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RESENHA

“ESBOÇO DE UMA TEORIA POLIFÔNICA DA ENUNCIAÇÃO”

Rosimar Regina Rodrigues de Oliveira UNICAMP/CAPES/UNEMAT

Neste capítulo o autor se propõe a contestar o postulado de que “cada enunciado possui um, e somente um autor”. Para tanto, parte do conceito de polifonia elaborado por Bakhtine na teoria literária, o qual reconhece em um texto a existência de “várias vozes que falam simultaneamente” sem que haja uma preponderante, e propõe que a teoria da polifonia (de Bakhtine) seja aplicada não a textos, mas a um enunciado isolado.

Ducrot apresenta uma pesquisa americana desenvolvida por Banfield (1979) a respeito do estilo indireto livre. A partir desse estudo a autora emprega o termo “sujeito de consciência” e apresenta determinadas exclusões que permitem dizer que “quando há um locutor este é necessariamente também o sujeito de consciência”, mantendo, desse modo, a unicidade do sujeito. Conforme Ducrot, Authier (1978) e Plinat (1975) discutiram esse estudo de Banfield e colocaram em dúvida os princípios apresentados pela autora. As discussões desses autores são relevantes para os estudos de Ducrot que se propõe, a partir de sua teoria da polifonia, criar um quadro constituído como uma extensão á lingüística, dos trabalhos de Bakhtine. É definida a disciplina na qual o autor desenvolve suas pesquisas, para tanto é comentada a ação humana realizada pela linguagem e apontada a questão do efeito produzido por certas palavras em determinadas circunstâncias como problema fundamental, porém esclarece que há outro problema, “propriamente lingüístico”, o de se considerar o que a fala, a partir do enunciado, faz. Para melhor compreensão dessa discussão o autor distingue o anunciado e a frase. Diferenciando desse par a enunciação definindo-a como o “acontecimento constituído pelo aparecimento do enunciado”, independente do sujeito/autor que o produz. São especificados também, a significação e o sentido correlacionando-os com a frase e o enunciado, respectivamente. O sentido é considerado uma descrição da enunciação, que “mostra como o enunciado assimila, em sua enunciação, a superposição

de diversas vozes”, e constitui o objeto da concepção polifônica do sentido. Para explanar o sentido são expostas três questões: a do ato ilocutório, a da argumentação e as relativas às causas da fala (prolongamentos argumentativos). Apresentadas as questões, é retomada a proposta de criticar a teoria da unicidade do sujeito, origem da enunciação. Para tanto são discutidas três propriedades do sujeito – produção física, realização dos atos ilocutórios e “a de ser designado em um enunciado pelas marcas da primeira pessoa”. São diferenciados o enunciador e o locutor de um mesmo enunciado. Em relação à descrição da enunciação enquanto constitutiva do sentido dos enunciados, o autor manifesta que “ela contém, ou pode conter, a atribuição á enunciação de um ou vários sujeitos que seriam sua origem” e que é relevante distinguir pelo menos dois desses “personagens”. São apresentados, então, enunciadores e locutores e expostas as atribuições de cada um. É abordada a noção de autoria, porém apenas para justificar a razão da não utilização da noção em relação à enunciação que, ao apresentar marcas de primeira pessoa é conferida a um locutor Por esse princípio é possível ocorrer, na enunciação atribuída a um locutor “uma enunciação atribuída a outro locutor”. Em relação a isto, é exposto o discurso relatado em estilo direto e, posteriormente o relato em estilo direto (RED), apresentando suas características. Desse modo, é apresentada uma distinção entre o locutor e o sujeito falante e, separada a noção de locutor em “locutor enquanto tal” (L) e o “locutor enquanto ser do mundo” (λ). Para apresentar as distinções entre esses locutores, além de exemplificar, são apontados autores como Le Guern, Declercg, Récanati. A segunda forma de polifonia é descrita abordando a noção de enunciador que Ducrot refere como “os sujeitos dos atos ilocutórios elementares”, cuja definição o autor expõe que é difícil introduzir nessa proposta de teoria de enunciação. Diante dessa dificuldade são apresentadas comparações com o teatro e, depois com o romance. Em relação ao teatro, o autor comenta que “o enunciador está para o locutor assim como a personagem está para o autor”. Quanto à teoria da narrativa, é citado Genette (1972) para o qual locutor e narrador são correspondentes, sendo que narrador se opõe a autor, assim como o locutor se opõe ao produtor do enunciado. Para mostrar a importância lingüística da noção de enunciador, é descrita a ironia, a partir de Sperber e Wilson, porém o autor apresenta uma versão própria a partir da distinção entre locutor e enunciadores. Para ilustrar sua concepção de ironia, Ducrot apresenta uma anedota citada por Fouquier.

Na seqüência é apresentado o fenômeno da negação (recorrendo à distinção do locutor e do enunciador) e retomando a descrição, que apresenta em Les Mots du Discours, de um enunciado declarativo negativo apresentando dois atos ilocutórios distintos para o mesmo enunciado. É comparado um enunciado negativo e um positivo e concluído que o enunciador tem uma presença e um estatuto diferente em cada um, mostrando a dessimetria entre os enunciados afirmativos e negativos. São retomadas distinções entre negação polifônica e negação descritiva, apresentadas em trabalhos anteriores do autor, e na seqüência apresentados três tipos de negação e observações a respeito de fenômenos de polaridade negativa; são estabelecidas relações e distinções entre a negação e a ironia, considerando ser problemático tomar um enunciado ao mesmo tempo como irônico e negativo. São apresentadas análises exemplificando e problematizando, considerando o locutor os enunciadores e entre outras, a possibilidade de subordinar enunciadores uns aos outros. O autor, a partir das distinções apresentadas acima expõe o problema dos atos de linguagem retomando, para exemplificar, a metáfora teatral relacionando-a à linguagem cotidiana. Esses atos são classificados como primitivos ou derivados pela assimilação do locutor e enunciadores ou pela identificação ao locutor. Partindo de Austin são comentados os atos chamados ilocutórios e continuada a explanação demonstrando a importância de todos esses atos para a distinção entre locutor e enunciador. Concluindo o “esboço de uma teoria polifônica da enunciação”, são abordados os fenômenos de pressuposição e suas relações com locutor e enunciadores; e retomando a metáfora teatral é abordada a função do locutor e a presença dos enunciadores. Ao longo de todo o texto Ducrot apresentou suas reflexões exemplificando-as minuciosamente, como forma de argumentação à sua proposta, e expôs passo a passo cada uma das formas de polifonia, sustentando sua posição teórica no processo de construção do seu “esboço”.

DUCROT, Oswald. In O dizer e o dito. Trad. Eduardo Guimarães. Campinas, SP:

Pontes, 1987. 161-222 pp.