483NOEL ROSA: UMA BIOGRAFIA JOÃO MÁXIMO e CARLOS DIDIER EDITORA UNB FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Reitor: Antônio

Ibanez Ruiz Vice-Reitor: Eduardo Flávio Oliveira Queiroz EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Conselho Editorial: Antônio Agenor Briquet de Lemos (Presidente) Cristovam Buarque Elliot Watanabe Kitajima Emanuel Araújo Everardo de Almeida Maciel José de Lima Acioli Luiz Humberto Miranda Martins Pereira Odilon Pereira da Silva Roberto Boccacio Piscitelli Ronaldes de Melo e Souza Vanize de Oliveira Macedo Copyright (ç) 1990 byjoão Máximo e Carlos Didier Direitos adquiridos para esta edição pela Editora Universidade de Brasília Caixa Postal 15-3001 70910 Brasília, DF Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorização escrita do editor Supervisão Editorial: Regina Coeli Andrade Marques Preparação de Original: Antônio Carlos Ayres Maranháo Fátima Refane de Meneses José Raimundo Reis da Silva Maria Helena de Aragão Miranda Wilma Gonçalves Rosas Saltarelli Revisão e índice: Fátima Rejane de Meneses Wilma Gonçalves Rosas Saltarelli Projeto Gráfico, Capa, Diagramação e Arte-final: Resa, Nanche Las-Casas Supervisão Gráfica: Antônio Baptista Filho, Elmano Rodrigues Pinheiro ISBN 85-230-0254-5 Ficha catolográfíca elaborada pela Biblioteca Central da Universidade de Brasília Máximo, João R788t Noel Rosa: uma biografia/João Máximo e Carlos Didier. - Brasília: Editora Universidade de Brasília: Linha Gráfica Editora, 1990. 533p.il. 78.071.1(81) R788m Didier, Carlos, colab. 784.4(81) vi

Noel fardado (Coleção Heloísa Marsilac.) Para Elca e Adriana L

A Henrique Foréis Domingues (Almirante), a quem tanto se deve a posteridade de Noel Rosa, e a Jacy Pacheco, primo e primeiro biógrafo, tão desprendido e generoso quando se trata de revisitar Noel. A Eduardo Corrêa de Azevedo, o tio Eduardo, que com tanto zelo e orgulho documentou e guardou memórias do chalé e das pessoas que nele viveram, e também a Aldílio Tostes Malta, Eduardo Nelson Corrêa de Azevedo e Nair Goya-no Mathias, parentes próximos e distantes. A Alceu de Miranda, almirante Antônio Fernandes Lopes, César Dacorso Netto, Heitor Lino de Moraes, Hélio Lobo, Hélio Raynsford, Herme-negildo de Barros Filho, Jocelyn Pereira da Silva, Dr. Lauro de Abreu Coutinho, brigadeiro Lucílio Urrutigaray, Marcello. Menezes, Manuel Jansen Muller, general Moacyr Mattos de Oliveira e Pedro Pereira da Rocha, que conviveram com o poeta além dos muros do São Bento. Ao almirante Adalberto de Barros Nunes, Affonso Guimarães (Affonsinho), Angelina do Carmo, Anselmo Seixas, almirante Antônio de Barros Nunes (Cacao), Arnaldo Araújo, Dr. Carlos Sant'Anna, Carmem Reis, Heloísa Brandão de Marsillac, Jocelyn Corrêa da Encarnação, José Fernandes Xavier Neto, José Maria Arantes, José Souza Pinto (Alegria), Maria do Carmo Coelho da Costa, Nilda da Graça Mello Miranda, Ray-mundo Paesler, general Sylvestre Travassos, Theodorica Fontes dos Santos Lima (Dorica) e Zaluar Moura, membros da grande família que foi um dia a Vila de Noel. A Angenor de Oliveira (Cartola), Antônio Cardoso Martins (Russo do Pandeiro), Antônio (Gabriel) Nássara, Armando de Lima Reis (Chris-tovam de Alencar), Carlos Alberto Ferreira Braga (João de Barro), Glauco Vianna, Ismael Silva, Manuel do Espírito Santo (Zé Pretinho), Manuel Ferreira, Renato Murce e Sílvio (Narciso do Figueiredo) Caldas, parceiros que ficaram para ajudar a contar a história. A Aracy de Almeida e Marília (Monteiro de Barros) Baptista, as grandes intérpretes, linhas paralelas se encontrando no infinito de Noel. A Alberto de Castro Simões da Silva (Bororó), Alcir Pires Vermelho, Antônio Almeida, Armênio Mesquita Veiga (Augusto Mesquita), Bu-cy Moreira, Cícero Nunes. Cyro de Souza, De-móstnenes González, Djalma (Neves) Ferreira, Elizeth (Moreira) Cardoso, Erasmo Silva, Este-van Sciangula Mangione, Farnésio Dutra e Silva (Dick Farney), Floriano (da Costa) Belham, Homero Dornelías (Candoca da Anunciação) João Freitas Ferreira (Jonjoca), Joel de Almeida, Linda Rodrigues, Luciano Perrone, Mário (da Silveira) Reis, Milton Amaral, (Antônio) Moreira da Silva, Murillo (de Figueiredo) Caldas, Newton (Carlos) Teixeira, Odette Amaral, Pandiá Pires, Paulo Tapajós (Gomes), Pedro Caetano, Radamés Gnattali, Raul Marques, Roberto Martins, Rubens Soares, Yolanda Rhodes (Yola) e Zilda de Carvalho Espíndola (Aracy Cortes), personagens da música popular, que viram, ouviram, viveram e passaram adiante. A Alberto Abrantes Martins, Aloísio Dias, Carlos Moreira de Castro (Carlos Cachaça), Creuza dos Santos, Eusébia Silva do Nascimento (Zica), Fernando Pimenta, José Bispo Clementino dos Santos (Jamelão) e Neuma Gonçalves da Silva, gente boa da Mangueira, de depoimentos tão entusiasmados quanto esclarecedores.

Aos Drs. Carlos Henrique Fernandes, Herculano Mesquita de Siqueira e Nicandro Bittencourt, raras testemunhas da meteórica passagem de Noel Rosa pela Faculdade de Medicina. A Nelson (Vittorio Emanuel) Pilo, Paulo Lessa, Roberto Ceschiatti e Rômulo Paes, boêmios das velhas noites de Belo Horizonte. A Ademar Casé, Arthur Costa Filho, Emma DÁvila, Fernando Pereira, Henriqueta Brieba, Jorge Murad e Sebastião Bernardes de Souza Prata (Grande Othelo), nomes do radio e do teatro, daqueles e destes tempos. A Ary Vasconcelos, Humberto de Moraes Franceschi, Jairo Severiano e Miécio Caffé, cujas coleções, somadas, tornaram possível o acesso dos autores a todas as gravações originais da obra de Noel Rosa. À João Ferreira Gomes (JotaEtegê) ejosé Ramos Tinhorão, pesquisadores, historiadores, separados no tempo mas unidos pela mesma paixão, cujos conhecimentos sempre fizeram questão de repartir. A Clara Cinelli (nascida Corrêa Neto), Jose-fina Telles Nunes (nascida Félix, a Fina), Juracy Corrêa de Moraes (Ceei) e Lindaura de Medeiros Rosa (nascida Martins), musas todas, que concordaram em viajar de volta ao passado para longos reencontros com o seu poeta. Aos funcionários do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, do Instituto Nacional de Artes Cênicas, da Secretaria Geral da Divisão de Educação e Ensino da Diretoria do Colégio Pedro II, do "arquivo morto" do mesmo estabelecimento, do Ginásio de São Bento, da seção de arquivo da Santa Casa da Misericórdia, da Embra-filme, do Arquivo Público Mineiro, da Companhia Nestlé do Brasil, do Convento de Nossa Senhora da Ajuda, da Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, da Igreja de São Francisco Xavier do Engenho Velho, do Arquivo Sonoro da Rádio Jornal do Brasil, das gravadoras Odeon, RCA Victor, Polygram e Collector's. A Adília Bittencourt (viúva de Jacob do Bandolim), Alfredo Herculano, Antoninho de Paula, Antônio Carlos SantAnna (Perna), Bruno Ferreira Gomes, Bruno Liberati, Cláudio Marcelo Arreguy Corrêa, Daicy Portugal Cordovil (viúva de Hervê), Francisco Duarte, Geraldo Pinto Pen-na, Herberto Salles, Ilka Domingues (viúva de Almirante), general João Baptista Figueiredo, Jonas Vieira, Jorge Martins, Jorge NatalPinheiro da Costa, Jorge Thibaud, José Lino Grunewald, José Mariani, José Silas Xavier, Lanfranco Vaselli (Lan), dom Lourenço de Almeida Prado, Luís Carlos Saroldi, Luís Fernando Barciela Vieira, Moacyr Andrade, Ruy Castro, Simon Khouri, Tárik de Souza, Victor Henrique Woitschach (Ique) e Zózimo Barroso do Amaral, pequenas e grandes ajudas, empurrões vários, incentivos, bênçãos. A Almir Veiga, o fotógrafo, e a Édio Xavier Piais, o dos retoques mágicos. A Sérgio Cabral, que apresentou os autores um ao outro, e que desde o início acreditou neste livro. E, últimos mas não menos importantes, os rapazes do conjunto Coisas Nossas: Beto, Bolão, Dazinho, Henrique, Luíta e Zé Carlos.

A todos enfim - os que puderam esperar e os que já viraram saudade - a gratidão dos autores. x SUMÁRIO DUAS PALAVRAS .. 3 PARTE I Capítulo PARTE II 1834-1910 1 Na cauda de um cometa .. 9

1910-1928

Capítulo 2 Crescendo com bossa .. 25 3 Pelas ruas do bairro .. 37 4 Entre a cruz e o violão .. 47 5 O que se aprende no colégio .. 55 6 O encanto da música .. 65 7 A morte de perto .. 73 8 Adeus ao mosteiro .. 81 PARTE III 1929-1934 Capítulo 9 Àluz das estrelas .. 93 10 Um bando de pássaros .. 101 11 Nasce o compositor .. 107 12 Um tangará abraça o samba .. 115 13 Do faz vergonha à malandragem .. 125 14 Nem rei, nem general .. 135 15 Modéstia a parte, meus senhores .. 143 16 Conquistando a cidade .. 155 17 O Miguel Couto do samba .. 165 18 Riso de criança .. 177 19 O rei da voz e o doutor em samba .. 187 20 Subindo o morro .. 195 21 Um certo Ismael .. 209 22 Rumo ao sul .. 217 23 Onde estão os madrigais? .. 227 24 Do chá das quintas ao café no Nice .. 241 25 Prazer em conhecê-lo... 249 26 Em boa companhia... 257 27 Noturnas e vespertinas.. 269 28 Casa, não casa... 277 29 Valentes e amigos (mas nem sempre)... 287 30 Rumo ao norte.. 297 31 Numa festa de São João.. 309 32 Um parceiro e duas intérpretes.. 319 33 Humor de primavera.. 329 34 Perturbação dos sentidos.. 337 PARTE IV Janeiro-Abril de 1935 Capítulo 35 PARTE Entreato mineiro... 347

V Abril de 1935-Maio de 1937

Capítulo 36 Ilustre visita, trágico regresso.. 363 37 Operetas e conversas de esquina.. 373

38 39 40 41 42 43 44 45

Começo e recomeço.. 391 Fita de cinema .. 401 Noel versus Noel .. 409 No picadeiro da vida .. 417 O dom de saber iludir .. 429 Um gosto de despedida .. 439 A arte do sofrimento .. 447 Ofim .. 459

PARTE VI Maio de 1937 Capítulo 46 Posteridade .. 475 OBRA .. 495 MUSICOGRAFIA/DISCOGRAFIA .. 497 TEATRO .. 517 CINEMA/TELEVISÃO .. 519 BIBLIOGRAFIA.. 521

Tudo que este livro pretende ser está resumido em seu título: uma biografia de Noel Rosa, poeta e compositor popular brasileiro. Portanto, não espere o leitor encontrar nestas páginas uma tese das tão em moda em nossa bibliografia recente. Não se falará aqui do 'discurso noelino', nem se tentará uma dessas teses acadêmicas que costumam fazer da música popular algo menos simples do que realmente é. Os autores, desde o primeiro instante dos mais de sete anos consumidos neste trabalho, optaram por contar uma história, tão detalhada quanto possível, de Noel Rosa, sua época, sua cidade, sua gente, sua obra. Uma narrativa linear, cronológica, jornalística, sem outras ambições literárias. Com as liberdades permitidas a todo biógrafo (transcrição de diálogos a partir do que lhes foi contado, uma ou outra especulação, este ou aquele 'deve ter sido' em lugar do que 'não se sabe como foi'), mas de modo algum uma biografia romanceada. Amigos que tiveram acesso aos originais - e cuja opinião os autores prezam - fizeram ponderações a respeito do primeiro capítulo. Não se teria dedicado tempo e espaço demais à pré-história de Noel Rosa, seus pais, avós e bisavós? Não poderia o leitor estancar diante deste longo preâmbulo e, impaciente, virar as costas aos outros 45 capítulos? Os autores preferiram correr o risco e deixar o primeiro tal qual está. Convenceu-os uma esperança: a de que o eventual leitor deste livro não seja de virar as costas ao que quer que diga respeito a Noel Rosa. Nem mesmo às suíças de vovô Eduardo. João Máximo e Carlos Didier NA CAUDA DE UM COMETA Capítulo 1 A estrela d'alva no céu desponta E a Lua anda tonta com tamanho esplendor Linda Pequena

eduardo Corrêa de Azevedo teria gostado de estar aqui, neste chalé modesto, pronto para saudar a qualquer momento a chegada do primeiro neto. Na certa releria várias vezes os versos acabados de fazer para a ocasião. Depois, se fosse mesmo um menino, é provável que agisse exatamente como no dia em que nasceu Eduardinho, seu único filho: penduraria um lenço branco no portão e, aos curiosos, diria: "É macho!" Ou talvez se limitasse a celebrar o acontecimento com um brinde em família, seguido de votos de que o neto se tornasse médico e poeta. Como ele próprio. Mais do que nunca se lamenta que Eduardo Corrêa de Azevedo já não esteja aqui. Era um homem raro, especial. Desses que, ao partirem, deixam lembranças tão vivas que às vezes parece que não se foram de verdade. Dedicado marido, pai exemplar. Bom médico, bom poeta, capaz de sonetos como "Cuidado, Menina!", por ele mesmo declamado no dia do sexto aniversário de uma das filhas, justamente a que lhe daria agora o primeiro neto: Pois quê?! Mais um ano? Isso não tem graça! Pois então não bastavam tantos... (cinco) Que tinhas? E cuidas, talvez, que é brinco A rapidez com que a vida passa? Se anos fazendo vais com tal afinco A velhice, que já por perto esvoaça, É capaz de fazer-te uma pirraça Abrindo-te na face um feio vinco. Fica-te quieta! Volta aos teus folguedos E não repitas mais esses brinquedos; Jà te fizeste velha o quanto basta. Não troques os teus sonhos cor-de-rosa Por esta neve densa e pavorosa Que à voragem da morte nos arrasta. Ou de pensamentos em versos como este, em que reescreve a lição da Igreja sobre não cobiçar a mulher do próximo: Só se entende este nono mandamento Com o sexo masculino. Pode as asas abrir, então, sedento, O desejo feminino. Médico, poeta e jornalista. Dono de um humor fino e irônico, tempero de certos perfis que andou publicando na imprensa de anos atrás. Como o de Affonso Penna Sobrinho: "Baixo, magro, tipo miudinho de galã de sala. Chegou há pouco diplomado (...) e foi ocupar a promotoria. Além de outros méritos próprios, tem a grande felicidade de ser sobrinho do senhor seu tio, gozando das vantagens inerentes de um nome Feito. Ele era capaz de o fazer por si (...) mas, por caiporismo, veio tarde e achou a cama já pronta. Como promotor, mesmo acusando tem'pena', o que atesta generosidade de coração." Um apaixonado pela música, escreveu várias peças poéticas para serem recitadas ao som de viola. Uma delas dedicada a uma prima indiferente:

Tudo isso, eu juro, fizera Por egoísmo, somente, Pois vivera eternamente A teu lado, oh! prima Vera. Mas Eduardo Corrêa de Azevedo já não está aqui. Morreu há um ano e meio, antes de completar seus 53, deixando nos moradores do chalé um enorme vazio, muito sentido em dias como o de hoje. É sábado, 10 de dezembro. Desde a madrugada respira-se desassossego nas ruas do centro do Rio. A cidade parece estremecer. Ouvem-se ao longe tiros de canháo e estrondos de prédios que tombam atingidos por bombas e granadas. Famílias inteiras saem em pânico de suas casas. Correm para bondes, automóveis, trens. Fogem do fogo e da destruição, procurando um porto seguro em alguma parte. Se os moradores do chalé fossem supersticiosos - ou de acreditar que certos fenômenos cósmicos significam maus pressagios - talvez pensassem, como tantos, que o fim do mundo começou. Explica-se-, desde os primeiros dias deste 1910, quando os jornais se puseram a falar da passagem da Terra pela cauda do cometa de Halley, há quem afirme que o mundo realmente agoniza. Profetas, visionários, lunáticos, crentes. Cometas e outros corpos celestes passam ligeiros, deixando em seu rastro um punhado de superstições. Está sendo assim agora com o Halley e há de ser assim daqui a alguns anos com o Hermes. Por mais que os astrônomos garantam que tais fenômenos são inofensivos, muitos acreditam no contrário, que os cometas sejam prenuncio de grandes catástrofes. Conta-se que até mesmo um homem culto como Ruy Barbosa responsabilizou o Halley por sua recente derrota para o marechal Hermes nas eleições presidenciais. E por que não? Se por causa deste cometa houve quem se matasse na Europa, enlouquecesse nos Estados Unidos, se refugiasse em mosteiros por toda parte, para ali aguardar entre preces a hora final, por que não haveria Ruy de ver na cauda do Halley uma ave agourenta a riscar o céu no exato momento em que pretendia mudar-se para o Catete? Marinheiros em revolta Por duas vezes os marinheiros fizeram estremecer o Rio de Janeiro em 1910, num sombrio capítulo de história que ficaria conhecido como Revolta da Chibata. Uma, a 22 de novembro, sete dias após ser empossado na Presidência da República o marechal Hermes Rodrigues da Fonseca. A segunda, na noite de 9 para 10 de dezembro, na véspera de vir ao mundo o primeiro neto de Eduardo Corrêa de Azevedo. João Cândido, filho de tropeiro gaúcho que lutara na Guerra do Paraguai, negrinho do pastoreio em menino, praça-de-pré aos 30 anos, servia a bordo do encouraçado Minas Gerais quando liderou os companheiros deste e de mais três navios (o Bahia, o São Paulo e o Deodoro) no levante para que se abolissem os castigos corporais e outros maus-tratos aos marinheiros. O ponto de partida foram as 250 chibatadas aplicadas no fuzileiro Marcelino Rodrigues de Menezes, no convés do navio, diante

da tropa perfilada e de tambores rufando solenemente:"... as costas deste marinheiro - diria depois o comandante da Marinha José Carlos de Carvalho, mandado ao Minas Gerais para parlamentar com os revoltosos - assemelham-se a uma tainha lanhada para ser salgada." Um disparo de canháo, naquela noite de 22, deflagrava o levante e estremecia a cidade. A Marinha de então ainda levava a extremos sua tradição elitista, escravagista quase. Recrutava soldados à força entre as populações pobres, impunha-lhes um tempo de serviço de quinze anos, pagava-lhes baixos soldos, obrigava-os a trabalhos pesados, alimentava-os de má comida. Tudo sob um regime disciplinar controlado por certa Companhia Correcional que, apoiada em decretolei dos tempos de Deodoro, ainda adotava prisão em solitária, a ferro, pão e água, e castigos físicos que incluíam bolos e chibatadas. Foi principalmente contra estas últimas que se insurgiram João Cândido e seus companheiros. Oficiais e marinheiros foram mortos nas Sn. Seja como for, o mundo não está mesmo acabando. O que se passa no Rio de Janeiro, desde as primeiras horas da madrugada, tombando prédios, produzindo nuvens de fumaça, roubando vidas, é mais uma rebelião de marinheiros contra oficiais que os tratam a golpes de chibata. primeiras ações a bordo dos quatro navios. Uma bomba com que os revoltosos pretendiam atingir o Arsenal de Marinha foi cair, por erro de cálculo, numa casa de cômodos da Rua da Misericórdia. Duas crianças morreram. Outras bombas fizeram estragos e vítimas no Centro. Por quatro dias João Cândido comandou a pequena frota e 2 mil 379 homens, passando a ser chamado, por seus simpatizantes, de o Almirante Negro. Por quatro dias a cidade viveu de respiração suspensa: os revoltosos ameaçavam bombardeá-la caso suas exigências não fossem atendidas. Quatro dias de indignação para o alto comando da Armada, de discussões parlamentares, de reuniões ministeriais. E o novo presidente sem saber o que fazer. Ao fim do quarto dia, o Congresso votou pela anistia. Os marinheiros deveriam se entregar, nenhuma punição lhes seria imposta. Ficava claro que os castigos corporais seriam abolidos. Mas logo se viu que a anistia não passava de uma fraude. A maioria dos revoltosos seria expulsa da Marinha. Muitos, sob a acusação de conspiração, foram presos, abarrotando as celas da ilha das Cobras. Sentindo-se desmoralizado, o próprio Governo se incumbia de alimentar rumores de que novo levante estava para acontecer a qualquer momento. Hermes queria o estado de sítio, precisava de um pretexto. Até que as tensões transformaram os rumores em fatos: às 10 horas da noite de 9 de dezembro um toque de avançar e gritos de "viva a liberdade!" foram ouvidos no pátio da ilha das Cobras. O Batalhão Naval se amotinava, libertava os presos, destruía as comunicações, tomava a casa das armas, disparava os canhões. Desta feita, porém, o Governo estava de sobreaviso. Navios, já agora sob o comando de oficiais, bombardearam o local. O mesmo fariam os canhões do Exército instalados

na Praça 15 de Novembro, nos morros da Conceição e do Castelo, no Mosteiro de São Bento. Conta Edmar Morei, o historiador da revolta, que os disparos foram menos certeiros do que pretendiam os artilheiros da Armada. Fez-se necessário que um oficial austríaco, de passagem pelo Rio, calibrasse os canhões para que se atingissem os alvos. Até um padre, colocando a medalha de um santo sobre a alça de mira, evocou a proteção divina às armas do marechal. Antes, balas perdidas, de um lado e do outro, tinham atingido o Liceu de Artes e Ofícios, o Museu Comercial, o Colégio Pedro II, o Tesouro Nacional. Agora, balas legalistas abatiam dezenas, centenas de marinheiros. O próprio presidente foi inspecionar algumas de suas cidadelas. No Mosteiro de São Bento, soube que uma bomba rebelde destruíra parcialmente as celas dos monges. Um deles, Dom Joaquim de Luna, teve arrancados três dedos da mão direita. Mais estragos: na Rua Dom Manuel, no Catumbi, Frei Caneca, Carmo, São Salvador. O Rio ficou em pânico. Famílias inteiras realmente apertaram-se em trens rumo a cidades serranas. Outras, em bondes, carroças, charretes, tomaram o caminho dos subúrbios. O levante foi por fim sufocado. João Cândido, que nada tivera com as ações da ilha das Cobras, acabou preso. Incontáveis marinheiros, entre culpados e inocentes, revoltosos e anistiados, também. Muitos foram deportados para os seringais do Acre, onde morreriam como escravos de senhores da borracha. Outros seriam sumariamente fuzilados a bordo do Satélite, cargueiro do Lloyd que os levou para o Norte, quase secretamente. Escrevia-se então um dos mais trágicos episódios da história militar do Brasil. João Cândido e dezessete outros líderes da primeira revolta, todos já anistiados, foram atirados no fundo de uma masmorra na ilha das Cobras. Dezesseis morreriam asfixiados pela cal que lhe atiraram sobre os corpos. Torturas e fuzilamentos se seguiram. Ali João Cândido permaneceu por dezoito meses, até que o mandaram para o Hospital dos Alienados, supondo-se ter enlouquecido. Engano. Mas o Almirante Negro ainda ouvia em seus pesadelos o som da chibata sobre as costas dos companheiros, seus próprios gemidos na masmorra, o troar de canhões que ele não disparara naquele dezembro. Foi no meio de tudo isso - numa cidade respirando ares de fim de mundo - que começou a nascer o primeiro neto de Eduardo Corrêa de Azevedo. 10 Mas os moradores do chalé estão alheios; à confusão lá fora. Não pensam em tiros de canháo, revoltas, mortes, fim de mundo, e sim num começo de vida. Uma vida que está para chegar a qualquer momento. Martha de Medeiros Rosa e Manuel Garcia de Medeiros Rosa - o casal da casa - só pensam no filho que vai nascer. E nas questões costumeiras, se será menino ou menina, se terá a beleza de uma ou a força de outro, se puxará aos dois ou a ninguém. Terá algo em comum com os antepassados ilustres, nobres mesmo, do lado materno, ou

herdará o recato, quase mistério, da família do pai? Quem sabe não será parecido com vovô Eduardo? Martha e Manuel talvez pensem em tudo isso. E em como o destino uniu suas vidas para que delas uma nova vida surgisse. Em nome do destino tudo se explica. Por exemplo: o fato de um médico inteligente e sensato como Luís Corrêa d'Azevedo ter escolhido justamente o lado menos inteligente e nada sensato da luta que dividiu Portugal de 1828 a 1834. Como explicar, senão pelo destino, que sendo ele um gentil-homem a se 11 pôr invariavelmente do lado certo, da lei e da ordem, ficasse logo do errado naquela disputa pelo trono português? Aos olhos da História, vale lembrar, o lado errado é sempre o que perde. E o que Luís escolheu acabou perdendo. Sua vida, seus equívocos políticos, suas aventuras e desventuras são até hoje lembrados pelos moradores do chalé, que o consideram uma espécie de ponto de partida da família. A tal luta pelo trono português foi travada por Pedro I, o mesmo do nosso "independência ou morte!", e seu irmão Miguel, que durante quase seis anos, apoiado pela mãe absolutista Carlota Joaquina, manteve na cabeça uma coroa que não era sua, mas da filha de Pedro. Este, porém, venceu. Miguel acabou no exílio e seus seguidores também. Luís Corrêa de Azevedo era miguelista convicto. Mesmo sendo Miguel um antiliberal (ou talvez por isso). Com medo de ter idêntico fim de muitos de seus correligionários - a deportação para a África - mudou-se para o Brasil. Ele, a mulher e prima Eleziária Pereira Drummond e os filhos, entre os quais Fortunato Corrêa d'Azevedo, nascido a 4 de junho de 1825, na ilha da Madeira, terra natal de Eleziária. Vieram todos em 1834. A família estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde Fortunato abraçou a carreira do pai. Formou-se em 1850 e logo começou a clinicar em Cantagalo, Estado do Rio, lugar de poucos médicos e muitos doentes. Também se casou com uma prima, Maria Adelina (filha de Manuel, irmão de Luís, também miguelista, também exilado). Lá mesmo, em Cantagalo, nasceram os três filhos de Fortunato: Eduardo, a 26 de setembro de 1856, Fortunatinho e César. A família guarda algumas lembranças de Fortunato Corrêa d'Azevedo, uma delas a caixa de instrumentos cirúrgicos com cabos de madeira que os bisnetos principalmente este que está para nascer - ainda vão transformar em brinquedo. Era um homem austero, mandão, de gostos aristocráticos. Sempre manteve um namoro com a nobreza, a ponto de já no fim da vida, de volta ao Rio, só ter clientes ricos e bemnascidos. Certa vez, percorrendo pacientemente os galhos de uma árvore genealógica alta e frondejante, descobriu-se, cheio de orgulho, hexaneto de ninguém menos que Maria Stuart (os moradores do chalé perderam o documento que Fortunato costumava exibir aos incrédulos). Depois disso, passou a se considerar um sangue azul. Como tal, monarquista. E escravagista também: castigava duramente seus negros e a nenhum deles

alforriou. Lusitanista, nunca quis se naturalizar. Mau negociante, por três vezes fez fortuna e por outras tantas perdeu tudo. Numa delas, mudando-se de Cantagalo para Nova Friburgo, fundou ali o primeiro estabelecimento hidroterápico do Brasil. Faliu em pouco tempo. Ao morrer, em 1877, pouco deixou para a família. Eduardo Corrêa d'Azevedo era um homem realmente especial, que do pai parece não ter herdado mais do que uma chácara em Boca do Mato (perto de Nova Friburgo), um escravo e a vocação para a medicina. A chácara foi logo vendida por um conto e quinhentos e o escravo alugado para ajudá-lo a pagar os estudos (depois do que Eduardo o libertou). Quanto à medicina, foi meta difícil de atingir. Fortunato não quis que os filhos seguissem sua carreira: "É um ingrato ofício", justificava. Impositivo, fez com que Eduardo se matriculasse primeiro na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, na esperança de vê-lo engenheiro. No segundo ano, o filho convenceu-o de que se daria melhor como farmacêutico. Chegou a se formar, a montar farmácia com seu nome. Depois, estudou odontologia - algo bem mais próximo da medicina - e tão logo concluiu o curso o pai morreu. Estava finalmente livre para fazer o que queria. Começou nova vida, rompeu não só com a vontade do pai mas também com muitos de seus valores. Detestando a nobreza, os bajuladores de uma monarquia que achava decadente, os cidadãos empertigados que compravam títulos, começou por substituir no sobrenome o fidalgo D' pelo menos pretensioso de. Passou a ser Eduardo Corrêa de Azevedo. Recebeu o diploma de médico a 27 de dezembro de 1882. Meses depois, foi chamado por um amigo, gerente do Hotel Giorelli, no Campo da Aclamação, para atender a uma jovem mineira de Leopoldina que viera assistir com os irmãos à abertura da temporada lírica. A moça sentira-se mal. tivera algo assim como um desmaio, estava de cama. Lá chegando, Eduardo examinou-a demoradamente. Cansaço de viagem, diagnosticou. Afinal, era quase um dia de trem de Leopoldina ao Rio. Nada que uma boa noite de sono não curasse. Entre médico e paciente, porém, nasceu ali mesmo um interesse maior, um descobrindo no outro irresistíveis afinidades. A moça, Rita de Cássia, tocava bem piano e Eduardo adorava música. Ele já era um amante da poesia, no que ela não lhe ficava atrás. Bons conversadores, espirituosos, românticos, combinavam em tudo. Quando a moça se foi com os irmãos levou e deixou saudades. Amenizadas, contudo, pelas cartas que passaram a trocar. As dele, em versos. Rita de Cássia de Freitas Pacheco é de uma família que também se preocupa em descobrir homens e mulheres importantes 12 entre seus ancestrais. fidalgo como Manuel da ramos numerosos e, senão fidalgos como social, seja por conta Seixas, os Segadas Viana, os Coelhos Neto. Ninguém como Maria Stuart, é fato, mas pelo menos um Rocha Brandão, bisavô de Rita, tronco do qual partiram ele, ao menos pessoas destinadas a alcançar projeção própria, seja unindo-se a outras famílias, os Barros, os

Mas nessa busca nem sempre científica de antepassados, alguns desvios e exageros vão ocorrendo. Como os Freitas Pacheco dizerem-se descendentes de Caramuru, ou de Garcia d'Ávila, ou de Marília de Direeu. Mas não é bem assim. A quinta avó de Rita, Maria da Silva Figueiredo, era prima de Garcia d'Ávila2, cuja filha, Isabel, casou-se com Diogo Dias, neto de Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru, e sua mulher Catarina Álvares, a Paraguaçu. Quanto a Marília de Direeu, Maria Dorothea Joaquina de Seixas, era filha de uma irmã de Joana Rosa Marcelina de Seixas Brandão, bisavó de Rita. Como se vê, desvios e exageros. Nem Caramuru, nem Garcia d'Ávila, nem a musa do poeta inconfidente Thomás Antônio Gonzaga. Rita, filha de José e Emília Augusta de Freitas Pacheco, nasceu em Leopoldina mesmo, a 5 de maio de 1859- Perdeu os pais cedo e foi criada pela irmã mais velha, Maria Augusta, professora em cuja casa funcionava pequena escola de alfabetização de crianças. Foi nesta casa que um dia Eduardo bateu para pedir a Maria Augusta permissão de lhe cortejar a irmã. Mudara-se do Rio para Brejo, cidadezinha do município de Leopoldina, só para ficar mais perto de Rita. Estava apaixonado. Para o casamento só faltava a aprovação da mãe, Maria Adelina, ainda morando no Rio, Eduardo escreveu-lhe. Resposta: "Criar um filho com tanto esmero para o ver casado com uma mineira? Nunca!" Para ela - que guardava do marido a afetação aristocrática - um médico deveria casar-se com uma dama. E sua idéia de mulher mineira era literalmente uma caricatura: uma rapariga esquálida, desdentada, pés descalços, analfabeta, cachimbo de espiga pendurado no canto da boca. Eduardo achou perda de tempo tentar desfazer tal idéia. Em 1885, casou-se com Rita mesmo sem as bênçãos da mãe. Foram morar na casa dele em Brejo. Os dois, mais uma irmã de criação de Kim, Bellarmina, e o tio desia, Manuel. Dos quais muito mais se falará adiante. A primeira filha de Rita com Eduardo, Carmem, nasceu na casa de Brejo em 1886. De um parto tão complicado - a bacia estreita da mulher dando muito trabalho ao médico e marido - que quando chegou a vez de terem a segunda filha ele achou mais prudente levar Rita ao Rio para que a menina viesse ao mundo na casa da avó Maria Adelina e pelas mãos de outro médico. Começou aí a reaproximação entre mãe e filho. É verdade que no começo Maria Adelina não se impressionou nem um pouco com aquela "mineira diferente", pianista, professora, lendo poesia em francês, uma dama: "Na certa ele a educou depois de casados", comentou com os outros filhos. Mas, enquanto a sogra se apegava a esses pensamentos, Rita ia observando seus hábitos e gostos, os pratos de sua predileção, como preferia o chá, as flores que fazia questão de ver enfeitando a mesa. Tempos depois, quando coube a Maria Adelina ir para Minas (Fortunatinho morrera, deixando-a só com a mãe idosa, Vozinha, e o filho menor, César, o que levou Eduardo a convidar os três para morarem com ele), Rita poria em prática o que observara atentamente nas últimas semanas de gravidez. Maria Adelina foi recebida com todas as honras e agrados, nem as flores faltaram, perfumadas gentilezas de uma anfitriã fina e educada. - Quero pedir-te desculpas pelos meus maus juízos - disse. - Não se fala mais nisso - sentenciou Rita.

13 Mas já então havia nascido, a 4 de junho de 1889, na casa que Maria Adelina ainda mantinha no bairro carioca do Rio Comprido, a segunda filha de Rita e Eduardo: Martha Corrêa de Azevedo. A família se completaria três anos depois com a vinda de Eduardinho, em Ponte do Cágado, município de Santana do Deserto, comarca de Juiz de Fora, para onde todos se haviam mudado pouco antes. A melhor fase da vida de Eduardo Corrêa de Azevedo - ou pelo menos aquela de que os moradores do chalé têm mais saudade - é a da infância e adolescência dos filhos, já em Juiz de Fora, onde ele clinicava em sua própria farmácia. São de então os seus primeiros lampejos poéticos, versos que ia escrevendo, mostrando aos amigos, guardando. Quis que as crianças desde cedo convivessem com a música, por isso comprou para elas um Pleyer de segunda mão. Carmem, de ouvido absoluto, domina cinco instrumentos (piano, violino, violão, bandolim e cítara) e acabará se tornando professora de conservatório. Martha sempre será melhor no bandolim que no piano. Eduardinho, o de pior ouvido, jamais passou das primeiras lições domésticas dadas pela mãe. Mas toda a família é muito musical. E teatral também. Ainda na casa de Ponte de Cágado, Eduardo mandara construir um galpão no qual instalou oficina para exercitar duas de suas muitas habilidades, a de ferreiro e a de seleiro. Com forja, bigorna, fole e outros apetrechos, ele próprio fizera os aros do seu tílburi, as ferraduras, cravos e arreios de seus cavalos. Ao lado do galpão, improvisou um teatrinho onde os filhos e vizinhos representavam sketches e pequenas peças, muitas vezes escritos por ele mesmo. Toda a família gostava de teatro. Martha nasceu com a República, sendo o próprio Eduardo, desde os tempos de estudante, um republicano. Tão fervoroso que por muitos anos carregou na lapela um minúsculo retrato do marechal Floriano Peixoto. Gostava de lembrar à família e aos amigos um episódio ocorrido em 1894, durante a revolta da Armada sob o comando de Custódio de Mello, líderes estrangeiros, notadamente o ministro britânico Hugh Wyndham, indagando a Floriano como suas tropas seriam recebidas se aqui desembarcassem para proteger seus compatriotas residentes no Brasil. Eduardo fazia uma pausa e dava mais ênfase à já enfática resposta do Marechal de Ferro: - A bala! Nacionalista, mas sobretudo detestando ingleses, chegaria a renunciar às suíças de que tanto gostava por um incidente à toa. Num dia de carnaval, esguichou uma bisnaga de água na perna de uma menina que se assustou e se pôs a gritar. O pai, irritado, reagiu: - Seu inglês! Não poderia haver maior ofensa. E como Eduardo a atribuiu às suíças, raspou-as no mesmo dia. Um antimonarquista que escreveu longo poema, "Pobre República", para Martha declamar no palco do teatrinho, enquanto ele, orgulhoso na platéia, parecia ver na filha a imagem de um Brasil muito diferente do de seu pai: um Brasil jovem, promissor, livre, republicano.

cabeça grande. No prefácio. "À crítica . sentia-se atraído pelo jornalismo. d'Amorim. teatrólogo.) não tendo outro fim senão tornar o jornal simpático aos leitores e retratados. que seus personagens também dissessem o que pensavam dele. terminando: aqui está um nó numa 'correia'.Foi em Juiz de Fora que Eduardo Corrêa de Azevedo começou a estudar esperanto. onde criou e manteve por muito tempo aquela seção semanal em que traçava perfis de amigos e habitantes ilustres da cidade. pseudônimo que alternava com outros. A seção intitulava-se Galeria e seu autor assim a definia: "Uma espécie de recreação intelectual com que descanso dos labores diários (. Christovam Malta.. Fundou com o amigo e poeta Oscar da Gama o jornalzinho A Cigarra. e tornou-se colaborador dos mais presentes nas páginas do Diário da Tarde local. Com a mesma facilidade com que escreve um artigo de fundo. ou põe pilhérias a dois de fundo. escritor de algum prestígio: "Nem alto nem baixo. gosta e usa barbas suíças. além do médico. foi também em Juiz de Fora que se fez conhecido. Zut. Mãozinha. "quando o fizer conseguirá um sucesso brilhante. um funcionário público e um funileiro.. poeta. "ainda que o termômetro baixe a zero". Os óculos que traz sobre o nariz não servem para aumentar a vista e sim de muralha ao brilho vivíssimo de seus olhos. Chegou a trabalhar num dicionário que jamais publicou. com ou sem fundo. E que com ele não tinha nenhuma preocupação literária. Vedo era como Eduardo se assinava de vez em quando. rabisca uma crônica. Embora tenha assinado seus primeiros artigos em O Povo. Numa redação de jornal é tudo. pois tem talento como o diabo". Ao mesmo tempo. gabando-se mais tarde de ser "o primeiro esperantista do Brasil". nem velho nem moço (. pelo menos um músico. às vezes. talvez seja o que lhe fez um primo de Rita. é. Vedo que o desate. de como era naqueles dias de Juiz de Fora. jornalista.concluía no mesmo . também médico e escritor. brigão e ao adversário desgraça. editado em 1899 sob o título Galeria: Caricaturas a Pena. Foi o que fez Belmiro Braga. Na realidade. ainda segundo Christovam Malta..Z. embora não quisesse por modéstia publicar seus versos em livro. democraticamente. A cada dia idolatrava maisrFloriano e. um jacobino. 14 conforme a ocasião. permitindo assim. cabelos e suíças brancos. do jornalista e do poeta.Z." A pedido de alguns desses leitores. com a vantagem de ser poeta. semanário republicano e abolicionista de Cataguases. de curta duração.. Vestia-se invariavelmente de brim. é escritor e escreve com graça. Ama os poetas de França. Eduardo esclarecia que só o lançava "para ceder às instâncias dos editores amáveis e corajosos". e parecia cada vez mais inclinado a trocar o bisturi pela pena. É o nosso Ferreira de Araújo6. adora as filhas da Itália." A. Habitavam nele. Diz ele que Eduardo era homem de pés e mãos pequenos. E. o A. nem gordo nem magro. Mas o perfil mais fiel que nos chega dele. seu primeiro livro foi mesmo um apanhado daqueles perfis. o próprio Eduardo deixou-se retratar na seção.) É médico e medica de graça.

cheio de unção divina Antes pai que juiz.. consolador. que vale lembrar por encerrar uma idéia de Deus a ser convertida em estranho legado." No mesmo ano.. faz sofrer e extermina. os Sete Sacramentos. sequer. há poemas bem construídos e inspirados. o teatrinho e os brinquedos. obedecer. Brando. dedicado à mãe. Maria Adelina. Os filhos cresceram entre música e poesia... não ter na carne pura A deliciosa mácula do beijo. (bem o vejo!) Não tentarei. sobre não roubar: Contra o duro rigor do mandamento vosso Serei um revoltado eterno. se é que merece crítica. não domina. não posso Vê-la sem lhe furtar um delicioso beijo. é ainda mais interessante. pouco me importa Ou neste. à qual devotava profunda afeição. também em versos: Eu não quero esse Deus das velhas escrituras Que pune e vinga o mal. Seus temas são a vida e a morte. reverente O mais. em pavor. pouco depois de sua morte: Amarei mais que a tudo ... Ou ainda neste.) Um homem raro. os estudos e as amenidades. E sobretudo neste "Ato de Fé". retomando-a daqui a muitos anos. a dor e a descrença. nem sou converso Essas contradições... Intitula-se Catecismo e pretende ser uma versão revista e muito pouco ortodoxa de temas ligados à doutrina católica. São como gritos de incontida fúria Deve existir um Deus . o amor e a família..santamente A ti querida morta!. os Pecados Capitais. reuniu em livro sua produção poética. que há no meu verso. ainda incentivado por amigos e editores "amáveis e corajosos".prefácio .. És o Deus que eu adoro. Nesta coletânea.. Um Deus que os corações ingênuos assassina Metendo-lhes por dentro insanáveis ternuras Quero um Deus mais humano. Rimas Sem Arte. na terra e nas alturas (. o neto que está para nascer.. os Dez Mandamentos.. -Do prato à boca se perde a sopa .. sim. sobre não pecar contra a castidade: Ser virgem. Não suportar as angústias do desejo Isentar-se do crime da ventura. um que não quer torturas Que não fale de inferno e. O segundo livro de versos. o humor e o não-conformismo de Eduardo Corrêa de Azevedo estão nítidos em todos os poemas. Crianças alegres.eu apenas pedirei que o trate como ele merecer..Pai e infinito Bem diferente desse odioso mito Simples invento da romana cúria Ou neste. em torno de quem a família viveu unida e em paz. sobre amar a Deus sobre todas as coisas.. A ironia. Como neste "Ato de Confissão": Eu nunca fui ateu. editado cinco anos depois. que de início zombavam do sotaque ilhéu de Vozinha e acabaram aprendendo com ela um antigo costume da Madeira: conversar por ditados. .dizia uma. especial. na maioria sonetos como aquele para o sexto aniversário de Martha.

tentou primeiro suborná-lo com um aumento de salário (os fiscais lotéricos eram pagos pelos fiscalizados e não por quem os incumbia de fiscalizar). mas generosa e com uma grande noção de família. Quando em Juiz de Fora. de tempos muito difíceis. Ao fim do relatório. em razão de sua atenta vigilância. econômica. Andar descalço era falta de educação. tudo com muita diligência e retidão. conduta imperdoável. o rosto delicado. Primeiro para aliviar o sofrimento. caíra sentado. bom menino. atestava ou não sua lisura. dando-lhe conta de tudo. estudos. transferiu-se para o Rio de Janeiro. o funcionário público que habitava o médico e poeta Eduardo Corrêa de Azevedo sentiu-se obrigado a obedecer. exerceu as funções de inspetor municipal de higiene e de fiscal estadual da Loteria Mineira Agave Americano.. Mesmo preferindo continuar em Juiz de Fora. o dono da casa lotérica e o secretário de Finanças. o não pagamento de taxas devidas." Até completarem treze. Hora certa para tudo. O vício dispendioso. Os últimos rrieses em Minas já não tinham sido muito bons. contendo em seu bojo o condenado jogo dos bichos"). quatorze anos. autoritária. David Campista não só indeferiu o pedido como autorizou Eduardo a aceitar o aumento de salário oferecido pela Agave. ajuizada. David Campista7. Também habitava Eduardo Corrêa de Azevedo. estando sob sua jurisdição e controle. mas muita disciplina. espécie de santuário: "Isso aqui não é lugar para crianças. terá mais afinidades com 15 Carmem do que com Martha. Assistia às extrações. fraudes. o secretário de Finanças mandou que Eduardo viesse atrás.acrescentava a outra. a boca bem feita. instalando na Capital e em Petrópolis dois novos postos de extração. Martha sempre será bonita. de certa maneira. será companhia do pai em suas soirées literárias.Quem o alheio veste na praça o despe . As moças jamais namoraram. Prefere sonhar a exercer autoridade sobre o irmão menor ou quem quer que seja. os novos planos de extração adotados por Zevada (". começo. Foi então que Eduardo escreveu ao Secretário de Finanças de Minas Gerais. Carmem nunca foi bonita. o bordado. Eduardinho. a tentativa de suborno. refeições. o mexicano Manuel Zevada. O rapaz. passara a sentir fortes dores por toda a região sacra. "por escrúpulos de consciência". paralelamente à medicina e ao jornalismo. E mais: quando Zevada. Séria. Eduardo levara um tombo. severa. responsável. De bons tratos. Obediente. . aquela companhia lotérica ainda era uma concessionária do Governo de Minas Gerais. um funcionário público. ao menos para ele. também não podiam falar à mesa. o brinquedo. A educação que Rita deu aos três foi. Jamais permitirá que entrem na cozinha.. Afinal. a música. Os jornais de Juiz de Fora deram cobertura a todas aquelas peripécias que envolveram o fiscal.. os olhos verdes. em busca de melhor sorte. só escondido. Recorreu à cocaína. embora nem sempre compreenda do que tratam os versos. O dono. Noticiaram também sua mudança para o Rio. os lucros da empresa começaram a cair. Parece que. Falar com estranhos. depois por dependência. Como ressaltou Christovam Malta. pedia exoneração do cargo.

chamou de Externato Santa Rita de Cássia. Alfredo Barbosa. romã. já tinha uma escolinha de alfabetização em Juiz de Fora. por assim dizer. sempre pronto a ajudar quem precisasse (morreria em 1902. em Vila Isabel. pesou sobre a família. abacate. E para sempre. tanque. De propriedade da família da mulher de um grande amigo. a mesma que já cuidava de Rita. pitomba. mais um banheiro. mas sua viúva. Reduziram-se as despesas. O quintal é espaçoso. tem salas de jantar e visita. mais depressa se esqueceria a tragédia que todos queriam esquecer: seu pai se suicidara. Agora. galinheiro. a Bella. portas e janelas emperradas. também em Leopoldina. chegou a limitar as refeições da casa ao chuchu que plantava no quintal e ao arroz que alguns parentes caridosos lhes mandavam. susteve-lhe o pagamento. Uma casa semiabandonada. cozinha. canos furados. três quartos (incluindo o que Eduardo mandou fazer). não se falando no passado da menina. consertos no teto. encanamento novo. em homenagem à sua padroeira. A solidariedade era bem menos rara naqueles dias. só levou a roupa do corpo. Se da família materna do menino que vai nascer tudo se sabe. construção de um quarto adicional de madeira. conhecida por Boulevard 28 de Setembro. a Agave Americano pagaria a Eduardo todos os atrasados. seguindo o exemplo da irmã. ainda acabará passando a casa para o nome dos Corrêas de Azevedo sem receber um real em troca). Rita economizou o quanto pôde. Eduardo nem precisava pagar aluguel. emprestou-lhe móveis até que pudesse comprar os seus próprios. sobre o lado paterno paira mesmo uma nuvem de mistério. dois banheiros. pitanga. aproveitava a sala da frente e improvisava nela algumas carteiras. Ficou órfã muito menina e foi praticamente criada por Maria Augusta. Ao mudar-se para a nova casa. Eduardo não tinha mesmo condições de procurar moradia melhor. nasceu em 1863. O chalé fica entre Visconde de Abaeté e Souza Franco. para se vingar. Eduardo desembarcou no Rio em fins de 1900. o maestro Leopoldo Miguez. Outro amigo. Fundou novo educandário que. Construído em terreno de 11 metros de frente por 66 de fundos. Republicano também. portas e janelas. com os quais ele pôde reformar a casa. casa arrumada. Tinha ela apenas quatro anos e Rita oito quando se tornaram. .somado à clínica que já não ia tão bem. Eduardo Corrêa de Azevedo trazia a família para o Rio. goteiras. Bellarmina de Medeiros. goiaba. Tempos realmente difíceis. Rita. Instalou-se neste mesmo chalé modesto. Tempos muito difíceis. Miguez era homem desprendido. limão. o número 30 da Rua Theodoro da Silva. sem móveis. Zevada. Supunha-se que. como se a traduzir-lhe a vontade. Assim. irmãs de criação. A Rua Theodoro da Silva é paralela à avenida principal de Vila Isabel. Por influência de David Campista. autor inclusive do Hino da Proclamação da República. Alice Dantas Miguez. árvores que dão frutos o ano inteiro: araçá. deixando-o por conta de modestas economias que trouxera de Juiz de Fora. no Rio. antes que o segundo ano do século chegasse ao fim. Até mesmo os nomes dos pais foram deixados do lado de fora. pintura. de gestos nobres. Mas não duraram para sempre.

que até hoje perdura. Jamais trabalharia numa firma que se valesse de tais expedientes. geografia e história. levantando-se para novas batalhas inglórias. de se falar o menos possível no passado de Bella. com o menino. o Rio. memória assombrosa.E grandes amigas. tentou o que pôde. Sempre acreditando que o trabalho é o alimento da vida. inglês. E a honestidade. Por mais dura. Se Eduardo Corrêa de Azevedo era homem raro. investindo contra moinhos de vento. Daí. apenas um menino a enfrentar a cidade grande com seus desafios e armadilhas. mais de um metro e noventa. foi vendedor ambulante. quase morreu de febre amarela. biscates vários. Um ano depois. Pediu as contas. trabalhou como estafeta.Neca para os de casa . Viúva. tudo isso também se perderá na determinação. Até que suas fantasias comecem a transformá-lo. de onde viera. a irmã de criação e seu filho de cinco anos. outro obscuro personagem desta história. Bellarmina casou-se com Manuel Garcia da Rosa. empregou-se numa casa comissária de café. Positivamente. especial. dividiu-se entre incontáveis ocupações. caindo. em Ponte do Cágado.veio predestinado a não ficar atrás. ao casar-se com Eduardo. malograda ou mesmo 17 trágica que venha a ser sua existência. tantos de um nacional ordinário. Ofendeu-se. Pouco conseguiu. Naturalmente. o que fazia. Uma delas a de recolher trocados em esquinas do Centro. Conseguiu o lugar de guarda-livros numa importadora (impressionava a todos pela rapidez e precisão com que fazia de cabeça cálculos complicados). Já rapaz. Um menino. Fez um pouco de muito. tocando violão . passará por ela com a maltrapilha dignidade de um dom Quixote. Manuel . Um lutador. lutando. as mãos enormes. pouco depois de nascerlhes. ter levado para Brejo. dócil. mas aproveitou o período de tratamento e convalescença para estudar. será um homem bondoso. rígida. Inteligente. Quem era. Rita jurou que jamais se separariam outra vez. Bella voltou para a casa de Maria Augusta. Fará dessa crença um de seus lemas. tantos por cento do legítimo. ele vestido de palhaço. francês. não raro obsessiva. Uma amizade que vai durar enquanto viverem. não nasceu para vitórias. Sua noção de honestidade sempre foi exemplar. Também é desses que se vêem uma vez e não se esquece em tempo algum. Tinha apenas dez anos de idade quando deixou a mãe com os Corrêas de Azevedo. o jeito pesadão. embora por outros motivos. as maneiras gentis contrastando com o corpo avantajado. Ia familiarizá-lo com o processo de "batismo" do vinho que trazia de Portugal. Sonhando muito. Até que o dono da empresa decidiu promovê-lo. mas para sonhar com elas. Fez pequenos serviços. aprendeu sozinho matemática. a 24 de maio de 1880. Aos dezesseis anos. além de seus projetos de noiva. o único filho: Manuel Garcia de Medeiros Rosa. Desempregado. o condimento. reerguendo-se. Sabe-se apenas que morreu jovem. altruísta. tropeçando repetidas vezes. e foi para Juiz de Fora lutar pelo próprio sustento.

a dois quarteirões do chalé. Na casa antiga ficaria apenas a escolinha. Em 1907. versos do dono da casa. Arruinavase cada vez mais o corpo do poeta. procurava-se agir como se os dias felizes não se tivessem acabado de todo. embora precariamente. continuava trabalhando na escolinha. a moral mais ou menos abstrata que faz de parentes e vizinhos a sua consciência. Eduardinho sem pagar mensalidade como aluno do Ginásio de São Bento. Sem ter concluído sua última obra. atrás dela. Depois. construindo castelos. fundamental. às dores que já sentia e à dependência da cocaína vindo se juntar um rebelde ferimento na perna. no Boulevard. os guardiães de seus passos pelos . por exemplo. o livro de poesias intitulado últimos Amores. uniram-se todos para que o trem da família não saísse dos trilhos. Em menos de um ano estavam de volta ao número 30 da Theodoro da Silva. Foram todos para lá. enquanto o marido ainda tentava manter. novos ares. as senhoras começando a ficar grisalhas. porém mais nova. as pessoas mal o reconhecendo. passava o pires. a solidão é quase tão preciosa quanto o ar que respira. Não só para se afogar novamente no trabalho. Por isso. vaticinava. parecia boa idéia. Eduardinho . trovas recitadas em torno do piano Pleyel trazido de Minas. Alugou casa menor.No dia 3 de julho. Também achou muita coisa mudada. que assim podia ser ampliada. a morte em julho. compulsivamente. um consultório nos fundos da Farmácia Dantas. morreria em 1909. Apenas uma vez visitou a família em Minas desde que se lançou à sorte no Rio. achava que aconteceria justamente o contrário. doutor Eduardo precocemente envelhecido. Com ele. Para Manuel Garcia de Medeiros Rosa. Quando ou com quem aprendeu a tocar violão não se sabe. voltou ao Rio. mas também para se isolar. Oito anos depois da partida.com seis anos. muitas vezes o veremos correr. modinheiro que conheceu em suas andanças pelas noites da cidade. no número 19 da Rua Silva Pinto. Neca a acompanhar-se ao violão em canções aprendidas com um certo Catulo da Paixão Cearense. Rita. Lembrava-se de que o pai havia nascido no sétimo mês do ano e morrido no nono. Nova moradia. o nascimento em setembro. de trancar-se com seus pensamentos. Eduardo mais doente.que nascera em sua ausência . a clínica em decadência. Neca inclusive. A dos Corrêas de Azevedo. Mesmo assim. Mas foi idéia que durou pouco. Alice Dantas Miguez não cobrando aluguel. Desde moço e para sempre precisará disso. metido na pele de um urso. enquanto um amigo.e cantando. muito ajudada pelas filhas. Ia-se sobrevivendo. Mas Eduardo já pressentia a morte. Mantinham-se os saraus domingueiros. mas é provável que tenha sido como tudo mais: sozinho. ele já com dezoito. vivendo em silêncio num mundo só seu. "Será num mês de julho". Hábitos conservadores têm as famílias destes tempos. a estabilidade dos patriarcados. crê em valores como a viuvez eterna. as moças estudando em casa. a saúde muito abalada. Nos dois anos seguintes. ainda assim Eduardo Corrêa de Azevedo teve forças para mais uma mudança. as meninas crescidas. abrigando maior número de alunos. As despesas não eram muitas.

O menino nasce nesta manhã de domingo. Numa delas. Eduardinho mudou o nome de Márcio para Martha e tudo se arranjou. Mas Eduardinho contornou o problema com uma pequena trapaça. acham que o chefe da casa tem de ser um homem. de seu jeito mais doce que o de Carmem. de seus olhos verdes. este chefe. o avô e o bisavô. Foi com um amigo à Igreja de Santa Rita. O que diriam parentes e vizinhos de duas moças solteiras vivendo sob o mesmo teto com um homem ainda jovem e também solteiro? Rita e Bella. A confissão está entre as que não aceitam. funcionando num esmaecido prédio da Praça 7 de Março. E fizeram de Neca. a bacia estreita de Martha não dando passagem ao menino de quatro . ou se casava com uma das moças. Não só por ser o mais velho (Eduardinho tinha apenas 17). Para Neca. pensou-se numa estrela imensa. Rita e Bella jamais voltarão a se casar. preocupadas.18 caminhos da virtude. Entregues os documentos à Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes. um problema: exatamente a reputação. que mesmo invisível dizem iluminar os nascimentos de dezembro. possivelmente influenciada por Eduardo. A cerimônia. no próprio chalé. Quando muito. Já gostava de Martha. O amor. acreditam que reputação vale mais que felicidade. tendo por testemunhas Bellarmina. quase um ato de obediência. Em outras palavras. Sequer admitem que se insinue tal traição à memória dos maridos. cheia de esplendor. César (irmão de Eduardo) e Rodolpho Ambrone. afastando-se mais uma vez da família. é religiosa à sua maneira. pouco pesou. o poeta do Catecismo. contudo. 11 de dezembro de 1910. A cidade já está calma. mas também por ser o único em condições de ajudá-las nas despesas (Eduardinho queria estudar medicina como o pai. Ninguém na família ligou para a má sorte que tantos temem viajar na cauda de um cometa. mais um gesto galante. Mas nem tudo corre como se esperava. Ele próprio optou por esta última. Para Martha. facilitado pela admiração e estima que tinha ao noivo. Católica. com borracha e caneta. Casaram-se a 29 de janeiro de 1910. um com o nome de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e o outro com o de Márcio Corrêa de Azevedo. e os dois se confessaram. mas por enquanto ainda estava no ginásio). Havia. uma solução adequada. o azul substituindo as nuvens de fumaça que ontem obscureciam o céu. O vigário cobrou-lhes vinte mil réis pelas certidões. Menos de um ano depois. A família. alegria no chalé modesto. nisso tudo. a revolta dos marinheiros sufocada. no Centro. Para Rita e Bella. Começo de vida. Nenhum dos dois aceitou uma das exigências da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes para casá-los: tinham ambos de se submeter à confissão. viram apenas duas saídas: ou Neca ia morar noutra casa. marcou-se a data. o primeiro filho. então com 29 anos. mas aceitando com reservas (ou mesmo não aceitando) certas regras da Igreja. foi celebrada pelo Monsenhor Francisco Ignacio de Souza. Por confiarem no patriarcado. É um parto difícil.

Venceu o de Miguez. Um parto tão difícil que o médico chamou outro para ajudá-lo. Neles os autores colheram boa parte do material aqui reunido sobre a questão entre Eduardo Corrêa de Azevedo e a Agave Americano. O médico esteve ao lado dela desde ontem cedo. Seria ministro da Fazenda de Affonso Penna de 1906 a 1909. O prêmio de vinte contos de réis ele o doou ao Instituto Nacional de Música para a compra de seu primeiro órgão. Ainda a propósito de Zevada. Veio com Tomé de Souza. Foi Serzedelo Corrêa. 5. teatrólogo e jornalista carioca. 4. 3.quilos. Médico também. O Dia. Belmiro Bellarmino de Barros Braga. seria o fundador da cadeira número 8 da Academia Mineira de Letras. poesias. quando lá fora se falava em fim do mundo. Luís Edmundo cita-o como uma espécie de inspirador do Barão de Drummond na criação dos sorteios que se faziam no Jardim Zoológico de Vila Isabel. 8. com flores em vez de bichos. que funcionou na Rua do Ouvidor em 1892 ou 93. este se decidindo pelo emprego do fórceps. Um menino extraído a ferro. só que com bichos em vez de flores (ver boxe A Vila do Barão no Capítulo 3). 9. 2. conhecido como o "Rouxinol Mineiro". o primeiro governo republicano. por exemplo. Realizou importantes reformas na imprensa de seu tempo a partir da fundação da Gazeta de Notícias em 1874. Atual Tebas. instituiu concurso para a escolha de novo hino. cujas ruínas ainda existem. José Ferreira de Sousa Araújo. Por muito tempo. a cidade mandaria erguerlhe um monumento após sua morte em 1937. Zevada já bancava jogo de apostas semelhante. haverá quem associe as dificuldades do parto ao clima de guerra que inquieta a população. Atual Praça da República. Dias depois da proclamação. julgando que o antigo fora feito em homenagem a Pedro I (o que não era exato). segunda edição. Tudo muito complicado. Teria sido sua a sugestão para que o Barão fizesse o mesmo. Cronista muito lido. crônicas.Composto na verdade para substituir o Hino Nacional Brasileiro que Francisco Manuel da Silva escrevera em 1831. Nascido em Juiz de Fora. volume 4 (páginas 864 a 870). de Juiz de Fora. tinha mesmo muito a ver com "o condenado jogo dos bichos". Sertanista português. 7. Morreu em 1609 e hoje é nome de rua no bairro carioca de Ipanema. sofrido. penosamente. Eduardo Corrêa de Azevedo teria gostado de estar aqui. 19 NOTAS 1. Atual Ericeira. longas horas de espera madrugada adentro. assinava-se às vezes como José Telha ou Lulu Sênior. fornece detalhes do caso em seus números de abril e maio de 1901. Em O Rio de Janeiro do Meu Tempo. aliás. ao que se oporia o fiscal Eduardo Corrêa de Azevedo. Zevada tentaria implantar a novidade em Juiz de Fora. Manuel Ismael Zevada. 6. fundou na Bahia a Casa da Torre. recém-nomeado governador do . David Morethson Campista foi nomeado secretário de Finanças de Minas em 1899. autor de peças de teatro. Mais tarde.

na Tijuca.as freiras mudaram-se da Conde de Bonfim para lá. ela deveria ser mantida como o Hino Nacional Brasileiro.conhecido como Convento da Ajuda (no qual viviam as freiras da Ordem da Imaculada Conceição.. A outra foi aproveitada para o alargamento da rua. O mosteiro original .Paraná e futuro ministro da Fazenda. quem convenceu o marechal Deodoro da Fonseca de que a composição de Francisco Manuel da Silva tinha grande apelo patriótico.")." 20 . O esmaecido prédio da Praça 7 de Março entrou em reformas. Em troca de impostos em atraso que o Governo lhe perdoou. começando então na Pereira Nunes. a paróquia e o convento jamais chegaram a dividir o mesmo prédio. na revolta dos marinheiros chefiada pelo valente João Cândido. Mais dois andares foram construídos.. Em 1918. Portanto. Parte do que era transformou-se num hotel de 300 quartos construído pela Light & Power. 10. uma vez substituídos os versos originais de inspiração realmente monarquista (a maioria de autoria desconhecida). sendo agora a praça em frente ao Teatro Municipal. 11. da Rua do Passeio à Evaristo da Veiga. 13. com letra do também poeta e jornalista Medeiros e Albuquerque ("Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós. então Praça 7 de Março. ao contrário do que se tem dito. Diz Jacy Pacheco em NoelRosa e Sua Época (página 22): "Contam alguns parentes que dona Martha assustou-se com o canhoneio que abalou o Rio. quando a Theodoro da Silva começava na Visconde de Abaeté. cabem aqui certos esclarecimentos. com o alongamento da rua até a Duque de Caxias (no trecho desta que mais tarde seria incorporado à Gonzaga Bastos). o prédio começou a ser demolido. a Theodoro da Silva sendo novamente alongada. 12. O susto complicou-lhe a gestação e o parto. passou a ser o Hino da Proclamação da República. Em sua opinião. o Ginásio de São Bento passou alguns anos sem cobrar mensalidades aos seus alunos. Diante de confusões que ainda fazem alguns dos que se têm dedicado a escrever sobre a história de Vila Isabel. O chalé tinha mesmo o número 30 naquela época. Dois anos depois exatamente a 26 de julho de 1920 . fundada em 1484. onde estão até hoje. o número mudaria para 130. Foi o que se fez. Em 1936. a Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes transferiu se para a nova igreja que até hoje está no número 200 do Boulevard 28 de Setembro. na Praça Barão de Drummond. A mesma do edifício de apartamentos que hoje ocupa o seu lugar. No mesmo dia em que as freiras dali se retiraram para um casarão da Rua Conde de Bonfim. A Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes foi criada a 19 de agosto de 1900 e nos dezoito anos seguintes funcionou no prédio que hoje corresponde ao primeiro pavimento do Mosteiro de Nossa Senhora da Ajuda. o chalé ganharia uma terceira numeração: 392. pela beata portuguesa Beatriz da Silva e Meneses) esteve de 30 de maio de 1750 a 19 de outubro de 1911 num prédio que se estendia por toda a atual Cinelândia. Os novos versos ficaram sendo os do poeta e jornalista Osório Duque Estrada. na Espanha. Em 1917. A obra premiada de Miguez.

o idioma. a história do país de Bonaparte. como os de toda Vila Isabel. cada morto em seu lugar). que se faz repentinamente falante quando se trata de lembrar episódios como a queda da Bastilha e as campanhas napoleônicas. Que por sinal é o maior de todos os heróis para este mineiro calado. então Viscondessa de Santos. é mesmo uma igreja cheia de histórias. Fundada por José de Anchieta em 1625. a cultura. que em honra ao santo estendeu um pouco mais o nome do filho e herdeiro: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. O que o vigário não esperava é que o Imperador tivesse coragem de reconhecê-la. guardando-se assim. 29 de janeiro de 1911. como "filha de pais incógnitos". crescendo. uma das igrejas favoritas de Pedro I. É assim que vai à pia batismal da Matriz de São Francisco Xavier do Engenho Velho. muitos preferem realizar seus casamentos e batizados neste templo cheio de histórias erguido na Rua São Francisco Xavier. no mesmo terreno onde outrora ficavam os cemitérios (o dos cidadãos comuns onde é hoje a alameda de entrada. introspectivo. as diferenças de classes.Le boulet qui doit me tuer n 'estpas en-corefondu! Noel como o Natal dos franceses. Uma das favoritas de Pedro I. com uma declaração reconhecendo como sua filha a menina Isabel Maria. Ao voltar coberto de medalhas da Guerra . gosta de citar no original frases atribuídas ao grande general. a quem coubera batizá-la. Por ter nascido às vésperas do Natal e pelo amor do pai às coisas de França. Ia ser triste o meu fim Mas. principalmente as do discurso de Toulon em 1793: . mais ligados portanto à igreja que ainda ocupa aquele prédio da Praça 7 de Março. para além da vida. Noel de Medeiros Rosa. Para rubor do vigário Manuel Joaquim Rodrigues Dantas. Com sua formidável memória.PARTE II 1910-1928 CRESCENDO COM BOSSA Capítulo 2 Eu nascendo pobre e feio. Mas a igreja favorita também de Luís Alves de Lima e Silva. que a ela mandou o comendador Francisco Gomes da Silva. o futuro Pedro II. pertençam à Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes. Embora os moradores da Theodoro da Silva. o Chalaça. primeiro aniversário de casamento dos pais. segundo registro original. a duas esquinas do largo da Segunda-Feira. o dos escravos nos fundos e o dos nobres na área destinada ao templo. Sim. a bossa veio Deus teve pena de mim Riso de Criança O menino se chamará Noel. Não era segredo para ninguém que Isabel Maria nascera do romance de Pedro I com Domitila de Castro Canto e Mello. domingo. o Duque de Caxias.

os Madureiras sempre levaram muito a sério os laços que o batismo cria. o nariz de turca conferindo-lhe beleza próxima do exótico. Num certo dia de 1907. Ou simplesmente Arlinda. nesses dias. o gosto pela vida. A madrinha de Noel crescerá no chalé. os Pachecos. Os Corrêas de Azevedo. veio de visita. irmãs de verdade. Arlinda nasceu ali perto. Chegarão a ficar noivos. A partir de agora. a menina foi criada por uma tia. Caxias soube. Ficará indecisa entre o Instituto Nacional de Música e a Escola Normal. têm grande carinho por Graça Mello. o pai passou a vida viajando. o médico que acompanhou Martha durante toda a gravidez e chamou o colega Heleno Brandão para ajudá-lo a vencer as dificuldades do parto. Quem sabe não foi mesmo o canhoneio? A madrinha é Maria Arlinda Rodrigues de Almeida Madureira. O padrinho é José Rodrigues da Graça Mello.o soldado não recebe festas. fraturando-lhe o osso num ponto vital. de olhos estivos.do Paraguai. senão meses mais tarde. tratada com todas as atenções. Ide reconstruir a igreja da minha Freguesia do Engenho Velho. jamais o culparão de coisa alguma. Arlinda vai se apaixonar por um bom rapaz. o temperamento bem mais extrovertido que o de Carmem. vão se considerar parentas de fato. todos gostaram dela. A menina adorou. Acabou ficando de vez. uma certa sensualidade que. mais que amigas. Devem isso a umas tantas afinidades. Antes disso. contudo. o crochê.que Noel é batizado em cerimônia celebrada pelo cônego Antônio Boucher Pinto. Os Madureiras e os Corrêas de Azevedo são amigos dos tempos de Cantagalo e Nova Friburgo. Algumas pessoas da família acharão que foi um erro seu não ter notado. quando tiver seus vinte anos. o fórceps usado pelo outro médico pegando-o de mau jeito. que o menino nasceu com um problema no maxilar inferior. . Era a única criança da casa (Eduardinho já estava com quinze anos). Arlinda e Martha serão sempre amigas muito chegadas. tocará piano. os lábios grossos. a pintura. optará pelo primeiro. prepararam-lhe uma série de homenagens. deformando-o para sempre. A mãe morreu de parto. recusou as homenagens: "Quando a casa de Deus está em ruínas sentenciou ele . em Bom Jardim. Por aquela 25 mesma época uma ventania fizera tombar lá do alto uma das torres da igreja. Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Para se transformar numa moça meiga. Eduardo e Rita fazendo dela uma filha caçula. uma compreendendo na outra a falta de entusiasmo. Arlinda foi batizada no chalé. desencanto mesmo. pediram à tia que a deixasse ficar por uma ou duas semanas. Martha e Neca. cabendo a Martha representar-lhe a madrinha. Terá a mesma educação das irmãs de criação. íntimas mesmo. Depois de aprovada nos exames de admissão a ambos. se dedicará aos trabalhos manuais. a pirogravura. Pois é ali . Só sairá daqui casada. Uma menina de nove anos que desde os seis mora no chalé como se fosse da família. por uma união sem amor. Um casamento que também a aproximará de Martha.na mesma pia em que recebeu os primeiros sacramentos a "filha de pais incógnitos" Isabel Maria . as moças costumam reprimir.

embora feio. O diagnóstico da fratura realmente vem tarde. . Arlinda enchendo-se de tristeza. nem como o da mãe. nada mais podendo ser feito. já acadêmico de medicina. Eduardinho. não forçar quase a articulação. o osso formado assimetricamente. Viverá com ele. Crescerá com o defeito. que à noite mantinha a porta de seu quarto aberta a um dos inquilinos. Ao contrário do que se dirá um dia. Tenta-se uma operação aos seis anos. mais se nota a diferença: enquanto o lado esquerdo desenvolve-se normalmente.Este médico é um charlatão! . causando-lhe traumatismo. Desde pequeno e até seus últimos dias. É um bebê gordo. Mesmo durante os períodos de dificuldades . isso se deve à linha reta que parte do lábio inferior ao pescoço. enquanto estiver no chalé. que chega a partici26 par de um desses muitos concursos de robustez infantil tão em voga(2). um pobre menino estigmatizado a suportar em silêncio as estocadas dos outros meninos que o chamam de "Queixinho". como se o mento lhe tivesse sido arrancado. Mais tarde. a metade superior harmoniosa.600 mil réis . massas. Como Martha. e a inferior deformada. mingaus.lhe dá uma aparência estranhamente indefinida. o direito parece atrofiado. solto. de aparência saudável. castanho-claros. A idéia de um Noel Rosa mergulhado numa infância sofrida. a mãe cuidará pessoalmente de sua alimentação. os olhos acesos. É mais exato pensar nele alegre. sempre com sacrifício. E uma prótese aos doze. E se parece maior. será a prótese improvisada seis anos depois. A família gastará parte de suas economias . marcado pelo defeito. despreocupado. e aceitará seu pedido de casamento. de uma fealdade que pode ir do grotesco ao patético conforme esteja quieto. bonita até.para que o menino seja assistido por famoso traumatologista. Dinheiro jogado fora. Imagine vê-la casada com um homem que faz vista grossa à falta de compostura da tia! E assim será. apenas por amizade. Menos penosa. porém tão inútil. sopas. Carregará para sempre o queixo torto que lhe enfeia o rosto. dor e nenhuma melhora(3). Graça Mello e depois outros médicos são consultados. à medida que cresce. expressivos. O nariz é afllado. O lado direito do rosto pouco ou nada se movendo. Ambas sem sucesso.dirá Eduardinho ao vê-lo forçar o maxilar de Noel com um abridor de boca até romper-lhe as fibras do masseter. um precário aparelhinho que Noel não usará por muito tempo. dietas que o permitam usar o menos possível a mandíbula. rosado. amigo da família. Tem a cabeça bem feita. fim de noivado. Essa conformação de rosto que se vai acentuar com o tempo . está longe de corresponder à realidade. não é uma criança infeliz. Mas. Ovos cozidos. O defeito começa a ser notado assim que o menino troca a mamadeira pelas primeiras refeições sólidas. pensa-se de início numa paralisia temporária. dona de pensão familiar. purês. falando ou.mas por pouco tempo: ao descobrir que o moço morava com uma tia. terá oportunidade de testemunhar a primeira dessas tentativas frustradas. nem como o do pai. Rita exigirá que a filha de criação rompa o noivado. Será sempre assim. conhecerá um farmacêutico de São Paulo. mastigando.

frágil. O último. prefere os livros aos brinquedos. Pixinguinha. Os problemas que o tomaram de surpresa . Só se formou em 1911. No máximo. que aniversariava com o dono da casa.!" O eco espalhando suas vozes pelo bairro. Noel cresce feio. Na rua. bonito. todos muito amigos de Noel. Enquanto isso. inteligente. fazendo-as atravessar portas e janelas até chegarem 27 Nota explicativa: Dois médicos Por ocasião do nascimento de Noel. Edgar.. interessado em música e poesia como tantos de seu tempo. pai do compositor e arranjador Guto Graça Mello. Os traços do roto lembram muito os da mãe. mirrado. com ligeira tendência a engordar. Mais do que quatro anos de idade vão separar os dois irmãos. comanda as brincadeiras. sempre de bom humor. contando às vezes com a presença de artistas como Stefana Macedo e Vicente Celestino.a quem esta condição sempre incomodará um pouco . E mesmo. lundus. Era homem gentil.o bebê grande demais para . Nelson. Um líder. consciente talvez da má impressão que causa. já estava casado e com filhos no dia em que decidiu ser médico. Em tudo mais será um menino seguro. Nilda e Octávio. em quase tudo. a festa era maior. mas ultimanista de medicina. Nos dias de São Jorge. nenhum problema. ao Natal. Pela ordem. o favorito de quase todos. mais de um mês depois de ter nascido Noel. Hélio é caseiro. E em casa. a que dão o nome de Hélio. Um deles.nasce a 29 de dezembro de 1914. sua casa no Boulevard transformava-se em ponto de reunião de seresteiros e chorões. É um garoto forte. O ultimanista de medicina contava com um parto simples quando se dirigiu ao chalé naquele sábado. polcas. José Rodrigues da Graça Mello . desembaraçado. Seus saraus ficaram famosos no bairro. tem poucos amigos. Parto normal. O número dois . os companheiros de algazarra.. ator de teatro. maxixes. ao que seja. tudo se ouvia nos saraus dos Graças Mello. Hélio de Medeiros Rosa. sem homenagens à França. cinema e televisão.que acabaria sendo o padrinho do menino -. quando foi chamado ao chalé naquele explosivo sábado de dezembro. Desta vez. No mesmo chalé e também pelas mãos de José Rodrigues da Graça Mello. não o demonstra. Casado com Glorinha. inteligente. tiveram quatro filhos. valsas.financeiras que a família vai enfrentar. Todos vivem a dizer que Hélio é um menino lindo. também depois da operação dolorosa e mal-sucedida. é o número um. mostra-se meio constrangido ao comer na frente de estranhos. Nascido no Rio a 23 de abril de 1881. diferem-se muito. Complexo por causa do queixo? Se o tem. Choros. Noel ama a rua. Martha de Medeiros Rosa foi assistida por dois médicos que ainda se incluiriam entre os mais conhecidos e estimados personagens da história de Vila Isabel. Gosta de subir descalço a Pedreira do Simões para lá de cima ele e os amigos gritarem a plenos pulmões: "Olê-lê-oooooooooo. Todas as quartas-feiras. Na aparência. não era exatamente médico. Ativo. É forte. O primeiro também seria médico. no modo de ser. costumava aparecer para um gole de pinga e um solo de flauta.

com base em documentação fotográfica e nas informações dos autores (que por sua vez as colheram com parentes e amigos da família de Noel. Heloísa e Hilde. Devendo o fórceps segurar o bebê pelos dois lados superiores da cabeça (ossos parietais). que tinha distante parentesco com o pessoal do chalé (sua avó. Graça Mello. frente no Boulevard. a Iaiá. Os três primeiros se destacariam em suas respectivas carreiras militares e políticas. permite-se formular a hipótese mais provável do que causou o defeito (braquignatia) no queixo do poeta de Vila Isabel. No ano seguinte. que mais tarde dividiria entre os filhos (a rua que hoje reparte em dois o quarteirão correspondente à chácara chama-se. Emília Augusta de Freitas Pacheco). e depois no Anchieta. O côndilo é uma saliência oblonga que se destaca no bordo superior de cada ramo ascendente da mandíbula. era irmã da mãe de Rita. Major Barros). 2. O pai dela. Heleno da Costa Brandão. Heleno ejosé Peru também seriam muito conhecidos no bairro e fora dele. Heleno e Cecé tiveram três filhas. Outra filha de José Cândido . desde cedo sonhou com a profissão. de outra família tradicional do bairro. seria em Vila Isabel um médico tão ilustre e estimado quanto o sogro. de Nova Friburgo. além de filhos dos dois médicos que acompanharam o parto). Jorge Sampaio de Marsillac. Médico e farmacêutico. em Campos. José Cândido de Barros. O marido de Heloísa. Antônia Eulália d'Ávila Brandão. Foi de Heleno da Costa Brandão a decisão de usar o fórceps para ajudar Noel a nascer. fraturando-o. antes de ingressar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. . Comprou uma bela chácara em Vila Isabel. Antônio Assis de Salles. Como terá sido? De que forma deu-se o acidente? Por que. na têmpora direita. O que ele sempre fez questão de dizer e repetir. cujos filhos Adalberto. depois de lutar na Guerra do Paraguai. livrando assim de qualquer responsabilidade o amigo. fundos na Torres Homem. adquiririam grande reputação nos meios científicos como cancerologistas. a Cecé.era Maria Cândida de Barros Nunes. Cacau. defendia tese. em sua homenagem.levaram-no a apelar para a maior experiência de um médico já formado.e portanto irmã de Cecé . formava-se. com quem já vinha trabalhando no pequeno consultório em cima de uma farmácia do Boulevard. Jayme. Nascido em Vila Isabel a 18 de agosto de 1883. ganhou cartório do Imperador e enriqueceu. uma de suas extremidades o fez num ponto mais abaixo. " 1.a bacia estreita da mulher . ainda acadêmico. para vir ao mundo.a articulação-têmporo-mandibular 28 e responsável pelos movimentos da mandíbula. mais precisamente no côndilo mandibular. Heleno. estudou no Colégio Rachel Bessa. Ele e o filho. professor de anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É através dele que este osso se articula com o temporal . Em 1907. Casou-se com Maria José de Barros. Noel Rosa teve de ser tão duramente marcado? O Dr.-Helena. Ao contrário de Graça Mello.

A minha é aquela bruxa horrorosa! . Enfim. Daí.Eu vou buscar o leite. Hoje. o abridor de boca . os dois médicos fizeram muito bem em carregar apenas o orgulho de terem trazido Noel Rosa ao mundo. mas apenas em parte." O fato de a fratura só ter sido constatada meses depois pode ter influído. faço isso. Observe-se. em vez de culpas. trata os mais velhos com polidez. morrendo a 1. pelas fotos de Noel. Noel traz na sua a poeira das calçadas. Heleno Brandão viveu um pouco mais. o pão. deslizando pelos estribos. ou seja. 5. o problema poderia ser solucionado com modernos métodos ortopédicos (por exemplo. sobre a inscrição: "Dr. viveu e morreu legou o tesouro de uma vida exemplar. 4.o calço de acrílico. As tentativas de correção que se fizeram mais tarde . cinco anos que ocorre a conformação definitiva da face. reclamão. saltando como um trapezista para subir ou descer do veículo em movimento. é durante estes quatro. Noel tem bom gênio. ." Fim da nota explicativa ao Andaraí). ciumento: . destruindo nele microscópicas zonas osteogenéticas. O côndilo é também o principal centro osteogenético da mandíbula. é um caroneiro a desafiar os perigos de um bonde em disparada.° de junho de 1947. Motivo: é dos doze aos dezesseis anos que se torna maior o crescimento da face (e menor o do cérebro). é sobretudo a partir dele que se dá o crescimento do osso. etc. Com os exíguos recursos médicos da época.protesta.Aqui em casa é tudo pro Noel. 6. não é de se queixar.a mesma em que seria inaugurado um monumento a Noel está até hoje um busto seu. acabou por afetar o crescimento do osso no lado atingido. Deram-lhe o nome de uma rua em Cavalcanti. Nos temperamentos. Andará pendurado em balaústres. não mandam ele fazer nada. água e vinho. passadas mais de sete décadas. estrabismo. Heleno da Costa Brandão fez da medicina um apostolado e a este bairro onde nasceu. faço aquilo. A fratura. Hélio está com a roupa invariavelmente limpa.foram tão inúteis quanto improvisadas. Elas são quase sempre simétricas (o defeito de Noel limitava-se ao lado direito) e acompanhadas de problemas outros não encontrados em seu quadro clínico: surdez. que o defeito acentuou-se na puberdade. aparelhos estimuladores de crescimento) ou cirúrgicos (inclusive a extração do côndilo seguida de prótese). risco que Hélio nem quer saber de correr. mas Graça Mello e Heleno Brandão nem sonhavam com eles.3. Este e outros dados devem servir para que não se leve muito em conta a hipótese de uma das síndromes congênitas que também causam a braquignatia. é pouco provável que um diagnóstico precoce tivesse ajudado muito. que é bonita. Noel tem sorte. até o fim da vida. Hélio será um garoto meio difícil. Graça Mello morreu no Rio a 8 de fevereiro de 1942. irritadiço. Na Praça Tobias Barreto . exorbitismo. A madrinha dele é a Arlinda.

É repreendido. Vó Rita não quer as crianças perto do Pleyel. A reincidência obriga Arlinda a trancar o instrumento. desde pequeno. vai se descobrir que tais reações se devem à epilepsia. Suas travessuras domésticas são quase sempre perdoáveis e freqüentemente enfeitadas de alguma graça. Saboreiam os doces e biscoitos Caseiros que se distribuem entre um número e outro. Mas este é um brinquedo proibido. Arlinda sorri. convencida de que uma travessura que acaba em poesia não merece castigo. A partir das convulsões que começará a sofrer ainda na infância. vó Bella orgulhosa de seus quitutes.Aqui está. suas desobediências preocupam a família. Arlinda no piano. deixa sobre o tampo um bilhete para a madrinha. não cantam. Hélio não tem mesmo a sorte do irmão. insiste nela. Agora. a família recebendo visitas. Mas Noel sempre descobre o esconderijo. A proposta provoca-lhe nova explosão. os pais achando que o convívio com outras crianças e a disciplina imposta por uma professora estranha sejam o bastante para amoldá-lo. Vó Rita chega a prometer-lhe prêmios para o caso de o boletim escolar registrar boas notas em comportamento. . meu prêmio.Noel comporta-se bem em casa. deixando para descarregar as energias na rua. Em versos. "Minha Dinga. Acena-lhe com outros prêmios para que seja um bom menino o dia inteiro. pega a chave. cantando com uma voz que se esforça para educar pondo no gramofone os discos de Enrico Caruso e outros monstros sagrados da ópera. olha para as mãos de Arlinda enquanto ela as faz passear pelo teclado. pede desculpas e diz que é tempo perdido esconder a chave: sempre será encontrada. controlando na base da química os ataques cada vez mais freqüentes será para a família um menino difícil. Noel. Em casa. à avó. Como as habituais idas ao piano. Martha no bandolim. correndo.e até que passe a se medicar.. uma tendência a irritabilidades repentinas que vão de simples respostas atravessadas a desagradáveis estouros.A senhora pensa que épouco o sacrifício que já faço na escola e ainda quer que me comporte bem em casa? Irritabilidade sempre inesperada. tímidos esforços para descobrir por conta própria a mágica de produzir música batucando em teclas brancas e pretas. mal que o acompanhará por toda a vida(4). . não tocam. Dá um soco na mesa e vocifera: . Seu comportamento. em todos os lugares. Não chega a ser um menino rebelde. Neca no violão.". Nesses saraus. volta ao sarau. Carmem no violino. ficam ouvindo.. Convencida de que a tática funciona. abre o piano e dá início ao seu sarau particular. Já rapazola. É em volta dele que a família continua se reunindo. deixa a escolinha e é matriculado num colégio público. em casa como na escola. tenta-se de tudo. escondido da avó. será protagonista de insólita cena à mesa de jantar. começa ele. a participação dos meninos ainda é mínima. mas há nele. Mas enquanto não se sabe disso . Vó Rita cumpre a promessa. Um dia entra em casa com um 100 que mostra. 30 Com menos idade do que Noel o fez. em geral aos domingos. No dia seguinte. "impossível". quando muito. Depois de tocar até se cansar.

propôs a outro empregado. ajudando de alguma forma na escolinha. fica sendo o difícil. Por que não uma casa de classe. mas dentro dele deixou enterrada a promessa de sociedade. depois de casado. já era o gerente ou. O próprio Hélio dará sua aprovação: . o "impossível". . de roupas masculinas.o queixo torto de Noel. foi o de guarda-livros da Camisaria Especial. um sobe-e-desce que se arrastará por muito tempo ainda. correrá até o banheiro. O dono saiu afinal do buraco. Martha e Neca não terão mais filhos. de caldo fino e deleitoso. elogiadíssima. Martha principalmente. embora filho de português rico. na Rua do Ouvidor. dizendo o que pensa e sente. Hélio. lenços. Mas faça-se justiça a Hélio: enquanto ele exterioriza seu modo de ser. o braço direito do proprietário que um dia. Será servida uma sopa deliciosa. repressores.Droga! Por que não me avisaram? Furioso. Em poucos meses. Todas as mulheres trabalham. extrovertido. Carmem ajudou com suas economias. Só de pensar dá-lhe engulhos. Noel é antes de tudo um simulador. generosidade. Desde que os Corrêas de Azevedo se mudaram para Vila Isabel.não serão pais rigorosos. chamou-o a um canto. Neca. astuto o bastante para que as pessoas se deixem levar por seu ar sonso de anjo de igreja. o verdadeiro responsável pelo sustento da casa. gravatas e cortes importados da Inglaterra? Neca tinha algum dinheiro. só que camuflada. faço-te meu sócio.De couve-flor. Terminado o jantar. as tempestades de dinheiro curto se seguindo a períodos menos ou mais longos de bonança.De que era aquela sopa. em tom paternal: . a família vive numa espécie de gangorra financeira. alguém indagará: .Se tu me ajudares a sair deste buraco. contava mais com o apoio do sogro também . conhecido como "o rei do bacalhau". sempre se sai bem. A esses dois darão o que de melhor possuem: amor. custe o que custar. medindo gestos e palavras na frente dos mais velhos. pôs-lhe a mão no ombro e disse-lhe. desapontado. as visitas ainda à mesa. tolerância. dona Bellarmina? . camisas. De natureza na verdade mais inconformista e rebelde. enfiará o dedo na goela e porá para fora o jantar.ela que sempre cuidou. as convulsões de Hélio . Seu primeiro emprego fixo no Rio. simulador. um garoto que não se expõe. um certo Rodrigo. Os dois crescerão tão livres quanto possam ser dois meninos desses tempos. estando a firma metida em apuros. Neca passou a trabalhar em dobro.Vovó. mostrando-se transparente e por inteiro. enquanto Rodrigo. mais que isso. Hélio se lembrará então que couve-flor está entre as coisas que mais abomina. Reergueu em pouco tempo um negócio que parecia irremediavelmente condenado. da cozinha da casa. quero mais. abrirem juntos sua própria firma. dedicou-se à camisaria como se fosse sua. como em todo patriarcado. Custarão um pouco a perceber que o número um é muito menos "bem-comportado" que o número dois. com gosto e capricho. mas é Neca. São realmente muitas as diferenças de comportamento entre os dois. Talvez sensíveis aos handicaps de cada um . Noel.

navios mercantes brasileiros sendo torpedeados. nova tempestade. seu Medeiros. Continua precisando desses isolamentos periódicos. a guerra recrudescendo. nesse sentido. Alguns de seus empregados têm mesmo o que esconder: são ladrões. delimitando fazendas. Neca jamais deixa de honrar sua palavra. a alimentação. Mas não. a faculdade. Mesmo quando não é preciso fazê-lo. de pagar pelo que não deve. claro. fechar as portas da firma. o bloqueio alemão às costas britânicas e francesas. onde todos o conhecem por Neca ou seu Medeiros). o sogro de Rodrigo punha sua parte depois. Mas desde 1914 a vida está mais difícil em toda parte. Assim. Honesto além dos limites (ou como se forçado por estranha necessidade de assumir culpas. . tira o corpo fora: . em pouco tempo de estudo). a casa de roupas de classe da Rua Gonçalves Dias entra em crise.diz ele. É hora de entrar com sua parte. Títulos a resgatar em vários bancos. De tal forma o dinheiro parece sobrar que Neca nem liga para os calotes que volta e meia lhe 31 aplica um cliente ilustre: Ruy Barbosa. derrubando árvores. de sofrer pelo que não fez). abrindo esteiras. ora. Naquele desterro.Ora. Depois da bonança. as mulheres vestem-se como nunca. Neca recorre ao sogro de Rodrigo. A mesa faz-se farta. o transporte. vira-se para Rodrigo e diz-lhe que arcará com tudo sozinho. ir cuidar da vida em outro ramo qualquer. o estoque da loja quase a zero. Isso são negócios de meninos. Suspensas até segunda ordem as importações da Europa. Ao contrário dos homens com quem andou fazendo acordos. os livros. Fizeram negócio nas seguintes bases: Neca entrava com o capital inicial. metade da Europa entrincheirada. Neca parte para o interior atrás de um emprego de agrimensor (ofício que aprendeu sozinho.rico. O outro. Neca satisfaz a um só tempo duas necessidades: a de ganhar dinheiro para pagar as dívidas e a de ficar só mais uma vez. embora fossem tempos de guerra. No caso. matas virgens. bastaria declarar-se falido. identificando-se apenas como "doutor" Garcia (nome que jamais assinou no Rio. Vai aos bancos e outros credores. Os efeitos. Dinheiro farto o bastante para que Martha ganhe do marido jóias de esmeralda: . empréstimos pessoais a saldar. a caça e a pesca. O que importa é o privilégio de servir a tão grande brasileiro. sua importadora na Rua Gonçalves Dias. são sentidos também no chalé. para além de Araçatuba.São para combinar com os teus olhos . Na verdade. Mete-se mata adentro. assassinos. Como se tivesse algo a esconder. vive ali quase em segredo. otimistas. os negócios parados. um paraíso: terras abandonadas. Torna-se chefe de uma equipe que cuida de loteamento de terras no noroeste paulista. Noel e Hélio ganham roupas e brinquedos caros. São quatro ou cinco anos de nova bonança no chalé. Eduardinho já não precisa se preocupar com os gastos. E o interior paulista parecelhe. promete a cada um deles pagar até o último tostão do que deve. foragidos da Justiça que sabem não ser mais possível voltar à cidade grande. os dois instalaram. porém. o período de maior conforto gozado pela família desde que Neca se tornou seu chefe.

almoça.. à cabeceira do jovem médico. modestamente vestido. Noel.. na Rua Maxwell. Neca vai passar dias. A maleita? Pensa consigo mesmo: "Estranho. Numa dessas vindas. Ficam muito assustados quando um homem alto. toma um trem para lá. tremores pelo corpo.Por que não cuidamos do menino? Poderemos educá-lo com as nossas crianças. não chega propriamente a morar no chalé. crianças com as quais Noel e Hélio vão dividir boa parte de sua infância. Eduardinho. Comojocelyn da Encarnação e os irmãos Dulce. O pai. Neca se incumbe disso até que o cunhado esteja em condições de viajar para o Rio. o mesmo colégio em que Noel completará o primário. preferindo dizer que Mário é "fraco" ou simplesmente "doente". a delicada operação pelos doutores Heleno Brandão e Graça Mello. Tão terrível que as pessoas lhe evitam o nome.Hélio. Uma perda a mais para seu Álvaro. Vai e teme-se que não volte. nesses dias. Ao tentar ajudar uma comunidade indígena da região. viúvo amigo de Perpétua. Álvaro Pereira da Encarnação. Uma delas.. Sylvia e Mariozinho são filhos de Mário Brown. Na esperança de que se recupere de um pulmão doente. Dorme e no dia seguinte começa tudo de novo. foi-se embora. No chalé sempre cabe mais um. um ano mais velho que Noel. amigas da família Encarnação. Não o reconhecem. janta e só depois volta para sua verdadeira casa. Do segundo casamento. ser melhor tratado no chalé. Chegando a Aquidauana. toma o café da manhã. nasceu uma menina. As diversões são poucas. mas nunca . Noel e Hélio vão esperá-lo na estação.O doutor?Esta morrendo no hotel. como médico da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. estuda. uma dor muito grande para o pobre Jocelyn. um mineiro falido preocupado com a honra.seus companheiros de trabalho não fazendo perguntas e nada falando de si mesmos. Comentou o fato em casa com a mãe e as irmãs. já acadêmico de medicina. passa a freqüentar a escolinha e. brinca. Sylvia e Mariozinho Brown. estuda um pouco mais. Os bancos já nem contavam com isso. Terá sido o choque daquela notícia?" Fica seis anos fora. aproxima-se deles na plataforma: . seu pai! Volta depois dos seis anos. anos depois. O enfermeiro exagerou: 32 Eduardinho não está morrendo. Dulce. Ou mais quatro. Paga as dívidas até o último tostão. Com febre.. É desse modo que Jocelyn entra na vida do chalé. enviuvou quando Jocelyn tinha apenas onze meses. mais tarde. Tifo. Rita teve uma idéia: . Tão preocupado com o estado de saúde dele que se esquece do seu próprio. Submetida. assistiu à operação. Tuberculose. Confia mais em Eduardinho do que em qualquer outro. Mas precisa de cuidados. quase toda ela sofrendo de maleita. é moléstia quase fatal. o enfermeiro que trabalha com o cunhado recebe-o com aterradora informação : . vivendo todos sob o mesmo teto como uma só família. só voltando a cada dezembro para os aniversários dos filhos e as festas. contrai a doença. Jocelyn. semanas. matar cobras a tiros de revólver Passa por maus momentos. Ficou arrasado. irmã de Rita. barba por fazer. Está trabalhando em Aquidauana. os médicos recomendam-lhe passar uma temporada em Belo Horizonte. Mato Grosso. morreu. Vem cedinho. Lembra-se então de que Eduardinho já se formou. Sou eu. ainda pequena.

um casarão antigo no lado ímpar do Boulevard. Por que Rita não fica com os três? Como internos na escolinha. alimentado desesperadamente por tanta gente. "qualquer economia acaba sempre em porcaria. Pois Carmem . os mesmos direitos. uma tão liberal. no estribo do bonde. discipli-nadora e austera que a irmã. mas não Mariozinho. Noel detesta este lado meio avaro da tia." Por isso atreve-se a confidenciar a Arlinda uma opinião sobre tia Carmem: . necessário mas maldito. esquina de Silva Pinto5. Sylvia e Mariozinho. de brincar com o perigo nos saltos que o fazem subir ou descer. perde-se tempo esperando o Vila IsabelEngenno Novo ou o Aldeia Campista.que desde o início liga-se muito a eles. Seria uma dor de coração separá-los. portanto. Rita de fato os aceita como "internos" do seu externato. . Noel ejocelyn. e a outra tão presa a regras.Este menino é louco!. o dinheiro como coisa feita para entrar e sair logo. Diferenças inclusive na maneira de administrar a casa e a escola. Come o caroço da banana e depois a casca. trabalhar e guardar nos dias bons para sofrer menos nos ruins. com muito humor. Poderia abrigar nele Dulce e Sylvia. já estão matriculados no terceiro ano da Escola Pública Cesário Motta. para não os separar.. Tão perto de casa que os dois fazem o percurso a pé em menos de dez minutos. Não gosta dessa mania de poupar. porém. Passam a ser seis. Apela para a irmã. de zangas poucas e sempre brandas. Perpétua dirige um internato feminino na Rua São Francisco Xavier. tornando-se mesmo. Noel é atento também às diferenças entre a mãe e a tia.É muito pão-dura.tuberculoso. debruçados sobre carteiras que se distribuem pelas duas salas e um dos quartos do chalé. Isso 33 quando Noel não cisma de viajar o quarteirão. o pai longe. os dois mais crescidos. Martha é perdulária. na qual vão ser cada vez mais atuantes na medida em que Rita envelhecer. Estudam todos na escolinha. O dinheiro. aprendeu a ver no dinheiro algo que para o resto da vida chamará de "vil metal". os tempos de bonança devendo ser aproveitados antes que voltem os de tempestade. pelo contrário. a toda velocidade. a falta dele e sobretudo o apego a ele. as mesmas obrigações. não mais que um quarteirão. o incomodarão sempre. por iniciativa própria. As que chegam agora sendo criadas como as de casa. instrumento de grandes bens e de males ainda maiores. mas vale a pena pelo prazer de correr riscos. Desde o primeiro escorregão financeiro do pai. E uma liberdade quase tão ampla quanto a que Martha e Neca dão a seus filhos.grita alguém ao vê-lo saltar. Dulce. ..é mulher mais exigente. é como a formiga da fábula. Assim. Carmem. proibindo mais que permitindo. as crianças do chalé. nem tanto. cobiçado mas ilusório. em frente à Cesário Motta. já sem mãe. Como dirá. nos versos que fará um dia. Em março de 1920. cuidando mais diretamente de sua educação. uma espécie de segunda mãe . É mais demorado.

chegam a sentir medo e param de rir. É aqui que vê plantadas suas alegrias de garoto. do amigo mastigar. as . Na volta do recreio.Prometo.Não confio mais em você. . Noel volta a atirar-se ao estribo do bonde parado no ponto. Noel corre pelo estribo. senta-se. Neste momento Martha passa na calçada. Jocelyn vai atrás. Usando o garfo e fazendo da borda do prato um ponto de apoio. O restante da turma começa a entrar. . Foi a última vez que o imitaram. faz caretas.Francamente! . A violência da cena assusta as outras crianças. Jocelyn deixa-se contagiar pelo irrequieto humor de Noel. vai mudando. a ponto de ser confundido com os alegres e endiabrados moleques do bairro. Jocelyn tenta segurálo. A fisionomia de Noel. é incapaz de tomar conta do filho no caminho da escola. batalhador. Sylvia. A pelerine e o velocípede de Noel são dados a ele. pelos mistérios do sexo é cultivado desde cedo. fecha-se. põe o que tem de fora e fica esperando. O gosto pelas piadas proibidas. Ainda que esse humor eventualmente mude. é outro na rua. alimentação. Roupas. Em casa. suas mais gratas lembranças. Dulce. dona Martha. Mas o pessoal do chalé ajuda como pode. Espalha-se feijão por toda a mesa. enche a colher de feijão. No colégio e em casa. esquisito. referindo-se às três meninotas que se sentam na carteira de trás. A segunda. antes também risonha. O bonde sai. Exagera na imitação. Apavora-se ao ver que não apenas o bem-comportado Noel pode ser confundido com os moleques do bairro. no jeitinho com que Noel consegue convencer as pessoas de que é mesmo um anjo.Você é mais velho. pelas brincadeiras obscenas. não pode dar ao filho os confortos que gostaria. ao contrário do que ela pensava. -Já reparou como essas três são bonitas? . dá uma pancada no cabo da colher. Promete que não vai deixá-lo mais pegar carona de bonde? .Loucura. de balaústre em balaústre. chama Jocelyn. de que o compenetrado Jocelyn. no convívio com os "irmãos".indaga a Jocelyn numa aula da professora Adélia Lisboa Manzano. No outro dia. gritando para que pare. livros. aliás. a de que Noel. Os dias que passa no chalé são os melhores de sua infância (aos treze começará a trabalhar. abre a braguilha. Uma. . Lentamente. não seguirá Noel no ginásio). olhos arregalados. Como no dia em que estão as seis crianças almoçando na mesa da cozinha e Jocelyn se põe a imitar o jeito torto. Mariozinho. entra na sala antes dos outros. provoca risos em Hélio. Noel solta uma estrepitosa gargalhada. maior que ele. tinta-se de cólera. que ainda levará Martha a duas constatações. No modo como é tratado. Quer impedi-lo de fazer as evoluções que dona Martha tanto teme. Martha passa certa manhã pelo Boulevard quando vê Noel numa de suas arriscadas acrobacias. Rita faz questão de que nada lhe falte. brinquedos. voltará para a companhia do pai. tão bem-comportado em casa.dirá a Jocelyn. coloca-a no prato com o cabo do lado de fora. E depois que elas. Álvaro Pereira da Encarnação é homem pobre. Mas ele não diz nada. enquanto Hélio goza de fama oposta.

certificando-se de que não vem ninguém. O dinheiro pode faltar de vez em quando. Ou ainda do Chie. desde agora despontando nele o gosto pelos esboços a lápis. Naturalmente. onde é possível ouvir o piano de Sophonias Dor-nellas e. sexo à mostra. 2. Uma divisão de madeira separa o banheiro da pequena copa ao lado da cozinha. De início. Noel quase conseguindo alcançar o vão. os dois muitas vezes vão até o Centro atrás de um poeirinha que exiba filmes do famoso cowboy. ficam embaraçadas ao vê-lo displicentemente em tal posição. Dividem a admiração por um herói dessas silenciosas aventuras em preto e branco: Tom Mix. ele e Jocelyn pintando a quatro mãos um transatlântico que ganhará lugar de destaque na "exposição de arte" da Cesário Motta. molhado. e tenta subir um pouco mais. o ar inocente. Uma delas. enquanto Noel. Há. a pedreira. o jogo de botões. a rua. ali sentado. A divisão não vai até o teto. o balão. apoiando os dois pés na torneira. Um esguicho d'água começa a inundar toda a copa. freqüentadores do Smart. As palavras de Caxias estão gravadas numa das placas hoje afixadas na fachada da igreja. o desenho. Suas brincadeiras. a voz de Helena Cavalier. por exemplo. a pipa. o piano proibido. mas sempre há Tom Mix. ganhando os melhores olhares da mocinha. e acha melhor fingir também: . Em casa. pernas abertas. em ocasiões especiais. Mas esta não suporta tanto peso. Dona Adélia olha 34 para Noel. porém. montando seu cavalo negro Tony. Jacy Pacheco se equivoca ao afirmar em Noel Rosa e Sua Época (página 24) e O Cantor da Vila (página 40) que aos dez meses o menino venceu um concurso de robustez . Para vê-lo em ação. alheia a tudo. De repente. fíngindo-se de distraído. vai um pouco mais longe. mágica que sempre cerca de encantamento os garotos do bairro. estirado no Chão.três meninotas passam por ele. Indalina. cantando sob o chuveiro. Ou do Cine Boulevard. E Dulce. faz de conta que não viu nada. minha filha. recebe no rosto o jato frio. vai à mesa da professora e conta o que se passa. Não é mesmo infeliz a infância de Noel Rosa. Para seu desapontamento. Olha para um lado e outro. quem chega pouco depois estranha todo o quadro. NOTAS 1. as garotas. Mas Noel e Jocelyn estão mais interessados nos filmes. a torneira salta da parede. não é o bastante. na esquina de Pereira Nunes. as paisagens a guache e até mesmo os quadros a óleo. derrubando bandidos. espera que ela entre no banho e executa um plano cuidadosamente arquitetado. Noel caído. cuja tela o velho Oliveira molha antes de cada sessão. havendo ali um vão que parece caído do céu: através dele pode-se ver tudo que se passa dentro do banheiro. nem sempre são tão inconfessáveis. E há também o cinema. Decidido a ver Dulce nua. perto da Praça 7 de Março. a água saindo de onde deveria haver uma torneira.Indalina. Noel sobe na pia da copa. a copa alagada.

E o bonde que parece uma carroça. muito nossa São Coisas Nossas Os dois são muito inteligentes. Só que de cabeça para baixo. Diz Almirante. desconhecida também de Eduardo Corrêa de Azevedo e outras pessoas da família. Eram muito comuns na época os concursos desse tipo promovidos pela Prefeitura do então Distrito Federal. de frente para o irmão... Hélio de Medeiros Rosa jamais se livraria de todo dos ataques epiléticos. pelo abridor de boca. Esta firma só em 1921 iniciou suas atividades no Brasil. por questões éticas. tenha garantido aos autores que o sobrinho realmente venceu um deles. Os autores não conseguiram apurar nada sobre uma eventual passagem de Noel pelo Maisonette. Prestamista e vigarista. jornaleiro. em razão dos limitados recursos da época. Aos quatro anos. -Foi assim que aprendi-explica aos que se admiram de tal façanha.e cujo nome. foi mesmo às avessas que . uma criança prodígio. amigos e vizinhos daquela época. Portanto. não se encontrou registro disso nos arquivos municipais ou na imprensa de 1911 e 1912. enquanto este estudava.infantil patrocinado pela Nestlé. O traumatologista famoso que assistiu o sobrinho . Optou. mas a melhora seria apenas temporária. Mas em casa . negou-se terminantemente a revelar . as letras invertidas. O que provavelmente também não teria dado certo.é Hélio quem se destaca. Por algum tempo os ataques tornaram-se mais brandos e espaçados. com os olhos do exagero. as palavras começando do fim. então. 5.se submeteria a uma operação destinada a aliviá-lo de uma compressão no cérebro. 35 PELAS RUAS DO BAIRRO Capítulo 3 Baleiro. não fazendo aquele biógrafo qualquer referência à Cesário Motta. já sabe ler e escrever. Embora Eduardo Corrêa de Azevedo. 4. Detalhes dessa operação foram narrados aos autores por Eduardo Corrêa de Azevedo.e anos depois da morte do irmão . Motorneiro. de tanto ouvir as aulas do Externato Santa Rita de Cássia e de observar o irmão estudando na cartilha feita por Martha com suas próprias mãos (letras recortadas de jornal e coladas num caderno escolar). talvez sem saberem que.pretendia de início realizar uma intervenção mais ambiciosa: corte do osso e enxerto.diante da extroversão do mais moço e do jeito meio guardado do mais velho (ou até que o menino Noel se transforme no compositor popular Noel Rosa) . nas duas edições de No Tempo de Noel Rosa. que após aprender as primeiras letras com a mãe Noel ingressou no Colégio Maisonette. 3. condutor e passageiro. quando Noel já estava com dez para onze anos. Coisa nossa. Já adulto . o filho. A família chega mesmo a ver nele.

e por muito tempo ainda. inicia-se sozinho num idioma que acabará dominando inteiramente. Com apenas oito. Sylvia.se alfabetizou. Neca pergunta-lhe como sabe. ele distraído. ainda colocarão uma placa com os dizeres: "Aqui nasceu Hélio de Medeiros Rosa. é quase a mesma coisa . outros tempos e até outros mundos. porém. brincando com Sylvia no Chão da sala.arremata com ar superior. enganando-se ao atribuir a um personagem o 37 que de fato se passou com outro. De todo tipo. Do figurão ao anônimo homem da rua. Por este e por outros motivos. Gostará mais de uns que de outros. será um estudioso dos mistérios da morte e da reencarnação. a . Espantado. mas de todos ou quase todos falará em seus versos.Li naquele livro . Aos seis. A atração pelas histórias fantásticas. É tolice. o sobrenatural. jornais velhos e lápis de cor espalhados. de Ia Ville de Mir-mont. talvez um poeta como Bilac.Na entrada deste chalé. Já Noel prefere o mundo à sua volta. Passa a mão pela cabeça do menino e vaticina: . ..Não diga isso. matéria-prima que são do poeta-cronista que já existe nele. Ali mesmo.aponta para a estante. graças a um livro de inglês sem mestre que descobre na estante. Trata-se de Mythologie Élémentaire des Grecs et des Romains. visível. seis para sete anos. mas de toda a cidade. observador. Repreende-a: .. chega a corrigir o pai que à mesa recorda antiga lenda grega. Quando adulto. . o bairro. Hélio escreve na margem de uma folha de jornal uma quadrinha que logo estará passando de mão em mão. se sentirá fascinado pelo espiritismo. São interesses que nasceram com ele. Um dia. Na certa será alguém. seres vivos que o atraem bem mais que qualquer alma penada. . editado pela Librairie Hachette em 1905. Enquanto o irmão anda metido com abstrações. se tornará maior com o tempo. ele cuida de viver a rua. É um garoto atento. o além. Todos maravilhados com tanta precocidade: Muitas vezes acontece Como a Sylvia agora disse Muitas vezes acontece Não dizer senão tolice Orgulhosa.Mas está escrito em francês. estará sempre impressionando os mais velhos. gosta de ouvir e contar histórias fantásticas. de H. nove anos. mal a tia pronuncia essas palavras. Um poeta-cronista não só da rua e do bairro." Desde menino se preocupa com assuntos de outras terras. E muito especialmente as pessoas. ou um cientista como Oswaldo Cruz. a menina faz um comentário qualquer que Carmem acha inoportuno. acredita no sobrenatural.Ora. Hoje. palpável. vó Rita prevê para o neto um grande futuro. Interessado em gente. Interessa-se por mitologia.

recém-loteado. intuindo. pessoas que gozam de maior prestígio na comunidade (afinal. é mesmo. ao crescer. tão precisada de alento para o corpo. Os primeiros são o médico. De todos os bairros do Rio. o Maracanã de famílias conservadoras. o Andaraí de contornos proletários. vá se ajustar perfeitamente àquilo que João do Rio chamou de flãneur2. incuravelmente sentimental. Operosos. espiando.cidade. a tragédia. umas tantas liberações. os morros da Mangueira e dos Macacos. o Engenho Novo de ares provincianos. os marginais e os demais. conjeturando. o meu coração. desde os que se banham pelo mar aòs que se perdem nas lonjuras dos subúrbios. homem que vive subindo morros para aliviar de graça as dores lá de cima. que só daqui a algum tempo se permitirão. poucos terão população tão múltipla. Médicos como os dois que ajudaram Noel a nascer. bebendo nos mesmos botequins.. em Vila Isabel. perguntando. nenhum deles na verdade se importa muito com honorários. a professora e o padre. 38 é aqui. pessoas que se cumprimentam sem se conhecerem. na ribalta das esquinas. farejando. Ou como Cid Prado. o Grajaú ainda meio deserto. estes sonhando em ser como aqueles e fazendo desse sonho a sua divisa. Como ele próprio dirá: "Quando penso no Boulevard. nas ruas pacatas que guardam os meus melhores segredos. gente debruçada na janela para ver o trem passar. bate descompassado como um tamborim tocado por estrangeiro.Vila Isabel acaba tendo um pouco de cada um. Seus habitantes formam mesmo um elenco variado. nas batalhas de confete da Rua Dona Zulmira e redondezas. nas esquinas prediletas para as reuniões da turma que aprendeu a fazer samba vendo sambar o arvoredo. de multidões pobres que se debatem contra a miséria sem perder o orgulho e a esperança . participando das mesmas atividades. abnegados. tantos e tão diferentes espécimes da chamada "fauna carioca"? Em que outro se verá elenco tão numeroso de homens e mulheres a representar."1 De certo modo. ouvindo. E que poderíamos dividir em três grupos: os institucionais. todo o mundo parece caber em Vila Isabel. Talvez por estar ilhado entre bairros tão diferentes a Tijuca de ricos e remediados. o drama. convivendo nas mesmas ruas. cadeiras de vime pelas calçadas nas tardes de domingo. fabricante deste remédio milagroso que é o Jatahy Prado. a farsa de todos os dias? Embora Noel. suas transversais e paralelas. um carioca a percorrer todos os cantos da cidade. E eu vou alongando o pensamento e vou pensando que a cidade inteira é Vila Isabel.. meia dúzia de fábricas empregando quase um quin to da população. como a Vila Isabel das quatro primeiras décadas do século. tão diversificada. altruístas. de moradores poucos e indefinidos. Em quantos mais será possível encontrar. O bairro os vê como mistos de . descobrindo gente e aprendendo assim a psicologia das ruas. a mente e o espírito). que ele começa a conhecer os personagens de sua história. E de fato múltipla e rica a galeria de tipos que coexistem no Boulevard.

quando a Paróquia de Lourdes transferiu-se para o novo local. sacerdotes do corpo. o pessoal mais humilde que vez por outra desce dos morros. nunca de azar. gente que só aparece de vez em quando. será o seu vigário. mas por ora a maior homenagem que os clientes lhes prestam é convidá-los para compadres. um italiano que desde 1918. o sinuqueiro. ele e a família católicos meio à distância. o mendigo. para quem o futuro tem a forma de um cifrão. o vigarista. tolera-os como males necessários. quase de longe. Mas existe também uma fauna itinerante. O mais conhecido desses padres é mesmo Jayme Sabba Batistoni. mas acrescentando à paisagem tons ainda mais vivos: baianas de tabuleiro à cabeça. Padres como tantos das igrejas do bairro. como Martha e Neca fizeram com Graça Mello. suporta mas não aceita. já instalada no número 200 do Boulevard. a de Nossa Senhora de Lourdes. pequeno-burguês. o carteador (a tavolagem nos sobrados do Boulevard já existia quando Noel nasceu). Quanto aos demais. dois meses. garis. que também não cobram dos que não podem pagar. se transformará em sisudez. Noel freqüentará pouco. padeiros. Como a dona de casa. um sorriso que daqui a um. a escolinha é o seu templo. os colegiais. a grande maioria das pessoas comuns que fazem parte da colorida paisagem de Vila Isabel. No máximo. Padre e igreja que as pessoas respeitam muito. sorveteiros. Outros. as convenções. leiteiros. São os prestamistas. belchiores. o bicheiro. motorneiros e condutores que entram e saem da estação da Light5. Uns vendem mesmo alguma coisa. fazem do ensino o seu sacerdócio. preocupado com a ascensão social. ou a de Santo Antônio. não mais que ilusão. o valentão. Mas há também os que negociam tal mercadoria com uma frieza que seu sorriso dilui. E também os operários a caminho das fábricas. Samaritanas à sua maneira. carteiros. o outro nome de rua. para quem o futuro é feito só de sorte. São os realejos. ou dar a um dos filhos o seu nome. as regras. os velhos que passam o dia debruçados na janela à espera de nada. o chefe de família. o desempregado crônico. o malandro. o pau-d'água. Todos farão parte do mundo de Noel. são os que não se enquadram em nenhum dos dois primeiros grupos. Há os que o fazem de maneira singelamente poética e até ao som de música. Moleques em algazarra e o guarda noturno que vela pelo sono do bairro (em geral dormindo também). funileiros. motoristas de táxi. baleiros. . Professoras como Rita e Martha. entregadores de compra. amoladores de faca. o chalé. os universitários. Os galàs de porta de confeitaria e as mocinhas do footing vespertino. como tanta gente faz com Heleno Brandão3. que os portugueses fizeram construir no alto de um morro onde só existe ela (e ao qual se chega depois de se vencer uma escadaria de 150 degraus). Nesse sentido. o seresteiro (o que anda de violão a tiracolo sendo chamado de "capadócio"). não propriamente do bairro. o proxeneta. inevitáveis. bons samaritanos. mas que. vendedores ambulantes.heróis e santos. Os marginais são todos os tipos que este bairro predominantemente de classe média. até onde se sabe. até o dia de sua morte(4). Um vai virar estátua em praça pública.

Todos no bairro adoram o realejo.segundo a qual. uma fraterna e solidária instituição que o progresso e o crescimento da população lariam desaparecer. se freqüentando. sempre acreditou nas causas libertárias: antes mesmo de a Princesa Isabel sonhar com a Lei Áurea. Tudo teria se passado dentro da maior lisura. se ajudando umas às outras. João Baptista Vianna Drummond era mineiro de Nova Era. mas também Carlos Drummond de Andrade e Noel Rosa. Tudo isso antes de o fazerem barão. entregou-se a vários deles: foi banqueiro. consegue se mesmo um pouco de ilusão. Sabendo de uma cláusula do testamento de Leopoldina . Pesquisas recentes.repetiriam os moradores do bairro durante as quatro primeiras décadas do século. comerciante de secos e molhados. escocês que se fixou na ilha da Madeira antes do descobrimento do Brasil). já em 1872.Vila Isabel sempre foi uma grande família . mais do que sorte em forma de versos. ou seja. as pessoas se conhecendo. Entre os membros dessa grande família. liberal. mas o suficiente para tornar partes da mesma linha de descendentes de João' Drummond (também conhecido como João Escórbio. . deixam-se embalar pelo som que o homem tira de seu instrumento no girar da manivela.Vila Isabel é uma grande família . Por muito tempo. Alegre. o astuto homem de negócios teria apostado. duquesa de Bragança. houve quem visse na operação uma esperta (e nada nobre) jogada de Drummond. é fato. Assim. comprava da Princesa Leopoldina. desmentem esta versão. Com grande tino para os negócios. Drummond nunca escondeu ser mais homem de negócios do que nobre.costumava dizer vó Rita. Em troca de alguns níqueis. Leopoldina morreria sem que Drummond tivesse pago a segunda prestação. já havia ele libertado todos os seus escravos. mas registrado em Itabira do Mato Dentro (a mesma do poeta de Confidencia do Itabiranó). E comprava-as a prazo. Crendo ou não no que dizem os versos que o periquito ou o macaquinho pinça da pequena gaveta. abandonadas que estavam desde uma epidemia de cólera havida ali anos antes. antiga Fazenda do Macaco. E ganho.para realizar vantajosas transações. obter concessões. comunicativo. segunda filha de Pedro I. não só o Barão. Nascido a 1 ? de maio de 1825. já tinha 35 anos quando se mudou para o Rio. Já o prestamista não perde tempo com 39 A Vila do Barão . abrir caminhos para seus projetos. Comprava-as por bom preço. Enfim. dos historiadores Delane Borges e Marilane da Silva Borges. ficavam perdoadas todas as dívidas de que fosse credora . Na verdade. com a morte dela. . Valeu-se da amizade com a família imperial . Parentesco distante. os moradores do chalé tinham um parente de verdade do qual muito se orgulhavam: ninguém menos que o Barão de Drummond.e sabendo também que a saúde da duquesa ia de mal a pior. as terras do Andaraí Grande.e com alguns figurões da política . enquanto se mantivesse vivo o espírito comunitário que dava ao lugar ares de cidadezinha do interior. o fundador do bairro. empresário teatral.

Francisco Furquim Werneck de Almeida. atual Convento da Ajuda (o próprio Drummond mandou vir da França a planta da gruta de Lourdes para reproduzi-la.e um lugar tão permanente na história do Rio . atual Instituto Profissional João Alfredo. foi proibido pelo prefeito do Distrito Federal. As apostas tímidas do primeiro dia já eram vultosas no segundo e acabaram virando mania. os nomes das ruas. cada freqüentador do jardim zoológico ganhava um bilhete numerado correspondente a um dos 25 animais que entravam no sorteio sempre às três da tarde.mais sensível às rimas do poeta do que aos negócios de Drummond . avenidas e praças do bairro eram todos de homens e datas ligados ao movimento abolicionista). 40 A loteria. Basicamente. assim chamada em homenagem à princesa que quinze anos depois libertaria os escravos (aliás. e o jardim zoológico. além de sua fundação. aproveitando o antigo Caminho do Macaco para transformá-lo no Boulevard 28 de Setembro (data da assinatura da Lei do Ventre Livre) e. no altar). lembremos que ele se tornou barão em 1888. Mas nenhuma dessas iniciativas lhe daria mais notoriedade . Mas esta é uma outra história. a primeira igreja de Nossa Senhora de Lourdes. o Asilo dos Meninos Desvalidos. Todos os domingos.preferiria de outro modo: "a Vila de Noel". Dois anos antes da morte de Drummond .quanto um certo jogo de apostas que inaugurou no seu zôo em 1892.ou talvez por isso . também fadados a virar nome de rua incumbiu-se desse planejamento. Voltando a Drummond. em outro trecho. para a partir deles traçar as paralelas e transversais que formaram. no começo. em tamanho menor. em 1873. Sem dinheiro para adquirir novos animais ou para cuidar dos que já tinha. como era chamado. Apesar de nunca mais ter sido legalizado . já realizava com suas flores na Rua do Ouvidor.caminharia para se transformar numa verdadeira instituição nacional. o loteamento e urbanização de Vila Isabel obedeceram a cuidadoso planejamento. Zevada.De qualquer modo. cujos traçados se foram fazendo mais ou menos ao acaso. foi mesmo naquelas terras que Drummond fundou Vila Isabel. na Rua Visconde de Santa Isabel (grande amigo da família imperial. Ao contrário de outras áreas da cidade.ocorrida a 7 de agosto de 1897 . o bairro tinha tudo para ficar conhecido como "A Vila do Barão". Pedro II e sua filha Isabel reconheceram nele o grande . Mas Vila Isabel deve a Drummond. Uma Companhia Arquitetônica . desde o início. vários outros empreendimentos que a enriqueceram como bairro e comunidade: a pioneira linha de bondes unindo a Praça 7 de Março ao Centro. naturalmente. Por todos esses motivos.o "jogo dos bichos". o esqueleto do bairro.criada por Drummond e seus amigos Visconde de Silva. foi um sucesso. Mas a voz do povo . Temístocles Petrocochino e Bezerra de Menezes. todos. médico da Princesa Isabel). aceitou a sugestão do mexicano Manuel Ismael Zevada de transpor para seus bichos a loteria que ele. dois meses depois de assinada a Lei Áurea.

de simpatizantes de Hermes com os de Ruy. mas eram episódios raros. Depois me paga em quantas prestações achar melhor. . bissextos. Anos mais tarde.A senhora não gostaria de comprar uma cristaleira nova para a sua sala? De madeira maciça. o amigo leal. uma grande família. Às vezes. É que Pedro II se sentia tão à vontade na chácara de Maxwell que. iriam lembrar entre gargalhadas essas visitas. de cócoras. No ano em que Noel Rosa nasceu. de vez em quando. Tinha ali um bom amigo.. níqueis. Como gostava de comentar o vulgo. A ilusão que tem para vender aos moradores deste bairro emergente (a maioria sonhando com mais conforto e algum luxo) é a de que.evidentemente 41 não é profissão nova.e a domicílio . moradores menos ilustres. tudo está ao alcance de todos. resultando em um morto e duas dúzias de feridos. As principais lojas da cidade não trabalham com . como gostava de dizer vó Rita.". como o encontro. saindo com o amigo em passeios pelas matas do lugar.abolicionista que de fato era... Em tempo: Pedro II sempre foi muito ligado a Vila Isabel. que não chegavam a desmentir o fato de que a Vila era mesmo uma zona tranqüila. desapertar-se quando preciso. comigo mesmo. inglês festeiro que possuía aprazível chácara bem no coração do bairro. Pouca coisa. entre duas moitas. -E o senhor? Não quer ficar com este belo corte de linho? Acaba de chegar da Irlanda. Mas onde arranjar dinheiro? O prestamista sorri: . Seja para adquirir alguns luxos. O imperador costumava visitá-lo.E os juros? . uma ou outra escaramuça quebrando o silêncio da noite. E ainda lhe sobra algum dinheiro.. E. Muito menos com música e poesia. Vila Isabel era um bairro tranqüilo. Ou mesmo algo mais grave. Podia ter tudo isso. o servil admirador da família imperial. motivos de glosa dos moradores de outros lugares ("Na Vila só dá ladrão.Muito fácil: eu o empresto. E lhe deram o título. Emprestar dinheiro . Mas só de uns tempos para cá os moradores de Vila Isabel esbarram nela com mais freqüência. O senhor compra o que quer. Por sinal. não hesitava em mandar às favas o protocolo e arriar o culote para. no dia das eleições. .. provável origem dos versos que um dia o filho ilustre faria em sua defesa . seja para enfrentar despesas inesperadas ou mesmo grandes fracassos financeiros. asfixiado pelos juros. Podia haver. vidros e espelhos importados.Pouca coisa. é comum o morador do bairro cair nas mãos do prestamista. homens do povo sempre irreverentes ao falarem das coisas da realeza. E o homem logo se imagina mais elegante que um lord. Os olhos da dona de casa se acendem. Joseph Maxwell. assaltos a passageiros dos bondes que pareciam carroças. Podia haver. também. afinal. em pleno Boulevard. para não mais sair..ver Feitiço da Vila no Capítulo 34). "estrumes reais adubaram o solo da Vila".

são imigrantes europeus.. Mas essas são cantigas de daqui a algum tempo. portugueses. Quando a importadora faliu. Judeus. do conhecimento de seus tipos. que pensa que pode e não pode (e que vê na aquisição de confortos. são conhecidos genericamente por "judeus". Mas quem são eles? De onde vêm esses emprestadores de dinheiro? Na grande maioria. portugueses. Assimila o pavor que todos têm de suas visitas mensais (muitos trancam portas e janelas. hoje. seu sucesso na vida). Nesses dias em que se inicia no aprendizado da psicologia das ruas. luxos. bens materiais. fará versos como estes: Seu Jorge turco tem três anos de Brasil E quando bebe mais de um barril Encurta o pano de qualquer freguês Ou como estes. mais diretos. Os outros. rende-se ao sorriso dos prestamistas.. Há também os sírios.. Dramas. libaneses. fazem rolinhos de dinheiro que guardam no fundo de uma pasta preta e saem por aí vendendo ilusão. são simplesmente "turcos". mas outra idéia. Com mesma rima. de sua crônica. Noel não parece distingui-los. lembrando-se mesmo dos cobradores que lhe atormentavam o pai: Miséria de quando em quando Prestamistas recitando Minhas contas no portão E a criada calmamente Diz que eu estou ausente E não lhe deixei tostão Vai lembrar também o patrão inescrupuloso que quis ensinar o pai a batizar bebida importada de além-mar: Lá no Banco do Brasil Seu Zé depositou três mil botando água no vinho do barril. a classe média de dinheiro mais contado. não importa quem sejam. Noel aprende muito cedo a ver no prestamista o fantasma que transforma em pesadelo os sonhos dos moradores do bairro. Um pavor vindo não só do convívio com os vizinhos. quase totalidade. tenham a origem que tiverem. apelando para os emprestadores de dinheiro. Em versos. do estudo da "fauna carioca" a partir deste microcosmo que é Vila Isabel. escondem-se para ver se o prestamista desiste e deixa para cobrar duas parcelas no mês que vem).. turcos. Judeus.sistemas de crédito. farsas. Juntam um capital. mas de experiências em sua própria casa. muitos deles acabados de chegar. falará muitas vezes desse sentimento. Vêm de todos os pontos da Europa. E até portugueses. Os europeus. Jamais se livrará inteiramente dos preconceitos que desde menino guarda em relação a todo imigrante. Em tudo isso o . venham de Beirute. fingem que não estão em casa. o atestado de sua escalada social. Assim. romenos. sem meias palavras: A vida lá em casa está horrível Ando empenhado nas mãos de um judeu. tragédias. Cairo ou Marrocos. belgas. turcos. húngaros. Noel apenas colhe a matéria-prima de sua poesia. Poloneses. Os pequenos e médios negociantes também costumam afixar em sua porta avisos de "não se fia". árabes. sempre. o pai tantas vezes endividado.

vivendo só para a música. Desta feita seu destino é Bica de Pedra(7). Vá lá enfim que por vezes se torne excessivamente enérgica.prestamista há de ser sempre o vilão de sua história. Quando já não se esperava que unisse sua vida à de alguém (35 anos. Mário Brown vem ao Rio buscar os filhos. nenhum interesse aparente por homem algum. Sylvia e Mariozinho que mal pode se imaginar longe deles. A menos romântica e a mais constante musa de seus versos(6). prevista para dezembro de 1918. Odette Maria Ferreira Rego (o pai dela. Começa a ganhar dinheiro.que Mário Brown acaba se interessando por Carmem além da simples admiração.mas só concretizada a 2 de março do ano seguinte.e pelo que ela significa para as crianças . Uma pandemia que levou desespero a toda parte. E é correspondido. a escolinha. no último ano de medicina. No chalé. vai outra vez para fora. além das tarefas de esposa e mãe. bem menos simpática que Martha. Casam-se e vão para Belo Horizonte. 42 Pouco depois. São Paulo. Vá lá também que sorria pouco. sempre disse que só consentiria quando Eduardinho aparecesse com o anel de doutor no dedo). eis que chega o seu dia. os filhos dos outros). Carlos Chagas apelou para médicos e acadêmicos de todo o país como se fossem soldados convocados para a guerra. Não inteiramente curado .dentro do costume que autoriza pais. perto de Jaú. A gripe adiou por alguns meses a formatura de Eduardinho. Mil novecentos e dezoito foi um ano ruim. o piano que Eduardo Corrêa de Azevedo havia comprado em Juiz de Fora. permitindo-lhe inclusive trabalhar normalmente e levar vida de poucas limitações. pede em casamento a namorada de infância. homem conservador e exigente. avós. meio repressiva. Carmem estremece ao receber a notícia. tios a projetar o futuro de suas crianças . é a vez de Carmem. Ou mais que isso. autoritária. A partir de agora. na Igreja de Santa Ifigênia. Casam-se a 13 de dezembro de 1921. os filhos. Numa de suas esporádicas visitas ao Rio. uma dama. mas tem porte. os livros.mas com a doença mais ou menos sob controle. a admiração de Mário Brown por ela. 18 mil no Rio de Janeiro. mas tem coração generoso.pois tuberculose não é mal que se vença assim . interior de São Paulo. São como filhos. a livrar-se de qualquer preocupação financeira. contudo. É pela mesma época que os moradores do chalé .traçam o caminho que Noel deverá . É por todas essas qualidades . a tal em que contraiu tifo e quase morreu. Vá lá que Carmem não seja bonita como a irmã. Os dois. foi requisitado para trabalhar dia e noite num posto de emergência instalado em colégio do Meyer. Depois de convalescer no chalé e de passar algum tempo no Rio. mas por trás de tudo isso há um grande caráter e uma personalidade forte. Já se sente em condições de cuidar deles em Belo Horizonte. Foi então que ele partiu para aquela experiência profissional em Aquidauana. a rotina só se alterou porque as aulas foram suspensas nos meses críticos de outubro a dezembro e porque Eduardinho. não seja muito efusiva. é elegante. 300 mil só no Brasil. porém. Carmem vai assumir também as de professora de violino do Conservatório Mineiro de Música. onde comprou casa no bairro da Floresta. nenhum namorado nesse tempo todo. Vem de muito. a fazer seu pé-de-meia. À frente da campanha nacional de combate à doença. A gripe espanhola matou mais de 20 milhões de pessoas em todo o mundo. Já se afeiçoou de tal modo a Dulce.

" Mas a ajuda não fica nisso. tudo. recorda-se de ter ouvido muitas vezes a mãe queixar-se da precariedade do chalé: . Os novos tempos de bonança que a família vive serão provavelmente os últimos. Hélio. Eduardinho resolve mandarlhe 500: "Os 50 a mais .Vamos construir uma casa nova. na Rua Pereira Nunes. É algo a que se entrega com os pés no Chão. 1? de março. em cujas dependências. Depois. Rita escrevelhe de volta: alimentação. na pequena cidade do interior de São Paulo. e entrega ao "engenheiro" Neca o projeto de construção da casa. Sim.são para suas caridades costumeiras. Bella. numa das próximas vindas ao Rio. o ar meditativo. um dos últimos empreendimentos a que se dedicará sem a postura de um Quixote. Lá de longe.Qualquer dia desses. ali se preparando. Ainda toca violão. o quanto é preciso para manter o chalé sem que tenha de continuar trabalhando na escolinha. a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Arlinda. reúnem-se todos . Eduardinho diz que sua clínica em Bica de Pedra vai tão bem que já lhe sobra dinheiro para ajudá-la. Nessas horas. a planta. então. invenções que ainda porá em prática e que o tornarão rico e famoso). item por item. o chalé só será usado para as atividades do Externato Santa Rita de Cássia. despesas várias. de sonhos (garante ter um punhado de idéias na cabeça. mas soma a esses hábitos algumas atitudes que beiram a esquisitice: o silêncio. outra proibida à esquerda e lá em cima o Ginásio de São Bento. Pede-lhe que discrimine. ouve discos de Caruso. Neca. quase em frente à Silva Pinto. sem sonhar. Numa carta à mãe. não será só de Rita. seqüelas da maleita que o pegou em Araçatuba. o isolamento. que depois do terceiro e quarto anos na Cesário Motta Noel será matriculado no Ateneu Luso-Brasileiro. corre pela casa.entrega-se à tarefa com entusiasmo. Está um pouco diferente de seis anos atrás. Não tem emprego fixo. Neca . Martha. Uma ladeira íngreme à direita. Por isso. canta modinhas do amigo Catulo. Afinal. gás. que deixe as aulas por conta de Martha. lavagem de roupa. eventualmente. nesta quinta-feira.seguir. no fim do ano. acessos de febre. trará mais uma boa novidade: . vovô Eduardo e agora Eduardinho) e abrace qualquer outra carreira. Volta e meia é acometido de tremores. Fortunato. Decide-se. dos bancos de escola pública até formar-se em medicina. Compra o terreno número 195 da mesma Theodoro da Silva. Vive de biscates e. dá voltas em torno da mesa de jantar. dança e canta à maneira dos índios que encontrou por lá. quando partiu em busca de dinheiro para pagar as dívidas. o teto desaba sobre nós. Mas o projeto da casa o entusiasma. para os exames de admissão ao Ginásio de São Bento. Quer que ela se aposente. a escolha do material. De certo modo. Noel. Uma vez pronto. Ele que faça como achar melhor. durante todo o 1922. mas de toda a família. Tudo como tio Eduardo. o total de gastos da casa fica em torno de 450 mil réis por mês. finalmente. luz.que justamente por esta época acaba de voltar do interior .explica . porque não passa pela cabeça de ninguém que ele deixe de cumprir a tradição da família (Luís Corrêa d'Azevedo.

aqui. a igreja. em 1859. até a fundação do colégio. Dom Pio. São três edifícios: o do Mosteiro propriamente dito (no andar superior. de gestos afetados e fala eloqüente. as catacumbas). Entre eles. quepe assentado na cabeça. é justo orgulho da ordem. mais dois salões. ginásio e piscina. Que impressões lhe causará este primeiro dia entre as paredes sombrias de um mosteiro beneditino tão diferente das ensolaradas ruas de Vila Isabel? Difícil saber. o Ginasial. os alunos ouvirão muitas histórias sobre esta abadia. O harmonioso conjunto arquitetônico do qual faz parte tem um dos blocos cravado em rocha viva. embora não muito grande. aqui pertinho. e ouro de todo lugar. Com madeira da ilha das Cobras. o primeiranista Noel de Medeiros Rosa. que se pode divisar mais além. os lampadários de prata devem-se à arte de Mestre Valentim. É um homem formal. e no térreo. o menino progredia em sabedoria e graça perante Deus e os homens. dom Pio Ziegenaus.. venham a pôr em dúvida suas crenças. mortes(8). pouco se importando com tudo isso. pois envolvem guerras. os inimigos do cristianismo". . é ar que se respira a todo instante. é o sacerdote a quem foi confiada a missão de fornecer-lhes razões e argumentos para usarem em discussões que. "tanto no campo do pensamento como no da ação. construída em quase dez anos. laboratórios e gabinetes cercados de pátio.. É mesmo solene a abertura oficial do ano letivo. conflitos. o refeitório e o claustro. Há obras preciosas distribuídas aqui e ali. A começar pela missa do Divino Espírito Santo celebrada na igreja abacial pelo prior do Mosteiro. Ou seja.para a abertura oficial do ano letivo de 1923 • São quase 400 alunos dos 470 matriculados nos diversos cursos. perneiras pretas. entre Flamengo e Botafogo. Talvez estranhe o caráter solene desta cerimônia que nem de longe lembra as barulhentas salas de aula que freqüentou desde o bê-a-bá no chalé. Enquanto estiverem por aqui. Ou talvez não estranhe coisa alguma. quadros de frei Ricardo Pillar até na sacristia e um imponente órgão que se ouve durante as missas.. passando por alguns episódios históricos dos quais os monges preferem falar por alto. salas menores. é quem está incumbido de prepará-los para enfrentar. pedra do morro da Viúva. Desde as chegadas dos beneditinos ao Rio de Janeiro. o do colégio (salas de aula. o Noturno. no futuro. de 1633 a 1642.. no intermediário. uma capela de relíquias e biblioteca. um dos professores de apologética do quarto e quinto anos. celas.") e desde já ficam sabendo que religião. campo de futebol. salões. o Preliminar. adornos riquíssimos no altar de Nossa Senhora de Montserrat. Bem de acordo com a pompa secular desta igreja coberta de ouro. os arcos e pilares que separam as naves laterais são em jacarandá trabalhado. dólmã abotoado até a gola. com sua pioneira e heróica ocupação do antigo morro de Nossa Senhora do Ó. Os alunos ouvem compenetrados o longo sermão sobre a infância de Jesus (". bombardeios. o 43 Claustral. Que é realmente soberba. farda caqui. esta interditada) e a igreja. culote. em 1589. O traçado da nave é em cruz latina.

ex-presidente da extinta Aliança Renovadora Nacional (ARENA). se chamaram Heleno em homenagem ao médico. em Vila Isabel e bairros próximos. de como é difícil o curso. Pode ser. o prestamista e temas correlatos (dívidas. Os autores anotaram 64 letras de música. Muitos são os que. ganância. E o regulamento lido impõe-lhes deveres em torno de uma missa obrigatória nas manhãs de domingo. atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF). 5. que lê pausadamente todos os artigos do regulamento interno. Como se poderá constatar ao longo das páginas deste livro. Os tempos agora são outros. a farda do Ginásio e as gloriosas tradições de nossa Pátria. 2. os alunos são encaminhados ao ginásio para serem formalmente apresentados ao reitor. 4. espertezas e malabarismos financeiros) estão muito presentes na obra de Noel Rosa. 6. falando um português quase irretocável. E fará tudo para que continue a soprar para além dos muros do São Bento a brisa menina das ruas de seu bairro. Sobretudo porque também sua fala é fria. compreensivo. os professores orientados no sentido de exigir-lhes o máximo. Atual garagem de ônibus da Companhia de Transportes Coletivos (CTC). Há solenidade.. incluindo paródias. Como o almirante Heleno de Barros Nunes. inspetores. 3. dom Meinrado Mattman. dinheiro. está no Brasil há muitos anos. 4 de janeiro de 1936. Tanto quanto possível. mais terão de renunciar aos brinquedos. Suíço. tocados primeiro pelo sermão de dom Pio e logo depois pela preleção do reitor. empréstimos. Diário Carioca. Após a missa. Mas. pode ser que os meninos que chegam já desconfiem de que os dias alegres e despreocupados da infância começam a ficar para trás. Noel Rosa não será exceção. nem afetado nos gestos. os alunos que chegam ainda não são capazes de diferençar dom Meinrado de dom Pio ou de qualquer outro. nem eloqüente na fala. NOTAS 1. nas palavras de dom Meinrado. os alunos descobrirão nele um homem gentil. e também da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD).." Dom Meinrado é bem diferente de dom Pio. auxiliares. da disciplina de inspiração militar a que estarão sujeitos. Nem formal. Por isso. não será tão solene. benevolente. neste primeiro dia. . e ao corpo docente. serventes. 7. 44 À medida que o forem conhecendo. 2 de janeiro de 1951. do rigor dos horários que terão de cumprir. Para o resto de suas vidas guardarão as melhores recordações de seu convívio com ele. que falam no assunto ainda que de forma indireta. também.Mas a cerimônia de abertura oficial do ano letivo não se limita à igreja. Quanto mais tiverem de se agarrar aos livros. das exigências quanto ao silêncio e respeito em aula. mais duros. A Alma Encantadora das Ruas (páginas 12 e seguintes). depois de breve discurso: "Concito os alunos a honrarem com o trabalho perseverante o nome da família. Mas não no caso de Noel. no Rio de Janeiro. mais de coisas sérias do que de sorrisos. Atual Itapoí. menos de regalias do que de obrigações.

passando-o de um lado a outro da boca. recreativas e. A abadia foi bombardeada porque os franceses ocuparam a ilha das Cobras. Mas o resultado é o mesmo.8. O São Bento mantém outros cursos além do ginasial que Noel começa a freqüentar em 1923. educacionais. senta-se sempre numa das carteiras da frente.. o elementar que antecede o preliminar." É feita referência. coloca-o no bolso: . estranho que pareça. A não ser que seja obrigado. em 1855. é um dos menores da turma. Aliás. vai mastigá-lo longe. em 1824. militares. No primeiro jogo de futebol. É uma grande instituição abrigando várias outras. especialmente dom Meinrado.. 45 ENTRE A CRUZ E O VIOLÃO Capítulo 4 Quero deixar o mundo alegremente. paladon ou algo parecido. pelos beneditinos. Desde que eu tenha um violão por cruz O Que é um Violão Miúdo para seus doze anos."o Mosteiro foi palco de vários acontecimentos históricos: em 1711. A tal "prótese" que outro especialista recomendou. do qual os alunos se mantêm mais ou menos distantes. Mas que instituições religiosas são estas? Naturalmente. culturais. Por isso. Se traz um sanduíche como merenda. fios castanho-claros. O pequeno mundo que os beneditinos construíram nesta elevação cresce a cada dia. . também. de um forte para defesa da cidade quando da invasão de Duguay Trouin. E com ele o resto de esperança de desentortar o queixo. quase louros. meio no palpite. dando a impressão de que vai cair a qualquer momento. Mas geralmente não traz coisa alguma além dos livros e do maço de cigarros. o noturno para os que trabalham e estudam. num canto de recreio. Até que um dia abandona para sempre o inútil aparelho. permanentemente grudada no lábio inferior. Não come na frente dos colegas. construção. Os colegas reparam que usa uma haste de madeira entre as arcadas dentárias. Há o preliminar ou primário. aos episódios de 1910. e que acaba funcionando como mero calço. o popular para alfabetização de crianças pobres. seu alheamento será absoluto. a maior e principal de todas é o próprio Mosteiro. se esforcem para arrebanhar sua jovem alma. para lhe corrigir a articulação. amontoando-se entre a aba do quepe e as orelhas. Das instituições religiosas. Por mais que os monges. certo de que não serve mesmo para nada. acaba sendo mais um modo de disfarçar o defeito. então. já mencionados no Capítulo 1. de nenhuma delas Noel tomará conhecimento. Ainda tem os cabelos compridos. Mais tarde a madeira será substituída por material mais resistente. do lado direito. É um de seus traços mais característicos. O pedaço de madeira o incomoda.recorda Idacy Costa no livro Rio (página 151) . alojou dois batalhões de artilharia. E logo ele começa a mastigá-lo. "Por sua localização estratégica" . religiosas.Esse troço pesa tanto que nem posso correr. a guimba no canto direito da boca. serviu de quartel aos fuzileiros.

comemorações de efemérides e julgamento de textos. primeiro. se sentirem inclinados a consagrar a Deus. Antes mesmo de passarem pelo admissão. análise de obra de determinado autor. formando um jovem e despreocupado exército de colegiais. o tiro de Guerra(2). criada neste 1923 sob a direção de dom Plácido Roth com o objetivo de "gasalhar e educar meninos que. depois. as preces em grupo e as comunhões. em prosa ou verso. daqui a muitos anos. treinamento e estudos orientado pelos sargentos e. famílias pobres. a todo o programa de exercícios. As atividades culturais gravitam basicamente em torno de duas outras instituições. A primeira é o Grêmio Literário de São Bento. os meninos já se integram a esta curiosa corporação. . Qualquer aluno com mais de dezesseis anos. que a reorganizou este ano após um período meio estacionado. abertas aos estudantes. o Batalhão Escolar. sargentos. seus costumes. desejando ser discípulos e filhos de São Bento. parece acreditar tanto na educação militar como na religiosa. sua história. seus mestres e seus alunos. sem lhe consultar as páginas. dirigida por dom Leão Dias Pereira. pode conseguir aqui uma carteira de reservista tão válida quanto as obtidas nos quartéis lá de fora. a Conferência Vicentina de São Bento. dos próprios alunos. movidos pelo 47 toque d'uma graça particular. A segunda é A Alvorada. a Obra da Santa Infância. que promove os retiros. destinada a socorrer. Terá dez alunos neste seu primeiro ano de existência. basta que se submeta. funciona no próprio ginásio sob as ordens de dois primeiros-sargentos nomeados pelo comandante da 1? Região Militar. como muitos colégios de padres desta época. Também são duas as instituições militares. cabos. Soldados. Mas ainda é cedo para Noel Rosa pensar nisso. tendo como diretor dom João Baptista Laué Lobão.Vivat! Crescat! Floreat! As outras. também fundada este ano.restrito que está aos monges e postulantes. aprovado em exame médico e mediante pequena taxa anual (50 mil réis em 1923). são a Congregação Mariana de São Bento. não será possível conhecer o Ginásio de São Bento da década de 20. estas obrigatórias a todos os alunos no primeiro domingo de cada mês. tenentes e capitães imaginários obedecendo a uma hierarquia ditada pela idade e pela disciplina (mais por esta do que por aquela). de função vaga como seu nome. dirá dom Plácido: . homem tão bondoso quanto surdo. quase tanto na espada quanto na cruz. Ao recebê-los. e por último os Cavalheiros e Pajens do Santíssimo Sacramento. já desde a infância. O São Bento. nunca é cedo para se fazer parte dela. com visitas e esmolas. também destinada a "angariar pequenos donativos para a obra grandiosa das Missões Católicas". Para isso. Tão importante que. Estes começam a se formar na Escola Claustral. a vida toda. monges beneditinos(1)". Já a outra instituição militar. o Apostolado da Oração. revista mensal de circulação interna. Uma delas. que organiza sessões periódicas para leitura de poesia. a um exame final perante banca presidida por um capitão. seu espírito.

ex-nobres e pretensos nobres. continuam feitas de música as noites de domingo da família. Quanto à música. nada mais para cá. Vigny. Nas mansões de Botafogo. Impressiona conhecer Rimbaud. os poetas brasileiros estão em primeiro lugar. É mais ou menos por esta época que Raul Pederneiras desenha. Alberto de Oliveira. em geral improvisados ao luar. como gostava vovô Eduardo. Lamartine. em São Paulo. Mudam as pessoas. as posses. Espontâneos. franzino. os trajes. os bebes. mas nunca o nosso Cruz e Souza. a influência estrangeira é marcante. Gávea. os comes. Cultiva-se . Nas mansões ainda se reverenciam os românticos franceses. mas também em residências que vão desde os Casébres que se equilibram num clivo de morro às mansões mais para perto do mar. As nossas elites raramente se sensibilizam com os movimentos de vanguarda. Talvez alguém lembre o Antônio Nobre de Só. direi de que bairro és. cada participante do sarau 48 julgando-se um grande vate em potencial. Álvares de Azevedo. freqüentadas pelas elites.. as regras do chie. Fagundes Varela. bairros de beira-mar. três tiras a que dá o título de "Dize-me o que cantas. Tudo de Victor Hugo. Verlaine. Arlinda e eventuais convidados: o próprio Noel. Muda também a poesia. Agora com um novo instrumentista que se vem juntar a Neca. E os simbo-listas também. Chegam mesmo a aplaudir poesia de fabricação Caseira. de verdade. Bilac principalmente. o décor. famílias tradicionais. modestos e mal-vestidos como os poetas que os criam. com mãos de artista e olhos de repórter. Martha. imigrantes que se endinheiraram por aqui."2 Nelas estão focalizados três tipos de reunião musical. a geografia humana do que se toca e canta no Rio de Janeiro de agora. mas a essência do sarau é a mesma. são também humildes os versos. a nata das artes e da política. o Musset mais triste. Noites de música e poesia. Os anglófilos ainda podem vir até Shelley e Keats. ninguém nestas mansões parece ter ligado a mínima. Olavo Bilac. quebrados. uma Semana de Arte Moderna. os ricos e novos-ricos. As pessoas não se importam tanto com os estrangeirismos. são ainda maiores as diferenças de lugar para lugar. Acontecem não só nos chalés da classe média de Vila Isabel. Mallarmé.. é a européia. pequeno. Cultura. os bairros pobres. incultos. Se houve no ano passado. dedilhando o bandolim que aprendeu a tocar com a mãe. Nos chalés da Zona Norte. o que há enfim de mais representativo dos salões da sociedade carioca. alguma coisa de Sully Prudhomme. Mas que música e que poesia? Que canções se cantam e que versos se dizem nessas tertúlias domingueiras? Saraus familiares ainda são muito comuns no Rio de Janeiro desses dias.Mesmo sem Carmem e o Pleyel. simplórios. de coração partido por George Sand. Copacabana. E têm sempre ar de concessão as ocasionais incursões que os diseurs dessas reuniões elegantes fazem às obras de Casimiro de Abreu. E nos lugares mais humildes. Prefere-se a estética já aprovada pelos salões lá de fora. pelo contrário. Ou mesmo às de Raimundo Correia.

o despojamento destes e o esnobismo daqueles. prevalecem os instrumentos de percussão. Acham deliciosamente ousadas as modas que vão chegando da América. Marcello Tupynambá. ficam quase sempre na modinha romântica. venera-se Chopin. Satyro Bilhar. nordestino que se propõe a "civilizar" a canção brasileira. canções e cançonetas em francês. Ou esta. Gosta-se de Liszt. para não dizer de mau gosto. o one-step. uma polca diferente da européia. Xisto Bahia. Chiquinha Gonzaga. mesmo que uma primeira dama.. já as tenha levado para além dos muros do Palácio das Águias3. Ernesto Nazareth. os irmãos Levys. E os que cantam. ou um desses paulistas que começam a aparecer por agora.entoam-se pontos de macumba. Os que dançam preferem a valsa. sentem-se mais à vontade com os Chopins e os Liszts nacionais. vestindo-a de versos pedantes e empolados. citada por Pederneiras numa de suas tiras: Que noite! O plenilúnio é como um sonho Assim risonho Boiando lá no azul fitando o mar As estrelas no céu vagam sorrindo Estás dormindo? Eu venho.que a polícia não saiba . de velhos e novos seresteiros como Eduardo das Neves.. Nos subúrbios. Canções como esta: Olhaste-me um só momento E desde este triste instante Tu me ficaste constante Na vista e no pensamento. portanto. choros estilizados. letras invariavelmente derramadas. Os que dançam. o shimmy. Gamboa. Embora já tenha cantado para quatro presidentes da República. Os que tocam piano. nos bairros onde vive o homem mais pobre. Vila Isabel e os bairros de classe média ficam no meio do caminho entre a simplicidade. Saúde e adjacências. a polca. linear. alemão. te despertar! . mais ousada que as próprias danças. por vezes pernósticas. mas demasiado ousadas. um fox-trot. de melodia fácil. tangos brasileiros.o bel canto. a idéia de requinte sempre associada à de que o que é nosso é tosco. o charleston. em geral é obra de Catulo da Paixão Cearense. Eduardo Souto. de vez em quando um mg. dança-se sem cerimônia o maxixe e . se também revivem Chopin e List. canta-se e toca-se o samba. fazem-se rodas de batucada(4). o schottis. Valsas. inglês. meu amor. chulas. 49 flauta e cavaquinho. árias de ópera em italiano. dançam de tudo. conhece-se todo o repertório pianístico clássico. lundus. o próprio Catulo. nos morros. gêneros enfim bem diversos fazem parte de seu repertório. vulgar. pois bom mesmo é cantar poesia de Heine com música de Schumann. Guimarães Passos. afinado com uma estética importada. enquanto o de outras terras é culto. ofox-trot. Mário Pennaforte. o cake-walk. Se uma ou outra modinha daqui consegue penetrar nos salões. elegante. notadamente as populações negras e mestiças da Cidade Nova. pontificam os grupos de choro na base de violões. coisas como o maxixe e o corta-jaca. Tudo. é ainda gelo exótico que estes saraus o recebem.

pois Noel vai ser o primeiro professor de Hélio. Então eu me sentia completamente importante. inventando brincadeiras sonoras. irá abandonando o outro. o lirismo que nasceu comigo. já tocava melodias várias. E não apenas o que se ouve nos saraus. Mas será para sempre grato ao bandolim: "Foi graças ao bandolim que eu experimentei. antes de ir para o São Bento. O meu sonho absorvente passou a ser dominar amplamente o violão. E amava os instrumentos musicais. De tal modo se apegará a ele que ainda lhe dedicará um soneto. fica garimpando acordes. Estudando ou ensinando. das coisas mais importantes em sua vida.por enquanto do pai .. E à medida que for dominando a técnica deste instrumento. raramente o veremos longe do pinho nas horas de folga. vira paixão. Fosse qual fosse. a minha grande fascinação era a música.será o seu instrumento. o meu melhor inspirador Nem bandolim nem violino bem tocado Nem mesmo um cavaquinho em boa mão Me fizeram ficar tão inspirado Quanto fiquei com o som do meu violão Ele quem me ditou o canto e a rima Ele quem a vibrar se acostumou Soluça no bordão. os meus desencantos e sonhos de garoto que começava a espiar a vida. Ouvir o violão era como se ouvisse a mim mesmo. pela primeira vez. no fim de certo tempo.Noel se inicia embalado por essas canções e tudo mais que se ouve em sua casa nas noites de domingo. ao derredor de mim."(6) No mesmo depoimento. de maior beleza comunicativa que o bandolim. Um paciente e compenetrado professor."(5) Se foi Martha quem o ensinou a tocar bandolim. versos verdes e imperfeitos de jovem poeta: O violão meu amigo e conselheiro Que sempre partilhou de minha dor Na serenata sempre foi bom companheiro Numa modinha. a descoberta do violão: "Verifiquei que era um instrumento mais completo. Ao bandolim confiava. . Como ele mesmo confessará: "Mesmo em guri. geme na prima. sem reservas. maravilhados com a minha habilidade. É ele quem me anima e me seduz Juro deixar o mundo alegremente Desde que tenha o violão por cruz Nos próximos anos. os guris de minhas relações. Tanto me esforcei que. Quase sempre. "O Que É um Violão"." O violão . Tocava e logo se reuniam. senta-se sob uma das árvores do chalé. Qualquer espécie de música. como se ouvisse a voz do próprio coração. A música logo o envolve.. a sensação de importância. as primeiras posições no violão são aprendidas com o pai. sentido-me sonhar ante qualquer melodia. A menina do lado cravava em mim uns olhos rasgados de assombro.

Em formato pequeno. Se não há a menor dúvida quanto ao primeiro professor de Hélio. de um total de 56. todo o colégio. Ele pára. menos ou mais próximos da verdade. editada e quase que inteiramente escrita pelos professores. o que fazem e o que pensam (ou o que procuram transmitir aos alunos) os professores dirigidos por dom Meinrado. seu interesse em aprimorar-se sempre mais.Cinco menos três? . é que depois das primeiras posições com o pai. O mais provável. que trate de não 50 atrapalhar a aula. garantirá aquele outro. cada aluno paga cinco mil réis pela assinatura anual. o pátio. cobre as despesas de composição.Três! O violão de Noel volta a se fazer ouvir. A Alvorada entra em seu quinto de existência. como a maioria dos violonistas de agora. Capa fina. como se diz. o levará a outros mestres. em geral croniquetas. sua voz somando-se ao coro da criançada. em realmente dominar o instrumento. inúteis protestos da mãe. fazendo. Circula internamente no primeiro dia de cada mês de aulas. no que diz respeito a Noel tudo se complica. seis páginas. Não é.Sete menos quatro? . A Alvorada se apresenta como "órgão oficial dos alunos do Mosteiro de São Bento". somado à verba do próprio Mosteiro.Quatro! . o título ao alto. Será. E é de fato em suas páginas que se podem encontrar as melhores pistas para se conhecer o ginásio de hoje. dos rudimentos que lhe chegaram através das lições Caséiras. vai aprender sozinho. Para alegria dos alunos e novos. encimando o desenho de um sol radioso a iluminar a igreja. o dístico Veritati et Virtuti logo abaixo. histórias de caráter religioso. Ao se matricular em janeiro ou fevereiro. quinze por vinte e dois. anedotas e curiosidades furtadas aos almanaques. um órgão "dos alunos". mas uma publicação pautada. mesmo. ouvindo. No futuro. Aos alunos não são destinadas mais do que cinco.Dois mais dois? A turma respondendo em coro: . Quando Noel começa a cursar o primeiro ano. perguntando. vários moradores do bairro reclamarão para si esse privilégio: "Noel foi meu aluno". Martha chega à janela. porém. um autodidata. nas quais. clicheria e impressão. pede que o filho pare. Vendo.Dois! E Noel ritmando a ladainha aritmética ao violão. "Tudo que sabia de violão aprendeu comigo". uma ou outra poesia. verde. seus dedos multiplicando sons. Aprender. . poderão incluir suas colaborações. experimentando. Martha lá dentro perguntando aos alunos: . dirá este. mas a nenhum deles por muito tempo.Como as que servem de fundo às aulas da escolinha. dinheiro que. Desses que tudo descobrem. sob o título de "Trabalhos Escolares". Mas só até a professora reiniciar a cantilena: .

carregado e até mesmo mórbido do colégio. Ou as matérias não assinadas que volta e meia falam de "indesejáveis . Falam de milagres e castigos. Como o artigo de um dos professores. Os meninos de 1923 . A cada número da revista é contada a história de um desses privilegiados. católica irlandesa que morreu aos quatro anos de idade depois de longa permanência no Hospital Bom Pastor. de sua morte ao lado da mãe e da enfermeira que a acompanhou durante meses e de como. Sua ausência será mesmo absoluta. circularão 27 números de A Alvorada. Logo no primeiro número que cai nas mãos de Noel lê-se o caso de Nêlia. Os dos monges atacam outras religiões. Há muitas outras. Outra destina-se a levantar fundos para a construção de uma colossal estátua do Cristo no alto do morro do Corcovado. Marcos. defendendo a República. meninos e meninas que em meio a terríveis padecimentos "foram levados pelas mãos do Senhor". O espírito de A Alvorada não é simplesmente religioso. Nem como colaborador nem como participante das freqüentes campanhas que a revista realiza entre os alunos. José Piragibe.mais ainda os de sentimento religioso um tanto inconsistente como Noel . E em nenhum deles seu nome aparecerá a propósito do que for. Deprimido e doutrinário. Um exemplo é uma de suas seções permanentes. a seção fala de "pequenos privilegiados de JesusEucaristia". de como manteve sua santidade nos momentos de maior sofrimento. os seis anos que Noel passará no São Bento. a espírita. fanático às vezes. conclamando os jovens às armas contra eventuais exageros monarquistas. a protestante. crianças e adolescentes que tiveram "a ventura de morrer em tenra idade. intitulada Sinite parvulos ventre ad Me. Partindo das palavras do Evangelho ("Deixai vir a Mim os Pequeninos". ainda encontrou forças para erguer-se e dizer: "Mamãe. de se encontrarem com Cristo tão cedo. A pregação religiosa não é a única que se faz em suas páginas.De março de 1923 a dezembro de 1928. em seus últimos momentos. tão bem refletido nas páginas da revista. no sacrifício e na dor. Alguns mil réis serão conseguidos tanto para "as criancinhas vítimas do bolchevismo" como para o monumento a que se pretende dar o nome de Cristo Redentor. 10-14). a judaica. tão jovens". em Cork. céu e inferno. mas sombriamente religioso. E pregam uma moral que se apoia no desprendimento. um níquel sequer. sul da Irlanda. Uma das primeiras dessas campanhas pretende atender aos apelos de Pio XI para que os brasileiros contribuam com donativos em dinheiro "em favor das crianças pobres que na Rússia vão sofrendo à míngua de pão e roupa". Os artigos escritos pelos professores estão impregnados de um catolicismo exacerbado. Ao contrário de praticamente todos os seus contemporâneos. não sente que o Deus Santo se aproxima? Eu o sinto!" São ingênuos e sem graça os textos humorísticos reunidos sob o título de "Chistes". De modo que nem isso ameniza o tom deprimido 51 da revista. isto é. De Noel.devem estranhar o ar grave. A matéria fala da "abençoada agonia" da menina.

. endossa a opinião de que toda a crueldade dos dois assassinos de Chicago vem de uma sucessão de fatos que pode ser resumida num ponto: seu afastamento de Deus. Tem essa supressão o fim de cortejar o 'feminismo naturalista'. por . Nathan Leopold e Richard Loeb.costuma dizer José Piragibe . É grande amigo de mulheres. Schopenhauere Oscar Wilde. as leituras pornográficas (que Noel muito aprecia). Portanto. ou seja. ao par de sua ciência. que dizem ser a sua única regra de fé. porém. a cultura maldirigida . Leopold e Loeb confessaram ter cometido o crime numa tentativa de provar o quanto suas inteligências eram superiores. Richard Loeb é igualmente estudante talentoso. Pouco vale que sejam ambos cultos: ".em realidade da própria Igreja . as mulheres (que ele aprecia ainda mais) podem transformar dois jovens em criminosos. A Alvorada é quem esclarece: "Seus heróis são os ímpios e absurdos filósofos Nietzsche. Uma revista que procura vincar a posição do Mosteiro . os ventos do feminismo que começam a soprar da Europa.novidades". Diz A Alvorada: "Chama a atenção o Osservatore Romano para o fato do acordo dos sacerdotes anglicanos em suprimir da Epístola de São Paulo. pelas conclusões da revista em relação ao caso Loeb & Leopold. as frases que instituem a submissão da esposa ao marido. Não há grande assunto que A Alvorada deixe passar em branco. a cultura maldirigida (Initium sa-pientiae timor Domini. Combate não só o feminismo. É dos julgamentos mais famosos da história das cortes americanas. no país. por dois rapazes da alta sociedade local. advogado de defesa.ou o quanto dela estão afastadas todas as outras. São moços de muitas leituras. Estados Unidos. mais para as moças hipercultas e refinadas. o grande Clarence Darrow. Note-se. O artigo frisa que Leopold e Loeb pertencem a famílias judaicas ortodoxas. como respeitam os protestantes a Bíblia. O comunismo. também. na cidade. Nathan entrega-se. mas muitos dos novos ismos que se proponham a transformar o mundo." A cada ano Noel tomará novos contatos com a filosofia editorial de A Alvorada. E. no mundo. que é lida na cerimônia de casamento por eles feita. como é impropriamente chamado o 'feminismo desbragado'. à leitura da literatura pornográfica (Zola e outros cínicos) e criminal. sempre que possível. partindo dele para mostrar o quanto está próxima da verdade a religião católica .."7 Assim. Noel e seus colegas ficam sabendo que o não-seguimento da religião católica. em tudo cópia fiel de seu amigo. Inclina-se.é pior que a ignorância!" Leopold já é um famoso ornitólogo. Traduzindo o artigo publicado pelo órgão católico suíço Sch-weizerische Allgemeine Volks-Zeitung. Loucos? Monstros? A revista assegura que não. conseguindo o que se dizia impossível: livrar os dois rapazes da forca. a base de toda a sabedoria é o temor a Deus). Por exemplo. não são católicos. em Chicago. Como acontecerá com o caso do assassinato do menino Robert Franks. embora muito jovem.em relação a todos os assuntos que se passam lá fora.

fatal. ninguém ignora que os protestantes.. 16 mil 367 estudantes e professores. Mas outros violentos ataques ao comunismo aparecerão na revista. A Alvorada mais uma vez não se omitirá. em nome de uma liberação absurda e incoerente. Nisso A Alvorada é eficientemente apoiada por outras publicações católicas.Especialmente a protestante. há uma luta sem tréguas que se eterniza pelos séculos adentro: fracos e potentados. Modernamente. 79 mil 900 funcionários públicos. toda a debatidíssima questão (.da oposição do Mosteiro e de sua revista. Não é de hoje que um ou outro inspirado tem quebrado lanças contra as linhas fortíssimas que extremam os dois antiqüíssimos partidos. a revista retorna ao assunto sempre que pode. os bolchevistas quiseram resolver. excluindo livros inteiros. servos e senhores sempre se agitaram numa dualidade constante.. do primeiro número que cai nas mãos de Noel ao último que lera já às vésperas de sair daqui. mais de dois milhões de vítimas tombaram para sempre.j Por todo o imenso território do ex-império grassou então o domínio absoluto do sovietismo. adversária secular.exemplo. 56 mil 340 oficiais. por conveniência de sua doutrina. ricos e paupérrimos. Combates que se travam em muitas frentes. sobre temas daqui e lá de fora.. em 1928. Aqui tanto pode a revista se limitar a pendengas em torno da Bíblia (". mais no campo da ação que das idéias. como investir. num antagonismo clássico. quando no mundo inteiro ainda ressoarem os protestos por Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti. 31 bispos.." As outras religiões? Não perde A Alvorada oportunidade de combatê-las. Vai publicar. com dois decretos e quatro bombas. 52 890 mil camponeses. 268 mil soldados e marujos.por vezes insuportável . nobres e plebeus. Como neste artigo que sairá no número de agosto-setembro de 1925: "Desde que o mundo é mundo e desde que a maldição divina feriu o primeiro habitante sobre a Terra. uma delas A Cruz. 65 mil 890 nobres e aristocratas. É o caso da Associação Cristã de Moços (ACM). 196 mil operários. por tudo mais de 1 milháo 300 mil mortos!") e arrematar com este comentário: "E encenaram tanto alvoroço quando a justiça americana julgou dever condenar à morte os dois anarquistas Sacco e Vanzetti. que jamais conseguiu realizar uma campanha para ampliar suas instalações sem ter de carregar o peso . mutilaram e adulteraram muitos textos das Sagradas Escrituras. cujos artigos são transcritos ." Liberação incoerente e absurda. Depois do apelo de Pio XI para que se socorram "as vítimas do bolchevismo". uma estatística das vítimas de duas décadas de Revolução Soviética ("Toda a família imperial. 1 mil 500 sacerdotes. com base em dados da Igreja Ortodoxa Russa de Nova Iorque. sobre as instituições de alguma forma ligadas à outra religião. 34 mil 585 magistrados e médicos. condenados à morte nos Estados Unidos por um crime que jurarão não ter cometido(8). Assim.").. diz A Alvorada. para a qual só há um modo de se combater a pobreza: a caridade.

) ousou desafiar as lições da Bíblia e ensinar em suas aulas a herética Teoria da Evolução. das novidades. mas distanciado demais das luzes do catolicismo.. Os positivistas. vai-se repetir a história: nova campanha de donativos da ACM. israelitas. Um ano depois. que Depois da segunda 'operação' frustrada. Ávida de Augusto Comte. diz ironicamente a revista a propósito do show em que se converteu o julgamento de Scopes. dos empreendimentos ajúlio Verne.". sem dúvida lograram frustrar e diminuir" o seu êxito.Arquivo dejacy Pacheco. um privilégio sofrer. Um desses artigos fala da indignação da comunidade católica por pretender a ACM fazer obras em sua sede com dinheiro de donativos. anglicanos. se de todo não impediram o resultado da intrusa subscrição. nova cruzada católica contra ela.primeiro de Delphim Moreira e depois de Epitácio Pessoa . Em 1917. o jogo de bola. a rua. este é um país católico. o Mosteiro e outras instituições já estiveram à frente de um movimento para evitar que uma das campanhas da ACM tivesse sucesso: através de propaganda pelos jornais e de folhetos distribuídos nas ruas por seus alunos. batistas.. Afinal. quando a mesma ACM tentava junto ao Governo a cessão de uma área de 3 mil 880 metros quadrados no morro do Castelo para nela construir seu novo edifício. como adeptos de uma ideologia do demônio. de modo que dos católicos deve ser o direito exclusivo de pedir donativos. Tudo porque o país dos assombros cresce. Não vêem os alunos o caso dos Estados Unidos? Por que existe lá a Ku Klux Klan? Por que pode acontecer em seus colégios um professor como John Thomas Scopes. Curiosa revista esta. (. puderam "abalar consciências e. uma tragicomédia (e assim realmente se parece.para conseguirem que a tentativa da ACM mais uma vez fracassasse. as festas em casas de família onde se pode tomar escondido um ponche ou dois e depois tirar . A Maçonaria. contra tudo mais que não seja catolicismo investe A Alvorada. E há mais: fundamentalistas. Uma revista que acha bonito morrer cedo. Lá fora A Alvorada busca os casos mais rumorosos para com eles demonstrar que um país indiferente às verdades do catolicismo não pode ir lá das pernas.pelo "órgão oficial dos alunos do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro". O espiritismo é freqüentemente ridicularizado como "a grande farsa do século". Em 1927. Nenhuma religião ou filosofia não-católica escapa à sanha de A Alvorada. a se acreditar na biografia publicada no número de junho-julho de 1926). mas muito esclarecedora sobre 53 o São Bento de hoje. de Dar-win? "Os Estados Unidos são o país dos assombros. escrita com as tintas da intolerância. cresce muito. presbiterianos. mais uma cruzada empreenderam o Mosteiro e seus aliados. uma dádiva divina entregar a alma aos céus depois dos mais longos e terríveis martírios. processado por ter informado aos seus alunos que o homem e o macaco descendiam de ancestrais comuns(9). desta feita chegando aos gabinetes presidenciais . apontada como "sanguinária perseguidora do catolicismo no México". E o que dizer dos prazeres terrenos.

" Não. Noel jamais se incluirá entre os colaboradores de A Alvorada. recorda o inflamado discurso de Ruy Barbosa no Congresso Nacional. Quatro meses depois foram condenados à prisão perpétua. de Richard Fleischer. interpretado por Burt Lancaster. . tão vários. senhor presidente? A mais baixa. peças de teatro e nada menos de três filmes: Festim Diabólico (Rope. 1924. E no seu próprio "jornal". 1959). focalizando os anos em que Leopold. constantes deste Capitulo. em Maxixe . de Chiquinha Gonzaga. a irmã gêmea do batuque. a mais chula. da batucada e de certas confusões que se fazem em torno dela. e O Homem de Alcatraz {Bird Man oj Alcatraz. criticando a mulher de seu grande adversário político: "Mas o Corta Jaca de que eu ouvira falar há muito tempo. NOTAS 1. a primeiradama do país. estão indicando que o siso está movido algum tanto do seu assento.a Dança Excomungada (página 161).as festas. Incluídas no livro Scenas da Vida Carioca . os prazeres não exatamente do espírito . também foi colhida neste e em outros números da revista. A maioria das informações sobre as instituições do São Bento. tendo inspirado inúmeros livros. Noel não gosta muito de dançar. depois de uma rapsódia de Liszt executada ao piano. tão violentos. que vem a ser ele. 3. organizou no Palácio do Catete uma hora de arte em que. de Alfred Hitchcock. tão ligeiros. Richard Loeb e Nathan Leopold tinham ambos dezenove anos quando mataram Robert Franks. tão afetados. as diversões. número 1. Aqueles mesmos movimentos do corpo.A Alvorada recomenda que os alunos se ponham na defensiva. Estranha Compulsão (Compulsion. de fato. um dos mais célebres das cortes americanas. cumpria pena e já se tornara tão famoso como ornitólogo quanto pelo seu crime. ano V.Caricaturas de Raul. a 24 de maio de 1924. mas se gostasse haveria de ler com amuo este trecho que a revista foi buscar em Nova Floresta. Quando tiver algo a dizer. no papel do advogado. de treze. Jota Efegê. 1962). a mais grosseira de todas as danças selvagens. no Capítulo 14. E não se quer que a consciência deste país se revolte. causando um pequeno escândalo na sociedade da época. artigos de jornal. 5. Mas nas recepções presidenciais o Corta Jaca é executado com todas as honras de música de Wagner. Jornal de Rádio. 1948). Ibidem. que as nossas faces se enrubesçam e que a mocidade se ria!" 4. O caso é. 2.para dançar a menina que se deseja? Pois até quanto a isso . ensaios. basta vê-lo de fora para confessá-lo. ela própria solou ao violão o Corta-Jaca. em que Orson Welles.Foi em 26 de outubro de 1914 que Nair de Teffé Hermes da Fonseca. repete ipsis litteris o discurso de Clarence Darrow no julgamento. 1" de janeiro de 1935. do Padre Manuel Bernardes: "Que o que baila e dança tem parte de louco furioso. Mais se falará. de John Frankenheimer. do cateretê e do samba. o fará à sua maneira. março de 1923 (página 21). 6. A Alvorada. 7.

artifícios legais da Suprema Corte levando-o ao arquivamento para que não se tornasse ainda mais rumoroso (a opinião pública estava literalmente dividida). O caso Sacco & Vanzetti foi ainda mais estrepitoso que o de Loeb & Leopold. foi o conservador William Jennings Bryan. que assim tentava atrair a atenção do país para os debates. regulares. três vezes derrotado como candidato do Partido Democrata à Casa Branca. Bons. o acusador de Scopes. O julgamento foi de fato transformado num show pelo advogado. A exemplo dos casos Loeb & Leopold e Sacco & Vanzetti. carrega a esperança de representar importante papel na educação desses jovens. no verão americano de 1925. 54 O QUE SE APRENDE NO COLÉGIO Capítulo 5 Satanás respondeu meu recado: "Balão apagado Não entra no céu. No fundo. Na defesa. 1960). De tudo os alunos terão pela frente nos anos que passarão no São Bento. as esquerdas usando-os como símbolos da "injustiça capitalista". O caso não foi ganho nem perdido por ninguém. Anarquistas italianos. peças de teatro e um excelente filme: O Vento Será Tua Herança (Inherit The Wind. de Stanley Kramer. ' conservadores. de um assalto durante o qual foram mortos dois operários de uma fábrica de sapatos. uins. manifestações populares e apelos de clemência assinados por intelectuais. São professores que pretendem mais do que lhes ensinar o que determina o programa oficial. É no número de junho-julho de 1925 que A Alvorada se refere ao caso Scopes associando-o gratuitamente à Ku Klux Klan e ao progresso alcançado pelos Estados Unidos sob a inspiração de "heresias em declínio". por ter desrespeitado a lei que proibia o ensino da teoria da evolução nos colégios do Estado. as direitas pedindo-lhes a execução. raramente a indiferença ou o esquecimento. Gostarão mais de uns que de outros. notadamente por ter desencadeado debates políticos em todo o mundo. de seus .. Sacco e Vanzetti começaram a ser julgados no ano seguinte. Tennessee. mais uma vez em ação Clarence Darrow.8. Seu adversário.. ótimos. de atuar como engenheiros na construção de seus valores. artistas. 9. civis. ressentimentos daqueles. líderes religiosos e até chefes de Estado de várias partes do mundo. religioso ou não. Depois de longas batalhas nos tribunais. Levarão saudades destes. John Thomas Scopes foi a julgamento na pequena cidade de Dayton. o julgamento de Scopes inspirou livros. militares. a 15 de abril de 1920. No inferno tu serás respeitado Tu tens tanto pecado Que eu te tiro o chapéu!" Balão Apagado Os professores. cada um deles. não tão ' idosos. monges. Idosos. não tão conservadores. morreram na cadeira elétrica a 10 de julho de 1927. acusados de participarem. de influir em sua formação.

nas sessões literárias e cívicas do nosso Grêmio. nas aulas do ginásio. nos exercícios militares.Enfeia a redação qualquer repetição. por parte do professor. O aluno continuará fustigando-o com suas brincadeiras e deboches. roncando. que os dois começam a manter um relacionamento feito de provocações sem trégua. punhos e colarinhos postiços. e de reações mal-humoradas. mas o professor não lhe guardará rancor. Os óculos miúdos. por parte de Noel. A turma ri. O bigode farto mais parece uma escova de piaçá brigando por um espaço entre o nariz e a boca. uma zanga. faz longos e incandescentes discursos sempre que lhe dão chance de exercitar.No futuro e no condicional.escreve ele em A Alvorada. de grossas lentes. Quem diz isso é um deles. atarracado.Mais do que mestres. Chapéu e terno invariavelmente escuros. felizmente. que Noel costuma imitar. Faz-se sanduíche gramatical. somos formadores de caracteres. e Noel de pé. Mas é aqui. liberdades cerceadas. acompanhando o movimento das mãos com um estranho gorjeio. Apelida-o de professor Xixi. convencido de que assim é mais fácil decorá-las: . polainas. Ou então-. Piragibe gosta de rimar suas lições. O mau humor de Piragibe em relação a Noel nunca irá além de uma repreensão. . a mocidade" . As imitações ocorrem em plena aula. da nossa geografia e da nossa história. pelo menos. O professor vive puxando para baixo o colarinho engomado. diverti-lo. homem de meia-idade. quando não de cólera. vê nas críticas que se fazem ao governo Arthur Bernardes (o país sob estado de sítio. faz-se sanduíche gramatical." Republicano fervoroso. Os cacoetes. física e história natural."e na igreja do Mosteiro. Ou. mas com um agudo "xiiiii". Ou será que sim? . pernas e braços curtos. vai aprendendo o manejo das armas com que terá de lutar para erguer bem alto o nome do Brasil. baixo. Chama-se José Piragibe e ninguém mais que ele leva a sério o papel de "forjador de caracteres". a partir de agora. puxando o colarinho. quase ronco. cara larga. no futuro e no condicional. escreve artigos para A Alvorada. Mais adiante eles se reencontrarão nas salas de química.uma retórica tão antiga quanto as roupas que veste: "Diga quem quiser que o Brasil está à beira de um abismo: o moço patriota repele desde-nhoso a mentira revoltante e dedica-se com o maior ardor ao estudo da nossa religião. assessora o Grêmio Literário. Aurelino Leal nomeado interventor no Rio de Janeiro. filia-se às instituições religiosas. Participa de todas as atividades do ginásio. Tudo neste parece irritar aquele." 55 José Piragibe será o professor de português de Noel no primeiro ano. quase somem no rosto redondo. Qualquer repetição enfeia a redação. depois de constatar que um defeito de dicção faz com que peça silêncio à turma não com um "psiu". por exemplo. da nossa língua. choques armados no Rio Grande do Sul) impatrióticas maledicências de monarquistas interessados em ressuscitar o antigo regime: "Não se ilude.alicerces morais. ainda que eventualmente mais ríspida. Acreditam ser esta a sua missão: . Piragibe no quadro-negro. veste-se como um amanuense do fim do século. de costas para os alunos.

Prefiro a zanga do Gouvêa àfala mansa de dom Meinrado. bom menino.quantas vezes? .Seu Gouvêa. comportar-se em aula.. mas não pelos exames de bacharelato no Colégio Pedro II(1) . inspetor de disciplina que vive a percorrer salas de aula. tem como única função lecionar matemática no curso preliminar... em nome desse gostar. duzentos.Mas.faz com que Noel Rosa se permita o luxo de estudar muito pouco em 1923. até 1923. Os amigos se lembrarão para sempre do seu jeito solto. aí sim. as asas que Noel tem sempre prontas para inquietos vôos. Que tal uma leitura atenta do livrinho de normas a serem seguidas pelos alunos? As . detestam ser repreendidos." Não é raro Noel se ver diante do Gouvêa com culpas a expiar. mas é rígida o bastante para prender. pátios e banheiros atrás de alunos que de alguma forma estejam fora da linha. de atitudes que não deixam de neutralizar no espírito de Noel o ambiente de austeridade do São Bento." Ou em latim: "Beati mundo corde quoniam ipsi Deum videbunt. geografia.. São dois anos de muita brincadeira. passam em dezembro por provas internas no próprio São Bento. mas que precisa observar melhor os regulamentos internos. vez por outra. Mas quase sempre o diretor de disciplina resolve tudo sozinho. Há no menino de doze anos uma incontrolável ânsia de liberdade.. seu Gouvêa.Cem vezes! .os alunos freqüentam as aulas. corredores. brincar menos. . que mal cabe nos limites de sisudez do colégio. De 1924 em diante. Como costuma dizer Hélio Lobo. só que então correndo o risco de enfrentar despreparado as provas finais de aritmética e geografia. homem de quem todos gostam e pelo qual.. um dos alunos: 56 . Quais serão os seus métodos? Que tipos de castigo vai impor aos malcomportados? O mais comum é mandá-los ao gabinete de dom Meinrado para ouvir um sermão do reitor. Gouvêa. não está. aritmética. repetidas vezes. lápis e papel a postos para copiar . E vai estudar ainda menos no segundo ano.Esta bom. dom Meinrado querendo falar-lhes sobre o filho. muito inteligente. um tanto irresponsável. acumulará esta função com a de responsável pela disciplina dos alunos. prestadas às bancas do estabelecimento oficial.Então. está bom... .Não.Trezentas está bom? .O fato de não haver exames finais no primeiro ano . deixando os faltosos depois da hora de saída a copiar. Não se pode dizer que seja rígida a disciplina do São Bento. . alegre.E quatrocentas? . Mas muitas vezes a vontade de ser livre esbarra na vigilância de José Maria Gouvêa. estudam português. . francês.uma sentença punitiva: . desenho e religião. Dona Martha e seu Medeiros são chamados com freqüência ao colégio. frases em francês: "Je crois en Dieux Père. um sentimento que o acompanhará por toda a vida .vôo permanente.

cedinho. compenetrado. para divertir os colegas em aula. Os dois fugindo pela ladeira proibida. Noel tem os braços cruzados sobre a carteira. Usa enrolada no pescoço uma cometa preta. Só com ela consegue ouvir alguma coisa. lá pelos lados da Saúde. no segundo ano. qualquer lugar serve. quando bate o sol. a extremidade mais fina enfiada no ouvido. Se um dia algum desses desenhos parasse nas mãos de dom Meinrado. na outra extremidade da sala. tanto pode estar roubando balas e mariolas do Altino. De cada uma delas sai uma linha que Noel amarra aos dedos como se fossem os fios de um fantoche. como contando anedotas. com traços firmes a lápis de cor.Por que você não vai lá segurar a cobra de dom João? Ainda gosta de desenhar. calmamente. sinuosa. ouvir o professor. a caminho da ilha das Cobras. Mesmo durante as orações do meio-dia é impossível ficar quieto. ou mesmo a ilha das Cobras. E não esquecer o jejum nos dias de comunháo. . Uma dessas máquinas é um conjunto de cartolinas presas umas às outras por alfinetes. descendo até o Arsenal de Marinha e começando a atravessar a ponte Alexandrino de Alencar. lá no alto da ladeira. nada de pândega. Dom Joaquim abre os olhos e pergunta aos alunos que barulho é este. Se está calor. Noel vira-se para Heitor Lino: . a outra posta bem perto da boca do interlocutor. é necessário observar silêncio. com imaginação e habilidade. todas as reservas de tolerância do bom monge seriam insuficientes para impedi-lo de expulsar Noel do colégio. Noel mexe coordenadamente os dedos. pode ser visto pelos professores. mas muito pouco do que produz. imprimindo aos pedaços de cartolina movimentos ritmados.aulas começando pontualmente às onze.Parem ou eu atiro! . a Quinta da Boa Vista. De tarde. Pouco importa que ali.gritará alguém. quando não está tocando violão. Noel retorce o barbante. Lá fora. as orações ao meio-dia. Às vezes vem surgindo. Fuma muito. A outra ponta está em sua mão. a sombra do conjunto de cartolinas se projeta na parede atrás do professor. Noel e Marcello chegarão a ouvir o ruído . Dom Joaquim de Luna junta as mãos e fecha os olhos. e já se ouve em algum lugar um inesperado tilin-tar. dono da cantina. E os pregos e as tampinhas. o campinho de futebol ao lado do Moinho Fluminense. É um hábito que adquiriu cedo. Em sala. A maquininha é colada por uma das partes no vidro da janela. Como se fossem sininhos em miniatura fazendo música de fundo à oração. o melhor lugar é a praia das Virtudes2. De resto. não muito longe do colégio. cantando indecorosas paródias ou inventando quadrinhas para mexer com os colegas. dom João Baptista Laué Lobão. O que a turma vê projetado na parede é a perfeita silhueta de um ato sexual. tilintam. O monge nem desconfia de que ele amarrou numa das pontas de um barbante um punhado de pregos e tampinhas de cerveja. para dar início à prece. aí está mais uma boa razão para a gazeta. prestar atenção à aula. E como é proibido sequer portar cigarros dentro do colégio. Estão todos quietos. Inúteis advertências. oculta sob os braços cruzados. São também obscenas as estranhas maquininhas que constrói. Ele e Marcello Menezes. a Santa Missa aos domingos. vá levar um grande susto.

estava lhe propondo casamento. por pouco tempo. para nunca mais se separar dela. levando Arthur Bernardes a ordenar que as corporações militares ficassem de prontidão em todo o país(3). lá de cima. Graça Mello e sua mulher. E assim como o 130 é conhecido por chalé. fachada de pó-de-pedra. simples. mas nem por isso desprovida de sensualidade. a pele alva contrastando com o vestido preto. o barranco. taqueada. Vão morar em São Paulo. sem pintura. tem poucas árvores e termina num barranco. Os sentinelas instruídos para atirar em qualquer pessoa estranha. Odette. -Não vão. seu grande amigo em Bica de Pedra. 57 A casa projetada e construída por Manuel Garcia de Medeiros Rosa não é muito original. . um bloco de três faces ao lado da varandinha de entrada. é quase igual a várias outras que existem no bairro há muito mais tempo. Ou "a casa de vó Rita"(4). Meses atrás Eduardinho trouxe para passar dias no chalé Fábio de Lima Goyano. baqueie ponto. Estava ela de luto por um parente. pequeno.Martha chama a noiva ao seu quarto. O quintal. Eduardinho. e diz: . ao comprido. colados à cozinha. Na véspera da cerimônia . A fachada. todos muito impressionados com o farmacêutico . como a maioria das residências da rua. morrem! E os dois voltarão correndo para o São Bento. Comovida. dados nos tempos de fartura. Casam-se a 22 de janeiro de 1925.Até a ilha das Cobras. O terreno é bem menor que o do chalé (oito de frente por 26 de fundos). Martha. Arlinda pegará apenas uma pulseira. Dona Glorinha. Dr. A uns cinqüenta metros desse morro acaba a Conselheiro Paranaguá. limpa. Pouco depois. dia do vigésimo quarto aniversário dela.celebrada diante de um singelo altar improvisado no chalé. pouco lhes interessando se havia ou não um começo de revolução em São Paulo. Meninos como Noel e Marcello inclusive. Fábio sentiu o coração bater mais forte. filho de Augusto Rodrigues de Moraes Goyano. abre o porta-jóias onde guarda todos os presentes de Neca. o quintal. ladrilho hidráulico. Fábio apaixonou-se por Arlinda no primeiro instante. Arlinda. Já não há razão para se temerem tetos desabando sobre a cabeça. barata.Aonde pensam que vão? . Uma elegância meio mórbida. . por exemplo. a área construída.Arlinda concordou em ficarem noivos. como padrinhos . Mudam-se todos em fins de 1924.do ferrolho do fuzil sendo armado pelo marinheiro à sua frente. Este faz parte do morro que separa trecho da Theodoro da Silva da Maxwell. um dos quartos de dormir dando para a sala. farmacêutico paulista. Arlinda sem ter esquecido de todo o primeiro noivo. flores pintadas sobre a varanda. rua paralela que começa na Souza Franco. Uma casa nova. Se derem mais um passo. E como era de gosto geral . não.Rita.Escolhe o que quiser. A disposição dos cômodos é pouco funcional. os dois banheiros lá nos fundos. este 195 fica sendo o bangalô. tem-se uma vista panorâmica de toda a casa.

Vai perder o ano. Que os novos colegas conhecem logo na primeira aula do surdo Mário Barreto. Despreocupado com os estudos ou o que seja. presta exame em duas matérias. convencido de que Barreto está cada vez mais surdo. o casamento de Arlinda. irreverente. Parece o mesmo. ou do próprio colégio misturam-se no amplo pátio. Barreto adverte: . incapaz de distinguir o que sai de sua boca apenas entreaberta. Primeiro aritmética. Hélio se preparando para também ele começar a cursar o ginasial no São Bento . e depois geografia (incluindo corografia e elementos de cosmografia). embora sempre perante bancas nomeadas pelo estabelecimento oficial5.Sim. Talvez não esperasse isso.Não riam. mas rápido.5 e é reprovado nas duas. Alunos de fora. Se a reprovação afetou-o ou não. acreditava ser possível brincar tanto e estudar tão pouco. todos os dias. Dela sairá gente fadada a vencer: médico. torna a se levantar.Professor.foi assinada a Reforma Rocha Vaz. a mão direita para o alto: . engenheiro.exatamente no dia que se seguiu à sua reprovação em geografia . ninguém sabe. quinta-feira. ele se levantando lá atrás para perguntar: . Alegre. mas também nos próprios colégios em que estudam os candidatos. a mudança para o bangalô. não é a de um repetente arrependido. moleque. como . Ao ver que a turma se une numa gargalhada. a partir de agora.que Noel nem aparece para as provas de segunda época no mesmo Pedro II. na segunda-feira seguinte. Afinal. A 13 de janeiro . A impressão que causa aos novos colegas de turma.Professor. Nova turma. É assim que o vêem. A família continua orgulhando-se dele.Dos primeiros dias de dezembro de 1924 aos últimos de janeiro de 1925. advogado. Esta nova turma está destinada a ser uma das melhores que já passaram pelo São Bento. Não consegue a média mínima de 3. as provas de bacharelato não têm necessariamente de ser feitas no Pedro II. no bonde Lins de Vasconcellos. A partir de 1925. O outro. esperando que venha a ser mesmo um grande homem. posso mijar no seu bolso? . mas não demore. a de geografia de 12 a 25. todos ansiosos por seus diplomas de bacharel.e é tanta a agitação em casa. homem de empresa. 8 de janeiro. Hélio. dia 12. brigadeiro. novo sistema de exames finais. vivo. nos corredores. os chamados candidatos "estranhos". posso comer sua mãe? . qualquer um pode ter a mesma necessidade. meninos. quatro anos mais moço que o irmão e apenas um atrás nos estudos. E Noel Rosa. a de um menino a quem o fracasso serviu de lição. almirante. inteligente. professor. nas salas de pé-direito alto. dois serão os companheiros de Noel nas viagens de ida e volta. Noutro dia. Moacyr Mattos de Oliveira. pela qual. Na irresponsabilidade de seus treze para quatorze anos. general. Noel. segundanista do São Bento. Um deles é o irmão Hélio. Tão despreparado estava . a de aritmé tica 58 de 13 a 23 de março. realizam-se as provas finais no Pedro II. desde o primeiro momento. sem esbarrar no rigor desses velhos professores do Pedro II.Pode ir.

planejar gazetas. no Maracanã. embora isso não chegue a ser vantagem. Jamais figurará nos quadros de honra.. como a religião vivida entre exageros. beber cerveja. joada! 59 Luís Gentil Feijó será um dos assuntos mais focalizados nas páginas de O Mamão. considerável entre dois adolescentes. Hélio. do qual o próprio Noel é idealizador.o São Bento apertando os alunos desde o primeiro ano para que só os mais preparados cheguem às bancas de exame . andará em outra turma. exemplar único. o não levar muito a sério certas coisas do São Bento. çalada? Noel não acha graça. Neste 1925. Curioso. e fica esperando o bonde de Noel passar para irem juntos. Noel jogará bola com os mais crescidos. Por isso. sorri ironicamente e trocadilha: . ao menos não leva as brincadeiras além da conta. um deles Luís Gentil Feijó.çalada. logo após dela ter saído Gonçalo. formar-se. raramente serão vistos juntos no colégio. atento.Quer dizer que vocês acabaram de terá sua gon. E já neste primeiro ano. Já Moacyr Mattos de Oliveira é companheiro constante. Outros professores. se reunirá com os amigos no pátio para contar anedotas. outra vez vocês tiveram a sua gon. Feijó não se impressiona muito com o anel e a pose do colega. Noel não se contém. No outro dia. aos quatorze anos.Muito bem. nunca se destacará em qualquer matéria. É ótimo professor. fumar. Mas sua passagem pelo mosteiro estará longe de ser brilhante. mais quieto. Feijó repete o sorriso irônico e o trocadilho: .. nas aulas de aritmética e álgebra. levará para casa um melancólico boletim final que incluirá uma reprovação em aritmética. Um sentimento recíproco. A diferença de quatro anos. o que só os bem mais velhos ousam: freqüentar lugares que Hélio só conhece de ouvir falar. O enorme anel que usa no indicador direito parece nos lembrar disso. certos professores. E como a Reforma Rocha Vaz já estará em vigor . Mora na Dona Zulmira. Gonçalo pode ser posudo.. conquistar um lugar neste mundo de brancos. o espírito brincalháo. É bem mais estudioso que Noel. deixam transparecer seus preconceitos em relação a Gonçalo.e agora vamos ter a nossafei. Muitas afinidades os aproximam. se não chega a ter comportamento irrepreensível. assinalará. mas por trás do seu orgulho está um homem bom. ao lado de algumas aprovações com altas notas. Quando entra em sala para as aulas de francês.a média 2 que Hélio conseguirá na matéria do comandante Octávio Werneck Machado não será suficiente para que passe de ano(6). jornalzinho manuscrito... interessado em toda sorte de assuntos. levanta-se e replica: -É. Pelo contrário. Precoce. como nos anos que virão. Noel começa a fazer. ...se a confirmar o vaticínio de vó Rita: "Aqui nasceu Hélio de Medeiros Rosa. várias outras de raspão e umas tantas segundas épocas. fundador. certas verdades. a exemplo do que acaba de acontecer com o irmão. Noel gosta de Gonçalo Garcia Mattos." Os anos que passará no São Bento confirmarão que é de fato muito inteligente. tocar violão. um negro que conseguiu estudar. faz com que Noel e Hélio sejam companheiros só de bonde.

senão o maior incentivador do Grêmio e da revista: Quem não conhece um mestre rabugento Urso de membros atrofiados Professor e conselheiro do São Bento Que julga ter modos educados Chapéu preto. Nessas ocasiões. Suas aulas de francês são excelentes. Minas. sempre sob as carteiras. sempre a mesma Chapéu que na cabeça mal lhe assenta Roupa suja e pegajosa como a lesma Bigode a cair-lhe pela venta. ele inclusive. quando está com disposição para o trabalho. Mas é bom lembrar o duplo sentido do título. entre os exames de bacharelato do segundo ano. vai à segunda época. mas é fruta. companheiros de bonde.. Em dezembro de 1925." Gentil Feijó será muitas vezes ridicularizado nas páginas de O Mamão. olhando para o pátio onde pasta um veado dado aos monges por um fazendeiro de Caraça. geografia e álgebra. O Mamão passa para outras turmas as anedotas de Feijó e também as inventadas por Noel ou ouvidas por este de colegas. E já com o logotipo que o tornará famoso entre os colegas: um bebê sugando. em cujas páginas. bate-lhe no ombro e diz: . orador oficial do Grêmio: "O vento sibilava nas cristas dos penedos e a névoa densa vinha contra nós.. os píncaros de cordilheiras assemelhavam-se a incomparáveis blocos de oiro.. semelhando um exército disforme de fantasmas. também colaborador assíduo das páginas literárias de A Alvorada: "Iluminados pelos derradeiros raios apolíneos que agonizavam no longínquo poente. De aritmética. novamente as provas finais. por sinal um dos grandes. jamais cometerá arrebatamentos como os de Carlos Henrique Robertson Liberalli. Sabe. por que não Noel? .editor.. amigos de Vila Isabel. De nada adiantam as aulas extras de Gonçalo Garcia Mattos. hein? Apreciando o coleguinha. Se até Lauro de Abreu Coutinho. Surpreendida.Aí. Quando começar a escrever seus versos.. o vulgo gostando de usar a expressão: "O mamão é macho. quase toda a turma de Noel. Pois Feijó é muito freqüentemente dado a acessos de preguiça. porém. ilustradore distribuidor. Noel não quer aparecer. todo impresso. pelo Departamento Nacional de Ensino. as fórmulas e os cálculos estudados da noite para o dia." Muito menos os de Oswaldo d'Avila Furtado. esta incluída em cima da hora. Num fim de tarde. revisor. Noel é desde já e para sempre cultivador dos duplos sentidos. Talvez nem saiba disso. redator. mexe com Noel e outros alunos ou simplesmente se justifica: -Hoje eu estou tão cansado que nem posso me ter em pé. Primeiro por uma questão de estilo."(7) Em vez de cantar ventos sibilantes e raios apolíneos. faminto. roupa preta. vai à segunda época. Noel prefere ter como musa a figura de José Piragibe. Jornalzinho de curta duração. o primeiro da turma. Mamão é um dos muitos sinônimos de pederasta. manufaturado de um lado e do outro de uma folha dupla de caderno pautado. Começa a circular neste 1925. ou melhor. nos banheiros. as centenas de páginas de livro consumidas às carreiras. conta anedotas. que Noel não se inclui entre seus admiradores. o jornalzinho é uma réplica a A Alvorada. Isto é. ao ver o garoto numa das janelas do colégio. definitivamente. a pôr no papel a sua prosa (e nada melhor para isso do que o O Mamão). sua mamadeira. De certo modo. nos cantos do pátio não alcançados pela vigilância do Gouvêa. o que o incompatibiliza também com o Grêmio Literário..

O inferno. em que defende sempre com ardor os princípios de sua fé. Ou a do que se teria curado de um mal incurável pela graça de ter visto. é seu tema preferido: . Talvez a nudez. Dom Meinrado gosta de ver Noel nas missas de domingo. diz a lenda. que não é. não deixe de ser uma forma de libertação. dois times escolhidos no par ou ímpar. apelidado pelos alunos de "cartão de visitas". E será promovido ao terceiro ano. erguendo a mão como se para tornar ainda mais inflamada sua fala aos jovens: . professores. O São Bento é um colégio onde as lendas comumente se criam e se difundem. os estilhaços fazendo estragos por toda parte. brigando pela bola. Bem-comportado. no campinho lá de cima. bola ao alto. empolga-se com esses jogos de após missa. Rolaram ambos pirambeira abaixo. se livrará dela na segunda chance. queimam-se os impuros! Faz-se no colégio certo mistério sobre a mão deformada de dom Joaquim. porém. naquelas chamas. às vezes furioso. devido à curvatura do morro. tudo com a aprovação do Gouvêa. andando pelo pátio. o defeito fica mais evidente. Os dedos de dom Joaquim são parte desse folclore. Mesmo sabendo que o principal motivo de sua assiduidade é o futebol que os alunos jogam depois. nunca será no futebol tão bom quanto no violão. o professor de religião. É ele o líder. o primeiro a dar ordem para que todos tirem a roupa. semelhante a um retângulo ao qual decepou-se um dos cantos. arrancando-lhe os três dedos. Por mais que tenha jeito de pecado. antigos funcionários do colégio preferem não falar do que realmente aconteceu: aquela bomba dos marinheiros revoltosos em 1910 vindo explodir dentro das dependências do São Bento. desembocando no Arsenal de Marinha. ninguém menos que Nossa Senhora de Montserrat. Não querem que se repita por aí que o . terminam com os dois times usando o mesmo uniforme: todos nus. pois geralmente estes embates dominicais. por sinal. os sem-camisa contra os com-camisa.Ali. os sem-camisa contra os com-camisa. todas fantasiosas. de dólmàs abotoados até a gola. É pregador eloqüente. O fato é que monges. Como no caso dos dois meninos que teriam morrido por desobedecerem a proibição de usar a ladeira da esquerda. por exemplo. quando fevereiro chegar. que crê tanto na virtude como no pecado.na mão direita deste monge.Há que lutar contra as tentações do demônio! O mundo de dom Joaquim é feito de um só Deus e muitos demônios. Inventa-se uma série de histórias. Assim mesmo. Ou a do outro que se afogou na piscina hoje interditada.A álgebra será. só no começo. em carne e osso. As partidas começam bem-comportadas. dom Joaquim gesticulando muito. Noel. de modo a não criar possíveis apreensões em pais e alunos. Mas os monges evitam tocar no assunto.o médio. o anular. Campo de formato irregular. perigosa. Faltam três dedos . um único céu e uma infinidade de infernos. inclusive na mão de dom Joaquim de Luna. sua única tacada em falso. o mínimo . Durante as aulas. contudo. aos olhos 60 de dom Joaquim de Luna. tanto na salvação como no castigo. aqui neste colégio religioso e para-militar.

mas o que é mesmo a sinagoga? Repetidas expulsões de sala Noel consegue às custas da mesma pergunta.. Ou a vida. Ou seja. Se o assunto é arte. pica.A pintura luteranista é profana. picae.Dom Joaquim.Senhor Lauro.diz Noel sentando-se em seguida. Alguns castigos são em latim. dom Joaquim nem querendo ouvir falar da igreja dos judeus.Pica. com suas aulas infestadas de pecados e demônios. é uma tentação às brincadeiras. picam. imprevisível. Se uma brasa de cigarro nos cai na mão. declinai-me pica.Obrigado . senhor Noel. assustadora.Pois bem. mesmo? Ser expulso de sala é quase uma rotina. . Numa aula o professor se põe a falar da Igreja Católica Apostólica Romana. que o professor de religião. professor cujas mudanças de humor . provoca uma dor horrível. Noel convive sem problemas com esta língua morta. numa das divagações do monge sobre o inferno.Ubicumque regnat Lutheranismus.Dom Joaquim . afirma: . dom Joaquim. Não é assunto de nossa lição. lá está a decadência das letras.levanta-se Noel -fale-nos da sinagoga. Chega até a valer-se dela ao arranjar um apelido para o Felipe. funcionário encarregado da limpeza dos banheiros: . Se fala de literatura. E Lauro de Abreu Coutinho começa: .São Bento fica em lugar tão perigoso que pode acontecer de alguém nele perder os dedos.Vejam bem. Sabe. o que acontece? Queima. o senhor já viu esse fogo? Queima. E quando dom Joaquim retoma a exposição sobre a Igreja de Pedro. Ou no ataque às outras. os monges vivem falando em latim. amargurado. sua grandeza. -A sinagoga é a igreja dos judeus. considera Martinho Lutero uma espécie de anticristo. é radical na defesa da sua religião. Noel interrompe-o mais uma vez: -Me desculpe. . não é mesmo? Imaginem o que sentiriam nossas almas ardendo no fogo do inferno! Noel pede a palavra: -DomJoaquim. nas quais ele não acredita. de sua eternidade. Dizem que foi seminarista. pica.. mas desistiu 61 do sacerdócio para se tornar um homem difícil. A exemplo da maioria dos monges do São Bento. . sempre com a mesma empolgação. Apesar de Luís Mendes de Aguiar. de lendas e histórias aterradoras. ora parecendo querer arrancar-lhes os olhos deixam a turma permanentemente tensa.Como vai o nosso Felipe Rex Latrinarum? O latim está entre as matérias em que melhor se sai durante todo o curso. recorre a Erasmo: . É por causa desse segredo que Noel nem chegará a desconfiar que a mesma bomba que mutilou a mão de dom Joaquim ecoou no chalé. tomando chope com eles. Por exemplo. as verdades de dom Joaquim são ditas em latim. fale-nos de Goethe. atribui à reforma pelo menos metade dos males que afligem a Humanidade. nas horas que antecederam a sua chegada ao mundo. .ora tão igual aos alunos. Odeia os protestantes. Se o aluno que declina ou outro qualquer . Noel ergue o braço: . vinde à nossa mesa. onde quer que reine o luteranismo. ibi Literarum est interitus. picae. seus preceitos. de como o apóstolo Pedro a fundou. Toda vez que chama um dos alunos lá na frente já se sabe que algo vai acontecer. picae. meninos. apenas. .

Segundo uns.Aveto! Numa das primeiras aulas à turma de Noel. conosco. Mendes de Aguiar viu. sois. Um dia. ouvistes? Se ele vier ao Mosteiro falar conosco. Gonçalo Garcia de Mattos. a fisionomia aparentemente serena de Mendes de Aguiar se transfigura: . também se sai bem. os tragos são ingeridos na esperança de aliviar a dor causada por mal maior que lhe corrói as vísceras. feliz. Sabe-se agora que o homem está sendo devorado por dentro. NOTAS . foi logo avisando: . Até que se descobre que o difícil. Quando voltarem das férias de 1926 para 1927. o professor falta muito. Mas continuou agindo da mesma forma.-"Repete! Repete se é homem!" O professor não repetiu. tomou o caderno nas mãos e o fez em pedaços. discutiremos da pena ao pau. Até hoje. Quem não souber não passa!Ah. Depois. Felizmente para os alunos. flauta mágica. serão os melhores de todo o seu curso. e em cada botequim o professor parou para tomar um trago. da Candelária à Galeria Cruzeiro. correu até a carteira.se põe a rir.E nada de queixas ao papai. No que é acompanhado pelos outros examinadores da banca nomeada pelo Pedro II. Nenhuma segunda época. médias excelentes.que para o incontentável professor vale o mesmo que 10 . os resultados por ele alcançados em dezembro de 1926. O menino parecia um louco. Segundo outros. Ao entrar em aula.Ave! Ao que os alunos devem responder em coro: . nós. isto é. pela bebida.Filhos do demônio! Mentes sujas! Devassos! Diz isso quase com o dedo no rosto do aluno.. passagem do terceiro para o quarto ano sem ao menos um susto. absolutamente nada sobre as carteiras. somos. Um dos meninos seguiu-o por toda a Avenida Rio Branco. amargurado e imprevisível Mendes de Aguiar é homem doente.. Quando se exalta. Aliás. Noel e seus companheiros de turma já não o encontrarão: Mendes de Aguiar estará morto. . distraído. se acalma: .é a última nota conferida por Mendes de Aguiar no exame final de latim a Noel.Somos exigentes. Nove . Fala-se no colégio de um aluno que quase atirou um tinteiro em cima de Mendes de Aguiar no dia em que este o chamou de 'mente suja". sendo substituído por dom Pio Ziegenaus ou outro versado em latim. diz: . Hélio. uma coisa: não queremos nada. manda que Noel decline 62 avena mágica. deixou ali um caderno. que repetia o primeiro ano.Nossa escolha se justifica: vós tendes a boca já pronta para soprar uma flauta. inclusive o 10 que lhe dá.Espíritos imundos! Crias de Satanás! Pelo menos uma vez esses acessos não ficaram sem resposta. Um dos alunos. aprovado em tudo. .Conosco é assim! Fala sempre no plural. não mede palavras: . Chegam as férias. matriculados portanto no quarto ano. E pelo menos até março ficará entre os moradores do bangalô a impressão de que os meninos se reconciliaram para sempre com os estudos.

Aprovados. 4 em português.casos de Noel e Hélio . Depois. não está muito diferente do que era. iam eles se apresentando para os exames de bacharelato (aritmética e geografia. 3. A reforma que levou o nome de Juvenil da Rocha Vaz. Quando Noel Rosa começou a cursar o ginásio em 1923. graças a um decreto presidencial. Podia-se estudar em qualquer outro colégio (ou mesmo em casa.66 em desenho e o insuficiente 2 em aritmética. O São Bento e alguns outros preparavam seus alunos dentro de um curso seriado de cinco anos. Os alunos que já tinham iniciado o ginasial em 1925 . Todas as provas finais . 6 em francês. latim. Os primeiranístas de 1925 foram os últimos a terem as duas opções. Nas demais matérias. Novamente reprovados. só que no próprio colégio. foi implantada pelo Decreto-Lei 16. De acordo com este.782-A. bacharéis em ciências e letras. geometria e história universal. francês. na expressão exata da palavra. repetia o ano. vigoraria apenas o seriado. A partir do final do segundo.. estavam habilitados a ingressar em qualquer curso superior do país. Praticamente institucionalizava o curso seriado de cinco anos.. 6. a cada dezembro submetiam-se a provas finais de determinadas matérias. caso o aluno não fosse aprovado pela banca do Pedro II. No São Bento. Reprovados. ao mesmo tempo que começava a pôr fim aos candidatos avulsos (ou "estranhos") que tentavam o bacharelato no Pedro II. diz Almirante em No Tempo de Noel Rosa. 5. 2. ainda que tivesse se saído bem nas provas seletivas que o colégio realizava para só mandar aos exames de bacharelato os mais aplicados. A maior média que Hélio Rosa obteria no primeiro ano ginasial de 1925 seria a de 6. Atual Aeroporto Santos Dumont. mais moço quatro anos . apelaria como Noel para os exames no Pedro II e só concluiria o ginasial em fins de 1930. dois dos quais do Pedro II. afirma: "Quando Hélio de Medeiros Rosa. 3. de 13 de janeiro de 1925. portanto. Como se verá. perante banca de três professores. álgebra e história do Brasil. segunda edição (página 56). no segundo. repetiam o ano. A casa ainda existe.os chamados exames de bacharelato ou preparatórios -realizavam-se no Colégio Pedro II. provavelmente com base em informações do próprio Hélio: "Bom aluno. Refletiu-se também no Rio a chamada Revolução Paulista de 1924. bem aquém do que têm afirmado outros biógrafos. sozinho ou com professores particulares). bacharelavam-se naquelas matérias. em Noel Rosa e Sua Época (página 29). Um curso. Hélio.podiam optar pelo antigo ou novo sistema. no terceiro. depois do que. Mesmo com as sucessivas reformas que sofreu nestes anos todos.5 em instrução moral e cívica. 4. Ao longo do curso. eram muito diferentes as normas do ensino. tornando-o obrigatório em todos os colégios.1. no quarto. no quinto). inglês. mas os exames tinham de ser feitos perante banca do estabelecimento oficial. uma das muitas manifestações do "tenentismo" na década de 20. ou então retornavam ao antigo sistema. diretor do Departamento Nacional de Ensino. foi seu único irmão. tendo hoje o número 483. outro 4 em geografia. física e química e história natural. iam à segunda época. ficaria várias vezes para segunda época.". Jacy Pacheco.

pinho no peito. não foram mesmo feitas para se ficar em casa. A Guitarra de Prata. "Qualquer espécie de música. Freqüentar talvez não seja bem exato. Silva.. E as cartas de Noel. e não a um Hélio "sempre primeiro" de sua turma no São Bento. Tanto este trecho como o de Carlos Henrique Robertson Liberalli são de crônicas publicadas em A Alvorada." A dos realejos e a dos vendedores que passam com as cantigas de seus negócios.B. Farão o mesmo em relação aos violonistas de uma loja rival. entrou para o Ginásio de São Bento. onde se reúne a melhor gente do violão brasileiro desta década. a música enfim é prazer de todos os momentos. Já agora .. Música. referem-se a um bom estudante de veterinária. de pardais. ainda teimando em animar com seu ritmo as aulas de tabuada da mãe: "dois vezes um. explicando. que o irmão sempre foi o primeiro da turma. freqüentará com o irmão e o amigo Glauco Vianna O Cavaquinho de Ouro. ninando crianças. orgulhoso. Quanto às noites. e de outros virtuoses como João Pernambuco. em jornais de modinha. coisas sem nexo. com os seresteiros que eventualmente conhece. vinha destinado a assinalar um curso brilhantíssimo. Prefere passar as manhãs à sombra de uma das árvores do chalé.. . de desassossego para Martha. ou simplesmente Sinhô. Dão atestado disso não só os cadernos escolares e os registros do estabelecimento de ensino. ou cantos de pássaros. na Rua da Alfândega." Nem brilhantíssimo. revelam que Hélio foi aluno apenas mediano. já como universitário. nos saraus Caseiros ou com alguns exímios violonistas que. A que sai do velho gramofone do pai e a que boêmios cantores rumorejam em noites de lua. afinal. 63 O ENCANTO DA MÚSICA Capítulo 6 Canções de simples amas-secas. ou mesmo a rude música urbana. dois. que aprende em todo tipo de lição. como os rumores desconcertantes dos bondes. Os registros do São Bento. já nos últimos tempos de São Bento. E também em outras casas. brotadas da inspiração musical improvisada. Noites. durante todo o ginásio.. as canções. quatro"..quatorze para quinze anos . de cigarras. nem primeiro da turma. carroças. exaustivamente consultados pelos autores. nos métodos de violão. pois os três ficarão sempre meio à distância de Quincas Laranjeiras. que todas as tardes aparece para tocar com Quincas. entrevista ao Jornal de Rádio o bangalô pouco pára. onde pontificará o grande José Barbosa da Silva. março de 1924. mas também as cartas de Noel. que ali dá aulas de violão por música. que gostaria de vê-lo na cama mais cedo. como se constata mais adiante. São noites que ele realmente começa a percorrer. dois vezes dois. pregões . vai conhecendo pela cidade. o Rei do Samba.o violão. o J.que Noel. 7.. porém. Mais crescido.tudo isso me encantava.

Antônio não é de música. que jamais se afastarão dele. meu bem! Juro. entregador de pão. continua no mesmo lugar. Já FaustoJosino de Oliveira. Um marceneiro de mãos delicadas. apenas. alma boêmia. cada qual com uma irmã. ruge. tarefa que cumpre bem cedinho. Glauco Vianna virá mais tarde. Aprende violão com Noel. Só que um se amarrará e o outro não. eu não posso faltar Pois tenho medo que a santa Então venha Zangada me castigar . amante das valsas. Arnaldo. o Cobrinha. é padeiro. dos três atentos observadores de Quincas e João em O Cavaquinho de Ouro. paródias com que divertirá os colegas no recreio do São Bento. Da idade de Hélio. seresteiros. um 65 dos muitos amigos que ele faz em Vila Isabel em nome das afinidades musicais. constatando que Noel já deixou o professor para trás.a Carlos Wehrs. São muitos os amigos. as aulas começando assim que entrega a última bisnaga. enquanto ele. a Edison. Conheceram Noel quando os três. Impossível enumerá-los todos. o que realizará mais plenamente seu sonho de violonista1. até prova em contrário. Ouvindo e vendo. Como Humberto Francisco de Souza. filhos de um alfaiate português e eles próprios iniciando-se cedo no ofício. pela persistente consulta aos métodos. difundida e comercializada cada vez mais. também. aulas de violão -será tocada. magro. alto. Betinho é marceneiro. ficará como sua primeira composição. Amigos chegados. fará do violão peça decorativa na parede de seu quarto. mas Arnaldo ainda vai tentar acompanhar Noel nas aulas com Betinho. Muito útil. dez anos. Arnaldo e Antônio. antes que o sol surja. não ensina nem aprende com Noel. Será. não impedirá que alguém ainda venha um dia a se orgulhar de ter sido "professor de Noel". música e letra: Cumprindo a Promessa2. pelo ver e ouvir quem sabe mais. cantador de emboladas. que se fará íntimo do violão. sapatos altos. solando ou acompanhando. Ou melhor. Como os irmãos Araújo. Esse autodidatismo. o Betinho. partituras. Eu já jurei ir à Penha. Faz-lhe companhia. José Sabiá. importantes pontos em que a música popular-em forma de discos. tocador de cavaquinho. Até que um dia. o que quer que o futuro lhes reserve. a Phoenix. já poderá considerar-se bom violonista. dançavam no estribo de um bonde num domingo de carnaval. Por isso não é muito de serenatas. vestidos de mulher. É mesmo um autodidata. Aos dezesseis anos. como foi dito. violonistas. Jamais deixarão de ser amigos. Ainda será companheiro de Noel em namoros de portão. a Vieira Machado. a Ao Pingüim. ótimo sujeito. fiéis. eis como Noel aprende. a experiência com o bandolim. Tinham nove. a Carlos Gomes. gente que gosta de música. Um dos que poderão dizer que ensinaram alguma coisa a Noel. É certo que as primeiras letras serão feitas para melodias alheias. Mas é por conta própria. negro. Também não é possível precisar quando o executante começou a conviver com o compositor. batom. no chalé. da turma deste no São Bento. Não se pode negar que foram muito úteis os primeiros ensinamentos do pai e da mãe. Mas o próprio Noel fará publicar daqui a alguns anos aquela que. de perder horas de sono.

o "prêmio" que cabe a este ou àquele: . Quando não está no balaústre.. do São Bento e de Vila Isabel. Ali. debochadas.. pede que cada colega tire um e vai cantando. o espaço final do primeiro carro. costuma apoquentar os passageiros com seus arremedos de ventríloquo. bem pode preceder o sorteio com bocageanos poemas que ele mesmo cria para alardear as qualidades o prêmio em disputa: O caralho é o pai de todos os mortais Consolador de pombas e bocetas Alma dos eus e coração das gretas. número cinco! Fica com os pentelhos. Os amigos. inoportunas. quatro! Leva os bagos. em forma de samba. Outro pedaço de papel: . o prazer de apurar suas piruetas no estribo. impressionam-se com essa habilidade do ágil menino de circo Noel Rosa.. mais conhecido por "cozinha".. Ou ainda: 66 . Noel emenda: . obscenas. três! O cabresto. já não tão menino.Alceu deu mais sorte. Tudo a cinqüenta. A cada detalhe do desenho corresponde um número que repete em pedaços de papel. nada mais importante que o bonde. Que quando chegasse o mês Ajoelhava aos pés da santa No ano passado Eu bem quis ir visitar Quem meus pecados Sempre soube perdoar Que crueldade! Vou brigar com meu amor Pois pela dificuldade É que a promessa tem valor Nas muitas e sempre bulhentas andanças do menino Noel por sua cidade. este precário e cambalçante veículo que percorre ruidosamente as ruas do Rio: E o bonde que parece uma carroça? Coisa nossa. não é garganta.Moacyr. Isso aos gritos. muito nossa! Por enquanto. para que todos os passageiros ouçam.. Em seguida. marotas. dobrando-os e colocando-os dentro do quepe.Só chamei um! Vez por outra promove concursos inusitados. desenhando um pênis gigante numa folha de cartolina.Veado! Todos olham para a "cozinha". Mas o bonde não é apenas o trapézio de suas acrobacias. é o preferido.Dacorso. bastam-lhe as viagens.Pode chover Pode até haver tempestade Que eu lá vou ter Com toda boa vontade Pois desta vez Eu jurei . viajando quase sempre de pé. Um dia. É também o picadeiro de suas graças imaginativas. . sessenta quilômetros por hora. alto. vai homenagear. espécie de salto sem rede. de usar o balaústre como ponto de apoio de seus rodopios.. porém. quando o bonde pára: . Em outras ocasiões. ou provocar os que estão no ponto.

seu pai. croniquetas apimentadas. Bigodão é um português risonho. bilhas que se transformam em bondes que ele mesmo dirige. Principalmente agora que a moda importada da América começa a encurtar as saias da mulher carioca. quase na altura das canelas. Mulato forte. manipula manivelas imaginárias. entre anedotas imorais. as paródias. Basta fazer amizade com os motorneiros que circulam pela Praça Mauá. Hoje.Socorro! Um louco! No segundo semestre de 1926 O Mamão ainda circulará clandestinamente sob as carteiras. Lourenço. É quando vê mulher bonita sentada na extremidade do banco. . canaletas de cartolina que fazem às vezes de trilhos. como veículo do seu humor). do soneto da puta que o pariu! Nas salas de aula. A vítima. e Noel bem observa. mais ênfase presta à declamação: Foi Ele pai Pai com quem sua mãe sempre se viu é meu pai. põe-se de pé no estribo. sobem-se as bainhas. grita: . . Noel tanto pede que ele o deixa manobrar o bonde no ponto final. ocasionalmente.estão interligadas. distraída. Assim que o veículo ganha velocidade. versos chulos. porém. um e oitenta de altura. Como também já não durarão muito as brincadeiras de que é vítima dom Joaquim de Luna em suas apaixonadas aulas de religião. quanto mais se encabulam os passageiros. É que em seu último número o jornalzinho traz. Com uma periodicidade que o próprio Noel estabelece em função de ter ou não o que dizer por escrito (por esta época ele já prefere a música. Saias que tudo escondiam. mete a mão coxas acima da mulher e salta. e Noel bem se recorda. Mas dirigir bondes pode.o fechamento de O Mamão e o fim das provocações de Noel a dom Joaquim . As duas coisas . Mais tarde. Nascimento. tudo está mais à mostra. fabrica estranhíssimas maquininhas sobre a carteira.Olha a direita! As brincadeiras que o bonde inspira nem sempre são tão inocentes. Só que não por muito tempo mais. Antes. o bonde já correndo. num simples virar de olhos. revelam-se as pernas. aproxima-se sorrateiramente. divertindo uma turma que constata o caráter cada vez mais irreverente da linha editorial do jornalzinho. Nazareth Bigodão.Quanto mais os amigos olham. devassam-se intimidades de passageiras descuidadas. O Mamão faz o mesmo sucesso do ano anterior. converter-se em algo real. apavorada. Nascimento é o mais camarada. textos enfim que Noel criou ou colheu entre o que há de mais impublicável. e espera que o motorneiro dê a partida. Toma o bonde perto do colégio. saia curta. usavam-se saias muito abaixo dos joelhos. simpático. o voyeur Noel dá lugar a um audacioso pingente que prefere a ação à visão. O menino percebe que o estribo do bonde é lugar estratégico de onde. E passa a viajar ali. De todos. que não se importa que o chamem pelo apelido. ao lado da mulher. imita condutores a exclamar o seu lusitano "faz favor".

fez continência à bandeira. olhou na direção da popa. física. Ou talvez trouxesse uma carta de recomendação dos monges beneditinos de Monte Casino3. frases que habitualmente dom Joaquim emprega em aula quando repreende ou mesmo pune um dos alunos: .. atenção. Noel 67 promete deixar dom Joaquim em paz. isto não esta no manual! As frases aparecem saindo da boca de dom Joaquim na caricatura. dirigiu-se ao portaló. subiu ao convés. imprecisos. a viagem para o Rio. E logo o bondoso dom Joaquim. conhecedor de matemática. Talvez viesse a convite de seu velho amigo. para não mais voltar. Carbone decide deixar para trás a farda e tentar nova vida em terra brasileira. . de onde tomou um trem noturno para o Rio. não muito parecidos com o original. fez dele professor. Dom Meinrado sempre atinge o alvo. Os alunos têm razão quando dizem que uma reprimenda de dom Meinrado.. dom Joaquim segura o seu lápis enquanto diz as duas frases. enquanto Piragibe se ocupa das teóricas. Foi em fins de 1926 que um navio de guerra italiano aportou em Santos.também não se pode precisar. E logo na primeira página. é muito pior que qualquer castigo aplicado pelo Gouvêa ou um dos professores. E fechar de vez O Mamão.uma caricatura de dom Joaquim. Talvez finja não ter lido as críticas ao colégio contidas numa das matérias. sua gente. rumo a São Paulo. É no mínimo falta de sensibilidade brincar com o defeito físico dos outros. qualquer emprego. Justamente nesta época. em cujo colégio estudou antes de entrar para a Marinha. em que seu país militariza-se a olhos vistos.Lembrem-se. Vocês é que se castigam. O fato é que veio pedir emprego a dom Meinrado. incluindo latim e grego. a chegada ao Mosteiro. Limita-se a falar do desenho. Ao que consta. Se a história se passou mesmo assim . o capitão-tenente da Marinha Carmine Carbone. Irrepreensivelmente uniformizado. desceu. sumiu.a deserção. nesta cuidando das aulas práticas. Ou não entender as piadas tão diferentes dos chistes de A Alvorada. Como ou por que veio bater às portas do São Bento não está bem explicado. Com eles. dele desembarcando. suas praias. química. este número de O Mamão vai parar nas mãos do Gouvêa que o entrega a dom Meinrado. o anular e o polegar. Dizem que saiu do navio como quem vai conhecer a cidade. O reitor manda chamar Noel. Mas o que realmente torna o personagem do desenho inconfundívelé sua mão direita: apenas dois dedos. Ou quando tenta que os alunos parem de conversar em sala: . A identificação do monge se faz muito menos pelos traços de Noel. por mais branda que seja. Por exemplo. do quanto de cruel há nele. eu não castigo ninguém. como chegou a pensar.Atenção. O importante é que Carmine Carbone será o único novo professor que os quartanistas de 1927 encontrarão ao voltarem de férias no dia 4 de março. falando vários idiomas. a conversa com dom Meinrado . O reitor logo viu estar diante de um homem culto. Nem toca nesses assuntos. Lecionará latim e química. sem maiores exigências quanto à função ou salário. Por um descuido qualquer. dom Matheus Roccati. e em vez de contratá-lo como inspetor de disciplina. do que por outros detalhes.

suas histórias curiosas que não se demorará a descobrir serem colhidas nas páginas do Eu Sei Tudo. Noel.Que quer o senhor? .. recomeça: . Vai e geralmente não volta. não é justo chamar seu Medeiros e dona Martha para dizer-lhes que o filho não quer crescer.Ir lá fora. as propriedades do elemento sorteado. Toda a turma gosta dele. sem mover os lábios. senta-se perto da janela nas aulas de química para dali. Vai me perguntando: E imitando a voz de Carbone "Que quer o senhor?" Voltando à própria voz: Meu Deus. Carbone sorteia o ponto: bromo.foi uma escolha.Que quer o senhor? .Vá.. Carbone percebe que as escapulidas de Noel são crônicas.Carbone. Ó Carbone. seus pequenos trejeitos.. Um ou outro faz força para não rir. Seu Trombone Desafinado Mas nem tudo é provocação e irreverência.Vá. Ó Carbone! O "ó" bem aberto. diverte-se com seu sotaque. acompanhando-se no violão. . De volta à sala de aula. maço de provas na mão. peso atômico. o professor entra em sala.Carbone. Noel. como se fosse uma sirene.Ir lá fora. Os alunos devem escrever tudo o que sabem a respeito. Sir. então. Daí ter vindo para o Brasil. . E a não ser que a Itália mude.. pede para "ir lá fora". imitando o som de um trombone: É gozado. o ventríloquo. 68 pede silêncio e diz. a prova mensal sobre os halogênios. vá logo. por exemplo.Guarda sua farda para sempre. Carbone vira-se.. Detesta Benito Mussolini. Em quase toda aula do ex-capitão-tenente italiano. emitir um som metálico. número. Sem jamais aceitar o rótulo de desertor. Com seu sotaque ainda carregado. Uma cena que se repete. Têm quarenta minutos para isso. canta para os colegas a paródia que acaba de fazer sobre a melodia de Yes.Professor! . meio cantado. faz a chamada..Professor! . a voz grossa e cantante. estão todos quietos. para o gabinete do dom reitor.Carbone. Se o homem me chama.. Ó Carbone!. O que ele fez . Dom Meinrado o repreende. Há. segurando uma das provas: . muda de tática: . Dois dias depois. diz que ele está crescido demais para estas coisas. ó Carbone! No recreio. .. .repete Noel assim que ele se volta. Preparo logo a cama Com o dom reitor Por último. vá logo. nunca mais voltará(4). prolongado..repetirá muitas vezes . o regime fascista que se instalou na Itália há quase cinco anos e mais ainda todo esse pensamento belicoso que pode vir a destruir seu país. ThafsMy Babe: Quando Pelas aulas ando.

para que todos ouçam. número. suas visitas a esses lugares. uma simples prova mensal destinada a ficar como um dos mais originais e comentados textos já produzidos nas salas do colégio. do muro do açude da Fábrica Confiança. os pais e cinco irmãos. Mas só agora.nenhuma o fascina tanto quanto as casas onde é possível comprar. de noitinha. aos quinze anos. peso atômico. Sente-se bem nesses ambientes. Ela. ao passarem. Noel já é freqüentador dessas pensões à época em que cursa os últimos anos do São Bento. emoções que mexem com seu espírito já inquieto . um desses fregueses que as mulheres consideram "de casa" (mesmo porque o dinheiro é curto demais para isso). entregavam o corpo ao prazer apressado e desconfortável dos terrenos baldios. Naturalmente. tudo gente direita e trabalhadora. a extraordinária dissertação que o senhor Noel de Medeiros Rosa nos fez. aprende a aceitar os seus códigos. Até que se descobre que seus passeios noturnos não são propriamente passeios. jamais deixará de ser até o final da vida. Inútil tentar saber através de quem Noel entrou pela primeira vez numa casa dessas. É dessas pequenas que. em troca de pouco. idade em que geralmente os meninos querem mas não ousam. Os amigos jamais se esquecerão dessa aparente precocidade(7). com detalhes. já andava enredado com as raparigas que. os carinhos de uma mulher. Das muitas descobertas que Noel vai empreendendo .. De certa maneira. Só que em versos. nem espera mais do que seus contados níqueis podem comprar. bem no meio do caminho entre Theodoro da Silva e o Boulevard. no Maracanã. dos capinzais. sente indisfarçável satisfação ao relatar tais experiências. o Ponto de 100 Réis inteiro lhe põe os olhos. propriedades. por alguns mil réis. na qual o garoto Noel é um dos seus clientes. na Visconde de Abaeté. pelo menos dos mais jovens. já ousava até demais. tal como ensinam os compêndios de química. Sem erros nem omissões.mundos que se abrem diante de seus olhos atentos. Ou quase . Por iniciativa própria ou na trilha dos rapazes mais velhos da Praça 7 de Março ou do Ponto de 100 Réis. como queria Carbone. seja uma alfurja dos arredores da Estação de Pedro II. duas janelas e portão de ferro. E que o apelido carinhoso que ganhou dos pais há muito tempo virou ironia: Santinha peca todas as noites numa pensão de mulheres da Rua Visconde de Itamarati. Será com algum espanto e muita inveja que os amigos de sua idade o ouvirão narrar. Moça de seus vinte anos. No São Bento ou no bairro. prosaico bromo transformado em poema. como pode ter sido atraído pelos sorrisos da bela. Noel descobre o amor menos apressado e menos desconfortável oferecido pelas pensões de mulheres. sinuosa e perfumada Santinha. treze anos. E lê. Mesmo sem chegar a ser um habitue. deixam um rastro de sugestões. senão dos mais assíduos. mora numa casa de frente de rua. façanhas de conquistador de bordel. Quando a moça sai. Será sempre assim. Sua iniciação sexual deu-se cedo. não exige mais do que as mulheres lhe podem dar.Faço questão de ler bem alto. metida num vestido curto e justo. Ali está tudo sobre o assunto. Pode ter sido levado por um amigo de Vila Isabel. Métrica e rimas perfeitas. agraciado com um 10(6). onde quer que fosse possível. Aos doze. seja uma casa do Mangue.

Por sua inteligência. Fábio.. a um grupo formado à sua volta. E também do ano que vem . No recreio do São Bento. apoia nas costas o violão do pai que o acompanha sempre. Acompanham os malogrados empenhos de Martha para que o menino estude mais e saia menos. Arregala os olhos para ver Noel tirar os sapatos. ainda em fase de descobertas. caminhar até seu quarto assim mesmo. Ficam maravilhados. suplica. . afinal. zanga. Preocupa-se com sua saúde. três da manhã. pano franzido na cintura. com o fato de raramente ingerir sólidos. tem por Noel grande admiração. Surpreendem-se com um Noel tão atirado. quando 69 vem ao Rio para que seu filho nasça aos cuidados do Dr. livre. ouvem bater na janela do seu quarto. trocará a gabarolice por certo retraimento. Dinheiro na mão. Caralho na boca.. já não se jactará dessas aventuras tantas vezes repetidas. deliciam-se ao conhecer cada truque de que se vale para trocar o dormir cedo por mais uma noitada. sou eu.Minha Dinga. de joelhos. o chocolate com gema de ovo. meu coração." E ela então. Arlinda levanta-se.. é um falastrão. se tudo isso se perde numa noite em claro? Mesmo achando que Martha tem razão. Com muito cuidado. o mingau. mas muito especialmente por seu jeito solto. Arlinda e Fábio não podem deixar de sentir certo deslumbramento.seu último no São Bento . bem-comportado farmacêutico de São Paulo. ele já saiu. o Noel. Mas. Paródias sobre o mesmo tema constituem a maior parte do seu repertório de agora. Lentamente o meu caralho foi chupando. Duas. É uma casa esculhambada. Ela e o marido Fábio hospedam-se no bangalô. De mulher toda arrombada. por enquanto. José Rodrigues da Graça Mello. Com que roupa? Com a de Neca. tão independente e sobretudo tão boêmio. Já adulto. Abre a porta pra mim. Se conformando. ajoelhar-se.sempre. Horrorosa de dar medo. Quando vai ver. bainha da calça dobrada. Martha esconde-lhe as roupas. sua música.em que aproveitará o sucesso de A Casinha da Colina(9) para contar com a mesma melodia outra história inspirada nas casas do Mangue: Você sabe de onde eu venho? É de um rendezvous que eu tenho Lá na Pinto de Azevedo. É sem dúvida um Noel muito diferente o que Arlinda reencontra neste 1927. narra com versos seus e a melodia de Gigoletté' uma de suas aventuras: Fui uma vez À chupadeira Para que ela me chupasse o caralho Que putaria! Ela queria Que eu lhe pagasse adiantado o trabalho. vai abrir a porta que Martha trancou. Então eu disse: "Por favor.. Uma voz sussurrante diz lá de fora: . Inútil. De que adianta a superalimentação. para que a mãe não o veja.

visitar um parente. Cavou um emprego aqui. agora com destino a Bica de Pedra. culote. quepe e perneiras. O mesmo acontece com Hélio. renovado a cada começo de ano. ver um filme no Smart. outro ali. onde espera ter. sempre com a farda caqui. a farda caqui tem sido a única roupa de Noel. Vai na ponta dos pés quando o reitor pega-o pela gola. o sapato fantasia dos meninos.Venha cá. daqui a tempos. Até por uma questão de economia. entendendo-se por luxo a camisa de algodão. seja para as serenatas que tanto amofínam Martha. Ela e o uniforme branco para dias de festa. Lá se ocupará da contabilidade de casas de negócio e da construção de uma estrada. queixo torto. um pouco mais de sorte. há quase quatro anos. Ele é quem gosta de rebatizar os colegas. quando se viu enfiado em dólmã.Me lembro. Como no dia em que vem subindo a ladeira do São Bento ao lado de Hélio Lobo. A escolinha não rende o bastante para que a família luxe. sem no entanto firmar pé. Seja para ir à aula ou à missa. Se alguém lhe põe um apelido. Por muito tempo. Dificilmente irritam. a calça de casimira. Nestes anos de ginásio. Noel raramente se separa do uniforme. a fala mansa mas firme. raramente se separa do uniforme caqui. os moradores do bairro dirão: . paga vinte mil réis por um violão e o dá de presente ao "sobrinho" boêmio. desde aquele primeiro dia de aula em 1923. transformando o agressor em agredido11. O primeiro violão de Noel. é forma de poupar (os primeiros ternos de Noel serão feitos pelos Araújos. o mesmo que Noel vai inspirar pela vida afora a todos bem-comportados que o conhecerem de perto. fazem perder a bossa ao menino Noel. constrangem. Um dia. O monge pede que Hélio . Motivo pelo qual Neca afasta-se de casa mais uma vez. De tal modo que. a tormenta ainda não passou de todo para os Medeiros Rosa. Assim.Um sentimento que mistura simpatia e algumas gotas de inveja. aquele jeito de envolver os alunos sem os destratar. o uniforme do São Bento. próximo ao nascimento do filho. . quando se falar no adolescente que ele é hoje. chegou a exercer por algum tempo as funções de "fiscal do bucho"(10). perde tempo: logo arranjará outro de volta. Não liga quando alguém o chama de "gafanhoto sem bunda". Faltando às aulas. Desde que voltou de Araçatuba. e contando com a mesada que Rita recebe do filho. encabulam. Manuel Garcia de Medeiros Rosa não mais se aprumou. Por ter faltado às aulas de ontem (e de anteontem também). nome que os garotos de outros colégios deram aos alunos do São Bento por causa das iniciais GSB que trazem no emblema. na camaradagem. Aliás. com cortes de Palm Beach 70 mandados de presente por Eduardinho). Magrinho. esgueira-se pelo paredão para não ser notado por dom Meinrado. Mesmo a família morando numa casa mais nova e confortável que o chalé. hein? Dom Meinrado inicia em seguida um de seus habituais sermões. ao lado do cunhado. Fábio vai à cidade. seu Noel.

Odeon e Parlophon. os dois sobrenomes paroxítonos. o outro protesta: . Pedem dois refrescos. por que não peca sozinho? 71 NOTAS 1. Noel continua olhando-o nos olhos. Dos muitos alunos do São Bento. Hélio fica sendo "Salammbô". Noel! Por que está me olhando assim? . Glauco Vianna chegaria a gravar vários discos como solista na Victor. Antônio Fernandez Lopez. Por quê? Nunca saberá. Quase sempre intérprete de suas próprias composições. passa a ser "Fernandes Lopes". Noel e Hélio Lobo caminham lado a lado. Os sanduíches. o acento na última sílaba.O próprio Noel assinalou na margem de um recorte da letra publicada o ano de sua criação: "Feito em 1925". Coloca os dois meninos frente a frente e diz: . Dom Meinrado. garantia de que ninguém mais o chamará daquele jeito. de um número de 1929. patrocinador dos programas mais dispendiosos de Noel. Noel faz que sim com a cabeça e dom Meinrado manda que os dois se dirijam à sala de aula. A certa altura.Lobo se aproxime. Noel. homem importante. Noel. aponta para o sexo e arremata: Vêm da bunda do Alceu Manuel Jansen Muller será "Mané Figueiredo". Ministrinho? . O "lá" significando uma daquelas casas do Mangue que Noel. De agora em diante. para perplexidade de Hermenegildo.Que diabo. cumpriria carreira fonográfica de mais de trinta anos.. E Hermenegildo de Barros Filho fica sendo mesmo o "Ministrinho". Cada vez mais embaraçado.Já que não pode deixar de pecar.Vamos.Mire-se no Hélio. Embora seja da turma de Hélio Rosa. mas concorda em pagar as despesas. o primeiro deles em 1928.Noel. de bom grado. as cervejas. no dia seguinte interpela o turbulento desencaminhador de suas ovelhas: . os olhos lânguidos de Jeanne de Balzac pondo coisas na cabeça dos homens(12). . Salammbô. que parece saber de tudo. Já Alceu de Miranda é simplesmente "Pinguilim".Lá. virgem de Cartago! Os cinemas exibiram semana passada o filme Salammbô. para quem Noel compõe uma buliçosa quadrinha: Pinguilim que bate. Do mesmo modo. é um dos que mais dinheiro leva no bolso.Aonde? . Será. que acabará indo a cartório mudar o nome para Antônio Fernandes Lopes. os esses substituindo os zês. Mire-se no Hélio e veja o que é um aluno exemplar. as mulheres. tudo isso por sua conta. E por razões óbvias: o pai é ministro do Supremo Tribunal. calados. Jornal de Modinhas. Noel passa a olhar fixo nos olhos do colega Hélio encabula-se. Para indignação dele. O filho do ministro treme de medo. Noel se encarrega da boa conversa e da música. bate Pinguilim que já bateu Os pentelhos cá de baixo Faz uma pausa. bem-comportado.. conhece tão bem. livros. é com Noel que se identifica mais: . Os dois vão de uniforme. o nome saindo todo dia nos jornais.. incapaz de um deslize. . 2. até a cantina do Al tino.Estou me mirando em você.

"Apelido?" surpreende-se o almirante Antônio Fernandes Lopes. 72 A MORTE DE PERTO Capítulo 7 Fugi impressionado Sem ter perguntado Se ela estava viva ou morta Cor de Cinza uma casa grande. Canção de Pedro de Sá Pereira e Luís Peixoto. Canção de Franz Lehár. a 16 de julho de 1939. Funcionário municipal que fiscalizava o comércio de miúdos de boi nas feiras livres. quatro anos colega de sala de Noel. Gravada por Vicente Celestino em 1928. Parede colada ao armazém da esquina de Theodoro da Silva com . fundador da ordem. engenheiro e professor de matemática. num total de quinze.3. 8.e às gabarolices de Noel . Além de Jeanne de Balzac. a prova. Nele se encontra o túmulo de São Bento de Nursia. 5. da mesma turma . o companheiro mais chegado: "Noel é que vivia mexendo com todo o mundo. lembra se disso: "Ninguém ligava para o defeito dele"." O general Moacyr Mattos de Oliveira. Não há fundamento na tão difundida versão de que Noel teria carregado. 11. 9." César Dacorso Netto."Nunca houve isso. A dissertação em versos sobre o bromo seria para sempre lembrada não só pelos colegas de turma de Noel.na segunda edição de No Tempo de Noel Rosa (página 187). 6. sucesso internacional na época. meses antes de ter início a guerra que tanto temia pudesse destruir seu país. a canção foi um dos maiores sucessos da música popular americana dos anos 20. Escrita em 1925 por Walter Donaldson e Gus Kahn. em sua passagem pelo São Bento. 4. Além do mais. Depoimentos de amigos de bairro e de contemporâneos de São Bento ajudam a compor o quadro de suas primeiras aventuras amorosas. Mosteiro de Monte Casino ou Mons Casinus. foi produzido em Viena em 1925 e exibido no Rio dois anos depois. Situado entre Roma e Nápoles. Almirante refere-se a esta precocidade . seria também registrada em disco no ano seguinte por Gastão Formenti e Nina Nabuzzi. ainda como professor do São Bento. Morreu no Rio. Nenhum de seus contemporâneos entrevistados pelos autores. Salammbô. estavam no elenco Rolla Norman e Raphael Liévin. lamentavelmente. primeiro aluno da turma. se perdeu. Lauro de Abreu Coutinho. as portas e janelas laterais dando para uma comprida e estreita varanda. Carmine Carbone de fato jamais voltaria à Itália. Guardada durante anos nos arquivos do Mosteiro. 7. mas por todos os seus contemporâneos e muitos de seus sucessores no Ginásio de São Bento. médico radiologista. 10. assegura o Dr. arremata: "Gostávamos demais dele para isso. o apelido de "Queixinho". era o nosso líder. é considerado o berço da Ordem Beneditina. filme de Pierre Marodou baseado no romance de Gustave Flaubert." 12. de suas visitas às pensões de mulheres e de como gostava de se exibir a respeito.

olhos castanhos. zelam com certo rigor pelas irmãs solteiras. dividem entre si as despesas da casa. ao voltar do São Bento. fica bem em frente ao bangalô. Álvaro.. brincando com duas crianças. e Maria que morreu pequena.Noel é todo vida neste 1927. Mas é apenas em Clarinha que Noel está interessado. o segundo. Até hoje a família permanece unida. Noel parece notar que tal casa existe. seguindo os passos do avô. Não importa que entre e saia muita gente da casa. Morena. aos treze anos. redondos. . Um dia percebe que é correspondido. José. . enviuvou e se casou de novo. também Serafim. Se ela ao menos pudesse ouvir-lhe o violão. vizinhos. Mas só neste fim de tarde. À falta do pai. Alberto. no Centro. E Clara. mas os rapazes que fazem ponto na esquina já colheram informações mais ou menos precisas para satisfazer a curiosidade de Noel. São tantos os irmãos e irmãs. Por algum tempo Noel nada pode fazer além de contemplar à distância a beleza de Clara. Lúcio. cabelos curtos. Sempre com o uniforme do São Bento. senta-se na varandinha do bangalô. que se torna quase impossível uma aproximação. É a mais nova dos quinze filhos de outra Clara. Manuel. parentes em visita. irmãos. já casada.nao a morte fim de todas as coisas. Noel só tem olhos para Clara. As crianças que Noel viu com ela são os sobrinhos Edgar e Irene. que dona Clara. um ou 73 outro sorriso. Talvez Clara não o ouça do outro lado da rua. a Clarinha. brilhantes. São todos homens feitos. Mas qual? E a que horas? A troca de olhares. vidraceiro que um ataque cardíaco matou há alguns anos.O nome dela é Clara . que o portão seja ponto de reunião de tantas pessoas. a caçula. que aos domingos se sentem todos na varanda. quando moravam todos na Rua Theofilo Ottoni. de alguma forma. No portão. A não ser a filha mais velha. que se casou. Um garoto bem mais alegre do que o ensimesmado poeta que. Ouviu dizer que a moça estuda num colégio do bairro. Clara Corrêa Netto. Embora se fale muito em morte no Mosteiro . mas na verdade a mais velha das moças depois de Julieta) .contam-lhe.Os irmãos dela não deixam ninguém chegar perto . trabalham fora). E de maneira muito especial por Clarinha. Desde esta tarde. e é tão severa a vigilância sobre Clara. Ananias (nome de homem. Julieta. as gêmeas Guilhermina e Marcolina. Bem que Noel tenta. Julião. nada mais lhe resta. fazendo valer sua autoridade. não deixou Serafim levar para a companhia da segunda mulher (ela é do tempo em que toda madrasta era inevitavelmente uma megera).diz alguém. vê uma moça bonita. escreveu um de seus primeiros . irmãs. ajeitam-se todos aqui.. mas o começo de nova existência. à volta da figura matriarcal de dona Clara: os filhos Alfredo. a moça é o objeto de suas atenções. Quantos anos terá? Noel vai saber depois que ainda não fez quinze. toma o violão e canta coisas de amor.Silva Pinto. Mudou-se para ali há poucos dias. melhor que esta e portanto a ser encarada como graça divina . mas sabe. na casa em frente ao bangalô. que são para ela as canções de Noel. Antônio. viúva de Serafim Corrêa Netto.

Mesmo sabendo que são atraentes suas lições de história universal. O dinheiro é curto? Não tem importância. . tudo desfeito Pela tua ingratidão. Ben Tur-pin. Pra fugir ao tormento. Poderás te esquecer Do meu sofrer. na verdade. Foram suas estas palavras: "Quão doces são as alegrias do sofrimento. Valentino. aos 27 anos. Mas não prefere morrer o Noel de agora. Arranjara um passeio por ali pertinho. gosta de música. Cinco e meia da tarde o centro da ciddade cheio de gente. Nenhum dos alunos. Convence muitos deles a se desviarem do caminho do colégio. faz música de fundo para os filmes de Carlitos. É mesmo um líder entre os companheiros. O Mangue. Como Noel. Noel prefere a vida. rival de Lauro de Abreu Coutinho na luta pelo primeiro lugar no quadro de honra. Às vezes vai ao poeirinha da Praça 11 de Junho onde César Dacorso Netto. Harold Lloyd. . muitos dos quais pedem-lhe que conserte seus pobres versos. seus e do irmão Paulo Dacorso Filho. de certa maneira Noel não quer crescer.propõe ele. Se meu padecer Te trouxer venturas. Serei venturoso Entre amarguras. ridiculariza professores. hora de saída do trabalho. Chico Bóia. à colérica religiosidade de dom Joaquim. a tata melíflua de certos monges. a jogarem futebol em Vila Isabel em vez de assistirem à aula de Passos de Miranda. Há muito de exibicionismo no que faz. Sempre é possível ficar por ali. deixando impressionados os músicos do lugar. e até lembrado por aqueles que lhe conhecem a história marcada de muitos padecimentos e espantosa conformação. Ouvidor. Não se deixa contagiar pelo ambiente demasiado grave anuviado do colégio. Agora. Buster Keaton. pianeiro estilo honky-tonk. cantando. canta paródias. Eu só te pedia Sinceridade. nem sofrimento. Os dois saem juntos da última sessão (hpOCifilháo. num daqueles cafés de esquina.Uma letra por uma cerveja! . descendo a ladeira depois da aula. não cessa as brincadeiras com os deboches. Respeitam mas não compartilham Já devoção dos monges a dom Pio Hemptinne beneditino morto em 1907. à surdez do Barreto. Noel tocando violão. À saída do São Bento. Quão feliz é o isolamento da cruz! Nem morte. repleta de música e esperança. propor esquisitas apostas. Brinca como se a infânciaa fosse eterna. Eu prefiro morrer. Os mais atirados como ele continuam deixando-se arrastar para o Mangue. naturalmente. Há muito de absurdo naquela seção com que A Alvorada tenta convencer seus leitores de que morrer cedo é um privilégio. Buckjones.e ainda imperfeitos versos a que deu o título de "Desilusão": Quando começou A nossa amizade. acredita nisso. ao sotaque de Carbone. É assim que ajuda o pai nas despesas com os estudos. . Gosta de chamar a atenção. as fustigadelas a pose de Piragibe. É um dos melhores alunos da turma. Somente guardo no peito Mais uma desilusão. Pola Negri. Da Dom Gerardo ao Largo de São Francisco é uma considerável caminhada. Surripia guloseimas do Altim. Avenida Rio Branco. Mesmo tendo OMamão deixado de circular. não é raro velo lançar estranhos desafios.Caso dinheiro como vou do portão do colégio ao Largo de São Francisco com a minha coisa de fora Ninguém acredita que seja capaz de tanto. Mas nem todos os prazeres são tão adultos Como diz dom Meinrado. de escandalizar as pessoas. inventa piadas.

" Como é possível alguém resignar-se a perder a vida aos 16 anos? A ausência de João Carlos Corrêa é um choque para os alunos do São Bento. Sabem apenas que a febre não passa. O reitor recomenda que todos vão à casa de João Carlos. Talvez queira usar o banheiro de fora. um vizinho a quem mal conhece. um nome nos anúncios fúnebres de jornal. Seus gritos despertam toda a casa. Bella.se vê quão resignado estava o seu espírito e pronto a ver Deus Nosso Senhor. Sábado. Mas ainda está por vir o primeiro contato mais íntimo de Noel com a morte. que o amigo sofre. o conforto dos Santos Sacramentos de nossa Santa Igreja e. Logo no primeiro dia de aula. 15 de outubro de 1927. No dia 17. Seu estado é grave. Como de hábito. nas salas de aula. Atravessa toda a casa na ponta dos pés. Mas a visita de pouco adianta. pelas suas últimas palavras . Até aqui. a idade de Noel. Noel e os colegas não conseguem vê-lo. homem com quem manteve relações tão pessoais: ". É quase de manhã quando Noel chega. morre. chega a poucos metros do barranco. com grande piedade. o jovem boêmio de farda caqui ziguezagueia silenciosamente por entre os móveis da sala. fingindo-se de distraído. terá Noel coragem! Diz um dos colegas! Não Vai dar certo . Contudo. tão desinteressada . o médico não os deixando entrar no quarto. tudo se passou mais ou menos longe.. o mais extravagante passeio de sua vida. tão sem ânimo nos últimos meses. um parente afastado. passa pela cozinha.ruas movimentadas. Jamais lhe sairá da lembrança o sinistro quadro que seus olhos vêem: o corpo grande e pesado de vó Bella oscilando na ponta de uma corda. Tinha apenas dezesseis anos. despreocupado e irreverente que seja. Vai ser preciso algum tempo até que se compreenda o que aconteceu. homens e mulheres olhando-o perplexos.prevê outro Dois ou três aceitam a aposta. 4 de março de 1927. nas missas. Súbito.'Ó Maria concebida sem pecados rogai por nós que recorremos a vós!' . por mais amor que tenha à vida. o desaparecimento de alguém sendo algo que pouco lhe diz respeito. Ou apenas sentir no rosto um pouco mais da brisa da madrugada. 74 braguilha aberta. neste ano em que ele é todo vida. pára. é justamente neste 1927 que vai travar seu primeiro contato mais íntimo com a morte.. Como acreditar no que o aluno Arnaldo José Fernandes da Costa escreve nas páginas de A Alvorada? "Na véspera recebeu o João Carlos. contraída enquanto passava férias com os pais numa fazenda do sul de Minas. por mais alegre. No enterro. O bangalô ainda dorme. sente-se isso. Dá alguns passos. no começo do ano já sabe da morte de Mendes de Aguiar. dom Meinrado contou aos quartanistas que João Carlos está com uma séria infecção intestinal. Seguido a distância por todo um grupo de: alunos do São Bento que riem. De volta das férias. mais de nervoso do que de outra coisa realiza pelo centro da cidade. vós tendes a boca já pronta para soprar uma flauta!" E pouco depois acontece a perda do colega de turma João Carlos Corrêa. fazendo ginástica para que ninguém o ouça. sai no quintal.

as lamúrias substituindo o falar pouco. na esperança de que algum remédio lhe devolvesse o ânimo. dá um detalhe importante ("Uma das crianças da casa. Lembrando que o Dr. Carrara e Zola."1 O repórter comete algumas imprecisões. vinha-se dizendo já sem forças. o O Correio da Manhã focaliza o assunto: "No silêncio da madrugada uma sexagenária deu cabo da vida enforcando-se". As queixas de Bella foram então atribuídas a um cansaço passageiro. suicidou-se. a ponto de vir ele. subiu na cadeira. sem alarde. Ribeiro de Sá. e não 195. Recato. Citando Lombroso.enquanto o corpo estiver sendo velado na sala do bangalô (o comissário do 16. domingo.. escaldante. Mas não são essas imprecisões que deixam irritado o chefe de Polícia. Coriolano considera a divulgação pelos jornais de tais fatos influenciadora de espíritos fracos. Antenor Costa. ou chamar a morta de Moreira Rosa. todos vão saber que dona Bellarmina se enforcou. pegou uma cadeira. É ainda A Noite. que vai falar da circular de Coriolano de Góes aos delegados distritais proibindo-os de passarem à imprensa informações sobre suicídios. Floriano é irmão do chefe de Polícia.. a idéia da morte perseguindo-a. Diz o título: "A vida era-lhe insuportável e a pobre velhinha. A circular é escrita em linguagem erudita. Cita alguns casos célebres. discrição. diz o título2. crimes de morte e casos misteriosos. E por mais que a família se empenhe para que o estrondo dessa tragédia não seja ouvido lá fora. Chamou-se um médico. correndo a inocente aos gritos contar o que vira. amarrou uma corda de varal na trave do galinheiro. enfiou o pescoço no laço que ela mesma preparou na outra extremidade. deparou ali. A vida toda foi assim Bellarmina.das pessoas e das coisas. de suicídios e assassinatos. como dizer que o número da casa é 135. converteu o suicídio de Bela num assunto público. Dr. porém. proibir que se continue a noticiar certos fatos policiais ocorridos na cidade. foi para o quintal. segundo palavras de A Noite. todos horrorizados ao verem que unia indiscrição ao pessoal do Distrito. em vez de Medeiros Rosa. queixam-se a ele. e de como. a partir do que publicam os jornais. como sempre gostou de viver. Tudo muito rápido. permi tindo que os repórteres tivessem acesso ao livro de ocorrências. Aos 64 anos. Floriano de Araújo Góes. mas em silêncio. baloiçando. só na edição do dia seguinte. levantou-se de madrugada. Na tarde deste mesmo sábado . um corpo de mulher. O começo de tudo é a indignação dos 76 moradores do bangalô. mas erra ao dizer que "a infeliz anciã" era mãe do Dr. Eduardo Corrêa de Azevedo."). Mas um suicídio é um suicídio. concordaram que não se faça a autópsia). e o médico legista. tendo ido ao quintal. Por ser um matutino. atando um laço ao pescoço. em sua edição de dois dias depois3.° Distrito Policial. de Medeiros Rosa. de forma alguma a uma efetiva vontade de morrer. Coriolano de Góes. ao serem destacados . o deixar-se ficar num canto sem incomodar os outros. A sempre discreta Bella. A matéria informa corretamente o número do bangalô e o nome de Bella. A Noite já estará circulando com a notícia.

por enquanto mantido em segredo. passa a cometer injustiças que nunca foram do seu feitio. Está tendo depois de morta uma notoriedade que sempre evitou em vida. Em nome de que recusa tão boa proposta? Responde: em nome da vocação de inventor que sempre existiu nele. autoritário. Martha insiste para que procure emprego. o mesmo pai compreensivo e tolerante. Afirma não ser homem para tarefas medíocres. indialogável. 500 mil réis mensais. que ela conheceu um dia? Discutem muito. é freqüentemente brusco. Quinhentos mil réis! Quantos ganham tanto neste magro final de década? Poucos. Uma mudança que a família jamais chegará a entender. um percurso aqui e ali interrompido por atrasos e baldeações de trens. . são os contornos daquele quadro sinistro. quando Neca chega ao bangalô. Chega a recusar oferta para que administre uma fábrica de tijolos na ilha do Governador. tão discreta. por alertarem os criminosos sobre as diligências policiais. São Paulo. É incisivo: . aflorou. Uma criatura difícil. mas que só agora.. Com os filhos. reencontrando abalada e chorosa a família que não vê desde o ano passado. Com a mulher. os jornais dando por vários dias ainda cobertura às proibições. têm que me pagar muito mais. desencadearam ondas de tragédias semelhantes. os jornais tornam praticamente impossível sua captura. cuidando de morrer sem fazer barulho. a mãe já está enterrada há quase dois dias. Jaú. Mas já não importa. de sua inteligência. Noel inclusive. irrita-se com a mulher.pela imprensa. em vez de ficar em casa nada fazendo. Pobre Bella. Grandes inventos custam dinheiro. muito poucos. trabalhe como todo o mundo. A mulher e os filhos logo percebem o quanto ele mudou nos últimos meses. Acredita que suas idéias sejam formidáveis. e no entanto causadora de uma ruidosa reação do chefe de Polícia. Eduardinho providenciou tudo para que Neca viajasse na primeira hora. Bica de Pedra." Brigão. já não será o amigo que os meninos aprenderam a admirar. delirante. na lembrança deste garoto de dezesseis anos. "proíba-se". sério. Neca diz que voltou de VEZ. castigando-os por pouco ou mesmo nada.. torna-se mais diferente dele mesmo. Onde está aquele homem responsável. Que quando não está entregue às suas fantasias. a avó pendurada na ponta de uma corda. reprime os filhos. os filhos e a sogra com uma altivez que não tinha antes: só fará o que estiver à altura do seu talento. Rio. que normalmente alegraria a todos. Assim. Discutem muito por isso. Já não é o mesmo marido atencioso. ele surpreendendo a mulher. Além do mais. Mas o que ficará. Martha mal o reconhece. por vezes irascível. Mais que sonhador. conclui Coriolano. tem algo triste. Está convencido de que elas vão mesmo torná-lo rico e famoso. vai ocupar o lugar daquele Neca tão pródigo em agrados que cobria Martha de carinhos e esmeraldas: "São para combinar com os teus olhos. E é verdade. o corpo sem vida balançando de um lado para o outro. Fala muito de novo tipo de embarcação que pretende desenvolver assim que consiga um sócio para ajudá-lo a levantar capital. Seu primeiro contato mais íntimo com a morte. O Neca que volta é de fato outro homem. Não há dúvida: é outro homem este que volta. aos 47 anos. Todos sentirão sua falta. lutador.Para a minha capacidade. casa e comida. Portanto. E o novo tipo de embarcação é um grande invento. Mas até mesmo esta decisão. se fixe numa ocupação.

oculta-se incorrigível alma de boêmio. sem deixar marcas. Em fevereiro. Isto é. Raramente irão a algum lugar sozinhos. Mas isso também só no início. De certo modo. de que os irmãos já não tentarão contê-la. Nunca teve namorado. Theodoro da Silva com Visconde de Abaeté. exigem resposta. objetivo.sabem disso. a certeza de que seu tempo chegou. os olhares tão significativos.Clara pode não ter ouvido a música de Noel. que se assina "Noel". aluno do São Bento. começa a namorar uma das gêmeas. inconseqüente. pede que ela o 77 encontre amanhã à noite. mas decerto entendeu-lhe a letra. Mas um gosto só no início. trocando juras. enquanto não descobrem que dois sempre sobram. José Piragibe é o professor das duas matérias (na primeira delas. mas sempre próximos. um rapaz de boa família. Seis. Até farão gosto.ela principalmente . Pelo menos até onde a distância entre suas casas permite avaliá-lo. É reprovado. Vão se encontrar na Praça 7. cumprindo-as. acompanhando-se ao violão. o fato de ser a caçula avivando neles os instintos protetores. não tem melhor sorte nas segundas épocas. sete anos. três esquinas mais para lá. se não chegou a ouvir a música que Noel tantas vezes lhe cantou do outro lado da rua. os versos que ele lhe mandou como fecho de um bilhete perturbador. sem rodeios. alternando-se com Carbone). Não será . Clara. no portão. quase sete anos fazendo parte da vida um do outro. Seis. Por quase sete anos farão parte da vida um do outro. Mas já é uma moça. Na maioria das vezes os quatro saem juntos. apenas para se vingar das . Um pássaro cheio de encantos que já não se pode prender. uma linda moça. simpático. os irmãos sempre exerceram sobre ela uma vigilância de cão-deguarda. a Marcolina (com quem acabará se casando) . Toma coragem e escreve um bilhete em resposta: estará amanhã à noite no local que ele sugeriu. Também gosta dele. um passeio mais longe. Fez quinze anos três dias antes do suicídio de vó Bella. erá exigido de Noel mais do que dos outros? Será possível que o tenha reprovado injustamente. É uma garota tímida. Todos . os alunos do quarto ano prestam seus exames de bacharelato e promoção. Como em muitos aspectos ele há de ser único na vida dela. É isso que a perturba. Clara será a primeira namoradinha de fé de Noel.um simples namoro de adolescentes. pálido. Na primeira quinzena de novembro e segunda de dezembro de 1927. ligeiro. De início. notou-lhe o interesse. Noel em química & física e história natural.como alguns pensarão . Querendo-se bem. esquecendo-se delas. o do violão. até perceberem que sob a pele do menino magro. com intenção de ser médico. Uma esquina que verá nascer entre os dois uma grande afeição. os irmãos não se importarão. do rapaz ali em frente. quieto. de que versos como estes. O bilhete é breve. Ou melhor. afastando-se. um cinema. Passou a época em que podia esconder-se sob a sua meninice. O rapaz. Betinho. na esquina. Enganam-se os que pensam que naquela esquina de Vila Isabel teve início um simples e passageiro amor de adolescentes. a única.

cada vez mais ligado à música e desligado dos estudos. algumas delas cruéis. quis se matar. Tais tropeços não deixam de surpreendê-lo. Tão assustado que talvez nem tenha podido identificar por trás daquela voz fanhosa o endiabrado Noel de Medeiros Rosa. no Pedro II. No entanto. que por sinal foi reprovado nas mesmas duas matérias). imitando uma voz fanhosa. A que ponto. escorregado. inconformado com o fracasso nos exames. um acidente. pela ladeira em direção ao colégio. de que vem sendo vítima nos últimos cinco anos? Piragibe dificilmente esquecerá algumas dessas brincadeiras. correria). acredita na primeira hipótese. nem mesmo Moacyr Mattos de Oliveira (o amigo inseparável. nenhum. quando é novamente reprovado em história natural. isto é. a Noel só restam dois caminhos: ou repetir o quarto ano. Em sua costumeira irresponsabilidade. gritou: . ouvem-se gritos. Pôs-se a sapatear nervosamente por entre as pedrinhas que lhe castigavam as pernas. Todos sabem o quanto ele brincou o ano todo. os abusos. freqüentar as aulas do 78 quinto ano no São Bento. O pai se zanga.ficará a certeza de que o filho. Quem sabe. fere braços e pernas. Hoje e para sempre. Acha melhor seguir por este último. Não combina com Piragibe. Mas pode ser que sim. mortificada. Principalmente ao vê-lo tão acabrunhado depois das primeiras provas no Pedro II. atribuirão a Piragibe toda a culpa pelos insucessos de Noel. seria capaz de tanto. esperou que ele passasse perto e começou a metralhar-lhe as pernas com pedrinhas miúdas catadas no morro. Às gargalhadas." Vingança do professor ou merecidas reprovações? Dos colegas. Como o dia em que vinha caminhando. Noel acaba de rolar do alto do barranco. As reprovações o frustram. as imitações. todos pensam diferente. escondido na primeira curva atrás de uma árvore. muito distraído. seu puto! Salta! Piragibe saltou.muito sugestionada pela tragédia que se abateu sobre a família neste mesmo quintal . em março.Salta. Química & física? História natural? Prefere o violão. confusão no fundo do quintal. Certa manhã. homem bondoso e íntegro demais para fazer perder o ano um aluno que não o merecesse. a mãe se preocupa. Em sua cabeça . Não combina também com Noel. Por quê?(5) Mais um "por quê?" Este como o outro parte de uma mesma e complicada questão: o que terá acontecido realmente? A vingança de um professor levando o aluno à reprovação . os deboches. Portanto. a partir de março de 1928. Deve ter pisado em falso na terra úmida. na família.brincadeiras. ou lançar mão do direito de voltar ao antigo sistema. caído. passado o susto e chegando à conclusão de que só um. parece muito machucado. teme que não. Por quê?(4) Reprovado nas segundas épocas. mas passar a fazer os exames. não terá dito para si mesmo: "Este Noel ainda me paga. dos quase 500 alunos do Ginásio de São Bento. Noel. não é possível precisar. acreditava poder brincar o ano inteiro sem esbarrar no rigor das bancas examinadoras. Mas Martha.

as tintas de inverossimilhança que colorem a história. depois. causas mesmo de suas reprovações no próprio colégio e mais tarde no Pedro II: "O único que brincou foi seu Noel Rosa" . E. Ou seja.. estudante pouco aplicado. como atestam os arquivos do São Bento. que acreditam todos no bangalô. 16 de outubro de 1927 (página 7). um garoto de dezessete anos capaz de truques e simulações para enfrentar a vida. Jacy fala de perseguições do professor ao aluno. cada vez mais desapontada com o filho. Quando apelou para o Colégio Pedro II. repouso fora do Rio. irmão do professor Mário (sic). Noel inventando tudo para se livrar dos sermões do pai. O primo Aldílio fez o possível para levar Noel à festa. atenções especiais. química. cada vez mais irritadiço e intolerante. beirando o trágico. E brincava! E isso eu não admito! Ele foi ao pau três vezes. não! Foi história do Brasil. bom boêmio. . o Sr. Dr. A Noite. física e história natural. José Piragibe.o testemunho dos colegas. nos dando conta de um perverso e vingativo professor. pedi a meus colegas de lá que o reprovassem. Afinal. Mas são tantos os indícios em contrário . e não Mário Piragibe como cita Jacy Pacheco em Noel Rosa e Sua Época. Correio da Manhã. talvez não tenha chegado a inventá-la. é mostrado naquele livro como uma espécie de algoz de Noel durante os anos de São Bento. Desculpa. Aldílio Tostes Malta. primo de Noel. é tratado com todo cuidado." Ouvido pelos autores. Não foi física que estudou comigo. 4. de mentir para se salvar. à tentativa de suicídio? Pode ser. mau aluno. mas tira proveito dela. A Noite. 2. Aldílio Tostes Malta. Nenhum esforço fará para convencer a mãe de que foi apenas um acidente. Com base em informações de Hélio Rosa. que voltará a usar em futuras reprovações. desposou a filha do desembargador Vicente Piragibe. Diz ainda Jacy Pacheco: "Anos mais tarde. foi ele quem contou em casa sobre a "vingança de Piragibe" (só em 1929 Hélio conhecerá mais de perto o professor). realmente contraria as lembranças de todos os colegas de turma de Noel entrevistados pelos autores: nenhum deles sabe de qualquer hostilidade de Piragibe ao seu irrequieto aluno. Em vez de zangas. E ele foi ao pau!" Esta versão.e. já veremos.teria dito Piragibe numa aula à turma de Hélio . porém não houve força humana capaz de amainar o ódio que lhe ia no espírito. Era exatamente esta a idéia que a família fazia do professor.. nos seis anos em que Noel estudou lá. 3. Ele sabia a matéria. Quanto à tentativa de suicídio. oprimido pelo pai. Mas não como eu queria. Além disso. NOTAS 1. 17 de outubro de 1927 (página 2)."mas se arrependeu. o próprio Noel . a reputação de Piragibe como homem sério e justo. Piragibe lecionou português. nunca história do Brasil. Hipótese nem patética nem trágica. 15 de outubro de 1927 (página 2). de pôr no fogo um professor desde que se livre do fogo ele próprio.que não se deve desprezar a hipótese de tal versão não passar de uma farsa. e para ganhar a simpatia da mãe. contra o malvado professor que era figura indispensável na cerimônia. É nesta versão patética. aliás. mas que cabe como uma luva no Noel de agora.

Nas aulas práticas de química..." Já o Dr. Numa de suas experiências. . na outra casa (o 195). Cor de. lactosa.Isto. afasta a possibilidade de tentativa de suicídio: "Se tivesse havido. não se parece com um suicida. a 18 de junho de 1928.poeta. atirando-se de uma ribanceira com a qual confinava o nosso terreno.. como dom Meinrado. nas proximidades do seu casamento com Alzira." De qualquer forma. Aldílio Tostes Malta é filho de Christovam Malta. Antigos como Piragibe. eu o saberia. Desta vez quem o socorre é Noel: . aquele mesmo que traçou na imprensa de Juiz de Fora um fiel perfil de Eduardo Corrêa de Azevedo. Sabe-se apenas que seu português é muito limitado. concedida ainda sob a emoção da morte do filho.completa um dos rapazes. . aquece o tubo de ensaio. a entrevista. Mostra-a à turma e diz: ..Como é mesmo! Cor.. o Noel Rosa que em março de 1928 está de volta às aulas do São Bento.. Martha de Medeiros Rosa faria referência ao episódio: "Atal ponto chegou seu estado de desânimo que. Cor de. . um 2 de metal substitui o escudo do colégio. a mesma irreverência para com os mestres.. novos como dom Bento Villiger. nem tem jeito de quem leva a sério os professores. o pai (ver capítulo 1). recorre a todo momento aos alunos quando uma palavra lhe escapa: .. cor de leite de pica.. sendo necessário levá-lo para fora do Rio para restabelecer-se. 5. dom Plácido Roth e o coronel Eduardo de Albuquerque Sá. e de como os dois irmãos tocaram e cantaram para a família da noiva. Eduardo Corrêa de Azevedo. canadense ou suíço. mistura nitrato de prata ao cloreto de sódio. quase branca. revela que até o fim da vida Martha carregou consigo a certeza de que não fora um simples acidente. Não se sabe se é americano. Nada mudou nele. O mesmo uniforme caqui (a cada lado da gola. O mesmo humor. Cor. faz surgir assim uma solução de cloreto de prata. parceiro de Joubert de Carvalho em algumas canções e mais tarde ministro do Tribunal Superior do Trabalho. Meus Pensamentos Pensando bem. sem maiores problemas.. único detalhe que distingue dos demais os alunos alistados no Tiro de Guerra 2).Azul. Dom Bento chegou dos Estados Unidos há pouco. numa de suas muitas conversas com os autores. tentou suicidar-se. Em entrevista a A Noite Ilustrada de 18 de maio de 1937. Esteve muito tempo entre a vida e a morte.De leite de pica. negou o fato.Aqui temos um líquido. a mesma agitação nas aulas. Lembra-se das visitas de Noel e Hélio a Vicente Piragibe. 79 ADEUS AO MOSTEIRO Capítulo 8 O mundo ensina ao homem com mais facilidade aquilo que ele não quer aprender.

contratado nos primeiros dias do ano para lecionar cosmografia. Empertigado.Então. seu Noel. tira da pasta as provas corrigidas. Não é preciso zangar. baixinho. Na aula seguinte. como é que o senhor explica isso? Noel é sincero: .Não está presente o senhor Noel? Alguém diz que não. deste para dom Plácido 81 e novamente para o papel. . Senta-se. só fala em português e prefere não complicar as lições. Albuquerque Sá entra em sala mais sisudo que de costume.chama com voz firme. coloca-as sobre a mesa. dom Plácido. o agir direito. fica satisfeito quando pode dar nota alta a toda a turma. muito tranqüilo. A janela está aberta. Formação militar. talvez esteja . Colar quase todos colam.Senhor Noel de Medeiros Rosa! . ameaçar. instrumento astronômico e geodésico de medição. palavra por palavra igual ao livro. A certa altura. seja nas provas do implacável Albuquerque Sá. Tendo de fazer os olhos passarem rápido do livro para o papel. fria. Numa dessas sabatinas. Seja nas sabatinas do indulgente dom Plácido. É pouco exigente em suas sabatinas. Niguém responde. porte marcial. . Exigentíssimo.Vejamos sua prova. alguns o temem. seu Noel. a fisionomia sempre fechada. mas um programa mais extenso.adverte dom Meinrado na véspera de apresentar o professor à turma. não faz sentido. das estrelas do Pólo Norte. Noel apressa-se em abrir o livro. parece estar em permanente posição de sentido. Dom Plácido é mais simples. para âuem a correção. aprofundado. impositiva. . A primeira e difícil prova dada por ele ao quinto ano de 1928 versa sobre o teodolito.. vendo-o distraído. basta. que inclui desde o conhecimento. homem de rígida formação militar. Todos o respeitam. E é verdade. É mais camarada e bem menos empolado que dom Pio Ziegenaus. Embora bem escrito.Espero que vocês se adaptem aos seus métodos . nas quais Noel costuma cantar. que vive a atirar sobre os alunos seu palavrório em latim: Quaerite primum regnum Dei etjustitiam ejus haec omnia adjicientur vo-bis. dom Plácido manda que ele se levante: . E passa a ler.É um coronel do Exército. O vento explica. uma a uma. até o estudo detalhado de lunetas e aparelhos vários). Três dias depois. nova matéria do programa oficial (não mais aquelas breves noções de astronomia descritiva aprendidas no segundo ano.As aulas práticas de dom Bento são mais interessantes que as teóricas de Piragibe.. Noel inclusive. Sua simples presença. extremamente zeloso quanto aos estudos e à disciplina. é mais que sagrado. falar alto para que os alunos assistam à aula em silêncio. Faltou. . cabelo cortado curto. É mesmo um homem exigentíssimo. notam todos. um vento frio sopra de vez em quando. . modinhas e emboladas: Eu fui no mato Pra cortar o pau-pinheiro Só pra ver se sou ligeiro No cacete pra brigar Dom Plácido leciona apologética. E continua copiando. só que agora de outro trecho mais adiante. o texto começa com um assunto e repentinamente muda para outro. por exemplo. colocá-lo sobre os joelhos e copiar o tema da prova.O vento. não nota que o vento vira uma das páginas do livro.

igualzinha à apostila. o coronel não faz rodeios: . Contam-lhe o que houve. a fúria de Albuquerque Sá. Não demora muito. Até os desenhos parecem copiados um por cima do outro. Logo o senhor. diante da turma. tudo o que penso dele.doente.Pois eu gostaria de expor aqui. Depois de lê-la. E Noel.Seu Noel colou. Entrega a um a prova de Noel e a outro a apostila em que está o ponto sobre o teodolito. diz: 82 .É pena. colou vergonhosamente! Hei de fazê-lo pagar por essa indignidade. na presença dos alunos do quinto ano e de mestres do Ginásio de São Bento.Mas coronel. o professor empalidece. Insultei-o. um moleque. um desqualificado! Há espanto nos olhos dos alunos. Como a anterior. não entra mais! No dia seguinte. para que eu possa repetir na sua presença tudo que já disse a seu respeito na aula passada. seu Noel. visivelmente constrangido. Só reaparece três dias depois. E dispara a mesma fala enfezada. Chama à sua mesa Lauro de Abreu Coutinho e César Dacorso Netto.Quero. mas Albuquerque Sá não pára por aí. Na frente de todos. com ar inocente: . Noel encontra os colegas à sua espera. mas também na presença do senhor Noel de Medeiros Rosa. . Albuquerque Sá concorda em ouvir o que o aluno tem a dizer em sua defesa.Muito bem. Pois sente-se aíe faça aprova de novo. .. cada um de uma vez. Manda que Noel saia imediatamente de sala. assim que começa a subir a ladeira. Cometi um erro terrível. dá meia-volta. o desonesto. Noel jura que é verdade. Faz uma pausa como se para medir as palavras e continua: . sempre do lado do certo. . Ao vê-lo sentado numa das carteiras da frente. jura que não permitirá que Noel continue freqüentando suas aulas. As duas são exatamente iguais. retorna acompanhado do reitor e de outros monges. suas ameaças. Na minha sala. cada traço de desenho sobre o teodolito. Pede que leiam em voz alta. não o acha sequer merecedor de estar num colégio como o São Bento. vírgula por vírgula. coronel. Perdeu dias e dias enfiando na cabeça cada palavra. duvidei de sua lisura. Não se condena uma pessoa sem lhe dar o direito de defesa. .Assunto encerrado! . Sim. Sem dizer nada. Trata-se de um desonesto.. E basta que me ponha uma vírgula fora do lugar que eu o expulso de sala! Em menos de quinze minutos a nova prova está feita.Foi bom o senhor ter vindo.Santo Deus! Pede aos alunos que esperem um instante. . coronel Albuquerque Sá e mais ninguém acredita . Piragibe e outros professores. A explicação de Noel é simples: sabia a apostila de cor. O coronel não acredita. . pedir desculpas ao senhor Noel de Medeiros Rosa. quando na verdade. o desqualificado e tudo mais. tudo que fez foi uma prova perfeita. Vale-se de outros termos para expressar sua indignação. aluno exemplar que é. justamente para a próxima aula de cosmografia.. acusei-o de ter colado. Humildemente. peço-lhe que me desculpe..Está desculpado. o moleque.Não é justo.

comandava o pelotão numa dessas paradas cívicas de que o colégio participa no centro da cidade. não tem a menor vocação para a vida militar. começam pela manhã. Para um jovem boêmio como ele. dezessete anos. Noel é pronto. Num começo de ano. chegar bocejante no campo de treinamento onde os alunos respondem à chamada em filas de três. um suplício. passo certo. O pelotão inteiro desacertou o passo no meio de tantas risadas. Têm a mesma idade. o dinheiro sempre contado. embarcar ainda meio grogue no Lins de Vasconcellos. a espada desembainhada. Alceu viu como se fazia e passou a fazer igual. Porque. E Noel. aquele exército de mentirinha que o colégio mantém até hoje na esperança de que seus alunos se habituem desde cedo à disciplina. Acordar cedo. tudo isso é bastante penoso. de um garoto que realmente não hesita em pôr um professor no fogo quando é ele que está para se queimar(1). É às gargalhadas que ele conta isso aos colegas. Hermenegildo é tímido. todo o São Bento sabe que Noel só decorou a apostila depois daquela meia-volta na ladeira. suar muito nas sessões de ginástica. afinal. ordem unida. o compenetrado Alceu já ia arregaçando as mangas quando Noel chegou perto e murmurou: . E assim que viu um fuzil livre de graxa. o sargento.será mesmo Hermenegildo de Barros Filho seu companheiro mais chegado no Tiro de Guerra 2. Ministrinho sendo filho de homem importante (tão importante que acabará dando seu nome à rua onde mora). rodando a espada no ar como se fosse baliza. virou cabo. de resto. Moacyr e o irmão Sylvio Mattos de Oliveira. Como Moacyr pretende seguir carreira . Gargalhadas. brilhando nas mãos de um dos colegas.Deixe que algum trouxa limpe isso pra você. girando sobre os calcanhares. ao contrário de alguns colegas como Antônio Fernandes Lopes. Numa delas. enquanto a única "importância" da família de Noel é aquele discutível parentesco com o Caramuru (ou talvez com Garcia d'Ávila. incluindo táticas de combate a cargo dos primeiros-sargentos Luís Corrêa Marques e José de Abreu Coutinho (nenhum parentesco com Lauro). e embora pertençam a mundos diferentes. Vinha à frente dos outros. ou quem sabe com Maria Stuart). . esperou que este se distraísse e trocou-o pelo seu.na prova perfeita. decidiu trocar a postura marcial pela de um desengonçado boneco a fazer palhaçadas em plena marcha. cada aluno devendo limpar o seu. Já deixou isso claro como integrante do Batalhão Escolar. rebolando. corrida. antes das seis. Noel acha todas essas obrigações impostas pelo Tiro de Guerra 2 uma grande perda de tempo. Lucílio Urrutigaray. Noel foi rebaixado algumas vezes de posto.deixando para servir ao Exército na ativa . fazer cálculos de trajetória de tiro. mas isso não é problema se Noel está por perto. sargento. Foi ele quem ensinou a Alceu de Miranda que mais vale um sujeito esperto que um soldado cumpridor dos deveres. o Batalhão Escolar tendo de tirar do depósito os fuzis cobertos de graxa. Os exercícios militares. meter-se no uniforme. ou ainda com Marília de Dirceu. Noel. o que também não é problema se o programa é feito na companhia do Ministrinho. Em dado momento. eles se entendem muito bem. sujo. Desmontar e remontar fuzis em tempo determinado.

Puxa. É nesta época. A repreensão adquire tom sério. O que de forma alguma o fará desistir de brincar com o Hino Nacional. A namorada. outros tantos para cá. Há vinho para todo preço. percorrendo quase um quilômetro de terra batida ao compasso da quadrinha. Os que são do Tiro de Guerra 2 incluem entre seus exercícios uns divertidos chutes a gol no pátio. Soldado do Brasil! Marcho eu. o bom humor não se perde. o rufião. ou arranjando para ela letras que fariam Osório Duque Estrada tremer no túmulo onde o enterraram no ano passado. Um dia. Desse jeito.. sobrevivem .. fuzis às costas. o jogador. que se começa a notar seu fascínio por certo tipo de personagem que faz seu caminho por entre as arestas da cidade: o malandro. Não Noel. Empunhando o fuzil. São 24 quilômetros para lá. Perneiras. Fora o serviço militar. tango. Elvira cor de manga Amarga e flácida. Noel sendo advertido: . fode a filha. os amigos.. que afinal só mesmo Noel e alguns poucos têm coragem de beber. Ou até renhidos marches. dólmàs abotoados.Não faz mal. os prostíbulos. marcha ele. aliás um dos gracejos favoritos dos jovens desta época. o valente. fode a mãe. A marcha é interrompida para um breve descanso. por sinal uma ensolarada manhã de maio. num campo longe da vigilância dos sargentos. Noel. se para animar o futebol não podem comprar bebida de boa qualidade.Jogar futebol. . só que agora com nova quadrinha: Mas que família é esta? Igual nunca se viu. serão esquecidas. menos Noel.. É o sargento Luís Corrêa Marques quem sugere: . Na marcha de volta.. 83 Ele mesmo começa: Valente e altaneiro. Ministrinho. pouca coisa muda.ou até vivem . Fode o pai. Todos repetem em coro.Hoje estou com pouco dinheiro. homens enfim sem ocupação definida e que fora ou dentro da lei. Entendendo-se como tal o cidadão que vive de truques e espertezas. mas à margem da sociedade. diverte-se ao violão solando a melodia de Francisco Manuel da Silva em ritmo de valsa. o bordeleiro. Paródias que. seu Noel. os soldados saem para uma marcha de ida e volta à Vila Militar. mas esta droga está uma delícia!(2) Outros podem perder o fôlego e o humor ao cumprirem as exigências feitas pelos dois sargentos nos exercícios. sempre que pode. Noel. um calor de verão. Fode a puta que pariu! Até os dois sargentos aderem ao coro das risadas. as serenatas. gente. Desta vez ele se entrega a um de seus prazeres maiores: parodiar o Hino Nacional. que insiste em continuar cadenciando a marcha. São desafios quase sempre estimulados a vinho. infelizmente.. o grupo começa a trocar passo de tão cansado.O Exército é coisa séria. porém. o sargento dá ordem para que os rapazes parem de cantar. Notando que a cadência foi recuperada. os soldados do São Bento contra um time de fora. maxixe. .Vamos cantar para não perdermos a cadência. por exemplo. O sargento já não acha graça. marchas tu. a música. mochilas. o remédio é recorrer a um moscatel de quinta categoria. Todos obedecem.

ganhando sempre. grita. aproveitando o movimento à saída do trabalho. banqueiro e apostadores.'" E em poucos segundos desaparecem todos. muda-as de posição: . esta vai. quer apostar na próxima mão. Todos os fins de tarde. o banqueiro inicia a dança das mãos. Estácio.Pra quê? .Ministrinho.. uma rodopia. rapaz.murmureja o banqueiro.. . mistura as chapinhas com rapidez. desde que a polícia não esteja por perto. a outra gira. Aponta o indicador para Noel. Noel garante que bastam dois olhos atentos para se transformar cinco mil réis em trinta.muito bem . Onde está? . esta perde.Vamos lá. um jogador de chapinha instala um caixote na esquina de Dom Gerardo com Rio Branco e começa uma cantiga: . com mãos ligeiras de prestidigitador. E mesmo que esteja. Os dois se aproximam: -Esta ganha. Certo de que não há como perder. O jogo de chapinha é muito popular na cidade.Quem quer tentar a sorte? Vamos lá.Mas esta mão foi só para esquentar o jogo. Homens de mãos ágeis e unhas grandes. O banqueiro coloca a bolinha sob uma das chapinhas e. Noel não leva o protesto adiante. . . em especial nas imediações do Mangue. Central do Brasil. sempre se dá um jeito de engarapá-la. São as regras. Agacha-se para que seus olhos fiquem ao nível do caixote.Nesta aqui.lutando apenas com as armas da ousadia e da imaginação. 84 -Muito bem.. o banqueiro quase sempre ganhando. . Pronto. Na outra esquina. Ainda não valeu. dizem as regras.Vou multiplicar seu capital. a outra vem. o jogo é simples e honesto. Daí ter apelado para o capitaldo Ministrinho.Vamos lá! Uma aqui.. Acerte onde está a bolinha e ganhe um dinheirinho fácil. isto é. talvez mais.Feito. não perde nada.Mas que história é essa? Eu ganhei! . Lapa. os banqueiros costumam fazer a bolinha sumir como num passe de mágica. Se for a polícia.. Vem apostando mentalmente.Não valeu. esta outra pra cá. E o apostador só tem chance quando convém ao malandro mostrar que o jogo é limpo. São três chapinhas de cerveja e uma bolinha preta. é entre os dois que se faz o jogo.Cinco mil réis. gruda-os nos movimentos do banqueiro.. o segundo farol. rapaz. Muito menos honesto. Não é um jogo simples como pode parecer. O dobro ou nada. tem cinco mil réis aí? . mais parecendo um caroço de feijão. esta dança. Muito bem. é claro.. Numa esquina fica o farol. . Onde está? Sob a unha."Olha a cana. o cavalheiro não quer tentar adivinhar onde se meteu a bolinha preta? Apostas são feitas. O dobro ou nada. Está aqui ou ali? Quem adivinha? Noel levanta o dedo. Concorda com o banqueiro e volta a casar seus cinco mil réis. Noel vem observando há vários dias o sujeito que faz ponto na esquina. . . Muito bem. outra ali. um molecote de olho em todos os carros que se aproximam. .

onde já moraram doze. habilitados portanto a fazerem vestibular para qualquer .E agora. . os rumos do barco da família mudam mais uma vez ao sopro de ventos maus. . assistem a algumas discussões entre ele e Martha. . Noel ergue-se com dificuldade..Vamos embora.Está querendo arranjar sarrabulho? . Noel. cansado e enfraquecido desde a partida de Bella. Noel! O outro. O fim do ano se aproxima. Um garoto que acaba de sobreviver à primeira grande surra de sua vida. morre vó Rita. avança para seu agressor aos socos e pontapés. o filho mais velho prestes a acabar os preparatórios e a entrar para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Enquanto nove de seus colegas de turma concluem o curso seriado como bacharéis em ciências e letras. Carmem também. . mãos enormes. Noel cai. Noel?. . . É dezembro. a raiva levando-o a perder a cabeça. voltam agora apenas quatro. Para o chalé. o marido desempregado. Enquanto o banqueiro vai recolhendo seu caixote. ficam com pena da irmã. Depois. porém. mal-encarado.indaga Ministrinho tentando levantá-lo. as despesas aumentando. suas chapinhas e a esvaecente bolinha preta. Vai precisar cada vez mais. Uma multidão forma-se em volta dos dois. É de Eduardinho a decisão de que se mudem de novo para o chalé. . onde está? -Debaixo da sua unha-responde Noel.Está debaixo da sua unha! . os curiosos observando seu jeito meio combalido. a farda do Tiro de Guerra 2 amarrotada e suja. rapaz? .. Um e outro percebem o quanto Neca se tornou estranho. Noel.Deixa isso pra lá..diz o amigo puxando-o pelo braço.Ótimo. some na direção da Praça Mauá. O jogo acabou. o homem pára e pergunta: .Não!Quero os meus cinco e mais cinco. parando de repente. é aprovado e obtém sua carteira de reservista. Antes disso. um mulato maciço. agora é à vera. o coração de quase setenta anos. Serenamente. Repete-se a dança das mãos. Eduardinho volta para o enterro. olhando para os lados. O bangalô será alugado. rapaz. Eu acertei. Noel é tomado de uma fúria que apavora Ministrinho. comparecendo perante junta formada pelo capitão Euclydes Telles Pires e os primeiros-tenentes Carlos Coelho Cintra e Francisco Xavier da Graça.Você está bem.e sem esperar resposta. incumbindo Neca de realizar ali algumas obras. Vaí caminhando lentamente para o ponto de bonde. .Vamos embora.O jogo acabou.encabula-se o banqueiro. Numa sexta-feira. o marido ainda sonhando com barcos e virando as costas para bons empregos. que por pouco não vai ao Chão. o banqueiro salta sobre ele com fúria ainda maior.O que é isso.Ladrão! Seu filho da puta ladrão! . o dinheiro indo para as mãos de Martha. . Assim será feito.Só quando este ladrão me pagar. faz a palma da mão estalar no rosto do banqueiro. Sabem das dificuldades financeiras que ela enfrenta. 12 de outubro de 1928. Um jovem soldado vencido.

apologética . francês (8). Tão crítica que.5). religião (não eram conferidas notas). religião (não eram conferidas notas). Reprovado em ambos. Carnaval? É bom que nem pensem nisso.escola superior do país. pelo antigo sistema. 1924 . Nada de passeios. geografia (8) e álgebra (reprovado). 1927 . Daí a decisão de não os deixar sair de casa até as próximas provas. Eis um resumo desse longo curso trespassado de tropeços e escorregões: 1923 .Aluno número 199 do Ginásio de São Bento. Noel constata ter sido absolutamente inútil optar. Terceiro ano. ou melhor. É preciso castigá-los. Primeiro ano. as três últimas finais. física & química (reprovado). Não compareceu às segundas épocas. geografia (corografia & cosmografía). Livra-se de história natural.)3)! Bacharel por decreto Noel Rosa levou oito anos para completar os preparatórioss ou ginasial. álgebra. francês (7. Que falta de consciência ! Não pode tolerar tamanha irresponsabilidade. já não lhe será possível bacharelar-se neste 1928.Aluno número 389 do Ginásio de São Bento. mas não de inglês e história do Brasil. para conseguir o chamado "bacharelato em ciências e letras" sem o qual não poderia. história universal (8). Repetição do segundo ano. 1925 . A situação é crítica. história natural (reprovado). Promovido ao terceiro ano. Automaticamente promovido ao segundo ano. latim (9). desenho. Matérias e médias anuais: inglês (4). as duas últimas finais. a cada março e dezembro. exames acumulados. Como é possível? Enquanto ele leva a vida a sério. Com Noel e com Hélio. Matérias: aritmética. Aprovado com nota 5 na segunda época de álgebra. latim.5). Matérias e médias anuais.Aluno número 25 do Ginásio de São Bento. Quarto ano. português. Apresentou-se para exames de bacharelato de aritmética e geografia no Colégio Pedro II. Matérias e médias anuais: português (9. Não houve provas finais. já em vigor a Reforma Rocha Vaz: português (7). latim (6). aritmética (5). empenhado num invento que há de torná-lo famoso (e de fazer a família navegar num mar de dinheiro). que nas provas do terceiro para o quarto ano derrapou na álgebra. Em casa. português. entrar para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. conforme desejo da família. meses atrás. em janeiro de 1925. inglês.Aluno número 175 do Ginásio de São Bento. desenho e religião.Aluno número 179 do Ginásio de São Bento. Por algum tempo ainda. em março. Promovido ao quarto ano. namoradas. Segundo ano. Severamente. francês e religião. os filhos vadiam nos estudos. 1926. Matérias: aritmética. geografia. inglês (10). terá de apresentar-se às bancas do Pedro II para 85 desvencilhar-se das matérias que ainda deve até completar o ginasial (ver boxe Bacharel por decreto).5) e álgebra (5. a explosão de Neca. serenatas. francês.

Quinto ano. A 14 de novembro. Manuel Fernandes Meirelles e Roberto Vianna Guilhon) bacharelavam-se no São Bento. cosmografía (reprovado) e história do Brasil (reprovado). João de Carvalho. química do quinto ano (4. determinava que os estudantes. física do quarto ano (9). Para não repetir o ano. lançou mão do direito de voltar ao sistema antigo. física do quinto ano. isto é. mas também as de química e física em separado (cada uma delas desdobrada nos programas do quarto e quinto anos) e história natural (do mesmo modo desdobrada em programas do quarto e quinto anos). geometria & trigonometria (4). Desse modo. na qualidade de candidato "estranho".404. assinado pelo recém-empossado presidente da República.Aluno número 468 do Ginásio de São Bento. Lucílio Urrutigaray. Noel livrou-se da história do Brasil e fez-se bacharel.Exames no Colégio Pedro II: em março. 1930 . Reprovado também nas segundas épocas de física & química e história natural. Antônio Fernandes Lopes. É verdade que o professor já não faz parte das bancas que o examinam. fossem aprovados ou promovidos em seus respectivos exames e cursos. e em dezembro.Exames no Colégio Pedro II: em março. filosofia (7. inglês (7) e história do Brasil (reprovado). Aulo Fiúza Cerqueira. Com isso. 1929 . o Decreto-Lei 19. 86 Noel volta a culpar Piragibe por seu fracasso. Submetendo-se agora ao programa do Pedro II. César Dacorso Netto.5). Em dezembro. explica Noel. tem muitos amigos no Pedro II e pediu-lhes que continuassem a espremê-lo. enquanto nove de seus colegas de turma (Lauro de Abreu Coutinho. por decreto presidencial. Rozendo Marinho de Oliveira. Martha acredita. cosmografía (incluída no currículo em 1928) e filosofia (a partir de 1929). Getúlio Vargas. inglês. história universal (5. as três últimas finais.5) e latim (7).55). ambas as matérias do quarto ano.22). inglês (reprovado) e história do Brasil (reprovado). ele chegava ao fim do curso seriado "devendo" sete matérias: história do Brasil.5) e história do Brasil (reprovado). história natural do quinto ano (3. estando as aulas de todos os colégios e faculdades do país suspensas desde o início da revolução de outubro. 1928 .(não eram conferidas notas). Mas. entre outras coisas. sem exceção. Escreve para Carmem informando-a de tudo. como se dizia então. novos exames no colégio oficial: química do quarto ano (9). história natural do quinto ano. física do quinto ano (5. Noel teria de fazer não apenas a prova de física & química. É mesmo vingativo o "urso de membros atrofiados". as reprovações . química do quinto ano. cosmografía (4. mas a partir de então prestando seus exames no Pedro II. Os primeiros desses exames realizaram-se logo em março de 1928: foi aprovado em física & química (4) e novamente reprovado em história natural.22). os exames de bacharelato se fazendo no Pedro II e conforme o programa por este adotado. história natural do quarto ano (6).

" Prefere alongar-se nos comentários à carta da irmã."que os meninos estavam castigados demais e injustamente. que se está exaurindo. recebe de Bica de Pedra uma carta em que Eduardinho lhe pede opinião sobre outra carta. Toda essa correspondência. "Em nome dos meus três filhos". que os deixe sair ao menos no carnaval. pois Hélio fez todos os exames e só tem de repetir o . sugere ainda Carmem. Primeiro. mas que o tempo acabará agravando de forma irreversível. Faz compras a crédito. principalmente para a posição dele. zanga. Carmem. Manda-a anexada à sua. Não é. Eduardinho poderia escrever a Neca dizendo que vai ao Rio em março e perguntando se os reparos no chalé já estão concluídos. em vez de apoquentar tanto a pobre Martha. de seus incendimentos. assisti a muita coisa. escrita a ele por Neca. mas nesse desassossego enorme em que está vivendo. Eu calculo o que sofre a nossa pobre Martha sem o carinho da inigualável e bondosa e insubstituível Bella. Responda-me com franqueza: não se vê uma possibilidade dele fazer aí algum trabalho numa fazenda dessas?" Ou então. Não haverá um meio de afastá-lo ao menos temporariamente de junto dela. tão lúcida. o auxílio pecuniário que ora precisamos dar-lhe e sim o moral. Isso talvez fizesse com que ele se ocupasse mais em tais reparos. quando ele fala. acrescenta. Carmem refere-se a outras cartas da irmã. chora e chora muito. Ela está bem modificada e não alterca mais. sonha. embora distantes. não pode mesmo ser uma coisa vantajosa.dos meninos. Martha sente-se envergonhada. o conforto. É inútil. o ambiente em casa. escreve ao cunhado em termos veementes. precisando prestar mais atenção à pobre Martha. Hoje. voltam a bater em sua porta os prestamistas. que era o seu consolo ultimamente. para que a vida tenha uma feição mais calma? Ele está entregue à idéia dos barcos e nós vemos naquilo uma utopia. das economias que consome nos malditos barcos. Diz que já não discute com o marido. Implora que não prenda os sobrinhos. vai mostrar que os três irmãos. dizer tudo. tão oprimidos. tão esclarecedora quanto a que Carmem mandará em resposta a Eduardinho. Pela mesma época. é sucinta: "Ele julga dizer muito. não o temendo ou evitando. ou então nos livros que adquire às dúzias. datada de 16 de fevereiro. Sem o carinho de mamãe. ela prefere se calar. que ela acredita carecer de muita ajuda: "Não é. a cada irreflexão dele. Mas tem pena dos filhos. E preocupada com o relacionamento de Neca com os filhos: "Ela se queixou" . suplicando-lhe reserva. compreenda-se. por enquanto imprecisa. atendendo ao pedido do irmão para que opine sobre o que Neca lhe escrevera. não no trabalho porque está habituada. Nesta troca de cartas. A cada injustiça. nenhuma será tão abrangente. Eu vi. alguma paz de espírito. trocada nos primeiros dias de 1929. também penalizada. tão moços. o castigo imposto por Neca. É possível trabalhar assim? Ele não lhe dá tréguas. todas no mesmo teor. reclama. e no entanto quase nada diz. queixando-se do marido.prossegue Carmem a Eduardinho . precisando de manter a família. buscam solucionar juntos uma crise familiar.

São os casos de Dacorso e Fernandes. eu tenho muito medo que o fim seja terrível. mas ficou provado que não foi culpado nesse fracasso. Mas de uma forma muito peculiar. recorda a careta de Noel toda vez que tomava moscatel ordinário. E num tom sombriamente profético: ". mas garante que o álcool estava longe de ser um hábito entre os jovens de dezessete anos que eles eram em 1928. os anos de ginásio agora convertidos em coisa do passado. Alguns. Não será propriamente contra nada do que os monges tanto combatem. Não se tornou mais religioso. a maioria dizendo ter sido mesmo o teodolito. Nenhum dos quintanistas de 1928 se esqueceria do episódio que terminou com Albuquerque Sá pedindo desculpas a Noel diante da turma e dos demais professores. Como ele mesmo confessa ao companheiro Hermenegildo de Barros Filho: . E eu só penso nisso!" Ventos maus seguem soprando. os positivistas. Você sabe e disse há pouco tempo que ele caminhava a passos largos para um triste fim. os protestantes. Claro. geralmente. dando a impressão de não ter guardado várias lições que lhe tentaram ensinar. ainda menino. Para onde levam o barco da família? É tempo de dar adeus ao Mosteiro.. Quantos mártires consumiram-se na fogueira desta crença! Aos dezoito anos. Nássara. não passou a temer o fogo do inferno de que fala dom Joaquim. Hermenegildo de Barros Filho. Desce as ladeiras que subiu pela primeira vez. NOTAS 1.de álgebra para entrar no quarto ano. Muito menos crê que o sofrimento possa aproximar os homens de Deus. Bebiam. em entrevista aos autores. Alegria. já faz seis anos. Os depoimentos só divergem sobre o tema da prova. 89 À LUZ DAS ESTRELAS Capítulo 9 Com a melodia que espalhávamos . Algumas lições foram aprendidas nas salas de aula." Lúcida. jamais pertenceu a este mundo. as feministas. os maçons. outros o sextante.Quer saber de uma coisa. De certo modo. os comunistas.. Carmem fala ao irmão do "estado de exaltação" do cunhado. Nem adquiriu lá em cima aquela idéia de patriotismo de baionetas que alguns professores pregam. no Mangue e nos jogos de futebol. E marcou também a vida do próprio Noel. O colégio marcou a vida de todos os seus companheiros.eu. não acredita que a morte seja uma dádiva. Ministrinho? A verdadeira escola está lá fora. continuarão aqui como professores. Clóvis e outros a minha impressão era de que se tornava mais intensa a palpitação longínqua das . por sinal.. Noel perdeu história do Brasil e inglês. 2. Só que agora parte para outro aprendizado. Para muitos. cujos contornos ainda são difíceis definir. confia 88 na vida.. nem tudo entrou por um ouvido e saiu por outro. Canuto. os espíritas. já se despediu daqui há muito.

Dos três desse grupo.Um tango-canção do índio. mora em frente ao chalé numa casa de porta e janela da qual só de vez em quando consegue sair para uma reunião como esta.Meu nome éjosé Souza Pinto. São quatro homens. O segundo violonista é o Julinho Ferramenta. cheio de pose. doutor em violão e nada mais. nos botequins em que se senta para conversar fiado. um dos muitos que ainda vão encher a boca para lembrar que foram "professores de Noel" (ensinou-lhe de fato alguma coisa.Que música é essa? . Finda a canção. inclusive uma valsa em mi menor). Adora cantar. Um deles. Vicente Gagliano. é simplesmente o Nonô. .Tudo Acabado. sim.responde o cantor. É o bastante para que desista de dobrar à esquerda. Muitos o chamam de "doutor". se apresenta. O terceiro. ou ainda Alegria como o tratam quase todos. daí o apelido de Vicente Sabonete que nunca o deixará. ainda será citado em letra de fôrma pelos estudiosos do choro.. Por último. Quando sua mão esquerda trabalha no braço do violão. na direção do chalé. Toda a Vila Isabel dorme.. todos mais velhos que ele.. Alegria. é homem de sorriso constante.estrelas. a um coração que sofreu. já não são quatro os componentes do grupo. distingue adiante um pequeno grupo. o cantor: .. Noel vem pela rua deserta a caminho de casa.. no sereno. e tome o sentido oposto. muitos filhos. sabonetes. o cantor recomeça: Este amor tristonho Não devemos relembrar. . de noite boêmio devoto para quem uma canção é como uma reza: toca como se estivesse ajoelhado diante de um altar. águas-de-cheiro. talcos. é o único que terá reconhecimento fora das fronteiras das serestas do bairro. ou Jota como alguns o chamam. é filho de general e ele próprio homem de posição. Três tocam violão e o outro continua cantando: E deixaste em minh'alma Fragmentos de saudade Devolveste a liberdade Oh. Noel ouve os elogios dos três violonistas. cantar e tocar. Ou quase toda. Quero ver se o acompanho. o Cândido das Neves. técnico em contabilidade do Ministério da Agricultura.. pleno domínio da técnica do violão. José. mas aqui. Depois da introdução improvisada por Noel. Agenor Eloy Passos. sendo apreciado acompanhante e solista de coisas à João Pernambuco e outros cultores do gênero(1). torna-se ainda mais reluzente o grande anel de grau que carrega no dedo. Ao vê-lo chegar à esquina de Souza Franco com Theodoro da Silva. mas houve época em que ganhava o sustento vendendo essências. Casado. agradece. Não é difícil saber a razão do apelido. é seu velho conhecido. E ouve soar uma voz emocionada: Este amor tristonho Não devemos relembrar Tantos beijos trocamos Tudo esqueçamos Tudo morreu. ou lá no Boulevard. Hoje ele vive de um ou outro servicinho que aparece. de dia funcionário da Casa da Moeda. para os amigos.Pode cantar de novo? Do começo. Ele e o violão. aproximando-se do grupo. Noel espera que chegue ao fim e pergunta: . . Ex-tocador de ocarina. entrevista ao Jornal de Rádio Naquele começo de madrugada.

no 130 . Mário. todas as noites. Gente de classe média como Noel. cresceram ou pelo menos residem aqui há muito tempo.Moro aqui perto. Papo de Angu. lancham.Aparece lá em casa para ouvir umas musicas que ando fazendo. da Mangueira. Puruca. coisas do Norte. Já aqui em Vila Isabel os seresteiros são quase todos gente do lugar. Mas estes dois ilustres personagens ainda não entram na história. nasceram. choros. todos os dias. Julinho Ferramenta e Nonô. canções. desses que chegam na hora do café da manhã. E depois outros. tampouco com a qualidade. os contatos de Noel são mesmo com os seresteiros e um ou outro batuqueiro. Mas quem lhe pôs o apelido na certa não lhe conhecia o canto triste.vive desde menino com jornais de modinha debaixo do braço. Os rapazes que tocam e cantam pelas esquinas. . o Engenho Novo. do Salgueiro. Alegria vai aparecer. Os melhores compositores e cantores dos que se encontram pelas ruas da Tijuca descem do Salgueiro. Como explicar esta fertilidade musical de Vila Isabel? Como justificar que surjam aqui. o Francisco Martins. ainda se transformará em grande amizade. mas também muitos batuqueiros que descem do morro dos Macacos. jantam e só não dormem porque. Uma simpatia mútua que. almoçam. Aristeu. o Waldemar Coroa. Curiosamente na medida em que jurisdições vizinhas. aqui pertinho. os que improvisam versos e criam música nos botequins. artistas que se interessam tanto pelo carnaval. de tocar pelo prazer de extrair novos . Gente que gosta de cantar por cantar. artistas como Antônio Nássara. está justamente no não dormir a diferença entre visitar e morar. afinal. também parecem ter tudo para embeberem de ritmos e melodias as suas noites e no entanto não possuem metade da alma sonora de Vila Isabel. o Clóvis Silva. E. colorem de pobreza a paisagem do morro da Mangueira. o Maracanã. sob um poste de luz da Theodoro da Silva. meninos que tocam violão tão bem. É verdade que nem sempre são alegres os números do seu repertório. como a Tijuca. e acabam ficando para uma cantoria noturna: Canuto. Ildebrando. Maciste. É evidente que também há música naqueles bairros. este bairro de meio de caminho. para pegar no pesado cá embaixo. dos que circulam pelo Engenho Novo vêm de subúrbios mais distantes. como deixou bem claro o tangocanção do Índio que acaba de interpretar. Fortunato Melancia. Meninos como Noel. nascendo nesta noite. destina-se a ser aquilo que um cronista chamará de "celeiro"2. Como se verá. . Por enquanto. Vila Isabel é um bairro curiosamente musical. os irmãos Paulo. dos que fazem ponto no Largo do Maracanã vivem num daqueles barracos que. Não apenas de sambas e sambistas. Desde este fim de noite. ilhado entre outros. poetas cultos como Orestes Barbosa. mas de partidos. Osso. Pixó. se se for pensar bem. João e Manuel Anacleto. mas inseparáveis nas serenatas pelas ruas de Vila Isabel. Ele e Noel gostam logo um do outro. do outro lado da linha do trem. Ele. Serã um dos freqüentadores mais assíduos do chalé. Duas Covas. serão não apenas amigos. o Octacílio Ramalho. vão ficando. boa música popular. Mas não com a quantidade daqui. poetas cultos que cedo ou tarde aderirão ao coro das serenatas. membros da "grande família" de que falava vó Rita e de que ainda falam velhos moradores. E ficou Alegria mesmo.diz Noel apontando para o chalé. Música e músicos.

Desespero e. não o imagina tão sensível à música. de propriedade do Martinez. Às vezes para atender ao apelo de um amigo como Arnaldo Araújo: . seus caminhos jamais se cruzariam. O nome se deve a ser ali. feliz da vida. . aprendendo com os mestres do instrumento. ele. a partir daquele ponto. Não se pode compreender bem o bairro sem se conhecer seus botequins e suas esquinas. Noel e Clóvis ficam ali.a voz de Alegria sempre pontificando . João Pernambuco e outros. Rio. É com essa turma . não houvesse os botequins e as esquinas. Hélio e Glauco Vianna indo ver e ouvir Quincas Laranjeiras. completado pela quarta esquina. a "doutor" Lourenço e a Mão na Saca. Pena que a necessidade de sobrevivência obrigue o Miguelão a passar mais da metade do dia trabalhando como policial (ainda vai ser um dos guardas de segurança do futuro prefeito do Distrito Federal. a movimentada máquina de apostas do banqueiro de bicho Lourenço Gilaberte com suas cinco. Em outras ocasiões. se aproximam. lutador de greco-romana. às vezes por horas. às vezes sete extrações diárias: Para Todos. de níveis sociais tão distintos que muito provavelmente. Outro bom violonista que as serenatas perderão para a força policial. Pedro Ernesto Baptista). doutores e oportunistas. no botequim do Carvalho. saber das novidades. mais 100 réis. conversam. especialmente estas que formam o cruzamento conhecido como Ponto de 100 Réis. acabo de brigar com minha namorada. E seu coração também. Se tudo correr bem. Como Clóvis Silva. Arnaldo. Será que a gente não pode remediar as coisas com uma serenata? E vão todos para debaixo da janela da moça. de um lado e do outro da avenida dividida por estreita calçada com canteiro. ou melhor. Alegria cantando as mágoas pelo amigo e este esperando que as canções de amor transformem a briga em pazes feitas. O violão será esquecido. policiais e sambistas. Os botequins e as esquinas são entidades integradoras. havendo quem se disponha a arriscar mais algum.Noel. Quem o vê exibindo os músculos. que vive acompanhando Noel nas idas a A Guitarra de Prata (o hábito adquirido nos tempos de São Bento. Os bondes procedentes do Lins de Vasconcellos e do Engenho Novo param em frente à agência da Caixa Econômica. trocam a luz das estrelas pelo prestígio que desfrutam no Café de Vila Isabel. Noel ao violão. que os bondes "mudam de seção". levantador de peso. ouvir e contar casos. chefes de família e estudantes.sons do violão. A mesma coisa com o Octacílio. pagará a ceia para todos. mecânico da Light. a da Confeitaria do Ventura. o Clóvis Miguelão. É onde todos se encontram para convcisar. os sobrados onde a tavolagem não descansa. porém. jovens e velhos. No Ponto de 100 Réis reúne-se toda sorte de gente. Desta vez foi feio. o próprio banqueiro sorteando os números de uma sacola de víspora. não foi abandonado).. Salvação. numa das esquinas do Boulevard com Souza Franco. seis. passando-se a cobrar de cada passageiro. operários de fábrica e desocupados. Os que vêm da cidade o fazem em frente ao Café Rio Clube. Niterói. trocam idéias e até ficam amigas as criaturas mais diversas. em torno das quais se conhecem. À sua volta ficam as principais casas de comércio da avenida.que Noel sai de violão pela noite. Pois este cruzamento. gabando-se de ser 94 um atleta. é o centro nervoso do bairro. ginasta.

seu dono não sendo muito amigo de cantorias.. violão no peito. com a turma que o acompanha em Vila Isabel. merecerá capítulo especial. agora mesmo recorrendo a provas no Pedro II para livrar-se da álgebra do terceiro ano. o terceiro do pessoal do futebol. profeticamente: "Quando se escrever a história do nosso samba. O que o afasta das noitadas é o seu jeito mais fechado. sempre cheio na hora da conversa. mas principalmente porque as diferenças de gostos. sobra-lhe pouco tempo para prazeres boêmios. Não tanto o do Martinez. Hoje. o quarto da boêmia.. Os amigos ficam horas a ouvi-lo discorrer sobre todos esses temas e a falar da morte. cantando: .. éporque não sabe que. Noel a passar longo tempo sob a goiabeira. Diferente. depois de uma hora da madrugada. um com dezoito. no Ponto de 100 Réis. Hélio não pára no Ponto de 100 Réis. Surpreende a todos com seus conhecimentos de literatura francesa. Nesse passo. a música nivela todos. cada calçada costuma ser uma espécie de "território" próprio. era 'amasiado' com os fados. não fez como os outros donos de cafés do bairro. quando alguns dos moços que hoje o freqüentam se tornarem famosos como compositores e cantores de rádio.. E como é democrático por índole. já nítidas na infância. o Carvalho há de ser lembrado em reportagens de jornal. . o bom luso mostrou achar-se enamorado de nossa música. Hélio a falar de almas do outro mundo. outro com quatorze. Mas como é esquisito! A fama de gente esquisita vai acompanhar para sempre os moradores do chalé. o Café de Vila Isabel. A começar pelos meninos. generalidades e tudo que diga respeito às culturas esotéricas. Já vimos que nunca foi aluno brilhante. deixou que Noel Rosa. hábitos e temperamentos. não é de se misturar aos cantores dos botequins e das madrugadas.Puxa. eu sou. já sabendo 95 portanto que também não conseguirá formar-se com sua turma no São Bento(4). Mas nem por isso deixa de ser um garoto excepcionalmente inteligente. Hélio não anda.. mas não olhava com desprezo para o samba que era como que uma mulatinha para seus ouvidos. Numa delas.. se acentuaram com o tempo. continuasse ali a vibrar as cordas de seu pinho e a escrever suas letras. O dono desse café. do Carvalho. Violão bom para isso ele tem. Um dia.Os botequins mais que as esquinas. Já nos botequins. um português pacato e de coração como doce de calda. Uma família que desde o enforcamento de Bellarmina o pessoal do bairro acha um tanto dada a estranhezas. vida dos santos. é o primeiro a gritar: -Eu sou do samba e quem disser que não sou. caminhando que está para ser ainda melhor que Noel como solista e acompanhante. o Hélio sabe de tudo!-as pessoas costumam exclamar. zoologia. astronomia. raramente andará pelos mesmos atalhos do irmão. onde Noel Rosa faz ponto. -Puxa.. uma vez que aqui. portanto. da reencarnação. iguala os mais vários espíritos. Não só pelas idades. um da turma do jogo. Com o tempo. Foi desprezando os fadinhos e fazendo 'pés d'alferes' com os sambas. Ali foi que o inspirado compositor fez a maior parte de suas composições. o interesse pelos livros.. outro dos estudantes. mas pouco musical. o Hélio sabe de tudo. seu retraimento natural. curiosidade em saber sempre mais sobre tudo.

apoquentando a mulher. delirando projetos. a tal idéia que o persegue desde que voltou. mas não chegam a usálo. Dessa base partem hastes metálicas sobre as quais foi ajustado um selim de bicicleta. vão Aníbal e seu Medeiros testá-lo no açude da Fábrica Confiança Industrial. Martha lembra-se daqueles tempos com saudades. outro. fabricam e usam em suas praias e lagos os engenhosos water cycles. inofensivo. Aperfeiçoada aqui e ali. Convenceu-o de que é possível fazer fortuna tirando patente das invenções e descobertas que tem em mente. também presos aos cilindros de madeira. educado.. não podem mesmo deixar de compará-lo a um dom Quixote. responsável. Sonha. Jerônimo José Ferreira Braga Netto. inofensivo. Desde que voltou de Bica de Pedra. A experiência não é de todo fracassada. embora um esquisito simpático.Coitado! Tão moço. Depois. E nada mais. . Construído esse protótipo. É mais ou menos este o caso dos barcos. Seu Medeiros acaba de tornar-se amigo e sócio de Aníbal Teixeira Ribeiro. há mais de um ano. um marido generoso. Por um simples motivo: já o fizeram antes deles. português que mora com a mulher e cinco filhos quase em frente ao chalé. aquela última volta após o suicídio da mãe. Na parte inferior. Pedem-lhe emprestado também um motor de barco para adaptarem à base triangular. a partir de um desenho do "engenheiro" Neca. mas uma espécie de bicicleta aquática que os dois constróem com as próprias mãos. Mas a família sabe o quanto continua a mudar. homem que passou tantos anos afastado da família para pagar uma dívida que só existia em sua cabeça e que hoje se endivida para consumar inventos que também só existem em sua cabeça? Não é menos esquisito aos olhos dos vizinhos. Os que o vêem como um esquisito simpático. de Bica de Pedra.Pode chover Pode até haver tempestade Que eu lá vou ter Com toda boa vontade. Quando a rapaziada do Ponto de 100 Réis sabe deste e de outros esforços de Aníbal e Medeiros no campo das . São três cilindros de madeira leve. Graham Bell com o telefone. apenas. não trabalha. Já foi um bom pai.. novas idas para o interior. E vai mudar ainda mais. com a autorização de seu diretor. unidos pelas extremidades de modo a formarem uma base triangular. Edison com a lâmpada elétrica? E o que dizer do nosso Santos Dumont? Os barcos na verdade não são barcos. mais mudado que nunca. até que a idéia não é má. os acessos de febre fazendo-o correr pela casa imitando índios. Mais uma frustração para seu Medeiros. sempre investindo contra inimigos imaginários. Há muito tempo os americanos conhecem. E o que dizer de seu Medeiros. castigando os filhos. Mas logo seus inventores e possíveis fabricantes ficam sabendo que jamais poderão patenteá-la. dois pedais.. na Rua Piza de Almeida. Não vê Aníbal aonde chegaram Nobel com a dinamite.. As novas mudanças partem justamente deste novo tropeço. sempre empenhado em batalhas enganosas.

com os quais. diga-se. não mais do que cinco ou seis amigos em volta de um poste e luz. fixando em suas paredes anúncios manuscritos pedindo ou oferecendo empregos. O burocrata vai substituir o inventor. E acabará aceitando o modesto emprego que o compadre Graça Mello lhe conseguirá na 96 Prefeitura. Quase tudo que produz por esta época . como ocorre em aniversários. desde pregar mentiras salvadoras (à namorada. uma canção. Nada de piadas ou provocações. que Noel sabe de amigos ou simples conhecidos que o querem ver à noite.Qual é a próxima descoberta. O botequim é mesmo uma entidade integradora. Humor e repertório do violonista Noel Rosa variam de situação para situação. Nessas horas. emprestando dinheiro. a delegacia. continua aprendendo bastante desde aquele encontro na Theodoro da Silva. impagável galhofa. fazer canções a Cândido das Neves como paródias a Noel mesmo. . ao desmoronar. E também daquilo que o convertera num homem duro. sambas. um banco de praça. De volta à realidade. Abismo de Rosas.invenções. e aquela máquina de vincar meias? Outros: . Se são muitos a ouvi-lo. da coragem. homens como o Carvalho e o Martinez jamais dizem "não posso". Recupera a humildade. Nonô. perguntam: .meros esboços de um jovem de dezoito anos que ainda não se compenetrou inteiramente de sua condição de compositor popular . em tal hora e lugar. Apenas uma pergunta fingidamente interessada: . batizados. Qualquer coisa. limita-se a tocar o que lhe pedem. Esse tipo de recado é cada vez mais comum. Eles sempre podem. é a instituição que mais serviços comunitários presta aos homens do bairro. É através do Carvalho.E como vai o despertador silencioso? Com seu Medeiros há mais respeito. sente-se mais à vontade para criar. fez um barulho tão grande que o arrancou de seus sonhos. o clube. Exagero? De modo algum. Se se for ver. uma festa em casa de família. que levava desassossego à vida da mulher e dos filhos. tanto pode ser romântico como divertido. em tom sério. Fecha-se de novo. oferecendo suas mesas para quem quer que seja. um encontro em que se faça necessário o som de seu violão. Mas se a reunião é mais íntima e informal. Para os fregueses assíduos. casamentos. Mais que a igreja. da soberba.É verdade que o senhor inventou um palito de três pontas? Outros mais: . o botequim realmente serve e integra a comunidade. para uma serenata de esquina. ou sob a janela de uma moça bonita. seu Medeiros? Mas ele sabe que o projeto da bicicleta aquática. Vendendo refeições fiado. não perde oportunidade de fazer de tudo uma grande. choro(6). ao credor ou à polícia) até dar e receber mensagens. por exemplo. à mulher.Seu Aníbal. funcionar como eficiente agência de recados. valsas. nada de seu. Uns passam pelo português e. perde muito da autoconfiança. intratável. pondo seu telefone à disposição dos que não o têm (telefone é privilégio de poucos 97 neste 1929). E altamente democrática. violonistas mais velhos e experientes. Noel sendo tão ou mais requisitado que Julinho Ferramenta.será esquecido.

Primeiro. Canuto. um ou outro amigo se lembrará desta ou daquela..Quer dizer que você esta mesmo duro? . como pode ser também um dos irmãos Araújo: . soltar a voz: Eu tenho um sentimento profundo Da primeira jovem que amei no mundo. que gosta de solar a seu modo. rapaz de vida sem ousadias. Música triste que as mulheres de suas janelas preferem não escutar. ou para visitar o Manuel Jansen Muller na Rua Torres Homem.Não faz mal. uma conversa. outro ex-aluno do São Bento. fazendo sobre a melodia improvisações as mais curiosas. Telefone. compungido. desses sempre dispostos a esticar um pouco mais uma noitada. aqui e ali acrescida de um som característico produzido sobre o bordão: . . Chama-se Valsa dos Peidos.pergunta a Arnaldo. . Mas não é para isso que vieram aqui. Noel os convida: . atravessam o canal para a Visconde de Itaúna e dobram numa das transversais. Ou sobre a prima: .E quem precisa de dinheiro para ir ao Mangue? Arnaldo e Noel tomam o Lins de Vasconcellos. tanto podem ser os crioulos de morro.É o peido fino. pintor responsável pelos cartazes a mão que anunciam os filmes e espetáculos do Cine Vila Isabel.Vamos fazer umas farras por aí? Heitor Lino. violões. Entre amigos mais chegados e ex-colegas de São Bento que aparecem para vê-lo. entram nos botequins iluminados onde se ouve música tocada por pequenos conjuntos. diz que não. Percorrem as casas. é Sylvio Pinto. violino. o Seringa ou o Coroa. Puruca. uma canção. talvez se sente para uma cerveja. a Carmo Netto. nunca esquecerá esta inusitada valsa que ouve Noel solar na esquina do Boulevard com Silva Pinto. Andaraí. amanhã é dia de batente. inaugurado não faz muito tempo a alguns passos da Praça 7. fechar os olhos e. bisa o solo da tal valsa e some na noite com o Farias. Noel talvez peça um violão emprestado. clarinete. E começa a solar uma bonita melodia. Õu então o Waldemar Coroa. . mudando-lhe o andamento. já é tarde. Se não o melhor dos que freqüentam o botequim do Carvalho. Ainda não perdeu a mania de brincar com o Hino Nacional. é outro excelente seresteiro. a Comandante Maurity.Vamos ao Mangue. ao menos o mais compenetrado no seu jeito de levar a mão ao peito.Ouçam esta. saltam na Rua Senador Euzébio. Arnaldo? Esses convites de Noel nem sempre encontram Arnaldo financeiramente prevenido. Ele e o irmão Antônio trabalham com o pai alfaiate. é La Marsellaise.5 E quando não é o Farias. Quando não é o Farias. na presença do Farias.É o peido grosso. as paródias e as peças instrumentais. pois Noel não é de fazer diferença entre brancos e negros. gosta de mostrar suas "últimas criações": . Mas Noel não se abala: . Heitor Lino.. hora de dormir. Se não é o Hino Nacional. pobres e menos pobres. Noel canta e toca mais algumas músicas. o Seringa. a Laura Araújo.As canções. estão aprendendo o ofício. não ganham muito. que além de bom companheiro de farra.Eu não te disse? .

nem a um amigo do peito como Arnaldo. mais neutra ainda. Noel! Por que não me avisou? . . Na Lapa. . Noel. inclusive na Teodoro da Silva.Pode ir. O esquerdo. Benedicto Hipólito.. Noel fica aguardando no portão da casa. ela não tem os dois braços. mendigos. Arnaldo volta.Então? Está reclamando de quê? . Apequena! .Tão rápido? . batedores de carteira.Ora. bêbados. trinta mil réis. Menos de quinze minutos depois de ter entrado no quarto. mas também outras. Júlio do Carmo. Mais que a da Lapa. É só entrar. O direito de quem vai para a Praça 7 é mais novo. Diz ter nesta casa uma boa amiga. puxa-o para irem embora.Você não me avisou que. mais pobres. E nele. Já no ponto de bonde. viciados. Noel indica o quarto. Arnaldo. uma mulher os chama com as mesmas palavras e gestos de todas as outras. também há operários de fábrica e gente pobre morando do lado direito. olhando o movimento. .. Param defronte de uma casa. É estranhamente variada a população flutuante do Mangue. pessoas abastadas. Ou então com a mesma boa conversa que permite a Noel cavar companhia para um amigo. como todo bairro que cresce. e novos. a instituição do botequim. Lógico. só com carteira bem mais provida. habitadas por famílias de mais posses. Corrêa Vasquez. O Boulevard é linha mais ou menos neutra. marinheiros.Apequena. É uma ótima pequena. Em muitos aspectos. garotos fazendo força para aparentar mais idade do que têm. é muito bonita. de casas recémconstruídas. cidadãos eminentes que 98 emprestam seus nomes às ruas do pecado. Por qualquer vinte. policiais à paisana. onde os semdinheiro não têm vez.. perto do chalé. A amiga já o está esperando. não é apenas topograficamente que o Boulevard divide Vila Isabel em duas. Arnaldo espera. está muito ligado à vida das fábricas. endinheirados. a Confiança principalmente. pode-se comprar por aqui alguns minutos de mulher. Mas Vila Isabel. ..Talvez seja. Nery Pinheiro. indaga: . .Avisar o quê? .Alegria e todos os outros . Noel e seus companheiros . grandes e pequenas indústrias montadas no eixo da Rua Maxwell até os limites do Andaraí.Os dois circulam por Amoroso Lima.Pombas. Da janela. não se sensibiliza muito com seu espanto. Não fosse isso. gente com sede de sexo. que diferença iam fazer dois braços? De certa forma. do esquerdo. Nem a ele. E casas boas. Noel. não pode deixar de exibir contrastes entre velhos moradores. são consideravelmente diversos os dois lados repartidos pela avenida. pessoa desinteressada que eventualmente não lhe cobra nada. Noel não demora mais que dez minutos. atravessadores. Arnaldo vai. Noel olha para o amigo. poetas. Homens bem vestidos. músicos. cafetões.. estudantes. como se não entendendo bem o amuo do outro. mais antigo.. mais valorizadas e.Espera aqui que eu vou lá dentro te arranjar uma pequena. por conseguinte.O que que há de errado com ela?É uma grande mulher.

tudo é música no botequim do Carvalho. que de vez em quando não fica atrás: Vento. Suas letras são rebuscadas. O botequim é mesmo tudo. quem passa pela esquina de Souza Franco com o Boulevard não pode deixar de ser tocado pelos sons que vêm lá de dentro. divertin-do-se com sua escatológica valsa. por gente que não se importa se a versalhada é boa ou má poesia. E o palco onde estes jovens fazem sua música. numa canção do índio. gosta. claro. Meia-noite. o botequim a todos integra. fazendo os outros rirem com suas paródias. também. o escritório.. Sol. Ou Hermes Fontes. Uriel Lourival. esfolhais! Oh. Como se disse.não conviveriam ao mesmo tempo. compenetrando-se na hora de acompanhar Alegria.. os Farias Lima. os Barros Nunes. o botequim está cheio. em torno das mesas do Carvalho. Noel entre eles. O samba. E da horta o repolhal. Como todo seresteiro que se preza. Osso e doutores de anel no dedo. pompa poética. fica ouvindo. aqueles humildes negros nascidos e criados no morro não estariam trazendo para esta mesa sua valiosa contribuição à música que começa a florescer em Vila Isabel.. depois das onze. Seja como for. Mas. [sempre ovante De glórias cheia e no teu sólio triunfante. De qualidade: Como Deus é inspirado! Inventou para o pecado Estas noites de luar.. com Canuto. Muitas chegarão a ficar conhecidas além dos limites de Vila Isabel. seus olhos a lagos e mares. estes. a mesa onde Noel e seus companheiros se sentam vai sendo cercada por curiosos. seus cabelos a seda. o centro comunitário. palavroso como sempre: Espúmeos ais que em branca areia O quieto mar vem derramar São fontes perenais de ingente amar. descendem em linha direta dos poetas românticos do século passado. estes são os autores prediletos dos seresteiros de Vila Isabel.. principalmente. Do buraco vê-se a horta. o balcão de anúncios. O que vale é a voz de Alegria. por um tipo de música que lhes permite navegar em ondas de sentimentalismo: Só é feliz quem não se diz Saber vibrar os beijos flébios do luar. pelas modinhas. a segunda casa. todas as noites.. o clube. Coroa. Por isso. Um dos fregueses aproveita a pausa para ordenar ao Carvalho: . Catulo da Paixão Cearense.. rapazes de famílias tradicionais como os Boamortes. Sobretudo música romântica. os Baldessarinis. As amadas são comparadas a flores.. cheias de afetação. Tudo são imagens. Pára. os freqüentadores do Carvalho têm clara preferência pelas canções. Não "fosse isso. Cândido das Neves. seresta. 99 Ou não: Prossegue embora em flóreas sendas. Freyre Júnior. crestais Da rosa d'alva as frias pétalas de gelo.. Tem um buraco na porta. nesses primeiros dias de 1929. de Vila Isabel. Como esta em que mais uma vez recorre à melodia de A Casinha da Colina: Você sabe de onde eu venho? De uma latrina que eu tenho Lá no fundo do quintal. o violão que o acompanha. seus dentes a pérolas. Meia-noite e meia. E. Miguelão.

e não Canuto. A exemplo de Noel. É Araújo Lins quem escreve: "Vila Isabel do samba ainda não teve o seu cronista. às vezes uma sopa. espetáculos . no dia em que.aumentam a sensação de importância que já hhavia experimentado. põe a mão no peito e canta: 'Eu tenho um sentimento profundo da primeira jovem que amei no mundo'. Até que um dia é procurado por um grupo de jovens como ele: . na porta do botequim.Noel ainda vai admitir .Somos do Flor do Tempo. Noel Rosa torna-se conhecido." 100 UM BANDO DE PÁSSAROS Capítulo 10 A vocação é necessária até para se dar o laço na gravata. criados Para melodias alheias. fatias de frios e queijos." Em A Nação de 19 de janeiro de 1936. conheci muito menino quando nada tocava. Hélio recorreu aos exames no Pedro II para se bacharelar. repetem-se as solicitações para que atue em festas e serenatas. Assim a noite avança." 2. começou a descobrir que sua música tinha o raro poder de encantar as pessoas. 15 de fevereiro de 1931. É o próprio Noel quem esclarece em entrevista ao Diário de Notícias de 15 de fevereiro de 1931: "O Waldemar Coroa tem um dom especial para cantar sambas. Se a seresta é boa de verdade.404. ceia completa para todos. anos atrás. ficando bem admirado quando num choro escutei o com seu mavioso violão não só acompanhando admiravelmente como também fazendo solos de arrebatar. na maior orgia. segunda edição (página 68) . graças ao Decreto-Lei 19. Estas serenatas . por conta de um rateio feito ali mesmo. A cada canção. Diz Alexandre Gonçalves Pinto em O Choro (página 129): "Vicente.. O nome não lhe diz muito. Era mesmo Waldemar Coroa . Mesmo depois que os rapazes explicam tratar-se de um conjunto musical por eles formado há três anos para exibições em residências. Diário de Notícias.quem cantava assim tão compungido. Meus Pensamentos Menos Pelos versos chulos.Carvalho. 4. E que violão!" Triplicam os recados no Carvalho. lá da porta: . E mesmo a música ainda não disse a verdade sobre o celeiro. NOTAS 1. Seu nome já corre pelo bairro: "Só tem dezoito anos. como diz Almirante em No Tempo de Noel Rosa. Noel e os outros são "pagos" pela platéia que vê neles verdadeiros artistas. ele se afasta para um canto.Duas cervejas para os rapazes. mas pelo que sabe fazer ao violão. ouvida sempre em silêncio. Às vezes. só'conseguiria em fins de 1930. 5. Outro. Rio. ao trocar o bandolim pelo violão. Também como o irmão. Há os que preferem municiar de sólidos estes cantores da noite: . acompanhante de cantores da madrugada. Cervejas. 3.Mais duas. serve para a turma umas fatias de presunto.

de modo que para as gravadoras.amadoristas e festivais beneficentes. ensaiam. de estrutura e organização precárias. O conjunto começou exclusivamente com alunos do Colégio Batista. compõem. na Tijuca. jardins. -Estamos querendo organizar novo conjunto. Se acontecer de fazer sucesso. nele coexistindo. tudo . cantores. Cadete. engatinhando ainda. Seu cartaz. não pára de crescer. Noel ouve as explicações. que quase atinge as dimensões de uma grande orquestra. E uma delas. é o nome poético com que os rapazes batizaram o conjunto: Flor do Tempo. não foi possível evitar que o grupo se hipertrofiasse. . se é que custam alguma coisa. cera. firma que funciona na Rua Chile(1).Mas crescemos demais .muito mais interessados na novidade do disco do que nas incertas vantagens financeiras que podem obter da música passam a ser vistos nos estúdios. acaba de oferecer a estes rapazes a oportunidade de fazerem um disco. varanda.de toda parte. violonistas. graças precisamente ao disco. Eduardo das Neves e outros pioneiros da Casa Edison. Mário Pinheiro. o Flor do Tempo cresceu tanto. da Rua José Higino. da residência dos Dales na Rua do Trapicheiro(2). cujo canto 101 inaugurou há dois anos o sistema de gravações elétricas entre nós. cuidam dos arranjos. Patrício Teixeira. subsidiária da Odeon. vai subir para cinco o número de gravadoras em atividade no Brasil(3). E também Francisco Alves. Zaíra de Oliveira. com dificuldades mesmo para formarem os seus casts. E que nos últimos anos cresceram bastante a indústria e o comércio fonográficos no Rio de Janeiro. Entre os fundadores estavam os filhos de Eduardo Dale. Aracy Cortes. tocando. bons e maus músicos. bons e maus cantores. Com efeito. Por isso eles estão aqui. cantam e se acompanham. Mesmo sendo extremamente seletivo o espírito do conjunto (Dale é homem rico. um disco sai praticamente de graça. mas depois foi crescendo até ter gente . É verdade que desde 1902 fazem-se gravações no Brasil. Por sinal. cantando. Repetem que algo de muito importante realmente começa a acontecer na música popular. a Parlophon. vendendo e alugando máquinas registradoras importadas da Inglaterra. São "artistas" baratos. os melhores artistas do palco e do picadeiro vão invadindo com suas vozes as privilegiadas residências que possuem um aparelho capaz de reproduzir os sons gravados nestas delicadas chapas pretas: Vicente Celestino. E isso é mau. Eles próprios fazem rigorosamente tudo.moças e rapazes . conversando com Noel.explicam. Mas parece já ir longe o tempo de Bahiano. freqüentada pela alta classe média tijucana). a não ser no que diz respeito aos gastos materiais (estúdio. Neste 1929. As gravadoras. hoje. ritmistas. Rapazes de classe média . estão recorrendo a cantores. diretor da Casa Pratt. Gastão Formenti. Os jovens que procuram Noel estão convencidos de que algo de muito importante começa a acontecer na música popular: o disco. reside em confortável e luxuosa casa de dois andares. instrumentistas e grupos amadores como o Flor do Tempo para enriquecerem seus ainda modestos catálogos de lançamentos. eletricidade. Agora. acetato).

houve muitos encontros ligeiros pelas ruas do bairro. graças não só às suas virtudes como pandeirista mas também à personalidade firme. que nunca estudou lá. na cúpula do Teatro Phoenix. vai se dever a ele a maior parte da notoriedade que o novo grupo venha a conseguir. Afinal. na verdade. em outras casas de família. tem 21 anos. o conjunto deixará de existir. impositiva. E justamente por ter crescido demais. clubes. e um espetáculo em homenagem ao Rotary Club do Brasil. ritmista. em fins de junho. foi o primeiro a quebrar a regra. Almirante. pelo menos de vista. Depois disso. quando Almirante tentou. de encontros ocasionais pelas esquinas de Vila Isabel. na Rua Almirante Barroso? Se há necessidade de se reduzir o conjunto para apenas quatro ou cinco componentes. sempre descobrindo um modo de promover-se e aos colegas. O conjunto original. É por esta porta espertamente aberta pelas gravadoras aos jovens da classe média que os rapazes do Flor do Tempo pretendem entrar.apenas os mais talentosos sobrevivendo . neste ou naquele lugar. cujas atividades serão rigorosamente regidas por suas vontades: caberá invariavelmente a ele escolher o repertório. Se não. de ser preciso reduzir seu contingente para atender ao sedutor convite da Odeon (e do embaraço que seria cortar moças e rapazes que estavam entre seus fundadores). Vários de seus componentes já tocam e cantam muito além da varanda dos Dales. aprovará ou não as músicas e letras que os companheiros trarão para seu julgamento. entregava-se ao convívio com os meninos . Uma seleção natural . enquanto Almirante trabalhava no comércio e. é também um líder nato. Especialmente no novo conjunto que vai surgir. indicar o solista. vivo. no apertado estúdio da Odeon. Senão de perto. Henrique Foréis Domingues. a 12 de julho). decidir que músicos de fora ajudarão no acompanhamento. Será também o divulgador do conjunto. compositor. que sempre lhe dará certa ascendência sobre os outros4. violonistas. nas horas vagas.é ganho. Noel conheceu-o há alguns anos. o Flor do Tempo passou a ter seus dias contados. sem êxito. dizer em que dia e hora será feita esta ou aquela apresentação em público. Cantor. A partir desse momento. cheio de idéias. mas nenhuma aproximação maior. começa a se desintegrar. no Cassino beira-Mar. Já o era no Flor do Tempo. como decidir quem vai ficar de fora? Em razão disso. Foi numa dessas apresentações em clube que Carlos Lopes Campeão.vai transformar a multidão que alegrava as reuniões dos Dales em não mais do que quatro rapazes. De tal modo que. diretor da Odeon. Opinará sobre os arranjos. fazendo-lhes logo um convite para gravar. Uma liderança que jamais perderá. o Almirante. Só que já não se chamarão Flor do Tempo. Quem são eles? Noel conhece-os quase todos. em todo lugar. cantores. o Flor do Tempo sai de cena para que em seu lugar surja novo conjunto. teatrinhos. letrista. que passou a integrar numa época em que dele só faziam parte alunos do Colégio Batista. comprar-lhe um velho projetor manual de cinema. pouco se perde. Como colocar tanta gente. depois de saldados alguns compromissos já assumidos (uma excursão a Vitória. Furão. ouviu-os. ritmistas. Um eficientíssimo divulgador.

dentro das próprias 102 dependências da Fábrica Confiança. Carlos Alberto Ferreira Braga. Basta se avaliar a situação da casa: o aluguel era de oitenta mil réis por mês e. o Flor do Tempo ensaiou muitas vezes (e na certa vai ensaiar o novo conjunto). Henrique Britto. Daí em diante. na Travessa de São Francisco de Paula. recebendo por mês noventa mil réis. Vila Fontan. onde depois se instalou e ainda existe o Instituto LaFayette para meninas(5). Como os outros dois companheiros do quarteto que procura Noel. embrulhado num jornal. Encontro com Noel "Foi em 1923 que conheci Noel Rosa. Eis que meu irmão mais moço. lembrou-se de um colega que desejava desfazer-se de um aparelho manual. na Tijuca. e a outra. que não houvesse entre eles maior aproximação." Almirante Braguinha. uma papelaria. Guido. mas pouco nos ligávamos. Nasceu em .ricos do Flor do Tempo. quase sem queixo. um domingo à tardinha fui procurado em minha casa por um garoto mirrado. número 287. casa 4. Por esta época. estudou no Colégio Batista. ou melhor. eu já trabalhava na Casa Cruz. Braguinha tem 22 anos. um pequeno projetor de cinema. mas compõe mais do que bem. tentei obter um projetor e disso falei a todos os meus conhecidos. portanto. Minha família morava no então Boulevard. Era Noel Rosa. no entanto. uma de vidros e imagens de santos. em Vila Isabel. Por vinte mil réis Noel Rosa venderia o projetor. já gravou discos na Odeon solando composições suas e alheias. Noel desde cedo seguia sua vocação boêmia. Em sua residência. hoje Avenida 28 de Setembro. e enquanto Almirante levava vida pacata. A firma constituía-se de duas lojas. canta mal. defronte do Parque Royal. Não se fechou o negócio. à Rua Conde de Bonfim. 186. de noite. sobre o bicho da seda. No dia seguinte. Noel estudava e fazia de sua rotina escolar uma permanente sucessão de horas vagas. vitrines e arrumações. nessa altura. metódica. franzino. comparecia para a limpeza dos espelhos. nem rachado poderia pagar essa fortuna. é filho de Jerônimojosé Ferreira Braga Netto. Aos domingos de manhã. Natural. dezenove anos. baratíssimo. um dia. é o mais velho dos quatro. encontrava Noel Rosa. colorido. aquele mesmo diretor da Fábrica Confiança que cedeu o açude e um motor de barco para que Neca e Aníbal realizassem suas experiências aquáticas. é sem dúvida o melhor violonista de todos. com fardamento do Colégio São Bento. conduzindo. raramente parando nos botequins e esquinas de Vila Isabel. ganhei do meu colega Paulo Guerreiro um pequeno rolo de filme natural. Toca violão sofrivelmente. Na ansiedade de ver o minúsculo filme. Fiquei aos pulos e apressei meu irmão para que trouxesse o tal companheiro à minha presença o mais breve possível. Eu fora aluno do Liceu Rio Branco. Ali.

um precoce autor de valsas. . também já está decidido. partindo da Rua do Trapicheiro. o Alvinho. Um bom companheiro. Por que não um nome . intempestivo. entre o gênio e o louco. dezenove anos. então com doze anos. Ora muito calado. apontou-a contra a própria cabeça e puxou o gatilho. Dinheiro para as passagens? Nem isso. Carioca como Almirante e Braguinha. Agitado. dançam alegremente. mas cantor afinadíssimo. que este decidiu custear-lhe os estudos no Rio de Janeiro. é amador. solando peças difíceis numa corda só. Numa cabana abandonada. mas também ao de já ser. O conjunto. Ouviu-se um estalo. suas proezas ao violão impressionaram de tal maneira o governador do Rio Grande do Norte. o mesmo Britto voltou a pistola para um dos colegas e puxou novamente o gatilho. Mas continuou o mesmo. bem antes disso. ora loquaz além da conta. Ou mesmo em teatros e outros lugares em que se cobram ingressos. Mas de uma loquacidade telegráfica. Há uma razão especial para que seja um quinteto. vai se chamar Bando de Tangarás.em não serem confundidos com profissionais . sempre em grupos de cinco. Britto e seu grupo encontraram uma velha pistola. Intempestivo. aluado. Antônio José de Mello e Souza. os quatro lhe propõem juntar-se a eles. embora impossível de se conhecer bem. menino de calças curtas. reuniões. choros. É anterior à sua adesão ao Flor do Tempo o trágico episódio de que foi protagonista durante um dos passeios que os alunos do Colégio Batista costumavam fazer aos domingos pelas matas da Tijuca. Um tiro foi atingir o peito do outro.que Braguinha sugere que cada um dos tangarás adote um pseudônimo para usar em suas atividades musicais. casas de família. O conjunto. aéreo. Como se não tivesse acontecido. desconforme. estabanado. (Consta que a admiração do governador por Henrique Britto deveu-se não só ao fato de o menino. quatro formando roda e o quinto saltitando no centro.sentencia Almirante. Sempre afrontado. em vez de Flor do Tempo. Parecia descarregada. obras especialmente para violão. onde. Mas há também quem o considere meio aluado. Quando muito terão uma participação nos lucros que as gravadoras obtiverem com seus discos. Os anos se passaram e Britto nunca mais falou no acidente. consciente do quanto é malvisto quem vive de música! É justamente pensando nisso . compositor bissexto. falando as coisas pela metade. Ninguém receberá um níquel para se apresentar em festas. Em seguida. Sabedores das qualidades de Noel e precisados de um quarto violonista para completar o conjunto com que pretendem gravar na Odeon. O quarto e último dos que vêm procurar Noel é Álvaro de Miranda Ribeiro.Natal.Não podemos deixar que nos confundam com profissionais . como os pássaros fandangueiros que. como uma metralhadora que dispara e de repente enguiça. quase monossilábica. ter participado de um concerto no Teatro Carlos Gomes. violonista. matando-o. lundus.) Há quem veja nele um gênio. em Natal. ele pegou a arma. mais para louco do que para gênio.

O Noel Rosa que os outros tangarás conhecem neste 1929 é mesmo um tipo esquisito. estudantes ou doutorandos. de farra. desfilou posudo ao lado do Comandante Mathias da Costa. mas rejeita a idéia de chamar-se de outro modo senão de Noel Rosa mesmo. Mas os outros não lhe seguem o exemplo. será duas vezes pássaro. transformando-se assim no compositor. servindo o tiro de Guerra Naval. que os índios embrenham-se pelas matas atrás desse gorjeio encantado e por lá ficam semanas inteiras distraídos pelos verdadeiros concertos que esses pássaros dão no seio da natureza virgem. os demais respondem em coro e saltitam como se dançassem no ritmo da música. Almirante já tem o seu próprio pseudônimo. Os tangarás se reúnem em bandos de cinco e enquanto um deles canta e marca. Daí veio a idéia de um amador que. o compasso. acredita que ficará perfeitamente camuflado. quem antes era o Henrique. Portanto. Para que mudar? Quanto a Noel. vem obtendo através dos discos um sucesso cada vez mais acentuado com o conjunto típico que tem o nome dos pássaros lendários. Trata-se de Almirante e seu Bando de Tangarás: quem não os conhece? O intuito do bando. Álvaro de Miranda Ribeiro já é Alvinho há muito tempo. Com isso. já teve um apelido: Violão. todos empregados em várias profissões. Desse modo. cantor e violonista João de Barro. E a lenda nos diz ainda que enquanto os tangarás cantam os outros pássaros calam. Henrique Britto. Foi na época do Colégio Batista. .de pássaro? Ele próprio escolhe o do joão-de-barro. é levar aos discos as músicas interessantes do folclore brasileiro. o Bernard Shaw. por ocasião da chegada ao Rio do hidroavião Jaú. tão bonito. o Sócrates. ou o Foreis. quando era quase impossível vê-lo longe do instrumento. ninguém associando seu nome ao do filho do diretor da Fábrica Confiança Industrial. aceita fazer parte do conjunto. por assim dizer. composto exclusivamente de amadores. ou melhor. Ao menos aos olhos deles e de alguns outros rapazes que circulam por Vila Isabel. só Braguinha. o Poeta da Vila. o Filósofo do Samba . começou a chamá-lo de "almirante". sob o pseudônimo de Almirante. 104 A lenda dos tangarás "Uma lenda do Norte do Brasil nos conta que o canto dos tangarás é tão mavioso. ficou sendo para sempre o Almirante. João de Barro. ganho há dois anos quando. Tão posudo que o povo. o Britto como o chamam todos." Phono-Arte 30 de setembro de 1930 Também não quer ter nome de pássaro. pelo bando que ajuda a fundar e pelo apelido que escolhe. A vida inteira não vai querer ser mais do que isso: Noel Rosa. Ainda que venha a tornar-se famoso e os locutores de rádio passem a apresentá-lo com os mais escandecidos cognomes. fazendo-se o mais respeitoso silêncio na mata.fará sempre questão de deixar bem claro que é apenas o Noel Rosa(6).

E que se repetirão.Não se parece com ninguém.Estou ouvindo. vai-se afastando aos poucos. as reuniões repletas de poses e cerimônias. Ainda comete as suas graças. inventando histórias. Isto é. gravata clara. ficando mais para trás. Os tangarás jamais se acostumarão com o insólito dessas preferências. Nem mesmo com o extrovertido e picaresco adolescente que. andando meio de viés. Pequenas.. Mas por que será que lhe dá tanto prazer hostilizar garis e mendigos. Ou esquisitices maiores. sapatos de duas cores. os boêmios. leiteiros e meganhas. Se é o pessoal das serenatas ou das mesas do Carvalho. preferirá companhias menos bem-comportadas. estou ouvindo.. mas costuma alterná-las com outros humores. desligar-se. Seus programas são diferentes. como um apagar de luzes. Também não gosta de andar em bando. . Se é possível encontrá-lo à mesa de um dos cafés do Boulevard. é possível também vê-lo imergir em indecifráveis silêncios. a gente do morro.mente. o ombro esquerdo bem mais alto que o direito. inexplicáveis birras. que guarda em relação a certos tipos de pessoas? Que odeie o prestamista. nas tendinhas de pé de morro. . as pessoas que detesta.alguém tenta trazê-lo de volta. As pessoas de que gosta. divertia os colegas nas salas e corredores do São Bento. Pouco andará com os tangarás. com maior ou menor freqüência. como algumas de suas idiossincrasias. muito bem. São ausências que se fazem de repente. os motoristas de táxi. Nada de pessoal contra qualquer dos quatro companheiros. sozinho. em geral ocorrem durante animados papos de esquina ou botequim. E se acontece de sair com um grupo menos afim.. Essas saídas de órbita. Só não lhe agradam os ambientes grã-finos.Noel! Noel! . em casas de famílias abastadas da Tijuca. ficar distante. Raramente irá a uma dessas festas de que Almirante e os outros gostam tanto. não faz muito. os vadios aos filhos das mais distintas famílias tijucanas. 105 E o que dizer de algumas de suas avessias. tentam compreender o que chamam de "esquisitices de Noel". expondo pensamentos de sentido filosófico não muito ortodoxo ("Mais vale ir almoçar em casa de um parente do que trabalhar para ganhar o insuficiente") ou não muito otimista ("A mulher que mais amou neste mundo morreu antes de saber o que era amor"). desfilando piadas e trocadilhos. Não o compreendem. os jogadores. nas salas de espera de um viveiro de mulheres. comentam. Almirante e os outros atribuem mesmo a um temperamento esquisito ele preferir os malandros. a atenção não sintonizada com o que o grupo conversa lá na frente. por toda a vida. A não ser que os compromissos do conjunto o levem a isso. Muitas vezes sem motivo aparente. . ainda vai. Sente-se mais à vontade nos botequins baratos. ele longe. dando impressão de que não vê nem ouve nada à sua volta. costuma desgarrar-se. os operários de fábrica. vizinhos e sujeitos chatos? Aos . como aparecer de vez em quando trajado segundo o figurino da mais autêntica malandragem carioca: terno branco.. camisa preta. Mas nada de aglomerações maiores. quase fobias. Os amigos observam. os outros conversando. os bêbados. Decerto não está sozinho neste ódio.

Atual Rua da Ajuda. mas tenho um assunto importantíssimo para tratar com aquele amigo. Já com os outros não será tão sutil.. cujas indagações revelavam sua intenção de não alterar as tradições do conjunto: .. piruetas com o Hino Nacional. perturbando o sossego dos mendigos com fustigos e molecagens. ". ele acena para um passante imaginário e grita: . A Odeon e sua subsidiária Parlophon. as vítimas de estocadas que vão da simples brincadeira de mau gosto às fronteiras da crueldade. João de Barro. Mas as "esquisitices". dezoito anos e praticamente nenhum passado como compositor. o compositor popular Noel Rosa.Espera um momento que eu já vou! Virando-se para o chato: ." A partir daquele momento. assustando leiteiros ou dando sumiço em suas garrafas. o chato falando. não trata de todo mal. venceu qualquer resistência de Eduardo Dale e eu fui. mas essa simples volta de cabeça é o bastante para permitir a Noel uma escapulida rápida..Noel é o mais jovem dos cinco. meu nome . Vê neles uma certa dignidade ("Com que superioridade um burro pisaria em uma nota de cem mil réis!") e um destino em muita coisa melhor que o seu ("O burro só tem uma satisfação: não segue a profissão forçado pela sua família"). Gosta tanto do animal que há quem jure tê-lo surpreendido muitas vezes a conversar com os que costumam passar. imediatamente. em maio de 1929. NOTAS 1. mas canta e toca pandeiro que é um colosso . falando. Até aqui só brincou. Tal habilidade..Você me desculpe.. .chatos. Chamando os garis de "burro-sem-rabo" e outras provocações. E o disco com que Francisco Alves inaugurou em 1927 o sistema de gravação elétrica entre nós (número de catálogo 10. pelo menos.Não.001) tinha de um lado a marcha Albertina e do outro o samba Passarinho do Má. mais do que um simples calouro do grupo. ambas da Casa Edison do Rio de Janeiro.conta Almirante em No Tempo de Noel Rosa.. Atual Rua Heitor Beltrão. Entre tantas outras. sabendo livrar-se deles com polidez.foi levado a Eduardo Dale. Henrique Britto e Alvinho abre novo capítulo na sua história. segunda edição (página 42) . cansados e preguiçosos. admitido nas hostes do seleto agrupamento.declarou Braguinha. a Columbia e a Brunswick eram as cinco gravadoras em atividade no Brasil em 1929. ainda segundo a avaliação dos tangarás. No meio da conversa. enfim. 3. pregando audaciosas peças em gente da polícia. cercado de projetos. O chato se vira e não vê ninguém. 2. duas composições de Antônio Lopes de Amorim Dinis. arranjos. pela Rua Theodoro da Silva. e mais a Victor. 4. paródias. Especialmente os que puxam carroça ("Qual o crime que o burro cometeu para ser condenado a trabalhos forçados?"). valsas para fazer rir. Noel fará desses habitantes da cidade. Este convite que lhe trazem Almirante. há a paixão pelos burros. não param por aí.Mas esse 'Almirante' é ou foi aluno do Colégio Batista. como veremos ao longo de sua história.? .A Odeon foi a pioneira. o Duque. Almirante ficou sendo o seu líder. proclamada com tanta veemência. Nele vai nascer. O Bando de Tangarás se forma.

ainda que executando muito maxixe e muito choro. mas cariocas como Pixinguinha. modinhas sertanejas. O primeiro deles. Fiquei alegre. Em entrevista publicada por Voz do Rádio de 15 de novembro de 1936. Apelido. a maioria como amadores. entrevista ao Jornal de Rádio Que tipo de música pretendem se dedicar os tangaràs? Qual a matéria prima do seu repertório? Que canto compositores planejam levar ao disco? Desde logo o líder Almirante decide que o grupo só cantará e gravará músicas originais. 6. como eles. . muitos outros grupos surgiram. organizado pelo notável violonista João Teixeira Guimarães. toadas. O casarão da Conde de Bonfim onde funcionava o setor feminino do colégio (e antes dele o Liceu Rio Branco) foi demolido. Todos de roupas típicas do Nordeste. chapéus de vaqueiro. o grupo tocava um pouco de tudo. Vila Isabel. Muito responsáveis por essa moda são alguns grupos de violonistas. maracatus. emboladas. os Turunas de Pernambuco. sandálias. Quanto ao gênero. de sua própria autoria ou de um ou outro compositor que. Os Oito Batutas visitaram Recife em 1922 e lá fizeram tanto sucesso que logo apareceu novo grupo. cantei-a para mim somente. Anos depois. ou de qualquer outra parte do Brasil. lenços no pescoço. Caninha e Donga. 106 NASCE O COMPOSITOR Capítulo 11 Fiz uma toada. os Turunas da Mauriccia. Grupo de Caxangá. E quando se apresentaram pela primeira vez em público. como Pixinguinha.O samba é sempre o mesmo. desde que bom folião. cocos. e contando com a adesão de músicos não só nordestinos. esteja se lançando. a 7 de abril de 1919. começou a sair no carnaval em 1914. Festa no Céu. mas também o maxixe e o choro carioca. ritmistas e cantadores que há quase vinte anos atuam no Rio. surgia outro conjunto. que naquele mesmo ano veio se apresentar no Rio. seu repertório não deixava de incluir coisas do Nordeste. ou paulistas como Bonfiglio de Oliveira. canções sertanejas. como o Flor do Tempo que lhe deu origem. o João Pernambuco. qual nada. embora cariocas. Todos gostaram. Os famosos Oito Batutas. não é filósofo? . nem os mais elogiosos. Sou o Noel Rosa. ou seja. seguindo suas pegadas. sentindo um feliz alvoroço dentro de mim. Já não existe o Instituto LaFayette. nasceram sob a inspiração do Grupo de Caxangá e até com elementos a este pertencentes. Em seu lugar está hoje o prédio da Mesbla. Em 1927. pelo nome. que dediquei ao bairro onde nasci. o repórter perguntava: ". cateretês. por exemplo.disseram. Concluída a composição. Havia originalidade." Era mesmo assim que gostava que o tratassem. Depois para os parentes e amigos.5. na sala de espera do Cinema Palais. Havia emoção . nasce ao impulso da moda do momento: a música nordestina.Qual filósofo. está mais que claro que o Bando de Tangarás.

que o novo grupo é mais uma novidade que acaba de chegar de Pernambuco. o samba é um privilégio do carioca. Bole-Bole. regionalista. os fox-trotse outros gêneros importados dos Estados Unidos. Ou melhor. executados quase sempre por orquestras de formação jazzística.A música popular que mais se ouvia no Rio de Janeiro dos anos 20. o caráter nacionalista. em vez de cocos. mesmo. geralmente composta de piano. um ganzá. o fato de não serem necessários muitos músicos e grandes vozes para formar um grupo desses. impropriamente. Como se sabe. O segundo. um 107 dos quais o Flor do Tempo. Vaca Matada. emboladas e cateretês. Daí os tangarâs. eram as valsas e peças para piano. Pra Vancê. como vimos. que eles cantam com tal ingaxao pra pensar. O resto são vozes em coro e improvizadores de versos.serão levadas pelos tangarâs ao disco e constituirão a base inicial de seu repertório. de "canções sertanejas de cunho folclórico" . Esta e outras cantigas "nordestinas" criadas por Almirante e seus companheiros de bando-a que ele próprio chama. constituído de qualquer tipo de boa música popular brasileira. à moda do Norte. Os ritmos e cantigas que os grupos trouxeram para o Rio. sobretudo a partir do grande sucesso dos Turunas da Mauricéia. Eis o que dirá a mesma revista. O primeiro deles. é muito mais fácil formar um "regional nordestino" do que uma jazz band. Mesmo quando. o que eles gravam é um samba.0-1 í (Odeon). a dois fatores. na voz e nos instrumentos de muitos conjuntos criados por gente carioca. viraram moda. quase oito meses após a estréia do bando: . sax. fundamentalmente. Ganharam o disco. ainda se pensará por algum tempo tratar-se de um conjunto nordestino. Eis o comentário da revista Phono-Arte: "Almirante trai o seu sentimentalismo de nortista através de dois melancólicos e agradabilíssimos sambas de sua autoria Tamburete (letra de Erasmo Vollmer) e Confessa!. no entanto. E passaram a animar as festinhas familiares de bairro. um reco-reco. Dois ou três violonistas. Assim. Almirante. Mulata Mal Inducada. do repertório. Os dois sambas de Almirante são."2 Mesmo depois de os tangarâs adquirirem certa reputação. Composições intituladas Vamo Fala do Norte. Daí o Flor do Tempo. conquistaram a cidade. os palcos de teatro. líder e fundador do quinteto do qual faz parte Noel Rosa. o maxixe. zsjazzbands. trombone. as modinhas. gravados no disco) 13. clarinete. um pandeiro. banjo. isto é. Coisas da Roça. mas de preferência nos moldes dos turunas lá de cima: Quando nós saímos do Norte Foi pra no mundo mostrá Como canta aqui nesta terra Um bando de tangará. estabelece que seu repertório será basicamente nordestino(1). Portanto. neles encontramos mais 'alma' do que mesmo 'requebros' tão característicos dos sambas daqui. bateria. pistom. Essa adesão à música nordestina parece dever-se.

de Almirante. Pois tinha uma bela mesa E um piano no salão. mas a letra em si. E no tar dia marcado Os bicho tomaram banho. Zunindo qual uma seta Veio o pingüim do Pólo. O siri chegou trasado No bico do passarinho Pois muito tinha custado Pra botá seu colarinho. Jacaré de guarda-chuva . com todo o acento pseudomatuto. 108 Foram pro céu alinhado Tudo em ordem por tamanho: O mosquito entrou na sala Com um charuto na boca.que a partir de agora ele apresentará como sua obra de estréia. querendo amor. Gravado em junho de 1929 para o selo Parlophon. meu bem Tem minh'alma e meu braço E. embora não o seja realmente . A toada Festa no Céu . Findo o baile. No banquete do leão."É do Norte do Brasil que nos têm vindo os famosos e inigualáveis grupos dos Turunas da Mauricéia. também tem. Preparou uma festa boa. é de grande originalidade. por surpresa. Os bicho todo avisado Tavam esperando o dia. E o peixe de bicicleta Com o tamanduá no colo. O leão ia casá Com sua noiva leoa E são Pedro. do Bando de Tangarâs. Mandou logo um telegrama Convidando os bicho macho Que levasse todas dama Que existisse cá por baixo. Percevejo de bengala E a barata entrou de touca. Acento nordestino presente nos próprios sambas. Tudo tava preparado Para entrá firme na orgia. Mulher Exigente. suas primeiras experiência" como comwwwoi integrante do Bundo de Tangarâs. como acontece no primeiro sucesso do Bando de Tangarâs. pra agradá. E o gato foi de luva para assistir o casório. pouco se parece com um samba carioca: Tem carinho que eu faço Tem dinheiro. A idéia é inspirada em história infantil muito conhecida.tem melodia e ritmo "nordestinos". do Grupo de Calazans e ainda esse conjunto dos Desariadores do Norte.

De lacinho à borboleta Veio o veado galheiro E o burro de luneta Montado num carroceiro. Isto é. tem a forma aparentemente amarrada a tudo aquilo que é feito no gênero: um estribilho no qual o compositor coloca toda a sua singularidade melódica e uma sucessão de versos. Minha viola Tá chorando com razão Por causa duma marvada Que roubou meu coração. São Pedro muito se riu E prós bicho foi gritando: "Caiu. Inda outro dia Fui cantá no galinheiro O galo andou o mês inteiro Sem vontade de cantá. Mas ainda aqui o Noel Rosa compositor principiante tem muito de original. claramente nos moldes dos cantadores nordestinos. E a dona Chica Que anda atrás de mau conselho Pinta o corpo de vermelho Pra o amarelo não pegá.E a cobra de suspensório. 1? de abril!" A mesma coisa se pode dizer de Minha Viola. O porco de terno branco Com um sapato sem sola E o tigre de tamanco De casaca e de cartola. Nesta cidade Todo mundo se acautela Com a tal de febre amarela Que não cansa de matá. Eu já jurei . Eu não respeito Cantadô que é respeitado Que no samba improvisado Me quisé desafiá. Vou breviá o discurso Pra não dizê tantos nome: Lá foi a muié do urso De cabeleira à la homme. Por isso elas se parecem tanto umas com as outras. que cabem perfeitamente em quase todas as emboladas que se conhecem. em geral improvisados. Quando o leão foi entrando. O macaco com a macaca Com o rouge pelo focinho Estava engraçada a vaca De porta-seio e corpinho. sendo uma embolada. Seu humor não é exatamente caipira. Como provam os versos em que faz referência ao célebre doutor Voronoff e suas tão comentadas experiências no campo dos enxertos(4).

até música farão juntos. deixando-se contagiar pela febre das emboladas. quase tudo. trabalhou no comércio.Não jogá com seu Saldanha Que diz sempre que me ganha No tal jogo do bilhá. viajarão juntos. vendeu apólices de seguros. chegando a estudar canto lírico com a italiana Climene Baroni. . Outro carioca que se anordestinizou. mas que nem por isso deixa de contar nestes primeiros passos de Noel pelo caminho da música popular. Participarão juntos de espetáculos que o próprio Renato organizará. Não usa prato Nem moringa. no futuro. 109 Renato Murce. humorista. Adonde eu moro Tem o bloco dos filante Que quase que a todo instante Um cigarro vem filá E os danado Vem bancando inteligente Diz que tão com dô de dente Que o cigarro faz passá. Neste e no próximo ano estará muitas vezes perto de Noel Rosa. como tanta gente desse tempo e desse meio. O próprio Noel gravará as duas composições. seu primeiro namoro foi com a ópera. Conheço um veio Que tem a grande mania De fazê economia Pra modelo de seus filho. Mas os sons que vieram do Norte também o envolveram. E quando senta é de cueca Pra não gastá os fundilho. Desde 1924 trabalha em rádio (a pioneira Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi fundada a 20 de abril de 1923). apresentador. um importante nome na história do veículo. como diretor de broadcasting. Jogou futebol. Como cantor. acompanhado por um regional e não pelos tangarás. cantando com a voz ainda hesitante. autor. rádio-ator. Sapeca o taco Nas bola de tal maneira Que eu espero a noite inteira Pras bola carambolá. produtor. já fez um pouco de muita coisa na vida antes de se tornar cantor. foi caixeiro-viajante. é Renato Murce. como se o microfone o assustasse. Uma parceria breve. nem caneca. Está destinado a ser. Doutô muito creditado E andam dizendo Que o enxerto foi de gato Pois ele pula de quatro Miando pelos telhado. que logo será esquecida. Eu tive um sogro Cansado dos regabofe Que procurou o Voronoff.

Interpretam música do repertório de Augusto Calheiros e seus Turunds da Maurícéia. A 27 de junho de 1929. E por cantar tanto.. Tão identificado está Renato Murce com os gêneros nordestinos que. não das mais inspiradas. intitulado Noite Brasileira. contando com a ajuda de Rogério Guimarães. Almirante é um líder muito ativo. há quem suponha ser ele pernambucano ou algo assim. confessadamente rival dos Tangarás. piadas de Mesquitinha e solos dos outros tangarás. recém-chegado do Recife. Entre números a cargo das bandas de música da Marinha e da Polícia Militar. Pery Cunha (bandolim). como é o caso de Renato Murce. no Tijuca Tênis Clube.E. Como baixo ou barítono Renato Murce jamais chegaria a ser um Mareei Journet. desde o começo. Mas Noel. Noel-relacionado no programa como Noel Medeiros Roxo . num espetáculo denominado Noite Regional Brasileira. sábado. do qual faz parte o bandolinista Luperce Miranda. Dario Murce. Por isso mesmo o sabiá cantou • Bateu asa e voou e foi comer melão . um espetáculo teatral ali.Se tu fosse um pé de pau Eu queria ser cipó Vivia em ti enrascado Em teu corpo dando nó A troca deu certo. um festival em homenagem à atriz. que o próprio Renato denominará de Perna Bamba: Olha que este samba . Nem muito preso às atividades do grupo. Fundou um grupo. Três noites depois. Na ausência de um violão. a Urna Fatale Del Mio Destino por coisas assim. mas também de uma brecha que os permita participar de um festival aqui. acabou trocando as árias de Verdi pelas emboladas. será um tangará meio desgarrado. tudo que possa torná-los conhecidos. Encarrega-se de correr atrás não só das oportunidades de gravar o repertório do grupo (os tangarás farão oito discos só no segundo semestre de 1929). em tantos lugares. festas em casas de família. com quem começará fazendo uma embolada. As primeiras apresentações de Noel Rosa em público serão como integrante do Bando de Tangarás. ele canta Minha Viola pela primeira vez diante de uma platéia. Lourival Montenegro e RubemBergmann (violões). terça-feira 30. de Minona Carneiro e seu conjunto A Voz do Sertão. nem confinado à sua nordestinidade. também cantor. realiza-se antes da sessão de Compra um Bonde. noites regionais em clubes. peças de violão clássico executadas por Yvonne ejosé Rebello. Daí aceitar os convites que lhe são feitos por outros líderes e produtores além de Almirante. revista estrelada por Aracy Cortes no Teatro Recreio.. mas como "cantador nordestino" será conhecido em breve como o Príncipe dos Cantores Regionais5. os Gaturamos. muito menos um Feodor Chaliapin. principalmente o de Rogério.volta a interpretar sua primeira embolada: Minha viola Tá chorando com razão. é chamado João Baptista Nogueira. incrível que pareça. como acontece com Almirante. o célebre Pinião... muita gente pensa ser do seu repertório e não do de Augusto Calheiros este grande sucesso do carnaval de 1928. a quem tratam com carinho e respeito por "mestre"(6)... Didi do Pandeiro e o irmão.

ora essa Isso é coisa que se peça? Vitalina fez promessa Pra casar com Chico Lessa. Rádio Club do Brasil. issa. é essa. Noel empreender experiências sonoras e literárias fora do âmbito das emboladas. Salada Russa. ussa. Outra. Este samba parece uma salada russa Chico Arruaça Que é amigo da cachaça quando bota a mão na massa Já se sabe... Quando ele passa Já bebinho lá na praça Toda gente acha graça Vai haver uma desgraça Mas. também.. Uma muié Tinha brigado com o marido Fez tamanho alarido Lhe tirô todo o sossego Mas ele um dia Foi o samba decorando Entrô em casa cantando E vortô logo o chamego. Mais que depressa Chico disse: não vou nessa. Ele mesmo o sola ao violão num programa que Almirante e o Bando de Tangarás fazem pelo microfone da PRA 3. Levantô-se de repente Já num tava mais doente Já queria inté brigá. os últimos versos esclarecendo que a embolada acabou sendo uma salada russa(7). mas poucos se lembrarão dela: É assa. Conheço um véio Todo cheio de besteira Num gosta de brincadeira E é ranzinza que é danado Mas ele um dia Entrô num samba de arrelia Que esqueceu-se da famia Ficô logo avacaiado. Seguem mais dois versos com rima em essa que completam a estrofe. é ossa... ossa.. foi trapaça. Sempre intercaladas pelo refrão. é ussa.. sucedem-se as partes em issa. Um cabra torto Com doença nas espinha Num havia mais meizinha Que pudesse indireitá Ouviu o samba. Daí. De uma dessas experiências nascerá Baianinha... choro.Põe as perna bamba Quem nele entra Não qué mais para. cocos e desafios. na noite de terça-feira. essa. 6 de agosto . brinca com as vogais criando rimas em assa.. os-sa e ussa. é issa.

Talvez que eu lhe diga um dia Toda a melancolia de um coração Todo este sofrimento Que agora experimento Nesse infeliz momento De tão acerba dor Que crueldade! Eu ser um sonhador Ela não entender meu amor Qual a razão Por que minha paixão Não a pode comover? Somente o criador Sabe do amor Que consagrei A quem tanto amei 112 À hora propícia NOTAS Em que a malícia Dela se apoderar Com meu violão Direi então O meu pensar E se ainda Essa ingênua linda Não me compreender Eu. com bela melodia de Henrique Britto. que ele fará outras de suas experiências. talvez sem sentir.. Indecisão. também será no campo da música romântica. Música e letra parecem bem definidas pelo título. o choro de Noel quase não é notado(8). que tocará Paisagem Mourisca.ainda cursando o São Bento . valsa que o amigo Glauco Vianna . Nazareth. já descrente. peças suas e de autores diversos). Os versos de Noel foram colocados em cima da nostálgica linha melódica. que lhe dá o título de Queixumes.. uma canção que sobreviverá a seus autores. Uma delas não passará de uma letra linear. Odette. preocupado em rimar olhos com abrolhos e tão influenciado pelos pernósticos versejadores do sereno que. bem ao gosto de Alegria. Ao Cair das Folhas.de 1929. Romance. trivial. acaba repetindo a imagem apaixonada e masoquista que Catulo da Paixão Cearense usou anos atrás em Talento e Formosura: Tu podes bem sorrir das minhas . Direi que ela É inocente Até morrer. mas que nem por isso encobrem o letrista ainda engatinhante. Como não abandonou as serestas do bairro.fez e gravou recentemente em solo de violão. Versos dos quais Britto gosta muito. No meio de vários outros excelentes números instrumentais apresentados na mesma ocasião (a maioria por Henrique Britto. ainda no terreno das experiências fora da música nordestina. de valor evidentemente menor. E muito especialmente. para Ingênua.

Não teve êxito. Mas a mesma letra de Noel: Sem estes teus tão lindos olhos. Ali realizou suas célebres experiências sobre rejuvenescimento. Anos mais tarde. Rogério Guimarães. como Renato Murce. 3. regionais também eram os cantores que. Lamartine Babo e João Rossi já haviam explorado o assunto em Seu Voronoff. a partir de enxertos de órgãos de animais. em alguns casos saxofone ou flauta.desventuras. Quero sempre te ver bem junto a mim. cinema e televisão. o Jararaca. cateretês. Mais do que comentadas. 4. Regionais. Eu não seria sofredor Os meus ferinos abrolhos Nasceram do nosso amor. Sendo o líder dos tangarás. 2. se dedicavam a tais gêneros. Ainda oscilante .o Bando de Tangarás entre eles interpretavam (cocos. Pertenço à dor e gosto até de assim penar! A canção só será gravada no ano que vem por Gastão Formenti. . Por que te esquivas. bandolim ou cavaquinho. 15 de janeiro de 1930 (página 21). pandeiro e outros instrumentos rítmicos. emboladas. Vou te dizer os meus queixumes: Ciúmes tenho do seu olhar. nos últimos meses de 1929. toadas. muitos deles de choro. O espaço que Almirante dedica a estes grupos nordestinos em No Tempo de Noel Rosa diz bem de seu entusiasmo por eles. Além do tipo de música que os grupos "nordestinos" . Como será quando crescer? Notas: 1. e outros instrumentistas e cantores os Turunas de Pernambuco. o mesmo que já havia formado com o saxofonista Severino Rangel. rádio. jongos. Eu hoje sou um trovador E gosto até de assim penar. teatro. sambas de roda. assumiu em 1921 a chefia do laboratório de cirurgia do CoUège de França em Paris.entre um gênero e outro. O Grupo de Calazans era liderado por José Luiz Rodrigues Calazans. cantigas). coração De uma paixão? O teu olhar traz alegria Mas também traz o amargor. entre as imagens de Catulo e sua própria originalidade. as experiências de Voronoff foram motivo de muita glosa no Brasil daqueles dias. que os acompanhavam. liderados por Benedicto Lacerda. marcha gravada por Francisco Alves em 1928.. assim. Sem ele então não viveria Vida não há sem dor. ficaram sendo os grupos compostos de violão. o Ratinho. Canhoto. Valem algumas palavras sobre o que então se entendia por "regional". era natural que tal entusiasmo contagiasse os companheiros e acabasse ditando a própria linha do bando. Jararaca e Ratinho fariam famosa dupla caipira atuando por longo tempo em circo. martelos. Serge Voronoff. Ibidem. disco. Daí a denominação de regional para os conjuntos.é assim. 5. Terá novo título: Meu Sofrer. entre ficar preso aos tangarás ou caminhar sozinho . 15 de novembro de 1929. ainda. Antes de Noel. médico russo.. que nasce o compositor Noel Rosa. Phono-Arte.

A canção conta a história do infeliz Zé Sampaio: No mês de maio. no intervalo entre dois programas na Rádio Guanabara. música carioca e não apenas nordestina. sua realidade.. Essa denominação. porém. afinado e sensível barítono cuja carreira estará sempre muito ligada aos tangarás. de certa forma. já então em valsas. ingênuo. O povo carioca sente a alma do samba. emboladas. cateretês. São muito interessantes essas coisas que os tangarás fazem inspirados nos ritmos e cantigas que vêm de Pernambuco. 8. Musicalmente. Bahia. Paraíba. Só seria gravado em 1983. fazendo acompanhamentos ao violão em espetáculos musicais. Jacob Pick Bittencourt. sem mentira. Sem gramática. tanto Festa no Céu como Minha Viola pouco têm de carioca.. O próprio Renato Murce ensinou esta embolada aos autores. no tempo das ladainha. sambas. sem artifício.pai do compositor e cantor João Nogueira . acaba concluindo que é mesmo o samba o idioma em que melhor poderá expressar suas idéias e sentimentos. entrevista a O Debate Toadas. Mas Noel Rosa é do Rio de Janeiro. o mesmo Noel pôs-se a solar ao acaso um choro seu. que jamais chegaria ao disco. Carioca impenitente. 113 TANGARÁ ABRAÇA O SAMBA Capítulo 12 O samba é a voz do povo. duas outras composições suas desta mesma época. 7. Há muito de original nas letras de seu primeiro disco como solista. É malicioso e. sem preconceito. graças ao que o choro sobreviveu. desafios. porém. João Baptista Nogueira . mais tarde famoso como Jacob do Bandolim. de toda ela. Aprimeira é gravada por Paulo Netto de Freitas. 6. veio até nossos dias. Mas. Seria Baianinha? Estando ali presente. Já não se lembrava. Também é nitidamente sertanejo o tempero que ressalta no sabor de canções como Sinhá Ritinha e Mardade de Cabocla.que logo em seguida passariam a acompanhar os cantores em gravações e apresentações ao vivo. cinco anos depois. Foi que eu vi sinhá Ritinha Sobrinha de nhô Vigário Pra Zé Sampaio ela olhou desconfiada Tava tão encabulada Que caiu o seu rosário Ele apanhou o rosário da caboca Mas a coragem era pouca Pra falá com a mulhé Depois pensou . Glauco Vianna e Noel Rosa. Este choro não foi gravado nem editado. Henrique Cazes e Caola. seu cotidiano. o Bororó. Sergipe. teve o cuidado de passá-lo para pauta. pelos violonistas Luís Otávio Braga.atuou ao lado de Alberto Simões da Silva. cocos. Ceará.

ou seja..e pra não perder a vaza Guardou o rosário em casa Pra dá quando Deus quisé Já fez dois anos que ele não vai à capela Mas leva o rosário dela Pra todo lugá que fô Não foi engano o que disse toda a gente Que a saudade de repente Tinha virado em amô E o Zé Sampaio foi-se embora lá do Norte Pois teve a pió das sorte Que se pode imaginá: No mês de maio. de sua troca do sertanejo que invadiu o Rio no começo da década pelo urbano que melhor retrata o seu universo. Daqui a alguns anos . mais ainda que o de Zé Sampaio: 115 No arraiá do Bom Jesus A gente vê uma cruz Que chama logo atenção Quem fincó foi siá Chiquita.Noel partirá destes versos inéditos para recontar a trágica história de dois homens apaixonados pela . não: Foi manhãzinha encontrado Com um punhá bem enterrado Pro riba do coração. A letra também fala de um amor infeliz.mais precisamente em 1932 . Dois home se apaixonaram E um dia quando se oiaram Tiveram a mesma intenção Tendo duas viola apostada E também a namorada Lá na festa do arraiá Zé Simão indignou-se Nos repente intrapaiou-se Perdeu pro Chico Ganzá Perdendo a viola amada E também a namorada Não disse mais nada. feita especialmente para Alegria cantar. A caboca mais bonita Que pisou no meu sertão Essa moça era querida Que por ela davam a vida Os cabocos do rincão.. Pra entregá o rosário dela Ela não quis aceitá Mardade de Cabocla. Mas é ótimo ponto de partida para que se compreenda a transformação definitiva do compositor Noel Rosa. quando vortô à capela. não chegará a ser gravada. de sua passagem do nordestino para o carioca. Pois bem.

mesma mulher. Com um punhal no coração. Foram os dois improvisar. contudo. em fins de 1929. a canção sertaneja pelo samba. o mais importante. E como em toda façanha Sempre um perde e outro ganha. A tio Eduardo. a fome e a miséria alastrando-se como praga. aumentada e urbanizada de Mardade de Cabocla.Mas eu não sou bobo de ficar dizendo essas coisas por aí. De noite não houve lua. que Noel fala em seu samba. E canta: Lá no morro da Mangueira Bem em frente à ribanceira Uma cruz a gente vê Quem fincou foi a Rosinha Que é cabrocha de alta linha E nos olhos tem seu "não sei quê" Numa linda madrugada. Disputando a namorada. que o desmoronamento da Bolsa de Nova Iorque ameaça mergulhar não só o Brasil. Noel explica que seus versos procuram retratar. uma luz somente havia: Era o sol quando o samba acabou. . ainda que metaforicamente. Pra dois malandros olhou a sorrir. de tanga. O Brasil de tanga. numa crise dos diabos(1). Imagine agora. Lá no morro. o imaginário arraial do Bom Jesus pelo nada imaginário morro da Mangueira.. cabrocha de alta linha. mais do que uma versão revista.. tio Eduardo surpreende Noel acompanhando-se ao violão numa cantiga que lhe soa de forma inteiramente original. Um dos dois parou de versejar. Um dia. siá Chiquita por Rosinha. desnudado pela penúria. Disso resultará Quando o Samba Acabou. mas o mundo inteiro. É de um país à beira da indigência. Ao voltar da batucada. o primoroso atestado da adesão definitiva de Noel Rosa ao gênero que o consagraria: Na segunda batucada. Ninguém cantou. Quando o sol raiou foi encontrado Na ribanceira estirado. um país ilhado em pobreza.Que música é esta. Ela foi-se embora e os dois ficaram. os dois caboclos do rincão por dois malandros do Rio. Mas a adesão de Noel Rosa ao samba ocorre muito antes de a trágica história de Rosinha transformar-se num dos clássicos do repertório de Mário Reis. Dias depois se encontraram .Um samba que acabo de fazer. Ficando horas em meditação. Foi fumar na encruzilhada. E. E. perdendo a doce amada. A vida já era difícil por aqui. tranqüiliza: . maltrapilho. Noel? . É sobre o Brasil. Mas trocará o tempero sertanejo pelo molho da cidade.

Já estou coberto de farrapo. as rimas pouco usuais na canção popular. a maestria do versejador será medida por esse sexto verso). Pois esta vida não está sopa E eu pergunto: com que roupa? Com que roupa que eu vou Pro samba que você me convidou? Com que roupa que eu vou Pro samba que você me convidou? Agora eu não ando mais fagueiro. Pois eu quero me aprumar. Mas o humor mais requintado arrasta uma lágrima com a risada. cada estrofe terminando com o mesmo estribilho. alguém se atreverá a chamar Noel Rosa de "Bernard Shaw do samba"? E que outros verão em sua poesia um toque chapliniano? Uma composição irretocável. 116 Eu já corri de vento em popa Mas agora com que roupa? Eu hoje estou pulando como sapo Pra ver se escapo Desta praga de urubu. de melodia simples e direta. aliás. pensa-se na tristeza que ocultam. nas rodas de samba. Mesmo eu sendo um cabra trapaceiro Não consigo ter nem pra gastar. no qual.Pra conversar e discutir. o verso funciona como um breque e "chama" musicalmente o estribilho. Um pouco como na definição de George Bernard Shaw para humor: "É qualquer coisa que faça a gente rir. converte-se numa sucessão de piadas. de escarnecer da própria desgraça. também repousa grande . Noel transpõe para a música popular a singularidade tão carioca de tratar com graça e irreverência os assuntos mais sérios." Um pouco também como nos filmes de Carlitos. Vou tratar você com a força bruta Pra poder me reabilitar. Uma tentação para os improvisadores (mais tarde. o Brasil de tanga. Neste samba. uma luz somente havia: Era a lua que tudo assistia Mas quando acabava o samba se escondia Agora vou mudar minha conduta Eu vou pra luta. a crise econômica. Lá no morro. saborosa e exata. Enquanto se ri delas. E há ainda o humor. Sempre terminando em palavra que rima com "roupa". Pois o dinheiro Não é fácil de ganhar. a construtura técnica na qual o sexto verso do coro é uma espécie de chave. Não será por isso que. daqui a algum tempo. Meu terno já virou estopa E eu nem sei mais com que roupa De um feliz casamento de música e verso vem a força de Com Que Roupa Mas não é este o seu único trunfo. Eu vou acabar ficando nu. Há também a originalidade do tema.

Noel convenceu Hélio a irem juntos conhecer de perto o célebre Rei do Samba. Seu único instrumento era um violão barato. o primeiro dos dois tipos de samba que existem pela cidade. Fala. os pulmões escravizados à tuberculose. freqüentada por gente que se igualava no prazer da música e da dança-a ponto de participarem das mesmas festas intelectuais e macumbeiros. irônicas. de mau som. pequenos comerciantes bem-sucedidos e operários modestos. Reencontrou-o sempre mais pálido. Ora Vejam Só. "de que modo?". amado. Me Leva. Seu Rafael e muito especialmente tudo isso que Sinhô vem produzindo por aí com prodigiosa qualidade. Amar a Uma Só Mulher. Gosto Que Me Enrosco. surgido ao que parece na casa de tia Ciata ou Assiata. matreiras. na Penha. negra baiana que se notabilizou muito menos pelos doces que fazia e vendia do que por suas qualidades de anfitriã animada e festeira. no teatro de revistas.. muito usada no sentido de "como?". o grande J. este mulato alto. a Favela vai abaixo Quanta saudade tu terás deste torrão! Mas a visita de Noel e o irmão à casa de Sinhô resultou em constrangimento e desencanto. mas também Essa Nega Qué Me Dá. magro. Dorinha. apreciado. mais gasto. em meados da década passada. Sobre uma comprida tira de cartolina. o samba carioca. não perde o aprumo. que mesmo em processo de visível decadência física. Silva. então. Mas merecedor da mesma admiração. Meu Louro. ainda no São Bento. Cristo Nasceu na Bahia. nas gafieiras ou onde pudesse fazer ouvir os seus sambas: Minha cabocla. morava com a mulher Nair numa casa muito pobre. criador de sucessos.B. Ou melhor. Uma admiração tão grande que. Tanto pelas melodias que compõe como pelas letras que escreve. cariocas. então 117 brilhando no carnaval. nos prostíbulos. sobretudo pelo emprego da expressão popular "com que roupa?". o primeiro a fazer sucesso. convencendo os compositores populares de que o gênero era comercialmente viável2. tempos atrás. Preciso dele para compor. o Caninha -. críticas. Naquela casa. desenhara a lápis teclas brancas e pretas cuja finalidade explicou aos dois rapazes: . São exemplos dele não apenas o Pelo Telefone. "com que dinheiro?" Mas o que dizer do ritmo? No momento em que Noel cria Com Que Roupa?'já existem na cidade pelo menos dois tipos de samba.? Depois disso Noel voltou a ver Sinhô aqui e ali. dar-te eu irei . aquele em que Sinhô é rei. Gavião Calçudo. enfim. Sempre foi e ainda é grande a admiração de Noel por Sinhô. funcionários públicos e boêmios. Ilha do Governador (e é lá que ainda mora. cada vez mais sem dinheiro e sem saúde). em especial na malícia. Meu Amor. nas festas familiares. desdentado.Isso é o meu piano. na Rua Pio Dutra. imitado. Um.parte da comunicabilidade do samba. em festas. no duplo sentido de versos que mocinhas ingênuas talvez cantem sem saberem o que significam: É moda agora quando ferram o namoro Beberem água na tal caneca de couro Ou: Daí. Hilário Jovino Ferreira e José Luís de Moraes. ex-escravos e músicos como Sinhô. Ao gosto de Noel em muitos pontos. naquela casa. O Rei do Samba. Já Te Digo. miserável quase. teria nascido. em Vila Isabel. Jura. em casas editoras de música.

segundo Ismael. este mais novo surgiu há poucos anos no Estácio de Sá. por enquanto. Acontece que já existe outro tipo de samba sendo feito e cantado no Rio de Janeiro de agora. Nos morros. Mangueira. onde e quando terá nascido este samba? Tudo indica que enquanto aquele outro vem do começo da década passada e é produto da Cidade Nova. estaria nesse detalhe a diferença. galgou as encostas da Saúde. como tanta coisa mais.. nos quais ainda se encontram vestígios não só do maxixe. Nem mesmo aqueles que plantaram as sementes das quais brotou este samba parecem saber ao certo como tudo começou. gafieiras.. Embora seja uma explicação respeitável ainda mais por vir de alguém que caminha para se tornar um dos reis deste tipo de samba -. porém. nascido ou não na casa de Ciata .O beijo puro da catedral do amor.ou de outras "tias" baianas como Gracinda e Maria Adamastor . Ismael Silva. foi abrindo seus braços para envolver toda a cidade. bem menos difundido. deve o samba do Estácio de Sá as suas características. picadeiros. E é precisamente esta diferença que seduz o jovem compositor de Com Que Roupa? Como. por exemplo. bairro situado entre o Rio Comprido e o Catumbi. a estrutura rítmica e os contornos melódicos que o distinguem. mas também do lundu. Caninha. Tal pulsação . melódica e poeticamente distinto do samba da Cidade Nova.resulta de ser o acompanhamento feito basicamente por instrumentos de percussão.ao passo que o samba da Cidade Nova destinava-se mais a animar os bailaricos organizados pelas "tias" baianas -. se coexiste com aquele. mas tão inspirado e arrebatador que em breve tomará conta de toda a cidade.sua alma . lhe é muito diferente em forma e conteúdo. E muito de amaxixado no que cantam os demais blocos do Rio.mas muito executado em festas. o Freitinhas. de uma necessidade. é que o samba do Estácio de Sá é rítmica. Aquele samba aparentado com o maxixe. vai morrer jurando que o samba do Estácio de Sá nasceu. E toda a turma de Pixinguinha. o como já é bem mais complicado. Hilário. o morro de São Carlos e a zona do Mangue. salas de espera de cinema. nos subúrbios. Isto é. herdando destes uma pulsação por si só já diferente da dos sambas de Sinhô. Madureira. Engenho de Dentro. na maioria fabricados pelos próprios ritmistas ou por eles inventados. Sendo muitas vezes feito para os desfiles dos vários blocos das redondezas . . Penha. Mas se não há dúvidas quanto ao onde e ao quando. Afinal. Se na Cidade Nova as festas são animadas por músicos treinados. As dessemelhanças rítmicas talvez se devam a ter sido ele criado a partir dos refrões cantados nos improvisos de partidoalto e rodas de batucada. Salgueiro. à necessidade que os blocos têm de cantar sua música marchando e não dançando. em alguns bairros. teatros. seguiu as linhas de trem até Ramos. Dali se espalhou pelas vizinhanças. Noel realmente admira Sinhô e o estilo de música que ele produz. há muito de dançável também no samba do Estácio de Sá. não encerra a questão. E também José Francisco de Freitas. O novo tipo de samba. coretos. Menos conhecido. O que conta. Este outro tipo de samba coexiste com aquele a que se dedicam Sinhô.

clarineta. o jogo. há um ano. para organizar o bloco Deixa Falar. Sylvio Fernandes. tão preto que o chamam de Brancura. São negros e mulatos que moram ou transitam por ali. garrafas. De outros ouvirá apenas os nomes e os sambas: Ela era a rainha Do bloco Deixa Falar Mas perdi toda a esperança Porque a vi conversar com Francelino Que é o bamba do lugar4 . esquina de Maia de Lacerda. Freitinhas. três versos de antes por maior arrojo formal. da maneira mais simples. no número 26 da Rua Santos Rodrigues. trocando os dois. Oswaldo Caetano Vasques. Costumam se reunir de noitinha no Café do Compadre. improvisar música e versos. Alcebíades e Rubem Barcellos (este morto há dois anos. Mas é mesmo desta vida marginal que fala a maioria dos sambas de lá. Marginalização esta que mantém sua música longe do disco por tantos anos. dos malandros e de outros indivíduos à margem da sociedade. no Estácio de Sá. E ainda os dois melhores dentre eles todos: Nílton Bastos e Ismael Silva.bons tocadores de piano. o malandro e suas mulheres. Seus temas são a valentia. salvo por um ou outro violão ou cavaquinho em mãos desajeitadas. que estes sambistas se reuniram. entre duas esquenta-por-dentro. de boca em boca.não sem bons motivos-a honra de ter sido a primeira "escola de samba" da história. A muitos desses sambistas Noel conhecerá de perto. outros jamais o farão. a vida dos morros e das casas de cômodos. Ou então no Apollo. acaba alterando também a estrutura melódica. Quanto à parte poética. bem de acordo com as 118 magras algibeiras do sambista. Se Hilário. Edgar Marcelino dos Passos. As segundas partes deixaram de ser improvisadas e começaram a ser feitas especificamente para cada samba. de tuberculose). O certo é que aos poucos os estribilhos de partido-alto e batucada foram se transformando. Sinhô são os bambas da Cidade Nova. o Baiaco. Tão importante que vai reivindicar . copos. somado à mudança de pulsação. mais para o Largo do Estácio. de propriedade do português José Domingues. o sambista do Estácio de Sá canta em suas letras. cadeiras. Caninha. Este detalhe. agora recorrendo a desenhos mais extensos e elaborados. E também Tibélio dos Santos. surdo. palmas cadenciadas ou batidas em mesas. sua divulgação fazendo-se naturalmente. das populações pobres. mas todos cultuam o samba. Uma seção rítmica barata. se enriquecendo. o sambista desocupado e suas promessas jamais cumpridas de regeneração. Mas foi mesmo no terreno de uma das casas de cômodos da rua Estácio de Sá. Ou ainda em qualquer parte onde se possa. Francelino Ferreira Godinho. a orgia. o Estácio de Sá também tem os seus nomes de respeito. cordas e metais. Uns trabalham. flauta. o Mano Edgar. a batucada. cuíca e pandeiro. de modo espontâneo. prematuramente. Ou acompanhamento ainda mais rudimentar. tudo é tamborim.

bem sei Ou ainda este: A maré que enche vaza Deixa a praia descoberta Vai-se um amor e vem outro Nunca vi coisa tão certa São sambas admiráveis. meu bem Eu sou um infeliz. Pedras preciosas. Noel Rosa percebe que. de frases musicais mais longas. Eu não te perdôo Porque tu vais me enganar outra vez Ou muito especialmente este: Arranjaste um novo amor. andava seguindo o cantor até as lojas de disco. realmente diferentes dos produzidos pela escola de Sinhô. Noel sempre soube desta intuição de Francisco Alves." São deliciosas as frases mais curtas do maxixe e do samba que lhe é aparentado. aos teatros. Ismael. dando seus primeiros passos como compositor popular.. devem isso a Francisco Alves que. Nílton. serão o bastante para reforçar ainda mais sua convicção de que este é o melhor samba carioca. luzindo nas mãos destes sambistas que compuseram A Malandragem. há um tesouro escondido em algum lugar. já nos tempos de São Bento. Que sensibilidade musical tem este cantor! Que faro para desencavar boa música onde ninguém imagina existir coisa alguma! Se os compositores do Estácio de Sá começam agora a chegar ao disco. mulher. e chega ao disco pelas vozes de Francisco Alves e Mário Reis. as casas editoras de música. Alcebíades. Novo Amor. aos circos.Ou meros refrãos como este de Rubem Barcellos: Eu ando sofrendo Sem saber qual a razão Vou implorar a Deus Para conseguir a minha salvação Até esta segunda metade de 1929. tornando-se conhecidos do grande público. em matéria de música popular. algumas ainda brutas. Seus primeiros contatos com o samba do Estácio de Sá podem . Por exemplo: A malandragem eu vou deixar Eu não quero saber da orgia Mulher do meu bem-querer Esta vida não tem mais valia Ou este: Sei que tu andas sofrendo Estás arrependida do que já me fez É teu destino. quem era Noel Rosa?5 Hoje. tem outra espécie de magia. foi atrás deles lá nos desvãos em que se escondem. se Noel teve oportunidade de ouvi-los (como provavelmente teve). Noel tenta chegar ao tesouro por conta própria. bem sei. Por isso. desta sua capacidade para desenterrar tesouros. Francisco Alves mal o notava. Sambas melodiosos. as notas mais agudas impregnadas de nostalgia e beleza: "Eu sou um infeliz. Afinal. 119 O Destino É Deus Quem Dá.. tentando aproximarse dele. mas isso que vem assinado por estes desconhecidos compositores do Estácio. Mas os que o fizeram. mapa na mão. não muitos desses sambas chegaram ao disco. Quem primeiro descobriu o mapa desse tesouro foi Francisco Alves. Me Faz Carinhos.

Osso. "Ouviram do Ipiranga às margens plácidas. será porque os acompanhamentos instrumentais de suas duas primeiras gravações .. Não que vá fazer escola. um dos primeiros a ouvir Com Que Roupa?pronto.uma de regional. revolucionária quase. mas toda a letra de Com Que Roupa? cabe perfeitamente na música de Francisco Manuel da Silva. quando. Não tentando fazer igual a Rubem. Brancura. Com Que Roupa? é obra formalmente nova. freqüentava o Mangue e seus cafés onde se ouvia música ao vivo. Pode ser. Baiaco. Salgueiro. está o Estácio. ou seja. Mas tio Eduardo. Plágio? Evidentemente que não. dificilmente não perceberia a semelhança.. Com Que Roupa? nasce perfeitamente identificado com os arrojos formais dos sambas do Estácio de Sá.. estabelecer modelos. Noel. Ismael. ousaria tanto. Oswaldo Cruz. sílaba por . Distração? Pouco provável. através do que para lá têm levado Canuto. colado ao Mangue. nem mesmo o mais desfaçado. Nenhum compositor.. chegado o momento de romper com o modismo das coisas nordestinas para levantar vôo em forma de samba. levado ou não pelos sambistas do Estácio de Sá?6) De qualquer modo.ainda estarão muito afinadas pelo diapasão do maxixe. Revolucionária porque representa um começo de rompimento dos jovens compositores de classe média Noel e só depois dele o Bando de Tangarás . mas inspirando-se neles para criar seu próprio estilo. não percebe nada disso. Mas certo é que. Mangueira. é nas asas da turma do Estácio de Sá que Noel embarca. e mais adiante o Catumbi e o Rio Comprido. o verso "Agora vou mudar minha conduta. É bom lembrar que bem perto. vai morrer também. que adora solar o Hino Nacional ao violão e desde o São Bento vive fazendo paródias sobre sua melodia. Nesse sentido. E se intensificado mais tarde.". abrir caminho para que outros por ele sigam. Como não percebe que os três compassos iniciais do novo samba que o sobrinho canta. Maciste. que tais contatos se tenham dado nos carnavais da Praça 11 de Junho. Nílton. Puruca. Ramos. também. já em Vila Isabel. Mas. Coincidência? Quem acreditaria? Não é curioso que Noel Rosa retrate o "Brasil de tanga" num samba que começa justamente com as mesmas primeiras notas do Hino Nacional. quando se observa que não apenas o primeiro verso.primeiro com o pseudo-sertanejo e logo em seguida com o samba amaxixado que a partir de 4 de agosto de 1930. E que muitos habitantes do morro de São Carlos e malandros das imediações já eram praticamente "moradores" daquela zona boêmia. lugares aonde já chegou o novo samba. outra de orquestra . têm rigorosamente as mesmas notas que Francisco Manuel da Silva compôs há quase cem anos para o Hino Nacional Brasileiro. Talvez ao tempo de estudante. Se não parecerá tanto. Ou quem sabe não terá ocorrido nas constantes peregrinações do jovem compositor a bairros e morros como Madureira.ter acontecido de muitas formas."? Ou terá sido intencional? Quem sabe Noel pretendeu mesmo fazer esta citação quase literal à melodia do Hino Nacional? A resposta há de morrer com ele. quando morre Sinhô. Noel deixa-se seduzir por ele muito antes de os outros tangarás despertarem de seu sono nordestino para a realidade da autêntica música carioca. sambistas que no máximo conhece de vista. financiado por colegas como o Ministrinho. gente do morro.

cobrando dez. cuidando da partitura. Mas antes que se pense na gravação é preciso passar as duas composições para a pauta e levá-las ao editor. entre suas várias atividades musicais. torna-se ainda mais provável a hipótese de que as coisas . no mesmo dia Noel. que já cuidou da sua.. recorrendo a um amigo maestro. hei de amar. E toca. E que muito possivelmente o samba nasceu como mais uma entre tantas paródias do Hino Nacional... não se sabe se pela beleza ou se pelo inusitado do som. Tem ambições maiores do que as que se confinam no campo da canção popular. Eu não quero Já jurei: nunca mais hei de amar. Um deles é Não Quero Amor Nem Carinho. e Joracy Camargo com lápis e papel na mão. principalmente revistas e operetas. entre outros instrumentos. na Bahia. Oferecimento aceito. palavras de entusiasmo. Mas não é este. Homero é um músico competente e generoso. compositor e regente de peças para teatro. onde Homero faz uns trabalhinhos por fora. João de Barro e Almirante vãojuntos à casa de Homero Dornellas. do contrário não poderá ser incluído no último suplemento Parlophon para o carnaval de 1930. João de Barro. a mais estável e bem remunerada (embora não muito) é a de pianista da Casa Vieira Machado. o próprio Homero compõe.como o próprio descobrimento do Brasil .. alterando a melodia e mantendo apenas a citação do primeiro verso.não aconteceram por acaso. este meu amigo escreve o seu samba também. É preciso andar depressa para que o lançamento se faça ainda em dezembro. pelo menos. O Bando de Tangarás tem apenas um disco para gravar na Odeon até o final de novembro. Hoje. Homero chegou a obter sucesso com o arranholino em festas e recitais em que se apresentou. de João de Barro e Canuto: 120 Amor. na Rua Torres Homem. mais do que aprovação. simples caixa de charutos sobre a qual adaptou uma única corda de violoncelo que emite bizarro som quando sobre ela se faz deslizar um arco de violino. o violoncelo. Homero no piano. em cima da qual Noel teria retrabalhado. O samba bem pode ser o carro-chefe dos tangarás nas batalhas que se aproximam. o caso de Noel Rosa: Com Que Roupa? não é um simples rascunho e sim uma obra plenamente acabada. vinte mil réis por um serviço que sairia bem mais caro na editora (a comissão do Vieira ..sílaba. peças de câmera.Se você quiser. obras dramáticas. o arranholino. no Amazonas. O outro lado será Com Que Roupa?. Ou.. evidentemente. Na casa da Rua Torres Homem. oferece a Noel: . onde desde o ano passado substitui o jovem e talentoso compositor gaúcho Radamés Gnattali na função de passar para a pauta as canções populares daqueles que não sabem escrever música. no Rio. parece. recebendo. Carinho. Filho de Sophonias Dornellas. É o inventor de um curioso instrumento. o primeiro do conjunto. nota por nota. Sonha em escrever poemas sinfônicos. Os dois lados do disco são logo definidos. são pagos por seu Ernesto para realizarem muitas vezes o milagre de transformar em algo editável os rascunhos que compositores incultos lhes trazem. que Noel mostrou a todo o conjunto. caprichando na parte literária.

Com Que Roupa? vai para a pauta. Noel indaga. De início Homero concentra-se mais no jeito de o rapaz movimentar a boca mastigando um palito de fósforo como se a disfarçar o queixo torto . coloca o pentagrama na sua frente e pede para Noel repetir do começo. ao que talvez seu compositor desejasse. as primeiras notas invertidas pelo maestro. .do que propriamente no samba.Antes que vocês se fossem. As vezes ocultos pela proposta tímida de um compositor modesto como Homero Dornellas: . menos parecido com o Hino Nacional.. Querem ouvir? 121 João de Barro. .Ora." Homero mostra no piano como a linha melódica sofre ligeira alteração. Além de proibir. mas as notas lhe ficaram na cabeça desde aquela . há umas coisas aqui que não estão me agradando: "Agora vou mudar minha conduta. . mas pára: . Homero faz uns acordes no piano. fugindo à semelhança com o Hino. temos doze notas na escala cromática. Vamos inverter algumas notas desta primeira frase.Noel. prepara-se para escrever as primeiras notas. Depois. Muito simples..Este rapaz aqui fez um samba interessantíssimo. seu conhecido desde as festas do Clube Progresso da Fábrica Confiança. oblíquo.Essa música não pode ser publicada . logo em seguida. agora em sua forma definitiva. o maestro é apresentado aos dois amigos de João de Barro. gostaria de lhes mostrar um samba que comecei a escrever. E nós queremos lançá-lo para o carnaval. cujos dedos compridos escorregam pelo braço do violão enquanto canta. Só que a música popular. tímido mas afinado: Agora vou mudar minha conduta. Homero. Almirante e Noel concordam em ficar mais um pouco para conheceren o refrão que Homero diz ter escrito a partir de um toque de corneta ouvido pela primeira vez quando ele servia a bordo do navio Poconé. sujeito muito brincalhão que costumava levar o instrumento à boca. Noel canta o samba mais uma vez. "Agora vou mudar minha conduta. porém.Por que não? . como um dos soldados das tropas mandadas ao Amazonas por ocasião do movimento armado de 1924(7). o cabo Clodomiro Marins.. Assim..Com sete notas simples e cinco alternadas. como a própria História. Com isso a gente faz o que quer..Porque isso não é samba.interrompe Homero. Não é permitido fazer brincadeiras com o Hino Nacional. Homero senta-se ao piano e pede que Noel cante o samba.E agora? . Os homens da censura não vão deixar.tranqüiliza-o o maestro. gritar para os companheiros: "Na Pavuna.. . O navio tinha excelente corneteiro. Noel obedece. Depois de breve silêncio. soprar um sol-sol-dó-dó e. agente dá um jeito . é o Hino Nacional Brasileiro. a caminho de se transformar num sucesso do carnaval de 1930. tem seus caprichos." Repete isso. seus filhos da puta!" Homero nunca entendeu por que o Marins dizia aquilo.Machado é sempre muito gorda). meio assustado: . Fica observando o rapazinho mirrado. podem até te prender.

isto é. tratando-se de música popular. um dos dós na oitava de cima. Lá chegando. Na Pavuna. si-si-mi-mi. diz: . Ninguém pode imaginar que o refrão vaise transformar numa espécie de marca registrada.Foi idéia dojoracy Camargo. outro grave. sol-sol-dó-dó. não de Homero ou Candoca. aqui mesmo. E é como tal que ele trabalha com Almirante.explica Homero. . Concorda em tornar-se parceiro de Homero.época. Já na casa dos parentes da noiva. Este. é impressionante. numa folha de jornal improvisou um pentagrama e sobre ele anotou o esboço de melodia. constatou que a Pavuna citada por Marins era um bairro deserto. Almirante! NOTAS . cuja antevisão das coisas. como compositor popular. mas carnavalesco. na 122 presença de João de Barro e Noel. Um pseudônimo sonoro e curioso : Candoca da Anunciação. . mas ele me provou que reiúna ficaria melhor que turuna(8).conta ele aos três tangarás . O líder dos tangarás é persuasivo. E ficam todos ouvindo Almirante defender que deve ser seu e de Candoca da Anunciação o outro lado do Não Quero Amor Nem Carinho. nem a construção do segundo verso. a viagem de maria-fumaça pela linha auxiliar. sempre consegue o que quer. Mudou-o para si bemol.. Acho que o Com que Roupa? vai ter que esperar até o outro carnaval. uma longa jornada até o local da festa. . aquele a quem cabem todas as decisões. Simples. que afinal é o líder dos tangarás. um mi agudo. por achar que com nova cor o resultado seria melhor. Não lhe agrada essa história de "reiúna".Mete a vela.. prefere ocultar-se atrás de um pseudônimo.Porque este vai ser o carnaval do Na Pavuna. Em minutos chegam ao resultado. Mais do que isso. é gíria de soldado . explica aos tangarás que. sem saber por que. subitamente entusiasmado. Tem um samba que só dá gente reiúna.indaga Noel surpreso. Noel encerra o assunto com uma simples frase: . .Quanto a reiúna. Agora quer ouvir a opinião dos três. a ida de bonde até a Leopoldina.. repete a melodia e acaba convencendo Almirante de que o refrão tem força. Minha letra dizia "gente turuna". o outro na oitava de baixo. O refrão tem mesmo força.. na segunda parte do samba. Almirante está convencido. Nasceu assim o refrão de Na Pavuna: Na Pavuna.. começou a cantarolar as quatro notas.foi convidado para um batizado na casa de parentes de sua noiva. Mas Homero volta ao piano. Por isso. sol-sol-dó-dó. seu autor.. Não gostaria ele de fazer a letra da segunda parte? Almirante hesita. mas de Almirante. por suas ambições de chegar às salas de concerto como "músico sério". atrasadíssimo. Ensinaram-lhe o caminho. justamente no subúrbio carioca da Pavuna. E ele antevê o êxito do novo samba. Principalmente a de Almirante. E. Noel. como líder do grupo.Por quê?. é fácil de pegar. Um dia .Olha.

o verdadeiro mérito de Pelo Telefone. Parece ser mesmo este . 2.o Quê. Ajudar no sentido de divulgar. Só que Noel o fez primeiro. Diz Ismael Silva a Sérgio Cabral. Murce conta como vários outros novatos . "bota reiúna".Depoimento de Hélio Rosa a Jacy Pacheco. hoje em desuso. Em entrevista aos autores." Os sambistas do Estácio. 8. aparecendo pelas casas de música. Afinal. O pessoal do Estácio era sempre convidado para ir a todos esses lugares. no sentido de "pregue-lhe uma peça". com uniforme do São Bento. era uma forma abreviada de "mete a vela no rabo dele".e 23). nascendo ou não ali. por onde Homero viajou muito.é um tipo de espingarda curta do Exército. "farda reiúna". parecia ruir. na época. Nós tínhamos muito prestígio na época. "faça-lhe uma ursada". . na verdade. em Paulo da Portela. O Brasil . foi exatamente esta a expressão usada por Noel. Já afetado por crises anteriores. 9. Renato Murce lembra-se de Noel Rosa. Lembra o maestro que "mete a vela". lançando aquele país na maior depressão de sua história e o mundo inteiro numa grande crise econômica. contam: "Todos os fundadores da Portela por nós inquiridos foram unânimes em afirmar que foi o pessoal do Estácio que levou o samba para Oswaldo Cruz. nós ajudávamos bastante. No Rio. alguns outros sambas chegaram ao disco antes dele. no sentido de farda ou bota militar. Mais para o norte do Brasil.sofria então um duro golpe. e não. Foi nesse clima que Noel Rosa decidiu caricaturar musicalmente o "Brasil de tanga". Citado por Sérgio Cabral em As Escolas de Samba . Segundo Homero Dornellas." Marília T. em 1927 ou 1928. 4. e o Francelino em questão seria o Ferreira Godinho. A Mangueira também. espalhou-se. tinha pelo menos dois significados. Foi em 29 de outubro de 1929 que o crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque pôs fim à prosperidade que os Estados Unidos conheceram no pós-guerra. mais pobreza. promover. em longos depoimentos aos autores. Reiúna . O samba teria sido cantado pela Deixa Falar no carnaval de 1929. Traço de União Entre Duas Culturas (página 70). Compreende-se que a troca de informações musicais se desse rapidamente.eram desdenhados pelo cantor. como tanto se tem repetido. tentando aproximar-se de Francisco Alves e outros nomes já famosos da música popular. op cit (página 28): "Nós ajudávamos muito a Portela. Ainda uma vez a chamada Revolução Paulista de 1924. "mete a cara". incluído por este em Noel Rosa e Sua Época (páginas_ 36 e 37).e não "reúna" como tem sido comumente escrito .que desde os primeiros dias daquele mês se via às voltas com problemas cafeeiros (a supersafra levara os produtores a reter 10 milhões de sacas na esperança de manter os preços) . queria dizer "vá em frente". O samba do Estácio e vizinhanças. circulavam muito. o de ter sido o primeiro samba gravado. 3.segundo opinião defendida por Jota Efegê em conversa com os autores . 5. Quando e Por quê? (páginas 22. Barbosa da Silva e Lygia Santos.entre eles Ary Barroso .1. Cedo ou tarde Noel e os outros rapazes de classe média de Vila Isabel teriam de tomar conhecimento dele. ligada ao "tenentismo". Na verdade. O termo também era empregado em relação a tudo que dizia respeito aos soldados. 7. 6.. mais dificuldades. Quem. deixava a seu povo perspectivas sombrias. Como..

comem. aberto para quem quiser entrar ou sair. param. cantam um sucesso do ano. cercados por um cordão de isolamento. Um dos estribilhos mais famosos do bloco é feito por Canuto: Vou à Penha rasgado Pra pagar uma promessa Deixei de ser malandro Pois eu tenho trabalhado Vou de chinelo charlotte E terno de cimento armado. Por ele desfilam homens do povo.. param outra vez. Um deles é o Cara de Vaca. só resta a Noel brincar com as melodias dos outros. É bem mais democrático. o Faz Vergonha. sambas como Na Pavuna e Amor de Malandro. Malandro Medroso Já que não tem samba ou marcha de sua autoria para cantar neste carnaval. assim por diante. mesmo. Os foliões dão início ao desfile. bebem. com os improvisos do Faz Vergonha. ou simplesmente Taí. É um bloco organizado. Sai na manhã do domingo de carnaval para um desfile que às vezes só acaba no meio da tarde.e assim será por mais alguns anos-a tarefa de improvisar versos. carregado de comida e bebida. Candinho. Se quiser cantar o que é seu.. Já o bloco rival. novas degustações. nas proximidades da Fábrica Confiança. como Antenor Grande. e rapazes que vêm do outro lado do Boulevard. Gude e Canuto. uma vez que cabe a ele . Noel é figura de destaque no Faz Vergonha. Piscalhada. sem cordão de isolamento. Se a polícia consentir E se Deus quiser. dividida com Lauro Boamorte e Paulo Anacleto. marchas como a premiada Dá Nela e a contagiante Pra Você Gostar de Mim. formado pela turma da Souza Franco mais para o lado da Torres Homem. seguem em frente cantando outro sucesso. e um caminhão atrás. o bloco a que Noel pertence parte de um estribilho original. O desfile do Faz Vergonha difere do do Cara de Vaca principalmente por isso: enquanto o outro sai cantando sucessos do ano. Além de dividir social e economicamente a comunidade do bairro.1 125 . Pois é o que a fiota tem dado. composto por um de seus integrantes. Moças e rapazes na frente. o Boulevard também estabelece a fronteira que separa os dois grandes e sempre rivais blocos de Vila Isabel. e em seguida os improvisadores criam versos para a segunda parte. que começa a transformar numa estrela a novata Carmem Miranda. surgiu na Rua Maxwell. mantido em parte pelo dinheiro do Lourenço e de outros cidadãos ligados ao jogo do bicho. como os irmãos Boamorte.123 DO FAZ VERGONHA À MALANDRAGEM Capítulo 13 Se o jogo permitir.. Noel terá de se contentar..

Sizeno Sarmento. criando-as na hora. suas baterias. batom. na memória de todos. nem mesmo Noel. Seus improvisos podem não ter a inventiva dos de Noel (ou o acabamento dos âue o Lauro vai buscar onde pode). o Decididos do Engenho Novo. começou do nada. O pai. os Boamortes. Antes. autoridades. definitivamente. artistas. é bom que se explique. negro do Salgueiro. Homem de valor. Em outras será possível detectar rimas. Hélio. geralmente cinza. que o "improvisador" Lauro pediu emprestados à literatura de cordel e outras fontes que nem todos no Faz Vergonha conhecem. sapato alto. Na arte de improvisar. Noel Rosa é insuperável. Pena que se venham a perder. rouge. simpático e expansivo. de muitas leituras. entre Justiniano da Rocha e Hipólito da Costa. tão ao gosto do carioca. endurecidos pelo excesso de goma. venceu preconceitos contra a cor de sua pele. os Farias Lima. o velho Elpídio. fita na cabeça. quando não versos inteiros. Lauro traz as suas idéias de casa. Arnaldo Amaral. ou melhor. excelente tamborim. em pleno curso do desfile. rapazes de classe média que. Há quem diga que a expressão "balançar o coreto". como o Faz Vergonha. Paulo e seu irmão Manuel. as opiniões ainda se dividiam. Paulo Anacleto impressiona mais pela quantidade. blocos de outros bairros que ali vão com suas fantasias de sujo. com um fôlego tão impressionante que ninguém. cor de cimento. Aloysio e mais nove . Moço inteligente. Em algumas ele trabalha dias. havendo muita gente que achava Lauro Boamorte tão bom ou melhor que Noel. Aos filhos . consegue acompanhá-lo. os versos por ele criados durante os desfiles do Faz Vergonha. não importando qual seja o mote. seus sambas (nem todos passam. O pessoal costuma chamar o palanque de "coreto".deu-lhes boa educação. nasceu num desses desfiles. imagens. Eles. de brim barato. saiote. Vai-se descobrir mais tarde que enquanto Noel improvisa suas segundas partes para os sambas do bloco. personalidades do bairro. encaminhou-os na vida. é do tipo que os cidadãos mais pobres usam. Lauro não é o melhor versejador do Faz Vergonha. o Cara de Vaca. os Barros Nunes. no Boulevard. de ter um dos blocos perdedores virado . Um palanque de madeira é armado no cruzamento do Ponto de 100 Réis. mas jorram e uma fonte realmente inesgotável: ele é capaz de passar horas versejando sobre um mesmo tema.Lauro. Desfile competitivo como um dia será o das escolas de samba. tornou-se alto funcionário do Ministério da Fazenda e vai acabar tendo rua com seu nome nas imediações da Praça da Bandeira2. antes do carnaval.O terno em questão. chegado o carnaval. intelectuais. O desfile de blocos é um dos pontos altos das batalhas de confete do Boulevard. Diante dele passam o Faz Vergonha. improvisando a partir de um refrão original) . Nele fica a comissão julgadora integrada por cronistas carnavalescos. Mas. vestidos de sujo. Antônio Nássara. ensinou-lhes a apreciar música e poesia. Armando Reis. fazem parte da ala mais "familiar" do Faz Vergonha. semanas. confundem-se na folia com modestos homens do povo como Canuto. Lauro é um dos que mais pontificam nas famosas reuniões líteromusicais que se realizam em sua casa. é um dos mais conhecidos e estimados moradores de Vila Isabel.

um contumaz fazedor de vergonha: basta que não obtenha a preferência da sempre suspeita comissão julgadora para que seus componentes mais exaltados balancem o coreto. Como o Martim José Dionísio. embora no Faz Vergonha realmente existam alguns valentes da melhor linhagem.um belo dinheiro . sejam os que se armam para as batalhas das Ruas Dona Zulmira e Santa Luzia (estas. Martim derrotará o campeão. tranqüilo 126 como sempre. ou eu boto esta bosta abaixo!" De noite. mãos imensas. Com os 500 mil réis. Noel inclusive. calmo. o corpo coberto de curativos. irá vê-lo lançar-se à empreitada na matinée de domingo. o urso ainda meio distraído com a gritaria do público. quase mandará a nocaute o peludo e corpulento adversário. braços volumosos. feliz da vida. compadre. Martim vai entrar no picadeiro. que o nome Faz Vergonha vem justamente de ser este grupo de foliões -ao qual pertence Noel . E há quem diga. mas vitorioso. cerveja para todos no Martinez. Para exasperação do gerente da empresa. O mais comum. Toda Vila Isabel.a quem resistir a um roundde dez minutos com o tal urso. não tem amor à vida? . Quinhentos mil réis! É pensando nas coisas que faria com o prêmio que ele vai se candidatar a medir forças.Que é isso. o vencedor do urso estará pagando.de pernas para o ar o palanque e a comissão julgadora que cometeu a imprudência de dar o prêmio ao bloco rival. as mais concorridas da cidade). O gerente da empresa pagará 500 mil réis . . no centro do picadeiro. fazê-lo estremecer. trocará murros com ele. porém. também conhecido por Martim Adeus Ó Colo. incapaz de perder a calma mesmo quando eventualmente algum desavisado o provoca. que chegará a pensar em não pagar o prêmio: "Você pegou meu urso distraído!". Em toda a sua vida só uma vez será ele o desafiante em vez de desafiado. Sempre falando baixo. com o urso campeão. também. é claro. seja o do Boulevard. lhe aplicará uma gravata.limita-se a dizer. Sairá todo mordido e arranhado. Martim não provoca ninguém. talvez não ganhe tanto por mês. sempre agarrado ao mastro. avançará para o animal. Martim vai envolver com seus braços massudos o mastro que sustenta a lona do circo. Como se passa no dia em que um jovem aluno da Academia Militar aparece no Ponto de 100 Réis com ares de valente: . dirá. vindo de Minas Gerais para servir de guarda-costas de políticos seus conterrâneos. forte como um gorila. cairá em suas mãos um folheto de propaganda informando que uma das atrações da companhia é um urso campeão de luta livre. No dia em que o Circo Barthô se instalar no terreno baldio da esquina de Justiniano da Rocha com o Boulevard. Mas há pinceladas de exagero nestas questões etimológicas. O gerente de olhos arregalados. gritando: "Ou me paga. é ser ele o desafiado. hoje e por mais alguns anos ainda. balançá-lo de um lado para outro. Grandalháo. calma recuperada. Mais do que resistir a um round. o público de respiração suspensa e Martim. Sem discutir. Martim. mas uma dama. E assim que se abrir a jaula.

Nem de polícia. deixando o provocador ainda mais humilhado que o urso que ele quase mandou a nocaute. quinze minutos depois o rapaz volta acompanhado do Martim José Dionísio. Candinho. diz com o tom de voz baixo. os irmãos Walter e Affonsinho. Pedro Pé de Banha. alguém pro senhor pôr à prova. Está confiando em quê? Na força ou na farda? Mas já que ele quer mesmo arranjar briga. Hugo. Adeus Ó Colo. ó Colo!" E só voltou na quarta-feira. sempre preocupado em afugentar os caprichos do azar. Uma tarja preta tingirá o estandarte do bloco no carnaval seguinte. invadirá o Palácio Guanabara disposto a tirar de lá ninguém menos que o Presidente da República. e gritou para ela: "Adeus. capoeira ou algo que tenha aprendido lá na Academia Militar. não tem medo de nada. Jurema Bola Sete. Uns dez. Martim ouve calado. Vim sopra ver se é verdade. arma em punho. brando. O apelido acabou se convertendo em expressão muito usada pelos cariocas destes e dos próximos tempos(4).. Gostaria de pôr à prova o melhor de vocês. Especialmente os do time de futebol do Sport Club Aldeia. baterá com a cabeça numa pedra e quebrará o pescoço. Temidíssimo. o bloco passando pela porta de sua casa. Figa de Guiné e as demais figuras de proa do Faz Vergonha Antenor Grande. homem responsável por ela vai morrer esquecido e não propriamente como um valente: ao dar um mergulho na Praia das Virtudes.Que vergonha. sempre de navalha na cintura. Só do Martim. Um cadete alto. baixinho. bem apessoado. atlético. desfilando pelo Faz Vergonha. Aqui é tudo de paz. desses que adoram uma confusão. mesmo. O jovem cadete vai desaparecer do Ponto de 100 Réis. Piscalhada. São muitos os valentes de Vila Isabel.Não. Canuto. Bonito. . sem se impressionar com o tamanho do outro. Heitor Barrigudinho.Olha. Colo. querendo perturbar a ordem. a dizer que não acredita muito nos seus músculos. Severo Fournier. mas não muito. mas continuará pensando que o país é seu. Mas os dois são amigos e se tratam respeitosamente pelos respectivos apelidos. Archete. Culé. ele viu na janela a mulher. Num certo sábado de carnaval. como o Leonardo Figa de Guiné. o cadete. Que vergonha! Tá pensando que o país é seu? E se afasta com os passos lentos.Tem gente boa de briga por aqui? pergunta a um dos rapazes da esquina. gente boa de briga não tem por aqui. será lembrado por isso(3). O Leonardo deve o seu a andar com uma figa em cada bolso. Mas posso lhe trazer. não. coisas assim. moço! Um futuro oficial do nosso Exército amofinando gente pacata. que briga se ganha com inteligência e não com força. Um dia. jiujitsu. pesados. E quando o cadete finalmente o chama para um ajuste. Seu nome. agora mesmo.. quase sussurrante: . O rapaz da esquina logo nota que o jovem cadete é um provocador. Forte. Na certa luta boxe. amigo. Mas os forasteiros não se iludam. . João Pelanca. craques de futebol (o segundo ainda chegará ao . -Mas ouvi dizer que Vila Isabel é terra de decidido. o rapaz da esquina resolve fazer-lhe a vontade. gordo. O cadete se anima. Gude. Mal são feitas as apresentações. Carrão. nem de malandro. põe-se a desafiá-lo. O do Martim tem origem menos conhecida. Salvador Cara Larga. amigo.

fantasias. Manuel Lino. João de Barro 13 e o violão de Henrique Britto uma. Henrique Vogeler. independente. em agosto de 1931. Não há como explicar tal demora. Mário Faccini. na Rua Maxwell. uma cena junina de João de Barro. até maio de 1933. de dezembro a fevereiro. só no décimo oitavo disco dos tangaràs Noel terá uma composição sua gravada por eles: Eu Vou Pra Vila. Anedotas e Galo Garnizé?.scratch nacional) . Canuto. De maio de 1929. João de Barro. Henrique Britto e até de gente de fora como Erasmo Vollmer. Lamartine Babo. Jota Menra. continuam gravando composições de Almirante. Discutem sambas. E só no vigésimo nono. Agora. cabendo a Almirante solar 3 3. para traçarem planos com vistas ao carnaval. a maioria de autoria de Almirante. em frente à Piza de Almeida. animadas. Quem tiver oportunidade de acompanhar com atenção os suplementos Odeon e Parlophon dos próximos dois anos poderá confirmar o quanto serão menores os papéis representados por Noel Rosa e Alvinho dentro do conjunto. O mesmo se pode dizer em relação ao cantor Alvinho. o cabeça do grupo. irrigadas com cerveja ou cachaça. um ano e dois meses depois de Anedotas e Galo Gamizé. Alvinho. E quanto ao cantor Noel Rosa? Até que seu nome apareça no selo de um disco do conjunto. Conferências longas. Isso já em agosto de 1930. e que o pessoal do lugar chama de "Ponte". Brant Horta. quando entrarão no estúdio da Odeon para gravarem. nem isso. por iniciativa própria(6). Os primeiros passos dessa breve mas intensa carreira fonográfica deixam a impressão de que é apenas o violonista e não o cantor ou o compositor Noel Rosa o que conta para Almirante. é a faixa de paralelepípedo que cobre o rio Joana. Por quê? Não gosta Almirante da voz de Alvinho? Ainda não está convencido das qualidades do compositor Noel Rosa? Por que vai demorar tanto a lançá-lo? A primeira oportunidade negada a Noel foi realmente a de gravarem Com Que Roupa? já para o carnaval de 1930. os tangarás 127 aparecem em 38 discos. lhe darão chance de atuar como solista cantando dois de seus sambas: Cordiais Saudações e Mulata Fuzarqueira. Luperce Miranda. juntos pela última vez. Sua carreira como cantor terá de se fazer fora do conjunto. quando estrearam na cera com um cateretê e uma embolada de Almirante. Luciano Meirelles. que volta e meia contam com a presença do jovem folião Noel Rosa. a dama da alta sociedade . Por exemplo.reúnem-se quase todas as noites. As restantes serão distribuídas entre solistas ocasionais como Paulo Netto de Freitas. Todos estes terão músicas suas gravadas pelo Bando de Tangarás antes que chegue a vez de Noel. O local dessas conferências que entram pela madrugada. os tangarás retomam suas atividades de meio de ano. estandartes e estratégias a serem seguidas pelo bloco nas próximas batalhas e no desfile de domingo. 73 faixas. Homero Dornellas. este já terá gravado nada menos de 54 faces. a folia fica para trás.

às vezes até um tanto mal-encarados. aquela história de a maioria dos amigos de Noel nada ter a ver com os amigos dos demais tangarás. um recital. O primeiro está em ser mesmo Almirante. portanto. tornando-se sempre melhor com o passar dos anos. o pessoal do Faz Vergonha e até uns tipos que ninguém conhece. Na Pavuna foi mesmo uma das músicas mais ouvidas no último carnaval. ótimo numa embolada. Um cantor que vai aprimorar cada vez mais sua técnica.Este filho de dona Martha só vive metido com gentinha. que seja sua a maioria dos solos. a agilidade vErbal que o permite pronunciar perfeitamente cada sílaba.e pela primeira vez . O segundo dado é o jeito desgarrado de Noel. Bom em quase todos os gêneros. negros. contando sempre com numerosos "adendos": Luperce Miranda. mas muito também pela originalidade do acompanhamento. O cantor Noel Rosa? A não ser por uma discreta participação em Lataria. a delicada Elisinha Coelho e os humoristas Pinto Filho e Maria Vidal. o melhor cantor dos cinco. uma gravação. a musicalidade. imbatível num samba-choro. mal-vestidos. pobres. Formiga. Puruca. Almirante levou para o estúdio .instrumentos de percussão típicos de blocos e escolas de samba. aquele temperamento de não pertencer exatamente a nada ou a ninguém. É como dizem os vizinhos ao vê-lo entrar e sair do chalé com Canuto. Dornellas. longe. Isto é. A voz estridente mas clara. Muito pelo refrão (em cuja força Almirante fez bem em apostar). Almirante. compreende isso. Canuto e tantos outros. Não se parecem. até que os tangarás lhe dêem vez como solista. terá mesmo de esperar dois anos e dois meses. mesmo nas músicas mais ligeiras. Noel tem uma incontrolável tendência às más companhias(7). tudo isso fará dele um dos mais completos intérpretes de música popular brasileira. os tangarás seguem sem ele. Se tal acontece. sozinho.Lucilla. Almirante já havia ousado algumas inovações na gravação de Na Pavuna. Como diz Almirante. um samba à antiga que de novo só tem mesmo o acompanhamento: além do bandolim de Luperce Miranda e do piano da garota Carolina Cardoso de Menezes8. pois de quinteto mesmo o conjunto só tem o ponto de partida. sua exata noção de ritmo. Daniel Simões. Lamartine Babo. inclusive o de Renato Murce. o surdo e os 128 . o padeiro Cobrinha. É natural. E sendo sempre ele mesmo. com toda sua autoridade de líder. O terceiro dado são ainda as "esquisitices". incumbindo os negros Canuto. sendo tanto dos tangarás como de outros conjuntos. nenhuma afinidade guardam com os bem-comportados moços de Vila Isabel. brincadeira sonora em que cada um deles cantará uma quadrinha. Até porque há sempre quem o substitua. como dizem enfim os vizinhos: . livre. desde Anedotas e Galo Gamizé. Já essa outra demora explica-se a partir de três dados indiscutíveis. não se zanga quando Noel não aparece para um ensaio. Sérgio Brito. vindos de só Deus sabe onde. Erasmo Vollmer. Puruca e Andaraí de executá-los.

cada um dos tangarás terá de cantar uma quadrinha alusiva à lata que lhe caberá bater na marcação do ritmo. aos vinte e poucos anos. chorosas como a valsa Tristeza. quando lhes passa pela cabeça uma brincadeira sonora. fados. mais aberta. maxixes. dono de uma respeitável obra pianístíca nos moldes das de Ernesto Nazareth. banha. de Vila Isabel à Rua Almirante Barroso.. havendo nela lugar para tudo. múltiplo. samba do'próprio João de Barro. Almirante e João de Barro vão de bonde. E o que dizer destas obras-primas que são Do Sorriso da Mulher Nasceram as Flores e Despertar da Montanha. após uma breve volta às emboladas. Que tal usarem no disco. alegre. infelizmente. manteiga.. a associação dos tangarás com a batida dos morros será um episódio isolado. substituindo os verdadeiros instrumentos de percussão. evidentemente. bloco carnavalesco que fez furor em 1923. Clássico. tanguinhos. etéreas como Nuvens. nostálgico. charlestons. Um paulista surpreendentemente carioca. Nascido em Santos. querosene. Reflexo de seu próprio temperamento. ragtimes. Pois foi ele o responsável pela organização do já histórico Tatu Subiu no Pau.Souto já era. creolina. o conjunto se lança a outra ousadia. a exemplo de muitos jovens de família como a sua . não repetido. toadas. Em cima de um estribilho que os dois compõem durante a viagem. escritas no mesmo piano em que foi composto . música mais ligeira que se ouve em festas e saraus . sambas. orquestrador e regente. Músico extraordinário. o múltiplo Eduardo Souto é capaz também de compor melodias apaixonadas. nada menos do que toda sorte de latas velhas que encontrarem no primeiro monte de lixo do Centro? Latas do que for. o próprio maestro compondo a marchinha que toda a cidade cantou nos três dias: Tatu subiu no pau É mentira de vancê Lagarto ou lagartixa Isso sim que pode sê É um choro à moda carioca o seu Parati Dançante. Mas a vontade de inovar sempre mais vai levar Almirante a outras experiências. rico. Mas. cateretês.tamborins levando ao disco uma marcação e um repinicado não conhecidos dos estúdios de gravação. fox-trots. ora extrovertido. cujo subtítulo está muito mais para Noel do que para Almirante: "Na Favela e demais zonas congêneres não se usa o chá como estimulante para as danças.que começam com Chopin e acabam mesmo desaguando nas valsas brasileiras. schottisches. de modo que. Assim. em vez do surdo e dos tamborins.. Almirante e João de Barro entusiasmam-se com a própria idéia e a levam ao maestro Eduardo Souto. voltada para várias frentes. valsas e canções. polcas. ora soturno. Já que não temos pandeiro Para fazer a nossa batucada Todo mundo vai batendo Na lata velha e toda enferrujada . tangos de salão." E no entanto. ser humano fascinante. lá começou a estudar piano. Dizem que descende de nobres. valsas. pianista.. A Odeon e a Parlophon já não são as mesmas desde que assumiu a direção artística da Casa Edison este estupendo compositor. Chiquinha Gonzaga e seu coestaduano Marcello Tupynambá. sem idéia do que gravarão do outro lado de Mulata. sua música é arte de muitas faces. inclusive uma regravação de Anedotas. choros. nos choros. marchas. neto de um certo Visconde do Souto. Só que mais ampla. chulas.

este 129 batucando num penico.Pandeiro. Mas que pandeiro? Souto intervém: . Instrumentos metálicos. atento a tudo. Eduardo Souto já está perto dos cinqüenta anos(9).Isso mesmo! Vamofazê a batucada de lata veia! Seguem-se o estribilho em coro e depois as quadrinhas cantadas. Importante. gravará outras experiências sonoras. minha menina. com os tangarás. vamofazê uma batucada? Ao que João de Barro responde: . Bem vestido. Escuta bem pelo som E depois vocês me digam Se o instrumento é bom Não se pode dizer que o produto sonoro de Lataria tenha sido dos melhores. líricas canções. E ele mesmo participa da brincadeira colocando sua voz no disco. no mínimo. Basta dizer que o mesmo folião que saiu de sujo naquele bloco de 1923 é o homem elegante e bonito que há anos vem atraindo moças suspirantes à Casa Carlos Gomes. Quadrinhas improvisadas no estúdio. É. Vai-se dever muito a isso a riqueza dos catálogos Odeon . aqui. no 153 da Rua do Ouvidor.Vambora. Antes de o conjunto entrar com o estribilho. Porque fiz o meu pandeiro De lata de querosene Ando bem desinfetado Só porque. nada! Lata veia taí à beça! Novamente João de Barro: .Como é. Mas. brincalhão. cateretê que Mário de Andrade inclui entre suas peças populares prediletas? Fascinante sob todos os aspectos. contudo. uma precoce mecha branca a matizar-lhe a cabeleira bem penteada. é que esta abertura de Eduardo Souto para novidades musicais. será valiosíssima para a música popular. ainda que em tom de brincadeira como a que Almirante e seus tangarás acabam de gravar. não é nada disso. Instrumentistas que ainda têm muito a aprender com Canuto e sua gente.franqueará os estúdios a muita gente nova e talentosa. estridentes. Instrumentos e instrumentistas fazem pouco mais do que barulho na cúpula do Teatro Phoenix. por Almirante. os sambistas instintivos até aqui marginalizados da música como profissão. pessoa. ele próprio gostando de ousar . dona Irene.o saltitante Viradinho. Noel. bastante inferior ao obtido com Na Pavuna. Como diretor artístico-homem sem preconceitos de gêneros ou estilos. apoiará artistas como Almirante em suas iniciativas de trazerem para o disco a percussão dos morros. mas tem o espírito tão jovem quanto o dos rapazes de Vila Isabel. homem transitório. pela ordem. Fabriquei o meu pandeiro De lata de creolina Escuta bem. minha gente. e sim um músico divertido. o maestro Souto faz bater mais forte muitos corações. para ouvi-lo tocar no piano românticas valsas. Neste 1930. que se entusiasma com a idéia da batucada de latas que Almirante e João de Barro trazem para a nova gravação do grupo. alegre. Um barulho que os incipientes recursos técnicos das gravações de agora só vão acentuar. Alvinho e João de Barro. com efetiva participação de Noel(10): Para poder formar no samba Para entrar na batucada Fabriquei o meu pandeiro De lata de goiabada Sai do meio do brinquedo Não se meta. há um pequeno diálogo iniciado por Almirante: .

Em 1930 Noel Rosa é ainda um principiante. um compositor inexperiente. quase totalidade das obras que se seguem a Com Que Roupa?. registrando todos os gêneros.é lúcida. Mamãe é assim: tudo que faço acha ótimo. um tema. trata de desenvolver logo seus próprios esquemas de fazer música e letra.Já ensinei afazer sambas. à minha mãe.Tem rasgado muitos? . não repetir o que os outros já fizeram. O que talvez explique o fato de vir a ser. mesmo as aparentemente mais inviáveis como Lataria ou as confessadamente mais primitivas como as ouvidas nos terreiros de macumba . E nasceu de sua velha intimidade com a arte das paródias. Se não. O Noel Rosa das entrevistas será quase sempre um artista do despistamento. um samba começado não chegando ao . embora fadado a mexer com todo o mundo que faz música popular neste país. Se não florescer hoje. Seu melhor trabalho até agora. a sua técnica? Não se deve confiar muito no que ele mesmo dirá. um gozador a mascarar suas respostas com grandes e pequenas mentiras. um campeão das segundas partes.Como você faz os sambas? Quando faz e onde? -. Noel Rosa começa a ser agora . divertindo-se ao ler no dia seguinte as fantasias que vai criando a seu próprio respeito. 130 Por saber que idéia não sendo tudo é mais do que meio caminho. Com Que Roupa?. em seguida. .Principiante. consciente. Mostro. Seguirá ele sempre por essa trilha? Adotará nas próximas composições o mesmo processo? Qual será o seu método de trabalho. Se ela gosta.as paródias.é possível observar na maioria.e será sempre . " . jamais deixará que uma lhe escape..e Parlophon nos próximos anos. daqui a uns tempos. O maestro acredita nela(11). a canção . a valsa. um ponto de partida em todo o processo de criação: a idéia. Escrevo logo a melodia no primeiro papel que encontro. Por isso. competência ou mesmo brilho.um compositor temático. guardo-o. as emboladas. agora. um inigualável complementador de obras apenas esboçadas. e ele completando-a com habilidade. rasgo-o.de abrir sempre mais os horizontes da música popular através do disco. Mas já é nítida sua preocupação com a originalidade. alguém lhe aparecendo com a primeira parte pronta. ou no maço de cigarros. tudo ou quase tudo partindo de um motivo central. Mas é necessário dizer que esta postura de Eduardo Souto . a idéia. num domingo. Passando por cima de suas primeiras produções .. à medida que se torne famoso. no Programa Casé. a toada. Dentro de um ônibus. sem experiência. formas e tendências. permanece inédito. até hoje não rasguei nenhum. A partir dessa preocupação. Para sorte dos tangarás. o choro. não se deixar levar pelos caminhos fáceis do lugar-comum. sobretudo aos jornalistas que cada vez mais o procurarão. Como nesta entrevista de daqui a alguns anos: ". que pelo menos o letrista descobre muito cedo que neste ofício de compositor popular existe como que uma chave.Há uma história muito velha e muito conhecida sobre a coruja e seus filhos. sem se afastar dela. ou numa mesa de café. A inspiração vem inesperadamente.

que produzirá nos próximos seis anos. inéditas como Saber Amar e Que Orgulho É Este?10 Mas. o melhor exemplo de seu método de trabalho . Nada tu possuis para me dar. podendo mesmo transformar um samba em dois outros tão bons ou melhores -está num esboço. e acrescenta-lhe novas segundas partes. Pois não me fica bonito Exemplar uma mulher Quem avisa teu amigo é. O banzé eu sempre evito. E quando qualquer mulher Fica sendo oferecida É pela conveniência. Editadas como O Pulo da Hora e Por Causa da Hora. música e letra. vai retomá-la amanhhã ou depois. com ligeiras modificações na melodia. ou melhor. de um facão.de como não deixa uma boa idéia escapar.fim. como fará ao revestir a história de Mardade de Cabocla com a roupagem de Quando o Samba Acabou. Idéias afins serão encontradas em outros pares de composições. Não herdaste sangue nobre E abusaste da feiúra A música é melhor que a letra. De uma ripa ainda donzela Que vai ter sua função A mulher que mais a gente preza Por capricho nos despreza Acontece sempre assim De contrastes o mundo anda cheio E a mulher que eu mais odeio É quem gosta mais de mim Tanto tu disseste que escutei Que não achas a lei dura Mas só acha quem procura E agora para ter certeza Vais provar toda a dureza Desta madeira de lei . intitulado Vou Te Ripar: Toma cuidado que eu te ripo Porque tu não és meu tipo E eu contigo não fiz fé (Podes dar marcha a ré). a ponto de desenvolvê-la. mas não chegará ao público. as idéias contidas no esboço e fazer dois sambas de um. Tudo acaba nesta vida Até mesmo a paciência. especificamente neste 1930. Nada tens para mostrar. Tu nasceste muito pobre Nem podes gastar pintura. Noel vai preferir aproveitar a idéia. Num deles mantém o estribilho acima. música totalmente diferente e letra que nada tem a ver com a original: Vivo alegre no meu barracão Não preciso de mobilia Pois toda a minha família Consta de um chicote. editadas ou inéditas. de retomá-la mais adiante.

. aceita-as. sagaz. Nada tens para me dar. Mas. para o carnaval de 1932(14).. sempre o fascinarão. inteiramente nova: Meu bem. Mesmo que não viva exatamente de acordo com suas regras. nunca. Em todas as épocas e em todos os lugares. persegui-los. se se for ver bem. seu apaixonante ainda que estranho mundo. A sociedade pode marginalizá-los. não deixará de aproveitar a idéia poética em outro samba que também gravará para o carnaval de 1932. Em tempo algum! 131 Qualquer dia morro de um acesso Só por ver o teu processo De iludir os coronéis. Nunca.. Vou Te Ripar. Qualquer dia eu perco a paciência. jamais. amaldiçoar seu modo de vida. faz sua apologia em letra de samba. gravando-a ele mesmo. Mas quem é. ganhava a vida às custas de golpes.conhece tão de perto as cores da liberdade? O malandro é livre a seu modo.. Nem tens nota pra pintura. Mas quem mais . este personagem que tanto fascina Noel? Onde vive. não me faças sofrer. Digo inconveniência E depois te meto os pés (E vou pagar vinte mil réis!) Deste a todo mundo a tua mão E teu pobre coração Mais parece uma estalagem Para salvação o que desejo É mandar fazer o despejo Pra poder descer bagagem ( Mas é preciso ter coragem!) Nada de ti posso aproveitar.A esta segunda versão Noel dará o mesmo título do esboço. O Brasil mal tinha sido descoberto e já os italianos arregalavam os olhos diante das façanhas de certo tipo de espertalháo a que chamavam de malandrino. ano que vem. nunca de trabalho. Jamais!.. Sente-se atraído por ele. Os malandros o fascinam. afinal. Não. Todo mundo sabe que és pobre. Noel ainda não tem vinte anos e já pode considerar-se bastante familiarizado com as coisas da malandragem. .. não pode ser. Não herdaste sangue nobre E abusaste da feiúra ( Pra quem é pobre a lei é dura! ) Este filho de Dona Martha só vive metido com gentinha. Tu queres ter liberdade demais. a que se deve sua fama. primeira e segunda partes. Os homens tu conquistas um por um. Vivo. o que faz. de melodia. se vai pôr de lado a melodia da segunda parte original. suas leis. o que tem de tão fascinante? O malandro.. sua gente. sempre existiu.. Sem amar nenhum. cheio de imaginação.mesmo com todas as freqüentes passagens pela cadeia .

maquininha ou mina. Sentado na sua mesa "particular" junto à porta do botequim (nunca de costas para a rua). 132 . O que vive de mulher não gosta que o chamem de "cafifa" ou de qualquer outro sinônimo. seis mulheres. vicia dados.do que ser por ele molestado. a mulher e a estia. prostituta de minestra. espada ou zinco. Sente-se orgulhoso e feliz toda vez que passa a perna num homem da lei. não explora as minas: . Se no início não lhes davam trabalho. Costuma fazer aquilo que as pessoas chamam de "viver de expediente". de samango. roubo de ramoneio. Aliás. Por respeito ou medo. elegância de estifa. E acredita muito mais na astúcia do que no batente. os morros. uma viração aqui.que a sociedade marginalizou. navalha de aço. Suas atividades são tão incertas quanto ilícitas. no seu linguajar muito próprio. raramente dá às coisas os nomes que elas têm. Definitivamente. de bêbados inconvenientes.O que eu faço é dar cobertura a elas. de policiais sem escrúpulos ou até de outros malandros. os fins de mundo. dendeca ou brilhante. Finge-se de pexote na sinuca até que o adversário se anime e suba a aposta. O profissional da estia é dos três o mais identificável à distância. Um "protetor" ativo. Sabe. aplicando-lhe apaixonadas cocas). carimba imperceptivelmente as cartas do baralho com a goma preta que escorre de um charuto marca Palhaço. bonitão. cinco. Estia é um tipo de gratificação paga ao malandro por pessoas que moram ou trabalham em sua área de influência. pederasta de indivídua. de degenerados que a maltratam.ou menos considerados pelos ex-senhores . os cidadãos pacatos acham melhor molhar a mão deste malandro . esconde na unha a bolinha que deveria estar sob a chapinha (como aquele que surrou Noel à saída do São Bento). mariposa.O nosso malandro descende do malandrino no nome e no modo de vida. Preferem se dedicar a uma destas três "especialidades" principais: o jogo. sem ofício. o malandro protege-a de clientes caloteiros. condenando-os a uma sobrevivência difícil. Confia muito mais nas próprias artimanhas. jornalista de pena. maconha de rafo. Pelo menos o trabalho institucionalizado. empurrado-os sem emprego. Trata cerveja de água benta. gente do morro de cabrito. Não tem emprego fixo nem profissão definida. E tem lá os seus motivos: em geral ele pertence a uma das primeiras gerações descendentes de ex-escravos menos afortunados . de vez em quando. como ninguém. quatro. um grande golpe mais adiante. O malandro jogador não faz fé em sorte. os subúrbios. entre outros "mil apelidos. de boas falas e atento aos interesses da protegida (inclusive. Cobertura no caso é uma espécie de proteção. para longe de sua vista. na figura do malandro. Em troca de parte da féria que ela consegue negociando o corpo. Quando não às três ao mesmo tempo. uma esparrela ali. hoje. são eles que viram as costas ao trabalho. cachaça vagabunda de infiel. revólver de berro ou cospe-fogo. a quem chama. chega a ter sob sua guarda. detesta o trabalho. Segundo diz.considerado o mais perigoso . burlar a vigilância policial.

Mas que tem bom coração. gravata. Dizem até que está pretendendo virar cantor de rádio. braços fortes dispostos a ajudar em hora de aperto .ali recebe a clientela metido num terno branco de linho 120. Eis. .e que ele gravará sem os tangarás do outro lado de Com Que Roupa?. nem parece se importar com Clara. Prefere guardar de Noel os bons momentos. A julgar por um punhado de sambas que comporá sobre malandros e malandragem. Terá muitos malandros entre seus amigos mais chegados. Hei de te dar meu carinho. Outra é o Noel de agora. não trabalha. Malandro Medroso. bacharel por decreto. Mas Clara nem liga. o que dirá a revista Pbono-Arte: "No complemento desse mesmo disco. por exemplo.é que fascinam Noel. Se os zelosos irmãos de Clara fizeram gosto um dia..inspira-se neste mundo. Falta aos encontros. sapato de duas cores ou então um confortável chinelo charlotte. medroso.a crítica não lhe fará justiça. camisa de seda (dizem que para cegar o fio da navalha que eventualmente deslizar por ela). volta com desculpas disparatadas. mesmo não sendo exatamente este o seu mundo. E fala do papel que o próprio Noel representa nele. Para Clara. Clarinha começa a ouvir em casa comentários de desaprovação ao namorado. o popular "cara de gato". um malandro de fora. puder por eles e por eles será socorrido inúmeras vezes. os melhores gestos. Uma coisa era o futuro médico. ponto de contato com um mundo que o fascina: Se um dia ficares no mundo. boêmio. mas só as seguindo até onde seu fôlego permite."15 Apesar disso.somados ao fato de que por trás da cara feia de muito malandro se escondem boas almas. aluno do Ginásio de São Bento querendo estudar medicina. Sem ter nesta vida mais ninguém. amigos leais.. Os irmãos gostariam de vê-la acabar com o namoro. Um dos sambas que criou neste 1930 . exemplo de sua preocupação com a originalidade. não faz outra coisa senão sentar-se num dos botequins do Ponto de 100 Réis ao lado de outros desocupados. Como os bilhetes em verso. peça que não se mostra companheira digna da que está do outro lado. mais interessado no violão que nos livros. Além do mais. Uma coisa era o Noel bom menino. que não estuda. Tu podes guardar o que eu te digo Contando com a gratidão E com o braço habilidoso De um malandro que é medroso. compreende-o. Ou como o retrato dela que ele mandou ampliar e recortar em forma de coração. volta e meia na companhia de tipos estranhos. fará o que. é só isso que conta. o capadócio. Onde um tem seu cantinho Dois vivem também. conhece-o bem.e um notável auto-retrato . Outra. Todos esses códigos próprios de vida . acreditando nas leis da malandragem. Malandro Medroso ficará mesmo como um dos bons trabalhos do começo de carreira de Noel Rosa. ouve-se outro samba de Noel. já não o fazem agora. Embora seja um excelente samba . chapéu. as palavras gentis. frágil. tímido. desaparece.

2. Antes que o ano termine. os Corrêas Netto terão se mudado. Vou à Penha Rasgado seria gravado em 1931 pelo próprio João de Barro com o Bando de Tangarás. Era então tenente e declarava-se "apenas um descontente". Eu devo. Mas sua origem está mesmo nos desfiles do Faz Vergonha. que o doutor Elpídio foi.pensam os irmãos. . mais tarde Diretor da Fazenda do Distrito Federal. para a Barão de Bom Retiro. na época morador do bairro. em Vila Isabel. Ele.. Pois teu velho é ciumento E pode me dar um tiro. Com letra ligeiramente modificada e segundas partes definitivas. a Rua Elpldio Boamorte está hoje reduzida a um pequeno trecho e a apenas um prédio. Com a construção dos viadutos próximos à Praça da Bandeira. no Engenho Novo. julgado e condenado a dez anos de prisão. é surpreendida pela notícia de que vai morar um pouco mais longe do chalé.Uma noite. Hoje vi que o medo é um fato E eu não quero um pugilato Com teu velho coronel. O episódio com Martim Adeus Ó Colo foi contado aos autores pelo General Sylvestre Travassos. Se o jogo permitir. não quero negar. Fracassada a tentativa. mas também ao DiretorGeral do Tesouro Nacional. onde funciona o Centro Municipal de Saúde Marcolino Candau. Nem que fiz triste papel. Seu nome é uma homenagem não só ao anfitrião e animador cultural da Vila Isabel dos anos 30.. Fournier seria libertado em 1945 e morreria no ano seguinte de tuberculose adquirida na prisão. também participantes do atentado. Júlio do Nascimento e Belmiro de Lima Valverde. A consciência agora que me doeu Eu evito a concorrência Quem gosta de mim sou eu! Neste momento. 133 NOTAS 1. Depois de prolongadas conversações diplomáticas. escritas por João de Barro. A expressão "Adeus ó colo" não foi encontrada em nenhum dos dicionários consultados pelos autores. Da Theodoro da Silva. Severo Fournier comandaria o putsch integralista que a 11 de maio de 1938 tentaria assassinar Getúlio Vargas dentro do Palácio Guanabara. 4.como uma forma algo debochada de se dizer "fim". sem vínculos com o partido de Plínio Salgado ou qualquer outro. Mas era muito usada no Rio de Janeiro dos anos 30 . eu saudoso me retiro. Quem sabe Clara não esquece Noel? . Mas te pagarei quando puder. Se a polícia consentir E se Deus quiser. Não pensa que eu fui ingrato. foi entregue âs autoridades brasileiras. "até nunca mais". 3.e mesmo depois . "acabou". Fournier se exilaria na Embaixada da Itália no Rio de Janeiro.

o primeiro dos quais como solista da Orquestra Pan-Americana. No mês seguinte. que assina o samba com Almirante.5. do samba da moda ao ainda pouco conhecido canto dos terreiros de umbanda. pregões. publicada no segundo caderno de O Globo em 24 de janeiro de 1977. marchas. hoje parte do acervo do Arquivo Almirante . entre outros pontos. porém. 10. em julho de 1930. tudo isso seria gravado nos selos Odeon e Parlophon enquanto o maestro estivesse à frente da direção artística da Casa Edison. foram lançados primeiro. em 1930 e 1931. canções. 9. a 18 de agosto de 1942. 12. em mais de uma ocasião admitiu a participação de Noel na feitura dos versos que iam sendo improvisados dentro do estúdio da Odeon. Não ficaria na intenção. Carioca. em No Tempo de Noel Rosa. 13 0 Pulo dá Hora e Por Causa da Hora serão focalizados no Capítulo 17. 11. 14 de dezembro de 1935 (página 42). Estes foram de fato os dois primeiros registros fonogrãficos do Bando de Tangarás. 6. sem preconceitos. lançados no suplemento Odeon de agosto de 1929. fox-trots. de Almirante. O nome de Noel Rosa não está no selo do disco ou na partitura impressa de Lataria. um disco contendo de um lado Ponto de Inhanssan e do outro Ponto de Ogum. 8. dois sambas gravados um mês depois. Entre as músicas de seu repertório incluem-se sambas. Eduardo Souto assumiu a direção artística da Casa Edison do Rio de Janeiro. do mesmo Almirante e Henrique Britto. por um Conjunto Africano. nas vozes de Eloy Antero Dias e Getúlio Marinho. Em sua edição do mês seguinte a revista Phono-Arte dedicava ao maestro matéria de três páginas focalizando. As chamadas más companhias de Noel acabaram fazendo com que ele e Almirante não se tornassem mais chegados. valsas. 21 faces. uma "reza de malandro" (também de Souto). Carolina Cardoso de Menezes tinha apenas treze anos quando participou da gravação de Na Pavuna em 30 de novembro de 1929. substituindo Arthur Roeder. Já em setembro daquele mesmo ano a Odeon lançava. Numa delas. cenas humorísticas. sua intenção de levar ao disco. sairiam Canto de Exu e Canto de Ogum. Alvinho gravaria onze discos com seu próprio nome. passando por coisas vindas de fora e todo tipo de experiências sonoras domésticas. segunda edição (página 120). rumbas. segunda edição (página 178). São Paulo. danças orientais. em entrevista a Sérgio Cabral. teria qualquer ligação com o Bando de Tangarás. Deve ter-se baseado no esboço que Noel deixou em seu caderno de letras ou na partitura manuscrita. Eduardo Souto nasceu em Santos. Mas João de Barro.No entanto. Mulher Exigente. e morreria no Rio de Janeiro. O próprio Almirante se refere à "incontrolável tendência ãs más companhias" do amigo em No Tempo de Noel Rosa. no suplemento Parlophon de junho. 7. desafios. tudo que estivesse acontecendo na música brasileira. Saber Amar e Que Orgulho É Este?. a 14 de abril de 1882. no Capítulo 15 14. Jongos inspirados na música dos escravos (e até mesmo uma "cena de escravidão" que o próprio Souto comporia com Newton Braga para Francisco Alves cantar). Almirante se equivoca. o Amor. ao dar a primeirFigura 1a versão de Vou te Ripar como a que foi cantada nas ruas no carnaval de 1932. Nenhum deles. rancheiras. e Conseqüência do Amor.

dois sambas gravados um mês depois. Entre as músicas de seu repertório incluem-se sambas. teria qualquer ligação com o Bando de Tangarás. Mas João de Barro. entre outros pontos. 30 de dezembro de 1930 (página 25). Alvinho gravaria onze discos com seu próprio nome. São Paulo. fox-trots. O nome de Noel Rosa não está no selo do disco ou na partitura impressa de Lutaria. em julho de 1930. popular no carnaval citado. No mês seguinte. a 14 de abril de 1882. segunda edição (página 120). um disco contendo de um lado Ponto de Inhanssan e do outro Ponto de Ogum. de Almirante. Não ficaria na intenção. e morreria no Rio de Janeiro. marchas. do mesmo Almirante e Henrique Britto. Numa delas. sua intenção de levar ao disco. publicada no segundo caderno de O Globo em 24 de janeiro de 1977. As chamadas más companhias de Noel acabaram fazendo com que ele e Almirante não se tornassem mais chegados. o primeiro dos quais como solista da Orquestra Pan-Americana. Jongos inspirados na música 134 NEM REI. diante do encanto comunicativo dos criadores de ritmo? entrevista ao Jornal de Rádio . canções. sairiam Canto de Exu e Canto de Ogum. e Conseqüência do Amor. no suplemento Parlophon de junho. O próprio Almirante se refere à "incontrolável tendência às más companhias" do amigo em No Tempo de Noel Rosa. valsas. 15. passando por coisas vindas de fora e todo tipo de experiências sonoras domésticas. Carolina Cardoso de Menezes tinha apenas treze anos quando participou da gravação de Na Pavuna em 3 0 de novembro de 19299. foram lançados primeiro. porém. 11. em entrevista a Sérgio Cabral. em 1930 e 1931. do samba da moda ao ainda pouco conhecido canto dos terreiros de umbanda. Rio. 21 faces. o Amor. 10. dos soberanos absolutos. Já em setembro daquele mesmo ano a Odeon lançava. Phono-Arte. Nenhum deles. nem Presidente da República. Em sua edição do mês seguinte a revista Phono-Arte dedicava ao maestro matéria de três páginas focalizando. 6. a 18 de agosto de 1942. por um Conjunto Africano. nas vozes de Eloy Antero Dias e Getúlio Marinho. tudo que estivesse acontecendo na música brasileira. é mesmo a segunda.Eduardo Souto nasceu em Santos. A versão gravada. substituindo Arthur Roeder. em mais de uma ocasião admitiu a participação de Noel na feitura dos versos que iam sendo improvisados dentro do estúdio da Odeon. Eduardo Souto assumiu a direção artística da Casa Edison do Rio de Janeiro. 8. que assina o samba com Almirante. sem preconceitos. 7.do Museu da Imagem e do Som. Que valia o próprio fastígio dos reis. Mulher Exigente. NEM GENERAL Capítulo 14 Eu não pensava em ser general.

Do ponto de vista prático. mudando-se para o Engenho Novo. filha caçula de dona Clara Souza Netto. um pouco Engenho Novo.. São três boêmios. como é vontade de todos. quando as crianças voltarem a sacudir as pequenas salas de aula do Externato Santa Rita de Cássia. Este homem importante. Carmem e Arlinda longe. que ainda não tem seu próprio carro. Por isso. Não hão de ser os dez minutros que se perdem do Ponto de 100 Réis até a casa de Clara que irão separá-lo dela. todos dispostos a dar uma carona. Posso lhe pagar. Muito menos a cara feia dos irmãos. É uma promessa. O terceiro. não há distância que não se reduza à metade. Neste 1930. o que tem melhor situação. . É que os dez minutos costumam ser cinco. mas também jovens. O simples fato de. A Clara pouco importa quanto dona Martha pode ou não lhe pagar como sua professora auxiliar. portanto. E nem sequer entrou para a Faculdade de Medicina. Francisco Valuche é o mais aprumado. não se interessando em saber com quem sai ou aonde vai Valuche. É maior e mais barata. mas Martha faz. porém. Para quem tem tantos amigos motoristas de praça. E diz a Clara que ela mesma cuidará do enxoval. para um pouco mais longe dos olhos do seresteiro Noel Rosa. todos devotos 135 das noites e das serenatas. empresta-lhe seu reluzente Dodge negro na parte da noite. Martha decerto precisa de quem divida com ela as tarefas da escolinha. boêmios. um pouco Vila Isabel. Ensinando as primeiras letras às crianças menores. digamos. seja para onde for. lá estará ela.Você ainda vai ser minha nora .. Clara. Malhado. já que geralmente o bonde é trocado pelo automóvel. continuar indo ao chalé todos os dias vale mais do que qualquer dinheiro. faz ponto . Noel tem apenas dezenove. Clara ainda não tem dezoito anos. é o agradável que se vem juntar ao útil. funcionário do Ministério da Fazenda pela manhã. mas costuma conseguir um emprestado para fazer biscates na praça. ajudando dona Martha. E muito. pode-se dizer que fica num território meio neutro. E Noel tem e terá sempre muitos amigos na praça.Os irmãos de Clara podem não fazer gosto. o doutor Salles Filho(1). Martha trata de fazer com que Clarinha permaneça perto: . Os Corrêas Netto vão morar na casa número 487 da Rua Barão de Bom Retiro. solteiros. De modo que dona Martha sabe que muito tempo ainda terá de correr até que os dois possam se casar. Quase na esquina da Rua Moju. A partir de março de 1931. uma solução também interessante: vó Rita morta. Serafim Vieira da Cunha. Dos três. Um deles é o amigo Alegria. O segundo. enquanto os irmãos dela se alegram com a mudança da família para o Engenho Novo. Mais velhos que Noel. motorista particular de um homem importante o resto do dia. Mas faz gosto assim mesmo. Valuche. Quanto a Malhado. três merecem especial atenção. Nenhuma perspectiva a deixa mais feliz do que a de ver o filho casado com a bonita e meiga Clarinha. Aceita. um pouco Grajaú. A Vila Isabel de Noel Rosa.Gostaria muito que você me ajudasse na escolinha.diz manifestando mais um desejo do que uma certeza.

Estão todos gostando.acham que o melhor é entrarem na vila. Alegria e Valuche dirigem-se até aquele ponto e. Um ajuda o outro. Acontece que um dos moradores da vila não gosta de música. que acabam fazendo Malhado desafinar ainda mais. -Ainda hei de cantar no rádio . que ao contrário do que pensa não tem a potência e afinação da de Vicente Celestino. antes que se comece a cantar a quarta canção. confundido por tantos e tão complicados acordes. Abre o mais alto possível a voz maldotada. Com ou sem cara feia dos irmãos. três canções. mas protegidos de sua visão pelo muro. É mesmo um seresteiro. obrigando os seresteiros a se colocarem muito próximos à janela na hora de cantarem . Vicente Celestino também não canta ópera? Os três motoristas acompanham Noel por toda parte. Não na voz. está dormindo Canto e por fim Nem a lua tem pena de mim Pois ao ver que quem te chama sou eu Entre a neblina se escondeu. Noel costuma acompanhá-lo de forma caricata. sua voz é ouvida como um trovão: . pode ser tomada como provocação pelos irmãos de Clara . tem um caderno onde todas elas estão anotadas. Alegria e Valuche se assustam. E dorme cedo. os irmãos dela também se chegam para ouvir. cantam. a serenata tem tudo para ser um sucesso. Noel.Vão cantar no inferno. amanhã de uma em quem Alegria está de olho.na Praça da Bandeira mas vive em Vila Isabel atrás do pessoal da seresta. Por isso. cantando ou guiando o automóvel. Vibra com as canções de Eduardo e Cândido das Neves. O homem grita de novo: . Mas é um seresteiro na medida em que se delicia em varar madrugadas cantando acompanhado pelo violão de Noel. hoje de uma mulher que Valuche corteja. citações grotescas de músicas muito conhecidas. E as janelas sob as quais se postam. Acho que vou tentar a ópera. O apelido de Malhado se deve às manchas que tem pelo corpo: vitiligo. a perna esquerda dobrada para apoiar o violão. seus vagabundos! Noel. De início a idéia parece boa.costuma repetir. Os amigos não o levam a sério como cantor. Mudam apenas as canções. separada da vila por um muro de dois metros no máximo. É evidente que muitas serenatas são feitas para Clarinha.Cantar no rádio? É pouco. A casa dos Corrêas Netto fica ao lado de uma vila. Canto E a mulher que eu amo tanto Não me escuta. compondo. Como a calçada da rua é estreita. do lado de cá. Clara abre sua janela. e Malhado cantando: Jurei amar-te e só não mais querer-te Quando morto baixar à sepultura Às vezes Malhado leva mais longe seu entusiasmo: . A janela do quarto de Clara está justamente na parte lateral da casa. tocando violão. Noel ajoelhado na calçada.e como essa proximidade. segundo Noel. podendo ser ouvidos perfeitamente pelo pessoal do 487. Cantam-se duas. Malhado sequer canta tão bem quanto Alegria. de La Cumparsita a Meu Boi Morreu. Os outros participantes das serenatas riem. extraindo do violão efeitos esquisitos.

. Noel aponta para Malhado a casa do coronel. Quando estiver pronto. Quando aciona o gatilho pela segunda vez. Se Malhado tinha alguma dúvida. os dois jamais saberão. Malhado pensa. faz sinal para Noel. Nenhuma das músicas que Noel fez até agora parece casar-se tão bem com sua voz. Malhado canta: Eu saí da tua alcova Com o prepúcio dolorido Deixando o teu clitóris gotejante Com volúpia emurchecido. chega à porta da casa do coronel.. Com a sua voz. Clara conta a Noel. acompanhando-o ao violão. surge um alucinado cidadão de pijama. que o tal homem é coronel do Exército. Uma valsa cheia de paixão. É bonita. Não gosta de música.É ali. Se houve ou não um terceiro tiro. Porém. depois de dobrarem em disparada a Curva da Morte(2). E não é só: Noel já tem todo o 136 esquema armado para que só ele brilhe nesta noite de seresta. No momento exato. o seu sentimento. aos gritos: . esta se desfaz no momento em que. aproxima-se o mais que pode. pois em poucos segundos já estão quase no Jardim Zoológico.Canalha! Imoral! O coronel dispara um primeiro tiro para o alto. Malhado devendo pôr nas palavras todo o seu sentimento. Noel encontra-se com Malhado no Ponto de 100 Réis. sem ser visto. Malhado não chega ao fim da valsa. e dando a cada palavra uma interpretação comovida. As mais lindas de todo o Engenho Novo. Malhado obedece. Chegando à entrada da vila. bem alto. Malhado já passou correndo por Noel na porta da vila. Enquanto Malhado vai cantar dentro da vila. no dia seguinte. Ao se dar conta de que o amigo não esteve na serenata de véspera. o gonococus da paixão Aumentou minha tensão. duvido que pelo menos uma não fique impressionada. bem na porta da casa das moças. Acho que vale a pena você fazer uma serenata pra elas.Descobrimos ontem. Principalmente quando Noel lhe diz que comporá uma romântica valsa para que cante em primeiríssima audição sob a janela das moças. daquelas que Catulo gosta de usar em suas canções. . As filhas. já a caminho da Barão de Bom Retiro. Pense nisso. ou a que sopra o corneteiro do quartel. Noel ficará do lado de fora. Para seu espanto. E cheia de palavras difíceis. Malhado. bonita demais. Malhado. faz sinal pra mim que eu entro com a introdução. na vila ao lado da casa de Clara. Noel lhe mostra a valsa que acaba de compor para ele.Aqui tem gente que trabalha e precisa dormir! A serenata é um fracasso. umas garotas lindas. revólver em punho.. . Tem razão: não é possível que as moças não se impressionem. vem-lhe uma idéia. em vez de aparecer na janela uma das lindas moças de que Noel falara. Este executa ao violão a melodiosa introdução. Só a que tocam as bandas militares. mal podem ouvir rádio. mal-humorado e autoritário. . moças educadas dentro de rígidos padrões de disciplina e respeito.

Já a caminho de casa. Com Eu Vou Pra Vila. eu vou pra Vila. " Começa a cantarolar uma melodia. Malhado.. ponches e chope em jarra. Malhado diz ter certeza de que cantou bem. suas próprias palavras ficam a martelar-lhe a mente: "Eu vou pra Vila. antes de meia-noite já está ele se despedindo. Nem sempre há um carro à disposição para as freqüentes viagens de Noel à Rua Barão de Bom Retiro. Quando eu me formei no samba Recebi uma medalha Eu vou pra Vila Pro samba do chapéu de palha. Há gente que não tem a mínima sensibilidade para a música. tem mesmo de ir.repete o inconsolável Malhado.Falta de sensibilidade.Fica mais um pouco .É mesmo muito estranho . tarde da noite. Por que terá o homem se enfurecido tanto a ponto de recebê-lo a bala? Noel teria alguma idéia? . ele e Noel já a salvo bebendo uma cerveja na Praça 7.Pra onde você vai?. Uma reunião inadiável.dizem anfitriões e convidados.Não posso compreender. Como acontece certa noite em que é convidado para uma festinha de aniversário no Engenho Novo. Valuche e Malhado terem outros programas. casais dançando e conversando à volta de mesas de doces e salgadinhos. deixando Noel a pé. Em geral. no tom. Já saí de Piedade Já mudei de Cascadura Eu vou pra Vila Pois quem é bom não se mistura. prazeres ou compromissos que os afastem de Vila Isabel e do Engenho Novo. .Por que tão cedo? Noel explica que tem um compromisso importante. interpretou-os com sentimento e dignidade. No dia seguinte. . A polícia em toda a zona Proibiu a batucada Eu vou pra Vila Onde a polícia é camarada. dando o melhor de si para valorizar a bonita valsa de Noel. Costuma aborrecer-se logo nesses bailaricos familiares.Eu vou pra Vila. Infelizmente. música e versos saindo-lhe ao mesmo tempo. num banco vazio do Vila Isabel-Engenho Novo. Pode acontecer de Alegria. Mesmo sem saber exatamente o sentido de um ou outro verso. fará um novo samba: Não tenho medo de bamba Na roda do samba Eu sou bacharel (Sou bacharel) Andando pela batucada Onde eu vi gente levada Foi lá em Vila Isabel Na Pavuna tem turuna Na Gamboa gente boa Eu vou pra Vila Aonde o samba é da coroa. . com a ajuda do violão.. . o amigo Cobrinha o espera na Praça 7... algo assim.pergunta alguém.. no bonde. Noel Rosa não só rende seu primeiro tributo ao bairro onde 137 . refrescos. .representa Noel.

toca e dança nas casas de Ciata e outras "tias" baianas. casas de família rica. em 1922. Os músicos daquele tipo de samba são respeitados como profissionais. lazer das populações pobres daquelas localidades um tanto à margem da sociedade. cujo rótulo não muda: são todos malandros. cumpre-se a lei: lugar de malandro é na cadeia. mas nunca o trabalho fixo). dos morros e subúrbios distantes. o grupo entoando em coro a duas vozes. aos compositores e cantores de samba. A própria Igreja. Hoje. Se se for ver bem. mas também à batucada. É dessa perseguição que fala Noel em dois versos do Eu Vou Pra Vila. intuitiva. Muito porque suas festas semiclandestinas não se limitam ao samba propriamente dito. contudo. tiveram de sofrer muito. Às vezes acontece de a polícia dar uma batida e encontrar o pessoal entregue aos cerimoniais da macumba. Desordeiros.não dividem a cidade apenas musicalmente. desassossego.nasceu. os sambistas do Estácio. existem no Rio desde os últimos anos do século passado. para que eles pudessem dar à sua cidade um outro tipo de samba. o desemprego e o subemprego compelindo os homens a atividades malvistas ou mesmo proibidas (o jogo. a . políticos. Com o segundo. Um é aquele que se faz. há oito anos. agora pomposamente rotulados de "cultura afro-brasileira". o do Estácio e cercanias. Seus terreiros invadidos por policiais armados. isso sim. É bom que se lembre: já existem na cidade pelo menos dois tipos de samba. Com o primeiro. tocam em teatro. a exploração de mulheres. não raro terminando em briga. O samba é gravado por Almirante e o Bando de Tangarás. São heróicos esses sambistas do Estácio. já se fazem nítidas diferenças: a polícia tolera e até participa dos fungangás nas casas das "tias" baianas. para que sua arte espontânea. Se é cultura afro-brasileira lá em baixo. preguiçosamente. freqüentadores da zona (a maioria tem mulher ali). o servicinho sujo. tão logo a justiça se vá. mil e um expedientes. por que não seria cá em cima? Mas. o samba começa. Uma excelente gravação. freqüentado por doutores. respeita. gente importante. como também faz um dos primeiros registros de que se tem notícia de um dos mais marcantes aspectos dessa fase pioneira da história de nossa música popular: a perseguição policial aos batuqueiros. a polícia sempre deu batidas em terreiros onde se evocavam os santos e se trocavam umbigadas. Surras. há uma separação social entre eles. humilhações. filhos e netos de escravos que fazem música. tão respeitados que um homem da posição social de Arnaldo Guinle financiou-lhes uma viagem a Paris. mas continua perseguindo o pessoal do morro. Perseguições a ex-escravos. dançam. andou abençoando tais batidas. morte(3). em certa época preocupada com a disseminação dos cultos afros. Nesse caso. a sua música. de maneira bem carioca. cultuam seus orixás. Para fazerem vingar o seu canto. cinema. Os dois tipos de samba-aquele amaxixa-do da Cidade Nova e o outro da turma do Estácio . O outro. seus blocos desfeitos a golpes de cassetete. a polícia não se mete. eles próprios presos como vagabundos. pura e inofensiva fosse aceita. Embora não chegasse a haver uma lei contra tais manifestações. Como Pixinguinha e seus amigos. Nous sommes batutas Venus du Brésil Nous faisons tout le monde Danser le samba! Os sambistas de morro nem como músicos são vistos. conflito. intelectuais. impedidos de fazer sua batucada.

São quinze . A mulher chama-se Martha Clara Dieppe Moreau. as luzes apagadas. 138 Alegria está à sua espera na esquina da Rua Moju.Você não sabe o que eu descobri na Rua Moju. que acham melhor substituir "a polícia em toda zona" por "a polícia em todo canto". diferente do habitual. Que tal fazerem uma serenata para elas amanhã? Martha vai adorar. Nisso Alegria exagerou. sala. transversal à Barão de Bom Retiro. até finalmente conhecer os moradores da casa. excitado. Noel vai se aproximando aos poucos.expressão título: "Eu vou pra Vila. dois homens. O tempo há de mostrar que suas palavras . Noel toma cafezinho num dos botequins do Ponto de 100 Réis quando Alegria chega. Noel! Não sei o que seria capaz de fazer por uma mulher assim. Mas também moram ali pelo menos duas ou três pequenas que nada devem a Martha. Todas bonitas. Mas ela não é a única." A terça é feita uma oitava abaixo por Almirante. Noel.podem ser tomadas ao pé da letra. porém menos preciso. Mais distinto. Que mulher bonita. chegando mais perto. Os seresteiros de Vila Isabel cantam para moças de cujos rostos só vêem ligeiros contornos. Você vai ver a Clara logo mais? Então vamos juntos. Alegria pisca-lhe o olho. Alegria é todo paixão: -Já decidi: se ela quiser. . E de namorar também. Alegria tinha razão quanto à beleza de Martha. mas o que fazer? Até que Alegria desperta também nele o interesse pelo número 5 da Rua Moju. Nunca vi uma tão bonita. Uma deusa! Já estão fazendo projeto de irem morar juntos. depois que te deixei ontem à noite na casa de Clara Noel ouve: . Alegres. de rir. De início Noel talvez ache que o amigo exagera. fala nervosa. Marcamos um encontro para hoje à noite. gostam de cantar. Noel vê as coisas acontecerem muito rapidamente no coração e na cabeça do amigo. São moças diferentes destas meninas cheias de dedos e não-me-toques de Vila Isabel. olhos brilhando. A letra original é rigorosamente respeitada no disco. Uma mulher de tal beleza que a gente tem de ficar perto dia e noite. de contar anedotas.Ficamos conversando. Tão bonita que por ela largará tudo. Não se pode dizer que sejam todas bonitas. A serenata é feita. cinco meninos que se acomodam como podem nos dois quartos." . os planos de tentar carreira no rádio.oito mulheres.É ali. na outra e em outras mais. Mas.. as janelas da casa apenas entreabertas. eu me caso amanhã. No número 5! E o sempre excitado Alegria explica que a paixão aumenta a cada instante. E repetida na noite seguinte. a boêmia."Não sei o que seria capaz de fazer por uma mulher assim.. Martha e as outras. Dela Alegria jamais se curará. as serestas. a poucos passos da casa de Clara: -Moram outras moças lá. .. mas na partitura impressa há uma intervenção moralista dos editores. Noel conclui isso logo no dia em .. . Noel se anima. E mais: é correspondido. Uma fulminante paixão à primeira vista. Alegria continua inquieto. ao sair certa noite da casa de Clara. saleta e porão habitavel.Uma mulher lindíssima.

saíra de casa e fora morar justamente com Martha Clara. Iolinda exigiu que o marido nunca mais pusesse os olhos na outra. A vida dupla. como e por que vieram viver juntas nesta casa. os três filhos dela com o comissário. Chegava em casa e logo vinha a mulher: . nem nas horas de folga. da descompostura. a outra mulher do pai.O que é que o senhor fazia às três da tarde na Quinta da Boa Vista? Ou então: . irmã do comissário. Rosinha e Esmeralda e o filho Zeca numa paupérrima casa de madeira. Como muitos cidadãos respeitáveis desse Rio de Janeiro tão romântico quanto maroto. certos detalhes de suas vidas. dois pousos. filhos dessa relação. Não só porque seu coração ainda batia forte por Martha Clara. Iracema. já íntimo da casa. do ultimato na base do "ou eu. Walter e Juquinha. não podia durar para sempre. amigos. tivera uma briga feia com a mãe. O oficial.é a relação de parentesco entre as quinze pessoas. Os meninos Nelson. tiveram filhos. Mais tarde conhecera Reinaldo. o apresenta a toda a família. um bom motivo para ir lá sem que a mulher suspeitasse. mas também pela existência de um dado que complicou muito a história: Iracema. do Centro ao Caxambi. Quando Iolinda descobriu tudo. deixam claro que o comissário não é de brincar. oito pessoas moravam na casa 5 da Rua Moju: Martha. filha única de seu casamento com Iolinda. ou ela" -José Orges Brandão não teve mais trégua. Ary e Haroldo.da descoberta. Não dava um só passo sem que a mulher não soubesse. . o comissário -Jucá para os mais chegados tinha até bem pouco duas famílias.Visitava minha irmã. Assim.que o amigo. das ameaças. parentes.ou mesmo a compreender bem . Reinaldo e os dois filhos dos dois. Um dia Iolinda soube e não fez por menos: passou uma descompostura no marido. espiões ocasionais indo contar onde esteve e o que andou fazendo. casaram-se. nunca morou aqui. E como não estava em seus planos desaparecer de vez da Rua Moju. ameaçou fazer tudo para que não fosse incluído numa futura partilha dos bens de família (o pai é um homem velho e muito perto de rico). e este da Rua Moju. Armou enfim um barulho em grande estilo. O que vai demorar um pouco a concluir . que ainda divide 139 com a mulher legítima. Iolinda. Na base do "ou eu. Nem em serviço. morava até então com as filhas Teresinha. contudo.O senhor não estava de serviço na cidade? Então por que foi visto na hora do almoço em São Cristóvão? Mal podia respirar o comissário. Explica-se: Luísa Lima Campos. que por sinal não mora. quando Iolinda chegasse com aquele ar fechado e lhe perguntasse: "O que fazia o senhor na Rua Moju?" Responderia: . onde costumava passar as horas de folga ao lado de Martha Clara. Desde aquele dia . Uma decisão difícil para o comissário. O centro de toda a história é o comissário de polícia José Orges Brandão. Passou a ser mais vigiado do que os ladrões que ele próprio vigiava. tratou de arranjar um pretexto. ou ela".

que usa nos saraus de sábado. São duas jovens que acham. É por Fina que Noel se interessa. E. Seja como for. nem tudo saiu como ele queria.pode-se dizer um barracão na Rua Souza Barros. Hoje faz-se tudo às claras.Não se exponham. O comissário? Bem. dona Luísa e Zeca vigiam. ele se livrou de um problema resolvendo outro: fez dona Luísa e os outros moradores do barracão mudarem-se para a casa 5 da Rua Moju.o mesmo que projetou inúmeras obras públicas importantes. . Respeitam o conservadorismo de dona Luísa. Theodoro casou-se de novo. cabelos castanho-claros. por outro lado o fazia perder para sempre os carinhos de Martha. durante as serenatas de Alegria e Noel. Filha do engenheiro Arthur Dieppe Moreau . Tem quinze anos neste 1934 e É realmente muito bonita. convictas. Agora estão todos na casa da Rua Moju. As janelas fechadas e as luzes apagadas. a irmã. Há muito tempo José Orges Brandão vinha prometendo tirá-los dali. Tem uma bela voz de soprano. e Noêmia. que durante algum tempo cuidou das duas filhas Josefina. diz que vai comprar um carro. ganhar um dinheirinho . na verdade. do outro lado da estação do Engenho Novo. perdendo assim o respeito da família? O comissário acabou saindo de cena. como manter o romance sob os olhos conservadores e críticos da irmã mais velha? Como continuar aparecendo por lá para ver Martha. todos vivendo no desconforto de um Casébre de terra batida. abrem os olhos. perto da fábrica de papelão. trabalhar na praça. sorriso de criança. tinha quatro filhas. faziam parte deste zelo. Mas uma coisa e outra foram adiando o generoso gesto do comissário.a quem as moças chamam de center-half pela severa marcação que exerce sobre elas . Dona Luísa.vive recomendando dona Luísa. Pois se a presença da irmã naquela casa o livraria de possíveis problemas com a mulher. educada. morreu há dez anos. Martha Clara é de fato bonita. as três sobrinhas. entre elas o prédio do Corpo de Bombeiros no Meyer orgulha-se de sua ascendência européia. Morena. a Fina. Principalmente Teresinha. Ainda pobres. quer mesmo se casar. Era casada com o sírio Theodoro Fêlix. Mas nada disso impressiona muito Noel. Noel. de modo que entre o pensamento e a ação sempre se mantém uma distância feita de 140 prudências. tentam o mais que podem seguir os passos das garotas. Dona Luísa e o filho Zeca . As outras talvez tenham a mesma maneira de pensar. Alegria está firme com Martha. só que não são tão ousadas. mas crêem. Ou quase tudo. tão cheias de vida. a segunda mulher achou melhor ter os próprios filhos e dona Luísa acabou levando as duas netas para morar com ela. até que. olhos vivos. os antepassados alemães e belgas sempre mencionados nas conversas.têm de se desdobrar para manter sob sua guarda e sobretudo ao alcance de seus olhos moças tão ativas. a Bazinha. o sobrinho. Noêmia. levado pelas circunstâncias. Afinal. cujos olhos se viram para outro lado. por intermédio dele. E Fina. não sejam oferecidas . Foi aí que entrou Alegria. que a vida foi feita para ser vivida. que o maior bem que se pode ter é a liberdade. com toda a razão. graciosa. Mas a mais velha. mas com conforto.

Eu me sentia feliz. De repente. livra-se finalmente da História do Brasil. se lembrará com saudade desses tempos: 141 Notas: 1. cuja partitura será dedicada ao Diário da Noite. conselheiro municipal. diretor da Imprensa Nacional. apenas meia-verdade: . e as autoridades acharam melhor que os alunos só voltassem às escolas em março de 1931. Era Eu Vou Pra Vila. quando começaram as escaramuças revolucionárias. Ainda hoje muito perigosa. Francisco Antônio Rodrigues de Salles Filho. Ministro do Tribunal de Contas do Distrito Federal. desembocava um vulto. Trabalha na escola de minha mãe. Tinha entrado no coração da cidade. a curva fica na Barão de Bom Retiro. E completa o ginasial. quando a situação já estivesse normalizada). Quando esta lhe pergunta quem é a moça que ele costuma ver na Rua Barão de Bom Retiro. entre Moju (atual Sebastião de Paulo) e uma rua então sem nome (atual Acaú). 3. Nem viva alma. lá. seu trouxa!5 A 24 de outubro instala-se o novo governo.para manter a família. no centro da qual dois homens se enfrentavam ao som de batidas de mão e coro de refrãos próprios ("Derruba. "o arauto das aspirações cariocas". numa entrevista.404.É Clara. sem precisarem prestar os exames de fim de ano (as aulas já estavam suspensas desde outubro. Eduardo Souto improvisando um conselho ao fim do último refrão: . Assim chamada em razão dos repetidos acidentes de automóvel e bonde ali ocorridos. Assoviava. redator-chefe do Diário Carioca. A gravação é feita em clima bem-humorado. A 30 de setembro. general. caminho livre para tentar o vestibular à Faculdade de Medicina. O decreto também atinge Noel. depois de tantas tentativas frustradas. Daqui a alguns anos. Duas namoradas bonitas. deputado federal. Só a emoção das estrelas no alto. Do outro lado do disco. a resposta é evasiva. Malandro Medroso. A 14 de novembro é assinado o decreto 19.Vai de roupa velha e tutu. sabia comunicar-me com o povo "6 Pura verdade. Mais tarde. médico. numa esquina qualquer. 2. é ê/ ô derruba. Com Que Roupa? já na cera. Noel Rosa entra no estúdio da Odeon para finalmente gravar Com Que Roupa?. pelo qual os estudantes de todo o país ficam automaticamente aprovados em seus respectivos cursos e séries. Os outros tangarás não estão com ele. Noel tem tudo para sentir que os ventos sopram a seu favor. uma terça-feira. Graças a ele. bota no Chão/ . Não a batucada como a conhecemos hoje (a percussão com que se acompanha o samba). Eu Vou Pra Vila chegando às lojas de disco e começando a fazer sucesso. E Noel namora Fina. Por quê? Haverá nessa decisão de se fazer acompanhar por um bando regional (na verdade apenas o bandolim de Luperce Miranda e dois violões) algum ressentimento de Noel por ter sido Com Que Roupa Ppreterido por Almirante um ano atrás? Talvez.Realmente a polícia em todo canto proibia a batucada. da noite. compreendia a sensibilidade carioca. mas a batucada como jogo da malandragem: uma roda.

da próxima escolhia um da roda para ser por ele derrubado. Um dos homens era escalado para tentar derrubar o outro com um único golpe de perna. haverá quem pergunte: "É de Vila Isabel?" Os tangarás e seus principais adendos são apenas parte dessa efervescência musical. Velhos ódios e inimizades eram transferidos para o centro da roda. Pico da Favela. Multiplicam-se em suas esquinas. Muitos pensaram ter sido: "Vai de roupa velha no eu. Maçu da Mangueira e Brancura do Estácio.. com maior ou menor intensidade. cresceram e vivem aqui. jovens de talento que. Tantos e tão expressivos moços interessados em música que. sob a luz de seus lampiões. Os precários recursos de gravação da época.moradores ou visitantes. estático. como diretor musical da Casa Edison. Gargalhada do Salgueiro. no disco ou no rádio. 1. brilharão na música popular. nasceu no Rio de Janeiro a 28 de setembro de 1914. Os cinco tangarás. diferia em muito da roda de samba. inocente arte na qual o único objetivo era cantar e dançar. Eduardo Souto falando longe do microfone. mano. Mas há mais. portanto. Por mais brincalháo que fosse. Madureira do Engenho Velho. o maestro não se atreveria a tanto. mas apenas parte. visitantes que ouviram falar da musicalidade do lugar e a partir disso se transformaram em hóspedes freqüentes da "grande família". membros da grande família ou filhos adotivos . . seu trouxa!" Pouco provável. o bairro onde nasceu Noel Rosa é peculiarmente musical. depois Telles. ajudando a criar e a sustentar a reputação de Vila Isabel como terra do samba. 6. já seriam o bastante para confirmar que Vila Isabel é mesmo um "celeiro". 5. por algum tempo. A roda de batucada. "plantado". hoje. 142 MODÉSTIA À PARTE."). O adversário tinha que permanecer de pé. autoridade) eram Waldemar da Babilônia. a banda.. Parte importante. muito mais.° de janeiro de 1935. Quem plantava desta vez. Não é demais repetir que. Outros estão de passagem. 4. MEUS SENHORES Capítulo 15 Meu bem.vive por aqui: os tangarás. nas mesas de seus botequins. Os bambas nesse jogo (o termo bamba vindo do quimbundo e querendo dizer valente. Joseflna Félix. neste e nos próximos dois anos. não permitiram que se entendesse bem o que ele dizia. Artur Mulatinho do Catete. Brigas sangrentas e até mortes eram freqüentes. Aos poucos irá se saber. no ano que vem. no máximo até o carnaval de 1932. Jornal de Rádio. neste 1930. Principalmente. que muita gente boa . o valor dá-se a quem tem A Vila e a Aldeia não perdem pra ninguém Bom Elemento Nem só de tangarás vive a Vila. toda vez que um novo nome surgir. Alguns desses jovens nasceram.derruba. derruba/ sem dó no teu coração.

Leonel Faria. Ouve e diz o essencial. como Paulo Netto de Freitas e Castro Barbosa. Alegria e sua turma. O simples fato de vir o famoso cantor a tomar conhecimento da existência de algum deles já seria motivo de contentamento e orgulho(1). E de que é de sua autoria a embolada Pinião. inatingível aos olhos desses jovens seresteiros ansiosos por impressioná-lo. Por mais inusitadas que pareçam essas serestas. Muito especialmente Noel Rosa. De hoje e dos próximos vinte anos. homem influente que tem força o bastante para dar a um cantor iniciante um contrato de experiência na Odeon. os negros e os brancos. J. mas também à sua nordestinidade. ex-integrantes do Flor do Tempo. Todos querem agradar Francisco Alves. Quidinho. Deixará traços profundos de sua passagem pela vida de quem quer que cruze seu caminho. Antônio Almeida e Cyro de Souza. 143 Alvinho. o conjunto não podendo se limitar aos violões de Britto. talvez sem saber que é para o marido que eles cantam. Francisco Alves ainda é um ídolo distante. rapazes do bairro que gostam de música. Kalua. os seresteiros.poucos farão carreira.Francisco Alves. os irmãos Newton e Valzinho Teixeira. Sua participação no grupo liderado por Almirante deve-se não apenas a ser ele um exímio bandolinista. respeitado. outros sem jeito algum. João Petra de Barros e seu irmão Mário. Arnaldo Amaral. chorões e sambistas de morro que poucos conhecem. no 185 da Rua Justiniano da Rocha. Dos adendos do Bando de Tangarás . Um personagem que não se esgota aqui. O mais famoso é mesmo Francisco Alves. espécie de ídolo de todos os outros. pelo carisma. cultuado quase. a Paulo Netto de Freitas e Castro Barbosa juntam-se seresteiros ocasionais. Neste 1930. E Noel Rosa também. Ou melhor. dá boa noite. Pela influência que exerce. E quando o faz é para discutir detalhes de uma gravação ou de um espetáculo dos tangarás. Lamartine Babo. bem dentro do espírito amadorista do grupo. os rapazes da família Boamorte. Almirante. e mais dois ou três profissionais que ajudam a arrumar a casa . João de Barro. sucesso do carnaval carioca de 1928. uns com jeito. Nássara. Luperce é pernambucano do Recife e não chega a ser filho adotivo da grande família. como se ele fosse a musa de suas canções. pela onipresença. Christovam de Alencar. Homero Dornellas. É sem dúvida a mais marcante figura da música popular brasileira. terão seus nomes na história da música popular: Luperce Miranda e Lamartine Babo.amigos de Almirante. Arnaldo Amaral. aparece para agradecer com sorrisos a homenagem. Orestes Barbosa e os outros Barbosas de famílias distintas. Alguns de seus admiradores. É claro que Zélia. Seringa. característica tão cara a Almirante. João de Barro e Noel. vai embora. apenas dois irão longe. Cascata. a mulher de Francisco Alves. Não nos esqueçamos de que ele era um dos integrantes do Turunas da Mauricéia. elas têm sua razão de ser. Henrique Gonçales. costumam fazer serenatas sob sua janela. querem ser ouvidos por ele. numa breve apresentação. E quase todo o mundo há de cruzar o caminho de Francisco Alves. Raramente aparece por Vila Isabel. todo tipo de curiosos e interessados. . Nem se confina aos limites de Vila Isabel. Vez por outra.

fados. duradoura .Lamartine Babo. a primeira letra surreal de que se tem notícia da música popular brasileira. a antena de Lamartine está posta em muitas direções.será reflexo dessa universalidade. Noel descendendo do poeta e cronista A. encovados. Terá um pouco de tudo. Atraído pelo entusiasmo e pelas experiências sonoras dos tangarás. A obra que construirá . É um apaixonado pela música.o ritmo tem muito da tal música dançante americana dos anos 20 em que Lamartine é versado. ossudas. predestinado como Noel. borrifados de non sense. Por algum tempo. Ninguém resiste a uma piada sobre sua magreza. louco por óperas e operetas.e profundo conhecedor de todos esses ritmos que andaram virando a América de pernas para o ar na flamejante década que passou. Mesmo que existam por aí criaturas mais encaniçadas que ele. Adora carnaval. Também estudou no Ginásio de São Bento. mas é visto mais comumente em Vila Isabel. Como no dia em que. Embora a tenham classificado de marcha. as maçãs do rosto protuberantes. Magro como Noel. Escrita em 1930 . Mas não está nisso o seu aspecto mais interessante e sim no detalhe de formarem os versos. valsas." É de fato muito magro. as bochechas chupadas. Lamartine Babo é compositor muito preocupado com a originalidade. é bom. sambas. Noel e Lamartine. no primeiro dia em que apareceu por ali. contanto que não vente. era freqüentador das torrinhas do Lyrico e do Municipal. pertencerá à grande família. tudo isso ajuda a acentuar o aspecto cadavérico de Lamartine. desses de casados contra solteiros. Sob esse título trocadilhesco (Lamartine sempre dado a brincadeiras verbais. Conta o pesssoal do Ponto de 100 Réis que. se é música. Ou onde haja algo de novo em matéria de música. fazendo-o parecer ainda mais magro. de quem é mais velho cinco anos. Dos hinos litúrgicos (chegou a compor uma Ave-Maria nos tempos do Mosteiro) ao samba rasgado. Quando rapazola.B. na Tijuca. Tanto nas músicas como nas letras. Terá várias de suas composições gravadas por eles.2. Surdo. resultado de alguns dentes perdidos muito cedo. E vive atento a sambas e marchas que já se fixaram como os gêneros definitivos da maior festa brasileira.numerosa. Para ele. canções. ritmos americanos. tangos. De qualquer tipo. Nem ele próprio. eles próprios admitem num dos versos que "não é marcha nem aqui nem lá na China". feio como Noel. árias operísticas. ninguém o viu: estava escondido atrás de uma linha de pipa. Mas é também um enamorado . marchas. Mais uma vez como Noel. transforma-se num de seus adendos. convidado a apitar um jogo de futebol. todos se impressionando com a fragilidade de seu físico. Os olhos redondos. Como se vê. só que em época anterior à de Noel(2). Mora na Rua Conde de Bonfim. Vedo) está uma curiosa composição dos dois. variada.primeira das cinco parcerias dos dois(3) . disse: "Aceito. dois . Como acontece com A. atuará em recitais ao lado de Almirante e seus companheiros. Está sempre disposto a ousar alguns temas até aqui inexplorados. É um dos seres mais musicais deste planeta (opinião que Pixinguinha endossará daqui a alguns anos).

É futurismo..Nega. nem a morte: Nasci na Praia do Vizinho. 86 Vai fazer um mês (Vai fazer um mês) E minha tia me emprestou cinco mil-réis Pra comprar pastéis (Pra comprar pastéis) É futurismo. Apesar dos esforços dos percussionistas no sentido de fazê-lo ritmicamente interessante (chegam a retomar a idéia de Na Pavuna. Chega pro cordão Que eu sopro nos metá Pois eu sou da banda Do Batalhão Navá. Podes vir chegando Meu bem para o cordão . O futurismo a que eles se referem tem muito menos a ver com Felippo Tommaso Marinetti e seu movimento do que com a mania brasileira de chamar-se de "futurista" a tudo aquilo que não se entende em arte. o melhor mesmo fica por conta das passagens de violão entre o estribilho e cada quadrinha gravada pela voz miúda de João de Barro.B. as formas amatutadas muito presas aos primeiros dias do grupo (por exemplo. nem Marinetti.. "meta" rimando com "navá"). aí sim.. Já te dei de tudo Agora chega. nega está no caso oposto.cariocas totais. Pois não é marcha Nem aqui nem lá na China Depois mudei-me para a Praia do Caju Para descansar (Para descansar) No cemitério toda gente pra viver Tem que falecer (Tem que falecer) Seu Dromedário é um poeta de juízo É uma coisa louca (É uma coisa louca) Pois só faz versos quando a lua vem saindo Lá do céu da boca (Lá do céu da boca) Se A. Surdo é uma amostra de como Noel Rosa e Lamartine Babo são atentos à originalidade. donos de um humor e uma ironia típicos da cidade em que nasceram.. Tu é nega prosa Tu é palpiteira Não vai à macumba Não dança em gafieira. Noel e Henrique Britto produzem com seus instrumentos. interessantes acordes que acabam dando certa cor a um pálido samba: Nega. de versos banais. Nem a arte. Também de 1930. usando batidas de surdo após cada enunciado do título no refrão. só que seis em vez das três do samba de Almirante e Homero Dornellas). Lamartine e Noel não levam mesmo nada a sério em seus versos. menina. parecem não levar nada a sério nesta falsa marcha de pouco sentido e muita graça. incluído pelos tangaràs no seu repertório para o carnaval seguinte. menina. é um samba sem muita inventiva melódica.

E nunca se sabe ao certo quando Noel fala sério ou não. enquanto nos envenenamos com o seu leite. Outro dia fez um feio. Djalma Ferreira. meninos. jamais esquecerá uma passagem que testemunhou.. É num desses regressos matinais que cometem uma pilhéria que entrará para a crônica boêmia da cidade. Trocam as garrafas que têm nas mãos pelas que estão no chão. mas antes. Juju! A Juju já sabe ler A Juju sabe escrever Há dez anos na cartilha A Juju jâ sabe ler. uma das mais deliciosas que o espírito carioca já criou.Mas traz a bandeja Pra recolher tostão. compondo juntos. É muito cedo. assustar leiteiros que fazem entrega antes do dia clarear estão entre as artes prediletas de Noel." Tomar o leite dos vizinhos. Saem juntos.u. Vão pela rua. Não aos do São Bento. cada qual com uma garrafa de cerveja na mão. Têm muito em comum além da música.. Um e outro levam a vida na brincadeira. Os dois se entreolham e um deles sugere: . A Juju sabe escrever Escreve sal com cê cedilha! Sabe conta de somar. aos bancos de escola. fazem farra.Que tal um café da manhã? O outro concorda. pregadores de peças. quando passam por uma casa em cujo portão estão duas garrafas cheias de leite. continuarão se vendo. Dabliú. Assim como uma volta à infância. Noel e Lamartine seguirão amigos. Às vezes um vai levar o outro em casa. quando ambos aprendiam o A E I O U. não sem deixar ao dono da casa o seguinte bilhete: "Vá se alimentando com a nossa cerveja. companheiros.o. o sol nem saiu. Pois com um cabo se atracando Na bacia navegando. Foi pra Ásia e teve azia! Amigos. Em especial o senso de humor.e. Pois partindo um quejjo ao meio Quis me dar somente a casca! Sabe História Natural. Tijuca ou Vila Isabel. Lamartine é muito mentiroso. Na cartilha da Juju.. Sabe História Universal Mas não sabe Geografia. Contadores de histórias.i.. ao voltar com . voltam de manhã. 145 galhofeiros. Dabliú. Mesmo quando o tijucano já não aparecer tanto pelo Ponto de 100 Réis. Sabe até multiplicar Mas na divisão se enrasca. compositor e organista que mora no Grajaú. derrubar garrafas pelo simples prazer de ver o líquido branco inundar a calçada. Exatamente como a marcha que comporão daqui a um ano para o carnaval de 1932. A.

chegou a pensar em seguir pelas mãos do pai os caminhos do jornalismo. Noel se escondeu num vão de portão. o próprio Noel se assustou. puxando sua carrocinha. as canções. mas carioca dos mais legítimos. Mas se surge um gari. olhando as estrelas ou respirando o ar puro da noite. como tantos jovens de agora. que lá vinha a turma apoquentá-lo. . Quando o leiteiro passou rente à parede. ficou esperando que o leiteiro passasse. o violão. animador. Noel deu um salto: .Gafanhoto! Burro-sem-rabo! Reis põe-lhe a mão sobre o ombro e observa. lançado pelos microfones da Rádio Educadora. Noel vestia capa e chapéu. e depois andou fazendo bicos em vários outros órgãos de imprensa. Trazia uma caixa de garrafas em cada mão. Mas para Noel os tempos de garoto não passaram. Ele pode estar no meio da conversa mais interessante. entre eles Noel..Noel de uma festa em chuvoso fim de madrugada. e se põe a gritar-. atraído pelo rádio. Djalma. até que era comum a molecada correr atrás dos garis chamando-os de "gafanhoto" ou "burro-sem-rabo".A bolsa ou a vida! O leiteiro atirou para o alto as duas caixas. . Brincadeiras que não ficaram na infância ou na adolescência. É sempre brando o Armando Reis. improvisador de anúncios (enquanto não se inventem os textos publicitários). pseudônimo que tirou nem mesmo ele sabe de onde. das confrarias de esquina.Espere aqui. . Paulista de nascimento. Noel. Elas acompanharão Noel enquanto ele tiver fôlego para levá-las a cabo. esticou os indicadores para simular canos de revólver. Até que foi. criado em Vila isabel. Já então só o pessoal do bairro o conhecerá como Reis porque para todos os outros será sempre o Christovam de Alencar. pôs as mãos nos bolsos. Filho de Higino Reis. Será locutor. Mas se Djalma foi testemunha do susto ao leiteiro. o velho Reis da revista Dom Quixote. produtor. no qual se apresentarão alguns dos maiores cartazes da música popular. com ou sem carrocinha. Armando Reis talvez seja o primeiro a perceber que há alguma coisa de muito estranho na persistência com que Noel atormenta a vida dos homens da limpeza pública. quando avistaram o leiteiro lá longe. os dois caminhando pela Theodoro da Silva. as garrafas se espatifaram no chão. dos desfiles do Faz Vergonha. em tom brando: . Djalma morreu de pena do pobre leiteiro. enquanto o homem disparava na direção do Boulevard sem dar tempo de lhe explicarem que era uma brincadeira.Noel. Estes garis vão acabar te tirando o juízo. tocando violão ou cantando. o luar. Era só um deles despontar na esquina. E também pela música. o Nosso Programa.. Nos tempos de garoto. Levantou a gola da capa. pá e vassoura na mão. formado na escola das conversas de botequim. dos irmãos Rodrigues. larga tudo. a conversa. baixou a aba do chapéu. Vou arrepiar os cabelos dele. Ainda terá horário radiofônico 146 só seu. Trabalhou em O Mundo Esportivo.

em tão pouco tempo.. que o ajuda a compor este tema: Se você quiser saber Eu lhe digo com prazer Por que é que a Vila É o melhor lugar desse mundo. E só. imóveis. surge em sentido oposto. . . de aproximar do povo. Reis pensa lá consigo: "E por que eu?" Em todo caso. o violão de Noel emudeceu. Contam que começou a sumir das rodas boêmias do bairro no dia que lhe disseram que a polícia andava prendendo seresteiro.Não vê o Paes da Rosa? E Alegria lembra mais uma vez a passagem vivida por ele e Noel numa de suas serenatas. . Alegria engoliu seco. o Seringa. . . comissário do 18° Distrito. na Lapa. Eram quase duas da manhã. presença obrigatória nos papos do Ponto de 100 Réis. os seus criadores. Fica emocionado. lá na entrada. Pode ser. . Não conheciam. Resolve ser compositor. No primeiro ano que o bloco sai sem Noel. Passou a fazer ponto no Mangue. O gaúcho Sylvio Pinto. Pelo contrário. alguém pede ao Reis que colabore com um refrão para o desfile. companheiro de Noel.. não. Waldemar e os irmãos Anacleto naquelas inesquecíveis serestas pelo bairro. E também na segunda-feira de carnaval. é mais do que mero parceiro do Reis. vindo da Visconde de Santa Isabel. quando o bloco vai chegando à Praça 7. seu doutor.Vocês conhecem Última Lágrima? Noel e Alegria se entreolharam.O doutor deve estar falando de Intima Lágrima. O bloco precisa de refrãos. esperando pelo pior. o carro da polícia. . É com ele que o Faz Vergonha sai no domingo. apela para um vizinho e amigo. Clóvis. Apolícia da Vila nunca perseguiu seresteiro.Sua iniciação como compositor deve-se a uma necessidade do Faz Vergonha. Os dois seresteiros continuaram calados.Pois não.disse o comissário para Alegria..Aquela valsa do Cândido das Neves. Mas Alegria acha que o motivo deve ser outro. porém. a música tendo um poder literalmente "contagiante". um apaixonado pelo Fluminense que sai por aí engaiolando gente toda vez que o seu time perde (e o Fluminense havia perdido feio o jogo de domingo). . em lugares onde a noite não é feita para dormir.Escute aqui . outro bloco que canta animadamente: Se você quiser saber Eu lhe digo com prazer Por que é que o Meyer É o melhor lugar deste mundo. Sylvio Pinto. Os dois cantavam sob a janela de uma casa de vila na-Rua Maxwell quando viram parar. Para surpresa do Reis. os dois pensando tratar-se do delegado Palhares.. Mas não era o Palhares e sim o Paes da Rosa. Então o estribilho cantado pela primeira vez nas ruas ontem já está na boca dos foliões do Meyer hoje?É um milagre de comunicação. Lauro Boamorte e Paulo Anacleto são bons no improviso. será como quase todos esquecido em pouco tempo. sempre teve pela classe um grande respeito. Mas é muito bom compositor.Ah! . Também de Vila Isabel. Alegria. Uma decisão acertada.exclamou Alegria aliviado.

. É justamente no Mangue. a ter composições suas levadas ao disco. algo em que eles não acreditam: Amar Com Sinceridade: Amar com sinceridade Não há quem consiga uma só vez Pode haver muita amizade Mas há sempre falsidade Como outrora Judas fez! De ingratidão Já estou farto e inteirado E meu pobre coração Vive sempre amargurado Não tenho sorte com amor Vivo sem felicidade Torturado pela dor de uma saudade Sinceridade Toda a gente desconhece A cruel realidade É amar por interesse Mas todo o bem dura pouco Todo mal tem sempre fim As mulheres quero bem longe de mim No começo o pessoal do Ponto de 100 Réis ligava menos para ..Conhecemos. a fonte dos meus olhos Entre mil escolhos Desta dor nenhuma lágrima derrama. esta mesma. Com Mulher Não Quero Mais Nada. Mas depressa. Fala de outra desilusão amorosa. a cantar em programas de rádio.Sim. seu comissário.. -Então vamos lá. que ele entrega a Noel a primeira parte de um samba que o amigo completa de forma curiosa. temas tão usados por Noel. De qualquer modo. E Alegria. Cantem. Com mulher não quero mais nada Minha sina está traçada Neste mundo que me causa horror O que me faz ficar doente É mulher na minha frente A fazer enredos de amor Eu tenho fama de filósofo amador Quem diz que ama nunca sabe o que é o amor Amar jurando nunca foi jurar amando E é por isso que eu juro Que o amor não dá futuro A outra colaboração dos dois também permanecerá inédita pelo menos até muito depois de ambos se terem ido para sempre(4). Noel ao violão. Transferiu sua boêmia para bairros mais notívagos. traição. Não. mencionando pela primeira e última vez numa letra a sua "fama de filósofo amador".. No título. sim. cantou: Ai. O samba. depois de uma desilusão amorosa. a polícia da Vila nunca foi de perseguir seresteiro. Seringa passou a fazer ponto em outras plagas. Tenho ronda pra fazer. esperará meio século para ser gravado. mentira.

de cantoria no botequim do Carvalho. agindo de maneira imprevisível. que não pode ser visto nem julgado pelos padrões comuns.Antônio Gabriel Nássara do que para as irmãs dele. fortuna herdada de um riquíssimo parente turco. Será igualmente apreciado como compositor e caricaturista. encantadoras. e a Turma da ENBA. precisamente um mês antes de Noel. mas mora em Vila Isabel desde rapazola. Antônio Nássara nasceu em São Cristóvão. meio por diletantismo. conseguida em muitas noites e dias debruçado sobre a prancheta. Um ano depois entrava para a Escola Nacional de Belas-Artes. do bairro. convencido de que sairia dali com o diploma de arquiteto. Moças bonitas.e por que não dizer do país inteiro? . Houve quem dissesse que a família de Nássara tinha dinheiro. O pessoal do Ponto. bem-humorado. de toda a cidade . E Nássara é mais que um amigo. de alguém além e acima. às vezes mergulhado em longos silêncios. nesta virada de década. Não se pode negar que seus temperamentos são muito diferentes. Descendem de libaneses. conjunto musical formado com os colegas de escola Jota Ruy. o "turco". é cedo para se falar do compositor Nássara. Vem de longe a amizade entre os dois. Outra de suas paixões é o desenho. conscientizada desde cedo. quando não sabe. sempre animando com seu humor as conferências noturnas no Martinez ou no Carvalho. Em 1927 já fazia caricaturas para jornais e revistas.Sabe de uma coisa. inclusive a música. Abandonará o curso no último ano depois de concluir que ele só lhe trouxe dois proveitos : maior intimidade com os traços. . de peregrinação pela noite. Amável.haverão de admirá-lo pelo enorme talento que tem. Um dia Nássara levará a música popular mais a sério. Jacy Rosas e Manuelino Xavier. E para muitas artes. Se no começo foi pela beleza das irmãs que se fez notado. Mora numa casa avarandada da Theodoro da Silva. Mas por enquanto. Uma amizade que só cessará com a morte. solidário. Com Noel fará duas marchas. que mora na Theodoro da Silva e tem irmãs que espalham classe por onde passam. Noel dando-lhe sempre a impressão de que tem um parafuso fora do lugar. Barata Ribeiro. estão no Brasil já há duas gerações. Nássara? O sem-queixo é um gênio. fará sambas e marchas memoráveis. logo as pessoas. Sim. Mas que um dia o "turco" compreenderá como sendo coisa de superdotado. É outro dos bons conversadores daqui. mas que Nássara ouviu pela primeira vez numa roda de samba e ficou impressionadíssimo com sua bossa: Luís Barbosa. E quem há de abrir os olhos de Nássara para isso é Orestes Barbosa: . Nássara e Noel são amigos. reforçados por um cantor que nunca pensou em estudar arquitetura. espalhando classe por onde passassem. Não é verdade. um parafuso fora do lugar. Engano. companheiros de conversa. custando a descobrir que esse negócio de samba em que Noel está envolvido pega como doença. uma de sucesso. bem no trecho onde fica o bangalô que Noel habitou no tempo do São Bento. Gosta de compor e cantar. Os Nássaras não são ricos nem turcos. às vezes falando muito. com todo respeito. segundo código tácito que a turma obedece quando se trata de irmã ou mãe de amigo. inventa. Mas sempre olhadas à distância. Nássara sendo bem mais comportado. invariavelmente pronto a ajudar a quem precisa.

Culto. veio ele ao mundo. Ovídio. Na primeira eleição. aqui pertinho. houve quatro escrutínios e em nenhum deles Orestes obteve sequer um voto.Sendo português. dois: Penumbra Sagrada e Âgua-Marinba. Nisso. Antilusitanista. único aqui que já cruzou o Atlântico para ver com os próprios olhos as cores da civilização européia. ficava furioso. de direito e de fato. Orestes até sorri. política. ciências ocultas e episódios mundanos. arte e política. cortante. Homero. não se candidatou. quase 148 um quarentão quando os tangarás começam a fazer sucesso no rádio e no disco. incisivo. é sinal de que pode atrasar nossa vida.Olha lá o Orestes na mesa do Nice. não se importando quando o chamam de "imortal grau zero". da maledicência. isso talvez possa ser lembrado sem maiores problemas. . Mas por ser um verdadeiro gênio na arte de conversar. E Constando Alves acabou ficando com a vaga. doido por samba e até torcedor do Botafogo.e sobretudo os inimigos camuflados de amigos-se aproximam para se certificar de que não são eles as vítimas da língua de Orestes. portanto. Com eles chegou mesmo a sonhar em vestir o imponente fardão verde-amarelo da Academia Brasileira de Letras. Se acontecer de chegarem . Na segunda eleição. Muito menos por seu exacerbado antilusitanismo. ágil com a palavra. quiseram-no o jornalismo. Dessas áreas. educado. em 1921. Não por sua cultura. oportuno com a frase. capaz de falar de todos os assuntos. na Rua Pereira Nunes. concorrendo com vários outros. o João do Rio. É o mais velho e de certo modo o mais brilhante. Conhece Virgílio. alegre. institucionalizar-se como poeta. ao tempo em que Noel ensaia seus primeiros passos pelo caminho da composição. mas que cedo ou tarde acabará encampado. Tudo porque. agora. Sabia que era inútil. episódios mundanos.Deixo-me contagiar pelo fôlego desses meninos. por Vila Isabel(5). Orestes é também o único aqui que já escreveu um livro. Ou melhor. lugar que muitos ainda teimam em chamar de Aldeia Campista. ou por seus conhecimentos de arte. lê os poetas franceses no original e arranha o inglês. a música popular. é não apenas admirado. Orestes decidiu candidatar-se à cadeira 26 da Academia.Orestes Barbosa é o mais velho de todos os poetas que circulam pelos botequins do Boulevard. Se a Academia não quis Orestes. ele já brilha nas duas primeiras. Dezoito anos antes de nascer Noel. mas também temido: -. a 5 de janeiro de 1922. com a morte de Paulo Barreto. ser um imortal como Machado de Assis. ciências ocultas. Mas. Mas é brasileiro até a raiz de seus poucos cabelos. seis meses depois. Hoje. ou por sua experiência européia. É Orestes. Nem mesmo pela leitura dos clássicos gregos e latinos ou dos poetas franceses. Um mestre do sarcasmo. do humor irônico. não gosta muito do Carvalho. há alguns anos. a boêmia e. Não adianta dizerem que o homem é um português diferente. Mas garante ter espírito jovem: . Plutarco. A quem estará envenenando? E os amigos .

de sua mania de dizer o que bem entende. palavra por palavra.no meio de uma história em que o poeta os pulveriza.-Quem é o senhor? . Noel sempre disse e continua a dizer que. aquele que o persuadiu de vez). preencha-a com aquele menino de roupa de tussor. E corajoso também. a partir do contato com esses garotos. disse: . O que João da Bahiana não nega nem confirma. Mas. para ela Que era o meu sonho de carmim e pó-de-arroz. já foi preso duas vezes. Não tem muitos amigos. Prefere-os raros. Renunciará ao fardão. para Orestes a cidade se assemelha a um grande . Porque Orestes é impiedoso. E preciso de um emprego. contagiado pelo fôlego desses garotos. aos 37 anos. suas verdades incomodando os censores tanto de Arthur Bernardes como de Epitácio Pessoa(6).. saboreando o constrangimento do outro. Algumas verdadeiras. É fato que Orestes descende de herói da Guerra do Paraguai. o mesmo que toca com o Pixinguinha já me livrou de muita surra. os poetas da canção popular ocupam o lugar que antes pertencia aos cultos bardos da literatura acadêmica (ver boxe O bonde do samba no Capítulo 24). virando-se para um de seus assessores. vai aderir à música popular. o jornal de Ruy. deixa sem desmentido: . nesses novos tempos. Só agora. abordando o importante Ruy Barbosa dentro de um cinema: . as coisas que se cantam ao som do violão tendo a mesma força das que se escrevem e declamam.indagou Ruy. . E assim Orestes começou a trabalhar na revisão de O Século. . A música demorou um pouco a fazer parte da vida de Orestes Barbosa. outras não. à saída do cinema. Não só não mudará de assunto como muito provavelmente voltará ao começo. garoto ainda. Mas é falso que tenha nascido num barraco lá do morro. alimenta-se de poesia. à mesa do Nice. Ruy teria ficado tão impressionado com a ousadia do garoto que. apaixonado. marotamente.Orestes Barbosa.. Foi também graças à sua coragem que se iniciou no jornalismo. lenda que ele.A vaga que temos na revisão. É assim que se torna parceiro de Oswaldo Santiago numa canção que Alvinho gravará na Victor ainda neste 1930: Um bangalô com trepadeira na janela. começa a descobrir a musicalidade de sua poesia. mas escolhidos. nos lugares boêmios por onde o poeta surge. toda a causticidade de suas histórias. Eu construi. E que seus versos ficam ainda melhores num samba ou numa canção! É outro personagem que não se esgota aqui. Orestes vai concluir que Noel está certo. para que o envenenado beba. São histórias que se contam e recontam nos botequins de Vila Isabel. convencido mesmo de que "a música ainda é consolo máximo das almas sem pouso". Como diz Nássara. ele nem ficará embaraçado.Sabe que eu estava falando justamente de você? E repete tudo. os profissionais do rádio que freqüentam os cafés do Centro e muito especialmente Noel Rosa (que ele próprio admitirá ter sido o seu "conversor". como todo poeta de fé.Cresci entre moleques de rua e gente do morro. simplesmente não lembra. E o João da Bahiana. 149 Orestes. Por causa de seu destemor. Desses que têm janela só pra dois.

também morador. Muito inteligentes. De noitinha. com a mesma perna ensangüentada. bons alunos do Colégio Pedro II. . sempre que a Perua passe. entre gargalhadas. saía de casa. Um dia alguém lhe disse. esmolando. O poeta ficou furioso. atirando-lhe coisas. Os outros Barbosas. Não lhe sobrou sequer para o ônibus. Orestes corre atrás dela aos gritos: -Perua. pois enquanto um evitará sempre tocar no assunto. mesmo. teve fim trágico. sobretudo Haroldo. Orestes e Noel atrás. Para vergonha de Haroldo e estranho orgulho de Ewaldo. passava por um açougue. há dois ramos de irmãos Barbosa circulando por Vila Isabel. atilados. E mesmo os que têm outra residência. sofrido. Conta-se que uma noite Orestes encontrou no Passeio Público uma mulher magra e esfarrapada. não tinha problema algum. resolva mudar para longe o seu rendoso negócio.edifício de apartamentos onde ele. de quem já nada mais espera da vida. comprido. estendeu-lhe a mão. uma esmoler profissional que vivia da piedade dos incautos.passou a atormentar a mulher. policial. filha dos diabos I Some da minha vista! Uma inusitada cena que se repete nas noites do Passeio Público. O pai. a mendiga correndo desesperada. que Perua não passava de uma impostora. . Leiteiros. como se querendo vê-lo esquecido.Corre. comia do bom e do melhor. E jurou vingança. invenções que não levam a nada. comprava algumas gramas de carne sangrenta e grudava-as na perna com a ajuda de panos velhos. misturas de produtos químicos. conversando com quem seja. Até que a mulher. numa casa de vila em cujo quintal costumam realizar complicadas experiências.murmurou. Morava numa boa casa de vila. que os outros mendigos chamam de Perua. destaca alguns poucos vizinhos que merecerão o seu cumprimento respeitoso ou o seu sorriso afetivo(7). Perua! Some. outro. Noel Rosa. A mulher. ensangüentada. lixeiros. podem ser vistos . Moram no Boulevard. o outro viverá dizendo: -Macho. os já emancipados. era meu pai: teve coragem de se matar. engenhocas estranhas. Esteja onde estiver. gritando feito loucos: ..e quase sempre com a cumplicidade de Noel . o olhar súplice. moram quase todos numa casa da Rua Visconde de Santa Isabel. arrastando a perna.Pobre mulher. Tolos como Orestes Barbosa. desgraçada! Uma implacável perseguição que vai durar tempos. O próprio Nássara é um desses vizinhos.. mendigos. Os negros são Ewaldo Ruy e Haroldo. os negros e os brancos. Simulava assim uma feia e dolorosa ferida que lhe valiam gordas esmolas dos tolos. os brancos. Sem parentesco com Orestes. Daquele dia em diante . magro. inclui-se entre os improvisadores do Faz Vergonha. Ewaldo Ruy. Pelo menos numa dessas suas fixações Noel tem no amigo poeta um aliado. serão ambos excelentes letristas.Uma esmolinha pelo amor de Deus! Orestes ficou tão impressionado que lhe pôs na mão tudo que tinha no bolso. a quem o pessoal do bairro chama de Espanador da Lua. a perna direita coberta por uma atadura suja. Coragem que não faltará ao próprio Ewaldo(8). . xingando-a.

Um dia dirão. Euclydes Josephino Silva e Silveira. tamborilando um lápis sobre eles. Um intuitivo. exceção única entre os Barbosas brancos de Vila Isabel. uma flexura toda especial. É bossa da cabeça aos pés. Um desses sambas. gestos e gírias de crioulo do morro. mais conhecido por Gaiola. O Na Aldeia. é interessante não só porque Noel e Quidinho juntam forças para enaltecer seus respectivos redutos. dos quais extrai 150 efeitos incríveis. Luís. O primeiro ficará famoso como humorista e homem de rádio. que Luís Barbosa tem um sorriso na vóz. só no título se assemelha ao samba de Almirante e Candoca da Anunciação. Com tanto sabor e inventiva que acabará consagrando-o como mais um instrumento de percussão do samba.. Henrique. surpreendente. É um criador. Seus sambas também têm muito dos negros do Salgueiro ou da Mangueira. assinando-se como Barbosa Júnior. Almirante comete injustiça ao incluí-lo entre os que andaram fazendo músicas calcadas no NaPavuna. mas tão ou mais branco que Noel. magro. Como Luís. O samba da Aldeia De macumba não receia. na casa dos Boamortes. Paulo será autor de melodiosas valsas {Cortina de Veludo. Vizinho de Noel. Madame Pompadour. mas também por ser uma espécie de atestado da adesão de ambos à batucada. na Aldeia. Tem gente feia. contagiante. Um sorriso menino. brincando com as palavras. na malandrice da letra. improvisando breques como quem tira coelho de cartola. São eles Arthur Álvaro. Como . na qualidade da melodia: Na Aldeia. Porque também conhece o candomblé. sempre a batucar no seu chapéu de palha. Paulo. preferirá o rádio à música. capo de automóvel. Inclusive os próprios dentes. cheio de picardia. dono de invejável senso rítmico. Em tudo mais é melhor. é muito amigo de Noel. de Quidinho.. A Lalá e a Lelé São duas garotas que desacatam. com grande oportunidade. Mas não é só no chapéu que ele produz ritmos: em tampo de mesa. Luís é um cantor único. o Quidinho da Aldeia Campista. Henrique e Gustavo. Quanto a Gustavo. amando tanto o seu bairro quanto Noel a Vila.com freqüência por aqui. acrescentando notas às frases melódicas. Canta como ninguém. com passagens também pelo teatro e cinema. caixa de violão. Perfume de Mulher Bonita). que veio para enriquecer o samba. destinado a ficar como um dos maiores intérpretes da história do samba carioca. copos e garrafas. Mas decide bem no pé. não quer nada com o meio artístico. alto. malicioso. no Ponto de 100 Réis. na Praça 7 de Março. no sabor do ritmo. Quidinho fará vários sambas louvando a Aldeia Campista. Bom Elemento. seu companheiro de festas e farras. É o mesmo que Nássara convidou para o seu Grupo da ENBA. tudo serve.

É uma das figuras mais animadas do Ponto de 100 Réis. Os malandros perguntaram Se eu era bamba No bater do tamborim E o batuque Eles logo improvisaram. excelente contador de anedotas. de serenatas. A harmonia Do meu simples instrumento Fez toda a turma Ficar muito admirada Porque sou bom elemento Lamentavelmente. gravará discos.elementos estranhos a ela. Eu dei a cadência assim: Meu bem. Melhor sorte terá Arnaldo Amaral. Uns garantem que tem bela voz (na verdade. acham que poderia fazer carreira no teatro. é verdade. de festas onde haja cerveja e mulher. um bom companheiro de conversa. Como é o caso de Kalua. é um dos muitos pastiches que Francisco Alves vai carregar vida afora). Bom jogador de sinuca. desde que isso lhe alimente a vaidade. com sua voz empostada sendo quase tragada pelo coro e seu nome não figurando no selo do disco. Impossível . Assim mesmo. o valor dá-se a quem tem A Vila e a Aldeia não perdem pra ninguém Com violência Enfrentei a batucada. poucos se lembrarão de Quidinho daqui a algum tempo. Outros elogiam-lhe a estampa. mas capazes de não fazerem feio num confronto com batuqueiros autênticos: Entrei no samba. E quando chegar a se decidir já não será uma coisa nem outra. É de se deixar influenciar pelo que os outros dizem. Levará muito tempo sem saber exatamente o que quer ser. cantará no rádio. De Noel guardará a alegria de um longo convívio no bairro e a pena de só ter gravado uma música sua: Vejo Amanhecer. Para quem não se deixa assustar por sua pose. Arnaldo bem que vai tentar todos esses caminhos. Falante. Mas a posteridade de Arnaldo será menos diluída que a de Seringa. cheio de pose. contador de vantagens. Mas jamais 151 passará de promessa não cumprida. cantor ou ator. mas locutor de rádio. trabalhará como ator em peças e filmes. comparam-no a um galã de cinema. o valor dá-se a quem tem A Vila e a Aldeia não perdem pra ninguém (O que é que tem?) Meu bem. Quidinho e outros de dotes musicais bem maiores que os seus.

cuja quase totalidade do que vem fazendo nestes seus primeiros anos de carreira virou partitura por obra de Kalua (Dornellas limitou-se àquele histórico episódio de Com Que Roupa?). batizados e casamentos grãfinos. Outra figura muito querida e musical de um bairro todo ele musical. Será mais lembrado por seus solos de piano. Apenas ele e não os irmãos ou a namorada. duetos. Nessas reuniões sempre há quem peça: . De tanto tocá-la . Como Noel Rosa. As reuniões musicais que se realizam ali são versões menores e mais modestas dos saraus que têm lugar nas casas abastadas do bairro. proteste: "Por que não me chamam também? Não me acham boa o bastante para eles?"9 Kalua não se amofina. as criações dos compositores orelhudos do bairro. puxando da perna.ojosé Antônio virou Kalua. Pianista com curso de orquestração e regência. daqueles que não sabem ler ou escrever música. entre elas a dos Boamortes. isto é. Assim é a Vila Isabel musical destes dias.não gostar desse moreno de sorriso branco e cativante que rivaliza com Homero Dornellas em matéria de generosidade: são os dois que costumam passar para a pauta. Nunca recusa tais convites. Assim como para aniversários. . Chama-se José Antônio Lopes Filho e morou por alguns anos no 103 da Tneodoro da Silva.e sempre bem . peças humorísticas e pequenos bales ouvidos em revistas e operetas. Veste o melhor terno. gravata. ou por sua figura miúda. Entra pela casa. ágil. Mesmo que a namorada. a equilibrar-se no pódio sobre uma perna mais curta que a outra. Canções de amor. mas a seu piano. Mas nada do que produz ficará por muito tempo na memória do público. os dedos ligeiros. mulatos pobres que essas famílias geralmente discriminam. Minas dá leite E a Vila Isabel dá samba. não muito longe do chalé. elegantes. todos pianistas. Amigo de Noel Rosa.Toque o Ka-lu-a! A esta velha canção americana10 deve seu apelido. com razão. improvisando em cima de choros e fox-trots. mas cheio de si: sabe que todos aqui adoram ouvi-lo. Que sempre vai preferir ouvi-lo na casa de porta e duas janelas da Rua Gonzaga Bastos do que nestas festas emproadas onde a namorada e os irmãos de Kalua não entram. numa casa de porta e duas janelas da Rua Gonzaga Bastos. guardando o sorriso. Curioso: Kalua é sempre convidado para estes saraus. Hoje vive com a mãe e os irmãos. A exceção que fazem não é a ele. Kalua compõe para o teatro. enquanto rege com a batuta comprida a pequena orquestra do Recreio ou do Carlos Gomes. quase sempre em troca de um simples "muito obrigado". vai aonde o chamam. Um bairro que daqui a algum tempo seu poeta maior vai imortalizar em versos assim: Quem nasce lá na Vila Nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos do arvoredo E faz a lua nascer mais cedo Ou assim: São Paulo dá café.

segunda edição (pagina 60)." 2. Deusa do Cassino).Compositores. Cascata. pelo qual sua passagem foi tão breve que não chegou a ser registrada nos arquivos do Mosteiro. De qualquer forma. Lamartine saiu do colégio em 1920. cantores. Muitos estão aqui. Valzinho aprendendo a tocar um violão avançadíssimo. Juramento Falso. na esperança de que nos notasse. era a glória. Como o Álvaro Nunes. Augusto Frederico Schmidt não foi contemporâneo de Noel no São Bento. íamos todos cantar para ele. nenhum deles abdicará ao privilégio de ter pertencido à "grande família". que envelhecerá orgulhoso de sua fidelidade ao bairro. pois já em 1922 Schmidt cumpria seus últimos exames de bacharelato no Pedro II. em No Tempo de Noel Rosa. Almirante pode ter sido induzido a erro pelo próprio poeta que em sua crônica Só no Carnaval Eram . ganho porque costumava molhar seus pés de menino no chafariz da Praça 7. E Noel só entrou em 1923. sorridente. Ou como os irmãos Teixeira. o Liceu Francês. deu-se bem antes de Noel. Os arquivos do Mosteiro são claros quanto a isso. Conta Christovam de Alencar aos autores: "O homem tinha um cartaz danado. Neste caso. página 55). a poucos passos do Ponto de 100 Réis. o Grambery de Juiz de Fora. Newton criando canções imortais (Deusa da Minha Rua. Meu Romance. Estudou em vários colégios. Malmequer. e se pôs a cantar também. a mostrar que nem só de tangarás vive a Vila. enfim. porém. O cantor aproximou-se do grupo. nascido na Souza Franco. Desilusão. Se isso acontecesse. quando o Bando de Tangarás ouvia a prova de gravação de Mulher Exigente. Muitos. hoje morando na Abolição. o Progresso. quando concluiu o ginásio. por enquanto morando em São Cristóvão. que jamais se perdoarão por não terem tentado uma parceria com Noel. Almirante se engana ao afirmar que Noel Rosa e Lamartine Babo foram companheiros no São Bento {No Tempo de Noel Rosa. 152 NOTAS 1. Da mesma forma. segunda edição. Ou como Henrique Gonçales e Vicente Sabonete. Outros já se foram ou ainda estão por vir. de uma forma ou de outra. Minha Palhoça)." Almirante. Ou como Cyro de Souza e Antônio Almeida. Não. Mas. o próprio São Bento. Diz Almirante: "Nada no mundo me poderia ser mais grato do que verificar que aquela celebridade conhecia minha melodia. Ainda vai compor coisas magníficas {Lábios Que Beijei. instrumentistas. os chorões emboscados. mas de tantos outros pássaros que espalham música pelos céus do Brasil. História de Amor. Nem todos para sempre como Homero Dornellas. onde atende pelo apelido de J. Ou como os seresteiros sem fama. poetas. fala da emoção que lhe causou Francisco Alves em 1929. pois sabia de cor meus modestos versos. os negros sem nome que se escondem nos morros.

Disse aos autores Heloísa Brandão de Marsillac. a de Noel Rosa por Almirante e a de Lamartine Babo por Suetônio Soares Valença. Cor de Prata.É preciso ir ao districto dar queixa. Orestes Barbosa foi preso pela primeira vez èm 1921." 10. Ou mais que isso. sucesso lançado na comédia musical Good Moming. 5. Ka-lu-a. de mistura com horríveis sambas de hoje. As musicografias até aqui levantadas. Seu Getúlio Vem. deu-se em 1924.Os amigos do alheio carregaram tudo ! . Ewaldo Ruy envenenou-se na noite de 4 de setembro de 1954.158. conquistam todos os bairros. música de Jerome Kern. todo o Grajaú. Mas foram pelo menos cinco. assim como as de toda a Vila Isabel. 8. A quinta será focalizada no Capítulo 27. irmãos e amigos.) Um sucesso como nunca se viu. nos falam de quatro colaborações entre os dois.Com que roupa ? Charge de A Careta. pertencem à Região Administrativa de Vila Isabel. mas também para sua namorada. nome este sequer mencionado no Decreto 3. recitando os versos de um só poema. de 23 de julho de 1981. "A capacidade de admirar de Orestes Barbosa". Minha Cabrocha vieram para ficar por longo . letra de Anne Caldwell. Segundo o mesmo decreto. Alguns são de fato muito bons. por críticas na imprensa ao governo Arthur Bernardes. por haver acusado o Grêmio Euclydes da Cunha de usurpar os direitos autorais de seu patrono. Batente. muito discriminados naquela época. uma composição de Noel Rosa. Procuro as feições do compositor. incluída no livro O Galo Branco (página 197). 9. Apanhando Papel. outros sambas e marchas prometem se destacar no próximo carnaval. Neste primeiros dias de dezembro de 1930. sendo hoje parte de Vila Isabel. 153 CONQUISTANDO A CIDADE Capítulo 16 NOS SUBÚRBIOS . depoimento de Antônio Nássara incluído no livro Chão de Estrelas (página 174). Heleno Brandão: "Nossa casa era das únicas que abriam suas portas não só para o Kalua. A segunda prisão. Seus moradores hâ muito deixaram de se referir a ela pelo nome primitivo. Se Você Jurar. encenada na Broadway em 1921. (Arquivo dos autores. Parece até que o Rio despertou agora há pouco ao som de um só samba. Música e letra de Com Que Roupa? ressoam por toda parte. todo o Andaraí. Dearie. Sylvlo Pinto morreu em Porto Alegre em 1980. que reconhece e delimita os bairros do Rio. 4. O Barbado Foi-se. Deixa Essa Mulher Chorar. parte da Tijuca e parte do Maracanã. que esteve comigo no colégio. a IX do município do Rio de Janeiro. 6. ouvindo a voz de um só cantor. filha do Dr." 3. 7. diria: "Pelo rádio ouço agora. cumprindo ameaça que acabara de fazer por telefone à cantora Elizeth Cardoso. A acusação atingia indiretamente alguns figurões da política. Batucada. já não existe como bairro. as ruas da antiga Aldeia Campista.Noturnas. O que um dia foi a Aldeia Campista. .

'roupa' e 'estopa'. registrou desusado sucesso. 'luta' e 'bruta'. desde logo. Existe também na peça a originalidade de seu autor ter encontrado coisa de pleno agrado popular. secundando a opinião pública. etc. 'malandro'. a mais cantada. Ao nosso ver.. elogiada."1 Uma resenha que fala três vezes em "originalidade". projetam a voz de Noel a cantar. Este samba. etc. Praça Saenz Pena. particularmente Bazinha. que todo o Rio já sabe de cor. Cruz Cordeiro. Alto-falantes instalados em alguns pontos da cidade. a começar pelo próprio título da composição sem necessidade de recorrer a assuntos já explorados de 'orgia'. 'carinho'. Há pelo menos um motivo muito especial para. Com situações. que pertence ao já popular 155 Bando de Tangarás. ao mesmo tempo em que cantam. Alegria. que ele próprio canta com graça e especial sabor. 'nota'. é a que mais intimamente sensibilizará a alma do carioca. Nenhuma canção popular arrebatou tanto a cidade. ele. comentada. estridente.. reside na originalidade da letra e no sabor esquisito do ritmo. emoções. cuja voz aguda. de seus hábitos. diz: "Noel Rosa. vai fácil de uma esquina a outra: Com que roupa eu vou Ao samba que você me convidou? Foi um barulho. meu caro?" As emissoras de rádio tocam o disco sem parar. aspectos colhidos na vida real. acompanhado pelo adestrado Bando Regional. Todo o mundo cantou. Rua Dona Zulmira. Bazinha levam pacotes e mais pacotes de impressos com a letra de Com Que Roupa?.2 45. Avenida Atlântica. dentro do qual a letra está magnificamente enquadrada. de suas conversas. É assim que eu faço as minhas coisas. Fina. revelou-se este ano como autor do samba Com Que Roupa?. episódios. . No carro de Valuche. mas sobretudo pelo sabor de seus versos.tempo na memória do povo. cujo apelo e originalidade envolvem as pessoas desde o primeiro instante. enviamos daqui os nossos parabéns a Noel Rosa pela originalidade e engenhosidade de seu samba. queixoso: Eu hoje estou pulando como sapo Pra ver se escapo Desta praga de urubu. entrevista ao Jornal de Rádio Sucesso realmente sem precedentes. O próprio Noel se incumbe de mobilizar os amigos para fazer o samba mais conhecido. a grande aceitação do samba de Noel. Não só por sua melodia contagiante. Desfilam pelas ruas principais de vários bairros. tornando-se parte de sua vida. Mas nenhum fará o sucesso de Com Que Roupa?. de sua linguagem: "Jantar no Assyrius? Com que roupa. Se não for a melhor composição desta safra. é decerto a que maior impacto causa. sendo Com Que Roupa?'posterior a vários sambas do Estácio já gravados. Martha Clara. ou então de 'sopa'. Reparem os amadores como caem bem dentro da música e do ritmo aquelas rimas acentuadas e nítidas de 'conduta'. tocada. Enfim. atirando pelas janelas os folhetos. cantado por ele com acompanhamento do Bando Regional na primeira face do disco n P 13. numa de suas resenhas sobre os últimos lançamentos em disco. E em tão pouco tempo. apresentando-se como um dos prováveis êxitos do carnaval que aí vem.

Dan Russo & Ted Fiorito. que chegaram ao disco. o fato de Com Que Roupa?. Isso já as vésperas do carnaval. Paulo Rodrigues. enquanto as passagens de orquestra ora utilizam adornos estrangeiros. mas o acompanhamento rítmico afinado mais pelo diapasâo da Cidade Nova. Nílton Bastos. tendo por trás a Orquestra Guanabara. Proposta aceita na hora. Fletcher Henderson. Na gravação de Ximbuca há. As composições de Ismael Silva. Kay Kyser. Noel Rosa não recebeu um tostão além do que lhe foi pago pelos dois cantores. Afinal. Alcebíades Barcellos.G. Sucesso sem precedentes. dando o . Paul Whiteman. dos grupos que se apresentam nas salas de espera dos cinemas e muito especialmente nos cabarés e gafieiras onde casais dão voltas ao ritmo de maxixes e sambas amaxixados. E pode-se mesmo afirmar que. freqüentador das casas das "tias" baianas. descobriu desde logo que ópera não dá camisa a ninguém. talvez Com Que Roupa? não chamasse tanto a atenção para sua originalidade. todavia. quando o samba na voz de Noel já houver conquistado a cidade. Brancura. Os autores dos arranjos não variam muito. Loyola. Leo Reis-man. Guy Lombardo. tivesse sido a única. Ou são maestros que tentam adaptar à música popular brasileira a sonoridade das orquestras de dança americanas. a voz de Francisco Alves ou Mário Reis transmitindo melodias realmente do Estácio. os sambas do Estácio que se ouvem nos discos desses primeiros tempos soam como produtos híbridos. parecer mais novo do que de fato é. contudo. mais identificado com a instrumentação dos conjuntos de choro. novidades. nos dá uma versão muito diferente da de Noel. a gravação original sustentada apenas por bandolim e violões. com apenas duas estrofes ao invés de três como no primeiro registro. com o qual o próprio Noel deve estar surpreso. explorado pelo estrangeiro. Deve-se em grande parte a essa hibridez. Ben Pollack. tiveram como intérpretes Francisco Alves e Mário Reis. um como baixo e outro como barítono. Ignácio. das bandas que saem com os ranchos ou tocam em circos. Assim. A gravação é bom exemplo do quanto os acompanhamentos orquestrais podem mudar o espírito de um samba feito nos moldes do Estácio. companheiro simpático e bonaChão. também cantor. G. sempre acompanhados de orquestra. ou é Pixinguinha. sempre pensando num "Brasil de tanga". Tentará. E tratou de arranjar um bico aqui e ali.parecer-se novo também em relação a eles: o acompanhamento. Versos adicionais que Noel fez para ele. assim como a da venda de Malandro Medroso a um amigo de Ignácio. carreira como cantor popular. inclusive. Baiaco. Isham Jones. I. Tanto Ignácio como Paulo começaram suas carreiras no coro do Teatro Municipal. porém. não teria aceito a proposta do cantor e locutor Ignácio Guimarães: 180 mil réis pelos direitos do samba. se esperasse êxito tão grande. Loyola. Para os amigos. será sempre o Ximbuca. o disco chegando a vender mais de 15 mil cópias. típica de um período de transição. Resultado: pelas duas faces de um disco que teve venda formidável. assinando-se nos discos como I. Ximbuca empolga-se tanto com o fato de ter-se tornado dono de Com Que Roupa?que decide gravá-lo também. ora recorrem às baixarias do maxixe.

Que eu vou Pro samba que você me convidou? . Há até uma fantasia feminina Com Que Roupa?. na música.Com que roupa? Eu vou (com que roupa que eu vou?) Pro samba que você me convidou? O Adamastor citado é o famoso navio português cujo nome homenageia o titã cantado por Luís de Camões em Os Lusíadas. para se terminarem com suspensórios. este alterando ligeiramente a estrutura do estribilho. sugerida pelos jornais: "Calças de linho azul.Com que roupa? Eu vou . na moda. não tão felizes. Você não é nenhum artigo raro Mas eu declaro Que você é um bom peixão E hoje que você se vende caro Creio que você não tem razão O peixe caro é a garoupa Com que escama e com que roupa? Eu nunca sinto falta de trabalho Desde pirralho Que eu embrulho o paspalhão Minha boa sorte é o baralho Mas minha desgraça é o garrafão Dinheiro fácil não se poupa Mas agora com que roupa? Um sucesso presente em quase tudo.Me convidou2 Com que roupa ." . Blusa de cambraia em xadrez branco e vermelho e grande chapéu de palha amarelo. serão interpretadas por Noel em programas de rádio e apresentações ao vivo em que o público. entusiasmado.Amava outrora Foi no Adamastor pra Portugal . com que roupa? 156 Com que roupa .Oi.Pra se casar com uma cachopa! E agora com que roupa? . terminadas em boca de sino e que sobem mais na frente.que tem de melhor e abandonado no fim.. Os versos cantados por Noel no disco seguem-se precedidos de travessão: Seu português agora foi-se embora .Oi. foi-se embora Já deu o fora E levou seu capital . porém. Não serão gravadas.. na propaganda de casas comerciais. A segunda estrofe já foi gravada: Agora estou pulando como sapo. Noel faz a segunda voz e o contracanto. no esporte. exige-lhe que bise Com Que Roupa?. Outras estrofes. Além disso. Nela Noel prefere "meu paletó" em lugar de "meu terno já virou estopa".Seu capital Esqueceu quem tanto amava outrora . com vários remendos.

Sambistas da Mangueira e outros redutos - Cartola, Aloísio e Sílvio Dias, José da Flauta, Zé Criança, Crispim e Palhaço - organizam um conjunto na base de flauta, violino, cavaquinho, violão e pandeiro e o batizam de Com Que Roupa?, homenagem que o pessoal lá de cima não costuma prestar à gente cá de baixo. Convidados a atuar nas festas do morro, batizados, aniversários, casamentos, São João, o grupo permanecerá na ativa por oito anos. O Vila Isabel Foot-ball Club não fica atrás e dá o nome de Com Que Roupa? ao seu combinado convocado para enfrentar o do Vieira Souto Foot-ball Club. Paródias do samba se multiplicam, criadas por foliões anônimos ou por poetas conhecidos como Ary Kerner Veiga de Castro, que não deixa passar em branco a determinação do novo chefe de polícia do Distrito Federal, João Baptista Luzardo. de tornar vitoriosa antiga campanha moralizadora para impedir que "trajes demasiado sumários transformem em prática indecorosa os nossos banhos de mar a fantasia". Com a música de Noel, canta Ary Kerner: Não posso mais mostrar o meu umbigo É o o castigo Que o Luzardo me quis dar... Eu, que já fazia economia, Mais esse dinheiro vou gastar! Pois sem camisa, sem ter touca, Eu pergunto: com que roupa? Com que roupa que eu vou Pro banho que você me convidou? 157 Os jornais de modinhas destes primeiros meses do ano publicam constantemente não apenas a letra original do samba, como as paródias enviadas pelo público. Com tal freqüência que um leitor de Voz da Mocidade, Antônio Maia, no número de maio de 1931, queixa-se através de carta: "Chega já de Com Que Roupa?. Cousa nova, sim?" Sucesso sem precedentes que ultrapassa os limites da música popular. Raul Pederneiras, J. Carlos, Theo aproveitam a popularidade do samba para publicar em jornais e revistas charges contendo críticas à política, à administração pública, aos costumes. A um desses artistas, Álvaro Cotrim, o Alvarus, cabe uma primazia : é dele a primeira caricatura de Noel publicada na imprensa3. De perfil, as mãos nos bolsos, o compositor aparece com a roupa remendada, não propriamente coberto de farrapo, mas num desenho inspirado na música e que pelo menos nos próximos cinqüenta anos será freqüentemente republicado. Observadores políticos atentos não cairão em nenhuma das armadilhas que Noel prepara nas muitas entrevistas que dá, em cada uma delas contando uma história diferente, camuflando sempre a verdadeira gênese de Com Que Roupa?, confessada a tio Eduardo. Maurício de Lacerda, por exemplo, é perspicaz o bastante para perceber que os versos de Noel não devem ser tomados literalmente e escreve longo artigo que, além de ter o mesmo título do samba, aproveita-lhe a metáfora para falar dos rumos ainda indefinidos da Revolução de 30:

"Vamos, povo carioca, a quem e com quem ficará o teu aplauso e vê bem nesta hora com a lente de tua ironia carnavalesca que não é possível acompanhar ao mesmo tempo as três Histórias de um samba "Um samba que acabo de fazer. É sobre o i Brasil. O Brasil de tanga."

Ao tio Eduardo Corrêa de Azevedo, 1929 "... quando fiz o Com Que Roupa? não tive em mira fazer alusão ao povo, que, apesar de tudo, sei que ainda tem roupa e faço votos que continue a tê-la em profusão, e que não lhe falte roupa, e muita, para brincar no carnaval. Com Que Roupa? é uma pergunta que se aplica a diversos casos. Por exemplo: se um camarada está sem dinheiro e alguém o convida para um baile ou uma festa qualquer, ele retruca, com um gesto significativo: 'Com que roupa?' (isto é, com que dinheiro?). Se precisa resolver qualquer assunto intrincado, sem descobrir os meios para tal, recorre ainda à mesma interrogação: 'Com que roupa?' Al está." Ao Diário de Notícias, 15 de fevereiro de 1931 "Com Que Roupa? tem uma história interessantíssima que vale a pena contar aqui, a título de curiosidade. Foi um caso que se passou comigo mesmo. Com sangue de boêmio, eu passei a chegar em casa, em determinada época, a altas horas da noite. Vinha de festas ou de serenatas, ou de simples conversas. Mas o fato é que essa vida, passada toda em claro, devia prejudicar a minha saúde. Foi o que aconteceu (...) Mas quem mais se assustava era mamãe. Pressentiu, antes que ninguém, o meu estado. E, dia-a-dia, renovava as suas advertências, os seus apelos, para que não me demorasse na rua tanto tempo, para que dormisse mais, que eu acabava doente. Eu prometia que sim. Mas a minha vontade era nula. E chegava, fatalmente, às mesmas horas, com as mesmas olheiras e com aquele emagrecimento progressivo, que estava alarmando todo o mundo. Desesperada de conseguir a minha obediência pelos recursos da persuasão, minha mãe lembrou-se de um antigo recurso, mas cujo efeito é sempre eficaz. Assim é que escondeu todas as minhas roupas. Sem exceção. Fiquei desesperado. O pior é que, na véspera, mandara que alguns amigos me viessem buscar para irmos a uma festa. Os amigos não faltaram. À noite, batiam lá em casa; 'Como é, Noel, vamos para o baile?' E eu, dentro do meu quarto: 'Mas com que roupa?' Mal eu tinha acabado de soltar a frase, e ocorreu a inspiração de fazer um samba com esse tema. Dal o estribilho: Com que roupa eu vou Ao samba que você me convidou?" Ao Jornal de Rádio, 1 de janeiro de 1935 "Não gosto do Com Que Roupa? Foi feito para o povo, e os sambas de que eu mais gosto são feitos para mim." À Carioca, 14 de dezembro de 1935 "Não gosto desta música. Foi feita em 1930, sobre o momento político brasileiro, onde os partidos se apresentavam e se desfaziam porque não tinham roupa para aparecer. E saiu o estribilho que todo o Rio cantou: Com que roupa que vou Ao samba que você me convidou?"

À Carioca, 18 de julho de 1936 158 tendências tão opostas que serpentinam no espaço e lançam aos teus olhos os confetes multi-cores da sua convicção. Tu pensaste no entrudo antigo para afogar com o teu coração esta pantomima tão larga quanto insossa da regeneração republicana do Brasil pelos políticos que fizeram a sua degeneração oligárquica. Mas, ergue neste momento, sem o teu verso e sem tua prosa, a tua voz vingadora na estrofe do teu último carnaval, perguntando a esta democracia de três forças incoerentes como vias no teu samba: de camisa preta, de camisa vermelha, ou de camisa verdeamarelo, isto é, 'com que roupa', fascista, comunista ou socialista? Desta tua pergunta, ó carioca, não esperes a resposta, samba à vontade, canta a teu modo a tua desventura e, seja com que roupa for, põe pela tua ironia, pela tua sátira e pelo teu espírito de fronda, sem qualquer roupa, nu na praça o rei de uma democracia que procurando ser livre caiu no bico da cegonha da Revolução de outubro."4 Múcio Leão já vê as coisas de ângulo mais próximo do de Noel: "Mas há mais do que isso no carnaval deste ano: há uma canção proletária! A hora atual é de crise profunda, e o brasileiro sofre todas as amarguras de uma miséria a que não estava habituado. E esse estado de alma está refletido numa das nossas músicas populares. Eu não conheço nada mais característico da alma do brasileiro miserável dos dias de hoje do que a canção que por aí corre e na qual vemos um indivíduo queixar-se de não ter uma roupa com que vá a um samba para que foi convidado. Não ter um terno, ver o seu paletó transformado em estopa, ter a certeza de que esta mesma estopa vai ser farrapo daí a algum tempo e, diante dessa extrema calamidade, não ter dinheiro para comprar um fato novo - mesmo que seja ordinaríssimo -aí estão as dores do brasileiro de agora, do brasileiro humilde, filho da multidão, que cifra toda a sua ventura em ter três dias no ano em que possa sambar e se divertir à vontade. Eu creio que nada existe na literatura brasileira culta que, como documento, valha essas pequenas canções vagabundas que iluminam o nosso carnaval."5 Também alcança as intenções de Noel, num texto muito rebuscado, Vivaldo Coaracy: "A cidade inteira é um caos que endoideceu. E servindo de tapete uniforme à apoteose do barulho, acompanhamento uniforme da sintonia de todos os ruídos, surda, mas sempre presente, a toada uniforme do samba: Com que roupa eu vou Ao samba que você me convidou?... É a resposta instintiva da alma popular ao convite da República Nova. É a consciência latente da miséria, em meio ao delírio das esperanças. É o sentimento pertinaz da realidade a resistir à vertigem de três dias de embriaguez. Já estou coberto de farrapo Eu vou acabar ficando nu... Meu terno já virou estopa... "6 Este é de fato o carnaval de Com Que Roupa?, o carnaval de Noel Rosa. Repórteres o procuram para que conte a história do samba, diretores de clubes o convidam para

recitais, com ou sem os outros tangarás. Não há um dia em que não se ouça no rádio ou se leia no jornal um elogio ao jovem compositor ou ao seu samba. Um musicólogo da estatura de Renato Almeida não esconde seu entusiasmo: "Mário de Andrade, para o Pinião, descobriu quatro versões rítmicas diferentes, além de variantes melódicas em geral leves. Este ano, de quantos modos se cantou Com Que Roupa? " Mais adiante, o alcance idêntico ao dos observadores políticos: "Música de dança, samba, música enrascada, mole, sensual, nela só o ritmo marca o elemento masculino e viril, porque tudo mais é languidez. Não raro, há lamúria, a exemplo de Com Que Roupa?, no qual, excepcionalmente, a letra é deliciosa, desse desgraçado que vai mudar sua conduta e vai pra luta..."7 No bairro, todos cumprimentam Noel. Até aqueles vizinhos que lhe viravam o nariz por vê-lo "sempre metido com gentinha". Os amigos sorriem para ele, dão-lhe tapinhas nas costas. Um ou outro estranho aproxima-se, finge-se de íntimo, quer ser visto conversando com o autor de Com Que Roupa? Nos dias de folia, 15, 16, 17 de fevereiro, é impossível sair às ruas sem ouvir a composição. Noel tem mais sete gravadas para este carnaval, por ele ou por outros artistas: Eu Vou Pra Vila, Malandro Medroso, A.B. Surdo, Nega, Por Esta Vez Passa, Dona Aracy e Dona Emília. Para um estreante em carnaval, um respeitável lote, mas ofuscado por Com Que Roupa?. Em Por Esta Vez Passa a cachaça é o tema. I.G. Loyola, o Ximbuca, é seu intérprete. Por esta vez passa Por esta vez passa Mas não volte à minha casa Assim cheirando à cachaça. Já é coisa bem sabida Que a dona Manuela Ou acaba com a bebida (como é?) Ou a bebida com ela. 159 Acabou-se o parati Em casa de dona Antônia Por isso dona Didi (que foi?) Só bebe água da Colônia. Viva o artigo nacional O Brasil vai ter valor Por isso seu Amaral (só...) Só bebe álcool-motor. Dona Aracy é muito cantada por blocos de rua, marcha composta de um refrão muito simples e uma série de quadrinhas que se vão improvisando durante o desfile. As quadras de Noel, gravadas por Almirante, são também simples e uma delas contém uma brincadeira com Malhado: Dona Aracy! Dona Aracy!

Quero saber: Como anda isso por ai? Como vai o seu Malhado? Seu marido em certidão Inda está desconfiado (Inda está desconfiado) Que é lesado pelo irmão. Como vai a sua filha Que namora no porão? Se a senhora não estrilha (Se a senhora não estrilha) Quero uma apresentação. Como vão as suas jóias? Tão bonitas, eu não nego Não passavam de pinóias (Não passavam de pinóias) Davam dez tostões no prego. Que foi feito do Renato Que malvado, que troféu Que pisava em meu sapato (Que pisava em meu sapato) E cuspia em meu chapéu. Dona Emília é uma das marchas cantadas pelo Faz Vergonha em seu desfile de domingo de carnaval. Tem música de Glauco Vianna e versos de Noel, todos eles alusivos aos valentes foliões da Rua Maxwell, capazes, se a concorrência assim o exigir, de ganhar até um prêmio de violência: Sai da frente Dona Emilia! Que o nosso bloco Só tem gente de família... (Sai logo! Sai, sai!) O nosso bloco vai a todas as batalhas Só pra ganhar muitas medalhas E se houver muita concorrência Eu trago o prêmio da violência. O nosso bloco tem cordão de isolamento Só pra barrar mau elemento E a dona Emília anda despeitada Porque não entra na batucada. A dona Emília foi pedir por compaixão Pra penetrar no meu cordão Mas eu não quero esta tagarela Porque ela samba lá na Favela. Mais do que nunca Noel é uma das atrações do Faz Vergonha. E, embora se cante sua marcha com Glauco e outras composições do pessoal do bloco, à sua passagem o comentário

não muda: "Ele é que fez o Com Que Roupa?". Mas Noel nem dá importância, tão envolvido está com a alegria do bloco, a sua própria alegria. Este ano ele sai entre os improvisadores com uma fantasia arranjada à última hora: sapatos, bolsa, chapéu e vestido de dona Martha. Um vestido estampado, colorido, há muito fora de uso, dentro do qual o corpo mirrado de Noel quase some. Está contente com o sucesso, com a vida, com tudo. Canta, dança, inventa passos entre uma cerveja e outra. O bloco sai da Maxwell, toma a Piza de Almeida, Dona Elisa, Souza Franco, cruza a Theodoro da Silva e deságua, triunfal, no Ponto de 100 Réis. Para mostrar ao Cara de Vaca que o Faz Vergonha ainda é o melhor, tem batuqueiros, passistas, moças bonitas, improvisadores, Noel Rosa. Um Noel Rosa que não pára de dançar. O bloco vai até a Praça 7, faz o contorno e volta ao Boulevard para o percurso na direção do Largo do Maracanã. Noel segue inventando passos, requebra, faz uma pirueta, planta uma bananeira. Na altura da Felipe Camarão, um guarda atravessa a corda, puxa-o pelo braço e lhe diz baixinho, em tom de paternal reprimenda: - Assim não dá, Noel. - O que é que houve, seu guarda? - Esta fantasia. Não dá para dançar com ela. -Mas é um vestido, seu guarda. Como de todo mundo. - Sim, seu Noel. Mas me faz um favor: se é para dançar, trate pelo menos de botar um calção por baixo. Os anos 30 caminham para se converterem num período bom para o teatro de revistas carioca. Desde fins da década passada a Praça Tiradentes e arredores vivem dias de fulgor, comédias musicais estreando a todo momento, revelando estrelas, humoristas, 160 autores, músicos, novos nomes da música popular. Ninguém nega que o cinema é moda que ganha corpo a cada dia, principalmente nos últimos dois anos, em que os atores e atrizes da tela, por uma dessas mágicas do progresso, começaram a falar. Mas ainda vai demorar para o cinema substituir o teatro na preferência do carioca. Estão aí, como exemplos eloqüentes, o Recreio, o República, o Carlos Gomes, o Phoenix, o Trianon, todos acolhendo público numeroso e empolgado a cada nova revista que encenam. Noel Rosa deve também a Com Que Roupa? o seu ingresso, mesmo que por pouco tempo, no mundo do teatro musical. O samba é incluído intre os números carnavalescos da "super-revista de fantasia e comicidade" que os irmãos Quintiliano escreveram para Aracy Cortes e Mesquitinha. O espetáculo intitula-se Deixa Essa Mulher Chorar e tem, além deste samba de Brancura, outros sucessos do carnaval, Batente, Cavanhaque, Se Você Jurar, Sorris, Maria, Deixa Disso, Nem É Bom Falar. Um quadro inteiro é dedicado a Com Que Roupa?, reunindo no palco a malícia de Aracy Cortes, o humor de Mesquitinha, as belas pernas de um grupo de coristas não muito preocupadas com a roupa ou com a falta dela. A peça estreou no Teatro Recreio, a 9 de janeiro de 1931, e tem entre suas novidades mais uma das muitas ousadias de Aracy: em vez da

tradicional orquestra, o acompanhamento é feito por um grupo de sambistas que ela própria foi buscar no Salgueiro, não se importando com a advertência de alguns amigos sobre os perigos de subir o morro. Um grupo de salgueirenses de poucos sorrisos, meio desconfiados por pisarem um palco pela primeira vez, ajuda a tornar mais irresistíveis as interpretações da grande estrela que é Aracy Cortes. São apenas sete: surdo, chocalho, pandeiro, cuíca, tamborim, violão e cavaquinho. Mas que riqueza sonora eles extraem de seus instrumentos! Deixa Essa Mulher Chorar é um triunfo. Não só por Aracy, mas também pelo repertório, sambas do Estácio, do Salgueiro, do jovem Noel Rosa, deliciando uma platéia que constata ser possível produzir uma revista com ingredientes cem por cento brasileiros, das piadas à música. Sendo este um gênero importado - com muito da revue parisiense, do musichall londrino, das extravagâncias dos palcos da Broadway pare ce ter nascido e se desenvolvido aqui, no Brasil de Aracy Cortes, quando as atrações são o nosso samba, os nossos sambistas, o cenário carioca, o humor de nossas esquinas, uma realidade nossa. É por isso que, enquanto a revista trilhar por este caminho e o cinema vier de fora, o teatro continuará insubstituível. Nas pegadas do sucesso da peça do Recreio - e em particular do quadro sobre o samba de Noel - Luís Peixoto, outro poeta, grande letrista de música popular, homem de teatro e revistógrafo (por sinal um dos que se mostram inclinados a trocar sua formação um tanto Folies Bergère por um estilo brasileiro de crônica e crítica às nossas coisas), decide escrever uma revista especialmente para a Companhia Mulata Brasileira levar ao palco do República. Título: Com Que Roupa? Para estrear ainda antes do carnaval, a 23 de janeiro de 1931. Pretendendo ser uma "burleta de costumes cariocas", se apoiará num texto leve, bem-humorado, e nestas canções que o povo canta, uma delas, evidentemente, o samba que fez o Brasil descobrir Noel Rosa. Se a porta do teatro de revistas começou a abrir-se para Noel Rosa em Deixa Essa Mulher Chorar, escancara-se de vez com a proposta de Eratósthenes Frazão logo após o carnaval. Embora profissional do jornalismo, Frazão faz hoje incursões ao teatro e à música popular. Nesta, atingirá a notoriedade no carnaval, daqui a oito anos, com Florisbela, em parceria com Nássara. Filho do maestro da Capela Imperial, Sebastião Alves Frazão, traz a música no sangue. Nasceu em 1891 e seu nome é uma homenagem ao astrônomo e matemático grego Eratósthenes8. Altura mediana, elegante, bem moreno, cor de índio, solteiro convicto. Quem o aproxima de Noel é o próprio Nássara que recomenda ao compositor procurá-lo nos bastidores do Teatro 161 Recreio. Durante a conversa, Frazão impressiona-se com o número de canções que Noel já possui em seu repertório. A proposta é de aproveitar várias na revista que

ele, Maciel Pereira e Leo Grim estão escrevendo para ser montada em abril no Recreio. Aracy Cortes e Mesquitinha mais uma vez encabeçarão o elenco. Mas outros grandes artistas, como ítala Ferreira, já foram contratados pela empresa A. Neves & Companhia, que comprou a idéia de Frazão e vai produzir o espetáculo. - Título? Café Com Música. Frazão explica tratar-se de uma revista cujos quadros e cortinas girarão em torno de um mesmo tema: o preço do cafezinho. Lembra ele que o interventor federal, Adolfo Bergamini, acaba de fixar em 100 réis o preço da xícara pequena, mas muitas casas não obedecem ao tabelamento. Cobram o dobro, enquanto os fiscais, imaginase em troca de que, fecham os olhos. Ainda outro dia, houve barulho no centro da cidade, uma pequena multidão querendo quebrar tudo, fechar à força as portas de um botequim cujo dono, português, cobrava acima da tabela. Parece que as coisas agora estão contornadas. Ao menos por enquanto. O interventor concordou que as casas do Rio pudessem cobrar dois preços, 100 réis pelo cafezinho puro e simples, 200 se aos fregueses for oferecida, além do café, música ao vivo, orquestras e conjuntos animando o ambiente. A revista vai focalizar estes e outros episódios ligados ao café, há tanto tempo centro de intermináveis discussões políticas e econômicas neste país conturbado e indefinido em que vivemos. Noel aceita a proposta de Frazão, acha interessante a idéia, promete contribuir. Frazão esclarece que nem todas as composições precisam ser inéditas ou novas. Até que será bom incluir algumas já conhecidas. - Claro, Com Que Roupa? não pode faltar. Das muitas entrevistas que Noel Rosa dá a respeito do seu samba, uma, daqui a quase quatro anos, se tornará uma espécie de versão oficial. Fantasiosa, típica de um Noel que sempre se divertirá inventando histórias para vê-las impressas em letra de fôrma, esta versão, talvez por seu tom pitoresco, caricato, será repetida como a verdade das verdades. Sobreviverá ao próprio Noel, resistirá a todos os desmentidos. Nela, Noel diz que inspirou-se nos excessivos cuidados de dona Martha com sua saúde, a mãe escondendo-lhe as roupas para que não saísse de noite, não se consumisse nas madrugadas de boêmia. Não adiantava os amigos o convidarem para o samba. Com que roupa iria? Uma história tipicamente Noel, que nada tem a ver com a do "Brasil de tanga". Um fingidor. Nas entrevistas para que será solicitado pela vida afora-da primeira que se tem notícia à última que dará já agonizante - Noel Rosa continuará sendo um fingidor, raramente se revelando, abrindo a guarda, desnudando-se. Realmente se diverte com isso, aproveitando-se da credulidade do entrevistador para ajudar a criar lendas em torno de si, não deixando que o vejam como de fato é. As vezes, em lugar de credulidade, conta com a cumplicidade do entrevistador. Como nesta matéria que começa assim: "Noel Rosa sentou-se, ou antes trepou numa cadeira e ficou com as pernas balançando no ar. - Noel! - Quê? - As mulheres?... - Ah!"

Uma entrevista sobre a visão do amor segundo Noel Rosa, ele sendo definido pelo entrevistador como "Clark Gable que foi diminuindo, diminuindo, e um vento forte trouxe para o Brasil", enquanto Noel se pinta como conquistador, durão, insensível, mau com as mulheres. "- Mau?- rodou nas pontas dos dedos a palheta e tornou a sorrir. Vocês outros têm sobre a maldade um conceito errado, pensam que maldade é o que o dicionário diz. - E não é? - Não. Eu sei de mulheres que gostam de apanhar (e também de homens...). Isso, no conceito de maldade que vocês têm, seria motivo para uma interrogação. Então como pode ser? Desde que um homem dando numa mulher não a deixe triste, a sua violência passará a essa categoria gostosa de carteia. A cariciapode ser transmitida por intermédio de uma paulada ou de um beijo. Pura questão de combinação prévia. "9 Malandro medroso. E fingidor. Não é bem assim Noel Rosa. Não, pelo menos, com as duas mulheres que repartem seus carinhos neste começo de 1931: Clara e Fina. Tem sido difícil sair, sem despertar suspeitas, dos braços de uma para os da outra. Afinal, elas continuam sendo quase vizinhas. Mas ele sabe dividir seus horários, vendo Clara à saída da escolinha em Vila Isabel, Fina em noturnos e escondidos passeios de carro e ainda conquistando outras garotas em suas andanças pela madrugada. É muito carinhoso com Clara. Especialmente agora que ela chora um duro e repentino golpe: a morte da mãe. Dona Clara não chegou a ficar um ano na casa da Barão de Bom Retiro, o coração deixando de bater numa triste manhã de chuva. Noel é sensível à dor da namorada, 162 trata-a com afeto, cerca-a de atenções. Martha também. Gosta muito de Clarinha, ainda acredita que ela será a filha que não teve, a bonita e meiga professorinha com que a vida presenteou Noel. Com Fina, ficam as saídas noturnas no carro de Valuche ou de Malhado. Sempre a quatro, pois não é problema para nenhum deles arranjar uma pequena que queira fazer companhia a Fina numa viagem de prazeres até o Alto da Boa Vista, Leblon, Jacarepaguá e outros recantos desertos. Tudo escondido de dona Luísa, evidentemente. E dos outros moradores da casa da Rua Moju. Imagine se soubessem por onde anda a travessa Fina... Alegria já não faz parte desses passeios. Nem das serenatas. Como tinha dito a Noel, seria capaz de qualquer coisa por Martha Clara. Até se casar. E foi exatamente o que fez, de repente, nos primeiros dias do ano. Comprou um carro de praça, montou casa no Boulevard e para lá levou, apaixonadíssimo, Martha Clara, Nelson, Walter, Juquinha, os três filhos do comissário que criará como seus. Para Alegria, os tempos de boêmia terminaram. Daqui a alguns meses - 22 de outubro de 1931 nascerá o único filho de seu casamento. Chamará o amigo Noel Rosa para irem juntos registrar o menino. E lhe fará uma surpresa. - Sabe que nome vamos dar a ele? - Não. - Noel(10)! NOTAS 1. Phono-Arte, 30 de dezembro de 1930 (página 25).

2. O contracanto "me convidou", que iria se popularizar e se incorporar definitivamente ao samba, está presente apenas nesta segunda gravação. Na primeira, Noel não o canta. 3. Diário de Notícias, 15 de fevereiro de 1931. 4. Diário de Notícias, 19 de fevereiro de 1931. 5. Jornal do Brasil, 17 de fevereiro de 1931. 6. O Estado de S. Paulo, 22 de fevereiro de 1931. 7. Diário de Notícias, 11 de fevereiro de 1931. 8. Para dar entrada em seu processo de aposentadoria, Frazão obteve uma falsa certidão na qual consta ser carioca de 1901. Na realidade, nasceu em 1891, fora do Rio de Janeiro, apesar de desconhecer-se o local exato, segundo informação de seu amigo e advogado Bruno Ferreira Gomes. Na ocasião, ao procurar Bruno, Frazão declarou: "Em vida não cheguei nem aos pés do meu xará grego, mas parece que na morte vou igualá-lo: ele terminou seus dias na miséria. Se você não conseguir me aposentar, vou acabar na maior merda!" 9. Diário de Notícias, 22 de fevereiro de 1931. 10. Noel Souza Pinto seria motorista profissional como o pai. Morreria assassinado a tiros, no bairro carioca do Meyer, a 29 de outubro de 1980, por três homens com os quais tinha velha rixa. 163

O MIGUEL COUTO DO SAMBA Capítulo 17 Ninguém foge ao seu destino. Eu sou um exemplo: quiseram que eu fosse médico e eu acabei sambista... entrevista ao Diário Carioca A poltrona de madeira do Cine Vila Isabel é desconfortável, mas mesmo assim Noel Rosa dorme profundamente. Nem suspeita que lhe falam ao ouvido, primeiro baixinho, depois em tom mais alto, por fim aos berros: - Noel! Ô Noel! Duas mãos o seguram pela gola do paletó. Seu corpo, cinqüenta e poucos quilos de magreza, é quase que guindado da cadeira. Já na sala de espera, começa a abrir os olhos, a reconhecer quem o chama. - Noel! Acorda, Noel! É Eratósthenes Frazão. Procurou-o por toda parte, perguntou por ele em todos os esconderijos do Rio. Até que foi bater no chalé, onde dona Martha disse-lhe que tinha vindo ao cinema. Quem poderia imaginá-lo aqui, nesta matinée? E ainda por cima dormindo? - Você se esqueceu de mim?E os ensaios? - resmunga Frazão. - Que ensaios? - pergunta ainda sonolento. Noel Rosa não tem descansado nesses meses de março e abril. Só que a música pouco tem a ver com isso. Passado o carnaval, são os livros que ocupam o tempo do compositor

que acaba de conquistar a cidade. Livros de química, física, história natural. Uma retomada de contato com as matérias que tanto trabalho lhe deram no São Bento e mesmo depois. Em suma, Noel Rosa tenta ser agora, no vestibular para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, tão bem-sucedido quanto foi no último carnaval. Daí ter-se esquecido de Eratósthenes Frazão e tudo mais. Quando ele começa a fazer as provas do vestibular, os ensaios de Café Com Música já estão em andamento. Frazão divide mesmo com Maciel Pereira e Leo Grim a autoria dos sketches, âuadros e cortinas. A parte musical está a cargo de Júlio Cristóbal, Sá Pereira, Ary Barroso e, espera-se, Noel Rosa. No elenco, além de Aracy Cortes, Mesquitinha e ítala Ferreira, os astros principais, estão Luíza Fonseca, Affonso Stuart, Jota Fegueiredo, Augusto Anníbal, Olga Bastos, João de Deus, Isabel Ferreira, Edith Falcão, Oscar Cardona, Henriqueta Brieba, a bailarina Leonor Pinto. A coreografia é do professor Nemannoff. O teatro, como estava previsto, será mesmo o Recreio, onde já se ultimam os ensaios. Noel é aprovado no vestibular. Tangenciando a média mínima exigida, consegue uma parcimoniosa 3,6. Mas que importância tem isso se o resultado leva alegria aos moradores do chalé? É um acadêmico de medicina, um futuro doutor, um jovem caminhando para abraçar a profissão do bisavô, do avô, do tio, uma tradição 165 de família em torno da mais nobre de todas as carreiras. A música, acredita-se, passa agora a segundo plano. Como uma brincadeira de horas vagas, domingos e feriados. Mas Noel pensa diferente, talvez acreditando que possa conciliar as duas atividades, repartindo-se meio a meio entre elas (ou quem sabe reservando à música fatia um pouco maior). Vencido o vestibular, trata de cumprir a promessa a Frazão e vai ao teatro ajudar o maestro Cristóbal a ensaiar os atores que interpretarão suas músicas. Coincidência curiosa, como se a confirmar sua intenção de harmonizar o estetoscópio com o violão: a 24 de abril, exatamente no mesmo dia em que se matricula sob o número 572 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Café Com Música, contendo oito composições suas, estréia no Recreio. Nos cartazes pintados a mão, expostos de um lado e do outro da fachada do teatro, seu nome encabeça a relação de compositores. Ary Barroso, homem tão talentoso quanto ciumento, não gosta: - O nome dele na frente do meu, Frazão? - Sim. - Mas é apenas um novato. - Um novato que fez a maioria das músicas da peça. Se nos anúncios publicados nos jornais haverá uma inversão, o nome de Noel passando para último, nos cartazes, por ordem de Frazão, ele continuará em primeiro. Afinal, são oito composições suas, mais do que de qualquer outro, inclusive Ary. Dessas oito, porém, apenas três são realmente novas, seus lançamentos se dando em Café Com

Música. Porque as outras - Com Que Roupa?, Eu Vou Pra Vila, Malandro Medroso, Por Esta Vez Passa e Dona Aracy (que a própria Aracy Cortes vai cantar com novos versos de Frazão) - já foram gravadas e andaram na boca do povo no último carnaval. Das inéditas, uma logo cairá no esquecimento: Vaidosa1 Já as outras duas não são menos que obras-primas: Gago Apaixonado e Quem Dá Mais?. E embora não causem de imediato a impressão que seria justo esperar, músicas e letras cobertas de encanto, humor e originalidade, o tempo há de mostrar que os dois sambas nada devem a Com Que Roupa?. Diz Noel que Gago Apaixonado foi feito na Praça 7, numa noite em que a cidade era agitada por um daqueles corre-corres que se seguiram à posse de Getúlio Vargas como chefe do Governo Provisório: tiroteios entre soldados no Mangue e na Lapa, arruaças provocadas por fuzileiros em Madureira, conflito entre militares e policiais em Niterói, invasão de botequins, saques de bebidas, depredações. Indiferente a tudo isso, Noel teria feito o samba para o amigo Manuel Barreiros, o Barreirinha, cuja tartamudez agravara-se muito em razão de um amor não-correspondido. Verdade? Ou mais uma de suas histórias? De um modo ou de outro, é mesmo um samba genial. Caberá a Mesquitinha lançá-lo no palco do Recreio, mas quem será, para sempre, seu intérprete ideal é o próprio Noel. E ele parece saber disso. Numa entrevista do ano que vem, lhe perguntarão: "- De suas criações, qual a que mais lhe agrada? E por quê?" Resposta: "-É o samba Gago Apaixonado, porque, além de ser original, os meus vizinhos e os seus papagaios não conseguem cantá-lo:'z Daqui em diante, onde quer que se apresente, o samba será número obrigatório, como que umapièce de resistancede suas exibições, o púDlico sempre contagiado por este seu modo de combinar tudo - melodia, ritmo, letra, pausas, acordes - num aflitivo gaguejar. Um número irresistível que, para júbilo de futuros ouvintes, Noel perpetuará em disco, ele na voz e no violão, Napoleão Tavares no pistom com surdina, Luís Americano na clarineta, Luís Barbosa no seu insólito "instrumento de percussão", um lápis com o qual tamborila nos próprios dentes, abrindo e fechando a boca de modo a obter com isso efeitos rítmicos ora mais graves, ora mais agudos. Mu. mu. mulher Em mim fi. fizeste um estrago Eu de nervoso estô. tou fi. ficando gago Não po. posso Com a cru. crueldade Da saudade Que. que mal. maldade Vi. vivo sem afago Tem. tem pe. pena Deste mo. mo. moribundo Que. que já virou Va. va. ga. gabundo Só. só. só. só Por ter so. so. fri. frido tu. tu. tu. tu. tu. tu. tu. tu.

Tu tens um co. coração fingido! Teu. teu co. coração Me entregaste De. de. pois. pois. De mim tu to. toma. maste Tu. tua falsi. si. sidade É profu. funda Tu. tu. tu. tu. tu. tu. tu. tu. Tu vais fi. fi. ficar corcunda! Quem Dá Mais? será conhecido também 166 pelo título do quadro em que é lançado na peça: Leilão do Brasil. E é mesmo um leilão, uma notável crônica do país - mais uma - segundo Noel Rosa. Traçada com graça, ironia, espírito crítico, sobre ela seria válido escrever-se todo um ensaio. Está dividida em três blocos, em cada um dos quais é leiloada uma riqueza brasileira: a mulata, o violão e o samba. A mulata de que fala Noel é o seu tipo preferido de mulher. Na cor da pele, no amor ao samba, na formosura, na malícia. Quem a compra são os portugueses do Vasco da Gama. No ano passado eles gastaram uma fortuna para elegerem seu centerfòr wardRussinho, o jogador mais popular do Brasil num concurso patrocinado pela Companhia de Fumos Veado. Graças aos maços de cigarro comprados com o dinheiro dos graudões do comércio de secos emolhados, o primeiro prêmio, uma reluzente baratinha Chrysler, foi parar nas mãos de Russinho3. A respeito do violão, duas observações não podem deixar de ser feitas: a da pobreza de um país de cuja independência o patriarca tem bolsos tão vazios que é forçado a pôr no prego o violão do Imperador; e o fato de o lote ser arrematado por um judeu. Este verso é um dos dois que valerão a Noel, muitos anos depois de sua morte, -a acusação de anti-semita. Mas quem se lembrar do que representou a figura do prestamista em sua infância (e de como judeu era a denominação genérica, ainda que imprópria, daquele tipo de comerciante) sabe o que ele está querendo dizer. O samba em questão é mesmo o do Salgueiro. Ou de todos os morros da cidade. Noel fixa com exatidão as regras deste samba, sem introdução, sem segunda parte, como os negros lá de cima fazem, um simples estribilho para que a partir dele se improvisem infinitamente versos que bem podem exprimir dois terços do Rio de Janeiro. Quem dá mais... Por uma mulata que é diplomada Em matéria de samba e de batucada Com as qualidades de moça formosa Fiteira, vaidosa e muito mentirosa...? Cinco mil réis, 200 mil réis, um conto de réis!

. Mesquitinha.. 50 mil réis! Ninguém dá mais de 50 mil réis? Quem arremata o lote é um judeu. nasceu no Salgueiro. adequada a direção de João de Deus. o Sr. Acha engraçados os sket-ches. Por um violão que toca em falsete. Mas só no ano que vem. Aracy Cortes. fundo e cavalete.? A exemplo de Gago Apaixonado. dou-lhe duas. dou-lhe três! Quanto é que vai ganhar o leiloeiro."4 Pobre crítico a quem faltou paladar apurado o bastante para apreciar os saborosos pratos que são Gago Apaixonado e Quem Dá Mais?. Quem garante sou eu. Por um samba feito nas regras da arte. sendo. Só tem estribilho. E em três lotes vendeu o Brasil inteiro? Quem dá mais. A revista de Eratósthenes Frazão e seus amigos é bem recebida. Foi posto no prego por José Bonifácio? Vinte mil réis. o próprio Noel gravará este samba..Ninguém dá mais de um conto de réis? O Vasco paga o lote na batata E em vez de barata Oferece ao Russinho uma mulata. Mas não vê com muito entusiasmo a contribuição de Noel Rosa. morou no palácio. E com tal brilho que será impossível imaginá-lo tão bem cantado por alguém mais.. . Noel Rosa. um dos autores. que não lhe dá qualquer oportunidade. Pra vendê-lo pelo dobro no museu. 21 e 500. bons os bales. um sambista consagrado. Quem dá mais. também não é inferior à de outras revistas... ítala Ferreira. Quem dá mais. Demais. Que só nâo tem braço. Sem introdução e sem segunda parte. como é. se não tem originalidade. Como acontece com este crítico anônimo: "A parte musical. poderia ter encaixado entre aqueles 28 quadros um samba ao menos que lhe não desmerecesse a nomeada que obteve com o famoso Com Que Roupa?. A crítica elogia as atuações de Aracy Cortes. todo o elenco. Que é também brasileiro. Poder-se-á talvez fazer restrições ao excesso de roupas com que vestiram a revista e à distribuição feita à Sra. Quem dá mais? Quem é que dá mais de um conto de réis? Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma. Pertenceu a dom Pedro. E exprime dois terços do Rio de Janeiro.

Mas por que um novo conjunto? E o que significa essa história de "conjunto junto"? Não estará junto. Só por isso vou agora Bendizer tua saída Sempre vivi . pois foi o primeiro carnaval de Noel como bacharel em ciências e letras. e o Canuto será o diretor de tamborins e cuícas. o nome do conjunto tinha procedência. quem chora é quem me fez sofrer Eu bem sabia que tu ias padecer Hoje te vejo penando e procurando Quem queira contigo viver Tenho certeza De que pensas em voltar Mas. não se apresenta com o conjunto. samba de Noel Rosa: Agora. por acaso. Ou mais que isso. se considerarmos que os tangarás têm gravado tão pouco dele (Com Que Roupa? talvez ainda lhe esteja atravessado na goela) e que os Bacharéis da Vila só cantariam músicas suas. Durante esses quatro meses. Desde fins do ano passado. com a voz trêmula de emoção: 'Eu tenho um sentimento profundo. junho. por deferência de meus amigos. que tristeza! Jâ cansei de perdoar. quando das gravações de Dona Aracy e Dona Emília. onde serão cantadas. Lucilla. cujo disco de estréia tem de um lado Que Mal Eu Fiz a Você.. seu desejo de afastar-se de Almirante 167 e sua turma. que grava Sinhá Ritinha. é possível encontrar algum sentido no projeto. tornando-se parte de um novo grupo musical a ser formado em Vila Isabel: "Este ano vamos representar o bairro de Vila Isabel com um 'conjunto junto' (não repare a expressão) que se denominará Bacharéis da Vila.. O fato é que Noel Rosa vai demorar algum tempo para reintegrar-se aos tangarás. E as duas restantes. e do outro Agora.'"5 Os Bacharéis da Vila ficaram na intenção (aliás. Fui indicado para ser o 'diretor de cordas'. o Bando de Tangarás ? É sempre difícil tirar conclusões confiáveis das entrevistas de Noel. embora sejam composições suas. e a dama da alta sociedade.Noel Rosa é mesmo um tangará desgarrado. foram soladas por gente de fora: Paulo Netto de Freitas. enquanto Anacleto já era acadêmico de direito desde 1930). Entre outros companheiros meus que fulguram no referido grupo. o Manuel Anacleto surge como um dos astros de primeira grandeza no tamborim. Amenizaste minha vida. e o máximo que o une a Almirante e seus comandados são encontros ocasionais nas esquinas do bairro ou em emissoras de rádio. maio. Com dez delas Noel nada tem a ver. Tu foste embora. julho. as minhas composições. de André Filho. nas entrelinhas de uma entrevista publicada no domingo de carnaval. Passam-se abril. Chegou até a confessar. o conjunto grava doze faixas para o selo Parlophon. De qualquer modo. E o Waldemar Corrêa (sic) voltará a cantar.

Mas enfrenta dois problemas: o pouco tempo para a organização do espetáculo. escolher repertório. Apenas a um ou outro amigo. Serão sete espetáculos.pergunta-lhe o amigo. mais Noel. Henrique Britto.imaginem! num cinema.Não. Noel já tinha plena consciência de que não ficará ali por muito tempo. . mais uma vez Com Que Roupa? e Gago Apaixonado são os trunfos de Noel. com o samba. Nesses espetáculos. Afinal. no Cassino Beira-Mar. em cujos programas sua caricatura e a de Paulo aparecem em destaque. Não confessa isso a muita gente. muito diferente dos amadorísticos recitais em clubes e mesmo da noitada promocional da Odeon. antecedendo a projeção do filme nacional Iracema6. 168 . Paulo Netto de Freitas e a cantora Elisinha Coelho. ensaiar. Lauro: como médico eu jamais serei um Miguel Couto. Dois meses depois de ter assistido à sua primeira aula na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. -Está gostando do curso?.Aturando desaforo. Gosta do conjunto. Não sei. Pois sou bem forte E não lastimo estar a sós. como Lauro de Abreu Coutinho.Fica com a medicina? . convida-o para exibir-se num de seus cinemas. O próprio Generoso Ponce sugere o título da curta temporada: Semana Brasileira. não. Lauro de Abreu Coutinho. Mas quem sabe não poderei ser o Miguel Couto do samba? . e a recusa de João de Barro e Alvinho de se apresentarem em público numa função paga. Almirante logo se interessa. Acho que esse negócio de fazer samba e medicina ao mesmo tempo não vai dar certo. o Gorgulho. o primeiro aluno da turma de Noel no São Bento. apenas dois dias para reunir os artistas. um dos mais compenetrados de todo o colégio.Sim.° de agosto. onde a Odeon organiza um festival para promover os artistas do elenco Parlophon. formam o elenco da Semana Brasileira. Já decidi: Não quero saber de choro. Helvécio de Barros e Hélio Rosa. bem ao lado do Café Nice. proprietária de alguns cineteatros da cidade. já terceiranista do mesmo curso. os tangarás são ou não são amadores? João de Barro e Alvinho não querem causar dissabores às suas famílias cantando . os tangarás entre eles. hoje levando ainda mais a sério a medicina(8). Estes. da empresa Ponce & Irmão. Cada qual com sua sorte: Deus ajuda a todos nós. Lauro. está na platéia. no Eldorado. de 3 a 9 de agosto. A reaproximação só se dá a 1. Os dois se encontram na esquina da Avenida Passos com General Câmara7. Generoso Ponce.Veja uma coisa. Como é possível alguém trocar a medicina pelo samba? . Almirante vai recompor o conjunto convocando os violões de Jacy Pereira. o Eldorado.Está pensando em escolher entre uma coisa e outra? . espanta-se com o que lhe diz o amigo.

Conheci um sujeito convencido Com mania de grandeza e instinto de nobreza. Classificado pelo próprio Noel como "samba anatômico". não és sentimental.silenciosa e efêmera. Tu és pro bem-estar do nosso sangue O que a casa de correção É para o bem da humanidade. muitos pensarão que ele só o fará no segundo ou mesmo no terceiro ano. grande órgão propulsor. Ficas no centro do peito. sem nenhuma pretensão. quando na verdade já o fez antes da metade do primeiro(9). é um curioso jogo de imagens. mas não de todo silenciosa. a anatomia e a fisiologia do coração confrontadas com o seu significado simbólico. Transformador do sangue venoso em arterial Coração. não estás do lado esquerdo. Quase não é notado. limitando sua presença a algumas aulas de fisiologia e histologia na Praia Vermelha e a outras tantas de anatomia na Santa Casa da Misericórdia. eis a verdade.Sua passagem pela faculdade faz-se . Efêmera. na Rua Santa Luzia. Que por saber que o sangue azul é nobre Gastou todo o seu cobre sem pensar no seu futuro. Mas entretanto dizem que és o cofre da paixão. Eis a letra original: Coração. Coração. sem dúvida. Sequer comparece às primeiras provas parciais e não voltará para o segundo semestre. falará claramente de sua decisão de trocar a medicina pelo samba. dizendo a todo o mundo que trancou matrícula para recomeçar o curso "a qualquer hora dessas". composto ainda no primeiro semestre de 1931: Coração. Mas não ataca o coração. Coração de sambista brasileiro Quando bate no pulmão Faz a batida do pandeiro. A melodia é muito bonita. . já definitivamente assentado na profissão de compositor e cantor de rádio. Por isso. Só no ano que vem. Pois a medicina serviu ao menos para inspirá-lo na criação de um de seus mais apreciados sambas. Que a paixão faz dor no crânio. Nem tampouco do direito.mais do que se pensará um dia . Eu afirmo.

mais um. segundo consta. conservando seu sorriso . Carlos Henrique Fernandes é outro. E que . pois quase todas as músicas que lança têm sabor de crônica. Um estranho país que espera alcançar o grau de desenvolvimento dos europeus atirando o seu café ao mar. Tempos depois. sua gente. Onde corre o sangue impuro. Num caderno escolar onde começa a guardar suas letras.É a primeira vantagem que tiro da desgraça de ser obrigado a estudar medicina! Uma vantagem que. Um samba que vale como uma aula de economia. a música mais que a medicina aproximando-os. Nicandro Ildefonso Bittencourt. Noel deixando claro o que pensa do capitalismo que acaba de se confirmar como o sistema escolhido pelos neo-republicanos para administrarem o Brasil: os ricos podem gastar seu dinheiro à vontade. o seu país. desta forma: Coração. Conserva sempre o teu sorriso. 169 Viajou a procurar de norte a sul Alguém que conseguisse encher-lhe as veias Com azul de metileno Pra ficar com sangue azul. suas contradições. Ali.Não achando quem lhe arrancasse as veias. Cantar o seu bairro. mais cronista que poeta.exige de seu povo não apenas sacrifícios. nasceu após uma aula na Santa Casa. Emenda pior que o soneto.. também compõe. pois não cabe ao coração transformar o sangue venoso em arterial. outro mais. focalizar os episódios que testemunha. terá músicas suas gravadas por Carmem Miranda e outros cantores . captar o espírito de tudo isso. Randoval Montenegro é um. Do Brasil. feita por um dos assistentes do catedrático Fróes da Fonseca. Sua perenidade é de tal ordem que daqui a mais de meio século ainda caberá como uma luva no país em que Noel nasceu. Mesmo que a vida esteja feia . escreveu o samba. a sua cidade.como pede Getúlio Vargas. Ou como neste sugestivo Samba da Boa Vontade. Noel e alguns colegas parando para conversar no Café Nice. nova correção será feita por Noel. Herculano Mesquita de Siqueira. Noel não fez muitos amigos na faculdade. eis o destino de Noel Rosa. faz de próprio punho uma alteração no fecho do samba que jamais será gravada ou editada: Alguém capaz de trocar o seu sangue Por azul de metileno Pra ficar com sangue azul. Como em Quem Dá Mais?. Distribuidor do sangue venoso em arterial. Randoval é pianista. Noel gravou a letra com essa impropriedade e tentou corrigi-la nas edições impressas. mas acima de tudo boa vontade: Campanha da boa vontade! Viver alegre hoje é preciso. Retratar os personagens que trafegam por aí. Uma lição mal-aprendida. de seus absurdos. pois ele sempre acaba voltando às suas mãos. diga-se. Neste 1931. mas não nestes versos. de parceria com João de Barro. a quem Noel confidencia a propósito de seu "samba anatômico": . grande órgão propulsor. partindo de uma descrição nada poética do "cofre da paixão". poeta e cronista..

cobradores (mais uma vez representados pelo judeu) e maus pagadores. A vida cá em casa está horrível. batendo o pé. No estilo rude da intimidade.E que vivas na pinimba. um delicioso "samba epistolar" nos falando de dívidas e devedores. Mas não tive compaixão Porque tenho a certeza Que ele volta à tua mão. Muitos abraços no passarinho. 170 Um chute na empregada. temas de Noel: (Cordiais saudações!) Estimo que este máltraçado samba.Passando a pirão de areia Gastei o teu dinheiro. Se ele acaso não voltar.. Beijinhos no cachorrinho. . Eu te pago com sorriso E o recibo hás de passar (Nesta questão solução sei dar) Neste Brasil tão grande Não se deve ser mesquinho Quem ganha na avareza Sempre perde no carinho Não admito ninharia Pois qualquer economia Sempre acaba em porcaria (Minha barriga não está vazia) Comparo o meu Brasil A uma criança perdulária Que anda sem vintém Mas tem a mãe que é milionária E que jurou. O meu coração vive amargurado Pois minha sogra ainda não morreu (Tomou veneno e quem pagou fui eu) . Ando empenhado nas mãos de um judeu. Que iremos à Europa Num aterro de café(12) (Nisto eu sempre tive fé) O cronista está presente também em Cordiais Saudações. confio em Deus) Em vão te procurei Notícias tuas não encontrei Eu hoje sinto saudades Daqueles 10 mil réis que eu te emprestei. Porque já se acabou o meu carinho. Vá te encontrar gozando saúde Na mais completa felicidade (Junto dos teus.

Que Horas São? Que horas são? Eu venho agora Saber a hora Que o ponteiro está marcando No relógio da senhora. reforma a ortografia. manda-me algum. ruptura. Alguém pergunta a alguém: . Espero que notes bem Estou agora sem um vintém. o Brasil inteiro parece perguntar que horas são.Que horas são.o novo presidente baixa decreto limitando a imigração. institui um imposto de emergência. Quem Dá Mais?. cheia de malandrice. por favor? .. . muda apenas a posição das mesas . os que estão entre parênteses na letra acima. Com Que Roupa?e Samba da Boa Vontade são exemplos. Minha mulher Sempre quer me dar pancada Quando eu olho o mostrador Do relógio da empregada. Um grande abraço queira aceitar De alguém que está com fome. namoros são rompidos. filosofias hesitantes. A questão da hora . 7 de setembro de 31! (Responde que eu pago o selo.Sem mais. Um cronista a zombar como pode da confusão em que se vê metido o Brasil após uma revolução de causas e efeitos imprecisos.e.intriga Noel. Negócios deixam de ser feitos. Noel fixa a confusão geral em dois sambas. pausa).. ideologias camufladas. freio. nada mais profundo. já não é novidade.) A interrupção da linha melódica de um samba para que nele se insira um comentário poético-musical. Noel Rosa aprecia como poucos essa tirada musical tão carioca. O que mudou afinal? Para que se fez a revolução? Como o novo chefe da repartição que chega para fazer mudanças . para acabar. o outro se atrasa. mais sugestivamente. Cordiais Saudações contém quatro. o primeiro deles intitulado O Pulo da Hora ou. não sabendo o que mudar. sinuosa. E a utiliza com alguma freqüência.adiantamento em 60 minutos de todos os relógios do país . E eu já danado Com intriga e com trancinha Arranquei hoje o cabelo Do relógio da vizinha. Ou que governo é este. recurso popularmente conhecido como breque (do inglês break. Podendo.. Atrás de algum convite pra jantar. O breque é elemento precioso a que o cronista volta e meia recorrerá pelo menos nestes primeiros quatro anos de carreira. cores vagas.Pela nova ou pela antiga? Marcam-se encontros por ponteiros diferentes. Para que a mudança? Para que o dia comece mais cedo ou para que não acabe tão tarde? Confusão.. mexe na hora brasileira. um chega cedo. Rio.

O carioca Perdeu a calma e a paz: A hora pulou pra frente E a nota pulou pra trás. Há muito tempo Briguei com o batedor. o brasileiro sem saber o que diz e o que faz: Olho.. Procuro bonde por bonde E você nunca que vem. "cabelo". Troquei de mal com as horas. O meu relógio Anda agora viciado De tanto andar no meu bolso. Que é sabida e muito sonsa. Mas eu agora Já gostei desse brinquedo. Para me vingar da hora Janto três horas mais cedo. . Tanto que continuará produzindo acréscimos que não chegarão ao disco. Noel parece gostar muito deste samba que ele mesmo grava no selo Parlophon.Fiquem sabendo Os senhores e as senhoras Que o pai da minha pequena Me manda embora às 10 horas. é ainda melhor. Chamo. Neles. em vez de duplas leituras como as sugeridas acima ("mostrador". Noel prefere falar da paz perdida pelo brasileiro por causa da hora e voltar a um velho personagem de sua história: o credor. "atrasado(5)*). Sem ter vidro nem ponteiro. veja quanto sou sincero: No poste sempre eu espero. Ele anda sempre atrasado. Em minha casa Surgiu hoje uma briga. Tanto na melodia 171 como na letra. Noel traduzindo o caos reinante em dois versos do mais absoluto non sense. Por Causa da Hora. Quebrei o despertador. ninguém me responde. não vejo ninguém. Mas vale a pena conhecer o samba por inteiro: Meu bem. O meu relógio É de ouro brasileiro Trabalha bem sem a corda. Mas a pequena. Meu credor usa a moderna E eu adoto a hora antiga.. mas que serão registrados no seu caderno de letras. Com este pulo da hora Já deu o pulo da onça. O segundo samba sobre o tema.

Chamo. molecagens sonoras traduzidas nos grunhidos que ele ejoão de Barro emitirão entre uma estrofe e outra da gravação. uma homenagem à pequenina Yypne (irmã de seu amigo Sebastião da Silva Ferreira). Cansei de andar só de tanga. Que eu triste vou-me embora Sempre a pensar por que Não encontro mais você. Já perdi a paciência. Mas foi por este convertida em decreto depois que os nossos imortais. autocrítico e autodebochado. Na nova ortografia Já perdeu o picilone. em que mistura vários assuntos. É pra ganhar simpatia Que todo mundo se abaixa Pra te fazer cortesia Com os olhos fora da caixa.Olho. Até já tem empregada Para atender telefone. Drama que o humor carioca. Terei que dar um beiço adiantado. Talvez seja por causa dos relógios. pode transformar em tragicomédia. ninguém me responde. Não faz mais nada a Yvone. expressões populares como "os olhos fora da caixa". Que estão adiantados uma hora. gravado pelo humorista de rádio e teatro Pinto Filho. Como vou pagar agora Tudo o que comprei a prazo.. a cassação do y. Cronista de um país que. Tem uma vida folgada. que. Viva o dia brasileiro! A reforma ortográfica . Yvone! Yvone! Eu ando roxo pra te dizer um picilone! Já reparei outro dia Que o teu nome. Se ando com um mês de atraso? Eu que sempre dormi durante o dia Ganhei mais uma hora pra descanso Agradeço ao avanço De uma hora no ponteiro. sempre pronto a gracejar da própria desdita. ó Yvone.. de pois de uma introdução falada em tom que chega a tornar-se pateticamente lamuriento.não partiu do Governo. continua passando fome. . não vejo ninguém. Com o adiantamento de uma hora. firmaram o tal acordo. pouco mudando. É o que Noel faz com este Não Me Deixam Comer.na verdade um acordo assinado a 30 de maio deste 1931 entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Ciências de Lisboa . O cronista vai compor um "samba fonético" intitulado Picilone15. Fui te encontrar na Kananga(14) Mas não me deste audiência. atendendo aos interesses das editoras portuguesas (que pretendiam uniformizar o idioma de modo a que seus livros vendessem mais por aqui).

frontais. Quero dormir. Quero comer mas não posso. com todos os pingos nos is. Ser fuzarqueira é o teu orgulho. Pois a patroa só mastiga. Até os Cachorros têm o direito de dormir. o Caninha. Eu tenho um troço Que me aborrece: Já não janto nem almoço. não posso. do Diabo... Noel Rosa não é ousado o bastante para fazê-las. boêmio e compositor popular de horas vagas. Queres tomar o meu salário. fazem farra. Mas sempre é possível recorrer ao duplo sentido.. com a cumplicidade do Visconde de Bicohyba e Henrique Vogeler. Andas atrás da minha nota. não posso. não posso. gastar e comer nestes tempos de crise e pobreza: Todos brincam... na marcha a que dão o nome de Tenentes.. abertas.. não posso...pseudônimo que Horácio Dantas adota desde que Humberto de Campos o levou para trabalhar com ele na revista semanal A Maçã -1 com nossa combinação de jornalista. Nem ele. Visconde de Bicohyba . A tua fome é tão enorme Que tens a boca maior do que a barriga! Quero comer. E eu quero gastar mas não posso. não posso. nem nenhum compositor destes tempos. 172 Críticas políticas.. Eu quero Dormir mas não posso! Gostar de dança e da orgia... E mesmo até no agiota " Tu já passaste o conto do vigário! Quero gastar. Ninguém vive sem comer..canta as tristezas de não poder dormir. A cozinheira já não dorme. .. no entanto. Quero comer. na buliçosa É Batucada: Samba de morro não é samba. não posso. a maioria por sinal interessada em render homenagens ao novo presidente. Eu tenho um troço Que me aborrece: Já não janto nem almoço. Tocas vitrola noite e dia E agora durma-se com este barulho! Quero dormir. como faz Noel. Quero gastar. Será parceiro de José Luís de Moraes. gastam o Dinheiro. humorista político. Eu tenho um troço Que me aborrece: Já não janto nem almoço. Eu.

Sobre tais qualidades contam-se muitas histórias. vai se matar com formicida. só que uns vinte anos antes. até aqui o maior ídolo a pisar um gramado de futebol do Brasil). Um ecletismo que o transporta das canções mais simples. um gozador. para quadros humorísticos. uma certa Carmem Miranda. . órgão a ser criado sob as bênçãos de Getúlio Vargas. já com 42 anos neste 1931. Vogeler preza os dois lados de sua ascendência: nunca se envergonhou de sua mulatice (ao contrário de Friedenreich). as mãos cruzadas sobre o peito. passou oito graciosamente às mãos da empresária Maria Amorim. em razão de longa e apaixonada ligação com o teatro. Henrique Vogeler. Noel Rosa inclusive. belíssima. inclusive a dos Tenentes do Diabo. E de pelo menos um gesto magnânimo: no dia em que ganhou dez contos de réis num concurso internacional de composição. inspiradíssimo. IoiÔ). também. quando não deitado num caixão. nem a família. que ameaçava suicidar-se caso não pudesse pagar as dívidas acumuladas após a produção de meia dúzia de fracassos teatrais. Um folião desses de sair já na manhã de sábado fantasiado de mulher ou de um figurão da política. Fala-se muito. E muito mais importante do ponto de vista musical. amante da vida. Por isso ninguém. nem o amigo mais íntimo. por mais que se tenha enganado no caso de Carmem. compreenderá sua decisão de deixá-la tão cedo: com pouco mais de quarenta anos. embora não tão trágico. deixando-a escapar para o castdz Victor.É batucada! É batucada! É batucada! Sócio. engraçado. a obras mais elaboradas como Linda Flor (também conhecida como Ai. Completo. Um dos dois produtos bem-sucedidos que se conhece de casamento de louro alemão com mulata brasileira (o outro é Arthur Frieden-reich. de uma gafe que teria cometido quando diretor musical da Brunswick: mandou embora uma portuguesinha que cantava tangos. é grande músico. Invejavelmente afortunado com o sexo oposto e incrivelmente desprendido com o dinheiro. Pecado do qual se redimiria plenamente ao descobrir para o disco um caboclinho de São Cristóvão chamado Sílvio Narciso do Figueiredo Caldas. É um afável e espirituoso carioca do Catumbi. freqüentador ou mesmo membro de diretoria de várias agremiações carnavalescas. Vogeler escreve de tudo. haverão de percorrer(15). mas tão jovem quanto Noel. Das paixões que desperta nas coristas de peças para as quais escreve música. Entre uma coisa e outra. Como Noel. servindo de defunto num daqueles enterros simbólicos que os blocos de sujo realizam pela Galeria Cruzeiro. estudou no São Bento. Começou compondo e tocando peças para piano nos moldes das de Ernesto Nazareth (a quem substituiu muitas vezes na sala de espera do Cinema Odeon) e vai acabar como uma espécie de braço direito de 173 Villa-Lobos nos quadros da Superintendência Musical e Artística. Henrique Vogeler é personagem mais interessante que Bicohyba. despretensiosas. Alegre. abertura de caminhos melódicos e harmônicos que muitos compositores. dito El Tigre. destinada à imortalidade entre outros motivos porque os estudiosos da música popular verão nela a primeira a merecer o rótulo de "samba-canção". Como este.

três e quatro.. singular tanto na construção rítmica e melódica como nos versos displicentes mas sonoros. oito. Coração de tamborim Quando canta a noite inteira Sem talvez lembrar de mim Ela: Se tu és bom brasileiro E dançares bem assim Seja alegre e prazenteiro Venha pra perto de mim Ele: O samba sempre crescendo Não é coisa que se faça A lua se escondendo Mostrando que tudo passa Ela: Se a lua se esconder O sol começa a nascer Pra não deixar morrer Ele: A lua no céu descamba E tu ainda estás no samba Os dois: Oi. nove. . Ele: Bateu meia-noite agora E não queres ir embora Jamais paro de sambar Sem ver o sol despontar Ela: E o que queres tu que eu faça Se o samba é minha cachaça E a tristeza passa? Ele: A lua no céu descamba E tu ainda estás no samba Ele: Bateu meia-noite agora E não queres ir embora Jamais paro de sambar Sem ver o sol despontar Ela: No samba vivemos nós dois E viva Deus e chova arroz! O resto vem depois Ele: A lua no céu descamba E tu ainda estás no samba Ele: Ó morena feiticeira. seis. Chama-se Rumba da Meia-Noite e é gravada por Dina Marques e Leonel das Neves entre arrancos de orquestra e repicar de sinos.Tem indisfarçável influência teatral a primeira composição que Noel e Henrique Vogeler fazem juntos. Uma esquisita peça para ser cantada em dueto. Dez e onze e meia-noite Já passou. duas. sete. uma. tudo acabou. Cinco..

a fim de ver o que podemos fazer por eles. meio cantada.e não será a última ..Tem a palavra o líder dos Tenentes.. é entrar de novo nas "comidas".. é transformar isso aqui em Kananga do Japão.alusão encontrada em música de Noel Rosa a um dos jargões demagógicos mais comuns do atual governo. por considerá-la inoportuna. sejam os mesmos intimados a remeter à nossa secretaria uma estampilha e dois retratinhqs. . do Diabo ". Os tangaràs juntam-se ainda uma vez em 1931 • A convite de Carlos Ribeiro de Mello Leitão. do Diabo.Senhor presidente: eu que sou Tenente até a raiz dos cabelos. o funcionário da repartição sai-se invariavelmente com esta: . é voltar ao regime da politicagem.. eu que trabalhei para botar o carnaval na rua. Também se confundem o preto e o vermelho." É a primeira . Primeiro. espertamente.. e segundo. é o maior inimigo da popularidade.. fascismo e comunismo. traga-me uma estampilha e um retratinho três por quatro que eu vou ver o que posso fazer pelo senhor.. a mudança dos estatutos da mesma sociedade com a reforma da Constituição. botar o carnaval na rua com pôr as tropas nas ruas outra vez.Por gentileza. concordam em participar no dia 7 de setembro de um espetáculo em benefício da Santa Casa de Misericórdia daquela cidade... nas cores dos Tenentes do Diabo e na própria indefinição ideológica reinante. os Democratas.. senhor presidente! .. com os democratas que começam a discordar dos rumos que toma a Revolução de 30. também deve muito ao estilo teatral de Vogeler. anseio que vai resultar em nova revolução no ano que vem. somado ao humor crítico de Bicohyba e Noel. os significados fazendo-se dúbios em vários instantes (ver boxe)... palavra proibida num governo que prega o sorriso. confundem-se com os tenentes da política. sabe o novo presidente. (Aclamação) . senhor presidente.. O "não".Peço a palavra. 174 Tenentes. É claro que nada. Num aos trechos da parte discursada da gravação.. Um jogo de palavras. senhor presidente. já devia ter sido eliminado do nosso quadro social.. não posso deixar de combater a reforma dos estatutos. Os Tenentes do Diabo. (Aclamação) . a esperança.. cavalheiro. sociedade rival daquela... vossa excelência sabe perfeitamente. Por isso. onde nem haja. São Paulo. não podendo dizer "sim" e não devendo dizer "não". por partir tal proposta de um grupo de derrotistas que de há muito. Ildefonso Norat baixa sugestivamente o tom de voz para dizer:". (Aclamação) ... determinou que as repartições públicas jamais dissessem "não" aos que recorressem aos seus balcões e guichês.. Getúlio Vargas. pois o que eles querem. a boa vontade. pão! (Gargalhadas) . contrária mesma aos reais e superiores interesses de nossa sociedade.Quanto a Tenentes. tio de Alvinho e delegado de polícia em São José dos Campos. Trata-se de uma brincadeira. a sociedade carnavalesca carioca.. meio discursada...

Então enfeza. . lá pelas tantas. Palavras do Visconde de Bicohyba. para rimar com "podendo. mas sim do outro mundo. anuncia à platéia que os tangarás vão gravar um disco. Noel faz duas gravações do seu Cordiais Saudações. aqui mesmo. Três semanas antes.. Almirante imagina um quadro para ser apresentado durante o espetáculo beneficente. uma acompanhado pela Orquestra Copacabana. Consegue uma vitrola emprestada com o delegado. senhor presidente.. macacada! Sou folião. leva-a para o palco e." Marcha-discurso. pede novamente silêncio e reproduz "o que se acabou de gravar". Homem cheio de truques e idéias. horrível!"16 A outra. música de Henrique Vogeler. Noel conclui com a data "7 de setembro de 31". como líder que sou da maioria dos Tenentes. senhor presidente. Faz uma longa exposição técnica. Terminado o número. Não sou sargento. Noel solando. ceras e outros aparatos.. é a que vai ser editada. Lembrando-se de que no final da gravação.Ademais. Sou Tenente do Diabo! Um coronel muito vermelho Por uma preta teve amor Resultou desse dueto Um guri vermelho e preto Que é Tenente até na cor. esta reforma traz o rótulo Democrático! (Exclamação) .. Sim.Por isto.Portanto. nesta marchinha que não é deste. (Aclamação) . afim de ver o que podemos fazer por eles. sempre engendrando um modo de se promover e ao grupo que lidera. Almirante põe o disco de prova na vitrola. interpretam Cordiais Saudações. O teatro vem abaixo. manda-me algum. letra de Noel Rosa.. como também sejam os mesmos intimados a remeter à nossa secretaria uma estampilha e dois retratinhos. arma toda uma cena. no palco. Nem tenente de galão. senhor presidente e caros consórcios. declaro votar contra a reforma dos nossos estatutos e ainda proponho não só a eliminação dos signatários da proposta em discussão. E agora.. ainda que seja necessário botarmos novamente o carnaval na rua! (Aclamação) . falando de microfones.. não sou cabo.. Almirante leva na bagagem o disco de prova dessa segunda versão. válvulas. com o Bando de Tangarás (na verdade apenas o piano de Eduardo Souto e o violão de Henrique Britto por sinal num soberbo diálogo instrumental).". e em seguida pede silêncio.. Os tangarás. impressionado com esta mágica de se fazer um disco de maneira tão simples. A esperteza de Almirante vale mais um ponto à reputação do conjunto. Aproveitando a viagem. que ele rejeita chegando a escrever sobre o selo branco do disco de prova: "Não gostei. é o bastante para ela cair. agulhas.

Icarahy. Moacyr de Siqueira Queiroz. quarto Friedenreich. direção de Jorge Konchin. 5. do São Paulo. O jornal erra ao chamar o Waldemar Coroa de Waldemar Corrêa. correndo sem roupa pelo corredor. com 2 milhões 900 mil 649 votos. onde ficavam as urnas. 15 de fevereiro de 1931. atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Diante de multidões de curiosos. 27 de agosto de 1932. quase ao mesmo tempo. Rio Chie. quando na verdade o fez na metade do primeiro. A Rua General Câmara é uma das que desapareceram para dar lugar à atual Avenida PresidenteJVargas. Irene Rudner. Produção de 1931 da Metrópole Films. 9. que Noel Rosa simplesmente assusta os outros hóspedes da pensão. pasmos. que ele recordou o encontro com Noel na esquina da Avenida Passos com General Câmara. terceiro Filo. De um recorte colado por Noel em seu álbum. Álvaro Lacerda. Palace. Lauro de Abreu Coutinho realmente se formaria em medicina. . Nu. 3. São Paulo. do Fluminense. 6. Russinho. Baseado no romance de José de Alencar. segundo Fortes. 2 milhões 481 mil 483. tornando-se conceituado radiologista com clínica no Rio. Ver nota sobre Vaidosa na relação das obras de Noel Rosa no final do volume. Diogo Miranda e Carmo Nacarato nos papéis principais. 8. Todos. com Dona Fleury. à redação do jornal e ao Teatro Lyrico. do Corinthians Paulista. Diário de Notícias. O Cruzeiro.Os arquivos da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. patrocinado pela Companhia de Fumos Veado com o apoio do Diário da Noite. só agitada pelos gritos que Almirante e os outros ouvem na hora de dormir. 319 mil 563. Yankee e Cascatinha) chegavam todos os dias à sede da fábrica. Royal Club. O que terá havido? Estará bêbado? Terá saído às pressas de alguma alcova proibida? Uma cena inesquecível que ninguém jamais chegará a entender. 722 mil 563. são elucidativos.Uma breve estada em São José dos Campos. mas certamente de abril de 1931. O que será? Constatam. durante um dos dois longos depoimentos feitos aos autores. Numa edição extraordinária de 4 de junho daquele ano. Noel correndo de um lado para outro. 2. Neles . na Rua Alcindo Guanabara. sem indicação de data e nome do jornal. 4.O Grande Concurso Nacional Monroe. caminhões repletos de sacos contendo votos (maços de cigarros Monroe. recebeu sua barata Chrysler numa festa no Teatro Lyrico que teve como mestre de cerimônias o ator e cantor Raul Roulien. do Vasco da Gama.e em depoimentos vários . mexeu com a cidade em meados de 1930. o Diário de Notícias divulgava o resultado final: primeiro Russinho. Foi em seu consultório. correm a abrir as portas de seus quartos.os autores se basearam para desfazerem a equivocada afirmativa de que Noel Rosa parou no segundo ou no terceiro ano. 7. breve e tranqüila. os bem-comportados tangarás com os olhos arregalados de espanto. 175 NOTAS 1.

carregando sobre os ombros o peso de grande experiência de vida. a melhor camisa. diga-se. procura policiá-lo. Exige que se sente diante de livros e apontamentos das matérias da Faculdade. desde os tempos em que lhe cabia empunhar sozinha a bandeira da família. Foi em junho de 1931 que. O que não a impede de lutar contra isso. o de um país perdulário destruindo o seu principal produto. Diz ele em sua Pequena História da Música Popular da Modinha à Canção de Protesto (páginas 151-152): "A paixão de Henrique Vogeler se explicava. Só Carmem Miranda gravou quatro composições de Randoval Montenegro. E a prova estaria em que. Nicandro Ildefonso Bittencourt. e o figurado. Ir à Europa num aterro de café é imagem que pode ser tomada em pelo menos dois sentidos: o literal. é um dos que defendem tal primazia para o compositor. pela consciência de ter criado alguma coisa de novo para a época. segunda edição (página 103). de selo azul. Sociedade Familiar Dançante e Carnavalesca Kananga do Japão." RISO DE CRIANÇA Capítulo 18 Nos meus olhos você lê Que eu sofro cruelmente Com ciúmes do gerente impertinente Que dá ordens a você Três Apitos Martha sabe o filho que tem. sensível. em termos de canção. naturalmente. tenta evitar que se afaste do chalé por muito tempo. forma popular de ípsilon. Em casa.. isto é. Getúlio Vargas determinou que se queimassem ou atirassem ao mar cerca de três milhões de sacas de café estocadas por falta de comprador. Frase citada por Almirante em No Tempo de Noel Rosa. 12..Teatro & Cinema foi colhida a maioria dos dados aqui expostos sobre Henrique Vogeler. 13. do Diabo (ver boxe neste mesmo Capítulo). É a mesma do trocadilho "haja. 11. 15. Inteligente. José Ramos Tinhorâo. e sair em busca de mais uma noitada. esquecendo-se talvez de que o filho já tem vinte anos e idéias próprias. pão" da parte discursada de Tenentes. e confirmada aos autores pelo Dr. a melhor delas Para Um Samba de Cadência. picilone.. quando aparece pela primeira vez numa etiqueta a expressão samba-canção brasileiro. apesar do Linda Flor ter passado despercebido no teatro. 14. galanteio. pressionado pelos produtores. tem consciência de que a medicina não empolga Noel tanto quanto o samba. .10. Funcionou primeiro na Barão de São Félix e depois na Senador Euzébio. queria dizer elogio. lisonja. Na gíria da época. em cuja Música Popular . o café servindo para aterrar o oceano que separa o subdesenvolvido Brasil da adiantada Europa. continua a trancar o armário para que não possa vestir o melhor terno.. Sonho antigo. Vogeler ia fazer com que o cantor Vicente Celestino o gravasse imediatamente em disco Odeon.

o serviço militar e a opinião dos vizinhos.Burrinho. o ladrão e o policial. como sempre. a mulher e o homem. mostram que desde os dezenove anos. E mesmo amiga de Noel. em centro de terreno. assistir a Coisas Nossas. Pula o muro para a vila ao lado. considerações filosóficas. gosta de filosofar. Noel gosta de Dorica. órgãos e tecidos. Theodorica dos Santos Lima mora duas casas à direita de quem sai do chalé. É e será uma das moradoras mais conhecidas do bairro. o gari e o alfaiate. emerge na Theodoro da Silva. o seu salvoconduto para a madrugada. e de lá sair indagando-se o que será realmente nosso. um auto-retrato do Noel de 17 de janeiro de 1930. nervos. São dez páginas escritas a lápis. é para o burro. a honestidade e a vocação. a incompatibilidade de gênios e a felicidade. participante. as irmãs e a prima Sílvia da avó Rosa Pinheiro Guimarães. São quarenta itens ao todo. ingênuos outras. sobretudo Sílvia. Um cronista capaz de entrar no Cine Eldorado. Noel. a vizinha e amiga Dorica. fuma muito. Martha sabe o filho que tem. jogos de palavras. E contêm muitas de suas posições diante da vida e dos homens.Em vão. os quinze primeiros sobre os burros e os seguintes sobre uma psicologia das massas. a fidelidade e a sabedoria. Veste-se sem vaidade. e mais uma vez o pistom de Napoleão Tavares. Costuma aparecer em sua casa para pedir pão dormido. -Já sei. Os pensamentos. ajudam a explicálo. quase raspados.. burrinho. o próprio cinema falado sendo mais uma novidade importada dos Estados Unidos. Dorica é um tipo diferente. De poucos sorrisos. músculos. data que anotou na folha de rosto do caderno sob o título Meus Pensamentos. No íntimo está convencida de que. novamente o burro. Ele guarda em sua casa um terno. Noel. O samba tem . pelo menos. muda de roupa e sai para uma boêmia bem mais agradável do que o estudo de ossos. Até hoje não sei quem é mais burro. o Gaó. tem uma coleção de esquemas. gravado por ele com acompanhamento em que se destacam o piano de Odmar do Amaral Gurgel. Uma construção antiga. Simplistas às vezes. Adora burros e a eles dedicará uma série de pensamentos que reúne desde 1929 num caderno escolar. analogias. o filósofo amador e o poeta claudicante transformados no cronista destes dias. os cabelos muito curtos. ele mandará a medicina às favas. Mas por que lembrar agora pensamentos de quase dois anos atrás? Para que fique claro o quanto Noel cresceu neste tempo. os pensamentos de Noel têm muito dele mesmo. o empresário e o proxeneta. E não se ilude. o casamento e o divórcio. artimanhas e desculpas para vencer a vigilância da mãe. cedo ou tarde. herdada por ela. o primeiro filme sonoro nacional(1).é uma das manias de Noel: . você ou eu. uma camisa e uma gravata para essas ocasiões em que Martha tranca o armário.e até dizer-lhe palavras amáveis ao ouvido . Uma delas. caminha na ponta dos pés até a casa de Dorica. Dar pão dormido ao burro da carrocinha de leite . brasileiro. Viverão juntas para sempre. contendo máximas. com nítida ascendência sobre as pessoas à sua volta. os gestos viris contrastando com o corpo miúdo e magro.. É pensando nisso que compõe um de seus melhores sambas.

• O burro daria de boa vontade o seu nome a um chefe de família.massa de vidraceiro. Peixe . • Nós só esperamos de um burro.título quase igual ao do filme: São Coisas Nossas. • A mulher que mais entendi até hoje foi uma "cocotte" que se queixava da sorte por ser "muito mal compreendida" pelas outras mulheres! • O mundo ensina ao homem com mais facilidade aquilo que este não quer aprender. • Se um burro soubesse dar abraços. o verdadeiro comunismo. um coice. Será que se admira de ver a desigualdade que existe entre os homens? Ou a fragilidade das construções? • Quem sabe se o burro não será quem mais se interessa pela descoberta do modo-contínuo? • Qual o crime que o burro cometeu para ser condenado a trabalhos forçados? • Um burro se sentiria melhor entre grades do que entre os varais."massa bruta". • A vocação é necessária até para se dar um laço na gravata. Meus Pensamentos • Os burros aceitariam. • Mais vale ir almoçar em casa de um parente do que trabalhar para ganhar o insuficiente. com mais satisfação.massa cinzenta. • Se o burro faz força para puxar a carroça para a frente. Sogra . desafiar um crítico profissional do folclore brasileiro . O francês "saberá de cor" qual é a cor do papagaio? • Rodolfo Valentino seria mais artista do que seu alfaiate? . O dia que o carroceiro não espancar mais o burro. índio Aymoré .massa alimentícia. • O burro só tem uma satisfação: não segue a profissão forçado pela sua família. • A mulher original é aquela que não procura se diferençar das outras.para fazer versos estudados ou improvisados. Quem não o conhece pessoalmente. Assembléia .. as carroças vão andar de marcha a ré. • Qualquer autor pode. fosse bem pago.. Rockeíeller . conhece de nome. despediriam o burro e puxavam de boa vontade a carroça. • O "savoir par coeur" é.massa de briga.massa popular.massa de tomate. do que os homens! • Dizem que o burro fica admirado diante de um palácio.. Padeiro . Tapa-alvo .. tacape .."massa de mira". • Com que superioridade um burro pisaria em uma nota de cem mil réis? • Ninguém sabe se o burro tem vocação para puxar carroça.. • O lavrador mais honesto é muito menos gentil e agradável do que o maior gatuno. O burro nada espera de nós. Se o burro faz força é porque existe o chicote. • Se alguns carroceiros soubessem a força que têm.amassador das massas. é porque a carroça faz força para puxar o burro para trás. • Se um burro pensasse. Ruy Barbosa . • O burro goza grande popularidade... • Os burros nascem para cumprir destinos iguais.massa falida. • Os garis falam mal dos deputados: Nunca vi um deputado falar de um gari! • A idéia mais original é sempre expressa por gestos e palavras comuns.o homem das "massas". • Um gatuno seria um ótimo policial se. sem receio. não gastava sua energia dando coices nos inimigos.. um grande defeito que o papagaio tem. oferecia capim ao carroceiro. em português.... Corista" . Psicologia das massas: •Jack Dempsey . E há pessoas que têm intimidade com ele. • Um burro olha para um cavalo de corrida com menos inveja do que um estivador olharia para o Paavo Nurmi. "3a.

178 Queria ser pandeiro Pra sentir o dia inteiro A tua mão na minha pele a batucar Saudade do violão e da palhoça. Morena bem bonita lá da roça. porque ele sempre exige o "porquê" do seu interlocutor. O samba. . só pensa numa palavra: Vizinhos. coisa nossa. coisa nossa. Baleiro. Coisa-nossa. Para haver felicidade é preciso haver gênios diferentes. • Qualquer poeta aprende a varrer mais depressa as ruas do que um varredor a fazer versos. são coisas nossas! Malandro que não bebe. porque nunca ele escreve como fala. ambos são malcriados. Com a mulher que requer o seu divórcio. jornaleiro.A mulher que mais amou neste mundo morreu antes de saber o que era o amor. por isto. • Para o bom entendedor meia palavra.• Um literato nunca se exprime bem quando escreve. 6 . O casal não vive bem justamente por causa da perfeita igualdade de gênios. O proxeneta explora o trabalho das mulheres perdidas. etc. os vizinhos poderão reparar. 5 . contanto que não lhe atire fumaças ao rosto. 7 . • O empresário explora o trabalho dos cantores e das cantoras. ambos são infiéis. ser independente. Qual destes empresários é mais criminoso? Comparações 1 . a prontidão e outras bossas.Reservista voluntário é todo o cidadão que tem medo de ir para o Exército: só pensa em tirar a caderneta para nunca mais vestir farda e nem sequer pisar no quartel.A mulher infiel é semelhante ao menino que fuma escondido do pai. 2 .O que nós chamamos incompatibilidade de gênios entre um casal não se assemelha nada com o que devia ser.. porque considera isto uma grande falta de respeito e. Que não come. condutor e passageiro. Motorneiro. ela também o é. os gênios neste caso não são diferentes. Ela quando faz isto é porque pretende ter vários e deseja. são completamente iguais: se ele é teimoso. com seu prejuízo moral..Os vizinhos representam a consciência daqueles que procedem desonestamente: quando alguém pretende praticar qualquer má ação. que não abandona o samba Pois o samba mata a fome. não basta. 3 .Mulher rica presa em casa é o mesmo que seresteiro na rua em noite chuvosa. 4 .A mulher é o aperitivo que ajuda o homem a comer o prato indigesto da vida. dá-se o contrário: não é porque ela não queira mais saber de um marido. além disso. Coisa nossa. Se este um dia pilha aquele em flagrante delito. São nossas coisas. ou castiga e proíbe tal procedimento ou então consente que continue.

Aprendeu-o numa aula da Faculdade. Noel havia escrito um samba para um dos quadros. usá-lo apenas para agradar a família. Que passa as noite inteira em claro Não quer mais saber De preparar as gordura . onde nasceu há 27 anos. sua.a aproximação se faz de forma mais efetiva.Prestam ista e vigarista E o bonde que parece uma carroça. nenhuma colaboração se concretizando. Já em Mar de Rosas revista de Gastão Penalva e Velho Sobrinho. Coisa nossa. sem tostão. Na Batucada da Vida. no sentido de queda. Artigo raro. cada qual passando às mãos de Frazão o que era seu. Coisa nossa. É Mentira. Maria. Que samba e dá rasteira. Se o pai descobre o truque dá uma coça. Tu. tudo o que tem feito recentemente ressabe à originalidade. Oi . não escapa à acuidade de Noel. e Faceira. Foi Ela. aptidão. Vamos Deixar de Intimidade. muito nossa! O termo "bossa". deste ano. Mulata fuzarqueira. Durante Café Com Música os dois apenas se encontraram nos bastidores do Recreio. intitulado Mulata Fuzarqueira. de 1929. Pianista. A obra que criará nos próximos anos . músico com estudo.falará de sua singularidade. O que. uma veia inquestionavelmente criativa. A breve trajetória de Noel Rosa pelo mundo do teatro de revistas . se o primeiro grande sucesso de Ary. Mas não. tem força o bastante para abrir novos caminhos à música popular brasileira.No Rancho Fundo. é o único dos compositores brasileiros desta época destinado a criar um tipo de samba que. suas velhas tias avós de Ubá. Minas. pautava-se pela escola de Sinhô e dos outros sambistas amaxixados. São exemplos disso Vou à Penha. deixar que se cubra de poeira. também no Recreio . muito nossa! Menina que namora Na esquina e no portão Rapaz casado com dez filhos. de melodia interessante e versos que tentavam reproduzir o linguajar dos morros cariocas.e será com tanta freqüência empregado por Noel que muitos pensarão ter sido criado por ele mesmo. Ary ao menos chegará a completar o curso de direito. não sendo Cidade Nova nem Estado. Sete anos mais velho que Noel. outro moço de extraordinária musicalidade que há de trocar o anel de doutor pelo samba. o estudo da frenologia (teoria que tenta estabelecer uma relação entre a inteligência e a conformação do crânio) sugerindo que as bossas frontais e occipitais é que determinam a vocação e a capacidade de cada um. também de 1929. jeito para fazer as coisas. Podese dizer que. certamente. adquire tal força neste samba .limitada a apenas quatro peças. embora para pendurar o diploma. à coisa nova. Quando se diz que Ary tem extraordinária musicalidade não se fala por falar.trouxe-lhe dois grandes proveitos: tornou-o mais conhecido e aproximou-o de Ary Barroso. todas encenadas em 1931 .

com significados ambíguos. (Arquivo de Almirante. É uma letra claramente otimista.. mas com duplos sentidos bem à maneira de Noel. Nesta vida.. nesta vida. Iça Vela.. mais tarde reintitulado Mão no Remo. Mulata fuzarqueira da Gamboa Em 1937 ". estreada a 24 de julho de 1931 com Margarida Max no principal papel. sentado a uma mesa. Nasceste com uma boa sina Se hoje andas bem no luxo É passando a beiçolina! Mulata tu tem que te preparar Pra receber o azar Que algum dia há de chegar Aceita o meu braço E vem entrar nas comida Pra começar outra vida Comigo tu podes viver bem. o que eu falo é bem pensado". . Pois aonde um passa fome Dois pode passar também. O bom exemplo já te dei Mudei a minha conduta Mas agora me aprumei.Nem cuidar mais das costura. Sílvio Caldas que nesta mesma revista canta Cordiais Saudações.é quem lança soberbamente o samba de Ary e Noel. habilmente. 180 Mas o que realmente assinala a presença de Noel Rosa nesta revista. fingindo escrever uma carta ao amigo devedor .. é a letra que escreve para a música composta por Ary com vistas a um quadro dedicado aos bravos navegadores que levam a vida desafiando as incertezas do mar. Ou se vem a tempestade Nunca mais o barco encontra O porto da felicidade. as expressões "mão no remo" e "mete a vela" empregadas. Mão no remo! Mão no remo! Com toda coragem Pra levar vantagem No mar desta vida Pois se queres ser feliz no amor. Cada qual tem um barco em que navega E o azar é natural Nem há nada mais fatal E a justiça é cega Mas se os ventos sopram contra.) Só anda com tipo à-toa Embarca em qualquer canoa! Mulata fuzarqueira da Gamboa Embarca em qualquer canoa! Mulata vou contar As minhas mágoa Meu amô não tem erre Mas é amô debaixo d'água! Não gosto de te ver Sempre a fazer certos papel A se passar prós coronel.

com a permissão de Ary.Tens que remar com ardor. daqui a um ano) um samba com música e letra de Ary e nada menos de três títulos {Santa Padroeira. Mete a vela! Mete a vela! Quando for a hora De ir mar afora Em busca da sorte Aproveitando a maré a favor Terás pra sempre valor. Este samba . ao ouvir num dos quadros de Vai Com Fé. Pela padroeira Ela foi bem contemplada Levantou do chão curada Saiu sambando fagueira Eu vou à Penha de qualquer maneira Pois não é por brincadeira .. É evidente que a musicalidade de Ary impressiona Noel.. não se sentiria tentado a criar para ele nova letra.primoroso .instigam o jovem poeta de Vila Isabel.. Seus sambas. Pra ver a minha santa padroeira Eu vou à Penha de qualquer maneira Faz hoje um mês que fui naquele morro E a Juju pediu socorro Lá da ribanceira Toda machucada Saturada de pancada Que apanhou de seu mulato Por contar boato ! Meu coração bateu à toda pressa E eu fiz uma promessa 181 Pra mulata não morrer. importância em troca da qual ele cede seus direitos autorais ao violinista Rogério Guimarães. Mas não faz mal. Manteve o refrão e. revista estreada no mesmo Recreio a 12 de agosto de 1932 (portanto. Do contrário. melódica e ritmicamente originais. Vale pela parceria.não renderá a Noel mais do que 50 mil réis. rebatizando o samba como De Qualquer Maneira: Quem tudo olha quase nada enxerga Quem não quebra se enverga A favor do vento Eu não sou perfeito Sei que tenho de pecar Mas arranjo sempre jeito De me desculpar Eu lá na Penha agora vou estifa(2) Mas não vou como um cafifa Quem foi lá desacatar Mas a força falha Ele teve um triste fim Agredido a navalha Na porta de um botequim. Zélia Fortunata e Não Tem Bandeira). escreveu novas segundas partes.

convence-se do contrário. cultivando uma boêmia mais moderada.e a tranqüilizava: . Assim como a ida para o Engenho Novo não os afastou. Noel desaparecendo. ficando semanas sem procurá-la. para onde vão. onde se reúne a turma de futebol do Flamengo. Sabe lá qual é a verdade que Noel guarda sobre este namoro? É uma moça afogada em dúvidas. É que seus habitats são muito diversos. É delicado. uma das suas grandes paixões). tocando piano em festas grãfinas. Já são quatro anos de namoro. uma amiga ou mesmo dona Martha . Assunto com moça azougada não dura um verão. não lhe dando sequer uma desculpa. Quatro anos e ela continua sem saber ao certo o que são. Às vezes acha que ele a ama. não. Vive enfim em outro sistema planetário. porém. Tímida. como estão. pouco freqüentando o Café Nice (prefere fazer ponto no Rio Branco. principalmente. de uma classe média mais refinada. Clarinha. carinhoso. a poucos passos do Boulevard. tem uns olhos cheios de ternura.Não liga. sentia que o havia perdido.Que se faz promessa E o tal mulato Para não entrar na lenha Fez comigo um contrato Pra sumir da Penha Quem faz acordo não tem inimigo A mulata vai comigo Carregando o violão E com devoção Junto à santa milagrosa Vai cantar meu samba prosa Numa primeira audição. Outro engano. Pois enquanto Clarinha vive mergulhada em incertezas . um indefinido relacionamento em nada parecido com os namoros convencionais. em nada parecida com o quase submundo em que anda Noel. Às vezes. o "assunto" entre os dois durando quantos verões ela queira. De início. Tem conhecimento da existência de Fina. Menos de três quarteirões de caminhada e ela já está no chalé. Homem que vê muita vantagem acaba enjoando. Noel jamais enjoará de Fina. talvez com receio de receber respostas também diretas. Trabalhando. mudança oportuna. mais perto de Noel. de que Noel quase sempre a deixa no portão de casa e toma o rumo da Rua Moju. mas também por ajudá-los a afugentar a triste lembrança da morte de dona Clara. Engano.uma irmã. sofria mais. é incapaz de perguntas diretas. Infelizmente Noel e Ary farão apenas três sambas juntos3. Ary mais próximo do pessoal do teatro. e faz para ela apaixonadas serestas.que . É capaz de gestos românticos. ajudando dona Martha. Para Clarinha. a volta para Vila Isabel não os aproxima. Numa casa de vila da Rua Gonzaga Bastos. ia para o quarto chorar. Não só por ser mais econômica. jamais se misturando à gente do morro. Mas logo aparecia alguém . como aquele retrato em forma de coração. Todos excelentes. Clarinha e os irmãos estão morando novamente em Vila Isabel. ali na Rua São José.

que vai voltar tarde.Fina nem pensa nessas questões. ou às conversas na varanda. . mas nunca se casará com ela . meu filho. na Barra da Tijuca. Um namoro é muito diferente do outro. Vão no carro de Valuche ou Malhado. Mas Noel sabe levá-la no carinho. É neste final de 1931 que a própria dona Luísa decide ter chegado a hora de todos ajudarem. protesta. ele podendo entrar e sair à hora que bem entende. nem compromissos implícitos do tipo "namorou é pra casar". os esboços. Fina sempre dizendo que foi à casa de uma amiga. Se acontece algum daqueles sumiços a que Clara está acostumada. inclusive Fina e Bazinha. Por exemplo: se ele é de sumir. não há cerimônias. Noel. Nem às serenatas. ou mesmo não voltar. São muitos pratos à mesa na casa 5 da Rua Moju. de que pode ser que ele a ame. de um sujeito capaz de comprar o mundo sem um níquel no bolso. Isso não dura muito. ele que nunca pôde pôr os pés além da porta da casa dos Corrêas Netto. Mas seu namoro com Fina não se limita a isso. -Dona Iracema. de toda a família. fazem cenas. na fala mole. quer aproveitá-la o quanto saiba. Fina também gosta de Noel.cedo ou tarde se transformarão numa única e doída certeza. Já conquistou a todos com o seu sorriso. Gosta da vida. têm de trabalhar. É dessas vantagens que Clara ouve falar. nem irmãos de cara feia. naquilo que ela costuma chamar de "conversa de teso". ser livre o quanto possa. . O gosto pela liberdade não combina com essa história de dizer ao namorado tudo o que faz. . naturalmente às escondidas de dona Luísa. Como é mesmo aquela música? Dona Iracema é quem guarda. Noel e Fina geralmente namoram muito longe dali. com todo carinho. E muito.pergunta ele. Clara e os filhos tendo se mudado com Alegria. Noel é freqüentador da casa da Rua Moju. no Leblon. a casa sempre cheia. senta aqui. Zeca. ou seja. discutem. Imagine uma moça de dezesseis. Passeios longe. sua conversa. dezessete anos dormindo fora de 182 casa! Como pode Clarinha competir? . o violão. também ela costuma dar suas escapulidas. zanga-se para valer. cuide bem da minha ferramenta de trabalho. pequena firma japonesa que produz botões de osso e madrepérola. demorados. a trabalhar. do center-half Zeca. as moças mais crescidas.Não liga. promete esconder para sempre ou mesmo fazer em pedaços o violão que dona Iracema guarda com cuidado.. Mesmo Martha. suas canções.Noel. Também gosta de ouvi-lo cantar: .Onde é que você esteve ontem à tarde? . ainda são onze bocas a comer e apenas Reinaldo. cada qual com sua pequena. É ciumenta. Noel sente-se bem neste ambiente familiar. a esconder-lhe o caderno de músicas. suas histórias. E se parecem em muitos pontos. Brigam muito.Vai morrer sem saber. Dona Luísa o venera. vive atrás dele com cafezinhos. Fina vai trabalhar na Hachiya Indústria e Comércio S. Uma guardiã valiosa nestes dias em que a mãe vive a trancar-lhe o armário. broas de mi lho e outros agrados. mas se gostam. não. Com Fina. marido de Iracema.A. seu violão. As duas irmãs empregam-se em fábricas do Andaraí. E esta sede de liberdade é o que mais prende Noel. ou às festinhas que de vez em quando os vizinhos dão. em Jacarepaguá.

não querendo que o namorado saiba que seu emprego é tão modesto (como se ele fosse de reparar nisso).Não é de sua conta. não digam ao Noel onde trabalho. Fina também não lhe conta que. Brigas feias. A que vai chamar de Viramundo. uma das mais importantes indústrias de tecido do Rio. Até dona Luísa nota que é uma Fina diferente: . Fina atira-lhe em cima seus ressentimentos. sim! Não se esqueça de que sou seu pai. Noel. zangado: .Ora. amanhã mesmo. meio descascado numa das portas. mas o que ele pôde comprar com o dinheiro ainda minguado que tem ganho com a música. mas um pouco também para evitar que o próprio Noel se converta num center-half. um Chandler preto. está tudo acertado. mesmo com as referências ao riso. Alheio a tudo isso . Não se trata de relato literal do romance entre os dois. ano vinte e poucos. Theodoro Félix. Um pouco o orgu lho. Mas o retratista a colhe num instante que não lhe faz justiça. os olhos grandes mas nostálgicos.Pelo amor de Deus. na Rua da Carioca. Não quero que ele me procure lá. O homem aparecendo de surpresa. e também nas investigações que pretende fazer para saber onde ela trabalha. Mas a quadra final . vai até mudar de nome: passará a assinar-se Josefina Telles.Deixa de ser curioso. ao retratinho e ao violão empenhado. uma recomendação a toda a família. os novos filhos. Theodoro não ligando para ela e Bazinha. Um carro velho. com cadeirinhas ao lado. almoço e saída.Noel passa por um retratista seu amigo.Pois ouça uma coisa: se eu souber que você anda metida com este cantor. Mas não poderá ocultar-se por muito tempo. Cadê aquele riso de criança? É exatamente este. Entre outras coisas porque Noel acaba de comprar um carro. minha filha. .vale por uma autobiografia: Seu riso de criança Que me enganou Está num retratinho Que eu guardo e não dou Guardei sua aliança Pra ter a lembrança . tem brigado muito com o pai. de tão ressentida.e com um dos cachês da Rádio Mayrink Veiga . Riso de Criança.. por causa dele. . Continua prezando sua liberdade. Com que direito aparece assim. De carro. De início.. Depois diz a Fina para ir ao retratista. voltado apenas para a nova família. o título do primeiro samba que Noel dedica a ela. ela se sentindo constrangida. Noel pode estar mais perto de Fina. passo com meu carro por cima dele! Apenas uma ameaça.É. Sim.Me disseram que você anda de coisa com um cantor de rádio. já não depende de Valuche e Malhado. capota de lona ameaçando esfrangalhar-se. na Companhia América Fabril. o rosto bonito porém triste. . querendo dirigir sua vida? O homem se altera: . e paga lhe adiantado um serviço para o qual pede o maior capricho: um retrato de sua namorada. .que não será gravada . Theodoro Félix não continuará incomodando a filha por algum tempo. marcan-do-a em cima. enfim. Nos passeios noturnos. nas horas de entrada.Bazinha. de repente. Grande. Nem parece uma moça alegre. E ela. Fina tem seus motivos.

sapatos baixos. sem meias. quando volta sozinha. do trabalho humilde. passa pelo Largo do Verdun e entra na Barão de Mesquita. Saem homens. Claro. toma a Barão de Bom Retiro. Eu nascendo pobre e feio Ia ser triste o meu fim. sai Bazinha. Usam roupas modestas.diz ela matreiramente. Alguns meses terão se passado até que Noel saiba onde é. Não sabendo que ela leva a refeição para Bazinha. ao lado da irmã.e pensando com muito enternecimento .Do meu violão Que você empenhou. Certo dia. . atravessa a Visconde de Santa Isabel. Deus teve pena de mim. E passa a esperá-la. Um estirão. feijão. pura perda de tempo. saem moças. Mas não têm de se envergonhar do que fazem. num prato fundo que dona Luísa prepara. supõe que trabalhe ali. E pouca pintura. arroz. 183 Canto agora de passagem Você ouve mas não vê É a última homenagem Que eu vou fazer a você.Um dia te conto . e às cinco da tarde. Você que atende ao apito De uma chaminé de barro Por que não atende ao grito tão aflito Da buzina do meu carro? . de serem operárias de fábrica. Quando o apito Da fábrica de tecidos Vem ferir os meus ouvidos Eu me lembro de você Mas você anda Sem dúvida bem zangada E está interessada Em fingir que não me vê. passando pela Barão de Mesquita. Fina faz longa caminhada de sua casa até a Hachiya. à porta da América Fabril. todos os dias. Desce a Moju. à saída da fábrica. São moças pobres que almoçam de marmita (é Fina quem leva todos os dias o almoço para Bazinha) e jantam em casa. descobrir onde ela trabalha. Com a ajuda de Viramundo é fácil para Noel seguir Fina. Faz isso de manhã cedinho. ele a vê com uma marmita na mão. à hora do almoço. macarronada. É pensando nesta Fina que se esconde .que Noel escreve um samba eterno: Três Apitos. Em cada morro que passo Um novo amor eu conheço Cada paixão que eu esqueço É mais um samba que eu faço. Mas crescendo a bossa veio. mas não Fina.

Antes ser um bom sambista que um mau médico. .aponta para Noel e diz: . padrinho de Noel. as tias. Fina fala a Noel sobre o assédio do contramestre e novos versos são acrescentados a Três Apitos: Nos Que Com Que meus olhos você lê eu sofro cruelmente ciúmes do gerente impertinente dá ordens a você. Ao contrário de tia Carmem. a matrícula trancada. que vem de Belo Horizonte inconformada. 184 Luísa. de pura indignação por saber que o sobrinho está propenso a virar as costas à medicina. à saída da fábrica. os estudos abandonados. José Graça Mello. as estrelas. Sou do sereno. pouco diz. Seu Medeiros. passa pela casa de Fina. . Não há dúvida. Suas palavras são as mais veementes. é seguir seu destino.Olha lá o seupoetinha. roubando-lhe um pouco da liberdade.Você no inverno Sem meias vai pro trabalho Não faz fé com agasalho Nem no frio você crê Mas você é mesmo Artigo que não se imita Quando a fábrica apita Faz reclame de você. Poeta muito soturno Vou virar guarda-noturno E você sabe por quê Mas você não sabe Que enquanto você faz pano Faço junto do piano Estes versos pra você Tanto Noel insiste que Fina acaba lhe dizendo onde trabalha. O que fazer? O importante.Noel está certo. dona Martha sabe o filho que tem. Ouve-se tio Eduardo. de novo. Está te esperando. Encontra-a à mesa com a irmã. A noite. cada vez mais mudado. a liberdade. Comem todos em prato fundo. Como previa. Num fim de tarde. E para quê? Para fazer sambas. deixando atrás de si uma família desapontada. como padrinho diz. O fim do ano vai chegando. Surpresa: ele não desaprova o sobrinho. Quem sabe ele não o convence a tomar juízo? Outra surpresa-.Cantor de rádio? Isso não é profissão. Noel logo sai para a noite. para que ele por lá apareça com muita freqüência.que há muito vem cercando Fina de propostas e galanteios . o contramestre Jerônimo Feliciano da Encarnação . A reação familiar não conduz a nada. Ouve-se também o Dr. nenhum indício de que Noel pretende retomar o curso em 1932. a avó. Não há nada mais fora de propósito. E por falar em liberdade. . o médico que o viu nascer.

passa o braço por trás dela e ensina-lhe as primeiras posições. Depois. Jayme Redondo. Stefana Macedo. utilizava o sistema Vitafone. que solta uma gargalhada. Noel senta-se no meio-fio com a namorada.Obrigado. Zezé Lara.. Corita Cunha. Seu riso de criança Que me enganou. compõe uma marchinha que João de Barro o ajudará a terminar: Prato Fundo. . já jantei. Inclusive Fina. Paraguaçu* Gaó. isto é. Napoleão Tavares e sua Orquestra. Jararaca & Ratinho. que quando está de bem com ele trata com carinho o violão. enquanto todo o mundo no chalé se amofina só em pensar no médico que a família perdeu. Diz isso a Fina. Se como tanto Aprendi com a minha avó Na minha casa Só se come em prato fun-de-o-dó A minha mana Para inteirar o almoço Come casca de banana Depois engole o caroço E o meu titio Faz vergonha a todo instante Foi ao circo com fastio E engoliu o elefante A minha tia Já engoliu uma fruteira Estou vendo ainda o dia Que ela almoça a cozinheira E depois disso Leva sempre a dar palpite Toma chumbo derretido Para abrir o apetite Meu bisavô Que era um índio botocudo Devorou a tribo inteira Com pajé. o prato fundo é um suplício. Pra quem detesta comer.Produção do americano Wallace Downey. Arnaldo Pescuma. . cacique e tudo E a minha avó Que comia à portuguesa Reduziu dois bois a pó E ainda quis a sobremesa Todos gostam da música de Noel na casa 5 da Rua Moju. Notas: 1. Procópio Ferreira..Quer aprender a tocar? Assim.pergunta dona NOTAS . Zezinho.. Helena Pinto de Carvalho. Coisas Nossas estreou no Eldorado a 30 de novembro de 1931. No elenco. Noel? . Baptista Júnior (pai de Linda e Dircinha Baptista). o som gravado num disco comum de vitrola e sincronizado ao movimento dos lábios de atores e cantores. para homenagear toda a família e seu portentoso apetite.Está servido.

bem-vestido. Mas é certo que foi mesmo Fina. elegante no smoking sob medida. esticado. curto. Não significam que a musa de Noel trabalhasse na Confiança. Um dia seu amigo e companheiro de dupla. Quem o vê no palco. enquanto a Confiança. ou mesmo de formal. é sempre tomado da mesma emoção. um às 5 horas e 45 minutos. em especial sobre quem seria sua inspiradora. à qual nem mesmo os músicos que o acompanham conseguem ficar indiferentes: -Às vezes. rijo. para despertar os operários que moravam nas redondezas.confessa Tute. outro às 7. A terceira colaboração Ary Barroso-Noel Rosa. desses que estabelecem entre sua arte e o público uma ligação íntima. Estrela da Manhã. Queria dizer que quem chegasse depois dele perdia o dia. de uns 20 segundos de duração.... bem barbeado. simpático.seja uma nostálgica canção sua e de Horácio Campos: Saudades infinitas me devoram Lembranças do teu vulto que nem sei.. estifa. a que chamavam de "pu".. como os malandros costumavam ser." Que outra operária de fábrica se encaixaria nessa declaração? A confusão parece ter crescido quando se sabe que nem a América Fabril nem a Hachiya tinham apito. Mário Reis. É um artista raro. bem penteado. longo. ferindo seus ouvidos. mas sobretudo com uma personalidade que há de incluí-lo entre os mais carismáticos ídolos de toda a história da música popular brasileira. palavra não-dicionarizada. firme. seja cantando um samba do Estácio: Nem tudo que se diz se faz Eu digo e serei capaz .. Há muita confusão em torno deste samba. eram os primeiros que a Confiança fazia soar de manhã. 185 O REI DA VOZ E O DOUTOR EM SAMBA Capítulo 19 E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto É Preciso Discutir alto. no sentido de duro. não mudam nada.. ao ouvir o apito da fábrica. porém. dominando a platéia não só com sua voz e seu estilo. será estudada no Capítulo 27. quando Chico abre aquele vozeirão. Apenas. . 3. Sua origem está provavelmente no adjetivo inglês stiff. indesatável. Francisco Alves tem a aparência de um gentleman.. e o terceiro às 7 horas e 45 minutos. magro. esta sim emitia nada menos de sete silvos diários. perto da casa de Noel. Diria Noel em entrevista ao Diário Carioca de 4 de janeiro de 1936: "Três Apitos resume o romance mais sincero de minha vida gloriosamente romântica. Esses detalhes. 4. como está claro na letra. afetado. quem o vê no palco. Na gíria da época. me dá vontade de chorar. Quanto aos "três apitos" do título. . ele se lembrava da amada. cujo violão tem emoldurado com freqüência a voz de Francisco Alves. alinhado. definirá essa ligação como "pura mágica"1. significava elegante.2. sorridente. marcando a hora de entrada. enfim.

Ficou me olhando demoradamente. outros terão repertório mais selecionado. o Francisco Alves da vida real é no entanto muito diferente do artista que leva às lágrimas o comovido Tute.O senhor é o Francisco Alves? .Muito bem . Chamo-me Noel Rosa e sou aluno do São Bento. Vicente Celestino. Muito tempo depois. Há quem lhe exagere a importância ao afirmar que. sem curvas. ele mesmo diria depois em versos memoráveis. Naquela época Noel e Hélio. igualmente personagem raro. não é privilégio de ninguém. Depois. permanentemente no topo2. Por quê? . cinco fazem samba. no Brasil. Cantores cujo cartaz subirá a alturas inimagináveis: terão suas roupas rasgadas pelos fãs. Fazer sambas. Entre dez cariocas. na maioria das vezes acompanhados de Glauco Vianna. No palco. Midas a converter em ouro tudo que toca. pouco tem de gentleman. sem oscilações. num dos seus livros de memórias3. Mas nenhum conseguirá manter-se por tanto tempo no auge. Ele se despediu e foi andando.respondi-lhe. Lembrei-me dos olhos inteligentes. . Não é bem assim. Em inúmeras ocasiões os dois se cruzaram na cúpula do Teatro Phoenix. É. viviam percorrendo as lojas de música do Centro. comprando métodos de violão. uma carreira longa. Grava discos com o próprio nome na Odeon e com o de Chico Viola na Parlophon. Depois daquele primeiro encontro. Francisco Alves cumprirá.Grandes cantores surgiram antes dele. ele possui o poder de transformar em sucesso tudo que canta." É bem possível que tenha acontecido exatamente assim. no pequeno estúdio da Odeon. Uma estrela. Desta vez não há exagero 187 quando se diz que. Francisco Alves reviu Noel muitas vezes. em termos de conquista da preferência do público. Literalmente. E.Queria conhecê-lo. Sorri para o adolescente. do corpo magro e daquela fala mole. já integrando o Bando de Tangarás. a grande estrela da música popular destes dias. do queixo defeituoso (Noel tinha o maxilar afundado). Durante alguns momentos fiquei com aquela fisionomia na lembrança. E muitos outros surgirão depois. igualmente carismático. para citar apenas um. um gentleman. Chico Viola é mesmo o único que pode competir com Francisco Alves. até o final de seus dias. como se verá. Noel Rosa conheceu Francisco Alves há três anos. quando cursava ainda o último ano do São Bento. Francisco Alves é um cantor que vale por dois. Portanto. E fora dele? Igualmente fascinante. tentando fazer contato com gente do meio. passou a freqüentar o ambiente musical. de sua voz e carisma. .Sou. principalmente quando o jovem compositor. Mas pode-se dizer que muitas das canções que o povo tem consagrado ultimamente só se tornaram populares por causa dele.Quando quiser apareça. em 1928. Alguns serão mais reconhecidos como intérpretes. de técnica mais apurada. ouvindo os útimos lançamentos em disco. Ou nos bastidores dos teatros em . tomou ânimo: . sem dúvida. serão carregados por multidões em praça pública. Cantores de voz mais bonita. à porta de uma loja de discos da Rua do Ouvidor. o cantor recordará o encontro: "O rapaz aproximou-se de mim.

barítono que vende partituras musicais nos subúrbios para custear os estudos que lhe darão um lugar no coro do Teatro Municipal .na verdade meio marcha. . mais demônio que anjo. .Há muita inveja em tudo isso .que Francisco Alves costuma aparecer.Boa tarderespondeu Alberto Ribeiro. Vendeste o carro pra comprar a gasolina. Ficou irritadíssimo. quem sabe um samba inédito que sua voz talvez transforme em sucesso). A marchinha . Num dia destes perguntaste ao condutor Se os bondes passam pela Rua do Ouvidor. meio fox-trot . saiu catando cavaco.Verdade-garante Gastão Cottini. Chico-acrescentou Cottini. o contra-regra Fernando Pereira e o futuro médico homeopata Alberto Ribeiro (que ainda não se sabia destinado a tornar-se um dos grandes poetas da música popular). emitiu meio sem jeito um vago e frio "boa tarde". Inveja? Não neste caso. sempre seguindo a sua intuição. Nesse ponto ele não é diferente de ninguém.odeia Francisco Alves. mesmo quando não toma parte do espetáculo (é impressionante a onipresença do cantor. sempre à procura de novidades. * . Francisco Alves. -Boa tarde. enfureceu-se. um dos que mais defendem Francisco Alves dos maledicentes. nada parecido com o elegante e simpático artista que se vê no palco. nos botequins. De repente. nos fins de mundo aonde os outros artistas não se atrevem ir.Tudo isso e muito mais. insensível. nos teatros. Cottini . difícil. Pouco importa que muita gente diga que o cantor é homem para se manter longe. brincadeira que Eduardo Souto fez para o próximo carnaval. ambicioso até a avareza.diz Almirante. . Distância que não diminuirá mesmo depois de Francisco Alves ter gravado Palpite. inescrupuloso. tropeçou não se sabe em que. Ser palpiteiro neste mundo é a tua sina. capaz de tudo quando quer alguma coisa (até de passar para trás o melhor amigo). Mas esses encontros de Noel com Francisco Alves têm sido sempre breves.não será muito cantada no carnaval de 1932 e depois disso cairá no esquecimento. grosseiro até a violência. como se querendo atirar em cima de alguém a culpa pelo tropeção: . quando Francisco Alves passou distraído. Vendo os três parados ali perto. Bom exemplo de que nem tudo que Midas toca vira ouro. nas rádios. um "como vai" apressado ou pouco mais que isso. Mas a possibilidade de ter outras composições suas incluídas no repertório de Francisco Alves não pode deixar de atrair Noel. com letra de Noel: Palpite! Palpite! Nasceu no crânio De quem teve meningite. Foste linchado lá num samba em Catumbi Porque tocaste no pandeiro o Guarani. mas conseguiu se equilibrar. Estava conversando com dois amigos. menos gentleman que cafajeste. quase foi ao 188 chão. então. Jamais esquecerá o episódio acontecido à porta do Nice.

Francisco Alves levantou-se e ameaçou: . Tirou o relógio do bolso. o próprio Francisco Alves envolvendo em mistério certos episódios de seu passado (ou mesmo do presente). Sobre ele. com rapidez e firmeza. A primeira é. toda verdade não passa de meia-verdade. menos gentleman que cafajeste. a que contam os outros.Vou em casa buscar um revólver para acabar com você! E entrou no primeiro táxi. Verdade. Cottini ainda estava lá. a que os departamentos de publicidade das gravadoras divulgarão. homem trabalhador e honrado de quem teria herdado estas e outras virtudes. exatamente? Não estarão exagerando? Não terá razão Almirante quando diz que a inveja é a grande semente de toda essa falação? Francisco Alves é e será sempre um personagem controvertido. este gentleman dos palcos cariocas. menino de calças curtas interpretando canções pelas esquinas. a que ele mesmo conta. Quem o conhece. este herói (ou vilão)? Na verdade existem no mínimo três histórias de Francisco Alves: a primeira. não pôde evitar a queda.. Como diz o Cottini. o acontecido se confunde a toda hora com o imaginado. de fato? Quem será capaz de dizer onde acaba o anjo e onde começa o demônio? O que parece certo é que esta estrela maior da música popular. de braços curtos mas pesados. conferiu a hora e chamou o garçom: . o Nice já fechando. Emociona-se ao fazer a descrição de seus primeiros passos como cantor. deu-lhe uma bofetada. .Eu cumprimentei o doutor Alberto Ribeiro e não você. Eram quatro e meia da tarde. no bairro da Saúde. À uma da manhã. E não só por causa dessa briga que o próprio Francisco Alves achou melhor esquecer. diga ao doutor Francisco Alves que esperei até agora. tudo isso e muito mais. Costuma falar da infância pobre passada na Rua da Prainha5. Mas que motivos. a que ninguém conta. esperando.Calma. toda certeza se cerca de interrogações. Nesta vida.interveio Fernando Pereira. chegou a meio metro de Francisco Alves e. este cantor que vale por dois. Conta como não se deixou contagiar pelos maus elementos do lugar. a que ele passa para os livros. por assim dizer. e do pai português. onde nasceu. São três histórias muito diferentes. desta vez.?4 Cottini. reduto do temível Camisa Preta: enquanto os outros meninos de sua idade arranjavam dinheiro pedindo esmola ou furtando. a sua biografia oficial. vem vivendo uma vida que vai fornecer rico material aos seus biógrafos. ele sabe onde eu moro. Neste final de 1931 está ele com 33 anos (doze mais que Noel) e orgulha-se de ter vivido uma vida de lutas e sacrifícios. homem forte. as pessoas . dono de botequim. Qualquer coisa. Cottini! . a segunda. a realidade com a ficção. e a terceira. geralmente os que não gostam dele. os outros tentando desvendar tais segredos com as armas da imaginação. deu alguns passos.Por favor. afinal. seu facão. E quem será. firme na esquina da Rio Branco com Bittencourt da Silva. O cantor. ele cantava. O decidido barítono e outros juram ter muitos motivos para afirmarem que de fato o cantor é mais demônio que anjo.

de perseverança."tive a fama 189 que nunca mais me largou o resto da vida: a fama de avarento. Acha que essa história de ingerir copos e copos de cerveja. o dinheirinho contado para assistir às apresentações em circo de seu grande ídolo. banqueiros.confessará na mesma autobiografia em que recordará o primeiro encontro com Noel . não é para amaciar a voz ou puxar a inspiração. pobre espírito. Vieram as gravações." Do que o pessoal do meio artístico discorda: segundo eles. mergulhar a cara no éter. a popularidade.. Homem de muitos amigos e não menos inimigos. Não era raro entre os grãfinos. meio vilão. onde na certa brigará por vinténs na hora de pagar a conta. não aceita que lhe venham pedir esmolas. até na hora de cuspir ele é econômico!". cospe no chão. como dizem alguns cantores. íntimo de gente da alta. ficou doente. industriais. além de sua voz. em teatros. Depois. para amaciar a voz. Detesta bêbados. como vendo-se. Por isso. mete a mão no prato do sujeito ao lado. jamais perderá a mania de pontuar suas frases com duas cusparadas.passando.. cálices e cálices de conhaque. Até que lhe deram oportunidade para cantar em público. Vicente Celestino. Se volta e meia navega por essas águas. é impaciente com eles. Foram muitos anos de luta. como querem certos compositores. É um inimigo da bebida. tudo que conquistou. Francisco Alves é mais pão-duro que o próprio Pão-Duro(6). ou até experimentar as sensações do ópio. os boêmios mais refinados da década de 20 cheirar cocaína. Mais por cacoete do que por necessidade. No que talvez não esteja absolutamente certo.. Sinceramente nunca o fui. dormiu ao relento. E está certo. os empregos humildes. atirando-lhe moedas. primeiro no Pavilháo do Meyer. Não o acham nada elegante e educado aqueles que têm oportunidade de com ele sentar-se à mesa. operário da Fábrica de Chapéus Mangueira. A fama de sovina não é de agora:". é capaz de sair de um palacete da Glória. "Puxa. Às vezes de verdade. diz ajudar a todos os que precisam. o estrelato. para se juntar a um bando de pés-rapados num botequim do subúrbio. Francisco Alves estufa o peito para afirmar que não deve a ninguém ou a nada. biscateiro. Toma ruidosamente sua sopa. engraxate. isso é outra coisa. mas pedindo uma chance de trabalho. Passou fome. mas quase sempre em seco. desde a infância" . ou para puxar a inspiração. mas para estar rigorosamente dentro do figurino da alta. Pó? Bem. em clubes. Hoje. depois no circo Spinelli. é pura balela. também. É aqui que entra a segunda história que fala de um Francisco Alves meio herói. desde que tenham talento e vontade. Francisco . os intelectuais. mendigar: "Que trabalhem como eu trabalhei!" Por isso. onde acabou de cantar de graça. grãfinos de toda espécie. grande alma. dizem no Nice. É um procedimento antiprofissional.. os que se aproximam dele não com a mão estendida. profissionalmente.

Se a moda da boêmia mudou (e o pessoal de agora prefere a cachaça. Por último.faro para . Grande voz. piadas. compram em vez de compor. a embriaguez barata que se compra em qualquer botequim). Mas a maior acusação que se faz a Francisco Alves é a de que vive a explorar sambistas do morro. Muitos outros merecem o nome que o pessoal do Nice lhes dá: "comprositores". lhe é conseguido de graça por um parente de sua mulher. meias-verdades. Inveja. bem embalada. comprando-lhes parceria. que ele cometeu o erro de confidenciar a alguém e hoje é assunto maldosamente sussurrado por seus inimigos. de papel passado e tudo. uma profissão que exige seriedade e disciplina. condenando o verdadeiro autor ao anonimato. neste particular. acredita convictamente que cantar é um trabalho como outro qualquer. sempre tão falante. Francisco Alves. repete Almirante. segundo consta. em toda parte? E às vezes só o seu nome. mais refinada. E fica furioso quando o fustigam com outras provocações. sem ser um viciado.Alves já era boêmio naquela época. Vive com Célia Zenatti há mais de dez anos. ele fica com a de antigamente. Mas não haverá nisso uma contradição. a sua atração por menininhos. é o mais ativo. é um artista raro. ser bem fabricada. a cerveja. colocando seu nome nos selos dos discos. certezas imersas em interrogações. só que lhe faltava dinheiro para diversões tão caras. Tão contadas e repetidas que quase fazem esquecer a única coisa que realmente importa. Francisco Alves não é o único a fazer isso. Faz isso com tanta freqüência que se pergunta por aí se serão mesmo suas canções tão bonitas como Lua Nova e A Voz do Violão. é quase um túmulo quando se trata de sua vida amorosa. o mais vivo. lendas(7). Mas Francisco Alves não gosta de falar disso. com uma mulher que ele tirou de uma espelunca da Lapa (e que ainda lhe dará muita dor de cabeça). É um artista com tal sensibilidade . Não será por isso que ele está tanto tempo casado com ela? Tudo é motivo para maledicências. que em torno dele inventam mil e uma histórias. Mas Francisco Alves. Ismael Silva. a história de ter currado um mendigo que dormia debaixo da ponte. sob a lona do Pavilháo do Meyer. Histórias. Alcebíades Barcellos. e muito especialmente a sua esterilidade. o migalheiro Francisco Alves optando justamente pelo mais caro? Os maledicentes dizem que não: todo o pó que ele consome. o cantor. mas antes disso foi casado. Quer dizer. Nílton Bastos. a terceira história. a única que ninguém discute: 190 Francisco Alves. só para ganhar uma aposta (de que não é capaz o velho Chico para abiscoitar um dinheirinho extra?). para que o comprador saia sempre satisfeito). Claro. bom intérprete. nas partituras. O primeiro verdadeiro profissional que a música popular brasileira já teve (desde seu primeiro agudo. uma mercadoria que tem de ter qualidade. de quanta gente ele tem comprado parceria.

Germano Augusto nunca chama cachaça de cachaça. O sujeito à-toa. Aliás. é claro. sinal de um ajuste de contas mal-sucedido em alguma esquina do subúrbio. água-debriga.descobrir talentos. exibe uma cicatriz de navalha sofrida há muito tempo. . Dá-se ao luxo de ter um chauffeur particular. cambraia. todo ele é feito de música. patrícia. anjo ou demônio. é um autêntico malandro carioca.Germano é o primeiro malandro português da história . elixir. também se transformará em "comprositor". da Lapa. O cantor já foi motorista de praça. nos gestos. piribita. Na face esquerda.pede ele ao garçom referindo-se à cachaça. quando lhe abrirem uma brecha. maria-branca. . um dos quais o comércio de automóveis usados. terá com ele alguma semelhança além do sotaque. Mas não é só na cicatriz e na gíria que ele se parece com um malandro carioca.terebintina. Sabe-se. porém.que não será exagero afirmar'que. o sujeito esperto é um pente-fino. um amigo teve de abrir o guarda-chuva pelo buraco da capota para evitar que o temporal acabasse com a serenata que faziam dentro dele. no modo de usar o chapéu de banda. assim que veio de Portugal. Francisco Alves os compra em São Paulo e depois os vende pelo dobro no Rio. intuição para antever as possibilidades de uma canção . Conhece uma infinidade de sinônimos . no linguajar. . de modo que. Também na picardia pode se gabar de não dever rigorosamente nada a qualquer bamba do Estácio. Mas não em cima de Francisco Alves. Para ele. O exemplo do patrão convenceu-o de que música popular é bom negócio.não exatamente novo. Isso. Ninguém sabe onde ou quando Francisco Alves foi descobrir este português. serve-o com eficiência e lealdade.Solta um suor de alambique . ajuda-o nos muitos negócios que o cantor mantém paralelamente à música. sobre quem vale a pena dizer algumas palavras. Dirige-lhe o carro. Para se conversar com Germano Augusto é preciso quase um dicionário de gírias: conhece todas as que já existem e se dá ao trabalho de inventar mais algumas. da Gamboa. Porque Germano.e usa-os conforme o momento. mas a paixão de ambos pelos automóveis. Hoje. Tem muito respeito pelo patrão. No jeito de andar. Pensando bem. volta ao volante de uma mercadoria que invariavelmente significa bons lucros. naturalmente. E por que não? É homem de jogadas. Quem sabe não pode trocar o Vira-mundo? A vontade de ter novamente carro . Leo Beriquen e outros motoristas são pagos por ele para realizarem as viagens.diz-se no Nice. já não precisa. de armações. setevirtudes . supupara. malunga. mas pelo menos não tão velho quanto o Chandler faz com que procure o cantor. seus enguiços cada vez mais freqüentes. no tempo das vacas magras. um vagolino. vocação. daqui ou de além-mar. já que sua história se liga também à de Noel. ida de trem. tiguaciba. Ainda outra noite. em muita coisa ele chega a ser mais esperto. Noel Rosa começa a perder a confiança no Vira-mundo. em tudo e por tudo. Germano Augusto. girgolina. legume. que nenhum de seus patrícios. como um troféu de guerra. dirigiu carro de madrugada para complementar seu esquálido orçamento de artista de circo. um português serviçal chamado Germano Augusto Coelho. Não foi a música que aproximou Francisco Alves de Noel Rosa.

Se precisar. anda por aí "consertando" letra de música de muita gente. uma das lojas rivais do Cavaquinho de Ouro. Tornou-se seu aluno. tenha automóvel. Na mesma turma de AryBarroso. Quando ela quer. uma casa de altos e baixos em cuja garagem muitas vezes Germano pernoita. Elegância em tudo. roupas caras. Gentleman. Será muito mais "doutor em samba" . e dizer: -Não sei por que você insiste em fazer seus smokings naqueles alfaiates da Rua Maxwell. carteira permanentemente bem provida. tanto no violão como no piano). amor. Em matéria de elegância.. formou-se em direito. é exigentíssimo. boa mesa. um Chevrolet cor de azeitona. Nem precisa. inteligente. custa cinco ou seis vezes mais do que Noel pode pagar. Sempre gostou de cantar. Sem o puro carinho da mulher.. É evidente que Francisco Alves vai precisar. mesmo nos dias em que este está orgulhosamente posto dentro de sua roupa a rigor. de olhos inteligentes e fala mole. é Mário Reis. mais Chão. exatas. certas. Para satisfazer a vontade do pai. não exerce a profissão. não é para quem quer De que vale a nota. teve infância muito diferente da de Francisco Alves: bons colégios. O dinheiro da família é o bastante para que viva muito bem. Mas. nenhum agudo. nos gestos. de verdade.Francisco Alves também mora em Vila Isabel. Sim. Como terá Mário Reis se metido nesse negócio de música popular? Talvez nem mesmo ele saiba. e lá conheceu Sinhô. Fino.. Vive com Célia Zenatti no 185 da Rua justiniano da Rocha. Mas as primeiras conversas entre ele e Noel sobre a possibilidade de fecharem negócio em torno de um automóvel não dão em nada. Quis aprender violão. era poder ser ouvido a duas ou três esquinas de distância. por exemplo. boas roupas. assim como Vicente Celestino e o próprio Francisco Alves). como o 191 autor de Vou à Penha. porque os smokings de Mário Reis são feitos pelo Lacurte. no vestir. dando ao samba um sabor mais carioca. a ponto de olhar para Francisco Alves. Samba. O que não os impede de falarem em outros assuntos. Consigo mesmo e com os outros. E dizer que aquela maneira nova vinha da parte de um . .? Sinhô ficou impressionado com aquela maneira nova de cantar. na época em que começou. mas achava que não tinha voz (ter voz. meu bem..apelido que lhe dará Custódio Mesquita. para ensinar-lhe o pouco que sabia (estava longe de ser um virtuose. que o vem procurar a propósito de automóveis. na Rua Affonso Penna. nas palavras. Francisco Alves sabe do talento de Noel. O mais barato que Francisco Alves tem para vender. o famoso compositor indo duas vezes por semana à sua casa. Nascido numa tradicional família tijucana. Na certa poderá lapidar algumas das pedras brutas que o cantor vive descobrindo nos morros e bairros distantes. culto. Um dia Mário Reis cantou um novo samba de Sinhô: Amor. foi até a Guitarra de Prata. só as pausas. não é segredo para ninguém que este rapaz magrinho. nenhum dó de peito.

influente. O além do além. mas como intérprete que viera para mudar a música popular do Brasil. de qualquer forma.. nomes como os de Castro Barbosa. potência à parte. nada têm em comum. Terá Sinhô antevisto isso? O fato é que desde 1928 Mário Reis vem gravando com sucesso. Mas. Cassino Maxixe. de fato. em toda parte. Francisco Alves já havia gravado muita coisa de Sinhô. nos teatros. farão ainda mais onze discos-. Bastava ouvi-lo em fura. até o fim da sua carreira Mário andará sempre naquele território mais ou menos neutro entre o amadorismo remunerado e o profissionalismo não declarado. Será um dos mais imitados cantores de toda a história da canção brasileira. Se se pensar bem. a influência exercida por Mário será muito mais inovadora. De início hesitante. Depois deste. o mais popular. que a Odeon decidiu torná-la permanente. fazia a música falar. não se discute. Mas superará essa resistência. Mário Reis. Carlos Galhardo. fazendo com que no seu rastro caminhem. É verdade que Mário Reis começou a gravar já na fase do sistema elétrico. A dupla fez tanto sucesso. daqui até 1933. recurso que torna possível as duas vozes serem registradas num mesmo nível). Mas. enquanto Francisco Alves. Mário fica mais próximo do microfone. Francisco Alves é. tivera de se formar mais pela escola do peito aberto (por isso. Naturalmente. Francisco Alves cantava. mas nunca como Mário Reis.. Mas. O próprio Francisco Alves não ficou imune a ela. cada qual disposto a manter sua carreira independente. Diferenças que se tornaram ainda mais evidentes desde o começo do ano. Arnaldo Amaral. A Favela Vai Abaixo.grã-fino. bastando que se ouçam suas gravações anteriores. Ora Vejam Só. vindo dos tempos do sistema mecânico. Não Quero Saber Mais Dela. quando Mário se transferir para a Victor. os dois cantores resistiram à idéia. que até . Na verdade. a influência de Mário. muitas tão operísticas quanto as de Vicente Celestino. para citar apenas alguns contemporâneos de Noel. a voz e o estilo de Mário Reis foram para o disco. Mas fui de plaga em plaga. a não ser pelo fato de gostarem de cantar (e de torcerem pelo América). os microfones mais sensíveis dando vez a cantores de vozes menos extensas. o pai dizendo que um futuro advogado não deveria se misturar com gente do samba. João Petra de Barros. tornou-se um intérprete atuante e. marcou de tal forma a sua presença nas rádios. No entanto. por sugestão de Mário. cansei. Não como brincadeira de mais um almofadinha atraído pela novidade de registrar sua voz na cera. quando eles gravam juntos. Francisco Alves lá atrás. a família fazendo pressão. "dizia". para depois compará-las com as que se seguiram ao surgimento de Mário Reis. quando. Ou neste breque: Que eu não vim ao mundo Somente com o fito de eterno sofrer Graças à insistência de Sinhô. as diferenças entre ele e Francisco Alves. cansei de te querer. Nunca como um profissional nos moldes de Francisco Alves. São muitas. o jeito de cantar samba mudou. sobretudo. Ou então na magistral pontuação dos versos de Cansei: Cansei. gravaram juntos Deixa Esta Mulher Chorar & QuaQua-Quá.

Atento a tudo isso .. Chico: Quem se atreve quer brigar. não poderia deixar de pensar na possibilidade de ter uma de suas músicas cantadas por eles. Mário: É preciso discutir. isto é. Chico: Mas às vezes sai pancada....... na emissão das palavras.... Mário: A questão é complicada.. Ao perceber em Noel uma mina de ouro... claras e ao mesmo tempo coloquiais como quem conversa. Noel Rosa e Francisco Alves estarão mais próximos.. Chico: A mulher não escolheu.. a partir dos primeiros dias de 1932. intitulou-o É Preciso Discutir e levou-o até a casa da Rua Justiniano da Rocha..... Uma influência tão significativa que graças a ela o impossível tornou-se possível.. citou astuciosamente o nome de Francisco Alves na letra (tornando-o assim uma espécie de propriedade particular do cantor). o cantor põe em jogo sua habitual sagacidade: . Mário: A conversa já meti. Mário: Quanto tempo foi perdido. um possível "compositor exclusivo" como muitos que já tem. Por isso. caprichou em novo samba. (E podes crer que é...ao sucesso da dupla e mais ainda ao fato de suas interpretações serem simplesmente irresistíveis (quem não se dobra à força de um Se Você Jurar..Noel..) Assim. Mário: Ela é minha porque vi.. Mário: E eu aviso também Que neste samba agora me meto Para cantar com Francisco Alves em dueto. Mário: A mulher tem que ser minha.É para você gravar com o Mário. Chico: Mas não vai quebrar o disco. 193 Chico: Mas fui eu quem viu primeiro.. Mário: Da discussão sai a razão... Chico: Mas quem segurou fui eu. Pela música e pelos carros..) Mário: Já perdi a paciência.. Chico: Perdi tempo pra ganhar..... indicando quem cantaria quais versos: Chico: Na introdução deste samba... Mário: Sou capaz de violência.. Mário: Ganhar fama de atrevido.... uma coisa ligada à outra. cantores de voz miúda como o próprio Noel Rosa conseguirem o seu lugar ao sol.. Quero avisar por um modo qualquer Que esta briga é por causa de uma mulher. Chico: Mas não quero discussão. Mário: Foi comigo que ela vinha. Chico: A mulher não traz letreiro... como qualquer outro compositor de agora. Chico: Eu por ela me arrisco. Noel mostrou-o. faz-se sentir no fraseado. ... Chico: Quero ver a decisão.. (E podes crer que é. deu-lhe a forma de diálogo..192 Francisco Alves assimilou.. êxito maior de Mário Reis e Francisco Alves?) .

Depoimento de Mário Reis aos autores em 10 de abril de 1981 2. Francisco Alves diz que está para ir a Buenos Aires numa excursão com Mário Reis. na altura de Taubaté. Na gíria da época. cobriria um período de 34 anos. sairia em livro em 1966. iniciada em 1918 como cantor de circo. Era o estudante irrequieto e inimigo dos livros. Que alguém trate de rebocar o velho Chandler. a cada samba cujos direitos autorais ceder a Francisco Alves.Vamos fazer uma coisa: você fica com o carro e me paga em samba. 3. este vai tirando uma fatia do total. Seu enterro. mau cantor. mas sempre mal visto pelos superiores. Noel verá como o Chevrolet se pagará rápido. só gente boa. publicada em capítulos de 17 de novembro de 1951 a 24 de maio de 1952. famoso personagem da cidade. Atual Rua do Acre. 100 depois. seria acompanhado por mais de meio milhão de pessoas. A terceira. Era criança incompreendida e mal julgada.. Carmem Miranda. a 27 de setembro de 1952. 5. no . Que pelo menos estude a proposta. Não resta a menor dúvida: Noel vai aceitar a proposta. Sim. Pão-Duro. Quando do seu lançamento. sob o título de Minha Vida Verdadeira. 30 amanhã.Você ainda está interessado naquele Chevrolet? Interessado Noel está. Vem do seu apelido o substantivo "pão-duro" como sinônimo de avarento. em forma de folhetim. Ainda era um grande cartaz da música popular. em fins dos anos 40. Sua carreira. ia de padaria em padaria esmolando pão dormido para comer. E. NOTAS 1. segundo narrativa ao jornalista David Nasser. vai aceitar a proposta. Descobriu-se um dia que era homem de razoável situação financeira. 6. Mais concorrido do que o de Carmem Miranda em 1955 e só comparável ao cortejo que levaria o corpo de Getúlio Vargas do Catete ao Santos Dumont em 1954. caso raro em tão longa atividade." A segunda autobiografia do cantor foi editada pela Rádio Nacional. apareceu inicialmente em O Cruzeiro. o deixará lá para sempre. a decadência ou mesmo breves momentos em segundo plano. jamais conheceria o ostracismo. mas pelo preço é melhor que nem reabram o assunto. Francisco Alves talvez seja caso único de autor de três autobiografias. Noel ouve os detalhes da proposta. Francisco Alves morreria num acidente de automóvel na Rodovia Presidente Dutra. A primeira. Era o amante infeliz e não-correspondido. Cinqüenta hoje. . 7. Não eram só os inimigos de Francisco Alves que alimentavam lendas sobre sua esterilidade. Tute. O Viramundo lhe dá dores de cabeça demais. Era o operário brioso e trabalhador. Tantas que um dia. Na volta conversam. Luperce Miranda. Tem até um nome para o novo carro: Pavão. A Voz do Rádio de 15 de setembro de 1936 (página 14) fez o seguinte comentário: "Francisco Alves se converteu em verdadeiro herói de filme em série. teria sido ditada por ele ao jornalista Mário Cordeiro. Minha Vida. 4. ao bater com ele num poste da Rua Visconde de Santa Isabel. no Rio. Em entrevista aos radialistas Luiz Carlos Saroldi e Ney Hamilton. Reescrita e reintitulada Chico Viola. sairá quase de graça.

194 SUBINDO O MORRO Capítulo 20 O samba. de todos é Noel o mais ligado a ele. esticado. Parte dos bens de Francisco Alves. Embora os tangarás tenham descoberto Canuto praticamente ao mesmo tempo. Sua mulher acabaria ganhando a causa. Francisco Alves negava a paternidade. ano de sua morte. quando ocorreu um acidente. na realidade. Um negro Bem comprido. Num desses passeios. Noel acha Canuto ainda melhor que o Manuel Anacleto. embora partisse de Almirante a idéia de levá-lo com seu tamborim para um estúdio de gravação e embora fosse João de Barro o primeiro a tornar-se seu parceiro. Não vem do morro nem lá da cidade E quem suportar uma paixão Sentirá que o samba então Nasce no coração. esposa legítima. Chico caiu e machucou-se num dos galhos que perfurou os seus testículos. longo. mas hoje já se sabe que mora mesmo no Salgueiro. magro. ele resolveu subir a uma árvore e colher uma flor para oferecer a uma mocinha. Uma pena. quando foi levado aos tribunais por sua primeira mulher. Desde aí. o compositor e cantor argentino Atahualpa Yupanqui dá sua espantosa versão: "Eu costumava passear com Chico pelas ruas. Noel sobe ao Salgueiro. O caso mereceu destaque na imprensa por vários meses. Saúde. passando aos filhos. a fala mansa enfeitada de gírias. não com a baqueta. Nenhum não é exato. camarada que faz do tamborim o que quer. após sua morte.intervalo de um programa na Rádio Jornal do Brasil. mas com o dedo indicador. Feitio de Oração Canuto foi o primeiro. alegando não só ter vivido com Perpétua apenas alguns meses em 1920 (e os filhos tinham nascido anos depois). incluindo direitos autorais de compositor. Ninguém podia precisar como ou quando apareceu em Vila Isabel." Francisco Alves. Não pôde ter filhos. tornou-se estéril. Mangueira. um dos primeiros que se conhecem no bairro a realizar malabarismos com o instrumento (Anacleto gosta. transcrita por Ciléa Gropillo na página 5 do Caderno B do Jornal do Brasilde 21 de agosto de 1981. . Sempre movido por bom motivo: samba. Favela. Estávamos esperando que ele descesse com a flor. Perpétua Guerra Tutoya. de rodopiar o tamborim na ponta do dedo como fazem alguns pandeiristas). no entanto. acabaria. que reclamava pensão para dois supostos filhos seus com o cantor. No começo pensava-se ter vindo do morro dos Macacos. E também ao morro dos Macacos. por exemplo. E a outros mais. lugar a que nenhum dos tangarás se atreve a subir para o que quer que seja. como também ser estéril. só se referiria abertamente a este problema em 1952. E um dos que mais apreciam seu jeito de bater.

Já Canuto prefere deixar para lá as figurações. Sua subida ao morro. Nestes dois. será tão freqüentemente parceiro de "compositores do morro". costumava postar-se à porta de uma delas. beber em sua fonte. remediado. até se firmar como um cartaz do rádio e do disco já no começo de 1932. que muito antes de Noel . isto é. negra ou mestiça. aprender com eles. O mais rico harmonicamente. comunhão plena no ato de criar. Ou o fará de mente e coração tão abertos. que criam sob o teto de zinco de seus barracos o melhor samba carioca. entre tanto mais. Sábia e humildemente. tem outro significado. não vive no morro. ou nos confins de um subúrbio carioca. lapida-a com sua voz. Agora tem certeza: são estes negros. experimentar parcerias com seus compositores. Mas entende essa gente como se fizesse parte dela. Quando do sucesso do Na Pavuna. Isso enquanto os outros tangarás. enlevado. que se instalou nos pés de morro. E como eles parte de uma população pobre. humildes. Garimpeiro infatigável. três anos. .andou indo aos morros atrás de samba. Claro. embala-a em forma de disco. mas musicais até a alma. mas será muito mais enriquecedora. apontava primeiro para o alto-falante de onde saía o som do seu tamborim e depois para si mesmo. Noel vai subir muitas vezes o morro. como se dizendo: "Este aí sou eu!" Foi mesmo o primeiro. guiados por Almirante. Mas há uma diferença: o cantor famoso chega a estes sambistas. o de estruturas melódicas mais afinadas com o seu temperamento. nenhum compositor da cidade. não se pode esquecer Francisco Alves. Já a de Noel é sobretudo integradora. com passagem inclusive pela universidade. mais soma que troca. Pode ser seu "sócio". incultos. desde que conheceu o lustrador de móveis Canuto em meados de 1929. não pode dizer que seja pobre. Não fará tanto sucesso. Faz negócio com eles. enquanto batuca. O primeiro a aproximar o morro e sua música de um Noel desde cedo inquieto na busca daquele samba "diferente" que o encantara. sua busca. branco. só atingíveis depois de se percorrerem caminhos angulosos riscados em barranco íngreme. Por quê? Como explicar a afinidade que desde logo se fez entre ele e os compositores do morro ? Nunca é demais lembrar que compositores de morro não são apenas os que efetivamente moram lá no alto. três anos-chave em sua carreira. É uma busca consciente a de Noel. Noel não é negro. colhe a pedra bruta de suas criações. ou margeando as linhas de trem. Chico é um cantor a que a música brasileira vai dever. as casas de música tocando o disco a todo instante. em Casébres remotos.e de forma bem mais pragmática . mas não parceiro. Já havia intuído ao tempo de Com Que Roupa?. Também são "compositores de morro" os social e 195 economicamente identificados com aqueles. a descoberta e popularização dos compositores do Estácio e seus seguidores. Ao longo de dois. ainda pensam nos cocos e nas emboladas. limitando-se a fechar os olhos. instruído. Aos curiosos que paravam para ouvir. converte-a em sucesso. rastreador atento.

.) Se deixei de te amar Foi só pela ingratidão Que fizeste sem pensar. Quero agora o teu carinho. Augusto Vasseur. Sai de lá mais magro ainda. Heckel Tavares. O rival. Canuto passa dois meses no ospital. Meu coração não se cansa. tudo separa os dois mundos. Como imaginar algum deles numa tendinha de morro a batucar caixa de fósforos no meio desses negros? Como pensar neles a escalar encostas enlameadas trajando os seus imaculados ternos de linho branco? Mesmo a parceria de João de Barro com Canuto. E disposto a receber de volta o ex-amor. Eu te quero perdoar E te esquecer. além da respeitável altura. Mas minh'alma hoje descansa (Só me resta a lembrança. A de Canuto com Noel Rosa talvez venha a durar muito. Sofri tua crueldade. jamais indo às mesmas festas. cinqüenta e poucos quilos de fragilidade). desafia para briga o malandro que lhe roubou a mulher. confiando ainda numa força que já não tem (foi lutador de boxe há alguns anos. Não deixei de te amar (Vai por mim) Nem posso viver assim.. encorajado pelo álcool e pelo ciúme. freqüentando restaurantes e botequins distintos. Por saber que sou amado A minh'alma hoje descansa . filosofias de vida. Mas é mesmo de amor que mais padece. Quero a tua proteção. preconceitos. Joubert de Carvalho. vive pelos botequins a falar da mulher que o trocou por outro. Quero arranjar padrinho. Sem lembrar de uma paixão. Freyre Júnior e mesmo Lamartine Babo e os outros tangarás. Gastão Lamounier. como diz em Esquecer e Perdoar. Mas agora estou mudado. Vem a forte tempestade.Esse tipo de parceria . É encontrado pela manhã gemendo num canto de calçada. Canuto. Depois de Não Quero Amor Nem Carinho e das segundas partes de João de Barro para Vou à Penha Rasgado. Não quero morrer pagão. mais ágil. mas hoje só lhe sobram. Deocleciano da Silva Paranhos. foi um episódio isolado. a dupla se desfez. samba seu com Noel: Pelo mal que me fizeste Sem eu merecer. esfaqueou-o no peito e na barriga. vivendo em pontos tão opostos. Ary Barroso. Uma noite. pioneira na união dos dois mundos.é por várias razões raro: classes sociais.de brancos cá de baixo com negros lá de cima . mas cheio de inspiração. Bebe muito. já tem os pulmões fracos em fins de 1931. se muito eles viverem. Mas depois vem a bonança. o corpo coberto de sangue. Tomemos o exemplo de alguns dos melhores compositores brancos de hoje: Eduardo Souto. É até difícil seus habitantes se cruzarem.

. Eu já vou-me embora. é revisitada pelo humor 196 de Noel. Cadê Trabalho?.) Um belo samba que a voz sentida de Canuto valoriza ainda mais na gravação. Quando eu me sinto bem forte Vou procurar um baralho. O trabalho deu o bolo. Diante de um auditório. Você grita que eu não trabalho. Se fraseado vingasse. a música e o coração a aproximá-los.(Vivo só de esperança.. Quase que o chão escangalho Com dores no cotovelo Por sonhar com o trabalho! Trabalho é meu inimigo. que será seu intérprete em disco: Adeus. Se conversa adiantasse. O samba. Já Não Posso Mais. O teu mau procedimento Fez meu coração sofrer E teu arrependimento Não me pôde comover. Já não posso mais! Deus que me perdoe Pelo que fiz Deixando abandonada Aquela pobre infeliz.se dando as mãos. Num terceiro samba. Mas fico fraco e sem sorte Se vejo ao longe o trabalho. Se tu fosses processada. e Almirante. Diz que eu sou um vagabundo. Não faça assim. Não andava sem dinheiro. jamais será gravado. da aversão ao batente. Noel e Canuto terão dois colaboradores: Puruca. no qual a filosofia da malandragem. Tu ficavas bem calada. outro negro do Salgueiro que faz ponto nas esquinas de Vila Isabel. Tu estás arrependida. Acordei com pesadelo. . Nem sempre os arrependidos Nos merecem o perdão. Eu seria conselheiro. o morro e a cidade . Precioso exemplo de como já em 1931 Noel está perfeitamente sintonizado com os sons lá de cima. Tu encheste meus ouvidos Com frases de ocasião. mulher fingida. Os dois fazem juntos outro samba.através dele e Canuto . meu bem! Pois eu vivo ativo neste mundo À espera do trabalho E o trabalho não vem. Já quis me fazer de tolo: Marcando encontro comigo. porém.

Pois tens culpa no cartório. que será parceiro dele em Eu Agora Fiquei Mal. Mas agora eu peço muito Para não escorregar. homem de coragem. Ficará na história sua ameaça aos policiais: . além dos geniais versos de Quem Dá Mais?. também de tuberculose. Gargalhada fez um samba em resposta: Tenho prazer e glória em citar. Morrerá a 27 de novembro de 1932. nada para se levar a sério. mandando lá a polícia com ordem de despejo para dezenas de famílias. Um líder.Se quiserem subir. Mas me falta o principal: A mulher que me ajudava tanto. é quem o gravará. Canuto não vai viver muito. Mas pra cada barraco que vocês botarem abaixo. antes de chegar aos trinta e com um punhado de sambas por fazer. Favela. Quando me botaste as unhas. amigo e padrinho da dupla. o bloco saiu cantando: Oswaldo Cruz. este ainda está meio queimado com o pessoal de Vila Isabel. Meu dinheiro se pirou. Morro da Mangueira. o italiano vai desistir do morro. é um de vocês que a gente derruba também! Os policiais farão meia-volta. Canuto. Talvez. .ia ser o melhor de todos nós.admitirá Noel aos amigos no Ponto de 100 Réis . o Gargalhada do Salgueiro. pelo menos mais duas citações em letra de samba. Ela deu o fora! Eu agora fiquei mal (Eu agora fiquei mal) 197 Esta mulher foi-se embora Me deixou bem arruinado Eu que estava tão sadio Agora estou acabado. será uma das legendas maiores do seu morro. Quando Canuto apresenta Noel a Gargalhada. Estácio de Sá. Mas não de Noel. Praticamente desconhecido dos rapazes de Vila Isabel desta época. Vamos acordar o Salgueiro Que o mundo inteiro Quer ouvir o seu cantar. compositores do morro nos quais os outros tangarás não parecem tão interessados.Se tivesse durado um pouco mais . Mas Canuto viveu o bastante para apresentar Noel a gente do samba como ele. até sua morte em 1941. Futuro diretor de harmonia da Escola de Samba Azul e Branco. Gargalhada é respeitadíssimo não só no seu morro. Sambistas como Antenor Santíssimo de Araújo. especialmente a turma que desfila pelo Faz Vergonha. Gargalhada vai se plantar bem no começo da subida. . Há bastantes testemunhas Do que fui e do que sou. quando um italiano sabido compra boa parte do Salgueiro. mas em todo lugar.. Num desses carnavais. Quem é a Vila para nos acordar? Briguinhas de samba. subam. E das quais Noel não participa. Tenho vontade de ir à Penha. O que conta é que Gargalhada. ele que respeita tanto o Salgueiro que lhe dedicará.. Em 1934. Mas o Salgueiro não está adormecido.

são freqüentadas por compositores. Saturnino Gonçalves. o Cartola. mais conhecido como Café da Uma Hora (nestes tempos em que a maior parte da cidade dorme cedo não são muitos os otequins abertos até tão tarde). Pois as mesas deste botequim . Em 1935. Um botequim onde se encontram os irmãos Mário e João Petra de Barros. mais que isso ele fará quase um discurso: .. Carlos Cachaça. E muito especialmente os bambas que vêm da Mangueira. Tou vendo as coisas feias. procura conhecê-los. Paulo e Luís Barbosa. Um dia Noel entra na Rua 8 de Dezembro. atravessa a linha do trem e vai procurar Cartola no seu barraco perdido no meio de uma subida estreita. cuíca.. desce a ladeira. aquelas das famosas batalhas de confete. aqueles que ainda não desceram como Canuto. cinco de sinuca . toda uma freguesia musical. (Arquivo da Funarte. Cartola. Aloísio Dias. O primeiro contato com Angenor de Oliveira. o Massu. A ligação entre Cartola e Noel não se vai restringir a encontros fortuitos e papos de vez em quando no café de José Martins1. se dá entre dois tragos no Café e Bilhares Maracanã. O centro de um território que engloba Vila Isabel. reco-reco. nem podia imaginar que seria um ponto tão importante na geografia da música popular carioca. os mais antigos. Benedicto Lacerda. do Salgueiro à Mangueira. do Boulevard ao Salgueiro. Mangueira e as Ruas Dona Zulmira e Santa Luíza. Situado no 476 da Rua São Francisco Xavier. os rapazes do Ponto de 100 Réis (Noel entre eles). Kalua. Mostra seus sambas a ele. Quando o português José Martins o inaugurou em 1927. instrumentistas. É ali que Francisco Alves fecha muitos de seus negócios (e guarda nas mãos de seu Zé o velho violão). Ruço da Amélia. Ou como Puruca. Noel vai atrás deles. ouvir o que fazem. em frente ao rio Joana e a um quarteirão do Largo do Maracanã. os salgueirenses Canuto e Puruca. um ou outro egresso do Estácio. é local de muito movimento o dia todo. os foliões do Faz Vergonha.) Mestre Waldemiro. Maciste.Leve o meu pedido À santa que está no altar. Zé Com Fome. Desde este dia. os novos. Talvez nem possa alcançar O final da escadaria Que sobe pro seu altar. as propostas de parceria partem quase sempre de Noel. Ao que parece. ficam amigos. cantores. sambistas de morro. ritmista completo que toca tamborim. E Cartola. ouve o que o compositor da Mangueira tem guardado. Se ela me livra De toda mulher. Pelo menos no começo de seu relacionamento com os sambistas de morro. quando o jornal A Nação promover o concurso "Qual será o maior compositor das nossas escolas de samba?" e Noel for convidado a dar seu voto. Castro Barbosa e tantos outros.doze de café. Viaja a bordo do samba. Lamartine Babo. Nossa Senhora da Penha Vai fazer o que puder. ganzá e um surdo que ele mesmo construiu adaptando couro à boca de uma barrica conseguida num armazém da Praça 7.

"2 O amparo que Noel vai reclamar é o que a Mangueira negará a seu compositor. disseram. que eu cuido de você. Destes cuja estima mútua o tempo só faz intensificar. depois do protesto. vizinha do barraco ao lado. muita comida e bons tratos. Depois. soube e foi visitá-lo: "Pode deixar. Tantas vezes tem concorrido para o renome alcançado por sua escola que não se explica esta o desamparar justamente quando chegou a sua vez de aparecer. São dois moços simples (Cartola dois anos mais velho que Noel). Delicado nas palavras. nos gestos.e no entanto jamais perdeu a calma para protestar contra os policiais que o chamavam de vagabundo e o maltratavam pelo crime de fazer samba. em nome da solidariedade. amado. cada vez mais. mas mora desde menino na Mangueira. sem qualquer artifício no jeito de ser. mesmo que venha a ser alguém. o melhor dos "compositores espontâneos"."Cartola merece uma campanha em torno de seu nome. eu fico!" E ficou 199 mesmo. a própria Mangueira o seu Maciste. Gamboa o seu Raul Marques. Salgueiro os seus Gargalhada. Enquanto Madureira prestigiará o seu Paulo da Portela (líder e virtual vencedor do concurso). foi tomando gosto. Tem dado ao público não pequeno número de verdadeiras obras-primas. incapaz de altear a voz. Ramos o seu Armando Marcai. No dia em que sua família mudou-se do morro. em tudo que faz. a quem empresta toda a sua colaboração. Afinal. Mas o fato justificará um discurso? Não estará Noel Rosa exagerando? Será que esse tal de Angenor de Oliveira é tão bom quanto ele diz? Ou é apenas um bom amigo sambista que Noel vai querer promover? Os dois se tornam mesmo grandes amigos. bateu pé: "Vocês vão. biscateiro. Cartola. dados através de um cupão que o jornal publicará diariamente. Morando neste barraco de sala e cozinha em que Noel. vai pôr seu voto na urna de A Nação. quem sabe um compositor admirado. A simplicidade do sambista da Mangueira chega a ser comovente." No princípio. quando já estiverem computados mais de 6 mil votos. Deolinda. Dou por isso a Cartola o meu voto sincero. menino. Cartola ainda não havia chegado aos dezoito anos quando caiu de cama muito doente. vai procurá-lo. E de lá não pretende sair tão cedo. A sua escola de samba. Dos compositores espontâneos. precisando de repouso. Sempre trabalhou pedreiro. famoso? Nasceu no Catete. vários ofícios . Quem não conhece Divina Dama e Fita Meus Olhos?Não me poderia passar 198 desapercebido (sic) o nome de Cartola num concurso entre os melhores sambistas. Simplicidade e modéstia que jamais perderá. inclusive os sambas. nem será lembrado. "Doença de rapaz". Puruca e Pedro Barcellos. esta no dever de ampará-lo. Modesto. Cartola nem aparecerá na relação dos 23 mais votados. . Noel. lei sagrada a que os moradores do morro obedecem religiosamente. É um dos heróicos pioneiros que resistiram com bravura à intolerância das autoridades para com os sambistas. ninguém merece mais do que ele. Sem nove-horas.

Até que uma noite o marido de Deolinda chegou em casa. os dissabores. atraídos pelos xingamentos dele. cerveja e as bênçãos de Deolinda. os tédios castigando-o por dentro. quando isso aconteceu.Mas tu não vê que eu tou morrendo? O marido de Deolinda recuou. e a encontrou com a trouxa feita e a filha Ruth. ergue-o no colo com seus braços fortes e o coloca dentro de uma bacia onde vai jogando. ainda fraco. seis anos mais velha que . seu aprontador. enfeitiçando-a. Que ela lhe dá na boca. muito magro. . embora sempre olhando âo longe. Noel fará daquele humilde Casébre. cansado do trabalho. Deixou a surra para quando Cartola ficasse bom. filhos que ela terá um dia chamando-o. pacientemente. como aquele ditado que tambem é lei sagrada: "Briga de marido e mulher é deles lá.. Pois a partir daquele primeiro encontro com Cartola no café do Maracanã e mais ainda do dia em que o procurou lá em cima . o seu refúgio. convenceu-se de que não era direito bater num garoto esquelético.o barraco passa a ser uma espécie de sua segunda casa. Deolinda é mulher como poucas. tira a roupa dele. de avô. Só que. Vim te arrebentar! . . esperará o amigo voltar do trabalho. De vez em quando. Saiu por uma porta e entrou por outra. esquenta água numa lata de banha. O homem trincou os dentes.grita Cartola para a mulher. Em alguns momentos.Estou me mudando pro barraco do lado. osso de tutano fervido com tomate e cebola. veste-lhe as roupas de Cartola. Mesmo assim. a raiva já havia passado. Foi franca: . as ingratidões. primeira. encontrando o vizinho deitado. sentado no corrimão de ferro da ponte sobre a linha do trem. perdido entre tantos na Mangueira. com a menina que Cartola criará como sua. os cansaços.aquele jeitinho de Cartola enroscando-se nela.Este caldo levanta até caixa d'água. explodiu: -Roubando minha mulher. Será sempre assim. Noel bebe duas vezes mais que Cartola. -Deolinda!. Cartola chega e os dois se cumprimentam. o pijaminha velho mas limpo de dar gosto. devagarinho. enquanto Cartola observa com olhos de aprovação. de dois anos. Quando as coisas não estiverem bem na cidade. já meio alto. Nessas horas é ela quem cuida de Noel como se fosse uma criança de colo. Depois. é para ali que correrá. Faz uma fogueira de lenha no quintal. prepara-lhe um caldo forte." O homem mudou de idéia e achou melhor resolver a questão com Cartola. E Deolinda já estava definitivamente instalada no barraco de quarto e cozinha. Deolinda cinco. Pensou primeiro em esganar Deolinda mas os vizinhos foram chegando. orgulhosos. enxuga-o.Vou morar com o Cartola. Nos anos que se seguirão. Um refúgio tranqüilo. sobem juntos. O cansaço e a bebida não raro derrubam Noel. cuias e mais cuias de água quente. entre samba. no colo. Esfrega-o com bucha. moribundo.O quê? .. de agora até as vésperas de sua morte. Noel terá oportunidade de constatar isso muitas vezes. às vezes engrossado com talharim. Pensou bem.

o Buraco Quente sendo como o Boulevard.. reluzente. até que se complete o total).pergunta apontando para a placa. .Por que. quem o aproxima de Heitor Villa-Lobos. tipo conta de armazém. "correção e uma letra de fulano. os outros sérios.Esta rua. seu guarda? . Noel no volante. Éproibido passar carro.. No dia em que fecham 200 negócio. Porque Cartola e Noel costumam sair juntos para longas noitadas.O meu passa. trata-os como a duas crianças. o tal Chevrolet de dois cilindros. uma noite Noel cumpre sua breve e patética carreira de mestre-sala. mais tanto. tomam o caminho da Vista Chinesa e só voltam depois das cinco da manhã. inclusive Francisco Alves). improvisa passos que a bebedeira transforma em risíveis piruetas. Alimenta e cura suas bebedeiras. Eventualmente os passeios se fazem no Pavão. me desculpe! Como é que pude me enganar? . um guarda: . faz com que se sinta em casa. "segunda desta ou daquela música. Começa a anoitecer e ele convida os três para uma farrinha. cor de azeitona. .A Rua do Ouvidor! Vou entrar nela.os dois. de um de seus fregueses (é mecânico de gente graúda. . ainda. onde vai anotar "primeira parte do samba tal. . Noel às gargalhadas.. Não sabe ler? . Geralmente é assim: entra no carro que o cliente lhe deixou para reparo e sai por aí fazendo farol.Mas que rua é esta? . transpirando cerveja.Ficou doido. bonita. -Puxa. É Cartola quem o leva para os ensaios da escola de samba. seu guarda. o grande compositor .".Ouvidor. Noel dorme no seu barraco. Na esquina de Uruguaiana. E assim faz. Noel vai à Mangueira e convida Cartola e outros amigos para uma volta pelo Centro.Agora vamos até o Buraco Quente arranjar umas companhias . Como no fim de tarde em que o Zé Maria aparece no Café da Uma Hora e lá encontra os dois conversando com Carlos Cachaça.Está bem. . É ali que. Cartola nem vai trabalhar. um dos pontos de maior movimento na Mangueira. outros tantos mil réis". pode ir. que ele comprou de Francisco Alves (o cantor tem um caderno de capa dura. Zé Maria veio numa baratinha nova.. tantos mil réis". Noel tem uma idéia: . só acham duas pequenas interessadas em fazer-lhes companhia: Nena e Genoveva.Pára! Pára! Noel pisa no freio. as garrafas vazias. Apresenta-o ao pessoal do morro. rapaz? . é o anjo da guarda da dupla3. perdoa-lhes as traquinagens. entram pela Rua Luís de Camões e chegam ao Largo de São Francisco. Leque na mão. a rua estreita cheia de gente espantada com a ousadia do Pavão. Mas não me repita. E a elegante Georgina fazendo força para acompanhá-lo como porta-bandeira. ouviu? O Pavão se vai. Mandam Seu Zé descer dois engradados de cerveja e colocam na mala do carro.propõe o Maria.Tá maluco? Ali não passa carro. É Cartola. Apertam-se os seis na baratinha. às quatro da tarde. parceiro e amigo de fé de Cartola. as meninas cansadas. No Buraco Quente.

ensinando a meninos e meninas os hinos. a boa música terá se massificado no Brasil. a voz morna de um sambista se espraiando pelos ares. o próprio Villa-Lobos indo à Mangueira para reger uma centena de crianças do morro no Canto do Pajé e pedindo sua ajuda como "diretor de harmonia". a solidariedade dessa gente. três vozes. ficam camaradas. homens .explica orgulhoso. contidos pelo medo. cada qual com seu violão. tornando suas almas mais leves. É mesmo Cartola quem aproxima Noel do compositor. Conversam. esse poeta de poucas letras. regendo a garotada. Quer que o erudito e o popular se entrelacem. começam às sete. no mesmo Buraco Quente. contagiando as pessoas.acabou parando em Mangueira. os dois indicadores levantados. Crianças deste tempo jamais se esquecerão dele. Contam-se tantas histórias .de malandros. a partir dessas experiências corais. oito da noite. Aprende com ele a usá-lo. valentes. Vem daí sua ligação com Cartola. nosso povo conhecendo-a e apreciando-a melhor. que atrai Noel à Mangueira. charuto fumegante. a médio prazo. na casa de dona Ephigênia. Cabeleira farta. Ou melhor. Por vezes. e o sambista soprando o seu diapasão.Traz aquela tua gaitinha. foi logo perguntando: . Admiração que o maestro tentará repartir com outros músicos eruditos. E embora a cidade vá levar muito tempo até saber exatamente quem é esse tal de Cartola que Francisco Alves descobriu. cantigas de roda para serem cantados a duas. e vão até quase o sol despontar. O maestro é um sonhador. Este é um morro que amanhece e adormece cantando. criando refrãos. ensinando-lhes o Hino Nacionais. uma riqueza musical inexplorada . Não é só a amizade.na ânsia de desencavar entre compositores populares os mais espontâneos. É sua crença que. ou mesmo os mais primitivos. Cartola! E Noel aproveita para afinar o violão pelo diapasão de Villa-Lobos. fazendo sambas horas a fio. Villa-Lobos levará o canto orfeônico às escolas públicas do Rio. Os moradores do morro da Mangueira que testemunham hoje a amizade entre Cartola e Noel se lembrarão sempre dos dois sentados à porta do barraco. três vozes. Villa-Lobos percebe-o logo. todas elas arrumadinhas. não ultrapassam os limites da Visconde de Niterói. . mas abençoado. O maestro . zangando com este ou aquele. outras não . -Foi o maestro Villa-Lobos que me deu. exigente. Geralmente os cá de baixo. E a pedido deste o sambista de Vila Isabel passa a ajudar o da Mangueira a ensaiar o coral do morro. Cartola ganha de Villa-Lobos um diapasão de boca. nossos ou do estrangeiro(4). em fileira. o carinho que recebe aqui. Enérgico.que acaba de voltar de Paris. Há também a música. mas só de mentirinha. improvisando versos.A senhora sabe onde posso encontrar um moço chamado Cartola? Desde 1932 à frente da Superintendência da Educação Musical e Artística (SEMA). magro. Vai admirar para sempre esse metodista intuitivo. canções patrióticas. Nada de gritos ou de nomes feios(5).muitas verdadeiras. Noel chega no morro e encontra o amigo compenetrado à frente das meninas. entrando em todos os barracos. convencido mesmo de que pode tornar mais afinado e harmonioso o coro das pastoras da Mangueira.

fará um punhado. Noel sabe que não. pode-se dizer que cada compositor do morro cria pelo menos um apreciável exemplar. Não posso ter amizade. Lauro dos Santos. Canta-se de tudo por lá. É de samba e esperança que vive a Mangueira (os da cidade são incapazes de compreender que o pessoal do morro possa ser feliz com tão pouco). quá! Deste alguém que tanto chora. Deixa esta mulher chorar. pode sorrir. brigas de sangue. mesmo sendo de falsidade.. E de fato não é. Mas veio a lei imutável E levou minha querida É um mistério a menos para quem zomba. meu coração sabe dizer Ri. por esta época.. O resultado é este Rir. Tristes.(6) Cartola não fica atrás. não se ri de quem padece. quando o tema em voga é rir. De saudade. Meu coração por você tanto chora. Se você me negar. Mas. o amor. Outra. Beijos. Beijos. Compõe uma primeira parte. os compositores escolhem temas de tempos em tempos e produzem uma infinidade de sambas em torno deles. também gravado por Chico e Mário: Ri. É curioso como. pode rir de mim. Sofre. Uma hora é o beijo: Beijos. Deste alguém que tanto chora por mim. morrerei de saudade. a morte: Eu tive um só amor Em toda a minha mocidade. a saudade. quâ. Mas não é bem assim. o Gradim.. Pois eu tenho em quem pensar. a pobreza. Belíssimos sambas estes de Cartola. quando vê alguém chorar Deus é justo e verdadeiro Por quem eu tenho chorado . Um deles: Ri da desgraça que me abraça agora Ri. q fingimento. o Zé Com Fome: Rir. ainda peço mais beijos dos lábios [teus. cheios de orgulho. para a qual Noel fará as segundas. Samba e esperança o ano todo. a ingratidão. que poucos se atrevem a subir. assaltos. alegres. fértil como sempre. Outro.fora-da-lei. Uma saudade a mais na minha vida. Daqueles tempos felizes Até hoje eu tenho saudades. quá. pode rir que chegou o meu fim. embora com pequenas alterações que mudam o sentido da letra: Rio. Pode rir de mim. de letra rudimentar mas melodia pungente. obra-prima que Francisco Alves e Mário Reis cantam magnificamente.. Como este de José Gonçalves. para satisfazer os meus. Uma gente banhada em 201 música como esta não pode ser ruim. inglórios. a morte.

O segundo é para passar em frente ao palanque. música e letra nada devendo às melhores produções do Estácio. Não pensas na felicidade . Amor é um deles. para as despedidas. Turituré. O Não Faz. inferior às outras. Quem zombou pode chorar. Assim como Noel. Uma mina. ou melhor. Francisco Alves . O mundo dá muita volta. desde que trabalhava na fábrica de chapéus. O primeiro refrão da Mangueira é para entrar no desfile. e podia apostar: ou era de Gradim. pensa em gravá-lo e vai atrás de Cartola para que ele faça a segunda parte. sugerindo -que o "doutor em samba" também investisse no talento de Cartola (dias depois. comprou-lhe sambas. pois ele mesmo não tem coragem de ir ao morro. bateu no seu barraco. já que os versos das segundas partes ficam por conta dos improvisadores: Alfaiate. Via a Mangueira desfilar com uma beleza de samba. Chico nunca duvidou disso. Zé 202 Criança. Neste começo de década a Mangueira costuma desfilar com três sambas. Pede-lhe que complete o samba: Só tens ambição e vaidade. três refrãos. O terceiro. Às vezes é um sorriso Que acompanha uma esperança. Como o refrão com que a escola de samba desfila em 1932: Não faz. Como este: Lá no Morro da Mangueira Tem um poço de água fria. uma gripe de moer corpo. e quase desiste da gravação. gravou o antológico Divina Dama. acordei assustado. Outras vezes é um riso Que provoca uma vingança. Gradim. amor. Balança. ou era de Cartola. deixa-me dormir. febre alta. Familiarizado com a Mangueira. Diz que é por extravagância. ficará inédita: Você ri sem ser preciso. Mas Francisco Alves encontra Cartola de cama. Mas eu creio que o seu riso É sinal de ignorância. tendo como intermediário o Clovis Miguelão. Antonico. Lauro Boamorte e Paulo Anacleto no Faz Vergonha. Meu juízo se revolta Quando vejo alguém zombar. E ainda levou Mário Reis para conhecê-lo.Tenho fé em me vingar. que no entanto daria para Francisco Alves gravar). Mário compraria o Que Infeliz Sorte!.sempre ele . Cartola. Receoso que tivesses me enganado (Eu não durmo sossegado) Francisco Alves fica entusiasmado. Uma terceira segunda parte. Oh. tenha dó de mim! Sonhei.foi o primeiro a levar Cartola para os meios musicais da cidade. Até que se lembra de Noel. minha flor. Quem bebe daquela água Canta samba noite e dia.

Chico: quem fez as segundas? . Cartola. Fica sem entender. .Ele não quis. E admiradores um do outro. . Cartola procura Noel no chalé.E eu não descanso um momento Por pensar que o teu amor é só fingimento. ganhando popularidade. somos parceiros. .há de reverenciá-lo num samba cheio de saudade: Eu quisera esquecer o passado. de esquina em esquina.Não somos parceiros. saltando do violão para o copo de cerveja e deste para o violão. esquece. Pois enquanto Noel morrerá amando os sambas de Cartola. Mas nós temos nossas defesas.. Mas não lamento o meu fado. de toca em toca. São mesmo amigos. Mas eu vou entrar com meu jogo E vou pôr à prova de fogo A tua sincera amizade Para ver se tu falaste verdade.O Noel. mas criando com facilidade versos de profunda sabedoria .o tal que se alterna com Cartola na feitura dos melhores refrões da escola . Ou este que lhe comprou Príncipe Pretinho: Hoje sou um condenado. O mundo tem suas surpresas. o que acho mais difícil é saber amar. mas sou obrigado A lembrar o grande Noel. a primeira parte de Cartola apoiada na força da melodia. magro. daqui a muitos anos .Deixa pra lá. amanhã você faz por mim. Ainda resta a cadeira vazia Da escola de filosofia No bairro de Vila Isabel. este. Sujeira. Talvez o melhor exemplo da perfeita comunhão de estilos entre os dois.E por que tu não pôs o nome dele no disco? . O verbo cumprir custa caro.. como este que passa às mãos de Amaro Silva por alguns mil réis: Se está contrariada.vive na Mangueira..Não gostei do Chico não ter posto teu nome no disco. Para além da vida. Amor sem jurar é bem raro. Somos amigos. mas o pessoal do morro diz que ele é muito mais um cigano do que propriamente de lá. Eu não quero mais o seu amor. Amor é bem fácil de achar O que eu acho mais difícil é saber amar. Seja o que Deus quiser! . Por isso eu estou prevenido Pra saber se sou ou não traído. tocando no rádio. Amor já está gravado. a segunda de Noel na construção dos versos ("Amor é bem fácil de achar.quando o parceiro já tiver partido e à porta do seu barraco não houver mais que a lembrança daquele tipo miúdo. -Me diz uma coisa.Mas você fez as segundas. Gradim . Anda errando por aí. Afinal..")Mas Cartola só se inteira da parceria depois que Não Faz. Hoje eu faço por você. queixo torto. . Vive de vender samba. Eu quisera. .

Magro. intitula-se Sorrindo Sempre e também começou como um dos refrãos do desfile de 1932: Sorrindo. Um deles está dentro do tema rir. bom de futebol.em cima de uma imaginária conversa telefônica durante a qual o amor e as quatro operações se misturam: Quero falar com você. Joga na ponta-esquerda do Ponte dos Marinheiros Futebol Clube. Eu não soube aproveitar Aquela alma abandonada. que por sua vez costuma revendê-los em bases mais vantajosas.. Pra não me ver penar. bom de conversa.. Outro dos muitos problemas de autoria da música popular desta época: no disco. na parte de piano ou nos jornais de modinha. Mas em segredo.) É um samba muito bom. O outro ou um dos outros sendo. Gradim nem se importa se seu nome sai ou não no disco. o mais habitual deles o Thi-belo. Pra não me ver penar. porém. na partitura impressa. além dos nomes de Lauro e Noel.. entram também os de Francisco Alves e Ismael Silva. sorrindo sempre.. apenas o nome de Lauro dos Santos. ao contrário do que pode sugerir a letra lida sem a melodia. trigueiro. onde já formou ala com Leônidas da Silva. este mesmo crioulinho endiabrado que com menos de vinte anos já é craque da Seleção Brasileira. E sem que a cidade reconheça o talento que tem. A letra é bem estruturada . de ser um atleta: é mais um que vai morrer moço com os pulmões estragados.cujo verdadeiro nome.Sambas vendidos por quaisquer trocados a muitos fregueses. Quem terá feito o quê? Já Quero Falar Com Você é mesmo só de Gradim e Noel. Cartola.certamente de Noel . como já vimos. Chegou a ser humilhada. cerca de um metro e oitenta. o queixo protuberante. Está longe. evidentemente.. Que ninguém venha a saber Do nosso amor! Será que para sempre Havemos de guardar Para a felicidade algum dia nos chegar? O amor se declara em segredo . é Lauro dos Santos . muitos o considerando um dos dois ou três maiores compositores que já pisaram em Mangueira. Gradim .inclui-se entre os muitos futebolistas desta terra "rebatizados" com o nome de um jogador uruguaio que andou exibindo seus dribles por aqui(8). Porque eternamente Hei de sorrir pra não chorar Pra não lembrar quem sofreu Por mim padeceu pra não me ver penar. E quantas vezes ela sorrindo Me pedia por favor Que eu não abandonasse o seu amor! (Sorrindo.. embora mais uma vez o nome deste não esteja no selo do disco. 203 Mas Noel conhece Gradim o bastante para fazerem juntos pelo menos dois sambas.

Sempre querendo conhecer o que produzem estes sambistas de morro. Faz expedições aos subúrbios. Somando a ilusão com alegria. o Sete. O mundo é bom professor Que cobra caro a lição . Assim é o começo do amor. morando hoje na Senador Eusébio. Um negro simpático. Noel segue peregrinando. ouvidos atentos. O samba chama-se Primeiro Amor: Quanto mais o tempo voa. risonho. sempre rodopiando.Quem tem seu amor já aprendeu Não posso deixar de ter medo Que alguém subtraia o seu amor do meu. 27. Amor não tem dia nem tem hora Pra vir não tem antes nem depois. Tem dois vícios: samba e baralho. ("Que número faz favor?") O amor é castigo e é brinquedo Depende da hora em que vem Faz mal se não é em segredo Quando os outros não sabem É mal que nos faz bem. somar experiências. Então jurei: "Jamais eu te darei perdão!" Para o qual Noel vai escrever duas excelentes segundas partes. Pela tua ingratidão É que eu tanto padeço. lá pelas bandas de Ramos. Depois pra maior nostalgia.. Só tem dia para ir-se embora. um cinzelado acabamento. sem que o tema seja abandonado. a simplicidade contida na idéia do Sete ganhando. mas o cigano da Mangueira e o tangará desgarrado de Vila Isabel não se encontraram tanto quanto deviam. Mais a tua culpa cresce. o perdão é pra pessoa Que não pede mas merece. Salgueiro. Foste embora sem razão Não perdôo.. Conhece Ernani Silva. adversários desconfiados jogando-o lá do alto da Favela no asfalto da Bento Ribeiro. Também não chegará a ter na cidade o reconhecimento que merece no morro. Mangueira. trocar informações com eles. outros morros. Um sambista capaz de um coro assim: O meu primeiro amor Me abandonou sem ter razão Amar sem ser amado. Não recusa um joguinho de ronda e graças a isso vai perder a vida muito moço. com muito prestígio no meio do samba (por esta época é tão considerado quanto alguns dos melhores nomes do Estácio). Multiplica a saudade por dor ("Em comunicação!") Depois da repetição do coro. Outro cigano. 28 anos. a gravação de João Petra de Barros termina com a telefonista dizendo simplesmente: "Não responde!" Noel e Gradim poderiam ter feito mais juntos. amanhã para além de Irajá. Dividindo a tristeza por dois. nem esqueço.

Com sossego e liberdade. emérito ritmista e compositor de primeira. autor de inúmeras obras-primas do samba carioca. em especial as que vem criando em dupla com Armando Marcai.E no meu primeiro amor Tive a última ilusão. Andando em tua companhia Já peguei esta mania Das vinganças imprudentes E quando o jejum me come Pra contrariar a fome Fico mastigando os dentes. Noel se associará em diferentes épocas. sem carinho. outro negro de imenso talento. perguntou-lhe: .Você me deixa botar uma segunda nisso? Tão surpreso e contente o sambista ficou que nem quis dizer a Noel que já tinha feito a segunda parte. Não posso mais sofrer assim Tudo tem que ter seu fim Não existe eternidade É melhor viver sozinho Sem dinheiro. em cima do tema da regeneração em que nenhum dos dois acredita muito. Por ter perdido a mocidade na orgia. resolvi tomar juizo. sejam de onde forem. Zé Pretinho. Mas nem todos são desconhecidos como Manuel Ferreira e Ernani Silva. É o caso de Alcebíades Barcellos. amigo de Baiaco. E com ele consuma vários trabalhos. Eu já desempenhei meu papel . A idade vem chegando e é preciso. Se eu choro. Brancura. Embora contra a vontade. malandros que gostam de samba. Tu choras sem sentir Só por contradição. A "compositores de morro" já consagrados. Maior desgosto do mundo! Neste mundo ingrato e cruel. Fui louco. Conhece num café da Lapa o marceneiro Manuel Ferreira. a proposta de parceria parte de Noel. Bidê fará apenas Fui Louco. Noel Rosa será de fato o único compositor da cidade a fazer de sua associação com esses sambistas uma rotina nos dias de agora. o grande Bidê do Estácio. porém. meu sentimento é profundo. O produto final é este: O prazer que tu sentes é quando Estás me contrariando Sem razão. Depois de ouvir o coro feito por Manuel Ferreira. 204 E até mesmo a saudade No meu peito dominei. Com Noel. Para não fugir à regra. Vou cumprir o que eu jurei. Gradim ou mesmo Cartola. Enquanto estou a sorrir. dos quais apenas um vai ser gravado: Só Pra Contrariar.

Assim como Noel sabe..E da orgia então Vou pedir minha demissão. seu próprio brilho é reconhecido por eles."(11) Depois também de fazer com o mesmo Noel o samba Não Há Castigo: Desta vez não há castigo Se vais à Penha comigo Tu tens que me dar vantagem Vais pagar minha passagem Carregar minha bagagem.. um enriquecimento bilateral. A admiração é recíproca.. Pra pagares teus pecados."10 Nem todos manterão para o resto da vida suas opiniões entusiasmadas sobre o poeta de Vila Isabel. só que mais ligado à Cidade Nova. outro gigante. Felizmente mudei de pensar E quero me regenerar. O seu Com Que Roupa?e o meu Cabide de Molambo fizeram-nos os sambistas da miséria. é uma das exceções. Vais subir de olhos vendados. Todas as suas produções são sempre recebidas com agrado. Já estou ficando maduro E já penso no meu futuro. não ficou insensível à explosão do garoto em 1931 e jamais deixará de gostar do que faz: "Eu gosto muito dos versos de Noel Rosa. Mas juro que nesse dia Vais me carregar nas costas. adora sua bossa e seus breques(9). Pra ganhares o meu perdão... o Donga. Este Meio Não Serve: É feio! É feio! 205 Menina de família Andar metida em certo meio (É muito feio!) As sobrinhas do almirante Já saíram do Sion Vão tomar vinho chianti Lá pras bandas do Leblon. João da Bahiana. Por exemplo. Heitor dos Prazeres o considera "o mago da originalidade". está absolutamente certo de que estes negros têm mesmo nas mãos . os "sambistas de morro" ensinando lições a Noel e este dando em troca o que tem de mais valioso: sua poesia. Depois de um elogio como este: "Há aqui na cidade um moço que pode desbancar muita gente: o Noel Rosa. Ernesto dos Santos... Não é mais que obrigação! Depois ainda de serem parceiros em outro samba.uma mina de ouro.. quero ver se tens coragem) De subir a escadaria Eu bem sei que tu não gostas. . Só quero ver se tens coragem De fazer uma bobagem (Oi. outro da turma da Cidade Nova.ou no coração .

produzindo horas a fio dezenas e dezenas de sambas. Ainda vai acusar Noel de plagiar-lhe um samba. 3. inconformado. José Martins passaria a administração da casa ao filho Alberto Abrantes Martins e ao sobrinho e genro Lourenço de Abrantes. não tendo para onde ir. punha-lhe polvilho. A Nação. pode operar o milagre de unir as pessoas." O marido que ela trocou por Cartola chamava-se Astolpho e. O pessoal da velha guarda da Mangueira refere-se hoje ao Café da Uma Hora como o Bar do Alberto. Foi logo após a sua morte que. nem coisa nenhuma!(12) Mas todos sabem que não é assim. 4. Os habitantes da Mangueira jamais se esquecerão da parceria e amizade entre Cartola e Noel. Ao se aposentar em 1942. de parceria com üswaldo Martins: Consegui um grande amor Mas eu não fui feliz E com raiva para os céus Os braços levantei Blasfemei! Os que conheceram Deolinda a descrevem como "uma santa". a emoção que os envolve ao fazerem da vida fonte de música e poesia. João da Bahiana. Nada. isso ficará. Sabe como é. Donga mudará. Luís Americano e os mangueirenses Zé Com Fome e Zé Espinguela na histórica gravação . Quase todos se perderão. já então casado com Euzébia Silva do Nascimento. E envelhecerá resmungando conceitos nada lisonjeiros sobre o antigo parceiro: .Noel não entendia de samba coisa nenhuma. Jararaca. Cartola. Para sempre hão de recordar. 21 de abril de 1935. se juntaria a Pixinguinha.. Donga. muito magros. Mas mamãe nem se incomoda. doente. no fim da vida. aliás. Ratinho. o botequim acabaria entrando para a história com o seu nome. Depois de tudo isso. Há coisas que o morro não esquece. Mas a alegria que Noel e Cartola sentem ao criá-los. a Zica. Alberto desde garoto trabalhava ali. Depois de dar banho nele. Neuma Gonçalves da Silva. Simpático. foi recolhido pelo próprio Cartola.Os filhinhos da Candinha Que andam sempre de má-fé." Quando a menina travessa Dá palpites numa roda Papai tem dor de cabeça. por exemplo.. a música. num daqueles porres. 2. Como as almas do morro e da cidade para os que crêem que o samba. Seu coração e o de Noel batem no mesmo compasso. Cartola principalmente. Deolinda da Conceição deixaria Cartola viúvo em 1946. comunicativo. Fazem queixa à mãe da zinha E ela diz: "Sei lá se é. que por sinal tinha sido muito amiga de Deolinda. Pra não assar. sentados à porta do barraco deste negro de fala e gestos delicados. muito amigo da turma da música. conta: "Uma mãe para o Noel. enfim. 206 NOTAS 1. ele bebia de se urinar todo. ele fez o samba Sim. a figura dos dois. Entre os músicos que Villa-Lobos levaria para conhecer Cartola e os sambistas da Mangueira estariam Leopold Stokowski (1940) e Aaron Copland (1941). comovidos. Nem tocar.

Recorda Mário Filho em O Negro no Futebol Brasileiro (segunda edição. de João da Bahiana. jornal de modinhas que Noel e Hélio Rosa editaram por curto período em 1932. No selo do disco e na partitura impressa. Diário Carioca. Entrevista a Juvenal Portella. Realizada provavelmente em fevereiro de 1973 com vistas a um especial para a Rádio Jornal do Brasil. Fez nome por aqui durante o Campeonato SulAmericano de 1919 disputado no Estádio do Fluminense. 11. . Publicou a letra sob os seguintes créditos: coro de Agenor (sic) de Oliveira. 7. Isabelino Gradim. quá. Talvez conversem sobre o Pavão. Mas Harmonia. Talvez falem de música. é atribuída a um certo José Oliveira. Para quem acredita em "prova de estilo" . 6. Francisco Alves e Mário Reis cantam: Ri. Editados nos Estados Unidos pela Columbia em dois álbuns de quatro discos cada. Tenho a mania de andar engravatado A minha cama é um pedaço de esteira E é uma lata velha que me serve de cadeira. grande meia-esquerda negro do Penarol de Montevidéu e da Seleção Uruguaia. Exímio driblador. Luiz Gleizer e Lygia Santos. os fonogramas só seriam lançados comercialmente no Brasil em 1987. quá! Pois este alguém que tanto chora. Ibidem.e não há dúvidas de que o samba é de lá . 10. Depoimento de Neuma Gonçalves da Silva aos autores.que tinha este nome era o Zé criança. Io de janeiro de 1933. guardado por Noel em seu álbum de recortes. eu ando com o sapato furado. De um jornal de 1933. Carlos Cachaça acha que o autor é o Zé Com Fome. página 170): "Foi uma praga de Gradins pelo Brasil afora. 5. Fernando Pimenta. sob o título Native Brazilian Music (Columbia C-83 e C-84). Tomam cafezinho. que Noel continua pagando. diz: Meu Deus.de música popular brasileira realizada sob a supervisão de Stokowski a bordo do navio Uruguay. é claro.participação de Chico à parte .como é possível duvidar de que Rir seja mesmo de Cartola e Noel? 8. versos de Francisco Alves e Noel Rosa. Este alguém que tanto chora por mim. editada por Irmãos Vitale.." 9. Nuno Veloso. esta filha de Donga. Um tanto agitado. chega Ismael Silva.. que morreu em 1939 sem jamais ter reivindicado o samba para si. quá. O programa não chegou a ir ao ar. Mas o único em Mangueira . grande memória do morro. 207 UM CERTO ISMAEL Capítulo 21 dos sublimes e melodiosos sambas do morro. Todo preto que jogava um pouco de futebol virava um Gradim. A autoria de Rir é um desafio aos pesquisadores. 7 de janeiro de 1933. Cabide de Molambo. 12. garante que é o Gradim. mas o depoimento gravado por Donga foi preservado pelo Arquivo Sonoro do Centro de Documentação do JB. Noel Rosa e Francisco Alves estão sentados à mesa de um daqueles botequins do Centro que costumam freqüentar.

vem lhe pedir. Nunca mais você encontra Quem lhe faça o bem que eu fiz Levei muito golpe contra Passe bem. Sente-se de tal forma tocado que nem sabe o que dizer. Todo o mundo sabe que nesse acordo de boca entre Ismael e Francisco Alves um entra com o samba e o outro com a voz. a quem todos vivem implorando parceria. com toda a humildade. música e letra. Ismael canta de novo. Receoso de esquecer o que bem pode ser o começo de um bom samba. entrevista a O Cruzeiro Dias depois. intitula-se "co-autor".Posso fazer a segunda parte? A proposta não só pega de surpresa como invade o peito de Ismael Silva(1). Ismael-pede Francisco Alves. ele se sente até grato. mas duas segundas partes: Supliquei humildemente Pra você endireitar Mas agora. . três cabeças lembram melhor que uma. . Ele canta um simples estribilho. infelizmente. seja feliz. O que Noel ouve sem a menor surpresa. um estribilho inteiro. do qual. Nenhum dos dois faz segredo disso. Sabem como é. Ismael mal pode acreditar. E canta: Estou vivendo com você Num martírio sem igual. Com razão.Vou cantar pra vocês. Para me livrar do mal Noel não perde tempo: . tranqüilamente.Repete esse estribilho aí. Nosso amor tem que acabar. desde logo. sem maior importância. Depois. E não adianta dizerem que Ismael está sendo explorado: no fundo. Para Me Livrar do Mal. para fazer a segunda parte. quando lhe baixou sobre a cabeça. Vou largar você de mão. E este também não perde tempo : decide gravar o novo samba. diz: . Você teve a minha ajuda Sem pensar em trabalhar Quem se zanga é que se muda E eu já tenho onde morar. Noel não fará uma. lembra ele a Ismael. Vou-me embora afinal Você vai saber por quê É pra me livrar do mal Que eu fujo de você. vira-se para Noel: . como se caído do céu.A segunda é sua. Ismael? Ele conta que vinha pela rua. Tem sido assim há muito tempo.. mostra-as a Ismael Silva e 209 Francisco Alves. Trato é trato. e eis que Noel. ninguém menos que Noel Rosa.Que é que há.

Há cinco anos. ao perguntar de quem era determinado samba. todos podiam ser muito bons.Te trago uma proposta. O tempo passou. Francisco Alves procurouo . obrigando-o a pegar o que lhe aparecesse.Claro. o Avelino. lhe respondiam. Bidê explicou a Ismael que o cantor ficava cada vez mais admirado quando. Bidê. Ismael reinou mais ou menos absoluto. . o Não E Isso QueEu Procuro. Uma tuberculose galopante matou Rubem aos 23 anos em 1927. compraria outro samba de Ismael. 100 mil réis era muito mais do que Ismael Silva poderia ganhar em quase um mês de biscates e empregos fixos. nos terreiros. no Catumbi.. com medo mesmo de morrer.Pra que tanto dinheiro? .Que proposta? . Baiaco. Mais tarde. Mano Edgar. como logo depois.Recorda-se da época ruim que viveu em 1927. para comprar-lhe um simples samba? Desde rapazinho. quando participava de uma roda onde brilhavam o Nono. o mesmo e sempre atento Francisco Alves. . triste da vida. No hospital. a ser de menino de recados num escritório de advocacia a servente da Central do Brasil e vendedor de remédios. e já em 1929 o Amor de Malandro. Estava lá. Gostou. o Café do Compadre. este mais conhecido por Manga. . seus exames de sangue acusando uma penca de cruzes. que eu dou tudo a você Menos vaidade." Pelos cem mil réis o negócio foi fechado ali. E não demorou muito a tornar-se tão ou mais respeitado que qualquer um deles. passou a freqüentar o Apollo. a sífilis obrigando-o a se recolher a um leito do Hospital da Gamboa. mas era quase sempre com sambas de Mano Rubem e Ismael Silva que saíam os blocos da redondeza.Pois é. o Bidê. o cantor.Sabe o Francisco Alves? . quase que invariavelmente: "E do Ismael. só para aprender o que se cantava. prazer cultivado nas mesas de botequim.. vem. Francisco Alves tornando-se dono do Me Faz Carinhos.O Francisco Alves quer te comprar o Me Faz Carinhos. nas tendinhas. Ismael. a vida era bem mais dura que a de hoje. tenho vontade Mas é que não pode ser. um dos quais o famoso Deixa Falar. Nestes blocos desfilava. Francisco Alves continuou fazendo sucesso em disco e Ismael não parou de compor seus sambas. o mesmo ano da compra do Me Faz Carinhos. veio lhe fazer uma visita. Mandou que eu viesse aqui com estes 100 mil réis. Samba não passava de coisa de hora vaga. Brancura. destinado a ser um dos sucessos do carnaval de 1930(2): Vem. no hospital. os irmãos Armando e Norberto Marcai. novamente por cem mil réis. em fins de 1930. quando Alcebíades Barcellos. de nunca mais voltar ao Estácio e aos seus sambas. Até que. Cem mil réis! Então o Bidê lhe aparecia com aquele dinheirão todo. ao mudar-se para o Estácio. os lugares onde se reuniam os bambas do bairro. De modo que desde então. fazer samba para Ismael é quase um brinquedo. Ele andou ouvindo uns sambas teus por aí. .

O Que Será De Mim?. no concurso de sambas e marchas para o carnaval de 1931. Ironia. sem intermediários.. mas todo o país: Nem ÉBom Falar. Mesmo após a morte de Nílton. Em troca. Sambas que. faça eu. então. nos dois anos seguintes. um preto de alma branca.Entre ali no meu carro. Estacionou o carro em frente ao Café do Compadre. Desta vez. que Francisco Alves ia captando: Nem tudo que se diz se faz Eu digo e serei capaz.Então a gente inclui ele na parceria. Francisco Alves. Eu Bem Sei.de novo. bem alto. dois. . Ismael Silva. Ismael pensou um pouco. Arrependido. . levariam a assinatura dos dois. Para Francisco Alves não havia o menor problema: . do Estácio. Ismael levantou-se.Faça ele. pediu-lhe: . deu voltas e mais voltas pelo Centro. Ismael entregaria a Francisco Alves tudo que fosse compondo. Explicou.."). Os sambas gravados e editados. que tomava cerveja numa das mesas do fundo. acompanhado pelo violão do próprio Francisco Alves. Vamos dar umas voltas pela cidade. Um desfile de coisas novas. o irresistível Se Você jurar? Se você jurar que me tem amor.. Olê-LêÔ. o trio Ismael Silva-Nílton Bastos-Francisco Alves assinando uma sucessão de jóias do samba carioca. O resto é parte da história. das vantagens de se tornarem parceiros. Eram tão amigos. que o amigo era Nílton 210 Bastos. todas boas. Ismael compondo..Me canta aí uns sambas teus. excelente compositor dali mesmo. vários sambas. Eu posso me regenerar. nos circos. E disse. falando do quanto os dois poderiam ganhar com aqueles sambas. chegou à porta e dali gritou. Muitos dos sambas que Francisco Alves acabara de ouvir tinham sido feitos pelos dois. Francisco Alves gravando. o cantor faz questão de chamar o parceiro à cena para apresentá-lo ao público.. fazendo dele o seu secretário particular ("É o meu braço direito. onde quer que vá. já sob a luz do poste da esquina. depois de cantar. Ismael ao seu lado.. foi ao encontro do cantor e este. o nome de Ismael.Este é o Ismael Silva. Ismael e Nílton. naturalmente. Comprometia-se a gravar tudo de bom que Ismael fizesse. Quem não se lembra da ovação que os dois sambistas do Estácio receberam quando Francisco Alves chamou-os ao palco do Teatro Lyrico. Tudo dentro do esquema. que acabaram fazendo um acordo: . ..Pode ser que algum me interesse. o carro dando voltas. o sucesso prossegue(3). o que for feito é dos dois. começou a cantar. Francisco Alves levando Ismael para toda parte. Conversando. conquistariam não só a cidade.Pra quê? . Nos teatros. . tão afinados.Acontece que já tenho trato com um amigo. dividindo com ele cada tostão ganho na vendagem dos discos. Um. Não Há.

primeira. música. tão bom de bola quanto de samba. . de gritar com alguém. segunda. O próprio Ismael era de uma turma um tanto pesada. Para reanimar o moribundo. no dia em que conheceu Nílton Bastos. Deixava Francisco Alves ir na frente e. na noite de 8 de setembro de 1931. diferente de todos. Sempre foi assim. numa daquelas sombrias visitas. De início pensou até que o forte da dupla era Nílton e não Ismael (em grande parte por estar convencido de que. desconfiado. começou a mudar de opinião sobre os sambistas. não. tentou desanuviar o ambiente. Justamente quando começava a melhorar de vida. letra. Educado. tudo de Nílton) . chutando. no Maracanã. a música. na Rua Dona Zulmira. Quando tiveram início as transações de Francisco Alves com os dois grandes sambistas do Estácio. Saúde. O que talvez o surpreenda é o convite que o cantor lhe faz: . a admiração de Mário feita de receios que o deixam um tanto à distância. Parecia em forma. destoando quase naquela turma do Estácio em que pontificava a valentia de um Brancura. Mário Reis. de novo o Brancura. ou se circulava pelo Estácio atrás de Nílton e Ismael. estes caras não são perigosos? Se Francisco Alves ia ao morro da Mangueira procurar Cartola.Chico. que a morte levou há poucos meses. é claro.O Nílton era um amor de gente-costuma repetir Ismael. de se meter em valentias. se chegava.Noel Rosa não se surpreende nem um pouco ao ver Francisco Alves conseguir um lugarzinho entre ele e Ismael Silva como autor de Para Me Livrar Do Mal.Quer saber quem é o melhor de nós todos? O Ismael. de um Baiaco. em frente à Escola Normal. cantou altissonante: Quando eu morrer Não quero choro nem nada Eu quero ouvir um samba Ao romper da madrugada(4) . E todos sabiam o que sua perda representava para o samba carioca. Favela? Não era com ele. E de repente: dois ou três meses antes de morrer. Francisco Alves. Deus o livrasse de subir a Mangueira! Salgueiro. Mário se punha na retaguarda. Ismael Silva nada fizera em Se Você jurar. todo o mundo foi visitar Nílton na casa em que ele agonizava. driblando. incapaz de dizer nome feio. de traços finos. muito delicado. Gamboa. Duas coisas o aproximaram muito de Nílton: a paixão de ambos pelo futebol e. Mas um dia ouviu do próprio Nílton Bastos: . o pessoal do Café do Compadre. naquela história de "faça ele. Era um mulato claro. o dinheiro do samba reforçando bastante seu parco salário de mecânico do Arsenal de Guerra. o Osvaldo Papoula. chegou a jogar uma partida de futebol num dos campos da Cidade Nova. quando se sentia cheiro de morte por toda parte. Nílton. faça eu. Nílton Bastos. não duraria muito. Ele. Francisco Alves. Ismael Silva lembra. Mas. Ismael Silva. . o que for feito é dos dois". o Bernardo Mãozinha. sempre metido naquele jogo de chapinhas no Largo do Estácio. correndo. dois pulmões frágeis o levaram de vez.Que tal você se juntar a nós? No lugar do Nílton. E no entanto. Mário Reis aproveitou para se aproximar. o parceiro e amigo Nílton Bastos. sujeitos que nunca se afastavam de suas navalhas. cheio de saudade. Não tinha limites a admiração do cantor pelo compositor. se tudo estivesse bem.

é a partir de Para Me Livrar Do Mal. Chico quer que Noel ocupe o 211 lugar de Nílton. e sob as bênçãos do cantor. Também é antiga a admiração.. Na verdade.Agora. fico mudo Pois fugir da verdade Nem por necessidade. sem intromissões indevidas. Quando alguém não esquece A pessoa por quem padece É porque tem saudade Da própria falsidade. porém. escuta. feito tão rigorosamente dentro do figurino do Estácio que Ismael Silva bem poderia assiná-lo: Tudo que você diz Com a maior lealdade É mentira É usar de falsidade (Fale a verdade) Toda gente fingida Paga o mal que fez nesta vida Por encher de ilusão Um pobre coração. já se viu. mas não é muito. Da mesma forma. O namoro de Noel com o Estácio (ou com o tipo de samba que deve ter nascido com Mano Rubem e sua gente). quase adoração de Ismael por Noel. mais rápido pagará o Pavão. pouco depois da morte de Nílton Bastos. Mas há um detalhe: os sambas que Noel fizer serão só seus. Justo ou não o acordo . é limitador ver essa aproximação sob um prisma estritamente geográfico. que pretendia gravá-lo já para o carnaval de 1932. Muito! Atendendo ao pedido do cantor. Talentos? É pouco para definir Ismael Silva e Noel Rosa. que vão se aproximar dois grandes talentos da música popular brasileira.. Francisco Alves entregou a Noel o estribilho de uma marcha que Ismael havia feito: Olha. Tenho jeito pra tudo Pra mentir. E por que não? O acordo em torno do Chevrolet cor de azeitona obriga o comprador a desembolsar sambas para o vendedor. Para Me Livrar do Mal não é a primeira de suas parcerias. é antigo. meu bem É com você que eu estou falando. Gosto de você. neném: Esse negócio de amor não convém. como se cada um pertencesse ao seu respectivo bairro e não a todo o Rio que há muito lhes canta as músicas.exagerando ou não Ismael ao dizer que só a voz de Francisco Alves pode levar seus sambas ao sucesso . Noel cuidou das segundas partes. o Ismael do Estácio e o Noel da Vila. na primeira delas fazendo a mesma brincadeira . No ano passado. Pode crer que a mentira O sossego sempre nos tira Fale sempre a verdade Mesmo sem ter vontade. Quanto mais Noel trabalhar para Chico. Concorda. Como este Tudo Que Você Diz.

contudo. a partir de Para Me Livrar do Mal.com a demagogia burocrática de nossas repartições públicas.. Os versos tanto servem para falar de um amigo que se foi como de um amor que se perdeu. Palavra que faz chorar Adeus. Espera mais um ano que eu vou ver Vou ver o que posso fazer Não posso resolver neste momento Pois não achei o teu requerimento. Noel a utilizou com muita ironia e malandragem no samba Espera Mais Um Ano. Fica firme. No samba tu quiseste me perder Tentaste na orgia me arrastar Mas hoje que eu não quero me prender Procura um coronel pro meu lugar. Tu foste sempre a minha diferença Chegaste a me obrigar a te bater Já chega de pancada e desavença Espera mais um ano que eu vou ver. Mas Não É Muito terá importância menor na obra que. Como já sabemos. adeus. aquela história de "traz o retrato e a estampilha que eu vou ver o que posso fazer por você". A tua pretensão vai acabar Meu câmbio vai subir. de fato Não leve a mal Eu prefiro a Lei Marcial. mesmo. Nem a segunda. Há quem diga que o estribilho de Ismael é uma homenagem ao amigo morto Nílton Bastos. Não há quem possa suportar. Produzido sem que Ismael e Noel se conhecessem além dos encontros rápidos em corredores das emissoras de rádio. por exemplo. Sapatos e vestidos eu te dei E tu não me pagaste o que eu te fiz De tanto te aturar eu já cansei Agora vou voltar a ser feliz. adeus. Gosto. não estrilha Traz o retrato e a estampilha Que eu vou ver O que posso fazer por você. Caso diferente. Prefere a segunda vertente ao criar as segundas . 212 Adeus. nas esquinas do Centro. é o de Adeus. que ele vai deixar inédito em disco5. adeus. é explícito. tu vais descer As coisas para mim vão melhorar Espera mais um ano que eu vou ver. Depois da referência a ela feita em Tenentes do Diabo. Noel. nas mesas de café. eles vão construir juntos. Seu amor é insensato Me amotinou.. não é a primeira composição de Noel a registrar a determinação do chefe do Governo Provisório. adeus...

Observo que hoje em dia Quem não quis diz que me quer Cabe muita hipocrisia Num capricho de mulher Vou viver desiludido Sem amor. nunca mais Sofre calada.. Nenhum outro comporá tanto com o poeta de Vila Isabel quanto o sambista do Estácio(6). Oovaojá Sei Que Tens Novo Amor: Já sei que tens um novo amor Não vá depois se arrepender Não voltes. Adeus é bem triste Que não se resiste Ninguém.partes.. traga de volta a morte como tema.. Atraídos pela admiração recíproca. farão sambas bonitos como este Quem Não Quer Sou Eu.) Ismael e Noel criarão muito juntos. não dá a perceber. Ao ouvir tua proposta Com tão falsas frases juntas Achei uma só resposta Que responde mil perguntas Hás de ter em tua vida Um destino igual ao meu Podes ir desiludida Hoje quem não quer sou eu. jamais. Quando eu queria o teu amor Não davas atenção ao meu Pra mim tu não tens mais valor Agora quem não quer sou eu.) Pra que foste embora? Por ti tudo chora! Sem teu amor Esta vida não tem mais valor (Foi o último adeus. Sem dar a perceber também sofri Desde o infeliz momento em que te vi E hoje o que me fere o coração É saber Que foste embora sem razão. Com adeus pode viver em paz (Foi o último adeus. embora o breque dado pelos cantores ao final das mesmas. curioso. tendo a aproximá-los o Pavão. antes de retornar ao refrão.". O mesmo caso de Nunca Dei A Perceber: Não é só quem vive em pranto Que sabe o que é sofrer ... "Foi o último adeus. Por causa de outro amor tu vais sair Eu não quero que tu venhas me pedir Desculpas pelo teu procedimento Nem que chores Aumentando o meu tormento. sem ideal Pra não ser submetido A desejo tão banal.. mulher. E outros tão ou mais inspirados. integrados pelos respectivos talentos e.

O nome de Noel. de ter proposto. Ou de Não Digas: Oh! Não digas Que ainda eu não te esqueci Quem não sabe há de pensar Que eu ando atrás de ti.Eu sofro e no entanto Nunca dei a perceber E são tristes os meus ais Pois quando a gente sente E não chora Sofre muito mais. Deus sabe o que faz. bastaria este. Graças ao Pavão e a Francisco Alves. O chiquê é feio pra quem pode ter Quanto mais pra quem não tem nada de seu Ai de quem não sabe se reconhecer Nunca vi um gênio igual ao teu. Mas o mundo nos ensina a viver Tudo isso com o tempo há de ter fim Porque mesmo tu tens de reconhecer Que nunca se deve ser assim. só na partitura. Eu faço por não chorar Para não demonstrar Minha grande aflição Só pra me desabafar Não quero enganar Meu pobre coração. Parceiros. Eu ainda fico triste a lembrar Apesar de ter deixado já de ti Lamentando aquele dia de azar Em que eu te conheci. ainda que em nome da esperteza. Pra fingir que vivo bem Não conto a ninguém Este meu mal sem fim Mas a calma não me vem E eu mesmo não sei O que será de mim. Ou ainda de Deus Sabe o Que Faz. a Noel Rosa: . Não tivesse a voz do cantor outros méritos. E a nossa amizade teve fim Tu bem sabes que fui eu Mesmo quem quis Eu não sei por que é que mentes tanto assim Pois mentira não se diz. Tu sendo infeliz como se vê Bancas tanto chiquê Que a mim até já faz horror Quanto mais se tivesses valor 214 Não tens e nem terás. todos sambas que aparecerão em disco assinados por Ismael Silva e Francisco Alves.

O próprio Francisco Alves gravou os dois primeiros. repetindo-o em inúmeras entrevistas. Ando Cismado. Nos selos dos discos originais. Ver nota referente a este samba no apêndice sobre a obra de Noel Rosa no final do volume. Uma Jura Que Fiz. pela vida afora. Francisco Alves. Mas Não É Muito.. Baseados em dados que poderão ser encontrados no apêndice sobre a obra de Noel Rosa no final do volume. Já em Amor de Malandro o nome de Ismael simplesmente desaparece. 6. Os citados no texto são os prováveis. já estudada no capítulo anterior. inclusive a partir de informações do próprio Ismael Silva. 2. Amor de Malandro é caso raro de samba daquela época a merecer mais de uma gravação: a de Chico. 215 RUMO AO SUL Capítulo 22 Quero a minha independência E com jeito e paciência Me preparo pro futuro Vitória . Isso Não se Faz. fornecidas em entrevistas diversas de 1954 até sua morte em 1978. Gosto. gravou em 1931 e 1932 um total de quinze sambas como parceiro de Nílton Bastos e Ismael Silva. havendo quem os atribua a Rubem Barcellos. Quem Não Quer Sou Eu. 3. a 16 de junho de 1969. As musicografias até aqui levantadas. Assim. 4. contraria todos os relatos anteriores dizendo que o samba em questão era Quem Não Quer Sou Eu em vez de Para Me Livrar do Mal. A Razão Dá-se a Quem Tem e Boa Viagem. Dona do Lugar. são posteriores à morte de Nilton Bastos. É Peso e Sorrindo Sempre. Nunca Dei a Perceber. Ismael Silva recordaria este episódio. 5.. Deus Sabe o Que Faz. sozinho ou em dupla com Mário Reis. uma delas aos autores. Já Sei Que Tens Um Novo Amor. Deve ter se enganado. o Mano Rubem.Que tal se juntar a nós? NOTAS 1.. Mário Reis relata essa passagem em entrevista incluída no ABC de Sérgio Cabral (página 112) como se Francisco Alves tivesse cantado: Quando eu morrer Não quero choro nem vela. Ismael Silva divide com Francisco Alves a autoria tanto de Me Faz Carinhos como de Não E Isso Que Eu Procuro. Estes versos. esta em parceria também com Gradim e Francisco Alves. Muitas vezes. já muito conhecidos na época. nos dão conta de apenas nove composições suas de parceria com Noel: Para Me Livrar do Mal. uma de solo de assovio por João Gabriel de Faria e a terceira de Nicola Pasceli. Em seu segundo depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro. os autores relacionam mais nove: Escola de Malandro. Sim. Não Digas. Adeus. Mas a memória já lhe fraquejava nos últimos anos. de Noel Rosa. De um autor anônimo do Estácio de Sá.

Resultado: a maior parte da delegação. aflito como sempre: . Além disso. sempre hesitando em entregar-se por inteiro à vida artística. A família passa por maus momentos. atletas e dirigentes. Festas familiares? Faz tempo. com justiça. atuar como contra-regra. Minutos antes do navio zarpar de regresso ao Rio. Pouco tempo lhe sobrará para a música. produzir sketches. um certo . orquestra organizada para se apresentar em Los Angeles durante os Jogos Olímpicos que lá se cumprirão de 30 de julho a 14 de agosto.Esqueci. numa carreira individual que será por tudo vitoriosa. As gravações tornam-se mais espaçadas. Britto. começa a fazer as malas para viver nos Estados Unidos uma nova aventura. Ninguém jamais saberá ao certo como e de que viverá nos Estados Unidos durante esse tempo. Fica resolvido que irão todos no Itaquicê. Trocam todos a confortável vivenda que ocupavam no próprio terreno da fábrica por uma modesta casa no distante Jacarepaguá. A partir do projeto de um amigo brasileiro que encontrou por lá. decide estudar odontologia. Problemas na contabilidade da Fábrica Confiança Industrial culminaram com o afastamento de Jerônimo José Ferreira Braga Netto. a vender 50 mil sacas de café nos vários portos em que ancorarem. Não há dinheiro para nada. o epíteto de "a maior patente do rádio". fazer locução. Há mais de um ano que os cinco não se apresentam juntos em teatros. Restam portanto o irrequieto Henrique Britto e o imprevisível Noel Rosa. redigir anúncios. Ali. intensifica as atividades neste campo. No cais! Descerá do navio e sumirá por um ano. Serão 27 dias de viagem e muito pouco se venderá. O Governo Brasileiro não poderá ajudar nossa delegação. A música ainda faz parte de suas vidas. ele procurará Romeu. João de Barro. Cada um deles parece ter agora um destino próprio. A orquestra de 217 Romeu Silva inclusive. Mas não Britto. neste março de 1932. De fato uma aventura. dominar todos os campos do veículo . nem para hospedagem e alimentação em Los Angeles. E uma vocação tão ampla para cantar. Braguinha se emprega como corretor de imóveis e logo depois na seção de discos de Mestre & Blatgé. Aceitou o convite de Romeu Silva para integrar a Brazilian Olympic Band. nem para as passagens. Quanto a Alvinho. cinemas. navio da Companhia Nacional de Navegação Costeira. Esqueci o violão. embora não pare de cantar. Tão arrasado Jerônimo ficou que sofreu um derrame cerebral. triste e humilhada. papéis de imigração ou ao menos alguma noção do idioma. consciente de suas excepcionais qualidades de intérprete. desde que se comprometam. divide-se entre a música e profissões "mais respeitáveis". tem paixão pelo rádio. Almirante. Mas em momento algum abandonará o violão.Os tangarás já não formam um bando. vai voltar no mesmo Itaquicê. programas de rádio. Sem licença de trabalho. mas raramente são vistos ou ouvidos cantando em conjunto formado em meados de 1929 começa a desintegrar-se nos primeiros meses de 1932.que um dia ainda ganhará.

ponto de partida do que um dia será conhecido como violão elétrico ou guitarra amplificada.. Que ele tá cheio da razão! Dona Adalgisa Só me avisa. Numa das faces. com espetáculos em Porto Alegre e outras cidades gaúchas. Gorgulho e Helvécio de Barros... E o seu gato. E não brinca não. sem João de Barro e enxertado de Paulo Netto. Que vais ficar de pé no Chão! Com sua farda. Eles. Só me frisa Que a camisa Não é lisa Nem precisa De botão. A firma passará a fabricá-lo. contudo. outro repartindo-se entre dois ou três empregos. Que ela hoje tá com o cão! Seu Fortunato. pode render bons cobres a Noel. E não brinca não. Olha o rato No sapato. Bem galharda. em Los Angeles. vai adaptar amplificadores ao instrumento e levar o invento à Dobro Corporation de San Francisco.. aos primeiros tempos do conjunto. De espingarda. que Almirante canta com muita graça.. no estúdio da Victor. que assim retorna.Tira a jaca. para gravar novo disco2. E não brinca não. Foi pro matoCom meu cão.. Dinheiro. Vem um guarda No pifão. Que é de fato.F. Toda parda. Mário Reis e outros nomes da música popular que o cantor ainda está sondando. o quarto de viagem marcada para Los Angeles e o quinto migrando literalmente para o sentido oposto. E não brinca não. um desses instrumentos. No dia 12 de abril.. trará consigo. e em casas noturnas de Chicago. ainda que por pouco. Que até o padre é gavião! Dois dias depois. Califórnia. orgulhoso. Já Noel Rosa recebe de Francisco Alves o convite para fazerem uma excursão ao Sul. Quando voltar ao Brasil. um no rádio. Que não tá paga a prestação! Eu bem dizia Que eu sabia Que a Maria Fazia Na sacristia Cortesia Ao sacristão. cada pássaro voando por uma paragem. Pega na saca. o terceiro às voltas com os boticões. Florianópolis e talvez Curitiba. Chama-se Não Brinca Não. o Sul do Brasil. parece mais do que evidente que o Bando de Tangarás está com seus dias contados. depois de ter dado recitais no Bel-mont Theater. porém nenhum(1).Leva a faca... E não brinca não. um bando que dos tangarás originais só tem o nome segue de automóvel . Que a macacaSai da estaca E te ataca À traição. uma embolada de Noel.. Assim. Na vanguarda. eles se reúnem uma vez mais. A temporada. E ajudá-lo a abater algumas parcelas do que deve a Chico desde que este lhe deu as chaves do Pavão. Dutra. já em 1933.

Uma viagem tão cansativa quanto financeiramente desastrosa. por sinal com o mesmo rótulo de Ases do Samba. ele. é definitiva. homem de muitas e variadas idéias. para mim. Para começar. Mês passado. no Clube Ginástico Português. tudo isso antes do último carnaval. Mas também estes não podem se ausentar do Rio. os três atuaram no Teatro Santana. Lamartine contando piadas e inventando paródias e canções humorísticas. É sempre difícil precisar o que Francisco Alves tem na cabeça. que na excursão ao Sul a formação do trio fosse mantida. em São Paulo. Francisco Alves geralmente canta acompanhado pelo Tute. Mário Reis e Lamartine Babo. Foi ainda de Francisco Alves a idéia de formarem. recomendado pelo médico a fazer uma estação de águas em São Lourenço. Tal afirmativa . Não gosta muito de ser acompanhado por piano. Mas a escolha dos cantores e músicos que o acompanharão foi menos simples do que esperava. saindo Lamartine. Chico e Mário cantando. entrou Noel Rosa. Quem sabe? Afinal. doente.para um ou dois espetáculos em Nova Friburgo. Francisco Alves adverte os companheiros: . o Nono. De início Francisco Alves pretendia que a estréia se desse a 8 de abril em Porto Alegre. de um cantor que já foi acompanhado tantas vezes por um Eduardo Souto. o do violão.vale por um atestado. Mário Reis está confirmado desde o começo.. é coisa séria. No máximo um summer. o uso do smoking é obrigatório. Os horários terão de ser rigorosamente . nos cinemas Eldorado e Mascote.Somos profissionais. mas de forma alguma um terno comum. Definido o grupo que vai viajar. este uma indicação de Mário Reis: -Para tocar samba. logo após a morte do grande sambista do Estácio. Para Francisco Alves. logo na primeira reunião dos cinco Francisco Alves dita algumas regras. Será a última participação de Noel na história do conjunto. com o mesmo êxito. que há pianos que valem uma orquestra. está para nascer outro igual. Natural. de modo que Francisco Alves acaba limitando os acompanhamentos de violão ao de Noel e ao seu próprio. Ou então pelo Luperce Miranda. A questão dos músicos foi mais ou menos a mesma. o do bandolim.. pelos dedos de Nono. Tão séria que exige traje a rigor. Mas vá lá. um Mário Travassos de Araújo . Temos que respeitar o público para que o público nos respeite. Música. os três assinando um samba que Mário Reis gravou no fim do ano: 218 A aurora vem raiando Anunciando o nosso amor Ô. preferindo orquestras ou regionais. discípulo e intérprete de Sinhô. A excursão ao Sul acabará mostrando-lhe. Chico.partindo de um amigo. o cantor tratou logo de aproximar Lamartine de Ismael Silva. portanto. o trio foi muito aplaudido no Teatro Lyrico. convida para o bandolim Pery Cunha e para o piano Romualdo Peixoto. um trio que se exibiu meses atrás com o nome de Ases do Samba. Já Noel Rosa só passou a fazer parte do grupo depois que Lamartine Babo. Mas. não pôde viajar. Mas é bem possível que Lamartine Babo tenha sido o primeiro nome em que pensou para substituir Nílton Bastos.

As morenas do lugar Vivem a se lamentar Por saber que ele não quer Se apaixonar por mulher. E quando tira samba É novidade. Porto Alegre. E há a questão dos hotéis. cada qual responsável pelo seu. São Sebastião. nem bares. Um deles é Quando o Samba Acabou. Pedro de Toledo. em Porto Alegre. Vão a bordo do Itaquera. Santos. parando quase que de porto em porto do Orange ao Chuí. ir para a Praça Mauá. O que fica evidente já no embarque. Tudo acertado. Qualquer cantor ou cantora do Brasil pode ir aonde quiser. volta. Passear no tintureiro Era o seu esporte. Improvisam-se no convés saraus que acabam servindo de ensaios para a estréia. aquela versão revista. no caso de Francisco Alves. outro dos muitos navios que a Companhia Nacional de Navegação Costeira mantém ao longo do nosso litoral. Vencido por um daqueles seus sonos profundos. Itajaí. E por pouco Noel não perde a hora do embarque. norte ou sul. pernoita em Antonina. Nunca viu trabalho. tais viagens começam a fazer parte da rotina profissional de todo artista. foi um custo acordá-lo em tempo de se vestir. Com o atraso provocado pela escolha dos cantores e músicos. Noel Rosa. a pontualidade sendo parte daquele respeito que o público merece. só a 21 de abril os novos Ases do Samba seguem viagem para o Sul. o último a aparecer. uma pequena multidão de amigos e admiradores comparecendo para as despedidas. e no máximo parentes e amigos mais chegados vão ao bota-fora. Francisco Alves é mais uma vez a grande estrela da companhia.cumpridos. é diferente. Além disso. assim que receber o que lhes couber da bilheteria. pagando-o com o dinheiro que o próprio Francisco Alves dividirá com o grupo. tudo claro. interior do país ou mesmo o exterior. Estejam todos avisados de que há hotéis caros e baratos. Já nasceu com sorte E desde pirralho 219 Vive à custa do baralho. entrar num táxi. É durante esta viagem de mais de uma semana que Noel faz ou pelo menos conclui dois de seu melhores trabalhos. apenas a monotonia das máquinas a empurrar ritmadamente o navio. Quer no morro ou na cidade Ele sempre foi o bamba. Mas. Entra na baía de Paranaguá. chega apressado para as fotografias que se fazem no convés do Itaquera. Aos passageiros só resta cantar. Uma viagem feita principalmente de tédios. nem mulheres. Florianópolis. Cana-néia. A viagem até Porto Alegre dura mais de uma semana. Não há diversões a bordo. Chico detesta retardatários. O navio vai parando onde quer que possa subir ou descer passageiro. a hospedagem naquela cidade correrá por conta dos artistas. Um simples embarque assume proporções de grande acontecimento. segue até Guaratuba. aumentada e urbanizada de Mardade de Cabocla'. Ubatuba. O outro é Mulato Bamba: Este mulato forte É do Salgueiro. Segundo ficou acertado com o gerente do Cine-Teatro Imperial. O mulato .

. corajoso... Nem com mulher bonita. não foge. numa desesperada fuga a policiais violentos. seu estilo pausado e meduloso. na Gomes Freyre ou na Lavradio. Mas não quer saber de fita Nem com mulher bonita. Ele então diz com desdém: "Quem tudo quer. Os perseguidores atrás. com razão. por mulher. a própria polícia torcendo para não encontrá-lo pela frente numa dessas batidas. De tal feitio que as morenas do lugar se queixam: o mulato em questão simplesmente não quer se apaixonar. Forte. capaz de virar do avesso um botequim da Lapa. Terá sido ele o inspirador de Mulato Bamba? Grande. As morenas vão chorar E pedir pra ele voltar. os perseguidos na frente. a habilidade inata com o baralho. parecem nele contidos. entrando como ratazanas assustadas na primeira porta que encontrem aberta na Mem de Sá. que música e letra de Mulato Bamba são feitas sob medida para a sua voz suave." Mário Reis apaixona-se por este samba. um dos mais afamados valentes da noite carioca. nada tem. brandindo cassetetes. temido. Mas em quem terá se inspirado Noel para criar personagem tão singular como este mulato forte do Salgueiro? Todos os bons malandros. a facilidade com que faz um novo samba. tão de acordo com a gente e as coisas deste Rio malandro de que falam os versos. O bamba. Satã. Mário acha. mas não querendo saber de fita. Sei que ele anda agora Aborrecido Porque vive perseguido Sempre e a toda hora.É de fato E sabe fazer frente A qualquer valente. nem mesmo da morte.. aos gritos. do morro ou não. disposto a enfrentar qualquer valente. Ele vai-se embora Para se livrar Do feitiço e do azar Das morenas de lá. Estranho mulato este que em muitas coisas lembra o Satã. na Riachuelo. sem medo de nada. de encarar um. Eu sei que o morro inteiro Vai sentir Quando o mulato partir Dando adeus para o Salgueiro. diz que vai lançá-lo em Porto Alegre antes que Francisco Alves o ouça e o pegue para si. Apossa-se dele. Mas a singularidade desse malandro é outra. a intimidade com o tintureiro(4). um touro de homem. dois tintureiros de uma só vez. É muito comum o silêncio da noite ser quebrado pelo alvoroço dessas criaturas correndo em bando. a astúcia que o permite viver sem trabalhar. porém. quanto mais desses policiais que vivem dando batidas pela Mem de Sá atrás de pederastas que um impiedoso moralismo recomenda sejam varridos das ruas como lixo.. Isto é. forte. de amor.

plena de música. Nele não falta o duplo sentido de que Noel tanto gosta: por quem vive perseguido o valente do Salgueiro. Já em Porto Alegre. Ou velados como Assis Valente e Ismael Silva. viram companheiros inseparáveis. Para com Satã ou outro mulato bamba qualquer. É nesta viagem. está marcada para sexta-feira. na verdade. Pode não ser o Grande Hotel. segundo o mesmo anúncio (que aliás chama Mário Reis de "doutor". perto da Riachuelo. pela polícia ou pelas mulheres? Satã não quer saber de fita nem com uma. cantando com voz de contralto. emoção e sobressalto . Noel. mas tem lá os seus a favores. Ou seja.. para quartinhos apertados de uma pensão barata da Rua Clara7. A estréia. 29 de abril. Será o começo de uma temporada inesquecível. de carteiras mais providas. Já se conheciam. freqüentados por uma população pobre. um descobre o outro." Cria-se uma expectativa. promete a presença de Lamartine Babo e refere-se a Noel como "Noél Rosas".e no entanto acariciando o sonho de se tornar um dia uma esvoaçante estrela dos nossos palcos. depois dos espetáculos. Pery Cunha. mas vêm. mexendo com as cadeiras.não deixa de ser um gesto de simpatia.. Ele e Noel são amigos(5).a primeira obra da música popular brasileira a focalizar de modo mais ou menos claro esse tipo de personagem . Constatam afinidades. Conhece alguns deles. Pode ser visto. certamente. Ou melhor. habilmente. batom. a rebolar freneticamente num desses espetáculos que os cabarés da Lapa de vez em quando apresentam. bom compositor que em troca de companhia passa adiante os sambas que faz. E já que cada qual tem de pagar hospedagem do próprio bolso. odalisca ou rainha de Sabá. separam-se assim que pisam em terra.. para não ser tão óbvio. aceita-os como são. que não abrem a guarda com medo de perder o respeito do pessoal do meio. mas foi a bordo do Itaquera que ensaiaram a amizade que se vai fortalecer agora. Quem vê Satã assim. numa e noutra calçada. noturna e meio vadia. nada tem." Há mais de duas semanas a imprensa de Porto Alegre vem anunciando a chegada dos Ases do Samba. vão para o conforto do Grande Hotel. venezianas entreabertas apenas insinuam vultos de mulher que lá de dentro chamam os transeuntes para um "instante". O Cine-Teatro Imperial faz publicar nos jornais anúncios onde se lê: 220 "Eles custam. que Noel descobre Nono. O que desde . Mas Noel não liga. E há o fecho. com acento agudo no primeiro nome e um esse a mais no segundo).. nem imagina do que é capaz. nem com outras. dois versos sutis sugerindo certo trejeito que Mário Reis. De pontos em pontos. Nono e Noel. Chegam a Porto Alegre poucas horas antes do espetáculo. tem muitos camaradas entre esses homossexuais que a polícia persegue. São as chamadas casas alegres de uma rua onde se encontram também dois ou três botequins vagabundos. brincos. vestido de baiana. pulseiras. Confessos como Satã e Jota Piedade. um amor ligeiro e econômico. Seu samba . fazem planos para as madrugadas. Mário Reis e Francisco Alves. homens travestidos de mulher. evita ao cantá-los: Ele então diz com desdém: "Quem tudo quer.

. e Noel com roupa de garçom! Mário procura aplacar-lhe a zanga.É o meu summer. Sendo um espetáculo de palco e tela. é única. Um gaúcho moreno e um catarinense claro cujos uniformes de soldado raso se destacam ao lado das roupas elegantes que predominam na platéia. São todos muito bons. talvez lhes passe pela cabeça esperar os Ases do Samba à saída do cinema. Coisas lindas de mulato romântico. São nove horas da noite. Chico que trate de se tranqüilizar. sorriso sestroso.É summer. as interpretações de Noel para números antigos como Gago Apaixonado ou novos como Quando o Samba Acabou. Mas não toca como nenhum deles. é profissional há quase dez e pertence a uma família toda ela muito musical8. E o moreno: .Meu nome é Reinol Corrêa de Oliveira. . agora não tem mais dúvida: esta excursão vai lhe dar dores de cabeça. A platéia pode até pensar que é bossa. sim. Jerônimo Cabral. . toca piano de ouvido desde os nove. O mais claro se apresentaria. Está quase na hora e só agora Noel chega. Francisco Alves tem razão para estar preocupado. o 415. Nono é um mulato bonito. Chico olha de trás da cortina para a platéia. Só para ver. Conheceu de perto o grande Sinhô e está atento a todos os estilos pianísticos em voga. os artistas do Rio. Já desconfiava. daqui a pouco os Ases do Samba vão estrear em Porto Alegre. da primeira fila. como quase todos da excursão. 221 Admira o Kalua. do mais virtuoso Eduardo Souto ao mais limitado Ary Barroso. E ainda por cima imundo! . quatro de preto e um de branco. tão intuitiva e pessoal. E Noel Rosa será o responsável por quase todas. improvisando. diz ele. terão gostado tanto da noitada quanto os dois recrutas do 7? Batalhão de Caçadores sentados na primeira fila. os solos de Pery Cunha e Nono.espanta-se Francisco Alves ao vê-lo num amarrotado e encardido terno branco. Pensando bem. Como acompanhante Nono é insuperável.De um garçom meu amigo. conforme o combinado. olhos claros. mas a maneira de Nono tocar. Mário. Ele e Nono. Nasceu em Niterói há 31 anos. No apoio rítmico. O público vibra com os duetos de Francisco Alves e Mário Reis. Mas o compositor não fica atrás. Um triunfo. nos breques.o primeiro minuto deixa visivelmente apreensivo o zeloso Francisco Alves. nesta multidão que lota o Imperial. Pery e Nono de smoking. É um terno. criando. Pelo menos duas das mais belas construções melódicas da música popular brasileira desta década serão suas: Cigana e O Jardim de Flores Raras. a jovem Carolina Cardoso de Menezes.intervém Mário Reis.Que negócio é este que você está vestindo . mas sempre "pegando" o cantor mais adiante. Eu o aluguei. Nem como Mário Travassos de Araújo. Mas nem ligam. Felizes da vida. No quartel. Lotada. onde fica o quartel. . Chico. A estréia é um triunfo..Mas isso não é summer. Vieram cedinho. Mas poucos. até que o grupo ficará interessante. o Imperial projeta as últimas cenas do filme.Onde? . desde a Praça do Portão. Francisco Alves solta um palavrão. . nos acordes arrancados das teclas como quem está prestes a tropeçar. Ele. Aldo Taranto ou Gaó. o Cebola.

. Em cada um desses lugares Noel e Nono inventam novas maneiras de exasperar Francisco Alves. passam pelo Jacques. onde se meteram os dois? Francisco Alves.Quando forem ao Rio. dão uma espiada no Chez Nous.onde de dia funcionam uma frutaria e a engraxateria do Sotero Rodrigues9 -param. o moreno como compositor. 222 Os Ases do Samba ficam uma semana no Imperial. Aplaudem. os cinco saem juntos do teatro para um programa em grupo que não mais se repetirá enquanto estiverem no Sul. somem invariavelmente durante o dia. Piranema. Mário chama os outros. Em São Leopoldo. Em Caxias do Sul. O claro ficará conhecido um dia por um pseudônimo artístico: Nuno Roland. Nos dias 6. O moreno. Esse garoto vai longe! Os dois recrutas vão guardar os detalhes desta noite até o último de seus dias. dessa maneira. no Império. pede-lhes que o ajudem a levá-los daqui. a afinada voz do 415. me procurem .Acho que o Chico ainda vai cantar minhas músicas. Os Ases do Samba surpreendem-se com a qualidade do que ouvem. Diriam que também gostam de música. quem são eles para puxar assunto com os Ases do Samba? Sendo a noite de estréia. Lá dentro. pensam em se profissionalizar.° Batalhão de Caçadores saboreiam a noite. boêmios porto-alegrenses se embriagam de vinho e música. Tomarão um pifão tão colossal que. E vai mesmo. Caxias do Sul. Pery os botequins. Noel presta atenção nos sambas do moreno. mas é Mário que vai descobri-los num miserável cabaré. as composições do 417. São atraídos pela música que vem do interior de um botequim. o moreno diz para o claro: . o Oriente. Afinal. Mas não dizem nada. o claro como cantor. São Leopoldo. . E entre os dois. o Royal. aumentam. ao lado..Sou o 417. Rio Grande. Mas onde terão se escondido? Chico percorre as pensões de mulheres. perdendo a instrução na manhã seguinte. vão conhecer o Beco do Oitavo (o comércio do amor não muito longe do Palácio do Governo). arrancando de teclas carcomidas as notas de uma valsa difícil de identificar. Mário Reis e Pery Cunha se dividem na busca. Na esquina de João Alfredo . Para os boêmios da terra. .diz Francisco Alves usando um velho chavão. pelo próprio nome: Lupicínio Rodrigues. o415 e o 417 ciceroneando os cariocas até os cabarés da Voluntários. Pelotas. Sady Nolasco. uma garrafa de anisete. se despedem. nunca vão aos ensaios combinados. As chances de encontrá-los.. onde as atrações são o cabaré-tier Palácios e o transformista Haimond. vão passar no xadrez do quartel a noite de sábado para domingo. Entram. Vira-se para os companheiros e vaticina: . Cachoeira do Sul. Nelson de Lucena.. brinca com o violão. a glória. Saem todos do botequim.. já vazia. Mas cá fora me chamam de Lúpi. uma hora antes de seguirem para o local do espetáculo. Heitor de Barros. Nono está sentado a um velho piano. Andam pela cidade. Depois. Já sozinhos. ficam só na intenção. Noel.Esse garoto é bom. 7 e 8 de maio atuam no Carlos Gomes e em seguida estendem a excursão a outras cidades do Estado. Johnson. Caco Velho e os dois recrutas do 7. meio de pernas trocadas. Chegam à Praça Garibaldi.

. Como é que eles vão entrar no palco depois de terem tomado uma garrafa desta droga? Mário Reis sente engulhos só de olhar para a garrafa vazia de anisete. lamentamos informar que por motivo de força. . Noel Rosa? Nada. ele e Noel continuam firmes. é demais!. Chico. Até Nono está a postos. Que Deus os ajude! O espetáculo começa como Mário sugeriu. Noel e Nono seguem Mário Reis e Francisco Alves pelas ruas de São Leopoldo." É então que Noel chega. o pessoal lá fora assobiando.Que aconteceu? . o teatro .diz Nono com a voz suave de malandro cheio de fraseados. os outros três bem na frente. Na cabeça. .esbraveja 223 Francisco Alves. Ainda bem. O líder do grupo sente vontade de gritar. Não há coisa que ele mais deteste do que essa adocicada bebida de laboratório. E assim que Noel canta o eterno Gago Apaixonado. Desta feita. Em Pelotas. pode-se ir a pé até lá. as luzes se acendem. ao que parece emprestada por Pery Cunha. Os olhos do líder do grupo se escancaram. Francisco Alves já conformado com o tal terno branco e se preocupando menos com seus atrasos.Acho que beberam demais. Mário comenta com Chico: . listrado. uma boina marrom. pois falta menos de meia hora para entrarem em cena.. Noel lá atrás. as listras mais finas quase pretas. as mais grossas com jeito de desbotadas. fortes.. Vomitaria se tomasse meio cálice. seu Mário! Mas Nono está certo. o filme termina. .Não se preocupe. ao lado de Pery e Mário. mas vestido com um extravagante terno de flanela cinza. Mas quando lhe cabe a vez de solar e ele vem até a frente do palco. tanta gente ansiosa para ver os Ases do Samba.. sapatos brancos. não está de smoking nem de roupa de garçom. -Agora é que vamos ter um desastre. que só a usa para abrigar-se do frio. tendo ao fundo o piano de Nono.chega Francisco Alves já apavorado. seu Mário.Estamos firmes. E o palco continua vazio. o Noel está cada vez melhor. Entram só os quatro ou cancela o espetáculo? Mário mais uma vez pede-lhe calma. . tocando piano e violão. Passam-se quase vinte minutos da hora marcada para o início da apresentação dos Ases do Samba e Noel não chega. Não se pode deixar o público frustrado. sóbrio e bem vestido. Trôpegos. a platéia põe-se a assobiar. escondendo-o e ao seu terno listrado. Não há anisete que os tire do compasso. diz que a situação não é tão séria assim. Nos pés. O teatro fica perto do cabaré.O melhor é a gente cancelar a função. o público os ovaciona.Esses dois ainda acabam comigo. Mário tranqüiliza o parceiro de dupla. pode-se pedir desculpas ao público: "Senhoras e senhores. O espetáculo começa. O Noel que lhe aparece por trás da cortina do teatro. -Boina. Quem sabe uma nova disposição de cadeiras no palco não resolve o problema? Noel pode ficar meio escondido atrás do piano de Nono. Francisco Alves não sabe o que fazer.Para falar a verdade. Chico concorda. surgem novas surpresas. mas Noel e Nono consumiram um litro e estão aí. Chico .

Mas Francisco Alves não esquece a boina. Meu esqueleto Está pior que um graveto Eu já estou virando espeto Meus olhos já estão no fundo.. escarnece à sua maneira da fome.. Mário e Chico no melhor hotel. Eu quis dizer: "É agora!" Mas. os outros três na Pensão Mangache.. cariocamente. . os sapatos. . Eu me escangalho De pular de galho em galho Seu Ministro do Trabalho Não me dá colocação.é sacudido por palmas e gargalhadas. ele se põe a cantar uma paródia sua para Suçuarana. seu Mário.. um toque diferente para dar mais colorido e alegria ao show. Num bruto treino Pra tomar café pequeno Quero ver se me enveneno Pra comer lá no outro mundo.. Virgem Nossa Senhora! Cadê dente pra morder? Os Ases do Samba deixam Pelotas contentes com seu êxito. Faz três semana Que eu tô comendo banana Só porque não tenho a grana Nem ao menos pra almoçar O que eu estou vendo É que se não me defendo Vou acabar me comendo Pra poder me alimentar. Noel e Nono continuam se evaporando horas antes do espetáculo.Já estou começando a achar que ele faz essas coisas de propósito.Sabe. Nunca estive tão por baixo E se eu não me agacho Vou morrer de inanição. confessa: . O desespero do líder do grupo se repete: . Em Rio Grande não é diferente... Lamuriento. a boina fazem parte do número. Acompanhando-se ao violão. As palmas e as gargalhadas se repetem a cada quadrinha em que Noel.. Chegou a hora. faz troça da própria desgraça. boina quase tapando os olhos.Santo Deus! Desta vez eles não vêm mesmo! Mas sempre acabam vindo. Só para esbandalhar com os meus nervos. conclui com estas quadras: Inda outro dia Fui até a Galeria Só para ver se mordia O primeiro a aparecer. outro de seus temas mais usuais: Isso é despacho. todo o mundo pensando que o terno. O teatro explode numa ovação quando ele..

Voltam a Porto Alegre para uma nova série de apresentações nos últimos dias de maio. A essa altura já é quase impossível encontrar Noel fora do palco. Ele e Nono continuam entregues às suas expedições boêmias à Rua da Praia, aos cabarés mais ordinários, aos botequins mais escondidos. Isso enquanto Mário e Chico vão engravatados ao Clube Jocotó divertir-se com a alta classe média porto-alegrense, ou ao Caçadores, na Rua Nova, em velhos tempos o preferido de Getúlio Vargas e ainda hoje recebendo figurões em suas mesas de jogo. Mas os desaparecimentos de Noel são ainda mais demorados que os de Nono. Na verdade, ele é o mais "ocupado" de todo o grupo. Bem em frente à pensão da Rua Clara - na qual volta a hospedar-se - mora uma bonita morena que ele conheceu uma noite dessas, talvez de janela, talvez de prosa de esquina. Noel, como de hábito, se apaixona. Uma paixão breve, mas intensa, que o agasalha nestes frios dias de outono. Já não adianta Francisco Alves correr atrás dele, reunir os outros Ases do Samba para uma busca pela cidade. Não vai encontrá-lo. Nono e Pery sabem, mas não dizem, que em vez dos ensaios à tarde o amigo prefere os carinhos do novo amor. Como se chama? Em toda a excursão, Francisco Alves nunca esteve tão enfezado: -Já sei o que vou fazer. - O que foi, Chico? - pergunta Mário. -Já descobri um modo de botar o Noel na linha. E o Nono também. Francisco Alves, na primeira oportunidade, lembra aos dois irrequietos Ases do Samba que a viagem vai prosseguir em Florianópolis e só acabar em Curitiba. Quer dizer que ainda há muito pela frente. E como eles insistem em 224 chegar atrasados, em faltar aos ensaios, em não agir como verdadeiros profissionais, Chico sente-se obrigado a tomar uma atitude extrema: segurar-lhes o dinheiro. É isso mesmo! Depois de cada espetáculo, Noel e Nono só receberão o bastante para pagarem a hospedagem e as refeições. O restante que lhes couber Francisco Alves guardará. O cantor não fica nisso. Passa por todos os lugares em que presumivelmente os dois costumam beber e pede aos gerentes, garçons e freqüentadores assíduos que não lhes fiem ou paguem bebida. Noel e Nono, como era inevitável, ficam mordidos. Chico não tem esse direito, o dinheiro é deles, ganho com o seu trabalho. A vida também é deles, podem beber onde quiserem e com quem quiserem. Onde já se viu? Mas, bons malandros que às vezes são, agüentam firmes, engolem a indignação, dizem aceitar as imposições do chefe. Para que existe o dia de amanhã? Hoje é Francisco Alves quem dá as cartas. Não é demais lembrar que quem voa em grande altura leva sempre grande queda. Mesmo que seja um Francisco Alves. Uma paixão breve, mas intensa. O suficiente, pelo menos, para encher de tristeza o coração de Noel Rosa no dia do embarque para Florianópolis. Como o próprio Noel contará daqui a alguns anos numa entrevista(11), na véspera de tomar o navio conversa com a morena, ele da sua pensão, ela na janela da casa em frente. Chove muito.

Noel gostaria que estivessem juntos em vez de separados pelo aguaceiro que desaba sobre a rua estreita. Alguém a chama lá dentro. A morena entra apressada, com tempo apenas para dizer: - Até amanhã... Não haverá amanhã. Noel viaja sem voltar a vê-la. No navio que o leva de Porto Alegre a Florianópolis, completa o samba que começou a escrever no seu quarto de pensão: Até amanhã, se Deus quiser, Se não chover eu volto pra te ver, Oh, mulher! De ti gosto mais que outra qualquer, Não vou por gosto, O destino é quem quer. Adeus é pra quem. deixa a vida É sempre na certa em que eu jogo Três palavras vou gritar por despedida: "Até amanhã! Até já! Até logo!" O mundo é um samba em que eu danço, Sem nunca sair do meu trilho, Vou cantando o teu nome sem descanso, Pois do meu samba tu és o estribilho. E mais uma quadrinha que esperará seis décadas para ser conhecida pelo público12: Eu sei me livrar do perigo, No golpe de azar eu não jogo. É por isso que risonho eu te digo: "Até amanhã! Até já! Até logo!" Os Ases do Samba não fazem nas próximas escalas o mesmo sucesso de Porto Alegre e outras cidades gaúchas. Vão alegar que as platéias de Santa Catarina e Paraná não são sensíveis ao espírito excessivamente carioca de seu repertório. Talvez. Há apenas uma exibição no Cine Glória de Florianópolis, a 5 de junho, e outra no Palácio Teatro de Curitiba, na noite de segunda-feira, 13. Uma semana depois, o Rio. 225

NOTAS 1. Ao contrário do que se chegou a afirmar, Henrique Britto não inventou o violão elétrico. No máximo, foi quem o introduziu no Brasil. Ele próprio, em entrevista a O Globo de 14 de junho de 1933, contaria ter sido o amigo F. Dutra o idealizador do sistema que a Dobro Corporation acabaria patenteando. Depois de fazer uma demonstração da novidade, na redação do jornal, informaria que ele e Dutra seriam os representantes da Dobro na América Latina. 2. Este disco - Não Brinca Não de um lado, Cabelo Branco, embolada de Almirante e Waldo de Abreu, do outro - será o penúltimo gravado pelos tangaràs, o último com participação de Noel Rosa. No dia 20 de maio de 1933 o grupo encerrará sua carreira registrando, na Odeon, Festas de São João, cena regional gravada nas duas faces do disco. O próprio autor, João de Barro, será o solista. 3- Já estudado no Capítulo 12. 4. Carro de polícia para transporte de presos. O camburão da época.

5. Satã, que só anos mais tarde passaria a usar o Madame antes do nome, já famoso como travesti e desfilante de concursos de fantasias, refere-se à amizade com Noel em seu livro Memórias de Madame Satã (página 17). 6. Todas as informações contidas neste capítulo sobre a excursão ao Sul baseiam se em depoimentos de Mário Reis aos autores, em entrevistas realizadas a 1 e 17 de abril de 1981, e de Demósthenes Gonzalez, presidente do Clube dos Compositores de Porto Alegre, em carta de 14 de maio de 1983. 7. Atual João Manuel. 8. Romualdo Peixoto, o Nono, que morreria em sua Niterói natal a 13 de novembro de 1954, era tio do cantor Cyro Monteiro. E também do pianista Moacyr Peixoto, do pistonista Arakem Peixoto e dos cantores Andiara e Cauby Peixoto. 9. Sotero seria, anos depois, o primeiro zelador do estádio do Sport Clube Internacional de Porto Alegre. 10. Toada sertaneja de Heckel Tavares e Luís Peixoto. 11. Carioca, 18 de julho de 1936 (página 41). 12. Gravada em 1983 como uma das vinhetas do disco Noel Rosa Inédito e Desconhecido (Estúdio Eldorado 79.83.0408). 226

ONDE ESTÃO OS MADRIGAIS? Capítulo 23 19 DE JAN Dois meses é uma longa ausência, uma considerável pausa nas atividades de qualquer profissional do rádio e da música popular. Por isso, como se tendo pressa de recuperar o tempo em que estiveram fora, os cinco Ases do Samba, juntos ou separados, tratam de se mobilizar. Nono e Pery Cunha voltam às gravações. Mário Reis - cada vez mais apaixonado por Mulato Bamba - registra-o na Odeon, destinando o outro lado do disco a um novo samba de Noel e Ismael Silva. Não tenho amor, nem posso amar Pra não quebrar uma jura que fiz E pra não ter em quem pensar Eu vivo só e sou muito feliz. Aquela que eu mais amava Só pensava em me trair Quando eu menos esperava Partiu sem se despedir. Essa mesma criatura Quis voltar mas eu não quis E hoje cumprindo a jura Vivo só e sou feliz. Um amor pra ser traído Só depende da vontade Mas existe amor fingido Que nos traz felicidade. A mulher vive mudando De idéia e de ação E o homem vai penando

Sem mudar de opinião. Este samba, Uma Jura Que Fiz, retoma sob as bênçãos de Francisco Alves a sociedade que a viagem obrigou-os a interromper. É um samba perfeito, primeira e segunda partes impecavelmente encaixadas. É um dos mais representativos da parceria Ismael Noel. Na música e na letra. É importante notar como se completam, sem qualquer conflito, as diferentes visões que Ismael e Noel têm do amor. O que para um é recusa, não querer amar, não gostar ("Esse negócio de amor não convém", dizia Ismael na primeira composição que Noel lhe completou), no outro é desilusão, sofrimento, traição. Ambos - Ismael na primeira, Noel na segunda - acreditam em viver só e ser feliz, mas chegam a tal conclusão por caminhos diversos, Ismael por não querer problemas, Noel por já ter superado os seus. Essas distintas visões do amor, um se recusando a amar, o outro sofrendo por não se ter recusado, vai se repetir em outros sambas dos dois. Mas com tal habilidade de Noel na condução da segunda parte (a fórmula praticamente não varia, primeira de Ismael, segunda de Noel), que só com algum esforço se percebe que os poetas são dois e não um. 227 Mais três sambas Noel e Ismael fazem pela mesma época, isto é, logo depois da viagem ao Sul. Um deles é Ando Cismado. Mulher, eu ando cismado Que me enganei com você Se algum dia não ficar mais a seu lado Não precisa perguntar por quê. A mentira é fatal Creio que não é por mal Que a mulher nos faz descrer Mas se é realidade Sua grande falsidade Eu hei de ver você sofrer. Eu cismado espero agora Ver você a qualquer hora Dando a outro o coração Quando chegar esse dia Deixo sua companhia Sem explicar por que razão. Outro é A Razão Dá-se A Quem Tem, deliciosa composição em forma de diálogo, na qual Noel glosa o estribilho de Ismael entremeando as segundas partes de versos usados na primeira. Obra de mestre, o sentido sempre inalterado. Mário Reis e Francisco Alves são mais uma vez os intérpretes: Se meu amor me deixar Eu não posso me queixar Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém A razão dá-se a quem tem. Sei que não posso suportar (Se meu amor me deixar) Se de saudade eu chorar (Eu não posso me queixar)

Abandonado sem vintém (Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém) Quem muito riu chora também (A razão dá-se a quem tem). Eu vou chorar só em lembrar (Se meu amor me deixar) Dei sempre golpe de azar (Eu não posso me queixar) Pra parecer que vivo bem (Vou sofrendo sem dizer nada a ninguém) A esconder que amo alguém (A razão dá-se a quem tem). O terceiro, É Peso, não sairá em seus nomes, mas no de Antônio dos Santos, jornaleiro do Estácio que os acoberta talvez para evitar a participação de Chico(1). A letra da primeira parte, lida simplesmente, pouco vale. Mas, vestida com melodia de Ismael, se transforma. A segunda é legítimo Noel. Na estrofe final, são primorosos os duplos sentidos, os jogos de palavras, "peso" podendo ser azar ou carga, e "pena", castigo ou coisa leve. É peso, estou pesado O meu viver é uma sentença Que eu fui condenado a cumprir Esta pena o remorso condena Eu serei sentenciado. Se eu soubesse que a saudade Não se esquece nem querendo Não deixava essa amizade Para não ficar sofrendo. Hoje eu quero e não me queres E o remorso que me invade É saber que tu preferes Morrer longe de saudade. E quando a lua descamba Com o pandeiro a batucar Saio da roda do samba Pra ninguém me ver chorar. Ao azar hoje me entrego Quem tem peso tem azar Mas o peso que eu carrego É a pena de te amar. Ismael e Noel produzindo muito, o primeiro para não deixar sem material novo o sócio Francisco Alves, o segundo para amortizar a dívida do Pavão. Tudo como antes. Especialmente para Francisco Alves. Profissional é profissional, de modo que já esqueceu os problemas que Noel lhe causou durante a viagem. Acertadas as contas, pago o que era devido a Noel e a Nono, o cantor acha que o que passou, passou. É hora de seguir em frente. Por isso, procura o parceiro e diz que quer gravar Até Amanhã. A reação de Noel é quase infantil, birrenta como a de um garoto zangado. - Desculpe, mas eu prefiro dar pro João Petra. Francisco Alves não se queima. Deixa o garoto Noel se zangar. Como não se queima, tampouco, ao saber que Nono e Noel fizeram um samba mexendo com ele, desforrando-se do que aconteceu em Porto Alegre, provocando-o musicalmente. Tanto assim que, informado de que Sílvio Caldas vai gravar o tal samba, Vitória, na tarde

de 13 de julho, aparece no estúdio da Victor e se oferece para participar da gravação. E de graça! Sílvio fica honrado e surpreso. O que terá dado no Chico? Contratado da Odeon e não cobrando nada para reforçar um disco da Victor? O samba é gravado, Francisco Alves fazendo uma nítida, afinada e harmoniosa segunda voz para Sílvio: Antes da vitória Não se deve cantar glória 228

Você criou fama Deitou-se na cama E eu que não estou dormindo Vou subindo, vou subindo... Enquanto você vai decaindo. Quero a minha independência E com jeito e paciência Me preparo pro futuro A tudo estou resolvido E você tome sentido Que entre nós o páreo é duro. Agüentei muita indireta Mas andei na linha reta Não maldigo a minha sorte Vou agindo com cadência Sei que a minha independência Há de ser a sua morte. (Vitória!) Sua voz se alguém percebe Bem humilde lhe recebe Sua entrada ninguém veda Você goza de ventura Mas quem voa em grande altura Leva sempre grande queda. Sempre fiz papel bonito Não tenho medo de grito O que falo é bem pensado Não receio escaramuça Que aceite a carapuça Quem se sente melindrado. (Vitória!) Noel Rosa não é, nunca será um romântico. Nem na poesia, nem na vida. Não será jamais um poeta transbordante de sentimentos, lírico até a raiz dos cabelos, derramado como os que ele mesmo gostava de cantar com o amigo Alegria à época de Queixumes ("Por que te esquivas assim, coração...?"), nem será um amante dado a enlevos de um Romeu ("Ah! Querida Julieta! Por que ainda és tão bela?"). Uma coisa está refletida na outra. Não há lugar nos relacionamentos amorosos de Noel para flores e bombons, bilhetinhos apaixonados e gestos galantes, carinhos e nobrezas. Da mesma forma, sua poesia, suas letras de música raramente terão o acento lírico dos menestréis das noites de Vila Isabel. Das 250 para 300 músicas que comporá, não chegarão a meia dúzia as que falam do amor de maneira direta, a mulher como objeto de seus sentimentos, de suas juras,

de suas promessas, da alegria de gostar dela. Quantas vezes o "eu te amo" fará parte de suas letras? Nenhuma. Quando muito dirá como em Até Amanhã: De ti gosto mais que outra qualquer Menos de meia dúzia. Poderá fazer-se eventualmente gentil e generoso ao cantar sua cidade, seu bairro, as pastorinhas que desfilam pelas ruas nas proximidades do Natal. À mulher amada, porém, destinará apenas as queixas. Suas canções de amor são anti-românticas, principalmente, porque a visão de vida de Noel, em relação ao amor, nada tem de romântica. Não acredita que possa ser amado. Talvez nem acredite que alguém possa amar alguém, o amor sendo sustentado pela mentira, a artimanha, a falsidade, a simulação. É neste 1932 que ele compõe este hino à mentira, música lindíssima para versos tão sofridos: Mentir, mentir, somente pra esconder A mágoa que ninguém deve saber Mentir, mentir, em vez de demonstrar A nossa dor num gesto ou num olhar Saber mentir é prova de nobreza Pra não ferir alguém com a franqueza Mentira não é crime É bem sublime o que se diz Mentindo pra fazer alguém feliz. É com mentira que a gente Se sente mais contente Por não pensar na verdade O próprio mundo nos mente E ensina a mentir Chorando ou rindo sem ter vontade. E se não fosse a mentira Ninguém mais viveria Por não poder ser feliz E os homens contra as mulheres Na terra, então, viveriam em guerra Pois no campo do amor A mulher que não mente não tem valor. Um remate definidor: no campo do amor, a mulher que não mente não tem valor. Para ele, contudo, todas as mulheres mentem. E é quase sempre a partir da mentira, da arte de enganar, do dom de saber iludir, que ele vai criar o universo de suas canções de amor. Tudo, evidentemente, intercalado de humor, ironia, astúcia. Noel Rosa não é nem será um romântico. Mas nunca isso ficou tão manifesto, tão claramente explícito, tão confessado por ele mesmo, como neste segundo semestre de 1932. Quem será sua musa então? Clara e Fina. Não são apenas as duas que dividem os carinhos de Noel nestes dias. Entre uma e outra caberá lugar para uma terceira, nova musa: Julinha. Clara continua sendo a namoradinha dos tempos de colégio, a única com quem talvez se casasse. Isto é, se acreditasse em casamento, em ser feliz preso a uma mulher, uma família, uma vida rotineira e sossegada. Fina foi, sem dúvida, a primeira paixão. De certo 229 modo, Noel jamais deixará de gostar dela, de seu jeito de criança alegre, atirada, travessa, parecida com ele em sua sede de vida, mas uma vida sem freios nem grades, de coração e braços abertos para o mundo. Julinha é diferente de Clara e de Fina, pode-se dizer, em quase tudo. Chama-se Júlia Bernardes, diz pertencer a importante família mineira, a mesma que deu ao Brasil um Presidente da República, e exige ser tratada à altura de seu nome. Mas Noel a conheceu num dos muitos cabarés da Lapa onde tem trabalhado, o Roxy, o Flórida, o Rex, o Tabu. Tem entre 30 e 35 anos, a maquiagem carregada tornando mais difícil precisar-lhe a idade. É alta, vistosa. Muda de cabarés e namorados com a mesma freqüência com que muda de cabelo, loura hoje, ruiva amanhã, cor indefinida

depois. Quando sóbria, ostenta maneiras que não chegariam a envergonhar os Bernardes de Viçosa. Mas raramente está sóbria. E quando bebe, tudo é possível. Julinha é muito diferente de Clara e Fina. Sempre propenso a grandes paixões, Noel se vê empurrado para os braços de Julinha desde o primeiro momento. Testemunha deste começo de romance é Ignácio Jorge, o Pará, motorista de táxi que costumava levar Noel para todo canto antes da compra do Pavão. Como Noel quase não fala de Julinha (procura vê-la longe dos olhos dos amigos, sempre temendo suas cenas, algumas delas violentas), às informações de Pará se deverá o pouco que se vai saber deste agitado caso de amor. Mais velha e experiente que Noel, levando uma vida a que Clara e Fina jamais se atreveriam, Julinha não será propriamente a inspiradora do anti-romantismo de Noel neste 1932. Mas, para quem vivia fazendo versos sobre a mentira, a falsidade das mulheres, o amor como um jogo de regras baixas, desprovido de qualquer lirismo, ela parece a musa ideal. Prática que confirma a teoria, modelo perfeito para os sambas que Noel vai fazer por agora. Julinha mora na Penha, numa modesta casa de morro pouca coisa melhor do que um daqueles barracões da Mangueira que Noel conhece tão bem. É esta casa que abriga o amor dos dois nos primeiros tempos. Um amor complicado, entremeado de brigas e bebedeiras, ciúmes e escândalos. É impossível saber ao certo quantas e quais músicas Noel comporá inspirado em Julinha(2). Pelo menos neste caso, se é autobiográfico, se transforma em samba episódios reais, nunca o faz de forma clara, direta, com todas as letras. Mas decerto nao é para Julinha -ao contrário do que se dirá esta beleza de queixa de amor que é Pra Esquecer: Naquele tempo Em que você era pobre Eu vivia como um nobre A gastar meu vil metal E por minha vontade Você foi para a cidade Esquecendo a solidão E a miséria daquele barracão. Tudo passou tão depressa Fiquei sem nada de meu E esquecendo a promessa Você me esqueceu E partiu Com o primeiro que apareceu Não querendo ser pobre como eu. E hoje em dia Quando por mim você passa Bebo mais uma cachaça Com meu último tostão Pra esquecer a desgraça Tiro mais uma fumaça Do cigarro que eu filei De um ex-amigo que outrora sustentei. É verdade que a Penha, muito longe do trabalho de Julinha e também dos lugares por onde Noel mais anda, logo será trocada pela Lapa, o humilde barracão dando lugar

a um quarto na Rua do Riachuelo que o próprio Noel ajuda Julinha a alugar. Mas a letra do samba não reflete exatamente a história do romance entre os dois. Além do mais, dirá Noel numa entrevista a propósito da origem de Pra Esquecer: "A vítima não era eu. Era um amigo que gostava muito de uma mulher e que por ela abandonou tudo. Uma noite eu o vi dançando num cabaré, com ela. Talvez fosse a última noite. Ele havia reunido o que lhe restava da fortuna e tinha ido vê-la. A cena me impressionou fortemente e dias depois o samba nasceu. E nasceu triste como a história que eu via desenrolar-se perante meus olhos." O que importa é ser este samba um doloroso e impressionante retrato da vida boêmia -o amor acabando com o último tostão. Cruel, autoflagelador, mas lindo. Julinha também é interesseira. Gosta de dinheiro, faz parte da sua filosofia. E exigência do métier esta ambição de querer mais, sempre mais. Em razão disso, multiplicam-se os namorados. Noel não pode sustentá-la com o que ganha. Provavelmente, nem pensa nisso. Mas experimenta - com alguma amargura e muita ironia - a ganância, a cobiça com que Julinha anima sua convivência com ele. Ela talvez não seja, mas bem poderia ser a musa de um fox-trot que'Noel compõe precisamente por esta época, contendo uma de suas mais perfeitas letras, versos em que deixa resumido todo o seu antiromantismo, 230 toda a sua certeza de que os tempos das paixões como a de Romeu ejulieta ficaram para trás, que toda a poesia do amor, hoje, é outra, coronéis em lugar de romeus, brilhantes em vez de canções, o canto dos menestréis da noite mal alcançando os ouvidos distantes de uma amada gananciosa e infiel. O fox-trot chama-se Julieta. Uma Julieta como Julinha. Julieta Não és mais um anjo de bondade Como outrora sonhava O teu Romeu. Julieta Tens a volúpia da infidelidade E quem te paga as dívidas sou eu... Julieta Tu não ouves meu grito de esperança Que afinal de tão fraco não alcança As alturas do teu arranha-céu. Tu decretaste a morte aos madrigais E constróis um castelo de ideais No formato elegante de um chapéu. Julieta Nem falar em Romeu tu hoje queres Borboleta sem asas, tu preferes Que te façam carícias de papel. Nos teus anseios loucos, delirantes Em lugar de canções queres brilhantes Em lugar de Romeu, um coronel. Noel Rosa e Ismael Silva estreitam sua colaboração, produzem cada vez mais juntos, formam dupla para gravar. Gente Boa e Batutas do Estácio são algumas designações

com que os dois, quase sempre reforçados por Francisco Alves, atuam em discos e em recitais. Gravam coisas menores do próprio Noel, como Quem Não Dança, samba em forma de partido-alto cujos improvisos não vão além de dois versos, o segundo tendo de rimar com "criança". Quem não dança, quem não dança Pega na criança Quem não dança, quem não dança Pega na criança. Você é um contrapeso Que não entra na balança. Veja se carrega pedras Enquanto você descansa. Quando peço mais amor Quero menos confiança. Não pretendo andar no luxo Toilette é lá na França. Eu sou muito liberal Mas não uso aliança. Por qualquer mil e quinhentos Você faz uma lambança. O juiz apita sempre Mas nem sempre a linha avança. Ou brincadeiras como Seu Jacinto, marcha para o carnaval de 1933O que eu sinto e não consinto É seu cinto se afrouxar Seu Jacinto aperta o cinto Bota as calças no lugar. O seu Jacinto tinha que comprar feijão Mas não tinha um só tostão E o caixeiro estava duro Ele não gosta de pagar feijão à vista Porque sendo futurista Paga sempre pro futuro. O seu Jacinto que é cheio de chiquê Eu não sei dizer por que Dorme de cartola e fraque Anda dizendo que o seu sonho dourado É morrer esmigalhado Por um carro Cadillac. O seu Jacinto já arranca a sobrancelha E só bebe mel de abelha Para ser um doce amor A tia dele que até hoje é melindrosa Pra ser leve e vaporosa Toma banho de vapor. Quando tem baile lá na casa da Thereza Ela faz pano de mesa Com o lençol que cobre a cama Bota nos copos água usada na banheira Depois diz à turma inteira Que é cerveja lá da Brahma. Seu Jacinto, no caso, é o brasileiro destes tempos, que deve manter a pose apesar da fome ("O que eu sinto e não consinto é seu cinto se afrouxar"). Apertar o cinto é a palavra de ordem, economizar, não se gastar o pouco que se tem. Uma marcha que - por outros motivos que não o retrato que traça do Brasil de agora - vai provocar um protesto pela imprensa assinado por Jota Tojeiro, pianista e compositor que em carta aberta refere-se à campanha liderada por Renato Murce pela moralização e restauração do bom-gosto nas letras da música popular brasileira. Tojeiro diz: "... lamento ter Renato Murce apresentado em público o nome do Sr. Noel Rosa e outros como poetas-moralistas nas músicas de sabor popular; talvez o senhor Renato Murce

231 não conheça a marcha Seu Jacinto de autoria do poeta-moralista, cuja letra é bem... interessante. O final da letra desta marcha é bem desagradável para quem tem família e tem a infelicidade de ter um rádio em casa ligado para qualquer das nossas estações."(4) Quem não vive de aparências é a baiana a quem Noel e Ismael chamam de Dona do Lugar, uma crônica da roda de samba e a primeira homenagem de Noel à Bahia. Chegou a dona do lugar Chegou... Pelo modo de pisar Se vê que é iaia de loiô. Lá vem ela, lá vem ela Com o loiô do seu lado Arrastando a chinela Dizendo samba raiado. Quando ela pega a sambar Com o seu sapateado Todos ficam a gritar Dando viva ao Cais Dourado. E essa bela Iaia Não acredita em muamba Ela tem um patuá Que é todo o nosso samba. Vou pedir, vou implorar Ao meu Senhor do Bonfim Pra fazer essa iaíá Se apaixonar por mim. De linha melódica impecável, em ambas as partes, Isso Não Se Fazé um dos belos sambas da dupla Ismael-Noel: Assim, poderei te perdoar Se é que mudaste de pensar Se tens prazer em me ver chorar Por favor me deixa em paz Isso não se faz. Devias pagar Por fazer chorar A quem te tratava tão bem Mas eu aprendi O que fiz por ti Não hei de fazer por mais ninguém. Eu só quero ver O teu proceder Se a tua promessa é fatal Eu tenho razão Não digas que não Porque tu já me fizeste mal. Os dois sambas serão gravados por Castro Barbosa & Jonioca, o primeiro, ejoão Petra de Barros, o segundo, mas em nenhum deles o nome de Noel constará do selo do disco. Ao contrário de Assim, Sim, marcha, uma das poucas de toda obra de Ismael Silva. Gravada por Carmem Miranda enquanto Noel e os Ases do Samba estavam no Sul, possui refrão suave e elegante, como quase tudo que Ismael faz, e aquela imprecisão de que ele tanto gosta. Interessante, também, a estrutura dos versos de Noel: um alexandrino e duas redondilhas maiores. Assim, sim Mas assim também não Já não gostas mais de mim Mas eu não te dei razão. Infelizmente este mundo é sempre assim Quem ri muito no começo Chora quando chega o fim. Em mar de rosas começou nossa amizade

E depois tu me entregaste A tristeza e a saudade. E muita gente que a tristeza desconhece Chora às vezes de alegria Quando ri de quem padece. Nas tuas juras eu sorrindo acreditei Hoje eu choro já descrente Vendo quanto me enganei. Carmem Miranda já é um cartaz da música popular. Não tem grande voz, sustenta com dificuldades as notas mais longas, por vezes peca na afinação. Mas é uma estrela. Seus discos vendem muito, mas é nas apresentações em palco que ela realmente brilha. Ali conquista seu público, arrebata corações, embriaga fãs, domina platéias. A vendagem dos discos torna-se conseqüência do que exibe em carne e osso. Carne e osso é bem o caso. Porque a graça de Carmem Miranda - a imprensa não se cansa de se referir a esta graça, evitando termos "mais ousados", ainda que menos precisos -faz-se de uma irresistível sensualidade. Aracy Cortes pode mostrar pernas e metade do busto no palco, os homens da platéia também chegarão ao delírio. Outras grandes mulheres do teatro de revistas, pelo sumário da roupa ou pelas anedotas picantes, produzirão efeito idêntico. Há sensualidade igualmente nessas estrelas. Mas o que acontece com Carmem Miranda é diferente: ela consegue tudo isso e muito mais coberta da cabeça aos pés, apenas com a tal "graça", os requebros, os gestos de mão, o olhar malicioso. O público enxerga por trás de suas roupas, vê-se tocado pelo seu magnetismo. Quem disse que não se trata de uma grande cantora? Para os homens que estão no teatro é a maior cantora do mundo. Para os músicos que a acompanham, talvez mais.- conta-se que os componentes da orquestra de Pixinguinha costumam desafinar toda vez 232 que Carmem, gravando na Victor, requebra diante do microfone. Mas há quem não goste muito de Carmem Miranda. Não a mulher, mas a intérprete. Orestes Barbosa é um. Noel Rosa, outro. As restrições que Orestes faz ao modo de Carmem cantar não deixam de se prender àquele fundo antilusitanista que o poeta coloca em tudo. Porque ele nunca perde oportunidade de lembrar às pessoas que Carmem nasceu em Portugal, sendo apenas "mais um exemplo da força trituradora do Rio que refina, como numa usina, os elementos aportados ao nosso torrão"5. Em Noel, não há indícios de nacionalismo em sua falta de entusiasmo por Carmem Miranda, a intérprete. Não é segredo para ninguém sua má vontade para com brasileiros que cantem numa língua que não a sua - e quem pode esquecer que Carmem começou sua carreira interpretando tangos, sendo até hoje acusada de "argentinite"?(6) Mas realmente não é este o motivo. A propósito, ainda outro dia, encontrando-se no corredor de uma emissora de rádio com o cantor de música americana Hamilton Burns, Noel perguntou: - Teu inglês é mesmo bom? - É perfeito.

- Então não deixa o diretor da estação descobrir. - Ora essa! Por quê? - No dia em que um desses diretores de broadcasting perceber que tem um cantor de fox que entende o que canta em inglês, joga ele na rua. As restrições de Noel à criadora de Taí-e que vão ficar sintetizadas num comentário tão ou mais irônico do que o feito a Hamilton Burns: "Isto é samba ou aquela outra coisa que Carmem Miranda canta?"7 - também têm pouco a ver com o fato de os dois freqüentarem mundos diferentes, Noel os morros, os botequins baratos, as rodas de malandro, ao passo que Carmem corteja a sociedade e é por ela cortejada, tem amigos entre gente da alta, recebe convites para festinhas grã-finas, os Guinles a admiram, canta nos perfumados salões do Fluminense. Mundos, sem dúvida, muito diferentes. Mas se fosse este o motivo das reservas de Noel, na certa o refinado Mário Reis não seria um de seus intérpretes preferidos e mais constantes. A questão envolve apenas aspectos musicais. E só. Sabemos que, ao escolher o caminho da música popular, Noel entregou se de corpo e alma ao samba. Não o velho samba, qualquer samba, ou o samba que eventualmente Carmem Miranda também canta, mas aquele que se traja rigorosamente dentro do figurino do Estácio. Assim como o que faz Ismael Silva, ou Cartola. Carmem Miranda jamais se sentirá inteiramente 233 à vontade nesse campo. Tem clara predileção pelas marchas(8). E aos sambas que canta imprime sempre a sua marca, brejeira, interessante, pessoal, notável principalmente pelo fraseado, pela habilidade com que pronuncia nítida e rapidamente versos longos nos quais uma cantora menos ágil tropeçaria. Mas uma marca que nem de longe se afina com a alma dos sambas do Estado. Carmem será melhor intérprete de sambas ligeiros, quase choros cantados, à maneira de Gadé, Vicente Paiva, Heitor Catumby, do que de composições de Alcebíades Barcellos. Cantará melhor Ary Barroso e Joubert de Carvalho do que Armando Marcai. Ismael Silva? Tirando Assim, Sim, por sinal uma marcha, nada mais gravará dele. Cartola? Noel Rosa estava no Sul com os Ases do Samba quando Carmem gravou Tenho Um Novo Amor, dele com Noel Torna-se impossível reconhecer por trás da interpretação da cantora, sem calor, aos arranques, vestígios do mesmo compositor que há dois anos, pela voz de Francisco Alves, começou a sair do anonimato: Que infeliz sorte! Que infeliz sorte! Que vale que o meu coração Pra resistir esta paixão é forte. Tão pouco identificada está Carmem com o universo de Cartola e Noel que (talvez por estar este ausente do Rio) decidiu fazer modificações na letra de Tenho Um Novo Amorpara torná-lo mais digno de uma amiga dos Guinles, de uma freqüentadora do Fluminense. Assim era o coro original, possivelmente só de Cartola: Tenho um novo amor Tenho um novo amor Que vive pensando em mim Não quer me ver sujo nem rasgado Gosta que eu ande assim bem trajado.

no palco do Cine-Teatro Broad-way. As sessões de cinema começam às 7 e 11 horas. na Cinelândia. é ele apresentado como o clown do elenco. quem se importa com o filme que vem depois. é possível concluir alguns pontos a respeito da participação de Noel Rosa neste segundo Broadway Cocktail. Jacy Pereira. mais um pouquinho. Elisinha Coelho e Carolina Cardoso de Menezes. Pelos programas que o cinema distribui (e pelos anúncios e notas que os jornais publicam). no Cine Eldorado. Eu não quero dar a perceber Que gosto demais do meu amor Se ele compreender Vai se convencer De que tem para mim um enorme valor. Com um elenco destes. acompanhados pelos violões e bandolins de Josué de Barros. Laura Suarez. Se acaso algum dia se apagar Do seu pensamento o meu amor Para não chorar E não mais penar Mando embora a saudade pra livrar-me da dor. a cantora que . Carlos Lentine e João Martins. O novo espetáculo denomina-se Broad-way Cocktail. o Gorgulho. em agosto de 1931. apenas duas semanas. Carmem Miranda. a empresa Ponce & Irmão vem realizando desde o ano passado espetáculos variados em seus palcos. Com o objetivo de atrair mais público para os filmes que exibe. Almirante e Noel Rosa. Generoso Ponce. Foi um êxito. A idéia dessas funções de palco-e-tela é de um dos donos da empresa. Recordemos que o próprio Noel participou de um desses programas. de 8 a 21 de agosto de 1932. do rádio e do teatro. Carmem Miranda. no mesmo palco. assiste-se a um desfile de artistas da música popular. Pelo preço de um ingresso. Lamartine Babo. Raul Roulien e Lia Tora em Eram Treze? São dois espetáculos diários. recebe convite para outro. na verdade o segundo de uma série que se manterá até o ano que vem. e logo em seguida ao filme.Eis como ficou o coro após a alteração. O primeiro dos Broadway Cocktail realizou-se na semana de 25 a 31 de julho com a apresentação de Sílvio Caldas. durante quase duas horas de música popular. Agora. Em primeiro lugar. enquanto Francisco Alves é o Rei do Samba. Também. seguindo-se as duas segundas partes de Noel: Tenho um novo amor Tenho um novo amor Que vive pensando em mim Não quer me ver triste nem zangada Gosta que eu ande assim engraçada. com o Bando de Tangarás e seus adendos. ninguém menos do que Francisco Alves. Mas este segundo vai muito mais além. As relações profissionais mais estreitas e duradouras que Noel Rosa e Carmem Miranda manterão vão se limitar a duas semanas. pudera: juntos. um às 5 da tarde e outro às 9 da noite. "Noel Rosa e seus sambas humorísticos".

verão nele não mais que um humorista. Quero lembrar o passado Por um prazer.espécie de ilha neste mar de ironias e anti-romantismo que são suas obras de agora . provavelmente. do primeiro samba-canção de Noel. parece fazer-se muito mais em cima do humor de Noel. e Almirante. A publicidade. também sambascanções. sem dúvida alguma.é um dos sambas mais bonitos que jamais fará. sem que muitos se dêem conta. Pela linha melódica inspiradíssima e também pela letra. como o Diário Carioca. dos sorrisos que será capaz de arrancar da platéia com sambas não exatamente humorísticos. como A Noite. Cabe também a Francisco Alves lançar aqui julieta.. os três que ele próprio interpreta. . Noel Rosa disse muita coisa de espírito." ou "o amor é um pecado. mas Castro Barbosa. embora não seja ele. gênero que soma o lirismo das canções cultivadas em serenatas à cadência brejeira dos sambas. é lançado por Francisco Alves neste segundo Broadway Cocktail: A nossa imensa felicidade Foi uma nuvem que já passou O teu amor que traz saudade Foi estrela que brilhou E pra sempre se apagou. no qual seu parceiro Henrique Vogeler fez-se pioneiro há quatro anos. mas quem não ama é pecador. Meu ideal foi desfeito Não quero mais amizade Para não trazer no peito O atroz veneno da saudade. No céu do amor a saudade Brilhando sempre ficou E a nossa felicidade Foi uma nuvem que passou. Por último. as honras do cocktail.. Nuvem Que Passou.. Coração e São Coisas Nossas. Enfim." Trata-se. fazendo rir durante quase todo o tempo em que esteve em cena.tem it na voz e no gesto. Alguns jornais.. composto antes de Mentir e Pra Esquecer. quem o levará ao disco. o Príncipe da Embolada. A mulher mente brincando E às vezes brinca mentindo Quando ri está chorando E quando chora está sorrindo."(9) Outros. onde estão presentes jogos de palavras e contraposições tipicamente suas: "A mulher mente brincando e às vezes brinca mentindo. mas por sua efetiva presença como compositor que Noel Rosa se destaca no segundo Broadway Cocktail. uma dor O amor é um pecado Mas quem não ama é pecador. ainda que o batizando de "Bernard Shaw do Samba": "O Almirante conquistou numerosas palmas com as suas emboladas tão do agrado do público nosso. do que pelo fato de ser autor ou co-autor 235 de nada menos do que oito das treze músicas do programa. portanto. Uma delas . não é pelo humor. mas originais e intrigantes como Quem Dá Mais?. serão mais efusivos: "A Almirante e Noel Rosa cabem.

Ou no cimo de um monte uma choupana.. nunca vendo as coisas por um prisma colorido. o semanário V2i perguntar à gente do meio artístico se um amor e uma choupana são o bastante(12). Tens alguns dinheiro aí? 236 Hoje é moda.11 .. servindo agora de aperitivo para novo filme. Canta três sambas de sua autoria. Barbara Stanwick e Ricardo Cortez em A Vida É Uma Dança (Ten Cents A Dance).Soprar a flauta quérula... organizado para ficar em cartaz apenas uma semana. Entre nós. cada qual melhor. E em volta da cabana . minha querida. Lirismo não é com ele.. entusiasma o público. com suas emboladas características.. de cana.. nós já prevíamos o sucesso que obteria." Aurora Miranda: "Você tem cada uma! Onde já viu você que nesse tempo dos arranha-céus possa a gente pensar em cabanas. Viver feliz com teu amor E .. música e letra de sua autoria. que diz: Uma barquinha branca. mas o brilho maior fica mesmo com Noel Rosa. Uma cabana. Quem é que vai para a cabana?" Noel prefere responder com Alô Beleza. estende-se por mais uma. que jamais serão gravadas: Alô beleza Andas por aqui? Cada vez mais cada vez. Diz Carmem Miranda: "Meu nego. Ter um rebanho e ser pastor.. O mar em frente. Será sempre assim. Daqui a três anos. meu benzinho (Eu te digo com franqueza) Dar amor.O primeiro.nada mais. que custa a deixá-lo sair de cena. Já existe intimidade . Quanto a Noel Rosa..E em volta da choupana laranjais. "Teu amor e uma choupana São palavras sem valor Teu amor e muita grana Isto sim que é amor..." Antônio Nássara: "Tem os seus conformes e os seus breques...... Cada vez com mais feitiço Por falar nisso. fazer carinho E pagar sempre a despesa.. .coqueirais. as estrelas são Francisco Alves e Carmem Miranda. .. A Voz do Rádio vai empreender uma de suas enquetes em torno de trivialidades do tipo "o amor é eterno?" Partindo de um poema de Adelmar Tavares. Sucesso tão grande que o segundo Broadway Cocktail... amor com cabana é do século das saias rodadas.."(10) Portanto. A vida soberana De ser pobre e pescador Viver feliz com o teu amor E nada mais.

Com Clara ele é um namorado mais ou menos esporádico. Pelo andar. as delicadezas várias. queixa-se com a avó. Coloca-o no chão da sala. Não só pelo cafezinho. Fina espera. mas sempre úteis. Um dia ele toma jeito. volta. No dia seguinte. Fina-in tervém dona Luísa. tão aceitativa. impacienta-se. xinga. na hora de seguirem para a festa. Ouve então oportão da rua se abrir e por ele entrar. Fina está cada vez mais furiosa. Noel continua sumindo.Dê algum por despedida Pra matar minha saudade. numa noite de domingo.. mas jamais ficará sem resposta. rachando-o. deve ter bebido um barril de chope. . É tão acalentado o sonho de Martha que ela chega mesmo a aproveitar as horinhas de folga para preparar o enxoval de Clarinha. Está pálido. é a namorada do Noel. . E ele trouxe o violão! Mas. mas volta sempre. Noel fala. todo o mundo lá na festa querendo saber onde estão ela. sempre se apoiando na grade da varanda. Vomita na varandinha. E fugindo de Fina também. trocando pernas. meses. Noel tem um violão guardado na Rua Moju. vai ao portão.Não fale assim com ele. em tratar da própria vida. pela voz. Fina sabe disso e está certa de que o namorado. peças simples. Uma fronha hoje. por tudo. Clara pensa em desistir. diz andar ocupado. Esta não é tão calma. Sente vontade de chorar. um pano de mesa amanhã. salta com os dois pés sobre ele. conversando com ela no portão do chalé numa tardinha de segunda-feira para desaparecer na terça. Enquanto isso. fazendo força para não cair. abafa-lhe as palavras. estridente. Imaginem o que as pessoas irão dizer ao vê-la chegar. passando mal. some por semanas.Boa noite. Dona Luísa está sempre do lado de Noel.Deixa ela. . Dona Martha não a desanima.Fina! .Você não presta. . Se bebeu demais. Como ousa deixá-la esperando. Noel Rosa e o violão? Fina começa a trocar de roupa. as broas de milho. combinam ir a uma festa na casa de uma família amiga. Deixa ela. Um domingo. O atraso é tanto que jura por todos os santos que nunca mais olhará para ele. Noel começa a dar uma desculpa. Puro anti-romantismo.Olhem. roga pragas.protesta a avó..-Sabe de uma coisa... ainda dando aulas aos alunos de alfabetização no Externato Santa Rita de Cássia.É assim mesmo. . mas pela compreensão que tenta passar à neta. Não desiste do sonho de ver o filho casado com Clara. levará o violão. Que ela aceita. arrebenta-lhe-as cordas. dona Luísa?Eu amo sua neta! Eu amo. Para que deixar tudo para a última hora? Às vezes. com novas desculpas. dona Luísa. Enquanto isso. Inventa desculpas. abandona a idéia de sair. chama-a para pedir-lhe que tenha paciência com o namorado. Noel! .Nunca mais fale comigo!Nunca mais! Fina vai lá dentro apanhar o violão. deve ter seus motivos. Noel pode fazer-lhe das suas. apóia-se na grade. o atraso de Noel é maior do que das outras vezes. o namorado. baratas. Quem sabe algum desgosto? . Está mesmo dividido por três. Fina volta com o violão. neste domingo. dona Luísa. mas a voz de Fina.

- Porque Noel, minha filha, no fundo é um moço triste. Trate-o bem. As pessoas tristes precisam de mais atenção. Fina vai continuar tratando Noel bem. Com Julinha tudo é diferente. Nem bons tratos, nem atenções. Muito menos uma aliada como dona Luísa para tornar menos azedas as brigas de amor. Um amor que se revela mais complicado e penoso cada vez que ela abusa de bebida. Os dois, Julinha e Noel, gostam de beber. Também ele, quando ultrapassa determinado limite, pode fazer-se difícil, inconveniente, provocador e até agressivo. As bebedeiras nos cabarés em nada se parecem com aquela, dada a arroubos, que dona Luísa testemunhou.- "Eu amo sua neta!" São bebedeiras que às vezes incomodam os outros. E quando os incomodados reagem, o magrícemo Noel se pondo a postos para uma briga que na certa perderá, é sempre bom estar por perto um dos muitos valentes da Lapa que se incluem entre os seus amigos. Não havendo por perto este defensor oportuno Noel invariavelmente apanha. E feio. Mas, ainda assim, sua embriaguez é menos tumultuosa que a de Julinha. - Vou me matar!- costuma ameaçar no auge dos seus pileques. Tudo que faz - desde as ameaças de suicídio 238 às desagradáveis cenas em que tanto pode xingar gratuitamente um dos fregueses como quebrar copos e garrafas - é para chamar a atenção. Um dia tenta afogar-se mergulhando nos dois palmos de profundidade do riacho do Passeio Publico. No outro, tenta atirar-se do carro de Pará em movimento. Sempre motivada pela bebida. Nas discussões com Noel, enquanto ele procura falar baixo, para que ninguém mais o ouça, ela grita, desgrenha-se, faz tudo para envergonhá-lo. Também Julinha, numa das incontáveis brigas entre eles, quebrou-lhe o violão. Por que será que as mulheres vivem se vingando no violão de Noel? Bem pode ter sido para Júlia Bernardes que ele compôs este ÉDifícil Saber Fingir, que não chegará a ser gravado. É difícil Saber fingir, meu bem Mas você tirou patente Privilégio que ninguém tem. É capaz De beber um litro de perfume Só pra fingir Que está louca de ciúme. Não hei de me admirar Se algum dia Você se atirar no meio da baía Pondo a família Em grande agitação Só por fingimento, Pura tapeação! Dividido por três, a Clara dos olhos meigos, a Fina do riso de criança, ajulinha das brigas de amor, o anti-romântico Noel vai vivendo intensamente.

NOTAS 1. É ainda em Harmonia, número de dezembro de 1932, que a autoria do samba está atribuída a Ismael e "Noel. Mas o próprio compositor do Estácio, muitos anos depois, contaria ao jornalista José Lino Grünewald - segundo depoimento deste aos autores - que ele e Noel usaram o nome do jornaleiro Antônio dos Santos. 2. De acordo com Almirante, teriam sido cinco os sambas de Noel Rosa inspirados em Julinha: Feitio de Oração, Vai Para Casa Depressa, Cor de Cinza, Pra Esquecer e Meu Barracão. Nenhum deles, porém, parece conter elementos autobiográficos que permitam concluir que a musa era de fato ela. O primeiro é muito mais um hino de louvor ao samba e à Penha do que à mulher amada. O segundo, como se verá no capítulo seguinte, é uma digressão filosófica, do ponto de vista do malandro, em torno de uma disputa amorosa. Em entrevista à revista Carioca - da qual se transcreve trecho, logo adiante, neste mesmo capítulo - Noel esclarece a origem de Pra Esquecer, em nada ligada a Julinha. Meu Barracão, que também será estudado mais à frente, é menos um canto de amor do que uma referência saudosa à Penha e ao barraco, embora este bem possa ser a modesta casa onde Noel viveu com Julinha. Quanto a Cor de Cinza, assunto bem mais complexo, será focalizado no Capítulo 41. 3. Carioca, 18 de julho de 1936. 4. Diário Carioca, 5 de janeiro de 1933. 5. Samba, segunda edição (página 59). 6. Carmem Miranda de fato gostava de cantar tangos no começo de sua vida profissional. Já no histórico recital no Instituto Nacional de Música, seu primeiro contato com Josué de Barros, o violonista que praticamente a descobriu, ela cantava Garufa e Mama, Yo Quiero Un Novio (depoimento de Josué de Barros incluído por Queirós Júnior em seu livro Carmem Miranda - Vida, Glória, Amor e Morte, páginas 20 e 21). Em entrevista a O Paiz, de 22 de junho de 1930 (página 8), diz ela: "Amo o tango. Ele me faz vibrar todas as cordas..." A "argentinite" não se deveria apenas a isso, mas principalmente às suas constantes viagens artísticas a Buenos Aires, a primeira com Francisco Alves e Mário Reis em outubro de 1931. De 1933 a 1938, não haveria um só ano em que ela não se apresentasse em teatros ou emissoras de rádio da Argentina. Na página 19 de O Cruzeiro de 4 de abril de 1936, lê-se: "Os artistas do broadcasting carioca estão atacados de 'argentinite'. Esta nova moléstia foi inoculada por Carmem Miranda, assim uma espécie de coqueluche." Se Noel Rosa realmente dava importância a essa vocação internacionalista de Carmem, é possível imaginar como teria reagido se vivesse o bastante para testemunhar a carreira da cantora nos Estados Unidos. 7. Jacy Pacheco, em Noel Rosa e Sua Época (página 95), já nos falava desse comentário feito por Noel a Aracy de Almeida. Em depoimento aos autores, Aracy o confirma. 8. Segundo levantamento de Abel Cardoso Júnior em Carmem Miranda, a Cantora do Brasil (páginas 235 e 236), das 281 músicas gravadas pela cantora antes de ir para os Estados Unidos, 107 eram marchas, 36 menos que o total de sambas. 9. A Noite, 9 de agosto de 1932 (página 5). 10. Diário Carioca, 10 de agosto de 19.32.

11. Poema sem título que abre o livro Myriam - Luz dos Meus Olhos, de Adelmar Tavares, 1912. 12. A Voz do Rádio, 11 de setembro de 1935. 239

DO CHÁ DAS QUINTAS AO CAFÉ NO NICE Capítulo 24 Orestes Barbosa entregou-se à nossa poesia popular com verdadeira paixão. E apresentou sambas e canções do outro mundo. entrevista ao Diário Carioca Como ser romântico num mundo desses, de amores nada parecidos com o de Romeu e Julieta, de relacionamentos complicados que se constróem sobre mentiras e hipocrisias? Noel tem alguns motivos para encarar com os olhos da incredulidade o mundo à sua volta. Um deles, sua própria casa. Quando se tinha a impressão de que as coisas voltavam a correr bem por lá, Hélio já se preparando para ingressar na Escola de Veterinária, Martha cuidando do externato com a ajuda de Clara, Neca finalmente sossegado, eis que o chalé mais uma vez estremece. O próprio Noel guardará numa pasta de papelão os documentos que ajudarão a contar a história desses novos tempos desinsofridos que o pai vai enfrentar(1). São ofícios, portarias, memorandos, relativos às suas atividades como funcionário da Inspetoria de Abastecimento da Prefeitura do Distrito Federal, aquele mesmo emprego que o compadre Graça Mello lhe conseguiu depois que os planos da bicicleta aquática foram a pique. Durante dois anos - de 1930 a 1932 - estes documentos só tratam de promoções e elogios ao servidor público Medeiros. Por exemplo, no dia 8 de outubro de 1932, o diretor interino Annibal Martins Ferreira agradece-lhe "pela colaboração que lhe prestou durante sua interinidade como diretor-geral, no desempenho das funções de ajudante, cargo que ocupou com manifesta competência". Pois bem. Dois dias depois, 10 de outubro, o capitão Luiz Celso Uchôa Cavalcanti, recém-nomeado diretor-geral titular da mesma Inspetoria, dispensa Medeiros como ajudante. O que se segue é uma clara divergência entre os dois. Sobre várias questões administrativas, principalmente a que trata do reajuste dos preços de produtos alimentícios. O capitão é a favor dos aumentos. Medeiros, contra. Relatórios de um não deixam nada satisfeito o outro. O ex-ajudante demonstra não haver necessidade de se onerar ainda mais a população, já sendo tão altos os lucros de produtores e comerciantes. Uchôa, por algum motivo, pensa diferente. E resolve afastar Medeiros, colocá-lo longe de tudo que diga respeito ao tabelamento de preços, deixá-lo na geladeira. Feito isso, caminho livre, os preços são aumentados. Por mais de um ano o funcionário antes merecedor de elogios e promoções fica fora de cena. Até que a 12 de janeiro de 1934, convencido de que a razão estava com

ele, o Interventor no Distrito Federal, Pedro Ernesto Baptista, o reabilita. Medeiros volta às suas antigas funções. Está tudo documentado na pasta de papelão, a nomeação para a Inspetoria a 17 de outubro de 1930, os elogios, as promoções, a 241 destituição, as repreensões, o afastamento e, por fim, o ato de justiça. Para Neca e todo o mundo no chalé, foram meses de angústia aqueles passados em oposição ao diretor-geral. Angústia e revolta. Um funcionário exemplar sendo perseguido por agir certo, por não querer que o bolso do povo se fizesse mais vazio. Noel guardará mais do que cuidadosamente os documentos. Como se para lembrar, sempre que preciso, o quanto o pai sofreu sem merecer. Sim, porque os meses de afastamento do trabalho o aniquilaram mais uma vez. Ou para lembrar o quão pouco parece valer a honestidade neste mundo de espertezas, interesses escusos, logros, golpes, mentiras. É pensando nisso que compõe Onde Está a Honestidade?, crítica social e anti-romantismo em tempo de samba: Você tem palacete reluzente, Tem jóias e criados à vontade. Sem ter nenhuma herança nem parente, Só anda de automóvel na cidade... E o povo jâ pergunta com maldade: "Onde está a honestidade? Onde está a honestidade?" O seu dinheiro nasce de repente, E embora não se saiba se é verdade, Você acha nas ruas diariamente Anéis, dinheiro e até felicidade... Vassoura dos salões da sociedade Que varre o que encontrar em sua frente, Promove festivais de caridade Em nome de qualquer defunto ausente... Manuel Garcia de Medeiros Rosa jamais se reerguerá. Sua obsessiva honestidade que o fez lutar tanto, quebrar pedras, afastar-se de casa, sacrificar-se, quase morrer para pagar uma dívida imaginária - não terá sido, afinal, inútil? Noel acha que sim. O pai continua sendo castigado pela vida. Perde a força, o entusiasmo, os sonhos. Abate-se, cai. Desta feita para sempre. Torna-se cada vez mais apático, vazio, voltado para si mesmo. Se isso, nos últimos dois anos, abrandou-o, melhorando seu convívio com a mulher e os filhos, por outro lado fez dele uma ruína. Um homem entregue, deprimido, silencioso e triste. Noel não é um xenófobo, não chega a ser um nacionalista intransigente, mas cultiva certa avessia a estrangeiros e estrangeirismos. Aos primeiros já vimos por quê: são os vilões de sua infância. Já os estrangeirismos simplesmente não combinam com seu jeito de ser. São chiques de grã-finos e intelectuais enfatuados, pura moda, mania de exibição. O homem do povo não os conhece. Ou, se os conhece, não os absorve. Não inteiramente. O Brasil para Noel Rosa - como para a maioria dos chamados

"cariocas da gema" desta época - não está tão distante, para lá do Atlântico ou entre nós e o Pólo Norte, mas aqui perto, na cidade do interior, no morro, no bairro, na esquina. Ou mesmo no botequim, na gafieira, na pensão de mulheres, no carnaval, na roda de jogo, nos lugares enfim onde todos os brasileiros se igualam. Seu nacionalismo tem esse sentido. De gostar das "coisas nossas". De preferir o samba aofox-trot. Nisso não está só. Ainda outro dia Assis Valente foi a uma festa em Vila Isabel. Uma reunião literomusical como as que os Boamortes costumam organizar, compositores, escritores, homens da política, artistas. Assis notou que alguns convidados, os mais posudos, enxertavam seus diálogos de palavras, frases inteiras, em inglês ou francês. Em plena Vila Isabel, a Vila verde e amarela de Orestes Barbosa e Noel Rosa, Almirante e seus tangarás. Assis ficou impressionado com aquilo: - Good evening... Bon soir... E criticou o palavreado numa marcha carnavalesca: Não se fala mais boa-noite, nem bom-dia, Só se fala "good morning", "good night"... Embora bem-feita - e ganhando popularidade na voz de Carmem Miranda - esta marcha, intitulada Good-bye, não terá a força crítica e o apelo do samba que Noel vai escrever inspirado na mesma mania de exibição2. O cinema falado chegou ao Rio de Janeiro em 1929- Como toda novidade importada de país mais adiantado, contou com imediata adesão brasileira. Em 1931, já tínhamos o nosso primeiro talkingfilm. Como se recorda, motivador de Noel na criação de um samba brasileiríssimo, não por acaso intitulado São Coisas Nossas. Nesses quase três anos, porém, a influência do cinema saiu dos limites da novidade e da arte para se instalar em praticamente todos os setores da vida brasileira. Principalmente na moda. As mulheres passam a se vestir, pentear e pintar conforme gostem de se parecer com Janet Gaynor ou Jean Harlow, Kay Francis ou Ruth Chatterton, Irene Dunne ou Greta Garbo. Os homens afinam seus bigodes até ficarem como o de Ronald Colman, treinam o sorriso cínico de Douglas Fairbanks, espicham as costeletas à maneira de Fredric March. Simultaneamente aos filmes, uma boa parte deles musicais, a Odeon e a Victor lançam em seus suplementos discos originais ou com letras em português das canções de Cavadoras de Ouro, Rua 42 242 e Belezas em Desfile. Todos se apaixonam pelas extravagâncias de Busby Berkeley. Claro, o cinema falado não foi o culpado de toda transformação. Por exemplo, se agora já se dança mais o fox-trot que o samba, pelo menos em certos bailes, na década passada muitos ritmos estrangeiros também estiveram em voga. E o cinema ainda era silencioso. Mas o que realmente a novidade veio mudar foi o linguajar do brasileiro. Antes, tudo que de inglês o povo falava eram os termos do futebol (foul, penalty, free kick, team, corner, off-side), resquícios das origens algo britânicas e muito

elitistas do esporte entre nós. Agora, o inglês está-em todas as falas. Dos jovens e dos velhos, dos jornalistas e dos homens de teatro, dos escritores e dos sambistas. Até o malandro aderiu aos "hellos" e "by-bies" que se incorporaram aos cumprimentos do carioca. Noel é atento a isso. E o registra num de seus sambas mais perfeitos e duradouros. O espanto pela influência do cinema falado passará, mas a beleza do samba não: O cinema falado É o grande culpado Da transformação Dessa gente que sente Que um barracão Prende mais que um xadrez. Lá no morro, se eu fizer uma falseta, A Risoleta Desiste logo do francês e do inglês. A giria que o nosso morro criou Bem cedo a cidade aceitou e usou. Mais tarde o malandro deixou de sambar Dando pinote E só querendo dançar o fox-trot! Essa gente hoje em dia Que tem a mania Da exibição Não se lembra que o samba Não tem tradução No idioma francês. Tudo aquilo que o malandro pronuncia, Com voz macia, É brasileiro, já passou de português. Amor, lá no morro, é amor pra chuchu, As rimas do samba não são "I love you". E esse negócio de "alô", "alô, boy", "Alô, Johnny" Só pode ser conversa de telefone. Como quase tudo de novo que Noel lança por esta época, Sem Tradução, depois editado e gravado como Não Tem Tradução, é muito comentado. Jurandyr Santos, autor das marchas Alô, John e Bon Soir, enfia a carapuça. Acha que foi pensando nele, apenas nele, que Noel fez seu samba. Publica na imprensa uma polida carta aberta em que diz: "O seu carinho, Noel, pelas coisas corretas, dessa vez falhou." E defende o emprego por ele mesmo, Jurandyr, de palavras estrangeiras: "Eu coligi, apenas, um punhado de expressões usuais, deturpadas, que todos nós compreendemos o que vêm a ser..." Mais adiante, em tom lamentoso: "Você, porém, foi impiedoso. Não pôde, sequer, sopitar a revolta do seu espírito erudito, amigo das expressões castiças puras... E compôs o Sem Tradução para esmagar o seu pobre amigo..." Jurandyr arremata com votos de prosperidade e confessada admiração. Mas perde tempo. O samba não foi feito para ele. Xenófobo mesmo é Orestes Barbosa, que odeia tudo que vem de fora. À distância ainda lhe é possível deglutir ou mesmo apreciar coisas estrangeiras, os poetas franceses,

o nacionalismo mexicano, a forma com que os Estados Unidos "se recusaram a ficar de cócoras diante do túmulo de Byron". Aqui no Brasil, porém, estrangeiro é estrangeiro, seja francês, mexicano ou americano. Não se conforma com o desamor brasileiro às suas tradições, com o pouco carinho que temos por nossa cultura e nossa memória: - O brasileiro pensa que este país nasceu na última segunda-feira e vai acabar na próxima sexta - esbraveja numa das mesas do Nice. Todos o ouvem com atenção neste café que lhe serve de tribuna. Um café que na verdade se chama Casa Nice e que vai entrar para a história como dos mais importantes pontos de reunião do pessoal do rádio e da música popular. Mais que o Carlos Gomes, o Belas-Artes, o Papagaio e o Chave de Ouro juntos. O Nice ocupa, desde sua inauguração a 18 de junho de 1926, o número 174 da Avenida Rio Branco, bem na esquina de Bittencourt da Silva. Portanto, no mesmo prédio do Cinema Eldorado. E no mesmo quarteirão do Liceu de Artes e Ofícios, da Leiteria Nevada, do Cordão do Bola Preta e da redação de O Globo. Do lado de fora do café, dispõem-se mesas e cadeiras de vime entre as quais pode-se tropeçar em cocos verdes espalhados pela calçada. No lado de dentro, dois ambientes. Um deles, o mais elegante, separa-se do outro por divisória de madeira treliçada. Cadeiras forradas, mesas com toalhas muito limpas, onde são servidos almoços e jantar es, lanches, queijos importados, bebidas finas. No segundo ambiente, de mesas de mármore e cadeiras austríacas, fica a turma do rádio e da música popular. E também uma multiforme comunidade de boêmios, contraventores, jogadores. 243 - Você tem certeza de que sabe mesmo o que é um poeta? Se pensa que somos nós, versejadores pretensamente cultos, se engana. Os verdadeiros poetas são os homens do povo cujas rimas todos sabem de cor. O outro não se atreve a contestar. - Ouça isto... E canta: A maçã melhor é a proibida Que entre Adão e Eva é repartida Ela morde o tal fruto saboroso E oferece ao homem que o aceita pressuroso. - O que me diz? E antes que o outro responda, Orestes dispara: - Uma porcaria! E é de Bastos Tigre, homem culto. Agora veja o que fez para a mesma melodia o homem do povo Sinhô... E torna a cantar: Dizem que a mulher é parte fraca Nisto é que eu não posso acreditar Entre beijos e abraços e carinhos O homem não tendo é bem capaz de roubar. Já Noel não se preocupa muito com isso. No máximo, vale-se de suas letras para descarregar possíveis desagrados. Quando não gosta de alguém - e de fato não gosta de muita gente - Orestes Barbosa sequer lhe aceita os elogios: - Como vai o grande poeta? - Poeta? Quem disse? O outro se desarma, já sabendo que vem por aí um terremoto.

- Não sou poeta. Nem eu, nem o Bastos Tigre. Poeta é Sinhô. E também Ismael Silva, Cartola, Noel Rosa. A história das letras diferentes que Bastos Tigre e Sinhô escreveram para a mesma melodia do último, a de Bastos Tigre não fazendo o menor sucesso, a de Sinhô transformando Gosto Que Me Enrosco num clássico, é uma das favoritas de Orestes. Para afugentar chatos que o bajulam chamando-o de "grande poeta" e para deixar bem clara a sua atual - e definitiva - posição diante da poesia. Em lugar dos versos declamados, ou postos no papel, ou reunidos em livros que poucos lêem, estão agora as letras para a canção popular. Em vez da glória literária, dos formais chás das quintasfeiras na casa dos imortais, do sonho acadêmico que alimentou um dia, ficaram a boêmia, os papos sem fim à mesa do Nice, a música. Confessadamente, foi muito por influência de Noel Rosa que o poeta Orestes Barbosa converteu-se, para sempre, no letrista Orestes Barbosa. Coube ao autor de Não Tem Tradução convencê-lo de que a melhor maneira de tornar seus versos conhecidos, de levá-los mais fundo à alma das pessoas, é mesmo Enfeitá-los com música. Orestes será um grande letrista. Dos maiores que o Brasil vai conhecer. Muito diferente, em estilo, de Noel Rosa. Diferente até dele mesmo, isto é, do impiedoso e maledicente conversador do Nice. O Orestes das canções é antes de tudo um romântico. Como ele próprio ainda 245 vai se definir, um "eterno sentimental", o coração sempre aberto a grandes paixões. Será o cantor dos amores frustrados, impossíveis, secretos, mas também das flores e dos passarinhos, das luas e das estrelas, dos perfumes e das pedras da rua. Jamais resistirá a uma imagem, o palco iluminado, o olhar entardecente, a flora do coração, o pássaro roxo, a vespa da intriga, o chão de estrelas. Letras de rara força visual escritas por um poeta maior da canção popular(4). A admiração que Orestes e Noel têm um pelo outro é tanta que era inevitável tornarem-se parceiros. A primeira das quatro composições que criam juntos mal será notada. É um samba, Araruta, que só daqui a sessenta anos vai virar disco(5). Tu pedes Mandando "Faça o favor" a tua boca nunca diz. Tu cedes Negando Com esses olhos que pra mim são dois fuzis. Sou mole, Manhoso, Teus impropérios retribuo com brandura, Pois água mole Na pedra dura tanto bate até que fura! Tu beijas Mentindo A tua boca beija e mente sem sentir. Desejas Sorrindo

Que o teu perdão humildemente eu vá pedir. Não peço, Espero Ainda ver-te entre lágrimas bem mal. Meu bem, escuta: A araruta tem seu dia de mingau! Também passará em branco outro samba dos dois, Habeas-Corpus, de letra muito curiosa, as queixas de amor entremeadas de termos jurídicos, Orestes e Noel convertidos em sambistas togados. No tribunal da minha consciência, O teu crime não tem apelação. Debalde tu alegas inocência, E não terás minha absolvição. Os autos do processo da agonia, Que me causaste em troca ao bem que eu fiz, Chegaram lá daquela pretoria Na qual o coração foi o juiz. Tu tens as agravantes da surpresa E também as da premeditação Mas na minh'alma tu não ficas presa Porque o teu caso é caso de expulsão. Tu vais ser deportada do meu peito Porque teu crime encheu-me de pavor. Talvez o habeas-corpus da saudade Consinta o teu regresso ao meu amor. O bonde do samba "O samba evoluiu. A rudimentar voz do morro transformou-se, aos poucos, numa autêntica expressão artística, produto exclusivo da nossa sensibilidade. A poesia espontânea do nosso povo levou a melhor na luta contra o feitiço do academismo a que os intelectuais do Brasil viveram durante muitos anos ingloriamente escravizados. Poetas autênticos, anquilosados no manejo do soneto, depauperados pela torturante lapidação de decassílabos e alexandrinos sonoros, sentiram em tempo a verdade. E o samba tomou conta de alguns deles. Orestes Barbosa entregou-se à nossa poesia popular com verdadeira paixão. E apresentou sambas e canções do outro mundo. O gosto do público foi se aprimorando. Outros poetas vieram dizer, em linguagem limpa e bonita, coisas maravilhosas. Mais recentemente, Jorge Faraj, outro que abandonou os alexandrinos, tirou a prova dos nove com Telefone do Amor. Esse bonito samba-canção, comovente romance de amor musicado por Benedicto Lacerda, acabou com as últimas dúvidas. É preciso, porém, acentuar que esses poetas tiveram, também, que se modificar, abandonando uma porção de preconceitos literários. Influíram sobre o público, mas foram, também, por ele influenciados. Da ação recíproca dessas duas tendências, resultou a elevação do samba, como expressão de arte, e resultou na humanização de poetas condenados a estacionar pelo sortilégio do academismo. Não duvido que Bilac, se fosse vivo, tomasse o bonde do samba..."

entrevista ao Diário Carioca, 4 de janeiro de 1936. Noel e Orestes anotarão em seus papéis letras não exatamente iguais para este mesmo samba. Diferenças pequenas, de uma ou outra palavra, ou significativas, como acontece nos dois primeiros versos da última quadra. Os de Noel são mesmo estes: Tu vais ser deportada do meu peito Porque teu crime encheu-me de pavor. Os de Orestes, estes: No exílio vais pagar a crueldade Com que desabafaste o teu furor. Um dia os dois amigos e parceiros se encontram no Nice, Orestes sentado, contando seus casos, Noel chegando à porta como se a procurar alguém, sem saber se entra ou se 246 segue em frente. Orestes o chama, puxa uma cadeira, manda que se sente. - Noel, tenho aqui uma idéia que me parece muito boa para um samba. Andei misturando mulher com Augusto Comte: "O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim." Positivismo e amor. Não gostaria de musicar?-e estica para Noel a folha com os versos escritos. São quatro quadrinhas. Metrificadas como tudo que Orestes faz para ser musicado (só se afasta da métrica quando se trata de pôr letra em música já pronta): A verdade, meu amor, mora num poço. É Pilatos, lá na Bíblia, quem nos diz E também faleceu por ter pescoço O autor da guilhotina de Paris. Vai, orgulhosa, querida Mas aceita esta lição No câmbio incerto da vida A libra sempre é o coração. O amor vem por princípio, a ordem por base, O progresso é que deve vir por fim. Desprezaste esta lei de Augusto Comte E fostes ser feliz longe de mim. Vai, coração que não vibra, Com teu juro exorbitante, Transformar mais outra libra Em dívida flutuante. Noel lê, diz que gosta, promete trabalhar em cima. Mas, por algum motivo, vai esquecer a folha de papel entre seus guardados. Para ele, este é um período de intensa produção, um samba atrás do outro para poder pagar mais depressa a dívida pelo Pavão (Francisco Alves é cobrador implacável). Sem falar nos programas de rádio, nos discos, em diversas atividades ligadas à música. De janeiro a dezembro de 1933, não descansará quase. O total de sua obra neste período ficará bem perto da casa dos 40. Uma produtividade que todos admiram: - Você já reparou como o Noel está compondo? É um atrás do outro, tudo com qualidade - comenta-se no Nice. É no mesmo café que Orestes se queixa a Nássara. Noel escreve um samba atrás do outro, é parceiro de todo o mundo, faz uma segunda parte para este, modifica uns

versos para aquele, compõe toda a letra e toda a música para um punhado de gente. Mas... e o seu Positivismo? O que terá Noel feito com seus versos? Perdeu-os? Jogou-os fora? Apossou-se deles? - Nada disso, Orestes. Apenas falta de tempo - Nássara tenta diminuir a zanga do amigo. Mas Orestes vai repetir suas desconfianças em outras ocasiões e para outros amigos comuns. Noel, inevitavelmente, acaba sabendo. Como de costume, nada diz, não vai tirar satisfações, não reclama de Orestes a injustiça de achá-lo capaz de apossar-se de versos alheios. Trata então de colocar música nas quatro quadrinhas. Ele mesmo a leva para Pixinguinha orquestrar. Decide gravar o samba na Columbia, do outro lado de Devo Esquecer. Mas prepara para o parceiro um recado musical. Pede a Pixinguinha que escreva uma longa passagem de orquestra para depois das quatro quadrinhas, como se fosse para concluir. Mas, no final do disco, sua voz reaparece de surpresa cantando uma quinta quadrinha, escrita por ele mesmo e dirigida a Orestes: A intriga nasce num café pequeno Que se toma para ver quem vai pagar. Para não sentir mais o teu veneno Foi que eu já resolvi me envenenar! O que poderá dizer Orestes senão que o sem-queixo é mesmo um gênio e que ele, Orestes, é que acabou se envenenando no próprio veneno? Enquanto existir o chalé, Orestes Barbosa será um de seus visitantes mais assíduos. Desde o episódio de Positivismo - que afinal nem ele nem Noel levaram muito a sério - estreitará sempre mais sua amizade com o parceiro. E não medirá palavras para dizer-lhe e aos outros de sua admiração. Fará isso em suas colunas de jornal, em livro que escreve sobre o samba carioca, nos versos que entregará a dona Martha e que ela, comovida, guardará num pequenino caderno de capa marrom: Felicidade... É o céu na terra amena, É o sorriso da pequena, Muito mais lindo que o céu. É a poesia nos arpejos de lamento Que se sente no talento Das canções que faz Noel. Felicidade... É sonhar de olhos abertos É o oásis dos desertos Das almas que o sol queimou. É uma garota elegante e vaporosa Para quem o Noel Rosa Quer fazer um bangalô. 247 NOTAS 1. Estes documentos pertencem hoje aos arquivos dos autores. 2. Difícil precisar qual dos dois, Good-bye ou Não Tem Tradução, foi feito primeiro, mas é quase certo que tenha sido a marcha de Assis Valente. Em entrevista a

Ary Vasconcelos (O Cruzeiro, 3 de setembro de 1955), Assis recorda que Carmem Miranda cantou Good-bye no segundo Broadway Cocktail, entre 8 e 21 de agosto de 1932. A própria Carmem a gravaria a 29 de novembro, na Victor, sendo o disco lançado em janeiro de 1933. Não se tem registro de que antes disso já existisse Não Tem Tradução, que só seria gravado a 23 de agosto de 1933 por Francisco Alves, na Odeon. 3. Samba, segunda edição (páginas 69 e 70). Também foram colhidos neste livro outros pensamentos ligados à xenofobia de Orestes Barbosa. 4. Sobre a força visual das letras de Orestes, Paulo Mendes Campos nos dá em Manchete de lP de novembro de 1974 (página 50) esta apreciação definitiva: "Visualizar a emoção é marca certa do poeta forte. As melhores canções de Orestes parecem roteiros cinematográficos, e o conjunto de todas elas é o scriptde uma época do Rio." Para Paulo Mendes Campos, "... sem dúvida nenhuma, Orestes Barbosa e Noel Rosa são os mais altos poetas da nossa música popular." Manuel Bandeira é outro que fala de Orestes com admiração. Diz ele em Chão de Estrelas (página 144): "Grande poeta da canção, esse Orestes! Se se fizesse aqui um concurso, como fizeram na França, para apurar qual o verso mais bonito da nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes que diz: 'Tu pisavas os astros distraída...' Só mesmo num Chão de estrelas era possível achar este verso. De certo Orestes rojava no sublime, e a mulher que o inspirou pisou lhe, acinte ou inadvertidamente, o coração, que se abriu na queixa imortal. Sei de muito poeta (Onestaldo de Pennafort é um e eu sou outro) que se rala de inveja porque não é o autor daquele verso. E com razão: nunca se endeusou tanto uma mulher como naquelas cinco palavras." 5. O que terá levado pesquisadores da estatura de Lúcio Rangel e Almirante a concluir que Araruta e Positivismo são o mesmo samba ou, pelo menos, duas letras diferentes para a mesma música? Em Samba, segunda edição (página 50), Orestes Barbosa já citava os dois como obras distintas. O jornal de modinhas Harmonia, de dezembro de 1932, publicava a letra de Araruta, ficando claro não só que ela não cabe na música de Positivismo mas também que se trata da primeira criação da dupla NoelOrestes, já que as outras são de 1933 e 1934. A partir dessas pistas, os autores partiram no encalço da melodia da Araruta, que acabou lhes sendo ensinada por Armênio Mesquita Veiga, amigo e aluno de violão de Noel, ele próprio compositor (Molambo, Aperto de Mão, Amar Foi Minha Ruína). Orestes Barbosa. (Arquivo dos autores.) 248 PRAZER EM CONHECÊ-LO Capítulo 25 Diante de dois copos de cerveja, Arnaldo e Antônio Araújo antevêem uma noite de bocejos. Não há nada de bom programado, nem namoro, nem serenata, nem papo de esquina. Uma semana inteira de trabalho na alfaiataria, das oito

às oito cortando e costurando pano, e chega sexta-feira aqui estão os dois, um olhando para a cara do outro. Ou para os copos de cerveja. O Café Ponto Chie, nos começos de noite, é sempre desanimado. Dois ou três condutores, um ou outro motorneiro, fiscais, gente da Light que entre dois cafés pequenos conversa até a hora de embarcar num dos bondes que partem da estação ao lado. Boêmios? Amigos da noite e do samba? Os irmãos Araújo sabem que não podem encontrá-los a esta hora no Ponto Chie. Mas Noel Rosa chega. Vê-se logo que acaba de acordar, de sair do banho, de tomar seu "café da manhã". E já são quase nove horas da noite. Noel se aproxima. Tira do bolso um punhado de papéis. São cartões, impressos, recortes, folhas soltas que ele vai lendo e saparando. - Sabem o que tenho aqui? Uma porção de convites para festas. No Centro, no Grajaú, na Tijuca. Noel diz que uma das vantagens de se trabalhar no rádio, de se gravar discos, de se ter o nome conhecido, são justamente estes convites que chegam não sabe de onde. Gente que nunca o viu, que nem ao menos é amiga de um amigo, chama-o para um baile familiar, uma festinha de aniversário, um casamento. Na certa esperando que ele leve o violão. Arnaldo e Antônio se animam. Ajudam Noel a escolher um dos convites. Acabam optando por uma festa na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca. Um bonde até a Praça Saenz Pena, outro na direção da Muda, em menos de meia hora estarão lá. A casa é grande, dois pavimentos, jardim na frente, varanda do lado, um salão no qual os convidados são recebidos pela anfitriã, senhora gorda, simpática, que Noel e os Araújos vêem pela primeira vez. Mas isso não quer dizer nada. Mal os três chegam, a mulher exclama: - Noel! Olhem o Noel Rosa! Que bom que você veio, Noel! A anfitriã tenta assegurar o sucesso da festa mostrando-se íntima do convidado famoso. Noel pra cá, Noel pra lá, vai apresentando a todo o mundo o autor de Até Amanhã. Arnaldo e Antônio vão atrás. Há muita gente na festa, Noel cercado por todos os lados. A mulher puxa-o pela mão. Súbito - mundo pequeno - está diante de Clara, ninguém menos que Clara. Há quanto tempo não se viam? Semanas, meses? Talvez só 249 agora Noel se dê conta do quanto foi longa sua ausência. E Clara continua tão bonita, os mesmos olhos castanhos, redondos, cheios de meiguice. A dona da casa a chama: - Clara, Clarinha, deixa eu te apresentar o Noel Rosa. Antes mesmo que a mulher termine a frase, Noel e os Araújos percebem que Clara não está só. Um rapaz alto, magro, olhos azuis, cabelos castanho-claros, até instantes ao lado dela, recuou. É o novo namorado. Na certa, sabendo o que Noel representa para Clara, prefere ficar de longe, observando estrategicamente a reação dos dois: - Noel,. esta é Clarinha... E sem esperar que Noel diga alguma coisa, Clara estende-lhe a mão: - Prazer em conhecê-lo.

Arnaldo pergunta: . A anfitriã provavelmente espera que Noel brinde os outros convidados com alguns de seus sambas. Ainda lembro que ficamos de repenteFrente a frente.. de tanto amor. Sem achar uma idéia genial.. Mas Arnaldo e Antônio notam que o amigo já não é o mesmo. apertaste minha mão Dizendo então: "Tenho muito prazer em conhecê-lo" Mas eu notei que alguém impaciente. Que aguardava o escândalo fatal Fiquei branco. Ia mais tarde te repreender Tão ciumento que até nem quis saber Que mais prazer Eu teria em não te conhecer. Depois de tantos anos. Os três nada falam durante a viagem de volta até Vila Isabel. à mesa de um botequim de Vila Isabel. murcho.Um samba.O que é isso? . Naquele instante. Encolhido no canto do salão. Arnaldo e Antônio Araújo acompanham atentos o gesto quase instintivo de Noel transformar em música e poesia o que lhe vai por dentro. Ex-amigo. a inesperada formalidade de Clara o perturba.Que que há. Limita-se a responder: . Os três estão agora outra vez sentados a uma das mesas do Ponto Chie. amarelo. aqui mesmo. se lá não fosse. lápis e papel ao garçom. de tantos projetos. Noel cantarola em cima dos versos que acabou de escrever: Quantas vezes nós sorrimos sem vontade Com o ódio a transbordar no coração.O prazer é todo meu. . Noel sai. eu não lembrava Um passado que tanto nos fez sofrer Lá no canto vi o meu rival antigo. os Araújos novamente o seguem. um simples "prazer em conhecê-lo. mais frios do que gelo Mas. . De terror. Noel? . furta-cor. As apresentações finalmente terminam.. Nada é preciso dizer para que fique entendido o quanto a indiferença de Clarinha magoou Noel.Noel empalidece. Noel pede uma cerveja. guardou o sorriso que parecia ter trazido para esta festa de sexta-feira. . sorrindo. calado. Descontente. está escrevendo.indaga Antônio." Ele procura manter-se frio.Nada. Minutos depois. vai nascendo(1): Quantas vezes nós sorrimos sem vontade Com o ódio a transbordar no coração Por um simples dever da sociedade No momento de uma apresentação Se eu soubesse que em tal festa te encontrava Não iria desmanchar o teu prazer Porque. E o samba.. Vamos embora. Estranhamente.

um traço amigo. Assim como Noel é capaz de dar seu último tostão a um sujeito que jamais viu (e que talvez jamais volte a ver). como faz com todos os artistas que lhe caberá apresentar em programas de rádio. responde: 250 . No mais.É mesmo! Custódio corre até o telefone mais próximo e liga para todas as delegacias do Centro: . Fui eu.Custódio. um cognome que acabará pegando: o Filósofo do Samba2. seguirão caminhos muito diferentes. aos olhos de jovens de classe média como eles. Certa noite tira do bolso o relógio de ouro. Por enquanto. Um dia o pianista vê Noel parado numa esquina da Rio Branco: . Infelizmente.Não. Nos encontros mais ou menos bissextos que terão no futuro. as vendedoras ambulantes. andou de molho por alguns dias. carinhoso mesmo. a quem conhece de bares e microfones. Qualquer dúvida podem me procurar. Custódio é um jovem e talentoso pianista. se aparecer por aí um nordestino maltrapilho com mulher e três filhos do lado. constituem a marginália da cidade. ainda é um compositor desconhecido. Por exemplo: será Custódio um dos primeiros a assinalar nas letras de Noel um certo cunho filosófico que nada tem a ver com tudo o mais. Custódio é extrovertido. passe a música para o papel. toda a sorte de personagens que. preso por tentar vender um relógio de ouro. com corrente e tudo. adverte-o: . Já andou por várias emissoras de rádio.Como vai o Sócrates? Ainda não morreu? Noel convalesce de uma forte gripe. ao seu lado. pois Noel e Custódio. cigarro no canto da boca. Custódio não faz por menos. e entrega-o ao retirante nordestino que o aborda na porta do Assyrius. a Philips. César Ladeira vai se inspirar nessa história de Sócrates para dar. Quem vai acreditar que foi um presente? . Também ele é um boêmio vocacional. quem lhe deu. E pede-lhe que harmonize a segunda parte. fraterno. Custódio Mesquita. a Club do Brasil. Noel e Custódio amam compulsivamente os habitantes da madrugada. se têm a boêmia e o samba por afinidade. alegre. saiba que não é ladrão.. Em pouco tempo fica pronto Prazer em Conhecê-lo. os malandros. os mendigos. amante das noites e das estrelas. à espera de um empurrão. solando e até fazendo arranjos para orquestra. loquaz. você já pensou se a polícia pega essepobre-diabo com o relógio?É cana na certa. as mulheres. Ambos têm para com esses irmãos do sereno gestos de comovente solidariedade. acompanhando cantores. Custódio tem . não. a Mayrink Veiga. Sem se mexer. Mário Lago. são muitas diferenças entre os dois autores de Prazer em Conhecê-lo.Noel encontra-se com Custódio Mesquita.Seu comissário. será a única coisa que produzirão juntos. Noel vive mais para si mesmo.. dê-lhe alguns retoques. pedindo-lhe ajuda para a mulher e os três filhos pequenos. haverá entre eles. Noel canta-lhe os primeiros versos do novo samba: Quantas vezes nós sorrimos sem vontade. sempre. Ainda não bebi a cicuta que você me deu.

se gosta dos habitantes da madrugada. por enquanto. a impressão que se tem é de que todas as mulheres vivem se apaixonando por Custódio. chegará mesmo a 251 trabalhar no cinema e no teatro." Um ladrão a roubar corações: ". quando preciso. Pode ser que não se encontre mais na volta. Já Noel não ousaria tanto-. Custódio conquistara as duas. passos firmes. nem pode se dar ao luxo de distribuir relógios de ouro. Pois se Noel vive se apaixonando por todas as mulheres. Diz Lourdes Câmara em sua coluna semanal de Syntonid. é Noel Rosa. Famoso. raramente o farão de cara limpa. Na volta da excursão. Noel prefere as almas anônimas. Como no dia em que o porteiro do Teatro Recreio o barra à entrada de uma revista para a qual escreveu a música: .prossegue Lourdes . Mas. também convive muito à vontade com gente importante. gordas ou magras. Sentam-se num banco perto do chafariz e se põem a falar da penúria comum. -Documentos?-brada Custódio irritado . das artes. E entra. Noel permanentemente fiel à cerveja Cascatinha que quaisquer nove tostões compram no botequim da esquina. Bolsos vazios. ele ainda não é o Tyrone Power brasileiro. apostaram: . Custódio. Ao se entregarem ambos à vida de dissipação que o Rio parece inspirar a temperamentos boêmios como os seus. É um compositor desconhecido. da política. que haviam ambos perdido a aposta.Cem como vai preferir a mais nova.a estampa de um galã hollywoodiano. será chamado de "o Tyrone Power brasileiro".Desculpe-me. Noel é feio. E também nisso serão diferentes. ao tempo de Prazer em Conhecê-lo. áspero e até arrogante.Cinqüenta mil réis como ele fica com a mais velha. mas tenho que ver seus documentos. "Custódio Mesquita... E é justamente sobre pobreza que ele e Cartola conversam em noite de muita lua e pouco dinheiro. o pianista mais bonito da PRA(9) O homem de olhar inocente e dos cabelos ondulados. Famoso mas pobre. Os cavalheiros usam cartão de visita. da alta sociedade. depois de depositar o cartão na mão do porteiro. Nem um níquel para tomar uma cervejinha . os dois compositores constataram.não é conveniente deixar nenhuma noiva esquecida. Custódio tornando cada vez mais refinada e dispendiosa a busca das essências que vão embriagar suas noites (do vinho francês ao uísque e deste.. se o porteiro não o reconhecesse. louras ou morenas.Mas eu sou o Custódio Mesquita. de conquistar duas irmãs cantoras ao mesmo tempo. . pasmos.. de impor-se com um simples cartão de visita. perto dele . os dois se encontram no Largo do Maracanã depois de uma batalha na Dona Zulmira." Corre no Nice a história de dois outros compositores que um dia. à cocaína). ladrãozinho! Arsène Lupin com alma de Schubert.. Custódio sabe ser. mais para o fim da vida.Malandros precisam de documentos. ou vice-versa. sabendo que Custódio ia excursionar com duas irmãs cantoras. de entregar-se à embriaguez dispendiosa. senhor. .. faria meia-volta até a bilheteria para comprar o ingresso. Também em suas aventuras amorosas as diferenças serão marcantes.

Mas. Logo o Francisco Alves. E a sede. a sede. . é muita. Há noventa e nove por cento de chance de terem um malcriado "não" como resposta. sentam-se à mesma mesa. . respondem Noel e Cartola com desolado abano de cabeça. solta meia dúzia de palavrões. se eu não tenho remorso. Agora mesmo. parece lembrar-se de repente. o cantor se aproxima. São bons demais estes dois. Perdão. Tão moços e já fizeram tudo isso. Os três atravessam a rua. Cartola logo completa a primeira parte do seu. convida-os a irem até o seu Zé. Nuvem Que Passou.Agora? Neste momento? . . Mas os sambas têm que ser feitos já. não pode fazer nada por eles.Quem pensam que eu sou? O pai de vocês? Francisco Alves cospe duas vezes para o lado. Divina Dama. tudo isso faz com que Noel e Cartola concordem em compor aqui mesmo os dois sambas. O mais forte amor destrói Mas. Mesmo assim. Amor.Sim . Noel. . os dois acenam para Francisco Alves.pergunta Cartola meio espantado. Noel vai direto ao assunto: . Cartola.Vai lá e mete um vale nele. . Não.Muito bem. . entram no botequim. pensando no um por cento que sobra. .pergunta Francisco Alves. Só para conversarem. Meu Bem.Vê se arranja algum pra gente. Chico.Vai você. faz um breve discurso sobre como o dinheiro anda escasso nestes tempos difíceis. Com essa os dois não contavam. Os dois resolveram cantar alguns velhos sambas de um e de outro.Por conta de samba 252 que a gente vai fazer. eu dou 50 mil réis para cada um. Noel sugere: . . construindo em seguida a melodia da segunda para a qual pede que Noel escreva. para falar a verdade. O jogo de empurra se explica: tanto um como outro sabem que tirar dinheiro de Francisco Alves não é fácil. . de um fôlego. A primeira parte de Cartola é assim: Diz qual foi o mal que eu te fiz? Eu não te farei essa ingratidão Foi um falso contra a nossa amizade Não creias. a vontade de forrar os bolsos vazios.diz Noel. Não. E um samba cada um.Então vamos os dois. coisas que Francisco Alves está cansado de conhecer. E vocês podem matar sua sede. freguês de samba dos dois. infelizmente. o homem do dinheiro.Cerveja?. . Cartola vê Francisco Alves apontar na esquina.pergunta o Martins. O cantor fica ouvindo o desfile de belas composições.Agora.no Café da Uma Hora. Cartola topa. duas estrofes de oito versos. . não pode ser verdade As duas segundas com letra de Noel: Não creias nestas mentiras Que roubam nossa alegria Os invejosos se vingam Armados de hipocrisia A mentira.Vocês me falaram de adiantamento?. Não Faz. Mulato Bamba. De adiantamento. De qualquer maneira.

Por trás de palavras . Um detalhe muito importante que ficou acertado logo no primeiro negócio que fecharam.. mas não lhe dá parceria. Francisco Alves gosta e promete gravá-lo. E relata. Paga os 50 mil réis a Cartola e avisa que amanhã ou depois terão de assinar o contrato de cessão de direitos na Odeon. Já estava perdendo a paciência Quando roubei a cadência Do teu modo de guiar (Chega à janela. Com cada compositor o cantor mantém um tipo de relação comercial. mas exatos).Muito bem. obra-prima de sutileza e duplo sentido.. O combinado era cada um fazer um samba. Suas cordas vão dizendo Que este samba é só teu (Até amanhã. Vamos agora ao seu samba. Escuta o violão que está gemendo. acabam de viver aqui.) Para a mulher amada? Aparentemente. Nem faz questão de ver seu nome no selo do disco. quase três anos. Noel. Depois de feito não é dele nem é meu.Isso é lá com vocês . em troca de um modesto adiantamento de 50 mil réis. por exemplo. . o samba que vai compondo.. Em quem ou em que se inspirará ele para criar. Já Noel pouco se importa em dar ou não parceria. à mesa do botequim: Estamos esperando. A rua adormeceu E nós vamos cantar Aquilo que é só teu E que nos faz penar Da tua voz tirei a melodia E a harmonia eu fiz com teu olhar.. . com Ismael Silva. de modo que este vale como sendo o de Cartola. o episódio que os três. O samba que fizemos pra te dar. música e letra. abre mão de sua parte. O compositor da Mangueira cede-lhe os direitos de execução. porém. apenas. há dois. Suas transações com Cartola são diferentes dás que faz. O samba ganha o título de Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?. um novo samba? Nas dores de amor? Em Clara? Em Julinha? Aparentemente é para a mulher amada que Noel canta os versos de Estamos Esperando. com melodia simples. Cartola e Francisco Alves. Disseste que te enganei Não sou tão fingido assim Talvez queiras um pretexto Pra viver longe de mim Disseram que eu traía A nossa grande amizade É tão criminosa a culpa Que não pode ser verdade.diz Francisco Alves. Vem logo escutar. o samba é dirigido ao próprio Francisco Alves.) E este samba que fiz de parceria. Noel. Noel.O meu coração não dói. mas bonita (e em versos feitos às pressas. Na verdade.

fingidamente inocentes ("O samba que fizemos pra te dar..." ou "aquilo que é só teu e que nos faz penar..."), logo na primeira parte Noel camufla suas queixas. A primeira das duas segundas partes não é tão evidente, mas ainda assim tem Francisco Alves como alvo: a melodia tirada da voz que Noel tanto admira, a harmonia feita do olhar sagaz do cantor e até a cadência roubada do seu modo de guiar(4). Já a outra segunda parte é direta e cortante como Noel sabe ser quando quer: o samba feito de parceria que acaba não sendo seu nem de Cartola, o violão a gemer a mágoa de saber que Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?será, mesmo, todo de Francisco Alves5. Por último, os dois breques. Um deles, "Chega à janela...", é citação um tanto velada ao seresteiro que Francisco Alves jamais deixou de ser desde os tempos de Malandrinha ("A lira do cantor em serenata reclama na janela a sua amante..."), e o 253 Não tenho herdeiros, Não possuo um só vintém. Eu vivi devendo a todos, Mas não paguei nada a ninguém Meus inimigos, Que hoje falam mal de mim, Vão dizer que nunca viram Uma pessoa tão boa assim Pelo presente declaro que cedo todos os meus direitos sobre a letra de minha autoria denominada "UMA COISA FICOU",( letra esta musicada por Hervé Cordovil,) ao Sr. Enéas Martins Berros, que poderá fazer com a mesma o uso que mais lhe convier, Em tempo:- o titulo foi alterado para "Uma COISA DEIXEI" Cessão de direitos de Uma Coisa Deixei. outro, "Até amanhã...", remissão clara ao samba que Noel não deixou Francisco Alves gravar, à tumultuada viagem ao Sul, àquelas horas esquecidas nos braços da moça em frente, um samba afinal que lembra um episódio que quase leva à loucura o velho Chico. Mas Francisco Alves não é astuto o bastante para perceber nada disso. Nem para atinar com outra diabrura que Noel lhe prepara em forma de música e letra, já nos últimos dias de dezembro de 1932. Tanto Francisco Alves como Mário Reis acreditam que de todas as composições que Noel lhes entregou para o próximo carnaval, entre elas algumas que não assinou (Fui Louco, Primeiro Amor, ÉPeso, Rir), nenhuma tem mais possibilidade de sucesso do que Fita Amarela. Um samba feito nos moldes de muitos outros "testamentos" comumente encontráveis na música popular, de autores conhecidos, menos conhecidos, anônimos. A originalidade de Noel repousa, praticamente, nas quadrinhas da segunda parte: Quando eu morrer Não quero choro nem vela, Quero uma fita amarela Gravada com o nome dela. Se existe alma, Se há outra encarnação, Eu queria que a mulata Sapateasse no meu caixão Não quero flores, Nem coroa de espinho, Só quero choro de flauta,

Violão e cavaquinho Além destas, da gravação original, mais três: Estou contente, Consolado por saber Que as morenas tão formosas A terra um dia vai comer Quadrinhas muitas vezes improvisadas em bares e programas de rádio, uma ou outra fadada a permanecer esquecida. Quero que o sol Não visite o meu caixão Para a minha pobre alma Não morrer de insolação A outra diabrura que Noel prepara para Francisco Alves em forma de música e letra está justamente no outro lado de Fita Amarela, isto é, na marcha que Chico e Mário Reis encomendam a ele para completarem o disco na Odeon. Noel continua pendurado. Quanto mais dinheiro dá a Francisco Alves, mais pesadas lhe parecem as prestações do Pavão. Noites como aquela no botequim do Maracanã são raras. Chico não é de dar adiantamentos. Nem mesmo de 50 mil réis. Pois se nem cafezinho ele paga! O pessoal do Nice está cada vez mais escaldado em matéria de Francisco Alves. Ainda outro dia, no meio de uma roda em que todos tomavam café, o cantor, lá pelas tantas, explodiu: - Como é, ninguém vai se levantar? Alguém perguntou por quê. - Está na hora do meu programa na Rádio Club. - E o que que tem isso? - Se ninguém se levanta antes de mim, vou ter de pagar o café. Noel mesmo tem testemunhado inúmeros desses gestos de sovinice de Francisco Alves. Mais do que testemunha, pode ser a própria vítima. Como aconteceu durante a série de espetáculos que ele, Chico e Vicente Celestino realizaram, de 12 a 18 de setembro, no Cine-Teatro Modelo, no Riachuelo. Numa das noites, Noel encontrou-se no caminho com os Araújos e convidou-os para irem juntos. Poderiam assistir ao show e logo em seguida ao filme, a comédia A Guarda Secreta (SecretSix), com Wallace Beery. Arnaldo e Antônio gostaram da idéia. Os três tomaram um bonde até o Maracanã e outro pela 24 de Maio. Na entrada do cinema, Noel informou ao porteiro que aqueles eram dois amigos, seus convidados. - Pois não, podem entrar. 254 Naquele exato instante passava por ali Francisco Alves. - Nada disso! - protestou. - Onde eu canto ninguém entra de graça. Noel, diante do espanto dos Araújos, insistiu : - Mas eles são meus convidados. - Não importa! Ele e Chico já estavam no meio de uma discussão incendida quando Vicente Celestino resolveu intervir. Polidamente, mas com firmeza, virou-se para Francisco Alves e ponderou: - Ora, Chico, o que são duas entradas de cinema?-e voltando-se para o outro lado; - Teremos muito prazer em cantar para os seus amigos, Noel. Só assim Antônio e Arnaldo entraram sem pagar.

'Tão apegado ao dinheiro e ao mesmo tempo tão exigente com os que trabalham para ele. Como se diz no Nice, em matéria de pão-durismo o Chico é caso de polícia. Noel taz a marcha Mas Como... Outra Vez?pensando na avareza do cantor. Leva sua estrepolia às últimas conseqüências. A música do estribilho é nitidamente calcada no Liberstraum n? 3, de Franz Liszt. Chico não se diz cultor dos clássicos? Então. Só que desta vez, em lugar dos "clássicos da opereta" como Victor Herbert, Franz Lehár, Jerome Kern, Rudolf Friml, cantará um clássico de verdade: Liszt. O complemento da melodia, ao contrário da frase inicial, tem bastante originalidade. E a letra fala por si mesma, Francisco Alves de novo se castigando sem saber: Mas como...? Outra vez? Toma cuidado... Se a moda pega, Estou bem certo: Acabas como Judas no deserto. Quando tu compras jornal é fiado, Dando a desculpa que não tens trocado. Os pobres ficam com dor de cabeça Por ouvir: "Deus te favoreça!" Lembrei agora em hora propícia Que o teu caso pertence à polícia. Cabe esta espécie de caso anormal À Polícia Especial! Não satisfeito, Noel produz duas outras quadras que no entanto não serão gravadas. Terá Chico percebido o seu sentido? O meu dinheiro é macho e não cresce Só o teu cresce, mas não aparece Teu grande medo lá no botequim É pagar um café pra mim! Sempre a fazer teus castelos de areia Sujas teus pés no sapato sem meia Não tens chapéu nem gravata hoje em dia Por medida de economia! Se Fita Amarela será um grande sucesso, não deixará também de causar contratempos a Noel. Pequenos, é verdade, mas ainda assim o bastante para incomodá-lo. Desejos para serem cumpridos depois da morte, testamentos poéticos, coisas na base de "quando eu morrer" sempre foram muito comuns no Brasil. Já dizia no século passado o poeta Laurindo Rabelo: Quando eu morrer, não chorem minha morte Entreguem meu corpo à sepultura Pobre, sem pompa, sejam-lhe a mortalha Os andrajos que deu-me a desventura. E depois dele José de Alencar: Quando eu morrer, não chorem minha morte Esqueçam meu cadáver sobre o leito, Mas levem-na, bem triste, as tranças soltas, E deixem-na chorar sobre o meu peito. Os sambistas, principalmente os dos morros, sempre foram muito ligados ao tema, simulando diante da morte mais coragem do que realmente têm, fingindo-se superiores a ela, salpicando-a de humor como se isso, afinal, pudesse mantê-la longe. São inúmeros os exemplos de estribilhos criados a partir destes testamentos poéticos,

em torno dos quais os sambistas improvisam interminável versalhada. Estribilhos assim: Quando eu morrer Me enterrem lá no terreiro Deixando o braço de fora Pra tocar o meu pandeiro Ou assim: Quando eu morrer Não digam nada Basta muito beber Por minha vida danada Tema muito explorado, seja por poetas conhecidos, seja por sambistas anônimos, é um mote, pode-se dizer, de domínio público. No entanto vale a Noel uma incômoda acusação de plágio. O acusador, Donga, lançou recentemente um samba seu e do maestro Aldo Taranto que diz: Quando você morrer Não pense que eu vou chorar Vou procurar quem me dê O que você não me dá 255 Desde que Fita Amarela começou a ser ouvido nas emissoras de rádio, na gravação de Francisco Alves e Mário Reis, Donga faz campanha contra Noel. Onde quer que chegue, nos Dares, nas esquinas, nas rodas de música, nunca deixa de tocar no assunto: - Vocês conhecem o samba que o Noel Rosa copiou do meu? E canta Fita Amarela. A campanha só vai acabar no dia em que Almirante, tomando as dores de seu companheiro de Bando de Tangarás, contar que ele mesmo ensinou a Noel a quadrinha que lhe deu a idéia para seu samba. Os dois se encontraram no Boulevard e Almirante cantou: Quando eu morrer Não quero choro nem nada Eu quero ouvir um samba Ao romper da madrugada - De quem é? - perguntou Noel. -Não sei. Aprendi com dois improvisadores, numa tendinha de São João de Meriti. Noel aproveitou o tema, não só poético, mas também melódico, para fazer seu estribilho. Para complicar a história, enquanto Donga garante que tudo começou com o seu samba e de Aldo Taranto - e Almirante insiste na história dos improvisadores - a turma do Estácio, quando sabe dos tais versos aprendidos pelo líder dos tangarás, protesta: - Improvisadores de São João do Meriti? Qual o quê?! O Mano Rubem, daqui do Estácio, já cantava eles em 1920... Está bem, vou acabar tudo com ele. Diante de novas promessas de Noel, de que desta vez não desaparecerá mais, Clara diz que vai romper com o novo namorado. Noel sabe que realmente será assim. Basta reaparecer, sempre com o jeito de quem está arrependido e disposto a "entrar no sério", para que Clara troque tudo pela esperança que ele traz entre sorrisos. O namorado com quem foi à festa na Tijuca chama-se Mário, boa família, direito, bem-intencionado, concluindo já seu curso de veterinária

e quase em condições de pedi-la em casamento. Aliás, é mesmo o que planeja. Os zelosos irmãos dela fazem gosto. Muito mais do que vê-la perdendo tempo com um cantor de rádio, boêmio incurável. A festa na Tijuca, reacendendo em Noel a vontade de voltar para Clara, vai frustrar para sempre os planos do bom moço Mário. - ... Vou acabar tudo com ele. Clara cumprirá a promessa. Noel logo esquecerá a sua.

NOTAS 1. Em entrevista a O Globo, 31 de dezembro de 1932, conta Noel: "Quando saí da festa, fui para um bar do Leblon. Pedi uísque porque não havia bebida nacional desse gênero. Acendi um cigarro e botei o chapéu de palha na mesa. Bebi uns tragos e comecei a cantar baixinho. Sem dúvida, foi fácil fazer esse samba..." Mas Arnaldo Araújo, em entrevista aos autores, assegura que tudo se passou mesmo no Café Ponto Chie, entre copos de cerveja e não de uísque. 2. Esta versão sobre a origem do cognome é do próprio Noel em A Voz do Rádio, 15 de novembro de 1936 (página 16). 3. Syntonia, 22 de novembro de 1934. 4. Na gravação original de Francisco Alves e Mário Reis, este canta "do seu modo de pisar..." em vez de "guiar". Mas na partitura original lá está a clara alusão ao bom motorista que Chico gabava-se de ser. 5. O samba será assinado apenas por Cartola, mas os direitos autorais pertencerão integralmente a Francisco Alves. 256 EM BOA COMPANHIA Capítulo 26 O Noel Rosa E começou a nossa parceria, Eu fui por ele e ele foi por mim Amor de Parceria Cigarro no canto da boca, Noel Rosa conversa com Ismael Silva numa das esquinas da Galeria Cruzeiro, acompanhando à distância o que se passa em frente, no interior do Nice. Nenhum dos dois se inclui entre os freqüentadores assíduos do café. Raramente se sentam a uma das mesas, nunca participam dessas intermináveis conversações que se arrastam pela tarde inteira e entram noite adentro. Mesmo que quem esteja com a palavra seja Orestes Barbosa. Noel e Ismael só vão ao Nice a trabalho, para arrancar um vale de Francisco Alves, marcar com este ou outro cantor o horário de uma gravação, combinar com um diretor de broadcast um ou dois programas em sua estação de rádio. Noel, principalmente, é meio oblíquo em relação ao Nice. Passa por ali de raspão, rápido, diz e ouve o essencial e se vai. Isso quando não fica mesmo de longe, do outro lado da Avenida Rio Branco, balançando a cabeça de um lado para o outro como se a procurar alguém. Esta esquina da Galeria Cruzeiro é o mais próximo que Noel e Ismael constumam ficar do Nice. Conversando sobre samba, jogo, boêmia e malandragem. Alguém chega por trás e bate no ombro de Noel. - Noel, Noel Rosa! Que bom você estar aqui! Andava mesmo à sua procura.

O sujeito tira do bolso algumas folhas amassadas de papel. Diz que acabou de fazer um samba, coisa muito boa, música e letra caprichadas, de uma qualidade que nenhum Francisco Alves, nenhuma Carmem Miranda terá coragem de recusar. Um samba quase pronto, precisando apenas de alguns retoques, uma vírgula aqui, um acentozinho ali, no máximo a correção de um ou dois versos. - Será que você me dava uma ajuda, Noel? Noel pede-lhe que cante o samba. Ele e Ismael ficam ouvindo, calados, atentos. Noel puxa o cotoco de lápis e nas mesmas folhas amarrotadas vai fazendo emendas. Sugere, também, modificações na linha melódica, a primeira parte ficando assim, a segunda assim, a letra mudando aqui, ganhando mais dois versos ali, cortando-se três mais adiante. Pronto, Noel canta para o "autor" do samba o que resultou de seus retoques. O homem e Ismael Silva ficam assombrados. É um novo samba, infinitamente superior à pedra bruta original. Uma beleza. - Obrigado, Noel. Era isso mesmo que estava faltando. E o sujeito se vai, folhas amarrotadas no bolso, melodia na cabeça. Ismael, ainda impressionado, diz a Noel que o samba realmente ficou 257 muito bom, a letra é inspiradíssima, o Chico haveria de gostar. - Você nem tirou cópia. - Deixa pra lá. - E o camarada, quem é? - Não sei. Nunca o vi antes. Noel Rosa tem sido, nestes três, quatro primeiros anos de carreira, um constante experimentador de parceiros. Jamais recusará proposta para um trabalho a dois, seja de um grande amigo, seja de um desconhecido que o aborde na Galeria Cruzeiro ou num botequim qualquer. Muitas vezes - e por razões várias - a proposta parte dele mesmo. Como acontece com os chamados "compositores de morro", dos quais sempre se aproxima com a humildade de um consciente e aplicado discípulo (e a lição desses mestres tem enriquecido, melódica e harmonicamente, a sua obra). Ou como acontece quando ele se entusiasma muito por uma melodia e pede ao seu autor permissão para fazer a letra. Do que De Qualquer Maneira, de Ary Barroso, ainda é o melhor exemplo. Mas, na maioria das vezes, são os outros que o procuram. Nomes consagrados ou meros principiantes. O número de seus parceiros em vida alcançará o total de 56! Nenhum outro compositor popular terá tantos colaboradores em tão pouco tempo. E de estilos, talentos, personalidades e importâncias tão diversas. Esse constante emparceiramento - um pouco por desprendimento, ele muitas vezes não se importando em assinar ou não o que faz, mas um pouco também pela vontade de abrir caminhos, de trocar informações e experiências com outros compositores, outros letristas - acabará criando, daqui a vinte, trinta anos, algumas discussões em torno dos méritos da obra de Noel Rosa: a razão de seu sucesso estará na qualidade dos parceiros ou estes, pelo contrário, é que devem a Noel o melhor do que fazem? Discussões que, ocupando o tempo precioso dos estudiosos da música popular, chegarão a pôr em dúvida sua competência como

criador de melodias, tentando defini-lo como um excepcional letrista a vestir com seus versos as melodias de outros. E que irão mais além, cometendo a injustiça de acusá-lo de "escondedor de parceiros", quando na verdade é ele que freqüentemente se oculta. Mas essas são discussões que daqui a vinte, trinta anos, quando Noel já não estará aqui para se inteirar delas(2). Por ora ele se limita a multiplicar parceiros, não se negando a somar talentos com nenhum deles. Muitos já são consagrados, estão destinados à imortalidade. Como Ary Barroso, Lamartine Babo, Eduardo Souto. Outros começarão a se projetar a partir de sua parceria com Noel (não necessariamente por causa dela, mas a partir dela). Como Custódio Mesquita, um quase desconhecido até aquele empurrãozinho de Prazer em Conhecê-lo. Outros mais estão condenados a maior ou menor esquecimento, só fazendo parte da história na medida em que tiveram a oportunidade de fazer música com Noel Rosa. René Bittencourt, por exemplo, morrerá jurando nunca ter feito música com Noel. Jura, aliás, que outros parceiros ingratos também cometerão, mesmo quando todo o mundo souber que não é verdade. Carioca de Paquetá, doze dias mais novo que Noel, inteligente, vivo, cavador, René já animou espetáculos em circo, empresariou artista de teatro, foi redator de jornal. Até encontrar-se com Noel - com quem, aliás, tem entrado em muita farra, entre elas as alegres peregrinações à Rua Moju nada fez em matéria de música popular. Isto é, compôs duas ou três coisinhas das quais ninguém tomou conhecimento. Uma delas é apenas um coro de seis versos curtos: Felicidade! Felicidade! Minha amizade Foi-se embora com você. Se ela vier E te trouxer, Que bom, felicidade, que vai ser! Para o qual Noel faz três segundas partes. Duas ele próprio gravará na Columbia, a voz não nos seus melhores dias (chega a engolir uma palavra), mas com interpretação triste como o samba pede: Trago no peito o sinal duma saudade Cicatriz de uma amizade Que tão cedo vi morrer Eu fico triste Quando vejo alguém contente Tenho inveja desta gente Que não sabe o que é sofrer O meu destino Foi traçado no baralho Não fui feito pra trabalho Eu nasci pra batucar Eis o motivo Que do meu viver agora A alegria foi-se embora Pra tristeza vir morar

A terceira segunda parte - talvez melhor que as gravadas - só chegará ao disco daqui a vinte anos, Noel já morto, Francisco Alves tornando-se amigo de René e decidindo reviver Felicidade(5): 258 Felicidade Não está sempre ao nosso alcance É o tema de um romance Onde os corações são dois Quando começa A alegria nos domina Com a tristeza ela termina E a saudade vem depois Uma tarde Mário Reis aparece de surpresa no chalé e encontra Noel vencido por um daqueles sonos dos quais é quase impossível despertá-lo. Mas o cantor tem bons motivos para querê-lo de pé. - Acorda, Noel! Precisamos conversar. Depois de muitas sacudidelas e gritos ao ouvido, Noel, meio entorpecido, se senta na beira da cama. Mário conta que Walfrido Silva lhe deu para gravar um refrão fortíssimo, música, letra, ritmo, tudo de primeira. Canta: Vai haver barulho no château Porque minha morena falsa me enganou Se eu ficar detido, Por favor, vá me soltar, Tenho o coração ferido, Quero me desabafar. Agora precisa da segunda parte. E rápido, pois pretende gravar o samba no outro lado do disco em que Francisco Alves lançará Divina Dama, de Cartola. Noel boceja, espreguiça, depois pega o lápis na mesinha de cabeceira. Mário estende-lhe uma folha de papel. Walfrido Silva. Será que exageram aqueles que dizem que este sambista simpático e sorridente já nasceu batucando? Seis anos mais velho que Noel, quando este entrou para o São Bento ele já tinha três ou quatro anos de estudos com Carlos Eckard. De quê? De bateria, evidentemente. É hoje um dos maiores - se não o maior bateristas brasileiros. Com aquelas duas baquetas na mão, Walfrido é capaz de tudo. Pixinguinha não dispensa seu concurso nas gravações dos Diabos do Céu. Também compõe. E bem. Com seu amigo Gadé há de produzir uma série de sambas e sambas-choros extraordinários. No entanto, até o refrão de Vai Haver Barulho no Chato, pode-se dizer que ainda não aconteceu. Noel rabisca alguma coisa na folha de papel, resmunga quase a melodia para que Mário a guarde. Completa assim, sonolento, o novo samba: Quase sempre eu evito Bate-boca em nosso lar Pois não quero ir pro distrito Por questão particular... Desta vez é impossível Tenho que desacatar,

Parece uma coisa incrível Não ter quem queira me soltar. Depois disso, Noel vira-se para o lado e volta a dormir. Em outra ocasião acontece o contrário, Mário sendo acordado tarde da noite por um Noel entusiasmado com novo samba. Dele e de André Filho. O cantor recebe-o com a elegância costumeira. - Problemas, Noel? -Não, não háproblema algum. Apenas o samba. - Eu gostaria que você o gravasse. Quer ouvir? - Nem preciso ouvir, Noel. Se é seu, eu gravo. Antônio André de Sá Filho chegou a estudar música erudita com o maestro Pascoale Gambardella. Toca piano, violino, violão, bandolim, banjo, percussão, e desde 1929 se dedica à canção popular. Ainda fará muita música boa, enriquecendo com ela os repertórios de Mário Reis, Carmem Miranda e vários outros. Mas será na voz de Aurora Miranda que alcançará a celebridade, sua Cidade Maravilhosa elevando-se às alturas de verdadeiro hino do Rio de Janeiro. Mas é anterior a esta marcha imperecível o samba que Noel leva para Mário Reis nesta noite. Um samba intitulado Filosofia, repleto de pensamentos tão seus. Observe-se que Noel começa queixoso, infeliz, autopiedoso quase, para logo mudar, adquirir força, passar da defesa ao ataque, aprumar-se. A simulação, o desprezo pela sociedade que é sua inimiga, o orgulho de ser pobre mas livre, a indiferença ao dinheiro são a sua "filosofia". Na letra e na vida. O samba não fará sucesso, mas será para sempre um dos favoritos de Mário Reis: O mundo me condena E ninguém tem pena Falando sempre mal do meu nome. Deixando de saber Se eu vou morrer de sede Ou se vou morrer de fome. Mas a filosofia Hoje me auxilia A viver indiferente assim. Nesta prontidão sem fim, Vou fingindo que sou rico, Pra ninguém zombar de mim. Não me incomodo Que você me diga Que a sociedade é minha inimiga. Pois cantando neste mundo Vivo escravo do meu samba, Muito embora vagabundo. 259 Quanto a você Da aristocracia, Que tem dinheiro Mas não compra alegria, Há de viver eternamente Sendo escrava dessa gente

Que cultiva a hiprocrisia. Francisco de Queiroz Mattoso. Três anos mais novo que Noel, poeta, pianista. Mais pianista que poeta, virtuoso executante que é de valsas de Nazareth, Souto e Tupynambá. No entanto - fato curioso - suas atuações na música popular se concentrarão sempre mais nas letras do que nas melodias. Um dia será o autor, com Lamartine Babo, de um dos clássicos da música romântica brasileira: Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda. Por enquanto, isto é, na época em que Noel o conhece, é apenas um dos muitos anônimos que rondam os corredores das emissoras de rádio. Noel e Mattoso - apresentados um ao outro pelo Dr. Cid Prado, de Vila Isabel farão juntos dois sambas. Num deles, Esquina Da Vida, partirão de versos de Noel para criarem algo muito bonito que Mário Reis - mais uma vez Mário - gravará acompanhado pelo piano de Nono: É na esquina da vida Que assisto à descida De quem subiu Faço o confronto Entre o malandro pronto E o otário Que nasceu pra milionário E na esquina da vida Observo o valor Que o homem dá à mulher e ao amor E é por isso que ela Em qualquer situação Zomba da gente, sempre cheia de razão É na esquina da vida Que espero ver você Estendendo a mão E implorando Já desiludida O meu perdão Para eu dizer que não O outro samba, que permanecerá inédito por muito tempo, teria sido inspirado em Julinha. Será conhecido indistintamente por dois títulos, Vai Para Casa Depressa e Cara ou Coroa. Vai para casa depressa Vai prevenir teu senhor Que eu vou cumprir a promessa Que fiz de possuir teu amor. Não sou malandro covarde Volta depressa pro teu barracão Antes que seja bem tarde Para salvar a tua reputação. Quando a mulher desequilibra, Para dois malandros de fibra Só há uma solução: Para que brigar à toa? Basta tirar cara ou coroa,

Com um níquel de tostão. Se não bastar tirar a sorte, Se o amor falar mais forte Sou o dono da questão E ao teu antigo dono Tens que dar o abandono Dando a mim o coração. Francisco de Queiroz Mattoso. Como Noel, morrerá muito jovem, aos 28 anos, sem realizar tudo que seu talento promete, sem deixar mais do que algumas poucas canções de amor nascidas de seu temperamento romântico, uma das quais Francisco Alves transformará em seu prefixo: Na carícia de um beijo Que ficou no desejo, Boa-noite, meu grande amor 260 Tão anônimos hoje quanto Francisco Mattoso, mas talhados para continuarem assim, pelo menos no que toca à música, são Gilberto Martins, Alfredo Lopes Quintas e Adalto Costa, todos parceiros de Noel em peças de maior ou menor qualidade. Gilberto Martins Amado descende dos Amados, de Pernambuco, família ilustre com a qual ele brigou tão seriamente que foi ao registro civil fazer com que lhe tirassem o último nome. Como Gilberto Martins torna-se conhecido no rádio. Indivíduo nervoso, dado a cacoetes. Um deles, desagradabilíssimo, consiste em tirar uma secreção do quisto que carrega no lóbulo da orelha e levar a mão ao nariz para cheirá-la. Mas é muito inteligente. De vez em quando compõe. Contudo, nada do que faz será lembrado daqui a alguns anos. Tirando, é claro, Devo Esquecer, comovido samba que escreve com Noel e que este gravará em dupla com Leo Villar, tendo ao fundo inspirada orquestração de Pixinguinha. Sim, devo esquecer Este amor que me faz reviver Se é maldade, perdoa, mulher Mas o destino assim quer Vou procurar na orgia Toda a minha alegria Que me foste roubar Eu vou para longe de ti Para nunca mais ver Teu olhar, teu sorrir Em liberdade hoje vivo a pensar Não posso mais te amar Porém, se um dia sentir Que nem longe de ti Poderei esquecer Eu voltarei, eu te juro, podes crer Para contigo viver Alfredinho também pertence a família tradicional, os Lopes Quintas (um deles, Domingos, rico proprietário de terras do século passado, é nome de rua no Jardim Botânico).

Mas seu negócio mesmo é samba. Já morou na Theodoro da Silva, mas por tão pouco que nem se pode considerar membro, ainda que longínquo, da "grande família" que é Vila Isabel. Primo, de verdade, é de Rubens Soares, um campeão de boxe que ainda vai se tornar bom compositor, parceiro certo por linhas tortas e um quase desafeto de Noel. Mas isso daqui a algum tempo. Alfredinho aproxima-se musicalmente de Noel Rosa aí por 1932, 1933- A primeira tentativa de se fazerem parceiros é praticamente um esboço, Que Orgulho é este, e não será gravada. Que orgulho é este? Você já nem se lembra mais Já esqueceu o meu nome Eu sou aquele que matou a sua fome Nunca vi coisa tão certa O orgulho também tem seu fim Quando a sua fome aperta Você vem procurar por mim A idéia vai ser retrabalhada, inclusive com o aproveitamento de alguns versos. O resultado também ficará inédito em disco, mas pelo menos será obra acabada, transferida para a pauta sob o título de Saber Amar. Noel é fiel a alguns de seus temas, persistentes motes que jamais o abandonarão. Não só as mentiras de mulher, mas também aqueles que falam de dinheiro com sotaque. Como os seus prestamistas. Amar Saber amar sem enganar Quem quero amar não me quer Para que tanta amizade Se o amor de falsidade Vem da parte da mulher A mulher tem a mania De lesar a humanidade Tem o dom da hipocrisia E ama sem ter vontade Demonstrei com brevidade Que duvide quem quiser O amor de falsidade Vem da parte da mulher Nunca vi coisa tão certa O orgulho tem seu fim Quando a tua fome aperta Tu vens procurar por mim Mesmo em posição de ataque Eu te ouço prazenteiro Mas tens muito mau sotaque Quando falas em dinheiro Mas o que de melhor Alfredinho e Noel criam juntos tem a colaboração de Romualdo Peixoto, o Nono, aquele mesmo bom companheiro de viagem nas andanças pelo Sul. Trata-se do melódico samba Sei Que Vou Perder, que sairá em disco sem o nome de Noel e aparecerá na partitura com o de Francisco Alves. Qual terá sido a participação de Chico?

Talvez apenas a da estupenda interpretação que ficará gravada na Odeon, o piano de Nono sendo toda a "orquestra" que o acompanha. Sei que vou perder Um bem que era só meu, Que não soube sofrer 261 Porque se arrependeu. Depois que me viu Perdido de amor Sem pena me traiu Eu que fiquei com a dor O capricho da mulher Faz o homem padecer É veneno quando quer Que maltrata e faz morrer O amor mais verdadeiro A mulher despreza à toa... Só não despreza o primeiro, Mas quando pode magoa Como aquele desconhecido que deu um tapinha nas costas de Noel na esquina da Galeria Cruzeiro, desaparecendo em seguida por entre a multidão ante os olhos de assombro de Ismael Silva, Adalto Costa é outro que não deixará vestígios de sua passagem pela música popular. Ou melhor, vestígios tão deléveis que seu nome -assim mesmo, escrito com l em vez de u e perderá timidamente entre tantos mais. Quem é Adalto Costa?, se perguntará daqui a alguns anos. No entanto, com Noel ele assina uma marcha, Fiquei Sozinha, cuja melodia dolente, de notas mais longas do que as das marchinhas carnavalescas, parece descender daquelas que os ranchos cantam com tanto sentimento em seus desfiles. Gravada pela bonita morena Ruth Franklyn, será tão pouco lembrada quanto o obscuro parceiro de Noel. Fiquei sozinha, Abandonada, implorando o teu perdão. Fiquei sozinha, Desesperada com a tua ingratidão. Sem teu perdão, amor, Eu vivo a padecer Sem ter o que comer Sem um vintém para beber Oh, vem depressa, vem! Isso não é papel, Se não voltares, Eu arranjo um coronel. Sem a tua companhia Eu não posso resistir, Vendo o prazer fugir Sem um lugar para dormir. Pra me vingar de ti Farei o que puder, Não é assim Que se despreza uma mulher.

Jerônimo esquecendo-se de que acabara de se transformar num homem casado. outro ali. Um bom dinheiro. Tão bom que Noel convida Milton e Cabral para darem um pulo até a Lapa. Quando o Vila Isabel-Engenho Novo aponta na Avenida Passos. Simpático. Cabral. em parte financiados pelos piedosos devotos de São Francisco de Paula. Jurandyr Santos e Alfredo Motta da Silva. No dia em que se casou. trôpego. Um trago aqui. quando pode. Boêmio impenitente. Não se pode dizer que viva bêbado. a noiva em casa esperando. Jerônimo tem indisfarçável preferência pela última. que vai vestir os da Paciência. aflita. tudo depende do quanto saciar sua sede. Das histórias que ligada ao pessoal Gosta muito de compor fox-trots. companheiros de copo. compõe e toca suas canções. Porque a única hora em que está em condições de render tudo que sabe é na parte da manhã. grande coração. Só que. mas quase. Milton e Cabral vão chamá-lo.Jerônimo Cabral e Noel têm pelo menos dois gostos em comum: a música e a bebida. o corpo alto e robusto dançando. Voltam todos meio altos de uma festa em Cascadura e esperam cada qual o seu bonde no Largo de São Francisco. Uma das noitadas inesquecíveis de Jerônimo Cabral é vivida na companhia de Noel. deixa os amigos no ponto do bonde. em plena luz do dia. agora imerso em mais um sono profundo. rege a orquestra em revistas e operetas montadas na Praça Tiradentes.comendo carne-seca com farinha num botequim dos Arcos. enquanto Noel pende bem mais para a primeira. fugiu de . para surpresa dos três. de modo que é com um deles versos de Noel para a única obra que criarão juntos: Estátua correm sobre as origens de tais versos. Depois do meio-dia. desta vez. encosta o violão. os fiéis começam a chegar para a primeira missa. Isto é. a mais plausível está da Rua Moju. Farão juntos um fox-trot sobre o qual se contarão algumas histórias. Cabral e Noel. amigo dos amigos. saiu da festa com alguns amigos para uma comemoraçãozinha adicional no botequim da esquina. São quase seis da manhã. começar o dia . serão também parceiros na música. quando se senta ao piano. é capaz de trocar tudo por uma noitada embebida em música e vermute. Mal se mantendo em pé. buquê na mão. Terezinha. consegue estar mais chumbado do que o Cabral. Uma vez acordado. É pianista e compositor de talento. Custódio Mesquita. Noel. supondo tratar-se de um mendigo. onde vão acabar a noite . E só voltou no dia seguinte. foram ali depositando seus caridosos óbulos. tira o chapéu e deita-se no degrau da escadaria. Milton Amaral. É raro vê-lo longe de um copo. Noel pega o violão e logo em seguida o chapéu. de tanta encomenda que recebe para escrever música para números de dança e sapateado nos moldes das ZiegfekTs "Follies" tornou-se muito familiarizado com os ritmos 262 norte-americanos. Vez por outra surge numa esquina do Centro. dentro do qual. Os dois sacodem Noel. uma das filhas de dona Luísa.ou melhor. a igreja já está aberta. escreve música para o teatro. há um punhado de notas e moedas. vai até a igreja. a fala enrolada de quem mais uma vez passou da conta. Os fiéis.

faz música de fundo para peças dramáticas desde que Leonardo Fróes o descobriu há alguns anos. não tão paciente. a casa do polonês cercada de muros altos como os de uma fortaleza. Jota Machado é outro homem de teatro. Com as súplicas de dona Luísa.casa para viver com um polonês que bancava jogo de roleta em Ramos. querida. Que lhe trouxessem a filha de volta pelo amor de Deus. os amigos. É um dos que Almirante acusa de ter copiado despudorada-mente o seu Na Pavuna. Por que seu trem não regressa Amenizando depressa A minha vida. O Na Gamboa. ficou quieto. me diz onde ela está! Numa de suas muitas andanças pela cidade. a sua amada. como não tinha nada com isso. viu-se forçado a ir ele mesmo buscar a moça. achou não haver outro jeito senão trair a confiança de Noel e dizer a dona Luísa que o amigo sabia do paradeiro de Terezinha. Eu sou na estação A estátua da paciência E acabei sendo agência De informação Sei os itinerários Já decorei os horários O nome dos maquinistas E dos foguistas! Seu telegrama diz: "Regressarei brevemente" Mas o seu trem fatalmente Chegar não quis Não entendi. Dona Luísa. o irmão policial. apelou para todos e para tudo. que não parece casar bem com o apaixonado cantor dos versos que espera. as orações. na estação de Ramos. Noel. A família inteira se pôs atrás da moça. teriam nascido os versos de Estátua da Paciêncid: Seu telegrama diz: "Regressarei brevemente" Mas o seu trem fatalmente Chegar não quis Não entendi por que O trem não traz pra cidade A minha felicidade Que é você A quem acabar com a raça dos trens Além dos meus parabéns Eu darei como prêmio de consolação O relógio e o prédio da estação. Foi Alegria quem. Compõe para revistas. desesperada. penalizado com tanta aflição. Mais um daqueles que o público não vê no palco. Dona Luísa suplicou-lhe: . Havia informações vagas de que o tal polonês morava neste ou naquele subúrbio. para abordar Terezinha quando ela por ali passasse. tem mesmo muita coisa . Da interminável espera a que foi obrigado. de Jota Machado. Mas é apenas uma história. ele descobrira o paradeiro da tia de Fina.Por caridade. Mas.

"). .como se os inventando na hora . cantava sambas no estilo de Luís Barbosa. Certa tarde. E ainda Você Foi o Meu . com malabarismos vocais que lembram mesmo Luís Barbosa. talvez por causa de um mau agudo de Noel(6). E também Espera Mais Um Ano. a canção Saudade Que Mata. Começaram a fazer juntos um samba esquisito. do qual só restarão os tragicômicos versos iniciais: Estricnina não é ruim de se tomar Eu vou me envenenar! Eu vou me envenenar! Arthur Costa. Estricnina.. ofox-trot Annita. antes de descobrir o teatro. acabou no rádio e no disco. e lá encontra Jota Machado. Vai direto ao assunto: . Conheceu Noel Rosa no Café Nice. Foi torneiro mecânico. Chama-se Que se Dane! E ali mesmo . as valsas Páginas do Coração e Fonte da Saudade. que acabará não saindo.. ótimo pianista. bom compositor. na Gamboa Tem macumba que só entra gente boa(5) " Mas. Embora morando na Tijuca.de papel-carbono: Na Gamboa. De tanto agradar. Claro. motorista de táxi. Jota Machado não merece entrar para a história apenas por esta crise de falta de imaginação. Cinco mil réis. Vivo contente embora esteja na miséria Que se dane! Que se dane! Com esta crise levo a vida na pilhéria Que se dane! Que se dane! Não amola! Não amola! Não deixo o samba Porque o samba me consola Fui despejado em minha casa no Caju Que se dane! Que se dane! O prestamista levou tudo e fiquei nu Que se dane! Que se dane! Fui processado por andar na vadiagem Que se dane! Que se dane! Mas me soltaram pelo meio da viagem Que se dane! Que se dane! 263 Ainda de teatro é Arthur Costa. carioca cheio de aptidão para muitas coisas. que vai musicá-los. fazia ponto na Praça da Bandeira onde. Noel entra na Casa Viúva Guerreiro.Noel escreve-os para Jota Machado.Tenho aqui um samba pra te vender. editora de música que funciona na Rua 7 de Setembro. entre uma corrida e outra. o jeito de embaralhar as sílabas fazendo a voz soar como um instrumento de percussão ("teu-teu-balaco-baco-chico-pã.Que samba é este. grava em dupla com Noel Bom Elemento. Tem boas músicas de criação própria. tocador de bandolim. Noel? -Por enquanto só fiz os versos.

O título já antecipa o que se vai ouvir: Sem Tostão. de molejo carioca como seus autores. com muita bossa. Senão pela música. dos bolsos vazios. os dois alternando-se. vai refazê-la com Neneo das Neves. Se você quiser voltar (Para a vida melhorar) Temos que fazer assim: (Para o nosso azar ter fim) Para ver se você me ama (Fico a descansar na cama) E vais trabalhar por mim. o tema da fome. . De que maneira Eu vou me arranjar Pro senhorio não me despejar? Pois eu hoje sai do plantão Sem tostão! Sem tostão! Já perguntei na Prefeitura Quanto tenho que pagar: Quero ter uma licença Pra viver sem almoçar. usando o mesmo arranjo: Você foi o meu azar (Você foi o meu azar) Estragou a minha vida (Por ser falsa e convencida) Para me fazer chorar (Quis me deixar) Hoje volta arrependida (Por ser mal-sucedida) Depois da sua saída (Fiquei logo bem de vida) Foi-se embora o meu azar (Se eu quiser posso provar) E até mesmo o bicheiro (Paga sempre o meu dinheiro) Quando acerto no milhar Com você passava fome (E sofri coisas sem nome) Andei teso. sem dúvida melhor que os outros. de verso para verso.Azar. Quando a minha fome aperta. sem tostão 264 (Vou explicar a razão) Eu vivia tão pesado (Que até fui atropelado) Por um carrinho de mão. mais uma vez focalizado pelo acridoce humor de Noel. mas Arthur. O mesmo Arthur Costa é quem grava outro samba seu com Noel Rosa. É outra gravação que ficará arquivada. Dou dentadas no nariz. Veio um funcionário E gritou bem indisposto Que pra ser assim tão magro Tenho que pagar imposto! E quando eu passo pela praça Quase como o chafariz. parceiro de Noel na autoria. ao menos pela letra. da penúria.

advogados. Prefere a companhia dos rapazes bem-comportados do bairro. Isso. Hélio tem outros interesses. Até o fim da . Algumas pessoas nem sempre compreendem seus rompantes. um dos primeiros a admitir que. nos tempos enciumados de garoto. Continua com os olhos nos livros. Bem-apessoado. Mas há entre eles uma admiração mútua. Martha. apesar dos ciúmes dos tempos de garoto (ciúmes dos quais sempre restará um pouco). militares. afinal. Continua despertando nas pessoas a mesma exclamação : .Puxa. Diferente do irmão. Hoje. Muito da fama que os moradores do chalé gozam . Mas seu interesse. fazendo hoje no instrumento tudo que Noel faz e muito mais. ganhos sem importância. defende-se no francês e no espanhol.. o próprio Noel . há de tudo no meio dos 56. que cedo ou tarde ocupará em sua vida o lugar que por enquanto pertence ao samba. criando suas próprias. Talvez se lembre que Machado de Assis e Dostoievski também foram epiléticos. Em vários campos Hélio gosta de competir com Noel. Parceiros que começam a se projetar a partir da simbiose com Noel.. foi o Hélio. na música. Mas quem deu este passo. Nesta roda. Não foi de graça que Orestes Barbosa confidenciou a Manuel Jansen Muller: -Na casa de Noel todos sempre estiveram a um passo da loucura. nem sempre declarada. o irmão é mesmo um privilegiado. exercitando-se aflitivamente até ferir os dedos. tudo para se fazer melhor que o irmão. naturalmente. passou a ter algo de obsessivo.se deve às estapafurdices de Hélio. da matemática à filosofia. parceiros que logo serão esquecidos. Rita. exigente com tudo e com todos.e nisso não difere de Noel.Bella. Hélio não se envergonha dela. a certa altura. Realmente se tornou melhor violonista que o irmão.Ensinei meu cachorrinho A passar sem ver comida: Quando estava acostumado. aprendendo posições novas. É muito inteligente . já pensa em tentar o alemão. Até um irmão. como tantos portadores da doença. Não é de boêmia. a epilepsia não de todo controlada. Esquisito. no amor. não gosta de boêmios. não só da especialidade. mas de assuntos que vão da mitologia clássica à literatura francesa. brilha tanto quanto Orestes Barbosa no Nice. Fala correntemente o inglês. desconhecidos. Ele disse adeus à vida! Mas a maior de todas as aptidões de Arthur Costa é realmente o teatro de revistas. universitários como ele. Mas como é esquisito! É mesmo diferente de Noel. Persegue-lhe as namoradas. o Hélio sabe de tudo. tornou-se ao crescer um dos maiores admiradores de Noel. raramente andam juntos. mesmo. agarrando-se ao violão horas a fio. amigos. Neca. Outras assustam-se com suas convulsões. estuda veterinária. Como nos tempos de garoto. Difícil ser diferente tendo nascido e crescido entre os saraus do chalé. porque Hélio. Sempre adorou. talvez chegue mesmo a conquistar algumas delas. futuros médicos. Sim. Uma amizade fraterna embora não muito íntima. Hélio também adora música. um tanto arrogante. da cosmologia ao ocultismo. no brilho pessoal.

O que não impede de se tornarem parceiros. A melodia é de Hélio. é repleta de trocadilhos e aliterações que os moradores do chalé sempre cultivaram. E justamente num fox-trot. A composição intitula-se Você Só. .. É muito americanizado. Mas a letra de Noel. mas. Também compõe... Não irá longe. Nesses muitos encontros que Noel tem vivido por aí. Pois você não aparece Creio que você se esquece Das promessas que me faz. separados na vida em quase tudo. Os dois formaram desde o começo uma parceria perfeita. no estúdio da Odeon. marcados ou ocasionais. E vice-versa. Em um tom de voz altivo. É porque você bem sabe Que em você desculpo Muita coisa mais. Faço cara de contente. vai trilhar caminhos. Noel e Hélio Rosa. Ismael Silva ocupa lugar único na obra de Noel Rosa. talvez no desejo de até nisso ser melhor. com compositores de talento ou estranhos que lhe batem no ombro. E quantas atingirão a perfeição? Pouquíssimas.. O que sei somente É que você é um ente Que mente inconscientemente. Mente e será gravada por Francisco Alves e Aurora Miranda: Não espero mais você.Não gosto. Sem ter o menor motivo.. dificilmente chegariam a manter um casamento musical harmonioso. a única composição dos dois que sobrevierá(7). E invariavelmente. não sei por que Eu gosto imensamente de você. E destinada a durar. Seus fox-trots 265 sabem a coisa já ouvida. desde a época de vovô Eduardo. Hélio. Você quando fala. Pois sua maior mentira É dizer à gente Que você não mente. mente Mesmo involuntariamente. Quem conhecer a gravação original da orquestra americana de Paul Whiteman para Nobody's Sweethearf logo ficará sabendo em que Hélio se inspirou. como se fosse uma saudação familiar.vida terá impulsos infantis de mostrar isso às pessoas. Parcerias longas e perfeitas são raras. mais ambiciosos: o da música americana. em termos de durabilidade e afinação. uma parceria longa e perfeita. E Noel é bastante franco em relação a isso: . Mas finalmente. Mas será mesmo um caso único? Em fins de 1932. segundo supõe. E depois vem dar desculpas Inocentes e banais. quantas durarão? Poucas.. A rigor. irmãos tão diferentes.

não tem descansado. o pianista executa mais uma vez sua composição. diz: . Nos últimos quatro anos. Ouça esta música que ele fez. Noel pega papel e lápis e começa a trabalhar num monstro. Uma composição que desde a primeira frase musical deixa claro que quem a fez não é um melodista de soluções fáceis. Vadico.Espere um instante .Vou tentar a letra. cria um coro que toca Eduardo Souto e um verso tão ou mais apreciável. cabelo ondulado dividido ao meio. de bigodinho fino. sem formalidades nem rodeios.Tem letra? . Oswaldo Gogliano. . nesta simples apresentação. Tanto a mãe mineira como o pai paulista. que fazem da segunda parte um mero complemento da primeira. Largou o emprego de datilógrafo numa firma de São Paulo e tratou de seguir sua vocação. E quando o pianista volta mais uma vez à primeira parte. Uma melodia de incomum beleza. talvez saiba. atento. quase totalidade dos compositores populares. De modo que Vadico estudou piano. . Ao fim. uma letra provisória destinada apenas a assinalar o número de sílabas de cada frase musical.Também não. O maestro Eduardo Souto vê Noel se afastar com o monstro no bolso. a cabeça meio de lado.Não. Ao contrário da maioria. um presente tão valioso quanto suas próprias composições. É um sujeito magro. este aqui desdobra um fragmento em outro. harmonia.De quem é? . A pedido do maestro. Acho que vocês deviam pensar em trabalhar juntos. músico de orquestras e pequenos conjuntos.diz o maestro.Tem nome? . popular. tem 22 anos e a música no sangue. que cuidava na sala ao lado de suas próprias gravações. A passagem da primeira para a segunda parte confirma essa constatação. 266 decidiu muito cedo ganhar a vida tocando e compondo música. descendente de italianos. Sensível como sempre. o queixo defeituoso apoiado nas costas da mão direita. Corajoso. Pianista de São Paulo. De preferência. lá no íntimo. tentativas de ter seus sambas . O maestro pára para pensar. composição. para não dizer ousado. óculos de aro de metal. isto é. .Minha. . que acaba de dar à música popular brasileira. a pontuação e a acentuação que deve ter cada uma. Empregos de pianista em cafés e hotéis. Noel ouve em silêncio.Este é o Vadico. O maestro apresenta-o ao pianista. Não se engana o maestro. Os dedos ágeis deslizam pelo teclado na execução de uma melodia que chama a atenção do maestro. fizeram questão de dar aos filhos uma educação musical. A todos eles.Eduardo Souto passa pelo pianista que dentro de poucos instantes vai acompanhar Francisco Alves numa gravação. Noel. . Em pouco ele está de volta trazendo pelo braço Noel Rosa. na qual colocam todos os seus trunfos melódicos e harmônicos.

gravado por Francisco Alves. chegou ao disco nas vozes de Luís Barbosa e Vitorio Lattari.) Quem acha vive se perdendo Por isso agora eu vou me defendendo Da dor tão cruel desta saudade Que por infelicidade Meu pobre peito invade 267 Batuque é um privilégio Ninguém aprende samba no colégio Sambar é chorar de alegria É sorrir de nostalgia Dentro da melodia Por isso agora Lá na Penha vou mandar Minha morena pra cantar Com satisfação E com harmonia Esta triste melodia Que é meu samba Em feitio de oração. O samba na realidade Não vem do morro nem lá da cidade E quem suportar uma paixão Sentirá que o samba então Nasce no coração. perspicaz como sempre. letra de Dan Malio Carneiro. ansioso para ver o resultado. entre outros) e foi incluído na revista musical Bibelot. na esperança de que isso lhe abrisse portas. ganhou um concurso do Correio da Manhã (competindo com Mulher de Malandro. A marcha Isso Mesmo É Que Eu Quero. Menos por serem conterrâneos do que por ter o diretor musical da gravadora. Tinha apenas vinte anos quando chegou por aqui. de Ary Barroso. o encontro com Noel. Gosta do título: Feitio de Oração. E mais ainda da letra: Feitio de Oração. será arquivada por muitos anos(9). de De Chocolat. Embora lentamente. Que dois dias depois procura-o na Odeon para dizer-lhe que o samba já tem título e letra. Achou melhor mudar-se para o Rio. vai para o piano. onde afinal estão as gravadoras. . e Na Piedade. Vadico. Na verdade. de Heitor dos Prazeres. por exemplo. Foi Eduardo Souto quem lhe deu emprego de pianista e orquestrador na Odeon. Não mais do que alguns mil réis à pouco generosa folha de Fred Figner. Engano. os músicos mais importantes. No Rio. os cantores que vendem discos. valeu-lhe uma medalha de ouro em São Paulo. música e letra suas. Teve seu samba Arranjei Outra.e marchas gravados por algum cartaz do rádio. Uma outra estrofe não será aproveitada na gravação original de Francisco Alves e Castro Barbosa. Mas o samba fica mesmo melhor sem ela. mas não o tornou conhecido. Silêncio. percebido logo que a Odeon é que tinha a ganhar: Vadico era talentoso e custava pouco. Veio avançando devagar. Outro samba. o jovem pianista foi avançando devagar. sua sorte começou a mudar. Tornou-se um ganhador de concursos. Agora. Mal foi notado. (Samba de Vadico e Noel Rosa.

é menos do que bom. Ele era de fato o único que sabia onde Terezinha estava. devem se somar desde já pelo menos três parcerias póstumas. 3. Embora seja o mais completo realizado até aqui. 4. inclusive o característico 'bum-bum-bum'. Vadico. o cantor estava muito ligado a René Bittencourt. outros parceiros." Almirante cita ainda um comentário de Tom Rio. segunda edição (página 72) que ". narram sobre a fuga de Terezinha a mesma história.Chorando não é que se sente Pois mesmo até um triste olhar nos mente E o meu silêncio então suplanta Um gemido na garganta Quando contemplo a santa! O tempo dirá que Eduardo Souto está certo. Francisco Alves gravaria o samba em 1952. meses antes de morrer. do ritmo e do estribilho de Na Pavuna e que utiliza na sua gravação os mesmos recursos lançados por nós. A essas 56 citadas no texto. Alegria e Fina. no estúdio da Odeon. Graças a essa ameaça.. em O Malfyo de 15 de fevereiro de 1930: ". Sem citar o nome de Jota Machado. nada impede que outras composições. segunda edição (página 195). NOTAS 1. ele conseguiria com que a Continental gravasse muitas de suas composições então encalhadas. Número baseado em levantamento feito pelos autores e publicado em detalhes no final do volume. venham a ser redescobertos após a publicação deste livro.. Almirante registra. cópia da melodia. René ameaçaria processar a gravadora Continental por omitir seu nome no selo do disco em que relançava Felicidade na versão original de Noel. mas existem. até o efeito de um batuque de tamborim que se encontra . O fato de Noel não assinar grande parte do que fazia torna quase impossível um inventário completo de sua obra. com quem faria Canção da Criança e Brasil de Amanhã. Por essa época. gravadas por ele próprio com o coro das meninas da Casa de Lázaro (esse mesmo coro interpretaria Canção da Criança à beira do túmulo do cantor durante seu sepultamento). entra nela como se para provar que parcerias longas e perfeitas são raras. Vadico e Noel começam com uma obra-prima e vão criar outras obras-primas pela vida afora.. O nome de Noel não sairia no selo do disco. banqueiro de roleta em Ramos. contudo. Nada do que farão juntos . Três anos depois. um pouco diferente da que Almirante nos dá em No Tempo de Noél Rosa. e não um bicheiro como conta Almirante. na qual Noel entra apenas como mero ajudante da família na busca da moça.. E quase tudo é mais do que excelente. 5. o mais lamentável papel-carbono foi o ridículo Na Gamboa. Um encontro abençoado aquele. Essas discussões serão estudadas mais aprofundadamente no Capítulo 46. dono de outro estilo (e Noel parece adaptar-se a todos os estilos).onze composições daqui até 1936 . em Ato Tempo de Noel Rosa. perfazendo o total de 592. Ismael Silva não é caso único de durabilidade e afinação na obra de Noel Rosa. Era mesmo um polonês. em depoimentos aos autores.

Se conseguir algo tão bom. Elmer Schoebel.83. . Mário vai explicando tudo.0408). se perderá. Pixinguinha é um gênio. . Liga para casa e recomenda que se ponha champanhe no gelo. cujos arranjos eram criados sob forte influência de maestros americanos como Whiteman.Cascatinha. portanto. Lamartine e Noel ouvem calados. 7. Sua e do irmão. Kosarin.. 268 NOTURNAS E VESPERTINAS Capítulo 27 . Faz sinal para Lamartine e outro para Noel. Temos de gravá-lo nos primeiros dias de novembro.Tenho um assunto para falar com vocês. Fora do café. uma lua diferente Que é do sol independente. Não entendia como tal. conclui Mário pela milésima vez. palhaço. Romeu Silva. fox-trot se tornaria muito popular através da clássica gravação de Paul Whiteman e sua Orquestra. a de Pixinguinha. também. Escrito por Ernie Erdman. Uma dúzia. Em 1935. encostado num poste.. Vamos jantar lá em casa. quando de sua estada em Belo Horizonte para tratamento dos pulmões.. Noel Rosa.no disco de Na Pavuna foi transportado. marcha que Lamartine Babo acaba de compor para ele gravar. falando e gesticulando muito. Decididamente a polícia precisa intervir nesse negócio de música e letra. Não. . Numa mesa de canto. Mente.Quero que vocês façam um samba para o outro lado de Ride. 8. Palhaço. Senão. Ainda está com os sons da orquestra de Pixinguinha na cabeça quando estaciona seu carro em frente ao Nice. 9. Com luz própria e com calor O Sol Nasceu Pra Todos Mário Reis assiste ao ensaio dos Diabos do Céu no estúdio da Victor e fica maravilhado com a orquestração de Pixinguinha para Ride. está Lamartine Babo. Hoje mesmo. Os dois se aproximam. com nítida inspiração em Leoncavallo." 6. Ver Capítulo 21 e nota sobre Espera Mais Um Ano no apêndice sobre a obra de Noel Rosa no final do volume. Pede que os dois esperem e procura o telefone mais próximo. No automóvel. Champanhe? Pensa melhor: . alheio à multidão que passa pela esquina. Napoleâo Tavares. Pixinguinha não terá tempo de escrever a orquestração. Mário tem uma idéia. para o disco de Na Gamboa. este 9. cerveja Cascatinha. Billy Mayers e Gus Kahn. realizada em Nova Iorque a 9 de outubro de 1929 (Columbia americana 2089 D). Qual a Razão?. Uma segunda parceria dos dois. E lamentaria não ter ainda a música popular brasileira uma "orquestra típica" como a americana e a argentina. a caminho da Rua Affonso Penna.. Noel revelaria ao amigo Roberto Ceschiatti sua admiração pela orquestra de Whiteman. Pode-se notar pelo arranjo de Tom Satterfield como são semelhantes as primeiras partes de Nobody 's Sweethearte Você Só. A estrofe só seria gravada em 1983. Mas é preciso pensar no outro lado do disco. terá mais dois valiosos trunfos para o carnaval de 1934. Muito menos outras. as de Bountmann. como uma das vinhetas do LP Noel Rosa Inédito e Desconhecido (Estúdio Eldorado 79.

A igreja é a floresta E o sino é o violão. podem ser as sementes de um grande samba. Também quero aproveitar. quero ver quem é o melhor. Vamos ver qual dos dois é o melhor. 269 bebendo deliciado os sons que Lamartine vai criando com a ajuda de Noel. Mário é inteligente. Lamartine acabou de fazer a sua segunda: Deus. Nenhum dos dois conhece música. tom menor. os dois maiores poetas do carnaval brasileiro terá de resultar.Vamos lá. . Seja lá o que Deus quiser! .Menor. no mínimo. Lamartine!. Quinze. quando inventou o mundo. Fez o Sol e fez a Lua. Mário percebe que a proposta. Lamartine e Noel se entreolham. Antes que chegue ao fim. fusas e colcheias sendo elementos cujos sentidos jamais compreenderão bem. Fez o amor em um segundo. As notas vão saindo em sua voz fanhosa. mas logo fica imóvel. . Palhaço. onde Mário criou e cultiva a fama de impecável anfitrião. também dá seus palpites na construção da melodia. Para quê? Mário. Brios e astúcias que. tirando acordes do violão de Mário. Mário sai da sala. Sou o Sol.Você primeiro. É mais nostálgico. Lamartine batuca com os dedos na mesa de vidro e começa a cantarolar. Mário? Em tom maior ou menor? . janta-se. vinte minutos depois.diz Noel. em duas excelentes segundas partes. Por isso insiste: . Na casa da Rua Affonso Penna. Música e letra da primeira parte ficam prontas em minutos: O dia vem chegando. tomam-se aperitivos. Por que você me nega A esmola de um olhar? O Sol nasceu pra todos. Lamartine cantarola mais uma vez a bonita primeira parte. Lamartine . provavelmente. com outra garrafa de cerveja na mão.Como é que você quer. surte efeito. em silêncio. de início. . . Uma competição entre aqueles que são. postas em confronto. você é a Lua. volta. Mário propõe: -Muito bem. conhece os brios de Lamartine e as astúcias de Noel. Aqui e ali.Muito bem. Vou rezar minha oração.Lamartine e Noel concordam. Quero um samba no mesmo clima de Ride. Noel interfere. Lamartine.Você é um craque.exulta Mário. Agora. em tom de desafio. cada um de vocês faz uma segunda parte. em forma de disputa. sorvem-se goles e mais goles de Cascatinha bem gelada e só no cafezinho começa-se a falar do samba. Fez o homem e a mulher.

o primeiro verso rimando com o segundo. Mas uma lua diferente. sucessos de meio de ano. de João de Barro e Lamartine. entre outras. é capaz. um sentimento semi-oculto em cada frase. levará ao sucesso um samba de André Filho: Alô. Alô. juntos ou não. Noel! Mas lá no fundo. ele canta: E você é a triste Lua Que ilumina a minha rua. o terceiro com o sexto.. desde sua vitoriosa estréia em 1931. Com luz própria e com calor.. baixinho e triunfante: . Madrugada já. Mário sabe que Noel não se deve afastar do tema. Este. Mário Reis quer dizer alguma coisa. irreverente e bemhumorada releitura do descobrimento: Quem foi que inventou o Brasil? Foi seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia 21 de abril. Essa história de homem.. lua. mulher. terão mais do que dois valiosos trunfos para o carnaval de 1934. . nem tanto. mas não pode. Noel tira do bolso o cotoco de lápis e pede que o parceiro repita sua segunda parte. Minutos depois. nos bailes e nas ruas. Enleva-se pelos versos de Noel. De quebra. Tão pouco que a Odeon e a Victor tentarão prolongar a atualidade de algumas de suas composições. . brilhará também com História do Brasil. a idéia original de Lamartine tendo de ser seguida até o fim. Mas não faz mal. Em dupla com Carmem Miranda. sol. a mesma idéia de Lamartine aprofundada. dirá que nem toda a admiração que tem por Lamartine o impedirá de admitir que Noel Rosa é imbatível: "Quem mais seria capaz de misturar amor e cosmografia em letra de música?" Mário brinda com goles de Cascatinha o novo samba. em seus melhores momentos. O nome de Noel jamais aparecerá no selo do disco ou nas partituras impressas. é um achado de que só ele.Como é. o quarto com o quinto. Que é do Sol independente. quando Com Que Roupa? o fez famoso quase da noite para o dia. Noel?Agora é que eu vou ver se você é bom mesmo. Já Noel. Uma Andorinha Não Faz Verão. caminha sozinho até o ponto do bonde que o levará de volta a Vila Isabel.Noel desta vez se deu mal. nunca produziu tão pouco para o carnaval como agora: não mais do que uma marcha e dois sambas.. Numa sextilha ainda mais perfeita que a do parceiro. Os versos de Lamartine Babo são ótimos. talvez cantando. Para não confessar aqui que gostou mais da segunda parte de Noel que da de Lamartine. pensa. Mário Reis e Lamartine Babo. consigo mesmo.. Dois meses depois do carnaval. fará o povo cantar. aqui mesmo intitulado O Sol Nasceu Pra Todos.Você é um craque. Que é do Sol independente Com luz própria e com calor. uma Lua diferente. Noel. resume todo o entusiasmo no mesmo elogio: . Onde mora a minha dor. Mário arrebatará os foliões com um samba de Alcebíades Barcellos e Armando Marcai destinado a transformar-se num dos clássicos da música popular brasileira: Agora É Cinza..

O maior prêmio dessa emulação feita de ritmos e melodias. que a define com sua costumeira e arrebatada verve: ". um quê . Só recebemos visita De moça bonita No meu coração é a redação. sátiras e cantos de amor. é o reconhecimento popular. lembra muito Wonder Who 's Kissing Her Now.. Seu nome é cabeçalho Extraordinário São de dez milhões as edições. É o caso também de Eu Queria Um Retratinho de Você. Madelou. Escrevo artigos de sensação. seja nos blocos de sujo. cantando o que compositores. marchas e sambas.. Há originalidade na letra. uma primavera de carne nos estúdios. Está muito longe de ser bonita. Não é uma grande cantora. fazendo os pianistas errarem com a sua presença. em especial Orestes Barbosa. o prazer de ver e ouvir todo o mundo. Vai ser um sucesso porque Figura só vê quem não lê. como um reclame odontológico de Simões de Oliveira. especialmente na interpretação de Mário Reis. letristas e intérpretes trabalham desde as festas da Penha nos domingos de outubro. seja nos bailes grã-finos.Há nela. Eu quero um retratinho de você. outra vez dele e Lamartine. Você é uma figura original! Retrato em um tamanho especial Que vai deixar o mundo inteiro mal. Chama mais a atenção pelo charme do que pela voz. mas usadas com bastante graça. Chico é o cartaz de sempre. uma das muitas moças de sociedade que."2 Mas não são os microfones intoxicados ou os tropeços dos pianistas que assinalam a história desta gravação realizada no dia 9 de novembro de 1933. uma declaração de amor feita com imagens e expressões pedidas emprestadas ao jornalismo. começam a conviver com a música popular. Novembro é mesmo o mês em que os artistas ocupam os estúdios das fábricas de disco para se lançarem à animada e freqüentemente renhida competição carnavalesca. Francisco Alves e Madelou Assis gravam juntos um samba de Ary Barroso e Noel Rosa.. porém.. canção americana de 25 anos atrás1. Eu quero um retratinho de você. Pois vou mandar fazer o seu clichê E publicá-lo no meu jornal. Na Odeon.. São os casos de Feitio de Oração e Quem Não Quer Sou Eu.mantendo-as em 270 suplemento até fevereiro. A melodia. O seu olhar tão profundo É artigo de fundo É grande furo em qualquer diário. mas mesmo assim arranca suspiros e faz bater mais ligeiro o coração de muita gente. seguindo os passos de Mário Reis... Sou o principal redator Do "Correio do Amor". sem que se saiba agora. deixando o microfone intoxicado pelo perfume de sua boca de morango orlada de tinta e pérolas..

E a partir deste momento. Passa por nós. o relacionamento entre os dois desgastado e até mesmo estremecido . dá esbarrão e não nos vê. Quanto barbado que jejua mais que o Gandhi. Muda de casa e deixa mudo o alfaiate. Uma é a marcha Você. Você. Faz lembrar uma saudade Que guardei no coração. Você. Daqui a dois meses. Quando à noite olho as estrelas A brilhar no firmamento. Santas de olhar bem profundo.de última vez. Por Exemplo.. Gandhi com grande.. Você. 3 de novembro. Fico distraído ao vê-las. Você. Anda depressa. vai parar não sei aonde. que as grava no mesmo dia. lá por janeiro. abre importante e tumultuado capítulo em sua vida de compositor popular: O Orvalho Vem Caindo.paga a dívida pelo Pavão.. por exemplo! Você. por exemplo. mas vai sempre com atraso. por exemplo. por exemplo. entre outras coisas. Estrela da Manhã. a presença de Noel muito nítida no espírito dos versos e nas rimas pouco usuais. Você. por exemplo. Esquecendo o meu tormento. ou seja. Você. As duas outras composições de Noel Rosa especialmente para o próximo carnaval são entregues a Almirante.. Você.vão desfazer a sociedade.. Está neste caso! Há muitas santas no mundo Que vivem fora do templo. Não tem barba grande! Quanta menina por ouvir no telefone Uma voz grossa feito solo de trombone. Quando brilha na amplidão.. Pega automóvel.. por exemplo! Quanto barbado que não paga engraxate. Não anda de bonde! Há muita gente que só sabe dar palpite. por exemplo. é um cintilante fim de parcerias. Não tem coração! A segunda é um dos sambas mais perfeitos e perenes de toda a obra de Noel Rosa. mas já teve meningite. Pois tem cabeça. por exemplo.. A gozar a mocidade. E muita gente vive bem sem um pulmão. Você.. por exemplo. templo com exemplo. Mas o samba. Nunca mais Ary e Noel comporão juntos. Chico e Noel . pincenez com vê.. por exemplo. Você.. apesar do pincenez. Um samba que. Só um no meu peito vive Sob a forma de saudade. Há muita gente que. E dos amores que tive. toda a cidade terá se rendido aos encantos da melodia simples e contagiante . 271 A estrela da manhã.. na Victor.

Não fez nada que preste. mesmo que mal saiba assinar o nome. os dois valem como irrefutável prova em contrário. Chamase. cheios de manha. E saberá de cor os versos escritos com fino humor. arranca a parceria à força. quando não consegue comprar o que lhe interessa. confessadamente. que possua ouvidos péssimos. Germano é. vivos.. Noel escreveu pelo menos mais uma estrofe: 272 O meu chapéu vai de mal para pior E o meu terno pertenceu a um defunto maior (Dez tostões no belchior!) . tudo é possível. Decidiu trocar as luvas pelo samba. Foi um lutador medíocre. Mas serão eles realmente capazes de fazer sambas. que tenha uma voz incapaz de entoar três notas sem desafinar. Se um dia passo bem. Somadas as espertezas de um e de outro. dois e três passo mal (Isto é muito natural!) Além desses versos gravados por Almirante. Meu trabalho é achar quem descasque por mim (Vivo triste mesmo assim!) A minha sopa não tem osso nem tem sal. se a sobrevivência está em jogo. José ou Giuseppe Gelsomino. Astutos. Há quem diga que. nada que fosse notado. Mesmo assim. nada devem aos mais espertos malandros cariocas. comprador de samba. Kid Pepe é um boxeur aposentado. mas fora do ring. Há razões de sobra para tal estranheza. Para quem vive a dizer que português e italiano são trouxas. Aprendeu com Francisco Alves. sabe usar os punhos com a habilidade de um nocauteador profissional. na época em que morava com ele na casa da Ruajustiniano da Rocha. no meio musical.desse samba. até se tornar parceiro de Noel Rosa em O Orvalho Vem Caindo: O orvalho vem caindo. Um humor tão claramente seu que todos. estranharão o fato de ter o samba a assinatura de Kid Pepe ao lado da de Noel Rosa. na verdade.. até este final de 1933 os socos não o ajudaram muito na luta para obter sucesso na música popular. Tenho passado tão mal: A minha cama é uma folha de jornal! Meu cortinado é o vasto céu de anil E o meu despertador é o guarda-civil (Que o salário ainda não viu!) A minha terra dá banana e aipim. marchas ou qualquer coisa que se pareça com música? Poucos acreditam. nasceu na Itália e é amigo de Germano Augusto. Vai molhar o meu chapéu E também vão sumindo As estrelas lá no céu. Kid Pepe não fica atrás. o motorista de Francisco Alves.

É tão triste a despedida da noite. de brasileiros cuja sopa não tem osso nem tem sal..pergunta o repórter. insiste: .Sentindo a vida carioca .Sim. . Já sentado à mesa..Como foi que vocês compuseram O Orvalho Vem Caindo? Os dois compositores se entreolham. Noel põe-se a elogiar o novo parceiro. Lembra que o samba não vem apenas dos morros. tudo. debaixo das estrelas que se apagavam. . A cidade toda canta o samba.É melhor silenciar sobre isso. a pobreza da infância. de um solo fértil onde nascem banana. É segredo nosso. E se não tem. cigarro e palito no canto da boca. Não devemos dizer.Mais uma cerveja! . . Kid Pepe pede uma cerveja enquanto o repórter fica observando Noel (". saídos de uma vitrola de casa de música. do outro lado da Rio Branco. O Orvalho Vem Caindo é o seu maior sucesso até agora. Kid Pepe fala: .Mas também das ruas planas e largas da cidade. Se quiser sair um pouquinho.Aonde? . a surra que levou numa luta que lhe custou duas costelas. No Café Trianon. Naturalmente. tipo atlético..Por aí em qualquer bar. mal dois e três. . de fato encontram Noel.. . o que levaria Noel a conceder-lhe parceria? Pergunta que muito provavelmente intriga o repórter de O Globo que passa pela Rua Gonçalves Dias e ouve. por onde passam de madrugada os carrospipas de vassouras cilíndricas. seu conhecido. o samba é uma retomada de Com Que Roupa? sem o caráter formalmente revolucionário daquele. O repórter. . Sim. contudo. e mesmo assim do homem do povo passando bem um dia. fica sabendo de detalhes de sua vida difícil. há razões de sobra para que muitos estranhem o fato de Kid Pepe ter alguma coisa a ver com este samba. aipim.De certo modo. diga que foi em qualquer lugar. que Kid Pepe compõe com alma. em frente ao Nice.grita para o garçom. Continua derivando. a melodia e os versos de O Orvalho Vem Caindo.Tenho grande prazer em dizer que o fiz de parceria com Noel Rosa. E Noel: . garanto que o encontramos.Se faz questão desse pormenor. o trabalho como vendedor de jornais e bilhetes de loteria. O empregado apresenta o homem ao repórter. a quem muito admiro. . O repórter e Kid Pepe saem juntos. um verdadeiro gênio da música popular". mas outra vez falando de um Brasil de tanga. diz que suas músicas são todas boas. Noel é ainda mais vago: . onde um dos empregados. arrisca a pergunta que o intriga: . a decisão de tornar-se compositor. . conversa com um homem forte. Ouve dele a confissão de que nada entende de música. A feliz coincidência permite ao jornalista entrevistar Kid Pepe aqui mesmo. representados pelo guarda-civil transformado em despertador de pobre.Talvez chorando. Há até referência aos servidores públicos que ganham pouco e não recebem pontualmente. Kid novamente: . pensa ao se aproximar da Casa Henrique Tavares & Companhia. escreverá em sua reportagem).Mas como foi que vocês criaram este samba? O entrevistador nota "novo entreolhar misterioso e sorrisos ainda mais enigmáticos" nos dois entrevistados.É o autor de O Orvalho Vem Caindo.responde Kid Pepe em seguida.

Noel arremata: . Noel entrou com música e letra. pernoitando no barraco de Cartola como confabulando com Ismael Silva no Estácio.. Seus horizontes estão muito mais além. Tapeando o açougueiro . Eis aí territórios muito especiais nas incansáveis peregrinações de 273 Noel Rosa por sua cidade. No fundo. Ama o subúrbio. sente-se à vontade. Fica difícil encontrá-lo neste Rio de Janeiro que. E nessa volta. Voltaste e o despeito te acompanha E te guia na campanha Que tu fazes contra mim. Voltaste novamente sem dinheiro. mudando de ponto e destino a cada noite. ao contrário do que podem pensar alguns de seus amigos de Vila isabel. Como o próprio Noel nos garante no lindo samba intitulado Voltaste. Noel prefere a direção oposta. ou de tomar dois ou três tragos num escondidinho da Lapa. Nestes dias em que se fazem cada vez mais freqüentes as migrações dos moradores lá de longe para o Centro (ou deste para os bairros litorâneos). o diálogo em torno de O Orvalho Vem Caindo. tanto pode estar num festival em Bangu como numa roda de choro na Cancela. tudo isso só servirá para aumentar as suspeitas de que. aqui enaltecida por um poeta que não é muito die enaltecer mulheres. Voltaste para fabricar defunto. ou quanto ascenderam socialmente. depois de vaguear pelas esquinas do Centro. deixa que se solte seu espírito boêmio. Por isso. não estará comprando amor barato numa pensão da Joaquim Silva ou da Conde de Lajes? O subúrbio e a Lapa. Vai fechar o botequim. na criação deste esplêndido samba. Volta e meia Noel desaparece das conversas de esquina do Ponto de 100 Réis. Vai haver muito distúrbio.No Café Belas-Artes. esbarra no orgulho da mulher suburbana. São sedutoras mas enganosas as luzes da cidade. Num. em casa. movidos quase sempre pela necessidade de mostrarem o quanto melhoraram de vida. A matéria que escreverá contando em detalhes seu encontro com Kid Pepe e Noel Rosa(3). O guarda. já o subúrbio é ambiente de completa liberdade. Pode ter arranjado nova namorada no mais longínquo dos subúrbios. Kid Pepe. que apitava ressonando. crônica carioca da melhor feitura. Um samba antológico: Voltaste novamente pro subúrbio. a vida simples e a gente humilde que o habita. por exemplo. Anda alerta envergando O seu capote de lã. a história de um sucesso cuja origem parece envolta em mistério. Noutra. O repórter desiste.. com os músculos. Gosta de bandarrear por aí. o malandro de volta ao subúrbio depois de constatar que não há nada de novo lá no centro da cidade. Para fornecer assunto Aos diários da manhã. é tão ou mais suburbano que de Vila Isabel. não se limita aos quarteirões entre o Largo do Maracanã e a Praça 7. Ou quem sabe.

.que canta o subúrbio.Que não tem golpe de vista.. Quando eu quero eu sou ruim.Me fazer perder a bossa.quando não emocionado . É sempre de modo edificante . Noel Rosa não é exceção. Não há boêmio que resista aos apelos deste bairro carioca que alguns intelectuais gostam de chamar de Montmartre brasileira(5) . Voltaste. A Lapa. mas acima de tudo vivem .Só a saudade do barracão. os cabarés mal-iluminados. que será o bairro mais cantado por Noel em toda a sua obra. amam. um simples Casébre da Penha adquirindo vida nos versos que lhe dedica Noel (". Tão ou mais suburbano que de Vila Isabel. Eu desconfio Que ele foi me procurar. os botequins sujos. Como nesta preciosidade que é Meu Barracão. Voltaste pra mostrar ao nosso povo Que não há nada de novo Lá no centro da cidade. Mas veio lá da Penha Hoje uma pessoa Que me trouxe uma notícia Do meu barracão Que não foi nada boa: Já cansado de esperar.. Voltaste com um cão muito valente Que só tiras da corrente Quando chega o prestamista. Não te dou o meu afeto.. Penha. é uma nostálgica canção suburbana: Faz hoje quase um ano Que eu não vou visitar Meu barracão lá da Penha Que me faz sofrer E até mesmo chorar Por lembrar a alegria Com que eu sentia O forte laço De amor que nos unia.. mas falhou o teu projeto.Não há quem possa .. Adora suas ruas estreitas. desde os tempos de São Bento(4). os sobrados suspeitos. tanto quanto uma homenagem à Penha. Voltaste confessando sem vaidade Que a tua liberdade É viver bem preso a mim. Mas Meu Barracão.. Não há quem tenha Mais saudades lá da Penha Do que eu .juro que não! . por sinal. Voltaste demonstrando claramente Que o subúrbio é ambiente De completa liberdade. Saiu do lugar. cantam. eu desconfio que ele foi me procurar. locais onde bebem. sofrem.").

São mais pose do que convicção. poetas. Eu bato com ela no bucho. Já em 1930. quando tinha apenas dezenove anos. compunha sambas como este Vingança de Malandro. uma grande história. Romances.tirando da noite o que de melhor a noite tem para dar . desses que exploram mulheres e acreditam que só pancada as amacia. viciados.Loura como as louras espigas de milho. memórias. políticos e o que mais se possa imaginar. Iludindo com carinho Explorou aquele anjinho Pôs a casa no leilão E depois meteu o braço Bem na cara do palhaço Veio me pedir perdão Ela hoje tem a nota Pra comprar minha derrota Seu amor vou aceitar Pois assim eu vou tomar Pouco a pouco o seu dinheiro E depois vou me pirar! Os anos passaram e a pose não mudou: de vez em quando Noel ainda se traja de malandro em seus sambas. jogadores. Como neste que ele e Ismael Silva vão completar a partir de um estribilho de Orlando Luís Machado. Não esconde a preferência pelas morenas. Sempre foi assim. copo erguido sobre a cabeça: . falsa como as mulheres. grã-finos. sorvidos após uma saudação peculiar. Seus sambas pregando esse tipo de malandragem não devem ser tomados ao pé da letra. Ainda é um freqüentador de bordéis. mas isso não quer dizer que rejeite as ruivas ou as louras alquimiadas como Julinha. intitula-se Escola de Malandro e fala de uma doutrina que Noel Rosa jamais porá em prática: . que estes dois gravam em dupla na Odeon. policiais. E Noel.. pederastas. poemas. O samba. Só a Lapa daria todo um livro. um branco do Catumby cuja passagem pela história da música popular vai se dever praticamente a esta parceria com os poetas da Vila e do Estácio(6). gordas ou esquálidas. menos vontade de agir do que de cantar como malandro. Não é propriamente um malandro. Pouco importa 274 que sejam feias. A Lapa é um grande cenário. já passadas.. Sente-se bem mais à vontade numa dessas pensões da Lapa do que em certas festinhas familiares onde só consegue se desinibir a custo de muitos goles de Cascatinha.turbulentas populações de mulheres. malandros.. ela bate comigo no Chão! Não é muito exigente com as mulheres que fazem amor por profissão. Na verdade. artistas. um de seus personagens. falando de uma esperteza que na verdade nunca teve: É vivendo que se aprende O malandro tudo entende Eu espero a minha vez Já faz hoje mais de um mês Que ela me abandonou Pra morar com um português. músicas. mendigos. muito ainda se escreverá sobre ela. contos. rufiões.

.refletida não só nas roupas baratas. quá. Fingindo é que se leva vantagem Isso. Tomo bonde. a partir dos padrões conservadores e indisfarçadamente elitistas da comunidade pequeno-burguesa a que pertencem. Não são misteriosas nem indecifráveis. Pois aconteceu comigo Perfeitamente o contrário: Ganhei foi muita pancada E um diploma de otário. mais boêmios que os ex-integrantes do Bando de Tangarás (e certamente mais identificados com o espírito vagabundo do Ponto de 100 Réis). À vontade. Como operárias de fábrica. vivendo numa espécie de redoma enquanto o casamento não chega. o tipo de malandragem que Noel e Ismael cantam. Misteriosas. raramente andam por onde Noel 275 anda. quá. Vespertinas são as moças de famílias iguais às suas. indecifráveis.) Oi. Pelo contrário. é impensável vê-los consumindo noites em bares e bordéis baratos. Namoram às escondidas.. Ou pregando.A escola do malandro É fingir que sabe amar Sem elas perceberem Para não estrilar. são as irmãs ou futuras esposas dos rapazes de classe média de Vila Isabel. João de Barro. Christovam de Alencar. Distinção que aprendem a fazer muito cedo. raramente dizem "não". de braços dados com as amigas. Tomo a grana da mulher. recados ou olhares. por bilhetes. Alvinho. para breves e vigiados passeios pelo Boulevard. Comprei um par de tamanco. Já as noturnas não se podem dar ao luxo de passear pelo Boulevard à luz do sol. sim. As noturnas e as vespertinas. lavadeiras. No portão. no modo de falar . domésticas. Almirante. eles se sentem com as moças do bairro. mesmo. mas também nos gestos. muito menos respeitadas como as outras. Mesmo os outros. Largaram cedo os bancos de escola. A maioria dos rapazes de classe média de Vila Isabel tem pouca intimidade com este mundo de desocupados que vivem à custa de mulher. Ou por . o fazem em grupo. Jesus Cristo manda dar! Tomo vinho. A venda estava mais perto. desejadas.. quá. Caseiras e bem-comportadas. Nas raras vezes em que saem. tomo leite. automóvel.é tomada como sinal verde. Trabalham o dia todo. Pobres. sua humildade . ainda que só em teoria. E nunca tão à vontade. Nássara.. é que é malandragem (Quá. De fato. balconistas. Só não tomo Itararé(7) Oi. a nega me deu dinheiro Pra comprar sapato branco. mas respeitadas (para não dizer intocáveis) . vestem-se modestamente. enquanto existir o samba Não quero mais trabalhar A comida vem do céu. de tardinha.

medo (alguns de seu conquistadores são filhos de gente importante. em sua crônica Lapa 1930. São moças simples. como atestam os diálogos transcritos. boas. raparigas tratadas pejorativamente como "empregadinhas" e que eles só assediam nas ruas escuras. Henrique Pongetti.as "empregadinhas" da noite . Noel é exceção. quando não de seus próprios patrões). ao lado das namoradas humildes que seus companheiros preferem esconder . sozinho ou com parceiros. E oito em que menciona a Penha: Cumprindo a Promessa. Com as noturnas não corre esse risco. Ou porque. página 727): "A zona da Lapa prepara-se para ser o nosso Montmartre. Como se de fato considerassem o bairro carioca uma réplica da Paris boêmia que tinham conhecido ou sonhavam conhecer. Não só prefere as noturnas como não se importa em tornar ostensiva essa preferência. acreditam que eles possam gostar delas. nos terrenos baldios. Fiquei Rachando Lenha.e de fazer isso feliz da vida. a propósito de Tipo Sete. 2. Feitio de Oração. Feitiço da Vila e Palpite Infeliz. segunda edição (página 57). Bom Elemento. Clara tem sido a única vespertina de sua vida. Samba. As noturnas não passam de quebragalhos. Não há Castigo. quatro sambas falando em Vila Isabel: Eu Vou Pra Vila. A rigor. O terceiro homem com quem o repórter conversou era Antônio Nássara. a pé ou de carro. Noel Rosa compôs. um Montmartre rasteiro. sinceramente. além de gostar. amigas. Adams. 3. na crônica A Lapa: Ontem e Hoje. reportagem não assinada. marcha que ele e Alberto Ribeiro fizeram para o mesmo carnaval de 1934. Estudantes das muitas repúblicas ali existentes intitulavam se "montmartroises". 5.Conversando com três homens que cantam o que sentem na alma". 4. fala de "atmosfera montmartroise" ao se referir especificamente ao cabaré Royal Pigalle. O fato de desfilar pelas ruas. pouco importa se pobres. Diz Gastâo Cruls em Aparência do Rio de Janeiro (volume II. in O Globo de 2 de fevereiro de 1934 (páginas 1 e 3). E mantém sempre atual o velho comentário dos vizinhos: . Gostam das vespertinas. nos lugares ermos. Will Hough e Frank R. Escrita em 1909 por Joe Howard. mas que nas perspectivas abertas pelo álcool talvez fizesse do Convento de Santa Teresa o Sacrê-Coeur sobre a butte. De Qualquer Maneira. Eu Agora Fiquei Mal e Chuva de Vento. Aqui. longe dos olhos de suas famílias. Não era raro entre os intelectuais que freqüentavam a noite a associação da Lapa com Montmartre.Este filho de dona Martha só vive metido com gentinha. escandaliza as pessoas. publicada postumamente em 1965 . Não gostam. delas. publicada em 1962 em O Globo. NOTAS 1. Meu Barracão. ingenuamente. "Melodias do coração no tumulto de Momo . Trata-se de matéria realmente repleta de pistas e insinuações." E Brito Broca. na verdade. um namoro cujas constantes fugas dele expressam nítida resistência a um tipo de relacionamento que sempre acaba diante do altar (e o casamento é algo que jamais fará parte de seus planos).

Leblon.. Não há malandro casado. a batalha que não houve. Depois de algumas trocas de tiros e escaramuças menores. com o Pavão. não há batalha. Capricho de Rapaz Solteiro desde que comprou o Pavão. Expectativa em todo o país. . pedindo-lhe que se renda: Washington Luís foi deposto ontem. Campinho. ele passa pelo Ponto de 100 Réis fazendo soar a bizarra buzina do seu carro e acenando para os amigos que conversam na esquina. Os governistas se rendem. Qual delas vai querer sair a pé. defendendoa de forças revolucionárias (7 mil e 800 homens chefiados por Miguel Costa). combatentes entrincheirados. Noel Rosa tem podido levar suas namoradas a passeios bem mais distantes e prolongados. assim mesmo de dimensões modestas.protesta um dos amigos.visitou redações de jornal às vésperas do carnaval de 1933. só não tomo Itararé. Antes que soe o primeiro tiro o deputado Glicério Alves atravessa as linhas empunhando uma bandeira branca e vai parlamentar com Paes de Andrade.e acompanhado do parceiro Jorge Dutra. . toma o caminho de Jacarepaguá. observa "um certo ar montmartroise" no quarteirão do Grande Hotel da Lapa. pago a peso de samba. uma dessas visitas. amigo dos tempos de infância na Rua Itapiru . 7. segundo previsão dos jornais que apoiavam os revoltosos. quando Noel . Como diz Noel.na Antologia da Lapa organizada por Gasparino Damata. canhões Krupp a postos. morena de fábrica sentada ao seu lado no banco da frente (nenhuma vespertina lhe aceitaria carona). Pois malandro não se casa. com detalhes. Capota arriada.De carro. Noel refere-se ao episódio da Revolução de 30 em que as tropas governistas (6 mil e 200 homens comandados pelo coronel Paes de Andrade) ficaram quase três semanas em Itararé." 276 CASA.. nada acontece.. numa infrutífera tentativa de divulgar suas composições Estou Sem Batente e Veneno Contra Veneno. que sequer seriam gravadas. O Diário Carioca de 20 de janeiro de 1933 registra. Pé no acelerador. Orlando Luís Machado aparece sozinho como autor no selo do disco em que Noel e Ismael gravaram Escola de Malandro. leva nítida vantagem sobre todos eles na caça às "empregadinhas" das redondezas.Não é justo!. depois Cine Colonial. hoje Sala Cecília Meireles. NÃO CASA Capítulo 28 A mulher é um achado Que nos perde e nos atrasa." Como tal . 6.. certos de que eles massacrariam os adversários. O samba foi seu único sucesso. Deus sabe onde. que agora. E por muito tempo funcionou como seu cartão de visitas: "Sou o autor de Escola de Malandro. não é justo. Uma reunião é feita no Martinez para que os rapazes do bairro estudem uma forma de enfrentar a "concorrência desleal" de Noel. sul de São Paulo. Itararé. anunciou-se para o meio-dia de 25 de outubro uma segunda batalha ."a maior do século". passar pelo desconforto dos muros e dos capinzais. ".

segundo as regras do seu jogo. Só que agora. . Joá. -Quepelo menos. Bem. corpo de mulher feita. amanhã o Reis. vai sempre outro casal.. Trabalha na Lavanderia Cooperativa. Você sai com a sua menina no banco da frente e deixa o de trás para que um de nós leve alguém. O que fazer? De quem é a sugestão não se sabe ao certo. crescida. o Grajaú. 277 fazendo soar a buzina do carro. . mas é Christovam de Alencar.tem a lhes oferecer a maciez dos bancos do Chevrolet? É evidente que. Ali. É justo. Nássara concorda em servir de intermediário: . E além disso. diante do protesto da comitiva chefiada por Nássara. Lindaura. grava discos. cada vez que saia com uma pequena. Noel! Não custa nada. Por isso a turma se reúne. sim. mas não de fábrica. ela brincando de roda no quintal transformado em recreio. na Rua Maxwell. Lindaura é morena. sabe que Noel é cantor de rádio. uma das muitas moças que Noel assedia ao volante do Pavão neste outubro de 1933. os motorizados sempre chegam na frente. nessa corrida. É mais justo. na Praça 7..condignamente representada por Nássara-ele continua passando pelo Ponto de 100 Réis. chame um de nós. Depois do protesto da turma .justifica alguém.Não . -Eo que querem vocês que ele faça? Venda o carro? . Ela não tarda a aceitar o convite para umas voltas. no máximo até o Rio Comprido ou Boca do Mato. dezessete anos. nada tem a ver com a garotinha daqueles tempos. Alto da Boa Vista. Noel aceita dividir o conforto do Pavão com qualquer dos amigos e sua respectiva pequena. É verdade: onde cabem dois cabem quatro. repetidas vezes. Os dois passam a sair juntos quase todas as noites. sempre que a vê. acenando para os amigos que conversam na esquina.O Noel ouve muito o Nássara . Depois. De início. o Armando Reis. Pensando bem. ocupando o banco de trás. até que a reivindicação de Nássara traz vantagens. Leblon. morena de fábrica sentada ao seu lado no banco da frente. até a Praça Saenz Pena. Mais tarde Noel envereda por lugares mais distantes e desertos. os dois se conheceram faz algum tempo. A gente faz um revezamento. e já foi aluna da escolinha de dona Martha. de que o carro é trunfo forte demais. Hoje. E Christovam vai dizendo o que a turma quer: que ele convença Noel de que a concorrência é mesmo desleal. ele tocando violão à sombra da goiabeira. o Arnaldo Amaral. Quer dizer. Nem sempre os amigos se divertem. no de trás. faz música para o carnaval. naturalmente. Quando os passeios se alongam. Mas impressiona-se menos com isso do que com o velho Chevrolet cuja buzina Noel aciona.Que diabo. depois o Seringa. sempre outro casal lhes faz companhia. sozinhos. hoje eu. Os passeios são a princípio curtos e inocentes.intervém Christovam. Noel não se opõe. seremos sempre dois casais. quem fica incumbido de transmiti-la a Nássara. Lindaura era então uma menina recém-saída do bê-a-bá da Escola Rio Grande do Sul. até que todos tenham sua vez. É. Ou uma das tantas garotas humildes que os rapazes do bairro perseguem pelas ruas escuras. Nássara é convocado às pressas a uma das mesas do Martinez.

nenhum deles escapa. o Pavão enguiça. Um dia Gonçales ainda será conhecido no meio. samba que os dois jamais ouvirão gravado e que Gonçales. sobrevivendo a Noel em alguns anos.reage Lindaura. Noel tenta fazer o carro pegar. saudações polares.. nem parece haver janela. Não quero lembrar esse mal que nos perseguiu.O Pavão morreu. Que eu me encarrego de sumir. . figura conhecida no Ponto de 100 Réis.alívio geral . Waldemar. Gonçales torce e . Lindaura. Com ele Noel compôs Faz de Conta Que Eu Morri. só se veria palidez.o carro pega.Que história é essa?. terá sempre dificuldade de provar que também é seu: Faz de conta que eu não vivo.cujo nome se escreve mesmo com cedilha e não com zê como o dos antepassados espanhóis .Pelo jeito. Se houvesse luz o bastante para se saber como estão os rostos das duas. aprendiz de compositor e companheiro de Noel nas aventuras amorosas a bordo do Pavão. surgem problemas. Nem quero lembrar uma jura que não se cumpriu."). Desiste de me procurar. um dos irmãos Anacleto. O que acontece muitas vezes. Não deves mais telefonar Mandando me chamar Porque não dou consulta A quem escreve carta Sem botar o selo pra eu pagar a multa. .e já que dentro dele quem dá as ordens é Noel cabe ao outro descer e empurrar. apesar do erro de português logo na primeira rima ("Amigo urso. Faz de conta que eu morri. nada diz. Pois de tanto chorar Minha fisionomia já mudou de cor. Lindaura prende a respiração. a escuridão é assustadora. Na verdade. aparentemente mais corajosa. Nem um lampião.. medo. Laranja. suor. Henrique Gonçales. desolado. Noel insiste. é apenas o Laranja. Uma dessas aventuras os leva certa noite ao Alto da Boa Vista. Não quero escutar Declarações de amor. Gonçales .por exemplo. por hora..Mas. cada vez mais alto. Se o carro enguiça . Christovam de Alencar. . Sylvio Pinto. A namorada de Gonçales começa a chorar. Já deixou de existir. até onde haja ladeiras puxadas demais para o fôlego do Pavão. um cemitério. As moças se apavoram. Amar deve ser para nós Um divertimento E não o eterno ciúme que traz sofrimento. Ao leres esta hás de te lembrares. pois o Pavão não é mesmo de subir ladeira. O local está deserto. . Este é um lugar ermo.. terá um samba seu gravado com sucesso por Antônio Moreira da Silva. Cansado como sempre. Essa dor que nos invade. A namorada de Gonçales continua chorando. vamos ter de passar a noite aqui.também é sambista. nem uma mísera lâmpada acesa numa janela qualquer. Faz de conta que a saudade.

Ele e Lindaura passam a se encontrar em outros lugares. Nos últimos meses de 1933. Sílvio Caldas. Arranjei um fraseado Que já trago decorado Para quando lhe encontrar: "Como é que você se chama? Quando é que você me ama? Onde é que vamos morar?" Como eu vou indagar Quando é que eu posso lhe encontrar Para conseguir combinar Onde é o lugar Em que você quer morar? . Só até ele ver o banco molhado do carro. contudo. queixam-se alguns artistas.Mas quase morri de medo. Rádio Sociedade Educadora do Brasil. as pernas de Lindaura escorrendo. Luís Americano. de dia para banhistas trocarem de roupa. de noite para casais. em relação ao espetáculo radiofônico rival o de Ademar Casé produz.Desculpe-me. O Teatro João Caetano está lotado. Russo do Pandeiro. Noel Rosa canta um de seus recentes lançamentos: Arranjei um Fraseado. João Petra de Barros. 278 . mais calma. O Casé paga mal. ao contrário de Christovam de Alencar(1).. escrevendo um artigo em que acusa Casé de nunca ter sabido preservar seus artistas. Se isso lhe passa pela cabeça. é por pouco tempo. Não faz nada senão reclamar. Esse susto. Não é tão corajosa como parecia. Noel é um que vive ameaçando deixar o Casé. Nono. Embora sendo de samba. choro já superado. Há gente até dos lados. Num dos melhores momentos da noite. . garantem outros mais. Ou como um dos muitos hotéis baratos que há no centro da cidade. Um programa cada vez mais ouvido. lá atrás. Diz isso a Orestes Barbosa e este passa a ser uma espécie de mentor da campanha. Custódio Mesquita. Sexta-feira. hoje fustigam o Casé. não só por suas próprias qualidades mas também por haver. barracões de madeira) que dona Chiquinha aluga na Ponta do Caju. Ou mesmo de pé. 10 de novembro. dizem outros. Luís Vassalo ou Gastão Lamounier. leva Noel a só usar o automóvel como transporte.diz embaraçada. Um festival de alto nível. Todos apoiando o Amigo Velho (ou fustigando o Casé?). . Como as cabines (na verdade. sentada entre as cadeiras e a parede. amanhã o cobrem de elogios. O sabor do rádio está muito no molho dessas contendas. a namorada do amigo.. mais o fato de o Pavão não ser mesmo um local confortável e romântico o bastante para se namorar. Christovam pode ser o rei agora e daqui a alguns meses a coroa estar na cabeça de Waldo de Abreu. os dois e mais ninguém. QQ-r -r-ma voz do Rio para todo o Brasil. Mas essas briguinhas são muito comuns. seu irmão Murilo. já agora na Transmissora. E já agora. onde haja espaço. É muito exigente. O festival de samba que Christovam de Alencar organizou congrega alguns dos grandes astros do momento. uma certa má vontade que ainda vai se transformar em campanha." É com esta divisa que Christovam de Alencar abre e fecha o seu programa semanal pela PRB-7. talvez ocorra a Noel elogiar a bravura de Lindaura. evidentemente.Na descida. há nele lugar para as emboladas de Manezinho Araújo e para as anedotas de Jorge Murad. grande número de artistas tenta amotinar o Casé dando apoio aos programas concorrentes.

Mas de que se trata? . onde moram. Ali. A vida transformou Olindina numa mulher dura. Maria da Glória Avelina volta. e pede-lhe cobertura. Uma segunda-feira como outra qualquer. Zaíra de Oliveira e Cláudio Bueno Rocha acabam de renovar seus contratos com o programa. mas só na aparência. procura entrar em casa sem ser vista por dona Olindina. À dona Olindina. empregada doméstica de uma casa em frente. Pretende voltar tarde. Lindaura diz "boa-noite" à amiga e entra no carro. novo passeio programado. No fim da tarde. Noel ainda atordoado. a família se reúne na sala ao lado da cozinha. Martha e Hélio estão perplexos. Para todos os efeitos. A mãe. Nem de longe suspeita das saídas de Lindaura com Noel. na frente de dona Martha. veio com o marido. 74. ao volante do Pavão. Castro Barbosa. Noel dorme profundamente no quarto dos fundos. investigadores da 16? Delegacia. já anotada no livro de partes. tentar a sorte no Rio.. medem as palavras para dizerem.Vou sair de carro com Noel. Onde é que vamos morar? No domingo. todos ajudando a prover o sustento da casa de vila número 2 da Rua Maxwell. . é realmente operária da Fábrica Confiança. A segunda-feira parece ser um dia como 279 outro qualquer. Sergipana. Lindaura e Zeca. Lindaura sai de casa por volta das seis da tarde. Mesmo casando-se de novo. Olindina Pereira da Motta. quando é despertado pelos safanões de Hélio. Jorge Fernandes. fazer um vale no Casé. Lindaura chama a amiga Maria da Glória Avelina. e os filhos. enérgica. Tem rígidos princípios morais e tenta passá-los aos filhos. teve de empregar-se. Lindaura explica que vai a uma festa com Maria da Glória Avelina. que há uma queixa contra o filho sobre a mesa do comissário. as duas moças se dirigem até a esquina de Maxwell com Pereira Nunes. Coisa séria. pôr os filhos para trabalhar.Noel! Noel! A polícia está aí te procurando. depois da meia-noite. Sílvio Caldas. Em 1925. Noel talvez tenha de ir até a cidade. que diziam ser cidade de grandes oportunidades. Noel já está à espera. Nono. ela e Lindaura divertem-se numa festinha domingueira em casa de família. Ou acertar detalhes para o próximo domingo. Mas não diga nada à mamãe. agora que ele. . Dois policiais. . 12 de novembro. José Martins Neves. Neste domingo. ficou viúva. Tudo acertado. desconfiada.Como vou saber ao certo Quando é que você vem ficar perto E quem já designou Onde é o lugar Do nosso lindo château? Como é que você se chama? Quando é que você me ama? Onde é que vou lhe falar? Como é que você não diz Quando é que me faz feliz. Pouco depois.

Ora. Passado o susto inicial de Martha. as perguntas da mãe. ele abusando um pouco da bebida. De rapto. seu Noel. casando. tudo isso converte a cena num bate-boca nervoso que acaba atraindo a atenção de Clara na sala da frente. quase esquina de Silva Pinto . Crime de sedução de menor? Noel jura que não. o caso Lindbergh há mais de um ano ocupando com destaque as páginas dos jornais de todo o mundo. Verdade. levanta-se. é indispensável ouvir seu depoimento. Os policiais até que se mostram pacientes.todos conhecem Noel Rosa.Os policiais explicam que uma certa dona Olindina. Quando acordou. Não chega muito perto. crime? Não é o primeiro homem na vida dela. Enfim. de vista ou de nome. a consumação do crime.no Boule-vard. . os dois passaram a noite num hotel da Rua Senador Euzébio. ora. Lindaura saiu com ele porque quis. contou tudo. De fato saiu com Lindaura.. Forma-se uma pequena confusão na sala ao lado da cozinha. Dona Olindina. Ela interrompe a aula do jardim da infância. já era de manhã. Maria da Glória Avelina.Sim. Na 16? Delegacia Policial . absolutamente nada . .. os policiais explicam que Noel é acusado de ter raptado não um bebê. dirigindo-se a Noel em tom brando.indaga o próprio Noel finalmente despertando. esquecendo-se da hora. O comissário quer resolver tudo da melhor maneira. o Brasil inclusive. A moça não dormiu em casa de ontem para hoje.Mas que crime? reage Noel. Olindina Pereira da Motta. Noel jura que não houve nada disso. por ter raptado uma menor. um preso comum. Lindaura entrando no carro dele. Martha e Hélio nem sabem o que dizer. mas uma moça de dezessete anos. E gostam dele. o passeio. -Mas a moça é menor de idade. O próprio comissário explica-lhe que uma senhora. Apavora-se ao saber que Noel está sendo levado para a Delegacia. residente aqui perto. Segundo os policiais. . Mas o comissário diz que a mãe da moça não quer conversa: ou Noel repara o erro. . toma a direção da cozinha. até que uma moça. apenas o bastante para ouvir o que dizem. De conversa de esquina. seu Noel. Clara finge que não o vê. Martha está aflita: . Já pediu à dona Olindina para trazer a filha à delegacia.Mas o que você andou fazendo? -Nada. Por isso não o tratam como um criminoso. Mas não houve rapto. pegando no sono. Pode até provar. o espanto do irmão. a festa que não havia. "Rapto" é palavra que por esta época costuma sobressaltar as pessoas. Mas os protestos do acusado.Reparar o erro? . . . esteve de manhã na delegacia para acusá-lo formalmente de haver raptado a filha. muito preocupada. Lindaura. o comissário quer interrogá-lo. repete o comissário.De quê?. mas como um menino surpreendido em mais uma travessura. procurou o comissário para acusar formalmente Noel. Será verdade? Noel sai entre os dois homens da lei. ninguém a forçou. Noel que se tranqüilize.responde com firmeza. ou vai para a cadeia. Tem de ir à delegacia. . apelou para os vizinhos. Lá dentro.De rapto. Que história é essa de rapto e sedução de menor.Pois eu vou para a cadeia. Lindaura tem dezessete anos.

crianças inocentes ouvindo o que não devem. Começa dizendo ter passado a noite na casa de tia Filó.e por bastante tempo . No início. local em que se teria consumado a sedução. Por que não esquece tudo isso? Seria melhor para todos. Envergonhada. Está tão nervosa que nem se dá conta de que este era o nome do pai.Não. principalmente para a filha. Nada. É um depoimento nervoso. o processo será instaurado. Mais um ou dois dias resolverá tudo. Por isso. Martha e Olindina. na Ponta do Caju. titubeante. Pede que a mãe e o irmão não acreditem nessa absurda história de rapto. acusando os Medeiros Rosa de "desencaminhadores de menores". nada tem a temer. xingando. gente sem palavra. Mas não será tão simples assim. Irascível e determinada. Mas. José Martins Neves. A senhora pode deixar que eu vou ter uma conversa com ele. fazendo cenas no chalé.. Mas deve voltar à delegacia amanhã. no seu depoimento. pois os alunos não a ouvirão. Quando o comissário. Martha e Noel. . ela responde: .Foi o José. 280 pergunta-lhe quem a desonrou (por mais humilhante e cruel que seja.. reafirma Noel. mas não houve rapto. é para lá que o caso vai ser enviado. de que Martha não consegue dobrar o filho.eu lhe prometo que o fará.diz Martha . Lindaura realmente vai à delegacia e. quando Olindina chega. na altura de voz que quiser. rapto e similares). esbravejando. tentando fazer dona Olindina crer que são muitas as possibilidades de arquivamento da queixa.A senhora se incomodaria de conversarmos aqui ao lado? E vão para a casa de Dorica. Quer que Noel se Case com a filha. Ali a mãe de Lindaura pode dizer o que bem entender. De uma hora para outra . um nó fácil de desatar.o chalé é transformado em palco de constantes discussões. . O caso não será enviado para outra jurisdição. Mas pouco a pouco a mãe de Lindaura se convence de que Noel não quer mesmo saber de casamento. fala-se à meia-voz. vai tratando de dizer: . para acabar contando história igual à de Noel. confirma não ter sido ele o primeiro homem em sua vida. Absolutamente nada. com Lindaura. Em casa. como pretendia o comissário. É a partir daí que Olindina muda o tom de voz. O comissário ainda quer contemporizar. pertence à jurisdição da 14? Delegacia Policial. Com o comissário.Se for mesmo o responsável . senhor! Exijo reparação. morto há tanto tempo. na cozinha ou nos fundos da casa. Martha teme que tais cenas prejudiquem a escolinha. tenta inocentar Noel. como a Senador Euzébio. instado por dona Olindina. Deve ter havido um mal-entendido. com a mãe dela. Mas as cenas tornam-se .ninguém vai prejudicá-lo. a pergunta é considerada fundamental na abertura de processos de sedução. Se não fez nada. contraditório. Olindina vai ao chalé para uma conversa franca com os Medeiros Rosa. De fato passaram a noite num hotel. o comissário acha que as evidências bastam para incriminar Noel: ele próprio não admitiu ter levado uma menor para passar a noite em sua companhia num hotel da Cidade Nova? Então. De qualquer modo. Marta e Hélio querem saber o que aconteceu.

Até que numa delas. Jornal de oito páginas. premida pelos impropérios de dona Olindina. que tudo se complique. Uma delas. mesmo. Barbosa. nem quer ver dona Olindina. evita falar com a mãe. As duas seções mais lidas do jornal não tratam. assim por diante. Mas Martha está apreensiva. o jornal tem pouco. noticia o que se passa nos bastidores do rádio e da música popular. Onde estará Noel? Desde que essas discussões começaram a quebrar a paz do chalé. "Teria o pintor morrido de peritonite ou gangrena?". Mas de proletário. E nele. Se é para a senhora deixar minha mãe em paz. repleta de intrigas e insinuações bem no estilo do autor: "Por que será que o holandês da Philips proíbe sambas e emboladas nos programas de sua rádio?" A outra seção. Hélio intervém: . um menino. assinada por Orestes. especialista em "ginecologia proletária". na página 95. Carlos Leite e Nacim Adese. . uma equipe formada por apenas dois repórteres.insuportáveis. combate os comunistas. "O velho alfaiate. o Avante! intitula-se um "diário nacional socialista". O quiproquó romântico envolvendo Noel Rosa num caso de rapto talvez ficasse 281 confinado ao conhecimento de meia dúzia de pessoas. defende o antisemitismo. Entra e sai na ponta dos pés. temendo que o processo se instaure. Assim é que. . destina-se a reportagens sensacionalistas levantadas pela "caravana do Avanter. grande parte de suas matérias está dentro dessa linha e até um ou outro anúncio reza de fato por tal cartilha. Diz-se inteira mente voltado para os interesses do operariado. deparou com o nome de Noel Rosa. reproduz discursos de líderes e pensadores nazistas. Para que se tenha idéia do espírito desta página oito. Como o do Dr. É com todas essas coisas na cabeça que ela própria vai um dia conversar com o comissário.Mas o que a senhora quer. Lacerda Filho.tão angustiada. "Um conhecido professor do Instituto Nacional de Música envolvido no caso de sedução de uma aluna". afinal? . fazendo sua habitual ronda pelas delegacias da cidade. Martha bebe água com açúcar. um dos repórteres folheou ao acaso o livro de partes da 16?. Daí achar que o casamento seria mesmo o melhor caminho. fundado há poucos meses. se oferecendo para casar-se no lugar do irmão. este também desenhista. ocupando toda a página oito. não é por acaso que seu nascimento se deu logo que Adolf Hitler subiu ao poder na Alemanha. abusando da confiança do amigo. infelicitou uma menor de doze anos". O Avante . basta que se citem algumas de suas manchetes nos dois últimos meses de 1933: "Obrigada a casar com um morfético para se salvar da mancha da desonra". Que coisa mais absurda! Dorica pede que ele fique calmo.Que seu irmão se Case com a minha filha. Fundado e dirigido por Augusto Pamplona e Moura Carneiro. dezoito para dezenove anos. contudo. "Embriagou a infeliz doméstica para subjugá-la mais facilmente". ao ver a mãe.'simpatiza com as idéias do Führer. não fosse a ativa e indiscreta caravana do Avante!. de política. Olindina insiste. eu me caso no lugar dele! Hélio. ele simplesmente desapareceu.Muito bem. no último 30 de janeiro.

que delícia é o Outono! Imaginem se eu fosse a Primavera. O assunto torna-se público.. Mas. malandro medroso que é. meio sem jeito. está tudo lá. aparece: . É verdade que fazendo algumas confusões. na Aldeia Campista.. Outros. Outra. Passa a ser comentado em toda parte. pensam o mesmo. De fato. tratando de um caso em que aparece envolvido Noel Rosa. É apenas nisso que Noel Rosa e todos os outros compositores populares se concentram.Sim. diz que o autor dos Três Apitos é meu patrício. Até que o próprio Adese.Eu queria falar com o Nacim Adese. na Lapa. Mas a ida ao Avante!deixou mais que evidente que a preocupação de Noel com a música é maior do que com as complicações amorosas. Um prato feito para a oitava página do jornal que. como aqueles colegas.conta toda a história. pairando como uma lua a iluminar a fábrica de tecidos e sua chaminé de barro. de que fala a caravana.é pelo livro de partes da delegacia que se conhece uma diabrura amorosa do sambista Noel Rosa" . no restante. na edição de quinta-feira. Mas. no Nice. onde funciona a redação do Avante!. 29 de novembro . foi logo posta de lado(3). Noel sobe ao primeiro andar do prédio número 144 da Rua Uruguaiana. porque nasceu. como eu. Em detalhes. e onde se lê que Nássara e Almirante têm um retrato histórico em um botequim."(2) Dias depois. Orestes Barbosa vai se ocupar dele em sua coluna do dia 30. já pensando numa desculpa. evitando as conversas com a mãe. uma delas a de supor que Lindaura é a inspiradora de Três Apitos. Estaria.. Talvez queira briga.O compositor? . nas esquinas de Vila Isabel. . Será que se incomodaria de me emprestar o original daquela caricatura para a capa da partitura do Três Apitos? Com o sol de janeiro chegam os primeiros ares do carnaval que se aproxima.Você é o Adese? . Uma história ilustrada por caricatura de Adese: Noel ao volante do Pavão. na redação. a de atribuir a Almirante a autoria de Com Que Roupa?.informou o escrivão.Ele mesmo . Não que pretenda finalmente editar Três Apitos. como os autores de Formosa e Na Pavuna. Quem o atende não pode deixar de reconhecê-lo. Noel Rosa na certa veio pedir satisfações ao Adese. E de tirar suas conclusões: indignado com a reportagem da página oito. nos estúdios das rádios.. E aludindo ao fulgurante Nássara e a Almirante. . pousando aqui e ali. -Eu sou o Noel Rosa. Não para defender Noel ou algo parecido. se lhe passou pela cabeça.sob a manchete "A indiscrição da página 95 . idéia que. fugindo da cólera de dona Olindina. Onde é? Desta eu escapei. Continua meio sumido de casa. Não é bem isso. com o violão na mão esquerda e sua musa lá no alto. metido em cumplicidade daquelas noites da Vila. mas para defender-se a si mesmo da "acusação" que a bombástica reportagem sobre o amigo e parceiro lhe faz de ser muito mais velho do que Noel e outros jovens da Vila: "Os confrades da caravana do Avante!.. talvez lhe diga alguns desaforos. diz a oitava página que eu tenho mais vinte anos que os três.

dos espertos. enquanto eu puder. comparece à grande homenagem que as escolas de samba prestam ao prefeito Pedro Ernesto. Não há malandro casado. Pela primeira vez se faz entre Martha e Noel um abismo de . Pois malandro não se casa Com a bossa que eu tiver. Tem motivos para isso. está contente. Assiste ao desfile. Orgulhoso eu vou gritando: "Nunca mais esta mulher.só dura até ele saber da ida da mãe à delegacia. Mais do que nunca acredita nos versos que fez para Capricho de Rapaz Solteiro. seu destino? Muitas discussões se travam no chalé em torno da questão. Nunca mais esta mulher Me vê trabalhando!" Antes de descer ao fundo Perguntei ao escafandro 282 Se o mar é mais profundo Que as idéias do malandro. Contente e tranqüilo.assim como seus caprichos de rapaz solteiro . A mulher é um achado Que nos perde e nos atrasa. do não cair em armadilhas (o casamento parecendo-lhe a mais aprisionante de todas as armadilhas). o comissário concordando em deixar que tudo se resolva sem os transtornos de um processo judicial. só samba. Pelo menos seria uma prisão temporária. Pois foi graças a ela que o caso não viajou para outra jurisdição. liberdade para fazer o que mais lhe agrada. o casamento. Nunca mais esta mulher. vê a Mangueira conquistar o primeiro lugar com um samba de seu amigo Carlos Cachaça(4). Contente e tranqüilo. boêmia. dos peixes que não caem em rede. O malandro em terra joga. mas não aproveitados: Muito mais que a canoa. no Campo de Santana. Nunca mais esta mulher Me vê trabalhando! A vida é de quem sabe se esquivar. a "reparação do erro". samba do ano passado em que fala de sua filosofia de vida: Nunca mais esta mulher Me vê trabalhando! Quem vive sambando Leva a vida para o lado que quer. Casamento? Prefere ser preso. De fome não se morre Neste Rio de Janeiro. nada de trabalho pesado. A canoa afunda à toa. A vida lhe parece boa.No dia 20. Tudo que pensa da necessidade de permanecer livre. Casamento? Só se estiver louco. ele resumiu nestes versos escritos para o mesmo samba. Noel não a perdoa. Como terá Martha conseguido isso? Muito simples: prometendo ao comissário que fará o filho se casar com Lindaura. Ele vira e não se afoga. Com que direito promete coisas que implicam mudar sua vida. Ser malandro é um capricho De rapaz solteiro. Mas esse estado de espírito . Vou. Meu capricho sustentando.

Discussões. dona Olindina resolve tentar o outro lado. Lindaura o põe a par da ameaça. Certa noite. em tom grave quando não patético: . como nunca haverá depois. O contentamento e a tranqüilidade começam a desvanecer-se. Que até dormindo perdoa. a mãe querendo expulsá-la de casa. Já que o comissário confiou em dona Martha e esta nada consegue com o filho. de grandeza. é com os olhos esgazeados de espanto. a solução parece-lhe ser coagir a filha. Fala disso com alguns amigos. Na esquina de Visconde de Abaeté. 74. Abre a porta da rua. caso sumisse de vez como é seu desejo. Como nunca houve antes. fevereiro também.. Você sentiu agora com certeza A dor que sinto no meu coração E veio pra matar minha tristeza . De papel passado e tudo. brigas. tão desprovido de nobreza nestes sete anos em que povoou de incertezas os sonhos de Clara. fugindo. Desde aquela tarde em que os dois policiais o foram buscar em casa. a cada nova cena na casa de Dorica.Prefiro morrer a engolir este casamento. ela insistindo. quando estiver casada. só de vez em quando Clara aparece no chalé. Sequer seus olhos se cruzaram ao acaso num dos muitos e apressados entra e sai dele. no honrado lar da Rua Maxwell. boa. Não se acha com esse direito. Você não morre tão cedo. ao menos até que a tempestade passe. último gesto. que Clara acompanha toda essa terrível história. eis que agora ele decide dedicar-lhe um gesto. Noel também. as férias de verão transformando numa sala vazia e quieta o local onde até bem pouco as crianças faziam algazarra. casa 2. tão boa. Mora tão perto que não teria como se desculpar com dona Martha. Ainda bem que a escolinha está fechada. manda que a filha saia e jura que só a receberá de volta. Na hora marcada. Está cada vez mais difícil para o rapaz solteiro Noel Rosa enfrentar as pressões que ameaçam seus caprichos. Não mais se falaram. Noel é que a procura. evitando encará-la. ele resistindo. lá estará Clara. As aulas suspensas. E o faz em forma de ultimato: ou convence Noel Rosa a se casar com ela. tão insensível. que ele um dia escreveu um samba fadado a permanecer.Preciso falar com você. Tão. Sente medo. O sempre imprevisível Noel. Não haveria de ser ela que iria abordá-lo. Janeiro se vai. É bem possível que tenha sido pensando nela. ele a tem evitado. 1-4 mas sempre em silêncio. E que se exacerbam a cada nova visita de dona Olindina ao chalé. Senão de vez. neste momento. Noel quase não parando em casa. ou rua. Às sete da noite. Pedir explicações? Nunca. como uma relíquia. . Juro que. Com uma terna primeira parte e uma segunda em forma de soneto: Você não morre tão cedo. Pensava nesta sua pessoa. Enquanto ele reluta. entre seus guardados : Não Morre Tão Cedo.. Olindina Pereira da Motta prova que não é só de ameaças. A mesma esquina do primeiro encontro há sete anos.desentendimento. Tão irresponsável. Às vezes. em momentos como este.

. Se havia preparado um discurso.. Chegando exatamente no momento Em que a gente pensa o que não diz. 284 Você não trata a gente com desdém Não guarda ódio de ninguém E paga sempre o mal com o bem. os repetidos e inexplicados desaparecimentos. 30 de novembro de 1933 (página 5). Mas vem me dar o seu perdão. -Éque aconteceu um problema comigo.. . Clara limita-se a murmurar mais uma vez: . depois de tantos perdões. Enfeitou de perdões o romance repleto de hiatos que eles viveram. 2. desde os primeiros fins de tarde em que esperava no portão o jovem ginasiano chegar do São Bento no uniforme caqui. chorando.diz ela baixando os olhos. o querido mas imponderável Noel. Ibidem. sumiços e reaparições súbitas. Nunca mais poderemos nos ver. Sempre ele. Agora. . Clara chora a certeza de já não poder encarar Noel. Repassa esse tempo. sejam quais forem os caminhos que tomarem. tentava iludir-se.Eu sei . Os olhos falam por ele. Avante!. uma longa e minuciosa defesa. Clara sofre. NOTAS 1.Clarinha. que Noel se encontra na esquina de Visconde de Abaeté com Theodoro da Silva. Os dois se separam sem mais palavras. adivinhando pensamentos e sempre pronta a perdoar. olhá-lo nos olhos. Noel não chega a completar a frase.Eu sei.. Você mostrou que tem bom coração Sabe que eu estou sem a razão. O diálogo não dura mais que breves instantes em que o essencial é dito por olhares. faz tudo para que os irmãos não a vejam assim... O retrato a que se refere Orestes Barbosa é mencionado pela caravana do Avante! na mesma reportagem em que está contada . "Vai ver é coisa passageira". Mas a pior de todas as certezas não é esta e sim a de saber lá no íntimo que até o último de seus dias.E veio pra me dar o seu perdão. 2 de dezembro de 1933 (página 5).. Perdooulhe até o fato de haver entre eles uma Fina (ou quantas Finas?). Foi um longo tempo de idas e vindas. falar-lhe como antigamente. uma história com princípio. Trancada no quarto. o fim. É com uma Clara assim. não como namorados. sete anos de sonhos reduzidos a coisa alguma. promessas e esquecimentos. o que eu queria te dizer é que. Você adivinhou meu pensamento Você já perdoou tudo o que fiz. meio e fim que inteirasse Clara de tudo (ou quase tudo). Perdoou-lhe as mentiras. os seis. Bem. jamais amará alguém como o amou nesses anos todos(5). pelos dois.. as palavras ficarão guardadas com ele para sempre. machucada.

4. uma de suas filhas. os garçons começam a virar as mesas. na Praça Tira-dentes. Lembra-se de ter visto Noel no palanque ao lado do seu. É ali que uma noite Noel abandona Lindaura sentada diante de uma xícara vazia. Resolvo tudo em um minuto e volto logo. Meia-noite. Martha. acrescentaria: "Sempre soubemos disso. Clara se casaria em 1938 com Príncipe Cinelli. repentinamente sem teto. Lindaura ainda sentada diante da xícara . o pressiona menos. o Magalhães se foi. Lucy. o retrato dos três mosqueteiros. no Recreio. não esconderia ter sido Noel o amor de sua vida. Noel manteria até o fim da vida a determinação de deixar Três Apitos inédito. depois de dizer com o ar preocupado: . Ou então uma média com pão e manteiga no Magalhães. três horas se passam e Noel não retorna. Noel resolve esperar Lindaura todos os dias à saída da lavanderia. O pessoal da delegacia parece ter-se dado por satisfeito. botequins. em lugar de honra. Às vezes os dois vão juntos tomar uma sopa no Café Carlos Gomes.a "diabrura" de Noel Rosa: "Daquele modesto auditorium (o botequim do Carvalho). expulsa de casa pela mãe intransigente? De forma alguma. presente. Almirante e Noel) para os melhores estúdios desta capital e quem disso mais se orgulha é o botequineiro que tem em sua casa. firmemente decidida a nunca mais ver a filha enquanto ela não se casar. par constante. Século do Progresso A intolerância de dona Olindina. Uma. 5. O samba de Carlos Cachaça intitulava-se Homenagem. onde também se reúne o pessoal do teatro. programas de rádio. A residência de um amigo? Quem? Enquanto a solução não é encontrada. mas sua grande paixão foi mesmo Noel Rosa. Mamãe gostou muito de papai. Jota Efegê era um dos membros do júri que deu à Mangueira o primeiro lugar naquele desfile." 3. Na mesma ocasião. Eu e Dilma. a 6 de novembro de 1981. saíram os três (Nássara. diminuído o assédio de dona Olindina." 285 VALENTES E AMIGOS (MAS NEM SEMPRE) Capítulo 29 No século do progresso O revólver teve ingresso Pra acabar com a valentia. festas. Pelo contrário. duas. deixa Noel com um problema inesperado e difícil.Lindinha. Meu Deus! Como é que fui esquecer? Espere um pouquinho que vou até ali. O samba só seria gravado em 1951 e editado dois anos depois. minha irmã. me lembrei de uma coisa importante. Em qualquer desses lugares Lindaura se apresenta como "a noiva do Noel". não o incomoda mais. quase sempre esquece que ela está perto. Passa a conduzi-la em sua companhia para toda parte. Quem sabe daqui a algum tempo todo o mundo não esqueceu tudo isso? A questão é para onde levar Lindaura. Em depoimento aos autores. a quem já namorava à época da morte de Noel. Será justo deixá-la ao relento. Já ele não é tão efusivo. Mas para onde levá-la? Um hotel? Muito caro.

Vamos tomar um trem.Mas para onde? .A essa altura. Lindaura dormindo. prometendo-lhe que vão passear no Serrador1. Alheio aos balanços do trem. . . a roda de amigos. . Ou então a leva com ele em suas andanças noturnas. o botequim. Só que a promessa não se cumpre.Não posso acreditar nisso. Não é possível que alguém suporte passar horas sentado no banco duro de um trem da Leopoldina. Fica impressionado com seu abatimento. Lindaura conta-lhe o que está acontecendo. os três continuam no trem.Pro subúrbio. habituado a trocar o dia pela noite. Acha esta idéia tão boa que passa a repeti-la todas as noites. porque não vem conosco logo mais? João de Barro concorda. ensaia uma reclamação.Está na hora de fechar. Às onze os três entram no trem. um quarto de pensão hoje. escrevendo à luz fraca. Esses esquecimentos são freqüentes.vazia. . o banco de praça.De carro? . ele deve estar lá pela Lapa. mas Noel no meio do caminho altera os planos: . as viagens de trem consumindo-a pouco a pouco. uma noite em claro é um suplício. João de Barro espera Noel e Linda em hora e lugar marcados por ela.. No dia seguinte. sem pegar no sono. um canto de favor amanhã. o melhor vestido amarrotados. . indaga aonde vai: . não. que tem de chegar cedo 287 ao trabalho. de trem. Braguinha. o Noel Rosa. Sem lugar fixo. Lindaura resmunga. Isso. Quer ver com os próprios olhos se Lindaura falou a verdade.É. vamos passear de trem pelo subúrbio. das onze às seis da manhã? Que coisa esquisita! . dormir num agradável hotel.pergunta como se nada soubesse. Onze da noite. Linda. o chapéu.Se você duvida. . moça . o chapéu. comer um bom bife. a esquina.O Noel? . Os dois se dirigem à Leopoldina para as mesmas viagens de ida e volta. Quer vir conosco? João de Barro diz que sim. Noel faz o que pode para que Lindaura tenha onde dormir. ou então de recorrer a uma amiga que a abrigue ao menos por uma noite. as meias novas. escreve. Para ele. não há problema. a primeira viagem de ida e volta começa. Pede que ponha o seu melhor vestido.pergunta o garçom com ar desalentado. o sol já alto. para o nosso passeio de trem. . por fim. .Vamos lá. mas logo desiste. Uma noite inteira no trem. Lindaura tendo de procurar Noel pelos recantos da madrugada. Mas para ela.diz um dos garçons.Seu noivo? . meias novas. Linda. Não volta mais. sol a pino. Lindaura pegou no sono primeiro. quem sabe ir ao teatro e.. Lindaura se queixa: -Assim não agüento. . Noel escrevendo.Vou dar um passeio pelo subúrbio. . sentam no banco duro. enquanto a namorada dorme ao seu lado. Lindaura dormindo sentada. Às seis da manhã. Lindaura veste a melhor roupa. . enquanto Noel puxa do bolso papel e lápis. Cumprimenta o amigo.Não. moça. João de Barro encontra-se com ela perto da Fábrica Confiança. Ele muda de tática. tudo recomeça. o ar de quem anda passando por maus momentos. Noel. os dois entram num trem da Leopoldina para viagens de ida e volta que só terminarão no outro dia.Mas eu estou esperando o meu noivo. Fico morta de sono. as olheiras.

Quando mais tarde ele esbarra com Germano Augusto e Kid Pepe na cidade. Que coisa esquisita! Tantos são os protestos da namorada que Noel concorda em trocar de expediente. agora convertido num prosaico ninho de amor. Lindaura levanta-se. Martha.Mas que negócio é esse? Lindaura. em pleno Mangue. Martha acorda mais cedo que de costume. cansado. um quarto de pensão que só podem ocupar depois de duas da manhã. fala de suas aperturas.Que falta de respeito! Noel. largam pouco antes das duas da manhã.Você tinha razão. Vá lá que Noel se desvencilhe de dona Olindina. deixando Noel no meio da discussão e com um problema para resolver. Por que ela insiste nessa história de casamento? . dormir com ele no quartinho dos fundos. Para Martha isso não explica nada. Por que não pedir à amiga que abrigue Noel e Lindaura até que consigam coisa melhor? Noel aceita o oferecimento da casa em que o português diz dar as cartas. Acha que deve ajudar a namorada. não faz por menos: . Uma amiga muito especial 288 que não por acaso está doida por ele. bem cedinho. vai ao quintal e encontra Lindaura lavando o rosto no tanque. Mas isso não dura muito. só casando! Filho e mãe discutem. Noel nem quer pensar na condição imposta. . O português revela ter uma amiga que mora na Rua Laura Araújo. sempre disposta a socorrer quem precisa. Não é o ideal. Noel? De volta para casa. Em sua casa trabalham umas sete ou oito moças. Pegam às seis da tarde. o bastante para ver Noel puxar lápis. embaraçada. os três vêm pela Theodoro da Silva. Noel entra no chalé para entregar-se a seu sono vespertino. sonolento. . . vira-se para a exausta Lindaura e não sabe o que dizer. porém mais confortável.A mãe de Linda não a quer mais em casa. Noel-diz Germano. rumina algumas palavras: .Não adianta. conta-lhe que já tem lugar para ficarem. é verdade. que se livre habilmente da polícia. Tudo na ponta dos pés. Noel. desperta Noel. Linda sem ter para onde ir. mas que a ela parece muito melhor do que uma briga com dona Martha. Mais trabalhoso. De manhã. vai trabalhar. Noel. muda de roupa. De madrugada. mais irritada do que surpresa. Ele que explique tudo. que consiga embrulhar a própria mãe. Mas trazer Lindaura para morar no chalé.João de Barro ainda agüentou um pouco mais. O profano mundo em que Noel viveu suas alegres aventuras de menino. Germano. que passa a adotar regularmente. na ponta dos pés. . E é desse modo que os dois vão habitar por algum tempo um quarto da Rua Laura Araújo. os dois penetram no chalé e tomam a direção do quarto dos fundos. Ou do que uma noite maldormida sobre um banco de maria-fumaça. papel e escrever. Certa ocasião. e portanto incapaz de lhe negar um favor. Mas como? -Acho que posso te tirar dessa. Esta moça. Uma solução apenas provisória. Braguinha. mulher prestativa. Vai esperar Lindaura no trabalho. para que ninguém no chalé saiba da existência de nova moradora. nunca! . no Mangue. Boa alma. aqui. só casando! Lindaura sai para o trabalho.Aqui em casa. de modo que os quartos ficam vazios todo o dia e a maior parte da madrugada.É aqui que você passa as suas noites.

Zé Pretinho andou por mares de todo o Brasil. ao voltar pra casa. constatou que era desertor e mandou-o de volta à Marinha. em 1929. pela ameaça. mas como sambista ainda é principiante. Pretinho. de sua amizade com o temível Porela. Pelo menos é o que diz. mas especialmente por certos códigos de ética muito próprios. Zé Pretinho pode ser um exímio manuseador de baralhos. Um dia. Atravessou quase dois anos se escondendo. trapaceiros baratos que tiram dinheiro de quem não tem e gostam de se impor pela força. acabou com a clandestinidade: veio a polícia. crianças. . E passou a viver de samba e carteado. Como o susto que Zé Pretinho passou com Brancura. No jogo ou lá em que seja. que não faz segredo disso. Um ano depois. Duas vezes mais valente do que Germano Augusto e Kid Pepe juntos. Zé Pretinho viu uma multidão à porta do prédio. quando estava na Escola de Aprendizes de Marinheiro. numa casa de cômodos da Rua Moncorvo Filho. velhos. Descobriu então que gostava mais da terra do que do mar. a quem as pessoas temem só de olhar. barganhadores de tostão. são capazes de tudo. do Salgueiro. mesmo as mais sangrentas. Zé Pretinho avisou: . É moça distinta. ou com gente ainda mais assustadora. por exemplo. Chama-se Manuel do Espírito Santo e nasceu em Capela. prendeu-o. acabará morrendo pelas mãos de 289 um pacato que por causa de mulher lhe dará dois tiros pelas costas num botequim da Rua Comandante Maurity).Vê lá quem tu vai levarpro meu quarto. desta vez para cumprir pena. ganhou liberdade. E não por causa de samba. Não só pelo destemor. Em 1934. não compra briga com os fracos. O apelido vem de um cantador que ele admira muito. E desertou.Fica sossegado. Noel gosta de ouvir essas histórias. Operado. Prefere enfrentar policiais armados. Kid e Germano. ô Sylvio.Outro que vai ajudar muito Noel nessas peripécias em busca de lugar para Lindaura é Zé Pretinho. com a anistia dada por Getúlio Vargas aos militares presos. respeita mulheres. passou algum tempo internado. Orgulha-se de ser um malandro maior. pequena cidade do interior sergipano. valentes de verdade. uma hérnia estrangulada obrigou-o a baixar ao hospital no Rio. Fez uma ou outra coisa que andou mostrando sem sucesso para gente do meio musical. Alguém foi logo avisando: . . com coragem para encarar um Brancura ou alguém do mesmo tope. malandros temidos como ele. como o desassombrado Saturnino que tantos juram de morte (é cheio de ironias o mundo dos valentes. até que uma briga de botequim. a cometer uma covardia. Principalmente Kid Pepe. só esvazia bolsos de quem os tem cheios. de uma nobreza que é preciso conhecer de perto para compreender. Noel ouviu falar das façanhas de Zé Pretinho. E do que Zé Pretinho diz ninguém duvida(2). Sua amizade com Noel começou de encontros casuais em botequins da Praça Tiradentes.Foi no teu quarto. convalescendo. não. Malandros menores. gente de família. este pedindo emprestada a chave do quarto em que ele morava. é do tipo de malandro que fascina Noel. Tarde da noite. desertores inclusive. Zé Pretinho. grandes e pequenas torpezas. um cego da Paraíba cujos versos correm mundo em livrinhos de cordel. pois Saturnino. Zé.

Sabe que é ladrão de samba. Brancura é mau. Que sequer se atreve a insinuar o que todo o mundo sabe: Arrasta a Sandália. Baiaco vai puxando conversa.como se chama? . Baiaco vai mais além: faz sofrer pessoas e animais.Quer dizer. Baiaco finge-se encolerizado.Repete este samba mais uma vez . Entra. Baiaco costuma ir com Benedicto aos botequins do Mangue. pede que lhe cante o que tem de melhor. não é de Baiaco nem de seu parceiro Aurélio Gomes.A moça distinta que Brancura levara para lá estava enrolada no lençol de Zé Pretinho. começa a falar de samba. seu sem-vergonha. Se Brancura gosta de cortar gente. doido. . Martim Vidal. Ou então cobrir de jornais encharcados de álcool mendigos que dormem na calçada para em seguida atirar em cima um fósforo aceso. . sempre sentindo prazer em fazer sangrar mulheres. o Baiaco. de uma ponta a outra. mas de um terceiro . Benedicto. Benedicto tira a pauta do bolso e. também ocupa lugar destacado.Benedicto. Brancura não é o único que vive usando a navalha pelo prazer sádico de ver o sangue jorrar. Muitos já o viram segurar cães e gatos pelo rabo e abrir-lhes o ventre. então. a golpes de navalha. O outro canta. Durante algum tempo. Não é um valente. Não a grandes façanhas. Zé Pretinho e Noel ficam amigos. vai cantar exatamente o samba que acabaram de ouvir em primeira audição. Diverte-se vendo os pobres coitados correndo com o corpo em chamas. Quando Noel lhe diz que está com vontade de tirar Lindaura da casa do Mangue. que arranca parcerias à custa de ameaças. que entra no botequim e se senta na mesa ao lado. faz sinal para Benedicto. Finda a operação. Baiaco. que saíra novamente.Primeira audição coisa nenhuma. que este samba é seu? Pois fique sabendo que eu e o Benedicto Lacerda fizemos ele há muito tempo. canta pra este salafrário o samba que a gente fez outro dia. assim como Saturnino. vai sabendo se o eventual interlocutor também compõe. levando para lá o pouco que o casal tem.a quem os dois passaram para trás. . Baiaco o chama. Caso afirmativo. vêem-se com freqüência. E enquanto o samba é repetido. sucesso no carnaval de 1933 na voz de Antônio Moreira da Silva. Chega a ajudá-los na mudança. navalhadas pelo corpo.A moça fez um aborto. por uma estranha atração ou por necessidade de proteção (ou talvez por ambas). . É amiga minha. . Benedicto o vai passando para a pauta. Benedicto fica do lado de fora. é Zé Pretinho quem lhe consegue um quarto barato num velho sobrado da Rua do Acre. ensangüentada.diz Baiaco. Na galeria dos homens maus da malandragem carioca. que se junta a Benedicto Lacerda e a outros para transformar a inspiração alheia em composição "sua". Não é respeitado como verdadeiro malandro. mas a grandes maldades. simula estar passando ali por acaso. Noel torna-se companheiro de andanças de Baiaco. para surpresa dos presentes. que não acontecera nada de mal: . Zé Pretinho cortou um dobrado para esclarecer ao chefe de polícia. seu 290 ladrão de música! E quem é que vai desmentir Baiaco? Não Noel. Sua fama deve-se não à coragem. Osvaldo Vasquez. seu Martim. mas à covardia.

a retalhação de cães. vai custar a Noel muitas reprimendas de amigos e até mesmo antipatias que jamais serão superadas. Sei que eles falam Deste meu proceder Eu vejo quem trabalha Andar no miserè Eu sou vadio Porque tive inclinação Eu me lembro. era criança Tirava samba-canção. Ou por vontade. Wilson Baptista é um malandreco. tem o seu dom de brincar com o ritmo e a melodia . desforras. jogadores. ruço. Quem pode compreendê-lo? Alguns de seus melhores amigos são malandros.vai implicar com a filosofia contida em Lenço no Pescoço. vai aparentemente transformá-lo num inimigo feroz da malandragem. comprou-o não se sabe de quem.quem pode compreendê-lo? . ou para agradar o malandro que o protegia. gente que a polícia caça pela cidade. Mas parece que o autor. mesmo. navalhadas. Conta-se que algumas vezes Noel presenciou as crueldades de Baiaco. ri das malvadezas de Baiaco. o que silencia. faz camaradagem com Zé Pretinho. o que pensa. Mas só por enquanto. o que faz. .O mais que consegue é bater palma pra malandro. ainda que curta.A amizade com Baiaco. é como do Sol para a Lua a diferença entre o malandro e o malandreco. neste começo de 1934. desafiadora. O contraditório de certos gestos e o imprevisível de certas reações. homens maus. Meu chapéu do lado Tamanco arrastando Lenço no pescoço Navalha no bolso Eu passo gingando Provoco e desafio Eu tenho orgulho Em ser tão vadio. os maltrates aos mendigos. é outro malandreco: Wilson Baptista. Como a que. Não é mesmo muito fácil compreender Noel. aceita favores de Germano Augusto e Kid Pepe. Nem Zé Pretinho. Riu. brigas. Pelo contrário.para citar apenas os que fazem da malandragem profissão de fé . enquanto o pessoal da Favela diz que um malandreco. nenhum desses.é o mais talentoso em matéria de samba. treina mas não joga. achou graça. contraventores. E no entanto . É amigo de Saturnino. desocupados. é aprendiz. nem Germano ou Kid Pepe. nem Baiaco ou Brancura. mortes. enfim. Este não tem a dimensão e a importância daquele. Gosta de ouvir histórias trespassadas de valentias. o selo do disco creditando-o a um tal de Mário Santoro. Um excelente samba de autoria algo complicada. tiros. De todos esses que estão por aí . samba lançado magistralmente por Sílvio Caldas em fins do ano passado. valentes. Indivíduos armados de navalha ou de cuja cintura costuma emergir. O próprio Noel fez e ainda fará sambas falando de malandragem e malandro. a coronha de um revólver. cheio de tatuagens. o que diz. E nada fez para impedi-lo. Como Zé Pretinho gosta de dizer.

que alguém lhe pague uma refeição. expulsos de São Paulo depois de repetidas trapalhadas. entre outras coisas. Mas teve seus sambas incluídos nos repertórios de Patrício Teixeira. há até os que temem se comprometer em sua companhia.Quer me comprar um samba.Tem um forra-tripa aí. Murilo Caldas e Francisco Alves. Wilson os vende. E é para ele . no seu caso. levou-o a ser. amizade. fazer e cantar samba. Se o outro é de samba. garoto de recado em rendevous. Wilson. E às dezenas. vinte mil réis. Enquanto batalha por isso. Todos aqueles. ilustríssimo? Pode escolher: primeira ou segunda parte. Pisando macio. diz baixinho: . trabalhar no rádio e no teatro. uma espécie de office boy dos afamados irmãos Meira. ou melhor. cheio de gingas e gestos. sempre com uma soruma no bolso. Noel Rosa conhece-o dessas noites vagabundas da Lapa. Se precisar. descuidista. Mas ele não se importa. Mas costuma dizer. o cigarro no canto da boca. e gíria sussurrada em forma de música: . onde seus negócios se ampliam da exploração do lenocínio ao tráfico de drogas. o olhar de esguelha. jogador." Teve muitas ocupações. comerciam samba. função que pelo menos o aproximou do meio artístico. Ter orgulho de ser vadio. que Noel escreve Rapaz Folgado. João Petra de Barros. Depois. Nem todos o tratam de igual para igual. dez. esparro. as duas. Tem apenas vinte anos. peito estufado: "Ainda vou ser algum troço na vida. Sua instabilidade profissional. é um pouco de tudo. hoje radicados no Rio. entre eles o próprio Wilson. E geralmente compram. não é apenas maneira de dizer transformada em letra de samba: é orgulho mesmo. Porque Wilson quer ser é artista. oferece: . veio de Campos aos dezesseis e desde então arrasta seus tamancos pelo submundo carioca. Até Lenço no Pescoço ser gravado por Sílvio Caldas. não só um forra-tripa. Várias entradas na polícia das quais fala como um piloto das suas horas de vôo . para rebater verso por verso o que está dito em Lenço no Pescoço. Com chapéu do lado deste rata Da policia quero que escapes Fazendo samba-canção . passadas entre copos de cerveja e mulheres cansadas. atravessador. Almirante. Wilson Baptista não fez muito sucesso.é evitado pelo pessoal do Nice. somada a uma indissimulável vocação para a marginalidade. Deixa de arrastar o teu tamanco Pois tamanco nunca foi sandália E tira do pescoço o lenço branco Compra sapato e gravata Joga fora essa navalha Que te atrapalha. de uma forma ou de outra. isto é. Importantes nomes da música popular serão seus clientes. mas também dinheiro para isso ou aquilo. de acendedor de lampião a ajudante de contra-regra no Teatro Recreio.como fez com Lenço no Pescoço. Wilson não pede.Te juro que um dia Deus ajusta conta por mim. amizade? 291 Vive pedindo. sempre pouco.

mas Kid Pepe. Injusto é seu comentário Fala de malandro quem é otário Mas falando não se faz Eu de lenço no pescoço Desacato e também tenho o meu cartaz. E porque uma briguinha musical com Noel Rosa é uma forma de ganhar evidência: Você que é mocinho da Vila Fala muito em violão Barracão e outras coisas mais Se não quiser perder o nome Cuide do seu microfone E deixe quem é malandro em paz. Kid lançado como compositor. Noel com todos os seus sambas e sua fama perdendo uma batalha amorosa para o mulato cheio de manha que é Wilson. anunciaria pelo rádio "o novo sucesso de Noel Rosa . Em pouco tempo os sambas dos dois estariam correndo o país na voz dos melhores intérpretes. nos jornais de modinha. Seu nome nos selos dos discos. na primeira oportunidade. admirado. que os verdadeiros bambas preferem chamar de malandreco. no primeiro sucesso do outro. César Ladeira. Em matéria de malandro. respeitado. Baiaco. não é Wilson Baptista. Quem pode compreendê-lo? Como explicar que o moço permanentemente seduzido pelos encantos da malandragem tenha se tornado. tornar bem-comportados os temas da música popular. sempre na melhor das companhias.nos darão conta de um Noel Rosa repentinamente preocupado em mudar a imagem do sambista. Mas ninguém toma conhecimento desse samba. com seus sambas cheios de bossa.Já te dei papel e lápis Arranja um amor e um violão. nas partituras impressas. desempenhar papel moralizador. Germano? Interpretações futuras . Zé Pretinho. quem perturba Noel neste início de 1934. Mas um malandreco que tempos atrás levou a melhor sobre Noel na disputa por uma morena da Lapa. à sua pessoa. um crítico do tipo de vida que levam seus amigos Saturnino. um antimalandro. Não se esqueceu disso. Depois do espetacular sucesso de O Orvalho Vem Caindo. Mocinho da Vila(4). de uma hora para a outra. aquela dicção perfeita. tenta ir à forra(3). Nada mais apressado. é de um malandro específico que ele fala e não da malandragem. Uma forra que Wilson Baptista não poderá deixar sem resposta. E agora. Uma leitura atenta da letra de Rapaz Folgado deixa claro que a estocada de Noel tem um alvo pessoal e não geral. Malandro é palavra derrotista Que só serve pra tirar Todo o valor do sambista Proponho ao povo civilizado Não te chamar de malandro E sim de rapaz folgado.e simplistas . do malandro Wilson Baptista. Isto é. o ex-pugilista pôs-se a pensar em como seria vantajoso ter Noel Rosa como parceiro exclusivo. com aquela classe. Porque os versos foram muito claramente dirigidos ao seu samba.

Depois disso tu nunca mais vai bater em ninguém. Kid. Conhece bem este meio de malandragem. comadre! Vocês podem ir embora tranqüilos. Uma das vítimas será Almirante. abre o paletó para que veja a coronha do revólver. cuja negativa de tornar-se parceiro exclusivo ele simplesmente não aceita. Podia ter contemporizado. E dos bons. Noel quer saber como ele conseguiu demover Kid Pepe.Olha. 292 Mas antes de ser Almirante a vítima. . . Estão os dois e Roberto Martins nas proximidades da Central do Brasil.Você não vive dando parceria a todo o mundo? Por que não a mim? Noel foge. . Kid? Eu não te disse pra deixar o Noel em paz? Kid mastiga duas ou três palavras. Noel? . chama Noel e Lindaura. indo a todo momento até a janela. só que do outro lado: é policial. No dia seguinte. .. . Kid Pepe promete .O mesmo de sempre. Mas vai ser uma vez só.E o que é que ele quer? .Vira isso pra lá. dizer ao outro que ia pensar no assunto. Kid. Mas não sou parceiro exclusivo de ninguém.Qual o problema. que cantores gravem o que assina. . a procurá-lo em toda a parte. Passa a perseguir Noel. olhando para baixo como se a procurar alguém. mostrando-lhe a coronha do revólver. . Pretinho . antes olha para se certificar de que o outro não está. Kid Pepe!" -Desculpe. Encontrando-o. E o amigo abre o paletó de novo. Permanentemente assustado. quem sabe amanhã ou depois. Ele e Zé Pretinho prometem falar com Kid Pepe. Chama-o de lado. . .que Noel ficará em paz. inventado uma saída mais hábil. volta sempre ao assunto.dessa vez para cumprir . me arrancar parceria à força.diz Noel. não é respeitado. exigindo à força que compositores lhe dêem parceria. as ameaças mais constantes e assustadoras de Kid Pepe são mesmo a Noel Rosa. Zé Pretinho chega e o vê apavorado. Pretinho. vamos fazer um negócio: se tu quer bater no Noel..Sosseguem. esconde-se de Kid Pepe. Zé Pretinho desce e de fato encontra Kid Pepe conversando com amigos à porta da emissora. Se chega ao estúdio de uma emissora de rádio. Noel?Enquanto agente não tem um. algo assim.e. Terá se esquecido de como Kid Pepe é quando quer alguma coisa? Vive ameaçando de morte os contra-regras de rádio que não tocam suas músicas. Uma noite. Roberto também é compositor. Zé Pretinho sobe. Kid diz a Roberto e Pretinho: . mandar que deixe Noel em paz(6). .Tu não tá entendendo. fala de seus temores a Zé Pretinho. . bate.O Kid ameaça muito e não faz nada.Noel.Essa história já esta me aborrecendo. E em tom invariavelmente aterrador: .Deixa essa questão comigo. Noel está com Lindaura no estúdio da Rádio Club do Brasil.Me disseram que o Kid esta lá embaixo esperando por mim. Noel.Outra vez. só estou dando uns sustos nele. Talvez Noel não devesse ser tão categórico. que de tanto se negar a gravar músicas suas acabará sendo esfaqueado por ele na Galeria Cruzeiro(5).Por que que tu não compra um cospe-fogo desses. .

injustiçado.responde sorrindo.. Aqui. Além do mais. Germano costuma dividir com quem sabe escrever música os fragmentos. . Noel sabe ser grato aos amigos. A decadência do mito do malandro. Germano Augusto. Um amigo que o defendeu em muitas oportunidades. o folgado era cotado E era bem considerado Ia ao baile de casaca Hoje em dia por despeito Ele é sempre perseguido E é mal compreendido Pela própria parte fraca. a quem o ajuda nos instantes de aperto. concorda em dar forma definitiva a um esboço que Germano lhe trouxe. se já matou alguém.Noel pergunta-lhe se já usou o revólver.Andei dando meus tirinhos por aí. a população pobre que tantas vezes ele protegeu e que agora o rejeita. Habituado a saldar suas dívidas com samba. Zé Pretinho. em vez de combater a malandragem (e por que o faria ?). Quem faz seus versos E no morro faz visagem Leva sempre desvantagem Dorme sempre no distrito Entretanto quem é rico E faz samba na Avenida Quando abusa da bebida Todo mundo acha bonito. Noel completa-o sem esmerar-se muito: Depois de tanta briga Hoje em dia eu suspeito . ouvidos nos botequins do Mangue de anônimos 293 compositores que anônimos continuarão. . Antigamente. incompreendido. Noel na certa se lembra disso quando o amigo lhe aparece com um pedaço de samba que diz chamar-se Tenho Raiva de Quem Sabe: Não sei nem quero saber Tenho raiva de quem sabe O seu modo de viver Eu pago pra ninguém me incomodar E não me perguntar por você. Bem pode ser este o caso de Se a Sorte Me Ajudar. por vezes sambas inteiros. que Noel praticamente refaz para ele. isto é. A Zé Pretinho Noel é ainda mais grato. não só de Kid Pepe.. atiçado pelo álcool. andou provocando. talvez conseguido através de uma das artimanhas que aprendeu com Baiaco. Noel registra uma nova realidade. malvisto pela própria "parte fraca". mas de muito malandro forte que ele. foi quem conseguiu um quarto barato para Lindaura ficar. Se a sorte me ajudar Eu vou te abandonar Vou mudar de profissão Porque a palavra malandragem Só nos trouxe desvantagem E você não vai dizer que não.

Que talvez você me diga Que lhe odeio por despeito Tanto me sacrificava Sem ter o menor direito Juro que não esperava Levar fama sem proveito. Diz a Zé Pretinho e Germano que é presente. Só enquanto me explorou! Pra depois ficar dizendo Que a sorte não lhe ajudou. nem pagamento de direitos autorais.Noel vai presentear Germano Augusto e Zé Pretinho com um terceiro samba. Não Foi Por Amor. que Kid Pepe toma conhecimento de Tenho Raiva de Quem Sabe.responde Zé Pretinho todo animado. a primeira e a segunda quase que fundidas como se fossem uma só. e que o encarregou de procurar por ele. de Heitor dos Prazeres. Sem repetições melódicas. Kid Pepe apresenta a música a Mário Reis. Eu me sinto bem feliz Relembrando o que passou Eu fui bobo porque quis Hoje a canja se acabou Quero só que você prove Se você me ajudou O seu choro não comove Quem você prejudicou.. este gosta e grava-a na Victor a 25 de abril. Noel não está no Rio por esta época. Será que Pretinho deixa mostrar o samba ao Mário? E se o Mário gostar. meu bem.. Soluçando e gemendo. cantará os sambas no rádio para divulgá-los.e para ser grato a dois de uma só vez . Kid o procura. num programa de rádio em princípios de março. É pela voz de Noel. Rasguei o seu retrato Suas cartas eu queimei Desta vez briguei de fato De você já enjoei Para evitar perigo Eu imploro a você Quando encontrar comigo Simular que não me vê. poderia gravar no mesmo disco do samba do Heitor? . Pra depois ficar dizendo. Que por mim você chorou Você foi interesseira Quis amar de brincadeira Só enquanto me explorou. não quer participação alguma.É claro . E ainda fará mais: sempre que puder. De quebra . nada mais. Não foi por amor. Em nenhuma das três composições Noel aparecerá como autor. Ao ouvir o locutor anunciá-lo como de Zé Pretinho. mas viajando . Que a sorte não lhe ajudou. nem crédito em disco ou partitura. Por isso. Um primor. Diz que Mário Reis está atrás de alguma coisa para gravar no outro lado de Não Sei Que Mal Eu Fiz. Uma espécie de cavatina em forma de samba.

temendo que ele não pare por aqui. Que história é essa de corrigir? . muito menos com ele.. soberba crônica da vida carioca.Não vou corrigir mais nada pra você. Um revólver pode muito mais. quase dois meses.Olha. A morte do imortal Saturnino. quase no colo de Odette Amaral. E logo na frente dos outros.começa a sair de cena. Amar é Muito Bom.Poxa. do sinal dos tempos.Que bom que você esta aqui. Noel segue em frente e Zé Pretinho fica sem entender coisa alguma.Não quero conversa contigo. Noel. Pretinho. mas cobrando em termos de autoria o favor de ter servido de intermediário junto a Mário Reis. Zé Pretinho sai de onde está e vai ao encontro de Noel. entregue a Jayme Vogeler para cantar no programa desta noite. desfere um tapa que vai atirar Noel longe. Ele e Manuel Ferreira no meio de outros compositores. Não com Kid Pepe.. O próximo encontro dos dois vai acontecer na Rádio Cruzeiro do Sul. Logo Kid Pepe! Mas será tarde. sem pedir permissão a Zé Pretinho. Outros acodem Noel. Zé Pretinho o cumprimenta: . pessoal técnico.comenta Manuel Ferreira. . Uns vão segurar Zé Pretinho. . constata perplexo que a autoria do samba é atribuída a Zé Pretinho e Kid Pepe. levanta o braço.Eu já te disse que não quero conversa! Zé Pretinho fica furioso. cantores. na Rua Mariz de Barros. agora entrando no estúdio para cantar o seu número. Corrigir o quê? O samba está pronto. Noel! Queria que conhecesse um samba que ojayme Vogeler vai cantar daqui a pouco. será prova disso. locutores. Pela suposta traição. o da ginga de corpo e da camisa de seda . . a intromissão indevida de Kid Pepe num samba que ele lhe dera de presente. Estranho. O velho malandro . Meu e do compadre Manuel Ferreira. Noel nunca mais vai q