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A FALA SAGRADA
As Belas Palavras: assim os indios guarani denominam as palavras que lhes servem para se dirigir a seus deuses. Bela linguagem, fala sagrada, agradável ao ouvido dos divinos, que as consideram dignas de si. Linguagem de um desejo de supra-humanidade, desejo de uma linguagem próximá da dos deuses: os sábios guarani souberam inventar o esplendor solar das palavras dignas de serem dirigidas somente aos divinos. Belas Palavras - lugar de um saber esotérlco que descreve sucessivamente, em uma linguagem d enc ntamento, a gênese dos deuses, do mundo e dos homens. Textos de essência religiosa dos quais encontraremos aqui a maior parte do que traçam os momentos principais da cosmogênese guaranl.

A
FALA

SAGRADA
MIms E CAN1DS SAGRADOS DOS ÍNDIOS GUARANI

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Tradução Nícia Adan Bonatti

A Fala Sagrada
MITOS E CANTOS SAGRADOS DOS íNDIOS GUARANI

Título

original em francês:·· Le grand parler - My thes et chants sacrés des lndiens Guarani © Editions du Seuil, 1974 Tradução: Nícia Adan Bonatti Capa: Francis Rodrigues Equipe Editorial Coordenação: Beatriz Marchesíni Copidesque: Níuza M. Gonçalves Revisão: Josiane Pio Romera Regina Maria Seco Vera Lueiana Morandim Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Clastres, Pierre, 1934-1977. A fala sagrada : mitos e cantos sagrados dos índios Guarani I Pierre Clastres ; tradução Níeia Adan Bonatti. - Campinas, SP Papirus, 1990. Bibliografia. 1. índios da América do Sul - Religião e mitologia 2. índios Guarani - Lendas 3. índios Guarani - Religião e mitologia 4. índios Guarani - Ritos e cerimônias I. Título. 11. Título: Mitos e cantos sagrados dos índios Guarani. CDD-390.098 -299.8 -980 3

fílamandu pai verdadeiro primeiro!
1. 2. 3. 4. 5. 6. índices para catálogo sistemático: América do Sul : índios : Mitologia 299 8 Guarani índios América do Sul 980.3 Guarani índios Lendas 390.098 Guarani índios Mitologia 299.8 Guarani índios Ritos e cerimônias 299.8 índios Brasil·: Religiões 299.8

é sobre sua terra que Namandu Grande Coração,

divino espelho do saber das coisas, se anima. Você que faz com que se animem aqueles que você proveu do arco, eis: de novo nós nos animamos. As coisas sendo assim: quanto às Palavras indestrutíveis, as quais nada, jamais, enfraquecerá,

1= paptrUf

EDITORA

os pouco numerosos órfãos das coisas divinas, nós as repetiremos, animando-nos. Que possamos então nos animar e nos animar uma vez mais, Namandu pai verdadeiro primeiro!

Fone: (0192) 32-7268 - Cx. Postal 736 13001 • Campinas. SP • Brasil

proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica, resumida ou modificada, em língua portuguesa ou qualquer outro idioma.

. . . . . . .. . . ..Versões .1 O TEMPO DA ETERNIDADE I II III IV Aparecimento de :Namandu: os divinos. . . . . VII A origem do fogo . . . . .Versões . .. . . . . . . . 57 60 102 VI As aventuras dos Gêmeos . . . .. Fundamento da Palavra: os humanos Criação da primeira terra Fim da idade de ouro: o dilúvio 20 26 34 46 2 O LUGAR DA INFELICIDADE V Ywy Pyau: a terra nova. .

Homens verdadeiros portanto e. os Homens. Bela lingua. Agricultores de queimada. contavam seus membros às centenas de milhares. que as consideram dignas de si. A coroa reproduz a chamejante cabeleira do grande deus Ramandu. autonomeando-se. gem. desde sempre. embriaguez de sua grandeza no coração dos homens e das mulheres que os escutam. Uma vez decorrido o . exacerbados por um orgulho heróico. fala sagrada. As plumas das coroas que ornam suas cabeças murmuram ao ritmo da dança celebrada em homenagem aos deuses. Ava. quando precisam de dinheiro. eleitos dos deuses. se afirmam assim depositários absolutos do humano.3 OS ÚLTIMOS DAQUELES QUE FORAM OS PRIMEIROS ADORNADOS VIII Os belamente adornados IX Todas as coisas são uma 111 125 140 As Belas Palavras: assim os índios guarani denominam as palavras que lhes servem para se dirigir a seus deuses. alugam seus braços aos ricos exploradores madeireiros da região. dispersas em minúsculas comunidades que tentam sobreviver à margem do mundo branco. abriga aqueles que. Estranha existência a deles. essas Belas Palavras. agradável ao ouvido dos divinos. na amora do século XVI. bem ou mal. os Adornados. E. Rigor de sua beleza na boca dos sacerdotes inspirados que as pronunciam. a mandioca e o milho de suas plantações asseguram-lhes. marcados pelo sinal do divino. só subsistem ruínas hoje em dia: talvez cinco ou seis mil índios. esses que se dizem igualmente os Teguakava. sua subsistência. ecoam ainda nos lugares mais secretos da floresta que. Quem são os guarani? Da grande nação cujas tribos. Essas iíe'ij para.

freqüentemente do oeste para o leste. fonte e fim de sua força de viver. no início do século XVI. Essa comunidade não sobreviveria um só instante à perda da crença. E é porque. que não cessavam de proclamar a necessidade de abandonar esse mundo que reputavam mau. que tem seu lugar em nossos lares". o fervor com que os índios . no plano religioso. A benevolência amigável com que nos honrava este homem de tão rara generosidade intelectual permitiu-nos o acesso aos sábios guarani. os portugueses e franceses entre os tupi. onde continuam a reinar os antigos deuses. a fim de ganhar a pátria das coisas não-mortais. na direção do sol nascente. os espanhóis entre os guarani. de aldeias em aldeias. em uma bl1sca apaixonada do paraíso terrestre. os guarani preparavam ao nosso redor uma zona de silêncio que nada os levaria a quebrar. se sua profundidade propriamente metafísica ou a suntuosa beleza da linguagem que o exprime. aliás. ltllwr dos deuses. Indiquemos simplesmente que ele traduzia. os primeiros europeus puseram os pés na América do Sul. a dos grandes mburuvicha. espaço em que se encontra integralmente restrito todo o ethos da tribo. encontraram essas sociedades. Trata-se do fenômeno das migrações religiosas que lançavam mIlhares de índios na esteira dos karai. na direção do sol poente. Pois a verdadeira vida dos índios guarani desenrola-se não às margens do mundo branco mas muito mais longe. como tal. E a facilidade. aparentemente indiferentes à nossa presença. É porque uma mesma fé os reúne que os guarani continuam como tribo. sociedade sem Estado. então a sociedade se desmoronará. o que os reúne em uma comunidade de crentes. foi preciso que um branco soubesse merecer deles uma confiança sem restrições. I 'Illp Poúcos povos testemunham uma religiosidade tão intensamente vivida. como sabemos. vontadé tão férrea de manter em segredo a parte sagrada de seu ser. Para que os guarani consentissem em abrir uma brecha nesse formidável muro de silêncio com o qual envolvem o edifício de suas crenças e que o zelo obstinado dos missionários jamais conseguiu abalar. um poder político separado que. A relação dos guarani com seus deuses é o que os mantêm como Eu coletivo. desse pensamento do qual não se sabe o que o torna mais admirável. Se o seu ancoradouro nesse mundo se perder. Os índios sabem disso. foi preciso a descoberta e a conquista de uma grande amizade. ora brutais dos missionários opõem sempre uma recusa arrogante: "Guardem seu Deus! Temos os nossos!" E tão potente era seu zelo em proteger de toda conspurcação seu universo religioso. sem articular com essa outra aparição. os chefes. amizade que o decorrer dos anos jamais enfraqueceu e que só cessou no ano passado. Mas de onde vem a potência dessa ligação com os deuses tradicionais? Onde se enraíza essa diferença que tanto distingue os guarani dos outros índios? Quando. somente sua religiosidade anima seu espírito de resistência. onde nenhum olhar profanador do estrangeiro de boca grande corre o risco de alterar a majestade dos ritos. de aparição bem anterior à chegada dos ocidentais. ameaçava deslocar a antiga ordem social e transformar radicalmente a relacão entre os homens. erravam homens denominados karai pelos índios. Às investidas ora mal-sucedidas. profundamente impregnadas por uma surda inquietação. com a morte daquele que os guarani chamavam de "nosso verdadeiro companheiro. uma profunda crise da sociedade e que essa mesma crise estava certamente muito ligada à lenta mas segura emergência de potências de dominação territorial. León Cadogan morreu: é provável que agora os guarani não permitam que tão cedo um outro branco escute suas Belas Palavras. o destíno dos indígenas americanos. a que nasceu do encontro dos índios e do paraguaio León Cadogan. Mal. que até em data recente o mundo branco permanecia na total ignorância desse mundo dito selvagem. vínculos tão profundos aos cultos tradicionais.nece~~ário à aquisição da soma desejada. nem sempre era suficiente para romper sua recusa em falar.. De tribos em tribos. Em outros termos. Não podemos nos deter aqui sobre a razão de ser desse profetismo tupi-guarani. A garantia do nome de León Cadogan. continuam intransigentes diante de tudo o que possa ameaçar o espaço de sua fé. via surgir de seu seio essa coisa absolutamente nova. O fato de serem impermeáveis às investidas' dos missionários confere a esses índios um lugar particular no horizonte etnocida que definiu.. Não se saberia explicar a aparição dos karai. A substância da sociedade guarani é seu mundo religioso. e às vezes no sentido inverso. culturalmente homogêneas. a sociedade tupi-guarani como sociedade primitiva. obrigados a pactuar com o mundo branco em um trabalho episódico com vistas a arrumar um dinheiro às vezes necessário. 'os profetas. Às vezes nos foi necessário abandonar uma aldeia indígena ao fim de vários dias de espera vã. voltam silenciosamenle às estreitas trilhas que se perdem no fundo da floresta. Terra se.

que. incompleteza 1? Amargura da evidência que se impõe aos pensadores guarani: nós. pode condensar-se em duas afirmações: o mundo tornou-se ruim demais para que se fique nele mais tempo. A chegada dos europeus na América. os profetas de modo algum pregavam no deserto. Se eles não se colocam mais em marcha. esse pensamento desdobra-se por si próprio. um movimento do ativismo migratório para o pensamento questionante. os guarani são ricos em pensamento. belos adornados. ele não cessou de inspirar os Índios. toda essa violência conjugada abreviou o livre desenvolvimento da transformação social consecutiva ao movimento profético. tornou-se impossível. Ficamos bem distantes da alegre exuberância que marca a capacidade de invenção mitológica dos povos selvagens. percebemos que eles dizem· exatamente a mesma coisa e que as Belas Palavras de agora repetem a mensagem de antigamente. Linguagem de um desejo de supra-humanidade. a ponto de ela determinar-se claramente como comunidade religiosa. em outros termos. Ora. Como isso é possível? Como poderemos . sábios guarani contemporâneos. Esse desejo de abandonar um mundo imperfeito Jamais deixou os guarani. a terra má. conseqüentemente. nos séculos XV e XVI. um dom menor de criação? Não acreditamos nisso. os eleitos dos divinos. coloca a questão das causas: por que os homens são humanos demais? Ele tenta uma arqueologia do mal. a metafísica substitui o mitológico. se compararmos o conteüdo desse antigo discurso profético com a pregação dos. Pensamos. O discurso dos karai atuais permanece seguramente na linha direta do discurso profético pré-colombiano. com uma diferença: por não poder doravante realizar o sonho de atingir ywy mara éy. Através de quatro séculos de dolorosa história. Muito mais: tornou-se quase que o único eixo em torno do qual se organizam a vida e o pensamento da sociedade. Mas é sua expressão religiosa e a linguagem do profeta que devem deter nossa atenção. Objeto de nosso desejo: ywy mara ey~ a Terra Sem Mal. o esmagamento das rebeliões indígenas. Se compararmos o corpus mitológico dos guarani com o das outras populações indígenas da América do Sul. A migração religiosa maciça.n. conservando intacta sua força através do tempo. investiu totalmente no esforço do pensamento e de sua expressão falada. os índios atuais esperam que os deuses lhes falem. espaço de nossa condição: ywy mba'e megua. mas toda a força do desejo que animava esses últimos voltou-se agora para a meditação. a brutalidade da Conquista. da completeza acabada. O desejo guarani de transcender a condição humana ultrapassou por sua vez a história e. passagem da exterioridade do gesto concreto . no limite. Queremos ser deuses e só somos homens. r 'veht bem u pr rundidude da desordem em que os mergulhava a inquietante figlll'a dos chefes. que os deuses . de inacabamento. 'polldiUnl ao~ apelos do~ pl'irn 'iros. Pensamos antes que essa diferença mitológica entre os guarani e seus vizinhos mede exatamente a distância que separa do mito o pensamento reflexivo. somos expostos a uma existência doente de imperfeição. Ele se compõe essencialmente do grande mito dos Gêmeos. Devemos então atribuir aos guarani uma imaginação poética menos fértil. ficaremos surpresos pela sua relativa pobreza. é porque dominam mais pensamento para nos opor. Esse profetismo selvagem envolvia assim uma significação política em sua essência.lhes anunciem a vinda dos tempos das coisas não-mortais. que sua pobreza em mitos resulta de uma perda consecutiva ao nascimento de seu pensamento. pobres em mitos. Houve.da gesta religiosa . Fechado. desejo de uma lingu~gem próxima da dos deuses: os sábios guarani souberam inventar o esplendor solar das palavras dignas de serem dirigi das somente aos divinos. E que ninguém se engane: o lirismo das Belas Palavras designa ao mesmo tempo a eclosão de um pensamento no sentido ocidental do termo. que nos sabemos dignos de viver a vida dos que estão no alto. devemos abandoná-lo para nos instalarmos na terra onde o mal está ausente. A pregação dos karai. do mito da origem do fogo e do mito do dilúvio universal. como efeito concreto do discurso dos karai. Desabrochado no rico solo da mitologia antiga. o desejo de eternidade dos guarani procurou seu encaminhamento no aprofundamento da Palavra e extravasou-se do lado do logos. quer fazer uma genealogia da infelicidade.à interioridade constante- mente explorada de uma sabedoria contemplativa. desse estado de perfeição no e através do qual os homens transcendem sua condição. Que pensa o pensamento guarani? Pensa o mundo e a infelicidade do mundo. a Terra Sem Mal. do lado da práxis. Se os guarani têm menos mitos para nos contar. vemo-nos reduzidos a viver aquela dos animais doentes. permanecem à escuta dos deuses e sem repouso fazem ouvir as Belas Palavras que interrogam os divinos. livra-se de sua terra natal. através da migração religiosa. Por que nós.

detentores respeitados do arandu para. claro. em uma fresca noite de inverno. não é esse mundo que desejávamos. ouvida ao acaso. quase até na precisão dos termos. o passageiro. Textos de essência religiosa dos quais encontraremos aqui a maior parte dos que retraçam os momentos principais da cosmogênese guarani. pensamento do Bem e do Mal. pp. os Gêmeos. quando não eram obscuros demais. a origem do fogo. em compensação. Estranhos para nós. a gênese dos deuses. Retivemos. a fim de que possa atingir os sete firmamentos sobre os quais reina nosso pai 2. 134 e 135. reconquistar nossa pátria perdida? QUe nossa voz se impregne de potência. de onde vem a infelicidade? E eis o que profere. E quanto a nós. da maneira mais firme. ele deixava progressivamente o terreno do mito para se abandonar a uma reflexão sobre o mito. lugar de um saber esotérico que descreve sucessivamente.reinvestir nossa verdadeira natureza. 4. sofremos o destino do peso do Um: o mal é o Um: nossa existência está doente. na sua floresta do Paraguai. Desse aspecto. Condenado do lado do corruptível. os guarani: Onde está o mal. a morada calma onde o ser não se diz mais segundo o Um. que pertenciam ao que l!ost~ríamo de chamar de nível metafísico do pensamento indígena: reflexões crítieas sobre os mitos. mais acutilado. pensamento do Um e do não-Um. a uma interrogação a propósito de seu sentido. vanas versões dos principais mitos que os guarani contam: as aventuras de Sol e Lua. como tivemos experiência pessoal. Sabe-se que quase todos os guarani conhecem e sabem contar os mitos da tribo. os adornados. que ficamos perturbados com o eco familiar demais de tal declaração. que condensa a virulência de um aforismo. 3. comentários livres. O Bem não é o múltiplo. o fluxo de sua narrativa. Um desses sábios nos contava um dia sua versão da aventura dos Gêmeos. O que nasce. a seguir. enfim. Inicialmente incomodado com a presença do gravador. e porque a totalidade das coisas que compõem o mundo pode se dizer segundo o Um e não segundo o múltiplo que o mal está inscrito na superfície do mundo 4. Não reconhecemos aí. dizíamos. É porque. dos jovens aos mais velhos. em uma linguagem de encantamento. um deus. o espaço indivisível dos seres dos quais se pode dizer que são ao mesmo tempo homens e deuses. brilhos de uma luz sem traços. o dilúvio universal que destruiu a primeira terra. em contrapartida. até a obsessão. Eco familiar demais. mas também o outro do homem. do mundo e dos homens. Os textos indígenas reunidos nesta coletânea são de natureza diversa. a infelicidade da condição dos habitantes desse mundo e a origem de sua infelicidade. um habitante da Terra Sem Mal é um homem. Namandu! Essa busca perseverante às vezes conduz os sábios guarani por estranhos caminhos. E. e . enquanto que os pensadores guarani afirmam que o Um é o Mal. o pensamento metafísico que desde sua mais longínqua origem grega anima a história do Ocidente? Em um caso e outro. cresce e se desenvolve somente com vistas a perecer é chamado Um. por isso que não reproduzimos a totalidade dos textos disponíveis: eles se pareciam demais. e as palavras que ela pronuncia. Sua voz tornava-se mais forte. não somos culpados. simultaneamente o um e seu outro. Mas os sábios pré-socráticos diziam que o Bem é o Um. Expressão corrente de respeito. senão agressiva. espectadores do Ocidente. deixar entreouvir o menor fragmento do que chama de Belas Palavras. Mas só uma minoria de homens sabe falar com os deuses e receber suas mensagens: os sábios são os senhores exclusivos das Belas Palavras. Fortemente codificado. /I Vêm então os tempos felizes dos longos sóis eternos. o belo saber. no nível dos textos que dizemos metafísicos. por uma vertente muito natural entre esses pensadores indígenas. o efêmero. o dois que designa verdadeiramente os seres completos. o modo de existência do Um é o transitório. Podem-se ler. Ele reunia assim o mal desse mundo ruim e a razão desse mal. a um verdadeiro trabalho de interpretação através do qual tentava responder à questão que se colocam. Cf. achy. pouco a pouco cessou de considerar a máquina. Inversamente. eles recusam. que não havíamos desejado isso. com efeito. por se desenrolar sob o signo do Um. o Um torna-se signo do Acabado. de beleza. um certo número de textos enigmáticos. para nós. E nos demos conta de que. esse saber só permite fracas variações de forma de um pensador a outro. é o dois. que faz ressoar em nossos ouvidos tal pensamento. junto a uma fogueira que atiçava pensativamente de vez em quando: As coisas em sua totalidade são uma. recobrar a saúde de um corpo aéreo. Se os índios consentem muito facilmente em contar a um branco seus mitos. o pensamento joga com a mais 2. é claro. elas são más 3".

. Quando. pois os índios só falam sua própria língua. de passagem. ralmente. à tradução espanhola. Além de variantes dos mitos principais. Assim como Cadogan indica claramente em suas notas lexicológicas. é claro. em 1965. um letrado paraguaio. De Curt Unkel Nimuendaju. J. palavra esplêndida que significa "aquele que dispõe seu próprio espaço eterno". Quando. do original guarani. traduziu em espanhol o texto alemão de Nimuendaju. não é ele que fala mas. à palavra. Três fontes alimentam esta antologia. foi o trabalho de tradução dos textos religiosos. nossa tradução difere da dele. e por isso mesmo mais apaixonante. uma originalidade suficiente. Tentamos traduzir todos esses textos a partir do guarani. a idéia de desdobramento. Linguagem da qual nos comprazemos em imaginar o eco longínquo do discurso dos antigos profetas. de captar a embriaguez desse espírito que marca com seu selo todo discurso enigmático. os deuses. em cada caso. O paciente e minucioso trabalho de Cadogan frutificou no livro que ele publicou em 1959. F. em seu Ayvu Rapyta. os chiripa. a potência de uma criação pessoal do pensador des. o movimento de uma flor que desabrocha. a tradução não coloca problemas. traduzimos as versões do mito dos Gêmeos e do mito do dilúvio. os mestres das palavras . o auxiliar oguera indica a forma pronominal: descreveremos dessa maneira o movimento de uma asa de pássaro se abrindo. mas constantemente nos reportamos. com efeito.inteira liberdade. beneficiando-nos da luz de inúmeros comentários e notas com os quais Cadogan enriqueceu os textos propriamente ditos. E quanto aos nossos próprios textos. rani do Paraguai e foram recolhidos por León Cadogan e por nós. Com exceção desses dois mitos apapokuva e da versão dos Gêmeos que André Thevet anotou em meados do século XVI entre os tupinambá do litoral brasileiro. León Cadogan. a versão espanhola do texto que descreve a aparição do deus :N'amandu diz en el curso de su evolución. que a "flor do arco" designa a flecha. Ele chegou mesmo a traduzir para o suarani do Paraguai o guarani dos apapokuva. produzidos por um pensamento próprio. se assim podemos dizer. Pudemos então. E é talo modo de emergência do deus: semelhante à flor . o embaraço do tradutor provém mais da dificuldade de dominar o espírito que corre secretamente sob a tranqüilidade da palavra. seguramente. no decorrer de várias entrevistas com seus amigos indígenas. uma embriaguez verbal tomar conta do orador. recolhidos no início do século entre os índios apapokuva-guarani que habi. podem-se ler esses textos às vezes um pouco delirantes que Cadogan jamais ouviu da boca dos índios e que pertencem ao campo que chamamos metafísico. na verdade raríssimos.. com a ajuda insubstituível de Cadogan. Reproduzimos aqui todos os que oferecem. Nós mesmos estivemos em aldeias guarani durante vários meses. Todos os nossos textos foram gravados em guarani. Traduzir é. tanto entre os mbya quanto entre seus vizinhos bem próximos.ara. como observamos. no decorrer de sua evolução. tentar fazer passar para um universo cultural e lingüístico determinado a palavra e o espírito de textos saídos de um sistema cultural diferente. que nós traduzimos por "desdobrando-se a si mesmo em seu próprio desdobramento". dobra-se sem entraves. Nimuendaju transcreveu igualmente na língua dos apapokuva os mitos que eles lhe contaram. Mais árduo. no decorrer de uma pesquisa. por exemplo. o que permite. Isso equivale dizer que seu trabalho é exemplar. León Cadogan. sobre quem os índios diziam que eram fie'e . Recalde. soube. eles foram traduzidos. como nos mitos. De maneira nenhuma por causa do uso constante que as Belas Palavras fazem da metáfora: basta saber que. notar que são tênues as diferenças lingüísticas entre esses dois dialetos. referir-nos à versão indígena. Sabemos que esse grande pesquisador de origem alemã obteve nacionalidade brasileira sob o nome que lhe atribuíram os sábios apapokuva: Nimuendaju. E quanto à nossa tradução? Indicamos inicialmente que dispomos da versão indígena para a totalidade dos textos aqui apresentados (salvo o de Thevet). tavam o sul do Mato Grosso brasileiro. através dele. com o qual nos familiarizamos um pouco durante várias estadas no Paraguai. quando o texto fala do "esqueleto da bruma". Em 1944. Em alguns pontos. Ayvu Rapyta: o fundamento da linguagem humana. de quem se pode dizer então que. em relação aos de León Cadogan. É nesse conjunto de textos míticos dos mbya-guarani que escolhemos os extra tos que figuram em nosso trabalho. todos os outros textos concernem aos gua. o enigma é relativamente excluído na narração. o verbo jera exprime. ele nomeia o cachimbo de barro onde os sábios fumam seu tabaco. ela traduz o termo guarani oguera-jera. lite. forneceu o texto guarani e sua versão espanhola. a ponto de. o texto é uma narrativa de aventuras. O espírito cola-se. chegar o mais perto possível das Belas Palavras. incomparável conhecedor da língua e do pensamento guarani. que o nascimento de uma criança se diz "uma palavra se provê de um assento".

estimando. É precisamente o que levou Cadogan a . para alguns fragmentos. Não há. esperamos. pois esse é o sentido literal. eis aqui as obras de um pensamento muito antigo que talvez deva a seu essencial pessimismo o ter sabido. escolher essa tradução. Que ao menos elas sobrevivam aqui. para pindovy. ao longo do tempo. e não pindo eterno. preces e mitos. nesse movi· mento. até o presente. que traduzir os guarani é traduzi-los em guarani. afastar sua morte. surge das trevas primordiais. tornar perceptível ao leitor tudo o que encerra de poesia e de profundidade o pensamento dos índios guarani. Convinha. contribuirá. precisamente uma evolução. que sabem pensar como nós?" Intenção das mais louváveis. tradução quase sempre literal: é assim que dizemos. faz seqüência à tradução ou a precede. conota a idéia de eternidade no espírito dos índios. nesse caso. podia levar a acreditar . idéia tipicamente ocidental. Divergência de fraco alcance. tentamos por isso mesmo restituir o espírito. Sentimo-nos gratos por termos podido. pensamento inelutavelmente condenado. apesar disso. O comentário que. pindo azul. através deste trabalho. Os últimos dos que foram os primeiros adornados: sem ilusão sobre seu destino mas decididos a permanecer até o fim os eleitos dos deuses. textos e reflexões sobre os textos.já completa em todas as suas partes. mas que. recolhidas e transcritas com respeito igual ao dos sábios que as proferiram. sob o efeito da luz da qual ele mesmo é o portador. talvez. o azul. os profetas calar-se-ão por falta de adornados a quem fazer ouvir a linguagem das Belas Palavras. preferimos dizer em francês que Namandu se déploie lui-même en son propre déploiement. pois só altera um pouquinho o sentido geral do texto. que lhe permitia dizer aos céticos e aos racistas: "Em nome de que desprezam os índios. mas a subtração progressiva à noite das partes acabadas que compõem o corpo divino. pois. atendo-nos ao explícito do texto. para parafrasear uma famosa afirmação.erradamente . It Decisão deliberada então a nossa: preocupados em nos distanciarmos o menos possível da palavra do texto. fazer notar essa injeção" no pensamento guarani de uma categoria que dele está ausente: a da evolução. Fidelidade à palavra em vista de conservar o espírito e.em uma influência cristã que sabemos sofreram os mbya-guarani. Pensamento selvagem. ocidentalizando o texto indígena. Eis aqui hinos e cantos. pará torná-la mais clara. Conseqüentemente. . claro. É por isso que. se bem que ovy. uma aparência de obscuridade.

dizem o momento inaugural da história do mundo. é ao mesmo tempo o sol e a flor. seu corpo divino. palmas divinas de ramagens floridas: ele os desdobra. No início é o deus. o primeiro. Maino. o deus gerador das coisas em sua totalidade. pai dos 'últimos homens. adeja. Promessa de êxtase para quem as ouve: não é sem estremecimentos que os índios guarani põem-se à escuta de seus sábios. Nosso pai primeiro. As palavras que descrevem a emergência dessa figura central do panteão guarani. esvoaça. desdobrando-se. o último. afirmam divinos a origem e o destino dos seres destinados à humanidade. sem ser gerado. N'amandu. o pequeno traseiro redondo: no coração da noite originária ele os desdobra. As metáforas que d 'slgnam certas partes de seu corpo indicam claramente a referência v 'g' tal: mãos cujos dedos são ramagens floridas. desdobrando a si mesmo. Mas N'amandu é para si mesmo seu próprio sol. entre as plumas da coroa divina. No cimo da cabeça divina as flores. surgiu. divinas palmas das mãos. fez com que seu próprio corpo surgIsse da noite originária. Entre as flores. Ele aparece e dilata-se. o pássaro originário. . ele o desdobra No coração de um Nada tenebroso percorrido pelos ventos. cabeça como o cim d~' uma árvore em plena floração. são gotas de orvalho. o colibri. no coração da noite originária. compreensão divina de toda coisa. desdobra-se comu uma flor que se abre à luz do sol. compõem o texto fundador do pensamento mais orgulhoso. Divino espelho do saber das coisas. quando as Belas Palavras lembram uma vez mais aos mortais que eles são os eleitos dos divinos. A divina planta dos pés. as plumas que a coroam.I APARECIMENTO DE NAMANDU: OS DIVINOS Nosso pai. pai dos primeiros deuses. nosso pai. Namandu.

desdobra-se em posição ereta: ele está "de pé". a sustentar a majestade de uma coluna que dissimula ainda a noite. sua futura morada celeste: a noite. em seu próprio desdobramento. Com efeito. habita o coração do vento originário. Há séculos. então. Maino. de assento. a terra primeira: ele habita o coração do vento originário. com a obscura clareza própria a toda fala sagrada. É. dos ventos mornos e quentes da primavera e do verão. geralmente zoomorfo: é irreconhecível. em seu próprio desdobramento. "N'amandu é a vida: é o que afirma. pai verdadeiro primeiro. jamais desencorajada. Seus hinos. cantos e preces repetem até a monotonia esse pedido dirigido aos deuses: façam-nos semelhantes a vós. Esse apyka. a futura estada celeste. o pequeno traseiro redondo. em seu próprio desdobramento. Quando um humano fala de seu desejo de ficar ereto. Nascimento de deus. Com Namandu. mas "alguém se provê de um assento". não mais como objeto. de saída. sua energia. proclama seu desejo de abolir sua condição de humano. Não se trata de forma alguma . a coruja. e. ainda não fez com que se desdobre. ocupa. Namandu. não há vida a não ser a dos deuses. destinado ao repouso dos sacerdotes e dos sábios. questão da diferença entre o humano e o divino. deixam-se ver as palmas das mãos e. ele não a vê. Urukure'a. nascimento não-humano. do divino saber das coisas. o homem sendo um animal que anda ereto.em seu próprio desdobramento. Namandu. Nosso pai primeiro. encaminha-se no esforço de igua. Namandu faz um sol. o apyka como banco nomeia de forma metonímica a parte do corpo que nele toma lugar: o que a obstetrícia chama. o último parágrafo do texto. ele não as sabe ainda por si mesmo: Maino faz então com que sua boca seja fresca. no coração do vento originário. porque interditada. à imagem de um divino. ele não a sabe ainda por si mesmo. O bem-viver é viver sob seu olhar. tempos felizes . Os guarani não querem nascer. aí onde ela repousa. querem ser deuses. sua futura morada celeste. com efeito. é uma não-vida. a planta dos pés.de uma constatação de diferença entre a humanidade e a animalidade. ele ainda não fez com que se desdobre. um pequeno banco de mndeira. em seu próprio desdobramento. desde o primeiro instante. O termo apyka designa. um lugar decisivo no universo religioso dos guarani. Inicialmente nomeada. com efeito. mas como metáfora. que ele se desdobra. Namandu. a menor dúvida quanto à divindade dessa geração: desdobramento que derruba exatamente a sucessão de momentos em que se reparte um nascimento humano. chega o novo tempo: tempo dos longos sóis. como dupla raiz apta. ainda não fez com que se desdobre. ajudem-nos a ficarmos eretos. enfim. a terra futura.hipótese divertida . elas que foram desde a origem. diferença a que os índios guarani aspiram loucamente suprimir. a cabeça. pai verdadeiro primeiro. A ordem de aparecimento das partes do corpo não deixa. "N'amandu. No caso presente. A futura morada terrena. alimentador divino de Namandu. a figuração do jaguar. a qual já se inscreve no momento do nasci· mento. com efeito. larem-se aos divinos. por um lado. ao contrário. faz com que existam as trevas: ela faz com que já se pressinta o espaço tenebroso. e todavia o sol não existe. Desdobrando-se pouco a pouco na noite. Pois é em seu coração luminoso. em seu próprio desdobramento. Em seguida. Toda outra vida é má. Não se diz "uma criança nasce". em sua vizinhança.

o tempo novo. quando a árvore florida. o vento taj)! está que anunciam a volta do não-mortal. afasta o vento originário. . o tempo novo de coisas não-mortais. é o tempo da eternidade. Terminado o tempo originário. o divino. os índios guarani aspiram a ficar eretos. ~amandu. que é o sopro da morte. Só existe a morte e a vida divina. o vivo. cada vez que volta o tempo originário. ~amandu. Antes de ~amandu existe o vento originário: vento gelado do sul. Que consigam: então cessará de soprar sobre eles o vento originário que enregela os humanos demais. Eis porque. como ~amandu desdobrando-se. então o vento se converte em tempo novo: ei-Ios aqui já os ventos novos. onde só as coisas não-mortais encontram estada. a volta do divino.originário no coração do qual nosso pai de novo se deixa unir cada vez que volta o tempo originário. vento da dobra e não do desdobramento. calor e luz do meio-dia imóvel. Não há vida falsa e vida verdadeira. O novo tempo.

nosso pai.e. de seu saber divino das coisas. Os homens só podem. determine por si mesma a natureza e a história do humano. é ao mesmo tempo o discurso de sua origem e a citação de seu destino. 11. do eterno calor vital. não há saber das cois~s: ' o fundamento da Palavra futura. Este texto. a bruma como signo da chama. Haverá nesse mundo uma dupla cópia dessa bru· ma: de uma parte a neblina que os primeiros longos sóis fazem surgir acima das florestas no fim do inverno. saber que desdobra as coisas. saber que desdobra as coisas. isto é. Ayvu é a substância ao mesmo tempo do divino e do humano. seu saber sobre as coisas precede as próprias coisas. I . de sua divindade que é uma. este enumera de certa forma os trabalhos de Namandu.a Palavra lhes garantirá ao mesmo tempo. elevando-se do cachimbo. raiz e modelo de toda imagem futura. 1'lamandu. ayvu. A fumaça de tabaco repete a bruma original e traça. de outra parte. Uma lógica rigorosa impõe ao movimento do texto o lugar exato de cada uma das seqüências que o compõem. Os homens definem-se como tais somente na relação que. Depois da teogênese. Se o texto precedente descreve o aparecimento do deus. como signo e substância do humano. a chama como calor e luz. a antropogênese. Namandu faz ser o que. através da mediação da Palavra. o fundamento da Palavra. pai verdadeiro primeiro. as tentativas ainda atuais dos guarani do Paraguai para obter aguy. o fundamento da Palavra. lU. A terra ainda não existe. O deus se desdobra. De seu saber divino das coisas. conformando-se incessantemente à relação original que os liga aos deuses. Não vendo os humanos como coisas do mundo mas humanos como parte do divino. a humanidade dos homens encontra-se então em relação imediatamente possível com a divindade dos deuses. Efeito concreto dessa metafísica: as grandes migrações religiosas dos antigos tupi-guarani. Produtor do novo tempo. mantêm com os deuses. Determinada como lugar da Palavra. o caminho que conduz o espírito para a morada dos deuses. ele o desdobra desdobrando·se. ele faz disso sua própria divindade. Ele ergueu·se: de seu saber divino das coisas. a certeza de voltar a ser um dia o que são antecipadamente: divinos. A história dos guarani será o esforço repetido com vistas a desdobrar sua própria natureza.II FUNDAMENTO DA PALAVRA: OS HUMANOS 1'lamandu. faz com que a bruma se engendrem. seja de saída situada no coração da divindade do deus. Na língua dos' mbya esse termo designa expressamente a linguagem humana. reina a noite originária. pai verdadeiro primeiro. os diferentes elementos de sua pedra filosofal. a Terra Sem Mal. Que a Palavra. a fumaça do tabaco que fumam em seus cachimbos os sacerdotes e os pensadores indí· genas. Namandu faz existir as imagens desse tempo. esse estado de graça que lhes permitiria aceder à ywy mara eY. onde moram os deuses. de importância capital para a compreensão do pensamento guarani. por conseguinte. Mas essa relação não recai sobre a relação de cada um . Ele é o começo e o fim. ele faz disso sua própria divindade. ele o desdobra então. ele o sabe por si mesmo. no interior da existência doente que será a deles na morada terrena. existir segundo sua própria substância. saber que desdobra as coisas. elas são inscritas no saber que ele tem. Advém a Palavra. constituindo os guarani como eleitos dos deuses . faz com que a chama.

linguagem totalmente ausente do Tesoro de Montoya. senhor da tempestade e do trovão. É. Mas ~ comunidade não se reduz à simples adição dos indivíduos escolhidos pelos deuses. Qual é então o verdadeiro significado dessa palavra? Se consultarmos o primeiro e certamente o melhor dicionário guarani. em seu divino saber das coisas. com mais verossimilhança. Tentamos. dos guarani. fundador das primeiras missões jesuítas do Paraguai. com efeito. ou porque os índios o esconderam dos jesuítas. na primeira metade do século XVII. reina a noite originária. mborayu significa. que León Cadogan. privada. amor das criaturas por Deus. com os deuses. como linguagem do Diabo que tinham vindo combater. não há saber das co)sas: do saber que desdobra as coisas.Conhecido o fundamento da Palavra futura. o Tesoro de la lengua guarani. Na origem do tribalismo gu~rani encontra-se a divindade da ayvu: o ser social da tribo enraíza-se no divino. que estes o tenham banido voluntariamente de seu dicionário. traduz como amor aI projimo (amor ao próximo). Esse evidentemente não é o sentido que envolvia essa palavra para os guarani pagãos. ou. de cada humano com o mundo divino. O terceiro verso do texto marca com clareza a idéia de socialidade. pensamos que o sentido original. não se trata de uma relação pessoal. podemos admitir a hipótese de que a decisão missionária de traduzir para os índios a idéia do amor cristão por mborayu . como ser coletivo que os homens . No guarani vernacular. Eles são eleitos como membros da tribo. ele sabe então por si mesmo a fonte do que está destinado a reunir. por sua vez.os índios guarani . ao contrário. redigido por Ruiz de Montoya. Tudo isso não nos esclarece a respeito do antigo sentido de mborayu mas nos deixa tranqüilamente adivinhar que esse termo pertencia à linguagem religiosa. metafísica. Os guarani são os eleitos dos deuses. percebemos que ele atribui ao termo mborayu exatamente o sentido atual: amor de Deus por suas criaturas. Os missionários adotaram o termo mborayu para exprimir a idéia cristã de amor. Dito isso. A terra não existe ainda. a qual descobre o fundamento da "socialidade" na consciência que tem de si mesma como lugar da Palavra saída dos deuses. foi-nos preciso explicar nossa própria tradução. para dizer o nome de Deus. Tratando-se de tão profundo conhecedor da língua guarani. como tomaram o nome de Tupã. Excluindo qualquer eco cristão desses textos indígenas. dos deuses existe a tribo.afirmam e vivem a parte de divindade que contribui para constituí-los. saber que desdobra as coisas. Entre o Eu do indivíduo e o Eu. sendo a palavra em guarani mborayu. ele sabe então por si mesmo a fonte do que está destinado a reunir. pré-cristão ou pré-colombiano de mborayu não pode ser amor. mostrar essa idéia através da expressão: "o que está destin~do a reunir". amor: amor profano dos homens e das mulheres por Deus (o deus cristão) ou de Deus pelos homens. na tradução.

IVe'. não há saber das coisas: ele faz brotar. ~amandu não quer ficar só. Ela desdobra-se em um panteão: Coração Grande 5. saído dos deuses. do Um que reúne. Veremos posteriormente aparecer os atributos das diferentes divindades. seu olhar procura: do divino saber das coisas. como lugar de desdobramento dessa Palavra. ele faz brotar. Palavra cujo movimento conduz do mesmo ao mesmo. mas como possibilidade à qual só falta a realidade. com força. sobretudo. o que reúne. os homens antes afirmam o saber intransigente de sua própria divindade. conhecido Um. exprime e realiza a relação entre os homens como comunidade de eleitos e a esfera do divino. No termo do encadeamento genealógico encontramos: o indivíduo. V. scntid que os índios mantiveram escondido. O canto sagrado não é um ato de fé. Karai. não é o susoiro angustiado da comunidade de crentes. fundava-se em um sentido mais ou menos vizinho desse termo. reina a noite originária. O canto sagrado assegura a comunicação entre a tribo dos excelentes e o mundo dos deuses.? Parcela da ayvu. mas também. enfim. Nele. os deuses e deusas.? princípio de individualização que fixa ao mesmo tempo a pertença da pessoa à comunidade dos que são reunidos pela ayvu. as outras figuras da divindade só aparecem. pois a terra ainda não existe. depois dos humanos. a fonte do canto sagrado. como é normal. Desdobrando o fundamento da Palavra futura. Se ~amandu.? é o que constitui um humano como pessoa. como linguagem dos homens dirigindo-se aos deuses. o que reúne. seu olhar procura quem será encarregado do fundamento da Palavra. a religião dos guarani não é monoteísta. Esse canto. é porque a palavra já exprimia a idéia de "solidariedade tribal". íie'. de redizer o canto sagrado. São então sucessivamente estabeleci das a Palavra. não como realidade. alma. Com força. única. então. por causa do eco cristão que faz ressoar. Ele é. única. o deus principal. em contrapartida. espírito. 6. surge em primeiro lugar na ordem genealógica do mundo. Jakaira. pais e mães verdadeiros da Palavra-habitante. Tupã G e seus homólogos femininos que podem ser ditos no singular ou no plural. dos homens enquanto região do divino ao divino em si. o que. Ele define. a fonte do canto sagrado.Desdobrando o fundamento da Palavra futura. saber que desdobra as coisas. a sociedade dos eleitos. esse termo significa palavrá. determinado enquanto tal por íie'. Se. IV. Os versos que seguem descrevem o aparecimento dos deuses e deusas. A terra não existe ainda. saber que desdobra as coisas. é sagrado. . como presença da Palavra. como essência do humano. É por isso que a história da pal~vra e a lógica interna do texto em questão conduzem-nos a descartar a tradução de León Cadogan: ela não é falsa mas imprópria. em nossa linguagem. aberta Uma. vem habitar o corpo destinado a ser sua moradia. mborayu pôde significar "amai-vos uns aos outros". o canto sagrado. a fonte do canto sagrado. Epíteto que se refere a uma d?s normas: a perseverança no esforço para chegar ao estado de perfeicão absoluta. conhecido Um. ele fez com que surgisse o divino companheiro futuro. 5. conseqüentemente. do divino saber das coisas.

I Prosseguindo. unidos à fonte do saber que desdobra as coisas: são assim aqueles que igualmente chamamos eminentes pais verdadeiros da Palavra habitante . . pai verdadeiro. saber que desdobra as coisas. ele faz com que se saibam divinos. verdadeiros pais da Palavra que habitará os numerosos filhos que estão por vir: ele faz com que se saibam divinos. Karai. e Tupã. encarregados da fonte daquilo que reúne. encarregados do fundamento da Palavra futura' . faz com que se saiba divina a futura mãe dos Karai. Jakaira.Com força. pai verdadeiro. futuro pai verdadeiro. a fim de que tome lugar em face de seu coração. faz com que se saiba divina a futura mãe dos Tupã. R amandu. do mesmo modo. encarregados de dizer o canto sagrado. pai verdadeiro. faz com que se saiba divina a furtura mãe dos R amandu. Encarregados do divino saber das coisas. fez com que surgisse Ramandu Grande Coração. do divino saber das coisas. Pais verdadeiros de seus numerosos filhos que estão por vir. a fim de que tome lugar em face de seu coração. a fim de que tome lugar em face de seu coração. futuro pai verdadeiro. do pai primeiro. e Jakaira. quanto a Karai. saber que desdobra as coisas. futuro pai verdadeiro. A terra ainda não existe. que ao mesmo tempo se ergue o espelho do saber das coisas. Prosseguindo. reina a noite originária: ele fez com que surgisse então Ramandu Grande Coração. seu olhar procura: do divino saber das coisas. Pai verdadeiro das numerosas crianças que estão por vir: a isso ele destina Ramandu Grande Coração. eminentes mães verdadeiras da Palavra habitante.

das fibras fazem-se as cordas dos arcos. ele faz surgir uma palmeira azul. É sem dúvida contra o vento originário. as folhas recobrem as casas. Cinco palmeiras sustentam a terra. pai verdadeiro primeiro. . o gomo terminal das árvores jovens é consumido. Essas palmeiras são azuis. que Namandu deve manter os apoios dos firmamentos. já conhece sua futura moradia terrena: do divino saber das coisas. ele a faz surgir no futuro centro da terra. tempo originário = sul. São chamadas de azuis todas as coisas e todos os seres não-mortais que povoam o território celeste do divino (por exemplo. I. Trata-se de palmeiras pindo. ovy. nas quais se pode subir. Elas revestem-se de grande importância econâmica para os índios. saber que desdobra as coisas. dado que seu tronco não tem espinhos.111 CRIAÇÃO DA PRIMEIRA TERRA Namandu. tentando devorá-los). ele faz surgir uma palmeira azul. o jaguar azul que provoca os eclipses da lua e do sol. no lugar natal dos ventos bons. o firmamento repousa sobre sete colunas: as colunas são bastões-insígnias. ventos bons = norte. uma outra ainda. Sete é o número do firmamento. Tupã = oeste. o vento do sul. na madeira são talhados os arcos. uma palmeira azul na morada de Tupã. A palmeira azul. No lugar natal do tempo originário. É no número dos dedos de uma mão que ele faz surgir as palmeiras azuis: nas palmeiras azuis retém-se o leito da terra. Uma ocupa o centro. ele faz com que da ponta de seu bastão-insígnia a terra se vá desdobrando. na morada de Karai. lI. e as outras encontram-se nos quatro pontos cardeais: Karai = leste.

aquele que faz as águas. 2. 3 Yamai. 111. desabrochavam os espaços de relva: 111. ou existindo em primeiro lugar). agora só existe sua imagem sobre nossa terra. 111. 111. Aparecimento de seu correlato: o dia. a cigarra. 111. 6. O deus confere à terra seu rosto definitivo. E em todos os lugares onde ele plantava seu dardo. 4 Quando nosso pai fez a terra. 5. 7. Criação das savanas (a floresta já estando lá. A serpente originária é uma serpente real muito perigosa (Leimadophis almadensis). O primeiro habitante das savanas. Criação do mundo aquático. Sobre três colunas. de que a serpente ocupa na mitologia indígena o lugar análogo do perigo e da morte. por todos os lados estendiase a floresta: savanas não existiam de modo algum. é o senhor das águas. 111. todavia. da sujeira. 4. 3. A verdadeira serpente mora no limite do firmamento de nossa terra. nosso pai o empurra para seu lugar. Agora só subsiste sua imagem sobre nossa terra. Ele encontra então seu lugar e pára de mover-se. O fato de ser o primeiro nomeado pode ser um eco do mito cristão da serpente. 111. (o tatu perfura profundas . No limite do firmamento de nosso pai mora a cigarra originária: agora só subsiste sua imagem sobre o leito da terra. Aquele que existe sobre nossa terra não é mais o verdadeiro: no limite do firmamento de nosso pai mora o verdadeiro. com vistas a abrir o espaço das savanas. ele enviou tuku de grito agudo. o gafanhoto verde. 2 Aquele que inicialmente cantou sobre o leito da terra de nosso pai primeiro. 1.· aquele que foi o primeiro a fazer ouvir sua lamentação foi yrypa. Aparecimento da noite. 1 A primeira a sujar o leito da terra foi a serpente originária. 8. o girino. Lembremo-nos. mas o firmamento ainda se move: também ele o apóia sobre quatro bastões-insígnias. O primeiro habitante da terra. 111. 111. ele o firmou inicialmente. a pequena cigarra vermelha. Criação do mundo subterrâneo tocas).o firmamento que transborda os ventos. É porque.

~amandu as funções dos deuses precedentes gerados. Mais próximos dos nos do que ele. aquelas que fazem com que eU me levante. fogo solar. Assim. Karai: chama. o que agora mora sobre nossa terra: ele é só a imagem. Uma vez desenhada a figura da primeira terra. IV. você fará com que seu filho seja guardião. o primeiro a deixar ouvir seu canto. quanto a das. mora agora no limite do firmamento de nosso pai: a que vive sobre o leito da terra é somente sua imagem. da vida sobre a primeira terra como imagem vindade. . assegurarão a permanência das representações tres do divino. senhor das chamas. define humaterresda di-. 8 E. 7 Senhora das trevas: a coruja. quanto às chamas sempre renascentes. ele é o senhor da aurora. a perdiz vermelha. renascimento regular do divino como natureza. Karai Grande Coração. aquelas que jamais nada atingirá. que foi a primeir~ a fazer ouvir seu canto sobre as savanas. o primeiro a mostrar seu contentamento foi inambu. Ela. IV. E tuku celebrava-as com seu grito agudo. o Sol.então somente se estenderam as savanas. No limite do firmamento de nosso pai mora o verdadeiro tuku: agora só subsiste sua imagem. pai verdadeiro. quanto ao nosso pai. 1. Karai. calor. 5 Quando as savanas se deixaram ver. Ele não é o tatu verdadeiro. 6 O primeiro a ferir o leito da terra de nosso pai foi o tatu. IV 1 Nosso pai primeiro está em vias de aprofundar-se em sua morada celeste: tal foi então sua Palavra: "Só você. Seu eterno retorno garante aos guarani que os deuses não estão mortos. faça que ele tenha nome: Karai.

você a enviará e tornará a enviar ainda sobre o leito da terra. 2 Prosseguindo.Diga-lhe. 1. E disso. faz com que ouçam os deuses. A bruma . será guardião da bruma onde nascem as Belas Palavras. da desordem. pai verdadeiro. Faça com que ele tenha nome: Senhor da bruma das Belas Palavras. Erguendo-me.permite aos homens viver em conformidade à sua natureza. tal como a cólera. pai verdadeiro: "Veja! Quanto a você. do excesso. em de favor de nossas filhas.a Palavra . É pelo alto da cabeça que o divino infiltra-se no humano. faça com que seu filho seja guardião. os bem-adornados. Tupã oferece o frescor à terra. a Jak:aira. dado que eles não são deuses. aquelas que quisemos adornar". Tupã: ao inverso de Karai. 3 Prosseguindo. 2. Faça que a cada novo tempo elevem-se um pouco as chamas sempre renascentes: a fim de que estejam sempre à escuta de seu murmúrio aqueles que quisemos adornar. será guardião do Grande Mar. IV. essa coisa fonte de frescor. IV. das ramagens do Grande Mar em sua totalidade. A bruma de Jakaira reúne em si a substância divina do humano. JakairaGrande Coração. as Belas Palavras. o mar e sua coroa de riachos e rios. . as bem adornadas". os homens podem aparecer: o belo-saber pode tornar-se terreno. graças aos seus inúmeros filhos. a Tupã. em favor daquelas cuja cabeça está adornada. assim como a fumaça do cachimbo é companheira do tabaco consumido. farêi que para você o firmamento seJa fresco. 1 Sobre o leito da terra. Diga-o". encontra-se ao lado do quente. assim falou: "Quanto a você. 3. o divino pode tornar-se humano. A bruma dos sacerdotes e dos profetas ( a fumaça de seu cachimbo) permite-lhes ter acesso à bruma originária. V. Tupã Grande Coração. em favor daqueles cuja cabeça está adornada. Em conseqüência. em favor de nossos filhos. O frescor de Tupã torna assim a terra humana e permite aos seus habitantes evitar o abandono a tudo o que. a água corrente e suas ramificações. reina sobre o mundo aquático e suas diversas manifestações. Jakaira: a bruma é companheira da chama. Tendo doravante todas as coisas dispostas. Ele será o guardião das chamas destinadas a crescer. V. que conheci por mim mesmo. sem o qual o calor excessivo de Karai arriscaria consumir os homens.

Karai. você fará com que ela habite o coração do coração dos meus filhos. a moderação. haverá para nossas filhas o bem-viver". fará com que belas chamas habitem n~ssos filhos favorecidos. Graças somente ao que é fonte de frescor. 3 "É porque você. 2 Prosseguindo: "E você também. está prestes a fazer terreno o belo-saber. o coração. a exaltação religiosa segue o mesmo caminho V. ' Assim somente os inúmeros destinados a se levantarem sobre o leito da terra. para nossas futuras filhas favorecidas. A chama que a bruma. Faça com que -a cada retorno do novo tempo teu filho Jakaira Grande Coração espalhe a bruma sobre o leito da terra. pai verdadeiro primeiro." V. pai verdadeiro. a paciência e a calma no desejo . pai verdadeiro. quanto a essa coisa que eu quis fonte de frescor. A Jakaira. Em outras palavras. O frescor aparece no lugar mais passível de se aquecer: o peito. a cabeça de minhas filhas. A função do frescor como barragem à desordem é explicitamente enunciada aqui: graças a esse frescor.impedem a desordem social. mborayu. . ele dirige-se assim: "Faça inicialmente com que a bruma coroe a cabeça de meus filhos. desejariam mesmo distanciar-se daquilo que reúne.o que se encontra designado como as normas 7 . meu filho Tupã. O termo "norma" traduz exatamente a palavra guarani rekoa: as regras que ordenam a existência. Graças a isso somente. aquilo que reúne permanece. permanecerão naquilo que reúne. 3. o pensamento guarani não ignora a abstração. haverá para nossos filhos. as normas futuras daquilo que reúne não permitirão que haja calor excessivo para nossos futuros filhos favorecidos. pai verdadeiro. nossas filhas favorecidas" . evitando que seja atingida a solidariedade tribal.N'amandu. 7. 2.

vocês. vocês as sabem". As normas de vida dos homens não lhes são exteriores. VI. quanto às normas futuras dos terrenos adornados. O apelo de Namandu para que saibam essas normas equivale a uma advertência: não se esqueçam delas. cada um em sua futura morada. . deu seu nome aos pais verdadeiros de seus futuros filhos. dado que definem o modo de existência dos humanos como comunidade de eleitos: os guarani guardam em si próprios.:N"amandu. quanto às normas futuras das terrenas adornadas. as regras de vida. Agora que lhes dei seus nomes. aos pais verdadeiros da Palavra destinada a habitar seus fiJhos: a cada um deles em sua morada.pai verdadeiro primeiro. Depois disso. fez murmurar o ornamento para as mães verdadeiras primeiras de suas filhas: com vistas ao bem-viver numerosos destinados a elevar-se sobre a terra. disse então: "Essas coisas são feitas. por natureza. ele fez murmurar o ornamento para os pais verdadeiros primeiros de seus filhos. as normas. .

quando conclamavam os índios para que abandonassem tudo. ao mesmo tempo obstáculo real do retorno em direção ao não-separado: a grande água. isto é. efetuada na prática contínua do jejum e da dança. Do divino ao animal: esta é a viagem dos homens. O flu do desejo que toma conta de Karai Jeupié e a irmã de seu pai dese cadeia o dilúvio universal. que a moderação apreciada pelos deuses. Imagem simbólica da separação. de um lado e de outro. elimina quase que totalmente os detalhes propriamente mitológicos.reparte-se desde então. pois tudo irá muito mal sobre a terra! . Esse estatuto ontológico implica a obrigação essencial de permanecerem conformes às normas enunciadas pelos deuses. situam-se além da culpabilidade. Para executar a disjunção daquilo que foi originalmente un: era preciso uma grande transgressão de efeitos irreversíveis: o ince: como conjunção do mesmo e do mesmo.IV FIM DA IDADE DE OURO: O DILÚVIO A primeira terra abriga uma humanidade que. admitir umé ambigüidade na violação do interdito maior: ela condena os homens a só serem homens. em benefício de referências ético-metafísicas. León Cadogan recolheu a primeira. permanece na proximidade do divino. a violência do desejo pode revelar-se mais forte que a calma da lei. Quanto à terceira. Agora. O estado de aguyje. não está portanto adquirido definitivamente. O imediatismo experimentado do bem-viver é substituído pela nostalgia e pela esperança. é a que foi contada a Curt Nimuendaju pelos apapokuva-guarani. Solene em seu estilo. à semelhança dos deuses. por esse fato mesmo recusa a regra. ignorando a proibição. Dizer que o incesto não se opõe ao divino é reconhecer que as regras são feitas para os homens e não para os deuses. morada divina da vida eterna. Vejamos três versões do mito do dilúvio. o incesto como uma do! sobre si próprio do humano. Mas. Se bem talvez possamos farejar nela uma longínqua influência do mito cristão da arca de Noé.publicada no capítulo VI de seu Ayvu Rapyta. o sentimento doloroso da perda toma o lugar da serenidade refrescante de outrora. Para manter-se nele. de totalidade acabada. a ruptura de sua boa vizinhança. filho de seu irmão. Coletamos a segunda versão entre os mesmos mbya-guarani. o mar. constituída por e na Palavra. igualase aos deuses. em uma fronteira além da qual permanecem os deuses. dado que se torna um Karai. permite ao mesmo tempo que o culpado tome lugar junto aos deuses. A esse discurso mítico articula-se com precisão a palavra profética dos Karai de antigamente.. O fim da primeira terra é a certidão de nascimento da humanidade. cujas margens opostas obrigam doravante de um lado a Terra Sem Mal. morada terrestre demais dos que ainda se querem eleitos. erguer-se. como desafio e negação do divino. dividido. ao mesmo tempo ela reproduz o que sabemos do antigo discurso dos profetas tupi-guarani: "Dancem. sob pena de cair em outra totalidade: a diferença absoluta da forma animal. Ela contém menos metafísica e mais mitologia. é preciso esforço. para tornarem-se semelhantes aos deuses. implicava também e sobretudo o abandono radical da regra social por excelência. existir de acordo com sua própria natureza de humanos-divinos. simultaneamente. Essa busca. e a primeira terra desaparece sob a águ Ora. como humanos-divinos. e de outro a terra feia.. O incesto é então. a explosão do Um. Convém. No âmago de seu coração. a que proíbe o incesto: "Dêem suas mulheres a quem quiserem!" clamavam os profetas. no início do século. O frescor que Tupã produz deve ajudá-los a evitar toda transgressão dessa natureza. Os homens vivem sua idade de ouro sob o olhar benevolente dos que estão no alto. O desejo humano contém em si uma potência suficiente para ofender a calma dos deuses. Karai Jeupié comete incesto. a mediação na direção do humano e o caminho na direção do divino. vocês não devem mais trabalhar! " . E não somente Karai Jeupié escap à cólera dos deuses como também ganha para si mesmo o estatuto dI divino. os dois únicos sobreviventes são os dois culpados. na qual a transgressão condena os culpados a se metamorfosearem. saindo em busca da Terra Sem Mal. que. nesse caso. O fim da primeira terra é a disjunção do humano e do divino. que. quebra a condição humana. é preciso. a mulh{ e seu sobrinho. selvagem (humana).

canta seu canto. no coração das folhas repousam. Um burburinho em sua cabeça! . e em escaravelhos. eles nadam. fazem surgir a palmeira eterna: . com vistas a ganhar sua morada.Houve. Ela tremia por vários anos. tinha realizado seu desejo de desposar a irmã de seu pai. quando o pássaro kuchiu 9 ouviu a primeira coisa: .Vamos! O que você ouviu foi o barulho de suas próprias orelhas. Ele tornou-se o pai verdadeiro dos Tupã pequenos. cantam seu canto. Aqueles para quem não houve o domínio do saber. Papari. Ele nada. eles possuem a força.Ei. vocês! Ouviram o que eu ouvi? . colocou-se à distância de nossos pais primeiros: casou-se com a irmã de seu pai. o senhor do mau amor. com vistas a coisas não-mortais. no coração das águas dançam sua dança. Eles fazem seguramente com que se desdobre sua futura morada de terra eterna no coração da pátria dos Tupã pequenos 8. dança sua dança. quanto à mulher ladra. aqueles que foram mestres do saber. Existem os que foram transformados em pássaros. Há para eles totalidade acabada. Senhor do mau amor. senhor da funesta união: ele mesmo fez desdobrar-se sua futura morada de terra eterna na pátria dos Tupã pequenos. aqueles para quem. Nossos pais benevolentes deixaram antigamente para nós as normas futuras: somente através delas haverá para nós o bem-viver. acesso ao que não é destinado à imperfeição. Eis as águas chegadas: o senhor do mau amor não se ergue até a totalidade acabada. aqueles que se puseram distantes dos que permanecem acima de nós: eles todos encaminham-se mal. De duas folhas. houve totalidade acabada: aqueles todos encaminham-se para sua futura morada. senhor do mau amor. Karai Jeupié. por todos aqueles da primeira terra. fazem ouvir sua prece. e em rãs. há para eles totalidade desigual. Foi por isso que a terra se pôs a tremer. Aqui estão as águas quase chegando: o senhor do mau amor faz ouvir sua prece. É porque Papari havia faltado com o respeito às normas que a terra foi amaldiçoada. Vejam: o senhor do mau amor tornou-se nosso pai e senhor Tapari. Eles se provêm de força: passam duas luas. aqueles que se uniram à fonte do mau saber. belamente. é<em cabra que a transformou nosso pai. junto da mulher. Aqueles que pronunciaram as belas preces.respon- . nosso pai primeiro-último.

deram o futuro abutre, a futura rã, o futuro sapo, o futuro chapire. A terra continuava a tremer, e kuchiu não parava de lamentar-se, pois não parava de ouvir. Esse barulho já era audível. - Vocês ouvem o que eu ouço? Mas os outros não acreditavam em nada. Também res·· ponderam: - Mas é o burburinho em sua cabeça! É só o burburinho de suas orelhas que você ouve! Assim, ele decidiu não dizer mais nada. Foi então que se ouviu verdadeiramente que a terra tremia já por vários anos. Nesse momento, kuchiu voou, pois a água chegava. Os abutres também levantaram vôo. O que falava como seu chefe era uruvuchi, o abutre branco. Os outros eram uruvu apua, os abutres redondos. Quanto aos chapire, eram os abutres inferiores. Todos voaram. Quanto à mulher, transformou-se em rã. Fazia barulho sacudindo seu bastão de dança. Quando a água chegou, o futuro Papari penetrou no meio da correnteza. - Faça com que novamente surja uma pequena palmeira pindo azul, ó, meu Pai primeiro! Seu pai teve piedade e não se enganou, pois seu filho teve uma coragem enorme e enfrentou as águas com bravura. Foi por isso que surgiu, no meio das águas, a pequena pindo azul, a fim de que pudesse agarrar-se nela. Tendo a pindo sido colocada em seu lugar, seu pai disse: - Agora sim, meu filho Papari, você possui o saber das coisas. Seu coração é grande, e isso é bom! Se as coisas se arranjarem um dia, você, do alto, enviará palavras aos seus companheiros! É ele que é chamado Karai Jeupié, o senhor incestuoso.

Nosso pai, o grande, desceu sobre a terra e disse a Guyraypoty: - Dancem! Pois tudo irá mal sobre a terra! Eles dançaram cerca de três anos antes de oUvir o ruído das coisas más. A terra estava prestes a cair, e balançava do lado do sol poente. Guyraypoty disse então aos seus filhos: Vamos! O ruído das coisas más nos assombra!

Puseram-se então em marcha, para o lado de nosso rosto, para a beira-mar. É para esse lado que se foram. E os filhos de Guyraypoty lhe perguntavam: - A coisa má chegará até aqui? - Não! Somente no final de um inverno chegará a coisa má. Então os filhos puseram-se a trabalhar.

Passado o inverno, o ruído da coisa má novamente fezse ouvir. Eles puseram-se novamente em marcha. A terra tremia mais freqüentemente. E os filhos de Guyraypoty lhe perguntaram: - A coisa má atingirá em breve este lugar? - Agora vai ser pior! Agora vocês não devem mais trabalhar! Eis o que disse nosso pai, o grande, a Guyraypoty, que o retransmitiu a seus filhos.

Assim, os filhos de Guyraypoty pararam de trabalhar. Eles perguntaram: - E como vamos sobreviver? - Eu farei aparecer nossa futura alimentação! E eles puseram-se em marcha, na mesma direção.

chegado o tempo de que construam nossa morada: é preciso que a façam de madeira! Senão, dizem, ela desaparecerá nas águas. Eis o que me disse nosso pai, o grande.
É

Vocês já estão com fome? As crianças que brincam já têm um pouco de fome. - Desdobrem-me um tecido! Ele afastou-se, sacudiu seu corpo e fez cair milho, batatas doces e bolachas de mandioca. Deu tudo isso a seus filhos. Em seguida, puseram-se em marcha, na mesma direção.

Disse então Guyraypoty a Jyparu: - Ajude meus filhos! - Nenhuma ajuda! Vou fabricar piroga! Ao pato: Ajude um pouco meus filhos a construírem sua Também não posso, não ajudo. Se for preciso, posso voar! - Bem, disse ao pássaro suruva, você também não ajudará meus filhos na casa? - Não! Eu também não! - Muito bem! Fique! Veremos, quando a água chegar, o que vai lhe acontecer!

- Vocês estão acostumados a comer vapurü? - Sim! Ele andou sobre uma árvore: apareceu o vapurü, que foi comido por seus filhos. - Deixem um galho, para que os que vêm depois de nós tenham também o que comer. • Entretanto a terra ardia cada vez mais. Eles retomaram o caminho e novamente questionaram Guyraypoty: - Este lugar resistirá? Assim respondeu ele aos seus filhos: - Este lugar, dizem, é a montanha que detém o mar. Ela é, dizem, destinada a subsistir. Então, instalaram-se nela.

Começaram então a construir uma casa de madeira, terminaram-na e novamente puseram-se a dançar . . - Não tenham medo da chegada da água! É, dizem, para refrescar o apoio da terra que a água virá! E depois: - Dancem durante três invernos! E, ao t~rmo desse tempo, a água chegou. - Não tenham medo!

A água chegava e se espalhava. Então Jyparu disse: - Tragam-me o machado de pedra! Vou talhar uma piroga, para descer a correnteza! Ele ainda gritava quando a água espumou em turbilhões por cima de sua cabeça. O pato quis voar, mas os habitantes da água o devoraram. O pássaro suruva também gritava: - Olhem a água chegando! E, como falava, a água encheu sua boca: sua almapalavra transformou-se em pássaro.

A filha de Guyraypoty tinha levado consigo um tatu. E a água recobriu a casa. Então a mulher de Guyraypoty lhe disse: - Suba na vertente da casa! Guyraypoty pôs-se então a chorar, e sua mulher lhe disse: - Não tenha medo, meu velho! Mostre seus braços aos pássaros. Se os pássaros favoráveis vierem pousar sobre seus braços, erga-os acima de nós! Em seguida, ela faz ressoar várias vezes seu bastão de dança nas vigas da casa.

Então, Guyraypoty entoou o canto fíeengaray. E a casa parou de tremer, saindo das águas; eles elevavam-se, eles se iam. Chegaram à porta do céu, e a água, seguindo seus traços, também chegava.

a terra nova. de certa maneira. em produzir deliberadamente os inferiores? f: simultaneamente uma questão de psicologia divina . pois não é uma segunda versão da idade de ouro. não são vítimas do jogo dos deuses.por que os deuses fazem o que fazem? . Sua fé não passa nem pela humilhação. El~ vai criar uma nova terra e a priori a quer má. usam-nos. Um texto que leremos adiante nos mostra Tupã afirmando sua intenção de enganar os habitantes da nova terra. terra de onde será banida a totalidade acabada. não pode existir senão no modo de imperfeição: terra dos homens e não mais dos deuses. não deixaram que esse revés lhes quebrasse o ímpeto de sua vontade criadora. Obrigados. nem pela resig1'!-ação.que sabem os índios guarani sobre seus deuses? Talvez exista no desejo de N'amandu uma intenção de malevolência ou talvez mesmo uma maquinação perversa. a criação de uma nova terra. O fim da idade de ouro.Seria estranho ver os deuses tomados pelo desencorajamento. Mas de onde provém a estranha obstinação dos deuses. esse fim chama um recomeço. idade de uma terra cujos habitantes. Ele está pronto para instalar os humanos no espaço da imperfeição. Os guarani não mantêm com seus deuses uma relação simples de pura piedade. para lançá-los no caminho perigoso' da terra feia. por causa dos' primeiros humanos. brincam com os humanos. os homens são os brinquedos dos deuses.Sua religiosidade exclui a espera passiva da . os superiores. ywy pyau. Ora. a afundar a primeira terra sob as águas. mas querem quebrar as regras desse jogo. Os deuses. não saberia repetir a primeira.e de conhecimento humano . terra do mal e da infelicidade.habitavam na proximidade dos deuses. fabulosamente indistinguíveis ~ formas animais que envolvem a beleza sagrada da Palavra .

quanto a mim. nada que é destinado a não durar. Sobre o leito de sua terra. Constataremos igualmente que a intenção de :Namandu de criar a nova terra como território do perecível não tem o respaldo dos deuses. pai verdadeiro. quanto a mim. Vejam que minha terra já anuncia a infelicidade da ferida para nossos filhos e para os últimos de nossos filhos. graças ao fogo e à fumaça do tabaco que traçarão ao redor dos habitantes da floresta uma fronteira de proteção. pergunte se estabelecerá em seu lugar verdadeiro sua futura morada terrena". estabeleceu em seu lugar esta terra. se há pecado (no sentido cristão) na ética dos guarani. "Brinquemos com os pequenos seres que correm sobre essa terra feia!" dizem os deuses. Nosso pai primeiro-último. Espalharei docemente. a seu mensageiro: "Bem. vivível graças à chama e à bruma. seguramente farei com que se espalhem sobre os seres destinados aos caminhos que percorrem a pátria da má vida. a bruma. ao mensageiro: "Não estabelecerei. J akaira. Eis então os humanos com o chefe adornado de coroas: saber de um futuro destinado à infelicidade. Karai. pai verdadeiro. a fim de que atrás dela possam abrigar-se nossos filhos. Ora. pai verdadeiro. farei com que se espalhe a bruma. Depois da re· cusa de Karai. pai verdadeiro: "Bem. as coisas sendo assim. As chamas. Vocês são divinos e bem sabem que somos seus semelhantes! Encontramos simultaneamente. Quanto . apesar disso. pai verdadeiro. abater minha cólera sobre essa terra". Para acompanhar sobre sua terra esses cujas coroas de plumas murmuram: os 'adornados de murmurantes ornamentos de plumas. :Namandu faz quase que comicamente uma pesquisa entre os deuses: "Quem vai encarregar-se desse trabalho desagradá. Namandu. Desejo de imortalidade na escuta dos deuses: é justamente o contrário da culpabilidade. "Restituam-nos respondem os homens nossa verdadeira natureza de seres destinados à totalidade acabada do bem-viver no coração eterno da morada divina! Vocês nos devem isso!" Os guarani lembram sem cessar a seus deuses a dívida que contraíram em relação a eles. estabelecer em seu lugar minha futura morada terrena. vel?" "Eu não!" "Eu quero!" A nova terra será má.criatura sem liberdade. no texto que se segue. o pequeno. na origem de um mundo para o qual não foram feitos. vá e pergunte a Jakaira.ao tabaco. pai verdadeiro: "Desejo~ quanto a mim. reivindicam um direito. Farei. claro. Eles não suplicam um favor. memória de um antigo passado de divinos. é somente o do orgulho: à obstinação perversa dos deuses faz eco a constância paranóica dos homens. E. em seu lugar verdadeiro. quanto a mim. meu filho! A Karai. ele fez que aparecessem os adornados cujas coroas de plumas murmuram. se sua futura morada terrena será instalada em seu verdadeiro lugar". vá. mas todavia habitável. . A nova terra Namandu. farei com que existam. quanto ao esqueleto da bruma. sobre todos os seres da floresta a luz dos meus raios silenciosos". a beleza do gesto inaugural e o trágico de um destino decidido.

A ruptura entre o divino e o humano está desde então definitivamente consumada. apesar das falhas e da leviandade obstinada de Lua. em tentar transpor esse espaço infinito que os mantêm afastados dos deuses: migrações religiosas. afastada no espaço e. em resumo. os dois irmãos. o retorno eterno do mesmo. A primeira. poderíamos dizer. Nosso Pai que sabe as coisas. Talvez seja preciso ver na longa série das provas a que são submetidos o modelo e mesmo o arquétipo do destino ao qual são votados os homens: a infelicidade de sua existência na terra má é a repetição da infelicidade inaugural na qual encontram-se imersos Sol e Lua. Ela só se distancia da primeira em detalhes. uma busca iniciática? . meditação. no tempo. Mais tarde. preces. de outro. e o segundo na Lua. e depois desaparece completamente. mas que todavia não desencoraja os guarani. Quanto à terceira. podem dizer a si mesmos. Pois. pais diferentes. conseguem reencontrar seu pai e habitam por toda a eternidade em seu firmamento. em sua versão mais completa. mais ainda. de um lado. dizíamos. julgamos útil adicionar uma quarta. situados um no exterior do outro. danças. Análoga em sua organização aos mitos guarani. jejuns. se nosso irmão mais velho e nosso irmão caçula conseguiram transpor vitoriosamente os obstáculos que os separavam de seu pai. Teste. O espaço do divino. tudo o que constitui a prática e o pensamento do mundo religioso guarani. diferenças consideráveis. o caçula. É impropriamente que os chamam de Gêmeos. E. ywy mara iy: a Terra Sem Mal. constitui o capítulo VII de seu Ayvu Rapyta. . deveria incitar a uma análise do tipo estruturalista. onde a criança pertence à linhagem paterna. que é necessário enfrentar para conseguir chegar à luz: não se trataria. com efeito. estão doravante radicalmente separados.AS AVENTURAS DOS GÊMEOS VERSõES Eis então a terra nova criada. na saída de sua odisséia. em mea· dos do século XVI. conta-lhe o infortúnio do qual é vítima. dessa pesquisa que assombra outras culturas. tanto um quanto outro filhos da esposa do grande deus nosso pai. Ela contém diversos episódios que não figuram nas duas primeiras e que entre os guarani que conhecemos são objeto de mitos curtos separados ou de contos. em sua versão selvagem. acabam sempre por dominar o adversário. como veremos. E todo o esforço dos homens consistirá em tentar abolir essa separação. mal. Os primeiros habitantes são nosso irmão mais velho e nosso irmão caçula. Eles têm. dado que foi coletada por Thevet entre os tupinambá do lado brasileiro. é a de Nimuendaju. não o conseguiríamos? O teste das crianças-deuses prefigura o dos homens. Quando a mulher. a terra imperfeita. e as versões re· centes e "terrestres". A história segundo o pensamento guarani é. Obtivemos a segunda em um grupo diferente da mesma tribo. tal como ilustraram as pesquisas de Claude Lévi-Strauss e que não seria caso de implementar. claro. A crônica de Thevet constitui a única e preciosa fonte quanto à mitologia dos antigos tupi que. um eterno recomeço. a história dos homens encontra nela seu verdadeiro ponto de partida e começa. desapareceram totalmente a partir do início do século XVIII. por que nós. irritada com seu marido. a longa seqüência das aventuras dos dois meninos. O da Futura Lua é uma outra figura divina um pouco estranha. O pai de Futuro Sol é o deus Nanderuvusu. O mito dos Gêmeos conta. por que só foi esboçada aqui. Apresentamos quatro versões do mito dos Gêmeos. anotada entre os apapokuva.. e o espaço do humano. mas seu sucesso final dá aos índios a confiança de ouvir um dia o chamado dos divinos. Nanderu Mbaekmia. no decorrer da viagem que fez na "França antártica". como sabemos. ora cômicas. Ele aparece desde o início do mito. Concepção pessimista. ywy mbaemegua. através da incansável vontade de realizar o mesmo desejo. Uma comparação mais profunda entre essa versão antiga e "marítima". convertidos em astros que percorrem o firmamento. diferença essa tanto mais pertinente quando se sabe que os guarani são patrilineares. os meninos transformar-se-ão: o primeiro no Sol. A essas três versões quase que contemporâneas. coletada entre os mbya por León Cadogan. o mito tupinambá apresenta. Lançados em aventuras ora trágicas. o grande. o tempo suficiente para engravidar de novo a mulher já grávida de seu marido. ele decide deixar a esposa infiel e abandonar a nova terra à sua própria sorte. se assim podemos dizer.

Nosso pai se foi. Fonte que brota: assim tem nome a morada originária de nossa avó. é porque o deus deu o exemplo primeiro. a mãe de Pa'i. Se os homens usam de astúcia para seduzir as mulheres.Mesmo se for mais tarde . mas o pássaro não comia. Perversa será sua esposa. com borboletas também não. Comia somente bolachas de milho. que se deseja diversão!" A m~lher o questiona a propósito dos rastros do pai. to~as essas coisas seguramente serão novamente vistas por nos. a verdadeira mãe de seus filhos. seus netos chegaram da floresta: . Mais tarde. ela partiu nos rastros de seu esposo. Em seguida. a avó lhes diz: .?h! Nossa avó tem caça! .Não quero ir lá. . terra. foi destinado a apagarse. os inúmeros traços de nossa avó. pois ela não as queria. ela· ficou grávida. Isto é. Pa'i viu uma flor de íris: "Colha-a. ele quis abandonar sua terra: "Vamos à minha casa!" . que correram as matas.Pobre de mim! Como querem que eu tenha trazido caça. . a mulher debaixo. Nenhum deles. somente depois de se ter elevado 12 que se pode eXIgIrbnnquedos. Juntos. Mas em uma delas capturou uma coruja.. o animal acariciava delicadamente a cabeça de sua dona. . não caçaram nada? ~. a fim de que eu me alegre com ela quando chegarmos no limite da morada celeste de Primeiro-último". gnt~u. Foi então que a coruja adquiriu um corpo: era nosso pai primeiro-último. A mãe de Pa'i é. se vocês mesmos.: É.disse à sua esposa. . então. Cada noite. É por isso que ela toma o caminho maIS b:lo e c~ega na morada dos seres originários 13. Na v~rdade. a fim de que eu me alegre ~om ela quando chegarmos no limite da morada de meu paI". primeiros ocupantes da terra. ela fazia seu animal doméstico dormir perto de sua cabeça.traga-me meus filhos. subsistiram ate agora. Nosso pai forneceu o modelo de nossa futura conduta 10. um zangão picou-a. E. o pequeno. Ela fazia armadilhas para pegar perdizes chororo. fl -. E ela o questionava a propósito do caminho que havia tomado seu pai. Com sua asa. o pássaro piri'yriki foi o primeIro a pIlha-la. Aí encontra-se uma palmeira azul Na . pnmeIra . minha filha! Enganadores são todos os netos!" Mas. quanto à sua esposa.Pa'i de corpo solar A futura mãe de nosso Pai Pa'i era das. até agora. entao. apesar do que tinha acabado de dizer ela não voltou. viu uma outra: "Colha também esta. ma~ ele nao responde. Trata-se dos Jaguares. soment. As coisas estando assim. Enquanto ISSO. que já tinham tido fluxo. Os traços. centro verdadeiro da. ~al su. Mais tarde. . meiro-último. Ela falou e ficou. Aquela que já tinha tido fluxo amarrou-a para torná-la seu animal doméstico. que belamente se façam ouvir nossos hinos. Furiosa. verdadeiro centro da terra de nosso pai pri10. apesar dos pes~res. Dessa forma. . . a que habita a morada do alto 11. . quis alimentá-la com grilos. Levava sua criança no ventre. Ouvmdo isso. ~ntão a avó recobriu-a com uma grande ~rna. ficou sobre a terra.disse ele . a avo dos seres originários lhe fala assim: "Volte sobre seus passos.La.gritaram.~mãe colheu a flor. é preciso que nos mantenhamos. . 11.e depois do nascimento: Pa'i ainda está no ventre de sua mãe . oraça? ~a palmeIra azul. Centro da terra é esse lugar.

falou. surgir Futura Lua. Limpando-a.Não entrem nessa floresta azul! Mas o caçula. dado que era um não-mortal. . . pôs-se a procurar pequenos pássaros para sua avó. Ele será meu animal doméstico! . vamos! . fez para si um irmão caçula. começou a chorar.Avó! Ela está grávida! . apoiando-se em seu arco.Atire mais uma vez! . . Eles já sabiam quase tudo sobre a floresta. ele procurou o que seria seu arco. Também diz à sua avó: .Certamente eu não morreria aí dentro! . . O caçula viu então UIl\ papagaio. quando sua avó lhes disse: .Mal errei o alvo e o papagaio se pôs a falar! disse ao irmão. como companheiro futuro.já crescido e chegado à idade da razão. . foi assim que exterminou o mal.disse ele à avó dos seres originários. Veio um dos irmãos mais velhos dos seres originários: Que está fazendo? . que aprisionava os pássaros. um ao lado do outro.disse ela. Voltaram com as mãos completamente vazias.disse-lhes. Ele levou à sua avó alguns frutos caídos da . Ela amarrou uma corda. e o papagaio se pôs a falar. ele próprio. Mas foi impossível moê-lo. nosso pai Pa'i. e matava inúmeros deles. fez de uma folha de árvore kurupike'y. Assim que secou.Por que Ihinha avó não quer nos mandar para essa floresta azul? Se você tem vontde. deu-a para o irmão chupar: disso nasceu o pássaro jayru. percebe que estava grávida. Ele a mata na hora. enganando-as.Leve-o para o pilão e bata bem! . para que seque. . Atirou uma flecha sem dizer nada ao irmão mais velho. Em seguida. vamos. Liberou os pequenos pássaros que haviam capturado. . Mas errou o alvo. perguntou: . Mas de novo não conseguem cozinhá-lo. Ele flechava borboletas e trazia uma quantidade enorme à sua avó.disse o ser originário. vou comê-lo grelhado na brasa! disse. quanto ao cordão de casca de guembepi. Novamente errou seu alvo. elas que haviam se alimentado de sua mãe. Sim.Nisso chega um irmão caçula dotàdo de um olfato melhor.Nesse caso asse-o 14. Mais tarde.Leve-o e estenda-o ao sol. de novo lhes falta o poder de fazê-lo assar. e o papagaio voltou a falar. Mataram muitos pássaros pequenos. Ele fez uma armadilha.Vocês são os aprovisionadores dos que se alimentaram de sua mãe! .Amarre uma corda a meu arco! . muito vivo. . mas não conseguiu enfiar o espeto. Nosso pai Pa'i sabia então quem eram os que haviam se alimentado de sua mãe: os seres originários. levar as mulheres dos seres originários a comer esses frutos. Ele levanta a borda da urna: aí se encontra efetivamente a mãe de Pa'i. Não traziam nada para a avó. entraram na fl r 'sln. Foi assim que Pa'i exterminou aqueles que tinham se alimentado de sua mãe.Bom! Então entre aí! Ele entrou e morreu. .Estou fazendo uma grande armadilha. .perguntou. Ao ouvirem isso.Bom. Foi depois desses acontecimentos que nosso pai Pa'i fez a árvore de frutos dos seres originários.disse E assim.disse. que eu como! Ele quis assá-lo. Ele queria. Este aproximou-se: .

Depois disse ao caçula: . vendo que era impossível juntar os ossos de sua mãe. todos os animais destinados a devorar os Seres originários. sua criança foi um macho. as pequepas lontras. para que guardasse a extremidade da ponte. em cima do barranco abrupto do rio.falou novamente a mãe. cujo corpo novamente se decompôs. Foi por isso que.Escute. . contou como havia enganado os Seres originários com o fruto doce. Pa'i de corpo de sol e Futura Lua andavam ao longo do rio. Desde esses eventos.Vá agora mais longe e amedronte uma perdiz! Então: . Procriaram com abundância. antes mesmo que estivessem no meio da ponte. as grandes lontras. os boas-jaguares. e os ossos de sua mãe caíram. grávida. reuniu os ossos de sua mãe. Depois desses acontecimentos. Daí nasceram os habitantes da água: as serpentes. Pa'i lhe disse: Vamos então para perto da árvore! Lá comeremos até a saciedade.Es. Franzirei o nariz quando for o momento: nesse instante. de dor ao lembrar de sua mãe. Pa'i disse: .Vá assustar uma perdiz! Ele foi e amedrontou uma perdiz.Quando elas estiverem todas no meio da ponte. Foi por isso que ele cometeu incesto com sua mãe.Ah! Mãezinha! Ah! Mãezinha! Tentou mamar nela. Lua divisou uma árvore guavira: o mito não diz jaguar mas raposa. s~ e salva. A mãe de Pa'i disse então: .disse ao caçula. E novamente tentou mamar em sua mãe. não haveria jaguares 15. Mandou Lua atravessar o riacho. e sua raça povoou toda a terra. Os guarani efetivamente o jaguar. e até o presente.gritou novamente o caçula. O pequeno ainda está assustando as perdizes! . não nomeiam . Mas não permitiu que continuasse a ser alimento dos belamente adornados: deixou somente sua imagem sobre a terra. vire-a! . Foi por isso que nosso pai Pa'i fez um riacho sobre o qual lançou uma· ponte e jogou cascas de árvore na água. e o caçula virou a ponte cedo demais. quando uma paca cai em uma armadilha. Se não tivesse agido assim. cada um em uma margem.Ah! Mãezinha! Ah! Mãezinha! . Tendo agido assim. Como ela insistisse em comer ainda maIS. alcançando o barranco sã e salva. nosso pai Pa'i franziu seu nariz. Sol não se levanta rapidamente. Ora.Eis aqui um ser espantoso! Fuja e mergulhe no sono! Os cursos d'água. as mulheres. em paca. sob pena de provocar seu aparecimento. vire-a. Nosso pai Pa'i proclamou então: .tute! O pequeno está assustando as perdizes! E este gritou: . Pa'i dispersou-os na floresta.árvore. Uma das mulheres. proclamando: "Ser semelhante a minha mãe! Fuja e mergulhe no sono!" E ele a transformou em jaicho. você os torna espantosos! Fuja e mergulhe no sono! Apesar disso. aquela que subsiste sob o nome de "alimento dos jacarés". . 15. pôde saltar. Transformou-a no ser que torna hostis as margens dos cursos d'água. a margem dos cursos d'água. Nosso pai Pa'i foi tomado de furor ao constatar que aquela que se alimentou de sua mãe elevou-se novamente. puramente por diversão. Vendo isso.

lambuzou-se ainda mais com ela. quando Sol chegou neHH' lugar. Lua teve um medo enorme e deu um pulo. quando a lua "se cobre". que é? . Estavam quase cozinhando-o.Atire uma flecha no coração da morada do aIto I Ele atirou e atingiu o alvo. Levantou-se e ficou em pé. mas ela não desapareceu completamente.Atire uma flecha no entalhe da primeira! Iso! . pois quero recolhê-los.Não quero comer isso! .Então é guavira. Que fruto é esse? . fez-lhe um cérebro.Esses são guaviju.E essa árvore.Meu irmão mais velho. Não os coma! É preciso soprar fumaça neles para que se possa comê-los! Continuaram a seguir as margens do rio. Da mesma forma. se até o presente a lua reapa rece a cada vez. que gênero de frutos é esse? .São frutos de pindo! Você pode mordê-los.Seus frutos também são vermelhos e duros. . Ele foi comendo. . levou-os e recompôs o corpo do caçula. É vermelho. . Tendo recolhido os ossos. Puxou o 1I11 zol: Charia tirou-o da água e bateu-lhe na cabeça com 1I111 porrete. Jogue-as no fogo e aperte-as com seu arco. . . Chegaram ao lugar onde Charia 16 pescava peixes. Lua chegou a um lugar onde cresciam aguai.perguntou. Lua viu frutos da palmeira pindo.Nesse caso são aguai. COIII o caldo do milho. Se até agora a lua desaparece às vezes. e chegaram a um lugar onde cresciam árvores guaviju. Lua introduziu-se tateando junto à irmã de seu pai.disse Sol. Fez com que uma palavra viesse habitá-lo e. Deslizou também na água e mergulhou. Acenda uma fogueira ~ asseos. as sementes jogadas no fogo explodiram. Sol mergulhou na água e puxou o anzol. .perguntou. Sol disse ao caçula. . enquanto Lua se apro ximava tateando. junto ao fogo. pois lhe daria vermes. qUl' todas essas coisas se produziram. .respondeu Sol.D·j xe-m. Ele jogou as sementes de aguai no fogo e apertou-as com seu arco.Os frutos são longos e amarelos. é pOI que Charia tenta devorá-la: então. Lua foi lavar o rosto para retirar a resina. é preciso soprar fumaça por cima deles.perguntou Charia. com uma casca dura na base. indo parar na outra margem do rio. Então.Que planta é essa? .disse Lua.Qual é sua forma? . . Levou seu "peixe" para a mãe de seus filhos. onde estava seu irmão. Não se deve comê-los crus! Recolha as sementes daqueles que vai comer. somente um pouco de caldo de milho. Durante a noite. Lua recobre-se com seu próprio sangue.questionou. não os jogue. . E. É para que sua face fique. Mais tarde. ate hoje. existe pum nós o modelo de nossa conduta futura. é porque seu irmão mais velho o fez r's ~uscitar. Ela quis saber quem é que se aproximava dessa forma e untou os dedos com resina. e três vezes Charia caiu de costas. manchada. Qual é a forma do fruto? . Para consumir os frutos maduros de guavira. . é simplesmCl1ll' porque Charia devorou-a.perguntou ao mais velho. . . Dessa maneira. Charia perdeu o peixe Sol recomeçou três vezes. pelo contrário.Você quer um peixe? . .Agora é minha vez! . Quanto aos espinhos. No dia seguinte. ela lambuzou-lhe o rosto com a resina. Não coma.

Deu-a a Charia. Fez que um de seus filhos lavasse os pés quando queria comer peixe: ele lavava os pés e. Aí chegando. os quatis sobem nas árvores e. para tirar as manchas de resina que a irmã deixou em seu rosto. Nome religioso da árvore em cuja madeira os guarani talham seus arcos. É dessa forma que. Suas filhas olhavam. ele os recolhia e os comia 20. E ficou lá.Que gênero de frutos é esse? . golpeou-o na cabeça e.Este é um quati órfão! . . Charia encontrou quatis e matou-os. até o presente. Anangapiry: significa literalmente "água da pele de Afia". . Nosso pai Pa'i ficou furioso: eles lutaram e rolaram pelo chão. a lua nova lava o rosto. Charia não demorou a vir. e efetivamente a flecha encaixou-se no entalhe.Ele atirou.Empreste-me seu filho! . - . Então Sol escapou. outro nome . As filhas levantaram os quatis. É a partir desses acontecimentos que. o timbó. dessa forma. Sol se fez de morto e defecou. Deu o modelo do que se faria mais tarde com o cipó e matou o filho de nosso pai. Quanto ao seu arco. Charia embrulhou seus excrementos em folhas de íris. levou-o até o rio. Eis porque existem. esse arco eterno que chamamos arco da lua 17 foi deixado tendo em vista nossos arcos futuros.Os quatis passaram a existir desde então e fugiram em galope. Quatis! Durmam imeditamente! . .E isto é . E caiu. 20. arrastando-o. sem cerimônia.g? de palavras destinado a ironizar o palavreado pesado dos Seres primItivos. Lua fez chov~r.Bom! Agora. suba pelas suas flechas! Lua pôs-se a subir. que levou-a e fez amor com ela no caminho. bessa forma.disse. Charia foi pescar peixes e colocou seu cesto longe da água. sob os quatis. Mas queriam· dizer: "Vejam um quati verdadeiro 18!" . Charia foi embora e chegou em sua. Ele levou-o para a floresta. Até hoje. todos os peixes morriam.Bem! É Nakarachicha que está aqui! E sua merda também! . . Assim. como se faz com o cipó timbo.. e foi Sol quem levantou-se.disseram. Golpeou-lhe o corpo todo. até agora. Jo. uma pedra! . Sol arrancou a primeira flecha. sob os quatis. nosso pai tinha subido em uma árvore guavira.Ai! Nosso pai faz que escorra água de minha pele! gritou Charia 19. Depois disso. Charia não pôde vencê-lo. continua existindo.disseram. de Charia.É um afíangapiry respondeu Sol. 18. Mas dilacerou o pênis. descobrindo a pedra sob os quatis. as flechas acabaram por chegar à terra.Eu também quero comer peixes. Nosso pai Pa'i já tinha crianças. . Charia subiu em uma árvore que tinha frutos. Lua faz chover. voltou a ser cesto. Então. até hoje. eclipses do sol. colocou-o dentro de seu cesto. Mito da origem do veneno de pescar. Charia bateu na mulher que. nosso pai Pa'i fez de um cesto sua filha. Foi lá que Charia atirou nele com seu arco. 17. com os excrementos. 19. .gritaram.perguntou. . depois de ter colocado uma pedra em seu lugar. e pelo buraco Lua penetrou no céu. Nesse meio tempo.disse. logo após. Nosso pai caiu sobre um cedro carregado de frutos. casa. Depois. deixam-se escorregar para a terra. Quanto ao cadáver. .

Se. pusermos suportes de madeira de genipa. Pô-se a manipulá-lo e recebeu um pesado golpe no rosto. que se transformaram em moscas. mas as plumas continuavam a queimar. mas o cocar não se apagou. depois rezou e em seguida destacou o enfeite de plumas do bastão-insígnia. Pôs-se a refletir na maneira pela qual se retiraria. o jaguar não se aproximará dela. saímos do caminho até encontrarmos um genipa. Foi a primeira a ser morta por Mbogua. e ele quis admirar o fruto de seu ventre. mosquitos e botucas. e não faltavam motivos de discórdia entre ela e seu marido. todavia. Que iria levar consigo lá para cima? Deitou-se e dormiu. . nosso pai Pa'i soprou as cinzas. São frutos do amor de N'anderu Mbaekuaa. Mas não era assim. seus próprios filhos: considerava os dois como suas próprias crianças. pois que em sua ausência um outro tinha vindo e engravidado sua mulher. não lhe devolvendo a vida: era o modelo de nosso futuro destino 21. o jaguar descobriu o arco de nosso pai Pa'i em seu caminho. mas sem semear. Quanto à alma-palavra de Charia.Um dia. Sua mulher estava em avançado estado de gestação. pôs-se a correr pela planície. afasta-se dessa árvore. Este entrou em um pântano e saiu. deu-o de presente aCharia. Ele voltou então para casa. quando montarmos uma armadilha. fazendo: chororo. Colocou também nessa cabaça os rabos de arara. transformando-se na perdiz chorara. amedrontado. Correu para jogar-se em um rio. foi-se por ele. N'anderuvusu ignorava que as crianças não eram suas. Do arco surgiu a árvore genipa. nosso pai que sabe as coisas! N'anderuvusu deitou~se então em sua rede de fibras de urtiga. Eles não são frutos de seu amor. Então. o grande.Pronto! É assim que irei: dançando! E dançando levantou-se. consumindo-se completamente. quando farejou um cheiro de queimado:" era o cocar de Charia que queimava. Uma filha de Pa'i quis ver. até agora. que é a senhora do fogo. nosso pai fez dela o pai verdadeiro dos Tupã-Rekoe. Sol enterrou-a. colocandoo na sua cabaça. ro. A esposa de nosso pai. N'anderuvusu tinha preparado sua plantação. Todavia. Depois levantou-se e disse: . Pa'i passeava em uma planície. Pegou sua rede e levou-a também. Na en- . as plantas germinaram. Com a palma da mão. O caminho reto era o usado pelos seres perigosos. E sonhou com a maneira como deveria ir embora. nosso pai Pa'i fabricou um cocar de plumas: ele era feito de fogo.Não olhe! Ela olhou. de papagaio e de marakana: para si mesmo e para seu filho. Eis porque. As entranhas de Charia explodiram. Quando ele se apagou. fatigado e suando. quando devemos dormir em lugar deserto. Tendo aberto um pequeno caminho. Não estamos destinados a saber que a mulher é mais esperta que nós. pulgões. roo Um pedaço de intestino voou pelos ares e caiu no mato. Por isso. no caso de ele nascer.Por que você está irritado? Este não é o fruto do seu amor. e morreu. Pois o jaguar. dos Tupã destruidores da vida. Percorreu o lugar que havia queimado. tocou o ventre da mulher. Depois de todos esses acontecimentos. Ele voltou então da plantação. tinha duas crianças em seu ventre. Depois. que exclamou: .

pediu-a para si. para deixar um sinal para seus filhos. e nosso irmão mais velho tornou a pedi-las. nosso irmão mais velho. A mulher colheu essa flor. Seguia os rastros de seu marido. o jaguar. vamos por ali! Depois de algum tempo de marcha.' que era de sua propriedade e na qual ela descansava na sombra da casa.Como você quer que haja um forte odor de carne. sem dizer absolutamente nada à sua avó. Prosseguindo sua marcha. romperam o útero onde estavam as crianças. Como você quer que em sua ausência eu busque comida? Uns após outros.Por ali! . iremos por aqui! Vamos seguir os rastros de seu pai: vamos pelo único caminho de N anderu Mbaekuaa. por último. quando não queria deitar-se ao lado de Nanderuvusu. chegou à plantação.Aqui está sua comida. para que soubesse qual o caminho que. Então perguntou à cirança em seu ventre: . Nessa época já existiam vespas. esta resfriou. para . A mulher tinha-se deitado.Então vamos. para que ela nos carregue até o lugar onde se encontra nosso pai. E cobriu-a com uma grande panela de barro. mas nenhum dos dois respondeu. todos os felinos chegaram e. ele. crianças! Não me falem mais! Iremos por aqui. Aconteça o que acontecer. Avançou rim pouco e viu outro rabo de arara: ela ignorava que caminho havia tomado seu marido. dado que fiquei aqui em sua ausência! Eu estava fazendo fumaça com os ossos do que foi nossa comida. Dentro de uma flor ainda não aberta . VIa uma vespa mamanga: ela tinha penetrado antes que a flor se desenvolvesse. de carne! . à guisa de ornamento de plumas. Quando o sol ultrapassou o zênite.Por onde foi seu pai? .Avó! Esta tarde exala um forte odor. de passiflora. bateu em seu próprio ventre dos dois lados.trada do caminho que tomou. O mais velho falou então com o caçula. os jaguares chegaram. Esta lhe disse: . E. Notou uma flor de mburukuja. Depois de algum tempo. . A mãe renunciou a questionar seus filhos. atingiu o lugar onde a avó dos jaguares estava fazendo fumaça. eles não queriam mais falar. Ela pôs as crianças para cozinhar em uma panela. avó! Nós vamos comer aquilo. Nanderuvusu. tinha tomado. e você. chegou a uma plantação abandonada. Viu um caminho bonito: era o caminho de Mbaekuaa.Vamos por lá. dentro do ventre de sua mãe: . Chegou e. Continuando a avançar. e a criança que ela tinha no ventre. . estavam completamente silenciosos em seu ventre.Tenho muitos netos! Por isso. fechou-o com um rabo de arara. vou escondê-la: talvez não notem seus rastros. chegou ao sinal do rabo de arara: ela não sabia que caminho tomar. Com suas presas. e a vespa picou-lhe o dedo. A mãe colheu todas as flores e com elas encheu sua cabaça. Aí também havia flores de passiflora. virou a grande panela de barro e lá encontrou o que comer. com a palma das mãos. As duas crianças tiveram sorte. Levantou-se e levou sua própria rede. . Quando jogou as crianças com o cordão umbilical na água quente. isto aqui. Levantou-se e partiu. irritada e sempre grávida das duas crianças. quando encontrou o caminho de N andem Mbaekuaa. ha. para oferecê-las à avó. plantou um rabo de papagaio. Por isso. de indicar para nossa mãe onde deve levar-nos. no caso de eles o seguirem na direção do céu. Pergun- tou cinco ou seis vezes. Interrogou novamente as crianças. O aguara'i chegou primeiro e resmungou para a avó: .Agora é a sua vez de falar.

E dizíamos. Você já é um pouco forte. Eles distribuíram-se perto das águas. Esse foi o começo das coisas. das fontes. essa fêmea de barriga grande! Quanto aos jaguares que cresceram depois.Agora conhecemos nossa mãe. não era de forma alguma o caso: eles eram aqueles que se alimentaram de nossa mãe. nosso futuro irmão caçula. . Nela colocaremos uma espiga de milho. cuja presença vemos bem. mas Caçula não teve força suficiente. O mais velho zangou-se com o caçula. meu irmão. uma grande armadilha. vamos montar uma armadilha. o caçula. e outro. E. agora. faça um buraco aqui. à espera dos jaguares. que copulou com sua mãe e procriaram. pois ela pariu um macho. e que uma fêmea grávida pôde escapar. quando dormimos. Ele fez um buraco profundo e colocou uma grande armadilha na entrada. aproximavam-se e diziam: Por que fez isso? Para afastar os ratos. Em seguida. não tive força suficiente para jogá-la no buraco. não existiríamos agora. jogouas no fogo. não se podia mais destruí-los.nossa própria sorte e para nosso destino. acordaríamos um pouco doentes. que chegavam. já sou suficientemente forte. . Tudo isso porque Guyrapepo. vamos dormir: "Vamos deitar e dormir!" e invocamos nosso pai Pa'i . Se a fêmea tivesse tido outra fêmea. Pensou então em conserválas como animais domésticos. Quiseram capturá-lo.Então entre. Vamos nos vingar de todos. a única maneira de acordar bem. caçula? .o sol para ver se. para nós. Não cairão nesse tipo de armadilha! . É.Nesse caso. . E agora existem muitos jaguares. a respeito da avó dos jaguares: "nossa avó". e nesse caso usaríamos os remédios que conhecemos. Passaram a tarde espionando. Foi desta forma que existiram o futuro sol e a futura lua. Mas ela não era nossa verdadeira avó. ele toma conta de nosso sono. De outro modo. para experimentá-la! E todos os que entravam morriam. Foi assim que as coisas começaram. para transformá-las em lugares assombrados. Se ele ditar as normas para .Sim. Ela surpreendeu-me. meu irmão mais velho. . mas aquele que queria comer-nos.: "meu avô!" Mas. Primeiramente pegaram aguara'i. O último a chegar foi o chefe dos jaguares. Tudo produziu-se depois que os jaguares destruíram a mãe. Sua mãe não soube quem eram. não teve força suficiente para fazê-la cair no buraco. A isto se deve que até hoje existam jaguares. Os dois irmãos tiveram medo e disseram. e o fogo apagou-se. Um era nosso futuro irmão mais velho. como por exemplo a obscuridade. com efeito. Essas coisas não acontecem mais. também não era alguém muito bom. Os outros. Quando é noite e não vemos mais as coisas. O que chamamos emboi foi para que as coisas em sua totalidade começassem. pois temos a luz do fogo. Foi por este motivo que nem todos os jaguares foram mortos. Mas tiveram sorte. os jaguares não se teriam reproduzido. vai zangar-se comigo! Ainda sou fraco.Vamos ver Tupã. Se esses acontecimentos se produzissem ainda uma vez.Como você. quanto ao nosso avô. O mais velho disse ao caçula: .Vão e tornem assombradas as fontes e as florestas! Lá encontrarão comida! Assim falou Sol. Agora não sofremos mais. para prender e matar todos aqueles que se alimentaram de nossa mãe. Dizíamos. a fim de que nos dite as normas para nos conduzirmos na vida. Para eles.

Afia foi à casa de Sol. terá um macho. Encontrou a mulher moendo milho. Ela vai ter filhotes e. Plon. Um completa o episódio da travessia do rio pelo caçula. Extraímos dois curtos fragmentos delas. Outro nome de Charia. levou a mulher consigo ao banho. * Sol e Lua abandonaram esta terra e se foram. Sol e Lua se foram. água e não voltou mais. e ele deixaria de scr um caçador 22. que fique na obscuridade. 1972.Não a leve muito à água! Afia estava muito contente e. 22. Sol vigia tudo. um pouco abaixo. hi! e encontrou-se do outro lado do rio. Tinha atravessado. Já não temos mais poderes sobre eles. e não é possível nos proteger. Sol debateu-se para sair da armadilha. A mulher é um antigo cesto. . onde dormimos. para levar-nos. Os guarani enunciam assim no plano do mito o que seus vizinhos guayaki vivem no cotidiano: o cesto de * . e os jaguares se multiplicarão. Ela jogou-se na . é preciso uma casa sólida. ponha-se a rir: hi. assim que começarem a crepitar. Aqui. Afia chegou decidido a matá-lo.Vou dar-lhe minha irmã eterna! Afia tirou-o então da armadilha. para entrem nela. Para brincar.nossa vida. 23. abandonaremos esta terra que já está perigosa. Paris. Pierre Clastres. Poderiam pegar-nos por beça. emergIU na superfície da água o que era só um cesto. Lá em cima. hi. poderíamos simplesmtene ver nele o papel da origem da mulher. são relativamente mal contadas. E isso transforma as trevas em uma coisa terrível. Chronique des indiens guayaki. já transformado em jaguar! Chamamos os jaguares de pytüjary. no mesmo dia. e todo contato entl'c um homem e um cesto o condenaria ao azar. fez uma mulher. Quanto ao segundo. É ele que toma conta de nós. Desse cesto. Quanto a ele. e vão alimentar-se de nossos corpos. hi. para fugir da terra e escapar dos jaguares. Este disse então: .Vou dar-lhes uma terra onde possam viver. É impossível matar todos os jaguares. Sol afastou-se e começou a fabricar um cesto. que Sol cria a partir de um cesto. para que os jaguares não uma perna. onde elas se põem a crepitar. a fim de que ele nos dê uma terra onde seja possível viver. mas não estava contente. Mas. Suas versões. devemos dormir. Ele foi gerado da palavra de Tupã. A fêmea prenhe escapou. mas quando alguns se tornarem ariscos demais. com sorte. carregar é para eles a metonímia da mulher. Afia tinha o hábito de lavar-se. Subiram ao firmamento e suplicaram a Tupã. O que aconteceu em seguida foi em sua ausência. senhores das trevas. Comerão todo tipo de animais. hi! Nosso irmão caçula joga as sementes na fogueira. Sol ofereceu-lhe sua irmã. Mas não vamos para um lugar qualquer! Previnamos Tupã. Tupã é a raiz. Sol disse então: . Vários informantes nos contaram o mito dos Gêmeos.Vou dar-lhe minha flecha eterna! Ele recusou-a . Cf. Tupã lhes disse: . Que elas se consumam! Elas vão crepitar na hora.Vou dâr-lhe meu arco eterno! Ele não quis.Acenda uma fogueira e jogue nela as sementes. E. parece-nos interessante guardálo pelo papel que o riso desempenha nele.estava decidido a matar Sol. durante a tarde . . pela cavingar-se deles. Vale a pena sairmos correndo para nos afastarmos deles. Sol pulou na armadilha: Afia 23 ia chegar. Então ele fez: hi. os jaguares se alimentarão de nossos corpos. comparadas com as que publicamos aqui. mas não pôde quebrá-la. Sol recomendou-lhe: .

Se tirar esse apoio. A coroa de plumas colocou-a na cabeça. pegando seu cesto.Vá então ver a mulher na panela! Mbaekuaa foi olhar: a mulher realmente estava lá.Afia.Encontremos a mulher! Então falou Nanderu Mbaekuaa: .Nós a encontraremos na panela. Disse a Mbaekuaa: . Na água se vê nosso reflexo: ele tentava pegar seu reflexo. a madeira cruzada é o sustentáculo da terra. trouxe a água. Mas a mulher já tinha desaparecido. . Saiu. colocou-a na direção "do lado do nosso rosto" 24. Nanderuvusu arvorava o sol sobre seu peito.Você foi trabalhar há pouquíssimo tempo e já volta me dizendo "Vá buscar milho!" Não é seu filho que trago no ventre mas sim o de Mbaekuaa! E a mulher de Mbaekuaa. a terra cairá. Em seguida. o grande. sua maraca de dança e também a madeira cruzada. Até hoje. Nanderuvusu preparou então sua plantação. chorando. disse a Mbaekuaa: . o começo I Nanderuvusu. foi para a plantação. Nanderuvusu foi embora. Nanderuvusu encontrou a seu lado Nanderu Mbaekuaa.Vá a nossa plantação e traga milho macio para comermos! Mas ela retrucou: . Nanderuvusu pegou então seu boldrié de plumas. para comer. Levou-a consigo. Os morcegos originários já existiam e defrontaram-se com ele no coração das trevas. Chegado ao caminho dos jaguares originários. enfiou a madeira cruzada na terra. Em seguida. Trouxe a madeira cruzada originária. não tenho mais nenhuma! Afia foi embora. Um momento após. voltou para casa.Vá experimentar a mulher! Mbaekuaa partiu e experimentou a mulher. olhava para a água. Mais tarde. no ventre de sua mãe. Em seguida. Fez uma panela de barro e cobriu-a. Não queria misturar seu sêmen ao de Nanderuvusu. deu uma volta em torno da casa e se foi. Disse à sua mulher: . depositou-o à parte.Como poderemos encontrar uma mulher? . ela enchia-se de espigas de milho verdejantes. Voltou então na casa de Sol para tornar a pedir-lhe sua irmã. andou sobre ela e começou a fazer a terra. E de uma só mãe formou-se o filho de Nanderuvusu e o de Mbaekuaa. veio só e deixouse ver no coração das trevas. nosso pai. À medida que a preparava. nosso pai que sabe as coisas.Dei-lhe minha única irmã. assim. a fim de desviar assim seus próprios rastros. Nanderuvusu construiu sua casa no '0111" ção do sustentáculo da terra. Nanderuvusu disse a Mbaekuaa: . .

Eles pegaram os bebês e mergulharam-nos na água quente. mãe-avó! E. mas uma vespa picou-a. Andando por ele. Pediu então o necessário para matar pequenos pássaros: . Traziam gran des pedaços de porco selvagem para sua avó. sobre a peneira. e o caçula pôs-se a engatinhar. saiu. chegou à morada dos jaguares. . mataram a esposa de Nanderuvusu. muniu-se de seu bastão de dança. Ela disse ao seu filho: Por que você.Há muito tempo que não tenho dentes. Depois puseram a mão na água e constataram que ela havia esfriado. meus netos! Peguem-nos e coloquem-nos na peneira. Os retardatários não haviam caçado nada. A avó deles lhe disse: .Por onde foi seu pai? . Mais tarde. Andou um pouco mais. deu uma volta em torno da casa e partiu no rastro de seu marido. e a criança tornou a pedir-lhe uma flor. Colheu-a.Você tem muita sorte.Por onde foi seu pai? . E indicou o caminho dos jaguares originários. Então a avó dos jaguares disse: . Nanderuvusu não estava mais. no sol. de volta da plantação. No final da tarde as crianças chegaram. quando nosso irmão mais velho começou a levantar-se. A mulher pegou a cabaça de água.Sua esposa. Nosso irmão mais velho já abria um pouco os olhos. Ela retomou a marcha e chegou no lugar onde estava a madeira cruzada.Coloquem-nos sobre as brasas! E eles colocaram. chegou em casa. Normalmente elas são muito desobedientes! E cobriu-a com uma grande panela. Ela tinha caminhado um pouco quando sua criança pediu-lhe uma flor. meus netos! Tragam-me então os dois bebês! Tirem-nos para mim e ponham-nos na água quente! Vou comê-los. tatearam as brasas: elas estavam frias.Por ali.Eles serão meus animais domésticos. deseja uma flor e me faz ser picada por uma vespa? A criança ficou furiosa.Por ali. Não se tinha passado muito tempo. Mais tarde. pulando sobre a panela. o mais velho quase já conseguia manter-se em pé. A avó jaguar lhes disse então: . Ato contínuo. Ela colheu-a para sua criança e prosseguiu em seu caminho. . Perguntou novamente à criança: .Peguem-nos e soquem no pilão! Pegaram-nos e socaram-nos. Em seguida: . Chegaram. bateu na morada de seu filho e perguntou-lhe: . meninos! Colocaram-nos ao sol. que ainda nem é desse mundo. No crepúsculo.Por aqui! É preciso que eu a esconda das minhas crianças. quebraram-na.

o pássafornecer caça àquede sua flecha. flechou-o. senão a avó jaguar perceberá que choramos. Lavaram-se.Não podemos mais refazer a mãe. A avó jaguar lhes disse: .Não é nada. veio um papagaio e disse: . para matar pequenos pássaros. O garoto ia nos arredores da casa. Caçula experimentou e disse a seu irmão mais velho: . É por isso que os seios das mulheres não permanecem intactos.Por que a avó jaguar nos disse: "Não brinquem desse lado"? Vamos lá.Há um caroço grande! .Tio. Voltaram ao mesmo lugar. faça-nos uma flecha para pássaros. Descobriram o esqueleto de sua mãe. Ele refez a mãe. Encontraram um pássaro jacu. Caçula queria mamar: . Ele ro caiu e disse: . . Foram as vespas que nos picaram! . e Caçula quis mamar nela: no mesmo momento. a mãe se decompôs. ele pôde ir nos velhos jardins. meu irmão! Vou fazer frutas para você! Ele andou então sobre uma árvore e assim fazendo fabricou frutos yvapuru. para ver.Vamos lavar o rosto. Mais tarde. Disse ao caçula: Já lavamos demais! Vamos embora daqui! Quando ficou mais forte. matando pequenas borboletas.Vocês viram? Bem que eu lhes disse para não irem desse lado! Enquanto isso.. recuperou a saúde. com seu irmão caçula.Por que estão com os olhos tão inchados. as margens do lago não paravam de afastar-se. meus netos? . E foram. e o jacu Ele e o caçula foram embora. . o caçula teve desejo de mamar. O jaguar faz-lhe a flecha.Por que você me flechou? Para la que matou sua mãe? Chupe a ferida Ele chupou o ferimento.Essa avó.Não vão desse lado! Mas por ali vocês podem divertir-se. Desceram às margens de um pequeno lago: seu Voltaram a caçar pequenos pássaros. foi ela quem matou sua mãe! O caçula pôs-se a chorar: Perdemos nossa mãe ao nascermos! Nosso irmão mais velho e o caçula prosseguiam caminho. meus netos! . Quando terminaram. Voltaram então à casa da avó jaguar.

entre aí e experimente nossa armadilha! O jaguar entrou e caiu na armadilha. .Ela é muito feia.EI e d· ls~e .Que estão fazendo? .Vamos adiante. . ofereceram a ela. Na aurora.De onde trouxeram isso. Retomaram o caminho.Isso não serve para nada! Nada cairá nela! E. o jaguar voltou: . Quanto ao guaviraete. ficaremos ao lado de n ssu 11madilha! Acenderam uma fogueira perto da armadilha e velaram. Caçula experimentou: .Está muito mal feita.Não. meu tio.Este sim. meu caçula! Levaram guaviraete para a avó jaguar. com uma espiga de milho à guisa de isca.Essa coisa não serve para nada! Nada cairá nela! E jogou a armadilha fora. é bastante carnudo! Andou sobre outra e fez guaviraju.Quando anoitecer. Esconderam o guaviraju da avó jaguar. Montaram nele uma pequena armadilha. entre nela e experimente-a! Ele entrou e caiu também. . . Na seqüência. nosso irmão mais velho pegou-a e montou-a no mesmo lugar. uma grande tocha desceu na armadilha. Mais tarde. levando guaviraete e guaviraju. e ninguém cai nela. meus netos? .Não caiu nada. por sua vez.Já que é assim.Do outro lado do pântano. Veio outro jaguar: . . Não caiu nada. não vai cair nada nela! . meu irmão.Fabricamos uma armadilha. Chegou um jaguar: . Nosso irmão mais velho tirou-os e jogouos no abismo. N~ aurora. .Estou brincando com meu irmão caçula. Eles se foram. Um outro jaguar perguntou: . jogou a armadilha. . I ao seu lrmao: . E também se deixava ver o abismo originário. os que chegavam nos rastros dos primeiros perceberam o odor fétido de seus excrementos.Se acha isso.Será que caiu algum rato em sua armadilha? . Nosso irmão mais velho pegou-o e jogou-o no abismo. Mas nosso irmão mais velho pegou-a uma vez mais e montou-a no mesmo lugar. Eles voltavam freqüentemente ao antigo jardim.Ah! Este me parece bem doce! . meu neto? .Ele continuou e novamente andou sobre uma árvore: fez guaviraete. .Alguma coisa desceu na nossa armadilha! Foram examinar e tatearam a corda: estava bem tesa.Que fazem? .Não caiu nada em sua armadilha. Caçula experimentou: .

..Trouxeram bastante? .Vamos descobrir o fogo! Vou encher-me de fedentina. trouxe-o e cuidou de seu irmão mais velho: este recobrou . meu caçula! Ele tornou as águas cada vez mais agitadas. Mais tarde: .Não é isso. Então.Não vá se impressionar e virar a ponte. Ele olhou: ainda havia um pouco.Você não engoliu o fogo? . e karakara notou-o: Ao romper da aurora.cedo. Depois desses acontecimentos. Nosso irmão )nais velho deu uma olhada. mas agora ele deve ter-se apagado. deitou-se e tornou-se fedorento. pela cabeça e jogaram-no no fogo. meu caçula? Se não tivesse feito isso. Caçula teve medo por seu irmão e virou a ponte. A avó jaguar também havia caído na armadilha. Mais tarde nasceram seus filhos. coloquem-no dentro dela: vamos comê-lo! Pegaram-no por uma perna.Amanhã voltaremos lá e colheremos mais. meu caçula! Os jaguares chegavam e lançaram-se à água. de forma alguma! Ele não está mais olhando! Tragam-no para a fogueira. . Fez-se picar por ela. O corvo karakam. todos foram. Nosso irmão mais velho criou o sapo.Engoli só um pouquinho. meu caçula.Não.Sim.Se não fosse noite. trouxemos.Por que teve tanta pressa de virar a ponte. . Em seguida. teríamos acabado com os que mataram nossa mãe. O chefe dos corvos gritou: . Então uma mulher jaguar que estava grávida disse: . ele acendeu o fogo.Vamos. . Os corvos tiveram medo. Os vorazes habitantes das águas comeram os jaguares. olhava. iria agora mesmo! Iremos amanhã. Ela pôde saltar para a terra no momento em que os habitantes da água lhe mordiam os calcanhares. Ele se pôs a gritar: . Caçula partiu em busca de remédio.Nem mesmo um pouquinho? . Então. Em seguida. Não se preocupe comigo. .Cuidado com o fogo! Nosso irmão mais velho perguntou então ao sapo: . Os corvos reuniram-se e acenderam o fogo.Vomite-o! Veremos se ainda há algum! O sapo vomitou. Não engoli. fez uma serpente a partir de uma tocha. para ver se conseguimos descobrir o fogo.Aquele que vocês dizem que vão devorar está nos espionando! Mas os corvos responderam: . nosso irmão mais velho sacudiu-se. Só um conseguiu atravessar: a fêmea grávida. voltaram para casa. destinado a engolir o fogo. espalhando as brasas. e ele disse a seu irmão: . pousado em uma árvore originária.

Impossível! É claro que não matarei você! Pod' \ descer! \ Ele djsceu para a terra. meu tio! Afiay colheu folhas de peguaho e embrulhou os excrementos. colocou-a por terra e tornou a abrir caminho.Vamos para esse lado! . mas não ficou muito doente por isso. Aiíay disse: . paI. subiram em uma árvore. Colocou uma pedra sob os quatis. Eles ficaram lá.Não olhem de forma alguma! Trago unia cabeça negra! As filhas foram olhar. Depois disso. deixando-o cair. _ Partiram para muito longe. Depois apanhou os quatis. é preciso que eu faça quatis. Levou-a para longe. o que tinha acabado de morrer defecou.. existe.É preciso matar esses da cauda estriada. . Então. Nisso chegou Caçula. meu caçula! E se pôs a gritar: . . conseguiu erguer sua carga. Caçula perguntava ao lrmao: . carregou seu cesto e levou-o. quis levantar o cesto: não conseguiu. Quando voltou.Suba e faça-o descer para mim! Ele subiu.Que está gritando.Agora suba em uma árvore. soprou o topo de sua cabeça e fê-lo reviver.Realmente não existe gente como nós nesta terra. pai? . Tinha duas filhas: . jogou nosso irmão mais velho no fundo do cesto e por cima os quatis.Que você matou. Abriu um caminho para poder ir embora. meu sobrinho. pois nosso irmão mais velho tinha ficado pesado. Nesse caso. Tirou os quatis que estavam sobre seu irmão. tio! . meu tio.Não vá matar-me. filho de minha irmã? . Nosso irmão mais velho gritou então: Afiay chegou a sua casa. Caçula soprou entao o topo da cabeça de seu irmão mais velho e fê-lo reviver. irmão de minha mãe! Fiz esses da cauda estriada para que você os mate! Então chegou Afiay 25 'e perguntou: .a saúde. de volta. . Afiay. meu irmão mais velho? . morreu. para fazê-los vir! Andou sobre um cedro carregado de frutos e fez quatis: . Em seguida criou as vespas e também se fez picar por elas.Sim.. Tendo si~o mordido por outra serpente. Então disse: . empurrou os quatis e acabou com eles. Tiraram todos os quatis: .Não é isso! Estou gritando a propósito desses de cauda estriada para que você os mate. Finalmente.Aqui não tem nada de cabeça negra. morto. produto de sua caça. Mas Afiay também golpeou-o.

com a qUlll escalpelou Afiay.Meus irmãos estão chegando! . Quebrou um galho de árvore em seu focinho: . disse a seu caçula: . Vou encontrá-lo. meu caçula! Casaram-se com elas e possuíram-nos. Como Afiay voltasse.Vamos para casa! Dirigiram-se para casa. com um pedaço de cedro seco. fazendo surgir flores. seu crânio 'explodiu. meus irmãos? Vamos casar com essas moças. Em seguida. . fugiu! Vou voltar. Afiay voltava para casa.Sim. Afiay perseguiu-o e trouxe-o de volta ao pé da árvore para matá-lo. minha - Os-que-eram-dois fizeram. Caçula conslI mou o casamento com a sua e teve dor de estômago o resto da noite. .Não o fiz pessoalmente! A possuí com minha fle'l\ I de pássaros! . logo depois. E ela perguntou: . ~ ssan?o urucu e pimenta ~m nossas cabeças.. Depois de um curto instante.Possuí minha esposa! E depois: .disse a filha de Afiay. vá buscar pimenta. Depois puseram-se em marcha e chegaram à morada de Afiay. quis le vantar-se. o mais velho veio pcr guntar-Ihe: . Então. Durante esse tempo.Que aconteceu. no topo da cabeça de nosso irmão mais velho flores abriram-se. o cabrito endireitou-se e afastou-se.Você vê! Bem que eu falei que ele não ia suportar! Afiay retirou-se apressadamente. urrando: .Vá para o sol! Ele foi.Piry! Piry! Piry! Ele corria e. meu caçula? . aspecto! .Será que ele fugiu? Vou verificar pessoalmente! Olhou: .Sopre-me o topo da cabeça! Ele soprou. meu caçula! Ele trouxe pimenta e uma faca de bambu.Nesse caso.Tome! Por ter farejado minha presença! Miserável! Os dois desceram do alto da árvore. Azar o dele! Quero que meu pai tenha o mCSlllO É . S LI cérebro transformou-se em mosquitos e em motucas. Os dois: . No despontar da aurora.Tente agüentar. um cabrito ao pé da árvore. fizeram o cabrito reviver. esfregou-lhe pimenta e uru('// no crânio. Então este soprou também a cabeça de seu caçula. . preCISOfazer a mesma cOIsa com meu pai! as seu pai não poderá suportar! Por quê? Como vocês fazem? Tiramos a pele de nossas cabeças.Como obtiveram essa aparência. meu pai! Ele sentou-se.

Pôs-se a correr. Morando perto de Afiay. ou seja. Afiay destacou seu pênis e jogou-o na água para lavá-lo. nosso pai: é o nome do dirigente o profeta. a terra afundará.Corram! As irmãs correram para as margens do rio e. Em seguida. . Ele vira a piroga e a faz descer em face de nossa mãe. E assim foram feitos os mosquitos e motucas. esmagou-a entre as mãos e jogou-a na água. instalam-se nos lados da piroga. O mais velho. Na seqüência.Vamos fazer a planície virar uma só brasa! Corram. nosso irmão mais velho. chegou seu pai. XLII Nosso irmão mais velho existe acima de nós. Queria seguir os passos de seu pai. neste caminho. mulheres! Colocaram fogo e repetiram para as mulheres: . Atingimos 26. mais velho zangou-se com o pai. a via manifesta-se ao N"anderu26: se alguém mereceu. Quando ele chega à morada de nossa mãe. e Tupã vem: ele embarca em sua piroga. ele a fez forte outra vez.Vá procurar pimenta. Construíram então um abrigo de caça perto de um lugar onde os pássaros se banhavam. e Caçula tornava-se cada vez mais vigoroso. N" anderuvusu fez o futuro Tupã. o caminho revela-se a ele. E nós nos colocamos em marcha. Agora ela é velha. espiritual da tribo. o morcego descerá para acabar com todos os habitantes desta terra. Nosso irmão mais velho pediu suas insígnias ao pai. Agora ela vive novamente. Quanto a Caçula. para impedir as coisas más. só pensava em mamar. que vinha procurar seu filho. Quando nossa mãe precisa dele. Ao cair da noite. Veio um outro Afiay. ele ocupa-se da terra. Foi por isso que. não faz mais ouvir seu trovão. manda chamá-lo em sua casa. o mais velho criou a planta mandasaia. perfurou uma cabaça para fazer com ela seu chocalho de dança. é ele que mantém o apoio da terra. Ele as deu ao filho e desapareceu de sua vista. assustou os pássaros. seus cabelos pegaram fogo e seus crânios explodiram. e dois pássaros.. meu caçula! Trazida a pimenta. Então. ao termo de quatro luas. mas não se sentia de forma alguma aliviado. chegando. O tempo passava. gritando: "Piry! Piry! Piry!" e caiu também no abismo. E desde então seus lábios não cessam de lançar raios silenciosos. de um frio a outro. E o jaguar azul desce entre as trevas. e N"anderuvusu veio para levar consigo sua alma-palavra. Afiay. "do lado do nosso rosto". Tirou-o em seguida e embrulhou-o. . Se soltá-lo. Aí conversam. Estavam em marcha. de volta. Um momento depois. quando estavam chegando. este o ensinou a dançar. :N'anderu.Vamos colocar fogo na planície! E vamos levar também nossas esposas! Partiram. essa terra! Nossos netos não prosperam mais nela! Iremos rever todos aqueles que morreram. algum tempo depois. Dança-se durante o ano inteiro. mestres do bastão-insígnia. Agora. Pois freqüentemente o jaguar azul rosnava. Destacou-o novamente e tornou a colocá-la na água: a pimenta queimava-lhe o pênis. desce para devorar-nos! XLIII Os jaguares mataram nossa mãe. quando nosso irmão .

que tem por nome o nome do homem mutado. e. que estava pesada devido à gravidez. atravessamos no seco. que queria colocá-la à prova. que' tinha necessidade de repouso. mas o homem. peço-lhes. Perto da morada de nossa mãe existe um grande pomar. tomando um caminho pelo outro. Agora~ fiquem aqui! Os gêmeos* . Prosseguindo nosso caminho. 'Nanderu atingiu-a saltando por cima. d 'U lhe vontade de ir para terras distantes. veio deitar-se com ela e teve seu corpo. de tal forma que engravidou-a de um outro filho. parou de ensinar-lhe o caminho. chegando em outro vila- . de tal forma se perdeu. atingimos a plantação yvapore. Ao ouvir isso. Atravessamos e chegamos à plantação de vapurü. Ultrapassando-o. estando ela grávida. vendo-a cansada. Ora. Esse enganador perverso não deixou de receber o pagamento de sua loucura. XLVI De lá nos dirigimos para a morada de nosso pai. que dizem ter sido o filho de um Demônio Súcubo. chamado Maire Atá. ensinando-lhe o caminho que seu pai havia seguido.. e Medin estando nos braços de sua mãe. a saber. Quanto a nós. ele. que a recebeu e. seus inúmeros filhos. Ela. Sarigóys. que.Que vão comer minhas crianças? . Ela.a água original. Quando chegamos. porque esta recusou-se a dar-lhe alguns legumes que viu pelo caminho. o que foi a causa da perda do caminho. convidou-a para repousar em sua casa. estando ainda no ventre de sua mãe. pois. não comemos isso. por isso.Que vão comer minhas crianças? Nós lhe respondemos: . O fruto que ela tinha no ventre falava com ela e a confortava. Continuando. sucedeu seu filho. que foi para o céu com seu pai Caroubsouz. Vejam. a partir do momento em que teve_prazer com a mulher do Profeta. que tem a pele muito fedorenta. como essa boa gente prossegue suas histórias. por isso. . pois falou. um bananeiral. que veio fazer companhia ao primeiro que lá se encontrava. foi transformado em uma besta. vocês diriam que essa criança era mais perfeita que o Profeta inglês Medin. vendo-a adormecida. quando chega a arara e nos pergunta: . ao pensar que uma mulher grávida (seu fruto estando quase pronto) recebe outro e concebe. não podendo ir no mesmo ritmo de seu marido. obedeceu-lhe e deitou-se.disse nossa mãe. Nossas bocas ressecam-se e tomamos mel.Vamos comer pão de milho e bananas maduras. Mas a infelicidade dessa mulher foi ainda maior. e tinha razão. Vejam se esses grosseiros são bons naturalistas. esse filho do caraíba começou a se debater e a discutir com sua mãe. penetramos na floresta. Estamos perto. pois as águas se afastam. A esse Maire.Vamos comer mingau de milho! E ela voltou para dizer isso a nossa mãe. tomando sua mulher. esperando tirar proveito dela. pois. nossa mãe começou a chorar e disse: Vocês vão morrer sobre a terra! Nunca mais voltem para lá. Continuamos a andar e o pássaro avia veio ao nosso encontro e perguntou: . veio parar em um jardim onde se encontrava um homem chamado Sarrigóys. repousou. chegamos à água bonita e bebemos dela. pôs-se a caminho. deixou-a só. Mesmo que nossas bocas estejam secas. como bem lhe aprouve. que tomou uma mulher de seu país. Nós lhe respondemos: . ainda lactente.

e também todos os do vilarejo. para pegarem os ditos frutos. tendo chegado a estação em que se colhe o fruto chamado iuaia. Os meninos espertos. então a dita mulher envia as crianças caraibitas para os campos. ainda assim. uma mulher que tinha ido pedir raízes viu-os brincando juntos. eirat. mas as crianças entraram sem dar mostras nem de medo. Isso assegurou-lhes que era quem procuravam. marga ionacsou. contra a expectativa e fé dessa mulher. de tal forma que. A mulher. Mas as duas crianças que estavam no ventre foram jogadas como excrementos onde se joga o lixo da casa. pois tinham o costume de banquetear-se com gente que massacravam. iarnarhbouten. ninguém era tão corajoso assim para colocar os pés em sua choça sem sua licença e. a fim de que amanhã venha conosco. que pode ser levada toda conosco". como iarnare-este. margata. sedentos de vingança. tendo sido tomada de piedade. que é o espírito. o lugar em que estavam esses frutos era uma ilha grande. sem que Iarnare se negasse. que no fim chegaram a um vilarejo construído sobre o Cabo de Frie. tais como lobos. para se desculparem com aquela que os alimentava. à qual eram de grande proveito. disseram-Ihe: "Estivemos no lugar mais bonito do mundo. em pouco tempo cresceram. como sucessores do Caraíba sobre a força das transmutações. Ora. que jamais havia pensado na malícia e na intenção dessas crianças. que se chamava Iarnare. nem de reverência. Essas crianças tanto correram pelos países e regiões estranhas. e muitas outras espécies de bestas que se vêem na dita terra. miry. e para saci. . seu pai. matando a mulher e comendo-a. jamais sentiu necessidade de coisa alguma. para comer e para fornecer o quanto queiram.todos. Então. a fim de melhor enganar o pessoal. vendose sós e que não havia restado ninguém para freqüentar nem mulher para ser tomada em casamento. no qual há tamanha abundância de iuaia. grandes e pequenos. que pretendiam arruinar todo o vilarejo. rasgando-a em pedaços e oferecendo-a a seus vizinhos. O velho Pajé. homens e mulheres. E. sem ouvir nenhuma notícia do que queriam. fizeram um pacto de empenharem-se em encontrar Maire Ata. fizeram que o Jl1UI' se inchasse com tal impetuosidade e tempestade. Ora. assim como leram antes.rejo. foram até onde se encontrava esse Profeta e souberam que ele tinha entrado em sua choça para descansar. voltaram com poucos frutos e. pau. que é impossível pensar que haja outro igua1. que em sua língua são chamados de I arnare e existem vários tipos. que. Estado fora. No dia seguinte. Dessa forma vingaram-se as crianças de todos aqueles que tinham tão cruelmente feito morrer sua mãe. cães e gatos selvagens. e era preciso atravessar um braço de mar para atingi-la.que estava em sua maturidade. Esse homem era muito cruel e mostrou bem isso. escondeu-se de sua mulher grávida. devido ao respeito às maravilhas que este homem fazia. e vieram . Por isso viemos avisá-la. levou-os para sua casa. as crianças lembraram-se do massacre do qual sua mãe tinha sido vítima. Ora. com muito medo e reverência. disse para todos (>shabitantes. foi presa pelo chefe mais considerado do lugar.ar sua gente. que tod li os que passavam ficaram submersos e em seguida transformaram-se em diversas formas horripilantes e figuras de diversos animais terrestres. que não se mostraram arredios à idéia. . e cresciam sempre em beleza e força maiores que todos os outros humanos. apiroupsou. iaona tonapech. para colocá-la à prova. a fim de comê-los. enquanto os teve em sua companhia. fizeram com que esperassem qu' eles aprontassem suas canoas para passar Assim feito. através do qual adivinham o que está por vir. 'OIllO todos os selvagens que tinham comido de sua mãe esliv'ssem no meio da travessia. onde ouviram falar de um grande Caraíba ou Pajé que fazia coisas maravilhosas e fornecia as respostas Houiousira. quando esta se encontrava cansada pelos caminhos. Por isso. as crianças.

se a rocha esmagá-lo. pegando o que buscavam: a isca de Agnen. mas somente de minha mãe. um pedaço de uma besta que chamam de tapirousou. e o mais velho omitiu o que tinha acontecido com o caçula. todavia o legítimo reuniu o conjunto e refêlo tão bem. Este sinal começou a assegurar-lhe que eram seus filhos. feroz e horrível e difícil de ser atacado. Todavia quis fazer um terceiro grande teste: mandou que fossem para um lugar chamado Agnen pinaiticane.vendo esses jovens levarem-no em tão pouca consideração. para servi-lo como pai". do tamanho de um touro. assim como havia prometido. E contaram-lhe tudo o que havia acontecido com sua mãe.. Tendo feito o teste. quis que atirassem com o arco diante dele: o que fizeram. O pai já estava seguro de que eram de seu sangue e que eram verdadeiramente da raça escolhida dos caraíbas. e tirando o anzol e todo o resto do dito espírito Agnen. mergulharam na água e foram até o fundo. e suas flechas mantiveram-se penduradas no ar. e essa rocha é chamada em sua língua de Itha-Irápi. a saber. que o fez em vários pedaços. A isto obedeceram rapidamente as crianças e. passe primeiro. com a qual este pegava o peixe Alain. sem que corresse nenhum perigo. passou o filho legítimo do Profeta. . pôs-se a olhá-los furiosamente e com despeito e depois faloulhes rigorosamente assim: Mara peico. dado que essa isca era a verdadeira comida do dito peixe. já tendo contado demais . não quis levianamente dar fé as suas palavras e propôs-lhes várias coisas estranhas e difíceis. Mas ele foi tomado pelo espírito Agnen. não que todos os dias não os assaltasse com pedidos aborrecedores. filho de Sarigóys. pois. quando chegaram perto da rocha. a fim de adestrá-los na feitiçaria. isto é: "Que os traz aqui?" Ao que o mais velho respondeu: "Procuramos nosso pai Mairemonan Ata. voltaram ao Maire Ata. eu posso reunir os pedaços e fazê-lo novamente inteiro". O que fez com que Maire Ata os reconhecesse como filhos. o espírito maligno que freqüentemente os atormenta) péga o peixe Alain. que o bastardo foi recolocado em sua for~a e beleza primeiras. como antigamente eram escolhidos aqueles que partiam para a conquista do Santo Graal. antes de dar-se por satisfeito. viemos visitá-lo. Em primeiro lugar. a quem disseram que deveria reconhecê-los como filhos. e como haviam vingado rigorosamente a mãe defunta e massacrada. e o fez passar uma segunda e uma terceira vez. mal tinha chegado em frente à rocha. Curado. em sua língua. na Grã-Bretanha. Aqui também o mais velho usou para com o caçula fidelidade igual à que teve na rocha ltha-Irápi e fê-lo ir primeiro ao fundo d'água.. de tal modo que nada podia passar por ela sem ser esmagado. levaram-no a seu pai. sobre essas coisas fico em silêncio. foi quebrado e esmagado em pedaços tão pequenos quanto uma pedra moída e só foi possível (como contam os selvagens) a um filho do Caraíba pegá-los. acolhendo-os e recebendo-os em sua casa.. o qual reconheceu como sendo verdadeiro que tinham descido aos profundos abismos da água. o mais velho disse ao caçula: "Já que você não é filho de Maire. que é uma espécie de asno selvagem. pois haviam passado ilesos pela terrível fenda da rocha. Maire Ata. e tendo ouvido falar que era você. em seguida. sem que tivesse nenhum sinal de ferimento. O bastardo obedeceu e. salvo a condição de bastardo do segundo filho. que é onde dizem que os mortos queimam e fazem secar o peixe chamado Alain. a qual abria e fechava continuamente. Entretanto não contentou-se com essa prova e assim mandou-os passar e repassar três vezes através de uma grande rocha fendida. recomendou que lhe trouxessem a isca com a qual Agnen (que é. apesar de alegre por encontrar seus filhos. para pegar a isca. em um instante reuni-los e recolocá-los em sua forma primeira.

para eles. que é a fie'e. Personagens que pertencem ao mundo divino encarregam-se de cometer o roubo: heróis culturais. despossuídos para sempre do fogo. E é por isso que Takaira. Já desdobrada sua terra. seguramente farei com que se espalhem sobre os seres destinados aos caminhos que percorrem a pátria da vida má". ele refletiu sobre sua tarefa futura: Quanto aos belamente adornados. o primeiro. figura no capítulo VII de seu livro. distância em relação a essas duas fronteiras entre as quais situa-se a humanidade. da nova terra. Versão" aculturada". A destruição da primeira terra. Somente em virtude delas saberá a tarefa a cumprir sobre a terra. coletada entre os chiripaguarani. O falso morto chacoalha-se e espalha as brasas. que em virtude de seu saber. nomeia seus futuros habitantes como os adornados cujas coroas de plumas murmuram" e ao mesmo tempo lhes promete o fogo: liAs chamas. Assim que conhecer os adornados. A oposição cru/cozido parece assim corresponder ao seu simétrico inverso. uma vez vomitada. que havia estabelecido em seu verdadeiro lugar. ou mesmo Sol. mas já apareceu a terra nova. Isso quer dizer que não saberiam levar na nova terra uma existência puramente animal. Os. que saber tornaria visível ao conhecimento deles? . a oposição divino/humano.VII A ORIGEM DO' FOGO . é preciso que haja fogo: dupla chama. ou semideuses. . sobre a terra. criador. nome religioso do cadáver. ayvu. isto é. portanto. a bruma. uma distância em relação a essa natureza marca da pela posse do fogo. eles habitam a terra imperfeita. fala: . quanto aos habitantes desiguais da terra. Sobrenatureza e natureza. a prImeira. em seguida. A segunda de nossas duas versões. que revela com força ainda maior a desconfiança sentida pelos índios em relação aos brancos. por assim dIzer. mas como eleitos dos deuses. 11 que os futuros habitantes da nova terra possam dispor dele. primeiramente designado pelos do alto como a morada desse fragmento da Palavra. duplo sinal. é colocada no interior de algumas madeiras determinadas. onde já se encontra enclausurado. doravante. a pedido de I'l'amandu. meu filho. transformam·se no que estavam condenados a tornar-se: corvos. Bastará aos homens. os corvos chegam para cozinhá-lo e comê-lo. rejeitados da Terra Sem Mal. o pequeno. l! preciso roubá-lo deles. Um deles finge· se de morto. ~as três versões do mito originário do fogo que se seguem.Bom! Vá. nosso pai. os homens brancos. sofreu uma destruição. Anotamos as duas outras. meu filho primeiro-último. os comedores de carniça a quem não molestará o fedor da "coisa grande". a fim de A terra de nosso pai. Você. determinado como lugar de uma vida animal. terá conhecimento dos belamente adornados futuros. carregará essa minha palavra a fim de fazê-la frutificar sobre a terra. Então. Haverá. para os guarani. produzir fogo pelo método da fricção. na seqüência do dilúvio consecutivo ao incesto cometido por Karai Jeupié. Os mestres do fogo são os corvos. As três são estruturalmente idênticas. você. Notemos que. distingue-se pela presença de vários elementos não·tradicionais: o cavalo. segundo o alto e segundo o baixo: dimensão duplamente passiva do corpo. alimentando-a. dupla luz. Para que as Belas Palavras sejam audíveis. que é preciso manter. nem por isso foram jogados sobre o plano exclusivo da natureza. que assegurará aos homens uma alimentação cozida. o primeiro. e o sapo consegue engolir uma pequena quantidade delas que. Quanto aos corvos. a fricção não produz verdadeiramente o fogo mas permite simplesmente extraí-lo da madeira. habitantes da nova terra vêem sua natureza definida. coletada por León Cadogan. excluiu os humanos da esfera do divino. os fósforos.

mas soube. Foi então que Papa Miri sacudiu-se. À guisa de companheiro para o loureiro. diz ao futuro corvo: . Ele sabia. çngula-as!" Ele estica-se. Jogue-lhes! Ele vomitou. mas iam ser transformados em Tupã. me farei de morto. acendeu uma fogueira para assá-lo. sapo. para depositá-lo. estavam destinados a tornar-se Tupã. Não se sabe como o tinham obtido. fique na espreita! Eu vou chacoalhar-me. Junto de seus companheiros. engoli um pouco . nós o encontrássemos morto! Ele não ouviu.Desta vez. Interrogou seu filho sapo: .Bem. Para que houvesse fogo nesse mundo. . Tinham o hábito de vir dançar como nós dançamos. vá! Vejo que meu filho está bastante mal: vá vingar a Palavra de meu filho! Veio o futuro corvo. foi o fogo futuro que soube no começo. a fim de que nossos filhos tenham· consciência dele.Vá buscar um pedaço de madeira para que nela deixemos o fogo! Ele trouxe um galho de árvore aju'y joa. nós o chamamos de yvyraija. Viu o que tinha sido um corpo e que era bem gordo. .· Este era o sapo.. mensageiro. para que ele continue em mãos dos habitantes da terra. . Trazendo lenha. "Pois somente eles possuem o fogo sobre a terra: este deverá continuar em posse dos que existem imperfeitamente. os futuros corvos preparavam-se novamente para dançar. Dançavam. "Quanto a mim. sapo. meu filho. você. Um pouquinho só! . Um dia. que disse: .Deposite o fogo aí! E. para que meus filhos o peguem. meu filho. Choraram.Vão embora! Sejam.Que bom se. O enviado do mestre da casa. os futuros corvos voltaram para junto de nosso pai primeiro. fingirei de morto. a fim de que aqueles que sabem da magia voltem-se contra mim.Tendo descido sobre a terra. disseram: . trouxeram lenha e nela puseram fogo. meu filho. e assim espalharei as brasas: engulá-as. vomite-o longe de você. Ele disse: . Este sabia que haviam assado o que tinha sido um corpo: . Nosso pai sabe então que seu filho está ~orto. meu filho. desde a origem. Assim. os destinados a morar sobre a terra. A origem do fogo Conta-se que antigamente. aqueles a quem a coisa grande não inspirará nojo! Os corvos choraram: não estavam destinados a viver na totalidade. os corvos possuíam o fogo.. doravante. Os que se voltavam contra ele reuniram-se novamente. traga minha flecha com sua ponta. em nosso começo. Neles dois deixou o fogo para os belamente adornados da terra. pa'i.Bem. Por conseguinte. o mestre da casa. E eram eles que. ele deitou-se e fingiu-se de morto. tinham o fogo. Colocou as brasas no loureiro e deixou-as aí. quando chegássemos. deita-se. o loureiro. trouxe o cipó rasteiro e nele também deixou as brasas. acenderamna sobre o cadáver. Nosso pai sacudiu-se novamente.Não engoli! Mais uma vez. a fim de que o fogo dos que se voltam contra mim continue em posse de nossos filhos. E interrogou seu filho sapo.É o fogo futuro que inicialmente diz respeito a minha tarefa futura. eu o sei. nesse caso. Tendo feito isso. Falando a propósito do senhor da morada. o senhor do bastão-insígnia. Bem.

a rã e o pássaro jakupe: Eles têm uma garganta profunda e talvez consigam engolir o fogo. ele voltará à vida e se sacudirá. já transformados em corvos. encontraram o mestre morto. comem até se satisfazerem e depois deitamse para dormir. Quando os tições apagavam. Origem do Fogo Eram os corvos chapire que possuíam o fogo. Então veremos se o sapo e a rã conseguem engolir o fogo. Quando jogarem o cavalo na fogueira. Vamos chamar o sapo. Depositou-os dentro de um gomo seco de palmeira pindo. o futuro Sol e Guyrapepo. Quando quiseram colocá-lo no fogo. Vamos esperar que os corvos o acendam para assar sua comida. Os cor- vos preparavam sua comida e em seguida apagavam o fogo. Fizeram uma grande fogueira fora de casa. Ele se foi e assim procedeu. Mas o sapo havia engolido pedacinhos de brasa. Ressuscitado. Quando encontravam carniça. Quando chegaram à casa de danças. nosso irmão mais velho refletiu sobre a maneira de nos deixar o fogo. Os corvos acenderam o fogo imediatamente. Sua presa. tinham posto água em suas asas. todos fugiram voando. faziam chover uma coloração rosada. Alguns dias mais tarde. Quando os corvos foram embora. comê-lo. Ele tinha engolido a brasa e depois vomitou-a. faça um chicote. Talvez tenhamos sorte e cheguemos a obter esse fogo. Eles não pedem comida.Conseguiu engolir o fogo? . É assim que até agora produzimos o fogo. O senhor disse ao sapo: . com suas asas. a rã e o jakupé: que vinha de longe.Vá e corte duas folhas de palmeira pindo. Engoliram-na e se foram. já inchado. e eles não queriam dá-lo a ninguém. Foi o sapo que fez com que o fogo existisse nesse mundo. obtemos o fogo. aquele que estava morto pulou e sacudiu-se. remexiam as asas para que se fizesse essa bruma. Quando saíam. Juntaram todos os esforços para erguê-lo. Assim.· uma diante da outra.Vamos esperar o fogo dos chapire. Havia duas pequenas brasas. Disse ao caçula: . É que. O fogo estava destinado a não ser coisa deste mundo. encontrou um cavalo morto. simplesmente vão pastar. o cavalo saiu da fogueira e espalhou as brasas. sacudiu-se. chamaram os outros: . eles a comiam. Fazemos um buraquinho em um pedaço de madeira seca e. e todos os fogos apagaram-se. eles os jogavam e iam embora com seu fogo: só guardavam o que iam usar. pois tinham o fogo para assá-la. seu caçula. Os corvos foram avisados: .Os corvos. antigamente. Escondido. Estava morto e todo inchado. ele colocou uma no gomo de pindo e outra em um galho de chirca. Planteas na terra.Aposse-se do fogo! Os corvos queriam assá-lo.Eu engoli! . girando um outro pedaço de madeira. E de lá o fogo produziu-se. Levavam todos os fogos. Os corvos tiver~m medo de sua presa e voaram. lançada ao fogo. Nesse momento. para ver se os cavalos se levantam. o sapo engoliu uma brasa. fizeram o mesmo. Com uma outra folha.Venham comer! Nós não comemos isso! O mais velho disse ao caçula: . coloque um cabo de madeira e vá fazê-lo estalar perto da casa dos homens brancos.

Tragam galhos de loureiro! Tragam gomos secos de pindo. Acenderam o fogo. .Sim! . Dessa maneira.Isso sim. os que vierem depois de nós não ficarão de mãos vazias. as brasas já estavam apagadas.E você? Eu também o engoli! . no caso de não obterem fósforos dos homens brancos. - OS ÚLTIMOS DAQUELES QUE FORAM OS PRIMEIROS ADORNADOS . a fim de que existisse para nós. e acharam que ainda havia fogo. Tinham se apagado porque eles tinham bastante saliva. mas ele já se acabara. que tenham secado sem ter tido frutos. trouxeram galhos de loureiro e pedaços de cipó rasteiro: puseram o fogo dentro deles e fizeram com que desaparecesse. .Você também engoliu? .Eu também! . é bom! Agora é nossa vez de fazer uma fogueira! Vamos colocar fósforos em todos os troncos de árvore. para que haja fogo. para colocá-los no fogo.E você? .Vomitem-no! A rã e o pássaro vomitaram o fogo.Vejamos se você o vomita! Vomitou-o. Em seguida. Chamaram então o sapo: .

sua alma. sua Palavra-habitante.a Palavra-habitante . O sacerdote.a linguagemparcela que constitui para ele seu fie'e. ele é a vida.habitado e vivificado por uma parcela de ayvu . Excetuando-se o ato de procriação. sinal do divino sobre o corpo. de alguma forma. representam o efeito das Belas Palavras no desenrolar da existência concreta dos homens. Eles manifestam uma religiosidade suficientemente essencial a esta vida para que seja difícil. Como para todos os povos primitivos. do meta-social. A atribuição do nome.Os textos propostos agora dizem respeito à vida cotidiana do~ guarani. na verdade. a esfera do sobrenatural. mostram como o sagrado atravessa o profano. o nascimento de uma criança ultrapassa em larga medida. não pode cometer erros nessa busca da identidade.que virá morar nesse corpo. Ele ressalta. seu significado biológico e suas implicações sociológicas.um espaço inerte .o corpo . isolar um campo do profano oposto ao campo do sagrado. como a vida pessoal e social dos índios desdobra-se sob o olhar de seus deuses. . busca. de produção do corpo da criança. escolhido pelos deuses. como a atribuição a esse corpo do estatuto de gente. para os guarani. busca do lugar de origem da alma . pois o nome. é quem-faz-se-elevar-o-fluxo da Palavra. todo o resto. a quem cabe ler e dizer o nome. Esta consiste. de um lado a outro. pelo sábio-sacerdote. tery mo'ii. marca. realça a livre atividade dos deuses. transforma o indivíduo em um ser vivo. do nome exato que essa criança usará.

que vai morar sobre a terra. lt destinada a instalar-se nela. Eis porque você. farei correr o fluxo das Belas Palavras para você. Grande Coração. farei com que corra o fluxo das Belas Palavras.apto a receber uma pequena parte da substância divina. p. assim. terá mais que os não-pouco numerosos filhos que reúno. 28. anunciam que a mulher está grávida de um menino. Somente assim haverá totalidade acabada. 49. p. estas que belamente são adornadas. Assim. As crianças constituem. Ninguém. "Lembre-se de mim. brandido pelos homens no decorrer das danças rituais. tenha lembrança da minha bela morada.o corpo que vai nascer . que se lembrará de mim. diz nosso pai primeiro aos pais verdadeiros da Palavra que habita seus filhos. Cadogan. pequena criança de Namandu: que seja grande a sua força na morada terrestre. "É por isso. é o sinal da masculinidade. todas desprovidas de semelhança. na morada terrestre das coisas imperfeitas. Essas palavras. a Bela Palavra-habitante 27. não pouco numerosos filhos excelentes que reúno. uma mediação entre os adultos e os deuses. saídas de um deus e pronunciadas pelo sábio que as ouviu. Crianças nos são enviadas: "Bem! é preciso ir sobre a terra!" dizem aqueles que habitam acima de nós. encarregado de ser o pai: o que acontece é para que possam possuir bela grandeza de coração. você. a fim de que ela aí se instale". Gerar uma criança é uma das condições de acesso ao estado de aguyje. pois é dispor de um espaço . eis que à vista de sua alegria alguém apresta-se a se prover de nádegas: sobre nossa terra envie então uma Bela Palavra-habitante. assombradas. encarregada de ser a mãe. . e mesmo se as coisas em sua totalidade.Palavras de um deus quando uma mulher está grávida 27 Eis guarnecido de nádegas o esqueleto do bastão-insígnia! Você. erguerem-se. de totalidade acabada. àquela que sobre nossa terra você está pronto para enviar. ninguém melhor que eles saberá sacudir para longe de si as coisas más. você lhe dirá e' tornará a dizer: "Bem! você vai partir. 39. que seja grande o seu coração!" "Estes que belamente são adornados 28. Cadogan. metaforicamente chamado de esqueleto do bastão-insígnia": este instrumento. uma Bela Palavra. você que se ergue! Assim. uma alma..

Parece-nos.de não deixár completamente no abandono. essas palavras não destinadas a um fim próximo. apaziguar a falta de medldll. o texto a seguir é extremamente esclarecedor quanto à concepção do homem que o pensamento guarani desenvolve ou. que a descoberta do nome levará essa criança a reencontrar a calma. jamais revelados para um não-índio e usados entre si só em circunstâncias particulares. quanto a este ponto. A cólera é efeito do corpo. pois li desprovidas todas de semelhan· ças". Os que habitam acima de nós dirão: "Mesmo contra o seio de sua mãe a criança se irritará. que é mbochy. Seu verdadeiro nome é o que é revelado pelo sacerdote após o nascimento. correr no topo de sua cabeça o fluxo das Belas Palavras. meus numerosos irmãos. desejo do excesso. o sinal individual da presença do divino na pessoa da criunç I. quanto à antropologia dessa cultura. do corpo como elemento da totalidade que constitui o mundo mau: falta de medida. O sábio que se dirige aqui aos índios. o ef ei t do '11I')lll . violência. vocês. mas a conseqüência. seja como porta-voz dos deuses. 1111li h. os habitantes da terra má. "li or gllll cl todo mal". em seguida. a coragem necessária para afrontar o mal.a convicção dos guarani de que tal é o cuidado dos deuses . isto é. Todos os guarani do Paraguai têm nomes espanhóis. a ele ()I1lp fI descobrir o nome que os deuses atribuíram ao recém-nascido. É preciso então que apreendam minhas palavras. Quando uma mulher apresenta suu criança ao sacerdote. li Como restabelecer a ordem. Imagina-se facilmente o grau de segredo com o qual os índios cercam seus nomes. Promessa de conferir às crianças a força do coração. Comunicar esse nome seria literalmente. seja por sua própria conta. 1l()1l1l'. se quisermos. não exista ninguém na morada terrestre das coisas imperfeitas. ensina-lhes que a primeira forma do saber é má. a fim de que. rar o desejo? Essa tarefa é incumbência do sacerdote. isto é. desordem. A fumaça abre-lhe o caminho para a outra fumaça. na idade de ouro." No texto precedente. perder mesmo sua substância de humanos eleitos dos deuses. Ele descobre então o nome que os deuses decidiram atribuir ao novo habitante da terra e o revela aos pais. como o obstáculo erguido contra a potência do mal. dividir-se em dois. este fuma longamente seu cachimbo e sopra 11 fumaça do tabaco no topo da cabeça do recém-nascido. o nome aparece como o limite do corpo. não é a causa. quanto a mim. graças ao fluxo das Belas Palavras". a cólera. promessa que não será rompida. o laço substancial que une os humanos e os divinos. ser necessário corrigir a interpretação que Cadogan nos A ira é o que sabemos inicialmente 29. no desconsolo. Como tal. como afirma. o recém-nascido irrita-se "contra o seio de sua mãe". os habitantes da primeira terra ressoa como a promessa de que em um tempo futuro os homens saberão reencontrar o caminho de sua terra natal. O primeiro parágrafo indica que o sentimento inicialmente experimentado e manifestado pela criança recém-nascida é a cólera. excesso de desejo. . e a cólera já o exalta. com efeito. separar o corpo da Palavra. aparece claramente a preocupação que não abandona os deuses . minhas numerosas irmãs. aos quais não atribuem nenhuma importância. Eis porque me falaram assim os que habitam acima de nós. seria sem dúvida expor-se à doença e talvez à morte. de onde procedem as Belas Palavras. Farei. E o apelo a esta lembrança da "bela morada" que conheceram. a bruma originária. para eles. a tota· lidade das coisas perturb~doras.. Mal ele se encontra em seu lugar. vocês. explica. antes mesmo que nos exalte o belo saber.dá a respeito do mbochy: a cólera não é. igual a você.

Namandu. cada vez menos respeitada pelos índios. fará correr o fluxo das Belas Palavras sobre a morada terrestre. ereta. pai verdadeiro. na casa das rezas onde celebram-se os rituais.Enviei sobre a terra os não-pouco numerosos destinados a elevarem-se sobre o leito da terra: a sua Palavra se deve que essas coisas aconteçam. o futuro pai"." A mãe: "Eis que minha criança encontra-se em seu lugar: é para ouvir seu nome que eu o trago. Então Namandu. É por isso C)1I toda morte é. Com força. ele. através da b '11 dos sacerdotes. no texto a seguir. seu olhar busca. . somente então haverá para eles alegria na morada terrestre." O que impõe o nome: "Vamos colocar-nos à escuta de seu nome. Uma vez decorrido o tempo necessário à putrefaçã . Da mesma forma que o nascimento. fará que façam inúmeras coisas desprovidas de toda excelência. Há. pais verdadeiros: "Quanto a mim. essa criança na qual ele fez com que uma Palavra viesse habitar". façam com que o fluxo das Belas Palavras atinjam os que. que é depositada. a morte faz sinais pal'u o deuses. para os guarani. como indica Cadogan. A coisa grandl estendida". fornece aos índio o pretexto de reiterar aos deuses o apelo de fazerem ouvir suas v z . pai verdadeiro. não farei mais com que sejam providos de nádegas. e não se abandonarão mais à cólera. foram providos de uma Palavra-habitante. produto de uma separação entre o corpo . para repetir com força acrescidll II apelo aos divinos. Essa antiga tradiçllo l. o cadávl" é enterrado. banha o fluxo de suas belas palavras. A fim de que exista essa criança. amargura e comoção: o sábio que o pronllll ciou constata com tristeza que o número dos guarani diminui H 111 cessar e que a morte que acaba de acontecer amplia ainda a brcchll. a ocasião de renovar. para seu pai. pois coloca em causa a alma. fará que haja. pela Palavra-habitante. Jakaira. pai verdadeiro. entre os que ele provê de nádegas. os Tupã Rekoé. cantar e dançar em sua homcnog '111. para sua mãe. É porque. 11 alma-Palavra que retoma ao seu lugar de origem. quantos aos que. E vejam: quanto aos nomes que impomos. graças a todos. a Palavra. ela cres di. lanço sua maldição: entre elas. a futura mãe. Que seja então a vez de Tupã. grandeza de coraçã Sobre as coisas em sua totalidade que não são pouco numerosas. quando com efeito eles nomearem as crianças. Jakaira. a fim de rezar. Karai. os Tupã Aguyjei. Uma razão a mais. na morada celeste. Mas esta segue nlllo um caminho inverso. o cadáver. entre os que banha o fluxo de suas Belas Palavras. Karai. II esqueleto é exumado e fechado em uma caixa de madeira de c dm. inúmeros. o discurso que dirigem aos deuses. seu pai verdadeiro. em sua morada terrestre. Ela torna a subir para a morada de onde 11 11 um dia para habitar um corpo que agora acaba de deixar. pai' verdadeiro. nesse caso. Tupã. li Quando uma morte acontece em uma família guarani. não enviarei mais crianças.

em favor de todos aqueles que estão longe de meu olhar. Em favor dos pouco numerosos lares que o leito da lel"lI porta. . a propósito disso que é seu: a coisa grande estendida. farão que. o potente. pois profetiza o fim da terra nova. todos eles. o segundo hino de morte que o falecimento de um homem inspirou ao sacerdote do grupo repete o velho mito da volta à idade de ouro. faça reinar a potente chama.Bem! Eis-me aqui. envolverá em SUl:l. a potente bruma de seu bastão-insígnia." O tempo novo sucederá a destruição. que quero me impregnar. o que significa. O sentimento guarani de se estimarem os exclusivos eleitos dos deuses aparece clarélmente na certeza da reconquista do mundo que o sábio profetiza: depois do desmoronamento do espaço. que os brancos se converterão em corvos. Você. "Os outros habitantes da terra serão convertidos em Tupã". faça com que graças ao saber das coisas seja potente a chama. verdadeiro pai primeiro. eu. você os tomará em sua Palavra com vistas às normas futuras do valor do coração. os Jakaira Rekoé. faça com que sua Palavra atinja os pais verdadeiros dos seus filhos em sua totalidade. eles o proverão do bastão-insígnia. todos os seus filhos. pai verdadeiro. junto aos pouco numerosos lares. você. eis-me aqui. que graças a eles sobre essa terra Karai. seu pai primeiro. os Jakaira Grande Coração entoem hinos. Ele oferece um tom mais apocalíptico que o canto precedente. uníssonos. Eu. o pai primeiro. entre meus pouco numerosos companheiros. em favor deles todos. Que graças a eles seja grande meu coração. aqui. e ele é o tempo da eternidade divina: então a Palavra virá dar vida ao esqueleto. aqueles que estão à espera. que desejo grandeza do coração. e os mortos ressuscitarão. só haverá os adornados para habitar a terra. que fez. Faça com que produzam belamente aqueles que sabem. ~amandu. Palavra seus filhos de coração valoroso. pobre de mim. suplicando-lhe. Por isso você. No limite desta terra. em favor dos pouco numerosos adornados que ainda moram. Que graças a eles. os hinos para um coração valoroso. seja potente a bruma. inspire-os em grande número! Você. em favor dos pouco numerosos habitantes que habitam nosso país. "o desmoronamento do espaço. em favor dos pouco numerosos habitantes que habitam nosso país. todos. o Karai originário. meu pai primeiro 30! Faça que em um tempo não distante se faça ouvir a bela grandeza do coração.

você. de minha dança. à mo- "Os ossos do portador ~o bastão-insígnia parecem privados de graça. que os deuses acabam por reconhecer. excelente. o Pequeno 32! No coração de seu firmamento iluminado de raios silenciosos. as diferenças que pontuam a vicJlI dos guarani.II~IIW formulam exatamente o mesmo pedido: que os de CIma quelram (1I1111' aos adornados! Os acontecimentos. Ao fim de uma longa iniciação marcada por jejuns. são as causas ocasionais de uma repetição do mesmo apelo aos deuses. de qual saber das coisas. que um tal hino pode ser entoado tanto na oca privada onde mora o sábio quanto na grande oca coletiva onde se canta e dança em comum. . você. Sim. pai verdadeiro. "Parei que a Palavra reencontre "Então. o primeiro. diga-me de qual fonte. Apesar disso. os d?. :Ê por isso. Ensine-me. danças. rante ao "belo-saber" o texto de seu canto. tenso em um esforço sem medidas de meu hino. sua morada. você os banhará na doce luz de seus raios silenciosos. os outros habitantes Bem! Karai. da terra se- As circunstâncias que cercaram a produção eles" do 11 111 foram bem diferentes: a tristeza e a dor diante da morte ilIlPI'( H'"1111 o primeiro.Eis como nosso pai. seguramente. "Quando o espaço tiver se desmoronado. de qual fonte. enquanto que no segundo faz-se notar. Você fará isso até o tempo do desmoronamento do espaço. para você. apesar disso. houve algum dia. o pajé acede a um grau superior de sabedoria. meu desejo é conhecê-los. pronunciando os hinos. o primeiro foi feito por um pajé inspirado pela morte de um companheiro. Parecem deixados estendidos no abandono. Pois. eis-me novamente aqui. como faz notar· Cadogan. danço e danço ainda. O segundo é "propriedade pessoal" de um outro pajé. É assim. dirigiu-se aos pais verdadeiros da Palavra que habita seus filhos 31: "O coração da Palavra já se elevou. seguramente.S (. que pode prolongar-se por vários anos. Retomou rada daqueles que a haviam enviado. Apesar dlSS?. meu desejo de saber as coisas me esgota: danço. preces. que não existe em vão." se erguerão sobre a mo- Dos dois hinos a seguir. "Todavia. quando o novo tempo tiver surgido. Os belos sinais que você deixou. rão convertidos em Tupã. eis-me aqui. que a partir de então lhe pertence exclusivamente: é a prova de que a longa perseverança para se fazer ouvir pelos deuses conseguiu comovê-los. eis-me aqui: não é em segredo que novamente entôo os hinos. Não é àos seres doentes de vida imperfeita que é destinada a nostalgia dessas coisas. se ergue. E veja: "Em seu lugar. a confi~1I1~1I <1"' 11 deuses inspiraram naquele que recita. Eles manifestam esse reconhecimento comunicando ao aspi. farei que novamente a Palavra corra nos ossos do portador do bastão-insígnia. algum dia pronta proveniência de grandeza de coração. os adornados rada terrestre em sua totalidade.

erguido em meu esforço. fará que novamente sua Palavra atinja meu pai Karai. pai verdadeiro primeiro! Do fluxo de suas palavras você envolve os não-pouco numerosos pais futuros de seus filhos. sobre a terra. você os fez existir. que nada pode . E. pai verdadeiro. Namandu. aqueles que você proveu de um corpo destinado a portar o arco. vimos e vimos perturbá-lo: pois você fez que nos erguêssemos! Você. você existindo primeiro. fará correr o fluxo das palavras sobre os que quis portadores de arco. o primeiro existente. sobre a terra dos adornados também. pai verdadeiro. E apesar disso nós. semelhante ao esqueleto privado de toda graça. supremo. pai verdadeiro. não quero que para meus ossos exista um tal destino. aqueles que fez portadores de arco.reter. eis porque temos lembrança de sua bela morada inacessível. meu pai Karai. você primeiro a erguer-se. pai verdadeiro. por conseguinte. fez de suas palavras as normas futuras sobre a terra dos adornados. fez que se erguessem seus futuros filhos verdadeiros: os numerosos Namandu Grande Coração no divino espelho do saber.a propósito de grandeza do coração. pai verdadeiro primeiro! A propósito de tudo isso. Oh! Namandu. o Pequeno. Não quero que à semelhança do esqueleto deixado estendido. e Jakaira. eu não quero. pai verdadeiro primeiro! Também seus numerosos filhos de grande coração belamente farão mergulhar seu olhar até o topo da cabeça daqueles que. você quis portadores de arco! Oh! Namandu. eles reduzem-se em terra. pai verdadeiro primeiro! Você. você. Eis porque nós. Você seguramente. não pode ser perturbado por Iluda. Quanto aos meus ossos favorecidos. São eles que nos fazem falta. Namandu. e Tupã. Só você. fez de suas palavras as normas futuras deles. isso não quero. eu questiono. . que à semelhança do esqueleto do bastão-insígnia privado de toda graça. você. Eis-nos confiantes em você. o pai primeiro. o Pequeno. no coração de sua divindade já repousava sua Palavra. üh! Nosso pai primeiro 33! Antes mesmo de ter conhecido sua futura morada. Karai.

Não podemos também situá-los como textos J"1i giosos. com isso. três bastões-insígnil:ls '01'011 dos por plumas. Em frente fi 1111 oca erguia-se uma construção relativamente baixa. no coração da floresta. nem mito. em seu conjunto. Que aos excelentes ofereçam seus filhos palavras em abundância! Que entre a totalidade das coisas que sobre a terra se levantam pronunciem em abundância as palavras. estes são. fornece a inspiração pc" 111 do sábio a total liberdade de se exercer. Oh! Namandu pai verdadeiro! Os textos que se seguem pertencem. na oca miserável que ocupava com SlIIl família.E os abriga na totalidade de sua morada no alto. O homem de quem obtivemos esses textos é um mbya-guaranl. Existe como que uma espécie de abandono à magia do verbo. Isso não significa quc 1111 discurso diga qualquer coisa.um sábio-pajé conta os mitos da tribo. em geral. que seja o discurso de um louco. Soria. erguiam-se três estacas enfiadas na terra. Nós o encontramos em 1965. para a dir Çllll de aparição do sol nascente. seus numerosos filhos de grande coração! É para que isso aconteça que venho perturbá-lo. se lembram de você. Um homem . casa das donçll e das preces onde se reúnem os adornados para se dirigirem aOH d li ses. para os que. nunca tinha ouvido falar de nOl11U lnl!(.. é à luz da inqul . não sendo nem hino. que não v 111 exclusivamente do terreno da mitologia. a exaltação poética tomam contll dele. Compreendemos. fala dos mitos. suficientemente rígidos para tornar dil'r -li o trabalho criador da imaginação. é 110 território do mito em si que floresce tal discurso. Nosso informante afirmava não ter nenhum IHlIl1I além desse espanhol. Lugar sagrado do culto. Ao longo da parede de troncos de palmeira partidos ao 111 -lo. . ele fala a respeito dos mitos. Esse índio era unI sábio. ao tl11' chamamos campo metafísico. qll' toma totalmente conta do orador e o leva a esses picos onde habltu o que sabemos ser a palavra profética. tação religiosa que se esclarece. O discurso "metafísico". perto do rio Paraná. na meta-mitologia. ao COII trário. Para você se ergue nosso clamor. a inspiração. fala além dos mito. belamente. construída 01)1' um eixo leste-oeste e aberta "do lado de nosso rosto". dirigente espiritual reconhecido pelos seus. que se situam além do milo.

Atravessamos as águas porque as circunstâncias nos obrigam a fazer isso. exaltando-se ao dizer o que os guaraní possuem de mais precioso. lembrando-se dessas coisas. E iam atirando flecha atrás de flecha. No início.e ultrapassam . dizem. e às vezes mesmo contra nossa vontade. à luz do fogo. Parece-nos não ser difícil observar. meu caçula. Eis o grande mar que fizemos. em particular. aniquilando-o como homem. essencialmente o dos Gêmeos.de honorários convenientes. o corvo noturno de canto lúgubre que chora na floresta. Sol disse ao caçula: . minha irmã Urutau! Vamos levar nossa irmã para cima! Se ela quiser vir. . com uma simples leitura. indiscutivelmente é preciso que as atravessemos. e falava como se fosse um deus. "Quanto a ela. estão nosso pai. Quando a coluna de flechas atingiu a terra. que os elementos não-diretamente mitológicos escapam à análise estrutural e pedem um outro tipo de explicação. pois sempre aconteceu noturnamente. Foi dessa forma que pudemos coletar esses textos freqüentemente estranhos que na maior parte surpreenderam León Cadogan quando este os ouviu." É preciso atravessar as águas grandes. Lá em cima. meu ca lIla. Frio eterno. da subida dos irmãos ao céu através da coluna de flechas plantada umas sobre as outras e do aparecimento da irmã dos meninos. Queremos aqui oferecêlos somente à curiosidade e. já t 'lHOS t Ildll o que é preciso. caindo na armadilha que o liberava de toda restrição. Urutau. A gravação se deu ao longo de aproximadamente dez dias ou. que. Apurou os ouvidos para o que se passava sobre a terra. Se não quiser. caçula. todavia. Trata-se. vamos atirar para o alto! Vejamos se elas tornam a cair! Atirou uma flecha para o alto. Afastamos todos os elementos já presentes nas versões reproduzidas na segunda parte deste trabalho.como dissemos. faz a morada exclusiva da palavra divina. Esses textos de fato prolongam . que fique em nossa morada que abandonamos! Que permaneça também o urucu que se ergue junto a nossa morada abandonada. De que ainda precisaríamos 11 • l:t terra feia? Dancemos para ir lá em cima! Quando acabaram de dançar. o grande. Cantarão em nossa ausência. para reter só os temas novos. às vezes prisioneiro de si mesmo. dez noites. . tanto de um sábio que transmite seu saber e seus conselhos aos membros da tribo. as seqüências atribuíveis seja ao narrador de mitos. meu caçula! Ele lançou uma flecha para o alto. melhor dizendo. sussurrando no ouvido. Não esqueçamos isso. nosso informante esquecia. o nome religioso de seu filho. seja ao deus. Caçula perguntou: Que vamos fazer? Aproxime-se.Vamos atirar nossas flechas para o céu que vemos lá em cima. e faz sobressaltar o viajante. meu caçula! Aproxime-se. as narrações de mitos. Sobre a porta da morada deles você plantou sua flecha. Com efeito. mediante a promessa . nosso anfitrião concordou de bom grado com esse desejo. Esta coluna de flechas é o caminho que nos vai conduzir para cima. e nosso pai que sabe as coisas. Sim. que era um homem. seja ao guia espiritual. de tanto que se parece ouvir uma lamentação humana. no auge da graça.Atire mais uma vez. ele foi levado a nos confiar. enfim. Mas. à emoção do leitor. que fique! Que fique chorando sobre esta terra feia. talvez. no crepúsculo. tínhamos a intenção de coletar novas versões dos mitos guarani e. tanto se trata de um índio que conta um mito. as mulheres cantarão em nossa ausência. Poderemos constatar. Prestaram atenção: ela também não voltou. um menino com cerca de dez anos de idade: Ro'yju. Então. essas crianças que teremos abandonado. que ainda não figuram em nenhuma das versões conhecidas.gena! Por uma irreflexão de sua parte. em cada caso. mas não ouviu nada: a flecha não havia voltado. nós a levaremos. que o habita inteiramente. tanto do próprio deus. ( 111' 111 permaneça convertido em mar! Para comer.

para que possam comer aqueles que habitarão sobre a terra corrompida.Não fique com pena de que ela tenha ficado. seus pais. e que ela prospere para nós. . Vamos. meu caçula." . Depois partiram. Quando nos tiver perdido de vista. e sua mãe chorará. olhenos o máximo que puder ver no ar. vendo tudo isso. você é meu filho. e seu pai chorará. você vai voltar sobre esta terra. e você é meu filho.Não nos preocupemos. meu caçula! Eu vou ficar aqui. Essas coisas são quentes. se caírem os galhos. Ele é meu caçula e se chama Guyrapepo."Os que crescerão sobre esta terra feia." "Se tudo isso secar.Pai. Que fique aí! Não se preocupe. então nossas crianças conhecerão todos os nossos costumes originários. Eles são nossos animais domésticos." "Quando aquele que habita do lado de nosso rosto souber de tudo isso. meu caçula. estavam situadas juntas.Sente-se sobre esse tronco de árvore! De lá. Eis as grandes águas que criamos. Urutau chorava. efetivamente. que seja coberto por boldriés de plumas. e você nos abandonou sobre esta terra feia! "Você vai voltar para esta terra feia. Elas não são destinadas a secar. E eu sou o primogênito. Por nos ter abandonado sobre esta terra feia contra nossa vontade. O mais velho disse então: . e cantarão. Eles eram. Tudo isso são coisas que não podemos ne- . Deverá também possuir a flecha. Fomos nós que plantamos essas árvores. conhecerão todos os costumes originários. Vou ficar com meu pai Nanderuvusu: nós nos colocaremos à escutado que se passa sobre a terra corrompida. São coisas que não permitiremos que sequem. É preciso que seja ornado de uma coroa de plumas. Tudo isso é o que dispusemos. Que produzam frutos. Chegaram: -. então a partir disso se criará novamente a terra. Mas nós não devemos sentir o desejo de ser seus senhores.Não. Fomos nós que abrimos tudo isso: as raízes das árvores de onde brotam as águas. para expiar esse abandono. voando para o alto. Nós os faremos brincar novamente conosco. Asa de Pássaro. não fique irritado! É preciso que eu fique em minha morada originária! Pois sou Nanderuvusu. se lembrarão de nós. Não se lamente porque nossa irmã Urutau está em prantos. "Que essas grandes águas corram! Daí vão nascer os rios. não choremos. os que vão ficar para nos substituir. por que nos abandonou? Nós estávamos em uma situação penosa. meu caçula!" "Vamos prestar atenção ao movimento dos que enviamos. Também a propósito das árvores que caem e apodrecem. O que está situado nos arredores do sol é Navandu. no limite do sol. pronunciaram preces. meu caçula. meu filho. meu caçula!" "Essas árvores são o fruto de nossa semeadura. E eis os riachos que irão se unir a seus futuros senhores. dos que habitam sobre a terra corrompida. não chore! Em sua morada. e você também. pois estão situadas ao lado do sol. Que esta terra imperfeita continue assim. Ele é quem produz a bruma. Eles deverão criar seus filhos de modo que os tenhamos sempre sob os olhos.. Que leve tudo isso consigo em suas viagens pelos caminhos abandonados da terra." "Coloquemos as coisas em ordem. Sol dirige-se a sua irmã Urutau: . as crianças que tinham nascido juntas.

ain- da não atingimos a morada de Tupã. Tupã já não está distante. aqueles a quem chamamos Navandu." "Ele é o enviado do mestre do bastão-insígnia. Ele carregará o que encontrar. simplesmente. Dos que serão atravessados por sua flecha. nós não as aprovamos! Ê por isso que colocamos ordem nelas! Somente assim. meu caçula!" "E nós. para que haja chuva." "Eis porque devemos nos dispor em ordem. romperão todos os galhos das árvores secas. Nós dizemos que todos os cantos são bons.te. é impossível que sejam contadas. Ê por isso. meu caçula. Nós livraremos delas a terra onde brincam as crianças. aqueles que morrerem morrerão. meus filhos! "Vocês me escutam.gligenciar. que ele pegue água em sua peneira. Vamos feri-los! Os trovões se farão ouvir. mensageiros." "Nesta laguna que transborda. meu caçula. Esta terra corrompida. e isso será bom. que fiquem na escuta. Já não me sinto mais feliz aqui. meus filhos. E. os mensageiros. Mas nossa Palavra." "Que vão. nós não sabemos. Agora podemos ter o coração tranqüilo para andar nos caminhos desta terra corrompida. Vamos trovejar. Nós. Mas o canto de Navandu é quente." "Tudo isso." "Vão. se ela é aguda. se erguerão sobre esta terra feia. dançar." "O lugar em que poderemos nos distrair já não está distan. que vão limpar o que descobrirão em nosso futuro caminho. a fim de ir em paz adiante das coisas. que nos lembremos de tudo isso para nosso futuro. Então. todas essas coisas. a fim de que haja frescor para as crianças que nela brincam. meus filhos? Eu os estou aconselhando." "E." "Que Navandu continue a existir como nosso mensageiro futuro. Em seguida iremos espionar aqueles a quem permitimos brincar sobre a terra corrompida. para molhar esta terra corrompida. vamos ferir as coisas assustadoras. Nós a deixaremos cair em seguida sobre a terra feia. nós vamos abandoná-la." "E. e eles desaparecerão." "Atingiremos a morada de Tupã através do que chamamos dança. que não deve se apaixonar demais por ele. ele carregará com sua flecha. sim. Nos troncos das árvores secas encontram-se os senhores delas. Para espionar aqueles que permitimos brincar sobre a terra corrompida. nós . que não dispusemos essas coisas. possuímos a flecha eterna. nós a atingiremos." "Todas essas coisas feias. Nós possuímos o arco eterno. tiraremos todas as coisas perigosas. perseverando na dança. E ele continuará a limpar os caminhos para nós. sim. lá em cima. nós partiremos. Em sua grande peneira ele leva água. Os trovões tocarão as árvores secas." "Se a vista de nossos mensageiros alcança longe. abram um caminho para nós: pois vamos nos pôr em marcha. quanto às coisas que são saídas dos homens brancos. Que ele retire da terra imperfeita todas as coisas que podem ser nocivas às crianças. vocês." "Nosso mensageiro já está aqui. Ê preciso. refrescaremos a terra chamando um grande vento de muito longe." "Iremos com nossos trovões. quanto a este. é preciso primeiramente que se eleve a bruma. escutar. e aqueles que não morrerem não morrerão. é por isso que continuamos a errar sobre esta terra feia. vamos escutá-lo! Ele é o mestre da grande peneira. Sobre esta terra corrompida abandonaremos nossos corpos.

a levaremos para o firmamento. Estamos bem colocados para saber como esse exercício é perigoso quando se trata da língua guarani. E assim vemos que a etimologia corre o risco de ser. sy. analisar cada termo composto e. então as coisas irão mal. reconhecemos o jaguar. meu filho. Ela é constituída de tal forma. esse deus tenha um papel e preencha funções que não são as do :Namandu habitual. Uma regra da fonética guarani diz que. em guarani. qualquer pesquisa etimológica. a mãe. Podemos separá-lo em ysy. que a qualquer grupo mínimo formado seja de uma ou duas vogais. de fato: a mão da mãe d'água. A palavra :N avandu seria então composta pelo termo java e o sufixo ndu. Quanto a nossa Palavra. esta coisa que chamamos mar. e po. a partir do sentido de cada elemento. ou jagua). se usarmos todos esses belos ornamentos. aparentemente. a mão. então as coisas irão mal. Devemos possuir belos suportes para nossas luzes. São os suportes das tochas. seja de uma consoante e de uma vogal um sentido pode ser atribuído. cuja importância na mitologia guarani conhecemos. mas foi tomado por uma exaltação tão intensa. Para criar a terra imperfeita. :Navandu é uma versãó rara do nome do grande deus :Namandu. o principal dos Tupã deu instruções a seu filho: "Vá à terra imperfeita! Disponha os fundamentos futuros da terra imperfeita! Que a pindo eterna e a pindo azul nela sejam refrescantes! Se elas não nos forem favoráveis. ° No texto a seguir." "Lá onde temos necessidade de ir. de um erro tipográfico que teria substituído o m pelo v. De modo que se poderia. nosso informante queria contar a criação da nova terra. Sem dúvida. E podemos então delirar: a figura do jaguar. uma pesquisa estéril. a mão. Tomemos como exemplo um termo corrente: ysypo. mesmo que. uma longa explicação deveria acompanhar texto que acabamos de ler. Mas é justamente a facilidade do procedimento que torna incerta." "Instale um gancho sólido de planta chirca como futuro apoio da terra." ysypo (o cipó) significaria. descobrir o sentido original do termo em questão. esta coisa que criamos. a resina. Ora. Não se trata aqui. O sentido etimológico da palavra ysypo seria então: a mão de resina. em nosso texto. então seguramente não ficaremos mais que o necessário nesta terra imperfeita." "A pindo é a nervura de nosso corpo. Nesse caso. Tupã nos guiará. Dê um bom apoio à terra! Uma vez ." "Vejam! Os bastões que dispusemos estão aqui. Essa grande água. em java (ou jawa. nome genérico dos cipós. Mas. Vamos nos limitar então a formular uma hipótese de ordem etimológica. Reflitamos sobre o nome :Navandu. para não dizer ilusória. Poderíamos ver então no fila de :Navandu a transformação exigida pela nasalisação do ndu." "Tenham e respeitem esses ornamentos que nosso pai possuía! Se não nos servirmos de todas essas coisas. devemos levá-la para o firmamento. de forma alguma. que logo tornava-se um deus profetizando aos homens seu destino. Isto ultrapassaria em larga medida a finalidade que nos propusemos: apresentar uma antologia dos grandes textos guarani. isolando três elementos: y. a água. somente depois de atravessar esta água grande é que chegaremos na morada de nosso pai e de nossa mãe. quando uma palavra começando pelo fonema j é seguida de um fonema nasalisado. de um la inicial. E devemos também usar belos ornamentos. é preciso que a atravessemos. o j transforma-se em n. não poderemos prosperar nesta terra feia. Todavia vamos correr o risco e consideraremos o nome próprio que aparece várias vezes nesse texto: :Navandu. Mas podemos levar mais longe a análise. figura que se converte aqui em deus supremo. tal a riqueza de pensamento que congrega e bela a linguagem que enuncia. Se ela não nos for favorável. e po.

Se ela passar por cima de nós. plante uma guavira e uma guaropoity. o recolocará." . e isso não será bom. meu filho. para que nela frutifiquem.a única coisa que podemos fazer é abandonar esta terra. Se não as atingirem. isso não será bom. Os que chamamos de homens brancos não existirão mais. eu o avisarei. manipularemos a carne da lua. e partiremos todos. que ele a perfure entre as raízes de chirca.colocado o apoio. Então nada existirá. terão filhos. desse nos ocuparemos. Não haverá mais habitantes sobre a terra. nenhum Nosso Senhor." "A pequena cutia eterna é também nosso animal doméstico. Que ele repouse à sombra da guavira. nós o temos somente para que beba o sangue da lua. Que se forme a terra imperfeita. se isso não acontecer assim. elas são más. se cobrirem de trevas os lugares por onde passamos. meu filho. Quanto ao jaguar azul. pois nós. Quanto a eles. Se os efeitos da bruma tomarem-se nocivos. avisem-me e tirarei a bruma desta terr~ imperfeita. nós o sabemos. que se refresque nela." "Todas as coisas que são uma e que não desejávamos. Nós nos apoderaremos dela e a ofereceremos a Tupã. Farei que a bruma seja leve para a terra imperfeita. Tudo isso. . Que o pequeno porco selvagem faça crescer para nós a terra imperfeita. se colocar dois. E nenhum :&ande Jara. Quando ela atingir o tamanho que desejamos." "Ponha um bom gancho para a terra. Se ele assegurar para nós o crescimento da terra. Somente assim esses pequenos seres que enviamos sobre a terra se refrescarão e serão felizes. para sua futura alimentação. sobre essa terra. Se ela se tomar nociva. Quanto a nós. será porque :&amandu terá fumado em um cachimbo imperfeito. nós o temos para que ele beba o sangue da lua. jogam-nos para nós. ponha um pouco de terra por cima." "E. ela irá bem! Coloque somente um pouco de terra: e que daí se desdobre a terra imperfeita." "Veja! Temos o jaguar azul! Nós o temos a fim de que o sangue da lua não caia gota a gota sobre a terra imperfeita." . serão todos destruídos. pois a água já ameaça nos submergir. Permaneceremos transformados em senhores do tapir." "O que chamamos de bruma está pesado. Desse único que tiver colocado. Esses homens diferentes. Somente o granizo e os ventos poderão eliminar a bruma. aqueles que enviamos sobre a terra. Não use dois. Veja a água: que aí seja seu bebedouro. Somente quando eu me irritar com o gancho da terra não haverá mais terra. nós os faremos prosperar. se quiser que a terra queime novamente. poderão assim atingir as palavras que surgem de nós. quando não querem mais seus trapos. O que chamamos de bruma é o produto do que nosso pai verdadeiro fumou. Nós não vamos matá-lo. Precisamos de terra. temos necessidade de terra. tirarei o gancho. porque." "É "Que o pequeno porco selvagem perfure a terra." "Dessa maneira. pois eu também tenho o costume de cantar. A bruma exala-se sobre a terra imperfeita. pOIS jamais nos habituaremos a essas coisas. avisem-me. Somente assim poderemos reencontrar o camInho que devemos seguir. deixemos o pequeno porco selvagem consagrar-se a procurar a terra imperfeita. eu virei e a dissiparei. E. o pequeno porco selvagem que vai provocar a multiplicação da terra." "Eles encontrarão suas futuras esposas. a fim de que se desdobrem para nós as coisas imperfeitas. E. nós não poderemos tomar conta deles. isso não será bom." "Por conseguinte. devemos distraí-los. para que nela cantem. Vou ocupar-me disso. Saberei o que fazer. E. que vivemos no coração da floresta.

Se um desses saberes permanecer em seus ouvidos. os cantos que Tupã lhes inspirou. Que elas saibam manejá-los! Entoem bem." "Não se esqueçam de dançar!" Há muitas nações sobre a terra. As coisas dos homens brancos. de longe. Não podemos nos impedir de articular essa descrição de um canibalismo divino à antropofagia ritual dos antigos tupi-gua.. recida a Tupã. " "Eu vou para longe. Que suas irmãs os acompanhem com seus bastões de dança. nós não as suportamos sobre esta terra feia! Deixando de lado qualquer tentativa de análise. se não tiverem paciência. Quanto à alusão. e você cantará. como sabemos. vou para longe. lhes dou esses conselhos. " "Esta terra feia é uma coisa que Tupã fez. sem se enganar. manipulada e depois ofe. com efeito. Que continue a crescer o urucuru imperfeito! Que com este urucu as mulheres se enfeitem. seremos acompanhados de um grande vento. eles deverão entoar os cantos qUl: nós lhes ensinamos. E ficaremos na escuta. Esta terra feia já não é mais . meu filho. Nosso Senhor. e não com os ornamentos dos homens brancos! Pois devemos permanecer à parte. se a perseverança lhes faltar." "Eis porque é preciso ensinar aos nossos filhos o ti 11 . para podermos viver! Porque sem dúvida nossos filhos terão fome. rani. Tupã. então vocês conhecerão meus rastros. que. Talvez nos encontremos aqui diante do mito. Agora estou partindo para o alto. eles também os entOHrHO. a :N"ande Jara. Prestaremos atenção aos seu clamores. Vão querer comer todos os dias. E quando voltarmos para visitar a terra. vamos embora. nós nos limitaremos a atrair a atenção do leitor para a obscura referência.. o nome guarani de Cristo. semiperdido ou deformado. assim como vivemos sobre esta terra f ·íll. prestarei atenção." "Os cantos que entoamos. Eis aqui a casa grande onde todos poderão se divertir. vocês não me verão mais! Por conseguinte. para saber se eles cantam ou 11tH. Que subsistam as coisas que dispus! Eu. comiam seus prisioneiros de guerra." "Somente assim vocês atingirão o termo que lhes foi indicado. e à carne da lua."Eu. lambido pelo jaguar azul. que no fim o narrador faz ao sangue da lua. Se não coletarem esses cantos. não a suportamos mais. mais um lugar que possamos continuar a freqüvntar. Depois de ter nomeado todos os pássaros e todos os animais da floresta. que fala sobre a origem do canibalismo . Sol disse ao caçula: "Vamos construir nossa casa e plantar. Esta terra feia j{1 uno . Nós não viveremos muito tempo mais sobre esta terra feia. Coletemnos para suas irmãs: somente assim elas os saberão. Eis aqui o urucu. ausente de qualquer outro mito. meus nomes. Por isso serú preciso arrimar bem as casas. é necessário saber para viver. a ocasião de se lembrar de tudo isso. para que saibam viv'r m nossa ausência. Quando Tupã se erguer. ela traduz o combate da religião indígena contra a dos brancos: :N"andeJara é." "Você terá. então vocês não adquirirão a força. em sua audição. que deixamos para que suas irmãs se penteiem para nos agradar. não os percam!" suficientemente fresca para nós. Quanto a nós. Não se impacientem com elas! Continuem a dançar! Agitem seu chocalho de dança com força. se não tiverem paciência com seu próprio corpo. desprovida de qualquer equívoco.

É. Quanto àqueles que cantam. meu filho!" Mas a verdade pungente. A fidelidade tribal à religião tradicional impõe-se então com maior urgência à medida que a dos brancos se torna mais ameaçadora. para que permaneçam com tenacidade fiéis aos antigos valores. então as coisas serão difíceis. mestre das tormentas e do frescor. Canta mais que eu. tanto entre os tupi brasileiros a partir do fim do século XVI. pois sou aquele que examina todas as coisas. Sol. Ao tema constantemente evocado da presença do mal sobre a terra feia encontra-se associado o da existência de outra forma do mal: o mundo dos homens brancos. claro. não as deixe dispersar. palavras. Uma breve explicação se impõe. Essas palavras ~ue coloco para você. O Tupã nomeado aqui não é. a fim de que ela possa ter conhecimento de todas as coisas que coloco para você. Agora. "as coisas serão então difíceis!" A bruma com a qual poderia recobrÍr a terra é a mesma onde nascem. o informante fala como se fosse nosso próprio irmão mais velho." "Porque Tupã engloba tudo em seu olhar. as Belas Palavras. assume com vigor seu papel de líder e sábio: apelo destinado aos índios." "Mas. descobre a força invasora: "Tupã canta mais que eu!" Todavia uma ameaça fecha o discurso do deus: se ele recobrar sua força. conhecerá espontaneamente todas as coisas suscetíveis de lhe fazerem mal. é que "todos os seres que estimamos (subentende-se os índios guarani) já não são mais nada". essa figura maior do panteão guarani. vou falar agora com meu próprio saber. Tupã pai verdadeiro já não os conhece mais. Trata-se simplesmente do Deus cristão. é preciso lembrar que. não permita que se dispersem. para nomear em guarani o Deus que queriam ensinar aos índios. De modo que. humilhado. adotaram o nome do deus autóctone Tupã. pai verdadeiro. existem dois Tupã: o seu. se algum dia eu proceder com força. o apelo para que continuem à escuta de sua palavra: "Essas palavras que coloco para você. Ele renova. cantar." "Todos os seres que estimamos já não são mais nada. fica evidente. saiba-o! Essas minhas . faça com que habitem sua cabeça. deste último que Namandu. Porque eu coloco a bruma!" "Eu. humilho-me diante de· Tupã." "Eu. para os guarani contemporâneos. Tudo isso. Efetivamente. redentoras e guerreiras.Os dois curtos resumos que precederam pontuavam o conto do mito dos Gêmeos. quanto entre os guarani do século XVII. Tupã! Não sei. E isso provém da impotência de Namandu frente a Tupã. pintar-se com urucu etc. meu fllho! Que habitem sua cabeça. porque ele canta mais que eu. os missionários jesuítas. não faço mais nada. No segundo. não tenho mais poder contra Tupã. porque já não sei mais nada. entretanto." "Quanto a você. Por isso pronuncio essas palavras para você. às vezes. É isso que o deus Namandu constata amargamente no texto a seguir. No primeiro discurso. a dançar. e o dos brancos. como se poderia crer. I'l"amandu.

Também. E o mar maléfico. as das normas futuras de um coração valoroso. quanto a todos aqueles a quem você não proviu do jeguaka. você faz com que novamente se ergam os Jeguakava. a propósito daqueles que não são seus adornados. os adornados. o hino que. nem por seus filhos destinados à terra . as normas futuras de nosso fervor. por tudo isso. ele é assustadora. Pois.indestrutível. os Jeguakava de agora aprenderão com os de cima. Tudo é dito aí: o medo e o tremor dos adornados diante do silêncio dos deuses. Escutemos. Nada mais. o mar maléfico. E todavia você não pronuncia as palavras. você faz com que também eles se ergam em sua totalidade. E. Entretanto. existo de maneira imperfeita. E veja: a propósito dos adornados. entre a totalidade das COIsas. Karai Ru Ete: nem por mim. você não fez com que eu o atravessasse. necessidade de suas palavras: as das normas futuras da força. quanto a mim. é desprovida de qualquer excelência. você não as pronuncia mais. a fim de que minha carne de natureza imperfeita sacudam-se e joguem para longe sua imperfeição: de joelhos dobrados me inclino 34 para um coração valoroso. não é de forina nenhuma em vão que tenho.inspira valor ao meu coração. eu questiono. a propósito de todos. Meu pai! 1'ramandu! Você fez com que eu de novo me erguesse! Da mesma forma. minha carne é de natureza imperfeita. que continuam a ser os eleitos dos deuses. um sábio mbya entoou. Nada mais me faz sinal para as futuras normas de minha existência. Meu sangue é de natureza imperfeita. à terra eterna que nenhuma pequenez altera. você faz com que novamente eles também se ergam em sua totalidade. os adornados em sua totalidade. as das normas futuras do fervor. na aurora de um dia de junho de 1965. na verdade. a esperança e a certeza de que. quanto a tudo isso. as palavras. enfim. a fim de que meu sangue de natureza imperfeita. Você não pronuncia as palavras onde habitam as normas futuras de nossa força. Estando assim dispostas as coisas. assim como seus ancestrais. E os Jeguakava.

não. eis o que fui levado a dizer. As coisas estando assim dispostas. antigamente. A propósito deles. faço ouvir minha lamentação. é por isso que só existem em pequeno número. você fez que em verdade eles questionassem. Em conseqüência. é a sua alimentação que dirigem a atenção de seu olhar. E se. Você. todos eles. na verdade. que só existem em pequeno número. 11 I costumeira imperfeição. Karai Chy Ete. Karai Ru Ete. os destinados à terra indestrutível.Karai Ru Ete. Mas veja: eu me ergo em meu esforço. quanto aos que se erguem. e disso que a atenção de seu olhar se dirige para sua alimentação futura eles são então os que existem. e você. você inspira seu questionamento. todos aqueles. se o sangue se livra de sua costumeira imperfciçuo til antigamente: então. novamente pergunto: pois Namandu faz com que se ergam. mas de que meu sangue de natureza imperfeita. minhas irmãs. para aquele cuja face não é dividida por nenhum sinllllln. minha carne de natureza imperfeita se sacodem e jogam para longe de si sua imperfeição. isso não provém de todas as (. Você pronunciará em abundância as palavras. antigamente. à terra eterna que nenhuma pequenez altera. Você faz que tenham saída suas palavras.oisn. Vós! I . E seguramente eles as conheceram em sua perfeição. a propósito das normas futuras de sua própria existência. quanto a mim. em verdade. Oh! Você. à terra eterna que nenhuma pequenez altera. minha natureza se livra d' . você faz que deles todos se eleve uma grande lamentação.por isso. você não' pronuncia as palavras. todos eles. É Veja: a propósito dos poucos numerosos que existem. em sua totalidade. meus irmãos. e todavia você nãC?pronuncia as palavras. É por 11\ I isso que você pronunciará em abundância as PltlllVI as palavras de alma excelente. para todos os destinados à terra indestrutível. seguramente. Karai Chy Ete: aqueles que não eram pouco numerosos.

Les jrançais en Amérique pendant la deuxieme moitié du XV/e. espanhola de Juan Francisco Recalde. Paris.-André Julien. 46. Textos niíticos de los mbya-gual'ani deI Guaira. siêcle.o 5. introdução de C. Zeit. vol. como fundamento de la religion de los apapokuva-guarani. São Paulo. Antropologia n. Presses Universitaires de France.O 227. São Paulo (Brasil). Trad. pp. Leyenda de la Creacion Y juicio Final deI Mundo. [coleção Internationale de Documentation]. Curto "Die Sagen von der Erschaffung und Vernichtung der Welt aIs Grundlagen der Religion der apapocuva-guarani". 1944. León.. Boletim n. mimeografado. Ayvu Rapyta. 1914. André.Cadogan. Universidade de São Paulo. Nimuendaju. escolha de textos e notas feita por Suzanne Lussagnet. . Ethnol. 1953 [31 gravuras em madeira]. Le Brésil et les brésiliens. 1959. Faculdade de Filosofia. Thevet. 284-403. Ciências e Letras.

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