You are on page 1of 2

Formação de Sociedades Criminógenas pela Inoperância do

Estado
Autor: Sara L. R. Kloster
Prof. Orientador: Liza Bastos Duarte
O presente trabalho tem como objetivo abordar como a violência
crescente na sociedade brasileira está ligada à não implantação dos direitos
fundamentais previstos em nossa Carta Magna. Este trabalho teve como
metodologia a pesquisa bibliográfica, pesquisa de artigos na internet, entre
outros. O que se presenciou até o presente momento desde a edição da
Constituição Federal de 1988 foi a existência de uma codificação formalizada e
não efetivada pelo estado-membro, fazendo com que as prerrogativas
disposta formalmente através de mandamentos constitucionais funcionem
como uma referência- encantatória e utópica, um faz-de-conta, que agrada
aos ouvidos, mas não é visto e sentido na prática cotidiana. Em assim sendo, a
omissão do estado em prover os cidadãos das condições básicas de dignidade
da pessoa humana, criam arrestas para o aparecimento em nossa sociedade
de estados paralelos, em especial um estado criminógeno oriundo da
comercialização de drogas. Diante dessa constatação temos como "solução¨
imediata a implementação de uma política anti-drogas de controle e repressão,
ineficaz, ao que se constata, em evitar o abuso de drogas. As diretrizes da
ONU em relação ao assunto, de 1995, afirmam que a ação não deve
concentrar-se apenas no usuário final, devendo ser atacados, isto sim, aqueles
que fomentam o tráfico e o submundo de criminalidade por ele gerado. Porém,
tratar o tráfico de entorpecentes com atividades desordenadas e abusivas para
coibir essa práticas criminosa gera conseqüências muito piores para a
sociedade em geral, como aumento da violência, violação dos direitos
humanos básicos e marginalização dos consumidores de drogas, dificultando,
assim, o acesso e ajuda a essa população. Para Paulo Sérgio Pinheiro, a
institucionalização da marginalidade pertence ao funcionamento do sistema e
serve para reproduzi-lo. Não é à toa que os indicadores sócio econômicos
brasileiros são parecidos com os da África do Sul. Para se manter a reprodução
de dominação, é preciso reproduzir a miséria. Não interessa ter um mercado
de 150 milhões de pessoas. Basta um mercado de 40 milhões - os que
consomem papel higiênico e sabonete - para manter as coisas como estão. Um
mercado de 40 milhões e um eleitorado de 82 milhões que ficam de fora do
mercado são administrados precariamente, com a ajuda das recompensas
ilusórias fornecidas pelos meios de comunicação. Entretanto, essa manipulação
que precisa da miséria para se legitimar - para que o Estado continue a não
dar respostas concretas no sentido da construção da cidadania e da
democracia- não tem uma eficiência tão perfeita assim, já que o Estado de
Direito só vale na medida em que ele inibe o arbítrio de quem tem poder, não
podendo ser só uma ilusão. O que se vê como bem comum, é o bem
particular dos detentores das decisões, veja, p. ex., o caso dos linchamentos,
os "justiçamentos espontâneos". Não são espontâneos, mas articulados por
alguém ligado ao aparelho de Estado ou à classe dominante. O "legalismo"
vigente ali está colado ao "ilegalismo" das classes dominantes. É a
"colombização" do Brasil, uma renúncia a qualquer controle legal da violência
física, que está se instituindo - e este é o fato novo - de forma articulada com
este Estado, que propicia um regime de exceção paralelo, permite todas as
instituições da violência - para usar uma expressão de Franco Basaglia -,
engendrou a tortura, mesmo nos períodos não-autoritários, engendrou os
justiceiros e os esquadrões da morte. Tudo isso, no Brasil, é criação do Estado.
Partindo dessas constatações, passaremos a analisar o ordenamento jurídico
penal sob a égide da Hermenêutica: em uma interpretação globalizada do
ordenamento jurídico-penal sobre crimes hediondos e assemelhados.
Observa-se que, quando uma regra jurídica é elaborada, e entra em vigor,
passa a integrar a ordem jurídica, como conjunto de normas ordenadas em
institutos e sistemas. Sua vigência e comandos se correlacionam com a
vigência e comandos das normas preexistentes, podendo, eventualmente,
umas influir sobre o sentido de outras, cabendo ao intérprete, em decorrência,
visualizar e compreender o conteúdo das várias normas, garantindo o
equilíbrio e a unidade do sistema jurídico. Nesta tarefa de descortinamento,
ajusta a norma à realidade, onde o Direito se impõe, com força que impera
sobre o modo de viver dos homens. (expressão de Fabrício Leiria) Dada a
interpretação da norma, fará-se-á uma sucinta abordagem em relação a
política anti-drogas, demonstrando que a tendência mundial mais sensata, no
momento, é não considerar o usuário como criminoso. A criminalização do
porte de drogas para uso pessoal vem sendo refutada por todos os
seguimentos acadêmicos e científicos avançados do planeta. As legislações
mais atualizadas (Espanha, Portugal, Suíça etc.) excluíram o usuário do âmbito
penal. Já não há espaço, dentro de uma política de redução de danos e de
riscos (que é a política européia, oposta à norte-americana), para a falida linha
da "War on Drugs" (Guerra às Drogas). Outro equívoco que já está
começando a ganhar corpo entre nós consiste na chamada Justiça Terapêutica
(também de linhagem americana). Pretende-se que todos os usuários sejam
submetidos a tratamento. É preciso distinguir o usuário dependente do não
dependente. O mero experimentador ou ocasional usuário não tem que se
submeter a nenhum tratamento, porque dele não necessita. O tratamento não
pode nunca ser visto como uma "pena" ou um "castigo". É apenas uma oferta
para recuperar o dependente. Descriminalizar a posse para uso próprio é mais
do que urgente. A política de mera despenalização era necessária, mas não foi
suficiente. Isso não significa legalizar as drogas, senão adotar uma política
educativa responsável (retirando-a, na medida do possível, do Direito penal).