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MOREIRA, Antonio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da Silva. Currículo, Cultura e Sociedade. 10º edição.

São Paulo: Cortez. 2008. 154 p. Capítulo 1 SOCIOLOGIA E TEORIA CRÍTICA DO CURRÍCULO: UMA INTRODUÇÃO Antonio Flavio Barbosa Moreira e Tomaz Tadeu da Silva O currículo há muito tempo deixou de ser apenas uma área meramente técnica, voltada para questões relativas a procedimentos, técnicas, voltadas para questões relativas a procedimentos, técnicas, métodos. Já se pode falar agora questões sociológicas, políticas, epistemológicas. (trecho da p.07) O currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão desinteressada do conhecimento social. O currículo está implicado em relações de poder, o currículo transmite visões sócias e particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particulares. (trecho das p.07 a 08) I. EMERGÊNCIA E DESENVOLVIMENTO DA SOCIOLOGIA E DA TEORIA CRÍTICA DO CURRÍCULO

1. As origens do campo nos Estados Unidos Mesmo antes de se constituir em objeto de estudo de uma especialização do conhecimento pedagógico, o currículo sempre foi alvo da atenção de todos os que buscavam entender e organizar o processo educativo escolar. (trecho das p. 08 a09) 2. O contexto americano na virada do século A escola foi, então vista capaz de desempenhar papel de relevo no cumprimento de tais funções e facilitar a adaptação das novas gerações às transformações econômicas, sociais e culturais que ocorriam. Na escola considerou-se o currículo como o instrumento por excelência do controle social que se pretendia estabelecer. [...] Nesse mesmo momento, a preocupação com a educação vocacional fez-se notar, evidenciando o propósito de ajustar a escola às novas necessidades da economia. Viu-se como indispensável, em síntese, organizar o currículo e conferir-lhe características de ordem, racionalidade e eficiência. (trecho das p. 09 a 10) 3. As primeiras tendências Segundo Kliebard (1974), duas grandes tendências podem ser observadas nos primeiros estudos e propostas: uma voltada para a elaboração de um currículo que valorizasse os interesses do aluno e outra para a construção científica de um currículo que desenvolvesse os aspectos da personalidade adulta então considerados “desejáveis”. A primeira delas é representada pelos trabalhos de Dewey e Kilpatrick e a segunda pelo pensamento de Bobbit. A primeira contribuiu para o desenvolvimento do que no Brasil se chamou de escolanovismo e a segunda constituiu a semete do que aqui se denominou de tecnicismo. (trecho da p.11)

as teorias de reprodução. o grupo concebia reconceituação como esforço por desvelar a tensão entre a natureza e a cultura.12 a 13) [. diversos especialistas em currículo participaram de uma conferência na Universidade de Rochester. era enfatizar a redescoberta. currículo e poder. A emergência da NSE na Inglaterra A NSE constituiu-se na primeira corrente sociológica de fato voltada para o estudo do currículo.. (trecho das p. (trecho da p. a nova Sociologia da Educação inglesa. UMA VISÃO SINTÉTICA DOS TEMAS CENTRAIS ANÁLISE CRÍTICA E SOCIOLÓGICA DO CURRICULO DA A Teoria Curricular não pode mais. (trecho da p. a investigação e o pensamento indutivo do estudo de conteúdos que correspondiam às estruturas das diferentes disciplinas curriculares. 14 a 15) Dentre os reconceitualistas. assim com as partes da natureza que não eram necessariamente obstáculo à ação humana.. a fenomenologia. a intenção central era identificar e ajudar a eliminar os aspectos que contribuíam para restringir a liberdade dos indivíduos e dos diversos grupos sociais (Pinar & Grumet). se preocupar apenas com a organização do conhecimento escolar..] Bem como reduzidos números de artigos de Young tenham sido traduzidos e publicados entre nós. [.. buscando-se formas de desenvolver seu potencial libertador. a teoria crítica da Escola de Frankfurt. A emergência de uma nova tendência Em 1973. dando início a uma série de tentativas de reconceituação do campo.. (trecho da p. desfazer. a psicanálise. portanto.Alguns autores. [. 19 a 20) II. [. (trecho das p. currículo e ideologia. 1990). mas sim produtos do que os homens fizeram e que poderiam. [. foi considerável a influência da NSE no desenvolvimento inicial e nos rumos posteriores da Sociologia do Currículo. subjacente aos esforços. 14) 5. currículo e cultura.. (trecho das p. procuraram superar os problemas encontrados em ambas e incorporar suas contribuições em sínteses integradoras. foram os autores associados à orientação neomarxista os percussores. nos Estados Unidos.] Tanto os primeiros textos da NSE como seus desdobramentos permanecem até hoje insuficientemente divulgados no Brasil (Silva..] Enfatizando que a compreensão da natureza é mediatizada pela cultura..] O neomarxismo.. por descobrir as partes da cultura não guiadas pelas leis da natureza. No caso específico do currículo.] Identificam-se e valorizam-se.. nem sempre bem-sucedidas. O desenvolvimento posterior A intenção mais ampla. 16) 6. por outro lado as contradições e as resistências presentes no processo.12) 4. depois disso. nem pode encarar de modo ingênuo e não- . voltada para o exame das relações entre currículo e estrutura social. o interacionismo simbólico e a etnometodologia começaram a servir de referencial a diversos teóricos preocupados com questões curriculares. do que se convencionou chamar de Sociologia do Currículo. como Harold Rugg e Ralph Tyler. currículo e controle social etc.

por isso.] Nesse entendimento. (trecho da p.problemático o conhecimento recebido. [. cultura e currículo constituem num par inseparável já na teoria educacional tradicional.] Assim. o núcleo que primeiro deva ser atacado em uma estratégia de desconstrução da organização curricular existente. a cultura é vista menos com uma coisa e mais como um campo e terreno de luta. (trecho da p. (trecho da p.] O currículo é uma área contestada. talvez.] Na tradição crítica. homogênea e universalmente aceita e praticada e. [trecho da p. de certa forma. unitária. [trecho das p. Outros temas e questões: os antigos e os emergentes A história do currículo tem sido importante na tarefa de questionar a presente ordem em um de seus pontos centrais: a disciplinaridade. [.29] Reconhecer que o currículo está atravessado por relações de poder não significa ter identificado essas relações.26) A teorização crítica.. o que significa que são tanto campos de produção ativa de cultura quanto campos contestados. nem ela existe de forma unitária e homogênea. etnia. Grande parte da tarefa da análise educacional crítica consiste precisamente em efetuar essa identificação.] Isso transforma a tarefa da teorização do curricular crítica em um esforço contínuo de identificação e análise das relações de poder envolvidas na educação e no currículo. Em vez disso. o currículo não é o veículo de algo a ser transmitido e passivamente absorvido.26) Obviamente. [. Em vez disso ... [. Currículo e poder Na visão crítica o poder se manifesta através das linhas divisórias que separam os diferentes grupos sociais em termos de classe.] Essa disciplinaridade constitui. gênero etc. (trecho da p. [. Na concepção crítica.27) Essa perspectiva da cultura como um campo contestado tem implicações importantes para a teoria curricular crítica..... a cultura não é vista como um conjunto inerte e estático de valores e conhecimentos a serem transmitidos de forma não-problemática a uma nova geração... continua essa tradição. Essas divisões constituem tanto a origem quanto o resultado de relações de poder.] Dessa forma o currículo é expressão das relações sociais de poder. a idéia de cultura é inseparável da de grupos e classes sociais. nessa perspectiva... a visão tradicional da relação entre cultura e educação/currículo não vê o campo cultural como um terreno contestado. [trecho da p. mas o terreno em que ativamente se criará e produzirá cultura. (trecho da p. não existe uma cultura da sociedade.29 a 30] 4. é uma arena política..28) 3. digna de ser transmitida às futuras gerações através do currículo.21) 2.. [. A educação e currículo são vistos como profundamente envolvidos com o processo cultural. 32] . Currículo e Cultura Se ideologia e currículo não podem ser vistos separados na teorização educacional crítica. o currículo e a educação estão profundamente envolvidos em uma política cultural.. [.

]. [trecho da p. o clamor pela censura e as controvérsias acerca dos valores que estão e que não estão sendo ensinados.. [trecho da p. A Teoria Crítica do Currículo é um movimento de constante problematização e questionamento.. [trecho da p. nem tampouco pode rejeita-lo em nome de um certo humanismo anti-tecnicista. acabaram por transformar o currículo em uma espécie de bola de futebol política.. [.. Nesse processo. sobretudo aqueles com interesse específico no que acontece dentro das salas de aula. São intrinsecamente éticas e políticas. Tal abordagem deveria revelar como a educação estava vinculada de maneiras significativas à reprodução das relações sociais vigentes. As teorias diretrizes e práticas envolvidas na educação não são técnicas. Esta é uma história que evidentemente ainda não terminou. é um processo contínuo de análise e reformulação.. talvez esteja apenas começando. é importante compreende-lo e encontrar formas de utiliza-lo de uma forma que seja compatível com nossos objetivos de democracia. Meu objetivo era sintetizar. da qual a Sociologia do Currículo é um importante elemento. [. desejava usar determinada abordagem conceitual. [trecho das p.] Finalmente..] Enquanto não levarmos a sério a intensidade do envolvimento da educação com o mundo real das alternantes e desiguais relações de poder..] A teoria educacional crítica não pode ficar indiferente a esse processo.. [. È isso que constitui sua vitalidade e seu potencial. Em vez disso. estaremos vivendo em um mundo divorciado da realidade. novas questões e temas vêm-se incorporar àqueles que. 44 a 45] Capitulo 3 A POLÍTICA DO CONHECIMENTO OFICIAL: FAZ SENTIDO A IDÉIA DE UM CURRICULO NACIONAL? Michael W. Na verdade. [trecho da p. desde o seu início.] As novas tecnologias e a informática ilustram as profundas transformações que se estão dando na esfera da produção do conhecimento técnico/administrativo .40] [.35] Capítulo 2 REPENSANDO IDEOLOGIA E CURRÍCULO* [... empírica e política para a realização dessa tarefa. reformular e ampliar investigações acerca do papel social de nossas teorias e práticas educacionais amplamente aceitas.. igualdade e justiça social.. examinassem criticamente as suas próprias idéias acerca dos efeitos da educação.] Em segundo lugar..] Em primeiro lugar. a teorização crítica sobre currículo..] Fica bastante claro ao se notar que os ataques da direita às escolas. queria que os educadores. mas também o oculto – que dominava a sala de aula [. ..41] [. transformações que têm implicações tanto para o “conteúdo” do conhecimento quanto para sua forma de transmissão..33] Como se vê. senti que era necessário transportar-me para dentro da escola e escrutinar rigorosamente o verdadeiro currículo – não só o explícito. estiveram no centro de sua preocupação. Apple * A obra Ideologia e Currículo foi publicada no Brasil em 1982 pela editora Brasiliense.[.

conflitos e concessões culturais.INTRODUÇÃO A educação está intimamente ligada à política da cultura. que de algum modo aparece nos textos e nas salas de aula de uma nação. [trecho da p. da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento legítimo. É produto das tensões. O currículo nunca é apenas um conjunto neutro de conhecimentos. Ele é sempre parte de uma tradição seletiva. resultado da seleção de alguém. políticas e econômicas que organizam e desorganizam um povo. 59] .