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Saúde

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21 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, sábado, 22 de junho de 2013

Proteção conjunta contra o HIV
» ISABELA DE OLIVEIRA

Em casais formados por um parceiro soropositivo, o tratamento correto com antirretrovirais reduz em 96% o risco de contaminação pelo vírus da Aids, segundo estudo da Fiocruz. Ainda assim, especialistas recomendam o uso de preservativo

Para saber mais

N

o mesmo dia em que recebeu o diagnóstico de que tinha sido infectado pelo vírus HIV, Diego*, hoje com 28 anos, contou à então namorada. Havia três anos que ele estava com Lara*, da mesma idade. Durante o tempo, mantiveram relações sexuais sem camisinha. “Não havia conforto algum que eu pudesse oferecer. Eu ainda não sabia nada a respeito do meu estado de saúde — se minha carga viral era alta ou baixa, o que influencia nas chances de transmissão. Até o resultado do primeiro exame dela, que demorou 15 dias e veio negativo, eu não senti nada além de pura angústia. Foram os piores dias da minha vida”, conta Diego, que descobriu ser soropositivo em 2010. Essa situação não é exclusiva de Diego e Lara. Entre os muitos desafios da vida de um soropositivo, manter relações amorosas — principalmente com pessoas que não têm o HIV — parece ser um dos mais difíceis. Interessado em desvendar as vulnerabilidades enfrentadas por um casal sorodivergente, Nilo Martinez, psicólogo especialista em doenças infecciosas, desenvolveu durante quatro anos uma investigação com 17 casais de sorologias diferentes, sendo 13 heterossexuais e quatro homossexuais. No Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz, Martinez tentou entender melhor a realidade desses casais. E, segundo ele, as chances de contrair o vírus não são tão grandes se o portador tomar os medicamentos corretamente e conseguir manter baixa a carga viral. “O teste HPTN 052 comprovou que os antirretrovirais utilizados pelo parceiro soropositivo protegeram em 96% o parceiro soronegativo”, conta o psicólogo, que também foi integrante do grupo de pesquisa por trás desses testes em 2006 (Leia Para saber mais). Martinez concluiu que a maioria dos soropositivos soube que estava infectada pelo HIV a partir de exames em laboratórios privados. Eles também não tiveram o aconselhamento pré e pós-teste, conforme determina o Ministério da Saúde.“Alguns receberam o resultado por telefone e por e-mail, o que também está em desacordo com as regras oficiais. Além de causar problemas psicológicos e emocionais sérios, essa experiência afeta negativamente o entendimento da infecção pelo HIV, além da importância da prevenção secundária como forma de evitar a reinfecção com outras cepas virais”, destaca o pesquisador. A prevenção secundária envolve a administração correta dos antirretrovirais — o que vai garantir ao casal sorodivergente mais segurança na hora da relação sexual. Quando os medicamentos não são utilizados conforme indica a prescrição médica, o vírus pode ficar mais resistente e os remédios deixam de combater o processo de multiplicação do HIV. O infectologista do Laboratório Exame Alberto Chebabo explica que, com o tratamento antirretroviral eficaz, a quantidade de vírus na corrente sanguínea e nas secreções sexuais se reduz a níveis muito baixos. “Isso ocorre tanto no homem quanto na mulher, o que reduz o risco de transmissão durante o sexo.” Chebabo ressalta que, nessa condição, embora a chance de contrair o HIV seja pequena, ela existe. Por isso, recomenda-se o uso de preservativos. Esse é um ponto que o casal Karola* e Gil*, de 26 e 41 anos, sempre observou durante os três anos de casamento. Ele é soropositivo, ela não. “Não vou mentir,

Índice repetido
A pesquisa HIV Prevention Trials Network 052 (HPTN 052) foi realizada com casais heterossexuais e homossexuais em 2006 e publicada na revista científica Science em 2011. Foi financiada e implementada pelo National Institute of Health (NIH), dos Estados Unidos, e pela Fiocruz. O objetivo principal era avaliar a capacidade dos antirretrovirais utilizados pelos parceiros soropositivos de protegerem os parceiros soronegativos da infecção pelo HIV nas relações sexuais sem camisinha. O teste comprovou que os medicamente utilizados pelo parceiro soropositivo protegeram em 96% o parceiro soronegativo da infecção.

durou muito tempo, e não terminou por causa do HIV. Agora, solteiro, ele encontra algumas dificuldades em encontrar uma nova namorada. Chegou a se envolver com uma estudante de medicina e contou sobre o HIV antes de terem uma relação sexual. Ela reagiu bem à revelação, conta ele. Mas, ao longo das semanas, Diego começou a perceber algumas mudanças. “Ela foi ficando cada vez mais angustiada e dizia que não sabia como ia lidar com a situação”, lembra. Com Alexandre* eTiago*, a história não foi diferente. Tiago sempre teve problemas em aceitar a própria sexualidade e, quando soube que havia sido infectado pelo HIV, ficou ainda mais complexado. Alexandre quis continuar o relacionamento, mas o namorado preferiu o fim a correr o risco de infectar o parceiro. “Desde a data da descoberta, nunca mais tivemos uma relação completa ou um beijo. Estamos afastados há algum tempo. Embora eu o ame, ele não me permite estar ao seu lado”, lamenta Alexandre.

Gravidez
Karola e Gil não falam de rompimento. Ao contrário, pretendem dar um passo maior na relação. Eles sonham com um bebê, mas não têm condições de bancar os tratamentos de fertilização artificial com lavagem de esperma. No método, segundo a biomédica e embriologista Lilian Okada, o sêmen é processado por meio de um gradiente de concentração e, posteriormente, lavado para retirar todo o plasma seminal. O material é, então, criopreservado e passa por uma reação em cadeia da polimerase. Só depois, a amostra com carga viral negativa é liberada para uso. “Quando a mulher é soropositiva, o ideal para uma gestação com menor risco é que ela tenha um quadro clínico estabilizado, com carga viral indetectável. O tratamento com antirretroviral durante a gestação é indispensável”, completa Okada, especialista do Centro de Medicina Reprodutiva Fertilitat, no Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Karola e Gil preferem manter as dificuldades em segredo. Só quem sabe da soropositividade do marido é a mãe de Karola, que a apoia totalmente.“A família dele toda sabe, e alguns amigos íntimos dele também. Me admiram muito por eu não me importar com a sorologia dele. O amor vence tudo, inclusive o preconceito.” * Nomes fictícios a pedido dos entrevistados

Não vou mentir, tenho medo de me contaminar, mesmo sabendo da profilaxia pós-exposição. Sempre verifico a camisinha e meu marido também presta atenção para colocá-la corretamente”
Karola*, casada com um homem soropositivo

tenho medo de me contaminar, mesmo sabendo da profilaxia pós-exposição. Sempre verifico a camisinha e meu marido também presta atenção para colocála corretamente”, conta a blogueira, autora do site Karola Discorda, onde relata para outros casais sorodivergentes a experiência vivida por ela. Martinez ressalta que o uso de preservativos é aconselhado até mesmo para casais soronegativos. Relatos de alguns participantes da pesquisa, ressaltam o psicólogo, revelam como o cuidado básico ainda enfrenta resistência entre homens e mulheres. “Uma das entrevistadas descobriu a soropositividade durante a gravidez e com grande surpresa, porque confiava no parceiro estável. Ela

ainda recebeu o diagnóstico sem aconselhamento pré e pós-teste anti-HIV”, relembra.

Em segredo
A angústia de contar a soropositividade, segundo Martinez, é associada a sentimentos de medo, rejeição, abandono e perda do parceiro. “A revelação do diagnóstico teria o sentido de comunicar segredos ocultos de relações extraconjugais. Ela cria a sensação de que a doença se tornou pública e que o paciente está sendo observado pela multidão. Outro ponto importante é que revelar (a condição) teria o sentido de aceitação de fazer algo errado ou fazer parte de grupos de risco estigmatizados”, pontua o pesquisador.

Por isso, muitos preferem esconder a situação do parceiro. Na pesquisa, Martinez deparou-se com histórias de soropositivos que mentiam, dizendo que sofriam de doenças gastrointestinais crônicas. Eles arrancavam os rótulos dos remédios para que a pessoa com que se relacionava não soubesse o nome dos medicamentos ingeridos. Diego preferiu contar, apesar do medo da rejeição. “A reação dela inicial foi de pânico, porém, na mesma noite, depois de conversarmos com o médico clínico geral que prescreveu meu exame, ela estendeu a mão para mim e disse: ‘Estou do seu lado. Como você está?’”, relembra o rapaz, autor do blog Diário de um jovem soropositivo. O namoro de Diego

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