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ÍNDIOS NO BRASIL

ÍNDIOS
NO BRASIL
Marilena de Souza Chaui
Luís Donisete Benzi Grupioni (Org.)
Laymert Garcia dos Santos
Lúcia Bettencourt
Ana Maria de M. Belluzzo
Maria Sylvia Porto Alegre
Aracy Lopes da Silva
Lúcia Hussak van Velthem
Ruth Maria Fonini Monserrat
John Monteiro
Dominique Tilkin Gallois
Berta G. Ribeiro
Isabelle Vidal Giannini
Carlos Frederico Marés de Souza Filho
Washington Novaes
Lux Boelitz Vidal
Ornar Ribeiro Thomaz
Gerôncio Albuquerque Rocha
Priscila Siqueira
"índios no Brasil" é uma publicação do Ministério da Educação e do
Desporto, resultado do programa de promoção e divulgação de mate-
riais didático-pedagógicos sobre as sociedades indígenas brasileiras, apoia-
do pelo Comité de Educação Escolar Indígena do MEC.
Presidente da República
Itamar Augusto Cautiero Franco
Ministro de Estado da Educação e do Desporto
Murílio de Avellar Hingel
Secretário Executivo
António José Barbosa
Secretária de Educação Fundamental
Maria Aglaê de Medeiros Machado
Departamento de Política Educacional
Célio da Cunha
Assessoria de Educação Escolar Indígena
Ivete Maria Barbosa Madeira Campos
Comité de Educação Escolar Indígena
Marineusa Gazzetta (presidente),
Adair Pimentel Palácio,
Aládio Teixeira Júnior,
Aracy Lopes da Silva,
Bruna Franchetto,
Daniel Matenhos Cabixi,
Domingos Veríssimo,
Jussara Gomes Gruber,
Luís Donisete Benzi Grupioni,
Marina Kahn,
Nelmo Roque Scher,
Raquel Figueiredo Teixeira,
Ruth Maria Fonini Monserrat,
Sebastião Cruz,
Sebastião Mário Lemos Duarte,
Sélia Ferreira Juvêncio.
Participação e colaboração da Unesco
Enza Bosetti
ÍNDIOS NO BRASIL
Com a chegada das caravelas às terras que foram posteriormente denomi-
nadas pela cor das madeiras aqui encontradas, iniciava-se capítulo decisivo na
formação histórica do Brasil. O País emergia da confluência de dois mundos
— o Europeu e o Ameríndio — que viviam até então separados pelas águas
profundas do Atlântico. A terceira confluência veio, já nos primeiros tempos da
colonização, do continente africano.
O encantamento inicial dos europeus com os índios foi acompanhado pela
perplexidade das diferenças que existiam entre as duas culturas. As populações
indígenas foram representadas, assim, de diversas formas: como parte da natu-
reza tropical, como forças braçais necessárias ao aproveitamento das riquezas
naturais que a Terra de Pindorama oferecia ou como possíveis receptores da
obra colonizadora de civilização.
Do mundo colonial ao presente, o Brasil tem discutido, nas mais diversas
interpretações, o passado e o destino de tais populações. A História registra
o desaparecimento e o revigoramento de muitas sociedades indígenas.
Entretanto, o tema das sociedades indígenas no Brasil não é só um tema
do passado. E questão viva, do presente, e que permite perceber a importância
das cerca de duzentas comunidades, com perspectivas e formações históricas
próprias, que existem hoje no País.
O texto constitucional de 1988 é marco relevante na valorização do presen-
te e do futuro dos indígenas brasileiros. Assegurada sua alteridade cultural, tem
o índio o direito da proteção pelo Estado. O Ministério da Educação e do Des-
porto tem envidado esforços, nesse contexto institucional, para estimular uma
educação de qualidade, específica mas também geral, às sociedades indígenas.
Há, portanto, uma política educacional para o índio brasileiro. Talvez pela
primeira vez, o Brasil tenha política educacional dentro dos princípios do res-
peito à diversidade étnica e cultural e pautada pelo reconhecimento dos valores
e saberes transmitidos pelos indígenas ao longo de muitas gerações.
Esse contexto privilegiado da educação abre caminho para a tolerância e
o reconhecimento das diferenças culturais que só enriquecem a formação so-
cial brasileira. O Plano Decenal de Educação para Todos (1993 — 2003) ofere-
ce linhas de atuação satisfatória para enfrentar os desafios que se descortinam
na garantia da educação de qualidade para o indígena brasileiro.
E assim, com grande^satisfação, que o Ministério da Educação e do Despor-
to volta a editar a obra índios do Brasil, essa excelente coletânea de artigos
e ilustrações que procura apresentar os índios no curso da História e na pers-
pectiva do próximo milénio.

MURÍLIO DE AVELLAR HINGEL


Ministro de Estado da Educação e do Desporto
Brasília, novembro de 1994
Catálogo índios no Brasil
1. edição: 1992, Secretaria Municipal de Cultura de São
Paulo.
2. edição: 1994, Ministério da Educação e do Desporto.
Copyright cedido pela SMC-SP.

Organização
Luís Donisete Benzi Grupioni

Preparação dos originais:


Maria Valéria Ribeiro Sostena (Coordenação),
Dalva Elias Thomas Silva,
Irany Santos,
Maria Cristina Martins,
Maria das Graças de Souza Sá,
Maria de Fátima Rozales Rodero,
Rejane de Cássia Barbosa da Nóbrega.

Revisão
Ana Lúcia Coelho,
Maria Silvia Mattos Silveira Manzano,
Maria Silvia Pires Oberg.

Pesquisa iconográfica:
Luís Donisete Benzi Grupioni

Projeto gráfico:
Inspirado no trabalho de Moema Cavalcanti para o livro
História dos índios no Brasil, organizado por Manuela Car-
neiro da Cunha e publicado em 1992 pela Companhia das
Letras/FAPESP/SMC-SP

Capa:
Máscara Mehináku coletada por Heloisa Fenelon Costa,
1970, UFRJ/UNB.

Distribuição
Assessoria de Educação Escolar Indígena
Ministério da Educação e do Desporto
Esplanada dos Ministérios
Bloco L - Sala 610
70.047-900 - Brasília - D.F.

Mari — Grupo de Educação Indígena/USP


Cidade Universitária
Caixa Postal 8.105
05508-900 - São Paulo - SP.

Brasília, 1994

305.8981 índios no Brasil / organizado por Luís Do-


nisete Benzi Grupioni. Brasília: Ministério da
Educação e do Desporto, 1994.
1. índios da América do Sul — Brasil —
Aspectos sociológicos.
ÍNDICE

OS ÍNDIOS E A SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA


500 Anos - Caminhos da Memória, Trilhas do Futuro.
Mahlena de Souza Chaui 21
As Sociedades Indígenas no Brasil Através de uma Exposição Integrada.
Luís Donisete Benzi Grupioni 13
Amigos dos índios: os Trabalhos da Comissão índios no Brasil.
Laymert Garcia dos Santos 29

A DESCOBERTA DA AMÉRICA E O ENCONTRO COM O OUTRO

Cartas Brasileiras: Visão e Revisão dos índios.


Lúcia Bettencourt 39
A Lógica das Imagens e os Habitantes do Novo Mundo.
Ana Maria de M. Belluzzo 47
Imagem e Representação do índio no Século XIX.
Maria Syluia Porto Alegre 59

DIVERSIDADE CULTURAL DAS SOCIEDADES INDÍGENAS

Mitos e Cosmologias Indígenas no Brasil: Breve Introdução.


Aracv Lopes da Silva 75
Arte Indígena: Referentes Sociais e Cosmológicos.
Lúcia Hussak uan Velthem 83

Línguas Indígenas no Brasil Contemporâneo.


Ruth Maria Fonini Monserrat 93
O Escravo índio, esse Desconhecido.
John Monteiro 105
De Arredio a Isolado: Perspectivas de Autonomia para os Povos Indígenas
Recém-Contactados.
Dominique Tilkin Gallois 121
As Artes da Vida do Indígena Brasileiro.
Berta G. Ribeiro 135
Os índios e suas Relações com a Natureza.
Isabelle Vidal Giannini 145
O Direito Envergonhado: O Direito e os índios no Brasil.
Carlos Frederico Marés de Souza Filho 153

ÍNDIOS DO PRESENTE E DO FUTURO

O índio e a Modernidade.
Washington Novaes 181

As Terras Indígenas no Brasil.


Lux Boelitz Vidal 193
"Xeto, Maromba, Xeto!" A Representação do índio nas Religiões Afro-
-Brasileiras.
Omar Ribeiro Thomaz 205

Amazónia, Amazónia: Não os Abandoneis.


Gerôncio Albuquerque Rocha 21 7
Imprensa e Questão Indígena: Relações Conflituosas.
Priscila Siqueira 227

CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO "ÍNDIOS NO BRASIL"

Inventário dos Artefatos e Obras da Exposição "índios no Brasil:


Alteridade, Diversidade e Diálogo Cultural".
Luís Donisete Benzi Grupioni 233

SOBRE OS AUTORES 275


A Severo Gomes,
amigo dos índios
OS ÍNDIOS E A SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA
5 0 0 Anos - Caminhos da Memória,
Trilhas do Futuro

Mariíena de Souza Chaui

Quem lê os primeiros relatos sobre o ros navegantes estão convencidos de que


Novo Mundo - diários e cartas de Colom- aportaram no Paraíso Terrestre e descre-
bo, Vespúcio, Caminha, Las Casas - ob- vem as criaturas belas e inocentes que vi-
serva que a descrição dos nativos da terra veriam nas cercanias paradisíacas. A esta
obedece a um padrão sempre igual: são construção imaginária veio acrescentar-se,
seres belos, fortes, livres, "sem fé, sem rei mais tarde, a que identificava òs nativos
e sem lei". As descrições de Vespúcio, mais com as 10 tribos perdidas de Israel e que,
do que as dos outros, são de deslumbra- encontradas, ofereciam o primeiro e seguro
mento, particularmente quando se referem sinal de que se aproximava o Tempo do
aos homens jovens e às mulheres. A ima- Fim, a restauração do Reino de Deus na
gem dos "índios" não é casual: os primei- Terra. Quando, no século XVIII, fazendo
a crítica iluminista da civilização e anun- da cultura moderna (isto é, do capitalismo).
ciando o romantismo, Rousseau construiu No presente, os índios seriam apenas uma
a figura do bom-selvagem, apenas concluiu realidade empírica com a qual é difícil li-
um caminho aberto no final do século XV. dar em termos económicos, políticos e so-
Contraposta à imagem boa e bela dos ciais. Donde a ideia de "Reserva Indíge-
nativos, a ação da conquista ergueu uma na", espaço onde se conservam
outra, avesso e negação da primeira. Ago- espécimens e resíduos.
ra, os "índios" são traiçoeiros, bárbaros, in- A Exposição "índios no Brasil: Alteri-
dolentes, pagãos, imprestáveis e perigosos. dade, Diversidade e Diálogo Cultural" pro-
Postos sob o signo da barbárie, deveriam curou uma perspectiva crítica face à dupla
ser escravizados, evangelizados e, quando tradição do bom e mau selvagem e à ideo-
necessário, exterminados. logia do passado como único tempo que
Durante os últimos 500 anos, a Amé- resta aos povos indígenas. Procurou o plu-
rica não cessou de oscilar entre as duas ral - índios - em lugar do singular "o índio"
imagens brancas dos índios e, nos dois ca- (inexistente). Procurou o presente - as na-
sos, as gentes e as culturas só puderam ções indígenas fazem parte do presente
aparecer filtradas pelas lentes da bondade brasileiro e as lutas em torno da demarca-
ou da barbárie originária. Cegos e surdos ção e exploração das terras indígenas é a
para a diferença cultural (no sentido am- prova contundente dessa presença atual.
plo deste termo), os pós-colombinos e pós- Procurou a diferença de culturas: o olhar
cabralinos realizaram a obra da dominação, do branco sobre a alteridade, reduzindo-
mesmo quando julgaram que faziam o -a, na maioria das vezes, à identidade (os
contrário, desejosos de aumentar o reba- índios como antepassados arcaicos dos bra-
nho do povo de Deus ou os cidadãos da sileiros ocidentais); o olhar dos índios so-
sociedade moderna. bre os brancos, olhar de desconcerto, es-
Entre os efeitos dessa obra - coloniza- panto, temor e cólera; os olhares dos índios
ção, evangelização, escravidão, aculturação, entre si, isto é, a pluralidade de línguas, his-
extermínio - destaca-se um: a certeza de tórias, culturas. E deixou abertas as trilhas
que os povos indígenas pertencem ao pas- do futuro: diálogo ? destruição ? aprendi-
sado das Américas e ao passado do Bra- zado recíproco ?
sil. Passado, aqui, assume três sentidos.
Passado cronológico: os povos indígenas Talvez a resposta inicial a estas pergun-
são resíduo ou remanescente em fase de tas se encontre no abaixo-assinado de mi-
extinção como outras espécieis naturais. lhares de crianças, jovens e adultos, diri-
Passado ideológico: os povos indígenas gidos à Presidência da República, exigindo
desapareceram ou estão desaparecendo, a demarcação das terras indígenas, o res-
vencidos pelo progresso da civilização que peito à autonomia político-cultural das na-
não puderam acompanhar. Passado sim- ções indígenas e o convite para que as dis-
bólico: os povos indígenas são apenas a cussões e decisões sobre os problemas
memória da boa sociedade perdida, da ecológicos passem pelo crivo da moderni-
harmonia desfeita entre homem e nature- dade indígena que nos tem muito a
za, anterior à cisão que marca o advento ensinar.
As sociedades indígenas no Brasil através
de uma exposição integrada

Luís Donisete Benzi Grupioni

índios no Brasil: Alteridade, Diver- tes no tratamento da diversidade étnica e


sidade e Diálogo Cultural é o título da ex- cultural existente no Brasil de 1500 aos dias
posição que ocupou, de 14 de junho a 27 atuais. Os meios de comunicação conti-
de julho de 1992, todo o andar térreo do nuam produzindo imagens distorcidas da
Pavilhão da Bienal, uma área de quase realidade indígena. As organizações não-
5.000 m2, no Parque do Ibirapuera em -governamentais, que realizam campanhas
São Paulo. Uma das atividades centrais do de apoio aos índios e produzem material
projeto cultural "500 Anos: Caminhos da informativo de qualidade sobre eles, têm
Memória - Trilhas do Futuro" desenvolvi- atingido uma parcela muito reduzida da so-
do pela Secretaria de Cultura paulistana ciedade. O Estado brasileiro, por sua vez,
para celebrar os 500 anos de descoberta tem implementado políticas e programas
da América, os 200 anos do esquarteja- de assistência aos índios sem levar em con-
mento de Tiradentes e os 70 anos da Se- sideração o conhecimento disponível so-
mana de Arte Moderna, a exposição teve bre estas populações e mesmo a opinião
como objetivo principal oferecer à popu- destes grupos. Preconceito, desinformação
lação da cidade de São Paulo um conjun- e intolerância têm, assim, cercado as po-
to de informações corretas, contextuali- pulações indígenas no Brasil.
zadas e acessíveis sobre a realidade indí- Procurou-se, então, com a realização
gena brasileira, procurando-se combater as deste evento, reverter tal quadro através da
noções de selvageria, atraso cultural e hu- seleção e da apresentação de aspectos re-
manidade incompleta que caracterizam a levantes que definem e conformam as so-
compreensão das sociedades indígenas pe- ciedades indígenas, bem como de temas
lo senso comum. Pretendeu-se com a rea- que têm estruturado nossa reflexão sobre
lização desse evento contribuir para uma estas sociedades. Pretendeu-se apresentar
mudança qualitativa no tratamento da rea- a diversidade de soluções que os grupos
lidade indígena brasileira, entendendo que indígenas lograram construir no que diz res-
a apresentação desse conjunto confiável de peito a sua organização, sobrevivência e re-
informações é uma das condições básicas lações com o seu meio ambiente, enfati-
para que, de fato, ocorra mudanças nas for- zando que as sociedades indígenas das
mas de pensar e nas atitudes com relação baixas terras sul-americanas configuram um
as mais de 200 sociedades indígenas que tipo de instituição social e de desdobramen-
habitam o território nacional. to da capacidade criativa e adaptativa da
O ponto de partida para a elaboração espécie humana.
do projeto conceituai e museográfico des- Propunha-se, inicialmente, a exposição
sa exposição1 foi a avaliação de que o co- trabalhar, em perspectiva histórica, as ima-
nhecimento produzido e acumulado sobre gens produzidas, de um lado e de outro,
as sociedades indígenas brasileiras ainda no contato das populações indígenas do
não logrou ultrapassar os muros da aca- Novo Mundo com os europeus, as mani-
demia e o círculo restrito dos especilistas. festações sócio-culturais das sociedades in-
Nas escolas a questão das sociedades in- dígenas hoje e sua inserção no mundo mo-
dígenas, frequentemente ignorada nos pro- derno e contemporâneo. Para tanto, foram
gramas curriculares, tem sido sistematica- definidos três eixos conceituais propostos
mente mal trabalhada. Dentro da sala de como estruturadores dos diferentes módu-
aula, os professores revelam-se mal infor- los que comporiam a exposição. Estes ei-
mados sobre o assunto e os livros didáti- xos foram, então, traçados a partir de três
cos, com poucas exceções, são deficien- conceitos distintos: a alteridade, a diversi-
Estandartes da dade e o diálogo cultural. O registro da al- bitado por povos até então desconhecidos
entrada da
exposição índios no teridade nos serviria de guia para resga- foi, sem dúvida, o acontecimento mais ex-
Brasil, Pavilhão da tar o imaginário investido na situação de traordinário e decisivo da moderna histó-
Bienal. Parque do ria do Ocidente e desencadeou uma vas-
Ibirapuera. Foto: contato e que nela se transforma. De suas
Luís Grupioni. várias perspectivas: brancos descobrindo ta elaboração de discursos e imagens sobre
índios e índios descobrindo brancos e ou- estes povos e lugares. O contato mantido
tros índios. A noção da diversidade nos com os povos do Oriente não se cercara
permitiria explorar a sua não-homogenei- do sentimento de perplexidade que, então,
dade: os índios são diversos de nós, mas tomou conta dos europeus. Os padrões co-
também diversos entre si. E, enfim, esta di- nhecidos das diferenças culturais dificilmen-
versidade posta em causa apontaria para te se aplicam a eles, multiplicando os con-
o diálogo com estas culturas que fazem flitos de interpretação sobre sua identidade
parte de nosso presente e que estão tam- e as polémicas sobre os procedimentos
bém incluídas no horizonte e na definição adequados para a colonização e o conta-
de nosso futuro comum. Abdicando do to. De iníco, sabemos, de tão inverossímel
viés histórico, mas mantendo sequências -sem fé, sem lei e sem rei- esse Mundo vi-
temporais significativas, a exposição foi di- zinha o fantasmagórico e, depois, passa a
vidida em mais de 30 módulos organiza- oscilar na mente dos europeus entre a ima-
dos a partir desses três eixos conceituais gem de um inferno bestial e de um paraí-
estruturadores. so terrestre ao sabor dos interesses, elabo-
Passo, agora, a demonstração de co- rações e fantasias que presidem o tempo
mo articulamos cada um destes conceitos. da conquista.
Dos descobridores aos nossos contem-
Eixos conceituais: porâneos, as sociedades indígenas foram,
quase sempre, projetadas do lado da na-
1. Alteridade: figurações do outro entre tureza por uma cultura incapaz de acolher
brancos e índios a alteridade. Figuras como a de bárbaros,
A descoberta de um novo mundo ha- bons selvagens, primitivos e arcaicos foram
elaboradas nesse processo de contato, pa- Mapa da exposição

cificação e convívio experimentado pelas


populações nativas no Novo Mundo após
a chegada e instalação dos europeus.
E se a alteridade se colocou como um
problema para os europeus, ela também
o foi para os povos indígenas, que tiveram
de reelaborar seus esquemas conceituais
para dar conta da irrupção destes novos
personagens. De um lado e de outro do
Atlântico o encontro destes povos se cons-
tituía num momento capital de suas histó-
rias. O contato representou o fim da auto-
nomia sócio-cultural de muitos povos
indígenas do continente e não foram pou-
cos os que sucumbiram perante a deter-
minação dos colonizadores. A presença
dos europeus foi se constituindo como al-
go permanente, que exigia respostas e es-
tratégias de enfrentamento. A atitude de
estranhamento e as múltiplas respostas da-
das por estes povos à presença dos euro-
peus revela que a alteridade foi enfrenta-
da apesar da descontinuidade que
impunha as diversas ordens sociais estabe-
lecidas.
Prova disto é que muitos povos indí-
genas, no processo contínuo de reelabo-
ração de suas tradições míticas, incluíram
os brancos nos seus mitos de criação. Na
mitologia dos índios Waiãpi do Amapá, por
exemplo, a irrupção dos brancos aconte-
ce nos tempos remotos da criação do uni-
verso, quando o herói cultural Ianejar cria
os Waiãpi, que integram a categoria dos
humanos, juntamente com os brasileiros,
os negros e os franceses, estando todos fa- diversa. Os Bororó na sua classificação e
dados a uma vida breve, que os distingue apropriação dos elementos e seres que
do criador da humanidade. Neste tempo compõem o universo designaram o clã dos
mítico viviam todos juntos, mas o herói cul- Bokodori Ecerae (um dos 8 clãs em que
tural foi obrigado a separá-los impingindo- dividem sua sociedade e seus membros)
-lhes línguas não inteligíveis, locais de ha- como possuidores dos bens do branco e
bitação diversos e instrumentos do próprio homem branco. Assim como o
diferentes.2 Para os índios Krahó, por sua tatu-canastra, o colar com garras de onça,
vez, o herói cultural teria oferecido aos ín- e certas constelações de estrelas, o homem
dios a possibilidade de escolha entre o ar- branco foi descoberto, apropriado e inte-
co e flecha e a espingarda e outros bens grado no universo metafísico bororó.
industrializados. Os índios, numa escolha Não são passivas e nem uniformes, as-
considerada mais tarde como equivocada, sim, as respostas dadas pelos grupos indí-
ficaram com o arco e por isso os brancos genas para a alteridade representada pe-
tornaram-se civilizados e tecnologicamente los brancos dado, de um lado, a diversidade
superiores. Em outros sistemas culturais, socio-cultural existente e, de outro, os va-
os brancos foram incorporados de forma riados processos de contato nos quais es-
Solenidade de
abertura da
exposição índios no
Brasil com a
presença da Prefeita
de São Paulo, Lufza
Erundina, da
Secretária de
Cultura, Marilena
Chaui e de
lideranças indígenas
Guarani da aldeia
do Morro da
Saudade. Foto: K.
Alcovér.

tas sociedades indígenas estiveram en- o olhar indígena se mostrava muito redu-
volvidas. zido e até mesmo empobrecido diante do
A partir dessa conceituação da alteri- que traríamos para apresentar as figurações
dade, passamos para a avaliação das pos- elaboradas pelos brancos. Na avaliação fi-
sibilidades de apresentação museográfica. nal, decidimos desistir da contraposição e
E aqui tivemos uma grande dificuldade: a elegemos as representações sobre os índios
de contrapor as representações sobre os ín- e suas apropriações pela nossa sociedade
dios realizadas pelos brancos, com aque- como o foco de desenvolvimento do con-
las representações sobre os brancos feita ceito da alteridade e como gancho para a
pelos índios, pois buscávamos um equilí- apresentação na forma de uma
brio, tanto no aspecto da comparação for- introdução- para a segunda e terceira par-
mal, quanto na apresentação museográ- te da exposição. A visão dos índios sobre
fica. A mitologia é, sem dúvida, o grande os brancos -e o registro efetivo de sua
terreno para as elaborações sobre o ho- presença- foi apresentada na segunda parte
mem branco e sobre o contato. Mas os mi- da exposição em diferentes módulos.
tos constituem uma elaboração filosófica O registro da alteridade serviu de guia,
de difícil entendimento e decifração, e mui- então, para resgatar o imaginário investi-
to mais ainda de apresentação museográ- do na situação de contato e permitiu a or-
fica. Há entretanto alguns artefatos produ- ganização de um conjunto extremamente
zidos pelos índios que ao incorporarem rico de obras raras e originais. Aberta com
pedaços de bens industrializados, ou repre- uma reprodução da célebre carta de Pêro
sentarem de forma pictórica o homem Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel, esta
branco, poderiam ser utilizados para a con- primeira parte da exposição abrigou um
traposição que estávamos nos propondo conjunto de obras nunca antes reunido.
a apresentar. Há ainda algumas represen- Das cópias das pinturas de Albert Eckhout,
tações cerimoniais onde os índios represen- feitas por Neils Aagard Lutzen a pedido do
tam os brancos, como por exemplo a fes- imperador D. Pedro II, passando por ori-
ta realizada pelos Bororó, quando satirizam ginais de Debret, Rugendas, Florence e
a figura do branco. Entretanto, os elemen- Wied-Neuwied; registrou-se a corrente in-
tos de que dispúnhamos para apresentar dianista na pintura histórica através dos pin-
índio Xavante fala -
durante a
inauguração da
exposição - sobre o
centro das aldeias
Jês, lugar público
por excelência, onde
se desenvolvem os
principais rituais e
onde são tomadas
as decisões políticas.
Foto: Vilma
Gonçalves/CIMI.

céis de Oscar Pereira da Silva, Benedito sucesso- trazer para o Brasil. Entendia-se
Calixto, Vitor Meirelles e Diogo da Silva o manto como um objeto catalizador, que
Parreiras, na literatura através dos textos de se impõe pela densidade de significados
Gonçalves Dias e José de Alencar e na mú- que, dentro do seu contexto de origem ou
sica através de orginais da ópera de Car- fora dele, podia sugerir, capaz de sinteti-
los Gomes. Primeiras edições de cronistas, zar o processo de expropriação e museifi-
viajantes e naturalistas foram expostas em cação ocorrido com o Novo Mundo após
vitrines. A representação do índio na pin- a chegada dos europeus no séc. XVI.
tura e na escultura contemporânea (Vol-
pi, Poty, Glauco Rodrigues, Portinari, Luis 2. Diversidade: implosão do conceito ge-
Rochet, Waldomiro de Deus,) foi precedi- nérico de índio
da pelo registro da volta às origens em-
preendida pelo modernismo (Di Cavalcan- No segundo momento da exposição,
ti, Rego Monteiro e Brecheret). Deu-se um nossa proposição foi desenvolver o concei-
destaque especial para 23 desenhos iné- to da diversidade. A apresentação da di-
ditos de Cândido Portinari feitos nos anos versidade das manifestações sócio-culturais
40 para ilustrar uma edição de "A Verda- das sociedades indígenas no Brasil esbar-
deira História" de Hans Staden. A incor- rava na aparentemente homogeneizada e
poração do índio pela sociedade envolven- folclorizada categoria genérica de índio.
te foi apresentada pelo uso de nomes e Era, assim, preciso desconstruir tal noção,
referências indígenas em produtos comer- subtraindo-lhe sua força de unidade homo-
ciais, no carnaval, no cinema, na filatelia geneizadora para que se constatasse a ri-
e na numismática, na literatura de cordel ca diversidade existente entre as socieda-
e no culto aos caboclos realizado pelas re- des indígenas no Brasil contemporâneo.
ligiões afro-brasileiras. Esta primeira parte Fruto de um erro histórico do século
encerrou-se com uma vitrine vazia onde XVI e invenção da sociedade nacional, a
poderia ter figurado um dos seis últimos categoria índio, perpetuada através dos
mantos de plumas dos índios Tupinambá, anos, acaba adquirindo uma conotação
todos depositados em museus europeus, política. Ela passa a ser incorporada pelos
e que a curadoria da mostra tentou -sem grupos indígenas no processo de constru-
ção de uma identidade coletiva, lações com o mundo dos espíritos, e o che-
nomeando-os frente ao restante da socie- fe apaziguando as disputas políticas e bus-
dade. Estabelece um contínuo de seme- cando consenso e coesão. Regras,
lhanças estruturais entre as diferentes so- compromissos e obrigações estabelecidos
ciedades indígenas e um marco em relação pelas relações de parentesco, de amizade
aos civilizados. A manutenção desta iden- ou criadas em rituais e em contextos polí-
tidade social coletiva, por parte dos índios, ticos definem a distribuição de bens e ser-
passa pela manipulação de suas especifi- viços. Generosidade, redistribuição e reci-
cidades culturais e dos estereótipos da so- procidade criam, recriam e intensificam
ciedade envolvente e não implica na anu- relações nessas sociedades.4
lação de suas marcas étnicas. Embora possamos tentar apreender es-
Se é recente, entretanto, a apropriação tas sociedades isolando aspectos como o
pelos grupos indígenas da categoria índios, político, o religioso, o económico, estes se
é fato que ela tem nos servido há muito entrelaçam num todo compacto e coeren-
tempo. Tem possibilitado a criação de uma te. A coesão íntima de todos os elemen-
unidade genérica que permite, num primei- tos conforma a especificidade sócio-cultural
ro momento, diferenciar nossa sociedade de cada um destes grupos. Isto coloca o
do conjunto das diferentes sociedades in- segundo problema que é identificar os me-
dígenas existentes no território brasileiro. canismos que permitem vislumbrar a diver-
As sociedades indígenas compartilham sidade destes grupos. Não só habitam áreas
de um conjunto de traços e elementos bá- geográficas distintas e vivenciam processos
sicos, que são comuns a todas elas e as di- históricos específicos estes grupos são em
ferenciam de sociedades de outro tipo. A si diferenciados. Estudos monográficos têm
lógica e o modelo societal compartilhado revelado o nexo cultural de muitas socie-
pelos grupos indígenas são diferentes do dades indígenas. Trata-se de uma riqueza
nosso. Duas ordens de problemas estão co- sócio-cultural adaptativa significativa em so-
locados: o que faz com que uma socieda- lucionar de forma original problemas co-
de seja indígena? e o que as diferencia uma locados a todos os grupos humanos: co-
das outras? E o modo de viver, de organi- mo estabelecer relações entre seus pares,
zar as relações entre as pessoas e destas com os seus opositores e com o meio na-
com o meio em que vivem e com o so- tural e sobre-natural que os circundam.
brenatural que faz com que uma socieda- A língua é sem dúvida o primeiro cri-
de seja indígena. Sociedades indígenas são tério lembrado em termos de diversificação
sociedades igualitárias, não estratificadas cultural. São cerca 170 línguas indígenas
em classes sociais e sem distinções entre conhecidas, classificadas e distribuídas. O
possuidores dos meios de produção e pos- contato histórico e o uso de mesmas áreas
suidores de força de trabalho. São socie- ecológicas resultando no compartilhar de
dades que se reproduzem a partir da pos- traços culturais comuns deu ensejo a um
se coletiva da terra e dos recursos nela outro critério de classificação cultural: as
existentes e da socialização do conheci- áreas culturais. Povos em contato acabam
mento básico indispensável à sobrevivên- se influenciando mutuamente, difundindo
cia física e ao equilíbrio sócio-cultural dos e fazendo empréstimos de elementos cul-
seus membros. 3 turais diversos. E possível, pois, conformar
Mais que a especialização, embora áreas onde grupos experimentam traços
sempre haja exímios caçadores, cantado- culturais uniformes.
res e artesãos, é a divisão do trabalho por Estes dois critérios falam da diversida-
sexo e por idade que regula a produção de de dentro para fora, isto é, alicerçam-
nestas sociedades. As tarefas do dia-a-dia -se em elementos constitutivos destas so-
são repartidas entre homens e mulheres de ciedades. Mas é possível ainda agrupá-las
acordo com suas idades e nenhuma clas- a partir das frentes de expansão capitalis-
se ou grupo detém o monopólio sobre uma ta da sociedade envolvente que chegaram
parte do processo produtivo ou sobre uma até estas sociedades e então verificar a si-
atividade específica. Despontam, todavia, tuação delas em termos do seus graus de
o xamã, regulando e intermediando as re- contato.5
De todos esses critérios o que sobra é por duas rotas distintas. De um lado ele en-
que cada sociedade indígena se pensa e contraria dois mapas com a localização dos
se vê como um todo homogéneo e coe- povos indígenas no Brasil e uma seleção
rente e procura manter suas especificida- de artefatos (plumária, trançado, cerâmi-
des apesar dos efeitos destrutivos do con- ca, tecelagem e máscaras rituais) de dife-
tato. Um Guarani ou um Yanomami, rentes grupos indígenas, que se comple-
apesar de índios, vão continuar se pensan- tavam com um longo painel com
do como um Guarani e como um Ya- fotografias de casas e aldeias, que rodea-
nomami. vam algumas maquetes de estruturas de
Nessa segunda parte da exposição, es- casas indígenas. Quatro calendários de ati-
truturada em torno do conceito da diver- vidades económicas de grupos indígenas
sidade sócio-cultural das sociedades indí- diferentes davam conta de encerrar essa
genas, optamos por uma apresentação apresentação da diversidade de ocupação
museográfica desdobrada em dois momen- e adaptação ao território. Se o visitante se-
tos: a diversidade, propriamente dita, e a guisse a outra rota se defrontaria com um
exemplaridade. Trabalhou-se primeiro com longo painel com a classificação de todas
a implosão do conceito genérico de índio, as línguas indígenas conhecidas no Brasil.
subtraindo-lhe sua força homogeneizado- Ali dois "brinquedos" apresentavam 24 pa-
ra. Os índios não são apenas diversos de lavras em línguas indígenas diferentes: o
nós, são também diversos entre si: 200 po- visitante rodava um círculo e descobria co-
vos, 170 línguas e dialetos sendo falados, mo se falava a palavra mão, por exemplo,
Durante uma visita
morando em dezenas de aldeias, habitan- em Xavante, Minky, Yanomami, Kaxara- monitorada, crianças
do diferentes áreas ecológicas em todo o ri, Kulina, Aweti, Tupi antigo ... Uma ban- recebem explicações
território nacional e submetidos a diferen- sobre o
cada com diversos brinquedos infantis in- processamento da
tes processos de contato com segmentos troduzia o tema da socialização nas mandioca feito pelos
da sociedade envolvente. sociedades indígenas. Esta era seguida por índios Tukano na
reprodução de uma
Um conjunto de 20 totens (ampliações vitrines e painéis onde foram apresentados casa de Farinha
fotográficas em tamanho natural de índios) armas, instrumentos de guerra e diferen- ambientada com
artefatos
introduziam o visitante nesse novo momen- tes instrumentos musicais. etnográficos. Foto:
to da exposição. Aí o visitante podia seguir Compartilhando uma série de traços Luís Grupionl.
Filmes e vídeos etnográficos exibidos na exposição índios no Brasil

Xingu/Terra Festa da Moça


1981. 106min. Filme de Maureen Bisilliat. 1987. 20 min. Direção: Vicente Carelli.
Pemp Na Trilha dos Uru-Eu-Wau-Wau
1988. 27min. Direção e fotografia: Vicent 1984. 55min. Direção: Adrian Cowell.
Carelli. Yanomami: Morte e Vida
1990. 30min. Direção: Mónica Teixeira. TV
Primeiros Contatos com os Txukarramãe
Manchete. Manchete Urgente.
1990. 14min. Direção: Maureen Bisilliat.
O Caminho do Fogo
O Enigma Verde de Altamira (The Green
1984. 55min. Direção: Adrian Cowell.
Puzzle of Altamira)
1989. 52min. Filme de Lode Cafmeyer. Os Arara
1984. 134min. Direção: Andrea Tonacci.
Fruto da Aliança dos Povos da Floresta
1990. 20min. Direção e fotografia: Siã Ka- Contato com uma Tribo Hostil: Txikão
xináwa. 1967. 26min. Direção: Jesco Von Puttmaker.
Yanomami: a Luta pela Demarcação Reinado na Floresta
1989. 30 min. TV Cultura. Repórter Especial. 1973. 31 min. Direção: Adrian Cowell.
Entrevista com Verá Recove A Tribo que Fugiu do Homem
1989. 19min. Programa A Voz da Floresta. 1973. 78min. Direção: Adrian Cowell.
Macsuara Kadiwel. Expedições Famosas
Funeral Bororó 1953. 24min. Direção: James Marshall.
1990. 47min. Baseado em documentário ci- Ameríndia
nematográfico de Darcy Ribeiro e Heiz Forth- 1990 Direção: Conrado Berning.
man (1953. 34 min. Alemanha. Brasil). Krahô: os Filhos da Terra
Os Kaiapó Saindo da Floresta 1990 - JBRACE Direção: Luiz Eduardo Jorge.
1989. 58min. Direção: Terence Turner. Contato com uma Tribo Hostil
Povo da Lua, Povo do Sangue 30 min. Direção: Harry Hastings.
1984. 27min. Marcello G. Tassara e Cláudia Aos Ventos do Futuro
Andujar. 45min. Direção: Hermano Penna.
Mineração e Desenvolvimento em Área In- CPI do índio
dígena 9min. Direção: Hermano Penna.
1987. 15min. Celso Maldos e Ailton Krenak.
Tribo que se Escondeu do Homem
Vídeos nas Aldeias 90min. Direção: Adrian Cowell.
1989. 9min. Direção: Vicente Carelli.
Esses e Outros Bichos
Kararaô: um Grito de Guerra 22min. Direção: Renato Neiva Moreira.
1989. 78min. Programa Repórter Especial TV
Guarani
Cultura de São Paulo/Roseli Galleti.
lOmin. Direção: Regina Jeha.
Funeral Mentuktire/Nascimento índios: Direitos Históricos
s.d. - 27min. Yoshikuni Takahashi. 23min. Direção: Hermano Penna.
O Espírito da TV Xingu/Luta
1990. 18min. Fotografia e direção: Vicente 9min. Direção: Maureen Bisilliat. Marcelo
Carelli. Tassara.
Wai'A, O Segredo dos Homens Tamarikuna
1988. 15min. Direção e pesquisa: Virgínia 30min. Direção: Harry Hastings.
Valadão. Missa da Terra sem Males
Yanomami: Saúde 35min. Direção: Conrado.
1990. 57min. Direção: Caco Mesquita. TV 2 República Guarani
Cultura -Repórter Especial. lOOmin. Direção: Sílvio Back.
Mato Eles? Kaigang
1983. 33min. Direção : Sérgio Bianchi. 19min. Direção: Inimá Simões.
A nominação,
iniciação e morte de
um indivíduo,
importantes rituais
dos fndios Bororó,
foram apresentados
na exposição através
de três cenários com
bonecos
ornamentados. Foto:
Luís Grupioni.

comuns, as sociedades indígenas se dife- com o aumento de seu reconhecimento e


renciam muito uma das outras. Trabalhou- auto-estima. Ao lado disto, consolidam-se
-se, então, com aspectos significativos do instrumentos jurídicos que garantem a pro-
universo indígena a partir da eleição de al- teção e direitos específicos a estes grupos,
gumas especificidades: a casa de farinha e embora muitos ainda considerem que os
Tukano, os rituais de nominação, iniciação índios se constituem como obstáculos pa-
e morte dos Bororó, o etno-conhecimento ra a expansão de atividades económicas
dos Xikrin, a concepção do cosmo dos ín- capitalistas em diversas regiões, não é mais
dios Waiãpi e a pintura dos Kayapó mere-- concebível a admissão pública do extermí-
ceram destaque. nio destas populações, como tantas vezes
ocorreu no passado. Por força constitucio-
3. Diálogo cultural: índios do presente nal hoje o próprio Ministério Público está
e do futuro preocupado com os índios e seus direitos,
e o Estado, apesar de sua ineficiência, con-
O terceiro e último momento da expo- ta com condições materiais objetivas para
sição foi estruturado para combater uma atender as demandas formuladas pelas so-
série de equívocos que cercam a realida- ciedades indígenas, a quem deve assistir.
de indígena e para demonstrar uma reali- É certo que o Estado continua man-
dade pouco conhecida. tendo uma posição ambígua nesta ques-
Não obstante a crença generalizada de tão. Ele oscila entre um protecionismo ge-
decréscimo das populações indígenas, bem nérico, marcado pela importância dos
como sobre sua degeneração e empobre- índios para a ideologia da nacionalidade
cimento cultural, fato é que a partir dos e consusbstanciado numa legislação pro-
anos 70, e mais ainda nos últimos anos, tetora que reconhece direitos formais, e
o contigente populacional indígena tem uma prática sistemática de descaso e des-
crescido de forma constante, como se mos- respeito para com estas populações, enten-
tram também revigoradas suas culturas, dendo os índios como impecílho para o de-
senvolvimento e transíormando-os em insistem em nos incomodar. Eles nos co-
ícones da negação do progresso.6 locam em contato com a face autoritária
Essa ambiguidade do Estado se repro- de um Estado prepotente e centralizador
duz na sociedade civil e permite, por exem- e com uma sociedade civil frequentemen-
plo, que a nação assista estarrecida ao mas- te apática que titubeia cada vez mais en-
sacre de 14 índios Tikuna no Igarapé do tre fechar os olhos ou apavorar-se diante
Capacete em março de 1988, ou que per- dos menores nos semáforos, dos pais de
maneça passiva -ainda que comiserada- família sem emprego, de grupos de exter-
diante da tragédia Yanomami no auge da mínio ou de suicídios em massa como dos
atividade de predação dos garimpeiros. índios Kaiowá. Se para setores da socie-
Distantes, mas não o suficiente para que dade civil os índios, não obstante sua pre-
os ignoremos, os índios e seus problemas sença efetiva, representam somente uma
herança cultural a ser resgatada, para uma
parcela cada vez mais significativa desta
mesma sociedade os índios têm direitos e
devem ser respeitos. Pesquisa recente rea-
Por onde começar lizada em São Paulo indica que mais de
uma pesquisa sobre índios? 80 % da população é a favor da demar-
cação das terras indígenas, mesmo com
ROTEIRO prejuízo de projetos de exploração eco-
nómica.
Os índios e seus problemas nos inco-
BIBLIOGRÁFICO modam ainda porque, ao afirmarem sua
diversidade e especificidade cultural, recla-
mam a dívida secular de dominação etno-
cida que se seguiu ao descobrimento e, de-
pois, ao esfacelamento do ideal libertário
representado pelo índio "bom selvagem",
sempre presente no imaginário coletivo do
Ocidente.
Hoje, ao chamarem atenção para a
viabilidade e a necessidade de respeito, aos
seus tipos diferenciados de existência e or-
ganização, os índios estão nos questionan-
do a fundo sobre o nosso modelo de so-
ciedade. E não é propondo o seu modelo
como plausível para nós, mas antes de tu-
do como referencial: "os índios são bons
para pensar", poderia dizer um leitor en-
gajado de Lévi-Strauss.
A violência cometida contra popula-
ções nativas e a preocupação com sua pre-
servação têm levado, por sua vez, a mobi-
lização na área científica. Alguns
pesquisadores chamam a atenção para o
potencial genético diferenciado represen-
tado por cada uma destas sociedades e pa-
Do conjunto de ra a importância de sua manutenção. Ou-
publicações didáricas
produzido para a
índios no Brasil tros trataram de lembrar e registrar o
conhecimento milenar desenvolvido por
exposição índios no
Brasil, destaca se o Alteridade - Diversidade - Diálogo Cultural estes povos no conhecimento e no trato do
Roteiro Bibliográfico meio que habitam. É, assim, que novas es-
com 25 indicações
de livros. pécies animais, vegetais e minerais foram
conhecidas e estão sendo investigadas. A nam recorrentes notícias de que índios ven-
medicina indígena, a utilização equilibra- dem madeira ou propiciam atividades de
da do potencial energético da floresta ama- garimpo em suas terras, então essa ima-
zônica - que sustenta populações nativas gem idílica do selvagem imerso na na-
há séculos - reclamam o reconhecer dos tureza precisa ser revisada. Simétrica a es-
saberes indígenas e seu legado para o res- ta posição, é a do Estado que sempre
tante da humanidade. Foram eles que do- tratou os índios como seres desprovidos de
mesticaram plantas que integram dietas e vontade política, naturalizados e vistos co-
cardápios de grupos que hoje não se con- mo variáveis passivas nos seus planos es-
ceberiam sem elas: mandioca, milho, ba- tratégicos de desenvolvimento e ocupação
tata, tomate, feijão, borracha, castanha-do- do território nacional. Para os planejado-
-pará, erva-mate, amendoim, guaraná, res governamentais, frequentemente os ín-
quinina, algodão e cacau, para ficar ape- dios são apenas "um problema ambiental
nas em alguns.7 para as grandes obras de engenharia". As-
No bojo da vaga ecológica que varre sim. a força adquirida no final dos anos 80
o mundo, muitos passaram a nutrir simpa- pelo par índio/natureza precisa ser recon-
tia pelos índios a partir da visão de que es- siderada, não só porque encobre muitos
tes não só defendem a natureza, mas fa- problemas, mas porque está assentada so-
zem parte dela, assim como a mata bre um equívoco: o de que o reconheci-
atlântica ou o mico-leão dourado. Viven- mento dos direitos indígenas se faz em de-
do integrados à natureza, são ecológicos corrência de seu valor ecológico. Ora, é
em essência e, assim, devem ser protegi- preciso ficar claro que os direitos indíge-
dos e preservados. Evidentemente que os nas independem de vivência ecológica des-
índios têm uma estreita relação com a na- tes grupos, pois provêm do fato de se cons-
tureza e sua sobrevivência depende do tituírem como grupos humanos, social e
equilíbrio desta relação. Mas quando se tor- culturalmente diferenciados. 8

Visitantes assistem
um vídeo sobre a
invasão de
garimpeiros na área
indígena
Nambiquara no
módulo sobre
mineração, garimpo
e terras indígenas.
Foto: Luís Grupioni.
Folder com a
programação dos
eventos paralelos da
exposição índios no
Brasil.

Oficina Oficina Debate sobre Contadores


de trançado de argila a realidade de história
indígena indígena
São muitas as formas, os use >s As tradições indígenas têm
A partir das folhas da palmeira e as decorações dos potes de inspirado a literatura infamo-
A Comissão índios no Brasil,
babaçu, buriti e inajá, os povos cerâmica feitos pelos índios. O juvenil para criar belas histó-
criada pela Secretaria Munici-
indígenas trançam cestos, pe- ceramista Oey Eng Goan vai rias. Contadores de história li-
pal de Cultura de São Paulo,
neiras, abanos, bolsas e outros confeccionar algumas bone- gados às bibliotecas munici-
realiza duas reuniões de traba-
utensílios domésticos. Os ín- cas de barro, imitando a arte pais contam histórias sobre os
lho e discussão sobre temas
dios Krahó, em Goiás, conhe- dos índios Karajá, que moram índios para o público infantil.
atuais referentes à temática in-
cem 12 formas de começar o na ilha do Bananal. Venha mo- (Veja a programação das ses-
dígena.
trançado de um mesmo tipo de delar uma boneca de argila.
Apresentação Apresentação sões de conto no hall de entra-
2 6 d e junho- 14:00 h da da exposição.)
cesto. Venha aprender mais so-
bre a arte do trançado com a an-
04 de julho de repentista de dança e 17 de julho- 14:00 h
1 1:00 h. r 14:00 h. música Guarani
tropóloga Ester de Castro.
12 de julho
No desafio característico da ar-
05,08,09, 15,22,23
U:00h.
te do repente, o artista popular Os índios Guarani que habi- Lançamento do
de j u l h o - 15:00h. Jota Barros e seu amigo vão se tam, milenarmente a Mata livro "Grafismo
enfrentar para falar sobre os Atlântica brasileira, apresen-
índios do Brasil. Venha assistir tam aspectos de seu universo Indígena"
Oficina a essa manifestação da arte p< >- mítico e cultural na encenação
A editora Nobel e a Universi-
de línguas pular brasileira. "Mito da criação do mundo e
dade de São Paulo lançam o li-
outras lendas". Resgatar a tra-
indígenas 20 e 27 de j u n h o - dição indígena é um dos obje- vro "Grafismo Indígena - Estu-
Ciclo de
15:00 h. tivos do Núcleo de Arte Mile- dos de Antropologia Estética".
"Tupi or not Tupi?". Falam-se 11 de julho - nar Ambá Arandú, que coor- organizado por Lux Vidal, e vídeos
que reúne artigos de antropó-
hoje no Brasil mais de 170 lín-
guas indígenas diferentes. Es-
15:00h.
18 de julho -
denará estas apresentações.
logos e pesquisadores sobre a
etnográficos
sa pluralidade linguística, ex 15:00h. 19 e 26 de julho - arte gráfica indígena brasileira.
pressão e constituição da di- Diariamente são exibidos ví-
I 1:00 h. 1 4 : 0 0 li.
versidade sócio-cultural indí- 2 6 d e junho- 18:00 h. deos etnográficos produzidos
e 15:30 h.
Oficina de gena. será trabalhada pela lin- Apresentação por entidades de apoio aos ín-
dios e filmes relacionados à te-
pintura facial guista Ruth Monserrat.
de sons Lançamento do mática indígena. (Veja a pro-
Conversas com gramação diária no hall de en-
Pintando suas faces, seus cor-
12 de julho- 15:00 h. indígenas um chefe livro "História trada da exposição.)
18 de julho- 1 1:00 h.
pos e seus objetos, os índios
expressam momentos e senti- Marlui Miranda é uma das pou- Waiãpi dos índios
mentos importantes em suas cas cantoras brasileiras que se no Brasil" Outros eventos:
vidas. Jenipapo, urucum, car- dedica ao estudo e à interpre- O líder Kassiripiná Waiãpi, que
vão e barro são utilizados na tação dos sons indígenas. Para mora na aldeia do Mariry, no A Secretaria Municipal de Cul-
arte de pintar-se. A antropólo- Amapá, conta estórias e fala Durante os meses de junho e
ela a música indígena constitui tura, a Companhia das Letras e
ga c artista Elsje Maria Lagrou sobre a cultura do seu povo. julho, esses e outros eventos
um exercício de liberdade e a FAPESP lançam o livro "His-
ensina a fazer alguns motivos Pala também sobre os problc- acontecem no espaço de
criação, que envolve toda a c< i tória dos índios no Brasil", or-
de pintura facial e explica seus mas q u e os W a i ã p i vêm multi-uso da exposição
munidade. Venha conferir seu ganizado por Manuela Carnei-
significados. enfrentando para garantir índios no Brasil, no andar tér-
trabalho sobre a sonorização ro da Cunha, reunindo diver-
a integridade de seu território. reo do Pavilhão da Bienal, no
indígena. sos artigos de estudiosos so- Parque do Ibirapucra. (Acom-
27 de Junho- 1 1:00 h.
bre o tema. panhe a programação pela im-
28 de Junho-11:00 h. 14 de junho - 18:00 h. 21, 24 e 28 de junho -
05 de Julho- l l : 0 0 h . 25 de julho- I 5 : 0 0 h . 15:00 h. 24 de julho - 19:00 h. prensa.)
Crianças participam São muitos os equívocos e as distor- indígena no presente.
da conversa com o
líder indígena ções que cercam a questão indígena, es-
Kassiripiná Waiãpi pecialmente no Brasil. Assim, a proposi- Exposição integrada: eventos
no espaço multi-uso
da exposição. Foto: ção de que "os índios estão aí, e para ficar"
Fernando Conti. implica em aceitar que um projeto de re- paralelos
cuperação da cidadania brasileira ou um
projeto de modernidade deve reservar um A exposição assim constituída com-
espaço para os índios e para suas deman- preendeu também uma mostra de vídeos
das. A convivência com a diversidade po- e filmes selecionados, visitas monitoradas,
de representar uma rica experiência cultural conferências com índios e especialistas,
para todos. E o diálogo só será possível se apresentações musicais, oficinas de tran-
conhecermos mais e compreendermos me- çado, cerâmica, pintura facial e línguas in-
lhor essas sociedades. dígenas, distribuição de materiais didáticos
Neste sentido elegemos como soluções de referências sobre índios e uma lojinha
museográficas para trabalhar o tema do para venda de publicações e artesanato. O
diálogo cultural, conceito organizador dos serviço de monitoria da exposição possi-
últimos módulos da exposição, o trabalho bilitou que mais de 11.000 estudantes da
das entidades de apoio aos índios, a emer- rede de ensino pública e particular de São
gência plural das organizações e associa- Paulo tomassem parte em visitas guia-
ções indígenas, os direitos indígenas no das. 9 Um abaixo-assinado solicitando a
atual texto constitucional, a questão da de- demarcação das terras indígenas, em cum-
marcação e o problema do garimpo e da primento ao artigo 67 do Ato das Disposi-
mineração em terras indígenas e a apro- ções Constitucionais transitórias da atual
priação de instituições típicas do mundo Constituição, esteve a disposição do públi-
ocidental, como o museu e o centro de cul- co visitante: 8.458 adultos e 2.871 crian-
tura, por parte dos índios (como os Tiku- ças assinaram o abaixo-assinado que foi
na e o Guarani de São Paulo). Esses te- encaminhado ao presidente da República
mas foram eleitos como sinais da vitalidade Itamar Franco. Este conjunto de eventos
e serviços buscou aumentar a possibilida- põem pela densidade de seu valor cultu-
de de reflexão, participação e aproveita- ral, para além das conexões de significa-
mento da exposição por parte do público ção sugeridas (itens de exceção ou raros
visitante. por seu valor artístico, teórico ou históri-
Painéis com textos, fotografias amplia- co, seja das culturas indígenas ou de sua
das, obras de arte, livros raros, artefatos in- interpretação pela nossa, sempre restituí-
dígenas, ambientes culturais recriados e so- dos, uns e outros, ao contexto da sua pro-
norizados, vídeos, maquetes e mapas dução ou cercadas das informações neces-
preencheram o vasto espaço do andar tér- sárias para a compreensão de sua relevân-
reo da Fundação Bienal convidando o pú- cia e sentido). Assim fizemos com os de-
blico visitante a refletir sobre suas ideias e senhos de Portinari e com a sala do man-
atitudes perante as sociedades indígenas. to Tupinambá.
Uma exposição deste porte, talvez a maior Procuramos, enfim, com o desenvol-
já realizada no Brasil quer pela sua exten- vimento dos conceitos da exposição, fazer
são ou pelo conjunto de questões aborda- uma crítica da forma como a questão in-
das, esteve sujeita a diferentes leituras e dígena tem se apresentado no nosso coti-
apropriações. diano e um convite à reflexão sobre nos-
sas ideias e posturas sobre o tema. Não se
Pensando nisto, e no público hetero- pretendeu com isto que o público saísse da
géneo que teríamos visitando a exposição, exposição com a sensação de compreen-
procuramos desde o início evitar que a ex- ção e domínio do objeto exposto. Pelo con-
posição se realizasse como a ilustração de trário. buscou-se uma aproximação do uni-
um sistema -ainda que lacunar- de conhe- verso indígena, através da suscitação de
cimentos estabelecidos pelas especialida- dúvidas, de incompreensões e de limites
des da etnologia, bem como cuidamos de de apreensão. Esperamos que ao sair, o
contornar a falsa segurança que uma apre- público estivesse inquieto e incomodado
sentação demasiadamente dirigida e estru- diante do que viu, ouviu e experimentou
turada poderia induzir no público, obsta- enquanto percorria o espaço da exposição.
culizando sua própria atividade de Um início de diálogo com as culturas indí-
interrogação e compreensão. Deste modo, genas -um dos objetivos centrais desta
ao visitante foram oferecidos eixos orga- exposição- exige de nós a rarefação de nos-
nizadores, sugestões de conexão de blo- sas certezas, o questionamento de uma sé-
cos informativos e de segmentos de senti- rie de ideias pré-concebidas, incompletas
do, deixando espaço para sua própria e muitas vezes equivocadas. Entendemos
intervenção na construção dos itinerários. que a busca da compreensão do outro pas-
Procurou-se, ainda, no projeto arquitetô- sa necessariamente pela interrogação so-
nico da exposição, interromper as sequên- bre nós mesmos, ou, ao menos, sobre al-
cias esboçadas por "intervalos", momen- gumas de nossas ideias e opiniões.
tos mais reflexivos, constituídos por obras Esta exposição, acreditamos, deu um
singulares -objetos catalizadores- que se im- passo neste sentido.

Notas nas no Brasil, não priorizando nenhuma linha polí-


tica ou ideológica específica.
1 A curadoria da exposição índios no Brasil enten-
deu.. desde o início dos seus trabalhos, que a reali- 2. Cf. Gallois, Dominique — 1985 — "índios e bran-
zação de um evento de tal envergadura devia se cos na mitologia Waiãpi: da separação dos povos
constituir num espaço de interação entre os diferen- à recuperação das ferramentas" in Revista do Mu-
tes personagens que formam o campo antropoló- seu Paulista. N.S.. vol. XXX, USP. São Paulo.
gico e indigenista brasileiro. Neste sentido foram con-
vidados a tomar parte, em momentos distintos do 3. Silva, Aracy Lopes da — 1987 — "Nem Taba,
processo de viabilização desta exposição e dos even- nem Oca: uma coletânea de textos à disposição dos
tos paralelos, especialistas ligados a diferentes uni- professores" in Aracy Lopes da Silva — A questão
versidades, museus e organizações não- indígena na Sala de Aula: subsídios para profes-
-governamentais. Procurou-se, assim, fazer um sores de 1? e 2? graus. São Paulo, Ed. Brasiliense.
reconhecimento legítimo e coletivo do conjunto dos
trabalhos acumulados junto às sociedades indíge- 4. Grupioni, Luís Donisete Benzi — 1988 — A
questão indígena no Brasil, mimeo., São Paulo, 8. Andrade, Lúcia e Viveiros de Castro, Eduardo
Comissão Justiça e Paz. — 1988 — "Hidrelétricas do Xingu: o Estado con-
tra as sociedades indígenas" in Santos, Leinad e An-
5. Silva, Aracy Lopes da — 1988 — índios, São drade, Lúcia — As Hidrelétricas do Xingu e os Po-
Paulo, Ed. Ática. vos Indígenas, São Paulo, Comissão Pró-índio de
São Paulo.
6. Durham, Eunice — 1983 — "O lugar do índio" 9. Os monitores da exposição índios no Brasil par-
in Lux Vidal (org.) — O índio e a Cidadania, São ticiparam do curso de reciclagem "500 anos depois:
Paulo, Ed. Brasiliense. os índios no Brasil Contemporâneo", que foi minis-
trado para os funcionários das bibliotecas munici-
7. Ribeiro, Berta G. — 1990 — Amazónia Urgen- pais que, ano a ano, atendem uma avalanche de
te: cinco séculos de história e ecologia, Belo Ho- estudantes à procura de dados sobre os índios para
rizonte, Ed. Itatiaia. suas pesquisas escolares.
Amigos dos índios:
os trabalhos da Comissão índios no Brasil
Laymert Garcia dos Santos

A Comissão índios no Brasil nasceu na os brasileiros e os brasileiros natos por ex-


Secretaria Municipal de Cultura de São celência. O ano parecia propício: além do
Paulo, como uma das facetas de um gran- aniversário da descoberta, havia a Eco-92
de projeto comemorativo da descoberta da no Rio.
América intitulado "500 Anos: Caminhos A disseminação e o aprofundamento
da Memória, Trilhas do Futuro". Faceta que, da consciência ambiental, em decorrência
entretanto, desde o início, trouxe a marca das graves ameaças que pesam sobre o
de um questionamento sobre o próprio planeta, têm despertado em toda parte a
sentido da comemoração. atenção para o fato de que os povos pri-
Com efeito, o que poderia esta signifi- mitivos cultivam um valor que o progres-
car? A celebração de um encontro, de um so descartou e que, no entanto, pode vol-
desencontro ou de um mau-encontro en- tar a ser crucial para a sobrevivência de
tre europeus e índios, civilizados e primiti- todos: o vínculo com a terra. Ao contrário
vos? E celebração para quem? Indagado do homem moderno, para quem a terra é
a respeito, quando se começou a pensar dos homens, para o primitivo, os homens
no assunto, ainda em 1990, o líder da é que são da terra. No primeiro caso o ho-
União das Nações Indígenas, Ailton Kre- mem se encontra fora do meio e o conce-
nak respondera que, em seu entender, os be apenas como fonte de recursos à sua
índios não tinham o que comemorar, nem disposição; no último, há uma implicação
o que contra-comemorar, porque essa era homem-meio, um comprometimento que
uma questão dos brancos e para os bran- leva o primitivo a "tomar conta do mun-
cos, cabendo a estes, e só a eles, avaliar do". Ora, tudo indica que a crise ambien-
o que tinham sido suas relações com os po- tal está repondo, em novas bases, o vín-
vos da terra ao longo de cinco séculos. E culo antigo. Pois se até há pouco o
completara: se os brancos concluírem que compromisso com a terra nos aparecia co-
erraram, que comemorem os quinhentos mo um traço de arcaísmo, logo um com-
anos de guerra contra as populações indí- promisso com a Terra nos parecerá a úni-
genas com um gesto de boa-vontade, de ca possibilidade de futuro.
reconciliação. Em toda parte há vozes, cada vez mais
Devolvida aos brancos por um índio, numerosas, alertando para a importância
a questão da comemoração sofrera no en- que os povos primitivos estão assumindo,
tanto uma inflexão importante. Agora já não tanto como resquícios de um passa-
não se tratava mais de perguntar o que os do que o progresso fatalmente eliminará,
índios pensam sobre o descobrimento: se mas como portadores de um valor maior
querem aproveitar a oportunidade para ex- do qual depende nosso futuro. E o Brasil.
pressarem seu ponto de vista; o outro não que tem o privilégio de abrigar em seu ter-
queria falar, mas antes convidar o branco ritório quase duzentos povos indígenas,
a rever sua mentalidade e conduta, a efe- com suas línguas, seus mitos, seus refina-
tuar uma conversão e a traduzi-la em atos. dos conhecimentos da terra, se dá ao lu-
A Secretária Municipal de Cultura, Ma- xo, por ignorância, racismo e preconceito,
rilena Chauí, decidiu aceitar o convite, fa- de desprezar e dilapidar um património cul-
zer o gesto de reconciliação. Surgiu então tural rigorosamente inestimável.
a ideia de se formar uma comissão de ami- Os brasileiros ainda não atinaram com
gos dos índios que se reunisse mensalmen- o que está ocorrendo e, como seus ante-
te de outubro de 91 a outubro de 92 e, so- passados, continuam tratando os índios co-
mando forças, sinalizasse a necessidade de mo populações que devem desaparecer.
se estabelecer uma relação positiva entre Foi se impondo, portanto, a convicção de
5? Centenário da Descoberta da Améri-
ca, a Secretaria Municipal de Cultura da
cidade de São Paulo teve em vista, desde
o primeiro momento, que a signifição
maior do evento deve ser buscada no seu
registro propriamente antropológico, no im-
pacto do encontro de humanidades diver-
sas, a do ocidente europeu e das popula-
ções indígenas do Novo Mundo: o "Novo
Mundo" é novo no sentido absoluto, não
da geografia, da cartografia, da paisagem
e do nunca antes visto, mas no sentido de
descentrar os europeus, de colocar a eles
a pergunta sobre sua alteridade radical.
Quem são esses homens, quase inve-
rossímeis na sua originalidade? Se há ho-
mens tais - "sem fé, sem lei e sem rei" -.
Primeira reunião de que precisávamos favorecer uma mudan- como definir os limites do humano? Quem
trabalho da é humano e o que é o humano?
Comissão Índios no ça de mentalidade e mostrar que, por in-
Brasil, em 11.10.91. teresse deles e nosso, urgia preservar a sua Nestes cinco séculos o ocidente res-
Foto Fernando integridade. As sondagens preliminares pondeu de vários modos a estas questões.
Conti.
com eminentes amigos dos índios Sucederam-se na imaginação europeia
mostraram-nos que havia receptividade pa- bárbaros, bons selvagens, primitivos e ar-
ra nossa proposta. Ao que tudo indicava, caicos, redesenhando a cada passo a figura
estávamos no caminho certo; mas, ao mes- de seu etnocentrismo - constantemente et-
mo tempo, a própria pertinência da inicia- nocidário. Ora, como nós mesmos nos co-
tiva, e as respostas que ela suscitava em locamos hoje face a estas interrogações nas
nossos interlecutores, intensificavam o sen- nossas relações efetivas com as populações
timento de que a cultura brasileira rejeita indígenas das terras do Brasil?
o diálogo com as culturas nativas,
segregando-as e sufocando-as, e levavam-
-nos a uma descoberta - a questão indíge- ... A mudança ...
na é uma questão brasileira, nacional, que Até há bem pouco tempo os duzen-
nos concerne intimamente e entretanto ja- tos povos indígenas no Brasil continuavam
mais emerge em sua amplitude e comple- sendo considerados primitivos, atrasados,
xidade. folclóricos, um arcaísmo que o progresso
As conversas preliminares resultaram da civilização acabaria superando, através
numa carta de intenções que procurava ex- da violência e da aculturação. Até há pou-
plicitar , para possíveis membros, a razão co, seu futuro era a ausência de futuro: a
de nossa empresa. Escrita por Sérgio Car- previsão de extinção que se prolonga des-
doso, Dalmo Dallari e o autor destas linhas, de o descobrimento.
ela também incorporava valiosas sugestões Nos últimos anos, entretanto, a crise
e comentários de Marilena Chauí, Severo ambiental do planeta começou a exigir a
Gomes, Manuela Carneiro da Cunha, Car- reversão dessa tendência e a demonstrar
los Frederico Marés e António Cândido. a necessidade da questão indígena ser tra-
Com o documento nas mãos, contactamos tada em outra dimensão. A influência das
os amigos dos índios que queríamos reu- florestas tropicais nas condições climáticas
nir. Intitulado "1992 e a Questão Indíge- e, consequentemente, na qualidade de vi-
na", o texto dizia: da de todos os continentes; a importância
da manutenção da diversidade biológica;
a percepção de que a natureza também é
"A história... tecnologia, tecnologia de produção, num
Ao iniciar seus preparativos para a momento em que a própria tecnologia se
grande efeméride de 1992, a passagem do revela nossa segunda natureza; a riqueza
de um saber tradicional que preserva o
meio-ambiente porque tem como princí-
pio cuidar do mundo e porque se percebe
como parte integrante da natureza - tudo
isso vem suscitando a reavaliação da exis-
tência do índio, a descoberta do alto valor
de sua cultura para o mundo contempo-
râneo e uma articulação inédita desta com
a cultura tecno-científica. Considerando-se
ainda que cada vez mais nos tornamos ca-
pazes de apreciar a originalidade e a pro-
fundidade do saber que perpassa sua cons-
tituição sócio-política - sociedade sem
Estado e contra o Estado -, a cultura dos
povos indígenas do Brasil deixa, então, de
ser uma herança negativa para tornar-se
uma contribuição fértil e promissora para
a sociedade brasileira e para toda a huma-
nidade.
O índio, senhor da terra por ocasião da
chegada dos europeus, sempre manteve,
e mantém ainda hoje, uma convivência
harmónica e íntima com a natureza. Re-
conhecendo e respeitando a terra, as ma-
tas, os rios e também a fauna como fon-
tes de vida, o índio soube estabelecer com
estas entidades um relacionamento respei-
toso e inteligente, utilizando-as na medi-
da estrita de suas necessidades, sem agre-
dir ou destruir.
O europeu e, depois, também o norte-
-americano entraram nas terras dos índios
e continuam a procurá-los como fontes de
riqueza e de matérias primas. Derrubaram
florestas, envenenaram rios, dizimaram ou ração das riquezas existentes nessas terras Aprescntação
pública das
afugentaram animais, revolveram as entra- sem destruição da natureza e sem prejuí- atividades
nhas da terra à procura de riquezas. E mui- zo para os índios? integrantes do
tos índios foram mortos, outros tiveram que Projeto 500 Anos e
Evidentemente, a nova dimensão da apresentação da
abandonar o abrigo natural que lhes ga- questão indígena começa a provocar, den- proposta de trabalho
rantia a sobrevivência física e cultural. tro e fora do país, manifestações de toda da Comissão índios
no Brasil. Teatro
Desde 1973 existe lei obrigando o go- ordem. O estado de espírito com relação Municipal. 11.10.91.
verno federal a demarcar as terras indíge- aos índios está mudando. As diversas en- Fotos Fernando
Conti.
nas e quase nada foi feito, embora todos tidades e organizações que se ocupavam
saibam que a demarcação facilitaria a pro- do problema vêem agora a entrada em ce-
teção da posse, que é direito assegurado na de novos atores, novas abordagens, no-
aos índios pela Constituição. vos interesses, e sentem-se compelidas a
Por que as terras não são demarcadas? se reformularem. O momento é, portan-
Quem tem interesse na omissão do gover- to, propício para tentarmos compreender
no federal e que forças protegem os omis- o que ocorre e favorecer, em novas bases,
sos? Por que nem o Exército, que contro- o encontro dos brasileiros com os povos idí-
la a Amazónia, nem a Polícia Federal genas. Um reencontro com o outro que,
conseguem impedir que mineradores in- afinal, é reconciliação consigo mesmo, uma
vadam as terras indígenas e nelas perma- vez que as culturas indígenas são antes de
neçam? Como poderia ser feita a explo- tudo, culturas da terra... e que reconhece-
mos que integram de maneira definitiva terdisciplinar destas questões. Tal sugestão
nosso futuro comum. e colaboração - já apresentadas ao Con-
selho da SBPC - prevêem a realização em
São Paulo da reunião anual da entidade,
... O projeto em julho de 1992, dando ensejo aos tra-
A Secretaria Municipal de Cultura pre- balhos indicados.
tende trazer estas novas ressonâncias da Em terceiro lugar, a Secretaria Muni-
questão indígena à consideração e debate cipal de Cultura propõe-se a criar, em co-
da população de São Paulo, de várias ma- laboração com a Secretaria de Negócios
neiras: Jurídicos do Município, uma comissão
Em primeiro lugar mapeando e forne- composta de personalidades comprome-
cendo ao público mais amplo, através de tidas com os povos indígenas para repen-
uma grande exposição intitulada "índios no sar as questões fundamentais e os conten-
Brasil", as informações fundamentais con- ciosos envolvidos entre estes, o Estado e
cernentes às populações indígenas do país: a sociedade brasileira, e para colaborar ati-
Quem são? Quantos são? Como se agru- vamente na busca da superação da incom-
pam? Que línguas falam? Que instituições preensão, dos clichés e preconceitos, que
produziram? Que costumes mantêm? O permitirá alçar a novas bases tais relações.
que pensam? Que arte criam? Enfim, bus- A cultura brasileira permanece pratica-
car dar contornos concretos à imagem mente impermeável aos saberes indígenas,
pouco definida e frequentemente distorcida sua sociabilidade, mitos, arte e técnicas. O
da sociedade sobre as populações in- país se representou muitas vezes, em vá-
dígenas. rios planos, na figura do índio - e no en-
Em segundo lugar, tomando a inicia- tanto, sua presença se mantém obscura,
tiva de sugerir e oferecer seu apoio aos uni- apagada, silenciosa, e sua cultura, ignora-
versitários, cientistas e homens de cultura da e desprezada. Assim, a comissão pro-
do país, através da Sociedade Brasileira pa- posta buscará tomar como eixo e ponto de
ra o Progresso da Ciência, para a realiza- partida de seu trabalho a consideração des-
O presidente da ção de uma grande revisão do saber uni- ta ausência no âmago da cultura brasilei-
FUNAI, Sidney versitário nos seus aspectos concernentes ra, a necessária sensibilização para ela e a
Possuelo, e a às questões indígenas e ecológicas (antro- abertura para a presença do índio no pla-
advogada Eunice
Paiva participam de pologia, história, geografia, literatura, filo- no da cultura e naquele das questões so-
uma das reuniões sofia, ciências médicas e farmacêuticas, ciais, económicas e jurídicas. Buscar na le-
da Comissão. Ao gislação o enunciado dos direitos
lado, os membros química e todas as demais disciplinas) e pa-
Márcio Santilli e a ra propiciar, daí em diante, a colaboração efetivamente reconhecidos aos povos in-
antropóloga Lux dos homens de ciência num esforço per- dígenas, discutir-lhes o alcance e a legiti-
Vidal. Foto
Fernando Conti. manente e sustentado de consideração in- midade, talvez seja o caminho mais direto
para iniciarmos o mapeamento das balizas
" culturais e obstáculos que se interpõem às
mudanças de atitude necessárias.
Tal comissão, a ser instalada em outu-
bro de 1991, ouvirá especialistas, persona-
lidades, movimentos e instituições dedica-
das à causa indígena, promoverá e
manterá a reflexão e o debate público, e
encetará o estudo e a elaboração de pro-
postas de mudanças na legislação, que se-
rão entregues à consideração da opinião
pública e ao Congresso Nacional em ou-
tubro de 1992. O relatório final será ainda
encaminhado a organizações internacionais
concernidas pelos seus temas visando ob-
ter seu apoio e colaboração nas tarefas pro-
postas.
Este projeto tem razões, contornos e
objetivos nítidos. Cria-se a comissão não
para que ela se constitua como pólo de po-
der ou grupo de pressão; não para se subs-
tituir às organizações governamentais e
não-governamentais; não para acionar in-
tervenções pontuais em questões urgen-
tes, como o faz em seu belo trabalho a
"Ação pela Cidadania"; não para estabe-
lecer um fórum de debates, um grupo de
estudos ou qualquer espécie de parlamen-
to que viesse a refletir e propiciar o enten-
dimento sobre divergências dos movimen-
tos e organizações. Nem académica, nem
político-partidária, a comissão deve ser
aquela instância cultural que visa conside-
rar a mudança dos nossos referenciais ra-
lativos à questão indígena, elaborar seu membro da comissão, a acolhia na Secre- O procurador da
República Wagner
sentido e favorecer a transformação me- taria Municipal de Cultura de São Paulo. Gonçalves fala sobre
diante o incentivo e a instrução do debate O prof. Dalmo Dallari, Secretário dos Ne- as propostas de
e a proposta de mudanças concretas no revisão do Estatuto
gócios Jurídicos, foi escolhido seu Presi- do índio do CIMI.
que diz respeito aos aspectos jurídicos en- dente, e Laymert Garcia dos Santos, além ND1 e FUNAI numa
volvidos pela questão. das audiências
de membro, Secretário-Geral. públicas promovidas
O momento parece-nos maduro para Através de sua Prefeitura, São Paulo pela Comissão. Foto
esta iniciativa. Sensíveis a ele a Secretaria tornava-se, assim, uma cidade que fazia um Fernando Conti.
Municipal de Cultura e a Secretaria de Ne- movimento de abertura em direção aos ín-
gócios Jurídicos da Cidade de São Paulo dios, movimento que aliás já se esboçara
não querem se esquivar a trazer sua cola- logo no início da gestão de Luiza Erundi-
boração nesta empresa que as celebrações na, quando a Casa do Sertanista, que se
de 1992 parecem tender a ignorar. E tais encontrava abandonada e maltratada, pas-
iniciativas tornam-se oportunas quando sa- sou a ser a Embaixada dos Povos da Flo-
bemos que neste momento a FUNAI pre- resta e, uma vez recuperada, sediou as ati-
para um novo Estatudo do índio, que a vidades do Núcleo de Cultura Indígena,
ONU prepara a formulação de uma decla- liderado por Ailton Krenak. Mas tal movi-
ração universal dos Direitos dos Povos In- mento, entretanto, não era um capricho
dígenas, trabalhos que exigem nossa inter- dos governantes da cidade. Pouco antes da
venção e colaboração". Comissão índios no Brasil começar a fun-
No início de outubro de 91 já havía- cionar, uma pesquisa encomendada ao
mos reunido juristas, parlamentares, antro- DataFolha pela Professora Margareth E.
pólogos, jornalistas e personalidades diver- Keck, para uma tese de doutoramento da
sas que de um ou outro modo haviam se Universidade de Yale, revelava que 85%
tornado amigos dos índios. Com efeito, da população da Grande São Paulo con-
aceitaram nosso convite Alain Moreau, cordavam que as terras indígenas deviam
Bruce Albert, Carlos Frederico Marés, ser preservadas "mesmo que sejam áreas
Darcy Ribeiro, Dalmo de Abreu Dallari, importantes para o desenvolvimento eco-
Eduardo M. Suplicy, Fábio Feldman, Ge- nómico brasileiro".
rôncio Albuquerque Rocha, José Genoí- Aos nossos olhos, a pesquisa fornecia
no, José Carlos Sabóia, José Roberto San- duas indicações preciosas. Em primeiro lu-
toro, Lux Vidal, Manuela Carneiro da gar, mostrava que havia sintonia entre a
Cunha, Márcio Santilli, Milton Nascimen- Prefeitura e a população metropolitana
to, Marlui Miranda, D. Pedro Casaldáliga, quanto à abertura para a questão indíge-
Priscila Siqueira, Severo Gomes, Sérgio na. Por outro lado, os dados apontavam
Adorno, Sílvio Coelho dos Santos e Was- algo para nós surpreendente: a preserva-
hington Novaes. Marilena Chauí, também ção das terras indígenas parecia expressar
los que, "naturalmente", a trama faz
proliferar soma-se agora a ação delibera-
da e sistemática das forças contrárias aos
povos indígenas, que passaram a atuar de
modo muito mais organizado e articulado,
desde que a Constituição de 1988 garan-
tiu os seus direitos sobre as terras e. com
eles, a possibilidade de um futuro.
Que obstáculos a comissão procuraria
remover do caminho dos índios? Logo em
sua primeira reunião, foram lembradas as
principais ameaças que pesam sobre as po-
pulações indígenas e apresentadas propos-
tas de ação. Nas reuniões seguintes foram
decididos os temas que seriam priorizados
e a forma de organização dos trabalhos. A
comissão considerou que a atenção deve-
Marcos Terena. um valor mais alto do que o puro interes- ria concentrar-se em quatro temas: Terra
Orlando Baré e
Karai-Mirim da se económico. Tudo isso nos fez crer que e Demarcação; Exploração de Recursos
nação Guarani havia, portanto, um terreno fértil para o tra- Naturais; índios e Modernidade; Revisão
participam da do Estatuto do índio.
apresentação pública balho da comissão e um potencial impor-
do relatório de um tante para alavancar a mudança de men- As discussões haviam sugerido que os
ano de atividades talidade e de atitude com relação aos temas Terra e Demarcação e Exploração
da Comissão índios
no Brasil. Foto índios. Queríamos fazer de São Paulo a cai- de Recursos Naturais continham implica-
Fernando Conti. xa de ressonância da questão indígena, ções de natureza política, económica, so-
queríamos favorecer a reconciliação da so- cial, jurídica, militar e cultural que precisa-
ciedade com esses povos, favorecer o re- vam ser expostas e divulgadas. De certo
conhecimento de seus direitos, fazer res- modo, tais temas constituíam a face negra,
peitar a sua cultura, incentivar a reavaliação negativa da questão indígena, uma vez que
de sua contribuição. os abusos e violências graves cometidos
Talvez tenhamos sido ambiciosos de- contra os povos indígenas no Brasil sem-
mais. Apesar da evidência crescente que pre estão ligados a interesses que cobiçam
os povos indígenas passaram a ter em es- seus territórios ou as riquezas que neles se
cala internacional, os tempos no Brasil es- encontram. O tema índios e Modernida-
tavam e estão muito difíceis para os índios, de, por sua vez, procuraria ressaltar os pon-
o que se reflete na atividade de quem se tos de contacto entre as culturas primitiva
dispõe a colaborar com eles. A meu ver, e contemporânea, vale dizer a contribui-
pelo menos duas razões impedem que a ção que os índios podem dar para um
abertura e o potencial de simpatia com que questionamento de nossas relações preda-
poderiam contar se transformem em inte- tórias com o meio-ambiente; neste caso,
resse efetivo, solidariedade e reconheci- o tema mostraria que a questão indígena
mento. Em primeiro lugar, cinco séculos de tem uma face altamente positiva e atual,
ignorância e má-fé teceram uma trama de embora constantemente desconhecida. Fi-
incompreensão e desentendimento que nalmente, o tema da Revisão do Estatuto
aprisiona tudo o que concerne a vida e a do índio se impunha porque o Congresso
presença dos índios no Brasil. A cantora Nacional deve votar ainda em 1992 uma
Marlui Miranda, que há anos se dedica ao nova legislação sobre o assunto, reacen-
delicado e importantíssimo trabalho de re- dendo portanto, em novas bases, a luta que
colher e divulgar seus cantos, definiu cer- durante a Constituinte se travou entre as
ta vez com precisão os efeitos dessa tra- forças indígenas e indigenistas de um la-
ma, ao observar: "Trabalhar para os índios do, e anti-indigenistas, de outro. Na ver-
é, principalmente, procurar remover obs- dade, a discussão do novo Estatuto do ín-
táculos". Uma outra razão porém, conjun- dio e a necessidade de se promover uma
tural, acrescentava-se a esta. Aos obstácu- aliança que buscasse a integração, numa
proposta comum, dos projetos de lei apre-
sentados à Câmara pelo Núcleo de Direi-
tos Indígenas, o Conselho Indigenista Mis-
sionário e a Fundação Nacional do índio
acabaram absorvendo todos os esforços da
comissão desde a reunião de maio de 92.
O modo pelo qual a comissão decidiu
atuar privilegiou a atividade em três frentes.
A primeira concentrou a realização das
reuniões temáticas e de audiências públi-
cas com lideranças indígenas que abordas-
sem diversos enfoques e pontos de vista
sobre o assunto em pauta; à exposição feita
pelos convidados, seguia-se um debate
com os membros da comissão e o público.
Acoplada a esta primeira frente de tra-
balho concebeu-se uma segunda, que con-
gregava os esforços para amplificar a ques- Senador Severo
literalmente sem lugar na sociedade brasi- Gomes - integrante
tão indígena na mídia e levantar vozes que leira. Talvez por isso mesmo índios e indi- da comitiva da Ação
se contrapusessem ao discurso anti- genistas sejam vistos pela mídia do país, pela Cidadania em
viagem ao norte do
-indígena das elites regionais, agora já ar- na melhor das hipóteses, como represen- país - ao lado da
ticulado em nível nacional. Nesse sentido, tantes de uma causa perdida, e, na pior. pedra na qual
Rondon reconheceu
os participantes escreveram artigos e de- como pobres coitados que nem merecem as terras Macuxi em
ram entrevistas para jornais e revistas, com- consideração. 1927. Foto Carlos
pareceram a programas de rádio (Cultu- Ricardo/CEDI.
Em sua terceira frente de trabalho, a co-
ra, Eldorado, Bandeirantes, Rádio USP) e missão empenhou-se em tentar viabilizar
televisão (Gazeta, Cultura, Bandeirantes), um entendimento entre os diferentes par-
foram à S.B.P.C.; atendendo sugestão nos- ceiros do campo indigenista envolvidos
sa, Alexandre Machado dedicou um dos com a revisão do Estatuto do índios -
seus "Vamos sair da crise" à Comissão, N.D.I., CIMI e Funai. Os membros da Co-
transformando o programa numa autênti- missão sabiam há muito que, no âmbito
ca reedição, no ar, da reunião sobre Ex- jurídico-político, há dois momentos-chaves
ploração de Recursos Naturais. Cabe, en- para a manutenção ou não dos direitos in-
tretanto, aqui, uma observação. O contacto dígenas: a revisão do Estatuto e a reforma
frequente com a mídia durante todo o pe- constitucional de 93. Sabiam ainda que as
ríodo nos fez ver que a questão indígena forças anti-indígenas, apanhadas de surpre-
é considerada pela imprensa brasileira co- sa na Constituinte e sentindo-se derrota-
mo uma questão marginal, muitas vezes das, partiriam agora para uma contra-
folclórica, e sem grandes repercussões para -ofensiva, tentando um retrocesso na
a vida do país - mesmo o extermínio é tra- legislação. Por esse motivo, parecia-nos
tado com indiferença e até com compla- fundamental intensificar o diálogo sobre os
cência, como se um filtro retirasse do ge- projetos para se superar as divergências e
nocídio toda a sua dimensão insuportável se elaborar uma proposta comum, a ser
e monstruosa. As coberturas são frequen- apresentada aos parlamentares da Comis-
temente movidas por preconceitos que es- são especial do Congresso responsável pe-
tigmatizam os índios, construindo a ima- la feitura do novo estatuto - tarefa que tam-
gem contraditória de seres ora atrasados bém passou a contar com a participação
e primários, a provocar no civilizado ver- do Dr. Wagner Gonçalves, da Procurado-
gonha e comiseração, ora selvagens e apro- ria Geral da República.
veitadores, dispostos a se renegarem para Resumindo. De outubro de 91 a outu-
alcançar os benefícios do progresso, a pro- bro de 92 a Comissão índios no Brasil rea-
vocar no civilizado a maior das indigna- lizou dez reuniões. Por elas passaram e ne-
ções. Culpados por serem índios e culpa- las se pronunciaram importantes lideranças
dos por não sê-lo mais. esses povos ficam indígenas e indigenistas do Brasil, as prin-
cipais entidades e especialistas, os parla- dré Villasboas, assessor do Centro Ecumé-
mentares que defendem os interesses dos nico de Documentação e Informação;
índios no Congresso, os simpatizantes que Maria Elisa Ladeira, coordenadora do Cen-
queriam simplesmente assistir aos traba- tro de Trabalho Indigenista; Memélia Mo-
lhos, se informar. reira, assessora da Procuradoria Geral da
Vieram os índios Davi Yanomami; Ail- República; Berta Ribeiro, antropóloga do
ton Krenak, da União das Nações Indíge- Museu Nacional/U.F.R.J.; Paulo Guima-
nas; Álvaro Tukano, da Federação das Or- rães e Felisberto Damasceno, advogados
ganizações Indígenas do Rio Negro; Isaías do CIMI; Wagner Gonçalves, procurador
Tupari, da área indígena do Rio Branco; da Procuradoria Geral da República.
Clóvis Ambrósio, do Conselho Indígena de Vieram os deputados Lourival de Frei-
Roraima; o tuxaua Melquíades Peres Ne- tas e Tuga Angerami.
to, da área Macuxi de São Marcos; Olívio A cada reunião, com suas informações
Guarani; Marcos Terena, do Comité Inter- novas, seus problemas urgentes, seus en-
tribal; o cacique José Luis Xavante; o ca- foques tão diversificados e muitas vezes po-
cique Tabata Kuikuro; o pajé Sapaim Ka- lémicos, crescia a certeza de que a ques-
maiurá; Orlando Baré, da Coordenação tão indígena precisa aflorar como questão
das Organizações Indígenas da Amazónia nacional de interesse de todos os brasilei-
Brasileira; o cacique Megaron Txukarra- ros. Mas crescia também a impressão de
mãe, diretor do Parque Indígena do Xingu. que é preciso fazer mais do que foi feito
Vieram os indigenistas Sidney Possue- para se conseguir romper a indiferença e
lo, presidente da Funai; Cláudia Andujar, o silêncio, e permitir que o trabalho admi-
presidente da Comissão pela Criação do rável das entidades ganhe a esfera públi-
Parque Yanomami; Wanderlino Teixeira de ca e floresça na sociedade civil.
Carvalho, presidente da Coordenação Na- É preciso fazer mais. No entanto, foi
cional dos Geólogos; Virgínia Valadão, feito o possível - e isso, em nosso enten-
coordenadora do Centro de Trabalho In- der, é muito. Ailton Krenak sugerira que
digenista; Betty Mindlin, diretora do Insti- os brancos comemorassem os 500 anos
tuto de Antropologia e Meio-Ambiente; Isa- com um gesto de pacificação, de reconci-
belle Giannini, coordenadora do MARI - liação. Dia 14 de junho de 1992, na tarde
Grupo de Educação Indígena; Arthur No- fria de São Paulo, ao abrir as portas da ex-
bre Mendes, diretor do Departamento de posição "índios no Brasil" no parque do
Demarcação da Funai; Francisco Loebens, Ibirapuera, a autoridade máxima da capi-
secretário-geral do CIMI; João Pacheco, tal dos bandeirantes, da terra de Anchie-
chefe do Departamento de Antropologia ta, a Prefeita Luiza Erundina fez o gesto
da Universidade Federal do Rio de Janei- da conversão necessária - pediu perdão aos
ro e pesquisador do Museu Nacional; An- índios pelos crimes praticados contra eles.

COMISSÃO ÍNDIOS NO BRASIL


Apresentação pública do Relatório de um ano de atividades
13 de outubro de 1992 das 14 às 19h
Local: Salão Nobre do Teatro Municipal
Praça Ramos de Azevedo, s/rWSP
Informações: 288.9560
A DESCOBERTA DA AMÉRICA E O ENCONTRO COM O OUTRO
Cartas brasileiras:
visão c revisão dos índios
Lúcia Bettencourt

O Brasil foi descoberto no dia 22 de evoca e cria. No entanto, sua carta é sim-
abril de 1500, pela frota comandada pelo ples, sua abordagem é despretenciosa.
navegador português Pedro Alvares Cabral. Caminha não era um navegador. Co-
Na nau capitânea viajava um passageiro mo tal, evita relatar detalhes de "marinha-
para Calicute, Pêro Vaz de Caminha. In- gem e singraduras do caminho" (s/n) por
dicado para o posto de escrivão geral desta constatar que não o sabe fazer. Em breves
feitoria na índia, ele aproveitou a oportu- linhas, porém, nos revela o que se passou
nidade para escrever a "carta de achamen- desde a partida até o "achamento" do Bra-
to do Brasil". sil. O termo "achar", preferido por Cami-
Caminha era um letrado. Um homem nha, sugere que já se suspeitava da exis-
de formação humanística, mais interessa- tência da terra1, e que o desvio da rota
do em descrever o que via do que em cal- ensinada por Vasco da Gama nas instru-
cular os lucros que o achado traria. Sua ções de navegação dadas a Cabral por es-
carta, portanto, é uma pequena obra pri- crito, se deveu ao propósito de encontrar
ma dentro do género, tão rica de informa- aquilo mesmo que já se esperava encon-
ções quanto singela em suas exposições. trar - terra. Contudo, a experiência de ver,
E, ademais, é o único documento coetâ- pela primeira vez, uma região estranha, ha-
neo registrando a chegada dos portugue- bitada por uma gente tão diferente dos po-
ses ao Brasil. (Do ano de 1500 só chega- vos conhecidos pelos europeus, fascina
ram até nós sete documentos: os oficiais, Caminha que descreve a terra e seus ha-
em número de quatro, são incompletos e bitantes com detalhes de paisagista e re-
frustrantemente omissos com relação à pri- tratista. São várias as descrições dessa gen-
meira parte da viagem; a carta de Mestre te. A novidade que os habitantes da terra
João, que foi escrita em praias brasileiras, representam para os olhos renascentistas
mas contenta-se em esclarecer a medição do escrivão é tanta que ele não se cansa
das estrelas, sem se deter em nada sobre em descrevê-los. Um deles aparece "asse-
a nova terra e seus habitantes; o relatório tado como São Sebastião", cheio de pe-
do piloto anónimo, tal como dele temos nas pelo corpo. Outros desaparecem de-
notícia, se inicia com a partida do Brasil em baixo de suas "carapuças de penas"
direção às índias, e, finalmente, a carta de amarelas, vermelhas e verdes. A pintura
Caminha). corporal dos índios também é descrita com
minúcias, e confirmada, anos mais tarde,
Podemos ressaltar, de um modo geral,
por outros cronistas e artistas que ao Bra-
a qualidade literária deste documento.
sil vieram
Com um estilo em que ecoam traços da
Bíblia, da Ilíada e da Eneida, a carta nos O interesse no grupo humano é tão
cativa por sua originalidade. Dividindo a grande que a terra quase fica indistinta num
narrativa em nove dias, a simplicidade do cenário de praias e arvoredos e rios de mui-
estilo nos recorda a descrição da criação tas águas. Com o correr dos dias, porém,
do mundo. Afinal, esse era um mundo no- e o vagar para aproveitar da terra, as des-
vo que se criava a partir da escritura da car- crições começam a surgir. Primeiro um rio,
ta. Caminha, ao descrever a "fundação" depois a feição de um porto seguro onde
desta nova terra, se coloca em pé de igual- todos se abrigaram. Logo depois se des-
dade com o cronista do Génesis, ou mes- creve o ilhéu, lugar de "folguedo" e de pes-
mo o supera, já que ele tem a posição pri- carias, onde será rezada a primeira missa
vilegiada de testemunha ocular. Sua no Brasil. Suas descrições vão se transfor-
posição é a do Verbo criador, a palavra que mar, mais tarde, em paradigma para tex-
Reprodução de um
trecho da carta de
Pêro Vaz de
Caminha ao rei
Dom Manuel dando
notícia das terras
então descobertas.
"A Certidão de
Nascimento do
Brasil"/MP-USP,
1975.
tos sobre a terra brasileira. Alguns comen- pessoas cuja "civilização" mais se aproxi-
taristas até mesmo pretendem explicar o ma do paradigma de "selvageria". Com um
sentimento de "ufania" - que se depreen- estilo de vida comunitário onde toda a pro-
de em tantos autores brasileiros do perío- priedade é dividida igualmente, com casas
do romântico - como uma consequência onde habitam várias famílias compartilhan-
das descrições de Pêro Vaz de Caminha. do tudo, com costumes sem paralelo com
Se bem que seja possível que a publica- a experiência europeia, os indígenas vão
ção da carta, levada a efeito por primeira merecer descrições que demonstram uma
vez no início do século XIX (1817, como atitude atónita de quem não compreende
parte do livro Corografia Brasílica do Pe. bem o que descreve:
Manuel Aires Casal), tenha representado "E não têm guerra por cobiça que te-
papel importante no imaginário românti- nham, porque todos não têm nada além
co, em verdade o ufanismo se encontra en- do que pescam e caçam e o fruto que to-
raizado em toda a literatura colonial brasi- da terra dá, mas somente por ódio e vin-
leira, como uma espécie de estratégia para gança; em tanta maneira que se dão uma
a atração de colonos. A terra aparece sem- topada atiram-se com os dentes ao pau ou
pre descrita como fértil, formosa, copiosa, pedra onde a deram, e comem piolhos e
de climas brandos, de águas fartas. Só o pulgas e toda imundícia, apenas por se vin-
que muda é a opinião dos escritores quan- gar do mal que lhes fizeram, como gente
to aos habitantes da região. Se Caminha que ainda não aprendeu non reddendum
os descreve sempre em termos altamente malum pro maior
positivos, comparando-os, velada ou aber- Sem dúvida, o quadro que se coloca
tamente, aos habitantes do Jardim do frente aos olhos de Nóbrega, não é dos
Éden, outros autores, vivenciando um ou- mais animadores. Procura ele, então, des-
tro momento histórico, nos brindarão com cobrir pontos positivos ou qualquer coisa
descrições negativas ressaltando a cruelda- que aproxime estes "gentios" dos portu-
de e selvageria dos naturais da terra. gueses, e fala do desejo dos indígenas de
Quarenta e nove anos mais tarde, por Capa do Livro
exemplo, já no reinado de D.João III, veio "Informações e
fragmentos
ao Brasil a primeira missão catequista, che- históricos" de José
fiada pelo padre Manuel da Nóbrega. Por de Anchieta, 1886.
Biblioteca Mário de
essa época já se conhecia mais acerca dos Andrade. Foto: Sosô
costumes e crenças dos indígenas. A visão Parma
idílica já não era mais possível aos olhos
escolásticos europeus que viam costumes
inaceitáveis entre os pagãos - poligamia,
canibalismo, idolatria. O homem renascen-
tista, com seu desejo de conhecer e enten-
der, dava lugar ao jesuíta desejoso de mo-
dificar e corrigir.
No dia 10 de agosto de 1549, escreve Capa do Livro
Manuel da Nóbrega a Martin de Azpilcue- "Cartas do Brasil"
do Padre Manoel da
ta Navarro, grande canonista que havia si- Nóbrega
do seu professor em Coimbra, dando-lhe (1549-1560).
um sumário de suas primeiras impressões Biblioteca Mário de
Andrade. Foto: Sosô
da região e de seu povo. Elogiando a qua- Parma.
lidade da terra e dos ares, descrevendo a
abundância e qualidade dos mantimentos,
padre Nóbrega se admira da gente que ne-
la habita, formando um contraste negati-
vo com as excelências da terra.
Com os costumes já melhor conheci-
dos, os cristãos se vêem convivendo com
aprenderem a ler e escrever e de seus su- dígenas reprovando a adoção de costumes
cessos em ensinar orações e alguns outros bárbaros por parte dos adversários euro-
elementos da doutrina. peus. Diz ele: "não lhes falta mais que co-
Em 1557, em seu "Diálogo sobre a mer carne humana, que no mais sua vida
conversão do gentio", Padre Manuel da Nó- é corruptíssima" (N&A, 89).
brega propõe-se a discutir se "eles (indíge Contando da insegurança em que se
nas) têm alma como nós (europeus)". O sentiam, durante o cativeiro, frente a che-
mérito deste texto está nas conclusões a gada de qualquer grupo diferente de indí-
que chega o Irmão Mateus Nogueira, alter- genas, Anchieta nos brinda com uma pa-
-ego de Nóbrega. Estas conclusões expli- tética, mas hilariante, descrição dos apuros
cam a selvageria como fruto das diferen- em que se viram ao fugir para a aldeia de
ças sociais entre europeus e indígenas. chefe Pindobuçu. que, embora inimigo,
Com uma organização política tão distin- lhes inspirava mais confiança que um gru-
ta dos sistemas de governo europeus, os po desconhecido recém-chegado do Rio
índios brasileiros, apesar de sua condição em uma canoa:
humana, e, portanto, merecedora do es- "E este foi um outro trabalho, o maior,
forço catequista, se apresentam como "bes- ao menos dos maiores que o Padre Ma-
tas" - estado do homem depois do peca- nuel da Nóbrega teve em sua vida, porque
do original. estando ele muito fraco, (...) se queria cor-
Estas reflexões teóricas de Nóbrega são rer não podia, se não corria punha-se em
contrabalançadas pelas vívidas narrativas do perigo de vida: todavia correu quanto pô-
Padre José de Anchieta. Dele possuímos, de, e mais do que pôde, até o fim da praia,
por exemplo, uma descrição acurada dos onde antes da aldeia, que está posta em
tamoios, grupo indígena que habitava as um monte mui alto, corre uma ribeira dá-
costas do Rio de Janeiro. Tendo passado gua mui larga e que dá pela cintura, o Pa-
cinco meses entre os nativos, servindo, jun- dre ia com botas e calças (...): se se punha
tamente com o Padre Manuel da Nóbrega, a descalçar chegava a canoa, que estava
como refém por ocasião das negociações (...) mui próximo de nós outros, de maneira
de paz entre tamoios e portugueses, Anchie- que o tomei às costa e o passei: mas em
ta escreve ao Geral Diogo de Lainez, em 8 o meio do rio (...) foi forçado o padre a
de janeiro de 1565, uma extensa carta em lançar-se na água, e assim que passou to-
que relata esse episódio e onde aproveita do ensopado, de maneira que escassamen-
para relatar diversos incidentes que provam te tivemos tempo para nos (...) meter pelo
a selvageria dos tamoios. monte (...)"
Convencido de que só escapou da "Pois pelo monte arriba foi coisa de ver.
morte (e da devoração) por um grande fa- Retirou o padre suas botas, calças e rou-
vor de Jesus Cristo, ele nos relata desde peta, e todo molhado, com toda a sua rou-
os motivos que os levaram para entre os pa molhada às costas e ele em camisa, só
indígenas hostis, com queixadas ainda com um bordão na mão, começamos a ca-
"cheias da carne dos portugueses", até seu minhar. Mas nem ele atrás nem adiante po-
retorno ao Colégio de São Vicente. dia ir (...) os da canoa já estavam no ribei-
Esta carta não apenas revela os costu- ro gritando (...) e bem creio que não
mes e hábitos do grupo que os guarda co- chegaríamos à aldeia, à qual ainda chega-
mo refém, mas ainda nos informa das ten- mos, porque encontramos com um índio
tativas, por parte dos indígenas, de (...) do qual (...) alcancei que, agora às cos-
conhecer melhor os hábitos e costumes dos tas, agora puxando pelo bordão, levasse o
padres. padre, e assim, quase sem respiração, che-
Além disso, como estes tamoios fossem gou às casas" (N&A, 92/93).
tradicionalmente aliados dos franceses, que O episódio se resolve por bem, o "pa-
há muito haviam invadido o Rio de Janei- dre velho" consegue chegar à aldeia e eles
ro e lá formado a França Antártica, não é se salvam da ameaça, mas, dias depois,
de espantar que Anchieta aproveite para Anchieta nos descreve o episódio da morte
comentar a vida dos invasores entre os in- e devoramento de um "escravo", ou seja,
llustTação do livro
"Vida do apóstolo
Padre António
Vieira da
Companhia de
Jesus, chamado
por..." de André de
Barros, Lisboa,
Officina Sylmara,
1746. Foto: António
Rodrigues
índio de aldeia inimiga, capturado pelos O padre nos refere um que aconteceu em
tamoios. outra aldeia: ao saber que pretendiam ma-
"Mas já sobre a tarde, estando já to- tar e comer um inimigo, Anchieta apressa-
dos bem cheios de vinho, vieram à casa -se em ir vê-lo, a fim de tentar convertê-lo
aonde pousávamos e quiseram tirar logo para a fé cristã. O guerreiro se recusa afir-
o escravo a matar. Nós outros não tínha- mando que os que eram batizados não
mos mais que dois índios que nos ajudas- morriam como valentes. A morte do ho-
sem, e querendo eu defendê-lo de pala- mem, então, é descrita - sem os detalhes
vra, dizendo que não o matassem, macabros da descrição anterior - mas mos-
disse-me um dos dois: "Calaí-vos vós ou- trando a atitude da vítima que desafia seus
tros, não vos matem os índios, que andam captores ao fazer a lista de todos aqueles
mui irados, que nós outros falaremos por a quem ele mesmo já comera: "Matai-me,
ele e o defenderemos". E assim o fizeram que bem tendes que vos vingar em mim,
deitando a todos fora de casa; mas torna- que eu comi a fulano vosso pai, a tal vos-
ram logo outros muitos com eles feito um so irmão, e a tal vosso filho" (N&A, 108).
magote, e grande multidão de mulheres, E o padre só pode lastimar que o homem
que faziam tal trisca e barafunda que não tenha preferido aquela valentia à salvação
havia quem se ouvisse (...) Finalmente o de sua alma.
levaram fora e lhe quebraram a cabeça e Nestes três autores podemos notar o
junto com ele mataram outro seu contrá- constante interesse europeu pelos habitan-
rio, os quais logo despedaçaram com gran- tes das terras brasileiras. Caminha, ao es-
díssimo regozijo, maxime das mulheres, as crever para seu rei está, mais do que nar-
quais andavam cantando e bailando: umas rando um descobrimento de terras,
lhes espetavam com paus agudos os mem- confirmando a existência dos "antípodas".
bros cortados, outras untavam as mãos A existência, milagrosa quase, de vida em
com a gordura deles e andavam untando regiões tidas como inabitáveis fascina es-
as caras e bocas às outras, e tal havia que se nosso primeiro narrador que vai com-
colhia o sangue com as mãos e o lambia, partilhar, como a mais preciosa das dádi-
espetáculo abominável, de maneira que ti- vas, sua visão com o rei de Portugal. A
veram uma boa carniçaria com que se far- imagem de um povo amigável, ingénuo,
tar" (N&A,99). inocente como os habitantes do paraíso ter-
O tom é macabro, numa descrição de restre se desfaz nas próximas cartas, onde
requintes naturalistas que recuperam para tomamos conhecimento da antropofagia,
a narração o horror do ato. As mulheres, das lutas, do modo de vida agitado e es-
sobretudo, aparecem como elementos es- tranho de um povo cujos padrões se afas-
pecialmente odiosos, verdadeiras harpias. tavam tanto dos conhecidos pelos portu-
Os espetáculos de matança continuam. gueses. Mas, ao invés de ser repudiada

Selos
comemorativos ao
IV Centenário da
presença de
Anchieta no Brasil e
de sua beatificação
pelo Papa João
Paulo II. Coleção
Nelson Di
Francesco.

Beatificação do Padre José de Anchieta


1 ° dia de circulação
Empresa Brasileira de Correios o Telégrafos
totalmente, esta gente vai estabelecer sua O modernismo
empreendeu uma
diferença e chegar até nós, principalmen- volta às origens.
te através da Literatura, como padrão de Reprodução da
Revista de
nacionalidade e independência cultural. Antropofagia e do
O romantismo brasileiro elege o índio Manifesto
Antropófago.
como herói. Modificados e "civilizados", Ira- Biblioteca Mário de
cema e Peri, personagens criadas por Jo- Andrade. Foto: Sosô
Parma.
sé de Alencar, se impuseram como para-
digmas da identidade nacional ao lado de
Jatir e dos Tamoios retirados das páginas
de Gonçalves Dias. A visão seletiva român-
tica elegeu o "índio nobre", idealizado pe-
lo conceito do homem natural rousseau-
niano e lhe infundiu tanto vigor que essas
personagens ainda vivem no imaginário
brasileiro com a mesma intensidade que
Cunhambebe, Poti e Araribóia se destacam
das páginas da História do Brasil.
A literatura brasileira, entretanto, com
seu apetite onívoro, assimilou também o
índio irreverente e solto que zombava de
prisioneiros europeus dizendo "Lá vem a
nossa comida pulando" (Hans Staden). O
antropófago, anti-hierárquico, de costumes "#li vem a nossa comida pulando"
estranhamente comunitários, sem as res-
trições da propriedade privada, foi perpe-
tuado pelo Modernismo, sobretudo através
do movimento Antropofágico. Não é pos-
sível, portanto, deixar de admirar a reto-
mada dos cronistas da História do Brasil
tal como foi feita por Oswald de Andrade:
comendo-os - tomando as palavras do ou-
tro e usando-as como suas. Em seu livro
de poesias Pau Brasil (1925), Oswald põe
em relação dialógica seus títulos com os bo-
cados saborosos escolhidos entre os pra-
tos do banquete colonial. Desde o instan-
te de "a descoberta" (Seguimos nosso
caminho por este mar de longo/Até a oi-
tava da Páscoa/Topamos aves/E houve-
mos vista de terra), passando pelo "primei-
ro chá" (Depois de dançarem/Diogo
Dias/Fez o salto real) até o cáustico comen-
tário "as meninas da gare" (Eram três ou
quatro moças bem moças e bem gentis/
Com cabelos mui pretos pelas espáduas/
E suas vergonhas tão altas e tão saradi-
nhas/ Que de nós as muito bem olhar-
mos/ Não tínhamos nenhuma vergonha)
e prosseguindo depois com textos retira-
dos de Gandavo, Claude d'Abbeville, Frei
Vicente do Salvador e outros mais, Oswald
vai pacientemente montando um mosai-
co revelador de um outro ancestral - um derno participam todos: tupis, guaranis, az-
índio totêmico, inverso de "o índio de to- tecas, incas, sioux, cheyennes, subverten-
cheiro. O índio filho de Maria, afilhado de do a música dos colonizadores com seus
Catarina de Médicis e genro de D. Antó- instrumentos exóticos.
nio de Mariz" (Manifesto Antropófago). Se a História nos conta a derrota de
Esse modelo romântico é repudiado um povo, de vários povos, vencidos pela
porque não se pode ignorar que segundo tecnologia, pelas doenças, pela exploração;
o manifesto antropófago. " (s)ó a antropo- a Literatura nos devolve a todos eles co-
fagia nos une. Socialmente. Economica- mo antepassados cheios de vitalidade e de
mente. Filosoficamente". É preciso reco- potencial, e explora suas contradiçõs com
nhecer o fato de que, ainda segundo o as liberdades da releitura. Transforma-os,
manifesto, "(n)unca fomos catequizados. ou melhor, devora-os - alimento mágico
Fizemos foi Carnaval". Deste carnaval mo- das "crónicas" modernas.

Nota Coutinho, Afrânio - 1986 - A literatura no Brasil


- Rio de Janeiro/Niterói, José Olympio/Uni-
1. Essa suspeita, no entanto, não era compartilha- versidade Federal Fluminense, 6v. v. 1.
da por todos. Alguns estudiosos e navegadores acre-
ditavam na existência de terras, ou ilhas, a oeste da Fonseca, Branquinho da - s/d - Grandes viagens
Europa, enquanto que outros, entre estes Colom- portuguesas, Sintra, Manus.
bo, calculavam que a circunferência da Terra era me-
nor do que se julgava e que as terras a oeste da Eu- Hooykaas, R. - 1970 - The Impact of the Voyages
ropa vinham a ser as tão cobiçadas índias. of Discovery on Portuguese Humanist Lite-
rature, Coimbra, Junta de investigação do Ul-
Bibliografia tramar.

Anchieta, Pe. José de - 1984 - "Cartas- Hower, A. et Preto-Rodas, R. (edit.) - 1985 - Em-
-Correspondência ativa e passiva" in Obras pire in transition: The Portuguese World in
Completas - 6o volume. (Pesq., introd. e no- the Time of Camões, Gianesville, University
tas de Pe. Hélio Abranches Viotti , S. J.), São Presses.
Paulo, Edições Loyola.
1990 Portugal-BrazU: The age of Atlantic Dis-
Andrade, Oswald de - 1928 - Manifesto Antropo- coveries. Catálogo da exposição de mesmo no-
fágico - in Revista de Antropofagia, Ano I, no me realizada na New York Public Library, Ju-
1, São Paulo. ne 2 to September 1.

Caminha, Pêro Va2 de - 1975 - A certidão de nas- Nóbrega, Manuel da e Anchieta, José de - 1978 -
cimento do Brasil: a carta de Pêro Vaz de Ca- Nóbrega e Anchieta: Antologia, (Coord. e se-
minha - (Org. José Augusto Vaz Valente), São leção. Pe. Hélio Abranches Viotti, S. J.), São
Paulo, Universidade de São Paulo. Paulo, Melhoramentos.

- 1963 - Carta a El-Rei D. Manuel. (Introd.. Org..


gloss., bibl. e índices de Leonardo Arroyo), São Nóbrega, Manuel da - 1954 - Diálogo sobre a con-
versão do gentio, (Preliminares e anotações
Paulo, Dominus.
históricas e críticas de Serafim Leite S.I.), Lis-
boa, Comissão do IV Centenário da Fundação
Castello Branco, Carlos Heitor - 1974 - Gloriosa
de São Paulo.
e trágica viagem de Cabral ao Brasil e à ín-
dia, São Paulo, Ed. do escritor.
Valente, José Augusto Vaz - 1975 - A carta de Pê-
Costa, Jaime Raposo - 1985 - A viagem de Pedro ro Vaz de Caminha: estudo crítico,
Alvares Cabral ao Brasil. Casualidade/In- paleográfico-diplomático. São Paulo, Univer-
tencionalidade, Brasília, Thesaurus. sidade de São Paulo.
A lógica das imagens e os habitantes
do Novo Mundo
Ana Maria de M. Belluzzo

A presença de figuras de índios do Bra- temos em vista especialmente as viagens


sil em mostra organizada este ano em São de Staden e de Léry.
Paulo constitui oportunidade para algum Admitimos, portanto, gravuras de ilus-
esclarecimento acerca da lógica que pre- tração feitas a partir do texto de Staden
side a elaboração das imagens dos habi- para seu livro e gravuras de interpretação
tantes do Novo Mundo. Em especial, da- baseadas em outros desenhos. Estas, já
quelas que surgem a partir dos relatos dos praticadas no livro de Léry, apoiado em
primeiros viajantes europeus ao Brasil. motivos visuais da obra de Thevet, carac-
As transformações pelas quais se pre- terizam a obra gráfica de De Bry, que se
para a visualização das figuras indígenas - vale, como apontamos anteriormente, de
sejam as transcrições de texto em imagem, ilustrações de Staden e Léry e de imagens
sejam as manipulações da imagem que re- de outras expedições a outros lugares da
criam um repertório transformado - são América.
aqui examinadas com base em três rela- Esse processo de sucessivas retomadas
tos do século XVI. nos autoriza a falar em imagens e não em
As Viagens ao Brasil, de Hans Sta- representações do novo mundo. Convém
den, aparecem na Alemanha, em 1557 e evitar a suposição de que as gravuras fei-
inscrevem observações de interesse etno- tas a partir das informações dos viajantes
gráfico em narrativa popular. tenham algum compromisso d'apres
A História de uma Viagem feita à ter- nature.
ra do Brasil, de Jean de Léry, publicada O conceito de imagem pode ainda ga-
na França em 1578, situa exemplarmente nhar uma necessária dimensão crítica se
o relato erudito do renascimento francês, contraposto à noção de forma. A forma é
que se utiliza de modelos da antiguidade qualidade universal, constante e única; as
clássica para estabelecer uma valorização imagens são inumeráveis, intercambiáveis,
positiva dos homens do Mundo Novo. incorpóreas, como sugere Argan. Em opo-
A edição gravada das Grandes Via- sição à imagem, a forma admitiria uma es-
gens de Theodore De Bry, que compõe trutura e um conteúdo constante: a na-
ambicioso projeto gráfico publicado na An- tureza.
tuérpia, na terceira parte do qual são ree-
ditadas com alterações as viagens de Sta- O relato maravilhoso de Staden
den e Léry, quando o argumento visual
toma proeminência e conquista autonomia Como ocorre com o texto mítico, o
com relação ao texto do qual se desgarra. herói-viajante rompe os liames com o
A coleção de Viagens, dirigida inicial- mundo conhecido e dominado e passa a
mente por Theodore De Bry, a seguir por oscilar ao sabor das incontroláveis forças
seus filhos Jean-Theodore e Jean-Israel De do universo. Hans Staden é o aventureiro
Bry e depois por Mathieu Merian - todos alemão, herói-viajante que ocupa lugar
editores e não viajantes - compreende duas central na estrutura da narrativa mítica. Lo-
séries publicadas entre 1590 e 1634. As go, a personagem haveria de ter o papel
Grandes Viagens aparecem sob o nome de invertido. Tomado por português e inimi-
índias Ocidentais, comportam quatorze go, Staden seria preso pelos tupinambás,
partes em que são registradas expedições ameaçado de morte e devoração canibal.
à América e à Oceania. As Pequenas Via- O conquistador torna-se prisioneiro. Do es-
gens - onde pequeno é o formato da pu- paço aberto do mar, passa ao interior do
blicação - dizem respeito às índias Orien- cativeiro na aldeia indígena. O desfecho da
tais (índia, Japão e China). Neste ensaio história irá pressupor nova inversão de pa-
recem vinte e uma ilustrações.
Staden narra a viagem na primeira pes-
soa. Confessa medos, premonições, deno-
ta coragem, conta mentiras. Na configu-
ração visual é apresentado na terceira
pessoa, entre protagonistas e antagonistas,
vendo seu destino observado por um olho
que tudo vê, subordinado, portanto, a uma
cosmovisão. Não se impõem de um mes-
mo ângulo, o discurso e a figura. O dese-
nho gravado é também escritura e desdo-
bra a narração. Vejamos a cartografia do
conto, na qual se move o viajante perdido.
Os mapas são, a rigor, roteiros, cartas
de percurso, registros do tempo vivido. O
território, sem medida objetiva, vem assi-
nalado por fatos imediatos e naturais, co-
mo a ilha dos pássaros de penas coloridas,
que era procurada pelos índios que apre-
ciavam ovos de guará; por ocorrências en-
tre indígenas e europeus, experimentadas
por Staden. A linha do litoral brasileiro, es-
tabelecida pelo mapa de Staden, é no fun-
do, desenho de Deus, que, segundo a con-
cepção religiosa da criação do mundo,
O naufrágio no pel. A astúcia de Staden consistirá em con- separou as águas e as terras. Na mentali-
litoral de ltanhaém.
quando Hans trolar, ou melhor, simular controle sobre os dade do século XVI, o mundo natural é
Staden chega à fenómenos da natureza. Como a sobrevi- escritura divina, passível de interpretação
costa brasileira. vência dos índios, baseada na pesca e na
Região de Bertioga, por princípios de semelhança e de acordo
Santo Amaro, São plantação, se mostrasse subordinada à in- com um código de correspondências es-
Vicente e ltanhaém. fluência do sol, da lua, dos ventos e das tabelecidas por proximidades, compara-
"Viagens ao Brasil".
Hans Staden, 1557. tempestades, a esperteza do herói estaria ções etc.
em simular controle sobre a natureza, pe-
lo poder de sua mente ou pela força de seu A identidade de um lugar é o ponto
Deus. O texto mítico vale-se ainda das in- de encontro entre a experiência do viajante
versões e reconversões de conteúdo, jogan- e as coisas reveladas. Guarda a tensão das
do com o que é com o que parece ser. lutas travadas pelo europeu para não se
No curso circular da narrativa, o dese- perder em terra estranha. Lá estão ainda
nho da caravela figura a partida e o regres- marcos da ocupação portuguesa registra-
so do herói ao mundo real: o mundo eu- dos esquematicamente nas fortificações de
ropeu. Em sinal de graça por estar de volta Bertioga e Santo Amaro. Respondem tam-
e salvo, Staden faz publicar o livro, no qual bém ao desejo de construir a realidade da
inclui cinquenta e três xilogravuras feitas paisagem, os nomes de origem indígena
sob sua orientação para tornar o relato ve- que aderem ao território como escritura
rossímel. dos homens. Indicam que as palavras tam-
Não há correspondência precisa entre bém participam da construção da realida-
as ilustrações do livro de Staden e as divi- de do lugar.
sões do texto em capítulos. No primeiro li- Na narrativa e nas configurações vi-
vro, cinquenta e três grupos de peripécias suais do livro de Staden, quase tudo se
se sucedem no curso da viagem, merecen- apresenta como índice ou sinal, propondo-
do trinta e uma ilustrações. No segundo li- se à adivinhação. Quase tudo é rastro, si-
vro, nos vinte e oito capítulos do "Peque- nalização do Criador pressentida pelo he-
no relatório verídico sobre a vida e os rói. 0 sentido oscila entre significações de
costumes dos índios tupinambás" compa- ordem terrena e providência divina.
Coabitam no mesmo quadro diversas terra. Operam-se também por transforma-
ordens de questão. A configuração hete- ções biológicas, nos limites da vida e da
ronômica assimila aspectos visuais e refe- morte, razão pela qual o corpo humano co-
rências verbais; práticas mágicas e crenças mo motivo irá se mostrar uma unidade ca-
cristãs. As palavras, ao se inscreverem no paz de amplas ressonâncias. Talvez isso ex-
campo visual, seguem a mais variada plique porque as imagens de canibalismo
orientação espacial. Da mesma maneira, constituem o tema central da série de de-
as figuras atravessam direções da superfí- senhos estudados.
cie planar do quadro. Sem dimensão físi- Uma breve menção à contribuição de
ca, não são mensuráveis, nem palpáveis. Jean de Léry poderá ampliar as referên-
A linearidade essencial e esquemática es- cias, possibilitando finalmente observar esse
boça a imagem mental. No ritmo de figu- motivo nas transposições de Staden e Léry
ras animadas, homens e plantas por De Bry.
confundem-se com o gesto orgânico da
gravação em madeira. A imagem é um O nobre selvagem de
amálgama. Uma ilustração dura a soma de Jean de Léry
seus momentos e rara é a oportunidade em
que se estabelece uma sincronia entre o A obra de Jean de Léry exemplifica o
tempo e a ação representados no livro de projeto enciclopédico do século XVI. Está
Staden. Cada configuração contém ocor- referida à obra de Thevet em sua origem.
rências em justaposição, constituindo um A história de uma viagem à terra do
microcosmo, só abrangível por uma cos- Brasil, também chamada América é edi-
movisão. O olho que tudo vê certamente tada cerca de vinte anos depois da volta
conhece o curso dos acontecimentos, que do missionário calvinista do Brasil, para on-
nessa ótica se apresentam predestinados, de teria se dirigido em 1556, por empresa
naturalizados. de Coligny. Desejava revelar o desvio de
As configurações que ilustram o texto Villegaignon do evangelho e refutar o que
de Staden absorvem, ademais, conteúdos afirmara André Thevet, cosmógrafo do rei
da cosmologia e astronomia pagã, e representante da Igreja católica francis-
revestindo-o de uma visão religiosa cristã.
Os poderes do sol e da lua, os efeitos do
vento e os danos causados pela chuva são
exemplos das influências do céu sobre a
vida dos homens. Aparecem nos argumen-
tos de Staden combinados com a ideia de
um mundo superior, misturando-se sinais
e emanações de Deus com adivinhação
pagã. No quadro de percepção do euro-
peu , o seu universo articula-se ao do ín-
dio americano. Perante índios que admi-
tiam o poder do universo sobre os homens,
Staden iria afirmar a existência de um Deus
capaz de intervir nas forças naturais. A sal-
vação do herói seria comemorada como
vitória da sabedoria cristã sobre as práti-
cas mágicas, mas não passa despercebido
ao leitor que o herói opera por adivinha-
ção e que, no centro da argumentação, a
punição divina aparece como ameaça aos
que comem carne humana.
No âmbito mitológico do conto ilustra- índios Tupinambá
do, inversões de conteúdo se realizam pe- guerreiros. "A
história de uma
las transformações de posição no univer- viagem", Jean de
so, mudando-se o comando do céu e da Léry, 1580.
"Grandes Viagens",
Theodore de Bry.
1592.

cana, em sua obra Singularidade da Fran- Destaco da obra de Léry algumas ima-
ça Antártica. de 1557 e posteriormente gens do conjunto de cinco gravuras em
em sua Cosmografia Universal, de 1575. madeira que não se subordinam ao texto,
Também os desenhos que contam com ob- tendendo à auto-suficiência visual. Em gru-
servações feitas por Léry não são realiza- po, parecem apontar o ciclo da vida e da
dos d'après nature; absorvem motivos das morte, da guerra e da dança, dos rituais
ilustrações de Thevet, reelaboran- tupinambás com amigos viajantes estran-
do-os em nova sintaxe, baseada em mo- geiros.
delos visuais dos antigos. A intertextuali-
Desse conjunto estará ausente o tema
dade que une Léry a Thevet e ambos aos
de teor mais conflitivo: a relação dos co-
clássicos vem afirmar o valor da interpre-
nhecidos índios canibais com os inimigos.
tação ou erudição, como modo de orga-
As cenas de luta e devoração aparecem no
nizar o conhecimento, na época.
mesmo livro sob autoria e tratamento di-
Léry entende que para figurar um ín- verso, calcadas em modelos visuais de The-
dio pode-se imaginar o nu proporcionado, vet. Essas imagens de teor mais trágico não
o corpo inteiramente depilado. Atento aos correspondem à atitude contemplativa e à
conteúdos de verdade etnológica, deseja- dimensão construtiva dos desenhos des-
va revelar o corte dos cabelos, a ornamen- tacados.
tação facial com pedras, as marcas das vi-
tórias ostentadas pelos selvagens nos riscos Os sentidos das ilustrações de Léry de-
de suco de genipapo nas pernas. Nada é correm das inter-relações estabelecidas en-
gratuito. Afirmar que os índios se depilam tre as partes da figura e entre figuras indí-
é distanciá-los dos seres peludos que ha- genas. Isto é, Léry busca uma razão formal
bitam a floresta. Expor marcas de guerra abstrata. Para tipificar as suas figuras, con-
é mencionar a coragem e a bravura, alu- forme preceitos clássicos, irá recortá-las de
didas pelos troféus de cabeças inimigas aos sua realidade e transportá-las para o mun-
seus pés. do ideal das relações proporcionais. Des-
se modo, o índio passa a ser mostrado co-
mo universalidade humana. Evitando a
combinação aditiva das figuras, Léry as su-
perpõe para não justapor. O corpo frontal
e o corpo de perfil sob o eixo de rotação
é um recurso que equivale à variação de
pontos de vista. Está, por outro lado, de
acordo com o relativismo cultural de Léry,
que seria capaz de reconsiderar Plínio e
Ovídio diante dos fatos da América. Para
ele, o mundo natural é um conjunto orde-
nado e o homem ocupa o seu centro. Des-
taca e isola as figuras humanas em sua gra-
vura, rodeando-as por animais domésticos,
que lhe são próximos ou lhe estão sujei-
tos. É curioso notar o nu atlético e apolí-
neo de constituição escultural, formado por
volumes, quando se sabe que a escultura
e o baixo-relevo dos antigos forneciam os
modelos para a transgressão do espaço to-
pográfico e segmentado das representa-
ções medievais. O movimento dos índios
em dança estabelece a disposição regular
das partes do corpo para diferentes dire-
ções, sendo fiel ao desejo de uma forma
racional e à unidade geométrica espacial.
Pode-se adivinhar que o discóbulo - um
dos modelos da escultura grega antiga -
empresta sugestões à rotação da figura in-
dígena, vindo a movimentação apontar pa-
ra o espaço ao redor. Afinal, não se teria de Staden e Léry, aproximando-se as ilus- A aldeia de
Ubatuba. onde Hans
isso em mente ao se relacionar as duas fi- trações dos dois autores, sob uma ótica uni- Staden está no meio
guras, sugerindo uma sequência de posi- tária. Sendo editadas na terceira parte da da dança das
mulheres. "Viagens
ções da primeira para a segunda, do fron- coleção, em 1592, são antecedidas de re- ao Brasil". Hans
tal para o perfil, do dobrado para o ereto? lato sobre a expedição inglesa na Vírginia Staden, 1557.
É possível que a noção de naturalida- dirigida por Grenville, que ocorreria em
de da vida primitiva tenha ido ao encon- 1585. publicado em 1590, ilustrado por De
tro do ideal dos reformadores protestan- Bry a partir dos desenhos originais de John
tes, contrários ao domínio do papado e White. São também precedidas de relato
capazes de uma visão crítica da artificiali- sobre a expedição huguenote na Flórida
dade dos costumes na Europa. O bom sel- coordenada pelo Capitão Laudonnière, em
vagem ganhava contornos no âmbito da 1565, publicada em 1591, ilustrada por De
renovação do século XVI francês. A rup- Bry a partir de desenhos originais de Jac-
tura da mentalidade teria em Montaigne, ques la Moyne de Morgues. Ambas men-
autor dos Canibais, seu maior prota- ções são obrigatórias pois dão conta de
gonista. modelos de sintaxe visual e de observações
etnográficas que iriam marcar o projeto de
De Bry e incidir sobre as ilustrações da
America-Terceira Parte, que agora es-
A ordem combinatória de Theo- tudamos.
dore De Bry Na obra de De Bry, a fantasia dos re-
latos de memória pós-viagem, a livre ma-
Nas Grandes Viagens de Theodore nipulação das informações visuais de vá-
De Bry serão retomadas as contribuições rios autores, o recorte e a montagem de
"Grandes Viagens",
Theodore de Bry,
1592.

material de várias proveniências irão se or-


ganizar dentro de um quadro geral. Assiste-
se à passagem das imagens à forma coesa
instaurada pela unidade espacial.
As transposições realizadas por De Bry
a partir dos registros de Staden mostram
primeiramente o abandono da linearida-
de esquemática do desenho gravado em
madeira e da orientação posicionai das fi-
guras humanas em movimento. Não só a
xilogravura é substituída pelas possibilida-
des do talho doce, da gravura em metal.
A nova concepção espacial de De Bry te-
ce a geometria que inter-relaciona os cor-
pos desenhados em traçado ordenado e
regular. Na gravura de cobre, elabora-se o
valor de claro-escuro, os valores interme-
diários. Por meio dos volumes modelados,
as coisas se tornam tangíveis, as zonas de
penumbra projetadas em espaço vazio par-
ticipam como eco da presença dos corpos.
índios Tupinambá Podem-se observar versões das cenas
choram seus no interior da aldeia em Ubatuba. Staden
mortos. "A história é conduzido pelas mulheres ao poracé
de uma viagem",
Jean de Léry, 1580. (dança e divertimento), arrastado por uma
corda, quando desejam lhe tirar a barba e A preparação do
prisioneiro.
as sobrancelhas. A dança e o tratamento "Grandes Viagens".
dado ao prisioneiro reforçam a interpreta- Theodore de Bry,
1592.
ção da existência de canibalismo ritual entre
os tupinambás, afastando a suposição de
antropofagia alimentar. Tanto em Staden
como em De Bry aparecem relações ma-
temáticas expressas pela divisão do todo
ou pela multiplicação das partes, como ve-
remos. Na visão mais detalhada de De Bry,
a aldeia de cinco cabanas define um pen- As mulheres
pintando o
tágono, no qual se inscreve um círculo de ibirapema e o rosto
mulheres em dança. No centro da roda es- do prisioneiro.
tá Staden. A regularidade da disposição "Viagens ao Brasil",
Hans Staden, 1557.
das quatorze mulheres não deixará dúvi-
das quanto aos preceitos adotados para a métrica aritmética.
organização do conjunto. A versão grava- Há entretanto grande diferença no tra-
da no livro de Staden não excluem com- tamento dado à nudez em cada caso. No
pletamente componentes clássicos, certa livro de Staden, o prisioneiro e algumas fi-
guras aparecem cobertos pelo pudor. Tu- na. A proporcionalidade das partes e pos-
do indica a condenação do estado natu- tura das figuras permite associá-las aos
ral. O nu é censurado conforme a teolo- motivos artísticos antigos. Predomina a fi-
gia moral. O código de expressão das gura humana em movimento de expres-
figuras também sugere diferenciações: as são da vontade e da emoção, ou seja, a
figuras indígenas animadas pelo movimen- figuração de sentimentos universais atra-
to e a postura do prisioneiro europeu re- vés da representação humana.
catado, em repouso. Longe de atenderem demandas ana-
As interpretações do nu por Theodo- crónicas da antropologia física, que recla-
re De Bry apresentam algumas semelhan- ma a representação de traços indígenas, as
ças com as ilustrações propostas por Jean figuras impõem uma melhor compreensão
de Léry, para quem o estado natural é ti- da tipificação clássica. De acordo com có-
do como verdade essencial, diferente do digos estéticos da época, as figuras huma-
artificialismo da sociedade europeia, apre- nas não se distinguem por traços faciais e
ciando a simplicidade do nu como virtu- raciais, mas pela ornamentação e pelas
de. Nos dois autores, o corpo atlético, he- práticas. Também se impõe a noção de be-
Empalação do róico, guerreiro, apresenta traços leza, que se deseja nas proporções harmo-
prisioneiro "Grandes anatómicos. O corpo orgânico em movi- niosas entre as partes e na relação propor-
Viagens". Theodore
de Bry. 1592. mento é definido por sua estrutura inter- cional de todas as partes entre si. A
movimentação dos índios é enfim manifes- lidade e da posição das figuras, que se A divisão do corpo
do prisioneiro.
tação de subjetividade, manifesta na ex- mostram estudadas a partir de cânones e "Grandes Viagens",
pressão do corpo e não da face, na postu- motivos clássicos e estão dominadas pelo Theodore de Bry.
1592.
ra e no movimento. movimento de expressão, ao qual se sub-
Nas cenas do interior da aldeia de Uba- mete a medida e a postura. Entretanto.
tuba, transpostas por De Bry, as figuras fe- nota-se que a posição de cada uma das fi-
mininas em roda estabelecem relações pro- guras é coordenada pelo nexo do conjun-
porcionais simétricas, por meio das quais to. Colocada em relação de correspondên-
o aspecto visível de uma figura completa cia no conjunto geométrico e subordinada
outra figura feminina vista em posição es- a um eixo de rotação, como parte do to-
pacial invertida, integrando o todo. O prin- do. Se a tipificação das figuras tupinambás
cípio da divisão do todo ou da multiplica- leva a compará-las a Vénus, estas
ção das partes é constante. A visão de um mostram-se também aspectos inseparáveis
objeto sob diferentes ângulos leva à com- de uma configuração global.
preensão de sua totalidade. As quatro ou É preciso ainda considerar a capacida-
cinco cabanas ordenadas em correspon- de de De Bry de submeter a representa-
dência, ao se espelharem, espelham o to- ção a um ajuste ótico, vindo assim definir
do e contam a aldeia. a posição do observador. Ele se vale de
De Bry não descuida da proporciona- correções espaciais no cenário, no caso a
aldeia, mas busca também aplicar a pers- de ideal das partes e do todo e frente ao
pectiva diretamente à figura humana. sistema de correspondências, que assimi-
Na opinião de Panofsky, as três quali- la o corpo individual no corpo coletivo é
dades preparadas pela arte do século XVI conveniente lembrar que, tanto nos rela-
- a expressão das figuras representadas; a tos de Léry, quanto nas ilustrações e nos
visão subjetiva do artista, manifesta nos as- relatos de Staden, são descritas relações
pectos da figura; a visão do espectador, entre partes do corpo e segmentos da so-
que se expressa nos "aspectos" propria- ciedade tupinambá. Apresentam-se corres-
mente perspectivos - são concernentes à pondências entre as práticas que efetivam
vitória do princípio subjetivo. o canibalismo e o próprio corpo canibali-
É provável que o modelo, pelo qual se zado. Dizem respeito ao abate do prisio-
tenta solucionar ao mesmo tempo a pos- neiro de um só golpe, na cabeça, por bra-
tura e o movimento, o contorno e a pro- vo guerreiro; aos homens responsáveis por
porção, teria sido proposto na época por cortar as partes do corpo, à sua divisão em
Durer. partes, às mulheres responsáveis por cozê-
Diante da consideração dessa unida- las (ou assá-las), por distribuí-las. A desti-
Mulheres e crianças
tomando mingau.
"Viagens ao Brasil",
Hans Staden, 1557.
nação da parte do corpo-alimento e sua raneidade deve-se em grande medida à Assando e comendo
pedaços do corpo
ingestão em diferentes estados (cru, assa- transgressão do tabu de não comer carne do prisioneiro.
do e cozido) sugere ainda outra teia de cor- humana. As imagens de sacrifício, nos li- "Grandes Viagens",
respondências, como indica Bernadette Theodore de Bry.
vros dos viajantes, deixam-se contaminar 1592.
Boucher em seu livro Le sauvage au seins por sugestões do martírio, da via crucis de
pendants. Os autores viajantes contam que Cristo. O sofrimento do corpo associa-se
aos homens cabiam as pernas e os braços, às imagens do purgatório e à ação demo-
que eram assados, o interior do corpo se níaca, no âmbito do imaginário religioso.
destinava às mulheres e crianças, que se O procedimento simbólico de comer o cor-
alimentavam de um mingau de tripas; po para adquirir poderes encontra também
mãos e cabeças também eram manipula- paralelo na comunhão do corpo de Cris-
das pelas crianças. to, na cerimónia católica.
Há enfim um certo interesse em reco- Afinal, o imaginário da época não po-
nhecer possíveis significados que, no sé- de ser excluído dos sentidos que aderem
culo XVI, aderem ao desmembramento do às imagens de Staden, Léry ou De Bry.
corpo, ao seu parcelamento e sacrifício, a Léry e Staden enfatizam a bravura da
sua ingestão e digestão. O forte impacto prática guerreira, estando de acordo em
das imagens de canibalismo no inconscien- termos gerais e possibilitando a De Bry a
te europeu e mesmo na nossa contempo- combinatória de suas ilustrações. Particu-
larmente, no Relatório Verídico de Sta- narrativa visual sobre o canibalismo, sen-
den estão os desenhos arranjados em uni- do acentuado o caráter demoníaco da mu-
dade de ação (unidade de espaço e tilação, carregados os aspectos aterrorizan-
tempo), apresentados em série sequencial, tes. No desenrolar das práticas canibais, as
que irão marcar a maior parte das ilustra- figuras ideais dos índios tupinambás sofrem
ções que serão feitas sobre o tema, inclu- transformações biológicas, assinalando-se
sive por Léry e De Bry. uma degeneração de seus corpos. A con-
denação e a punição manifestadas por De
Do outro lado da forma controlada de Bry também se apresentam como expres-
De Bry, irá se revelar o teor dramático da são do corpo.

Bibliografia Greimas. A.J. - 1966 - "Élements pour une theorie


de 1'interpretation du recit mythic" in Commu-
Staden, Hans - 1557 - Warhftige Historia und Bes- nications. Paris (8), págs. 28-59.
chreibung Eyner Landtschafft der Wilden
Nackten, Marburg, Andres Koeben. (Sobre a Léry, Jean de - 1580 - Histoire d'une voyage fait
obra de Hans Staden, existem duas edições que a la terre du Brèsil autrement dit Amerique,
aparecem em Marburg datadas de 1557 e ou- La Rochelle, Antoine Chuppin.
tras duas que aparecem em Frankfurt, sem da-
ta, sendo atribuídas ao mesmo ano por espe- Panofsky, E. - 1976 -"A história da teoria das pro-
cialistas. A edição de Frankfurt é editada por porções humanas como reflexo da história dos
Weygandt Hand.) estilos", in Panofsky, E. Significado nas Artes
Visuais. São Paulo, Perspectiva, págs. 89-148.
Alexander, Michael - 1976- Discovering the New
World based on the works of Theodore De Saxl. Fritz - 1989 - "Macrocosmos y microcosmos
Bry, New York/London, Harper & Row. en las pinturas medievales" in Saxl, Fritz La vi-
da de las imagines. Madrid. Alianza, págs.
Argan, Giulio Cario - 1957 - Botticelli, Geneve, Ski- 59-71.
ra, pág.26.

Belluzzo, Ana Maria de M. - 1992 -"A imaginação Sommer. F. - 1943 - "Quem foi o impressor e quem
do desconhecido" in Guia das Artes. São Pau- o ilustrador da edição primitiva do livro de Hans
lo, nº 30. Staden?" in Revista do Arquivo Municipal.
São Paulo, 8 (88), jan/fev.
Boucher, Bernadette - 1977 - Le sauvage au seins
pendants. Paris, Herman. Thevet. André - 1557 - Les singularitez de la Fran-
ce Antarticque, autrement nomée Amerique,
De Bry, Theodore - 1592 - America Tertia Pars Me- Paris, Maurice de la Porte.
morabile Províncias brasiliae hisitoriam con- - 1575 - La Cosmographie Universelle, Paris, Pier-
tines, Frankfurt. re LHuillier. 2v.
Caminha relata em sua carta ao rei Dom Manuel o momento em que dois índios são levados ao encontro do Capitão:
". .um deles viu o colar do Capitão e começou a acenar com a mão para terra e depois para o colar, como a dizer-nos
d,ue havia ouro em terra". "Na Capitânia de Cabral ou índios à bordo da Capitânia", óleo s/tela. Museu Paulista/USP.
Foto Aparecida Gomes da Silva.
Martim Afonso de Souza, a serviço do rei Dom João III fundou em 22 de janeiro de 1532 a primeira vila do Brasil:
São Vicente. Ali foram plantados os primeiros canaviais e iniciada a criação de gado. "Fundação de São Vicente",
Benedito Calixto de Jesus, óleo s/tela. 1900. Museu Paulista/USP. Foto Rómulo Fialdini/Banco SAFRA.
O índios Tupinambá
habitavam toda a
costa brasileira na
época da conquista.
Estavam todos
extintos no século
XVII. Seus mantos
de penas são
célebres: vestiam os
homens do mais
alto grau na
hierarquia social
Tupinambá e eram
utilizados por
ocasião dos grandes
rituais de passagem
masculinos.

Atualmente existem
apenas 6
exemplares destes
mantos, todos
conservados em
museus europeus.
Manto do Museu
Nacional de
Copenhague
(Dinamarca) e do
Museu do Homem
de Paris (França).
Hercules Florence integrou como segundo desenhista a expedição organizada por Gregory lvanovitch
Langsdorf. Partindo do Rio de Janeiro, passa por São Paulo chegando à Amazónia, por via fluvial.
"Chefe Mundurukú em Santarém". Hercules Florence.
Era hábito no reinado de Dom João VI, intensificado no período de
governo de Dom Pedro I. comemorar fatos historicamente significativos,
através de pinturas e leques geralmente fabricados na China. No leque.
Dom Pedro recebe de um índio a coroa imperial, comemorando a
independência do Brasil. "Leque em marfim e papel", século XIX,
provavelmente chinês. Museu Histórico Nacional.

António Carlos Gomes recebeu uma bolsa do Imperador Dom Pedro II


para estudar na Itália. Estreou em março de 1870, no Teatro Scala de
Milão, sua obra de maior sucesso: II Guarany. Esta foi encenada em vários
países, atingindo grande sucesso na cidade do Rio de Janeiro. Folha de
rosto da partitura da ópera "II Guarany". Museu Histórico Nacional. Fotos
Rómulo Fialdini/Banco SAFRA.
Os intelectuais do século XIX. preocupados em forjar uma identidade para o império brasileiro, buscaram
imagens originárias do próprio país. Encontraram os índios, primeiros brasileiros, testemunhas da grandeza do
passado e os rios. atestando a exuberância da nossa natureza. Nesta escultura, idealizada por João
Maximiano Mafra e executada em Paris por Louís Rochet. o rio Madeira é representado por um índio. "Rio
Madeira", Louis Rochet. gesso, século XIX. Museu Histórico Nacional. Foto Rómulo Fialdini/Banco SAFRA.
Mais de 3.000
artefatos dos fndios
Bororó (Mato
Grosso) encontram-
-se depositados em
museus brasileiros.
Os Bororó
constituem um dos
grupos indígenas
das baixas terras sul-
-americanas mais
estudados pela
etnologia. Adornos
de cabeça, goivos,
colar de unhas de
tatu canastra. Museu
de Arqueologia e
Etnografia/USP.
Fotos Nelson Kon.
Grandes momentos da vida política e histórica do Brasil têm servido de tema para artistas e escritores. O descobrimento
do Brasil, consagrado nos pincéis de Oscar Pereira da Silva, tem inspirado também artistas contemporâneos.
"Descobrimento do Brasil", Waldomiro de Deus, óleo s/tela, 1977. Pinacoteca do Estado.
Imagem e representação do índio
no século XIX
Mana Sylvia Porto Alegre

Este estudo pretende retomar o tema "pintores-viajantes", levanta várias indaga-


do olhar do branco sobre o índio, desta vez ções sobre a relação entre arte e ciência em
a partir da iconografia, onde a represen- um momento de enorme expansão das
tação é permeada pela estética e expressa fronteiras do saber, e sobre as possibilida-
pela imagem gráfica. des de uso da imagem como documento
Proponho-me a entender as conexões e objeto de-pesquisa.
entre imagem e representação do índio bra- As missões científicas, instrumento
sileiro na primeira metade do século XIX, através do qual a antropologia moderna
através da forma pela qual ele foi visto, re- começou a construir seu objeto tendo co-
gistrado, classificado e nomeado, a partir mo paradigma a história natural, utilizaram
da iconografia, pelas missões científicas eu- largamente a pintura, o desenho e a gra-
ropeias que percorreram o Brasil, dispos- vura, para documentar e ilustrar suas ob-
tas a fazer dos trópicos seu laboratório de servações e conferir-lhes legitimidade, atra-
pesquisa1. vés de uma teoria da arte baseada no
As expedições eram conduzidas por "realismo criativo".
naturalistas, médicos, botânicos e zoólogos, O conceito de "realismo criativo" foi
que se faziam acompanhar por pintores e desenvolvido e aplicado, primeiramente,
desenhistas, encarregados de registrar a na- por Alexander von Humboldt ao estudo do
tureza e os tipos humanos da forma mais espaço geográfico e humano em suas via-
fidedigna e minuciosa possível, numa an- gens à América do Sul por volta de 1810
tecipação da fotografia. (Loschner 1978, Beck 1978). Conceben-
A ideia de tomar a imagem do índio do "a representação científica da natureza
como objeto de estudo surgiu da observa- numa imagem artisticamente conformada",
ção do trabalho dos chamados "pintores- o uso de ilustrações acompanhando o texto
-viajantes", ou "pintores-etnógrafos" (Ka- científico era visto por Humboldt não só
te 1910), no decorrer de uma pesquisa como objeto de interesse do estudioso e
sobre iconografia indígena feita na Alema- do cientista, mas como meio de populari-
nha, no ano de 1989 2 . Trata-se de uma zar a ciência, conquistando um público lei-
coleção de centenas de pinturas, desenhos tor sempre ávido por satisfazer o antigo fas-
e gravuras, dispersas em museus, bibliote- cínio pelo "mundo selvagem", através da
cas, arquivos e coleções públicas e priva- literatura de viagem.
das, a maior parte publicada como ilustra- De imediato, constata-se que a união
ção dos livros de viagem, género literário entre esses elementos transformou os re-
muito apreciado em toda a Europa na pri- latos sobre o Brasil de tal forma que a ilus-
meira metade do século XIX. tração penetrou a narrativa e o artista se
Selecionei alguns autores apenas, sobrepôs ao pesquisador, como testemu-
aqueles que percorreram grandes exten- nha dos dramas da expedição. O resulta-
sões do nosso território, entrando em con- do é uma profusão de imagens,nas quais
tato direto com a diversidade das socieda- abundam os detalhes no uso da cor e do
des tribais, algumas isoladas outras em traço e de onde emergem a revelação da
contato com as populações regionais, e diversidade e a ênfase na diferença entre
produziram uma iconografia de reconhe- as culturas observadas, numa representa-
cido valor, dos pontos de vista estético, his- ção das sociedades indígenas em sua mul-
tórico e etnográfico (Baldus 1954, Hart- tiplicidade, que caminha no sentido inver-
mann 1978). so ao do discurso idealizado do
O exame da incontável variedade de romantismo de meados do século XIX, so-
imagens capturadas pelo olhar desses bre um "índio genérico" em vias de extin-
I- Idealizações do ção.
bom e do mau Como sabemos, as teorias raciais e o
selvagem.
evolucionismo, que impregnaram as ideo-
logias sobre o índio no século passado, dei-
tam raízes de longa duração em nossa me-
mória social, que tanto remetem para a
busca de um passado "original" como pa-
ra questões atuais sobre o lugar da identi-
dade étnica na cultura brasileira. Trazer a
imagem e a arte para esse debate, signifi-
ca, no limite, buscar novos caminhos para
a reconstituição de antigos dilemas do "dis-
curso do confronto". Significa também in-
dagar sobre os processos diferenciados en-
tre duas linguagens, que recolocam em
discussão a interdisciplinaridade, as fron-
teiras do conhecimento e as articulações
entre estética e ciência.
Bom e mau O exame da iconografia indígena do
selvagem. "Busto de passado permite identificar, através da ima-
Botocudo Quack".
Friedrich T. Kloss, gem, um movimento inicial de ruptura na
aquarela. Bibl. representação dominante sobre o índio, en-
Brasiliana
Robert Bosch,
quanto categoria indiferenciada contrapos-
Sttutgart. Foto: ta ao branco, em direção ao reconhecimen-
António Rodrigues. to da existência das sociedades tribais
concretas e suas diferenças.
A linguagem do desenho, com seus có-
digos próprios e seus significantes, revela-
-se então como documento visual de uma
temporalidade, como "arquivo de identi-
dades", poderíamos dizer, que abre inúme-
ras possibilidades de estudo para a histó-
ria indígena e para a etnologia na
atualidade, principalmente no que se re-
fere à noção de pessoa, questão que exa-
minaremos na parte final deste trabalho.

O desenho como linguagem


Tomar a imagem icônica como objeto
de análise implica ter em mente que se tra-
ta de um registro realizado em determina-
das condições, dentro das quais uma "lei-
tura antropológica" pressupõe problemas
teóricos e metodológicos não inteiramen-
te claros para o pesquisador.
Bom e mau Antes de mais nada torna-se necessá-
selvagem. "Capitão
Jeparaque do Rio rio indagar o que diferencia a imagem de
Grande de outras formas de linguagem.
Belmonte". Heinrich
Keller. Aquarela a
Para Barthes, além da substância lin-
bico de pena. Bibl. guística ("uma imagem vale mais que mil
Brasiliana Robert palavras"), toda imagem é portadora de
Bosch, Sttutgart.
Foto: António uma dupla mensagem: uma mensagem
Rodrigues. codificada (conotação) que remete para
um determinado saber cultural e seus sig- gem, dependendo da contextualização e
nificados globais, e uma mensagem sem do saber investido no olhar. Penetramos
código (denotação), cujo caráter analógi- aqui no terreno da ideologia, onde o con-
co pressupõe sua capacidade de reprodu- junto dos significantes (conotadores) ex-
tibilidade do real (Barthes 1990). pressam uma retórica, na qual os símbo-
A "cadeia flutuante" de significados. los mais fortes de uma cultura são
que levam a uma interrogação sobre a lin- reificados em um discurso icônico que os
guagem literal denotada e a linguagem "naturaliza" (p.39-40).
simbólica conotada, mantém uma relação O desenho enquanto objeto de estu-
com o tipo de imagem com que estamos do aponta as mesmas questões que se co-
tratando: pintura, desenho, fotografia, ci- locam para a fotografia, referentes às con-
nema, etc. Assim, diz Barthes, enquanto dições de percepção, memória,
linguagem o desenho se aproxima da fo- subjetividade do observador e relação que
tografia, porém seu valor de denotação é este estabelece com a imagem. Sua análi-
menos puro, uma vez que não há desenho se pressupõe, portanto, a necessidade de
sem estilo, enquanto que na fotografia o contextualizar a representação temática à
"ter estado aqui" inocenta a mensagem temporalidade retratada e às peculiarida-
simbólica, produzindo um mascaramento des estéticas de produção do trabalho do
do sentido construído, sob a aparência do autor (Leite 1988).
registro natural (1990:35-37). Por outro lado, o desenho distancia-se
A leitura de Barthes nos conduz à des- da fotografia no sentido apontado por
coberta do sentido de "descontinuidade" Bourdieu (1985) dos seus usos sociais, na
do desenho, enquanto expressão de um medida em que o desenho requer um
determindo código cultural que permite vá- aprendizado, uma prática criativa especia-
rias interpretações de uma mesma ima- lizada e um grau de legitimação e reconhe-

Encantamento.
"Recueil de la
diversité des habits.
qui sont de present
en usage tant en
pays d'Europe, Asie,
Affique & Isles
sauvage. Le tout fait
aprés de naturel"
Paris. Richard
Breton. 1564. Foto:
António Rodrigues.
cimento conferido à obra de arte, não sen- olhar às imagens anónimas dos homens e
do acessível a qualquer amador, como a mulheres retratados por Daguerre, Benja-
fotografia e situando-se claramente no min observa "algo estranho e novo" que
"campo artístico". não pode ser reduzido ao trabalho do fo-
Os avanços da técnica representam um tógrafo:
elemento chave para a compreensão da "Depois de mergulharmos suficiente-
modernidade e das transformações histó- mente fundo em imagens assim, percebe
ricas no campo das artes rumo à moder- mos que também aqui os extremos se to-
nidade. Com as novas funções adquiridas cam: a técnica mais exata pode dar às suas
pela imagem a partir da descoberta da li- criações um valor mágico que um quadro
tografia, no início do século XIX, a repro- nunca mais terá para nós" (Benjamin
dutibilidade transformou as artes gráficas 1985:94).
em verdadeiros "documentos do cotidia- A dimensão mágica do "inconsciente
no", distanciando seu antigo "valor de cul- ótico", de que fala Benjamin, guarda uma
to" de um novo valor em que a arte se relação com o que Barthes chama de "ter-
constitui como "realidade exibível" (Ben- ceiro sentido" contido na imagem
Padrões estéticos jamin 1975). (1990:45-61). Um sentido obtuso, que en-
ocidentais. "A Seria engano supor, entretanto, que as cerra o paradoxo de confundir o discurso
Amazona*'. Theodor
de Bry. "América. bases ritualísticas da obra de arte tendem narrativo ao mesmo tempo em que forja
Terceira Parte". a desaparecer com o avanço da técnica. um campo de permanência e permutação.
Frankfurt, 1593.
Foto: António
mesmo quando esta coloca em primeiro Nesse sentido, a imagem torna-se uma
Rodrigues. plano o valor de exibição. Lançando seu "companheira de caminhada" que nos per-
mite ver até que ponto a linguagem arti-
culada é apenas aproximativa e perceber
a passagem da linguagem à significância.
Tal passagem, que se apresenta como
um dilema e um enigma para a ciência,
coloca-se, a nosso ver, como o principal
desafio a uma "leitura antropológica" que
leve em consideração o caráter de irredu-
tibilidade da mensagem icônica.
A leitura de Barthes, Benjamin e Bour-
dieu, além de abrir novos caminhos, escla-
rece os limites deste exercício de aproxi-
mação com o tema das representações.
Representações contidas na imagem, em
que procuro lançar meu próprio olhar so-
bre o índio do passado, tentando desven-
dar alguns sentidos e deixando para o lei-
tor a possibilidade, sempre aberta, da
descoberta de outros sentidos.

O olhar colccionador
Durante todo o século XIX, grande nú-
mero de viajantes estrangeiros percorreu
o Brasil, produzindo uma variedade de re-
latos, que vão de diários impressionistas de
viagem a relatórios comerciais e estudos
científicos, passando por memórias descri-
tivas, tratados filosóficos, informes econó-
micos, etc. É uma produção bastante he-
terogénea, onde predominam os viajantes
ingleses, franceses, americanos e alemães,
entre os quais, além de curiosos diletan- Delírios do
tes, incluem-se representantes diplomáti- imaginário. Ulrich
cos, comerciantes, religiosos, artistas e cien- Schmidel, "Vera
história".
tistas. Nuremberg, Levinus
Nessa última categoria, destacam-se os Hulsius. 1599. Foto:
António Rodrigues.
estudiosos da história natural, geralmente
vinculados a instituições de pesquisa e mu-
seus europeus, que vinham para realizar
expedições científicas e não apenas viagens
de contato e reconhecimento.
A maior parte das missões científicas
era financiada por governantes da França,
Inglaterra e Alemanha e seus integrantes
faziam parte do movimento de expansão
das ciências naturais, onde os avanços do
conhecimento, tomavam por base do mé-
todo a observação. Os viajantes, ansiosos
por estudar a natureza e o homem, pro-
curavam mover-se pelo território munidos
dos mais recentes equipamentos e proce-
dimentos de pesquisa, para descobrir e re-
gistrar a diversidade e o exotismo do uni-
verso tropical e estabelecer futuras lógico, teoria científica, não é mais do que
comparações, à luz das novas teorias, mo- "a maquilagem falsamente científica de um
delos e tipologias. velho problema filosófico para o qual não
As exigências do método impunham existe qualquer certeza de que a observa-
que a observação fosse cuidadosamente ção e a indução possam um dia fornecer
descrita, registrada, documentada e repro- a chave" (1985:56).
duzida através do desenho ou da pintura, A etnografia das primeiras décadas do
completando-se o trabalho de campo com século XIX não estava interessada em
a coleta dos espécimes, destinados a com- aprofundar o conhecimento de uma deter-
por as imensas coleções armazenadas nos minada cultura mas sim em compreender
recém-criados museus de história natural. extensivamente as práticas sociais de po-
Observar e colecionar era mais que um vos distantes no espaço e no tempo, para
objetivo científico. Era quase uma missão, compará-las e demostrar a universalidade
especialmente para a etnografia. No largo das técnicas, das instituições, dos compor-
período que se situa entre a criação da So- tamentos e das crenças (Laplantine 1988).
ciedade dos Observadores do Homem Para afinal realizar o paradoxo de "supri-
(1799-1805) e o estabelecimento da antro- mir a diversidade das culturas, fingindo
pologia moderna, como Tylor, Morgan e conhecê-la completamente" (Lévi-Strauss
Frazer, o evolucionismo social corre para- 1985:55).
lelo ao evolucionismo biológico. Domina- No contexto do pensamento social em
-o um desvelo "salvacionista", que torna ur- que se movem os cientistas-viajantes, a
gente recolher todos os documentos vivos perspectiva comparativa, classificatória e
da cultura de povos considerados em via colecionista é depositária também do ro-
de extinção. mantismo que domina a estética e a lite-
Um "espírito da última hora", para usar ratura da primeira metade do século pas-
uma expressão de Baldus (1954), que sado. Mais para o final do século,
olhava para trás e via no indígena ameri- românticos e folcloristas recorrem à antro-
cano o remanescente em decadência da pologia nascente, pelas vias abertas por
infância da humanidade. "Falso evolucio- Tylor, produzindo uma analogia entre a cul-
nismo" ou "pseudo-evolucionismo" diria tura do camponês europeu e as culturas
Lévi-Strauss, para quem o evolucionismo ditas primitivas, que aproximam o "selva-
social, ao contrário do evolucionismo bio- gem" do "popular" (Ortiz 1985). Tal ana-
culo XIX, notadamente os do Xingu.
Em outro estudo (Porto Alegre 1989)
enfocamos as ações nacionalistas dos in-
telectuais brasileiros de meados do século
XIX, que se voltam para regiões longínquas
do país, organizando internamente expe-
dições semelhantes às europeias, na pre-
tensão de produzir uma "fala" científica na-
cional, assumir o lugar do "outro" e romper
o auto-silenciamento imposto pelo discurso
dominante do "velho" sobre o "novo" mun-
do. Como os processos de construção de
identidade nunca são desinteressados, esse
movimento acaba por assumir uma forte
conotação política, onde o interesse pelo
conhecimento do índio e do "povo" enco-
bre um antigo projeto das classes dominan-
tes e do Estado, de controlar a força de tra-
balho, projeto esse que se oculta sob o
manto da incorporação desses elementos
à sociedade nacional.
O tema do "outro", presente na ques-
tão da identidade nacional é também o nú-
cleo da visão do colonizador, nas viagens
exploratórias. Tao antigo quanto a desco-
berta da América, a descoberta do "outro"
chega até nós, inicialmente, pela voz dos
cronistas dos séculos XVI e XVII, espan-
tados diante da natureza e dos habitantes
da terra. No século XVIII são engenheiros,
cartógrafos e os primeiros naturalistas que
surgem, nas trilhas do iluminismo, escre-
II - A ordem do logia, como mostram estudos históricos so- vendo memórias onde procuram inven-
Mundo Natural tariar as riquezas económicas do país. Mas
bre o folclore no Brasil, repercute e reforça
o zelo preservacionista e colecionador, na é com a passagem da corte portuguesa pa-
Humanidade com a ra o Rio de Janeiro, no começo do século
extensão da medida em que a cultura popular aparece
natureza. "índios também como produto originário de um XIX, que o movimento de viajantes estran-
Puri subindo nas passado ameaçado de extinção (Cavalcanti geiros torna-se mais intenso e as expedi-
árvores". Maximilian
Wied-Newied. 1816. 1988). ções se multiplicam, cruzando o país de
Aquarela e bico-de- O propósito de "salvar" as culturas do ponta a ponta, pelo litoral e pelos sertões,
-pena. Biblioteca acolhidas e estimuladas pelo primeiro e se-
Brasiliana Robert desaparecimento dá aos museus um lugar
Bosch. Foto: particularmente relevante nesse contexto, gundo impérios.
António Rodrigues.
com repercussões internas que levam as Enquanto processo discursivo, esse
elites intelectuais brasileiras a tentar inserir- desfile de relatos se apresenta como um
-se no espírito cosmopolita e nos padrões "lugar de significação, de confrontos de
de universalidade da ciência, com a cria- sentidos, de estabelecimento de identida-
ção de três museus: Nacional, Paulista e des, de argumentação, etc" (Orlandi 1990),
Paraense Emílio Goeldi (Schwarcz 1988). onde podemos perceber a prática de uma
Mas é nos museus da Europa que se reú- violência simbólica, no confronto de rela-
nem as grandes coleções arqueológicas e ções de força que acompanham o que se
etnográficas sul-americanas, sendo o mu- conta e o que não se conta, ao longo da
seu etnográfico de Berlim o que abriga o história com a qual nos identificamos en-
mais importante acervo sobre a cultura ma- quanto brasileiros. Como bem coloca Eni
terial dos povos indígenas do Brasil no sé- Orlandi, trazendo mais uma reflexão ao re-
corrente tema das "descobertas", procura-
mos nos conhecer fazendo falar as outras
vozes que nos dão uma identidade, que
nos definem, a brasilidade produzida pela
fala do europeu, instaurando um espaço
de diferença, de separação, um lugar va-
zio de onde tentamos construir nosso lu-
gar mais "próprio" (idem: 20).
As representações vão se forjando e
penetrando a cultura brasileira, num pro-
cesso de tensão entre o universal e o par-
ticular. As missões científicas estrangeiras
deixaram sua marca também entre os con-
temporâneos literatos locais. O diálogo do
romance brasileiro dos anos 30 e 40 do sé-
culo XIX com a forma literária pictórica do
relato de viagem, seus desenhos e pran-
chas, mostra a obsessão pela origem, a
busca interminável de raízes, a tentativa de
produzir obras "brasileiras" e "originais". O
romance nutre-se abundantemente das
descrições dos viajantes, dos desenhos às
vezes paradisíacos e que, no entanto se
chocam com a dura realidade do Brasil co-
tidiano, parecendo dar aos personagens e
seus narradores uma "sensação de não es-
tar de todo presente" (Sussekind 1990).
Relato e desenho se combinam nessas
experiências para reivindicar a fórmula que
a antropologia viria a transformar no fun-
damento da autoridade etnográfica: eu es-
tive lá, observei e registrei e portanto eu realizado pelos viajantes do século XIX Paraíso Natural.
inocência, prazer
posso ser um intérprete legítimo do outro. produziu novas representações sobre o idílico.
A credibilidade do relato é reforçada Brasil, descrevendo a natureza, os tipos hu- "Caçada das araras
no Rio Grande de
pelo trabalho do desenhista, que tudo re- manos, costumes, ritos, festas, a vida co- Belmonte". "Banho
gistra pormenorizadamente. O naturalista tidiana, cenas de família, e tantos outros dos Botocudos no
é um colecionador, ao contrário do român- aspectos da cultura. Essa produção tem si- Rio Grande de
Belmonte".
tico, um contemplativo. Observação, clas- do usada como documento por historia- Maximilian Wied-
sificação, coleta. O homem selvagem co- dores e cientistas sociais, muitas vezes sem Newied. 1816.
Aquarela e bico-de-
mo prolongamento da natureza. Uma o devido questionamento de sua credibili- pena. Bib. Brasiliana
imagem do índio criada através da fusão dade e fidedignidade, não obstante a vi- Robert. Bosch,
Stuttgart. Foto:
de elementos contraditórios. De um lado são distorcida de alguns textos, seja pelas António Rodrigues.
o misterioso, o irracional, o mítico, como ideologias dominantes, pela observação
dimensão projetada de uma outra tempo- pouco criteriosa ou mesmo pelo fato de al-
ralidade, ancestral. De outro, uma nova guns autores terem sido tolhidos de uma
realidade, a do tempo presente, progres- forma ou de outra no seu trabalho (Quei-
so e racionalidade. A projeção do mundo roz 1988).
interior no exterior, onde as imagens são Os desenhos que ilustram os livros de
como reflexos de um espelho. A importân- viagem também são reproduzidos exaus-
cia da linguagem pictórica nesse processo, tivamente, nos livros didáticos, na impren-
criando padrões profundos e impondo-se sa, nos trabalhos científicos, igualmente
ao conhecimento do outro e ao auto- sem questionamentos. A fascinação do "re-
-conhecimento. gistro natural", o caráter testemunhal da
O longo percurso temporal e espacial ilustração opera, nesse caso, na constru-
ção da autoridade da mensagem discursi- ram os primeiros modelos dos homens que
va, conferindo legitimidade ao texto. O de- habitavam as terras descobertas, mas foi a
senho como denotação do real partir do trabalho do gravador Theodore
aproxima-se da fotografia e antecipa-se a de Bry, editor de um grande livro de via-
ela no relato etnográfico, submetendo o gens, em seis volumes, repleto de gravu-
texto ao olhar de quem "esteve lá" e re- ras estilizadas e fantasiosas (1593 - 1620),
Ill • Imagens da constituiu através da imagem a cultura dis- que a imagem do nativo americano pas-
diversidade tanciada. sou a povoar a imaginação do leitor
europeu.
Os pintorcs-ctnógrafos No século XVII, os artistas que acom-
Guerreiros. "Dois
botocudos com arco panharam Maurício de Nassau ao Brasil
e flecha". Maximilian Nos cantos e nas margens dos primei- (1637-1644): Frans Post, Albert van der Eck-
Wied-Neuwid. 1816. ros mapas do século XVI apareciam sím- hout e Zacharias Wagener, inauguraram
Aquarela e bico-de-
pena. Bibl. bolos. elementos isolados da cultura ma- uma representação mais exata do homem
Brasiliana Robert terial e seres humanos. As xilogravuras dos e da terra, que serviria de novo modelo vi-
Bosch, Stuttgart.
Foto: António livros de André Thévet (1556), Hans Sta- sual, até fins do século XVIII, quando sur-
Rodrigues. den (1557) e Jean de Léry (1558) fornece- gem os primeiros "pintores-viajantes".
Alguns desses novos viajantes são pre-
dominantemente artistas, outros homens
de ciência ou escritores. Alguns desenham
de preferência paisagens e a vegetação;
outros animais ou seres humanos. Um é
sobretudo naturalista; outro geólogo ou bo-
tânico, um terceiro arqueólogo e etnógra-
fo. Aqueles que por sua obra artística con-
tribuíram para o estudo da etnografia e da
arqueologia sul-americana no século XIX,
formam uma categoria denominada
"pintores-etnógrafos" (Kate 1910).
Thekla Hartmann (1975) analisa minu-
ciosamente as obras deixadas pelos
pintores-viajantes, chegando à conclusão
de que numerosos fatores interferem no
seu valor documental e histórico. Verifica,
por exemplo, que os desenhos nem sem-
pre foram feitos a partir da observação di-
reta, podendo ser fruto da descrição de ter-
ceiros ou mesmo da imaginação,
registrando-se, inclusive, o uso de um único
"manequim", marcado e adornado de di-
ferentes maneiras, de acordo com a origem
tribal. Destaca, também, as alterações e dis-
torções nos desenhos originais feitos "in lo-
co", provocadas pela reprodução litográfi-
ca produzidas nas casas editoras europeias,
que visavam embelezar e romantizar a pai-
sagem e os seres humanos retratados.
Seguindo as pistas abertas por Thekla
Hartmann, comprovamos ser extrema-
mente importante que o pesquisador te-
nha acesso aos originais das obras, pois
muitas vezes o registro objetivo apresenta-
-se inteiramente deformado nas edições
ilustradas das obras de viagem, constituin-
do versões mais distanciadas da realidade,
criando inverdades, adulterando os tipos
físicos para causar impacto entre o públi-
co europeu, problema que se agravava
com a utilização de diferentes especialis-
tas na gravação das estampas publicadas,
cada um com seu próprio estilo (Hartmann
1975: 109).
Selecionamos para análise, principal-
mente, as obras deixadas pelas expedições
de Maximilian zu Wied-Neuwied (1815-
1817), Spix e Martius (1817-1820) e Hércu-
les Florence (1825-1829), este último par-
ticipante da expedição Langsdorff, que
produziram uma iconografia de valor do-
cumental, histórico e etnográfico indiscu-
tivelmente maior do que artistas mais co-
nhecidos como Debret (1816-1831) ou
Rugendas (1821-1825).
cia, da feiúra e da periculosidade das clas- Caçadores.
"Botocudo com
ses subalternas, construindo graficamente caça: arara e
Em busca dos signos de alte- as ideias concebidas por Lavater e Gall de macaco." Maximilian
alcançar o caráter do "homem degenera- Wied-Newied. 1816.
ridade Aquarela e bico-de-
do" a partir da fisiologia e da anatomia, cu- pena. Bib. Brasiliana
Discípulo das teorias raciais de Blu- jo marco definitivo é dado por Lombroso Robert Bosch. Foto:
António Rodrigues.
membarch, da estética de Humboldt, da (idem: 44-45).
frenologia de Gall, da fisiognomonia de La- A transferência das concepções sobre
vater, o pintor-etnográfico do século XIX as classes perigosas para a representação
é um observador que classifica indivíduos do selvagem americano não constitui mais
a partir da morfologia do crânio, desenha do que um deslizamento. Esboços, croquis
corpos, sistematiza traços, investiga e cons- e desenhos se conjugam para compor o
trói a representação da identidade através mosaico vivo e ilustrado da extinção emi-
da aparência do corpo humano, buscan- nente desses seres ora "decadentes" e "gro-
do na sua superfície o sentido da interiori- tescos", ora "belos" e "inocentes".
dade invisível. As interrogações de Martius são eluci-
Trabalha sob a influência da paixão da dativas a esse respeito:
anatomia, de uma história natural que ob- "... muito há que faz supor que a hu-
serva e detalha os homens em sua morfo- manidade americana não está mais no pri-
logia e se esforça por decifrar, sob os sig- meiro passo do simples desenvolvimento
nos exteriores, as formações psíquicas, as que eu denominaria o da sua história na-
relações entre corpo e alma, definindo al- tural... o que são, pois, estes homens ver-
teridades e imaginando disparidades que melhos que habitam as densas matas bra-
lançam um novo olhar e uma nova histo- sileiras, desde o Amazonas ao Prata, ou
ricidade sobre o corpo humano, tomando que em bandos desordenados vagueiam
a forma de um distanciamento que desti- pelas campinas solitárias do território in-
na o homem moderno ao paradoxo de terior? Formam eles um povo, são eles par-
"um olhar sobre si, constituído fora de si" tes dispersas de um todo primitivo, são po-
(Courtine e Haroche 1988). vos diversos, vizinhos um do outro, ou são
O surgimento das "massas" e da de- finalmente, tribos fragmentadas, hordas e
sordem social fundamenta o antagonismo famílias de vários povos diferenciados pe-
entre um "físico popular" e um "físico bur- los costumes, pela moral e pelas línguas?
guês" expresso pelo retrato pintado, pela (Martius 1982: 11-12).
caricatura da imprensa e pela fotografia, Martius passou longos anos a sistema-
que tornam-se as testemunhas da violên- tizar estudos sobre os índios do Brasil e suas
Os rituais "Dança lação e consumo que tem sua lógica pró-
dos Tapuias". Albert pria. Nesse processo, tempo e espaço atua-
Echout. 1637-1644.
Pintura sobre tela. ram na descoberta da multiplicidade e
Museu Nacional da fragmentação da vida social, "quando a his-
Dinamarca. Foto:
António Rodrigues.
tória da arte resgata múltiplos mundos so-
terrados, quando os viajantes e os etnó-
grafos colocam em contato com o
Ocidente milhares de culturas e expressões
artísticas distintas" (Gomes 1992:45).
Agrupamos o material iconográfico co-
letado em quatro temas analíticos:
a) idealizações do bom e do mau
selvagem
indagações não diferiam das preocupações b) a ordem do mundo natural
dos contemporâneos, empenhados em en- c) imagens da diversidade
contrar respostas científicas para as espe- d) corporalidade: arquivos de identida-
culações acerca da diversidade das cultu- de?
ras e elaborar uma imagem do outro onde No primeiro, vamos desfilar, através
melhor situassem a imagem de si mesmos. das imagens, uma galeria de idealizações
Ciência e arte caminharam juntas pa- produzidas desde os primeiros séculos da
ra construir a representação do homem na descoberta do "novo mundo", que tradu-
"Festa dos Jurí".
modernidade, em que pese a "autonomia" zem o espanto, o encantamento com o es-
Spix e Martius, do campo das artes no mundo contempo- tado de natureza, visões do paraíso perdi-
1817-1820. "Atlas de râneo, no sentido empregado por Bourdieu do, dúvidas sobre a existência da alma,
viagem." Foto:
António Rodrigues. (1982), de um campo de produção, circu- fantasias sobre o canibalismo e a ferocida-
de dos habitantes da terra, cenas grotes-
cas de degradação e estupidez. Essas são
categorias classificatórias, através das quais
o pensamento ocidental constrói o mun-
do, a noção de tempo, as ideologias de na-
turalização, do bem e do mau: imagens do
bom e do mau selvagem, ideias de civili-
zação e barbárie, que perpassam a repre-
sentação do índio até nossos dias.
No segundo, percebemos que no bo-
jo dessa construção emergem novas ima-
gens, que buscam a ordem do mundo na-
tural e entendem a humanidade que vive
nas florestas tropicais como extensão da
própria natureza, retratada pela estética do
romantismo novecentista como pródiga e Diferenças
harmoniosa, plena de vida, cheia de cor Somáticas. "Decas
collectionis suae
e de luz. Através do olhar observador e da craniorum
pena minuciosa do paisagista renova-se a diversarum gentium
illustratas." Johann
ideia de um paraíso natural, repleto de ino- F. Blumenbach.
cência e prazer. 1790-1828,.
Gottingen. Foto:
No terceiro, procuramos captar como, António Rodrigues.
em meio à profusão de imagens, o retrato
do homem revela, pela primeira vez, a di-
versidade das culturas observadas. Os de-
senhos agora fogem aos estereótipos de-
formados do "índio genérico". As cenas
dramáticas da expedição mostram os cor-
pos nus adornados e pintados, as armas
e objetos de uso cotidiano, as caçadas e
a guerra, a vida em família, a dura sobre-
vivência nas selvas, o nomadismo constan-
te, os rituais, as máscaras e as festas. A co-
leta é sistematizada nos museus e os
objetos expostos mostram os traços distin-
tivos de vários povos indígenas: Botocu-
dos, Pataxó, Borôro, Purí, Mundurukú, Jú-
ri, Tukuna, Kamakã, Coeruna, Mawé,
Apiaká, entre outros.
Finalmente, no quarto grupo, é a su-
perfície do corpo que se revela como ob-
jeto central desse olhar, projeção gráfica de
uma realidade de outra ordem, distintivo
cultural da identidade indígena retratada.
O corpo e seu lugar na construção da pes-
soa. O corpo e a arte plumária como ex-
pressão estética de rara beleza. O artista
ocidental diante do artista nativo, do che-
fe, do guerreiro, da mulher, da criança. O
artista desejoso de fixar para a história do "Adornos plumários
homem, através de seu talento, esses do- Mawé." Spix e
cumentos, arquivos vivos de uma outra Martius. "Atlas de
viagem." Foto:
identidade. António Rodrigues.
As imagens do passado c o m o
arquivos de identidade

Não por acaso, o exame da iconogra-


fia indígena remete a indagações que im-
plicam em deslocar o foco de análise, das
questões abrangentes sobre o lugar do ín-
dio na sociedade nacional, para a com-
preensão das organizações tribais enquanto
totalidades.
Nessa perspectiva, e para finalizar, pro-
curei verificar como o material seleciona-
do permite perceber indícios que apontam
para a noção de pessoa, através da cor-
poralidade, que constitui um elemento cen-
tral da construção da identidade nas socie-
dades indígenas brasileiras.
Uma instigante análise sobre a cons-
trução da pessoa nas sociedades indígenas
IV • Corporalidade: brasileiras inicia-se com a observação de
arquivos de
identidade? que só muito recentemente, após a Segun-
da Guerra, o estudo das sociedades tribais
"Guerreiros Apiaka". deslocou-se de categorias abrangentes, re-
Hércules Florence.
1828. "Revista feridas à sociedade nacional de um lado
Globus." Foto: e ao índio enquanto categoria genérica de
António Rodrigues. outro, para trabalhos descritivos específicos,
"quando o foco não é mais a discussão do
lugar do índio (junto com o negro e com
o branco, na hierarquia do universo nacio-
nal), mas - isso sim - a posição daquela so-
ciedade tribal como uma realidade dota-
da de unidade " (Seeger, da Matta, Castro
1987).
Salientando as contribuições da etno-
logia dos grupos tribais brasileiros para o
campo da antropologia como um todo, os
autores desenvolvem a tese de que "a ori-
ginalidade das sociedades tribais brasilei-
ras (de modo mais amplo, sul - america-
nas) reside numa elaboração
particularmente rica da noção de pessoa,
com referência especial à corporalidade en-
quanto idioma simbólico focal" (p. 12).
As formulações de Seeger, da Matta
e Viveiros de Castro são esclarecedoras
nesse sentido:
"Ele, o corpo, afirmado ou negado,
pintado e perfurado, resguardado ou de-
"Três mulheres
vorado, tende sempre a ocupar uma posi-
Apiaka". Hércules ção central na visão que as sociedades in-
Florence. 1828. dígenas têm da natureza do ser humano.
"Revista Globus."
Foto: António Perguntar-se, assim, sobre o lugar do cor-
Rodrigues. po é iniciar uma indgação sobre as formas
de construção da pessoa" (p.13). quanto elementos de contrastividade, es-
Como mostram vários estudos (Vidal sencial à elaboração da identidade étnica
e Muller 1987, Seeger 1980, Turner 1980) e das representações que nela se configu-
os significados da pintura corporal são si- ram (Oliveira 1983).
multaneamente sociais e simbólicos. Indi- Como enfatiza o estudo de Seeger, da
cam padrões específicos de grupos de ida- Matta e Castro, sendo o corpo o locus es-
de e sexo, diferenças de status e de truturador da experiência e organização
atividades, que permitem comunicar esta- das sociedades tribais sul-americanas, ele
dos de espírito e posições na comunida- representa a arena central onde se definem
de, além de ser um elemento chave para relações e posições sociais, a partir de um
a apreensão do universo, para a comuni- "idioma de substância" : "mais importan-
cação entre os aspectos sociais e biológi- te que o grupo, como entidade simbólica,
cos da personalidade e para a compreen- aqui, é a pessoa; mais importante que o
são dos mitos. acesso à terra ou às pastagens, é aqui a re-
A linguagem simbólica da ornamenta- lação com o corpo e com os nomes" (p.
ção corporal exprime, principalmente, a 24).
concepção tribal da pessoa humana, na or- Os caminhos abertos pela antropolo-
dem social e cósmica (Vidal e Muller gia para alcançar dimensões mais profun-
1987:120). A dualidade do corpo e da pin- das da realidade reatam, na atualidade, os
tura atua, portanto, como mostrou Lévi- laços entre ciência e arte, através da ten-
-Strauss (1975), para expressar uma reali- tativa de compreender a própria criação
dade da qual o indivíduo participa, dos símbolos e sua expressão estética.
projetando-se graficamente na sociedade Difícil tarefa, que nos deixa como con-
através da pintura, que o reveste como clusão provisória a possibilidade de pen-
uma "pele social" (Turner 1980). sar as imagens do passado como "arqui-
Não só a pintura, mas também os vos de identidade". Arquivos de identidade
adornos e as máscaras, são formas plásti- construídos tanto na busca de registros co-
cas de expressão de uma experiência ao mo nas projeções de natureza simbólica,
mesmo tempo de ordem estética, social e que definem um lugar para o outro. A ima-
mítica. A via da arte pode ser bastante fe- gem especular do paraíso perdido, ou do
cunda para investigar as afirmações cons- mal domesticado, que nos remete a novas
cientes ou inconscientes das diferenças cul- indagações sobre os limites entre ciência
turais, no sentido apontado por Roberto e arte, entre expressão estética e significa-
Cardoso de Oliveira, de considerá-las en- do, entre função social e função simbólica.

Notas seguintes instituições, que me ofereceram todo o au-


xílio necessário para o desenvolvimento da pesqui-
1. Entre os pintores-viajantes que estiveram no Bra-
sa: Ibero-Amerikanisches Institut, Museum Fur Vol-
sil, no século XIX, destacam-se os alemães Wied
kerkunde, KupferstichKabit, Staatsbibliothek e
(1815-17), Ender (1817), Spix e Martius (1817-20), Baessler Archiv, pertencentes ao Preussischer Kul-
Rugendas (1821-25), Poeppig (1827-32), Planitz turbesitz de Berlim; Universitatsbibliothek de Heidel-
(1831-44), Adalberto da Prússia (1842), Burmeis- berg; Robert Bosch GmbH de Stuttgart, Staatlisches
ter (1850-52), Hagedorn (1852), Appun (1860-68), Museum Fur Volkerkunde e Alte Pinakothek de
Keller-Leuzinger (1874) e W. von den Steinen Munique.
(1886); os franceses Debret (1816-31), Adrian Tau-
nay (1616-1824), Florence (1825-29) e Biard
(1858-60); os ingleses Koster (1789-1845). Mawe Bibliografia
(1807-11), Chamberlain (1815-20), Graham
(1821-23) e Bates (1848-59) e os italianos Rad-
di(1816-18), Osculati (1847-48) e Boggiani (1898). Baldus, Herbert (1954). Bibliografia crítica da et-
nologia brasileira. São Paulo.
2. Agradeço à Profa. Dra. Re n ate Rott e ao
Lateinamerika-Institut da Universidade Livre de Ber- Barthes, Roland (1980). La chambre claire note
lim, o convite que tornou possível a realização des- sur la photographie. Paris, Gallimard.
te trabalho. Meus agradecimentos se estendem tam-
bém ao DAAD e a Capes, cujo apoio financeiro (1990). O óbvio e o obtuso. Rio de Janeiro, Nova
permitiu o estágio como bolsista na Alemanha, e às Fronteira.
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neiro, Tempo Brasileiro. ra. op. cit.
DIVERSIDADE CULTURAL DAS SOCIEDADES INDÍGENAS
Mitos c cosmologias indígenas no Brasil:
breve introdução
Aracy Lopes da Silva

Indiferenciação entre humanos e ani- habitados e controlados por seres de ou-


mais, que se relacionam como iguais; céu tra natureza, vistos, às vezes, como mo-
e terra tão próximos, que quase se tocam; mentos diversos no processo contínuo da
viagens cósmicas, homens que voam, gé- produção da vida e do mundo. No cosmos
meos primevos, incestos criadores; origens concebido, há ordem, há classificação, há
subterrâneas; dilúvios; humanidades suba- oposição lógica, há hierarquia, categorias
quáticas; caos, conquistas, transforma- inclusivas e exclusivas. Mas há também
ções... É o mundo tomando forma, defi- movimento e um jogo constante com o
nindo lugares e características de tempo, seja para suprimi-lo, permitindo aos
personagens hoje conhecidos. São os te- viventes humanos um reencontro possível
mas míticos, que narram aventuras e se- com o passado, os ancestrais, as origens,
res primordiais, em linguagem fabulosa seja para torná-lo eixo da própria existên-
mas construída com imagens concretas, cia, destinada a completar-se e a constituir-
captáveis pelos sentidos; situadas em um -se plenamente após a morte, na supera-
tempo das origens mas referidas ao pre- ção eterna das limitações da condição
sente, encerrando perspectivas de futuro humana.
e carregando experiências do passado. As- Cosmologias são teorias do mundo. Da
sim, complexos, são os mitos. ordem do mundo, do movimento no mun-
São, também, incomensuravelmente do, no espaço e no tempo, no qual a hu-
variados, já que criação original de cada manidade é apenas um dos muitos perso-
grupo com identidade cultural própria, re- nagens em cena. Definem o lugar que ela
feridos às suas condições de existência e ocupa no cenário total e expressam con-
à cosmovisão aí elaborada. Mas é igual- cepções que revelam a interdependência
mente inegável a sua condição de varia- permanente e a reciprocidade constante
ções sobre temas comuns, compartilhados nas trocas de energias e forças vitais, de
não apenas localmente mas, em alguns ca- conhecimentos, habilidades e capacidades
sos, em escala universal. Particulares e lo- que dão aos personagens a fonte de sua
cais, universais e essencialmente huma- renovação, perpetuação e criatividade.
nos... talvez resida aí uma parte do fascínio Na vivência cotidiana, essas concep-
e do mistério dos mitos. ções orientam, dão sentido, permitem in-
Em universos sócio-culturais específi- terpretar acontecimentos e ponderar deci-
cos, como aqueles constituídos por cada sões. São, de modo sintético, expressas
sociedade indígena no Brasil, os mitos se com clareza exemplar através da linguagem
articulam à vida social, aos rituais, à histó- altamente simbólica da dramaturgia dos ri-
ria, à filosofia própria do grupo, com cate- tuais. Música, gestualidade estereotipada
gorias de pensamento localmente elabo- mas sempre criadora, ornamentos corpo-
radas que resultam em maneiras peculiares rais mais ou menos exuberantes, entre ou-
de conceber a pessoa humana, o tempo, tros recursos, permitem o contato com ou-
o espaço, o cosmos. Neste plano, definem- tras dimensões cósmicas que aquela
-se os atributos da identidade pessoal e do habitualmente ocupada pelos humanos e
grupo, distintiva e exclusiva, construída pe- com momentos outros do mundo e do
lo contraste com aquilo que é definido co- processo da vida (e da morte). Nos rituais,
mo o "outro": a natureza, os mortos, os ini- as coisas efetivamente acontecem. " E ape-
migos, os espíritos... nas um ritual", diz-se, hoje, nas cidades,
Central é a definição do que seja a hu- quando se quer enfatizar o vazio das ações
manidade e de seu lugar na ordem cósmi- ou das situações ritualizadas, prescritas, for-
ca, por contraposição a outros domínios, malizadas. Ledo engano. O ritual permite
a experiência e, nela, a transformação e, das novidades são acomodadas na visão
ainda, a ação. Sai-se dele renovado, em já construída: o novo é traduzido no já co-
outra condição. Em muitas sociedades in- nhecido. Domesticado, torna-se familiar;
dígenas, o ritual é o momento mesmo da ganha um sentido instituído pela tradição;
inserção da humanidade no universo mais perde o ineditismo, graças à sua localiza-
amplo; é o lugar mesmo da confluência e ção no passado experimentado. Ganha,
da presença concomitante do sobrenatu- enfim, ares de reencontro.
ral, da natureza e da humanidade. E, por Outras novidades não têm eco na ex-
outro lado, da reafirmação dos laços de so- periência consagrada e na interpretação
lidariedade interna, da troca recíproca, da possível. Abrem caminho à força, fazem-
expressão concreta da dimensão económi- -se sentido, acomodam-se imposirivamente
ca dos ritos, através de redistribuição e par- no cenário e nos modos de conhecimen-
tilha de alimentos. to já constituídos, exigindo ampliações,
E assim que símbolos, sentimentos, transformações e originando inovações.
concepções e matérias se encontram e se São processos próprios à vida social e
mesclam no universo do mito e da cosmo- à cultura, em qualquer momento históri-
logia, permeando vida e pensamento, so- co. São mecanismos de produção de va-
ciedade e natureza, dando sentido à ex- riação e de criação culturais. Mas, no con-
periência humana no mundo. Não como texto da Conquista, ganham força nova,
ideologia que aliena, distorce e distancia, nascida da desigualdade e da dominação
mas como consciência do valor das coisas, típicas desse momento. Mitos da origem do
esquema interpretativo à disposição do su- homem branco, reflexões sobre sua huma-
jeito que conhece o mundo e age sobre ele. nidade, reavaliações do lugar dos índios no
Conhecimento e ação são movimen- mundo, registro de experiências do contato
tos constantes, processos que se acumu- na memória a ser legada, exemplarmen-
lam e se desenvolvem, seguindo o correr te, às gerações futuras...Os mitos se reafir-
do tempo: reafirmações, ajustes, transfor- mam e se transformam, dialogando com
mações, inovações. Cosmologias e seus a história.
mitos associados são produtos e são meios Talvez seja chegada a hora de ilustrar
da reflexão de um povo sobre sua vida, sua tudo isto com referências mais concretas
sociedade e sua história. Expressam con- a modos indígenas específicos de conce-
cepções e experiências. Constróem-se e ber o cosmos e de se situar nele. A tarefa
reconstróem-se ao longo do tempo, dialo- é quase impossível e demasiadamente pe-
gando com as alterações trazidas pelo fluir rigosa: é grande a complexidade das teo-
do tempo, pelo circular em novos espaços, rias indígenas; grande, a variedade de con-
pelo contracenar com novos atores. cepções e estilos. O perigo é o da
A inserção inexorável dos povos indí- generalização infundada, da simplificação
Na mitologia dos genas à sociedade nacional traz à vivên grosseira, da comparação ilegítima.
índios Desana, a cia e à reflexão novos desafios. Algumas
avó do Universo Dado o alerta, segue a ilustração, te-
Yebá Belo constrói- merária, mas feita aqui apenas como ponto
-se a si mesma a
partir de seis coisas de partida, exageradamente conciso, par-
invisíveis: Sé-Kali cial e insuficiente. Por isso, cada caso men-
(bancos), salipu cionado vem seguido da indicação biblio-
(suportes de
panelas), Kuásulu gráfica que dará a ele o seu sentido pleno.
pu (cuias). Kuásulu
verá (cuias/ipadu), Assim, entre povos da família linguís-
deneke iuhku verá tica Jê J, o cosmos é concebido como ha-
pogá kuá (pés de bitado por diferentes humanidades: a sub-
maniua, ipadu,
tapioca, cuia), terrânea, a terrestre, a subaquática, a
muhlun iuhku celeste existem desde sempre. O tempo das
(cigarros). Desenho
de Luiz Lana origens é o da indiferenciação e da desor-
coletado por Berta dem, da convivência e da interpenetração
Ribeiro, publicado daqueles domínios. Astros, como o Sol e
em "Antes o mundo
não existia". a Lua, são gémeos primordiais que vivem
Desenho de
máscaras
representando dois
entes sobrenaturais
de importância na
mitologia e nos
rituais de iniciação
dos índios Ticuna.
O sobrenatural
0'ma ou "'mãe do
vento" (à direita)
costuma ser
representado com
um pênis enorme,
com o qual derruba
as árvores na
floresta provocando
tempestades. Seu
acompanhante, o
Mawu. possui um
escudo circular de
grandes dimensões,
que usa para
movimentar o ar e
produzir o vento.
Desenho coletado
na aldeia de Belém
do Solimões, em
1979. por Jussara
Gruber.

aventuras na terra e aqui deixam o seu le- le, envólucro da pessoa; é a força vital do
gado, antes de partirem para sua morada indivíduo que se esvai, quando sua ima-
eterna. "Sua ação no mundo o transfor- gem é aprisionada ao vagar, dissociada do
ma. Também a atuação dos humanos o al- corpo que dorme ou agoniza, por paragens
tera e vai. aos poucos, dando-lhe a forma de "outros".
com que hoje se apresenta, através de um Nos mitos Jê, há referências explícitas
processo contínuo de ordenação, classifi- às atividades de subsistência e às práticas
cação, alocação dos diversos seres que sociais de modo geral. Instituições sociais
existem em seus respectivos domínios. Se- - a nomeação dos indivíduos, a guerra, o
paração, oposição e regulamentação dos xamanismo... - têm no mito descritas as
modos de convivência; descobertas, ousa- suas origens e exposta a sua essência.
dias e dissabores são experiências huma- Em vida, a pessoa se constrói por re-
nas que moldam o mundo. Xamãs transi- lações de identidade e alteridade, que es-
tam entre as muitas dimensões cósmicas, tabelece com outras pessoas, em um mo-
trazendo ensinamentos, reordenando as re- vimento típico do dualismo que constitui
lações entre a humanidade terrestre, as de- essas sociedades e suas cosmologias, vi-
mais e a natureza, com suas espécies e seus venciado aqui no plano mínimo de exis-
espíritos." Doenças, aqui como em quase tência individual. Neste plano, vê-se a pre-
todo lugar, são resultado de transgressões sença dos mecanismos lógicos e
e desequilíbrios nos modos adequados de sociológicos que dão a essas sociedades
relacionamento, de quebras de limites, de uma grande complexidade do ponto de
interpenetração indesejada ou descontro- vista de suas instituições e dos modos de
lada de dimensões do universo definidas relacionamento que estabelecem entre seus
reciprocamente como diversas. E a alma membros. "Cada aldeia, de planta circu-
da criança que lhe escapa durante o cho- lar ou semicircular, delimita e contém sim-
ro convulsivo; é o feitiço que penetra a pe- bolicamente o próprio universo e nele.
vive-se. Na morte, a ruptura quase total ção dos jovens à vida adulta e, neste con-
com os que sobrevivem, o inaugurar de texto, reafirma-se o novo por sua
uma nova existência, em um novo espa- aproximação com as origens. No momento
ço marcado por festas e relações de con- ritual, suprime-se o tempo transcorrido en-
sanguinidade. Vivem, então, afinal, a ne- tre os primórdios e o presente histórico: jo-
gação da alteridade que constituíra suas vens e ancestrais estão simbolicamente co-
vidas: encontram-se. agora, na aldeia dos locados lado a lado; o futuro se faz através
mortos, o mundo dos antepassados, o rei- de um reencontro intenso e regenerador
no da identidade mais absoluta. com o passado mais longínquo. Suprime-
Por contraste, caberia mencionar, tal- -se, no rito, o tempo para impulsioná-lo
vez, a região do Alto Rio Negro, o noroes- adiante; recria-se o espaço; bebe-se nas
te amazônico, morada de povos de língua fontes originais a força da vida.
Tukano2. No início dos tempos, antepas- Em muitas cosmologias, as relações
sados míticos criaram o mundo que, an- entre os humanos e os demais seres são
tes, não existia. Das entranhas de uma ana- pensadas através da ideia da predação, nu-
conda ancestral, que fazia o percurso do ma metáfora que simbólica e logicamente
rio, saíram, em pontos precisos daquele aproxima caça, guerra, sexo e comensali-
percurso, os antepassados primeiros de ca- dade. Ainda no Alto do Rio Negro 3, o
da um dos vários povos da região, deter- xamã parece estar encarregado de garan-
minando, assim, seus respectivos territórios, tir que fluxos e volumes de energia vital
as atribuições específicas de cada um e um compartilhada por humanos e animais
padrão hierarquizado de relacionamento mantenham-se em níveis adequados. Exa-
entre eles. geros na matança de animais deflagrariam,
Cosmos, território e maloca — a casa como contrapartida, epidemias e malefícios
comunal que abriga os moradores de um entre os homens, provocados por espíri-
grupo local — organizam-se espacialmente tos protetores dos animais. Um equilíbrio
reproduzindo, naquele mesmo padrão, um vital nas relações entre diversos domínios
modelo próprio de relacionamento social cósmicos exige uma atenção que, de ou-
baseado principalmente no parentesco e tra perspectiva, chamaríamos de "consciên-
na sucessão das gerações ao longo do tem- cia ecológica". Uma concepção
po. No ritual de Jurupari, faz-se a inicia- cosmológica que situa a humanidade co-

Detalhe do teto da
casa de recepções e
festividades dos
índios Wayana. Na
língua indígena, a
roda do teto é
designada Maruana
e nela estão
representados seres
sobrenaturais que
constituem o
cosmos Wayana.
Foto Lúcia Van
Velthem.
Nurokot, ser
sobrenatural
aquático,
representado na
roda de teto
Maruana. Kaukuxi,
ser sobrenatural
terrestre. Desenhos
de Sapotori
coletados por Lúcia
Van Velthem em
1985.

mo apenas um dos atores no mundo, e do Sul, a mesma noção básica de um cos-


não como seu senhor, exige dela conten- mos compartilhado, de co-presença coti-
ção e participação na manutenção da or- diana de dimensões diversas que se opõem
dem cósmica. e se complementam contracenando num
Em outro extremo do país, junto ao eterno diálogo. Penso nos Bakairi 4.
povo Karib mais setentrional da América Uma mesma força vital, ekuru, anima
seres humanos, plantas e animais, circu- da no final da década de 40 e primeiros
lando entre eles. Na forma possuída, car- anos da de 50 5 , passando pela cateque-
regada da identidade daquele que se se jesuítica e pelos episódios dramáticos da
utilizou dela, a força polui e é fonte de pe- Conquista, é constante a referência cen-
rigo para outrem. Caída na terra, é lavada tral a temas como a guerra, o canibalismo,
pelas águas das chuvas e rios, purificada. a vingança da morte através de novas guer-
Absorvida pelos vegetais, é neles reproces- ras e novas mortes e novas vinganças.
sada, tornada então apta para vitalizar no- Em tempos recentes, o amadurecimen-
vamente os humanos e os animais. As to teórico e metodológico da antropologia
águas trazem o viço e o vigor às plantas, como disciplina, o acúmulo de dados et-
abundância à mata, alegria aos grupos lo- nográficos relativos a sociedades indígenas
cais que, reunidos em festas, celebram sua sul-americanas e o reencontro com grupos
unidade e seu universo comum. Tupi atuais, contatados na década de 70,
O corpo e as várias almas humanas são quando da abertura da Transamazônica,
abastecidos pela dieta baseada em vege- possibilitaram novas perspectivas6.
tais e animais estritamente vegetarianos. A Uma compreensão, agora adequada,
morte, quando chega, traz a fragmentação destes povos, suas sociedades e suas cos-
da pessoa: destinos diversos são reserva- mologias revela — apesar da grande diver-
dos aos seus muitos componentes. Para o sidade existente entre elas, principalmen-
fundo dos rios dirige-se um deles, a te no plano sociológico mas também nas
perpetuar-se na sociedade de seus iguais. variações entre suas cosmovisões respec-
Mas a saudade dos vivos e da vida é gran- tivas — a centralidade da noção de tem-
de: um outro componente da pessoa ten- poralidade como eixo sobre o qual
de a rondar as casas da aldeia e as constróem-se noções fundamentais como
moradias das roças, à procura do que sa- a de pessoa e de cosmos, aliada às rela-
cie sua fome e sua sede e, nesta busca, aca- ções de alteridade que os Tupi-Guarani
bando por expor os parentes aos perigos buscam sistematicamente situar fora do do-
do contágio e da doença. A lembrança e mínio da sociedade propriamente dita, en-
o convívio com a ideia da morte são ex- carnadas nos inimigos, nos espíritos, nos
periênias diárias na apreciação e na con- animais, nos mortos, nas divindades.
dução da vida. Não há apenas oposição entre o mes-
Todo o cuidado é pouco: apesar da al- mo e o diverso: antes, há a possibilidade
ma central localizar-se no peito, almas se- da superação da oposição e da síntese dos
cundárias situam-se nas extremidades dos contrários como destino possível e dese-
membros de cada indivíduo. Gestos brus- jado da pessoa, que se completa no tem-
cos, choros prolongados e altos, irritação po e, mais do que isto, no devir7. Dentre
ou zanga demasiada, falar alto demais... os Tupi atuais, os Waiãpi8 ilustram, na Ex-
tudo pode favorecer a fuga da alma, a per- posição "índios no Brasil", o tema da cos-
da da vitalidade, do sangue, da saúde. Eco- mologia indígena.
logia, dieta, conduta individual e social, ati- Os exemplos, ainda que simplificados
vidades rituais, tudo se enfeixa e se articula e empobrecidos pela síntese parcial, ape-
em torno de uma teoria que regula as re- sar de tudo, talvez possam sugerir o que
lações entre vivos, sejam eles humanos, um exame mais detalhado certamente re-
animais ou vegetais, e entre vivos e mor- velaria: contrastes, variedade de concep-
tos, definindo o lugar e a contribuição de ções, soluções originais, únicas. Mas, ain-
cada um na constituição deste universo in- da, é possível concebê-las - às
tegrado, global e uno. mito-cosmologias indígenas no Brasil ( e
Desde há 500 anos, não-índios produ- na América do Sul tropical) - como pro-
zem registros, descrições e análises na ten- dutoras de variações sobre certos temas,
tativa de interpretação e compreensão das eleitos por essas populações como centrais
práticas sociais (incluídas, aí, as rituais) e na construção de suas sociedades, de seus
das concepções cosmológicas dos Tupi- mundos e de suas maneiras próprias de se
-Guarani. Do espanto inicial à sistematiza- relacionarem com a natureza e com o so-
ção das informações dos cronistas realiza- brenatural.
O cosmos Waiãpi é
composto por
diferentes patamares
superpostos, cuja
diferenciação
representa as
transformações
cíclicas que vêm
ocorrendo desde a
criação. No patamar
terrestre vive a
humanidade atual.
O 3º patamar deste
é a morada do
herói criador e a
aldeia dos mortos.
O desenho mostra o
caminho que o
espírito vital deve
percorrer até o céu
com a possibilidade
de dispersão dos
monstros. Desenho
de Kumai Waiãpi
coletado por
Dominique Gallois.

A recorrência de assuntos, noções, fi- por debaixo e através das variações locais,
guras e imagens nas mitologias indígenas problemáticas comuns a cuja reflexão
sul-americanas foram objeto da obra con- dedicam-se os povos cujos mitos são ana-
sagrada de C. Lévi-Strauss9, que revelou, lisados. Prolífico o simbolismo, ricas e di-
versificadas as imagens que dão concretu- cala, com menor ou maior grau de elabo-
de às noções abstratas, filosóficas, que ração, expressão ou consciência. São te-
expressam a avaliação indígena do mun- mas, como se vê, que remetem à essência
do. Simetrias, inversões, valorações anta- mesma do que significa ser humano e es-
gónicas que se alternam, homologias, al- tar no mundo. Por isto mesmo, apesar do
teração de ênfases... são mecanismos da estranhamento inicial trazido por signos
lógica do mito e, nesta medida, da lógica desconhecidos, que carregam concepções
do pensamento humano, postos em mo- inesperadas, articuladas em teorias cuja tra-
vimento para propiciar a reflexão sobre dução escapa à primeira aproximação, a
oposições como Natureza/Cultura, como comunicação é possível e não só se dá, na
Vida/Morte, como Homem/Mulher, o pesquisa e na divulgação, como também
Particular e o Geral, a Identidade e a Alte- fascina e desafia. Ideias, imagens e símbo-
ridade... los podem ser desconhecidos. Mas as
Tratam, as mitocosmologias indígenas, questões de que falam são essencialmen-
portanto, de temas com que se preocupam te humanas e, nesta medida, instigantes
todos os homens, em maior ou menor es- porque eternas e universais.

Notas
1. São falantes de línguas Jê os Xavante e Xerente 5. Fernandes, Florestan - 1963 - A Oganizaçâo So-
do Brasil Central, os vários subgrupos Kayapó (Xik- cial dos Tupinambá. Difusão Europeia do Livro.
rin, Gorotire, Mekrãnoti, etc), do Pará e do Mato São Paulo: Fernandes, Florestan - 1975 - Investi-
Grosso, e os Timbira (Krahó, Apinagé. Apaniekra. gação Etnológica no Brasil e Outros Ensaios, Vo-
Ramkokamekra, Pykobiê, Parakatejé etc), dos es- zes, Petrópolis; Métraux, Alfred - 1979 - A Religião
tados do Tocantins. Maranhão e Pará. Alguns títu- dos Tupinambás e suas Relações com as das De-
los de interesse para saber mais sobre mito e cos- mais Tribos Tupi-Guaranis. Cia. Editora Nacio-
mologia Jê são, entre outros, os seguintes: Wilbert, nal/Edusp, São Paulo.
J. e Simoneau. K. (orgs.) Folk Literature of the Gê 6. Viveiros de Castro, Eduardo - 1986 - Araweté,
Indians. UCLA Latin American Studies, vol. 44. os Deuses Canibais, Jorge Zahar Editores/AN-
1978 e vol. 58, 1984, Los Angeles; Matta, Roberto POCS, Rio de Janeiro: Carneiro da Cunha, M. e
da - 1970 - "Mito e Anti-Mito entre os Timbira" in Viveiros de Castro, E. - 1985 - "Vingança e Tem-
Mito e Linguagem Social, Tempo Brasileiro, Rio poralidade: Os Tupinambá" in Journal de la Societé
de Janeiro; Vidal. Lux - 1977 - Morte e Vida de des Americanistes. n. 71.
uma Sociedade Indígena Brasileira. Edusp/Hu-
citec, São Paulo; Giannini, Isabelle - 1991 - A Ave 7. Depois dos estudos de Viveiros de Castro, vie-
Resgatada. Dissertação de Mestrado, São Paulo, ram a público outros trabalhos, também resultantes
USP de pesquisas inéditas entre grupos Tupi atuais que
dialogam com aquele autor a partir de etnografias
2. Kumu, U.P. e Kenhíri, T - 1980 - Antes o Mun- inéditas. Entre eles estão:
do não Existia. A Mitologia Heróica dos índios Muller, Regina - 1990 - Os Asuriní do Xingu, His-
Desâna, Cultura, São Paulo; Ribeiro, Berta - 1992 tória e Arte, Ed. da Unicamp, Campinas; Gallois,
- "A Mitologia Pictórica dos Desâna", in Vidal, Lux Dominique - 1988 - O Movimento na Cosmolo-
(org.) - Grafismo Indígena, Ensaios de Antropo- gia Waiãpi: Criação, Expansão e Transformação
logia Estética. Studio Nobel/Edusp/Fapesp, São do Universo, Tese de Doutoramento. São Paulo,
Paulo; Hugh-Jones, S. - 1976 - "Como as (olhas USP; Andrade, Lúcia - 1992 -. O Corpo e o Cos-
no chão da floresta:Espaço e Tempo no Ritual Ba- mos. Relações de Género e o Sobrenatural entre
rasana", Mimeo. os Asuriní do Tocantins. Dissertação de Mestrado,
São Paulo, USP.
3. Reichel-Dolmatoff. G. - 1976 - "Cosmology as
ecological analysis: a view from the rain forest" in 8. Ver também sobre os Waiãpi Gallois, Dominique
- 1986 Migração, Guerra e Comércio: os Waiã-
Man n.s. vol. II, number 3, Sept.
pi na Guiana, FFLCH/USP. Coleção Antropologia.
São Paulo.
4. Pina de Barros, E. - 1992 - História, Sociedade
e Cosmologia de um Grupo Karíb: os Bakairí, Te- 9. Lévi-Strauss, Claude - 1964, 1967, 1968, 1971
se de Doutoramento, São Paulo, USP Mythologiques, 4 volumes, Plon, Paris.
Arte indígena:
referentes sociais e cosmológicos
Lúcia Hussak uan Velthem

A Natureza é um templo onde vivos pilares Sobre a definição de arte se debruça-


Deixam filtrar não raro insólitos enredos; ram não apenas poetas, mas também filó-
O homem os cruza em meio a um bosque sofos, sociólogos, artistas, historiadores, an-
de segredos tropólogos, visto que a compreensão de
Que ali o espreitam com seus olhos fami- sua natureza representa um dos problemas
liares. mais tradicionais da cultura humana.
A estética filosófica enfatiza que a arte
Como ecos longos que à distância se representa uma função universal, essencial
matizam ao género humano. Essa opinião é com-
Numa vertiginosa e lúgubre unidade, partilhada por diversos antropólogos ao
Tao vasta quanto a noite e a claridade, sustentarem que a "arte é um fenómeno
Os sons, as cores e os perfumes se har- universal que afeta todas as pessoas, to-
monizam. das as sociedades e todas as culturas" (Al-
cina 1982:15). Entretanto, como a arte é, na
Há aromas frescos como a carne dos in- realidade, muito mais um conceito do que
fantes, um fenómeno, ela não é homogeneamen-
Doces como o oboé, verdes como a te compreendida pelas diferentes culturas.
campina, A arte que é encarada como repositó-
E os outros, já dissolutos, ricos e triun- rio de sensações estéticas desligadas do
fantes, contexto, a utopia da "arte pela arte" re-
presenta um item da taxonomia intelectual
Com a fluidez daquilo que jamais termina, do ocidente e assim corresponde a uma
Como o almíscar, o incenso e as resinas criação cultural e de classe, historicamen-
do Oriente te determinada, que se submete a modifi-
Que a glória exaltam dos sentidos e da cações a partir das avaliações da socieda-
mente. de que as engendra (Cf. Lauer, 1983).
(Baudelaire, As Flores do Mal) Entretanto, nas sociedades indígenas, a arte
não é compreendida sob uma perspectiva
Neste soneto, o poeta francês propo- completamente intraestética, pois perten-
ria, segundo Schiwmmer (1989:8), o equi- ce ao mesmo contexto de outras expres-
valente a um discurso antropológico sobre sões dos objetivos humanos (Cf. Geertz,
arte. A primeira quadra introduziria aos 1986). Como evocaram Baudelaire e tam-
"signos convencionais" retirados da natu- bém Levi-Strauss, o objeto estético é inte-
reza, mas que integram a cultura, um mun- ligível justamente pelas correspondências,
do familiar onde o homem evolui. Na se- pelas analogias entre seus diferentes
gunda, Baudelaire ultrapassaria este domínios1.
mundo de aparências porque procuraria O estudo antropológico da arte indí-
uma unidade mais profunda na qual os gena busca o significado e a significância
sentidos (cores, perfumes, sons) se comu- desta para os membros da sociedade es-
nicariam. No detalhamento das fragrâncias, tudada, uma vez que o objeto artístico não
compreendemos, enfim, que o poeta acre- possui significado se fracionado, mas ape-
dita nas "correspondências" dos sistemas nas como totalidade, como enfatizou Mu-
simbólicos, o "bosque dos segredos", que karovsky na década de 30 (Cf. Schwim-
sugerem a sua compreensão sobre estéti- mer, 1986). O discurso antropológico sobre
ca e arte: a "exaltação dos sentidos e da arte não é portanto somente técnico, mas
mente"... está orientado para se situar no contexto
ções artísticas considerando sempre que,
nestas sociedades, a arte serve sobretudo
para ordenar e definir o universo, uma vez
que é parte integrante da função cogniti-
va global como escreveu Geertz (1986:124).
Muito embora essas ideias sejam ago-
ra moeda corrente entre os académicos, as-
sim como se constata que a opinião públi-
ca reconhece na arte indígena um
poderoso veículo de expressão de identi-
dade e afirmação étnica, é forçoso lembrar
que nem sempre foi assim. Regressemos
ao passado para delinearmos sumariamen-
te essa trajetória.

Recolhendo troféus:
o ocidente e os artefatos in-
dígenas
O recolhimento de objetos manufatu-
rados das culturas ameríndias teve início
com a descoberta do Novo Mundo.
tornando-se conhecidos na Europa tam-
bém por meio das crónicas orais e escri-
tas, gravuras e desenhos. Eram apreciados,
na época, muito mais por seu exotismo e
pela raridade dos materiais constituintes do
que por suas qualidades artísticas. Integra-
vam os "gabinetes de curiosidades", pre-
cursores dos atuais museus nos quais eram
ladeados por materiais heterogéneos: ani-
mais empalhados, pedras, conchas, madei-
ras (Cf. Ribeiro e van Velthem, 1992).
Da segunda metade do século XVIII
índio Wayana trança de outras expressões humanas, comparti- até fins do século XIX, viajantes e natura-
um cesto poraxi. listas europeus percorreram as Américas re-
Foto Lúcia Van lhando de um modelo de experiência co-
Velthen. letiva. Ademais, a capacidade de contex- colhendo elementos da fauna, flora, mine-
tualizar a arte, de lhe conferir significação rais, objetivando sobretudo o estabeleci-
cultural é sempre um assunto pertinente à mento de sua taxonomia. Paralelamente
cultura onde está inserida. Em outros ter- coletavam artefatos indígenas, posterior-
mos, os métodos de uma arte e o senti- mente conduzidos para a Europa e depo-
mento que a anima são inseparáveis, não sitados em instituições públicas onde eram
se podendo compreender os objetos esté- inseridos no universo intelectual do
ticos como um encadeamento de formas, ocidente.
mas sim como mecanismo cognitivo que O colecionismo do século XIX tinha
reflete a visão e o sentido conferido pelos como objetivos principais evitar a perda,
membros de uma sociedade específica (Cf. não apenas das culturas indígenas, com-
Geertz, 1986). preendidas na época como fadadas à ex-
A abordagem desse tema nas culturas tinção, como também do que esses arte-
indígenas não se restringe, portanto, às es- fatos poderiam testemunhar a respeito da
truturas, mas engloba os processos sócio- origem e da evolução do homem. O valor
-culturais que moldam a produção, o uso, atribuído aos objetos era essencialmente li-
o significado e a categorização das produ- gado à sua capacidade de informar a res-
peito de estágios primitivos da cultura hu-
mana, assim como de um passado comum
que confirmasse a superioridade europeia
(Cf. Clifford, 1988). Neste sentido, esse co-
lecionismo, que se estendeu até princípios
do século XX, reproduziu em sua dinâmi-
ca tanto a história do contato entre índios
e brancos como a história da ciência an-
tropológica e, em parte, a história do gos-
to estético vigente (Cf. Dominguez, 1986).
Ademais, esse sistemático despojo do pa-
trimónio cultural de povos não europeus,
configurava uma captura de herança alheia
a qual, nas palavras de Foot Hardman
(1988:61) poderia ser classificada como
"presas de conquista" denunciando a vo-
racidade hegemónica do ocidente.
A diversidade e a importância das pro- bém coletados e trazidos por viajantes e et- índio Wayana
duções artísticas fascina a comunidade nólogos e acumulados sob categorias que costura as bordas de
um cesto poraxi.
científica desde o surgimento da antropo- consideravam sobretudo a técnica e a for- Foto Lúcia Van
logia, caminhando paralela ao seu desen- ma, relegando a segundo plano as mani- Velthen.
volvimento. Nos primeiros estudos dedica- festações estéticas enquanto meio de in-
dos a esse assunto, os esforços interpre- formação sobre as sociedades criadoras
tativos e classificatórios eram centralizados (Cf. d'Azevedo, 1983).
em objetos encontrados em museus ou re- Anos depois o antropólogo Franz Boas
tirados de escavações arqueológicas. O conectou os objetos inanimados ao mun-
principal interesse académico ligava-se ao do dos viventes, a partir de sua inserção
campo dos inanimados. Contos, trechos de no contexto cultural. Representando uma
música ou descrições de danças eram tam- posição revitalizadora, Boas descreve co-

Conjunto de cestos
prontos e em
confecção
depositados num
canto de uma casa
Wayana. Foto Lúcia
Van Velthen.
mo a arte dos povos da costa noroeste dos a realidade que estas vivenciam. A expres-
Estados Unidos representam "emoções que são "etnoarte" seria, de acordo com Silver
não são estimuladas unicamente pela for- (1979:268) a mais apropriada, pois faz re-
ma, mas resultam também de estreitas as- ferência tanto a uma tradição plástica es-
sociações que existem entre esta e as ideias pecífica como pressupõe a contextualiza-
possuídas pelos artistas nativos" (Boas, ção sócio-cultural da arte ao considerar os
1955:88). Estabelecia assim as bases dos verdadeiros propósitos de seus produtores.
modernos estudos de antropologia da es-
tética. Procurando mostrar a grande impor-
A "antropologia da estética"2 é o ra- tância da função estética nestas socieda-
mo da ciência antropológica que estuda as des, as principais contribuições da antro-
produções artísticas dos povos indígenas. pologia da estética versaram sobre as
Muitos termos foram cunhados para desig- chamadas artes visuais. Esses estudos re-
nar estas e outras produções artísticas não- velaram que a etnoarte materializa um mo-
-ocidentais: "arte primitiva", "arte tribal", do de experiência que se manifesta visual-
"arte tradicional", "arte nativa", "arte índia". mente, sobretudo através da decoração
Representam definições insatisfatórias pois corporal e do sistema dos objetos, os quais
pressupõem julgamentos de valores que permitem aos membros da sociedade cria-
estabelecem distinções entre produções so- dora olhá-los e se olharem (Cf. Geertz,
Motivos ukuktop: fisticadas e toscas; são igualmente restriti- 1986). Neste enfoque, a arte serve de meio
a) Kotkotoró uputpc
- a cabeça da vas pois sugerem tradições plásticas subal- para o armazenamento e a transmissão de
cigarra primordial ternas, oriundas de minorias que operam informações, no que se compararia aos li-
b) Walamú ictpc • o à margem das culturas dominantes, uma vros (Otten 1971: XIV) e conclui, maiori-
espinhaço do
mussum primordial. tese de difícil sustentação no confronto com tariamente, que a estética permite, conco-
mitantemente, refletir e reforçar a estrutura
social. Sobre este aspecto, uma acurada e
sensível análise foi feita por Vidal (1992)
a respeito da arte e da vida dos Xikrin do
sul do Pará.
Os estudos sobre a estética corporal
(pintura e decoração, máscaras) compreen- Motivos mirikut:
a) Pakirá etukukpe
dem a temática mais estudada até o pre- as marcas do porco
sente, uma vez que é neste domínio esté- inserido em seu contexto sócio-cultural. A caitetu primordial.
fuçando a terra.
tico que mais facilmente sobressaem criação estética é analisada como uma per- atrás de raízes de
aspectos cognitivos importantes, como a formance, reveladora de aspectos indivi- arumã.
noção de pessoa. Outro item específico en- duais e sociais. Outro ponto importante é b) Wama mit - a raiz
do arumã primordial
volve os objetos e a estética. Enfatizando o estudo da estética no contexto de trans-
sobretudo as representações simbólicas que formação social, acarretado pelos conta-
buscam conectar diferentes categorias ar- tos inter-étnicos. A assim chamada "esté-
tesanais (notadamente plumária, cestaria tica da mudança" (Cf. Graburn, 1976)
e cerâmica) aos sistemas de cognição in- deve ser enfocada como uma forma de re-
dígena. A maioria desses estudos elabora tórica, um legítimo mecanismo de atuação
suas análises a partir da iconografia deco- através do qual os grupos indígenas podem
rativa dos artefatos, a qual se revela um redefinir a sua própria cultura e resistir so-
campo privilegiado para a visualização de cial e politicamente aos impactos sofridos.
sistemas representativos, notadamente de
identidade étnica, de construção de mun- As representações visuais compreen-
do e das relações sociais. Estes aspectos dem invariavelmente um exercício contem-
foram analisados brilhantemente por Guss plativo. No caso das sociedades indígenas.
(1989), a partir da arte e da tradição oral esse exercício representa igualmente uma
Yekuana. forma de conhecimento (Maquet,
1979:93), pois através da arte são trans-
A antropologia da estética ocupa-se mitidas referências sobre a vida em socie-
ainda da criatividade individual, ou seja, dade: o sexo. a idade, o grau de parentes-
o estudo do indivíduo através da sua ela- co, a filiação clânica, a metade exogâmica
boração cognitiva e inventividade pessoal, de seus membros e também noções acer-
ca do mundo não social: a natureza e a so- Na estreita vinculação da arte com a
brenatureza. Entretanto, como salienta Ba- cosmologia, as representações iconográfi-
xandall (1981:10) cada indivíduo traduz as cas se tornam não apenas um meio de co-
informações transmitidas pelo olhar com municação privilegiado como um mundo
um "equipamento" diferente. Esta percep- sobrenatural, mas instrumentalizam igual-
ção depende de vários aspectos, em par- mente essa realidade que é diversa da vi-
ticular do contexto da configuração, assim da cotidiana, tornando a arte um elemen-
como das capacidades interpretativas, de to fundamental para a valorização e
categorias, de modelos e de hábitos de de- identidade das sociedades indígenas, co-
dução e de analogia, enfim do estilo cog- mo se constatará quando enfocarmos a de-
nitivo individual que possui raízes sociais coração da cestaria Wayana.
e que fazem com que cada grupo indíge-
na tenha desenvolvido o que se poderia
chamar de estilo próprio.
Tecendo tramas sociais e cos-
Para a produção artística indígena, Vi-
dal e Silva (1992:286-7) informam que é mológicas:
possível detectar dois enfoques principais. cestaria M u n d u r u k ú e Wayana
Diversas culturas privilegiam conceitos e re-
presentações mais especificamente ligadas A arte do trançado é uma das mais an-
às relações estabelecidas entre indivíduos tigas manufaturas que a humanidade co-
e grupos em sociedade, ao passo que ou- nhece e representa a mais diversificada das
tras optam por representar entidades so- categorias artesanais indígenas ao revelar
brenaturais e conceitos cosmológicos mais adaptações ecológicas e expressões cultu-
amplos. rais distintas. Em sua elaboração, empre-
Nas sociedades indígenas a arte é um ga grande variedade de matérias-primas de
elemento que perpassa todas as suas es- origem vegetal que resulta em múltiplas
Motivos da metade
"vermelha" feras. O artista é antes de tudo um arte- formas e técnicas de entrançamento. São
1 - Clã Kabá. uma são e seu conhecimento está ao alcance igualmente variados os padrões decorati-
espécie de de todos assim como o resultado de seu vos que ornamentam os trançados dos Tu-
passarinho não
identificado. ofício, pois confecciona coisas que desem- kano. dos Baniwa, dos Timbira, dos Kaya-
2 - Clã Knepú. o penham um papel pragmático na vida co- bi, dos Mundurukú, dos Apalai, dos
pássaro japu.
3 - Clã Kurú, o munitária. Entretanto, sobretudo através da Yekuana e dos Wayana, as quais atuam co-
pássaro coroca. decoração, esses mesmos objetos podem mo veículo para a transmissão de mensa-
4 - Clã Pãnhú, o clarificar para os membros desta comuni- gens de ordem cosmológica ou social.
pássaro "mãe da
Lua". dade, as intrincadas e abstratas noções do Os Mundurukú, povo de língua Tupi
5 - Clã Saú, a código social, como se procurará delinear do sul do Pará, são renomados pela ativi-
formiga saúva. dade guerreira e pela plumária, esta osten-
6 - Clã Warú. a a respeito da decoração dos trançados
arvore ucuuba. Mundurukú. tada num passado recente. Na
atualidade3, os homens continuam exer- vos são genericamente designados como
cendo sua maestria em outras esferas ar- kuráp, "desenho, pintura" e informam so-
tesanais entre as quais a cestaria. Empre- bre a clã patrilinear4 ao qual pertence o
gam em sua confecção cipós, arumã e artista. A alça é feita pelas mulheres, de en-
folhas fechadas de palmeiras sobretudo do trecasca branca ou vermelha. Essa cor in-
tucumã (Astrocarium sp), confeccionando dica a metade exogâmica à qual a mulher
objetos cotidianos, utilizados no processa- pertence: ipakpõkánye, "vermelhos" ou iri-
mento da mandioca, no transporte e ar- tiánye, "brancos". Essas metades regulam
mazenamento dos mais diversos elemen- os casamentos e compartilham caracterís-
tos. ticas de reciprocidade, rivalidade e outros
Um dos mais importantes trançados é aspectos antitéticos (Murphy, 1960:72). O
o cesto cargueiro itiú. Confeccionado com itiú de alça vermelha informa, portanto,
palha de tucumã, recebe reforço de cor- que a dona pertence à metade "vermelha"
déis de caroá e alça de envira. Confeccio- e concomitantemente esclarece que seu
nado pelo homem e oferecido à esposa ou marido pertence à metade "branca", con-
filha solteira, é usado no transporte de pro- firmada pela pintura do cesto.
dutos da roça, de lenha, de frutos silves- Sugerimos que a organização social
tres, dos apetrechos familiares em viagem. Mundurukú reflete-se através desse tran-
E um elemento imprescindível na vida co- çado, pois este representa a recapitulação
tidiana Mundurukú na qual preenche ou- do todo, a síntese da organização social.
tra função, pois veicula, esteticamente, Entre os componentes do itiú, matérias-
mensagens sobre a organização social. -primas, decoração, coloração da alça,
Todos os itiú são semelhantes, o que ocorre um contínuo e perfeito entrosamen-
os diferencia são os motivos decorativos e to que expressa essa realidade.
a alça de sustentação. Esses dois elemen- Algo semelhante pode ser afirmado
tos se complementam e informam sobre o para a cestaria Wayana pois em cada ele-
lugar que ocupa, na sociedade Munduru- mento do seu repertório há igualmente
kú, o confeccionador e a usuária do ces- uma vontade de síntese, não tanto da or-
to. O itiú converte-se num painel que per- ganização social mas sim da ordenação
mite visualizar e identificar a estrutura da cosmológica. Os trançados representam
família nuclear no seio da sociedade indí- um prisma através do qual as concepções
gena, assim como particularizar a posse fe- Wayana a respeito da formação e consti-
minina desse cesto cargueiro. tuição do universo podem ser refletidas e
O motivos decorativos são aplicados compreendidas pelos membros dessa so-
pelos homens na face externa do cesto ciedade.
pronto. Utilizam atualmente pigmentos ver- Os Wayana, povo de língua Carib do
melhos à base de urucú e tracejam o mo- norte do Pará, são conhecidos, assim co-
tivo com a ponta dos dedos. Esses moti- mo outros grupos de língua Carib, pela re-
quintada cestaria. Os homens Wayana uti- ção da decoração ou dos seres destes Cesto cargueiro
Katari Anon de
lizam principalmente talas de arumã tempos. confecção masculina
(Ischnosiphon sp), mas igualmente folhas No cesto cargueiro os elementos de- e utilização
fechadas de palmeiras e tiras de cipó com exclusivamente
corativos se apresentam em vulto, ukuk- feminina. É a mais
as quais confeccionam, para uso domésti- top, "imagem" ou em uma dimensão, os difícil peça de
co e venda, dezenas de artefatos diferen- mirikut, "pintura, motivo". A primeira for- cestaria a ser
confeccionada
tes 5. Em seu acervo encontram-se instru- ma decorativa reproduz elementos anató- devido a
mentos para o processamento da micos de alguns seres primordiais, multiplicidade de
arremates
mandioca brava, recipientes para armaze- identificando-os e a segunda, as pinturas necessários. Foto:
namento, sobretudo do algodão e da plu- corporais da anaconda sobrenatural, de cu- Rómulo
Fialdini/Banco
mária, cestos cargueiros para transporte, ja pele os motivos foram extraídos nos tem- SAFRA.
suportes para adornos plumários (Cf. van pos primevos. Em contraposição às "ima-
Velthem, 1984). gens", as "pinturas" possuem duplo
Um dos mais requintados objetos de referencial, pois além de reproduzir a pele
cestaria é o katari anon, o "cesto carguei- da anaconda e assim identificá-la, concre-
ro pintado". Feito de arumã, cipó, varetas tizam outros seres sobrenaturais e primor-
e amarrações de caroá e algodão é usado diais, igualmente importantes na constru-
pela esposa do artesão para o transporte, ção da cosmologia Wayana. Nesta
em viagens, de redes e outras alfaias, mas perspectiva, o poder do sistema decorati-
na aldeia acondiciona os beijús. Esse ar- vo adviria não tanto do seu significado, mas Cesto Cargueiro
tefato é considerado como a mais laborio- sobretudo da sua capacidade em expressá- itiu de confecção
-lo visualmente no que complementaria as exclusiva masculina
sa peça de cestaria do repertório Wayana, e atualmente usado
tanto pela complexidade da decoração co- descrições orais e tornando-se um elemen- por ambos os sexos.
mo devido a multiplicidade dos arremates. to fundamental para os Wayana. Foto: Rómulo
Fialdini/Banco
Constitui-se assim em um indicador de vir- Entre muitas artes, a arte do trançado Safra.
Motivos da metade tuosismo artesanal masculino que se evi- oculta combates cósmicos dos quais o be-
"branco"
7- Clã Burun. o dencia nas visitas realizadas a outras nefício, os humanos recolhem ao final: os
algodoeiro. aldeias. objetos insdispensáveis à sua vida cotidia- os seus conhecimentos, sua condição so lógica. Ademais, como intérprete fiel, a de-
8 - Clã Datié. a ave
gavião real Um artefato trançado é sobretudo va- na, à sua identidade individual e grupai. ciai, as representações matafísicas. Atravéí coração expressa, visualmente, a
9 - Clã Hakai. o lorizado pela sua decoração. No katari Entretanto, recolher não é o mesmo dos objetos revela a dinâmica de um pro- identidade dos povos que a criaram.
taperebazeiro. anon a decoração é sobremodo elabora- que receber e os bens não são adquiridos cesso que envolve a cultura, a natureza e Assim, os objetos, até mesmo depois
10 - Clã Ikupí. a
vespa tapiú. da, congregando múltiplos meios de ex- sem esforço pessoal e coletivo. A posse não a sobrenatureza e os elementos associados de arrancados de seu meio e colocados sob
11 - Clã Iutú. uma pressão que operam em conjunto. A nível significa tampouco a manutenção e, para à estas esferas: técnicas, matérias-primas o reflexo das vitrines emitem ecos de sua
árvore não plástico encontram-se diferentes técnicas que esta seja garantida e o produto final e decoração. Neste processo, a decoraçãc
identificada. origem. Ecos que podem se tornar uma via
12 - Clã Krixí. a decorativas que instrumentalizam diferen- resulte perfeito e eficiente, é necessário que se destaca, pois é por seu intermédio que que nos conduza a uma reflexão a respei-
seringueira. tes formas de reintrodução dos tempos pri- o artista lute diariamente com o processo os artefatos recebem tanto o reconheci- to de nossas próprias relações para com as
13 - Clã Kurap. o
peixe piaba. mevos na vida Wayana atual: a reprodu- de confecção através dos quais transmite mento social como a significação cosmo- comunidades indígenas.
Notas Graburn, Nelson (Ed) - 1976 - Ethnic and tourist
arts. Cultural expressions from the fourth
1. Charbonnier, 1961:72 world, Berkeley, Univ. of Califórnia Press.

2. Pode ser igualmente referida como antropologia Guss, D. -1989 - To weave and sing. Art, symbol,
estética ou antropologia da arte (Cf. Silver, 1979; and narrative in the South American rain fo-
Flores, 1985; Vidal, 1992). rest, Berkeley, Univ. Califórnia Press.

3. A pesquisa de campo entre os Mundurukú foi rea- Hardman. F - 1988 - Trem fantasma. A moderni-
lizada em 1973-1974, no rio Cururú, Estado do dade na selva. São Paulo, Companhia das
Pará. Letras.

4. Os Mundurukú possuíam, na década de 70, trinta Lauer. M. - 1983 - Crítica do artesanato. Plástica
e nove clãs. Cf. Murphy, 1960 para outros detalhes e sociedade nos Andes Peruanos, São Paulo,
sobre esses aspectos. Ed. Nobel.

5. A pesquisa entre os Wayana se desenvolve des- Maquet, J. - 1979 - Introduction to aesthetic anth-
de 1975 e até 1984 tinham sido levantados 42 ti- ropology, Malibu, Undena Publications.
pos de trançados.
Murphy. R. - 1960 - Headhunter's heritage. So-
Bibliografia cial and economic change among the Mun-
durukú indians, Berkeley, Univ. Califórnia
Alcina Franch, J. - 1982 - Arte y antropologia. Ma- Press.
drid, Alianza Editorial.
Otten. Charlotte - 1971 - Anthropology and art.
Baxandall, M. - 1981 - "LOeil du Quattrocento" in Readings in cross-cultural aesthetics, Aus-
Actes de la Recherche en Sciences Sociales. tin, Univ. Texas Press.
n.40, págs. 9-48.
Ribeiro, B. & Van Velthem - 1992 - "Coleções et-
Baudelaire, Ch. - 1985 - As flores do mal. Tradu- nográficas: documentos materiais para a história
ção e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janei- indígena e a etnologia" in Carneiro da Cunha,
ro, Nova Fronteira. Manuela (coord) - História dos índios no Bra-
sil, Cia. das Letras/Fapesp/SMC.
Boas, F. - 1955 - Primitive Art, New York, Dover
Publications. Schwimmer, E. (Ed.) -1986 - "Correspondences: Ia
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Charbonnier, G.- 1961 - Entretiens avec Lévi- Anthropologie et societés, 10 (3): 1-10.
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Línguas indígenas no Brasil
contemporâneo

Ruth Maria Fonini Montserrat

Virou lugar comum se dizer que hoje ta" (Rodrigues, 1986, p. 10).
no Brasil são faladas mais ou menos 170 Se um maior conhecimento científico
línguas por mais ou menos 200 povos que sobre as línguas indígenas no Brasil é in-
formam uma população indígena minori- dispensável para se poder dizer quantas e
tária de mais ou menos 250 mil pessoas. quais são elas e quantos e quais são os po-
Cifras corretas? Mais ou menos. Ob- vos que as falam, seu valor não se esgota
ter cálculos mais exatos sobre a população com tal "utilidade", e muito menos seu sig-
total, embora sempre provisórios, é coisa nificado. Em primeiro lugar, há uma atra-
relativamente fácil de se fazer. Não ocorre ção irresistível da espécie humana em di-
o mesmo com as duas primeiras variáveis: reção ao conhecimento e à criação de
é complexo e polémico decidir se as ex- sistemas simbólicos e teorias explicativas
pressões linguísticas utilizadas por duas co- para tudo quanto esteja à sua volta, no es-
munidades humanas geograficamente se- paço e no tempo. E depois, porque o co-
paradas integram duas línguas diferentes, nhecimento cada vez maior do presente,
de dois povos idem, ou dois dialetos de em todas suas manifestações, permite fa-
uma mesma língua e, portanto (?), de um zer inferências sobre o passado e planejar
mesmo povo. ações visando melhorar a vida e tornar
Para que isso possa ser feito de forma mais felizes as pessoas que habitam o atual
mais segura, é necessário árduo trabalho "presente".
prévio de levantamento, registro e análise O que se pode aprender sobre o pas-
das manifestações linguísticas das distintas sado e o presente do território brasileiro e
comunidades indígenas, ora presentes em de suas populações por meio de um maior
território brasileiro. conhecimento das línguas indígenas atual-
É imprescindível também o concurso mente existentes? Nas palavras de Urban
de outras fontes de informação sobre tais (1992: 87-90), "podemos formular hipó-
populações, oriundas da antropologia, da teses sobre a localização dos povos indí-
geografia, do estudo das migrações, da his- genas em diversos momentos do passado
tória; etc. ... Podemos testar modelos de seqúencia-
É fundamental, enfim, que haja gente mento cultural histórico que situam a lin-
interessada em fazer isso, com recursos su- guagem e a comunicação em relação às
ficientes para fazê-lo, o que implica a exis- forças materiais, económicas e políticas ...
tência de centros de pesquisa e de uma po- Os métodos linguísticos também nos for-
lítica institucional de valorização das necem alguns dados quanto à distribuição
características multi-étnicas e multi-culturais espacial. Situando-se as línguas historica-
do país. De qualquer forma, "o conheci- mente relacionadas num mapa, pode-se
mento que pouco a pouco vamos tendo desenvolver hipóteses quanto à localização
das línguas indígenas e de suas caraterísti- das línguas no passado remoto e às migra
cas resulta da contribuição de muita gen- ções que levaram à sua atual distribuição
te. Linguistas, antropólogos, naturalistas, ... O método comparativo permite recons-
missionários têm contribuído para esse co- truir muitas das palavras que faziam parte
nhecimento, e sobretudo índios que falam do vocabulário de línguas faladas há 2 mil
as diversas línguas, os quais têm sido os anos, ou até antes ... Com trabalho sufi-
colaboradores essenciais de todos os lin- ciente, poderíamos reconstruir as palavras
guistas e antropólogos e de quem quer para plantas e animais, o que nos permiti-
que, bem ou mal, faça as vezes do linguis- ria saber algo sobre o meio ambiente em
que a protolíngua floresceu. Poderíamos para a fase comum. Há limites nesse re-
reconstruir aspectos do parentesco, orga- cuo temporal, no entanto, uma vez que lín-
nização social e vida política, como foi fei- guas são realidades dinâmicas, em cons-
to em relação às línguas indo-européias". tante mutação, e os elementos necessários
Dispondo-se, então, de dados suficien- para se estabelecer uma origem comum
tes e confiáveis sobre as línguas atuais, e vão-se tornando cada vez mais opacos e
aplicando-se técnicas. linguísticas adequa- impermeáveis à análise, à medida que elas
das de descrição, comparação e reconstru- vão se afastando no tempo.
ção, pode-se estabelecer com relativa se- Quando se dispõe de documentação
Os falantes das gurança se há ou houve relações históricas, escrita sobre alguma língua, crescem as
línguas do tronco e de que natureza, entre os povos que as possibilidades de se estabelecer relações.
Macro-Jê estão utilizam. Diz-se, de línguas estabelecidas
concentrados entre ela e outras línguas atuais. A situa-
principalmente na como tendo origem comum numa comu- ção mais favorável é aquela em que não
parte oriental e nidade humana única, que elas são gene- só se dispõe de documentação histórica so-
central do planalto
brasileiro. Mulher ticamente relacionadas, ou simplesmente bre línguas que se revelam parentes como
Xerente falante de parentes. Fala-se de línguas-mães e de se dispõe de seus "descendentes" contem-
uma língua da línguas-filhas, de famílias, de troncos e de
família Akwén. Foto porâneos. A mais desfavorável, ao contrá-
Cristina Ávila/CIMI. filos, com recuo cada vez maior no tempo rio, é aquela em que não há documenta-
ção escrita para épocas mais recuadas. E
o caso das línguas indígenas brasileiras. So-
mente sobre três línguas, o Tupinambá ou
Tupi Antigo (falado em toda a costa do
Brasil quando da chegada dos portugue-
ses aqui), o Guarani Antigo e o Kiriri, dis-
pomos de documentos dos séculos XVI e
XVII. O descendente direto do Tupinam-
bá - Nheengatú ou Língua Geral do Ama-
zonas - ainda existe, embora de forma mui-
to alterada. O Guarani atual inclui três
dialetos (línguas?) distintos: Mbyá. Kaiwá
e Nhandéva. O Kiriri é língua extinta e seus
últimos descendentes, no norte da Bahia,
só falam português.
No mundo, o grupo de línguas mais in-
tensamente documentado e conhecido é
o assim chamado tronco Indo-europeu,
subdividido em várias famílias ou ramos,
que se estendem por quase toda a Euro-
pa, parte da Ásia - particularmente o Irã
e parte da índia, além, desde a idade mo-
derna, das Américas, Austrália e parte da
África. O Indo-europeu é integrado pelas
línguas indicas, irânicas, bálticas, eslavas,
celtas, itálicas, anatólicas, germânicas,e in-
clui também línguas como o grego, o al-
banês, o arménio, o tocário. Aí está o nosso
português atual, como descendente do la-
tim (família itálica ou românica). Para al-
gumas das línguas que o integram dispõe-
-se de documentação antiga de dois, três,
até cinco mil anos, época provável da exis-
tência da língua ancestral, o proto-indo-
-europeu.
Os estudos e conclusões sobre o Indo- Falantes de línguas
da família Tupi-
-europeu podem constituir, então, por Guarani se
comparação, fonte indireta para o estabe- distribuem por
vários países da
lecimento de relações entre línguas que América do Sul
não dispõem de registros históricos recua- como Colômbia.
dos, como as brasileiras. Assim, "se as lín- Peru, Bolívia,
Paraguai e outros.
guas de uma família apresentam, mais ou No Brasil são
menos, a semelhança que existe entre as faladas atualmente
21 línguas desta
línguas da família românica da Europa família, fndios
(francês, espanhol, português, italiano, ro- Waiãpi falantes de
uma língua da
meno, etc), pode-se supor que tenham co- família Tupi-
meçado a se diferenciar há uns dois ou três -Guarani. Foto
mil anos. E o caso, por exemplo, do nú- Dominique Gallois.
cleo da família Tupi-Guarani (Guarani, Ko-
kama, Oiampi, Tapirapé, Tenetehara,
etc)"(Urban, 1992:89).De qualquer forma,
um horizonte mais recuado não pode ser
visualizado claramente muito além de 4 a
6 mil anos, para qualquer grupo de línguas.
Com os dados disponíveis até agora,
já se podem fazer algumas afirmações se-
guras sobre as línguas indígenas brasileiras
e suas relações de parentesco. Mas é tan-
to o que ainda se necessita saber, que se-
ria "mais adequado falar em graus relati-
vos de incerteza do que de certeza" (Urban, A familia Tukano
1992:87). divide-se em dois
ramos principais:
Quatro são os grupos maiores de lín- oriental e ocidental.
guas no Brasil, com distribuição geográfi- No Brasil só há
representantes do
ca extensa e com vários membros: Tupi, lado oriental, sendo
Macro-Jê, Aruak e Karib. Há depois várias atualmente faladas
12 línguas dessa
famílias menores, com menor número de família. índios
línguas, distribuídas mais compactamente. Tukano. Foto Aloísio
Cabalzar
E finalmente, há as chamadas línguas iso-
ladas, que não revelam parentesco com
nenhuma das outras e que poderiam al-
ternativamente ser consideradas famílias de
um só membro.
O Tronco Tupi é integrado por uma nu-
merosa família, a Tupi-Guarani, com repre-
sentantes em grande extensão da Améri-
ca do Sul (além do Brasil, ainda a Guiana
Francesa, Venezuela, Colômbia, Peru, Bo-
lívia, Paraguai e Argentina), e, só no Bra-
sil, com 21 línguas vivas atualmente. Ou-
tras seis famílias menores e algumas línguas
isoladas (ou famílias de um só membro),
todas faladas somente no Brasil, se rela-
cionam geneticamente com a família Tupi-
-Guarani. Quatro dessas famílias se con-
centram exclusivamente em Rondônia:
Arikém, Monde, Ramaráma e Tuparí. A fa-
mília Mundurukú está hoje restrita a alguns
afluentes do Tapajós e do Madeira, e a fa- Para as línguas do tronco Macro-Jê,
mília Juruna, hoje limitada a uma única lín- são muito menos seguras as evidências de
gua, é falada no alto Xingu. A língua Aweti, que se dispõe para o estabelecimento de
no alto Xingu, a língua Sateré (ou Mawé), relações de parentesco. Pode-se destacar
entre o baixo Tapajós, o baixo Madeira e dentro dele, como grupo mais importante
o Amazonas, e o Puruborá, em Rondônia, e coeso, a família Jê, que inclui línguas fa-
não se relacionam diretamente com ne- ladas desde o sul do Maranhão e do Pará
nhuma delas, mas são inequivocamente passando pelos estados de Goiás e Mato
membros do tronco Tupi. Segundo Urban, Grosso, até o Mato Grosso do Sul, São
A família Pano tem
"a área geral de dispersão dos povos Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Gran-
representantes no Macro-Tupi, que teria ocorrido entre 3 e 5 de do Sul. A família Jê se subdivide em
Brasil, na Bolívia e mil anos atrás, situa-se provavelmente entre quatro grupos(com várias línguas em ca-
no Peru. Inclui entre
outras a língua
o Madeira e o Xingu, ao que tudo indica da um): Timbira, Kayapó, Akwén e Kain-
Matis(Matsés). falada mais próximo das áreas de cabeceira do gáng. Sobre a filiação de outras famílias ao
pela mulher e pelo que das várzeas dos grandes rios"
menino. Foto Isacc
tronco Macro-Jê, seria mais adequado fa-
Amorim Filho/CIMI. (1992:92). lar em indícios que em evidências, já que
"a própria constituição do tronco Macro-
-Jê é altamente hipotética ainda" (Rodri-
gues, 1986:49). Se algumas das línguas que
as integram ainda são faladas, outras mui-
tas deixaram de sê-lo, e só se dispõe so-
bre elas de dados históricos em geral pre-
cários, como é o caso de todas as línguas
da família Kamakã, que eram faladas na
Bahia e no Espírito Santo até o final do sé-
culo passado. Feitas essas ressalvas, pode-
-se falar num grupo de famílias a leste da
família Jê - Famílias Puri ou Coroado, Bo-
tocudo, Maxakalí, Kamakã e Kariri, mais
as línguas Masakará e Yatê ou Fulniô - e
num outro grupo a oeste dela, formado pe-
la família Bororó e pelas línguas Ofayé,
Guató e Rikbaktsa. Há ainda a família Ka-
rajá, no Araguaia, com três línguas.
Rodrigues (1985) avança indícios pa-
ra a hipótese de ligação genética mais dis-
tante entre o Macro-Tupi e o Macro-Jê, mas
Urban considera que "atribuir à conexão
uma profundidade cronológica mínima (di-
gamos de 5 a 7 mil anos) acrescenta pou-
co à nossa compreensão, e apenas indica
nossa incerteza" (1992:93).
O terceiro grande grupo de línguas bra-
sileiras apresenta afinidades tão grandes
entre seus membros que Rodrigues consi-
dera mais adequado chamá-lo de família,
em vez de tronco. Trata-se da família Ka-
rib, cujas línguas integrantes se distribuem
mais concentradamente na grande região
guianesa (Guiana Francesa, Suriname e
Guiana, além da Guiana Venezuelana e da
Guiana Brasileira no norte do Amazonas
e em Roraima). No Brasil, onde são fala-
das 21 línguas Karib, o maior número de- origem geográfica, embora esteja claro que
las se encontra ao norte do rio Amazonas, em geral seus membros se distribuem mais
no Amapá, norte do Pará, Roraima e Ama- a oeste que os Tupi, Jê e Karib. Por outro
zonas, mas há algumas também mais ao lado, "partindo da regra de que a área geo-
sul, principalmente ao longo do rio Xin- gráfica que contém a maior diversidade lin-
gu, no Pará e no Mato Grosso. Integram guística é provavelemente a zona de ori-
a família Karib, ao norte do Amazonas, nos gem, a área peruana (centro-norte) se
estados de Roraima, Amapá, Pará e Ama- apresenta como o possível local de disper-
zonas.as línguas Apalaí, Waimiri (Atroari), são" da família Aruák (Maipure) (Urban,
Galibi, Hixkaryána, Ingarikó, Kaxuyána, 1992:95).
Makuxí, Jayongóng (Makiritáre), Tauli- A família Arawá conta hoje com ape-
páng, Tirió, Waiwái, Warikyána, Wayána. nas quatro representantes, muito seme-
Ao sul do Amazonas, temos o Arara, no lhantes entre si, nos estados do Amazonas
Pará, e todas as demais no Mato Grosso: e do Acre, pelos rios Juruá, Jutaí e Purus
Bakairí (Kúra), Kalapálo, Kuikúru, Matipú, e seus afluentes: as línguas Kulína, Dení,
Nahukwá e Txicão. Yamamadí e Paumarí.
Também para as línguas Karib, Rodri- As famílias linguísticas menores, refe-
gues (1985) apresenta algumas evidências ridas anteriormente, em geral apresentam
de ligação genética com o Tupi. Isso po- distribuição geográfica mais homogénea,
deria então significar que houve um ances- e têm provavelmente menor profundida-
tral remoto comum para os três maiores de cronológica, com menos de 3 mil anos
grupos de línguas do Brasil: Karib, Tupi e de separação.
Jê. A família Guaikurú tem um único re-
Até pouco tempo atrás, considerava- presentante no Brasil, o Kadiwéu, na Ser-
-se como certa a existência de um tronco ra da Bodoquena, Mato Grosso do Sul. As
Aruák ou Arawák, integrado pelas famílias outras línguas dessa família são faladas por
Aruák e Arawá, com várias línguas como povos do Chaco argentino e paraguaio.
membros. Rodrigues (1986) fala prudente- A família Nambikwára, falada unica-
mente, à luz de dados mais recentes, em mente em território brasileiro, no noroeste
família Aruák e em família Arawá, sem do Mato Grosso e no sudeste de Rondô-
relacioná-las geneticamente, pelo menos nia, é integrada por três línguas com vá-
por ora. rios dialetos: o Sabanê, o Nambikwára do
Norte e o Nambikwára do Sul.
As línguas da família Aruák, que são
faladas no Brasil e também na Bolívia, Pe- A família Txapakúra, pouco conheci-
ru, Equador e Venezuela, se distribuem, no da, é integrada pelas línguas faladas pelos
Brasil, desde a região guianesa até o oes- Pakaanóva, Urupá e Tora, no oeste de
te do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Rondônia e sul do Amazonas (e também
Entre essas línguas contam-se o Baníwa do pela língua dos More na Bolívia).
Içana (um dos principais afluentes do Rio A família Pano, maior que as demais,
Negro, no extremo norte do Amazonas), tem representantes também na Bolívia e
com um grande número de dialetos; o Wa- no Peru. No Brasil apresenta concentração
rekéna; o Tariána; o Baré; o Wapixána (em maior no sul e oeste do Acre, mas também
Roraima); o Palikúr (no Amapá); o Apuri- se estende por Rondônia e pelo Amazo-
nã, o Piro e o Kámpa (no Acre); o Paresi nas. Inclui as línguas Karipúna, Kaxarari,
e o Salumã, na região dos formadores do Yamináwa, Kaxinawá, Amawáka, Poyaná-
Juruena (Mato Grosso); o Mehináku, o wa, Shanindáwa(Arara), Katukína, Nukui-
Waurá e o Yawalapíti (no alto Xingu); e o ni, Marúbo, Mayorúna, Matis (Matsés).
Teréna, que é a língua aruák localizada A família Mura apresenta apenas duas
mais ao sul (Mato Grosso do Sul). Segun- línguas remanescentes, faladas pelos Mu-
do Urban, a família Aruák (ou Maipure, co- ra e pelos Pirahã, na margem direita do rio
mo ele prefere chamar) teria uma profun- Madeira, entre o Manicoré e o Maici, no
didade cronológica de cerca de 3 mil anos. Amazonas.
Não há consenso na literatura sobre sua A família Katukína é integrada pelas
línguas faladas - no sudoeste do Amazo- provavelmente focos de dispersões muito
nas, nos altos rios Juruá, Jutaí e Javari - antigas. Analisando a distribuição das lín-
pelos Katukina do rio Biá, pelos Txunhuã- guas isoladas e famílias muito pequenas na
-djapá e pelos Kanamarí. América do Sul. Urban considera que se
A família Tukáno apresenta dois ramos podem propor três focos prováveis de an-
principais, ambos ao norte do rio Amazo- tiga dispersão: "1) a área do Nordeste bra-
nas: o Tukáno Ocidental, com línguas fa- sileiro onde, infelizmente, todas as línguas
ladas no Peru, Equador e Colômbia, sem em questão estão extintas; 2) o planalto a
representantes no Brasil; e o Tukáno Orien- oeste do Brasil e na vizinha Bolívia, em tor-
tal, com ramificações que vão desde a Co- no da chapada dos Parecis e da serra dos
lômbia até o Brasil. No Brasil, há pelo me- Pacás-Novas; e 3) norte do Peru e Equa-
nos doze línguas dessa família, no Uaupés dor" (1992:99).
e em seus afluentes Tiquié e Papuri. Elas Quantas e quais são as línguas isola-
são todas muito próximas entre si, e in- das ainda faladas no Brasil?
cluem: Tukáno, Barasána, Yebamasã, Wa-
nána, Desána e Kubéba, entre outras. Em número de dez, são as seguintes:
Aikaná (conhecida também como Tubarão,
A família Makú (ou Puinave) inclui lín- Huarí, Masaká, Kasupá, Mundé, Corum-
guas faladas entre os rios Uaupés, Negro biara), falada por menos de 100 pessoas
e Japurá, chegando até a Colômbia. Fo- no sudeste de Rondônia; Koaiá (Arara), cu-
ram identificados pelo menos seis grupos jos últimos falantes vivem entre os Aika-
de índios Makú no Brasil: Bará, Húpda, ná; Kanoê (Kapixaná), com seus últimos
Yahúp, Nadêb, Káma e Guariba (Wariva). falantes espalhados em diversas partes de
A família Yanomámi (antigamente cha- Rondônia;Jabuti, cujos poucos falantes vi-
mada de Xirianá ou de Waiká) é compos- vem com os Makuráp (Tupi) no Guaporé
ta por quatro línguas faladas no Brasil e na (RO); Arikapú, com 14falantes (em 1968,
Venezuela, mutuamente ininteligíveis mas quando foram encontrados), provavelmen-
muito próximas entre si, todas com vários te uma variedade do Jabuti; Mky, com cer-
dialetos: Ninam ou Yanám, Sanumá, Ya- ca de 200 falantes e duas formas dialetais
momámi (a maior das quatro) e Yanomám em duas aldeias distintas, Iránxe (Aldeia
ou Yainomá. Cravari) e Mky (Aldeia Escondido), no no-
Como se pode ver, todas as famílias roeste do Mato Grosso; Trumái, no alto
menores tendem a se localizar na perife- Xingu, com cerca de 50 falantes; Awakê,
ria da bacia amazônica, e não em seu cur- menos de 20 falantes, no alto Uaricaá, em
so principal. Mas são necessários estudos Roraima; Máku, também em Roraima, não
mais aprofundados para se poder estabe- se sabendo ao certo se ainda existem fa-
lecer mais seguramente há quanto tempo lantes dela; finalmente o Tikúna, parado-
estariam em suas regiões atuais. xalmente o mais numeroso povo indíge-
As línguas isoladas, todas com reduzi- na no Brasil, falado no Solimões
do número de falantes, à exceção do Ti- (Amazonas) por mais de 20.000 pessoas.
kuna, falado por mais de 20 mil pessoas, Infelizmente, poucas dessas línguas têm si-
"são muito importantes para se compreen- do objeto de pesquisa até agora.
derem as fases mais antigas da história da Segundo Rodrigues (1986:95), "a mes-
cultura - datas além do alcance da técnica ma importância crítica das línguas isoladas
comparativa, ou seja, anteriores a como exemplares únicos de organização
4000-5000 a.C. (Urban, 1992:99). Isso é linguística e cognitiva têm também as lín-
possível se se estender para as línguas iso- guas que, embora mostrem indícios de
ladas o princípio básico utilizado para de- filiarem-se a um grande tronco, como o Tu-
terminar o ponto de dispersão de uma fa- pi e o Macro-Jê, não se relacionam dire-
mília linguística, que seria a área geográfica tamente a nenhuma das famílias constituin-
onde estão concentrados os seus membros tes do tronco". Estão nessa situação o
mais divergentes. Então, no caso das lín- Guató (Macro-Jê), com pouquíssimos fa-
guas isoladas, as áreas em que se encon- lantes (a maioria fala só o português), no
trassem suas maiores concentrações seriam alto Uruguai; o Rikbaktsa e o Karajá, no
Mato Grosso, também isoladas dentro do grupos de pessoas são diretamente afeta-
Macro-Jê, assim como o Krenák (ou Bo- dos, embora de maneiras diferentes, por
tocudo de Minas Gerais e Espírito Santo). tal questão: os povos indígenas falantes
Em relação ao Tronco Tupi, a situação mais dessas línguas e os pesquisadores (linguis-
isolada é a da língua Puruborá, da qual não tas e antropólogos, basicamente) que as in-
se sabe se ainda existe algum remanescen- vestigam. A estes, a questão interessa de
te, na Rondônia. Tem-se, além disso, as lín- uma forma indireta e de outra mais dire-
guas que se tornaram únicas representan- ta: indireta na medida em que lhes garan-
tes de famílias historicamente conhecidas, te espaço de trabalho e lhes permite con-
como é o caso do Juruna (Família Juru- tribuir com seus estudos para o
na) no Xingu, e do Karitiána (Família Ari- conhecimento científico da realidade; é di-
kém), em Rondônia. reta na medida em que eles estejam inse-
Relações que estabelecem uma origem ridos solidariamente nas lutas sociais das
comum para duas ou mais línguas são cha- minorias étnicas. Quanto aos povos indí-
madas, como apontamos no começo do genas, o maior conhecimento sobre a pró-
trabalho, de relações genéticas ou de pa- pria história e sobre o presente, propicia-
rentesco. Mas há outras formas de relacio- do pelo conhecimento sistemático de suas
namento histórico entre línguas não paren- línguas, pode contribuir poderosamente
tes, expressas claramente no seu léxico, para a afirmação e valorização de sua iden-
através do que é convencionalmente cha- tidade étnica, num Estado prurilíngiie e
mado de empréstimos linguísticos. Assim. pluricultural como o Brasil.
o estudo dos empréstimos entre línguas in- E o que começa a ocorrer, de forma
dígenas, que ainda precisa ser mais inten- ainda incipiente, por impulso das iniciati-
samente desenvolvido no Brasil, pode vas indígenas e das organizações que os
constituir fonte importante para o conhe- apoiam (que congregam, como assessores
cimento da história e pré-história do terri- e consultores, pesquisadores e professores
tório brasileiro. De qualquer forma, os da- das universidades e centros de pesquisa)
dos existentes atualmente já permitem e pela exigência cada vez mais insistente
verificar, segundo Urban (1992:102), "si- das nações indígenas no sentido de que se-
tuações de intenso contato, multilingúismo, jam criados e implementados processos de
línguas de comércio etc, para uma região educação escolarizada em suas áreas, em
que vai do extremo oeste da bacia Ama- escolas "indígenas" e não "para indígenas".
zônica para o norte e em seguida para o Nesse contexto, o conhecimento siste-
leste, cruzando toda a América do Sul ao mático de suas línguas, por parte dos ín-
norte do Amazonas", ao contrário do cen- dios, é crucial, pois para haver escolas ver-
tro e do oeste do Brasil, onde parece mais Dois brinquedos
provável ter correspondido a cada povo com 24 palavras nas
uma língua e cultura distintas. diferentes línguas
indígenas foram
apresentados na
Em forma muito resumida e simplifi- exposição índios no
cada isso é o que se pode dizer sobre o pas- Brasil. Foto Luís
Grupioni.
sado e sobre a distribuição atual das línguas
indígenas brasileiras contemporâneas, a
partir do que sobre elas se conhece hoje.
Mas dissemos, no início, que o conheci-
mento do presente também permitiria "pla-
nejar ações visando melhorar a vida e tor-
nar mais felizes as pessoas que habitam o
atual presente". Em que, pois, o conheci-
mento das línguas indígenas, hoje, pode
contribuir para melhorar a vida de brasi-
leiros? E em primeiro lugar, de quais bra-
sileiros? Dos índios e dos não índios?
É indubitável, à primeira vista, que dois
dadeiramente indígenas é necessário que bém estudos morfológicos, sintáticos, se-
haja professores indígenas bilíngues em nú- mânticos, e ainda a normalização e nor-
mero suficiente, e que sua formação seja matização das línguas e dialetos de um
especializada, na medida em que eles têm mesmo grupo, bem como a atualização
de ser, necessariamente, os intermediários léxico-semântica dos sistemas lexicais en-
entre duas culturas e duas línguas - a ma- volvidos. Ou seja, necessita-se, urgente-
terna, vernacular, e a mais abrangente, vei- mente, de pesquisadores indígenas. A ex-
cular, oficial, do Estado brasileiro. periência de outros países com forte
Mas isso, por sua vez, requer que as presença de populações indígenas apon-
línguas indígenas se tornem línguas escri- ta para a possibilidade real de formação,
tas plenas (nenhuma língua brasileira tem em número cada vez maior, de linguistas
tradição escrita), para o que é necessário e antropólogos indígenas. É o que se es-
ter, além de alfabeto e ortografia próprios pera possa acontecer em breve também no
propiciados pela análise fonológica, tam- Brasil.

Bibliografia 1986 - Línguas brasileiras: para o conhecimen-


to das línguas indígenas, São Paulo, Loyola.

Rodrigues, Aryon DalHgna - 1985 - "Evidence for Urban, Greg -1992 - "A história da cultura brasilei-
Tupi-Karíb relationships" in Klein, H.E.M. e ra segundo as línguas nativas" in Cunha, Ma-
Stark, L.R. (orgs.) - South American Indian nuela Carneiro da(org.) - História dos índios
Languages: retrospect and prospect, Austin, no Brasil, São Paulo, Cia. das LetrasFa-
University of Texas Press, págs. 371-404. pespSMC, págs. 87-102.
O escravo índio, esse desconhecido
John Monteiro

Dentre os diversos mitos sobre a for- gados a recompor suas vidas e sua
mação da nacionalidade brasileira, o ban- identidade dentro deste novo contexto.
deirante certamente ocupa um lugar de
destaque. Desbravador dos sertões incul- Colonização e escravidão no sé-
tos, temível conquistador de povos selva- culo XVI
gens, esta figura heróica marca presença
tanto nos manuais de história quanto nos
monumentos e nos nomes de ruas, estra- As origens da escravidão indígena no
das e escolas no Brasil inteiro. Por outro Brasil remontam aos meados do século
lado, uma tendência recente na bibliogra- XVI, quando os colonizadores portugue-
fia tem construído um antimito, o do ban- ses começaram a intensificar suas ativida-
deirante exterminador de índios. Imagens des económicas ao longo do litoral. Neste
contrastantes e polémicas, tanto uma período inicial, o cativeiro dos índios visa-
quanto a outra pecam por ignorarem a pre- va solucionar, de uma só vez, dois impe-
sença e o papel do índio na história do Bra- rativos da colonização: a questão militar e
sil. Na primeira versão, o índio é omitido o suprimento de mão-de-obra para a inci-
ou, na melhor das hipóteses, exerce um piente economia açucareira. Os grupos que
papel auxiliar no processo de expansão ter- se mostravam resistentes às pretensões dos
ritorial dos portugueses. Na segunda, ele europeus eram sujeitos a guerras movidas
é relegado ao papel passivo de vítima. pelos portugueses e seus aliados indígenas
e os prisioneiros eram distribuídos ou ven-
Herói ou bandido, na verdade o ban- didos como escravos.
deirante é emblemático de todo um pro-
cesso mais amplo de deslocamento de po- De certo modo, pelo menos nos anos
pulações indígenas e da constituição de iniciais da colonização, as relações luso-
sociedades escravistas, processo esse que indígenas permaneciam subordinadas a
não se circunscrevia tão-somente a São uma lógica pré-colonial. Para os portugue-
Paulo. Com certeza, atrás das peripécias ses, a presença de cativos nas sociedades
dos sertanistas jaz, praticamente desconhe- indígenas traduzia-se na perspectiva de se-
cido, o envolvente drama de inúmeros po- rem adquiridos cada vez mais escravos
vos nativos que não foram simplesmente através das guerras entre grupos nativos.
apagados e sim passaram por complexas No entanto, nas sociedades indígenas, o
transformações, entre as quais o desenvol- cativo não possuía a conotação de escra-
vimento da escravidão foi talvez a mais sig- vo, pois servia para fins rituais e não pro-
nificativa. dutivos. Nesse sentido, não é de se estra-
De fato, apesar de pouco abordada na nhar a resistência à venda de escravos,
historiografia, a escravidão indígena de- inclusive entre os próprios cativos. O jesuíta
sempenhou um papel de grande impacto Azpilcueta Navarro, ao propor a compra
não apenas sobre as populações nativas de um cativo Tupinambá nas vésperas de
como também na constituição da socieda- seu sacrifício ritual, surpreendeu-se com a
de e economia coloniais. Em sua dimen- recusa do índio, que "disse que não o ven-
são mais negativa, aliando-se às doenças dessem, porque cumpria à sua honra pas-
contagiosas, a escravização dos índios con- sar por tal morte como valente capitão".l
correu para o despovoamento de vastas re- Diante da dificuldade em transformar
giões do litoral e dos sertões mais acessí- o cativo de guerra em escravo através do
veis aos europeus. Ao mesmo passo, escambo com os índios, os portugueses co-
porém, os cativos, deslocados de suas al- meçaram a lançar mão de outros métodos
deias e terras para as unidades de produ- de captação de mão-de-obra. A apropria-
ção e aldeamentos coloniais, viam-se obri- ção direta de cativos, através de expedi-
Caderneta do ções de apresamento, tornava-se o meio a experiência dos aldeamentos jesuíticos,
Imperador D.Pedro
II: desenhos de mais eficaz de aumentar as reservas de que não forneciam trabalhadores à altura
índios Botocudos e mão-de-obra nativa, porém esbarrava em das expectativas, tanto os colonos particu-
outros de autoria do questões de ordem moral e jurídica. lares quanto alguns administradores colo-
Imperador realizados
durante sua viagem De fato, devido aos abusos cometidos niais — tais como Mem de Sá e Jerónimo
ao nordeste. Museu pelos colonizadores ibéricos na conquista Leitão — passaram a organizar poderosas
Imperial.
de terras e povos indígenas, foi justamen- expedições militares que, por um lado, bus-
te neste período que se elevavam as pri- cavam derrotar os focos de resistência Tu-
meiras vozes em defesa da liberdade dos pi ao longo do litoral de São Vicente a Pa-
índios, ou, talvez mais precisamente, con- raíba e, por outro, visavam produzir
tra o cativeiro injusto. Em termos concre- vultuosos números de escravos, destinados
tos, esse debate teve ressonância tanto no a trabalhar na economia açucareira. Não
campo da colonização — onde surgiram se pode subestimar a importância deste
experiências com outras formas de orga- processo articulado de conquista, escravi-
nização de trabalho, tais como o aldeamen- zação e desenvolvimento dos engenhos,
to missionário — quanto no campo da le- uma vez que foi justamente neste período
gislação, redundando numa longa sucessão — fase ainda incipiente do tráfico de es-
de leis e decretos que, apesar de reitera- cravos africanos — que houve a mais acen-
rem o princípio da liberdade indígena, tam- tuada expansão açucareira.
bém regulamentavam as condições nas O caso da guerra contra os Caetés per-
quais os índios pudessem ser legítimos ca- mite entrever a articulação dinâmica entre
tivos. Dentre estas condições, destacava- a conquista territorial e a constituição de
-se a Guerra Justa que, em princípio, ha- uma força de trabalho durante o século
via de ser autorizada pela coroa ou seus XVI. Em 1562. no bojo de uma grave cri-
representantes. se epidemiológica que assolava as popu-
A primeira vista restritivo, o recurso da lações do litoral, o governador Mem de Sá
Guerra Justa na verdade tornou-se um im- decretou uma guerra contra os Caeté, sob
portante mecanismo para a ampliação do a acusação que este grupo teria trucidado
número de escravos. Pouco satisfeitos com e devorado o bispo Sardinha — incidente
aliás ocorrido seis anos antes. Sedentos de
mão-de-obra cativa, os colonos da Bahia
organizaram seus aliados em poderosas co-
lunas de guerra e investiram contra os Cae-
té, além de outros grupos que se encon-
travam no caminho. De acordo com o
jesuíta Anchieta, em poucos meses foram
capturados mais de 50.000 cativos de
guerra, entre homens, mulheres e crianças,
sendo que apenas 10.000 destes chega-
ram a compor a força de trabalho nos en-
genhos do Recôncavo, os demais Perspectiva da
sucumbindo-se à varíola ou aos maus tra- Aldeia de São José
tos dos conquistadores. de Mossamedes
pertencente à Vila
De fato, este e muitos outros episódios Boa de Goyas
semelhantes, envolvendo o deslocamen- (1801). As duas
figuras indicam a
to forçado de grupos nativos, contribuiu pa- deterioração
ra o despovoamento de vastas áreas tanto ocorrida com o
conjunto
do litoral quanto do sertão. Estes movimen- arquitetônico: já não
tos também agravavam a situação epide- existiam mais o
miológica das zonas de ocupação europeia, açude nem a Casa
do Engenho.
uma vez que a introdução de elevados nú- Biblioteca Mário de
meros de cativos, praticamente sem imu- Andrade. Foto in
"História dos índios
nidade contra os contágios, aprofundava no Brasil"
as taxas de mortalidade. As epidemias, por
seu turno, suscitavam novas investidas ao cente assalto às populações do litoral pro-
sertão, criando-se um ciclo devastador que vocou outras consequências de grande al-
só se esgotaria na medida em que a escra- cance. Enfrentando uma política indigenista
vidão indígena deixasse de ser uma pro- cada vez mais ameaçadora, crises epide-
posta economicamente viável. miológicas cada vez mais intensas e uma
Uma parte da demanda por cativos era demanda cada vez maior por escravos ín-
suprida pela sucessão de Guerras Justas dios, as sociedades nativas desenvolveram
que marcou a história do litoral no século diversas estratégias na tentativa de rever-
XVI: o conflito movido por António Sale- ter este quadro opressivo. Estas estratégias
ma contra os Tamoios do Rio de Janeiro baseavam-se não apenas nas tradições e
(1575), a primeira conquista do Sergipe práticas pré-coloniais, como também na
(1575-75), o assalto aos Guarani sob o co- própria experiência histórica do contato e
mando do capitão-mor vicentino Jeróni- da dominação. Alguns grupos locais, ao
mo Leitão, as campanhas contra os Toba- colaborarem com os interesses dos portu-
jara e Potiguar na Paraíba durante a década gueses, buscaram preservar sua autonomia
de 1580, entre outros. Entretanto, a maio- através do fornecimento de escravos toma-
ria dos cativos conhecia o cativeiro através dos a outros grupos inimigos. Outros, já
das inúmeras expedições de caráter infor- submetidos ao jugo dos senhores de en-
mal e privado que começaram a penetrar genho ou dos jesuítas, procuravam resga-
o sertão com bastante insistência nos anos tar sua liberdade através de violentas re-
finais do século XVI. Precursores das "ban- voltas. Havia ainda outros que,
deiras" e das "tropas de resgate" do sécu- demonstrando a intricada relação entre o
lo seguinte, as primeiras expedições de passado indígena e a situação colonial, ar-
apresamento claramente ofendiam os pre- ticulavam complexos movimentos de pro-
ceitos da legislação vigente, que coibia es- testo e resistência, tais como as chamadas
te tipo de assalto à liberdade indígena, em- santidades.
bora muitas vezes contassem com a No entanto, a estratégia mais eficaz cer-
descarada anuência das autoridades locais. tamente residia na fuga coletiva e na re-
Além dos efeitos demográficos, o cres- constituição da sociedade em regiões além
do alcance dos sertanistas brancos e mes- tado do Maranhão (1621), as atividades
tiços. Ao longo do século XVI, diversos económicas dos colonos eram movidas por
grupos Tupi abandonaram o litoral, resta- numerosos plantéis de escravos índios,
belecendo sua autonomia política em ter- aprisionados em frequentes expedições pa-
ras longínquas. Dentre os motivos, a es- ra o sertão. Embora às vezes vinculadas ao
cravidão figurava como o mais eloquente, comércio externo, estas atividades geral-
conforme relatava um chefe do Rio Real mente se limitavam à circulação regional
na década de 1580, ao preparar seus se- ou inter-regional. Próximo a São Paulo,
guidores para uma longa migração: ponto inicial de repetidas incursões em de-
"Vamo-nos, vamo-nos antes que venham manda de cativos, constituíram-se inúme-
estes portugueses ... Não fugimos da Igre- ros sítios e fazendas, contando com deze-
ja nem de tua companhia porque, se tu nas e mesmo centenas de trabalhadores
quiseres ir conosco. viveremos contigo no nativos. Já no outro extremo da América
meio desse mato ou sertão ... mas estes Portuguesa, nas proximidades de São Luís
portugueses não nos deixam estar quietos, do Maranhão e Belém do Pará, brotaram
e se tu vês que tão poucos que aqui an- igualmente um grande número de unida-
dam entre nós tomam nossos irmãos, que des de produção agrícola, com considerá-
podemos esperar, quando os mais vierem, veis plantéis de índios.
senão que a nós, e as mulheres e filhos fa- Como estratégia para a reprodução da
rão escravos?"2 força de trabalho, as expedições de apre-
samento mostravam-se eficazes, uma vez
que distanciavam o índio de suas origens,
O sertanismo de apresamento geográfica e socialmente. De fato, ao lon-
No século XIX no século XVII go dos séculos XVII e XVIII, o apresamen-
continuou-se a
política de to representava a principal forma de criar,
concentração dos
Se, no século XVI, a escravidão indí- manter e até aumentar a população cati-
índios em
aldeamentos. gena encontrava-se estreitamente articula- va, esboçando-se um forte paralelo com o
"Aldeia de Tapuias" da à expansão açucareira, esta instituição papel exercido pelo tráfico de escravos afri-
de Joahan Moritz canos no mesmo período.
Rugendas. s/d. estendeu-se para outras regiões, no segun-
Secretaria Municipal do século da colonização, sob uma outra No sul, particularmente em São Pau-
de Cultura/SP. Foto
in "História dos
lógica. Nas capitanias do sul, sobretudo a lo, os colonos desenvolveram formas es-
índios no Brasil". de São Vicente, e no recém-constituído Es- pecíficas de apresamento, inicialmente pri-
vilegiando a composição de expedições de produtores a seus mercados. O índio ro- A escravidão dos
índios, embora
grande porte, com organização e discipli- çava os terrenos, plantava as sementes, cui- respaldada em base
na militares. Foram estas as expedições que dava das plantações e fazia a colheita. Po- legal até 1833.
assolaram as missões jesuíticas do Guiará continuou até o
rém, sua principal função, atividade essa século XX. "índios
(atual estado do Paraná) e Tape (atual Rio que no final das contas possibilitou qual- atravessando um
Grande do Sul), transferindo dezenas de quer atividade comercial por parte dos riacho (caçador de
escravos)", óleo
milhares de índios Guarani para os sítios paulistas, foi no transporte. s/tela de Jean-
e fazendas dos paulistas. Porém, a partir Em São Paulo, a Serra do Mar, íngre- -Baptiste Debret.
Museu de Arte de
de 1640, em reação às derrotas militares me e inóspita, explicaria — para muitos his- São Paulo Assis
sofridas nas missões, os colonos de São toriadores — a pobreza e o isolamento dos Chateaubriand. Foto
Luiz Hossaka.
Paulo começaram a imprimir novas carac- produtores paulistas durante o período co-
terísticas ao sertanismo, buscando uma no- lonial. Para o carregador índio, no entan-
va orientação geográfica, o que também to, este obstáculo era vencido a pé, quase
implicou numa nova forma de organizá-las. diariamente, mesmo com uma carga que
Antes empreendimentos coletivos, as ex- beirava os trinta quilos. De acordo com o
pedições se tornaram negócios particula- padre António Vieira, que condenava a ex-
res, regidos pela relação contratual entre ploração desumana imposta aos índios de
armadores financeiros e sertanistas. São Paulo, "nas cáfilas de São Paulo a San-
Qualquer que fosse a forma preferen- tos não só iam carregados como homens
cial do apresamento, o mesmo resultou mas sobrecarregados como azêmolas, qua-
num considerável fluxo de índios para a se todos nus ou cingidos com um trapo e
economia colonial. Nas capitanias do sul, com uma espiga de milho pela ração de
este fluxo marcava presença em todas as cada dia".3
etapas da cadeia produtiva que ligava os Outra função importante desempenha-
Descrição de todo o
Estado do Brasil -
cópia do mapa de
João Teixeira,
cosmógrafo de sua
majestade
(Lisboa.1612).
integrante do "Livro
que dá razão do
Estado do Brasil".
executado pelo
agrimensor Juvenal
Martins em 1917.
Museu
Paulista/USP. Foto:
Rómulo
Fialdini/Banco
SAFRA.
da pelo índio no esquema produtivo dos e o trabalho dos índios. Se a lei declarava
paulistas foi no próprio sertanismo. No de- a liberdade dos nativos, o "uso e costume
correr do século, a participação ativa de ín- da terra" ditava a servidão dos mesmos.
dios nas expedições tornava-se cada vez Assim, ao redigir seu testamento em 1684,
mais essencial, à medida que se buscava o casal paulista António Domingues e Isa-
cativos em locais desconhecidos pelos bel Fernandes expressaram uma opinião de
brancos. Para os colonos, expostos a fe- consenso quando declararam que os dez
bres, feras e índios desconhecidos, a me- índios sob seu domínio "são livres pelas leis
ra sobrevivência dependia do conhecimen- do Reino e só pelo uso e costume da terra
to sertanejo dos índios. são de serviços obrigatórios." Ademais, os
A medida que chegavam aos povoa- colonos alegavam que esse "serviço obri-
dos coloniais cada vez mais índios, os co- gatório" fazia-se em troca da doutrina cristã,
lonos buscavam maneiras de consolidar do abrigo, do agasalho e dos bons tratos.
seu controle sobre os cativos. Conforme vi- O conhecido sertanista Domingos Jorge
mos, a escravidão dos índios era proibida. Velho, em carta ao Rei D. Pedro II, justifi-
formalmente, pelas leis de Portugal, salvo cou este "direito" da seguinte maneira: "se
em casos específicos. Devido ao caráter depois [de reduzir os índios] nos servimos
particular das expedições paulistas, que ra- deles para as nossas lavouras, nenhuma in-
ramente eram sancionadas pelas autorida- justiça lhes fazemos, pois tanto é para os
des, os colonos de São Paulo conviviam sustentarmos a eles e a seus filhos como
com o permanente paradoxo entre a con- a nós e aos nossos; e isto bem longe de
dição jurídica e a situação real dos índios os cativar, antes se lhes faz um irremune-
introduzidos do sertão. Com certeza, ao rável serviço em os ensinar a saberem la-
longo do período em que vigorava o tra- vrar, plantar, colher, e trabalhar para seu
balho indígena na região, a presença de es- sustento, coisa que antes que os brancos
cravos legalmente capturados em Guerras lho ensinem, eles não sabem fazer."
Justas permanecia quase nula. Na Amazónia portuguesa, o sertanis-
Mesmo assim, os colonos de São Paulo mo de apresamento também ganhou vul-
apropriaram-se dos direitos sobre a pessoa to no século XVII, embora exibisse carac-

"Tribo Guaicuru em
busca de novas
pastagens",
aquarela s/papel.
Jean Baptiste
Debrel 1823.
Museus Castro
Maya. Foto Eduardo
Mello.
"Chefe dos
Bororenos partindo
para um ataque",
aquarela s/papel.
Jean Baptiste
Debret s/d.
Museus Castro
Maya. Foto Eduardo
Mello. terísticas próprias à região. Se, nas Coelho de Carvalho, por exemplo, ganhou
capitanias do sul, as expedições foram em- notoriedade enquanto próspero negociante
preendidas à revelia das autoridades, a pre- de "tapuias", enviados para as capitanias
sença e ingerência do estado no abasteci- do nordeste e até para as colónias espa-
mento e distribuição da mão-de-obra nativa nholas.4
eram notáveis no Estado do Maranhão. Não existem muitos registros destas pri-
Durante a primeira metade do século meiras expedições; contudo, deixavam sua
XVII, a tropa de resgate representava a indelével marca no despovoamento do
principal forma de recrutamento de mão- Baixo Amazonas. Quando chegou em São
de-obra indígena. As tropas, devidamen- Luís, na década de 1650, o padre Antó-
te licenciadas pelas autoridades régias, em nio Vieira denunciou a magnitude do mo-
teoria visavam resgatar índios destinados vimento, declarando que, nos 40 anos an-
a serem devorados por seus inimigos. Po- teriores, cerca de dois milhões de índios
rém, poucas tropas observavam pontual- teriam sido extinguidos pelos colonos do
mente a lei, tornando-se pretextos para a Estado do Maranhão. Estes, por seu tur-
escravização e destruição de inúmeras tri- no, pouco se importavam com a sobrevi-
bos ao longo dos principais rios da Ama- vência de seus cativos, uma vez que a
zónia. Com o financiamento de comercian- Amazónia parecia proporcionar-lhes uma
tes de Belém ou São Luís, que também se inexaurível fonte de trabalhadores. O pró-
interessavam pelas "drogas do sertão", ser- prio Vieira verificava o processo de despo-
tanistas especializados organizavam flotilhas voamento em sua primeira grande aven-
de canoas para penetrar os caudalosos rios tura para o sertão quando, em 1654,
da Amazónia. Os armadores dessas expe- acompanhava uma tropa para o rio Tocan-
dições geralmente arcavam com o seu cus- tins. Habitada outrora por populosa tribo
teio, fornecendo armas, correntes, ferra- da língua geral, a região guardava apenas
mentas e alimentos. Tanto sertanista no nome do rio a memória dos índios To-
quanto armador contavam, ainda, com a cantins, segundo Vieira, dizimados pelos
conivência de autoridades corruptas, que portugueses em poucos anos.
permitiam abusos em troca de escravos e A exemplo das capitanias brasileiras no
outros favores. O Governador Francisco século XVI, o fluxo cada vez maior de es-
"índia Guarani
civilizada a caminho
da igreja em trajes
domingueiros".

"índio Guarani
civilizado". Aquarela
s/papel, Jean
Baptiste Debret. s/d.
Museus Castro
Maya. Foto Eduardo
Mello.
cravos do interior para os povoados e as zes para o sertanismo no Estado do Mara-
unidades de produção dos portugueses nhão. Além de garantir o monopólio espi-
suscitava, também no Estado do Mara- ritual e temporal dos jesuítas sobre os índios
nhão, um tumultuado confronto entre co- dos aldeamentos, também conferia aos
lonos e jesuítas. A chegada do padre An- mesmos padres a responsabilidade de
tónio Vieira em 1653 mudou de modo acompanhar as tropas de resgate para o
fulminante o rumo da história do Estado sertão e o poder de julgar a legitimidade
do Maranhão, em particular no que dizia do eventual cativeiro de índios. Contudo,
respeito à questão indígena. Com o apoio a lei de 1655 não eliminava a escravidão
da corte, Vieira introduziu uma política que e, como tantos outros decretos anteriores,
visava transferir para os jesuítas o controle na verdade buscava estabelecer com maior
absoluto da população indígena introdu- clareza as condições para o cativeiro le-
zida do sertão. Em eloquentes sermões e gítimo.
longas correspondências, Vieira atacava, Apesar das novas restrições impostas,
sob todos os aspectos, o injusto cativeiro os anos 1650 presenciaram um sensível au-
praticado pelos colonos. Ecoando as ques- mento no apresamento de índios, tanto pe-
tões surgidas no litoral anos antes, Vieira las tropas de resgate oficiais quanto pelas
buscava definições para as seguintes po- numerosas expedições particulares que pe-
lémicas: Quem podia descer índios do ser- netravam o sertão ilegalmente. Junto com
tão? Os índios descidos seriam escravos ou os "descimentas" feitos pelos missionários,
forros? Quem administraria os índios já as expedições de apresamento proporcio-
descidos? Os colonos ou os padres? naram um movimento de índios do inte-
Apesar da ferrenha oposição dos co- rior para o litoral que atingia novas propor-
lonos, que reivindicavam o direito de con- ções nestes anos. De acordo com o padre
tinuar suas práticas de escravização atra- Bettendorf, uma única entrada em 1655
vés das "guerras justas" e dos "resgates", teria descido 2.000 nativos do Rio Ama-
o agitado esforço do padre Vieira fez com zonas, sendo outros 600 introduzidos, em
que o pêndulo legislativo voltasse a favo- 1658, "pela porta lícita do cativeiro."5
recer a postura dos jesuítas: a lei de 1655, Conforme a política prevalecente, ca-
fruto dos apelos do padre junto ao rei D. da ano era organizada uma expedição que
João IV, passou a fornecer rígidas diretri- contava com a participação do Estado e da
"índios Guanás, iniciativa privada, além da presença dos je- tas pelo menos foi suficientemente
feitos em São Paulo, suítas. De caráter misto, portanto, estes em- desconcertante para aquecer o conflito en-
junho 1830".
nanquim aguado. preendimentos serviam tanto para "descer" tre missionários e colonos. Os padres
Coleção Cyrillo índios considerados mansos para os aldea- acompanhando as tropas de resgate não
Hércules Florence.
Foto in "História dos mentos, quanto para "resgatar" escravos. deixavam de perceber que raras foram as
índios no Brasil". Em diversas ocasiões, as tropas assumiram guerras justas e poucos eram os legítimos
a característica de expedições punitivas, as resgates. Mas os colonos desejavam o con-
vezes atingindo proporções semelhantes às trole absoluto sobre os trabalhadores egres-
grandes bandeiras paulistas. sos do sertão, pois a mediação dos padres
O estatuto jurídico dos índios egressos tanto no julgamento dos cativos quanto na
do sertão provinha, neste sentido, das con- distribuição da mão-de-obra "forra" das
dições de apresamento. A diferença entre missões tornava-se cada vez mais incon-
"forros" e "escravos" não deixava de sus- veniente. Seguindo o exemplo de seus se-
citar dúvidas e mesmo provocar situações melhantes paulistas de vinte anos antes, os
bastante contraditórias, conforme o padre colonos do Estado do Maranhão resolve-
Vieira não cansava de destacar. O caso de ram radicalizar o conflito e partiram, em
um grupo Tupi do Tocantins chamava a 1661, para a expulsão dos padres.
atenção do padre, pois, chegados em Be- Assim, durante os anos 1660 e 1670,
lém em 1654 na condição de forros, en- sem maior interferência dos jesuítas, inú-
contravam parentes próximos que haviam meras tropas penetravam os rios da Ama-
chegado em 1647 como escravos numa zónia em busca de escravos. No entanto,
outra tropa. Apesar de perfeitamente "le- a evidente devastação das populações e a
gal" segundo a legislação vigente, a con- impunidade dos colonos suscitaram uma
vivência dos "forros" com seus irmãos con- nova reviravolta na política indigenista, com
siderados cativos causava constrangimen- a lei de 1680, que mais uma vez enfatica-
to para o relator inaciano.6 mente proibiu o cativeiro dos índios. A rea-
Embora não conseguisse evitar a escra- ção dos colonos de São Luís foi forte e
vização ilegal de centenas de cativos, a pre- imediata, pois defendiam até a morte o di-
sença militante de Vieira e de outros jesuí- reito de descer índios do sertão e de ex-
piorar o trabalho nativo. O resultado foi o século XVIII, acoplando-se a um crescen-
violento levante liderado por Manuel Beck- te número de expedições de coleta das
mann em 1684, depondo o governador e "drogas do sertão".
expulsando novamente os jesuítas.
A revolta de Beckmann, apesar de du- Palco de luta, espaço de sobre-
ramente reprimida, forçou a coroa a se po- vivência
sicionar mais claramente diante da ques-
tão indígena no Estado do Maranhão. A Os elaborados esquemas de apresa-
partir da consulta com autoridades régias, mento desenvolvidos pelos colonos no sul
missionários e colonos, o Conselho Ultra- e no norte da América Portuguesa deter-
marino lançou o Regimento das Missões minavam, em larga medida, os contornos
em 1686. Este código restituía novamen- demográficos da escravidão indígena. Con-
te aos jesuítas o controle sobre os aldea- tudo, a articulação de um sistema escra-
mentos, porém, com ressalvas. Por um la- vista passava igualmente pela convivência
do, os padres tinham a obrigação de entre dominadores e dominados.
estabelecer novos aldeamentos em locais Em São Paulo, à medida que a cama-
próximos aos povoados portugueses, as- da senhorial apurava seus mecanismos de
sim oferecendo uma força de trabalho pa- controle e opressão, os índios desenvolve-
ra a economia colonial. Por outro, agora ram contra-estratégias que visavam forjar
cabia às autoridades leigas a repartição da um espaço para uma sobrevivência um
mão-de-obra indígena. Contudo, como era pouco mais digna e humana. Resistindo à
de se esperar, este sistema jamais atende- opressão dos senhores os índios resistiam
ria à elevada demanda dos colonos parti- à ordem a que estavam submetidos de to-
culares, acostumados com o livre acesso das as maneiras possíveis. E se, dada a es-
a índios do sertão. Mediante a insistência cassez de meios que dispunham os índios,
do Governador Gomes Freire de Andra- as revoltas organizadas, embora tenham
de, a coroa recuou em 1688, autorizando existido, não foram tão frequentes, os ca-
a retomada de tropas de resgate anuais, tivos mostravam sua rebeldia de todas as
obedecendo o mesmo esquema dos anos maneiras que dispunham. Fugindo do ca-
1650. Porém, desta vez foi o próprio esta- tiveiro, furtando de seus senhores e vizi-
do que assumia os encargos financeiros das nhos, invadindo propriedades, negocian-
expedições, assim tornando-se aviador, do produtos livremente, os índios
com a correspondente expectativa de um buscavam estabelecer alguma independên-
retorno em impostos sobre cada "peça" res- cia de ação frente à estrutura escravista.
gatada no sertão. No ano seguinte, recua- Nesse sentido, os contornos da escravidão
va mais ainda, permitindo a organização indígena também foram definidos pelas
de expedições particulares, assim abrindo ações concretas e as vivências cotidianas
mais uma brecha para o descimento e es- dos índios.
cravização indiscriminada e não fiscaliza- Um primeiro espaço importante foi en-
da de índios. contrado na elaboração de um comércio
Portanto, ao invés de controlar a escra- paralelo, atendendo sobretudo o modes-
vidão indígena e de amenizar as relações to mercado proporcionado pelos peque-
luso-indígenas na Amazónia, a nova polí- nos núcleos semi-urbanos. Na década de
tica na verdade preservava aquilo que os 1650, a competição indígena já chegava
colonos percebiam como sendo o seu di- a ameaçar as atividades de mascates por-
reito já tradicional. Assim, com a usual co- tugueses, especialmente no comércio de
nivência das autoridades coloniais, as tro- produtos locais, tais como farinha e cou-
pas oficiais, semi-oficiais e particulares ros. Diversas vezes ao longo do século
continuavam a penetrar o sertão com bas- XVII, as autoridades da colónia lançaram
tante insistência. Embora os jesuítas insis- ofensivas contra esta economia informal
tissem, até sua expulsão definitiva em movimentada pelos índios. Em 1647, a
1759, em questionar e combater o cativeiro Câmara registrou uma queixa referente aos
injusto, as tropas de resgate não apenas "roubos e outras desordens e excessos", de-
persistiam como ganhavam novo fôlego no correntes do comércio com os "negros da
terra de serviços obrigatórios." Em segui- "milagrosamente em uma camarinha" da
da, recomendou aos colonos que nego- fúria dos invasores, embora o índio Agos-
ciassem apenas com os índios munidos da tinho tenha perecido "com muitas frecha-
autorização de seus senhores para vender das que lhe deram e lhe quebraram a ca-
produtos da terra. Em 1660, a Câmara en- beça e despiram e roubaram a casa e
dureceu de vez, proibindo qualquer comér- sítio".8
cio com os índios, "sob pena de se lhe ser Cenas iguais a essa não foram raras em
demandado de furto." Pouco depois, en- São Paulo colonial, pois em diversas oca-
tretanto, qualificou a interdição ao restrin- siões os índios apelavam para a violência
gir o comércio com os "negros da terra" para combater a injustiça do seu cativeiro.
a valores inferiores a 200 réis, o que ex- Com certeza, os colonos tinham razões de
cluía quase tudo menos pequenas quanti- sobra para recear revoltas de escravos ín-
dades da produção local.7 dios. Tal receio começou a se confirmar em
Apesar da insistência das autoridades, 1652, quando explodiu a primeira grande
a Câmara Municipal foi incapaz de coibir revolta na propriedade de António Pedro-
as atividades informais e independentes so de Barros, no bairro de Juqueri. Pedroso
dos índios. A consternação permanente da de Barros, um dos principais produtores de
Câmara manifestava-se, basicamente, por trigo, possuía entre 500 e 600 índios, divi-
dois motivos. Em primeiro lugar, o desen- didos entre Carijó e Guaianá, a maior parte
volvimento de um mercado paralelo de recém-chegada do sertão. Além de truci-
couros e de carnes violava os privilégios darem Pedroso de Barros e outros bran-
monopolistas de comerciantes portugue- cos que se achavam na fazenda, os índios
ses, cujos contratos municipais lhes propor- também destruíram as plantações e as cria-
cionavam direitos exclusivos sobre a comer- ções. Coube a Pedro Vaz de Barros, irmão
cialização do gado, origem de todo tipo de da vítima, descrever a devastação: "Foi tan-
abuso. Em segundo, grande parte da car- to o número de gentio que naquela oca-
ne e dos couros vendidos pelos índios nas sião acudiu à morte do seu amo e outros
vilas provinha do furto de gado, o que alheios que não deixaram coisa viva que
apresentava sérios problemas no que diz não destruíssem, 9
matassem e co-
respeito ao controle social. messem."
Na segunda metade do século, tais ati- Esta revolta foi seguida por diversos
vidades viraram corriqueiras, chegando a outros levantes que chegaram a balançar
ocupar um lugar na pauta da justiça colo- as bases da escravidão indígena. Tornava-
nial com regularidade. Por exemplo, Grá- se cada vez mais claro que a simples pre-
Cia de Abreu referiu-se no seu testamento ponderância de cativos no conjunto da po-
a uma ação movida por Salvador Bicudo pulação — chegando, no seu auge, a uma
contra ela porque sua "gente" tinha furta- média de 40 índios para cada proprietário
do duas cargas de farinha de trigo e mata- —, representava uma ameaça constante.
do diversos porcos pertencentes a Bicudo. Contando com uma esmagadora vanta-
Parece provável que ambos estes itens, gem numérica, os índios colocaram em dú-
com valor significativo dentro do contexto vida, de maneira frontal, a dominação ab-
da economia local, chegaram a ser vendi- soluta exercida pelos colonos.
dos no mercado. Em caso semelhante, po- Embora representasse uma estratégia
rém com enredo mais violento, Francisco importante, a luta dos índios não se esgo-
Cubas abriu uma ação contra os herdeiros tou no confronto violento. Em prol de
de José Ortiz de Camargo, sustentando maior autonomia e até da liberdade, mui-
que os índios do falecido Camargo tinham tos índios lançaram mão de meios tanto ile-
invadido repetidamente sua fazenda de ga- gais quanto legais. Acompanhando o de-
do no bairro de N. S. do O, matando ga- clínio da escravidão indígena — provocado
do e saqueando a lavoura. Certa altura, os pela queda no apresamento e pelo desco-
índios atacaram o filho de Cubas, que ad- brimento do ouro das Minas Gerais no fi-
ministrava a fazenda, "com armas ofensi- nal do século XVII — nota-se um aumen-
vas e defensivas... com vozes dizendo ma- to sensível nas fugas individuais e nos
ta, mata a João Cubas", que escapou litígios movidos por índios.
De fato, no início do século XVIII, os listas ao longo dos anos não conseguiram
índios começavam a conscientizar-se das recuperar sua identidade indígena, antes
vantagens do acesso à justiça colonial, so- passando a engrossar as legiões de bran-
bretudo com respeito à questão da liber- cos e mestiços pobres que constituíam a
dade. Buscando a liberdade a partir de ar- maioria da população rural.
gumentos fundamentados num Como em São Paulo, os índios cativos
conhecimento da legislação em vigor, os do Maranhão e Pará igualmente não as-
próprios índios passaram a ser frequentes sistiram passivamente a injustiça de seu ca-
autores de petições e litígios. Afinal de con- tiveiro. A resistência à escravização muitas
tas, como todo mundo sabia, o cativeiro vezes começava ainda no sertão. Tal seria
dos índios era notoriamente ilegal. Foi nes- o caso de um grupo Juruna do Rio Xingu
se sentido que Rosa Dias Moreira moveu que, sofrendo repetidos assaltos dos colo-
processo contra seu senhor, Francisco Xa- nos do Maranhão e mesmo de algumas
vier de Almeida, alegando que, por ser tropas paulistas que alcançaram este ser-
descendente de "Carijós", seu cativeiro era tão, "se tinham fortificado em uma ilha de
ilícito. Em caso semelhante, dois "descen- pau a pique", segundo relatava Betten-
dentes de Carijós" abriram litígio contra Jo- dorf.11 Outras informações interessantes
sé Pais pelo mesmo motivo.10 Assim, ao podem ser acrescentadas a partir do rela-
constatar sua descendência indígena, o ín- tório inédito do sertanista João Velho do
dio litigioso buscava garantir sua condição Valle, escrito na década de 1680, onde se
de livre, juridicamente determinada pelas registrava o discurso de um líder Juruna
leis de Portugal. Em alguns casos, procu- (no relatório, Charuna), que recebeu a tro-
rava reforçar o pleito alegando maus tra- pa. Mediado pelo seu compadre Maragu,
tos ou cativeiro injusto, na tentativa de ca- chefe dos índios Caicaizes que acompa-
racterizar sua condição como equivalente nhavam a expedição, o chefe Juruna in-
à do escravo. dagava: "Que é isto? Tu trazes brancos con-
Ao buscar a liberdade através da justi- tigo?" O chefe Caicai buscava assegurar seu
ça colonial, instituição essa que também os compadre Juruna que o Capitão do Valle
oprimia, os índios de São Paulo contribuí- apenas intentava firmar a paz, por ordem
ram ativamente para a desagregação da es- do governador do Maranhão. Inconforma-
cravidão indígena. Recompensados com a do, o chefe Juruna disparava: "Tu mentes
liberdade, contudo, os remanescentes dos que vôs Caicaizes trazeis tropas de bran-
milhares de índios escravizados pelos pau- cos para nos matarem e cativarem filhos

A construção da
figura do
bandeirante,
considerado ora
herói ora bandido,
apagou o papel
histórico do índio,
omitido ou relegado
a vitima no processo
de espansão
territorial dos
portugueses. Selos
comemorativos.
Coleçâo Nelson Di
Francesco.
Justa, e que os índios haviam de ser pos-
tos em liberdade e deslocados para a Ilha
do Marajó. Porém, a resolução veio tarde
demais: com a conivência das autoridades
locais, os índios foram vendidos aos colo-
nos, submetidos a trabalhos forçados e, por
fim, vitimados pela terrível epidemia de va-
ríola de 1695. 13
Além do recuo ou do confronto dire-
to no sertão, os índios escravos e forros,
uma vez transferidos de seus locais de ori-
gem, também desenvolveram estratégias
próprias para enfrentarem a dominação
portuguesa. O processo de adaptação ao
novo regime certamente não era fácil. De
acordo com o padre João de Sousa Fer-
reira, "os índios novamente descidos pa-
recia razão se não entendesse os primei-
ros dois ou três anos." 14 Somado à
"Botocudo e seu
prisioneiro Pataxó" - dificuldade de adaptação era o descaso dos
Maximiliam Wied- senhores com seus índios, submetendo-os
-Neuwid, aquarela e a um duro regime de trabalho e a igual-
bico-de-pena.
Biblioteca Brasiliana mente severos castigos. Mesmo no contex-
Robert Bosch. Foto: to rude do Maranhão colonial, o tratamen-
António Rodrigues.
to dos índios era assunto notório durante
e Mulheres." Não foi mera paranóia o re- o século XVII. Já em 1648, o Provedor da
ceio do chefe dos Jurunas: afinal de con- Fazenda do Maranhão escrevia ao Conse-
tas, seu povo não era estranho aos objeti- lho Ultramarino denunciando a exploração
vos dos brancos. Além das relações com de forros nas lavouras de tabaco, em pre-
os índios da Serra da Ibiapaba, havia en- juízo a suas próprias plantações nos aldea-
tre eles alguns escravos africanos fugidos, mentos. Na ocasião, o Provedor pedia pro-
que certamente reforçavam a estratégia de vidências no sentido de liberar os mesmos
refúgio como alternativa ao confronto e à índios nos meses de dezembro, janeiro,
submissão. Contudo, apesar das intenções maio e junho, assim permitindo que tra-
do capitão João Velho do Valle serem balhassem para seu sustento, pedido que
amistosas, a profecia acabou por se com- foi atendido por um Alvará do João IV.u
pletar poucos anos depois, quando estes Os frequentes surtos de doenças con
Juruna foram escravizados e dizimados pe- tagiosas prejudicavam mais ainda o bem-
la tropa do Sargento Mór Domingos Ma- estar do índio colonial. Criava-se o ciclo vi-
tos Leitão e Silva.12 cioso comum a toda a América Portugue-
Semelhante destino tiveram os chama- sa ao longo do período colonial: a alta mor-
dos Caicaizes, fiéis auxiliares do Capitão talidade suscitava repetidas investidas ao
do Valle, mostrando como, em curto tem- sertão em busca de novos cativos que, sem
po, um grupo podia passar de aliado a ini- qualquer resistência biológica, agravavam
migo. Junto com os Juruna, os Caicaizes as mesmas crises epidemiológicas. A me-
também tornaram-se objetos de uma guer- dida em que os colonos podiam repor seus
ra movida pelo sargento-mor Leitão e Sil- estoques de escravos com facilidade atra-
va na década de 1690. No processo de de- vés do sertanismo, existia pouco estímulo
vassa contra eles, contrariando a imagem — além da voz estridente de alguns jesuí-
favorável esboçada no relato do Valle, ago- tas e as inconstantes manifestações da co-
ra eram descritos como "gentio do corso", roa — para modificar o esquema de ex-
merecedores do castigo do cativeiro. Exa- ploração através de melhorias nas
minado o caso, o Conselho Ultramarino condições de trabalho. Em 1673, o padre
determinou que não se tratava de Guerra Bettendorf resumia a condição dos escra-
vos da terra: "O Estado [do Maranhão] é dois meses até o Solimões "para alcançar
paupérrimo, sem possuir nada de seu; os alguns escravos."18 Porém o processo não
que têm hoje cem escravos, dentro de pou- terminou por aí: as tropas de resgate, os
cos dias não chegam a ter seis. Os índios, descimentos e as expedições punitivas -
de frágil condição, estão sujeitos a incrível práticas essas criadas e consagradas no sé-
mortalidade, qualquer disenteria os mata, culo XVII — perduravam até meados do
e por qualquer leve desgosto se dão a co- XVIII, estendendo-se a destruição para no-
mer terra ou sal e morrer." Pouco depois, vos campos de ação, tais como o Rio Ne-
o padre João de Sousa Ferreira ilustrava gro, o Branco e o Madeira, entre outros.
bem a situação demográfica e sua relação
com o cativeiro: "Metendo dez escravos em Comentários finais
casa, daí a dez anos não havia um; mas
fugindo um casal para o mato, achava-se Ao longo deste texto, sublinhamos a
daí a dez anos com dez filhos."16 importância da presença indígena nos pri-
O abuso da mão-de-obra indígena, meiros séculos da história do Brasil. Não
tanto pelos colonos quanto pelos próprios se trata de um simples "resgate" do homem
missionários, dava ocasião a atos rebeldes esquecido, nem de uma exaltação dos opri-
dos índios. O jesuíta Bettendorf, o princi- midos ou vencidos da história. Antes pro-
pal cronista do Maranhão seiscentista, nar- curamos demonstrar que a história, embora
rava o caso da morte de quatro jesuítas no escrita e distorcida por uma pequena mi-
engenho administrado por estes no Rio Ita- noria com interesses próprios, foi feita e vi-
picuru. O Padre Francisco Pires havia man- vida por agentes muitas vezes desconhe-
dado açoitar uma escrava "por seus des- cidos. De fato, a história dos índios
mandos em matéria do sexto apresenta um claro exemplo da omissão
[mandamento]," o que ocasionou a fuga de um ator significativo nos livros de his-
da mesma para seu povo de origem, os ta- tória mais convencionais, pois com a cons-
puias Uruatis, que, por sua vez, invadiram trução da figura do bandeirante, entre ou-
a fazenda e quebraram as cabeças dos pa- tros mitos da colonização, o papel histórico
dres e irmão jesuítas. O mesmo jesuíta do índio foi completamente apagado.
igualmente relatava uma série de subleva- Ao mesmo tempo, é possível identifi-
ções de escravos índios nas fazendas dos car no índio colonial algumas característi-
colonos, incidentes que ele atribuía ao cas- cas constantes do tratamento estendido à
tigo divino pela expulsão dos padres em população trabalhadora ao longo de toda
1661. 17 a história do Brasil. Na verdade, trata-se
Mas tais atos de violência praticados do primeiro exemplo de como os grupos
pelos índios mostravam-se pequenos e re- dominantes têm lidado com a maioria da
lativamente ineficazes diante da violência população, tratando-a como um povo con-
maior do apresamento. As frequentes ex- quistado ou colonizado, digno de ser ex-
pedições, com ou sem autorização, com ou plorado economicamente e, finalmente,
sem a fiscalização dos jesuítas, concorre- excluído da história. No contraponto aqui
ram para o despovoamento das margens esboçado, ressalta-se a importância das vi-
e várzeas dos grandes rios da Amazónia vências e embates desta maioria ausente
em curto espaço de tempo. Escrevendo na da história oficial mas que, antes de mais
última década do século XVII, o padre nada, lutou, através dos meios que dispu-
João de Sousa Ferreira declarava que no nha, contra uma minoria privilegiada e um
Rio Amazonas encontrava-se "tudo despe- modelo económico brutalmente injusto,
jado", sendo necessário viajar pelo menos que os mantinham cativos.

Notas ganização Social dos Tupinambá. São Paulo, Pro-


1. João de Azpilcueta Navarro ao Colégio de Coim- gresso, pág. 36.
bra, agosto de 1551, Cartas dos Primeiros Jesuí-
tas (São Paulo, Comissão do IV Centenário, 1956. 3. "Voto do Padre António Vieira sobre as dúvidas
vol. 1:279). dos moradores da Cidade (sic) de São Paulo." 12
de julho de 1692, Instituto de Estudos Brasileiros,
2. Citado em Florestan Fernandes - 1949 - A Or- Coleção Lamego 42.3.
4. Citado cm David Sweet - 1974 - A Rich Realm Bibliografia
of Nature Destroyed: The Middle Amazon Valley,
1640-1750, Tese de Doutorado, Univ. Wisconsin, Beozzo, José Oscar - 1983 - Leis e Regimentos das
p. 122. Missões: Política Indigenista no Brasil, São
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5. Bertendorf S.J., João Felipe - [1699] - Crónica
dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Carneiro da Cunha, Manuela, et alii. - 1987 - Os
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Cultura, 1990. Paulo, Brasiliense/Comissão Pró-índio de São
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6. Hemming, John - 1978 - Red Gold: The Con-
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PESP/SMC-SP/Cia. das Letras, (sobre o assun-
to, vejam-se os artigos de Beatriz
7. Atas da Câmara Municipal de São Paulo, di- Perrone-Moisés, António Porro, Marta Amoro-
versos volumes, São Paulo, Prefeitura Municipal, so, Beatriz G. Dantas et alii, Maria Hilda Paraí-
1914, 5: 261, 295; 6 bis: 216, 382. so e John Monteiro).
Davidoff, Carlos Henrique - 1982 - Bandeirantis-
8. Ação Cível inédita de Francisco Cubas contra os mo, verso e reverso, S.ão Paulo, Brasiliense,
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9. Inventários e Testamentos, 44 vols.. São Paulo, nização, Rio de Janeiro, Paz e Terra/Anpocs.
Imprensa Oficial, 1921-77, vol. 20:55-56.
Hemming, John.- 1978 - Red Gold: The Conquest
10. Registro inédito de Petições Criminais, diversas of the Brazilian Indians, 1500-1760, Cambrid-
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Holanda, Sérgio Buarque de - 1990 - Monções -
12. Arquivo Histórico Ultramarino, Maranhão cx. 8 3a ed. ampliada, São Paulo, Brasiliense.
doe. 10. Trechos deste documento foram publica- Malheiro, A. M. Perdigão - [1866] - A escravidão
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vols., Petrópolis, Vozes.
do Maranhão, 1989-90.
Marchant, Alexander - 1980 - Do escambo à es-
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13. Renôr, "Documentos raros." Sobre a epidemia gueses e índios na colonização do Brasil,
de 1695, ligada a chegada de escravos africanos, 1500-1580, 2a ed., São Paulo, Companhia Edi-
ver Dauril Alden e Joseph Miller, "Out of Africa: The tora Nacional.
Slave Trade and the Transmission of Smallpox to
Brazil," Journal of Interdisciplinary History, 18, no. Moreira Neto, Carlos - 1988 - índios da Amazónia
1, 1987, pp. 195-224. 1750 a 1850: de maioria a minoria, Petró-
polis, Vozes.
14. João de Sousa Ferreira, "América Abreviada ...",
Ribeiro, Berta - 1983 - O índio na história do Bra-
Revista do Instituto Histórico e Geográfico Bra-
sil, São Paulo, Global, (série História Popular
sileiro, 57, pt. 1, 1894, p. 85.
13).

15. Boletim CEDEAM, 1987, p. 151. Schwartz, Stuart B. - 1988 - Segredos Internos: en-
genhos, escravos na sociedade colonial. São
Paulo, Companhia das Letras.
16. Serafim Leite, História da Companhia de Je-
sus no Brasil, 10 vols., Rio de Janeiro, Civilização Thomas, Georg - 1982 - Política Indigenista dos
Brasileira, 1938-50, vol. 7:295; Sousa Ferreira, Portugueses no Brasil, 1500-1640, São Pau-
"América Abreviada," p. 117. lo, Loyola.
Volpato, Luiza - 1986 - Entradas e Bandeiras, São
17. Bertendorf, Crónica, pp. 69-70, 239 e seq. Paulo, Global, (série História Popular 2).
Zenha, Edmundo - 1970 - Mamelucos, São Paulo,
18. Sousa Ferreira, "América Abreviada," p. 117. Revista dos Tribunais.
De arredio a isolado:
perspectivas de autonomia para os povos
indígenas recém-contactados
Dominique Tilkin Gallois

Mais de 50 grupos indígenas distribuí- resulta tanto dos efeitos da introdução de


dos em várias regiões da Amazónia conti- doenças, de tecnologias e de valores alie-
nuam vivendo, hoje, praticamente sem nígenas quanto da intenção de dominação
contato com a sociedade nacional. Ainda que preside à esta introdução. Intenção
vão descobrir, ou redescobrir, o Brasil. É simbolicamente desempenhada, historica-
preciso garantir-lhes espaço e tempo ne- mente, no próprio evento da pacificação,
cessários para que a opção do contato de- quando distribuiam-se roupas, cruzes e ins-
penda deles e não da decisão dos serta- trumentos de trabalho. A dominação
nistas do órgão indigenista oficial. concretizava-se através da política de se-
Enquanto não estiverem ameaçados dire- dentarização visando a liberação dos ter-
tamente, o Estado não promove o conta- ritórios tradicionais, ou através da transfe-
to, apenas protege, à distância, seu habi- rência para áreas distantes, ou através do
tat. Esta nova política "para os isolados", engajamento dos índios em trabalhos con-
implantada pelo Departamento de índios siderados produtivos. Hoje, a intenção mu-
Isolados da Funai, representa, enquanto dou: procura-se efetivamente proteger,
construção teórica, uma alternativa signi- preservar e controlar relações de contato
ficativa à forma com que esses grupos vi- destrutivas, em prol da sobrevivência físi-
nham sendo tratados nas últimas décadas. ca e cultural dos grupos isolados. A práti-
Não se pretende levantar, aqui, as di- ca do contato também mudou: mesmo que
ficuldades enfrentadas ao nível prático das se continue oferecendo ferramentas - sím-
intervenções, devidas principalmente à re- bolo da superioridade tecnológica que nos-
sistência de setores governamentais em sa sociedade se atribui - distribuem-se tam-
subscrever à política protecionista e decor- bém vacinas e remédios.
rentes dos interesses económicos que pe- Para abordar a relação do Estado com
sam sobre os redutos territoriais dos índios os índios, é interessante observar uma fa-
isolados. Entretanto, parece-me relevante se particularmente difícil na experiência de
questionar alguns impasses com que se de- contato de grupos indígenas recém-
fronta esta política, ao nível conceituai. A -contactados: o momento em que deixam
primeira ambiguidade relaciona:se com a de receber proteção especial do Estado,
própria construção da categoria de isola- porque saem da condição de isolados. A
do. Quais fronteiras cercam os isolados e passagem para a situação de contactados
quando deixam de sê-lo? manifesta-se pela simplificação e banaliza-
A permanência de representações am- ção dos serviços assistenciais, dispensando-
bíguas sobre as noções de isolamento, de -se ações que se relacionam tradicional-
autenticidade e pureza, articuladas à de fra- mente com a estratégia da pacificação:
gilidade, de inocência e de marginalidade diminuição do número de agentes, menor
condicionam as relações que historicamen- sistematização e menor especificidade dos
te nossa sociedade mantêm com esses gru- serviços de saúde e, sobretudo, interrup-
pos. Ampliar o debate em torno desses ção da distribuição de bens para fins de se-
conceitos, além do círculo restrito de es- dução. Também diminui o controle do ór-
pecialistas, é um desafio permanente pa- gão estatal sobre a presença de agentes
ra a antropologia, e especialmente para a externos nas áreas indígenas. Mas essa pas-
etnologia. sagem é especialmente marcada por uma
Como mostram os estudos sobre a his- mudança de natureza nas intervenções:
tória indígena nas Américas, o etnocídio aos índios em contato, oferece-se projetos
económicos, programas escolares, etc... O isolamento enquanto opção
Voltarei a esta transfiguração, adiante.
Praticamente todos os grupos indíge-
Até quando e até onde se exerce a pro-
nas que vivem hoje independentes da re-
teção especial ? Se olharmos através des-
lação de dominação que nossa sociedade
te prisma, torna-se evidente que a eman-
lhes reserva, não apenas mantêm, mas re-
cipação da condição de isolados não é
constroem continuamente sua posição de
definida pelo grupo, mas pela política in-
isolamento. Posição esta que, quase sem-
digenista oficial, que num certo momento
pre, resulta de experiências anteriores de
deixa de exercer tal proteção, a que só uma
contato, direto ou indireto: a atitude arre-
nova leva de povos em transição têm di-
dia é reativa ao contato. Essas situações de-
reito. Inversamente, se olharmos para o iní-
vem, por conseguinte, ser analisadas à luz
cio do processo, veremos que muitos gru-
de múltiplos fatores - internos e externos
pos considerados isolados mantêm, de
- que podem explicar a opção pelo isola-
longa data, relações com segmentos da so-
mento: a história própria do grupo e de
ciedade nacional e só estão incluídos na
suas relações com outros povos indígenas,
categoria de isolados por serem conside-
a história das frentes de ocupação e os con-
rados ameaçados ou frágeis, ainda que
dicionantes geográficos que. de modo ar-
provisoriamente. Vista desta perspectiva,
ticulado ou não, garantiram a continuida-
a construção desta categoria continua fun-
de desta situação.
damentalmente delineada pela relação de
dominação que nossa sociedade impõe às E difícil sustentar, em termos etno-
sociedades indígenas. A condição de iso- -históricos ou etnológicos, que os índios
lado resulta de uma classificação operada, isolados "se mantiveram isolados da socie-
em via única, pela sociedade nacional1. dade nacional desde a época do descobri-
mento até os nossos dias" e que represen-
Em períodos anteriores, a fase de pro- tam as "últimas sociedades humanas que
teção especial era curta, senão ausente. ficaram à margem de todas as transforma-
Partia-se imediatamente para intervenções ções ocorridas na face da terra". Este ar-
visando a sedentarização e a integração dos gumento só se justifica em termos políti-
índios ao Brasil produtivo. Hoje, a prática cos, pela necessidade de uma intervenção
de uma fase de transição se mantém 2 , protecionista sobre a sua condição de
mesmo que os critérios considerados pa- "marginalizados da sociedade, inclusive da
ra mudar a relação sejam mais abrangen- assistência governamental"3.
tes. Como se procura abolir, no atual dis- A ambiguidade dos preconceitos asso-
curso indigenista, a sequência de etapas ciados à situação de isolamento e sua pe-
que levam do índio tribal ao integrado (de- renidade no discurso protecionista - oficial
limitadas no tempo da colónia e detalha- ou não - merece alguns comentários. Se
das pelo SPI), os critérios que definem a "a ideia de isolamento deve ser usada com
condição de isolado em oposição à de gru- cautela em qualquer hipótese" (Carneiro
po em contato são hoje particularmente da Cunha, 1992) sua relativização pode ser
confusos. Mas a ideia de passagem de um abordada de vários ângulos, que dizem res-
estágio para o outro constitui uma baliza peito a diferentes níveis de isolamento: his-
fundamental, a partir da qual se constrói. tórico. cultural e sócio-político.
em cada época e até agora, o conceito de
isolado. Fora desta trajetória não haveria
isolados, nem justificativas para uma polí- O isolamento enquanto dinâmi-
tica de proteção. ca histórica e cultural
Antes de discutir, à luz de alguns exem- Os relatos de índios recém-contactados
plos, a ambiguidade das delimitações que sobre mortes decorrentes de doenças epi-
cercam os grupos indígenas em seu cami- démicas, antes desconhecidas, assim co-
nho para o convívio interétnico, é neces- mo suas estratégias para obter utensílios,
sária uma rápida revisão do conceito de que os levam, efetivamente, a se aproxi-
isolamento. mar dos brancos, confirmam quanto é fa-
laciosa a ideia do isolamento. Sabemos que cessos de resistência cultural indígena - Grupo de índios
isolados Auá, com
"objetos manufaturados e microorganismos quanto é inútil perseguir a busca de crité- contato recente.
invadiram o novo mundo a uma velocida- rios de autenticidade cultural, na medida Foto Nancy Flowers.
de muito maior que a dos homens que os em que a cultura não é nada mais que uma
trouxeram" (idem). Sabemos também que dinâmica em constante reelaboração. A an-
a história de contatos interétnicos remotos tropologia abandonou há muito tempo as
é necessária para entender a atual confor- teorias baseadas na contabilidade das per-
mação étnica e a posição geográfica de das (ditas deculturativas) e de acréscimos
muitos grupos arredios. A maior parte des- (ditos aculturativos), formando suposta-
ses grupos descende de segmentos indí- mente um acervo de elementos culturais
genas que recusaram a situação colonial, cujo ponto de equilíbrio deve pender pelo
ou recompostos por foragidos que se rea- peso dos traços "tradicionais" para que a
gruparam em zonas de refúgio. A história cultura seja considerada "intacta". Quan-
dos contatos intertribais, igualmente in- do se afirma que os grupos isolados "con-
fluenciada pela pressão colonial4, também servam" sua integridade sócio-cultural,
é fundamental para compreender a posi- entende-se que eles mantêm atuantes me-
ção dos isolados contemporâneos. canismos cognitivos e organizacionais atra-
Se a história guia os grupos fugitivos vés dos quais são capazes de interpretar
para redutos territoriais e fabrica as unida- e de se adaptar às situações das mais di-
des étnicas, ela também vem remodelan- versas e constantemente renovadas. O qUe
do permanentemente suas especificidades é conservado intacto - ou, o que é abala-
culturais. Definitivamente, os povos isola- do pela situação de dominação - é a dinâ-
dos não são nem sociedades virgens, nem mica própria à cada cultura e não neces-
a imagem do que foi o Brasil pre-cabralino. sariamente um acervo de traços originais
A etnologia vem demostrando - particular- (Carneiro da Cunha, 1986). Aliás, como
mente no Brasil, à luz dos complexos pro- e onde procurar a cultura original?
O isolamento enquanto depen- A maioria dos setores que lidam com
dência e marginalização a questão indígena, e o lema de todas as,
campanhas pro-índio, continuam enfatizan-
do que o "problema indígena é fundamen-
A ilusão do primitivismo que vigora em talmente político e económico". Problema
nosso imaginário condena essas socieda- para quem? Os índios sempre foram e con-
des a uma eterna mas frágil "infância" (Car- tinuam sendo vistos como um estorvo pa-
neiro da Cunha, 1992). E através de um ra a integração económica e política do
embasamento em noções evolucionistas país. Mas admite-se hoje a perspectiva in-
como estas que se constrói, historicamen- versa: o problema é o desenvolvimento de-
te e até hoje, a intervenção protecionista. senfreado que atinge os redutos territoriais
A noção de fragilidade que resulta das pré- indígenas através de frentes de contato não
-concepções de isolamento acima mencio- controladas e que esses grupos minoritá-
nadas redundam na definição da catego- rios não têm capacidade para enfrentar so-
ria de isolados em termos de zinhos.
marginalidade. Esses grupos são, efetiva-
mente, alheios às diretrizes que orientam É importante ressaltar, neste ponto, a
as relações sociais, económicas e políticas dificuldade de se pensar uma política pa-
da sociedade nacional. Sua autonomia, ra os povos indígenas isolados sem medi-
transfigurada em marginalidade, é o argu- das autoritárias de protecionismo - espe-
mento mestre da política de proteção, e sua cialmente no que diz respeito aos seus
Grupo de mulheres manutenção necessária à sustentação de
e crianças no páteo direitos territoriais - uma vez que esta for-
da aldeia Enawenê- intervenções autoritárias, realizadas "em ma de atuação se coloca como o principal
Nawê. no Rio Iquê. nome da proteção e segurança" dos po-
Foto Egon anteparo à destruição, experimentada por
Heck/CIMI. vos isolados5. inúmeros grupos indígenas que desapare-
ceram do mapa. Mas é preciso ter claro que missões religiosas -, importante de ser con-
tal anteparo pressupõe relações de domi- siderada e foi amplamente estudada8. Por
nação que se fundamentam em concep- outro lado, os etnólogos têm analisado -
ções de história e evolução cultural unili- na introdução de suas etnografias e em al-
near, antropologicamente equivocadas, guns trabalhos específicos - os impasses da
mesmo que preeminentes na forma como prática protecionista em casos
nossa sociedade trata o índio6. particulares9.

Hoje, a política indigenista oficial opta Sem pretender abordar a questão de


pela segunda definição do "problema", modo exaustivo, é significativo ilustrar o im-
colocando-se ao lado dos índios para passe através de alguns exemplos. Reto-
defendê-los dos abusos da política desen- mo aqui o fio proposto no início do texto,
volvimentista - que por sua vez, também segundo o qual as contradições do prote-
se apoia na fragilidade da cultura indíge- cionismo seriam melhor esclarecidas no
na para propor sua rápida assimilação. prisma da "passagem" da condição de iso-
Mesmo que tenha mudado a perspectiva lado à de povo em contato, que na pers-
de onde se aborda o "problema", a ques- pectiva do primeiro contato (ou da pacifi-
tão indígena continua apoiada num con- cação), dificilmente identificável. O que se
ceito de marginalidade diretamente relacio- costuma considerar como o ponto zero da
nado às miragens do isolamento histórico história das relações interétnicas - a pacifi-
e cultural acima mencionadas. Se existe, cação realizada por uma agência oficial -
de fato, uma mudança na construção teó- é, na perspectiva indígena, apenas uma
rica do ideário indigenista, a persistência etapa numa trajetória muito mais comple-
de conceitos como estes gera impasses na xa e constantemente reelaborada em suas
condução e nos limites da proteção, espe- representações sobre o contato10.
cialmente quando voltada para os grupos
isolados.
Conteúdo pragmático da
Ambiguidades do prote- proteção
cionismo
Um primeiro aspecto diz respeito ao
A intenção de "proteger e conservar" conteúdo específico dos programas volta-
a autonomia dos grupos isolados surge no dos para a proteção dos índios isolados e
bojo das reivindicações de autodetermina- sua transfiguração quando se tornam me-
ção expressadas pelo movimento indíge- didas assistenciais para povos em contato.
na e passa, recentemente, a ser adotada Há algum tempo, costuma-se planejar a
enquanto obrigação do estado. A contra- preservação da autonomia indígena em
dição básica desta formulação - que con- torno de três poios: garantir a sobrevivên-
diciona a autonomia à proteção - reitera cia territorial, física e socio-cultural. São
a persistência instrumental de conceitos concebidas como medidas preventivas: in-
evolucionistas. A autonomia dos isolados terditar a área territorial, controlar epide-
acaba reduzida conceitualmente à margi- mias de malária e gripe, campanhas de va-
nalidade, que exige proteção (pois os iso- cinação, são prioridades absolutas no
lados são posicionados num gradiente evo- planejamento da assistência aos grupos
lutivo) e conservação (dada a fragilidade recém-cóntactados. No que diz respeito à
de sua cultura). terra, procura-se intervir imediatamente
após o contato ou, idealmente, antes, tão
O descompasso entre a origem desta logo o grupo isolado tenha sido localiza-
ideologia - construída a partir da crítica às do. É inquestionável que a sobrevivência
ações integracionistas implementadas pe- sócio-cultural dos grupos isolados e recém-
lo Estado - e sua aplicação - monopoliza- -contactados depende essencialmente da
da por setores governamentais ou por ins- manutenção equilibrada dos dois níveis an-
tituições autorizadas, especialmente as teriores. Razão pela qual, a proteção terri-
torial e física são programadas a partir de Confronto de estratégias: a po-
princípios a priori, que dispensam a parti- lítica do contato
cipação dos índios. Em função desta prio-
ridade, e do caráter emergencial da atua- Um segundo aspecto a ser considera-
ção, não se planifica a proteção da do diz respeito ao confronto não apenas
autonomia sócio-cultural propriamente di- cultural mas político entre atuação prote-
ta, a não ser através de recomendações ge- cionista e estratégia indígena. As medidas
néricas, relativas ao "respeito" à cultura. de proteção à inocência e fragilidade dos
isolados escamoteiam o importante nível
A interpretação do que se deve respei- da política do contato, levada à frente tan-
tar, ou não, fica a critério dos agentes, de- to pelos agentes de contato quanto pelos
pendendo portanto de sua sensibilidade, índios recém-contactados. No cotidiano de
experiência e capacidade de resistência ao sua atuação, a maior parte dos agentes de
assédio dos índios. Assim, atualmente, nos contato não toma consciência de estar pro-
postos de atração, aceita-se a distribuição movendo relações de dominação. Os ín-
de machados, terçados, anzóis e linhas, dios, quanto a eles, tem plena consciên-
mas não de lanternas, isqueiros ou lonas; cia destas relações e se prestam, através de
panela de alumínio ou miçanga de vidro estratégias diversas, ao jogo da submissão.
podem ser distribuídos, mas com ressalvas, Sua insistência em pedir, ou tomar, os bens
pois se admite que, ao adquirir esses arte- que lhes são oferecidos à conta-gotas - ati-
fatos, os índios deixarão de confeccionar tude sovina expressamente desprezada -
seus artefatos tradicionais. Os critérios ado- não significa que incorporem as relações
tados como medidas preventivas para evi- de subordinação implícitas nessas distribui-
tar o choque cultural relacionam-se basi- ções. Razão pela qual não aceitam os cri-
camente ao cálculo das dependências e térios que presidem à escolha dos objetos
das perdas culturais. Podem mudar: a dis- ofertados. Na região do Cuminapanema,
tribuição de roupas, antes tão simbólica norte do Pará, os índios Zoe consideram
quanto a de ferramentas, foi hoje totalmen- os brancos como "doadores de algodão",
te abolida. São pequenas mudanças que uma categoria construída em função de
não alteram o conteúdo da relação prote- suas primeiras experiências de contato. Há
cionista. Na prática, a seleção de traços a várias décadas, eles obtêm episodicamente
serem preservados se apoia em critérios va- peças de roupa que são desfiadas para reu-
gos e aleatórios. Não leva em conta a se- tilização no trançado de tipóias, de redes
quência de impactos que - inevitavelmen- e nas amarrações de flechas. Encontrados
te - a introdução de qualquer informação em 1987 pela Missão Novas Tribos, foram
ou técnica nova irá provocar. Assim, para agraciados durante algum tempo por far-
citar apenas um elemento, passar da pes- ta distribuição de roupas, utilizadas como
ca com timbó nas cabeceiras dos igarapés vestes ou desfiadas. Bruscamente, os mis-
à técnica da linha com anzol, exige readap- sionários deixaram de distribuí-las, por es-
tações profundas não apenas no gestual, tarem preocupados com as críticas que a
na divisão de trabalho, etc... mas sobretu- Funai faria à sua atuação "aculturativa".
do na seleção de áreas propícias para esta Efetivamente, os agentes da Funai que
forma de pesca: altera portanto a relação substituíram os missionários recolheram o
do grupo com seu território11. Mas anzol máximo de roupas que puderam encon-
"pode", já que se acredita que a difusão trar nas casas. Os Zoe têm, como única al-
desta técnica representa uma melhoria ime- ternativa, furtar panos que usam como ves-
diata na aquisição de proteínas. Aplicação te ou para as amarrações de suas flechas.
de terapias químicas pesadas também "po- Sua lógica não é apenas utilitária, mas po-
de", apesar dos impactos não apenas bio- lítica:, usar roupa é se parecer com os bran-
físicos mas sociológicos e sobretudo sim- cos e estabelecer, através da aparência,
bólicos que nossa prática médica uma "relação mais igualitária com eles.
provoca12. Para salvar os que são, na vi-
são comum, sub-niitridos e doentios, não
há tempo para avaliar os choques culturais. Nosso imaginário cristalizou nesses úl-
timos anos um composto genérico de tra-
ços que nos parecem genuinamente "in- pela qual recomenda-se, quando necessá-
dígenas". Em sua passagem do isolamento rio, defender os índios contra eles mesmos.
para o contato, o índio deve continuar cor- São considerados inocentes, mas também
respondendo à imagem daquilo que se perversos. Há inúmeros exemplos de ati-
quer preservar: protegem-se os elementos tudes tomadas nesse contexto. Assim,
da indianidade idealizada por nossa socie- recomendava-se às frentes do SPI deixar
dade, mesmo ao preço de relações auto- os índios isolados "em paz" sem, no en-
ritárias e, sempre, reducionistas 13 . Razão tanto, deixar de fiscalizar suas relações com

As missões-de-fé e os povos isolados


Ao mesmo tempo em que a Funai man- evidente no instrumento técnico que as mis-
tém um cadastro de grupos isolados, com in- sões evangélicas privilegiam: a língua. Todos
formações que devem permitir ao Estado uma os valores alienígenas a serem introduzidos são
fiscalização mais ágil de seus territórios, as mis- traduzidos na língua nativa, para serem expres-
sões fundamentalistas têm levantamentos de- sos e transmitidos nos termos e nos modos de
talhados dos povos "sem fé" espalhados em concepção indígena e, desta forma, apropria-
todos os cantos do planeta. Ali estão registra- dos. O aparente respeito à língua e à cultura
dos dados significativos para as intervenções é, na verdade, apenas uma instrumentalização
que essas agências priorizam. Seus cadastros que visa a assimilação completa dos índios ao
descrevem os numerosos "povos perdidos do mundo cristão/civilizado.
Brasil", que incluem todos os que não foram O cartaz ao lado pergunta: "São os selva-
atingidos pela "revelação do evangelho". Inves- gens realmente felizes? Medo, superstição, fei-
tigam cuidadosamente a presença de grupos tiçaria, infanticídio... Algumas tribos enterram
isolados que são seu alvo privilegiado. vivos seus bebés acreditando serem um mau
As agências fundamentalistas preferem ini- presságio. Ide em todo o mundo e pregai o
ciar trabalhos entre povos onde nenhum ou- evangelho para cada criatura" (Revista Brown
tro trabalho missionário tenha sido iniciado e, Gold - MNTB).
de preferência, nenhuma outra instituição es-
teja atuando. A inexistência de alternativas
e/ou de comparações garantiria maior eficácia
de seu trabalho. De acordo com esta estraté-
gia, o fato dos isolados não terem tido uma his-
tória de confronto interétnico através da qual
poderiam ter consolidado sua auto-identidade,
tornariam esses grupos mais permeáveis às no-
vas ideias. O cartaz de propaganda da Missão
Novas Tribos (ao lado) evidencia que os isola-
dos não são vistos exatamente como povos
"virgens": praticam atos "selvagens", levados
por impulsos que denotam serem apenas "cor-
pos físicos". Segundo esta lógica, por não te-
rem tido ainda experiência espiritual, represen-
tam o campo ideal para a concretização de
todas as etapas (especialmente as iniciais, que
as missões-de-fé almejam monopolizar) da en-
genharia cultural a que elas se propõem. Gru-
pos isolados não oporiam defesas às inovações
materiais e espirituais, que exigem a substitui-
ção dos traços considerados "negativos" por
eliminação e adaptação aos que são compatí-
veis com a civilização, tida como única, uni-
versal.
O caráter coercitivo dessa estratégia está
outros grupos indígenas, para "evitar lutas Proteger, por um " t e m p o " : o
intertribais"14. Atualmente, continuam de quê?
praxe interferências que pretendem evitar
o surgimento de conflitos internos, mesmo
quando se sabe que as tensões tradicionais No contexto desse gradiente, é relevan-
entre facções políticas são avivadas pela in- te avaliar o tempo durante o qual é apli-
terferência da política assistencial. Entre os cada a proteção especial aos povos
Waiãpi do Amapá, por exemplo, uma sé- isolados15. Além de não considerarem a
rie de episódios dramáticos ilustram o ca- lógica da integração cultural e de opera-
ráter muitas vezes autoritário da atuação rem recortes arbitrários no que se preten-
preservacionista. Em 1980, após ter força- de conservar - como se mencionou acima
do a convivência de dois sub-grupos que - as experiências demostram que os cui-
haviam declarado repetidamente suas dis- dados tomados para não ferir a cultura dos
senções históricas e suas intenções de vin- grupos isolados têm curta duração. As in-
gança, ocorreu a morte do líder de uma tervenções passam da lógica da proteção
facção pelas mãos dos que haviam sido à interferência, patente na tranformação de
obrigados à hospedá-lo; a medida proteti- um "posto de atração" em um "posto in-
va foi de evacuar - para Belém - duas crian- dígena". Entre os dois tipos de atuação, a
ças ligadas à facção atingida, por medo de passagem é habitualmente brusca. Os ín-
novos revides e apesar da insistência dos dios emancipados da condição de isolados
Waiãpi em declarar que não iriam prosse- passam, conceitualmente, do estado de
guir a vingança sobre crianças que consi- inocência ao de povos inferiorizados pelo
deravam suas. Anos depois, solucionou- contato; a situação de dominação
-se outra dissensão interna desarmando os manifesta-se nas múltiplas formas dirigidas
índios e dificultando-se, por vários meses, de auxílio, que pretendem a recuperação
a distribuição de munição. Em 1992, um de sua autonomia.
novo episódio de morte leva agentes do Esta transfiguração pode ser ilustrada,
posto a promover arbitrariamente - isto é, mais uma vez, pelas implicações subjacen-
adiantando-se a decisões que seriam to- tes à distribuição de bens. Na fase de pri-
madas internamente - a separação de meiros encontros, a oferta de bens dese-
membros da aldeia, para evitar o aumen- jados pelos índios visa apaziguar a eventual
to de tensões. Essas atitudes decorrem agressividade dos isolados. A aceitação e
principalmente da incompreensão da ló- a troca de artefatos por parte dos índios,
gica da política indígena, mas também de representou, historicamente, um marco da
Uma suspeição permanente quanto à na- conquista. No passado, não muito remo-
tureza da violência nessas sociedades. O to, os "pacificadores" recolhiam sobretudo
medo, concomitante às acusações de irra- armas (ou seja, desarmavam os índios) que
cionalidade, é habitual não apenas na re- eram encaminhadas aos museus, cujos
lação com grupos isolados e recém- acervos evidenciam hoje a desproporção
-contactados, mas prossegue-se na rotina desse tipo de artefatos em relação a ou-
dos postos, onde os chefes de posto se tros objetos da cultura material indígena.
comportam como guardiães da integrida- Atualmente, os propósitos da distribuição
de moral e cultural indígena. Uma integri- de bens mudaram, mas a manipulação de
dade que é - na fase da convivência - posta presentes para atração continua um ele-
como inevitavelmente degradada e que, na mento central nas técnicas dos "primeiros
lógica protecionista, só os de fora, chefes contatos". Admitindo-se que a maioria dos
de posto, indigenistas e, em último caso, grupos isolados não só tem conhecimen-
antropólogos, seriam capazes de identifi- to da tecnologia dos brancos, como se
car e, eventualmente, recuperar através de aproximam deles para obter tais objetos,
intervenções preservacionistas. O que nos sua distribuição se transforma rapidamen-
leva a questionar, em outra perspectiva, o te numa relação de poder. O gesto se trans-
gradiente de programas destinados incial- forma num meio de obter não apenas do-
mente à preservação e posteriormente à cilidade, mas sobretudo criar relações
recuperação da cultura indígena. privilegiadas com determinados segmen-
tos ou indivíduos do grupo. A competição do da infância à idade adulta, do paraíso
entre agências de contato exerce-se habi- à pobreza, que precisa ser aliviada.
tualmente através dessas relações. Quan- Os exemplos acima - que representam
do o gesto, de momentâneo ou ocasional, apenas alguns aspectos mais evidentes de
se transforma numa política de relaciona- um conjunto de relações muito mais com-
mento - operando seleções definidas pe- plexas - nos trazem de volta à questão ini-
los agentes de contato - ele acaba por afe- cial: por que um marco entre a situação de
tar diretamente o sistema de relações isolamento e de contato? Quais as impli-
sociais e políticas internas da sociedade cações desta passagem se a posição de iso-
indígena16. lado é, por definição, transitória? Qual o
Na rotina dos postos, as cautelas incial- objetivo da proteção se, na prática, as re-
mente observadas no que se refere à pre- lações políticas implantadas no contato cris-
servação cultural tornam-se rapidamente talizam a dependência dos povos que se
obsoletas. Uma vez instaurada a depen- apresentam, inicialmente a nossos olhos,
dência dos índios em relação aos bens que como povos autónomos?
Nas idas e vindas
os atraíram para os postos, passa-se a jus- Um bom exemplo para refletir sobre as entre as aldeias e os
tificar a necessidade da introdução de uten- contradições do protecionismo é a prática postos de
sílios, de cultivares agrícolas, etc... como - persistente inclusive na atual política in- assistência, obtêm-se
objetos como os
meio de suprir a pobreza da tecnologia in- digenista - de repassar as obrigações assis- que a índia Terã
dígena. Visão esta que ressurge com toda tenciais do Estado às missões evangélicas, conseguiu: terçados.
espelho, latas
força, logo terminada a fase de encanta- que atualmente são pletora17 e continuam usadas como
mento do recém-contato. Esse desencan- manipulando seu objetivo fundamentalis- recipientes. Base
tamento seria, afinal, o marco a partir do Cuminapanema,
ta com uma face científica (linguistas, ecó- 1990. Foto
qual os isolados são promovidos, passan- logos e etnólogos) ou assistencial (dispõem Dominique Gallois.
de recursos e de quadros com quem a Fu- reconduzido à aparência do "índio" que
nai não consegue competir). Houve uma nossa sociedade idealiza. E para isso, as
mudança nas últimas gestões da Funai, missões evangélicas são altamente quali-
que proibiu a atuação de missões-de-fé em ficadas.
áreas de índios isolados. O órgão indige- De arredios a isolados, de puros a acuí-
nista oficial as considera agora "desquali- turados, os índios são submetidos a atitu-
ficadas" para garantir a esses grupos con- des protecionistas que se transfiguram ra-
dições de manterem sua autonomia: pidamente em intervenções reeducativas.
repudia-se oficialmente as interferências As concepções relativas a fragilidade de sua
deculturativas que os fundamentalistas pro- cultura e à sua marginalidade política orien-
movem, não apenas através do proselitis- tam uma sequência de intervenções cujo
mo religioso, mas em todos os níveis da vi- objetivo, antes, era abertamente "civiliza-
da social, económica e política dos grupos dor" e visava eliminar por completo as ca-
indígenas. racterísticas do ser indígena. Agora, as in-
Ora, se as missões-de-fé são desqua- tervenções almejam a manutenção de
lificadas nesta fase, porque não o seriam características idealizadas do ser índio18.
numa fase posterior ao contato? Observa- Quando necessário, pretende-se inclusive
-se, porém, que nesta altura, sua atuação reensinar-lhes suas tradições perdidas.
não só é permitida, como referenciada pe- Mesmo que o conteúdo do ensinamento
los próprios agentes do órgão protecionista: tenha mudado, esse relacionamento con-
conta-se com sua dedicação para tomar tinua embasado no pressuposto da "capa-
conta de índios marginalizados, em casos cidade de perfectibilidade e civilização das
espinhosos (por exemplo: dois índios Tu- populações indígenas" (Lima, 1992:81).
pi isolados em difícil situação de convivên-
cia com outros povos foram entregues aos Hoje, como ontem, o Estado arroga-
cuidados de um missionário da MNTB); -se o monopólio (mesmo que não consi-
conta-se com eles enquanto microscopis- ga mantê-lo) na condução da passagem do
tas ou enfermeiros (porque a Funai não isolamento ao convívio interétnico. Uma
consegue contratar ou formar especialis- vez concluída a transição - num momento
tas em seus quadros), ou como mecâni- que também cabe ao Estado definir - ou-
cos, ou motoristas, ou professores. Os téc- tras agências são autorizadas a prosseguir
nicos regionais de educação da Funai - o trabalho. Mas, na maioria das vezes, ter-
quando não produzem métodos ou mate- minada a pacificação, larga-se esses gru-
riais alternativos ao modelo de alfabetiza- pos à própria sorte, deixando-os no esque-
ção "bicultural" implantado pelas missões- cimento. Poderão ressurgir na figura de
-de-fé - não só permitem como divulgam grupos que lutam por sua sobrevivência,
o método das missões, que consideram por suas terras. A estes, oferece-se inter-
adequado ao ensino nas escolas de aldeia, venções totalmente contraditórias com a
por comodismo ou ignorância, sem ter as orientação da fase anterior, de preserva-
condições de avaliar os pressupostos e os ção cultural. A garantia do território, "in-
efeitos deste método. Tudo isto, é claro, tem terditado" no momento do contato, leva
seu preço, pago pelos índios. anos para sair desta precária situação jurí-
dica; os projetos económicos, genéricos e
Voltamos, enfim, ao ponto de partida: inadequados tanto à realidade sócio-
não existe, no quadro da política indige- -política quanto às características ecológi-
nista oficial, uma programação capaz de cas das diferentes áreas ocupadas pelos po-
dar conteúdo à proposta de "preservar a vos indígenas, visam apenas aliviar as li-
autonomia" indígena, em termos sócio- mitações da subsistência comprometida pe-
-políticos e culturais. Razão pela qual, em la sedentarização e pelas perdas territoriais;
última instância, política governamental e os programas de educação e saúde perdem
fundamentalista se apoiam mutuamente, especificidade quando repassados ao con-
ao sabor das conveniências. Terminada a trole de agências municipais ou estaduais,
fase de isolamento, o índio é apenas um ou aos cuidados de missões religiosas. O
marginalizado que deve rapidamente ser que, então, se protege "por um tempo"?
Sair do isolamento: uma políti-
ca de informação
Ao questionar o conteúdo da atuação
protecionista destinada aos grupos isola-
dos, procurou-se evidenciar a necessida-
de de transformações consistentes que per-
mitam concretizar os objetivos
recentemente determinados pela atual po-
lítica indigenista em favor dos povos isola-
dos. O intuito foi essencialmente esboçar
a complexidade da questão, mencionan-
do alguns aspectos de uma problemática
que deve ser ampliada, num debate que
acreditamos ser urgente, e para o qual di-
versos setores devem contribuir.
O respeito à autodeterminação vem
sendo reivindicado há muito tempo por re-
presentantes indígenas, em nível interna-
cional ou nacional, mas também local. Esse
direito fundamental à autonomia, que gru-
pos em contato há séculos reconquistam
a duras penas, deve ser garantido - como
propõem as diretrizes da Departamento de
índios Isolados/Funai - já no momento da
instalação do relacionamento, mesmo que
limitado, com agentes protecionistas. Mas
não diz respeito exclusivamente à política
"para os isolados": deve ter continuidade
nas etapas subsequentes do convívio inter-
-étnico.
Os exemplos acima citados evidenciam
que, tradicionalmente, o protecionismo não fechar. Para sair do isolamento, e da situa- Jurusi "escreve" no
só não garante autonomia, como cria con- ção de marginalização, é importante ter caderno da
antropóloga, para
dições para seu esfacelamento. Esta forma acesso ao diálogo com múltiplos agentes, lhe explicar
de controle monopoliza um intervalo de múltiplas situações, que favoreçam a refle- diferentes tipos de
plantas cultivadas,
tempo durante o qual, na maioria dos ca- xão indígena sobre sua posição no jogo de numa forma que
sos, apenas se consolidam relações de de- poder das relações interétnicas19. A con- considera
compreensível e
pendência em relação às agências oficiais. dução autónoma dessas relações exigindo significativa para os
O fortalecimento da autonomia dos povos compreensão, por parte dos grupos isola- brancos. Base
indígenas - recém-contactados ou em con- dos, de alternativas disponíveis, o que de- Cuminapanema,
1990. Foto
tato - não brotará do intervalo preservacio- pende, enfim, de uma política de in- Dominique Gallois.
nista que, na prática, elimina a possibilida- formação.
de de conhecer, e comparar, outras formas A condução autónoma da relação in-
de convívio. terétnica seria favorecida através de um re-
A garantia da autonomia indígena de- passe mais eficaz de informações abran-
penderia, portanto, da capacidade da po- gentes sobre a existência e a situação de
lítica protecionista em abrir, aos grupos iso- outros povos indígenas, sobre segmentos
lados, a realidade diversificada do mundo diferenciados da sociedade nacional, etc...
de fora. Neste processo, obviamente gra- Não seria inviável controlar os impactos de-
dativo e controlado, é mais importante ga- correntes da absorção de tais informações
rantir um espaço de relacionamento que pelo grupo isolado, se fossem introduzidas
um tempo de resguardo. Como vimos, este em acordo com suas características cultu-
é pura máscara. Controlar não quer dizer rais, situacionais e sobretudo, em conso-
nância com suas expectativas. O planeja- beres tradicionais quando são relegados à
mento de informações a serem repassadas condição de enfeites culturais e quando se
aos grupos recém-contactados exige for- acompanham de evidente ineficácia no
mas didáticas específicas à cada situação, combate às epidemias.
antecipando e revendo os programas mais Para sair do isolamento, é necessário
genéricos que são implantados em fases criar condições para que o grupo recém-
posteriores. E importante ressaltar, entre- -contactado possa refletir e reelaborar os
tanto, que a seleção e adaptação de tais parâmetros de sua própria identidade. Ou
informações só pode ser realizada plena- seja, permitir ao grupo construir, através
mente pelo próprio grupo indígena, que de arranjos conceituais e organizacionais
as utilizará de acordo com suas necessida- próprios à sua cultura, formas de relacio-
des, que evoluem em função das altera- namento com diversos segmentos da so-
ções da situação de contato. Aos agentes ciedade nacional, através do qual ele não
de contato, cabe apenas promover esta só poderá resguardar, mas reforçar uma es-
abertura20. tratégia de convívio que garanta a preser-
Esta forma de atuação implica, aparen- vação - por ele controlada - de sua dife-
temente, numa imersão no mundo dos rença étnica e cultural.
brancos, na medida em que promove a A antropologia dos movimentos étni-
adaptação e a instrumentalização dos ín- cos evidenciou que a forma mais eficiente
dios com técnicas e saberes novos. Em fun- de fortalecer a autonomia de um grupo é
ção disto, tal orientação confronta-se ha- permitir que se reconheça - demarcando-
bitualmente com o ideário preservacionista, -se dos outros - numa identidade coletiva.
cujos critérios de "respeito" à cultura ques- Fortalecimento este que consiste num pro-
tionamos acima. Assim, os programas de cesso dinâmico, num trabalho de adapta-
educação que o senso-comum considera ção constante, que não é nem contagioso
"adaptados" são normalmente os que en- nem hereditário. Razão pela qual constata-
fatizam o uso exclusivo da língua mater- -se em várias partes do mundo que a iden-
na, considerada a única capaz de preser- tidade cultural não desaparece ao contato
var a cultura indígena. Na área de saúde, com modos de ser e pensar diferenciados.
programas preservacionistas preconizam o Ao contrário. A identidade morre nos es-
uso de plantas medicinais ou a integração paços fechados, que limitam a reflexão
dos pajés nas curas. As comunidades in- comparativa, que não propiciam a praxis
dígenas, quanto a elas, reivindicam melho- contrastiva, ou que refletem apenas um es-
rias na qualidade dos serviços de saúde e pelhamento com agentes transfigurados
de ensino. Os índios não esperam dos em protetores de uma cultura dita tradicio-
brancos que lhes reensinem suas tradições, nal, idealizada e imobilizada no tempo. A
mas querem dominar o português, a ma- cultura - que não é feita apenas de tradi-
temática e outras técnicas habitualmente ções - só se mantém enquanto movimen-
monopolizadas pelos brancos. Não se ilu- to, devendo ser constantemente recon-
dem com as concessões feitas a seus sa- firmada.

Notas encontram na "troca de objetos" o recurso que for-


1. Como mostra Souza Lima, esta categoria rela maliza o contato pacifico entre índios e membros de
cional é construída a partir de três criférios básicos, nossa sociedade. Há mais de 20 anos, as equipes
de atração da Funai encaminhavam ao Museu do
de distância social, forma de integração com o civi-
índio os artesanatos oferecidos pelos indígenas. Do
lizado e relação com o espaço, operados na pers-
acúmulo de peças que ali chegavam surgiu a id£ia
pectiva da sociedade nacional. Nesta perspectiva, de criar um mecanismo que servisse, ao mesmo
a categoria de isolado pode assim ser aproximada tempo, para promover, resgatar, fortalecer, divulgar
conceitulmente do contraste histórico entre manso as manifestações artísticas das sociedades indígenas
(ou domesticado) e bravio (ou hostil) (1992: 83-85). brasileiras e garantir-lhes alternativa de renda" (Fo-
2. cfr. Programa Artíndia, que se propõe instrumen- lheto Artíndia / Funai, s/d).
talizar esta mediação (grifos nossos): "Os trabalhos
de atração de grupos indígenas arredios e isolados 3. cfr. Documento CH/Funai, 09/89.
4. Ver o estudo de Farage sobre a imbricação das leng, construída na perspectiva funcionalista, parti-
relações intertribais e interétnicas no rio Branco cularmente adequada à leitura que os agentes de
(1991). assistência fazem da aquisição de dependências de-
correntes da introdução de técnicas novas.
5. Intervenções estas que o Estado tem o monopó-
lio de exercer, desde a época do SPI: "a pacifica- 12. Ver análise de Buchillet (1991) sobre os impac-
ção não é o primeiro contato... é o momento do de- tos e as adaptações simbólicas e sócio-políticas re-
sempenho de atos heróicos, da legitimação do SPI, sultantes da introdução de novas técnicas de saúde.
que só ele poderia realizar , tornando seus possí-
veis concorrentes incapacitados para o trabalho com
populações indígenas" (Lima, 1992:115). 13. Ver análise de Andrade e Viveiros de Castro so-
bre a concepção de "povos naturais" que assimila
as sociedades indígenas ao seu ambiente, despoliti-
6. Em manchete no Jornal do Brasil no Dia do ín- zando a relação de contato (1988).
dio de 1986, Memelia Moreira escreve: "índio quer
ser respeitado" e pergunta: "o que esperam os ar- 14. cfr.DRibeiro: "os grupos isolados ou arredios,
redios?" Como indica a jornalista, "os arredios não que não estão em contato com civilizados e que não
ocupam as manchetes, desconhecemos as denomi- correm o risco de ser alcançados pela expansão de
nações dos grupos e só sabemos da existência de- nossa sociedade, nos próximos anos, devem ser dei-
les quando acontece o encontro casual com serin- xados em paz, apenas assistidos por turmas de vi-
gueiros, caçadores de pele e outros exploradores. gilância, com o objetivo de evitar lutas intertribais
Eles desconhecem os caminhos de Brasília, jamais (1962: 161 - grifos nossos).
ouviram falar da Funai e não podem vir reivindicar
seus direitos ou pedir dinheiro". Hoje, por força da 15. cfr. Documento CII/Funai: "Não se pretende
política de proteção que setores governamentais e mantê-los em redomas para o deleite de quem quer
pro-índio assumiram, a situação mudou: os arredios que seja, mas propiciar ao índio tempo, fator fun-
são, sim, manchete de jornais. Na maioria dos ca- damental no processo de aculturação" (09/89 - gri-
sos, porém, só aparecem como pano de fundo nas fos nossos).
notícias que anunciam seu "contato" por parte de
uma frente da Funai. Tornam-se notícia porque en- 16. Ver análise de Lizot (1984) sobre os impactos
tram, pelas mãos da Funai, na história. Depois, de- da introdução de nova tecnologia entre os Yanoma-
saparecem do noticário. Só voltarão ao cenário mi e a instauração de novas relações económicas
quando forem noticiadas consequências de epide- que acabam transformando o sistema de relações
mias, invasão de suas terras, ou mais tarde, quan- sociais internas àquela sociedade.
do tiverem, como fizeram os Kaiapó, encontrado ca-
minhos próprios para "pedir dinheiro", através de 17. A atual gestão da Funai pretende efetuar uma
acordos construídos, sem a mediação protecionis- revisão dos convénios existentes com missões-de-
ta, com seus vizinhos regionais. O caminho de sua -fé, entre as quais as mais ativas são: o Summer Ins-
entrada na história seria, como afirma o cliché da titute of Linguistics (SIL). a Associação Linguística
revista Manchete a respeito do contato com os iso- Evangélica Misssionária (ALEM), a Missão Novas Tri-
lados do Cuminapanema, "o crepúsculo de uma bos do Brasil (MNTB), a Missão Evangélica da Ama-
raça"?. zónia (MEVA), a Missão Cristã Evangélica do Brasil
(MICEB), a Convenção Batista Nacional, que atuam
em cerca de 100 aldeias indígenas (APL/Funai,
7. cfr. o atual programa da Funai para os isolados
Convénios, 1988).
(grifos nossos): "A Funai, respaldada na Constitui-
ção Federal de 1988, está seguindo uma política
orientada para a autonomia desses povos, rejeitan- 18. Esta transfiguração foi durante muito tempo ca-
do qualquer tipo de iniciativa integracionista. As- racterística das intervenções da Igreja: é o caso da
sim, ao contrário da visão difundida até pouco tem- atuação dos Salesianos, no rio Rio Negro ou entre
po, os grupos isolados não são aqueles que os Bororó (ver a análise de Novaes sobre essas re-
obrigatoriamente devam ser "atraídos" ou "conta- lações, no início do século e hoje, 1990). Atualmen-
tados" para pacificamente serem incorporados à so- te, é muito nítida também nos programas estatais
ciedade brasileira" (Brasil Indígena, 1992). de proteção, educação e recuperação da cultura in-
dígena promovidos pela Funai.
8. Ver, entre outros: DRibeiro (1970), Carneiro da
Cunha (1992), Lima (1992). 19. cfr. Documento final do "Encontro sobre índios
isolados e de contato recente" promovido pelo CI-
9. Ver, entre outros: Oliveira (1988) e Baines (1991). MI/ORAN em 1986: "Precisa criar condições para
que o grupo indígena (isolado) conheça a realida-
10. Ver a análise dos discursos políticos e de narra- de regional em que está inscrito, ajudando a divisar
tivas mítico-históricas através das quais os Waiãpi os aspectos mais amplos da realidade nacional, con-
reelaboram suas experiências de convivência com siderando estes conhecimentos como subsídios in-
os brancos, construindo uma nova auto- dispensáveis para um projeto de autonomia frente
-representação (Gallois, 1992). à sociedade nacional. Tal postura supõe a promo-
11. Ver a análise de Métraux (1959) sobre os im- ção de acesso e intercâmbio do grupo indígena com
pactos da introdução de ferramentas entre os Xok- outros agentes regionais, de maneira a estimular no
vos e diferentes graus de identidade étnica. No mes- tro sobre índios isolados e de contato recen-
mo sentido, seria válido promover contatos com ou- te, Cuiabá.
tros grupos indígenas vizinhos, possibilitando sua
articulação e organização própria". Farage, N. - 1991 - As muralhas dos sertões: os
povos indígenas no rio Branco e a coloniza-
ção, São Paulo, Anpocs/Paz e Terra.
20. Uma opção interessante consiste em possibili-
tar o repasse de informações aos índios recém- FUNAI/CU - 1989 - Sistema de Proteção ao ín-
-contactados através do diálogo com outros grupos dio Isolado (3 parte: indicações gerais), Brasília.
indígenas. As visitas de representantes de outros po- - 1989 - índios isolados: por que protegê-los ?,
vos, ou a apresentação de imagens em vídeo (cfr. Brasília.
Programa Vídeo nas Aldeias / CTI, Carelli, 1986) - 1992 - Brasil Indígena. Presidência, Brasília.
permitem introduzir informações culturalmente sig-
nificativas, relativas à diversidade dos brancos, am- Gallois, D.T - 1992 (no prelo) - "Jane ayvu kasi: dis-
pliando as experiências restritas e localizadas de cada curso político e auto-representação Waiãpi" in
grupo. Note-se, porém, que estas alternativas são A.Ramos e B.Albert (org.) Imagens do Bran-
radicalmente diferentes das soluções tradicionalmen- co, Brasília, UNB/ORSTOM.
te adotadas pela Funai, que engaja índios intérpre- - 1992 - Mairi revisitada: a reintegração da for-
tes nas equipes de contato, onde atuam ao lado dos taleza de Macapá na tradição oral dos Waiã-
sertanistas, numa posição dependente frente a es- pi, NHII/USP, dat.
ses, e de dominação frente aos isolados (cfr. Bai-
nes, 1991). Gallois, D.T. & Grupioni, L.D. -1991 - "A redesco-
berta dos amáveis selvagens" - Aconteceu Es-
Bibliografia pecial Povos Indígenas, 1987/90, São Pau-
lo. PIB/CEDI.
Andrade, L. & Viveiros de Castro, E. - 1988 - Hi-
drelétricas do Xingu: o Estado contra as Socie- Lima, AC.de Souza - 1992 - Um grande cerco de
dades Indígenas - in As Hidrelétricas do Xin- paz: poder tutelar e indianidade no Brasil -
gu e os povos indígenas, São Paulo, Comissão Tese de doutorado, Rio de Janeiro,
Pró-Indio de São Paulo. UFRJ/PPGAS.
Baines, S. -1991 - "É a Funai que sabe": a frente Lizot, J. - 1984 - "Aspects économiques et sociaux
de atração Waimiri-Atroari - Belém, du changement culturel" in Les Yanomami
Col.Eduardo Galvão, Museu Pareanse Centraux. Paris, Cahiers de 1'Homme, EHESS.
E.Goeldi.
Buchillet, D. - 1991 - "Impacto do contato sobre as Métraux, A. - 1959 - "La révolution de la hache"
representações tradicionais da doença e seu tra- - Diogene n.25, jan.-mar.
tamento: uma introdução" - in Medicinas Tra- Novaes, SC. - 1990 - Jogo de Espelhos: imagens
dicionais e Medicina Ocidental na Amazó- da representação de si através dos outros,
nia, Belém, Ed.Cejup. Tese dout., FFLCA/USP. São Paulo.
Carelli, V - 1986 - "Vídeo e reafirmação étnica" in Moreira, M. - 19.04.1986 - "índio quer ser respei-
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Oliveira F.,J.P. - 1988 - O nosso governo: os Ticu-
Carneiro da Cunha, M.L. - 1986 - "Etnicidade: da na e o regime tutelar - São Paulo, Marco Ze-
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gia do Brasil: mito, história, etnicidade - São
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- 1992 - "Introdução à uma história indígena" in His- ra - Ministério da Agricultura, Rio de Janeiro.
tória dos índios no Brasil - São Paulo, FA-
PESP/SMC-SP/Cia. das Letras. 1970 - Os índios e a civilização: a integração
das populações indígenas no Brasil moder-
CIMI/OPAN 1986 - Documento Final: Encon- no, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
As artes da vida do indígena brasileiro
Berta G. Ribeiro

Lewis Henry Morgan, um dos "foun- quando úmida. A qualidade da cerâmica


ding fathers" da Antropologia, chamava depende da obtenção de um grão fino, ho-
"Artes da Vida" as técnicas que implicam mogéneo.
no desenvolvimento de implementos pa- A argila é geralmente recolhida às mar-
ra o manejo de recursos naturais. E consi- gens ou nos leitos dos rios ou córregos. Ar-
derou a tríade - cerâmica, trançado, fiação mazenada em cestos ou folhas de palmei-
e tecelagem - como técnicas básicas das ar- ra, é colocada em lugares frescos para
tes da vida. evitar o ressecamento. Depois é depurada
Os estudos de cultura material de po- de impurezas - fragmentos vegetais, mine-
pulações indígenas, que marcaram época rais, pequenos seixos - borrifada com água,
quando a antropologia estava sediada prin- pulverizada no pilão e amassada.
cipalmente em museus etnográficos ou de Para obter-se uma boa liga é necessá-
história natural, perderam força na medi- rio adicionar certas substâncias que neu-
da em que essa disciplina transportou-se tralizem a excessiva plasticidade da argila.
para as universidades. Entre as décadas de Tais são: 1) dentre as orgânicas - palha pi-
50 e 80 registrou-se um vazio bibliográfi- cada, raízes, ossos moídos, etc; 2) dentre
co no que tange a esses estudos. Contu- as inorgânicas - grãos de quartzo, mica,
do, a temática ligada à cultura material não feldspato, pedras calcárias, areia, etc; 3)
desapareceu de todo. Entre outras razões dentre as bio-minerais - casca queimada e
porque, como documentos materiais, in- triturada de árvore rica em sílica, chama-
clusive iconográficos, exprimem a identi- da cariapé Licania octandra, conchas es-
dade de uma cultura. Como objetos úteis fareladas, etc. 4) cacos de cerâmica pul-
eles são consumidos. E como bens simbó- verizados. A adição desses materiais nem
licos são dotados de significado. Os dois sempre ocorre, uma vez que eles já se en-
aspectos, embora possam coexistir, contram naturalmente misturados nos de-
colocam-se, na maioria dos casos, em po- pósitos de argila.
ios opostos (Pomian 1985:71). A sequência operacional da modela-
No presente artigo trataremos dos ob- gem de uma peça se inicia com o preparo
jetos necessários ao provimento da subsis- de um bloco de barro. Segue-se a super-
tência, isto é, dos utilitários, e daqueles su- posição de roletes de argila em forma de
pérfluos à subsistência: os objetos rituais. anéis em espiral.
Ambos assumem crescente importância O tratamento interno e externo da su-
para os próprios índios, como acentua D. perfície de uma peça de cerâmica se faz
Gallois (1989:140): "... por um lado, por- com a ajuda de implementos simples: con-
que muitos grupos têm encontrado na ven- chas, pedaços de cuias, facas ou colheres
da de "artesanato" uma apreciável fonte de de metal. Com essa técnica elementar, mas
renda e, por outro lado, porque a manu- que exige grande habilidade manual,
tenção de uma cultura material diferencia- alisam-se as paredes, preparando-as para
da serve de marca ao movimento de re- o polimento. Este se processa com seixos
sistência étnica, como sinal de autonomia rolados, cocos ( como o da palmeira inajá
a ser reconquistada". - Maximiliana regia), frutos, sementes,
conchas, etc. Entre a raspagem e o poli-
A cerâmica mento costuma-se ainda lixar a peça com
a folha de um arbusto (Dileniacea sp.).
A argila é a matéria-prima básica na Preparada a peça de cerâmica,
confecção da cerâmica. O preparo da ar- procede-se à queima que geralmente an-
gila exige tempo e paciência. E pulveriza- tecede a decoração pintada. Algumas tri-
da, quando seca, ou trabalhada à mão, bos, como os Asuriní, escolhem com to-
Mulher Tikuna
processa alimentos
dentro de um vaso
de cerâmica. Aldeia
de Belém do
Solimões. Foto
Jussara Gruber.
do o cuidado o combustível para o fogo. ria sp.) ou de marantáceas como o arumã
No caso citado, a bainha da folha da pal- (Ischosiphon aruma)
meira babaçu (Orbygnia phalerata). Ou- O trançado feito com fasquias de cipó,
tros grupos procuram vegetais que contém uma ipífita, que caracteriza um terceiro es-
látex, a fim de obter uma boa chama e tem- tilo ou um subestilo, carece, de um modo
peratura elevada. A queima é feita geral- geral, de decoração. É empregado na con-
mente ao ar livre, isto é, em atmosfera oxi- fecção de peças mais rústicas: cestos-
dante. -cargueiros, armadilhas de peixe e na cons-
Na cerâmica utilitária, o acabamento trução das casas.
interno e externo das peças é feito com a E cabível fazer-se uma correlação en-
seiva de entrecasca de algumas árvores, ge- tre estilos de trançados de alguns grupos
ralmente do ingá (Ingá spp.). Esse trata- indígenas do Brasil e seus modos de vida.
mento contribui para a impermeabilização Os grupos campestres, que vivem lon-
da superfície. ge dos grandes rios - quase todos filiados
Após a queima e a decoração do va- à família linguística Jê ou macro-Jê - pra-
silhame, os índios Asuriní, entre outros, vi- ticam predominantemente o estilo "de pa-
trificam a peça com a aplicação de resina lha". As tribos silvícola-ribeirinhas, provi-
vegetal. Para isso, utiliza-se o breu de jutaí das de canoas, desenvolveram, em maior
e a resina de jatobá, ambas do género proporção, o estilo "de tala", bicromo, que
Hymenaea. Os Tukúna empregam o leite propicia a elaboração de uma infinidade de
de sorva Couma utilis. desenhos geométricos realçados pelo claro-
Quanto à decoração, ensina Andrade -escuro das talas.
Lima (1986:177): "De um modo geral, os O trançado feito com fasquias de ci-
mesmos padrões decorativos são aplicados pó caracteriza o subestilo dos grupos que
a diferentes suportes: pintura corporal, ces- vivem no interior da floresta, longe dos
taria, tecelagem e cerâmica. Isto é evidente grandes cursos d'água, a exemplo dos ín-
na arte do alto Xingu, entre os Kadiwéu, dios Makú e Yanomami.
Marúbo, Asuriní e Kaxináwa, onde os mes- A distinção mais elementar que cabe
mos motivos geométricos amoldam-se a fazer para classificar os trançados é Trançado sarjado
superfícies e materiais substancialmente di- diferenciá-los, por sua estrutura, em duas com folha nova da
ferenciados, exigindo adaptações de ordem >almeira buriti.
técnica. Esses padrões podem revestir-se
grandes classes: 1) trançados entre-
-trançados; d) trançados costurados ou es-
Índios Jurúna,
Parque Indígena do
de conteúdos simbólicos ou ter apenas sen- Xingu. Foto Fred
piralados. Uma classificação dos entretran- Ribeiro.
tido estético".

Os trançados
A mais importante técnica manufatu-
reira propriamente dita - isto é, que utiliza
a mão em atividade prênsil - é a dos tran-
çados. Nesta arte, das mais antigas que a
humanidade pratica, os índios do Brasil al-
cançaram alto grau de domínio.
O trançado indígena pode ser carac-
terizado por dois macro-estilos em função
da matéria-prima empregada e da elabo-
ração: 1) trançado feito predominantemen-
te de palha (folíolos do olho da folha no-
va da palmeira); 2) trançado feito
predominantemente de tala (material mais
rígido extraído do pecíolo da folha nova da
palmeira buriti Mauritia flexuosa, ou la-
minado da haste de gramíneas (Arundina-
Detalhe de trançado
monocromo de talas
do pecfolo da folha
nova do buriti.
Cesto cargueiro dos
índios Yawalapiti.
Foto Fred Ribeiro.

çados que leve em conta o elemento móvel A fiação


- a trama - permite distinguir três proce-
dimentos capitais: entrecruzar (weaving), A transformação de matéria-prima (al-
entrelaçar (wraping), entretorcer (twining). godão, bromeliácea ou palmácea) em fio
Se fôssemos estudar os trançados de exige grande habilidade manual. No caso
cultura popular, não indígena, talvez não do caraguatá (Bromelia pinguin), a folha
houvesse necessidade de uma classificação é mergulhada na água para decompor as
e nomenclatura para defini-los. Os trança- matérias-primas não-fibrosas e posterior-
dos indígenas, sendo muito mais comple- mente batidas, lavadas e secas ao sol. Pa-
xos quanto à técnica, forma é docoração, ra libertar o linho da fibra de outra brome-
e prestando-se a um grande espectro de lia, o caroá (Neoglaziovia variegata), e a
usos, carecem de uma nomenclatura es- do olho (prefoliação) da palmeira buriti
pecífica que os defina e identifique. Tanto (Mauritia flexuosa) ou tucum (Astrocar-
assim é que muitas palavras de origem tu- yum tucuma) o procedimento é mais di-
pi foram incorporadas ao vernáculo para reto: separa-se a "seda" da palha (no ca-
identificar objetos trançados de origem in- so da palmeira) sendo esta última usada
dígena transmitidos aos brancos. Entre ou- para o trançado ou descartada.
tros, podemos citar: jequi para covo ou re- A torção da fibra de bromeliácea ou
dil de pesca; patuá para estojo; tupé para palmácea para produzir o fio é feita na coxa
esteira; urupema para peneira; tipiti - tu- com a palma da mão, em movimento de
bo flexível para extrair o ácido hidro-ciânico vaivém. Bastante mais complexa é a tor-
da mandioca; jamaxim, jaca, panacu e atu- ção do algodão que exige o emprego do
ra para cesto-cargueiro; apá - uma espé- fuso. O fuso compõe-se de uma vareta, on-
cie de peneira mais funda na forma de de é bobinado o fio depois de torcido. Es-
meia calota. (Cf. B.G. Ribeiro sa vareta é encastoada num disco que ser-
1986:283-321, 1988:39-76). ve de volante e de peso para imprimir ao
fuso um movimento de rotação. (Cf. B.G.
Ribeiro, 1986:283-321; 1988:41-76).

A arte de tecer

A arte do tecido alcançou entre nos-


sos índios o mesmo relevo que a do tran-
çado. a arte plumária e a cerâmica. Culti-
vando o algodão e conhecendo outras
fibras têxteis, os índios brasileiros dispu-
nham de materiais apropriados à te-
celagem.
Na classificação da produção têxtil dos
índios brasileiros distinguem-se duas gran-
des classes de técnicas básicas: 1) trabalho
em trama; 2) trabalho em malha. O tra-
balho em trama se processa com o uso de
dois fios descontínuos: urdidura e trama.
O trabalho em malha é feito com um fio
contínuo.
A técnica de tecelagem - chamada
"verdadeira" - se processa pelo entrecru-
zamento em ângulos retos de duas séries
de fios: urdidura, os passivos, e trama, os
ativos. A tecelagem verdadeira exige o uso
de uma armação - o tear - para distender
e separar convenientemente os fios da ur-
didura. E chamado, por isso, tear de
tensão.
Entre índios brasileiros encontramos,
basicamente, três tipos de tear. O primei-
ro é formado de duas barras horizontais -
as urdideiras - porque nelas é passado o
urdume, amarradas a duas traves na ver-
tical. Esse tipo de tear é conhecido na bi- tear portátil, próprio para executar tecidos Mulher Wayana
bliografia etnológica como "tear amazôni- de pequenas dimensões, é designado tear fiando algodão com
um fuso. Foto Lúcia
co ou tipo aruak". É também chamado tear em U, tear em arco ou "tipo ucaiali". Nele Van Velthcn.
com a urdidura na vertical. Nesse tear se são executados adornos tecidos para os
produz a tecelagem entretecida (weaving), braços e as pernas e as tangas de miçangas.
"tecelagem verdadeira". Apenas os grupos indígenas que tive-
Um segundo tipo de tear, mais expan- ram contato com a civilização incaica, co-
dido que o primeiro, é constituído de dois mo os Omágua, e os grupos de língua Pa-
esteios fincados no chão em torno dos no dos afluentes do rio Ucaiali (Kaxináwa
quais é passada a urdidura em sentido ho- e outros) utilizam o tear de cintura. Neste
rizontal. E chamado por isso, tear com o tipo de tear. a tensão dos fios é dada pela
urdume na horizontal. Presta-se para con- tecelã, que passa um cinto em torno da cin-
feccionar tecido entretorcido (twined) ou tura para firmá-los.
contratorcido (countertwined). No sistema de tecelagem conhecido
O terceiro tipo de tear é formado por como "trabalho em malha" o produto é ob-
uma vara dobrada em forma de ferradu- tido com um fio enredador contínuo, de
ra, com as pontas amarradas a certa dis- extensão limitada, uma vez que tem de
tância uma de outra. Nesse intervalo e na passar dentro das malhas, guiado geral-
dobra é passada o urdume. Esse tipo de mente por agulha de orifício.
Mulheres Araweté O tecido enredado (filé) é empregado deviam atribuir-lhes algum significado sim-
tecem uma rede de
algodão em tear primordialmente na confecção das redes bólico, além do estético. Essa mensagem
com o urdume na de pescar, nas bolsas ou sacolas e nos se perdeu para sempre no caso de grupos
horizontal. Foto Fred sacos-cargueiros, executados com ou sem como os Tupinambá, que deixaram de si
Ribeiro.
• nós. Além desses, as técnicas de tecelagem o testemunho de seus mantos de penas.
são empregadas na confecção de redes de Os seis remanescentes pertencem a mu-
dormir, tipóias para levar o filho ao colo seus europeus: os de Florença, Milão, Ba-
ou transporte de objetos, adornos de cor- sileia, Copenhague e Paris.
po (pulseiras, braçadeiras, jarreteiras, tor- A associação de penas e plumas a tran-
nozeleiras, colares, cintos), saia feminina, çados e a tecidos lhes empresta caracterís-
tanga masculina e suporte para adornos ticas tão peculiares que podem servir de
plumários. (Cf. B.G. Ribeiro, critério para distinguir duas famílias estilís-
1986:283-321; 1988:41-76). ticas diversas. Um desses estilos é voltado
à suntuosidade devido à associação de pe-
nas longas e varetas e a suportes trança-
Arte plumária dos, conferindo a seus portadores um mag-
nífico efeito cénico. Exemplificam esse
A arte plumária, a mais bela expressão estilo a plumária ainda hoje confecciona-
estética dos povos indígenas do Brasil, não da pelos Wayana-Aparai, Bororó, Karajá,
obstante a devastação das matas e a acul- Tapirapé e Kayapó.
turação dos grupos plumistas. continua vi- Os mais altos representantes da segun-
va para inúmeros deles. da família estilística, cujas criações se dis-
Todas as tribos que apreciavam o va- tinguem pela flexibilidade dos adornos -
lor decorativo da plumagem dos pássaros permite aplicá-los diretamente ao corpo -
são atualmente os índios Kaapor e Erikpat-
sa. São criações de dimensões diminutas,
matizes cromáticas sutis e requintes de aca-
bamento.
Estudos recentes têm demonstrado
que a plumária - na sua qualidade de ob-
jeto ritual - é um veículo de mensagens.
Ou seja, uma forma de comunicação so-
cial semelhante à linguagem oral. Os as-
pectos simbólicos mais significativos - no
caso do adorno plumário - dizem respeito
a: 1) aves preferidas, seja por suas caracte-
rísticas físicas ou canoras; 2) tamanho, co-
lorido e disposição das penas no conjun-
to; 3) significado mítico-religioso dos
adornos; 4) seu caráter de prerrogativa de
linhagens e indicador de todo tipo de clas-
sificações sociais.
A arte plumária, voltada originariamen-
te ao domínio mítico-estético-ritual, à per-
sonalização do corpo - que implica num
conceito de beleza etnicamente definido -
vem perdendo sua função e sua mística na
medida em que se destina, em grande me-
dida, ao comércio externo. Esse comércio
deve ser coibido - exceto para coleções de
museus - se se deseja conservar não só a
arte plumária como a avifauna de que se
serve (Cf. Ribeiro, 1986b:189/23 S.F. Dor-
ta, 1986b:227-236).

Música e instrumentos musicais

A música e os instrumentos musicais


se relacionam a aspectos da organização
social e da cosmologia. O rito é, invaria-
velmente, um evento musical. A matéria-
prima de que é feito o instrumento e o lu-
gar do corpo em que é fixado possuem,
também, um significado que varia confor-
me a tribo e o evento musical. O fato de
determinados indivíduos tocarem música Os adornos
num ou noutro espaço, para certas plateias Idiofones: Instrumentos em que a subs- plumários bororó se
tância em si. devido à sua elasticidade e caracterizam pelo
e não para outras, produzindo efeitos so- uso de penas
noros distintos pode ser altamente signifi- solidez, ressoa sem requerer membranas caudais de aves
cativo para a correia interpretação de um ou cordas. Compreendem grande núme- montadas sobre
suportes rijos. Foto
rito (Seeger, 1986b:174). ro de instrumentos indígenas (chocalhos, Foerthmann
maracás, etc), dividindo-se em diversas
Os instrumentos musicais dos índios do
subcategorias.
Brasil se enquadram no sistema classifica-
tório elaborado pelos etnólogos alemães
Erich von Hornboster e Curt Sachs e as- Membranofones: Instrumentos em que
sim definidos por Seeger (1986b: 174-175): o som é criado através de uma membrana
Muitos rituais sob tensão. Trata-se, basicamente, de tam- recolhem e exprimem as forças benignas
realizados pelos
Waiãpi relacionam- bores. Este grupo é pouco representativo e malignas espalhadas no universo indíge-
-se com o tema na América do Sul. na. São estátuas que, ao som da música
mítico da
especiação, quando
e ao ritmo da dança, ganham vida e mo-
Cordofones: Instrumentos com uma ou vimento. Constituem, portanto, o aspecto
os homens
apreenderam dos mais cordas estendidas entre pontos fixos. dinâmico dos rituais mágico-religiosos. E
animais seus cantos Igualmente raros na música tradicional in- através delas que se manifestam e se tor-
e seus enfeites, dígena, com a possível exceção de arcos
reproduzidos nas nam presentes os espíritos ancestrais e dos
festas que celebram musicais, cuja presença pré-colombiana foi heróis culturais. Na dança, seu portador co-
até hoje esse motivo de intenso debate. meça a representar o papel do espírito cuja
momento crucial do
surgimento de uma
Aerofones: Nesses instrumentos o ar é em máscara ostenta, para assim transmitir sua
humanidade
diferenciada. si o vibrador em sentido primário. Talvez mensagem.
Durante o ritual do seja o grupo de maior importância simbó- Diante da multiplicidade de caracteres
"jupará" um grupo
de rapazes Waiãpi lica na América do Sul, constituindo uma figurados, e da impossibilidade de
tocam flautas de família de instrumentos que passou por inventariá-los em sua totalidade, optamos,
pan que foram muita elaboração na sua forma de soar." na classificação das máscaras, por um cri-
confeccionadas
especialmente para tério morfológico, que leva em conta as
esta ocasião. Foto matérias-primas e, consequentemente, as
Dominique Gallois. O significado das máscaras técnicas compatíveis.
Desse ponto de vista, distinguimos para
As máscaras, no contexto mágico- o Dicionário do Artesanato Indígena (Ri-
religioso, representam figuras de antepas- beiro, 1988 : 304) os seguintes macro-tipos:
sados, espíritos protetores da floresta, da "1) Máscaras trançadas, registradas entre di-
fauna e do ambiente natural. As máscaras versos grupos do tronco Jê (Timbira, Ka-
índios Waiãpi
durante o ritual do
"pacuasu". Os
dançarinos usam
máscaras com
peixes
dependurados e sua
coreografia
representa a luta
entre diferentes
espécies de peixes.
Foto Dominique
Gallois.

yapó, Xerente, Xavante, índios do alto Xin- ras com "cara" de cabaça (alto Xingu, Ka
gu, Karajá e Tapirapé). 2) Máscaras de líber xináwa, Timbira). 6) Máscaras compostas
encontradas nos rios Japurá, Solimões e de capuz, calça e camisa (alto Xingu, Xik-
no noroeste amazônico (Juri-taboca - ex- rin)."
tintos -, Tukúna, índios do alto rio Negro). Além dos instrumentos musicais e das
3) Máscaras tecidas (alto Xingu, alto rio Ne- máscaras, outros objetos rituais procuram
gro). 4) Máscaras com "cara" de madeira exprimir os arquétipos do mundo sobrena-
(alto Xingu, Tukúna, Tapirapé). 5) Másca- tural revestidos dos atributos que lhe são
peculiares. Tais são os objetos usados pe- zação representa a quebra da afirmação tri-
los xamãs (pajés), chefes de aldeia e per- bal.
sonagens destacados de um rito. Todos eles Os fatores que incidem negativamen-
são finamente decorados e valem como te sobre a produção artesanal podem ser
símbolos de poder, a exemplo dos bastões assim sumariados: 1) o equipamento de
de mando, dos bancos, cetros, arcos e fle- ação sobre a natureza (objetos utilitários)
chas cerimoniais, lanças e bordunas, o ma- enfrenta a competição desleal de bens in-
chado semilunar dos grupos Jê, além de dustriais(lataria, panos, plásticos) introdu-
inúmeros outros. zidos nas aldeias. Esses objetos são ado-
A instrumentália do pajé é difícil de ser tados pelos índios principalmente pelo
inventariada uma vez que se distribui por poder e prestígio da sociedade dominan-
várias categorias de artefatos e, mesmo te. 2) A paramentália ritual é afetada pelo
dentro de um único artefato, existiriam "en- preconceito que recai sobre a "pele social"
cantamentos" difíceis de definir. É o que do índio: seus adornos e pintura corporal.
diz Zerries a propósito do maracá: "O con- Desde o inicio da década de 70, o ar-
teúdo do maracá, que compreende diver- tesanato indígena passou a ser objeto de
sos tipos de pedrinhas, sementes, etc. for- demanda por parte do mercado turístico.
neceria material para toda uma dissertação" Apesar do risco de deturpação que a ati-
(Zerries, 1981:333). vidade artesanal para fora conduz em si,
ela contribui, em alguns casos, para salvar
Posfácio a arte indígena de total desaparecimento.
Urge revigorar a atividade artesanal pa-
Tal como ocorre em outras esferas da ra fora, no que se refere a artefatos profa-
cultura, o artesanato indígena tem sido du- nos, remunerando-a condignamente. E in-
ramente atingido pelo processo de acultu- centivar a de caráter endógeno como
ração. Constituindo o símbolo mais visível forma de preservar a configuração sócio-
de etnicidade, sua perda ou descaracteri- -cultural em sua integridade.

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vol. 2, pp. 351-395. São Paulo.
Os índios e suas relações com a natureza
Isabelle Vidal Giannini

Hoje, quando o nosso predomínio so- reza" pois "a prática social da natureza se
bre a natureza parece quase completo, sur- articula sobre a ideia que uma dada socie-
gem inúmeras correntes ambientalistas dis- dade se faz de si própria, sobre a ideia que
postas a tornarem os olhos com nostalgia ela se faz do ambiente que a circunda e so-
para períodos passados, em busca de um bre a ideia que ela se faz de sua interven-
equilíbrio mais justo A preservação da na- ção sobre o meio ambiente" (Descola,
tureza tornou-se uma das maiores preocu- 1986). Cada sociedade possui uma certa
pações deste fim de século. criatividade cultural explicitada na forma
Atualmente, de um modo geral, quan- como esta socializa a natureza. Analogias
do nos referimos à natureza, pensamos em e metáforas animais no discurso cotidiano,
"recursos naturais", "preservação do meio mítico e ritual das sociedades indígenas re-
ambiente", "ecologia". forçam o sentimento de que homens e ani-
As sociedades indígenas, pela sua re- mais participam da construção do cosmos.
lação bastante íntima com a natureza, so- Existe sim a convicção de que homens e
frem entretanto, na visão do senso comum, natureza estão inseridos em um só mun-
de um preconceito que distorce a com- do. Tanto o mundo das plantas como o dos
preensão da relação destas sociedades com animais estão carregados, assim, de senti-
o seu meio ambiente. Evidencia-se sobre- do simbólico, aproximando-os da socieda-
tudo o fato de estas sociedades preserva- de humana, sejam as relações assim esta-
rem o seu meio circundante, de viverem belecidas atrativas ou repulsivas.
um eterno romance com o mundo animal Dentro do contexto das representações
e vegetal e de serem as guardiãs dos "se- da Natureza, pelas sociedades indígenas,
gredos" da floresta. incluímos a produção de um conhecimento
Devemos lembrar que o conceito de classificatório dos elementos naturais. O co-
natureza e sociedade se exprime essencial- nhecimento indígena sobre a natureza não
mente por uma construção cultural. A ideia visa somente ao utilitarismo, como foi co-
de natureza é algo específico de uma da- locado pela antropologia ecológica, nem
da sociedade, isto é, ela depende da for- visa somente às representações, como foi
ma como uma sociedade humana recorta colocado pela antropologia simbólica.
o mundo natural como sendo "da nature- Todos os povos desenvolvem teorias
za". para entender o mundo. A cosmologia de
Na visão de mundo das sociedades in- cada sociedade representa a ordenação do
dígenas, o cosmos inclui tanto a socieda- universo, ordem esta que está vinculada a
de como a natureza que interagem cons- todos os aspectos da vida societária. Por
tantemente. Natureza e sociedade outro lado, Lévi-Strauss (1962) coloca que
representam uma oposição que se inter- o conhecimento do mundo da natureza re-
-relaciona através de um processo contí- pousa no desejo universal que têm todos
nuo de reciprocidade através de metáfo- os povos de conhecer e classificar seu meio
ras e símbolos, mitos e cerimoniais e ambiente, seja simplesmente pelo saber em
mesmo comportamentos dos mais cotidia- si, seja pela satisfação de impor um padrão
nos como resguardos, evitação ou absten- ou de ordenar o "caos".
ção de atividades. No contexto da exposição "índios no
Neste sentido, a distinção entre natu- Brasil", tentamos mostrar, através da apre-
reza e sociedade repousa nas diversas es- sentação de diferentes espécies de aves, a
feras sociais organizadas por uma cosmo- forma como a sociedade indígena Xikrin,
logia mais ampla. Por outro lado, não habitante das margens do rio Cateté, Es-
podemos dizer que as sociedades indíge- tado do Pará, agrupa e classifica a avifau-
nas são "naturalmente integradas à Natu- na de sua região. Gostaríamos de apresen-
tar, neste artigo, esta classificação mais por ela produzido. Neste sentido, cabe lem-
detalhadamente, passando posteriormente brar o que disse Sick(1984: 55) com rela-
para as representações simbólicas do mun- ção ao registro das vozes das aves: "Ob-
do animal e vegetal no universo deste gru- servadores experientes conseguem
po. Desta forma e através de um exemplo escrever a voz de modo muito semelhan-
específico, serão evidenciados dois tipos de te, embora cada um na fonética de sua pró-
relações que se estabelecem entre uma da- pria língua. Diferenças podem surgir devi-
da sociedade e a natureza. A primeira se do ao grau de percepção dos observadores,
refere ao sistema de categorias explícitas o que ressalta o caráter subjetivo dessa
e ideais, que recorta o universo vegetal e técnica".
animal em classes morfológicas, indepen- No caso dos índios Xikrin temos, co-
dentemente de qualquer utilização práti- mo exemplo, a nomenclatura onomatopéi-
ca; a segunda se refere a um sistema de ca bem-te-vi (nome popular) e rãrãti (Xik-
categorias implícitas, estruturadas por uma rin), aracuã (nome popular) e kokakuã (
finalidade utilitarista ou simbólica (Desco- Xikrin). Em ambos os exemplos, notam-
la. 1986). -se facilmente as semelhanças rítmicas e so-
noras entre os termos regionais e indígenas.
A classificação Xikrin das aves Do ponto de vista cognitivo a nomen-
clatura onomatopéica é extremamente im-
No sistema de classificação Xikrin da portante. As sociedades indígenas apresen-
avifauna o termo indígena àk engloba to- tam riquezas nos artefatos plumários e as
das as aves, correspondendo diretamente aves, além de fornecerem penas, cantam.
à categoria científica. As aves são agrupa- Como coloca Patrick Menget ao tratar da
das por critérios morfológicos e a nomen- definição humana nas sociedades amerín-
clatura específica pode ser descritiva ou dias: "são verdadeiros homens de penas
onomatopéica. A nomenclatura indígena que gostam sobretudo de música". Atra-
de cada ave pode refletir o canto, o chil- vés da nomenclatura das aves, percebemos
rear, o grasnar, o chiar ou qualquer som a existência de outro meio para o conhe-
Xamã cimento e para a simbolização entre os Xik-
Nhiàkrekampin rin: a audição. E de fato, vários "cantos de
elabora desenhos aves" são entoados durante os rituais.
xamanísticos: seres
subaquáticos, que A nomenclatura descritiva das aves nos
são perigosos mas
que auxiliam o remete, ainda, a um outro plano do conhe-
xamã. Xikrin do cimento indígena: o morfológico e compor-
Cateté. Foto Lux tamental. Os nomes podem se referir ao
Vidal.
tamanho de uma espécie em relação às ou-
tras ou descrever um aspecto sobressaliente
da ave.
No que se refere a taxonomia, existem
na classificação Xikrin, quatro níveis que
denominamos de categoria inicial, catego-
ria supragenérica, categoria genérica e ca-
tegoria específica. Estas categorias são se-
melhantes às categorias criadas por Lineu.
Aliás, sempre me perguntei se Carlos Li-
neu (1707 - 1778) teria criado os princí-
pios da sistematização ou taxonomia. Mi-
nha conclusão, ao contrário, foi a de que
ele comprovou a existência de taxonomias
nativas pré-existentes ao seu estudo. Seu
trabalho foi o de sistematizar os dados co-
lhidos por viajantes e naturalistas, previa-
mente agrupados e nomeados pelos nati-
vos. Dois autores compartilham desta ideia: avó chamou os meninos para ir tirar pal-
Rui Coelho (1989:91), em um artigo de- mito. Os dois meninos foram com ela. A
dicado a temas ligados à cognição e aos avó estava cortando palmito debaixo do
processos culturais, deixa no ar a pergun- ninho do gavião grande. O gavião já vinha
ta: "Teria Lineu o privilégio de ter atingi- trazendo um homem que tinha pego quan-
do a coisa em si?". Na mesma direção, lem- do estava caçando. Aio gavião desceu pa-
bro a colocação de Patrick Menget: "é só ra pegá-la. Os meninos estavam brincan-
ler os naturalistas viajantes do século XVIII do no capim. O gavião desceu, pegou a
ao Brasil para se perceber que grande parte avó, subiu e botou no ninho. Os meninos
de suas observações sobre a avifauna pro- correram avisar o avô. O avô disse: " Eu
vém de forma direta e explícita, do saber vou matar o gavião". Não matou, só foi
indígena cujas pesquisas posteriores dos or- olhar. O gavião estava comendo a avó.
nitólogos vieram confirmar". Ele foi procurar um poção grande e co-
Através de uma observação feita pelo locou os dois meninos na água. Levou ba-
próprio Lineu, ao se referir aos índios Gua- tata doce, inhame, banana, para eles co-
rani, encontramos mais uma vez a compro- merem. Comeram até ficar grandes.
vação deste pensamento: "primus verus Depois de um tempo, o avô foi ver onde
systematicus" (apud Stoni, 1944:11), dan- estava o pé dos meninos. Os pés estavam
do assim o devido crédito à contribuição saindo do outro lado do lago. Peixes an-
intelectual deste povo. davam por cima deles, cobra, poraquê. ja-
caré. Todo bicho andava por cima e eles
Neste artigo não cabe apresentar todas não se mexiam. O avô quando viu que os
as categorias (hierárquicas e inclusivas) da meninos estavam grandes foi fazer bordu-
classificação taxonômica indígena das aves. na, lança e buzina pequena de taboca.
O importante é ressaltar a sua existência,
mostrando que de fato existe uma lógica Aí todo mundo foi, de manhã cedo, le-
comum no pensamento humano. A capa- var urucum, forrar o chão. Os dois meni-
cidade de classificar ou de pensar taxono- nos se levantaram e foram para o centro
micamente é algo compartilhado pelos da aldeia. O avô foi construir um abrigo
Xikrin e outras sociedades indígenas e pe- de palha para pegar o gavião. Os meninos
los membros de nossa sociedade. É, na entraram no abrigo e esperaram. Um de-
verdade, algo muito mais geral, cuja uni- les saiu e chamou o gavião: bxchfbxch!
versalidade é apontada por Hanson (1973: Quando o gavião vinha descendo, ele en-
6): "O fato supremo da diversidade animal trou no abrigo. O gavião desceu e bateu
e vegetal é que a sua variedade é descri- no chão, procurando aonde é que tinha
ta, de modo muito significativo, em termos gente, depois subiu de novo e quando es-
de grupos descontínuos chamados de es- tava lá em cima ele chamou de novo.
pécies. A universalidade desta observação O gavião desceu, Kukrut-uire saiu e
é tão largamente aceita que ela parece um chamou de cima, isto várias vezes.
lugar-comum". Quando o gavião cansou, botou a lín-
Como exemplos citaremos aqui ape- gua de fora e ficou com as asas abertas,
nas duas categorias entre as onze existen- os dois gigantes o mataram. Cortaram o
tes, entre os Xikrin. gavião miúdo. Tiraram uma pena e saiu um
O termo àk, como vimos anteriormen- gavião, uma outra saiu um urubu, outra
te, define a categoria inicial das aves e cor- uma arara, das penas pequenas saiu os
responde diretamente à ordem científica pássaros. Puseram as penas na cabeça co-
Falconiformes. Este fato pode ser explica- mo enfeite e ficaram cantando".
do através do mito da origem das aves: No tempo das origens só existia uma
"Kukrut kako e Kukrut uire e a morte do espécie de ave, o gavião gigante. O mito
gavião-real". Para uma melhor compreen- conta como os heróis mitológicos criaram,
são do leitor, reproduziremos aqui o mito a partir deste gavião, a diversidade no mun-
integralmente. do das aves. Por outro lado, ao criarem as
"Kukrut-uire e Kukrut-kako eram dois aves, eles criam também os artefatos plu-
meninos. O avô estava fazendo flechas. A mários considerados verdadeiras riquezas
para esta sociedade indígena. Notamos de uma diferenciação no nível da comes-
que, no mito, existe uma hierarquia na cria- tibilidade, dos artefatos, isto é, no nível
ção das espécies, sendo que as primeiras pragmático, não podemos falar em crité-
pertencem ao grupo dos Falconiformes. rios utilitaristas como definidores da clas-
Neste caso, a classificação das aves está di- sificação Xikrin das aves, porque o cam-
retamente relacionada a esta hierarquia, po de espécies nomeadas é muito amplo,
sendo que não existem sequer categorias ultrapassando os limites de uma pura clas-
intermediárias. sificação adaptativa. No entanto, percebe-
mos que sobressaem linguisticamente os
A denominação Kamri, outra catego- animais que, tanto no nível da alimenta-
ria taxônomica, engloba a ordem científi- ção como das representações, são impor-
ca Ciconiformes, além de mais três famí- tantes numa certa cultura.
lias científicas: Anatidae, Phalacrocoracidae
Após este breve comentário sobre as
e Aramidae. Este agrupamento se baseia
formas de classificação, ressaltando um sis-
nos hábitos ribeirinhos, de banhados e la-
tema de relação entre uma dada socieda-
goas e na alimentação: todas as espécies
de e a natureza do ponto de vista da iden-
desta categoria se alimentam de peixes.
tificação e ordenação dos elementos
Neste grupo já existe a categoria genérica
naturais, passaremos, a seguir, a tratar das
e intermediária.
representações simbólicas existentes entre
ADesar de reconhecerem a existência natureza e sociedade.
A construção simbólica da na- que, através do feitiço, regula a ação pre-
tureza datória dos homens.
Por outro lado, é da floresta que pro-
vém atributos importantes da sociabilida-
Os índios Xikrin definem espaços na- de Xikrin. Foi neste domínio que, no tem-
turais distintos: a terra, dividida em clarei- po das origens, os índios se apoderaram
ra e floresta, o céu, o mundo aquático e do fogo e da linguagem cerimonial. A flo-
o mundo subterrâneo; concebem-no com resta é vista como um espaço físico com-
atributos e habitantes distintos e se relacio- partilhado por animais e grupos inimigos:
nam com cada um deles de maneira dife- é um espaço competitivo, agressivo. Nas
renciada. Os espaços naturais são os dife- situações de doenças, é o domínio com o
rentes domínios que compõem o cosmos. qual não se deve ter contato.
Procuraremos, a seguir, caracterizá-los em Para minimizar estas agressões os ho-
sua especificidade. mens devem ser iniciados neste domínio
através de rituais específicos. A neutraliza- Desenho do xamã
A floresta é a moradia de diferentes ca- ção da agressividade é realizada na clarei- Nhiàkrekampin. No
lado esquerdo há a
tegorias étnicas inimigas, dos animais ter- ra, lugar da aldeia e das roças, através das representação do
restres e também das plantas. Ela é o es- espécies animais domesticadas e das plan- dono-controlador do
mundo aquático. Do
paço da caça prestigiada, como no caso da tas cultivadas. A clareira é o lugar das re- lado direito, o dono-
anta, jabuti, tatu e outros. Mas a apropria- lações de parentesco e aliança, da cons- -controlador da
trução da pessoa e da socialização do floresta. No centro,
ção indevida, sem regras, do mundo ani- a representação do
mal, causa a fúria de uma entidade sobre- indivíduo, enfim, da definição da humani- feitiço dos donos-
natural, o dono-controlador dos animais dade. -controladores.
'*A queda do No domínio aquático, encontramos a
Gavião-real".
Desenho do xamã possibilidade do fortalecimento dos aspec-
Nhiàkrekampin. tos físicos e psicológicos do indivíduo. A
água faz amadurecer rapidamente através
de rituais de imersão, sem porém alterar
a substância do ser. A água é um elemen-
to da criação, contrariamente ao fogo, ele-
mento da transformação. Neste domínio
existe também um dono-controlador. Sua
relação com os homens é de solidarieda-
de e, no tempo mítico, marca o início das
relações entre os homens e os outros do-
mínios. Foi o dono-controlador do mun-
do aquático que ensinou aos homens a cu-
ra das doenças. As plantas medicinais são
No fim da tarde. do domínio terrestre, mas seu conhecimen-
mulher e filhos
voltam do trabalho
to e as regras de sua manipulação para o
na roça. Aldeia benefício dos homens foram adquiridos no
Xikrin do Cateté. mundo aquático através da mediação de
Foto Lux Vidal.
um xamã e de sua relação com o dono- dade verificam-se ainda, através de certas
-controlador deste domínio. práticas cotidianas como o fato de um ca-
O mundo subterrâneo está relaciona- çador, ao retornar de uma caçada bem su-
do ao sangue, ao comer cru, ao canibalis- cedida, cantar para que o espírito do ani-
mo, representa a condição verdadeiramen- mal caçado permaneça na floresta; de
te anti-social, em que os homens são certas escarificações realizadas para que o
presas e não predadores. Ele representa indivíduo desenvolva atributos valorizados
aquilo que os homens não querem ser. de certos animais; e, de forma mais com-
No domínio do céu, o leste é o lugar plexa, nas sucessivas fases dos rituais de
da luz eterna, origem dos índios Xikrin. É nominação e iniciação.
também o habitat do gavião-real, iniciador Os rituais possuem aspectos simbólicos
do xamã com quem este mantém uma re- que transcendem a organização social, re-
lação especial: é o gavião-real que, segun- lação de parentesco, transmissão de nomes
do o mito, perfura a nuca do iniciando para e prerrogativas. O canto, a coreografia e
que se torne um bom xamã. os ornamentos, dos quais os homens se
A categoria das aves está relacionada apropriaram no tempo das origens, são re-
ao espaço físico do céu. As aves e os arte- produzidos no ritual como manifestação da
fatos plumários foram, como já citamos, situação atual da humanidade no cosmo.
criados pelos heróis mitológicos, possibili- Os rituais de iniciação e nominação
tando assim a humanidade Xikrin, diferen- mostram que a humanidade Xikrin se
ciando os verdadeiros humanos de outros constrói a partir dos atributos dos diferen-
grupos étnicos e dos animais. tes domínios que compõem o universo. E
a interligação dos domínios, que tem no
Sendo assim, para os Xikrin, a arte plu-
centro os próprios Xikrin, que permite a
mária não é considerada apenas como um
construção de sua sociedade.
adorno, o que ela representa na verdade
para os homens é a conquista da humani- Nesta sociedade, a noção de contágio
dade. Os ornamentos corporais fazem par- demonstra também a relação existente en-
te de um conjunto de características que tre sociedade e natureza. Ela envolve tan-
expressam a identidade desta sociedade.
Crianças Xikrin
Se por um lado, como vimos, existem voltam com o
diferenças entre os vários domínios cosmo- resultado de uma
pescaria. Foto Lux
lógicos, encontramos também vários siste- Vidal.
mas mediadores que evidenciam a relação
entre os humanos e estes domínios. No ca-
so dos Xikrin, por exemplo, a origem dos
nomes pessoais estabelece não somente
uma herança dos ancestrais de geração a
geração como também um vínculo entre
os Xikrin e a Natureza. Eles colocam em
relação os humanos, os animais terrestres
e os peixes, estabelecendo-se assim um pa-
rentesco simbólico entre os habitantes dos
diferentes domínios, relacionando os hu-
manos e animais entre si. Observamos as-
sim que a nominação, enquanto sistema
de classificação social, se define como um
sistema de relações. E interessante notar
que estas mediações se estabelecem pela
ação de um xamã que ao se comunicar
com os animais, aprende seus nomes, dan-
ças e cantos, transmitindo estes conheci-
mentos aos homens.
As mediações entre natureza e socie-
to aspectos positivos, como a aquisição de comunica continuamente com estes domí-
atributos animais valorizados pela socieda- nios. Ele detém o papel de intermediador
de, quanto aspectos negativos, relaciona- por excelência.
dos à transgressão das regras sociais ou de O xamã é um ser pleno: vive na so-
um contato nocivo com substâncias peri- ciedade dos homens, compartilha da so-
gosas do domínio da natureza. A noção de ciedade dos animais, do sobrenatural e tem
contaminação é algo muito abrangente, e a capacidade de manipular os diferentes
só pode ser entendida se pensarmos, con- domínios. Ele pode, entre tantos outros
comitantemente, nos elementos constitu- atributos, negociar com os donos-
tivos da pessoa, nas relações entre grupos -controladores do mundo animal, uma boa
e indivíduos e na relação entre a socieda- caçada ou uma farta pescaria. Ele é inicia-
de e a natureza. Como coloca Michel Per- do pelo grande gavião - real, habitante do
rin (1985: 103 - 122) ao tratar da questão mundo celeste, adquirindo assim, a capa-
do contágio entre os Guarijo, o contágio cidade de voar e voando, possui uma vi-
é um poder "extra-ordinário", que lembra são cósmica do universo.
à humanidade suas constantes relações e Se o discurso moderno ocidental se
dependências destes "outros mundos", ora sustenta na relação de "posse", "conquis-
refutados, ora incorporados. ta" e "domínio", isto é, numa relação on-
de a concepção de natureza passa a ser
Para finalizar não poderíamos deixar de mero objeto para o homem, vimos, atra-
falar sobre o papel que desempenha o xa- vés de um exemplo específico, que nas so-
mã nesta sociedade indígena. O xamã, in- ciedades indígenas as diferentes partes que
divíduo sobre-humano e cujos poderes são compõem o universo se interpenetram.
adquiridos "extra sociedade" é o mediador Não existe uma dicotomia natureza/socie-
entre a sociedade Xikrin e a natureza, en- dade mas uma continuidade entre os do-
tre a sociedade Xikrin e o sobrenatural. O mínios tal como concebidos pelos Xikrin.
xamã tem o poder de transitar tanto no É claro que ao tratarmos das relações en-
mundo dos homens como no mundo da tre sociedades indígenas e natureza não po-
natureza. Os humanos, ao longo de suas demos deixar de apontar a existência de
vidas, acumulam atributos de diferentes sutis diferenças de interação e de definição
domínios cósmicos e se constróem através dos domínios cósmicos e seus atributos,
deles. O xamã vivência, compartilha e se particulares à cada sociedade.

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O direito envergonhado:
o direito e os índios no Brasil*
Carlos Frederico Marés de Souza Filho

Introdução cuta políticas ou julga, não trata os confli-


tos de terra, por exemplo, como o choque
Nada é mais dramaticamente pareci- de interesses de classes, segmentos sociais
do com a realidade dos direitos dos povos, ou setores da sociedade, mas como o con-
escravos, índios, camponeses, mulheres e flito entre o direito de propriedade do fa-
outros segmentos discriminados da socie- zendeiro tal contra o direito subjetivo do
dade latino-americana do que o conto de posseiro qual. Tudo fica reduzido a desa-
Kafka, "Diante da Lei". Um homem passa fetos pessoais e a Lei, geral e universal em
a vida inteira diante da porta da Lei espe- princípio, se concretiza apenas nos confli-
rando para entrar, sempre há um impedi- tos individuais, podendo ser injusta na apli-
mento, uma ressalva, uma proibição mo- cação, mas mantendo sua aura de Justiça
mentânea, uma ameaça, até que o homem na generalidade.
morre. No momento de sua morte, vê que Se a distância entre o justo e o legal
o porteiro fechará a porta e, interrogando em matéria de Direito Privado, marcado
a razão do fechamento, descobre que a pela hegenomia da propriedade, que se
porta estivera aberta somente para ele du- transforma em seu parâmetro e paradig-
rante todo o tempo, e já que ele não en- ma, é claramente verificável apenas surja
trara, não havia mais razão para a porta o conflito entre indivíduos de classes so-
permanecer aberta. ciais diferentes e o Estado seja, através do
Assim os oprimidos quando chegam à Juízo, chamado a compô-lo, no Direito Pe-
porta da lei encontram um obstáculo, difi- nal, que tem teoricamente o primado da
culdade, impedimento ou ameaça, mas o Justiça e a recuperação do delinquente co-
Estado e o Direito continuam afirmando mo fundamento, as coisas não são assim
que a porta está aberta, que a lei faz de tão claras, porque a relação não se esta-
todos os homens iguais, que as oportuni- belece diretamente entre desiguais, mas en-
dades, serviços e possibilidades de inter- tre o Estado (portador da Justiça) e o in-
venção do Estado estão sempre presentes divíduo presumivelmente inocente. Mas,
para todos, de forma isonômica e cega. E contraditoriamente, é na aplicação das pe-
a sistemática, usual, crónica injustiça da so- nas que se pode verificar o profundo con-
ciedade é apresentada como exceção, coin- teúdo de classe do Direito, talvez porque,
cidência ou desventura. O Estado e seu Di- enquanto o Direito Privado é voltado pa-
reito não conseguem aceitar as diferenças ra as relações jurídicas da minoria da po-
sociais e as injustiças que elas engendram pulação que contrata, distrata, discute o pa-
e na maior parte das vezes as omitem ou trimónio, disputa a herança e busca
mascaram, ajudando em sua perpetuação. indenização, o Direito Penal é criado co-
Aos olhos da lei a realidade social é ho- mo forma de coibir a violência pessoal, não
mogénea e na sociedade não convivem di- pouca vezes filha da violência social, inti-
ferenças profundas geradas por conflitos de midando e desestimulando a grande maio-
interesses de ordem económica e social. O ria de injustiçados de procurar a justiça por
Sistema Jurídico os transforma em ques- suas próprias mãos, por isso o Direito Pe-
tões pessoais, isola o problema para ten- nal é voltado para a grande maioria da po-
tar resolvê-lo em composições de partes, pulação, e por ela conhecido como instru-
como se elas não tivessem, por sua vez, mento de intimidação. O Direito Privado
ligações profundas com outros interesses é o direito dos poderosos, o Penal dos opri-
geradores e mantenedores dos mesmos midos, aquele para garantir seus bens, es-
conflitos. O Estado, quando legisla, exe- te para intimidar ação socialmente re-
provável. e as relações com os brancos ou com ou-
Quando se estuda o Direito brasileiro tras comunidades são compreendidos e
em relação aos povos indígenas ou negros, vistos a partir de seus valores culturais que
estas contradições se revelam muito facil- geram normas exigíveis e puníveis. As ex-
mente, e fica claro este sentido da Lei que plicações para os fenómenos do mundo,
ora se omite para não consagrar direitos, inclusive a invasão de seus territórios pe-
ora tergiversa para esconder injustiças. los brancos, são dadas pelo seu sistema
sócio-cultural, exatamente por isto, é muito
O direito dos índios diferente a reação de cada povo indígena
às invasões ou à existência de estranhos
No Brasil hoje vivem mais de duzen- em suas terras 2.
tos e cinquenta mil índios distribuídos em A existência de um Direito entre os po-
mais de cento e oitenta grupos étnicos, vos indígenas, e seu reconhecimento, não
com profundas diferenças sociais e orga- é uma polémica recente, mas remonta ao
nizativas. Cada um destes grupos tem um início das invasões europeias em território
Direito próprio, não escrito, mas rigidamen- americano. E significativo o fato do frei Bar-
te obedecido. tolomé de Las Casas ter escrito vasta obra
Porém, o Estado e seu Direito negam em defesa deste princípio e, ainda assim,
a possibilidade de convivência, num mes- não ter sido aceito ou entendido. Muito
mo território, de sistemas jurídicos diver- contestado, mas com muita paixão, dizia
sos, acreditando que o Direito Estatal seja Las Casas naqueles idos de 1500: "Cua-
único e onipresente. O exemplo do Bra- lesquier naciones y pueblos, por infieles
sil, porém, com a existência destas várias que sean, (...) son pueblos libres, y que no
Nações Indígenas com maior ou menor reconocem fuera de si ningun superior, ex-
contato com a sociedade brasileira, faz por cepto los suyos próprios, y este superior
desmentir aquelas concepções. o estes superiores tienen la misma plenísi-
As relações de família, propriedade, su- ma potestad y los mismos derechos dei
cessão, casamento e crime, são, numa so- príncipe supremo en sus reinos, que los
ciedade indígena, nitidamente reconheci- que ahora posea el imperador en su im-
das por toda a comunidade, de tal forma pério" 3 .
que se estabelece um sistema jurídico com- Os poucos juristas que tratam da His-
plexo, com normas e sanções. A varieda- tória do Direito brasileiro, fazem referências
de de sanções corresponde à importância ao direito pré-colombiano, como se as Na-
da transgressão e a legitimidade da forma ções indígenas tivessem existido apenas até
e da sanção não é questionada, porque o advento do Estado Brasileiro. Esta inter-
não deriva de um poder acima da comu- pretação etnocêntrica, pressupõe a unici-
nidade, mas da própria comunidade que dade do Direito Estatal de tal forma que
as estabelece no processo social, de acor- só admite direitos das sociedades indíge-
do com as necessidades do grupo. nas enquanto não houve Estado, portu-
E fácil, porque transparente, observar guês ou brasileiro, que providenciasse um
a existência do direito indígena nas regras Direito único com sua fonte exclusiva ou,
penais. Assim nos relata Alcida Ramos: pelo menos prioritária, a Lei. Em todo ca-
"Quando uma ação criminosa é consuma- so, nestas análises e estudos, há um mar-
da, aplica-se, então, a punição correspon- cante desconhecimento e mesmo referên-
dente: ostracismo, expulsão ou mesmo cias à existência ainda hoje de grupos e à
morte" l. Não são menos "visíveis" as re- nações indígenas, algumas das quais sem
gras ao casamento nas culturas indígenas, praticamente nenhum contato com a so-
a tal ponto de que muitas vezes, se possa ciedade brasileira. A guisa de exemplo, é
afirmar, sem exageros, que as opções de interessante analisar o livro do Prof. João
liberdade individual em relação ao casa- Bernardino Gonzaga que, admitindo a
mento sejam quase nulas. existência do Direito em povos não orga-
Por terem um direito próprio e por se nizados estatalmente, já a partir do título
organizarem segundo os parâmetros de sua que deu a seu trabalho: "O Direito Penal
sociedade, conceitos como território e povo Indígena à Época do Descobrimento do
Brasil"4 , descarta a possibilidade daque-
las normas e sanções estarem sendo apli-
cadas ainda hoje pelos remanescentes in-
dígenas. Além disso, a leitura do livro
ressalta todo o preconceito da sociedade
europeia em relação aos povos america-
nos, são constantes termos como "primi-
tivismo", "estado tosco de organização so-
cial", etc. Mas o grande equívoco em rela-
ção às análises do Direito Indígena é a ten-
tativa de encontrar traços comuns a todas
as Nações, fazendo tabula rasa das profun-
das diferenças sociais e culturais de cada
um dos povos indígenas que viviam e vi-
vem em território brasileiro. João Bernar-
dino Gonzaga faz expressa referência a este
fato, afirmando ser muito difícil o estudo
do direito penal indígena exatamente por-
que são "incontáveis os grupos" existen-
tes. Ainda assim se propõem a fixar as
ideias comuns a todos eles.
Esta determinação de considerar todos
os povos indígenas numa única categoria
é uma constante na história das relações
dos colonizadores com os povos indígenas,
tendo gerado o termo único "índio" em
contraposição ao nome de cada uma das
nações, a "língua-geral", pela qual os mis-
sionários queriam que todos os povos os
entendessem e se entendessem entre si,
fruto de uma religião única e universal. A
dimensão do preconceito, discriminação e vergonhada, a legislação brasileira moder- O dominicano
Bartolomé de Las
etnocentrismo está clara nesta tentativa de na, repetindo preceitos da Convenção 107 Casas defendia a
unificar a religião, a língua, a cultura e o 5
da Organização Internacional do Traba- existência de um
direito, negando a diversidade. É evidente direito entre os
lho, respeita os usos, costumes e tradições índios que deveria
a existência de línguas, culturas, religiões das comunidades indígenas nas relações ser respeitado pelos
e direitos diferentes que até hoje sobrevi- de família, sucessões e negócios entre ín- conquistadores.
Notabilizou-se no
vem, a duras penas é verdade, na socie- dios, assim como aceita nos crimes intra- debate de Valladolid
dade brasileira. Mas são acima de 170 gru- -étnicos a punição da comunidade, desde quando enfrentou o
jurista Juan Ginés
pos que praticam essas diferenças e que que não seja com pena infamante ou de de Sepúlveda. Capa
organizam a sua vida segundo normas ju- morte. O Direito Indígena, mesmo nos ter- do livro "Narratio
rídicas que nada têm a ver com direito es- regionum
ritórios e na convivência da comunidade. indicarum" de Las
tatal, porque são a expressão de uma so- é apenas uma fonte secundária do Direito Casas. Biblioteca
ciedade sem Estado, cujas formas de poder Mário de Andrade.
Estatal, tolerada quando a lei for omissa Foto Sosô Parma.
são legitimadas por mecanismos diferen- ou desnecessária.
tes das formais e legais instâncias do O Direito de cada uma das nações in-
Estado. dígenas, indissoluvelmente ligado às prá-
O Direito Estatal, porém, não pode ad- ticas culturais, é o resultado de uma vivên-
mitir que este conjunto de regras que or- cia aceita e professada por todos os
ganiza e mantém organizada uma socie- habitantes igualmente. Ao contrário disso,
dade indígena seja efetivamente Direito e, o Direito estatal brasileiro é fruto de uma
muito menos, que o Estado o acate, sem sociedade profundamente dividida, onde
abalar sua estrutura de Direito único e fonte a dominação de uns pelos outros é o pri-
única de Direito. Mas, de uma forma en- mado principal e o individualismo o mar-
cante traço característico. A distância que mo enquadrar a ideia de território indígena
medeia o Direito indígena do estatal é a aos limites individualistas do direito de pro-
mesma que medeia o coletivismo do indi- priedade? Como conter o conceito de po-
vidualismo. Daí decorre outra diferença vo nas restritas concepções de personali-
fundamental: o Direito de cada nação in- dade jurídica privada? Como impor a
dígena é "estável", porque nascido de uma representação-fundamento democrático da
praxis de consenso social, não conhece ins- sociedade estatal - a grupos humanos cu-
tância de modificação formal, modifica-se jo poder é exercido por aceitação coletiva
na própria praxis; o Direito estatal, tendo e necessariamente consensual?
o legislativo como instância formal de mo- Para responder a estas inquietantes
dificação, está em constante alteração. questões, preenchendo lacunas perigora-
Exatamente esta possibilidade de mo- mente abertas, o Direito Estatal se vê na
dificação, esta "instabilidade" do Direito contingência de criar regras legais capazes
brasileiro é que ganha visibilidade quando de aproximar conceitos, buscar analogias,
o índio se encontra com a sociedade bran- estabelecer parâmetros que enquadrem a
ca e com ela trava os primeiros conheci- sociedade indígena ao desenho de sua lei.
mentos jurídicos. Esta visão indígena do Di- São poucos os Estados latino-americanos
reito estatal foi traduzida com poesia e que já criaram leis para promover este en-
eloquência por Paiaré - parkategê do sul quadramento; o Brasil está entre eles. Por
do Pará - por ocasião de discussões sobre vezes não basta a elaboração da lei, há uma
a passagem de uma estrada de ferro para distância entre a decisão legislativa e a exe-
transporte de minério da Serra de Cara- cução de políticas de acordo com a lei vi-
jás, na Amazónia, que deveria cortar, co- gente e, ainda, a aplicação judicial para so-
mo de fato cortou, o território de seu po- lução de conflitos. O caso do Brasil é
vo: "A lei é uma invenção. Se a lei não exemplar. Atualmente, desde 1988, a
protege o direito dos índios (sobre suas ter- Constituição da República dedica um ca-
ras), o branco que invente outra lei". Tem pítulo para os índios, reconhecendo seus
razão Paiaré, o Direito estatal é lei, porque direitos, suas terras, seus costumes, suas
lei é sua fonte, sua matriz e sua legitimida- línguas; já o braço executor do Estado ne-
de. E a lei é criada - ou inventada - por ga esses direitos, invade suas terras, des-
um grupo de homens, que teoricamente respeita seus costumes, omite suas línguas,
representam todas as sociedades, mas que e o Judiciário ou se cala ou simplesmente
não raras vezes legislam contra os interes- não é obedecido.
ses da Nação. De qualquer forma, numa E dentro deste quadro - analisando e
sociedade dividida e injusta como a nos- rastreando historicamente a evolução do
sa, a lei é uma invenção de uns contra os'' direito brasileiro, comparando inclusive
outros. O que Paiaré, na sua arguta cons- com a-legislação sobre escravos - que se
tatação da realidade, desejava é que ela poderá ter a dimensão das omissões do Es-
fosse a invenção de uns a favor de tado e de seu Direito em relação a estes
outros6. povos, e a certeza de que estas omissões
São raros, como já dissemos, os estu- e as criações de figuras jurídicas para preen-
dos destas diversas expressões jurídicas e cher as lacunas não são mais do que ten-
quase todos genéricos e, consequentemen- tativas de esconder uma realidade da qual
te, pouco profundos, muitas vezes marca- a classe dominante, seu Direito e seu Es-
dos mais pelo sentimento de "simpatia por tado se envergonham.
uma das raças que contribuíram para a for-
mação do povo brasileiro", como dizia Cló- A ma nu missão silenciosa
vis Beviláqua,7 do que pelo espírito cien-
tífico. O estudo das leis brasileiras sobre a es-
Por outro lado, a simples existência cravidão, especialmente sobre os escravos,
destes povos, com sua realidade e direito é tão interessante quanto revelador das ver-
próprios, deixa perplexo o mecânico racio- gonhas que sente o direito em tratar de as-
cínio do Direito Estatal; o conceito de so- suntos que exponham as injustiças da so-
ciedade indígena lhe é incompatível: co- ciedade.
Manuela Carneiro da Cunha, em bri- missão dos escravos. Do ponto de vista es-
lhante estudo publicado originalmente pela tritamente jurídico a explicação para a au-
UNICAMP - Universidade de Campinas - sência desta legislação era o fato de que
intitulado "Sobre os silêncios da lei. Lei cos- escravo não era considerado pessoa, isto
tumeira e positiva nas alforrias de escravos é, não podia ser sujeito de direitos, posto
no Brasil no século XIX",8 relata, visitan- que era um bem jurídico.
do os historiadores, viajantes e cronistas da O estudo da Profa Manuela Carneiro
época, que os escravos podiam obrigar o da Cunha conclui: "O silêncio da lei não
seu senhor a manumiti-lo, se pagassem era certamente esquecimento." "...a par de
preço pelo qual foram comprados. Ainda sua função política, vincula-se também a
que fosse difícil para o escravo fazer valer fontes ideológicas. Nos seus níveis mais
este direito diante de eventual recusa do abstratos, da Constituição aos Códigos, o
seu senhor, contam os cronistas que era direito do Império teve de se acomodar
um direito reconhecido por todos, de tal com a contradição que era se descreverem
forma que, dizia Koster em 1816, deveria as regras de uma sociedade escravista e ba-
estar consagrado em lei. seada na dependência pessoal com a lin-
Demonstra a Profa Manuela Carneiro guagem do liberalismo".9
da Cunha que tratava-se de um equívoco Este falacioso pudor que cobriu a le-
de Koster; em realidade, ainda que ampla- gislação oitocentista em relação aos escra-
mente reconhecido, este direito do escra- vos, veio se repetir na primeira metado do
vo, somente viria a se tornar lei em 1871, século vinte, no Direito Penal, em relação
com longo regulamento editado em 1872, aos índios, como veremos mais adiante.
antes disso era um costume, respeitado co-
mo lei, mas singelamente omitido de ex- Os índios e reconhecimento
pressão legal. Quer dizer, era um direito civil
costumeiro que convivia num sistema de
direito positivo. Se assim era o tratamento do Direito
Na realidade não fazia muita diferen- positivo dado aos escravos, por imposição
ça a existência de norma legal escrita, des-
de que a manumissão fosse garantida, ape-
sar de que a inexistência da norma
facilitava a não observância do direito pe-
los senhores de escravos. O que chama
mais a atenção é o fato de não haver re-
gulamentação escrita para uma prática tão
jurídica e tão comum como a munimissão,
que foi objeto de uma complexa lei (com
100 artigos). Imediatamente se iniciou o
processo de libertação dos escravos, em
1871. Por certo não se pode creditar este
silêncio ao pouco desenvolvimento da le-
gislação brasileira oitocentista. Deve ser
lembrado que em 1824 foi promulgada a
Constituição Imperial, a primeira do Bra-
sil, e em 1830 o Código Criminal, e am-
bos silenciavam sobre a existência de es-
cravos, ambos deixavam de reconhecer a
Capa da edição fac-
sociedade escravagista para a qual haviam - similar do livro de
sido elaborados. Significa este trabalho le- João Mendes Júnior
gislativo, somado a muitos outros, que não que defende o
direito histórico dos
era pequena nem incipiente a elaboração índios às terras, por
legislativa do Brasil do século passado, mas antecederem a
formação do Estado
singularmente omissa em relação à muni- brasileiro.
ou vergoha da sociedade, muito outro era, índios. É visível, pela leitura dos atos le-
nessa época, o tratamento dispensado aos gislativos, que a única preocupação dos co-
índios. O mesmo discurso liberal, incom- lonizadores para com os indígenas era a in-
patível com a manutenção do escravismo, tegração destes na nova sociedade que
ficava enaltecido com a defesa e proteção chegava. O que os índios pensavam, fa-
das populações indígenas, especialmente ziam ou queriam fazer, não entrava em co-
porque a sua defesa não comprometia o gitação. A existência de outras culturas, ou-
processo produtivo, de que os índios não tras práticas sociais não era, para nada,
participavam, desde que suas terras, ou a levada em conta pela legislação. O Códi-
defesa de suas terras, não atrapalhassem go Criminal do Império, de 1830, é singu-
a propriedade da terra dos senhores por- larmente omisso e de sua leitura isolada se
tugueses. O Direito oitocentista e até mes- poderia deduzir da inexistência de índios
mo anterior, reconhece aos índios que vi- no Brasil.
vem em território brasileiro o direito a Ao contrário de tentar esconder a exis-
usufruir da sociedade dita civilizada, e se tência de índios no Brasil, como fazia a en-
propõe a receber os índios como integran- vergonhada legislação escravagista, a legis-
tes desta sociedade. Revelador é o Alvará lação indigenista apregoava a integração
de 1775, 4 de abril, do rei de Portugal: "Eu pela razão, pelo medo ou pela força, não
El-Rei, sou servido declarar que os meus omitia a existência de índios, apenas não
vassalos deste reino e da América que ca- reconhecia a diferença e propugnava a sua
sarem com as índias dela não ficam com integração, demagógica e mentirosa.
infâmia alguma, antes se farão dignos de Exemplar é a história da Carta de Lei
real atenção. Outrossim proíbo que os di- de 27 de outubro de 1831, que declarou
tos meus vassalos casados com índias ou o fim da escravidão indígena e a sujeição
seus descendentes, sejam tratados com o dos ex-escravos a uma tutela orfanológi-
nome de caboclos ou outro semelhante ca, de caráter civil. Tudo começou em
que possa ser injurioso. O mesmo se pra- 1808, com uma Carta Régia que declara-
ticará com portuguesas que se casarem va guerra os índios Botucudos do Paraná,
com índios." (Ortografia atualizada). então província de São Paulo, e determi-
Estava aberto assim o caminho da po- nava que os prisioneiros fossem obrigados
lítica integracionista praticada até nossos a servir por 15 anos aos milicianos ou mo-
dias, (rompida, na lei, muito recentemen- radores que os apreendessem, abrindo a
te, com a promulgação da Constituição de oportunidade de, àqueles que depusessem
1988), pela qual se oferece aos índios a ex- armas e se submetessem às leis reais e se
trema felicidade de poder ingressar na so- aldeassem, "gozarem dos bens permanen-
ciedade que os envolve, oprime, rouba tes de uma sociedade pacífica e doce de-
suas terras e mata. baixo das justas e humanas leis que regem
Apesar de relativamente vasto o núme- os meus povos".
ro de dispositivos legais que falam em ín- Em maio do mesmo ano de 1808 ou-
dios, na verdade é muito difícil visualizar tra Carta Régia declarava guerra aos Bo-
o desenho da concepção jurídica que o di- tucudos do Vale do Rio Doce, garantindo
reito do século passado tinha destes po- aos milicianos que os aprisionassem, 10
vos. Poucos, raríssimos dispositivos, tratam anos de prestação de serviço, que pode-
da pessoa do índio; normalmente se refe- riam se estender até que fossem pacifica-
rem a limitações e garantias de direito dos. No mesmo ano, em dezembro, outra
alheio, como no Alvará acima citado, on- Carta Régia determinava que os índios do
de o que está em jogo não é exatamente Vale do Rio Doce que se dispusessem a
a pessoa do índio, mas sim a do português ficar sob o julgo das "justas e humanas"
ou portuguesa que com ele se casa. Gran- leis do reino, seriam entregues, em peque-
de parte dos dispositivos trata das questões nos grupos, aos fazendeiros que os edu-
de terras, mais como a limitação que a ocu- cariam, podendo, como pagamento, usu-
pação indígena exerce sobre a disponibili- fruir de seu trabalho gratuitamente. Não se
dade das terras do Estado e de particula- tratava de escravizar os índios, explicava a
res do que como garantia das terras aos Carta Régia, mas de educá-los à convivên-
Ailton Krenak pinta
seu rosto durante a
defesa de uma das
emendas populares
sobre os direitos
indígenas na
Assembleia Nacional
Constituinte. Foto
Reynaldo
Stavale/ADIRP.

cia da sociedade "doce e pacífica". a declaração de liberdade dos índios, e um


Vinte e três anos depois destas decla- reconhecimento formal de que, embora já
rações de guerra e escravização simulada, proibida, existia a sua escravização legal.
envergonhada, mas efetiva, em 1831, a ci- Entretanto, a solução que aquela Carta de
tada Carta de Lei de 27 de outubro revo- Lei encontrou para reparar os danos cau-
gava estes dispositivos, reconhecendo que sados aos índios em cativeiro, foi declarar-
aquilo era efetivamente servidão e decla- -lhes órfãos para que os Juízes respectivos
rava que todos os índios que vivessem sob os depositassem onde viessem a ter traba-
julgo de algum senhor seriam dele exone- lho ou ofício fabril. A liberdade dos índios,
rados a partir daquele momento. Esta Car- portanto, não significava para aquele mo-
ta de Lei, em seus seis singelos artigos é mento e aquela lei a possibilidade de vol-
tarem a ser índios, reencontrarem a sua cul- escravos, omitidos totalmente na legislação
tura proibida e seus parentes, mas tão civil, são tratados na lei criminal. E estra-
somente homens livres capazes de dispu- nho, mas perfeitamente compreensível
tar o salário e aprender um ofício, como dentro do sistema: a lei penal - dedicada
qualquer homem branco pobre. O senti- integralmente aos marginados sociais - não
do da lei, porém, era tão, somente decla- registra referência à mais marginal de to-
rar órfãos os índios que estivessem ainda das as populações, os indígenas, porque
em cativeiro por força daquelas declarações ou estavam fora da sociedade, não lhes al-
de guerra e, por extensão, de qualquer ín- cançando a ação penal o simples revide
dio em cativeiro, o que já era proibido, mas guerreiro, ou dentro da sociedade e não
seguramente praticado. se diferenciavam dos pobres marginaliza-
Embora fique claro que a Carta de Lei dos. Em relação aos escravos diz tão-
de 27 de outubro de 1831 transformava -somente que as penas de trabalhos for-
em órfãos apenas os índios cativos, não foi çados em galés e a de morte serão
assim que a sociedade e o Estado passa- substuídas pela de açoites, para que o seu
ram a entendê-los. Os Tribunais, nas raras dono não sofresse prejuízo; isto é, a dire-
vezes que se viram na contingência de de- ção da norma é a proteção da proprieda-
cidir sobre coisas indígenas, interpretaram de do senhor, não a pessoa do apenado.
extensivamente este dispositivo, passando
a considerar que todos os índios não inte- O ardil do código penal de 1940
grados no serviço como trabalhadores li-
vres, seriam órfãos. É estranho mas per- Quando da elaboração do Código Ci-
feitamente compreensível o raciocínio e a vil de 1916, o legislador brasileiro resolveu
comparação: os índios arrancados de seu assumir como verdade jurídica aquilo que
território, agredidos em sua cultura, violen- a lei de 1831 não dissera mas se transfor-
tados em sua vontade e religião são per- mara em ordem legal: a relativa capacida-
feitamente comparáveis aos órfãos, como de civil dos índios, sua minoridade, sua or-
se houvessem perdido os próprios pais, até fandade. Com efeito, o Código Civil
que, integrados pelo trabalho como traba- equipara em seu artigo 6? os silvícolas -
lhadores livres, deixassem de ser índios e, assim chama os índios - aos pródigos e
portanto, reencontrassem seus pais na so- maiores de 16 e menores de 21 anos, in-
ciedade "doce, justa, humana e pacífica" capazes relativamente para a prática de cer-
que se lhes oferecia. tos atos da vida civil. Esclarece que este
Abolida a escravatura e proclamada a regime tutelar fica sujeito a lei especial e
república, o Estado brasileiro continuava a cessará na medida em que os índios forem
aplicar o que a velha Carta de Lei de 1831 se adaptando à civilização do país. Este
não dizia: todos os índios deveriam ser re- Código sedimenta juridicamente os pre-
putados como órfãos. Textualmente, o Su- conceitos do século anterior de que os ín-
perior Tribunal de Justiça do Estado do Ma- dios estavam destinados a desaparecer sub-
ranhão, em 25 de outubro de 1898, no mersos na "justa, pacífica, doce e humana"
limiar do século XX, afirma: "Os Juízes de sociedade dominante. Tal como El-Rei no
órfãos têm atribuições especiais em rela- começo do século XIX, a República do sé-
ção às pessoas e bens dos índios, sendo culo XX se oferece aos índios como tábua
que estes são reputados como órfãos" (Lei de salvação à sua ignota existência; somen-
de 27 de outubro de 1831).10 te que a lei o diz, agora, envergonhada-
Assim, o Direito positivo oitocentista, mente, sem a clareza da lei imperial, dei-
se bem autoritário, etnocêntrico e integra- xa apenas sugerido que os índios se
cionista em relação à população indígena, acabarão um dia.
tratava da questão, omitindo os índios ape- O Código Civil, minucioso e detalhis-
nas no Código Criminal. Aliás a análise ta em todos os aspectos da vida da socie-
deste Código Criminal é muito reveladora dade brasileira se cala, sintomaticamente,
porque, por um lado, mostra uma omis- em relação às terras indígenas e à perso-
são em relação aos índios, não considera nalidade jurídica dos grupos e comunida-
sequer sua "orfandade"; já em relação aos des indígenas, ainda que trate com desen-
voltura das terras públicas e das pessoas ga Exposição de Motivos que o antecede, índio Kayapó lê um
dos projetos de
jurídicas de direito público. Não é, porém, assinada pelo Ministro Francisco Campos, Constituição
no conjunto das leis civis que o Direito bra- e que faz parte integrante da Lei, não se elaborado pelos
sileiro expressa seu pudor em tratar das coi- pudesse ler: "No seio da Comissão foi pro- parlamentares
constituintes. O
sas dos índios, neste século. posto que se falasse de modo genérico, em perigo de retrocesso
O Código Penal, elaborado dentro dos perturbação mental; mas a proposta foi re- na tramitação dos
direitos indígenas
parâmetros da técnica jurídica, em 1940, jeitada, argumentando-se em favor da fór- esteve presente
buscando a precisão própria de sua épo- mula vencedora, que esta era mais com- durante todo o
período de trabalho
ca, omite a palavra índio ou silvícola. Pos- preensiva, pois, com a referência especial da Assembleia
to que omite a palavra, admite o concei- ao "desenvolvimento incompleto ou retar- Nacional
to, encontrando uma fórmula mágica para dado, e devendo-se entender como tal a Constituinte. Foto
própria falta de aquisições éticas (pois o ter- Guilherme
atenuar as penas eventualmente impostas Rangel/ADIRP.
aos índios, imitando a relativa capacidade mo mental é relativo a todas as faculda-
exposta no Código Civil. O artigo 22 ex- des psíquicas, congénitas ou adquiridas,
pressa: "É isento de pena o agente que, desde a memória à consciência, desde a
por doença mental ou desenvolvimento inteligência à vontade, desde o raciocínio
mental incompleto ou retardado, era, ao ao senso moral), dispensava a alusão ex-
tempo da ação ou da omissão, inteiramen- pressa aos surdos-mudos e aos silvícolas
te incapaz de entender o caráter crimino- inadaptados". n
so do fato ou de determinar-se de acordo Qual teria sido o escrúpulo da Comis-
com este entendimento". Passaria desaper- são em fazer referência expressa aos silví-
cebido este artigo a quem estivesse procu- colas? Por que não dizer com todas as le-
rando índios no Código Penal se, na lon- tras que os silvícolas ou os índios ao não
serem capazes de entender o caráter deli- sável". (Grifos no original).12 Depois desta
tuoso de um ato deveriam ter diverso tra- preconceituosa declaração, que não admite
tamento penal? Que estranha razão teria a existência de outros padrões éticos, o ju-
a Comissão para omitir aquilo que a lei ci- rista consegue ser ainda mais claro, expres-
vil chamou de relativa incapacidade dos ín- sando a vergonha da lei em manifestar a
dios? Esta intrigante questão foi respondi- existência de índios no Brasil: "Dir-se-á que
da por um dos membros da Comissão e tendo sido declarados, em dispositivos à
um dos mais respeitados penalistas de sua parte, irrestritamente irresponsáveis os me-
época. Nelson Hungria, que em seu alen- nores de 18 anos, tornava-se desnecessá-
tado "Comentários ao Código Penal" se ria a referência ao 'desenvolvimento men-
expressa clara e francamente: "O artigo 22 tal incompleto; mas explica-se: a Comissão
fala em "desenvolvimento incompleto ou Revisora entendeu que sob tal rubrica en-
retardado. Sob este título se agrupam não trariam, por interpretação extensiva, os sil-
só os deficitários congénitos do desenvol- vícolas, evitando-se que uma expressa alu-
vimento psíquico ou oligofrênicos (idiotas, são a estes fizesse supor falsamente, no
imbecis, débeis mentais), como os que são estrangeiro, que ainda somos um país in-
A Subcomissão dos por carência de certos sentidos (surdo- festado de gentio". (Grifo no original).13
Negros, Populações
Indígenas. Pessoas -mudos) e até mesmo os silvícolas inadap- Não se pode dizer que não seja ardi-
Deficientes e tados... assim, não há dúvida que entre os loso o Código Penal brasileiro, ao mesmo
Minorias do
Congresso Nacional
deficientes mentais é de se incluir também tempo que prega uma peça aos estrangei-
recebe em audiência o homo sylvester, inteiramente desprovi- ros (curiosa preocupação ao se elaborar
lideranças indígenas. do das aquisições éticas do civilizado ho- uma lei nacional), que não poderão ima-
Foto Reynaldo
Stavale/ADIRP. mo medius que a lei penal declara respon- ginar a existência de índios "infestando" a
civilização, garantem aos "infestadores" um anos de integração que cometessem crimes
escondido direito, de difícil aplicação e sin- seriam recolhidos, mediante requisição do
gularmente inútil. Esta vergonha do Direi- inspetor de índios, a colónias correcionais
to Penal brasileiro de 1940 tem a mesma ou estabelecimentos industriais disciplina-
cor e fundamento da vergonha da lei em res, pelo tempo que parecesse necessário
relação aos escravos, no século XIX, o te- ao inspetor, nunca superior a cinco anos.
mor de mostrar ao mundo a realidade na- Dizia ainda o Decreto que se o autor do
cional, suas mazelas, injustiças e "defeitos". crime tivesse mais de cinco anos de con-
Está presente, porém, neste esconderijo da vívio com a sociedade envolvente seria
lei penal a ideia de que os índios se aca- aplicada a lei comum, com as penas redu-
barão num futuro próximo, quando encon- zidas à metade, nunca devendo ser apli-
trarem a alegria de viver na "pacífica, jus- cada prisão celular, que seria sempre subs-
ta, doce e humana" sociedade dos brancos, tituída por prisão disciplinar, o que
e então o Direito Penal ser-lhes-á aplica- significava que o cumprimento da pena se
do em plenitude, e os juristas não se en- daria em instituições penais especialmen-
vergonharão mais nos congressos interna- te criadas para índios.
cionais. É transparente neste episódio Esta situação gerada, seguramente, pe-
jurídico a ideia etnocêntrica e monista de la boa vontade e humanismo dos indige-
que o sonho de todo índio é deixar de sê- nistas da década de 1920, tornou-se rapi-
-lo. É presente a incompreensão do direi- damente um instrumento de opressão.
to dos povos indígenas de continuarem a Foram criadas prisões indígenas e a puni-
ser índios ainda que em contato longo e ção e o cumprimento da pena deixaram
até mesmo amistoso com a sociedade de ser controlados pelo Poder Judiciário,
branca. de tal forma que a agência indigenista ofi-
cial, na época o Serviço de Proteção ao
A punição à margem da lei índio - SPI -, órgão do Poder Executivo,
passou a exercer a judicatura, apenando
Curioso é que o Decreto 5.484, de 27 segundo o critério do inspetor e proceden-
de junho de 1928, de apenas doze anos do a fiscalização do cumprimento da pe-
antes do Código Penal, e que regulava a na, isto é, fiscalizando a si mesmo.
"situação dos índios nascidos em territó- Como o Código Penal de 1940 não
rio nacional" tratava da aplicação das pe- tratou do assunto, permitiu que essa prá-
nas aos índios que cometessem crime. tica se prolongasse até a década de 60,
Não seria verdadeiro afirmar, portan- quando tantos e tão aberrantes atos de cor-
to, que o Direito Penal brasileiro tratava dos rupção, desmandos e injustiças foram co-
índios como uma mera referência hipoté- metidos pelo SPI, que, sob pressão da so-
tica na Exposição de Motivos que apresen- ciedade civil e da comunidade científica
ta o Código de 1940. Na realidade o Có- nacional e internacional, a então ditadura
digo Penal teve vergonha de apresentar a militar houve por bem fechá-lo, e com ele
forma e os requisitos especiais de punibili- alguns instrumentos de visível opressão, co-
dade e aplicação de pena aos índios. Ver- mo as prisões indígenas, criando, em 1967,
gonha, que a sinceridade de Nelson Hun- um novo órgão, a FUNAI - Fundação Na-
gria nos clareia, de ser cotejado com os cional do índio - que vinte anos depois já
Códigos de outros países e os estrangei- estava tão corrupto e desacreditado quanto
ros notarem que no Brasil ainda viviam ín- o seu antecessor.
dios "não civilizados". O sistema jurídico brasileiro não admite
Como não tratou de índio, o Código a existência de outros sistemas paralelos
Penal não revogou o estabelecido no De- que impliquem em jurisdição e aplicação
creto de 1928, que, uma espécie de Có- de lei fora do Poder Judiciário. Entretan-
digo dos índios, tratava de diversas ques- to, durante quarenta anos conviveu com
tões, desde o registro civil até a gestão de o sistema punitivo, formas oficiais de pu-
bens e, dos seus 50 artigos, 5 tratam dos nição aos índios, não apenas com leis pró-
crimes praticados por índios. Estabelecia o prias, mas com um completo sistema pe-
Decreto que os índios com menos de 5 nitenciário especial, com autoridades e
procedimentos alheios às leis do país, mas Código Penal14, e o afirma sem maiores
extremamente eficiente e temido. Ao con- explicações, aparentemente com o único
trário do que ocorria com os escravos no propósito de dificultar a sua aplicação^
século passado, que embora não tivessem Estabelece também o Estatuto do ín-
seu direito expresso nas leis do país, o ti- dio que as penas de reclusão e de deten-
nham respeitado na jurisdição, os índios do ção aplicadas aos índios serão cumpridas,
século XX brasileiro tinham seus direitos se possível, em regime especial de semi-
estabelecidos em leis, mas para eles havia -liberdade, em local próximo à habitação
um sistema judiciário próprio, autoritário, do condenado. Novamente aqui, a inter-
marginal e cruel. pretação dos comentaristas e dos Tribunais
é no sentido de que não se aplica a qual-
A lei vigente quer índio, mas somente àqueles que não
estejam integrados à "civilização".
Em 1973, seguindo o fechamento do Raro desvelo do Direito, quando a lei
SPI e as alterações na política indigenista garante uma regalia a um índio, mesmo
oficial, o Estado brasileiro tratou de elabo- que se trate de uma mínima melhoria na
rar uma nova lei geral para os índios, e foi aplicação de pena, que significa uma di-
editado o Estatuto do índio, Lei 6.001, de minuição, ou facilitação na execução, há
19 de dezembro de 1973. Trata o Título V imediatamente o intérprete e o julgador pa-
das normas penais, sobre os crimes prati- ra dizer que a lei não quiz dizer isto, que
cados por índios e dos praticados contra aquela regalia é um equívoco e não pode
os índios. O artigo 56 estabelece que na ser aplicada. Entretanto, enquanto não se
condenação por infração penal o índio te- aplicava a lei e se punia por meio de es-
rá sua pena atenuada e na aplicação será truturas extra-judiciais, cruéis e desumanas
levado em conta o grau de integração do como fazia o antigo SPI, não havia enten-
índio. Textualmente: "No caso de conde- dimento oficial, doutrinária ou jurispruden-
nação de índio por infração penal, a pena cial, discordante, e o Direito se mantinha
deverá ser atenuada e na aplicação o juiz em um silêncio envergonhado.
atenderá também ao grau de integração do Finalmente, o Estatuto do índio tolera
silvícola". - e utiliza esta expressão - a aplicação de
A leitura simples e direta do dispositi- penas pelos grupos tribais, desde que não
vo legal nos remete à vontade do legisla- tenham caráter infamante ou cruel e não
dor de dar aos índios um tratamento dife- sejam de morte. Esta aceitação se dá ape-
renciado no julgamento da ação ou nas quando a sanção é dirigida a membros
omissão criminosa dos índios, que, só pe- do próprio grupo.
lo fato de sê-lo, deverão ter a pena atenua-
da. Na aplicação da pena atenuada, de- A ideologia integracionista e a
verá o juiz atender ao grau de integração. lei
Quer dizer, em qualquer hipótese, o índio Não é comum encontrar nas coleções
terá sua pena atenuada, conforme expres- de julgados dos Tribunais Superiores bra-
samente determina o texto legal, e de acor- sileiros decisões sobre crimes praticados por
do com o seu grau de integração a aplica- índios, o que demonstra que na maior par-
ção será minorada. Não é este o te das vezes sequer é considerado o fato
entendimento dos Tribunais, como vere- do agente ser um índio. Por outro lado, a
mos adiante, nem de alguns comentaris- maior parte dos julgamentos se encerra na
tas que procuram minorar este dispositivo primeira instância, de tal forma que são
de tal forma que o transforma em letra apreciados pelos Tribunais Superiores na-
morta para o sistema jurídico nacional, co- da mais que questões formais, onde os
mo, por exemplo, Ismael Marinho Falcão, problemas de cunho étnico não são leva-
que em seus comentários diz que esta ate- dos em conta. Esta dificuldade é acresci-
nuante somente poderá ser aplicada se ou- da pelo fato de que durante todo o perío-
tra atenuante não houver, de tal forma que do inaugurado com a lei de 1928 até o
o juiz somente deve aplicar esta regra se Estatuto do índio em 1973, os índios eram
não puder aplicar nenhuma atenuante do diretamente punidos pela agência indige-
nista oficial, praticamente sem intervenção
do sistema oficial de punição do Estado,
o Poder Judiciário.
Nos poucos casos que chegaram aos
Tribunais Superiores, porém, é pacífica a
decisão de não serem aplicada as regalias
oriundas da origem étnica, com o argu-
mento de que, nos casos concretos, os
agentes já estariam suficientemente "acul-
turados". Este raciocínio revela o velho pre-
conceito claramente estabelecido nas leis
imperiais de que o ideal para o índio é vi-
ver sob a proteção da "justa, humana, pa-
cífica e doce" sociedade brasileira. Quer di-
zer, o índio, na medida em que vai
conhecendo a "civilização", a "cultura", vai tras leis dizem índios, estão se referindo ao Parlamentares
dela se abeberando e se transformando em constituintes
conceito genérico do artigo 3?; se preten- viajaram até a aldeia
um civilizado, deixando, por isso de ser dem se referir a qualquer das outras cate- dos Gorotire (PA)
índio. gorias, deverão agregar o adjetivo "isola- para uma audiência
pública com os
Porém, a leitura atenta das recentes leis do", "em via de integração" ou "integrado". índios. Foto
brasileiras sobre a matéria, especialmente Assim é, por exemplo, a lei que trata da Eduardo Leão/Cimi.
o Estatuto do índio, de 1973, e a Consti- responsabilidade civil, ao afirmar que são
tuição Federal, de 1988, nos indica que a relativamente incapazes os silvícolas até
lei não adota mais o princípio assimilacio- que se vão adaptando à "civilização do
nista, apesar de alguns escorregões oficiais. país". Esta afirmação de 1916, traduzida
Diz o estatuto do índio que "índio ou para o entendimento do Estatuto significa
silvícola é todo indivíduo de origem e as- "até que sejam integrados". Absolutamente
cendência pré-colombiana que se identifi- não se refere a isto a lei penal, em nenhum
ca e é identificado como pertencente a um dispositivo, salvo no já derrogado Decreto
grupo étnico cujas características culturais de 1928, que, de resto, praticamente ex-
o distinguem da sociedade nacional" (Ar- cluía as ações ou omissões criminosas de
tigo 3? do Estatuto do índio). Ainda que índios da apreciação judicial. Já vimos que
possa haver divergência quanto à precisão o Código Penal de 1940, por pudor, não
antropológica do conceito, não há dúvida se refere a índios, e o Estatuto que trata
quanto a: 1. haver sinonímia legal entre ín- da punição de crimes por eles cometidos
dio e silvícola; 2. independe do grau de re- não diz que deve ser considerada a dife-
lação com a sociedade e cultura envolvente rença entre isolados ou aculturados na apli-
para a pessoa ser considerada índio; 3. se cação de pena. Ao contrário, deixa claro
define um índio, principalmente, pela sua que os índios - genericamente - terão tra-
identidade com um grupo étnico e pelo re- tamento especial na aplicação de penas e
conhecimento que este mesmo grupo faz julgamento dos crimes por eles praticados.
do indivíduo, desde que o grupo tenha as- Os poucos comentaristas que se aven-
cendência pré-colombiana. turaram a tratar desta espinhosa matéria di-
Admite o artigo 4? do Estatuto que zem claramente o contrário, como já vimos.
existem três espécies de índios: isolados - Os Tribunais Superiores, igualmente, jul-
sem contato -; em vias de integração; e in- gam como se a lei dissesse o que não diz
tegrados - "quando incorporados à comu- e, invariavelmente, analisam o grau de in-
nhão nacional e reconhecidos no pleno tegração do índio, quando o que deveria
exercício dos direitos civis, ainda que con- ser analisado, para a correta aplicação da-
servem usos, costumes e tradições carac- quela norma penal, seria tão somente se
terísticos de sua cultura". As três espécies, existe o grupo indígena ao qual aquele in-
porém, atendem pelo nome genérico de divíduo diz pertencer, e se o grupo o re-
índios. conhece e o identifica. Em outras palavras,
Isto equivale a dizer que quando ou- a indagação deveria ser apenas se aquele
Direitos dos índios art. 129 - São funções institucionais do Minis- nidades indígenas também a utilização de suas participação nos resultados das lavras, na for-
tério Público: línguas maternas e processos próprios de ma de lei.
As referências constitucionais aos direitos in- V - defender judicialmente os direitos e inte- aprendizagem.
dígenas são as seguintes: resses das populações indígenas; 4. As terras de que trata este artigo são inalie-
SEÇÃO II - DA CULTURA náveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas
NO TÍTULO III - DA ORGANIZAÇÃO DO são imprescritíveis.
ESTADO: NO TÍTULO VII - DA ORDEM ECONÓMICA art. 2 1 5 - 0 Estado garantirá a todos o pleno
E FINANCEIRA exercício dos direitos culturais e acesso às fon- 5. É vedada a remoção dos grupos indígenas
CAPÍTULO II - DA UNIÃO tes da cultura nacional, e apoiará e incentiva- de suas terras, salvo, ad referendum do Con-
CAPÍTULO I - DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA rá a valorização e a difusão das manifestações gresso Nacional, em caso de catástrofe ou epi-
art. 20 - São bens da União: ATIVIDADE ECONÓMICA culturais. demia que ponha em risco sua população, ou
XI - as terras tradicionalmente ocupadas pelos no interesse da soberania do País, após deli-
índios art. 176 - As jazidas, em lavras ou não, e de- 1 - O Estado protegerá as manifestações das beração do Congresso, garantindo em qual-
mais recursos minerais e os potenciais de ener- culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, quer hipótese, o retomo imediato logo que ces-
art. 22 - Compete primitivamente à União le- gia hidráulica constituem propriedade distinta e das de outros grupos participantes do pro- se o risco.
gislar sobre: da do solo, para efeito de exploração ou apro- cesso civilizatório nacional.
XIV - populações indígenas; veitamento, e pertencem à União, garantida ao 6. São nulos e extintos, não produzindo efei-
concessionário a propriedade do produto da CAPÍTULO VIII - "DOS ÍNDIOS" tos jurídicos, os atos que tenham por objeto a
lavra. ocupação, o domínio e a posse das terras a que
NO TÍTULO IV - DA ORGANIZAÇÃO DOS art. 231 - São reconhecidos aos índios sua or- se refere este artigo, ou a exploração das rique
PODERES 1. - A pesquisa e a lavra de recursos minerais zas naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas
ganização social, costumes, línguas, crenças e
e o aproveitamento dos potenciais a que se re- existentes, ressalvado relevante interesse pú-
tradições, e os direitos originários sobre terras
CAPÍTULO I - DO PODER LEGISLATIVO fere o capítulo deste artigo somente poderão blico da União, segundo o que dispuser lei
que tradicionalmente ocupam, competindo à
ser efetuados mediante a autorização ou con- complementar, não gerando a nulidade e a ex-
União demarcá-las, proteger e fazer respeitar
SEÇÃO II - DAS ATRIBUIÇÕES DO CON- cessão da União, no interesse nacional, por tinção do direito à indenização ou a ações con-
todos os seus bens. tra a União, salvo, na forma da lei, quanto às
GRESSO NACIONAL brasileiros ou empresa brasileira de capital na-
cional, na forma da lei, que estabelecerá as benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.
art. 49 - É da competência exclusiva do Con- condições específicas quando essas atividades 1. São terras tradicionalmente ocupadas pelos
gresso Nacional: se desenvolverem em faixa de fronteira ou ter- índios as por eles habitadas em caráter perma- 7. Não se aplica às terras indígenas o disposto
XVI - autorizar, em terras indígenas, a explo- ras indígenas. nente, as utilizadas para suas atividades pro- no art. 174, 3. e 4.
ração e o aproveitamento de recursos hídricos dutivas, as imprescindíveis à preservação dos
e a pesquisa e lavra de riquezas minerais; recursos ambientais necessários a seu bem es- art. 232 - Os índios, suas comunidades e or-
NO TÍTULO VIII - DA ORDEM SOCIAL tar e as necessárias a sua reprodução física e ganizações são partes legítimas para ingressar
cultural, segundo seus usos, costumes e tra- em juízo em defesa de seus direitos e interes-
CAPÍTULO III - DO PODER JUDICIÁRIO CAPÍTULO III - DA EDUCAÇÃO, DA CUL- dições. ses, intervindo o Ministério Público em todos
TURA E DO DESPORTO os atos do processo.
SEÇÃO IV - DOS TRIBUNAIS REGIONAIS 2. As terras tradicionalmente ocupadas pelos
FEDERAIS E DOS JUÍZES FEDERAIS SEÇÃO I - DA EDUCAÇÃO índios destinam-se a sua posse permanente,
cabendo-lhes o usufruto exclusivo das rique- NO "ATO DAS DISPOSIÇÕES CONSTITU-
art. 109 - Aos juízes federais compete proces- art. 210 - Serão fixados conteúdos mínimos pa- zas do solo, dos rios dos lagos nelas existentes. CIONAIS TRANSITÓRIAS"
sar e julgar: ra o ensino fundamental, de maneira a asse-
XI - a disputa sobre direitos indígenas gurar formação básica comum e respeito aos 3. O aproveitamento dos recursos hídricos, in- art. 67 - A União concluirá a demarcação das
valores culturais e artísticos, nacionais e re- cluídos os potenciais energéticos, a pesquisa terras indígenas no prazo de cinco anos a par-
CAPÍTULO IV - DAS FUNÇÕES ESSEN- gionais. e a lavra das riquezas minerais em terras indí- tir da promulgação da Constituição.
CIAIS JUSTIÇA genas só podem ser efetivadas com autoiiza-
2. O ensino fundamental regular será ministra- ção do Congresso Nacional, ouvidas as comu- Fonte: Constituição da República Federativa do
SEÇÃO I - DO MINISTÉRIO PÚBLICO do em língua portuguesa, assegurada às comu- nidades afetadas. ficando-lhes assegurada Brasil

indivíduo é índio, no conceito da lei. índios devem ter regalias apenas porque mo, por inferioridade ética ou mental. A tendido.
Na raiz desta visão, que não consegue são índios. Na visão dominante, a única ideologia dominante não consegue enten- Ainda mais clara que o Estatuto, tal-
ler o que a lei diz, está a ideologia integra- justificativa para atenuar as penas e mino- der que os índios pertencem a outra so- vez porque mais recente, a Constituição Fe-
cionista, à qual se filiaram sempre o Direi- rar os efeitos de sua aplicação aos índios, ciedade, cultural e organizativamente dife- deral de 1988 reconhece esta diferença,
to e o Estado brasileiros, como consequên- é o fato de que eles teriam um entendi- renciada, de tal forma que o tipo de pena embora não trate da questão criminal. Diz
cia direta do pensamento dominante. mento incompleto do caráter delituoso, por e a forma de seu cumprimento devem tam- o artigo 231, da Constituição: "São reco-
Exatamente por isso é tão difícil para co- falta de compreensão das regras sociais e, bém ser diferenciados. E é isto que preten- nhecidos aos índios sua organização social,
mentaristas e juízes entenderem porque os numa visão que chega ao limite do racis- de dizer o Estatuto do índio, jamais en- costumes, línguas, crenças e tradições, e
os direitos originários sobre as terras que invariavelmente, apresentado um-discurso
tradicionalmente ocupam, competindo à pluralista, liberal e democrático, elevando
União demarcá-las, proteger e fazer respei- à categoria de sistema um direito envergo-
tar todos os seus bens". Apesar desta cla- nhado, que liberta os índios da escravidão,
reza, desta declaração de princípio, o pró- mas o intérprete lê como se fosse aplica-
prio Estado tem sido o algoz das terras ção da tutela orfanológica, dá tratamento
indígenas, dos seus direitos e de sua vida. diferenciado na aplicação e execução da
Já não me refiro ao Estado brasileiro do pena, e o julgador entende como reconhe-
século passado, ou do Império, que decla- cimento de inferioridade ética e um estí-
rava guerra de conquista aos índios, mas mulo à integração, dá total garantia a suas
ao Estado brasileiro de 1990, que vê pas- terras, e a administração pública autoriza
sivo o povo Yanomami sucumbir às doen- invasões e decreta reduções de áreas. Na
ças, invasões e rapina a que estão sujeitos. divergência entre o discurso e prática, en-
Assim o Estado, apesar de suas leis, tre o Direito e o Processo, a vergonha da
tem tido uma dramática, cruel e genocida sociedade dividida e cruel fica encoberta
política em relação aos índios, mas tem, pela falaciosa marca da injustiça.

Notas ma jurídico brasileiro.

* Trabalho preparado originalmente para o "Encuen- 06. cf. Souza Filho, C. F. Marés de, et alii - 1988
tro Taller sobre la Administración de la Justicia Pe- — índios e Negros: no Cativeiro da História, Rio
nal y los Pueblos Indígenas en América, San José, de Janeiro, Col. Seminários. Ed. AJUP.
Costa Rica", em 1990, organizado pelo Instituto In-
teramericano de Derechos Humanos. Ampliado pa- 07. Beviláqua, Clóvis — 1896 — "Instituições e cos-
ra publicação em maio de 1992. tumes jurídicos dos indígenas brasileiros ao tempo
da conquista" in Criminologia e Direito, Bahia, Li-
01. cf. Ramos, Alcida Rita - 1986 - Sociedades vraria Magalhães.
Indígenas. São Paulo, Ed. Ática.
08. Cunha, Manuela Carneiro da — 1986 — An-
02. Melarti, Júlio Cezar — 1980 — índios do Bra- tropologia do Brasil, São Paulo, Editora Brasiliense.
sil, São Paulo, Ed. Hucitec.
09. Cunha, Manuela Carneiro da — 1986 — An-
03. cf. Las Casas. Bartolomé - 1985 - Obra In- tropologia do Brasil, São Paulo, Editora Brasiliense.
digenista, Madrid, Alianza Editorial.
10. cf. O Direito, vol. 79, ano 27, Rio de Janeiro,
04. cf. Gonzaga, João Bernardino — s/d — O Di- 1899, p. 781.
reito Penal Indígena à Época do Descobrimento,
São Paulo, Editora Loyola. 11. cf. Código Penal Brasileiro, São Paulo, Edito-
ra Sugestões Literárias, 1979, p. 32.
05. A organização Internacional do Trabalho apro-
vou em 7 de junho de 1989, em Genebra, nova 12. cf. Hungria, Nelson — 1958 — Comentários
Convenção sobre povos indígenas e tribais em paí- ao Código Penal. vol. I, tomo II, Rio de Janeiro,
ses independentes, de n? 169, regulando a relação Editora Forense, 4? ed., p. 336.
entre os direitos dos povos indígenas e o direito es-
tatal com o seguinte dispositivo: "Ao aplicar a legis- 13. idem ibidem, p. 337.
lação nacional aos povos interessados deverão ser
tomadas devidamente em consideração seus cos- 14. cf. Falcão, Ismael Marinho - 1985 - O Esta-
tumes, o seu direito consuetudinário. A Convenção tuto do índio Comentado, Brasília, Ed. Senado
n? 169 está em processo de ratificação pelo siste- Federal.
"Historiae Naturalis Brasiliae" de Willem Piso, 1648. Contém "Historiae rerum
naturalium Brasiliae" de Georgi Marcgravi. Foto António Rodrigues.
" H o m e m Camacan-
Mongoio" e "Mulher
Camacan-Mongoio",
Jean Baptiste Debret,
s/d, aquarela s/
papel. Museus
Castro Maia. Foto
Eduardo Mello.
"índios Bororó de
Vila Maria",
Hercules Florence,
1827. nanquim
a pena. Coleção
Cyrillo Hercules
Florence. Foto in
"História dos
índios no Brasil".
O amor trágico e infeliz de uma índia por um português é tema do poema épico Caramuru. Meirelles -
-em "Moema"- registra o momento em que o corpo da jovem e sedutora indígena é lançado à praia,
trazido pelas ondas, após lutar com o mar. "Moema". Victor Meirelles de Lima, óleo s/ tela, 1866. •
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Foto Luiz Hossaka.
A escultura "Caramuru" é inspirada no episódio do tiro de trabuco do poema épico escrito no início
do século XIX por Frei José de Santa Rita Durão. O poema fala da vida de um marinheiro português
náufrago que teria vivido por mais de 50 anos entre os Tupinambá. "O Caramuru". Eduardo de Sá,
bronze, s/d. Museu Histórico Nacional. Foto Rómulo Fialdini/Banco Safra.
No início dos anos 40, Cândido Portinari realiza um conjunto de 25 pranchas para ilustrar o livro "A
Verdadeira História" de Hans Staden. Procurando-se distanciar das representações idílicas e
folclorizadas dos índios. Portinari busca uma leitura profunda e fiel da obra de Hans Staden. Os
desenhos, entretanto, são recusados pelo editor, sob a alegação de que apresentavam uma "ênfase
demasiada à carnificina e à brutalidade". "Restos de Homem", Cândido Portinari, desenho a nanquim
bico-de-pena/papel, 1941. Coleção João Cândido Portinari. Publicado Revista Nossa América.
"índios Xavantes na
Missão São Marcos".
Baendercck Sepp,
óleo s/ tela, 1976.
Museu de Arte de
São Paulo Assis
Chateaubriand. Foto
Luiz Hossaka.

"Comei-vos uns aos outros", Clécio Penedo, grafite e lápis de cor, s/d. Coleção Clécio Penedo.
ÍNDIOS DO PRESENTE E DO FUTURO
As mulheres Kayapó dedicam grande parte de seu tempo à
pintura de seus corpos. A pintura expressa, de maneira
formal e sintética, a compreensão Kayapó de sua cosmologia
e estrutura social, das manifestações biológicas e de suas
relações com a natureza. Atendendo pedido da etnóloga. as
mulheres executaram motivos da pintura corporal no papel.
Fotos e pranchas coletadas por Lux Vidal. Publicado em
"Grafismo Indígena".
O índio e a modernidade
Washington Novaes

É preciso começar com uma advertên- ção da soberania ou "um limite de terra por
cia: o que se vai ver aqui não é, nem pre- índio". Uma terceira parcela de brasileiros,
tende ser, uma visão científica da questão minoritária, defende a demarcação das
do índio diante da modernidade. Não é áreas indígenas como um direito constitu-
uma visão das chamadas ciências sociais. cional, ao mesmo tempo em que procla-
E apenas o relato despretensioso de quem, ma o direito dos indígenas à existência e
por força da atividade como jornalista, co- à diferença cultural.
mo documentarista, teve o privilégio da Quanto à primeira visão, não é difícil
convivência com alguns grupos indígenas lembrar que transfere para o índio a res-
na Amazónia, no Centro-Oeste e no Sul ponsabilidade por injustiças sociais que de-
do país, alguns deles ainda na força de sua vem ser localizadas em outros grupos so-
cultura, antes do massacre determinado ciais - pois essa visão não contesta nenhum
pela convivência forçada com outras outro tipo de propriedade de terras, seja
culturas. qual for a extensão ou a utilização do pa-
Ao fim de muitos anos de convivência trimónio. A segunda visão também não re-
e observação, resta a convicção muito for- siste a confronto, na medida em que o ar-
te de que nas culturas indígenas se encon- gumento da ressalva só é invocado quando
tram muitos traços, muitas direções, de se trata de índios e deslembrando que sua
uma verdadeira modernidade. posse da terra é imemorial, numa socie-
Não significa que se proponha um re- dade que admite até a propriedade por
torno coletivo à condição de índios - nem usucapião, após duas décadas de posse
teríamos competências para isso. Signifi- por não-índios. E mesmo a visão mais ge-
ca que o encontro de uma verdadeira mo- nerosa, que proclama o direito à existên-
dernidade, no caso brasileiro, exige a rein- cia e à diferença cultural, talvez precise ser
corporação de muitos modos de ser e de completada com outra visão: a do direito
viver encontráveis nas culturas indígenas, à semelhança, lembrado, por exemplo, pe-
da organização política à organização so- lo prof. Kabengele Munanga, da Universi-
cial e ao relacionamento com o meio am- dade de São Paulo, elepróprio um discri-
biente. Tal reencontro, além do mais, nos minado racial na sua Africa. Diz o prof.
permitiria valorizar, realçar, desfrutar de Munanga que o racista agride e mata por
nossa incomparável diversidade cultural - não admitir o direito à semelhança, à pos-
temos ainda umas 150 culturas -, hoje des- sibilidade de o discriminado fazer o que ele,
prezada e esmagada, e da nossa diversi- racista, é capaz de fazer profissionalmen-
dade biológica. te, à possibilidade de esse discriminado
Poderíamos, se caminharmos nessa di- ocupar o lugar dele, racista. Nada mais ver-
reção, escapar às visões que a maioria da dadeiro em relação ao índio: é a cobiça por
sociedade brasileira tem hoje do índio. Uma sua terra e pelo que nela se encontra que
parte dos brasileiros sequer entende ou ad- explica a negação de seus direitos, da mes-
mite que se demarquem terras indígenas ma forma que em outros tempos foi o de-
e se cogite da preservação dos grupos, sob sejo de transformá-lo em escravo, de apro-
o argumento de que se trata de indivíduos priação do seu trabalho. E a tal ponto que
improdutivos, obstáculos ao "progresso" ou foi preciso um papa proclamar que índio
ao "desenvolvimento", numa hora em que também tinha alma para negar o "direito"
tantas pessoas vivem na miséria. Outra par- de morte sobre ele.
te, numa visão condescendente, admite a Será indispensável, entretanto, que a
demarcação, embora aqui e ali invoque a sociedade brasileira - para mudar sua vi-
necessidade de "compatibilizar" a preser- são -, além de ser informada corretamen-
vação com outros interesses nacionais, se- te sobre a questão indígena e os direitos
jam eles o "desenvolvimento", a manuten- dos 250 mil índios remanescentes, tome
Com todas essas peculiaridades, se
ninguém delega poder, se ninguém se
apropria da informação, se ninguém po-
de dar ordens, será impossível estabelecer
repressão organizada. E sem repressão,
não será possível a dominação de um gru-
po por outro grupo, ou de um indivíduo
por outro grupo. Nestes tempos em que
se questiona em todas as partes do mun-
Embora os pais do a organização e as funções do Estado,
sejam os
responsáveis mais em que se proclama a necessidade de des-
diretos pela criação centralizar o poder, de conferir autonomia
de seus filhos, o
processo mais aos cidadãos, que outra organização so-
amplo de cial pode permitir-nos uma visão mais mo-
socialização é derna e estimulante? Que pode haver de
efetuado também
pelos parentes mais mais instigante que uma sociedade onde
próximos ou mesmo cada indivíduo é educado para ser auto-
pela comunidade
inteira. Menina do -suficiente? Um índio na força de sua cul-
povo Matsés, do tura sabe fazer sua casa, sua rede, sua ca-
Vale do Javari. Foto noa, arco e flecha, esteira e objetos de
Sílvio
Cavuscens/CIMI. adorno. Sabe caçar, pescar e fazer roça,
não depende de ninguém para seu próprio
conhecimento também de características sustento. Identifica no seu ambiente plan-
desses grupos que podem ser muito "úteis" tas e frutos úteis. Sabe cantar e dançar. Sa-
e adequadas aos tempos em que estamos be tudo de que precisa.
ingressando.
Pode-se começar pela organização po- Pode-se olhar a questão por outro ân-
lítica. Em muitas nações indígenas brasi- gulo, o das relações entre os sexos. Orlan-
leiras. a organização política é marcada pe- do Villas Boas, criador do Parque do Xin-
la ausência de delegação de poderes. Os gu, lembra que ali homens e mulheres são
indivíduos não delegam poder a ninguém. absolutamente livres para casar-se e
Por isso, o chefe não manda, não tem po- separar-se quantas vezes queiram - não há
der, não dá ordens. É o representante da impedimentos nem sanções sociais. Mas se
tradição, da cultura, depositário da expe- um homem ou uma mulher não quiser
riência. Em geral, é o que mais sabe, o que separar-se do seu parceiro e estiver des-
fala melhor. E o que mais sofre. Mas não contente com ele por alguma razão, não
dá ordens. fará nenhuma queixa, porque a queixa
pressupõe uma expectativa de comporta-
Nesses grupos de relações igualitárias mento e uma expectativa de comporta-
entre os indivíduos, a informação costuma mento já é uma forma de poder sobre o
ser aberta: o que um sabe, todos podem outro. Digamos que o homem não esteja
saber; ninguém se apropria da informação contente com sua mulher porque ela não
para transformá-la em poder político ou está trazendo água limpa para casa - e le-
económico. var água limpa para casa é tarefa da mu-
Da mesma forma, a relação com a terra lher. O máximo que esse homem poderá
não costuma ser uma relação patrimonial. fazer será recorrer aos pajés, aos homens
Embora o indivíduo tenha sua casa e sua mais velhos. Eles reunirão todas as mulhe-
roça, embora o grupo ocupe determinado res e explicarão porque é que naquele gru-
"território", a relação não é de proprieda- po as tarefas historicamente foram dividi-
de individual.e sim coletiva. das daquela forma, porque coube às
Enquanto na força de sua cultura, es- mulheres levar água para casa. Quem qui-
ses grupos não costumam trabalhar para ser que vista a carapuça. Mas ninguém ou-
produzir excedentes comerciáveis. E sequer sará, recriminar uma mulher - lembra Or-
circula dinheiro entre eles. lando. Pode haver sofisticação maior?
A ignorância inicial desse sistema tão O velho continuará morando em sua A organização do
trabalho nas
sofisticado quase custou a Orlando e seu casa, relacionando-se com'seus descen- comunidades
irmão Cláudio as próprias vidas. Porque na dentes, e provendo ele próprio suas neces- indígenas se faz a
partir da divisão das
aproximação com um grupo ainda não sidades. Será ouvido pelos mais novos, tarefas pelo sexo e
contatado, no Xingu, levaram apenas pre- que respeitarão sua experiência. pela idade. Mulheres
Kadiwéu da Aldeia
sentes que interessavam aos homens - ma- O produto final dessas relações políti- da Bodoquena (MS)
chados, anzóis etc. Indignadas, todas as cas e sociais será uma organização da qual decoram potes de
mulheres da aldeia se foram. Os homens cerâmica que são
tentaram atraí-las preparando comidas e estarão ausentes muitas das instituições vendidos no
comércio da região.
chamando-as - elas pisotearam as comidas que constituem exatamente as mazelas da Foto Jaime Siqueira.
e se foram de novo. Furiosos, os homens nossa sociedade - o asilo de velhos, o or-
resolveram culpar Orlando, Cláudio e seus fanato, o bordel, a cadeia.
companheiros - que só escaparam porque Será ainda uma sociedade capaz de
uma velha se apiedou. relacionar-se com seu ambiente de modo
muito mais adequado que as culturas di-
Da mesma forma que se pode falar tas civilizadas. Basta olhar o mapa mundi
nessa singularíssima relação entre os sexos, e conferir onde estão, no nosso planeta,
pode-se falar na relação entre adultos e as manchas preservadas - lá estarão "ín-
crianças, ou entre a sociedade e os idosos. dios". Uma das razões fundamentais está
Um índio não grita com crianças, na prudência em não promover concen-
quanto mais espancá-las. A paciência de trações demográficas além de certos limi-
um pai ou uma mãe podem ser quase in- tes - e aí se pode lembrar que, em estudos
finitas, ainda que a criança ateie fogo à da ONU. está dito que as comunidades aci-
casa. ma de 10 mil habitantes começam a gerar
sobrevivam e se afirmem. "No dia em que
não houver lugar para o índio no mundo,
não haverá lugar para ninguém", diz Ail-
ton Krenak, da União das Nações Indíge-
nas. Porque se não houver lugar para o ín-
dio, terá desaparecido a possibilidade de
sociedades com as características mencio-
nadas: sem dominação de indivíduo, gru-
pos ou sexo; respeitosa com as crianças,
os idosos e a natureza; respeitosa da liber-
dade de cada pessoa.
Talvez a questão ambiental, bem tra-
tada, possa conduzir-nos nessa direção.
Pode-se partir, aí, da demarcação de re-
servas.
Ainda há pouco, o governo brasileiro
demarcou e homologou a reserva Yano-
mami, um território de 9,4 milhões de hec-
tares, que, somado à área Yanomami do
lado da Venezuela - formando um territó-
rio contínuo -, constitui um espaço de mais
de 17 milhões de hectares, maior que Por-
tugal, e praticamente intocado.
A importância dessa preservação pa-
ra o Brasil e para a sociedade brasileira é
decisiva. Quando se preserva um ecossis-
tema dessa dimensão, pode-se preservar
todas as cadeias alimentares e reproduti-
vas, e não umas poucas espécies isoladas.
Pode-se, portanto, proteger biodiversidade
num espaço considerável. E a biodiversi-
A atitude dos pais e
dade representa a grande possibilidade bra-
pessoas mais velhas
problemas na prática insolúveis, na medi- sileira nas próximas décadas e séculos. Por-
é sempre de grande da em que as soluções acarretam outros que dela virão os novos alimentos, os
tolerância, problemas que exigem novas soluções novos medicamentos, os novos materiais,
paciência, atenção e
respeito às
que... uma rosca sem fim. que não só atenderão a necessidades ho-
peculiaridades das Não é difícil observar todos esses tra- je não atendidas, como substituirão os ma-
crianças. Mãe ços dessas sociedades organizadas de mo-
Parakanã com seu teriais que estão se esgotando (como pe-
filho. Foto Lux do verdadeiramente racional e respeitoso: tróleo e certos minérios).
Vidal. basta ter a oportunidade de contato com
elas e a capacidade de olhá-las sem pre- "Na biodiversidade, o Primeiro Mun-
conceitos e sem desejo de enquadrá-las em do somos nós", lembra a diretora do Jar-
outras lógicas. Isso deveria bastar para que dim Botânico de Brasília, Anajúlia Herin-
a nossa sociedade as respeitasse e não im- ger Salles. Mas advertindo: é preciso saber
pedisse sua sobrevivência pacífica. Mas não o que vamos fazer com essa biodiver-
tem sido assim. O Brasil, dizem os histo- sidade.
riadores, tinha cerca de 5 mil culturas di- De fato, calcula-se que na Amazónia
ferentes na época do descobrimento. Ho- brasileira estejam uns 30% da biodiversi-
je, são cerca de 150 apenas, muitas delas dade do nosso planeta, milhões de espé-
a caminho da extinção. Só neste século já cies, das quais muito poucas já conheci-
desapareceram mais de 100. das e estudadas.
Então, é preciso mais. E preciso que Para que possam ser conhecidas e uti-
a nossa sociedade tome consciência de sua lizadas adequadamente pela nossa socie-
necessidade de que as culturas indígenas dade, é preciso que se conservem essas es-
pécies como partes integrantes das cadeias
alimentares e reprodutivas a que todas per-
tencem. E isso é tarefa complexa e custosa.
Um exemplo ajuda a entender. Há al-
guns anos, uma bióloga de Mato Grosso
decidiu estudar a biodiversidade da Cha-
pada dos Guimarães. Para isso, tomou co-
mo ponto de partida três tipos diferentes
de goiabeira que existem ali. Ao fim de
quase dois anos de estudo, havia verifica-
do que cada uma das goiabeiras era ferti-
lizada por agente diferente, pássaros dife-
rentes. E cada uma delas se reproduzia
também por caminhos diversos - uma, es-
palhando suas sementes através das fezes
de um morcego que comia as goiabas; as
outras, via fezes de outros dois tipos de
pássaros.
A bióloga foi estudar então o morce-
go e os cinco pássaros envolvidos na ferti-
lização e na reprodução das goiabeiras. E
verificou que cada um deles também se ali-
mentava de espécies diferentes. Até ai che-
gara seu estudo. Mas já com a certeza de
que, se um dia conseguir finalizar seu es-
tudo, terá envolvido na vida das três goia-
beiras todo o ecossistema da Chapada dos
Guimarães. E precisará estudar, em segui-
da, as relações desse ecossistema com os
ecossistemas confinantes.
Neste ponto, convém ressaltar o que
diz o espanhol José Esquinas Alacazar, que
dirige a Comissão da FAO (Organização
para a Alimentação e a Agricultura, das
Nações Unidas) para Recursos Genéticos
Vegetais: do início deste século para cá, já
desapareceram mais de metade das varie- respondem por sabores, valores nutritivos, A morte de um
dades dos 20 alimentos mais importantes capacidade de adaptação a solos e clima, indivíduo, entre os
índios Bororó,
para espécie humana, aí incluídos o arroz, resitência a predadores etc). desencadeia um
o trigo, o milho, o feijão, a aveia, a ceva- Mas, como demonstrou a bióloga longo ciclo de
rituais, danças,
da, a ervilha. Nos Estados Unidos, nesse mato-grossense,a preservação das espécies cantos, caçadas e
mesmo período, desapareceram 80% das depende da preservação das cadeias ali- pescarias coletivas e
representações
variedades de frutas e hortigranjeiros. mentares e reprodutivas, da preservação cerimoniais, que
do ecossistema como um todo. Uma es- têm por objetivo
Processos comerciais de domínio de efetuar a passagem
mercados via seleção de sementes com pécie isolada pode não resistir. Basta ver da "alma" para a
certeza influíram decisivamente. Mas, seja o exemplo da tentativa de implantar cas- aldeia dos mortos e
reorganizar a
como for, vamos depender cada vez mais, tanhais homogéneos, no Pará, com o pro- sociedade dos vivos.
no futuro, de novas espécies que, inclusi- pósito de produzir castanhas de modo mais que perdeu um de
económico, num espaço fechado. Isoladas seus membros. Foto
ve por cruzamentos genéticos, produzirão Luís Grupioni.
variedades mais resistentes a pragas e aci- do seu ecossistema, as castanheiras se re-
dentes climáticos (mesmo porque quando velaram estéreis.
desaparece uma espécie, com ela se per- O Brasil foi o primeiro signatário da
dem combinações genéticas únicas, que convenção de proteção da biodiversidade,
na II Conferência da Nações Unidas sobre Se não nos apressarmos, vamos cor-
Meio Ambiente e Desenvolvimento, em ju- rer riscos inaceitáveis. Porque é exatamente
nho de 1992, no Rio de Janeiro. nos grupos indígenas que se concentra o
maior conhecimento, o maior volume de
Como vamos cumprir essa convenção? informações sobre essa biodiversidade. Um
O caminho mais simples parece ser exata- conhecimento não escrito, que se perde
mente demarcando as reservas indígenas. com a aculturação e com a morte dos mais
Mas isso exigirá decisão política e apoio da velhos ("cada vez que morre um velho nu-
sociedade. Das 511 áreas indígenas reco- ma tribo africana, é como se se incendias-
nhecidas pela FUNAI, 130 (26% do total) se uma biblioteca, escreveu anos atrás um
não têm sequer estudos para delimitação; diplomata da ONU; a frase vale para o
117 (23%) estão delimitadas mas não de- Brasil").
marcadas; 64 (13%) foram demarcadas Alguns meses atrás, uma organização
mas aguardam homologação. Apenas 190 não-governamental calculou em 40 bilhões
(38% do total) já estão homologadas, mas de dólares anuais o valor comercial de pro-
sob ameaça dos que querem fazer uma dutos (alimentos e medicamentos) cujo co-
"revisão". Pior ainda, o orçamento propos- nhecimento pertenceu a índios. Mas eles
to para a FUNAI em 1993 (quando termi- não receberam um centavo por isso.
na, em outubro, o prazo dado pela Cons- E não apenas eles. Cientistas brasilei-
Yawalapiti toca um
clarinete durante um
tituição de 1988 para concluir as ros que têm descoberto novos medicamen-
dos muitos rituais demarcações) reserva para as demarcações tos, alimentos e materiais na nossa biodi-
realizados no Parque menos de 1% dos 110 milhões de dólares versidade têm-se visto obrigados a
Indígena do Xingu.
Foto Fred Ribeiro. que esse órgão precisa para o trabalho. desenvolvê-los em laboratórios em outros
países, por falta de recursos científicos aqui.
Cada uma dessas descobertas significa de-
zenas de milhões de dólares por ano, co-
mo é o caso das utilizações da reserpina,
da policarpina, do veneno da jararaca (para
controlar os mecanismos da hipertensão
arterial humana).
A convenção de proteção da biodiver-
sidade. ao estabelecer que os países deten-
tores dessa biodiversidade têm direito de
participar dos resultados comerciais e cien-
tíficos da descoberta, quebraram regras se-
culares, impostas inicialmente pela força
das armas e depois pelo dinheiro. Mas es-
sa é uma conquista ameaçada por muitos
ângulos - e principalmente pelas ameaças
que pesam sobre os grupos indígenas.
Como a nossa sociedade tem imensa
dificuldade em reconhecer qualquer coisa
que não leve a chancela da ciência, talvez
valha a pena lembrar as páginas iniciais de
O Pensamento Selvagem, de Lévi-
-Strauss. O mestre francês menciona nar-
rativas de numerosos viajantes e naturalis-
tas que conviveram com os ditos primitivos
e mostra a extensão do seu conhecimen-
to sobre a flora, a fauna, o mundo que os
cercava. Conhecimento científico, diz
Lévi-Strauss: "O homem do neolítico ou
da proto-história foi, portanto, o herdeiro
de uma longa tradição científica".
Já no neolítico, diz ele, estava confir- imaterialidade quanto o ser sólido por ela
mado o domínio humano sobre as gran- simplesmente precedido. O pensamento
des artes da civilização - cerâmica, tecela- mágico não é uma estreia, um começo, um
gem, agricultura e domesticação de esboço, a parte de um todo ainda não rea-
animais: "Hoje, ninguém mais pensaria em lizado; ele forma um sistema bem articu-
explicar essas conquistas imensas pela acu- lado, independente, nesse ponto, desse ou-
mulação fortuita de uma série de achados tro sistema que constitui a ciência, salvo a
feitos por acaso ou revelados pelo espetá- analogia formal que os aproxima e que faz
culo passivamente registrado de determi- do primeiro uma espécie de expressão me-
nados fenómenos naturais. Cada uma des- tafórica do segundo. Portanto, em lugar de
sas técnicas supõe séculos de observação opor ciência e magia, seria melhor colocá-
ativa e metódica, hipóteses ousadas e con- -las em paralelo, como dois modos de co-
troladas, a fim de rejeitá-las ou confirmá- nhecimento desiguais quanto aos resulta-
-las através de experiências incansavelmen- dos teóricos e práticos (...), mas não devido
te repetidas". Da mesma forma, acentua, à espécie de operações mentais que am- Os índios expressam
no neolítico já se registrava o domínio da bas supõem que diferem menos na natu- momentos
metalurgia do bronze e do ferro e dos me- reza que na função dos tipos de fenóme- importantes de suas
vidas pintando suas
tais preciosos, "todas exigindo já uma com- no aos quais são aplicadas". faces, seus corpos e
petência avançada". seus objetos com
E esse conhecimento que está amea- urucum. jenipapo,
carvão, barro e
Neste ponto, Lévi-Strauss coloca uma çado nesta hora crucial para o ser huma- resinas vegetais e
pergunta ainda sem resposta completa: "Se no, quando as questões fundamentais pa- animais. Mulher
Assurini. Foto Fred
o espírito que inspirava o homem do neo- recem deslocar-se do campo ideológico Ribeiro.
lítico, assim como a todos os seus antepas-
sados, fosse exatamente o mesmo que o
dos modernos, como poderíamos enten-
der que ele tenha parado e que muitos mi-
lénios de estagnação se intercalem, como
um patamar, entre a revolução neolítica e
a ciência contemporânea? O paradoxo ad-
mite apenas uma solução: é que existem
dois modos diferentes de pensamento cien-
tífico, uma e outra funções, não estágios
desiguais de desenvolvimento, do espírito
humano, mas dois níveis estratégicos em
que a natureza se deixa abordar pelo co-
nhecimento científico - um aproximada-
mente ajustado ao da percepção e imagi-
nação, e outro deslocado; como se as
relações necessárias, objeto de toda ciên-
cia, neopolítica ou moderna, pudessem ser
atingidas por dois caminhos diferentes: um
muito próximo da intuição sensível e ou-
tro mais distanciado".
Mais ainda: "Não voltamos à tese vul-
gar segundo a qual a magia seria uma for-
ma tímida e balbuciante de ciência, pois
privar-nos-íamos de todos os meios de
compreender o pensamento mágico se
pretendêssemos reduzi-lo a um momento
ou uma etapa da evolução técnica e cien-
tífica. Mais uma sombra que antecipa seu
corpo, num certo sentido ela é completa
como ele, tão acabada e coerente em sua
A suntuosidade dos
artefatos plumários
feitos pelos índios
brasileiros tem
chamado atenção
desde o tempo do
descobrimento.
Verdadeiras
"roupas" expressam
padrões estéticos e
culturais. índio
Kaapor com
paramentos
plumários. Foto
Foerthmann,l950.

para o campo biológico. Quando uma con- Paulo, no âmbito desta comissão de direi-
ferência como a Eco 92 reconhece, pela tos dos índios, muitas coisas interessantes
palavra de mais de 100 chefes de Estado, foram ditas.
que a sobrevivência do planeta e da espé- Marcos Terena, do Comité Intertribal,
cie humana está em risco, talvez seja para começou batendo duro: "Nós, índios, olha-
questões como as colocadas pelas cultu- mos para esse mundo do homem branco
ras indígenas que tenhamos de voltar-nos. e verificamos que essa civilização não deu
E se é assim, é de modernidade que certo". A seu ver, porque "o homem bran-
estamos falando. co nunca quis escutar a história dos índios;
No painel "O índio e a modernidade" sempre considerou a história dos índios um
que realizamos no Teatro Municipal de São poema, um folclore, uma coisa que era boa
para os índios, era boa para o teatro, para José Luiz, o chefe xavante, também foi
a música, mas não para ser praticada". muito contundente: "O branco não sabe
Será preciso retomar uma caminhada o que é natureza, não sabe o que é o rio,
interrompida, disse Terena: "Nós vamos não sabe o que é a árvore, não sabe o que
elaborar uma Carta da Terra. Nunca fize- é montanha, não sabe o que é mar. Para
mos isso, mas agora é preciso fazer por- vocês, o que está existindo na natureza é
que o homem branco que vai discutir o fu- a riqueza sua. Ao invés de você respeitar
turo do planeta vai brigar com outro uma árvore, a floresta, você destrói, você
homem branco, eles vão brigar entre eles, corta pedaço, você faz seca, você faz tu-
porque um país é rico e o outro é pobre. do. O mar, pra que existe o mar, o seu
O rico quer que o pobre continue pobre, Deus colocou o mar pra que? Pra você res-
para ser fonte de matéria prima. E o país peitar. Mas até hoje vocês não respeitaram
pobre quer virar rico mas não tem dinhei- o mar. O que vocês fizeram com o mar?
ro para isso. Tudo gira em torno da eco- Jogaram coisas e poluíram esse mar. Vo-
nomia e do dinheiro. Mas na nossa socie- cê não respeita montanhas. Veja lá no Rio,
dade não existe rico nem pobre." vocês destruíram todas as montanhas, to-
das as matas."
Sua conclusão: "Vocês são maioria,
nós somos apenas 240 mil pessoas. Mas José Luiz conhece o processo históri-
tudo que está na terra da gente, desde co de apropriação do conhecimento indí- Existem cerca de 50
aquilo que se chama riqueza mineral, vai gena sobre a biodiversidade. E não o aceita grupos isolados na
Amazónia,
ter sentido pra nós, índios, mas só vai ter mais: "Eu não vou ensinar nem um peda- praticamente sem
sentido pra vocês se vocês souberem de- cinho, porque tudo que está existindo aqui contato com
segmentos da nossa
cifrar e tentar conjugar a prática do dia-a- tiraram de nós, e não devolveram nenhum sociedade. Um
-dia de vocês com a prática das nossas vi- para nós, eu não vou dar de graça essas grupo de Zoé volta
medicinas naturais". do igarapé onde
das. Ou seja, equilíbrio e igualdade. buscou água. Foto
Igualdade apesar das nossas diferenças." Também não aceita mais conceitos e Luís Grupioni.
Os índios estão
buscando formas
mais equilibradas de
relacionamento com
a nossa sociedade.
Casal de índios
Suruí participa da I
Assembleia dos
Povos Indígenas de
Rondónia e norte
do Mato Grosso
(1991). Foto António
Queiroz/CIMI.
preconceitos na relação entre "civilizados" "descarnados pela fome e pela pobreza", Rituais constituem
momentos
e "índios": "Você vai me dizer: o índio tá não agarrassem os outros brancos pela gar- importantes que
falando mas é selvagem; selvagem é vo- ganta e não ateassem fogo a suas casas. marcam a
cês, milhares de anos estudando e nunca socialização de um
E enfatizou que Montaigne, já no século indivíduo ou a
aprenderam a ser civilização. Pra que que XVI, percebera que as sociedades indíge- passagem de um
vocês está estudando? Pra destruir a na- nas são "sociedades de liberdade" - socie- grupo de uma
situação para outra.
tureza e no fim destruir a própria vida mes- dades diferentes das nossas, em que nos Manifestam as
mo?" consideramos "livres sob a lei". Nas socie- relações entre o
mundo social e o
O prof. Sérgio Cardoso recorreu a dades indígenas, os indivíduos se conside- mundo cósmico.
Montaigne, à sua descrição de um encon- ram "livres no interior da sociedade mes- entre o universal e o
natural. índios
tro entre índios e brancos, no século XVI. ma, e não sob a lei". Moderno, sem dúvida. Waiãpi tocam
para dizer que "vários sinais nos mostram A professora Berta Ribeiro, ao mencio- clarinetes e apitos
durante o ritual do
hoje uma espécie de esgotamento de uma nar entrevista na qual Lévi-Strauss disse "'papamel". Foto
série de modos, de concepção do social. que "na nossa sociedade tudo se separa", Dominique Gallois.
concepção do mundo, que nasceram so- enquanto nas sociedades indígenas "tudo
bretudo a partir do século XVII". Para fu- é misturado", deu o mote para a fala final,
gir ao esgotamento, pensa ele. é preciso síntese brilhante, da professora Marilena
uma nova postura: "Se não houver essa Chaui.
atitude de desarmar, de nos desarmar des- A seu ver, dois pontos importantes fo-
sa escuta (os modos esgotados), não va- ram colocados no painel sobre a moder-
mos simplesmente ter possibilidade de sair nidade das culturas indígenas: "A primei-
dos nossos impasses". ra é que os índios são modernos no sentido
O prof. Sérgio Cardoso, lembrando de que eles têm uma cultura, eles têm uma
ainda Montaigne, mencionou a estranhe- sabedoria, que não é velha, não é arcai-
za dos índios ao ver que os homens bran- ca, não é atrasada, não está atrás da nos-
cos obedeciam a um rei de apenas 13 anos sa, mas é contemporânea a nossa e tem
de idade. E mais estranheza ainda por ve- o mesmo valor, uma valor sob certos as-
rem que uma grande parte dos brancos, pectos maior que o nosso".
"O outro aspecto é que a modernida- fragmentada, toda separada". Enquanto is-
de dos índios põe em questão, nos faz dis- so, na sociedade indígena, "cada ato, ca-
cutir, qual é o valor da ideia de progresso. da objeto, cada instituição da sociedade é
Será que nós, ocidentais, não nos deixa- sempre uma unidade, e isso é que é fun-
mos enganar durante os últimos cinco sé- damental na existência dos seres humanos
culos com a ideia de progresso, isto é, de e talvez nós tenhamos perdido inteiramen-
que aquilo que vem depois é melhor do te, justamente porque nós acreditamos na
que aquilo que veio antes? Nós vimos ho- ideia do progresso. E que foi o progresso?
je que existem certas perguntas que são O progresso foi a separação de tudo (...)
fundamentais para a humanidade. De on- O que a cultura indígena nos ensina é que
de nós viemos? Para onde nós vamos? Co- o verdadeiro progresso é a presença disso
mo é que uma sociedade se organiza de que é fundamental, essa integração entre
modo igualitário? Como é que uma socie- o sagrado e o profano, o humano e o di-
dade é capaz de respeitar a liberdade de vino, o humano e a natureza e as relações
cada um? Como é que uma sociedade é de liberdade, justiça, comunidade, igualda-
capaz de respeitar no seu interior a justi- de entre os próprios seres humanos".
ça? Como é que uma sociedade é capaz
de pensar nas crianças como a continui- "Se nós não aprendermos isso", disse
dade de sua existência, nos velhos como Marilena Chaui, "o xavante terá razão: es-
preservação da sua memória? Como é que taremos perdidos".
uma sociedade é capaz de exprimir a re- Nestes tempos em que estamos sen-
lação que ela tem com a natureza, com os do obrigados a reaprender que no nosso
outros seres humanos, com os animais, planeta tudo influencia tudo, tudo que se
com o sagrado, de uma maneira integra- faz tem consequência em todo o univer-
da?" so, certamente é essa a lição principal. É
A nossa civilização, disse Marilena para ela que aponta a modernidade do
Chaui, é "toda compartimentada, toda índio.
As terras indígenas no Brasil
Lux Boelitz Vidal

Informar e envolver cada vez mais seg- nós. A questão indígena, hoje, está intima-
mentos significativos da população, mente ligada à construção da cidadania em
mobilizá-la mesmo, num movimento de so- nosso país e deve se tornar um assunto
lidariedade para com as populações indí- compreensível e significativo para o con-
genas, apontava, sem dúvida, como uma junto da população. Como bem coloca
tarefa exemplar a ser cumprida durante as João Pacheco de Oliveira "isso exige um
inúmeras manifestações que acompanha- exercício de compreensão política da ques-
riam a conferência internacional sobre de- tão indígena referenciando-a ao conjunto
senvolvimento e meio ambiente da ONU- das forças sociais e aos seus eixos de mo-
a Rio 92 - e as comemorações do V Cen- bilização. Para isso é preciso focalizar o pro-
tenário - 500 anos de resistência indígena. cesso de dominação a que o índio está su-
Na Cidade de São Paulo, a Comissão jeito, explicitar as condições económicas,
"índios no Brasil" realizou um trabalho pio- políticas e ideológicas em que isso se dá,
neiro de reflexão e divulgação das ques- recuperando inclusive as analogias com a
tões fundamentais relativas aos povos in- experiência de vários setores do campesi-
dígenas, visando uma construção da nato e da população urbana" .
cidadania capaz de promover e incluir o Possivelmente, os antropólogos, os in-
diálogo cultural e o respeito à diferença. digenistas e todos aqueles que apoiam a
Paralelamente a estes debates, uma causa indígena, especialmente quando pre-
grande exposição no prédio da Bienal, a cisavam se opor às contínuas investidas as-
mais completa e abrangente realizada até similacionistas por parte do Governo, dos
hoje sobre índios no Brasil, e duas no Cen- militares e dos poderes locais, acabaram,
tro Cultural São Paulo, todas de grande im- imperceptivelmente, realçando em dema-
pacto, tanto pela proposta conceituai co- sia as diferenças existentes entre nós e os
mo pela beleza do material exposto, índios, acarretando, desta maneira, no ní-
proporcionaram ao grande público da ci- vel do senso comum, a incapacidade em
dade e especialmente à população em ida- distinguir entre o direito à diferença sócio-
de escolar uma oportunidade única de co- -cultural e a posse exclusiva e comunitária
nhecer melhor a história e as manifestações da terra por um lado e o direito à cidada-
culturais dos povos indígenas no Brasil. nia plena por outro lado, direitos estes que
Mostrou-se ainda os inúmeros desafios que não se excluem e hoje são reconhecidos
estas populações enfrentam no seu dia a na Constituição.
dia para assegurar os seus direitos, a ga- Quem não ouviu, inúmeras vezes, fra-
rantia de suas terras e as possibilidades de ses simplistas e polarizadas, proferidas mes-
sobrevivência física e cultural, abrindo as- mo por pessoas esclarecidas quando opi-
sim uma possibilidade de compreensão nam sobre outros assuntos da política
mútua mais esclarecida e de um compro- nacional: "deixem estes índios coitados
misso assumido em bases mais demo- tranquilos, viverem do seu jeito, lá no lu-
cráticas. gar deles", deixando de reconhecer, assim,
A questão indígena não pode ser de- que os índios vivem hoje, em um contex-
batida apenas pelos especialistas "aqueles to multi-étnico, em interação contínua, pelo
que entendem do assunto", sob pena de menos na sua maioria, com a comunida-
deixar um perigoso espaço na consciência de nacional e com necessidades básicas
social para ser preenchido, seja pelos pre- iguais ao resto da população. Ou ainda:
conceitos e estereótipos vigentes na popu- "Estes índios já é tudo igual a civilizado, não
lação brasileira, há séculos, como conse- existe mais índio puro, inocente. Eu li na
quência do processo colonizador, seja pelo Veja, estes dias, que até carro eles com-
sistema educacional ainda vigente entre pram, hoje é tudo safado". Neste caso, "in-
índios Kayapó felizmente", não há mais o que fazer, a Abandonados a sua sorte, os índios acei-
lideram a vigília
realizada por
questão indígena perdeu a sua especifici- tam. a troca de indenizações pouco escla-
diferentes povos dade exótica, a única merecedora de uma recidas e de alguma assistência, a implan-
indígenas durante as atenção diferenciada. Consequência: iso- tação de projetos estatais e privados em
negociações do
capítulo dos índios lamento e segregação. seus territórios ou sucumbem às investidas,
na Constituinte. Esta falta de consciência social por con- ainda mais agressivas, de madeireiras e ga-
Destacam-se o rimpeiros. Persiste também a resistência
cacique Raoni e o veniência ou omissão, contrasta com dois
coronel Tutu Pombo. outros aspectos relativos à questão in- crónica por parte dos militares, dos gover-
falecido dígena. nadores e políticos do norte do país e dos
recentemente. Foto
Luís Grupioni. De um lado,1 os inegáveis avanços adeptos de um nacionalismo exacerbado,
obtidos no nível institucional, na Constitui- em reconhecer e apoiar as demarcações
ção Federal, bastante favorável aos índios, das terras indígenas, insistindo, e apesar de
e no compromisso do Ministério Público na todas as evidências em contrário, em uma
defesa dos direitos indígenas.2 A quanti- política assimilacionista, cujo nome é et-
dade e qualidade do conhecimento pro- nocídio.
duzido nestes últimos anos tanto pela an- Estes diferentes aspectos da questão in-
tropologia como pelas entidades de apoio, dígena não evoluem da mesma forma e
especialmente com relação às terras indí- parecem cada um per si, pertencer a esfe-
genas e às situações diferenciadas de con- ras distintas da realidade: a mentalidade
tato e articulação entre comunidades indí- preguiçosa que se contenta em reproduzir
genas e sociedade nacional. 3 A apenas estereótipos e clichés seculares; a
importância do movimento e das organi- dinâmica progressista do movimento indí-
zações indígenas, cada vez mais atuantes, gena e das entidades de apoio em produ-
no nível regional e nacional. zir de maneira articulada subsídios para
Por outro lado, uma vida cada vez mais uma verdadeira consolidação democráti-
difícil para os índios, nas aldeias e nas Re- ca das instituições; a visão anacrónica de
servas. Situações dramáticas, devido aos militares e nacionalistas e a barbárie, a ga-
incessantes conflitos com invasores, mor- nância, a lei do mais forte que prevalecem
tes violentas e falta total de recursos para no campo e nas reservas indígenas onde
as necessidades básicas como saúde, edu- invasores inescrupulosos submetem os ter-
cação, transporte e mesmo alimentação. ritórios indígenas a um verdadeiro saque,
índios assistem a
votação do capítulo
da Constituição
referente a seus
direitos. Congresso
Nacional, Brasília.
Fotos Castro
Júnior/ADIRP.
deixando no seu rastro a destruição am- pos que convivem com a sociedade evol-
biental, a miséria e a desorganização so- vente há séculos (é o caso das sociedades
cial. indígenas do nordeste, por exemplo, cer-
Em resumo, o avanço obtido no cam- ca de 32.000 indivíduos, aproximadamen-
po das instituições e do conhecimento não te, e que sob muitos aspectos pouco se di-
corresponde a uma melhora real da situa- ferenciam da população regional).
ção vivida pelas comunidades indígenas, Estes grupos indígenas vivem distribuí-
no seu cotidiano. E esta situação, infeliz- dos em todo o território brasileiro, sendo
mente, tende a piorar. que 60% concentram-se na Amazónia,
área de refúgio, onde foi mais recente a pe-
Considerações preliminares netração das frentes de expansão.
Mesmo se alguns grupos contam com
Estima-se que vivem hoje no Brasil contingentes populacionais elevados, co-
250.000 índios aproximadamente, rema- mo os Ticuna do Alto Solimões, os Yano-
nescentes de uma população calculada em mami e Macuxi de Roraima, os Tukano do
milhões na época da chegada dos eu- Alto Rio Negro e outros, é importante fri-
ropeus. sar que as sociedades indígenas no Brasil
São 200 grupos étnicos que habitam são, em geral, pequenas. Sua reprodução
áreas ecológicas diversas e que falam mais cultural não depende de grandes efetivos
de 170 línguas e dialetos. demográficos, mas exige dada a ênfase na
As sociedades indígenas no Brasil são caça, pesca e coleta e mesmo agricultura
extremamente diversificadas entre si: viven- itinerante, territórios extensos e que, seja
ciam processos históricos distintos e são dito de passagem, os índios souberam pre-
portadoras de tradições culturais espe- servar quando não pressionados irremedia-
cíficas. velmente pelas frentes de penetração.
A diversidade destas sociedades indí- Por outro lado, em alguns municípios,
genas é consequência também da existên- como em Roraima, Alto Solimões, Oiapo-
cia de diferentes situações de contato com que e outros, a população rural é maciça-
segmentos da sociedade brasileira, que vão mente indígena e reconhecidamente pro-
desde a total ausência de contato (como dutiva.
o grupo tupi do rio Cuminapanema, a 300 E importante lembrar ainda que ape-
km ao norte de Santarém, Pará) até gru- sar de representar uma parte ínfima da po-
Mais de 350
lideranças
representando 101
povos indígenas se
reuniram em
Luziânia/GO para
discutir a revisão do
Estatuto de índio.
No último dia do
Encontro, os índios
fizeram uma
manifestação na
rampa do
Congresso Nacional.
Foto Luís Grupioni.
pulação do país (o Brasil conta hoje com ra o capital estrangeiro, desenvolvidas nos
145 milhões de habitantes), entre muitos governos militares, as frentes de expansão
grupos indígenas, a população tende a au- projetaram os conflitos, decorrentes da
mentar. ocupação desordenada, sobre as frontei-
A Constituição brasileira respeita os di- ras do país.
reitos territoriais indígenas a partir de sua Ainda nos anos 50-60, os índios Ka-
alteridade, enquanto grupos culturalmen- yapó, no Pará, eram considerados "índios
te diferenciados. Isso é um dado que a an- do mato", desconhecidos, temidos pela po-
tropologia sabe expor adequadamente. Os pulação regional, escondidos em uma re-
fatores que um grupo étnico considera co- gião de floresta, onde poucos brancos ha-
mo básicos e necessários para integrar o viam se aventurado.
seu território decorrem de coordenadas Hoje, a Amazónia e o Sudeste do Pa-
culturais particulares, provenientes de seu rá estão sofrendo um processo de ocupa-
sistema económico, da sua forma de pa- ção desordenada e de destruição acelera-
rentesco e organização social, de sua vida da de suas riquezas naturais. Projetos de
cerimonial e religiosa. O argumento em re- grande porte como a construção da Hidre-
lação a uma área jamais poderá ser discu- lética de Tucuruí, a implantação do Proje-
tido em termos quantitativos como uma re- to Ferro Carajás, assim como a abertura de
lação índio/hectare ou família/hectare. inúmeras rodovias, aliados a programas ofi-
Sendo assim, é evidente que em pri- ciais de colonização, provocaram fluxos mi-
meiro lugar deve se reconhecer que índio gratórios importantes para a Amazónia,
e terra são assuntos indissociáveis, só po- provocando profundas mudanças ecológi-
de existir o índio (indivíduo) quando esti- cas e na vida das populações locais.
ver preservada a sua coletividade (etnia) A região habitada pelos Kayapó tem
e esta conseguir manter um território pró- sido uma das mais atingidas por estes pro-
prio (J. Pacheco de Oliveira). jetos desenvolvimentistas e predatórios.
No fim dos anos 70 e na década de Mas a mesma situação se repete em inú-
oitenta as frentes de expansão económica meras outras áreas, como em Rondônia,
penetravam na Amazónia, chegando aos Acre, e entre os Kaingang e Guarani do Sul
extremos norte e oeste do território nacio- do país, áreas já bastante devastadas há
nal. Estimuladas pelas políticas de trans- muito tempo.
porte, de incentivos fiscais e de abertura pa- Convém lembrar que no Governo Sar-
índios Guarani
durante
manifestação
indígena na rampa
do Congresso
Nacional. Foto Luís
Grupioni.
ney implantou-se o Projeto Calha Norte direta junto aos poderes da República, di-
que objetívava, entre outras coisas, a vivi- reito que deve ser agora assegurado poli-
ficação da fronteira Norte do país, a rede- ticamente" (Santilli, 1992).
finição da política indigenista e o fortaleci- A política do Governo Collor, de re-
mento da presença militar na Amazónia. cessão e cortes nas despesas públicas, par-
Naquela época a redefinição da política in- ticularmente na área social, implicou na pa-
digenista se materializou com os Decretos ralização da estratégia anterior, inclusive
94.945 e 94.946 ambos de 1987, que es- com cortes de verbas para o Projeto Ca-
tabeleceram a participação de segmentos lha Norte e para a área militar, o que pro-
militares na definição de áreas indígenas vocou descontentamentos no setor. Por
e a distinção de índios entre "aculturados" outro lado encenou mudanças nas políti-
e "não aculturados", medida que permitiu cas ambiental e indigenista para recuperar
a redução violenta de áreas indígenas, par- o prestígio do País no exterior, abalado pe-
ticularmente na Amazónia. Os argumen- las denúncias de devastação de florestas e
tos destes segmentos políticos é que as ter- do péssimo tratamento dispensado aos po-
ras indígenas e as áreas de proteção vos indígenas.
ambiental congelam as riquezas existentes
Mas as forças contrárias à demarcação
no solo e subsolo dessas áreas.
das terras indígenas reagiram imediatamen-
Mas não existe incompatibilidade en- te. Em 1990 as forças "nacionalistas" ele-
tre a garantia dos direitos indígenas e a de- geram uma grande bancada de deputados
fesa da soberania e o desenvolvimento na- federais, conhecidos como "bloco amazô-
cional. A Constituição de 1988 nico" que, nos meses iniciais de 1991. ins-
estabeleceu, com clareza, os instrumentos talaram a Comissão Parlamentar de Inqué-
desta compatibilização. rito da "Internacionalização da Amazónia"
A Nova Constituição de 1988, além de contra ambientalistas, indigenistas e mis-
dar um tratamento exaustivo aos direitos sionários, acusados de defenderem interes-
indígenas, conferindo-lhes um inédito sta- ses externos contrários ao país. Essas for-
tus constitucional, pela primeira vez reco- ças também se opuseram firmemente à
nhece aos índios o seu direito à diferença, demarcação da área Yanomami.
rompendo com a tradição assimilacionis- Em 17 de junho de 1992, o Tribunal
ta que prevalecia nas Constituições ante- de Contas da União, extrapolando suas
riores. A Constituição institui a União co- funções constitucionais, aprovou parecer
mo instância privilegiada nas relações entre que recomendava ao Congresso Nacional
os índios e a sociedade nacional, amplian- e à Presidência da República, para que na
do enormemente as competências dos po- criação de áreas indígenas, fossem ouvi-
deres Legislativos e Judiciário quanto aos dos o Estado Maior das Forças Armadas,
Direitos Indígenas. o Departamento Nacional de Produção Mi-
E particularmente importante o reco- neral, a Eletrobrás e a Empresa Brasileira
nhecimento constitucional das organiza- de Pesquisa Agropecuária. Em 15 de ju-
ções indígenas que, nos termos do artigo lho o Governo Collor acatou as recomen-
232. são partes legítimas para ingressar em dações através do "Aviso 745". A Consul-
juízo em defesa dos direitos e interesses dos toria do Ministério da Justiça e a
índios. Procuradoria Geral da República conside-
Essa conquista estimula o surgimento raram ilegal o aviso, por não estar ampa-
e o crescimento das organizações locais e rado em lei ou em qualquer outra norma
regionais e facilita o acesso dos índios às superior (F. Damasceno). Consequente-
instancias decisórias do processo institu- mente, o que até hoje prevalece é o De-
cional. creto 2 2 / 9 1 que dispõe sobre o processo
Nesse mesmo sentido, "a Constituição de demarcação de terras indígenas (vide
estabelece relações diretas entre os índios adiante).
e o Congresso Nacional e deles com o Mi- Preocupadas com as novas paralisa-
nistério Público. Portanto os povos indíge- ções, desde julho de 1992, as organizações
nas adquiriram condições de interlocução indígenas, através da COIAB e outras en-
tidades, tomaram a iniciativa de promover cabendo-lhes o usufruto exclusivo das ri-
a Campanha pela demarcação das Terras quezas do solo, dos rios e dos lagos nelas
Indígenas na Amazónia, a fim de pressio- existentes. As terras tradicionalmente ocu-
nar o Governo e os órgãos responsáveis padas pelos índios são consideradas tam-
para que o processo de demarcação seja bém pela Constituição como bens da
acelerado e o prazo constitucional res- União (art. 20). Tais terras são definidas
peitado. no parágrafo primeiro, do referido artigo
231:
Terras indígenas no Brasil: as- "São terras indígenas tradicionalmen-
pectos formais 1 te ocupadas pelos índios as por eles habi-
tadas em caráter permanente, as utilizadas
I. O Poder Público e o artigo 231 da
para suas atividades produtivas, as impres-
Constituição cindíveis à preservação dos recursos am-
bientais necessários a seu bem estar e as
No Brasil, quando se fala em demar- necessárias para sua reprodução física e
cação de terras indígenas, trata-se, em pri- cultural, segundo seus usos, costumes e
meira instância, de uma definição jurídica tradições".
materializada na Constituição Federal em Portanto, compõem o conceito quatro
vigor, aprovada em 1988, e na legislação elementos que se integram e se somam e
específica, atualmente em fase de revisão devem ser reconhecidos à luz dos usos,
no Congresso Nacional, o chamado "Es- costumes e tradições indígenas. Para ha-
tatuto do índio". ver o reconhecimento é necessário que ha-
Segundo a Constituição Federal em vi- ja uma lei que regulamente o seu proces-
gor, artigo 231, são reconhecidos aos ín- so administrativo. Estas terras, porém, por
dios os direitos originários sobre as ter- força do dispositivo constitucional, não de-
ras que tradicionalmente ocupam. pendem do reconhecimento do Poder Pú-
destinadas a sua posse permanente, blico para serem terras indígenas, inaliená-

índios reunidos para


discussão das
diferentes propostas
de revisão do
Estatuto do índio,
em tramitação no
Congresso Nacional.
Foto Luís Santos
Lobo/CIMl.
Manuel Moura
discursa na
assembleia geral das
Organizações
Indígenas da
Amazónia brasileira
realizada em
Manaus/AM. Foto
Egon Heck/CIMI.

Estratégicos, fez com que a instância de de-


veis e indisponíveis, de tal forma que o ato
que as reconhece nada mais faz que dar cisão técnica sobre os processos de terra,
uma declaração de caráter indígena, para o chamado "Grupão", deixasse de existir,
conhecimento de todos, sem outra conse- uma vez que estes órgãos eram integran-
quência jurídica que contestar presunção tes do Grupo de Trabalho criado pelo De-
de boa-fé em eventuais agressões àquelas creto 94.945. Esta nova sistemática retor-
terras por particulares. nou à FUNAI a competência de instruir,
Sendo assim, o ato de reconhecimen- analisar e emitir parecer técnico conclusi-
to e demarcação física é secundário e vin- vo sobre os processos de demarcação, ca-
bendo ao Ministro da Justiça a decisão po-
culado à definição constitucional. Isto é, o
Poder Público Federal não pode deixar de lítica de emitir Portaria reconhecendo os
reconhecer ou deixar de demarcar uma ter- limites da terra para posterior demarcação
ra ou parte de uma terra que se enquadre física. Uma vez a terra demarcada ela será
homologada através de decreto do presi-
na definição constitucional, ao seu arbítrio.
Porém, o Poder Público pode reconhecer dente da República, publicado no DOU
e demarcar em qualquer momento, por- (Diário Oficial da União) e finalmente re-
que a oportunidade deste ato não está de- gularizada através do registro da terra no
Departamento de Património da União e
finida na lei, salvo o seu prazo final: 5 de
outubro de 1993 (art. 67 das disposições no cartório imobiliário da comarca corres-
constitucionais transitórias). pondente. A nova sistemática prevê a ne-
cessidade da anuência do povo indígena
II. A atual sistemática em vigor para o sobre os limites propostos. Abre, porém,
reconhecimento de terras indígenas pe- a possibilidade de manifestação de interes-
lo Poder Público Federal. sados sobre a proposta encaminhada pe-
Através do Decreto no. 22 de la FUNAI ao Ministro da Justiça.
04/02/91, o governo Collor criou uma sis- Segundo um levantamento realizado
temática administrativa de identificação e pelo CEDI (Centro Ecuménico de Docu-
demarcação de Terras indígenas. A extin- mentação e Informação/Programa Povos
ção dos Ministérios do Interior, da Refor- Indígenas no Brasil) a situação jurídica das
ma Agrária e da própria SADEN, que pas- terras indígenas no Brasil em 07/10/92 é
sou a se chamar Secretaria de Assuntos a seguinte:
Extensão das terras do país: 850 milhões conferência internacional sobre desenvol-
de hectares. vimento e meio ambiente da ONU em ju-
Número de áreas indígenas: 503, exten- nho de 1992, onde a sobrevivência dos po-
são 89.245.185ha ou 10,49% das terras vos habitantes das áreas de florestas do
do país. planeta seriam objeto de discussão e de co-
População indígena 250.000 pessoas vi- branças. Neste período 52 áreas foram de-
vendo em aproximadamente 4.000 limitadas representando um total de
aldeias. 15.839.021ha e 112 áreas homologadas.
As áreas Yanomami (9.664.975ha), Cer-
Terras Indígenas: rito (1.951ha), Guasuti (959 ha), Jaguari
Áreas Sem Providência: 88 (17,50%). (405ha), Pirakuá (2.384ha) e Kaxarari
Áreas Identificadas: 49 (9,74%) com (145.889ha) foram delimitadas, demarca-
6.538.449ha (7,33%). das e homologadas.
Áreas Interditadas: 31 (6,16%) com A partir de julho de 1992 registrou-se
17.987.500ha (20,16%). novamente uma total paralização dos pro-
Áreas Delimitadas: 85 (16,90%) com cessos encaminhados ao Ministro da Jus-
18.147.397 (20,33%). tiça, deixando assim 13 áreas à espera de
Áreas Homologadas: 173 (34,39%) com aprovação, num total de 4.460.827ha.
29.468.700 (33,02%). Trata-se das áreas Trincheira-Bacajá
Áreas Regularizadas: 77 (15,31%) com (1.655.000ha), Arara do Rio Branco
17.102.939 (19,16%). (122.000ha), Cachoeira Seca
(740.479ha), Rio dos Pardos (828ha), Ma-
Na Amazónia Legal, com uma exten- raiwatsede (168.000ha), Curuá
são de 4 8 0 milhões de hectares, (19.450ha), Ipixuna (179.640ha), Paumari
concentram-se 160 povos contatados com do Cuniuá (35.000ha), Kampa do Rio Eu-
aproximadamente 143.000 índios. Há in- vira (247.200ha), Taihantesu (4.700ha),
dícios de 53 grupos indígenas ainda não Rio Biá (1.180.200ha), Canauinim
contatados, sendo que a FUNAI já confir- (11.650ha) e Cabeceira do Rio Acre
mou 12 desses grupos. (76.680ha).
As áreas indígenas são 345 com A área indígena do Alto Rio Negro
88.071.167ha, o que significa 98,68% da com 8.150.000ha de superfície está a es-
extensão das áreas Indígenas no Brasil e pera de uma revogação dos decretos assi-
18,34% das terras da Amazónia. nados pelo presidente Sarney que demar-
cou 14 áreas descontínuas, combinadas
Sem Providência: 56 (16,18%). com 11 florestas nacionais, reduzindo o ter-
Identificadas: 31 (8,99%) com ritório indígena em 68%.
6.452.282ha (7,33%).
O quadro acima mostra os avanços
Interditadas: 28 (8,12%) com
conseguidos na defesa dos direitos indíge-
17.946.824ha (20,38%).
nas quer seja no texto da Constituição Fe-
Delimitadas: 66 (19,13%) com
deral ou no conhecimento produzido ao
18.048.095ha (20,49%).
longo destes últimos anos com relação às
Homologadas: 102 (29,57%) com
terras indígenas. Estas conquistas devem-
29.119.004ha (33,06%).
-se às pressões cada vez mais organizadas
Regularizadas: 62 (17,97%) com
dos próprios índios e ao trabalho de apoio
16.504.962ha (18,74%).
das ONG's e diferentes entidades civis li-
gadas à causa indígena. Do ponto de vis-
Durante o segundo semestre de 1991 ta da política indigenista oficial houve um
e o primeiro de 1992 houve uma certa agi- certo fluxo de encaminhamento de proces-
lização no encaminhamento dos processos sos ao Ministério da Justiça, incluindo a
demarcatórios devido essencialmente às aprovação por parte da Presidência da Re-
pressões internacionais para a demarcação pública dos casos emblemáticos como a
do território Yanomami e o início da orga- terra Yanomami e a terra dos Kayapó-
nização e discussões preparatórias para a -Mekranoti.
"O Caso dos Xis",
uma história em
quadrinhos
apresentada na
exposição índios no
Brasil, mostra a luta
dos índios pela terra
e traz informações
sobre as terras
indígenas no Brasil.
Texto e desenho de
André Toral. Foto
Luís Grupioni.

Deve ficar claro, porém, que todos os ponsabilidades frente a casos concretos de
povos indígenas merecem o mesmo trata- extermínio e de violência aos direitos dos
mento com relação aos seus direitos terri- índios (Sílvio Coelho dos Santos).
toriais. Neste sentido é imprescindível que o
Entendemos que nada poderia, atual- maior número de terras indígenas tenham
mente, justificar uma nova paralização da sido reconhecidas legalmente, permitindo
sistemática para o reconhecimento de ter- que em bases concretas tanto as organi-
ras indígenas, comprometendo o cumpri- zações indígenas como a sociedade civil
mento do prazo constitucional de outubro possam se mobilizar para consolidar mais
de 1993 para o término total das demar- uma vez os dispositivos constitucionais já
cações. conquistados e, se possível, permitir a sua
Vale ressaltar que está prevista uma re- ampliação.
visão da Constituição Federal para 1993
na qual os direitos territoriais atualmente III. A garantia das terras indígenas e a
reconhecidos aos índios certamente serão procura de um modelo de desenvolvi-
contestados pelos interesses anti-indígenas. mento sustentável.
Existe de fato uma grande resistência por
parte de Governadores do Norte do país Um aspecto importante da questão in-
contra as demarcações e também no Con- dígena hoje é, de um lado, assegurar de
gresso Nacional, em Brasília, através de po- fato aos índios o usufruto exclusivo das ri-
líticos da chamada "bancada amazônica". quezas existentes em seus territórios, pro-
Isso cria dificuldades objetivas à demarca- movendo, além das atividades de subsis-
ção das terras indígenas, por exemplo di- tência tradicionais, novas atividades eco-
ficultando a aprovação de créditos espe- nómicas em bases condizentes com a pro-
ciais para esse fim. Outrossim, nos últimos teção ambiental. E, por outro lado, proteger
anos temos presenciado um crescente es- os territórios indígenas, de acordo com a
vaziamento da Fundação Nacional do ín- lei, seja dos danos causados por grandes
dio (FUNAI), em relação à prática do in- projetos desenvolvimentistas, seja das in-
digenismo oficial. Um conjunto de decretos vasões cada vez mais agressivas por parte
visando a descentralização das iniciativas de garimpeiros e madeireiras, especialmen-
até então pertinentes ao órgão acabaram te na Amazónia.
estimulando uma maior interferência dos Estes invasores desenvolvem as suas
interesses locais e regionais nas questões atividades na total ilegalidade, causando
indígenas. Com tais iniciativas o governo danos irreparáveis ao meio ambiente e às
federal se desobrigou de suas próprias res- comunidades indígenas, totalmente inde-
fesas frente a estas investidas predatórias. desta percentagem encontra-se em áreas
Em muitas regiões da Amazónia as re- indígenas. Uma árvore de mogno rende lí-
lações interétnicas vem se caracterizando quido 1000 dólares à madeireira que pa-
por um aumento de conflitos e muita vio- ga às jovens lideranças indígenas entre 50
lência. Uma realidade, aliás, não muito di- e 60 dólares.
ferente daquela vivida por muitos campo- Para extrair apenas o mogno são des-
neses e segmentos marginalizados nos truídos hectares de floresta, inúmeros ecos-
grandes centros urbanos. A crise é gene- sistemas naturais e tudo aquilo que é co-
ralizada e as soluções, evidentemente, ape- nhecido hoje pelo nome de biodiversidade.
nas virão quando acompanhadas de mu- Enquanto aos índios, o dinheiro que
danças estruturais globais. recebem é gasto, de imediato, em um con-
O grau e as formas de intrusamento sumismo supérfluo, junto ao comércio lo-
das reservas indígenas é assustador. Ho- cal, também controlado pelas madeireiras.
je, muito mais do que as terras indígenas E tudo isso acontece em terras indígenas,
em si, os interesses estão voltados para os isto é, em terras da União e sob o nariz das
recursos de grande valor económico exis- autoridades coniventes.
tentes em estas terras. Frente a esta situação dramática é de
Por estas razões, fica evidente, que se lamentar a falta total de um projeto con-
apenas demarcar as terras indígenas não ceituai por parte do Governo e da FUNAI,
é o suficiente. que aponte para pesquisas, programas
Uma vez concluída a demarcação, e educativos e captação de recursos, capaz
mesmo antes, já que o direito dos índios de promover a implantação de atividades
às suas terras independe da demarcação de desenvolvimento sustentável em áreas
física, devem ser acolhidos projetos indí- indígenas. Esta situação é ainda mais preo-
genas de manejo, controle e vigilância de cupante quando se verifica o retrocesso por
suas terras, a longo prazo, com linhas es- parte de um órgão como o IBAMA, que
pecíficas de apoio técnico e financeiro da começa a questionar a participação de
parte de órgãos públicos e privados. ONGs em projetos ambientais e a esvaziar
Devem ser promovidas práticas atua- um órgão como o Centro Nacional de Po-
lizadas para a garantia das terras e o seu pulações Tradicionais (CNPT).
aproveitamento adequado visando o de- O IBAMA tem questionado também o
senvolvimento das comunidades como um financiamento de componentes indígenas
todo. É importante ressaltar este último as- em projetos ambientais, tais como o Pla-
pecto, porque na maioria dos casos, os in- no Piloto de Proteção das Florestas Tropi-
vasores conseguem cooptar algumas lide- cais, a ser financiado pelo G-7.
ranças, especialmente os mais jovens, que Nas regiões de colonização mais anti-
se associam às atividades altamente pre- gas, para os índios, as estratégias de so-
datórias dos garimpeiros e das madeirei- brevivência tem sido sempre problemáticas.
ras, assinando contratos, em bases absur- Até certo ponto o processo já é irreversí-
das, em nome da comunidade. É verdade vel. Resgatar o sistema tradicional de ma-
que alguns grupos, após amargas expe- nejo de seus recursos naturais é pratica-
riências, estão tratando de reverter esta si- mente impossível. As soluções para o
tuação inclusive entrando com processos futuro deverão ser construídas em novas
na justiça. bases, mas que, se bem orientadas, pode-
Por outro lado, não se pode esquecer rão resultar em experiências interessantes.
que as pressões destes grupos de interes- Hoje algumas comunidades indígenas, no
se não vão diminuir tão cedo. As madei- Acre, no Amapá e entre os Xavante estão
reiras são hoje a ponta de lança da pene- tentando implantar projetos alternativos e
tração da Amazónia. Apenas para dar um que merecem ser apoiados.
exemplo: a extração seletiva do mogno. Alguns grupos ainda possuem faixas
Segundo um levantamento recente, 47% extensas de terras, mas cercadas por um
da mancha de mogno existente na Ama- ambiente totalmente modificado. Outros
zónia incide sobre o estado do Pará e 22% grupos perderam a maior parte de seus ter-
ritórios, que se resumem a poucas ilhas de plamente discutidas com as comunidades
mata, extremamente vulneráveis. A vida, indígenas.
para a grande maioria dos grupos, é hoje O destino das terras indígenas vai de-
mais sedentária, com um aumento sensí- pender muito da capacidade de luta por
vel das atividades agrícolas. A caça torna- parte dos índios, exercendo, cada vez mais,
-se mais escassa. A contínua derrubada de os seus direitos de cidadania e assumindo
floresta virgem para a agricultura, em uma novas responsabilidades. Por parte da so-
reserva demarcada, também coloca novos ciedade brasileira vai depender de sua von-
problemas. Antigamente, os índios, possui- tade em progredir, preservando o seu pa-
dores de imensos territórios, exploravam trimónio ambiental e cultural e respeitando
apenas parte dos recursos naturais dispo- a diversidade cultural e ambiental dos po-
níveis. Hoje estes recursos não se apresen- vos indígenas: uma verdadeira comunida-
tam mais como inesgotáveis. Neste caso, de inter-cultural, livre e democrática. Úni-
novas formas de relacionamento com o cas bases possíveis para "O Nosso Futuro
meio ambiente deverão ser pensadas e am- Comum".

Notas Congresso dos Americanistas, Nova Orleans,


7-12 julho.
l.Textos e dados provenientes de CEDI - 1991 - Po-
vos Indígenas no Brasil- 1987/88/89/90 - Acon- Damasceno, Felisberto - "Nacionalismo e Direitos In-
teceu Especial 18 - CEDI - Autores: Carlos A. Ri- dígenas" in Porantim - Ano XV - n? 150,
cardo, Fany Ricardo, André Villas Boas, Carlos Brasília.
Frederico Marés e Márcio Santilli do Núcleo de Di-
reitos Indígenas e João Pacheco de Oliveira PE- Pacheco de Oliveira Filho. João - 1987 - Terras In-
TI/Museu Nacional. dígenas no Brasil. CEDI/Museu Nacional.
- 1990 - "Quem são os Inimigos dos índios?", Bo-
Bibliografia letim Nacional do PT. (mimeo).
CEDI 1991 - Povos Indígenas no Brasil
1987/88/89/90, Aconteceu Especial 18, São Santilli, Márcio - 1992 - "O Aviso do Retrocesso"
Paulo. in Tempo e Presença - Ano 14, n? 265, São
Paulo.
- 1991 - Terras Indígenas no Brasil: Reconheci-
mento Oficial de Direitos Territoriais como
Processo Político (mimeo). Texto apresenta- Vidal, Lux - 1990 - "Le Programme Grand Carajás
do no "Seminário Sobre Reconhecimento dos et la Question Indienne" in ETHNIES - Droits
Direitos Territoriais Indígenas na América do de rhomme et peuples autochtones, 11-12,
Sul", Brasília, 9-12 dez. Printemps.

Coelho dos Santos, Silvio - 1991 - Constituição e - 1991 - "Tribunal Permanente dos Povos" in Ca-
Violação dos Direitos dos Povos Indígenas dernos de Campo - Ano I - n? 1, São Paulo,
no Brasil, (mimeo). Texto apresentado no 47? FFLCH/USP
"Xeto, marromba, xeto!" -
a representação do índio nas
religiões afro-brasileiras 1
Ornar Ribeiro Thomaz

Introdução Diferentes movimentos literários e ar-


tísticos reivindicaram a figura do índio. O
"O caboclo verdadeiro é só o índio. prematuro nativismo brasileiro na literatu-
Porque na realidade o caboclo mesmo é ra vê no índio um símbolo nacional. Esta
aquele que veste penas." mesma simbologia alcança o seu esplen-
(Definição de um adepto do candomblé dor com o indianismo romântico de Gon-
baiano, apud Santos, 1992: 60) çalves Dias e, sobretudo, José de Alencar.
Como afirma António Cândido (1981),
As populações indígenas no Brasil têm Alencar fixa um dos mais caros modelos
sido objeto de inúmeras representações por da sensibilidade brasileira, o do índio ideal,
parte da sociedade envolvente. Da apro- heróis de uma mitologia nacional a ser
priação ideológica feita pelos órgãos do Es- construída. O índio de Alencar, ou está
tado aos meios de comunicação de mas- num passado remoto anterior à chegada
sa, passando pelo mundo das artes e da dos portugueses (Ubirajara). ou surge co-
literatura, diferentes representações se so- mo a marca da nossa suprema diferença
brepõem indicando a importância da figura no encontro entre portugueses e índios (O
do índio no imaginário nacional. Enten- Guarani e Iracema). E o índio do passa-
dendo por imaginário uma dimensão que do, de um passado imaginário, de uma his-
institui e reproduz as relações entre os gru- tória a ser escrita. O impacto desta ima-
pos sociais (Castoriadis, 1975), acredito gem, é sentido até os dias atuais: o índio
que a compreensão do "lugar do índio" como símbolo da nacionalidade brasileira.
neste imaginário nacional nos aproxima do Se por um lado no culto aos caboclos
complexo diálogo desenvolvido entre as temos a incorporação, no universo mítico
sociedades indígenas e a sociedade na- e religioso afro-brasileiro, deste "índio he-
cional. rói" - tão caro às elites nacionais - por ou-
A sociedade brasileira, como sabemos, tro não podemos interpretar o caboclo co-
está longe de compor um todo uniforme. mo mera reprodução de um índio
De um lado encontramos o índio dos mo- produzido pelas classes hegemónicas. A
vimentos literários e artísticos da elite na- simples transformação de um símbolo na-
cional, o índio do cinema e dos meios de cional em objeto de culto religioso indica
comunicação de massa; de outro, e pro- uma reinterpretação.
fundamente relacionado com o primeiro, Nos caboclos dos terreiros de candom-
porém não a sua imagem, o índio da cul- blé angola2 e de candomblé de caboclo,
tura popular. Este último povoa as esco- Edison Carneiro encontrará uma "leve tin-
las de samba e os bailes de carnaval, os fol- tura" do índio romântico de Alencar: "(...)
guedos populares, os contos e a literatura o indígena oficial, valente, ágil, esperto,
de cordel, e também o universo mítico e profundo conhecedor dos segredos das
religioso das^ denominadas religiões afro- plantas e em contato com as forças da na-
-brasileiras. É sobre este índio que "baixa" tureza." Para E. Carneiro, porém, "(...) es-
nos toques, sessões e festas de caboclo que tes encantados3 são simples reproduções
trata este artigo. de orixás nagôs", que nos candomblés de
caboclo denotam fortes influências-espíri-
tas e, raramente, uma "real" influência in-
A imagem do índio: da literatura india- dígena (1986: 75).
nista aos cultos afro-brasileiros Nos estudos sobre umbanda (Ortiz,
1978; Brown, 1977; Montero, 1985), o ca- timbós do norte e nordeste do país; às ve-
boclo aparece definitivamante como o "he- zes, porém, são cultuados em segredo, co-
rói nacional romântico". A umbanda seria mo nos candomblés da nação queto
a transposição para o plano mítico e reli- comprometidos com a noção de "pureza"
gioso da fábula das três raças. Na escala ritual (da qual falaremos mais adiante), o
espiritual mais elevada, encontraríamos os que denota a clara relação de inferiorida-
caboclos: a glorificação dos nossos ante- de destas entidades com relação aos ori-
passados míticos, a afirmação nacionalis- xás africanos. Neste caso, o caboclo torna-
ta desta religião. Sem poder fugir da sua -se uma entidade importante na construção
herança africana, os umbandistas, contu- das identidades contrastivas dos grupos re-
do. situam o caboclo no ápice da "evolu- ligiosos de umbanda e de candomblé, ou
ção" espiritual, afirmando a inserção da mesmo das diferenças internas entre as vá-
umbanda num momento de grandes trans- rias nações do candomblé. E é como ele-
formações da sociedade brasileira (Ortiz, mento revelador ou não de uma "pureza"
1978). ritual que a imagem do caboclo será asso-
ciada em diferentes sistemas religiosos.
O culto aos caboclos: extensão e diver- Apesar da diversidade, o caboclo, em
sidade geral, é representado como "o índio". Aqui.
procuraremos dar conta dos aspectos ge-
Para a análise uma dificuldade se apre- rais desta entidade, e não das particulari-
senta de início: a própria extensão do cul- dades que cada culto apresenta.
to aos caboclos. Este aparece, de diferen-
tes formas, dos batuques de Porto Alegre A força da i m a g e m
Estátua de caboclo à pajelança do norte do país.
do terreiro de Mãe As vezes, o caboclo é a figura central Nas portas das lojas de artigos para a
Silvia de Oxalá.
Foto Fabiana do culto, como no caso da umbanda, dos umbanda e candomblé é muito frequente
Marquezi. candomblés angola, da pajelança e dos ca- encontrarmos a imagem de um caboclo.
De cor morena, seu porte, em geral, é atlé- Caboclo Junco
tico, indicando o vigor físico, e o seu olhar, Verde incorporado
em Pai Doda de
fixo e autoritário. Muitos adotam posturas Ossaim, no terreiro
que indicam movimento, luta. Outros, rí- llê Axé Ossaim
gidos e altivos, têm a atitude de um ver- Darê. Foto Lufs
Grupioni.
dadeiro chefe. Se alguns são caboclos bra-
sileiros, a maioria deles se assemelha muito
mais aos índios dos filmes norte-
-americanos. com seus cocares atravessan-
do as costas até a altura das pernas.
No interior da loja, um mundo de chei-
ros, cores e imagens impõe aos consumi-
dores as representações materiais do uni-
verso mítico afro-brasileiro. Ao lado de
entidades típicas da umbanda - pretos e
pretas velhas, Exus e pombagiras, ciganas
e sereias - as imagens de caboclo são as
que mais se ressaltam, tanto pela quanti-
dade como pela diversidade. O Pena Bran-
ca, o Junco Verde, o Tupiniquim, Tupã, Tu-
pi, Tibiriça, Peri, Iracema, Ubirajara,
Jurema, Cobra Coral. Quebra Galho... e
tantos outros. O vendedor possui um ca-
tálogo, com todas as imagens disponíveis
na fábrica. Porém, o caboclo desejado po-
de ser único: um índio que anunciou-se
num sonho. Nesse caso, desenha-se este
caboclo, único, e a encomenda é realizada.
Embora diversas, a partir das imagens
podemos aproximar-nos da representação
que se faz do índio nas religiões afro-
-brasileiras: o corpo em movimento,arma-
do com machadinha ou com arcos e fle-
chas, indica sua personalidade forte que
subjuga a natureza ou resiste heroicamen-
te ao colonizador português. A posição de
luta nos leva aos domínios do caboclo: a quente observarmos diante das estátuas
mata virgem. Conhecedor dos seus mis- dos caboclos - e também de outras enti-
térios, o caboclo é caçador. Altivo, é rei, dades - oferendas em dinheiro, feita por re-
chefe, autoridade e autoritário - o pajé. Os ligiosos ou não, que ali mesmo na loja rea-
caboclos sempre vêem adornados com co- lizam preces e pedidos. Fora do terreiro, e
cares, plumas, braceletes. As vezes, ao la- portanto longe do espaço sagrado, a ima-
do de uma cabocla, um animal, de prefe- gem não perde a força ritual: na estátua
rência um veado. o povo vê aquele caboclo que nas festas,
A loja, evidentemente, não configura toques e sessões feitas em sua homena-
um lugar propriamente "sagrado", mas re- gem. "baixa" para trabalhar para os
flete o dinâmico diálogo estebelecido en- homens 4 .
tre as religiões afro-brasileiras. com forte Assim, as imagens (muitas vezes con-
apelo mágico e ritual, e a cidade moder- sideradas de "mau gosto" pelos pesquisa-
na (o terreiro enfrentaria sérias dificulda- dores) estão longe de configurar-se tão so-
des para se estabelecer na cidade se não mente numa apropriação da indústria de
pudesse contar com um "entreposto" de ar- massa de uma imagem de caráter religio-
tigos litúrgicos para as suas práticas rituais) so. Ao lado dos caboclos produzidos em
(Gonçalves da Silva, 1992). Daí ser fre- série pelas fábricas de imagens religiosas,
temos àquelas feitas sob encomenda se- - auxiliar do culto que se encarrega de ano-
gundo a descrição do fiel para quem o es- tar as receitas e traduzir palavras dos ca-
pírito do caboclo teria se manifestado sob boclos e outras entidades para os consu-
aquelas características. Aliás, a autoridade lentes. O "cambono" anota o nome do
de um pai-de-santo com relação ao cabo- consulente e de familiares e amigos em pe-
clo se dá muitas vezes a partir de aparições quenos papéis que entrega ao caboclo. O
oníricas ou em visões. caboclo localiza o mal e interpreta o sofri-
mento do povo; receita ervas, pois conhece
"Quem a fez5, dona?- as matas e os seus segredos. Às vezes se
Ninguém. - o tom era cauteloso - o sr. zanga com o consulente, que há muito já
sabe que nós, as mães caboclas, não so- conhece, quando este não age de acordo
mos tocadas por mão humana. Quem me com as suas prescrições.
fez foi o espírito de um índio que veio a Muitas vezes, as festas de caboclo dos
mim em sonho. Ele morreu há centenas candomblés de angola começam com o cli-
de anos e é o meu anjo-da-guarda." (Diá- ma religioso de qualquer candomblé. A
logo entre E. Carneiro em uma mãe-de- alegria dos caboclos, que interpelam o pú-
-santo de candomblé de caboclo, apud blico convidando o povo para dançar, faz
Landes, 1967: 178) com que pouco a pouco a festa sagrada
se transforme numa festa profana: as mú-
Diante das estátuas, ou em simples ofe- sicas religiosas são substituídas pelas can-
rendas aos caboclos, as velas são verdes tigas de "sotaque" - cantigas maliciosas e
e amarelas, cores com as quais se enfei- provocativas - e depois por uma roda-de-
tam os terreiros nos dias de toques e fes- -samba (Amaral, 1992).
tas dedicados a esta entidade. Muitas ve- Nos dias dedicados ao orixá Oxóssi -
zes, os barracões são decorados com orixá caçador e dono das matas, protetor
bandeiras do Brasil, indicando o caráter na- de todos os que habitam a floresta -, os
cional do caboclo em contraposição aos adeptos da umbanda, sobretudo, mas tam-
orixás africanos. bém alguns terreiros de candomblé, se re-
No barracão constróem-se verdadeiras tiram para os arredores da cidade, onde en-
"malocas" de índios, com muito verde e contram áreas verdes e cachoeiras. Neste
plantas ao redor. Ao caboclo são ofereci- dia, os umbandistas tocam para Oxóssi, e
das frutas em grande quantidade, carne, os caboclos incorporam. As identificações
crua ou assada, e mel. entre o deus caçador e os caboclos são
Quando "baixam", os caboclos são muitas: ambos são conhecedores das ma-
ágeis e autoritários: exigem bebidas - em tas e das ervas, são caçadores e usam ar-
geral vinho ou cerveja - e charutos . En- co e flecha. A diferença, segundo os mi-
feitados com as insígnias características de tos, está em que Oxóssi aprendeu a
cada caboclo - Pena Branca, um cocar conhecer as ervas com Catandê (Ossaim),
branco, Junco Verde, penas azuis e verdes, outro orixá; os caboclos, índios brasileiros,
etc. - arcos e flechas, lanças e facões, os nascem sabendo o segredo (Santos, 1992).
caboclos bailam. O público, animado, canta Na mata o povo toca atabaques, os ca-
e bate palmas, acompanhando a festa. As boclos incorporam e se vestem com as in-
músicas são em português, às vezes entre- sígnias características. O povo saúda: "Oké,
cortadas por palavras em banto e em "lín- caboclo!", "Xeto, marromba, xeto!". Os ca-
gua indígena"; os atabaques são tocados boclos gritam e cumprimentam a assistên-
com as mãos, toque próprio da umbanda cia. Muito do gestual dos caboclos são
e dos candomblés da nação angola. idênticos ao dos filhos de Oxóssi, que in-
Após a vigorosa e alegre dança, os ca- corporam o seu deus nos terreiros de can-
boclos se retiram para algumas partes do domblé: ao cumprimentar a assistência, se
barracão. A assistência (os consulentes) faz curvam e "gritam" como pássaros 6 .
filas para consultar aquele de sua preferên- Belas oferendas são feitas às entidades
cia. As pessoas narram aos caboclos suas das matas: frutas das mais diversas quali-
aflições e penas, pedem ajuda e conselhos. dades, melões, melancias, cocos, bananas
Muitas vezes é necessário um "cambono" e abóboras, flores e mel; oferecem-lhes be-
bidas e charutos, a alegria das danças e das
cantigas.
Se as estátuas muitas vezes lembram
os índios dos filmes norte-americanos - pa-
ra desgosto dos nossos intelectuais "puris-
tas" - a concepção do caboclo, observada
a partir do discurso e da incorporação dos
fiéis, é muito mais rica. Como afirma Jo-
célio dos Santos (1992), são tidos como
os verdadeiros "donos da terra": aqui es-
tavam antes da chegada dos colonizado-
res portugueses e dos escravos africanos.
Conheciam as matas, e por resistir à es-
cravidão pereceram em sua grande maio-
ria, mas ganham corpo e vida nos terrei-
ros, onde o povo-de-santo lhes rende culto
e homenagem. Representam os antepas-
sados míticos como legítimos "donos da
terra", mas ao ganharem vida no terreiro,
estão longe da concepção estanque de um
índio herói no passado, e deteriorado pe-
lo contato com a civilização no presente.

"Caboclo são os donos da terra, das


matas. São os primeiros habitantes da
terra". sul do país, deve-se a origem das formas A cabocla Aracy,
após atender aos
"deterioradas" da religiosidade afro- fiéis, se despede no
"Eles, os Caboclos, não se consideram -brasileira como a macumba carioca e a terreiro de Pai Doda
umbanda (Bastide, 1973; 1989). de Ossaim. Foto
"eguns". Os caboclos e os orixás se consi- Lufs Grupioni.
deram coisas vivas. Se for pensar que é Como chama a atenção Duglas Mon-
"egun" vai se considerar todos os orixás. teiro, porém, conceitos como "autêntico",
Não é caboclo uma coisa morta." (Depoi- "puro" e "deturpado" conformam o pró-
mentos de adeptos do candomblé baiano. prio "discurso nativo" do candomblé tra-
apud Santos, 1992: 61, 63). dicional (Monteiro, 1978: XXI. apud Fry,
1986: 37). Nina Rodrigues, Artur Ramos,
Ruth Landes, Edison Carneiro e Roger
O Caboclo e o debate em tor- Bastide, entre outros, adotam o "discurso
no da "Pureza N a g ô " 7 nativo" como categorias analíticas. Cria-se
assim, seja no interior do próprio campo
Os clássicos estudos sobre o candom- religioso, seja no discurso científico, uma
blé, de Nina Rodrigues a Roger Bastide, as- classificação hierárquica entre os terreiros
sociaram o caboclo a uma "impureza", a em função da presença de entidades, ri-
uma espécie de sincretismo afro-ameríndio, tuais e atitudes tidas como "deturpadoras"
semelhante ao sincretismo afro-católico. Na da "verdadeira" herança africana.
Bahia estes pesquisadores encontraram O caboclo seria uma das "vítimas" dos
nos candomblés nagô (queto) verdadeiros partidários da chamada "pureza nagô". Os
"modelos" de culto. Os candomblés com candomblés ditos "de caboclo" passam a
maior influência banto seriam mais pobres ocupar o lugar daqueles menos "puros".
em termos míticos e rituais, e mais expos- em contraposição aos "tradicionais" can-
tos às influências católicas, espíritas e ame- domblés nagôs baianos. Formas de culto
ríndias. Da pobreza da mitologia e do ri- como as macumbas cariocas ou a umban-
tual banto, aliada à introdução do negro na da dos grandes centros urbanos do sudeste
sociedade capitalista, marcada por relações do país passam a ser caracterizadas como
de classe nos grandes centros urbanos do "invenções" brasileiras despreendidas das
tradições africanas. blé paulista, diversos autores retomam a crí-
Nos últimos tempos, após os pionei- tica à pureza nagô , mostrando que a ri-
ros trabalhos de Peter Fry (1982; 1986) e queza das religiões de origem africana exis-
Ivone Maggie (1975), muito tem se criti- tentes no Brasil está justamente no dina-
cado a chamada "pureza nagô". Beatriz mismo com o qual se enfrentam às modi-
Góis Dantas (1982; 1988) mostrou o quão ficações operadas na sociedade nacional,
relativos seriam estes traços tidos como escolhendo aquilo que deve permanecer
"puros" dos grandes terreiros baianos. A e o que deve ser modificado; adaptando
partir de um estudo levado a cabo na ci- os rituais às novas condições urbanas e ao
dade de Laranjeiras, em Sergipe, a autora novo público, agora também branco e mui-
observa que no terreiro nagô de Laranjei- tas vezes de classe média. Estes estudos
ras, aqueles traços e valores escolhidos co- nos mostram que as religiões africanas no
mo os mais "puros" e que o aproximaria Brasil estão longe de serem pálidos retra-
do continente africano, nada teriam a ver tos de uma antiga herança africana: dinâ-
com a "pureza nagô" da Bahia. Assim, o micas, reinventam continuamente as tra-
que é considerado puro na Bahia é tido co- dições dando-lhes novos sentidos e
mo "misturado" em Sergipe, sendo a in- conteúdos.
fluência dos candomblés baianos conside- No caso de São Paulo, Vagner Gon-
rada nefasta pelos membros do terreiro çalves da Silva(1992) percebe na figura do
nagô de Laranjeiras e, inclusive, responsá- caboclo um elemento central nas disputas
vel pela proliferação dos torés8, deturpa- entre a umbanda - religião que conheceu
Caboclo Pena Verde
dá "passe" a uma dores da verdadeira herança africana. E im- forte expansão nos anos 50 e 60 acompa-
"filha" da casa portante salientar que nos torés de nhando o crescimento da metrópole - e o
durante uma sessão Laranjeiras a influência indígena é assumi-
de caboclos no candomblé - que passara desapercebido
terreiro Axé Ilê Obá da pelos seus próprios membros, e a figu- até o final dos anos 70, quando começa
de Mãe Silvia de ra do caboclo claramente cultuada. não só a ser um culto expressivo como a
Oxalá. Foto Fabiana
Marquezi. Em trabalhos recentes sobre o candom- disputar com a umbanda os seus fiéis
Caboclos dançam
no terreiro llê Axé
Ossaim Darê. de Pai
Doda de Ossaim.
Foto Luís Grupioni.

(Gonçalves da Silva, 1992)9. Grande par- prestígio daqueles terreiros que vão dire-
te dos pais e mães-de-santo que atualmen- tamente à Africa na busca de origens e da
te chefiam terreiros de candomblé na ca- purificação do ritual. O prestígio do cabo-
pital paulista, passaram anteriormente pela clo junto ao povo de santo, atestado tanto
umbanda. Se nesta passagem, às entida- na Bahia (Santos, 1992) como em São
des de umbanda como as ciganas, pretos- Paulo (Gonçalves da Silva, 1992), se de-
-velhos, pombagiras, Exús, etc são muitas ve ao contato direto desta entidade com
vezes excluídas, o caboclo é, na maioria das o público religioso: ao caboclo o povo con-
vezes, tolerado. ta os seus problemas, dores e doenças, so-
licita favores e pede proteção. Enquanto o
"(...) em geral tem-se na figura do ca- orixá africano é distante e a relação com
boclo um intermediário que separa e apro- ele se dá mediante a intervenção do pai-
xima estas religiões. No candomblé, fre- -de-santo ou dos altos cargos hierárquicos
quentemente, a possessão pelo caboclo é do terreiro, o contato com o caboclo é di-
aceita somente depois de completado um reto .
ano de iniciação do iaô (filho-de-santo, pes-
soa que passou pelos rituais de iniciação).
momento, aliás, em que lhe é retirado o "Na minha casa tenho caboclo sim;
contra-egum10 (fio de palha trançado usa- porque, veja bem, minha formação era
do no braço, cuja finalidade é dar prote- umbandista. o candomblé não tem esse la-
ção contra os eguns - espíritos dos mor- do, pode dar passagem aqui no Brasil. Lá
tos). A incorporação do caboclo costuma na Africa só existe orixá. Na minha casa
ser vista nos terreiros queto como uma tem caboclo porque o santo não fala, ele
"consessão", pois no modelo "mais puro" traz a mensagem mas ele não fala, a não
de candomblé (como idealmente se vêem ser com ogã ou equede e muito baixinho,
estes terreiros) não deveria existir caboclo." ele não fala em público, em voz alta. E as
(Gonçalves da Silva, 1992: 98). pessoas vão buscar no candomblé uma pa-
lavra de conforto, um amparo. Então eu
No recente processo de reafricanização sou mãe-de-santo do candomblé mas pa-
dos candomblés queto de São Paulo, o ca- ra conforto da comunidade a gente tem
boclo aparece como uma figura incómo- que abrir mão e usar este escravo do san-
da. Gozando da preferência dos fiéis, mui- to que é o caboclo."(Mãe Neuza de Oxós-
tos dos quais com passagem pela si, ex-umbandista e atualmente chefe de
umbanda, é condenado pelo crescente um terreiro de candomblé do rito queto.
apud Gonçalves da Silva, 1992: 127). trajes daqueles que vemos nos filmes ame-
ricanos. Próximos demais do pesquisador
A reafricanização do culto supõe mui- (associado ao "mau gosto" das classes po-
tas vezes o "despacho"11 das entidades pulares), o caboclo permite a análise mas
caboclas, o que cria fortes conflitos entre não a identificação. Razão pela qual as con-
a comunidade religiosa mais ampla e os versões dos pesquisadores ao candomblé
chefes de terreiros responsáveis pelas mo- serem relativamente frequentes, o mesmo
dificações no culto. É interessante notar não se podendo dizer da umbanda.
que na Bahia a reação dos pais e mães-
No caboclo porém, encontramos a
-de-santo dos terreiros ortodoxos se dá,
possibilidade de observar o dinâmico diá-
atualmente, contra o sincretismo afro-
logo estabelecido entre o povo-de-santo e
-católico, havendo um reconhecimento da
a sociedade envolvente. Afinal, os can-
importância dos caboclos nos candomblés
domblés, batuques, xangôs, ou terreiros de
de Salvador (Santos: 1992: 19).
mina, estão longe de serem pequenas ilhas
Como vemos, no caboclo não temos africanas no Brasil.
apenas uma figura ideal no sentido de en-
tender as disputas no interior do próprio Diálogo cultural
campo religioso afro-brasileiro, como tam-
bém a possibilidade de compreender a di- Ao lado dos artefatos produzidos pelo
reção claramente ideológica dos estudos próprio povo-de-santo e daqueles compra-
contagiados pela "pureza nagô". dos nas lojas do ramo - roupas especiais
para os caboclos, arcos e flechas, couro pa-
Para Peter Fry (1986), no culto aos ori- ra os caboclos boiadeiros, machadinhas,
xás teríamos o "realmente outro", exótico, adornos com pena, artefatos de palha tran-
distante: deidades africanas, com danças, çada, etc, encontrei em terreiros de um-
Junco Verde se gestual, cores a serem absolutamente de- banda e candomblé da grande São Paulo,
prepara para dar cifradas pelo pesquisador. No caso do ca- "autênticos" artefatos trazidos de áreas in-
consulta a um
"filho" da casa, no boclo, o pesquisador se sente visivelmen- dígenas.
terreiro de Pai Doda te perturbado: uma espécie de pastiche dos O caboclo Junco Verde do terreiro de
de Ossaim. Foto
Luís Grupioni. índios românticos dos livros escolares, com Pai Doda de Ossaim (Ilê Axé Ossaim Da-
rê, em Pirituba, São Paulo) guarda com nas. Esta casa, aliás, foi construída por des-
muito zelo lanças que os Guaranis de São cendentes de uma tribo indígena que
Paulo fazem para o comércio, e que no es- habita o bairro do Cipó (extremo sul de
paço do terreiro ganham valor de instru- Santo Amaro, depois de Parelheiros). Es-
mentos litúrgicos. Outros artefatos utiliza- tes índios também fazem a manutenção da
dos por Junco Verde vêm de áreas cobertura da casa do boiadeiro, que deve
indígenas distantes, como uma bela más- ser refeita de tempos em tempos." (1992:
cara ritual, possivelmente proveniente de 102)
uma área Xavante, e que lembra a más-
cara utilizada pelo orixá Obaluaiê, deus da As representações do "índio" pelo
peste e da doença. povo-de-santo passam também pela his-
O valor destes artefatos está na sua tória dos índios e dos africanos no Brasil:
procedência: "feito pelos índios". O seu a história do contato é reinventada. A mi-
sentido é absolutamente outro, ganhando tificação do caboclo como o "dono da ter-
uma força inesperada no espaço ritual do ra" escreve uma nova história na qual se
terreiro. Ao serem "feitos por índios", têm enfatizam as alianças e a suposta união
a força deste povo, que ao mesmo tempo existente entre índios e negros nos antigos
representa os nossos gloriosos ante- tempos da escravidão. Os momentos de
passados. conflito - onde os índios se unem aos bran-
Ao lado daqueles objetos feitos pelo cos contra os quilombos, ou os negros lu-
povo-de-santo como "coisas de índios", ob- tam ao lado dos portugueses contra as tri-
jetos provenientes de áreas indígenas atuais bos hostis - são absolutamente esquecidos
são re-significados no espaço mágico do (Santos, 1992).
terreiro.
Rita Amaral nos relata que no terreiro "Quem era os donos das terras em ge-
de Wilson de Iemanjá (Candomblé Ango- ral eram os índios; então, na luta para to-
la Yeyé Omó Ejá, em Parelheiros, na cida- mar a terra dos índios mataram muitos ín-
de de São Paulo), chama a atenção a ca- dios, muito cacique teve que lutar, botar
sa do famoso Boiadeiro Laçador: os filho, inocentes, sem saber manejar o
arco, uma flecha, para lutar pela tribo. En-
"(...) toda em massapé, coberta de sa- tão muitos inocentes morreram, e muitas
pé, circular, no estilo das malocas indíge- índias grávidas, muitos menininhos que fi-
mântico indianista, símbolo da nacionali-
dade brasileira. Esta relação porém é
insuficiente para explicá-lo: no interior dos
terreiros, este "índio", transformado em en-
tidade religiosa, é re-significado e a histó-
ria das relações entre índios e negros, rein-
ventada.
Os caboclos devem ser compreendidos
em contraposição às outras entidades. No
interior dos terreiros, representam a parte
brasileira do culto, são os originários do-
nos da terra brasileira. Suas cores, são as
da bandeira: suas músicas cantadas em
português; suas festas, animadas e contam
com a participação de um público mais am-
Instalação caram na tribo. Incendiaram tribos, mor- plo. O povo-de-santo sente no caboclo
reproduzindo uma
reram; porque a turma invadiu as terras dos uma entidade próxima, sempre pronta pa-
"roça" de caboclo ra auxiliá-lo em momentos de aflição.
na exposição índios índios. Então os índios morre, morre nor-
no Brasil. Vários mal, que nem nós morremos, todos vamos Opondo-se aos caboclos, encontramos
visitantes
depositaram morrer, os outros já morreram. Então eles nos candomblés os orixás, deuses africa-
dinheiro como voltam sendo Orixás, para defender àqui- nos que, incorporando os seus filhos, re-
oferenda junto a vivem na terra os mitos de origem. Na um-
estátua do caboclo lo que era deles, defendendo os filhos,
Ubirajara. Foto Luís amigos, avós, pais, irmãos..."(Cabocla de banda, entidades como pretos velhos ou
Grupioni. um terreiro de umbanda, apud Brumana, Exús fazem também clara referência à he-
F. e Martinez, E., 1991: 294) . rança africana. Os caboclos aqui são cla-
Podemos afirmar que o caboclo é uma ramente os heróis nacionais, que "baixam"
representação mítica do índio12 feita pelas para trabalhar para os homens.
religiões afro-brasileiras a partir do modo Entidade espiritual, um semi-deus, ou
como se deram as relações entre brancos, um "orixá brasileiro", o caboclo é uma es-
negros e índios ao longo de quase cinco pécie de "reserva moral" do imaginário
séculos de contato. Nesta representação afro-brasileiro. Guardião de um mundo de
encontramos, portanto, um diálogo extre- equilíbrio entre os deuses, o homem e a
mamente dinâmico dos adeptos das reli- natureza. E o respeito que eles nos ensi-
giões afro-brasileiras com a sociedade en- nam com relação a estas dimensões da vi-
volvente: como já vimos, os terreiros estão da é sempre um ideal a ser perseguido para
longe de serem pequenas ilhas que repro- a formação da cidadania e da convivên-
duziriam a Africa no Brasil. cia entre as culturas. Neste ideal, reside, tal-
O caboclo está profundamente relacio- vez, a grandeza e a beleza da sua imagem
nado ao índio fixado pelo movimento ro- e o sentido do seu culto.

Notas "encantado": um índio que morreu, esteve na terra


dos orixás, e "encantou", voltando como um se-
1. A publicação deste artigo não teria sido possível mideus.
sem o apoio, leitura crítica e sugestões de Luís Do-
nisete B. Grupioni, Vagner Gonçalves da Silva, Fer- 4. Na pequena "roça de caboclo" que montamos
nanda Massi e Maria Lúcia Montes. na exposição "índios no Brasil: Alteridade, Diversi-
dade e Diálogo Cultural" o espaço profano — da
2. Angola, queto, jeje-nagô, mina, caboclo fazem exposição — e o sagrado — a "roça" (simulada) —
referências às diferentes "nações" às quais se ads- imprevisivelmente se misturaram: ao final de cada
crevem os distintos terreiros. A "nação" é atribuída jornada os organizadores recolhiam de uma cum-
em função da origem ou no caso do candomblé de buca deixada diante da estátua do caboclo Ubiraja-
caboclo, em função da importância desta entidade ra notas e moedas representando pedidos da po-
no culto. pulação que visitara a exposição. O dinheiro
coletado foi oferecido num toque de caboclos de um
3. O caboclo é representado muitas vezes como um terreiro na periferia de São Paulo.
5. "Fazer no santo" significa um conjunto de rituais co do Estilo de Vida dos Adeptos do Can-
de iniciação através dos quais o pai ou a mãe-de- domblé Paulista. Dissertação de Mestrado. São
-santo vincula um indivíduo a um orixá. No caso Paulo, USP.
do caboclo, a "feitura" não seria necessária. "O pro-
blema da "feitura" mostra-se, portanto, como um si- Bastide, Roger - 1973 - Estudos Afro-Brasileiros.
nal de legitimidade no universo afro-brasileiro, ser- São Paulo. Perspectiva.
vindo de marca para a distinção caboclo-orixá."
(Santos, 1992: 73) 1978 - O Candomblé da Bahia. São Paulo. Com-
panhia Editora Nacional.
6. É importante salientar que a associação entre
Oxóssi e os caboclos já fora feita por Roger Bastide - 1989 - As Religiões Africanas no Brasil. São Pau-
(1989), que viu nesta associação uma forma de pre- lo, Pioneira.
servar a "pureza nagô" dos tradicionais terreiros por
ele estudados na Bahia. Brown, Diana - 1977 - Umbanda - Politics of an
Urban Religious Movement, PhD Thesis, De-
7. Não pretendo acrescentar nada novo com rela- partament of Anthropology, Columbia Uni-
ção ao complexo debate em torno da pureza nagô, versity.
mas sim ressaltar a importância da polémica quan-
do se trata de entender o "status" que o caboclo ocu- Brumana, Fernando G. e Martinez, Elda G. - 1991
pou na literatura especializada, por um lado, e por - Marginália Sagrada, Campinas, Editora da
outro, o seu papel no interior das próprias disputas UNICAMP.
no interior dos diferentes campos religiosos afro-
-brasileiros. Para maiores informações, ver Fry (1982, Cândido, António - 1981 - Formação da Literatu-
1986), Góis Dantas (1982. 1988), Santos (1992). ra Brasileira, vol. 2, Belo Horizonte. Itatiaia.
Gonçalves (1992).

8. Nome dos terreiros que cultuam outras entida- Carneiro, Edison - 1986 - Candomblés da Bahia.
des, sobretudo caboclos, além dos orixás africanos Rio de Janeiro, Civilização Brasileira.
em Sergipe.

9. Ver também Prandi. 1991. Castoriadis, Cornelius - 1975 - UInstitution Ima-


ginaire de la Société. Paris.
10. E interessante notar que as entidades cultuadas
na umbanda são tidas, em geral, pelos adeptos do Dantas, Beatriz G. - 1982 "Repensando a pureza
candomblé como "eguns". ou seja, espíritos dos mor- nagô" in Religião e Sociedade n. 8, Rio de
tos. O culto aos eguns é. muitas vezes, condenado Janeiro.
pelo candomblé, com exceção de alguns terreiros.
Com relação ao caboclo, como chama a atenção
Santos, "(...) essa identificação do caboclo como sen- 1988 - Vovó Nagô e Papai Branco. Rio de Ja-
do um egun deve ser entendida no campo das di- neiro, Graal.
ferenças entre terreiros que não cultuam abertamen-
te os caboclos, e os demais terreiros que o cultuam Durham, Eunice - 1983 - "O lugar do índio" in O
e ressaltam a sua importância no panteão ao lado índio e a Cidadania. São Paulo. Comissão
dos orixás. Temos portanto duas posturas. Na pri- Pró-índio/Brasiliense.
meira, o caboclo é considerado como um espírito
de um morto ancestral. Na segunda, o caboclo é de- Fry, Peter - 1982 - "Feijoada e Soul Food: Notas so-
finido como uma deidade a ser cultuada nos mol- bre a Manipulação de Símbolos Étnicos e Na-
des do culto aos orixás." (1992: 62) cionais" in Para Inglês Ver, Rio de Janeiro,
Zahar.
11. "Despachar" significa a expulsão da entidade do
panteão do terreiro. A tese de Vagner Gonçalves da - 1986 - "Gallus Africanus Est. ou, Como Roger Bas-
Silva possui a descrição do despacho de um cabo- tide se Tornou Africano no Brasil" in Revisi-
clo boiadeiro de um terreiro queto em processo de tando a Terra de Contrastes: a atualidade da
reafricanização (129 - 131). obra de Roger Bastide. São Paulo. CE-
RU/FFLCH-USP.
12. Não tratei neste artigo de outras entidades as-
sociadas aos caboclos, como o boiadeiro (Santos, Gonçalves da Silva, Vagner - 1992 - O Candom-
1992) e o Martim Pescador (Carneiro, 1986; San- blé na Cidade: Tradição e Renovação. Dis-
tos, 1992). Podemos, contudo, afirmar que o ca- sertação de Mestrado, São Paulo, USP.
boclo é, em geral, associado à imagem do índio.
Landes, Ruth - 1967 - A Cidade das Mulheres. Rio
Bibliografia de Janeiro. Civilização Brasileira.

Amaral. Rita de Cássia M. P - 1992 - Povo-de- Maggie. Yvonne - 1975 - Guerra de Orixá. Rio de
-Santo, Povo de Festa: Estudo Antropológi- Janeiro. Zahar.
Montero, Paula - 1985 - Da doença à Desordem: vo Mundo, São Paulo, Companhia Editora Na-
a Magia na Umbanda, Rio de Janeiro, Graal. cional.

Ortiz, Renato - 1978 - A Morte Branca do Feiti- Rodrigues, Nina - 1977 - Os Africanos no Brasil,
ceiro Negro, Petrópolis, Vozes. São Paulo, Cia Editora Nacional.

Prandi, Reginaldo - 1991 - Os Candomblés de São


Paulo, São Paulo, HUC1TEC/EDUSR Santos, Jocélio T.- 1992 - O Dono da Terra: a Pre-
sença do Caboclo nos Candomblés da Ba-
Ramos, Artur - 1979 - As Culturas Negras no No- hia, Dissertação de Mestrado, São Paulo, USR
Amazónia, Amazónia:
não os abandoneis.

Gerôncio Albuquerque Rocha

I dança vertiginosa, de nunca acabar; e,


Já são quinhentos anos, Amazónia, e quando a orquestra pára de cansaço, ele
você parece não se dar conta do que está a arrasta pela porta fora e com ela se atira
se passando. Os que aqui, antes de nós, nas águas. Era um boto.
sempre viveram, têm a memória do tem- Hoje em dia, já não há lugar para a
po e da história; sabem que o cerco está lenda. Mesmo assim, não custa imaginar
se fechando e, insistentemente, mandam que aquela mulher bonita é a própria Ama-
avisos desesperados. Se não os defender- zónia. E há um boto. Que não deixa ver
des, não haverá perdão. Está escrito: - "o o rosto e confunde a todos numa dança
que ocorrer com a terra, recairá sobre os frenética e sem fim.
filhos da terra". Cinco séculos não são dias. Márcio Souza (1990), outro escritor na-
No princípio, os invasores os saqueavam, tivo, passa a limpo o processo histórico da
em busca do ouro e da prata; depois, os Amazónia e mostra como a região sempre
destruíam, forçando-os ao trabalho escra- se manteve isolada e à margem do con-
vo nos aluviões e nas minas. Foi assim em traditório processo de desenvolvimento do
São Domingos, Porto Rico e Cuba; depois país. Dependente do sistema extrativista,
no Chile e Potosi, Bolívia; e no México. vegetou no abandono e na miséria por lon-
Quase não havia quem os defendesse, mas gas décadas, desde que o mercado mun-
algumas vozes clamavam de indignação: dial encontrou outras fontes de suprimen-
- "não é a prata o que se envia à Espanha, to da borracha. Com o inicio da revolução
é o suor e o sangue dos índios". Hoje, os burguesa, nos anos 30, viu-se excluída do
que restaram mantiveram-se abrigados so- cenário nacional porque os esforços de in-
bre vosso chão, na proteção dos deuses. dustrialização se concentraram no Sudes-
Tudo o que sois, a eles o deveis. Quando te e a estrutura de poder da região (a "cul-
vos agridem, eles são os primeiros a sentir tivada ignorância de sua elite") não tinha
o golpe; quando vos enaltecem, eles des- a mínima influência. Nos últimos vinte
confiam; e quando se apiedam de vossa anos, e de novo sem voz e sem vez, foi es-
exuberância mendiga, eles ficam indigna- cancarada à exploração internacional do
dos. Afinal, quem vos protege, Amazónia? capital, num projeto económico iniciado na
- Não os abandoneis. Ditadura.
II Agora, por ocasião da ECO-92, no Rio
No inicio do século, o paraense Inglês de Janeiro, a Amazónia torna-se o centro
de Souza, trabalhando sobre o lendário da das atenções. Todos apregoam um modelo
região, escreveu o primoroso conto "O Bai- de desenvolvimento auto-sustentado (o
le do Judeu". Um dia o homem resolve dar termo mais adequado é motivo de contro-
uma festa em sua casa, à beira do rio Ama- vérsia...). Os governos dos países centrais
zonas. O centro da atenções era a sua be- acenam com recursos para projetos exem-
la mulher e "a faceirice com que sorria a plares, mas não abrem mão de territórios
todos, parecendo não conhecer maior pra- para onde possam exportar suas tecnolo-
zer do que ser agradável a quem lhe fala- gias sujas e ainda obter lucro.
va". No auge da festa, entra no salão um O resultado da voracidade capitalista
indivíduo esquisito, de chapéu desabado sobre a Amazónia é bem conhecido. A ex-
cobrindo o rosto, e tira a dama para dan- ploração de minérios constitui mera trans-
çar, em meio ao espanto de todos. E uma ferência de matéria-prima, sem nenhuma
No final dos anos
80 surgiram
diferentes
organizações e
associações
indígenas em todo o
país. A COIAB -
Coordenação das
Organizações
Indígenas da
Amazónia Brasileira,
que reúne várias
organizações
indígenas, em seu
III Encontro de
reflexão e
planejamento,
(1991). Foto Egon
Heck/CIMI.

contribuição ao desenvolvimento regional fundiária e de devastação da floresta.


e a melhoria das condições de vida da po- Este é o modelo de desenvolvimento
pulação. Carajás, o mais famoso dos pro- sustentado por todos os brasileiros, a co-
jetos mínero-metalúrgicos, é o símbolo do meçar das centenas de milhares de agri-
modelo colonial mina-ferrovia-porto, de cultores expulsos da terra e que hoje pe-
sangria das riquezas minerais. O jornalista rambulam pelos campos de garimpo da
Eric Nepomuceno mostra o grau de absur- região, trabalhando em condições de semi-
do deste empreendimento: "para produ- -escravidão, ou engrossam os centros ur-
zir uma tonelada de íerro-gusa consome- banos como mão-de-obra disponível. Em-
-se uma tonelada de carvão vegetal. presas de mineração e donos de garimpo
Exportada para a Europa, essa tonelada de avançam sobre as terras dos índios que, in-
ferro-gusa vale aproximadamente 120 dó- defesos, não têm como resistir às invasões.
lares. A tonelada de carvão vegetal vale en-
tre 300 e 400 dólares". O setor elétrico III
(Eletrobrás-Eletronorte) tem um plano des- Desde 1983, com a promulgação do
comunal para a exploração dos recursos decreto n? 88.985, pelo então presidente
hídricos da região por meio de grandes hi- Figueiredo, abrindo as terras indígenas à
drelétricas. Duas delas, Tucuruí e Balbina, mineração, as pressões contra os índios têm
já foram construídas mas a energia gera- evoluído de forma crescente, embora com
da, em lugar de atender às cidades e vi- variações de tática por parte dos setores en-
las, é destinada à indústria metalúrgica do volvidos. "De um lado, as empresas de mi-
alumínio, a preços subsidiados. neração tentam ganhar no papel a legali-
zação das áreas de pesquisa e lavra como
A frente mais ampla e extensiva de condição de segurança para seus investi-
ocupação do território amazônico é a ex- mentos de capital. De outro, os empresá-
ploração agro-florestal e pecuária, que de- rios do garimpo fomentam invasões e in-
sestruturou o modo de produção extrati- trusões de garimpeiros em várias áreas
vista e introduziu um vertiginoso processo indígenas, buscando por meio do fato con-
de especulação da terra, de concentração sumado, antecipar-se às empresas.
Entre os dois tipos de invasores estão passam a aliciar lideranças das comunida-
os índios, acossados e desinformados, su- des indígenas Tukano e Maku, acenando-
jeitos a manobras de cooptação e forçados -lhes com a demarcação das terras e as-
a negociar em condições extremamente sistência; em troca, a "livre" aceitação das
desiguais" (Dossiê CEDI-CONAGE, 1988). instalações militares do projeto Calha Norte
A partir de 1985, durante o governo e o consentimento para a pesquisa e ex-
Sarney, acentuou-se a investida do poder ploração mineral. A Paranapanema, cuja
económico, atuando em diversas frentes: presença ilegal no território já havia sido
campanhas de opinião pública, especial- denunciada, chega a oferecer proteção aos
mente em Roraima e no Amazonas; pres- índios, por meio de sua milícia particular,
são política no Congresso Nacional; mo- afastando a ameaça de invasões de garim-
bilização do empresariado e ação de cúpula peiros. A negociação é selada, à margem
junto ao governo federal. da lei, com um termo de "acordo" entre
O foco das invasões, são as terras dos a Empresa e a Comunidade Indígena do
índios Yanomami (Roraima) onde há ou- Rio Tiquié (CEDI, 1991).
ro e jazimentos de cassiterita, na Serra de Recorde-se: 1987 foi o ano de inten-
Surucucus. Um dos líderes é o empresá- sos debates no Congresso Nacional para
rio de garimpo José Altino Machado que a elaboração da nova Constituição. Ali o
disputa com os grupos empresariais "mo- lobby da mineração exerceu uma pressão
dernos" o controle da área. Em fevereiro contínua para obter, na Lei, a abertura ge-
de 1985 ele comandou a invasão armada neralizada e incondicional das terras indí-
a Surucucus. Uma semana depois a FU- genas à exploração. Simultaneamente, os
NAI, com a ajuda da Polícia Militar e da invasores das terras indígenas buscaram, à
Polícia Federal, retirou os invasores. José revelia de qualquer lei, fazer valer na prá-
Altino Machado foi preso, abriu-se inqué- tica os seus interesses.
rito. Dois meses depois reaparecia na As- A Constituição brasileira de 1988 es-
sociação Comercial de Roraima demons- tabelece que a exploração mineral em ter-
trando valentia: - "podem matar ou tombar ras indígenas será submetida, caso a caso, Em março de 1988
os aviões todos, mas vou arrombar Suru- à decisão do Congresso. Todavia, decorri- o Brasil tomou
dos quatro anos, ainda não foram defini- conhecimento do
cucus. Não há autoridade que me impe- massacre de 14
ça" (Folha de Boa Vista, 19/04/85). das, em legislação ordinária, as condições índios Tikuna no
específicas em que esta exploração possa Igarapé do
A partir daí, o senhor Altino, aparen- ocorrer. Neste vazio legislativo, intensifica-
Capacete. A
tragédia aumentou a
temente mudando de estilo, passa a desen- -se o clima de faroeste na Amazónia. tensão pela disputa
volver intensa ação política e messiânica, do território Tikuna.
fazendo-se porta-voz e líder de "garimpei- O caso mais recente é o dos índios Foto Egon
ros" que pedem "tão-somente a oportu- Nambiquara, no vale do Guaporé, a no- Heck/CIMI

nidade de explorar, como brasileiros que


são, as riquezas do sub-solo pátrio, inde-
pendentemente de existirem ou não indí-
genas nas proximidades".
Em 1987, foi articulada nova invasão
na área dos Yanomami, José Altino à fren-
te, chegando a 40.000 o número de ga-
rimpeiros atuando em diversos pontos do
território na mineração de ouro.
No mesmo período (1985-1987), a re-
gião do Alto Rio Negro, Amazonas, na
fronteira com a Colômbia e a Venezuela,
é palco de uma operação militarista, lide-
rada pelo Conselho de Segurança Nacio-
nal e apoiada pelas empresas de minera-
ção Paranapanema e Gold Amazon. Ali,
militares e representantes das empresas
A invasão
desenfreada do
território Yanomami
por ondas sucessivas
de garimpeiros tem
levado ao genocídio
esse povo indígena.
Vista aérea da pista
de pouso para
aviões do garimpo
denominada
Chimarrão, na
região do Alto
Mucajaí, Roraima.
Foto Charles
Vincent/CEDI-CCPY.
roeste de Mato Grosso. Regina Valadão, do dígenas dos Estados do Pará (219 alvarás,
Centro de Trabalho Indigenista, é testemu- 357 requerimentos) e de Rondônia (163
nha. No início de 1990, a Mineradora San- alvarás. 124 requerimentos) são as mais
ta Elina fechou um acordo com a Coope- atingidas pelos interesses das empresas.
rativa Mista dos Garimpeiros e Produtores Há, também, uma grande quantidade de
de Ouro do Vale do Sararé, para explora- requerimentos de pesquisa no Amazonas
ção de ouro ao longo do córrego Água Su- (418) e em Roraima (589). Não estão com-
ja, limite natural da área indígena Sararé. putados no levantamento as penetrações
Um ano depois, em maio de 1991, foi ve- e enclaves das frentes de garimpo (CEDI.
rificada a presença de 1.300 garimpeiros; 1988).
em junho, uma equipe com gente de vá- A exploração dos recursos hídricos pa-
rios órgãos federais e estaduais constatou ra a produção de energia elétrica constitui
a situação: já havia 2.000 garimpeiros em uma estratégia do poder central - por meio
atividade, várias dragas e bombas em ope- da associação entre o sistema Eletro-
ração e, em lugar do córrego, crateras, de- brás/Eletronorte e as grandes empresas de
vastação e poluição por mercúrio, óleos e construção civil - voltada para atender aos
graxas. Mais de 75% da população foi atin- futuros desequilíbrios da região Sudeste, e
gida pela malária, inclusive com a morte não para benefício da Amazónia. O plano
de índios. O comportamento dos poderes descomunal desse consórcio - chamado
públicos é patético: o acordo inicial foi sub- Plano 2010 - é o de construir 79 barragens
metido à FUNAI, que não o assinou, mas na região, algumas delas com lagos artifi-
fez vista grossa; IBAMA, DNPM, Polícia Fe- ciais cujas dimensões variam de 1.000 a
deral, órgãos do governo do Mato Gros- 6.000 Km2. Duas grandes barragens já
so, todos reconhecem que é preciso resol- construídas são paradigmas deste mega-
ver a situação, mas sempre alegam a falta projeto. "A hidrelétrica de Balbina (situa-
de recursos e meios. Em outubro de 1991, da no vale do rio Uatumã, no Estado do
por solicitação do Núcleo de Direitos Indí- Amazonas) não atende a qualquer neces-
genas, foi concedida liminar da 9a Vara do sidade regional, sendo ainda extremamen-
Distrito Federal para que fosse feita a reti- te predatória e alagando um território sem
rada imediata dos garimpeiros. E até hoje proporção, 2.400 Km2, com a sua capa-
não se cumpre o que a justiça determina. cidade relativamente irrisória de 250 MW"
Esta é a segunda ameaça total à sobrevi- (CIMI, 1986). A outra, a hidrelétrica de Tu-
vência dos índios Nambiquara. Eles foram curuí, no Pará, com um lago de 2.400
contatados na década de 70 e, em segui- Km2 e a capacidade nominal de 3.600
da, tiveram suas terras invadidas por ma- MW, tem energia destinada à indústria me-
deireiras e pela agro-pecuária. Muitos mor- talúrgica do alumínio, com tarifas reduzi-
reram, os sobreviventes foram resgatados das. Com o enchimento do lago, em 1984,
de helicóptero e a Cruz Vermelha Interna- foram submergidos 14 povoados, duas re-
cional intercedeu junto ao governo brasi- servas indígenas e deslocadas cerca de
leiro para a destinação das áreas que hoje 5.000 famílias de pequenos agricultores.
ocupam.
A próxima investida do setor elétrico
O processo de exploração dos recur- será a construção das hidrelétricas do Xin-
sos naturais da Amazónia - minérios, ma- gu, que a Eletronorte chama eufemística-
deira e recursos hídricos - atinge diferen- mente de "Complexo de Altamira" para
temente inúmeras áreas indígenas. evitar associações com os índios da região.
No setor da mineração, um levanta- São dois grandes lagos, Juruá/Cararaô e
mento efetuado em 1986 por geólogos e Babaquara, de 1.200 e 6.000 Km2 res-
antropólogos do grupo de estudos CEDI- pectivamente, com capacidade total de
-CONAGE revelou que 560 autorizações 17.600 MW e valor estimado de 25 bilhões
e 1.685 pedidos de pesquisa mineral fo- de dólares. Se consumado, o empreendi-
ram ilegalmente concedidos a 69 grupos mento afetará irremediavelmente sete po-
económicos, incidindo parcial ou totalmen- vos indígenas da região.
te sobre 77 terras indígenas. As terras in- A exploração florestal, que é a frente
mais ampla e extensiva de ocupação e de- genas - com recursos em exploração em
vastação do território amazônico, avança volume suficiente para atender às neces-
sobre as terras dos índios, principalmente sidades do mercado interno e de geração
em Rondônia e no Pará. Betty Mindlin e de excedentes exportáveis nos próximos
Isabelle Giannini têm acompanhado de 30 anos. Quanto à corrida em busca do
perto a escalada de saque promovida pe- ouro, o fenómeno é bem conhecido: em-
las madeireiras há dez anos. presários e donos de garimpo lideram le-
No inicio, predominava o roubo de giões de homens desfigurados, expulsos da
grandes quantidades de madeira de lei; a terra, tangidos pela fome e o desempre-
partir de 1987, a venda da madeira foi pro- go, que avançam sobre os aluviões dos rios
movida pela própria FUNAI (gestão Rome- e igarapés da região, - "independentemen-
no Jucá), mediante contratos ilegais com te de existirem ou não indígenas nas pro-
as madeireiras ou mesmo estimulando ne- ximidades". A produção de ouro no Bra-
gociações diretas com os índios. São tran- sil é da ordem de 120 toneladas/ano, com
sações absolutamente desorganizadas, em valor equivalente a 1,5 bilhões de dólares.
que os índios não levam nenhuma vanta- Mais da metade do ouro produzido é des-
gem. As grandes madeireiras fazem a ex- viado por contrabandistas, entrando depois
tração seletiva do mogno, que vale no mer- no mercado negro e na bolsa de valores,
cado internacional cerca de 500 dólares para especulação financeira.
por metro cúbico mas, nas negociações é Os invasores cultivam a imagem de
vendida a 20 ou 30 dólares por metro cú- bandeirantes modernos, buscando uma as-
bico; e nem isso os índios recebem, pois sociação com supostos feitos épicos do
não há controle de medição da madeira ex- passado colonial. Mas Severo Gomes, em
traída. Neste período, estima-se que te- cortante observação, assinalou que, tanto
nham sido retiradas em terras indígenas de no passado como no presente, bandeiran-
Rondônia 1 milhão de metros cúbicos de tismo e banditismo andam de mãos dadas.
mogno. Em todos os relatos e depoimentos pe-
rante à Comissão índios no Brasil ficou pa-
IV tente a co-responsabilidade dos poderes
A cobiça pelas terras dos índios assu- públicos nesta verdadeira tragédia que se
miu a forma de uma guerra de posições, abate sobre os índios: omissão, impotên-
extremamente desigual. Empresários, do- cia, conivência.
nos de garimpo, atravessadores, contraban-
E oportuno fazer aqui um registro his-
distas e políticos oportunistas, ao mesmo
tórico. Em outubro de 1990, reuniu-se em
tempo que promovem invasões e intru-
Paris o Tribunal Permanente dos Povos,
sões, utilizam-se de um variado arsenal de
constituído de juristas de onze paises, que
justificativas e propostas cujo traço comum
se pronunciou sobre os danos causados
é a ideia economicista e salvacionista de
aos povos indígenas e às populações da
expandir, com urgência, a fronteira agrícola
Amazónia, com a seguinte sentença:
e a exploração mineral na Amazónia, em
nome do "interesse nacional". Os povos in- Decisão do Tribunal
dígenas passam, então, a ser vistos como
um obstáculo ao "progresso", uma pedra Em resposta às questões que lhe foram
no meio do caminho. submetidas, o Tribunal decide o seguinte:
A mistificação do "interesse relevante 1. A soberania que a República Fede-
para o desenvolvimento ou a segurança do rativa do Brasil exerce sobre o território da
País" é flagrante, principalmente no caso Amazónia, parte integrante do território na-
da mineração. Os bens minerais mais vi- cional, não confere somente prerrogativas
sados pelos grupos económicos são o ou- garantidas pelo Direito Internacional, mas
ro e a cassiterita (estanho). No caso da cas- acarreta, também, obrigações. Em primeiro
siterita, o Brasil é um dos primeiros lugar, a obrigação de promover o bem-
produtores mundiais do minério, dispon- estar do povo brasileiro e o respeito do
do de várias áreas de produção - todas elas meio ambiente natural da Amazónia, no
situadas fora dos domínios das terras indí- interesse da população inteira do país, sem
que sejam postos em perigo os direitos par- legislação e de reprimi-las quando elas ti-
ticulares do povo da Amazónia. verem sido cometidas. A Constituição bra-
Pistas de garimpos
Adotando uma nova Constituição, sileira e o direito internacional impõem foram abertas perto
aderindo a numerosos tratados internacio- também obrigações particulares em relação de malocas
Yanomami
nais sobre a proteção dos direitos funda- às comunidades indígenas, primeiras ocu- comprometendo
mentais e sobre o respeito ao meio ambi- pantes do território nacional e portadoras seriamente o habitat
ente natural o Brasil reconheceu, ele pró- de valores culturais originais. indígena. Distante
duas horas a pé da
prio, o limite no qual está encerrado o exer- Os elementos de prova de que o Tri- maloca do Aemosh,
cício da soberania. bunal dispõe revelaram atentados graves coberta com lona
plástica, está a pista
Entre as obrigações gerais do Estado aos direitos fundamentais, tanto por ações de pouso
inclui-se o dever de dar execução às suas arbitrárias de órgãos públicos quanto em Chimarrão. Foto
Charles Vincent/
próprias leis, de prevenir as infrações à sua razão de uma deficiente proteção da vida CEDI-CCPY.
Contaminados por e da integridade física de todos os ci- rem adotadas, sem tardança, para a pro-
mercúrio e pelas
doenças levadas dadãos. teçõo das comunidades indígenas, a
pelos garimpeiros, intenção de destruir, como tal, poderá ser
os Yanomami 2. Os atentados à vida e ã integridade admitida.
morrem sem das comunidades indígenas foram invoca-
assistência. Piloto de
helicóptero da Força dos perante o Tribunal, a fim de sustentar 3. Os argumentos algumas vezes invo-
Aérea Brasileira a acusação de genocídio. Os dois primei- cados, tendo por base a necessidade do
(FAB) remove uma
Yanomami doente
ros elementos desse crime contra a huma- desenvolvimento do País, não poderiam
da maloca Aemosh nidade foram suficientemente demons- justificar os atentados constatados. O Tri-
para o posto médico trados. Quanto ao elemento intencional, bunal revelou, todavia, o fato de que um
de Surucucus. Foto
Charles Vincent/ ele poderia resultar da reiteração de tais fa- modelo de desenvolvimento predatório foi,
CEDI-CCPY tos. Embora o Tribunal tenha considerado em parte pelo menos, imposto aos gover-
que esse elemento não estava demonstra- nos brasileiros, notadamente em razão do
do, fora de qualquer dúvida, ele teve que peso considerável da dívida externa e da
admitir que se medidas adequadas não fo- adesão do Brasil ao modelo de desenvol-
A retirada ilegal de
madeiras em áreas
indígenas tem sido
prática corrente na
região central e norte
do Brasil, contando em
muitos casos com a
convivência ou
omissão da FUNAI
Foto Luís Grupioni
uimento inspirado e dominado pelos paí- conforme as regras de Direito Internacio-
ses mais industrializados. nal e dos Direitos dos Povos aplicáveis a
Os governos sucessivos do Brasil, in- todos os Estados, o exercício, pelo Brasil,
clusive o governo atual, não são os úni- de suas competências territoriais. A opres-
cos responsáveis pela crescente degrada- são da qual os povos da Amazónia têm si-
ção da condição de vida da maioria da po- do vítima, ocorrida no último decénio, foi,
pulação. As responsabilidades internacio- em grande parte, uma agressão interna-
nais jã foram destacadas na sentença de cional.
Berlim em 1988. Ela inclui as Instituições Somente uma ação conjunta das for-
Financeiras Internacionais, a Comunidade ças políticas e económicas da comunida-
Económica Europeia e os países cujas em- de universal e a vontade de instaurar uma
presas contribuíram para a destruição de nova ordem económica mundial poderão,
parte considerável do território da de maneira eficaz, ir ao encontro da ne-
Amazónia. cessidade de desenvolvimento do Brasil,
4. O valor inestimável da Amazónia sem atentar contra os direitos fundamen-
para o equilíbrio ecológico do planeta não tais do povo da Amazónia e à salvaguar-
poderia ter por si só o efeito de restringir, da de seu meio ambiente natural.

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je, volume especial Amazónia. (1450-1920). Ed. Paz e Terra. 428 p.
Imprensa e questão indígena:
relações conflituosas

Priscila Siqueira

Os articuladores da Conferência Mun- rum Global sobre Desenvolvimento e Meio


dial dos Povos Indígenas Sobre Território, Ambiente, todas as telas de TV e manche-
Meio Ambiente e Desenvolvimento, orga- tes de jornais de nosso país noticiavam um
nizada pelo Comité Intertribal 500 Anos de fato ocorrido então com cerca de um mês
Resistência, realizada em Jacarepaguá, no de atraso: o estupro de uma garota atribuí-
Rio de Janeiro, de 25 a 31 de maio deste do ao índio Paulinho Paiacã. Será coinci-
ano, não queriam a presença de jornalis- dência a forma diferenciada no tratamen-
tas brasileiros neste encontro que reuniu to dessas duas notícias relacionadas com
cerca de 800 lideranças indígenas de to- o mesmo assunto, isto é, a causa indígena
do o planeta. "A Imprensa Nacional não no país?
prestigia a nossa causa; a luta indígena no Reconheço que para obter uma res-
país só recebe apoio da Imprensa Interna- posta mais segura a tal pergunta, sem cor-
cional", afirmava o coordenador da con- rer o risco de cometer injustiças, muita pes-
ferência, índio Marcos Terena. quisa deveria ser feita na produção da
Imprensa Brasileira não só no leste-sul do
Por pouco, a entrevista coletiva reali- país, mas também nos estados do norte
zada na abertura dos trabalhos do evento onde a luta indígena é mais candente por
só teria a presença de jornalistas estrangei- estar mais próxima. Porém, nos contatos
ros. Foi toda uma negociação mostrando com profissionais da área que atuam nas
aos indígenas que esta seria a oportunida- cidades de Belém e Manaus - colegas nos-
de de expor na Imprensa Nacional suas rei- sos da Associação Brasileira de Jornalis-
vindicações e projetos. Mesmo assim, não mo Científico - a opinião geral é de que
foram todos os órgãos da grande Impren- a notícia relacionada com a questão indí-
sa Nacional que noticiaram os aconteci- gena é sempre factual. Sobre ela não há
mentos ocorridos durante esta semana na maior reflexão de suas causas e conse-
Conferência de âmbito internacional. Isto, quências que se traduziriam por editoriais,
apesar de todos eles estarem representa- artigos ou mesmo as "suites", ou seja, o tra-
dos por seus jornalistas que não arredaram tamento continuado destas matérias.
o pé do Parque Kari-Oca naqueles dias.
Apesar mesmo, da Conferência ter sido -
provavelmente - a mais importante reunião Conflitos
de lideranças dos povos nativos em todo
o mundo. Neste local privilegiado no so- O que se percebe na cobertura feita pe-
pé da Serra do Mar, aynos do Japão, la- la Imprensa Nacional sobre os assuntos in-
pões da Península Escandinava; esquimós dígenas é um grande conflito entre as cau-
da antiga União Soviética; aborígenes aus- sas humanistas - às quais quase a
tralianos; comunidades indígenas da Afri- totalidade dos jornalistas é sensível - e os
ca, Estados Unidos, Canadá, Filipinas e interesses económicos da Imprensa de in-
América Latina reuniram-se com represen- formação. Interesses ligados aos de seus
tantes de Nações Indígenas brasileiras dis- anunciantes ou de setores do Governo
cutindo problemas comuns sobre posse da com os quais a empresa jornalística não
terra e identidade cultural. quer se indispor.
As vésperas da revisão constitucional
Entretanto, duas semanas após o iní- a ser realizada no ano que vem e da ela-
cio da Conferência dos Povos Indígenas, boração do Estatuto do índio são eviden-
já em pleno andamento da Rio 92 e do Fó- tes os poderosos interesses contrários às
Álvaro Tukano. reivindicações indígenas. No caso da revi- nador nomeado de Roraima, abriu o res-
membro do Comité
Intertribal 500 anos são constitucional em 93, muito mais que tante deste território indígena aos garim-
de Resistência, em 88, quando a nossa Carta Magna foi peiros. A não ser registros esporádicos de
supervisiona a
construção de uma elaborada, a causa indígena tem contra ela articulistas como Washington Novaes, onde
das casas indígenas uma bancada poderosa no Congresso Na- está a denúncia deste fato na Imprensa Na-
que abrigariam os cional. Por ironia do destino, o fortaleci- cional? Outro exemplo: no dramático acon-
membros da
Conferência Mundial mento desta bancada ocorreu também por tecimento ocorrido em 12 de outubro pas-
dos Povos consequência da atual Constituição que sado, quando Ulisses Guimarães e Severo
Indígenas. Foto ampliou o número de Estados da Federa- Gomes perderam a vida com suas espo-
Denise Fajardo.
ção na região norte do país. Infelizmente, sas num desastre aéreo, qual o grande jor-
na maior parte das vezes as representações nal ou TV brasileira que divulgou a atua-
políticas desses estados não são constituí- ção do ex-senador junto à luta indígena?
das de lideranças populares e indígenas Severo Gomes foi o grande articulador das
mas por setores ligados à mineração, ex- reivindicações dos índios brasileiros na
ploração de madeira e grandes proprietá- Constituição de 88. Ele seria fundamen-
rios de terra. tal na revisão constitucional e na elabora-
No que diz respeito ao Estatuto do ín- ção do Estatuto Indígena como articulador
dio, as posições da relatora Teresa Jucá no PMDB. Sem os votos desse partido po-
trouxeram grande apreensão aos indígenas lítico a luta indígena poderá sofrer um grave
e indigenistas que acompanham sua ela- retrocesso na Legislação Brasileira. Quem
boração. Tanto é que o NDI, CIMI. FUNAI alertou o país para isto?
e Procuradoria Geral da República uniram Além dos conflitos de terra envolven-
seus esforços na apresentação de emen- do mineradoras multinacionais e nacionais
das aos substitutivos de Teresa Jucá. Não e das grandes madeireiras interessadas nos
dá para esquecer que a deputada federal territórios indígenas, há outro conflito em-
é esposa de Romero Jucá. Este, como ex- baçando a cobertura jornalística deste as-
-superintendente da FUNAI, reduziu a área sunto: é o conflito ideológico. O clima de
Ianomami em 70% e depois, como gover- paranóia vivido antes da Rio 92, quando
um simples cantor como Sting parecia isto, que o prazo de cinco anos para que Uma das casas
ameaçar nossa Segurança Nacional, foi um fossem feitas as demarcações das terras in- indígenas
construídas no
exemplo bem explorado pelos meios de dígenas no país, previsto no artigo 67 das Parque Kari-Oca,
comunicação. A falta do "inimigo comu- Disposições Transitórias da Constituição, em Jacarepaguá,
que sediou a
nista" parece ter trazido uma crise de iden- está longe de ser cumprido apesar de ex- Conferência dos
tidade para setores do Exército Nacional pirar em 93. Mesmo a lei assegurando es- índios durante a
te direito aos índios brasileiros, das 511 ECO-92. Foto
que tentam achar substitutos entre ambien- Denise Fajardo.
talistas e indigenistas. Até o ex-ministro Jo- áreas reconhecidas pela FUNAI, 130 ou
sé Lutzemberger - tão criticado pelo mo- 26% não têm estudos para sua delimita-
vimento ambientalista brasileiro por nada ção; 117 (23%) estão delimitadas mas não
ter feito de concreto na defesa ambiental demarcadas; 64 (13%) foram demarcadas
do país - não escapou do estigma de "mau mas não homologadas.
brasileiro". Na realidade os que defendem Apenas 190 (38% do total) estão com
a Teoria da Segurança Nacional temem o seu processo jurídico concluído. Os indí-
que seriam as fronteiras autónomas, facil- genas brasileiros, primeiros donos desta ter-
mente identificáveis com os territórios in- ra, reivindicam 12% do território nacional
dígenas. para poderem viver em paz.
Talvez seja por isto que, contrariando Segundo Sidney Possuelo, atual supe-
nossa Constituição, a Secretaria Geral da rintendente da FUNAI, ele precisa de 110
Presidência da República pretende subme- milhões de dólares para demarcar estas
ter as futuras demarcações de áreas indí- áreas. Porém, no orçamento de 93, a FU-
genas à aprovação prévia do Departamen- NAI vai receber um milhão de dólares, me-
to Nacional de Proteção Mineral, nos de 1% do necessário. Novamente a
Eletrobrás, Embrapa e Estado Maior das pergunta: esses dados foram divulgados na
Forças Armadas. Com isto, tanto os inte- sociedade brasileira?
resses económicos que atuam no país co- A situação atual do país com a misé-
mo os militares, estariam preservados do ria correndo solta, desemprego generaliza-
"perigo indígena". Também deve ser por do, "arrastões" de crianças e adolescentes
Paulinho Paiacãn,
importante liderança
indígena na
mobilização pela
garantia dos direitos
indígenas na
Constituição de
1988, recentemente
acusado de ter
estuprado uma
jovem branca em
Redenção/PA. Foto
Reynaldo
Stavale/ADIRP

nos redutos da classe média, reforça a ideia de dominação social - a força bruta, o ca-
na sociedade brasileira de que há muita ter- pital e a informação.
ra para pouco índio. Em época de crise fi- Pois bem, cabe a nós jornalistas que li-
ca difícil entender os argumentos huma- damos com a informação, democratizá-la
nitários de defesa do território para a de- fazendo-a acessível ao maior número de
fesa de culturas diferentes das nossas. Fi- pessoas. Temos de superar a ideia que só
ca difícil perceber que a miséria da cidade a elite deve ser informada. Pois só de pos-
e a expulsão do índio de seu território têm se da informação do que acontece no país
uma causa comum: o sistema econômico- e no mundo, temos condições de refletir
-social de nossa sociedade. sobre nossas próprias vidas e destinos, des-
cobrindo assim nossa própria cidadania. E
A deputada Teresa quando está em jogo a questão indígena,
Jucá, relatora do Democratização da informação nosso compromisso de jornalista, de for-
projeto de revisão mador de opinião pública, é ainda maior.
do Estatuto do
índio, recebe as Sabemos o papel fundamental que a Compromisso de resgate de 500 anos de
sugestões dos índios Imprensa exerce na democratização da in- opressão das populações nativas do nos-
formuladas durante
o Encontro de formação, no seu papel de guardiã da De- so continente; compromisso de resgate de
Luziânia/GO, que mocracia. Não é nenhum intelectual de es- culturas que só podem enriquecer a nos-
reuniu mais de 350 sa própria; compromisso de sobrevivência
lideranças indígenas. querda que nos alerta: é o próprio Alvin
Foto Luis Grupioni. Toffler que enumera os três mecanismos não só de parcelas consideráveis de nos-
sa população mas da sobrevivência mes-
mo de quem provou ser até agora, os úni-
cos que souberam conviver com a natureza
sem expropriá-la.
Admito que se torna urgente uma pes-
quisa aprofundada de como está sendo tra-
tada e difundida pela Imprensa Nacional
a questão indígena no país. Fica aqui o de-
safio. Afinal, nem que seja por egoísmo,
devemos nos lembrar que a sobrevivência
de nosso planeta está intrinsicamente liga-
da ao conhecimento/informação dos se-
gredos da Terra que não é propriedade
nossa, mas sim, de nossos irmãos in-
dígenas.
CATÁLOGO DA EXPOSIÇÃO ÍNDIOS NO BRASIL
Inventário dos artefatos c obras da exposição
"índios no Brasil: alteridade, diversidade e
diálogo cultural"
Luís Donisete Benzi Grupioni

ALTERIDADE: FIGURAÇÕES DO OUTRO

Novo M u n d o : encontros e des- chegada dos primeiros europeus no sécu-


cobertas lo XVI."

Reprodução de um trecho da carta de


"A chegada de Cristóvão Colombo à Pêro Vaz de Caminha ao Rei Dom Manuel.
América em 1492 - sem dúvida o aconte-
cimento mais extraordinário e decisivo da
moderna história do Ocidente - deu início
ao mais profundo e complexo processo de
trocas inter-culturais da humanidade. A via-
gem do Almirante Colombo e daqueles
que depois o seguiram, como Pedro Álva-
res Cabral em 1500, colocaram definitiva-
mente em contato dois mundos que até
então não se conheciam.
A descoberta do Novo Mundo habita-
do por povos desconhecidos desencadeou
uma vasta elaboração de discursos, repre
sentações e imagens. Oscilando entre o in- Livro: NOORT, Olivier van. Descrip-
ferno bestial e o paraíso terrestre, os indí- tion du penible voyage fait entour de
genas e suas sociedades foram represen- 1'univers ou tjlobe terrestre. Amesterdam,
tados ao sabor dos interesses e fantasias 1610. Acervo da Biblioteca Mário de An-
que presidiram o tempo da conquista. drade/SMC-SP.
Ao longo desses cinco séculos, muitos
dos primeiros habitantes da América su-
Prato Ornamental, porcelana/pintu-
cumbiram perante a determinação do eu-
ra, Portugal, cena representando a 1. mis-
ropeu colonizador. Sociedades indígenas
sa no Brasil. Museu Histórico Nacional, Rio
inteiras foram dizimadas e se extinguiram
de Janeiro.
no processo histórico de formação dos Os textos que
Estados-nacionais latino-americanos. Mas, integram a
exposição "Índios
a verdade, muitas vezes negada ou igno- Niels Aagard Lutzen (1826 - 1890) no Brasil" foram
rada, é que outras tantas sociedades resis- "Pintor dinamarquês, executou, a pe- redigidos por
tiram. Isabelle Vidal
dido do Imperador D. Pedro II, cópias de Giannini e Luís
Existem hoje no Brasil cerca de 200 so- alguns quadros de Albert Eckhout. Em Donisete Benzi
ciedades indígenas diferentes, falando cer- 1876, o Imperador Dom Pedro II visita a Grupioni com a
participação, em
ca de 170 línguas e dialetos conhecidos, Dinamarca e demonstra grande interesse trechos específicos.
com uma população estimada em 250.000 por uma série de pinturas de Eckhout per- de Dominique T.
Gallois, Manuela
indivíduos, distribuídos em centenas de al- tencentes ao Museu Nacional de Copenha- Carneiro da Cunha.
deias em todo o território nacional. São re- gen. Encomenda a Lutzen a cópia de seis Lux B. Vidal. Ornar
Ribeiro Thomaz,
manescentes de um grande contingente dos trabalhos que foram depois enviadas Flora Dias. Aloísio
populacional que deveria oscilar em tor- ao Instituto Histórico e Geográfico Brasi- Cabalzar e Rui
Corrêa Costa.
no de 6 milhões de pessoas quando da leiro."
Albert Eckhout (1610- 1665) dos viajantes aliavam fantasia e realidade.
"O pintor e desenhista holandês inte- Descrevendo o que viam, o que ouviam
grou a Corte do Conde João Maurício de e o que queriam ver, os viajantes traziam
Nassau-Siegen, nos quase oito anos em notícias de homens e de terras desconhe-
que este governou o Brasil Holandês ad- cidas. Os estranhos costumes dos povos da
ministrando a Companhia das índias Oci- Africa e do Oriente durante muito tempo
dentais. Ficou a maior parte do tempo em alimentaram o imaginário europeu. As nar-
Pernambuco. Sua tarefa como pintor, nas rativas registram as experiências dos anti-
palavras de Nassau, seria "representar tu- gos viajantes, o seu deslumbramento com
do o que era desconhecido na Europa ou a variedade de formas, dos seres e das co-
de interesse para o Velho Mundo". Esta ta- res das terras distantes.
refa era dividida com Franz Post, cabendo A chegada num continente Novo,
a este as paisagens e a Eckhout as popu- inaugura uma tradição narrativa e pictóri-
lações indígenas, africanas e mestiças, ima- ca dos viajantes na América. Das mais di-
gens da flora e da fauna." versas procedências, entre os séculos XVI
e XIX, os viajantes percorreram parte do
Neils Aagard Lutzen imenso continente. Das narrativas emer-
1. índia Tapuia, óleo sobre tela, (có- gem o inferno e o paraíso, o bom e o mau
pia do original de Albert Eckhout), s/d. Ins- selvagem, a natureza exuberante que atrai
tituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio e assusta.
de Janeiro. O século XVIII inaugura um novo ci-
2. índia Tupi com criança, óleo so- clo de viagens que se estende por todo o
bre tela, (cópia do original de Albert Eck- século XIX. As expedições científicas além
hout), s/d, Instituto Histórico e Geográfi- de alimentar o imaginário europeu sobre
co Brasileiro, Rio de Janeiro. as terras americanas, alimentam o seu es-
3. Mulher Mameluca, óleo sobre te- pírito científico e classificatório. O mundo,
la, (cópia do original de Albert Eckhout), os seus povos e as suas obras, tornam-se
s/d, Instituto Histórico e Geográfico Bra- passíveis de se transformar em peças de
sileiro, Rio de Janeiro. museu. As narrativas e os desenhos dos
4. índio Tarairiu, óleo sobre tela, (có- viajantes registram minuciosamente os po-
pia do original de Albert Eckhout), s/d, Ins- vos e os tipos humanos, a fauna e flora,
tituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio as paisagens e as cidades."
de Janeiro.

Livro: PISO, Willem. Historiae Natu-


ralis Brasiliae. Lugdun. Batavorum, apud
Franciscum Hackium; Amstelodami, paud
lud. Elzevirium, 1648. (Contém: Georgi
Marcgravi de Liebstadt, Historiae rerum
naturalium Brasiliae, Libri octo. Acervo
da Biblioteca Mário de Andrade/SMC-SP.

Pierre Mariette
Le Brésil (seg. dAbbeville, N.Sanson),
mapa do Brasil, mostrando as capitanias
desde o Pará até São Vicente, tribos indí- Livro: STADEN, Hans. Americae ter-
genas e rios, buril colorido, 36.9 x 54.4 cm, tia pars memorabile provinciae Brasiliae
1656, Fundação Museus Raymundo Ot- historiam contins. Francofurti ad Moe-
toni de Castro Maya, Rio de Janeiro. num, Theodori de Bry, 1592. Acervo da
Biblioteca Mário de Andrade/SMC-SP.
Cronistas, Naturalistas c Viajan-
tes - séc. X V I a XIX Livro: LERY, Jean de. Histoire d'un
voyage fait en la terre du Bresil, dite
"Desde épocas antigas, as narrativas Amerique, Geneve, Antoine Chuppin,
1585. Acervo da Biblioteca Mário de An- penheimii, Typis Hieronymi Gallere, 1614.
drade/SMC-SR Acervo da Biblioteca Mário de Andra-
de/SMC-SP.
Livro: Nuovi avisi delPIndie di Porto-
gallo (Terza parte). Companhia de Jesus, Livro: DENIS, Jean Ferdinand. Une fê-
Veneza, Michele Tramezzino, 1562. Acer- te brésilienne célébrée a Rouen en 1500.
vo da Biblioteca Mário de Andra- Paris, J. Techener, 1850. Acervo da Biblio-
de/SMC-SP. teca Mário de Andrade/SMC-SP.

Livro: ANCHIETA, José de. Informa- Livro: GANDAVO, Pedro de Maga-


ções e fragmentos históricos do padre lhães de. História da província Santa
Joseph de Anchieta. Rio de Janeiro, Im- Cruz, a que vulgarmente chamamos
prensa Nacional, 1886. Acervo da Biblio- Brasil. Lisboa, Typ. da Academia Real das
teca Mário de Andrade/SMC-SP. Sciencias, 1858. Acervo da Biblioteca Má-
rio de Andrade/SMC-SP.
Livro: ABBEVILLE, Claude d. Histoi-
re de la mission des peres capucins en Livro: SOUSA, Gabriel Soares de. Tra-
Pisle de Maragnan et terres circonvoisi- tado descriptivo do Brazil em 1587. Rio
nes ou ..., Paris, De Tlmprimerie de Fran- de Janeiro, Typ. Universal de Laemmert,
çois Huby, 1614. Acervo da Biblioteca Má- 1851. Acervo da Biblioteca Mário de An-
rio de Andrade/SMC-SP. drade/SMC-SP.

Livro: ÉVREUX, Yves d. Voyage dans


le nord du Brésil - fait durant les années
1613 et 1614. Leipzig e Paris, Librairie A.
Franck, Albert L. Herold, 1864. Acervo da
Biblioteca Mário de Andrade/SMC-SP.

Livro: THÉVET, André. Les singula-


ritez de la France Antarctique, autre-
ment nommée Amerique, e de plusieurs
terres e Isles decouvetes de nostre temps.
Anvers, De Tlmprimerie de Christophe Livro: TAUNAY, Thomaz Marie Hip-
Plantin, 1558. Acervo da Biblioteca Mário polyte. Le Brésil, ou Histoire, moeurs,
de Andrade/SMC-SP. usages et costumes des habitans de ce
Royaume, Paris, Nepveu, 1822. Acervo da
Livro: VASCONCELOS, Simão de. Biblioteca Mário de Andrade/SMC-SP.
Chronica da Companhia de Jesu do Es-
tado do Brasil: e do que obrarão seus fi- Livro: STEINEN, Karl von den. Durch
lhos nesta parte do Novo mundo. Lisboa, Central-Brasilien. Leipzig, F. A. Brock-
Officina de Henrique V de Oliveira, 1663. haus, 1886. Acervo da Biblioteca Mário de
Acervo da Biblioteca Mário de Andra- Andrade/SMC-SP.
de/SMC-SP.
Livro: KOCH-GRUNBERG, Theodor.
Livro: SEIXAS, Manuel Justiniano de. Von Roraima zum Orinoco, Berlin, Die-
Vocabulário da língua indígena geral, trich Reimer, 1917-1928. Acervo da Biblio-
para o uso do Seminário episcopal do teca Mário de Andrade/SMC-SP.
Pará ... Pará, Typ. de Mattos, 1853. Acer-
vo da Biblioteca Mário de Andra- Livro: SAINT-HILAIRE, Augustin
de/SMC-SP. François César Provençal de. Voyage dans
les provinces de Rio de Janeiro et de Mi-
Livro: CASAS, Bartolomé de las. Nar- nas Geraes, tome Second. Paris, Grimbert
ratio regionum indicarum per Hispanos et Dorez, 1830. Acervo da Biblioteca Má-
quosdam devastatarum veríssima. Op- rio de Andrade/SMC-SP.
Livro: WALLACE, Alfred Russel. A Acervo da Biblioteca Mário de Andra-
narrative of traveis on the Amazon and de/SMC-SP.
Rio Negro, with an account of the Nati-
ve Tribes, London, Reeve and co., 1853. Johan Moritz Rugendas (1802-1858)
Acervo da Biblioteca Mário de Andra- "Pintor e desenhista alemão proceden-
de/SMC-SR te de uma família de pintores, ingressou em
1818 na Academia de Artes de Munique,
Livro: SCHMIDT, Max. Indianerstu- onde dedicou-se à pintura de paisagens e
dien Zentralbrasilien erlebbnisse und quadros de género. Convidado por Langs-
Ethnologische ergebnisse einer reise in dorf para integrar como desenhista uma ex-
den Jahren 1900 bis 1901. Berlin, 1905. pedição científica pelo Brasil, embarcou pa-
Acervo da Biblioteca Mário de Andra- ra o Rio de Janeiro em 1824. Com
de/SMC-SR Langsdorf, visitou a província de Minas Ge-
rais, onde fez importantes registros pictó-
Balcão com os livros da série Recon- ricos de Ouro Preto, e também entrou em
quista do Brasil (Edusp/ltatiaia) para con- contato com os índios Monoxós e Maxa-
sulta do público. calis, retratando-os em sua atividade de co-
leta de palmito. Durante a expedição,
Maximiliano von Wied-Neuwied desentendeu-se com Langsdorf, seguindo
(1783-1867) sozinho pelas províncias do Rio de Janei-
"Zoólogo, desenhista e pintor, Wied- ro, Minas Gerais, Mato Grosso. Espírito
-Neuwied escolheu o Brasil como objeto Santo e Bahia. Em 1825 regressou à Eu-
das suas explorações por considerá-lo um ropa, onde publicou sua "Viagem Pitores-
país com imensos territórios virgens ainda ca". Após esta publicação viajou durante
por conhecer. Chegou ao Rio de Janeiro quatorze anos pelo México, Chile, Peru,
em 1815, permanecendo no país até 1817. Bolívia, Argentina, Uruguai e Brasil, resul-
Viajou pelo litoral fluminense e pelo inte- tando desta viagem um enorme acervo de
rior da Bahia e de Minas Gerais. Ao retor- esboços. Retornou a Alemanha em 1846."
nar à Europa levou consigo farto material
etnográfico e classificações da fauna bra- Johan Moritz Rugendas
sileira. Entre 1820 e 1821 surge a primei-
ra publicação do livro "Viagem pelo Bra-
sil", e entre 1822 e 1831 é publicada uma
coleção de estampas de Wied-Neuwied.
Estas ilustrações serão um complemento
fundamental da "História Natural Brasilei-
ra", publicada em quatro volumes entre
1825 e 1833."

Pranchas: Apresentação de 8 pran-


chas ("Eine Familie der Botocudos auf der
Reise", "Zuveikaempfe der Botocudos am
Rio Grande de Bellmonte", "Die Puris in
ihren Waldern", "Die Patachos am Rio do Livro: RUGENDAS, Johann Moritz.
Prado", "Gruppe einiger Camacans im Malerische Reise in Brasilien. Paris, He-
Walde". "Gerathscheften der Puris", "Ge- rausgegeben von Engelmann e cie, 1835.
rathscheften und Zierrathen der Botocu- Acervo da Biblioteca Mário de Andra-
dos", "Zierrathen und Gerathscheften der de/SMC-SP.
Camacans") e um mapa ("Ostkuste von 1. índios Puri, gravura, s/d, Acervo
Brazilien") do livro WIED-NEUWIED, Ma- Artístico Cultural Palácios do Governo (Pa-
ximilian Alexander Philipp von. Reise nach lácio dos Bandeirantes), São Paulo.
Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817. 2. índios Coroatos, gravura, Acervo
Frankfurt a.M., Gedruckt und verleget bei Artístico Cultural Palácios do Governo (Pa-
Heinrich Ludwig Bronner, 1820-1821. lácio dos Bandeirantes), São Paulo.
3. Aldeia de Tapuias, aquarela, 15,5 dade de São Paulo, São Paulo.
x 28,4 cm, s/d, Secretaria Municipal de
Cultura de São Paulo, São Paulo. Hercule Florence (1804-1879)
4. índios prepraram comida, lápis, "Desenhista e fotógrafo francês, se es-
15,3 x 28,4 cm, s/d, Secretaria Municipal tabeleceu no Rio de Janeiro em 1824. Em
de Cultura de São Paulo, São Paulo 1825 foi aceito para o cargo de segundo
desenhista da expedição organizada por
Cari Friedrich Phillip von Martius Gregory Ivanovitch Langsdorf, consul-geral
(1794-1868) da Rússia no Brasil e membro da Acade-
"O naturalista alemão Cari F.P. von mia de Ciências de São Peterburgo. A ex-
Martius viaja pelo Brasil entre 1817 e 1820 pedição parte do Rio de Janeiro com des-
em companhia do zoólogo Johan Baptist tino a Santos. De lá, passando por São
Spix. Viajando por São Paulo, Minas Ge- Paulo, se dirigiu ao interior do país, che-
rais, Bahia, Piauí, Maranhão e pela região gando à Amazónia por via fluvial. Floren-
amazônica, recolhe cerca de 6500 espé- ce documentou com desenhos os lugares
cies de plantas, e farto material etnográfi- atravessados pela expedição, os tipos hu-
co e filológico. Os relatos da expedição, es- manos e costumes. Escreveu um diário,
crito em conjunto com Spix, são "Esboço Pitoresco da Viagem de Porto Feliz
publicados entre 1823 e 1831 sob o título e Cuiabá e Explicação dos desenhos aí
de "Viagem pelo Brasil". Sua maior reali- anexados", publicado em 1875, em tradu-
zação foi, no entanto, a obra "Flora Brasi- ção para o português de Alfredo de Tau-
liensis", iniciada em 1840 e por ele dirigi- nay. Florence se estabeleceu em Campi-
da até sua morte em 1868. Concluída em nas, onde casou, em 1830. Realizou
1906 por diversos especialistas, compreen- trabalhos pioneiros em fotografia, além de
de 15 volumes, onde estão classificadas ter impresso, em 1836, o jornal "O Paulis-
850 famílias com a descrição de mais de ta", primeiro no interior do Estado."
8000 espécies vegetais."
Livro: FLORENCE, Hercule. Viagem
Johan Baptist von Spix (1781-1826) fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a
"Zoólogo alemão, viajou em missão 1829. São Paulo, Melhoramentos, 1941.
científica ao Brasil em companhia de von Acervo da Biblioteca Mário de Andra-
Martius entre 1817 e 1820. Durante esse de/SMC-SP.
período realizou extensa classificação da
fauna brasileira, e, sozinho, percorreu a re- Hercule Florence
gião amazônica. Retornou à Europa com 1. Jovem Apiacá, desenhado em
um inventário de 3.381 animais brasileiros. Diamantino, 25 de março de 1928, nan-
Morreu prematuramente antes de ver a pu- quim aguado, 21 x 25,5 cm, Coleção par-
blicação final dos relatos das suas viagens, ticular Cyrillo Hercules Florence.
concluída por von Martius, em 1831." 2. Jovem Apiacá, nanquim aguado,
21 x 26 cm, Coleção particular Cyrillo Her-
Livro: Spix, Johan Baptist von und cules Florence.
MARTIUS, Cari Friedrich Phillip von. Atlas 3. Apiacás na vista do Salto do ju-
zur reise in Brasilien, 1823-1831. Acer- ruena conhecido como Salto Augusto,
vo da Biblioteca Mário de Andra- nanquim aguado, 21 x 26 cm, Coleção
de/SMC-SP. particular Cyrillo Hercules Florence.
4. Jovem Apiacás, aquarela e nan-
Spix e Martius quim a pena, 34 x 24 cm, Coleção parti-
1. Iuri, litografia, Laboratório de Re- cular Cyrillo Hercules Florence.
cursos Visuais e Sonoros em Antropolo- 5. Apiacá, aquarela, nanquim a pena
gia da Universidade de São Paulo, São e lápis, 26 x 37 cm, Coleção particular
Paulo. Cyrillo Hercules Florence.
2. Mundurucú, Uairumá, Puru-puru, 6. Apiacá em costume, aquarela e
litografia, Laboratório de Recursos Visuais nanquim a pena, 23 x 30 cm, Coleção par-
e Sonoros em Antropologia da Universi- ticular Cyrillo Hercules Florence.
7. Apiacás com ornamentos, 1828, ça e jogos Bororó, em Jacobina, 1827,
aquarela e nanquim a pena, 20 x 29,5 cm, nanquim a pena, 43,5 x 32 cm, Coleção
Coleção particular Cyrillo Hercules particular Cyrillo Hercules Florence.
Florence. 17. Crianças Bororó, Setembro,
8. Duas mulheres Apiacás socando 1827, nanquim a pena, 20,5 x 25,5 cm,
milho, 1828, aquarela e nanquim a pena, Coleção particular Cyrillo Hercules
25 x 41 cm, Coleção particular Cyrillo Her- Florence.
cules Florence. 18. Bororós de Villa Maria, nanquim
9. índio Apiacá, poligrafia, 23,8 x 34 a pena, 20,5 x 25,5 cm, Coleção particu-
cm, Coleção particular Cyrillo Hercules lar Cyrillo Hercules Florence.
Florence. 19. Bororós, Setembro, 1827, nan-
10. índio Apiaca, lápis, 22,5 x 28,8 quim a pena, 20,5 x 25,5 cm, Coleção par-
cm, Coleção particular Cyrillo Hercules ticular Cyrillo Hercules Florence.
Florence. 20. índia Bororó, em Jacobina, nan-
11. Maloca Apiacá no Rio Juruena, quim a pena, 20,5 x 25,2 cm, Coleção par-
1828, nanquim a pena, 51,5 x 25,4 cm, ticular Cyrillo Hercules Florence.
Coleção particular Cyrillo Hercules 21. Mulher da tribo Chamacoco,
Florence. nanquim a pena, 20,5 x 25,5 cm, Cole-
12. Bororó, Setembro, 1827, nan- ção particular Cyrillo Hercules Florence.
quim aguado, 20 x 25,5 cm, Coleção par- 22. índia Chamacoco, serva em Cu-
ticular Cyrillo Hercules Florence. yabá, desenho a lápis, 20,5 x 25,5 cm, Co-
13. Bororós, Jacobina, nanquim leção particular Cyrillo Hercules Florence.
aguado, 20,5 x 25,5 cm, Coleção particu- 23. índio Chamacoco, criado entre
lar Cyrillo Hercules Florence. os Guanás, desenho a lápis, 20,5 x 25,5
cm, Coleção particular Cyrillo Hercules
Florence.^
24. índia Chamacoco, serva em
Cuiabá, desenho a lápis, 20,5 x 25,5 cm,
Coleção particular Cyrillo Hercules
Florence;
25. índios Guanás, feitos em São
Paulo, junho 1830, nanquim aguado, 41,5
x 26 cm, Coleção particular Cyrillo Her-
cules Florence.
26. Guanitá, Capitão-Mor dos Gua-
nás e moça, aquarela, 23,5 x 32 cm, Co-
leção particular Cyrillo Hercules Florence.
27. Três índios Guanás, desenho a lá-
pis, 25,5 x 20,5 cm, Coleção particular
Cyrillo Hercules Florence.
28. índio Guató, chamado Tohé, ca-
çador do Comandante de Albuquerque
no Rio Paraguay, nanquim a pena, 21,5
x 27,5 cm, Coleção particular Cyrillo Her-
cules Florence.
29. Família de Guatós, nanquim a pe-
na, 25,5 x 30 cm, Coleção particular Cyril-
14. Bororó, Vila Maria, 1827, nan- lo Hercules Florence.
quim a pena, 20,5 x 25,5 cm, Coleção par- 30. índios Guatós, confluência do
ticular Cyrillo Hercules Florence. Rio São Lourenço e o Paraguay, 27 De-
15. Dança dos Bororós, nanquim a zembro de 1826, aquarela e nanquim a
pena, 31 x 19,5 cm, Coleção particular pena, 25 x 20,5 cm, Coleção particular
Cyrillo Hercules Florence. Cyrillo Hercules Florence.
16. Estudos de movimentos de dan- 31. Guatós na Passagem Velha a 4
léguas da Villa, desenho a lápis, 19,5 x -se ao ensino das Artes Plásticas na recém
31 cm, Coleção particular Cyrillo Hercu- criada Academia de Belas Artes e na Es-
les Florence. cola Real de Artes e Ofícios. Durante os
32. Velho e Jovem Guatós. desenho 15 anos que permaneceu no Brasil, desen-
a lápis, 20,5 x 25.5 cm, Coleção particu- volveu um importante trabalho artístico e
lar Cyrillo Hercules Florence. educacional, integrando a Academia Im-
33. Mulher e criança Mundurucus, perial de Belas Artes, a partir de sua fun-
aquarelada, 20,5 x 25,5 cm, Coleção par- dação. em 1825. Em 1829, realizou a pri-
ticular Cyrillo Hercules Florence. meira exposição de Belas Artes no Brasil.
34. índio do Paraná educado em Por- cujo catálogo teve por título "Exposição da
to Feliz, nanquim a pena. 20,5 x 25,5 cm, Classe de Pintura Histórica na Imperial
Coleção particular Cyrillo Hercules Academia de Belas Artes. No ano de 1829:
Florence. quarto ano de sua instalação".
35. índio do Paraná educado em Por- Em 1831 retornou à França, publican-
to Feliz, nanquim a pena, 20 x 26 cm, Co- do, entre 1834 e 1839, "Viagem Pitores-
leção particular Cyrillo Hercules Florence. ca e Histórica ao Brasil". A edição, em três
36. índio desenhado do natural em volumes, limitou-se a duzentos exempla-
Camapuã. 12 de outubro de 1826. nan- res: o primeiro volume conté