de Oliveira, Marciana de Oliveira, Andréia de Oliveira (irmãs) e ao cunhado e amigo Cristóvão Foster. Também, por fim, a todas as pessoas que depositaram em minha pessoa sua confiança, motivando-me a seguir no caminho vocacional.

sensibilidade. Adilson José Colombi e ao Ms. agradeço.. Louvado seja Deus por estes. padres e reitores. Luíz Carlos Berri. amigos de seminário. aos benfeitores. que fizeram minha existência mais completa. aos professores avaliadores: Dr. Também agradeço a Igreja Católica Apostólica Romana pela acolhida no seminário.. A Deus por conceder a “existência” de todas as pessoas que incentivaram a realização deste trabalho. Orientadora Maria Glória Dittrich pela especial caridade. também. De modo especial. a Prof° Dra.Agradeço. ética e amizade que foram exercidas durante toda a pesquisa. . Agradeço. os familiares.

imagina que você não é o que está olhando. Quando você se olha.Paul Sartre. No fundo. Jean .É para libertar-se a si próprio. . olha-se. que você não é nada. é o seu ideal: não ser nada. julga-se: sua atitude predileta.

assim como. Para obter sustentação das respostas aos objetivos. na sua identidade não é completo. existencialmente. a existência. é realizada pelas escolhas do mesmo. Contudo. mesmo não tendo justificativa. . segundo Sartre. Superação. hermenêutica fenomenológica. Assim. Discutindo a possibilidade. dois objetivos são elencados. dentro de uma compreensão. tem por finalidade defender o homem em sua liberdade de poder se fazer dentro de uma existência sem motivo.RESUMO O presente trabalho teórico. que é a retirada de toda a possibilidade da superação. para responder sobre a possibilidade da superação do ser: apresentar a concepção de ser segundo Sartre e mostrar as realidades do ser que possam possibilitar uma superação. o processo de “acabamento” do ser só se encerra com a morte. Os resultados da pesquisa apontou que a concepção de ser de Sartre. segundo o autor. Assim. utilizou-se como base a obra principal do referido autor (Sartre): O ser e o Nada (1943). visa compreender a possibilidade da superação do ser. Consciência. que quer superar a sua realidade e construir-se como um novo ser. também obras que popularizaram o pensamento filosófico. Palavras-chave: Possibilidade. Por outro lado Sartre mostra que o ser. implica entender as realidades do ser que possibilitam uma superação do mesmo ser humano e para existencialmente isso acontecer: é obrigatório que o ser exista. Ser.

.................................................................1......................3 O olhar sobre o ser-para-outro .................3... 10 1.... 52 2....1 O movimento na existência .....2 A consciência .....................................................1 Percepções sobre a visão fenomenológica de Sartre ............................................................... 33 1..................... como caracterizá-la?............ 56 2. 12 1....................................... 48 2.3................ 56 2... 43 2..................................... 18 1.........3 A existência como possibilidade de ser ......................................................4 A relação do masoquismo e sadismo .2 O “nojo do existir” e a morte .................................................................................................................................................................. A POSSIBILIDADE DE SER: TEM UM FUNDAMENTO? ....3...............................3............................. 29 1........... 41 1....................................... 46 2..........................................................................2.................................... 8 1........................... 32 1......................................... 38 1................1...... 50 2.....................................................4 O olhar sobre o ser-para-si ..................................................... 388 1............................1 Fenômeno e consciência ...........................2......................................................................................... 23 1............ A CONCEPÇÃO DE SER SEGUNDO SARTRE .................................................................3........................................................1 O olhar do ser-para-outro: o domínio sobre a imagem de ser .............................SUMÁRIO INTRODUÇÃO ......3 A relação do amor ...... 12 1............................................... A possibilidade da liberdade....... 57 2.................................1...3 A liberdade.................1 A origem do existir.. 62 ...................................................1...1 A existência .. 21 1............. 27 1...............6 Justificativa do fundamento da possibilidade de ser .....5 A relação do ser-em-si e do ser-para-si .2 Olhar do inferno........3......2.............................6 Considerações das relações com o ser-para-outro .. 60 2.................................................2 O olhar sobre o ser-em-si ..........5 Deus como um ser-para-outro.....

.................3........ A superação ..................4......... 65 2.............................................. 69 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...............................2.......................................................................................................2 A liberdade destacada.......................................1 O projeto ......... 72 OBRAS CONSULTADAS .............................................................................................................. 64 2........................ 66 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................3............................................. 76 ..

levaram a . O ser humano vive o ímpeto de especular reflexivamente quem é e o que é o ser. se o homem. as quais ainda chegam aos tempos atuais desde milênio. Desde Aristóteles até especialmente a fenomenologia existencialista essa discussão teórico-metodológica foi alvo de grandes perguntas. e se existe como se dá essa possibilidade? Diante de tal problema. Tais eventos. Na contemporaneidade Sartre e outros filósofos. vive o que permite a si mesmo como e o que é superar-se? Em que consiste esta superação? A relevância da pesquisa a ser tratada é devido à crise que o homem vive na sociedade pós-moderna. Ele destaca o ser racional como abandonado no mundo e sua teoria leva o pesquisador alevantar questões pertinentes como estas: Perante a existência abandonada do homem o que ele pode realizar? Frente o desespero do abandono à morte será uma resposta? Mas em tudo. que causaram impactos mundiais. e se realmente existe a possibilidade objetiva de constatar o ser. O questionamento sobre a existência do homem foi abordado no mundo moderno com Descartes. se existe a possibilidade de superação do ser. a questão do ser sempre foi tomada como um problema de relevância para a filosofia. A presente pesquisa tem como escopo apresentar. em vários autores e linhas teóricas. segundo a visão de Sartre.INTRODUÇÃO Ao longo da Filosofia. também questionaram a respeito da existência depois de presenciar a duas Guerras Mundiais. realizados sob a lógica do império da razão mecanicista e pragmática. encontros e teorizações. a pesquisa se dá na tentativa de resgatar o pensamento de Sartre sobre sua concepção de ser para compreender o homem a existencialmente.

Os modos são e dão a forma do mundo existencial. é um ser que. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. apontar a “existência”. por meio da realidade “nadificadora”1 que surgia do ser-parasi. pelo seu nada. quer-se justificar a possibilidade de superação do ser. Tradução Rita Braga. o homem é um “projeto” cuja base é o nada. e por fim como a superação ocorre no ser. é capaz de tudo em um mundo que surge de sua construção. e este nada não pode ser pré-enchido pela sociedade ou por outro. No segundo capitulo. Hoje. [Cf. Jean . Isto é. como primeiro e principal elemento que possibilita a superação do ser. [s/d]. A pesquisa sobre a possibilidade do ser estabelece ligações conceituais com as seguintes categorias existência. quais as realidades do ser que possibilitam uma superação. p. Perante tal contexto se faz relevante apresentar o que Sartre compreendia como sendo o homem em sua existência A pesquisa delimita-se na preocupação de responder o que Sartre concebe por ser. e o ser-para-si. porém isso não quer dizer que o passado deixa de ser alheio ao homem. O homem. é o projeto de “auto-superação” construtiva. liberdade e homem. superar o seu ser? No contexto de guerra.Paul. Descreve-se sobre o ser a partir da existência fenomenológica. Sartre teorizava que a existência do homem poderia ser feita todos os dias. SARTRE. O homem. segundo Sartre. O resultado da pesquisa serve expresso em dois capítulos. Em outras palavras. ser-para-outro. no contexto pós-moderno o “nada” do homem é preenchido com outras “vontades” (desejo de outro) que não surgem do seu próprio ser. 1 .9 propagação de um questionamento sobre a existência humana: é possível o homem mudar. A náusea. O primeiro é base essencial para se compreender a superação do ser. Capacidade da consciência de negar o passado ou os fatos para realizar novos atos.205]. Assim os modos do ser que se destacam são o ser-em-si. Tudo no homem é feito e negado e feito novamente para ser superado. assim. E por último se apresenta as considerações finais elencando os resultados finais da pesquisar.

Um contemporâneo que contribuiu. o conceito sobre o “ser”. Deixa o ensino em 1944. para se tornar o diretor da revista Les Temps Modernes. Foi aluno de Alain Antes de entrar na Escola Normal Superior. indicando como ocorre a apreensão do ser que se manifesta no fenômeno existencial. 2004. 322]. Estes modos compõem-se de estruturas totalmente opostas. A CONCEPÇÃO DE SER SEGUNDO SARTRE A reflexão do ser. Para alcançar tal objetivo. depois nos liceus Pasteur em Neuilly e Condorcet. [POR PROFESSORES. p. Os filósofos através dos textos: De Platão a Sartre.necessita ser exposto previamente. São Paulo: Paulus. foi o filosofo francês Jean-Paul Sartre2. de maneira singela. o “ser-para-outro” e “ser-para-si”. não o foi somente por alguns de seus escritos filosóficos. realizar-se-á a conceituação dos modos do ser que se dá como “ser -em-si”. Este primeiro capítulo apresentar-se-á a concepção de ser segundo Sartre. O ser-em-si3 é o ser do fenômeno que não seria nem possível nem necessário. 3. César. Feitos as exposições dos modos do ser se prossegue-se em busca da relação da entre ambos os modos do mesmo. . como fundamento do humano.10 1. mas também por sua abundante obra literária. para Sartre. foi um estudo que preocupou os primeiros filósofos ocidentais e suas reflexões influenciaram pensadores em toda a história da filosofia. Constança Terezinha M. sobre a base fenomenológica. Filósofo engajado. Para compreender e trilhar o presente trabalho. mas simplesmente existente em mundo sem qualquer consciência de Nascido e morto em Paris. Os mesmo estão no “mundo” físico. porém são carentes de consciência de sua 2 . 3 O ser-em-si é a realidade que compõe a realidade dos objetos que sofrem mudança por causa de outro. Foi professor no Liceu de Havre. sobre a reflexão do ser. serão expostos princípios de sua fenomenologia. Trad. Por um grupo de. dos quais se destacam o ser-em-si e o ser-para-si. Por conseguinte. O ser. em Paris. apresenta-se como modos. ed.

Trad. mas também tem o ser-para-si. que é a consciência do homem. p. 151. Então. Ou seja. 5 Cf. O homem compõe-se de ser-em-si como corpo. um vencedor e um perdedor. transcende o ser-em-si no sentido de que não é apenas existir. Rio de Janeiro: Editora Vozes.5 No transcender-se ocorre um terceiro modo de ser: o ser-para-outro. Logo. valores. Trad. a consciência. ABBAGNANO. não suporta e nem consegue viver existindo em sua dor de forma permanente. justamente. SARTRE. como ser. acontece somente se estes ______________ própria realidade e mesmo sem consciência. Lisboa: Editora Minotauro. Nicola. do ser-para-si e para-outro. 888. quando o ser se lança em direção a outro. que lhe traga satisfação frente a alguma necessidade que sente. . lança-se na direção do outro para ter um retorno de sentido de ser para si. 121 . 1962 b. uma filosofia do homem concreto: origem. Este ser é o da possibilidade e se faz extremamente necessário para a apreensão do ser. RASO. ABBAGNANO. Dicionário de filosofia. O Ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. João Lopes Alves. Mas. nessa dialética fenomenológica se dá o terceiro modo de ser: o ser-para-outro. 65]. Introdução ao existencialismo. Logo. o para-si é um lançar-se para fora do ser-em-si. Jean . p. 1972. Alfredo Bosi. que é consciência. ed. o para-si quer recuperar-se para diminuir a sua dor existencial. pela sua carência de ser. p. 4 Cf. 6 Cf. Pe. dificuldades. no qual se distingue dos objetos existentes.Paul.11 sua própria existência. O vencedor toma a posse do ser do outro para se constituir existencialmente na relação. Em outras palavras. O existencialismo. Paulo Perdigão. O outro modo de ser é o ser-para-si4. se depara com um duelo. Essa esperança acontece através do resultado da luta do encontro entre os homens (EU-OUTRO).6 Logo é no movimento existencial em busca de superação que o homem no seu modo de ser em si. e isto lhe causa sofrimento e angústia. p. como ser-para-si. Sem existência não há ser. 2007 a. Hélio Ângelo. Assim. é compreendida como o local de possibilidades. ele pode ser definido como um existente acima de tudo. [Cf. encontra-se a esperança de ser curado. Diante do outro e no outro. A consciência. Nicola. lança-se em direção ao outro como tentativa de recuperar o seu ser por completo. pois o outro se encontra também ferido existencialmente. causam nos sentidos do ser racional “incômodos” de sua presença no espaço diante dos seus sentidos. mas também se fazer na existência. Trad. que resultara do conflito. 1997. por isso o modo do ser-em-si. Belo Horizonte: Editora o Lutador.122. a consciência. 7. que lhe preencha. Embora o ser possa apresentar-se de modos diferentes. A consciência (o ser-para-si) apreende que em si existe um vazio existencial. São Paulo: Martins Fontes.

fazer abordagens sobre essas categorias de forma mais profundada..12 existirem. 1. Para entender as afirmações do ser de Sartre é necessário abordar conceitos de fenômeno e consciência.1 Fenômeno e consciência Para Sartre. E o que aparece. O que aparece na realidade e na consciência. E a aparência. Ibid. Sartre: existencialismo e liberdade. 1. p. ser-para-si e ser-para-outro. Luiz Damon. é o ser que está nos objetos representados e na consciência. 9 MOUTINHO. 15. existencialmente. segue-se sobre a justificativa do ser através do fenômeno. e para SARTRE. ed.1 Percepções sobre a visão fenomenológica de Sartre Sartre se coloca na busca do ser e a realiza fazendo a diferenciação dos modos do mesmo. é a aparência dos objetos diante da consciência.1. assim. mais adiante. passim. 1997. Expressado o esboço do ser. (como ser-em-si). o ser é dado pelo fenômeno que se manifesta como aparência de algo. 1995. Contudo. captando o modo do ser aparente que se manifesta nas relações que estabelece na realidade. os quais se apresentam de formas diferentes na realidade. 8 7 . O fenômeno. por sua vez. 753. A aparência vem do ente existente e sua manifestação não pode ser ignorada pela consciência do homem.9 Na existência. não é uma manifestação inconsistente de este ser”8. A tempo se registra que se irá.. São Paulo: Editora Moderna LTDA. 2. a forma de aparecer do ser existencial se manifesta na consciência em diferentes formas de ser: objetos. O fenômeno “[. . e na consciência (como para-si) e nas relações entre os homens (como ser-para-outro). o fenômeno é uma oportunidade do homem se constituir como consciência.] remete à série total das aparências e não a uma realidade oculta que drenasse para si todo o ser do existente. Estes são componentes existenciais que se manifestam fenomenologicamente na realidade do mundo. p. 7 Tais modos são chamados de ser-em-si..

Sendo assim. 10 Contudo. Id. A consciência não é algo vazio que existe sendo nada. Consciência é sempre o que se ocupa em captar.13 consciência. capaz de captar e representar alguma coisa do meio existencial. afirma que a aparência não esconde. A essência de um existente já não. não consegue parar de ter consciência que os fenômenos estão informando alguém que existe.. de nenhuma forma. que é o ser-em-si. A aparência justamente porque não há mistério atrás da aparência e tudo o que há é captado pelos sentidos da consciência. que evoca o desabrochar da percepção para apreender na e pela sua consciência.. é uma forma própria de ser do fenômeno. [s/d]. contudo quem sabe da aparência é a consciência. que é o resultado do 10 11 Cf.. através da consciência do homem que o ser é captado. A justificativa é que o ser é a aparência do objeto. segundo Sartre. O que aparece. 150. Consciência do nada não é possível porque o nada não tem a possibilidade de acrescentar. É ela quem se ocupa de apreender o ser. SARTRE. mais uma virtude embutida no ser deste existente: é a lei manifesta quem preside a sucessão de suas aparições é a razão de séries”. por isso deve. nem que seja por aparência. ou seja ela é uma estrutura dinâmica e organizada. Isso implica expressar que o ser também depende da consciência. dos objetos.].. ser levado em consideração e respeito o que vem ao mundo. Embora o ser racional queira ignorar. como pensador existencialista. Para Sartre. o fenômeno lhe informa que está presente como ser existente que tem um modo próprio de ser. A consciência é um elemento que deve ser elucidado no método fenomenológico. não há dualidade de entre ser e aparência. p.. Sartre. Com efeito. a consciência capta a aparência. Esta aparência. não no sentido existencial. Para Sartre. 1997. não pode ser questionada na forma com a qual aparece perante a consciência. p. Porém. como fenômeno é um ser. a “[. se faz necessária a exposição do conceito da consciência segundo Sartre. O que está em volta do homem pode invadi-lo como fenômeno.11 O fenômeno tem uma dependência da consciência. 16 .] essência. o registro de presença e pertença existencial. mas no de ser justamente fenômeno. inteligente. cuja forma de aparecer não poderia ser diferente. pela imaginação. mas a revela [. do objeto.

sozinhos. 7. que captam a aparência formando assim. Esse processo da dependência do fenômeno com a consciência é de forma recíproca. 108. 14 Id. Assim.14 armazenamento da aparência captada pelos sentidos e distinguida pela consciência. sem auxílio. o mesmo objeto não existe para ele que não tem consciência de sua existência. que em si informa o ser. O objeto causa a percepção de registros do existente. Porto Alegre: L&PM Pocket. Assim. A imaginação. A intencionalidade é a posição da consciência diante do objeto. para “escutar” a manifestação do fenômeno. um juízo sobre ele. p. pode-se distinguir um objeto pela ausência. é responsável pela construção do seu próprio Cf.Paul. Jean . o ser racional realiza o ato de estar presente diante do objeto. Trad. Isso ocorre quando a consciência opta pelo ser em sua liberdade. Desta forma. 108. para o sujeito. Paulo Neves.14 O fenômeno é parte fundamental para o homem se construir. que são o ser-em-si. E depois ela desaparece e o que pudemos entender desaparece com ela. 12 . enquanto o objeto não estimula os seus sentidos.13 Unicamente. Uma vez que a consciência do homem tem que suspender os juízos a priori sobre o que conhece para aprender o que lhe aparece. a apreensão do ser é sempre de forma direta. a consciência é sempre consciência de algum objeto. mas não se constroem no sentido de estarem limitados por suas condições. 13 Cf. que estão no mundo. colocamo-nos diante dela. Assim. Contudo. todo o passado do mundo de nada adiantaria. o homem que contém a consciência.. SARTRE. Simplesmente a consciência é formada a partir dos fenômenos com suas formas de ser que os sentidos percebem. não se tem nenhuma referência sobre o que aparece aos sentidos. Esses registros na percepção da consciência são efetivados pela mediação dos sentidos. SARTRE. p. Segundo Sartre Quando queremos entender alguma coisa. 2008 a. Os objetos. 12 A consciência do próprio homem não interfere de nenhuma forma no modo do aparecer do fenômeno no mundo. [s/d]. 2008 a. p. pois se instala sobre a capacidade de abstração no movimento da intencionalidade. O ser-para-si é “uma abertura de ser” e esta tem a necessidade de preencher-se através das escolhas. A posição de Sartre sobre o fenômeno é realista.

como o ser-em-si. Tudo o que se manifesta no fenômeno é captado e utilizado como “massa” de agregação das possibilidades do ser do homem (o ser -para-si). a consciência no mundo escolhe a forma de ser e aparecer diante de outros seres. Ampliando os conceitos. 15 . Pois. não é uma manifestação inconsistente deste ser. Petrópolis: Vozes. pois. que é uma das formas de existir no mundo. E a terceira é a o manifestar da interação das consciências que se dá entre os homens. é a razão da série.. [. que o dualismo do ser e do aparecer não pode encontrar situação legal (droit de cité) na filosofia. p. Porém. que como já se apresentou acima se dá de três modos: o ser-em-si. 2010. O resto do que não é consciência do homem o mesmo apenas transforma. o ser-para-si e o ser-para-outro. Jean .. o que o homem constrói no mundo é a sua própria consciência. 16 Cf. de valor inestimado. quando realizada uma reflexão sobre a existência dos objetos manifestados como Cf. na realidade. Para Sartre. antes da essência. que se projeta ser no mundo. por sua vez.. Depois de existir o ser racional percebe que pode escolher a forma de “moldar” o seu serpara-si. chamado por Sartre.16 Na visão de Sartre. 20. p. evidentemente.15 ser. O segundo modo: o ser-para-si é o manifestar da consciência do homem. ao perguntar sobre o fundamento do fenômeno ele é por si só. Id. que é a consciência. A aparência remete à série total das aparências e não a uma realidade oculta que drenasse para si todo o ser do existente.Paul. para construir o próprio homem através do preenchimento da “fissura” do ser-para-si. vem a existência. o ser-em-si é “tomado” como fundamento. A essência de um existente já não é mais uma virtude embutida no seio deste existente: é a lei manifesta que preside a sucessão de suas aparições. João Batista Kreuch. O que aparece como fenômeno em si são. Assim. O fenômeno é na filosofia de Sartre um pilar mestre que exige um fundamento que é ser. o que aparece é o ser. o fenômeno e o ser não são um problema: Segue-se. p. 15 .. pois o mesmo não tem domínio na forma de ser dos objetos diante de si. SARTRE. pela razão humana. mas a revela: ela é a essência.15 Isto é. 17 Ibid. 32. Trad. O existencialismo é um humanismo. na corrente existencialista.16. O que se manifesta é o ser. 1997. E a aparência. os objetos que não têm capacidade racional. o fenômeno é fonte segura de conhecimento.] A aparência não esconde a essência.17 Dessa forma.

] fenomenólogo utiliza é um outro tipo de reflexão: esta busca apreender as essências. O método fenomenológico de Husserl. p. no sentido. Jaime José. Cf.. existe [. Com isso. Cf. portanto. p. SARTRE. (Coleção Filosofia: 12). op. a coisa ou ‘fato’ não é ap enas visado de forma longínqua e inadequado. 19 Jean-Paul. 19 18 .. Sartre confessa que no fenômeno. que se dá em sua presença. Paulo Neves. o fenômeno do ser está intrinsicamente ligado ao homem.. o ser.18 O fenômeno é a vivência de registros de relação do homem com o próprio ser. 22 SARTRE. [s/d]. Esboço para uma teoria das emoções. ocorre uma situação no mundo existencial na qual o homem se percebe como um fenômeno inacabado. cit. 20 Entretanto. p. Nessa situação. [grifo do autor]. Isso é. a aparência indica uma realidade que não se pode negar: a existência que forma a consciência. 120. já contém um princípio que serve de base para expressar o conhecimento. Com certeza. 2006. 55. SARTRE. Ou seja. Porto Alegre: EDIPUCRS. 21 ZITKOSKI. Trad. consciência imanente”. o sujeito que julga tem dela. 151. ele começa colocando-se de saída no terreno do universal. Porto Alegre: L&PM.. que sempre tem algo a esconder e agregar em si.] “na evidencia. p.22 No ato de conhecer o ser a condição básica é a “epoché”. a consciência dedica-se a escutar o manifestar do ser. Esta é caracterizada como uma postura do homem sobre o que conhece do objeto. 1994.16 fenômenos. mas toma uma postura direta do sujeito para com o fenômeno do objeto no qual a consciência coloca o que sabe do objeto entre parênteses. 20 Cf. O dado “exemplar” seria uma pura ficção. Embora os entes da realidade não dependam do homem para existirem no mundo. 2008 a. p.. Jean-Paul. Id. 21 Estas ideias que o [. A consciência é a única que faz “surgir” o fenômeno como uma manifestação do aparente que compõe a realidade.. pois a essência é a condição de sua possibilidade. 23. o existente racional é condenado a cuidar-se. que existe e anuncia-se no mundo. ela opera a partir de exemplos. 20. não acontece a universalidade. o fato que pôde ser imaginado mostra que ele precisou realizar em si a essência buscada. [grifo do autor]. Mas é de pouca importância que o fato individual que serve de suporte à essência seja real ou imaginário. ela é-nos presente ‘ela própria’.

isso causa o nojo no homem devido o mesmo não querer se tornar como ser sem possibilidade. Permanecer nos limites de uma descrição de “outrem”. O problema é que o outro quer. é para outros um “apoio de existência”. o descrito permanecendo em limites estabelecidos existencialmente. que o descrito não “ultrapasse” os limites das descrições feitas. Contudo. sempre. a perda de possibilidade é um se completar. Isso porque. com a consciência lança-se do “escuro” para luz do fazer sem um momento para repousar. Com este fato não se pode negar que o ser racional não exista. Ao mesmo tempo em que não tem segurança em uma certeza. que é também corpo. .. no tédio. 23 Na filosofia de Sartre.17 Diante do ato de aparecer. p. está imbuído de desespero: tem que se fazer para se fechar. etc. está presente o desespero quando descreve o homem existencialmente. Com efeito. porque a sua presença reclama a atenção dos sentidos de outro e que ao mesmo tempo impõe como corpo um limite no mundo. mas se diferencia por ser portador de consciência. mas não quer perder as suas possibilidades. Id. Isto é. pois a mesma percebe-se com uma grande “lacuna”. o homem. Assim se dá o fenômeno existencial humano: quer se completar existencialmente. é desprovido de conhecimento de uma realidade que permita ao mesmo se agarrar para se fazer. não causa conforto na consciência. Sartre diz que a apreensão do ser se dá por meio de acesso imediato. O homem. Assim. Porém. existencialmente. Isto é. também se manifesta a existência do homem como única. idêntico a qualquer coisa no mundo. os julgamentos revelam o modo de existir em um mundo. na náusea. tomado como objeto de cognição através da observação do corpo físico que se impõe por sua presença no mundo. quando se completa se perde o que se tem de mais precioso: a possibilidade de ser. o homem. na qual existe a possibilidade de se fazer o que ainda não é. O mesmo é caracterizado como uma total insegurança de ser no mundo. 1997. devido não saber os limites que se tem que alcançar ou estabelecer-se. 19. está no mundo como objeto. o homem encontra-se em constante perigo do julgamento de outros. este. Esta aparição pode ser pelo outro. mas ao se fechar perde a sua beleza de existir como agente de sua 23 Cf. a consciência percebe que no ser-em-si não tem possibilidade de ser além do que já é e. que não é satisfeita pelos limites estabelecidos.

1. o homem é o fenômeno do desespero. cit. cuja maneira não é e nem poderia ser diferente. Isto é. como consciência da consciência de algum objeto. Ou seja. é este que observa. Guinsburg). Já o fenômeno só existe porque alguém observa o objeto.. acaba tornando-se um objeto. (Coleção Debates. para se tornar o objeto. a consciência existe porque se faz na apreensão do fenômeno. SARTRE. caracterizando-o com três características. 25 O serem-si não contém estruturas complexas ou mistas. mas que tem origem do exterior. 34. é em si mesmo.18 própria história. consciência do fenômeno. Exemplificando: uma pedra. Cf. Assim. Para Sartre. o fenômeno é porque alguém sofre.24 A primeira característica afirma que o “ ser é”. 1971. na filosofia de Sartre. a relação entre fenômeno e consciência é uma relação de dependência entre ambas. Ele se mostra no mundo sem “constrangimento de ser”. op. Isso aponta que sua estrutura de ser está plenamente revelada no modo de aparecer aos olhos do homem. p. e o ser-em-si) para construir a consciência que é aberta (serpara-si). o ser não contém em seu interior segredos. Sartre: Metafísica e existencialismo. Sartre também contribui com a análise do ser-em-si. Dirigida por J. se modifica. em si ela não tem nenhuma necessidade de ser outra Cf. O ser-em-si se caracteriza como a estrutura mais perfeita. Estas são elencadas pela análise do fenômeno. consegue distinguir a diferença de algo que não é de si. Pelo que se foi elencando.2 O olhar sobre o ser-em-si A realidade do ser chama a atenção dos filósofos desde a antiguidade. 40. São Paulo: Editora Perspectiva. que é próprio do objeto em si. BORNHEIM. A consciência somente existe. se desenvolve por sua aparição na existência. Desse modo. sem segredos. Este está em constante posição de ataque para reduzir o semelhante de sua posição de sujeito. Ele se manifesta como sólido. não necessita ser nada mais do que já é. Isto é. e o ser é o que é. ao se fechar. Quem acelera o engessamento da consciência. No seu manifestar. é o ser-para-outro. Gerd A. 25 24 . capta o ser dos objetos (a aparência. Tais características são: o ser é. revela sua identidade. p. o ser-para-si tem que cuidar para não ser apenas mais um fenômeno que se manifesta no mundo sem um interagir.

29 SARTRE.] não existe nada melhor do que olhar as coisas de frente. Id.. 27 26 . Como Sartre expressa. o ser. H. Como terceira característica. São Paulo: Editora Nova Fronteira S.. “[. meu ser sustenta uma maneira de ser da qual não é a fonte”. não altera o seu modo de ser.. Cf. aparecendo diante do homem como o quer ser. 27 O ser-em-si não é caracterizado com partes. no ser. 50. Isso simboliza que não há explicação para a realidade existencial do ser-em-si. o próprio ser se “auto” apresenta com um fechamento de sua própria determinação. “ [. As ditas “mudanças” que o homem capta. como autônomo. porque o ser. A. 2008 a. O homem não pode intervir ou modificar a estrutura da aparência.. 37. cit. Esta realidade do ser aparece como uma fatalidade. O que realiza diante do ser é aprendêlo como é manifestado pelo fenômeno. Porém. creia-me”.Paul. a pedra é um “modo do ser”.. mas de maneira única. op. pois nele há tudo o que lhe cabe em si mesmo. 1997. ela pode se tornar um bloco. Tal descrição refere-se à autonomia da realidade do ser. e não pode ocorrer negação de sua identidade. é pura passividade do próprio. 7. O ser não precisa se realizar.. p. mas isso acontece por causa da intervenção do home m. Logo. p. 29 Id. de início. Alcântara Silveira. A segunda característica aponta que: o ser é em si mesmo. Sartre. realiza a sua própria liberdade de apresentar-se. 30. 28 SARTRE. ele é o que é. pois é ausente de qualquer realidade que não é a sua. fazendo o ser-em-si ser o que simplesmente é. Assim. ateísta militante. meio e fim. O ser está posto. “O ser é si -mesmo. não sou nem o fundamento nem o criador. nega a participação de Deus ou de qualquer divindade para consolidar o ser. é causa de si que não necessita de nada.26 Assim.. Ele mesmo. p.quer dizer. em que o sujeito que o percebe.19 coisa e não mudará. no sentido de que ele não participa da construção de nenhuma modificação.. Jean . q ue se manifesta plenamente em si como no fenômeno existencial. Trad. Sartre elenca que “ o ser é o que é”. Logo.] sou passivo quando recebo uma modificação da qual não sou a origem . Significa que não é passividade nem atividade”. 1939. o ser “expressa” aquilo que justamente é nos entes que se manifestam. p. O muro. Como Sartre expressa. Esta primeira característica é composta pela simples ausência da possibilidade.28 Isso. ou não.

Danilo. A partir do momento em que não é. Sartre argumenta que o homem está condenado a ser livre. acima de tudo. a liberdade do mesmo. por si e não contêm em si uma realidade desconhecida. Não há engano. JAPIASSÚ.31 Tais descrições elencadas sobre o ser são. Hilton. é o mesmo que afirmar que o homem é sem liberdade e portanto não participa de sua Cf. Ibid. em sua estrutura. 33 Preocupação dos filósofos gregos em explicar a realidade a partir de um fundamento. 2001. Sua preocupação maior é o próprio homem.30 O que o homem sustenta. afirmando que o ser-em-si são os objetos. o ser-em-si é unicamente em si mesmo. Dessa forma. E se outro concedesse a existência a Deus. na relação com o ser-em-si o próprio fenômeno do ser no mundo. Curso de filosofia. Para ele.155]. Admitir que o ser é apenas de único modo. para Sartre. ed. Dicionário básico de filosofia. p. 3.17]. Os objetos estão jogados e não realizam um exercício reflexivo para seu auto construir. Ibid. Cf. já não vive a sua condenação. 32 A preocupação dos primeiros filósofos era de encontra um princípio último que garantisse a existência de todas as coisas. São Paulo: Paulus. Tales de Mileto foi o primeiro a se questionar sobre isso. no caso ser livre. e como resposta encontrou a “água” como fonte e mantedora de todas as coisas. Isso. E sua realidade é diferente do que era para ser. Para ele são os objetos do mundo que se manifestam dando uma explicação de existência no mundo. ed. Logo. 1981. 11. MARCONDES. 1. MONDIN. Rio de Janeiro: TupyKurumin. O ser racional não é responsável pelo existir do ser-em-si. 31 30 .20 Quando o ser é o que se é. Trad. p. de certo modo. o filósofo francês prefere afirmar que o ser-em-si “é o que é” sem que ninguém o faça ser da maneira que é . Battista. [Cf. indica que há uma correspondência de um ideal e real.. p. também este que concebeu a existência para Deus necessitaria de um fundamento para também assim existir. se uma divindade existisse necessitaria de outro que concedesse a sua existência. porque Sartre nega a existência de um Deus. características do ser-em-si. [Cf. a sua preocupação não é garantir nem destruir um “arquétipo”32 para a realidade33. 303. 193. e muito menos alguma divindade. v. ou sem modo. Ele quer defender. Bênoni Lemos. Para Sartre.. porque para o ser que se manifesta é necessário que o ser racional esteja atento para percebê-lo. porque já são autônomos. o próprio ser é um fundamento na existência de si próprio. p.

] a náusea não está em mim: sinto-a ali na parede. [s/d].. 1997. sem a menor possibilidade de se fazer.] sou eu que estou nela”. porque sempre há alguém olhando. o modo do homem é oposto do serem-si.3 O olhar sobre o ser-para-outro A concepção do “ser-para-outro”. como Sartre descreve. Id. existe o ser-para-outro que quer fazer de objeto o seu semelhante para se constituir. 39. porém. Contudo. em referência de modos de ser-para-si. “ [.. op. na obra O muro: 34 35 Cf. o ser racional foge da realidade do ser-em-si. p. por todo lado ao redor de mim.21 construção como sujeito da história. em Sartre. aprisionando-o. A perda das possibilidades é situar-se em um “estado de náusea”. cit. como prêmio. tentando fazê-lo de objeto. 731.34 Além destes “modos de aparecer na realidade”. enquanto procuro subjugar o outro. A cena em que pode ser descrita está violência é a situação do personagem Juan.. a apropriação das suas possibilidades. Enquanto tento livrar-me do domínio do outro. [. este “outro-ser” mantém fortes estruturas de resistência diante do observador e o observador diante dele a mesma coisa. Para o autor. Porém. na relação com o outro. é fundada a partir do ser -em-si e do ser-para-si. nos suspensório. 454. SARTRE. Diferente do ser-em-si. que deixa ser observado e aprendido por outro. Com o fechamento. O ser racional sempre quer o outro como objeto presente no mundo. precisa escapar da prisão lutando contra o outro semelhante que quer. Logo o ser-para-outro não tem misericórdia e com ele não há amizade ou intimidade. este “outro-ser” tem mesma estrutura de todos os homens.. 1. Por isso. Este outro quer construir-se através da violência do olhar. 36 SARTRE. o ser-em-si é uma realidade em que o homem não deve estacionar.36 O homem tem que estar em constante alerta. a partir da análise existencial se apresenta outro ser que é diferente do ser que observa. Segundo Sartre: “Tudo o que vale para mim vale para o outro.. p. o outro procura me subjugar”. p. Ele. o outro tenta livrar-se do meu.35 A náusea é o encontro do homem perante um objeto que não pode modificar-se por si.. .

[grifo do autor]. e o muro resistirá.Muito bem. Ah! Se você soubesse como nos pesadelos. Trad. e que o condenava a ser ele mesmo.Paul. o outro puxa o gatilho. empurrei o muro com as costas e toda a minha força. Mas por aquém? Eu não estou só. usa das situações para subjugar outros. Ele era objeto de um olhar. Quem permanece até o fim são os mais fortes. Ele é aquele que está com a arma pronta para disparar. todas as atitudes são justificáveis. que o penetrava a golpes de machado e que não era seu olhar: um olhar opaco. Eu sou visto.. Depois de satisfeito. 19. que o esperava no fundo dele mesmo. Cf. O olhar. Como se a noite fosse olhar. e eu verei oito fuzis apontados para mim. Ouve-se um grito: “Apontar”. p. Penso que desejarei penetrar no muro. transparente. A noite. O outro não quer que seu semelhante tenha liberdade e tenta. Serão oito.1939. p. 124 -125. para libertar a consciência da terrível situação que é o horror do olhar.38 Expressa Sartre. A sociedade em que ela se encontra é racista. covarde. acabar com ele. na obra A prostituta respeitosa (1946). 27. Ela exerce a profissão de prostituta e foi testemunhou um crime: a morte de um negro por um branco. que prepara um espaço propício para arrancar dela um testemunho falso.39 Outro personagem que pode descrever a situação de tomada das possibilidades é Lizzie. na visão de Sartre. 38 37 . e os crimes dos brancos são justificados por seus currículos e pelos papéis desenvolvidos na sociedade. na obra Sursis: Estão me vendo. aterrorizando com olhar que faz seu próximo de objeto de diversão. Ela é corrompida pelos discursos de outros que utilizam de seus sentimentos para com as pessoas boas para justificar o erro SARTRE.]. nunca é visto como um alguém passivo. Transparente.. a noite em pessoa. pois o acusado a defendeu de ser estuprada. Mas como consciência é também existência. como nos pesadelos. Esses utilizam da força de poder para subjugar consciência. disse Daniel em voz alta. Sérgio Milliet. ed. Posso imaginar! 37 Diante do desespero de querer ser.22 . Freud é o cliente principal. Posso imaginar tudo isso.. não. Jean . hipócrita [. 1991. Nem isto: algo me vê. O outro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. O negro não tem direito. A jovem se encontra em uma crise de identidade. transpassado. Sursis: os caminhos da liberdade. 39 SARTRE. Um olhar que o vasculhava até o fundo. Ibid. em todo o momento. 3.

Isto é. SARTRE. pelo olhar o ser racional expressa o desejo de subjugar outros semelhantes a si. 1992 a. O resultado é o negro perseguido como um animal. A moça acaba como uma verdadeira prostituta: pobre. Assim deixa de fazer justiça porque olhou para a cor de pele e para os extratos sociais.1 O olhar do ser-para-outro: o domínio sobre a imagem de ser O olhar do homem é uma arma perigosa ao outro. p.40 Ela se tornou uma escrava e quem tem as suas possibilidades é Freud. e medos. o esforço de olhar a forma de aparecer do outro é uma tentativa de subjugá-lo em conceitos. 1. Tudo isso porque olhou demais para os diplomas das pessoas e seus papéis que desenvolve na sociedade. 109. Cf. que no fundo é resultado de um processo existencial. para assim ter em que afirmar e justificar a sua existência. na tentativa de ter o que ainda não tem: um pilar para saber quem é na existência. A relação com o ser-para-outro se dá. seu cliente. sem honra e corrompida. 40 . Campinas: Papirus. Por isso deixou de puxar o gatilho do revólver para executar a sua liberdade. Jean-Paul. Seu olhar é uma poderosa arma. 41 Id. passim. o homem diante do outro lança-se ao mesmo. encontra-se um ser também “aleijado”.23 dos maus e convencem-na a trair a sua consciência. Consequentemente. Depois disso. apenas para ter domínio de seu corpo. que é um risco constante. que é a falta de ser no seu próprio ser. que tem origem a partir do olhar. [s/d]. que “inibi” o “ser” a ser o que quer ser. Assim..3. porém ao mesmo tempo. Isso indica um sintoma. o olhar do ser-para-outro é o horror. Desse modo. Maria Lúcia Pereira. que tem como efeito a capacidade de “afogar” o ser no medo de se realizar. A jovem assina uma confissão falsa. tem a tentação de contemplar: o próprio “rosto de cadáver”41. através do olhar que se direciona ao outro. quem sai de seus limites é porque precisa de algo que ainda não é em si. Isto é. Trad. de primeira forma. pois revela coisas de que o mesmo gostaria de fugir. A prostituta respeitosa: Peça em um ato e dois quadros. Do ser para outro. Freud toma-a por sua mulher. O ser-para outro é o modo de abertura de encontro para com o outro.

o vencedor ou perdedor . Isso tem como finalidade. que vive. O outro quer classificar e cortar os seus iguais.. descobre que o que olha não tem a intenção de ajudar. 454. . expressa Sartre: O outro é. Este processo é uma realidade criada pela consciência para mentir a si mesma. dificilmente um dos lados .. não consegue ter-se como objeto para saber como está se manifestando existencialmente. Neste caso. o homem escapa dos traços que vê. Id. 118.42 Na luta com o outro.24 Para poder suportar a imagem nos espelhos. Quando o homem é possuído pelo olhar do ser-para-outro. Os dos outros têm 42 43 Cf. fico a contemplá-los. p. na voz de Antoine Roquentin: É o reflexo de meu rosto. Não entendo nada desse rosto. a fuga permanente das coisas rumo a um termo que capto ao mesmo tempo como objeto a certa distância de mim e que me escapa na medida em que estende à sua volta sua própria distância. reconhece. Mas. Ibid. Contudo. Assim. a consciência. nasce fenomenologicamente a “imagem” de um ser. 1997.43 A violência do outro revela a existência contingente do homem que. Contudo. não resolve o problema. Sartre expressa. p.44 O olhar do outro acaba com a realidade de “Má-Fé”. quando recebe a descrição do outro. Pois. o objeto do olhar. Isto é. por vezes. através de seus conceitos que lhe informam o que tem dificuldade de aceitar: o próprio reflexo. 44 Cf. Muitas vezes. segundo Sartre. é mascarada em um processo conhecido como “Má-fé”. Se não bastasse a angústia.é adquirido totalmente como objeto. antes de tudo. Ibid. 329. Na própria consciência existe a verdade e ela. o que olha tem domínio sobre a imagem do ser que vive um processo existencial. Porém. entra em angústia sobre a possibilidade do “conceito” ser verdadeiro. para se melhorar. a tentativa de fuga do que se é. acontece a violência pela posição de “olhador”. mas de aproveitar-se do que se manifesta. no encontro como o ser-para-outro se desvela onde estão os maus traços: no próprio homem que quer esconder a verdade.. não tem a menor noção de como se apresenta no mundo. p. mas este. nesses dias perdidos. espera saber do outro o conceito de sua pessoa.

na qual se encontra sendo o que não é. Ao mesmo tempo. está declarada. pois quando está diante do espelho. p. Pois bem: a vergonha. um Id. não pode ser tomado como objeto de si mesmo.25 um sentido. O meu não. tanto quanto.46 Esta imagem ele não consegue suportar e para viver tem que fugir de sua condição de miséria existencial. que quer ser livre dos conceitos. p. revelam-me a mim mesmo. é vergonha de si. SARTRE. ao mesmo tempo. Mas isso não me impressiona. Jean . a situação do ser-visto. a descoberta de meu íntimo revela-me.49 Assim está declarado: o outro é de qualquer forma um objeto diante dos olhos de seus semelhantes. porque me disseram. Sérgio Milliet.45 O homem como ser livre tem as suas possibilidades de ser.48 Como o homem não pode suportar a sua imagem. de modo direto. não tem como fugir.. 46 45 . 48 SARTRE. é o reconhecimento de que efetivamente sou este objeto que o outro olha e julga. p. Nestas condições. 57. 47 . 34. quer saber o que ele já se tornou. e o que quer rejeitar. quando o outro apresenta a descrição. [grifo do autor].]. cit. os homens. o outro como uma liberdade colocada diante de mim que sempre pensa e quer a favor ou contra mim. [. Rio de Janeiro: Abril Cultura. [s/d]. Contudo. é necessário que eu passe pelo outro. Porém. Trad. Acho que é feio. 47 SARTRE. A guerra entre estes. Ao mesmo tempo em que o homem tem o outro como inimigo. são eles que me fazem viver. Idade da razão.48. 337. tem o outro que lembra o mesmo do que é.47 Sobre tal realidade Sartre descreve: A vergonha ou olhar. e não quer ficar preso a conceitos.. Cf. p. 336. ademais. tem o que é. op. cit. op. este lhe presta um auxílio ao dizer o que já é.. 2010. 1972. não conhecer. Mas. pois segundo Sartre: Para obter qualquer verdade sobre mim.Paul.. o que é o descrito não gosta do que outro vê em si. como se chamassem de bonito ou feio um pedaço de terra ou um bloco de rocha. Sequer posso decidir se é bonito ou feio. O outro é indispensável para minha existência. No fundo até me choca que se possa atribuir a ele qualidades desse gênero. 49 Id. Só posso ter vergonha de minha liberdade quando esta me escapa para converter-se em objeto dado.. p. o é para o meu auto conhecimento.

Para alcançar tal objetivo. incomunicável com aquele. tem que ser. As tentativas da realização não são feitas sozinhas. mas ao mesmo tempo não quer ser limitado pelo que constrói. não dá para haver comunicação. No olhar do outro está a condenação na qual não há defesa. 1972. se esforce para alcançar o ser que deve ser. .51 O olhar do outro descreve um ser que é “aleijado” existencialmente por que por mais que o ser-para-si. o homem não consegue ver através dos olhos o que lhe acusa. que se busca sem cessar. o outro é um problema. 1997. Dessa forma dentro de um mundo existencial. 2010. Por mais que se esforce em analisar racionalmente a sua emanação ao outro. p. Id. é a morte de possibilidades. é o pólo concreto e fora de alcance de minha fuga. parece que não se tem uma referência para o homem descansar. [Cf. Id. aquele que me entrega o que sou como não-revelado. da alienação de meus possíveis e do fluir do mundo rumo a um outro mundo.] o outro é o ser ao qual não volto minha atenção. mas sem revelar-se a si mesmo. o homem constrói-se. mas não sabe o que de si resultará ao final. Assim. 52 Este ser que. pois sempre almeja ser mais e mais. de qualquer forma. 346. Primeiramente porque. nunca conseguirá sê-lo plenamente. contudo. O outro. aquele que me esta presente enquanto me visa e não enquanto é visado. que é o homem com consciência.. 33]. justifica Sartre: [. na visão de Sartre. mundo este que é o mesmo e... Por mais que o ele possa projetar-se e se realize não consegue fugir da sua condição de miséria. 109. o que o homem quer é estar no mundo como um ser independente.. o que é acusado não tem como saber como a existência própria afeta o outro. tem o outro que acompanha o homem na existência.26 quer o outro como objeto através do olhar. o mesmo o ser de consciência construindo o espaço vazio que há em si. Segundo porque. o ser-para-si que é o homem. Este outro faz tudo se tornar mais difícil. busca fora de si elementos que o façam ser no mundo. O ser racional deseja alcançar um “fechamento de seu ser”. SARTRE. p. o homem sofre o olhar do outro.52 Pois. É aquele que me vê e que ainda não vejo. Isto. mas não quer perder as suas possibilidades de ser. pois ele é a sentença do inferno. mas quando isso ocorre o mesmo se encontra em uma angústia de escolher algo para se edificar. que se resolve com a 50 51 Cf. p. mas que nunca se alcança.50 Com ele. Assim o ser racional é considerado como uma paixão inútil. este nunca vai estar terminado.

Jean . onde ir? Onde que o outro não está? Onde o mesmo não pode chegar? Não há saída para o homem. SARTRE. 53 . 127. SARTRE. 55 Cf.já que não há ferros e carrasco para a tortura .55 A figura de Joseph representa os homens que esperam. Mostra os seus cuidados com sua imagem reclamando para o “Criado” (personagem descrito no livro) a presença de espelhos.é colocar a suas ideias no lugar. Entre quatro paredes. 2008 b. O problema é que são dependentes uns dos outros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. como se estivessem em um grande quarto condenados a se matar. p. Nesta. Alcione Araújo. O que quer no inferno . 31. Cada um pensava em ferros quentes.3. Encontra-se no inferno por consequência da tortura que exercia enquanto vivo na sua esposa. Existencialmente encontram-se pessoas no mundo real. p. encontram-se Inês. Garcin. Ibid. 54 Cf. de cama e interruptores. ed. Estelle e o criado. jornalista e literário. Estes. Pedro Hussak. que preferem sempre a companhia de seus objetos pessoais. sem qualquer piedade. Porém. chicotes e diabos para os devidos tormentos. depois dos crimes. Pois do inferno se pode ter uma conclusão: que sempre é melhor manter uma longa distância. morto a tiro. 2008 b.Paul. Está fardado a coexistir com o outro no perigo de ser. enxofre. p. A visão do outro como inferno é demonstrada na obra Entre quatro paredes (1944) de Sartre. Isso porque é uma forma dos Cf. que apenas pode fazer quando se vive foi traição e dor. Os seres racionais estão fardados até o fim de suas existências a se degradarem uns aos outros. 77. Trad. têm consciência de seus atos e esperam a tortura de maneira consoladora. uma forma de retirar de si a o peso de existir como um “fracasso”. O que os condenados não esperavam que no inferno encontrassem o pior de seus tomentos: o outro. Estão no mundo. é o primeiro a entrar no quarto. Isto é. 54 Joseph Garcin. escova de dentes.. vivenciar a condenação na dor. Todos cometeram crimes. na obra. existencial. Por isso. todos morrerão e estão no inferno para pagar os seus pecados.2 Olhar do inferno Para Sartre a relação entre os homens é de pura rivalidade.53 1.27 violência do olhar. 4. é que se justifica assim o outro como uma mensagem ou o próprio inferno.

127. Ter objetos é ter segurança e mesmo que seja pouca. 59 É uma característica da personalidade de Garcin. 221. p. mas Estelle também gosta de Garcin. que a trata com “indiferença” 59. serão respeitados. aparecem os primeiros acordos que. 60 Cf. já conforta a falta de sentido de existência. Fez isso. Id. 61 Cf. op. mas no inferno estão confinados a torturarem-se pela presença do que são. No inferno. Inês Serrano. morreu de pneumonia. expressando: “O Senhor é o carrasco”. 41. O primeiro é o silêncio como defesa de ambos. Contudo. p. para apreender quem carrega a vergonha. A presença.60 A violência se dá em querer furar os outros com garfos. ocorre uma resposta do amor dos dois.. Cf. pois. 125 . cit. Id. 58 SARTRE. Ibid.58 Os três não conseguem seguir o plano da salvação proposto por Garcin. Isto é.. Com o passar do tempo. p..56 Entre os dois. trata os outros como se não existissem. 48]. 2008. [Cf. um contra os outros. gosta de Estelle. p. por vezes. intimidar a possibilidade de ser o que já foram quando vivos. Com o “amor dos hetero ssexuais”.28 mesmos se localizarem no mundo e segurar-se em seus limites em um ambiente que o outro é sempre imprevisível. por isso propõem o silêncio como conforto para o medo dos castigos. p. morreu dormindo por causa de inalação de gás. favorece os dois colegas (Garcin e Inês) num diálogo aberto na qual confessam o porquê se encontram no inferno e chegaram à conclusão: “cada um de nós é o carrasco dos outros dois” . Id. para o desconhecido. 1972. a princípio. para salvar a vida do irmão.61 O ser-para-outro possibilita aos homens a experiência do inferno enquanto vivo. Ibid. e no inferno sofre com ausência de sua amada “Florence”. Entre eles desenvolvem um triângulo amoroso Inês.57 Estelle Rigault é “infanticida”. isso não é o suficiente. que cada um ocupa já é uma agressão e impõe um ao outro o desconforto. como homossexual. Ela é a primeir a a ter contato com Garcin.. Cf. O homem não tem descanso no mundo. 57 56 . p.. Apresenta-se como moça culta que casou com um senhor que não era seu amor. acontece a rixa entre o casal e a Inês. Contudo. o amor não acontece apenas entre elas. 63. que era o silêncio. Há sempre alguém olhando. mas sim perseguição e punição. 1972..112. ou lançá-los. Os três estão condenados a estar se digladiando pela eternidade. segundo ela.

1997. no caso era o irmão da Estelle. [grifo do autor]. o terceiro. Um terceiro vendo a situação abala o ponto de referência. fazem tudo por ela. Com Estelle. que justificam o seu modo de ser na realidade. devido ao controle do amante.. Para expandir o campo reflexivo e também fechá-lo. em outro sentido este ser é como a indicação daquilo que eu precisaria recuperar e fundamentar para ser fundamento de mim mesmo. dizendo: “culpa é toda sua” ou a “responsabilidade é sua”. o inferno é sempre um momento de dor.. que era apenas mais uma vítima. desculpas. p. pois o mesmo. ela fez isso porque quis realizar tal ato.29 Os personagens descritos são formas de os homens darem sentidos às suas existências. Expressa Sartre: [. 455. outras pessoas vivem em função de uma segunda. que são o inferno. abertura. Isso justamente porque outro é um complexo modo de tortura existencial.3. isto é. (personagem acima citado) casou-se com quem não era o seu amor verdadeiro. Porém. a insegurança do existir.] em certo sentido meu ser-objeto é insuportável contingência e pura “posse” de mim por um outro. Ou seja. existem com um sentido no outro. . vive de maneira mais plena o que Sartre.3 A relação do amor A relação de amor ocorre com o ser-para-outro e se dá pela dependência da própria existência na liberdade do outro. O segundo.. começa a “carnificina”. 1. o outro é sempre justificativo da ação de um segundo. Porém quem conseguem passar pela sua existência. Em outras palavras. Essa relação tem como característica principal. no qual “escarnece” as motivações. em que foi a justificativa da realização das atitudes da irmã. Por exemplo: Estelle Rigault. Porém o mundo não é feito de duas pessoas. mas se tem sempre que realizar algo para não deixar-se amedrontar pelo olhar do inferno que o outro representa. Assim meu projeto de recuperação de mim é fundamentalmente projeto de reabsorção do outro. construções. em seus escritos tanto propagou. quer reduzir o outro a sua condição original. Mas isso só é concebível caso eu assimile a liberdade do outro.62 62 Id. os mesmos estão no mundo e convivem uns com os outros. que é apenas fissura. pois mesmo no perigo de morte do irmão ela pode escolher. Se não se tem sentido para existir. Isto é. angústia. e quando um terceiro aparece.

sempre é o modo de ser na relação entre ambos. mas sim uma liberdade que desempenhe o papel de determinismo passional e fique aprisionada nesse papel. não haja outra realidade 63 64 Cf. Continua Sartre: [.30 Quem jura amor a outro. Na relação de amor entre o ser-para-si e outro.. que seja tomado como único e absoluto. 2010.64 O problema da relação de amor entre o amante e o amado. A descrição será muito mais precisa quando mais livre for o outro.. ela modela o meu ser e me faz ser. 63 Neste sentido. p. 458.] no amor. ao menos. nem uma liberdade fora do alcance. Também se o amado deixar-se analisar como objeto. o que tem controle da consciência do outro.] existo pela liberdade do outro. o amado quer o amante tenha também a carência de sua própria percepção.. confere-me valores e os suprime. [grifo do autor]. como “juiz revelador”. SARTRE.. o mesmo tenta de todo o jeito impor-se na relação e não ficando apenas como amado. p. o amado está sob o poder do amante. p. . ao contrário. é ele que resume e simboliza o mundo. é e aceita ser objeto. justamente porque... é um isto que encerra todos os outros “isto”. 55. sobre a sua forma de aparecer. [. o amante quer ser “o mundo inteiro” para o amado: significa que se coloca do lado do mundo.. estou em perigo nesta liberdade. 65 SARTRE. op.65 O amante espera ser para o amado um ponto de referência. o amado forneceria tal percepção. se subjuga à vontade de quem recebe o juramento. Com isso. nas palavras de Sartre: [.] No amor. ou suposto controle. Mas este quer ser também o amante. do amante é que o amado espera receber a descrição da percepção do modo que ele aparece no mundo. ocorre uma prisão do próprio ser e um limite de ambos. Embora o amado espere a descrição do amante. cit. O amante não quer perder o controle. cit. Assim. Id. que tem sobre o amado. não tenho segurança alguma.. Assim. possa ser aceito como “espelho de verdade” e que além dele. e meu ser dela recebe um perpétuo escapar passivo de si mesmo. Isto.. que é o amante. 457. não é o determinismo passional que desejamos no outro. op.

Antes do amante. que é ele mesmo. Os dados estão lançados. ao mesmo tempo em que ama. prendendo em sua facticidade.66 Na relação de amor ocorre uma projeção de existência. 68 Id. encontra-se a tentativa de ser tomado como objeto pelo outro. que é limitada pelas próprias situações em que se encontra. Mata as possibilidades do amado. Enfim. O amante. Campinas: Papirus. como construção de ser para o outro. qual desmotiva.. pois o amante jamais pode se dar como um objeto que possa preencher por completo a fissura de um ser. 1992 b. 69 Cf.Paul. quer ser total. Ele quer ser um objeto de todos os pensamentos do amado. no sentido de ter o amante como mundo pronto. Assim. é querer constrangê-lo a recriar-nos perpetuamente como condição de uma liberdade que se submete e se compromete. mas. justamente porque o outro é limite. coage o amado. tem atração por outro amado que tem a posse do ser. p. justamente porque não sabe se o mesmo o aceita da forma devidamente confiável. Id. p. Jean . Isso acontece de forma simples e violenta.. tem a possibilidade de se contentar em ser objeto do amante. 67 Cf. dandose como verdade única.69 Isto é. p. o amante somente tem como “isca” para atrair o amando a sua pobre descrição do como o amado aparece ao mundo diante dele. O “amante” arrisca tudo para o vazio existencial para resgatar o seu ser cortando a dependência que tem do outro. SARTRE.. que a liberdade fundamente o fato e que o fato tenha preeminência sobre a liberdade. 459 . 66 . No relacionamento entre seres racionais. Lucy Risso Moreira Cesar. ao mesmo tempo. Pois primeiro o amante projeta para o amado um mundo. 50. O amado não quer ser agente “passivo” na relação.196. Trad.] querer ser amado é impregnar o Outro com sua própria facticidade.. 470. o amado espera Cf. o amante quer modelar outro. para o amado. é querer. 1997. Mesmo assim. [. Ibid.460. 1972. Para o amado permanecer em tais limites impõe-se a força do olhar. 68 O amor como relação com ser-para-outro “é esforço contraditório”. quer ser objeto de edificação.67 Ou seja.31 confiável. Havendo desiquilíbrio na relação tem as rivalidades. Dessa forma um quer dominar o outro e prende-lo em seus limites. Esta relação pode ser abreviada como masoquismo. p. 195 . o amado não conseguindo libertar-se do amante..

O masoquismo caracteriza-se como uma espécie de vertigem: não a vertigem ante o precipício de rocha e terra. Guinsburg. Dessa forma. p. o ser masoquista tem paixão pela vergonha de ser objeto. p. cit. Isso porque. Assim. por ser objeto. mas de fazer com que eu mesmo me fascine por minha objetividade-ara-outro.4 A relação do masoquismo e sadismo A meta da atitude masoquista é fazer outro assumir o cuidado de outra existência. Pois. quere m ser livres. 62. 1. em presença do Em-si que represento aos olhos do outro. 1968. Por isso. Reflexões sobre o racismo: reflexão sobre a questão judaica.32 apenas a “dor que parte de seu amante”. o outro tem suas dificuldades a satisfazer. o ser racional é no mundo para construir-se não como objeto de apropriação de outro. a relação de masoquismo. a relação de amor é caracterizada como uma “arena de luta” em que os dois.71 O ser masoquista tem por objeto de prazer uma realidade diferente da qual Sartre pensa sobre o homem. Orfeu negro. ou seja. tentam tomar a posse do outro. por mais que o masoquista se esforce para que o outro o tome como objeto. Cf. fazendo o existir pela dor. o masoquista se policia a ser um objeto. J. não há por completo a “subjugação” do outro. normal que faz projetos em expandir-se com finalidade de “escapar” do outro e da situação de objetificação. aqui. não se dedica a favorecer a existência do outro pela humilhação. Porém. não de fascinar o outro por minha objetividade.3. Trad. que é fruto da “desistência” por parte do amado de ser como quer ser diante de outro. Enfim. de tal modo que aprenda não-teticamente minha subjetividade como uma nada. amado e amante. ed. 5. porque. 71 SARTRE. no relacionamento de masoquismo. op. de sadismo. SARTRE. ambos na relação do amor. Assim. fazer com que eu me constitua em objeto pelo outro. no caso livre. [grifo do autor]. o ser que se “entrega” à relação do masoquismo é destinado ao fracasso. e posteriormente. Jean .. diferente de um ser-para-si. tem como resultado o sofrimento e a vergonha. mas frente ao abismo da subjetividade do outro. Para isso. São Paulo: Difusão Européia do Livro. Porém. 471.70 Segundo Sartre: O masoquismo é uma tentativa.Paul. é um estagnar em um dos extremos da relação. 70 . não tomando atitudes além disso.

1997. de permanecer como objeto. O homem não encontra satisfação plena na relação com os seus semelhantes. SARTRE. 472. 72 73 Cf. Pois na relação de amor é evidenciada como uma “arena de luta” em que os amantes estão em constate tentativa de vencer um ao outro. que quer forçar o outro a assumir a sua existência por mais que sofra.73 Dessa forma.Deus. que é Deus. com sua filosofia. é o amor do fracasso. Em todo o caso. ou mesmo sente-se realizado em sofrer. mas se fazendo de vítima. op. .3. encontra-se o “sadismo”. Assim. O sadista expressa naturalmente a violência para justificar a carência de sua identidade. quer decretar a liberdade do homem. Nas relações de masoquismo e sadismo também não oferecem nenhuma segurança. 2006. tanto para conseguir o local de vencedor (que é o amado). p..33 O homem se encontra muito acima de satisfazer o desejo (projetos) de outros.5 Deus como um ser-para-outro Sartre. p. pois tanta violência para com o outro é no fundo para se afirmar em um sentido de existir no mundo. parte em busca da relação com um outro . ele é uma existência “ativa”. vergonha e humilhação. que segundo Sartre. No outro polo do masoquismo.. Na realidade é um alguém forte. não lutando com o outro. Id. no sentido que assume o seu prazer no mundo causando dor no outro.72 O masoquismo é um vício. Dessa forma. 23. a manifestação do homem em realizar-se ao causar no outro dor. cit. Para conseguir discute a possibilidade da relação do ser-para-si com o super-ser-para-outro. não é um alguém fraco ou um “coitado”. o ser-para-si não encontrando apoio no outro. o masoquista é identificado como a superficialidade existencial. Cf. e o amante quer impregnar o amando com seus pensamentos. que é também uma relação que se desenvolve entre duas pessoas ou mais. Ele quer ser responsabilizado por construir apenas a própria existência e de mais ninguém. O sadismo tem como característica. 1. na relação o ser tem paixão pelo sofrimento. para garantir o seu “sofrimento” permanece passivo em suas atitudes. Assim.

Dessa forma. [. como um artífice superior. 74. admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos o entendimento ou. Isto é. o homem é por primeiro a sua existência e depois vai com a sua liberdade exerce as escolhas. Ninguém pode salvá-lo de si mesmo. o garoto é o sonhador do futebol. 74 . p. Homem não precisa de Deus para ser quando existe. Ao concebermos um Deus criador.34 A liberdade que o ser racional possui. que o homem não pode ser nada mais nada menos do que aquilo que Deus já havia pensado. formando a sua essência. Heresias de nosso tempo. Ele será.75 Com a não existência de Deus o homem pode se construir sem haver qualquer pressuposto como limite. Isto é. também não há Cf. 24. quando cria sabe precisamente o que está criando.]. contem em si um homem limitado. o deixa angustiado. é assimilável ao conceito de corta-papel. O ser racional é que define o que se quer.. o garoto que tem o projeto é definido que ele sonha em realizar. Por outro lado. o homem é abandonado e não existe Deus. et al. Antônio Marques. 1956. está nele a responsabilidade de se fazer e não há quem ele possa culpar. da existência de Deus como criador é que o mesmo. no espírito de Deus. Diferente dos outros entes. o homem não contem essência. Não há nada que impeça o pequeno homem de se tornar o seu sonho. e por fim o terceira visão de Deus como uma “realidade contraditória e inútil”. Se Deus não existe. A primeira realidade. CERIANI. e. no mínimo. no espírito do industrial. Porto: Livraria Tavares Martins. A justificação de “esse perder” é realizada em três visões diferente de Deus: o de “Criador que faz recortes” e é o “perseguidor” do homem. por vezes. no sentido de que o homem será aquilo que o mesmo projetar-se. 2010. Esta construção é feita sozinha no mundo. No caso de Deus existir. No entanto. 75 SARTRE. Ele é o seu autoprojeto. e que Deus. p. quem perde é o homem. Por exemplo: um garoto tem o projeto de no futuro ser jogador de futebol. Trad. qualquer que seja a doutrina que consideramos. Ele é totalmente responsável pelos seus próprios atos e Deus não pode consolá-lo. se ele realizar este projeto ou não. que o acompanha.74 Para Sartre. Graziozo. Assim o conceito de homem. e Deus produz o homem segundo determinadas técnicas e em função de determinada concepção.. Com efeito. na maioria das vezes. nada garante ou o define naquilo que ele é no agora.

Nuno Valadas. 76 . a angústia é a postura do homem perante a ausência de essência de seu próprio ser. escolhe. É preciso que me olhem. chega à conclusão sobre o ser-divino. p. ed. O homem escolhe para fechar o seu vazio. enquanto tiverem os olhos pregados em mim esquecer-se-ão de olhar para si próprios. Se eu me descuidar um momento que seja. 2. no homem. se constrói. Julgas que não me faz vertigens? Há cem mil anos que danço diante dos homens. Mas definir a essência é de sua responsabilidade do homem.. lhe faltam certezas e evidencias. um vazio existencial. Tudo isso por conta própria.. 77 SARTRE. Para isso. que tem como característica em si. como criador. A angústia é a insegurança da existência do homem.. não há algo que identifique o homem na existência. tudo seria permitido””77. na existência. Assim.76 Sartre quer retirar do homem a ilusão da existência de Deus. Porque.35 nada que assegure o sonho a acontecer. 93. ter de se construir é uma angústia. 32. na qual é caracterizada com: SARTRE. que é a essência. Trad. Nesta visão.] (E) enquanto houver homens na terra. op. As moscas. da realidade imanente. estou condenado a dançar diante deles. pois relata Sartre na peça teatral. Lisboa: Editora Presença. Ou seja. sob a voz de Júpiter: Também eu tenho a minha imagem. Isto o ser racional é pura possibilidade de ser.. [. que sirvam de amparo para ele ser o que ainda não é. p. Isso é também a realidade de Má-fé.. pela angústia do vazio do ser do homem ou seu “não-ser”. e assim definir o que lhe falta. e esta pureza é o “precipício” que o ele tem que tomar escolhas. Por isso o homem é seu autoprojeto. se deixar que os seus olhos se afastem. cit. Jean-Paul. “Dostoievsky escreve: “Se Deus não existisse. é que vem a necessidade de uma imagem de Deus. diante da existência que lhe aparece na forma dos perigos que o outro oferece e da responsabilidade do que será. [grifo do autor]. Porém o mesmo percebe sua fragilidade diante das realidades do mundo e como forma de defesa edifica momentos. porque fora de seus limites de ser não tem segurança no amanhã. Uma dança lenta e tenebrosa. que o qual não lhe dá a certeza de estar fazendo as atitudes ou escolhas certas. Portanto. 1965.

pois admite que: [. um alvo vivo. o resto. quando de súbito Deus me viu. Iniciação ao existencialismo. é a relação. horrivelmente visível.. 75. 78 . nunca mais ele me contemplou. Na sua exposição sobre a intersubjetividade. Porém. Rio de Janeiro: Vozes. Pois Deus é puro olhar que transpassa. é de perseguidor. 351. Rio de janeiro: Editora Nova Fronteira. O pour-soi é o fundamento de toda negatividade e de toda a relação. nome de Deus”. Ou seja.80 O ateísmo de Sartre é forte neste aspecto: não aceita de forma alguma a existência de Deus. As Palavras. 79 No mundo. 1997. 78 O homem tem a capacidade de fazer nascer o nada no mundo. Eu brincara com fósforos e queimara um pequeno tapete. Olho é que favorece ao homem impor medo ao demais que querem ser sujeitos no mundo.. pode e deve escolher-se a si mesmo sem nenhum alicerce. o outro não é um sujeito. Já que o homem é um projeto inacabado. nome de Deus. GIORDANI. 2. Guinsburg. 1997. Dessa forma. que são os outros. p. p. Mário Curtis. Sartre concebe a existência de Deus como sendo uma das piores coisas. O homem é o ser que faz florescer o nada. há um único sujeito que existe. Trad. J.] “Maldito o nome de Deus. utilizam um poderoso instrumento que se encontra no seu corpo: “o olho”. justamente porque se Deus existir é o criador de todas as coisas e dessa forma conhece o que se apresenta diante dele na essência.. são apenas objetos dentro do mundo. 79 Cf. 1964. eu rodopiava pelo banheiro. p. o ser racional está só se construindo. o sujeito convive com outros homens que também querem ser no mundo sujeitos.] uma fuga à identidade pela qual o em-si está absolutamente presente a si mesmo.. [grifo do autor].36 [. ed. A segunda percepção que Sartre tem de Deus. por isso. [grifo do autor]. 100.] uma só vez experimentei a sensação de que Ele existia.. Em outras palavras. SARTRE.. é na realidade um ser que perpetuamente tem que se fazer em uma constante que se realiza de “devir” criador de sua auto superação a partir da liberdade. [. o homem é o nada porque não é definível ou concebível “a priori”. Para deixarem de serem objetos e afirmarem-se como sujeito. é o ser pelo qual o nada vem ao mundo. 80 SARTRE. senti seu olhar dentro de minha cabeça e sobre minhas mãos. Jean-Paul. dissolve os acidentes (subjetividade) e vai ao essencial. sem nenhuma razão de ser. estava dissimulando meu crime.

Dessa forma Deus é algo impossivel.. GIBELLINI. um só momento sem perseguição.. Ele. Porém de Deus não se pode ter certeza.. definida como “para-si”.81 Ou seja.] a impossível síntese do para-si e do em-si”. que Deus seria ou teria que fazer uma síntese em do “ser -parasi” para o “ser-em-si”. mas tem com a percepção do objeto como chegar a ser. pois seria algo como “[. São Paulo: Edições Loyola. O homem vai viver sob o olhar de Deus e não há paz. fazendo ser impossível acaba com a angústia do homem.. não apenas enquanto pode fundar. mas também enquanto não pode fundar-se a si próprio senão dando-se a modificação do para-si. se existisse. pois que. Roberto Leal Ferreira. p. Deus não precisa fazer o homem de seu objeto. mas por isso mesmo deixando de ser em si. [. 140.. Giorgio. por ser de per si pleno. Régis. ser completo.37 Além de Deus conhecer todas as coisas está também diante de todas as suas criações. Trad.83 Cf. Rosino (Org. 1998. que é o “em-si”. o ser racional contém em si duas realidades: da consciência. como tal. diz Sartre. Porém. mas sem perder as possibilidades de ser. 83 JOLIVET. O homem. que por consequencia abre agrega novas possibilidades ser. PENZO. isso de fechar o ser com a apropriação de outro ser. não teria fundamento que o justificasse em seu ser.] A origem de todo fundamento consiste em vir ao mundo pelo para-si. De fato. imóvel e sem fissura. 1997. sem angústia. A terceira realidade que Sartre ataca sobre Deus como o ser mais perfeito e completo que há. O único fundamento que se poderia invocar ser o de um possível [. 42. pois já é tudo o que pode ser. em contrapartida. 1968 b. 82 No contexto. São Paulo: Editora Herder. 413. Desse ponto de vista. No homem cada objeto captado é mais possibilidade de ser algo mais que ainda não é. não tem como o homem fugir. Sartre coloca Deus em uma realidade contigente. Logo. em torno da noção de Deus como perfeito justificará a sua impossibilidade de existência. p.. assim não exclui de si a angústia. que capta as coisas exteriores que se manifestam. 81 .] anterior ao ser e que exigisse esse ser ou essa existência. a tendência do homem é ser fechado. p. necessita de um referencial. Sartre ou a teologia do absurdo. todo em-si é contingente. Deus seria contingente. para o filósofo existencialista ateu. Assim se Deus existir. 82 SARTRE. Sartre parte da noção que tem do que é o homem. Isto é.) Deus na filosofia do século XX.

1. toda a carência leva a uma busca incontrolável. O outro o captura sem a menor piedade.38 Com a consciência (ser-para-si) em Deus.6 Considerações das relações com o ser-para-outro As relações dão-se a partir do aparecer diante do outro e isso sempre é também oportunidade de manifestação de formas de violência. Este é caracterizado como consciência. 485. não pode aceitar a existência de Deus. é realizada uma “modelação do ser”. 2001. p. 85 A essência do homem ao nascer não é completa e definida.4 O olhar sobre o ser-para-si O terceiro modo do ser é o ser-para-si. O ser racional quer dominar o outro para adquirir e afirmar a existência de seu ser no mundo.84 O homem foge. Isso é para que outro esteja preso em uma condição existencial dependente. na mente de Deus. a existência do ser-para-si é cheia de mistério e se caracteriza por ser dependente do Cf. a morte física não alcança a finalidade da violência contra o outro. Nas relações. Diferente do ser-em-si. 85 84 . Dentro de todo o pensamento de Sartre. a “[. PENHA. Mesmo quando a “carícia”. O homem diante do outro semelhante quer dominá-lo e para isso precisa proporcionar meios de conservação da vida do outro. 14. Ele não é a realidade mais completa e se é. op. Isso é para que outro esteja preso em uma condição existencial dependente. pelo olhar. p. cit. 1.3.. ela é contraditória. Violência que se atualiza através do olhar. Deus não pode salvar o homem de si mesmo e se ele existisse mataria o próprio homem. O que é existencialismo. a qual reduz as possibilidades de ser de outro.] existência precede a essência no humano”. acontece. São Paulo: Brasiliense. a declaração de o homem ser livre e de estar sozinho. João da. Pois até mesmo um pequeno direcionamento de visão. Para Sartre. nela existir possibilidade. poderia ser acusado outro aspecto: o de conceber na sua mente um espaço vazio e até mesmo. é um princípio de querer para dominar... 44. Se existe possibilidade. SARTRE. Pois. ed. (Coleção primeiros passos).

Id. Este é resultado do para-si longe do em-si. Ele. O ser da consciência [. .. É no ser-para-si que pode ocorrer a superação devido ao ser caracterizar-se como pura possibilidade. cit. em seu ser. As coisas são. que é a do Em-si. que vai se formando conforme a intencionalidade da razão humana que capta a aparência do ser-em-si. p. daquela falha do nada ou fissura no seio da macicez tenebrosa do ser [. p. pois quase sinônimos.] é um ser para qual.. espírito. consciência. que é o para-si.88 O para-si ou consciência é própria da realidade humana: para-si. p. segundo Sartre. 89 JOLIVET. [grifo do autor]. gera um espaço que pode ser considerado como um nada. o nada se sobrepõe como fundamento da consciência do homem. 88 Cf.89 O homem é o portador do ser-para-si. se expressa por um fórmula simples: o ser é o que é. Essa adequação. Cf. o ser-para-si.. Se o ser-para-si se realiza sem incômodo 86 87 SARTRE. é repleto de possibilidades de ser.. porque só o homem “existe.. por sua vez. Significa que o ser da consciência não coincide consigo mesmo em uma adequação plena. Um espaço vazio da consciência.87 O ser-para-si vai se formando conforme o homem vai agindo com sua liberdade e vai se aproximando do que se acha sempre separado do ser que ele não é. O ser inacabado é o que dá a possibilidade de superação do homem. 55. isto é. p.. 1968. se faz existir. Este. existência e realidade humana são. A consciência nasce de uma descompressão do ser ou do em-si. Não há no Em-si uma só parcela de ser que seja distância com relação a si. fechado.39 em-si. completo. terminado. op. É a consciência que define propriamente a existência e a realidade humana..” ou melhor. nele ocorre mudança sempre que a liberdade é exercida. 122.86 O para-si pode ser compreendido como um distanciamento do ser fechado. 2010. no sentido em que o ser-para-si escolhe e projeta – se com sua razão aquilo que quiser ser. mas um ser que é aberto e dependente. maciço. está em questão o seu ser”. Ibid. do ser-em-si. 28.]. [grifo do autor]. O ser racional só o faz porque não é um ser-em-si.. tem capacidade de realizar-se conforme a sua vontade e quanto mais se realiza mais se preenche. mas não existem. porém não se fecha. 553.

40 de uma estrutura fechada, é porque está ligado ao nada em uma doação que o serem-si jamais poderá alcançar.90 A consciência é denominada como o ser-para-si. A análise de Sartre expressa que a consciência é uma estrutura do homem. Na mesma, todo o seu esforço é para preencher-se dos entes que a rodeiam e somente ela não se pode conceber como um objeto.
Consciência é consciência de alguma coisa: significa que a transcendência é uma estrutura constitutiva da consciência, quer dizer, a consciência nasce tendo por objeto um ser que ela não é. [...] Dizer que a consciência é consciência de alguma coisa significa que não existe ser para a consciência fora dessa necessidade de ser intuição reveladora de alguma coisa, quer dizer, um transcendente. 91

O existir do para-si é dependente do ser-em-si. Isso é, devido à impossibilidade do para-si não ocupar-se consigo em seu interior. Assim, a consciência longe do ser é o não-ser. Porém, o “não ser” não existe por si. É neste sentido que o para-si depende do ser-em-si. Contudo, o modo de existência do serpara-si é um tanto desesperadora. Ele tem consciência de sua realidade factual, e esta não é o que ele é, pois o que é no momento não deveria ser.92 Dessa forma, a consciência é caracterizada como um “nada” , justamente porque não existe algo que se possa ter como firmamento. Ou seja, o para-si, que é a consciência, é vazio de qualquer coisa. Assim é justificado o porque dela ser o seu próprio nada. O para-si não é, em Sartre, uma postura de voltar-se em si. Mas antes de tudo, uma fuga para longe do fechamento, buscando recuperar um “eu” projeto que está sempre em modificação.93 Não bastasse essa “carga”, de busca do que se verdadeiramente é, não se tem um ponto de referência para a sua construção, o para-si angustiado tem que lutar para não se “engessar” e se tornar aquilo que ele deve ser para “escapar” do em-si. O para-si é pura liberdade de ser e esta chega a ser tão grande, que, quando o homem se depara com a imensidão de seu fundamento, que é o nada, desesperase e tem que escolher, lutando contra o tempo também. Esta responsabilidade de
Cf. SILVA, Márcio Bolda da. Metafísica e assombro: curso de ontologia. São Paulo: Paulus, 1994. p. 130. 91 SARTRE, 1997, p. 34. 92 Cf. Ibid., 128. 93 Cf. Id., 1972, p. 51.
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41 escolher, o para-si não é livre. Assim, o homem encontra-se “condenado à liberdade de se projetar” e realizar-se constantemente para escapar do que produz diante do espelho.

1.5 A relação do ser-em-si e do ser-para-si
A relação entre o ser-em-si com o ser-para-si é inevitável na filosofia de Sartre. Como já expressado, o para-si depende do em-si. Muito mais do que depender, o para-si é impelido pelo ser-para-outro se tornar um ser-em-si e desta realidade quer, o para-si, fugir para longe. Muito mais do que uma dependência para existir, o para-si necessita do emsi para se preencher. Seu preenchimento amplia as possibilidades de liberdade do homem. Assim, ocorre uma “ocupação de espaço”, do qual não muda a estrutura do para-si, no sentido de “acabar” fechando o ser por completar, mas abrindo -o.94 A consideração da relação do em-si com o para-si acontece sob a categoria do temporal, do qual Sartre concebe uma visão linear, onde o homem está posto e é impelido a seguir em frente escolhendo, isto é: preenchendo-se. O para-si, no tempo, tem a tendência de se tornar um em-si. A única oportunidade que o homem tem para preencher o espaço vazio é o “agora presente”. C om o tempo, a realidade de fuga ou distanciamento do para-si para perder todas as possibilidades de ser, vai se tornando-se um em-si. Isto não é apenas a perda de liberdade, mas se caracterizada como morte biológica: a perda da consciência.95 Ser o ser-em-si é ser objeto, que tomado já não tem liberdade de ser. O que ocorre com ele, que Sartre não aceita, é a manipulação. A consciência, com a intencionalidade aprende para se constituir o que e como lhe convém. O ser-para-si dominado é dele expropriado de condição de angústia de se projetar. Com tempo, o ser que desejava se construir desanimou e tomou forma de ser: sem possibilidade.96 O homem que tinha domínio de seu ser, no presente, com passar do tempo, as possibilidades do para-si cessaram e se formará o em-si, que será “guardado” por outro, que não tem a preocupação de expandir as possibilidades, mas apenas

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Cf. SARTRE, op. cit., p. 550. Cf. Ibid., p. 531. 96 Cf. Id., 2010, p. 74.

42 expropriá-las para se autoconstruir. Com isso, destaca-se a visão do outro no mundo. Segundo Sartre, o outro como limitador de possibilidades que quer “moldar” o ser-para-si, a consciência, como objeto para exercer alguma função.97 Mas como acontece a passagem fenomenologicamente do ser-para-si para o ser-em-si? Do tempo, ao que parece, nenhum ser pode escapar. A diferença é o que ele, o tempo, pode causar as possibilidades do ser. O ser para existir está dentro de uma realidade temporal da qual podem ser percebidas em três fases constitutivas: o passado, presente e o futuro. Embora se constátem três realidades temporais, estas se encontram em uma continuidade que podem apontar a passagem do para-si em um em-si.98 A primeira modalidade é o passado. No passado, existe apenas o ser-em-si. As realizações do homem, neste tempo, não podem mais ser mudadas. Possibilidades de acréscimo ou de retiradas de detalhes não são mais possíveis. No passado pode-se apontar que existe o em-si, que são os objetos do mundo do homem. O para-si foi marcado pelo desejo do homem, que o preencheu e o tempo o fechou, tornando-o um em-si. Esta realidade causa-lhe uma angústia.99 A segunda categoria é o presente. Este é “ouro”. Nele se encontram os emsi e o para-si. Do em-si, o presente nada lhe acrescenta ou lhe retira, mas para o para-si, o presente é valioso, é o momento do auge. Aqui, no presente, o para-si é posto diante do em-si ou de sua realidade, para escolher o que quer se tornar. É o momento do para-si decidir se quer ampliar as possibilidades ou fechar-se com a morte. É a chance do para-si ser o que ele ainda não é e “negar” a sua realidade que lhe é atual. Porém, pode ser-para-si assumir como ser de possibilidades e escolhe ampliando-as. Se as amplia, o ser se projeta para um futuro. Por fim, a terceira modalidade do tempo: o futuro. Ele, o futuro, será

resultado da constituição do para-si no presente. Também, depois do presente, encontram-se todos os projetos de vir a ser. Para o ser-em-si esta realidade não interfere, já que o mesmo, o ser, não precisa de projetos de realizações para se constituir. Logo, o futuro é local de realização do para-si, é o local da angústia do vir

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Cf. SARTRE, op. cit., p. 539. Cf. Ibid., p. 269. 99 Cf. Id.,1939, p. 165.

como opção de fazer-se. Não se pode negar a realidade de ligação dos modos de ser do para-si e do em-si.. 254. O ser como ser-para-si é de estrutura aberta. Assim. Ibid. como consciência. Pelo projeto. É ele “o espaço de fuga” que permite o “ser” ser alguma coisa que ainda não é. na relação do em-si e para-si. encontra-se em uma luta perdida. pode fechá-lo. o tempo age. com a morte e o tempo.43 a ser. o para-si sofre esperando a sua realidade de passagem do projeto à realidade de constituição. Ele. .6 Justificativa do fundamento da possibilidade de ser O fundamento de constituição do ser para-si é um espaço que se chama. cit. O em-si. da angústia da realidade do para-si. como se pode falar de uma possibilidade de superação do ser? 1. segundo Sartre. Dessa forma. O tempo assiste ao embate dos dois modos de ser. o para-si nega o passado como constituidor de ser para não ter algo que engesse. Mas por que o para-si é preciso ir ao nada? Por que o para-si vai a uma realidade que não acrescenta algo ao seu ser? Quem faz o ser ir ao nada? O nada nasce puramente da liberdade humana. de “nada”. o nada. 281. surge como ser negado pela consciência. Este é o espaço da fuga do em-si para o para-si.100 Com a categoria de tempo. Este “nada” pode se chamar de “não -ser”. Negar um dos modos é limitar o ser naquilo que não se pode negar. engessando o para-si em um passado que jamais poderá ser alterado. a sua existência. Mas quando se constitui. Nega de si o que se tornou um ser-em-si. ao mesmo tempo em que é uma constituição..101 100 101 Cf. Toda a realização. SARTRE. op. que é a perda de suas possibilidades no presente. Cf. p. a luta do para-si. que o para-si foge do em-si e utiliza do mesmo para se constituir. e no futuro com possibilidade de realização de construção de ser. do medo e insegurança. p. mas que. no sentido. manifesta uma dialética em que os campeões são o tempo e o ser-em-si. pois luta contra aquilo que não quer ser. é também uma eliminação de possibilidade. Assim. faz uma recusa da realidade que já lhe foi construída pelas escolhas feitas. O para-si.

Já que o para-si. muito mais possibilidade de ser lhe conferida. impele-se para o nada. é também “destruir” as possibilidades de constituição do ser humano. morto. acontece a “cisão” do ser. mas também o que o homem já escolheu causa-lhe angústia. justamente para não ser um objeto para o outro. e tentar salva-los de seus massacres. não consegue se deparar com a perda de suas possibilidades. objetificado. o para-si ou o paraoutro. SARTRE. 79. perante a situação de perder liderança de seu grupo. op. porém existe o outro. é destruir a liberdade do homem. ou do para-si. resta agora debruçar-se sobre a “possibilidade de ser”. Este não quer saber das possibilidades e de dores que causa no outro ser. Ibid. como autônomo. 104 Cf. maior é a dificuldade do outro aprender o que é agente de expansão. ainda não é suficiente para afirmar uma “autonomia do nada”. 103 102 . pela angústia. a única coisa que existe é a possibilidade de ser. O ser-para-outro é o principal propulsor da fuga do em-si para o para-si e consequentemente para o nada.103 A angústia não tem apenas como origem a possibilidade de se construir um sentido. Afirmar o nada. a qual Sartre propôs defende em sua obra filosófica. (que são: o ser-para-si. O ser racional pode até tentar se esconder do que já construiu em sua existência. Isso quer dizer que um dos seres. Quanto mais o ser-para-si foge de ser do em-si e o apreende.. Resgatado o pensamento de Sartre sobre o ser. fuga e retorno do para-si ao em-si. A consciência percebendo o perigo eminente do outro. Nesta relação do em-si e do para-si. Cf. como já delatado. Entre eles acontece o confronto violento de morte e fechamento do mais fraco. p. Quanto maior a angústia da consciência (ou do para-si) é mais forte o “distanciamento” do ser-em-si. mas o paraoutro também tem inúmeras.44 No nada. p. Quando se expande o para-si. quanto mais angustiada a consciência sobre a sua realidade.104 Em outras palavras. Uma expressão que Piedro confessa para Eve. muito mais possibilidade de ser lhe é agregada. Isso gera mais possibilidade de ser. Isto é. podendo ser tomado por qualquer outro ser de consciência para a sua “auto – edificação”. 139].102 Assim. o ser-para-outro e por fim o ser-em-si). cit. SARTRE. mas foi negado e expulso de seu próprio espaço confessando: “eu odeio os que me rodeiam” [ Cf. gerando o “não -ser” possibilitando o mesmo ir ao próprio nada.. p. podem tornar-se um ser-em-si. 452. no qual destacasse três modos do ser. Deve-se isso à constante briga. O para-si é repleto de possibilidades. 1992 b.

a consciência do homem. tomar uma postura diante de sua existência “incompleta” e decidir impor sobre si um projeto de ser no mundo. justamente por ainda não ser. Logo. intimidando outros. de estar rodeado de inimigos. podem ter a possibilidade de ser. porque primeiramente o ser existe e não pode ser negado. proclamando a sua liberdade. Diante disso. Mas em Sartre. Isto é. com o ser-para-si. se afirma em toda a sua filosofia primeiramente a existência. A superação do ser nada mais do que o homem.45 O homem para afirmar liberdade. a possibilidade do ser existe. ou modos. o ser que pode se superar é o ser-para-si. o que ocorre é o contrário. que está mergulhada na angústia. Da existência é que procede o ser e o mesmo aparece no mundo como hemorrágico. . de viver formando a existência na consciência de não-ser completo. mas que decide expor-se a eles. Dessa forma nem todo ser. primeira mente necessita afirmar a carência e a contingência de seu ser mesmo.

direcionando o questionamento da possibilidade de ser para a consciência do homem. o ser é constituído apenas de passado? Tais questionamentos são de profunda importância que refletem diretamente na ação do homem. perguntar se há um fundamento sobre a “possibilidade de ser”. Por sua vez. é problemático. nega a possibilidade de Deus existir. Conforme Sartre chama os objetos do mundo de ser-em-si. a estes a pergunta da “possibilidade de ser” não tem sentido lógico. Sartre como ateu. o homem como ente não necessitaria esforçar-se para reter os seus “instintos que de . Desta forma. Se o ser não tem fundamento que possibilite mudança em sua realidade. encontra-se pertinência de proferi-la.2. A linha filosófica cristã defende que Deus é o “Ser absoluto” que por bondade concede existência para outros seres. mas necessita de uma tentativa de resposta. Será possível uma resposta? Discutir um fundamento no ser que possibilite uma mudança é uma questão difícil. para que serve? Se for. A POSSIBILIDADE DE SER: TEM UM FUNDAMENTO? Uma pergunta intrigante. e se existir é um problema para o homem. ou que contenha uma possibilidade de ser aquilo que ainda não é. Uma vez que o ser se supera. não há explicação para o ser existir como simplesmente é. Logo. e não tem consciência para ser além do que já são. Esse ser humano é evidenciado em Sartre através de suas reflexões sobre o ser. somente tem sentido para o ser que não é completo ou fechado. O que permanece no ser depois da mudança? Será uma lembrança de ser? Mas se é lembrança. Pois os objetos são o que são.

A justificativa que o homem não sabe por que tem a possibilidade de consciência para se fazer. 3.47 si é natural”. Ele. não sabe se o faz da melhor maneira possível. São Paulo: Paulinas. Surge assim. na visão de Sartre. pois não à por que está na existência. que a princípio é um objetivo para continuar existindo e se constituindo. Justifica-se que o ser do homem tem uma estrutura que permite o interagir com a realidade fazendo opções deliberadas. que por consequência não o deixaria ser ético. junto com a consciência.105 Uma vez. é proclamar a morte do homem. o ser sem possibilidade é o mesmo que o homem ter consciência de seus erros e sofrer arrependido pela “coação” de outros. afirmar “que não há superação do ser”. 62 . Desse modo. que é um vazio. seria simplesmente um puro “tormento”. PESSINI. Isso ocorre. . considerando o ser como sendo sem possibilidade de mudança. Ou seja. ou é tendenciado para o mesmo. que condena o mesmo a ser livre. a angústia. Então qual seria a função da razão do homem? Assim. Léo. é trancá-lo na ditadura da existência sem a menor participação consciente na realidade. e se realiza algo. no sistema do ser nada pode escapar. Logo. seria o próprio inferno. Para ser. é postulado e anunciado por Sartre o elemento antropológico: que o homem é composto de existência. 2008. por sua vez. p . ed. A dor homem. por consequência a realidade do ser racional é condenada apenas a existir. [Cf. primeiramente com sua presença no mundo como um existente autônomo. Em outras palavras. O homem é responsável pela sua história e seus atos. na “conjugação” de seus projetos. no sentido que tudo depende. que viveria no erro. sem a possibilidade de superação de seu ser. A realidade do homem de necessitar de uma possibilidade de superação não explica a origem do porquê da superação. mas pela consciência. para consigo. Questionar o fundamento da possibilidade da superação do ser. Posteriormente com a sua consciência. A única coisa que se tem por certo na construção do homem é uma exposição ao horror do olhar do outro. negar a liberdade do homem. pode ser considerado como uma “exaltação do ser”. mas não poderia conscientemente mudar. mas que causa ao mesmo tempo a construção da existência mergulhada em desespero. indiscutivelmente ele é livre. Bioética: um grito por dignidade de viver. mas nada pode fazer para mudar. Isto é o que se chama de fatalidade de origem. 105 Refere-se às condições para existir e viver.63].

Ou antes. e qualquer tentativa é logicamente incorreta. Nas palavras de Sartre: Se me tivesse perguntado o que é a existência. existir é expor. 2. um verniz. se construindo-se no perigo por aquilo que faz. a raiz. claro como o dia: a existência subitamente se revelara. eram apenas uma aparência. p. Perderá seu aspecto inofensivo de categoria abstrata: era a própria massa das coisas. as grades do jardim. E depois foi isto: de repente. sendo que ela ocorre na história. Em Sartre. Dessa responsabilidade o ser racional não pode fugir. sem modificar em nada sua natureza. . pois o “Ser” que não existe não pode ser chamado de “um vazio” ou como um nada. ali estava. O “condenado” a existir faz suas escolhas mergulhadas no desespero e na angústia. O problema é que o homem não pode parar de existir sem se construir.106 O homem está posto na existência para marcá-la. teria respondido de boa fé que não era nada. Com uma base. sua individualidade. 188. a relva. podemos explicitar de que forma esta superação no ser é possível indispensável na existência do ser racional. Sem a mesma . não pode ser negada. [s/d]. a diversidade das coisas. Assim. explicitando o porquê é necessária existir a possibilidade de superação no ser no homem. a existência é a principal “protagonista” da qual tudo o que há no mundo depende. não há uma essência que se defina ou que dê a forma para os objetos principalmente para o que é o homem. As mesmas são justificadas pela solidão no existir do homem a fazer-se sem um ponto de referência. Antes dela não há ser e sua descrição de qualquer “Ser” é puramente contraditória. Assim. desejar. Ela é branca como um papel disposta para ser preenchida da forma que melhor a sua razão. aquela raiz estava sovada em existência. Isso justamente devido ao objeto descrito não existir. como liberdade. do ser racional. quando surgida no mundo é sem teor histórico.48 A possibilidade de superação do ser.1 A existência A existência é constituída de um “nada” em si. o banco. apenas uma forma vazia que vinha se juntar às coisas exteriormente.. 106 Id. tudo se desvanecera.

É sim delatar a realidade vivencial do homem na existência. 39. sofre também para continuar sendo. quando é. Para alcançar a paz e deixarem de sofrer realizam conflitos contra outros homens. que são meramente objetos. segundo Sartre. Desse modo.49 No expor-se ao perigo não é uma atitude ruim. Cf. justamente porque quem sofre é de algum modo carente de um ser. os demais lutam no mundo para serem e viverem em paz. Id. Cf. Sun. Mas como o homem tem medo do que há atrás do desconhecido. pois retirando os masoquistas. por mais o que ele possa se esforçar. a existência é uma dor que não é um mal.108 Em outras palavras o ser racional sofre por tudo na existência. como descrição da existência é que o homem existe no sofrimento de ser. sofre para não deixar de ser. a morte é solução. 21. ao mesmo tempo em que foge de sua realidade de carência. p. 2012. O sofrimento para ser e continuar sendo. O que é aceito. Tal descrição da existência como um sofrimento de ser. sofre para ser. opta em continuar existindo no sofrimento. justamente porque o homem sai do seu estado de náusea. a descrição da existência como um mal não cabe em Sartre. Sueli Barros Cassal. Para acabar com o ciclo de sofrimento da existência. de modo que pela consciência na existência o ser racional diferencia-se dos outros.. Se ele ainda não é alguém feliz ou de paz. não é o da existência de um mal. Significa que: no se expor ao perigo. Assim. A artre da guerra. por exemplo. p. sofre e quando consegue ser o quer. não é descrever um masoquismo. porque para ele ser feliz. Porto Alegre: L&PM Editores. o que edifica também não é permanente. o homem transcende a si mesmo. 2010. pois ele sofre para deixar de “sofrer sofrendo”. TZU. (coleção L&PM Pocket. que é caracterizada pela ausência de possibilidade de poder modificar a realidade fora de si. 108 107 . Trad.107 A existência em si é uma dor do homem. Como o ser do homem é de contingência. 207). Pois a dor causada pela existência é a realidade do homem que se encontra no mundo para se fazer constantemente.

Dominar a consciência é dominar a existência. [Cf. Mesmo que o ser racional não conheça os motivos de sua existência. Ela acontece e simplesmente é. mas a mesma é um objeto de interrogação. pelo homem estar sozinho na sua construção não o justifica não querer-se fazer. em Sartre. Existência. o homem na existência não tem opção em não se construir. Assim. Isso é fato que não se pode negar. 2008 b. Ou seja. se dá uma certeza: a existência que o homem existe. como foi dito. O significado do sentir em Sartre é pura impressão que os sentidos captam da realidade existencial. o ser do racional.111 Sartre expressa que o existir é uma fatalidade.1. pois é ela que favorece o “sentir”110 “na” e “da” existência.. Id. Por exemplo: o homem que é condenado a dez anos de confinamento em uma cela.50 2. 72.1 A origem do existir A existência dos seres não tem. p. 1997. quando não obedecida. Pois. Porém o mesmo pode realizar ser “o que articula a libertação” das fronteiras dentro da limitação espacial. como ato no mundo. um ao outro causam dor pelo fato de tentarem dominar a consciência como expressão de liberdade. em que. não tem explicação e também não há.109 Ao “desdobrar-se” a realidade da violência. 110 109 . 111 Cf. tem como punição apreensão do ser-para-outro. 13 ]. 2008 a. SARTRE. não há motivos para o mesmo não assumir-se como causa de viver em um mundo com inimigos. que causa preocupação nos homens. 673. O mesmo capta e rouba as opções de realizações de ser. o homem não é culpado. Isso ocorre de forma que o mesmo compromete-se com as possibilidades de ele ser. Então. ninguém tem a menor culpa de nascer no mundo. auto projetar-se constantemente. construir-se. explicação. Ele condenado a condição de existir. pois Cf. A existência como condenação é também oportunidade assumir o querer existir edificador de si. Porém o “inocente” recebe como pena o castigo de pode fazer-se. Nem mesmo os pais devem ser culpados. um “outro” que participa da existência de construção de um segundo como sujeito. p. SARTRE. em Sartre. não encontra motivos para não ser ele mesmo dentro de um espaço limitado ou livrar-se da condenação pelo suicídio. p. A condenação.

somente tem a possibilidade do “agora”.] Pensou com angústia: “Mas o que vou ser?”.. se sentia demais em relação aos outros. isso não tem sentido.112 O homem é o único que experimenta a existência de maneira radical e única. 4. ficou para trás no passado. [. digerindo. não se tenha sobre si o horror da culpa de ser o que não deveria ser. [grifo do autor]. Eu me exibo. 1997. para o homem fazer-se. Id. Debate-se na busca de soluções para entender o que faz neste mundo e qual o sentido de se encontrar aqui em uma existência limitada temporalmente. resolvendo pensamentos sombrios -. confuso..163. 189 . 2005 b. Não sei. O Id.191. cada ente. [grifo do autor].. nem uns nem outros. De fato. estorvados por nós mesmos. a chave de minhas náuseas. Trad. 2. de minha própria vida. lânguido.. compreendi que havia encontrada a chave da Existência. o que se faz é muito bem “projetado”. 290. 113 112 . obsceno. Ele está perdido. A sua busca pode resultar em um encontro consigo.Paul.. Luiz Roberto Salinas Fortes..115 Por isso. também eu era demais.113 Na voz do personagem Lucien: Quem sou eu? Eu olho a escrivaninha. o presente... 162 . [. em que outro tenta modelar a existência. [. “Quem sou eu?” 114 Além do sofrimento. [. Assim. Como retrata Antônio Roquentin: Éramos um amontoado de entes incômodos. não tínhamos a menor razão para estar ali.] E eu . mas isso não é senão um nome. Na existência. Pois tudo que construiu. São Paulo: Editora Unesp. procurando saber quem é. o homem está como um passante em busca de si. tudo o que pude captar a seguir liga-se a esse absurdo fundamental. 1939. p.. Jean . SARTRE. 114 Id. a existência oferece uma possibilidade de homem se tornar alguma coisa que ainda não sabe como vai terminar. [s/d]. Cf.] E sem formular claramente nada. Chamo-me Lucien Flerier. vagamente inquieto.] A palavra ‘absurdo’ surge agora sob minha caneta. p. porém o resultado pode ser desagradável. ed. p. p. fruto das escolhas feitas ao longo da caminhada. Passou-se um momento e coçou o rosto e piscou o olho esquerdo porque o sol o ofuscava. para que no final da existência viva. 115 Cf. Sartre no Brasil: a conferência em Araraquara.. Este horror é caracterizado como falta de possibilidade de poder escolher. olho o caderno.51 não escolhem quem vem para a realidade de sofrimento..fraco.

através da tomada de sua consciência diante dos objetos. não tenho outra coisa a fazer se não tapar os ouvidos. ela (existência) não tenha explicação. a mesma não impele ao ser racional contrair-se em ações de “pietismo”. 163. por vezes. pode ocorrer “o estado de tentativa submissão” ao outro. uma negação da existência e da responsabilidade de ser livre e constituir-se. o bem e o mal. justamente. o homem pode delegar-se. ninguém tem o 116 117 Cf. logo existo”. o homem não escapa de construir a sua própria existência e de ser responsável pelas consequências de sua ação. Mas. por exemplo. não são possíveis. e “se penso. Porém. na visão da Sartre. Id. procura libertar-se no suicídio.52 compromisso do ser racional é de realizar-se na existência no agora e no futuro. mas mesmo assim é responsável pelo existir. como eu sei que não existo.116 Condenado. a existência não pede ao homem se ele quer ou não fazê-la. que guie o mesmo em suas ações. 1939. isto é do objeto. 2010. No entanto.] a existência é uma ilusão. Id. não consegue escapar do dilema cartesiano “penso. para anular-me. não pensar em nada.. A existência “explode” no homem e não tem como coagir a consciência de não saber que existe. p.1. ser racional. porque.. que se torna. Ele. . Ao realizar a delegação da existência a outro. Dessa forma com os objetos não se pode estabelecer acordos de preservação. 42.2 O “nojo do existir” e a morte Ao ter um final imprevisível. logo sou”. Porém. segundo Sartre. delegando ao mesmo o “poder” de ser segundo a vontade do delegado. Mas. [grifo do autor ]. não há mais do que um sujeito no mundo. portanto. O homem é que se escolhe por si. (não porque não tenha capacidade). 2.”117 O problema é que isso só terminará com a morte. quando o mesmo não quer ter a responsabilidade de se fazer. Embora. o bem e mal dão-se sempre em relação com um outro sujeito. Desse modo ele está condenado a fazer a existência se escolhendo a si próprio a cada dia. como preceitos.. o próximo tema na existência. afirmar que “uma divindade quis assim”.. Assim. mesmo pensando. p. Eis. ele quer se libertar da consciência como existir em uma atitude de fechar os olhos e se abandonar achando que “[.

nem como era possível que existisse um mundo ao invés de coisa alguma. 120 Cf. em olhar metafísico119. Porém.htm>. 121 Id. Disponível em:<http://www. SARTRE. pesar intensamente sobre nosso coração como um grande animal imóvel do contrário não há absolutamente nada mais. A existência não é algo que se deixe conceber de longe: tem que nos invadir bruscamente. com o próprio ser da realidade ou da existência. que escolhe a maneira de ser no mundo. porque a existência dos modos de ser existem interligados entre si.br/006/06santana. a realidade do próprio ser-em-si. SANTANA.urutagua. a sua realidade é tão frágil e vazia. é concebido a sua percepção do existir.uem. Ela é percebida em tudo que manifesta. A náusea é o sentir o puro existir. Que apreende a realidade e não consegue entender o por que se de tal forma. à frente. 193. Nada como Princípio Metafísico Constituição da Consciência em Sartre. está aí sem possibilidade de negar. atrás. de intervir.121 A realidade existente é concebida como concreta e sem explicação do como é. os quais não podem ser negados. porque dela se tem consciência. Aquilo não tinha sentido. o mundo estava presente em toda parte. Assim. Realizar a busca de quem se é.. sendo que causa a náusea. 2006. Esta é se deparar. 120 Na voz de Roquentin: Não estava surpreso. e sufocava de raiva contra esse ser grande e absurdo. o que se tem é o “agora” (presente) e isso é pouco para se realizar Id. ou e tentar responder às questões que envolvem a situação do homem no mundo. sem se importar com o que dela vão descrever. Estes são referência para a existência. Ou seja. Sequer se podia perguntar de onde saía aquilo. p. Ela vem ao mundo. 118 Do encontro do ser racional com os outros e os objetos. [Cf. 198. 2012]. p. quanto maior o “nojo” da existência .. que sente a necessidade de tudo. o Mundo inteiramente nu que se mostrava de repente. é realizar um ato que vai além do sentimento de náusea. Marcos Ribeiro de. Esta é caracterizada como a relação da consciência com os objetos. bem sabia que aquilo era o Mundo. no sentido que o homem não tem como mudá-la. é “enojar -se”. Acesso em: 10 ago. 119 118 . simplesmente. já o homem. tem que se deter sobre nós. maior também o estado de consciência do homem. p. Isso se deve. 23. tudo aquilo. [s/d]. E para ser. ele somente tem o agora em “suas mãos”. Mas. [s/d].53 direito de alienar-se de sua existência.

O perigo é não saber a intenção do outro ou a forma que ele quer se constituir existindo. no mundo. o ser racional se constitui com um ser. Disponível em:<http://www. Porém. 124 Cf.existencialismo. 2005 b. 125 Cf. o futuro. continuavam a existir. Refere-se a falta de ser antes da essência [Cf. 125 A existência é sofrimento. 197. Junto. ou ainda matá-lo de forma violenta. não quer ter responsabilidade. Mesmo escolhendo a morte. 28. Mas o homem não sabe nada além do pouco de sua realidade. Cansados e velhos. Duas alternativas são postas: o homem fazer o semelhante de objeto. apenas elas não existem.122 O homem é um fruto do existir cujo resultado do que é. 2012]. porque a morte só podia atingi-los do exterior. o homem por si. exigindo grandes atitudes diante do mundo existencial.54 muito. enquanto vivos. p.. este consolo vai até o questio namento do “que há depois desta existência”. simplesmente porque eram muito fracos para morrer.htm>. no qual não se pode confiar a esperança. os homens tentam modelar uns aos outros. [s/d]. só as melodias trazem orgulhosamente a morte em si mesma.org. exerce a sua liberdade fazendo-se o sujeito. Ela é a “chave” para o ser racional realizar algo no “vazio por natureza” . A existência é apenas uma das partes da possibilidade do ser se superar ou se realizar enquanto existente. imediatamente alertadas. há outros existentes. sendo o mesmo caracterizado por covarde de não enfrentar a vida. nega a existência e procura o suicídio como forma de fuga da existência.. Porém. p. p. Id. Acesso em: 4 set. os outros. e virá a ser. de má vontade. pelo medo do Cf. Id. Todo ente nasce sem razão.123 Porém. Assim. 123 122 . Cléa Gois e. À frente do presente.124 Contudo. negando a consciência do existir. como uma necessidade interna. e partindo para vazio absurdo. Assim. SILVA. que. 79. acabando com os projetos de minha constituição de seu ser.br/jornalexistencial/jadircleasartrepara si. onde não realizará mais nada. se prolonga por fraqueza e morre por acaso. 1972. porque não tem um motivo de existir. Jean-Paul Sartre: o ser-para-si. por causa do vazio que é angustiante. Inclinei-me para trás e fechei as pálpebras. de um salto vieram enchi de existências meus olhos fechados: existência é uma plenitude que o homem não pode abandonar. do porque agir de certa maneira. que tem em comum a fragilidade do curto existir. fica fácil escolher a morte como consolo. é de sua pura responsabilidade. SARTRE. Mas as imagens.

mas mesmo assim ele é livre para tentar o que quiser. 2008. Este “nada de essência” é positivo. Porém.55 desconhecido ele espera a morte sem ter coragem de se matar. forma o seu ser. de Garcin. A do homem é vazio e pela escolha. não se possa falar de um ato “egoísta”. p. p. Embora. A morte é “retirar” a consciência da existência. responsabilizado pelo que faz. que em Sartre. Cf. Assim. [Cf. mas também contingente. p. do humano. O homem não p ediu para nascer. mas está no mundo atormentado.. de sua realidade existente. não sabendo a sua origem e nem como é depois de sua morte.. Ibid. Logo. pois ele pode se tornar tudo em consciência mesmo sofrendo. bom para o homem. Esta “essência humana” é diferente da do homem. morrer lutando pela liberdade do outro ou prendendo-o é aceitável. Mas o homem não tem coragem de realizar o tal ato.. 129 126 127 Cf. são caracterizados como diferentes no mundo. Por consequente. Suicidar-se é simplesmente negar contribuir com o mundo. p. o homem particular tem a responsabilidade de contribuir com os seus atos com esse todo universal. 127 O suicídio não elimina a angústia no homem. pela história de todos os homens. Sartre expressa: “É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém” . da vida. lutando para escapar da sua falta de ser. 1972.128 Por fim.126 A morte como opção é considerada como um desperdício. 62]. os que encontram na morte consolo e não suportam mais a existência e suicidam-se. o homem é uma plena construção sem nenhuma essência. sendo perseguido. op. a morte sem uma apreensão de um pelo outro é considerada sem sentido. preenchendo a “essência humana”. 129 SARTRE. Porém. pois desconhece o que há após a morte. 229. Por isso também. Com isso. também consigo mesmo. 254. cit. não escapa da responsabilidade da existência para formar a “essência humana”. 133. situa-se o “nojo do existir”.. e assim tem-se a substância de ser. Por outro lado. forma-se a essência humana. Enquanto existente vivo. o homem se arrasta para a morte que se assemelha à liberdade. Id. 128 A Inês julgando os atos. sem um abrigo de segurança. Ou seja. constrói a liberdade que abre campos para novos atos. o homem. Id. . tem o desejo de suicidar-se como forma de negar a existência. e que vive limitado carregado de responsabilidade que lhe causa angústia.

exige ser. a consciência. é. JONAS. Se ele existe. O existir é o fardo do ente humano que se encontra no mundo. é a causadora da angústia no homem. Luiz Barros Montez. Pela falta de abertura do ser-em-si. 103. Marijane Lisboa. pois se apresentassem “fissuras” em suas estruturas teriam sobre si possibilidades. Os objetos são autônomos e completos. não são autônomos e assim são carentes.1. conclui-se. para considera uma possível superação de ser. 130 . porque percebe que sua existência é sem uma Cf. Isto é.3 A existência como possibilidade de ser Para continuar a argumentação. não possibilita a superação do ser. “revigoram ou suportam” a possibilidade do ser do homem se fazer no mundo. que é a consciência. retoma-se perguntando: a possibilidade de ser tem um fundamento? A primeira situação. marcando a consciência racional. pois não tem carência de ser.130 Embora a consciência seja aberta. 2. O princípio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Ela. como estruturas definidas e fechadas. e o que não é. Assim. a sua construção só é possível porque primeiramente existe. por ser completo. Trad. O ser-para-si. mas existe como angústia de ser. A aparência. Com isso. pois para isso necessitaria de consciência. a existência. Hans. sujeito. Mas o ser-em-si não tem desejo. Rio de Janeiro: PUC-Rio. Contudo não é somente ela. para poder se fazer na tentativa de ser o que deve ser. Encontra-se no mundo lutando para auto fazer-se como protagonista. que se mostram no mundo sem a preocupação de serem julgados por sua identidade. é que os faz serem objetos.2 A consciência A consciência é caracterizada como ser-para-si. se caracteriza como o “não-ser”. em Sartre ela se dá na existência. p.56 2. na fenomenologia de Sartre. a superação contém outros elementos que combinados com a existência. Quem existe se impõe como presença no mundo. que a existência do ser-em-si é um estar no mundo sem estar situado. 2006. sempre vem de algum objeto que é o ser-em-si ou de um ser-para-outro.

É impossível. Porém. a construção da história. Essa afirmação significa que ser consciente. a superação e construção do ser resultam. parte de que ele quer dizer é apenas isto: a consciência não é uma coisa. fora de si e para si. Para descrever o movimento da consciência em si. que possibilita uma superação no ser. descreve Sartre: O ser da consciência não coincide consigo mesmo em uma adequação plena.. 1997. Assim. p. 2. com efeito. é necessário reafirmar que consciência é sempre de alguma coisa.. [grifo do autor]. p. Trad. a consciência lança-se para fora de si com a “intenção” de constituir -se com objetos que estão além de si. 2009. 131 .. 132 SARTRE.57 explicação e está perdida justamente por não saber o que lhe serve como referência para se construir. Desta mesa. defini-la como coincidência consigo própria. pois não consegue existir tendo a si mesmo como objeto.132 MORRIS.2..85. Ela suporta os fenômenos devido a sua principal característica de sua estrutura: ser um “nada” ou o vazio de ser. não me posso limitar a dizer que é crença: minha crença é consciência (de) crença. que a consciência não é “nada”.131 Esta experiência de ser lançado no mundo para ser marcada pela angustia. Quando Sartre afirma. 122. Sartre: introdução.] Sartre acrescenta a afirmação de que toda consciência é consciência de si mesma. Edgar da Rocha Marques. Por causa do nada.. Isso porque. posso dizer que ela é pura e simplesmente esta mesa. São Paulo: Artmed. a consciência move-se se formando na existência de três modos: em si. pois ela é um “nada”..1 O movimento na existência A consciência se forma na existência pelas marcas dos fenômenos. [. tal como ele algumas vezes o faz.]. por consequência. 83 . [.. ela depende dos objetos que estão no mundo. Dessa maneira. Mas de minha crença (por exemplo). [grifo do autor]. Katherine J. é a oportunidade favorecida pela existência. digamos. da viscosidade da geléia e um só e ao mesmo tempo ser consciente de ser consciente da viscosidade da geléia [.] A característica da consciência é que ela é uma descompressão do ser.

originalmente. para quem não foi. KAHLMEYER-MERTENS. percebe pelo perigo do outro a sua fragilidade.133 A segunda a da consciência diante do ser-para-outro que tem a possibilidade de adquirir informações das percepções daquilo que. devido em si não há nada além da possibilidade de ser.. Fragilidade que Sartre expressa da seguinte maneira: Minhas possibilidades de me refugiar no canto escuro torna-se aquilo que o outro pode transcender rumo à sua possibilidade de me desmascarar. dela se expressa no mundo através do corpo. me prender. mas. somente existem para quem tem consciência. Quando 133 Cf. já que não conheço o que assumo: simplesmente o sou.org/sartre_alteridaderoberto. ou simplesmente não existe. mas destaca-se pelo desconforto que sua presença causa em si. p. indo ao encontro dos objetos e do outro. não tendo condições de sustentar como objeto a si. sofreu o contato direto do fenômeno da mesa. Isto é. na consciência. sinto-me estando aí. Roberto S. me identificar. enquanto o homem particular vier-se diante de uma mesa. Jean . o homem pode alienar-se em alguma imagem que o conforta ou simplesmente convém ao momento. Este “não-ser” é angustiante. para o outro. ou fenômeno do que se manifesta diante de si. Ou seja. . ela somente existe para este que está ou esteve diante dela.Paul Sartre . 2010. não cesso de me assumir como tal. que são o ser-para-si.134 No lançar-se para fora. na tentativa de “preencher” o nada.fenomenologia da alteridade. Não cesso de me assumir às cegas. Isto é. mas mesmo assim está no mundo sem se fazer. a consciência. um referencial para a existência do homem. Por vezes. por exemplo. e este esforçofantasma de meu ser me atinge no cerne de mim mesmo.. descobre-se que ela existe como aparência.shtml>. pela vergonha. devido não haver nela. 134 SARTRE.58 A consciência não pode ficar em si mesma. Desta saída resultam duas situações: Primeira. cit. sua existência é desconhecida. Assim. Acesso em: 14 ago. transcende para fora. Os objetos no mundo. op.341. ao transcender “o próprio espaço”. E o que tem possibilidade de ser ainda não é. a da consciência ir ao encontro do objeto. pois. a raiva e o medo.] Isso porque. 340 .. [.consciencia. a consciência não pode negar a existência dos objetos. Disponível em:<http://www.

remete-se as consequências do lançar-se da consciência para fora de si. A má-fé é o estado da consciência que possibilita fazer uma “cisão”. a consciência. Se tal situação de fechamento ocorresse. 1997.59 sente o desconforto. 135 . para se constituir. MOUTINHO.Paul. ela tem como objetivo formar o ser. negando as percepções do movimento da consciência e dos próprios sentidos. Pois.. se expondo ao outro e retomando para si com as impressões aprendidas do mundo existencial. fechar-se em si é fechar-se em uma angústia devido a própria situação do ser-para-si: ser “vasão de ser”. 48.135 No movimento para si. O para-si é o ser que se determina a existir na medida em que não pode coincidir consigo mesmo. O movimento do ser-para-si é uma forma de descoberta e construção das possibilidades que não estão sob seu domínio. Em defesa dos intelectuais. Editora Ática S. 127. esta característica da má-fé pode ser traduzida como a pior Cf. a consciência não deixa de ser consciência do que nega. 1994. não consegue fecharse em si. esta inconsistência não remente a outro ser. 1995. Porém. Trad. ao negar as “coisas”. p. Ao sair. por mais que ela aprenda os fenômenos.].137 As impressões retiradas do exterior da consciência ajudam no resgate do ser da mesma. 136 Cf... Por outro lado. Porém. SARTRE. ela mesma deixaria de ser o que é. Dessa forma a mesma em seu movimento obriga-se a criar situações que a promovam existencialmente. Jean . ela volta-se para si. 137 SARTRE. é o ser-para-si que justamente é pura possibilidade de ser. 16 . que é o serpara-si nem sempre tem as possibilidades que deseja para realizar seus projetos.. existir como um ser que se afeta perpetuamente de uma inconsistência de ser. Ou seja. fora de si tem como finalidade última a si mesmo. São Paulo. Sergio Goes de Paula.17. Mas.] É uma obrigação para o para-si existir somente sob a forma de um em-outro-lugar com relação a si mesmo. A.. não passa de uma perpétua remissão de si a si [. de maneira que “estanque” a hemorragia do ser. p.136 O ser da consciência como delatado anteriormente. Popularmente. Contudo. pode-se perceber que todo o movimento da consciência move-se em si. O que a consciência pode realizar é a atitude de má fé depois de voltar-se para si. p. [. tem que sair de si em direção aos objetos.

d isse com os seus botões e teve pena de si próprio.. Por mais que o ser-para-si projete-se em seus limites precisa dos sentidos do corpo para aprender novas possibilidades de fazer o que projetou. expressada por Sartre: “Eu me pergunto: por que existo?” [. 1939. pois quanto mais ela se volta para fora. A possibilidade da liberdade A possibilidade da liberdade somente é dirigida ao homem. [grifo do autor]. que servem para a sua edificação. Pois a expressão do corpo é uma realização de um projeto da consciência. 202. Assim. ao mesmo tempo em que a consciência se preenche tentando se fechar. porque em si tem possibilidades da liberdade. que compõe o homem. porque se expõe para se constituir..138 O expor-se da consciência se dá na manifesta das atitudes do corpo ao mundo. pois fora do mesmo não há possibilidade de liberdade ou de fazer a existência. p. mais abre-se o seu campo existencial construindo-se. 2. mais ela se abre para possibilidades de ser. ela é formada na existência. a consciência sabe da verdade e para negá-la. Isto é. A descrição é semelhante à de Lucien.. mascarando ou não. pelo corpo que aprende os objetos. 138 Id. e ao mesmo tempo forma a existência. e as responsabilidade que assumiria mais tarde serviriam apenas para justificá-la. tenta afirmá-la. Ou seja. Isto é: por causa o homem existe no mundo sozinho com uma lacuna no ser (o ser-para-si ou a consciência) que é caracterizado pela possibilidade de vir a ser aquilo que o ser humano intencionado a ser. porque o ser fissurado é a consciência e a consciência é ser aberto. movimentando-se. a consciência. a consciência é parte da existência. justamente. nos movimentos apresentados. mascarando como se fosse outra realidade. não pedi para nascer”. Ou seja. mais ela sofre. Quando a consciência busca o seu ser. que está em luta para se fazer em um ser-em-si. somente pode se fazer.60 mentira que se pode ter para o ser racional.2. “Afinal. Dessa forma o corpo é e tem sobre si expressões de um ser fissurado. . Porém.2. Mesmo mentindo.] Sua existência era um escândalo.

de revigoramento perpétuo. o homem possibilita uma liberdade. sem um ponto de referência. Isto é. que já resultam em uma construção da existência. o ser da consciência é aberto e por mais que ela se esforce não consegue se fechar. [grifo do autor]. afirma-se como um poder de incessante arrancada da fascinação do ser em-si. Emmanuel. SARTRE. Caio Liudvik. 2005 a. se visse teu rosto de menina? Orestes .As palavras que eu digo são grandes demais para a minha boca.Sartre Bernanos. tudo isto fora previsto. 139 . a própria fisionomia da pessoa. Entretanto. Então és tu? Quem o acreditaria nisso ainda ontem.127. Sem pré-julgamentos.na. as atitudes são expressão de escolhas. de liberdade criadora: em suma. rasgam . Portanto. ao contrário. Pois. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. 106. é tão bem fundamentado no ser. de afirmação. que “o desaparecimento total do ser não seria o acontecimento ou o reino do não-ser. O nada.Paul. porém os atos que ela realiza não são em vão. ampliando a possibilidade das formas da liberdade acontecer no mundo. Júpiter – Pois bem. Trad. 1972. o desvanecimento concomitante do nada: não há não-ser senão na superfície do ser".61 O que o homem deseja pela consciência é ser. destaca-se a ausência de uma essência no homem. e a vida humana começa do outro lado do desespero. o destino que carrego é pesado demais para minha juventude e a esmagou. as uma subtração. como construção. p. ao contrário.A. Naumi Vasconcelos. relativo a ele. pode diagnosticar que. As moscas. diz Sartre. como a fissura no ser.140 A consciência. que não é um princípio positivo. Um homem devia anunciar meu crepúsculo. auxilia a construção do ser racional na existência. Contudo.Camus . porém ela vai sendo determinada na existência. Assim. Desse modo está declarado no diálogo de Júpiter com Orestes: os homens formam sem uma “âncora”: Orestes .139 Pela falta de ser da consciência. mas. é realizado sem um ponto de referência.O que quiserem: são livres. Este. Orestes.. A esperança dos desesperados: Marlraux . sem amparos e apenas com as possibilidades de ser. o ser racional é livre inquestionavelmente para se projetar por causa de seu fundamento da consciência enquanto existente que é o “nada”. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra S. esse nada. o homem é um condenado a ser livre. porque nele primeiramente existe e depois se faz. Trad. 140 MOUNIER. Jean . justamente. p.

2010. Então não há impedimentos para o ser-para-si se construir. Mas o homem somente pode construir-se se possuir primeiramente a existência. Ele deve realizar a construção em um constante movimento formando a existência. ele não pode querer outra coisa senão a liberdade como fundamento de todos os valores. para si em um retorno para fora.142 141 142 SARTRE. 2. por fim a liberdade.141 Ser livre não é poder ter a possibilidade de realizar todas as coisas. por consequência da carência de ser da consciência. que está pronto a retrair os atos de liberdade. Morro de vontade de trocá-la por uma convicção. Quem pensa. voltar-se para o próprio.62 Isso. Segundo Sartre: Quando declaro que a liberdade. depois consciência (como ser-para-si) e. penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer. Sofre porque se expressa e expõe-se à consciência na existência diante do outro. De bom grado trabalharia com vocês. Id. porque ele existe conscientemente e tem consciência que existe sendo livre justamente devido ao ser-para-si (que é consciência) ser cindido. não pode ter outro fim que procurar a si mesma. p. 1972. incompleto. como caracterizá-la? O homem é livre para constituir o ser. A liberdade acontece dentro de uma existência. a todo o momento.. se o homem reconheceu. é concebido ao homem pelo acaso. que estabeleceu valores no desamparo. Há anos que sou livre à toa. em cada circunstância concreta. move-se experimentando as manifestações do fenômeno. a certa altura. isso me afastaria de mim mesmo e tenho necessidade de me esquecer um pouco. p. .3 A liberdade. 150. sofre. Como descreve Mathieu: Minha liberdade? Ela me pesa. Na tentativa de se completar. E depois. lançando-se ao mundo construindo a sua existência. 55. Ambas quando dada ao ser racional não podem ser retiradas. Pensar é realizar o ser no ato da consciência. Muito mais do que fazer. é poder pensar.

cit. quando o mesmo realiza uma expressão no mundo não pode culpar ninguém. 145 Id. que é o para-si. Ele não é assim por ter um coração. [Cf. Não existe temperamento covarde. 33. no sentido de que cada um deixa o outro existir porque necessita.] o homem é livre. Assim.. e não surgimento de um ser pleno. 105 . esse nada de ser. Tudo o que a consciência realiza tem como fim a si próprio. que é inimigo. por consequência. p.143 Isto é... cit. [. puramente responsável. devido a forma que está no mundo. pois: [. Ou seja: mesmo o ser racional argumentando que foi forçado a tomar certa atitude (de matar. o homem é a liberdade”. 1992 a. mas sim porque ele se modelou um covarde por meio de seus atos. s empre é conquista de circunstância à circunstância. Assim na expressão de Sartre pode se resumir em que a liberdade: “[. Lizzie condena um inocente assinando uma confissão. E este “colocar-se” diante do outro.. Porém.145 A ética surge da liberdade e não tem como outro pressuposto além do compromisso da consciência consigo mesmo. por consequência. a consciência.146 Sob argumentação do seu pai.] quando descreve um covarde declara que este covarde é responsável por sua covardia. por exemplo). como acabamos de dizer. 143 . em primeiro lugar.. E se a liberdade é um buraco no ser. ele mesmo sempre foi livre a resistir ou ceder às imposições do outro.. a responsabilidade no homem devido ao mesmo ser livre. 144 SARTRE.. de atitude à atitude. o homem se manifesta aos seus semelhantes. ela pressupõe todo o ser para surgir no âmago do ser como um buraco.] a liberdade é falta de ser em relação a um ser dado. 44. p. tendo como critério. Id. a liberdade e ética não são resultados de fatos biológicos. proteger ou adquirir a sua própria liberdade de ser. op. Ao modo que faz nascer. No mundo.. ele não é assim a partir de uma organização fisiológica. há ponto de encontro da possibilidade da convivência entre os homens. 146 SARTRE. op. p. 1997. Porém. 598. utilizase do ser-em-si (que no caso é o próprio corpo) para se expressar na realidade. p. um pulmão ou um cérebro covarde.144 Isso significa dizer o homem é.106]...63 O homem também é constituído por um corpo e este é tido como um ser-emsi.

sendo escolha. em Sartre. é o ponto central da filosofia. Define-se pelo fim que projeta.. Id.. Ser livre é ser angustiado. expressa Sartre: Certamente. quer livrar-se da liberdade.149 O ser racional não pode fugir de si. contém várias descrições em suas diferentes obras. eu não poderia descrever uma liberdade que fosse comum ao outro e a mim. cit. Sua realidade de raciocínio destaca-o entre os entes no mundo: [. p. Tem como opção de liberdade a escolha de “projetar” infinitas possibilidades. precisamente 147 148 Cf. ser consciente da possibilidade de todos os atos. Mas trata-se. O outro. a liberdade é fundamento de todas as essências. uma tomada de consciência diante da realidade como possibilidade de ser e de não ser. Mas. ao mesmo tempo em que é o limite. Mas. que fere a liberdade particular com sua presença e olhar.64 A liberdade é antes de tudo. mas também optar em realizar a morte como “projeto”.3. Ibid. A angústia de ser condenado a ser livre.1 O projeto A liberdade. 2005 a. Ao contrário. p. é mudança. SARTRE.] a liberdade..148 A liberdade do homem particular está intrinsicamente ligada à escolha e também com o perigo da morte. [grifo do autor]. ou seja pelo futuro que ela tem-de-ser. Isto é. posto que o homem desvele as essências intramundanas ao transcender o mundo rumo às suas possibilidades próprias.. não poderia. 147 Mesmo o homem sendo o próprio fundamento de liberdade. de agir ou não agir. 149 Cf. p. de minha liberdade. Esta condenação possibilita um olhar diferente no mundo. de fato. a qual. . A liberdade é “todo um momento” de tomada de consciência diante de uma situação que exige uma postura do ser racional. 41. 446.. quer designar a responsabilidade de ser liberdade. A liberdade é tida como capacidade de fazer projetos com a finalidade de “projetar-se”. 587. op. 2. também garante possibilidade de expansão da mesma. pois considerar uma essência da liberdade.

150 A liberdade não se encontra fora do homem. Por exemplo: o homem que for viajar. Porém. o projeto e a liberdade de fazê-la não significam que irão se realizar.. Todo o projeto é uma forma do exercício da liberdade.sescsp. p. Acesso: 24 set. 153 Cf..Paul. só pode ser concebido em estreita conexão com aquilo que é. pode haver situações que a liberdade é destacada.2 A liberdade destacada A liberdade no vazio não é possível. 1968. assim. cit.. Trad. SARTRE. Ela sempre se dá diante de alguma situação que possibilite a expressão do homem. para ir ao tempo que esta percepção lhe surgiu. 152 SARTRE. p. ou situações que os “outros” concretizam. o “projeto” é transcender a realidade temporal presente para um futuro próximo ou distante. cit. que tem intenções de se fazer em um tempo à frente do que lhe é real. o limite do projeto não se aniquila a liberdade. Jean .br/sesc/sartre/texto09. República do silêncio. Rachel Gutiérrez. podem limitar a realização do seu projeto. As realidades exteriores da consciência podem. o que seria um absurdo. 593. Disponível em:<http://www.65 porque o futuro é o-estado que ainda-não-é daquilo que é. SARTRE. Cf. 610.153 Dessa forma. É ela que permite a tomada de consciência diante da situação lhe que aparece diante dos sentidos. como no exemplo acima do prisioneiro. Contudo. ele pode projetar sua evasão e descobrir o valor de seu projeto e por um começo de ação. segundo Sartre: [. op. devido às situações do próprio homem. retrair ou ampliar as condições da liberdade como projeto de vir a ser. p. é próprio homem. Assim.] não diremos que um prisioneiro é sempre livre para sair da prisão. Isto é: a ação da consciência (a SARTRE.org. uma situação existencial. pode projetar. 2. Sua principal localização é no ser racional. 2012.. qualquer que seja sua condição. op. 85.html>. como partida a consciência de alguma coisa dentro de um contexto. nem tampouco que é sempre livre para tentar escapar (ou fazer-se libertar) – ou seja.152 Enfim.3.151 Pois. Isto é. 151 150 . que somente é possível. sintetizando o que é o projeto.

Em outras palavras. 156 Cf. diante do outro.66 própria consciência ter consciência de) diante da realidade que a fere os seus projetos. 1997. são eles que me fazem viver.154 Contudo realizar o ato de alienação é ter o que Sartre descreve: A vergonha ou orgulho revelam-me o olhar do outro e. cit. da consciência. 336. A superação É possível uma superação do ser? Diante dos conceitos apresentados. Em outras palavras. passar o direito de escolher a outro. para o homem alienar-se da liberdade. 2005 b. tem que negar o conforto de não ser feito de objeto diante do outro. Para vencer situações de limitação da liberdade.. A possibilidade da superação somente pode ocorrer em um ser que ainda se encontra sendo o que não é. é capaz de parar a liberdade. Por maiores que sejam os obstáculos. o ser-para-si.156 2.. 81. SARTRE. nos confins desse olhar revelam-me a mim mesmo. podem dar-se alguma resposta. e por consequência. Id. Id. . A “situação” . op. pode restringir as possibilidades de realizar o projeto. a possibilidade da alienação da liberdade. Sem o contraste da “carência” de liberdade não se poderia ter noção do que a mesma é. não conhecer a situação de ser-visto.155 A situação nunca. p.. Porém. justamente porque o homem é livre para deixar o outro tomar a sua própria liberdade. Isto é. 73. A liberdade é a essência. o ser de nenhuma forma pode se desvincular da 154 155 Cf. p. Logo.. p. confundido na filosofia sartreriana como consciência de ser. é preciso atos e para realizá-los é necessário negar algo que existe em função de algo que não existe.. Assim ela é destacada. na superação. no máximo. Pois bem: [.4.] a vergonha é vergonha de si. do homem e consiste em um “mundo particular” a que ninguém além dele tem acesso. maior a responsabilidade do homem. assim ganha o que não tem: a “paz” por não e scolher. é possível uma superação do ser-para-si. é o reconhecimento de que efetivamente sou objeto que o outro olha e julga. mais forte será o contraste da liberdade. ou seja. em Sartre.

A existência. também joga-o a existir sem o mesmo querer.. Deve fazê-lo sem “possibilidades de ser” para a própria construção. ser autônoma. Mas. Ao mesmo tempo em que ela depende dos objetos. que é a consciência.157 Por consequência da consciência da corrosão do olhar do outro e também de sua existência como um ser contingente por falta de uma substância. o ser-para-si. Ela diante do ser-em-si não altera a forma do ser se manifestar como fenômeno. só existe diante de alguma coisa. Porém. Para vencer o olhar do outro a consciência tem que transcender. que são o ser-para-si. a consciência. Por fim. precede todas as coisas.] somos roídos até os ossos por olhares tranquilos e corrosivos” . Ou seja. independentes. O Outro é sempre um perigo. Ação. utiliza-se do “olhar” para retrair a expressão de busca de construção da própria consciência. não é o homem. delata Sartre. “hemorrágico”. o ser-para-outro. impelido a ser livre. Apresentamse completos. que nada mais são os objetos que estão no mundo. A consciência é o “ser fissurado” que é o que não deveria ser. por sua vez. sendo caracterizada como “consciência e ter consciência de consciência de alguma coisa”. No homem. Ou seja. vem com o seu “ser ferido”. “ [. Para isso acontecer. o ser-em-si. .67 realidade do homem. encontra-se o ser-para-outro. ou seja. Isso se realiza porque tem o desejo de se formar. “rachado”. o homem vem a existir sem uma essência definida. na existência. a liberdade e a situação. Existem somente para aqueles a quem se manifestam como fenômeno de ser o que são. mas se encontra nele. ser mais forte no “olhar” para não deixar-se tomar como objeto.. os mesmos também dependem dela para existirem. Contudo. quando o homem é lançado na existência. Para isso. 91. “aberto”. sai de si em uma doação de “acolhimento” dos fenômenos do ser-em-si. Ela deseja ser completa. para isso. como já foi abordada. age nele. 1968. o homem é pela consciência. porque. para acontecer conta com algumas realidades como da existência. construir-se. da superação do ser. lança-os no mundo. que contém o ser-para-si. Nos objetos. Para resumir. A consciência. autônomos. 157 Id. também é “cindido” e quer se completar.. a existência joga o homem no mundo para se fazer. p. Este. conta com a ajuda da sua consciência. ela somente existe dependo do ser-em-si.

para formar a existência na busca de preenchimento.68 Ser livre é ser-livre-para-mudar. por sua livre escolha. todo o ato de expressão no mundo existencial do homem é uma pura superação do ser.158 A liberdade somente é justificada pela ausência de ser da consciência do homem. não pode fazer mais do que interpretar o sentido do seu ser. quando sai. O homem é o responsável por aquilo que realiza diante de todas as situações. Assim. 1997. Por isso. lança-se no mundo em busca de um “preenchimento” para a sua lacuna de ser. encerra a existência de arredores a modificar: obstáculos a transpor. portanto o homem. que os revela como obstáculos. é formado pela existência. mas também ela ou o próprio homem forma a existência que se transforma em história. dentro de uma existência. a consciência do próprio homem. não há homem. As tentativas de sua própria morte nunca poderão ser um consolo para deixar de ser um nada. Supera-se porque primeiramente existe como uma falta de ser em sua estrutura. Por certo. Não há existência. portanto. p. . Não há ética.. Não há história. Por consequência. A liberdade. que é o ser-para-si. realiza os movimentos de sair de si. Não há liberdade. ir para outro e voltar-se para si. e angustiado por não haver uma ponte de referência para a sua construção. Logo. o homem. é a liberdade. 622. de nenhuma forma. é que se supera. Resta. a dor de não superar-se nunca poder ser. As situações. Não há nada. portanto ao homem. Contudo. na qual lhe impõe situações de provocação da mesma. ferramentas a utilizar. a consciência. Em todo esse movimento. Pela consciência é que o homem e o ser se superam. somente a consciência. o ser-para-si. aniquilam a liberdade ou a consciência do homem. de se expressar no mundo ou diante do outro. E se isso não for possível. mas. O que ela faz é justamente destacá-las dentro de um contexto ampliando a formas da consciência ou do homem. e. dentro de uma existência temporal. 158 Id. pode agir perante as situações de maneira livre.

Na possibilidade. o homem se torna angustia. Por isso. quando o ser racional se encontra no mundo. mas manifesta e percebe os modos de ser na realidade. escolhe e paga o preço da escolha. do que já construiu. se encontra em situação diante de si. existe para ser livre. assumindo uma posição de não-ser. O homem por tanta liberdade na consciência vive na angústia que se dá de duas maneiras: perante a possibilidade de ser e diante de um passado. Isto é. com as suas escolhas). por causa do passado. então. não faz apenas nascer o nada. o para-si. Ocorre porque não carrega e aceita a condenação de ser livre. Ou seja. Assim. que é o ser do homem. na filosofia de Sartre. a “consciência”.CONSIDERAÇÕES FINAIS Com estas considerações não se tem o menor interesse em fechar a discussão sobre o ser. é o ser em formação. do que já construí. Contudo. Assim. Mas também o outro. Quando isso ocorre. O homem é o que fez nascer no mundo o “nada” através de sua consciência que é um ser não completo. diante da possibilidade de ser. (que é o que já construiu no passado. que poderá ser um possível objeto de outro. o homem é livre. Por isso. o ser-para-si tem que se fazer o que tem que ser. não se pode deixar de elencar os resultados da pesquisa de forma breve de modo que ajude a compreender o homem na existência. lhe causa desconforto. em Sartre. Quem se angústia. Com o passado. . pode e fazê-lo de objeto. Dessa “mazela” da consciência e por não haver princípios que justifiquem a estadia dela no mundo. a consciência quer fugir daquilo que contempla. não há uma “âncora” para indicar onde mesmo tem que permanecer e isso lhe causa angústia. fazendo uma cisão com o ser. que é existir de alguma forma.

a concepção de imagem. mas quando a consciência se supera. a consciência que é “cindida” sai de si para se constituir. não tem sobre o homem poder para influenciar. uns encaram como sinônimo de consciência. que é um resultado de consciência com o objeto. uma tese que descreva “as contribuições de Sartre para a fé”. manifestada pelo corpo na realidade existencial é um superar de ser. Ou seja. o mesmo é indefinido. Não se pode negar que há modos diferentes do ser nos objetos e na “consciência” do . o ser racional pode apelar ao destino como âncora de apoio ou de conformismo por aquilo que faz. O estudo da consciência. Porém. mas tem a angústia da presença do outro que lhe é a “personificação do inferno”. entre os seus comentadores. e quanto mais ele tem consciência da sua existência. formam o homem em uma unidade. toda a realidade do ser da consciência. na possibilidade da superação do ser. também. O destino. Pois. O homem adquire. Assim. também surge uma identidade ética no homem. que é o ser-para-si. Ou seja.70 Assim. A angústia acontece na existência para a possibilidade de superação. Se o mesmo considera o passado. o ser que se supera não é o ser além do homem. Justamente. Isto é. liberdade não é a possibilidade de escolher através de projetos conscientes. em Sartre. existe a divergência ao delatar sobre o que é o ser-para-si. Dessa forma. Quanto a indicações que estudos futuros são duas propostas: um estudo da consciência. pelas escolhas. porque. aquilo que ainda não possui na existência. e por segundo. que em Sartre não existe. Quando se constitui. A liberdade é descrita como uma falta de ser na consciência (a realidade do nada) e nasce da carência de algo que ainda não se tem. Portanto. já que para Sartre. também se angustia porque não tem ponto de referência para as suas ações. Porque. mas é a sua própria consciência. A consciência também contém elementos que necessitariam de atenção e entre eles. os atos de crueldade realizados na história existencial do homem é de pura responsabilidade do mesmo. mais se angustia e mais livre quer ser. por consequência ocorre a superação do homem. tanto o ser-para-si e o corpo. o homem pode escolher a forma do seu ser. outros o descrevem como o ser da consciência. não é de forma alguma algo necessariamente um mal. Pois. seria mais um problema para uma futura pesquisa. a angústia é o que “encharca” o existir do homem. o outro pode apreendê-lo por aquilo que se é.

justamente em sempre afirmar que “Deus não existe e se existisse era um problema para o homem”. sentido de existir. a superação do homem é a realidade mais real que se tem no mundo existencial. Afirma a unidade do ser. . Com esta afirmação. Dessa forma. o homem perde a existência. Ao defender o “pouco”. Em todo o momento ele pode ser o que as condições o permitirem ser. isto é. cuja assunto demandaria uma nova pesquisa. por mais que seja este pouco ou pequeno. pode ser necessário morrer.71 homem. Para encerrar. nem que seja um pequeno. O segundo tema para um futuro estudo é sobre a contribuição que Sartre dá a religião. se compreenderia a cisão que a consciência faz quando apreende o objeto. Mas para isso não se pode deixar abater pela presença do outro. expressar que ele é único e fechado é matar a liberdade do homem. um estudo elaborado da “consciência e também da imagem” dentro da filosofia de Sartre. Muito mais do que a liberdade. pode ser interpretada a forma de Deus existir para o homem. pode o mesmo criar condições para que o quer ser se torne manifestado no mundo de outras formas. que por interesse próprio não quer ter um concorrente. mas é algo que motiva a existir defendendo o pouco que se tem. Assim o não pode deixar de buscar. Mas se o que ele é no agora não lhe agrada. mas mesmo assim o homem morre se superando em uma última vez.

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