aharom avelino

amor ♥ errad

nã♥

Copyright © 2013, Aharom Avelino Editora Léa Carvalho Capa MaLu Santos Foto da Capa depositphotos © William Perugini Revisão Consuelha Nascimento Projeto gráfico MaLu Santos

Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP) A948n Avelino, Aharom, 1975-. Não existe amor errado / Aharom Avelino. – Rio de Janeiro : Metanoia, 2013. 222 p. ; 21 cm. ISBN 978-85-63439-29-1 1. Ficção brasileira. 2. Homossexualidade - Ficção. I. Título. CDD – B869.3
Ficha Catalográfica elaborada pela bibliotecária Lioara Mandoju CRB-7 5331

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Impresso no Brasil

P

ara Alex Mendes o amigo que decidiu nos deixar tão jovem, tão de repente. Love you!

Prefácio
Cada um é o que é.
- O primeiro é bandido, o segundo virou veado, só o terceiro presta. Aquele quase gabiru espremido entre o volante e o banco do motorista já vinha dando sinais do típico brasileiro educado nas residências dos anos 50, educação que perdura até hoje. Antes que eu esboçasse qualquer reação percebi seu cabelo e sobrancelhas exageradamente pretos, a direção vagarosa e seu medo um tanto revoltado com a conduta dos outros carros e logo percebi que uns 70 anos ou mais de vida estavam me levando para casa. Eu já devia ter desconfiado quando coloquei a mala no banco, ainda no aeroporto, e ele rispidamente mandou que eu colocasse no chão. Na certa pensei: para não riscar o banco, mas no longo caminho da 23 de Maio – e quem conhece São Paulo sabe que é longo - até minha casa, a pessoa foi descontraindo , ao ponto de dizer o que disse . Especificamente naquele dia estava sem forças, cansada e certa de que nada mudaria se levantasse uma discussão do tipo porque o bandido é, o veado se torna e o que presta significa uma vida medíocre pagadora de contas e geradora de herdeiros iguais. Não, não... Já tinha muita gente buzinando para ele no trânsito engarrafado . E estávamos falando de educação, de como 3 filhos

educados por um amigo austero deram tanto desgosto ao pai. A não ser um , o que prestava, claro. Ele, que não me preocupei em saber o nome, ríspido na maneira de falar, tinha orgulho de ser amigo de seus dois filhos. Ambos prestavam, obviamente. O que eu poderia argumentar? Que orientação sexual não é escolha nem sacanagem? Sob qual moral religiosa ele havia sido criado? Se frequentar um centrozinho de umbanda de vez em quando, mesmo indo à missa todo domingo era imoral? Ele se sentiria imoral por isso? O que faria se um dos filhos fosse homossexual? Na certa não acreditaria nunca e culparia a educação – da mãe, provavelmente, a televisão, más influências... Talvez até isolasse o filho como tantas famílias ainda o fazem Brasil afora, adentro, por todos os lados. E o que dizer quando se falar de amor com uma pessoa dessas com tantos “gêmeos” neste país tropical? “Não Existe Amor Errado” vem mexer, cutucar mesmo a letargia reinante nas famílias daqueles que se descobrem homossexuais ainda na adolescência, época em que sua maioria conta apenas com amigos iguais e uma expressiva aceleração de maturidade para suportar a pressão dos que “prestam”. Alguns não suportam e vivem uma vida clandestina , constituem família e mantêm realidades paralelas, “respeitando- se” às escondidas. Como dizer aos adolescentes, no melhor momento de suas vidas, em plenas descobertas do corpo, do próximo e da sociedade que “Não Existe Amor Errado”? Acreditem, apesar de muitos preferirem filhos bandidos ou doentes à vê-los exercer o sentimento mais nobre, nos dado de presente seja lá por quem ou qual força maior, entre o mesmo sexo, amar não é errado e nunca será. Como na canção de Marisa Monte: “amar alguém só pode fazer bem”. Quem ama quer o bem do outro, e o

outro o seu. Amar é permanecer feliz enquanto esse amor durar. Aharom Avelino é educador concursado desde os 16 anos, mais ou menos na época em que descobriu sua sexualidade. Sofreu o que todos sofrem num mundo de “prestantes” (não me conformo com isso), foi humilhado e deu a volta por cima. Assumido, é amigo de seus alunos. Bem humorado, conta piadas e resmunga como todos os humanos que se prezem, com delícias e dores, e assim ajuda adolescentes perdidos entre sociedade, família e seus próprios sentimentos. “Não Existe Amor Errado” conta a história de 4 adolescentes, que se descobrem homossexuais, até sua vida adulta. Uma ficção certamente moldada em observações e conversas reais com alunos e colegas que Aharom ajudou nesses anos todos de magistério. Dono de uma gargalhada ímpar e uma maneira inspiradora e bem humorada de ver a vida, Aharom Avelino tem muito mais a oferecer. Dono das cadeiras de língua portuguesa e literatura, possui um repertório infindo de referências sobre viver e buscar ser feliz. Será um dos nomes lembrados quando no futuro próximo, se Deus e a política quiser e permitir, as leis e os homens perceberem quantos enganos cometeram e em quantas vidas interferiram em nome de uma moral tão mutável quanto as leis tornadas interessantes para objetivo propostos seja quais forem. Rita Lee já diz: "Que tal nós dois numa banheira de espuma?". Aharom Avelino, corajoso, escreveu a peça “Que tal nós quatro?” sem descalabros, mas respeitoso e preciso em suas colocações. Eu pergunto se não é hora do “que tal nós todos” reavaliarmos nossos conceitos e tornar a vida desses adolescentes, que muitas vezes acaba em tragédia mais leve, digna e construtiva? Minha filha desde cedo aprendeu a respeitar diferenças, sexuais, raciais, seja lá o que for que inverta a ordem do nosso destino: ser, procurar, estar,

manter-se de bem com a vida e com o próximo. “Não Existe Amor Errado” fala obviamente de amor e conflitos. Ambos absolutamente verdadeiros e atuais. Aharom Avelino, diante de tantos absurdos imorais protegidos por leis igualmente absurdas e tendenciosas, é um “salvador de almas”. Um porto para jovens que não têm, na maioria das vezes, a quem recorrer. Parabéns por enfrentar os moinhos de vento da hipocrisia social moderna. Este livro será o bálsamo para tantos adolescentes que não sabem a quem recorrer e o que fazer. Exista, Aharom. Insista. Continue estendendo a mão para quem precisa, da maneira mais nobre que reconhecemos: a escrita. Como mãe zelosa, consciente e moderna, estou contigo. Em nome do futuro que sempre está por vir, e dos mistérios que nos reserva, temos que agradecer Aharom Avelino pela atitude em escrever “Não Existe Amor Errado”. Mais do que uma obra literária, é Aharom conversando com seus alunos, amigos, iguais e partilhando sua maneira de viver, tão querida e íntegra quanto inspiradora por melhores dias. Orgulho de tê-lo amigo. Leiam com seus corações e mentes abertos. Permitam-se compreender as diferenças e aceitar que qualquer maneira de amor vale a pena, que “Não Existe Amor Errado”, e jamais existirá.
Carmen Farão Roteirista, Radialista, Jornalista e Diretora de TV, com passagens pela TV Gazeta, Rede TV!, entre outras.

“Qualquer maneira mane ne eir i a de de amor amo or vale aquela aquel ea Qual a qu uer maneira man a ei ira ra de d amor am vale amar r Qualquer Qual Qu al lqu quer e m a ei an ira a de de amor or vale vale a pena na Qualquer maneira Q Qu alqu al quer qu e m an a neira de de amor valerá” valer rá” ” Qualquer maneira
(Milton (Mil ilton Nascimento/Caetano Veloso)

Sumário

1. Baile, 01 2. Príncipe, 21 3. Provocações, 33 4. Raridades, 43 5. Boate, 53 6. Céu, 71 7. Inferno, 81

8. Fúria, 93 9. Gueto, 105 10. Anjo, 117 11. Felicidade, 127 12. Pecado, 135 13. Recomeço, 145 14. Maioridade, 153 15. Escolhas, 167 16. Talento, 179 17. Despedida, 191 18. Formatura, 193 Epílogo, 205 Agradeço, 208

1 Baile

2

u já estava há um bom tempo parado olhando para o nada. No meu ouvido, Cazuza cantarolava “Brasil”. Olhei para o iPad no meu colo. Um monte de letrinhas olhavam de volta para mim. Miúdas, chatas e cansativas. Tentava me acostumar aos famosos livros eletrônicos. A tarefa não era das mais fáceis, sempre adorei os livros de papel. Abaixei um pouco o volume da música e dei uma ajeitada nos fones, pois eles começavam a me incomodar. Nunca consegui passar muito tempo ouvindo música com fones de ouvido. Ler e ouvir música ao mesmo tempo era um hábito antigo, mas a música precisava vir de uma fonte distante, não ficar reverberando dentro da minha orelha. Olhei o relógio. Dezesseis horas de uma quintafeira abafada e calorenta. O mês de agosto já havia começado há dez dia. Embora estivéssemos oficialmente no inverno, o calor tomava conta da cidade. Dentro do ginásio do colégio, onde eu estava, a temperatura não era melhor. O teto metálicofazia com que a gente se sentisse numa lata de sardinha, não pelo aperto, e sim, pelo desconforto. Bem, não sou uma sardinha, mas cá pra nós, não deve ser nada agradável ficar enlatado. Com dezessete anos, cursava a terceira série do ensino médio. Era um adolescente típico de uma cidade mediana. Estudava na melhor escola particular do município, tinha uma vida até confortável – não era rico, quero deixar bem claro –, mas também não era pobre. E como todo jovem da minha idade, vivia atolado em dúvidas, medos e angústias. Na verdade, sempre fui do tipo ansioso. Quando metia alguma coisa na cabeça, aquilo ia criando raízes e ficava lá por um bom tempo. Ou para sempre, sei lá. Quando criança, decidi que seria jornalista. Ao contrário dos meus colegas, que viviam

E

Aharom Avelino | Não existe amor errado

mudando de sonhos, eu continuei com o Jornalismo na cabeça por toda a vida. Incomodado com a leitura eletrônica, desisti do livro. Desliguei o iPad e o guardei na mochila. Movi a cabeça para um lado e para outro, tentando relaxar os músculos. - Isso aqui tá parecendo um barracão de escola de samba – comentou a garota à minha direita, era a Júlia, minha melhor amiga. Fechei o zíper da mochila, olhei pra Júlia. Seus cabelos vermelhos, ressaltavam o branco de sua pele. Os olhos azuis, marcados pela maquiagem escura, a deixavam com um ar meio punk de boutique. Girei o rosto seguindo a visão da Júlia. Meus amigos e eu estávamos sentados no ponto mais alto da arquibancada do ginásio da escola. Lá embaixo, um grupo de alunos corria para lá e pra cá, pregando flores, faixas e balões azuis e brancos pelo local. Comandando aquela muvuca, estava Jéssica, a garota mais popular, mais magra, mais loira, mais bonita (na opinião dela) e mais chata do terceiro ano. - De onde ela copiou essa decoração? – quis saber a Júlia. - Acho que o mau gosto é dela mesmo. Imagina se essa garota ia copiar isso de alguém. Ninguém é tão brega assim – disse o Caio, meu outro amigo, sentado à minha esquerda. – Olha pra esses balões. E essas flores de papel? Meu Deus, isso é a visão do inferno! – concluiu o Caio, sempre com seu ar debochado. Apoiei a mochila nos meus pés e passei a observar com mais cuidado a cena. De fato, a coisa estava, digamos, exagerada. Poderia ser pior, claro. Vindo da mente fútil da Jéssica, era de se esperar um festival rosa bebê. Aí, sim, o mundo estaria condenado. - Eu acho até que as cores estão harmônicas – falei.

Capítulo1 | Baile 3

4

- Nada contra as cores, aliás, o azul e o branco ficam lindos juntos, mas o babado que está me deixando apavorado é a forma como essas cores são usadas. Esses arranjos, essas flores... – o Caio fez uma careta. – Credo. É de dar medo. Com sua pele morena sempre muito bem cuidada, o cabelo impecavelmente alisado e no lugar, a vaidade elevada ao extremo, Caio exigia sempre de todo mundo algo perto da perfeição. A Jéssica, rotineiramente, era o alvo principal de sua acidez. Às vezes, ele exagerava; mas, na maior parte do tempo, tinha razão. Voltei a olhar para o grupo trabalhando. Jéssica, em sua pose de abelha rainha, gesticulava, fazia carão e berrava com todo mundo. No início do ano, ela fora eleita a presidenta do comitê de formatura da escola. Era dela a responsabilidade pelo Baile de Inverno, um evento tradicional na cidade, que visava arrecadar grana para a nossa formatura. E na categoria de presidenta, ela decidiu usar seu lado ditadora. Tudo precisava ser visto, revisto e aprovado pela sua pessoa, em pessoa! - Tira esses balões daí! – ela gritou para uma garota apavorada. – Eu já disse que eles devem ficar do outro lado. Você é surda ou quê, garota? O Caio balançou a cabeça. - Tomara que essa louca tenha um infarto! - Deus não seria tão bom? – brincou a Júlia. - Tadinha da Jéssica gente, deixa ela se divertir – disse o Lipe, sentado ao lado do Caio. Ele era o terceiro dos meus três melhores (e únicos) amigos da escola. O fato de ele sentir pena da Jéssica não me espantava. Era a cara dele, mesmo não sendo fã da garota. Ok, nós quatro nunca fomos admiradores da Jéssica. E ela nunca fora nossa fã também. Na verdade, ela nos odiava. Desde que nos conhecemos, lá no primeiro ano do

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