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OBRAS POETICAS ....

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NOVA EDIÇÃO
Poemas didactieos traduzidos - Dra10as lradazidtl.
VOLUME III
LISBOA
PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITOU
Rua Augusta, 44 a 54
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1910
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OFFICINAS TYPOGRAPHiCA E DE ENCADERNAçlO
Ko'ridu a eleobioldade
DA
PARCERIA ANTONIO· MARIA PEREIRA
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Bteo A.,..., 44, 46 e 48, t. • e J. •
LISBOA
I
1
I
I
I
I
1
...


PROLOGO DO TRADUCTOR
A gloriosa reputação do abbade Delille, como litterato, ~
eomo poeta ; a estima geral, dada ao seu poema dos Jardiu,
-onde se encontram todo o atavio, toda a graça, e toda a phi-
losopbia, de que é capaz o assumpto, me incitou a versificai-o
-em vulgar, apurando n'isso o cabedal que possuo em poesia,
-cabedal muito inferior ao apreço, e acolheita, de que estou
-em divida com os meus compatriotas. O amor á gloria, e á
_gratidlo, talvez ainda criem na minha alma um ardor que a
fecunde, tornando-me digno do affecto
7
com que me honra o
publico ; e entretanto lhe apresento esta verslo, a mais con-
·cisa, a mais fiel, que pude ordenai-a, e em que só usei o cir-
-cumloquio nos logares, cuja traducçlo litteral se nlo compa·
decia, a meu vêr, com a elegancia, que deve reinar em todas
as composições poeticas.
750076


PROLOGO DO AUCTOR


Variat; pet;soas de grau.de Juerecilueuto escreveram en1 prosa
Acerca dos Jardins. O auctor d'este poema colheu d'ellas al-
8uns preceitos, e até descl"ipções. Em bastantes .passagens
teve a dita de encontrar-se com tão bons escriptores, porque
este poe1na foi começado autes que elles publicassem ·as _suas
obras. Confessa que dA ao prelo co1n extrema deseonfian9a.
uma compoMi<;ão n1uito esperada, e engraudecida de mais : a.
indulgt•ncia excessiva, dos que a ouvit·am, lhe agoura a seve-
.
ridadet dos que a lêrent.
Este poema, além d'isso, ten1 un1 gt·ave inconveniente, • de
ser didactieo. 1,al genero ó necessaria1nente um pouco frio, e
n•ais o deve parecer a uma nação, que lhe custa muito (como
se tenl observado repetidas vezes) a tolerar versos, en1 não
sendo para o tbea.tro, os que pintam as paixões,
ou a:; c.los homens. Poucas vessoas, digo mais, até pou-
litteratoô lêe1n Geo'l·gicas de Virgilio, e qu.asi todos os
que apreuderanl latim sabem ue cór o (jUarto eanto da Eneida.
No primeiro rlous Jloerua:s, dá o poeta a entender
que sente não lhe pe1·mittiretn os limites do. seu assumpto
cantar Jardins. De}Jois de haver luctado longamente com
as Jniudas, e um tanto iugrata:s particularidades da cultura.
geral dos carnpoti, a. modo que deseja repousar sobre mais ri-
.soohos objectos. :!\tias estreita do no de (pte tracta, vinga-se

OBRAS DB BOCAGB
d'esta subjeiçlo com un1 bello, e rapido esboço dos Jardins,
e com o pathetico episodio de um velho feliz no seu pequeno
campo, que elle mesmo cultiva, e enfeita.
O que o poeta romano sentia não poder executar, executott
o P. Rapin. Escreveu na lingua, e ás vezes no estylo de Vir-
gílio, um poetna em quatro cantos sobre os Jardins, que foi
mui applaudido, n'um tempo em que ainda se liam versos la-
tinos modernos. A sua obra não é despida de elegancia ; mas
quizera..:se que abundasse de precisão, e de 1nelhores episo-
dios.
De mais o plano do seu poen1a. não interessa; não tem va-
riedade. Um ca.nto é consagrado ás aguas, outro ás arvores,
outro ás flôres. Adivinha-se o comprido catalogo, e a enume-
ração tediosa, que mais pertence ao botanico que ao poeta;
e aquelle passo methodico, que assás prestaria n'um tracta.do
en1 prosa, é grande defeito n'uma composição poetica, ondf' o
espirito pede que o· levem Jlor caminhos um pouco desviados,
e lhe apresentem objectos que .. não espera.
Além d'isto, Rapin cantou Jardins do genero regular, e a
monotonia inherente á summa regularidade, passou do assum-
pto ao poema. A imaginação, naturalmente amiga da liber-
dade, ora. vae a custo pelos desenhos enviezados de um can-
teiro de flôres, ora 1norre no :fim de uma longa, e direita ala-
Por toda a parte lhe lembra con1 saurlades a formosura
um tanto debordenada, e a chistosa irregularidade da Natu-
reza.
Emfim, aquelle auctor não tractou a })arte mechanica
da jardinagem. 'rotalmente et;queceu a 1nais importante, a
que procura em em nossos sentitnentos a
origen1 do prazer, que nos causam as sceuas campestt·es, e os
attractivos da Natureza aperfeiçoados pela a.rte. Em summa,
.o8 Jardins são os do architecto ; os outros são os do phi-
losopho; os do pintor, os rlo poeta.
Este genero tem tnedrado por extre1no ha anno8
7
e se isto
é tam bem effeito da moda, demos-lhe graças. A arte dos jar-
dins, a que se poderia chamar luxo da architectura, parece
um dos entretenimentos mais convenientes, e talve$ um dos
mais virtuosos da gente rica. Como cultura, reconduz á. inno-
cencia das occupaç.ões campesinas ; como adorno apadrinha
sen1 risco a paixão dos dispendios, que acompanha as gran-
des fortunas : finaln1ente, esta arte tem para similhante classe
de homens o prestimo de parti('ipar, . ao mesmo
PBOLOQO DO AUCTOR 9
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tempo, gostos (1ue vogan1 nas cidades, e dos que existem
nos campos.
Este prazer dos particulares achou-se ligado á utilidade
-publica : fez com que os opulentos folgassem de babitar as
suas terras. O ouro, que sustentaria artifices do luxo, vae ali-
n1entar os cultivadores e a riqueza torna á sua verdadeira
fonte. ..Accresce a isto, que a cultura se enriqueceu com mui-
ta.s, e muitas plantas, ou arvores estrangeiras, aggregadas ás
producções do terreno, e isto vale certamente o mar-
more todo que perderam nossos jardins.
Feliz este poema se desparzir, ainda Inais, affeições tão
.simplices, e puras ! Porque, como o auctor d'este poen1a o
.disse em outra composição,
Quem dos o a)Jlor inspira aos
Tamben1, Virtudes, vosso a1nor lhe inspira,
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ARTE DE AFORMOSEAR AS PAJZAGENS
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POEMA
JYLR_ DELILLE
TRADUZIDO EH VERSO
Hic flumintt 11ota,.
Et (O·ntes scac1·os ('rigus captabis ..
· VIRG. Eclog. 1.
Entre os rios aqui, e as sacras fontes
Gosarás em repouso a sombra amena ..
f Do TTaductorJ.
CANTO I
Renasce a primaveru, influe, e animt\
J;.s aves, os Favonios, flôres, Mqsas.
Que novo á lyra os sons me pede ?
Ah ! Quando a terra despe antigos lutos
Nos campos, nas florestas, sobre os montes
Quando tudo se ri, tudo se inflamma
De amor, e de esperança, e de ventura,
Outro co'a phantasiã em Phebo ncceza,
Abra os fastos da Gloria aos grandes nomes,
N'um carro fulminante alce o triumpho;
Manche, ensanguente as mãos na taça horrivel
Do vingativo Atrêo: sorriu-se Flora,
Vou cantar ós Jardina, dizer qual arte
12 OBRAS Dle BOCAGE
loução, diSJ)õe, regula
a tt relva,· as sombras.
. 'O ·-vigor,: ti .. à ·entrelaçando
... ·Dás_.lfo; -eJlergia,
De ii' 9utr'hora, oh Musa,
As austeras liçoes amaciastes:
:Se' pôde o seu rival (setn que labios
A linguagem dos nu1nes desluzisse)
Âo laborioso arado unir o 1netro;
Ven1 mais fertil ornar, tnais rico assutnpto,
Assu1npto amavel, que tentou Virailio.
Mãos não lancemos de' atavio estranho;
Das minhas tnesrnas flôres vou c'roar-n1e:
Qual pura luz, que bella nuve1n doura,
A expressão tingirei na côr do objecto.
Arte innocente, que e1n 1ueus versos canto,
Origem teve nos ceruleos dias,
Nas primaveras do recente globo.
Apenas o hometn sub1nettêra os campos
A cultura efficaz, pôz 1nil desvelos
De viçosa porção no tracto, e mhuo;
Alinhou pam si com leis, e industria
Plantas selectas, escolhidas flôres.
De Alcino o luxo, o gosto, ainda rude
Punha a curto vergel rnodico enfeite;
Eis com arte tnaior, mais surnptuosa
Jardins nos ares Babylonia ostenta.
Os latinos heróes, de Marte os filhos,
Depois que Roma agrilhoava o Inundo,
Davam repouso a1neno á gloria, ao raio,
Em frescos hortos, que a victoria ornára.
Habitava os jardins ontr'hora o sabio,
Doctrinando os mortaes mais lêdo que hoje.
Quando a sabedoria elysios teve,
Ereis vós, dons do céo, talvez palacios?
Não: vós ereis um prado, um rio, um bosque,
De impertnrbavel paz ditoso abrigo,
Puras delicias, que a virtude anhéla.
Corra-se pois, que é tempo, o novo espaço:
Philippe, e o helio assumpto a voz me alentam.
Para aformosear simples terrenos
Não insulteis co'a pompa a Natureza;

POEMAS DIDACTICOS 'l,RADUZIDOS 13.
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Este emprego requer artista,
Parco en1 dispendios, na invenção profuso;
Jardim, menos fastoso que elegante,
Jardim com mais belleza que u.tavio,
Parece aos olhos meus um amplo quadro.
Sêde pintor: o campo, os seus n1atizes,
Os reflexos da luz, da" t1ombra as tnassas,
As estaçoes, e as horas, vatiando
O giro do anno, o circulo diurno;
Ricos esmaltes de cheirosos prados,
Dos outeiros o alegre, ·o -verde forro,
Agnns, boninas, arvores,
Eis os vossos pinceis, têns e côres.
Podeis crear: a natureza é vossa,
E doceis para vós os elétnentos.
Mas antes de plantar, an.tes que encete
Instrumento imprudente o seio á terra,
Para dar aos jardins mais linda fórma
. reflecti, sabei de que arte
Se imita, se arremeda a natureza ..
Não tendes vezes tnil em ermos sitios
De repente encontrado aquellas vistas,
Que as plantas, que os sentidos vos suspendem,
E que em meditnç<>es quietas,
Enlevam manso, e manso a phnnto.sia ?
Tudo o melhor senhoreae co'a mente,
Dos campos aprendei a ornar ·os campos.
· Logares, que subtil decora o gosto,
Olhae tambem: nos escolhidos quadros. -
Ainda ha que escolher; por vós se admire
De Chantilli magnifica elegancia,
Que de heróes en1 heróos, de edade a edade
Ganha novo osplendor. Belreil, a um tempo
Campestre, apparatoso, e tu que ainda
Ufano Chanteloup, te desvaneces
De teu grande senhor com o desteiTo;
Todos vós alternaes o bem dos olhos.
Qual pttrpureo botão, mimoso, e breve,
Timido precursor da quadra beJia,
O amavel Tivoli, de fórma estranha
Á França descobriu tenue modelo.
Montreuil as Graças desenharam rindo,. •
14 D.E BOCAGK
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Maupertuis, le Desert, cotn que alegria,
Auteuil, Rincy, Litnours, qna1n docemente
Nas vossas lindas, arejadas ruas
()lhos se e1nbebem, se extraviam passos!
Do grande Henrique a veneravel so1nbra
A1na ainda Na varra, e parecido
-<Jorntigo Trian.on, deusa, que o
Une a graça, o recreio á 1nagestade,
Se adorna para ti, por ti se adorna.
·Grato asylo d'nm príncipe adoravel,
cujo no1ne de apoucttda idéu
E indigno de ti; Ioga r ·vistoso,
Quando lhe devo a teu se.nhor, off'rece;
U n1_ placacido retiro, tun ocio ledo.
Betnfeitur de meus versos, de n1eos dias,
.Na eleição de atilados escriptores,
Etn jardirn, que do Pindo ns rosas vestem.
Inclue a Musa 1ninha, e brando a acolhe •
.Junto ao lyrio soberbo, e rnagestoRo
.Assitn cresce a violeta lnuuilde, e escura.
De illustres vates não illnstre socio,
Ah ! se coubera em auiiu cantar cotno elles,
Pintára os teus pintára o num e,.
·Qoe os habita, que os honra; o gosto, as artes,
As virt.udes, a gloria, os bens que o seguem,
·O ladêatn e1n ti. Logar formoso,
.Sê tu sua ventura. Eu se algn1n dia
.Findar, por graça d'elle, amena estancia,
.Mais beiJa a tornarei co'a bella imagem
.Do alto 1neo protector; quero que seja1n
Minhas primeiras flôres seu tributo.
Para o busto real cultivo, enlaço
Em virentes festoes o louro, o 1nyrto,.
'Tão caros aos Bourbons; e se o repouso
1
A liberdade, as sombras me
.Ao bemfazejo heróe te sagro, oh lyra.
Fallei d'esses logares deleitosos,
·Que a arte deve ianitar: convétn que falle
Dos escolhos, que a 1nesma evitar deve.
{) engenho imitador tamben1 se engana:
Não dê belleza ao chão, que o chão nAo queira;
.A paragem conheça antes de tudo,
. .-t

POEMAS DJDACTIOOS TRADUZIDOS 15
Do sitio adore o Genio, o Deus consulte:
Impunemente leis não se lhe aggravo.m.
Nos campos, todavia, a cada instan_te,
Menos audaz que extranho en1 phantasias,
Tudo altéra e confunde nrtista inerte,
E desnaturalisa, e perde t.udo;
Com absurda eleição n1il graças liga:
Encantava1n na ltalin, na F1·a.nça enjôam.
O que o terreno teu sem custo adopte
Reconbece, e depois te apossa d'elle.
Isto ainda é n1elhor que a Natureza,
Mas isto mesruo é ella, isto é pp,rfeit.o
Quadro brilhante, que não tern ntodelo.
Dos Berghe1ns, dos Poussins tal foi a escolh-a,
De ambos estuda as producçoes divinas;
E o muito, qoe o pincel aos campos deve,
Arte cultivadora, agradecida,
Nos jardins restitua á Nato reza.
Os terrenos se examinetn,
E que logar se apraz das que traças.
Houve te1npo fatal etn que a arte infensa,
Guerra aos Jnais bellos sitios declarando,
Enchendo os valles, arrazando os montes,
Fortnou de chão gentil planicie ingrata,
Hoje, rural tyranno, outro artificio
Quer, por contrario abuso,- montanhas,
V alies quer profundar. Longe os excessos,
Longe as lidas, e ardís: tudo é baldado
Contra int.ractaveis, repugnantes se1·roa;
E sobre terra mont.inho hutnilde
c;:_
Cuida ser pittoresco, e move a riso.
Queres a t.eu suor logar propicio?
Foge as mui desiguaes, os muito planos
Catnpos, e serras. Eu tomára os sitios
Onde setn altivez fôsse erninente
A rico vnlle matizado outeiro.
Não tendo insipidez, lá tetn brandura
O solo complacente, é alto, é secco,
Esteril não, não rispido: caminhas;
Obedece o horisonte, ergue-se a terra,
Ou a terra se abate, aperta, estende:
Luzem de passo a passo encantos nov01.
16 OBHAH DB BOOAGB
Dos gabinetes no sileqcio triste,
De compa,sso na dextra, embora ordene
Artifice vulgar a symetria
D'enfadoso jardim, confie
O geometrico plano ao papel frio.
Tu vae vêr em si propria a Natureza.
O lapis m3neando, ali copia
Este aspecto, estes longes, esta altura,
Meios advinha, obstaculos presente:
Só a difliculdade é lnãe de assombros,
E o chão de menos graça havel·a póde.
É nu? Florestas a nudez lhe amparem.
É coberto ? Os machados vão despil-o.
Humido ? Em lagos de crystal pomposo,
Em ribeiros fecundos,
Se converta, se aclare essa agua impura.
Por trabalho feliz corrige a um tetnpo
Melhora as aguas, o terreno, 08 ares:
É árido talvez? Procura, sonda, ·
Torna aintla a sondar, não te enfasties:
Póde ser que, em trair-se vagarosa,
· A agua de rebentar esteja a ponto.
Tal de um tenaz esforço eu mesmo anciado,
Morna individuação tnaldigo, entejo:
Mas de esteril objecto aborrecido
Idéa graciosa eis salta:
O verso resusc1ta, e Jacd corre.
Inda mais dôces que estes ha cuidados,
Arte existe ioda mais encantadora.
Falle-se ao coração, não basta aos olhos,
As invi8iveis relações conheces
D'esses corpos sem alma, e dos que sentem?
Das aguas, prados, seitas tens ouvido
A calada eloqnencia, a voz occulta ?
Todos estes effeitos deves dar-nos.
Do alegre ao melancolico, e do nobre
Ao engraçado, os transitos sem conto
Sempre me aprazem, me captivam sempre.
Une, 1imples, e grande, forte, e brando.
Todo o matiz, que á. todo o gosto agrade.
O pintor enriqueça ali a idéa,
A inspiração turbe o poeta.

POEMAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS 17
-
Ali remansos o snbio gose,
}lemorias o ditoso ali disfructe,
De lagrimas se farte o tniserando.
Mas a audacia é comtnum, e o siso é raro,
ás vezes se crê a extravagancia.
Evita que os effeitos, tnal unidos,
De incoherentes imagens formem cáhos;
Vê que as contradic«:.ões não são contrastes.
Estes paineis de natural pintura ·
Requerem longo espaço; en1 quadro estreito •
Não vás aprisionar montanhas, bosques,
N etn lagos, nern ribeiras. E' costume
.Zombar d'esses jardins, parodia absurda
Dos. Fasgos, que a atrevida Na tu reza
No seu grande espectaculo derrama:
.Jardins, em que arte rude, e inverosimil
Um paiz todo n'uma geira encerra.
· En1 vez d'este tnontão confuso, inerte,
Varia objectos, ou llie altera a face.
J.1erto, longe, ptttentes, qunsi occultos,
Revezem todos mil di vistas.
pos effeitos seguintes a incerteza
Grato desasocego aos olhos deixe,
Ornamentos o gosto emfim colloque,
ln1previstos jamais em demasia,
Játnais em detnasia annunciadQs.
·Presta sobre maneira o movimento;
Setu a doce magia, a elle annexa,
Em lethargo recáe a ociosa.
Sem elle, por teus campos enfàdonhos
Em giro casual vão setnpre os
Citarei outra vez altos pintores?
Lá difFunde o pincel pródigo, e fertil
Moveis objectos sobre o panno itnntovel:
O rio foge, o vento encurva os ramos,
Globos de fumo das aldêas sobem,
Os gados, os pastores brincam, dançam.
Cuida en1 te apoderar d'este segredo,
Dispõe sem parcilnonia arbustos dôces,
Arvores brandas, cuja affavel
Das virações ao halito obedece.
Sejam qnaes forem, tu, cultor, venera
VOL. 111
18 ORRAH DB BOCAGE
Tolhe que o ferro a Natureza ultraje;
Elia co'a tnestra mão como desenha
D' esta parte os carvalhos, d 'esta os obnos !
Olha como do tronco até aos ramos,
Dos ratnos té ás folha8 desparzido
Da tnãe universal benigno influxo;
Vae das undulaçoes dar-lhe a molleza.
Porém golpes crueis. . • vedae tal crime,
Correi, nymphas da selva ..• ah I Q'é debalde,
·O córte cercou-lhe a gala, o viço.
Já na cópa vivaz não ouço ao longe
Correr os Aquilões, bramir na rama,
· Affastar-se, expirar. Tácitos, frios,
Mortos do ferro os vegetaveis
D'elle simelhaot rispidez immovel.
Ás plantas deixa, pois, tremor suave
Nos quadros teus, do movimento amigoe;
Faze fugir, ferver, saltar as aguas.
Vês estes v alies, solidões, florestas?
Por varios sitios de diversos gados •
A nédia multidão se envie, e alongue.
vejo a cabrinha roedora
Pender do cume de remotas penhas:
Aqui mil cordf!irinhos melindrosos
Soltam queixumes, que de serro a serro
· V ae écco em molles sons amiudando.
N'estes, ·que as aguas da collina sorvem
Prados lustrosos, sobre as mãos se estende,
E ruminando jaz o boi pezado,
Em quanto generoso, altivo, accezo,
O filho do Tridente, o mareio bruto
Ostenta, vicejando, em pingues pastos,
O indomito vigor, e o brio agreste.
Quanto me atráe, me regosija, quanto,
A audaz agilidade, o gesto activo I
Ou elle, usado ás fluviaes correntes,
Sobre ellas se arremesse, estremecendo,
E luctando depois, c'os pés sacuda
As ondas, que murmuram, que branqueam;
Ou atravez dos prados salte, e
Ou, longa crina errante aos ventos dada,
Brotando os olhos fogo, as ventas fumo,
POEMAS DJDACTICOS TRADUZIDOS 19
Bello de orgulho, e a1nor, vôe ás amadns.
Sumiu· se já, e a vista ainda o segue. .
O thesouro exhaurindo á Natureza,
Assiln terrenos, vistas, e agua, e so1nbras
Dão ás paizagens movirnento, e vida.
, Porém se o tnovhnento encanta os olhos,
De ·liberdade um ar não menos queretn.
O limite aos jardins fique indeciso;
O n co1n arte se escouda, ou se
Não ha mais que esperar? \
7
ôa o feitiço.
Com certo dissabor o fi1n se tór.a ·
De uana estancia aprnzivel: cedo enfada,
E irrita finalmente; além dos muros,.
Itnportuna barreirn, inda se ideatn
!.Jogares mais gentis, mais attracti vos,
E alma inquieta desencanta os
Quando nossos avós, á guerra affeitos,
Seus campos e1n castellos convertiam,
Cada qual em tnunida, enorme torre
Preso vivia por viver seguro,
Mas hoje de que serven1 taes n1uralhas
Que o temor inventou, Inantent o orgulho ?
A estes, que prendendo outr'hora a vista,
A vista duramente entresteciam,
Prefere o gosto verdejantes muros,
Muros tecidos de espinhoso enredo,
}luros, por onde .a mão, tremendo, colhe
A rosa inculta, a amóra ensanguentn.da.
Mas jardim limitado inda me uncêa.
Surja-se emfim de urn circulo tão breve
A genero mnis vasto, e rnais formoso,
De que hoje Ermenonville é só modelo.·
Os jardins para si chamavn1n catnpos,
Vão n'elles os jardins entrar agora.
Do cinto d'esses montes, d'onde os olhos
.Paizagem dilatada abraçatn, ntedem,
A tnadre Natureza ao Genio disse:
«Os thesouros, que vês, são teus: envoltos
rude pompa, na opulencia bruta, -
Os quadros meus tua destreza imploram.>>
Elia diz, elle vôa: em toda a parte
Esquadrinha esta massa, onde repousam,
20 . OBRAS DE BOCAGE
Onde dortnindo estão bellezas cento.
Do valle á serra, da floresta ao prado
Vae retocando os quadros, que vnría.
Dos olhos a saber, une, e desune,
lllurnina, escurece, occultn, ou tuostra:
Não destróe, não compõe, corrige, apura,
O esboço aperfeiçôa á Natureza.
Carrancudo terror já despem rochas,
O bosque alegre adoça, encurta as sombras;
Ia pertler·se um rio: eis o encatninham;
De utn lago se apodera a n1ão geitosa, ·
De cristalina fonte se enriquece.
Quer, e veredas n1il Fubito correm
A de1nandar, cingir, prender os n1e1n lJros,
Por aqui, por uli soltos, dispersos;
Os membros, que que attraídos
Da união, do nó, que os junta,
Fortnatn de cen1 porções un1 todo insigne.
Talvez, campestre artifice, te espantem
Estes grandes trabalhos. Entra os nossos
Idosos parques: de urna vez contempla
A puros vãos, dispendiosos nadas;
As estacadas vê, regos, e
J>reço tnenor do que a tninucias coube
Para ornar o que um dia aprnz sómente,
I>óde afortnosear utn ca1npo imrnenso.
Fallaz, e semsabor traagnificenci:t,
Cáe ante esta arte, e por milagre d'ella
A cara patria minha se transforme
Toda em vasto n'utn Eden novo!
Se não tentar esta carreira,
Ao menos, franqueando o teu circuito,
De aspectos opulentos o engrandece.
De um valle, um serro, uns agradaveis longes
Ajunta posse alhêa á posse tua:
Rege co'a vista, pelos olhos gosa.
Os varios, favoraveis accidentes,
Cotn que innumeros catnpos se distinguem,
Une principahi1ente a teu8 plantios.
Aqui jaz um logar, que cingen: bosques,
Acolá torreoes cidades c'roatn,
E a grimpa azul, ferindo ao longe os olhos,
,

POEMAS DIDACTiCOS 'l'RADUZIDOS 21
V ae sumir pelos céos o agudo extremo.
Um rio o1nittirei, e ns margens suas?
Apoz fogazes vélas corre a vista,
Ilhas ás vezes saetn do vitreo
Ponte arqueada outr'hora o furta nos olhos.
Se os màres ·espaçosos descortinas, _
Off'rece, mas varia a grave scena.
}!ai se divise aqui por en • as folhas,
Uu:a abóbada alé1n, qual no re1nute
De tudo extenso, aos olhos o npresente
Em fundo de odoríferas latadaR:
Nas voltas de floi·ente bosquesin.ho
Aqui se encontra o mar, ali se perde:
Eis subito apparece etn toda a sua
Fervente, rugidora itnn1ensidnde.
Folgue a attenção n'estes 8Cn.bln.ntes varios;
llns cotn mesquinhas rnãos (ctunpre que o dign)
Os homens, natureza, o tempo, as artes
Nos cercam de tão ricos ncciden tes •
.
Oh planicies da Grecia! Ausonios carnpos I
divinaes, in8piradores, ·
Sernpre caros ao genio: Ah! quantas vezes
Embebido n 'Lun 1nagico horisonte,
O pintor v_ê, se infla nuna, e ton1a o lapis,
E debuxa esses longes, essas ilhas,
Esse pégo, esses po-rtos, Inontes,
Torrados de vulcoes, e já fecundos;
·As lavns d'elles, que an1eaçarn, fervetn,
Pala cios, que en1 rui nas de outros su rgen1,
Utn novo tnundo, que do velho assGtna
N'estes de terra, e n1ar longos tormentos.
Ah ! Eu ainda não vi essa risonha,
Essa encantada estancia, onde tnil vezes
Soôu do Mantuano a voz divina;
}las, pelo vate, pelo vate o juro,
Hei de, Ape11ino, transcender tens cumes,
E cheio do seu non: e, e de seus verso8,
Lê l-os n 'aq uelles arnorosos si tios,
Sitios, cópia do céo, que os inspiraram.
De encantadoras tnargens natnorado,
Por fóra ingratos tens sómente
Em vez de· aspectos, que a alma?
22 OBRAS DE BOOAGE
De extranha vista, que atedia o gosto,
Vinguem-te objectos de 1nais bella escolha.
Aprende a deleitar-te etn teu recinto,
Sê o emblema do sabio independente,
. Que entra em si tuesmo, e que se apraz comsigo;
N'esse asylo fiel noR entranhemos. ·
Todavia e1n logares onde a terra
De aspectos variados mais abunde,
Os thesouros da vista é ben1 qoe poupes,
E seja leve giro o custo d 'elles.
A arte os prometta, os olhos os esperetn;
Dá quem promette, queru espera gosa.
Releva que enfeitices, não que assombres.
Entre 1ninhas lições tambetn quizera
Duas artes de effeitos encontrados:
Utna os olhos adverte, outra os saltêa.
Mas antes de dictar preceitos novos,
Dons generos, ba tempo ému]os arnbos,
Disputam nossos votos. [J m presenta
De regular desenho a ordern grave,
.Aos campos dá bellezas que ignoravatn,
De pompa desusada os ntavía,
E ás arvores põe leis, poe freio ás ondas;
Brilha entre escravos, déspotn orgulhoso:
E' mais etn Jnagestade, etn riso é menos.
Da Natureza respeitoso a1nunte,
Q· outro lhe ajusta COlnedido enfeite,
Tracta benignamente os feiticeiros
Caprichos seos, o seu desleixo nobre,
O passo irregular, e extráe com arte
Lindezas da desordetn, té do acaso.
Cada qual tetn seu jus, nenhutn se exclua;
Entre Kent, e le Notre eu não decido.
Ambos tetn leis, tetn graças; um creou-se
Para grandes, e reis: oh reis ! oh grandes,
Sois á magnificencia condemnados.
Em torno a vós o esforço, o extremo, o apuro
De alto poder se espertt; ali qnere1nos
Que em prodígios o luxo, o gosto, as artes
Excitem pasmos, etnbriaguetn vistas.
Rebelde a Natureza á Industria cede;
Mas deve grau triumpho honrar a Industria;
.
POBMAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS
Ella em seu esplendor tem seus direitos,
usurpadora, e lhe compete
A força de grandeza obter desculpa.
pois, os jardins desengenhosos,
Insulsa estancia, de que o dono insulso
As arvores garridas fôfo exalta,
()s pequenos salões bem decotados,
A extrema symetria escrupulosa,
Passeios, onde nunca solitaria
Ala1neda não ha, que irrnã não tenha;
Ca1ninhos desgostosos, enjoados
Da obediencia ao cordel, os seus canteiros
Bordados, e os seus tenues fios de agua;
Das arvores algumas torneadas ·
Etn vasos, em pyrarnides, em globos,
E alçados bem na base os pastorinhos,
Gabe o seu luxo pobre: eu anteponho
Um campo bruto a seu jardim tristonho.
Distan_te minintos portentos,
Segue meu vôo á patria dos prestigios.
Vê Versailles, Marly, pomposos, ledos,
'Ünde Luiz, e a Natureza, e a Arte
Etn tanta cópia desparzira1n graça8.
Que afouto resplandece ali o engenho !
Ali tudo é grandeza, é tudo encanto,
São de Alcina os jardins, de Annida os paços,
Antes os de urn heróe, que inda procura
Vencer, domar obstaculos, snblilne
· Etn seu retiro, em seu repouso e sempre
CtlJninha, de tnilagres circurndado.
Aquellas agu·as vês, a terra, os bosques?
Submettidos tatnbem, seu jugo adoram.
Das arvores á verde architectura
Olha com que elegancia estão casados
De fórma singular palacios daze !
Vê bronzes, que respírarn, vê correntes
Que, soltas da repreza, esbravejando,
E1n grossos borbotões de fôfa espuma
Cáeru, e se estenden1 por canaes soberbos;
Em lustrosa espadana alétn se espalham,
Em pavêas brilhantes cá se elevan1,
E nos benignos ares incendidas
23
.

24 OBRAS DE BOCAGE
De um sol imn1aculndo, eis chovem gotas
Côr de ouro. de saphira, e de estneralda.
Selvas, por onde absorto me extravío
Os Sátyros, os Faunos vos povoam,
vós Diana influe, e Cytherén;
E' cada bosquesinho em vós un1 templo,
Cada marmore utn deu8. Luiz, folgando
Do pezo n1arcial, do horror da guerra,
Como que n'esta, a Jove idonea e8tancia,
Convida todo o Oly1npo a seus
N'estes grandes effeitos é que ilnporta
Que ·a arte se esrnere, avulto, o brilhe, e
Facilmente porétn o asson1bro pézn.
Louvo o orador, que erguidos pensamentos
Na luz, na pompa, na cadencia envolve;
Mas é' curto praze:r, e o deixo, e corro
A escutar corações na voz de amigos;
1Yiarn1ores, bronze8, que alnrdôa o luxo,·
Arte ostentosa etn breve os olhos canca .

Mas as correntes, o arvoredo, as sombras,
Este luxo innocente, ah ! não fatiga,
Não fatiga jámais. Deus znesmo nos hon1ens
Traçou este modelo. Attenta en1 Milton:
Quando essa eterna n1ão, que rege tudo,
Aos primeiros mortaes gunridu oprestn,
Regulares caminhos abre acaso,
Talvez captiva na carreira ns Lndas?
De in1proprias, de forçadas vestiduras
Cobre a infancia do n1undo, a prirnavera
Recemnascida? Não, sem arte nlgutna,
E sem constrangimento, a Natureza
Estreou, exl1auriu delicias puras,
Delicias puras, que nem hn na idéa.
O mixto amavel de planicie, e tnonte,
Livres, e mollernente errando as aguas,
Veredas tortuosas, e indecisas,
Gratas desordens, novidades gratas,
Aspectos, onde os olhos mnJ sabiam
Escolher, preferir, tudo alongavu,
Entretinha o prazer na variedade.
Sobre viçoso esmalte avelludado
Mil arvores, mil plantas, mil a.rbustos,

POEMAS DIDAC'l'ICOS TRADUZIDOS 25-
D'estes logares ondeante adorno,
Iman da vistn, do sabor, e olfato,
En1 grupos elegantes, Inovediços,
· · natura], dispersa negligencio,
Já se fugiam, já se avisinhavau1.
Seu brando movimento uo longe ás V(\zes
J nopinada scena aos olhos dava,
Ou com pendor gentil curvando a rama,
Aos passos vinhurn pôr suave estorvo;
Ou sobre as frontes etn pendiam,
Ou, na passugem, lh6 entornavam flores.
I.Jindos bosques direi de tenras plnntus,
Em latadas, e abóbadas trn.vando
·Troncos florentes, e florentes braços?
Lá de Íinaginnções, queridas, ternus,
Cheios à mente, o coração, e os olhos,
Deu Eva ao helio a1nante a n1ão mimosa,
E córc u como a Aurora ás portas de ouro.
A natureza toda os afagava.
O céo co'n luz, co1n seu murrnttrio as ondns;
Tremendo a terra lhes sentia os gostos;
Favonio aos éccos os suspiros dava;
O arvoredo rugia, e, curva a rosa
Cedia ao toro seus perfumes todos.
Oh ventura ineffavel, par trnnquillo!
Feliz que1n·, corno vós, nos seus atna .. dos,
Bonançosos jardins, longe dos tnales
Que a soberba atorn!entarn, vive rico
De flôres, fructos, innocencin, e gosto !
A 1yra, que os rochedos, que as florestas
Ao Rhodope attraía, oh se eu tivesse!
Elia fal1ára, e subito arvoredos
Sobre as paizagens lançarinrn sombras;
A laranjeira, o til, carvalhos, eedros
Viriam nos meus campos collocar-se ·
Em pasmosa cadencia, em ordetn bella:
26 OBRAS DE BOOAGB
Mas perdeu a har1nonia os sens milagres,
·A lyru. já não reina, n penha é surda,
A arvore immovel ficu aos sons n1ais gratos;
Dons magicos ha só: trabalho, e arte.
Aprende, pois, que industria, e que desvélo
Prestam mimo, ou riqueza ás varias
Pela ridente cópa, a flôr, e o frncto
A arvore é dos jardins pritneiro ornato.
Para agradar, quantas figuras tórna,
Quantas figuras I Acolá se est.enden1
Pon1posamente seus informes braços;
Brando, e ligeiro alén1 se eleva o tronco,
Aqui lhe adrniro, lhe namóro a graça,
A 1nagestade alli. Roçada apenas,
Da menor viração, lhe a rama,
Ou· contra os furacoes arrebatados
Firrna o corpo nodoso, a rija fronte;
Dura, ou molle, se inclina, ou se levanta,
dos vegetaes, a cada instante
Muda o feitio, a côr, -rerdura, e fructos
Para dar novo brilho á Natureza.
os thesouros teu8, oh arte, e o gosto
:Prohibe que sem ordetn se dispendam.
Das varias plantas a extensão, e a fórma
Se off''rece aos olhos e1n aspectos varios.
Ora selva profunda, incultu, e negra
Dcrra1na sombra irnmensa, ora apparece
Bosque risonho de arvores forrnosas.
Etn ventilados can1pos Inais ao longe
Os olhos chatnarn, a ntten<:ão dominam
Distribuídos, primorosos grupos.
na propria louçania,
Só, n'outra parte, uma arvore
Só ella exorna o chão. Tal, se é possivel
Que a paz dos catnpos assimelhe a guerra,
Cerrados batalhoes, dispersas turmas,
N urnero, e forças ante nós ostentam;
E altivo do seu nome, e sustentado
Na sua intrepidez, á frente d 'e1les
Utn só heróe se e todos vale.
Di versas plantaçoes têm leis diversas.
Nos jardins do artificio em outros tempos
POEMAS DIDAOTICOS THADUZIDOS 27
Olhava o luxo com desdem, cotn tédio
As isoladas arvores, e agora
Aprazem nos jardins da natureza.
. Por capricho feliz, sisudo acaso,
Estas desproporções tem attractivos,
Difiratn na distancia, aspecto, e fórma,
:Sempre a grandeza, ao tnenos a elegancia,
Distingua a planta, ou e lia, envergonhada,
I>or entre a multidão desnppareçn. .
Mas se um carvalho, ou plátano longevo,
·Patriarcha dos bosques, ergue a fronte
Sombria, veneravel, toda a tribu
Disposta en1 torno, com respeito o ésquive,
·Lhe faça corte. Agradará d'est'arte
A arvore, que isolada o campo adorna.
Com 1nais escolha ainda, e cotn mais
.Os grupos te darão prestantes quadros.
De arvores mais, ou 1nenos vigorosas,
Etn numero qualquer, pequeno, ou grande
Fórma-lhe a 1nassa espessa, ou leves tufos:
Este povo de irtnãos apraz ao longe,
Podes por elles varia·r desenhos;
<Jom. se upproximam, se removem,
Se afastam, se reunetn
E cotn elles tamben1 ns paizagens
.Se .dobra, ou se desdobra o véo ·das
Formararn-se teus grt?pos: é já ten1 po
Qoe a um tanto de arte os bosques se habituern.
Bosques augustos! venerandos!
Eu vos acato, eu vos snúdo: ns vossas
Poeticas abobadas não ouvem
Já do bardo . feroz o horrivel canto;
Um delirio mais dôce em vós habita,
Vossas grutas ainda en1 Yerso instroetn.
Ermos antigos, tnagestosas sombras,
Vós inspiraes os meus: a h ! da e que eu possa
Com respeitosa mão tocar-vos hoje,
E que, sem aformosêe:
De vós aprender quero a adereçar-vos.
Arvoredos expôr-se nos olhos poôem
Em milhares de aspectos. D'este lado
Pressos troncos as sombras lhe cnrregnem:
28 OBRAS DE BOCAGE
------ -----------
Alegre-se acolá de luz escassa
A redolente estancia, travetn n'elln.
Con1bate deleitoso a noute, e o dia:
Mais além, signalando o chão co'as folhas,
Sobre os claros dispersas trem:un plantas:
Porque, utnas para us ontrus fluctuando,
·E sem ousar tocar-se, no nfesmo tempo
Pareça que se fogern, que se busca1n.
O bosque assirn por ti perde a aspereza;
Mas seu grave caracter não dosn1anchcs ;
Com miudos objectos, n1ui
Não se interrotnpa, não se altere o todo.
Um seja simples, grande, e toda a po1npa
Cotn alguma rudez a arte lhe deixe
Apresenta esses troncos destroçados ;
Quero ver, e seguir negras torrentes,
· Pelas quebradas concavns fervendo.
D'agua, do te1npo, do ar tnnntêtn vestigios ;
Venera do rochedo os an1eaços,
Deixa-o pender, e en1fim tudo respire
Sivestre, vigorosn fortnosuru
. Sobre o terreno tnagestoso. Agr:1da
Assim de utn bosque a rustica nobreza.
Com menor tnais brandura
Um bosquesinho off'rece quadros:
Quer bellos sitios, e cóntornos bellos ;
Foge, t.crna, etn rodeios vue perder-se ;
Entre flores estende aguas serenas.
E cuido que indu n'elle, etnba·ingado
De um extasis suave, etn ocio puro,
As lições do prazet· dieta Epicuro.
Mas não basta que e1n selvn, ou bosquesinho
Haja riqueza ou ou bruta,
Cumpre ornar cou1 primor seus
Não vás, symetrisando-lhe os lirnites,
Corn recendentes n1uros occultar-nos
Dos bosques as innumeras fatnilias.
Ver quero, penetrando o centro agreste,
Crescer a un1 tetnpo ns urvores diversas,
De vigor juvenil utuas brilhantes,
()utras todas decrépitas, nodósas,
Estas 'rasteiras, languidas, e aquelhts,

POEMAS DIDACTICOS TUADUZIDOS 29
Tyrannos das florestas, esgotando
Da substancia o tributo a seus vassallos:
.Scena em que a idéa vê com gosto in1agens
Das edades, da vida, e dos costumes.
A llar d'estes efteitos, que valia
'Terão verdes reparos,· cttia fórma
Entristece, importuna, afHige os olhos,
},órma, quA é setnpre egual, nunca inesperada?
{)h delicias da Yista I Oh variedade !
Acode, vem romper nível insulRo,
Triste esquadro, e cordel fastidioso.
De matiz acertado, interessante
As estremas dos bosques se guarneçam ;
E' a uniforn1idade ingrata aos olhos ;
Da que vêem nos jardins ·elles se enfadam,
A' sua extremidade elles se avançam,
Folgam de discorrer a inopinada
Fórma, que lustra nos lirnites varios.
E IH giros mil brincando a vista errante.
On com elles se entranha, ou sáe com elles,
E nos diversos, florescentes qundros
De distancia em distancia alegre pousa.
O bo8que se engrandece, e a cada passo
Seus rodeios varía, e seus encantos.
A fórma, pois, se lhe desenhe, e logo
A's arvores se escolham, a que o gosto
Prescreve o sacrificio ; m ~ s sê tarde,
Condemna devaga.r, condemna a custo:
Antes de executar· se a lei severa,
A h !'·vê que manso, e manso as cria o tempo,
E altêa manso, e manso; que impossível
E' a todo o ouro teu re1nir-lhe as sombras,
E que já lhe de,·este um fresco amparo.
Durq possuidor, com tudo, ás vezes,
E sem necessidade, e sem remorso,
Aos golpes do machado as abandona.
Eis sobre o seio da indignada terra
As miseras baquêam, seccam, morrem:
Para sempre d'ali com magoa vôam
Deces meditações, cautos amores.
Ah I Por estes sagrados arvoredos,
Que aos bailes pastoris prestavam sombra,
ao OBRAS DE BOCAGE ·
Por estas densas comas, que abrigaram
Vossos avós, tende attenção, profitnos,
C'os troncos religiosos. Já que os évos
N'elles a robustez ioda consentetn,
Não lhe affronteis a ancianidade augusta.
Tem de· raiar, te1n de raiar em breve
O dia em que estes bosques destnaiados,
Para ceder o imperio a tenras plantas,
Da excelsa fronte, succumbindo no ferró,
V.erão no pó n1urchar· se a honro antiga.
Oh Versailles I Oh dôr! Oh yós florestas,
De celeste apparencin.! Maravilhas,
Que fez um grande rei, Lenotre, e os annos!
Eis sôa o córte; terrno é ·vindo.
Arvpres, cuja andacia ás nuvens iu,
Feridas na raiz, no ar balançando
Suas cópas lonçnns, que abala o ferro,
Já dão ruidosa quéda, e já. seus troncos
Vão alastrando ao longe esses passeios,
Que de frescas abobadas cubrian1
Com seus estendidos braços.
O estrago se atreveu aos arvoredos,
Cuja gloriosa froute a fronte heroica
De Luis, o magnanimo, assombrava I
Destruiratn-se bosques, onde as artes,
}!ais suaves conquistas celebrando,
Multiplica festivaes prazeres!
Amor, que é feito do encantado abrigo,
Que oüviu de 1\foRtespan gemer o orgulho?
Que é do retiro, onde tão n1eiga, e bella,
Ao de ouvil-a attruído, absorto amante
La V aliere exprimiu segredos ternos
Rendida suspirou, sern crer-se amada ?
Tudo cáe, tudo acaba ; ao sorn terrível
D'esta destruição, não vês, não sentes
Alígero tropel fugir medroso?
Este volátil povo, alegre, ufano
De habitação tão bella, e que entoava
Dos monarchas no asylo os seus amores,
Com dôr se ausenta dos saudosos lares.
Deuses, de que estes porticos honrara
Estretnado cinzel, deuses, vestidos
'
POEMAS DIDAOTIOOS 1'BADUZIDOS 31
De verdes, molles véos, ainda ha pouco,
Pela perdida sombra estão carpindo,
Mostram-se da nudez envergonhados.;
E, receando os olhos, V enus mestna,
V enus assombra de se vêr despida.
Appressae-vos, crescei, mimosas plantas,
Tornae· a povoar a estancia cara I
Arvores setnimortas, consolae-vos!
Vós, testemunhas da fraqueza humana,
De Corneille, e Turenna os fados vistes,
Vistes morrer o heróe, 1norrer ·o vate:
Ao menos, já contaes cem primaveras,
E os nossos dias de tnais luz, mais gloria
Ah ! voam logo, e para sen1pre voam.
Feliz d'aquelle, que possue um bosque
Formado pelo tempo! Mas ditoso
'fambem quem. para si pôde !
Estas, que vão rnedrando, arvores bella_s,
En. fni o que as plantou (diz como Cyro):
Tu, pois, se inda dispôr das tuas podes,
Teme que antes de tetnpo ellas
Assim como o pintor que, demorando
Indiscreto pincel na mão sabida,
Longamente co'a 'idéa esboycJ. os quadros:
Tu dos desenhos teus medita a ordem;
O valor, a efficncia dos aspectos,
E do9 si tios conhe·ce; e o attractivo
D<.·S bosques nas collinas pendurados,
E a· gala dos que em plano a sombra estendorn
Como as amigas fórmas, como as côres
Ainigas, te é proveito conheceres
As adversas tambetn. O freixo altivo,
Arretnessando ao ar comprida rama,
O inclin_ado salgueiro uborrecera:
Do álamo oppOem-se o verde ao do carvalho;
Mas taes odios temperam-se com arte:
Elege por feliz intercessora
Uma arvore mean, que· os concilin.
sorte Vernet, com maga tinta
De duas oôres a discordia extingue.
Conhece, pois, o emprego, a serventia
Das diff'rentes verdurus, ou brilhantes;
i
'
11
I i
I
'
j
.
;
OBRAS DE BOCAGE
----------------------------
On sem lustre, mais 1nortas, ou mais vivas.
Com taes alteraçoes, con1 taes tnatizes
No seio das paizagcns se Yariant
Formosarnente as sotnbras, se produzem
Effeitos ora dôces, e ora. fortes,
Grandes contrastes, ou
Observa-as tnaiorrnente quandú o outono
Perto de vêl-a tnurcha enfeita a c'ron:
Que pompa! Que esplendor I Que '"ariedade I
A côr alaranjada, a côr purpuren,
A opnlica viveza, a do encnrnado
Ostentação. de seus thesonros fazern,
Ai! Todo este esplendor lhe agoqra a quéda!
Eis o fado commun1! Depressa us
lião de espalhar pelos profundos v alies
Os despojos salváticos: a folha
Cuíndo, já distráe de ern quando
O solitario pen_sador; tnas estas
Mesmas ruinas para mim são p:ratas;
Ali, se fundas queixas nutro n 'alma,
Ou af:sanhar-me a chaga vem memorias,
Gosto de misturar; de vêr conforme
O luto meu da Natureza ao luto.
Dos seccos bosques, dos raminhos murchos
Me apraz pizar fragmentos, só, e errante.
Dias de eo1briaguez, e de loucura,
Os mentirosos dias já voaran1; '
'ferna melancolia, a ti 1ne entrego,
Ven1, mas não de atras nuvens carregada,
Onde se envolve a tenebrosa angustia:
Por entre véo ligeiro a vista branda
Dirige á terra, aos céos, como no outono
Os vapores traspassa um tibio dia:
Traze, oh dos vates, dos amantes socia,
Rereno o Fosto, os olhos pensativos,
E a deleitosas lagrimas propensos.
Mas em quanto n1inha abna se apascenta
N' estas idéas, mil floridas castas
De fragrantes, de tremulos arbustos
Chamando estão por mim. V em, lindo povo,
entre a arvore, e a flôr tu és o tneio,
Es como a transição. Teus delicados
POEMAS DIDACT{OOS TRADUZIDOS 83
<Jara.ctéres agoi·a a scena enfeitern.
úh! se não tne instigasse o largo assumpto,
Se ao termo, que tne espera, eu não corresse,
Que jubilo teria etn dirigir-vos !
Eu vos reproduzira, eu vos tnostrára ·
EQl .. cem fecundas fórmas, eu faria
A' sombra vossa murmurar correntes,
Vossa rama-em abo·badas travara;
Envoltos n'estes vividos ulmeiros,
.Iriam serpeando os vossos braços
Pelos rigidos e serieis
·D symbolo da graça, unida á· força.
Fundira, aproveitára as vossas
 azul a encarnada, a branca;
Dos olhos as delicias alternando,
V ossos penn.achos, cálices, e flôres,
For1nar viriam n1ens brilhantes quadros,
E o tnesmo Vanhuysutn m 'os invejára.
Tu, que estes forte is dons dos céos houveste,
Com arte econotnisa arbórea potnpa:
Favores seus co'as estações reparte.
·Co'as côres, e os perfumes cada arbusto
Por seu turno appareça, e nunca murche
Na fronte do anno a flórida capella!
Assim cotn elle o teu jardim varía :
Dada rnez tem seu hosque, e cada bosque
A sua prima v era... ah ! cedo extincta !
Tua industria, porém, da sua instavel
f)urta riqueza. consolar-nos
Com. prudencia estas at·vores ·plantadas,
Quando flôr não tiverem, grnça tenham,
Tal, d1latando o itnperio de seus olhos,
.Já na declinação dos annos bellos,
A destra Ulina tne seduz, me enlêa.
Da inclemencia dos ares a despeito
{) céo não desherdou de todo o inverno;
Então dos ventos provocando a raiva,
Não poucos vegetaes conservam folhas.
Qlha o teixo, olha a hera, olha o pinheiro,
Q pungente azevinho, o sacro louro,
De verdura immortal, que a terra vingam,
Vingatn dos AquilOes a Natureza-.
VOL. III
3
34 OBRAS DB BOCAGIC
.
De purpura, e coral v ~ fructos, bagas;
Que esmalte aos ramos dão I Seu atavio
Sobre os despidos campos lisonjêa:
Por menos esperado é mais formoso.
Os tens jardins de inverno assim povôa:
Lá de um benigno dia a luz te afaga,
Lá, quando em outra parte é nua a terra,
O passarinho adeja, a se diverte
Indo debaixo de viçosas folhas:
O sitio o illude, não conhece o tempo,
Vêl-a imagina, e canta a primavera:
Assim, sem ser facticia a estancia agrada.
Mas os jardins dos reis com que artificio,
Com que apparato ·esplendido triumpham
Dos sanhndos invernos ! Sempre verdes,
(Oh Monceaux !) teus jardins são d'isto exemplo.
'froncos fingidos de arvores ausentes,
Grutas de encanto, magicas latadas,
Tudo ali rouba os olhos. Afrontando
A rispida estação caliginosa,
A nascer entre o gelo aprende a rosa.
Milagres ali domam tempos, climas,
Das fadas o poder ali se ant'olha.
Mas não são todavia estes encantos
Dos jardins o melhor, mais doce o mato.
Cedo o costume te desorna os bosques. ·
Quando os extranhos tuas sombras gostam
Jaz muitas vezes descontente o dono.
Meios não ha, cuja virtude occulta
Sempre a teus bosques a affeição te avive?·
Oh I Quanto dos lapoes me apraz o estylo t.
Oh ! Como enganam seus invernos duros !
O til soberbo, .os olmoa reforçados
Temem d'aquelles campos o regelo;
De alguns tristes pinheiros, negros, bravos.
Indigente, escassissima verdura
A penas a geada ali penetra.
Mas o minimo arbusto, que poupassem
Aquelles agros climas, ante os olhos
Dos habitantes seus tem mil feitiços.
E' consagrado a filho, a pae, a amigo,
A hospede, que parte, e deixa prantos,.
\
..
·•
POEMAS DIDACTICOS 'I'BADlTZIDOS 35
Deixa saudade eterna, e de .algum d'elles
O nome, sempre caro, á planta fica.
Tu, de quem puro céo a patria,
Imitar podes tão feliz industria:
Elia animará tudo, arvores, bosques
Não serão mudos, não serão desertos:
Hão de im1nensns metnorias habitai-os,
Gost.os distantes adornar-lhe as sombras.
E quem se o favor dos numes
Com doce prole teus desejos furta,
Quem véda consagrares esse dia ·
Com troncos de nascente bosqueRinho ? ...
Mns em quanto estes versos, Musa, entôas,
Que popular clamor aos ares sobe !
Nasceu, nasceu o herdeiro aos da GalHa!
Nos muros, nas phalanges, sobre afof ondas,
Nosso terrivel, triumphante raio
Trôa, corre, e aos dons mundos o annuncia.
Flores são pouco para ornar-lhe o berço,
Os louros lhe trazei, trazei-lhe as palmas;
Raiem dias de gloria ante o primeiro
Volver dos olhos seus;· nascido apenas,
Da victoria ouça o hyntno; eis o festejo
Que ao puro sangue dos Bourbons se deve.
E tu por quem tal dom dos céos nos veia,
Tu, nó mitnoso, tu prisA.o querida
Do germano, e francez, que irn1ão, e esposo
Unes conlo odorífera grinalda
Que enlaça dous olmeiros magesto,._;os;
Consorte, mãe, e irmã, teus fado_s ligam
O penhor de hymeneu dn. 1norte ao luto,
Em teos olhos misturam pranto, e riso, .
Dando-te o filho quando a mãe te roubam:
Nos transportes, que influe este aureo dia,
Ousem almas ferventeR, creadoras,
Animar os pinceis, a pedra, a lyra;
Dos campos eu cantor; e humilde amigo,
Irei onde os Favonios, onde Flora
Sós te compOem a corte,
Irei a Trianon: ali risonho
Em unico tributo á prole tua
Arvores sagrarei da sua edade,
...
36
ORHAK DE BOCAGE
- - - - - - - - - - - - - - - - - - ~ - - - - - - -
U n1 bosquesinho, que lhe deva o nome. ·
Verão teus olhos avultar o amuvel,
O simples monumento, aquelles troncos,
Dos bosques teus o mais suave ornato;
~ cotn ellas crescendo, recrear-se
As sombras fraternaes irá teu filho.
Gozas, emfim,· e o coração, e os olhos
Feliz possuidor, já se etnbellezam
Nos arvoredos teus. Tambem desejas
Unir ao gosto a gloria, obter a palma
N'esta arte singular com que os decoras?
.De creador merece, alcança o notne.
Olha como ern segredo a Natureza
Sempre está fertnentando, e como sempre
A precisão de produzir á ancêa!
Não lhe acodes? Quetn sabe que thesouros
Inda etn seus cofres para a industria guarda?
()otno esta a seu arbitri_o as ondas guia,
"Póde guiar o sueco: outros caminhos,
Outros cunaes a seu liquor franquêa.
I>or novos hymineus fecunda os campos,
Das seibas virgens exp'ritnenta o mixto,
De seus dons mutuos favorece a troca.
Quantas arvores, fructos, plantas, flôres
Tem mudado o perfume, a côr, e o gosto,
Tudo por arte ! O pecegueiro a estas-
1\'letamorphoses sua gloria deve.
A ~ s i 1 n com triple c'roa a rosa brilha,
Do seu pennacho assin1 blasona o cravo.
Ousa·! Deus fez o mundo, o homem o adorna.
Se a tão bellas conquistas não te afoutas,
Cobertas de outro céo tens mil riquezas.
Usurpa esses thesouros. 'fui, mais brando
Vencedor, e· mais ju8to nos seus roubos,
O rontano soberbo á Ausonia trouxe
Syrias ameixas, o datnasco Armenio,
Da Gallia a pera, e fructos n1il diversos:
Assim devêra subjugar-se o mundo.
Lá quando d' Asia triumphou Lucullo
O bronze, o ouro, o marmore assombravatn
De Roma os olhos, e entretanto o. sabio
Prezou vêr-lhe nas mãos a cereijeira

POEMAS DJDACTICOS TUADUZIDOS
Conduzida em triutnpho ao Capitolio.
E esses mesmos ro1nanos já não viram
Nossos avós, etn batalhões nrtnados,
Debaixo de outros céos 1nnis bemfazPjos
As vinhas ir votando a Brotnio
Tintos pesdões etn nectar dos vencidos?
C'o fructo das be1ligeras emprezns
Escandecida a. turbn, os preciosos
· Trophéos, cantando, aos lares seus trazia.
As o pâmpano c'roavn,
O pâmpano em festões cingia as lanças.
l>'esta arte o ntnnen, vencedor do
Tornou triumpbante: serranias, va1les
Da vindima o .fervor s<'letnni8&,
1
atn,
E por onde corria o n1ago nectar
F<>lgavam brincos, e o prazer, e a audacia.
Netos dos Gallos, os avós _se imite1n;
Roubemos, disputemos taes
N'esses jardins, altivos de regel-os
A mão, que a: The1nis empunhara o sceptro,.
llalesherbe, o facundo, o digno rntno
Dos Lamoignons, com troncos orgulhosos
_Honra, abastece o chão: plantas
Dos fins da terra_ equoreas margens,
De alcantilados cumes de a,g-rns serras,
Das portas do naêcente, e das do occoso;
Plantas, que açonta o Hui, que nçonta o norte,.
Plantas, filhas do ardor, filhas do gelo,
Me fazem, n 'um logar, correr mil clitnas
Vago, entre aqoella multidão florente,
Asia, Americn, Europa:, Africa, o 1nundo •.
Regosijadas de se vêr no tneio
Das velhas plantas nossas, atnam todas
Nosso amoravel céo, e extranbas gentes
Reconhecendo as arvores da patria,
, Duvidam já· da sua ausencia, ao vêl-as,
Ou de terna saudade os golpes sentem.
Moço Potaveri, tu d'isto és prova.
Dos campos d'O tniti, d·aquelles campos,
Tão caros n'outro tetnpo á sua infancia,
Onde é sem pejo amor, amor crime,
Este ingenuo, selvntico n1nncebo,
37

38 OBRAS DE BOCAGE
Trazido a nossos muros, pranteava
Sua antiga, innocente liberdade,
Ilha risonha, e jubilos tão faceis.
Do esplendor das cidades sim pastnado,
Mas farto d'ellas, vezes mil clamava:
« Dae-me as florestas minhas !» - Fi is que um dia
N'esses jardins, onde Luiz congrega,
Dispõem n'um sitio só, e a custo irnmenso,
Os povos vegetaes de tantos climas,
Como espantados tle crescerem juntos,
De logar, e mudando a ntn tempo,
E cultos a Jussieu rendendo todos;
N'esses jardins o indiano vagueava,
Olhando as varias, o1·deaadns tribos,
Qoando entre estas colonias vicejantes
Lhe fere os olhos arvore, que o triste
Desde os primeiros annos seus conhece.
Subito, desatando agudos gritos,
A ella corre, abraça-se cotn ella,
Be\jos a cobrern, lagrimas a innundam.
Objectos mil de inexplicavel gosto,
Os céos, os campos, qne ditoso o viram,
( Céos tão formosos, tão formosos catnpos ! )
Os rios, que fendeu co'as mãos
, Mattas por onde os brutos habitantes
Tão destro as bananeiras
De sombras, e de fructos abastadas,
O patrio asylo, os bosques circumstantes,
Que aos canti90s de amor lhe respondiam,
Julgou vêr, e a sua alma enternecida
Um tnomento sequer gosou da _patria •
CANTO lll
Eu cantava os jardins, vergeis, e bosques;
Eis sólta vezes tres Bellona o grito,
Eis dos pàternos lares arrancado
V ôa o francez guerreiro a extranhos mares,
E de V enus Mavorte as selvas deixa •


POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 89
Vós, á paz innocente affeiçoados,
Deuses dos campos, nAo temeis 8 guerra;
-Quer o grande Luiz nAo destruir-vos,
:Mas ao longe estender o imperio vosso·;
-Quer que logre tranquillo o que semêa
Um povo amigo longamente oppresso.
E vós, mancebos, que outro mondo adn1ira,
:Se por cima de tumidas voragens·
.A Y ork o vosso ardor seguir não posso,
Para quando volteis aperfeiçoa
.Jardins a musa minha .. Ordeno as flôres
Que para 8S frontes vossas vão crescendo.
Aprompto para vós de myrto as c'roas,
{) mnrmurio das aguas vos preparo,
E gr8mineo ta.piz, e asylo umbroso.
Sentudos mollernente, ao Lethes dando
Fadigas marciaes, direis a gloria
Das nossas forças bellicas, e. emtanto
Entre esperanças, e temor suspensos,
{)onfundirAo, tremendo, os filhos vossos
'Üo'a presença do p'rigo a in1ap:em d'elle.
Amador dos jardins, eia, acabemos
De pulir estes placidos abrigos.
Infecundo areal, e secco, e triste,
N'elles o dia reflectindo OJ.ttr'ora
Importunava os pés, os olhos.
'Tudo era ardente, e nn; mas Inglaterra

Nos ensinou com que arte o cbAo se veste:
Na relva cuida, pois, que os campos brotam.
'Ü regador na dextra, ou n'ella a fouce,
Lhes mate as sedes, Jhes tosqttie as tranças,
As leivas o oylindro pize, aplane;
Sempre, escolbidn.s bem, bem apertadas,
Bem libertas da herv8 usurpadora,
Qnal macia lanugem finas sejam;
·.Repare-se-lhe ás vezes 8 velhice;
Mas, comtudo, aos não remotos
Se reserve este luxo de verdura:
Do resto se componham ricos pastos,
E sómente os cultivem teus rebanhos.
Terás d 'est' arte D"!Jmerosas crias,
Os campos adubfo, os olhos quadros.
.
40 DE BOCAGE
------------------------------
Não te envergonhe pois (e grite embora
O orgulho) não ·defendas que em teus parques
Entre a vacca fecunda, o boi tardío:.
deshonratn teus nem meus versos.
Muito pouco é, porém, crear SÓtnente
Esses tapizes vastos, e
Cumpre que saibas escolher-1ht' as fórn1aE.
Longe a monotonia, uh! longe d'tlles:
E1n quadrada feição, feição redonda
Tristemente opprimidos os não quero.
Um ar de liberdade é seu primeiro,
Gracioso attractivo: ora nos bosques,
Cuja sombra os abraça, elles se escondam
Cotn visos de tnysterio, ora esses mesmos
Bosques venham buscai-os. Esta a fórma
Da campestre alcatifa, pura, e sitnples.
Amas o helio? A Natureza imita,
Que esmalta os prados de opulentas côres:
Dá-te pressa; os jardins te pedctn flôres;
Flôres mimosas, candidas boninas,
Por vós é mais gentil a Natureza.
Nos quadros por modelo a arte vos toma;
De temo coração sois dons singelos,
Que arrisca â1nor, e que a atniAAde off'rece ..
Em dourada madeixa, em niveo seio
llequinta-se comvosco a fornnosur.a;
Que a victoria ado,rneis permitte o ]ouro,
Do virgineo pudor tambem sois premio.
O mesmo, o mesmo altar, onde repousa
A grandeza de um Deus, na primRvera
Com vossas oblaçoes se aro1natisa,
E a religião, sorrindo-se, as acolhe:
Mas tendes nos jardins o domicilio.
Do sol, da aurora vinde, pois, oh filhas,
Decorar o tbeatro a nossos campos.
Comtudo, não cuideis que, insano amante,
Etn vez de vos travar, em vez de unir-vos
Em brandos, amorosos ramillietes,
De canteiro em canteiro, attento espere
De cada nova flôr o nascimento,
E lhe espie o matiz, lhe observe as côres.
Sei que em Harlem ha curiosos tristes,
POEMAS DIDACTIOOS 'l'RADUZIDOS 41

Que etn seus jardins co'as flôres vão fechar-se;
Que, por vêr utn rainuncnlo, despertam
Antes d'alva, e que adoram, qual prodigio,
Anêm9na exquisit.a, ou que, invejando
De um rival o segredo, a pezo de ouro
Compram de um cravo as manchas. Deixa aos loucos
Heu tnaniaco amor: possua1n, gosem.
Embora quaes ciosos, quaes avaros.
Sem de arte caprichosa ns leis seguirdes,
Vós, dos olhos prazer, do campo adorno,
Flôres, pintae a soperficie á terra;
Mas a vossa belleza, o tninJo vosso
Entre curtos lirnites não se
Em toda a parte essf·s thesouros brilhem:
Ora aos tapizes a verdura esmalten1,
Ora de utn lado, e d'outro roas;
Em mesclados festoes ce.rcae ratnadas,
Aguas orlae em lncidos meandros;
Ou comvosco este.s muros se alcatifetn,
On, querendo escolher vossos perfumes,
Gire, in.decisa, no açafate a abelha.
Seguindo-vos Rapin nas quadras todas,
Nenhum n1atiz, ou nome vosso esqueça;
A tão frias, cançadas miudezas
Oppõem-se o deus do gosto. Mas qaem póde
Negar o obsequio, a prelerencia á rosa,
Á rosa de que V enus bosques tece,
C'roas à primavera, amor seus mimos?
Á flôr de Anacreonte, á flôr, qoe Horacio
Nos feStivaes engrinaldava?
Mas tão risonho objecto em demasia
Apraz aos ·meus pinceis, cujo destino
E' quadros desenhar n1ais vigorosos.
Oh vós, de que eu trilhava o chão florido,
Bosquesinhos, adeus, adeus, oh prados !
Attrae minha attenção o ioforo1e aspecto
Dos rochedos sem regra deeparzidos.
Foi sua alta rudeza em outros tempos ·
Banida dos jardins, onde reinava
A inerte, semsabor monotonia. ·
Mas depois que o pintor, leis dando n'elles,
Contra acanhado artifice restaura
42 OBRAS DE BOOAGI:
Totalmente o seu jus, emfim se atrevem
.A apossar-se os jardins d'estes effeitos.
Por mais graças, porém, que venha d'ellas,
Se estas rigidas massas magestosas
Não ofF'rece o terreno, então debalde,
Presumpçoso. rival da· Natureza,
A arte em falsas imagens se apurara.
Do come dos rochedos verdadeiros,
Da mãe universal morada inculta, -
Elia escarnece de affectadu penhas,
Misero aborto de fadiga inutil.
Aos campos de Midléton,. ás montanhas
De Dovedale, te a<-.ompanbo os passos,
A ellas, Whateli, comtigo snbo.
Que aprazível teiTor me assenhorêa t
Todos esses rochedos, variando
Os cimos colossaes, arremessados
Aqui aós céos, ali para os abysmos,
Um por outro amparados, um sobre outro,
E no ar ousadamente alguns suspensos;
Este em arcada, em torre afeiçoado,
Aquelle pelo portico sombria
Deixando perceber ao longe o polo;
Além mananciaes, aqui regatos
De límpida corrente, alegre, e mansa,
Tudo, ah ! tudo no espirito revolve
Os m a ~ i c o s retiros, que os poetas
Cantaram. fabulando. Oh quam ditoso
Serás se teus jardins aformosêas .
. Com estas grandes, altero88s vistas t
Mas para que a teu quadro bem se ajustem,
Contra a tosca energia dos rochedos
Cumpre de encantador ter a efficacia.
O encantador é a arte, o -encanto os bosque8i
Elia falia, os rochedos eis se assoinbram,
E como que os enfuna a pompa extranba.
Porém, sua aridez austera ornando,
Sagaz diversifica os teus plantios.
Ao cobiçoso espectador off'rece
Das fórmas, e das côres os contraRtes;
Sáiam por entre as arvores a espaços
Os mais bellos rochedos: interrompe

POEMAS DIDAOTICOB TRADUZIDOS 4:8
Snmma egualdade, esconde, ou patentêa !
Variem-se co'as arvores as rochaR,
As arvores co'as rochas se ''ariem.
Não tens tambem, para formar-lhe a gola
Não tens do baixo arbusto a folha errante?
G6sto de vêr os dóceis novedios
Pelos áridos flancos dos penedos
Em tenrinhos festoes ir serpeando:
·Gósto de vêr-lhes a escalvnda fronte
Toucar-se de verdura, e ganhar Rombras.
Isto inda é poooo. Um vnlle entre estas penhas,
Um valle precioso, um chão mais grato
Ri-se a teus olhOt;? Aproveita-o, mostra,
Expõe esta riqueza inesperada.
E' feliz, singular este contraste,
E' a esterilidade, ella, que u1n breve
Espaço appetecivel de terreno
Cede ó, fertilidade: assim subjugas
·O aspérrimo caracter dos rochedoR.
Para agradar-te é força omal- os sen1pre?
Nlo; se a arte deve o horror sempre adoc;ar-lhes,
·Consente áR Yezes que o pavor inspirem,
Favorece-os até. Na extremidade
De gm precipio uJna cabana eleva,
E com ella angmentado elle parece:
Ponte audaz de um rochedo a outro lança;
Eu tremo ao ,·el-os, e a medonho abysmo
Irnminente me põe n phantasia;
Lembram-me esses boatos ·
·Os casos de perdidos passageiros,
D'amnntes despenhados: contos velhos
Que prendendo attenção maravilhada,
A' credula aldeã serões encurtam;
E o terror do logar a crençn.
Porérn com sobriednde usar se deve
D'estes grandes effeitos: A tão duras,
Tio agras commoções, abalos doces,
.Molle socego o coração prefere:
Eu exp'rimento em mitn que das montanhas
Me é preciso baixar aos ledos valles.
Tenho-os de flores, de a1·vores coberto:
é que á sombra d'ellas manem agoas.
44 OBRAS DE BOCAGE
Bem: já que os cin1os vossos, nus outr'h<-'rn,
Pelas liçoes estão vestidos
Tão ricamente, oh rochas, frnnqueae-n1e
As subterraneas, int.hnas origens:
Rios, arroios, vós-vós, lagos, fontes,
'Tinde, espraiaa frescura, e vid:1 e1n tudo.
Ah I Que prazer póde ?
Vosso contente, luzido nspecto
Se de perto entretem, convida ao longe.
Sois o primeiro que se busca,
O ultirno ·que se deixo. As oguas vossas
Fertilizando a terra, o céo duplicruu.
Os ouvidos encanta, encanta os olhos
V osso crystal, Yosso murmurio. Ah I vinde,
Dado seja a meltS versos, que vos segue1n,
Correr do coração tnais tentadores,
abundantes que o principio vosso;
l\fais leves do que os Zephyros, que dobram
V os! os cana viaes; e brandos, puros
Co1no esse rumorsinho, essa corrente.
Tu, senhor d'estas aguas bemfeitoms,
Venera-lhe o pendor, té o caprieho;
Nos livres giros seus vê como abra<:.am
Facilmente das n1argens os contornos.
E ousas, encarcerando-lhe a brandura,
Os tortuosos paRsos constranger·lhc !
De que lhe serve o mnrmore em que é pre&a?
Não vês co'a longa trança entregue aos ventos,
Sem arte algutna, sem postiço adorno,
Campestre, prazenteira, ingenua moça
Andar, correr, 8altar? A gruça d'ella
Está no solto, natural tneneio.
Contempla n'um serralbo a formosura:
Ella deslumbra em vão, debalde ostent.a
A pompa oriental, brilho estudado:
Um triste não sei que, na face impresso,
Lhe argúe a subjeição, desbota as graças.
A agua 1nantenha a liberdade que amo,
Ou n1uda.-lhe em belleza o captiveiro.
Assim, contra eJoquente,
E ponderosa voz pleitear soube
Os direitos da simples Na tu reza,
POEM_AS DIDAC'l,IOOS TRADUZIDOS 45
- -----------
Gósto das aguas, que em canaes oppressas,
Com rapida violencia partem, saltam.
Ao vê r esses crystaes, que arte atrevidà
Da terra faz brotar, e nos ares Jança,
Q homem diz: «Eu criei estes portentos!»
E em taes prestigios a arte suu adtnira.
Nos custosos jardins dos reis, dos grandes
Reluzam, pois; mas, outra vez o digo,
Longe os luxos plebeus, o vergonhoso,
Mesquinho jacto de agua, que da terra
Mal ousando arredar-se, apenas sóbe,
E em mínima distancia morre logo.
Tudo a tanta corresponda:
grangêe á roda um ar de encanto.
Os olhos persuade, e o ·pensamento
De que vara efficaz e1n mão de Fada
Formára para a dona este retiro.
"fal eu vi de Saint-Clond o amavel bosque.
Póde a vista medir do jacto a altura?
Con1o que applaudem tanques, grutas, plantas .
As aguas, que sobre aguas cáein, fervem;
O ar é mais fresco ali, mais verde a relva,
Das aves o gorgeio ali se aviva
Ao sotn das vitreas ondas, que baquêam;
E, as rociadas testas inclinando, '
Como que ao dôce orvalho os bosques se abrem.
Não menos bella, mais ca1npestre, e simpies
A cascata ornará logar n1ais tosco.
De longe se ouve, ad1nira-se de perto
Lympha sempre a cnir, sernpre
E vária, e tnagestosa, anima a um tetnpo
Os rochedos, a terra, agnas, e bosques.
Etnprega, pois, esta arte; porém longe
Esses tristes degráos, onde, caí ndo
Com movimento egnal, medida certa,
As ondas, bem que vão precipitadas,
Até no seu furor seus passos conta1n.
Só tem jus de aprazer a variedade.
Gosa tnais de utn caracter a cascata.
Ora em tutnulto ns aguas despenhadas
No tortuoso correm, cáem,
Saltam, recáem, e escutnatn, e esbraveam,

46 OBRAS DE BOCAGE
Ora de espaço desdobrando as ondas,
Puro, calado, remansinho ameno
Em a.zul véo se· esparge. Os olhos folgam
De vêr estes gentis amphitheatros,
De vêr sobre as ceruleas espadanas
Reflectir, scintillar o ouro diurno;
Tambem lhe apraz a escuridão das penhas,
E a verdura das canas, e a espumosa
Argentea côr das aguas fugidias.
Consulta, pois, artifice, os effeitos
Que intentas produzir. As lymphas, promptas
Sempre a deixar guiar-se, hão de ofl''recer-te,
Quer mais impetuosas, quer mnis lentas,
Quadros benignos, ou soberbos quadros,
Graves, ou deleitosos: quadros, n'alma
Setn pre efficazes. Que tnortal não prova
A profunda impressão, que vem das ondas?
Sempre, ou viva corrente arrebatada
Sobre seixos murmure, e ferva, e salte,
Ou ribeira indolente sobre o lodo
Em paz alargue as aguãs preguiçosas·,
Ou torrente feroz entre penedos
Quebre com rijo estrondo, alegre, triste,
A sna correnteza excita, applaca,
Ameaça, ou amima. Escuto á fama
Que de V enus o cinto milagroso
Amores, e desejos incluia,
E o prazer, e a esperança, percursorn.
De ineffaveis delicias. O teu cinto
,
E, divina Cybele, é agua: n 'e lia,
Não menos poderosa, estão complexos
Terror, perturbação, tristeza, e riso.
Quem melhor o sentiu do que a minha alma l"
Quem o soube melhor? Mil, e mil vezes·
Quando azedos, escuros pezadumes,
lnda mais pela noute ennegrecidos,
Vinham martyrisar-me o pensamento,
Se ouvia os pussos de visinho arroio,
Demandava e s ~ . s sons consoladores.
Das aguas a frescura, a voz das aguas
Cuitlados, affiicçoes 1ne adormeciam,
E a paz do coração resuscitava:
.
POEMAS JJIDAOTlOOS TRADUZIDOS 47
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d'agua o murmurio n'alma influe!
paga de tão gratos beneficios,
Soffre, oh ribeiro, que a arte, sem comtudo
Muito se assoberbar, te aformosêe,
Se é que aformosear-te ·acaso póde.
Não quadra a vasto plano um rio escasso:
Seu leito incerta linha ali traçára.
A timida corrente á luz se furta,
E quer banhar um bosquesinho escuro.
Sua dôce carreira adorna as selvas,
Só ellas o namo1·am. Seus caprichos
Lá com todo o vagar seguir-se pódem,
Seus giros, seu pendor, seu lindo estorvo,
A cholera, o fervor das beUas ondas,
Tomadas pelo obstaculo mais bellas.
Ora n'um álveo concavo, e sombrio
. Co'a ramada que o cobre, ella recata
O cabedal ora presenta
Em patente canal o espelho á vista:
Sem vêl-o o escuto, ou sem onvil-o o vejo.
Ali meigos crystaes abraçam ilhas,
Além se torna em dons o leve arroio,
Em dons, que nas carreiras competindo,
Apostam rapidez, e claridade;
E ambos depois no leito, qne os ajunta
De andarem par a par murmuram ledos.
Errando sempre assim, de volta em volta,
Mudo, loquaz, pacifico, agitado,
Em mil varios aspectos se renova.
Mas copiosa ribeira ás ·rrescas margens
Me está chamando. Etn campo mais aberto,
Nobre, e potnposo quadro, as ondas suas
Ondas menos modestas, vão rolando,
E c'o fulgor diurno ao longe brilham.
Deixa ao regato seu prazer lascivo,
A sua agitação, e os seus rodeios;
E segue caudalosa a curvidade, ,-.
O circuito dos valles sinuosos.
Se dos bosques o arroio adorno colhe,
Ama o rio tambem diversas plantas.
Quer que lhe ornem, lhe aseombrem a corrente
Os descorados chôpos, e os salgueiros
48 OBRAS DE BOCAGE
- --------
Meios-verdes. Que tão fecunda
De scenas, de accidentes ! Ali gósto
De olhar-lhe derrubndas sobre o rio
As ramas, e tremer ao movirnento
Das aguas, e dos ares; aqui foge
Por. baixo das abobadas vi rentes.
A onda escurecida; alé1n. penetra
Por entre folhà, e folha utn tenue 'lume;
Ora as grenhas se etnbebent na correnté,
Ora a ilnpede a raiz; e destr .. andando
De utna para outra margem a verdura,
Como que -avançam, que outro sitio querem.
Assim as ondas, e ·urvores se ajudam,
À agua remoça a planta, n planta a enfeita;
E ambas fazetn, lignndo- se em mil fórmns,
Amavel catnbio de frescura, e sombra.
Unil-as sabe, pois, ou se em Jogares
Formosos, proprios d'elln, a Natureza
Já celebrou seni ti este consorcio,
Respeita-a. Desgraçado o que presume
Excedei-a no engenho I E' tal (e á m·ente
O coração m'o traz) tal é o asylo,
Querido W ntelet, onde, atnansando,
Em sombrios canaes se parte o Sena,
O Sena encantador, tão puro, e livre
Como a tua moral, como os teus dias,
E visita em segredo o lar de ntn sabio.
Com arte lhe acudiste, não com arte
Temeraria, fallaz, profanadora
logcfres, que suppoe que adorna.
Viste, arriaste, sentiste a N aturezu,
Digno de a vêr, de amaJ ... a, e de sentil-a;
Tu a trataste como intacta Yirgem,
Que da nudez se ·corre, e teme o ornato.
Parece-tne que vejo o fu.lso gosto
Estragar esses carnpos feiticeiros:
«Este moinho, cujo som ruidoso
Nutre a meditação, é irnportuno :»
D'ali o arrancam subito. Estas margens
Torneadas assim tão brandamente,
E pelo proprio -Sena afeiçoadas,
Duramente se alinham. A verdura,

POBIIAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 49
Que no seu tnolle cinto o rio encerra,
Al( já nAo florece. Aguas queixosas,
Seus Iageados carceres accusarn.
O marmore_ fastoso a relva ultt·aja,
E tosqueadas arvorfl.s captivas
Os idosos salgueiros desapossam
Da rnargem linda, e cara. Ah! Suspendei-vos,
Barbaras ! acatae esses logares;
E vós, oh rio, oh bosques deleitosos,
Se a vossa formosura hei retratado;
Se, adolescente ainda, alegres versos
Ás aguas, prados, sombras já
Ministrae longamente, oh rio, oh bosques,
Ao vosso possessor a dôce imuge•n
Da paz sagrada, que en1 sua ahna reina.
Quanto na molle agilidade o rio
De n1argen1 angular terne a aspereza,
Tanto ns margens agudas or·natnento
São de estendidos lagos, e o ruais bello.
Ora se avance a terra no seio undoso,
Ora abra ás ondas domicilio fundo.
Co1n revezado amor assitn se chamern,
Se busquetn 1nutuatnente a.guas, e terra:.
N'estes varias aspectos folga a vista.
A cotnprida extensão n'urn lago se ama;
Dá-lhe sitios, corntudo, em que repouse.
Não se lhe interrornpendo a imtnensidade,
Meus olhos sem prazer, sem interesse
\Tão pela
Para lhe abreviar o espaço insulso,
das calmils vene_rado,
Nas ondas repetido, assome ao longe,
Ou ilha, que verdeje, entre ellns
As ilhas são das aguas sutnmo adorno.
Ou levanta-lhe as 1nargens, ou viçosas
Arvores, ern festões dispersos, ganhem
'rua contemplação, teus olhos prendam.
Se queres produzir opposto effeito,
Se o lago estender queres, manda ás margens
l\Iui subidas, que desçatn, e ou distancia
Mais arredada os arvoredos tenhatn,
Ou faze com que as aguas vão sumir-se
VOL. III
30 OBRAS DB BOOAGB
N'um den8o bosquesinho, e que tornêem
Ao pé de uma collina. O pensun .. ento
Por entre estas cortinas de verdura,
Onde desapparecem, vae seguindo
As aguas,. e as prolonga. Assim teus olhos
Gosa1n do que não vêm: d'est'arte o gosto
Lindezas, perfeições confere a tudo;
E de objectos, que inventa, e dos que imita
Descobre, alonga, aperta, esconde o terrno.
Agora que a arte o meu trabulho insulta
Em soberbos jardins, nos meus, ditosos,
Liberdade, e prazer tudo respira:
Rindo-se a relva, a. seu sabor ,·icPja,
Independente o bosque, altêa a ran,a:
Não ten1em a thesoura as arvores,
Nem flôres a esquadria; aman1 ns ondas
As Inargens suas, seu adorno a terra;
Tudo é formoso· nli, sirnples, e grande,
Tudo: esta arte é a tua, oh Natureza.
Porém o lago, o rio estão deserto:;;,
De cidadãos se lhe povôe o seio.
Dêm-se-Jhe us aves, que con1 agil rentu
Alados navegantes, u agua fenderu.
N'ella se pavonêa, e náda o cysne,
De vanglorioso collo, argenteu plurra.
O cysne, a que a ficção deu voz tão dôce,
E que escusa das fabulas o auxilio.
Tau1bem· não tens para animar as a.gnas,
Oh arte, esse a pparato vacillante
Dos mastros, e das velas? lmpellida
De reruo compassado, a leve barc11
Deixa apenas, fugindo, unt tenue rnsto,
Que logo se esvaece. Entumecido ·
Dos fi" a vonios azues, sussurra o punno,
E ern cada bandeirinha os ares hrinca1n.
Pois se a novella, a fabula, ou a historia
Un1a fonte, utn ribeiro coosagraran1,
Da sua glorin antiga elles ufanos,
Assás. se se ataviam
Com suavf!S memorias. Ah ! Quem póde,
Descobrir, encontrar, sem comtnover-se,
Arethnsa, o Lignon, Alpbêo? Quem póde
POEKAS DlDAOTIOOS TRADUZIDOS 61
Sem cordeai saudade olhar Vauclusa ~
V auclusa, encantamento irresistivel
Dos vates, e inda rnais dos amadores,
No circulo de montes, que, encurvando
Soa cadeia, com liquor sadio
Te alenta a subterranea, dôce origem,
Lá debaixo da abobada nativa,
Do antro mysterioso, onde, esquivada
A nympha tua aos olhos cubiçosos,
Some em fundo insondavel teu principio;
Oh quanto me foi grato o vêr-te as aguas,
Que, sempre crystalinas, se1npre bellas,
Ora n'um. lago seus thesouros fecham,
Ora sobem, fervendo e lançarn fóra
Ondas, a branquejar ·por entre as penhas;
De cascata em cascata ao longe pulam,
Cáem, e rolam com itnpeto estrondoso;
A cholera depois amaciando,
Por leito mais egual vio doceu1ente;
E debaixo de céos sernpre azulados
Por cem canaes fecundam vaJle ameno,
Ameno qual nenhum que os sóes aclaram !
Mas estes puros céos, esta ti correntes,
Este delicioso, e pingue valle,
Menos o coração me penhoravam
Do que Petrarca, e Laura. Eis (eu dizia,
Eu dizia a mim mesmo) ah : Eis as margens,
· Que a lyra de Petrarca suspirosa
Ontr'hora enfeitiçou ~ Aqui o amante
Via, exprimindo a Laura os seus amores,
Vir devagar o dia, ir-se depressa.
lnda sobre estas rochas solitarias,
lnda, acaso, acharei das cifras de ambos
Unidos, maviosos caracteres?
Tocam mens olhos desviada gruta:
Ah ! dize-me se os vistes venturosos,
Guarida opaca ? (eu pronuncio) Um tronco
Toldava encanecido á fonte a n1argem ?
Laura dor.mido havia á sombra d'ellc.
Ali por Laura perguntava aos eccos,
E os eccoe o seu nome inda sabiam.
Buscaveis, olhos meus, .Petrarca, e Laura
62 OBBAS Da BOOAG&
Em toda a parte, e em toda a parte os vieis.
Eram já morte, e cinza oa dons amantes,
Jtlas inda com seus manes amorOSOB
Mais helio se tornava o sitio beJlo.
CAN'l,O IV
Dos campos o espectaculo não posso,
Nio posso abandonar; e quem se aifoota
A ter em pouco o objecto de meus cantos ?
Elle inspirava de Virgilio a Mnsa,
Seduzia a ·de Homero. Homero, aqueDe
Que de Achilles cantou a horrivel sanha,
Que nos pinta o terror jungindo os brutos,
No dardo voador silvando a morte,
O embate dos escudos, o tridente
Do equoreo numen abalando as torres;
Esse vate immortal, de Smyrna o cysne
Se apraz de matizar o horror da guerra
Com bosques, prados, montes: na frescura,
No riso d'estes quadros tão suaves
Desafoga os pinceis; e quando apresta
De Thctis para o filho arnez terrivel,
Se os combates, e os sitios n'elle grava,
Se mostra o vencedor de pó coberto,
Se apresenta o vencido envolto en1 sangue,
Buril afagador depois movendo,
Traça a vinha, os rebanhos, selvas, pastos.
Vestido o heróe d'estas imagens dôces,
• Parte, e leva por entre horrendas turmas
A innocente vindima, e ricas messes.
A teu estro sem par, cantor divino,
Cabe reger as marciaes phalan2es:
E' reger os jardins meu brando emprego.
Já minhas leis conhece a docil terra:
Eil-a relvosa; no tapete alegre
A mãe das Hôres lhe entorn(;u seus mimos ..
E arvoredos c'roaram rochas, aguas. ·
Para gosar d'estes brilhantes quadros,
...
PODIAS DIDAOTI008 TRADUZIDOS 68
Agora em campos, que discorre a
E por baixo de abobadas escuras,
Gratos caminhos abrirei. Mil scenas
Creará minha voz por toda n parte;
As artes guiarei para adornai-as:
E o divino cinzel, e a arcbitectura
Nobre, insigne, hão de emfim d'estes logares
Encantadores completar o ornato.
De nossos passos engenhosas guias,
Aos olhos os jardins patenteando,
As mas devem, pois, agraciai-os.
Nos recentes, J•orém, não se abram ruas;
Nas findas plantações inelhor se escolhem.
Aos mais. lindos aspectos as
Repara con1o, se aos extranhos mostras
Do ten trabalho os conto destro
Buscas o helio, o que não presta evitas;
Sitios formosos, ao passar, lhe apontas,
Lhe guardas para a volta outras bellezas,
O prendes" o entretens de pasmo em pasmo,
Em scena, que nascer taz outra scena;
E assim satisfazendo, ou provocnndo
Sempre os desejos seus, nAo poucas vezes
Retardas seu prazer para espertal· o. ,
Os teus passeios a ti proprio imitem.
Foge, foge, tambem, nns fórinas d'elles
Os filhoR do rnau gosto, os vãos systemas,
Pela tnoda abraçados. Lá no campo,
Como cá na cidade, a n1odn reina.
Quando a ordem symetrica., e pomposa
De italicos jardins luziu na França,
Tudo se deslumbrou, cegou-se tudo
Com esta arte fulgente. Uma só planta
.Não negou ao cordel obediencia:
Em toda a parte se alinharam todas;
De um lado, e de outro lado enfileiradas,
Alamedas eternas se estenderam:
V eitt outro tempo em fim, veiu outro gosto.
De bellezas mais livres avisaram
Aos francezes jardins britannos.
Só linhas ondeantes, e passeios
86 tortuosos desde então se viram.
OBRAS DE BOCAGE
Farto de vaguear, debalde o termo
Está fronteiro a mim: cu1npre que ninda,
Cumpre que, a rneu despeito, erre, serpêe;
Que, importuno
Mil, e mil vezes, sen1 cessar procure·
Um fim, que sern cessar de mitn se aparta.
Isto evita: os excessos duram pouco.
D'estes varios cada especie
Tem seu logar. U rn na e conduz a
Pasmosas, que de longe os olhos fix:nn,
Nutrem a expectação; outro me sóme
N'essas rnudas que parece
A algum fim, de proposito, velara
Arte mvsteriosa; tuas tornemos
.,
Natural o facticio labyrintho,
E não capricho, precisão se anfolhe.
Diversos accidentes, encontrados
Pelo caminho seu; aguas, e bosques,
Como egualmente o chão, devetn reg-el-o.
Se quero uma feliz docilidade
Na fórma sua, se a tristeza odeio,
E insipidez de alinhatnentos longos,
Mais detesto um passeio
Que de ferida serpe á similhançn.
Em convulsivas roscas se entrelaça,
Com giros duplicados cansa, enjôa,
E rispido, uniforme, cn prichoso, .
O terreno atormenta, e passos, e olhos.
Ha curvas naturaes, ha torcicólos,
De que ás vezes os onmpos Oão modelo.
Do carro a roda, a pista dos rebanhos,
Que e1n passo negligente :1 uldêa buscarn :
A pastorinha, que no prado abstracta,
Vae talvez entretendo a phantasia
Em visões amorosas: isto ensina
Rodeios mollemente volteados.
Longe, pois, os contornos angulares,
Longe de teus passeios, rnais ainda
Quando ao fim te encaminha um longo giro.
C'o prazer galardôe-se a fadiga.
A arte se imite dos poetas grandeR;
Releva, que ouses tanto .. Se ·alta Musa,
I
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': ' - ' . i J
POEMAS J.>IDAOTiOOS 'rRADUZIDOS 55
Andando,_ algtun desvio si pe,.tnitte,
Mais que o carninho a digressão 1ne agradn. ,
Nise o seu doce Euríalo defende,
No sepulchro de Heitor a esposa ge1ne.
Assim teu artificio 1ne extravie
Por gratas illusOes, assi 1n 111e alegre
Com risonhQS objectos a passagent:
Tocando o ter1no, indetnnisado eu fique
Da extensão que soffri, 1neus olhos
Aspectos singulares, episodios
De vivente poe1na. 4.-\letn me chatnatn
Verdes, propicias grutas, onde sempre
A frescura, o silencio, as so1n bras rnoran1.
O pensamento ali precede aos olhos.
Mais longe vitreo lago o céo reflecte,
E confusa acolá, co1uo fugindo,
Assoma perspectiva in1n1ensa, e nobre.
Ás vezes bosquesinho nlegre, ameno,
Mas em si recolhido, e ricumente
Por ti, e a Natureza adereçado,
De flôres, e de .so.nbras
J>arece que te diz:- «detem-te: ah! (\nde
Podes estar· 1nelhor ?>) Su bito a sceua
altera: eis etn logn t• de gosto, e riso
Paz, e eis o
Eis a grave mudez, onde se embebe,
Onde a meditação se alonga, e pasce.
Lá com seu coração conversa o hotnern,
Attenta no presente, e!Jtra o futuro,
Da carreira vital nos males pensa,
Pensa nos bens, e recuando a vista
Ao tempo que voou, se apraz ás vezes
De perceber no circulo dos dias
Esses poucos instantes (ai ! ) tão caros,
Tão curtos ! flôres n 'utn deserto,
Eseas quadras da vida, a que lhe apontam
Saudades do prazer, e até da magoa.
'fen1e, pois, itnitar os que ataviam
Friamente· os jardins, os que só querem
Objectos festivaes, e lisonjeiros. .
Nada em suas paizagens é sublitne,
Nada atrevido: tudo são latadas, · -·:

56 OBRAS DB BOCAGE
Tndo elegantes bosques: sempre flôres,
Sempre o templo de Florn, ou dos Amores:
A alegria monótona aborrece.
Sáe tu d'esta commum, cansada trilha;
Contrastes imagina interessantes,
E affouto os aventura. Entre si podem
Encontrados effeitos soccorrer-se. •
Eia, segue o Ponssin. Elle
Em ulvns serranas,
Robustos aldeãos, bailando á Hotnbra
Dos e ali perto
Impressas vozes tnes sobre um sepulchro:
c:J á f ni, já fui tam btnl pastor da Arcadia,
painel dos gostos
Do nada da existencia, está dizendo,
Ou parece que diz: « Mortaes, cuidemos
Em lograr, tudo vae desvanecer-se;
Jogos, danças, pastores.» Dentro n'alma
Ao jubilo vivaz, ulvoroçado
Mansa tristeza por degráos
Imita estes effeitos. Não receies
Em quadros .ledos pôr sepulchros, e urnas,
Monumento fiel das magoa.s
Ah ! Quem não tem chorado alguma perda
Rigorosa, cruel I Eia, associa,
Longe do mundo leviano, e cego,
Os bosque!il, alloa8, ftôres com teu pranto.
um a1nigo em tudo almas sensíveis;
Já co'as sombras pacificas se curvam
Para abraçar a campa, onde suspiras,
O teixo, o agudo pinho, e tu, cypreste,
Das cinzas protector, leal aos tnortos.
Tens ramos, que affeiçoam genios tristes,
Deixa1n a gloria, o gosto ao louro, ao myrto:
Do guerreiro, do amante a venturosa
ArvÕre tu não és, porém teu loto
Compadece-se, e diz co'As nossas penas.
Em todos estes monumentos nada,
Nada de apuros vãos. Aliar podeR
Acaso, ante estes lugubres objectos
A arte co'a dôr, e co'a riqueza os carnpos?
Longe principaln1ente o
POBM.AS DIDAOTIOOS 'I,BADTJZID08
Longe falso, nrnas sen1 magoa,
Que o capricho formou; longe as estatuas
De animal ladrador, de ave nocturna:
Isso profana o luto, insulta as cinzas.
Ab ! Se as de algurn atnigo ali não honras,
De envelhecidos teixos lá debaixo
Não vês a sepultura onde esconder-se
Hlo de ir n.quelles, que, por ti curvados,
Por ti soando sobre ingratos sulcos,
No seio da indigencia á morte ·esperant?
Pejo de ornar-lhes o sepulchro humilde
Terás ? E' certo, que não podes
Gravar illustres aventuras n'elle:
Desde o incerto crepuscolo, ean que os cha1na
Ave madrugadora a seus trabn.lhos,
Té ao serão em que a fanJilia tenra
Com elles vae sentar-se ao lar, qoe estala,
Em paz, e en1 lida egual seus dias correm.
Nem guerras, nern tractfldns os distingue1n :
Nascer, soffrer, rnorrer, eis soa historia.
Mas o seo éoração (ah !) não é surdo
Da 1nemoria ao rumor. E qual dos homens
No momento fatal da ausencia eterna,
Qual se não volve, e tristemente alonga
A vista pelos campos da existencia.
Não tem na idéa de deixnr saudades
Algum gosto, e dos olhos de tun an1igo
Não espera orna lagrima? Epitaphios
Para adoçar-lhe a vida, a morte lhe honrem.
Aquelle, que, maior do que a Fortuna,
Serviu seu Deus, seu rei, família, patria,
E o pudor imprimiu no rosto á filha,
Merece que de pedra menos brot.a
A campa se lhe dê: suas virtitdes
Contem· se ali, e as lagrimas da aldêa;
Gravem-lhe sobre a lousa:- «Aqui descansa
O bom filho, o born pae, e o bom consorte.))
Encanto involontario ha de mil vezes
Teus olhos attrair ao sacro sitio.
, E to, que estás cantando, antes carpindo,
Debaixo d'estas arvores piedosas,
Tu, primeiro que as Musa tninha,
57


58 OBRAS DE BOOACJE
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Suspende en1 oblação tua grinalda
Na ratna veneravel. Muito ernbora
Outrem celébre e1n verso a forn1osnra:
Nos gostos engolphnda a Musa de outren1
Da cabeça ján1ais deponhn o tnyrto;
Télas trajando, rie ouro,
Só da meiga alegria entôe os hymnos:
Verso consolador tn dás ás cinzas.
E prin1ei ro que as outras a 1não tun
Algumas flôres sobre as ca1npas sólta.
Para baixo de somhras
V clten1os, que é já ternpo. A architectu rn
Em selvoso logar indn Jne tlspera,
Para adornai-o de edificios
Já não do luto os triMt.es.
Mais eis gostosos sitios, quo em mil
Entre a verdura priruor offertan1.
O uso, porérn, lhe app1·ovo, e tolho o abuso.
Desterra dos jardins 111ontão orde1n
De edificios essa potnpa
De perdularia moda: os obelisc( s,
Rptundas, e kioskos, e
Esses cabos de ingrata architectura,
Ron1anos, gregos, arabes, chinezes;
Esterilmente profusão fecunda,
Que o mundo inteiro n'um jardim concentra.
Não procures tambern ocioso ornato,
Antes disfarça etn util o
De seu senhor thesouro, e seu recreio,
A herdade exige catnpesino ndorno.
·Lares, que sobre o can1po ergueu o
Magnifico solar não a desdenhe;
As riquezas lhe deve, e d'elle ao fausto
Sobresáe tanto a singeleza d'ella,
Quanto de Artnida aos artificios todos
Sorriso ingenuo de acanhadn virgem.
A herdade ! A este no1ne hortos, colheitas,
O pastoril reinado, o e1uprego dôce,
Os innocentes bens dc1s aureos tHnlpos,
Cujas meigas ituagens enfeitiçam
A infancia, que é na a edade de ouro,
E tanto a infancia minha enfeitiçaram; ·, ..
....
, I
. .
.

POBKAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 59
Isto, ah! Isto, que idéas, que saudades
Dentro do coração n1e não desperta I
V em, já das aves tuas ouço o cantn :
Já chiam carros, da abundancia ao pezo,
Que as tulhas te detnandam, e a cornpasso
Cáe o instrnm.ento, que debulha üS 1nilhos.
Orna, pois, o teu predio, mas comtanto
Que, pródigo, en1 palacio o não convertas.
Por seu caracter simples, e elegante
Entre os jardins, on quintas é a herdade
O mesmo que entre os versos é o idyllio.
• •
Pelos numes dos campos, ah! desvia
O luxo audaz d'este modesto,
Desvia-o sempre; de occult;•res não tractes .
Nem os lagares teus, ne1n celeiros;
Vêr quero o trem ceifas, das vindimas
Vêr o crivo, a joeira,.onde co'a palha
O grão dourado salta, e recáe puro;
A grade, o trilho, tudo o ntais d:a granja,
Sem pejo aos olhos meus SA manifesten1 ;
Mórment.e de animaes o tnobil quadro
Lhe dê por dentro, e fora ntn ar vivente.
Não vêmos do solar o adorno esteril,
A graça a im1novel pompa:
Debaixo d'estes tectos, n'estes tnuros
Tudo está povoado, e tudo é vivo.
Que aves, diversas pela voz, e instincto,
Que no abrigo da telha, on cohno habitatn,
Republica, nação, fatnilia, reino,
Me entretêm con1 seus brincos, seus costumes !
Eis á frente de todus gira o gallo,
O gallo, feliz chefe, pae, o arnnnte,
Qoe, sultão sem molleza, distribue
Pelo serralbo aligero a ·
Une ao jus do valor o da
lmpéra carinhoso, altivo afaga;
Para manda.r, para g-osar nascido,
Nascido para a gloria, an1a, combate,
Triompha, e logo sens: tritunphos canta.
Hão de aprazer-te o vêr cotno elles brincam,
Como contendem; seu amor, seus odios, ..
E até soa comida.· ·Assim· asaoma
.
o. • '
.. o f •
I • t 'I f
o I' '

80 OBRAS DB BOCAGE
Cotn a teiga nas mAof! a dispenseira,
De repente a nação voraz, e leve
Vôa d'aqoi, d'ali, de toda a parte
Em torbilbAo ruidoso, e quasi a om tempo.
O sôfrego tropel junto á que o ceva
Sobito fórmn um circulo apinhado;
Ha taes que, sempre expulsos, tornan. sempre,
PPrsegoem o comer, •· até na pahna,
AfFontos parasitas, vêm furtai-o. .
Este povo domestico . protege;
NAo soberbos, mas sAos seus sejatn.
. Decoradas estancias que lhe prestam ?
Marmóreos e aureua grades?
Mais lhe t•praz, muito mais, um grAo de milho.
Já Lafontaine o disse. Oh Lafontaine!
Oh sabio verdadeiro, eraM Jncroso
N' este Jogar! Cantor feliz do instincto,
Melhor te inspiraria nqni o olhal-o!
Fofo o pnvAo de assoalhar seu
A inchaçAo do perú, mais louco ainda,
Teus pinceis alegrá ra á noHsa custa.
Viras aqui dos pomhos teus a image1n;
De dons gallos nmantes a discordia
A dizer outra vez te obrigaria:
«To derrubaste, Amor, de Troia os muros!:»
D'est'arte nos apraz, e attráe a herdade.
Mas em outra prisão que vulgo fere
Por incognitos sons os meus onvidos?
Extranhos animaes ali se
lfaravilhas dos olhos, ali viven1
N'om suave desterro encarcerados
Brotos da terra, do ar, e um d'ontro pasmam.
Extra.vagantes castas nlo procures,
Prefere o que é mais beJlo ao que é mais raro.
Mostra-nos aves n'ontros céos creRdas,
Que, validas do sol, seus )ornes vibram;
Da indiana o vivo eRmalte,
E o ouro do faisAo purpureado.
Aves de melhor se alojem;
Elias mesmas sAo luxo, e co'a belleza
.Já que a inutilidade ellas compensam,
Brilhe a prisAo como os captivos brilham.


.
POBJIA8 DID.AOTIOOS TRADUZIDOS 61
Rebeldes animaes, porént, não tenhas,
·Cujo orgulho se irrita, e cansa em ferros.
Quem póde vêr sem magoa o rei dos ares,
O passaro feroz, que andou folgando
Lá por entre o trovão, por entre o raio,
Quem póde vêl-o na gaiola indigna
Esquecer o relampago dos olhos,
Dos vôos a altivez! Livre de novo,
Na abobada dos céos ao sol se atreva:
Nunca p6de ente aviltado.
Mas coui seu lustre peregrino em quanto
Parece que estes hospedes diff'rentes
A' minha escolha, á preferencia aspiram,
O olfato me convida a aquelles tectos,
Onde, do patrio chão tu.tnbe1n rou9ados,
Extranhos vegetaes o vidro ampara.
Tu cérca de ar macio as debeis plantas,
:Mas venera estaçoes, vencendo climas:
Não forces a brotar na quadra feia
Bens, que a bons tempos Natureza guarda.
Deixa aos paizes do Hturado inverno,
Deixa ·embora essas flôres, esses fructos,
De falsa primavera, e falso estio;
Certo de que ha de o sol rnadurecel-os,
Sem violentar seus dons, seus dons espera.
Mas folgo em vêr no transparente abrigo
Prendas diversas de diversas plagas.
Os ibéros jasmins ali se animam,
Friorenta congorça esquece a patria,
Tenro ananaz pelo calor se engana_,
E usurpado thesouro em si te entrega.
Talhe a rasão teus edifiéios varios,
De flôres, e anim_aes forn1oso hospicio,
Oh quantos, quantos 111ais, que o sitio abrace,
Que approve o gosto, recrear-nos podem !
A sombra d'esses hutnidos
Hu1nidos com sadia agua corrente,
Seja do banho o solitario asylo.
Além cabana, em que a frescura assiste,
Offerte ao linhas, e redes.
NAo vês a mansidão d'este retiro?
Dôoe acolheita ali consagro ás Musas.
62 OBRAS DB BOOAGB
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No seio florecido, e magestoso
Ali sómente um obelisco ordeno:
Aos ares sóbe o .monumento augusto,
E lavro sobre a pedra enternecida:
«.A nossos destemidos mnreantes,
Que pe]a patria voluntarios morrem.>>
Assitn teus variados edificios
Ne1n desertos serão, nem ociosos.

Com seu logar se ageitem massa, e fórma,
Cada qual se colloque onde releva.
E não se perca, não destrua a scena
Por sobeja extensão. por muito aperto.
O que erupece ao caracter, e utilisa
Sabe, pois: urn recanto quasi occulto
Lá bem n'um descampado, é que nos pinta
Melhor o desamparo, a solf'dadP.
Sempre a cada expressão fiel te n1ostra;
U tn P-rmo a grande luz não patentêes, ·
Nem selva carrancuda esconda nm templo:
Do monte sobre a espádoa quer ser visto.
Movimento, esplendor, grandeza, e vida
O aereo sitio pelo quadro espalha.
Julgo um aspecto olhar da bella Ausonia,
Esta dos edificios, esta a graça.
Mas de taes monumentos a alegria,
Luxo n1oderno, e fresca mocidade
Valem de antigos restos a v e l h i c e ~
D'esses aqui, e ali dispersos corpos
O já desordenado, e gran volun1e
A fórma pictoresca enlaça a '
7
ista.
Por elles sobre a terra esta marcada
Dos evos a carreira, e dPstruidos
Pelos vulcões, ou tempestade, ou guerra,
Instruem sempre, algutna vez consolam.
Sim, estas massas, que tambem Ja edade
Cedem ao pezo, coino nós cedemO@,
A' derrota geral nos habituam,
E a perdoar á Sorte. Assim Carthago
Sobre os desfeitos muros n'outros tempos
Mário viu infeliz, e estes dous restos
Tão grandes entre si lle consolavam.
Aproveita ruinas venerandas.
'
'

POEMAS DIDAOTlOOS TRADUZIDOS 63
E tu, que os 1neus tens variado
Pelos se1vosos canlJ)(.!õ;' tu: que, longe
Das vulgares estradns,. vás dictando
Leis aos jardins, oh Poesia urna vel !
Oh irmã da Pinturn I A
De longa edade restitue a vida;
Presenta ao gosto os ricos accidentes,
Que o tempo desenhou co'u naão ren1issa.
Uma antiga capella oru apparece,
Modesto, e sancto asylo, onde algu ,, dia
Iam e1n tosco altar, na quadra nova;
As donzellas, e· as tnães, e os seus filhinhos
A bem das messes itnp1orar o Eterno.
inda o respeito estas ruinns.
Ora avulta acolá castello
Em fragosos cabeços, que tyrunno
Do territorio e dos vassallos medo,
Co'as atneias nos céos arretnettia;
Que em tetn pos de terror, discordias,
Viu lançadas tnortaes, viu gentilezas
De nossof" invenciveis cavulleiros,
Os Bayards, os Henriques; hoje o trigo
Sohre os fragrnentos seus lourêa, e treme,
Esta triste, forçosa a rchitectura.
Cingida de verdor fresco, e risonho,
As esplanadas, e angulos, e torres
Rotas, quasi abatidus, onde as aves
Dos amoreM em paz o fructo aqnece1n;
Os gados povoando estes guerreiros
Recintos façanhosos, o tnenino,
Q'onde os avós já guerreára1n, brinca,
Fórrna tudo isto
D'elle te apóssa, dando :tos olhos quadro
Duro, e brando, campestre, e bellicoso.
Mais ao longe un1 1nosteiro abandonado
Entre arvoredos subito se encontra.
Que silencio ! Atnadora dos desertos,
Con1 gosto ali meditação, te .entranhas
Por baixo dus abóbadas sagradas,
Por onde austeras virgens, algum dia
Cotno turvas alatnpadas, que velam
Ante a religião, tan1ben1 velavam
1


ORRA.H D8 BOOAG8
E descarnadas, pallidas, ardi1\m
Por Deus, e emfin1, por Deus se consumiam,
Sancta contemplação, paz, innocencia, .
Como que ainda este silencio occupam !
Musgosos tnnros, o zilnborio, as torres,
Os arcos d 'est.e claustro escoro, e longo,
D'estes altares o degráo roçado
Do supplioe joelho, os vidros negros.
O sombrio, e profundo sanctnario,
Onde, escondidamente desgraçadas,
Almas houve, talvez, que de seus laços
Ás infl.exiveis aras carpissem, ·
E por dôces metnorias ioda. frescas
Algum rnedroso pranto ao céo furtassen1:
Tudo co.mrnove ali, tudo ali falia.
Ali cevando a tnente em soledade,
Ás vezes cuidarás, ao pôr do dia,
Que de algurna Heloisa a. sombra geme;·
Que as ]agri•nas, que a dôr, que os ais lhe sentes.
Logra, pois, estes restos de alto preço,
Ternos, augustos, pios, ou profu.nos.
Mas longe os monumentos, cujo estrago
Do fingimento é filho, e mal imita
Do tentpo as inirnitaveis:
Esses antigos tem pios, fabricados
Inda ha pouco, as· reliqnius de um castello
Que jámais existiu, pontes idosas,
Que hontern nascemm, torreão dos godos,
Que roto, e gasto, não parece antigo:
São artificio inutil, e grosseiro;
Fitando-lhe a attenção, se 1ne
Que vejo un1 moço arrernedando um velho,
Despindo as graças da amorosa edade,
que retrate da velhice as rugas;
Mas estrago real dá pasto aos olhos.
que já contemporaneos fostes
De nnssos bons, e simplices maiores,
Gosta meu coração de interrogar-vos,
E gosta de vos crêr. De novo a historia
Estudo em vós dos tetn pos, e dos povos.
Quanto esses povos tnais fa1nosos foram,
E quanto tnais famosos esses tempos,
POEMAS DIDACTICOS TRADUZIDOS
mais n'esses restos fico absorto.
Campos de Italia! Oh catnpos d'alta Roma f
{)nde jaz, por fatal, e horrivel quédn,
{)oJn todo o seu orgulho o nada do homem !
.Ahi é que ruinas, afamadas
Por grandes notnes, por Jnetnorias grandes,
Dão sublimes liçoes, aspectos graves,
que as paizagens enriquecem.
Vê como cá, e lá por toda a parte
. rapidez dos seculos tre1nendos,
Das nrtes os prodigios destroçando,
-Sepulchros arrojou sobre sepulchrog,
U 1n templo derribou sobre outro templo.
{)lha as edades blusonando ao longe
Co'a ruina immortnl da excelsa Roma.
'Üs pórticos, e os arcos (onde a pedra
E1n caracter fiel conserva ainda
Do poYo rei magnanimas ),
Pórticos, e arcos te1n cansado os ten1pos.
'Ündas suspensas por aqui bramiatn,
Por baixo d 'eH tas portas dilatadas
{)s despojos do mundo iam passando.
Esparzidos estão, no pó confusos
Por toda a parte; os therrnes, os palacios,
{)s sepulcb ros dos Cesa res, etn quanto
De Virgilio, de Ovidio, Horacio, e de outros
· Inda grata illusão nos finge o rasto.
"Üh tres, e quatro vezes venturoso
O artista dos jardins ! Feliz quem póde
D'estes restos divinos apossar-se !
Já lhe vae surda1nente a tnão do ten1po
Ajudando as tenções; já sobre pompas
Dos senhores do mundo, a Natureza
De recobrar os seus direitos fólga:
J_já onde o domador dos reis, lá onde •
Catnpeava Potnpêo ootn fasto immenso,
Agora dos pastores se ouve a flauta,
·Cotno nos dias do tranquillo Evandro.
Vê rir os campos, que ao cultor volvêram;
E relvar os cabritos sobre os tectos,
E obelisco arrogante além caído !
{)lha abraçado co'a columna altiva
''OL. 111
65

5

66 OBRAS DE BOO.AGB
O humilde espinho: as arvores, as plantas,
Subir, baixar em mil festoes, mil cachos;
Aquella, que Minerva aos hornens trouxe,
E a figueira, pelo halito dos ventos
Por entre estes estragos semeadas,
Acabam de abalar co'a raiz branda
As veneraveis obras dos romanos;
A torta vide, a hera de cem braços,
Em torno das ruínas serpeando,
A modo que desejam; que procuram
Recatar-lhe a velhice, ou guarnecei-a.
Se não tens estes restos estupendos,
Terás, sequer, os animados bronzes,
Terás os nomes das edades mortas,
Em que arte divinal forçava os cultos?
Q ~ i z dos jardins, bem ~ e i , gosto severo
Lançar todos os deuses dos romanos,
Dos gregos; mas porque? Nossas infancias;
.Em Athenas, em Roma cultivadas,
Sua dôce magia exp'rimentaram.
Estes numes agricolàs não eram ?
Não pastores? Porque has de, pois, tolher-lhes
Os bosques, os vergeis? Podem teus fructos
Rebentar sern auxilio de Pomona ?
Ou te é dado expellir do imperio Flora?
Ah ! sen1 pre essas deidades n()s encantern:
Das artés inda é culto a idolatria;
Mas haja perfeição, primor na escolha.
Não queiras nos jardins improprios deuses,
Elles sem mngestade, ellas sem graça.
Elege a cada qual assento idóneo,
Seus direitos nenhum ao outro usurpe.
Deixe nas selvas Pan. Porque motivo
Co'as Dryades estão Tritoes, Nereidas?
De qúe serTe este Nilo, em vão c'roado
De canas, e a mostrar do pó manchada
A urna, ·que é de passaros abrigo?
Fóra os leOes, e os tigres: esses monstros
Té nas imagens suas tne arripiam;
E os Cesares tatnbem, mais monstros que elles,.
Sentinellas honiferas das portas
. De bordadas florestas, que, nojosos
POEMAS JJIDACTtCOS TRADUZIDOS
Da suspeita, e do critne, inda parece
Com os olhos as victimas apontam. .
Ao risonho logar que jus têrn elles?
Mostra-me objectos, que eu venere, eu ame;
A' sua apotheósis sagra um sitio,
Elysios cria em que seus manes folguem.
Longe de olhos profanos, sobre valles
De verdes mortas, de cheirosos louros
Honrem seus vultos marmore de Paros;
Goste um remaaso de banhar taes selvas,
E, mesclando co'a sombra os dubios lumes,
Seja Diana affavel o astro d'ellns.
Dos virentes doceis a formosura
Sobre as queridas, candidas estatuas,
D'estes homens egregios o repouso,
A simples, a benigna magest.ade,
Correntes setn rumor, como as do LethcR,
Que para aquellas abnas tão serenas
Parece vão o esquecimento
Da crua ingratidão, e de outros males;
Bosques, e o dia, entre elles expirando,
Tudo respira a dos rnanes ledos.
Tu nAo consagres, pois, se não tranquillaK
Estremadas virtudes n'esses campos.
J.Jonge, longe os fataes conquistadores,
Verdugos, não heróes: esses logares
Turbariam talvez, cotno turbaratn .
Este mundo infeliz: ali colloca
Os amigos dos homens, e dos deuses:
Os de que ainda beneficias vivem
Na fama e tradição; uunbem monarchas,
De que o seu povo não chorasse a gloria:
ahi Fenelon, tnostra á saudade,
E co1n Sully se abrace Henrique o grande.
· Dá, dá-me flôres, cobrirei com ellas
Os sabios, que em longinquas, novas prains
Artes consoladoras demandan:un,
Artes consoladoras desparziram.
E tu, primariamente, heróe britanno,
Tn Cook infatigavel, denodado,
Que acceito, e caro aos corações de todos,
Unes co'a magoa teu paiz, e a França:
67
I
I
1
68 OBRAS DE BOCAGE
Que a essas regiões, que aonde o raio
Outr'hora os europeus annunciava,
U til, novo Triptólemo, guiaste
O serviçal cavallo, a ovelha, o touro,
O arado agricultor, e as patrias artes,
Nossas furias, e roubos expiando:
Cotn dôce paz fraterna lá surgias,
Prantos, e beneficias lá deixaYas.
Ilecebe de utn francez este tributo •..
E á tninha gratidão que in1porta o clima?
. ,.,.irtudes im1nortaes do illustre Nauta
Nosso concidadão já o fizeram;
No exemplo o nosso rei se in1ite,
])igno de ser seu rei. Ah ! que aproveita
Ao pastnoso varão ter Yezes duas
'risto os mares de gelo, os céas de fogo,
Ter estes affrontado e rôto aquelles?
Que as ondas, ventos, povos o acatasse1n:
Que etn tQda a vastidão do pego hnmenso
Fosse itntnune, e sagrada ·a quilha sua;
Que só com elle repritnisse a guerra
Seu horrido furor? Do tnundo o an1igo
(Ai!) Morre ás mãos de barbaros selvagens.
Oh Yós, que latnentaes Reu fhn cruento,
Da potente Albion filhos,
ltnitae-lhe, que é tctnpo, a a1nbição nobre.
Porque em yossos quereis escravos?
Dae-lhe fraternidade, e não cadêas.
Dos louros triumphaes cingida o fronte,
Dos louros, que o francez colheu de
Té a me:-\nla victoria a paz cubiça.
Desce, prole do céo, Paz suspirada,
Doura este globo, en1fim, com teus sorrisos,
Dos sitios, que eu cantei, requinta as graças;
Fórrna un1 povo feliz de tantos pov·os;
Aos campos abundancia restitue,
E restitue ás ondas o cotninercio;
Hajam da tua tnão, propicio nume,
Os dons tnundos socego, as artes vida.
'
NOTAS
CANTO I
(Pag. 12, · t ~ e r s o 11)
Assumpto amavel, que tentou Virgílio, etc.
'rê-se nas Georgicas, liv. xv, que a composição dos jardins
de que faliam, é mui singela, e naturalissima, e que se acha
n'elles o util com o aprazível: pomos, flôres, hortaliças. Mas
estes jardins são os de um ordinario habitante dos campos;
jardins, taes como, com um gosto simples, quizera o sabio or-
nai-os, ·e cultivai-os pela sua mão; taes como folgaria de os
aformosear o amavel poeta, que os descreve. Não tractou
d'aquelles jardins famosos, que o h.txo dos vencedores do mun-
do- os Crassos, os Lucullos, os Pompêos, os Cesares, carrega-
ram das riquezas da Asia, e dos despojo3Jdo universo.
(lbid., ·rerso 24)
De Alcino o luxo, o g-osto, ainda rude,
Punha a curto '·ergel modico enfeite, etc.
É um monumento precioso da antiguidade, e da bif-5toria dos
jardins, a descripção, que faz Ilomero do de Alcino. \
1
ê-se,
que elle distava pouco do nascimento da arte: que todo o seu
luxo estava na symetria e ordem, na riqueza rlo chão, na fer-
tilidade das arvores, nas duas fontes, de que era ornado ; e
todos os que quizessem ja..rdim para gosar, e não para mos-
trai-o, escusariam outro.
(lbid., verso 26)
Eis com arte maior, mais sumptuosa
.Jardins nos ares Babylonia ostenta.
Parte ti' estes jardins suspensos ainda durava mil e seiscen-
tos annos depois da sua creação; elles foram o assombro de
Alexandre, quando entrou em Baby1onia..


70 OBRAS DE BOUAGB
( lbid., t·erso 28)
Os latinos heróes, de os filhos,
Depois que Roma agrilhoava o mundo,
Davam repouso ameno á gloria, ao raio
Em frescos hortos, que a victoria ornára ..
Existe monumento inestimavel do gosto c fórma dos jardins
romanos em uma carta de Plinio Junior, e n'ella se lê que já.
ent_ão conheciam a arte de a:ffeiçoar as arvores, de dar-lhes
diversas figuras de vasos ou animaes; que a architectura e o
luxo dos edi:ficios eram dos pri1narios orn.an1entos dos J>arques;
mas que todos tinham um objecto de utilidade, objecto em
demasia esquecido nos jardins moderno:, .
.
(Pag. 13, verso B!J)
Belo.)il, a um tempo
Campestre, apparatoso, etc.
Belooil foi u1na casa de recreio, ou quinta, do princiJ>e de
Ligne.
• ( lbid., verso 40)
O amavel Tivoli, de fórma ex.tranha
,
. A França descobriu tenue modelo.
O local de Tivoli negava-se aos grandes effeitos pictores-
cos ; mas Boutin teve o merecimento de colher d'elle a utili-
dade possível, e principalmente de ser o que primeiro expe-
rimentou com bom exito o genero irregular.
(lbid., 't·erso 42)
Montreuil Graças dPscuharam rindo, etc.
l\Iontreuil era um bellissimo jardim da princeza de Guime-
né, na estrada de Pariz a Versailles.
(Pag. 14, 1)
1\laupcrtuis, le Desert, com que
Rincy, Limours, etc.

1\laupertuis. Este jardiln, conhecido pelo nome de Elysio,
pertenceu ao marque·z de 1\Iontesquieu- Se bellas aguas, so-
POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 71
berbas plantações, apraziv.el mixto de collinas e \"alles fazem
um sitio formoso, o Elysio é digno do seu amavel nome.
Le Desert. Este jardim foi desenhado com muita graça por

Monville.
Rincy. Este lindo jardim foi do duque de Orleans.
Limours. Este logar, naturalmente inculto, foi mui aformo-
-seado pela condessa de Brionne, e Jlerdeu parte da aspereza,
sem perder o c ~ r a c t e r .
(lbid., ve·rso 6)
.•.... e parecido
Comtigo Trianon, deusa, que o reges, etc.
O pequeno Trianon, jardim da rainha, é modelo n'este ge•
·nero. Parece que a riqueza foi n'elle e1npregada sempre pelo
_gosto.
(lbid., verso 10)
Grato asylo d'um príncipe adoravel,
Tu, cujo nome de apoucada idéa, etc.
E o gracioso jardim-Bagatela-composto com muita arte
para o conde de Artois, e que tem a vantagem de se achar
no meio de bosque aprazível, que parece parte d'elle. O pavi-
lhl.o é de uma elcgancia rara. Nlo se poderam nomear n'este
poema outros agradaveis jardins, feitot; alguns annos depois.
(Pag. 22, ve·rso 11)
A arte os prometta, os olhos os esperem:
Dá quem promette, que1n espera gosl.
Este ultimo hemistichio vem n'uma epistola de Saint-Lam-
oert; a reminiscencia o introduziu n'este poema.
(lbid., verso lJ/J)
Entre KeiJt, e Lenotre eu não decido, etc.
Kent, architecto, e famoso desenhador em Inglaterra, foi o
prim.,iro que tentou felizmente o genero livre, que principia
a lavrar por toda Europa. Os chinezes slo sem duvida seus
inventore8.
72 OBRAS DE BOCAGE

(Pag. 24, 1·erso 23)
Attenta em l\Iilton, etc.
}!ui tos inglezes querem que esta bella descripção do paraiso·
terreal, e alguns logares de Spencer, déssem a idéa do jardim_
irregular; e é provavel, como já se disse, que este
genero venha dos chins, o auctor antepoz a auctoridade de-
l\filton como a mais poetica. Além d'isso, julgou que se olha-
ria com gosto a magnificencia toda do maior rei do mundo,..
todos os milagres das artes em opposiçlo com os feitiços da
natureza recente, com a innocencia das primeiras creaturas-
que a aformoseáram, e con1 o attractivo dos primeiros amores •.
Não traduziu, nem tão pouco Milton, que devia, e po-
dia descrever mais longamente o Edeu.
CANTO II
(Pag. 34, 1.·e1·so 15)
. . . . . . Sempre verdes,
(Oh :11ouceaux) teus jardins são d'isto exemplo.
O jardim de inverno do duque de Chartres com
um encantamento. A estufa especialmente é uma das melho-
res que se conhecem.
(Pag. 87, verso 38)
Potaveri, tu d'isto és prova, etc.
Este o non1e de um habitante de 0-taiti, conduzido a
por Bougainville, celebre pelo seu valor, e constancia em va-
rias acçrres, e gloriosamente conhecido quer por navegante,..
quer por militar. O passo, que se refere, do mancebo otaitia-
no, é mui notorio e interessante. Só o que fez o auctor foi al-
terar o logar da scena, que fingiu no jardim real das plantas ..
Quizera pôr em seus versos toda a sensibilidade, que re·spira
nas poucas palavras, que o moço proferiu, abraçando a arvore·
. .
que havia conhecido, e que lhe recordou a patria-•E 0-taiti»·
-dizia elle, e olhando para as outras arvores,- •Nlo
0-taiti.»- .A.ssim estas arvores, e a sua patria se identifica-
POEliA.S D1DAOTIOOS TR.ADUZIDOS 73
vam no seu espirito. Julgou o auctor que este lance tão t.erno
e tio novo, poderia minit;trar um helio episodio.
(lbid., -r:erso 41)
Onde é sem pejo amor, amor sem crime.
Observou-t;e em todos os povos, onde .a 80ciedade ten1 feito
curtos progressos, uma certa innocencia nos costumes, muito
diversa do resguardo, e do pejo, que sempre acompanham a
virtude nas mulheres das nações polidas. Na ilha de 0-taiti,
na maior parte das outras do tnar do sul, em Madagascar, etc.,
as casadas julgam dever-se exclusiva1nente a seus maridos, e
quebram raras vezes a lealdade conjugal ; n1as as solteiras
não escrupulisam em se entregar até á paixão momentanea,
que os homens lhes in8piram. Não se sujeitam nem nas pala-
vras, nem nos modos, nem no vestido ao que olhamos como
deveres do 8exo feminino. Mas isto é n'ellas simplicidade, não
é corrupção: não desprezam as nor1nas da decencia, ellas as
ignoram. N'estes paizes a u a t u r ~ z a é grosseira, mas uão de-
pravada. Eis o que se intentou exprimir 1t'aquelle ver:-.;o.
CAN'IO III
( Pag. 40, 1:erso 42)
Sei que em Harlem ha curiosos tristes
Que em seus jardins co'as fiôres vão fechar-se.
Harlem é cidade de Hollanda, onde se commercia muito em
fiôres, e sabe-se a que extravagancia .tem chegado os floristas
no amor á raridade, e ás posses exclusivas.
(Pag. 42, 1:erso 8)
Do cume dos rochedos verdadeiros, etc.
Em geral, não se podem imitar bem os rochedos, nem todos
os grandes effeitos da natureza. Elia ni.o consente á arte em-
prehender estes atrevimentos, salvo quando combate com to-
dos os esforços e cabedaes do engenho, e da opulencia. Assim
se formou, segundo os desenhos de Robert, o soberbo rochedo
14 OBRAS DB BOOAGK
de V ersailles, cujo effeito só o póde adivinhar a phantasia,
que o vê d'ante mão toucado de vistosas arvores, e ornado
de toda quanta verosimilhança e belleza póde só dar-lhe o
tempo.
(Ibid., verso 12)
Aos catnpos de 1\lideléton, ás montanhas
De Dovedále te acompanho os passos,
A ellas, \Vhateli, comtigo subo.
São dons sitios de Inglaterra, famosos pelas fórmas pieto-
rescas da sua cadêa de rochedos, descriptos por \Vhateli, de
que o auctor, assim como Morel, uo seu formoso tractado doa.
jardins, colheram algumas passagens, taes como a cabana e a
ponte suspensas sobre despenhadeiros.l\Ias Delille cuidou em
exprimir de um modo seu as sensações que nascem d'estes as-
pectos medonhos.
CANTO IV
(Pag. 56_. 't-t.rso 8)
Eia, segue o Poussin, etc.
Este famoso quadro é certamente o melhor de todos os de
paizagens. Se não soubessemos quanto a imaginação do Pons-
sin se alimentou com as producções dos grandes poetas da
antiguidade, este painel bastaria para o provar. Quasi todas
às obras voluptuosas de lloracio tem o mesn1o caracter. Por
toda a parte no seio dos prazeres e das festas, aponta ao longe
.a morte. «Dae-vos pressa (diz elle ), quem sabe se ámanhã. vi-
veremos? Nosso fado é morrer; será forçoso deixar esta bella
casa, esta mulher encantadora, e de todas as arvores que cul-
tivaes, só o cypreste, ai de mim ! seguirá seu senhor, mui
pouco duravel.,,
Esta mestna philosophia, colhida dos antigos poetas, é a que
dictou a Chaulieu aquelles versos cheios. de melancholia tão
doce:
Musas, que n'este retiro
Começaste meu prazer,
Plantas, que nascer me vistes
Cedo me vereis morrer.
POEMAS DIDAOTICOS TRADUZIDOS 75
Estes contrastes de sensações, compostas de alegria, e tris-
teza, agitando a alma em sentido .contrario, fazem sempre
uma impresslo profunda; e é o que obrigou o auctor a collo-
·car no meio das acenas risonhas dos jardins a vista
Jica dos sepulchros, e urnas consagradas á amisade ou á vir-
tude.
(Pag. 57, 'L'erso 6)
De envelhecidos teixos lá debaixo
Nio vês aquelles, etc.

N'estes versos, dedicados ás sepulturas humildes dos cam-
<ponezes, o auctor imitou alguns versos do aCemiterio de
Gray.»
(Pag. 64, verso 22)
1\Ias longe os monumentos, cujo estrago, etc.
Chabanon, em uma linda epistola, escripta a favor dos jar-
dins regulares, notou anteti do auctor dos Jardins que os mo-
numentos velhos despertavam memorias, vantagem que não
-tem ruinas fingidas. Esta idéa se acha em outras obras, e
particularmente na de \Vhateli: demais, ella é tão natural,
que era facil achai-a. Talvez o não fosse exprimil-a bem, mór-
mente depois de Chabanon; mas se o auctor se encontrou com
elle, o que todavia cuidou em evitar, confessa e repete, que
os seus versos são posteriores aos d'aquelle poeta.
(Pag. 67, verso 89)
E tu heróe britanno, etc.
Todos têm noticia das viàgens instructivas e animosas do
afa.moso e desditoso Cook; todoti sabem a ordem que Luiz X\ri
deu para se lhe respeitar o navio em todos os mares, ordem
que honra egualmente as sciencias, este illustre viajante, e o
rei, de que elle, por assin1 dizer, se tornou vassallo, com este
novo genero de beneficencia, e protecção.
76 OBRAS DE BOOA.GB
NOTA DO TRADUCTOR
(Canto 1, pag. 20)
. Une principalmente a teus plantios.
Vem no diccionario de Souza, e a harmonia e necessidade
do termo animou-me a adoptai-o, parecendo-me todavia que
os camponezes o usam. A palavra paizagens, de cuja pureza
<luvidei, acha-se em bons eseriptores nossos, sendo um d'elles
Rodrigues Lobo, para mim de tanta decisão como os melhores.
FJH DAS NO'l'AB.
AS PLANTAS
PROLOGO DO TRADUCTOR
Pa1citur in tnvis Z i ~ o r : post (ata quúseit.
Amavel, novo dom te o:tf'reço, oh Lysia,
Attraído por mim do Sena ao Tejo,
Aos catnpos onde Amor, onde a Virtude
Dando leis desiguaes se conciliam.
As aPlantas» de Castel vaidosas surgem
Em mais propicio chão, mais dôce clima,
De mais puros J.,avonios amimadas.
Patria de heróes, de vates, patria minha,
No caro, brando seio acolhe, ameiga
Risos, perfumes, o verdor, o esmalte
Com que em versos gentis, das Graças mimo,
Florece a Natureza, a mãe de tudo.
Cordeai gratidão te deve as lidas,
O desvelo, o suor, que mim forcejam
Para teu nome honrar, e honrar meu nome.
Existencia moral, dos sabios vida,
Duplicada por ti me esforça o genio,
A mente me refaz, o. ardor me atiça,
Me fortalece o pé na estrada immensa
\
Que vae da natureza á. eternidade.
Soltas de umbrosas, subterraneas grutas
O .meu dia invadindo, aves sinistras
Em vão de agouros, e de peste o mancham:
Em vão corvos da inveja á gloria grasnam.
Elles malignos são, tu, Patria, és justa ;
V é da que defraudado o genio seja
De seus haveres-o louvor, a estima-
Haveres, porque engeita os da Ventura.
Aos versos meus posteridade abonas ;
Ouço a voz do Futuro, ouvindo a tua.,
Ouço-a; lá me prantêa, e lá me applaude.
ÜVJD.
80 OBRAS DE BOCAGE
Ern sendo morte e cinza o que hoje é fogo,
As l\'lusas, meu thesouro, Amor, meu fado, .
})o amante, do cantor, de mhn saudosos
1 Ião de con1 myrto e louro ornar-me a campa,
No hun1ilde monumento hão de carpir-me ;
E até da ferrea Ulina algum suspiro
'falvez rne afague, me console os manes.
D'arvores, que dispoz co'a maga lyra
))e Virgilio o rival, Delille ameno,
'fransplantadas por mim, vireis, Amores,
filhas do céo, co'as mãos, co'as azas
Expulsa.r agoureiro, estygio bando,
1\Ialdicto, grasnador, nocturno enxame,
Que, voar não podendo, odêa os vôos.
Limpos serão por vós do vil negrume
Os ares, que o sepulchro tne bafejem.
1\Iusas, Buaves .:\lusas! NAo me assombro,
''ates de ingente gráo não se asson1braram
l)e que a inveja os mordesse, os profanasse:
AncQa resplendor, grandeza opprime
( > espírito arrastado, a mente escura :
1 nveja nunca sóbe, e quer que baixem;
Seus nojosos baldões desdanha o sabio ;
En1tanto que ella ruje, o sabio canta,
E juiz não peitado o escuta, o c'rôa.
,
Se em podre lodaçal negrejam Zoilos,
.As margens do Permesso Ismenos brilham,
D'alma phebêa, creadora, accêza,
A verdade en} relampagos vibrando :
no audaz Francelio, e rompe os astros
delírio, destemida insania :
Jacinto aperfeiçôa os sons do plectro;
co'a propria mão Halicio enloura
R.evive etn ti, Josino, a lacia l\fusa :
1\1 enalca, da puerícia apenas solto
Já conversa c'os deuses; niveas plumas
Nas costas lhe rebentam, cysne adeja.
1\[elindrosos pinceis menêa Alcino,
E off'rece em dôce quadro Amor, e as fJraças.
l)e tão vario matiz compõe-se o mundo,
l\Iil vezes o veneno acode á vida.
! Os odios cevae, cevae a infamia,
'
PUOLOGO DO TRADUCTOR
Furias, que evaporaes tartareas sombras
Contra olympio fulgor, que envolve o genio !
Entre essa escuridão reluz meu uome.
,
A Patria os versos meus sãe aprazíveis;
balbuciei eu,a voz da
Vate nasci, fui vate, iuda ua quadra
Em que o rosto viril macio, e tenro,
Simelha o mimo de virgiuea face.
Se ás Musas não pertenço, eu, que a Virtude,
Philosophia, Amor, cultivo, adoro;
Eu, servo da moral, das leis amigo,
Nos outros, como em mim, prezando a gloria;
Eu, que cem vezes conceben,lo o Olyn•po,
Absorto com Platão n 'un1 n1undo extranho,
Ou olhos divinaes diviuisado,
Sinto no coração, na voz, na mente
'fropel de affectos, borbotões de idéa.s,
E- «Eis o lJeus ! eis o Deus ! ... »-exclamo, e vôo
De repeu.te onde _mil nem vão de espaço;
Pertencereis ás Musas, vós, sem fama,
Sem alma, sem ternura? ... Ah ! Longe, longe
De meus candidos sous, que se enxovalham
Peçonhentas dragões, na pe:-,te vossa.
Graças, oh Phebo, oh nume! Oh Lysia, oh patria!
V ossos dons, vosso applauso altêam, firmam
a cerviz da Inveja o men triumpho .


VOL .. JJI
81
PREFAOÃO DO AUCTOR
Nio exaltarei aqui as utilidades do conhecimento e culiura
das plantas. Este é o objecto do poema,· que publíco. Se meus
versos nlo forem parte para que mais se ame a Natureza, nlo
devo esperar melhor exito em uma prefa9lo.
Esta obra foi composta no intervallo do anno primeiro at'
ao quinto, e muitas vezes me consolou, occupando-me. ,Quem
é que nlo sentido a necessidade de se acolher ao seio da
Natureza ? Busquei n 'elle distracções, que me eram indispen-
savets, e como sempre amei as plantas, foram ellas o primeiro
objecto, que se me o:ffereceu ao pensamento. Paguei-me logo

d'isto, considerando que ainda nlo tinham sido ma teria de
poema algum (porque o que temos. em verso icerca das esta-
ções, e até dos jardins, bem que falia de muitos vegetaes, nlo
póde chamar-se poema is plantas.
Depois do momento de alegria, que se segue a uma inven-
çlo aprazível, as düliculdades me acanharam. Quanto mais
attractivo era o assumpto, mais temia entranhar-me n'um la-
byrintho de arvores, de arbustos, de plantas terrestres e
ticas. O enjôo, iuseparavel do genero puramente descriptivo,
furtou em breve aos olhos o feiti9o dos episodios, e vi que o
leitor pediria a quem o guiasse, o fim_ de um passeio afanoto.
Devia pois, antes de tudo, estabelecer as relaç5es com que
releva o mais amavel dos tres reinos da Natureaa. O
homem (disse comigo) é destinado a lavrar a terra, iato ê, a
cultivar as plantas; .mas perdas reiteradas o fazem conhee.er
OBRAS D& BOOAGE
que o suor não basta, e que a mesma experiencia pede ins-
trucção. Mórmente na jardinagem, onde mais varía a cultura,
ê que· se prova similhante verdade. Cumpre pois, em um poe-
ma como este, unir a theoria á practica, ou por outras pala-
vras, ligar o estudo das plantas com o trabalho, que as tem
por objecto. Reflecti egualmente que ·havia no anno quatro
grandes epochas- primavera, estio, outono e inverno- pelas
quaes a Natureza distribue diversas producções; e concluí
que devia, imitando-a, dividir em quatro partes os estudos e
lidas relativas a taes pro_ducções. D'est'arte se me presenta-
ram o plano e divisão da obra.
Depois de haver dado no principio do primeiro canto idéa
do prestimo da botanica, e proposto modelos para a distribui-
çl.o de um pomar, importava cuidar-se nos trabalhos ·da pri-
mavera. Deduziam-se d'aqui necessariamente o que exigem
as plantas ainda tent·as ; a extirpação das hervas, que as in-
commodam ; a perseguição dos insectos e dos animaes, que as
estragam; como tambem os passeios estudiosos e campestres,
chamados herborisações, e algumas vistas encantadoras, que
· nos offerece a Natureza.
Regarem-se, . é um soe corro necessario aos hortos, e o prin-
cipal trabalho entre .os ardores do verão. Em nenhuma parte
· esta. quadra assoalha suas riquezas CO!D mais pompa que nas
visinhanças do Entre nós muitas plantas forasteiras,
e q uasi todas as aquaticas, esperam esta epocha para brilhar
com todo o seu lustre, vestidas dos caracteres que dist&guem
generos e especies. Todos os vegetaes, grandemente aqueci-

dos, sobem . ao maior grAo nas suas virtudes, e a industria
corre a apanhai-os para a·s precisões e delicias da sociedade ..
O que especialmente qualifica o outono é a madureza dos
grãos e dos fructos. Tem tambem suas plantações e seus ve-
- getaes. A hortaliça patentêa entlo toda a fecundidade; entl.o
a terra se cobre de cogumelos, e as plantas marinhas, arran-
. c adas dos abysmos pelas tormentas do equinocio, enriquecem
as praias do oceano. Em breve a alteração da verdura annun-
cia o declinar do anno, varias especies de aves desertam de
um clima onde o alimento começa a fallecer-lhes; os pomares
despem seus derradeiros fructos, e pagam a divida da N atu-
reza ao homem laborioso .
. Em campo aberto quasi nos nlo occupa o inverno; &.estufa
é que requer a nossa presença, e nos indemnisa da esterili-
dade das hortas. Nl.o digo que os nossos climas temperados
PREFAÇÃO DO AUCTOR 85
deixem de incluir muitos att.ractivos, principalmente em com-.
paração com a ~ terras polares, onde apenas vegetam raros e
miseraveis espinhaes. A folha dos azevinhos, a verdura das
giestas, os pinheiros orgulhosos e outros mil vegetaes, ver-
des, ou ainda em flôr, servem para alegrar então a Natureza
tristonha; mas uma familia deve primariamente convidar nos-
sos olhos e estudos ; fallo dos musgos e lichenes. Debalde ou-
tra estação quereria revindical-os : elles são a alegria e qui-
nhão do inverno.
Com estas idéas fiz o plano e quasi a analyse da minha
obra. Travei n'ella os e.pisodios, e outros atavios, a que sup-
puz apta a materia, persuadido de que o poeta deve preten-
der menos ensinar e profundar uma sciencia, que attraír a
ella os olhos e fazei-a amar.


I
AS .PLANTAS
POEMA
DE
RXOAR:OO DE C.ASTEL
TRADUZIDO ICK VERSO POilTUav.z
Laudo "'ris amaMI
Rit10,, et drcu.mllta
HORAT. Rpist X.
Oanto os bosques, oa rios, aa montianhu,
B as pedras, que humedeoe, e forra o musgo.
(Do Traductor) .

CLt\ NTO I
Campestres divindades, Pan, Sylvanos,
Náyades,IFaonos, Dryades, Favonios,
Ou habiteis as rusticas florestas,
Ou de nossos jardins gnnrdeis os bosques,
Seguir-vos qttero: tutelares numes;
lniciae-me nos mysterios vossos.
E tu, qne um ocio grato aproveitando,
Dos P.abios, dos heróes prazer tens sido,
Tu, que, lustrando a trémula verdura,
Dás formoso atavio a planta, e planta,
Sê minha deusa, oh Flora, e por mens versos
DispOe boninas das que o mundo encantam.
Do Qccaso á Aurora teu imperio corre,
Bordam dons as mauritanas margens,
Do pastor de Lapland attráes a vista,
Omaa as penhas de engraçado esmalte,
Tê ]' pégo as Dórides te devetn
- .
88 OBRAS DE BOCAGE
O mimoso tapiz dos vitreos ]ares;
Da flor no seio o nectar insinuas
De louro insecto, que organisa os favos;
Por ti, quando selecta essencia apromptas,
Luz a ambrosía nos festins de Jove;
os cachos de aprazival sueco,
E nutridora espiga um de teus n1irnos;
Dos prestimos do frncto n planta ignara,
Sem ti déra não mais que esteril sombra:
As agnas o ar, e a terra,
Teu divinal perfnma o globo.
Riso da Natureza, iman dos olhos,
Desdobra ante elles a verdura amavel,
E cümo nos cristaes de um manso arroio
As flores tuas em meus versos pinta.
, Quando, na infancia da estação mais bella,
As mornas viraçoes derretem gelos,
Que olhos não folgam no verdor da
Que se remóça, e do botão, que nasce ?
Mas se attentarem que as tenrinhas plantas
Alçando-se, trarão comsigo em breve
O alimento, a saude, os nossos,
Quen1 lhe ha de o·s fados igno-rar ssm pena ?
Quem não verá que seu estudo facil
E' proveito aos mortaes, e adorno á vida?
Mil vezes herva espessa affoga os trigos ;
Logo porém no estio, arando a terra,
Sem jantais omittir dispendios, lida,
Na joeira o cultor limpou SPrnentes.
Mas não conhece as plantas, cujo enxatne
O terreno invadiu novas messes,
E, exposto de anno em anno a seus insultos,
Perde tempo, e suor sem destruil-as.
Aos gados outras são veneno, e morte.
A novilha, ao volver da primavera,
Não póde entre os rocios, e entre hervas
No olfato distinguir fallaz cicuta.
Morre, e a ignorancia em vão crimina a sorte:
Pastor menos inculto ao damno obstára.
E's dado a frequentar piscosas margens,
Amas a nassa, o junco, anzoes, e as í
Flora aos prazeres teus o effeito abona.
POEMAS DII)AOT!eOS i'RADUZIDOB 89
------------- ---
De quantos vegetaes n. força, o cheiro
Possante engodo ao pescador
Talinhos de herva-docc a rede inclua,
E do nardo fragrante inclua espigas;
Colhe a hortelã, que te recende ao longe,
E hão de c'o pezo arrebentar-te as n1alhas:
Flora te diz tambem do peixe a vinda;
Apenas o agrião no prado assoma,
Á porfia, transpondo a equorea 'estancin,
Aos pulos salmões entram nos rios.
Ditoso quem trilhando a serra, o prado,
Aprendeu, vegetaes, a conhecer-vos!
Sabe que pasto agrada uo boi sobn1isso,
E onde os rojantes peitos enche a cabra;
Os cordeiros brincoes qual herva anitne,
Qual ao ginete restitua o brio.
Quer que lustre vistoso as lãs enfeite r·
Visinbos bosques lhe deparam côres:
Quer a peste abafar de tun mal terrivel?
Antidotos em flôr lá tean nos valles.
Se da raivosa fome horrores lavram,
D'elles a dur..tção não teme aos filhos:
Cuida em remil-os a sciencia logo,
E expulsa precisões, velando á porta:
Dá-lhe luz, patentea-lhe· o regresso
Dos ilaturaes thesouros, não pensado:
Nos bosques tanto fructo, aos ramos preso,
'fanto occulto na terra. ensina
Com que arte agrestes plantas substitue1n
A.carencia fatal dos dons de Céres;
E cotno soube em pães mudar a industriu.
Dos trevos o botão, do pinho a casca.
Vê peJa folha, pela flôr
O desígnio dos sues, o das procellas,
E a monção das sementes, e a das ceifas.
Da sciencia 1nórmente as leis escuta
Tn, que tornas co'a enxada a terra docil,
E ordenas os jardins; mas não te enganes;
Entre os bosques sómente é que releva
Estndaretn-se as leis da Natureza.
Ella atravez dos campos quer que a sigam,
Quer qne trepe1n com .ella aos altos cumes,


90 OBHAH DR BOCAGE
Que busquem si tios onde cre11cen1, brilhun1
V egetaes, qoe plantou c' a mão prestante.
Sem interprete ali fallando aos olhos,
Gosta de expôr incognitos portentos. .
Plantas, que 'fauro cria, e cria Atlante,
Desejas cultivar? Colhe no estado
Qual o caracter é do chão, do clima
Em que usam de medrar ; qne ventoM atnatn,
Debaixo de qoe estrella emfim descobrern
Do seio os rnimos: só então, sustendo
De orna flôr peregrina o tnolle tronco,
Fazes que a patria no teu catnpo encontre.
Mas anteponho u todo nrnigns plantas,
Que a inte1npérie aff"ront.ando no longo inverno,
Me habitam, por querer, no chão da patria.
Se as voltas explorar vou d'otn rochedo,
Acho, ao subir, favor na verde rarna;
Se vastos campos corro, IIR flores
Segoetn 1neus passos, e detétn tneus olhos.
Seus ratnos con1placentes, á porfia,
Se curvam para mim do frocto no pezo:
Vivo dos froctos, e meus males foge1n
D'ante as virtudes que poMsue o tronco.
Vamos nossos jardins ornar co'as plantas,
E ao lavor nos presida o deus· do gosto.
Dons ufano! rivaes u tet·ra partem;
Um, das regras nascido etn Frn.nça,
Entre as artes caminha, envolto em pompas.
Ornam-lhe a fronte mil festões, e as quadras,
Filhas da Natureza, o cinto lhe ornam
De- ramalhetes rnil. Angolo8 fórtna
O til, e assombra além tnpiz
Leito das nymphas.. lndios castanheiroA,
Aqui, tecendo abobadas, nos vedam
A presença dos céos. Cada pas5eio,
Abrindo:-se, presenta á nossa vista.
De Marte os filhos, ou da Grecia os ntunes.
No chão crava Neptuno o azul tridente, .
E ginete feroz do chão rebenta;
Enéas, dos leoes trajando a pelle,
Os deuses de Ilion, e Anchises leva,
Pela sinistra mAo tendo o filhinho,

POEMAS DIDAC'J'IOOS 'I'RADHZIDOS !ll
Que de me4o se volve, e o segue R. custo.
Por nl.o vistos canáes guiada, oppressa,
A nivel dos palacios a agua sóbe;
Rios de· bronze, derramando as urnas,
Como que nutrem tts saltantes ondas.
O outro, cedend!l a pompa, e luxo ás artes,
Do genio as digressões tnais livre segue.
Em ti se apraz ha muito, ilhn famosa,
Qne separam de nós soberbos tnares, · ·
Mas que duros caprichos obstinados
Inda separam mais, por mal do mundo.
Pastorinha gentil, vagando á toa,
Dos passeios traçou-lhe a curvidade.
Arvores, em etn
A modo que por si lá se ordenararra,
E, sem medo á tesoura, estendem, lançatn,
A seu prazer, as voluntnrias sombras.
Lindas cordeiras, de alvejantes vellos,
Retouçam pelo tnonte, as hervas tózan1.
Nos ingentes pinhaes, do norte filhos,
Pan, dos cumes do cerro, ns guarda, as Yéla.
A herdade ostenta aqui catnpestres gritças;
O aceio n'ella morlt, e n'ella ha sempre
A nata, o requeijão, presentes de Io;
O jnnco ali se entrança, o queijo espretne.
Confusos parreiraes nlétn verdejam;
Br6mio risonho, otn tnnrtnore de Paro8,
Se apraz em seus doceis, co'a 1não no thyrso.
Ora corre, e n1urtnnra oocultn a litnpha,
Utn lustroso canal orn apresenta.;
E, alongando cristaes por tnargens de ouro,
Como que ofl"rece á nyn1pha solitaria
De puro banho a saluctar fr·escura.
O misero Acteon das uguas perto,
I>or vingadoras pontns
Diz a todo o itnprndente: (<Acata o pejo·:»
Taes sAo d'estes jardins as leis diversas:
Mas tu, cotno ()ntão, prefere a isto,
Prefere a geira, cujas simples graças
Dão mais proveito do qne exigem cnsto.
Ao nascer da.tnanhã cotnece a lida:
Semêa: sem semente nada é helio.
92 OBRAS DE BOCAGE
- --- ----- --- ---
Prepara, pois, a terra, e mão robusta
Ajude-se do pé, encrave o ferro:
Quando ouvires gorgeio
De ave odiada do hyrneneu, que offende,
Se a chuva por tres noutes fôr perenne,
Diz-se qne em diaA tres surgen1 sementes.
Vedado a Bórcas um canteiro elege,
Que sempre do zenith os sóes aclarem.
Debaixo de torrOes, das berço,
Fecha vapores de fumantes palhas.
Cedo, a semente ali desenvolvida,
. Julga, pelo calor, o inverno estio,
E sem susto confia uos meigos lumes
Seu debil tronco, seus nascentes;
Mas n'ella tu vigia. Apenas vires
Qne a noute pelo céo vem negrejando,
Ahrigo de cristal, e colmo espesso
Dar-lhe conven1 nos duvidosos 111ezes.
Raro não é que subit.as geadas
"Vibrem golpe 1nortnl de noute ás plantas.
A quilo furioso zune, atroa,
Nos tectos, saltinhando, a pedra soa.
Dos antros boreaes como que escapa,
E a ·nós de gelos volve armado o inverno.
Prógne estremece então, voltêa os lares,
Abre vãmente o bico, cnça;
Mas o frio os deté1n na estancia immoveis.
Desfallecida cáe; Zéphyro accusa,
Que, chamando-a co1_11 halito _enganoso,
A vinda lhe apressou, e urdiu seus males.
Sem ti, cultor sagnz, de Flora alumnos
Recemnascidos, caíriam todos,
E dos campos da vida extertninados,
Iriam povoar da morte os
Entretanto do sol fervor disperso,
E o, que a nuvem humor fecundo,
Nutrindo as flôres, de caminho alteam
A herva, que as offusca, e vive d'ellas,
Eis o fado cotnmum. Da inveja os ramos
Co'a negrejante sombra o genio abafflm,
E a mindo o prazer, flôr dôce ao homem,
Se murcha no trabalho, á dôr snccumbe.
POEMAS lllDAOTlCOS 'l'RADUZIDOB 93
Assim chusma odiosa em teus canteiros,
Mordaz ortign, ethusa. peçonhenta,
· Herva, que de }!ercurio indu. se chamu,
O marroio, e mórmente as que, indomaveis,
Ama o sabujo, porém Flora odêa,
Brotam, co'a triste sombra vexam tudo,
E quantas se destroem nos longos dias,
Renovam-se de noute em hora. fresca.
Mas d'estes vegetaes o augmento facil
Tambem aproveitar-se ás vezes póde.
Dêem-se a Vulcano. A flarnrna ainda occulta
O já secco montão corre estalando.
Vê-se aos ares subir um denso fumo:
O lume ondêa ernfhn, caíndo as liervas,
E entre 68 cinzas d e i x a n d ~ ntn sal, que esforça
A languidez da preguiçosa terra.
Nada falta aos jardins, de aceio, ou pon1pa,
Cada planta cumpriu sua promessa.
V ôa·lhe ao seio a tnurmurante abelha ..
Borboleta louçã faz dôces fructos, ,
V
' fl"' A •
. ae, torna a or, ao ar: vaguea Incerta,
E com sen leve adejo adorna a scena.
Por aqui, por ali flóreos theatros
As belgicas cidades alegravam.
Lá de um, lá d'outro objecto ·a vista presa,
Da escolha exp'ritnentava o gr:ilto enleio;
la indecisa do carrnim ao ouro,
Do azul ao branco, do violeta ao róseo.
Tal, ante as deusns, duvidoso, oh Paris,
Tinhas nas graças enleado o voto:
Quasi entregando .o pomo a Juno, a Palias,
Venus olhavas, e co'a mão fugias:
Mutuamente as rivaes se deslurnbravan1.
Porém já de inimigos turba infesta
Invadindo os jardins, devóra a um tempo
As hasteas, a raiz, a casaa, o cerne.
Seu mal o arbusto saneando, apenas
Coberto o golpe tem de fibra nova, ·
Quando, na cicatriz encarniçados,
A têa renascente elles desfazem.
Tal de abutre cruel no curvo bico
Benascetn para a ·dôr de Ti cio os membros:
94 OBRAS DE BOOAUE
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-----------------
No sangue, que se exhaure, e se renova,
Ceva-se dia, e noute algoz eterno;
Gira-lhe o peito, o coração lhe rasga,
Que vi.ve sem cessar, sem cessar morre.
Não imagines que meus versos digam
Redes, ciladas, e os engodos varios
Com que destroe o ardil a infensa praga;
As aves melhor que elle hão de escudar-te.
Vê nas florestas voltear, cantando,
O pisco avertnelhado, a tutinegra,
Milheiras, verdelhoes, e melharucos:
Os damninhos espreitatn, e os perseguetn;
D'elles afferram, e á contigua planta
Vão seus filhinhos alentar cou1 elles.
Triste a toupeira subterranea, tristes
Outros vis animaes, se torre antiga
Ergue as amêas sobre as terras tuas !
Alados caçadores, negros corvos,
Grasnando, se arremessam do alto asylo,
E d'essa vexação teus campos livram.
Amem-se as aves, pois: os frescos valles,
O n1óbil, verde trigo, a rir nos sulcos,
Remansos, grutas, prestarian1 menos
Sem os brincos, e a musica das aves.
São guarda dos jardins. Forruoso arbusto
Fica mais bello, se lhe abriga os ninhos.
A marcenaria mão quanto aborreço, .
Que ás miserandas mães a próle arranca l
Ah! Deixem-se emplumar nas selvas nossas,
Consinta-se que animem vaJles, 1110ntes.
Porque as prendemos? Na pri5ão J1ão póde
Dar-se-lhe o bosque onde trinar lhe é dôce;
Nem a planície aérea, ou mouta amiga,
Que seus prazeres, seus amores sabem.
Aves acordam no modesto abrigo
Das plantas o amador; sáe da cidade,
E vae por entre as matutinas flôres
Admirar o jardim da natureza.
Que encanto ! Que esplendor ! Por toda a pa&rte
Lhe off'rece a terra graciosos quadros.
Ouro da primavera e s ~ a l t a os cerros;
Narciso inda se inclin3, e vê nas agoas;
POEMAS 1'UADUZIDOS i6
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Como a virtude no retiro humilde
Tráe as violetas seu gentil perfutne.
Nas sombrias florestas entra o sabio
Das rochas escarpadas sóbe ao pico
Para indagar os vegetaes sadios,
Que· á pesquiza vulgar Vertuu1no esconde;
E acolhe-se, já noute, aos ]ares doctos,
Co'!l rica preza t-arregado, alegre •.
As vezes de docil turba
Por rneio o segue dos lavrados carr.pos;
Aos montes circntnstantes chegam, trepatn;
Esquadrinhan1-se as n1attas uma, e un1a.
Se algnm canto recata ignota planta,
Levam-n'a logo ao sabio: elle a nomêa
A' multidA.o pastnada, e fnz que observe
Figura, e graças, e caracter d,ella,
Qne mez encanta, que Jogar
Segui, meninos, tão suuve estudo:
Flora seus ddns vos cede ás mãos mhnosas,
Mas poupae sempre os botoezinhos tenros.
O seu quinl1ão deixae da selva aos deuses,
Amantes, como vós, de agrestes plantas.
É fao1a que ao .luar se tem já visto
Dançus n'ntn v alie urdir Faunos, e N yrnphas,
E a trança engrinaldar. São estes numes,
Cuja occulta, benigna providencia
Conserva os e repara os bosques;
SAo elles, que em campestres, ledos jogos
Animam com seus sons penedos, faias,
E 01 eccos formam, resoar fazendo
De colina em colina as vozes nossas.
Tambem da Natureza eu namorado
Buscavá, imberbe ainda, ermos, e sombras.
Raramente V ersailles me attraía,
Nos bosques de Senars dias levava,
De Avron as leivas discorria, e foram
Fontainebleau, Compiegne os meus Elysios.
Céoe! com que regosijo em tens passeios
Vi, Meudon, a abelhinha portentosa,
Insecto vegetal, de flor alada;
Que parece voar, fugir do tronco!
Venha utna planta egual, cruzando os mares,
96 OBUAS DE BOOAGB
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Venha de Atnboino, ou de Ceilão remotos;
Ha de em todo o logar maravilhar-nos.
A riqueza porém de nossos bosques
Se ignora, e chan1a ern vão quent a avalie,
Invade o caçador a estancia augusta,
E ecco ali só repete os sons da rnorte,
Ou golpe, e golpe do ávido n1atteiro.
Vetn, feitiço dos· valles, hranda Elisa,
Que de Amor, e àlinerva os dons possues,
Com teu esposo vern. Já no oriente
Alegra, tinge os céos manhã de rosas,
E o sol en1 breve, de rubis c'roado,
Verás á porta dos palacios de ouro.
Segue o trilho orvalhoso, aqui por onde
Zépbyro entende co'a folhinha incerta,
E fragrancias lhe rouba, eguaes ás preces
Que essa bocca innocente aos céos envia.
Junto á vereda, que rodea o cornbro,
Ante a pereira en1_ flôr, pobre choçn?
O dono, esse bom velho, hontem seguindo
Sen cabritinho, que fugia saltos,
Cnín, ferio-se n'um penedo. Ah! Vamos
Buscar algum remedio a seu tortnento.
Vê como nos ajuda o teu filhinho;
Na8 melindrosas mãos lá vem trazer-te
Simplices, gratos de Epidauro ao nunte;
Solda real, centaurea. Ao velho atBicto
Demos de amiga face o refrigerio.
Ai! Se a dôr, que padece, eu padecerd,
Que dôce, que efficaz me fôra olhar-te !
Delicias cotno as nossas não conhece
Hometn, que da molleza está nos braçoH.
Em vez de a seus ir1nãos sarar os tnales,
Misérrimo entre os miseros é sempre.
Filho da saciedade, o triste enjôo

Seus tnais dôces prazeres tolda, empesta.
Flôres n'utn prado, e n'outro ern vão re\"ivetn,
Ceres debalde os sulcos enriquece,
Entre seus Lyêo campea,
O inverno aos olhos dá severos quadros:
Nunca taes scenas admirou o inotil,
Scenas da Natureza: é como aquelle

POEMAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS /
A quem barbara mão oegou no berço,
E cuja umbrosa vida é somno eterno.
Crescendo, dobra o lustre a Natureza;
Vigor celeste a mocidade anima.
Tudo fermenta, existe. Olha o carvalho:
Lá formosêa o chão co'as tardas sombras.
V em á terra humidos ares,
E a frescura do céo na terra induzem.
Em torrentes o sueco inunda os gomos,
Perfuma p valle, aron1atisa o bosque,
Becrêa-me os sentidos, e
Que as da vida e1n mim renova.
As nos seus ninhos cuidam todas;
Colhem crinas, que despe o mareio bruto,
Leves guedelhas, que o picante espinho
A'· mansa ovelha na passagern rouba.
Seus mil requebros exprimir quem póde, .
Transportes, e negaças brandas ?
Vê o ardente pardal,"se o punge Venus,
Como treme, e esvoaça em torno á femea;
Parece redobrar o ardor na posse:
Mil vezes morre en1 gostos, mil renasce.
De novo myrto Atnor já !cinge a fronte,
Do mundo vegetal fez a conquista:
Exceptua os ciumes, e males,
Verás que as flôres, como nós, se inflammam.
Oh tu, que em Paphos, etn Cythéra incensam,
(Que. digo : O templo d'elle é toda a terra)
Gran deus! Co'um de olhos tu me alenta;
Ergue tneus versos; vou cantar-te a gloria.
Em a.znes ·pavilhoes, purpureos, verdes
A pompa nupcial dispoz Cyprina.
As plantàs, que só Zephyro abalava,
N'outros meneios seus desejos pintam_. ·
Ahreru, riem-se, inalinam-se, e confundem
Os fogos, as paixoes, que amor lhe inspira.
Se o dia se marêa, o céo de nuvens
_ Damnos lhe agoura, de repente o calix
O ramo, a folha, unanimes se agitam,
Para esquivar-se da procella instante.
Cerrados pavilhoes os golpes frustram,
E a mais suave tempo amor trasladam.
voa. aJ 1
-
(
OBRAS DB BOOAGE
--- --------- ---- --- --------
, Cada especie tem leis; guarda uma estancia
As vezes par a par o amante, e a amada:
Em diff'rentes estancias habitando,
Longe um do leito do outro ás vezes vive.
Tal sobre os prados o salgueiro off'rece
Sexo diverso nos floridos troncos.
Quando para .o Carneiro o Sol tornando,
No coche Amor conduz, e a Primavera,
O macho faz voar por entre os campos
Substancia fecundante á verde socia;
Um lado de permeio embora esteja:
Elles (merc@ d'' Zephyro) se gosam.
O Rhódano entre as ondas escnmantes
Por dez luas nos furta aos olhos planta
Que na estação de amor desmanda o tronco,
A flôr das aguas sóbe, e luz nos ares.
Os tnachos, atéli no fundo immoveis,
Rompem seus debeis nós, seus laços curtos;
Con1 livre, afouto nrdor ás ferraeas nadam,
Gran séquito lhes for1nan1 sobre o rio:
Festa se ant'olha, que Hymenêo tisonho
Pelas ondas aznes guia, assoalha.
Mas tanto que de Ve·1 t" finda o prazo,
O tronco se retira, encolhe e torna
Semente a amadurar no d'agua.
·J uncto aos pólos glaciaes, n<'s fins do mundo,
Onde rapido in,'emo o estio absorve,
E ern vão des·eja o fructo,
Derroga Natureza as leis constantes,
Faz do <:-Jilix snír vivente planta,
Que se une á terra, e, de vigor provida,
Brevemente da n1ãe a altura egualu..
A noute, amiga do prazer mais dôce,
P.resta aos suspiros tutelares som hras:
Lá entre oA vegetaes o rei das lutes
Aos mysterios de amor é quem presid(l •
.Mal que ás portas do céo velando as Horas
No carro as guias de ouro ao Sol commettem,
E o primeiro fulgor, que d'elle escapa,
Guarnece no borisonte os RJ!roS cumes,
Dos subditos de Flora a maior parte,
Cortejando louçãos a etherea deusa,

I
I
J
POEMAS DIDAOTIC08 TRADUZIDOS 99
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Celebram hymeneus por entre os vivas
Das aves encantadas. Outras flôres
As horas querem antes em que a ternt
Das humidas manhãs o orvalho exhala;
Mas cada qual de nonte o rosto véla,
E em ponto certo se retira, e dorme.
Se algumas. flôres de eRtrangeira origem
Evitam entre nós diurnos lumes,
Quaes as bellezas, que na côrte imperam,
Velando as noutes, e dormindo os dias,
E' que lá, d'onde ao seio as trouxe Europa,
Nasce a luz quando cá .se espalham trevas;
E' que, segundo as leis da patria soa,
Se abrem, sem ter difF'rença ~ m mez, e em hora.
Taes, não longe de um lenho aberto de ondas,
lliseros nau tas,. evadindo a tnorte,
Reliquias aj11ntando em ilha ignota,
Os costumes da patria ali transplantam,
E, mantendo-lhe as leis n'outro hemispherio,
Sen infortnnio, seu desterro adoçam.
Porém que nova scena I Um leve insecto
Agil nuncio das flôres eis se torna.
Desviados no campo esposo, esposa,
Terreno, que os desune, andar nAo podem?
A abelha, volteando a elle, a ella,
Do reciproco amor conduz penhores.
O homem tambem lhe presta industria fertil.
Onde arde o clin1a, é florecente a palma
Moatra inclinada que ao amante acena,
O africano ao palmeiro um thyrso arranca,
Sacode-o sobre a femea, e vae no outono
Colher d'esta união não raros fructos.
Mas ao seu quadro umor me prende ha mttito,
E inda tres estaçoes pinceis me pedem.


100 OB.BA8 DE BOOAQB
CANTO II
O astro pomposo, cuja luz fecunda
Presta aos dons mundos o cu.lor, e a vida,
Transpoz dos Gêmeos o brilhante signo,
E no cume do céo reluz, triumpha.
Trajando as estaçoes diversas galas,
Sentadas sobre nuvens o rodeam.
Por mio d'ellas verdura entorna, ·e :Hôres,
.. De Céres a riqueza, os dons de Baocho,
Rouca tormenta, que liquide os ares,
E que, apurando-os, fertilize a terra.
Eis, volvendo ao Verão benigna face,
c Vem, sóbe ao carro meu (diz) sóbe, .oh filho;
Na gloria minha, em meu poder te1n parte;
Quero illustrar comtigo a Natureza.
Eia, destapa os montes, erriçados
De altas geadas, que meu raio affrontam;
Faze rolar nos hyperbóreos mares ·
Montlo medonho de azulados gelos;
Ondas, do norte ao equador pulsadas,
Das correntes, e fluxo auctor te aoolamem.
Aguas povôa, e ar; manda de insectos
Sobre as lagôas adejar negromes,
Manda enxames zunir d'entre as hervinhas,
Seus tenues habitantes dando ás flôres.
Por ti fulvo metal na terra brilhe,
Accenda-se o rubi nos teus luzeiros;
lnda mais uteis dons confere ao .homem,
Verdejantes espigas enlourece,
Os trigos doura, que apiedada Ceres
Lhe deu para ajudar-lhe o pezo á vida.
Diz, e dos fados seus o Estio ufano,
Executa de Phebo as leis supremas.
Espraia seu fervor no céo, na terra,
Rio é de fogo, e se insinua, e corre. -
Nio lhes empece, aos campos aproveita,
Que a Natureza em paz vestiu de plantas,
Onde a relva confusa, o musgo, o feto
Tapam de espessos véos a terrea face,
POBJIAS DlDAOTIOOS TRADUZIDOS 101

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. ' . .,
E o que á fecundidade é prestadio . ... . . ·. • ·,. : : : · . .
Só deixam n'ella entrar de estivos lnmê&. · ·. : .. : · .. ., ..... ;: •
Nos Jogares, porém, onde a impérJt, · ...... · •, ·: .. ::: .-·. :
De Flora nos jardins, nos teus, ·: . · : .... ,. .. " ·. ·
Pela calma esgotado, o sulco em breve
Das ftôres suas vê murchar-se a gloria,
Se vida o regador nAo restitue
A' prostrada verdura, em claras ondas.
Nympbas, que ás fontes presidis, e aos rios,
Vo880s poros cristaes prestar-nos vinde.
Feliz quem nos seus campos vê snrdindo
Vítrea nascente de humido penedo !
Ribeiras luzem mais, porém mil vezes
Bisco attesto o pomar de o
A terra não se apraz de ser banhada
Se, pisando-a, simelha os sons do bronze,
Se o meio-dia accezo a tez lhe torra.
Corre agua, que lhe dás, em v lo por ella;
Desespéra inda mais sedes, que a mirram,
Nos ares se evapora, e vae-se em fomo.
A88im de Yemen o incenso, t:m dias faustos,
Mal toca o lume, que na pyra escn la,
Subito ardendo, subito exha1ado,
.Aos deuses vôa na cheirosa nuvem. ·
Quando a 'fitonia moça enfeitam; cobrem
Docel de rosas, de jasmins grinalda,
lnda mais quando, oh V enus, o teu astro
Converte em mantaa noute o dia inquieto,
E' que a terra, da caln1a respirando,
O regador chuvoso anhela, e chama.
Depois de estivas, ensuadas horas
N'haste pendente desfallece a planta;
lias se a frescura lhe penetra o seio,
Logo se animam seus vencidos orgãos,
E reverdece logo, e bella, e branda,
Por entre viraçoes altêa a fronte.
As agnas alegraram planta, e planta:
Todas em largo sorvo as têm gostado.
Em quanto do seu giro o sol no termo
As sombras ioda oppoe de luz um resto,
Tn visita de novo as tribos verdes,
Recolhe cá, e lá seus mil perfutnes,


OBBAS DJC BOOAG&
.
----------------------
.. . . .
. ve .n'9utr.o Jogar luzir-lhé a folha,
• :-,.: .' :·E. a im&gem _ •. em toda a parte.
.. · ·: : _ :Oe· botnes ámanhã do cravo e rosa
. .. .. ..
. '.: . ·-r li aeiiàiltQ preV.êr seus attraotivos;
. . . .. ..
- A cereja, o dàmàSco hão de pagar-te
Desvelos, que exerceste em cultivai-os,
E serão teus jardins no estio ardente,
Qnaes os logares, do equador visinhos,
Onde sempre escaldada a terra, e fertil,
Delicias nutre ao mundo, e não se estanca.
Lá nos polidos lá nos bosques
Seus dons ostenta mais soberba Flora.
Monstruoso arvoredo assotnbra a terra,
E os tempos, os tufões como que insulta.
O Seiba, erguido ali qual torre immensa,
Abarca geiras cem co'a vasta rama.
Seus braços, ás florestas sobranceiros.
Outras florestas são, pelo ar suspensas.
Oh quantas gerações se têm sumido,
Que imperios d'ante os olhos têtn voadfl,
Desde que este gigante aos céors levanta
A fronte, que de seculos blasona !
Mil vegetaes, ao sol não menos caros,
Slo de rara virtude ali munidos.
Deleitoso café, o engenho
V alem teus suecos a Perméssia lympha.
Antidoto celeste ali roxêa
Quando a febre assanhada o pulso inflamrna;
. Trepadora baunilha ali me alegra,
E a siliqua fragrante une aos arbusoos.
Ufano olha C.eilão seus bellos bosques,
Das Molucas a noz festins perfuma.
Certa planta (oh prodigio I) a seus encantos
Liga os 1nelindres do virgineo pejo.
Se com dedo indiscreto ousas tocai-a,
Quer esconder-se a pudibunda folha,
E ás mesmas leis fiel, o mobil ramo
Se inclina para o tronco, e cinge a elle. ,
Admiro as redes, que, ao mosquito infensaa,
A.rachne dependura em torno aos tectos;
Mas do insecto ardiloso o tenue fio
Excedem muito da Diónea as artes •

POEMAS DIDACTIOOS 103
A folha entre lagôas embuscada,
Recata n'um tnel puro aguda ponta,
E de mola infiel se arma, se ajuda.
Mal que a menêa famulenta n1osca,
A folha encolhe, e o ternerario insecto
Eis traspassado, e sosurrando, expira.
De uma 1lôr. tão cruel se· arrede a vista
Lustra amaryllis; o jasrnim branqueja,
Festoes se alongam etn redor da
Purpurêa os botões gentil congorça.
De .verde tatnarindo á fresca sotnbra
Quanto fólgo de olhar paizagem rica,
Onde em seus ran1os o nopal sustenta
Da purpura de Tyr·o o triste herdeiro;
Onde insta veis cipós das rochas pendetn;
Onde a romã brilhante arêas cobre,
Onde ••. não posso nun1eral-os todos.
Risonhas ftôres, delicados frnctos,
Porque me recordaes a historia. atnarga
De extinctos povos cento a ferro, e fogo !
Patrono de crueis conquistadores,
Devêra o. Fado abrir-lhe os carnpos vossos?
llha remota se oh Musas,
Vedada pelos céos á crua Europa.
Exponde aos olhos 1neus ditoso valle,
Tégora dos mortaes não profanado.
Vós me ouvis. Eis magnifico arvoredo
Desparze em torno a 1nim fragrantes sombras. .
De uma fonte con1mum, quaes vem dous gêmeos,
A prado ameno dous arroios descem.
Suspira sobre o myrto a bengalinha;
Por entre as palmas, que Favonio róça,
Rubros loris, e os verdes papagaios,
Abrigados do sol, nas folhas saltam.
Nuvem de araras magestosa brilha,
Pousa nos ramos, e a floresta occupa.
Já nas palmeiras seu revolto bico ,
Abre os frootos, que forra hirsuta casca;
Já mimoso ananaz, que sáe das hervas,
Os aéreos convivas junta em roda.
Innumeraveis ninhos entre as flôres
Um ar vivificanie ali respiram;




104 OBRAS DB BOCAGB
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A rija tartaruga- a passos lentos
Ali junto do mar seu pezo arrasta,
Quando as aves, que amima o deus das ondas,
Os ermos deixam do Oceano immenso,
E as ruivas praias costeando, aos gritos,
Em tropel, quasi noute, as selvas buscam.
Ao ridente Jogar não póde a Noote
Do dia o resplendor furiar co'as sombras.
Tanto qne desce, numerosns plantas
Se accendem todas, e nas trévas luzem.
De insectos mil, e mil chusma
Nos aureos laranjaes lustrando brinca.
Relampagos lhe espirram d'entre as nzas,
E lá scintilla cada folha ao longe.
Cessa o recreio, a escuridade reina:
Eis prazenteiro enxame a luz innóva,
E adeja, e vôa, e folga no ar, que doura.
Mas sombras que a Natureza inflamma,
Montanhns do Perú, planicies
Mal podem, França, equivaler-te ao clima.
Vences o Egypto, onde tres vezes no anno
Se c'roa a terra de opulentas messes;
De Mavorte a cidade, aos reis terrivel,
Nos tempos de ouro te invejára o lustre.
Pastora, junto ao Sena reclinada,
Já mais temeu do crocodilo assaltos; .
Incauto caçador nunca em teus bosques
Pallido recuou, da serpe á vista,
Que, d'entre o matto, qual palmeira enorme,
Abre, surgindo, as rnatadoras fances.
Gados soberbos en1 teus valles bran1an1,
Orna-te os cerros pâmpano afamado;
Corre teu puro azeite ern rios de ouro;
Ceres te abasta os próvidos celeiros.
Junge Marte a seu carro os tens ginetes,
E Nerêo de teu raio ao longe treme.
Que monumentos de grandeza extranha I
Olha: é Bossuet, que assoma, e que troveja,
E' Descartes, que ao mundo illustra o cáhos;
E' Corneille, Pascal, Boileau, Racine;
Este das leis oraculos decifra,
Outro da Natureza expOe milagres; •
POBMAS DIDAOTICOS 'I'RADUZIDOS
E tu, tambem, que os titulos sagrados
Restituíste ao mundo etn letras de ouro.
Eis, eis Marte], que na reo1ota edade
A furia rebateu do mouro infesto !
Carlos, que, de reis cento amparo, ou jugo,
Viu a terra, a tremer, calar-se ante elle;
Os Bayards, os Guesclins, da .guerra nomes,
E cá mais perto Catinat, Turenna.
I Oh pae da Natureza! Oh grande! Oh justo!
Este imperio protege, onde ordem nova
Com teu favor divino, á sombra tua,
O templo social refórça, estêa.
Manda que a paz celeste, e que as virtudes
Em luminoso grupo aqui descendam,
E a amisade, esse bem, por ti creado,
Para se consolar, e o
Dos magistrados esclarece a mente,
A' ventura geral seus passos guia;
De novos Linos as vigtlias honra,
Maravilhas de un1 Deus confia ao sabio;
Amavel pejo na donzella influe,
No rosto a- graça, e candidez lhe apura;
Fórme, unida ao consorte a casta esposa,
De seus filhinhos seu primeiro enfeite;
Eterniza das ]eis o amor. sagrado,
D'ellas escudo; consistencia d'ellas,
E o sol, reflexo teu; jámais aviste
Grandeza, que deslombre a patria minha.
Entremos outra vez nos.altos bosques;
Debaixo de ar accezo o chão se gréta.
Sós as florestas nos off'recem risos, .
S6s nos off'recern a frescura, e graças.
Ao pé da estancadeira, ao pé da esteva
O abrótano levanta azues espigas,
Eis junto ao pinho a teucria resinosa;
O trovisco a familia aqui desparze,
Ali brilha o botão do cravo agreste;
Rubro medronho as hervas embalsama.
E' de fausta cidade a selva emblema, .
Cada especie concorre ao de todas.
o forte ajuda o fraco; este atavia
Em anno, e anno o bemfeitor co'as flôres;
106

'
108 OBRAS DB BOOAG.K
Como guarda fiel, o agudo espinho
Pósta-se aqui, e ali, rechaça os gados
Com seus mordazes bicos; e apadrinha
As arvores nascentes. Mil renovos._
Moço, e fertil enxame, alé1n preseÓtam
Dos tenros froctos a colheita facil.
Girem mais alguns verás aos bosques
Ir de uma, e d'outra aldêa a destro povo,
O pastor despegar do leve ratno
A noz, que esmaga, e que á pastora off'rece.
Alçam em tanto ao céo earvalhos, olmos,
O bordo, o freixo, as arrognntes cópas:
Dos raios o furor provaram muitos,
Os outros, alargando annosas sombras,
Glorioso reinado illesos findam,
E attestam protecção de amigos deuses.
Longe dos seus rivaes, lá sobre os troncos
O corvo, em solidão, vue aninhar-se.
Mas numerar que1n póde os varios entes,
Que erram nas folhas, e que o lenho inclue?
Desde o hypo, que lhe jaz nos pés lançado,
Té ao ramo as nuvens escondido,
Vivem átomos tuil em cada fenda;
Um povo em cada nó se cria, e ferve.
Nascera1n co'a tnanhã, terão á nonte
Da ephemérica vida extincto o prazo.
As mesmas selvas para nós derran1am
O fluido vital, ahna do mondo :
Prestantes, vigorosas fibras soas
O mais profundo chão tambern penetram;
Sorvem a agua invisível, e en1 vapores
Sãos, fecundantes, do escondrijo a elevam;
· Dão vitreo cabedal do monte ás nymphas,
Que refrigere, que humedeça os campos.
Mostrae-me, oh rios, descobri-me, oh lagos,
V ossos bellos -thesonros verdejantes.
Quem vos tocára as humidas madeixas,
Do timido gertnano usado abrigo !
Quem vira as plantas, que alenta.es no seio !
Que1n o jardim das escamo.sas turbas 1
Paremos jnncto á florida collina,
Donde o Mama se vê regando os prados.
f
PODAS DIDAOT.ICOS TRADUZIDO& 107
------- o o-----------
Lá salgueiros sem conto ao rio inclinam,
Ou endereçam para o pólo a rama.
Insecto singular nas folhas mora,
E exhala sobre a margetn róseo cheiro.
Os golphoes sobre as ondas aplanadas
Formam d'aqoern, d'além, tapiz soberbo;
O purpureo litronio, o morto c a ~ ~ o ,
Dão lindo enfeite á solitaria margem;
No proximo espinheiro _as campainhas
Entrelaçando a :Bôr, que a neve abate,
Cobrindo de festoes seus intervallos,
Das graças vegetaes o nó parecem.
Ás .vezes me extravio, e desde a aurora,
Distante do logar, vagueio incerto.
Eis entre serras me apparece um lago,
De que este, e aquelle ext.remo as nevoas t.oldam.
Mas tanto que as penetra o sol fervente,
Dos cumes atravez as vejo alçar-se;
A agua logo reluz, e a sotnbra ao longo
Das vastas selvas, qual espectro, foge.
Em tooo o seu prin1or ólho o thesouro,
Que ao sitio deram circumstantes numes.
Rochas amontoadas juncto ás ondas
Mostram-me arbustos entre as longas fendas;
Por baixo está brilhando o verde n1usgo,
E a seda egnala, tão suave ao tacto.
No lago o crespo abrolho, entre aguas doas,
Estende a fluctoante, a hirta casca.
Se de Eolo algum filho, ali cruzando,
De erguer as ondas folga, rolatn fructos,
Pelas vagas, e o vento arrebatados,
E vem perto de mitn caír na margem.
Atys assim das arvores á sombra
la estudar-te· as leis, oh Natureza.
Tempo viçoso, que se perde, e chora,
Lncrava, ornando no retiro a mente.
Só vinte primaveras tinha o moço,
E do contorno. as plantas já sabia.
Nem cerro esconso, nem trementes lagos
A' sofrega pesquiza lh'as vedaran1;
Attento as indagava; em seus costumes,
Seguindo-lhe os progressos, se instruia,
-
108 OBRAS DB BOCAGB
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E quando a viraçAo lhes abre o seio,
la colhei-as no virente asylo;
Em dobrado papel a flôr lançava,
Mantendo-lhe d'est'arte a car, e a fónna.
Eis seu prazer. Lucila, os seus amores,
D'este _mesmo prazer participava.
Das filhas do alto Olympo as graças tinha,
Tinha a bondade, mais celeste ainda.
Lá nos valles de Eo1ilio os doos moravam;
Sabia-se este amor: sua alma ingenna
Oooultar não podia ardor tão puro,
E a tão pums delicias não bastava.
Danças, e jogos annuaes na aldêa
De Lncila o natal annunciavam:
Realçando o festejo, emfim se ajusta
~ celebrai-o no interior de um bosque.
E, para dispôr tudo, eleito o amante:
Parte, e com que fervor ! Quem ama o julgue.
Oh ! Que projectos a pnixão lhe inspira !
Oh quanto diminue, augmenta, e muda r
·Deviam-se ajuntar n'um fresco sitio,
Onde entre sombra, e loz faUece o dia.
Onde Zepbyro assiste, as plantas folgam,
Brilha 4 sol no zenith, ou no horisonte.
As arvores emtorno se aiTedondam,
Une-as prisA.o de amor, prisão de flôres.
Fórma thronos de relva a mão· do amante;
Aqui da linda moça imprime o nome;
Versos do coração, min .. osos versos,
No tronco de uma faia, além commovem.
A obra se ultirr .. ou conforme ao gosto:
Atys gosa o porvir, já vê na mente
Pela estancia de Flora entrar Luci1a;
Vê pudico rubor tingir-lhe a face
Ante o campestre, não previsto adorno,
Onde as artes de atnor Amor conhece .
.
Emtanto do hemispherio o sol fugira;
Enluta-se a floresta, o som do raio,
Qne urrava ha muito nas remotas serras,
Em pezadns carrancas se aproxima.
c Adeus, ditoso bosque, asylo amado;
Em teu seio ámanhA terás Locila.
POBIIAS DIDAOTlOOS 'l'BADUZIDOS 109
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Amor,· por lhe aprazer, de ti desvie
Os bravos furacoes devastadores;
E nada triste aqui lhe afHija os olhos.»
Assim fallava o misero, eis que o raio,
Da nuvem rebentando, o colhe, o mata.
Renasce o dia destinado a prantos,
Sem que asaalte os ouvidos nova infausta.
Risonhas aldeãs cem teigas enchem
De brandos lacticinios saborosos,
E da purpurea ginja, e dons de Céres.
Solta madeixa lhe engrinaldam rosas,
E em triumpho Lucila ao templo guiam
De verdura, e de amor... Mal sabe a triste
· A- que horrendo espectacolo a conduzem !
Chegam, cantando, ao bosque. Entra Lucila;
Entra, e vê no pavor de áridas sombras
Inanimado, em pé, sem côr o amante,
Sustendo-se n'om tronco, extincto quasi.
«E' elle! E' elle! O Ii. céos b> exclama, e vôa
Com face côr da morte ao malfadàdo;
Acodem-lhe, e, carpindo, as companheiras
Desejam mitigar·lhe as ancias modas;
Seu rosto sem vigor ao seio encostam,
E a levam fria, e semimo.rta aos lares.
Oito loas entregue a viram sempre
N desesperação, sempre á saudade.
Cerrado ao mais, té surdo á natureza,
Seu coração mantinha o golpe occulto.
. Plantas, que tanto amou, não resistiram
Ao duro inverno: pereceram todas.
Como as flôres tambem murchando a triste,
No sepolchro immatura ía abysmar-se.
Eis menino gentil; que nos suspiros
Explica o mal da mãe prostrada, enferma,
Hervas implora, cujo amar·go a livre
Da pertinaz doença raladora. ·
Lncila recordou que aos infelices
Atys o coração jámais fechára,
E, o pezo das angustias arrastando,
Aos campos, mesmo assim, dirige o passo.
Era o tempo em que o sol das ondas surge;
E com puniceo raio as serras córa.
110 OBRAS DE BOCAGE
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Acordando co'a luz, se erguia a planta,
De orvalhos, de boninas e@tnaltada;
Aroma salutar vagava os ares;
Saiam d'entre o bosque as avesinhas;
Quaes pedem pelo campo á Natureza
Dos implumes penhores o alimento,
Qnaes vão de ramo em ratno, e Já
versos naturaes, que Amor lhe ensina.
Lucila os olha, os ouve, e chora, c geme.
Volve em si, colhe a salva, e colhe a arruda,
V ae preparai-as, e em tres dias nota
Que o mal, sem força já, desapparece. ·
Folgou, como Atys, de girar nos campos,
E, adorando-lhe as cinzas, foi, como elle,
Esperança, e guarida aos desditosos.
Vinde aos campos, oh vós, que as magoas finam,
E os filhos de (Jhiron aos ca1npos venham.
Piedosa a mão de um Deus a nossos males,
Contém nos o seu remedio.
Tres eletnentos 08 compoem mónnente:
O pae do acido é um, pae d'agua é outro,
E emfim negro carvão. Com taes principios
Roupas de :Bôres o universo envolvem.
Segundo 08 climas variando especies,
Nos medem precisões pelos haveres.
Quando a tosse importuna em crebro. esforço
Ao velho anciado a machina fatiga,
Molle violeta, em placido xarope,
Humedece, allivia o peito ardente;
A raiz de açncena extingue o fogo .
De acceza cha.ga. Machaon em Phrygia
Nos feridos heróes dictamo espreme:
Já pára o sangue, e obediente aos dedos
O ferro larga a preza, e cáe do golpe.
Por extremo a papoula aos grandes presta.
Do sabio frequentando a estancia humilde, -
O somno foge aos nítidos palacios,
Onde a angustia se volve em seda, em ouro.
Que não póde a riqueza ! Eis planta nova
Usurpa os sulcos, para o rico estilla
Um leite soporifero, que os mimos
Do sereno mil vezes suppre.
POEMAS DIDAC'l'IOOS TRADUZIDOS 111
Onde Athenas luziu, e onde era Esparta,
Nos terrenos phebêos Argos, Mycenas,
Rosa fragrant.e a candidez ostenta,
E entre as grandes ruinns ]d, se eleva.
Seu oleo, que as rainhas prézam tanto,
Seu oleo, resguardado em frascos de ouro,
Vence o nectar, que outr'hora campos
Dos numes aos festins sub1ninistraram.
Mil vezes doce nntidoto ·nos· bosques
Aos venenos de amor se tem buscado.
De hervas amigas se julgou que o sumo
A ternos corações a paz trazia,
ÜM odios,. os desdens anutciava,
E do errante amador continha os vôos. ·
Esperança fallaz ! Chiméra insana!
Circe, a filha do Sol, que transtornava
As leis da Natureza a seu capricho,
De attonitos mortaes trocando a fórma;
E aquella, que a depois ingrato,
O drago adormentou, feroz, e horrendo,
Co'a magica potencia (ah !) não poderam
Deter n 'um coração fugaz ternura.
Bens não busquemos, que não ha nas plantas.
Aquelles bastem, que ante os pés nos brotam.
Numeral-os quen1 póde? O musgo humilde
Dá calor aos Lapoes, e aos Rennas pasto;
Abriga os ovos, que a avesinha aquece,
D'elle o esquilo veloz compoe teu berço,
Ao musgo ·côres mil se devem novas,
E até faiscas de innocente fogo. .
Na mádida espessura, annunciando
Snbterraneos crystaes, não mente o musgo.
Lá no monte, no outeiro as debeis hervas
Reparam-lhe as ruinas, lá suspendem
i>ulvernlentas nuvens, e as arêas,
E os mil fragmentos, que assanhado Bóreas
Alça, varrendo os reseqoidos campos,
E em remoinho arroja e1n torno ás serras.
No concavo das rochas, e ern seus flancos,
Dos ventos a pezar, sustêm-se restos,
Que innomeraveis germes apascentam.
Corre gentil verdor por toda a parte,
1 1 ~ OBRAS DE BOCAGE
E a floresta, os vapores attraindo,
Faz dos cabeços borbulhar correntes.
Dos vegetaes a graça, o gosto ·d'elles
Servido sempre tem de molde ás artes;
Viu-se, imitando-os, o pincel mimoso
As côres variar n'om mesmo quadro.
Do vosso, oh campos, atilado esmalte
As roupas divinaes bordou Minerva.
Dextra sabida no macio adorno
Ergue o jasmim, desabotoa a rosa.
Entalha·os o cinzel té sobre as c'roa ,
E columnas o acantho aformoSêa.
Nas flôres, ah ! que amavel monumento
"fem achado altos dons, altas virtudes!
Que erguidos nomes sorveria o Lethes,
Se as plantas seu louvor não consagrassem ?
Absorvem-se os thesouros, vão-se as forças;
O que o ~ o m e m construe abate a Sorte,
Té na fronte dos reis imprime ultrajes,
. Os palacios derruba, e prostra os bronzes;
Mais estavel que o 1narmore, e que o ferro,
Nutre seu notue a planta, e doma os Fados;
E' vivente insaripção, que se renova
Etn cada primavera, em cada inverno.
Mas de sempre viver qual foi tégora
Muis digno do que o teu, Linné, qual nome?
Vieste, e veiu a orde1n. Luz brilhante
Dourou rapidamente a Natureza;
Dos varios mineraes o leito escuro,
Dos ares o agi) filho, o filho d'agua,
A linhagem de Abril: tudo notaste,
E, tudo conhecendo, ensinas tudo.
Quando medindo pela noute o dia,
Nos céos a Libra assoma, o fresco Outono
Tóma, de uvas
1
e pampanos c'roado,
O sceptro dos vergeis da mão do Estio:
POEMAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS 118
Brincoes prazeres, abundancia, risos
Pregoam a estação e Ieda.
Povo, a que alegre o Marna os ca1npos banha,
E vós da Costa-de-ouro
Os toneis apertae ao son1 do tnulho;
Em seu convexo bojo os arcos se unam.
V thesonros nas adegas surgem,
E a ntbetite vindima escuma, ferve.
Eu, que á sombt•a dos bosques vou no rasto
Do bom V ertumno, e campe8inos deuses,
Em não remota paz esperançado,
Para cantai-os encordôo a lyra.
Junto ás que o prado enfeitam, tiores novas,
Sementes madurar-se eu vi risonho.
Umas vôam setn risco, e lá debaixo
Ficam das hervas, e a seu tempo brotan1:
Arbustos sem cultura assim renascem,
E Cybele amplifica o verde ornato:
Outras, se em dirigil-as não cuidamos,
Cáem, morrem. Taes os grãos, que esquece o· rico,
Se o pobre os não colhesse, em poucos dias ·
Corruptos jazeriam sobre a terra.
Ma ternamente Natureza rege
As varias plantas, que espontanea cria.
E' do homern ao suor propicia tnenos.
Se descançar o arado, em breve os trigos
Deixarão de reinar nos uteis sulcos.
O ponteagodo cardo ali revive,
Recupera a bardana o senhorio,
E os engos das planicies tomam posse.
Caminhe ... se ainda mais á Natureza:
Erga-se o véo, que seus mysterios cóbre.
Vejamos, pois, com que saber, com que arte
A semente. nas flores afeiçôa.
Alta mão, que extrahiu de somno antigo
Germes, . na antiga nonte semimortos,
E que a fórma lhes deu, a a leis constantes
'l'udo emfim sotopoz, o Deus, quiz logo
A terra povoar, nascida apenas.
Disse, e o fulvo leio rugiu nos ermos,
E ao sol, ao raio as aguias se afoutaram ;
O homem alçou depois a face august&;
VOL. lll 8
114: OBBAS DB BOCAGJC
Mas inda os valJes nus, e nus os montes,
presentavam mais que um lodo esteril.
A voz omnipotf'nte, adorno humenso
Envolve a á Natureza;
Deus tnanda á terra que minist•·e sempre
A seus habitadores fructos varios,
E que, em reproduzir-se a planta exacta,
Feche em seus mimos as setnentes suas.
Assim lyrio fastoso, e relva hutnilde
Orgãos pasmosos co'a existencia houveram.
Lá no centro da flor subtis columnas
Vibram da sununidade um pó fecundo;
Taes átomos no ovario se desparzem,
occu]tos canaes ao fundo chegam,
Levatn de cavidade e1n cavidade
,
A semente o calor, o alento, a vida.
Murcha-se desde então. morre a corolla,
E é dado aos olhos vêr ou fructo.
Estas c'roadas plantas todaviá
Nos mesmos sitios existir nAo podem:
Uma deve habitar sedentos cumes,
Outra de um lago as ensopadas margene.
Nos varios sitios a semente é vária;
Aquella, que no monte os &Óes rnaduram,
Rival das aves, cotno as aves gósta
Não pouco de adejar n'nm cerro, e n'outro:
Moveis pennachos tem para elevar-se,
Plumoso martinete, ou azas leves.
Tal, prenhe de ar subtil, globo engenhoso
Com graça balacêa, e sóbe ao pólo.
Exercitos domína em vôo altivo,
Gira por cima de atilsustadas torres.
Desmancha os planos de inimigo arteiro,
Segue os seus movimentos, seus passos;
Guia o .valor frnncez,_ e a dubia paln1a
Nos campos de Flenrus por elle
. -- .... -- ---
Flores, que em margens prende a Natureza,
'fem bateis que a sernente lhe transportem,
V éo longo ás viraçOes uma presenta,
E dos lagos discorre o mudo espaço;
Do rento outra se ajuda, o voga, e
Do rio os torcicólos, no Oceano

POEMAS DIDAC'l'lCOS TRADUZIDO& 115
- .. - - ·----------,·-· - --------·---- ------- ---
Estas fluctuam vegetaes esqundras,
Vingatn, setn guia, imtuensos intervallos,
Enriquecem, passando, estareis praias,
Vão ter ao filn do mundo, e toanam terra ..
O mar não ten1as que as penetre, e vibre
Golpe rnortal aos clausurados gertnes;
Cozeu arte divina as taboas todas·
Dos vi rentes baixeis, e a N atareza
Cem vezes, por tolher o ingresso ás aguas,
De cera pegajosa ungil-os soube.
Assim . da cerieira os fructos nadarn,
Dos dons d'abelha suppletnf'nto antavel;
E assin1 mil yegetues, que vê nas ondas
(Jorrer o bemfadado atnericano.
filhos de Penn, paz dourada
_ Favores alongae de pingue terra,
Nas verdes margens das correntes vossas;
Nos montes, que os limites vos abraçam,
Fructos colhei, que sem ser vistos .cáe1u,
E que roga, talvez, nossa exigenciL
Já vossos esteliferos as teres
Qrlan• nossos jardins; dos cedros
A sombra vossas leis cá .meditamos,
E de lá tantas arvores trazetnos,
Que, abrigado o francez da copa extranha,
Quasi não sabe que hemispherio habita.
Mas por entre estes viçosos
. Anno vindouro tneus trabalhos toquem.
Os bulbos, que na estufa repousavam,
Tornar ás hortas, expertando, anhelam.
D'esta vontade interprete aos tens olhos,
As folhas alongando, eis enverdecem.
Não se espere -a invernada. Assim que os tordos
Attentas nymphas na floresta encantem,
Toma luzente ferro, e desde a aurora
Prepara ás fiôres subterraneo berço;
Lá doceis ao cordel, dispoe por classes
Curvo narciso, e tulipa orgulhosa,
E o janquilho fragrante, e fiôr suave,
Que do moço Hyaciotho a morte affirma.
D'ellas outr'ora o bátavo âttraido,
De theatro em theatro ía admirai-as ;

116 OBJlA.S DB BOOA.GB
-- - -- - --- -- ---- --------- ----

Dando por simples flôr punhados de ouro,
· D'aquella fragil posse alardeava.
Taes, não longe do Euxino, e contra o Phases,
O Cáucaso, em .tropel, eunucos cercam;
Regatêam com ouro a formosura,
Bem, que perde o valor quando é comprado.
Mimosa escrava, destinada aos gostos
Do snltAo, que não viu (ai!) suspirando,
Suspirando vAmente, a patria deixa,
Que a ver não tomará, por mais que chore.
Do mérito modesto emblema grato,
A hortaliçtl tambem carêa os olhos.
Dos bens, que ella redobra, e que varia,
O contente caseiro ao. pezo verga.
(Juidando a terra em premiar-lhe as lidas,
Lhe entrega froctoH mil por rnil sementes;
E a arvore ás vezes em seus dons
Da sua primavera eguala as flôres.
De um vAo melindre ha pouco o vate
Nas hortas, nos pomares tropeçava;
Só vinha no estudado circumloqnio:
O trepador feijão, pegado ao ramo,
A dourada cenoura, a ruiva selga,
Gostos peitando, ouvidos
Tal delirio voôo, e a crespa couve,
Alarde de Milão, redonda e bella,
Já ousa apparecer, seo1 desluzil-os,
Nos sons cadentes da campestre MuKK.
Sueco havendo melhor por· arte minha,
Talvez mais bello te alvejára o aipo,
Mais bello fôra o cerefolho, a azeda,
A salsa, ao pé das agoas;
E, lá nos sóes de inverno, a tenra. alface,
De. no1 moro ao longo os are!i' insultando,
Iria na florente primavera
Seu tributo pagar, e ornar-te a meza;
Mas não tento em meus versos dizer tudo:
É de sobejo que entre dons tão varios
D'aprazivel pintora encontre objecto.
Discorro aqui, e ali, sou como a abelha.
Ora entre cravos, e jasmins, e rosas
A po1npa dos jardins cantar rne agrada;

POKIIAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS 11 i
Ora nativas graças preferindo,
Fólgo ·em veredas de copados bosques.
Retiros demandemos, que a arte ·ignora,
Guiados por Bulliard, ali se busquem
Aquelles sem flôr, sem rama,
Estirpe do rooio, ou da procella,
Fugazes que n 'um só dia
Não raras vezes nascen1, crescem, morrem.
(Jom que insignes feiçOes os assignal-a
A mA.o da Natureza entre a verdura !
Que mingoa ré n'elles carecer de flores,
Se das flôres tem oôr, perfume, e graça?
Dos cerros no pendor sente .. se a rosa.
Désces ás margens de sereno arroio?
Tens na cortiça de humido salgueiro
O lustre do marfim, do anis o cheiro.
Cobertos de herva os cogumelos brotam,
E ergue o agarioo pavilhoes .ufanos.
Querido de Lyêo, e odioso a Ceres,
Nos alqueives tambem florece o feto.
D'elle, abaixo da folha, eu te apontára
Presa semente em amoro88.8 prégas: .
Porém tremendo estrondo atrôa os ares,
E as ondas tnmoltúa o Sul revolto.
Ronca o pélago ao longe, as crespas vagu
Nas escumosu praias esbravejam.
V amos: agora o turgido Oceano
Cóspe os haveres seus ás margens vastas.
Quem pelo equoreo bojo entrar podéra,
Seus profundos milagres quem tocara,
Se das vedadas, invisiveis grutas
A mio do remoinho os nio roubasse?
Vê compridos listoes sobre as a,..êas,
Vê relva, que as Nereidas já trilharam,
Vê porção d'esses bosques, onde o peixe
De .monstro devorante illnde a fon1e.
,
Es ruAe de cada especie; oh Natureza,
Nenhuma se anniquilla: o fraco evita,
Escudado de ardis, com mil rodeios,
Encontro desigual, exito infausto.
D'estas plantas maritimas gran parte
Subsista sem raiz, sem luz vegeta;
118 OBRAS D'B BOOAGB
Outras, do fundo erguendo-se, fluctuam
Dos ventos a snbor na tona d'agna:
1"''res pinhos, cuja fronte as • fende,
A incognita grandeza não lhe Pgoalam.
O n1ar deixêmos. oriente se abre
novo. Oh Pbantasia,
Fada ligeira, audaz ! Desmanda os
Este hemispherio corre. Encara, observa
Cidades da GerJnania, e seus costumes;
Do Sármata, ao passar, prantêa os fadoR;
Transpõe o Tánais, fortnidavel muro,
Mas que os Httnos horrificos
Quando tyranno atroz, d'um Deus flagello,
V eiu esmagar de Europa os tristes· filhos.
Vê sobre as margens que fecunda o Volga,
Recendentes meloes sorver-lhe as aguas.
Reconhece em Tangú potente8 hervas,
Que de sôfrega morte a fouce embotatn;
Prosegue, e, costeando a longa
No proximo terreno abate as azas.
A senha deu-se. Com pendoes diversos
Mortaes dez vezes mil eis trepam montes.
Não é para exparzir corn tnão cruenta
De Jogar em logar o horror da
Tam bem nAo palpiteis, orpbãos dos bosques:
Não ha de Ecco aprender gemidos vossos.
Co' a lindn próle, co'as esposas lindas
Podeis livres errar nos vossos montes.
Este exercito novo a paz cultiva,
Uma planta, nio mais, nas selvas busca.
E1n borda de profunda ribanceira, ·
Ao pé de rochas, que ameaçam queda ..
Junto a cavernas, em fragosas brenhas,
E' lá que aos olhos o ginsão se offerta;
Odêa a ht2: a flor só abre, e pouco,
Se a patrocina, e cobre arvore espessa.
Do principio do outomno ao fim do inverno.
Nos agros climas a incansavel tnrba
Desencanta os tbesonros, filhos do ermo,
E entre os Favonios vem, pezada, ovante.
Seu atavio as arvores mudaram.
Parando na o vago sncoo,
POBKAS DIDAOTICOS TRADUZIDO& 119
-------- - -- -
Da purpura mais viva as folhas córa;
E de um ouro brilhante esmalta os bosques,
Crê-se, no alto das serras vendo o hórdo,
Qoe de raios o doura un1 sol fulgente.
Este esplendor, comtudo, e· rico adorno,
Oh Prirnavera, teu verdor não valem:
Genio, dado á tristeza, observa n 'elles
Não tarda ansencia de amorosos dias.
Vae tu onde vapôres, serpeando,
O passó das correntes arremedam.
Lá o anno, declinante, inda tem flores,
Mas os golpes do frio a côr lhe ep1panarn.
Sóbe á collina, onde tardias plantas
Curvam, tremendo, as pávidas nmbellas;
A enlutada saudade ali se off'rece:
Eis a misero amante a flor mais grata.
Rochedos, solidOes, como elle, estima,
A's tormentas, como elle, exposta vive.
Ah ! se um ferrenho arbitrio, amada Elisa,
Se ·teu rigido páe nos dividisse, .
Se onde agora a gemente nve das trevaR
Solitaria, sem luz, diffonde agouros,
As tranças te encobrisse o véo sagrado;
Se voz terrivel te arrancasse um voto ...
Tremo, e dos olhos me escorrega o pranto.
· Não: 1nens males, meus ais Ás fragas,
Não me ouvira ninguem co'a historia d'elles
Os penedos cansar, cansar os ecoos:
Fora meu sangue n'esse negro dia
dos muros tens a férrea porta.
Tu vives, bella, e para n1in1 tu vives !
Da 1nais sancta unilo gostas.
Tu amas, como eu aiLo, a J•az dos campos,
Anda sempre comigo a ituagem ·tua.
Se entre os objectos em que ponho a vista
Crédores de aprazer-te a)guns contemplo,
Já corro a dar-t'os, e as btillezas d'elles
Com ligeiro pincel te in1primo.
Nio vês a chusma dos aereos povos,
Já promptos a fugir de nossas plagaa? ·
Slo Pomona, e Vertumno os qtte lhe regram
Ausencia, que te espanta. As&itn que Phebo
I
120 OBRAS DJt B.OCAGE
----------------- ·-------
Por mão das estações, sobre os ca tninhos
Lhe apercebeu. festins, se afastan1 logo
Das ribas africanas, e eadereçatu
Rapidamente para o norte o vôo.
Mas depois de exhaurir, de clima em clima,
Dispostos armazene dn. Na tu reza, '
Chamam-se rnutuamente, unem-se as tribos,
VAo-se em amiga tarde, e volvem junta.s
Ao equador, onde mais ferteis campoR
Novas messes luzir, vingar já virarn.
Inda com aza os filhinhos
Não sabem a que parte as mães os guiam;
Mas nos frios do Ouiomno, e tez extranha
Com que elle matizou verdura, e flores,
Desconhecendo já propicio bosque,
Onde por entre os Zephyros brincavam,
Suspirando em segredo um ar mais doce,
Seu berço desatnparam sem queixutne.
Tanto que os vê partir, cuida Pomona
Em saciar do agricola esperanças.
Já do ramo abanado os fructos chovem,
Já surge no lagar montão vermelho,
As cubas, os toneis e u mó pezada,
Que cheirosa colheita em giro opprime.
Porque, o patrio caracter esquecendo,
O do nectar de Aí fautor brilhante,
Co'a satyra manchou liquor celeste,
Que tão mal conhecia ! Exalte, embora,
Seus cachos bellos, e os mimosos travos,
Que ao olfato annuncia un1 brando fumo;
Mas, filho da maçã, tu foste outr'hora
Quem o avivou do audaz nor1nando,
Cujo braço indomavel a seu jugo
Fez curvar Albion cerviz indocil.
Accezo no teu fogo o páe da Scena, .
Melpómene da Grecia á Gallia trouxe,
Roma resuscitou, e ergueu da morte
Tão grandes seus heróes co1no elles foram.
Nas encantadas mezas scintillando,
Unes ao aureo lustre argentea espuma;
A Febre, que nos vinhos mais se inflamma,
Vê-te a face divina, e cede a preza.
POBIIAB DIDACTIOOB TRADUZIDOS 1! l
------------------------------------------
A mãe, que te produz, nem setnpre occupa
Em roda ao fragil tronco as mãos cultoras:
Ella é bastante a si, seus ramos sabem
Dar mil frnctos, e mil; sem desvelar-nos.
E' a amiga de Céres: d'ella á sombra
As chuvas, os tufões despréza o trigo,
E sobre un1 campo só dobradas mesAes
o alimento nos dão junto á bebida.
Salve, planta louçã, que a Neustria enramas!
Liquores teus,. da minha patria nectar,
Se de ernulo desdouro os hei vingado,
Minha emprezu com gloria ao fim dir\jam.
De reliquias das folhas arrancadas
Já diviso alastrado o ohão dos bosquAs.
Do seio dos panes sae a humidade:
E rebanhando as nevoas, os vapores,
Pelos. catnpos estende immensa nuvem
Do sol consolador a imagem véla.
Chorando a terra em vão, lhe implol'a os Jantes
Para a tarda semente, e fructo ignavo.
N Ao madurecetn: podridão maligna
Com seu bafo letha 1 tudo inficioJ\a. ·
Até nos ramos, de que pende o fructo,
O enxovalha, o destroe Celeno immunda,
Ou, soprando a semente estanciada, .
A corrompe inda em leite, e molle, e em tneio.
Natureza este mal sacode ás vezeA:
Abrilhantados céos, calor macio,
Ar puro, que oA Favonios embalancAm,
Valem á flor, o imperio lhe dilatam,
E n o ~ vermelhos campos nos figuram
Da leve primavera o riso, o esmalte.
Tambetn não temos visto acceza a terra,
Se no Outomno fallece orvalho, e chuva?
Vapores côr da nQnte, o céo toldavam,
Qoasi apagado o sol, pintava aos olhoA
Orbe sanguineo, carrancuda imagem.
Escnmava na a r ê ~ o pégo envolto,
Crebro trovA.o bramia, A por mais- susto,
Por mais horror, em negrejando as sombras,
O terrivel cometa, o meteoro,
Agitavam no pólo as igneas caudas.
... ,.
122 OBBA8 DB BOCAGB
N'isto Iberia temeu, temeu Germania
De inevitavel mal o escuro agouro:
Eis que do estrago teu na voz da Fama,
Oh Calabria infeliz, o annuncio veio !
Nas tórridas cavernas o Vesuvio
Entra a ferver, cotn horridos bramidos.
Ergne torres de fumo, as lavas sólta,
Que no troante bojo incendiára.
Rompem, zunindo, e dos trementes cumes
Em columnas de fogo eis se arremessam.
Rochas fundidas, subterraneos raios
Cruzam·se no ar, e as nuvens avermelham;
Em feia alluvião betume, enxofre
Se ennovelam no monte, o sulcam todo,
Correm aos valles concavos, e ant'olham
Dos rios infernaes a horrenda imagem.
Pelo idoso arvoredo o incendio lavra.
Fugindo os brutos por ignotas sendas,
Recuam de uma, de outra; en1 toda a parte
Os acossa, ou rebate a morte em chammas.
Longe das lavas, e abrazados tectos
Os habitantes vagueam:
Sustendo o esposo a languida consorte ..
Do velho curvo o tropego meneio,
A mãe, que ao triRte fim roubar presume
Seu tenro, e só penhor, que ten1 nos braços;
Tudo é lugubre, é vão. Sanhudas vagaeJ
Desolados confins transpõem, bramando;
Tremeu nos alicerces o
Fumegantes abysmos abre a terra,
Muralhas, torreoos alue, abate,
E nas rotas entranhas os sepulta.
Talvez enternecido ache o vindouro
Debaixo de ruínas espantosas
Templos, cidades, porticos, palacios,
Das artes nossas monumento honroso.
Assin1 aos 1nuros, que Hercules erguerct,
Por desventura egual outr'hora ubsortos,
V atnos boje admirar soberbo estrngo,
Cavar da antiguidade as doctas minas.
Que será d'esses tristes, que escaparam
Po1· descuido da sorte, ao ca.so · infando?

POBKA8 DtDAO'l'tOOB TRADUZIDOS 123
De cinzas, e de pedras ignea chuva
· Cobre todo o paiz de fogo, e fumo.
O affiicto lavrador n'aldêa acceza
Viu devorar-lhe os pães a labareda.
Inda no campo em vão procura
Os bois; socios fieis de seus trabalhos;
Nunca mais os cotn dooil collo
Por calcinado ohAo levar o arado:
Regresso já não tem; nem a esperança:
.. ! cotn que h a de alentar a esposa, oA ?
Sacudir a azinheira irá nas selvas?
Co1no, f'e tudo as furias golpearam?
Té nas raizes os carvalhos Keccos ..
A rnina horrendissima propagam.
Em meio dos sepolchros, fogos, lavas,
Surge a Fome. e, arrastando rot.as vestRJ\,
Gira cidades, atravessa aldêas.
Primeiro exerce a raiva em tecto humiJde,
Por marmoreos degráos depois subindo,
1\lette en1 lares dourados a indigencia'.
Vós, cenhosas Eumenides, em tanto
· Hopraes d'aqui, d'ali mortal peçonha.
O mn 1 se tllultiplica, e são do atuqut-
Longas suffocaçoes signal tnedonho ..
Halito na segunda aurora,
Dos queimados pulmões a custo escapa.
Range co'a tosse a macbina abatida,
O humor não quer saír,. impugna
Tnmnltuosa flamma o rosto
Mal o giro do sangue. os pulsos mostram,
O véo mais transparente é ferroo pezo;
Aguda ponta o cerebro traspassn.
Bóme·se o voz, gravame insnpportavel
Esmaga o coração. da nonte,
Da triste noute, que nas ancius crescell
Enferruja-se a lingna, a tez desbota.
Attenta tnndo Hypocrates na face
O fatal do ponto extremo.
A esperança voôn. O enfermo ancioso
Já nem conhece a voz da esposa em prantor..
Abrazado co'a febre, e delirante,
Se crê na solidAo de serra,
li4 OBRAS DE BOOAG.E
.
Suspenso em negro abysmo, e se arripia,
C' os olhos a medir ~ ' altura in1n1ensa:
O cimo do vulcão vê despenhar-se,
E subito á voragem vae com elle.
Tambem se lhe levanta o chão, que piza:
Treme, abre-se, e ao abrir vomita o raio.
Succede á commoção mortal espasmo,
Gelado pára o sangue, e r,s debeis olhos
Para sempre abotôa a mão da Morte,
A11tes de rematar-se o quarto dia.
Oéos I Quem conhecerá tio ferteis campos !
Faustas cidades, prósperas aldêas,
Casaes, cingidos de florentes· bosques,
O absorto passageiro embellezavam.
Duas vezes no outeiro as ovelhinhas
Eram mies, na planicie vezes duas
Vingava a messe: ali manná corria,
E o cultor com seus fntctos não podia.
Os filhos da Abundancia -Amor, e Gosto -
Regiam cantos, animavam danças.
Só versos pastoris Ecoo sabia ;
Vinham d'entre o penedo e a vide, o cacho,
Os jasmins em abobadas, e os louros
Co'as sombras os caminhos perfumavam:
Era um amplo jardim, onde mil fontf'.s
V ertian1 fresquidio por toda a parle.
Que inopinado horror ! Que scenas tristes !
Onde sulphnreas, férvidas arêas,
Os flagello8 do céo, do inferno as chammas, ·
Tornam vasto sepulchro estes elysios.
Vestindo nuvens o rugoso inverno,
A devastar começa os turvos ares;
Desfaz de tres irmãs lnvor prestante.
E, rugindo, amontôa o gelo, a neve.
Páram cantos: Amor lhe esquiva os sôpros.
Aos sons do rouxinol, aos sons da flauta
P0BVA8 DlDAOTI008 tRADUZIDOS 125
Snooe4e a furia de escumosas cheiàs,
E o rebombo dos Aqnilos potentes.
Sustém meu vôo, oh Musa, entre as procellae;
Não mais DOS hão de ornar jasmins, e rosas.
Jaz deserto o jardim, jaz murcho o bosque;
Pelos campos Eólo as folhas.
Ah ! Tu me ensina, que razio pasmosa
Esvaece o matiz da Natureza,
A déspe, e n rnachina agrilhôa
Espiritos, que as mólas lhe regia1n.
De dádivas do céo nascendo rica,
Da vida inclue tl t.erra os gennes todos.
N'ella os suecos estão, que ao pólo a corntt
De teus cedros, oh Libano, agigantam,
E n 'ella as seibas, a que as varzeas dever r;
Lourejante seara, e verde relva.
Mas estes germes, sern vigpr dispersos,
Pedem vivo calor para brotarem.
O deus das estaçOes, da terra esposo,
A necessaria ftamma lhe insinua;
O universo applaudin dos dons o laço,
De amor, e de alegria estremecendo,
Quando, espraiado o sol, vestiu de luze!;
E de gloria celeste a Ieda noiva.
Cada vez que, a sen carro avisinhada,
Beber-lhe os raios amorosos póde,
De opulento verdor se aformosêa,
E a fecundante força espalha em tudo .
. .Mas quando a lei fatal de férrea Sorte
D'este centro divino a pOe distante,
Robustez, formosura a desamparatn,
Murcha-lhe a c'rôa, amarellece a fronte:
Do norte os filhos, a que o sol trinmphante
Co'a presença radiosa impoz silencio,
Desmandam-se em tufoes, de nuvens cingem,
Uarregam de regêlo terra anciosa,
E, como en1 sepultura, escondem n'ella
. Plnntas, que em tempo rnais feJiz a ornavam.
Longe dos falsos bens, que enjeita o sabio,
Tu, ditoso cultor de parca herança,
C'os vimes dobradiços vem depressa
O arbusto, que vacilla, atar aos muros.



126 O:b.BA S· D.B BOCAGI:
. ·-- -.--------- ------
Proveitoso rigor de· curvo ferro
'fálhe ramo importuno, ou r·a1no estéril.
Césse aqui teu 4,esvelo. E1u quanto á roda
Bravios furacões tempestenrem,
Tranquillo, junto ao lar, campestre, escuso,
Do Pórtico ás liçOes darás ouvidos;
Canto repetirás dos genios grandes,
Associando ao seu talvez teu estro.
Oh vós, de Phebo alumnos! lnspirae-n1e.
ermas noutes, e guiae vôos;
Azas, azas de fogo a vós me eleven1,
Longe da morte avara, e tu Silencio,
Atnigo das sublimes
Rumor insano, e vão de 1nitn re1nove,
E enfadosos sen1blante , e oucas phrases,
Que a sancta embriaguez rios interrompeu•,
Vigia os lares meus; só n 'elles
O puro amigo, o coração lavado,
Que sonda as altas leis da Natureza,
E ás vezes, arrancando-1ne ao retiro,
Me ensina a deslindar bellezas tantas
. Sumidas em ruinas apparentes.
Se risonho te é Pluto, a rica plauta,
Que do bespério jardiln roubou Aloides,
Longe do norte, em pórtico fastoso,
Ser-te-ha corte 1nagnifica, de inverno.
Entre os outros tnetaes qual brilha o ouro,
'fal brilha a laranjeira entre os arbustos.
Só, em cada estação, só ella off'rece
Fructo .Yerde, e maduro, a flor, e a tolha.
Nem o ambar, que nas ondas se aorysóla,
Nen1 o myrto, que Amor de Paphos trouxe,
Nem da rosea manhã suave alento,
Chegam da planta de Héspero aos :tron1as.
Vê tsem nunca alterar-se) os paes e os filhos
succun1bir da edade ao peso;
E tal (que ioda hoje admira en1 si Versailles)
Viu de reis doze os funeraes soberbo8 ..
Nio longe· do logar, que lhes destinan1,
Nos transparentes tuuros vitreo templo
Aos olhos congregados apresente
Do lndio, e <lo N iger &ti. colonias

POBllAS DIDAOTICOS TRADUZIDOS 127
--- -- - - --·------- ------
Nascendo bafejada de ar mais grato,
J>recisam entre nós de ti, Vulcano,
Morreriam sem ti. Seu domicilio .
Aqueçatn dia e noute accezos vasos;
Em roda se lhe estenda1n longos tubos,
E sempre egual calor na estancia dure.
Assim, té quando as ermas, frias
De alcatifas de gelo estão cobertas,
Brinda1n-te arbustos ntil n'um curto espaço
O aro1na, o brilho da estação fagueira.
Da Na tu reza, e Arte eis o pala cio;
A esculptura t'o adorne, ousa invocal-a.
Asia em roupas talares nos alegra,
Co'a parola, e rubi, que a fronte lhe orla1u,
Ao pé da bananeira umbrosa, e sua.
Africa azevichada, uu1 tanto agreste,
Risonha, quasi nua, orne a paragetn,
Onde lhe bas posto innumeras vergonteo.s ..
Mas verdura, mórmente, o sitio abaste,
Flores seu atavio, e fructos
Venham cumprir-te as leis dos fins da terra.
Hervai de Paraguai, chinezas folhas,
O c'roado ananaz, beijoim de Lybin,
O cravo, a quina, o balsamo de Arabia,
E arvore, cujo sueco inestimavel
Mitiga os nomes, perfumando as aras.
A este povo extranho a vide unida,
Pelos muros serpeja, envolta em cachos.
O encarnado morango a mãe recama;
No rigor invernal se tinge a rosa:
Emtanto, fem cessar, gotêa, e néva.
Contraria multidão, que instigam fomes,
Entrar procura na cheirosa estancia.
Pelos muros lhe sóbe, ou lhe anda em torno,
Poo-se ao pé d'onde os fructos purpurêam,
E c'os olhos devora o troneo
Mas nas margens do Obi, lá on<ie acaba,
São baldado soccorro estufa, e lumes.
Arvore ali não cresce, ou quando cresça.
(Máo grado a Bóreas) bétula, salgueiro,
Apenas seus humildes, molles troncos
l>e nossos juncos a grandeza egualam.
OBRAS DE 800AGB
---- -- ---------
Seis mezes soffre o Sol que reinem sombras,
Seis mezes turvo dia ali vislumbra.
Ha sempre agudo vento, e gelo agudo,
Que debaixo dos pés firme resôa;
E o mudo povo, na prisão coalhada,
Não tem para revolver-se espaço livre.
A neve em turbilhoes, que rola.o vent-o,
eleva sem medida, atulha os valles.
O .alce, de lignea fonte, indo á carreira,
Cáe de repente, e encrava-se no abysmo:
Lncte o misero em vão; que o duro Inverno
No alvejante sepolcbro o enterra vivo.
Crespa de escarchas, sncudindo a testa,
O urso brama, e, cedendo ás
por entre neves, passo a passo,
Gruta cavada pelas mãos do tempo;
N' ella se entranha, e solitario, occulto,
Emquaoto o inverno dura, está sem pasto.
Snbân1os essas penhas, de ermos cumes,
Que, arremettendo ao pólo, o mundo cingen1,
Teus olhos solta pelo mar terrivel,
Que, espumoso a teus pés, trovoes situe lha;
Lá onde a confusão, do cáhos filha,
O imperio exerce, atormentando as ondas.
Escolhos de alta neve aqui deslnmbran1;
Além montes de gelo escalam nuvens.
Ruge a borrasca, a topet.ar com elles,
E em pedaços no abysmo ao longe os lança.
Má .sorte a do baixel, que então se afoute
A'quella matadora, horrivel plaga!
Ora a ·corrente em rochas o arretnessa,
E co'as vagas a morta o bojo lhe entra;
Ora, qual ferro, a superfic.ie immovel,
Forja ao Jenho infeliz grilhoes de gelo. ,
Da praia ao longo, os monstros dos
Os ares com bramidos a1uedronta1n:
Das sombras atravez c vento, os eccos
Levam tão negros sons ao triste nauta,
E acabam de abatei-o, antecipando
No murcho coração o horror da morte;
A tudo o que lhe é caro a alma lhe vôa.
Taes p'rigos wezes tres domou teu genio,
POEHAS DIDACTI008 TRADUZIDOB 129
Cook! Longe de Albion, d:& Pnz co'a planta_
J)eannnuundo outros clilnns, ontrns gentes,
])o sul ao norte dividiudo as ond:a!',
Correste o Inundo, o ruunuo accrcsccntaste r
l,riruciro qne ninguem no audaz teu "·ôo
Do rodeaste o pólo,
Montoes segui: .. te de csp:1ntosos gelos,
l,or entro as fcndàs · foranidu,·cis toste,
- Cotn firrne co.mçilo, no throno
O Inverno anuis sanluulo intcrrugnste.
Lá vi\'Cnte nenhaun teus olhos tocn,
lfilciça ian•uensid:ade, horror é tudo.
Ave rornp('r não ous:\ ar<»s:
Só nos confins dos l•ÓrriJos desertos,
Só lugubres ptltreis, entre as pr·ocellaa
O clan1or desubrido ós vezes soltnsn.
Mns que plag:ts a pnz não !
Em ilhn, onde os se encrueccm,
. u.n povo de unitnaes otrrece ainda
A bonançosa ilnngem du \"entur:l.
Verdt..'8 leivns subtis, que ás crescem,
Os leõra de Anaphitritc :ali convidnm;
Morant na costu; e no interior da ilha
De ursos marinhos
E1n quanto os de aza pendente,
Na orea anovroiç:a. os nillh(.s cavu.1n.
mutotunente, ou se desviam
Todos sem modo, sern Inulicia t-odos.
Dir-se ia que, os ternores
Uan tractado a colonia
Té dos ares o rei, depondo. t\ sunhn,
A' lei comrnum seu anhno confurana:
Pousa etn rochas, e ean torno as aves brincam,
Seni temer-lho o rel:uupago dos olhos.
Ah! N'um prospero cliana, entre ubnndnncias
O homem gherm irnrnortal dt)clura no houtew t
Rouba ins:ania de 1\larto o carnpo a Céres,
&nguento, ferroo globo OH sulcos tr.1çu.
a torauent·aa aggreganuo,
O homem leva con1sigo ao rnar anil morte& ;
Do raio .e•n suna ruilos a furia. •
Fogo conservador, mimo doa deuses,
YOL UI I
130 OBRAS DE BOUAOE
lcnro no,·o, emfi•n, lá d·entre as nuvens
Aos conahntes dieta.
Cidades a A1nbição nlém devora,
Cá o afeito a ,·is cruezns;
C
I ' •
etn ,ormas, gPstota, yozes totna o crtme;
A Dil!lcordia triumpha, e sobre mont.es
De a que os irmãos
Ri dos que vivern, ri dos que n1orrêrJn1.
Da desventura a especie hn1nann. ·
( Cheius por elln n1esma) ex haure as taças.

Do globo mais de un1 terço em tunto é cinza,
E de aureas a belleza ignom:
Nenhoan campo Yê bois leYnndo á grnnja
Quat•tns f'spigus n1inistrar Jlle é dado.
l,ovo os duns de prt'ço,
Que Jove setneou P' r entre ns selvns.
l'ôra me)bor, tnnis snhios, tnnis }Jutnanos,
O haLitante ilnitar de incnltns cot-t:as,
D•onde olhos 80 mur Yêln superiores
NoYo hen1ispherio dilutnr se1n e1 DlOM!
Lê pP]a etctnc.Ja n1ew-e
Os caros du pntrin
E manda aos netos seu!l, de edude a edade,
S«!n nona e, seu cu r::. cter, e attributuf'.
das impins gut'1Tas
O trugico delirio erufhn se
Se a 1•nz ao conu:ão vos é }lf'Zudn,
AltPrcae .sobre os b!'ns, prazer, ,·entnra:
I,oliticos estes st'jnm.
Anlig011 elementos dcc::on1pondo,
A chilnica p·ra v6s sopron fornilhos;·
E qner prodigics novos:
Pura ,·ós a poesia, a doce ·
O Partue8so.-·abrangeu de 1nyrto, e lóuro;
As Musas, com fer,·or de .saciur-vos, ·
Se1npre a nobres prnzeres vos con,·idam.
Da pbantasiu aos olhos. qnanto ofrert:un
Hnrn1onia doEC e
Quem, quem extasis suhlimes
lJe uhuu, que, longe dos corpos,
SPgue na • ns tnasMs,
lhe calcúla·, e ntede os vultos, . , .
I
POEMAS DIDACTICOS TRADUZIDOS 131
Mntna attracção no móto lhes contempla,
Acha, con1 Hersch<-1, não :-&:aLidos ·astros,
E furta, e cegn . etufiln de glori:t tanta,
Vue repousar n'urn Deus o pens:unento!
Se, frio e1n mitn sobt•j:unente o sangue,
)Je ni1o dcix:\ e1npret11dcr o etheroo vôo,
Correntes fWguirei, junto aos penedos
Do occultu rouxinol ouvindo os versos.
11 orn1umntrs florestas, magns aouabras,
lleus sereis, e objecto ó.. 11 usa.
A p(lz noutes de ferro, enregelada1s
Módidos Sues os CltiiiJ)()8· eJtJbn•ndecetn.
Esse unifortne alvor, que htpa os cerros,
por g1 etn rios corre,
E a!-l agttns d;t ribeira etnbamçndas.
A prisão, róbun.
M:as o Jn,·arno incla é e a-cravo o bosque;
Choras tua carvulho altivo;
l,or. entre a coniu11lo se vê. cowtudo,
A espaços a \'(lrdura (_)jltar. luzindo.
Salve, côr &indu, inÃAtimavel t1ombra !
No luto inuuenso recrooes tnt=aus olhos;
Qua('s os prazeres, que a Vt•lllice af»gam,
Dournes o horror do Inverno.
Heu ani1no etlpert:te, · inda rnedroso
Vaas estradne por onde o pa.•so arrisco, .
Dos gelos Lureae,., tuotim das ondate,
E do p<'zndo, ltorrmdo, austnal nPgnJme.
Que Jei, que agPnte Ó8 arvores 60ft&erYa,
A despeito do Inverno. o vital sueco?
Ao falto. hunu•n• sil'o a
E1n véo sonahrio f18tf"8 m1·!oltttrios farta .

Gosêmos, ·basta. M ii arhu!'t.os no1·os.
RivuPS tão gr.rttt& nos jardins de inverno,.
co·a bella fónna, co'a inlprevista p;ruqa
.eJJtre Ai qnnl n.nis eneunta.
Todavia (dil-o-bt-i!') prflfiro a taiJtts
A hera de cern bt·uçoR, quer circon1de
Co'a .verdura tenaz cnrvalho edoso,
Quer sobre •num, que aastettte npenaa,
Nns ares a mma,
Fóra.e, n'um globo ·espaao, abrigo.u avea.
132 OBBA8 D& BOCAG •

Ali, ao pôr do dia, o tordo, o melro
'' ão con\·ooando a pá vida f&amilin,
Correm, gorgeiaan, depenicu1n ft·uctoa,
E assilnelhanl' do Outun1no os pretos bagos.
Quão doce é ao sair de chio lodoso -
Vagur collinas, onde quebra o venCo,
Do pinho e1n torno, que r&.tÔ& ao longe !
A' sotubra lá de poMantes,
Ent•c o tojo florido, um doce c:anto
Os sons da otf'rece ás vezes.
A lóxin. ali verá& prender nos manos,
E c'o bico cncruzado armar seu berço.
Recem fGrrndoa os filhinhtJs brandos,
Ás son1bras maternaes darão já graça,
E dns aves o ro!to, apenas ju11to,
Ioda seus ninhos não terá findado.
O Inverno assian ae adorna, e deaenraga;
Mas se a terra esc=ac(.a estes faavorc!'f,
Quantos ·em teus jardins arbostoa verdea
ltetê1n das &\"e& o inquieto .enxame J
Cuida, ·pois, etn jont:ar aos triastes carpe&
O picante azevinho, o zilnbro agudo;
Té a humilde giesta, adorno aos n1ontes, -
Carnpestres a 001npôr te
Elia tne&IJ!a, o frio a te-:ra,
Colheita é da perdiz, Jba aoóde, e· a nutre.
O álamo, d'agua anaigo, as aveleiru,
E as bétulas, de Anaor têtn outras graças.
Tu.nto que Bóreaa entornando as neves,
O verdor lhes destróe da insta ,·el ootna,
Abre a flor, e pendendo oan ratnlllhet.,
llóve os botoes á discrição do vento.
Mna tu, filho do Inverno, eapesto mu.wgo,
Presenta-te aos pinceis da Uus:• 1ninba.
De Aquario á uma exposto, entre às gt'lldas,
Quando as mais ftorea tnorretn, tn rena10e1, ·
E eatão cotn tua fresca, egual verdura
l,arece remoçar-se a
Era em aondar os teus gentis mysteria.
Que de Emilio o I)illtor, enoaneceodo,
Devia n'un1 sereno, ·e doce
Levar a 10lidão do iovemo
,

POKKAB DTDACTICOS TRADUZIDO& 133
Agora a filnt.innl o
E nlgnm dia nos ensinnsse
Cotn que arcnno tão debil folha
Da flntnnul estrngos véda:
Ora do 1ycopodio os r:uuos ,·irn,
no bot:qne inntnnl'rns
· Da frontP., em nr de clava, um pó 8( ltnndo,
Qne hrilhn, que trovPja, ao mio.
Minimns tribus, povo Ílnp€TCf'ptivel,
Disperso e1n toda n partE-, lhe n1oBtrára
nos ti\o
Cun1o, oh Virginin, teus aéreos pinhos,
Oa cedro, que df'pois de ntil inl"<'MlOB
C' roa o Libnno, o pnt', co ·as , .. <'rdes
Sonhe que a N attn·('za inclue ais vezes
Toda a curto eFp:u:o;
)Jas n innocflntes fins obston-ll1e a Sorte.
No bt'nigno lognr, onde <'Dl retnnnso
J)o utli,·erso, e da g1orin ia (lSqilecflr•se
Piedoso montnnento as cinzns lho honre.
a simplicidnde a que o construa:
Elle, modestn, elle te nmnYa,
Tu Só tens jus de visinhar-1he os •nanes.
Das nrvores da IDf•rte longe n son1hra:
Selva queremos e
Qne do an1igo dos deuFE'8 cubra o somno.
A madre-silva, gnatn és almns ternnM,
Já brnndnmente o mnusvléo 1he
Em qnnnto o louro, do! engenhos c'r9n,
Ergue a luzida, ruma.
De cbôpos Já se nJonguc um bosque ameno.
Filhos doa urf's .. babitae-llle a FoJubra;
Delicio& do· pbilo.-C\pho, n,·«:»sinl1ns,
Esta se),·a tnn1brm ,·os dcvn t'neuntos;
Longe de olhos hão de os ,.01801
Brincos, prnzert's ulegrnr man<'A.
Se o Fado, tranFcc-ndendo-nte n ,·ontade,
Me houvera permittiJo tunplns
E,-paçoso n n·ort,do, e
Em tneus lt'dos jardins erl!nf.m ('81ntuaa
n•nqneJles, q11e pri\"Rndo co'as deidatdes,
Caataram dooo1nente a Natureza.
13i OJJRAS DE BOOAO.B
------- -----------
He!iodo, e a rn L c R teriun1
l,el:\ tnão de Cybél<' eterna pahna.
Qunl olano, que u ni,·el de vê quasi
Outro brilhur, subir, seu digno fructo,
Assiro o gran putoitor da
A seu ln do .lu1 \'e ria. o seu Del•lle.
Theocrito, e Gessnf'r cn ·a ruolle n venn
Ioda. ao curnpestre b:aile os sons. durinm;
} ... ôr·n o born Lafontaine olh1t r tuil ,.(•zes;
E ú. tun, alto cnntor uos
Credon1 de out rus terupo.-, de outrus fados,
Latr..êda de cyprestes consagri1ru. .
Crer-se-fu que e <pto l\Iurnf'sia
)linha fresca U('St•nlut\·anl.
Vuniere a JnPus .. déra,
C'roar-se-ía lLapin tlns • •
Entre bo8qne t•t"Upltetico, e
Tompson crearu o8 cauticos
Dernis etn laço aannnte ·uuiru. as
· E Saint-Latubert, suLre 1upiz ,·içoso,
Corn a plailosophi:t ruuora
Nobre aos grnnJes o n:aulo Hpresent:íra.
Feliz quen1 logrn tão brilh(lnte quadro,
)luis feliz quern • t;•sto habita 021 c:.unpoa,
E, p:•go das ,·igilias d'este s·aLio,
Nus vivns ob,ns suas os Int. dita·!
Não lhe vôa. o dt.'sPjo a·lent uo vnllf',
Onde, nnscente o sol, lares donrn,
Do jardin1, que de tnont.e :.gnas arninuam,
Neru do soanLrio, o proxinao :•rvorL.Jo. ·
Que pediria da ciduuu no luxo?
Dns prirnn vcrns ,·iu n L«•liPza, e potnpa:
Viu nos celeiros fa ,·ontYel Cér(·s,
E cotn ditoso ré culcou
Tt•Jn no in\·t!rno outros Furta ao gelos ·
Os frngeis attractivos Loninns,
Ornn seu lar, de sornht·as 8e rotlêu.;
Attenta. na cntnpPStro_ econutniu,
Doces cnidudus, tnindt·zas
Ke nnaor, o npreço dou:; esposos
Con1 que vê.
E vão:t prazeres e reaes desgrc1ças· I .
' •.
POEMAS DIDACTIOOS TllAOUZIDOS 135
Nas ondus do tormentoso
Dos mortaes us reli'1uins observando,
Folga de haver n 'este conunurn n:utfragio
}"'indo o fen destino ás prnias.
l,ur:\ dottntr ocio, vindo a noute,
Por Tonrnefurt guiado, no aposento
Corr8 as ilhus da (;reei n pórt a ern Samos,
D'alta snbedoria nntigo berço;
Olh:& de 1\linos o atf:uuudo itn
Do os :as florllst:H1 de Ida;
Rt-crenr· se co'us plnnt:ts que Hotnero
(;elébrt\ nos c:í ri t<Js u virtude,
E á terrn os 1nesrnos uurnes arrnncurunt,
Pura os corra t•llas guarnecerPin.
Aprazh·el philosopho, e con,·i\'·a,
Une os visinluas seus á s/,bri:.s. rnes:t;
Volnnturio 111('8 nn gosto,
E d "ell('s no c:u-l:tl corn elles fc)lga. .
De fertcis pluntas, que seus hortos guarda,
Gu,_ta de lhes levar o espolio tenro.
Agruda-lhes algeunu? O novo din.
Vê-a nos jardins de seus arnigos,
S:atyrn, in\"'(ja, pestt"'S d:ts
Entre t•IIP.s o nr s:ntcl:tYel nllo corrotnpcm;
U 111 falia de d(!licins,
11i:no estaç«'\es uos carnponezes,
Out.ro das glorias, triuau phos nossos,
E tle vencedores.
C,)rundo a "ozes tues l .. ilia, se lentbra
Do inabcrbe ntnante, que os heróes seguira,
)Jus qne eru ditosa p:az S<'r-lhe-ha torn:1do.
Quer e:-conder as scnsnf:Oes, que a tur·harn;
A tnão a estcnJe, e o nssutnpto
n·('st'nrte lhe o doce enleio.
A uftout:Rza reu:tsoo, a virgern bella
E1n segredo pulpitn, o tlis:-lÍJnu!n.
A este.'l dins de ouro, e e graça
Opponde dins c:trrancudos,
a qnern a • con1 turva chamma
Ancê,\ Ul•sJe nnrnra, o rnirrn ern AOrnhraA;
Qne, sernpre instados
frcchas lhos que vos

JR6 OBRAS DB BOCAGB
E, mesmo a tnrba nd ,·ers:í,
V edPs ,·o.-. r (. .. urtun:t, indo erupolgnl-a.
A V cnturn husc:u.•s? Nos Ynllt•s morn,
Com a!f(nJCA na rnAo trigos
A V entnrn bnscnell? No pr:tdo hervoso
Li,·res tnt.A(Htnçoes v
Ou do s:algueiro ó e jnnto no rio
ct'rcnda de fnguciros sonhos. ·
assian dns fnc«:Oes, dns nrmns longe,
Os jnrdins en cclt»l•rn,·n;
Da pntria rnin1uL no!l tnnles tnudo ás vezes
D:ts Jni\os sentia a 1.\·rn,
llns qual n\·e, cnnt{,rn npoz t.ortnentoB,
Contentef', noYos ás dn,·n.
Ob to. tu que <'m ntcus verso'
Non1eio Elisn t O ntnnnte
Dt'ixn co'a snn unir tua Jneruorin,
E dividir 00111tigo escusso gloria.
•OIEICLITURI LIIIIEIIII
DA8
PLANT.4S !\'ESTE

Carato I
Clcata, Ciewta tnroM, pllellnftr7ri•m aquntie•m.- Aeb&m·fle
pl11ntns na• l&gôas, e eovas aqnatieas : crescem varias nas

Nardo, 1:ard1t1 indiett. - Na Inilia.
d'agua, ?Julgo Mentrasto, JlnatluJ Junto de
•gnas.
Cardnmine prattnti•. - Pa!'tos humidos.
Trifolio Pmflos, JogarPB ht-rY"osos.
Pinheiro, Pintt• •JJlo•trl•, cembm.-Dosques do norte d'Europ&,
os A 1 ptall, e to.
Til, Tifi,, twrnpren.- BosquPs.
Castanheh-o da Intiia, .tE.,r.ultt• e Asi& se·
ptiPntrionAl, d'onde Vf6iU á. Euror•a qunsi em lõ76.
Junco, • eflunu. - Lo.gôo.s, junto a estradas um tanto bu .. '
mf,ln ...
Vide, J?it.ü "ini(em. - Climas temperados dA todo o mundo.
Ortiga, Urticra dioioa.- Horta ... ao pó de balsas •
on Cieuta pequena, AJihu11tJ cynapi•m. -Jardins e lo-
A'ftre!'
IIPrcurial. A/ercurialÍJI annttn. - O mesmo.
Uarroio, .'llaclry• annwa. - J nrdins e «--amros.
Grama, Tritit._m rtpen•. - Campos. e.-piu baPs, hortas.
Primavera. :ftc)r, l,rirnwlo vtrisl. - .Junto á borda dos prado&.
Narciso, NnrcLI"u" pnet;.,-.,, pRewdo?UJrci•u..- Prados e bosques.
Duas de Jyriotl.
Violeta, 01lorota. - Junto aos mattos, Jogares sombrios.
Of.-is, ou Abelhinba, Ofria inaectifem myoide1.- l'astos mon-

Pereira, Pyr•• eommuni• -Nas quintas. Conhecem-se 72 castas,
Jaavidns p,.Ja cultura.
Solda real, &uriculd -- Bosques, e &o longo dos espi-
Jlhaea.
138 .
DB BOCAG.K
Centaurea, Gentiano centaurM. ·· Pastos seccoa e veredas de
bosques.
Carvalho. Qu.ercu1, robur, regiloptt.-Nos bosques,
Çarça, Rubu11 frtttioo•ua.- abrigados, campos ineultoa.
Salgueiro, &li:x: albo, purpurea, vim.inalu, etc.-Sitios hun1idoa.
Vallisneria., J'ollünerU. spirali1.-No H.hódano e em alglllls la-
gos de l'Orne.
Poa: vivi para, Poo o/pino vivipara.-.Montes de Laponia.
JJoaa noutes, Alirabi.lu jalapo -No
Palmeira de tamaras, Pluenix daclglifera..-Africa., lndia.
t;aanlo 11

Trigo, Triticu.nt hgbernum,, c.utivun,.-Oriundo da Asia..
An junipents lycia 1-Na Arabia.
Rosa, Rosa 1naxima, etc.-HolJanda., jardins.
Cravo, Dianthua cargopltillus.- Ualdios das provineias meridio-
naes, jardins. .
Damasqueiro, PrunUIJ armeniaca-Vindo da Armenia.
Prunus cerasu.s.- Oriunda do Ponto.
Ceil>a ou Mangue, Bom.bax lndia..
l\Ioka ou Ca:ffé, CoQea arabica.-Arabia, Antilhas, etc.
Quiua, <:,·snc/tono
Daunilba., Epidendrum, vanilla.-Mexico,
Cravo, (arvore), cargophillus orom.ati(.;ua.-Amboino, .Molueaa.
Noz de Bandá., ou muecada, AlgriHtica - llaudá, Mo-
lucas.
JlimoBtJ pudica.-Brazil.
Dionéa, ou Apanha DionCPA m.uscipulo. - M.exico.
Jasmim, N yctantes aantba.c.- lud ia.
Amaryllis (especie de açucena), ... 4.maryllÜI formosiss&ma.-America
e conhecida na. Europa em
Agathis, .JE,cJtinomene gran<liflora.-lndia.
rost-a, Vinca rosea. -lladagascar, J a.va.
Tamo.rindo, Ttunarindus indica.-Na lndia, etc.
Nopal, Cactus tuno.- Mexico e climas qut1ntes da America..
Rorn, n, }Juníca grana tum,.- llet4pauha, e te.
Myrto, ou .Murta, Jlgrlus comm.unia. - Europa. austral, Asi&,
Africa.
Palweira, Ohamreropa 8Xulaa.-1ndia, A frica.
Coeo, L"ocu8 Indianas.
Ananaz, Brom.elia ononás.-N ova. HespanhR., H urinam.
Laranj .. iro.. Cilr"' ourantiuu&.-Oriuada da lndi_a.
E,. tancadeira, SI atice armeria.-Bo:'q ues, cerros, e terras seocaa.
Eateva.. Ci.lu& helianfhemu.m.-ldem.
Abróta.no macho, 11picata. -Idem.
POEMAS 1>1DAC'l'JC08 OTRADUZtDOS 139
. Pinheiro, Pi••• •Nit1a•lris.-nosques montoosos.
Tevcrium. chantrepilltia. - lJosq ues, Jogares seccoa e
are os os.
Eupl1orbi •
Cravo · flqr), .DitJntll.u prolifer, loga.rea
incultos.
Medrot.b.-iro, Jiro.graria ve.tca.-Idem.
ç.,r.;a, Rubu fruticvau• cre.viu1.-Idean.
()orJJlus avel/an(J.-Uosques.
Car\·alho, Querctu robur.-l•lem.
Olmo, U IDUIB Idem.
Frt"txo, • excel•ior.-IJ.em.
Bordo, Acer preudoplatanus, ''tc.-IJem.
Hypno {especi6 de 111.UI!JO), Bupnum. ser_pB'M, Bosques, pés
de arvores.
Salgueiro, &1,/i:x; coprrea, etc.-OLogares humidos.
Golt•hõ.o, :NumpluBa alba.- Ribt'ira.s, lagos. o
Cardo-morto, &11e(;io paludo8U-I.-Margeus.
Litrouio, Lytrum . .talicarua.-I .. lern.
Campainha, Convolvulu 8'piMm.-4o longo das sebes ou balsas.
Tribulo o.quatico, TraptJ lodosos.
Trevo, Tr·i(olium repells, filiforn"&P, etc.- Lei\·as.
Tooailho, Tlti,,.WI serpillum.-li ttos, logares seccos.
Faia, Jlagu. Bylvnlica.-Bosques.
Salva, &lvin. • -Borda. dos prados.
Arruda, Ruto graveolens.-Logo.res
Violá de bosques, eto.
Lyrio, açur..ena, Ulium. candidum .. da. 8yria.
Ditltamo, o d6ctam.nus.-Creta., o monte Ida.
Doruaideira, l'apaver som.ni{erum .• -Asio., Afriea, jardins.
Rosa n1uscada, RosC' nl.olclutta.-Moréa, Archipela.go, costas de
llarbaria.
J a.!'mim, of!ir.,inale. -Oriundo da India.
Aean tho ou h erva gigo.ut&; •wlli1.-Grecia, Italia, 81-
cilia.
,
(!ante III
Cardo, (}arduur crispus, etc. - Em campos incultos, ao pé das

Dardana, A rctium lappa.- ldEtm.
0
Eugo:4, Sabugo, ebulut.-ldem.
c.,rieira, cerifera.-Provincia da America Feptentrional.
Al'ter, .Askr gra.,diflorus, E-tc.-ldtAm.
Liriotlentlron, .
Naroiso, Norcilsus tazett.a.-()riunJo dos districtos meridionaee •
.

140 DE BOCAGE
Jnu,..oilho, • do Oriente e parte• da .
Hetspa.nha.
Tulipa. Twlipn generi.-Vinda da Caprvlonia ã. Europa Pm 1009.
lacintho. Hgadntll•ll ori,nt.alü.-Oriundo d" Asla e Africa.
FttijAo, • tJUliJari..- Oriun•lo da ln dia.
Cenoura, Dawcua carotkl.- Nos prarlns, á borda dos campos.
· Acelsm, Bela v. rubra.-Talvez provinda da aeelga ma·
ritima estrnngeira.
ConvP, BrtJalioo, olemcM, v. especie primordial noa
Jogares maritimo!'t da lng1aterm.
Aipo, Apium. groDeol.na, "· dulce.-Nas terras encharaadaa, junto
a rioR.
AEtada. Rwmex e
cerefolium.-(·ampos da Enrt)pa meridional.
BalPa, Apium. petrnselinu.m,.- Oriunda da Sardenha.
AlfaaA, Loctur.a 1ntiM.-Europo. meridional.
edulit.-CPrros. lPivaa.
branco, Agnricua tJlbellus a,du·m.nalit.-Campos e pa•·
tos ,.ecr.os.
Feto, Pterü RotaqUP&, flit.ioa estereis.
Melão, Cu,-umü nlelo.-Vindo do
Rhoibarbo, Rlu!um undulatunt, etc.-Tarta.ria.
Gin,_ão, Pana% qwinquefolium.- China, ( ·ana.dá.
Bordo, Aeer llosques, montes.
SaudndA, Scabiom 1uccittJ.-Co1linas sPcea.-, Ette.
llaeeira, Puru• mta/r.u.-Originaria de Neu2itria, onde a aultura
tPm adquirido mais de duzentas cARtas.
A•inheim, ilez -Europa meri•lionn.l.
Arvore de mn.nná. Frnxin"" Ornu1.-Calabria, Slcili&.
Loureiro, Lat1.ru1 nolJilis.- ltalin..
J'aamim. frutictln11. -Ita.Ua., Europa meridional, etc.
• IY
Cedro, Pinull cedrus.-Libnno, Monte-Tauro, Siberia.
Vime, &lix tJilellintJ.-TPrteDOR humidos.
Lnranjeira, Citru• tJrtranf.ium.- Oriunda da lndia.
llyrtn, ou murta, Jlurtu• angustifolin.-Europa, meridional, Asi&,
Afrioa.
Bananeira, ltfu,a etc.
Châ., TI1M bohetJ viridil.- China e Japão.
Balsamo, AmJJtti., opo1JaltHJmum, giliadena1·a.-Arabta.
Salgtleiro, &lix her1J6CM, lopponum.-Laponia, zona glacial ar--
etica.
nPtUla (r.attn dtJ tJlamo), &tu1a nants.-ldem.
Hera, Bedero ltelix.-Na.s arvores da Europa.
POB»AB TRADUZIDOS
Pinheiro, ]Ji11w• abiet, picea, etc.--llontes, selvas do Norte.
Tojo, {;l,z evropmlll.- Charnecas, sitios
Carpe, (,'arpinu• betul.u.- tas.

Zimbro, J,.,;perN• connnteni.w.-Bosques areosos, eollinaa aAocu.
G1lbaa·bl•ira, Rurcu.w espiuhaea.
Giesta, Spat·ti'"" •coporium.- ( ·am J os, areentoa.
A velt.Aira, t'orylte• ave/lana.- Ut•s.
Alumo, ... BetultJ alnut.-Loll&rtAs humidos.
Fontinal, Jlo,.tinalill a'ntipyretica.- Lagos, covas aquatieae.
Lycopodio, Lycopodium. cún:atunt.-Bosq uea, logarea montuosoa,
abrigados.
finbo de Virginia, Pinu• canadenriB.-Ameriea &t'ptPntrional.
Cypreste, (,'upre•••• tempe"'ire111.- Oriundo de Creta.
lladre·t'U v a, Lonicera 1eruperviren1. - Oriunda do Mexieo e Vir-
gínia.
Chopo, Popul111 ftigm, alba.- Bosques e togares humidos.
Olmo, Ulmu11 campe.tri•.-Sttlvas .

IOIEICLITDRI
DOI
Animaes, A ns, Amphibios, Peixes, Insectos ·


C&IIIO I
Abelha, Api11 naelli(era.
Ovt-lha, ·Ovis,
SaJmã.o, Salmo, talar.
Doi, Bos, tnuru.,.
Cabra, hircu11.
Cavallo, EquU8, caballu•.
Cu,,o, Cuculus conorus.
Antlorinha, Hi,rundo, nutica, urbica.
Pisco, Loxio pyrrula.
emlebr.
V erdil hão, Loria ch.luria.
Parus rllajor, etc.
Tutiuegra, Jlotacilla pltilomBla, etc.
Rato do campo, Mus lerrestritJ.
Toupeira, Taipa europrea.
Corvo, Corbus cor(lx, etc.
Pardal, F ringilla domestico..
Caan&o 11
(,ochPnilha, Coccus cacti.
Bengaliuha, Jlringilla
Papagaio, P11ittacus ver11ioolor, etc.
Arara, P•ittacu macao, ete.
Tartaruga, Tutudo etc.
Crocodilo, IAC6rta crocodilus.
Germano (ave , Ana• etc.
Capricornio, Ceram.bix nlo11chatu• .
Rhttnna, Cervu• farttnd••·
E&!Jqui1o, &iuru tJulyaril.
144 OBRAl'l JJ-B BOCAOK
.
Canto III
Leão, p,u, Leo, etc.
Aguia, JtnlcQ chrullmlo•, eto.
Turdo, T1A.rd•• fltusicn•, etc.
Ave das trevas, babo, etc.
Touro. Bot, ta•ru•, etc.
_, .... IY
Rouxinol, Alotac.ills
A Ice, Cervu1
U rato, Ut·so a reta..
Petrel, Procellarill aJttnrctitw.
Leão marinho, }JIIOCA ;,bata.
Urso ma,rin h o, P/u)CI.I •raiu.
I 'ingoim, torda.
Melro, Turdu•
Lnx ia, Lo:ritJ curDiroBtrtJ.
PerJiz, Tertrao perdrü:.



A AGRICULTURA
POEMA
DB
:rwt..R_ DE ROSSET
Hlc labor, Altee lcaaulem fortu ~ a ü coloRI.
V1aot:.. Georg. Lib. 111.
Bs*e é todo o trabalho, amplo• Jonvor•·
D'elle aguardae, robustos Iu.vrudoroa. ·
(Trad. «• Pcalo Jlotti4J).
CANTO ·t
Das searas
·canto os tmbalhos, que regula o tempo,
Co'as varias estaçOes modificado;
Arte, que a terra obriga a dar colheitas,
A que ás vinhas, ás arvores, aos prndos
Dobra a fecundidade, e nos submette
'Jão uteis animaes: para que exalte
(Bem real) a cultura, e seus preceitos,
Criam forças em mim Luiz, e a patria.
Deidades surdas, insensiveis numes,
Nada colhe de vós meu sério canto:
Astros, que os annos signalaes, e as quadma,
O deus, qne vos conduz, nos Já seus mimos;
Sem Oéres a seara an1arellece,
Negrejam sem Lyêo na vide as uvas;
I>e Pan, e Apollo os fabulosos gndos
Harmonia immortal jámais ouvinun;
A o li veim nio . deve· ás ·leis de Palias
TOL. m
10
; .

•.
o.
,,
146 OBRAS DB BOCAGE
Artes que a nutrem, nrtes que a cultivam;
Neptuno é sonho, e do tridente no golpe
Du não tourgiu o auuaz ginete.
Oh Deus, principio, e fim da nntureza
A ponta nos pnssos tneus estrada,
Firma, r<'força tninha voz tre1nente:
A fnllar de tens dons tu é que ensinas.
Lá. quando o. terra, peln voz do Immenso
Chamada ao ser, se povoôu de plantas,
De nnhnnes; o homcrn livre, o ho·mem submisao
Ás leis do Crendo r, foi rei do Inundo,
Que só para seu ben1 se ergueu do nada:
Quuqra dns e dos suspiros,
Tu com sorriso eterno, eterno esanalte
Por toda a natureza então reinavas;
Snínm sem cultura a flôr, e o fructo;
Gostnva o racional no céo terrestre
Bens tão puros cotno elle: era o trabalho
Incra pnz de fndiga, era o repouso
V ('dndo ao tedio: por ingrnto orgulho
SúLito enxovnlbndn Jl nntureza
Despe as mimosns, prhnitivas graças,
E, surda nos votos do senhor, que a rege,
Aos votos do hotnem réo, se muda a terra
N'um ermo pavoroso ... (ui!) Já não lança
Senão cnrdo hnportuno, herva ociosa I
Porétn quando, no trabnlbo atado o homem
Pela hemnça futul devida ao crime,
. Do critne a confissão na terra grava
Com suas proprins tnãos, fertil de novo .
Elia em dobro, etn tresdobro, ao homem
Lidas, cuida(Jos, que a cultora
De critninosos paes infausta prole,
De celeste eminencia derribado,
Indo. grnndezns tntn, que ut:-..no admiro!
A terra, seu dl'gredo, é seu in1perio;
Declnram·ae por elle os elementos;
]>resta-lhe o nr co'n. frescurn. o sol co'a cbamlll&;
Orvalho, e neve os campos lhe fecundam;
Descen1 dos montes a bu"'cal-o os rios;
Aos usos seus, ais _auae leia slljeito•,
N'elle acatam seu rei, tremendo, os bratoa·;
POEMAS DJDAOTIOOS TRADUZIDOS 1,7
É centro, é harmonia do universo;
Sem elle não tem orden1, tern por elle
Ordesn tndo entre si: ahnn, instrumento,
E mediador de innnitnacios corpos,
O seu tributo ao céo, e o d'elles monda.
Mortacs, o vosso ardor o ardor me avive;
Conhecei ilnpcrio, e governae-o:
Oxalá qne, regrando-vos as lidas,
PtJssam comtnunicar meus nteis versos
Sempre a fortilidade aos can1pos vossos, .
Aos voMos corações sempre a virtude.
Cultor, searus abundantes queres ?
Entende o genio dos terrenos vnrios:
Cada qual tean o seu: nnsce,
o tr"igo nqui, e nli perece;
Onde elle se definha ns vides folgam;
areal, sulphureo campo,
E de facil collina a pobre eneosta
Bastnn1 para forn1a1· humidoa cacho&,
E de oliveiras. Vês do come
Doa entpinndos tnontes, vês nos valles
ESBa& 1nádidns terrns, que um regato
Na Yeloz anirna, ensopa?
Ali relva infilllivel cé''a os gados:
Ao barro, no tufo, aos nlahtgaes, e etrêaa
Pede a arte ern vão lá sem força,.
Lá carecente o cbão tolera. npenas
01! fetos, os codeços, as giestas:
Forte. opin1o Jogar; nas quadros todas
De flôres, e verdura atavindo,
l_,or 1nAos da Natureza infatigavel;
· E em que umn, etn que outra leiva, annonciando
Suecos, que o. nlenbun, na indagnnte dextra
Se amassum facilmente; eRSe responde
Ao constante fervor de sabia industria:
Em N ormandin, em Flandres estes campos,
De ft•cunda Ltvoura exercitados,
Semênm-se cad"'anno, em todos luzem.
Tal porém não será terra:
Depois que as messes utna vez te ha dado,
Ocio cançada qul'r, tem jus ao ocio,
E u forças lhe .renascem do repouso;
148 . OBBAB DB BOOAGtl
A terra se exhnuriu pan1 abastar-te,
Para mais te abastar descnnce a terra.
Os delicado& grãos, que vás soltando
Entre levea torroes na primavera
Sern custo brotam, crescerlo custo;
Poréan do trigo, e do centeio a planta
Pede forçosa um chio lodoso, e pingue;
O tcnue, grato arrôz, avantajado
Pelo othomano a seus manjares todos;
Que Arabio., e Persia com razio cultivam,
Que canbranquece ao chinez os ferteis eampoe,
. Quer lnnnidos terrenos, gosta de a gnas:
Em terra o trigo sarraceno
• Eleva os negros grAos na densa espiga:
Pura ornar de seu ouro o páe, que o géra,
O cncbo, que o sustem, ·quer terras fortes
O indiuno rnafz: porétn, primeitb
Qlle o ferro ngricultor lhe·aprompte os sulcos,
ConbPçnrn-se estaçoes, o clima, os ventos;
· No senablante dos céos colhe a sciencia,
Que regula do agricola o& trabalhos,
E aponta idoneo tempo Á semeadura.
Qunes no tnoto celeste olhos attentO&,
Pnm do lenho audaz guiar o impulso,
A elevação dns Pleindes observAm,
E os dons Cnrros, e as Hyadns chorosas,
E o funesto Orion;-to.es, para darem
P.-incipio a seu trabalho, os lavradores
Andean co'u. vista nos ethereoa fachos:
Foi seguindo-lhe as leis que, firme .em breve,
A cultura encetou a astronomia:
Os rudes, os prirneiros habitantes
Dos de Babel, ·esses outr'hora
Agricolns, pastorea, porque a terra
Lhos fosse nutia propicia, mais fecunda,
Do mundo aos pólos a nttençlo volveram:
Deu leis ás o Auctor das luzes,
O ilnperio renovou nos doze lnres;
])o seo giro nnnual eis traçam linhas,
O chefe das ovelhas o é dos signos;
O Touro logo, e depois d'clle oa Gemeos
O naacimooto aprazam dos rebanhos;

-..
.
PO•JUs DIDAOTICOS 'l'BADUZTD08
Nos tropicoa o Cancro, e Capricornio
Fixam solsticios do verão, e inverno;
Dias, e noutes a Balança egoala;
Das ceifas o signal compete á
O céo .. tóma-se um livro, a terra absorta
Olha em letras. do fogo a historia do anno.
Experiencia observou de dia em dia
O nascimento, e giro aos varios astros:
Cada qual tem poder, presagios, nome;
Uns tempestade, e vento, e chuva indicam,
Outros sAo para nós os precursores
De molles viraçoes, e amenos dias.
Quanto aos humanos a apparencia illude l
Signaes das eatac;oes se lhe ant'olbaram
Origem d'ellas ... oh! Poder do engano l
Homem, mais do que uma escolha inutil
O teu arbitrio tem; e em teu arbitrio
Os astros exercitam summo imperio,
A. qne a inerme rnzAo se oppoe debalde,
Em vl.o quer destruir: de teus destinos
A ·despotioo o bem regula,
E o mal, e a morte, e a vida: Oh! veotnroao,
Oh r vezes cento afFortunado aqoelle
De que n. Balança o nascilnento acclare!
Ai I Menino infeliz ! teus fados chóro
So o negro E!c()rpião viu tua aurora f .
Desapparece .a Lua, o Sol no eclipse ••.
Este horror,. que desostre ao mundo agoura f
Estremecei, nações, em pranto, em luto;
Aos vencidos fugi, -oh .vencedores;
E to, povo, socéga: ante os cometas
Devem, deYem tremer só reis. só grandes:
ABiim nossa razAo foi de erro ern erro
Por artes da impostora astrologia.
O agricultor grosseiro a betn dos fructos
Implorou das estrellns a influencia;
Uma lh'os fez medrar com dôce lume,
Gemeu arripiado á face de outra:
Tu, que reges de noute o eburneo carro,
Da cnmpestre-ignorancia aos olhos deusa,
Por ella a gráo
ÃDimaes alteravas, plantas,. fructos;
149
'
' I
'
160 OBRAH DE BOOAGJC
Eras té dos metaes consumidora,
Editicios, oh Lua, até roías;
Teu passo desigual encntninhava
Ora pnm a cultura ntnigos dias,
Ora dias fittnes para a cultura:
Qual dos homens então, qunl se afoutára
A revol,rer infructnosos carupos?
O cantor ·Mantuano aos lavradores
De chirnericas leis fez lei
E aos pavidos mortaes aind:t ha pouco
Este longevo engano as 1nãos prondi1\:
O erro ernfim Pe desfaz pela verdade,
A preoccopaçAo pela experienciu;
Unican1ente o sol co'n luz fecunda
o Reforça a Natureza, extráe seus tnimos.
Quando do Escorpião na estuncia entrando
Rnios despede com 1nenor violencia,
Dêm teus bois, oh cultor, co1neço á lavra;
Instados do aguilhão, do jugo oppressos
Em tardo movin1ento eguaes e:uuinbetn:
Curdos, hervas nrrnnque o liso arado;
Abre, volve ten campo, e rege a terra:
N'ella agitados de os suecos o
Do sol maduros, lnunidos· co'a chuva,
O p:errne da abundnncia desenvolvem:
Finde no outotnno o teu siu,r primeiro.
Quando o inverno entristece a nntoreza
Na.o so armem tuas mAos de tun ferro inatil
Fatigairas a terra e1n vlos Psforços,
Que intpenetra,,el é na qnndra fria:
O obliquo resplendor do so1, que foge,
Cnfra sem via tude regos no,· os,
E B6reas duro, os inimigos gêlos
No F-eio maternal destruiriam
Dos suecos a substnncia ador1necida:
Mas logo que mais puro o dia assome,
Rompendo este lethnrgo, onnuncinndo
Que a ociosa Natnreza ernfhn dllsperta,
Reconduza teus bois; a que obedo«.--a
Ao gume, que a re\·olve,. a .terra obriguem i
E, certo o lavrador de seus proveitoa,
O'oa olhos, e co'a mAo dirija os sulcos.
POBMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 151
Já no ethereo Carneiro o Sol tocando
Lhe desvanece a luz: no grato ano ancio
O risonho aldeão nos patrios campos
Lança os grãos de que é tnãe a prÍinavera:
Se os desdenha, se os cede a obscuros entes
O molle cidadão soberbo, e· louco,
To não lhe adoptes utn desprezo insano,
Que n'clles vezes rnil provêan do orgulho.
Terás var1 ido da tnemoria acaso
Anno funesto em que, alterado o clima,
Geadas sôltas do norte,
Até no sul da França branqnPjnrnm?
llorcham-se as plantas, a rniz definha
Na enregelada term: espera o povo
Que floreçam de Zephyro no regresso
Os gerrnes outra vez; Zephyro inerte
Seus males, seus estragos p.ttentea:
ern Jogar de trigo os camp(JS veste,
Que ofF'recetn aos n1ortnes apavorados
Perdidas terras, carestia, e 1norte;
No horror da fome se ulentou a industria:
·Novos dispersos grAos protnettem
A esperança renasce, e pouco a poooo
Se esvaece o terror: rnas n espernnça
Qae presta contra ti, necessid:tde?
Eis Loiz de seu povo af,tsta os d1mnos;
Só pnra ser sen pnc, sen rei so chama:
Do trigo orient:tl bitixeis se
Em .. quo a sabor do vento ondêa o lyrio,
E COIDO que das ngnas surgetn messes r
C'os dons do f.trto Eg-ypto assitn Augusto
ltalia aviventou, nutriu Sicilia. . ·
Emqnttnto aos carnpos teus a quadra nova
Colheitns preparar dos grãos pritneiros,
A torra folgue destinada aos trigos,
Ardores do verão respire etn ocio,
E a frescura tambetn da primavera;
Se abres o.. terra entAo; calor funesto
Dos aernirnortos saes devora. o resto:
• as, quando o astro diurno em egoaes tempos
Do BCJtnno, n do trabalho as horas parte,
Outro sulco anteceda a

.
.

152 OBRAS DB BOOAGB
Das substancias da terra anime a força;
Se compre, sem tardar teus touros junge,
E cruza os sulcos teus por novos sulcos. _ ·
Dos ca1npos a é sem proveito
Se de possante ndubo os não. reforças,
Reproduzindo evnporndos suecos,
E os que aívidns espigas devo·raram;
D'estes nuxilios genero, e medida
. Das terms tuas n exigencia regre,
Rt'gre-os a condição: se é penetmdo
De nlin1énto robusto em de1nnzia,

O chio co'a força extrema os pães sulfoca;
E, infeliz de vã folhagem,
Dá palba mentirosa em vez de trigo.
De restos ·os tnais vis, e estrume é feito
Qoe em teu campo introduz, esparge vida:
A pnlha em que animnes diversos pousam
dos estrumes a melhor ma teria;
Parn os multiplicar une aos primeiros
Cinza dos lares, e o si_l vestre espolio;
Estes montões se _todos,
E nos ardores amadurecem=
De próvido cuidado assi1n mnntidt a
Alternnm pelo campo os seus tributos.
Se exl1aurida no seio n Natureza
Entrtl a degenerar, e quer que estrumes
Mais fortes, 1unis fecundos a restaurem;
O mnrgo, de qne n'outras eras
Nossos priscos avós, á tua eRcolha
Assim como a cnstina, e cal se off'recem:
Se n. prudencia os prC*tar, com taes soccorroe
Pódo nltnmE'nte remoçnr-se a
Com ·tnes lições o agricultor vê cedo
Atu1l1ndo o celeiro nos pães nep:ar-se.
Alcllilnistu. incnnsa, .. e), que presumes
De de metnes colher teu ouro,
Attentn. o la,,rndor: quanto é mais certa,
Quanto n nrte sua é milngrosa r
Puro efFeito elle de um mixto impuro;
Por elle trnnFfortnndo, ennobrecido
O desprezivel o vid:l estêa.
Creo-se pott isto que outr'hora
'
..
. '

POEM'A8 DIDACTI008 TRADUZIDOS 153
Os rnagieos mysterios exercia:
llodica herança, nos seus trnbnlbos docil,
Com ric.'1. novidndc os pren1iavo,
_Ern qnanto desleixndoa Juvrndorcs,
Viainhos seus, e da indigeneia oppressos,
8e1n colher, semen,·ann: dizetn, clnn1a1n,
Qne A sens campos chamou dos c:unpos d'elles
Por nrte borri vel ericantndns m<'sses:
Citam-no; eUe appnrece, e mostrn a um tempo
Os duros enxndocs, o8 bois, o nrndo;
Prt'senta. a filha, que enrijou lidando:
c llomnnos, eis o mngo, eis o. mnscin.
( Elle diz), o inda auxilio me prestaram
Outros que 1nostrar nAo po!so:
lfinhus vigílias são, são meus snóros. D ·
F:alla; é com Yoz unanitne abso)\ddo:
Onde buscnvarn crhne encontrum ,aloria.
Tentou 1ntdtiplicnr industria os fructos
Por novas expcricncins de nnno en1 nnno:
Divide o curvo arodo a terra e1n folhas;
Uma de aureas se f:'nriquece.-
Ootm fi&l. vazia; o sernentei ro
Ha de espnlbar, cobrir-lhe o grão nftS sulcos:
A que se deixa ociosn, ctn pó tornada,
A herva parnsitn acolhe n1enos;
Lá corre o trigo proxitno, e se entende
Com tnaior liberdade e bnsca no
E e,contra nm facil nutrilnento; os 1nuros
EPpnça 808 npertudos teus celeiros;
Filhos do mesmo grdo dotJs tnil n1nduram!
Quem é qne entre oH 1nortaes se ntreveria
A cnchP.r seu coração de urna
Qne a Natureza ctn nós concebe n custo?
. Adopta, lavmdor, próvitln indu5tritt
Qne um quarto de terreno Pln prados
por todo, e daí d'f'st'nrte
(Unindo novos dons n dons de Ceres)
Camp<'B 801 gados, IÍ ]a,rf,urn
Se n 'nm comprido eFpnço a l1ernnça tua
Propicios hervn e grilo di v idem
E ae profundos fossos, grnndt'S n1uros
Em recintos a repartem;

..
'
'
--


154 OBRAS DE BOOAGZ
Se precisa rnixtão de adubo, e terra,
lTnida, ás tuas, as corrige, as_ mnda;
Nos annos todos, ferteis, vigorosas
Te dão searas, te alimentam gados.
Arte nnno5a, e divin'l, nh ! Tu, tu foste
tempos de ouro, nos primeiros dias
Subliane etnprego dos heroes, dos sabios! _ ·
Ao latino cultor Catão deu normns;
Ao cultor oriental seus reis as deram t
Quando a virtude residia en1 Rorna,
E. pobre, e tnagestosa a sobriednde
Ioda sentia horror ó.s pompas d' Asia,
Os feixes alliavam-se aos nrndos,
E cem vezes o povo achou .Javrundo
Aquelles, que subira a dictndores !
Du plaga boreal guerreiros torvos
As necessarias artes desdenhnran1;
Qnizeram para si boçnes, e ai ti vos
A frccha, o dardo, o alfunge, arroteando ·
Seus campos onda qual por mão dos servõs;
Appareceratn taes os nof!sos Francos;
Rotnpe a verdnde em fim por entre ns sombrás
Dos arredados se o facho
Acclara e sciencias, artes;
Mas o lavor dos cnmpos na ignorancin,
Na funesta ignorancia veio envolto
Por instincto servil aos te1npos nossos:
Arte a mais util se a v ulin em tnenos.
O idioma francez ( cuju. harmonia
Cnptiva em brandos sons Europa inteira,
Filho do sentimento, e ·nobre, e siln pies,
De que um timido gosto em detnazia
Os direitos courcton) nasceu, formou-se
Da moral nossa, e seus segue:
As graças, as paixoes, as guer.ras canta;
Mas não se imaginou que os sons prestante•
A' fadiga rural cingir podésse.
Em quanto por vingai-o eu vélo, eu súo,
Da agricultura protectores nascem;
Proficuos cidadilos co1n docta plurna
Da cega prevençio triutnphcs logram,
O preço intimam da pericia agreste,
POBIIA8 DIDAC'l'1C08 TRADUZIDOS
Apont:lm suas leis, e dão leis novos,
Que rnais formosas sofras nos protnettem.
Em meus versos, cultor, podin expor-te
Altos seus, altos n rcnnos;
Mas da exp'riencia approvnçoes espera;
Arbitra do successo, é lei do snbio;
E o que attrae tnnto o rnundo, a novidade,
Só recebe valor dns mãos do tempo.
Quando no .fogo estivo as terrns ardem,
E os Zephyros, e as ns tenaperam,
E o catnpo destinado ás sementeinls
Revolto está por teus finnes trabalhos,
A escolha da semente é que te resta;
Escolha, que ovultar-te ns ceifas póde:
Toma dos teus o melhor trigo, ou bt1sca
Nos visinhos terrenos trigos
Traze a teus sulcos esta raça estrunha:
O grAo, se o n1esmo é bastardêa;
Suecos, que amava, exhaustos, e perdidos
As languidas espigas mais não tocnm.
Ha lavradores próvidos, que ajuntam
A agua com cinza, e nitro, e cotn cal-vi v a,
E o grAo preparam n'elleR, e exp'rimentam;
Com isto os campos teus não poucas vezes
Se o'rôam de melhor, n1nis basta 1nesse:
Tu depOe a sen:ente em bfnndos tetnpos;
Ou M'ja quando o Sol preside á Libro,
On quando elle, deixando-o, encurta o giro:
Mor1nente os dias doM agudos gelos
Cui!Jpre nio esperar; o
Semeado moi cedo herva ociosa,
Mas tardia semente os frios mntatn.
Tanto que a recebeu no o. terra,
O germe impaciente no grão se escapa,
E de longa cultura em breve o premio
Será verdor gentil ornar-te alqueives:
Mu quando em Capr·icomio o Sol detido
86 pallido clarAo nos céos diffunde,
A terra é sem vigor, e a raiz tenrn
NAo póde penetrar, subir, nutrir-se:
N'este asylo feliz dorn1indo os germes
O a6pro evitam do inimigo inverno.
155
-I

OBBA8 DB BOUAOB
IJnl qne Tolve a andorinha aos climas DOI808
Nuncia leal da roRea primavera,
Se a herva das te apresenta
V Aos atavios, luxo ambicioso,
Teme mes!es abondnncia esteri1,
E no cordeirinbo entnaga inntil pompa.
De Fa\·ouio seus dons a terra fia, .
Brotnr com elles ,.Pjo a relva, o cardo;
Ah ! Bo infe!ta rniz n!lo lhes arrancos, .
Tenro ioda o fructo, indu. leitoso abofnm:
Dai-lhe seguro nbrigo cm caauloa
A espiga Yncillante: eis annnncia
Madura ednde nas madeixas ]ouras;
Muro, que forma, lhe resguarda a fronte
Contm a feroz procella, e contm as aves.
Jnda vemos a primavera
Quando o voluvel Zepl1yro amoroso
Vôa ás espigas, e com ellas brinca;
Afngadns da. pluma, ao sôpro doceis
No mobil tronco!'inbo ondeom presas:
V Pjo apertar se, a h rir-se a densa turbn,
Ló. se curvou, se correr parece:
Dos ventos .a Mbor, ludibrio d'elles,
Assim rólnm no pego as leves ondas.
Mas, precedente o. luz, que nevoa triste
Cobrindo a espiga vne ele um nitro infenso ?
Se o vento lhes não dá aanigo
Sobre elJas agro influxo, olhos funestos
Lança Phebo ao romper; ·eis q11e repnssn
Os deploravcis grãos peçonha horrenda,
Peste, que os ennegrece, e que os
Desdobrem dons de vós, ob lavradores,
Corda, qne em vossas mãos di8corra os campos
Com rnpidez extreuu1; o ngite,
Supra seu movimento as nurns DJudn11,
Antf'& que o fira o sol co'ns settae.
Flngello inda peor me opprime a vista,
Seu veneno é mortnl, e n ignoto;
Alterada folhnge, infecta
GrA.oa me presentam, .qne nnscf'ndo
Ali, torridu, e sêcca é pó n
O fogo mntador lan1 ben-u. acnE o ?
...


POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS )57·
Sem de ftôres ·vestir-se, alén1 já feitn,
Co1n fnllaz npparencia ornando ·ós males,
A forana inda tnontém, lenta carcôma
Pouco a ·pouco as substancias lhe anniquila;
Esta poein' torpe, nos grãos voando,
Embeber n'ellcs seu veneno fôrn,
E os campos de aítrn côr te cobriria;
Destermr-Ihes tal peste a que rirte é dado?
Tendo por mestra a ·satnreza, um snbio
Que em noesos dins, que entre nós ftorece,
Viu a origetn do mal, e a curn indica;
Ean agua, em cnl, cm cinza, etn saes dispostos
Para alterado grão remedio ha protnpto:
Luiz sobre este invento emprega os olhos;
Co'a mio real, que i1nita a tnão suprema,
Alta em Trianon confirrnn,
E os paternos, tnognanimos cuidados
Do monarcha immortal com ella instruem
Quantos cultores seu imperio lavram:
lJas artes, da Frnnça esteio, e gloria
Lniz é cidadão, e hcróe a um tempo;
Dos snbios é n1odelo, é pá e dn patria;
Ás eras todas voará seu nome,
Sua bene6cencia ás eras todas.
M:1s se do Rei dos reis furor terrivel
Sobre teus louros pães seus golpes vibra,
É toda a industria vã, e a teus pavores
Não resta mais que ns preces, mais que o pranto:
Sóbe um vnpor, se nlongn, e se condcns:t;
Foge o sol, o ar sibila, os céos negrtjant;
De Í1uvem pavorosa em bojo espesso
Jlrocellas amontôn a mão do Eterno,
E sobre nossos frontes oa su5pende:
Elle assoma: o relnmpago o precede;
Seu forn1idavel throno occupa o centro
Do pólo, que fn1qnêa ao pezo enorn1e;
Phnlunge de Aquiloes lhe roge etn roda;
F
. , fl ,,.
unas, mortes aos pes, a atnma o c roa;
O rnio abrazador· na mão lhe ferve,
Salta, bate, derruba, os boruens I
Olha rotas por elle as arduns torres,
Bosques em cinzas, rochas ·derrocadas I
. .
158 OBH.A.H DB BOCAGE
J nz a terra ern silencio ! O meqo ancioSd
Murcha, enregela o coração dos p6vos:
Despiedado grdnizo pula,
As espigas snltêa, nbate-ns, quehra-as;
Todos os furncoes desí'nfreados
Os trigos d'entre os sulcos desarrajgam
No remoínbo envoltos; as torrentes
Arrojam-se das serras brnvf'jando;
já sean barreira, inundam valles:
Esrti subtnerso o catnpo, a messe é 1norta! ...
. Suor de 11111 nnno, destruiu-te um dia !
Se as leis da natureza o céo uão tolhe,
Contra estes 'l:unnos a arte ás vezes presta:
D'entre os corpos o homem soube
Extrair, vêr, tocar ha. pouco a fl:tmma
Motora do universo: ella, sumida
Lá nn n1nterh-., e rápida saltando,
R:ípida mais que o som, se off'rece á vista
Só qunndo sáe de um corpo, e, sitnilhante
Do relarnpngo á luz, sobre outro vôa
Atravessando os nres: este fogo,
Se industria o conduzir, metaes penetra,
Derrete .. os, vitrifica-os; agulha
O attróe, e accende electrico elen1ento,
Phosphoro girndor, fronxe] brilhante;
Tal outr'hora se viu lume assombroso
Dos ron1anos cobrir, dounrr as artnas;
Tal, e o me8rno, dos nautns ante os olhos
Rutila o fogo, que lhes é tão caro;
11.,ogo, que no pavor das tempestades
Ao tnastro electrisado· as nuvens mandam,
E brinca, e se revolve, e obteve o nome
De Helena, Cóstor, Pollux: a faisca
E·lectrica, .e fuzil das nuvP.ns solto
Como urn tnesmo eletnento appareceram,
E emfi1n aos olhos a experiencia o prova:
Se pezada tormenta os céos carrega,
Vara de ferro levuntada, e presa
Por arte sobre o monte, ou torre, on tecto,
Do raio, occulto em proxiano negrnme,
Rouba a materin, e subito a trnnsmitte
Ao fiel conduotor, que sem violencia
POBIIAS JJIDAO'l'IOOS TRADUZlDOS 159

A apontado Jogar a infesta chamn a
Em silencio conduz: assitn removes
De fructos, can1pos, ou cidade os _raios,
E o mal, que amençnva as frontes nossas
Leva ·o p'rigo, o terror para. outros ares.
'fambem com arte audaz, ilnperiosa
Esse nrdente phenomeno terrivel
Pelo fluido electrico se forma,
E os olhos na evidencia absortos ficam:
Do globo na cadêa um ,·idro exposto
A luz nttráe, e clectrisado brilha.;
J ti não é mais que o tu céo, faiscas todo;
Ron1pe, salta o relampngo; os ouvidos,
Exhalnndo-se o fogo a8susta, fére
Con1 repentino, atni o dado estrondo,.
E de solphureo cheiro e1npasta os ares;
Penetrado Q crystal dos igneos tiros,
que elles o todo se enche
De ,·estigios errantes: com est'arte
Um Salmonêo reluz, triumpha,
Faz que a terra assombrada escute o raio;
E, Prometheo sem crime, aos ·céos o rouba,
E em nossas mãos d<'pOe o ethereo fogo.
Mais felizes cotntudo os habitantes .
Das margens, que fflcundn alegre o Nilo !
Não se ouve lá tropel, tnotim dos Euros\
Turbar aos ares seu murmurio dôce;
Em ngoas o vapor não se resolve, 1
Nem do seio os coriscos lhe rebentatn:
Lá se1npre um puro sol derrama os dias;
O céo calmo, e e transparente
Lá de snphira, e de ouro as véste:
seis laas no espaço no grato clima
Dos montes de Ethiopia descem chovas;
Reforçado com ellas sóbe o Nilo,
Aguas desmanda pelo egypcio campo,
Que seus thesonros só do rio espern.:
Quando ás portas do tropico é detido
Phebo por Cancro, longo n1ar se ant'olham
.As campinas do Egypto; é ar, é ondas
Todo quanto apparece ao longe, ao perto:
Cidades se abandonam, formau.L-se outraa
. lGO OBRAS D& BOCAGB
De unidas bnrcas, onde o riso, as danças,
l•'estins, e jogos, e harmonia oftertam
Espectaculos 1nil por toda a paa·te:
O Nilo a seus canaes en161n recúa;
Fecundadas por e'he, e setu que exijam
Ós que aponto em··u1eus preceitoi,
-Be1n cnsto, ou adubío as n•esses brotntn;
V e re),·a, e no 'perdor, no estnalte
O representa urn prado inunenso:
Quando reintl entre nl,s o brusco In,·erno,
Cuja erri(;ada os gelos c'rôan1, .
V ó:a; Zephyros, brincaes na egypcia plnga;
E, quando a ,reh·a aqui revive apenas,
Ao ferro ali succutnbe a flava

Oh ,·ós coto quem não tanto é de seus mimos
Pródigo o céo, \"ivissirnos ardores
Esperae do Lefto: quando elle itnpera
As tnesses bri lhntn cotno o sol, que as do um;
A espiJr-1 encur,·a a e d ·entre 8il\"as
Rouquejando n. cigarra invoca a ceifa:
Já pacifico exercito se avan<:a, ...
TonJa a fouce na mno, e os ségà;
Derrarnados sern ordean ficarn, jazem
Por aqui, por ali; depois ern feixes
Ern ligados tnontões
De tniscros que chusrna (oh céos !) é esta?
Colhe luboriosn n passo lento
A e8pign, que csc:tpára nos segadores:
Ah I não lhe arrebateis, deixne-lhc, avaros,
Tão ténue parte do tão vasta herança; ·
Dos dins seus esse nlirncnto escasso
Perdido f( i por ,-ós, e que Yos '
Deve-se ao pobre o que no rico ...
Resto (ai!) unico resto do aureo tc1npo
Quo os homens Yi:l irn1ãos, sen1 dono a terra;
Aureo te1npo ean que tudo cm de todos t
Deixae que um monuancnto ao n1enos dure ·
Do sagrado poder, que a seu 1nonarcha
A Nutureza dcn, as leis tirnrum.
Entretunto na herdude nrnontoadas
Róçam-te os tectos ns p:tvêus tuas,
Ewtorno aos muros; tens no meio a eira,
POEllt\S DIDACTIOOS TRADUZIDOS "] 61
E instntmento, qne oçouta os louros fructos,
Fórça a depôr seug grilos avar·:t. espiga;
Voltenndo corn arte outro 1nil vezes
Cáe, e recáe nns ordcnadus Jnesses,
Ao repetido erubate o chão rcsôn,
Co'a palha tnistur.u.lo o t1igo vôa.
Nos c1ilnns onde o· sul não se ann uneia,
Ondo mui raro te•npcstê;l o vento,
põe firme terreno â eira tua,
Que hervn, ou fortniga penetrar não possam,
E que, ns p1nniciPs dutninando ern roda,
Gnnhe o bafo subtil de uragern mansa:
Ló. teu!il nln1üs depositos se lev:un,
Ló. da. celeste :t bobnda se fiatn,
E nrte de corn t:1es auspicios
Ergue us brilh:ant<'s, ns bnrbatl:as torres,
Que tern debaixo dos dourndos ttctos
Ern aperto, e1n resguardo os teus thesouros.
Depois na eira, ean c i rcnlo
Vós, pavêns, sofl"reis a plunta equin:l:
Ao pezo. de seus crcbros, duros passos
As anutrellas hnstcs nrrcbentnrn,
E escapa intei"a·o ga·ão d:t. rot.n
O crivo, 1nenenuo em tnão ligeira
Do estr:anho, leve· pó separa o trigo;
A palha vôa, o o grão j:í puro
Alt:uucnte os celleiros te nbastcct'.
O te1npo da nbun=dnnci:t. é de
O home1n possue a princi p:al ric1neza:
Como, extinct:t. a procclla, os nautas gosnm
Doce repouso na ensenda. runign,
Tnes qnJetos na eim os l:avrndorcs .
. Vutn dos trabalhos seus o firn, e o premio;
Tudo pinta o prnzcr, s:\o risos tudo;
Pnrece qne Hy1ncnêo de dia en1 dia
e n'uqncll:t. ncceru..le os fachos:
Eis nqni, eis ali c:an1pestres jogos, ·
d':tlto nrvoreJo ó. Rombra;
O gado, o fu8o á
Aparta-se o pnstor de seus rebanhos,
De seus campos 'o ngricola se aparta;
Meninos em tropel com uncia seguem, ·
VOL. III
tl
-
162 OBRAS DE BOCAGE
. - --.---------------
E atrnves!lnm, pulando, agrestes danças; .
s(lbre a palhn. -novinha os onço, 08 l·tajo,
lintizando os prnzeres da inn(acencin,
Na lucta, na cnrreira
V f'jo-os caí r, e se, e rir da q uedn:
Mais longe nmantes, que a ternura. inflamma,
Sentados sobre o colrno npprestum lnços
• Encnnto da existencia_, origem d'ella,
• Toes que se a eterno ardor- m'os nfto vedaíra
• }Juro erguido entre nós por DIÜO do Fudo,
* Se prisão tua, e de um ntortal não fussetn,
• Analin, tne f;arinn1 nnn1e.
Felizes nldeãos ! Sua ahna ingPntta
Da profuna cidude ignora os vícios;
De voluvel paixão cuprichos firrnnm,
E en1 cornçoes, que nem desprende a morte,
Se une Hy1nenêo a Autor, pureza no gosto.
Tu celleiros propícios cnuto escolhe,
Ao frio, á cnhna
Francos uos Nortes, 8utisfeitos d'elle8,
Teu lonro cabedal dos Sues preservern;
Desvelados teus olhos o exatninetn,
E com robustas tnãos se espalhe, e mova:
Teme a quente estação; n'ellu. nppnrece
O gorgulho cruel; esse initnigo,
Contagioso os grãos
Os cotne, ou inficionn: inda o não sabes,.
E o nutncro futal de seus enxa1nes
Já dos trigos no nu1nero Pquivale;
Não destruindo a raça 1notadom
Fica o roído grão todo:
Do vinho o cheiro activo, e flores,
O aílbo Ílnportuno, que ao colono é grato,
O óleo tan1bem que de um rochedo etnaoa;
São dons da Natureza uteiA venenos.
Catervà de sáe das· covas,
Investe as eiras, o et-leiro investe;
Lnngo exercito murcha en1 cntnpo estreito
No do espolio ferve a turb:1:
Esta o pezudo grão conduz na boca,
E uquella maior furto a rastos leva;
Regem outras o passo, á obra incitam:
r


POEMAS. DJDACTIC08 .TRADUZIDOH
Sons próvidas leis convém (}UO imites,
O exe1nplo d'ellcas ten dea;lcixo ernende;
Mas cerra os arn1nzcns á negra chustna,
E atulha os subterraneos onde hubitam:
Hn. para as destruir tnais facil tneio;
Entorna-lhe no asylo ngna fcr\'ente,
Colhe ns forrnigas na in onda da f'stancia,
E em ignens ondns o ini1uigo nftoga.
Porque os de teus c:nnpos dure1n,
Arte 8itnples, e nova dá leis cert:ls:
Na joeira se alitnpe, e da lnuuidude
JSP.nlpto para sen1pre o trigo_ &f'j:t;
Umn estufa prí'para, onde nr, que a enche,
Se abr:1ze ent fogo occulto, e creste, e mate
O insecto devorante, o ger1ne ignoto;
Esta, que Dubau1el ha dado á
Arte pro(icua te defende os trigos;
Este nsylo não soffre o us aves,
lias quer ,·entilador, _que o ar lhe innóve,
Ou n1n moinho o agite, e ao grão já quente
Allivio nns uzns mande, ...
Os dous flexi v•·is fulles á porfia
Aspiren1 serr.pre o ar, que o grão refresqac:
Ar segue o ar que o foge, e entra,
E se insinúa, e sáe rapid:uncnte;
D'est'nrte o trigo teu refrigerado
De todo o tnixto in1 puro está liberto.
Meio- 1nais facil, da e:xperiencia filho,
Grãos, e semente ao lavrador conserva:
Quando da ardente abóbada, que os cóze,
Já prestes a nutrir-te os })ã.es se tiratn,
ali, d'onde elles sáeJn, se ali o atnédas
Necessario calor o trigo encontra,
E forte apoz dous dias secco, e puro
O verás salvo ·do inilnigo insecto.
Sáe a colbeitn. e1nfirn de celleiroa,
Leva a n1il pnrtes abundancia, vida,
E, por pl:agas
Elia anitna, reparn, escoru. o tnundo:
De pródigos verões ceita ditosa
Soccorros nffinnce a estereis annos;
D.,baixo da agasalhado,
163

164: ORRAR DB BOCAGB
E cm funda cnvidnde incluso o trigo
De Invernos cento, ou tnnis não ten1e nffront:ul.
Mas vós, que d'estes ó catnponezes,
Não nos casncs erguer montanhas;
Ah! que fareis, se a cnrestit\ horrenda
Semear etn l:tres
tempos futnes? Qne é do regresso?
A opulencia obterti do ferteis cli!nns
O que infecundas terras Yos n<'gurcm, .
E não descobrireis n 'uan cntnpo ingr:1to
}fnis que a fo1ne voraz, e logo a morte:
Oh vós, a qne a nbundanci:a. o luxo apura,
]ndigencia odoçne de que geanelll;
E' titulo n penuria, un1 jus sagn1do
Tesu á vossa piedade, e é urnn, é uma
Dns nossas precisocs fazer ditosos:
Cidades in1itne, que oppoen1 lL fotne
Deposito com1nu•n, zt:lados trigos;
ricos montoes se alentu o pobre:
Eis. os campos que tem qnem não te1n cnmpoa •.
Lá. das tnargens do que gritos sôa.ml
Povos cultores dus flamengas
Vingava o trigo a no\'8 quadra
A IU)ll:t. colheita pron1ettia aos votos:
De 1·epente a discordh1. o 1nedo esperta;
A paz no som das armas tretne, o vôa;
Respira tudo rnivn, e guerra, e ntorte,
l>os aí v idos soldados tudo é preza :
Nns mnrgens ntterrndo o rio
Vê consternadas mães fugir ante elles;
Os convulsos, nttonitos pastores
lncita1n para ns proxi 1nns uldêns
Do tianitlo rebanho os lentos pussos;
Aos olhos do colono o ferro brilha,
Dcsa,parn os bois, o arado,
E a vista. cotn sau:l:ade aos c:unpos volve;
Catnpos, que não lavrou pnrn inhnigos I
O bronze atrôa os céus, bnquêu.tn 1nuros,
Defensores nilo hn; ntorrenun, lllf•rrctn:
As torres crê Tournai retnir do estrago:
Onde, oh germanos; bátnvos, inglezcs,
Onde ides i' Que produz o auxilio vosso ?
l
POEIIA8 DIDACwriOOS TRADUZIDOS 165
Vingar-vos Cnmberlnnd debalde empreende:
IJniz vôa ao perigo, a gloria o chntua:
Vêda de Fontenoi, ,·êde nos carnpos
Destemidos, mngnnnirnos guerreiros
Qne, olhando-os, clle influnnna, e guia aos louroe:
Jteluz prudcncia do meu rei no lado,
Reluz grandeza heroicn, e brio ufano;
Nns adversas br:unam, lavram
Esperança fullaz, e •
Tc1neridnde insano orgulho:
Entre elles, e entre nós auduz brnveza
· De fileira em fileira esparge a morte;
Mas o 1nréicio numen cnrrancudo
D' eFta sccna de horror córtu o progreMO,
E só forort's vãos deixa aos vencidos.
Os passos de Luiz a victoria;
O heróe triumpbante a butnnnidaade escuta,
Lamenta o sangue, que os lhe importam,
E, porque outorgue a paz, só quiz a pulmL
Delicias do teu povo, oh rei sublime !
A tão recto dest'jo os céos nnnuem:
J ti, já vão renovando os lu vr':ldores
Seus puros passatetnpos; c, R. teu nome
Co'a voz do cornção 1nil vivas dnndo,
Dirio a netos: «Messes, ft..wstal
Devemos a Luiz: nAo préza tncnos
Venturas nossas que proezas suas.»
CANTO II
Das vinhas
Já celebrei cultom, e dons de Céres: ·
Acode, vinhateiro, ás ,·ozes minhas;
Tlll18 outeiros snzône o cacho,
Nas adegas dtapois se f'nvase o nectar.
Eu vou cnntnr bennficencins tuas:
)fen et'tro alWa., ob Detts, que preservaste
Do naufragio do mundo um ente pio,
166 OBHAB DE BOCAQIC
Gran patriarcha dns edades duas,
Que, da vinha cultor, seus nsos soube.
. O hometn, subido d:l rnaldade ao cume,
O raio vngnroso assoberbnYn;
E disposto á vingnnça en1fim o Eterno
Já ía exterminnr perjnra estirpe:
Um justo o Noé só mente,
Só ern todo o uni,,.erso, obteve a gloria
De que os céos d'cntre os i1npios o estremassem r
Asshn que a lign(la elle findúra,
A terra com seus· povos f, .. i pta;
Fe:renho o pólo, o pólo inexoravel
Ante os olhos nttonitos derru1na
Torrentes até 'li nos ares _
Sôlto o Oceano da barreira irnmovl'l,
Onde a mão do seu J)eus lhe estreita as forins,
Sáe, corre, fer,·e, brama, inunda a terra;
Tudo morre entre ondas, tudo n1orre:
A arca só do uni verso é a nçn.
N'isto o e o ·páe da Natureza,
Por sua rectidão desnggrnvado,
A cholera mitiga, acena aos ventos,
Que, vs céos acrysolanJo, a terra
Pouco a pouco resurgern pen serras;
O remidor bnixel no Ar1nenio tnonte
Encalha finnhnente; as ondas fngem ·
Por aqui, por ali a estrada abrindo,
E como que ns Ir..ont&&nhas na--cetn d'ellas;
Entra mugindo o rnar no leito enorrne,
E vol,·e etherea. no seio ethereo.
Mas do salvo 1nortal qunl' é o
Que lugubre3 mudanças
Vê no seu dornicilio ! · Eis alternda,
Eis d'agua a terra. aberta en1 fundas bôcas
Os matizes perdeu, perdeu o es1nalte,
É confuso montão de lotlo, ·e rochas;
J ú, nas rotns, entrnnhas
Os suecos lhe nüo corrern: fero ainda
De nuvens todo o nr entenebrece:
O bome1n trerne, e recêa outros
Mortal, não· llescorçôes; Deus prornclta
Que nunca a terra iugrata os· n1ares·sorvam:

POEHAS DIDAO'l'IOOS TRADUZIDOS 167
----------
Attenta no arco, ,de nllianç:L u hono,
Que d'hora. ávnnte n diyinal cletnencia
Entre si, e entre nós de todo firtnn.
Eterna mão por beneficios novos
A terra formosêa, onde gravórn
Do seu vnsto furor signaes tretnendos;
Uan Deus se digna de ensinar aos homAns
Arte ditosa, que e1n liqttor celeste
Iluda saborosos. cachos:
Este nectnr possunte innova as forças
Do n1ortul qneLrnntndo; os risos gera,
E co'a fecunda, cordeai virtude
O mundo consolou do eqnóreo estrngo.
Juntas Noé dispôz em ordem,
Armado do podão talhou sarmentos;
Ao pezo de seus pés J)Drpurendos
O encho rebentou, e nnfe seus olhos.
Correu, pondo-lhe egpanto, o vinho em ondas.
Armenia te nectareo sueco;
A Grecia ·com fer\'·or te qniz no seio;
De colonia, e. colonia en1 tnãos a vinha
P.assou dos orientaes no c:unpo A usonio;
O Ebro ,·estin com ella as prnias suns,
E· p:tra haver seus don8 o gutlo antigo
Rochedos comtuetteu, trnnspoz montnnhns:
Cedo o Erídnno o viu co':•s 1nãos ovantes
Roubar .. Jhe o sun1o dos vinósos·
Antes de subtnet.ter-se ás leis de lloma
O Arecónaico volco em clilnns,
Jó do Rhodnno a vinha ornava as n1argens:
D'entre seus lagos ad1nira
Ladeiras, que de JJtl.tnpunos se adornam:
Subrnisso ao jugo do adornvel Probo
Desdenha os fructos du. azinheira o celtu,
Os bosques nrrnncando, acolhe as vides;
E con1 seus vinhos t'gnnlrnente o
& frias nguas tinge ao \r no Rbeno.
'I óclnrlo a rica planta o chão germnno
Bens verdes brnços á Panoni:1 estende;
)l:as, porque aos rnelindrosos
Recêa OS go)pps da infesta;
Climas foge onde a IJ.rsn, o {Jarro assomam,
"
..

OBRAS DE BOCAGE
E da fosro&, ecliptica os ardores
Sobre nrêa africana torrnm.
Entre t'Stns flnannlnfi, e os g(·lndos pólos
Á so1nbrn de un1 céu brnndo (•xistcm plagas
Onde os Fu,·onios n1nnciutu Bórens,
Onde chn\"Eliros o cnlor ten1pera1n,
E na cnrreira obliqua o sol constante
Abre pnrn os mortnt's, lhes ns!Wgura
Fructos forn1osos, e formol'os
Eis o terreno tis cêpHs tlt!leitoso:
JJá surge a pnrra, 1nndurece o encho:
)fns ba p:•rngens ali • ingratas,
A que repugna sem ,·irtude n cêpn,
E a que nnncn se afaz. Pnrco, ou esteril
É sobre chão barrento; é forte em pingue,
llns fertil: esconder-lhe
Cumpre no nbrigo de clima
Septentrional cara-nnca, e ventos bmvos.
Ama o pendor de utn helio outeiro,
Onde n. terra sulpburea, leve, unida
Em cbão fragoso co'a ''olante
Recebe toda n luz do sol 1nais vivo.
Ali (mercê dos reflectidos hunes)
De optimos fructos 86 enriquree a vinha;
Seixos, por ]o,,.rn e l:avra ali já gastos,
Cospem cbnrnma Elfficnz, que aos troncos salta:
• vemos a pedra onde elle, ocoulto,
Do frio, dnro seio é arrnncndo;
O aço prompto a golpên, sóe do embate
Ignea 8CPntelba, e puln, e brilho, e m(1rre.
De nltissilnos outeiros no
Onde a firmar-se JlÓde,
Ff»r\"ente allnvião, que \"Pfll dos rnontes,
Valles com teus plantios alnstrám,
Se duplicndos, ·
Da procella no furor não fog"m diques;
Est'arte o atavio é dos fecundos
Serro!a, que o Tom, e o Rbodnno humedecem:
J,á mãos vi dia, e dia
TmzPr dos ,·a1les os lodoeo!,
CuLrir dns rocl1ns a nudez ngreste,
Communicar-lhee ,·ida, e
POEMAS TRADUZIDOS 169-
Emendando a tnndrnstn.
AssÍJlt, ob nrte, ntnphithcntro f.lr1nos .
De flôres,• fructos, e que erguido
Etn ledas gradac;oes oos 1nontes sobe,
Onde ns ntesses, e as cf-pas pendem.
Cn,·áste os regos; á experil'ncia
Escolha dos plnntios, e dh·t:ancin:
De nrrnigndos pilupolhos, que '!erdPjenl
Con1 printn\·eras tres, servir-te pódes;
J)'esses alomnos teus, que no viveiro
Prin1icias de raizes tu offertn ram:
llns isto, custoso, inutiJ,
De experto vinbateiro é r"jcitndo;
I tnita-o, corta cssns · estucns fitceis
Que escolhido ern troncos ferteis;
Arrancados á mãe renovos tenros,
Enfeixados, copti,·os n "agun, ou terra,
Gnios La&perundo n que os destine a sorte,
Logrem frescum, e sctn ,·ivam.
Laí quando o turvo Aquario etn nossos climáa -
Fnz que reinetu com eHe a· neve, os gelos,
Conduze tén nes l1astE's; a esqundrin.
Em angular feição diviJa a terr:1:
Quer chão que mais se npertem,
Que se quer utna encostn;
Dê-se extenl'i\o mniur aos seus carreiros,
Se provar devem da cltnrrua o ferro.
Qne tnão de!'\tm, os plantios concordando,
llistorar saberá generos varios?
Bebida singul:ar cornp(,r dflsf'jns?
Fuze liga de uvas di,·ers:ts:
Esta, qne abunda de cnlor, de forçn,
Dá corpo aos vinhos, lhes cnrrega as côres;
Aqnellu, do sabor mais nprnzivrl,
De condi«:ilo mais brnndn, off'rece aos labios
J .. iquor delicioso, e vi,·o, e leve;
C:•cho de superficie n1Jtnbreada
Vinbo ttnnuncia el'piritnoso, ardente,
llaas que ern breve· se altero: nlguetn qne saiba
As e o;1 nutnerus contar-lhes,
As ondas oontaró, que as praias,
Ou oontra. as ardoas penhas vetn rumper-ee.
liO OBRAS DE BOCAG.I
Segue-lhe usos, e leis em todo o sitio;
austera, .excepções porérn soffrendo;
8f'gur:\ nos seus a experiencin · •
Do consu1nmndo vinhnteiro é guia:
llorrenllo nlgtnn renovo, abuixn,
De utn 1nergulhão co1n que viKinhe;
do irtnno, do sitio herdeiro,
llãe st'ja ali de descendencia nova.
F:1cil, pro1npto etn snLir, não poucns vezeA
Dobra a prnzcr dos nres o snrrnento,
E n custo se tnontetn; d'elle apiedada,
Soccorre n natureza o mrno,
Com n1ãos o corpo lhe arma:
Eis o pâ.rnpano alonga os Yerdes hra.ços,.
Ajudador visinho etn torno busca,
E se ampara eom elle; é. necessario
·Prever-lhe as precisoes. Alta na lletruria
Casa- se a. ''inba ao ohno inda creança:
o seu nascin1ento atnbos unidos,
Um por outro abrn{\ados, vi,·em, crescem
Os ratr.os an1orosos, e não tn rde
A ar\· ora off' rece nos olhos
De, e pnrras a fronte.
E proficuo tanchão bnstante npoio
Âo Ear1nento, entre nós menos nlti,·o:
Dn ufana lberia nos ardentes cotnbros,
Nos que a tnnrgetn do llhotlnno ncornpanham,
J órnnis foccorro alhf'io elles irnplornm;
Força · proprin sustPm, risco sobem,
Não tetnetn furins contrurios , .. enfos,
E os r:nnos seus co1n
Honra do teus \"ergeis, a virahn ás vezes
Ouro e purpura dog e.nchos;
J>or fortno5a lntnda eleva fructos ..
e roça no encanic;ado; ,
Ou, cnrYando indn tenra a docil rnma,
Os parreir aes de pavilhoes te c'rôa.
Quundo o murcho as szalas despe,
Vne podar, bem que ainda não ,·oltasse
Do culti,·o :1 8azão; se acaso iruilas
Ordinario ·vngar nos Yinb:ateiros,
Se do geral costume és cego

POEMAS DIDACTICOS 'I'RADUZIOOS 1 ';"1
---------- -- ·--
Té que os primeiros ZPpl1yrf's suspirem
llando nA.o ter nus vinhns tuas:
En1 ,·indo n primn,·em acordu o succo,-
Anda de vên ern ,·ên, anirna os n•mos; '
E, encontrando n ferida nbertn, e fresca,
Etn lngrimns dPmais ello F;e et:côu,
E""npora-Fe en1firn; o
No poJado snrrnento npcrtn, e cura
Qnanto3 cnnnes lhe o ferro;
os prnntos seus, cnptivo
o se mnntcrn, qoe nusrntentn 0!11 fructos.
As Javras finnhnente n prinut\"era
Solto exerci('io dó: nns rni\os ní'rvosns
Tonutm ferreo instrnmPnto os ,·inhateiros;
Aos golpes os torrões lá se
Róçurn-se ns pedras, se atavin o cnn1po;
E, de saibro ''isinho as cPpas li
Do Fol aos rnins a raiz
Tens as collinns destinado á lavra ?
O mestic:o nnhna1, e bois conduze;
Entre fileiras de
A i·ldo1nita cerviz lhe afaze ao
que a prima,·era udoça o clima
Abre os oll1os a vinhn, choros vérte;
Recolhe attento ns g at:\s;
N:L Yista, que a de8pin, renovntn grnça,
Co1n e lias vol,·e á face n · têz de
E a pedrn, intensa dôr, bebendo-n!1, ''ao-se.
Terne poré1n qne Zt»phyro a scuuza,
E e de cl1orar cançuda,
Desdobre a vinha níio flores;
Muda Favonio, prirnnvera
Da plaga nos5a rechn\'ado U
Ob! qnantns yezes o ntetlonho
Tórce a· negra .carrnnca, e retrocede !
Por entre entorna gn)o!i',
Rouba á terra e de,rora
Grntus p .. dos tenros.
Se da snrai,·a itnpetnoso en1 bate
Rompe do gerrre os rebentoes prianciros,
Sê tarnbern, sê cr·nel para sn.lva-1os;
Decepa logo, logo, nR nCJvas folhas,
I
172 OBRAS DB BOCAO'B
O earmento verós á Yida;
Uns os rt'novos menos
Provntn-lhe o e jnnt:nnente a damno.
Se nté tna CE'pa Yoltenndo o sueco.
lmproprios frios os • crestnm,
Cntnpre que a fronte lhe cercêes,
Cumpre qnc lhe n J.ras os ,2'el:ados corpos,
E que outro fcrtil nuno n1i
O tronco o ndopf a, e tnnis ft!liz, mais farto
Dá not'os n nn1erosa próle.
C'ronm-se em tanto os pârnpanos de flâres,
E recolhem do cnlor propicio;
· lias, ee o planet:1 por mnis Hanpla estrada
Sobe no cu1ne da abobada <·elt'Ste,
Porque aos raios a vinha
O canto vinhnteiro ampara as cêpas-;
Com a enxada nas mãus abre o terreno,
A perfida de:';tróe das hervas, ·
Em visinhnnc:a ao tronco estucas planta,
Que os Lrnços lhe 1nantem qunndo se nlongn;
Rege os pirnpolhns, que no extremo ahundam,
Um ramo se cond('1nna, outro se escolhe.
Prende a nltivt'z de folha,
E, se lhe empece. nm botãosinho arranca:
lt ais fecundo perdendo ávidos filhos,
86 ramos utcis fortnlece o trtnco. •
Fonnatn-se os cacholl, e o ·calor bem cêdo
Ha de pintar-lllf'S duvidosas côres:
Quando, cubrindo-c.s a folhagc:-m df'nsa,
OppOe á luz diurna nm véo sombrio,
Tomem-lhe a e mais vertnelho o fructo
Vê·se qne no sol de purpura se tinge:
Em sen1 arrimo ns
Basta entrançar-lhes a mndf'ixa
Jámuis dna vinl1as te o ntnanho,
Elias soccorros teus assiduos querem:
Já fotte, e nova t.erra roscando,
Já nnt.rimento de abundoso cstmtue;
Hervo destróes ean YAo, e em Yi\o repulsast
Elia se reproduz;· teitna ern tira1-a:
A nojosa lngartn, occult:a nos olhos,
Prole depõe no pAtnpano recente,
POBUAS DIDACTICOS 'l'RADfTZTD08 173
Bo esconde, e"Q.volve, e da folhnge infecta
No seio cm vive.
l,ernicioso insecto eis sáo da terra,
E, roendo a ruiz, faz guerra ao fruoto:
Dos carncócs o rojador enx:une
Coan a escuana tenaz corrornpo as uvas;
Contra tnnto ar1nnr-te deves,
E os d:unnos co1u desvelo acnutelur-lhe:
urna balsa, os herriçados n1uros
D'ali rebanbos cotn o espinho arroJem;
D:L cabra Junis que tudo o infcnso dente
Pura a cepa, que é
De trabalhos u1n circulo te
O anno aponta, volt• a, e ret1·ocedc.
A qundr&l tnais feliz, mais opulenta.,
O outoanno, a teus npparece:
CuJa-se, e dortne o vento, o sul no
egualtncnto a noute, o o dia;
])e i1nportunos ardores livre a terra
pira os 1uolles Zephyros; a plantn,
Toda pornposa dos seus dons belloe,
Já pam nos brindar inclinn os ra1nos;
De fructos tnil c'ronda a N;ttnreza
Nos convida. no festin1, que lhe orna a meza;
O cacho nos olhos snsonado offerta,
E envolto em supcrficte nzul, ou roxa.
Valo o enceta-se a '"indiana;
Enxaane caanponez can1inha á prPs!'a,
IJirige-os o prazer; co'as tnãos
Va cantilena ao sorn, cercêant cachos;
l.>ore1n fructos cotn ei,·a, ou abortivos
Vo thesouro con1muan são relngtados;
Deixa esses bagos,· alin1cnto de uves,
Não te tnanche os toneis seu podre sumo:
Aos cachos n 'uu1 só dia
· Não dús u1n só destino; estes se elegem
Entre auil para a tneza, e se anergulham
de que surgean
O sol rn urchou-lhe a flor da •nocidwle,
E rugns a velhice antccetleranl;
Aquelles, cujo preço é venerado
Da qúwlri\. fria, ongelham-ae nos tectos,


114 OBRAH DE BOOAG.I
Pendentes en.velhecem manso e manso.
Acolheu-se a teus n1urus n vindirna,
Folhas enjeitas, e a despida
Sobre tabons depois, cotn arte unidas,
Nús, pés esprernetn cachos:
O sumo em grossas ondas '\·ae munando;
Preso nas pipas, nos toneis captivo
Fuma, ruge o liquor, e sobe, e ferve;
E co'a pelle, que tinge,
Tum a o lustre, o cnlor de utn vi v o fogo.
Cinco vezes a noute os véos desdobra·,
Cinco o sol desfaz as trev:as,
E go• a· a gota nos crystaes fi ltrauo,
Qual brilh:1nte rubí, cóe puro o vinho;
Convénl que saia então d:l cuba, e S(lja
Das fezes desviado: os liJineos nut r os
• Dos vasos, que encha, o curcere lhe apertem •.
Era em Grecia, ern A·usonia urn tosco barro
fragil dos ferventes ruostos: .
On no seio de tun ôure all!ntinados
Não poucas vezes a prisão rorn piarn:
Teu povo, oh tnãe, oh Gulli:i. inuustrios:&,
Soube etn curva tnaueira obstar-lhe ás furias,
Tuboas juntnndo, circumdauus de arcos,
De invenci,rel cadêa opprirniaan.
Quando fallece o vinho á cuba exhansta
. To1na dos bagos o fumnnte
Eil-os jó, no lagar accunlulados,
Ao pezo getne•u de abntiuos
Sáetn da uva esmagada oR sutnos logo,
E regatos de vinho a inuDda1n;
Tropel vinditnndur ao vei-os folgn,
Totnam cópos naR mãos, dão grandes sorvOB;
E, se outm vez na cuba introduzirem
Estas já fézes languidus,
E as afogarem • etn brP-ve a c6ro.m:
A ppnrencia de vinbo engana os
Sueco de express9s a presun1e1n,
Mas do fal!"o liquor o tru vo insulso
Mostra a fa·anqueza da tnistnra ianpropria.
Eia, engenhoso amante de nnreo vinho,
Queres qtte, rindo aos olhos, saiba ao nectar?

POEMAS DIDACTICOS TRADUZIDOS
--------- --·- --
Nunec:'l dos c:tchos te ollicie o nlnnJbre,
Dão liquor fraco, arnnrellt .. ja. en1 breve;
-Nosce vivo liqnor dns uvas negrns,
E experto, e scintillante as q nud rns vence:
Arte se deve de Chnrnpnnha nos povos
Que um corpo nos vinhos dá firme, e doravel;
Est'arte presta só. Depois da uurora
Aos lu ines de um sol pulo flscolhe, a panhn
U vos tintas de_ nzul, e iudn orvn lbosas;
Estende-as mollcanen te, e voe d 'espnço
Lançai-as n 'esse dia e1n teus lagn les,
Sintam do fuso os golp"s; ser. costutnnm
l'• itneiros pnantos ·seus dons tnois dôceR;
Humor, que lhe extráe do ti torça,
De tun pallido rubí tcn1 côr incerta,
Ló. nns adt'gus que ruído sôa !
Que ondas que etn toneis escumam!
IJeixa lt vre aberturu. uo mosto ncc<'zo,
E setn custo entre o ar, e tnurtnure:
D'est'arte, qounJo tubos oprisionarn
Ondas, que vão cair n 'u1n tnnqne vasto,
Recêús que do vento o bafo incluso,
E, agua, espertada na prisão por elle,
Unindo-se, os canaes nrro1nben1 todos,
E abres então respiradouros livres:
No C&'lrcere .o vinho ruge,
borbulhoes, e crê que o rotnpe;
Escutnnndo se npura; ajudn-lhe o erro,
Nutre-lhe n furin, porque arnnnse o foge;
Ardores juvenis ternpéra a edade;
Repousam finalrnente, e se amncintn.
Então dos lares teus os subtcrmneos
En1torno aos muros os toneis acolhatn:
Resguardar-te as adegas de,,.e a terra;
Se os éccos do tro\'ão teu vinho
Mo\" e· se, ferve, turbn-se, dt'scórn:
O aceio itnpcre na tranquilln estnncio.,
E o. todo o cbeiro innccessivel
Lcnge eSR'arte que os nossos
Poros viciando, oo vinho njunta
Agrnda veis peçonhas; &tJbre a
Quando mui longo esquecimento o deixe
175
170 OBRAS DE BOCAGB
Que elle se ullic co'n inimiga tcmnm;
Do lodo corruptor largue a tuorada,
Remoto d'clle, e
Qut'res qoe os Yinhos á clnrezn, ao pico
ou ,·ivn etlptnna?
Do seio dos ton('is cori-vém qne os tires
No tetnpo em que rennsce a NuturPZa.
Seiba, que n mocidade á ·vide ncorda,
Opér:1. no liqnor, e S<'tupr:e:
Depois da pritna,·era nnuaJurece
Âos Yinhos o Yigor, elles
Do socego, e du ednclc uan pr<'ço novo.
Se a despeito porétn de teus desvelos
Se e,·apór·a o liqnor ern pnbrccido,
Ou finnhnente uzédn, o vicio d'ellc
Certns te1n; seu ,gosto, e cheiro
lnsí pi do tnnnjar corrige, ·aduba;
Contra ccan Inales, cnjo nnlor curtimos,
Triste rnortul nns uffiicçoes o ianplora;
Dos \"enenos dn peste a furin
E o fngo precursor da rni,·a horrenda:
Áquelles, cujo Lra.ço a patrin escuda,
ALonn \'CZPS cento a forçn, e vidn;
Suxe aos frnncezes, nos rotnanos Cesar
Seu uso ian pondo, seus eftê.•it.os yj ratn.
Oh! Quanto, e quanto é devcdura ao vinho
Arte assonthrosn, que o divide, e npura
Por meio de urn fornilho! Ern igneas azas
O se eleva, e r('sfriado
Tardia, frouxarnente se distilla:
·T1tes os lutnes phebêos, ou terrea ehamma
Vapores dos tro\·Oes no clitna;
corpo& no calor se lhe dilntam,
O frio lh'os npertn, lh'os condensa,
E descern, prccipitatn-f'e dos ares:
A aguardente no lar se fuz d'est'urte;
Se por novo trabalho a rectificam,
O efi'pirito do vinho eis despe a fleugma;
E livre sóbe, e cáe purificado.
Povo de a industria vossa
Do vinho usa forrnur util ferrngetn, ·
Util, mas arriscada. Ali no fundo

'
t

POEKAS Dn>ACTIOOS TRADUZIDOS 177
De escora adega mergulhaes os cachos
Em urnas, onde o vinho se lhe embebe:
• cobre de estendidas folhas .
No cacho longo tempo está confuso;
O vinho ali se azéda., nli ferrnenta,
E o exhalado espirito derrama
Verde vapor na ferruginea. massa.
Dátavo, subsistir co1n toes venenos
Vês os teus diqneta, e as cidades tuas;
Seguros dentro d'agua os alicerces
D'insecto estranho tal peçonha os livra:
Tu, cuja mão copía a Ntitureza,
Tu, cujo nudaz pincel da vida nos qondros,
Enche-o d'cste util p6; oom elle expri1ne
LouçA verdura, que atneniza os &erros.
Quando o vinho nas fézes, _novo aindA,
Vae fermentando, seu fervor se apura
Dos mnis grosseiros sáes; endurecido
O sarro nos toneis, d'ali tirado
Se nprotnpta para mil necessidades.
Não sei de clima, que á França
Dos seus famosos serros a excellencia:
L'Herrnitnge, e Cahors aos gostos nossos
Dão generosos, dão ntaduros vinhos,
Vinhos fartos espirito, e constantes.
Madureza co'a for<,.-a emparelhando,
Os de Occitania, e Rhodano assignnlam;
Lóte ·os ex perta mão com outros vinhos,
E affoutos vão luzir dos reis nas mezas.
Liquores que, oh Vienna, aromatizas
QuAo gratos me seriam, se a mal-firme
Razão minha o vapor lhes não temesse !
Nas agnas seus thesouros estendendo,
Vê Garôna o solicito britanno
Qoe os perturbados vinhos lhe carrega
Nos sens lenhos innumeros; os vinhos,
Que sobre as aguns e1n passagem longa
Austera. condição oostu1narn.
Borgonha, a ti se inclinem
Tio claros notne3, e o se a rei venérem:
U oe-se a1l'gre bando ti· face tua,
Bube.prazer, saúde a largos sôrvos:
ID
12
..
178 OBRAS DE BOO.!G·E
Rival digno de ti, tnmbem ChamJ•anha
Risos, jogos conduz, e .A.1nor, e as Graças;
Do vivo seu liquor a espuma. bella,
Fendendo o ar, que a aperta, sobe, e pula;
Na luz vence o crystnl, no gosto é nectar:
Emulos arnbos contentes
Da vossa farna, sem victoria
Contendei .. a entre vós, sPquazes;
As guerras suas são brincos,
llin1os, e amores a pPlPja expertnm.
Ha dourado liqnor, brilhante vinho
Que parece os prazeres o a prestaram;
Seu calor salutar, depois de ledo
Opíparo fon1enta, aquece
De já cançado estotnngo a tibiPza:
* Nos campos, que de fubal honra o nome,
• Nectáreo moscatel, nssirn prospéras.
Reconheço os teus dons, e teus perfntnes
Amo, nb suave hun1or, que a custo entornam
Bagos de Frontignan ! () precioso
Tokay, teu digno contendor, te eguala,
Se aca.;o nAo· te excede. Ouro, escondido
Entre o terreno onde seus cachos surgem,
D'elles no seio co'a substancia casa:
Inferiores a ti, no gráo segundo
Repartem nossa escolha os outros vinhos;
Canurias, Alicante, e Syracus,f,
Chiras, e Puoaret, Iberia
O gosto acariciam: Grecia exHlta
lnda de Lesbos os vinosos curnes,
E o nectar vosso, oh Tenedos, oh Chio.
Sobre ardente brazeiro a Creta em Gnossia
Condensa pouco a pouco as malvasias:
D'internas brnzas o V esuvio accezo
Vê junto a seus vulcoes, ás laYas suu
Dos cachos emanar liqnor fragrante.
Ao promontorio, cujo pé carrega
No Oceano feroz, • onde alta usa
• (Das Camenas do TPjo honra, e ·saudade)
• Gigante, em olhos negro, e nPgro etn boca,
• De tortnentas c'roou, cingin agouros;.
• Lá quando, sobranceiro á Natureza,

POEMAS DIDACTICOS TH.ADUZIOOS 179
---- ---------··- ----- - ------------
• Tnlhanrlo .a immenso as virgens ondas,
* Espernnças colben por entre horrores
* O occidentul Jnson, ao promontorio,
Cujo nome os baixeis acoroçôa,
De nossos cnmpos trnslududas cepas
Dão vinqos, cujo avellndado
Toma, africanos céos, á sotnbra
Aroma encantador, qunl não gosó.ra
Proximo ás f(lntes d'onde corre o Sena.
...
Bem que vinhos de nome a Hotruria aff'amem,
Degenerado tern na Hesperia toda:
Esses, que sobre ns nzas d .. aureos versos
• (\" ersos que Íam pri\'ar co'a eternidade)
O cysne de aos céos erguia;

Alba, e Cales, e ltlassico, e Falerno,
Fracos, doces de mais, desenxabidos,
Ha longos tempos seu lonvor perderam:
• No espirito, e sabor diversos d'estes
• Em altos vinl1os se abalisa o Douro.
Herdeiros dos romanos, os francezes,
As artes an1imando, a guerra exercem;
De quem subjuga o n1undo o vinho é premio.
To, que déste cançoes ao terno Horacio,
Corre, mago liqnor, teus dons se acclamem;
Cum elles nossos males tn guareces,
Escórus a fraqueza, e restitues
Q juvenil fervor ao velho inerte;
Es alrna dos festins; quando os não honras
Se tórna sem-sabor tnanjar n1imoso:
l-.;ubstnn.cins, que provén1 do trigo, e fructoa;
Ae perfutundu..-. as chinezas folhas;
Dos grãos de Yetnen a singular bebida;
O cacáo negrt'jante, alimentoso,
Taciturnos liquores, -nada usurpam
Á trnnquilla ruzão na 1nente hnn1ovel:
To só, nectar divino, é que insinúas
Nas al1nas todas espPrança, e gosto.
Da sociedade medianeiro amavel,
Os que odio desuniu, reCI•ncilias;
Dás-lhe sereno olhar, benigna face,
E união cordeai de ti renasce.
Cego nos cultQs seus, o tempo antigo
180 OBBAS DE BOtJAO.B
Fez das vindimas tutelar deidade
() filho de Setnéle; á sacra fronte
De eterna primavera uniu .. Ihe ns graças:
Em carro, a que ligou panthéras, lynces,
Aos credulos thebanos Baccho ensina
Bens ritos, sens mysterios vAos, fallazes;
De uvns, e de hera engrinaldado asMoma,
PAmpano sempre ,·erde o thyrso lhe orna:
As socias, peJo mosto avem1elhndas,
No monte Cytheron orgias celebram:
Faunos lhe estão d'aqni, d'alli Sylvanos;
Silêno ou cambnlêa, ou vne .. Jhe em brc1ços.
Da turba os phrenesís irrita Drómio;
Eis Lycnrgo, I>enthêo despednçndos,
• A mãe (ah! já não mãe I) lncérc1. o filho:
Aos vicios consagrado o cnlto infando,
E ás virtudes fatul, do snbio é odio:
No ardente fanntisn1o o povo accezo
De ramos allegoricos se cóbre,
. Pelles de tigre ,·éste, e sobe aos montes
lsmaro, on Pélio; rapido os vagtiêa;
Religião, piedade o torna insano:
'llénades em torrente o campo inundam,
Ferem o éneo instrumento, uivam nas serms;
E a donda embriaguez, gerando excessos, ·
Iluda-lhe o culto e1n crime, o zelo em furia.
Das festas de Lyêo bando atrevido
Cedo em Athenas a tragedia fôrma.
Éschylo a cria, Sóphocles a eleva,
E em seus versos de fogo a adora o mundo: .
Est'urte, que, terrivel,
Grande, sublime, audaz, maior que todas,
Galardôa a virtude, literra o crime,
De hrutafls espectaculos nascida, .
Filha da lnsania, em Grecitl ennohreceo-ae,
Em Roma descaiu, em França.
. Rival doa grtagos, e das orgias suas,
D'ellea as saturnaes colheste, oh Roma:
A par de seu senhor sentaào o servo
Egualdade exprimiu dos tempos de ouro;
Licença, en1briagnez por toda a parte
8eculoa de innooenoia ODI&ram

. .
POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS
o carnaval emfim proscripto
Tnmultuario culto exclue o pfljo,
llafl o etapi rito seu tem conservado.
Politica firmando até nos gostos
sobre o mar Veneza um templo:
Dos tribunaes ás venernndas portas,
Sorrindo-se, npparece a Liberdade,
E rip:or, subjeição d'alli remo\·e;
O instnnte, qne seus jogos annuncia,
Da cidnde atina.da o siso varre; .
Bellezns mil e mil, que lá no centro
Dos tristes lares seus, entre altos muros,
Dias arrnstnm como a nonte escuros.
Curvas ás ferreas leis de seus tyrannos,
Victin1as do ciume, e se1npre em medos,
Snbito passam da amargura ao riso,
Do extremo jogo á liberdade extrema:
Então não tem poder, jus o esposo;
Então lei respeitavel crê Veneza
Vestir-se o rosto de emprestada face;
Elia ao mysterio dá seguro asylo,
Um mortal mascarado é qnasi um nume.
Que i1npostores de espberns se rod@am,
De caracteres vãos, compnssos, vidros!
Que insensatos suppoem que arte dolosa
AJlumie o porvir, n'alma lh·es lêa!
Levando melhor guia os amridores
Nos olhos do seu -bem vão lêr seus fados:
Est'outros á Fortuna altnr le,·nntam,
Alli depõe o avaro infames votos;
Medo, esperança, e boa ou má ventura
Cem palpitantes corações
Tremendo aos g(Jlp•·s do erradio Acaso,
Da Sorte, que ora dá, que outr'hora. usurpa
Thesouros, por. cegueira á Sorte entregues,
Todos, té quando seu favor lhe acode,
Todos ( caterva iniqna !) sentem menos
Do lucro a posse que o tnrror da perda.
A scena prazenteira os jogos abre;
Surgindo lume, e..lutne os ares crestam;
Aos lucidt'S sobre tts agnns
Succede a apoz seus passos

181



182
OBRAS D.E BOCAGE
----- -
.
A dança faz voar gentil enredo;
As do canul, palaciog, prnças
Tudo ri, tudo brilha, assorubra .. encanta;
E os Gostos, as De li c ias, vencecJores
Da Razão· grave, e da l\1oral severa.
Por entre seus trophéos ulli r. ·cordun1
Artes, feitiços, das FudHs,
Té ao dia em que us leis de novo in1ponharn
Jugo aos transportPs, delirios terJno .

Das arvores
Bosques, jardins, vergeis,. mostrae-tne o seio;
Eu canto os vossos dons, e nhl'igos vossos:
Dado ao rte, que influíra outr'hora
O vnte Mantuano, o velho de
Sotl dos francezes o prirnt·i ro, que ubre
Incognitos caminhos no
Tu, que para exaltar plantns, bosques
O mais sabio dos reis, Deus, inspiraste,
Lhe ergueste o genio, os sons lhe dirigiste,
Anima-1ne a cuntar-te as n1nravilhas.
Cavernns, arvoredos, grntas son1hras
Com dôce embriaguez tninh 'nlrna innndan1;
Brando a meu verso applande-n1e o carvalho,
A fronte inclina, os raruos lhe susnrr:un,
E os éccos d'entre as penhas, d'Pntre as selvas
Dupli<;am seu tnurmurio, e mo respondem.
A Grecia presu1niu, sonhou que os
Povonvn1n jardins, tnontnnhas, bosques;
Que Pun, Delia, Priápo alli sn vinrn
E morava uma Nympha ern cada tronco:
De Pódona os tnilagres adrnirando.,
Consultavam prophetico ar,·oredo:
Sobre carvnlho, nos povos adora vel, - ·
Iam colher o agárico
Féros ministros, druydns cruentos;
POEMAS DIDACTIOOS 'fRADUZIDOS 183
------- -- --
Ante o culto .plebeu se expunha em áras
Penhor ficticio do celeste un1paro.
Compre á V erdnde, oh bosqueli\ venerandos,
Vosso prestin1o, e rui1nos pôr
Os primeiros a vós nos abrigastes,
As vossas grutas os seus lares for.uu,
Cidades suas os recinMs vossos:
Quando errantes n1ortues por se nniratn.
E erguera1n 1nuros, e elevaram tectos,
Em tectos converterarn-se
E cobriram corn regra ed i fi cios:
O cedro se accendPn, nn. utnbrosu eRtanciu
O dia resnrgiu por ent1·e a
O penetrante n rdor de uccezos troncos ·
Amacia. do inverno os ugros gelos:
O pinho sáe dos n1ontes, ás agnas,
E curvam-se f'RJ us n1ovfis selvas;
O Oceano, que divide ao n1undo as
O laço é tnesmo que reune as terras;
O homem vae promptamente aos climas todos;
Fica todo o universo urna cidade.
Arnplas floreshts, alterosot"t tronccs,
Mortal, ao teu suor não se
Dos arbustos cuidado o céo te incumbe,
Plantas, bem conu) tu, ·cnducas;
Pódes co'a tnão chegar-lhe ás dóceis testas,
E colher nos jardins em seus rcan1inhos
O tributo das e o dos fructgs;
Os bosques são jardins do Deus do mundo,
EHe só, que os plantou, é que os cultiva:
Sobre as azr,s do vento o grão fugindo,
V ôa, em mil partes cá e por ordetn sua.;
Deus lhe tira do seio altivos cGrpos,
Firma-lhe os pés, e sernpre lhe rernoça
As frontes immortaes de novas folhas:
. .
A floresta de Hercynia inda aos
Troncos presentn, qne 08 ron1nnos virarn;
O francez em clirna reconhece
As antigas onde o bardo
Tingia o cbão com victimas huruunas.
O hotnem, cópia de uu1 Deus, póde imitai-o
Semear, transplantar c.omo lhe apraza
184 OBRAS DB BOCAGE
Os dóceis troncos, as pevides leves,
Ornar, fazer fecundo esteril campo,
E, entre o util favt.r de sombras frescas,
Do desafiar todos os raios.
Tu, que olhas para lá da tua
E ornar queres de unt bosque o. herança toa,
Quando a neYe dos annos te
Colhes sempre algum fructo aos teus desejos;
Educas facilrr ente n tnocidnde
Das plantas, cubiçosns de ngradar-te ;
Prazer da crenção vnle o da posse:
V6 seu verde nascente rir, e nbrir-se:
Á linda ranta pnssarinhos voam,
E o gorgeio de atnor encanta os bosqoee:
Devrs a teus o.vÓR tons florestas,
Teus avós para ti lá setnearatn,
Tu semêa tnmbem P!lra teus netbs.
A tna aos Aquilos voltada
. Tenha-lhe os sôpros entre a ratna presos:
Quando, crestndn dos prilneiros frios,
O vento a folha ós ar\"ores arranca,
Dos campos mais visinhos uns tratsladam
Renôvos tenros, de rniz mimosa,
Que rapidos crescendo, mas sem força,
Seccatn de lnnguidez ém campo extrauho;
Outros cingem-se ás leis da Natureza,
E a semente tnnis tnrda, e tnais
De sombms itnmortnes seus predios
Os segundos imito, npprovo aque]Jes;
QuizPra logo que em trilhadns sendns
Os olhos fundos bosques.
O ferro em. tttns nJãos na sua infancia
Dos arbustos os rnmos nffeicôe:
t I
NAo demais; na tneninice
Grangea .. se o costume, e vae seu jugo
Té á velhice reforçando o pezo:
Se de humilde nrvoredo te C(Jntentas
Dirige-lhe o mnchndo npoz dons
Se por invernos trintn os troncos poupü
Assombram altns arvores tens olhos;
E, &e ill<'sa medrasse em annos cento
A rama pelos céos se roçaria.
POBKAS DIDACTICOS 'l'BADTTZTD08 185.
Em pedregoso chão folga o carvalho:
Colloca junto d 'elle o róbre, a fuin :
A sorveira se cria en1 terra fertil,
E os freixos, a. nogueira, o til, o bordo,
O plátano (que já co'as doctas sombras
Do srtblime Platão cobriu a eschola,
E o banquete cobri o dos sete sabios)
Do terreno indiano os castanheiros,
E o olmo, que em teu seio achaste, oh Gallia:
O álamo, o chôpo, que de margens gostam,
Co'a pallida folhagem toldarn rios;
E, alçando a mma, seus ·amphibios corpos
Tem sobre a terra o tronco, o pé nas aguns.
Em frap:osas, em áridas collinns,
Das humidades longe o castanheiro
Co'a folha herriça os espinhosos fn1ctos:
Que eram setn elle teus 8aibrosos sêrros,
terrn ingrnta, infructuosa,
Cevennes, que elle afoga, e só prospéra I '
Seus frl!ctos slo teus },ãef'l; o amago d'elles
Se enruga, e ae endurece em fo1!o brando;
Da pelle escura, e o rr. urcho corpo
Sem custo se desveste a crébros golpes,
E em durador sustento se muda:
Seu lenho orna, mantém, cóbre edificios;
Talhado ainda em moço á tnão, que o dobra
Os arcos dá, com que depois o
Tu nos·montes expoe o alvar pinheiro,
llostm o cedro, o cypreste, o pinho manso:
De Boreas irritado affrontam raivas,
E o vento sôpros vãos nas folhas perde;
Dos vastos corpos seus liqoor viscoso
Faz que os invernos sua sombra dóme:
Porém do proprio sueco a força tetnem,
Promptos sempre a a casca rompem;
Se os ganhares por mão, d'entre seus vasos
Verás vir ditnnnando o sumo em rios:
lfansos pinheiros, e pinheiros bravos
U os o a resina outros dert·atnam :
Soa terebentina ostenta Chio,
E J ndá com seus halRamos é rico,
E Tolo, Canadá, Perú, e a Meca:


. 186 OBBAt-í UE BOOAG&
Dos freixos de Calabria o pranto admira·:
Myrrha off'rece aos sahéos hu1nor; que encanta,
E colhe a religião n'aquelles campos
O incenso, cujo aronut os céo8 esti mnn1.
Dão-nos ns plantas para os usos .nossos
Raizes, fructos, a e a folha: •
Nectar cheiroso, de calor suave,
Que accende o genio, o coração reanitna,
Perfuma con1 seus grãos l\1 edina, e l\{(1ca;
Ricas folhas na China o chá de8dobra.;
Nos campos do cacáo
Do algodoeiro o fructo, e noz do côco:
Taes plantas, cujo Rucco apraz, e experta,
Aos thesouros da abelha o preço abaten1.
Gabou seus boAques longumente a Grecia,
Que os altos vates seus cantaratn tnnto:
Não me de8lun1bro, não, co'a sua:
Erytnantho jántuis, Cyllene,
Nem Dódona tan1ben1, nern tu, Netnéa,
A' prole humana fostes; .
F_rança, oh a teus bosques cedem eller,
E nunca vossos troncos orgn lhosos
Egualar·an1, e as sendas, e as
Das abobadas vossas, oh Compiegne;
Creci, Dreux, Orleans, Couci, e Ardennas,
Chnntilli, Cerilli, vistosas selvas.,
E tu Fontaineblean, do Ely8io inutgem.
A Gallia, qua8i inculta, entre bosques
Da sua adorac;ão contra os
O ferro a tnvnear não se atrevia:
Se os can:pos e1u nutril-os eram parcos,
Denu1ndavam seus povos outros cJin1as,
Ao gran nutnero idoneos; antepunham
Troncos a homens uteis: -as cidades
Ern1as deixavan1 por 1nanteren1
D'est'arte a novas leis o Pó subtni5so,
Os gnllos succeder viu a SPus povos;
D'elles ao pezo ltalia. curYa,
E foi Roma em seus muros sepultada;
Aos campos de Gallacia deran1 nome;
Por Apollo tremeu, uo vel-os, Delphos.
·veiu a Verdade en1fim, varreu chirLeraa;
POEMAS DIDAOTIOOS TRAD UZIDOH
A arvore foi só arvore, e não teve
Mais victirnas: os bosquPs .. df'Shonrndos
Pelos bardos impuros, se fizerarn
Asylo homens veneraveis,
Que, voluntariamente desterrados
Do orbe profano, pov·oaram
Dados por paes: no manto envoltos
Dos Bentos, dos .. dos
Um povo industrioso nrou
Os carvalhos nttonitos caíra1n .
A golpe, e golpe; os que assombrava.tn,
Duuraram-se de espig-as: (ai:) e os fructos
De seus uteis suores nos moveram
Mais inveja, que Hmor soas virtudes!
Por toda a parte baquearant RelvRs.,
Os campos, as cidades egtendera1n:
Incautos, que Deixae netos
'lheRonros das etlildes venerados
A bem d'elles: a Fr:tn<:..:t jú. não 1nostra
Senão precisos bosques; e
De ten1erarias mãos cair debaixo? •
Não, por leis leis prudentes
As arvores seguras já não temem
Do lizo ferro os immatnros
Elevam- se em tranquilln adolAscencia.,
E em velhas só lhe ronbam vida inutil;
EJJas crescem, e ns estrndas
Offertam dos jardins fresoura. e Rombra.
Arhustos ha, e hnmildP!il bosqnesinhos
Que das não t.ern sotnbras;
Respeitoso o ln pão d admira
A franceza estntura magestosa;
Taes nos diverso!" clin1as !-lP. forrnnram
A estirpe dos e dos
Tern menos altivez, tnas tem tnais
Estes se menos
Comtudo para min1 mais ng-radnveis.
Lá, vindos jartlins por mão das
Nascetn famílias de arbustos:
O alfeneiro, a a mndre-silva,
E aveleira, e loureiro, e teixo, e tnyrtho,
E outros mil, cujas
187
'
188 OBRAS DB BOCAGE
--------- -----
Gratos Protheos pelo artificio tornns:
Seu lenho aos pnrreiraes um subjtaitnndo,
Para os muros vestir, aos tectos sobe:
Ontro a rama pomposa ao longe
E os passeios divide em vivo muro;
On labyrintho incognito fHbJíca,
E ao des,Q"arrado pé faz dôce engano:
Outros, dóceis á tnão, que os f'ncaminha,
Já são vasos, pyramides, estrelJns;
O azevinho, ·o ola terno prafPndo
(E não só estes) a belleza ajudan1
Dos arbustos floridos: sabinn•ente
Arte ns fórtnns, e adornos lhe varia
Em portas, berços, tectos de verdura.
Arvores destinadas a nutrir-nos
Pezam com fructos ·mil, que ás mãos nos cedem,
Para offertnr seus dons a testa inclinam;
Prestes os troncos a
Sobem rapidamente, e dt"sde a infnncia
De preciosos dons setts ramos c'rôn1n;
Em tnnto que do matto plnntns
Mal dão depois de um seco1o uteis hosqnes: ·
Do céo, que te ama, reconhece os .mimos,
E aprende o que estes bens aperfeiçôn.
Oh dos jnrdins orncu]o infallivel
Docto La Quintinie I Á ensina
Que arte potente, que propicio genio
Tem subrnissa a teu mando a Nntureza;
Aos campos mais ingratos le,·a
Que elles nA o conheciam; e, inno,"nndo-os
Té nas entranhas suas, lá com fructos
Do mundo inteiro enriqueceu V ersnil1es I
Como que a terra_ fie mudou no ,·er-te!
Tu seus diverFos vícios emendnste:
A qne mui rija foi, leve, ou frngosa
Viu em si confundir-se extranha terra;
Dos defeitos e vencidos
Mutuamente, união bem combinada
Virtude se tornou; C'avar mnndúste
Os rebeldes torrões até ao seio,
E por novos to•rôes fecundos.
Quizeste que os jardins, do vento illesos,
POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 180
do zenith o vivo lt1me;
A essencia de mil arvores soubeste,
Que aspecto lhes convém, que leis as pulem:
A8sim v a rios terrenos, climas. varios
Vo inundo transportaste aos jardins nossos;
Extranhas plantaçoes no chão da França,
Renascendo a seu grado, e vegetando ..
l,areciam surgir no chão da patria.
De tmnspnrente céo favorecidos,
Os campos da Chuldéa o berço foram
Dos mais buscados, saborosos fructos;
• A prilneira semente a Grecia trouxe,
E do trophéo suave ornou viveiros;
- Roma a venceu, e dos vencidos povos
- Jg·1otas plantas admirou a ltalia:
O pêcego, da Persia á Europa vindo,
De seus varios destinos inda pasma;
Salutar para nós, seu mago sueco
Nos é delicia, aos persas é veneno:
O da1nasco odorifero do Artnenin,
E a molle syria ameixa são colonias:
Foi Lucollo o prin1eiro entre os romanos
Que, d'elles ignorados, co'a mão propria·
Os frnctos cultivou de Cerasonte:
A pereira, nascida ern ti, oh Gallia,
E as maceims, em Neucstria tão fecundas,
Apostara no sabor, no sueco apostam
Com estes peregrinos fructos;
Não são, como elles, transito rios, brandos,
O asyJo, que os contém, domando invernos,
Dos fructos, que perdeu, compensa a terra.
Cova profunda em sen espaço admitta
Tenro plantio que escolheste, e arraigas:
Une aos anxilios da cultura, o forte
Crasso alitnento de poupado estrume.
lidas serAo vAs, se tens desvelos
Nio saciam das arvores a sede:
Feliz se em teus jardins ha vivas fontes,
Se de algum rio tens quinhão nas ondas;
Sen,do esquivo a teus predios, tu procura,
Abrindo fundos JY.)ços, agua n 'elles;
De tanques, onde o mar1nore a contenha,
190 OBRAS DE BOCAG.K
&Jda girante sobre o chão a eleve.
Co'a esqoadri:l na tnão out.ros te ensinem
A fornJar de utn jardi1n corn arte os quadros:
Talvez cantem que próvidos trabalhos
Florescer por seu turno as hervas fazetn,
E as raizes, e os fructos delicados,
Remedio aos rnales, dos festins apuro:
Eu, ioda temeroso, cu n1e contento
Nas proxhnas hunêdas em tnostrar-te
As congregadas plantas; o que ·valenl
Folhas, e fructos seus, sempre colhidos,
Regenerados sen1pre: a firn de achares
Por teu suor as arvores 1nais ferteis,
Lições proficuas te darão meus verõos.

Em torno aos quadros teus algutnas plantas
Nos jardins ficarão ra ... teiras setnpre:
Taes como a sarça, espessarn-se-lhe os ramos, ·
E, talhando-os ern va8o os arredonda; ·
Outras, mais duro tracto inda soffrendo,
Feitas latadas entnpizem muros,
Os ramos seus dobrados, e
Etn lignea grade, co'a prisão forrnosos,
Amam seu captiveiro: assi1n, aos dotes
Da simples gentileza, amavel nyn1pha
Une emprestado lustre, e as bellas tranças
* Nos elegantes nós de brandn. seda
• Prende co'as alvas mão3, ioda tnais brandas;
Soltas madeixas aprazian1 tnenos, -
O luço lhes apura o dôce chiste.
Ama o sol estns arvores valídas,
Nutrir lhe agrada teus alumnos caros,
Ao artificio ten seu lu1ne é dócil,
E os muros o reflectem duplicado;
Sasonados assim por elle os frul·.tos,
As côres accendendo, o sueco adoçam.
Feição tomando ás vezes da latada,
E' rico adorno a laranjeira aos muros;
De urn vaso habita o seio inda mais vezes,
Uos quadros de unt jardim orna O· desenho:
De graças que mistura off·rece aos olhos!
De aromas os passeios te etnbalsama,
Com flores sempre alveja, e lhe alça o preço


POEMAS UIDACTlOOS TRADUZlDOS 191
Viva eRmeralda de na5centes f'ructoR,
Outro vivaz de fructos sasonndos;
Voam seculos trPs, e a flor é nova,
O tempo lhe venéra n forrnosura.;
Mas as geadas tenlP á. dôce plnnhl;
Ârrna lhe urn tecto, que do inverno a escude,
E se lhe ant'olhe a prirn_avera ausente:
Em mais amigos, fervorosos clirnas,
Sem cuidado exigir, floresce li'l're,
E livre a laranjeira nos ares sobe,
Qnasi egunlando en1 tnagestade as 8elvas;
Taes teus jardins, ditosa Hesperia,
Toes d'Hyéra os bosques tnes os d'Hetroria,
Tu, que rPgulaM da lutad_a os ratnos,
Fortna-os n 'un1 anno, e n'outro, e desvelado
Sê das leis ao rigor sempre aferrado;
Damno a defeito é a indulgencia:
Co'a foucinha na mão pr.oscreve a um
Ramo sern olhos,· e goloso, ou sP.cco;
As tuas leis o sueco obediente
D'arvore por egunl caminha ás veas;
Se de folhagens vãs fustosa, ornada,
E ricamente pobre estéril ficn,
Tira-lhe o vicio ao tronco, util fraqueza
Lhe muda em fructos a opulenéin inutil.
Homem, lerás nas arvores teu fado:
Ao vel-as df'smedrar, ao vel-as tnnrchas
lias de carpir-lhe a morte; an1plos viveiros
Perto de teus jardins lhes
N'nm futuro benigno herdeiras plantas;
As arvores, dos fructos
Parecem reviver, vivtts ainda; .
Etn breve, de seus paes doce espemnç.a,
Haste mimosa lhe succede, occupn
O sitio d'elles, e prospéra, e cresce:
Assim junto ás n1nralhas, onde os nossoa
Alt.ivos, generosos veteranos
Ultrajados do ferro, ou curvos de annos,
Depois de nlil fiaçanhns, em repouso
Tem do herois1no as cicatrizes nobres,
Novo asylo erigiu Luiz ha pouco,
Fauato viveiro, honroso, alto principio
192 OBRAS D.B BOOAGR
------ -
Onde de antigo tronco ingente, e murcho
Crescem renóvos, etn que a patria espera.
De um tronco virtuoso indign'l prole
Bastardêa, e dá sempre amargos fructos;
O garfo, sua essencia. renovando,
linda em sueco aprazivel sueco ingr..tto:
Um de arvore troncháda o tronco fende,
Raminho 1nnis feliz lhe induz no seio;
As cortiças casando, os golpes cerra,
E da chuva, e do vento injul'·ias tolhe;
A' tnaneira d'escudo outros costuman1
De um'arvore tirar pingue de fructos,
A ca8ca com seus nós; a agreste planta
Util ferida sente, onde sa ernbebe
O enxerto, que lhe tnud1\ a ·natureza:
Pela casca de um ramo outro é coberto,
Em figura de rôlo ás vezes solta:
No meio de raiz mui vigt,rosa
A enxertar oh germanos, ·
Pimpolhos, que a_ cultura lhe desuna.
Legislador, e rei de teus po1nares
A teus subitos maus dás bons costumes;
Farnilias entre si com regra enlaças,
Arvores outras arvores perfilha 111;
Seu nascirnen.to illustràrn, e exaltadas
Por novos, gratos vinculos, admiram
Em si frnctos não seus, folhas não suas:
Por esl'arte se allia o pecegueiro
Co'a planta n1ãe da amendoa, e por est'arte
Gamhôa junto á pera amarellece:
O salgueiro flexivel tem no tronco
Os ramos da e se transforma
Em doce ameixieir-a o freixo absorto;
Não de outra sorte ve1nos que adoptado
Pelo espinheiro alvar é a azeróla.
Mas fufil não a torne o abuso d'arte:
Rei, não tyranno, as arvores submissas
Nunca violentes; sen amor consulta,
Mas seu odio reEpeita; a custo algumas
As substancias misturam, e, obrigadas
A' penosa união, só folha esteril
Só .maus fructos produzem: nunca póde
POEMAS DIDACTICOS TBAJ)UZI008 J 93
A vide co'a oliveira associar-se; .
ohno, e c:•r,·alho antipathias;
C'o loureiro n cerrj:t Junl se casa,
E a plnnta do linaão com a amoreira:
N'o•n inesmo tronco estes contrnrios viyoa
S!o Jnonsttos, não J,rodigios; todn,·ia.
A ppro,·o qne, e lt'do encanto
N'uan só tronco llf\'ores qnnfro,
E que na an1endoeira a u1n tempo côlhaa
Lisa a•neixn, d:unasco •• ppctitt>so,
E o porno, que o siauelha ean côr, e em fórma.
Annue a 1nen fer,·or, e a ln(ltUJ transpo1tea,
Oh rei do mundo, oh pae da Naturt'za I
Os thesouros 1ne e dá-1ne
Pura os pntcntear verdades tuas.
Vi,·e a ur,·ore, e hnngean nossa,
Circ.n1:ando ean !(lll sein, o sncro n. nutre;
Avulta, fractos dó, declina e tnorrc,
E seus descenclentt'S se reno,·a:
É a esp(lcie inunortul, 1nortaes os corpos.·
Quando <JS te1npos creou, creou o Eterno
Todos os corpos, que appnrecem n'elles:
Guardou no ho1nen1 prinat:'iro os l1o1nens todos,
De alnll\ não, n1nR ft,r•nados taes quaes aomoe:
Cndtt planto, cuda. nr,·ore no seio
},echou tud:1s as arvores futuras,
Todos 01 fructos ,·ivo, in,'i&ivel .
O gér1ne nas fuxns ir finualndo
Seu cnpti,·eiro; então nascer figura,
Puréan s,) cre8citnento é que
N nda_ n 'elle nau doo: nota o cn rvalho
J)u 11rofunda raiz, de con1a ufnna,
o qne na lande era nlguan dia;
T:•es foram dentro d'clle os que ha gerado:
J>orém no af'ylo seu dortnindo o gcru1e
Jaíauai& 80inno expertaria,
Se os o enxofre, Jnádidos co'a a ohaYa,
Pe1us flarn1nas do AOI, pelo ar lllO\'ido
Á vida provocando-n, o não cluunassem;
Ron1pe 00111 elles a que o liga,
Abre-he e1n fhn aos d'elles;
Já nos seus vasos alianeoto1 corre1n,
YOL. UI •
13
l!J4 OBRAS DB BOCAGB
Correm novos eapiritos, que o nutrem,
Continua n1en te, e cada di,, a volta;
A rojante raiz, já não cnpti,,u,
R:ttgando a de seus suecos vive;
O trunco para o céo vergonteus
O ar, que todos os corpos \"ivi6cn,

N'arvoro eleva os suecos que digére;
Entm-lhe o seio, e lhe enche os vnsos todoa,
Circúln, e Bt'mpre com eguacs esforços,
. Succcs..cor de si n1etnno, elle se
Se attróe, fitzendo que respire a pluntn.
Bem como o sangue que, disposto
Dentro do cornçflo, depois filtrndo
Apum seu liquor de ,·êa em vên;
E tornando- Fe logo as ondas d'clle
Espiritos subtfs, hnpPrcepti,·eis,
Os mnlinhos do cerebro aviventnm;
Tnl, recebido logo em amplos vasos,
llnis estreitos ramos encontrando
Altemntivamente, e lev:.ntndo
Dns raizes dos arvores ás
Lá, sem nunca parar, se esparge o sueco;
Depois volvendo ac,s y,és por giros novos,
Continuo circulando, innova o passo;
Por toda a parte cm que a arvoro o contenha
Do germe ao berço vae, e ncorda o germe;
Flores bnfE'ja co1n celNte aroma,
De que a abelha co1np0e na pri•navera
Dourado eta(Xlio, roubo nppetecivel;
E ioda maitt dt,Jicndo alenta os fn1otoa,
llui(B doçura aos &magoJ prestando.
Como doa mesmos suecos os principioa
Dlo fructos, que entro si tanto desdizem P
E hamor fecundo, entrado em cada p'lanf.a,
Porque sem pro parece o mesmo, e outro?
Depois que em seus avós te fonnam germ-,
Tomam da estirpe ma as feiçoea todas:
Fiel o fucco ao prazo, os germes brota,
Sem lhe alterar a essencia, desenvolve
Seus corpos: qunn.Jo 01 varioa alhneotoa
Pelo ar levados de tropel 18 oft"recetn
Aoa francos va101 eacolha oerta

-

POEMAS TBADUZlDOB 195
Os germes f:1zem de snudaveis mianos,
E os que nd,·erscs lbe fão rt»jeitnm &elupre:
qunndo infructifem nó trouco
Adoptn, e junta os nós de rico enxerto
U 111 'ur\"ore qunlquer, etn nenhum d'eUea
Se nltem a priluiti,·a natureza;
N"u1n st'ntpre u1annm .desabridos suecos,
O segundo os enjeito, e quer, e ocólhe ..
Só puro11, i!'Ó filtrados, só perfeitos.
Arte njaule, e ncoanpànbe a Natureza
Vastn, fecunda,. invariuve1, certo:
Se queres pois que as fa·uctuoms plantas
Subatn SP.nt risco, e teus verp:eis povôcm,
Dn patrin não mui se trnsladt'm;
Tcment Jlluntas do sul farias do norte,
E o fogo austral ás borcaes empéce;
)las, quando o sitio lhe convén1 ao gosto,
Dos n1i1nos, e desvelos satisfeitas
Que á tenra sua inf"ncit\ foratn dados,
SurgP.Jn mestno por si, regem seus fados,
E na fecundidade e1n breve egual:•m
Dos patrios frnctos o prilnor e a
Tnl na Occitnnia, e campos dd l,rovença
Sempre verde a oliveira anta sou berço:
n·aquellea campos llercules á Grecia
Foi o prianeiro, que l•,vou seus rau1os;
PeJa mão da Victoria affeiçoados
O nome, n fauna t'temizar soí:am
Do vencedor de Olytnpia: nnte n oliveira
Deixa o ferro cnír, foge a Disoordin,
E reconhece a l,az: auppôz. Atheoas
Qne est'arvore de,·ia aí densa !tta,
D·eua o symbo1o fez da Snpiencia .
.Etn nebu1osos, en1 gelados cli•nns
Baldará teus deSPjos, teus auorea:
Recêa os Aquiloes, paiz demanda
Que os o1hos do aureo Phebo acclnrem sempre;
Doa serros so natnom ao mar visinboa
D'onde a terra se abaixa, e ás ondos:
Or.1n te1npo espemrais que a tanl:1. ran:a
Se c'r&e a teu prazer de pingues fructos; .
Grao tempo é tartiJ, e entre a·folha hWDilcle


196 OBBAH DK BOCAGE
A verde prodncçAo nAo soffre
Sen util nmnrgor lhe de artno,
E ving:•dor puder no feio· esconde:
un1 dia omfhn, qno lhe
bern do pos8r&sor, o atnargo ern doce ;
- A azf'itooa se n1óe, Re torna em
Scn liquor, ellpretnido e1n fnsol',
D'ogn:t ao calor se escôu etn nbnnduncia,
E fitcihncnte etnfirn se apart-. d·ell:1;
Sobre-nttdnndo se1npre, e recolhido
l,ur 1nercennrin nliio, por 1não lisrcira
Dá-te olco puro, balMnlo snuda,·el.
Do tneio-di:t. as UO\"ttns
Dos o vapor ás ,·ezcs
Etn lngnr do propicias
Vomz Jlf'Çonha na nzeitona embeben1;
Á quilo fende na ar,· ores absort:aa,
Gél:t o sueco, e de n1ortos cobre os campos:
De utn tuernorando in,·emo, oh p:ttria nlinha,
lnd:1 nio te esqueeeu o. horri,·el furia;
Os tenros oli,·ues, qne em ti ,·enlej;un,
Ben1 que uffanuulos jó, com tudo obrigam
lnda de seus o\·Ós a ter
Feliz mi I Occitnnia,
Que1n pôde em ti vi,·er! O o. myrrba,
E ns qne n'l\tncrioa rebentam, ·
Não te cnriqnecen1 os vistosos tnontes ;
A terr.t de não tinge· ns vêns
Em teo chão, nen1 con\'erte aré:ts tuas
E1n fi nus porcelanas o artifit·io;
Mus de Céres os dons eJn ti lourPjnm,
J,c,·a teu ''inbo no longe cncnnto, c força;
O canhn1no, e pastel teu seio aJnilnnm,
E opin1os g:ados nos teus &erros
Das leis á son1bm ns nrtes engenhosas
Télus de preço ean f.abricar Fe estnerarn:
A teu pol'o és bastnnte, e nunca i1nploras
.Co1n trihntnr:ns mãos a estrunhus terra"
Seus protlnctos, os teus notes lhe
1
4
"rancos lhe tens os portos, c a ben1 d'ellu
·Uniram teus os dons mares;
Tua induatria · awbou obra sublinte,
POJ:KAB DIDAC11'100S TBADHilD08 197
Qoe deteve do mundo os .
Direi qno de !npl•im, e de ouro accezos
8e1npre ean teu clirna os céos têan dias puros P
Qae J•,nga prhnn. ,·era ean ti
E os Zephyros no in,·erno tia vezos vàam?
Que ursos, que os que oa dragus feros
teu feliz torrão j4mnis nnsceram?
Da toa anienidatle
Gregas cntervas que a Jonia
Pelas 1nargens do llbodtano esquecera1n:
Roma estnncia an1ou, seu gmnt.le pav•
Os vencidos ergueu no gróo de filho•;
Os rom11nos, du pntria ·
Em ti se Í1naginn\·an1 n'ootra Hetruria;
Eis d'onde os- anunumentoa emnnar1nn
Domadores do ternpu, • prodigios
N une.-. das nrtes nossa1 aloançadoa,
Por noS!as vistas adntiratJos aempro:
Que de nntig:1s, do csplendidas cidades,
Rius r.unosos, e ribeiros fcrteis r
E1n ti, bem co1r.o etu a terra ofrre08
dos mE-t..-.es d'alta v:tli;•;
O oleo dns pcdrns sttnle, o fontes fónna,
E flu ,·ines se tingcrn de ouro.
Ignomda n:\ Europa longos teanpos
A a1noreira, onde os sem trabalho
Au.-.oa fios colheram, preza os c:trrJlOI
I>a Occituni:1, e oo',, verde, e rica fulha
É pasto ali de precioso insecto: ·
J,avmdores, est'urvore obtxleça
Ás anos os vos10s
Aos bichos nAo se estendam, qne ella
A jngo mnis suave a sorte os liga:
Bellezas jn\·cnis, a vÓg só cu.mpre .,
llegel-os; cllt..lB suhtlitoa vos nascem,
Alegres de trocnr por ntil jngo
A dôce liberdude: no indo clima,
Onde det.aixo dus nascentes so:nbral
Vê a a1noreira e1n leitoM de folhngem
Oa bichinhos nascer, so dNenvc,l,;eJn
l
1
elo n1estno calor, que d'entre a J•laDta
AI ft6rea faz IIÚr na primavera:
198 OBR.&8 DB BOCAOB
A qondra,. prrgniçosa em climas,
Punge, e f1ue cu lo r propicio no •
U 1n po,·o, a un1 tetn po e1n toda a 11nrte exposto,
Fen·e ante os olhos tt us no oitavo dltl;
A fulha dn. nanoft.ir:l, assim conte ellcs
No aosoimento seu, leite é dittposto
A a infancin, e pam tnntoa
V nssallus que á lei tna estão sulüeitos
Uma c:ai xn, uma folha,. é patria, é muodo.
Cresccan, ·e já fanuilins ntnnero••
A teu cuitludo -•astas camas pedem,
Onde os trnnsfiras ao snir do berço;
No vhne cntretecido, e· molles cnnnas
Postas unu1s sobre o11trn, etn b·airros, classes
Politico a republica lbe ordena:
Tui Roma outr'hc,ra ,·iu entre eena muro•
Em tribos di,·iditlo u1n po,·o innnenao.
],restar eguul cac1or á sua estancia
É das primarias luis pant
Indicador do tempo, ulli o vidro
Liquor mobil encerre antes oa tens olhos
Que se abaixe, se eleve, o cujn regra
Do ca1or, e du frio o
Senhor das esi--'lçOes a teus contentes
Pequenos po,·os, do seu tecto ai sombra,
D11rás inalteravel priannvera
E n funesta· inconatancia do ar adverso ·
Não JnniR os fere co'a
, Ditosos cidndãos de tun brando clin1a
Vivetn sem susto, e de riqueza te encbl:'m.
Mas nos seus larN 'JUe tiilencio reina!
Que feitit:O es detêan no J
Etn etn dous d•ue juzem,
E d,)res d" tnudu lhe é reanedio:
Vês por gráos o. erguer a custo
A l:tnguid:1 eis que 1e agita,
Eis que ron1pe o casulo, eis que de!pe,
E e1n novas vcstitluras fica volto;
o corpo, as vt--stes lhe rutilam:
V ária nos giros seus por 1'eaes qtwtro
Quatro ,·ezes a lua entorpecer-se
O.t 'Yê, vê-os mecher, e· engraadecer·se.
. '

POEJIAS DIDACTICOS TRAilUZIDOS ] 99
)las· sôfregos. então de dia em dia,
Crescendo vão corn rapiuo progn'Bso:
Seus olhos para. sernpre o soanno itnpngnam:
Outr'hora ean trcs cotnidns se farta,,·ntn,
Httie regi-a não hn que prescrever-lhes;
Contentar seu des,jo apenas pódes;
Cercados de que lhe offertas,
São co1nprido festim seus dô<K's diast
Folhas seccas detnais ienle oft"recf'r-lhe,
E di1plica o teanor se l1untidn• forem;
Colhe-as só qunndo virf:'s qoe nas pluntas
Já bebeu Plaeho ns Jagrilnus da Aurora:
Tornicntafl, se potléres, ncautel:l;
E, se as folhas bunhon chuva illtprevista,
Repara pelo fogo injuries d'ngun,
Que a seus mnis bellos dius é veneno.
remcdi.o tem co1neça
No bicho a lnngnidt
1
Z; ás ,·ezes cede
Aos perftuncs o. tnnl, porém, so teitnn,
Não to qot-ro illudir, os dias
De glotl>es, e Jlreguiçosos;
TranqniUos p:arositas entre os socios,
Espectadores ,·Aos d'arte prestante.
Do ocio livres de tens males
Dar começo ao trnb:1lbo os bichos querem:
Soccorre uma esperança, que te é dôce;
Nos pequeninos corpos transparentes
Reluz o ouro da seda: eis elles sobem,
Dar-lhes ramos convétn, onde
E fiem seus S<'pulchros: lá debaixo
Dos mo,·entcs unneifl, que te aprescntnm,
Lhes serpênm no e1n longas doLras
Va!lo& dous; e, for1nando indn bruta.,
Ioda liqtliua a seja, etubebe, estende
Por seus beiJos cnnacs as ondas de ouro:
Na ultirna estrada este liqoor se espessa,
Mudu-se em fio, e sne pela fileira. ..
Quando a lagarta e1ufi•n conhece o prazo,
Libcmlisa snccos;
Pri1nP.iro cm circulos fiabrfca
])e fios um frouxel, qno n obra
llovhnentos mais curtos fórrna en1 breve,.
!00 OBRAS DB BOOAO&
E em breve os fios mais npertadoa
Unidos por n1il voltas, mil rodeios,
)lara,·ilhosa têa construindo,
Em o\·o de ouro, ou pr..tta se
Ad.nlira taes insectos: este apentts
Entrn a formnr no cnrcere o cusnlo;
Aquelle, já su1nido etn nuve1n densa,
Dos fios deixa vê r indu. o. cornplexo:
Nas mes1nas redes encerntndo-se outros, ·
Como na vida unidos eZ!Itiveram
Unem-se nos F.epnlohros; ma5 se acaso
(Ai!) n'estes dias· o tro\TAo rebrarnn
At11edrontandtt a terrn, os tenros entes
Estre1neoo1n de horror.- e caern, morrem
lu1perfeitas deixando us fi nas têas.
de seus tectos entretanto
Troca extincta lagarta eut negru!l veates
As roupas transparentes; sen1 cabf'çn,
Sem pés, nm corpo inunovel, e enrugado
Cotno qne succedett ao corpo antigo.
Presa en1 seus trnusfornut.d:1 em nympha,
Jaz só adorn1ecidn, on jnz sern nln1a ·p
Por entre um véo, qne true SPU8 attraetivos,
l1orboleta luzente ali vishuubnt;
Mas este véo condensa-se depressa, ·
E a borboleta 88- e occultc'l.
Queres l1aver do seu tr..tbulbo o fructo ?
l\nteJ que clla, obstar-to possa,
os .ran10R, e po!'sunte
E1n seus lares sufFoque a nyrnpba:
O fio então dus têau1, que atnollecetn,
Ern ngua tibia se dt'epega, (} róla;
Docil por tuas n1i\o3 é
Por ort.lern so .. e finahnente
,
·Em 1nendas se forma, e dn-te seda.
)los, porqne novos cidudãos_ possuas,
Vivo& na sepultura avós lhes
Da borboleta o corpo, que incluída
Na nytnphá está, se desenvolve e1n breve;
Tetn solidez, fi rtnezn, o l:aço rorn pe •
Das a lngarta destruiu-se,
&u corpo é nada; muscaru
POBlfAB DIDAOTJ('OS 'J•RADUZID08 201
Ella foi, foi brilhante- vestidura,
Da borboleta vi,·a vi,·o manto:
Elln, qual terna mãe, lhe
llanjarea, que no IK'io digeria,
E que sobejan1ente fortfls lhe emm:
Elia nutriu-lhe nasim a infilncia debil,
Que ehrijnndo repttl8a inutil véllll.<',
. E os rioos do p1tlacio rotnpe:
Destróo a borbuleta us que o bicho,
Da nobre en1preza ao exito elln. bnsta;
É aril!te a frunte, e bate, e quebnt;
O muro cedo, el'tala; esforços crescem,
Ar•pnrecendo ,·em o al;.ado insecto,
Abre c1uninho, e sne: todo assontbmdo
Do resplendor de !'Uns groçns no,·na,
O corpo adtnirn, os nzas:
Porém não on80. aventurar ''Ôo,
Du que fui n'<;.utro tempo inda se lembm;
Anda, ngita•se, as ozas lhe estremecem,
Socia I•rocura n que 8et18 gostos ligue:
D:as cotntnons borboletas hnitnndo
Desatinado ardor, ootno oostotnntn,
De flor em ftor não vne: n
Ao doce ohjecto que elegeu, e n 1norte
Ha de rornper &Ótnenfe o nó, qne os ata:
O ardor vae &elnpre a mnis; ten1e urn momento
Furtnr .. Ibe seus di:ua, n1orre Rmnndo;
A tema con1pnnheira agonisnnte
Depoe nas tnn& mãos nnscente prole;
Sernento delicada, ovos se1n conto,
Ovos fecundos, espernnçn, e
De uma linhngern destruido.: filhos
l qnues o nnscitn('nto á tni\e é morte ;
Filhos setnpre a soa pne
E qne, t-:ern lhes ha.,·er nottado a industria,
Como elles ficarão potnposns télas ..
..
OBRAS D'& BOCAGE
------------ ---
CAN1"'f) IV
Dos prados
Adornos immortnes da terren face,
Riqueza sem trabalho aos ho1nens certa,
Eu canto dnna : oh prados,
Ás lavms dei meus versos ••
Snpicncin, que do Etlen discorrendo
O Elys;io di,·inal, qual rio
Dividido em <'nntte.-,
Teus prndos, teus jardins : so a ti meus contos
Sagrei do todo, e tons vivas
Do antepnz ó. lyanpl1o, aos .sonhos,
A teus arroios- cnndidos, cele•stes
Guia meu pnsso errante, e dó que eu possa
Beber too. corrt'nte a l:t rgos sÔr\·()s.
Tu qtte, cingido óa leis da Nntureza,
Preferes a canlpt'stre, a doce Yida
Aos ferros da Fortuna, aos ,·fios prazeres,
Ao luxo tu, que fÓ aJnns,
Em teus deE<'jos curto, os bens
Que nlü • o cri1ne, de que a terra
Um tributo lf•gitimo te pngn;
Se fnceiM ns oguas podem
O chão de qoe senhor, cuidu. em forra.l-o
De ,·aliosa rtal,·a, e com prgfundas
. Lavouras o dis1 Oe; nunca lhe olterem
Os seixos a egualdnde; P, se
Sobre o liso terreno nJreitn, fórma
J n!ensi,·el pendor, onde
A a aguns lt-ntaP, dóceill, li,·res, is:
l>e lei v as, filhas de n bundosos pmdos,
Na prima,·ern combinando os gerrnlls
Setneia-os logo, e te-us tl"abnlhos findnm;
Em sempre no\'os flôres taes setnt'ntes
Pnra ti sobre o <'ampo l1ão de mnntt'r-se.
Ha generos di,·er:>os entre os prndos;
Um, que mais se desttj:t, e tem tuais preço,

POEVA8 DlllACTJCOB TRADUZIDOS t03
.
Onde ngna snrda por cntninhos cf'rto!
Corre, e no interior dn. terra;
Laí, por !i mestno o prado
Attrne agua escondida, e ,.i,·e d'elln:
Qner outro que lhe F«'rnpro n face
crysfoea de litnpft fontP.
Mil V('zes uo cultor ,., ,·endem
Caro os bens q11e Pe jlli,O lJa,·prrm dado:
t;ua illudem; fa1so nlquc•i,·e
De -r. oito secen,. ou de ·bu1nid1t no f':strf'mo
A qundra cs fructos ... ·se 111irram
C'o importuno cnlor, e o fero BóJeas
Dilacern os jnrdin11: ,.t'ntot, e inl·rmoa
Já 1nnis phr«'netieos iuJpttiFos
Hão m11rcluado o tnJ•iz, q11e os J»rados CfJbrt-.
Só de rio inundante as soltos
No consternade cnn1po afo$!ftm méRel,
Deixa o pmnto no cultor, deixa oa suspiros;
O que a elle iotilnidn, a ti recrêa:
As qne ptdms não fC
De um Jodo m'•lle ao pmdo nnxilio trozem:
Se do IJt'ão raivoeo o nrdente PiJno
Vae tormndo a ,·erdun, e fl:'nde n terra
Aguns E'ntão da eslnnctnn SPd""'
E1n pnado e pnado nrrenia-ando as flôres.
l'roFpero ol'ylo de l,··tmrca., c Laura.,
V nuclusa, onde inda vi,·e, indn
Seu estn·mndo ntnor f Oh tftltetnnnho
Dos nail dos de nmbos;
Tu, que tio beJI;\ foste nos dons aJnnnto!l,
Tens do tempo da Grecia o e a fatna
PeJos qne nns ngu:es Yértes.
Se a corrente de proxin1o ribtairo,
Des,·ioda não póde
O prado sobranooiro, om vão
A des,:jos foge, e o o el1ão S(·df•nto:
Um dique as nguns p•endn, as nguaa
A transcender Jeito; on touro occulto
Reforf,1ldo nlicerce entre b•11ha;
On enterr.1dn
E1n ,·incnlos de unidn.
O captivo regato inda parece

204 OBRAS DR BOOAG1E
- .
A custo obedeef'r, snodndes sente
Do nntuml p<'ndor, e antiga e tr:tdn;
llus, npesar da furin, ás lcil1 subjeito
Detem-se a teu snbor, se elevo, e corre:
Em prateados snlch& Fe rt'porte,
E ás flôres tuas ho1nenagern rende:
Agnas partidns por est'arte, ás ,·ezes,
Indo, etupobrecetn, e n1orrem:
Não de outra sorte o Xúear orgulhoso
De V nlencia nos c:nnpos f'angrur-se,
E ao n1ar, que e que lhe as agoo,
Vil f<'udo Je,·a de rt'gatos pobres.
Nos torroes onde 21s agu:all do mesquinhas;
Por industria econo1nica p:trecem
Menos raras: seu uso ali se vende;
A cnda
Ahre, ·e fecha u1n cunul, seol' cnrtoR mimos
Reyezados ali de tetnpo a tetnpo
con1 utn, co1n outro prado.
Se agua. em tempos colJre, e deixa
A term tua, os frllctos seus v;u·iam
N:ts qnadrns todas: u1n torrio JlaBD1080
Lá no ae
Em catnpo Ja,·rndío, flll tanque, etn prado:
De tuna visinha ean rod;l se ergue
Longn, peznda que vo1nitm ·
Do de átra côr \"entos, e raioa:·
Por sul.itus cohnunns eis 1orrente
Dns subtcrr:•nens grotns sóe
N'urn n omento, não tnuis, se f()rnla um lago,
Onde annndo de unzóes o peixe enganas:
Qnnndo Bórens R$rlldo os ond:as
Aos carros ellus d:\o •gora estrada:
Desgostn-se no firu da prilnnvera
A agua mansão, e entm do novo
Na estnneia na tonal prole snn;
Levanta-se onde as ngn·•s se
Hervogem pingue dos reb:anhos pnato;
Ean breve o lavrador lá sulcos tr.açn,
E c1n breve a t<'rm co1n seus· dons o amimA:
O regresso do ontôno alli renova
Relva abundante; o matudor

POEKA8 DJDAOTICOS TRADUZIDOS !05
Voando alchnça os os lebres,
E outros dus n1or:adore!l,
Qne o fresco fer,·orosos busc;un:
Taes entretenilnento8 di:t e dia
Te cbarnarn, porétn curtos são teus A"ostos:
Durar não podern tnois que até ao prazo
E•n qne a seu lt!ito recunndo 118 aguas
Vão de novo occupar a estunci:t antiga.
Venturosos os venturosos
Onde se filtrarn no interior. da terra,
Ou pelo sol nos ares se e\·npor:un,
Sem pedir teu cuidado, e livres prestam
O alilnento invi8i\"el du. frescur:t J
Adrniro essas
A que as h ervas anirnn o Loire, o Sena,
Amo do Rheno ns ondits Jnagestosus,
E as margens do Lignon, que Autor pnsseia.
Rica, e vasta plnnicie, oh ferteis prndos,
Ornnntento, esplendor da antigu N
Onde nédens, cornigerns ntanudns
E .. rntn sem por grnndes I
Hcrva, que engolern nos anais dias,
Lá na tnais curta1 nouto é reparada:
Para Fe viginr. todos se ajuntnm;
P•,stos por sobre os Juãos lançados,
U 1n circulo for1nnntlo, a torva fronte
)·Juro invencivel apresenta ao loho:
Toes os prntlos que, as ond1ts suh1nettidos,
olhos do uni verso llollnntlu IUO:'tra.
Nas margens onde o tnar o Escnut repulsa,
E COin se njunta n'elle entrando,
Estendia1n-so outr'hora infectog lagos
Tt•tnidos sempre dos povos;
O E:-:cnut, o o ll.heno, entre herva, e junco
Esquecendo a c:trreira .
Sen1 gloria se lutolentos
Formando nqui, e ulli p:•Úcs nojosns:
O belga disputou ternpo ás
A terru, e guerreou por fin1 corn ellus;
Seccos por arte sna og negros tunques,
Sorgern paizea, que tapavn. o lodo:
Absorto o n1undo viu nascer a Hollanda;
206 OBRAS DB BOVAGB
O sol nns ondas odmirou Zelanda,
Qno a ''<'Z prilucint então ,,,o,·ou seus lumes;
Tr1tsbordadus arroios, rios cento
. 1
1
ura se rennir deixando as nutrgens,
1
1
artidos e1n cannes, ,,.iran1 cnptivas
As agnns soas nbnu;ar a Hollnnda,
E, anelhor que os tractados, 1á poderam
Com suns di,·isoes ligar cidudes:
O nlto Oceano, que, esc:aprtndo no leito,
Seaupre n1:ergens. engolia,
Já sabe respeitar, nus t-:u:as preFo,
Iteparos que a soberba lhe agrilbôam:
Arvores doscern ós arêtts fondos,
E do ccntru do mar flore&bts Fóbem;
Não tinh;un já na fronte essas folbngcns
1'ão bellas, t'ssns flôres tl1o n1ianosas,
Arnavel oma1nento ó. Natureza;
M:ts por nrto feliz fomm
E rn robusto ulicerCf', e currE'gadas
I>.irnanensa tcrm; suas f, ontes viram
)lorrer a eqoórca furin., e
)Jolle alcntita de vnrdurn, e flôres:
Debnixo d'este abrigo cm campos novos
O buta\"O ajuntou riqoezus certas;
Duros cavallos, gados nutnerosos
Ao· longo das collinaa despargidos
A relva segue•n, que jámuis se extingue:
Ha 1nnrgens onde trérnulo o terreno,
mobil, e a nadar nas agnu
Parece que dos gados cede ao
Tranqoillo viajante em ageis barca•
A seu prazer o batavo di:-corre
Suas cidades; qnándo os rios preSO&,
Congel:adcs ·nos leitos frustram barooa,
Ellns captivns fionn1, vônm carros
l,or.. estradas de gelo; e tal, qual fende
As p1anicies nzues ave ligeim,
Sobre os cnnaes, c'os pés de ferro armadoa,
O ·rapido hollnndez escorregando,
tirane todavia, usi1n pnaseia
Por cilna do nutciço, e claro espelho.
Os rios, sobejando áa margen• aaaa,
..
POEIJAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS !01
NAo rnrns os desvelos baldam,
E fér,·idos nos prados se dermmum:
O so indigna de que ousadas
·As duras 111úos do bntnvo ardiloso
Escra,·o o tcnbatn, seu i1nperio estreitem;
Soffre n1nl, que em grilboes ns ondas suas
Praias não cubram, quo regia1n d'nntes,
E que do antigo da. Nature--za .
Arte o o ri:'pido Ocenno
A si pto,·oca ao
E contra os n1uros, que amedronta iroso
As ondus rompe sempre, e sempre fórma.:
Se elle tritunphn ( po,·os, a h: teanei-o)
Quebm mugindo os e os .Jerrubn,
As cidades engole, e !obre us
As vngns vencedoras, os tectos,
Bens horri,·eis trophéos, e prantos nossos.
Vós qne ns prc1ius do mar quieto
Que os V óleos ao suor tornarntn docil,
N onca ousareis, industriosas
Converter loduçnes etn pingues prndos?
Lá our.r'hora se viu de hutnidas grutas
Negrrjantttl delphins correr nos 1nares:
Á YUZ do pesc:ador voavam logo,
Socios lhe eram, qninhão nns pC'scas tiohami
Diante dos baixeis s:altnndo ean chusJnn
Rapidamente aa agnas dividiam,
E das redes e1n tf.rno opinhoados
Os feros contendores costurnavnm
Tomar ao Inço os CSCft pndos peixes.
l'or onde o Rhcno ianpetuoso róla
Rapidas ondas nos fatnintos mares,
Ao seio dos paúes em dia e dia·
Seixos vo1nitu de espnanosns bocns,
Seixos, que na carroin' Í:\ levando;
Pouco a pouco ág lttgôas enche o fnn•lo,
Do assalto eqnóreo suas margens
Felizes habitantes, dae-vO& pressa,
Thesouros njuntae ás terr&ts voss a.s
Sumidos n'e:Jses lngos: de •não dadas
Lá procedo ootnvoseo a Natureza:
As aguas arredando-se vos servem,

\
208 OBRAS DB BOCAOB
Antecipam-se a v6s; e d'entre os l:agos
Francos aí vos!õõa ,·ista, nnsce a terra, _
E de uma, e de outra pnrte elln. vos
Th:agei, regei o irnperio expnlsa,
E ao ar na o peixe exhale a ,-idn;
Etn vez de an1nrgus, ondas,
Te engorde os gados (lfficuz verdura.
Terás por arte prósperas colheitas:
Sôltns arêns n'esse Jodo envn)\"e;
Do d'esses rnádidos terrenos •
O lirio rôxo, o jÜnco
Por seu cortante rnmo
Dos ca,·nllos, dos bois não poucas vezes -
Se escandulisa a bôca, e se desgosta:
Cnnaes profundos nguas setnpre nf.astem,
Que fnz o seu pendor cohrir teus lagos.
Prndos creando, a tcn1e
De u1n rio, que devora as mnrgens sempre;
Tnl das terras que bnnha, e ,·ae roendo
Tncit:unente o llhodano costurna
Alicerces n1innr: quando Pnfunados
Da borrasca estriJentc o lsero ajunta,
E o Suôna seus ianpetos nos d'ella,
Eis de repente o Rhodnno se engrosS&'l,
Brnn1e, e a terru, escutando-o, ge1ue ao longe;
fluctuatn nas soberbas onJns
Co'a It.<'sse os regos, e co'a rel,,.a prados;
Do seu chão nrrancuda inteira herdade
'Toga rapid:unente n chão rernoto;
Pela terra deL:tlue cluuna
O senhor consternudo, outro a poQsne,
E 1\ une a- seu torrão: já se tern visto,
Cançadns dos seus. giros novns Delos ·
J4:gcomr-se nas ondus; a 1niudo
O Rhot.lnno alteroso ais vi,·as aguns
Abre ca1ninhos, .entra, in,·ade,
Cava os ca1npos lniserrirr.o3, quo foram
E1n '"ão lavradus pnrd. fins 1nelhores;
Onde 1nesses crescinm, corre1n nguas,
E o que já foi corrente é chão fecundo:
Ai I de Araunon, ''ÓS o
E v6s oh Turascon, .Mont.friu, Beuucaire,
. (
POEMAH DJDACTI008 TRADUZIDOS
c:unpinas ,·ezes cento
Do llhodano anituadas, e outrns tantas
Desoladas por elle ! Alta ba rreirn,
Engllnhosos des"elos contra os golpes
Df• rio escudos sejatn:
Utn forte dique ali combate as ondas;
A lént solido tnnro a 1uargens ·veste;
Mais longe dcbil vitne o rio espera
Sobre a urêa ; re:-:iste-lhe, c,..dentlo,
E Oô\ esforços lhe (lna::rna, e lh'os tnalogra.
Que hade 8et· freio ns indigentes
Qne, os Jlrados a nutrir bastando npen;Js,
De hnproviso etn torr<•ntes se coo vertetn,
E ern ondas fer,·orosas sáen1 dai
Tudo foge á ,·iolenci:t, que nrrebata
e reb:an ltos, e u. ti n1esr:co!
Tal junto d'Ilion o irado Xnntho
Ovantes cabedaes desenrolava
Na terra circumstnnte: e, ern quanto aos Teucroa
Em &ell leito nsylo, csbravPjando
Campos vexnYa, e persegui:L Achilles:
EscÔ!t-se por ultin1o n corrente,
)las debaixo da • os prados ficam
ás vt-zes; livrn. os olhos
D'esses tristes oltiectos, e conten1pla
Margens muis ledns, rnais ditusns tnnrgens.
Aos pmuos restitué n pritnavera
O brilhante tnntiz: as flores suas
Assegure o pastor, venére o g:&do;
Terne que, destnnndnndo-se coan ellas,
Devore em fim seu ávido oppetite
Os thesouros de utn anno ern uan só dia.
Vós movei pelo pntdo os Jindns plantas,
Nymphas, qno do nttractivoa innocentes
Ornadas vedes as bonina" tenros;
Lavor da Natureza, o flór"o esrnalte
&ja da silnples grnça enfeito simples:
O fogo dos rubis, e dos dinmantes,
Altivo adorno das que rt'gean sceptroa,
Etn vossos cornçoes ni\o cria inveja;
· Dcixo.mcs, e seguis n Natureza:
A terra para vós urdiu tapizes,
TOL. m
l(
209
·I
1
!10 DK BOCAGE
--------
Taes JeiYns estendeu, travou tnes côres
Só para os vossos pés, e os olhos
Como que ao hoane1n, que a seu rei querendo
Mais belln, e tnais lustr·osn u terra dar-se,
De roupas atavia:
O seu tão ,·ario, tão rÍ!onho es1nalte
É arte com que a déstra Natureza
Lhe ornou mimosamente a formosura;
Por isto é que floresce a relva, e sóbe
Nutrindo n'ugun, e tefuzendo os suecos;
Mas isto mesmo ás hervnli damno fôra
Que hurnildes sempre são setn bnnhadns,
Densas com tudo, e qne já1nais 8e exhaurem:
Este can1pestre viço nos gudos cede;
'
1
ê como, errando á tôa os pnstos buscam;
Aqni, livre de jngo, o boi ocioso,
Deitado sobre as mãos, retnóe d'espaço;
Saccode o freio ulérn ginete ufano,
E rincha, e salta, e pelos pastos vôtt.
Teus olhos en1 teus prado:J setnpre attentem,
U til espectador os enriquece:
])esarr.ligas aqui sinistras hervns,
Inuteis para ti, fntaes aos gados;
Ali vás escolher do aca.so as. plantas
Que Natureza dá sem que ftrte a njude,
Fartas de suecos sÍinples;
Plantas do teu suor
Que da fragil snude amigo esteio
A peçonha dos males afugentan1:
O luxo dos jardins altera, ou n1ata
Virtude tão sua v e a teus de8()jos.
Se rara, e triste a relva 8áe, floresce,
Esparge-lhe por cima um rico estrume:
Se o terreno te deu na flórea quadra
Em vez de herYa profh·ua musgo esteril,
Cobre-o de cinza; aos prados tal soooorro
&•nove o lustre de seus bellos dias:
Consome-os a a teu
Tentáras a fraqueza em vão curar-lhe:
Para sempre destróe tapiz inutil,
E alimentos& espiga o substitua;
Desafogado o cl1ão mudando o enfeite,
POEMAS DIDACTICOS TRADUZIDOS
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Sem como d'antes enverdece.
Nos fins da prilna,·em, qunndo Phebo
.Annuncia o ,·erão, da fouce te nrtna:
Abre caminho, abate nos golpe d'ella
As hervas de pascer; lnrgo tridente .
.As agite, e depqis ao Eol se murchen1:
Da chnmma perigosa o resto exhale1n;
Se a funesta colheita npertns logo
O calor se lhe anirnn, e trúe seus lumes
Condensado vapor; flntnrnPja e1n breve,
E debaixo tios tectos iricendidos
O fogo te. consome a ti, e a ella. .
Ioda mais p'rigos hn.: teus carros vedem
Que ameaços do tetnpo se effcituean:
Mni longa duração de aéreas aguas
Dissipa os suecos dr. sedenta rel.va;
Su bito ás vezes fervida
Ou ante os olhos teus a tempestade .
A arrasta, os bens te rouba, e n'ontras margens
.Assombra teus visinhos, lh'os entrPga.
Feudos, que dão á prirnnvera os prados,
Nos seus prirneiros dons não se restringem,
Tem de se renovar: dispõe o estio
Novos suecos, que o outomno aporfeiçôa;
Té o inverno, que gela, e murcha o mundo,
Não onsa deslustrar-te· o. verde
E1n nossos tempos cresce, e reina industria
Qne faz de uma ruiz nascer um prndo:
De lavras, e de farto o campo
Soccorro não requer dns ·
O mais rebelde emfim so toma docil,
E f:acil abre o seio á planta amiga.
Torrão pingue, lodoso é que sustenta
O trevo, ·qnA renasce ali tres annos:
Em mediocre term on.de a colloques
Vivaz luzerna quatro lustros dnm.:
Cascalho, arên. fuzem qne prospére
O sóbrio candeal, e o trevo grunde.
Cada anno e1n pritnnvera, estio, outomno
Usam de reparar sua existencia, .
E a fouce lh'a destróe; n ·aquellus quadraa
As novas hervas soas ganham força&,
212 OBRAS DB BOOAml:
E ao gado excibtm fome: em ee exbaurindo
a r:tiz, e d'esse estrago
O trigo ntnis vigorüso,
Em quanto d• sterr:tdns por lei tua
Renascer, vict:jar. Yão n'outros campos.
Urnn semente, ou pl:anta enncbrecida
D'e.'\t'arte, e- só, para nntrir-te (JS gádos
)lais nbunJnncia tetn que arnenoR pradoa,
Da ·mãe univers:al ·tniruosos filhos,
casual de germes vnrios:
Dentro em pouco, o chão que habita,
Qualquer d'ellas irnpera, e já não tcn1e .
Co1n hE:rva pnrnsiticn hutnilhnr-se,
Emagrecer, ficnr qunl era outr'bora
No lognr onde próvido a escolheste.
Se n'um prndo vulgar qualquer plantio
Houver, que, digno de n1elhor ventura
Definhe, ou bnstnrdêe, e se no lodo
Jaz abatido, á rningnn ·de cultum,
E por visinhos seus dos falto,
Qne nli buscnvn, d'esse dumno o livra,
Cria-o só; firme então de dia em dia
O tronco, honroso ás cxperiencius tuas,
Não menos que os irn1ã.os irá medrando.
Da planicie onde ri tnnta verdura
Os thesouros ndrniro, e prézo o enfeite;
Livra-se a ferra\ do un1 repouso
Todo é fertil, risonho, e te enriquece:
Longe os tristes alqueives ociosos, .
Que de aborti,·os cardos se berriçavam,
Uan grAo succede a outro; eis que, mudando
A sua nnsce, destróe-se,
Renasce por seu turno: á terra deram
Teus suores, e auxilio renovudos
O esforço de perpetua mocid:,de: ·
Assim, por se1npre compensados mimo&,
ieo" gados, e teus ca1npos se refazem.
Ha entre as flôres, que ata,·iam pradoa,
Especies caras, distinguidos gcranes:
Ante teus os olhos tu podes
D'estes plantios as di!lpersus graças:
Attento enluvando-as n'um canteiro
POEMAS DIDACTICOS 'I'RADTTZTD08 !13
Ali crendns são com leis melhores,
Dão-lhe á simplicidade tun lnstre novo;
)fas aos jardins é berço o pmdo.
Ás toas precisões o chão fiz ntil,
A gora. a(lS teus pmzeres fe1·til stja.
To, que de amor pesquizns flôres,
Dispõe ,·ivenda aos ho!i'pedes n1itnosos:
Det.aixo céo puro, etn brnnd•1 rerra
Com seu mio nnscente os ]nstre Phebo:
Sem arte· ou elei<:ão lá n'outros tempos
Confusamente as flôres, e aó descuido
e a!li nasciam, contentadas
Dos dotes da singela. N • reza:
Os que a cultura empresta não snbinm:
Âssi1n de Alcino a ilha povoavan1,
E os jardins do Semirntnis,.
Athenns dos jardins entre seus tnnros
O .uso alegre deveu no pne virtuoso
Do prazer philosophico; Epicuro
Alli tnostron suas bcllezas novas,

E os campos transferiu para as cidrtdPs;
lias Grecia, de qne as nrtes foram filhas,
A dos ignomva:
A I•,rnnr;a é .que os fortnon, que os pôz em. ordem:
n·este luxo c:unpestre ornou pa lacios,
Orla inventou tle arbustos '"olteados,
Dispôz e lisa rel,·a, .
Fert.il xadrez c'roou-lhe extremidades,
E das mais escolhidns flôres
O tbesouro ostentrtrnm. 8ois dos olhos

· Dôce att.rnctivo, oh entre aqnelles
Longos circuitos vos ergueis rnnis lindas:
Tal aos metaes o solido dintnnnte
Dóbra no emprestndo throno.
Em meio do canteiro
Leve a teus tu nques b,. rbulhõt's fervcnt(ls:
Sêdes o regador ás flôres mate;
)lórtnente quundn a terrn arder co'ns calmas,
Quando ferrenhf'S manhãs SCID pranto
A1nençam da flôr ou vida;
Com a gnns mn is asf'id u" s as soccorre ..
As graças lhe renova. estêa os dias:,

214 OBRAS DB BOCAGIE
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Sem ella tudo morre; onde é detida
V ae buscai-a, e des\·elos:
Agua outr'hora cobriu o vasto n1undo,
Mas Deus a captivou no abysmo.
É lá que as ondas qoere1n
Seus muros orrornbnr, lá que tnu,gentes.
Na prnia immoYel, expiram:
A cada instante o sol Jo mar levanta
Vapores, que dilata, e que, levudos
nas aéreas pltnnns,
Menos gra\'es que o ar qüe nos rodêu,
Sobem onde mais mnis ligeiros
Na sub]ilne atmosphem andntn nadantes;
Geram d'nurora cad:t dia o cl1ôro,
Branquêam flôres or,·nlhos;
Quando os tufões bratnnm,
E nns fundas caverntts ertrnetn 1ôdo,
Ondos, J.,etume, do terrivel centro
Sáe mnis negro vapor turbando os :u·es,
Brinco de seus cnpricl1os furtnnm uuvens
.Mães dns filhas do Oceano;
Em seus gró. vi dos corpf)s bate o vento,
E pelos ares cáem leves que ellas:
Ás plunicics baixando, um mar suspenso
Rios, e fontes lo rnundo entorna:
Facil ca1ninho a prompta
Abre a esponjo-sa terra o ás nguas:
llór111ente os nas internas grutas
Ás fugnzes correntes dão
Pélago de vapores
Nos picos d'ell:ts, os rnontoes gPlados
Das neves invernnes (que o sol
E os humidos tocum, ro1npem
Entre os risos de Abril) vão tortuosos
Seguindo por caminhos variados
Os mennd ros de nrên!õt, e rochedos:
Pelas vêns do monte as gottas filtra
Agua perenne, e abol,adns penetra
Té aos bnrrósos leitos, onde hn posto
Reservntorios d'elln a Nntureza:
Lymphns, juntas a11i, dos tnontes fogem;
Eil-as arroios são, e as terrns larnhetn.


POEMAS DI;DACT1('08 TRADUZIDOS 215
-------·-- --------------
Comes da lberia, onde tnorreu Pyrene,
Os que .. trunspôz, V osgos, e J ora,
Do seio o Pó, e o llhodano desatam,
Rheno, e Garnmna, Sóccona, e Ticino:
Debeis junto da fonte os prados molhan1,
Off'recern .. se rebanhos sequio!'los;
Jdas eis se esqoecetn da acanhada origern,
E na carreira sua nbastecidts ·
Do tributo de nrr• <JUe recolhern,
Com ianpeto rolando altivas ondas,
Cobertos de baixeis qual o f)ceano,
Vão no maritilno abysn1ar-se,
E ns ondas tornurão, que sotnetn n'elle,
Sobre as azas dos St.'tes ás ferteis serras.
Vê d'esta pedregosa, esconsa altura.
Com tremendo ron1or lnnçnr-se ns
Lá debaixo da terra etn ferreos tubos
Superior artificio as e aperte;
Éneo canal em teus jardins colloca,
Que dê cnminho estreito as aguas promptas,
Ellns furiosas e aos ares salta1n
Tanto quanto nu queda se abateram;
Seu pezo as fez caír; d':tgua, que as segue,
Pezo urgente as eléva, e rnanda aos ares;
E quando ellas se escapam, ee acham livres,
Equilibradas sempre estão co 'a, fonte:
Pular uos tnnqnes teus virão d'est'urte,
E e1n teus jardins brincar de varias sortes.
Junto d'impia caterva em rãs n1udada,
D'agua, que ella vomit.n, injurias soffre
A ntãe de A pollo; um Ti t:tn en rui v ado
Debaixo de Etna, que lhe esrnag-a os metnbros,
Rio aos céos arretnessa ern vez de flnmma:
llnis longe por canaes, que estreitant ngu:•s,
Sobern, não vistas, muro que as esconde:
Já patentes ao dia eis se
Multiplicadas ctíern de tanque etu tanque.
Est'arte portentosa, e se:npre grata
Co'as aguas brinque; o sabio lhe prefére
DoR cornpridos cannes a silnples arte,
Que na rica abnndancia egunhun rios:
Praz-me uma fonte ás tuas leis subtnissa,

216 OBRAS DE BOCAGII
Que a ordem que u divide á riscu ohservu.:
Entre ns flôres uqui rernanso arneno
Volve ern arêas de ouro ondus de prnta;
Ornam-lhe ns tnargens .tnarm(,re, verdurc1,
E apenns rnurtnurando apenas;
Mais abaixo serpêa, e por cern voltas
Erra nós bosqnes, a carreira e5lqnece:
Acolá, qual torrente as ondas pularn
De rocha ern rochn, rorupe1n-se escnmundo
Com pa,·oroso .. estr·épito, e lhe upplaude
Os mugidos horrisonos n. terra.
Onde nn1aveis n1e
A prazi veis estancins quiz n1ostr=tr-tf:',
E dos reis nos jardins levei teus
As agun!"l, corno as terras, lhe obedeçarn;
Tu regúla os desPjos, n1ede as for<:as,
De utn prazer sednctor o teane.
Porém na escolha de ng-radaveis flôres
Azns livres concedo u. teus desvPlos:
D'extrnnhos climns generos gnbados
Da Gallia no seio conduzidos fornm;
Cnda flôr n'clln crê que a patria
Um jardirn no recinto i·1clue o Inundo;
Floresce aqui n indinna,
E junto d'ella a tu li africana:
A nterica a pn r lhe arraiga
Bellezns ,·a rias de seus nn1plos clitnus;
A tenra hemeroc!Í l, cujo destino
É nascer, e morrer n 'urn mestno dia:
E as que outr'orn agrndanun tnnto· aos Incas,
.Que pnra as fignrnr nn quadra triste,
Itnitando·ns e1n flôres de ouro, LU
seus ricos jardins a Nnturt'zn
U8avam reparar •• ah! Não previan1
Que dns longinquas margens c.lo occidente
O hespanhol, n1ais cruel qne inverno, e ventos,
ir{a tão futnl riqueza.
Oh ! Quantus flôres, concorrentf'fl d'estaa,
Mobil quadro \'arinm, nos off'recern
Das côres o cspPctucnlo não !
Co1no arte bE'Iln etn mo\"Pdiça têa
Aos olhos enlevados aprescnbe
POEliAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS
Os paços de Plutão, d_o Phebo o coche,
Grutas tle Thctis, e de Arno r tas;
1"nl em· nossos jnrdins, nonde a guia
Sua propria estação, vetn cada
Dar o atnvio, e novidade ó. scena:
O sen está na sua,
Nascen1 tantas n 'un1 anno, e morrem.
A violeta gentil n:t densa folha
Corno que fo-ge á luz, e utna o retiro;
Seu perfume a descobre, e 8eus encnntos
:Modestos, virginaes n1elhor
que sobre o flóreo plano
A ané.mona reluz; o vivo estnalte,.
De que é c'roada, os gostos
Se no mesmo Jogar não cntnpPa8se
A tulipa fortnofl'a; quanto as côrcs
Um tnixto furtn:un n'ella extravnt!ante
Tanto é muis de udtnirar, e a cspecie é rara:
Da Syria o rnnis christão dos reis un Gn11ia
Trouxe a flôr, qne (lntre nós co'u variedade
seus dôces caprichos graciosos
E do! arnantes seus prazer supremo:
Revivendo o. semente, ns flôres torna
Silnilbantes, tnas tnes quaes vemos
Delicados irmãs. Oh! NaturPzn,
São estes brincos teus, são lindas manchas
Que nos olhos a!i'signnlnm tnn1n e-pecie,
E os nomes dos heróes lhes uttribue1n:
Nos jardins nascem Alexnndre, e Cesar.
Prompto u deixar-nos. Zephyro nhre a rosa,
E no pritneiro calor a off"rece ntnigo:
Dá-te pressa, dons dins não subsiste
Tão suave são Jnuitas vezes
Os mais bellos destinos os tnais curtos.
Que nrotna me prende, e encanta t
Frngrnnte nos olhos meus potnpêa o cravo:·
Erguido sobre o tronco. e fresco, e hello
Nativa. cnndidez ostenta o lírio·:
Teus pendões borde, oh França.,
Tua plori:\ nnnnncie e1n torla n. parte;
lias dos .-entidos tneus des,·ie o cheiro.
Dos perfumes que dús tun1betn o excesso
217


218
..
OBRAS DE BOCAG.K
É oh flôr do mundo no,"o,
){ais ditosa entre e que os frnncezes
Nomiriatn ern tu surgindo
A potnifera quadra retrocede,
Veto dur-te irrnãs, que hão de forn1ar-lhe a côrte;
O amarantho immortul, papoula, e n1yrtho,
E a que, amante do Sol, cotn elle p;ira;
l,or sua for1nosuru, e vuried,,de,
Pelos seus, da China a
Nos assornbra os jardins; etn sós tres dias
Que á vida lhe uprnzou a Natureza
Muda tres vezes o inconstante adorno;
Entre as flôrPs nnscendo é branca,
Vertnelha já n1aior, purpurea etn velha.
Quando o inverno, chatnando á terra os frios,
Ordena ventos a Yerdura arrnnquetn;
E qnando nos jardins por elle n1urchos
Das flôres o espectaculo fnrta;
No tetnpo en1 que o tulóspis d'ul,
7
a fronte
Ousa ainda brilhar perante os gelos,
E entre seos pés o adrnira
Flôr qne, sen1pre nfl·rontando o feio inverno,
Etn gelado torrão sae da sernente,
Se ahre, e penetra sobre-po ... tas neves,
n·ellus triuntpha; e1n est.ancia,
Contra o frio rigor sPguro a'ylo,
Flôres faze lurnes desperta
Cujo modico ardor Zephyro irnite;
Cotn este brando sôpro n flôr se illude,
Á flôr parece qne Favonio torna,
E deve ao dôce a dôce vida.
Aos desvPlos, que influe arte assisada,
Amoroso delirio não ae
. Junto de ntn cravo moribundo chore,
11 urche com el1e pnllitlo florista;
Outro, perdendo tulipa tniano.-a,
Guarde como u1n the:'ouro o ( spolio secco;
Estes insanos creadores tristes,
Estes rivaes do céo ,·ão n1uito embora
M udnr o esmalte ás fl\)rf's, e o perfu1ne,
Alterem-lhe no seio a Nnt.urcza.
Irupriulindo-lhe a côr tingida
POEliAS DIDACTICOS THADUZIDOH 219
Pelo artificio: quaes prodigios contém
Açncena purpúrea, e negro cravo,
Guben1-se do que podern; tu desdenha
D'arte minuciosa apuro
E ,(rOSa· te dos dons da fiacil terra.
Multipl:quem-se as flôres onde a abelha
Usa pelas 1nanhãs colher seu. nectar:
Ás antigas :rrnc:oes elle preciso
Dos_ cuidados domesticos (.bjecto
Util, e amavel fui; de Mantua o cysne
Excitou .. .Ihe o fervor,;. cantou
E thesouros da abelha, os seus trabulhos,
A sua economia, a ordem sua,
Seu amor a seus reis, ci ,·is discordins,
O lucto de Aristêo perdendo o enxarne,
Pelos e a n1ãe restitniJ.o
Aos prantos do infeliz: tnas dando a pena!
Ao hemispherio nosso o
Sabor de sueco estranho, as canas foram
Antepostas por nós ao dôce favo:
Da ntassu, com que engenhn os edificios
O insecto susurrante, indn até"gora
Nadn o notorio prestilllo ha supprido.
Adquire pois a cêra, e vne creando
O to tu ilho, o serpol, herva-cid rei ra,
O jncintho
1
o e as perfutnndns
Flôres, qne enxarne nligero cn rên1n;
A <'Stuncia lhe construe, a obt a
os e, por os moles,
Dos sabios, que inda existern, cólhe indn·tria,
Que as abelhas mantén1 1nelhor que outr'hora.
Seguem flôres o A1nor, Sorrisof4, Gmças;
De 'filnante a CPphisa os tnirnos levarn;
Unem-se na madeixà, o seio adornam;
As festas mais pomposas fortnosêatn;
Travados n'u1n festitn seus ramalhetes
Com saboroso!i4, delicudos fructos
Movediço jnrdirn nas u ezas
Por dPsusndo 1nixto algumas vezes
A irnngem dos mort.aes nos n presf\ntnm:
AFsirn, sem fabricnr vãos nu1nes f(-'t:os,
Que em flores desgraçados convertiatn,
POEMAS DIDACTIOOS TRADUZlDOS 221
hermnphrodita ambos os sexos,
Arde n3s que propria uccende,
}lata os que elln nlestua incita:
Dos. apartados lar distanto
Ern ,·ão presutne3 que llytneneu desvia;
As auras serviçaes da flôr ao seio
Levnrn do esposo a preciosa ofi""renda:
Tues as pahneiras ntts fecund;as 1nargens
Que oh Nilo, inda que uusentes,
l)ara se uuiretn com prisão de a1nures
E1n nnno, e nnno i,or b"avonio esperam;
Elle é 8eu mcnsngeiro, azas lho e1npresta;
llus se o vê preguiçoso ent deruasia,
Do Egypto o tnorudor vne diligt'nte
Da anuula aos braços conduzir o arnnnte:
Sern tnl soccorro a planta estereis flôres
Dérn, e déra lnurclutndo innteis fructos.
1.'e•npo de aanor ás flôres é a aturorn,
Rena5cent co'a tnanhã, co'a luz se anilnam,
D'ellus susurra e1n torno o fl,,,,o enxntue,
Appluude a borboletá os dôces brincoH,
o terno rouxinol em pnphio tnyrtho
Canta os al"dorcs, o conuuercio d' ellas.
Dos gados
V 6s, qne exerceis das terras a cultura,
Vós, que lhes dnes os bens, lhes dues o adorno,
)lort:tef§, quanto estas leis vos emrn graves,
Que trabalho exigiam, se as sentisseis
Desajudados, sós! A Di,·indude
Subanette a humana especie a taes suores;
Mas a pena é paterna; e, tnoderando-a,
Aprouve-lhe curvar ao jugo do ho1nem
Proficuos nnilnnes, que em parte a soffram:
Deve1n obedecer, vós governal-os;
Sobditos são, que_ o reino vos pov6am.
222 OBRAS DE BOUAGE
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Este imperio tão rico, e tão potente,
Qnanto d'esse desdiz, que possuia
O homem, pela enriquecido?
Subrnissos nnitnaes seu rt!Í servhun,
E apenas foi culpado os- viu rel,eldes;
Sem sem soccorro <!=-tretnecendo
Dos tigres, dos leões tcrnia a furia;
Âgnas, e grutas, ligeireza, e vôo
A seu illuso anlil roubava ln- prezas:
AI as assiro que inventou pelo trubnlho
Artes o rncional, e assirn qne o Eterno
Lhe restabeleceu poder noe brutos,
venceu-lhes repugnante instincto;
Cedeu colhido o passnro nus rêdes;
Teve o touro, o cavnllo un1 jugo, urn freio:
De noute discorrendo a serra, o vulle
Os selvaticos monstros pnsto;
Nasce a luz, o home1n sáe, e lles o acatam,
E d'elle entre as floreshls vão sutnir-se:
Aos uteis animaes deu nteis;
Nos sarros espargiu seus dóceis
D
' ' .
est arte um 101 escravo, outro te1neu-o,
E ás leis de seu senhor o mundo:
O cabrito-Jnontez, e o cervo, ainda
Que em fórana ao renna não se arrebanham;
O búhalo indomavel n1orn etn selvns,
E a cabra montezina esquiva o jugo;
D'estes as gerações, que n. Natureza
Cria selvagens, e drixa,
Não podeanos dobrar aos usos nossos;
lfas n'estes anirnaes, intun1ecidos
Com sua indE'pendencia, e liberdade,
Limitado poder setn pre exercemos.
Oh Deus, de que utn pat'torJ tremendo, amando,
Via nos citnos do Horeb a magestade;
Tu que, chumando-o a ti, d'entre ignea sarçn,
Que ardia ern fogo teu sem oonsumir-se,
O teu nome, o teu ser lhe revelaste,
O pritnE'iro dos vates o fizeste,
O fizeste o pastor de elE'ito
No lume divinnl minh'ahna influmma,
O inculto guardador por mim se instrua,
POEMAS DIDAC'fiCOS TRADUZIDOS 223
----------
Saiba ·usar de teus dons, e te a;!!rndPça
O imperio seu pela hon1enn,Q"etn
Se bellos fructos, se abnndosas messes
Teus de8ejos expertom, gados cria;
Venturosa experiencia, atnpla fhrt.ura,
Verás galardoar teus n1il desvelos:
Dos antigos tnortaes este o costume;
O
, bd. ' .
s I tos, c os reis ernn1 pn8tor('s:
A fabnla indicou por véllos de otiro
Das ovelhas. de Atrêo, e E é ta o preço;
O esposo de Penelope em seus gndos
Tinha os thesour(;S seus; de F:aunQ a prole
Qs seus the8ouros em seus tinha:
Esta industria cobriu de povo inunenso
Judéa, e foi sna opulencia.
Africanos, .. os
l1ansos catutalos o joelho nccurvam
Para qne os sem medo á sêde,
Pugos de aridns hervas, os dcs('rtos
Cruzam da zonu arJente: a India off'rece
Aos olhos meus o válido elephante,
animal, que de utn menino
Se deixa altivo, e brnndo:
Torres sustenta, e in1pá v ido co!-!tutna
Levar guerreiro!i onde a gloria <:>s a:
}Jor estrada, que o gelo, a neve atnlhnm
Puxa os frios lupOes o rennn activo;
Só para si querendo
Vestiduras lhes dá, manjar, bebidas:
Mas nunca teus ri vaes Ferft.o taes povos,
Oh gente, cujas terras alimentam
Os servit:aes cavallos; seus empregos,
Prestimos varios, o aniano, a belleza
Aos outros anitnaes este avontnjn1n.
Cria em lados ooU'Íros teus rebanhos,
· De moderados céos procurft o clilna:
Bando feliz d 'innun1eros ginetes·
Lá se faz agi I, são, robusto, e vivo;
lias ern prndos tendo a estnncia,
Ou tendo-a em vallPs bumidos no extremo,
Grosseiro pasto d'este chão nocivo
Lhe enerva os corações, se augmenta os corpos;
224 OURAS DR BOCAOB
Ficam pezndos, sern vip:or, S('tn brio,
E rcceatn-se do ar ou denso, ou frio:
Vê do hespnnbol o n.rtlor, '
9
ê-lhe a nobreza,
A fle:ngnu1 do hollandez, e a cobat dia t
Taes, á face de u1n céo tnacio, e puro,
As nrvores, que a torra alegre nutre,
Ás que lhe vem da Xatureza
U netn suano aprnzivel, unern fructos
I>rovindos da cultura: outras desnu.aiam
Etn soltos areáes, en1 scccos anontes, .
Qne o vento insultu, ou nos profundos valles
Toleram sotnbrn perfiJn, e só1nente
De sean-snbor frnctos.
A Frunça uo teu des«jo flll sitios varios
Off.'rece outeiros, que de pasto nhundam,
1\lanifcstos á luz: 8ão taes os prados
De Hiesme, do e tues se rnostram
Do lthodnno fervente ns frescas tnnrgens.
Que é do vosso a oh destros povoa?
Ron1a, Roma deveu proezas suns
De ''Ossos bons maiores ao cuidudo;
V ossos ginetes, pnra a guerra idóneos,
· Creados p:t ra a guerra, aos seus horrores
Conduzirnm do tnundo os
Escolhe o garanhão, que d'esta escolha
Depende a sorte da 11 una da equina:
O andaluz nos apraz, e o barbaresco;
D'este o filho n'altura o paíe transcende,
E o cavnllo· d'lberin excede a estirpe:
O garanhão, que estiano, é no\"o, é forte,
SoLerbo, e manso, dócil, e aniauoso,
Alto pescoço tem, e audaz cabeça,
Redondo é na garupa, e cheio em lados;
Cutninha. ufano, rapido
Insulta os medos, desn.fia os p'rigoe;
Se ouve mavorcia tubn, os sons da guerra,
Agita-se, retouçn, e fere a terra:
Chama seu rincho ousado os estandartes,
Fogo lhe luz nos sáe das ventas,
As orelhns altêa, herriç;t as crinas,
Estremece-lhe o corpo, a bôca espuma.
De um pello assignalado a côr maia nobre

POB:MAS DIDACTICOS 'l'RADUZIDOS !25
DenoU, seu valor, o aformosêe;
E a teus rebanhos dê ·gentil tintura
De raça em raça eete o til atavio:
Busca alazOes, prefere os mosqueados,
O azevichado, o baio, o de tres côres
Que a das carnes imita, e de ouro, e neve;
ou· cinzenta, ou mal tinta, ou deslavada
A pelle n'um cavallo o indica frouxo:
Assim -nas variadas côres suas
A Natureza brinca, e pinta os genios;
Mas isto mente ás vezes, e quem prova
Seus occultos defeitos ? A experiencia:
Na belleza envolver-se o vicio póde;
Falso, vil, rebelão, espantadiço
Póde o cavallo ser, ser caprichoso;
As péchas de seus paes em si guardando,
Hereditario mal transmitte á raça.
Ardente garanhão, que de annos sete
Cheio é de forças, as conserva aos vinte;
e sua ardencia esteril
E de um desejo vão fa1laz
&rve a egua em mais moça, e quinze estios
Fecundos, beiJos dias lhe rematam.
Seja livre, ociosa, e de seu pasto
Se regre attentamente a quantidade;
Ás lidas amorosas destinado,
A seu tenaz ardor se dê o esposo;
Mas. tempera-lhe o fogo, em doze amadas
As ferventes caricias lhe restringe;
N'elles, como entre nós, não ha
Escandece-os Amor co'as furias todas:
Em vindo a primavera, e quando as eguas
Soffrem dos garanhões o activo assalto,
Experto conductor una, e contente ·
Desenfreada amante, umante insano;
Contenha em subjeição té nos .
De amor agreste os impetos soberbos. .
Onze mezes passaram, nasce o potro,
O desvelo em c real-o agora accupa:
fraqueza da tenrinha edade;
A infancia brinque, a mocidade espera;
Deixa saltar 1nimosas crias,
TO:L. UI
15
!26 OBRAS DB BOOAGB
E acompanhar as mães ao prado, ao monte.
No meio de seus brincos, desde a infancia ·
O presagio lerás de seus costumes :
Aquelle, que arrojar-se aos campos vires,
Correr, embalançando-se nas curvas,
Desdenhar vAo rumor de rio, ou fonte,
Os outros provocar, vencer, correndo,
Nos brilhantes, magnanimos ensaios
De um bruto generoso off'rece as mostras;
Independentes vivem, vivem ledos,
E do freio vindouro a força ignoram.
A edade eis util, no terceiro estio
Subjugam tuas mãos o indócil potro;·
Edade é folgazã, poré1n flexível:
Longe ameaços, picador sanhudo;
Um castigo cruel produz só medo:
Tu prefere ao rigor brandura, e mimo:
O cavallo ama o homem, quer prazer-lhe;
Sua docilidade é voluntaria,
Mais cede á voz do que obedece ao freio.
Das varias crias o destino ordena:
Dê-se a boçal, e a frouxa ao carro, ás lavras;
·Convém primeiro que utn vazio arraste,
Com leve arreio; em breve os pezos graves
D'espumante suor seus lados ~ n g e m ,
O eixo grita nos carros, e se inflam ma:
A voz deve-o guiar; mas, se repugna,
Succede-lhe o castigo, e vence as· teimas.
Impávido ginete, que á victoria
T ~ m de voar c'o impávido guerreiro,
Desde a mimosa edade a estrondos feito,
Escuta sem terror trovoes de bronze;
Pelas armas ufano os olhos corre,
Das trombetas a voz lhe é som gostoso,
Soffre os arçoes, e placido sustenta
O dono, que lhe opprime as lizas costas:
Submisso ás ordens ou se avança, ou pára:
Becúa e se levanta, e se arremessa;
:Mais prompto que elles, precedendo os ventos,
Apenas sobre a arêa imprime o passo;
Ama os louvores, e reluz seu fogo
Se branda mão lhe bate, e o lisonjêa.
POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS
Uteis no mareio campo, assim ginetes
Altivos aos certames te conduzem;
Rompendo os esquadrões, lá saltam, vôam,
A. matança os anima, o p'rigo os punge:
érivados de entre tnortos,
Cheios de pó, de sangue elles parecem
Esquecer-se de si, de nós lembrar-se;
Se a força os desampára, inda animosos
D'entre os horrores sáem, nos. livram d'elJes.
Mostram por nós temer quanto affrontaram,
E expiram satisfeitos com salvar-nos .
. Este dôce pendor, que a Natureza
Inspira aos corações, Amor, que a vida
Confere a quanto existe, Amor, nem sempre
E' pelas soas leis gniado: ha brutos
Que seduz falso instincto, e que, inflammados
De perversa paixão, sPguir costumam
Animaes d'ontra especie; o tigre, unido
Á leôa feroz, gera o leopardo,
Producção monstruosa, e d'este laço,
Que. a falsêa, indignada a Natureza
Abominavel raça esteril torna:
Entre animaes, que a seus desejos prestam,
O homem, multiplicando improprios laços,
Por arte os reprQdnz, e de anno em anno
Novos adquire, a N atnrezá illude;
Renovados assim os rnachos nascem,
E outros, que a Natureza não perfilha.
Da egna o macho é prole; a altivez sua,
Se o pae lhe nomeasse, eu affrontára,
E abatera versos com seu nome;
Mas o prestimo seu diga-se ao 1nenos:
Tem manso o natural,. o humor paciente,
Tolera as fomes, e o contenta um cardo,
Proveitoso á charrua os touros suppre,
Das cargas que lhe itnpoeln deixa opprimir-se;
Mas ás vezes de purpuras o adornam,
E nas costas mantêm, conduz ufano
De nympha encantadora o dôoe pezo:
Em fogoso ginete o lindo sexo
lreme, e antepõe-lhe um passo brando, e lento.
Rochas subir, do precipicio á margem,
2!7

228 OBHAH DB BOOAGE
É do bom macho o prestimo primeiro;
O homem, sem se abalar, n'elle se fia,
Y ae por caminhos, a que olhar não ousa.
Sóbria, lidante, ás paternaes virtudes
Une a força da mãe, e orgulho a mula:
R h o d e ~ , Poitiers, Saint-Flour taes gados criam,
Hespanha é rival sua, e não lhes cede; ·
J;>'ella os cavallos para a guerra nascem,
As tarefas ruraes a mula é propria,
Préza a charrua, e se lhe affaz sem ousto;
Regra-lhe tu vivissimos transportes.
}fenos em fogo, etn animos não menos,
De forças é dotado o boi tardio:
Cria-se para a lavra, ella o recrêa,
Cede-lhe tudo aos musculos nervosos;
Para os campos não ha melhores gados;
E, se tens para dar-lhe hervas .fecundas,
A ordem que dictei, regendo-os, segue:
Um touro quasi indómito se estima;
E de feroz olhar, de sanha ardente,
E o corno ameaçador, mugindo, abaixa.
Ignora estes furores a novilha,
Tem seu sexo mais brando outros costumes;
De abertas ventas é, .caídos beiços,
Fronte larga, olho negro, orelha hirs:uta; .
De pello mosqueado, espesso, e molle
· Desce aos joelhos a barbella instavel;
* Soberba carninhando ergue a cabeça,
E a cauda buliçosa q pó levanta:
Terceira primavera amor lhe atêa,
E apaga.JSe este ardor aos quinze invernos:
Grandes pezos convém que então não puxe,
Té do menor trabalho então se isempte:
Não lhe consintas que atravesse as aguas,
Que montes, esplnhaes, barrancos passe;
Erre em. pingues pastagens livremente,
E em limpas margens d'algum bosque á sombra.
No campo onde os Tentoes já guerrearam,
E de seu vencedor tem inda o nome,
· Nas ribas onde o Rhodano lhe é dócil,
E segue outro carninho a elles util,
Corrompe os ares odioso insecto,
...
PO.MAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS 2!9
Que em furia horrivel assaltêa os gados;
Os gados temem seu ferrão
E da picada é frocto a morte ás vezes;
011 touros, do snsurro amedrontados,
Rompem na fuga os nres com bramidos:
Fecha-os no tempo adverso em que os calores
O insecto irritam, e implacavel tornam. .
Quando da vacca se avisinha o parto,
Pastores, não qoeiraes que ella vos
O tributo do seio; e, produzindo
Da ternura o penhor, soffrei qoe o crie
Sem partilha de alguen1; não tarda o tempo
Em que seu leite, de nectáreo
Corre só para vós: em dia, e dia
Nas vêu suas o liquor filtrado
Duas vezes lh'os enche, e &'le dos peitos;
Foi primeiro tnanjar nos tempos de ouro,
E, do luxo ·a pezar, tem preço ainda;
Ou variamente, e por industria occulto
Nosso melindre affague; ou refrigerio
Esteio á languidez, o triste enfermo
D'entre as portas da morte arranque, e salve:
Dôce, mas prompto em azedar-se o leite
86 por attenta mão póde manter-se:
Simples queijeira com asseio
Para estas obras rustica8 hei visto
Entre marmore, e entre ouro ergue-se portas,
Onde em chinezes vasos se honra o leite
De humedecer dos reis as mãos augustas;
A pezar do impostor, do vão seu brilho,
Teu jus conhece o luxo, oh Natureza.
Mas de trabalhos taes o dôce emprego
De mais util cuidado o tempo acate:
Teme, se tu co'a voz os não suspendes,
A mocidade indó1nita dos touros:
Dobra-lh(' um simples vime etn tomo ás pontas,
Oo forma-lhe um collar de ramos leves:
Dons novos bois, eguaes na edade, e força,
A subjeição do arado aprendem juntos
. Vão a passos eguaes por chão de arêas,
Brevemente abrirão torroes lodosos:
Para os avassallar, mais facil meio ·
..
230 OBBAS DB BOOA.GB
Une a touro rebelde um menos duro;
Este é mestre d'aquelle, e pelo exemplo,
Que póde mais que tu, se faz tractavel.
Dons bois em breve se acostumam juntos;
Mais que o jugo amisade os concilia:
Com reciproco ardor, e eguaes esforços
Elles se ajudam; se os desune a morte,
Vê-se o que resta pranteando a falta
Do seu querido irmão: recentes prados,
Bosques sombrios, crystallino arroio
Não lhe dão gosto já, são-lhe indifl"rentes;
C'os olhos melancholicos, e fitos,
A pezada cabeça inclina á t,erra.
Povo affamado, em Apís te morrendo,
De prantos, de que ais enchias Memphis I
Adorador de um boi lhe ergueste um templo,
Collocavas no altar deus, que pascia.!
Prostrados a seus péa rnortaes estultos
O fado em seus mugidos consultavam!
A Grecia aos gados seus co'a mesma insania
Deuses fez presidir; já Pttn, já Phebo,
E os Sylvanos, e os Satyros: meus versos,
Meus sons tem muis poder que esses phantumas:
Rebanhos, acudi, correi a ouvir-me;
Attentos os pastores me rodêem.
A cordeira, apezar das lã.s que a forram,
Téme os invernos: voltem-lhe os abrigos
Á parte austral, encerre-se, e nutrida
Seja alli com desvelo; hervas se elevem
E vegetaes alli que lhe escaparam;
Densas camas de feto atnontoado
Dos males imminentes a preserve1n.
Se é puro o sol, se é amoroso o dia,
On se acaso abrilhanta opáca nuvem,
Teu gado á margem proximo encaminha,
Sem que o deixes no campo extraviar-se;
Porém d'esta lei rigida exceptuo
Clima, que nunca os gelos entristeçam;
Lá n'om parque ambulante a ovelha móra,
E vê continuo variar a estancia:
Assim de tens rebanhos a vivenda
Ora aqui, ora alli te aduba os campos:
~
i
POEMAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 231
De um ar subtil, e vivo a frialdade
l'az-lhe o vello mais brando, u lã mais pura;
Mas fecha-os quando o polo se ennegreça,
E aguas se endurem, volteando as neves:
Segue este uso tão prospero Occitania,
Elle o preço, oh Segóvia, ás lãs te altêa.
Na ilha onde os avós anniquilaram
Do lobo a raça, d'Alb.ion pastores,
Livres das furias do inimigo astuto,
Ás neves, ao rigor de humido clima
Não recearam callejar seus gados;
Ousam ainda mais: ao .desabrigo
De ar intractavél as ovelhas deixam
Nas geladas planicies, e conseguem
Com isto soas lãs o gráo primeiro.
Apenas se abre a terra ao brando raio
Da meiga, flórea mãe, cordeiras podeni
Saltar na relva, que do chão rebenta ;
Mas esperar convém que o frio orvalho
Se extinga ao sol: o afogueado estio
Quer outras leis ; a matutina estrella
Vê nos mattos vagar, pascer carneiros;
E alli se reconduzu.m quando a tarde
Humida, e grata restitue á relva
Alterada frescura ; ao meio-dia
Tu porém desce os montes, busca os vallea,
Demanda os rios ; teu rebanho anhela
Repouso, viraçoes ; alli se estenda
Á BOmbra de um carvalho, ao pé de utn bosque.
Té sitios ha que, pelo sol crestados,
De rebanhos no estio estão desertos:
EntAo vê -o Esperou chegar de ovelhas
Lentas catervas, d'acolá banidas;
bosques seus ao pólo se erguem,
O:fF'rece no mais alto, e fertil cin1o
Amplo torrão, jardins da natureza,
Ricos de flôres sem cultura, ou arte ;
Os filhos de Chiron vem· de mil campos
Olhos alli fitar, sondar virtudes:
Desdenha aquelle monte, aos céos visinho,
Das procellas o horror ; lá vi cem vezes
Debaixo de meus pés juntar-se as nuvens,
.
...
!82 OBRAS DB BOOAGR
E, em quanto aos olhos meus. iOl puro ardia,
Sobre os valles a noute o véo lançava ; ·
Os raios, os trovOes ian1 creando
Longe de mim, e a terra espavoriam.
Ditosas cordeirinhas, quanto é dôce
V osso deatino a11i ! Feliz quetn livre
Vive em paz, como vó8, n'aquelles campos.
Em quaesquer climas a que o céo te chatne,
Nunca de teus carneiros te ;
A sua mansidão requer ternura,
Merece amor, e arnando t'o agradecem:
O cajado ao pastor nio serve vezes,
Bege um grito, um signal todo o rebanho ;
O principal carneiro aos mais precede,
É seu guia elle aó, regula o pa.sso,
E o povo o segue: por barrancos salte,
Recúe, ou ae adiante, a chusn1a toda
Ou pára, ou se arremessa apoz o chefe:
Assim que o predomínio lhe concedes
Um carneiro é senhor, dá leis aos outros;
Basta-lhe teu favor, no mesmo instante
De seus eguaes obediencia logra.
Pastor, conhece os cumes onde ha flôres,
Que teu gado procura: os gordos pastos
(Humida nutriçAn) não mais lhe off'recem
Que um pérfido alimento; aos sitio& foge
Crespos de cardos que, ferindo O! corpos,
As guedelhas arrancam; vae-te a um serro
Que brote herva cheirosa em magra terra;
A' suave alfazema os gados correm,
E ao alecrim, serpól, tomilho, e nardo:
Taes de Armórico, e Ardênnas os carneiro•,
De remotas províncias tio buscados.
Aos muros de Sabon corre visinho
Campo fragoso de abundantes pastos
Para muito rebanho: a vista absorta
Só planície infecunda ali i descobre;
Acha o carneiro industrioso a herva
Occolta em mobil pedra, e vê pascendo
Tomilho sempre extincto, e renascente.
Os mesmos alimentos entejando
A ovelha, como nós, tambem se enjôa,
POBKAS DIDACTICOS TRADUZIDOS
Variedade lhe apraz; não se lhe negue
Bemedio certo, que lhe esperte a fome;
No tempo em que pascer, ante seus olhos
O sal branqueje; de repente a ovelha
Corre a elle, e seu ávido appetite
Eis trabalha entre os dentes esmagai-o;
Renasce o gosto, a sêde se lhe
E em bréve de seu leite a origem cresce.
Ha propicios torrões, qoe dão ás hervas
Suecos, qoe aduba o sal: teus bons pascigos,
Oh Presalé, tio taes, taes esses campos
Que do mar foram leito, hoje slo margem.
Ganges segue outras leis: da mãe se afasta
O cordeiro, e teus lares quer, e b:t bit a ;
N'elles, ou no redil avulta, engorda
Dos sobejos mensaes, oo da caRtanha.
Existem sobre a terra inda
Onde o pastor co'a voz ajuste a avena?
Para 08 sons admirar, de que se encanta,
Deixa o sensivel gado, e esquece a relva:
Porque em nossas aldêas já nAo vemos
Dos antigos pastores as contendas ?
Cantavam primavera engrinaldada,
Guarnecido o verAo de espigas de ouro,
Curvo dos fructos seus .o outono ao pezo:
As selvas magestosas .
Que o cimo enramam de alterosos montes;
Caindo as agnas, e espumando em rochas,
Ou girando nos valles, e entre os prados:
Em versos amebêos soavam penas,
E delicias de amor, seus bens, sens tnales;
Um de Lilia gentil pintava encantos,
Filis outro accusava, ou falsa, ou dura;
Em premio o vencedor tinha uma cabra,
Ou dons cordeiros, e o pastor vencido
.Entre as convulsas mãos partia a flauta:
Turba rival, arcádicos pastores,
O Ménalo occopou de taes combates; .
, 233
O Hebro nas margens, o Ismaro em seus bosques
De Orphêo, e Lino a con!Onancia ouviram;
Sensivel Arethusa, d'entre as aguas
Os siculos pastores escutaste ;

234 OBRAS DB BOOA9B
Suspirar Corydon to, Mantua, ouviste,
E cantar Melibêo, Damon ; seus versos
Os tigres, os leoes embrandeceram,
D'envolta c'o rebanho os attrahiam;
Enterneceu-se a penha aos sons campestres,
Pararam rios, arvores tremeram.
Aureos dias de paz, vida innocente,
Mais não sois para nós que vã pintura !
E no• seus gados os pastores nossos
Todo o cuidado restingindo, apenas
Em rustico assobio a bôca exercetn.
Ao menos saibam com que facil meio
A ovelha a seus desejos é mais util:
Eeperança fallaz não te allucine,
Não deves exigir que n'um só anno
Vezes doas a ovelha dê seu fructo;
Um consorcio a contenta; em vão forçaras
Seu apagado ardor a amores novos:
Queres na renascente primavera
Qoe o manso cordeirinho hervagem goste
Tenra como elle ? Une o carneiro á femea
Quando o outono as promessas desobriga
Que a primavera fez; mas, saciado
Das ovelhas o ardor, não mais permitias
Ternos assaltos d'importuno esp.oso.
Eis junto ás mães os cordeirinhos gemem,
Arredam-se ao principio; mio propicia
O leite, que vem logo, e que é veneno,
Lhe rouba, e só lhe deixa util bebida:
Quando co'a edade enrija o debil corpo,
O filho apoz a ovelha aos pastos corra:
Egnal em fórma, e côr sempre o rebanho
Do esperto pegureiro aos oJhos mente;
Mas a Amor nada escapa; o cordeirinho
Conhece a mA.e, e a ntãe desvia-o de outra,
Ou foge d'elle; entre ellas todavia
Rixas não ha; pacificos estados
Governaes, ~ h pastores: mas apenas
Anno1 ferventes aos cordeiros vossos
De amoroso transporte a chamma inspiram,
Estes ardores apagando o ferro
Nos apreste o sabor de tenras carnes:


POBIIA8 DIDAO'riOO$ TRADUZIDOS 235
Se houver longa demora, hão de atear-se
Entre el1es pelo campo eternas lides:
Dons soberbos rivaes se arrostam féros,
8e investem pela arêa, e se topetam,
Fomentam seu furor c'os mesmos golpes,
Corre o sangue, e a ferida irrita as furias.
Dóceis, com tudo, ovelhas, e carneiros
Vivem só· para vós, de bens vos enchem:
Uma te off'rece um leite inexhaurivel,
Outro, grata iguaria, ornar-te a meza;
Ambos nos dias da estação mimosa,
De lAs espessas carregados, despem
Os seus para aprestar vestidos nossos,
E as mãos da Natureza outros lhe apromptam:
Debaixo da veloz, cruel tesoura
lmmovel jaz pacifica ovelhinha,
E nem aólta um queixume, inda que ás vezes
:Movido por mio dura, e pouco attenta
V estigios sanguinosos deixe o ferro:
Humanos, aprendei: sois d'esta sorte
Constantes no revez, nas dôres mudos ?
Podéra aqui tambem dizer porque arte
As lãs com ferreo pentem se preparam;
E debaixo das mãos como, formando
As confusas meadas, a pastora
Vê o foso engrossar ao som do canto:
Já subindo o sarilho, e já descendo,
Posto entre os fios se uairia á tmma:
Com o lapis na mão firmando as côres,
Mesclara extracto de metaes, e flôres:
Julgáras ver brilhar vivo amarantho,
A pnllida violeta, a rubra. rosa:
Arte dos Gobelins, talvez comtigo
Aprendêra a traçar altos desenhos,
:Montanhas debuxara, o bosque, o sêrro,
Rios e gados na campina errantes;
Té ouaára a teus olhos deslumbrados
Mostrar Ypres, Tournay, Fribonrg ardendo
Nos raios de Luiz: mas só crédoras
Da habitação dos reis tão nobres telas
Aos colmados tugurios não competem;
:Mudam por arte a natureza, e n'ellas

236 OBRAS DE BOCAGE
O pastor desconhece a lã da ovelha.
Cabra eoropêa para têas varias
Á. industria dos mortaes nAo dá tributo
Como o vello que nós, multiplicando-as,
Podiamoa obter das do oriente;
Mas duas vezes no anno é mãe de
E leite a ovelha dá menos sndío:
Apraz valle, e planície aos outros gados,
A cabra gosta de trepar
E caprichosa um precipício affrontn
Para haver um codêço; a si a entrega.
Lançado o guardador na relva
E em pendente rochedo a "@ segura:
Elia nas moutas pasce, e vae no bosque
Dos arbustos mQrder cortiça, e folha:
Oh! Nunca meus jardins, pomares, e hortas
Próvem seu dente peçonhento ! Oh ! Sempre
Longe da habitaçAo de ferteis campos
Viva lá nas montanhas degradada.
D'este lascivo gado esposo digno,
Passos tardios encaminha o bóde:
Quasi as furias do amor com elle nascem,
E desde a tenra edade o inflammam todo;
Do ardor que o afognêa escravo t! sempre;
De prazeres se cança, e nAo Be farta;
llu peádo co'a gôtta, e 1'elho em moço
A triste esfalfamento em fim eo-ecnmbe;
Com pôdre cheiro os ares envenena,
E prompta morte lhe remata os
N escia pastora desculpar não posso,
Que varios gados n'nm rebanho ajunta:
Em sítios varios divididos pastem;
Pelos prados o boi segue o cavallo,
A oabra quer o monte, a ovelha os mattos.
Raras de javalis ha castas duas:
Uma, dos bosques susto, ardente, e tera,
Se irrita, e contra um tronco a preza aguça;
Presenta irada ao caçador, que treme,
Espumoso focinho, olhos em braza;
Fomes a apertam, vôa, arrosta os p'rigos,
Vinhas, sulcos destroe, destroe pomares:
Outra inquieta, e tlócil, nossa escrava •

I
1
POEKAS DJDAOTICOS TRADUZIDOS 237
Ronca, 1nas cede, e vive em nossos lares;
Pasce em longos rebanhos nas florestas,
No lodo se revolve, ou nas lagôas;
Impnra ao culto hebreu, e abominosa,
De varias artes nossas meza! cobre;
Se o mais vil animal nos é aos olhos;
Util a precisoes tambem a achamos.
Se o chão, traído de. exquisito aroma,
Mostra que esconde a túbera no seio,
Do. porco o ·ardor t'a indica; elle precede
Guia, abre, segue a estrada, e mostra o frncto;
Muitas vezes fecunda n'um só anno
D'innumeros leitoes ·a mãe cercada
A' continua exigencia lhe é bastante;
Cuida em ceval-a n'esse prazo urgente:
Fôra surda co'a fome á natureza,
Desconhecera os filhos, e os tragára.
O grosseiro cultor, que nAo conhece
Mais do que os campos onde o pôz seu fado,
Limite as luzes em saber de alqueives;.
Minha estancia eu transponho, um vivo raio
.Aos horisontes dous me chama os olhos;
Lá procuro outros bens, mais terteis gados.
Nos campos do Indostan a ovelha, a vacca
São ·duas vezes mães, e amas n'um anno;
A cabra, sna egual, aos dons d'aqnellas
Une o tributo d'e se os ricos vellos: ·
Da plaga oriental estas especies
D'uteis colonias cobrirão teus campos:
De co'a lida enriquecendo,
O hollandez, de Carthago, e Tyro herdeiro,
Estes hospedes vê nas terras· suas
PrestimoM conservar do patrio clitna;
campos do belga, e se apascentam
As margens do Charente: assin1 congrega,
Escassa natureza arte supprindo,
Assirn congrega os bens, que ella separa:
O homem quer; ordem sua obedecida
Colhe tributos do universo inteiro.
Seriam frageis bens teus muitos gados,
Se pago só da utilidade sua,
Os males em vencer não te instruisses,

,

288 OBBAS DE BOCAGB
Que ferem brutüs, como os homens ferem:
Languida chusma em seus trabalhos vejo
Arrastar-se, e cair mortal nos campos; ·
Cavallos, bois no asylo adormentados,
Varzeas sem trigo, sem aduba as terras:
-
França est'arte ignorou, que em Roma os sabios
Nos doctos seus escriptos ensinaram :
Est'arte se enterrou co'a agricultura;
··Revivem ambas, e do Lethes surgem;
Os olhos de Luiz lhe tornam vida,
Sabios nossos tambem a industria movem;
O exito a segue, e prospero& effeitos
Já de seus beneficios premio dôce
Ao real coração gostar "fizeram.
Gados possuas, falta-me dizer-te
Que soccorro importante os guarda, e rege;
Das ordens do pastor fiel ministro,
Este efficaz auxilio o cão lhe off'rece;
Soffre com elle da regencia o pezo,
V ela os rebanhe>s, os defende, os ama,
Seu_s passos determina, e vae seguindo,
Elle mesmo é pastor: se em torno ao gado
Vê, sôffrego de sangue, errunte o lobo,
De seus roucos latidos enche os campos,
E o trémulo inimigo aos montes foge;
Se outro mais famulento, e mais sanhudo
Saltêa o cordeirinho, e t'o arrebata,
Elle o. persegue, vôa-lhe no rasto,
E do purpureo d e n ~ e a preza arranca:
Vigia a par de ti, leal rechaça
Os inimigos tens, lhe apára os golpes:
É de enorme tamanho o que eu prefiro,
E de feroz carranca se gloria;
É cholérico, activo, agil, robusto,
E ladra horrivelmente ao som mais brando;
Atêa-se-lhe a furia, assim que avista
O nocturno ladrão, dos olhos fogo
Lhe salta, e se arremessa, espuma, e brama.
Os outros animaes a ti sujeitos
Tremam de ouvir-te, miseros escravos;
O cão é teu amigo, elle te segue,
Sensivel a ~ u gosto os mais ignora;
'
l

POEIIAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS !39
Regula por teu! gestos seus costumes,
Alegre se te ris, triste 8e choras:
Permitte que te· siga; eil-o saltando:
Ordena que te deixe; eil-o gemendo,
E gemendo mitiga o 8eu desgosto:
Mas quem folga como elle em teu regresso?
Mimos d'esposa, filial ternura
São mui frouxas caricias junto ás d'elle:
Unido em laços, que refaz a estima,
O homem, o racional, quer mais ao homem?
Bem que dos varios cães differe o genio,
Egualmente a agradar-te aspiram todos;
Um nasce para os brincos, e affagado
No gremio da belleza pousa, e dorme:
Outros n'agua, no b o ~ q u e , e pelas grutas
Declaram guerra aos animaes trementes;
Cada qual parte, vôa, torna, pára
A._o som da tua voz: qnem poderia
As·diversas proezas numerar-lhe? ,.
Satisfeitos co'a gloria, en1 triumphando,
Do venéin1ento o premio aos pés te lançam:
No covil as raposas um commette;
O galgo na corrida a lebre alcança;
Os de pello annelado em sedas longas
Arremessam-se n'agua apoz a prêza;
Outro dá oo'a perdiz por entre o colmo,
E em seus olhos attonitos emprega
Olhos ameaçado rei; não se atreve
A perdiz a voar, elle a suspende,
Diz, sem fallar, que a victinia está prompta;
Tu corres, elle fica: ella, partindo,
Por se esquivar ao p'rigo, encontra a morte:
Elle então se abalançá, e, conduzindo-a
Em seus labios fieis, alegre, e á pressa
De aeu zelo o tributo eis vem pagar-te.
Que escuto, que ruído atrôa- os valles!
Caninos batalhões onde se arrojam ?
Diligentes monteiroa os commandam,
Ensinam-nos co'a voz, e os acorçôam,
Signalam-lhe as fileiras, e a buzina
Lhe regra o movimento em sons diversos:
Já despargido o bando está nos bosques,
240 OBRAS DB BOOAGB
Seu clamor fere o ar, e os bosques tremem:
Busca-se a prêza; descoberto, affticto
O cervo é por sabojos acoçado;
Parte, foge, o temor aos pés dá-lhe azas,
V ale-se aqui, e alli de astucias novas,
Cruza rochedos, mette-se por selvas,
Engana os eles, e seus esforços balda; ·
Mas a toda esta industria o bando affeito •
Com isto na peleja mais se anima;
Sobre os joelhos eáe forçado o cervo,
E tenta em vão com lagriu1as dobrai-os;
Todos tem gloria em lacerar-lhe o corpo,
E, se elle não morrer, não crêem qne vencem.
Ardente javali sae da guarida:
Por animosos cães eil-o apertado;
Foge, e mostra ao principio um medo extremo,
Terrivel finalmente os cães persegue;
Pára, e de raiva intrépido. fu1nando
Faz, acuado a um tronco, a todos frente;
Nos olhos sangue tem, na bôca espuma,
E á força de matança aguça os dentes:
Em vão teus campeoes o esforço apuram,
De mortos, de feridos se enche o campo;
A soccorrel-os vôa, o monstro foge;
Dous vigorosos cães o acócem logo;
Elles correm, detendo-o pela orelha
O inimigo te entregam; ·de repente
Acode a chusma toda, e cotn mil golpes
Lava no sangue alheio injurias proprias;
Elle freme, e se agita, e se resolve;
O venábulo emfim termina, e c'rôa
Teu 1narcio jogo, traspassando a féra,
Apoz longos combates. A cruenta
Perseguição do lobo ioda mais util,
E tão bnlhante: a cabra montanheza,
O touro furibundo á tua ardencia ·
Ofrrecem não vulgar gentil façanha.
Os guerreiros, os grandes se exercitem,
Exercitem-se os reis, callejem n 'isto,
ltnagem da 'mavortica fereza:
Seu ocio proveitoso afaste, espanque
D'entre as searas o furor dos brutos:
POBIIAS DIDACTICOS TRADUZIDOS 241
Tu, longe do espectaculo sanguento, .
Sempre occupado, inalteravel sen1pre,
Ama, oh bom lavrador, o asylo agreste;
Tuas fadigas são riquezas tuas,
Só n 'ellas os desejos circn mscreve:
Feliz, se é teu dever tambem teu gosto.
CANTO VI
-Das aves
Qual, proximo ao logar do seu destino,
Sentado o viandante em ardno cume,
E de longos caminhos fatigado,
Tranquillo observador mede a eminencia
Dos montes, que pa!son; tal eu, já .qoasi
Tocando o extremo da espinhosa estrada
Que ousei trilhar com atrevidos passos,
.Fólgo de contemplar, escapo aos p'rigos,
Do aberto precipicio a aguda e s ~ a r p a .
Dóceis a meu ensino, os lavradores
Colhem dos campos seus mais amplas messes;
Além a cêpa nos visinhos sêrros,
C' os. cachos a vergar, estende os braços
Erguem bosques ao céo ramosas frontes,
Adnrnam os jardins fructuosos troncos
Rhido, os canteiros c'rôam-se de flôres,
Do mais vivo matiz se esmaltam prados,
De todo o gado, ás tnas leis reunido,
Vejo as tuas P.lànicies povoadas,
Cobertos os tens campos; e inda podes
A teus amplos rebanhos, e manadas
Novos teus cidadãos juntar mais perto;
Em largo pateo, em rustica morada
Podes crear, nutrir caseiras aves,
Que teus campeRtres froctos participam,
E ao depois darão preço aos teus banquetes.
Á voz do Eterno as ondas congregadas
Tomaram-se fecundas, produziram
YOL. m 16
242 OBRAS DB BOCAGE
.
Todas essa multidão de varia esperie
Que ns aguas corta, e pelos ares cruza;
Vimos então ás nuvens remontar-se
Aves ferozes, cuja garra adunea
Primeiro derrarnou na terra o sangue:
Tua bondade, oh· Deus, approximou-nos
O aéreo ]'Ovo, que descanta alAgre
Ao prazer, á ternura, á liberdade:
·Dócil canario, e rouxi!lol mavioso
Não são muito e pov6am
Nossos jardins, vergais, e amenos prados;
E a nossa melhor musica assimelha
Seus gorgeios suaves: Tu puzeste
Bem mesmo á nossa vista as brandas aves,
Que a nossa habitação comnosco habitam:
Ama a gallinha o nosso captiveiro,
Cerra a pomba entre nós fugazes plumas.
Se n1e ajudar o céo, oh lavradores,
Cantarei, por meu canto ennobrecidos,
D'especies vis, e para vós pasmosas,
Valentes povos, incansaveis chefes;
E de muita! naçOes vereis a um tempo
Policia, e leis, costumes, e cornbates.
Defendida por nós, e a nós subjeita
A gallinha é das aves a mais util:
E' sua patria o campo; quer vivenda
N'um espaço entre muros circumscripto;
E ali se lhe constroe n'aquelle espaço
Mesquinha habitação de humildes tectos,
Onde vae habitar seu povo inteiro:
Alizem-se estes muros; e os seus ninhos
Com pedra, ou com madeira se dividam,
Ou já tambem cotn preparados vimes;·
Cada uma quer ter um proprio asylo
D'onde repulse outra ave usurpadora:
De uma parede a outra uns ramos presos
São outros tantos leitos suspendidos,
Onde ficam de noute empoleiradas
Repousando em tranquilla segurança:
Mas tenham prompta a snciar-lhe a sede
Agua n 'um vaso a miudo renovada,
E nunca turva pelo lodo impuro •

POEMAS DIDACTIOOS TRADUZIDOS 24:3
Grosseiros aldeãos, vós não sois proprios
Para cuidardes do rebanho alado;
Elle requer mais tnimo, e mãos mais brandas:
Vigilantes, cuidosas lavradoras,
Das aves a morada é vosso in1perio;
Sois vós que o asaeaes, vós o mantendes
Em ordem boa, e n'um sadio estado;
Vós lhe distribuis diario pasto,
E os ovos recolheis,. que &Stão dispersos;
Uns, que ao nosso regalo se destinam, .
Por diversa maneira preparados
Volver-se-hão de um n1anjar en1 mil manjares;
E outros, d'eleita mãe sendo cobertos,
Com seo calor acordarão á vida. ·
Das que produz innumeras gallinhas
N'um, e n'outro paiz o mundo todo,
Podem juntar-se os generos
Esta enfeita uma crista levantada,
Por grande aquella é vagarosa e frouxa;
Uma em compridos pés se eleva altiva,
Outros com pés anões leve rasteja;
Casta africana, aos europeus trazida,
Cóbre de branca pelle os negros ossos;
Algun1as ha de reluzente pôpa,
Outras em cujos pés fluctuam pennas:
Seu amarello, e azul, seu branco, e negro,
E as plumas crespas !ua patria
A' frente das irmãs caminhe o gallo,
Seu esposo, e seu rei elle as governe;
Dez annos póde amai-as, e regel-as;
Para amar, e reinar elle ha nascido,
Que n'altivez, no amor não tem
Tem na fronte real purpúrea crista;
Os negros olhos seus scentelhas vibram;
O corpo todo, e as azas· lhe matiza,
Doura-lhe o collo esplendida plumagem
Que longa lhe fluctúa: tem por armas
Sanguentos esporões nos pés nervosos;
E. ondeando. a cauda se lhe alonga, e curva
Té chegar a assombrar-lhe a fronte altiva.
Dos gregos, e romanos venerado,
J.á foi o gallo interprew dos deuses;

,

OBRAS DE BOCAO&
.
Julgavam-no inspirado, e os agoureiros
Por elle os fados, e o futuro abriam:
Povo, e senado etn vão deliberavam,
Mudava o gallo as leis, fixava os fados.
Omittindo-lhe as nescias honrarias,
O seu prestimo canto: quando a aurora
As do dia conduzindo,
Alveja por montanha, e povoado,
D'este herauto do sol a voz f1e escuta;
Elle o chama, o saúda, o annuncià;
Que a noute em meio vae, cantando, indica;
Designa por seu caMto o seu progresso;
Marca as horas do son1no; determina
O trabalho, o repouso, e a nova lida;
E ó do tempo fugaz vivo compasso:
Com activa ternura vigilante
Defende o povo, feliz dotnina;
Qual compassivo rei, qual terno esposo,
As suas precisões vigia: e ama
Off'recer-lhe alguns grãos, na terra occultos,
Com pé escrutador por elle achados.
· O dorninio de um gallo se lin1ite;
Seu ardor se reprima; e os seus desejos
Quinze esposas, não mais, contenten1, mate1n:
Em seu reino ha tarnbem facções, e intrigas;
O atnor, e a ambição, o imperio, e Helena
Dons soberbos á guerra incitam;
São eguaes no furor, e eguaes no esforço;
Erguidos sobre os pés, batendo as azas,
Encontratn-se, e do choque ambos vacillam:
C' os bicos, e esporões se dilaceram;
Já vôam pennas, e já corre o sangue:
Em fim, do seu rival forçando a audacia,
O aterra o ve:-tcedor, e em cima salta:
As azas despregando então se .applaude,
E, altivo celebrando o seu triumpho,
Victorioso canto aos céos levanta;
Chama com repetidos cacarejos
Esposas, que brigando conquistára,
E as duas rége em paz subjeitas côrtes:
O outro, que o seu esforço, e amor traíram,
Seu usurpado itnperio abandonando,
\
I
'

POBMA8 DIDAOTICOS TRADUZIDOS 24:5
Irado foge do rival odioso,
E vae longe esconder vergonha, e raiva.
Com sedições ás vezes, e discordias
Dividem-se estes povos; e os seus chefes,
Dando-lbe exemplo, sua andacia animam:
Acudi, dae por gestos o ameaço,
Vereis logo ceder com vosso .aspecto .
Ao respeito o furor, e á paz a guerra.
Assim quando entre nós arrojo
Subleva furioso o vulgo insano,
Que já tudo respira horror, tu1nulto,
E armas volve o furor quanto se apanha;
Se, por gráo, por virtudes respeitado,
Um hornem vonerando se apresenta, -
Cala-se a mnlt.idão, todos o escutam,
E elle com seus discursos vencedores
Os genios doma, os coraçOes captiva..
Para evitar-lhe as guerras, seja morto
O chefe, que conduz os revoltosos,
E voltêa as fileiras, incitando
Com seu clamor o tin1ido rebanho:
· D'est'arte ficarão em paz duravel,
E as gallinhas por premio a teu desvelo
Cada dia darão tributos novofJ.
Exceptua-se o tempo annual da muda
Em que se vestem de plun1agem nova:
Renôvo occnlto, que a nascer se apresta,
Os canos faz cahir da velha pluma;
Nasce, e nas côres quasi sempre imita
Penna8, que substitue; porém· ás vezes
D'esta sua continua similhança
e altera as leis a Natureza:
O indio pardal tem azas azuladas,
E surge d'aurea pluma revestido:
Assim tambem na gallo, e na gallinha
Differe do primeiro o novo adorno,
E tal que antes da muda era argentada,
Se faz desconhecer com plumas negras.
Á Natureza o astuto americano
Colhe segredos, e a belleza augmenta
Pondo mais variedade em seus encantos:
Quando está prestes a fazer a muda
!4:6 OBRAS DB BOCAGB
O habitador aéreo, que repete
Tudo o que nós dizemos, felizm<:nte
Usurpando o direito á Nature1a
Seu dono, que o previne, a seu bom grado
Lhe irnprime as côres, que elegeu mais bella&
Co'a muda enfraquecendo se entristecem
As aves espantadas, e inquietas;
E, em lhe formar as plumas empregado,
Seu alento, e vigor mais nada póde ;
'fodos calatn seus tnélicos gorgeios;
Não canta o rouxinol, e o papagaio
Torna-se tnudo; esteril a gal1inha
Não preenche os desejos de seu dono
Com seus dia rios dons: presume o vulgo
Que e ~ t e mal vem do frio ; tnas o inverno
E' d'elle o tempo fixo, e não é cansa;
Em vão, para curkr-lhe n1n mal sem cura,
Se lhe melhora, e se lhe aquece o pasto,
Que, interrompendo o fio á poednra,
Á tnuda torna vão qualquer soccorro:
Prevenindo, e forçando a Natureza,
Quetn mais cedo souber tirar-lhe as pennas
Os seus dons gosará nas quadras todas.
Os Aquiloes qo Zephyro á bafagem
Já da terra, e do ar o imperio deixam ;
Seu halito prolifico, e sereno
Influe de novo pelo tnundo a vida:
Renovam-se as cançoes das meigas aves,
Que, ledas, de aguardar vindoura prole,
Suspensos ninhos a formar começatn:
Dados a este emprego abutres, e aguias
São já menos crueis ; de amor o fo<YO
V ae os peixes queimar no ceritro d ~ a g u a ;
E de Cancro no ardor leoes, e tigres
Com seus rugidos Africa apavoram:
Em ares, agua, e terra Amor triumpha, ..
Tudo de novos cidadãos povôa ;
E, assim como elles no verdor da infancia,
Formam plantas, e flôres, inda tenras,
Leitosos suecos para raças novas.
N'este tempo tambern cacarejando
Roubados ovos seus pede a gallinha,
POEKAS DIDACTICOS TRADUZIDOS 24:7
E aspira de ser mãe ao doce emprego:
Não se acuda mui cedo ao! seus desejos;
Exp'rimentem-se os ovos, e se escolhan1
Os de maior longura, e maior pezo,
Que são signaes de un1 germe venturoso;
E a sua pequenez, sua leveza
Indicam frouxidão, denotam vicio;
SAo frocto inutil, míseros abortos
On de mui nova inãe, eu já mui velha.
As boas mães são poucas: não se attenda
Seu vão cacarejar, e não se empreguem
No dever maternal as que, ioda moças,
Talvez lhes custaria a sujeitar-se:
E' vária, é inconstante a mocidade ;
Precisa ter dons annos a gallinha
Para tomar os maternaes cuidados ;
E ta.mbem se não deite em sendo velha,
Que amor a illode, e em seu gelado seio
MoiTen todo o calor: deve escolher-se
A de madura edade; mas não tenha
Os pés armados de esporão sanguineo,
Que rompe antes de tempo a casca do ovo;
E o embrião, á luz, e ao ar exposto,
Nem um, netn outro supportar podendo,
Onde acharia vida, encontra morte.
Quando, dispondo prevenida o ninho,
Com musgo, e flores. aolollece a cama,
Aguarda-vos a mie, podeis confiar-lhe
Quantos ovos com peito, e azas cubra:
Porém tende-lhe sempre ao lado promptas
Comida em abundancia, agua bem limpa_;
Que, isto não tiver, fraca, e esfaimada,
Para o pasto buscar, o ninho deixa ;
E ás vezes, o amor matemo,
Abandona-o de todo, e esp'ranças balda.
Por sete-vezes-trea inteiros dias
A ninhada dos ovos animando
Com vivifico fogo, e sempre assidua,
Espera que formado o pintainho
Do seu encerrramento a casca rompa;
E, com feliz instincto em todo o chôco
Aos ovos todos o logar mudando,
24:8 OBRAS DB BOCAGE
Em quanto avançam lentamente ú. vida,
Da Natureza admirem-se os segredos.
Como apegado aos cachos o bagulho,
Assim, dourado globo, nasce o ovo
Da gallinha nas costas 8uspendido;
Madurece, desliga-se, e no ovario
Corre de rosca em rosca, até que o envolve
Casca formada de humida substancia:
Do gallo em tanto se lhe ajunta o germe,
E da fecundidade o don1 lhe leva;
O calor que o excita apenas sente,
Parece que um ponto vivo ; já palpita,
Já bate o coração; sáe de utna vêa,
Que voga no liquor, sanguinea gota
Que para elle corre, e o enche; e logo
Duas de redor d'elle inforanes Inassas
Da cabeça, e do busto o espaço occuparn;
Fortnam-se ent pouco tetnpo as 1,artes todas;
Arredonda-se o cerebro; as medollas
Pelos ossos se alongam; corre em ondas
O snngue nas arterias; sob o ardente
Estomago se enlaçan1 as entranhas;
1\Iusculos cobre a pelle, e a pelle o pello.
Dá primeiro alimento ao pintainho
A leitosa substancia, a clara do ovo;
Quando está já mais forte, a gemma o nutre;
Do ar, que dentro no ovo se renova,
O vital movimento se duplica:
Então por elle penetrado o ovo
Diminue e transpira; e então com elle
No carcere a avesinha vive, e cresce:
Eil-a por baixo d'a.za avança o bico,
E fere, e rompe os muros que a cingiam;
Gira sobre si mesma, e em seu caminho
A fenda no ovo em circulo prolonga;
Ergue a abodada emfim, e surge ao dia;
De cabeça etnproada eil-a caminha;
Piando se annuncia, o bico exerce;
E, só por instrucção da natureza,
Logo o sustento seu procura, e toma.
O industrioso egypcio ousou primeiro,
Por nm segredo felizmente achado,
-
•••• 57
POBIIAS DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 24:9
Vivificar os ovos sem gallinha:
Do fogo sonhe achar o gráo preciso,
E, seu calor, com arte dirigido,
Ao materno calor equivalendo,
lmmensa multidão de pintainhos
Toda a um tempo animada, e produzida, ..
Dos fornos de Bermé se ergueu á vida. .
Mas não teve rivaes n'est'arte o Epypto,
Foi arte_, antes mysterio, de que é elle
O só depositario em todo o mundo.
Com egnalmente prospero successo
Em nossa edade a França viu c'roados
Do sabio Reaun1ur os exp'rhnentos:
No abobadado lar, que o pão nos coze,
.Elle o segredo achou, que esconde o Egypto:
Dentro em toneis, cercados pelo estrume
Que ajunta o lavrador para seus campos,
Os ovos ordenou á vida eleitos;
E aRte brando calor continuado,
D'egual temperatura o ar 1nantendo,.
O gráo manteve do calor do ninho:
D'est'arte obteve innumeras ninhadas,
Vindas á luz sem mãe, sem mãe creadas.
Para as fazer nascer tudo conspira,
Mas não p ~ r a as crear; é neoessario
Qoe as tenras avesinhas, filhas d'arte,
Sejam na sua infancia ás mães entregues:
O ar, o frio, o calor enganam muito,
E melhor que nenhutna vigilancia
Em suas precisões as mães vigiam.
Por espaço de um mez um côvo encerre
Os pintos e a gallinha: então liberta
Sáe, e conduz aos campos convisinhos
O alado bando, que ligeiro, experto,
Sollicito apoz d'ella vae correndo,
Com repetidos pios a ci rcumda,
E debaixo das azas se lhe aquece;
Elles alternam brincos, e combates;
Chama-os a mãe, com elles se recrêa,
Busca, esgravata, e com ternura extrema,
Esquecida de si, reparte o achado:
Insaoiavel foi, e agora é sóbria; ·


!50 OBRAS DB .BOOAGB
Mãe carinhosa a tenra prole abriga.
sendo fugitiva, e temerosa,
Já corr intrepidez affronta os p'rigos.
Se pelo alto dos céos voando observa
A ,.e espantosa, prestes a arrojar-se
Sobre ella, e sobre o seu rebanho amado,
Segue-a vista, ergue um clamor piedoso,
E ofl"rece aos filhos por abrigo as azas:
Escondidos aUi, desapparecent,
Elia se expoe sómente, d'ira acceza,
Inquieta, terrível, furiosa;
Com um brado feroz atrôa os ares:
Revôa a prumo seu, e sobe, e desce,
E foge em fim o abutre, que illudira
Seu grito ameaçador; então alegre
Solta jucundo canto, a prole surge,
E a cérca, e enche das caricias suas.
· Vós, que regeis este volatil gado,
Precisoes preveni-lhe, e soccorrei-o:
Aqnella ave, sern. pasto, desfallece;
A lingua tem espessa; e branca, e dura
Uma pelle lh'a envolve, e se lhe estende,
E cerca-lhe o padar: não percaes tempo,
Funesta póde ser qualquer demora;
!Jogo co'os dedos a pelle
Pela raiz, que á lingua tetn pegada.
Quando já seus desvelos não carecem
Deixa a gallinha, e deeconhece os pintos;
Mas ás vezes sem tempo os abandona,
E a orphã multidão concorre, e pia: .
De mãe póde o capão em vez servir-lhe;
Mas, antes de exercer tal rninisterio,
Alguns dias com elles encerrado
Se acostume a prestar-lhe os seus
'>restes então vae educando, e guia
O bando todo a seu dotninio entregne;
Arroga de gallinha o jus, o affago,
E até a imita nas fernineas vozes;
Aio fiel que, em sendo tempo, ajunta
Ao povo seu familia nova.
Uns para a meza criam-se de parte,
Vivem fechados, privam-se do sexo;
POEIIA.S DIDAOTICOS TRADUZIDOS
· E, sem limite saciando a fome,
Engordam, e engordar lhes costa a vida:
Outros, menos tractados e mais livres,
Vivem com egualdade entre o seu povo,
E a encher-vos de seus dons consagram todos
Todos os dias de uma vida escassa.
Ha outras varias aves, que reúnetn
Utilidade ao numero, e belleza:
Multiplique-se a raça, que das lndias
Nos trouxeram d'lgnacio os companheiros;
Esta raça é altiva, e desdenhosa,
Afagos ao perú mal-soffre a femea;
Terno e soberbo amante junto d'ella
i\ aza lhe a r r a ~ t a em vão, a cauda. ostenta,
Erriça as plumas, ~ o d o se intnmece,
E em seus grasnidos seu amor lhe exprime;
Orgulhoso debalde o rubro monco
Da cabe<:.& ioda além do bico estende;
Que a perúa, indiff'rente a seos transportes,
Mnrcha, sem conten1plar o seu amante.
Debil na infancia, esta ave delicada
Exige a mais attenta vigilancia;
De bico aberto n 'um clamor continuo
Morre de fome se lh 'a não saciam:
A gemma do ovo, e a renascente ortiga
Na sua meninice é seu sustento;
Mas, co'a idade enrijando, excede em força,
E as outras aves na grandeza excede.
Vejo batnbolear-se a lentos passos
Ruidoso pato, e ganso vigilante;
Estas aves são uteis, são precisas;
Mas sua turba aquRtica esmorece
Se não tem ou nascente, ou lago, ou tanque
Aonde ledamente concorrendo
Se alimentam, mergulham, nadam, folgatn.
Á sua especie rara vez se fiem
Ovos, que á producção se destinaram,
Que ás vezes soa penna humida, ou fria,
Ou o germe destroe, ou mata o feto:
Entregae-os á provida gallinha,
Com seu calor ella os fará fecundos,
E ufana guiará o bando extranho
'251

OBRAS DE BOCAGE
Das tenras aves, que seus filhos julga:
Porém,. 1nal que utn regato se lhe off'rece,
Eil·os lhe foge1n; ella se encaminha .
Ás que a largar se não
E parece querer precipitar-se;
Avança, corre, geme, afHicta os chama,
E volta em6m sósinha, e magoada.
Dae á turba famelica bom pasto,
E depressa, alimento delicado,
Vêl-os-heis adornar a meza vossa.
O que salvou, grasnando, o Capitolio
Junto ás casas vigia, e nunca foge,
E dá do seio seu, das azas suas
Aos leitos o frouxel, á dextra a pluma.
A gallinha africana, mais
Dá mais gentil adorno aos vossos. lares,
Do que este amphibio povo; delicado
Teme dos gelos o rigor, e sobria
Para seu alimento o grão lhe basta:
Não póde arte imitar a graça, a ordem
Das graves côres, que lhe deu Natura;
E, quanto mais os· olhos as contemplam,
Mais pasmo causa a symetria d'ellas.
Rico serieis dA plumagem rara
Domesticando os cysnes argentados;
Porém mesquinha habitação desdenha
Dos prados do Asio, e do Caystro a prole;
Ama em jardins reaes as aguas puras,
Onde ligeira, r(.,voando, folga,
Ou repousa acolhida na abrigada
Sobre as ondas a custo edificada.
Quando do cysne a morte se avisinha
Não espereis, como Me conta, ouvir-lhe
Meigo canto dulcisono, e saudoso ..
Que tanto gaba erradamente o vulgo; .
E dest'ave gentil odioso o canto;
Mas seu nobre, e engraçado movimentA>,
Sua esplendida alvura agrada, encanta:
Grecia fingiu que em cysne transformado
Foi Jupiter de Leda namorado.
O phaisão é feroz por natureza,
Mas é bello, e na sua mocidade
POBJU8 DIDACTI008 TRADUZIDOS 253
Por algum tempo a escravidão supporta;
Porém Jogo, a clausura aborrecendo,
Com fugitivas azas corta os campos,
E vae buscar o prado, a fonte, os bosques.
O pavão, mais domestico e constante,
A vossa habitação não deixa nunca:
Em sitio que elle ignore a femea sua
Esconde os ovos, que chocar pretende:
Debalde elle se mostra magoado
Se acaso a vae achar; em vão co'as azas
Lhe faz caricias, e a belleza ostenta;
Estando ella pre8ente é todo afago,
Porém apenas ella se desvia,
Nos filhos seus o seu desdem <'.a&tiga.
Da creação o tempo· exceptuando, ·
Em qoe lhe foge esquiva, arde por elle
Com todo o fogo que a ternura accende;
Se elle morre, ella vive amargurada,
Definha de afllicção, de amor se mirra.
Das outras aves o pavão cercado,
Como se fôra só, só elle admira;
Mostra em pescoço azul dourada testa;
Brilhantes como as flôres, como os astrOR,
Ostenta os olhos da orgulhosa· cauda;
E o diurno clarão lhe augmenta, e mudo.
O pomposo espectaculo attractivo
Das plumas, c'o reflexo ernbellecidas.
Não ama o cnçador caseiras aves,
Congrega, e nutre as aves carniceiras,
Aves ao sangue, á tnorte acostumadas,
Que, seus proprios irmãos a s s a s s i n a n ~ o ,
Contentam os desejos de seu dono
Com (éra garra adonca, e mercenaria.
O rápido falcão, o gerifalte
A quem os ensinou, se a colhem, trazem
Ave, que timorata vae fugindo:
Nas florestas deixae-lhe a raça odiosa,
Sempre tinta de sangue, e sempre horrivel;
Gaviães, esmerilhoes, treçós, açôres,
O cruel avestruz, a agoia soberba.
Não prendaes em viveiro, nem gaiola
Avesinhas voluveis, e amorosas;
. ..
254 OBBAH DB BOOAGB
Canarios, chamarizes, tutinegras,
. . E o suave cantor da primavera:
.Estas aves captivas emmudecem,
E 'livres pelos bosques divagando
Deleitam, sonorosas gorgeando.
Tenho em vossas herdades reunido
Ao jugo de uma lei diversas aves:
D'indole diff'rente a leve pomba
Quer viver livre, a liberdade a encanta;
Mas casta, que tmctada com desvelo
Chega a esquecer os paternaes costumes,
Sujeita-se a perpetuo captiveiro;
Suas familias para sentpre escravas
Amam suas prisoes, suas:
Quando se lhe abrem, de redor espera.m
Que se lhes distribua o pasto usado;
E quando a ·fome se lhes não sacia,
A morte affrontam por cuidar na vida.
Outras, dando-se ás leis de um dócil trato,
O vôo alargam- como as pombas bravas;
V olnntarias captivas, por escolha
O jugo acceitam, que lhes mais agrada:
onde luza o resplendor da aurora,
Domine os campos, e a mansão lhe indique;
Seja aceiada, Incida, espaçosa,
Brilhante assim co1:11o ellas, que mil vezes
Fugazes, tnas fieis ali revôatn.
Prestes chamae os cidadãos mancebos,
Que devem povoar este alto muro:
Raça normanda, as pombas argentlldas
Çom pés plumosos, côr de rosa o bico
As de pluma azulada a gloria empatam
De embellecer .o preparado asylo:
De unidas castas á mixtão brilhante
Juntae colonias d'estrangeiros climas,
Que em genio, em côr os hospedes diff'rentes
Dão prole, que os simelha e1n côr, em genio.
Costu1nados um mez a viver juntos,
Reunidos presos no fechado asylo,
Já certos d'elle, e por amor ligados,
Alternativamente ou sáem, ou entram;
Nos campos de redor ligeiros vôam,
POB:HAS DlDAOTICOB TBADVZIDOS 255
E os grãos escolhem do tqrrão mais fertil.
lias, quando o inverno esterilisa os campos, .
E quando, renascente a primavera,
De flôres, e verdura embellecida,
Reveste a Natureza um luxo inotil
De Ida1ia ás aves; de manhã, e á tarde
Em copia a seu asylo os grãos se levem:
Mais facilmente do que as outras aves
A quem lhes lançn o grão concorrem pombos;
Desconfianças não tetn, para ajuntai-os
Basta a hora., um signal, um grit-o basta.
Quanto mais farta fôr vossa conquista
Mais vasto povo habitará seus muros;
Mais fecunda se faz d'est'arte a potnba:
AquelJa que, sem ter assiduo pasto,
Pelos campos voeja em liberdade,
Interrompe no inverno a poedura;
Se ás vossas leis em cnptiveiro engorda,
Dous ge1neos cada mez produz seu ninho:
Coidoso de a alli ter, chegado o tempo
De o seu logar supprir, roçando-lhe a aza
A adverte, a solicita seu esposo;
Companheiro fiel. em seus desvelos
Alternativamente aquece os ovos,
De un1 mutuo amor ·penhores preciosos:
Elia torna outra vez ao ninho amado;
.Elle vôa, e viaja, e volve, e parte
Com sua companheira os grãos, que trouxe;
Mas é breve esta edade venturosa,
Seu brando natural (quem tal pensára !)
Não poucas vezes barbaro se torna.
Aos quatro annos as pombaR são estareis,
E vexatn por ciume a casta soa:
Ha quem, sem distincção, tyranno exerce
Cruel matança no v ola til povo;
mais brando,. e com regrados golpes
A velhice extirpae de cada especie.
apesar de mil desvelos,
Ha desertores cidadãos ingratos,
Que não basta o costntne, o amor, o exemplo
Para contei-os no seu patrio ninho;
Rompem os laços sociaes, preferem
!ã6 OBRAS DB BOCAGE
----------------------
A liberdade, os bosques: este habita
N'um. concavo rochedo, ou tronco antigo:
Est'outro onde o provoca o seu instincto.
O aceio prende á casa os moradores;
Se o desprezaes no outono e primavera,
E se, inda mais a mindo, da immnndicie
Não· livraes este povo, que 1nurmura,
A immunda habitação preeto abandona:
Aqnelles vís montoes d'impuras fezes
São de uma preciosa utilidade,
Fortes estrumes são, que alentam, nutrem
Os fructos ao jardim, verdura aos prados:
Com elles a seara é mais fecunda,
Mais generoso o v i n h ~ ; mas o exce·sso
Por seu muito vigor os faz nocivos;
E, se usados etn conta não reforçam,.
Seu fogo abraza o campo, a vinha, os prados
Off'rece-nos o céo n'esta ave pura
Molde em costumes, da virtude a imagem;
Só ella tem, ingenna e sociavel,
Leis immutaveis, e communs penates;
Vive o seu povo sem tyrannos; nunca
Sua paz e innoc*'ncia os crimes mancham;
E, na sua republica, a concordia
Conduz os cidadAos, P. os une, e anima:
Juntos ou no trabalho, ou no repouso,
Quando o sol vem das ondaR resurgindo,
Qual densa nuvem, a campina a.Rsombram,
E de Venns a estrella os volve ao ninho;
Arrolam dôcemente, e á torre vôam;
Entram, e logo, antes que morra o dia,
Cada qual em silencio immovel fica,
Cançados gosam de tranquillo somno.
Amo vêr. seus desejos innocentes,
Ternos gemidos, vividos prazeres:
Os biquinhos unindo, longamente ·
Com reciproco afago arrolam juntos,
E hymeneu, que os. prendeu, conserva sempre
Temo o seu coração, casto o seu ninho;
Vaga pomba torqnaz, e a rola imita
No desviado bosque as mansas pombas.
Os homens com proveito exp'rimentaram
PODAS DIDAOTI008 TRADUZIDOS 267
Seu vôo obediente em ída e volta;
Arte avezou-as a levar nas azas
Fiel mensagetn de um logar ao outro;
Muitas vezes servindo a Amor, e muitas
Socoorro annunciando a oppressos muros,
Dando socego,· e esp'rança á consternada
Terna amisade, que gemia ausente:
Alexandretta, Alep, e Lesbos saben1
Dar-lhe este ensino, e rego·Jar seus vôos.
Parte este agil correio ao sol nascente,
E volve antes que a luz na sombra expire;
A falsidade, o engano tem ousado
Dotnal-a, e dar-lhe empregos criminosos;
Guiada pelo vicio a singeleza
Fez-lhe serviços, aem convir com elle.
Acreditou a edade fabulosa
Que, a Amor fiel, em Paphos e Cythera
Seguia a soa côrte, e Já no Olympo,
Pelos gregos aos nomes consagrada,
D'esta ave, a mais putlica, a deusa é Venus:
Muitas vezes de Méca o vão propbeta
Usou como itnpostor mensagens suas;
Creu-se que a sells revelava,
do céo, mysterios d'elle.
Feliz quem d'innocentes passatempos,
De tranqoillos satisfeito,
Do seu casal co'as aves entretido
Sua formosa côr, seus dons contempla!
Qual dos jardins o espectador assiduo
Sempre acha novo seu jucondo es1nalte,
Cada dia indagando as varias côres
Das qne elle desposou diversas flores;
D'est'arte, e mais feliz vereis das aves
A plumagem brilhante, os novos trajos:
As c&res no jardim perdem-se, e murcham,
Nas aves, aoginentando, aformoseam.
Busca-se em vAo nos hospedes aéreos,
Que as florestas, o .rio, o mar povoam,
Aqnella côr de azul, de prata, e de ouro
Oom que em vo8808 oasaes as bellas aves
Tlo pródiga adornou a Natureza:
Separae cada eapecie, e, assim diltinctas,
. YOJ,. m
17
258 OBRAS DE BOOAGB
Achareis o prazer na variedade;
Sem escolha, A sem ordem sendo unidas
Familias degeneram, raças morrem:
Sobre isto vigiae, fazei a escolha
Das castas, em que Antor o gosto approva.
Sensivel a gallinha á formosura
Da ave de Cólchos, seu ardor lhe é grato,
· E as patas juntamente o afago attendem
Á sua propria especie, e aó gallo ardente.
Felizes se esta união vos atnostrasse
Um segredo, que os sabios inda ignoram!
Da existencia animal qual dos esposos
Contém no seio o creador principio,
Ou se ambos juntos de vindoura próle
Po:r concurso o ser produzem.
f)g diversos systemas n'este cabos
luz tem reflectido apenas:
Por lei constante as aves assimelham
A seus paes em plnmage, em côr, e em gesto;
E a que nasceu de generos distinctos
Tem un1 mixto, que de ambos degenera,
Mas simelha com ambos: assim vemos· ·
Da égoa e do animal longui-orelhudo
A prole; que ao serviço é tão prestante;
Une alteradas ambas as especies,
Uma nem outra é, tem de antbas.
Cada especie por vario modo
Se reproduz: caricias desdenhando
O fogoso ginete, o cego touro
Se arremessam a unir-se á sua amada;
Cotn gemidos, com beijos, com suspiros
Alonga o seu prazer a terna rola:
O peixe .sem unir-se, segue, an.ima,
Fecunda os ovos, que _depôz nas aguas
A femea sua: em seu palacio occulta
Produz a abelha a multidão sonora,
Que etn continuo trabalho a vida emprega,
E os zangãos, turba v_il, e preguiçosa,
Que fazem sua côrte á mestra-abelha:
O pulgão, ruinoso ao tronco e aos fmctos,
É de si proprio amante, e reproduz·se:
Sobrevivendo a golpes, e mais golpes
••
POBIUS DIDAOTI008 TRADUZIDOS 259
Repara-se o polypo de sena damnos;
Pelos fragmentos seus reparte a vida,
E um novo, em cada um, polypo brota !
'fal se nãp viu em Lerna a hydra horrenda,
Cujas cortadas testas renasciam;
Dá menos pasmo o monstro fabuloso
Que este vérme nas aguaij escondido I
Egual, e variada em seus prodnctos,
E contraria· a si mesmo, em toda a parte
Para _nós é mysterio a Natureza I
lndágo-a, em vão: brilha-rne um raio, e logo
Outro mais m'o destróe! Debalde
Ligar quero as ec1.dêas de un1 systema;
Que ellas, con1o Prothêo, a cada instant.e
Differem de si mesmas ! Deslumbrado
Por 0111 clarão facticio tne suspendo,
E tudo volve á antiga obscuridade!
Tal de noute o relarnpago 1nedonho,
Rasgando o seio ás nuvens, se nrremessa,
Uos objectos a itnagem nos descobre,
V ôa, brilha, e se esvae sulcando os ares;
E a noute inda mais negrcl, esconde o mundo.
Uon1 arte corrigindo a Natureza,
Eu aos hornens em versos ensinava
Das terras o lavor, no tetnpo etn quanto
Luiz, o tnelhor, e o tnais excelso,
De seus feitos co'a fama enchia o mundo;
Ern quanto a Italia e Flandres sossobradas,
Viam tudo ceder ás armas suas;
E caro ao povo seu, e aos seus alliados,
D'initnigos terror, do tnundo assombro,
De·seus trophéos o fructo repartindo
Sós para si guardava aJnor, e gloria.
Eu, quando a tneu sabor gastando o tempo
Pude esquivar judiciaes querelas,
E o popular bulicio, demandava ·
Asylo aos campos de paterna herança:
Ali não vinha o orgulho da grandeza,
Nem vinha dos prazeres o tumulto
Meu coração turbar, nem meu repouso;
Vivia só commigo, e sem cuidados
A vida consagra:va ao grato estudo;
260 0Bill.8 DI: BOOAGB
Amei rebanhos, ar,·ores, campinas, .
E á borda dos regatos cristalinos,
E á sombra das florestas retirado,
Em solidA.o obscura, nJas tranquilla,
J ontamente qoiz ser p()eta, ~ sabio •
.
l
i

NOTAS

"CANTO I
(PtJg. 145, verBo 8)
Criam for9as em mim Luis, e a patria.
LW. XV, rei de •
. (PtJfl. 147, verBO 25)
Ao barro, ao tufo, aos matagaes, e etrAas.
O tufo é uma especie de terra branca e secca ; e é
uma pedra esbr&llqtteada e esponjosa.
(Ptlfl. 148, wr•o 18)
*Em qualquer terra o trigo -sarraceno
* Eleva os negro• ·grãos na densa espiga.
Eates dous versos escaparam & Bocage ao coner da tra-
ducQão.
(lbid., verto 11)
O
• d' .
m l&llo matz. . . . . . . . . . . . . . ..
O maiJs é outra especie de trigo.
(Ibid., verBo 88)
Dos campos de Babel, esses outr'hora.
Tem-se por certo que os descendentes de tiem, enio os egy-
peioe, fizeram as primeiras observações astronomicas.
(lbitl., 40)
·o chefe das ovelhas o é dos signba.
O Carneiro; porque é o signo do mez de MarQo, que os anti-
go& contavam por primeiro do anno.
262 OBRAS DE BOCAGE

(lbid., ver1o 41)
O Touro logo, e depois d'elle os Geineos.
() Touro é o signo do mez de Abril, e os Gemeos de
(Pag. 149, verBo 1)
Nos tropicos o Cancro, e Capricornio.
O Cancro é o signo do mez de no fim do qual se faz
o solstieio do verão; Capricornio é o de Dezembro, e tambem
no fim d'este se faz o solsticio hybemo.
(lbid., verBo 3)
e noutes a Balança eguala.
Np mez de Setembro, cujo signo é a BalanQa.
(lbid., verso 4)
Das ceifas o signal compete
Astréa, que é o signo do mez de Agosto.
. . .
(lbid., verso 26)
Se ·o negro Escorpião viu aurora.
Signo do mez de Outubro.
( Ibtd., tJ6rso 84J
Por artes da impostora astrologia.
Os abusos astrologicos chegaram, nà.o só a induzir a erenQ&
de que certos planetas, e a sua conjuncçã.o de tal ou tal modo,
eram felizes, ou desgraçados; e que os eclipst's e cometas an-
nunciavam grandes desastres; se nã.o até que a nossa vontade
era regulada pela influencia dos astros.
(Pog. 151, verso 1)
J i. no ethéreo Carneiro o Sol tocando
Lhe desvanece a luz ...•.•...•.•
Por que entrar o sol em um signo, vem a ser passar-lhe por
baixo; e então nol-o escurece.
152, verso 8)
E cruza os sulcos teus por novos sulcos.
Este preceito a6 tem nas terras fortes, e nunca nu que
forem humidaa, ou delgadas.
'
POBIIA8 DIDACTIOOB TRADUZIDOS 263
(Jbid., VWBO 28)
O mugo, de que usaram n'outras eras
Nossos priscos avós, etc.
O ma.rgo é uma especie de barro .branco ou terra fertil,. pin·
gae e braD.da, que serve para adubar as terras aridas:- a cas-
tina é uma especie de pedra ou terra esbranqueada e seçca,
propria para adubar as que são fortes e humid&s: asSI'm como
a cal é conveniente as que são delgadas, ete.
( Pag. 153, verso 1)
Os magicos mysterios exercia.
Foi um liberto, por nome Caio Furio Cresino.
( lbid., verso 22)
Outra fica vazia; o sementeiro
Ha de espalhar, etc.
: M.achiB.a para semear melhor, com mais economia
(lbid., verso .25)
A herva parasita. acolhe menos.
Chamam-se hervas, ou plaatas parasitas aquellas que vege-
tam sobre outras, e se nutrem da sua substancia.
(Pag. 155, verso 21)
Ha lavradores próvidos, que ajuntam
Agua com etc.

Esta preparaoão faz-se por diversas maneiras, e teni por
jeeto conhecer o grão melhor para a semeadura;. mas. D.ã"o . 'é ín-
fallivel.
(Pag.- 151, verao 3)
• • . ... • • • • lenta. earcôma
Pouco a pouco as substancias lhe
CorrupQio.
( Jbid., ?JerBO 9)
Tendo por .mestra a Natureza, um sabio, etc.
O auGtor falla de Mr. Tillet, que sobre· este assumpto escre-
veu uma memoria, premiada pela Academia. .
OBRAS DK BOOAGB
(Pd(J. 158, verso 15)
Extrair, vêr, tocar ha pouco a ftamma.
O fogo electrico: reiteradas experiencias tem demonstrado
ser elle o mesmo que o fogo elementar.
(lbid., vera() :17)
Dos romanos cobrir, dourar •• armas.
Refere-se ao que Oesar escripto nos seus Commenta-
rios-&dem nocte legionã. pilorum cacumi?UJ BUG spon,te ar-
•erunt .. -•N'essa rioute se inflammaram por si mesmas as pontas
das lanQaS da quinta legião. •
( lbid., verso 32)
............. obteve o nome
De Helena, Castor, Pollux .•....
Ê o fogo a que nós chamamos Santelmo, e que os antigos ti-
nham por estrella: quando apparecia um só fascículo luminoso,
chamavam-lhe Helena; e quando appareciam dous, chamavam-
lhe Castor e Pollux.
( lbid., verBo 42)
Ao fiel conductor, que sem violencia.
Chama-se "conductor:t um corpo, pelo qual a materi& electri-
ca se dirige, e se transmitte d.e um ponto a outro sem se es-
palhar.·
(Pag. 159, verso 29)
Nem do seio os coriscos lhe rebentam.
No Egypto nunca ha trovoadas; e as poucas vezes que se lhe
tolda o céo, apenas derrama um orvalho.
(PtJg. 160, verso 14)
Ao ferro ali succumbe a flava espiga.
Os egypcioa semêam em Novembro,· e fazem colheita em
Maroo.
( lbid., verso 16)
•........• Vivíssimos ardores
Esperae do Leão .......•....
Me• de Julho.
'
POBKA8 DIDAOTI008 TRADUZIDOS 165
(AitJ., .,.,.,0 B6)
De mieeros que chusma (oh céoe !) é esta?
O• rabiscadores, ot,t maia propriamente-re1pigadore1.
( PtJ(J. 162, v1rao 8)
Encanto da. existencia, origem d 'ella,
Taes que, etc.
Todos 01 versos com asteriscos são accreacentados por Bo·
o age.
ver.o 84)
O oleo tambem, que de um rochedo emana.
O auctor falla do oleo,. que nasce de um rochedo, e f6rma
uma fonte, perto de Gabian, aldeia pouco distante de Bàsiere,
no Languedoo.
(P4(1. 168, verso 16)
Est&, que Duhamel ha dado ' Fr&nQ&.
No seu Tractado da conservaQio doa grãos.
(lbid,., ver1o 19} •
Mas quer ventilador, que lhe innove
llachina para dar novo ar aos logares fechados.
(PtJg. 165, ver•o 8)
Vêde de Fontenoi, vêde nos campos.
A batalha de Fontenoi foi ganhada pelo marechal conde de
Saxe em 1745.
CAN1'0 li
(PtJ(J. 161, vwio 18)
O mundo consolou do equoreo •
lato diz, a opinião mais teMbid&) o f&brlcQ
do vinho a6 foi conhecido depois do diluvio.
(lbid., ver•o 19)
Armenia te nectareo sueco.
Primeiro n' Ardlenia, porque aU viveu Noê do diluvio.
266 . OBRAS DB BOOAGB
(Jbid,.,.wr•o 29)
O Arecómieo Volco em nossos climas.
Volcos Arecómicos se chamavam o:s povos do baixo Langue-
doc; assim como os do alto Languedoc se chamavam Volcos
Teetosagos.
( Jbid., V6r80 35)
. . • . . . . . . . . . . . . . . . . . O celta,
Os bosques arrancando, acolhe as ·
Porque Domicia.no lhe havia prohibido a plant&Qào das vi-
nhas, e Probo lh'a concedeu. '
(Pag. 168, tJBf"BO 2)
Sobre arêa africana esca.deas torram.
Esoadeas propriamente são esgalhos, ou raminhos do ca.cho
de uvas; mas aqui tomam-se pelos mesmos cachos.
( Pag. 169, verso 20)
Lá quando o turvo Aquario em nossos clima1.
Em Janeiro.
(Pag. 172, ver1o 38)
Já nutrimento de abundoso estrume.
Os estrumes augmentam o vigor, e a produoQio du vinha•;
porém de ordinario alteram-lhe a. qualidade.
( Pag. 173, VSf"IO 3)
Pernicioso insecto eis s&e da terra.
O
( Pag. 114, tJerlo 25)
De invencivel cadeia os ,opprimiam.
Os ga.llos oisalpinos aio tidos por inventores do• toneis.

(Pag. 175, VWIO 38)
E a todo o cheiro inaocessivel seja.
Porque todo• .oa maus cheiros alteram o vinho.

,
POEIIAB DJDAOTIOOB TRADtJZJDOB
.
( Pag. 1.16, "BriO 38)
Abona vezes cento a forQa e vida.
O uso do vinagre, proveitoso nos exercitos, é conhecido não
só desde os tempos primitivos da republica romana, senão que
o foi pelos oarthaginezes, e já pelos gregos.
(lbid., ver•o 21
Arte assombrosa, que o di vide e apura,
A chimica.
(lbid., ver1o 41)
Do vinho usa formar util
E o verdete, ou uinhavre: ferrugem .esverdeada, que cria o
cobre, e que é um _veneno violento, mas de que se tiram algu-
mas utilidades.
( Pag. 111, verso 11)
De insecto extranho tal peQonha os livr&.
Diz-se que os hollandezes misturam verdete nas materias re-
sinosas com que rebocam os seus diques, e que eom a acrimo-
nia do mesmo veneno matam uns americanos, que lhe
arruínam o madeiramento.
(lbid., verso 15)
LouQi verdura, que amenisa os sêrros.
O verdete é tambem de muita serventia para os pintores.
(lbid., ver•o 19)
• . • . . . • • . . • • • • • l>'ali tirado.
Se aprompta para mil necessidades.
E o tartaro, que entra em muitas composiQões mediein&es.
(Pag. 118, ver•o 21)
O vinho de Tokay é uma eapecie de moscatel ; acha-se onro
noa aêrros que o produzem ; e em Vienna, no gabinete de
ereio do imperador, está. uma cepa. de Tokay, que tem 'enrolado
um Ao de ouro nativo.


OBRAS n• BOOAGJI
(IMd,., wrlb 81)
E o nectar vosso, oh Tenedos, oh Chio.
.
Foram, e sio muito estimados os vinhos d 'estas ilhas do Ar-
chipelago ; porém os do promontorio Arvisio, na ilha Ohio,
o eram com tanta especialidade, que lhes chamavam neeta.r :
ouça-se Virgilio, na ecloga V :
Ante foeum, li frigu.• erit; li muai1, in umbro
novttm (uttdom necttw.
·De inverno ao lume, e de verão á sombra
·Derramarei por copos e&p&QO&os
cO novo, em vinea fórma, A.rvisio neot&r.•
Dige por copos esp&QO&os, porque o t»ltJthil do texto quer di-
zer em copo a, ou oaliees da feiçio de cestos-pois que • cestos •
é propriamente a signific&Qão de CtJlGthia.
(Jbid., Vet'IO 86)
Doe cachos em&nar liquor fr&grante.
E o vinho chamado Lacryma.
( lbid., verao 118)
...•............... Alta Musa.
Das Camena.s do Tejo honra, e saudade, etc.
Quem deinr& de entender que Bocage falia aqui do nosso
immortal Camões, no seu admiravel Adamastor? Por certo hão
de entendei-o, e interiormente achar-lhe até aquelles que
dizem- Que o çisodio de entre 01 dilfHJrat. de Luüs
de Cctmau, é o -mcstor flüptwate,
(Pa,g. 179, ver•o 3
O oocidental J a&on, etc.
Entende-se o nosso Vasco da Gama: bella &paridade de Bo-
cage ; pois que Vasco da Gama foi o da nossa. armada.,
· p&rfl o descobrimento da ln dia, assim eomo J aeon e foi da nio
Argua, para a conquista do Velloeino.
PODAS DIDAOTIOOI TRADUZIDOS 289
f lbià., verso 9)
Proximo ás fontes d 'onde corre o Sena
De Borgonha, Ohampanha, etc., levaram os hollandeaes ao
Cabo da Boa-EsperaDQa cêpas, que ali plantaram, e que produ-
liem um vinho muito estimado.
{Jbid., 1JWBO 14)
O cysne de Venusa aos céos erguia.
Horacio; pois que era natural de Venusa, antiga cidade. no
reino de N apoies. ·
(Jbid., VWIO !J1)
O chá.
As perfumadas, as chinesas folhas
(lbid., verso 32)
Dos grãos de Yemen a singular bebida.
O melhor café colhe-se em Yemen (Arabia-Feli•) e d'ahi o
transportam para a cidade de Moka, d'onde se lhe dá impro-
priamente o nome.
(lbid., W'riO 33)
O cacau nogrejante, alimentoso.
Falia do cacáo como droga essencial no chocolate.
( Pag. 180, ver1o 16)
.
* A mãe (ah! já não mãe) lacéra o filho.
Este verso, que na edição do terceiro volume não tem aste-
risco, é, não obstante, accrescentado por Bocage, e com toda a
propriedade, pois que Penthêo fei desped&Qado por sua mãe
Agave, que Baccho enfurecera.
(Jbid., VWIO 29)
Éschy lo a cria, Sophocles a eleva.
Verdadeiramente o seu inventor foi Thespis ; mas Éschylo é
quem lhe deu magestade e energia : creou-a por tanto. {Nota
de Bocage).
(Pag. 181, verto 6)
Sagrou-lhe sobre o mar Veneza um templo.
Falia de Veneza republica. (Nota às Bocoge).
270 OBRAS DK BOOA.GK
( Pag. 182, VWBO 9}
Jugo aos transportes, aos delirios tenno.
Oreio que este quadro de Veneza e os antecedentes, pelas
imagens e expressão, devem apramer ao leitor. ( NotslÜ BOCG{Je).
CANTO IlM
(Pag. 182, ver1o 4)
....
O vate Mantuano, o velho de Ascra.
Virgilio nasceu em Andes, aldeia perto de Mantua (na Italia)
e por isso é vulgarmente cognominado Ma.ntnano. Hesiodo
ceu em Cumas (na Etolia.), mas foi educado em Ascra (na Beo-
cia); e esta ee tem por sua. patria; d'aqui o cognominaram As-
crêu, como o fez Virgílio no livro das suas Georgicas:
Ãacr<eumque eano Romt:antJ f)er oppida carmera
c Versos como os de A1crêu em Roma canto.•
Isto diz Virgilio alJudindo a um poema georgico composto
por Hesiodo, do qual (segundo a opinião mais recebida) só nos
chegaram fragmentos. O mesmo Virgilio, na sua ecloga sexta,
lhe chama - velho de Ascra .
. . • • • Boa tibi dtJnt oalamu1, m accipe, Muare,
.Aacrrea quo11 tmte seni.
·Recebe-a, dão-te as }lusas esta frauta,
•Que deram n'outro tempo ao velho de Ascra.•
( lbid., NriO 8)
O mais sabio dos reis, Deus, inspiraste.
Salomão: elle escreveu das arvores, desde o cedro até ao hy-
sopo; isto é, desde a maior até á menor. Esta obra perdeu-se ;
mas é·a que a.llude o auctor.
{ lbid., .wr•o 22}
Consultavam prophetico arvoredo
Junto a Dodona (cidade da Chaonia no Epiro) havia um boa-
que consagrado a Jupiter, e todo de carvalhos, que se di•ia J
prophetarem os oraculos d 'aqueDe numen.


• •
POBKAB DIDACTICOB ·271
( lbid., verso 24)
Iam colher o agá.rico sagrado. ·
Agá.rico ou visco: planta parasita, ou excrescencia esponjosa,
que nasce de inverno no tronco das arvores. O do carvalho era
tido pelos gallos como um poderoso preservativo contra todós
os males; e os supersticiosos drnidas ou bardos, o acolhiam nos
:fins de sacrificando humanas ; deposita-
Y&m-no em· seus altares, e o distribuiam a.o povo no primeiro
do anno.
( Pag.- 183, verso 12)
O cedro se accendeu, na umbrosa estancia.
Os antigos, antes de conhecido o uso da cêra, servi"m-se em
logar d'eJla das madeiras resinosas e odoriferas; especialmente
do cedro. Sirva de prova o que Virgi]io, Eneid. lib. VII •
Proxi'TIUJ Oirca raduntur littora terrre;
· Divu inaccessos ubi solis filia lucos
Assíduo roaonat cantu, tectis que superbis
U rit odoratum nocturna in lÚmina cedrum,
Arguto tenues percurrens pectine telas.
cJunto á.s terras de Circe as ondas corta;
cOnde a filha do Sol os invios bosques
c }.,az resoar com repetido canto,
cOpulenta em magnifico palacio
·Odorifero cedro á -noute accende,
c E com sonoro pente as telas .urde.•
(lbid., verso 36)
A de Hercynia ipda. aos germanos.
A Floresta-negra (na Suabia), e a de Bohemi& são reatos da
floresta Hereynia, que se estendia por toda a Germania até á.
Pannonia.
(lbid., verso 38) .
O francez em seu clima reconhece
As antigas Ardennas, etc.
As florestas de Compiegne, Oouci, Fontainebleau, etc., fa-
siam parte da grande floresta das Ardennas (ao longo do rio
Moa&) os bardos ou druidas sacrificavam.



171 OBBAI DK BOOA.ft _
( Pag. 184, 'VWIO 36)
Secoam de languide• em campo extranho.
Aa arvores assim plantadas são sempre mais fracas e menos
duradouras: e eapecies ha, que nunca medram com este
de culturL
(Pag. 18õ, verso 1)
E o buquete cobriu dos sete aabios.
Os n 'este numero contados foram: natural de Mileto;
Pittaco, de Mitiline ; Solon, de Athenas ; Cleobu)o, de Linde ;
Bias, de Priene; Ohilon, de Spartá ou Lacedomonia; Perian-
dro, de Oorintho.
r lbid., ver lo 9 J
E o olmo, que em· teu seio achaste, oh GalHa.
Eapecie divena de outra, originariamente produsida na Italia.
( lbid., wrao 32)
Dos vastos corpos seus liquor viscoso
Faa que, etc, ·
Todas aa arvores resinosas conservam no inverno a folba,
excepto o lu-ico; e creio que com esse fundamento Booage o
excluiu da sua traducçio, quando aliás Bosset. o inclue 11 'esto
verso:
Do cedro só ha uma especie conhecida, e é vulgar na
e no Egypto ; D& Europa, se usassem plantal·o, produziria,
como tem produzido em Paris e em Londres.
( Jbid , VWIO 39)
Una o pês, a resina outros
O pi• ot maneaoa, a reaiDa os bravos.
(Jbtd., Wf'BO 40)
Sua terebenthina ostenta Ohio.
Terebenthlna eu termentina : reaina do terebintho.
( PIJI. 186, VWBO 1)
Doa freixos de Calabria o pranto admira. .
llaaná, que distlllam 11oa mezes de Junho e Julho .



. PO:BJUS DIDAOTIOOB l'BADUZIDOS 171
(J6id,., NriO 2)
M:yrrha oft'reoe aos sabéos humor, que eaoanta. .

Na Anbia-Felis.
(Jbid., 1HWIO 87)
0• gallos aucceder viu a seus povos.
Foram oa chamados galloe-cisalptnos.
(lbid., t1er1o 89)
E Roma em seua muros
Alla4e ã invaaio de Brenno.
(IINl.
1
wt"IO 40)
Aoa campos de Gallacia deram nome.
Provinoia d'Aaia.-menor, povoada pelo terceiro exercite gallo
t}Ue entrou na Grecia.
( lbid., ver1o 41)
Por Apollo tremeu ao vêl-os Delphos.
Até ali chegou, o segundo exercito gallo que entrou na Gre ..
ela: mas foi destruido como o primeiro.
(PIIfJ. 187, verao 8i)
A francesa estatura magestosa
Porque os lapões, ou habitantes da Laponia (pais ao norte
à têm, quando muito, quatro p4a • meio de altura.
(lbid., NriO 41)
E aveleira, e loureiro, e teixo, e myrto.
Bocap excluiu da traducção o arbusto c buxo• que o original
ci' n'eate verso:
La roH, le liltu, Z. hú, le eotUliw,
t&lves porque julgou o vooabulo dissonante em metro.
( PIIIJ. 188, tHWIO 10)
O uevinho, o a.laterno prateado.
Tambem excluiu o troeme do texto (que significa o alfeneire
allemin) talves por não repetir alfeneiro, e evitar periphasis ;
ma• aocni08Dtou o parentheu- (il Dão aó eatea,.
ft .. ID
18
OBBAS DB BOCAGE
( Pag. 189, NriO 14)
* Roma a venceu, e dos vencidos -povoa
* Ignotas plantas admirou a ltalla. ·
Tambem passaram a Bocage est'outros versos:
Rome triompluJ d'elle, et dea peuplu Minca
L' ltolw admirt1 la arbu iftCOfttaU.
(lbitJ., NriO 19)
Nos é delicia, aos persas é veneno.
Affirma-se que os pêcegos, entre nós tão delicioaoa, alo tio
nocivos na Persia, que o seu veneno é mortal: por isso o noaeo
immortal Camões (que soube quanto podia saber-se no seu tem-
po) disse nos Ltuiodtu, ea.nto IX, estanoia 68:
cO pomo, que da patria Persia veiu,
c.Melhor tornado no terreno alheio.•
(Jbid., Nf'IO 20)
O damasco odorifero de Armeni&.
O mesmo que dos pêcegos na Persia, se diz dos damasco• aa
Armeni&, e querem alguns que tambem no Piemonte.
(JbitJ., NriO 24)
Os fructos cultivou de Oeraaonte.
Cidade Da Oappadoeia, que deu o aeu nome it oeaju, 1
d'onde Lucullo as levou a Roma; do que taljactancia teve, que
com ellaa ornou o seu carro de triumpho, quando venceu IIi·
thridatea.
(lbid., VtriO 26)
B as maoeiras, em Neustria tio
Agora se lhe chama Nonna.ndia.
( PtJ(J. 190, VlriO 26)
*Nos nós de branda seda
*Prende co'as alvas mãos, inda maia brandal.
Ponho asterisco n 'estes dous versos, por serem
mamente paraphraseados d'este frouxo verso:
Oa,ttve '" cl.euz que lo loN
l
POBJUB DIDACTIOOS TBADUZIDOI 275
(Pag. 192, VWIO 10)
E da chuva, e do vento injurias tolhe.
É o que cham&Ql enxertar de garfo.
(lbid., ver1o 15)
O enxeno, que lhe mu.da a natureu..
Ohama-.e- enxerto de borbulha..
(Jbid., VWIO 17)
Em figura de rolQ ás vesea solta.
EDxarto de anneL
( Pag. 196, VWIO 25)
D'aquelles campos Hercules á Grecia •
Foi o primeiro, etc.
Nio se duvida ser Hercules que primeiro levou ã Grecia a
oHveira, e instituiu o uso de se coroarem d'ella os vencedores
dos jogos olympicoa; é porém duvidoso o logar d'onde elle a
lavou.
(lbid., verso 32)
· Que eat'a.rvore devia á deusa sua.
Minerva ou Palias.
(lbid,., verso 39)
D'onde a. terra se abaixa, e desce ás ondas.
Sabe-se por experiencia.; mas a causa ignora-se.
( Pag. 196, verto 19)
De um memorando inverno, oh patria minha. -
Refere-ae ao inverno de 1709, que destruiu todos oa olivaes
no Lanpedoo, ou Occitania.
( .lbid., W1'80 33) .
O oanhamo, o putel teu saio amimam.
llarva de tinturaria, especia de la.pis.
(lbid,., tl6r80 41)
Uniram teus trabalhos os dous mares.
Falla do canal de aommunic&Qão do M.editerraneo com • Ocea-
no, feito no reinado de Luis XIV.
OBRAS D:B BOOAGS
(PIIIJ. 197, wrto 11)
Oa yencidos ergueu ao gráo da filhos.
Dando-lhas o direito de cidadãos romanos •
.
(Pa,. 198, tJeno õ)
A da amoreira, assim como elles.
Porque o bicho e a folha precisam o mesmo gráo da calor.
( lbid., wr.o · 20)
Indicador do tempo, ali o vidro, etc.
O thermometro.
(PIIIJ. 200, wr.o 21)
Presa em seus la9os, transformada em Dympha.
Nympha, ohrysalida, aurelia, ou fava, são os nome• que se
lhe dio, quando encerrada no envolto1io dos floa de aed&, eDl
.vesperaa da sua metamorphose .
.

CANTO IV
(PG(J. 205, verao 8)
Vio de novo oecupar a antiaa.
Todo este episodio diz relação ao celebre lago de Zlrohnitser-
séa, que no me• de Junho começa a seooar e torna a comeqar
a encher em Setembro.
... - - .
(J6id., wt'IO 28)
Taea os prados, que ás ondas submettldoa, ato.
A'• ondtu porque na Hollanda não é a terra 10-
branceira ao -mar, -fica o mar sobranceiro i terra.
( lbià., verto 41)
Surgem paises, que tapava o lodo.
A sua grande obra da desseca9ão das aguaa foi emprehen·
dida- pelos anilo a de 118>; antes d 'isso a Hollanda era um p&D·
tano.
PO•VAB DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 277
Que a vez primeira então provo:u seus lumes .
.Porque esta provineia (uma das Sete-Unidas) era àlagadifa, e
só deixa de o ser pelos seus famosos diques.
r(PCJg. JO'l, VWIO 14)
Quebra mugindo os diques, e os derruba.
Apesar de todas as cautelas, os diques aio ás veses for9ados
pela violencia du aguas, que submergem cidades inteiras: u
duu maia famosas inundações foram as de 1582 e
(PtJ(J. 208, VWBO 11)
O lirio roxo, o junco, etc.
Lirio roxo, ou espada na : g!.yeul di.B o texto.
(lbid., verso 22)
Da borrasca estridente o Isero ajunta.
Ha outro rio Iaero, que nascendo nos confins do Tirol e da
Baviera, v&e desembocar no Danubio: este de que se traeta
naace nos extremos do Piemonte e da Saboia, e desemboca no
Bhodano.
(Jbid,., VWIO 28)
E o Saona seus impetos «''S d 'ella.
No manuscripto de Bocage achei 8eqiUitltl ; porém aqui olvi-
dou-se, bem oomo se olvidára de traduzir alguns versos : por-
que é o nome latino do rio Sena, que vae desembocar
no Oceano; e o &ons, que dá, o texto, vae desaguar no Rho-
dano, 1 em latim é Amr e 8occo'111J, mas não
( PG(J. 209, verao 17)
Tal junto de Ilion o irado Xantho, etc.
Allude ao que dis Homero no canto XXI da lltodtl.
(PIIIJ. 218, wno 16)
Assim de Alcino a ilha povoavam.
Ooreyra, ou Corfa, ilha no Diar Jonio.

/
278 OBRAS DK BOOAGJI
(Jbid., NriO 21)
E os campos transferiu para &I cidades.
-
Assim o diz Plinio o Naturalista :- Prima hoc iutitaãt Atle
taü Epicuru.a, otii mtJ.gÍIJúr, uque tJd B t ~ m 'IRM"il ftOft (urtJt m OP.Pi-
dia hoJJittJri rura:-cEpicuro, o mestre do repouso, foi quem pri-
meiro os ordenou em Athenas: até ao seu tempo não costuma-
vam os jardins medrar no seio das cidades. •
( Pag. 215, verso 1)
Cumes da lberia, onde morreu Pyrene.
Os montes Pyreneos, que dividem as Hespanhas da FranC)&
.
(Jbid., VBriO 2)
Os que Annibal transpoz, Vosgos, e Jura.
Os AlpeP, que separam a ltalia da Fran9a e da AJlemanha.-
Vosgos é uma cordilheira de montanhns, que se estende até á
floresta das Ardennas, separando de Lorena a Alaaoia, e o
i'raneo-Gondado; -Jura é uma montanha, que separa a t-iuisu.
do Franco-Condado. · ·
(lbid., verso 29)
Junto de impi& caterva em ria mudada, etc.
.
A.llusio aos jardins de Versailles, onde estas fabulas esao
rep-esentadaa.
( Pag. 216, ver•o 28)
A tenra hemerocal, cujo destino, etc.
Eapeeie de lirio: as ft.ôres, que succeasivamente broil&m de
HU troneo, duram sómente um dia.
(Jbid., VWBO !JO)
E as que outr'hora agradaram tanto aos Incas.
Principes peruvianoa, que Diogo de Almagro em 1567 sujei-
tou ao domínio de Hespanha : em seus jardins não a6mente
imitavam as varias flôres oom ouro e prata; porém até as sea-
ras, os arvoredos, o8 insectos, as aves, etc.
(PtJ(J. 217, verto 19)
Da Syria o mais christio dos reis da GaJlia.
S. Luis (IX d'este nome entre os reis de FranQa) quando vol-
tou da Syria trouxe &08 franceses o rainunoulo,



POBVAB DIDAO'l'IOOB TRADUZIDOS 219
( Pag. 218, verso 2)
. . . . . . . . e que os francezes
Nominam tuberosa ....... .
Nós llle chamamos •angelica•: os francezes a trouxeram da
Amerioa, e primeiros a cultivaram.
(lbid., verso 1)
E a que, amante do Sol, com elle gira.
O heliotropio, ou girasol.
(lbià., verso 9)
•••.••.• Da China a rosa, etc.
Commum.mente chamada •rosa japonioa• : o arbusto que a
produz é maior do. que as nossas roseiras.
(Ibiil., ver•o 19)
No tempo em que o talaspis d'alva fronte.
que abre á maneira de um chapéo de sol.
( Pag. 219, verso 15)
O luto de Aristêo, perdendo o enxame.
Veja-se o livro IV das Georgicaa de Virgilio.
(Pag. 220, tHWIO 5)
Mais forte em tuas mãos, que industria, oh Fran9a, etc.
Falia du flOres de poroellana.
(Jbid., 1JW80 15)
Que a dOr vida recebe, a flOr dá vida.
Syatelll& de Mr. Vaillant, adoptado por todos oa botaniooa
modemos.
(lbid,., ver1o 19)
\
Do piatllo no seio os filamentos.
Parte onde a flOr encerra a semente ou seu orgio femfni•o.
lmmovel, como nós, jazer no somno.
,
E de Ltnnlo.
'

280 OBRAS DB BOOAOK
CANTO V
'
(PtJ(J. 222, verBo 84)
Mo ,=sés.
Oh Deus, de quem um pastor, etc.
( Pag. 223, ver1o 10)
Daa ovelhas de Atrêo, e Eéta o preço.
,
O primeiro, rei de Argos : o segundo, rei de Colchoe. E este
de quem se conta que guardava o vellooino roubado por Ja11011.
(/.bid,., verBo 12)
. . . • . . De Fauno a prole, etc.
Latino, rei de Laurente, parte do antigo Lacio. ·
(Jbid., VWIO 27)
Puxa os frios lapões e renna activo.
A renna aasim.elha-se ao veado e ao ca vali o ; e é a principal
riqueza dos habitantes da Laponia: tira-lhes os aeua carroa,
alimenta-os de carne e leite, e veste-os da sua pelle.
( PtJ{J. ~ 2 7 ' Vef"BO 18)
• . . . . . . . O tigre unido
A' leôa. fero•, gera o leopardo.
Alguns modernos, e com elles Mr. de Buffon, têm que o leo-
parde 8 uma especie distineta : o auctor segue a vulgar e an-
tiga opiniio: podia escoUter como poeta, porque os poetas têm
grandes licenQa& e mais quando escrevem tão bem como ella
aeaba de o fazer sobre o prestimo e generosidade doa ginetH.
(lbid., verBo 28)
E outros, que a N a.tureza nio perfilha.
O texto diz:
Ls• muletl, lu jufiUWtl qu'elle •'adopte fH.U·
Nós nio temos vocabulo propriamente significativo de j•rnort;
Bocage suppriu & mingua, dizendo-E outroa.-Jumart chamam
á prole do touro e burra, ou barra e vaoca, ou e&Yallo e vacoa,
ou touro e egua.':Mr. de Bu:ffon diz que o j.,..,.t é um ente chi-
I
.
I
(
1
PO .. AI DmAOTIOOI DADUIJDOI 181
merloo; Dlo Mi H tem n•io, deeiclam oa outro• HDhorM u.-

tarr.Ji8tu : mas certo é que, se ae dá t&l outa, ' ella de bem
pouca utilidade, pois que ae lhe Dio promove a maltiplieaolo.
'
• Soberba oaminhaudo erpe a oabeoa.
É outro verso, que Bocage passou na traduc9io :
.D.tu ltJ fJIGf'eM on lo volt lever 1t1 tlt. tJltúre.
(Ibid., .,.. 89) .
B de seu vencedor tem inda o nome.
'
O vencedor foi llario, e o campo é o de Oomargae, ilh& da
Pmven9&, na embocadura do departamento daa Doeu do Rho-
dano, e ;. qual em latim • chama Marii, ou CtJmGria.
(Jbid., Nt'IO 4J)
Corrompe 01 ares ·odioso insectO.
Falla do t&b&o, ou moscardo.
(PIIIJ. !80, wr•o· 14)
Povo afamado, em Apia te morrendo.
01 egypcioa debaixo do nome de Apta, Oairia ou 8erapt1,
·adoravam um boi, malhado de branco e preto.
(PGfl. 291, 8!)
Então vi o Eeperou chegar de oyelbu, etc.
Montanha daa CeveDDu, no batso L&ngoedoc, mui frequen-
tAda pelos bot&nicoa
(PGfl. 28J, Nt'IO 8!)
Tae1 de Âl'lllÓrico e ArdeDDI 1 01 carnelroa.
Arm6ricos se chamavam 01 habitantes d'entre o Loire e o
Sena, sobre a margem do Oceano. A respeito de A.rdennr.a, ve-
ja-le a nota ao terceiro canto a pag. 188.
. NriO 86)
fragoso de abundante• pastos.
É o oaapo chamado Orau, jlmto de Salon (cidade aa Proven-
V&) ntn o Bhodano e o lago de Berre, a que 01 antipl
JSI
mav1m OCIIII,Pi l.apidei, campos pedregosoa : onde se que
Bercules combateu contra dou gigantes filhos da Neptuno, e
acabando-M·lhe as frechas, Jupiter fes oho.,er aquella
dio de pedras, com que os venceu. Plinio; Hiat. lib. m, eap. I,
o menciona D 'eat&a palavras : - o'""'" lopidri Herculü promlio-
ram metROricJ cOa pedregosos campos, celebres pela me-
moria dos combates de Herculea.•
. (PtJfl. 288, "er10 10)
. . . • . . . . teua bona paacigoa,
Oh Préeab§, eilo.
Terreno da alta Normandia, que a.inda da tempos em tempo•
é inundado.
(Jbid., Nf'IO 18}
Ganpa aegua outras leia. . . . • . • •..
Vill& do bmo Languedoc.
(P-u. J86, .,.,._ 88)
Arte dos Gobelins, talve• oomtlgo, eto.
Allude a Gil &obelin, famoso tintureiro em li, 41ue viveu no
reinado de FranciBCO L
De prueres ae C&DQ&, e não se farta.
lmit&Qio de Juvenal (aatyra VI) ·tallando de Mul&lina :
Et ltNMIAJ virú, Mefltem •GtttlttJ
cC&n9ada de prueres indecentea,
Porém nio saciada se retira. •
O verso do parece-me que deixa em embriio a idéa de
Juvenal; Def:D julgo possivel dal·a em um eó verso, •em que a
phrue o.-enda a modestia.
( PtJtl. S88, _,.., 6)
Fran9a est'arte ignorou, que. em Boma os aabioa, etc.
Oolumella (lib. VI, cap. S.o) faz menQio da medicina veterl-
n&ria ou alveitaria, n 'estes termos: = VeuriJUJM ,Pn&-
detu ... fMCM'Ü fftti(/Ütw: •Os pardadore1 devem •ber al-
v•ttarta.•

POBIIAS DIDAOTIOOS TBADUZIDOI 283
(JWL, wno /.1)
Babios nossos tambem a industria movem.
Allude ás escholas de medicina veterinaria, que se estabele-
ceram em Paris e em Lião, sendo seu director geral llr. Bour-
gelat.
I PG(J. 240, ver1o 40)
Imagem da mavortica fere-.
Parece-me se Bocage existisse, e fizesse esta ediQão, aeria
este um dos versos que emendasse, dizendo antes:
Imagem das feresaa de .Mavorte,
ou aimilhantemente : porque o epitheto cmavortico• não me
lembra que seja usado por &lgum de nossos bons auctores, e é
absolutamente desnecessario; que temos cmarcio, mavor-
cio•, além de outros, que dão o mesmo significado. Como po·
rém nio póde ser accusado de gallicismo, eu o deiXo ir; por
não ser minha intenQão a de emendar alguns minutiaaimos de-
feitos, que poderiam encontrar-se na traducQão de Bocage, mas
sómente a de corrigir aquelles descuidos, que são infalliTeis em
todos os primeiros manuscriptos, bem que os de Bocage sejam
os maia correctos em que eu tenho pesto os olhos •

CANTO VI
( PGIJ. 243, ver•o 42)
Já foi o gallo interprete dos deuses.
Os gregos tfnbam-no como attributo de Minerva, de Mercu-
rio e da e o aacrilcavam aos deuses Lares e a Pria•
po; o' romanos, mais que nenhum outro povo o tiveram em
Tenera9io.
( PGIJ. 244, vereo 26)
O amor, a ambi9ão, o imperio e Helena.·
É exceDente e digna da phantasia de um poeta, que sabe dar
alma aos aeue quadros, esta allusão á, esposa de .Menelio, que
foi e&Uia da guerra de Troia, e é este um facto historico tio
conhecido, que por pouco que eu d'elle diueue me acauu.riam
da prolixidade.

OBBAB DB BOOA8B
(Pag. 245, •er•o 9)
A8sim quando entre nós subito arrojo, etc.
Esta compa.ra.Qão é tão proximamente imitada de Virgílio
(Eneid. lib. 1) que julgo dever poupar-me ao trabalho de tra-
dusir o poeta latino. Eis aqui os seus versos:
.Ac veluti magno in popuw c-m 1repe eoort.a ut
&ditio, 1revit qui aximi• ig•bile mdga•,
JamqtU faces, et saxo volant, furor arm.a minietrat;
Tum, pietate gravem, ac meriti•, si vi rum,
0onlptlJ6re, ftlent, Mrectisque auribus tJBI.ant,
1/M regit dictil Gftitn01, et p«:tom mKI.cee.
Mas ainda assim, como nio faltará quem queira cotej81' a
imita9ão com a traducQão, aqui ajunto a. de João Franco Bar-
reto, que é êlegan_te, posto que o remate da estancia seja pouco
fiel:
cComo acontece vezes, quando
Anda em gran povo o vulgo a.lvorotado,
Já as pedras, paus, e cantos vão tirando,
Dá-lhe armas o furor desatinado :
Se algum varão acaso venerando,
E em meritos aos mais avantajado
Viram, cesaa. o furor, pára a demanda,
E com brandas razões elle os abranda. •
O nosso Camões porém (Lu•iada•, canto I, estancia 91) diaH
oom mais proprio verbo :
A pedra, o pau, o canto •
(Pag. 1146, VWIO 5)
Lhe imprime as eôres, que elegeu mais bellu.
Dis-se que arrancando algumas penna.s ao papapo, e esfre-
gando-lhe n 'esses loga.res a. carne com sangue de rã, lhe• faum
nascer pennas de varias côres.
( PtJfl. 249, wrBO 18)
Do sabio Reaumur os exp'rim.entos .
.Mr. de Reaumur etacreveu a Arte de orear as g&llinhu e foi

I
I
I
!
I
•'
eUe o primeiro ti'entre os modernos, que tirou por eata
maneira. Eu faQo Reaumur trisyllabo, como no orili&al. . 1

POBKAB DmAOTIOOB TRADUZIDOS 286
(PG(J. 360, 1'WIO 22)
Uma pelle lh'a envolve, e se lhe estende •
. i ao que •• chama c pevide ••
( PtJ{J. 261' tJWIO 6)
Todoa os dias de uma vida escassa.
Ora com e:ffeito, acabou-se o tractado das gallinhas ! Pois
protesto que me enfastiou. Perto de quatrocentos versos!
É muito! Rosset creio que pegou na Arte de Reaumur, e pon-
do-se mui· de seu vagar a metrificar os preceitos do naturalista,
esqueceu-se d9 mister de poeta, e esgotou o asaumpto: isto
seri. sempre um defeito em poesia, e menos desculpavel em
RoMet, porque de cttlpas taes accusa elle o P. Vaniere, dimendo ·
no aeu discurso aobre a poesia georgica:-lA• tUtmla de la Moi- •
acm Rutiqw IIO'nt fort agreablu, et peinú avec grac6; maia ila .ont
ri mtdtipliú, et IOUVent ft petitJ et fi puerilB, que, m.algré lu omB•
tMnta àont ill •ont revetud, on duireroit de M 1JM lu trmt-ver: iu
dontaef&t (J cet O#Vf'tJ{/6 ,, .. r à'Mn Tmité pltdot que d'un Poeme. cAs
particularidades do •Predio Rustico• são mnito agradaveis, e
deecriptas com graoa ; porém são tão multiplicadas, e
vezes tio pueris, que nio obstante os adornos de aio re-
.,estidas, se desej•ria não as achar: ellas dão a esta obra mais
o aspecto· de um Tractado, que o de um Poema.•
que Rosset deu uma sentenQa, que justamente lhe póde ser
applicada; mas em fim, deixai-o dormitar, porque qtUJndo qu
bcmu doN&itat Homen.•: feliz aquelle escriptor em quem, como
em Boaset, se nota o numero das bellezas mui superior ao dos
defeito.!
(lbid., "C•r10 10)
No a trouxeram de Ignacio os companheiros.
Os jesuitas, que primeiro trouxeram o perú das lndias Orien-
t&ea.
(Pag. 262, wrto 11)
O que salvou, grasnando, o Capitoi.io •
08 gansos despertaram no Capitolio os gnardu • •
que rechaseatam o assalto dos soldados de Brenno.
(J.bide, VeftiO 41)
O phaisio é feroz por natureza.
Eetaa aves derivam o seu nome do rio Phasis, d'onde é"·tra-
di\'io. ·que o.e Argonautas a11 levaram á Grecia.


!88 OBBAS DZ BOOAOZ
( P(J(J. Jõ!J, verso 89)
. Gaviõe1, eamerilhões, treçós,
O tre9ó é o macho das aves de rapina ; e isto quer dlser o
cmeuoket do original.
(PGIJ. 1164, wr10 J) .....
E o suave cantor da primavera.
O rouxinol.
(lbid., wno 4)
E livres pelos bosques divagando, etc.
A esperiencia mostra que esta regra softre muitas exce-
pções ; porém é certo que eatas aveainhas cantam mais agra-
davelmente, quande gosam da liberdade que lhes deu a D&tu-
reu..
(PtJ{J. J57, VWIO 6)
Soceono annunciando a oppreaaos muroa.
Modena, defendida por Decimo Bruto; cercada
por Gofredo de Bouillon; Ptolemaida ou S. João de Acre, cer-
cada pelos francezes e venezianos, tiveram, alám de outras,
aViso de soccorro, levado em cartas de que os pombos foram
menaageiros.
(Jbià., VWIO 9)
Dar-lhe este ensino, e regular seus v6oa.
N io &Ólll.Snte n 'estas terras, mas em todas as do Levante, é
uao antiquíssimo levarem os pombos, e trazerem cartas presas
ao pescoço, ou pés, ou debaixo das uas.
(PGfl. 268, 'UBriO 6)
Senaivel a gallinha i formosura
De ave de Colchoa, etc.
É o phaisão, porque o rio Phasis, de que deriva o aeu nome,
oorta ·a ilha de Colchoe.
· (lbitl., wno 16)
Os diversos aystemas n 'este aahos, etc.
O auctor quiz aqui indicar aa grandes düliouldadea doa di-
versos systemaa philoaophicoa sobre. esta materia. V ejtr&e a
i
I
l
í
I

I
1
POWVAS DlDAOTIOOS 'l'BADUZIDOI !87
Phyaiologia de llr. Haller na expoai9io dos phenomenos rela-
t i ~ • ' P ~ · .
(PtJfl. 3õ9, tJWIO 8)
.
.E um novo, em cada um, polypo brota.
Veja-se a obra de :Mr. Trembley, auotor d'eata de1eoberta.
O CONSORCIO DAS F L O l ~ E S
------ ----
v ... lll I W .
JJEOICATORIA llO TRADUCTOR
Aos manes do immortal Llnné ·
Alma gentil, que no fragrante imperio
A vária Natureza esquadrinhaste;
'fu, que vias Amor brincar co' as fiôres,
Sagaz insinuar-lhe a doce chamma,
Principio d'ellas, e principio nosso;
Que dóceis, ledos os Fa vonios vias,
Prestando a dom suave as tenues plumas,
Ministros de Hymenêo no fioreo reino,
Delicias esparzir de planta em planta,
E sorrir-ae os jstrdins·, sorrir-se os bosques,
Viçosos templos dá união mimosa :
Oh manes de Linné, se inda entre as sombras
f)o arvoredo immortal, da selva immensa,
Folgaes de meditar, de embellezar-vos,
Na tnnra estirpe de mais linda Flora,
E dos Elysios no thesouro ameno
Avareza manter, que adorna o sabio;
Oh manes de Linné, sagrados manes,
() tributo afagae, que a vós consagro
Na estancia bella, no retiro amavel,
Onde ás Musas me dou, e á paz, e á gloria,
Gostando a eternidade, inda no tempo,
,
Aquem das illusões, áquem dos_ nadas,
Salvo do orgulho, que entumece os grandes,
E do ouro inutil, adorado em tantos,
Que apenas h9mens são, e impõem de numes.
Philosopho tranquillo, aqui repouso,
Em quanto semideus os deuses te honram.
Espírito gentil, que honraste o mundo.

ADVERTENCIA
A planta é um corpo organico, que nlo tem de si mesmo
movimento algum progressivo, e que se alimenta em quaJquer
logar pela r-aia, cresce, vegeta, ~ póde propagar-se de wuitu
fórmas : ou esteja presa aos cachopos, occultos no mar, como
'* o coral; ou nos escolhos visiveis, como o musgo; ou vague pe-
las ondas, como a stratiotes no Nilo; ou brote na terra, como
• •
a rosa ; ou nasça em arvores, como o v1sco; ou nos craneos tn-
lepultos, como a usnea; ou nos couros como o bolor, o que H

·prova pelo microscopio; ou finalmente no mesmo ar humido,
como a c e bola e a batata.
Raiz ~ o montlo dos tubos, que recebem o sueco nutritivo,
o qual corre em uns pela présslo das traqueas oseillantes em
todo o· tegumento da.Dplanta e refine em outros com um giro
perenne até á raiz.
Assim como o troncn em plantas mais duras, assim nas maia
molles o talo produz e cria os ramos. as folhas, as fl3res e u
eementes.
Oalix é vulgarmente o involucro verde da fiôr.
Petalos sio os tegumentos colorados da fl3r.
Estames são as vaginas cylindriformes dos vasos esper-
maticos, amplificado• as mais das vezes em apice que na aua
parte suP.erior, ou foliculos, a que o auctor chama (testiculoa)
lute•.
Ovario é o claustro do germen, ora unico, ora multiplica.
Tuba ê o appendix cylindrico, que assenta no ovario, e com-
mummente aberta na parte superior, ã. maneira de uma bu-

stna.

OBRAS lJB BOOAGK
------·----
Placenta é o visgo glanduloso, t;Ubtraído proximamente do
ovario, d'onde sáem ora um, ora muitos canaesinhos, á simi-
lhança de cordio umbilical, cada um dos quaes pertence, e é
inserido no seu ovo, ou embryio.
Semente é o compendio da flôr, assim como se vê pelo mi-
croscopio nas cebolas das tulipas e nas glandulas do car-
valho.
R a ~ t o u l a nlo se differença da raiz da planta, senão pelo
tamanho.
Pluma é o pequeno tronco ou talinho com seus appendices •
Jltamilloa são duas vísceras em feiçã.o de glandulas, que se
communicam de uma parte com a radicula, e da outra com a
pluma, nas quaes o sueco trazido da rai• se filtra e se defeca,
com o que se habilita mais a nutrir o feto; dado este á luz, se
transforma em duas folhas, mui similhantes entre si, mas dif-
ferentes d'aquellas, que ao depois deve ter, as quaes são des-
tinadas a nutrir a planta ereança; mas tanto que esta cresce
e está capaz de digerir os suecos, espontaneamente cáem as
• •
prtmetras.
FlOr propriamente, nlo é outra cousa mais do que o mesmo
0
rglo da geraçl.o; se é macho, então se conhece pelos eat4-
mea, se é femea, pelos ovarias, se é hermaphrodita, por ambos.
Toda a jl6r ou é vestida, ou é destituida de oalix, d'onde,
ou é completa ou "incompleta.
Ou ~ petala, ou petaloidea;
Ou Monopetala, ou polypetala;
É ou rtgular, ou irregular, ou 1imples, ou compoata, ou Jlo•·
.Zo1a, ou BtmijloBOuloltJ, ou mia;ta, ou radiosa .
-----


O CONSORCIO DAS FLORES
• P IS1'0 LA
DE
MR. LACROIX
A SEU IRMÃO
'I'UDUSIDA. DO ORIGI.NAI .. LA.TI.NO J:H VERBO
Urit Amor .Plantas etiam '""'·
AucToaJa.
Qual tere 01 ooraqõea, as plantas féré.
Qual do espirito fôsse a natureza,
Qual das cousas a fabrica, e das cousas
O Artifice immortal, a pnericia
Indaguei, caro irmão: foi-me suave,
E achei util fadiga, ioda qne
De Newton, e Descartes ir no alcance,
Tambem medir essas ethereas massas,
Que em diverEos luzem, rodam.
Doo•••·
Explorar quiz depois co'a mão, e a mente
De Flora os campos, o formoso imperio:
De conductor pela votiva estrada
Carecia, porém, quando eis que assoma
Ante mim, clara dadiva dos nomes,
O prestante Vaillant, cnltor supremo
Dos jardins machaónios; Philomela
Aos bosques o chamava: elle ia aos bosques,
D'eacalpello nas mãos, e o microscopio,
Utn obra de Vulcano, outro de Palias:
Vidro negado a Athenas, dado a Londres,
ViJro, que em si reune o sol disperso,
2Ht> OBRAS DK BOCAGE
·vidro, que os tenues corpos engrandece,
E tanto, e tanto, que visíveis torna
Do insecto zunidor té os olhinhos.
Com guia tal, e de Minerva influxos,
Penetrei o que Rays nio penetraram;
· E aos Malpighis soube arcano&.
Flora, benigna mãe, Flora, mãe sua,
Déra apenas Vaillant á luz da vida,
E apenas o menino em torno ao berço
Sente as plumas subtis de mil Favonios
· Soltar fragrancias nJil, susurro alegre,
A tenra mão com pequenino aceno
Brincos, que pede á n .. ãe, se as v@, são flores.
Cresceu: cousas maiores eis concebe.
Nos hortos madrugar é seu recreio,
Seu recreio é girar, correr florestas,
Esquadrinhando as plantas cuidadoso:
Folga de ir por chuveiros, de ir por neves,
E de ir por sóes apascentar o instincto.
Tanto o estudo lhe apraz das varias flores I
Vendo-o colher, e examinar boninas
N'um, n'ontro prado, as Dryades mil vezee,
Instadas de amorosa competencia,
O moço amavel para si quizeram;
Porém, da primazia a ti credora,
Deu elle, oh Dosonea, esta alta .
V ertumno a escolha approva, e Flora annues;
Coréas festivaes engenha,
E susurra dos Zephyros o applauso.
Vão por antiga senda rastejando
Almas vulgares, índoles escravas;
A si Vaillant abriu caminho intacto;
Viu com que arte Capido as brandas settas,
As sensaçOes dirige até ás flores,
E olhou primeiro os vegetaes amores.
A que que persegue as cinzas,
. A Inveja detractora, ah I Não lhe
Que, ustuta gralha, com furtivas pennas
Elle tentou luzir, não, não se afoute
Co'a vil calumnia a profanar-lhe os manes.
Milagres ouve, oh Roma, oh Grecia, escuta.
Tambem, tambem de amor as plantas ardem;


POEMAS DIDACTICOS TUADUZIDOS
A flor namora a flor que lhe é visinha,
E egnal paixão lhe retribue a arnada.
É n'elles par a edade, a especie, a fórma,
A graça, o dote, o gosto, o ser_. e a flaunma.
Assim que o lindo arnantP, e a virgem bella
Provam no seio os cupidineos golpes,
Tenhan1 commum, ou separada estancia,
Seus mimos, seus desfljos, seus ardores
Une Hymenêo, -e Amor, e a tnãe triu•nphnm ..
Co'as azinbas trementes brinca em tanto
Dourada borboleta entre as abelhas;
Folga o jardim, e o rouxinol canoro
O verso genial no ulmeiro entôa.
Se duas flôres uma estancia inclue,
Dá Prónuba o signal, rompendo a aurora;
Filamentos enrijam, abre a anthéra.
Subito adflja viração fecunda,
E, pelo floreo tecto reflectida,
Penetra velozmente as cavidades
Da tuba, da pl4centa, e logo errante
Nos tenues, eguaes tubos se insinua,
Nos germes pousa; os germes se entumecem,
E ri-se a femea flor, que prole es.pt-ra:
D'est'arte a dormideira, a ophris pejam.
Se os domicilios são porém
A masculina flor seus dons ·
Da tenra habitação, té 'li cerrada.
Zephyro acolhe o principio,
A volatil semente, e sobre as azas
A leva ao da consorte amena •.
Elia responde á conjugal ternura,
E co'a prole gentil, que o pae shnelha,
Fiel se abona ao desviado esposo.
ás margens do Nilo assim é tiuna
Qoe desunidas palmas se
lias se as macias virações não YÔnm -
Quando é seu mez, quando florecem bosques,
Toma o colono masculinos ramos,
E agita-os junto á. femea, que incha, e brota
A tamara depois, não derradeiro
Auxilio de Esculapio, ou se destine
A mitigar as importutJas tosses,
2!l8 OBRAS DE BOCAGE
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Ou dôr aguda, que as ent.ranLns fere,
Ou sirva e1nfim de conduzir ao prazo,
Ao termo a producção dos
Gravido assim verdPja o terebintho
Lá nos campos de Côa, proveitoso
Em males cem, se os A.ustros o bafejan1.
Tanto que foge o friorento inverno,
Tanto que se ergue o sol, e ás ursas voh·P,
E em distancias egunes divide o globo,
Roxeando a manhã, tnancebos vônn1,
E os troncos vão romper com largas
De uns, d'ontros bulsarno gotên,
Balsamo, que, applicado en1 ponto idoneo,
Phtysicas 1uirradorns nfug-enta,
E o frio hutuor, que pelas thuces lavra.:
E as fezes, que dus visceras se apossarn.
Agricultoras n1ãos na primaver;\
Talhatn troncos tambetn: se não t.alharern,
Opprim·e os troncos abundancin aquosn.
Damnos n1il se lhe seguetn, n«)s, carcornas,
E a sequiosa planta JnurchH, e n1orre.
Do máo, do redundante hun1or pPjada.
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Não de outra sorte os hotnens (ah !)
Que em lauta rneza, en1 ntnrados somnos,
En1 sedentario luxo a vidn g-osturn.
Estes de hutnores ao principio nbnndnn1.
Dr'pois arrastatn corpulencia fofa;
Tardo, e lirnoso lhes circula o
Cerram-se á cutis mansatnent.e os poros,
DuaR tn.mbem das principne!'; entrunbns
Soffre1n esta oppressão; a custo
No cerebro dortnente os frouxos nervos;
Rubro liquor, que veias
Ean lymphas viciosas degenera,
E o misérrimo enfermo em breve espaço,
Se a tempo não lhe acode a arte de Apollo,
qual caíra a accomtnettel-o o raio.
A alma se embóta, dos sentidos nua;
E a fatal redundancia instiga a morte
'fn prezarás, .tal,rez, saber se hei visto
Estas cousas, que ouvi: não é custoso
Dar se com certa planta de que o sumo
POEMAS DIDACTICOS TRADUZIDOS
Poros franqnêa ern nós de interna parte,
E innocente, interior prurido excit.a.
Quer nitroso Ioga r: por isso afferra
Purede annosa, de que ven1 seu no1ue.
Esta planta nubil pôr-te-ha patente
Mutua paixão, que senhorl\a as flore8.
Quando alvor matutino os céos bordava,
Eu de Mo1noranci aos gratos
Ou aos virentc·s Surenêos outeiros,
Ou do ás florestas, ou aos prados
Do ameno Chantilly, ou ás que em torno
}ló.trooa lambt,, Spórades chamadas,
Seguia o Pabio mestrn. Então, sH acaso
)fnis grave son1no pelos mur(Js tinha
Oppressa a parietaria, e se eratn lentas
A estímulos d 'Aurora as flores suas,
Meu sagaz preceptor, munido de alta,
Longa experiencia, e, nleditnndo
Com a agulha subtil sollicitavu
Logo os estatnes, que enrijavam logo.
· Subito, roto o carcere, podia
O espirito saír, voar Ros gertnes,
Largamente soprados, e a tardia,
Pulverea chuva .com tenaz H pêgo
Parar das tubas nas sorventes tnnrgens.
Sofrega a mãe cheirosa alenta o frncto
E morre alegre ao ver que avulta, e fica
Habil a renovar paes extinctos.
Ha outra terra productorn, é quando
Colhe, abriga as sernentes deslizadas
No fertil gremio, quando os !-láes
Alexando os canaes, os patenteam.
Bate o vagante humor nos tenues tubos,
Abrem -se os tenros que amol1ecen•,
E a pequena rniz, a pouco e pouco,
V a e concebendo os vagarosos suecos:
Em tardo movimento eis elles sobem
Por entre a contextura inexplicavel,
Por fendas cento ás glandulas, que jnzen1
De utn lado, e d'outro lado ali dispostas;
Agitados depois, os introduzHm
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300 OBH.AH DE BOCAGE
Estradas mil nas visceras da plurna,
E existencia, e sustento ali diffundem.
Está primeiro occu)ta a molle hervinha,
Apparece depois, converte em folhas •
Nutritivas porçoes, e no ar exulta.
Oh tu, qne as flores amas, tem cautéla:
Vê que barbara dextra a debil vida .
NAo corte antes do tempo a li.qnellas folhas.
Falta de nutrição, morrêra a hervinha,
E esperara o cultor em vão grinaldas.
Chovas em tanto, e zéphyros, e orvalhos
DAo que ai porfia as tenras hervas surjam.
O sen banho interior sois vós. chuveiros,
Sois, oh rocios, o exterior seu banho.
Bebe as chuvas a terra, as chuvas entram
Nas intimas raizes, e conduzem
Ao tronco seu, e a seus folhoso:5 braços
As aéreas correntes prestadias.
Nos meatos da cu tis em bebidos
Os orvalhos, do céo volatil nitro,
Dão animos aos suecos, e embrandecem
Os rijos vasos. Com lascivo adejo
De mil artes Favonio exerce a rama,
E do adejo efficaz, do affavel brinco .
Vida, por leis eguaPs, as fibras ganham,
E transpira d 'ali o humor inutil. ·
Como quando co'as roscas apertadas -
Se estende o coração d'um ludo, e d'outro,
E quando para baixo emfim se alonga,
E vomita a corrente rubicunda,
Elia, abundosa, e rápida, fervendo,
Por onde encontra ·estrada se derrama:
Os superiores, vasos
A alluviAo sanguínea acolhem, lançam,
E os menores canaes sanguíneo arroio:
V ae por membros, e tnembros a existencin ;
Mas tanto que na vivida carreira
O purporeo se etnpobrece,
Á fonte, ao coraçAo girando vólta,
Onde outra vez se filtra, e, reforçado
Pela substancia, do alitnento expressa,
As coréas vitaes mais livre
POBIIA8 DIDAOTIOOS TRADUZIDOS 301
Assim quando, ora aberta, orá apertada,
-A arvore na recente primavera
Co'a raiz sorvedora embebe os suecos,
A força faz caminho, o humor se eleva,
E tortuoso as viseeras discorre:
Rios por toda a parte o tronco animam,
E ávidos ramos, e sedentas folhas;
lias liquida porção, que entrar não sabe
As fartas fibras, e crescer com ellas,
E a que, luctando etn vão, sair não póde
Por entre os póros da rugosa casca,
Prompta recúa .por cnnaes diversos
A unir-se na raiz a novos suecos.
Estimulos a isto o sol empresta,
E o moto principia, ajuda, augmenta.
O ar se escandece nos pulmoes arbóreos,
E a mais amplos espaços vae correndo.
Opprimem-se os canaes, o humor se opprime,
E de tal arte a descrever aprendem
Não in terra pta, orbicular carreira.
Sáe de uma planta purpura rubente,
Sangue dimana, ao nosso,
Para os que usatn talhar os Cáspios mares;
Ou rocem do Boristhenes as bocas,
Ou Asia, e reinos Cólchi('.os demandem.
Maravilhoso objecto ali se admira;
O bórames assoma; em tronco altivo
Um quadrupede está, e é fructo d'elle.
O crespo véllo lhe resguarda os tnembros,
Pontas lhe avultam na lanosa fronte,
E olhos etn seu logar lhe não fallecem.
O rude habitador ·d'aquelles campos
Animal o suppoe, suppoe qne dorme
Ern quanto é dia, e véla etn quanto é noute,
E pelas hervas, que o rodeam, pasce;
Que tem nas carnes de ambrosia o gosto,
E que vermelhos suecos o humedecem,
Suecos de tal sabor, que os preferira
Borgonha ao patrio, deleitavel neotar.
Se a Natureza permittido houvesse
Ao raro vegetal d'ali
Se, balando, implorar podéase aaxilio


30t OBRAS DE BOCAGE

Contra o lobo voraz, tu presulniras
Lanigero cordeiro estnr no tronco;
E a teus olhos absortos branquearam
Gratnineos serros cotn rebanhos d'elles.
D'esta fonte, a 1neu ver, fabulH estranha
Pt·oveio á Grecia. Pavorosos dragos,
Touros de bronzeo pé, n'outr'hora espertos,
.. GuardAram véllos taes; cotn este dote
Fugindo pelas ondas foi Medéa;
D'elles pela efficaz substancia pôde
O ancião revocar viçosa edade.
Que existem plantas que animaes simelhan1,
Isto não prova só. A stratiotes
Vês, que em pouso nenhun1 parar costuma,
Esta planta ama o Nilo, e de alimento
Nadando se provê. A um leve toque
Foge logo a mirnosa, ou sensitiva
Estremecendo se contráe, se esconde
Entre as dobradas folhas; mas, expulso
Depois o medo, no ar se expoe de novo.
H a flor (e isto assegura auctor. não leve)
Amor chamada: nos catuinhos nasce
Do anno, e do sol; nern orgulhoso At.lante,
Nem cerrado arvoredo ali dão sombras.
Roxêa-lhe o pudor na liod,l face;
E se o tostado, o péssimo africano,
Quando ao lume phebêo risonha ondêa,
Dólos ousa exprobrar-lhe, e acçoes impuras,
Voz barba· a, ·e terrivel reforçando,
, Subito a virgem n1isera, innocente
Etn furias se desfaz, lucera as tranças.
E pelos ares a existencia pura
li""oge indignada, com horror do opprobrio.
Mas porque assombros peregrinos canto,
Se a Gallia creadora off'rece ao v ~ t t e
Mais subidos portentos ? Eia, oh Musa,
Aqui o ardor se apure, aqui releva,
Que soem versos teus, quaes entre os brindes
Seus versos o Garona qoer que soem;
Ou quaes, depois que os dons poSBuem d'elle,
O batavo, o btitanno urdir costumam.
Lá onde o Herálcio t.uJnido susurra,
.......

POEl\fAS DIDAC'l'IOOS TRADUZIDOS 303
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Léspero assoma, consagrado a .F,lora:
A deusa da fragrancia ali primeiro
Veste as roupas louçãs da prhnavera,
E a deusa da sande, a Medicina
· Ali conduz os seus; ali se enleva
No semblante irnrnortal da irmã deidttde:
E Hebe ali colhe do Tonante as c'rôas.
So de improbo ginete o pé ferrado·
Oosa afrontar os venern\'eis cumes,
Subito as hervas o protervo assaltam,
Acodem as irmãs coru proanpto auxilio:
Não cessam, não repousam,- ferve a lida,
E o sacrilego pé manquêa iner1ne.
Auctor nenhum, porén1, n e persuade
Que nas plantas existe ahn a, sentido:
Aos homens estes dons só foram dado8.
As arvores, arbustos, flores, hervas,
machinas sórnente, e a contextura
E varia etn muitas, é p·tsmosa ern todas:
N'ellas juntou sagaz a
A n1enores canaes canaes rnaiores:
Recto caminho elegetn parte d'elles,
E parte d'elles por veredas curvas,
Para aqui, para ali, corn tnil rodeios
Se dobram, já subindo, e j4 baixando;
Obliquamente a planta correm toda;
Fl, agitados nos vasos, que os dirigem,
Surgem n'este logar com lento sueco:
Surgem com sueco rapido n'aquelle.
As forças do terreno, e céo concorrem,
E a riqueza das uguas n11tridoras;
As que vee1n desatadas d'entre nuvens
Pura as densas abóbadas, e aqoellas
Que, roubados á terra os fecundos,
Lá no centro, apurando-se nas cavas·,
Em fontes sobem, pelo chão serpêatn.
Rico baixando do Abyssinio cume
Em rápidas voragens volve o Nilo
Do torrado colono as esperanças.
Anda a sabor do rio a statriotes,
E co'a vaga raiz o vae sorvendo:
Cresce, cria depois nas pa:trias ondas

, .304
OBRAS DE BOCAGE
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A próle, e em toda a parte hospede é grato,
As causas ignorando a Antiguidade,
Do moto enganador deixou cegar-se,
Presumiu-a animal; não d'outira sorte
Vemos dos leitos seus saí r ás vezes,
E pelos campos espraiar-se os lagos.
Proximo lá de Limerik aos muros,
Das subterraneas agtias por violencia,
Venham dos mares, ou das serras venham,
Seu l!lenbor desatnparn, e busca as ondas
Ilha assombrosa. O possessor se irrita,
Segue a fugaz, .e exatninar procura
Porque principio foge·; mas decide
A favor d'ella o Dublineu Senadb.
Tal a ilha Conti, tal a Delphina,
· Nos relvosos torroes, ambos insignes,
A ti, oh Saint-Omer, fronteiras
E vagabunda irmA taes se associatn.
E não tenue trabalho investigar-se
Da 1t{imosa o recondito artificio,
Expôr-lhe, descrever-lhe a natureza;
Porém tentai-o cumpre. Influxo, oh Musas!
, Nos articulos seus é cada membro
Mui distincto dos mais. Arte divina
Tanto cotn a raiz enlaça o tronco,
Tanto com elle os ramos, e com elles
As folhas liga tanto! E' 1na.ravilha
Ver-lhe os miudos nós nas tnoveis fibras.
Quando pendente os ramos nutam,
Na parte em que ha prisAo, que ligue a planta,.
Estreitam-se os canaes, e pára o sncoo;
Nos membros todos adormece .a vida,
Desmaia a folha, sem poder
Mas dentro dos oornpressos tubosinhos
O ar ee irrita do freio, e reforçado
De succoso vigor, sacode estorvos.
Torna á mimosa o descaído alento,
Surge outra vez, e vencedora, e leda
Os astros olha, que a victoria applaudem.
Nem da getula flor, nem te allacinem
Os milagres tambem, patente a callla.
Lá onde a prumo ·o sol dardeja raio1
POBIIAS DIDAOTIOOB TBADUZIDOB 305
Sobre o negro africano, onde arde a terra,
Das folhas tardo humor se desvanece,
Com sigo a secca flor se prende a custo:
Eis pelos ares férvidos, que abala,
Rebomba, qual trovão, clan1or terrivel;
Ao ímpeto recuam ramos, folhas,
De novo soa o grito apenas volvem:
D'um lado se combate, e d'outro lado,
Pugna a força co'a mennr força,
Té que das fib:ras os estames se abrem,
E cáe desfeita a flor, e jaz sem vida.
Do enregelado, nebuloso Arcturo
Teus raios, oh Vulcano, assim ruira•n, -
_Quando o soberbo lnglez tragar queria .
Co'as bronzeas fauces os MacltWios muros.
O pélago tremeu, tremeram torres;
A cabeça Nerêo sumiu no fundo.
Assim quando tambem por entre as brecbas
Da atterrada Namur caminho abriam .
As francezas, magnanimas phalanges,
Ao subi to clangor, ao som guerreiro
O inimigo enfiou, caíram rotos
Vítreos reparos .contra o sol, e o Tento:
Emfim cede o sicambro, e rende as armas.
Vê que virtude ao Léspero foi dada:
De céos contrario& duas auras sopram; · : .
Esta demanda o Sul, e. aquella o Norte. ·.: .
Estão tortas particulas viradas . . . . . : · .
Em curv-.s 4esiguaes, umas ao Euro, : . · · - · ·
Para o Zephyro as outras: com tres sulcos ... ·:.. · ·
Assignalados sio; mostre-se a causa. . · · · · . · . ·. ·.. _..
Soberba desdenba&ndo a baixa terra, · t . _- . _
Ouse insania phebéa ir de astro em astro. · .. _ -. -··:.
É cada estrella um sol, e brilha, e ferve; · .:
Sólta e:ftluvios, que os YÓrtices transpondo;_ . . .
Do adverso turbilhio nos_ pólos entram; ·· ..
Os ares o fulgor discorre manso.
Mas depois que por globos apoucados
Lá onde é mais tardia a ethérea mail&
Colhe a agua os ares, e se esforça, e ·tenta . .. l
Tocar no meio o !Ol, oançada, frouxa ·
Pelos rodeios· do caminho - -. .. . ..
-
YOL. IJI
...
. .
..
806 OBBAS Dll BOOA.Gll
Desmaia jM>uoo a pouco, e se condenBa
Egual ao grude, ou liquidada cêra.
EmtantD os globosinhos pelos claustros
Triangulares, admittindo o grude
Tardamente nos radios esculptores,
Até tres com tres sulcos assignalam,
E o sequaz torcem por vereda recta,
E formam spiras, caminhando. Ainda
Que adejem pelo céo contrario& ventos,
Ama o discorde irmão o irmio discorde,
E para o mesmo fim concorrem ambos.
Elles, quando das luzes despojada
Se dóe a madre Terra, e fica envolta
No espesso, triste véo, depois que as manchas
Sio faceis a dobrar, e i! molle a crusta,
Abrem na azul esphera eguaes caminhos,
E ambos eternamente fugiriam
Por direitos espaços, não lhe obstando
O crasso nevoeiro, ou ar mais denso,
Ou se aura opposta emfim nAo repellisse
Aura cançada. Em giro pois movidos
Por terra, mar, e céos, e pólo d'ella,
' Demandam o que d'antes demandaram;
Depois por onde foram retrocedem.
Invento dos francezes se imagina
Aquelle turbilhAo, e regra aos oautas.
Porém quando a aura em giros lassa volve,
Se por mais livre espaço encontra minas
De aço, ou magnete, ou planta prenhe d'este,
Ou planta, que d'aquelle se impregna88e,
Cáe logo ali, e odêa a estrada antiga.
Folga, blasona_, oh Léspero: estes
Nomeada te dAo. Mal que ligeiros
Do feno pelas minas se escoaram,
Fogem subitamente Já por onde
D'entre os respiradouros da montanha
Sóbe do &QO o vapor; depOis nas hervaa
Se estendem, se derramam, e attrafdos
Dos idoneoa meatDs, é seu gosto
Vorticulos fermar, quaes os grangêa
Na torre em longo espaqo a grimpa,
Qu .. empreata o magnete á eqaórea agulha.
POBVAS DlDAOTIOOS TBADUZJDOI
Eis com que armas o Léspero combate.
Apenas o profanam pés ferrados,
Toda a força os vorticulos apuram;·
O aço accommettem. Sáe, como de forja,
O ar já livre, e saltando arrebatado
Á parte onde se prende a unha ao ferro,
Com impet.o violento os aços bate,
E do bruto assoanbrado extráe, sacode
Os duros cravos, as pedestres armas.
Tanto em laço pasmoso estio ligados
Todos os corpos f Lei suprema é isto
Da mão, que os astros, e que as terras liga
E1n nó constante, -como liga as flores.
Nas mesmas, que signaes o sexo
Vou mostrar, e talvez te agrade o lêl-o.
Tem regra firme em tudo a Natureza,
\}enero, que procrêa, é viril seo1pre,
E sempre feminino .o que concebe;
Co'as armas genitaes as plantas
E as omnigenas flores geram todas.
Mas pétalos, e calices das flores
Não têm tal dignidade. Embora o vulgo
Grite, e á contraria opinião se aferre.
Tu, freixo altivo, os pétalas desdenhas,
A palustre tabúa é d'elles falta;
A grama, o trigo, a avêa, esse reforço
Do guerreiro animal, carece1n d'elle.
Tulipa, e selga os pétalos odêam,
D'elles tambem o heleboro prescinde,
Pernicioso á razão, sem elles vivem
A açucena gentil, a ingrata armoles,
O amarantho immortal, de rubra face,
Que tAo formoso nos jardins campêa;
E estas flores não só, mas outras muitas,
Numero, que ac) dos astros equivale.
Se esmiuçar as flores recrêa,
Ou lhes descobrirás sós os estames
No orgão procreador; e duplicado,
Ou só o ovario, sotoposro ás tubas,
Ás placentas imposto, ou todos juntos.
De filamentos é provido aqueDe,

. :
808 OBBAB. DB BOOAGB
É provído este caohamo de ovarios:
U n ~ m - s e nos jasmins, e althéa, e rosas.
Jámais notei que as estamineas flores
Abundassem de próle; a vida exhalam
Depois que V enns seus desejos c'rôa.
Curvas nos tristes lares, murcham logo,
Ou ludibrios do vento, o vento as leva.
Mas o ovario viuvo os paes extinctos
Cedo renova; o genero revive,
E Ieda surge a posthuma progenie.
Se, todavia, antes do tempo idoneo,
Antes das nupcias. mão cruel cercêa,
Fecundo castanheiro, .os teus estames,
Que em ramos apartados sem.pre nucem,
. Co'a esperança baldada a socia planta
Mirra-se de tristeza, esteril morre,
Se o vento sobre as azas lhe não guia
Aura fecunda do remoto esposo.
Esta aura áa vezes rege, instrne ás vezes
Por mar nAo conhecido errantes naotas,
E porto, já propinquo, lhes promette.
Os hispanos baixeis, de afoutas velas,
Muito além, muito além correr ousavam
Do sol cadente, e das herculeas metas:
Colombo exhortador lhes dava o rumo,
Galemas viraçoes lhes dava Eólo,
Eram pharóes as nitidas estrellas.
Olham com pasmo occidentaes Nereidas
Os bosques, invasores do alto pégo,
Olham com pasmo nas soberbas pôpas
Dura phalange audaz, votada á guerra,
Flamulas, que entre os Aquilos fioream,
E o bronze, que arremessa ao longe o raio.
Tinham. crescido, mingoado haviam,
E deposto o fulgor já sette luas;
De Ceres, de Lyêo se aniquilaram
As dadivas em fim: debalde observa

Attento Palinuro a agulha, oa astros,
O céo por toda a parte, o mar por toda ..
Braveja o marinheiro, arde o soldado,
Ata grilhio nefando ao mastro o chefe,
POBMAS DIDAOTICOS TRADUZIDOS 309
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Que, de Minerva cheio: «Eu sinto flores,
Os remos apressae (lhes diz seguro),
Terra vereis em breve:)> Os lenhos voam.
Eis montanhas ao longe, eis surgem campos,
E apenas os baixeis fundeam ledos,
Flora c'rôas lhes dá, Flora atavia
O seu Colombo com seus dons brilhantes. ·
A Florida, que extráe da deusa o nome,
D'ali nos manda o sasafrás cheiroso,
E ás vezes Cytheréa ali prepara
Liquor, a que pospõe festins de Jove.
Mas ao deixado assumpto as Musas volvam. o
Ou .é feminea a flor, ou viril toda,
Ou de genero mixto. Se apparece
Alguma nos jardins lustrosa, e bella,
De véo fragrante, e pétalos viçosos,
Que não possa entre as fàmeas numerar ... se,
Ou ent:re as de viril poder, oon entre
Hermaphroditas, esta flor nomeam
Da spadonica especie; é triste monstro,
Desvario infeliz da natureza.
Eis da mal v a, e das rosas o accidente; 0
0
Os pétalos traidores lhe arrebatam
Toda a substancia.; estames obastardeam,
E a soa antip;a fórma elles esquecem.
De vital nectar o embrião fraudado,
Langoece, morre, e Tem depois o aborto.
Não basta o sexo conhecer das flores;
Por differentea signaes se classifiquem.
Têm estas, não têm calicee aquellas;
Umas não coram de habitar seus lares,
De estremado lavor; Zéphyro aa gosa.
Outras brilhantes de ambrosia e fartas,
Na estancia natural ufanas vivem,
Na estancia, que e1n candor transcende a neve,
Que na viveza a purpura transcende,
Mandando ao iris, seu rival nas côres,
Entre as sombrias nuvens esconder-se.
Ha genero, que d'este assás discorda
Na condição, que ao ar não se atontára
A. erguer a fronte, receando a vida, o

310 OBRAS DB BOOAGB
Se eterna mAe de tudo,
Dons engenhosos tectos lhe não désse,
Os pétalos, os calices, guarida
Contra extremo calor, e frio extremo,
Vem d'esta classe numerosa turba;
Mas a flor da tristeza, a passiflora
A todas sobrepuja. Eu sei toa alma;
Tal flor, querido irmão, te entemecêra.
Que abeorto a vi I No meio uma columna
Está nAo sei que horror ameaçando !
Insta golpe cruel de férreo malho,
C'rôa como de espinhos jaz tecida
Em logar inferior, e de tres côres
O matiz lastimoso ofF'rece á vista:
.AB do coalhado sangue, o san.gue fresco,
E a que da morte a visinhança agoura.
Subito aos olhos meus se rApresenta
Victima um Deus pender ·do lenho infame,
Lá nas ímpias, sacrilegas montanhas
Da blasphema Sion, de um só por culpa,
E por delirio só de Adão rebelde.
Os pétalos mdicam varias classes;
Uma veste-se de um, de muitos outra.
Vê da boheravia a face, olha a da malva;
Sempre o ·mesmo não cabe a todos;
Na margem superior da flor inclusa
Só metade de alguns abraça os ares:
Tal fôrma apraz á thlápsia, ás catnpainhas;
E outras ( genero informe) outras em parte
Desdizem mais de flor, e em parte menos,
Alongados cercando estames, tubas.
D'est'arte a salva aos medicos, d'est'arte
Ás madrastras o acónito aproveita.
Especies ha, porém, que em sorte houveram
Leito brilhante no aprazivel centro,
E em cuja parte posterior se encostam
Oe tubos, as antheras. Tal florece
Ledo em palustre prado o roxo lírio,
Efticaz á sedenta hydropesia,
Áe tAMI&ee arquejantes: d'estes males
Vi tres, e a todos tres foi elle a cura.

POBMAB DIDAOTIOOB TRADUZIDOR 811

Men verso expôz tégora as flores simples,_
Por ordem as compostas se resumam.
Se mil flores mil calices possuem,
Ha mil no mesmo calice envolvidas.
Casta, que breve3 tnbos entretecem,
Em fórma orbicular surge, á maneira
Dos espinhosos, dos hortenses cardos;
Diz-se chicórea biformada especie.
Certa flor tenues tubos apresenta
Em Jogar inferior, mas tem por oima
Uma especie de lingua breve, aguda,
Ou espalmada, ou. aspera de sulcos;
Esta na flor asBOma, ou recta, ou curva,
E ora ameaça com pungente bico,
Ora profundamente está fendida.
Mas estas classes duas o Austro abnL9a,
E o bem-me-quer, ás virgens consagrado,
E a tua, óh Phebo, immarce88ivel c'r6a.
Sobre este objecto em opportuno instante ·
:Mostrava o preceptor qual estructura
Aos calices apraz, qual ás placentas
É fórma grata, e de que chio costumam
Folhas, tallo, raizes namorar-se:
E ioda mil cousas, que na voz apenas
Do divino Mario caber poderant.
Por isso de Fagon alta amisade
Houve gran tempo, de Fagon, que tanto
Aos medicos dos reis sobresaia,
Quanto co'a fronte laureada, excelsa
Se avantaja Luiz aos reis do mundo.
Com seus votos unanimes, e· ardentes
Clara Académia a si té uniu por isso,
E teu nome, oh V i l l a ~ t , soôn no globo.
Que espectaculo vi nos flóreos campos !
De cem partes da terra ali corrêram
Filhos do nume, anctor da medicina:
Os que bebem do Tánais os que bebem
Do Dannbio, do 'rámisis, do Tejo,
Os da fria Suecia, e culta Ausonia,
Como aquelles, que Erigena frequentam,
Aptos ás guerras,· ás sciencias aptos,
312. OBRAS DB BOOAOB

Promptos á morte pelo altar, e o throno.
Ante a primeira turba, a Phebo acceitos,
Guarida contra a m o ~ , e dos 1nonarchas
Derradeira esperança, egregios moços,
Com que a fecunda Gallia honrára o mundo,
Nas dextras os aeus lirios tremulavam.
Concorrêram tambem quantos na Grecia
Arvoram tens pendoes, oh Medicina,
E os que o Perú mandou por vastas ondas,
E armenioe, vindos lá da plaga Eôa.
Mas nenhum bem perfeito ha sobre a terra.
Eis chuama usada a cercear nas faces
Pello viril com mercenario gume,
V acuos os templos baoohanaes deixando,
Caminha apoz os mais; porém diversa
É da nossa vontade a mente sua.
Vivo ardor de saber ali nos guia,
E elles, ou soltam desregrados cantos,
Ou co'a gralhada vi nos ensurdecem.
Que opposta multidão I NAo d'outra sorte
Voam d'aqui, d'ali zangAos, e abelhas
Emtomo ao rei, mal que na quadra amena
Busnrram o signal, e o chefe alado
De Flora nos festins vae regalar-se.
Unem· se as turbas, o logar 1e aponta,
Corre-se aos campos. Co'uma flor nos dedos,
O nosao guia então desprende as vozes;
Daa hervas mostra os generos, e mostra
Virtudes aalutiferas, que eneerram.
Da boca de Sherardo attento! pendem
Olhos, e ouvidos; a carreira esquece
Para escutai-o o Séqnana: pasmadas
Vós, Dryades, eataes, e até D ~ a n a •
. Elle ensinava como lá na origem
Do tenro mundo seu Auctor fizera
Epitomee das plantas as sementes:
A sua luz é Deus, Deus é lei sua.
Concebe a terra no virgineo seio
O germen amoroso, os frnctos crescem,
E em aprazado tempo ali rebenta
Uma ftor, aqui· outra. Alegre, affavel
Cynthia esclarece os· hospedes· recen-tes· ;
Com fulgor avivado; o sol mais·puro
Pelo attonito oéo· lhes presta o lume.
A mão do Eterno -desparzira os germes·,
Mas outros mui subtis ·pô·z dentro d'elles ·
Que dos olhos mortaes á ·se negam;
Germes tão n11merosos corno as plantas,
Que Dóris, e que as N áyades nas aguas,
As Dryades nos bosques, e as N apéas,
As fragueiras ·oreades· nos ·montes,
Pomona em hortos, pelos campos Ceras,
Teni creado até'gora, e todas quantas
Hio de crear, té dissolver-se o mundo.
Nenhuma existe, ·que não preste á vida,
A todos o gran N umen betn fazejo
Deu salutar virtude: ellas expulsam
A fêa, assustadora enfermidade;
Com ellas os banquetes se ataviam:
Um Deus em quantas v@s, um Deus conheces.
Mas porque, desmanchando amenas c'rôas,
'
.. . ,.
: . ' (
Flora, as N ymphas dão ais? Vaillant! ... morreste.
O seu Edipo ás flores foi roubado,
Ai ! Etn tão breve tempo ! Ai J Eu já' gora,
Eu nunca mais discorrerei comtigo,
lfeu caro preceptor, bordados campos;
Não me ha de alumiar tua doctrina,
N io, rico de despojos das florestas,
Volverei quando os véos desdobre a Noute.
Oh dôr I Oh desventura I Imaginava
Que das flores a deusa, a . mãe das flores
De ti colhesse, robusto,
Luz, e gloria immortal; que a Medicina
Segura dé1se pelo mundo inteiro
Passos audazes, séndo tu seu guia,
E que a fuga da rapida existencia
Gran tempo, em teu favor, se retardasse.
Elle, expirando, elle, nos céos absorto,
A ti, que amava mais que as outras flores,
A ti, lostral emblema, e triste imagem
D'aquella morte porque todos vivem,
A ti, oh passiflora, ioda sustinha

A boca desmaiada, a vista errante;
De lagrimas piedOIIUI te cobria,
E a alma exhalou, regando-te com ellu.
O plectro aqui me cáe da mio convulea,
Aqui seu. termo a epiatola me roga.
Cousas, prezado irmlo, que remanecem,
Serio com brando verso em outra expostas.

'
I
I
1
NOTAS
-
(Ptlfl. 195,. Nno 14)
O preatante Vaillant ........ .
Sebaatiio VaiUant, celebre botanioo. (Natural de Vigni, em
Fran9a, nucido em 1669, e falleeido em de maio de ln& Be-
ereven varias obras, e entre ellas algumu de grande mereci-
mento).
Penetrei o que Baya nio penetr&nm.
João Ray, illnstre naturalista. (Naeoido em lf&l, no condado
de Esaex, em Inglaterra, e falleoido a 17 de janeiro de 1706.
E' auotor de uma Hutorio dtM P'lMti.M, impreua em 1686,. 8 vo-
lumes em folio, e de muitas outra& obras).
(lbid., ..,.., 6)
E ignoto& aos Malpighi• aoube &rc&DOI.
:Maroello Malpighi, insigne. (Nuoeu em Crevalmera,
no• arredorea de BoloDha, em 1628, e morreu em Roma no pa-
lacio Quirinal em 29 de novembro de As auu obras foram
oolllgidas e impressaa em Londres, 1686, 2 vol. em e va-
ria• vesea reimpreYu).
(PGfl. 801, .,.,. 2'1)
O boramee uaoma. . •......
316 OBRAS DE BOOAGI!
( Pag. 310, verso 6)
.Mas a tiôr da. trist<-za, a paesiflora, ete.
F los passionis, o ma.rtyrio.
( Pag. 312, -z:erso /JV)
Da. boca de attentos pendem, etc.
c;.uilhern1e Shera.rdo, famoso botanico.
. . ,_ ,·.
...,. · ..
, ' .: .
.
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ou
O TRIUMPHO DA RELIGIÃO
-------
l)RAMA
lWt R. D" .A R N" .A"'' D
TRA.DUZIIlO JLM ,.Ji:Jt:::)nt)


ACTORES
EDPR+MJA ••••••••••••••••• I •••••••••••••
' r ~ o ....•........
• • • • • • • • • • • • • • • • • • •
8oPmA •.....••••.•.•
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • •
c-mr.u. ...........•.....•
• • • • • • • • • • • • • • •
A acena ê no convento de • • •

I

ADVERTENCL\ 08 TRADUGTOR
O cnnho original d'csta poça, excelleute composição de
Mr. d'.t\ruauJ, 1110 animou a traeluzil-a para a tletlicar ás al-
m:ts iCnsi\·eis. Uma lucta. vigorosa. eutrc a religião e o amor,
é a acção J'cstc tlrama. cpisotlios que a aduruam, travaJos
destramcute co•n ella, dão uma perfeit:.l. ideia dos talentos do
auctur, e do vaasto couhc<•ianento, que teve Jo coração lnunano.
O coutraste ele caracteres, essencial ás proelucc;ücs thcatracs,
está aqui sustentado corn magistcrio: o qne poderd. observar
o leitor iustruielo. Pcrig-osus c tcrriveis embates com que os
sentidos assaltarn a razã.o, apuram (por assian dizer) as cclt!s-
tcs verdades, que ado:-aanos; e es"tes embates uecessariameute
ae haviam de empregar ua presente ohra, lnstraudo muito
mais com .ellcs o triumpho glorioso da Attentcm os
espiritos conhecc•lurcs elo si mesrno, e de uma. das primeiras
artes, que a sceua é o quadro moral Jo homem, que ali sem
reuuço cumpre cxhibir seus defeitos, suas paixões, seus cri-
mes, ou suas virtudes, e piutal-o aiudã mais como é, que como
devera ser; finaln1eute (eu o repito) o esplendor do venci-
mento consiste nas difficuldadcs, que o disputaram, e a vero-
similhança padeceria na obra que pnLlieo, se a victoria da
religilo coutra a natureza fosse menos ardua.
Emquanto á versificação, a do original ó harmoniosa,
aceommodada. ao assuanpto, branda, ou cnergica, S(•gunelo o
gráo e qualidade da paixão que exprime. Estrernei-me o (}Ue
pude em irnital-a, e em evitar os gallicismos, de que al•unda.
granelo parte dus nossas traducções, e que nos enxo\·alham o
fertil e magcstoso idioma, só indig-ente e inculto na opiuião
das pessoas, que o estuela.ram mal. Cuielci egualanente crn con-
servar na dicçlo t<Jda a fiJeliJa.Je possivel, excepto nos loga-
VOL.III 21
..
322 ORRAH DB BOCAGB
rea onde os geni_os das duas lingnas Jisrordam muito; •
apo•lcradõ do peusarneuto do auctor, tractei de o
a 1neu modo, couformaudu-me u'itito ao sat..ido, mas pc,uco
.executado preceito de Iloracio:
:A?ec verbum ve·rbo · curabia reddere fidus
etc.
Resta-me advertir ao leitor, que os . . . . . indicam certas
ou pausns, naturaes ua expressão de afre- •
etoas, e que uo uso pontos sigo fielmente a Alr. tl' Aruaud..
EUPBIJlll., OU O TRIUllPBO Dl R[LIQilO
ACTO 1
Ergue-se o panno. A scena rcpresPnta uma cella escassa-
,
n•eute gnarneciêla. A • ponco distante da parede,
está uma tumha, ao • da qual z:;e vê uma, alampada acl·êza.
Do mesmo mais para a bocca do Theatro, ha um gc-
nuftexorio, e n't!lle um crucifixo cotn uma caveira aos J•éa.
Sobre o genufll'xurio varios livros de devoção. Algu-
mas cadeiras ebcondem um pouco a tumba ás pessoas, que
entram na cella. Começa a romper a manhA.
SCEYA I
EUPUEJI IA. (1)
Que! N'este leito qun banham
lfinhns lugri•nas n 'este Jeito,
Onde velan1 conunigo a dôr, e o
Onde a Jnet.s olhos o 1ueu firn se off' rece,
Ontle o n1eu corHção de tliu en1 dia
Se de,·e ir ensuiundo para a 1norte;
No féretro, que t'spcnL o n1eu caduver,
aindn. nutrir zne1norius tornas I
Que «..igo I U 111 louco aruor, que os céos condemnam 1
Oh Deus! de tu livrar-me d·este
lnstincto criauin«ãso ( t) ? . • . A 1.ua posa
Coan lagrianas, coto uis aqui prostrada
linplora o teu soccorro, a grnça tua:
(1) .Com uma das mios sobre a tumba, na acçio de quem
se
(2) Deixa a tumba, e corre a prostrar-se ante o genu1le-
zorio.
824 OBRAS DB BOCAGE
O vento a teu enbor zune, e se ncahna,
As ondas nn1on e as
Teu sôpro o raio, o raio apaga,
))a terra a face tu udns, eau querendo,
E não tnodas, Senhor, e a ti nào chamas
U ana alrna, que te foge, e to é truiuora?
Não

eau bonança a tentpcstada,
Que os sentidos 1ne ott'usca, e
Ah! estes sentiruentos,
Esta paixão, tueu crinac, e tua oJt.·nsa;
Fere, cornpnnge urn cornção rebelde,
Que indu soffre uléan d ·a,luellas,
Que cingiu pnru seaupre en1 teus altares ••.
.Se a desaan par,\ o céo, l] uo é a ,.i rtudo?
A tninha ean ,.flO reclauu1 os seus deveres.
],ara \'encer Eupherniu, oh Deus supremo,
Ve todo o teu poder tu necessitas. (I ).
Escuta l}linhus preces, vê pranto,
o puro nauor, e a paz celeste,
Cessern tninhas angustias, tneus perjnrios,
Triunlph:•, reina só n'esta ahna uffi,cta.
E tu (t), que todos coan pavor conternplam,
Que lição 1110 não dtis en1 teu silencio !
Si1n, tu és tneu retrato ! eis us graças
Corn que intento encantar! pó! isto! .••
E inda tne atrevo a atnar! Oh céos! Eu morro (3).
SCENA II
Sophia, Euphemta
EU PB ltKI.A (4)
Entllo, qneric)a irn,ã, piedosa nrniga,
O sngt :ado tnini.- tro, en1 cuja .. bucca
A \• erdade nos falia, e nos inspira, .
,.irá n1unter-me a languiJa virtude,
Dornnr utn coração, q uu no céo resiste,
·unir ao seu dever tninha ahna indocil ?
1) Prostra-se ainda mais, chorando amargamente.
2) corn atubas as mãos na caveira. ·
"l) lutliuada para o chAu, con1 extrema agonia.
4) Levantando-se arr.,uatauamcnte e iudo para Sophia.
DUAl\fAS TRADlTZtnOS
-
BOPHTA.
NAo poderá tnrdnr; ficon Cecili,.,
Con1 ordctn dA chamnl-o, e condnzil-n.
Jl:1s que pertnrb:açilo, tnns qno CPQ'tleira
Tornou do ti? Con1o
])cb:aixo qncrida f;nphcrnia,
O Yeneno mortnl de utn ntnor
De nm nrnor 8em
A pflzn r dn rnzfio, do qun
Te in:ftamtna o que é já. cinza? A tuorte .•.
EUPHEJIIA
825
A u:orte
NAo lhe pôde ronbnr minha ternura:
Vivfl em meu ,,.i,·e .. e mil Yf\ZPS
A Deus, ao mef'tno n 'clle o prefiro.
Nãó pretendo córar o enorn1e
Do meu critne f:atal; mais do que nunca
A tnor a sua '"ictiln:l atormenta:
Dns contra mirn vnlP, se arma,
Té no leito da Jnorte me
n'el1e o pE'zo de meus rnales,
Ia CPrrando os olhos lacritnosos:
O espirito, caído entre umargurns,
No son1no do sepulchro se
Qne sonl1o! Que eRpectnculo. terri,·el
lle nssombrou a n,gitnda pl1nntnsia!
Á luz escn!ilf'a de fnnerea tocha
C(l\·nva n1inbns nncias, ID('11S
Por entre e!lpectros, l:rrYns:
Eis scintilla um rE»1ntnpugo. e
longa escoridude, eis ouço nrn grifo
Fnnebre, pnvoroso,- n terra brnma,
E hurrida boccn de repente abrindo,
Boltn. urn envolto en1 nC'gras vestes;
N n dextra lhe reluz hnido ferro:
A n1im corre, os cnbPllos se tre hPrriçnm,
Chesrn, e
Sinvnl, co•npf'tidor do On.nipotflnte,
Sinval, qne da minha nlrnn devo,
Qne sempre tnnilÍ'1 e mni!õl n ...
cVem, segue (elle n1e diz) segue, acotnpanha
..
.
826 OBitAS DR BOCAGB
O tt'u primeiro ,·ão resistes:
As a rus de utn l)eus sofrrPgo, e zeloso
l,ri,·ilttgio não te1n para conter-1ue.»
N'isto n1e nffcrra, e subitu tne
C
' ·1 - ' d
o 111 sacr1 tnaos o Yco sngrd o .•.
A meu pranto, a tnt»us gritos
Por entre ondas de sungue, e tnontPs de ossos,
De em sPpuJchro elle nte arrasta,
N·utn d't·lles qua8Í túurtu 1ne n1
Cáio, -- sonte-tne o ferro nns •
Eis que fuzila o e nos ubraza.
BOPBIA.
, .
Essas vAs illusOefl, que géra o somno,
A noute as traz cont8igo, a noute as
Tu tu preparas o ,·ent-no,
Que exacerba o teu tnnl, tu :•guçaa
A • que se encrava no teu peito.
não é nssian que se triunlpha;
essas lewbrança!i\ perigosas.
'
EUPHEMIA
Como hei de A h J Qno o fogo,
O furor das pnixOes tu não conheces!
Não cura irtnã, qu:rl é o encanto,
Qual a furça de u1nur, e os seus estragos.
BOPDI.A.
Tc'ns-me por e ta
Tnl nüo sou, tn .• s quiz dur·-tne úqnelle-
Que só deve occu pu r
Tu znereces ingPnno. confiança;
Contetnpla no qne vou tnunifastnr-te
Quanto de,·o ao favor d:a Pro,·idencia!
vezt»s o. o exernplo basta,
11 inho. alma de se nbrir coautigo.
J,ura a f('rnn ]lUiXáO nasci
E de n. nutrir fui
Tuc.lo o que me cercnva, rne nttri.Í:l,
l•rendendo-rne a vontade eu1 doces laços.·

llRAifAS TllADUZITl08
Proxitna ednde ern que se adtnira
Dos trnnsportt•s, que f;entP, a altna inquieta,
ln. A 111or !-isrnal:•r • tneu pf'ito
d(Jtninio funesto. Eis nbro os olhos,
Vejo n1inl::•s a q·ntlrn deviam
J,isonjeur do mundo ps \'àos prnzeres,
Utnn e.m profunJus rnngoas
Carpindo o qne aos pritnt'iros dias
Do seu consorcio lhe expirou nos braços:
Outra, qunsi a tnorrer, tuisera n1nnnte;
PerJidn. por urn vil, e nhundonndal;
)leu pafl, tornado f:!OB seus no fln1 da guerra,
De ilnpr·o,·iso cttÍr
E o sen 1nnis caro entre cadeias,
OpprinaiJo corn desgnu:.a.
quadro terrivel 08 olhos
"l'nra todo o universo. Observo
Os senhort's. do anundo, e n 'clles vejo
Corno nos rnnis o o flnj.)o;
Angustias sobre o throno nté diviso,
a purpura dos reis bunhndn ern pranto.
PurPce que deveria
Ab:tfur o mitnoso sentÍinento,
Que ·respirnva etn n1irn; porém debalde
1Iinhn rnzão se oppunha, n1urmnrnndo,
A pre-cisão de anua r, á '·oz, que solta,
E co1n que pcr8u:tde a Nnturf'zn.
llt'O conu;ão maYiuso me
Ntio lnctei cedi, fir1nei o errante
J)eSf•jo irresoluto. Em
Encher, furtnr de arnor totla a minh:\ alma.
para objecto urn De-us
Desde então se dtlsfez na minha
Qual f!Otnbra fugitiva, o mundo todo;
Dt!sJcnhPi lhe as cavillosas,
E d;, esperanqa lisonjeira
Dus gr-dndezas, dos contra. a vontade
De ntens parentes, para o claustro corro.
I>eus acolhe o mP.n voto, etn Uens consigo
Tudo qnnnto appeteço, elle mo inflarnn1a,
Elle · 8Ó é bastante n. tneus tntn!i'portes;
Senhor dos coraçOes, e dos desejos,
327
828 OJlRAS DE BOCAGE
8ó elle os o o e!i\poso
N 'elle procnr<'i. De dia cu a dia.
O rneu fér,·iJo nn1or npurn, e cr<'sce.
E8te runor, que nfio pende dn fortnnn,
Não l"<'ceia o de,..tino, o firn
Que es,·ncce o cnpric]H,, o tE'tnpo, n Jnorte.
N no, nfto n 1110 Ulll prof:tno
Que ou dt•ixn de on tnucln, ou n1orre:
Enle,·o-nle n 'unt e só me nLrnza
O irr Juorhll de' :nnor eterno.
Ah! nnuuln irn1ã,
n·cstn inf'ffil\·{'1 gloriu: S'Jin('nto
De,·e reinar no cornção do Euphemia.
EUPHEKIA
Com lhe peço, que me arrnnqne
· no de,·(lr, e n h('nra oppostas.
li eu Este n1ilngre é im possivel!
'fudo n1e na idéa
Un1n infl('Xi\·('] n1fie, n mens
N <'gnndo ós 111inhns
Que, C<'l!n, injustn, idolntra de um filho,
J>arece contra rnitn cru<'J
Que, EUn1indo n'nm clnustro os meus desgostos,
Saborên o prrt7.('r, prnzer terriYel
De separar dons cornçocs
Etn qunnto o n1•·u nmor •• A h! Foi t .. :vrnnna •.•
I)orént é 1ninl1n .. 8t'rnpre l1ei de nmnl-a •••
Indn que Hin,·nl deu cnusn n morte ..•
Esta iruns,rrm me e 1ne l1orrorisn f
En propria cotnplPtei sncriflcio,
Eu propri:t n1e curvei a utn PtPrno,
A tunn lei ••• C> h E que
Pflrd,'ndo o n1eu Sin"yal, pPrdE'r o rnundo?
E indn um DPns! Jncia lnmPnto
A qnc tne ·]ign! A h ! Não. não
Corn tnntns nffiicções ••• {'ll dcsfnllPço .••
8in,·n1 ••• tornn, cruel, tornn no
Tn nle nteus YofoQ ••. Pn te sigo
Á lual•ifaftão dn morte. Ah ! Df'ixa no mPnos
,
Para Deus o meu pranto, os meus rernorsos.
DRAIJAS TltADTlZIDOS
SOPUIA (1)
Ami,ga! Trmn.! Convé1n, que dissimules
&sa perturbação.
Como é possi-rel.
Se cresce a cada instnnte?
'
III
Euphemta, Sophia e Cecilfa

SOPBIA
ALi vem Cecilia,
Teme •.• (2)
J:UPHE:MIA
Etnbom a sPns olhos nppnrí'ça,
E nos de todo o uni o tn«'n dPlirio,
Jfpus mnlPs, minhas .. tnen crirne •..
Saibam todos, Sinvnl, que por ti n1orro.
CECILIA 13)
Brevemente o
De urn • qnr, f:atigndo
De :un«'nç.n r f'm \'üo, já pr«'p:tra
A ccrrar-vns d:1s • o t.hesouro.
ler 1 do eh-mo,
TendPs por cirna n chulera celu:-te.
rehelli;\o,
Parn irn ãs. nnte Hlt:trPs
Er,{!ne a peura de a dom
1,(
11
rtinacia expiae. Se corn ros
Não recl:unncs o ntnor dP. nn1 l)t'US piedoso.
Se cotn vi v o e dôr sincera
(1) Anf'rtnniln-a nos Lrac;os.
(:!) Para J•:nphPrnia.
(J) Em tom se\·ero para Enphemia.
32!J
830 OURAt-i llK BOCAGE
As aras não banhaes de amargo pranto,
Trf\tnt'i, não que una severo,
ltnplacuvel juiz, pro1npto á sentençu,
A que se oppôz téqui hondntle:
Não lhe 8(•fl're a justiça o pertlour-\·os,
N1\0 vos póde ahsol,per; eu vt-jo, en
Seu braço vingador uo raio,
E o. pés nhriretn-se os infernos:
Vós cais, \'Ós cuís n 'esses a bysntos
De desesperação. . . de l•orror. . . de raiva • . . (1)
SOPHIA. (2'
Que di1.es, furiosa? retr·ato
Não é, não é de um Deus: tyntnno o pintas;
Quando f:1lton nas arns u pitttlade ?. •
Vae, n1inlu1. irtnõ., con1 snpplic;&s humildf's (3)
Do tnais terno dos paes lanç1\r- te ás plantas;
Levn-Ihe um cornf:ão brando, ntnoroso,
Qne saberá por elle inda opprilnir-se,
Padecer, e .inAarn1nar-se; extingue, npnga
Essa inutil paixAo, qne os céos p•·ohiLeau;
N ãs a victoria a teus sentidos;
Lucta, e vence a rebelde
Que obsta á gloria inunortal de subn1cttere8
A vontnde á rnzão; suff,,ca os gritos
])a ciosa, inuignuda nntnrezu;
V ôa ao teu Daus, e d:í -lhe n sna tssposa.
Elle do· céo te chatn:t., te exp "rin1cnta,
Presta as azas da fé aos
Da graça venct'dora o puro fogo
A tua nhna penetre: ah! ui
O Senhor a creou, para negar-te ·
A inspir:ação do an•or eterno,
Que, enlevado no céo, destlenlul o 1nundo:
Se n1gnrna vez nos fere, arna-nos setupre.
Anjo exterminador, anjo terrivel
Não temas no tninistro, que te envia:
Anjo consolador acharás n 'elle,
(1) Enphemia se perturba a estas palavras.
(41) Com incli$rnação para Cecilia.
(3) Para Euphemia e•n tom afi'eetuoso, e abraçando-a.
• -
-
DRAMAS 'I'RADHZ1D08
Teu prnnto enxugará com mão piedosa:
A religião sincern é indulgente. ( J)
Ha q uean possn forann r dt idéa
I
Ve u1n Deus, que tnais que tudo amar devemos?
IV
Sophia, Oeoilia
80PBIA
um transporte inevituvel;
a virtude, e1n dPrnasin,
Aterrou cégamente u triste Enpheanin.
O ameaço, o rigor sã') proprios do erro,
Reina a na é 8anta:
O amor a inspira sen1pre, o .1uedo nunca,
CECILIA.
llinba cólera egunla o 1neu f'spnnto.
Conto! Ern vez de njndar-rne urn ·pio enfado,
Qnando a can&1. do céo zeln r devi eis,
p:aixoes e8candalosnsf
Quereis que Euphetuiu, indigna de chamar-se
!\ ossa irrnã, seu perJão de IJeus espere,
De que ultraja!

tlOPHIA
A h! Setnpre rigores
Haveis de alimentar n'alnut. Fevera!
Fundareis seanpre a gloria na aspereza!
Pensae, pensne melhor. Uutnpre de novo
Dizer-vos o que dieta, o que suggere
U rn senthnento innato? A l)i ,. indade
Não póde ser cruel, nuncn se esquiva
Vus lng.rhnas, que sóltt1 a dtlr sincera.
Que é, qoe vale o poder se não perdôa?
Aquelle, que ren1iu a humaniunde,
Não por ingratos o seu sangue Y
(1) Euphemia se retira na maior afllicção.
331
..
332 OBRAS DE BOCAGE
Qne é cnlpndn a confessa Euphemin:
Elle !Ze de nuxili:al-n,
En,·inndo-lhe grn<:a no frngil p«'ito.
S11stentemos o urhusto, qne ·yncilla
Em terrnos de· cnír, sirn,
Nossa ir1nã, larnentando-lhe a fruqucza.

A fraqueza ! Oh Dens, que n impia eEqucce,
Ern que delictos cairá teu raio,
Se o podér PYitnr crirne tão feio!
DE'sdo que Enphetnin profttrin Yotos
Nun<'n 111n idolo ,·ão lhA snin d'nlrn11:
Da cinzn resur,g-intlo, elle
De tnomento ern tnotnento o S<'tt dotninio.
Que! Depois de ,)pz nnnos ue queixun1CS,
lJe tle lngrinúts,
Arde, cega de nn1or, por frios O!i=sos! ·
Nos rnostrn uma nltnn, cnda vez tnais presa,
Mais criluinosn I
SOPRtA (1)
IrmA ..• vós nunca amastes.
CECILIA
En1 lnços vPr!!on hosos eu cnptiva !
Eu arnar I Só a Deus.
V
Sophta, Cecilia, uma criada (2)
CBJADA (3)
Com mllitn instnncin
Uma mnlhPr incognitn. en1 segredo
Vos quer fallar •••
CECILIA (4)
Qne qualidnue inculca?
(1} rl'nma g-rnnrlP. pansn.
(2 No orig-inal é uma leiga do convento.
(ii A n1uh:.s.
(4) Com vivacidade.

DR."MAS TRADUZIDOS
SOPUI&
Seja quem fôr, devemos attcndêl-a.
CRIADA
Tem um ar nobre, ntn nr affectnoso,
Que lhe adoÇi\ n tristeza, e qne interéssa;
Julgo-a digna ue dó: talvez desastres ..•
80l'BI.A. (1)
Entre.
CECILIA ~ 2 )
Qne, minha irtnã I Tanto importuno,
Tanto indigente !
SOPBIA {8)
. V cnha, não me ouvistes? ( 4)
SCESA VI
Sophia, Cecilia·
SOPJJIA (6)
Tüo dum condi,:ão me nfllige, e ussombra.
lntuginaes cunlp,.ir co'a lei Jivina,
E á coananiseraçãtJ negites o preito?
A vossa devoçf1.o feroz, e agreste
Scrnentes de odio, e cólera attribue
A UID Deus de paz, de :unor, e ue clemencia t
Não gostareis o jubilo inefl'a vel
De autar, e soccorrer os jnfelices,
Chorando, e consolando-vos corn elles:
É isto, oh religião pura, e querida,
A tua mansidão, e o teu caracter 1
Nunca an1aste, ir1nã, já vol-o ditse,
Debaixo de cilício, que vos punge,
1) Em tom rapido.
2) Para Sophia.
d) Para a criada, alteando a voz.
4) Vai-se a cria•la.
õ) Em tom sentido.
833
;



334 OBBA8 DE BOCAGB
Se azeda, se enraivece o vosso zelo.
Se tivesseis ntnudo (nh !) sentirieis

De uma grnça rnuis doce nttrnctivos.
f) Deus beneticif)S incensltrnos:
Foi seu aanor, não foi sun justiça
Quem o levou por nós ai cruz, á morte.
OBCILIA
.Cuidaes, tnlvt'z, que o céo do vós se serve
Pura 1ne alnnai_ar, parn dictar-tne
As jnst:as leis? Sl·i
llns eu ntn tropel de rnendicuntes
Rodenr e perttu·Lnr-nos, ·
Associando nos canticos di,·inos
Seu prnnto. queixurnes. Os altares
lrnpOetn obrigaçoes, que ern todo o tempo
Fonun, são respeitud;as. l)or vPntnra
Não devemos orar? Se vos loiubrasseis
De •••
SOPBIA.
Façamos o bem, depois
VII.
A condessa de Orcé, Sophfa, Ceotlla, a orlada
OONDESS.A. (1)
L ma triRte mulher
Qu:asi ern lngrinu•s, se utreve
A vir n1anifestar-vos os .seus males ••• (2)

80PBI.A.
Ide-vos (3).
(1) A condessa manifesta a sua infligt'neia por um vestido
preto tios mais ordinarios. no fJU:al vê tod;.a.via o asseio de-
cente, que caouservam sempre os infPlizes, que tiveratn um
nascimento honraclo, on uma J.oa f,dnca·açlo. Cecilia olha para
ella eom indiffereuça o Soph1a com uma attençio
compassiva.
(2) Para Sophia e ·
(->) -V1vamente para a criada, que sie.
DRAIIAS TllAUUZIDOti
-------·. ---- --·
VIII
Sophta, a condessa, Cecilia
CONDESSA (1)
Setn ninguem, destitnida
De todos os e canc:aJa .
De tunn ·vida
De ver olhos crueis, on desdenhosos
Fitnr se ern Illirn, pensei que nos altares
Encontraria o
ahnas ó. virtn,le:
Aquella compaixão ••. que o n1unuo ignora.
80PBIA
.A.ssentae-vos, senhora. (2)
CECILIA
Afl. preces ( 3)
Chamam Deus n favor dos
)lus o ruosteiro, npenns livre
J)e uma di,·ida inunensn, está
Dos 'soccorros, que pre:;ta aos indigentes.
A caridade ...
CONDESSA (4)
Oh céos!.A qne mais póde
minha de;;grac;a ! E ,·ós,
T:1111 bern s<•is contra tnitn ! Não, não irnploro
A terna <aridade, eu pPço •.. a n1orte. (5)
Que novo golpe, oh Deus !
1) Continuanilo.
2) Para a condessa com ternura, e ella se assenta .
• -s) J4,riamento. ·
4) Chorando.
Chorando mais.
835
836 ODitAS DK BOCAGE
--------------------------
BOPHIA. (1)
• A h q ne fizestes,
Cruel ? ide-vos; com isso
Lhe dobrastes a dôr. . . ( 2) deixae-nos. ( 3)
IX
A condessa, Sophta
Senhora ••.
SOPHIA (4)
COXDESBA
,
E esta a lei officiosa, ( 5)
A religião suave, o cornpassi\.il!
Onde hei do, céus ! uchar piedade !
80PBIA
Onde ? Em meu coração. Crede, senhora,
Qne junto ás nras é quo chora, e geane
Sean custo, sc1n viul .. ·ncia a lnununiJade;
Não julgueis qne Cecilia. a desconhece. ( 6)
Descul pae-a. culto -grave, e triste
Co1uo 4ue faz brazft.o da austeridade:
)las h:t. de larnentar•vos. . . t:iitn, quem pôde
Sern coinlniseração ver-vos, e ouvir·vos?
CONDESSA
Eu não venho, senhora, Fnpplic:tr-vos
Dádiva pia, ne1n cubrir de opprobrio
ultianos instantc:3: porque :t. ntorte
Já sinto . Oh l>eus irn1nonso I
I' arará teu ri cJ'or nas aninhas ?
o
(1) Com enfado para Cecilia.
( Cecilia fica aiucJa.
(-i) Cecilia vai-:;o raivosa.
i
4) Asscutantlo-sc junto da. condessa, apertando-lhe a m5o .
• j) sem reparar uo quo lho diz Suphia.
ô_) A olha, va que Cecilia se retirou, e contoiD·
pla t)ophia com ternura.
nRAlfAS TR" 337
Sei de que modo as vidas se abrevian1,
Sei como se acabava tneu tor1nento, ,
Minha affronta, mas não: Deus, que Jne pune,
Deus só é que tem jus á tninha vida,
E Só devern seus golpes arranca.r-tn 'a.
Cumpre hutnilhur-Ine ao vingador flagello.
Engulir devagar todo o veneno
Da desgraça cruel, que u1e persegue,
Soffrer ruinha miserritn:t existencia,
Fazer rnais, - suffocur até o orgulho
De urn nascimento illustr·e. Eu n'outro tempo
".five bens, e grandezas: o infortunio
Desfez esses phantasmas lisonjeiros.
E quem n1e reduzi o a este estado! ... ( 1)
Perdoae-ane. . . u1na angustia inexplicavel
Me perturba, me oppritne. . . oh céos ! . . . Eu vinha ..•
( Póde obrigar a tanto a desventura !)
En vinha ... que expressão! Vinha rogar-vos
Me amparasseis a languida velhice,
E que, adoçando as tninhas amarguras,
Quizesseis admittir-me. • • (2) por criada.
SOPHU (3J
Que dizeis ! Vós servir-me ! Ah ! Não, senhora;
Mereceis outro genero de abrigo, ·
Vós serois a servida. Por livrar-vos
Do estado, em que vos vejo, eu déra a vida.
A amizade, a ternura hão de enxugar-vos
O pranto, que verteis. Vossas desgraças
Que feroz coração não moveriam ?
COND8Si.A. (4)
.Ah I Quanto me obrigaes ! Porém não devo
Acceitar vossa offerta; hei de, senhora,
Abater-me, servir, morrer, mas nunca
Ha de o meu infortunio envergonhar-me.
A altivez d'alma as dadivas offendem,
Seja qual fôr a mão, de que provenham.
(1) Chora.
Soluçando.
(3 Com as lagrimas nos olhos.
(4 Abraçando-a.
VOL. 111 22
a as OBBAS DB BOCAGB
Eu morro ••• , e quem me faz mais durt\ a morte
É . . . ( 1) um filho. • • que o peito me traspassa.
BOPHIA (2}
, Um filho ! Oh monstro ! Ha genio tio rebelde
As leis do sangue, ás leis da natureza?
COBDBBBA
Sim, da minha desgraça é causa um filho,
Um filho, alimentado no meu peito.
Apenas veiu ao mundo empreguei n'elle
Todos os meus desvelos e caricias,
Do terno amor de mãe toda a fraqueza;
Sacrifiquei-lhe o gosto, a dignidade,
E até o esposo, o pae, e os outros filhos.
Pela vida do ingrato eu déra, eu déra
Mil vidas, se as tivesse, e nos seus braços
Morrêra consolada; era só elle
O que eu via no mundo, o que adorava •.•
Perdendo seus irmãos, e o meu consorte,
Favoreci-lhe o jus, que lhe deixaratn,
Só nos seus interesses embebida;
Que digo! Até cedi de meus direitos,
E apoz o coração dei-lhe as riquezas,
Sem excepçAo, e sem reserva alguma.
Não pedi, nem queria em premio d'isto
Mais que a consolação de estar com elle,
Pe exhalar o meu ultimo suspiro
Junto de um filho an1ado. Eu sim lhe achava
Signaes, e propensoes d'alma corrupta,
Ornados com gentil physionomia;
Mas de enganar-me, e de os não crer folgava:
Tanto o materno amor noM allncina!
Cega! Não reparei que ia 1nen filho
A mocidade em v1cios estragando,
Que aos exct..;sos m a ~ t t vis, e vergonhosos,
Juntava o da avareza, e crueldade;
Que era um ímpio, um ingrato: emfim, casou-se.
· (1) Chorando.
(2) })ando um grito.
I
I
DRAMAS TRADUZIDOS
Commummente uma esposa influe, e cria
N'um genio duro aquella suavidade,
Que é origem do amor, e da virtude;
Mas peor que elle a esposa de meu filho
Atiçou contra mim seu odio incrivel.
Este filho, que enchi de beneficios,
Me carregou de injurias, e desprezos:
Uniu insulto amargo a atroz offensa,
Das lagrimas, de que elle era o motivo,
Os olhos aft'astou, e ultimamente ( 1)
Me expelliu do solar, onde habitaram
Meus honrados avós, e onde eu nascêra.
Arrojei-me a seus pés, gritei, chorando:
c: Oh filho, filho n1eu I Vossa mãe triste
Prostrada a vossos pés, não vos implora ·
Mais do que um beneficio, unico premio
D'este amor, que por vós fez mil extremos.
Em breve a morte acabará meus males:
No leito de meus paes soffrei que expire.»
Não me attende o cruel, e eu contintío:
c:Vós, que gerei, nutri com o meu sangue,
Quereis, filho, que tuorra en1 desamparo!
Dei-vos tudo o que tinha, nnicatnente
Possuo. . • utn coração que a dôr consome.
Vós tereis filhos: desejar devia ...
Ah! Nunca, nunca, ingrato, vos itnitem.»
Então a esposa, mais feroz ainda,
Me expulsa d'um Jogar, que eu tanto amava,
Logar, onde, attraídos da saudade,
Os olhos moribundos me ficavam.
Céos! E sobrevivi a horror t a m a n h o ~
N'esta consternação bnsco urna amiga:
Diz que me não conhece. Emfitn, vagando
Quasi sem tino já, por toda a parte,
Chego aq oi • . • onde espero achar a morte.
tiOPHIA..
Não, vós não morrereis; e1n min1, e em outra
O céo vos deparou duas a1uigas
(1) A condessa chora com mais força.
388

MO
- ---------------------
Para vos consolar. • . mas continuam
V OYOS ais, vossas lagrimas ainda,
E com mais força as faces ,.os inundam !
CONDESSA
Ah! Não devem ter fiu1 senão co'a vidn.
Vós sabeis os meus Inales, vêde ngora
O meo crime, e depois julgae se posso
Ao sentimento, ás lagrirnas pôr terruo.
Este filho, por quen1 padeço tnnto,
TeYe uma irmã .••
SOPRU (1)
Fallae.
CONDEBBA
a
Ornou d'aquellas graças, que enfeitiçatn
Ainda mais os corações que os olhos.
Tu a formaste, oh Deus, para agradar-me,
E eu neguei-lhe o carinho, amando-me ella.
Ah ! Cada vez 1nais terna, e mais humilde,
Parecia em silencio perdoar-me,
E ignorar que um irmão tinha ganhado
De sua injusta mãe todos os mimos.
Um mancebo modesto, e virtuoso,
Egual na qualidade a minha filha,
A viu, a amou, e foi por ella amado.
por esposa: eu, insensível
As lagrimas da triste, a sacrifico
A seu irmão, desvio o seu amante,
Encerro-a o 'um mosteiro, insto com ella
Para cingir-lhe um laço, tão diff,rente
Dos ternos laços de feliz consorcio.
IOPBIA
Successo egoal ••. (2)
(1) Apressadamé'nte e com mais attençlo ainda.
(2) Perturbada, á parte.
..
l)BAJIAS TRADUZIDOS
CONDESSA
Para obrigai-a ao voto
Fiz com que falsas novas se lhe dessetn
Sobre a morte do amante, e confirmei-lh'a.
Caiu sem côr, sem voz cotn este golpe;
Eis acode a animal-a uma parentn,
E já quasi mortal do claustro a tira.
Morre pouco depois esta parenta,
E da misera filha ignoro n sorte •..
Ah! sem duvida jaz na sepultura ••.
E eu a sacrifiquei a um filho ingmto!
Eu, desgraçada !
SOPHIA
, Resisti r não posso • . • ( 1 )
E quanto mais vos ouço . . . Aqui, senhorn,
Hà perto de 'dez nnnos .•.
.
CONDESSA
841
De dez annos •.. (2)
Que!
SOPHIA.
.
Tenho a mais fiel, mais tema amiga;
Da mãe, que muito amou, foi pouco amada.
CONDESSA
Da mãe ! . . . Continuae.
SOPHI.A.
.
Os seus desastres (3)
Ella lh'os motivou. Teve esta filha
Um destino infeliz, qual teYe a vossa;
Elia sabe attender aos des-graçados:
Muitas vezes aqui lhes dá soccorro;
Seu meigo coração ha de amimar-vos,
( 1 ~ Ainda mais turbada.
(2 Inquieta.
(3 Rapidamente.
342 OBRAS DB BOCAGB
E lamentar comvosco as vossas penas. (1)
Senhora, haveis de vel-a, haveis de amai-a.
CONDBSBA. \2)
Será possivel. . . Céos I Nio sei que sinto
No coraçlo •.. guiae, guiae-me a ella.
Oh Deus, oh summo Deus ! Permittirias
Que no auge do infortunio .••
SCENA X
Euphemia, Sophta e a condessa
SOPHIA. (8)
Vinde, vinde,
Minha querida irmi, nos vossos braços
Afagar uma illustre desgraçada.
CONDBBSA. ( 4)
Constança!
BUPBBIIIÃ (5)
M
. b ' .
1n a ml.e ..••
SOPHI.A.
Oh Providencia!
Que escuto ! Sua mãe !
CONDBSliA.
Céos ! Minha filha ( 6)
Consagrada aos altares para sempre !
E eu fui a que formei seu laço eterno !
Este véo, este véo ha de acousar-me
Continuamente. • . ah ! Dize-me o motivo •.•
Ergue-se apressadamente.
Erguendo-se com egual presteza. .
Dando o braço á condessa, e vendo entrar Euphem1a.
Dando um grito, e desmaiando sobre a cadeira.
aos pés.
Tornando a si, cheia de espanto e de dôr.
DRAMAS TRADUZIDOS
E inda me dás de amor signaes tão doces ! ( 1)
Filha, ·o maior esforço é perdoar-me.
BUPJIEIIIÃ .
Abraço minha mãe, ou isto é sonho ? ••.
CONDESSA.
Não é sonho, não é, tens nos tens braços
A tua infeliz mãe.
BUPBEJIIA.
Sna desgraça (2)
Dobra a minha ternura. Mas qnem pôde
Forjar esta mudança deploravel ?
CONDESSA.
Teu irmão.
BUPBEKIA.
Meu irmão!

CONDESSA.
Sim, esse objecto
De uma predilecção desasisada,
Por quem abominei n1inha familia,
Por quem .•• te conduzi ao sacrificio. (8)
BUPBBIIJA.
-
86 sinto os vOBSos males. ( 4)
CONDBSSA.
Já na pósse
De todos os meus bens, o deshumano,
Surdo ás vozes do sangue, e aos meus clamores,
(Eu de egual tyrannia usei comtigo)
Espancou sua mãe, nem quiz mais vel-a.
.A.bra9ando-a e chorando.
Levanta-se.
Pegando na mlo de Euphemia e chorando.
Em tom forte -
...
348

OBUAS DE BOCAG'B
Irados contra mim os céos estavatn, ·
Pensa o que eu soff'reria ern ta 1 extre1no.
A Condessa de Oreé, que a dignidade,
A riqueza, a lisonja, e mil prestígios
Cegáram longo ternpo, ernfim, cercada
Dos horrores, que segnern á indigencin,
· Já sem consolação, já Eeru abrigo,
E até já sem a tninin1a esperança,
Victima da c_ruel necessidade, ·
Quasi em anciás de morte, veiu, oh filha,
A este asylo, franco á desventura,
Pedir que a recebesse1n . . . por criada.
EUPHEJIIA (1) · ·
Mal posso rePpirar ••. não, mãe querida, (2)
Não chegareis a tnnto abatitnento:
Para ser menos duro a· vosso estado,
Eu soffrerei p ~ r vÓ3 tninha importuna (2)
Amargurada vida, e desde agora
Não cuidarei senAo de consolar-vos, .
De vos vingar de um filho. Eu posso. . . aqueUa
Parenta, que do claustro setniviva
Me tirou nos seus braços, e sómente
Me viu n'este logar fazer ~ m voto,
Que eu occultar queria a vós, e ao mundo,
Aquelle coração tão. generoso
Me deixou alguns bens. . • ( 4) Eu vol-os cêdo.
Além d'este soccorro diminuto,
Tenho o lavor de minhas mãos, senhora.
Sacrificarei tudo, e morreria
Mil vezes, cara m ~ e , para mostrar-vos
O meu constante atnor .•.
CONDMBA (5)
E nmas-me ainda,
Oh filha! E não te lembras ...
(1) Cahindo nos braços de sua mie, e depoi& <.l'uma longa
pausa.
2 Arrebatada e chorando.
3 Com fervor.
4 Rapidamente.
5 Abraçando-a.

DRAMAS 'l'RADTTZIDOS
,
EUPHK.MlA
Ah ! Tractemos
Só de vós. Aqui tendes outra fi llu1 : ( 1 )
Ella é digna de nós, e lia· é sensi vel,
E gosta de prestar aos desditosos;
Vereis sua ternura, e seus de$velos.
CONDESSA.
•T á do sen coração recebi provas ( 2)
De sincera piedade, e agradecida. . . ( 3)
BOPHIA (4)
Não mais que um Pentimento infructuoso
Encontrastes em mini. Se eu ser-vos util
·Podesse, graças mil ao céo rendêra, ·
Que vos deve amparar. D'elle é que nnscem
O socego, a vent.ura: elle só póde
. Soccorrer, levantar os abatidos.;
Mas eu aqui vos sou n1olesta ... (5) ·
CONDESSA (6) ·
Não, ficae. Nós teriamos segredos
Para vós.? Publica e sua8 virtudes, (1)
Meu arrependiment9, a dôr, e o pranto,
Que o remorso tne custa; - os beneficios
De uma filha, a quem eu ...
EUPHEJIJA (8)
Com esse excesso
Vós é que me obrigaes. Nós poderemos
Viver, e chorar juntas ... mas em breve,
Cara mãe, cerrareis meus olhos tristes.
(1) 1\pontando para Sophia.
(2) Com voz terna.
(3) Dando a mio a Sophia.
(4) Para a condessa.
(õ) Dá alguns passos para se retirar.
(7 Mostrando a filha.
Levantando-!e.
(ai Abraçando-a.
845

.346 OBRAS DB BOOAGR
COlfDBIB.A.
Tu é que has de fechar o ~ meus, oh filha.
BUPHBKIA
Não pensêmos senAo em confortar-vos.
Vamos (1).
CONDB88.A. (2)
Que vejo, oh Deus !
BOPBI.A.
Todas as noutes (3)
Nos manda a nossa lei, que descancemos
N'esse leito da morte. Um terror pio
N'elle nos acompanha, e nos presenta
O fim, que para nós está guardado.
BUPHEKIÃ (4}
Sim, oh mie, o meu thálamo é aquelle. (5)
Logo vos contarei meus males todos.
Não me desampareis. ( 6) Acabem hoje
Estas agitaçoes, que me atormentam.
Accelerae o instante em que a minha alma
Deve ser consolada, e soccorrida
Por esse anjo de paz, que o céo lhe manda.
(1 Dá-lhe a mão.
2 Vendo a tumba, e rect\ando assustada.
3 Para a condessa.
4 Dando um gemido.
5 A condessa a. estas ultimas palavras chora, olha. colll
ternura. para a filha e cie-lhe nos braços. Euphemia, depois
d'uma grande pausa, diz a sua mle :
(6) Para Sophia.

ACTO II
Ergue-se o panno, vê-se nma capella, um altar a um lado,
e um peristyllo, ou columnata, no fundo do theatro
SCENA I
Euphemla e- Sophia (1)
BOP.BIA
Oh tn, cuja grandeza testificam
Os altos beneficios, que semêas,
Tn, cuja graça os corações conquista,
Oh Deus ! Oh pae benigno ! Tem piedade
Da minha triste amiga, o u v ~ meus rogos,
Desce ao peito de Euphemia, substitue
Áquelle ardor profano a pura cham1na
De tua santa fé, teu amor santo;
Presta-lhe armas, senhor, contrct os sentidos !
Desprezarás as Jagrimas, as preces,
Que a tens pés derramamos ? Ah ! Foi feito
De Euphemia o coração para adorar-te,
Para se encher de ti. Deus poderoso,
Que a desesperaçAQ, que a dôr lhe observas,
Acóde, acóde á misera, e triumpbe
O remorso, que n'alma lhe murmura.
EUPHJ:JIIA
Asylo do infortunio, altar sagrado
De um Deus consolador, unico apoio,
Onde, já sem paciencia, e já sem forças,
Do pezo de meus males me allivio, (2)
(1) Ambas prostradas, uma defronte do altar, a outra a
um dos lados.
(2) Abraça com transporte o angulo do altar.

348 OBRAS DE BOCAGE
Eu te abraço, eu te off'reço estes remorsos,
Em soluços, e em lagrimas nutridos.
A minha affiicta mãe qniz occultal-as, (1)
um pranto saudoso etn cuja origem
Tanto me enlevo. . • oh céos ! . . . detido ha muito,
Qner correr, quer correr, e os suffocados
Suspiros já no peito me não cabem.
A meu pezar consome-n1e um incendio
Criminoso; amo, ndoro um vão phantasn1a:
Elle ·a paixAo sacrilega me excita,
Que esperança não tem com que se alente;
Elle, em logar de um Detrs, dá leis n'esta alma,
E, sempre vencedor, surge da terra
Para assaltar-Ine, oh céo. . ! Para aesaltu.r-te.
Trago em meu coração todo o veneno,
Todo o fogo de amor, trago os sentidos·
En1 continuo tumulto, e não diff'renço
Quaes são os sentimentos, que me régetn.
Como que dons espíritos oppostos
Luctando dentro ern mim, tne despedaçam. ·
Oh minha religião ! . . . É o mais frouxo
Para ti! Mas tn deves dominar.:me;.
O meu estado, a honra, os céos o querem:
ernfim, me condemna, oppoe-se tudo
A paixão, que por ti, Sinval, me inflamma.
A esposa de um mortal deve guardar-lhe
Fé sem limites; e de um ])eus a esposa •.•
Justos céos ! De n1im propria me horroriso. • • (2)
E ainda o seu ministro em meu soccorro .
. .
Não rhega! Oh D.eus, que offendo, oh Deus, que imploro (3)_
Tn, que hoje minha mãe me restitmste,
Ah! Conlpleta, senhor, tens beneficios,
Ou ... manda que en no -turnnlo repouse.
Negarás, Deus eterno, ás minhas cinzas
O socego, que em vida obter não posso? ( 4)
Minha mãe!. .. (5)
' (1) Par a Sophia.
(2) Olhando para a colnmnata.
(3) Prostra-se mais profundamente. ·
(4) Vendo que entra a condessa.
(5) .A.' parte e sobresaltada, Sophia se retira.
DRAMAS TitADUZIDOS
BCENA II
Euphemia e a condessa
EUPHEMIA (1)
...
A que vindes?
I
CONDESSA.
A teus braços (2)
A ter parte nas mágoas, que te affiigeo1,
Que mitigar quizera. . ah! Eu devia,
É verdade, evitar tua presença.
Olhar ao bemfeitor confunde, e acanha;
Mas eu te atno, Constança, eu te atno tanto,
Que saudosa procuro os teus affagos,
E . . . gémes ? Tua sorte .••
EUPHEMI.A.
A minha sorte!
, .
E suave, é feliz porque a 1neus braços-
O ·céo vos conduziu. Não foi por falta
De amor, qoe me escondi aos vossos olhos .•. (3)
Eu não fnjo de vós • . não, mãe querida. . • .
Vim a este logar. • • vim . • . humilhar-me
Ante Deus ••• ai de mim! .•• Eu lhe implora,ra .•• (4)
CONDKSB.A.
Desfallece-te a voz ... ! Voltas os olhos
Para occoltar-me as ·lagrimas, que vertes!
EUPBBMI.A. ,5)
Ah I Se eu pudesse, oh mãe, n'esta corrente (6}
Expellir minha dôr, meu n1al, e a vida !
(1 Ergue-se perturbada.
(2 Abraçando-a.
(3 Inquieta.
( 4 Pronuncia estas ultimas palavras com voz desfallecida.
(5) Como transportada pela afllicção, caindo nos braços da
mãe, e banhada em lagrimas.
(ô) Depois de grande pausa.

350 OBRAS DE BOCAGJC
----------
Já sem mando a razio, tentou debalde
No peito ancioso ~ e f r e a r - m e o pranto;
Debalde me esforcei para encobrir-vos
Um triste coraçAo, que não sómente
Nas lagrimas, nos ais se tnanifesta,
Mas até no silencio. Constrangido
De intoleraveis penas, vai mostrar-vos
. O seu estado, a chaga, que o devora,
-
E que, em vez de curai-a, o tempo aggrava ...
A n1ultidão vereis dos meus tormentos. •
Minha mãe, recordae a origem d'elles,
E . . . deveis perceber-me .•.
CONDESSA
. Qoo!&nMu
... "! déas tão terriveis? Hei de, oh filha,
Hei de avivar um quadro, qlle ton1ára
A pagar com 1neu pranto, e corn meu sangue! •••
Querida bernfeitora, ah! Longe, longe
Eesa imagem cruel: n'ella consiste
O I.lleu castigo, e to n1e perdoaste.
BUPBEMIA (1)
Vós, senhora, é que haveis de conceder-mtr
Um perdão, que prostrada vos imploro.
Eu, cotnrnettendo involuntario crime,
Eu sou quem vos ofFende. Sim, guardemos
Inviolavel silencio nos tneus males.
Um Deus, um Deus, que rége os nossos fados,
1rfe encam"inhou, se1n duvida, aos altares.
Fallemos só do atnor com que desejo
Contentar minha tnãe, só da ventura.
Do prazer, que eu teria em consolar-vos;
Fnllemos. • • ( 1 ) não, não posso reprimir-me,
Não sei conter o ardor, que me impacienta;
Fallemos .•• d'esse objecto ..•
..
CONDEBBA
Qual?
(1) Beijando-lhe a mio.
(2) .Enternece-se-lhe mais a ,.o·z.
DBAIIAB TRADUZIDOS 361
:GUPHE:MIA.
Meu pranto,
Minha perturbação vol-o nomêa. . . ·
Que phrenesi r Que angustia! Eu ardo •.• eu morro •••
De Sinval ••• (1)
CONDESSA.
De Sinval I
EUPHEMIA
Sim, d'esse, d'esse
Despotico senhor de nm coração,
Cada vez mais amante, e mais chagado.
CONDEISA
Que fiz, céos ! E ainda·, filha, te possue,
Te inflam ma essa paixão?
EUPHEKI.A. (2)
Mais do que nunca;
E o socego, o dever lhe sacrifico,
Digo-o carpindo a vossos pés, morrendo,
E attestando este Deus, que me abandona, (3)
Que me vê cada dia. atribulada
Vir de rôjo ao altar ..• e não me escuta! ...
Dez anQos de combates dolorosos,
De lagrimas, de preces, o cilicio
Chegado ao coração, tinto em meu sangue;
O terror, que commigo se reclina
No féretro medonho; o tempo, a morte,
A morte, que destróe, qne absorve tudo,
Desarraigar não pode1n da minha alma
A violenta paixão com que deliro.
Uma sotnbra, teimosa em perseguir-me,
Vontade e pensamentos me arrebata,
A sombra de Sinval. . • Eis o attentado •••
Oh céo r Tu ouves isto, e não troTejas !
( ~ ) Depois de um longo silencio.
{ ) Arrebatada.
(3) Apontando para o altar.
Eis o objecto etn que occupo a noute, e o dia,
Eis o Deus, a quem sirvo, a quem adoro,
A quem consagro incensos nos altares !
Por cinzas sou rebelde ás leis do Eterno ...
Qne digo, miseravel! Ah! Perdôa,
Deus vingador, .•. ! A graça tua ...
Toda a minha razão tne desautpara. ( 1)
A h mãe ! Elle morreu? Que negra sina ...
Nosso amor . . . meu destino. • • Eu fui a causa
Da morte do infeliz !
CONDESSA (2)
O h 1ni11ha filha !
Quanto a meus proprios olhos sou culpada!
'I ua Inãe. . .. tua 1nãe foi teu verdugo !
Eu cavei esse abystno etn que tu jazes!
Eu te entranhei no peito esses torn1ent.os,
Esse fogo sacrilego, os retnorsos,
A· funesta paixão, que te conso1ne! (3)
Toda a tua virtude, oh filha, exerce
Co'a crirninosa rnãe. Se acaso ainda
Fosse vivo Sinval .•.
EUPH.ElUA.
Se fosse vivo! ( 4)
1. . • Sinval ! . . . Oh quão feliz eu me chamára!
Quio leve por tal preço me seria
·Este jugo perpetuo, que opprime!
CONDESSA
Poderei soavisar tua amargura,
Minha& filha! Ouve. • . todos os meus crimes.
BlTPHElll..l.
Será vivo Sinval ! (5)
Transportada.
Chorando e apertando Euphemia nos
'fendo-a chegada ao peito.
Em tom rapido.
Arrebatada.
DBAJIAB TRADUZIDOS 853
----------------------
CO::NDBSS.A.
. Eu desejava
Apressar o momento em que aos altares
Fosses ligada pelo sacro voto,
E do mundo, e de mim te separasses
Para sempre; um run1or subito, e falso
Te feriu, te aterrou; f i n ~ a morte ...
EUPHEJIIA.
Sinval, Sinval é vivo !
CONDESSA
Assim o creio,
BUPBEKI.A.
A h que o meu coração não é bastante •••
A
t
. ' . '
ventn ra. .• os ransportes... vi v e ~ ~ . . v1 v e ...•
Céo ! Nos meus dias teu rigor se farte .••
Quanto me consolaes I Si oval respirai..
Deus ! Seja elle feliz... morra eu mil vezes ! ( 1)
Mas •.• , amava-me tanto, e abandonou-me Y •••
CONDE88.A.
Ioda te não contei... que ·vou dizer-te !
BUPHBKI.A.
Deixou de amar-me? Se assim é, calae-m'o
Por quem sois. ( 2)
CONDESSA
, NãO, Sinval te idolatrava.
E forçoso dizer-te o que eu quizera
Occultar a mim mesma r O que estimula
Meus remorsos !
Fallae.
(1) Depois de estar calada um pouco.
{2) Rapidamente.
TOL. 111
23
354 OBBAS DJ: BOOA.GS
COBDB88A.
'
Que novo golpe
Te vae dar tua 1nie I Sinval, que morto
Julgaste, acreditou por minha industria
Que morrêras tambem.
BV.PBBXIÃ
Deus ! Que mais 9ueres ?
CONDESSA
De amor, e de aftlicção desesperado,
Fugiu, sumiu-se, e d'elle se não sabe ....
BUPBEIIIÃ
Sinval é morto, é morto. Eu exp'rimento
Quanto custa perder o que mais se ama.
Nem ouso dnvidar, é morto, é morto •••
Mas porque hei de nutrir tão negra idéa?
Sinval, Sinval, talvez, menos sensivel
Ao annuncio cruel da minha morte
Do que eu fui ao rumor fatal dá sua,
Resistir poderia... e consolar-se.
Capaz de amar como eu quem ha no mundo?
Que disse! P6de ser que já captivo
De .outro o ~ j e c t o . .• nos ·braços de uma esposa .••
Que horror ! Oh céos ! Faltava-me o ciume !
E em zelosa paixão tambern me abrazo!
Aonde me arrebata um amor cego,
Que tudo sacrifica a seus furores!
Só deplóro o meu mal n 'este momento .•.
Ah! Nada, senão tu, Sinval, me importe;
Vive, e morra Constança. E·m te esqueceres
De mim não és ditoso? Eu quereria
Ás minhas aftlicçoes associar· te r
Ai de mim ! Que, indecisa em meus desejos,
Sem valor, sem razão, sem alvedrio,
Rempre mais infeliz, mais criminosa,
Não distingo, não sei se antes quizera
Morto a Sinval, que vivo, e de mim longe •••
Não, nl.o posso domar a atroz suspeita.


DRAIIAB TRADUZIDOS 355
--- --- ---- --------------
Vêde minha paixão, minha loucura;
Imaginastes dar-me algu1n conforto,
E augmentastes, senhora, o meu martyrio.
Todos os fógos, os venenos todos
Me abrazam, me devoram, me consomem;
Phrenética me aparto dos altares,
Onde jurei soffrer meu jogo· eterno;
Off'reço o peito á setta, que o traspa818.,
Desesperado amor é q.oem me inspira •••
Ancêa-me este véo . • . o esposo ultrajo,
Ultrajo um Deus . • • temendo-lhe o castigo.
SCENA III
As mesmas, Cecilia
OBOILJA ~ 1 )
O ministro, em quem brilha um zelo santo,
O orgão do céo, Theótimo, o prudente ..•
ElTPHEliiA
Já chegou? (2)
C BOI LIA
Brevemente ha de fallar-vos.
. '
..
EUPHE:MIA
Ah! Se elle me turnasse o meu socego! (3)
Suspiro pelo vêr, e por ouvil-o,
Por descobrir-lhe esta alma, por mostrar-lhe
Meus desgostos, meus erros ...
CECILIA
Dizei antes
Delictos, attentados, que mui tarde
Costuma Deus ponir, mas não perdôa.
(1) A Euphemia.
(2) Com ardor.
(3) Do mesmo modo.
]
I

856 OBRAS DB BOOAG.B
EUPHBJIJA.
Ai! Sempre haveis de armar-lhe a mão piedosa?
CECILIA
Eu antes que Theótimo vos veja
Preciso de fallar-lhe. Ide,· e lembrae-vos
De que o céo já se enfada de soffrer-vos,
E talvez um momento, um só motnento
Tenhaes para expiar a horrenda culpa.
Quando fôr tempo mandarei chamar-vos.
EUPHElt:IA (1)
Ah minha irmã !
CECILI.A. (2)
Privae-vos d'esse nome.
Minhas irmãs o men exemplo seguem,
E a 1não do Omnipotente as abençôa.
Ide. (3)
SCENA IV
O BOI LIA.
Oh Deus vingador ! Castiga o crime,
Fogo dos céos a victima consuma:
Pedem tua justiça, e tua gloria
Que, apezar da cletnencia, a dês á morte.
Para te conhecerem, vibra, espalha
A chamma de teus raios sobre a terra,
Em logar de saudavel, doce orvalho.
Pouco te manifestas na indulgencia:
Reconhece-se um Deus pelos castigos.
Euphemia o anathema horroroso,
Deve-se á tua altissima grandeza
· Ingenua adoração, pura homenagem,
E eu, prostrada ante as aras, a que desces,
Submissa ás tuas leis, te sirvo, e temo."
2) Com soberba e indignação.

Em tom mavioso.
3) Euphemia, cheia de affiicçl.o, é conduzida por sua mie,
que a le-ya entre os braços
DBAIIAS TRADUZIDOS
SCENA V
Theótimo (1 ), Ceoilia
CBOILIA (2)
Perdoae-Ine, senhor, se eu interrompo
O vosso respeitavel n1inisterio
Çhamando-vos aqui, quando os altares ..•
,
THEOTIMO
O primeiro dever é sermos uteis:
Pia mAo, de que o proximo careça,
Deve pôr o thuribulo de part-e.
Que me quereis?
CECILIA
Segundo a vossa fama •••
,
THEOTIMO
Mens ouvidos não andam costumados
A estylo similhante. Esses obseqnios,
Essas adulações sAo para o mundo,
Qne o seu orgulho vão mantém com ellas.
A verdade é quem deve dirigir-nos,
Os meios de enganar não nos pertencem.
Não tenho mais do que um desejo esteril
De valer aos rnortaes, já vol-o disse.
Que motivo a me vos obriga?
CECILIA
Minha alma, submettida a seus deveres,
Fiel, temente a Deus, não é que invoca
O vosso auxilio: quem precisa d'elle
E' uma nossa irmã, que, presa ao Inundo,
Vergonhosa paixão conter não póde,
357
(1) Tem um ar contemplativo, e traz a cabeça inteiramente
occulta com o habito.
(2) para Theótimo, e inclinando a cabeça .


358 OBRAS DE BOCAGB
----- ---- ---------------------
Que leva um feio escandalo ao! altares,
Qoe espalha o máo exemp1o, a rebeldia
De um coração, indocil a seus votos,
Que arde n'um fogo, que apagar devêra,
Obedecendo aos céos, em fim ..• que morre
De um louco amor ...
(1)
E' digna de piedade!
CECILIA
Desejára, senhor, que vós com ella
UBasseis do terror, e do ameaço
Em nome de um Deus justo, e de
Que oppozesAeis a cholera divina
Á sua paixAo cega, e lhe
O raio accezo já, o inferno aberto ...
TBEÓTIMO
.
Antes lhe mostrarei, para attraíl-a,
Um Deus digno de an1or, que nos perdôa •
CECILIA
E jnlgaes esse methodo seguro?
THEÓTIMO (2)
Confiae-vos n 'uma alma. . • que, sensivel,
Ha de, co'a protecção do Omnipotente,
Co'a luz do céo reconduzir ao jugo
Vossa irmã desgraçada, e lumentavel.
Ena espero.
(1) Com um suspiro.
(2) Com alguma pausa.
DRAMAS TRADUZIDOS
SCENA VI
,
'l"BEOTiliO
Que orgulho ! Que dureza !
Na sua devoção bravia, amarga
Elia imagina um Deus, que rigoroso
Lhe troveja na boca ! E não veremos
Jámais um doce vinculo enlaçar-te,
Divina religião, co'a natureza'?
359
Sempre em nome do Eterno hão de haver odios? ..•
Oh miieros humanos!
SCENA VII
Theótimo, Sophia
,
TBBOTI:MO
O céo mesmo
Se dispOe, minha irmã, para escutar-vos,
Para dar lenitivo ás vossas penas.
IOPBU. (1)
· Sei a minha fraqueza, ou o meu nada;
Dos celestes soccorros necessito:
O humano coração setnpre anda em guerra.
Conheço muito bem, que estamos sempre
Em risco de caír pela cegueira
Cotn que a nossos sentidos nos prendemos:
Mas a desgraça de uma irmã, que chóro,
E' o objecto, que a vós, Renhor tne guia:
Elia requer, getnendo, o vosso auxilio. ·
Ah Vêde se abrandaes sen duro estado:·
Contínua languidez lhe ·gasta a vida.
Venho implorar-vos a favor da triste,
Digna de amar um Deus, que vê seu pranto.
Um coração, sensível por extremo,
Deu motivo a seu mal, aos sens de888tres.
(1) Com modestía.

360 OBRAS DK BOOAG.B
--------------
Vós é que podereis esclarecer-lhe
O espírito enlutado, e consolai-a,
FJrguendo-lhe a vontade, o pensamento
Aquelle, que merece os nossos coitos,
Ao Deus, qne satisfaz nossos desejos.
Dignae-vos por quetn sois de afiançar-lhe
A clemencia dos céos, e perdoae-me
Se temeraria toco a luz sagrada.·
Com que vindes piedoso ilhuninar-nos:
Mas ..• eu de minha irr:pã conheço o genio;
Facilmente ao terror ...
THEÓTI:MO
Que se esperance
No Deus, a cujo autor tão docemente
Chamaes os corações. Eis a linguagem
· Da pura religião. Quanto horrorisa
O impio zelo de espirito intractavcl,
Qne, não podendo amar um Deus benigno,
Sempre contra os mortaes o finge armado !
SCENA VIII
Euphemta, (1) Theótimo, Sophia
80PHIA (.2)
Eil-a. (3) Não, não temaes, querida amiga,
Vinde, o céo condoído vos protege,
Sua graça efficaz por vós espera:
Abri-lhe o coração. Já possuimos
Este consolador sancto, e piedoso; (4)
En vos deixo com elle ..• (5) Oh Pae supremo!
Exerce o teu poder: n'eate trinmpbo
Interessa, men Deus, a gloria tua.
{
1) Traz o vée caído no rosto, e vem andando corn tellJor.
2 ~ A Theótimo, mostrando-lhe Euphemia.
3 Caminha para Ettphemia, di-lhe a rolo e movem am-
bas a guns passos pelo theatro.
· (4) Conduzindo-a para Theótimo. .
(5) Retirando-se.

. .
DRAIIAS TRADUZIDOS
SCEYA IX
Theótimo, Eupbemia (1)

,
'l'HEO'.rl.MO
Chegae, prezada irmã. Qne vos sos.sóbra?
Meu gosto, meu dever é confortar-vos,
Ter parte e1n vosso mal, dar-lhe retnedio.
As humanas paixões quem não conhece?
Ah! Quem é tão feliz, que não sentisse
Jámais as amargosas consequencias
D'esses prazerf:s vãos, que nos illude1n 1
A
.'
1 •
EUPHE:MIA (2)
#
THEOTI.MO
Valor, minha irmã, commnnicae-me
Vossas tribulaçOes, fallae sem susto.
Mais de uma esposa do Senhor, mais de uma,
Como vós suspiraes tern suspirado.
Está comvosco uma ahna con1passiva;
Sentae-vos .

EUPHE:MJA (3)
Ai de 1nin1! Não sei por onde
Hei de principiar. . . Tendes á vista
Uma esposa sacrilega do Eterno,
Uma infeliz mulher, que om se hutnilha
A' face dos altares, orn os foge;
Que oppoe laço profano ao sacro jugo;
Que anda setnpre comsigo em viva guerra,
Obrigada, attraída, já da culpa,
361
(1) Euphemia mostra-se perturbada, está ainda longe· de
Theótimo, e tem sempre o véo caído. ·
(2) Dando alguns passos, e levando o lenço aos olhos ..
(3) P ~ r a um instante, e senta-se depois; Theótimo faz o ·
mesmó. As suas cadeira! estio em alguma distancia Euphe-
mia dá um grande suspiro, e fica alguns momentos calada.
OB.BAS DE BOOAGB
Já do arrependimento; em vão lactando
Co'uma paixão violenta; o véo no rosto •••
No peito .•• o amor •.• (1) •
TBEÓTIIIO (2)

O amor ... é necessario (3)
Vencêl-o .•.
EUPHBIIIÃ.
Porém como?
THEÓTIMO
, .
E necessar1o ( 4)
Um divorcio total co'a natureza:
Os nossos corações a Dens competem.
Das sagradas verdades prescindamos
Um momento, valendo-nos só mente
Do que a luz da razão nos
Examinemos, pois, as consequencias
Da paixão, que produz tantas desgraças,
Do amor, que nos convida ao precipicio,
Cobrindo-o de mil flores: ah I Que esperam
Os tristes coraçoes a amor
O interesse, o perjurio, ou o capricho
Nos privam do que amamos ... e se acaso (5)
Ardemos em reciproca ternura, •
Eis a morte. . . (que dôr !) a cruel morte
Nos rouba para sempre aquelle objecto,
Que os nossos pensamentos encantava;
Elia surda. . . insensi vel a gemidos ..•
Irmã, sórnente a Deus amar devemos. ( 6)

EUPHEMIA
Elle me falia pela vos!a bocca:
Mas não' podeis saber do amor qual seja .•.
Diz estas pala v r as em voz baixa.
Perturbado.
Socega-se.
Continuando.
aqni a voz.
Depois de uma grande pausa, e arrebatadamente.
DRA11AS TRADUZIDOS 363
--- -----
THBOTIJIO (1)
Sei •.. (2) fallae, minha irmã: E ha quanto tempo (3)
No santo domicilio da virtude
Conservaes esse affecto perigoso ?
A amisade vos ouve: abri com ella
O vosso coração.
BUPHBMIA. (4)
Minha alma ancio-sa •.•
Alimenta este fogo ha já dez annos.
THKÓTIJIO (5)
Ha já dez annos!
EUPHEJIIA.
Meu amor se augn1enta
Com meus dias. Em vão para vencei-o
Uno todas as armas; em vão clamo
Pelo favor do Altissimo; em vão régo
Com lagrimas seu templo, seos altares,
E o leito funeral, d'onde commigo
Se ergue o critne, e o remorso: ao sanctuarie,
Ao proprio sanctuario me acompanha
Este amor implacavel ! Mesmo agora,
Agora a vossos pés mais do que nunca
Me desatina, e sinto repassado
Todo o meu coração d'este veneno.
Pouco mais de tres lustros contaria
{Ai de mim!) quando ninei, e fui amada; .
E quem, quem me off'recia a m·A.o de esposo?
Quem jurava a meus pés amor tão puro,
Tão fiel, tão suave? ... O mais perfeito,
O melhor dos mortaes: n'elle brilhavam
'Todos os dons do céo, da natureza:
Virtuoso, gentil, amavel, digno
.Até de adoração ..•
(1) Vivamente.
~
2 ) Torna em si.
3 Mndando de tom.
4 ~ Com voz Ia'nguida.
{ Õ} Com um suspiro.
364 OBRAS DE BOOAOB
----------- - ----
THBÓTIIIO (1)
Ah ! Moderae-vos,
Minha irmã; que dizeis! Escandecido
O vosso coração ..
BUPB.IUIIA.
Sen1pre está cheio
D'esta imagem fatal. Eu desejára. .
Oh Deus eterno! A meu pezar te ultrajo. , 4
As tochas do hymenêo já se accendiam,
Formavam-se no altar os ]aços puros,
Que haviam de ligar-nos para sen1pre:
Quando mão poderosa. . . que venero,
Subito os despedaça, e com violencia
Levando ao summo gráo minha agonia,
Nos divive, e n'um claustro me sepulta.
Saio, emfim, d'este carcere, mas tórno
Pouco depois a elle, e para nunca,
Nuncajámais apparecer no mundo,
Para avivar na solidão o incendio
D'u1n infeliz arnor desesperado,
Para morrer tragada, e consumida
·De negros melancholicos furores.
Tinham-me dito (oh céos ! ) qne o dôce objecto
De meus ternos suspiros era morto ...
Elle vive, elle gosa a luz do dia,
A luz, que brevemente ha de faltar-me.
Devia esta noticia dar- me alli vi o,
Devia. . • minha dôr não tem remedio,
Não tem ... posso morrer, porém vencer-me,
Desterrar da m i n h ~ almn estas meanorias,
Effeitos de indomavel sympathia,
Detestar o meu critne ..• ah! Não, não posso ..•
Arno cada vez mais. (1)
,
TBEOTIJIO
Oh desgraçada!
Que piedade me inspira a vossa angustia !
Ah! Devo-a lamentar. Se vós soubesseis .••
(1) Vivamente.
(2) Chorando, e com a cabeça inclinada sobre as mios, que
tem juntas.

DRAMAS TRADUZIDOS
Perturbado eu tatnbem. • . dentro ern 1ninha ahna,
Dentro etn nleu coração cáe esse prant.o.
Sim, eu choro comvosco: á tninha custa
A prendi a carpir essas desgraças ...
Triste lembrança, ainda me persegues !
Ia perdendo o acordo, irrnã ... E eu ·devo
.Suster a compaixão, que vos desculpa.
A voz do meu sagrado ·tninisterio
Com lastima vos inostra o precipicio
A que proxima estaes. Arrancae d'aln1a
O pernicioso atnor, cujos transportes
{Ainda os mais suaves) são furores.
E crime moitas vezes, é fraqueza
Qnasi sempre, e é em vós um attentado
Contra o céo. Minha irmã, já vol-o disse:
Deus só deve attraír nossas vontades,
Reinar, viver ern nós, desvanecer-nos
Estas chiméras, e illusoes do mundo:
Em Deus, sómente em Deus, é que se funda
O puro amor, e a sã felicidade .•.
E vós, vós sua esposa, á face d'elle
Perjura conservaes profanos laços!
O sacrario, onde jaz, onde repousa, ( 1)
E este claustro, esse véo; tudo, emfim tudo,
Como que quer fallar para accusar-vos;
Tudo a vossa ignomínia, e pranto
Conduz ao tribunal de um Deus zeloso:
Elle contas vos pede, ergue a balança,
Péza os favores seus, vossas fraquezas,
Desatinos, traições: ah ! Que resposta
Lhe dareis?
EUPHEM:I.A. (2)
Esperae, santo ministro.
Que me cumpre fázer para applacal-o?
Dizei, dizei, que eu me resigno a tudo.
THEÓTIMO
Esquecer esse ..• (3)
(1) Aponta para o altar.
(2) Perturbada.
(3) Enternecido .

365

366 OBRAS DE BOCAGE
EUPHEMIA
Ah ! esquecêl-o !
THEÚTIMO
Consutnir té o minimo vestigio
De uma imagem tão cnra, e tão nociva
Ao vosso coração; n'uma palavra,
Remover, desterrar tudo o que pôde
N ntrir essa pai:xão peccaminosa,
Fazer-vos mais difficil o triutnpho.
EUPHEMIA
Do mundo, e dos sentidos affastada.,
Ao pé do meu sepulchro, en1 ais desfeita,
Sem offender o céo guardar não posso
De um amor infeliz os testemunhos?
THEÓTll\10 (1)
A minirna letnbrança é tun delicto.
EUPHEMIA (2)
Pois não quero enganar ao Deus, que me ouve.
Sim, cruel .•• arrancae-me o coração. (3)
Eis estes monumentos. . . da mais viva,
Da mais doce ternura, eiM estas cartas, ( 4)
Ainda humedecidas de tneu pranto,
Guardadas atégora . . no rneu peito,
E unico allivio de u1n amor funesto .••
~ preciso (ai de mim!) que eu perca tudo,
E preciso apurar o meu tormento. (5)
Tomae-as, mas debalde as sacrifico,
Que no meu coração as trago escriptas ...
( l ~ Ern tom compassivo.
(2 Com fervor e intrepidez.
(3 I. .. eva a mio ao peito. .
(4) Tira do peito um maço de cartas.
(5) Dando-lhe as cartas.

-------------
DBA.MA.S i'BA.DUZIDOS 367
Ah ! Morrerei de as dar. . . mas não importa:
A. minha morte, oh céo, ha de abrandar-te.
Lêde, lêde, e julgae se amar devia ... (1)
Não respondeis!. •. Fallae ... senhor .•• miaha alma ••. (2)
Ai I Tem no rosto a pallidez da morte ! ...
Deus, tu por apiedar-se
Das minhas afHicções? E'· necessario (3)
Soccorrel-o .. (4) Sinval! Não posso ••• eu n1orro ••• (5}
THEÓTIMO (6)
Tórno a ver o meu bem ! Constança é viva !
Eu estou a seus pés! Embora, embora (7)
Se escandalise o céo: meu juramento, ·
Minha prisão, meus votos se quebraram,
Oq santa religião ! . . . Já não te attendo.
EUPHEMIA. (8)
Sinval!. . . E's tu ! Sinval. . .
THEÓTIXO (10)
Sim, minha amada,
Sim, sou eu que te adoro, eu, que ha dez annos,
Consumido de amor, e de
Não deixei de carpir-te um só momento;
Sou eu, sou eu, meu bem, que ao menos quero
A tens pés expirar.
(1) Em quanto ella diz estes ultimos versos, Theótimo olha
para as cartas, e desmaia sobre a cadeira.

Levanta o véo.
3) Corre para elle.
4:) Theótimo tem agora a cabeça inteiramente fóra do
habtto.
(5) Vai tambem cair desmaiada sobre a cadeira.
(6) Tornando a si pouco a pouco, abre emfim os olhos, vol-
ta-se para Euphemia, e corre arrebatadamente a lançar-se a
seus ês, pegando-lhe na mão, que banha de lagrimas.

Com furor. ·
8 Recobrando os sentidos.
9 Elia recáe no mesmo desfallecimen to.
(10) Ainda a seus pês.
'
.368
OBBAS D& BOOAGB
- ------- -- ------------L--- --
EU PREMIA (1)
Ai triste I Aonde
Nos reúne o destino ! Sem podermos
Dispô r de ... ah! .•. Morreremos juntos.
Não, tu não morrerás, não,· vive .•• vive
Para ver-me adorar tuas virtudes,
Teus encantos .•.
EUPHEMIA
Que dizes, desgraçado?
Que insania! Trerue, e vê quem nos separa.
THEÓTI:MO (2)
Tornaren1os a unir-;nos, tornaremos. (3)
Sem me esquecer de ti, fui captivar-me.
Triste, e falsa noticia acreditando,
Sim proferi no altar urn voto acerbo;
Porétn o tneu primeiro juramento,
Dos juramentos Ineus o mais sagrado
Foi adorar-te sempre. . • e hei de cumpril-o.
EUPHEMIA ( 4)
Amarmo-nos! ardermos n'um profano,
Abominoso amor, que os céos affronta!
Que in tentc'ls ?
THEÓTIMO (5}
!rida ser mais criminoso;
Romper todos os que me opprimem;
Remir um coração, que te pertence;
Excitar-te a saír de um férreo jugo;
A deixar n'este carcere penoso
Gemer tuas irmãs, essas escravas;
(1) Olhando en1 roda.
(2 Erguendo-se arrebatadamente.
( 3 Em tom accelerado.
(1 Erguendo-se.
(2 Com 'todo o furor da paixl.o.
'

,
DRA11A8 TRADUZIDOS
Arrancar-te d'aqui, cruzar os mares;
eorrer, se fôr preciso, ao fim . do mundo;
.Buscar algom remoto, escuro sitio,
Um rochedo escarpado, ou erma gruta,
Onde, desoppritnindo os meus desejos,
Contente de te amar, e todo entregue
Ao terno, ao deleitoso sentimento,
Que enfeitiça a minha alma, eu possa, eu possa
Dar-te, á face dos céos, a mão de esposo. (1)
Sim, a propria verdade é que ha de unir-nos:
O suave hymenêo foi a primeira
Precisão, que sentiu a Natureza.
Elia nos prestará seus beneficios,
E para conservarmos nossos dias
Não nos ha de, meu bem, ser necessario
Solicitar a languida piedade;
Soberbos corações eo1 paz deixemos
Gosar de uma riqueza insultadora.
Viviremos, Constança, viviremos
lsemptos da baixeza, e da penuria.
Amo: espera de mim todo o possivel.
N enhu1n estado é vil para quem pensa:
A villeza consiste só no crime.
Minhas mãos. . . minhas lagritnas o seio
Da terra abrandarão, que, a ti propicia,
Ha de corresponder aos meus suores •.
O nosso protector, o Eterno, o justo,
O amigo, o pae de todos, as primicias
Terá dos nossos simplices trabalhos.
Cada vez mais fieis, mais fervorosos,
Mais felices, tnais ternos, louvaremos
Utn Numen bemfeitor. Os nossos filhos
Hão de este puro obsequio repetir-lhe:
A amai-o como pne lhe ensinaremos.
Confiemo-nos, pois, no sacrosancto
Senhor dos coraçoes, senhor de tudo,
Que alimentou sem duvida até'gora
Um innocente amor. Antes que o mundo
Sentisse a conjugal necest!idade
Minha alma por destino era já tua.
(1) Com vivacidade.
VOJ.. lll
369
370 OBRAS DB BOCAGE
Oh Deus! Ouso attestar tua grandeza (1)
Sobre este mesmo altar (2). Eis, eu o juro,
Eis a esposa a quem amo, a quem me entregam,
Me ligam para senipre o céo, e a honra,
V em, (3) segue-me.
BUPBBM:JA ,'4)
E' Theótimo quem falia?
I
THEOTnt:O
Não, quem falla é BinvaJ . . • o amor furioso.
BUPHBil:U.
Que me propoes?
THEÓTIKO
O bem, e o gosto de ambos.
BUPHBM:IA
Dize a ignominia. Ah! Eu, que desespero,
Que deliro, que morro de ternura,
Eu é que hei de salvar tua virtude
De uma indigna fraqueza; desviar-te
De horrível precipício, a que caminhas,
E recordar-te as leis, as leis sagradas,
Que infringes Y Sáe d'aqui. (5)
THBÓTIMO (6)
Onve-me, escuta •••
BUPBBKIA.
Ah! Vae-te, não te attendo. (7)

~
1 ) Depois de estar ealado um pouco.
2) Põe uma das mlos sopre o altar, e com a outra péga
na e Euphemia.
3 Para Euphemia.
4: Parando.
5 Dá alguns passos para se retirar.
6 Seguindo-a.
7 Desviando-se.
DRAMAS TRADUZIDOS
THEÓTIMO (1)
Has de attender-me .••
BUPRBJIIA
V ae, parte, foge. . • attonita a minha alma ..•
Voto, escripto no céo, queres que abjure?
Não, sóme-te, infeliz, nem mais mé vejas,.
NAo deixes nem vestigio de tens passos,
Vôe da minha idéa até teu nome ••.
Caro amante •.• que disse! •.. Ah! E' forçoso
Separar-nos; adeus . . . vae, foge. . • deixa .
Que eu morra, e .•• vive tu para chorar-me;
Vive, deixa-me . • • sê fiel ministro
Do Senhor. (2)
,
THEOTiliO
Não te deixo, inda que um raio
Me abraze. (3)
EUPHEMIA
Que cegueira ! Ah desditoso!
Que queres?
THEÓ'rlMO (4)
Ou morrer, ou possuir-te •

(1) Seguindo-a.
371
(2) Dá alguns passos e pára.
(8) Euphemia caminha para o fundo do theatro, e Theóti·
mo corre para ella furioso.
(4) Seguindo-a sempre. ·

ACTO III
rg-ue-se o panno. O Theatro representa um carneiro como os
que ha ainda nas nossas egrejas antigas. N'elle se desco-
brem muitos tumulos de differentes fórmas, alguns arrui-
nad-os pelo tempo; sepulchros meios abertos, cujas pedras
estão em grande parte quebradas; as paredes cheias de
epitapbios ; a um ·dos lados da scena ha uma escada .com
ou balaustres de pedra; defronte da escada uma
abobada subterranea, e escurissima. Na extremidade do
carneiro se descobrem tambem outros sepulchros e pilares,
que tem em cima urnas, emblemas da eternidade; uma
d'estas columnas está á boca do Theatro. Notar-se-ha, que
os sepulchros ficam nos lados da scena, para não occulta-
rem ao espectador cousa alguma da acçlo, que se finge na
alta noute •

SCENA I
EUPHEMIA (1)
Rodeada de-·tumulos •.. de horrores,
Quasi sem tino. • • trémula. • . indecisa .••
Do remorso. • • e do inferno acompanhada ..•
Pelo clarão. • . da morte • • • os passos guio . . • ( 2)
_ (1) Apparece no tôpo da escada, com uma luz na mão, e
extremamente anciada. Olha á róda de' si, ergue os olhos para
o céo, caminha, tremendo, desce alguns degráos, torna a olhar
para o céo, encosta-se, como opprimida pela affiição, primeiro
com uma das mlos, depois com a cabeça :uas grades da esca-
da; á força de grandes impulsos tenta retroceder; cáe em um
dos degráos, dando um gemido, fica alguns instantes n'esta
situaçlo dolorosa, levanta-se, continúa a descer com a mesma
perturbaçilo, e ·dá alguns passos pela scena.
(2) Dá alguns passos.
374- OBRAS DE BOCAGE
Porque, porque não vem ferir-tne ainda? (1)
Que promessa, meu Deus, soltei da boca I
Soltei do coração ! E inda respiro ! .
Céos I Prometti. . . amar. • • quebrar. . . meu voto 1
Hoje. • . logo, o maior dos meus delictos
Ha de ser consumado ! Eu -fujo, eu deixo
O santo asylo meu! Sinval por esta (2)
Sombria, horrenda que fóra
Dos claustros vai findar, favorecido
Da escuridade, e solidão da noutê,
Ha de vir ter comigo, e para sempre
Esquecido de si, do meu estado, ·
De Deus, do 1nesmo Deus, ha de roubar-me .•.
E para se1npre ! E a hora. • . a hora é esta !
Oh momento fatal, que tne horrorisas I
Desertora do altar, perdida amante,
Accuso minha.s mãos de vagarosas
Por me nlo terem arrancado ainda
Da fronte setn pudor este véo sacro,
Venera,·el penhor de uma fé pura;
Eu vou substituir-lhe os vãos enfeites
Da do perjurio, os signues todos
Do errado mundo, e da arte seductora,
Indignos monumentos do tneu crime,
E da minha deshonra ! Vagueando
De clima em clima, extranha e1n toda a parte,
E desprezivel a meus proprios olhos,
Eu me exponho, eu me arrisco, eu me sujeito
Aos males da desgraça, e da ignominia,
Ao destino do apóstàta, á funesta
Precisão de abjurar a 1ninha patria,
Meu nome,· a probidade, e até. • . Deus mesmo.
Dada a cegos delirios, abandono
Minha mãe, de quem eu com meus desvelos
Mantinha a vida, consolava as magoas ;
Deixei-a morrer de dôr, e de penuria. • • (3)
(1) Põe a luz sobre um iepulchro de fórma quadrada ; en-
costa n'elle as mlo.i, e a cabeça por algum tempo, ergue-a
depois, deixando uma das mãos sobre o sepulchro, e olhando
para o céo.
(2) Voltando os olhos para a abobada.
(3) Affasta-se do sepulchro arrebatadamente, e vem ao
rneio do theatro.
DBAIIAB T.BADUZIDOS ..
...
Quezn se esquece de Deus, da mãe se esqueça •.•
Não, le1nbre-me o dever, e o juramento ..•
Oh Deus ! O teu poder em mhn recobm,
Triumpha de Sinval, subjuga Eupheinia,
E . . . . . Só a ti prende a minha alma.
Não me exp'rimentes mais .•. Deus soberano,
Poderás tu soffrer competidores?
Anniquila a traição da insana atnante,
E da esposa leal a fé reanima;
Ceda ao sagrado amor o amor profano;
375
{)u decreta o meu fim, manda qne eu morro •.. (1)
Morrerei, morrerei, que não 1ne custa
Perder de infausta vida o resto inutil ..•
Mas perder meu amor, Sinval! Perder-te!
Negar meu coração aos tens affagos,
Privar-me do prazer de ser só tua,
De fazer-te feliz, de consolar-te,
De te amar sempre tnais! .•• Não é possivel.
A pura o teu rÍJ!Or, oh Deus severo,
Oóbra-me as affiicçoes, tira-me a vida
Que não has de apagar minha ternura •.. (2)
Ah ! Mulher cega ! Aonde te arrebata
Um phrenesi, que os raios desafia?
Attreves-te a dizer que a mão do Eterno
Não p6de reprimir o impeto, o fogo
Da paixão, que os sentidos te rebella !
Elle ja te não quer por sua esposa;
Farto de te soffrer, de si te expulsa;
Não julgues, que é comtigo o que era d'antes:
E' teu senhor, é um juiz supremo,
Que profere, choletico, a sentença
Da tua morte. Espera, Deus terrivel .••
Mas que! O coração sem aggravar-te (3)
Não póde aproveitar sua existencia,
Dar-se ao prazer de amar, de ser amado !
Quem accendeu o amor não foi teu sôpro?
Sim, situ, tu o creaste em nossas almas
I>ara nos consolar, para enxugar-nos
( l) Com impeto. · . ·
(2) Vem ao meio da scena, unindo as mãos, e erguendo-as
logo para o céo.
(3) Com ternura.
.
376 ..
OBRAS DE BOt:AO.B
As lagrimas, e dar mais preço á vida.
Tudo nos annuncia a magestade,
A perfeição de ·um Deus, sua grandeza,
Seu poder; mas o amor, o amor sómente,
É quem nos faz sentir sua bondade.
Adoro o meu senhor, presa a teu jugo;
Mas de Sinval a esposa te amaria
Talvez mais. • . ( l) ah sacrilega ! Prosegoe,
Insulta, insolta os céos .•• ·Indribio triste
De utn coração, perdido em seus desejos,
Já não sei da ruzão, debalde a bosco. • . (2)
E ioda não vem Sinval ... ah! Não, não venha, (8)
Foja-me. . • pam sempre . • . e eu o desejo !
Não quero vêl-o mais! Eu I Oh ternura!
Oh dever! Oh S inval! Oh Deus! No crime,
No n1 pio crime recáio a cada instante,
E á guerra dos indomitos sentidos .
Não p6de resistir minha fraqueza .•. (4)
SCENA II
Euphemia, Theótimo· (5)
,
THEOTIKO
Meus olhos inquietos em vão buscam
Constança ; quem m'a esconde? .•. Mas que vejo! (6)
Em que estado ! ...
BUPHEKIA {7)
Ai! És tu? ...
(1 Dá alguns passos.
(2 Encaminhando-se para a abobada.
(3 Torna para o pé do sepulchro.
( 4 Cáe como desfallecida, estendidos o ~ braços sobre un1
dos degráos do sepulcbro.
(5) Vê-se vir saindo da abobada, e avisinhar-se com todas
as mostras de inquietação. Adianta-se, e lança os olhos para
toda a parte. A scena está frouxamente alumiada.
(6) Vendo-a, e correndo para ella.
(7) Como tornando a si da oppresslo em que esta ya.

DRAJIAS TRADUZIDOS
I
THBOTillO
Sou eu, querida,
Sou eu, o teu amante, o teu esposo,
Que para sempre as lagrimas te enxuga.
Porque estás tão affiicta, e consternada
N'este instante feliz 'l
EUPHEMIA (1)
Porque?
TH EÓTIM O (2)
Fujamos
De um logar, tão terrivel, tão funesto.
Tudo está prompto já.
EUPHBKJ.A (3)
Tudo está prompto!
THEÓTIMO
Recobra a liberdade, ergue-te, vamos; (j)
Alguns fieis amigos nos esperam:
Vê, que a minha ventura, a minha vida
Dependem só de ti, não te demores. • . ( 5)
EUPHEMIA (6)
Sinval! ••.
THEÓTIMO
Suspiras ! Choras ! E não queres
Tocar a minha mão ! . . . Tu prometteste •..
'
EUPHg!riiA
Eu prometti. • . morrer.
(1) Olhando-o com ternura.
(2) O:fferecendo-lhe a mlo.
3 Com perturbaçlo.
4 Ergue-a.
377
5 Quer pegar-lhe na mão, e Euphemia foge com ella.
6 Encostada ao sepulchro, e olhando chorosa para Sinval.
378 OBRAS DB BOOAG.R
TRBÓTDIO
Men bem, minha alma,
Já não ardes como eu? Já me não amas '
EUPHEMIA (1)
Ah cruel ! Ah ! Sinval ! Querido amante ...
Só Deus é teu rival, só Deus.
TBEÓTIKO
Que intentas
Dizer n'isso? Não és a minha esposa?
EUPHBMIA (2)
Sou a esposa de um Deus, que me prohibe
Ser de outrem.
THEÓTIMO
Porque mão elle me fere !
De que falias? De um nó, que o artificio,
Que a perfidia, ligando-se á justiça,
Que um engano, tramado iniquamente,
Te induziu a apert.ar contra teu gosto !
Antes, antes que a Deus te consagrasses
Tu me déste palavra de ser minha ;
Desmente-me.
EUPHEMU.
E' verdade, eu desejava
Em ditoso hymenêo comtigo unir-me ;
. Mas dize-me, responde: se Constança,
Conduzida aos altares por violencia,
A .outro désse a m ã o ~ que tu reclamas,
E se a elle o dever me submettesse,
Inda que a meu pezar,- para annullares
Esta uniAo, Sinval, que jus terias?
,
(1) Olhando para elle com a maior ternura.
(2) Affastada do sepulehro.
DRAMAS TRADUZIDOS
THBOTIKO (1)
·O jus mais bem fundado, o da vingança:
Ao aggravado amor licito é tudo;
no teu coração· me escaparia
..0 cruel roubador ... shn, ali mesmo
Cem vezes um punhal lhe enterraria ...
este Deus, que adoro, a qu.em o mundo
Em damno meu faz cumplice de critnes,
Deus, que á boçal credulidade, ·
A sagaz impostura é um pretexto
De rigor, de dureza; este, a quem chamam
Indulgente, ou feroz confortne o querem,
Com ira vê dos céos almas grosseiras
Attribuir-lhe os erros, que são d 'ellas,
E consagrar manias em seu notne.
() ImmensQ não forjou estas cadêas,
E', é desagradavel a seus olhos
Este jugo em que estão tantos escravos:
Um natural, um voluntario culto,
E não votos forçados, são o incenso '(2)
Puro, e grato, que sóbe até seu throno.
Ingrata, era este Deus, este Deus justo •
·Qnem, guiando-Ine a ti, quem, terminando
Nossas penas, queria em brandos laços
·CoR verter-nos as rígidas correntes:
Elle para teus braços me attraía,
Nossa união constante elle ordenava, •
Elle. . • tu não me attendes, e chorando. • . (3)
Senhora da minha alma, oh cara esposa !
Vê, que morro de amor, não me resistas: (4)
V amos, não esperemos que amanheça; ·
Entrega· te a Sinval, que te ido)atra;
Fujamos, sim, fujamos ••• (5) Continuas
Na n1esma repugnancia ! . . . Ah ! Verdadeiro
Nunca foi teu amor; porém devia.s, {6)
(1) Com furor.
(2) Rapidamente.
(3) Com
379
( 4) Péga-lhe na mão.
(6) Euphemia o deixa, e vai encostar .. se á columna, que
para a bocca do theatro; Theótimo a segue.
(6) Tornando para o meio da acena.
380 OBRAS DE BOOAGB
Tyranna, sem lisonja, e sem disfarce
Mostrar-me um coração, que folga tanto
Com meu tormento horrivel; -sim devias
Oppôr-te ao vivo ardor, que me consome,
Rebater, destruir o n1eu projecto,
Saciar o teu odio, gloriar-te
Dos duros laços, que teceu o inferno, .
Dizer-me em fim ... que já tne aborrecias,
Que fazer- me infeliz ertl o teu gosto,
Que a morte mais cruel 1ne desejavas. . • (1)
A h Constança! Estes golpes tão terriveis ... (2)
To, tu é que m'os dás!
BUPH EKIA (3)
Querido amante •••
Ouve, escuta, e não crêas, que Constança .
E' capaz de fingir. Cedendo á força
Da paixão, que me abraza, e me envenena,
Sim, tudo prometti, e a teus desejos
Tudo sacrificava; resoluta
A seguir-te, e insensi vel aos perigos,
Aos do mar, não dttvidava
Até ao fim do mundo acompanhar-te;
Levar queria meu amor constante
Aos desertos mais tristes, mais sombrios.
Que comtigo agrada veis me seriam;
Esquecia por ti meu juramento,
Meu dever, minha vida deploravel,
A virtude, o socego, a patria, a honro,
Mil vezes mail preciosa do que a vida,
Tudo, em fim, até Deus, que sempre ultrajo;
Para maior desgraça agora mesmo
Mais que nunca, Sinval, te amo, te adoro:
Digo-o a este logar, que a morte habita,
Ao céo, de quem já sinto arder os raios .••
Indo para caír desacordada
No horrendo abysmo, abriram-se meus olhos,
Vi •.• o meu crime atroz. Debalde
(1) Com ternura.
(2) Chora.
(3) Tornando para elle apressadamente.
I
DRAMAS TRADUZfDOi 381
Contra o poder de um laço veneravel, ·
De um nó, que a religião, que a lei consagram. ( 1)
Sê meu juiz, Sinval; para ti ntesmo
Appello; sentencêa, ousa esquecer-te
De que o árbitro meu é meu amante,
Ousa affastar o amor de teus sentidos,
Por elle subornados, e consulta
Tua razão, dez annos de virtudes, ·
Dez annos, que um só dia, um só momento
Vai destruir. Tu amas a justiça,
Amas a probidade; eia, decide:
Sinval, eu contratei cotn Deus, - Deus mesmo
Nos seus altares acceitou meu voto;
E tu, tu quererias, que, a despeito
Do juramento, que tão mal observo,
Cotn infame traição, longe das aras,
O solemne contracto desfizesse ! ( 1)
Bem basta, grande Deus, para accender-te
A pavorosa cholera, bem basta
Co'um adultero obsequio profanar-te,
Nutrir a propensão para o perjurio, ·
Sem aggregar a audacia a meus delictos.
Não, Sinval, não te sigo; eu hei de ao menos
Respeitar a cadêa, que n1e liga,
Soffrêl-a, até que os céos em fim se dignem
De abafar esta chamma criminosa,
De apagar na minha alma a tua imagem,
Ou de ordenar que a morte me sepulte,
E sepulte comigo a minha affronta.
Se amas Constança, atreve-te a imitai-a;
Contém o amor, e lida por vencei-o;
N'este esforço eu te admire, e tu me admires;
Do lethargo, em que jaz tua virtude,
E' tempo de acordai-a; ao céo te volve,
E mostra-me Theótimo: este nome
O teu dever, Sinval, e o meu te ensina;
Fallaram-te ambos já; mais nada escuto:
Eu devo a Deus, BeJll duvida, esta força;
Poderei recaír ... livra a minha alma .•.
(1) Em tom grave.
(2) Dá alguns passos olhando para o céo.
382 OBRAS DE BOOAG8
Livra-me •.• de mim propria. . ah I Qne profiro!. .. (1)
Sinval 1 Do meu amor sei a violencia.
V ai-te. . . adeus. . . separemo-nos. . . sáe, foge
Pelo mesmo logar •.• que em meu desdouro
Te deu entrada aqui .. (2) soffre que eu tenha
Sobre meu coração este dominio .•.
Adeus: •.
THEÓTI:MO
O men catninho não é esse, (3)
Féra. (4)
EUPHE'l\IIA
Que dizes tu ? Que é o que intentas? (5)
Tens olhos iuflammados!. • . Onde corres? •.• (6)
Ah Sinval ! Onde vás?
THEÓTIMO (7)
Satisfazer-te.
EUPBBKIA
Que! ..
THEÓTUIO ( ~ )
Matares Sinval tu crês que é pouco;
J nlgas leve castigo a n1inha morte;
Tua barbaridade exige, ingrata,
Sacrificio maior para fartar-se:
Queres que, sen1 morrer, em mim reúna
Os males mais crneis, e mais horriveis,
Os tormentos do inferno, eterna morte.
(1) Em quanto ella tem repetido a maior parte d·estes ver-
sos, 1
1
beótimo tem dado semEre diversas mostras .de agitaçlo.
(2) Chegando-se á abobaCla.
(3) Apontando para a abobada, e correndo furioso pelo
theatro.
(4) Torna atraz.
(5) Elle corre para a parte anterior do theatro. Euphemia
o segue.
~
t i ) Elle se chega para a escada, e ella corre para elle.
7) Voltando-se.
8) Com impeto.
DBAHAS TRADUZIDoS
T ~ sabes, tu conheces os furores
.De alguns d'esses espiritos sagrados,
Que se nutrem de incenso, e fel a um tempo .•.
Corro a sacrificar-me á furia d'elles,
Corro a mirrar-me em lobrega masmorra,
A desfazer-me em lugrimas contínuas,
A maldizer ali minha existencia •••
Vôem d'aquelle horror, grato á vingança,
Vôem de lá meus lugubres clamores
A teus duros ouvidos, e te arranquem
V Ao arrependimento! Eu levo, eu ,levo
Meu COJ1lÇáo a coraçoes de bronze,
Para que o seu rigor n'elle requintem:
A confissão sincera do meu crime
Ha de atear-lhe a cólera, ha de armai-os
Em nome do seu Deus, de um Deus zeloso:
O claustro, que s6 victin1as cubiça,
O claustro saberá meus erros todos,
Todos os meus delictos; vou dizer-lhe,
Que julguei religião, fervor celeste
Minha paixão; que, em fim, quando suppunha
Render á divindàde um fiel culto
Adorava sómente a tua imagem: .
Saberá que tentei quebrar teus ferros,
Que gemi a teus pés sem commover-te,
Que tens uma alma barbara, insensivel,
Que ••• de afHicção, de amor, de raiva morro;
E já voo •.• (1)
EUPHEKIA. (2)
Ah ! Detem-te.
TBJ:ÓTIKO {8)
Em vão· o esperas.
EtJPBBKU (4)
Ouve ••.
Encaminhando-se para a escada.
Querendo det@l-o.
Andando sempre.
Seguindo-o.
383

384 OBRAS 'DB BOCAGE
THBÓTIIIO
Deixa-n1e ingrata ...
EUPHEMJA.
Ah! Não me tnates;
Ornei, tens coração para atterrar-me? (1)
Vê Constança a teus pés banhada em pranto,
Não me consternes mais.
THBÓTIKO (2)

O irresistivel
Poder das tuas lagri1nas conheces. (8)
Já cêdo ••. porétn (4) cumpre o men desejo ... (5)
Olha o pranto, olha a dôr, olha a ternura
Com que beijo teus pés, com que te imploro ... (6)
V em, fujamos d'aqui, meu bem, fujamos.
Que queres?·
EUPHEMIA (7)
TBEÓTIMO
Minha dita.
EUPBBMIA
Minha morte.
THEÓTIMO
Ah! dize a minha, se não vens ainda. (8)
EUPH.IDIIA
Que lance! Que combate! Que martyrio!
Oh minha religião ! . . . Eu morro. . . espera,
(1 Lança-se-lhe arrebatadamente aos pés.
(2 Erguendo-a.
(3 Olhando-a amorosamente •
( 4 Tornando para o meio da scena.
5 Arroja-se-lhe aos pés.
6 Ergue-se apressadamente, e a p e r t a ~ & nos braços.
7 ChoraRdo.
8 Puchando-a para a abobada.
DBAMAB TRADUZIDOS
Escuta-me, Sinval. Inda não sabes (1)
Que um triste azar, um snbito infortunio
'frouxa a esta clausura ha poucas horas
Minha mãe?
THEÓTIMO (2)
Toa mãe ! Que ! A cansa
Das nossas affi.icçoes, doR nossos males !
EUPBBIIIA (8)
Não, ella já 1nndou de sentimentos;
Sinval! E' minha mãe •.• ah!. se
Fica exposta ao da penuria.
THEÓTIMO (4)
Tu falias em parentes co'um amante,
Comigo, qoe de nada me recordo,
De nada senão tu, que te idolatro,
Qoe nunca idolatrei senão Constança !
Ah ! Que não tens uma alma egual á minha.
Não receies, que a misera indigencia
AfHija tua mãe. Eu te prometto,
Que, apezar da distancia em que estivermos,
Havemos de valer-lhe, soccorrel-a,
E . • . vamos, foge o tempo, e já por estas
gretadas se conhece (5)
Que o dia vem nascendo.
BUPBEMI.A.
Eu ser prejora! •••
Não posso ..•. nlo ••. {6)
(1) Parando.
2 Com assombro e indignação.
3 Enternecida.
4 Tendo parado com Euphemia.
5 Puchando-a.
385
6 Cáe sobre os joelhos, erguendo as mãos para Theót1mo,
como rogando-o.
VOL. 111 25
386
OBRAS DB BOCAGE
TBEÓTIJIO
Jt'&. agora não me abrandas;
D'aqui, a teu pezar, hei de arrancar-te. (1 ).
BUPBBJIIA (2)
Que fazes?... Ah Sinval ••• meu Deus! •.• Eu morro ••• (3)
Nas tuas ímpias mAos meu véo se rompe. • • o •
Espera ••• Oh céos ! ... A terra me devora. (4)
ACENA III
Euphemfa, Theótfmo, Sophia, a Condessa, Oeotlfa
SOPBIA (5)
Theótimo!
CONDBS8A (6)
Sinvall (7)
EUPBEKIA (8)
o Deus me castiga,
Derribou-me seu braço omnipotente,
Chamou-me aqui para julgar meu crime,
E aqui mesmo destróe minha existencia,
Aqui mesmo (ai de mim!) pôz o limite
Dos attentados meus, dos meus delirios;
Beculos de tonnentos já começam
Ergue-a com violencia, e caminha para a abobada.
Chorosa.
Desordena-se-lhe o véo.
4 uma das sepulturas, que estilo na scena, se abre de-
baixo dos pês de Euphemia; parte-se a campa, e cáe com es-
trondo; Euphemia vai com e-lla, e fica com meio corpo dentro
do sepulchro. A Condessa appareee na escada com uma luz
na rolo, e conduzida por Sophia.
~
5 ~ Encarando ambas n'elle.
6 Escapa-lhe a luz da mlo, e cáe nos braços de Sophia.
7 Cecilia abre uma porta, que diz para a abobada, e re-
ct\a assustada. E uphemia e 1.,heótimo estilo cheios de terror,
e isto faz com que não vejam os outros.
(8) Tornando um pouco ~ si.
DBAHAS TRADUZIDOS
A rolar para min1 • • • a eternidade ..•
A eternidade horrível se me ant'ólha •••
N'este lugar medonho espero a morte ...
Já tenho aberta a minha sepultura. • . (1)
.Vai-te, homem critninoso, h o ~ e m funesto;
Foge, e meu fitn .terrível te abra os olhos.
Não sentiste ri'essa alma endurecida, ·
Não sentiste da campa o baque horrendo!
Não viste a mão de Dens despedaçai-a
Debaixo de meus pés ! V eiu P-Ile mesmo
De tens profanos braços arra·ncar-me; ·
·EIIe me arremessou n'este sepulchro,
Para o seu tribunal elle me cita,
E comigo te arrasta·; não, não has de
Escapar-lhe da espada vingadora .••
Elle ameaça, o golpe está caindo;
A soa tocha eterna te persegue
Por entre estes horrores, e estas sorn bras;
Observa, treme, lê tua sentença
N'esses funéreos marmores escripta ...
Eis o raio ..• ·eis o raio. • . elle rebenta,
Elle cáe sobre nós • • o inferno se abre ..•
Oh Sinval, que phantasmas horrorosos!
Milhões de espectros ante mim volteam;
Congregaram-se aqui todos os mortos, .
Surgiram .contra mim da sepultura;
Afferram-me .•. Esperae, eu vou comvosco,
Voo misturar co'a vossa a minha cinzn;
Cessem de me accnsar vossos lamentos .••
Do céo não ha de a colera applacar-se!
Oh senhor do universo I Oh rei supretno,
De soffrer-me cançado! . Em mim só1nente
Entorna o calix das vinganças tuas! ( 2)
De Sinval, .oh meu Deus, teu raio affasta,
E um remorso efficaz lhe expie a. culpa. (3)
Ah mãe, querida mãe I Chegae, valei-me ..•
Sim, vós vêdes Sinval, que eu amo ainda.
Minha mãe, n 'este instante. • • eu vos fugia,
387
(1) Theótimo a quer erguer, e e lia o a ffasta de si com in-
dignação.
(2) Com ternura.
(3) Voltando-se, vê a Condessa.
388 OBRAS DE BOCAG'B
E violava os meus votos para sempre .•.
D'este sagrado asylo eu caminhava
Para o meu precipício, eu seduzia
A Sinval para socio do tneu crime •. ,
Eu o obrigava. . . Deus, Deus, vagaroso
Em vingar-se de mhn, veiu arrojar-n1e
Emfim n'este sepulchro ... e n'elle qneró
Morrer. (1)
CONDESSA
Oh céos!
, THEÓ'riMO (2)
Contempla o que fizeste. (3)
EtTPHEM f.A. ( 4)
Ainda estás aqui ! Ah ! Que 1nais
O céo ameaçará sem que te abale ?
De triumphar de nós é já tempo?
Réos, credores do anathema espantoso,
Rebeldes sempre a Deus, esperaremos
Que o trovão, que resôa, em nós estale ?
Esperaremos o momento horrivel,
Em que ardente, penosa eternidade,
Vingando o céo, nos suma, nos devóre ?
Da justa punição, que nos prepara,
já me avisou : Sinval J Ah f Céde
A minha voz, á voz do teu remorso,
Á vóz da ás leis divinas,
A Constànça, a ti mesmo; eu te confesso,
Pela ultima vez, que aióda te amo,
Mas que esta revoltosa sympathia,
Que o menor sentimento de ternura
Devo, e quero abafar. Se amor. • . que disse !
Se piedade te move, se em teu peito
Tem poder minhas lagrimas ainda (5),
Lança-se sobre a campa, e abraça-a impetuosamente.
2 Para a Condessa.
3 Todas as personagens ficam algum tempo em silencio
pro undo.
(4) Olhando para Theótimo, e erguendo-se com furor.
(5) Theótimo se vai enternecendo.
DRAMAS TRADUZIDOe
Permitte-me, que leve ás santas aras
J\Ieu pranto, meus remorsos, meus martyrios,
E que me sacrifique ao céo, que oflendo •.
Tn choras, tuas lagritnas tne acodem,
E te faliam por Deus, que te abre os braços,
Que ao coração te volve . . • ah ! Não lh 'o feches,
Sinval, vae a seus pés depôr tens Inales,
V ae. . . o arrependimento a Deus gloria.
Ha de a nossa amargura enternecêl-o,
Ha de applacar-se; demos mais um passo
Para elle, e o perdão é infallivel.
THEÓTIMO (1)
Triumphou; tens na boca a sua graça;
Eu cêdo a seu poder: para abrandar-me
De ti se serve, e tu me restituas
Ao dever, tlos altares, a mim mesmo,
A dez annos de rigidas
Que sem ti perderia. Em vão repugna
Meu coração, debalde quer oppôr-se,
Achar algum obstaculo. . . o teu pranto
Sobre este coração faz nm milagre.
força, pois . . . e attrevo-me a dizei-o !
E força renunciar. • . o amor. . . Constança !
389
Sim. • . deixar-te. . . fugir-te. . . em fim, privar-me
Para sempre de tudo quanto adoro;
Perder, longe de ti, a inutil vida,
Que aborreço; arrancar-te da minha alma ...
Oh céo! E isto não basta? Que mais queres?
EUPHEl\flA
Graças, benigno Deus, graças ! Eu vejo
Theótimo outra vez. ·
.
THEÓTIMO
Ah ! Que a virtude
Jámais esteve tão visinha ao crime:
(1) Chorando amargamente, e depois de grande pausa.
390 OBRAH DE BOCAGE
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - ~ - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Men triste coração bem o exp'ritnenta.
Morrer é nada: observa quantos males
E' capaz de soffrer a humanidade;
Vê o abysmo espantoso, a que tne arrôjo:
Eu me ausento, Constança, eu parto. . • eu fujo ..•
Eu te deixo . . . eu te perco . . • eu te .obedeço ..•
lnda mais do que aos céos. . . Em fim. • • recebe
O meu eterno adeus . . sinto no peito .
Mil mortes. . . eu te perco para sempre,
Quando .• • (oh--céos !) quando nunca te amei tanto. (1)
EUPHEMIA (2)
Só me resta. . • morrer. ( 3)
Euphemia, A Condessa, Sophia, Cecilia
SOPHIA
Em fim, triumphas!
O dom da graça reforçou teu peito! (4)
Oh meu Deus ! Attendeste ás minhas preces,
E a minha Euphemia ao numero ditoso
Dos escolhidos teus associaste.
Nós vinham os, amiga, dar-te auxilio, (5)
Moderar tua dor; porétn Deq.s tnesmo
Se dignou de baixar do throno augusto
A aplanar-te o caminho da victoria.
Gosa, pois, da maior felicidade,
Que é licita aos n1ortaes. Este conflicto,
Em que a mais forte das paixoes domaste,
Firma o poder da religião sagrada.
(lJ Sáe violenta, e precipitadamente. ·
(2 Seguindo-o com os olhos até o perder de vista.
(3 Cáe com os braços estendidos sobre uma das pedras
sepulchraes. .
(4) Abraçando Euphemia com transporte.
(õ) A Euphemia.
DBAKAS TRADUZIDOS
OBOILI.A.
Um tão sublime esforço me confunde! (1)
Eu lhe observava cautamente os passos
Por entre a escuridade; a soa fuga
Eu é que a revelei: mas, obrigada
A adlllirar-lhe a constancia, -reconheço
Que a virtude é aos céos mais agradavel
Depois de combater.
SOPHIA (2)
. Mas eu a sinto
sem acordo entre meus braços! ...
Tem no pallido rosto impressa a morte !
Senhora, soccorramos vossa filha ••• (3)
Quanto a virtude (oh céos !) nos é custosa !
Minha irmA .•. (4)
CONDBB8!.
Eis o fructo dos rigores
De uma barbara mãe ! Oh vós, que, injustas,
Não sabeis sustentar este piedoso,
E sagrado caracter, ah ! Devíeis
Ser testemunhas do horrido
Qoe do matemo atnor pune a cegueira. (5)
(
2
1 A Sophia. . .
( Occupada em soccorrer Euphemia.
Com ancia para a Condessa.
391
-
("* Para Euphemia com ternura.
(5 A Condessa, Sophia, e Cecilia se unem para tomar nos
braços Euphemia moribunda.
ERIGIA OU A VESTAL
TRAGEDIA
DE
:b4R. D::J.AN'"O::S:ET
TRADUZIDA F.ll VERSOS PORTUGUEZKS
Sainte lleligio?l, q-ue tonnez Bttr les crimes,
De sentiment• si vrais sont-ils illegitimes!
LarraEs d'une Cha.noinesse de Lisbonne.
ACTORES
V BTURIA. . • . • • • • • • . . • Primeira sacerdotisa de Vuta.
ERICIA.. • • • . • • • • • • . • • Vestal.
ExrLr.&..... . . . . • . . • . . Donzella, que aspira ao culto de Vuta.
A UBELIO. . • • • • • • • • • • • Grande 1acerdote.
AFRANIO • • • • • • • • • • • • Patricio romano.
VE8TAEB, SACERDOTES, POVO, SOLDADOI
A se ena é em Roma, no templo de \'esta •



(


PROLOGO DO TRADUCTOR
r
O genio portuguez expõe na scena
A critica sisuda um triste caso
Do fallaz paganismo acçl.o funesta :
Fructo dos tempos, dos costumes feros,
Que as leis d.a humanidade assoberbaram;
Quem tão ferreo será, que não deplore
Candida virgem, misera donzella,
Ornamento gentil da natureza,
N asei da, brando Amor, para teu jogo,
Aos prazeres, ao mundo arrebatada;
Victima d'ambição de um pae tyranno,
Gemendo em ferros, que só rompe a morte,
Que a vl supersti9lo julgou sagrados,
· E na revolta idéa em vlo nutrindo
Agras memorias de chorado amante?
Horrorise Ulysséa a lei tremenda,
Que em Roma confundiu ternura, e crime ;

As fraquezas d'amor tem jus ao pranto,
E da humana existencia amor é parte ;
Em todos vive, a todos
E doce compaixão, que n'alma influe,
PeJos males que vê, requinta n'alma
Se os padece virtude, ou formosura ;
Sensiveis corações, chorae com ella I

898 OBRAS DB BOOAGB
Rebentem, fervam lagrimas nos olhos
Do terno espectador, gemidos sôem ;
De a gloria em ais consiste.
A illusão, que á. verdade at; côres furta,
l\Iuda logares, seculos transplanta;
Realisa ficções, com alta industria;
Faz que ás patrias arêas extorquid(tS
o 1'ibre, onde murmura o Tejo.
Revivam leis crueis, ou leis suaves,
E até do somno eterno acordem cit?-zas;
Os olhos julgarão, e os pensamento8,
Que entre negro tropel de paixões cegas,
A morte sobre .a scena está reinando.
Hl.o de cuidar e apiedados,
Que o ferro matador se vae sumindo,
No seio da triste amante,
Do infeliz amador no peito ancioso :
'ranto a maga illusão nas alma pódc !
'fal nl.o seja porém o imperio d,ella,
Que em ti, grave assemhléa illumiuada,
Insinue apparente analogia; ·
Na guerra atroz de indomitos aifectos
Assalteado o céo não se ant'olhe;
Nem cuides que allegorico artificio
D'audaz, profana Musa envolve, eguala
Santa religião com impia crença.
Desesperado, insano amor declama ;
Deu-se-lhe a voz, o ardor, que lhe competem;
Contra a superstição brutal e infesta,
Contra leis, que o rigor santificára,
C'ontra votos servís d'alma arrancados,
Sacode o turbilhão de horrendas pragas ;
Não contra o domicilio augusto, e sacro
(Jnde o Deus da razão lhe expraia o I um e,
as nevoas gasta da moral cegueira,
Onde jugo macio enlaça os collos,
Os niveos collos de innocentes pombas,
E onde a benigna, placida ·virtude
Com sereno prazer se ri, c'roada

Das flores, que do céo lhe estão caindo.
Temeraria alluslo nlo damna os versos,
Com que a. furia d'amor, com duro exemplo

DBAIIAS TRADUZIDOS
Espavorindo o mundo, o mundo instrua,
E d'enormes desgraças o acautéla.
Bocago os attraíu do Sena ao Tejo,
Bocage, que de affeito á desventura,
E a o ~ tonnentos d'amor, cantar nlo sabe
Seus gostos casuaes, seus bens tardios :
De vãos prazeres frívolos escravos,
Vós, almas frias, que a tristeza enjôa,
A h ! Longe, longe ; - ás almas, como a sua,
Dirige· o v ate a luctuosa off'renda,
E o pranto, que notar, será seu premio.
899

. ----·--------------
ERICIA OU A VESTAL
() theatro representa o templo de Vesta. O fogo sagrado está
,
acceso no altar. E noutc, e só este fogo allumia o templo.
As V estas estão prostradas.
SCENA I
Veturia. e as Vestaes
VETUBIA (1)
Oh Deusa, protectora dos romanos,
Oh V esta sacrosanta, augnst.a virgetn.
~ ê favoravel sempre a quem te adora:
Por teu sopro imtnortal sempre animado
O sacro fogo em tuas aras brilhe.
Etn quanto o vencedor d'altiva Hespanha,
Etn quanto Scipião de Roma as aguias
Conduz aos muros da feroz Carthago,
Dobra a cerviz do indomito africano,
Tu volve para nós benignos olhos,
Conserva a paz, e a gloria em nossos muros;
·Ouve a tua fiel sacerdotisa,
Que te incensa, te invoca, e d'este povo
Preces, votos depõe nos teus altares. (2)
Vós, oh filhas do céo, donze1las santas,
Vós, cujos coraçoes purificados
Á virtude, ao dever se consagraram,
(I) Encostada com uma das mãos sobre o altar.
(2) Para as Vestaes que se erguem.
VOL. 111 26
402 OBRAS DJ: BOCAGJ:
E a quem n'este feliz, quieto asylo
Um destino suave os céos concedem,
Longe das cegas illusões do mundo:
Dae, dae graças a Vesta; os seus favores
Deprecae, merecei: nos cultos d'ella
Só devem consistir vossos cuidados,
Desejos, pensamentos, gloria, ·tudo. (1)
As sombras vem caíndo, e quando a aurora
Desfizer a nocturna escnridade,
Veremos outra vez o diá illnstre,
Em que o melhor dos reifl, o sabio Numa,
De V esta submetteu ao grande auspicio
Seu throno inda recente: e n'este dia
A deidade immortal de nós espéra
Almas submissas, corações libertos
Das vis correntes da fraqueza humana. (2)
Para a santa, annual festividade
A lembrança dos votos vos disponha;
Nada os póde annullar. Pensae, oh virgens, (3)
No terrivel sepulcbro destinado
Para a torpe Vestal, que escandalosa
Da deusa a estancia augnsta;
Pensae, pensae que em vós é crime um erro,
Que Vesta lê naH almas,- que seus olhos
Sempre estão fitos n'este immenso espaço,
E, mais que em tudo, em nós;- que nlo conhece1n •
Nem tempos, nen1 limites, nem distancias,
Que abarcando o universo elles penetram,
Com prompta, com egoal facilidade,
A densa terra, os ares transparentes.
Recolhei-vos.- E tu, que pela scrte (4)
Hoje para velar forte escolhida,
()onserva este deposito sagrado;
Vê que n'estes altares venerandos (5)
A deusa te escutou solemnes votos;
Um queixume, um so ai póde aggraval-a;
'!'reme, •adora-lhe as leis, sê digna d'ella.
(1) Ericia suspira.
(2) Ericia se perturba.
Novos signaes de perturbação em Ericia.
(4 Vão-se as Vestaes menos Ericia.
(5 Apontando· para o lume sagrado.
DRAliA8 TRADUZIDOS
SCENA II
ERICJ.A. (1)
Assim da minha dor se cotnpadecenl ! ...
O céo d e v ~ a ouvir pezados votos,
Votos, que o coração desapprovava! .•
Um inflexível páe me trouxe, oh deusa,
Victin1a involnntaria aos teus altares;
Tu o sabes; indigna. de servir· te,
Podia submetter-me a teus preceitos,
Votar-te um coração que já não tinha?
Afranio m'o roubou, inda o possue,
Inda a memoria do meu doce amante
Me persegue a teus pés, oh divindade!
Aqui mesmo suspiro, ardo por elle .••
Saberá de meu mal ? Terá noticia
Das lagrimas, que dou á sua ausencia '! . ••
Chorará como eu choro?. . . Amar-me-ha inda?
Ah dúvida cruel, tu me envenenas ....
Deusa! Deusa! Eu t'offendo, eu te profano,
Mas nm lustr9 (ai de mirn) soltar não pôde
Da suave attracção n1eu pensatnento;
N'elle reina, triutnpha a grata itnagern
De meus benignos amorosos dias,
Suffoca para sernpre, extingue, oh deusa,
Este fogo invencivel, qtie me abraza;
Arranca-me do peito o tnnvioso
Coração infeliz,· e atribulado,
Que nasceu para. amar, e amar não deve.
SCENA III
Emilia e Ericia
EMILIA
O zelo a ti tne guia, eu te supplico
1tle permittas valer cotntigo a noute,
Em que te é confiado o sacro ltune;
(1) Olhando para Veturia, que se vae.
403
404: OBRAS DB BOCAGE
Cêdo ao culto de Vesta hei de obrigar-me;
Tão doce expectação quanto me é grata !
De ti venho aprender como se deve
Servir a divindade.
KBICIA
1\h desgraçada! (1)
EMILIA.
Digna-te pois .•.
EBICIA.
E1nilia, ainda és livre ..•
Assim como a seduze1n, já tentaram
Seduzir-me, encantar me ... ao jugo acerbo
Eu fugia, eu me oppunba . . . Elia se entrega :
N'um abystno de males, de tormentos -
A querem despenhar. E zelo é isto! .••
Ah, tua ahna innocente, ingenua, pura
Tem medido (ai de n1im !) tem ponderado
Toda a longa extensão d'estes deveres,
A que _intenta cingir-se?
EM I LIA
A paz, e a gloria
Venho aqui merecer, gosar comtigo;
De Vesta os beneficios, a cletnencia
Toa felicidade. . . Ericia, choras? ••.
EBICIA.
Que beneficios !
EM I LIA.
Céos ! quanto me assombram
As 1
. . ' A .
agr1mas, que veJO . . . • ngust1a • • pranto
N'este sacro logar! ... NAo, tudo, tudo .
Aqui me lisonjêa, aqui me off'rece
A face da ventura.
EBICIA.
Ah ! Como a enganam !
Eu devo ao pé do abysmo allumiar-lhe;
(1) Olhando-a com ternura.
DllAMAS TRADUZlDOS
· 1\.fal póde a compaixão ser um delicto !
Fascinaram-te, En1ilia, ouve a .amisade.
Choro os teus fados. . . A innocencia tua;
De ti, d'essa Blusão sinto a piedade,
· Que de mim não sentiram! .•. !\{ais sincera·,
Mais justa devo ser. • . Husca@, oh filha,
Buscas n'estes altares a ventura .•.
Sabe que não existe onde a presumes.
EMILIA
Céos!
ERICJA
Desesperação, pavor, tristeza,
!IHis· terriveis que a morte aqui residem; .
As almas carregadas, opprimidns
C'o pezo do dever, aqui desmaiam;
Eterno abutre de implacavel fome
Aqui mirradas victinlaS devora;
.Aqui surgir do peito os ais não ousam,
Medroso ao coração recúa o prant.o;
Té a mesma virtude, em toda a parte · ·
Tão doce, tão pacifica, mudando
·.De natureza aqui nos atormenta,
Nos faz desesperar, morrer mit vezes.
EM I LIA
Que! P a ~ e c e - s e aqui ! Sinto a minha alma
Confusa de te ouvir, não convencida .•.
Ah ! Quererás talvez exp'rimentar-me ...
Perdoa: Roma crê que sois ditosas,
Que a deusa com tranquillos, puros gostos
J>rospéra, aformosêa os vossos dias.
EBICJA
Roma não vê, não sabe o que soffremos,
A desesperação, que em nós ferll)enta;
Roma de longe nos applaude ..• e os ferros
Nos pezam mais, e mais, de dia em dia.
Estas grossas muralhas vedam, somem
.A seus olhos o horror, que nos abrange.
405
406 OBRAS DE DOCAGJ:
Tu ainda és feliz, ainda ignoras
A que tribulações, a que desastres
O humano coração nasceu propenso.
EIIILIA
as que incensam seus altares
Amargosa oppresslo nas leis de V este'?
Do mundo que deixáram têm saudades !
ElliCJA
Dá-me crédito, Emilia •.. Oh quantas,
Como tu, condozidas pelo zelo
Aos altares de V esta e retractando
(Mas já tarde) os seus votos indiscretos
N'um silencio tyranno a dôr enfrêam !
Algumas ha (mais dignas de carpir-se)
Que victimas do que os céos lhe deram
(Ou antes da ambição de páes injustos)
Vieram com violencia a estas aras
Votar-se á solidão, ao captiveiro,
Enterrar-se n'om carcere de
Quando ao Inundo as chatnava o pensamento!
Ao mundo, que a seus olhos presentava
Alta felicidade em mil (\bjectos,
· Gostos n'este logar desconhecidos!
O templo em que lhes cumpre, etn que é forçoso
Que a magoa lhes consuma os turvos dias,
Sem que doce esperança as lisonjêe,
Este rigido templo um muro
Ergue entre ellas, e o mundo; ellas desejam
Ir gosal-o outra vez, quere1n remir-se
])'amargosa oppressão. . . Mas lei sagrada,
lnvencivel obstaculo as suspende !
Além d'esta muralha antiga, horrenda,
Que de tudo as separa, a instante
Sua alma se arrebata, Pe extravia;
Seus vão, vão seus desejos
Sedentos demandar entre os romanos
Um prazer qoe lhes foge, e fados novos;
?tlai em ferrea prisão seus agros dias
DBAliAS TRADUZIDOS
Ao rigoroso templo estão ligados.
Âs ledas illuaoes se desvanecem,
E a desesperação de horror cercada
()s tristes coraçoea fica roendo.
l!Jntão sente-se mais ao jugo o pezo,
A morte que o desate então se roga;
Mas ao continuo rogo a morte é surda:
·v ae calada affiicção ralando o peito,
Nenhuma d'estas victimas se affouta
A descobrir seu mal, antes o occulta.
Póde ao menos no mundo a quem -nos ama
() nosso coração manifestar-se;
Póde chorar no mundo, ~ ser chorado;
Mas aqui a affiicção não ha piedade;
Miseros coraçoes aqui nio gosam
Nem a consolação de os lamentarem,
Esse unico prazer dos desgraçados!
BIIILI.l.
Nada póde aterrar-1ne: o genio, o zelo
Aos altares da deusa me guiaram,
() mundo para mim não tem valia;
·Pago-me de o deixar; memotias soas
Já mais me custarão nem um suspiro.
Que attractivos ha n'elle? Os vãos prazeres,
Q nada dos seus bens sentiu minha alma,
.Sagaz adulaçAo vãmente os doura,
No mundo affecta o vicio de virtude:
Triumpha o cri1ne: os deuses se profanam ..•
BRIOl A.

Ah que o conheces mal ! Tua innocencia
() mundo pinta, e crê, segundo as falsas
Doctrinas, que recebe a cega infancia.
, Não achas preciosa a liberdade?
EJIILI..l.
~ a s essa liberdade, isso que choras
Quando é nosso? As mulheres sempre escravas,
407
408 OBRAS DE BOCAGE
Victitnas do interesso, e do costume,
Dependem do dever, e não da escolha;
Se acaso d'utn consorte ás leis se obrigam,
Cumpre condescender com eeus caprichos,
Supportar seus defeitos; cumpre amai-o;
Cumpre até venerar-lhe as injustiças:
Póde-se appetecer tão duro estado?
Ah I Só n'este logar serei ditosa.
BBICIA
Serias, porque tens tranquillo o
Aqui mansa innocencia abrigo encontra;
o tempo virá tornar peno8o
O e!tado, que tão doce te parece;
E o véo das illusoes ha de romper-se.
viçosa edade, ern que os humanos
A si mesmos se ignoratn, inda, Emilia,
Inda o teu corac;ão te não diz nada.
Tens mudos os sentidos, e ociosos,
Nada os ancêa. A natureza dorme,
Elia despertará. Não ·pára o tempo;
V em apontando a edade, en1 que tua alma
Surgirá do lethargo, e indo1encia,
Sentimentos incognitos provando:
Não lhe hão de então bnstar, ne1n saciai-a
Os altares de V esta, as leis, e o culto.
Dos primeiros desejos assombrada
Inquieta, ao pensarnento
Te virá nov.a sorte, e novo estado;
O mundo, que odi(.so se ant'olha,
Outra côr totnará na tua idéa ...
Mas tarde, mas em vão! E a soledade, ·
Este jugo, este horror, o altar, e os votos
Irão de dia em dia exacerbando
O teu desasocego, os teus desgostos.
EMJLIA
D 'essas pertnrbaçoes, d desgostos,
De que excitas em mim confusa idéa,
Aqui meu coraçÃo terei seguro.
'

DRAMAS TRADUZIDOS
.ERICIA
Que seria de ti, se um doce objecto
O terno coração te esc la e c e ~ s e
Entre esta escuridão' Se nffogueadn
Tua alma por outra alma suspirasse,
Que acceza appetecesse unir-se á tua?
Em tal consternação onde acharias,
Oh triste, o teu soccorro, o teu refugio?
Buscarias debalde a paz perdidn.
Leio etn teu coração pelos teus olhos,
Sei que te deixa absorta o que me escutas.
Teme a tua innocencin, ella concorr·e
A seduzir-te, Emilia. Esta linguagem,
No logar onde a fallo, é estrangeira;
1\Ias do risco, em que estás, qnero salvar-te.
EM I LIA
E' tal que te mereça a dor que observo !
Commovem-me tens ais, creio em teu pranto;
A pezar da affiicção de un1 páe querido,
Que saudoso entre os braços me aft'agava,
A idéa da ventura aqui 1ue trouxe,
E ... (1)
ERICIA
409
Falias em teu pó e.?. . . E's d'elle atnada?
EM I LIA
Eu sei que lhe é penoso o meu projecto,
E costa-me aflligil-o.
EBICIA
Ama--te, Emilia?
E atreves-te a deixai-o 1 . •• Ah! Considera
N'esse amor, n'esse bean, tnerece-o, torna
Ao seio paternal, vae consolai-o.
Como és digna de inveja! ..• Um páe te amima!
Ai. de mim ! Quantas lagrimns excitam
N'este triste logar! De quantos males
Inexoraveis páes têm sido origem !
(1) Ericia interrom11endo-a.


410 OBRAS DS BOOAGB
As preoccupaçoes, o orgulho, o sexo,
O jus dos primogenitos, ou
Parcial injustiça, em um dos filhos
Lhes concentra os desvelos, e a ternura.
Instados d'ambiçlo guial-o intentam
Às altas, ás pomposas digaidades,
E ao futuro esplendor lhe sacrificam
As miseras irmb!. • • Oh p.íes tyrannos!
Que! Não murmura em vós a natureza
Contra esta preferencia abominavel ! ...
Foge, foge d'aqui, ditosa Emilia,
Agradecendo aos céos um pá e benigno;
V ae ser-lhe arrimo á languidJl velhice,
Vae ajudar-lhe os passos;
Teu dever lhe aligeira o pezo á vida,
Lhe disfarce o pavor da sepultura:
Quem nps pinta dos numes a clemencia
E' só a ingenua, a paternal bondade.
EJIJLIA
Cumpre sacrificar aos deuses tudo:
Eis o que me ensinaram.
EBICIA
Desvanece
Esse enguno, em que jaz tua alma envolta:
Escuta o ooraçAo, da natureza
Ouve a benigna voz, que a todos falia:
Deve-se culto aos céos, aos páes ternura;
Triste de quem n'um páe acha um tyranno!
EJIILI..l.
Ouço-te com terror ! V esta não póde
Livrar teu coraçlo d'esses desgostos Y
BJUCU.
V esta!. • • V esta !. . • Ai de mim ! .•• V ae minha filha,
V deixa-me só ! . . . No peito encérro
Crueis tribulaçoes. • . tu não as sentes .••
N Ao as aaibas •••
J
'F"'. -
DBAIIAS TBADUZJD08
BJIILIA.
Confiu os teus segredos
De um coração, que te. ama, e que .•
EBICIA. .
411
Ha segredos,
Que da alma, que os contém, sair nio devem.
A amisade a meu mal não poderia
Dar lenitivo algum. Deixa-me. (1)
SCENA IV
.B:aJC.U
_ Oh deuses I
Quanto em um coração, se amor o ancêa,
Costa reter segredos, que lhe pézam !
.Já não posso esperar socego, alli Yio !
Ha de sempre a minha alma em seus transportes
Revolver-se no crime, e no remorso !
1nda, feliz EmiJia, és insensível;
Inda serena victima innocente,
Ignorando o perigo, a dor, e os males,
Que estas 'fataes abobadas encerram,
Corres sem susto para o ferro erguido,
Destinado a ferir-te, ah ! lnda beijas
O funesto grilhão, que te sobpêa;
Só vês as flores de que estás c'roada .••
Eu provo todo o horror do sacrificio,
Do sacrificio atroz. Oh céo!. • • Não hei de
Mitigar teu rigor I Se de almas puras, (2)
Prézas, Vesta immortal, o ~ r d o r , o incens.o
Muda, converte a minha; e se é possivel,
N'este peito afanoso influe, oh deusa,
O fervor, a innocencia, a paz de Emilia.
Esvaece, destroe, consome, apaga
A lembrança tenaz, que me persegue,
Só quero que me esqueça o meu atnante •••
Que desejo! Ai de mim ! Quem me di88era,
(1) Vae-se Emilia.
(2) Chega-se para o altar.
4:12 OBB.AS DE BOCAGE
Que fôra a minha dita, a minha gloria
Desterrai-o do peito, e do 8entido ! ...
Ah I Que acerbo dever, que tyrannía.
Me ordena, justos céos, que o sacrifique!
SCENA V
Ericia e Afranio
.AFRANIO
liens passos guia amor. (1)' É ella ••. Ericia ..• (2)
EBICIA
Afranio! ..• Ah! Onde estou! Q ~ e vejo! ... Eu morro!
.AFRANIO
Formoso, amado encanto, eu venho, eu venho
Esquecer a teus pés minha desgraça.
EBICIA
Afranio! ... Junto a tnim ! . . . Que ardor, que insania
Te Inove a pôr em rtsco a tuinha fama,
Os teus dias, e os meus 'I
AFRANIO (3)
Dissipa o medo.
N'este feliz momento a sorte atniga
Reconduz a. tens olhos lacritnosos
O teu saudoso atnante. Etn mil desgostos,
Sentindo o coração desfallecer-me,
E deprecando aos céos o bem de olhar-te,
Cançado de carpir, de amar sem fructo,
Entrei, pela 8audade enfurecido,
Na escura solidão do sacro bosque,
Onde este duro asylo se remata;
(1) Afranio caminha inqnieto e olhando para nm e outro
lado. Ericia està junto do altar.
(2) Chega-se.
(3) Com tom rapido.
DRAKAS TRADUZIDOS
Para os cegos mortaes o entrai-o é crime;
Mas nada me detel'·e. . . Um nutne, unt num e,
Sem du,,ida que ali me encaminhava !
Occupado em minar de nonte e dia
Passagem, que a teus pés 1ne dirigisse,
A terra ern fim cedeu, e abriu ·Catninho
A meus passos, a atnor. Por uma estrada
Subterranea, profunda, e tenebrosa,
Que vetn findar-se aqui, me entranho affouto.
Os olhos veladores, que te espiam,
Attentos ao festejo, ern ti não cuidam;
U 1n amigo me espera, e tne assegura
A fuga, vigiando alem dos 1nuros.
V em pois, aproveiterno-nos do te1npo;
Eu a tens pés teu coração reclamo,
Esse atuor puro, que dourou meus dias
~ n d a e1n ii resplandece i' E's inda a tnesma?
ERIOIA
413
Se te amo 1. • E1n que lugar! •.• Oh céos! Que .intentas?
AFRANIO
Que receio hei de ter, sendo inda amado T •.. (1) _
As trevas, o silencio nos ajudam, ·
Jaz afferrada ao sontno a tyrannia,
E os olhos ·d'amisade estão velando.
De ti privado, Ericia, ha quasi um lustro,
Entregue aos phrenesis, entregue ás ancias
Da desesperação, com mil clarnores
Accusando teu p a e ~ os céos, e os fados,
A vida e todo o mundo aborrecendo,
Para o fatal recinto, em que gemias,
Com raivoso tremor lançava os olhos:
Mil vezes (senão·fosse o teu perigo,
Ou antes tua morte inevitavel)
Mil vezes tornaria em cinza, em nada
Este carcere ilorrendo, erte sepulcbro.
Sem cessar flnctuando em vlos projectos
Para ver se mudava o teu destino,
(1) Com transporte.
-
414
OBRAS- DE BOCAOX .
Té disposto a vibrar n'un1 ferro a morte
Contra ten páe cruel, contra mitn mesmo,
To4o quanto furor nus almas cabe
Longamente por ti sentiu minha alma:
Mas do prazer e ardor só sente agora;
Tudo em n1eu coraçio cede á te mora •.•
Eu te vejo, eu te escnto, e nada temo.
ERICIA
As ancias da saudade, o mal d'ausencia
Snpportei como tu - . . Mas em que tempo
A meus olhos o céo te restitua! .•.
Envolta n'estes véos, estas aras
Ouso ver-te!. • . Escutar-te!. • . Amante! .... Amado! •.•
Oh Vesta!. . . Oh lei penosa 1 Oh sorte injusta I •••.
AFRANIO
Do páe deves queixar-te, e não da sorte:
A dureza feroz d'esse tyranno
Foi só quem motivou nossas desgraç8.8 .•.
Se a férvida paixão, que me insJ •iraste,
Não fôra escudo seu ... da minha amada
Uom seu sangue o cruel pagara o pranto.
Aos céos encommendei rninha vingança;
E os céos no horror do tutnulo arrojáram
Teu irmão, esse objecto etn que nutria
Funes.tas, orgulhosas esperanças.
ERICIA
Meu irmão, já não vive! Entt·e estes muros
Sumida, ao páe não devo
A miniri1á lernbrança ! Indo até agora
Noticia me não deu de seus destinos.
AFRANIO
Co'a tua compaixão teu páe condetnnas: ·
Elle renunciando o lustre, a pon1pa,
Do mundo se affastou, e ignoro aonde
A dor, e a desventura o conduziratn:
DBAliAS TRADUZIDOS
Deposto o nome, o gráo, fugindo a todos
Conta-se que no ta r aos deuses serve ...
'Embora expie a3 furias junto ó.s aras,
Que me importa o cruel, se vejo Ericin?
ERJCIA
Meu páe I •.•

Ainda o choras! Não te lernbras ...•
ERICIA
Forjou meu damno, e. . • lagrhnas lhe devo,
Elle em meu coração, elle em tneus dias
Vertendo amargo fel, veneno amargo,
Se privou dos desvelos, dos extremos
Da filial ternura: eu lhe seria
Branda consolação nos seus pezares ...
Propicio o nosso an1or, não levantara
Entre nós esta rigida barreira ...
Afranio ... Que é do tempo em que eu gosava
Dos olhos teus sem susto, e sen1 remorso ? .••
E tua, a par de ti, serena, e livro,
Acceza na paixão, que te accendia,
Utn prospero futuro imaginava'? ..•
· Tão bellos dias para nós morreratn.
AFRANIO
Revivem para nós tão bellos dias;
Temos em nossas tnãos nossa ventura.
Se inda o candido amor ferve em· teu peito,
Meus males, meus tormentos, meus transportes
Tem demonstrado assás que amor me inflamn1a.
O sangue dos Publicolas, o sangue
Que as vêas me circula, é grnto a Roma,
Roma chora o meu mal, e enternecida
De um robusto partido a mão me offerta.
Se és a que foste, appro,·a o meu desígnio,
Demos-lhes execução: risonhos fados
Aplanam para nós do bem a estrada.
415
416 OBRAS DE BOCAGE
-------------------- ---- --- --
ERICIA
Devia-te esquecer. . . Porérn não pude:
I nformern-te este altnr, e nquelles tnuros,
Entre as quaes tneu atnor desventurado
'fe carpiu sern cessar charnando a Inorte.
Ante este tnesmo altar, que é testemunha
De tão funesto amor, con1 rnil suspiros,
A deusa contra ti debalde invoco.
AFRANIO (1)
Perdoa. . . Este logar vedado a t o d o s ~
Franco está para miin. Venho propor-te
Que ro1npas teus gr·ilhões, que rne acompanhes,
Que debaixo de urn céo mais favnravel
Nos vamos esquecer do ferreo jugo,
Que os deuses, e .teu páe te fabricaram.
Atreves-te a seguir-me? .••
BRICIA
Eu estretneço . . . ( 2)
Que pretendes de mitn '! Não vês, não sabes
Que V esta nos contempla, e nos escuta? .••
AFRANIO (3)
-Para salvar quem atno, eu affrontara
Os céos, os proprios céos!. • . Porém qne digo!
Propicios a meu gosto os céos abriram
O caminho, que a ti me trouxe occulto.
Nada te impede a fuga, e já supponho
Inuteis ao projecto os meus sequazes;
A tua approvação só quero, e rogo,
Cêde aos desejos meus, e tudo é facil.
Amigo inseparavel me acotnpanha,
E da nova intenção vou dar-lhe a'riso;
Para a fuga dispôr basta-me um dia,
Com a noute án1anbã virei buscar-te.
(1) Com arrebatamento.
(2) Cheia de terror, e fugindo para o altar.
(3) Rapidamente.
DRAMAS TRADUZIDOS 417 .
JDBICIA
Que escuto ! . . . Irados céos I Terrível deusa ! ." ..
D'onde intenta arràncar-me um cego impulso ..• (1)
Troveja contra 1niin vingança eterna
Antes que d'este -altar .••
AVRANIO (2)
E amas-me ..
EBIC.h\.
Tu reforças meus males ... Sim, eu te a1no,
Assás por este amor sou criminosa !
Hei de, as aras, e a .densa abandonando, .
Da. perdição. . . do . . subir ao cume ! ...
Não, Afranio, o soccorro, a mão de V esta
l}esistencia dará, virtude, e forças
A fragil infeliz sacerdotiza;
{) céo defenderá do mais enorme,
Do mais negro dos crimes a minha alma:
.Sitn; aqui morrerei.
AI'BA.NIO
Não, tn não amas (3)
Enganou-me a apparencia. Eu vinha, ingrata,
De amorosas idéas inflammado ...
Esperava um prazer, um dia, um premio
Promettido aos extremos, e á constancia.
Adeus. . . Queres que morra. • • Eu te contento. ( 4)
EBICIA..
Onde vás, caro amante ? • • • O h céos ! Que disse ? ( 5)
Al!'BANIO
Depressa; que resolves ?
2 Consternado, e chegando-se a ella.
Com mais terror.
3 Affastando-se d'ella com um furor reprimido.
4) Indo-se.
5) Apartando-se do altar, e estendendo os braços para
Afranio ; torna logo a encostar-se no altar. Afranio voltando.
VOL.IIl 27

418 OBRAS DE BOOAGZ
EBICIA.
Olha o templo, (1)
A que um voto cruel me tem ligada;
Já o meu coração me não
Pertence á divindade. . . Os juramentos
Que me de ti, bem vês, bem sabes ...
AJIRANIO (2)
...
Que dizes I Que illusão f Que juramentos! ...
Os jurarr entos teus foram ser minha;
Os juramentos teus me asseverararn
Um permanente amor, um laço eterno.
Eu reclamo a teus pés o que jumste;
Esse voto, a teus labios extorquido,
Não rompe, não destroe o antigo voto;
A deusa, que te cinge a seus altares,
Sobre o teu coracão não tem direitos

Mais sagrados os meus; os meus procedetn
Do mesmo coração, que hoje n:te negas.
Ah ! Contrapezas espontaneos votos
A votos que arrancou brutal viole_ncia ?
Se crês que emfim o altar lhe o preço,
Tu tambem, tu primeiro Amor juraste:
, .
E seu altar teu petto, Amor conserva
Indestructivel jus sobre a tua alma;
Se temes ser sacrilega com V esta
Já com Amor sacrilega tens sido,
Com Amor, que mil vezes attestaste;
Ouso despedaçar teus duros ferros,
Ousa restituir-te aos teus direitos, •
O esposo attende, entrega-lhe a c<Jnsorte.
ERICIA (1)
Olha a terrivel deusa! •.. Qne ameaça •••
O altar, que treme! ... As chammas, que •••
(1) Perturbada chorando, e sem deixar o altar.
(2) Com vivacidade.
(3) Com desacordo e terror.
DRAMAS 'l.'RADUZIDOS
AFRANIO (1)
Qnem te affasta de mim, não, não é V esta,
E tna ingratidão, tua in diff'rença,
Ericia desleal ... En hoje ao cnme
Da gl0ria, do prazer ía elevar-me .. ..
A tua approvação nos enlaçava .. ..
Confiei-me de ti. . . Fiz mal, foi erro
A tninha confiança, eu vou punil-a ...
Tyranna! vou morrer de ntnor, de raiva,
De desesperação. . . Tu algum dia -
Amaste-me. . . O remorso ha de vingar-Ine.
Se aqui da minha morte houver·noticia,
A ti sómente accusa, a ti sómente;
Lembre-te o nosso adeus . . . r.Iais deshumana,
Mais d11:ra para tnitn, que um pae cruento,
Do pezo d'esses ferros carregada,
D'esses ferros servis, que me preferes,
Quando só attender a amor devias,
Ante este mesmo altar ... bas de carpir-me. (2)
ERJCIA
Oh deveres!. .. Oh Vesta f. .. Amor! Triumpha,
Minha alma contra os céos por ti decide.
Juro ...
SCENA VI

Erioia, Atranio ~ Emilia
EMILIA
419
· Augmenta, ou socega os meus terrores,
Que tudo o que te ouvi me encheu de assombro .. (3)
Mas a luz se an1ortece . . • A luz se apaga ...
Oh deusa! .um homem! ... Ah! ... (4)
( 1 ~ Com affiicção furiosa.
2 Caminha e torna.
~ 3 Buscando Ericia por entre a cscnridade, que resulta de
se ir apagando o fogo.
t4) Vae fugindo o fogo sagrado; apagando-se, deu um
grande clarão, que lhe fez vêr .Afranio.

420 OBHAH DE BOCAGE
SCEYA VII
Erioia e Afranio (1)
E RI CIA
Vê, vê o effeito, (2) _
Os damnos, que produz minha fraqueza!
Sabe-se tudo ! . .. . Oh céos ! . . . Viram-te, e ~ t a t n o s
Descobertos. . . Os deuses se. indignaratn •..
Afranio ... 'fu me perdes .... Cnn1pre, cutnpre
Que me ligue outra vez aos n1eus deveres •..
A deusa quiz traí r. . . ella se vinga ...
En me desdigo já ...
~
Não continues;
Não ha de ao teu atnante o céo roubar-te:
Por falta de alimento o fogo extincto
Aterra Ericia! Dieta-lhe un1 perjurio! ...
Ouço rumor; bem sei que perigo corres,
Torno ao meu socio, vou rogar-lhe auxilio,
Encarregar-lhe vou que apreste a fuga.
Pelo mesmo caminho eu virei )ogo
Vigiar no teu fado, e no teu risco,
Arrebatar-te a V esta·, expô r-me a tudo,
Defender-te, ou morrer. ( 4)
ERICIA (5)
Deixa essa empreza.
V esta exige uma victitna. . • este fogo
No altar morrendo revelou tneu crime •••
(1) Ambos em n1na grande consternação.
(2) Ericia tornando a si com terror e affiição. Isto antes
do verso.
(3) Interrompendo-o rapidamente.
( 4) Parte acceleradamente.
(5) Só, e perturbada.
DRAMAS TRADUZIDOS 421
SCENA VIII
Ericia, Veturia, e todas as Vestaes junto ao altar . .As Es-
cravas, que trazem luzes. Erioia. procura occ·ultar-ae na mul-
tülão.
VETURIA
Trazei luzes, trazei, corra-se o ternplo;
Trema o crime ... · oh terror ! . . . O h sacrilegio ! .•.
O lume protector ntorreu nas aras,
Vesta ameaça Rotna; agouro horrendo
No ledo instante do annual festejo,
Negras calamidades annuncia,
Troca um dia solernne· em dia infausto;
Na mente que de horrores antecipo!
Orgão de atroz desastre a 8acra tuba
Já derrama o terror por toda a parte,
O somno se dissipa, o medo accorda,
Jaz em luto o Senado, e Rotna em pranto
VÇ mil profundos hort;idos abysmos,
Que as bravas legiões lhe vão sorvendo;
Vê caír Scipião vencido em terra,
A affrontosos grilhoes os pulsoR dando ...
Oh deusa tutelar, o agouro afasta,
Basta o sangue do réo pa.ra applacar-te;
. Do impio caso o pontifica advertido
Etn breve chegará: nós, nós veretnos
Este juiz interprete dos nomes,
Da vingança dos céos encarregado;
Incendido no ardor de um zelo augu_sto,
D'alta religião brandindo o ferro!
Logo {oh magoa! Oh vergonha!) em nossos dias
O crime o chama aqui ! Deuses supremos !
Se o réo nos escapar, não vos escape,
Se ás nossas mãos fugir, não fuja ao raio;
Aos infernos o dou, só nos infernos
Ha pena, que responda ao seu delicto.
Talvez urna vestal perjura, infame
Sua cumplice foi; Jove pertnitta
Que o nome da infiel se



,


422
OBRAS DE BOCAGE
---------------------
~ o seu justo castigo os céos desarme.
Imitae-me,- prostremo-nos, oh virgens,
Ante o manchado altar, e a deusa irada
Com suspiros, com lagritnas se invoque. (1)
ERICIA
Aonde occultarei, supremos deuses,
Meus olhos. • . minha fronte criminosa !
Como· que este logar se vae fundindo
Debaixo de meus passos vacillantes ! .•.
O remorso implacavel me rodên. .•.
·Eu fhllo ... Conhecei a delinquente ... (2)
Elia mesma se accusa . . • (3)
VETURIA
Ob detestavel ...
EBICIA
Desculpa não procuro ao meu delicto ..•
Castiga, fere; rnata, mas não cubras
De oppobrios, de baldoes tninha desgraça:
Sim: n'esta habitação, que em pranto alago,
Por mim, por terno impulso. . . uma alma illustre,
Um mortal generoso. . . um homen1 digno
Da funesta paixão, que tne domina,
V eiu a deusa insultar no proprio templo;
Mas sabe o céo que em vez de convicln.l-o
Com profana ousadia ao sacrilegio,
Meu triste coração se horrorisava,
Tretnia de ceder aos seus desejos .
.
VETURIA
Temeraria! Não mais: do céo, que offendes,
Do céo, que te cendemna, a graça implora
Em resignado, e timido silencio.
(1) As Vestaes se prostram. Ericia n§.o póde esconder a per:..
turbação, e fica em pé.
(2) Encaminhando-se para Veturia.
(3) As Vestaes a ouvem com horror, e se levantam .

DRAMAS TRADUZIDOS
Aos pés do gran pontifica, que espero,
Deves só revelar impios
Tu és a que lhe dás um feio ingresso
N'este logar tretnendo; aqui sómente
l)elictos vem julgar. . . Soa presença
E para nós terrivel: assignal-a
Nossa affronta ..• Prejnra, indigna, teme
A sentença fatal, que de seus labios,
Qual raio vingador vae fulminar-te.
Com supremo poder prompto a firmal-a,
No au_stero tribunal junto o Senado
A torpe informação sómente espera.
lmpia! Rebelde ao céo ! Chora teus fados. (1)
SCENA IX
BRICIA
Debaixo de meus pés negreja a morte ! ...
· Aonde irei sumir_ a angustia, o pejo,
O terror, que me abrange! . . . Eu ouç.o, eu ouço
Um numa vingador, que em .mim troveja! ...

(l) Vae .. se com as Vestaes, e Escravas.
423
SCENA I
Veturia, Erioia, Aurelio e Vestaes
AURELlO (1)
. '
Da santa dignidade ornado apenas
Venho satisfazer-lhe a lei 1nais dura !
Devo em nome dos céos punir delictos ! ...
Imitar-lhe a clemencia antes quizera.
VETURIA. (2) .
· Senhor, sabes quetn foi a mão traidora,
Que a deusa profanou?. . Foi uma ingrata,
Uma filha sacrilega de V esta.
Vê o altar de seus fogos despojado,
Vê co'as nodoas do crime o templo augusto!
Não decorreu da noute inda metade:
A celeste vingançn, un1 justo exemplo
Deve á luz tnatutinn antecipar-se. (3)
A culpada aqui tens, indaga, e julga;
O publico terror em paz se torne.
Os direitos de V esta, os seus poderes
Jazem nas tuas mãos depositados. (4)
Nós vamos por mil votos applacal-a. (5)
'

No fundo do theatro.
2 Veturia para elle.
Presenta-lhe Ericia cuberta do véo, com a cabeça baixa
de confusão e terror.
( 4) Voltando para as Vestaes.
(5) Vae-se com as sacerdotizas.

\
426 OBRAS DE BOCAGE
-------
SCENA II
Aurelio, e Ericia que tem os olhos bai.xos como quem
deseja esconder o rollto aos do pontifice
AURELIO (1)
Meus olhos com terror vão rodeando
'rodo este sanctuario; ante elle eu sinto ·
'fremer-me o coração. . . tremer-me as plantas ••.
A leza divindade estn clamando,
Tractemos de punir, o mais se esqueça.
Chega. (2)
EBIOIA..
Que voz! •.. (3)
AURELIO
O critne está no templo, ( 4:)
Um castigo exemplar, que aterre o crime,
Os romanos attonítos esperatn.
A dureza das leis coarctar não posso,
Defende-te, se pódes.
EBIOJ.A. (5)
Céos ! . . . Que lance ! ....
Que amargura!. .. E' meu páe!. .. Não, não me engano; (6)
Pune ...
AURELIO
Que veio ! ... Oh Deus! ..•
E RIOJA
Vês tu a filha.
(1) Tendo seguido com os olhos as Vestaes, e olhando em
torno de si. ·
(2) Para Ericia.
(3) 'rurbada.
( 4) Sem olhar para ella.
(5) Olhando com perturbação.
(6) Depois de_ o tornar a encarar, e chegando-se a elle.


DRAMAS TRADUZIDOS
AURELIO
Elia f... Ericia! Olhos n1eus, ballucinaes-me 1 •••
Foi teu páe. . • contra ti chamado ao tetnplo ! ...
Assim. . • ao triste. . . vens apresentar-te ?
Voltas o rosto. . . nada me re3pondes T
ERICIA.
&nhor!
AURELIO
J ove sopremo I Eternos deuses !
427
Está pois convencida? .... A filha encontro! (1)
Os céos ..• a patria .•. as leis tnandam que morra ! .. ,
E eu devo condemnal-a! Oh! ...
BBICIA
E's tu mesmo
Meu juiz ... ah ? ...
AURELIO
Sel-o é forçoso. (2)
Debaixo de que estrella abominosa
Me creastes, oh céos ! . . . Desenganado,
Das chimeras do tuundo, aos pés dos numofl
Ia o fim demandar dos meus
Da minha agitação.
Nome, grandezas, tudo, ante os altares
Em silencio chorava; a meu despeito
De pontifica erguido ao gráo sublime
Hoje a ti me conduz feroz destino ...
Meu filho já não vive ... eu julgo, en creio
Que uma filha me resta, e vejo .. •. (oh sorte !)
Que enche todos os seus de eterno opprobrio I ...
·Infeliz ! . . . Esqueceu-te o juramento ? ...
Foste rebelde ás leis do céo dictadas? .•..
Ousaste ser perjura, e dispozeste
Fim triste a mim, e a ti, na dôr, na infamia!. , .
(1) Depois de algum silencio.
(2) Com amargura .

I
... ;
428 OBRAS DB BOCAGB
ERIGIA
Céos! ••• Que escuto! Senhor, eis-1ne prostrada,
Tua victima sou, mereço a ntorte:
Sei meu crime qual é .. porétn devias
Tu proprio, to, senhor, lançar-n1._o etn rosto? ...
Minha dôr tem direito a lamentar-se.
Eu amava (to mestno o conheceste);
Por teu odio tenaz fui constr:lngida ·
A mudar meu destino, e parn sempre
L>os braços paternaes arremeçnda
~ f e vi, a pezar meu, presa aos altares;
O melhor dos mortaes me foi roubado,
Elle me appareceu quando a saudade
Minha fragil razão desacordava;
Tu, tu sabes se o atno! ... Eia, condemna;
Sentencea, castiga. . . eu já não devo
Extranhar teu rigor; mas se te infamo,
Esse mesrno rigor sóment.e accusa.
Sim: quiz fugir d'este Jogar terriv:el,
Quiz um jugo romper, que 1Íle irnpozeste,
Mas ao designio meu se oppôz meu fado:
Perdi, murchei nas lagrimas, no opprobrio
A estação d'alegria, a flor dos annos,
Combater-1ne, opprimir-me, atorrnentar-me,
Padecer, suspirar foi meu destino.
A mil tribulações me cond nziste:
86 tenho no sepulchro o fint de todas:
.Em breve se abrirá por ordem tua .•.
As tuas proprias mãos me arroja.m n'elle ..•
Teu pranto corre?. . Não correu meu pranto,
Não soaram meus ais para obrigar-te
A affastar-me um grilhão peor que a morte? ..•
Meu pá e ! . . . Mas náf.l, senhor, meu pá e não foste! •••
Meu páe no coração me dera asylo,
Passaste a meu juiz, de meu tyranno:
Este nome feroz véda a ternura.
AURELIO
Justos céos ! . . .

DUAMAS TRADUZlDOS
--------- -----------
EBICIA
Tu, só tu Ine expoes á morte:
Soffre pois o amargor de tneus queixumes ...
'fua filha infeliz, quasi expirando, .
Deve ao seu infortunio esta vingança.
Da morte, que me dás, tu és culpado,
D'onde o crime nasceu, nasça o castigo,
A injustiça aboliu razoes do sangue.
sómente amor, aos páes nos liga;
Seus beneficios sós são seus direitos ...
Mas tu, que o desatnor, tu, que a fereza
Sempre co'a terna filha exercitaste,
Com que affagos, senhor, ou com que extremos
deveres, e os teus me tens 1nostrado? ·
O pposto a tneus legi ti mos desejos,
A todo o meu prazer contrario sempre,
U tna só vez sequer não prefe:riste
O caracter de páe ao de verdugo;
Deste-me a conhecer o que é desgraça,
Folgaste de meu 1nal. . . Não, não te assombre
Que eu do respeito as leis, senhor, não cutnpra;
Tu o exemplo me déste, atropellando
As maviosas leis da natureza.
AURELIO
429
Basta ... É muito ... Não muis, não mais, oh fillla .••
Poupa tneu coração ... não me espedaces .••
Teu páe foi criminoso. . . E's criminosa •..
Minha severidade E:stá punida ...
Tuas exprobraçoes enchem minha alma
De remorsos, de horror. . . Eu as mereço.
Oh da minha atnbição fructo amargoso!
Dons filhos possui . . . nenhum me resta.
Debaixo dos teus pés cavei o abysmo,
O pavoroso abysmo, em que te arrojo! ...
Ericia ..• Ah! Minhas lagritnas te vingam .••
Tua voz . . . tua voz. . . aqui resoa ( 1)
Fere meu coração, n'elle me accusa! (2)
Céos ! Minha filha esquiva-se a meus braços !
(1) Põe a mio no peito.
(2) Vae para ella.
430
OBRAS DB BOOAG.E
----------------
ERICIA
~ h meu páe!. . . Em que tetnpo n1 'os off'reces ! ...
A boca do sepulchro me prantêas!
De meus dias amargos, qunsi extinctos,
E' este o final dia 'f . .. A sepultura
Espera já por mim ! . . . Meu páe me sotne
N'aquelle eterno horror! ... Meu ·páe me chora! .••
Tardo amor ! Vã piedade I Inutil pranto ! ...
Mas que digo! ..• Perdoa-me os furores,
Perdoa-me o deli rio. . . Eu despedaço
Teu coração, meu páe, e a dôr te azédo.
Tua filha rebelde, irreverente
Ultraja os céos, ultraja a natureza ...
.1\las elles podem mais que os tueus transportes;
Releva, oh páe, releva a n1inba insania ;
Quiz vingar-me. . . A vingança me horrorisa ...
No coração paterno atnor desperta! ...
Houve tempo ... (ai de mim!) tempo em que fôra
Esse ·amor precioso a gloria minha ...
E morro! .•. Morrerei ... Senhor, não temas,
Não temas que outra vez meus ais te accusem.
SCENA III
Aurelio, Erioia e Afranio
AFRANIO (1)
Não, tu não morrerás; o páe de Ericia
Antes de proferir mortal sentença
Ha da arrancar-me a vida.
AURELIO
Oh céos, que vejo !
(1) Correndo com precipitação, tendo ouvido os ultimos
versos.

DRAMAS TRADUZIDOS 431
---------
---------------
ERICIA
Qpe projecto. • . que a udacia. . . q ne deli i ~
Te reconduz aqui 'I Vens, vens de novo
Nas aras affrontar a divindade?
AFRANIO
Cautamente escondido, e protnpto a tudo,
Tua voz conheci, venho amparar-te.
Da tua atrocidade olha os effeitos ! (1)
Barbaro, só em mim teu odio céva.
Dos ferros, com que a deusa a tem ligada,
Eu vinha resgatar-te a triste filha:
Debalde a meu furor o altar se oppunha,
Debalde essa infeliz me recordava
Seu voto, as leis do céo, e as leis da terra.
A tudo me atrevi, só eu fiz tudo,
Só eu fui réo. Não ouses condemnal-a;
Eu a victima sou, qne os céos exigem;
Fere, apaga em meu sangue as furias minhas ...
Inspirar-me ternura acaso deve ?
Traze á .memoria os golpes que me has dado,
}leus tormentos, n1eu mal ré vê na idéa,
Lembre-te que de ti nascêram todos,
Que me tens obrigado a desejar-te
A morte mais atroz, que do meu odio
Seguro não estás, que te detesto . . . .
Ah ! Senão fosse a tua iniquidade,
Tu bem sabes, cruel, se eu te atnuria !
ElUCIA
Espera . . . Que é meu pae, reflecte, insano,
Olha a consternação, que o justifica ...
Cruel ! .. . . Para que vens vituperal-o,
Envenenar-lhe a dôr, talvez perder-te ...
Morrer sem me salvar!} ... Meu pae, vieste
Com braço vingador pôr termo ao crime .. o
Não te enganes da victima na· escolha,
A mitn, que delinqui, punir só deves ..•
(1) Para Aurelio.
432 OBB.AS DE BOOAGJC
- ----
-De cegos l'hrenesis desacordada
Aos céos, a Vesta preferi o amante:·
Elle, ah! . . Elle,. sem ver minha fraqueza,
J ámais conceberia as esperanças
De arrancar-me a cerviz de urn jugo eterno:
En devêra lactar ... luctar não pude.
AURELIO
Meu3 filhos! •• ·. ( 1)
AFRANJO

Tu suspiras!. .. Que resolves? ( :l)
Da t ~ r n n r a em teus olhos ferve o pranto;
lfalla; co1n uma palavra extrair pódes
Os terrores mortaes, que em mitn se arreigan1.
ErL mudeces! .•. bern sei, vás condemnal-a! ... (3)
?tfas meu amor, meu brrtço inda lhe restam.
Roma de tneus a·vós é grata ao zelo,
Elia recordará quanto me deve; .
Se e1n Roma tenho a1nigos, tu bem sabes,
E se o sangue Publicola se estima.
Sou vivo, impedirei o atroz projecto,
O negro detestavel sacrificio •.•
Tre1ne! ..• Eu vou •••
EBICIA
Pára, e vê tua injustiça,
Venera aquellas cãs, ouve-me ao menos;
Uma esperança vã do peito expulsa .••
Recuso, e desapprovo os teus excessos.
Os deuses a sentença proferira1n .•.
Meu pae por dever santo é orgão d'ella.
Tu no meu coração reinas, triumphas ••.
Por esta confissão me entrego á morte;
A 1ninha vida está. nas mãos de V esta .••
Eu te adoro, eu te perco, eu parâ sempre
Meus dias vou sumir. . . na sepultura •••
Meus dias. • • que por. ti só me eran1 gratos ...•
(1) Pegando-lhe nas mãos.
(2) Apertando-lhe a mão.
(3) Larga-lhe a mão com furor.
DRAMAS TRADUZIDOS
Submette-te .•• Refrêa os teus furores,
Não aggrayes um crime, um pae respeita ...
No semblante do páe contempla a filha;
Vive para adoçar-lhe a desventura;
Nos frôxos olhos seus enxuga o pranto,
Em vez de lh'.o augmentar com teus insultos .•.
Exigir inda mais talvez podéra .•.
Ah ! Por ti morro. . . De animo careço ...
Acceita um triste adeus .. - Adeus da morte ••.
Nunca mais te verei ! ( 1)
AI'RANIO
Ericia, Ericia l
Elia foge; os meus gritos são baldados.
SCENA IV

Aurelio e Afranio
AFRANIO (2}
Escuta. . . Não te enganes, não presumas
Que eu se Ericia perder seu pae respeite,
Vê que no amante um vingador lhe fica ..•
Mas que faço ! . . . A que excessos tne arrebata
Meu inutil furor! E' d'esta sorte,
Que um réo ao seu juiz perdão supplica ?
Tu tne vês a teus pés depôr a audacia,
Tu prostrado me vês, v ~ s que te hnploro
Para te conservar teu proprio sangue,
Para evitar-te o pranto e os remorsos,
Para salvar de urn fim tão lastitnoso
Uns dias preciosos, uma vida
Que deves respeitar, por ti, por ella;
Recorro ao pranto, ás supplicas me abato ..
Pontifica dos deuses, sê sensível ...
433
(1) Affasta-se vagarosamente. Afranio seguindo-a. Elia
pára, olha para elle com amargura, volta-se arrebatadamente
o desapparece.
(2) Voltando-se para Aurelio, e com voz arrebatada.
VOI.. Jll 28
434 OBRAS DB BOCAGB
Sê pae • . . tu choras '! • . . Lagrin1as não bastam,
Ericia mais que lagrimas precisa;
Estorva a sua morte, a minha, a tua.
AURELIO
Vae! Já meu coração; já me tem dito
Quanto póde dizer. . . porém tninha alma
Attonita de horror, tnede, contempla
A rnedonha extensão dos seus deveres.
O pae não póde ... (oh céos !) allucinar-se ..•
Sim; da religião sevéra, imn1ovel
No tribunal sagrado elle preside ...
Elle chora. . . estremece . . . esta sentença
E' direito, é dever do gráo, que occupa;
O ferro da jnstiça armou-lhe a dextra ...
Não póde perdoar ...
AFRANIO

Que leis! Que horrores !
Os céos anhelam sangue? Ordenam mortes?
Exigem parricídios ? Tu confundes
Com a religião teu im pio zelo . . .
ln humano I -- Elle é pae, e eu sou quem roga !
Esta sentença barbara te aterra,
E, a pezar do terror, vaes proferil-a !
AURELIO
Afranio! ... (1)
AFRANIO
'
Vae-te, deixa-me tyranno, (2)
Artifice fatal dos nossos males ! •.•
Tu vês que precipicio a mim e á filha
Cavou tua injustiça. Em melhor tempo
A meu ardente amor porque a roubaste ?
Justo seria. . . As horas passam, fogem,
Aproveitai-as vou, devo salvai-a.
Se isto é crime, encarrego-me do crime,
(1) Chora.
(2) Arrebatado.
-
DRAMAS 'l'RADUZIDOS
Sé n 'isto affron to os céos., os céos têm raios;
Passo remir a victima, que adoro;
H a caminho, que a ella me conduza;
Uonsente-o: não lrriscas tua gloria,
Basta só que retardes a sentença.
Se a retardas, senhor, salvaste a filha!
Da palavra, que dou, verás o effeito.
AURELIO
"435
Que intenta I... A que cegueira amor o arrasta! (1)
A h mancebo infeliz! Que pronuncias!
Dentro em meu coração não l ~ m teus olhos ...
Eu o golpe lhe dei com que ella expira ..•
Ah! N'esta alma paterna, inconsolavel,
Com mais exprobrações o horror não dobres ...
De benigna piedade eu necessito ...
Vê meu debil poder •.. Já no Senado
· (Js severos pontifices se ajuntatn;
Do crime perpetrad& em breve esperam
Exacta informação, que dar-lhes devo ...
Ou demora, ou descuido as leis não soffrem. .
A meP.ma criminosa se delata ..•
O zelo impaciente apressa a .pena .••
Retardar-se não póde o sacrificio,
Que o meu dever me impõe, que Roma espera.
Ali'RANIO
Sacrificio! De quem! De Ericia? .•• Ah! Caiam,
Caiam primeiro eHses crueis altares
Nas ruinas dos tectos abrazados;
Primeiro o sacro fogo etn cinzas torne
Da feroz V esta as barbaras escravas !
Já não sei da razão, já nada attendo:
!tfeu coração raivoso, arrebatado
. Ousa desafiar todos os deuses.
Embora sobre mim rebentem .raios;
Nada póde estorvar que eu vingue Ericia,
Que eu vingue a minha amada •.• Oh céos I Vingai-a ....
Outras idéas tenho, outros cuidados;
(1) A custo, e tomo reanimando a constancia.
436 OBRAS DB BOUAGB
Sómente o de salvai-a é que me occupa:
Aurelio, meus tormentos te commovam,
Ah! Faze que o pontifica emmudeça;
Triumphe a natureza, amor triutnphã. ( 1)
Oh meu pae.l •.. (tenho jus de assim chamar-te)
Sada t e n ~ , senhor, nada te incita!
A proxima desgraça não te atérra?
Que ! Poderás ouvir, ver tua filha ·
Gemer, e caminhar ao trance horrivel;
No sepulchro fatal sumir-se viva!
Pela ultima vez tendo lançado
Os olhos para ti, e em vão chorando;
Pedindo em vão piedade ao pae, aos deuses!
Poderás vê r seu pranto. . . origem d 'elle! •..
Treme n. tão negra idéa a Natureza! ...
Aurelio ! . . . Que espectacnlo t • • • E serias
Capaz de o supportar?. . . (2)
SCENA V
AFBANIO
F
- '
oge, nao me ouve ...•
Tudo, infeliz donzella, te abandona ! (3)
Tudo, tudo perdeu! •.• Não, eu lhe resto,
Basta I. . . Appelle-se á força. Arme-se a raiva, ·
Congregue-se un1 partido, ajudem promptos
Os confidentes meus minha vingança,
E com ferro, e violencia aqui tornemos.
Ao sepulcbro se arranque a minha amada,
Arranque-se aos verdugos, a despeito
Dos romanos, ·das leis, e até dos nomes!
(1) Lança-se-lhe aos pés.
(2) Aurelio o encara com ternura, levanta-o, torna a enca-
ra l-o, e vae-se.
(3) Depois de alguma pausa.

'
ACTO III
O fundo do theatro está aberto, deixa vêr uma praça, que faz
parte do recinto; nota-se ali uma terra elevada, que é o
sépulchro destinado para Ericia; a entrada é por cima .
.
. A grandes pedras, que devem fechai-o. Vem quasi
amanhecendo.
SCENA I
AURELIO (1)
Que espectnculo I Oh Vesta! ••• A criminosa (2)
Está julgada ... Não tem refugio .•.
E n a sentenciei. . . Serás vingada ! ...
Os pontifices todos a condemnam .· ..
Perdoa-me estas lagrimas. . . Ao fado
De uma filha infeliz são bem devidas .. .
Debalde quer firmar-se a natureza .. .
O aspecto do sepulchro me confunde. . .
Me arripia. . . me abate ... - E posso, oh deusa,
O rigor sustentar de meus deveres 7 ...
Afranio. . . Que esperanças, que desejos .-
Se afonta a conceber minha alma insana ?
Eu sou juiz, pontifice, e romano ..• (3)
Eu sou pae. . . elle viu minha amargura ...
Ama. . . é audaz . . • a tudo ha de atrever-se •.•
Venha. . . os im petos seus . . • Eu cerro os olhos •..
l\ias onde me transporta o meu delirio! . .
(1) Cheio de consternação caminha algum tempo pela scena
sem dizer nada, ergue os olhos para o céo, e recua horrorisado
á vista do sepulchro.
(2) Olha para toda a parte com inquietação.
(3) Rapidamente e como fallando a seu pezar •

438 OBRAS DE BOCAGE .
'
Vingança devo ás leis. . . Vingança aos nomes .••
A minha propria filha. • . em honra· d'elles
D "fi ' Q . I Af . ' evo sacn car . . . • ue angustia . . . . ran1o ..•.
Afranio ! . . . Este desejo é sacrilegio ! ( 1)
Com que voz, com que face, oh filha 1ninha,
Ha de teu pae miserrimo intirnar-te (2)
A sentença cruel, que deu forçado?
Com que animo a teUB olhos temerosos
Hei de expô r o sepulchro?. . A morte!. . . O nada! ..•
Soccorro, eterno J ove ! . . • Eu desfalleço. (: 3)
SCENA I I
Aurelio e Erioia.
EBICIA (4J
9nde vou! •.• Tudo angmenta os meus terrores ..•
A morte me aproximo en1 cada passo ...
Senhor. . • Na turbação, que lhe diviso
Se nutrem minhas ancias ! ... Tnrde ... ai! ... Tarde
Deparado me foi o amor paterno.
AURELIO
E's tu, filha (5)
ERICIA ~ 6 )
Acolá me espera a morte, •
] ) l ~ u pae!
A.lTBELIO
Para morrer devo dispol-a ! . . . ( 7)
(1) Tornando a olhar.
(2) Depois de algu1n silencio.
(3) Encosta-se a um canto do theatro, e fica em profunda
affiicção.
( 4) Caminha para o pae, que nlo repara n'ella.
(5) Como acordando, e fallando a custo.
(6) Olha para o sepulchro, volta-se para o pae, e aponta
para elle.
(7) Torna a encostar-se.
DRAMAS TRADUZIDOS 439
EBICIA.
,Já nenhuma e ~ p e r a n ç a me pertnittem ? ..•
Choras ! . . . Suspiras ! . . . Basta, eu me resigno.
O Senado firmou minha sentença? •.•
Afranio. • • Tel-o amado é só meu crime.
Este funesto amor, que negros tnales
Semeou na minha ahna, e nos meus dias ! ...
Meu pae. . . Que injuria atroz fiz. eu aos numes?. ~ •
Se1n querer te enveneno o fim da vida .••
Porém dos annos meus pondera o fado:
Elles por dura lei se tern volvido
N'este carcere triste e1n amarguras,
Em desesperação, queixumes, prantos;
Vê como se terminam ! . . . Cerra os olhos, ( 1)
Cuida só em punir, tneus ais não ouças,
Suffoca as sensações da humanidade,
Repulsa a natureza horrorisada .••
Senhor ••• se compassivo e1n outro· tempo
Sua voz attendesses, não virias
Exercer este horrível ministerio;
Tu serias feliz. • • de Afranio eu fôra ...
Perdoa ! . . . Desatino . . • a seus transportes
Se dá meu coração 1nais do que deve •••
Lamento-te, senhor. . . adoro Afranio ...
E vou morrer ! . . . Constancia, fortaleza
Armem teu peito agora, ousa anitnar:me:
No momento fatal soccorre Ericia,
Eu não receio a morte, a injuria temo;
Inda cedendo a amor dei culto á honra,
Seguia um terno esposo., utn digno amante,
Que n1e offertava a liberdade, a gloria,
Seguia um coração, que ao meu se uníra
Desde a tenra, viçosa adolescencia ...
?tforro comtudo no supplicio infame,
Que pune corações torpes, abjectos,
Falsos ao mesmo tempo a si, e aos deuses .•.
Os injustos mortaes hallucinados
Do crime não distinguem a fraqueza'!
Serei da opinião victima triste !

(1) Aurelio se levanta, dá um gemido, e cáe na sua. pri-
meira f.ituaçlo.
440 OBRAS DE BOCAGE
AURELIO (1)
Ah filha deplora vel ! . . . Esperemos •••
Se a fortuna. • • se os céos ... se os meus desejos •••
Que crime! •.• Que esperança!. •• Oh negros fados! ••• (!)
SCENA III
Veturia, Aurelio e Erioia
VETUBIA.
Já, ministro .sagrado, as sotnbras fogem,
A aurora vem raiando, e sem vingança
A deusa ainda está, e a affiicta Roma !
Expie-se o delicto, o mal se arrede,
l\Iorra a culpada no supplicio justo;
Hoje este indispensavel sacrificio
Seja o primeiro, que os romanos vejam:
Ao templo consternado o sol nascente
Reconduzindo a luz, de novo· encontre
N' estes altares a pureza augusta,
E preste a nossos cultos nova chamma:
Na sombra, em que nasceu, se ausente o crime.
De V esta celebrar-se os ritos possam;
Este pomposo instante acceleremos:
l\fotivo algutn não ha para a demora;
Dos offendidos céos, do altar manchado
Seja a vingança publica, e solemne;
Ao povo impaciente as portas se abram.
Soldados, vigiae por toda a parte !
N' este santo ·logar vossa presença
Contenha a multidão. V estaes, é tempo,
Vinde. (3)
(1) e caminhando rlepressa pelo theatro e
olhando para o fundo.
(2) Com dôr e susto.
(3) O fundo do theatro se enche; as 'restaes vem com os
pontifices ; os soldados dispersos pela scena, affastando o povo
da sepultura.
j
DRAMAS TRADUZIDOS
441
BRICIA (1)
-
Ao meu tempo (oh céos !) estou chegada,
Morte cruel ! Ao teu aspecto horrível
A humanidade treme. . • antes de tempo .
Caio, e me escondo em teu abysmo et.emo !
AURELIO (2)
Criminosa esperança abafar devo •••
Céo!. • • Cumpre obedecer ! . • . Tu me conforta.
VETUBIA (8)
Tudo, oh santo ministro, está disposto:
Execute-se a lei. Essa perjura,
Que alta justiça ao tumulo condemna,
Um nome, que manchou, não leve a elle.
Do sacro véo despoje-se a rebelde,
Por seus membros se entenda o véo da morte.
AURELIO
Que barbaro dever! (4)
ERICIA
Momento acerbo I ( 5).
Senhor, tu estremeces!: •. Vê que todos
Tê1n nas tuas acçoes os olhos fitos,
Conclue. . . De ser páe não é já tempo ..•
Do juiz, do pontifica, eis a hora;
Para o negro sepulchro os passos move ...
Eu só devo tretner, e lamentar-me ...
Tu . . . obedece aos deuses. Quando Afranio. . . ( 6)
Onde, triste memoria, tne arrebatas ! ...
Ah! Meu final momento a amor pertence. (7)
(1) Lança os olhos para a turba, e ergue-os para o céo.
( 2 ~ Olhando para uma parte com perturbaçlo.
(3 Pegando no véo negro, que lhe traz uma das V estaes.
(4 Péga no véo negro que Veturia lhe dá, e entretanto
.algumas V estaes tiram o véo branco a Ericia.
~
5 } Chegando-se para seu pae, e abaixando a voz.
6 Com voz ainda mais baixa.
7 Abaixa a cabeça, Aurelio ergue o véo com mlo tré-
mula, e o deixa cair n'ella.
442 OBRAS DB BOCAGE
VETURT.A. tl)
Tua morte socegue a a:ffiicta Roma:
Os males, que temia, em ti descaíam;
Só tua iniqua fronte os deuses firam.
ERICIA
Adeus, querida Emilia. (2)
F;MILIA (3)
Ah! Fui-te falsa,
O meu zelo indiscreto urdiu-te a tnorte.
ERtCIA
Vê se n'este logar mora a ventura: (4)
De fraqueza um momento ali me abysma ; ( 5)
Implorae a deidade a ben1 de Ericia,
De Ericia triste ! . . . ( 6) O meu catninho é este? ( 7)
VETUBI.A.
Toda aquella entre n ó s ~ que ousar manchar-se
De tão feio attentndo, assim pereça.
V estaes, que sacra lei nas aras prende,
Da vingança do céo vêdes o exemplo;
Tende-o sempre ante os olhos aterrados:
Adoremos a deusa inexoravel:
"
A seus augustos pés tremei comigo.
(l) Em quanto Ericia. recebe o véo.
(2) Depois de ter dado alguns passos, e achando-se ao p ~
de Emilia.
3 Detendo-a, e lançando-se-lhe aos pés.
4 Levantando-a nos braços.
5 Mostra-lhe o sepulchro.
6 Olha para o sepulchro ; a multidl.o do povo concorrE:',
e põe-se em roda; os soldado.s, que conservam a turba em uma
certa distancia, estão poetos em fileira e deixam entre si um
caminho livre. ·
(7) Volta a cabeça devagar, e caminha com horror para
onde está a sepultura.
I
Dl\Al\IAS TRADUZIDOS 443
AURELIO
Oh dôr !· (1)
EBIOI.A.
É pois aqui meu ponto extremo!.· ..
Deixo emfirn de existir!. . de amar! Perdoa,
Sim, perdoa-me, oh céo, talvez te offendo;
}Ias ache um protector, ache um refugio,
Em teu poder supretno a gloria minha !
Tu ao meu coração, quando me punes,
Tu ao meu coração faze justiça;
E lle de corrupção não foi t()cado ! ...
Sacerdotes, Vestaes, Povo romano,
Etn prova do que o n v í ~ attesto os deuses,
Que aos impios dão no inferno eternas ·penas;
Não, no estado em que estou não ha fingidos;
Entre a morte, entre mim só vejo um passo;
Mas soffrei que ao morrer me. queixe ao menos.
Respeitos, subjeiçoes, ou interesses ..
De todo para mim se desvanecem;
Das cegas prevençoes o véo rasgando,
A. verdade nos tumulos se encosta ...
D'ali é que ella falia, e resplendece.
Quando maligno fado, a meu despeito,
Me conduziu, V estaes, ao tetnplo vosso,
Vós, que vistes meu pranto, e meus pezares
Expulsastes-me então, como devíeis?
Não ; vós minhas cadêas apertastes,
E desde esse cruel, terrivel dia,
Sempre, sempre a gemer busquei soccorro.
Busquei piedade em vós. . . E achei piedade ?
Não; só fallar ouvia e1n leis tremendas,
Que arremessam no horror da sepultura
Profanas, infieis sacerdotizas;
Calava-se a piedade, a dôr crescia,
E do temor nasceu meu artificio.
O infeliz coração, que f•xarcerbastes,
Pelo não parecer, foi criminoso.
Talvez dobrou seu mal por occultal-o,
(1) Olha para o sepulchro, vê sua filha, que lhe contempla
a profundidade com terror .. Aurelio volta a cabeça, e encosta-
se a um pontífice.


444 OBBAB DB BOOAGB
Compassivos talvez vossos desvelos
Chagas, que amor lhe abriu, curar podassem:
Nada obtive de vós .•. morrer me vêdes!
Ah ! Praza, praza ao céo que deplorando
Os tristes fados meus, não mais, oh virgens,
Franqueeis vosso templo a desgraçadas !
Estas preces ouvi, eu vos perdôo ...
Vestal Vê meus remorsos, não me siga
Teu odio, ten furor alétn da morte. (1)
F . ' Ugt.
SCENA ULTIMA
Os mesmos e Afr&J?.iO (2:
AFRANIO
VETURIA.
Que voz sacrilega interrompe
U tn acto. . . Porque empunhas esse ferro?
A.FBA.NIO
Treme. • • e tremei tambem. sacerdotizas .••
Entregae-me... que vejo !.. . Oh céos ! ... Detem-te ••• (3)
EBICIA
Oh deuses ! . . . Onde ·estou ! ( 4)
AFRANIO (6)
Meus dignos socios (6)
Vêm, com resolução capaz de tudo,
Proteger meu amor, ou minha raiva ...
(I) Abaixa o véo, e caminha devagar para o sepulchro.
{2) Com um punhal na mão, seguido de romanos e abrindo
caminho por entre o povo. Aurelio em toda esta acena mostra
com gestos a sua extrema eonsternação. ·
(3) Vê Ericia junto á sepultura, corre a ella, lança.-lhe os
braços ao tempo em que ella já tem um pé no sepulehro, ·e
levanta o outro para descer.
( 4) Atterrada, e caindo sobre a pedra do sepulchro.
(5) rrransportado.
(6) Aponta para os companheiros.
DRAlUS TRADUZIDOS
Não temas o furor de um zelo injusto,
~ e um zelo que_ te ultraja •.• estou comtigo. (1)
Para sacrifical-a é necessario,
Romanos, que primeiro no meu sangue
As mãos enxovalheis; não desamparo
A lastimoM victima; reclamo
Sobre esta sepultura a minha amada, •
A minha esposa ! . . . E' justo que em meus braços
Vós a depositeis. Eu quiz livrai-a
De acerba escravidão: ninguem me exprobre
Que insulto a deusa;- recebi primeiro
De Ericia. o coração, ternura, e votos;
Vesta com duras leis a tinha presa;
Elia me pertencia. • . os meus direitos
Manter quero ante vós. . • Qual é mais santo?
Eu amo, eu sou amado . . . eia, responde,
Pontifica, a ti mesmo afonto appello !
Tn nos viste formar tão doces laços:
Teu orgulho os quebrou: para exaltares.
Um filho, dons amantes desuniste •..
Romanos, conhecei toda a sua alma,
Estorvae um delicto abominoso ..•
O barbaro é seu páe. (2)
VETURJ.A.
S ~ u páe!
.A.PBANIO
Dos braços,
Dos braços a roubou de um terno amante,
E n'este dia ordena a morte d'ella ! ...
Elia não morrerá; minha ternura
Vem remil-a do horror do captiveiro;
Meu zelo vem romper-lhe o ferroo jugo,
Que tanto na cerviz lhe tem. pezado.
Amar a liberdade é crime em Roma ? .
Examinem-se as leis, que o Tibre adora.
Summo bem dos mortaes é serem livres:
Que voto ha, que derrogue este desejo ?
(1) Voltando-se para o povo.
(2) Todos mostram admiração.
445
446 OBHAH DB BOOAGB
Votos, que a força impoz, não podem tant.o.
E' resistir aos céos, é ser culpado
Romper um jugo, utu jugo insupportavel ?
De cansar nossa angustia os deuses fdlgam ?
Folgam de nossos ais, de DORSOS prantos r
Os ferros, e oppressoes nos atnontoam ?
Nós somoS' seus, ou seus escravos ? ••.
VBTUBIA (1)
Deuses ! . . . Ainda o raio está suspenso !
Romanos, castigae ••.
AFRANIO (2)
. Fieis amigos,
Favorecei meu im peto. • . Rontanos,
Esperae, quando não fervendo em raiva.,
O templo cobrirei de horror, de estragos;
Perseguirei bramindo os vossos dias
Defronte d 'esses deuses im placa veis,
Cobiçosos de lagrimas, e sangue !
Se derramando-o só lhes aprazemos,
Se V esta em fim o exige. • . Eu a contento .•.
Que deuses, cujas leis, cuja grandeza
Em vez de o proteger, o mundo opprimem!
Que as aras querem ver nadando em sangue,
Quando para applacal-os deveria
Ser bastante um s6 ai, um só remorso !
Detesto os deuses máus, que adora o medo,
Filhos do engano, pela morte honrados •••
ln da que V esta subi to me abrisse
A terra em bocas mil para tragar-me,
Eu nAo conheceria . • • eu não conheço
Senão o autor de Roma, o deus da guerra,
Dos meus concidadãos a deus terrivel ••.
Por elle o mnndo, promettido a Roma,
Ha de soffrer-lhe as leis, sentir-lhe os ferros •..
Marte de Erioia nAo exige a morte;
Elia por mim suspira, aqueDe affecto
(1) Com uma especie de horror·
(2) Aos seus amigos vendo a plebe disposta a
DRAMAS TRADUZIDOS
Para arrancar-lhe a vida é um direito?
Céos J Que contrndicção diviso em Roma?
Oade V enns se adora, Amor se pune !
Merece Amor este cruel supplicio?
Como ! A religião faz deshumanos ?
Setnpre a Superstição desatinada,
Oh céos! Oh Natureza I Ha de affrontar-vos!
Sempre de idéas vãs envilecida,
Ha de a Razão ge1ner, e a Humanidade?
Sempre o cego mortal ceder a enganos ! ..•
Ah, dos Numes que asylo esperaremos,
Se a morte se colloca ao pé das aras I
Deve o medo offertar nossos incensos?
447
Não ! . . . Se o céo quer vingar-se, o céo se vingue •••
E quando vós punis, talvez perdoe;
Só compete aos mortaes orar aos nomes •.•
Mas demorei-me assás; vem, segue Afranio! (1)
Meu férvido valor desesperado
Passagem te abrirá por entre o povo.
EBICIA
Deixa-me ! ••• Teme os céos, de quem blasphemas.
Ã.I'B.ANIO
Sê minha, vem, - depois os céos fulminem;
Dos deuses a pezar en hei de obter-te;
Minha promessa tens, e exijo a tua,
Minha esposa serás • • • dos céos A face,
Sobre este horrivel tnmnlo profiro
O solemne immutavel juramento;
Nada póde arrancar-te dos meus braços:
N'este meu juramento, attesto, invoco
Amor, Jupiter mesmo, a mesma Vesta.
BBIOIÃ
Espera • • . tu que pódes ? Deixa, deixa
Este logar em paz, não o profanes •••
Satisfeitos serão A mo r, e V esta.
(1) Para Ericia.
448 OBRAS DB BOCAGS
Olha o povo a bramar l Quer minha morte:
O duro sacrificio em vão suspendes.
Romanos, eis o amante idolatrado,
Que á patria, que ao dever, ·que aos céos prefiro;
Dos annos meus lhe consagrei a aurora ...
Meus primeiros suspiros foram d'elle,
D 'elle será meu ultimo suspiro ..•
Cáe-me o grilhão, recobro a liberdade.
O h tu, que imperas só nos meJIS sentidos, ( 1)
Queres a minha mão? ... (2)
Recebe-a, é tua.
AURELIO
Deuses! ... Eu morro! ..•
.
AFRANIO
E . . ' Oh . ' Oh . ' neta . • • . raiva . • • . crime .•.•
Céo tyranno! •.. Outra victima te off'reço. (3)
(1) Voltando-se para Afranio. _
(2) Lança-se arrebatadamente ao punhal de Afranio, fere-
se com elle, e estende-lhe- a mão, dizendo:
(3) Arranca-lhe o punhal, e mata-se. Aurelio consternado
se encosta a um pon tifice. O povo, e soldados mostram dôr e
compaixão. Os pontífices e as Vestaes horror e assombro.
DRAMA HEROICO
llE
PEDRO METASTASIO
• -..
'I'RADUZIDO EM VERSUS PORTUGUEZES
VOL. III 29

ACTORES
RÉGULO.
MANLIO.. • • • • • • ... • . • • . . . • Consul.
P
ATTILIA • • • • • • • . • • • • • • . Je Régulo.
UBLIO \
BARcE.. . . . • . . . . . . . • . . . • NobJ·e africana, escrava de Publio.
LxoiNIO • • • • • • • • • . • • • • • • Tribuno do povo.
AKILCAR . • • • . • • • • • • . . • . Embaixador de Ca1·thago.
PATRlCIOS ROMANOS, LICTORES,
AFJUCANOS, POVO, ETC •
A acção se finge fóra de Roma, nos arredores
do templo de Bellona.

I

t\ TTILIO REGULO


ACTO I
Atrio no Palacio snburbauo do Cousnl 1\'Ianlio. Espaçosa ei-
cada,_ por ondP. se sóbe a elle.
SCENA I
I
Attilia, Liointo, Liotores e povo
LICINIO
E's tu, querida Attilia! Oh céos ! E' crivei
Qne de Régulo a filha aqui se encontre
Confundida entre a plebe, entre os Lictores ?
ATTILIA
Aqui do Consnl a saída espero:
Hei de, oh Licinio, envergonhai-o ao menos:
Não, já tempo não é de vãos melindres.
Em Africa meu páe captivo geme,
Um lustro decorreu, ninguetn procura ·
Resgatar o infeliz; só eu mesquinha
Seu desastre fatal pranteio em Roma:
Se me calar, quem fallará por elle?
LICI!'IIO
Repara que és injusta assim pensando.
Onde vês quem não queira, ou não suspire
.
454- OBRAS DE BOCAGE
Desligar-lhe as prisoes? ~ quem não julga
Ser pequena conquista l\frica inteira,
Tão grande cidadão custando a Roma ?
De mim não fallo: elle é teu pae, eu te amo:
General, custou-me a dextra ás arn1as:
Da custosa virtude as leis severas
Amaveis me tornou, insinuou-me
N oftdocil peito um cOração romano.
ATTILIA
E que montaan, Licinio, essas tnemorias ?
Fructos da gratidão jnda não vejo.
LI CINJO
Carecendo até-qui de auctoridatie,
Que podia exercer em seu proveito ?
De ambicioso ardor nãQ fui tentado,
A demandar o tribunicio emprego:
Com elle o preço das instancias minhas
Altear pretendi: se inuteis preces
Té h ~ j e por teu páe fiz ao Senado
Em simples cidadão;-Tribuno agora, .
Do povo todo em nome a voz soltando,
Protesto de exigir. • • ·
ATTILIA
Gnardetnos esse
Tão violento remedio a lance extremo:
Tumultos, dissensões se não despertetn
Entre o povo, e Senado: ambos zelosos
Do supremo poder, por elle punem;
Ambos de longo tempo a si o arrogam,
E o que um d'elles promove, embarga o outro.
H a mais facil caminho: eu sei que Ron1a
O orador de Carthago espera etn breYe:
Para. ouvil-o o Senado se congrega
No t.emplo de Bellona. O Consul pó de
De Régulo o resgate ali propor-lhe.
DBAMAS 'l'RADUZIDOB 455
LICINIO
~ a n l i o ! ... Ah ! Vê que foi sempre, e desde a infancia
Emulo de teu páe, não fies d'elle:
E' l\fanlio meu rival.
A'ITILIA
Manlio é romano:
Co1n publico poder odio privado
Sei que não ha de armar; deixa que eu falle;
Ouçamos o que diz.
LICINIO
Falla-lhe ao menos
Em logar mais decente, e não toleres,
Que entre o povo te encontre.
A'M'ILIA '
. Antes desejo
. Que abatida me observe, e córe ao ver-nte,
_Que em publico me escute, e tne responda.
LI CINJO
Elle vem.
ATTILIA
Parte.
LlCINIO
Ah ! nem sequer te dignas
De olhar-me uma só vez? Attilia •.•
ATTILIA
Agora
:1\Ie cumpre filha ser, não ser amante.
456 OBRAS DE BOCAGE
---- ---------------------------------
SCENA II
Attilia, e llanlto de&(-.e'fldo; Povo e Lictorea
ATTILIA
}Ianlio, detem-te; escuta-me um momento.
MANLIO
E crês este logar de Attilia digno?
ATTILIA
Era digno de mim quando eu podia
Blasonar de um páe livre, um páe invicto:
Para a filha de um servo, é decoroso.
MANLIO
A que vens?
ATTILIA
\
A que venho? Oh céos I Té qoandc.
Corn pasmo a terra, envergonhada Roma,
Verá meu triste pá e desamparado
Em vil escravidão? Sómem-se os dias,
Annos tornam-se em lustros, lustros passam,
E quem de seus grilhoes se doe, se lembra?
Ah ! Que delicto seu tem tnerecido
Tio barbara indiff'rença dos romanos?
Talvez o heroico amor, ta I vez a honra
Cotn que os filhos, e a si pospoz á patria?
Talvez seu coração grande, incorrupto,
Sua illustre pobreza em sumtnos cargos? ••.
De Régulo esquecer-se, oh ! Como póde
Quem respira estes ares ? Onde en1 Roma
Ha logar, que de Régulo não falle?
As ruas? Por alli passou triumphante.
O foro ? Lá dictou leis providentes.
Os muros do Senado Ahi mil vezes
Seus maduros conselhos fabricaram
A publica saude. Entra nos templos,
DRAMAS TRADUZIDOS
Vae, sóbe, oh Manlio, o Capitolio, e dize,
Quem de tantas insignias o adornára,
Punicas, Sicilianas, Tarentinns !'
Estes mesmos Lictores, estes rnesmos
De que hoje és precedido, já n'outr'hora
Precedêram tneu páe: essaa, que cinges
Purpura consular, cingiu-lhe os ,hombros;
E hoje o deixam morrer entre cadêas?
E hoje por si não te1n senão meus prantos,
Mens prantos setn proveito desparsidos?
Oh Patria! oh Roma! Oh cidadãos ingratos!
MANLIO
Justa é sim ·tua dôr; mns não é justa
A tua accusação: tnmben1 nos móve
De Régulo o desastre, e betn sabemos
N'elle, que horror tyrannico pratica
A barbara Carthago.
ATTILIA
Ah ! Não, Carthago
A barbara nAo é: Carthago opprhne
Um contrario fatal! Rotna abandona
TJ 1n fiel cidadão. Le1n bra-se aquella
Dos a:utigos ultrajes; esta e8quece
Quanto sangue, e suór verteu por ella.
U tua em Régulo vinga os seus deslustres;
A outra a pune, porque acceto em gloria,
De louros triumphaes lhe honrára ·a fronte:
Qual é pois a cruell Curthago, ou Roma?
:\fANLJO
Mas que resolução totnar se deve ?
ATTILIA
A mais justa de todas. O Senado
Off'reça por meu páe troca, ou resgate
Ao africano Embaixador.
457

...

458 OBRAS DB BOCAGE

Tu falias,
Attilia, como filha; a mim reléva
Proceder como consul. E' preciso
Primeiro exan1inar se tal proposta,
A Roma não desluz. Quem ás
Os pulsos costumou ...
.ATTILI.A
Tão rígida moral 7
D'onde aprendeste
M:ANLlO
Tenho ante os olhos
Os exemplos domesticos •
.A.TTILIA.
..t\h! Dize,
Que sempre de meu páe contrario foste.
MANLIO
Se de inimigas mãos caíu nos ferros,
· Se elle deixou vencer-se, é culpa minha ?
ATTILIA
Mas antes que meu páe vencido fosse,
Que vezes te ensinou . . .

MANLIO
Não mais, Attilia;
O Senado está junto: eu já não. posso
Aqui deter-me: aos outros Senadores
1\Ienos austeras maximas inspira:
Pódes o tneu rigor baldar com· isso;
Pódes, que em Roma os Consules não reinam.
Tu julgas-me cruel e inexoravel;
Mas não é sempre a dôr juiz inteiro:
Affiige1n-me teus ais, teus males sinto;
Mas não prov@m de mim, não sou culpado
Se te empéce o que a tantos aproveita.

DRAMAS TRADUZIDOS
SCENA III
.ATTILI.A.
Já que esperar dos Consoles não resta: .
Um contrario, outro ause:1tê; é necessario
Que ao popular auxilio se recorra.
Triste, misero páe! Ah! De que incertas,
Fataes altercações está pendente
A tua liberdade-, a tua vida!
SCENA IV
Baroe e Atttlia
BARCE
Attilia ! Attilia!
ATTILIA
Que razão te apressa ?
Porque assim te afadigas?
BARCE
E' chegado
O africano orador.
ATTILIA
Não vale a nova
Esse extranho transporte.
\.
BARCE
Outra noticia
O mereça talvez.
ATTILIA
459

460 OBRAS DE BOCAGE
------------ -- ------ ---
BABO E
Com elle
Vem Régulo.
ATTILIA
Men páe? ·
BABO E
Teu páe.
ATTILIA
Ah, Barce!
Enganas-te, ou me enganas?
BABCE
Não foi visto
Por mim, mas todos ...
ATTILIA
Publio!
SCENA V
Attilia, Barca e Publio
PUBLIO
Jrtnã, qne assombro!
Régulo em Roma está.
ATTILIA
Deuses! qne assalto!
Que enchente de prazer! Guia-me a elle.
Corramos. . . onde está ?
PUBLIO
Suspende, Attilia:
DRAMAS TRADUZIDOS
lnda tempo nãÓ é. Régulo, junto
C' o africano orador, licença espera
Para entrar no Senado.
ATTIIJIA
· Ah ! Onde o viste?

PUBLIO
Bem sabes, que eu Questor tenho· a tu eu cargo
Hospedar estrangeiros oradores.
Ouvindo que o ministro de Carthago
Chegára ao Tibre, os passos acceléro;
Ao porto me encatninho, e quando julgo
Um africano ser, meu páe diviso.
ATTILIA
Que disse ? Que disseste ?
PUBLIO
Já. na praia
O vi quando cheguei. No Capitolio,
Que inda ao longe d'ali se alcança etn parte,
Com sofrega attenção fitava os olhos.
D'est'arte ao vêl-o, irmã, corri gritando:
«Ah caro ·páe !» E a mão tentei beijar-lhe.
Ouve-me, volta o rostD, o pé desvia,
E com a face a u ~ r a , aquella -face
Que a soberba africana amedrontava;
461
«Não são páes (me responde) em Roma os servos.»
Replicar-lhe queria: eis me interrompe:
Se o Senado está junto, me pergunta;
Pergunta em que logar: ouvio-o, e mudo
Logo _retrocedi para o Senado,
O Consul demandando: mas que é d'elle?
Os Lictores não vejo.
BABO E
Elle no templo
De Bellona estará.

462 OBBAS DE BOOAGK
ATTILIA
Torna captivo
Régulo pois a nós ?
PUBLIO
· . Sim ; tnas de pazes
Sei que traz a proposta, e que seu fado
D'elle depende só.
ATTILIA
Porém qnem sabe
Se a proposta será de agrado a Roma ?
PUBLIO

Se visses com que atnor o acolhe Roma?
Tal dúvida, por certo, não tiveras.
Todos, Attilia, estão de gosto insanos:
Tanto povo em tropel nas ruas ferve,
Que as ruas para o povo estreitas ficam.
Um outro apressa, aquelle a este o aponta:
Que titulos! Que nomes ouvi dar-lhe!
Quantos olhos em lagrimas banhados
Vi de ternura! Ao coração de um filho,
Attilia, que espectaculo tão doce !
ATTILIA
Ah! L i c ~ n i o onde está? Busque-se, vamos:
Sem elle o meu prazer fôra incompleto.
SCENA VI
'
Publio e Baroe
PUBLIO
Adeus, Barce formo!a.
BARCE
Ouve: não sabes
Do Embaixador carthaginez o nome !
DRAMAS TRADUZIDOS
PUBLIO
Sim, Arnilcar.
BABCE
..
De Hannon acaso o filho '!
PUBLIO
O mesmo.
BABCE
(Ah! o meu bem.)
PUBLIO
De aspecto mudas !
Porque? Amilcar será talvez motivo
Do invencível rigor com que _me opprimes?
BABCE
Atégora, senhor, tanta ·piedade
Achei n'alma de Attilia, e na toa alma,
Que o pezo de meus ferros não sentia.
Fôra ingrata demais se te enganasse:
Todo o tneo coração porei patente
A Publio bem feitor: sabe ...
PUBLIO
Emmudece.
Prevejo que fatal será comigo
A tua ingenuidade. Agro veneno
D'estes dias os prazeres não me azéde.
Se és d'outro, quero ao menos duvidai-o:
Se objecto mais feliz te rege o peito,
Verdade tio cruel não patentêes:
Ah I deixa-me sequer folgar no engano:
A suspeita no amor é um tormento,
Que morde os .coraçOes, que os ·empeçonha;
Mas a certeza é mal, que ás vezes mata.
463

4ll4 OBRAS DE BOCAGE
·---- ----
SCENA VII
BABO E
Oh fortuna I Oh prazP-r! Será verdade!
O tneu perdido bem verei de novo ?
Bem unico, e primeiro em que minha alma
Ardeu, e suspirou, arde, e suspira.
Ah ! Que farás de Amilcar na presença,
Meu terno coração, se ouvir-lhe o nome
..
Te obriga a palpitar de n1n tnodo extranho?
Parece que no peito apenai cabes.
O que é contentamento, o que é ventura
Só poderá dizer quem longatnente
Saudoso do seu b ~ m penou debalde,
E torna a vêl-o emfim. N'aquelle instante
Os suspiros, as lagrimas se adoça•n,
E das curtidas m a g ~ a s a memoria
Em subitos prazeres se converte.
SCENA VIII
Parte interna do templo de Rellona. Assento8 para os Se-
nadores romanos, e oradores estrangeiros. Lictores, qne
guardam "di versas entradas do templo, d'onde se avista o
Capitolio e o Tibre.
M:anlio, Publio, Senadores, Liotores,
qzte guardam a entrada: Africanos e Povo, .fóra do templo
:MAX LIO
Lictores, venha Régulo, e com elle
O africano Orador. Aos inimigos
Já grata é pois a paz ?
PUBLIO
· A paz desEtjam, .
Ou dos captivQs que se ajuste a troca:
'
DRAMAS 'l'BADUZ!DOS
De vós obtel-o a Régulo incumbiram.
Se nada conseguir, fica obrigado
A voltar a e lá de Roma
A repulsa pagar c'o proprio sangue:
_Foi da promessa o juramento abono.
Viu antes de partir (que horrivel scena !)
{) funéreo, o terrifico apparelho
Da ameaçada morte. Ah! Não se diga,
Que ás mais barbaras penas condemnado .
'Tão digno cidadão ...
KANLIO
Basta, elle chega. ( 1)
SCENA IX
465

Passam Régulo e Amiloar entre Ltotores, que tornam logo
a unir· se. Régulo apenas entra no templo, pára pensativo.
Os Africanos ficam atrai dos Liotores.
,
AMILCAB
-Que te suspende, oh Régulo? A teus olhos
{) logar em que estás acaso é novo?
,
REGULO
Penso qual d'elle fui, qual torno a elle,
AXILCAB (2)
De Carthago o Senado, desejando
Em fim depôr as formidaveis armas,
Q Senado romano hoje sauda:
\ E se a paz de Carthago anhéla Roma,
Quem lhe envia a sande, a paz lhe envia.
(1) O Consul, Publio e todos os Senadores vão tomar as-
.sento. Ao lado do Consul fica· desoccupado o logar, que algum
-dia o c cu pára Régulo.
(2) Ao Consul.
'YOL. 111 30
466 OBRAS DB BOOAGB
JIABLlO
Senta-te, e expõe. - E tu, o antigo assento
Vem, Régulo, occupar •

,

REGULO
Mas quem são estes ?
JriANLIO
.
Os Senadores.
,
BEGULO
Tu quem és?
Jri.ANLIO
Conheces
O Consul já tão mal ?
BÉGULO
Pois entre o Consul,
E os Senadores, tem Ioga r um servo ?
Jri.A.NLIO
Não; mas em teu favor, em honra tua,
Por ti, que mil trophéos á patria déste,
Das leis o rigorismo esquece Roma.
:RÉGULO
Pois o que a Roma esquece a Roma eu lembro ..
JriANLIO
(Quem viu jámais tão rigida virtude!)
.PUBLIO
Nem eu me sentarei.
BÉGULO
Publio, que fazes 1
..
'
DRAMAS TRADUZIDOS
PUBLIO
O que devo, senhor; erga-se o filho
O n ~ e o páe se não senta.
,
REGULO
Ah ! Tanto em Roma,
Tanto em Roma os costumes se mudaram I
Entre os cuidados puhlicos, outr'hora,
Soffrer a idéa de um dever privado,
Emquanto nlo passei de Lybia ás praias,
Era mais do que um erro, era delicto.
PUBLJO
Porém ••.
RÉGULO
. Senta-te, PublJo, e desde agora
Occupa esse logar mais dignamente.
PUBLIO
lnstincto natural é meu respeito
Na presença de um páe.
. ,
REGULO
Mais não prosigas:
Teu· páe foi morto quando foi vencido.
li.ANLIO
Agora falle Amilcar.
AMILCAR
Deu Carthago
A Régulo o poder, a auctoridade ·
De expor-vos seu desejo. O que lhe ouvirdes
E' o que diz Carthago, o que eu dissera.
JIANLIO
Falle Régulo pois.
467
468 OBRA.H DB BOCAGB
AlliLCA.B
Traze á memoria
Que, se não fôr acceito o que expozeres,
Juraste. . . ·
RÉGULO
Cumprirei quanto hei jurado.
MANLIO .
(D'elle se vae tractar. Oh que energia
Suas vozes terão ! )
PUBLIO
(Deuses de Roma !
Dom persuasivo nos seus labios ponde.)
RÉGULO
A inimiga Carthago, oh Senadores,
Com tanto que não ceda o que possue,
A paz, que tanto quer, propor-vos manda:
Se a paz não lhe outorgaes, deseja ao menos
Que dos seus prisioneiros, que dos vossos,
Termine a troca o misero desterro.
V óto que se recuse, a paz, e a troca.
AJ4ILCAB
Como!
PUBLIO
(Ai de mim!)
::MANLIO
(De assombro estou qual pedra!)
,
REGULO
A paz é facil vêr que damno envolve;
Teme o contrario, se a deseja tanto.
'
::MANLIO
Porém a troca ...
,
DRAMAS 'l'RADUZIDOS

A troca ainda esconde
Engano para vós mais perigoso.
AMILCAR
Régulo!
RÉGULO
Çumprirei quanto hei jurado.
PUBLIO
(Deuses! Meu páe se perde.)·
RÉGULO
Inclue a troca
e mil prejuizos; mas o exemplo
E peor que nenhum: do -Tibre a honra,
A constancia, o valor (oh Senadores)
A disciplina, a militar virtude;
Decaem, fallecem, morrem, se os cobardes
Esperam liberdade, vida.
Que presta ao bem comrnum que volte a Roma.
Quem do affrontoso, do servil flagello
Negros vergoes trouxer no dórso infame?
Quem as armas, de sangue hostil intactas,
Vivo depoz, e por terror da morte,
Baldões do vencedor soffrer quiz antes?
Oh mancha horrenda ! Oh vituperio eterno I
JIANLIO
Damnoso, muito embora, o cambio seja:
Régulo basta a compensar-lhe os damnos;
Basta Régulo só.
RÉGULO
Manlio, te enganas.
mortal sou tambem; tambem eu sinto
As injurias da edade; util a Roma
Já posso apenas ser. Muito a Carthago,
Muito o seria a mocidade féra,
469
470 OBRAS DE'"'BOOA.GB
Que troca.sseis por mim. Ah ! tão grande erro
Commetter não queiraes. Teve os mais bellos
De meus dias a patria; um resto inntil
Tenha o contrario; o vil triumpho alcance
De me vêr expirar; mas tambem veja,
Que em vão se regosija, em vão triumpha;
Que em Régulos abunda a altiva Roma.
MANLIO
(Oh constancia inaudita!)
PUBLlO
(Oh desgraçado! .••
Oh funesto valor!)
AMILCAR
( Céos ! Que linguagem
Tãó nova para mim !)
IIANLIO
Das acçOes nossas
O util não deve ser, mas ser objecto
Sómente o decoroso; e pejo a Roma
Fôra, que um cidadão a achasse ingrata.-
RtGULO
Roma quer ser-me grata? Eis o caminho. ..
Senadores I Os barbaros, que vêdes,
Tão vil me presumiram, qne por medo
Trair-vos procurasse! Ah I que esta affronta
Das muitas que soffri, tresdobra o pezo !
Senadores, vingae-me: eu fui romano:
Eia, armae-vos, correi, voae aos monstros,
Seus templos arrombae, d'ali se arranquem
As aguias prisioneiras; té que oppressa
Cáia a rival, nlo deponhaes o ferro.
Fazei que eu, lá tornando, encontre o snsto
Da vossa indignação, das furias vossas,
No semblante feroz dos meus algozes:
DRAMAS TRADUZIDOS
Que -ledo arqueje emfhn, que ledo morra
Ao vêr, entre os meus ultimos arrancos,
Como ao nome de Roma Africa treme.
AKILCAB
(De espanto minhas iras se enregelam !)
PUBLIO
(Ninguem responde; o coração me treme !)
KANLIO
Quer mais arbitrios dúvida tão grande.
O nosso justo assombro espaço exige
Para desafogar-se. Em breve,. Amilcar,
Ser-te-ha notorio o que ao Senado aprouve:
A inspiração dos céos, antes de tudo,
Devemos implorar, oh Senadores.
BÉGULO
lnda ha duvidas?
KABLIO
Sim; não sei se é. risco
Maior da patria no88& não curvar-se
Ao pezo dos tens próvidos conselhos,
Ou perder quem os dá! Tu, desprezando
Os horrores da morte, o sangue offertas
Ao publico interesse; mas a patria
Perde em ti de seus filhos o mais util.
Se teu fim sanguinoso exiges d'ella,
Não soffre a gratidão que tanto exijas.
Pr6digo o céo não é de almas tão grandes. (1)
471
(1) Vae-se, seguido de Senadores e Lictores, e fica a pas-
sagem livre-- no templo.
472 OBRAS- DB BOOAGE
SCENA X
Régulo, Publio e Amiloar
AMILOAB
Assim cumpres, oh Régulo, as promessas ?
RtGULO
Prometti de tornar: hei de cumpril-o.
AJriiLCAR
Mas •••
SCENA XI
Attilta, Povo, Lioini\l e oa memws
.A.TTILIA
Páe!
LIOI:RIO

Senhor!
A'ITILIA
Sobre esta mão, que adoro: •.•
RtGULO
Afastae-vos de 1nim: Graças aos numes,
Inda livre nlo sou.
ATTILIA
Que ! Recasou-se
A troca?
RtGULO
Publio, vem: _conduze Amilcar,
E a mim. ao domicilio destinado.

DRAMAS TRADUZIDOS
PUDLlO
Não tomarás a vêr tens patrios lares?
A antiga habitação ?

Não entra em Roma
Mensageiro
LICINIO
Esta severa
Lei não é para ti.

REGULO
Seria inj nsta,
Se não geral. ·
ATTILIA. •
Eu quero ao menos
Seguir-te aonde fôres.
RÉGULO
Não, que o tempo
Demanda pensamentos bem distinctos
Do filial ámor, e amor paterno •
.A.TTILIA
Ah meu páe ! Ah senhor ! Porque te encontro
Tão diverso de ti, do qne eras d'antes?
RtGULO
Minha sorte mudou, mas não minha alma.
Não perco entre grilhoes, ou entre os louros,
De meu animo a paz: não chega a elle
A minha escravidio: com vario aspecto
Póde virtude, sem mudar a eBSencia,
Resistir ao rigor, luctar co'as iras
Da inconstante fortuna. - Publio, vamos.
473
474 OBBA.S DB BOOAGS
SCENA XI
Amiloar, Baroe, Attilia
BABOB
Amílcar!
AJIILO.A.B
Barce! Ah! Perco-te de novo:
Régulo o que hei proposto dissuade.
AI DUAS
Oh céos!
AlfiLOA.B
Adeus: a Publio devo.
Quanto o meu coração tem que dizer-te !
BAJtCB
Nada em tanto me dizes?
ÃlllLCA.Jt
N'um suspiro
Ha bastante expressão, se o amor o explica.
SCENA XII
Attilia e Barce
ATTILIA
.Filha desventurada! Oh céosl Que devo
Concluir do que ouvi 'P Meu proprio damtio
Machinará meu páe !
BAJtOB
Oomo o Senado
lnda nlo decidiu, resta-te
Attilia, que esperar,

I
I
J
DBAMAB TRADUZIDOS
.A.TTILI.A.
Eu parto, eu corro:
Fadigas, snbmissoes, rogos,
Tudo em nso porei.; o prazo é curto:
Devo lidar primeiro qne os Conscriptos
Outra vez se congreguem: eis o tempo
De apurar a eloquencia, os artificios:
Amparo, auxilio implorarei a todos,
E farei bandear ao meu partido,
O Tribuno, os conscriptos, os clientes,
O povo, Amilcar mesmo, os mesmos numas •

475
Aposentos, á vista de Roma, no palacio suburbano,
destinados aos Embaixadores Carthaginezes
SCENA I
· Régulo e Publio
RÉGULO
Pnblio, tu inda aqui T Tracta-se agora
Da honra minha, do esplendor de Roma,
Do publico repouso, e não te apressas?
E ao Senado não vás?
PUBLIO

Senhor, ainda
Se não juntou.
RltGULO
Não tardes, vae: sustenta
Entre os arbítrios feus o meu conselho:
Mostra seres credor da origem tua.
PUBLIO
Como t E queres, e ordenas que fabrique
Eu proprio ~ damno teu?
RltGULO .
. Não é meu damne
O que utilisa a patria.
4:78 OJJRAS DB BOOAGB
PUBLIO
Ah ! de ti mesmo
Tem piedade, senhor.

Publio, ta julgas
Isto um furor em mim ? Crês que entre todos
Os que existf:!m no mundo eu só me
Quanto enganado estás ! Tambem sou homem:
Amo o bem, fujo ao mal; porém na culpa
Só este encontro, e na aquelle.
Culpa não fõra que, empecendo a patria,
Recobrasse a perdida liberdade?
Meu mal é pois a liberdade, e a vida.
Crês virtude manter c'o proprio sangue
Os destinos da patria, o nome, a gloria?
E' pois meu bem a escravidão, e a morte.
PUBLIO
Mas a patria não é ...
R!GULU
Na patria pensa;
Vê n'ella um todo de que somos partes:
Erro é no cidadão considerar-se
Da patria separado; os bens, e os males,
Que deve conhecer, sAo os proveitos,
Ou detrimentOs d'ella, a quem de tudo
E' devedor: quando o suor, e o sangue
Por ella espalha, nada seu despende:
Qnanto lhe deve, restitue á patria.
A patria deu·lhe o ser, deu-lhe a doctrina,
O alimento lhe deu: co'as leis, co'as armas
Dos insultos domesticos o escuda;
Dos extremos o salva: ella lhe presta
N orne, honra, gráo, seus meritos premêa,
Vinga os aggravos seus; mãe carinhosa
Se esmera em lhe forjar prosperidade,
Em fazei-o feliz, quanto é possivel
Ao destino dos homens ser ditoso.

DBAHA8 TRADUZIDOS
..
E' certo que estes dons lá tem sen pezo:
Quem o pezo recusa, o jus deponha,
Renuncie o favor; mendigo, inutil,
Os desertos. inhospitos demande,
E em ferinas envolto ·hirsutas pelles,
Contente de um covil, e agrestes fructos,
Lá viva a seu sabor, inerte, e livre.
PUBLIO
Adoro o que te escuto: a alma convences,
O coração porém não persuades;
Repugna obedecer-te a Natureza;
Não me posso esquecer de que sou filho.
RltGULO
Triste desculpa em quem nasceu romano:
Bruto, Manlio, Virginio, páes não foram Y
PUBLIO
Sim; mas essa constancia extranha, heroica
Ficou só entre os páes. Não teve Roma
Atéqui filho algum com que jactar-se;
Filho algum, que do páe tramasse a morte.
RltGULO
.
Pois do primeiro exemplo aspira á honra:
Vae-te.
PUBLIO
Ah .•.
RltGULO

.mais. Do meu destino espero
A noticia por ti. ·
PUBLIO
Senhor ...
M!Jito p:retendes,

479
Queres-me extranho, ou páe? Se extranho,
NAo prefiras o meu ao bem de Roma: ·
Se páe, adora o mando, e cala., e parte.
480 OBBAS DB BOOAGB
PUBLIO
Ah! Se o meu coração notar podasses;
Quantas palpitaçOes, senhor, o agitam ;
Menos duro talvez comigo fôras.

Eu do teu coração requeiro agora
Menos provas de amor, que de constancia.
PUBLIO
Ah ! Se é vontade tua exp'rimentar-me,
Pede-me o sangue, oh páe, verás tneu sangue
Derramado a teus pés; mas que teu filho
Te enlute os fados, te machine a morte ...
Perdoa-rne, tremo, desmaio,
E para tanto em mim não ha virtude .

SCENA II
'
REGULO
Eis o grande m3mento se avisinha.
Que vacille o Senado eu temo: oh deuses,
Protectores de Roma ! E ia, inspirae-lhe ·
Mais dignos sentimentos.
SCENA III

Manlio, liotores e Régulo
KANLIO
Os Licto.r-es
Fiquem d'este logar vedando a entrada;
A penetrar aqui ninguem se atreva.

..
Manlio I A que vem! ..

. '
DRAMAS TRADUZIDOS
KA.XLIO
Ah ! deixa, heroe invicto,
Que te aperte em meus braços.

481
Como l Um Consul !
MANLIO
Consul não sou agora; eu sou um homem,
Que adora essa virtude, essa constancia:
Um grande émulo teu, que se declara
Já vencido por ti:-que detestando
Seu antigo rancor, sua injustiça,
De ser amigo teu supplica a honra •.

Eis o estylo commum das almas grandes !
Não bate o vento as derrubadas plantas;
Mas brandamente as ergue. Eu gloria tanta,
Tão nobre acquisição devo aos meus ferros.
IIANLIO
Sim, tens ferros qual és me descubriram:
Nunca te vi tão grande como entre elles.
A Roma vencedor dos inhnigos
vezes volveste: agora volves
Vencedor de ti mesmo, e da
Os teus louros inveja em mim crearam;
Os tens ferros em min1 respeito infundem.
Heróe Régulo então me parecia;
Régulo agora me parece um nume.
RltGULO
Basta, basta, senhor: applausos tentam,
M6rmente em labios taes, a mais austera,
Comedida virtude: eu te sou grato,
De aprouver-te illnstrar com teu affecto
Os meus dias finaes.
VOL. III
..

4:82 OBBA.B DB BOCAGB
K ~ : N L I O
Teus finaes dias!
Conservai-os pretendo a bem da patria:
E, porque em. teu favor se admitta a troca,
Tudo em uso porei.
RliDLLO (1)
D'esta arte, oh Manlio,
Principias a amar-me! E que fizeras
Se inda me aborrecesses? D'este modo
Do fructo do meu brio me defraudas P
Mostrar os meus grilhoes nlo vim a Roma
Por lhe excitai' piedade; eu vim salvai-a
De arriscada proposta, que não deve
Ser acceita por ella: se não pódes
Dar-me outro amor, a aborrecer-me torna.
KABLIO
Porém não vês que, recusada a troca,
Tua morte produz? ·
RitGULO
E tão terriYel ..
Nos ouvidos de Manlio sôa a morte !
Hoje que sou mortal não é que, aprendo:
Nada podem tirar-me os inimigos,
Que cêdo me não tire a Natureza:
Ficará sendo assim dom voluntario
Aquillo. mesmo, que seria em breve
Necessario tributo. O mundo veja
Que Régulo viveu só para a patria, .
E que emfim, quando mais viver não pôdet
Lucro se quer lhe deu co'a tuort.e sua.
MANLIO
Vozes sagradas ! Sentimento augusto l
Oh terreno feliz, que dá taes filhos !
E quem póde, senhor, deixar de an1ar-te
(1) Perturbado.
-....---.-
DBAHAS TRADUZIDOS
BÉGULO
Consul, como romano atnar-me deves,
Se me queres amar. D'esta amisade
Attende as condições. Ambos façamos
Um sacrificio a Roma: eu o da vida,
Tu o do amigo. 'E' justo que as .vantagens,
Que a fortuna da patria, algum desgosto
Tambem te custem; vae; porém promette
Que dos conselhos meus tu no Senado
Serás o defensor: tua amisade
Com esta condição s ó ~ é n t e acceito.
Que respondes, senhor '/
MANLIO

Que assim prometto •
RtGULO
Agora dos propícios, altoS' numes
Em Manlio reconheço um dom sagrado. ·
· MANLIO
.
Porque dos ferros teus nl.o participo? •.•
RltGULO
NAo percAmos o tempo. Os Senadores
Ter-se-hão juntado. Á tua fé commetto
O decóro da patria, o meu repouso,
A honra minha.
MANLIO
Oh! Que fervor de gloria,
Que flamma lavra em mim de fibra em fibra,
Só de fallar comtigo, ahna sublime !
Não, não ha coração de tal fraqueza,
Que, ouvindo a tua voz, trocar não queira
O destino de um rei por esses ferros.
Adeus, gloria do Tibre.
RÉGULO.
Atnigo, adeus.
483
-
4:84: OBRAS DE BOOAGB
---- --- -------·--
SCENA IV
Régulo e Lioinio
RÉGULO
A respirar começo: os n1eus_ desígnios
Fausto o céo favorece.
LICINJO
En1fim mais ledo
Torno a ver-te, senhor.
RÉGULO
D'onde procede
Tanto prazer, Licínio !
LICINIO
Abundo n'alma
De alegres esperanças. Atégora
Lidei por ti.
RtGULO
Por mim!
LJCINIO
Sim: presumiste
Tão ingrato Licínio, que esquecesse
Altas obrigações no lance d'ellas?
Muito, ah I Muito, senhor, na idéa ns trago.
Foste meu general, meu pae, meu mestre.
Os meus primeiros, va9illantes passos,
IJa gloria pela estrada encaminhastes:
Eu te devo o que sou.

BBGULO
Mas dize, acaba: ( 1)
Em beneficio meu que tens tu feito?
(1) Impaciente.
,
• DRAMAS TRADUZIDOS
LJCJNIO
Fui defender-te a liberdade, e a vida.
RÉGULO
Como! (1)
LICINIO
No atrio <;lo templo, onde o Senado ..
Para o novo debate se congrega,
O Senado esperei: movi em todos
O intento de salvar-te.
RtGULO
(Oh céos ! Que escuto!)
E tu .• -
LICJNJO
Não fui eu só: não se escureça
Ao me rito o louvor: lidei bastante;
Mas Attilia inda mais.
RtGULO
Quem r
LI CINJO
Tua filha:
Outra em Roma não ha mais extremQsa
No amor ao pae. Como fali ou ! Que affectos
Nas almas despertou! Como o decóro ·
Lhe ataviava a dor r Por quantos modos
Uniu exprobraçOes, louvores, preces!
atOU LO
E o Senado que fez?
LICINIO
Ah ! Quem resiste
Aos assaltos de Attilia?. . • Eil-a; repara
Como em seus olhos a esperança brilha.
(1) Perturbado.
485.
OBRAS DE BOCAGE

---- ---------
SCEN·A V
Oa meb--mos e A.ttilia
A.TTILIA.
Emfim, querido pae, já posso ..••

REGULO
E ousas
Presentar-te a meus olhos? Até gora
Entre os contrarios meus te não contava.
A.TTILJA
Eu, pae, contraria tua !

REGULO
E' menos que isso
Quem se oppOe delirante aos meus conselhos?

Ah senhor! No desejo de prestar-te
Demonstrações de inimisade encontras ?

Tu sabes o que empéce, ou que aproveita ?
Quem nos cuidados poblicos te ingére?
Quem te fez de meus fados protectora ?
Que jus .•.
LIOINIO
Muito, oh senhor ...
RtGULO
Licinio falia !
Melhor se defendia emmndecendo;
Indicio de remorso era o silencio.
Uma filha! Um rotnano! Eternos deu'SeB t
DBAMAB 1.'BADUZIDOS

Porque sou filha ..•
LJCINIO
Porque sou romano,
Imaginei oppôr-me ao teu destino.
RÊGULO
Cala. Quem aconselha acções
Quem á baixeza induz, não é romano:
Minha filha não é quem não prefere
O proveito commum ao bem privado:
O pezo de meus ferros sinto agora:
Aftligem-me os grilhoes por culpa vossa,
E hoje lamento a liberdade extincta.
SCENA IV
L1olnio e A.ttilia
ATTILIA
Ah ! I .. icinio, Licinio, em todo o mundo
Crês que ha mulher mais infeliz que Attilia '/
Amar um pae, estremecer por elle;
Por elle desvelar-se; atear no peito
A mais terna piedade;--isto seria
Mérito em outras, em outras, em Attilia é crime.
LICIHIO
Consola-te, meu bem; não te arrependas
D'esse extremo filial: deveres nossos
....
Não se irmanam de Régulo aos deveres;
Se o desprezo da. vida é gloria n'elle,
Em nós fôra impiedade o não salvai-o:
As iras de teu páe não te amedrontem:
Ás vezes de cruel argúe o enfermo
A propria mão, que providente o cara.

488 OBRAS DE BOOAOB
----·------------------ --

Suas exprobraçoes me desalentarn
O afllicto coração. Valor não tenho
Para soffrer-lhe as iras.
LICINIO
Queres antes
De um páe, e de um tal páe chorar a perda '
A.TTILIA..
Ah não: mostre-me enfado; porém viva.
LI CINJO
Viverá, viverá: suspende o pranto:
Serenem-se outra vez tens olhos bellos;
Pois se n'elles de magoa indicios vejo,
A constancia, e valor em n1im desmaiam •

SCENA VII
ATTILIA
Da sorte caprichosa os bens, e os males
Não têm moderação,. nl.o têm medida;
Ou de seus dons é pródiga no extremo,
Ou, té que o veja extincto, um peito opprime:
Agora sou do seu furor o objecto:
Sobre a minha cabeça relampejam
Pavorosos fuzis, que indicam raios:
E quem sabe que horror no bojo encerra
A procella, que em torno enluta os ares ?
Mas, oh Deus! se uma vida é só
A applacar o furor, que em vós supponho,
Eis o men coração, n 'elle se esgotem
Da vossa omnipotencia as furias todas;
Expire _a filha, mas o pae não morra.
DBAliAS TRADUZID.OS

SCENA VIII
}lutaçlo. Galeria
RÉGULO
Palpitas, coração ! Que tens '1 Que novo
Frio tremor por ti desconhecido
E' este que te abala ? Outr'hora ousaste
Desafiar do pélago as tormentas,
D'Africa os monstros, de Mavorte a sanha;
E agora em convulsões teu fado esperas !
Tu razão tens: játnais, játnais tégora
Correu. tão grande risco a gloria minha.
Mas esta gloria (oh céos !) será tyranna
Paixão dos corações? E como as outras
Domar-se dever4 ? Ah ! Não: dos f r a c o ~
Eis a linguagem: de que serve ao mundo
O que só para si no mundo vive ?
De ti sómente, generoso uffecto,
Aprende a se esquecer de si, por outrem
O intrepido mortal: quanto na terra,
Quanto na terra é bem, se deve ó, gloria.
Elia sabe remir a humanidade
Do vergonhoso estado em que jazia.
:J?a gloria a sede honrosa o fio embota
A constante afHicção, que as aln1as fere;
Rouba aos p'rigos o medo, o medo á oft>rte:
Alonga os reinos, as cidades mune,
Allicía, congrega, attráe sequazes
A' formosa virtude: emfim, converte
Em benigna moral costumes feros,
E quasi que os mortaes em deuses volve.
Por ella •• , Mas que vejo! Ah I Publio torna,
E parece que timido caminha.
Então, que annuncio trazes? Decidiram
Os .Senadores já Y Qual é meu fado?



490.
OBBA-8 DB BOOAGB
SCENA IX
_ Régulo e Publio
PUBLIO
Senhor. • . (que pena para um filho é esta !)
BÉGULO
Calas-te?
PUBLIO
Oh deuses I antes mudo eu fôra!
BÉGULO
que succedeu
PUBLIO
N enhnma offerta
() Senado

Emfim venceste,
Graças, graças aos céos, genio romano !
Ah! Não tenho vivido inutilmente:
Busque-se logo Amilcar: não me resta
Nada já que fazer; cumpriu-se a obra:
Convém partir • d'aqui. ·
PUBLIO
Páe desgraçado·!
RÉGULO
E chamas infeliz quem pôde á patria,
Emtanto que existiu, prestar-lhe, e honrai-a?
PUBLIO
A patria adoro, os ferros teus lamento •


DRAKAS TRADUZIDOS
RÉGULO
A vida é servidão, toda tem ferros.
Quem deseja chorar, que chore, oh Publio,
A sorte de quem nasce, e não a minha.
PUBLIO
Do barbaro Africano a crueldade,
Impio furor te privará da vida.
RÉGULO
:Meu captiveiro findará com ella:
Não me sigas; adeus.
PUBLIO
De mim recusas
Os derradeiros, filiaes deveres?
RÉGULO
Outros deveres da tua alma eu quero:
Em quanto. na partida me desvelo,
Fica a magoada Attilia:
Seu pranto enlutaria o meu
Oh quanto para mim é tema, e cara!
A fraqueza do pranto lhe releva.
Não é propria em mulher viril" constancia.
Tu a aconselha, e·cuida de inspirar-lhe
Com vigoroso exemplo a fortaleza.
Tu a rege, e a guarda: usa com .ella
Officios paternaes: a ti confio
Minha filha, e confio-te a ti mesmo ;
E espero . . . Ah ! Vejo esmorecer teu rost9:
Mais sólida constancia em ti julgava;
E acaso a julgaria?
Ah I Não: tu és meu filho, és um romano:
. Não murches as viçosas esperanças,
Que de um animo grande á patria déste:
No trilho dos heróes dirige o passo ;
Sê digno successor dos meus affectos ;
Faze com que teu páe de hoje em diante,
De ti ]em brar-se sem vergonha possa.
,
491
492 OBRAS DE BOtJAOB
..
SCENA X
Publio, depoi& Licinto, .A.ttilia, Baroe e A.miloar
PUBLIO
Ah! Sim, Publio, valor, é duro o lance;
Porém cumpre vencer-te ; o sangue o pede
Que tens nas vêas, e o sublime exemplo
Que assombra os olhos teus o mesmo exige:
Téqui cedeste aos impetos prhneiros
Da terna, resentida Natureza:
Melhor, mais dignamente agora escolhe,
Itnita o grande páe: corrige um erro .••
.A.TTILIA
E' certo, caro irmão?
BABCE
Publio, é verdade ?
PUBLIO
Decidiu o Senado: em poucas horas
Régulo partirá.
AMILCAB
Como!
BABCB
Que dizes!
ATTILIA

Ah r traíram-me todos.
LICINIO
lnda resta
O recurso fina].
BABCB
Piedade, Amilcar! .••

DRAMAS TRADUZIDOS
AIIILOAB
Esperanças não ha; murcharam todas.
ATTILI.l.
E meu pae onde está ? Com elle ao menos
Quero, quero partir.
PUBLIO
Dete1n·-te: o e x c e s ~ o
Da tua acerba dôr o offenderia.
ATTILIA
·como? E esperas assim tolher-me o passo ?
Agora só me lembra que sou filha;
Deixa-me ••.
LICINIO
Torna em ti ...
ATTILIA
Ah ! Que entretanto
Parte o misero pae.
A.MILOAB

'fal não receies
Em quanto Amílcar persistir em Roma.
ATTILIA.
493
Quem me soccorre, oh céos ! Quem me aconselha ?
Licinio, Barce, Amílcar, Publio, Publio ! ...
PUBLIO
Socega, cara irmã, valor, constancia.
ATTILIA.
E tu falias assim ! Tu, que devêras
Acompanhar gemendo os meus transportes ?
Tu não perdes o pae 1

494 OBBAS DB BOCAG'B
AMILCAB
Mas Barce fica,
Barce, que a teu irmão o peito inflamma:
Convém a seu amor que o pae se ausente
Sem o resgate da gentil escrava.
PUBLIO
Tal me avalias? Que desar r Que affronta !
AliiLOAB
Talvez, porque o Senado obstasse á troca
Apuraste os ardis, compraste os votos:
Eis o motivo do valor, que ostentas.
PUBLIO
"'
De um africano tal pensar é digno .
.A.KILCAB
Comtudo ...
PUBLIO
Cala, e escuta-me. Não ~ a b e s
Que na sorte de Barce imperio tenho ?

AMILCA.R
Sei que o Renado a tua mãe a dera,
Que morrendo a deixou ao teu arbitrio,
E qne hoje é tua amante, além de escrava.
PUBLIO
Do meu dominio, pois, v ~ que uso eu faço:
Até agora amei Barca mais que a vida,
Porém menos que a honra: eu sei que uma alma.
Como a de Amilcur não poderá crer-me;
Mas de suspeitas vís qualquer pretexto
Tirarei á calumnia: Barce, és livre,
Ausenta-te com elle ( 1)
(1) Vae-se.



: ~
- ----- -·-_j
DRAMAS TRADUZIDOS
B.A.llCE
Oh céos! Que escuto!
.A.MILC.A.B
De tAo rara, magnanima virtude .•.
LICINIO
Como se ama entre nós, barbaro, aprende.
BABOB
Serei tua outra vez ?
LICINIO
Tente-se tudo: (1)
Triumphe a gratidão.
AKILCAB
Sim, na virtude
Tenha rivaes este romano orgulho. (2)
ATTI:i..I.A., a Licinio
Onde vás?
BABOE , a Âmilcar
Onde vás?
LICINI0
1
a Âttilia
O pae salvar-te.
AlliLCAB, a Barce
Régulo conservar.
(1) Partindo.
(2) O meamo.
A TTILIA, a Licinio
Mas de que sorte?
496
496 OBRAS DB BOOAGB
---------------
BABOB, a AmilctJr
Porém como?
LICINIO
A extremas deàventuras,
Dêm-se extremos remedias.
AIIILOAB, a BtJrce
NA.o me sigas.
A.TTILIA.
Mas nem sequer te explicas ? ..•
B.ABCB
Mas nem dizes ? • • •
LIOINIO
Ern breve o saberás.
AMILCA.B
Em 1nim confia.
LICINIO·
Morra Licinio, ou Régulo se livre.
A . K ~ L C . A . B
Tambem patria de heróes Africa seja •

ACTO III
Sala terrea, que corresponde a jardim

SCENA I
Régulo, guardas afrioanoa, depoi& Kanlio
(1)
Amilcar porque tarda? Inda não soube
O arbitrio do Senado? Onde se occulta'
Procure-se: (2) convém saír de Roma;
Já não tem que esperar, nem eu já tenho
Que pretender aqui: qualquer demora
Se torna culpa em ambos. (3) Ah ! 1\{eus braços
Te cinjam, caro amigo: a gloria minha
Perigára sem ti: por ti conservo
Os meus grilhOes. A ti se deve o fructo
Da minha escravidão.
KANLIO
Sim, mas tu partes,
E Roma vae perder-te.
, .,
REGULO
Não partindo,
Então me perderieis.
KANLIO
Ah! Coméço
Bem tarde a ver-te amigo; e d'este affeoto,
Só penhores fataea téqui te hei dado.

A um guarda.
2 Parte o guarda.
3 \rendo Manlio.
VOL. 111

82
498 OBBAS DB BOCAGB

REGULO
Que mais posso esperar de um puro amigo ?
Se o generoso Manlio quer, cemtudo,
Dar-me outras provas de extremado affecto,
Outras lhe pedirei.
MANLIO
Falia.
BÉGULO
Os deveres
De fiel cidadAo tenho cnrr prido.
Emfim, de que sou páe tambem me lembro.
Dons filhos (tu o sabes) Publio, Attilia,
Deixo em Roma. Elles são depois da patria
O meu primeiro, e mais Pnave afFecto.
Indole não vulgar transluz em ambos,
Plantas são todavia inda im1naturas:
Ambos carecem de culwr prudente;
Mas que eu d'elles curasse os céos vedaram:
Do piedoso cuidado (ah I) tu te incumbe:
Compensa largamente o que ambos perdem:
Á tua alma benigna, a teus conselhos,
A gloria deva o páe, soccorro os filhos.
JIANLIO
Eu t'o prometto. Os preciosos germes
Piedoso abrigarei. Senão táQ digno,
Um páe tAo temo como tu, ao tnenos,
Em mim terão. Hei de apontar-lhe os passos
Da romana virtude, e este desvelo
Muito pouco suor ha de custar-me:
Áqnellas a)mas, que a virtude inflamma
Por natureza é bastante
Daa paternas acçoes ouvir a historia.
RtGULO

Mais nada resta pois ao meu desejo.


DRAMAS TRADUZ!DOS
-
SCENA II
Régulo, Kanlio e Publio
PUBLIO

Manlio ! Páe !
RtGULO
Que succede ?
PUBLIO
Amotinada
Roma está: treme o povo; e que te ausentes ·
Não consente, n ã ~ quer.
RÉGULO
Será possivel
Que um cambio vergonhoso agrade a Roma ?
PUBLIO
Não quer troca, nem paz, quer que tu fiques.
RÉGULO
Eu?. . . Oh céos ! E a palavra? O juramento? ..•
PUBLJO
Todos, todos vozeam: - fé não deve
· Aos perfidos guardar-se.
RltGULO
Então de um crime
Outro é des.culpa ? E quem será culpado
Se de a· colheita aos réos servir o exemplo?
PUBLIO
O collegio dos Augures se ajunta.

500 OBRAS DE BOOAGB

Precisão d'esse oraculo não tenho:
Eu sei que prometti, partir eu quero:
Roma podia, ou paz, ou troca:
Cuidar no meu regresso a mim só cumpre:
Dever publico era aquelle, este é privado:
Do que fuj ao que sou muito defiro.
Roma não tem direito em servos de outrem.
PUBLIO
O decreto dos Augures se espere.
BÉGULO
Não,- ·Publio, que com esp'ral-o approvo
A sua auctoridade. Ao porto, ao
Não haja mais demora. Amigo, adeus.
PUBLIO
Adverte que o povo alvorotado
Pretenderá talvez deter-te á força.
,
BBGULO
Vê que, se tal tu protejes
Da pouca lealdade o crime em Roma.
PUBLIO
..
Então devo faltar •..
MA.NLIO
Régulo, deixa
Que eu do povo o primeiro impulso acalme:
Da consular auctoridade á vista,
Mitigará o ardor.
RÉGULO
Eu me confio,
Manlio, na tua fé. Mas •••
·DRAMAS I TRADUZIDOS
MANLIO
Basta, entendo:
Apeteço, e ambiciono a gloria tua:
Vejo· o teu no. meu confia:
Em honra, como a ti, me ferve o peito:
Nega-me o fado, nega-me a ventura
O sublime esplendor d'esses teus ferros;
Mas se os desejo em vão, sei merecei-os.
SCENA III
Régulo e Publio
RitGULO
Será crivei que ·tanto custe em Roma
Agora o conservar a fé jurada I
Publio ! Ah Publio ! . . . Tu ficas, e tranquillo
Deixas ao caro amigo a gloria toda
Da lida, do fervor de soccorrer-me?
Corre, corre tambem; forceja, alcança
Para a minha partida o ·passo livre.
Quero este alto favor dever a um filho.
PUBLIO
Ah, páe! Eu te ·obedeço; mas ...
atou Lo
O suspiro será fraqueza.
.Suspende:
PUBLIO
Sim, eu confesso que mo:rrer me sinto;
Mas a mesma oppressão, que me atormenta,
É um merito em mim;· com tudo eu ligo
Á minha dôr a obediencia minha.
501
502 OBRAS D& BOOAGB
---- ----- --- --- -
SCENA IV
Régulo e Amiloar
AMILCA.1l
Régulo, emfim •.
RÉGULO .
Já sei antes que o digas,
Quaes teus queixum.es slo: nAo te acobarde
O popular motim : Régulo em Roma
Vivo não ficará.
AMILOAB
Não sei qual seja
O motim popular de que me falias !
Venho mostrar-te por tnaneira extranha,
Que não é mãe de heroes sómente Roma,
Que entre nós ha tambem grandeza d'alma.
RÉGULO
Concedo: mas de inuteis, vãos debates
Tempo agora nAo é: junta os sequazes,
E apresta-te á partida.
AMILCAB
Não; primeiro
Escuta-me, e responde.
atGULO
Oh soffrimento !
AMILCAB
Ser grato é gloria ?
,
DBAIIAS TRADUZIDOS
RÉGULO
E' um dever ser grato;
~ s já tio pouco este dever se exerce,
Que hoje é gloria cumpril-o.
AliiLCAB
Mas ~ e agora
Custar um grande p 'rigo ?

BBGULO
Então se eleva
Ao gráo de alta virtude.
AMILCAB.
O gráo, que dizes,
Não pódes pois negar-me. Ouve: zeloso
Da gloria sua teu illustre filho, ·
Barce me restitue amando-a ha muito:
Eu tambem generoso, estimulado
D'emulo brio, o pae salvar-lhe quero,
E ao furor de Carthago assim me exponho.
'
REGULO
..
Tu me queres salvar?
A.KILCAB
Eu.
RÉGULO
Comof
AlllLCAB
~ Espaço
Te darei para a fuga: aquellas guardas
Cedo removerei de ti com arte:
503
50f OBRAS DR BOUAGB

Tn canto em Roma esconde-te entretanto,
"Té' que sem ti com simuladas iras
Ancoras léve.
RÉGULO
Barbaro! ..•
AMILC.A.B
Que dizes?
Assombras-te da offerta?
.
RtGULO
Assás.
AKILOAB
Terias
De mim tanto es.perado ?
RÉGUf.O
Não.
AJIILC.A.B
Co1n tudo,
Não tive a ·sorte de nascer romano.
BÉGULO
Bem se vê.
AMILCAB
Guardas, ide.
atOU LO
Nenhum parta •
.A.lliLCAB
Porque?
RtGULO
Dos bons desejoe te sou grato;
Porém comtigo irei.

DBAilAS TRADUZIDOS
AMILCAB
Minha piedade
Desdenhas?

Não: de ti me compadeço:
Virtude ignoras, e virtude ostentas:
E offendes a ti proprio, a mim, e á patria.
AMILCAR
En!
atGULO
Sitn: como dispões da liberdade
De Régulo'? E' teu servo, ou de Carthago 'I
.A.MILCAB
Não te cabe indagar se o beneficio •..
RtGULO
O beneficio, na verdade, é grande !
Tornar-me réo, tornar-tne
Profogo, indigno ..•
AMILCAR
Mas aqui se tracta
De conservar-te a vida, e nAo reflectes
Que atrozes penas te dispôz Carthago '
Que que horror, que morte ali te esperam?
RltGULO
Mas conheces, Amilcar, os romanos?
que vivem de honra, e que só ella
E das suas acções medida, e objecto?
Aqui sem pallidez se aprende a morte;
505
506 OBBAS DB BOOAGB
Aqui se desafia, aqui se affronta
Todo o tormento, que produz a gloria;
Aqui só a fraqueza é horrorosa.
AlliLCAB
Pomposas expressoes ! Bellas no ouvido I
Mas não creio essa túmida linguagem:
Sei que a todos a vida é preciosa,
E que tu mesmo ...

Em demasia abusas
Da paciencia tninha: apresta os lenhos,
Congrega protnptamente os teus sequazes;
Cumpre com teu dever, parbaro, e cala.
AMILOA.B
Intrepido alardêa, audaz insulta,
Poe á minha piedade um nome indigno:
Calado, junto ao Tibre, Amilcar te ouve,
Em Carthago porém dar-te-hei resposta.
SCENA V
Régulo e logo A.ttilia
,
BEGULO
Publio não toma! E Manlio. • . Oh céos! Attilia,
Que annuncio trazes, pressurosa, alegre ? ·
ATTILIA
Já de Régulo pendem nossos
Roma, Roma aferrada a teus arbitrios,
Não quer troca, nem paz, mas ficar pódes.
RltGULO
Sim, com a infamia .••
DRAMAS TRADUZIDOS
ATTILIA
Não, sobre esse ponto
Já no Senado a decisão foi dada: .
De partir, ou ficar tens faculdade:
Juraste entre os grilhões ... Quem nlo é livre
Em si não tem poder para obrigar-se.
RÉGULO
O que sabe morrer é sempre livre.
Longe sophismas: a fraqueza propria,
Confessa quem accusa a força a\hêa:
'Eu jurei porque qniz, e partir quero
Porque jurei.
SCENA ·vi
Régulo, Attilia e Publio
PUBLIO
Senhor, em vão o esperas •.
RtGULO
E quem póde tolher-m'o?
PUBLIO
O povo todo,
O povo todo, oh páe, já não se doma.
Grita, brama, incapaz está de freio: ·
Por te impedir o embarque, ao porto corre
Em confuso tropel, e está de Roma
·Outro qualquer logar deserto.
RtGULO
E Manlio '!

507

508 OBBAS DB BOCAGE
PUBLIO
Ao voto universal se oppoe só elle.
Roga, ameaça, grita; mas sem frocto,
Qoe o mando a obediencia nl.o consegue.
Na revolta caterva a foria cresce:
Já·· na dextra dos pallidos Lictores
As segures vacillam; e em tão fero,
Tão terrível tumulto, executores
O mando consular não tem, não acha.
RltGULO
Attilia, adeus: segue-me, Publio.
PUBLIO
Aonde?
ATTILIA
Aonde vás?
· ·,
A o amigo;
Lançar em rosto a Roma o crime ho:r:rendo
Da minha escravidão:-.Manter a honra;
Partir, ou expirar n'aquellas praias.
ATTJLIA
Ah páe i Se tn tne deixas, en .•
BEGULO (l)
Attilia,
Muito ao nome de filha, á edade, ao
Muito dei atéqui: baste de choro.
Com Roma em damno meu se não conjure,
Não se anne contra mim tambem teu pranto:
De um triumpho immortal não me despojes.
ATTILI.A
Q
. '
ne pena para mim .•••
(1) Sêrio, mas sem enfado.
DRAMAS TRADUZIDOS
ntouLo
·'
E grave pena
Perderes-me, bem sei; mas tanto custa
A honra singular de ser romana .
.A.TTILfA
Outra prova qualquer darei ...
utGULO
Que prova?
Acaso regular de Ro1na os fados,
Irás lá no Senado, entre os conscriptos ?
Na fronte o murrião, na dextra o ferro,
Entre armas verterás suor brioso,
Commettendo, aterrando os inimigos?
Attilia, se não sabes sem fraqueza
Pela patria sofl'rer qualquer desastre;
Por ella que farás?
ATTJLIA
. É certo, é certo;
Mas tal constancia • . .
BBGULO
Esta virtude é ardua;
Mas Attilia é meu sangue, e deve tel-a.
ATTILIA.
Sim, pae, quanto pudér hei de imitar-te:
Mas oh céos ! Tu me deixas indignado?
Eu perdi teu amor ?
RtGULO
Não, filha, eu te amo.
Não tenho indignação: de mim recebe
Este terno penhor: mas este abraço
Honra, constancia, e não fraqueza inspire.
~ 0 9
510 OBRAS DB BOOAQ&
SCENA VII
Attilia e depois Barca
ATTILIA
Sim, valor, coração! ~ r a c o s affectos,
Minha alma despejae: prantos imbelles,
Nos tristes olhos meus parae de todo:
Tenho chorado assás, assá-a tremido:
Surja d'entre o paterno, heroico enfado,
O esforço natural, que me alentava.
N Ao seja Attilia só, não sei a Attilia
De tAo sublime planta indigno ramo.
B.A.BCB
Attilia, quanto ouvi será verdade? •..
A despeito do povo, e do Senado,
IJos Augures, de nós, do mundo jnteiro
Régulo quer partir ?
ATTILIA
Sim.
BABC.B
1\fas que insano,
· Que teimoso furor ...
ATTILIA
Barce, aos heroes.
Tem mf:Us respeito,
BA.BCB
Como! Que escuto! Approvas
Do pae a obstinação ?
..
DRAMAS TRADUZIDOS
ATTILIA
Do pae adoro
A constante virtude.
BAROB
Uma virtude,
Que ás iras de Carthago, á morte infame
Cegamente o conduz?
.A.TTILIA
Oala: esses ferros,
Esse horror, essas furias, essa morte-
Tudo isso de meu pae serão triumphos.
BAROB
Exultas entre idéas tão medonhas ?
Oh deuses ! Perceber não sei .••
ATTILIA
Quem teve
Em barbaro paiz o nascimento,
Por desgraça, entender, sentir não póde,
Quanto uma filha na paterna fama·
Engolpha o coração.
BAROE
Mas porque choras ?
ATTILIA
Não sei se o· pranto· meu é gosto, ou pena.
SCENA VIII.
BABOB
Que extranhas illuiOe& ! Que idéu novas
A ambiçAo de louvor produz em Roma I
:Manlio do seu rival cubiça os ferros;
511
'
,
!)12 OBRAM Dll BOOAGB
Régulo odeia a publica piedade;
Do pae na morte se recreia a filha;
E Publio embriagado, accezo em honra,
De amor trinmpha,. e ao sen rival me cede!
SCENA IX
1\Iagnifi.co portico sobre a margem do Tibre. Armada prompta
no rio para o ombarque de Régulo: ponte que conduz a
uma das náos, que estará mais visinha: numeroso povo,
qu.e impede a passagem para a sobredita náo; Africanos
sobre a mesma ponte, Lictores, e o Consul.
lltanlio e Lioinio
LICINIO
Sim, que Régulo parta impede Roma.
JIAlfLJO
Pois de Roma tambem nlo somos.parte
Eu, e o Senado ?
LICINlO
A maior é o povo.
JIANLIO
Não a rnais sã.
LICINIO
Porém a menos féra.
POVO
Por gratidão, e amor salvar queremos
A Régulo a
MANLIO B SENADORA
E nós a honra.
DkAilAS TBADUZIDOS
LICINIO
A honra ...
MA.NLIO
· Basta: eu altercar comtigo
Aqui não venho. Oh lá! Franqneem todos
A passagem.
LI CINJO
Oh lá! Ninguem· se affaste.
KANLIO
Eu o ordeno.
LI CINJO
Eu o védo.
MANLIO
Ousa: Licinio
Oppôr-se ao Consul?
LICINIO
Ao Tribuno oppôr-se
Ousa Manlio ?
JL\NLIO
Vêl-o-has: eia, Lictores,
Despeje-se o caminho.
LICINIO
Eia, romanos,
O passo defendei.
KANLIO
Oh céos I Com armas
Se resiste ao meu mando? E d'esta sorte
Se offende a magestade ?
VOL.III
513

33
514 OBaAS DB BOC.AGlt
LICINJO
A magestade
De Roma está no povo, e tn a offendes
Quando a elle te oppoes.
POVO
Régnlo fique.
KANLIO
Onvi: deixae que eu patenteie o engano.
POVO
Fique Régulo.
KANLIO
Ah r vós •.•
POVO
Régulo fique •

SCENA X

Manlio, Lfoinio, Régulo, Publio, Amiloar, Atttlfa,
Baroe, guardas, senadores e povo
..
.RtGULO
Régulo fique?. . . E eu ouço? Eu devo crer-me ·
Uma infamia sequer ? Sequer em Roma?
Sequer de mim? Que povos· nascem hoje
No terreno de Romulo ! Qnaes foram
As almas, que formaram, que nutriram
TAo baixos pensamentos? Que é dos net.os
Dos Brutos, dos Fabricios, dos Camillos T
Régulo fique? • . Ah ! Por qual crime, e quando
Mereci o odio vosso ? ·
'
DRAMAS -TRADUZIDOS
LICINIO
O amor de Roma
E' quem senhor, quebrar teus ferros.
RgGULO
E no mundo o que é Régulo sem elles?
Dos vindouros o exemplo elles me fazem:
IJos contrarios a injuria: a luz da patria:
E tnais não sou, privando-me dos ferros,.
Que um escravo e fugitivo.
LICINIO
Entre os grilhoes a perfidos jnraates,
E os Augures. . • ·

Aos arabes, aos mouros
esses torpes, vis pretextos,
·Esse infiel caracter: os humanos,
De Roma aprendam oomo a fé se guarda.
LIOIBIO
Mas perdendo seu piLe, qual_ fica. Roma P.
BÉGULO
De que é mortal seu páe, Roma se lembro,
Lembre-se que do > rnez já verga ao pezo,
Qne aridas pouco a pouco as vêas sente;
Que já não póde, nem suór, nem sangue,
Por ella derramar; que só ·lhe resta
Morrer como romano. O céo nos abre
Esplendido caminho: de meus dias
Posso a dura carreira, a têa annosa
Findar com gloria, e me quereis infame ?
Ah! Possivel não é:- dos meus romanos-
Con-heço o coração: no pensamento;
Não, desdizer de Régulo não póde
Ninguem que respirou, como eu, nascendo,

ál5

I
516 OBRAS DB BOCAGE
\
Do Capitolio as auras. Este, aquelle,
Sei que no coração que lá me applaudem:
Sei que inveja me têm, que entre os impulsos
De alto excesso de amor, que os illudira,
Aos denfes para si pede outro tanto.
Ah! Não, nl.o mais fraqueza: a terra, a terra
Essas armas fataea!. • . Nlo se retarde
U1n momento sequer ao meu triumpho.
.. Amigos, filhos, cidadãos, amigo,
Complacencia, favor de v6s imploro,
Exhórto cidadão, páe determino. (1)
PUBLIO
Deuses I Já tudo lhe obedece I
.AT'riLU.
Oh Nomes!
LIOINIO
.
Eis já todas as dextras desarmadas.
IIANLIO
Tens o caminho franco.
B.ABOB
Oh céos benignos!
ajouLo
O passo livre está: pódes; Atnilcar
Subir aos teus baixeis, que eu já te sigo.
411ILOAB
A ter inveja d'elle emfim começo. {2)
(1) O povo e os soldado• abaixam as armaa e abrem ca-
minho.
(2) Sobem A nAo AmiJcar, Barce, os africanos e Régulo.
I
!
I
.
..

DRAMAS TRADUZIDOS
aitGULO (1)
Povos de Rotna adeus ! . • . A despedida
Seja digna de nós: graçás aos deuses,
Emfim vos deixo, e deixo-vos rotnanos:
Ah ! Conservae sem mancha o grande nome,
E v6s sereis os arbitros da terra,
E o n1undo todo ficará rotnano.
Oh d'este almo terreno amigos Numes!
Deusas propicias á troiana extirpe!
Este povo de de vós confio:
Sejam cuidado vosso, e vosso objecto,
Este chio, estes tectos, estes muros.
Fazei, que em seu recinto venerando,
constancia, fé, valor, justiça,
Todos, todos, os dons floreçam, durem.
E ae os influxos de maligna estrella,
Um dia o Capitolio ameaçarem;
Régulo, oh deuses I Régulo sómente,
Seja victima vossa, se consuma
Toda a foria dos céos, na fronte d'elle;
517
Mas Roma illesa . . . Ah ! Corre o pranto. • . Adeus !
FIM
(1) Para a terra.
INDICE
Os JARDINa ou AB·t·B DB APOBliOIBAR AI P AIIAGBxa •••
Prologo do traductor .....•..•.......•......
• • • • • •
• •••••
Prologo do auctor.. . . . . . ......•..... . . .. . .
• • • • • •
Canto I ................................... .
• • • • • •
»
»
»
Notas
II ....... _ .................................
I I I .............. .
• • • • • •
. . . . . . . . . ........
•••
IV ........... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ·.
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •
As PunAs. • ..................................... .
Prologo do trad uctoro •••...••..•.•••••...•........
Prefacção do auctor ......•........•...•........•..
Canto ·I. . . . • . .. . . • • • . • . . . . • . . . . . . . . . ........... .
»
»
»
I I • . • . . . • . . . . . . . .
• • • • • • • • • •
. . .
• • • • • • • • • • •••

I I I ~ ..•.•.....•.....
• • • • • • • • • • • • • • • • • • ••••
IV .•..•........•.............•.......•..•.
Nomenclatura das plantas mencio.nadas n 'este poema.
Nomenclatura dos animaes, aves, etc ••..•...•..••..
A AGBICULTUBA. • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • ••.•••••••••••
Canto I -Das searas ..••...........•........•..
»
»
»
»
II -Das vinhas ••...••....••...........•.•
III-Das arvores.. . .•..•..................
IV - Dos prados .•••............. , .......•.
V -Dos gados .•.•... : . . . • • • • • . . . . . . ...•
VI- Das aves • • . ....•..•.......••..•...•.
Notas ..•...•.....•....•...........•.•••.....••..
O CoxsolÍcio DAS FLORES •••••••.••••••••••••••••••••••
Dedicatoria do traductor .•.••...•.....•..••.....••
Advertencia •.•...••.•••••.
• • • • • • • • • • • • • • • • • • • •
No tas .••..•.......•••••••....•.. · ..•••.•.•..•.•..
~ ~ UPHEKIA OU O 'rBIUMPBO DA RELIGIÃO •••••••••• • ••••••
ERICIA ou A vESTAL. • • . • • • • • • • ••••••••••••••••••••••
A 'l'TILIO RÉGULO •••••••••••••••••••••••••••••••••••••
P.,G.
5
7
9
11
25
38
52
69
77
79
83
87
100
112
124
137
143
145
145
165
182
202
220
241
261
289
2 ~ 1
293
315
317
393
449

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