UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

ANDERSON LIMA DE OLIVEIRA

O “ESTOURO DE UM CABAÇO”: CRIME NO QUADRADO DE PIRRO (ARACAJU-SE, ANOS 30)

São Cristóvão 2012.2

ANDERSON LIMA DE OLIVEIRA

O “ESTOURO DE UM CABAÇO”: CRIME NO QUADRADO DE PIRRO (ARACAJU-SE, ANOS 30)

Monografia apresentada ao curso de História da Universidade Federal de Sergipe como requisito para obtenção do título de Licenciatura em História. Orientação: Prof. Msc. Claudefranklin Monteiro Santos.

São Cristóvão 2012.2

FICHA CATALOGRÁFICA

OLIVEIRA, Anderson Lima de O “Estouro de um Cabaço”: Crime no Quadrado de Pirro (Aracaju-SE, Anos 30) / Anderson Lima de Oliveira – São Cristóvão, 2012.2 114f. Il. Monografia (Licenciatura em História) – Departamento de História, Centro de Educação e Ciências Humanas. Universidade Federal de Sergipe, 2012.2 Orientador: Prof. Msc. Claudefranklin Monteiro Santos 1. História de Sergipe. 2. Aracaju. 3. Crime. I. Título.

DEDICATÓRIA

Dedico esta monografia a duas pessoas, Benilton Souza e a Telma Maria, que em nenhum momento mediram esforços para realização dos meus sonhos, que me guiaram pelos caminhos corretos, me ensinaram a fazer as melhores escolhas, me mostraram que a honestidade e o respeito são essenciais à vida, e que devemos sempre lutar pelo que queremos. A eles devo a pessoa que me tornei, sou extremamente feliz e tenho muito orgulho por chamá-los de pai e mãe. AMO VOCÊS!

“Fácil é vencer um coração de mulher; facilmente a paixão lhe ofusca a mente” (Safo, poetisa da época clássica da cultura grega)

AGRADECIMENTOS

Ao Deus, todo poderoso, pois, seu fôlego de vida em mim me foi sustento e me deu coragem para questionar realidades e propor sempre um novo mundo de possibilidades; À minha família, por sua capacidade de acreditar e investir em mim. Mãe, seu cuidado e dedicação foi quem deram, em alguns momentos, a esperança para seguir e por isso eu sempre me renderei aos seus pés. Pai, sua presença significou segurança e certeza de que não estou sozinho nessa caminhada. Tenho muito orgulho de vocês. Pais maravilhosos, sempre dispostos a compartilhar comigo os seus exemplos de amor; À Marcela, minha princesa, minha melhor amiga e verdadeira cumplice na arte de ser feliz, pessoa com quem amo partilhar a vida. Com você tenho me sentido mais vivo de verdade. Obrigado pelo carinho, a paciência e por sua capacidade de me trazer paz na correria de cada semestre; À minha querida avó materna que sempre me deu muito amor e carinho e com o seu jeitinho manso, torceu pela minha vitória através dos seus belos e apertados abraços e beijos; Ao meu Orientador, o Professor Doutorando Claudefranklin Monteiro Santos, pela dedicação e paciência que a mim foram despendidos durante esse período de orientação. Agradeço ainda por ter acreditado em meu projeto e por ter sido sempre tão humilde. Tudo isso permitiu que o trabalho nessa pesquisa tivesse um peso menor; Aos meus amigos, pelas alegrias, tristezas e dores compartilhas. Com vocês, as pausas entre um parágrafo e outro de produção melhora tudo o que eu tenho produzido na vida. Em especial ao meu grande amigo e primo Tony Ariston, ao amigo Ricardo Dias e a minha querida amiga Thaiane Natássia, são graças a pessoas como vocês que eu prossigo acreditando que amigos de verdade existem; Aos demais professores do curso que contribuíram para minha formação acadêmica e até mesmo pessoal. Em especial, o Professor Doutor Antônio Lindvaldo Sousa, pois, foi através das suas aulas na disciplina, Temas de História de Sergipe II, que nasceu o interesse pelo tema desta Monografia; Por fim agradeço a todas aquelas pessoas que, de forma direta ou indireta, me encorajaram, me apoiaram, deram conselhos relevantes para minha vida, se fizeram presente e jamais deixaram de acreditar na minha vitória.

RESUMO

O texto define-se como um trabalho de pesquisa com crimes de natureza sexual, em particular um caso de crime de defloramento, ocorrido na cidade de Aracaju - SE, em 1932, a partir das normas e regras, legitimadas nos discursos jurídicos, que envolvem as relações de gênero. Essa pesquisa se desenvolve numa constante tentativa de compreender os padrões morais que regiam a sociedade e as suas instituições, em relação à honra sexual da mulher e às representações sociais a cerca da fragilidade feminina. O texto é dividido em três partes, a primeira trabalha o crime e a sua natureza fascinante como objeto de estudo da historiografia, e faz reflexões sobre alguns crimes de defloramento. A segunda parte versa sobre um resumo histórico da cidade de Aracaju, descrevendo os passos estruturais da cidade, desde a sua fundação até as primeiras três décadas do século XX. Contextualizando o crime à sua época e consequentemente às condições sociais, políticas, morais e econômicas da cidade onde o mesmo ocorreu. A terceira parte apresenta uma análise de um caso em particular de crime de defloramento. O caso de Maria de Lourdes dos Santos.

Palavras-chave: Defloramento, Honra Sexual Feminina, Crime, Discurso Jurídico.

ABSTRACT

The text defines itself as a research with sexual crimes, in particular a case of defloration crime, which occurred in the city of Aracaju - SE in 1932 from norms and rules, legitimized in legal discourse, involving gender relations. This research develops a constant attempt to understand the moral standards that governed the society and its institutions, in relation to honor women's sexual and social representations about the fragility of women. The text is divided into three parts, the first works the crime and its nature as a fascinating object of study of historiography, and reflects on some crimes deflowering. The second part deals with a historical overview of the city of Aracaju, structural describing the steps the city since its founding through the first three decades of the twentieth century. Contextualizing the crime to his time and consequently to the social, political, moral and economic of the city where it occurred. The third part presents an analysis of a particular case of crime of deflowering. The case of Maria de Lourdes dos Santos.

Keywords: Defloration, Female Sexual Honor, Crime, Legal Discourse.

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Imagem oficial da degola do bando de Lampião – pag. 21

Figura 2 - Mapa da região da Cotinguiba – pag. 47

Figura 3 - Desenhos da Rua Direita e torres do Bonfim-Laranjeiras – pag. 47

Figura 4 - Mapa, esboçando a cidade de Aracaju, no ano de 1855 – pag. 51

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.......................................................................................................................10 CAPÍTULO 1 O CRIME NA HISTÓRIA: UMA DISCUSSÃO HISTORIOGRÁFICA.........................15

CAPÍTULO 2 SERGIPE NOS ANOS 1930: UMA HISTÓRIA DE ARACAJU.......................................46

CAPÍTULO 3 O CASO DE MARIA DE LOURDES DOS SANTOS........................................................ 75

CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................................106

FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...........................................................109

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INTRODUÇÃO

A presente pesquisa analisou um crime de defloramento de uma menor, ocorrido na cidade de Aracaju, no ano de 1932, como o seu objeto de pesquisa e principal fonte de estudo. Esse processo-crime encontra-se localizado no Arquivo Judiciário de Sergipe, anexo ao Fórum Gumercindo Bessa, no setor de pesquisa histórica e judiciária, preservado no Fundo – AJU – 2ª. Vara Criminal – Período (1908 – 1933) – Notação (Acervo 02 – Módulo IX) Número da Caixa – 01. E, a partir desse processo, a pesquisa buscou desvendar as contradições e os conflitos de gênero, existentes no interior de uma sociedade, subsidiados pelos discursos, do poder judiciário e dos agentes de polícia, com relação às hierarquias sociais e morais, predeterminantes dos papeis do homem e da mulher naquele meio de sociabilidade. Tomado como ponto de partida geral, o fascínio encantador trazido pelo crime ou pela natureza criminosa do seu autor, para a vida em sociedade, demos continuidade a pesquisa, tratando especificamente dos crimes sexuais, em especial o crime de defloramento. Através do crime de defloramento, ou melhor, através do seu registro enquanto crime, em um processo instaurado judicialmente ou mesmo a partir de um inquérito policial, iniciado através de uma queixa-crime, conseguimos perceber características de um povo, assim como é possível notar também como este mesmo povo é capaz de enxergar a sociedade que o rodeia. Além disso, o processo-crime é um documento que reflete muito do contexto histórico do qual uma sociedade está inserida. Em diferentes conjunturas históricas, os crimes e os seus devidos processos irão apresentar características, definições e elementos distintos. Esse estudo teve a intenção de demonstrar que os autos de um processo-crime podem ser vistos como um documento social que se encontra nutrido de valiosas informações referentes à determinada coletividade e ao meio histórico pertinente ao momento em que ele foi produzido. Ou seja, sustentado e limitado pelo seu próprio tempo histórico, essa pesquisa tornou-se indispensável quando se propôs a revelar, que através de um processo-crime, principalmente o de natureza sexual, é possível conhecer uma fração do cotidiano de homens e mulheres simples, evidenciando os sentimentos, as aspirações sociais, morais e econômicas desses personagens envolvidos, direta ou indiretamente no processo. Desvendando, ainda, as suas expectativas e esperanças em relação aos Poderes Públicos, legalmente constituídos. O Sociólogo Émile Durkheim, entende que o crime é um fator importante na compreensão da sociedade de cada época, ou seja, o crime se torna uma valiosa fonte de estudo pra se revelar

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uma comunidade social. De uma forma geral, o crime pode desempenhar um papel importante, funcional e útil nas transformações vividas ao longo dos tempos, no interior de uma sociedade, ou seja, direitos desfrutados hoje pela nossa sociedade contemporânea e orgulhosamente reproduzido por todos ou quase todos nós, já foram considerados atitudes criminosas e somente através da evolução das instituições moralizantes, essa mutação foi possível. Enfim, o desafio de analisar um crime ocorrido há mais de oitenta anos tornou a pesquisa bastante interessante. Ter tido contato com aquela realidade, com aquelas expressões e impressões, aquele linguajar, bastante diferente do falado nos dias de hoje, aqueles sentimentos, regras e padrões morais, tão distantes cronologicamente da atualidade, mas tão incrivelmente próximos, devido as emoções contidas nas palavras, escritas no documento e transportadas para o leitor-pesquisador, mesmo que essas sensações tenham sido sentidas através daquele velho papel, utilizado subjetivamente como fonte principal da pesquisa, foi extremamente estimulante para a minha função e profissão de historiador, pois, esse é um dos momentos em que o pesquisador quase que é teletransportado para aquela realidade estudada, como num passe de mágica. E assim, todo o trabalho desse pesquisador foi desenvolvido, em cima dessa e daquelas fontes, tentando enxergar, reconstruir e entender a vida dos participantes do conflito e o seu tempo, buscando as suas razões e justificativas das suas ações, reações e emoções. O trabalho de pesquisa tornou-se o prazer de pesquisar. Além do processo-crime de defloramento, como um documento oficial, produzido pelo Poder Público e utilizado como fonte principal para essa pesquisa, outras fontes foram estudadas e analisadas para a construção desse trabalho. Essas fontes em sua grande maioria trataram de crimes de natureza sexual, principalmente os crimes de defloramento. Para melhor entender a natureza desses crimes sexuais, seus conceitos, definições e o termo defloramento, utilizamos, dentre outros, o estudo da pesquisadora norte-americana Sueann Caulfield, que teve sua obra amplamente citada e debatida, inclusive, nas obras de outros pesquisadores, utilizadas também como fontes para esse estudo. Para a pesquisadora, adepta aos preceitos da História Social, era importante desvendar como a sociedade e o seu Poder Judiciário lidavam com as mulheres desonradas, isto é, como essas jovens mulheres, vítimas de violência sexual ou moral eram compreendidas pelo discurso jurídico e como esse mesmo discurso influenciava e interferia no cotidiano da população. A obra da pesquisadora comprova que os processos criminais de defloramento constituem um rico guia para a demarcação dos

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caminhos e das práticas de lazer e sociabilidade entre os jovens trabalhadores do Rio de Janeiro dos anos 1920 e 1930. Temas como fragilidade, moralidade e honra sexual feminina foram amplamente debatidos. A pesquisa de João Valério Scremin propiciou a este estudo suscetíveis interpretações sobre a natureza e composição morfológica do hímen e consequentemente sobre a definição de virgindade, a partir da ótica da medicina-legal e dos seus agentes, nos crimes de defloramento. O historiador Boris Fausto, embasou os seus estudos sobre o tema numa forte crítica àquela sociedade de outrora, que claramente defendia, em seus exames de corpo de delito, o culto ao hímen e à virgindade e honra sexual feminina. Associando a virgindade física das jovens moças à sua moralidade social. A estudiosa Fabíola Rohden buscou condicionar os conceitos, ideias e valores relacionados a honra sexual feminina à reprodução dos modelos de família, tradicionalmente defendidos pelas elites, sustentadores da expansão das ideologias nacionalistas no país. Diversos artigos que versaram sobre o tema defloramento foram utilizados como fontes, as revistas do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, desde a sua primeira publicação, no ano de 1912, a partir das suas versões digitalizadas, também serviram como fonte para a contextualização e ambientalização do objeto de estudo, ou seja, na adequação do crime ao seu cenário histórico próprio, no decorrer da pesquisa. Sites da internet que versavam sobre crimes na história ou crimes especificamente sexuais foram consultados e cuidadosamente também utilizados como fontes. Esse estudo foi construído sob a influência dos conceitos e práticas da História Social. Essa modalidade e especialidade de pesquisa historiográfica prima pelo trato do saber histórico, a partir de objetos de pesquisa que estão fora do mundo das elites e intimamente inseridos naquelas classes menos favorecidas, concedendo o papel principal da trama histórica, também, para as classes inferiores. Hoje as principais fontes relacionadas à História Social chegam ao conhecimento do Historiador por meio dos registros policiais, inquéritos e processos-crime em arquivos judiciais, ou seja, essa fonte é construída, principalmente, a partir do cometimento de algum ato violento ou criminoso, coletivo ou individual. Constituindo um possível objeto de estudo e fonte para compreensão social da época quando ocorreu o delito ou quando os envolvidos foram tocados pelo poder público, ou seja, pela justiça e pelos seus agentes.

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Enfim, essa pesquisa se dividiu em três capítulos. No primeiro capítulo, intitulado, O Crime na História: Uma Discussão Historiográfica, a pesquisa tentou demonstrar a natureza sedutora que o crime possui quando alimentado pela mente humana. Nesse capítulo houve uma tentativa de exemplificar o envolvimento emocional da humanidade, ao longo dos tempos, com o crime. E por isso importantes crimes que abalaram o mundo de uma forma geral, mesmo em seu caráter local, nacional e até internacional, foram resumidamente descritos nesse primeiro capítulo, provando que uma conduta criminosa e moralmente considerada desviante pela sociedade que a cerca, é uma preciosa fonte de atração de paixões, desejos e mistérios, a serem exaustivamente descobertos e inebriadamente compreendidos pela humanidade. Ainda nesse capítulo, houve um primeiro contato com o tema sobre crimes sexuais, e mais especificamente com os crimes de defloramento. Nessa parte, mais especificamente, a principal proposta do capítulo foi entender a sociedade e os seus padrões morais, em torno das representações sociais da figura feminina, impostas pelos detentores do poder político, econômico e judiciário. No segundo capítulo, intitulado, Sergipe nos anos de 1930: Uma História de Aracaju, o texto foi concentrado na constituição da cidade de Aracaju como capital do Estado de Sergipe e na sua posterior evolução social, política e econômica, fazendo uma contextualização histórica de Aracaju, desde a sua fundação até as três primeiras décadas do século XX. Nesse capítulo a preocupação principal foi fazer um apanhado histórico da cidade de Aracaju, demonstrando as causas da mudança da capital, as razões da escolha de Aracaju e posteriormente revelando os projetos de construção, estruturação e evolução urbana, contemplados pela cidade, a partir do “Quadrado de Pirro”. Sem deixar de mencionar as condições precárias vividas pela maioria da população aracajuana, em profunda contradição com o discurso modernizador das elites sergipanas, beneficiando somente alguns poucos habitantes e excluindo a maioria dos moradores da capital. Nesse capítulo também foi descrito relatos sobre o movimento operário em Sergipe e sobre os envolvimentos dos militares sergipanos e a participação da população, em geral, em sedições de caráter político-nacional, como por exemplo, a Revolução de 1930. Já no terceiro e último capítulo, intitulado, O Caso de Maria de Lourdes dos Santos, realizou-se a análise do principal objeto de estudo dessa pesquisa, o processo-crime de defloramento. Antes de adentrar no conteúdo desse capítulo, ressalto que, esse foi o mais difícil e delicado de se produzir. Essa dificuldade se deu devido à complexidade envolvida no

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trabalho de analisar um processo-crime com a visão de um historiador e não de um espectador, que toma conhecimento de um crime pela imprensa ou pelos amigos. Procurando analisar de forma clara e coerente, esse terceiro capítulo buscou demonstrar todos os passos do processo-crime, desde a sua inicial posição de inquérito policial, na efetuação da queixacrime na delegacia, até a sua finalização com o auto de prisão, constituído na audiência, em juízo. Houve uma preocupação em descrever, literalmente, os testemunhos dos principais envolvidos no caso, para a análise transcorrer da forma que facilitasse a compreensão do leitor. E mais, foi necessário buscar maiores conhecimentos nas fontes que tratavam sobre o mesmo tema, para conseguir desvendar as prováveis contradições e intrigas envolvidas nas entrelinhas dos discursos dos envolvidos no processo, inclusive os dos agentes públicos.

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CAPÍTULO I O CRIME NA HISTÓRIA: UMA DISCUSSÃO HISTORIOGRÁFICA

A humanidade, no decorrer dos tempos históricos, esteve quase que constantemente e efetivamente envolvida na resolução de conflitos sociais. Ora comprometida com a defesa de suas terras e expansão territorial, ora com a defesa de suas ideias e expansão moral e religiosa, ou mesmo com a defesa de sua economia e mesmo de uma expansão cultural. Dentre outras defesas e comprometimentos, a humanidade usou, a princípio, a sua força física como principal arma na resolução dos seus problemas. Isto é, os homens resolviam as suas desavenças, entre si, com as suas próprias mãos e isso possivelmente gerava mais desentendimentos. Somente com o passar dos tempos e com o desenvolvimento das civilizações e no estabelecimento e evolução das instituições políticas e burocráticas que as atividades conflituosas passaram a ser reprimidas, controladas e solucionadas pelo Estado e somente através deste, caracterizadas como crime, sendo passíveis de penalidades. A atividade considerada criminosa é uma das principais preocupações da humanidade ao longo dos tempos. O crime, sendo uma ação exclusivamente do comportamento humano, está presente nas mais remotas histórias, lugares e tempos do globo terrestre. Pode vir à tona como causa e/ou consequência de outros acontecimentos, despertando intrigas, causando vinganças, prazeres e paixões. Visto, não raramente, como um comportamento social desviante, o crime muitas vezes foi associado à desordem e a pobreza, embora, ocorresse nas mais diversas classes sociais e ordens econômicas. Legitimando essa linha de raciocínio, sobre o crime, Émile Durkheim registrou que:

O crime não se observa apenas na maior parte das sociedades desta ou daquela espécie, mas em todas as sociedades de todos os tipos. Não há nenhuma onde não exista uma criminalidade. Esta muda de forma, os atos assim qualificados não são os mesmos em toda parte; mas, sempre e em toda parte, houve homens que se conduziram de maneira a atrair sobre si a repressão penal1.

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DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Coleção Tópicos). p. 66-67.

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O Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis, em sua versão on line, define o “cri.me sm (lat crimen) 1. Dir Violação dolosa ou culposa da lei penal. 2 Sociol Violação das regras que a sociedade considera indispensáveis à sua existência. 3 Infração moral grave; delito2”. Sendo considerado um comportamento que desafia as regras impostas socialmente, o crime é caracterizado vulgarmente como um ato que viola uma norma moral, visto formalmente, como uma violação à lei penal incriminadora, e materialmente, como uma ação ou omissão que se proíbe. Ou seja, através dos tempos, é possível encontrar comportamentos humanos que foram considerados criminosos em determinadas sociedades e em outras eles não tiveram esse mesmo enquadramento social. Isto é, embora a definição das condutas como criminosas diferissem de um tempo para outro, demonstrando uma transformação moral na definição de crime dentro da sociedade, as supostas evoluções das civilizações, de inferiores para superiores, numa constante busca pela modernidade, não extinguiram o crime do seu seio social, pelo contrário, aumentaram a sua incidência à medida que a sociedade se tornava mais complexa e desenvolvida, pois os crimes são caracterizados diante das maneiras de viver e dos costumes das diferentes organizações sociais e definidos como tal, a partir de cada uma delas. Buscando novamente o entendimento do Sociólogo, de acordo com Durkheim:

O crime é portanto necessário; ele está ligado às condições fundamentais de toda vida social e, por isso mesmo, é útil; pois as condições de que ele é solidário são elas mesmas indispensáveis à evolução normal da moral e do direito.3

E por ser compreendido como inevitável, embora lastimável, o crime é entendido como um mal necessário e por isso um regulador social. A partir dessas análises e afirmativas constatamos o forte apelo sentimental que um ato delituoso traz para a vida das pessoas, estando elas direta ou indiretamente envolvidas com essa conduta. Ou mesmo para aquelas pessoas que somente ouviu falar de tal crime, dias, anos ou séculos depois dele ter ocorrido. Não importa se a repercussão desse crime rendeu ao

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Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php, acessado dia 05/01/2013 às 12h22min

DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Coleção Tópicos). p. 71.

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mesmo uma fama local, regional, nacional ou mesmo internacional, não raramente, uma atitude transgressora e criminosa desperta mistérios, curiosidades e representações no imaginário individual e coletivo das pessoas. As pessoas sentem a necessidade de entender as razões, os porquês, o que propiciou o cometimento do crime, quais foram as suas consequências, o que sentiu o autor do crime naquele exato momento e quando todas essas expectativas não são atingidas os seus apelos sociais são frustrados, pois, na maioria das vezes, para os espectadores, os crimes precisam fazer e ter algum sentido, embora, geralmente não apresentem nenhum. Essa fascinação da humanidade pelo que é proibido, combatido ou vigiado é devidamente representada nos diversos relatos históricos que envolveram crimes e que por sua importância e representação histórica, ecoaram através dos tempos até os ouvidos dos habitantes da contemporaneidade. Histórias como essas são contadas e recontadas sobre os mesmos crimes sempre que algo novo é descoberto, novas análises são realizadas, aniversários são comemorados, ou novos estudos e novas publicações são feitas. Contudo, apesar das boas investidas da História Cultural e da Micro-História, dois importantes e recentes campos da historiografia, que primaram por estabelecer suas pesquisas, focando a história dos esquecidos, do cotidiano dos homens e mulheres simples, dando voz àqueles grupos vulneráveis e aos seus pequenos, mas importantes, feitos sociais, a historiografia tradicional positivista influenciou poderosamente, durante um longo período, as escolhas dos objetos de estudo dos historiadores e principalmente as suas fontes, tendo como consequência uma enorme quantidade de estudos históricos que priorizaram os grandes acontecimentos, inseridos na vida dos grandes homens e heróis, como reis, guerreiros, papas e aventureiros, ou seja, a história dos grandes nomes. Sendo assim, é inevitável que a história dos grandes crimes, dos grandes réus e das grandes vítimas chegasse mais facilmente ao conhecimento da humanidade e ao trato do saber histórico, pois, esses crimes, embora, muitas vezes estejam separados por longínquos períodos de tempo dos seus pesquisadores e estudiosos, não são imunes, sob os olhos atentos dos historiadores, à reconstruções, análises e interpretações das diversas e preservadas fontes que chegaram ao conhecimento do pesquisador. É a partir dessa primazia das grandes histórias que através dos tempos foi selecionado, intencionalmente, diversos crimes que ganharam projeção social, e sendo assim, conseguiram uma determinada fama, uns por terem no interior do seu envolvimento algum personagem de destaque, outros pela violência utilizada no cometimento do crime. E mais, crimes que

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acabaram por deixar réus e/ou vítimas e/ou testemunhas famosas, por se tratar de algum acontecimento que atraísse as atenções da plateia mais próxima ou daquela mais distante. Crimes e as suas histórias envolventes, entorpecendo os leitores, espectadores ou testemunhas, produzindo sedução e suposições na humanidade, definindo uma época ou uma nação, desvendando conspirações políticas e econômicas, declarando a ambição e irracionalidade, ou mesmo racionalidade dos homens. Enfim, os crimes que tiveram grande importância na humanidade, qualquer que fosse ela, chegaram e permanecem bem vivos na imaginação e mentalidade da população, contribuindo para a construção e reconstrução das suas identidades morais e sociais. Por isso mesmo, faz-se necessário, para o prosseguimento desse estudo, relembrar alguns crimes e/ou mortes que marcaram a opinião pública em caráter local, nacional ou mesmo internacional. O ano foi de 1906 e o movimento ficou conhecido como a Revolta de Fausto Cardoso e marcou a história política de Sergipe. Fausto de Aguiar Cardoso nasceu em 22 de dezembro de 1864, no Engenho São Felix em Divina Pastora, Sergipe. Formou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde se tornara discípulo de Tobias Barreto. Em maio de 1890, Fausto, transfere-se para o Rio de Janeiro, então capital federal, onde ocupou diversos cargos. No seio político, foi eleito deputado federal por Sergipe de 1900 a 1902 e de 1906 a 1908, sendo que este último mandato não foi concluído. Destacou-se por combater duramente o poder das oligarquias brasileiras, acusando-as do empobrecimento do país. Segundo a Professora Doutora Terezinha Alves de Oliva, em entrevista dada ao Portal Infonet, no ano de 2003, por ocasião das proximidades do centenário da revolta, sob o título “Fausto Cardoso: de herói de Aracaju a mito esquecido”, para entender a luta pela liberdade, proferida por Fausto Cardoso:

é preciso lembrar que a República iniciou-se no Brasil como um movimento oligárquico, no contexto do coronelismo, dominado então por grupos que se perpetuavam no poder e ganhavam sucessivamente as eleições. [...] E em Sergipe o primeiro grande grupo oligárquico na República é o liderado pelo monsenhor Olympio Campos. E Fausto Cardoso, que se elegeu inicialmente aliado ao grupo de Olympio, rompe com este e retorna à Câmara Federal como oposição a oligarquia. Por isso, quando ele vem a Sergipe, vem numa espécie de desafio. Ele alega que é para agradecer a eleição, a vitória, mas é claro que ele vem desafiar o poder que mandava em Sergipe. Diante disso, quando ele chega ao Estado já encontra uma revolta preparada pelos seus partidários, essa revolta queria derrubar a oligarquia olympista, isto é, o

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governo do desembargador Guilherme Campos, irmão do Monsenhor Olympio Campos.4

A Revolta eclode dia 10 de Agosto de 1906 e se espalha por todo o Estado. Os revoltosos e os seus apoiadores tomam o Palácio do Governo e a Assembleia Legislativa, expulsando os deputados e forçando a renúncia do Governo e do seu vice, instaurando um novo Poder em Sergipe, através do Partido Progressista. Contudo, esse novo governo só duraria exatos 18 dias, pois, após o levante, apoiado pela polícia e pelos simpatizantes de Fausto Cardoso, no dia 28 de Agosto de 1906, Sergipe é invadida por tropas federais vindas para o Estado com o intuito de recompor o Poder destituído pelos revoltosos. Fausto Cardoso, confiante da sua popularidade e prestígio político, buscou enfrentar, solitariamente, as tropas federais, intencionando convencê-las das necessidades e urgências daquelas atitudes reivindicatórias. No entanto, não houve entendimento por parte do Exército que, no Palácio do Governo, alvejou mortalmente, com um tiro no peito, o nobre deputado federal Fausto Cardoso, finalizando assim, a sua curta Revolta. A professora Terezinha Alves de Oliva, em entrevista ao portal infonet, assim resume o acontecimento:

Então, isso é que foi a Revolta de Fausto Cardoso, um movimento que pretendeu derrubar a oligarquia Olympio Campos baseando-se no prestígio popular e político de Fausto Cardoso, que era amigo do presidente da República, gozava de um grande prestígio no Rio de Janeiro e em outros locais do país. Foi isso o que deu confiança aos seus partidários. [...] Sergipe ficou profundamente ferido e tocado com esse movimento e a política se dividiu em grupo que vai, usando uma agressividade muito grande, durante o restante da primeira república.5

Como Senador da República, Olympio Campos usou de toda a sua influencia para combater, através do Governo Federal, a Revolta de Fausto Cardoso, findando na morte do deputado. Com a morte de Fausto Cardoso não cessaram as fortes divergências ideológicas entre os seus partidários e os do Padre Olympio Campos, os olympistas. Esse crime cometido contra Fausto Cardoso traria posteriormente sentimentos de vingança para com os olympistas

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OLIVA, Terezinha. “Fausto Cardoso: de herói de Aracaju a mito esquecido”. In: http://www.infonet.com.br/cidade/ler.asp?id=19742&titulo=cidade, acessado dia 05/01/2013, às 17h:42min.
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OLIVA, Terezinha. “Fausto Cardoso: de herói de Aracaju a mito esquecido”. In: http://www.infonet.com.br/cidade/ler.asp?id=19742&titulo=cidade, acessado dia 05/01/2013, às 17h:42min.

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e principalmente contra a figura do padre. E foi no dia 9 de novembro de 1906, incompletos três meses da morte de Fausto Cardoso, que ao sair de mais uma sessão do senado federal, na cidade do Rio de Janeiro, nas imediações da Praça 15 de Novembro, que o padre Olympio Campos foi duramente agredido pelos dois jovens filhos de Fausto Cardoso, chamados Armando e Humberto, e alvejado por diversos disparos que o atingiram mortalmente. E assim, mais uma vez, de maneira trágica, é finalizada, a figura histórica de um importante político sergipano no cenário nacional. As repercussões sobre essas mortes foram tamanhas que não só chocaram a vida sergipana, como também prenderam a atenção da Nação para o pequeno Estado de Sergipe. Sobre a divulgação e reconhecimento dos crimes, o escritor Acrísio Tôrres descreve:

“Basta de sangue”, dizia, em editorial, descrevendo os lutuosos acontecimentos, a Gazeta do Povo, da Bahia. Não apenas pela proeminência do morto, como pela lembrança ainda viva dos trágicos sucessos de agosto, a notícia abalou a opinião pública, em Sergipe. Não só em Sergipe, também no Brasil. [...] E Rodrigues Alves, presidente da república, lamentava que “mais esta desgraça se dê em meu governo”. [...] Declarava Coelho e Campos que “a fatalidade parece haver aberto as asas sobre Sergipe”. Dizia Oliveira Valadão que nada justificava o “tresloucado assassinato”.6

Outro importante crime fez novamente o Estado de Sergipe ser lembrado no cenário nacional e mais, mexeu bastante com a imaginação da população na época do ocorrido e ainda povoa a memória coletiva sergipana e nacional. A violenta morte de Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, o Rei do Cangaço. Lampião nasceu na atual cidade de Serra Talhada, no Estado de Pernambuco, provavelmente no dia 4 de Junho de 1898. Vivendo no Sertão, castigado por secas prolongadas, sua vida foi marcada por constantes desigualdades sociais. Legitimando essas injustiças, estava a figura do poder vigente, ou seja, o Coronel e a sua política de dominação, o Coronelismo. Essa política, através de uma exploração constante, dificultava a melhoria das condições de vida da população sertaneja, contribuindo para que os jovens se aventurassem numa vida de crimes e delitos, tentando sobreviver ao sertão nordestino. Perdeu o pai, morto por conflitos entre famílias rivais, favorecendo, como forma de buscar uma vingança ou mesmo uma fuga daquela situação de

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TORRES, Acrísio, “Cenas da Vida Sergipana 2 - SERGIPE/CRIMES POLÍTICOS, I”, Brasília: Editora Thesaurus, 1999. pp. 15-17

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miserabilidade, a sua entrada para o Cangaço. Esse enorme quadro de injustiças e miséria do povo do sertão propiciaram o banditismo como alternativa. O banditismo social é visto como fator preponderante e aglutinador para a criação e proliferação de bandos de cangaceiros pelos quatro cantos do sertão do nordeste brasileiro. Ora esses bandos faziam o papel de mocinhos, enfrentando os grandes fazendeiros e coroneis, ajudando a população pobre e distribuindo alimentos, ora se apresentavam de bandidos, estuprando, roubando e matando. Enfim, a conturbada trajetória do famigerado Lampião chegava ao fim no dia 28 de Julho de 1938, onde ele, a sua companheira Maria Gomes de Oliveira, chamada Maria Bonita e os outros cangaceiros do seu bando foram surpreendidos pela volante, como era chamada a polícia na época, em um dos seus mais seguros esconderijos, a Grota do Angicos, no Município de Poço Redondo em Sergipe, nas margens do Rio São Francisco. Lampião, Maria Bonita e outros noves cangaceiros foram mortos e tiveram as suas cabeças arrancadas e expostas como trofeus por diversas cidades e lugares do nordeste brasileiro. Demonstrando o alto grau de violência utilizado pela polícia daquela época. Numa dessas exposições foi tirada uma fotografia das cabeças dos onze integrantes do bando mortos, incluindo Lampião e Maria Bonita. Na ocasião, a exposição das cabeças degoladas foi feita na escadaria da Prefeitura de Piranhas, em Alagoas.

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Retratos do cangaço: Imagem oficial da degola do bando de Lampião. Cf. CASTRO, José, in: ''Ciclo do Cangaço'', Memórias da Bahia, vol. 4, Empresa Baiana de Jornalismo, Salvador, 2002.

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Hoje, histórias, contos e causos ainda passeiam pela memória da população nordestina, principalmente. A história de Lampião virou quase que uma Lenda do Sertão. Fala-se de tesouros enterrados por ele e até mesmo que ele estaria vivo, com mais de 100 anos e vivendo no interior de Pernambuco, segundo Matéria publicada na edição 135 da revista, (Os Caminhos da Terra: 1998). Por ocasião do aniversário de sua morte, missas, festejos e exposições são realizados, em diversas cidades nordestinas, homenageando a sua memória. Deslocando um pouco mais os crimes, de um caráter local e até regional, agora, para um caráter de importância e propagação nacional, propriamente dita, registra-se a necessidade de um breve relato sobre a morte do então Presidente da República do Brasil Getúlio Vargas. Morte, essa, que chegou até os dias de hoje, oficialmente, como um suicídio, mas que já fez parte de diversas interpretações, pesquisas e mistérios sobre um possível homicídio, principalmente no imaginário popular. Reconhecido como o “pai dos pobres”, a morte de Getúlio Dornelles Vargas causou uma imensa comoção pública. Sendo muitas vezes incompreendido por seu forte discurso nacionalista e populista, o seu governo se tornou insustentável, devido às pressões de importantes e conservadores setores da sociedade. Vargas sentia-se obrigado a abandonar a Presidência, principalmente após o atentado, cometido pelo chefe de sua guarda pessoal, contra um dos seus maiores opositores, o jornalista Carlos Lacerda, pois a culpa pelo atentado, popularmente, havia recaído sobre os já cansados ombros do Presidente. Getúlio Vargas, em seus últimos dias passava por um profundo isolamento político e oficialmente buscou o refúgio da morte, pois na manhã de 24 de Agosto de 1954, com um tiro no peito, o Presidente havia cometido o suicídio. Histórias fantasiosas ou mesmo criativas são encontradas aos montes sobre essa tragédia brasileira. Uma delas se dá através de uma conhecida vedete brasileira, chamada Virgínia Lane, que no ano de 2007 concedeu uma entrevista a Roberto Canázio, da Rádio Globo, declarando ter sido amante, por 15 anos, de Getúlio Vargas e que ele teria sido assassinado, pois ela estava no quarto do Presidente no momento da sua morte e teria testemunhado tudo. Segundo a vedete:

Eram quatro homens de máscaras que atiraram nele. Dois deles ainda correram para o Jardim, tiraram minha roupa, me deixaram nua em pelo e disseram “vai, vagabunda, vai arrumar outro presidente”. Vou contar toda essa história no livro que estou escrevendo, “Sua Excelência, a vedete viu”.

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Sou uma testemunha viva da morte de um homem com quem não tive um casinho, não. Passei quinze anos dormindo e acordando com ele.8

Suicídio ou homicídio? É possível perceber, na criatividade desse relato, a fascinação pelo crime e consequentemente a paixão pelos seus mistérios obscuros e pelas suas sombrias razões, decifrados somente e através da fértil imaginação humana. Ainda no Brasil, um acontecimento mais recente chocou primeiramente os fãs das telenovelas brasileiras e posteriormente abalou todo um país. O brutal assassinato da jovem atriz Daniella Perez, filha da escritora Glória Perez. Daniella era uma bela jovem, talentosa, fazia no ano de sua morte, em 1992, um enorme sucesso interpretando a personagem Yasmin na novela global “De Corpo e Alma”, a época, a atriz contava somente com 22 anos, mas despontava de maneira promissora na carreira artística. A sua personagem contracenava romanticamente com Bira, personagem vivido pelo ator e um dos autores do crime Guilherme de Pádua. Na trama global Bira era um personagem obcecadamente apaixonado e possessivo em relação à Yasmin. O caso parou todo um país em busca de respostas, principalmente por se tratar de atores famosos e por isso a população não acreditava no que estava acontecendo. Aquilo era real? Seria a vida imitando a arte? Daniella foi assassinada com 18 golpes de um objeto perfurocortante que atingiram o seu coração, pulmão e o seu pescoço. Guilherme de Pádua posteriormente foi preso juntamente com a outra autora do crime, a sua esposa Paula Thomaz. Por se tratar de um crime que teve uma forte cobertura da imprensa nacional, Guilherme, tenta, em seu depoimento a polícia, desacreditar moralmente a imagem da vítima, declarando que Daniella, então casada com o também ator Raul Gazolla, o assediava constantemente. Segundo Guilherme, ele teria matado a jovem atriz acidentalmente quando tentava separar uma briga iniciada por ciúmes entre Daniella e a sua esposa Paula e a ideia de dar golpes perfurantes no corpo da atriz, teria sido dada pela sua esposa, Paula Thomaz, para que parecesse um crime cometido por um fã alucinado. Posteriormente os testemunhos dos dois réus foram modificados, passando, agora, um a acusar o outro da autoria do crime, numa tentativa fracassada de se livrarem da culpa. Os réus foram julgados e sentenciados, respectivamente, a

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Entrevista que a vedete Virgínia Lane concedeu ao jornalista Roberto Canázio, da Rádio Globo, no último dia de Carnaval do ano de 2007. Áudio da entrevista (http://www.youtube.com/watch?v=BSuct9m2VQY, acessado dia 08/01/2013, às 15h05min).

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dezenove e dezoito anos de prisão, o julgamento de Paula teve transmissão ao vivo pela televisão. Contudo, ambos saíram da cadeia antes de cumprirem sete anos de prisão, causando muita indignação pública. Recentemente foi veiculado pela imprensa que o ex-ator Guilherme de Pádua havia recebido cerca de dezoito mil reais para dar uma entrevista ao jornalista Marcelo Rezende, no programa da TV Record, “Domingo Espetacular” que foi ao ar dia 09/12/2012. Sobre esse fato a escritora Glória Perez, mãe da atriz assassinada, se pronunciou, dando uma entrevista ao jornal “Diário de São Paulo”, no dia 20/12/2012, onde numa das passagens da entrevista, ela relata:

Existe mesmo muita afinidade entre uma emissora que por audiência faz 'louvor' a um assassinato covarde e cruel, propõe a idolatria de um psicopata que, por vingança, por achar que estava sendo prejudicado numa novela, emboscou minha filha, a apunhalou 18 vezes, atirou seu corpo num matagal e foi na mesma noite prestar condolências à nossa família! Eles se entendem. Eles se merecem. Farinhas do mesmo saco.9

Através do trecho dessa entrevista fica evidente a revolta da escritora em relação à emissora de televisão, TV Record. Segundo, Glória Perez, a emissora estava se utilizando de um crime bárbaro, ocorrido há cerca de 20 anos, para atingir um ganho econômico a partir da audiência da população. O jornal “Diário de São Paulo – ON LINE”, assim se manifesta em relação às repercussões da entrevista dada por Guilherme de Pádua a TV Record: “A matéria, que deu a emissora o primeiro lugar de audiência, gerou muitos comentários negativos em redes sociais e críticas de diversos colunistas de TV. A emissora foi chamada de sensacionalista, indigna e equivocada”10. Falar sobre o grau de fascinação que o crime traz para a pacata vida cotidiana da população se torna fácil de ser medido quando a realidade se esbarra com um caso como esse. A população, chocada uma primeira vez com a morte da atriz, é novamente transportada para o ano de 1992, se chocando uma segunda vez, através da entrevista dada pelo assassino Guilherme de Pádua, agora em 2012. Fica evidente a demonstração de poder que uma atitude

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Entrevista concedida por Gloria Perez ao jornal “Diário de São Paulo”, no dia 20/12/2012. (http://atarde.uol.com.br/cultura/materias/1474243-em-entrevista-gloria-perez-critica-a-record-apos-reportagem, acessado dia 08/01/2012, às 17h57min).
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Fonte: O jornal “Diário de São Paulo – ON LINE”, publicado dia 11/12/2012 (http://diariosp.com.br/noticia/detalhe/39711/Entrevista+com+assassino+revolta+Gloria+Perez, acessado dia 08/01/2012, às 18h15min)

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criminosa possui e mais, fica clara, a grande proporção tomada por esse poder quando sustentado por uma imprensa espetaculosa e também comprometida com o fascínio que o crime produz nas pessoas. A Nação assistia indignada, embora, atenta a cada palavra do assassino. Sobre a necessidade social do crime, Durkheim registra:

[...] o próprio crime pode desempenhar um papel útil nessa evolução. Não apenas ele implica que o caminho permanece aberto às mudanças necessárias, como também, em certos casos, prepara diretamente essas mudanças. Não apenas, lá onde ele existe, os sentimentos coletivos encontram-se no estado de maleabilidade necessário para adquirir uma forma nova, como ele também contribui às vezes para predeterminar a forma que esses sentimentos irão tomar. Quantas vezes, com efeito, o crime não é senão uma antecipação da moral por vir, um encaminhamento em direção ao que será! De acordo com o direito ateniense, Sócrates era um criminoso e sua condenação simplesmente justa. No entanto seu crime, a saber, a independência de seu pensamento, era útil, não somente à humanidade, mas à sua pátria. Pois ele servia para preparar uma moral e uma fé novas, das quais os atenienses tinham então necessidade, porque as tradições segundo as quais tinham vívido até então não mais estavam em harmonia com suas condições de existência. Ora, o caso de Sócrates não é isolado; ele se reproduz periodicamente na história. A liberdade de pensar que desfrutamos atualmente jamais poderia ter sido proclamada se as regras que a proibiam não tivessem sido violadas antes de serem solenemente abolidas. Entretanto, naquele momento, essa violação era um crime, já que era uma ofensa a sentimentos ainda muito fortes na generalidade das consciências. Todavia esse crime era útil, pois preludiava transformações que, dia após dia, tornavam-se mais necessárias. A livre filosofia teve por precursores os heréticos de todo tipo que o braço secular justamente perseguiu durante toda a Idade Média, até as vésperas dos tempos contemporâneos.11

Outro crime que chamou a atenção da imprensa brasileira foi cometido com a participação de três personagens e conhecido como o Caso Richthofen. Suzane Louise Von Richthofen foi acusada de ter planejado a morte dos próprios pais, o engenheiro Manfred Albert Freiherr Von Richthofen e a psiquiatra Marísia Von Richthofen, com a ajuda do, então, namorado Daniel Cravinhos e de seu irmão, Christian Cravinhos. De acordo com a promotoria do Estado de São Paulo, Suzane foi quem planejou toda a ação dos envolvidos e mais, dias antes teria ensaiado o crime junto com os irmãos Cravinhos. Na noite que antecedia o cometimento do crime, Suzane, na companhia do seu namorado

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DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. (Coleção Tópicos). pp. 72-73

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Daniel, havia levado o seu irmão Andreas Von Richthofen para um Cyber Café e lá teria deixado o garoto, com intuito de esvaziar a casa da família. Em seguida o casal encontra Christian Cravinhos no local combinado e seguem para a casa dos Richthofen. O sistema de câmeras e alarmes já havia sido desligado dias antes, pela filha do casal, para facilitar a ação dos assassinos. Já passava da meia-noite, do dia 31/10/2002, quando o trio chegou à casa da família. O primeiro a ser atingido pelo bastão, composto por ferro e madeira, foi o pai de Suzane, que de acordo com a perícia, morreu quase que instantaneamente por trauma crânioencefálico. A segunda vítima foi atingida fortemente na cabeça, ocorrendo vazamento de massa encefálica, demonstrando ter dito um maior grau de sofrimento no assassinato, pois Marísia, a mãe de Suzane, não morreu imediatamente com a pancada que levou, necessitando da presença de Christian que finalizou o assassinato, estrangulando a vítima. A cena do crime foi planejada e preparada para que desse a ideia de um roubo seguido de morte, ou seja, a casa foi revirada, objetos e valores monetários foram levados, tudo objetivando forjar um latrocínio. Segundo Rosanne D‟Agostino, colunista do site (“Última Instância, 2006), o Promotor do caso, Roberto Tardelli, no último dia do Júri, argumenta:

Até que ele fabrica a arma. E se alguém os visse fazendo isso, imaginaria o que estava acontecendo? Nunca. Só que o menino precisava ser retirado da casa [Andreas]. E o horário da lan house é o melhor. „Mas, cuidado, se você acordar o papai e a mamãe, eles não vão deixar você ir‟. E ele não os acorda. E aí começa a maior sequência de destruição e morte que eu presenciei em 22 anos de carreira. [...] No percurso, eles tiveram milhões de chances de não fazer. Cumprimentaram o guarda da rua, que também não percebeu nada. A filha doce, que a gente idealiza, vai ao quarto, percebe que os pais estão dormindo, chama os executores. Tudo isso é feito aos sussurros. O barulho deve ter sido ensurdecedor. Aquela toalha deve ter sido enfiada com uma brutalidade, ela [Marísia] se sentiu morrendo. Ela sofreu um golpe na mão. Ela pensou: „O quê que eu fiz? Alguém esta me matando, por quê?‟.12

Os réus foram condenados à prisão, pelo Tribunal do Júri, na madrugada de 22 de Julho de 2006. O trio foi condenado por duplo homicídio triplamente qualificado. Suzane e o antigo namorado Daniel, receberam uma pena de 39 anos e seis meses de prisão. E Christian foi condenado a 38 anos e seis meses de prisão. Suzane comete dois crimes conhecidos como

12

D'AGOSTINO, Rosanne. Íntegra da fala do promotor Roberto Tardelli no último dia de júri do caso Richthofen, São Paulo SP: Última Instância, 21 de julho de 2006. (http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/23354/noticias+ultimainstancia.shtml, acesso feito dia 09/01/2013, às 19h31min).

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Parricídio e Matricídio, ou seja, os assassinatos do seu próprio pai e da sua própria mãe, respectivamente. O Parricídio é divinamente retratado através da tragédia grega, intitulada Édipo Rei.13 Em nível internacional, é digno de destaque o assassinato do então Presidente dos Estados Unidos, o Democrata John Fitzgerald Kennedy. O seu assassinato causou comoção dentro e fora dos Estados Unidos. Segundo o artigo, intitulado, “John F. Kennedy”. Kennedy nasceu em 29 de maio de 1917 em Massachusetts e chegou ao poder como uma solução aos problemas internos e externos do país. Apresentando-se como um político moderno, propôs, aos cidadãos norte-americanos, uma política baseada numa “nova fronteira” para a Nação. Suas investidas buscavam estabelecer uma igualdade de direitos entre todos os cidadãos e justiça social. Foi um dos defensores do movimento pelos direitos civis dos negros, desagradando importantes e conservadores setores da sociedade norte-americana. Estimulou o crescimento econômico e instituiu um ambicioso programa espacial. Externamente, e inserido numa Ordem Mundial Bipolar, se envolveu em conflitos armados e ideológicos, e em crises, no Iraque, Cuba e Vietnã. Discursou em Berlim Ocidental e manteve uma postura de defensor internacional da Democracia Política. Kennedy foi assassinado no dia 22 de Novembro de 1963, na cidade de Dallas, no Estado do Texas, com dois tiros, enquanto desfilava, em carro aberto, na companhia da sua esposa Jacqueline Lee Bouvier. O assassino, Lee Harvey Oswald foi preso poucos momentos após o crime, embora, dois dias depois de assassinar o Presidente Kennedy, Oswald, também fora assassinado. Em torno desses acontecimentos, diversas teorias conspiratórias foram criadas. Livros, documentários e filmes foram lançados sobre o assunto, despertando maiores mistérios sobre os crimes. A opinião pública culpava a Máfia, a União Soviética, a KGB, ou até mesmo o próprio governo norte americano, através da CIA.

13

Sófocles, autor da tragédia grega “Édipo Rei”, tenta mostrar no âmbito de sua época a impotência do homem em relação ao destino. Laio tem um filho de nome Édipo, que ao consultar o Oráculo recebe a notícia de que este seria seu parricida. Sabendo disto, pede a um de seus servos que leve a criança para longe dali e a mate. Contudo o servo poupa sua vida, e a deixa distante do reino convicto de que não voltaria. Acolhido por uma família, Édipo cresce, e quando adulto volta ao reino e mata seu verdadeiro pai, sem ter a ciência de que aquele o era. Ao se consagrar rei casa-se com a viúva Jocasta, no caso sua mãe, e com ela tem filhos. O auge da historia se dá quando uma maldição ronda Thebas. Édipo consulta o Oráculo e recebe uma mensagem de que havia ali um crime não solucionado, e que enquanto não o fosse, Thebas não voltaria a normalidade. Em meio às investigações Édipo promete punir severamente o assassino, e até no decorrer delas Jocasta, sua mãe e esposa, pede a ele que não prossiga com aquele propósito, porém ele não o faz. Quando se descobre parricida, ele arranca seus dois olhos e se exila, afastando-se de suas filhas e do reino, o qual conquistara após cometer o parricídio, faz isto como forma de punição, já que se afastaria das coisas que mais gostava. Jocasta comete suicídio. Fonte: SÓFOCLES. Édipo rei. Porto A legre: L&PM, 2001.

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Contudo, pesquisas e estudos, sérios, sobre os fatos, chegaram à conclusão que Oswald cometeu o crime sozinho, motivado pela fama que iria atrair com o fato. Enfim, considerado um marco na história política norte-americana, John Kennedy é considerado uma das grandes personalidades do século XX. Outros casos de crimes misteriosos e impactantes também foram alvos da historiografia profissional e amadora ao longo do século XX, e mais, acabaram inspirando obras literárias e cinematográficas. Em um Blog, chamado “Diamante Bruto – Em Outras Palavras14”, estão registrados, segundo o blog, os dez casos policiais mais misteriosos de todos os tempos. E dentre eles estão, o desaparecimento da menina Madeleine, o assassinato de PC Farias, o assassinato da Dália Negra, e outros. Theodore Robert Cowell, conhecido como Ted Bundy, era o nome de um dos maiores assassinos em série da história norte-americana. De acordo com o artigo, “Crimes que abalaram o mundo - Caso 01: Ted Bundy - O assassino de estudantes”, encontrado no site “Necropatia – A Realidade Nua e Crua15”, Ted era considerado um homem bem aparentado que se comportava de forma charmosa e elegante. Jovem, bonito e inteligente, ele se utilizava da sua educação para atrair as suas vítimas ou mesmo usava isso como uma forma de não levantar suspeitas, pois era considerado um homem gentil e cavalheiro. Durante a década de 1970, Ted Bundy, assassinou e estuprou cerca de quarenta mulheres nos Estados Unidos. O assassino atraia as suas vítimas ao pedir que elas o ajudassem a carregar alguns objetos até o carro. Depois disso, elas jamais seriam vistas vivas novamente. Os crimes cometidos por Ted demonstraram um apetite insaciável pela pornografia violenta. Enfim, depois de ter sido preso pela segunda vez Ted foi levado a julgamento por seus crimes e agressões. O julgamento foi televisionado para toda Nação norte-americana e teve uma forte cobertura da imprensa nacional e internacional. Theodore Robert Cowell, após vários julgamentos, foi condenado à pena de morte por eletrocussão, ou seja, à cadeira elétrica. A sentença foi cumprida no dia 24 de Janeiro de 1989 pelo Estado da Flórida, nos Estados Unidos. Esses breves e despretensiosos relatos, sobre alguns crimes que chocaram a opinião pública de uma maneira geral, vêm contribuir para a pesquisa como uma prova da sedução

14

Cf. http://edudoroteu.blogspot.com.br/2010/11/os-10-casos-policiais-mais-misteriosos.html, acesso feito dia 10/01/2013, às 16h31min.
15

Cf. http://www.necropatia.com/2012/12/crimes-que-abalaram-o-mundo.html, acessado dia 10/01/2013, às 19h22min

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causada por essas atitudes criminosas na população. A humanidade, como já foi dito anteriormente, tem a necessidade, quase que vital, de tentar compreender os mecanismos que envolvem aquelas atitudes criminosas. Um determinado ou específico tipo de crime pode ser considerado como um simples delito ou algo monstruoso. O crime se torna chocante a partir das regras morais e sociais que ele ultrapassa, ferindo os anseios coletivos e as suas expectativas de normalidade. E quanto mais ele se afasta desses limites morais, mais visivelmente monstruoso ele parecerá moralmente e mais inconcebível ele se tornará socialmente. Nesse último caso relatado, o criminoso Ted Bundy, escolhe um tipo específico e especial de vítima, as mulheres, e principalmente as jovens e bonitas mulheres. Ted é atraído sexualmente por elas, aos seus olhos, elas parecem frágeis e fáceis de dominar, facilitando o seu apetite para ferir, estuprar e matar as suas vítimas. O crime de estupro acaba se tornando um dos crimes mais grave cometido contra as mulheres. Principalmente, porque a vítima não só é ferida fisicamente, mas também moralmente, pois a sociedade com os seus tabus de fragilidade feminina e honra sexual, virgindade e pureza, casamento religioso e monogamia, fidelidade e heterossexualismo criou regras duras, prioritariamente, para as mulheres. No princípio, os crimes sexuais no Brasil e as suas respectivas penalidades foram tratados juridicamente a partir das Ordenações Reais. Segundo o artigo, “A Formação do Sistema Penal Brasileiro”, sob a autoria de Eneida Orbage de Britto Taquary, publicado em 2008 na revista “Universitas Jus”, em seu volume 17, as Ordenações do Reino não se caracterizavam como códigos, mas como uma compilação de leis, distribuídas em livros e cujo conteúdo versava sobre os vários ramos do Direito.16 Dentro da natureza dos crimes sexuais, o crime de defloramento foi assim definido, primeiramente, no Código Criminal do Império, de 1830, em seu artigo 219, onde, considerase crime, deflorar mulher virgem, menor de dezessete anos, sob pena, ao agressor, de desterro para fora da comarca, em que residir a deflorada, por um a três anos e ainda o pagamento de um dote à ofendida. Contudo, extinguiam-se as penas, quando era realizado o casamento entre as partes envolvidas17. Segundo Pinheiro, “o termo “defloramento” foi inserido no Código

16

TAQUARY, Eneida Orbage de Britto. A Formação do Sistema Penal Brasileiro, Revista Universitas Jus, Brasília, vol. 17, jul./dez. 2008.
17

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LIM/LIM-16-12-1830.htm, acessado dia 13/01/2013, às 14h50min.

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Criminal Brasileiro de 1830, embora os assuntos de sua alçada já fossem abordados no Livro V das Ordenações Filipinas”.18 O termo deflorar, segundo dicionário on line de português significa, dentre outras definições, tirar a flor ou as flores da planta, ou seja, “fazer perder o viço, a beleza 19”. E mais, a palavra defloração nesse mesmo dicionário on line, significa o “emurchecimento e queda natural das flores de uma planta”. Ou seja, fazendo uma alusão do termo à figura feminina, o discurso jurídico buscou aproximar subjetivamente a mulher de um pomar que perdeu as suas flores, isto é, a mulher perdeu àquilo que ela tinha de mais belo e precioso, perdeu a sua virgindade e com isso perdeu a sua honra sexual. Nesse mesmo Código Criminal de 1830 está definido que: em seu artigo 222, enquadra como crime ter copula carnal por meio de violência, ou ameaças, com qualquer mulher honesta. Sob penas de prisão por três a doze anos, e pagamento de dote à vítima. Contudo, se a violentada for prostituta a pena cai para prisão por um mês a dois anos e não há pagamento algum. No artigo 224, considera-se crime seduzir mulher honesta, menor de dezessete anos, e ter com ela copula carnal, sob pena de desterro para fora da comarca, em que residir a seduzida, por um a três anos, e de dotar a esta. Fica evidente, no discurso jurídico apresentado, a intenção do legislador, em separar, no seio social, as mulheres honestas, das moralmente consideradas desonestas. O maior interesse do poder público residia, principalmente, na proteção moral das mulheres, a proteção física ficava a segundo plano e estava condicionada a existência de moralidade feminina, e mais, proporcional a ela. Ou seja, na configuração de um estupro, a mulher, quando honesta, teria o pleno direito de ser protegida pelo Estado, mas isso não ocorreria plenamente após o ato de manter relações sexuais, por força e violência, era cometido contra uma prostituta. A reparação oferecida pelo Estado era proporcional ao grau de honestidade apresentado pela mulher vitimada. Outra observação se dá, a partir da comparação dos crimes e das penas dos artigos 219 e 224, desse mesmo Código de 1830:

18

PINHEIRO, Philipi Gomes Alves. A desonra feminina: defloramentos na Comarca de Vitória/ES (1850/1871), Revista Urutágua – acadêmica multidisciplinar – DCS/UEM, Nº 19 – set./out./nov./dez. 2009 – quadrimestral – Maringá – PR.
19

http://www.dicio.com.br/deflorar/, acessado dia 13/01/2013, às 14h18min.

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Art. 219. Deflorar mulher virgem, menor de dezasete annos. Penas - de desterro para fóra da comarca, em que residir a deflorada, por um a tres annos, e de dotar a esta. Seguindo-se o casamento, não terão lugar as penas. (...) Art. 224. Seduzir mulher honesta, menor dezasete annos, e ter com ella copula carnal. Penas - de desterro para fóra da comarca, em que residir a seduzida, por um a tres annos, e de dotar a esta. Art. 225. Não haverão as penas dos tres artigos antecedentes os réos, que casarem com as offendidas.20

Segundo o referido Código, a condição de mulher honesta é tão importante quanto a condição de mulher virgem. Pois as penalidades aplicadas para o defloramento e para a sedução, seguida de cópula carnal, são as mesmas. E mais a efetivação do casamento do réu com a vítima, bastava para reparar a violência física e psicológica cometida contra a mulher. Demonstrando a importância dada pelo poder público ao cumprimento das regras morais e sociais, isto é, a moral e os bons costumes. No Código Penal da República, de 1890, esses dois artigos anteriores foram unidos no artigo 267, descrevendo crime, “deflorar mulher de menor idade, empregando seducção, engano ou fraude21”. A pena foi estabelecida como prisão celular de um a quatro anos. No artigo 268, permanece a discriminação e o preconceito contra a mulher considerada desonesta moralmente e principalmente contra as prostitutas, pois o texto do artigo diz que:

Art. 268. Estuprar mulher virgem ou não, mas honesta: Pena - de prisão cellular por um a seis annos. § 1º Si a estuprada for mulher publica ou prostituta: Pena - de prisão cellular por seis mezes a dous annos. § 2º Si o crime for praticado com o concurso de duas ou mais pessoas, a pena será augmentada da quarta parte.22

A partir desse último Código Penal, de 1890, muitas interpretações são realizadas pelos operadores da justiça brasileira até a implementação de um novo código penal, o de 1940. Contudo, a condição social das ofendidas e principalmente a cor da sua pele continuaram influenciando bastante e às vezes, de forma decisiva, os rumos das investigações e dos processos-crime de estupro e de defloramento, instaurados pelo poder público. Para melhor

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Código Criminal do Império do Brazil, de 1830 (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LIM/LIM-16-121830.htm, acessado dia 13/01/2013, às 16h42min).
21 22

http://pt.scribd.com/doc/55636995/Codigo-Penal-de-1890-Completo, acessado dia 13/01/2013, às 17h01min

Código Penal dos Estados Unidos Brazil, de 1890 (http://pt.scribd.com/doc/55636995/Codigo-Penal-de-1890Completo, acessado dia 13/01/2013, às 17h01min).

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explicar esses acontecimentos, diversamente descritos e relatados nos processos criminais e nos inquéritos policiais e principalmente entender os interesses inseridos nos discursos dos envolvidos nesses delitos, seus costumes e cotidiano, a importância da honra sexual feminina e a moralidade social, torna-se necessária a apresentação de alguns casos envolvendo crimes de defloramentos e afins. O primeiro texto pesquisado é uma resenha escrita pela Doutora em História Social, Cristiana Schettini Pereira23, sobre a obra, intitulada, “Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940)”, de autoria da pesquisadora norteamericana, Sueann Caulfield. Segundo Pereira (2004), a obra de Caufield destaca os estudos sobre gênero, sob o viés da História Social, tendo como resultado a desnaturalização das diferenças sexuais, entre homens e mulheres. Questiona ainda a própria base biológica dessas diferenças sexuais, delegando o resultado dessas diferenças às instituições, práticas e construções sociais. De acordo com Pereira, para Caulfield a honra sexual feminina representava um conjunto de normas que, estabelecidas aparentemente com base na natureza, sustentavam a lógica da manutenção de relações desiguais de poder nas esferas privada e pública. Ou seja, a importância da manutenção e do culto à honra sexual feminina legitimava o racismo, o preconceito e a desigualdades entre os gêneros. Segundo Pereira, esses debates se tornavam mais acirrados à medida que a sociedade brasileira passava por questionamentos sobre modernidade. E mais, a partir de uma vasta quantidade de processos-crime de natureza sexual, principalmente crimes de defloramento, Caulfield demonstra a união entre sociedade civil carioca e o poder público, na defesa da honra sexual feminina, sob uma nova nação, em busca de progresso, modernidade e inserida politicamente no Estado Novo de Getúlio Vargas. Pereira destaca, a partir do estudo feito por Caulfield, as transformações legais ocorridas na legislação civil e criminal brasileira, influenciadas pelas representações da mulher e da sua honra pessoal e familiar no seio social da nação. E mais, relata que, a honra das mulheres, segundo Caulfield, por diversas vezes causou tensões políticas e sociais nos debates jurídicos brasileiros. A autora, também destaca, na obra de Caulfield, as discussões, de autoridades em

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PEREIRA, Cristiana Schettini. Em defesa da honra: moralidade, modernidade e nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Resenha. In: http://segall.ifch.unicamp.br/publicacoes_ael/index.php/cadernos_ael/article/viewFile/19/21. Acessado em 13.01.2013.

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geral, médicos, higienistas e dos profissionais reformistas, feitas em torno da liberdade da classe média trabalhadora feminina, nos espaços de sociabilidade e lazer, anteriormente habitados somente por homens, causando reações sociais que variavam entre sentimento de avanço da civilização ou degeneração e decadência. Esses profissionais buscavam manter intactas as hierarquias sociais e de gênero existentes nos seus projetos de modernização da nação brasileira. A obra de Sueann Caulfield também foi fonte de estudo e análise da pesquisadora Fabíola Rohden, em seu artigo, “Honra no Brasil: da moral sexual à imagem da nação24”. O texto inicia a sua análise destacando a importância da autora norte-americana Sueann Caulfield e da sua obra, nos estudos sobre o tema honra sexual. Rohden, também destaca a importante contribuição, para esse tema, da pesquisadora Martha de Abreu Esteves, que publicou o livro “Meninas perdidas: os populares e o cotidiano do amor no Rio de Janeiro da Belle Époque”. De acordo com Rohden, através dessas duas diferentes perspectivas, sobre o mesmo tema, temos acesso à variadas representações sociais que envolviam a honra sexual feminina. Segundo Fabíola Rohden, a obra de Caulfield se define demonstrando como a honra sexual e as suas diversas representações sociais influenciaram na definição do cotidiano moral-familiar da população, em meio aos debates públicos interessados em modernizar a nação. Segundo o artigo de Rohden, Caulfield analisa 450 inquéritos e processos envolvendo crimes entre 1918 e 1940 e através deles, tem acesso aos relatos das personagens envolvidas nos crimes e principalmente como elas lidavam com a noção de honestidade sexual feminina e de honra no seu cotidiano. Através de dados estatísticos, Caulfield demonstra uma condição econômico-social menos favorecida, da maioria dos envolvidos nos processos-crime de natureza sexual. Por meio desses processos, a pesquisadora evidenciou que muitas jovens encontravam no poder público, não só uma defesa para a sua honra, mas também formas de garantir um casamento, outrora prometido pelo amado, ou uma melhoria nas condições de vida, uma oportunidade de construir a sua própria família, uma busca pela liberdade ou mesmo uma garantia forçada do casamento entre classes econômicas distintas, união proibida e combatida socialmente pela parte da família mais abastada, contudo, sendo obrigada a

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ROHDEN, Fabíola. Honra no Brasil: da moral sexual à imagem da nação. História, Ciências, SaúdeManguinhos [online]. 2001, vol.8, n.3, pp. 767-773. ISSN 0104-5970.

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concordar, como forma de reparação do mal ocorrido, ou seja, a perda da virgindade feminina. A autora destaca na obra de Caulfield que grande parte dos casos de defloramento ocorreu sem o uso da força física, demonstrando que já havia um relacionamento anterior entre as partes e que através da sedução e promessas de casamento, o defloramento foi permitido pela mulher. Embora, houvesse casos onde as mulheres se demonstravam sexualmente ativas, modernas e liberadas. Contudo, a grande maioria dos casos se resolvia com a efetivação do casamento entre o réu e a vítima do crime. Muitas das denúncias eram feitas pelas mães e não pelos pais, denotando famílias chefiadas por mulheres, evidenciando um diferente modelo de família, o da classe trabalhadora contrapondo o modelo regido pelas normas das elites. Rohden relata que dentro de um ambiente de constantes transformações, essas jovens apresentavam a sua própria percepção de honra e moralidade, juntamente com valores tradicionais herdados de mães e avós. A autora descreve, ainda, que Caulfield enxergou, nos processos analisados, uma forte hierarquia racial entre os envolvidos. Onde, constantemente, era declarada a cor da vítima e raramente a cor do réu e quase nunca se declarava a cor da pele das testemunhas. Existiram outros aspectos que influenciavam no prosseguimento ou não do processo ou mesmo na condenação ou não do réu, como por exemplo, aspectos quanto à alfabetização dos envolvidos, categoria profissional e classe econômica das partes. Philipi Gomes Alves Pinheiro em seu artigo sob o título, “A desonra feminina: defloramentos na Comarca de Vitória/ES (1850/1871)25” procura demonstrar, através dos processos-crime de defloramento na comarca de Vitória, na segunda metade do século XIX, como essa sociedade e o seu Poder Judiciário lidavam com as mulheres desonradas. E mais, de que forma as regras morais de conduta daquela sociedade e os seus preceitos jurídicos interferiam e influenciavam o cotidiano da população. Pinheiro analisa o funcionamento social de Vitória, a população livre, cativa, as ocupações em geral e as posições profissionais das mulheres nesse ambiente. Procura evidenciar o modus vivendi, desvendando as suas regras morais. A análise ainda aponta um grande fluxo de sociabilidades existentes naquele

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PINHEIRO, Philipi Gomes Alves. A desonra feminina: defloramentos na Comarca de Vitória/ES (1850/1871). In: Revista Urutágua - revista acadêmica multidisciplinar -ISSN 1519.6178 (on-line) Departamento de Ciências Sociais Universidade Estadual de Maringá (UEM). http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua/article/view/7561/4636. Acessado em 13.01.2013.

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meio, pois, devido ao pequeno tamanho daquela região, as pessoas moradoras conheciam-se facilmente. Os autos criminais, segundo o autor, serviram de importante fonte para desvendar a vida cotidiana e popular, a partir dos envolvidos nos casos. O texto volta a determinar que a principal proposta da sua análise seria entender aquela sociedade e os seus padrões morais, em torno das representações sociais da figura feminina, impostas pelos detentores do poder político, econômico e judiciário da comarca de Vitória. Pinheiro relata como a figura da mulher era vista no seio daquela sociedade, muitas vezes como um ser frágil, dócil e desse jeito, infantilizado de tal forma que justificasse o seu controle e a vigilância do pai, marido, irmão ou familiares, determinando e limitando as suas funções, em atividades meramente domésticas. O autor acaba refletindo sobre a invisibilidade da mulher na historiografia, vista constantemente de forma inferior aos homens. O autor relata que através desses processos-crime de defloramento se tinha acesso ao universo íntimo dessas mulheres e dos personagens envolvidos e por assim dizer, essas mulheres acabavam enfrentando dois tipos de julgamento, em busca de sua honra perdida, um jurídico e um moral. Segundo Pinheiro, o crime de defloramento mobilizava toda uma sociedade, em torno do combate a esse delito e consequentemente, na proteção à ofendida, quando mulher honesta, pois a honra da mulher deflorada, somente seria reparada, se assim fosse confirmada a sua honestidade, através da inviolabilidade ou violabilidade recente do hímen, ou seja, o hímen mais que um protetor do órgão genital feminino representava um importante papel social e moral, a partir da comprovação da sua materialidade ou não. As mulheres tinham a obrigação de resguardar a sua honra, isto é, a sua virgindade e por isso diversas vezes essas jovens eram vigiadas pelos parentes e proibidas de saírem das proteções de suas casas. Pinheiro descreve um caso ocorrido de uma mulher chamada Francisca. Um soldado chamado Félix havia tentado manter relações sexuais forçadas com a dita mulher, quando eles foram surpreendidos pelo Inspetor que impediu o ato. No decorrer do processo o soldado foi considerado culpado no artigo 22326 do Código Criminal do Império, de 1830, mas logo em seguida recorreu e foi absolvido, pois desde o início o réu deveria ter sido enquadrado no

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Artigo 223 - Quando houver simples offensa pessoal para fim libidinoso, causando dôr, ou algum mal corporeo a alguma mulher, sem que se verifique a copula carnal.

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artigo 22227, do mesmo código. Outro caso é descrito no texto de maneira bastante relevante. Uma jovem também chamada Francisca de aproximadamente 17 anos, morando na casa da irmã, desde a morte da sua mãe, aparece grávida e acusa o próprio cunhado do ato de defloramento e sedução. No decorrer do processo, apesar da negativa do cunhado, apoiado pela esposa e irmã da vítima, a justiça o condenou à prisão sob o artigo 222, pois a vítima estava sob a sua guarda e proteção, quase de um pai e o mesmo cometeu um crime para com a jovem moça inocente. O autor declara que dentro desses processos criminais ou mesmo no seio da sociedade, era primordial resguardar a sua imagem. Ou seja, testemunhas poderiam manchar a imagem da vítima ou do réu, caso os mesmos andassem com más companhias ou apresentassem um caráter duvidoso e assim determinar a condenação ou absolvição judicial e moral das partes envolvidas. Pinheiro finaliza criticando a historiografia pela invisibilidade da mulher nos processos sociais. E mais, que a sociedade vitoriense fortemente moralizada sustentava-se na centralidade da figura masculina delegando à figura feminina aos espaços privados. Contudo, essa cena contrastava com aquelas jovens de classe pobre que necessitavam trabalhar para o seu sustento, participando dos espaços públicos habitados por homens. De acordo com a autora, a violência sofrida por essas jovens defloradas as marcavam por toda uma vida, principalmente quando a jovem não conseguia uma reparação via judicial e assim ficava mal falada na cidade, deixando toda a sua família na desonra. É evidenciado pelo autor que os aparatos sociais e judiciais se preocupavam menos com os sentimentos, desejos e integridade física dos envolvidos e mais com a proteção dos valores morais. Outro importante estudo envolvendo os crimes de defloramento foi escrito por João Valério Scremin. No seu artigo, intitulado, “A Influência da medicina-legal em processos crimes de defloramento na cidade de Piracicaba e região (1900-1930)28”, o autor analisa, a partir de processos envolvendo crimes de defloramento, ocorridos na região de Piracicaba na primeira metade do século XX, até que ponto os laudos médicos, presentes nesses processos,

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Artigo 222 - Ter copula carnal por meio de violencia, ou ameaças, com qualquer mulher honesta.

SCREMIN. João Valério. A Influência da medicina-legal em processos crimes de defloramento na cidade de Piracicaba e região. Revista Histórica. Ano 2. Número 8. Março de 2006. ISSN 1808-6284. In: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/historica/edicoes_ateriores/pdfs/historica08.pdf. Acessado em 13.01.2013.

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influenciavam no julgamento desses crimes e, portanto, na absolvição ou condenação do réu. E mais, busca desvendar os debates médicos e jurídicos em torno da honra sexual feminina e dos crimes cometidos contra ela. Segundo o autor, Sueann Caulfield29 defende que as mudanças na lei ocorreram através de um complexo jogo de ajustamento e negociação entre os próprios especialistas da área e os grupos sociais. Houve também um grande fluxo de estudos, dentro da medicina legal, sobre a virgindade e a morfologia do hímen, encabeçados principalmente por especialistas brasileiros. Ainda segundo o autor, os embates em torno da virgindade no Brasil eram frequentes. A mulher era considerada virgem quando ainda não havia praticado o coito e quando os seus órgãos sexuais estavam intactos, ou seja, havia a presença do hímen como proteção e prova de “inviolabilidade”. Scremin destaca, ainda, as disputas conceituais sobre virgindade e honra sexual feminina, existentes entre os juristas e legisladores em torno da definição cultural e da política futura da nação. Demonstra ainda, os embates envolvendo a Escola Clássica que pregava um pensamento jurídico iluminista, ou seja, de igualdade dos indivíduos perante a lei e do livrearbítrio versus a Escola Positiva, defensora da aplicação dos novos conhecimentos das ciências biológicas e humanas ao Direito. O autor finaliza essa parte do texto declarando que as questões de gênero provocaram bastantes disputas entre a família patriarcal e a burguesa em torno da virgindade física e moral feminina. Segundo o autor, o historiador Boris Fausto30 relata que o crime de defloramento definia a preocupação central de uma sociedade, ou seja, a grande importância subjetiva dada por ela ao materializar a honra sexual feminina numa peça anatômica, o hímen, que objetivamente serviria somente como proteção do órgão genital feminino. O texto de Scremin descreve a funcionalidade assumida pelo hímen de controlador da sexualidade feminina distinguindo as mulheres puras das consideradas impuras. O autor evidencia, a partir das suas pesquisas, que manter relações com uma mulher já anteriormente deflorada era uma justificativa usada na defesa do réu. Pois, o homem naquela situação não se sentia obrigado a reparar o mal causado por outro.

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CAULFIELD, Sueann. Em defesa da honra. Moralidade, Modernidade e Nação no Rio de Janeiro (1918-1940). Campinas: Editora da Unicamp, 2000.
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FAUSTO, Bóris. Crimes e Cotidiano. A Criminalidade em São Paulo (1880-1924). São Paulo: Brasiliense, 1984.

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Scremin relata um caso, que chama atenção:

Observa-se que esta justificativa era usada na defesa do réu, como em 1911 em Piracicaba, quando Antônio Soares, apesar de amar Anna Lázara de Almeida, “com a qual pretendia casar-se (...); que esse propósito deixou de existir porque nesse dia às[sic] oito da noite, mais ou menos na casa de sua pretendida (...), teve relações carnais ficando evidente que ela já estava deflorada”. Desta maneira, ele não se sentia obrigado a “reparar o mal praticado por outro”, mas o fez, após a confirmação da honestidade da ofendida por 7 das 11 testemunhas que depuseram no caso.31

O autor destaca a figura masculina em torno de todo o processo de julgamento, pois o próprio aparelho repressivo e o corpo de jurados ou mesmo os peritos que faziam o exame de corpo-delito, eram na sua grande maioria composto por homens. O artigo procura demonstrar as principais disputas em torno das técnicas da medicina legal na constatação e definição da virgindade e dos crimes de natureza sexual, como estupro e defloramento, a partir da integridade e das condições físicas da membrana de proteção do órgão genital feminino, o hímen. O autor descreve que segundo alguns médicos legistas essa constatação através do rompimento da membrana era imperfeita, pois existia a presença do hímen complacente e o próprio rompimento poderia ter sido por outra causa que não a relação sexual. Sobretudo, esses conhecimentos propostos pela medicina legal ajudaram a absolver ou condenar os réus envolvidos nesses processos-crime. No texto, o autor descreve que no Código Penal de 1890, o crime de defloramento era determinado através da cópula ou conjunção carnal com mulheres menores de idade, ou seja, maiores de 16 anos e menores que 21, com o emprego de sedução, engano ou a fraude, com pena de um a quatro anos de prisão. Contudo, atos dessa natureza que não se completassem ou não rompessem completamente a membrana hímen, eram considerados atentados ao pudor e não defloramentos, mudando assim o rumo do processo. E mais, a princípio, os discursos contidos nas falas dos juristas enxergavam as mulheres defloradas como inocentes, frágeis, desprovidas de desejo sexual e paixões. Quase como se o ato de defloramento não só tivesse sido cometido contra elas, mas principalmente sem a participação delas. E assim elas se

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SCREMIN. João Valério. A Influência da medicina-legal em processos crimes de defloramento na cidade de Piracicaba e região. Revista Histórica. Ano 2. Número 8. Março de 2006. ISSN 1808-6284. In: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/historica/edicoes_ateriores/pdfs/historica08.pdf. Acessado em 13.01.2013.

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apresentavam e se sentiam, necessitavam de uma reparação ao mal sofrido, que às vezes viam em forma de casamentos com os próprios réus ou não, mas o importante era a recuperação da honra pessoal e familiar perdida. O autor ainda relata que um comportamento moralmente reprovado não era privilegio dado somente às mulheres, ou seja, os homens também eram analisados moralmente no decorrer dos processos de crime de defloramento. Scremin (2007) mais uma vez descreve um caso que deixa evidente a importância da medicina-legal e a sua influência nos casos de crime de defloramento:

Em um dos processos crimes de defloramento na cidade de Piracicaba envolvendo Francisco Pianelli e Maria José de Oliveira, pode-se observar que “o auto corpo delito da fls. 7 torna certo o fato atribuído ao réu de ser ele o autor do defloramento de Maria José de Oliveira. Embora ele negue ter sido ele quem deflorara a dita”. Nesse processo, o réu foi absolvido, pois a defesa argumentou que “para que o ato seja considerado crime, é preciso que seja resultado de sedução, engano ou fraude (artigo 267) (...). Um dos meios mais comum de sedução é a promessa de casamento”, mas a própria vitima declara que o réu não se casaria com ela. Com esta explanação, o Juiz determinou a improcedência da denúncia contra Pianelli.32

O artigo de João Valério Scremin, enfim, cita que apesar de em alguns casos se confirmarem o defloramento, através do exame de corpo-delito. O acusado foi absolvido e posto em liberdade, pois fora constatado o não uso da sedução, engano ou fraude no cometimento do ato. Ou seja, não houve crime, deixando claro que a definição de crime foi entendida moralmente e não materialmente. Sobretudo, a partir do exame de corpo-delito poderia se confirmar a denuncia e assim dar prosseguimento ao processo, enquadrando o crime em defloramento, estupro ou falso testemunho. Ou seja, a medicina legal daria o aval ou não ao prosseguimento do processo-crime, ou mesmo, ajudaria na defesa ou na acusação do réu, influenciando todo o caso. Outro artigo que contribui para a discussão que ora ensejamos foi escrito por Jacilene Marques Salomão: “Análise comparativa de dois autos de defloramentos: A questão racial em destaque33”. O texto traz novas perspectivas sobre o assunto. O artigo é uma análise das

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SCREMIN. João Valério. A Influência da medicina-legal em processos crimes de defloramento na cidade de Piracicaba e região. Revista Histórica. Ano 2. Número 8. Março de 2006. ISSN 1808-6284. In: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/historica/edicoes_ateriores/pdfs/historica08.pdf. Acessado em 13.01.2013.
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SALOMÃO. Jacilene Marques. Análise comparativa de dois autos de defloramentos: A questão racial em destaque. In: Revista Graduando. Número 2. Jan/Jun. ISSN 2236-3335. Pp. 49-62.

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diferenças e semelhanças entre dois documentos manuscritos de processos-crime de defloramento, lavrados na cidade de Feira de Santana, no início do século XX, fruto da união da Filologia com a Análise do Discurso. Os dois autos de defloramento comparados nesse texto dizem respeito a duas jovens negras, pobres e menores de idade, chamadas Senhorinha Soares de Lima, com sete anos, e Maria Nerys da Costa, com dezessete anos. A proposta defendida pela autora se resume a destacar as diferenças e semelhanças existentes nesses processos, evidenciando a situação das vítimas em relação ao discurso da justiça e dos seus interesses. A autora destaca, em negrito, na redação da queixa-crime, da primeira vítima, as palavras que fazem juízo do fato ocorrido, demonstrando que aquele discurso é construído favorecendo a vítima, sendo o enquadramento do crime em defloramento e não em estupro, o único detalhe que não favorece a ofendida. Analisando a segunda queixa-crime, a autora relata que para se compreender aquele discurso é necessário entender que a sociedade brasileira do início do século XX, buscava através da honra sexual feminina, impor princípios de moralidade e higiene para se alcançar a modernidade da nação e o progresso social. Ou seja, a mulher não poderia ser mal vista ou mesmo frequentar lugares considerados impróprios para moças decentes. Voltando ao documento da segunda vítima, a autora demonstra a imparcialidade como são tratados os fatos, pois o articulador do discurso, a princípio, não tenta ajudar ou prejudicar a vítima ou o réu. Em seguida, a autora levanta a primeira diferença contida nos relatos. Os fatos no segundo documento são descritos de forma superficial, diferente do conteúdo do primeiro documento e isso é devido, pois, o primeiro se destaca pela violência empregada no defloramento, ou seja, um estupro, e o segundo defloramento pelo consentimento da vítima seduzida ou enganada. Outro questionamento levantado pela autora é por que ambos os casos são enquadrados em crimes de defloramento apesar de o primeiro documento descrever um estupro, pois houve a utilização da força para o cometimento do ato. A autora explica que tal escolha da palavra buscou um abrandamento, diminuindo o impacto para o leitor daquela mensagem e mais, as mulheres negras e pobres não eram bem vistas pela justiça e pela sociedade feirense e por isso eram marginalizadas. Dentre outras comparações, semelhanças e diferenças existentes nesses dois casos de defloramento, Salomão relata uma das principais semelhanças, o abuso por quais, as vítimas desse tipo de crime, passam ao realizar o exame de corpo-delitos, pois esses procedimentos são realizados por vários peritos, na grande maioria homens, utilizando exames de toque,

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aumentando o constrangimento feminino. Essas mulheres sofriam ao buscar uma reparação, via justiça, para a sua honra sexual perdida. A autora finaliza o texto relatando o processo humilhante por qual passam as mulheres, vítimas desses crimes sexuais, numa sociedade machista e preconceituosa como no Brasil no início do século XX. A pesquisa realizada por Iranilson Buriti de Oliveira está descrita em seu artigo, “Corpos seduzidos, corpos deflorados: A honra e os seus significados nos processos-crime do espaço Seridó (Caicó, 1900-1930)34”. O artigo se refere a uma análise de dois processoscrime de defloramento da Comarca de Caicó, ocorridos no inicio do século XX. Essa análise é feita a partir dos discursos jurídicos existentes e permeados de interesses na conservação moral, civilidade social e na preservação do corpo, em busca de uma modernidade e do progresso da nação. Oliveira caminha através do texto, desenhando e destacando a importância do corpo como fonte histórica. Informa que apesar de relegado nos séculos anteriores, a partir do século XX, sob o viés dos Annales e da Antropologia Cultural, o corpo passa a ser estudado e simbolicamente inserido numa sociedade em transformação. Segundo o autor, a partir das inovações do saber historiográfico, ao se utilizar o corpo como fonte de uma análise histórica, pode-se, desvendar as construções sociais envolvidas nos discursos. O autor transcorre relatando a apresentação da queixa-crime, onde a jovem Tertulina Bezerra de Medeiros é vítima do crime de defloramento cometido pelo réu José Cesário dos Santos e descreve que não raramente os acusados e seus advogados buscavam desqualificar a vítima, de forma que suas liberdades e modus vivendi configurassem num atestado da ausência de honra sexual. Ou seja, diversos questionamentos eram impostos a figura feminina, nesses casos, numa tentativa de salvar ou manchar a honra da jovem e/ou da família. A maioria dos acusados admitia o seu crime e se beneficiava da lei, casando-se com a vítima, reparando o mal cometido. Contudo, outros procuravam desvios no comportamento de suas vítimas que justificassem as suas ações. Seguindo na análise do primeiro caso, o autor descreve o relato de uma testemunha do processo que configura a vítima como “despachada” e a partir desse tipo de testemunho o

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OLIVEIRA, Iranilson Buriti de. Corpos seduzidos, corpos deflorados: A honra e os seus significados nos processos-crime do espaço Seridó (Caicó, 1900-1930). In: Mneme. Revista de Humanidades. V. 07. N. 17, ago./set. de 2005 – Semestral. ISSN 1518-3394. Pp. 214-228.

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autor evidencia as diferenças nos padrões de comportamento social que não aceitam a mulher como uma figura desinibida e independente. Os ambientes e comportamentos moralmente acessíveis e aceitáveis, às mulheres honestas, eram rigorosamente determinados socialmente. Pois mulheres com comportamentos desviantes e duvidosos faziam cessar a responsabilidade moral dos seus defloradores para com elas. Embora, com relação ao caso analisado, segundo o autor, o réu fora obrigado pela justiça de Caicó a reparar o mal cometido contra a vítima e sua família. O autor inicia a análise do segundo caso informando os variantes perfis femininos utilizados nos discursos jurídicos. Ou seja, a partir do seu cotidiano e costumes, os juristas formavam uma imagem daquela figura feminina envolvida no processo-crime. Nesse segundo processo, a vítima, Sérgia Maria da Conceição, diferentemente da primeira vítima, através de testemunhas, foi considerada uma jovem honesta moralmente, sendo confirmado pelo discurso jurídico. Sobre esse segundo caso, Oliveira relata que o réu fora indiciado na justiça por crime de sedução, através da queixa feita pelo pai da vítima. O pai sentiu a honra de sua família ser perdida juntamente com a honra da sua filha e na tentativa de uma reparação, buscou junto ao poder público, isto é, no Estado e na Justiça, uma solução contra o cidadão que abusou da fragilidade e inexperiência da sua filha, seduzindo-a com promessa de casamento, fazendo a jovem manter conjunção carnal com o acusado. O texto declara a preferência em delegar ao Estado a responsabilidade da resolução dos conflitos da população. Pois, os conflitos dessa natureza eram historicamente solucionados anteriormente com a lavagem da honra da vítima com sangue. O autor ainda relata a intervenção emergencial do Estado burguês em tutelar as mulheres honestas, desprotegidas, no intuito da conservação da família brasileira. E confirma que a partir dessas intervenções do Estado, são estabelecidos novos códigos sociais que invadem, determinam e legitimam a dualidade da figura feminina. Apresentando um comportamento que passeia por devassa ou santa no interior dos processos envolvendo crimes sexuais. Ora sendo vítimas e ora sendo cúmplices dos desejos e paixões inseridos nos crimes. Sobre o crime de defloramento, segundo o autor, somente as mulheres honestas, seriam passíveis da proteção judicial do Estado e por isso a honra sexual deveria ser mantida sempre, ideia amplamente defendida pela Igreja Católica. A mulher, segundo o autor, é policiada e vigiada por diversas instituições sociais. E mais, através de uma sustentação Católica, a mulher é controlada nos seus desejos, instintos, emoções e sentimentos. Condicionadas a cultuar valores morais impostos por

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discursos normativos numa construção social sobre a figura da mulher honesta, a partir de modelos que servem como referência. Oliveira remete a sua pesquisa desvendando a importância histórica dos processos criminais, na reconstrução dos cotidianos privados das personagens envolvidas direta e indiretamente nos casos. Iniciam-se como conflitos privados e finalizam-se sob a tutela do Estado, que passa a disciplinar e regular as condutas sexuais dos envolvidos. O autor finaliza o texto buscando demonstrar os esforços reunidos a partir do Poder Público, na preservação do mais importante fator preponderante de moralidade social, a honra sexual feminina. A virgindade feminina é tratada pelo autor como um produto econômicosocial pertencente ao pai e a família da jovem. Os seus valores morais estavam ligados à presença da membrana himenal. E os exames de constatação desses valores fazem vir ao conhecimento público assuntos, outrora, particulares. E mais retiram dos poderes femininos os seus corpos, que agora servirão como prova de acusação ou defesa, a partir dos discursos jurídicos. Guilherme Rocha Sartori produz um estudo envolvendo as relações de honra sexual feminina inserida nos casos de defloramento e vista a partir de um discurso oficial, contudo, subjetivo. O artigo escrito por Sartori intitula-se, “Crimes de defloramento: Entre práticas e representações do discurso jurídico35”. O texto define-se como um trabalho de pesquisa com Inquéritos Policiais, em particular um caso de crime de defloramento, ocorrido na cidade de Bauru-SP, em 1916, a partir das normas e regras, legitimadas nos discursos jurídicos, que envolvem as relações de gênero. O texto é dividido em três partes, a primeira trabalha a estrutura oficial de formação dos Inquéritos, a segunda faz reflexões sobre os crimes de defloramento e a terceira parte apresenta uma análise de um caso em particular de crime de defloramento. O caso de Philomena Spadafora. As partes que mais interessam a esta pesquisa são duas, a segunda e a terceira. A segunda parte descreve como o crime de defloramento era conceituado e tratado nos Inquéritos. A partir dessa definição e constatação do crime, a vida e o cotidiano dos envolvidos passavam a fazer parte de um conflito sob o domínio público, pois eram avaliados,

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SARTORI, Guilherme Rocha. Crimes de defloramento: Entre práticas e representações do discurso jurídico. In: Revista LEVS. Número 4 (2009). http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/levs/article/viewFile/1103/991. Acessado em 13.01.2013.

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construídos e confrontados moralmente sob os olhos dos discursos jurídicos. Apesar das informações fragmentadas, segundo o autor, o pesquisador confere sentido a elas, desmascarando as práticas sociais envolvidas. O autor desvenda, através de suas pesquisas, que os relatos das mulheres defloradas, sobre o crime, eram feitos de uma forma objetiva, linear e quase jornalística. E mais, a partir desses discursos oficiais, Sartori descaracteriza posições tidas como formais, imparciais e rígidas, inseridas no interior dos processos, demonstrando as relações de intencionalidades dos agentes judiciários, desvendando as hierarquias e sobreposições de gêneros envolvidas nesses autos. O autor destaca ainda que, inseridos no universo dos crimes de defloramento, existia a forma pela qual era negligenciada a proteção à infância pelo discurso jurídico e mais, declara que os crimes de defloramento, sutilmente diferenciado dos crimes de estupro, eram manipulados de forma estratégica pelo discurso jurídico, causando constantes embates entre os envolvidos nos processos. Na terceira parte o autor descreve o caso de defloramento de Philomena Spadafora pelo acusado Amadeu Collacivi. Com 16 anos, solteira, miserável, trabalhando como doméstica na casa do acusado, ela mesma faz a queixa-crime sobre o ocorrido. A vítima informou que o defloramento ocorreu na noite de Natal, pela madrugada e que sentiu muitas dores e constatou um forte sangramento. Diz ainda que após o defloramento, o réu manteve relações sexuais por quatro vezes com a mesma. A vítima, a partir do depoimento dado à autoridade policial, segundo o autor, procura ser entendida como inexperiente, inocente, frágil e incapaz de defesa. O autor critica a falta de objetividade da autoridade policial na confecção do depoimento da vítima. Na parte final do depoimento da vítima foram elencadas testemunhas que pudessem confirmar o fato narrado por ela. E em seguida, exigido pelo Delegado de polícia, o exame de corpo-delito para configurar a materialidade da ação delituosa. Contudo, nesses casos, onde a defloração já não mais podia ser comprovada por marcas ou lesões na região genital feminina, as vítimas envolvidas teriam que comprovar o crime a partir da sua conduta social. Ou seja, o seu cotidiano e comportamento eram analisados, investigados e usados para confirmar ou não a sua natureza pura e honesta ou devassa e depravada. Segundo Sartori a partir dos critérios pessoais utilizados pelos legistas, os resultados dos exames de corpo-delito eram a peça fundamental para o prosseguimento das investigações ou não dos crimes de defloramento. Nesse caso especifico, o autor demonstra uma tentativa

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recorrente de disputas sociais existentes nessas relações de gênero. Pois, o réu usa da sua melhor condição social para desqualificar o comportamento e o testemunho da vítima, tentando justificar a sua inocência. Sobretudo, ao investigar, prioritariamente, o comportamento social da denunciante, a postura do Delegado e dos demais órgãos envolvidos na apuração do caso, apresentaram conflitos que envolvem as relações de gênero, no interior dos discursos jurídicos, procedimentos policiais e nos laudos-médicos, determinando os papéis atribuídos aos homens e mulheres no seio social. E mais, diagnosticando o caráter privado ou público desses papéis. Assim, o Delegado, devido à falta de provas e pela constatação dos modus vivendi da vítima, solicitou o arquivamento do inquérito de Philomena Spadafora. A pesquisadora Dulceli de Lourdes Tonet Estacheski no seu artigo, “Da promessa ao processo: Crimes de defloramento em Castro (1890-1916)36” define a realidade da maioria das vítimas de defloramento, isto é, jovens meninas pobres, analfabetas e iludidas com as promessas de casamento. Segundo a autora, Boris Fausto (2001) definia o enquadramento do crime de defloramento no Código Penal de 1890, como um culto não a honra sexual feminina isoladamente e sim um culto a honra como um prêmio masculino na proteção moral e social da frágil figura feminina. A pesquisa, segundo a autora, procura destacar a relação entre a honra sexual feminina e a honra moral masculina no final do século XIX e início dos XX. E mais, busca desvendar os mecanismos de legitimação do poder e vigilância dos homens sobre as mulheres, a partir dessa proteção à honra feminina. Sobre as mulheres, a pesquisa procura descobrir se essas jovens entendiam a sua sexualidade como um meio de ascender socialmente, através do matrimônio. Os casos e crimes aqui apresentados e debatidos procuram demonstrar a natureza diversa do saber histórico. Ou seja, levando em consideração a possibilidade da utilização do crime, das suas repercussões, desdobramentos e do seu posterior processo, como um documento útil para a realização de uma pesquisa em história, os crimes sexuais carregam uma forte responsabilidade para se desvendar uma sociedade e os seus valores e limites morais.

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ESTACHESKI, Dulceli de Lourdes Tonet. Da promessa ao processo: Crimes de defloramento em Castro (1890-1916). In: Anais do I Simpósio sobre Estudos de Gênero e Políticas Públicas, ISSN 2177-8248. Universidade Estadual de Londrina, 24 e 25 de junho de 2010.

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CAPÍTULO II SERGIPE NOS ANOS 1930: UMA HISTÓRIA DE ARACAJU

Segundo o Prof. Dr. Antônio Lidvaldo Sousa, do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe, no século XIX, a elite da sociedade sergipana se dedicou principalmente a duas atividades econômicas, a criação de gado, destacando os municípios de Lagarto e Itabaiana, e ao cultivo da cana-de-açúcar, no vale do Vaza-Barris e, principalmente na microrregião da Cotinguiba, em destaque, Laranjeiras e Maruim37. Dentre essas atividades econômicas, a cana-de-açúcar logo se destacava como o principal produto da economia da província, reunindo pequenos, mas variados engenhos, localizados principalmente na região da Cotinguiba, atrativa, devido à alta fertilidade dos seus solos:
A região da Cotinguiba possuía os solos de massapê, argilosos, escuros e pesados, que retinham bem a umidade, os “selões”, solos avermelhados, mais leves que o massapê, mas também muito férteis e favoráveis para o cultivo da cana-de-açúcar. O clima da região também contribuiu para a produção desse produto agrícola. Idem para o transporte de navegação dos grandes rios e de seus numerosos afluentes durante a maré cheia [...] A região da Cotinguiba era bastante povoada. Dez núcleos urbanos se desenvolveram nessa região da Cotinguiba no século XIX: Santo Amaro, Socorro, Rosário, Riachuelo, Siriri, Capela, Divina Pastora, Maruim, Japaratuba e Laranjeiras.38

De acordo com o pesquisador Antônio Lidvaldo Sousa (2010), essa região vivia, a partir do seu desenvolvimento econômico, uma forte efervescência urbana e cultural. A cidade de Laranjeiras, principalmente, apresentou um elevado desenvolvimento do comércio de importação e exportação de diversas mercadorias, principalmente a cana-de-açúcar e o algodão. A cidade se destacava pelo embelezamento das ruas e fachadas dos casarões e a sua arquitetura civil e religiosa demonstravam requinte e maestria.

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 74. 38 SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 77, 82-83

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A importância da manutenção ou mesmo do maior florescimento dessa riqueza, advinda do cultivo da cana-de-açúcar, influenciou de forma decisiva a transferência da Capital da Província de Sergipe, de São Cristóvão para as praias do Aracaju. A necessidade de uma região que facilitasse o escoamento da produção açucareira e dos seus subprodutos, chegando ao mercado consumidor de forma mais prática, rápida e econômica, contribuiu para esse

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Mapa da região da Cotinguiba, com seus principais rios e os núcleos urbanos no século XIX. Fonte: (SOUSA, 2010, p. 76) 40 Desenhos da Rua Direita e torres do Bonfim-Laranjeiras Fonte: (SOUSA, 2010, p. 84)

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deslocamento. O Presidente da Província na década de 1850, Inácio Joaquim Barbosa, preocupado com a distribuição dessa riqueza da região da Cotinguiba e comprometido com a prosperidade e modernidade da província, idealizou, sob o apoio de uma parte da elite provincial sergipana, o projeto de mudança da capital e a construção de um porto, por onde passaria o açúcar sergipano. Portanto, dentre as diversas medidas para a proteção do comércio açucareiro de Sergipe, a mais importante foi tomada no dia 17 de Março de 1855, a partir da assinatura da resolução nº 413, pelo então Presidente Inácio Barbosa, transferindo a capital de Sergipe, depois de ter elevado à categoria de cidade, o povoado de Santo Antônio do Aracaju. A escolha de Aracaju como cidade e capital deve a variados fatores, dentre eles, a sua proximidade dos engenhos da Cotinguiba, isto é, das principais regiões produtoras de açúcar da província e mais, deve principalmente à sua localização geográfica e à sua variedade hidrográfica, facilitadoras da importação, exportação e distribuição interna dos produtos. Segundo o projeto de mudança, essa distribuição seria feita a partir de um porto que fosse controlado pela própria aristocracia sergipana, e assim, seguro e confiável na pesagem das sacas de açúcar. Até então, segundo Antônio Lindvaldo Sousa, a função de importação e exportação para a província sergipana era desempenhada pelo porto da cidade de Salvador, atitude essa, que gerava muitas despesas, desconfianças e não raramente prejuízos para o comércio sergipano41. É preciso destacar que as razões para a mudança da capital do município de São Cristóvão para Aracaju não se resumiam apenas em questões geográficas e/ou econômicas. Havia um projeto político-administrativo modernizador defendido por boa parte da elite sergipana e apoiado politicamente pelo Barão de Maruim42. Ou seja, a mudança da capital para Aracaju, não finalizava na ideia da sua proximidade da principal região produtora da

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 85
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Coronel João Gomes de Melo foi deputado geral, vice-presidente de província e senador do Império do Brasil de 1861 a 1889. Foi presidente da província de Sergipe, de 25 de setembro de 1855 a 27 de fevereiro de 1856. Filho de aristocratas rurais cujas propriedades canavieiras abrangiam os municípios de Rosário do Catete, Siriri, Japaratuba e Santo Amaro das Brotas. Ainda jovem herda a grande fortuna dos falecidos pais: três engenhos, 40 contos de réis (R$ 2.240.000,00), imóveis e rebanhos. Casa-se em 1833 com a viúva Maria José de Faro proprietária de outros 3 engenhos açucareiros e que falece em 1859. Casa-se novamente com D. Valentina Soares de Souza, irmã do estadista Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai, cuja influência junto ao imperador foi peça chave no processo de transferência da capital da Província de Sergipe. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Gomes_de_Melo. Acessado em 10/02/2013).

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cana-de-açúcar, ou mesmo nos ganhos econômicos que a distribuição desse produto, através de um porto sergipano, localizado em Aracaju, pudesse trazer. Sobre o fato, Antônio Lindvaldo Sousa afirma:

Relendo artigos e outras fontes sobre o período, percebemos que existia presente na mentalidade de um grupo inovador na classe dominante sergipana, a perspectiva de um futuro melhor para a Província, um certo projeto de modernização. [...] É preciso perceber que fazia parte da mentalidade de uma parcela da elite sergipana o rompimento com o passado colonial e a necessidade de preparar um futuro melhor para a Província. Ocorria um certo desprezo por São Cristóvão. Suas ruas tortas, estreitas, com algumas ladeiras, eram a herança viva de um passado que não combinaria com o futuro promissor que se projetava para Sergipe. [...] Temia-se que, cedo ou tarde, São Cristóvão chegasse à situação de Santo Amaro, que declinava economicamente, perdendo posição sócio-política para Maruim. Laranjeiras, que ascendia economicamente, sendo uma forte candidata a sediar a capital não atendia ao projeto do grupo modernizador, por apresentar um perfil urbanístico mais próximo da cidade colonial. Nas praias do Aracaju, surgiria uma nova capital, onde teria um novo perfil urbanístico, novos traçados modernistas que distanciariam das tradicionais cidades coloniais. Ruas retas, sem ladeiras e todo um traçado novo estariam presentes na nova capital como assim projetava esse grupo da elite sergipana da época.43

A cidade de Aracaju nasceu para ser capital, isto é, foi pensada e construída para essa funcionalidade. Foi sonhada a partir de uma mentalidade moderna, promissora e confiante num futuro melhor para a província. Em função do seu porto, a cidade foi edificada, adequando-se para facilitar o escoamento da produção açucareira da região da Cotinguiba. No entanto, logo nos primeiros anos, como capital, a cidade apresentou diversos e graves problemas de ordem estrutural e de saneamento. O seu solo, encharcado pelas águas pluviais, alagava, formando grande quantidade de pântanos e lagoas, contribuindo para o aparecimento de variadas doenças febríferas. Outras áreas se apresentavam bastantes arenosas com a existência de diversas dunas, dificultando o estabelecimento de moradias decentes. Essa realidade dos primórdios da capital sergipana propiciou um ambiente impróprio para a população que vivia em Aracaju, principalmente a população pobre, pois fora essa que efetivamente ocupou a capital nos seus primeiros anos de vida.

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 87

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Essa população pobre habitava em moradias improvisadas, construídas de palhas, barros ou de pau-a-pique e madeira, ficando constantemente à disposição de qualquer sorte infecciosa. Sobre a realidade da pobreza, existente em Aracaju e as condições insalubres que viviam a sua população, e também sobre as melhorias ocorridas no século XX, o Doutor Manoel dos Passos de Oliveira Telles (1915) publica um artigo intitulado, “Salve Aracajú, (17 de Março de 1855, 17 de Março de 1905)”, na revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe - IHGS, no ano de 1915, em comemoração aos cinquenta anos da cidade de Aracaju como capital de Sergipe. E assim descreve sobre as condições da cidade nos seus primeiros anos e nos anos posteriores, testemunhando, através do texto, um importante fenômeno ocorrido na nova capital de Sergipe, a “expulsão” dos seus pobres e primeiros habitantes de Aracaju, de determinadas localidades da cidade e a chegada das famílias mais abastadas, ou seja, da aristocracia canavieira, seduzida pelas melhorias ocorridas na capital, nas décadas iniciais do século XX:

Aracajú nasceu pobre. Não lhe sopraram a dita do nascimento as auras da abastança do erário publico nem volumosas contribuições pecuniárias dos particulares. Seu primeiro respiro foi o offêgo oficial. Logo nos primeiros anos de sua existência o terrível flagello do cholera dizimou-lhe a população incipiente. Duas vezes (1872 – 1888) a epidemia das varíolas cruelmente a fustigou. A mortalidade foi espantosa. [...] As primeiras casas, danunciando colonos de melhores recursos, foram palhoças construídas à pressa. Durante muitos mezes os pobres e os funccionarios públicos abrigaram-se debaixo das frondes, dos adernos, dos cruirys. [...] Foram os pobres os que primeiro edificaram casas regulares, mas de ordinário baixas e pouco commodas. [...] A edificação começou pelos pobres, os ricos e opulentos vieram depois. Mais tarde o Barão de Maruim construio o trecho uniforme que conserva o nome de Rua do Barão, e o Barão da Estância levantou a primeira casa de mediano gosto que poude ser designada com o titulo de palecete.44

Esse mesmo artigo, “Salve Aracajú” (1915, p. 47, 48), provoca uma desconfiança e principalmente uma reflexão quanto às razões da escolha do Presidente Barbosa e dos seus apoiadores sobre a localidade que sediaria a capital, quando afirma que, embora a região escolhida por lei, para a edificação da capital da Província de Sergipe, tenha sido o povoado

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TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Salve Aracajú, (17 de Março de 1855, 17 de Março de 1905 ). In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Ano III – 1915 – Volume III – Fascículos I, II, III e IV. p. 45-54.

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de Santo Antônio do Aracaju, essa localidade teria sido substituída, na prática, pelo sítio da Olaria. O artigo ainda descreve às realidades de cada região:

Sítio da Olaria, à margem direita do Sergipe, febrífero e improprio, ao mesmo tempo banhado pelas marés, [...] Este, onde tudo escasseava – uma vegetação nutrida e um solo consistente -; onde as aguas nativas, imundas e da côr de vinho branco, não ofereciam poto agradável, somente poderá escolher a insensatez ou o despeito, segundo os juízos da época. Mas, de facto, foi o preferido para o assento da cidade nova. [...] Desprezou-se S. Antonio cuja existência excedia já de um século. Não se atendeu para sua posição risonha e lisonjeira sobre uma collina elegante a dominar com amplitude todos os pontos do horizonte, desde a linha uniforme e níveovêrde do oceano até ao listão suavemente azulado das serranias de Itabayana. Tanto bastava esta apparencia da sua posição topográfica, para que ficasse arraigada a opinião acerca das suas excelentes condições hygienicas. Porque foi então abandonado? 45

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45 46

Ibidem, p. 47.

Mapa, esboçando a cidade de Aracaju, no ano de 1855, demonstrando a composição dos recursos naturais daquela região. Fonte: Reconstituição topográfica aracajuana feita por Fernando Porto.

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A partir do mapa é possível destacar a composição natural das duas regiões descritas no artigo “Salve Aracajú” (1915, p. 47, 48), tanto o povoado de Santo Antônio do Aracaju quanto o Sítio da Olaria. Segundo a legenda do mapa, as duas regiões, em questão, apresentam terrenos alagados ou alagadiços. Contudo, o sitio da Olaria é centralmente banhado por manguezais, possivelmente dificultando as condições de permanência e sobrevivência dos primeiros habitantes da nova capital. Enquanto a região de Santo Antônio do Aracaju, localizado numa maior altitude, como relatado no artigo, apresenta mangues somente em sua extensão sul, aumentando, consideravelmente, as possibilidades de permanência da população, habitante daquela região, em comparação à outra região em destaque. As péssimas condições de vida, no início da edificação da nova capital, vitimaram uma vasta quantidade de pessoas, inclusive o próprio governador Ignácio Joaquim Barbosa. Sobre a morte do Presidente e a epidemia do cólera que assolou a Província, e mais, sobre as condições gerais de Sergipe, foi escrito um texto endereçado ao Imperador Dom Pedro II, de autoria do Comendador Antônio José da Silva Travassos, no ano de 1860. Intitulado, “Apontamentos Históricos e Topographicos sobre a Província de Sergipe”, o texto também fora publicado na revista do IHGS no ano de 1915. Seguem relatos da situação vivida pela Província e sua capital, a partir do texto do IHGS (1915, p. 114, 115):

Em Julho do dito anno odoeceu gravemente o Presidente, que seguio para a Cidade da Estância, afim de ali tratar-se, e onde falleceo, e foi sepultado. [...] Nessa ocasião já aparecia em Sergipe a noticia do cholera morbus no Pará, dizendo-se ser molestia que não admitia curativo, e que trasia a morte infalivelmente. Isto causou grande alvoroço, e o povo do campo deixando suas habitações, corria aos povoados, e Igrejas, fazendo Preces e dispondo-se para morrer. [...] Entre as medidas que lembrou, forão, os cordões sanitários, tanto marítimos, como terrestres, o que foi posto em pratica pelo VicePresidente, o qual fixou sua residência na Villa de Santo Amaro, receiando as moléstias endêmicas que se davão no Aracajú desde a transferência da Capital, das quaes havião falecido muitas pessôas, e donde proveio a mortífera moléstia do Doutor Barbosa.47

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TRAVASSOS, Antônio José da Silva. Apontamentos Históricos e Topographicos sobre a Província de Sergipe. In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Ano III – 1915 – Volume III – Fascículos I, II, III e IV. p. 83-122.

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É nesse contexto histórico de insalubridade que surge a cidade de Aracaju. Seus primeiros habitantes tiveram que conviver com o clima quente e a natureza aquática do local, e principalmente, tiveram que aprender a enfrentar as adversidades da região. Segundo o pesquisador Fernando Figueiredo Porto (1991), a segunda capital de Sergipe foi edificada numa “ilha”, cercada ao leste pela praia, ao norte por mangues, ao oeste por pântanos e ao sul por uma depressão inundável, tornando o vasto uso de aterros algo imprescindível para o desenvolvimento da cidade de Aracaju. A partir da transferência da capital, as primeiras dessas iniciativas, buscando o desenvolvimento dessa região, através da implementação de uma infraestrutura e urbanização adequadas, partiram de ações estatais. No ano de 1857, embora já falecido, contudo, sob ordem dada anteriormente pelo então Presidente da Província de Sergipe, o Doutor Ignácio Joaquim Barbosa, possivelmente, temeroso com o crescimento desordenado que a nova capital poderia ter, e procurando disciplinar a ocupação de Aracaju, pois a mesma já passava a se tornar um importante destino migratório de famílias pobres, vindas geralmente do interior da Província, que, fugindo da seca, chegavam à nova capital, em busca de oportunidades de emprego e melhores condições de vida, traça um projeto de edificação de Aracaju. Esse projeto tinha como um dos seus objetivos, limitar a expansão habitacional irregular da cidade, privilegiando a rica oligarquia açucareira de Sergipe e a alocação dos primeiros órgãos públicos da nova capital, ou seja, buscava uma ocupação funcional dos espaços da nova cidade em construção, em conformidade com uma racional adequação territorial. Relegando pouca importância à vasta população pobre, residente naquela localidade ou então, ao forte fluxo migratório de uma população carente em direção à Aracaju. Esse plano foi delegado a uma comissão de engenheiros sob a direção do engenheiro e Major Sebastião José Basílio Pirro. O plano urbanístico para a nova capital, conhecido como o “Plano Pirro”, distanciando-se da fisionomia geometricamente distorcida e irregular das cidades brasileiras, influenciadas pelos padrões de edificação portugueses, desenvolveu um projeto moderno, em formato de tabuleiro de xadrez, rigidamente plano e geométrico, apresentando quarteirões retangulares, contrapondo à imagem da cidade torta e cheia de ladeiras da antiga capital, São Cristóvão. Segundo Porto (1991), o engenheiro Pirro era obcecado por linhas retas e por conta da sua obsessão, somada a uma urgência na construção da nova capital, juntamente com a sua

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falta de conhecimento físico sobre o terreno onde seria erguida a nova cidade, o engenheiro precisou exagerar nas suas investidas sobre aquele terreno e portanto, drenou os alagadiços e mangues, derrubou casebres de taipa e palha, para vencer os pântanos, abusou de aterros, dificultando num futuro próximo, os serviços de drenagem da região, principalmente os do centro histórico da cidade, mas de uma maneira geral, afetando todas as localidades adjacentes ao “Quadrado de Pirro”. De acordo com a pesquisadora Mirtes Rose Menezes da Conceição, em seu artigo intitulado, “O Significado dos Lugares no Centro Histórico de Aracaju”, sobre o “Plano Pirro” e suas repercussões como projeto modernizador da nova capital, a autora obteve a seguinte conclusão:

Foi com um traçado geométrico peculiar elaborado pelo engenheiro Sebastião José Basílio Pirro que uma área alagadiça tornou-se o centro do poder de todo o Estado – a Capital – O “quadrado de Pirro” não só desenhou a nova cidade, mas também delimitou muito bem a zona nobre, ditando quem poderia ou não habitar “as melhores e bem traçadas linhas de Aracaju”. [...] A organização da cidade feita através do projeto do engenheiro Pirro, influenciado pela modernidade da época, retirava da comunidade o direito de organizar a cidade ao qual poderia dar-lhe um caráter e uma identidade própria.48

Segundo Conceição (2008), o pesquisador Fernando Figueiredo Porto49 assim sintetiza o então, moderno, plano realizado pelo engenheiro Basílio Pirro, na cidade de Aracaju:

Ele se resumia num simples plano de alinhamentos. Dentro de um quadrado de 540 braças de lado estavam traçados quarteirões iguais, de forma quadrada, com 55 braças de lado, separados por ruas de 60 palmos de largura. Como se vê, o supra-sumo da simplicidade e do rigor geométrico inteiramente condenável nos dias de hoje, pela soma de espaços perdidos nos quarteirões, pelas complicações à circulação, por sua inadaptabilidade à

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CONCEIÇÃO, Mirtes Rose Menezes da. O Significado dos Lugares no Centro Histórico de Aracaju. Monografia apresentada para a obtenção do bacharelado em Geografia, pela Universidade Federal de Sergipe. 2008/2. p. 7.
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PORTO, Fernando Figueiredo. A cidade do Aracaju 1855 – 1865: ensaio de evolução urbana. 2ªed. Aracaju: Governo de Sergipe/FUNDESC, 1991, p. 30.

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topografia dos terrenos, pela monotonia e falta de beleza e caráter que imprime à cidade.50

Segundo o projeto de Pirro e os limites do seu “Quadrado”, tendo como ponto de partida a Praça do Palácio (atual Fausto Cardoso), o “Quadrado de Pirro” se estabeleceria numa distância de cerca de um quilômetro além do marco zero, tanto para o norte e sul, quanto para o oeste. Dividindo os espaços em quarteirões e finalizando com as ruas desembocando no rio Sergipe. Segundo o professor Antônio Lindvaldo Sousa (2010), a localização do “Quadrado de Pirro” compreendia ao perímetro, no sentido norte/sul, a partir da Praça Fausto Cardoso (onde fica o antigo Palácio do Governo) e o edifício Maria Feliciana (onde funciona o Banese); no sentido leste/oeste, a rua da frente (e o estuário do rio Sergipe) e ao fundo, próximo ao limite do morro do Bomfim (onde hoje está a rodoviária velha). Esse espaço representava a cidade moderna, com drenagem e calçamento, casas bem alinhadas, esgotamento sanitário. A pesquisadora Eva Maria Siqueira Alves, em seu artigo “O Atheneu Sergipense: traços de uma história”, analisando as antigas localizações ocupadas pelo Colégio Atheneu Sergipense, a autora define a importância socioeconômica relacionada àquela região central da cidade, ou seja, o prestígio adquirido pelo prédio público quando este era inserido dentro dos limites do “Quadrado de Pirro”, demonstrando um forte grau valorativo territorial, existente naquela região, diretamente proporcional, à medida da maior aproximação do “Quadrado”, que a localidade pudesse ter. Segundo a autora:

Com algumas contribuições dos “cidadãos mais favorecidos de fortuna”, o novo prédio foi erguido com “elegância e solidez”, na Praça Olímpio Campos, sendo inaugurado em 3 de dezembro de 1872, mudou-se para a Praça Camerindo em 1921, para a Avenida Ivo do Prado em 13 de agosto de 1926 e em 1950 para a Praça Graccho Cardoso, aí permanecendo até o momento (2004). Cabe destacar que as localizações geográficas em que o prédio do Atheneu Sergipense foi instalado são da região central da cidade de Aracaju, à vista da sociedade, no “quadrado de Pirro”, no centro político e

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CONCEIÇÃO, Mirtes Rose Menezes da. O Significado dos Lugares no Centro Histórico de Aracaju. Monografia apresentada para a obtenção do bacharelado em Geografia, pela Universidade Federal de Sergipe. 2008/2, p. 8.

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dos principais recantos da sociabilidade da capital, próximo ao cinema, livrarias, biblioteca, igrejas, praças.51

Conduzida à implementação do projeto do “Quadrado de Pirro”, com os seus novos traçados urbanos, ficou claro as consequências trazidas pela segregação ocupacional imposta a partir daquela região. O plano tinha como a sua principal missão modificar aquele espaço natural adverso, encontrado na região que sediaria a nova capital. Contudo, à medida que esse projeto estava sendo colocado em prática e de alguma maneira ampliava-se, foi modificado não só o cenário inóspito daquele ambiente, mas também a natureza econômico-social dos seus habitantes. No ano de 1856, logo em seguida ao ano da mudança da capital, foi criado o “Código de Posturas” pela Câmara Municipal, causando, possivelmente, a primeira diferenciação social sobre a ocupação daquelas terras da nova capital. Esses decretos e leis que compunham o “Código de Posturas”, dentre outras exigências, determinavam como deveriam ser construídas as habitações dentro do “Quadrado de Pirro”, que já se encontrava em processo de ampliação dos seus limites de influencia, determinando novos traçados para as construções e habitações localizadas nas sequências do “Quadrado”, seguindo e unindo às ruas e construções suburbanas ao seu modelo geométrico e mais, restringiam o uso do telhado de palha. Exigência que, consequentemente, tornou improvável a permanência daquela população pobre sobre aquelas localidades, pois, como boa parte da população daquela região e habitantes dos arredores próximos ao “Quadrado de Pirro”, eram de baixa renda, tornou-se impossível adquirir telhas para se adequarem às exigências da lei. Posteriormente ocorreu um intenso fluxo de pessoas em direção às localidades periféricas, principalmente no sentido norte/oeste, formando o Bairro Santo Antônio, Bairro Industrial ou mesmo atingindo o Aribé. Segundo o professor Antônio Lindvaldo Sousa:

A vinda de homens pobres para Aracaju e a sua fixação nas áreas mais afastadas do núcleo central, preocupava os idealizadores do discurso modernizador. [...] Desejavam eles enquadrar determinadas áreas de habitações pobres dentro do modelo de núcleo urbano projetado, ou seja, seguir o modelo já idealizado e que na prática já surtia efeito na região chamada de “quadrado de Pirro”. [...] Para concretização de tal intuito, aperfeiçoaram-se os Códigos de Posturas, criaram-se novas leis e decretos de

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ALVES, Eva Maria Siqueira. O Atheneu Sergipense: traços de uma história. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Número 34, 2005. Edição comemorativa do sesquicentenário de Aracaju. p. 133 -152. (http://www.ihgse.org.br/revistas/34.pdf, acessado dia 10/02/2013, às 23h58min).

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“integração” das áreas suburbanas. Construíra-se, assim, um projeto de aterros, desapropriações de casas para a formação dos novos traçados de avenidas e ruas dentro dos padrões que processavam no centro da cidade. Essas medidas começaram ser postas em prática na década de 1920. Foi nesse período que o “Santo Antônio” e o “bairro Industrial” iniciaram mudanças na sua estrutura. O alinhamento das ruas antigas e novas começou a direcionar como deveria ser seu crescimento. [...] No penúltimo ano da década de 1920, inúmeras desapropriações de casas populares também se processaram no Aribé (hoje Siqueira Campos) em decorrência do prolongamento da viação, à continuação da linha de bondes da empresa elétrica de Aracaju. Ruas como Vila Nova (hoje Neópolis) e avenida Goiás, sofreram profundas mudanças no seu traçado. O Aribé, desde 1923, tornarase uma das regiões mais procuradas pelos indivíduos pobres. Possuindo sítios e áreas pantanosas, esta região acolheu famílias de emigrantes do interior do Estado, já que pela falta de espaços mais acessíveis no “Santo Antônio” ou “Industrial” se aventuraram a ocupar essas áreas totalmente não saneadas e difíceis para moradia.52

O relatório intitulado, Programa Municipal de Habitação –“Moradia – Cidadã”, responsável por analisar as necessidades sociais de habitação da cidade de Aracaju, destacando a importância em consolidar e promover habitações populares e melhorias urbanas nas regiões menos desenvolvidas e para as camadas mais pobres da população, produzido por Maria Lúcia de Oliveira Falcón, Secretária de Planejamento do Município de Aracaju, na gestão 2001 - 2004, e apresentado à Prefeitura de Aracaju, destaca em sua análise o crescimento desordenado da cidade de Aracaju segregada a partir da instalação do “Quadrado de Pirro”:

Fora do quadrado de Pirro, a cidade cresceu desordenadamente, comandada pela população pobre atraída pela nova capital à procura de emprego e pela primeira fábrica de tecidos do Estado de Sergipe, instalada em 1884, ao norte da cidade, onde se desenvolveu o Bairro Industrial. Entre 1900 e 1930 houve um intenso crescimento e a definição dos grandes eixos de expansão da cidade. Naquele momento, aconteceram grandes transformações urbanas, permitindo que a cidade crescesse do rio Sergipe em direção ao interior do Estado, consolidando a ocupação das zonas próximas ao centro de áreas planas em terra firme e no sentido norte/sul na direção da ferrovia implantada em 1914. Nesse intervalo, os mais abastados se instalaram nos arredores do centro, em direção ao sul. O centro foi ainda ocupado pela classe média e pelo

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 152.

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funcionalismo público. A população mais pobre se estabeleceu em direção oeste e ao norte da cidade no Bairro Industrial, caracteristicamente de operários.53

Segundo o professor Antônio Lindvaldo Sousa, somente nas primeiras décadas do século XX que a capital sergipana começou a apresentar uma melhora nas suas condições de vida. Essa “nova fase” da sua existência, marcada por uma efetiva organização do espaço e uma modernização na prática e não somente no discurso, foi altamente propagada e exaltada pelo Poder Público e pela sociedade civil. De acordo com Sousa, nessa época, qualquer tipo de melhoramento ocorrido na cidade de Aracaju era aproveitado como combustível, pelo Governo, nas suas incessantes mensagens e discursos modernizadores, proferidos à Assembleia Legislativa do Estado. Os jornais, considerados oficiais, noticiavam de forma sensacionalista a fase positiva e madura por qual passava a capital, em comparação aos seus anos de infância pobre54. No artigo “Salve Aracaju”, publicado na revista do IHGS, há uma breve e clara referência a essa melhora das condições da cidade de Aracaju, citada pelo professor Antônio Lindvaldo e por qual, verdadeiramente, passava a capital sergipana:

Entretanto a cidade cresceu; cobrio de casas e de ruas a grande área arenosa. Seu solo instável, que parecia ingrato, cede à mão perita do cultivador, vestese de mimosas flores exquisitas, e das arvores plantadas pendem ramos carregados de fructos. O mesmo clima tem se revelado saudável que attestará o obituário, diminuto para uma população já condensada. Essa mesma população desenvolveu-se em cultura espiritual. Aracajú orgulha-se de ter sido berço de filhos notáveis. E tudo isso a luctar com os maiores empeços durante o breve espaço de cincoenta anos!55

53

FALCÓN, Maria Lúcia de Oliveira. Programa Municipal de Habitação –“Moradia – Cidadã. Secretaria de Planejamento do Município de Aracaju – Prefeitura de Aracaju – 2001 – 2004. (http://www.ptpr.org.br/pt_pag/PAG%202004/URBANISMO/Programa%20Municipal%20de%20habita%C3%A7%C3%A3o %20Moradia%20-%20Cidad%C3%A3%20-%20Aracaju.PDF, acessado dia 12/02/2013, às 03h28min).
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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 114.
55

TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Salve Aracajú, (17 de Março de 1855, 17 de Março de 1905). In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Ano III – 1915 – Volume III – Fascículos I, II, III e IV. p. 45-54.

59

O Jornal “O Estado de Sergipe” de 17 de Março de 1917, numa publicação intitulada, “O dia de hoje”, sobre a solenidade de comemoração à inauguração do Monumento homenageando o Doutor Ignácio Joaquim Barbosa, fundador de Aracaju, descreve a capital antes e naquele momento, onde a cidade contabilizava sessenta e dois anos de idade, ou seja, quase fechando as duas primeiras décadas do século XX:

Aracajú – casas de palha em solo de paúl – teve a infância difícil, o evolver interrompido pelas epidemias, pelo impaludismo por toda a sorte de óbice enfim. Venceu afinal. Foram surgindo devagar o casario baixo, as casitas de palha, as edificações primitivas, o arcabouço da urbs garrida e progressista que é a de hoje – influenciada pela construção moderna, arborizada, ajardinada, calma, bem dirigida. Como a ave branca que voa dos pântanos para o azul, Aracajú – a cidade inviável – a evolver dentro da agua estagnada da terra inundada, desvencilhou-se rápida das faixas da primeira edade para aparecer, radiosa flor do progresso, bela na retidão de suas ruas, nos esplendores de seus panoramas, nas ondinas azuleas das aguas plácidas do rio Sergipe que a beija.56

Em um discurso feito pelo Senhor Enock Santiago (1917), no ato da inauguração desse mesmo Monumento, homenageando o Doutor Ignácio Barbosa, foram proferidas, dentre outras, as seguintes palavras referenciando o nascente progresso da capital sergipana:

Uma é a recordação das primeiras impressões do povo, descrente da grandeza da obra de Ignácio Joaquim Barbosa, e diz assim: -- Que loucura! O Presidente, determinastes fundar uma nobre cidade nos lodaçaes do rio Sergipe? Cuidado! Os cidadãos ficarão sujeitos às febres e intempéries. – Era o que se dizia. E assim foi julgada a sorte da nova cidade É o que todos exclamam hoje: -- Volvem tardios anos. Eis que os pântanos estão desaparecidos. Ergue-se a edificação. Prodígio do seu gênio. Eis sua grande obra. Alegrae-vos cidadãos. Nunca, em tempo algum, caleis os seus louvores! 57

56

Jornal “O Estado de Sergipe”, O dia de hoje. Aracaju, 17 de Março de 1917. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Número 7. Volume III. 1917. p. 35-40.
57

Discurso proferido pelo Srº Enock Santiago, no ato da inauguração do Monumento, Aracaju, 17 de Março de 1917. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 7. Vol. III. 1917. p.44-48.

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Os testemunhos citados confirmam as melhorias nas condições estruturais da cidade de Aracaju nas primeiras décadas do século XX. Segundo o professor Lindvaldo Sousa, o Jornal “Correio de Aracaju”, num artigo denominado “A capital de Sergipe”, publicado em 25 de Setembro de 1920, parabeniza a administração da época por empreender essa “nova” fase por qual passava a capital, apesar dos poucos recursos que dispunha para tal “obra colossal”58. Uma fase tão moderna e admirável, de acordo com os poucos recursos que havia para essa modernização, que a cidade de Aracaju, sob a administração do Senhor Doutor José Joaquim Pereira Lobo (1918 – 1922), atingindo maiores proporções no Governo de Maurício Graccho Cardoso (1922 – 1926), seu sucessor, chegou a ser comparada a cidades como Paris e Rio de Janeiro, então capital do Brasil. E mais, essa postura em relação à modernização da cidade de Aracaju foi excessivamente defendida, através dos jornais e a partir dos discursos daquelas autoridades que estavam à frente dessas mudanças, ocorridas na capital. Ou seja, qualquer que fosse a obra pública iniciada ou concluída, construção de escolas ou praças, aterros de lagoas ou mesmo a chegada de energia elétrica em locais longínquos, fosse essa obra, grande ou pequena, já era motivo de uma exagerada inauguração festiva, fortemente coberta pela imprensa, demonstrando a chegada do progresso em Aracaju e as possibilidades do seu futuro promissor. Para Antônio Lindvaldo Sousa, dentre as cidades sergipanas, nas primeiras décadas do século XX, Aracaju se destacava como o maior centro comercial e industrial do Estado. A água encanada, o bonde de tração animal, a chegada do cinema, a criação da empresa de carris urbanos. Esses melhoramentos, ocorridos nas décadas de 1910 e 1920, provocaram o aparecimento de outros equipamentos e serviços urbanos59. A instalação da energia elétrica como primeiro equipamento urbano, contribuiu de forma decisiva para a nova face da capital sergipana. Em seguida medidas foram tomadas em relação aos serviços de esgotos, aterros sanitários, drenagens de lagoas e pântanos, calçamentos das primeiras ruas e higienização da cidade. Essa higienização da capital se intensificou principalmente na década de 1920 com a criação do Instituto de Química e também o Instituto “Parreiras Horta”. Essas instituições

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 115.
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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 117.

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atuaram nos serviços de exames sobre a qualidade da água, serviços de profilaxia e drenagem, visitas às habitações e aos locais considerados focos transmissores de doenças. Ainda para Sousa, foi preciso elaborar leis e códigos de posturas, como outrora nesse texto já fora citado, que facilitassem e principalmente favorecessem esse ideal de modernidade tão desejado pela elite sergipana, condutora desse progresso da cidade de Aracaju. E assim o autor relata a intenção desses códigos e leis, de acordo com as necessidades da cidade, vividas a cada momento:

Esse intuito pode ser percebido nos Códigos de Posturas da época. O de 1910, por exemplo, demonstrava preocupação com o estabelecimento de normas higiênicas, segurança e embelezamento. [...] Os Códigos de Posturas procuravam estabelecer um certo conceito de beleza para a cidade, impondo mais rigor nas construções das casas. Ruas tortas, casas de palha e taipa, calçamentos irregulares, inquietavam os apologistas de um futuro melhor para a cidade. Higienes e edificações são os temas mais recorrentes dos códigos de postura. O de 1912, denotava preocupação com as edificações (estética e arquitetura) e com o exercício da polícia sanitária e suas visitas domiciliárias. O de 1926 se preocupa mais com a regulamentação da atividade dos construtores.60

A partir de um forte sentimento de progresso e modernização, inúmeras habitações que fugiam do padrão aceitável de beleza foram postas abaixo sob a defesa de uma nova fisionomia para a cidade de Aracaju. Almejava-se a construção de uma imagem distante daquela evidenciada através das edificações iniciais, rudimentares, feitas de palha, fora das normas urbanas ou apresentando ruas geometricamente feias e irregulares. O que se queria naquele momento era a construção de novas e planejadas ruas e avenidas que abrilhantasse a cidade de Aracaju e a transformasse numa nova capital, mais bela e higiênica. De acordo com Sousa, o projeto modernizador da capital sergipana, dirigido pelas elites do Estado, nas primeiras três décadas do século XX, simplesmente dera prosseguimento a um outro projeto, encabeçado pelo Doutor Ignácio Joaquim Barbosa, no ano de 1855, que também intencionava o progresso e o futuro, naquela ocasião, da Província de Sergipe, quando transferiu a capital sergipana de São Cristóvão para Aracaju. Essa segunda fase modernizadora vivida por Aracaju foi fortemente influenciada pela chegada, no início do

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. Pp. 118, 119

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século XX, de um significativo número de famílias e pessoas de posses e de uma elite escolarizada que passaram a residir na capital, condicionando boa parte da sua organização física e melhorias urbanas61. Sobre o governo de Maurício Graccho Cardoso (1922 – 1926), onde as melhorias na capital sergipana tiveram continuidade, contudo, em maiores proporções e desenvolvimento, um artigo intitulado, “O Governo de Sergipe”, sem referência de autoria, publicado na revista do IHGS no ano de 1925, faz a seguinte descrição dos seus, até então, três anos de governo:

O governo do dr. Graccho Cardoso tem sido assim, como uma dessas arvores frondosas, nascidas por milagre num chão arenoso, as quaes protegem os viadantes [viajantes] com a sua sombra e permitem, ás populações, cansadas da longa viagem, um pouco de estimulo e de alegria, para continuar, pelo deserto quente, a sua intérmina peregrinação. [...] Com essas qualidades e essas virtudes, a administração do Estado tinha de sofrer, ás mãos desse authentico homem de governo, um processo renovador. O “interesse publico” passou a ser encarado como resultante natural de uma necessidade colectiva e não como dirivativo de pretenções pessoaes, sequiosas de um prestigio eleitoral, a custa do erário...62

A cidade de Aracaju, nos anos de 1920, assumia a posição de maior centro industrial do Estado. A cidade contava com as duas maiores fábricas de tecidos dentre as oito existentes em todo o Estado. Sendo essas duas fábricas têxteis, encaradas pela população pobre do interior do Estado, como uma opção possível de melhora de vida e sobrevivência na capital. Havia uma tentativa, a partir dos donos daquelas fábricas e até mesmo por parte do poder publico, em “integralizar”, aqueles trabalhadores operários, moradores dos nascentes bairros pobres, naquele cenário de mudanças e progressos, ocorridos na cidade de Aracaju63. Ou seja, nas proximidades das fábricas houve a instalação do Hospital Cirurgia, a construção de uma escola pública, a abertura de novas ruas na região, e a instalação de um parque de diversão. Contudo, essa “integralização”, realizou muito mais controle e vigilância sobre os trabalhadores, intencionando maiores índices de produtividade nas fábricas de tecidos, do que

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 123.
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Autoria desconhecida. O Governo de Sergipe. In: Revista trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Ano VI – X - 1925 - Vol. VI - Fascículo I, II. Nº 9. p.85-89.
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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. Pp. 154-155.

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atingiu melhorias reais no dia-a-dia da vida do trabalhador e da sua família, modificando muito pouco as suas condições de sobrevivência, naquele momento, da sua antiga realidade de pobreza. Esse cenário de carência era compartilhado pela maioria dos trabalhadores pobres e não somente pelos operários. Eles se alimentavam mal, complementando suas refeições a partir de pequenas plantações em terrenos abandonados ou nos fundos dos quintais ou mesmo através das variedades de crustáceos e mariscos encontrados nos mangues. Familiares daquela população operária pobre, principalmente as crianças e os filhos mais jovens e desempregados, também buscavam atividades que ajudassem no orçamento familiar, como a venda de doces e outros quitutes, e a produção de artesanato caseiro, utilizando os ganhos como meio de melhorar a sobrevivência da família, como forma de apoiar os baixos salários recebidos pelos pais. Essa realidade de precariedade dos trabalhadores sergipanos não foi suportada de forma silenciosa e ordeira. Esse cenário de injustiças e desmandos por parte dos donos das Fábricas desembocou em reações à altura, vindas dos trabalhadores. Ocorreram greves e reivindicações por melhores salários e por uma carga horária mais baixa. Os trabalhadores das fabricas organizaram-se em torno de um Centro Operário e até mesmo a partir de Jornais que davam voz às suas necessidades, como por exemplo, o jornal “Voz do Operário”, fundado em 1920, pela associação de classe, “Centro Operário Sergipano”. Contudo, o pesquisador e professor, Ibarê Costa Dantas, quando escreve o artigo, Notícias de Greve em Sergipe 1915 – 1930, publicado na revista do IHGS, no ano de 1992, imprimindo as suas considerações sobre os conflitos existentes entre o Capital x Trabalho, principalmente na capital sergipana, apresenta as seguintes perspectivas:

Movimentos grevistas propriamente ditos fomos encontrar em 1921, na “Fábrica Confiança”, pela redução de horas de trabalho, e que perdurou cerca de um mês. [...] Outra greve ocorreu em 1927, entre os ferroviários, paralisando os trens por cerca de 19 dias e indicou a vantagem de uma categoria articulada interestadualmente, postulando assegurar direitos que as demais ainda não haviam incluído em sua pauta de reivindicações. Contudo, o movimento terminava com a prisão de lideranças.64

64

DANTAS, Ibarê Costa. Notícias de Greves em Sergipe 1915 – 1930. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, 1992. Nº 31. p. 137-154.

64

Ou seja, o artigo do professor Ibarê Costa Dantas vem demonstrar os limites e a debilidade do movimento operário em Sergipe comparado ao de outros Estados do Brasil. Isto é, apesar da existência dessa organização dos trabalhadores, a partir do embate entre o capital versus o trabalho, a sua eficiência esbarrava nas estruturas de um Estado Oligárquico, submetido a um paternalismo controlador, exercendo domínio sobre as massas dos trabalhadores, principalmente, urbanos, de Sergipe, fortemente sob a sua influência política e dependência econômica. E mais, por Sergipe apresentar uma baixa densidade demográfica, comparada aos Estados do Sudeste, essa estrutura social, encontrada no Estado, contribuía para uma maior desproporção de poder entre o Capital x Trabalho. Diminuindo consideravelmente o poder de negociação e barganha dos trabalhadores urbanos sergipanos frente aos industriais e donos das fábricas. Diante dessas dificuldades, as reivindicações, os movimentos organizatórios e a conquista de direitos tornavam-se lenta, e como diz o autor do referido artigo, “tornando a fundação da cidadania retardada”. A problemática em oferecer à população os serviços mais básicos para a sua sobrevivência e dignidade demonstrava a ineficiência do poder público em atingir, de forma igualitária, esses habitantes aracajuanos com o progresso e modernização vividos por outras poucas localidades privilegiadas de Aracaju. Essa famosa fase, por qual passava a capital, fora tão ferozmente e orgulhosamente propagada pelas elites estaduais, mas à medida que esse progresso chegava lentamente para poucos, entrou para a história mais como uma fase contraditória do que modernizadora. As condições da saúde pública eram péssimas em relação ao atendimento à população em geral, principalmente às pessoas pobres. E, sobretudo, desesperadoras, quando se tratava da mortalidade infantil, que apresentava altos índices, demonstrando que o progresso e modernidade chegavam à capital sergipana de maneira fracionada, assistencialista e mal empregada para aqueles moradores do perímetro urbano da cidade, inseridos no “Quadrado de Pirro” e nos limites das suas extensões, imagine as condições de acesso, à saúde pública, daqueles habitantes, mais pobres, moradores dos ambientes rurais, localizados na capital sergipana. Ou seja, o progresso chegava lento e para poucos sergipanos e aracajuanos. Segundo o Professor Antônio Lindvaldo Sousa (2010), uma mensagem endereçada à Assembleia Legislativa do Estado de Sergipe, proferida pelo então Governador do Estado, o senhor José Joaquim Pereira Lobo (1918 – 1922), assim resumia a situação de precariedade da saúde infantil em Aracaju:

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Uma das notas mais fortes do obtuário nesta capital e em todo o Estado é a mortalidade infantil, mormente das crianças cujos pais pela sua condição de pobreza são obrigados a morar nas zonas afastadas do centro da cidade. Há ainda, e para avolumar esta estatística lamentável, os óbitos que fogem ao registro, pois ainda ha habito muito seguido o enterrar-se crianças em lugares que não os cemitérios.65

Sobre as condições sanitárias da cidade de Aracaju, Sousa (2010), ainda declara:

A rede de esgotos existente até o final da década de 1920, mal abrangia a parte do perímetro urbano da cidade. A falta de prolongamento dessa rede de esgotos contribuía para que, em épocas de chuvas, a cidade ficasse contaminada por focos de doenças as mais diversas. Era justamente nas casas dos pobres que as doenças tornavam-se mais corriqueiras.66

Contudo, o próprio texto produzido por Sousa destaca que somado às medidas tomadas para evitar a disseminação e contaminação de doenças, ou seja, medidas profiláticas, à campanhas de proteção a saúde pública e visitas preventivas, feitas naquelas habitações pobres, apesar disso, era preciso modificar os hábitos promíscuos, irregulares e a falta de educação daquela população, buscando influenciá-la numa maior higienização da sua casa e do seu corpo. Esses problemas já existentes, se avolumaram, à medida que a população de Aracaju crescia vertiginosamente nas primeiras décadas do século XX. Esse crescimento da oferta de mão-de obra na cidade de Aracaju afetava diretamente os empregados das fábricas que passavam a receber salários cada vez mais baixos em comparação à média nacional:

Diante desse quadro de penúria dos operarias têxteis e demais indivíduos pobres, pode-se concluir que: toda a modernização por que passava, especificamente, Aracaju, exibia uma face contraditória. Se os melhoramentos materiais e demais benefícios realizados atingiam positivamente a uma faixa da população, a outra - a mais numerosa - ficava à margem dos benefícios e era submetida a controles que colocavam suas vidas a serviço do capital.67

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 156.
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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 156.
67

Ibidem, p. 158.

66

Outro testemunho confirma que apesar da pobreza existente nesses bairros periféricos, péssimas condições de trabalho e habitação, falta de saneamento básico e outras dificuldades enfrentadas por essa população, existia paralelamente a essa realidade de pobreza, uma apresentação de modernizações e melhorias chegando à capital. No então governo de Maurício Graccho Cardoso (1922 – 1926), precisamente em 21 de Abril de 1925, houve uma conferência lida no IHGS e publicada na revista dessa mesma instituição, sob autoria do Jornalista J. Pereira Barreto em homenagem a Tiradentes, figura que se tornara bastante agraciado e almejado pelos quatro cantos do Brasil, com o advento da república, por ter sido considerado um pioneiro na sua defesa. Enfim, assim se expressa o Jornalista Barreto:

Sejam minhas primeiras palavras de congratulação com o Exmo. Dr. Graccho Cardoso, benemérito presidente do Estado, pela instalação da Faculdade de Direito Tobias Barreto. Esse feito, de alcance intelectual e moral imenso, é o coroamento fulgurante de sua administração já tão fecunda em empreendimentos de toda ordem, e vem colocar Sergipe ao nível dos Estados mais insaciáveis de progresso.68

Apesar das devidas e singelas palavras proferidas pelo Jornalista, louvando as atitudes do governo e parabenizando o próprio Governador do Estado pelo incremento da Faculdade de Direito em Sergipe, é preciso destacar a forte influência política existente no seio daquela instituição, responsável por promover e proteger o saber histórico e geográfico de Sergipe. Ao analisar alguns exemplares dessa revista, desde a sua primeira publicação e inauguração no ano de 1912, a mesma demonstrou carregar uma forte dependência do poder público para existir, apresentando por diversas vezes renomados políticos em suas cadeiras cativas ou em funções privilegiadas dentro da instituição, possivelmente dificultando a sua imparcialidade nos eventos e fatos ocorridos em Sergipe. E mais, a revista não raramente se tornou um canal de comunicação prioritariamente voltado para os discursos da elite e dos poderosos de Sergipe. Embora, aparentemente, exista essa deficiência no seu fazer historiográfico, a sua publicação serve de base para variados estudos sobre a sociedade que escreveu aqueles textos, discursos e homenagens, além de apresentar testemunhos valiosos sobre a composição moral

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BARRETO, J. Pereira. O Tiradentes. In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, 1926, Anos VI – X (1921 – 1925), Volume VI, Fascículos III e IV. p. 15-61.

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e social daqueles brasileiros e sergipanos de outrora, e mais, serve para declarar para as futuras gerações as impressões oculares sobre a sociedade aracajuana e sergipana. Sem dispensar, às vezes, uma boa pitada de Política no meio das suas ações e reações. Nessa mesma edição da revista do IHGS (1926, p. 158), numa ata de uma sessão extraordinária de 27 de Novembro de 1925, o Presidente dessa instituição o senhor Almirante Amynthas José Jorge, louva a presença de um cientista austríaco, chamado Luduvico Schwenhugen, convidado para uma conferência naquela instituição sergipana, onde versaria, a partir da sua teoria, sobre o descobrimento do Brasil, 1100 anos a.c., sendo a sua primeira colonização feita pelos fenícios e pelos tupis. Esses relatos servem para justificar uma investida da elite do Estado numa maior ilustração intelectual. E mais, fica evidente a demonstração de status, progresso e modernização vividos pelo pequenino Estado e pela sua tão jovem capital, e intencionalmente registrado naquelas páginas, daquela revista, quando na ocasião do recebimento de um estudioso estrangeiro numa sede oficial de pesquisas e estudos sergipano. Esse evidente paradoxo existente na capital sergipana, pondo em contraste a pobreza e a precariedade dos serviços públicos básicos com a realidade divulgada e vivida pelas elites modernizadoras do Estado, faz parecer, sob os escritos nas páginas dos jornais, estudos e impressões da época, para aquele leitor desavisado, que se tratava de duas capitais diferentes, ou seja, duas realidades diferentes vividas por populações vizinhas, numa mesma cidade, em franco progresso e crescimento econômico e demográfico. O engenheiro e professor titular aposentado do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Sergipe – UFS, Frenando Porto, em seu artigo, intitulado, Teófilo Dantas – Um Intendente de Aracaju, publicado na revista nº 29, do IHGS, anos 1983 – 1987, assim descreve uma passagem sobre a vida do jovem Teófilo Dantas69 e acaba fazendo um importante testemunho sobre o governo de Gracho Cardoso:

Em 1922 encerrou suas atividades rurais, mudando-se para o Aracaju, onde se estabeleceu com importante casa comercial. Aqui chegou muito a tempo para assistir ao surto de renovação urbana [grifo nosso] conduzido pelo

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PORTO, Fernando Figueiredo. Teófilo Dantas – Um Intendente de Aracaju. In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 29, Aracaju. Anos: 1983 – 1987. p. 75-86.

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governo Gracho Cardoso, surto que finalizou, de maneira notável, um período de nossa evolução citadina [grifo nosso].70

Outro relato, publicado na revista de nº 28, do IHGS, anos 1979 – 1982, descreve minuciosamente as melhorias ocorridas no governo de Cardoso e sua autoria fica a cargo do professor Acrízio Cruz71. O artigo intitulava-se, O 13 de Julho na História de Sergipe, assim descrevia o mandato de então Governador do Estado:

O governo estadual era de operosidade, benefício e desenvolvimento. [...] O milagre que realizou Gracho Cardoso foi exclusivamente com a renda interna dos tributos. Tal foi o volume de realizações que se pode, sob esse aspecto, dividir a história de Sergipe em duas fases: antes de Gracho Cardoso e depois de Gracho Cardoso. Não se resiste à impressão de que no seu governo é que se fez Sergipe. E entre as suas realizações podemos enumerar: Início da rede rodoviária, serviço de água e esgoto, bondes elétricos, Matadouro Modelo, Mercado Penitenciária, Hospital de Cirurgia, Aprendizado Agrícola, Instituto de Química, Instituto Parreiras Horta, Organização do Serviço de Saúde, numerosas construções escolares, tentou a existência do ensino superior, criando as Faculdades de Direito e de Química Industrial.72

Ainda nesse mesmo artigo escrito pelo professor Acrízio Cruz, é encontrado um importantíssimo testemunho, atribuído ao próprio autor, sobre os acontecimentos sediciosos, ocorridos na capital sergipana no Governo de Gracho Cardoso, a partir da revolta do 28º Batalhão de Caçadores. Essa revolta segue a linha de influencia dos acontecimentos vivenciados pela cidade de São Paulo e foi comandada, em Sergipe, pelos oficiais, Capitão Eurípedes Esteves de Lima, o 1º Tenente Augusto Maynard Gomes, o 1º Tenente João Soarino de Melo, e o 2º Tenente Manuel Messias Mendonça. Torna-se imprescindível apresentar uma síntese dos acontecimentos, sob o olhar do pesquisador Acrízio Cruz, ele assim enxerga o ocorrido:

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Teófilo Correia Dantas, filho do Comendador Francisco Correia Dantas e de Dona Maria Vitória Barreto Dantas, membros da aristocracia açucareira de Sergipe, nasceu dia 8 de Fevereiro de 1879 no engenho Mouco, em Divina Pastora. Foi Prefeito da cidade de Aracaju nos anos de 1927 – 1930. Obteve destaque como homem público sergipano. Fonte: IHGS.
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O Professor Acrízio Cruz, ao lado das atividades desempenhadas no magistério sergipano, ocupou diversos cargos públicos na administração do Estado; faleceu em 1969. Fonte: IHGS.
72

CRUZ, Acrízio. O 13 de Julho na História de Sergipe. In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 28, Aracaju. Anos: 1979 – 1982. p. 133-146.

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Tive a vivência dos acontecimentos. De larga repercussão, e, no Governo da Ditadura, fui auxiliar imediato da grande figura das revoluções de 24 a 30, que foi Augusto Maynard Gomes. [...] Na madrugada de 13 de julho foi deflagrado o movimento sedicioso tendo à frente aqueles quatro oficiais, muitos sargentos e praças. [...] O Capitão Eurípedes se encarregou de prender os oficiais que não aderiram ao movimento. [...] Na mesma madrugada foi preso também o chefe de Polícia, Dr. Ciro Cordeiro de Farias, irmão do General Osvaldo Cordeiro de Farias. [...] A Polícia Militar foi dominada facilmente, pois estava despreparada e desprevenida para a luta. [...] O povo acordou por entre o espocar da fuzilaria e o matraquear das metralhadoras. [...] Mais tarde, às 11 horas mais ou menos, foi recolhido ao Quartel do 28º BC o Governador do Estado com todos os seus auxiliares. [...] Enquanto isso, continuava a euforia em Sergipe. Benevides caiu! São Paulo está vitorioso! Diziam todos. O povo se aglomerava nas ruas principalmente, na “rua do Barão” hoje Rua “João Pessoa”. [...] A alegria dessa vitória parcial foi indizível em Aracaju. [...] Imediatamente as tropas legais tiveram conhecimento de que os revoltosos abandonavam as posições e se desgregavam geralmente, fato este que foi logo confirmado. [...] Sergipe isolado, já se ressentia profundamente da falta de tudo. E, sozinho, tinha sobre ele o peso de todo o Poder Constituído da Nação. A luta era, pois inútil e impossível face a desigualdade de condições. [...] A 4 de Agosto o General Maçal entra em Aracaju, e às 13 horas do mesmo dia, dá-se a reposição do Dr. Gracho Cardoso, no governo, o que se verificou solenemente, com a presença de autoridades e do povo. [...] Ocupada a capital, foram presos o Capitão Eurípedes, que se apresentou, os tenentes Soarino e Messias Mendonça. Maynard fugiu.73

Outra sedição que também encontrou força na capital sergipana e no estado de Sergipe buscou modificar as estruturas socioeconômicas e políticas do Estado e do país. A revolução de 1930 atingiu consideravelmente o Estado de Sergipe, e chegou ovacionada pela população pobre e carente de mudanças, como chegou praticamente para todo o Brasil, como uma esperança frente ao poder das Oligarquias, politicamente dominante desde o tempo do Império. O engenheiro Emmanuel Franco, professor titular da Universidade Federal de Sergipe, em um texto autobiográfico, chamado, Outubro de 1930, declara ser testemunha dos fatos ocorridos em Sergipe, ligados à Revolução de 1930 e das repercussões desse acontecimento no Estado. E assim relata o ocorrido:

Em 1929, houve eleição a bico-de-pena, para escolha do presidente e vicepresidente da República. Assistimos a eleição.

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CRUZ, Acrízio. O 13 de Julho na História de Sergipe. In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 28, Aracaju. Anos: 1979 – 1982. p. 133-146.

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A Aliança Liberal teve apenas 16 votos em Laranjeiras. Um deles foi de meu pai. Na eleição, votaram defuntos. Ninguém podia vencer o Cel. Anísio Ezequiel de Barros que governava Laranjeiras há 24 anos, continuara o seu pai, o Cel. Marcolino Ezequiel, que governara 42 anos seguidos, deixando, ao seu filho, a herança política. O poder econômico estava em outras mãos, mas, o poder político continuava estático, daí a ferocidade das lutas políticas. Era impossível ganhar legalmente as eleições. [...] Todo o mundo esperava que alguma coisa acontecesse. A pancadaria tomou conta das ruas de Aracaju, onde apanharam muitos professores. [...] A revolução continuava e as notícias chegavam pelo telefone, telégrafo e trem. Não havia rádio, nem estação de rádio, naquela época. Sabia-se que as tropas de Juarez tinha sido vitoriosas e que por trem se dirigiam para Alagoas e Sergipe, em direção de Salvador, Bahia. Dizia-se que o governo estadual tinha mandado tropas deter a passagem do Rio São Francisco e que os canhões estavam atirando. Depois, correu a notícia de que o presidente Manoel Dantas tinha abandonado o governo e fugira. A revolução estava vitoriosa. [...] A cada tenente distribuiu os governos estaduais. A Maynard Gomes coube Sergipe, que dirigiu como quis. A Revolução de Trinta continua. Ela era a vitória da cidade contra o campo. Do comércio contra a lavoura.74

O pesquisador de forma decepcionada demonstra o empobrecimento do campo, pois com a vitória da revolução, houve também a vitória da cidade contra o campo e consequentemente o êxodo rural. Ou seja, esse fato propiciou a imigração da população, das lavouras em direção à cidade, buscando melhores condições de vida, atraída pelo processo de crescimento e industrialização, vividos pelas capitais dos Estados, nos anos pós-1930. De acordo com o autor o enriquecimento das cidades não quer dizer que houve enriquecimento daquela população citadina. O resultado foi o empobrecimento do campo somado a poucas mudanças na vida daqueles habitantes da cidade. Segundo o autor esse não fora o resultado esperado e planejado pelos que fizeram a grande Revolução de 1930. Embora, Sergipe tenha participado de forma ativa em eventos que lutaram por mudanças profundas no seio social, as transformações ocorridas, atingiram de forma bastante frágil a população que mais necessitava e ansiava por mudanças. A ordem política e

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FRANCO, Emmanuel. Outubro de 1930. In: Revista Trimestral do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 28, Aracaju. Anos: 1979 – 1982. p. 125-132.

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econômica nacional praticamente substituiu uma Oligarquia por outra no poder. Permanecendo estáticos, muitos desmandos, combatidos e encontrados anteriormente. A partir da década de 1930, a cidade se expande em função das ferrovias e rodovias, fato que contribuiu decisivamente para o fortalecimento de Aracaju como capital regional de uma ampla região que ultrapassa as fronteiras estaduais. No entanto, a situação da cidade de Aracaju agravava-se à medida que ocorria um demasiado crescimento populacional, trazendo consigo outro problema digno de atenção do poder publico do Estado, a questão das atividades e limites do Poder Judiciário e da Segurança Pública, com os seus agentes oficiais e não oficiais de justiça e as relações do poder local, historicamente exercido pelos Coronéis e líderes políticos. O estudioso, pesquisador e promotor público do Estado de Sergipe, o Doutor José Gilson dos Santos é autor de um livro intitulado, Algumas Visões Sergipanas, onde o escritor versa sobre a organização do poder judiciário em Sergipe desde os tempos do Brasil Colônia. Sua obra procura fazer um resumo histórico sobre os poderes legalmente constituídos e assim faz um apanhado sobre o Ministério Público, a Ordem dos Advogados do Brasil, A Igreja Católica, as unidades de Infantaria do Exército em Sergipe, a Polícia Militar de Sergipe, e em seguida finalizando a sua obra, com o capítulo, Samba e Carnaval, o autor procura demonstrar que independentemente de Política, o povo sergipano é alegre e adepto à comemorações e festejos. Demonstrando as influencias políticas ligadas à justiça sergipana, José Gilson dos Santos (2012, p. 127), assim descreve um fato ocorrido em Sergipe:

O coronel Oliveira Valadão que passou a presidir o estado, a partir de 24 de outubro de 1894, aborrecido com o posicionamento de alguns membros do Tribunal da Relação com relação ao processamento do último pleito eleitoral, conseguiu reformar o texto constitucional estadual, em 4 de abril de 1895, transferindo para o Poder Executivo as deliberações sobre as prerrogativas inerentes ao Poder Judiciário. Diante disso Valadão decretou a aposentadoria dos desembargadores Guilherme de Souza Campos, Francisco Alves da Silveira Brito e José Sotero Vieira de Melo, em 9 de Setembro de 1895, [...] a bem da ordem e dos poderes da justiça, [...] por desacato aos poderes constituídos. 75

75

SANTOS, José Gilson dos. Algumas Visões Sergipanas. Aracaju. J. Andrade. 2012.

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O professor Antônio Lindvaldo Sousa esclarece de forma evidente a composição dessas relações:

Um dos problemas cotidianos enfrentados pelos juízes e promotores públicos foram as pressões do chefe político local para prender ou soltar tanto pessoas envolvidas em conflitos do povoado quanto visitantes que chegavam à localidade. [...] Assim pretendemos demonstrar que a polícia, as autoridades judiciárias e o sistema penitenciário em Sergipe foram ineficientes no controle do banditismo e da violência cotidiana da população. 76

De acordo com os relatos desses pesquisadores havia problemas gravíssimos no exercício das atividades judiciárias em Sergipe, como um todo. Dificuldades, essas, baseadas fundamentalmente na constante perseguição política e na evidente falta de garantias de vida para os juízes de direito ou para os promotores públicos. Esses agentes da justiça, quando não eram coniventes com os interesses do chefe político local, ficavam a mercê dos seus desmandos, violências e ameaças. Outra dificuldade, existente nos trabalhos do judiciário sergipano, apontada nessa obra do professor Lindvaldo Sousa, foi a relação conflitante entre os juízes e Presidentes do Estado. Segundo Sousa (1996), muitos governantes estaduais se comportavam como os líderes políticos locais e quando se desentendiam com as autoridades judiciárias não se preocupavam em atrapalhar e perseguir juízes e promotores. Essa ineficiência da justiça sergipana era agravada à medida que cresciam, por parte de muitos funcionários, comportamentos de desacato, desobediência e falta de respeito para com os juízes de direito, enfraquecendo o trabalho da justiça. Embora, também fossem, não raramente, encontrados, comportamentos arbitrários e violentos praticados pelos juízes e promotores. De acordo com Sousa (1996), nas décadas de 1920 e 1930, as comarcas continuaram nas mesmas situações. No entanto os principais exemplos de abuso de poder por parte dos líderes políticos, ou da ineficiência e irresponsabilidade dos funcionários, juízes e promotores públicos, foram encontrados na comarca de Itabaiana. Segundo o pesquisador, a permanência ou não, na comarca de Itabaiana, das autoridades que compunha o judiciário era decida pelo

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SOUSA. Antônio Lindvaldo. A Manutenção da Ordem Pública e as Relações de Poder em Sergipe (1889 – 1930). In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 32, Aracaju. Anos 1993 – 1999. p. 155-172.

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chefe político local. Fundamentando, em grande parte da estrutura de manutenção da ordem pública, as relações pessoais em defesa de interesses privados. Inserido nessa estrutura, contaminada pelas relações pessoais, ainda estava as péssimas condições físicas das cadeias públicas do Estado. Segundo Sousa (1996), o estudioso e Juiz de Direito, Carvalho neto, a respeito de como eram feitas as escolhas da diretoria da cadeia pública de Aracaju, na década de 1910 e 1920, relatou que não se escolhia o técnico, mas o político, o correligionário e muitas vezes o serviçal. E mais, segundo esse pesquisador, da mesma forma que se indicava uma pessoa sem nenhuma qualificação para a administração das prisões, os mesmos critérios pessoais e políticos eram utilizados na indicação dos delegados. Ou seja, o cargo de delegado era disputado por aquelas pessoas mais próximas do chefe político daquela localidade. A indicação era sustentada através de uma troca de favores. O delegado era, na maioria das vezes, o amigo pessoal daquele político que estava no poder e não raramente se apresentava como um leigo nos assuntos da justiça, mas era devidamente conduzido e orientado pelos líderes políticos locais ou estaduais. O professor Antônio Lindvaldo Sousa (1996), descreve que em 1930, o Presidente Manuel C. Dantas acreditava que a solução para a presença de leigos nas delegacias seria a regulamentação da profissão de delegado no Estado de Sergipe. O estudioso ainda percebe e relata em sua obra a deficiência da polícia em Sergipe e mais, sobre a existência de um reduzido número de soldados, na sua composição, para uma garantia da ordem pública de qualidade. A ineficácia dessa polícia estava diretamente ligada às escolhas desses indivíduos para a composição da tropa policial. Como a escolha não levava em conta as aptidões morais e o caráter dos candidatos e sim era feita prioritariamente para garantir o interesse pessoal dos líderes políticos, o seus quadros de combatente e oficial contribuíam mais para a desordem do que com a preservação da ordem pública. Sobretudo, a partir da sua pesquisa e trabalho sobre a composição da estrutura da justiça em Sergipe, o Doutor Antônio Lindvaldo Sousa (1996), relata que:

Na verdade, nenhum Presidente do Estado promoveu uma restruturação da polícia sergipana no período de 1889 a 1930. As mudanças ocorridas foram insuficientes para reverter o quadro de reduzido número de soldados e, principalmente, a qualidade de seu trabalho na defesa da ordem pública. [...] Também não foi possível encontrar indícios que nos permitissem acreditar na eficácia da polícia sergipana no controle da violência presente nas várias localidades do interior do Estado e, principalmente, no controle dos bandidos

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famosos vindos de outros Estados. [...] Da mesma forma nenhum dado apontou aumento da eficiência das autoridades judiciárias das comarcas, do sistema penitenciário ou das delegacias. [...] Assim, toda a estrutura responsável pela manutenção da ordem pública apresentou sérios problemas no seu funcionamento. As autoridades judiciárias, o sistema penitenciário e a polícia não foram capazes de inibir ou controlar a violência do forasteiro, do bandido nativo e das populações dos diversos povoados. Portanto, o controle da violência pelo poder público estadual através das autoridades sediadas nas comarcas, das delegacias, penitenciárias e, principalmente, da polícia praticamente não existiu e quando funcionou foi, na maioria das vezes, marcado pela relação de interesses pessoais de diversas autoridades ligadas ou não às referidas instituições. 77

Enfim, esse capítulo se propôs a levar adiante uma tentativa de contextualização do caso de defloramento que virá a ser descrito no capítulo seguinte. E com isso houve a necessidade de ambientalizar o crime, ocorrido em 1932, na cidade de Aracaju, às estruturas, do poder público constituído, à época, da sua composição judiciária e da efetiva funcionalidade prática dos seus agentes. Mas principalmente aproximá-lo ao caráter social e a cultura moral dos sergipanos e aracajuanos de outrora, numa tentativa futura de entendê-lo a partir das suas relações com o seu meio social.

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SOUSA. Antônio Lindvaldo. A Manutenção da Ordem Pública e as Relações de Poder em Sergipe (1889 – 1930). In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Nº 32, Aracaju. Anos 1993 – 1999. p. 155-172.

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CAPÍTULO III O CASO DE MARIA DE LOURDES DOS SANTOS

O processo-crime utilizado como fonte principal para essa pesquisa versa sobre um crime de defloramento de uma menor e por isso por determinação legal, através de um compromisso assinado por mim, como pesquisador, comprometendo-me a não divulgar dados que constranjam ou prejudiquem moralmente os envolvidos no caso ou seus familiares e descendentes, e por orientação da diretoria do Arquivo Judiciário do Estado de Sergipe, local onde se localiza o processo estudado, os nomes dos principais personagens envolvidos diretamente no caso, contidos nessa pesquisa, foram modificados com o intuito de preservar as suas identidades e respeitar o segredo de justiça, no qual estão inseridos os casos dessa natureza, com incompletos cem anos de conclusão. Contudo, todas as demais informações, inseridas nessa pesquisa e extraídas a partir desse processo, são verídicas e intimamente descritas, a partir dos relatos e testemunhos encontrados, e posteriormente colhidos do caso em questão. O processo-crime estudado possui sessenta e cinco laudas, numeradas na parte superior direita, com informações contidas na frente e no verso das páginas. Iniciou-se no dia vinte e nove de novembro do ano de mil novecentos e trinta e dois e foi finalizado no dia cinco de agosto do ano de mil novecentos e trinta e três. Foi encontrado em bom estado de conservação, embora, apresentou algumas poucas páginas danificadas pela à ação do tempo, dificultando a leitura, mas não a compreensão dos fatos. Está localizado no Arquivo Judiciário de Sergipe, anexo ao Fórum Gumercindo Bessa, localizado na Av. Presidente Tancredo Neves, S/N, Bairro Capucho, Aracaju/SE, no setor de pesquisa histórica e judiciária. Preservado no FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01. O processo-crime, em questão, apresenta a jovem, Maria de Lourdes dos Santos, como vítima de um defloramento cometido pelo réu, João Francisco dos Santos, que foi enquadrado no crime descrito no artigo 267 do Código Penal dos Estados Unidos do Brazil, mais conhecido como o Código Criminal da República, de 1890. Que assim descreve o crime e a

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pena: “Art. 267. Deflorar mulher de menor idade, empregando seducção, engano ou fraude: Pena – de prisão cellular por um a quatro annos”78 O processo-crime é iniciado como de costume através de uma queixa apresentada na delegacia de polícia pelo pai da vítima, o senhor Alberto Joaquim dos Santos. É natural ser o pai o primeiro a se queixar, e consequentemente, a ir em busca da ajuda do poder público para obter a reparação ao mal cometido contra a sua cria “frágil” e “indefesa”. Como a figura do homem é historicamente compreendida e responsabilizada como um ser protetor da família fica evidente a forte carga moral depositada nas “costas” do chefe da família. E mais, embor a, nessa época já existissem diversas famílias que tinham na figura feminina um bom exemplo de chefia familiar, ainda era uma realidade diminuta em comparação as famílias conduzidas pelos homens. E assim, buscando reaver a honra da filha ou mesmo a honra familiar perdida, foi confeccionado, na delegacia de polícia, o termo de queixa apresentada pelo pai da vítima, o senhor Alberto Joaquim dos Santos. Contendo a seguinte descrição do fato delituoso:

Aos vinte e nove dias do mez de Novembro do ano de mil novecentos e trinta e dois, nesta cidade de Aracajú, Capital do Estado de Sergipe, na Delegacia de Polícia, onde as nove horas do dia se achava o Senhor Doutor Manoel Barboza de Souza, Delegado de Polícia da Capital, comigo escrivão do seu cargo adiante nomeado, aí presente Alberto Joaquim dos Santos, com cincoenta anos de edade, casado religiosamente, filho de Joaquim José dos Santos, natural da Cidade de Capela, deste Estado, residente na vila de Santa Rosa, lavrador, não sabendo ler nem escrever, e fez a queixa seguinte: que tem nesta Capital, em casa de Dona Delfina de Tal, uma filha hospedada há mais de um ano, por ser esta senhora sua conhecida, e necessitar sua filha de uma casa de família, uma vez que o queixoso não podia se transportar para esta Capital; que da hospedagem resultou um filho de Dona Delfina, de nome João Francisco dos Santos, com promessas de casamento praticar o defloramento da sua referida filha Maria de Lourdes dos Santos; que Dona Delfina não quer que seu filho repare a falta cometida, razão pela qual o queixoso traz o caso à polícia para desta forma ser tomada a providencia que o caso requer. Nada mais disse. Pelo que deu a autoridade por findo este termo que depois de lido e achado conforme, assina com o Cidadão José de Araújo Melo, a rogo do queixoso por ser analfabeto e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 79

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Código Penal dos Estados Unidos do Brazil, 1890 (http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=66049, acessado dia 22/03/2013, às 00h12min).
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Termo de queixa do Senhor Alberto Joaquim dos Santos. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 3. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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Na presença da autoridade policial, o senhor Alberto Joaquim dos Santos declara a sua natureza de pobreza e analfabetismo, e como se deu a vinda da sua filha para a Capital do Estado. Essa realidade de pobreza existente no Estado de Sergipe era compartilhada por uma grande parte da população. Essas famílias pobres, residentes no interior do Estado, migravam para a Capital em busca da cidade do Eldorado80, tão propagada pelo discurso modernizador das elites sergipanas. A Capital de Sergipe passava por um surto de melhorias urbanas, nas primeiras décadas do século XX, atraindo as massas interioranas, ou seja, mobilizando um forte contingente populacional em direção à Aracaju. Sobre essa realidade, de pobreza, migração e busca, vivida pela maioria da população sergipana do interior ou mesmo daqueles primeiros habitantes que chegaram à nova Capital, o professor Antônio Lindvaldo Sousa assim relata:

Desde a sua fundação, em 1855, Aracaju sempre foi uma cidade de homens e mulheres pobres que se deslocaram de várias partes de Sergipe. Aqui eles ergueram suas casas nos morros de areia, nos mangues e lagoas. Entretanto, é no início do século XX que essa migração se intensifica. Na medida em que a cidade de Aracaju passava por um processo incipiente de urbanização havia uma constante imigração de homens pobres vindos do campo. Segundo Ibarê da Costa Dantas, muitos indivíduos pobres se deslocaram para Aracaju, buscando melhores condições de vida, sendo a família Os Corumbas, retratada por Amando Fontes, um símbolo extremamente significativo. [...] Essa problemática assumiu proporções maiores na década de 1920 com o aumento populacional em Aracaju. No período, o aumento do número de indivíduos que chegavam a Aracaju era sensível. Segundo dados do IBGE, a imigração, desta década de 20, foi superior em cerca de duas vezes à da década anterior. A população de Aracaju em 1900 era de 21.132 habitantes e em 1920 era de 37.440. Esses indivíduos interioranos, os homens pobres, foram os que resistiram às atrações da “febre” da borracha do Vale Amazônico e do cacau do sul da Bahia. 81

As condições de sobrevivência da população que residiam no interior do Estado não eram boas, a população não vivia em condições satisfatórias e assim sofria com a seca e a

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A lenda do El Dorado, que se fundava na crença de uma cidade repleta de ouro, cujo termo El Dorado significa O (homem) dourado em espanhol; segundo a lenda, tamanha era a riqueza da cidadela, que o imperador tinha o hábito de se espojar no ouro em pó, para ficar com a pele dourada. Essa lenda foi ouvida pelos primeiros conquistadores espanhóis que se fixaram, no século XV e XVI, nas costas da atual Colômbia e Venezuela, então chamada Terra Firme ou Terra Santa. A busca do El Dorado, que levou os europeus até ao Brasil, persistiu até meados do século XVIII. (http://medievallegends.blogspot.com.br/2010/08/lenda-do-el-dorado.html, acessado dia 22/03/2013, às 10h41min).
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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. pp. 148-150

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fome. No entanto, a sua migração para a cidade de Aracaju não lhe garantia, efetivamente, acesso a uma real melhoria de vida. As famílias pobres do interior, muitas vezes impossibilitada de migrarem por completo para a capital, enviavam, principalmente, as suas filhas, pois os filhos permaneciam para auxiliar o pai na lida do campo, para trabalharem nas casas de boas famílias e estudarem na Capital. A valorização da área central e o estabelecimento das dificuldades de acesso desta área aos homens pobres aceleraram a ordenação de uma fisionomia para a cidade de acordo com os interesses dos mais privilegiados. O espaço urbano, neste sentido, começava a potencializar as contradições entre os vários segmentos sociais. Nesse sentido, declara Antonio Lindvaldo, sobre a as dificuldades de acesso da população pobre às habitações regulares da cidade de Aracaju:

Os aluguéis das casas recebiam constantes aumentados nos seus valores, forçando a “expulsão” direta dos moradores para outras áreas distantes do núcleo central da cidade. O jornal “Correio de Aracaju”, em 1919 registrou, algumas vezes, a problemática da especulação dos terrenos e dos aluguéis das casas. Demonstrou que os aluguéis em Aracaju eram relativamente os mais caros do país: em Aracaju, está constituindo um problema muito sério a exorbitância dos aluguéis de casas, que são aqui relativamente muito mais altos do que no Rio ou qualquer outra capital dos Estados do Brasil. 82

Ou seja, de acordo com os relatos e estudos apresentados não era fácil uma família se estabelecer regularmente na cidade de Aracaju, nas primeiras décadas do século XX, principalmente na área central da cidade. Muito mais comum era a permanência dessas famílias pobres migratórias em áreas marginalizadas pelo poder público, afastadas do cenário central da Capital ou o envio de entes familiares na busca de emprego ou melhores salários que posteriormente poderiam ser utilizados, em parte, para ajudar a família que permaneceu no interior. Dando prosseguimento ao relato dos dados contidos no processo-crime, constatamos que a partir da denúncia, feita pelo pai da vítima, queixando-se de um suposto defloramento cometido contra a sua filha, o delegado de polícia é obrigado a determinar que seja realizado na jovem Maria de Lourdes dos Santos, um exame de corpo de delito para a confirmação da sua natureza deflorada ou não. Para a realização do referido exame, o delegado nomeia como

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SOUSA, Antônio Lindvaldo. Temas de história de Sergipe II. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, CESAD, 2010. p. 150

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peritos, os seguintes médicos clínicos: o Doutor Carlos Moraes de Menezes e o Doutor Juliano Limões. A procedência do auto de exame de corpo de delito, feito na pessoa da menor, Maria de Lourdes dos Santos, foi registrada no processo-crime da seguinte maneira:

Aos vinte e nove dias do mez de Novembro do ano de mil novecentos e trinta e dois, nesta cidade de Aracajú, Capital do Estado de Sergipe, na Delegacia de Polícia, onde às dez horas do dia se achava o Senhor Doutor Manoel Barboza de Souza, Delegado de Polícia da Capital, comigo escrivão do seu cargo adiante nomeado, os peritos Doutores Carlos Moraes de Menezes e Juliano Limões, médicos clínicos residentes nesta Capital, as testemunhas Hercílio José de Góes e José de Araújo Melo, também residentes nesta Capital, pela referida autoridade foi deferido aos peritos o compromisso de bem e fielmente desempenharem a sua missão, dizendo com verdade o que descobrirem e encontrarem e o que em suas consciências entenderem, e encarregou-os de procederem ao exame na pessoa da menor Maria de Lourdes dos Santos, e que respondesse aos quesitos seguintes: 1º. Se houve defloramento; 2º. Qual o meio empregado; 3º. Se houve cópula carnal; 4º. Se houve emprego de violência para fim libidinoso; 5º. No caso afirmativo, em que consistiu essa violência; 6º. Se em virtude do meio empregado ficou a ofendida impossibilitada de resistir e defender-se; 7º. Se o defloramento é ou não recente. Em consequência passaram os peritos a fazer o exame ordenado e mais investigações que julgaram necessárias, concluídas as quaes declararam o seguinte: Maria de Lourdes dos Santos, brasileira, sergipana, preta, [grifo nosso] estatura e constituição medianas, dizendo ter dezeseis anos de edade, seios pequenos e turgidos, penil coberto de pelos, grandes lábios expessos e pigmentados encobrindo inteiramente os pequenos lábios, membranosos e pigmentados, e o clytoris – Hymem carnudo, franjado e de forma semilunar, apresentando treis ruturas totais, de cicatrização nova, que o dividiram em quatro retalhos deseguaes, flutuantes e afrontáveis. Atrio dilatado permitindo a fácil introdução do dedo indicador. E por isso respondeu aos quesitos da forma seguinte: 1º. Sim; 2º. Penis; 3º. Sim; 4º Não apresenta vestígios; 5º. e 6º. Prejudicados; 7º. Antigo, de mais de sete semanas. E são estas as declarações que em suas consciências e sobre o compromisso prestado tem a fazer. E nada mais havendo, deu a autoridade por findo este auto que depois de lido e acabado conforme, rubrica e assina com os peritos, as testemunhas e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 83

Na defesa da honra de uma jovem pobre e honesta foi reunido pelo poder público todo um aparato de técnicos da medicina e testemunhas, necessários, para que ficasse provado o defloramento da jovem e que a justiça cumprisse o seu papel na defesa da honra sexual

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Auto de exame de corpo de delito. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 4. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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feminina. Contudo, na descrição das condições físicas da vítima é curioso constatar as técnicas rudimentares, utilizadas pele medicina legal daquela ocasião e época, para a confirmação ou não do defloramento, ou mesmo para a constatação ou suspeitas sobre a vida pública e/ou privada da ofendida. Ou seja, se a ofendia tinha uma vida regida pelos preceitos morais da sociedade e ocupava o papel destinado para uma mulher pobre, mas honesta naquela comunidade. Pois, os médicos clínicos, nomeados como peritos para o referido exame de corpo de delito, possivelmente, associaram, por exemplo, o tamanho e a rigidez dos seios da ofendida para a confirmação, além da sua idade de vida, da pouca atividade sexual realizada por ela. E isso não seria novidade nesses casos que colocam em questão a honra sexual feminina. Como também os peritos não levaram em consideração a existência, na fisiologia feminina, do hímen complacente84. Também ficou evidente, a importância dada, exclusivamente, a cor negra, da ofendida, principalmente nesses casos de crimes sexuais. O discurso jurídico envolvendo casos como esse não raramente faz questão em frisar a cor da vítima, provavelmente numa tentativa de facilitar ou não a condenação do réu ou mesmo desacreditar ou não o testemunho da vítima. Enfim, ficou evidente, através do exame e dos questionamentos feitos a vítima, que a jovem fora deflorada e não estuprada. Diferença especificamente importante para o enquadramento do réu no crime e na imputação e dosimetria da pena. Sobretudo, foi confirmada a cópula carnal sem o uso de violência. Isto é, o ato foi consentido pela vítima. Logo em seguida é determinado pelo delegado que seja ouvida a ofendida em auto de perguntas, a respeito do fato de que tratam o processo-crime. Ou seja, a próxima testemunha a ser ouvida pelo delegado, com relação ao crime ocorrido, é a própria vítima, a jovem Maria de Lourdes dos Santos. E assim, a ofendida se expressa no auto de perguntas registrado no processo-crime:

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O hímen é uma membrana existente no início da vagina. Porém existe um tipo, chamado hímen complacente ou hímen elástico, que não sangra na primeira relação sexual, isso ocorre devido a sua grande capacidade de elasticidade e volta ao normal depois de uma relação sexual. Esse tipo de hímen apenas se rompe no parto normal, porque a pressão é maior. (http://www.linkatual.com/himen-complacente.html, acessado dia 26/03/2013, às 21h41min).

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Aos vinte e nove dias do mez de Novembro do ano de mil novecentos e trinta e dois, nesta cidade de Aracajú, Capital do Estado de Sergipe, na Delegacia de Polícia, onde às doze horas do dia se achava o Senhor Doutor Manoel Barboza de Souza, Delegado de Polícia da Capital, comigo escrivão do seu cargo adiante nomeado, aí presente Maria de Lourdes dos Santos, com dezesseis anos de edade, solteira, filha de Alberto Joaquim dos Santos, natural da vila de Santa Rosa, residente na rua do Riachão, desta Capital, doméstica, não sabendo ler nem escrever, e fez, digo a quem a referida autoridade passou a fazer as perguntas seguintes: Perguntado se está deflorada e quem foi o autor do seu defloramento? Respondeu que está e que foi João Francisco dos Santos. Perguntado em que dia, mez, hora e logar foi deflorada? Respondeu que foi no dia dezeseis de julho do corrente ano, seguramente às onze horas da noite, na própria casa de João Francisco, onde se encontrava a respondente hospedada, à rua de Laranjeiras. Perguntado se João Francisco era seu namorado ou noivo, e desde quando? Respondeu que já há um ano que namoravam, pois vem desta data que a respondente vive nesta Capital e residindo com a família de João Francisco; que João Francisco por várias vezes lhe fez juras de amor, chegando mesmo a dizer que aquele era o único meio de conseguirem se casar sem ter a sua família o direito de botar nenhum obstáculo. Perguntado quantas vezes teve relações de cópulas com João Francisco dos Santos? Respondeu que teve relações de cópula com João Francisco, várias vezes. Perguntado se por ocasião da primeira cópula que teve com João Francisco, se a respondente teve algum derramamento de sangue? Respondeu que teve e mostrou a João Francisco, o qual lhe pediu que escondesse para a sua família não ver. Perguntado quaes as pessôas que sabem deste fato? Respondeu que sabem deste fato, Valdice, Dolores, Dona Fía e Primo de Tal, por ter a respondente lhes declarado. Perguntado se tem mais alguma couza a dizer ou esclarecer sobre o fato? Respondeu que não. Pelo que deu a autoridade por findo este auto que depois de lido e achado conforme, assina com o Cidadão Lourival Soares Nogueira, a rogo da respondente por ser analfabeta e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 85

A partir das perguntas feitas a vítima a autoridade policial constata, junto à ofendida, as suas intimidades com o réu João Francisco dos Santos. E o inquérito vai tomando corpo e

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Auto de perguntas. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 6. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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sendo cuidadosamente trabalhado, pois a vítima havia confirmado o seu consentimento ao defloramento, devido às promessas de casamento feitas pelo réu, atitude essa, configurada no código penal, como engano ou fraude com o intuito de chegar ao cometimento do ato sexual com a vítima. A ofendida ainda aponta as juras de amor proferidas pelo acusado, e mais, informa que o réu enxerga nesse ato sexual, a única possibilidade da família dele não colocar nenhum obstáculo a união dos amantes. Pois, acredita ele, segundo o testemunho de Maria de Lourdes, e tenta passar para a ofendida que sendo ele o deflorador dela não haveria outra possibilidade de reparação que não fosse o casamento e a família dele não poderia ir de encontro com a lei. Isto é, de acordo com o testemunho da jovem Maria de Lourdes, fica fácil perceber o papel subalterno que ela tinha quando comparada ao filho da patroa e/ou Dona da casa. É evidente que aquele romance seria proibido pela família do réu e por isso as promessas feitas por ele a Maria pareciam tão agradáveis aos ouvidos daquela jovem. Segundo a própria Maria, o réu pede que a mesma esconda o seu derramamento de sangue, após o primeiro ato sexual entre eles, atitude que demonstra que muito provavelmente o réu já esperava uma negativa por parte da sua família no prosseguimento daquele romance. As hierarquias sociais foram descritas nas entrelinhas do testemunho de Maria de Lourdes. Naquela residência, na qual estava hospedada de favor, segundo o próprio pai da vítima, que assim se expressou: “que tem nesta Capital, em casa de Dona Delfina de Tal, uma filha hospedada há mais de um ano, por ser esta senhora sua conhecida, e necessitar sua filha de uma casa de família, uma vez que o queixoso não podia se transportar para esta Capital” [...] e sobre o defloramento sofrido por sua filha, ele prossegue e diz, “que Dona Delfina não quer que seu filho repare a falta cometida86”. A jovem Maria de Lourdes possivelmente também enxergava no casamento o sonho de construir a sua própria família e se tornar em um futuro próximo, também uma Dona da casa, como Dona Delfina de Tal, ou seja, melhorar de vida, pois fora esse, provavelmente, o principal objetivo da mesma, quando saiu de perto da sua família, no interior do Estado e veio buscar na Capital. Para uma jovem pobre e honesta não era difícil obter a proteção da justiça nesses casos de crimes sexuais, bastava a jovem ter um comportamento social aprovado pelas regras

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Termo de queixa, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 3

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morais, para o seu testemunho valer quase como uma verdade absoluta. No início do século XX, as antigas forças de solidariedade e dependência e o poder do homem como mantenedor do poder patriarcal começam a ser abalados e fragilizados, sendo urgente a emergência de intervenções diretas do Estado burguês para tutelar as mulheres e proteger a família brasileira. Maria de Lourdes é um exemplo dessas mulheres tuteladas pelo Estado, protegida pelo olhar jurídico, defendida pelo discurso que a vê como frágil e vítima dos encantos e meneios dos jovens sedutores. Para Caufield (2000), promotores e juízes eram propensos a defender meninas pobres, especialmente as brancas, em processos por crime de defloramento, porém para a sociedade da época estas meninas pobres deveriam saber de antemão que rapazes de uma classe social mais elevada, como os filhos dos patrões, não se casariam com elas. Sendo devidamente necessário para compor a trama, o delegado determina que seja ouvido em auto de perguntas o acusado, João Francisco dos Santos, a respeito do fato de que tratam os autos. Contudo, antes do réu, João Francisco, passar pelo crivo do interrogatório do delegado Manuel Barboza de Souza, é confeccionado e registrado nos autos do processocrime o pedido de deferimento sobre o atestado de pobreza do senhor, Alberto Joaquim dos Santos, pai da ofendida, enviado ao delegado. Esse pedido versa sobre a dificuldade financeira do pai da ofendida, pois precisando agir criminalmente contra o réu João Francisco dos Santos, autor do defloramento da menor Maria de Lourdes, filha do solicitante, se vê sem condições de poder suprir as custas e as demais despesas do processo instaurado, e por isso solicita o atestado de miserabilidade ao delegado. Em seguida, é instaurado o auto de perguntas ao acusado João Francisco dos Santos, assim registrado:

Aos dois dias do mez de Dezembro do ano de mil novecentos e trinta e dois, nesta Cidade de Aracajú, Capital do Estado de Sergipe, na Delegacia de Polícia, onde as onze horas do dia se achava o senhor Doutor Manuel Barboza de Souza, Delegado de Polícia da Capital, comigo escrivão do seu cargo adiante nomeado, aí presente João Francisco dos Santos, com dezesete anos de edade, solteiro, filho de Diocleciano dos Santos, natural da vila de Santa Rosa, deste Estado, residente na rua de Laranjeiras (velha) numero quatro, desta Capital, aprendiz de pintor, sabendo assinar o nome, aquém a referida autoridade passou a fazer as perguntas seguintes: Perguntado se conhece a menor Maria de Lourdes dos Santos, e desde quando? Respondeu que a conhece desde menino, na vila de Santa Rosa. Perguntado se teve relações de cópula com Maria de Lourdes, em que dia, hora, mez e logar e se notou que a mesma era virgem?

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Respondeu que Maria de Lourdes, desde o mez de Setembro do ano passado, que veio para a casa do respondente, isto é, de sua família (dele), por terem os seus paes lhe botado para cá, devido ao seu mau comportamento na vila de Santa Rosa, tendo a família do respondente se certificado depois de ter ido em sua casa, um rapaz de Santa Rosa, e dito na presença de Maria de Lourdes que esta havia sido deflorada por um Senhor de nome Agenor de Mirena, tendo a família dela envergonhada lhe mandado para esta Capital; que Maria de Lourdes, tudo ouviu sem pronunciar um protesto das acusações que lhe fazia Manuel Pretinho; que em virtude do que houve, o respondente não se esquivou de combinar com Maria de Lourdes de fazerem uma camaradagem, e efetivamente teve com esta relações de cópulas várias vezes, porém sem nenhuma promessa de recompensa, uma vez que ela mesma sabia que não tinha tal direito; que teve relações com ela pela primeira vez, no mez de Outubro do ano passado; que como o respondente tem sabido dos mãos costumes de Maria de Lourdes, nas casas onde tem cido empregada como pode citar as, do Senhor João Vicente, proprietário da padaria Ypiranga, e na rua de Laranjeiras, Dona Mariquinhas, Senhora do Senhor João Dias, o respondente tem se esquivado, não mais procurando Maria de Lourdes, para efeito de cópula, esta jurando vingança, lhe acusa como sendo o seu deflorador; que da própria casa do respondente, Maria de Lourdes carregou algumas peças de ouro, e mandou fazer na casa do Senhor Pacheco, um anel comercial para ela, por quinze mil réis, dizendo esta em casa que havia sido Dona Geuzia, Senhora do Senhor João Vicente que lhe havia vendido por vinte e cinco mil réis, para ela pagar em prestações. Perguntado se o respondente costumava dar algum presente a Maria de Lourdes, quando namorava com esta? Respondeu que nunca lhe deu presente algum, ela é que muitas vezes lhe oferecia dinheiro e presentes. Perguntado se tem mais o que dizer ou esclarecer sobre o fato? Respondeu que não. Pelo que deu a autoridade por findo este auto que depois de lido e achado conforme, assina com o respondente e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 87

É necessário observar com atenção o testemunho do acusado e perceber que o réu, João Francisco dos Santos, como é de costume em casos de defloramento, logo no início do seu testemunho, busca descreditar a vítima, Maria de Lourdes dos Santos. O acusado tenta convencer os agentes da justiça que a jovem não merece ser levada a sério e não pode ser considerada frágil, pura e honesta, e mais, não pode ser enxergada como possuidora da honra sexual feminina e familiar tão severamente protegida pelo discurso jurídico e pelos seus agentes públicos.

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Auto de perguntas. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 9-10. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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Logo na primeira oportunidade, João Francisco busca manchar a imagem de Maria de Lourdes, quando declara que a mesma apresentava maus comportamentos no interior, onde morava, e por isso, envergonhados, os pais, a mandaram para a capital do Estado. E mais, numa segunda oportunidade o réu relata saber quem teria sido o deflorador da jovem Maria de Lourdes, um Senhor de nome Agenor de Mirena, outro comportamento típico dos acusados desse tipo de crime, ou seja, esquivar-se da culpa, declarando saber quem seria o deflorador. O réu confirma estar envolvido intimamente com a ofendida há mais de um ano e de ter tido relações sexuais com a mesma por várias vezes, embora, ainda relata que nunca fizera promessas de casamento para tal fim, pois a relação de intimidade sexual entre os dois teria sido baseada numa espécie de troca de favores, ou como ele mesmo pronunciou nos autos, “uma camaradagem”. E, a partir do seu discurso, é interessante constatar que ele se sente no direito de “utilizá-la” sexualmente, sem nenhuma reparação ou obrigação para com a mesma, pois, ela, como uma mulher impura, não poderia exigir o direito de casamento, dado exclusivamente às mulheres honestas. O réu ainda reforça a ideia do mau comportamento de Maria de Lourdes quando a acusa de roubar diversas residências, onde anteriormente ela teria sido empregada e que por simples vingança a vítima o acusa do crime de defloramento. Outros dados interessantes foram descritos no testemunho do réu, João Francisco dos Santos. Primeiro, foi a localização da sua residência, Rua de Laranjeiras (velha), número quatro, localização essa, inserida na parte central da Capital e por isso contemplada pela extensão do traçado do Quadrado de Pirro, região que ganhava importantes investimentos urbanos, dentro do projeto modernizador das elites sergipanas, e valorização constante das habitações, demonstrando possuir a família do réu, João Francisco, boas condições de vida, principalmente quando comparada a situação da família da vítima, Maria de Lourdes. O segundo dado a ser constatado foi a especificação da profissão do réu e principalmente a sua qualificação ao saber escrever o seu próprio nome, contrastando com um cenário de forte analfabetismo e desemprego na Capital e no Estado de Sergipe como um todo. Essa realidade denota uma leve preocupação, dessa família, com a educação, numa época onde na maioria das casas de famílias pobres e humildes, trabalhar era mais precioso do que estudar, pois, somente os filhos daquelas famílias mais abastadas podiam se dedicar inteiramente ao estudo das letras e outros. Um terceiro dado de importante constatação foi a falta encontrada no registro do testemunho do réu, João Francisco dos Santos, pois, ele não faz referência alguma a cor da

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sua pele. Por qual razão a vítima é declarada preta e a cor do réu não é registrada nos autos? Em outras pesquisas utilizadas como fonte para este estudo, isso acontecia, provavelmente, como já foi dito anteriormente, para facilitar ou não a condenação ou absolvição do réu. Pois, devido ao forte sentimento escravocrata ainda latente na sociedade brasileira no início do século XX, nos casos onde as vítimas de crimes sexuais eram negras e os réus eram de cor branca, eram baixíssimos os índices de condenação dos réus. O inverso acontecia, nas condenações, quando a vítima era branca e o réu negro. Contudo, casos como esse último, era difícil de chegar aos ouvidos do poder público. Muito provavelmente por vergonha por parte da família da ofendida, achando melhor abafar o caso, e outras vezes pela própria família da vítima, procurar resolver o caso sem passar pela via da justiça legal, preferindo derramar o sangue do autor, lavando a honra da família. Embora, o réu tenha declarado que era recebedor de presentes de Maria de Lourdes e nunca doador de tais carinhos, típicos dos enamorados, um quarto dado encontrado confirma as melhores condições que vivia a família do réu, João Francisco dos Santos, pois quando o mesmo, em mais uma tentativa de desprestigiar e denigrir a moral da vítima, a acusa de ter furtado objetos de ouro da residência dos pais dele, acaba por confirmar que a sua família era possuidora de bens de valor, que os diferenciava, positivamente, da realidade vivida pela maioria da população, habitante da Capital sergipana, nas primeiras décadas do século XX. Dando continuidade aos autos do processo-crime, o delegado Manuel Barboza de Souza, determina que sejam intimadas, Valdete Maria de Santana e Marcionila dos Santos, a fim de serem ouvidas, como testemunhas, a respeito do fato investigado. Essas duas primeiras testemunhas foram ouvidas no dia nove de dezembro de mil novecentos e trinta e dois, às dez horas da manhã. E de forma individual, ou seja, uma de cada vez, elas foram inquiridas sobre o defloramento ocorrido com a vítima, Maria de Lourdes dos Santos. E Assim ficaram registrados os seus testemunhos:

1ª. Testemunha Valdete Maria de Santana, com quinze anos de edade, solteira, filha de José de Santana, natural deste Estado, residente na rua de Boquim, quatrocentos e cincoenta e quatro, desta Capital, doméstica, sabendo ler e escrever. Aos costumes disse nada. Testemunha que prestou o compromisso da lei, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado e sendo inquirida à cerca do fato de que tratam estes autos, disse que conhece Maria de Lourdes, há mais de um ano, e esta no mez passado, em conversa com a

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testemunha disse que João Francisco dos Santos lhe havia deflorado; que Maria de Lourdes lhe disse mais que João Francisco dos Santos, ao ter praticado o seu defloramento, lhe pediu que lavasse as suas vestes a fim de fazer desaparecer os vestígios do ato, garantindo que repararia a sua falta, casando-se consigo, pedindo ainda que nada contasse as suas irmãs (dele); que a testemunha acreditou mais ainda por saber que Maria de Lourdes, desde que veio para esta Capital, que mora na casa da família de João Francisco dos Santos, na rua de Laranjeiras (velha), sendo agora depois do fato, posta para fora pela família do mesmo João Francisco; que a testemunha desde que conhece Maria de Lourdes, nunca à viu com relações de namoro com rapaz algum; que é sabedora deste fato por lhe ter dito a própria Maria de Lourdes. Nada mais disse. Pelo que deu a autoridade por findo este depoimento que depois de lido e achado conforme, assina com a testemunha e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 2ª. Testemunha Marcionila dos Santos, com dezeseis anos de edade, solteira, filha de Matheus dos Santos, natural deste Estado, residente na Avenida Arrepiada, desta Capital, da vida livre, não sabendo ler nem escrever. Aos costumes disse nada. Testemunha que prestou o compromisso da lei, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado e sendo inquirida a cerca do fato de que tratam estes autos disse; que conhecer Maria de Lourdes dos Santos, há bastante tempo e sabe que esta desde que veio para esta Capital que mora na casa da família de João Francisco dos Santos, na rua de Laranjeiras; que há dois mezes, esta em conversa com a testemunha lhe declarou que João Francisco dos Santos, com promessa de casamento lhe havia deflorado, e pedido que nada contasse às suas irmãs (dele); que a testemunha também foi informada ainda que João Francisco havia ordenado a Maria de Lourdes que fizesse desaparecer os vestígios do ato que ficaram nas vestes desta; que nunca soube que Maria de Lourdes teve algum namorado, a não ser João Francisco dos Santos, a quem acusa de ter sido o seu deflorador. Nada mais disse. Pelo que deu a autoridade por findo este depoimento que depois de lido e achado conforme, assina com o Cidadão Lourival Soares Nogueira, a rogo da testemunha por ser analfabeta, e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 88

A próxima testemunha, contando a terceira a depor sobre o defloramento, Maria Anita dos Santos, fora intimada, pelo delegado de polícia, a comparecer à delegacia no dia treze de dezembro de mil novecentos e trinta e dois, às dez horas da manhã, para ser ouvida a respeito do crime cometido contra Maria de Lourdes. Contudo, nos registros dos autos do processo, antes do seu testemunho, foi registrada, na folha quatorze, a Certidão de Registro Civil da
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Assentada. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 11-12. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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ofendida, pelo Oficial Substituto do Registro Civil do 7º. Tabelião, Hermano Ribeiro, ou seja, no dia treze de dezembro de mil novecentos e trinta e dois foi confeccionada a Certidão de Nascimento da jovem Maria de Lourdes dos Santos, documentando os seus dados de filiação, naturalidade e sexo, mas, principalmente, confirmando, legalmente, a sua condição de menor de idade, pois a sua data de nascimento foi estabelecida para o dia vinte e nove de novembro de mil novecentos e dezesseis, às três horas da manhã. Contando a vítima com exatos dezesseis anos e quatorze dias, no dia da confecção do seu registro civil. Em seguida, no dia quatorze de dezembro de mil novecentos e trinta e dois, às dez horas da manhã, registrou-se o testemunho da terceira pessoa a confirmar saber algo sobre o crime, dessa forma:

3ª. Testemunha Maria Anita dos Santos, com dezesseis anos de edade, solteira, filha de Manoel Aureliano dos Santos, natural da Cidade de Laranjeiras, deste Estado, residente na rua de Laranjeiras, oitenta e dois, desta Capital, doméstica, não sabendo ler nem escrever. Aos costumes disse nada. Testemunha que prestou o compromisso da lei, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado e sendo inquirida à cerca do fato de que tratam estes autos, disse; que conhece Maria de Lourdes, há bastante tempo, e sabe que esta quando veio para esta Capital, foi residir em casa da família de João Francisco dos Santos, na rua de Laranjeiras; que seguramente há quatro mezes Maria de Lourdes lhe comunicou que João Francisco havia praticado o seu defloramento e pediu-lhe que não contasse a família dele, garantindo que se casaria com ela, e que no caso desta descobrir, ele não se casava e negava ter sido o autor; que Maria de Lourdes lhe contou isto pedindo-lhe muito segredo, em virtude de querer amparar o seu futuro; que Maria de Lourdes lhe disse mais, que o fato foi praticado em sua própria casa, tendo este lhe ordenado que fizesse desaparecer os vestígios para que as suas irmãs (dele) não vissem; que a testemunha, como Maria de Lourdes lhe pediu segredo, tudo ouviu e silenciou, mesmo porque não queria ser a causa da infelicidade de sua camarada, só declarando agora por ser preciso o seu testemunho; que é tudo o que sabe a respeito. Nada mais disse. Pelo que deu a autoridade por findo este depoimento que depois de lido e achado conforme, assina com o Cidadão Hercílio José de Góes, a rogo da testemunha, por ser analfabeta e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 89

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Assentada. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 15. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) NÚMERO DA CAIXA – 01.

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No dia dezesseis de dezembro de mil novecentos e trinta e dois foram intimadas mais duas testemunhas, Maria Araújo e Maria Flora da Silva, que ficaram obrigadas a comparecerem às dez horas da manhã, um dia após a intimação, na delegacia de polícia. E, logo assim, respectivamente, prestaram os seus testemunhos, individualmente, à autoridade policial presente:

4ª. Testemunha Maria Araujo, com dezeseis anos de edade, solteira, filha de Manoel Araujo, natural da vila de Itabaianinha, deste Estado, residente na rua de Boquim, duzentos e cincoenta e dois, desta Capital, doméstica, não sabendo ler nem escrever. Aos costumes disse nada. Testemunha que prestou o compromisso da lei, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado e sendo inquirida à cerca do fato de que tratam estes autos disse; que conhece Maria de Lourdes dos Santos, há bastante tempo, tendo esta declarado a testemunha, no mez de Julho do corrente ano, que João Francisco lhe havia deflorado; que João Francisco, é filho da dona da casa, onde estava Maria de Lourdes, morando, desde que veio de Santa Rosa para esta Capital; que Maria de Lourdes lhe disse mais que João Francisco, ao ter praticado o seu defloramento pediu-lhe que fizesse desaparecer os vestígios, que ficaram nas suas vestes, antes que as irmãs dele, vissem e prometeu-lhe casamento, no caso de Maria de Lourdes lhe guardar segredo; que ultimamente a testemunha foi informada que João Francisco, está negando a autoria do defloramento de Maria de Lourdes, dando a esta agora uma porção de namorados; que a testemunha conhece Maria de Lourdes a bastante tempo, desde que ela chegou nesta Capital, e nunca teve ciência de namorado algum que ela tivesse tido. Nada mais disse. Pelo que deu a autoridade por findo este depoimento que depois de lido e achado conforme, assina com o Cidadão José Araujo Melo, a rogo da testemunha, por ser analfabeta, e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 5ª. Testemunha Maria Flora da Silva, com dezesete anos de edade, solteira, filha de José Durval da Silva, natural da vila do Rosário, deste Estado, residente na rua de Pacatuba numero vinte, desta Capital, domestica, sabendo assinar o nome. Aos costumes disse nada. Testemunha que prestou o compromisso da lei, prometeu dizer a verdade do que soubesse e lhe fosse perguntado, e sendo inquirida à cerca do fato de que tratam estes autos, disse; que conhecendo Maria de Lourdes dos Santos, há mais de um ano, esta lhe disse, proximamente no mez de Julho, que o filho da dona da casa onde ela morava, de nome João Francisco dos Santos, havia praticado o seu defloramento, tendo lhe pedido depois do ato, que Maria de Lourdes fizesse com que desaparecer os vestígios que ficaram nas suas vestes, jurando a esta que no caso dela guardar segredo ele, se casaria consigo, e caso contrario, ele negaria ter sido o seu deflorador; que Maria de Lourdes disse mais a

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testemunha que João Francisco, lhe havia recomendado que não queria que as suas irmãs (dele) tivessem ciência do fato; que é tudo quanto sabe a respeito do fato em apreço. Nada mais disse. Pelo que deu a autoridade por findo este depoimento que depois de lido e achado conforme, assina com a testemunha José Araujo Melo, a rogo da testemunha e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 90

Alguns fatos podem ser elencados em relação ao grupo, de testemunhas, intimado pelo delegado de polícia, Manoel Barboza de Souza. As testemunhas foram cinco jovens moças, com idade entre quinze e dezessete anos, todas solteiras. Três delas declararam, em seu testemunho, ter como ocupação principal, a profissão de doméstica, para a sua sobrevivência e sustentabilidade, dentre as outras, uma não especificou profissão, e a outra relatou ser de vida livre, ou seja, desempregada. Sobre o grau de instrução das moças, apenas uma declara saber ler e escrever, das demais quatro testemunhas restantes, três são declaradas completamente analfabetas, e uma delas, ainda, afirma saber assinar o próprio nome. Em relação à naturalidade das mesmas, três delas registraram, no seu testemunho, ser do interior do Estado de Sergipe, e duas declararam ser natural deste Estado, dando possivelmente a entender que também fossem naturais do interior do Estado, pois a cidade de Aracaju não foi citada como local de nascimento de nenhuma das duas testemunhas que faltaram definir, claramente, o seu local de origem. Outro fato intrigante, registrado nos autos do processo-crime, em apreço, com relação às testemunhas, foi o local onde residiam as jovens, isto é, a localidade e o endereço das residências, onde as mesmas moravam. Todas elas declararam residir em localizações que remetem à região central da cidade de Aracaju, ou seja, uma região valorizada do ponto de vista urbano-comercial e privilegiada economicamente, e mais, um espaço em constante processo de modernização, à época, pertencente às extensões dos ideais modernizantes do Quadrado de Pirro. A partir dessas informações, extraídas dos testemunhos das jovens, fica difícil negar que muito provavelmente essas moças, de características tão similares às da própria vítima, são meninas cuja realidade de pobreza, vivida nas suas cidades de origem, fizeram com que elas, não raramente apoiadas pela família, migrassem para a capital do

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Assentada. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 17-18. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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Estado, buscando melhorias de vida. E mais, procurando uma saída daquela realidade, seja através de algum conhecido ou mesmo chegando de porta em porta, elas se empregam nas casas das famílias, possuidoras de melhores rendimentos, que as acolhe como empregadas domésticas, cuidadoras, lavadeiras, cozinheiras ou babás. Contudo, era muito importante que essa família da capital, a qual a jovem prestaria os seus serviços e conviveria diariamente com ela, fosse moralmente uma boa família, pois as regras morais da sociedade daquela época mandavam zelar em primeiro lugar pela honra sexual feminina e honestidade moral. Embora, muitas dessas moças encontrassem a sua “perdição”, justamente no interior das residências onde moravam e trabalhavam, ou seja, elas acabavam por se envolverem em relacionamentos amorosos com o filho da patroa, ou com o próprio patrão, ou ainda pior com o marido da irmã, o cunhado. Diversas situações como essas transformaram belas jovens, consideradas moças ingênuas, puras, frágeis e honestas, em mulheres devassas, desonestas e marginalizadas, quase umas criminosas perante a sociedade e diante dos olhos do Poder Público. Uma frase bastante popular, “sou pobre, mas sou honesta” serve facilmente para exemplificar a pressão social vivida pelo sexo feminino e o medo causado pelas exigências morais em relação às mulheres daquela época, principalmente as mais humildes. Voltando a tratar sobre o crime, todos os testemunhos, sem exceção, confirmam a versão da vítima, Maria de Lourdes, e mais, especificam com exatidão o defloramento e o seu autor, inclusive confirmando que o acusado testemunhou o derramamento de sangue da ofendida, por conta da primeira cópula total que teve com a mesma, e mais, as testemunhas declaram que através da sedução da promessa de casamento o acusado premeditou o crime e ainda, depois de concluído o defloramento, planejou apagar as provas do seu crime e manter tudo aquilo em segredo, principalmente em relação às suas irmãs, muito provavelmente para que as mesmas não tivessem contato com esses assuntos, ou descobrissem que falavam, riam, conversavam, assistiam televisão no sofá da sala ou até mesmo trocavam segredinhos e confidências com uma moça “furada” ou “descabaçada”, isto é, que não era mais virgem. Talvez o acusado tenha tentando evitar que esse assunto chegasse aos ouvidos das irmãs para que elas jamais soubessem que moravam debaixo do mesmo teto de uma jovem “perdida”, pois, não ficaria bem socialmente para suas irmãs, como jovens honestas, conviverem, falarem, pensarem ou sonharem sobre relações sexuais e ainda mais dentro da sua própria casa.

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Outro relato em comum, encontrado nos testemunhos da cinco jovens, foi a confirmação unânime do bom comportamento social e moral da ofendida. Os relatos das testemunhas contribuem para rotular como honesto o modo de vida da vítima, Maria de Lourdes dos Santos, atestando que a ofendida era possuidora da honra sexual antes do réu a tirá-la, com promessas de casamento. E dizem mais, que são conhecedoras, de longa data, do relacionamento de namoro entre o réu e a vítima e da fidelidade desta para com aquele. E são esses os principais pontos dos testemunhos das cinco jovens moças. Embora, tenha ficado clara a provável intenção do Poder Público, através dos seus agentes, em buscar a proteção da vítima e a condenação do réu, pois nesses casos, quando não é encontrado nada que manche a imagem da vítima, há quase uma provável “conspiração” contra o “princípio do contraditório e da ampla defesa”
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do acusado, isto é, uma

verdadeira pressa para condenar o réu, isto é, adiantar a confirmação da sua situação de culpabilidade. Esse processo é uma possível evidência dessa falha da justiça daquela época, tão emocional em seus discursos jurídicos e tão “cordial”92 em seus julgamentos. Pois, não é difícil perceber, quando analisado o auto de perguntas do réu, João Francisco dos Santos, registrado nos autos do processo-crime, que apesar de conter inúmeras testemunhas indicadas pelo acusado, como por exemplo, o Senhor Agenor de Mirena, o Manuel Pretinho, o Senhor João Vicente, a Dona Mariquinhas, o Senhor Pacheco e a Dona Geuzia, que poderiam, supostamente, esclarecer a conduta duvidosa de Maria de Lourdes dos Santos ou mesmo confirmar os maus comportamentos da ofendida, no entanto, nenhuma dessas pessoas foi chamada para prestar algum esclarecimento sobre a conduta da ofendida ou sobre os fatos de tratam os autos, e com isso, inviabilizando a defesa do acusado, piorando ainda mais a situação do réu dentro do processo-crime instaurado. E aos onze dias do mês de janeiro de mil novecentos e trinta e três, no verso da página dezoito e na página dezenove do processo-crime de defloramento, o delegado de polícia, Manuel Barboza de Souza, na presença do escrivão,

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É o princípio estabelecido no art. 5º, inciso LV, da CF, segundo o qual “aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. Enfim, é o princípio que garante as pessoas o dire ito de se defender. Caso não seja observado tal princípio, o processo será declarado nulo. (http://blogdodpc1.blogspot.com.br/2008/07/princpiodo-contraditrio.html, acessado dia 27/03/2013, às 04h38min).
92

Presente em Raízes do Brasil (1936), primeiro livro do historiador e sociólogo, Sérgio Buarque de Holanda, destaca-se um capítulo chamado, “homem cordial”, no qual o autor investiga as origens de uma forma de sociabilidade brasileira, mais afeita aos contatos informais e à negação das esferas públicas de convívio. Crítico, ele mostra como a “cordialidade” leva a uma relação problemática entre instâncias públicas e privadas. (http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85055, acessado dia 27/03/2013, às 04h25min).

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Pedro Lima, assim resume e faz a suas conclusões sobre o crime e o remete às autoridades competentes para o seu julgamento:

No dia 29 de Novembro do corrente ano, compareceu nesta Delegacia Auxiliar, Alberto Joaquim dos Santos, e queixou-se que a sua filha menor de dezeseis anos de edade, de nome Maria de Lourdes dos Santos, fora deflorada por João Francisco dos Santos, em casa de quem se encontrava a dita menor, para onde viera de Santa Rosa, para se empregar nesta Capital, por ser Delfina de Tal, mãe do acusado, pessoa de sua confiança e amizade. Feito o necessário exame, os peritos constataram ser o defloramento antigo, conforme se vê do laudo de folhas 4, verço. Ouvida a menor, disse esta que mantinha namoro com João Francisco dos Santos, e este com promessas de casamento praticou o seu defloramento, pedindo-lhe em seguida que a ninguém contasse, que ele repararia o crime e que assim procedera porque era este o meio mais fácil de se casarem sem objeção da família. João Francisco, no entretanto nega a responsabilidade do crime, prosa esta adotada pela maioria de todos os indivíduos autores de defloramento. As testemunhas as que deposeram no presente inquérito, todos dizem ter ouvido da própria vitima a narração do sucedido, antes mesmo da queixa de folhas 3, o que é fato é que a menor Maria de Lourdes está deflorada e não acusa outra pessoa a não ser João Francisco, que está deste modo sujeito as penas do art. 266, do Código Penal. Remetam-se os presentes autos, ao Drº. Promotor Público da Comarca, por intermédio do Meretíssimo juiz a que for distribuído. Indico para testemunhas, os mesmos que já deposeram no presente inquérito. Demorado por acumulo de serviço, nesta Delegacia. 93

Embora, conclusos os autos do processo-crime instaurado na delegacia de polícia, houve uma negativa por parte da Justiça em aceita-lo, pois a falta de comprovação da idade do acusado e ainda, recusa da certidão de registro civil, da ofendida, como prova da sua idade, impossibilitavam determinação da competência do Juiz. E exatamente no dia vinte e oito de janeiro de mil novecentos e trinta e três, o escrivão da 2ª. Vara criminal, Manuel Campos, confecciona a documentação, determinado pelo Promotor Público, Drº. Luiz Magalhães, requerendo a baixa do processo. Esse fato foi registrado formalmente dessa forma no processo-crime:

Tendo o acusado se declarado menor de 17 annos, o inquérito devia ter sido instruído com a prova da idade do mesmo e com o boletim de informação de que trata o art. 230 do Código do Processo Criminal do Estado combinado com o art. 5º. Da lei nº. 855 de 31 de Outubro de 1923.

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Autos Conclusos. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 18 (verso) -19. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

94

No caso presente, a prova da idade se torna necessário porque ella virá definir a competência do fôro em que se tem de processar o feito que caberá ao Drº. Juiz da 3ª. Vara, caso seja verdadeira a alegação do indiciado. A certidão de idade da ofendida, que foi registrada depois do delicto, não tem valor probante para o caso, conforme tem decidido o Superior Tribunal de Justiça do Estado, como se pode ver no accordam de nº. 132 de 16 de Dezembro de 1931. Preciso e pois, que se junte a certidão de batismo da ofendida ou que se faça exame médico que lhe constate a edade. Em vista do exposto, requirio ao MM Drº. Juiz de Direito da 2ª. Vara que se digne mandar baixar o presente inquérito à 1ª. Delegacia Auxiliar, afim de que se termine as faltas apontadas. 94

A citação anterior, extraída do processo-crime pesquisado, traz em seu conteúdo a referência de dois artigos jurídicos. O primeiro trata-se do artigo 230 do Código do Processo Criminal do Estado. É importante que se registre, nessa pesquisa, que em 1832, publicou-se no Brasil o primeiro Código de Processo Criminal, o Código Criminal do Império, no contexto do primeiro Código Penal do Império de 1830. Segundo, o artigo, intitulado, “A Relação do Rio de Janeiro no Brasil Imperial”, publicado no XXXIII Simpósio Nacional de História, evento organizado pela ANPUH – Associação Nacional de História, originalmente denominada, Associação Nacional dos Professores Universitários de História, escrito pelo Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal Fluminense e professor do Departamento de Ciência Política, daquela mesma instituição, Nilton Soares de Souza Neto, que assim se expressou em relação ao Código:

O primeiro Código de processo penal brasileiro foi o de 1832 e denominavase Código de Processo Criminal de Primeira Instancia, foi liberal e oferecia muitas garantias de defesa aos acusados. Valorizava os juízes, conferindolhes funções importantes. Havia, na época, além dos juízes de direito, juízes de paz que exerciam atribuições policiais e eram eleitos. 95

94

Remessa. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 20 (verso) -21. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.
95

NETO, Nilton Soares de Souza. A Relação do Rio de Janeiro no Brasil Imperial. ANPUH - XXXIII Simpósio Nacional de História – Londrina, 2005. (http://anpuh.org/anais/wpcontent/uploads/mp/pdf/ANPUH.S23.1463.pdf, acessado dia 27/03/2013, às 10h36min).

95

O Desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Luiz Melíbio Uiraçaba Machado, em seu artigo, intitulado, “Evolução do Código de Processo Penal”, debatido numa mesa redonda, no I Seminário de Política de Memória Institucional e Historiografia, fez um breve apanhado sobre esse código, de 1832, e assim descreveu as suas impressões:
O Código de Processo Penal foi saudado por Pandiá Calógeras como a mais brilhante vitória do domínio da justiça, e por Aureliano Leal como o mais formoso monumento do saber jurídico do espírito liberal. Realmente, o Código de Processo Penal de 32, embora inquisitorialmente permitisse ao Juiz de Paz recolher provas da materialidade (art. 12), e também, de ofício, iniciar a ação penal e ouvir as testemunhas, mesmo sem a presença do réu (art. 141) - aspecto mencionado pelo Des. Melíbio -, que só poderia contestar as testemunhas se fosse preso (art. 142), o novo Código, a despeito disso, instituiria a ação penal pública a cargo do Ministério Público, a quem também incumbiria promover a execução das sentenças criminais. 96

Sobre o artigo 230, o referido código versa que: “Os processos serão sempre remet tidos ao Juiz de Paz da cabeça do Termo, e havendo mais de um, áquelle d'entre elles que ahi fôr o do Districto onde se reunir o Conselho dos Jurados.” 97. Em relação ao artigo 5º., da lei de nº. 855, segundo, um trabalho, intitulado, “Olhares sobre o Menor Delinquente: A Normatização da Infância e Adolescência Delinquentes no Brasil (1889 – 1930)”, publicado no VI Colóquio Internacional – “Educação e Contemporaneidade”, realizado na cidade de São Cristóvão – Sergipe, no período de 20 a 22 de setembro de 20112, a autora e pesquisadora Kátia Regina Lopes Costa, descreve o seu conhecimento sobre essa legislação:

[...] Entre os anos de 1923 e 1927, algumas medidas importantes foram tomadas no intuito de regulamentar a assistência ao menor abandonado e delinquente: a inclusão da figura do juiz de menores, o regulamento do Conselho de Assistência e Proteção dos menores e, por fim, a elaboração do Código de Menores em 1927.

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MACHADO, Luis Melíbio Uiraçaba. Evolução do Código de Processo Penal. Mesa Redonda do I Seminário de Política de Memória Institucional e Historiografia. Antiga sala do Tribunal Pleno, Palácio da Justiça, Porto Alegre, 13 de setembro de 2002. (http://www.tjrs.jus.br/export/poder_judiciario/historia/memorial_do_poder_judiciario/memorial_judiciario_gau cho/revista_justica_e_historia/issn_1676-5834/v3n5/doc/15-Evolucao_Codigo_Processo_Penal.pdf, acessado dia 27/03/2013, às 11h28min).
97

Código do Processo Criminal de Primeira Instância, de 1832, do Império do Brazil. (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LIM/LIM-29-11-1832.htm, acessado dia 27/03/2013, às 12h15min).

96

Em Sergipe, data de 31de outubro de 1923 a lei Estadual nº 855, mencionada em muitos processos, que normatizava as questões que envolviam o menor delinquente, inclusive, a obrigatoriedade do curador. E o decreto federal 16.272 de 20 de dezembro do mesmo ano, que estabelece escolas de reforma para os menores delinquentes. [grifo nosso] O Código de Menores de 1927 (CM/1927) foi promulgado com o Decreto nº 17.943- A, de 12 de outubro de 1927, e consolidou as leis de assistência e proteção a menores, sendo revogada pela Lei 6.697/1979 – Código de Menores de 1979. Na verdade, o governo brasileiro solidificou no código todas as leis brasileiras existentes para a proteção e assistência à infância. 98

Os autos do processo-crime são recebidos de volta à 1ª. Delegacia Auxiliar e registrados pelo escrivão Pedro Lima. O delegado, Manoel Barboza de Souza, determina que sejam satisfeitos os pedidos do Ministério Público. E informa, em certidão registrada nos autos, que deixou de juntar ao processo-crime a certidão de batismo da vítima, Maria de Lourdes dos Santos, devido a esse documento não ter sido encontrado na vila de Santa Rosa, onde a ofendida foi batizada, e quanto ao acusado, João Francisco dos Santos, este não foi encontrado em lugar algum da capital sergipana. E mais, o delegado determina que sejam intimados os Doutores Carlos Menezes e Benjamim de Carvalho, médicos clínicos, peritos, nomeados pela autoridade policial, para efetuarem os procedimentos de exame pericial, com o objetivo de provar a idade da jovem Maria de Lourdes dos Santos. O exame foi realizado no dia quatro de fevereiro de mil novecentos e trinta e três, às dez horas da manhã, na própria delegacia de polícia, na presença das testemunhas, Lourival Soares Nogueira e Hercílio José de Góes. Sendo, posteriormente, notificado dos resultados alcançados, o Drº. Promotor Público da Comarca. E o auto de exame pericial para a prova de idade, procedido na jovem Maria de Lourdes dos Santos, ficou registrado dessa maneira no processo-crime:

Aos quatro dias do mez de Fevereiro do ano de mil novecentos e trinta e treis, nesta Cidade de Aracajú, Capital do Estado de Sergipe, na Delegacia de Polícia, onde as dez horas do dia se achava o Senhor Doutor Manoel Barboza de Souza, Primeiro Delegado Auxiliar, comigo escrivão do seu cargo adiante nomeado, os peritos Doutores Carlos Menezes e Benjamin de Carvalho, médicos clínicos, residentes nesta Capital, e as testemunhas Lourival Soares Nogueira e Hercílio José de Góes, também residentes nesta

98

COSTA, Kátia Regina Lopes. Olhares sobre o Menor Delinquente: A Normatização da Infância e Adolescência Delinquentes no Brasil (1889 – 1930). VI Colóquio Internacional – “Educação e Contemporaneidade”. São Cristóvão – Sergipe, 2012. (http://www.educonufs.com.br/cdvicoloquio/eixo_10/PDF/1.pdf, acessado dia 27/03/2013, às 13h25min).

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Capital, pela referida autoridade, foi deferido aos peritos, na presença do Doutor Promotor Público da Comarca, o compromisso de bem e fielmente desempenharem a sua missão, dizendo com verdade o que descobrirem e encontrarem, e o que em suas conciencias entenderem, e encarregou-os de procederem a exame pericial para prova de edade na pessoa de Maria de Lourdes dos Santos, e que respondessem aos quesitos seguintes: 1º. Qual a edade presumível da menor; 2º. Porque determinam esta edade. Em consequência passaram os peritos a fazer o exame ordenado e mais investigações que julgaram necessárias, concluídas as quais declararam o seguinte: Maria de Lourdes dos Santos, Brasileira, sergipana, preta, estatura e constituição medianas; systema pilloso normalmente desenvolvido; systema genital completamente desenvolvido, datando as primeiras regras de mil novecentos e trintas systema dentário incompleto, faltando o aparecimento dos terceiros grossos molares. E por isto respondem aos quesitos da forma seguinte: 1º. Dezesete anos; 2º. No desenvolvimento dos systemas pilloso, genital e principalmente dentário. E são estas as declarações que em suas conciencias e sobre o compromisso prestado tem a fazer. E nada mais havendo, deu a autoridade por findo este auto que depois de lido e achado conforme, rubrica e assina com os peritos, as testemunhas, com o Promotor Público da Comarca, e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 99

No dia seguinte, dia cinco de fevereiro de mil novecentos e trinta e três, o delegado de polícia julga procedente o exame pericial realizado na menor, Maria de Lourdes, para a especificação da sua idade, condição sine qua non100, para que em seguida, os resultados obtidos possam produzir os seus efeitos legais, ou seja, possam ser considerados como provas no processo-crime. No dia dezesseis de fevereiro o escrivão de polícia, Pedro Lima, informa ao delegado, Manoel Barboza, e registra no processo, que o acusado, João Francisco dos Santos, já se encontra novamente na cidade de Aracaju, mais especificamente na residência dos seus pais, na rua de Laranjeiras (velha), número quatro. E em vista da informação recebida, o delegado determina que se cientifique a idade do acusado, através do exame pericial no jovem, realizado pelos peritos, para a constituição de provas e posterior registro nos autos do processo. Os médicos clínicos, Doutores Carlos Menezes e Benjamin de Carvalho foram nomeados para procederem a realização do exame no dia dezessete de

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Auto de Exame Pericial. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 23. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.
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Sine qua non significa "sem o qual não pode ser", e é uma expressão que vem do latim. Sine qua non referese a uma ação, condição ou algo indispensável e essencial, inicialmente era utilizado como uma expressão legal, porém já é uma expressão corriqueira. O seu plural é Sine quibus non. (http://www.significados.com.br/sine-quanon/, acessado dia 27/03/2013, às 15h22min).

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fevereiro de mil novecentos e trinta e três, às dez horas da manhã, bem como duas pessoas também foram intimadas como testemunhas do referido exame, o senhor Lourival Soares Nogueira e o senhor José de Araújo Melo e em seguida houve notificação ao Promotor Público da Comarca de Aracaju, do procedimento a ser realizado. E dessa maneira, está descrito, o exame pericial, nos autos do processo-crime pesquisado:

Aos dezesete dias do mez de Fevereiro do ano de mil novecentos e trinta e treis, nesta Cidade de Aracajú, Capital do Estado de Sergipe, na Delegacia de Polícia, onde as dez horas do dia se achava o Senhor Doutor Manoel Barboza de Souza, Primeiro Delegado Auxiliar, comigo escrivão do seu cargo adiante nomeado, os peritos Doutores clínicos residentes nesta Capital, as testemunhas Lourival Soares Nogueira e José de Araújo Melo, também residentes nesta Capital, pela referida autoridade foi deferido aos peritos o compromisso de bem e fielmente desempenharem a sua missão, dizendo com verdade o que descobrirem e encontrarem e o que em suas conciencias entenderem e encarregou-os na presença do Doutor Promotor Público da Comarca, de procederem a exame pericial para prova de edade, na pessoa do menor João Francisco dos Santos, e que respondessem aos quesitos seguintes: 1º. Qual a edade presumível do menor; 2º. Porque determinam esta edade. Em consequência passaram os peritos a fazer o exame ordenado e mais investigações, que julgaram necessárias, concluídas as quaes declararam o seguinte: João Francisco dos Santos, preto, brasileiro, sergipano, baixo, robusto, rosto glabro, pelos abundantes nas axillas e púbis ralos na região external. Desenvolvimento genital – pleno – systema dentário está aparecendo agora o terceiro molar inferior esquerdo, o primeiro a aparecer. E por isto respondem aos quesitos da forma seguinte: 1º. Dezoito anos; 2º. Pelo desenvolvimento pilloso e principalmente do systema dentário. E são estas as declarações que em suas conciencias e sobre o compromisso prestado têm a fazer. E nada mais havendo, deu a autoridade por findo este auto que depois de lido e achado conforme, rubrica e assina com os peritos, as testemunhas, com o Doutor Promotor Público da Comarca, e comigo Pedro Lima, escrivão que escrevi e dou fé. 101

Em seguida, no dia dezoito de fevereiro de mil novecentos e trinta e três, o delegado de polícia, Manoel Barboza de Souza, julga procedente o auto de exame pericial para provar a idade do acusado e produzir assim, os efeitos legais esperados. E determina que seja juntado aos autos do processo-crime, o boletim de informações referente ao acusado João Francisco dos Santos. O Boletim foi registrado no processo de acordo com a seguinte reprodução da tabela:

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Auto de Exame Pericial. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 25. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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A – Nome e sobrenome do menor B – Data e logar de nascimento C – De quem é filho, se é legitimo ou natural D – Com quem habitava E – Se é órfão de pai e mãe, somente de pae, ou somente de mãe F – Qual o seu graó de instrução G – Se frequentou alguma escola primário ou profissional H – Qual o proceder nesses institutos I – Se aprendeu algum oficio J – Se tem alguma ocupação K – Qual e seu estado de saude L – Se tem alguma moléstia grave M – Se teve alguma enfermidade física ou mental de natureza a influir sobre o seu discernimento N – Quaes são, o caráter, a moralidade, os hábitos e as tendências do denunciado O – Quaes os logares que habitualmente frequentava P – Se foi anteriormente preso e porque factos.

João Francisco dos Santos Vila de Santa Rosa Natural de Maria Delfina dos Santos Com a progenitora Não Rudimentar Escola noturna Francisco Melo Regular Aprendiz de pintor Pintor Bom Não Não

Regulares Não frequentava casas duvidosas Não
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A partir das informações contidas e registradas, através do discurso dos operadores da justiça, no exame pericial realizado no réu e no boletim de informações do acusado é curioso observar a determinação da cor do indiciado no crime de defloramento, e a definição dos seus hábitos morais e do seu caráter como regulares, apesar do mesmo não frequentar as tão famosas casas duvidosas. Essas atitudes remetem, como já foi lembrado anteriormente, à prováveis tentativas de desqualificar a condição do acusado e buscam, prioritariamente, investigar o passado e o presente da vida privada do réu, como também da vítima e de todos os envolvidos no processo-crime e posteriormente determinar os seus hábitos, costumes morais e comportamentos sociais, condicionando ao modelo de comportamento desejável às possíveis verdades ou mentiras contidas nos testemunhos dos envolvidos.

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Boletim de Informação. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 27. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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Considerados conclusos, os autos, o delegado de polícia, Manoel Barboza de Souza, os remete, no dia vinte e três de fevereiro de mil novecentos e trinta e três, ao Doutor Promotor Público da Comarca de Aracaju para a sua apreciação, por intermédio do Meritíssimo Doutor Juiz de Direito da 2ª. Vara Criminal. A partir desse ponto todos os próximos passos são agora tomados com a devida determinação do Juiz de Direito da 2ª. Vara Criminal da Comarca de Aracaju, João Dantas Martins dos Reis, ou seja, os mandados de intimação das testemunhas, o de comparecimento da vítima, Maria de Lourdes dos Santos, às audiências, o da oitiva do réu, João Francisco dos Santos, ou mesmo, o da determinação do seu comparecimento para assistir a inquirição das testemunhas do caso, enfim, passarão agora pelo crivo do Juiz, como assim foi feito. Depois de novamente intimadas, todas as testemunhas, para serem ouvidas, agora em juízo, sobre o crime, o juiz prosseguiu com o auto de qualificação do réu, anteriormente intimado e o termo de declaração de insuficiência financeira do réu para custear um advogado para a sua defesa. E assim foram registrados no processo-crime de que trata essa pesquisa:

Auto de Qualificação Aos seis dias do mez de Março do anno de mil novecentos e trinta e treis nesta cidade de Aracajú, na sala das audiências deste juízo, ahi, presente o juiz de Direito da 2ª. Vara Drº. João Dantas Martins dos Reis commigo escrivão do seu cargo, abaixo nomeado, compareceu João Francisco dos Santos réo n‟este processo e o dito juiz fez-lhe as perguntas seguintes: qual seu nome, sua filiação, idade, estado, profissão, sua nacionalidade, naturalidade e se sabia ler e escrever? Respondeu chamar-se João Francisco dos Santos, filho natural de Maria Delfina dos Santos, com dezoito anos de idade, solteiro, aprendiz de pintor, brasileiro, natural de Santa-Rosa (Sergipe), sabe ler e escrever. Eu; Manuel Campos, Escrivão o escrevi. Termo de Declaração Aos seis dias do mez de Março do anno de mil novecentos e trinta e treis, ás 14 horas na sala das audiências onde se achava o Senhor Doutor Juiz de Direito da 2º. Vara, Drº. João Dantas Martins dos Reis, comigo escrivão designado, ahi presentes o Drº. Luiz Magalhães, 2º Promotor e o Réu João Francisco dos Santos, pelo Exº. Drº. Juiz foi perguntado ao Réu se era pobre a ponto de não poder constituir advogado para lhe defender; pelo Réu foi respondido que pobre e sem recurso para pagar o advogado para a sua defesa, pelo que o Exº. Drº. Juiz nomeou curador do dito Réu o Drº. Luiz José da Costa Filho, que exercerá a função de curador independente de

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compromisso por ser advogado. Do que para constar lavrei este termo que depois de lido assinam. Eu, Manuel Campos, Escrivão o escrevi. 103

As testemunhas, Maria Araújo, Marcionila dos Santos, Valdete Maria de Santana, foram devidamente intimadas e foram legalmente inquiridas, na sala de audiências, nas presenças, do réu João Francisco dos Santos; do seu Curador, o Drº. Luiz José da Costa Filho; do 2º. Promotor Público, o Drº. Luiz Magalhães; e do Juiz de Direito da 2º. Vara, o Drº. João Dantas Martins dos Reis. As testemunhas passaram todas por uma espécie de qualificação, especificando todos os seus dados pessoais e em seguida foram feitas diversas perguntas às mesmas. Dentre as perguntas feitas pelo Juiz, pelo Curador do acusado e pelo Promotor, a maioria apresentou respostas em comum nos testemunhos das jovens, contudo, outras poucas não. Primeiro, todas as jovens confirmaram saber do defloramento de Maria de Lourdes dos Santos, por intermédio da própria vítima, e mais, souberam que o autor do crime seria o réu, João Francisco dos Santos, que com promessas de casamento, na ocasião em que ele namorava, no testemunho de duas das três testemunhas, já há algum tempo a vítima, a deflorou. Segundo, as testemunhas confirmaram que apesar da vítima trabalhar como empregada doméstica em uma casa de família, a ofendida dormia na casa da família do réu, por não querer dormir numa casinha ou quartinho localizado na casa em que trabalhava. E mais, duas, entre essas três testemunhas, confirmaram que os dois principais envolvidos nesse processo mantinham um namora há pelo menos seis meses e que não eram parentes. Uma delas disse não saber do namoro dos envolvidos e de nunca ter visto eles, sequer, conversando. As testemunhas, quando perguntadas, pelo Promotor, sobre a natureza do comportamento moral e social da vítima e do acusado, responderam que tanto o réu como a vítima apresentavam boas maneiras em seus comportamentos. O réu, João Francisco dos Santos, ouviu todos esses relatos e contestou a maioria das informações apresentadas pelas testemunhas, sobre o caso. Confirmando somente, que a vítima tinha o costume de chegar tarde do trabalho e dormir na residência em que ele morava, ou seja, na casa da família do mesmo. Os depoimentos foram finalizados, as testemunhas confirmaram, em juízo, a maioria

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Auto de Qualificação e Termo de Declaração. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 30. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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das informações que já haviam dito no início do processo-crime, na fase do inquérito, na delegacia de polícia, e o réu, em juízo, teve a oportunidade de contestar as testemunhas, frente a frente, numa espécie de acareação sobre os fatos. Em seguida, na folha quarenta e quatro do processo-crime é registrado o instrumento de Procuração, providenciado pelo réu, João Francisco dos Santos, assistido pela sua mãe, Maria Delfina dos Santos e redigido pelo Tabelião, Manoel Campos, nomeando como Procurador do réu, o seu Curador e agora Advogado, o Drº. Luiz José da Costa Filho. Outras duas testemunhas que anteriormente não teriam sido intimadas, por não terem sido encontradas, também foram ouvidas posteriormente no processo. Também nas presenças, do réu João Francisco dos Santos; do seu Advogado, o Drº. Luiz José da Costa Filho; do 2º. Promotor Público, o Drº. Luiz Magalhães; e do Juiz de Direito da 2º. Vara, o Drº. João Dantas Martins dos Reis, as jovens, Maria Flora da Silva e Maria Anita dos Santos foram inquiridas. A primeira, disse que soube, por intermédio da própria vítima, que o réu, João Francisco dos Santos, é o autor do defloramento da jovem, Maria de Lourdes dos Santos. Contudo, não sabe e nem nunca ouviu dizer que eles eram namorados, pois nunca os viu conversando. E que soube pela vítima que ela morava na casa da família do réu. E disse mais, que conhece Maria de Lourdes de vista, com quem nunca teve intimidade e quanto ao comportamento da ofendida, no processo, ouviu dizer que ela não tem bom procedimento, mas sobre o réu não soube responder nada, pois não o conhecia. Ainda sobre Maria de Lourdes, quando perguntado a testemunha, se sabia se a vítima tinha algum amante em Santa Rosa, a testemunha respondeu que não sabia de nada ou muito pouco sobre a vítima, pois somente havia falado com a mesma por duas vezes. Sobre esse testemunho o réu nada contestou. A segunda testemunha, Maria Anita dos Santos, apesar de ter sido citada no processo e intimada para prestar os devidos esclarecimentos sobre o crime, novamente não foi encontrada para a audiência marcada e por isso foi substituída por outra testemunha, Maria Lindaura dos Santos. Essa segunda testemunha informou que soube do defloramento pela própria vítima, que disse que o seu autor seria o réu, João Francisco, que prometendo casamento à mesma conseguiu deflorá-la. Que sabia que eles eram namorados de longa data e que a ofendida não se relacionava com mais ninguém, pois sempre apresentou um bom comportamento, em relação ao réu, não saberia informar nada sobre o seu procedimento, pois somente o conhecia de vista. O réu contestou o testemunho de Maria Lindaura, por não ser verdadeiro. A testemunha confirma tudo o que foi dito e finaliza o seu testemunho.

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O réu posteriormente passa por um interrogatório que acaba por definir a sua culpa no processo. Segundo o Promotor, na confecção do Libelo Acusatório, o réu João Francisco dos Santos, prevalecendo-se das relações de namoro que mantinha com Maria de lourdes dos Santos e a circunstâncias de habitar esta a casa do réu, deflorou-a na noite do dia dezesseis de Julho de mil novecentos e trinta e dois dentro da residência dos pais do réu, à rua Laranjeiras desta cidade, e mais o réu praticou o crime seduzindo a sua vítima com a falaz promessa de casamento para mais facilmente conseguir o fim colimado. Nestes termos, o Promotor pede a condenação do réu no grau mínimo do artigo 267 do Código Penal. É importante constatar que a maioria das testemunhas nesse processo-crime ressalta a culpabilidade do acusado. E como, nesses casos de crimes sexuais, raramente se pode contar com a flagrância do delito, o crime é definido baseando a sua culpabilidade nas declarações das testemunhas, da vítima e inclusive na própria declaração e testemunho do réu. Pois, até o próprio acusado confirma ter tido por várias vezes relações de cópula com a vítima e como não conseguiu apresentar testemunhas que confirmassem os maus comportamentos da vítima, nem alguma testemunha que soubesse da existência de algum envolvimento amoroso da vítima com outro homem que não fosse o próprio réu, o mesmo foi declarado culpado do defloramento da jovem, Maria de Lourdes dos Santos. De acordo com o Promotor já é hábito dos defloradores utilizar a Capela para a antecipação do casamento quando já estão mal intencionados, em relação às suas jovens namoradas. Enfim, por esses e outros prováveis obscuros motivos, no dia dezesseis de junho de mil novecentos e trinta e três, o Juiz de Direito da 2º. Vara, o Drº. João Dantas Martins dos Reis, na folha cinquenta e oito, frente e verso, contidas no processo-crime, julga procedente a denúncia contra o réu, João Francisco dos Santos e o considera culpado do crime de defloramento, sob as penas do artigo 267 do Código Penal e determina a sua imediata prisão na forma da lei. E assim foi registrado o seu auto de prisão:

Auto de Prizão Aos Vinte e oito dias do mez de Junho de mil novecentos e trinta e treis, nesta Cidade de Aracajú, na rua de Laranjeiras, onde fui vindo em virtude do mandado retro e sua assinatura, intimei a João Francisco dos Santos depois de me dar a conhecer e lhe apresentar o mesmo mandado para que me acompanhasse incontinente e como obedecesse conduzio-o à Penitenciária

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do Estado, onde ficou recolhido prezo; do que tudo disse. Para constar lavrei este auto que assignam. O oficial de justiça. 104

O processo-crime é composto de um discurso, e esse está permeado por uma realidade que o perpassa e que molda a sua composição. Esse discurso é marcado pelo seu contexto histórico, mas ele é também uma armadilha que pode levar a constatações generalizantes, fazendo com que o “desvio” se torne a regra, e que o relato existente nesse tipo de documento remonte a uma visão total da realidade vivenciada por uma sociedade em um determinado espaço de tempo. Ao contrário, como lembra Foucault (2001), toda fonte é um fragmento que, de alguma forma, chegou até nós, e que nos leva a apreensão também de fragmentos de uma realidade perdida no tempo, e que jamais poderá ser retomada em sua totalidade. Ou seja, os processos devem ser tomados como uma representação ou uma teatralização de fragmentos do cotidiano, que formam o que Corrêa (1983) denomina “fábula”. No entanto, as informações encontradas nessa fonte podem nos levar a verificar para além do discurso, chegando até mesmo a discussões sobre as subjetividades desses personagens. Nessa análise, deve-se levar em consideração que as fontes revelam, na sua grande maioria, vozes de atores considerados, por muito tempo, à margem da história. Homens e mulheres simples que, em sua vivência cotidiana, viram-se diante da justiça. Como estudar personagens que não se faziam ativos à vida pública? Ou melhor, como encontrá-los? Para Foucault (2001) essas vidas, ou fragmentos delas, chegaram até nós, porque, em algum momento, tiveram um “encontro com o poder” e foram perseguidos, ou vigiados por ele, ou seja, estiveram imersos em jogos de poder que podem ser percebidos nas fontes. Portanto, não se pode conhecer parte dessas vidas, senão através da relação que foi estabelecida com o poder. Os médicos higienistas, do início do século, argumentavam em favor da contenção sexual feminina, afirmando, como já mencionado, que mulheres que demonstrassem desejo sexual possuíam patologias mentais. Essa medicina foi profundamente influente na elaboração do Código Penal de 1890, e, portanto, na elaboração das leis sobre o direito da família, que incluíam os crimes sexuais.

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Auto de Prisão. Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932, f. 60. In: FUNDO – AJU – 2ª. VARA CRIMINAL – PERÍODO (1908 – 1933) – NOTAÇÃO (ACERVO 02 – MÓDULO IX) - NÚMERO DA CAIXA – 01.

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Estudar relações de gênero a partir da década de 1930 só é possível se o “pano de fundo” dessa sociedade for discutido, para que se compreenda em que parâmetros os juristas estavam se embasando para a formulação de leis que regrassem o comportamento dos indivíduos, com relação à honra e moralidade. E não há como pensar essa composição no Brasil, sem pensar no discurso médico, em sintonia também com o discurso político da época, e que influenciou diretamente o discurso jurídico, principalmente na constituição de normas e leis relativas ao crime de defloramento.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao finalizar esta pesquisa podemos formular algumas considerações a respeito da relação entre um processo-crime e a história. Uma dessas constatações se refere ao uso dos processos criminais como fontes históricas. Ao longo deste exame, consta-se que de fato é possível estudar a história através dos processos-crime. Nota-se também que os processoscrime são fontes privilegiadas, visto que neles estão presentes não só aspectos do cotidiano de um povo, como também elementos que fazem parte da sua história. Esta pesquisa deixou claro que o crime, quando cometido em sociedade, desperta emoções que traduzem os limites morais e sociais daquele meio. Ou seja, o crime é caracterizado como chocante ou não, a partir das referências de moralidade daquele meio de sociabilidade analisado. Uma atitude criminosa, ao longo dos tempos históricos, sempre esteve carregada de representações sociais, e mais, a sua natureza mutável esteve constantemente suscetível às regras e aos padrões de comportamento vislumbrados de acordo com o seu contexto histórico. Esse fascínio produzido pelo crime desperta na humanidade uma saborosa criatividade emocional que chega a ser a racional ou não, contudo, preenche as vidas dos que fazem parte daquele específico tempo histórico e espaço social ou contempla as aspirações, expectativas, ou mesmo, as subjeções dos que estão cronologicamente distantes daquela atitude criminosa. Muitos crimes ou os seus autores tornaram-se lendas no imaginário da população e por isso contribuíram como definidores de identidades e reguladores de caráteres e comportamentos. Ou mesmo, influenciaram no reconhecimento de um povo ou de uma Nação. Esse reconhecimento ou não de determinando crime chega até nós, como espectadores ou como pesquisadores, devido ao seu contato com o Poder Público e às estruturas da Justiça, legalmente constituídos. Aquela atitude criminosa quando tocada pela Justiça, através de um processo-crime ou inquérito policial, revela, a princípio, o cotidiano daqueles simples personagens, envolvidos no processo, isto é, de uma hora para a outra, a sua vida privada torna-se pública, a sua natureza humana é descoberta e os seus erros, desejos e vícios são objetos de análises e julgamentos, posteriormente, esse crime consegue desvendar, inclusive, o grau de aperfeiçoamento das estruturas burocráticas daquela sociedade, as condições sociais e econômicas, o desenvolvimento urbano, educação, saúde, política e tudo isso, a partir daquele discurso jurídico inserido no processo-crime.

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Em especial, ficou claro na pesquisa as condições de construção, estruturação e modernização física da cidade de Aracaju, desde a sua determinação, enquanto capital do estado de Sergipe, até as três primeiras décadas do século XX. Essa parte de contextualização desse trabalho demonstrou as condições sociais, políticas e econômicas da cidade de Aracaju numa tentativa de compreender os padrões morais da sua população, e mais, de uma maneira satisfatória, conseguimos, não só entender e demonstrar esses padrões, mas também, desvendar as suas influências. Facilitando a compreensão do crime de defloramento utilizado como o principal objeto desse estudo. Nessa pesquisa demonstramos que os crimes, especificamente os de natureza sexual, em específico os crimes de defloramento, apresentam essa mesma função sócio-moral, e não poderia ser diferente, contudo, os debates e conflitos passam a colocar frente a frente o Homem e a Mulher. Esses embates, envolvendo a natureza sócio-moral feminina e a masculina, revelam as hierarquias de poder existentes entre os gêneros, dentro de um meio social. Ficou evidente nesse estudo que a predeterminação moral dos papeis do homem e da mulher, dentro de uma sociedade, contribuiu para fortalecer historicamente, a imagem do homem como o sexo mais forte e protetor do “frágil” e “doce” sexo feminino. A figura feminina foi entendida como frágil e inocente, e por isso necessitada de controle, vigilância e proteção, do homem e do Estado. Essa proteção se baseou, prioritariamente, na defesa da pureza feminina, ou seja, na defesa da virgindade e honra sexual feminina, tão amplamente defendida pela Igreja Católica. A Honra Sexual feminina, não raramente, foi confundida com a Honra Familiar, ou mesmo, especificamente, com a própria Honra Masculina. Transformando a mulher honesta e principalmente a sua honra sexual e/ou virgindade em um bem bastante valioso e digno de ser dado como pagamento ou cobrado na Justiça. O caso de defloramento trabalhado propiciou, na prática, o reconhecimento das teorias encontradas nas minhas fontes secundárias de pesquisa. O processo-crime de Maria de Lourdes dos Santos serviu para esclarecer as condições da população pobre da cidade de Aracaju e as regras morais e os preconceitos que elas estavam sujeitas. A atuação do Poder Público na proteção das jovens moças honestas estava amplamente derivada e justificada pela manutenção moral da família burguesa e moderna brasileira. Por fim, ressalta-se a relevância deste trabalho, visto que, o uso dos processos criminais como fonte de pesquisa histórica pode ser considerado como algo que ainda não é tão explorado e diante disso, acredita-se que esta pesquisa possa ajudar a ampliar este quadro. Contudo, adverte-se que este trabalho não esgota pesquisas sobre o tema. A questão crime-

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história é ampla e ainda podem ser elaboradas diversas pesquisas em torno dela. O importante é que trabalhos como esse não só contribuam para o aumento do uso dos processos criminais como fonte de pesquisa em história, mas também como recurso didático.

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FONTES E REFERÊNCIAS
FONTE Processo-crime de Defloramento, Comarca de Aracaju, 2ª Vara Criminal, 1932. In: Arquivo Judiciário de Sergipe, fundo – AJU – 2ª. Vara Criminal – Período (1908 – 1933) – Notação (Acervo 02 – Módulo IX) - Número da Caixa – 01.

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