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Africa Lessa Unb

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O Itamaraty e a África: as origens da política africana do Brasil

Pio Penna Filho e Antônio Carlos Moraes Lessa

O objetivo deste artigo é apresentar a evolução das relações entre o Brasil e o continente africano, enfatizando os aspectos que exerceram influência na definição da política africana do Brasil. Neste sentido, será analisada, com ênfase, a política externa brasileira para a África, sobretudo da década de 1950 até meados dos anos 1970, por se tratar de um período de extrema relevância para o abandono da ambigüidade até então verificada. Argumenta-se principalmente que o apoio brasileiro ao colonialismo português, e as relações com a África do Sul, se constituíram nos dois grandes empecilhos para o desenvolvimento de uma política africana por parte do Brasil, uma vez que tanto a África do Sul quanto Portugal não eram aceitos pela grande maioria dos Estados africanos recém-independentes. Portugal, naturalmente, pelo poder colonial que exercia sobre os territórios africanos de Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique. A África do Sul, por sua vez, pela dominação da minoria branca sobre a maioria negra, num regime de relações raciais (apartheid) que em muito lembrava o sistema colonial, e pelo sistema de dominação que exercia sobre o território do Sudoeste Africano, atual Namíbia. A linha de argumentação utilizada pelo Itamaraty era de que o Brasil tinha plena convicção anticolonial e era favorável à autodeterminação dos povos. Por outro lado, o país possuía laços especiais com a ex-metrópole, oficializados, inclusive, por meio de um Tratado de Amizade e Consulta (celebrado em 1953), o que obrigava o Brasil a não assumir uma postura agressiva com relação a Lisboa. Naturalmente essa argumentação não convencia os governantes africanos, que cedo identificaram a dubiedade e a inconsistência do discurso oficial brasileiro. A situação do Brasil perante os Estados africanos ficava ainda mais desconfortável em virtude da existência de um significativo e crescente intercâmbio comercial com a África do Sul, assunto sensível aos países do continente africano.

Nota: Pio Penna Filho é professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso. Antônio Carlos Moraes Lessa é professor adjunto do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

2 Brasil e África: os contatos na fase pré-independência Durante o século XX, pelo menos até 1960, a política externa brasileira praticamente ignorou o continente africano, voltando-se para a América e a Europa, áreas privilegiadas nas relações internacionais brasileiras. Tanto no plano político quanto no econômico o Brasil relegou a África ao esquecimento. De modo geral, o mesmo pode ser dito com relação ao continente asiático. Foi somente após a Segunda Guerra Mundial que a África voltou a ser integrada, mesmo que timidamente, na pauta da política externa brasileira. Regresso, portanto, bastante tardio, haja vista as estreitas relações entre o Brasil e o continente africano durante os séculos XVII e XVIII e a primeira metade do século XIX. Nesse período registra-se um intenso intercâmbio entre os dois lados do Atlântico, envolvendo relações comerciais e transposição populacional de envergadura, em decorrência do tráfico de escravos que perdurou até a década de 1850. Em 1822, com a independência, verifica-se o primeiro distanciamento por imposição de Portugal quando das negociações para o reconhecimento do Brasil. A Grã-Bretanha, no embalo do reconhecimento, também tentou impor restrições ao tráfico negreiro, principal atividade econômica que ligava o Brasil à África no século XIX. No entanto, mesmo com os tratados relativos à questão do reconhecimento, o Brasil continuou se relacionando expressivamente com a África, notadamente a Atlântica. Nesse aspecto, merece destaque o fato de que as relações predominantes, que eram econômicas, se faziam em torno do tráfico negreiro. Do ponto de vista da política exterior, o que se nota claramente é que a atenção das autoridades brasileiras estava voltada para os problemas relacionados às fronteiras, deslocando-se os interesses da Europa e da zona do Atlântico para a Bacia Platina, principalmente após a década de 1840, quando no Brasil Imperial houve uma presença sempre crescente e atuante da política externa naquela região. Além dos problemas internos, de consolidação da independência e fortalecimento do governo, que mal acabara de sair de sua pior crise política acirrada por revoltas internas variadas, até certo ponto ocorreu uma regionalização da política exterior brasileira, que perdurou por grande parte do século XIX. Depois de 1850, quando definitivamente encerrou-se o comércio de escravos, houve o esfriamento nas relações entre o Brasil e as regiões africanas que até então abasteciam o país com a mão-de-obra escravizada. Com efeito, observa-se um segundo distanciamento com relação à África e, dessa vez, muito mais duradouro, haja
CPDOC/FGV Estudos Históricos, Rio de Janeiro, nº 39, janeiro-junho de 2007

Após a Segunda Guerra. também contribuiu para que o Brasil se afastasse da África. dada a necessidade surgida em decorrência do conflito. Rio de Janeiro. que de meados do século XIX em diante privilegiou a imigração européia e tentou apagar da memória nacional as relações com a África. janeiro-junho de 2007 . sobretudo o legado escravo-africano deixado no Brasil por séculos de trabalho forçado. Se se discutiu a questão colonial durante a Segunda Guerra Mundial. 2) por outro lado. fato que sucedeu o gradual abandono da exportação de mão-de-obra escrava que era. sendo uma exceção as relações específicas com a União SulAfricana. Com relação ao Brasil. dois fatores que servem para ilustrar algumas das razões dessa distância: 1) por um lado. afinal. nos anos compreendidos entre 1945 e 1955 ocorreu novo desinteresse pela África. a penetração européia e o conseqüente “fechamento” do continente africano ao mundo. A África se tornou um centro de interesse do sistema internacional. como bem observou José Honório Rodrigues (1960: 205). fato comprovado pelos debates e discussões que surgiram no âmbito da ONU (Saraiva. A explicação para esse fenômeno é algo complexa e envolve uma série de fatores que escapam ao âmbito deste trabalho. Era a retomada vigorosa da luta contra os países colonialistas e o sistema colonial como um todo. Citem-se. somente. a orientação da política exterior brasileira. ocorreu um amplo movimento no continente africano que cresceu continuamente. a tentativa de deixar de lado a problemática da descolonização. nº 39. de acordo com a lógica inerente ao sistema colonial. efetivamente. a principal atração econômica da África para o Brasil. Em 1945. com o fim da Segunda Guerra. 1987: 87). em fins do século XIX. que não interessava aos Estados colonialistas europeus. ocorreu. até atingir a emancipação política. que prosperaram sobretudo durante a guerra. este tema ameaçou desaparecer com o fim do conflito.3 vista que essa ruptura silenciosa permaneceu por praticamente um século. o que fica patente na orientação da política externa brasileira com relação à questão da descolonização é que adotou-se a estratégia de reconhecer os novos Estados surgidos no período (até pelo menos 1960 será assim) desde que alçados a essa condição com a concordância das antigas metrópoles e depois de constatada de jure sua emancipação no sistema internacional (Bitelli. CPDOC/FGV Estudos Históricos. Após a vitória contra o nazismo houve. 1989: 179).

Com relação à primeira. em 1953. o que se discute é o porquê dessa posição. especialmente para Angola. com as independências do Sudão (1956). nos casos específicos da Tunísia e do Marrocos. e os ventos sopravam noutra direção. promovendo investimentos e estimulando o deslocamento de população da metrópole em direção às colônias. O ano de 1960 foi. Assim que Vicente Ráo assumiu a pasta das relações exteriores.1 No estudo do tema observa-se que houve uma posição governamental. que no caso pendeu muito mais para o apoio ao colonialismo do que para as aspirações de independência. a respeito do movimento pela emancipação das antigas colônias. 1988: 79). nº 39. muito embora o Itamaraty. Contudo. essa posição foi efêmera. no início do governo Vargas. A partir da década de 1950. Gana (1957) e Guiné (Conakri-1958). França (Argélia) e Bélgica (Congo). Rio de Janeiro. inclusive. demonstrando maturidade diplomática ao não embarcar num apoio incondicional e sistemático à França. considerado pelas Nações Unidas como o ano da África.4 O Brasil e a descolonização africana A política externa brasileira durante os anos 1950 não passou totalmente ao largo do processo de descolonização africana. mas foi contra a proposta para que o Conselho de Segurança deliberasse sobre o assunto. São Tomé e Príncipe. Na verdade. tomou impulso ao final daquela década. que inauguraram um novo período na história do continente. com o despertar do movimento pela descolonização no norte da África. só para citar as áreas onde os conflitos assumiram proporções maiores. Moçambique. tenha assumido uma postura de relativa eqüidistância com relação ao tema das colônias francesas. num processo que chega ao ápice em 1960 com a formalização da independência de uma série de colônias e a continuação da luta em numerosos outros territórios. pelo menos durante a década de 1950. alusão ao nascimento dos novos Estados. No entanto. como Portugal (Angola. janeiro-junho de 2007 . mesmo que ambígua (Pinheiro. Cabo Verde e Guiné Bissau). na área subsaariana. o colonialismo clássico dava mostras de esgotamento. o Brasil apoiou a França na questão colonial. A história da descolonização africana.2 Durante aquele período. o Brasil votou a favor de que a questão fosse discutida na Assembléia Geral. No caso português é relevante observar que Lisboa procedeu exatamente ao contrário do que indicava a tendência da descolonização: reforçou o seu sistema colonial. em 1951. a política brasileira para a questão dos territórios franceses foi CPDOC/FGV Estudos Históricos. algumas nações européias demoraram para assimilar o fenômeno e insistiram na manutenção de alguns territórios sob seu controle.

b) CPDOC/FGV Estudos Históricos. pois entendia que as Nações Unidas não deveriam intervir em assuntos internos de países soberanos (Brasil. a tônica da fraternidade franco-brasileira se realçou porque em áreas coloniais francesas. destacaram-se: a) a forte percepção de que existiam ligações culturais e tradicionais entre os dois países. perdendo a guerra no terreno militar e no diplomático. Rio de Janeiro. em setembro de 1955. os representantes brasileiros afirmavam que a ONU não tinha competência para decidir sobre o caso. com o objetivo de sondar o apoio brasileiro à Argélia livre nos debates da ONU. Em conformidade com o pensamento jurídico de que aquela era uma questão interna.5 rapidamente redefinida. 1960: 28).3 Apesar de um apoio mais discreto do que o prestado a Portugal. a organizar uma missão especial destinada a visitar alguns países com o fito de obter apoio político. tentando manter a coerência entre o discurso e a prática. uma delegação composta por membros dos Estados africanos independentes veio ao Brasil e tentou sensibilizar o Itamaraty para a causa argelina sem. nº 39. no ano de 1958. sem que os franceses conseguissem resultados expressivos nos campos de batalha. a luta pela descolonização estava em estágio adiantado. Assim. o Brasil. e o Brasil passou a se pautar pela “tradicional amizade francobrasileira”. Em conexão com o colonialismo português e seguindo uma linha coerente com a decisão de reconhecer os territórios ultramarinos portugueses como integrantes de um Estado unitário. votou na ONU (XV Sessão da Assembléia Geral) contra a proposta afro-asiática sobre a Argélia. a posição adotada pelo Brasil foi uma saída encontrada pelo Itamaraty para contornar o impasse da diplomacia brasileira. a solidariedade de outras nações e de movimentos afro-asiáticos estava organizada e exercia pressão na ONU a favor dos emancipacionistas argelinos. no final dos anos 1950. com intensa guerra anticolonial se desenvolvendo. A França conseguiu obter o apoio brasileiro desde que pela primeira vez a questão argelina foi colocada em debate na ONU. obter resultados satisfatórios. Além disso. igualmente. o que só fez aumentar o desgaste internacional do país. no entanto. inclusive. janeiro-junho de 2007 . Como a luta de independência da Argélia estava em franco processo ascendente. 1960: 14). os quais chegaram. Dentre os elementos que levaram o governo brasileiro a votar com a França nas Nações Unidas. Em 1960. nomeadamente na Argélia. e de que estes deveriam ser preservados. representantes oficiais do Governo Provisório da República Argelina (GPRA) vieram ao Brasil com o mesmo intuito (Brasil.

em favor das potências coloniais. segundo sua percepção. o governo do Brasil seguiu a tendência de reconhecer os territórios recém-independentes ao mesmo tempo que o Itamaraty iniciou estudos sobre a realidade africana. tecendo comentários diretos sobre a posição do Brasil frente ao problema colonial.. deveria se libertar dos esquemas elaborados pelas grandes potências. Osvaldo Aranha foi um dos primeiros a se manifestar a favor da revisão da política exterior do Brasil.) e no Marrocos (. Oficialmente. parcamente conhecida até então. Com efeito. mas contrária à nossa formação.. na década de 1950. de concreto.. do Marrocos e da Argélia. 1989: 178). Enfim.6 a estratégia francesa de garantir o apoio brasileiro enviando missões especiais ao Brasil compostas por altos funcionários do Estado. Aranha chegou a enviar uma carta ao presidente Kubitschek. haja vista que os investimentos franceses no Brasil eram considerados importantes para os objetivos de desenvolvimento acelerado do governo Kubitschek. mergulhado no silêncio e no desconhecimento com relação ao continente africano. janeiro-junho de 2007 . às nossas tradições e em conflito até com sentimentos humanos (como nos casos de Portugal. qualquer política definida para o relacionamento com os novos países africanos.. da Holanda. que privilegiou as relações com as nações economicamente desenvolvidas. da França e. a qual.)” (Bitelli. Assim. o Brasil assistiu à descolonização da Tunísia. continuando com sua política de distanciamento e de apoio discreto às potências coloniais. durante os últimos anos da década de 1950 essa política tinha a sua razão de ser na busca por investimentos.4 É. como um espectador passivo. o Brasil permaneceu. relevante a observação feita por Júlio Bitelli sobre a explicação do chanceler Horácio Lafer a respeito do entendimento que o Brasil possuía da África no final dos anos 1950: “Não podendo fugir às imposições da conjuntura internacional. Segundo ele..) resolveu o Governo brasileiro criar missões diplomáticas na Tunísia (. não havia. numa referência direta ao bipolarismo em voga nos anos 1950. Ou seja. Rio de Janeiro. nossa atitude. também. e c) o interesse brasileiro de levar adiante a melhor relação possível com a França. nº 39. essência da política exterior do governo de Juscelino Kubitschek. CPDOC/FGV Estudos Históricos. colocando a política exterior do país a serviço do desenvolvimento acelerado. assim como viria a assistir o desenrolar do processo de descolonização em outros territórios. a não ser pela intenção de alguns diplomatas e intelectuais que pensavam a África.. (.

Rio de Janeiro. mesmo entre os países latinoamericanos. a saber: a) que o Itamaraty preparasse uma missão de cortesia e de observação a ser enviada para alguns países ou territórios selecionados da África e da Ásia. Cingi-me à letra de nossas instruções. duas atitudes deveriam ser tomadas. só existe em cabeçalhos ou notícias de jornal”. pela primeira vez. cuja composição deveria incluir cidadãos brasileiros de origem afro-asiática. Contudo. no futuro. um árabe e outro tipicamente africano”. “estudasse os próximos passos a serem dados para uma aproximação do Brasil ao mundo afro-asiático visando. agora. sugeria que. o diplomata Sérgio Corrêa do Lago. em Chipre). autor do memorando. muito enfraquece nossa posição e reduz nossa autoridade. da Inglaterra.6 Um dos primeiros diplomatas brasileiros a abordar detalhadamente o movimento pela emancipação das colônias afro-asiáticas no final dos anos 1950 foi o embaixador brasileiro na Índia.5 Em 1957. Criou-se um estado de espírito mundial em favor da liberação dos povos ainda escravizados e o Brasil não pode contrariar essa corrente sem comprometer seu prestígio internacional e até sua posição continental. aquela imensa região.7 proximamente. excetuando-se talvez o Japão. julgo-me no dever de aconselhar uma revisão dessa orientação internacional. janeiro-junho de 2007 . a conquista de uma posição predominante entre aqueles Estados”. De seu posto privilegiado. após o retorno da missão. haja vista que a Índia era um país situado na vanguarda do movimento anticolonial. A indagação básica. como não poderia deixar de ser. Como se tratava de um documento introdutório e que reconhecia a quase ignorância brasileira sobre a realidade africana e asiática. Cochrane de Alencar pôde efetuar uma análise mais substancial e criteriosa do fenômeno. o memorando não avançou muito na análise do que representava o processo de descolonização e seus reflexos na política internacional. no âmbito da Divisão Política do Itamaraty (DPo). surge. de posse dos dados e informações coletadas. e b) que. antes de mais nada. “podendo-se incluir um descendente de oriental. mas. o Itamaraty. nº 39.7 CPDOC/FGV Estudos Históricos. um memorando que inicia a discussão sobre a questão africana e asiática e suas implicações para o Brasil. José Cochrane de Alencar. foi: qual a atuação do Brasil em relação ao mundo afro-asiático? A resposta também foi a mais óbvia: “Para nós. a qual foi lida e discutida no âmbito da Secretaria Geral e no Gabinete do próprio ministro de Estado.

um dos elementos formadores da sua sociedade. dado que o sentimento de solidariedade entre os países daquele CPDOC/FGV Estudos Históricos. em termos de política internacional. pelo Chefe do Governo.8 No memorando. principalmente em virtude da postura brasileira diante do colonialismo português. mesmo que isso venha a afetar o seu relacionamento com outros Estados. o comportamento baseado no sentimentalismo torna-se altamente prejudicial para quem o abraça e o transforma em diretriz de política externa. à luz dos movimentos de independência e das reivindicações nacionalistas que nos mesmos se estão verificando. mas também com a maior parte do mundo africano. na maior parte. as relações entre Brasil e Portugal. Rio de Janeiro. pelo qual se pode acompanhar as discussões internas sobre o tema. Contudo. encontra-se uma exposição do ofício do embaixador nos seguintes termos: O Embaixador do Brasil na Índia (Cochrane de Alencar). Sua sugestão à Secretaria de Estado era que o Itamaraty deveria adotar uma série de medidas de impacto na opinião pública nacional e internacional. com relação aos anseios e aspirações dos povos afro-asiáticos. Foram afetadas não apenas as relações com as colônias de Portugal. dado o seu marcante caráter baseado no sentimentalismo. nº 39. As relações com Portugal: a conexão africana O Brasil. no ofício anexo. inclusive em conformidade com a diretriz do presidente Kubitschek de “imprimir maior dinamismo à política exterior do Brasil”. sugere.8 Com efeito. janeiro-junho de 2007 . como ex-colônia portuguesa. Cochrane salientava nos ofícios remetidos à Secretaria de Estado que o fenômeno da descolonização era uma grande oportunidade para o Brasil ampliar os horizontes de sua política exterior. depois de examinar a situação internacional nos continentes africano e asiático. sendo. é um herdeiro direto da sociedade lusa. Assim. com tudo o que isso representa de positivo e negativo. ao cabo de considerações que. coincidem com pontos de vista da Secretaria de Estado. em que os interesses devem reger – e regem – as relações entre os Estados. indubitavelmente. A herança recebida de Portugal marcou profundamente a formação do povo brasileiro. uma tomada de posição ostensiva através de formulação pública de uma política.9 interferiram intensamente nas relações entre o Brasil e o continente africano.

que permanecem em uma atmosfera de sentimentalismo. o principal assunto a envolver o Estado luso nas relações internacionais do pós-guerra e pano de fundo de suas relações com o Brasil. de cooperar com o colonialismo luso.10 Assinado em 1953. No plano diplomático. notadamente as africanas. janeiro-junho de 2007 . ou suspeito. como observava um dos diplomatas do grupo que questionava o relacionamento com Portugal. onde o Brasil era acusado. esbarrava-se no fato de que as relações com Portugal eram tão inexpressivas quanto as que o Brasil possuía com a África. Assim. nos organismos internacionais. Nas análises sobre as ligações com Portugal. As declarações e discursos que marcam o contato de personalidades brasileiras e portuguesas estão recheados de louvores a Camões.9 continente possibilitou uma ação coordenada. as relações entre os dois países eram marcadas pela ausência de sentido prático e útil nos entendimentos entre os dois países. por exemplo. sobretudo considerando-se a assinatura do Tratado de Amizade e Consulta. no lado brasileiro. Assim. a assinatura do Tratado de Amizade e Consulta com Portugal afirmou ainda mais as ligações entre os dois países. acabou servindo como importante instrumento em mãos do governo português para obter o apoio brasileiro em questões internacionais. o tratado abrangia vários artigos que diziam respeito a questões de interesse mútuo e previa a consulta direta entre os dois países sempre que os assuntos internacionais fossem de interesse comum. o tratado teve em João Neves da Fontoura. ao mesmo tempo que Portugal obtinha do Brasil a garantia de que as relações especiais entre ambos permaneceriam. sobretudo no que dizia respeito ao colonialismo. pela ênfase quase exclusiva emprestada aos aspectos históricos comuns. nº 39. sem que sejam acompanhadas de resultados realmente proveitosos. como bloco.11 Apesar de conciso. Um dos aspectos mais importantes do Tratado de Amizade e Consulta para as relações entre o Brasil e a África foi o bloqueio do acesso brasileiro às províncias ultramarinas. um dos maiores defensores e entusiastas dos sentimentos de irmandade que ligavam Brasil e Portugal. Na perspectiva econômica. vários diplomatas brasileiros questionavam se algum aspecto positivo poderia resultar para o Brasil como conseqüência daquele instrumento. Rio de Janeiro. CPDOC/FGV Estudos Históricos. navegantes e laços de amizade.

tanto no interior do continente africano quanto entre este e os países do continente asiático. que contou com o encaminhamento favorável por parte do embaixador Álvaro Lins. Segundo ele. O Tratado de Amizade e Consulta talvez seja o exemplo mais ilustrativo a este respeito.12 Outro diplomata brasileiro. que serviu na embaixada brasileira em Lisboa quando Álvaro Lins foi embaixador em Portugal.14 CPDOC/FGV Estudos Históricos. ainda mais ativos. nº 39. que prima pela inutilidade. seus dispositivos até hoje não puderam ser aplicados porque se revelaram descabidos em suas concessões. num quadro em que a Europa era uma parceira de destaque. cujos produtos e mercados eram similares aos africanos. Paes de Carvalho fora designado como observador do governo brasileiro na 1ª Sessão da Comissão Econômica para a África (CEA). janeiro-junho de 2007 . Rio de Janeiro. poderia haver grandes prejuízos no comércio exterior do Brasil. diante de tal realidade. seria inevitável um futuro relacionamento entre o Brasil e os países da África. incluindo aí temas de política internacional que já estavam em evidência no âmbito da Nações Unidas e que tenderiam a ganhar mais relevo com o aprofundamento das independências africanas e a articulação entre os novos países. no âmbito do Tratado de Roma. realizada em Adis Abeba no primeiro semestre de 1959. em seu longo relatório remetido ao ministro Negrão de Lima. Assinado em momento de euforia. Mas há também a questão de que a numerosa e organizada colônia portuguesa espalhada pelo Brasil ajudava a pressionar o governo no sentido de colocá-lo ao lado de Portugal. Jorge Paes de Carvalho. Interessava ao governo brasileiro acompanhar os desdobramentos das questões econômicas africanas por temor de uma associação entre os novos Estados africanos e as antigas metrópoles européias. decidida e arrojada ação diplomática que muitas vezes conseguia obter do Brasil vantagens sem contrapartida.10 Exemplo típico é o do Tratado de Amizade e Consulta. constatou que estava em andamento a constituição de uma “personalidade política africana” e que. embora dando mais destaque para a questão colonial.13 O apoio brasileiro a Portugal também era alcançado através de uma experiente. caso se confirmasse que os países africanos teriam tarifas preferenciais junto ao Mercado Comum Europeu. Paes de Carvalho. teceu considerações semelhantes. Isto porque. o Brasil não poderia ficar alheio aos acontecimentos no continente africano.

nº 39. Donatelo Grieco. um arrebatador discurso o seu. e sim províncias de um Estado unitário (Brasil. (. Em 1960. O governo brasileiro aceitava a tese portuguesa de que os territórios ultramarinos não eram dependências. com sua ardorosa eloqüência... em concordância com observação do exchanceler Mario Gibson Barboza (1992: 237).16 Mas. tenham sido proferidas palavras tão desassombradas. Aqui está o Brasil. pois nestes o próprio governo fazia as vezes de um lobby a favor de Portugal. posicionando-se. Aos que punham em dúvida a capacidade civilizadora de Portugal. tão corajosamente lógicas. que assim se manifestou: Não foi somente um grande. parece-nos. O ano de 1957 assinalou um dos exemplos mais vivos de apoio brasileiro a Portugal nas Nações Unidas. que acabou recebendo veementes elogios do jornal lisboeta A Voz. muito embora tenha havido uma tímida tentativa de mudança de posição durante os governos Quadros e Goulart. o Brasil votou a favor do projeto de “Declaração sobre Concessão da Independência aos Povos e Países Coloniais” (Brasil. Querem melhor prova da capacidade civilizadora de Portugal?”15 A decisão brasileira de manter o apoio a Portugal na ONU se manteve ao longo da década de 1960. Ainda não se estudou tal hipótese a ponto de poder conferir-lhe caráter definitivo. que. CPDOC/FGV Estudos Históricos. esta ocorreu nos anos 1960. ao mesmo tempo.) Talvez nunca. 1960: 15). nesse imenso palácio da confusão da ONU. O que existe são evidências dessas ações. Ademais. se houve pressão do lobby português. um notabilíssimo. quando da discussão sobre o status constitucional dos territórios ultramarinos. os brasileiros. ainda no governo Kubitschek. a afirmação de que as organizações portuguesas no Brasil atuavam como um forte lobby a favor de Portugal é algo controversa. o Brasil votou contra a resolução que recomendava a Portugal apresentar às Nações Unidas informações sobre suas colônias.11 Contudo. e não durante os anos 1950. ele soube responder: “Aqui estamos nós. Na Comissão de Curadoria. janeiro-junho de 2007 . tão irrespondíveis como a que soube oportunamente dizer. 1960: 14). o delegado brasileiro Donatelo Grieco foi tão ardoroso na defesa dos interesses portugueses. segundo Leticia Pinheiro (1988: 106). Rio de Janeiro. quando de fato o governo brasileiro ameaçou rever o posicionamento favorável ao colonialismo português na ONU. mas também a melhor exposição do ponto de vista português.

haja vista existir uma contradição nas duas votações. vol. no contexto da Política Externa Independente. Rio de Janeiro. O Brasil continuou sem a firmeza necessária para romper a visão sentimental com relação a Portugal. que indicava haver dentro da ONU uma posição majoritária a favor das independências. inclusive para a África portuguesa. A ascensão de Jânio Quadros e. janeiro-junho de 2007 . o Brasil ensaiou. por exemplo: a atitude em favor do lusitanismo professada por intelectuais de expressiva projeção nacional. de João Goulart à Presidência da República veio transformar consideravelmente as perspectivas das relações entre os dois países. a ação de diplomatas pró-Portugal. reafirmava-se a posição brasileira de aceitar o colonialismo português distinguindo-o dos demais. como. nº 39. sobretudo nos aspectos concernentes à questão colonial. mesmo o ensaio de política africana adotado na presidência de Jânio Quadros/João Goulart não surtiu efeitos radicais. Na verdade. Ao ser criticado pela imprensa por defender o processo de descolonização. na tentativa de permanecer fiel a Portugal. uma vez que as duas teses eram inconciliáveis. porém. Todos esses fatores certamente colaboraram para que a atitude de mudança anunciada por Quadros fosse colocada sob pressão constante. Enfim. mais exatamente até o golpe de Estado de 31 de março. apesar do esforço de mudança patrocinado pelo novo governo. ele assim se manifestou ao ministro das Relações Exteriores: CPDOC/FGV Estudos Históricos. ao analisar as resistências às mudanças propostas por um grupo de diplomatas brasileiros com relação ao lusitanismo no período Kubitschek. vários passos para tentar reverter o apoio até então concedido ao colonialismo português. o Brasil tentava acompanhar a tendência verificada durante o ano de 1960. destacou elementos que certamente perduraram no governo Quadros/Goulart. o conservadorismo da grande imprensa nacional e a ação da comunidade de imigrantes portugueses. os casos mais complicados e que dividiam com a situação das colônias de Portugal a evidência na cena internacional. sugerindo que o Brasil passasse a votar a favor da mudanças nas Nações Unidas.12 de forma ambígua. A dificuldade do governo para conseguir implementar mudanças com relação a Portugal deve ser atribuída a múltiplos fatores. posteriormente. que havia entrado numa fase de isolamento crescente com as independências da Argélia e do Congo Belga. acabou gerando esta contradição. Afonso Arinos logo sentiria o peso dessa resistência. Gonçalves (1994. Mas. Pelo menos entre 1961 e 1964. 2: 284).

O Itamaraty também passou a dar mais ênfase nos aspectos econômicos e comerciais da ligação do Brasil com a África. conforme tem sido aventado por representantes do radicalismo africano. o mais populoso dos países africanos e rico em recursos naturais.. nº 39. A Nigéria era também vista pela diplomacia brasileira como provável mercado para produtos brasileiros. e Lagos (1961). Em 1960. o que acabou por se concretizar nas décadas seguintes.17 Assim.18 O golpe de Estado de 1964 não chegou a promover uma inflexão total no que tange às relações do Brasil com a África. principalmente pela expressão política do país. do ponto de vista político. o governo seguiu acompanhando o processo de descolonização e preparando a aproximação com o continente africano. Além disso. o Brasil instalou uma legação em Acra. não só nas áreas afroasiáticas como nas democráticas e nas socialistas. comprometeria qualquer aspiração brasileira na ONU. num curto espaço de tempo..) Um recuo do Brasil em matéria do colonialismo africano. (. à época um centro estratégico na África Ocidental. além de provocar uma provável e violenta reação popular interna contra o governo. Contudo. duas missões comerciais ao CPDOC/FGV Estudos Históricos. que é o teste de nossa sinceridade.13 Penso que não devemos participar jamais de qualquer medida de acusação exagerada ou condenação injusta de Portugal. capital de Gana. entretanto. o maior entrave para a implementação da política africana do Brasil no governo de Jânio Quadros/João Goulart continuou sendo Portugal. e particularmente no caso de Angola. o Brasil tinha interesses com relação a Gana pelo fato de ser um país-chave nas negociações sobre cacau. capital da Nigéria. Rio de Janeiro. um recuo nosso na decisão de adotar a recomendação que propugne a aplicação da citada resolução da Assembléia Geral e do capítulo XI da Carta no sentido do preparo de Angola para a autodeterminação seria irremediavelmente desastrosa e destruiria de um golpe o prestígio político e a autoridade moral que conquistamos. enviando. centro intelectual da África francófona e posto indicado para contatos com outros países de expressão francesa. houve um realinhamento com as teses predominantes da Guerra Fria e o esvaziamento do discurso ideológico em favor da emancipação de todas as colônias. Seguiram-se embaixadas em Dacar (1961). janeiro-junho de 2007 . do qual era o maior produtor mundial. Apesar disso.

1992: 191). Assim. ao mesmo tempo. Avançou-se também na proposta de criação de um esquema triangular. o Brasil se distanciou de Portugal. esgotado definitivamente com a Revolução dos Cravos e o fim do regime salazarista em 1974. A implementação da política africana do Brasil: a virada na década de 1970 O Brasil só conseguiu sair do seu estado de ambigüidade com relação à África após o colapso do colonialismo português. apesar de levar em consideração o continente como um todo. em 1964 e 1965. Ou seja.19 Em 1966. para a conformação de uma comunidade afro-luso-brasileira. o Brasil reconheceu a tese portuguesa de que os territórios eram não-autônomos. eram províncias ultramarinas. A partir de 1975.14 continente. e. Portugal e as “províncias ultramarinas”. O resultado das sondagens dessas missões reforçava ainda mais as teses dos novos governantes: chegou-se à conclusão de que as áreas que ofereciam maiores facilidades para a colocação de produtos brasileiros no continente africano eram os territórios portugueses. alguns países passaram a se destacar no cenário da política CPDOC/FGV Estudos Históricos. O interesse brasileiro. Isto só veio a acontecer no contexto de crise do regime Salazarista. mas que afinal não passou do plano das idéias. janeiro-junho de 2007 . poderia efetivar-se um intercâmbio comercial assentado em bases complementares e vantajosas para os dois lados. decidido mudar sua atitude perante as colônias portuguesas pouco antes da consumação da Revolução dos Cravos. a África do Sul e a Rodésia. a qual. que era a de apoiar a independência das colônias portuguesas e colocar um ponto final na ambigüidade com relação a Portugal. nas palavras do ex-ministro Saraiva Guerreiro (1992: 187). tinha centros de atração de maior importância. envolvendo Brasil. uma vez que a diplomacia brasileira havia. portanto. não era cabível interferência nos assuntos internos de Portugal. quando o destino das colônias já estava selado. que foram identificados como sendo os países produtores de petróleo. potencial para exportar o petróleo para o Brasil e capacidade de compra de produtos industrializados brasileiros. isto é. livre da “hipoteca portuguesa” (Guerreiro. os quais possuíam. “curto-circuitou a decisão do presidente Geisel”. Gradativamente. Rio de Janeiro. mas não a ponto de dar uma guinada e apoiar abertamente o fim do colonialismo português. o Brasil pôde dar prosseguimento à expansão de suas relações com o continente africano com mais coerência e desenvoltura. de fato. nº 39. Não seria exagerado afirmar que o sentimentalismo com relação a Portugal perdurou até o penúltimo minuto.

contudo. como Nigéria. agindo desta maneira. com destaque para Angola. solicitação não atendida pelo governo brasileiro. A idéia foi proposta pelo embaixador João Cabral de Melo Neto. o governo brasileiro determinou a criação de uma embaixada residente em Bissau. O Itamaraty avaliou que. Lisboa. pelo menos num patamar especial. estaria apressando o processo de independência ao pressionar o governo português. sobretudo pela riqueza em recursos minerais e potencialidades futuras para o Brasil. Como a medida brasileira deu certo. à época servindo em Dacar. Estrangulada pela falta de tempo. a primeira mudança substancial de orientação com relação ao colonialismo luso. de fato. Angola e São Tomé e Príncipe. Gabão.15 africana do Brasil. seria uma contribuição significativa para demonstrar o interesse brasileiro em se reabilitar perante a Guiné-Bissau.20 Poucos meses depois. sobretudo em Moçambique e Angola. a missão brasileira mais próxima dos acontecimentos na Guiné-Bissau. tentou conseguir que o Brasil adiasse por “alguns dias” o reconhecimento. Argélia. que foram priorizados politicamente. o que evidencia. por si só. que não seria uma tarefa fácil estabelecer relações com os movimentos de libertação das ex-colônias portuguesas. Neste caso. como forma de demonstrar o interesse brasileiro em ver de imediato as relações entre os dois países estabelecidas em bases normais e. O Itamaraty sabia. o comunicado só foi efetuado 24 horas antes do anúncio do reconhecimento. mas como a intenção era de fato pressionar Portugal.21 À Guiné-Bissau seguiram-se gestões para o reconhecimento de Moçambique. haja vista a política de apoio a Portugal que havia contrariado os interesses dos CPDOC/FGV Estudos Históricos. através de gestões no mais alto nível governamental. O Itamaraty agiu rápido e procedeu ao reconhecimento antes mesmo que a ex-metrópole o fizesse. O primeiro Estado de expressão portuguesa a ser reconhecido pelo Brasil foi a Guiné-Bissau. ela se tornou uma espécie de exemplo a ser seguido nas outras ex-colônias portuguesas. “especiais”. o Itamaraty deu conhecimento prévio ao governo português. janeiro-junho de 2007 . um gesto que foi imediatamente compreendido pela diplomacia lusitana como representativo da mudança de orientação do Brasil com relação ao problema colonial. nº 39. Senegal e os recém-independentes Estados de língua portuguesa. uma vez que a idéia foi bem recebida pela liderança do Partido Africano da Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC). Rio de Janeiro. A primeira era que o gesto. A criação quase imediata da embaixada em Bissau foi motivada por duas razões. se possível. A segunda estava relacionada ao fato de haver rumores de que persistiam “ressentimentos e incompreensões quanto à atitude do Brasil em relação à nova República”.

passou a chefiar a Divisão de África. as palavras introdutórias proferidas pelos membros da missão brasileira. até a data da independência de Moçambique. no dia 29 de novembro. em Dar-es-Salaan. na mesma ocasião em que o ministro Azeredo da Silveira visitou o Senegal.16 africanos. o governo brasileiro começou a se preparar para a investida diplomática na África de expressão portuguesa. De acordo com o relato da missão. de onde se confirmou. A Frelimo fez-se representar pelo seu presidente. que foi chefiada por Ítalo Zappa e contou com a participação do conselheiro Sérgio Weguelin Vieira. Com a independência da Guiné-Bissau. com destino a Nairobi. E essas críticas foram feitas.22 No segundo semestre de 1974. Na verdade. a primeira das entrevistas que se realizaram nas duas semanas seguintes com os líderes dos movimentos da África de língua portuguesa. o de Moçambique. na Tanzânia. Samora Machel não perdeu a oportunidade de criticar o Brasil pelo alinhamento a Portugal e pelo desdém para com os movimentos africanos. os ressentimentos perdurariam por alguns anos a mais. A substituição de Gibson Barboza por Azeredo da Silveira à frente do Ministério das Relações Exteriores também ajudou a consolidar o grupo africano no Itamaraty. A missão. Rio de Janeiro. por telefone. em que os representantes brasileiros ressaltaram o seu caráter anticolonialista e o princípio da não-intervenção em assuntos de outros países. com destaque para a proposta brasileira de criação de uma representação especial para exercer funções de caráter diplomático junto ao governo de transição. num caso específico. Essa marca o Brasil teria que carregar por algum tempo e. que contava com o dinamismo e a determinação do diplomata Ítalo Zappa que. a missão brasileira seguiu. Durante duas horas foram discutidas as questões consideradas prioritárias. tinham por objetivo tentar resguardar o Brasil das críticas que possivelmente seriam tecidas pelos líderes da Frelimo. Do lado brasileiro estavam presentes os embaixadores Ítalo Zappa e Franck Mesquita (embaixador no Quênia) e o conselheiro Sérgio Weguelin Vieira. janeiro-junho de 2007 . marcada para o dia 25 de junho de 1975. Demonstrou CPDOC/FGV Estudos Históricos. seguiu para o continente africano no final do ano. A proposta foi precedida por uma breve exposição das diretrizes gerais da política exterior do Brasil.23 O primeiro encontro foi com os líderes da Frelimo e ocorreu no dia 1° de dezembro de 1974. capital do Quênia. Samora Machel. o secretário de informação Jorge Rebelo e o secretário da presidência Sérgio Vieira. foi decidido em Brasília o envio de uma missão especial para estabelecer contatos de alto nível com os líderes dos principais movimentos de liberação que atuavam na África de expressão portuguesa. na administração Azeredo da Silveira. De Dacar. principalmente por Ítalo Zappa. nº 39.

isto é. O dos Senhores não estava entre eles. como Luís Carlos Prestes e Miguel Arraes. mas o Brasil. que inclusive passara pelas mesmas vicissitudes do colonialismo português. a Frelimo só podia contar com ela mesmo. quando o Diretório da Frelimo se reunisse. com as suas relações especiais com Portugal. juntamente com outras. Moçambique foi o caso mais complicado para a diplomacia brasileira. provavelmente em janeiro de 1975. A análise feita por Ítalo Zappa a respeito das comemorações pela independência de Moçambique era de que havia prevalecido a “linha da emocionalidade”. Também. algum auxílio foi recebido do exterior: dos países africanos vizinhos. optando aquele governo por convidar representantes da esquerda brasileira. de imediato. nº 39. alheiou-se (sic) no que diz respeito às aspirações e o futuro de Moçambique. as condições eram extremamente difíceis e. janeiro-junho de 2007 . Aos poucos. a CPDOC/FGV Estudos Históricos.17 profundo rancor pela maneira como o Brasil se comportou frente à questão colonial. Ele teria dito à missão brasileira: Naquele momento. ressaltando que os moçambicanos esperavam muito mais do país.25 Outra evidência do ressentimento moçambicano foi o fato de o Brasil não ter sido convidado para os festejos da independência. com a proposta brasileira de criação de uma Representação Especial em Lourenço Marques (atual Maputo). Os moçambicanos não estavam dispostos a esquecer tão facilmente o comprometimento brasileiro à causa portuguesa. no início. alguns outros países elevaram-se à sua responsabilidade histórica e tomaram partido em favor dos países que aspiravam à independência. da República Popular da China e da União Soviética. estabeleciam-se as relações entre Moçambique e o Brasil. Reflexo imediato disso foi que a Frelimo não concordou. por meio de alguma ajuda. Foram elas esperadas por muito tempo. Ali. O Brasil não teria prioridade alguma no relacionamento com o novo país.24 Entre as ex-colônias portuguesas. disse. os países escandinavos pagaram um preço para poder continuar em paz o seu relacionamento com as potências colonialistas. e a sua proposta seria discutida. O relato das palavras de Machel não deixa dúvida a esse respeito. No decorrer dos anos. Rio de Janeiro.

Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). que tinha uma percepção estritamente crítica com relação ao Brasil. como segundo embaixador brasileiro em Maputo. que chegou em Luanda num sábado. portanto. dia 22 de abril de 1975. em setembro de 1974. para que pudessem se desenvolver em bases normais. ao mesmo tempo que prestigiava os movimentos de liberação angolanos. o governo brasileiro criou uma Representação Especial em Luanda. Como a resistência da Frelimo fora grande com relação ao Brasil. ao ser indagado por um repórter da TV Globo sobre as futuras relações entre Moçambique e o Brasil numa conferência de imprensa realizada em Lourenço Marques. como que ansioso por tentar recuperar o tempo perdido na África de expressão portuguesa. a saber: Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). mas também de ressentimentos”. janeiro-junho de 2007 . antes mesmo da entrevista entre a missão brasileira e Samora Machel em Dar-es-Salaan. cujo objetivo era agilizar os contatos com os líderes dos movimentos pela independência e abrir caminho para o estabelecimento de relações diplomáticas com o novo governo. b) o que havia feito em favor da Frelimo?.30 Em 1975. Rio de Janeiro. A idéia da Representação Especial inovava no campo da diplomacia porque não existia. c) e o que estaria disposto a fazer em favor de Moçambique?”27 As relações com Moçambique exigiram atenção redobrada do Itamaraty.26 A Frelimo já havia demonstrado. o Itamaraty decidiu que conquistar as ex-colônias portuguesas seria a tarefa número um para a diplomacia brasileira no continente CPDOC/FGV Estudos Históricos. O indicado para assumir o posto foi o diplomata brasileiro Ovídio de Andrade Melo. nos cânones diplomáticos. o experiente diplomata Ítalo Zappa.29 Sua missão em Luanda pautou-se pela orientação de acompanhar o processo de descolonização e estabelecer contatos com a liderança dos movimentos que lutavam pela independência. nº 39. o Itamaraty designou. representação neste nível. Foi uma saída criativa encontrada pelo governo brasileiro para dar destaque às relações que pretendia estabelecer com Angola. Joaquim Chissano. um reconhecimento tanto da importância do posto como da difícil tarefa de consolidar as relações com aquele país. respondeu ao repórter com três perguntas: “a) o que havia o Brasil feito em favor dos movimentos de libertação africanos?. Poucos dias antes de assumir o cargo de primeiro ministro do governo de transição.18 Frelimo deliberadamente transformara a festa da independência “numa cerimônia marcada por demonstrações não apenas de júbilo.28 No início de 1975.

“na qualidade de Embaixador Especial. o Itamaraty acompanhou com interesse a evolução do complexo quadro angolano. gesto que equivalia. portanto apenas dois dias antes da data da independência. no qual ele analisava o “afastamento histórico do Brasil em relação a Angola e a necessidade de pronto reconhecimento da Independência deste país”.31 A recomendação de Ovídio de Andrade Melo foi feita num longo ofício. Até mesmo atitudes mesquinhas haviam sido tomadas.34 Finalmente. cidadão português que teve que abandonar às pressas Luanda. ser o Representante do Senhor Presidente da República nas cerimônias da proclamação da Independência de Angola”. Segundo ele. tal como lhe havia confidenciado o próprio agente. tanto pela suspeita de suas atividades junto à PIDE como à FNLA. Fonseca Lima. como chofer do consulado brasileiro em Luanda. Nesse contexto. ao reconhecimento do novo governo. com três movimentos de liberação que não se entendiam. Removido o CPDOC/FGV Estudos Históricos. embora recomendasse ao Itamaraty que a atitude mais certa seria “o imediato reconhecimento do governo que se constitua em Luanda no dia 11 de novembro”. Muito embora o representante especial do Brasil em Luanda se esforçasse por manter uma atitude de eqüidistância perante os três movimentos. nº 39. Ao longo do ano de 1975. Pelo contrário.32 O diplomata brasileiro centrou sua análise no erro que o Brasil havia cometido ao aceitar contemporizar com o colonialismo português.33 O Itamaraty aguardou até às vésperas da independência angolana para decidir se reconheceria ou não o governo que se instalasse em Luanda. a famosa PIDE.19 africano. como a resistência em Moçambique para uma aproximação com o Brasil fora grande. Idênticas suspeitas recaíam também sobre o ex-vice-cônsul interino. na prática. que em nada beneficiara o país. e.35 Foi somente a partir das independências nos ex-territórios portugueses que o Brasil conseguiu agir com mais desenvoltura no continente africano. Angola e Moçambique foram considerados essenciais. Rio de Janeiro. já em meados do ano ele havia se convencido de que o MPLA era o movimento mais bem qualificado para assumir o governo do novo país. o representante especial do Brasil em Luanda foi instruído a. o apoio a Portugal o comprometera internacionalmente e o afastara da África. no dia 9 de novembro. Angola se tornou o centro das atenções. como colocar um agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado. Portugal não tivera nenhuma consideração com o Brasil. janeiro-junho de 2007 .

Depois das caravelas: as relações entre Portugal e Brasil. 1999. USP. Universidade de Brasília (Tese de Doutorado). Mario Gibson.20 obstáculo do colonialismo português faltava. LESSA. GUERREIRO. Seção de Publicações da Divisão de Documentação do Ministério das Relações Exteriores. & MAGALHÃES. BITTENCOURT. José Calvet de. ainda. As linhas que formam o “EME”. 1960. Saraiva. Siciliano. USP (Dissertação de Mestrado). Brasília. nº 39. Relatório. CUNHA. Um estudo sobre a criação do Movimento Popular de Libertação de Angola. Franz-Wilhelm. EdUnB. CPDOC/FGV Estudos Históricos. Brasília. HEIMER. BRASIL. O realismo da fraternidade: as relações Brasil-Portugal no governo Kubitschek. Fernando Augusto Albuquerque & OLIVEIRA. fazer a opção entre a África negra e a manutenção do comércio com a África do Sul. 1985. São Paulo. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Política africana do Brasil. Amado L. São Paulo. Ministério das Relações Exteriores. 1945-2000. o traço todo da vida. 2000. Brasília. Sérgio França (org. Antônio Carlos Moraes. 1808-2000. Record. São Paulo. Fundação Alexandre de Gusmão.). O Brasil optou pela África negra. _______. 1989. Lisboa. 1996. R. Henrique Altemani. DANESE. 1994. Fundação Alexandre de Gusmão. Brasiliense. MOURÃO. Negros estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. A Regra do Jogo. 1992. Referências bibliográficas BARBOZA. Lembranças de um empregado do Itamaraty. Sérgio França (org. O processo de descolonização em Angola. São Paulo. Brasília. 1992. Na diplomacia. 1989. Williams da Silva. 2000. “A política brasileira para a África e a descolonização dos territórios portugueses”. 1974-1976: ensaio de sociologia política.). Ensaios de história diplomática do Brasil. BITELLI. CERVO. Rio de Janeiro. Marcelo. janeiro-junho de 2007 . Dos jornais às armas: trajectórias da contestação angolana. Manuela Carneiro da. GONÇALVES. em DANESE. Lisboa. Ensaios de história diplomática do Brasil. Veja. Datilografado. 1980. Júlio G. A parceria bloqueada: as relações entre França e Brasil.

José Flávio Sombra. Universidade de Brasília (Dissertação de Mestrado). 2001. Rio de Janeiro. José Flávio Sombra (orgs). Angola e Brasil nas rotas do Atlântico Sul. _______. Para a elaboração do artigo. analisamos a política externa brasileira para a África sobretudo durante a década de 1950 até meados dos anos 1970. 1988. e as relações com a África do Sul. Brasília. ______. janeiro-junho de 2007 . Resumo No artigo apresentamos a evolução das relações entre o Brasil e o continente africano. “A política brasileira para a África”. por se tratar de período de extrema relevância para o abandono da ambigüidade até então verificada. Brasília. n. O lugar da África: a dimensão atlântica da política externa brasileira. Pio. Neste sentido. Brasil e África: outro horizonte. EdUnB. 1987. 1996. José Honório. Universidade de Brasília (Tese de Doutorado). Brasília. política africana do Brasil Abstract In this article we discuss the evolution of the relations between Brazil and the African continent. maio/julho. Leticia.21 PANTOJA. descolonização. 1994. usamos fontes primárias do Arquivo do Ministério das Relações Exteriores até então não utilizadas. Bertrand Brasil. O Brasil e a descolonização da África nos anos Kubitschek (1956-1961): ensaio de mudança. nº 39. 1946-1960. SARAIVA. 1960. Do pragmatismo consciente à parceria estratégica: as relações BrasilÁfrica do Sul (1918-2000). PUC (Dissertação de Mestrado). Civilização Brasileira. Ação e omissão: a ambigüidade da política brasileira frente ao processo de descolonização africana. de 1946 a nossos dias. se constituíram nos dois grandes empecilhos para o desenvolvimento de uma política africana por parte do Brasil. Argumentamos que o apoio brasileiro ao colonialismo português. Ano IV. PINHEIRO. Selma & SARAIVA. Palavras-chave: relações Brasil-África. We analyze the Brazilian external politics for Africa specially from the decade of 1950 until middle of 1970’s. Rio de Janeiro. 1999. PENNA FILHO. RODRIGUES. emphasizing those aspects that have exerted influence in the definition of Brazil’s African politics. 13. enfatizando os aspectos que exerceram influência na definição da política africana do Brasil. because this was a period of extreme CPDOC/FGV Estudos Históricos. Rio de Janeiro. São Paulo. Humanidades.

Para uma visão geral da posição que o Brasil assumiu na questão. reconheceu a falta de conhecimentos sobre a realidade africana no final de 1960. 3 teve que levar em consideração a mobilização da colônia árabe no Brasil. Carlos Sylvestre de Ouro Preto. nº 39. and the relations with the Republic of South Africa under apartheid regime were the two great obstacles to the development of an African politics on the part of Brazil. L’appui du Brésil au colonialisme portugais et les relations avec l’Afrique du Sud sous le régime d’apartheid ont été les deux grands obstacles pour le développement d’une politique africaine de la part du Brésil. 21 nações Na questão dos territórios coloniais franceses no norte da África. 4 O chefe da Divisão Política do Itamaraty.22 relevance to the end of the ambiguity shown before. cuja presença no país motivou um discreto lobby a favor da independência dos territórios. 2 conquistaram a independência. Brazilian support to the Portuguese colonialism. pour l’élaboration de cet article. Rio de Janeiro. o governo brasileiro extraídas de Penna Filho (1994). Brazilian policy towards Africa Résumé Dans cet article nous présentons l’évolution des relations entre le Brésil et le continent africain en nous concentrant sur les aspects qui ont influencé la définition de la politique africaine du pays. nous analysons la politique brésilienne pour l’Afrique surtout des années 1950 aux années 1970. no qual afirmava que “nota-se na Secretaria de CPDOC/FGV Estudos Históricos. Nous nous avons appuyés. In our research we have used primary sources from the Ministry of Foreign Affairs’ archives not explored until now. a maior da América Latina e estimada em torno de um milhão de pessoas em 1950. politique africaine du Brésil Notas 1 Para uma parte do período relativo aos anos 1950 foram utilizadas várias referências Do início do processo de descolonização africana até o ano de 1960. janeiro-junho de 2007 . sur des sources primaires de l’Archive du Ministère des Affaires Étrangères du Brésil. ver Lessa (2000: 136-141). période d’extrême importance pour l’abandon de l’ambiguité antérieure. através de um memorando dirigido ao chefe do DPC. Dans ce sens. decolonization. Key words: Brazil-Africa. Mots-clés : Brésil-Afrique. decolonisation.

900. Sião. 1951/1966. Carta de Osvaldo Aranha a Juscelino Kubitschek. aspectos da realidade das colônias portuguesas. Memorandos/Pareceres/Requerimentos. AMRE. Ceilão. AMRE. Entretanto. janeiro-junho de 2007 . Mendes Vianna. Na tramitação interna. Tunísia. A. Rio de Janeiro. Marrocos e Argélia. Brasil. Arquivo Memorando DPo/3. 02/04/1959. Ofício n° 125. de Sérgio M. Nepal.1 (00). CPDOC/AO/57. embaixador do Brasil na Índia. Política Internacional. embaixador do Brasil na Índia. assinado por Jorge de Carvalho e Silva. AMRE. Secreto. era “muito oportuna a sugestão” e “deveríamos aproveitar a oportunidade para uma definição mais precisa do Brasil no tocante à questão colonial e ao combate ao subdesenvolvimento econômico”. 03/12/1960. assinado por Carlos Sylvestre de Ouro 5 Preto. Confidencial.09/1. Confidencial. Memorando DPo/474. Secreto. cheio de teses e de motivações políticas. Afeganistão. caixa Todos.1 (42). Coréia do Sul. 1944/1965. Paquistão. Rio de Janeiro. francesas. Hong Kong. Osvaldo Aranha. expressou um pensamento mais conservador e cauteloso. Quênia. tratava-se de um “belo ofício. AMRE. Etiópia. chefe substituto da Divisão Política. A visita proposta.23 Estado uma absoluta carência de informações sobre a África”. para o embaixador Francisco Negrão de Lima. Ofícios Recebidos. Secreto.1 (00). de (10) a (98). Sudão. Nova Guiné. Segundo ele. assim resumem-se os pontos de vista: Araújo Castro opinou “de acordo”. Nova Delhi. 15/02/1959. Camboja. para o chefe do Departamento Político. que em tese deveriam ser mais conhecidas dos brasileiros. de acordo com os pareceres exarados no memorando. CPDOC/FGV. Índia. Costa do Ouro. para embaixador Francisco Negrão de Lima. Política Internacional. ministro de Estado das Relações Exteriores. De acordo com sua observação. de (10) a (98). até mesmo. 6 03/01/1957. L/W. Sem data. na Ásia. colônias portuguesas.1 (42). Cf. 900. AMRE. 7 Ofício n° 65. Líbia. caixa 03. 1958/1959. de José Cochrane de Alencar. 29/04/1959. ministro das Relações Exteriores. de José Cochrane de Alencar. Laos. Nova Delhi. devemos caminhar sem lirismos e isso é de nossa CPDOC/FGV Estudos Históricos. deveria abranger as seguintes áreas: na África. Borneo. 1951-1966. que mal conheciam. Política Internacional.12. 900. para o chefe da Divisão Política. Vietnã do Sul. Japão e Filipinas (os nomes dos países estão grafados como no original). belga. nº 39. MDB. Já o secretário geral. 8 Memorando DPo/900. Indonésia. que não se concretizou. Corrêa do Lago. Birmânia. Este fato era também compartilhado por outros diplomatas brasileiros. Libéria.

quando envolvessem Portugal. por exemplo. Vive com eles. 20/03/1959. AMRE. 10/06/1957. segundo secretário da Embaixada do Brasil em Portugal. 1966: 312 e Saraiva. MDB. num determinado período histórico.24 tradição. Ninguém faz política com os pais e irmãos. 13 “Comissão Econômica para a África. Requerimentos. Ofícios Recebidos. Memorandos. Gonçalves (1994. Lisboa. na intimidade do sangue e dos sentimentos. para Francisco Negrão de Lima. 13 (apud Rodrigues. Assinado por Jorge Paes de Carvalho. janeiro-junho de 2007 . uma comissão formada por Augusto Souza Batista. nº 39. que remonta ao início do século XX. embaixador do Brasil em Portugal. 1996: 54). em cliente ou associado” (grifo no original). cada qual procura apoio e conselho nos seus. Williams da Silva Gonçalves também analisa em pormenores as relações entre Brasil e Portugal durante o governo do presidente Kubitschek. afirmou que “a política com Portugal não chega a ser uma política. ver Cervo e Magalhães (2000: 277-282). territorial. Confidencial. O relatório foi enviado ao MRE pelo Ofício n° 94. Rio de Janeiro. p. dando o Brasil atenção especial aos assuntos bilaterais. 9 O termo “sentimentalismo” assume aqui o significado de que as relações entre Brasil e Portugal foram regidas. L/W. Nas horas difíceis. Rio de Janeiro. janeiro/maio de 1960. Ao escrever artigo publicado no jornal O Globo. Pela força do sangue”. 14 Durante os anos 1950 existiam no Brasil várias associações de portugueses atuando de maneira organizada. pois há outro. impalpável e perigoso. ministro de Estado das Relações Exteriores. Sem regras. de Álvaro Lins. Em sua tese de doutorado. Aventino Fernandes CPDOC/FGV Estudos Históricos. ao chefe do Departamento Consular. O colonialismo não é somente este. 06/03/1959. O Globo. Joaquim Campos. 17/02/1960. de José Maria Diniz Ruiz de Gamboa. Pareceres. Lisboa. suas relações com a mãepátria deveriam seguir uma lógica diferenciada. que é o da manutenção da colônia que se transforma em Estado. É um ato de família. caixa Todos. 10 Para uma visão mais ampla da idéia do estabelecimento de uma relação especial entre Brasil e Portugal. AMRE. 12 Memorando DCP/19. ou mesmo multilaterais. 11 João Neves da Fontoura defendia uma estreita vinculação do Brasil com Portugal. Em 1957. vol. caixa 3. 1: 150-184) aborda a questão da assinatura do Tratado de Amizade e Consulta. Sem tratados. por ser o Brasil um país caudatário da cultura e da herança portuguesas. Alfredo Monteiro Guimarães. Sem compensações. Secreto. Comentários de natureza política do observador brasileiro”. pela idéia de que.

27/09/1961. Relações Políticas. “A Questão de Goa”. Juliano Cancela e Manuel Fernandes da Costa. 1º Caderno. Relações Políticas e Diplomáticas. Consulados Diversos no Interior e Exterior. Cf. 900 (B-46) (A-18). Caixa 273.P. sem caixa. Caixa 273. 19 20 Idem. Delegação do Brasil junto à XVI Janeiro. Telegrama n° 569. foi recebida pelo ministro das Relações Exteriores. (42) (10). para Exteriores. 1967. Embaixada em Dacar. Telegrama n° 185. AMRE. de Exteriores para DELBRASONU. todos membros do Diretório das Associações Portuguesas. Dacar. Relações Políticas. 1° Caderno. Jornal do Brasil. AMRE. 16 informações às Nações Unidas sobre as “províncias ultramarinas” saiu vitoriosa. Rio de Janeiro. 29/08/1974. AMRE. 18/09/1974. p. de Afonso Arinos de Melo Franco. Caixa 273. CPDOC/FGV Estudos Históricos. de Exteriores para BRASEMB Lisboa. Brasília. de Exteriores para BRASEMB Dacar. Telegrama n° 190. Nova York. O objetivo da Comissão era agradecer ao chanceler a atitude do Brasil na Comissão de Curadoria das Nações Unidas. Relações do Brasil com a África Subsaariana (Ante-projeto de R. Jornal do Brasil. Caixa 273. 02/02/1957. Relações Políticas. 21 Brasília. Rio de Janeiro. Secreto. Ver. Comissão de Planejamento Político. 21/08/1967. Brasil/África. Secreto. 900 (B-46) (A-18). com o mesmo coração”. 7. 900 (B-46) (A-18). a esse respeito: Telegrama n° 198. 17 Assembléia Geral das Nações Unidas. Relações Políticas. AMRE. Secreto. Consulados Brasileiros. uma vez que o delegado brasileiro pronunciou-se na defesa de Portugal na questão de Goa. Organismos Internacionais. Caixa 273. Secreto. José Carlos de Macedo Soares. para Exteriores.). Telegrama n° 675. 15 “Portugal e Brasil são duas nações. segundo os membros do Diretório. 20/02/1957. Telegramas recebidos e expedidos. Relações Políticas. AMRE. Embaixada em Dacar. p. Dacar. 18 Cf. 920. de João Cabral de Melo Neto. 28/08/1974. 900 (B-46) (A-18). MRE. janeiro-junho de 2007 . 05/09/1974. MDB. 1960/1961. Rio de É importante observar que a resolução que recomendava a Portugal que enviasse Telegrama n° 43. 23/07/1974. “o que refletia uma vez mais a tradicional amizade entre as duas nações”. Brasília. 900 (B-46) (A-18). AMRE. para o ministro das Relações Exteriores. Secreto-Urgentíssimo.25 Silva Lage. nº 39. 6. Secreto-Urgentísssimo. de João Cabral de Melo Neto. Secreto-Urgentíssimo. AMRE.

e o embaixador Ítalo Zappa. tinha um inconfundível traço de ascendência africana. 23 Os diplomatas Ítalo Zappa e Sérgio Weguelin Vieira elaboraram um relatório secreto de 28 páginas sobre as entrevistas com os líderes da Frelimo. do jornal Folha de São Paulo. L. Secreto. Segundo ele. 25 26 Idem. 900 (B-46) (A). Relações Políticas. Caixa 273. Caixa 273. mas também foram importantes para a definição brasileira com relação a Portugal. cônsul geral em Lourenço Marques. AMRE. em agosto de 1975. Relações Políticas. 30/10/2000. posteriormente. Relatório: Contatos com representantes dos movimentos de emancipação de Angola e Moçambique. 900 (B-46) (A-20). Caixa 273. Brasília. Naturalmente esses elementos foram coadjuvantes e estavam associados à conjuntura internacional. por não possuir ascendência lusitana. O ministro Azeredo da Silveira. ao ser perguntado se achava o Brasil imperialista. Memorando DAO/64 para o secretário geral das Relações Exteriores. Relações Políticas. Rio de Janeiro. 900 (B-46) (A). assinado por O. Rio de Janeiro. Entrevista de Ovídio de Andrade Melo a Pio Penna Filho. o que acha?”. de Berenguer Cesar. AMRE. nº 39. averiguasse se o texto das respostas de Chissano condizia com a reprodução da matéria da Folha de CPDOC/FGV Estudos Históricos. 04/07/1975. Missão do chefe do DAO. AMRE. ministro de Estado. Cf. não se sentia comprometido sentimentalmente com Portugal. 900 (B-46) (A20). Chissano ocupava o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique. teria respondido: “Claro! E o senhor. do MPLA. Missão do chefe do DAO. o presidente Geisel. o qual foi encaminhado ao ministro de Estado e.26 22 O embaixador Ovídio de Andrade Melo tem uma explicação interessante para a mudança de posição do Brasil com relação ao colonialismo português. da FNLA e da UNITA. ao presidente da República. A entrevista resultou numa solicitação para que a embaixada brasileira em Lima. assinado por Ítalo Zappa. Brasil/Moçambique. nascido na Itália. Secreto. 27 Memorando para o sr. também não padecia do sentimentalismo com relação a Portugal. Rio de Janeiro. Secreto. janeiro-junho de 2007 . general Ernesto Geisel. onde Newton Carlos trabalhava como correspondente do jornal. Na época da entrevista. AMRE. Relações Políticas. Secreto. Caixa 273. Brasil/Moçambique. 08/07/1975. na visão do embaixador. 1974/1985. na qual. Joaquim Chissano também teria dado uma entrevista ao jornalista Newton Carlos. 24 Relatório: Contatos com representantes dos movimentos de emancipação de Angola e Moçambique. 1974/1985.

Ofício n° 255. embarcou “precipitadamente” para o Brasil. Rolo 2014. Argumentou-se que a atitude de reconhecer CPDOC/FGV Estudos Históricos. Representação Especial em Luanda. Cf. 32 33 Idem. “teria dado um ultimato para que saísse de Luanda até o dia 30 de setembro de 1975”. Microfilmado. “que disse tê-la recebido de um militante do MPLA”. 1974/1985. Secreto-Urgentíssimo. de Exteriores para a Representação Especial em Luanda. 29 da década de 1960. Secreto-Urgentíssimo. 31/10/1975. Ver Ofício n° 006. AMRE. para a Secretaria de Estado. de Ovídio de Andrade Melo. também serviu na Representação Especial o conselheiro Cyro Cardoso e o oficial de chancelaria Paulo de Andrade Pinto. Luanda. 34 Para uma visão mais abrangente do contexto do reconhecimento do governo do Telegrama n° 400. caixa 273. AMRE. ofícios recebidos. Esse telegrama prova que o embaixador Ovídio de Andrade Melo. que entrou em operação no início Leslie Moraes Small. Luanda. caixa 54. Secreto. Luanda. de Ovídio de Andrade Melo. dispondo de provas das atividades do ex-vice-cônsul interino. 28/04/1975. 31/10/1975. Confidencial. ao reconhecer o governo do MPLA. MPLA pelo Brasil. ofícios recebidos. Angola. para uma abordagem da origem do MPLA. para a Secretaria de Estado. a título provisório. Representação Especial em Luanda. Caixa 273. AMRE. 900 (B-46) (A-20). Brasília. AMRE. Confidencial. Fonseca Lima. Rio de Janeiro. O primeiro embaixador brasileiro designado para o posto em Maputo foi Ronald O Brasil já contava com um Consulado em Luanda. Representação Especial em Luanda. Esta informação foi passada ao representante brasileiro por outro funcionário português do consulado. nº 39. ao contrário do que sugeriram alguns jornais brasileiros na época do reconhecimento da independência. Rio de 28 Janeiro. de Ovídio de Andrade Melo. caixa 54. ver Saraiva (1999: 225-252). uma vez que o MPLA. Brasil/Moçambique. Confidencial. o fez instruído pelo Itamaraty. Para Ofício n° 256. de Exteriores para BRASEMB Lima. caso contrário ele corria o risco de ser “casualmente atropelado”. Cf. 31 a Secretaria de Estado. janeiro-junho de 2007 . Despacho telegráfico n° 630. segundo Ovídio de Andrade Melo. Representação Especial em Luanda. 29/08/1975. 35 09/11/1975. que assumiu a embaixada em 1976. ver Heimer (1980). 30 Para uma visão do processo de descolonização em Angola. ver Bittencourt (1996 e 1999: 176-203).27 São Paulo. AMRE. Por alguns meses. Relações Políticas. Representação Especial em Luanda.

sendo transferido de Angola para a Tailândia e permanecido por mais dez anos no quadro de acesso para a promoção. Pelo papel desempenhado no reconhecimento daquele governo. Ovídio de Andrade Melo foi promovido a embaixador em 1986. no contexto da redemocratização do país. janeiro-junho de 2007 .28 o governo “marxista” do MPLA teria sido uma iniciativa pessoal do embaixador. Rio de Janeiro. Finalmente. nº 39. o então representante especial do Brasil em Luanda teve sua carreira diplomática seriamente prejudicada. CPDOC/FGV Estudos Históricos.

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