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Dissetacao Entre a Favela e o Conjunto Habitacional Claudia Trindade

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

Entre a Favela e o Conjunto Habitacional:
Programa de Remoção e Habitação Provisória (1960 – 1970)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obtenção do título de mestre em História.

Orientadora: Prof ª Drª Adriana Facina Gurgel do Amaral

Claudia Peçanha da Trindade
Rio de Janeiro

2006

Entre a Favela e o Conjunto Habitacional:
Programa de Remoção e Habitação Provisória (1960 – 1970)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para obtenção do título de mestre em História.

Claudia Peçanha da Trindade
Rio de Janeiro 2006

BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Profª. Drª. Adriana Facina Gurgel do Amaral (orientadora) Universidade Federal Fluminense - UFF _______________________________________________________________ Profª. Drª. Nísia Verônica Trindade Lima Casa de Oswaldo Cruz/Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ _______________________________________________________________ Prof°. Dr°. Marcelo Badaró Mattos Universidade Federal Fluminense - UFF

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Para Biba e Lelê

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que por dois caminhos diferentes estivemos próximas no último ano. por dentro a Maré e a Nova Holanda. sacrificando assim seus compromissos para leitura do meu texto. minha orientadora.Agradecimentos Embora reconheça enfadonho ter de ler em todo o princípio de agradecimentos o pedido desculpas. me levaram a conhecer. Portanto. Lorena. sobre argumento de Marcelo Abreu e Lorena Best. Eduardo Duque e Mauro Amoroso. e que aceitou participar da banca de defesa mesmo sabendo dos prazos que eu necessitava. oferecido em conjunto com Lúcia Neves. Agradeço por sua atenção e disponibilidade. que participou da Banca de qualificação com importantes colocações. Marcelo Badaró que cuidadosamente foi meu leitor crítico de monografia na graduação. Ana Rieper. peço desculpas pelos possíveis esquecimentos. tão responsável quanto os outros pelo ótimo trabalho realizado: Bira. Ao Marcelo Abreu e Mario Miranda que ainda em 2002. A Ana Lúcia Enne. e pelos prazos mais do que estendidos. Manuel e Marcelo. Pedrinho. tenho de admitir que é impossível não fazê-lo. agradeço também pelo excelente curso no mestrado. Ao grupo que se formou para a produção do documentário Mataram meu Gato. que se juntou aos poucos. Sempre fez considerações fundamentais. sobre trabalho etnográfico de Mario Miranda. A Nísia Trindade Lima. Marilene Nunes. Virgínia Fontes. que foi desde a graduação uma figura marcante na minha formação. percebendo meu interesse pelo estudo do urbano. Adriana. Aos moradores de Nova Holanda que depoentes abriram suas histórias a nós e a todos os possíveis leitores. E ao restante da equipe. Marcelo e Nísia um agradecimento especial por todo o prazo de entrega final que me deram. em especial da habitação. participou da banca de qualificação e defesa de mestrado. com um pedido de desculpas por ser tão “inorientável”. Aos três. 4 . Diego. Agradeço a Adriana Facina. meu agradecimento por ter me mantido próximo ao tema e de algumas formas me cobrado que concluísse esse trabalho: Maria José Freire.

que viu os momentos de apreensão que passei estando sempre por perto. diretora da Casa de Oswaldo Cruz. tristeza. e aquele que me apoiou por diversas vezes nas agruras. beijo no pequeno Vicente. e muito. E que venham mais. Carolina e Clarisse (minha tradutora oficial). A Liene que com tão pouco tempo se tornou uma pessoa tão próxima. que tão aborrecidos ficaram com a ausência neste último ano. revisor de texto e de formatação. Agora sim. mãe da bela Aninha pra quem também vai um beijo. te convido para comer doce. Wagner. com quem compartilhei toda a angústia da escrita.. Beatriz e Helena. A Gabriela e Tarcísio que sendo amigos de tanto tempo são importantes nessa trajetória...Ao Carlos Fidélis. cansaço beirando a desistência desses últimos tempos. Companheiro intelectual nas discussões conceito a conceito. Meus pais foram um capítulo à parte nessa dissertação. A Nara Azevedo. Bela menina. dois. Aos meus colegas e alunos da Escola Bahia agradeço em forma de pedido de desculpas pelos conturbados últimos dois meses. cansaço e alegria nestes mais de três anos trabalhando juntos. pelo empréstimo de livro tão utilizado neste texto. Sem isso não teria conseguido chegar ao fim. Meu agradecimento ao exemplo de perseverança com que os dois. ou melhor. vamos matar aula? A Ângela Porto. Lá se vão dez anos de árduo e prazeroso caminho juntos. A Manuela e João pela leitura e comentários do projeto de pesquisa no momento de entrada no mestrado. bravamente venceram 2005. A Dona Moema. Amigo pra vida. As minhas meninas. Passado o sufoco. 5 . com quem passei bons momentos de aprendizado. Luana e Cauê. fiquem tranqüilos que chegou ao fim. meu agradecimento pelo incentivo e pela paciência com a minha enrolação. falar e fazer bobagem e principalmente fazer o restante desse ano ser de felicidade. durante esse período. A Maurício. o Carlinhos. e suportou meu mau humor nesse período. Em letras gigantes: ACABOU! Ao André. que gentilmente me cedeu material de grande valor sobre o tema. que tão novas se preocuparam a cada capítulo se ele havia terminado ou não. amigo generoso. Resolveram aprontar. pelo “vai terminar logo isso”. que desde a graduação quebrando galhos fizeram também eu chegar a esse ponto. Seu Jorge. A Ivana Alves e Vânia Buchmuller que torceram pelo término desse texto. Flávia. cada um com seus problemas.

Nova Holanda .Remoção de favelas . no Rio de Janeiro. e a constituição de espaços de habitação provisória dentro desta política. Para essa análise foi levada em conta a relação entre habitação e capitalismo na intenção de perceber o que define a diferenciação dos locais de moradia no espaço urbano. com ênfase no Centro de Habitação Provisória de Nova Holanda.Rio de Janeiro: espaço urbano .RESUMO Este trabalho tem por objetivo discutir o Programa de Remoções de Favelas.uso do solo urbano 6 . durante as décadas 1960 e 1970. Palavras-chave: Habitação Popular .

within the 60’s and 70’s. Keywords: Popular Habitation – Favelas Removal – Nova Holanda – Rio de Janeiro: urban space – use of urban soil. emphasizing Nova Holanda Provisory Habitation Center. and the constitution of provisory habitation spaces in this program. 7 .ABSTRACT This work aims to discuss the Program for Favelas Removal. in Rio de Janeiro. For this analysis we considered the relation between habitation and capitalism in order to perceive what defines the differentiation of habitation places on the urban soil.

..................................................................... 09 Capítulo I RIO DE JANEIRO E O ESPAÇO DA HABITAÇÃO ...................... FAVELA E CAPITALISMO ................................ 74 Considerações finais ................ÍNDICE Introdução . 15 Capítulo II HABITAÇÃO......................................................................................................................................................................... 106 Bibliografia .......................................... 54 Capítulo III CENTRO DE HABITAÇÃO PROVISÓRIA DE NOVA HOLANDA: O MEIO DO CAMINHO ................................ 110 8 ......................................................................

O Favela Bairro. são o habitat ideal para o tráfico. entre Leblon e São Conrado. As favelas. Não há. expõem os cidadãos ao fogo cruzado das balas perdidas. (O Globo. cartas e colunas puseram-se a rediscutir o “problema da favela”.. da favela da Rocinha. Faltam aos nosso políticos vontade e coragem. entre São Conrado-Gávea.. quando um confronto entre traficantes de drogas impressionou toda a cidade com balas traçantes nas imediações de bairros luxuosos da Zona Sul da cidade. em outras épocas. como o Rio de Janeiro. diversas matérias. de urbanização das comunidades pobres. Entre as propostas estavam a de cercamento. ruas estreitas que não se sabe onde começam e onde terminam. 13/04/2004) Logo após o feriado de Páscoa de 2004. Coluna Hildegard Angel. que aterrorizam seus moradores e toda a vizinhança. com sua esquizofrenia urbanística. estabelecem regras para ir e vir. ficou muito bom em termos de obra de engenharia. já ousou. 9 .Introdução Uma alternativa corajosa para o Rio de Janeiro! Vou voltar a um tema que já abordei no passado: a erradicação de favelas. mas não cumpriu seu objetivo quanto à qualidade de vida e de coibir a violência. Não dá pra nos enganarmos de que há outra solução além dessa. com muros. e com sucesso. para arquivar a demagogia “politicamente correta” e partir para soluções radicais. nicho para marginais. e do Vidigal. projeto maravilhoso.

por mais que ela tenha vencido (Zaluar e Alvito. 10 . o que vemos é a continuidade do “problema da favela”. perdura nas duas falas a mesma lógica de ocupação da cidade. Vila Pedra Bonita e Vila Canoas [todas localizadas nos mais valorizados bairros da cidade]. Em sua coluna. 1998). Ao final. conclui que todos ficariam felizes. para áreas ociosas da Rede Ferroviária Federal – nas cercanias do Cais do Porto. Gamboa.feita pelo vice-governador Luiz Paulo Conde. sob o título “Sandra: a venda do Pasmado permitiria a construção de 3 mil casas para favelados”1. Vila Parque da Cidade. remoção completa dessas favelas e de outras nas proximidades feita na coluna de Hildegard Angel. nem para os cofres públicos. entretanto sem soterrar as idéias e 1 O Globo. Entretanto. É o mercado imobiliário que define os valores das terras urbanas e aqueles que podem ou não ocupá-las. Cidade Nova”. Saúde. Assim. como observou Machado da Silva (2002). 19/01/1964. Exatos 40 anos separam este texto da matéria publicada também no jornal O Globo. Vencido no sentido de que impôs sua permanência na cidade como forma e possibilidade de habitação para determinados grupos sociais. em troca de 15% da área ocupada atualmente pela Rocinha. e a erradicação. Hildegard conduz o leitor a conhecer uma proposta de “um grupo de empresários do setor imobiliário” – dos quais não são citados os nomes – que afirma poder resolver o “problema das favelas” com a “remoção geral das favelas da Rocinha. Vidigal. Santo Cristo. Os apartamentos seriam entregues pela Prefeitura sem nenhum custo para os moradores. em 1964. O restante seria reflorestado.

as desigualdades nas formas de morar e viver na sociedade brasileira. no geral. para os que vivem fora ou dentro desses espaços assim considerados. de forma mais ampla. A definição clássica. Ainda é possível verificar sua identificação como espaço ocupado por “população de baixa renda”. em sua maioria de ciências sociais e antropologia. Marcelo Baumman Burgos. Se é possível diferenciar uma favela de outra. O caráter plural está na história de constituição de cada uma delas. Esta é uma categoria que embora. ou simplesmente como o lugar da criminalidade. no sentido mais plural possível. desconhece uma ampla bibliografia. Para estudar a favela é preciso primeiro ter bem claro de que são as favelas. possui uma definição variável. empregada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Janice Pearlman. “comunidades carentes”. na sua forma de organização interna. Utilizamos o termo favela por identificarmos que no Rio de Janeiro ele se tornou comum. na heterogeneidade de seus moradores. entre outros. é possível também verificar que dentro dela mesma existem diferenças. os preconceitos em relação à sua população e. Alba Zaluar. é “aglomerado de habitações sub-normais”. 11 . seja tratada como única. e adotada também nas instância governamentais. que se esforça desde a década de 1960 para demonstrar os equívocos das políticas remocionistas – Lícia do Prado Valladares. até a diferença de ganhos entre uma família e outra. internamente e em comparação com outras favelas. Luiz Antônio Machado da Silva.possibilidades de remoção. É necessário observar também a afirmação de que “soluções radicais” já foram aplicadas na cidade do Rio de Janeiro “com sucesso”. que vão desde o acesso à infra-estrutura.

nos artigos e reportagens de jornais. o que significa julgamento de valor refletindo em ações paternalistas e assistencialistas e ainda imposição de valores pela falta de “capacidade dessas comunidades marginais” em se organizar e melhorar sua condição de vida. seja nas remoções ou nas tentativas de urbanização. Isto significa entender que a favela se constitui. Conforme pode ser observado na tabela a seguir. desde de 1950. fazer generalizações abusivas em relação à categoria favela. e ainda perdura em nossos dias. que identifica e se debruça sobre o “problema da favela”. ou mesmo em análises acadêmicas. seja nas políticas governamentais. Unindo-se esse dado às constantes matérias nos jornais que reacendem. 1967:35). no Rio de Janeiro. As duas atestavam a incapacidade dos grupos favelados sem questionar como e porquê as favelas se formam. as discussões sobre a “questão da favela”. esse mesmo pressuposto pode levar à idéia de comunidade ou grupo marginal. E ainda. o percentual da população que mora em favelas em relação àquelas que não moram. Essa linha de análise esteve presente durante todo o século XX. segue uma curva ascendente. é preciso também balizar que divergimos de uma fundamental linha de análise em relação à favela. tal qual nas décadas de 1960 e 1970. 1967:35). o que parece ignorar que sua existência depende mais “de determinadas condições estruturais da sociedade global do que dos mecanismos internos desenvolvidos para mantê-la” (SILVA. no trabalho que se inicia. se afirma e reproduz à parte da cidade e da organização da sociedade. ou melhor. Esta análise baseia-se no pressuposto de que é preciso “‘integrar’ as favelas e os favelados na ‘comunidade nacional’” (SILVA.Além da ressalva de que não vamos. 12 . Esse pressuposto de análise esteve presente de forma imperativa nos anos 1960 e 1970.

251. do início do século XX ao final da década de 1970. política subjacente ao programa de remoções de favelas. que vem promovendo seminários e discussões sobre a organização das cidades.135 5. que espero dar continuidade em outra 13 . e por fim o novo fôlego da indústria de construção civil impulsionada por linhas de crédito de financiamento.29 14.723 722.15 13.a implementação do Ministério das Cidades. Anos 1950 1960 1970 1980 Crescimento da População Total e Favelada Rio de Janeiro – 1950/1980 População População Favelada Total (B) (A) 2. O estudo de Antonio Gramsci sobre Estado nos orienta neste percurso para observar quais as forças que atuam na formulação do espaço urbano até entender as diferenças de acesso que os diferentes grupos sociais têm à cidade. tornam as discussões sobre a habitação bem atual e relevantes. com ênfase nas políticas para a habitação popular.13 10.424 B/A (%) 7.19 A dissertação que se inicia encontra-se dividida em três capítulos. e um estudo de caso do Centro de Habitação Provisória de Nova Holanda. da elaboração de planos diretores e também sobre moradia.305 3.431 335.918 565.375. O capítulo III se constrói como uma aproximação ao tema da habitação provisória.280 169.063 4.090.300. O capítulo II busca discutir as relações entre as questões da habitação e a estruturação capitalista. O Capítulo I é um passeio geral acerca das políticas públicas de ordenação do espaço urbano do Rio de Janeiro.

e vice-versa. Para a realização deste capítulo são de suma importância as fontes. portanto. que busca contar a história do Bloco que virou escola de samba em 1999. explicitadas como: fichas domiciliares. este concedido a mim no ano de 2004. através de fonte secundária. no âmbito do projeto do documentário Mataram meu Gato. sob o nome de Gato de Bonsucesso. 14 . através da história de Nova Holanda. depoimentos. às quais. e.etapa de estudo. criada para receber moradores removidos de favelas. Os depoimentos de moradores foram concedidos a Ana Rieper e Maria José Freire. Os nomes dos depoentes estão citados da forma como os mesmos se identificam. de moradores de Nova Holanda removidos de favelas e de uma assistente social que foi coordenadora do CHP. só pude ter acesso quando já estava no processo final de escrita. com participação eventual de Marcelo Abreu e Mário Miranda. utilizando-as. infelizmente.

Capítulo I RIO DE JANEIRO E O ESPAÇO DA HABITAÇÃO .

Concepção dialética da história. Pra gente ver a nação subir. 1978. 16 2 . um início de reflexão sobre o conceito de hegemonia2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. situada no Leblon (Zona Sul do Rio de Janeiro). que se torna hegemônica pela articulação de grupos Sobre o conceito de hegemonia ver GRAMSCI. resulta justamente da “adoção” de uma visão de mundo de grupos que se impõem através de sua atuação política. tem que passar por certas coisas que a gente nem gosta. garantindo a sustentação de uma classe. Antonio. morador de Nova Holanda desde 1969. significa. com ênfase especial para as moradias populares. como abertura do capítulo que traçará as modificações do espaço urbano carioca. após a remoção final que consolidou a erradicação da localidade conhecida desde a década de 1940 como Praia do Pinto.É o progresso. é o custo do progresso. A aceitação do que supostamente seria a cota de sacrifício necessária ao bem comum que o “progresso” traria – ainda que não necessariamente para ele ou para os grupos sociais com os quais interage ou pertence –. mas fazer o quê? (Depoimento de Cimar) A fala de Cimar. cultural e ideológica.

heterogêneos. Prédios destinados à classe média e alta seriam construídos no local com o mesmo uso funcional de moradia. e seu maior problema residia nas moradias insalubres destas classes. “estava doente”. erigiu-se nessa época o discurso jurídico-médico-sanitário – perpetuado por décadas. Nesse sentido. veio acompanhando o discurso da saúde. veremos que se propõem ao mesmo fim: habitação. Para além das doenças – febre amarela. não por 3 O acervo do jornal Correio da Manhã conta com um desenho de Waldy Figueiredo sobre foto panorâmica da região onde se localizava a Praia do Pinto. o da “saúde moral”. Se analisarmos os planos elaborados à época3 para a ocupação da região da Praia do Pinto após a remoção. peste bubônica. Após a erradicação foi construído um condomínio denominado “Selva de Pedra”. encarnado. 17 . fazendo uma projeção de reorganização urbana com a construção de prédios. que partilham do discurso – coletivizando demandas. A cidade. Datam do período da virada do século XIX para o XX – momento no qual a cidade do Rio de Janeiro passava por intenso crescimento comercial e demográfico – as preocupações iniciais do poder público com a questão das habitações das classes populares. não se traduz na necessidade de desocupação de uma área por determinada faixa da população para a mudança de funcionalidade do espaço. varíola. estrito senso. interesses e verdades particulares – como um bloco social. então. expresso na fala de Cimar. realizada pelo poder público. O “progresso”. e em que precedentes este estava pautado. Passaremos. para curar-se o “mal urbano”. portanto. e a receita. um outro bastante imperativo. entre outras – que assolavam a cidade. a analisar o “progresso” que a cidade do Rio de Janeiro viu. como se dizia à época. e que mais tarde seria também aplicado com contundência sobre as favelas – propalando em alto e bom som a necessidade.

principalmente no ramo manufatureiro e fabril. R. 1995). É preciso observar que a cidade em questão. M. L. os problemas de serviços urbanos e de habitação não devem ser naturalizados e sim entendidos como a ausência de políticas e interesses que englobem toda a população. e RIBEIRO. tendo 18 . S.coincidência. O Rio de Janeiro do início do século XX. estava desprovida de infra-estrutura de serviços urbanos. Antes. e também. 1985: 46). Era necessário reformar "a Capital para o Capital" (SOLIS. de preferência para onde os olhos da “boa sociedade” não pudesse alcançar (ROCHA. abastecimento de água potável e rede de coleta e tratamento de esgotos eram insuficientes. 1983: 9).. e PECHMAN. devido a imigração e migração interna. era necessária a remodelação da estrutura do espaço carioca para que a cidade se tornasse coadunada com os interesses e necessidades do capital. segundo a linha de pensamento reformadora.. não estava preparado para o papel que assumira no contexto nacional e internacional. ou melhor. senão inexistentes. devido ao seu comportamento reprodutivo e migratório” (RIBEIRO. nas classes populares. no mesmo período. que passava por intenso crescimento das atividades econômicas. para grande parte da população. Há de se tomar um cuidado com a falácia de que o caos urbano é produzido pelo crescimento natural ou de migrações populacionais. As habitações precárias eram um quisto que deveria ser extirpado. por um crescimento demográfico vertiginoso. Coleta de lixo. É preciso recusar a moral malthusiana de que os “pobres são os responsáveis pela própria pobreza.

Obviamente. construções que se “opunham” ao desenvolver da cidade. As mudanças nas relações de trabalho forjam a necessidade de novas estratégias de controle social.1902). Belém. Paka-tatu. logo e facilmente se chega à conclusão de que não é simplesmente o traçado que se pretende modificar. mas que sem dúvida encontra demasiado impulso a partir do advento da República. Belém: riquezas produzindo a belle-époque (1870. ruas foram abertas ou alargadas. O Porto foi reformado e ampliado para se tornar uma porta de entrada e saída de mercadorias. mas a representação desta sociedade. que impõem um elevado preço ao direito de habitar na cidade. Discutiremos mais este ponto de abordagem ao longo do texto. intimamente ligada ao modo de produção capitalista. 19 . Mesmo que os projetos de 4 Praticamente no mesmo período das reformas no Rio de Janeiro. Com vistas à ordenação do espaço. salvaguardadas suas especificidades. 2000. É preciso não perder de vista que a remodelação da capital faz parte de um processo que guarda relações ainda com a chegada da Família Real. A reforma urbana do Rio de Janeiro foi a primeira grande intervenção do Estado brasileiro na remodelação do espaço urbano. Para maiores informações ver SARGES. postas abaixo. Maria de Nazaré. todo este empreendimento estava em consonância com uma ideologia. a cidade de Belém passa por remodelações de grande porte que guardam algumas semelhanças com o projeto do Rio de Janeiro.4 Entendendo espaço urbano como locus de manifestações/relações sociais.em vista. e com ela adquire um novo significado. a existência de uma distribuição desigual da renda gerada na economia e as condições que regem a produção capitalista de moradias. capaz de disputar importância com o Porto de Santos e de Buenos Aires.

A ordenação e o controle do espaço é o que melhor traduz o pensamento do urbanismo da época.) a priorização do primeiro dos termos. vilas e avenidas que predominavam as preocupações manifestadas nos jornais e ações de governo.. E é em nome da construção. (NEVES. significado e utilização. cada vez mais entendida como pré-condição para o segundo deles. que a grande descoberta dos jornais sobre o espaço da favela. A lógica de modernização da cidade que está aliada ao capitalismo e a ideologia liberal cria uma hierarquia entre os termos do próprio lema positivista desta República. o ‘progresso’. salvo nos 20 . de uma forma geral reconheciam a necessidade de rumar para a lógica da produção capitalista. casas de cômodo. de 10 de fevereiro de 1903. o locus urbano deve se constituir de diversos espaços bem definidos em sentido.. a ‘ordem’. era principalmente contra os cortiços. da preservação e da reprodução desta ‘ordem’ que se justificam todas as violências.) os barracões toscos não serão permitidos. ainda em disputa nos primeiros anos do século XX. 1994: 139) Até a segunda década do século XX. quando da Reforma Pereira Passos: (. tivessem divergências marcantes. seja qual for o pretexto de que se lance mão para obtenção de licença. com seu significativo número de construções. Ainda que nos ressalte Rômulo Mattos (2004). seja apresentada em 1901 pelo Jornal do Commercio e que essas notícias de jornais a partir daí só se intensifiquem em 1903. haja visto o Decreto 391. E dentro da racionalidade capitalista. fica claro que ainda não é a preocupação fundamental dos governantes este tipo de moradia das classes populares.. “ORDEM E PROGRESSO”: (..República.

sem água. estudada por Romulo Mattos. de onde emanam – segundo vários artigos e notícias dos principais jornais cariocas (Correio da Manhã e Jornal do Commercio. R. sem luz” (ZALUAR e ALVITO. por exemplo) – os perigos da cidade (MATTOS. o qual designava. 2004). sem esgotos. sem arruamentos. 1984: 15). O termo favela. além de 21 . que ficou registrado oficialmente como “área de habitações irregularmente construídas. sem plano urbano. A substantivação do termo.morros que ainda não tiveram habitação mediante licença (apud ELIAS. está voltado principalmente para a renovação da área central e embelezamento da Zona Sul. tem sua origem como nome próprio. os quais possuem um alastramento impulsionado pela instalação de indústrias que. O processo de modernização da cidade do Rio de Janeiro. é consolidada a partir da década de 1920 quando a palavra favela passa a servir de termo generalizante no que diz respeito a determinada forma de moradia das classes populares e ainda mais para se referir a um local da cidade que deve ser estritamente controlado. Este decreto exemplifica a falta de regulamentação dessas áreas da cidade ainda que o Jornal do Commercio tenha dado a notícia de “Bairro novíssimo” ainda em 1901. na cidade do Rio de Janeiro. com a anuência do Ministério da Guerra – Morro da Favella. 1998: 7). Estas duas áreas se desenvolvem de forma diversa dos subúrbios. através da imprensa. desde o início do século XX. o lugar onde veteranos da Guerra de Canudos se instalaram após o retorno dessa campanha.

é extremamente significativo como expressão cunhada pelos “vitoriosos da Revolução” com a função primordial de denegrir a imagens dos “vencidos”. de seus atores é a forma mais 22 . 1997). ao final da década de 1920 o poder público reconhece a necessidade de uma intervenção mais ampla na formulação dos caminhos de crescimento da cidade. ou nos importantes melhoramentos executados pelos prefeitos Paulo de Frontin (janeiro a julho de 1919) e Carlos Sampaio (1920-1922) – voltados basicamente para o Centro e Zona Sul –. O Plano. Mesmo que desde o final do século XIX e início do XX as intervenções do poder público na ordenação urbana tenham se apresentado de maneira muito mais significativa do que anteriormente. financeiro. seja na Reforma Pereira Passos (1903-1906). só foi entregue após 1930. na administração do prefeito Prado Júnior (1926-1930). por conseguinte. a qualidade de “Velha” de um período e. qualificam a área de forma atrativa para um quantitativo populacional que servirá de mão-de-obra. M. que designa o período de 1889 a 1930. Não tendo sido implementado devido a dois fatores fundamentais: a falta de interesse das novas posições políticas pós-1930. comercial e industrial)” (ABREU. com as contradições colocadas pelas formas de desenvolvimento das diferentes áreas da cidade.possibilitarem o estabelecimento de alguma infra-estrutura. isto é. Num campo de poder em disputa. apenas em 1927 inicia-se. encomendado pela prefeitura a um grupo francês coordenado por Alfred Agache. estes processos de desenvolvimento da cidade obedecem à mesma “necessidade de acumulação de capital (imobiliário. Assim. um plano de desenvolvimento urbano que definisse as funções de uso dos espaços urbanos e traçasse uma linha de crescimento para o Rio de Janeiro – o Plano Agache. Embora divergentes. a intenção de um Plano Urbanístico para a cidade. que se esforçavam em não perpetuar qualquer tipo de iniciativa de governos da “República Velha”5 e pelos vultosos valores que teriam de ser 5 Este termo.

despendidos pelos cofres públicos para sua implementação, o Plano Agache “pretendia ordenar e embelezar a cidade segundo critérios funcionais e de estratificação social do espaço” (ABREU, M. 1997, p. 86). Coadunado com a visão da “necessidade de controlar o processo de reprodução da força de trabalho, que asseguraria também a separação espacial das classes sociais” (ABREU, M. 1997, p. 87), o plano urbanístico se refere especificamente às favelas preconizando a sua erradicação.

Em toda parte existe o contraste, os morros, estes rochedos isolados que surgem da planície central, desses bairros do commercio possuindo bellos edifícios, e com artérias largas ostentando armazéns movimentados, às vezes luxuosos, têm as suas encostas e os seus cumes cobertos por uma multidão de horríveis barracas. São as favellas, uma das chagas do Rio de Janeiro, na qual será preciso, num dia muito próximo levar-lhes o ferro cauterizador. (PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL, Cidade do Rio de Janeiro: Remodelação Extensão e Embelezamento, 1926 – 1930. Paris, Foyer Brésilien, 1930, apud ABREU, M. 1997, p.87-88) O processo de acumulação industrial pós-Revolução de 1930 gerou no Rio de Janeiro intenso processo de urbanização, agravando o déficit de moradias, sobretudo das classes populares, que já era bastante evidente desde a década anterior. A atividade industrial da capital federal passa por transformações tanto de incremento em número de indústrias, quanto de setorização urbana, e ainda, mantém e intensifica o potencial atrativo de migrantes até a década de 1950, conforme observa-se no quadro abaixo:

eficiente de promover-se, operando ideologicamente num sentido de re-fundação do Estado. Sobre o assunto ver DECCA, Edgar de. O silêncio dos vencidos – memória, história e revolução. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1997 (6ª edição). 23

Variações por elemento de crescimento populacional – 1920/1965

80 70 60 50 40 30 20 10 0
1920-1940 1940-1950 1950-1960 1960-1965

Migração Crescimento natural Imigração
(MARTINE, 1972 apud ABREU, 1997)

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Dado esse crescimento, a década de 1940 caracterizou-se pela maior apresentação da favela como importante problema urbano (PARISSE, 1969). Entretanto, o crescimento urbano não possibilita uma conclusão óbvia de que são para as favelas que os migrantes se dirigem inicialmente. O potencial atrativo das indústrias, que começam a se deslocar para os subúrbios e periferia, impulsiona uma série de loteamentos que, embora depois de 20 ou 30 anos passem a ser identificados como favela, ainda no início da década de 1950 não o são. E mais, como nos ressalta Nísia Trindade Lima (1986), este reconhecimento do “problema favela” pode não estar exclusivamente ligado ao crescimento quantitativo e sim à forma de ocupação dos “interstícios dos núcleos urbanos consolidados”, isto é, nas proximidades das classes médias e altas, levando maior politização para a questão das favelas. É importante não deixar escapar a profundidade desta afirmação, pois esta se mostrará necessária para analisar fundamentalmente o período das grandes remoções de favelas no Rio de Janeiro.

De sua invisibilidade aos olhos da atuação governamental, as moradias populares, denominadas segundo ampla bibliografia por favelas, passaram a figurar no Código de Obras de 1937, que apontava no sentido da proibição de sua existência. Caracterizada por alguns como o primeiro reconhecimento oficial – como documento da estrutura estatal – da existência deste tipo de moradia, a favela tem a existência limitada da seguinte forma através do artigo 349: “(...) nas favelas existentes é absolutamente proibido levantar ou construir novos casebres, executar qualquer obra nos que existem ou fazer qualquer construção” (PARISSE, 1969:32).

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baseado em plano para estudo e solução do problema da favela. 1997. José Mariano Filho. É bom ressaltar que. Apesar do presidente da Comissão de Urbanismo e Habitação do Congresso. apud ABREU. que dizia ser preciso “impedir toda a construção estável e definitiva nas favelas. Também em 1941. Victor Tavares de Moura apresenta um relatório ao secretário-geral da Saúde do governo Henrique Dodsworth. as favelas espalhadas pela cidade só começam a figurar nos mapas a partir da década de 1990. a qual tornaria difícil e onerosa a expropriação total por causa da utilidade pública” (PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. no Plano Agache. recomendando. elas significavam borrões verdes espalhados pela cidade. ocorre no Rio de Janeiro o 1° Congresso Brasileiro de Urbanismo e suas conclusões servem para reforçar as determinações do Código de Obras. também ressalta a associação entre esses núcleos de moradia e os mercados de trabalho (LIMA. que essas construções fossem realizadas no mesmo lugar das antigas moradias dos favelados. 1989). p. no qual enfatiza a necessidade de coleta de dados detalhados e precisos sobre os moradores. embora reconhecidas por órgão oficial em 1937. propondo novas casas higiênicas. Até esta data. se possível. M.Essa medida pode ter sua essência na recomendação que já havia sido feita sete anos antes. Em 1941. O Relatório Moura e a Comissão encarregada do 26 . relacionar a formação de favelas a um caráter de herança étnica do mestiço como elemento primitivo.87-88).

c) a fiscalização severa quanto às leis que proíbem a construção e reconstrução de casebres. difteria. e) promover forte campanha de reeducação social entre os moradores das favelas. nessa matriz de pensamento. afirmando que “isto enfeitará tais zonas e depois. sem dúvida. acontecerá. de trabalho e de defesa contra a varíola. pelo menos do tipo mínimo permitido por lei. no sentido de valorizar estas áreas. Isto é. tendo em vista as suas condições de saúde. de modo a corrigir hábitos pessoais de uns e incentivar a escolha de melhor moradia E como ação realizadora sugere: Casas provisórias. além de inspeção torácica e apurações de conduta social. com a evolução das cidades. como em todas as cidades do mundo. preventivas e realizadoras. doenças do grupo coli-tífico. b) o recambio de indivíduos de tal condição para os seus estados de origem. 1986: p. faz parte da estruturação social capitalista o direito de alguns habitarem determinados espaços mais centrais e nobres da cidade enquanto este direito é 27 . são inerentes à organização social. DAD/COC/Fiocruz. Como ação preventiva apresentam-se os seguintes pontos: a) o controle de entrada no Rio de indivíduos de baixa condição social. a que chama mais atenção é a de que as novas casa provisórias deveriam ser construídas nos vazios entre os bairros.35).) Afora estas afirmações do relatório. que os tipos de casas modestas irão dando lugar a melhor construção enquanto que os mais humildes se encaminharão para a periferia da cidade” (PARISSE apud VALLA. serão imediatamente construídas e para elas transferidos os moradores dos casebres. d) a fiscalização dos indivíduos acolhidos pelas instituições de amparo. (Fundo Victor Tavares de Moura. A naturalização feita pelo autor do problema habitacional demonstra bem a forma como diferenças entre classes.estudo apresentam dois corpos de sugestões de ação.

negado a outros. Os parques proletários estavam destinados àqueles que tinham emprego certo e. esse direito. eram proferidas “lições de moral” (MOURA. mais para a periferia ele irá marchar. obviamente. assistidos com conotação de bairro pela infra-estrutura urbana. ou menos providos pelos bens coletivos urbanos. além de zelar pela saúde física. que embora possam estar localizados em áreas nobres da cidade não são. n° 2 e n° 3. e os moradores possuíam carteiras de identificação que deveriam ser apresentadas até este horário. e também nos morros. entretanto. A idéia de formação do bom trabalhador estava presente nas formas disciplinadoras do Parque Proletário. Entre 1941 e 1943 foram construídos os Parques Proletários da Gávea. Se na década de 1940 havia a indicação de que a reformulação dos núcleos de habitação popular não poderia deixar de levar em conta a estruturação das famílias em 28 . além de apresentar as notícias do dia. Parques Proletários n° 1. tendo-se em mente o ideal sanitarista em que também estava baseado esse projeto. 1978). Baseados nas indicações de que as famílias deveriam ser removidas provisoriamente para casas de madeira construídas nas proximidades dos antigos casebres. Os portões eram fechados às 22 horas. o administrador falava ao microfone em seu “chá das nove”. o que se faz notar na forma de encarar esta população é o seu caráter de mão-de-obra. o parque tinha intenção de dar conta da “saúde moral” do trabalhador. No caso do Rio de Janeiro.1969 apud LEEDS e LEEDS. grupo se inserem na organização social do capital: quanto mais pauperizado é o grupo. no qual. E. respectivamente. dentre suas especificações. esta periferia expressa-se pelas localidades mais distantes do centro da cidade. local para onde retornariam após essa área ter sido recuperada e construídas casas higiênicas. do Caju e do Leblon. está ligado ao lugar onde o indivíduo. família.

1974 apud BURGOS. à intensa propaganda comunista é citada por diferentes 29 . criaram as comissões de moradores nos morros Pavão/Pavãozinho e logo depois nos morros do Cantagalo e Babilônia. Uma observação a se fazer após a experiência dos parques proletários é sobre o processo de organização dos moradores de favela que. registrados respectivamente no IAPI e IAPC. os IAPs. como solução de moradia das camadas populares. a precariedade das casas provisórias e a pedagogia civilizatória apresentada nos parques estavam longe dos anseios dos moradores das favelas (FORTUNA e FORTUNA. em face das precárias condições de moradia e da distância em relação às normas legais de habitação. sua importância política não se restringe a seu crescimento quantitativo. os Institutos de Aposentadoria e Pensões. este aspecto não foi observado mediante vários outros interesses. duas décadas depois. industriários ou comerciários. sendo que este último restringia seu campo de atuação a um específico campo de trabalhadores. A favela. Ao que tudo indica. conforme poderá ser visto mais adiante. por exemplo. construíram conjuntos residenciais baseados na moradia destinada ao trabalhador inserido plenamente nas regras do mercado de trabalho. 1969:156). Entretanto. como modo de oposição à possibilidade de remoção dos moradores para os parques. em 1945.relação ao trabalho. nos anos das grandes remoções. 1998). Assim como os parques proletários. como nos mostra Nísia Trindade Lima: A noção de que as favelas favoreciam. cresce tendo como elemento fundamental o aumento de custo da habitação (PARISSE.

o crescimento do Partido Comunista. que nas eleições de 1947 fez a maioria das cadeiras na Câmara de Vereadores do Distrito Federal. principalmente na indústria têxtil e de construção civil. iniciadas em 1946. o receio do avanço comunista é bem demonstrado neste alerta feito por Carlos Lacerda após a eleição de 1947: 30 . através da “promoção humana”. Significou uma forma de ocupação de espaço de modo a restringir a influência comunista nas favelas cariocas.analistas como aspecto importante na definição de medidas que visassem a neutralizar essa influência (1989: 72). Isso significava uma quebra na condução das políticas relativas a este tipo de moradia. passando a colocar em pauta que a “questão da favela” só poderia ser solucionada. Sobre a importância política que passam a ter as discussões em torno da favela. Assim. 1960 apud LIMA. que se expressava pelo slogan: “Precisamos subir os morros antes que os comunistas dele desçam” (SAGMACS. Esta criação foi possibilitada através de acordo entre o prefeito Hildebrando de Góis e o Cardeal D. e ainda representou um reconhecimento maior por parte do poder público da existência da favela. e possui dois pontos importantes a serem observados. despertou nos segmentos conservadores um receio. Jaime de Barros Câmara. mesmo que perpetuando a idéia e ação educativa. e que se expressava junto às camadas populares através de sua atuação sindical. No mesmo ano de 1947. 1989:74). foi criada a Fundação Leão XIII. tendo como premissa a incapacidade das famílias de favelas de viverem “adequadamente em sociedade”. que até então só eram pensadas em termos de soluções rápidas e de curto prazo. a longo prazo.

submetendo os moradores a cima de 60 anos à tutela de instituições do Estado. 1989: 75). redutora e fagueira a quem vive numa tampa de lata olhando o crescimento dos arranha-céus (apud ZALUAR e ALVITO. também em 1947. os quais desenvolviam atividades de apoio escolar. a meta de retorno dos moradores das favelas a seus estados de origem.) oferecem a expropriação dos grandes edifícios e a ocupação de todo o edifício como solução imediata. e expulsando das favelas famílias cujo salário excedesse um mínimo estipulado. esportivas e de promoção de melhoria das condições locais. afirmando. carentes apenas de orientação adequada para que atingissem esse objetivo” (LIMA. É preciso frisar que se verifica uma convivência no âmbito das políticas públicas entre o destaque da importância da participação do favelado na mudança de sua condição de moradia e existência — participação essa orientada pela Fundação. da Comissão para Extinção de Favelas.. Lloyd de 31 . A atuação da Fundação Leão XIII foi marcada pelos Centros de Ação Social instalados nas grandes favelas. 1998:14).Aqueles que não quiserem fazer um esforço sincero e profundo para atender ao problema das favelas.. em 26 de janeiro de 1966. Os planos do prefeito Mendes de Morais (1947-1951) para extinção de favelas são explicitados em entrevista posterior oferecida ao jornal O Globo. assim como aqueles que preferirem encará-lo como caso de polícia. têm uma alternativa diante de si: a solução revolucionária [pois os] comunistas (. tendo em vista a incapacidade desses grupos superposta na falta de formação e orientação moral — e a idéia de erradicação sumária das favelas através da criação. O ex-prefeito disse que seu plano não funcionara devido à fala de apoio dos governadores dos estados de origem dos moradores de favelas. segundo nos relata Leeds e Leeds. dos diretores da Cia. Essa entidade desenvolveu sua ação baseando-se na idéia de que o “problema” das favelas poderia ser solucionado “contando com os próprios favelados.

tem sua importância colocada pela realização do Censo de Favelas de 1948.837 – 7% da população do Distrito Federal. as funções de controle e distribuição de energia elétrica nas favelas onde atuava” (LIMA.9% 5. com população de 138. a Fundação Leão XIII não fazer parte da estrutura do Estado – isso só acontecerá em 1962 – ela passa “progressivamente a atuar como instrumento auxiliar dos órgão da burocracia estatal. passa a dar 32 . Mais tarde.40% 29.5% 20. já inserida no organograma do Estado da Guanabara. é sobre esta região que se apresentam as mais contundentes políticas de ordenação e de remoção dos núcleos de favelas. na década de 1960. Entretanto. Os dados do Censo contam 105 favelas. 1978: 194). 1978: 22) Observando os dados do Censo apresentados acima. Apesar de. Esta comissão. em número de população.7% (VALLADARES. 1989:76). assim divididas: Ao longo da Linhas férreas Central do Brasil e Leopoldina Centro e Zona Norte Zona sul Periferia 43. apesar de não ter sido muito ativa. inicialmente. assumindo. é possível perceber que em ordem de grandeza. entre outras. a Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro é a terceira na lista.navegação e do Chefe de Polícia do Distrito Federal (LEEDS E LEEDS.

21/05/1948). onde a favela demonstra sua importância no cenário político na forma como foi descrita acima. Voltando ao período de 1947 e 1948. As idéias contidas nas formulações de Lacerda e na estruturação da Fundação Leão XIII estão balizadas.suporte aos processos de remoções. tomada de consciência do povo acerca das vantagens da democracia e das desvantagens do regime em que tudo vem do Estado e consequentemente tudo vai para o Estado (Correio da Manhã. fazendo levantamentos e administrando os Centros de Habitação Provisória. teremos: entusiasmo crescente.) transmitir uma determinada concepção de sociedade aos moradores das favelas de tal forma que estes considerem que as 33 . embora tenha tido curta duração – o mês de maio de 1948 –. Campanha lançada no Correio da Manhã. A intenção máxima dos artigos publicados era a proposição de reunir atenção e esforços nacionais para a solução do “problema favela”. é necessário ressaltar a série de matérias de jornais que ficou conhecida como “Batalha do Rio de Janeiro”. segundo Victor Vincent Valla. na necessidade de (. aproveitado devidamente. utilização do voluntariado. A defesa que sobressai na proposta de Carlos Lacerda é a de que não é responsabilidade exclusiva do Estado solucionar o problema das favelas. que: Com a batalha do Rio de Janeiro. utilização e pleno rendimento dos serviços públicos especializados. teve seu maior mérito no reconhecimento da complexidade da favela e de sua dimensão nacional. Lacerda afirma em artigo... abrindo oposição ao Partido Comunista. Assim. que logo obteve a adesão de O Globo e da Rádio Mayrink Veiga que. pelo jornalista Carlos Lacerda. sobre os quais mais adiante passaremos a tratar.

o próprio esforço do morador.567 138.305 7% (PARISSE. este oferece um panorama geral das condições socio-econômicas de suas famílias. da iniciativa privada. Isso não significa dizer que de alguma forma não possamos trabalhar com alguns desses dados. p. Além disso. falta de serviços – são superáveis dentro do sistema capitalista.58-59). provavelmente atribuído a uma 34 . 1997). por intermédio da ajuda. Eles contam com a ajuda de todos os setores da sociedade (VALLA. o levaria a superar seus problemas e melhorar sua condição de vida. 1986. Reforça-se a idéia de que a pobreza é causada pela própria pobreza. Assim. Esta diferença de números é atribuída a consideração pelo Censo de 1950 de favelas apenas como aglomerados acima de 50 barracos (ABREU. o segundo contabilizava 59.contradições que dia a dia observam e padecem na cidade – falta de emprego. entretanto os parâmetros de comparação com o Censo Nacional de 1950 são poucos devido a metodologias diferentes. Enquanto o primeiro contava 105 favelas. devidamente orientado. do esforço individual e do desenvolvimento comunitário. sendo o número geral de moradores no segundo superior ao de 1948. refletida pela falta de empenho daqueles que se encontram nesta situação.837 14% Censo 1950 59 44. moradas precárias. Retomando os dados apresentados no Censo de Favelas de 1948. Censo 1948 105 34. baixos salários. afirma-se aos moradores que eles não estão sós em seu esforço. como já foi dito anteriormente.000 169. 1969) n° de favelas n° de moradias n° de habitantes % em relação ao total da população do Rio de Janeiro É necessário notar que embora contando menos favelas foi registrado em 1950 um aumento no número de moradias e de habitantes.

Caso o Censo de 1948 trabalhasse com os mesmos dados de população total de 1950 a proporção de habitantes de favela seria de 5% e não 14%. Retomando as considerações já feitas sobre a importância. em quantitativo de concentração. conforme dados apresentados abaixo. aquela onde o período de remoções da década de 1960 vai ser mais intenso. em termos gerais. e ainda que os dois censos trabalhavam com números diferentes para o universo total da população do Rio de Janeiro. mas nos permite observar que não eram para a Zona Sul. e ainda no eixo da Avenida Brasil após sua inauguração em 1946. não era a Zona Sul da cidade a área que mais crescia. das favelas da zona sul em relação a outras áreas da cidade é interessante observar que. Os dados abaixo demonstram o crescimento da cidade por circunscrições censitárias e não por favelas. e nem sempre para ocupações ilegais de terrenos que as pessoas rumavam.metodologia que considerou apenas uma favela uma área com vários aglomerados de moradias. A cidade crescia principalmente para os eixos da Linha Férrea da Central do Brasil e Leopoldina. 35 . como já dito.

Através da participação direta do bispo auxiliar D. Antônio) Centro (Candelária. (Censos demográficos de 1940 e 1950 apud ABREU. e uma duplicidade de ação é observada nas propostas de atuação da Igreja Católica. Guaratiba. contudo sem abandonar por completo a ação assistencialista. Tijuca. Sacramento. Anchieta. São Domingos. Realengo) 78 Zona Rural (Campo Grande. (VALLA. Méier. 1997. Ajuda) . por circunscrição censitária – 1940-1950* Crescimento -% 1940-1950 Zona Suburbana II (Pavuna. Dentre as instituições que destinam seus esforços para o “problema” das favelas. Lagoa. 1986) 36 . Piedade. Essa duplicidade parece se justificar por dois motivos: uma certa inatividade e descaracterização das atividades da Fundação Leão XIII e uma divergência políticapartidária de apoio a cada uma das instituições.24 *Dados selecionados sobre tabela de Abreu. Santa Cruz) 58 50 Jacarepaguá Zona Sul (Glória. Gamboa. Espírito Santo. por políticos ligados à União Democrática Nacional (UDN). Irajá. já implementada pela Fundação Leão XIII. a Cruzada teve seu apoio fundado na aliança populista formada pelo Partido Social Democrático (PSD) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB).Taxa de crescimento da cidade do Rio de Janeiro. Enquanto a Leão XIII foi apoiada. a Cruzada São Sebastião se estabelece com um novo princípio baseado na “perspectiva de integração social das populações carentes” (VALLA. em 1955. Madureira. Helder Câmara. 1986: p. Santa Rita. Copacabana) 46 Zona Suburbana I (Engenho Novo.65). São José. desde seu princípio. Penha) 40 35 Total Zona Norte (Engenho Velho. Gávea. há a criação de uma nova. Inhaúma. 1997). Rio Comprido St. Andaraí) 20 17 Santa Teresa 8 São Cristóvão -8 Área Periférica Central (Santana.

a partir de 1960 vincula-se à Coordenação de Serviços Sociais do Estado. se a forma de encarar o morador dentro da perspectiva da integração social.No caminho da Cruzada. na prática. limitando-se a auxiliar as ações da Fundação Leão XIII e da Cruzada São Sebastião. Instituição vinculada ao governo do Distrito Federal que teve sua atuação inicial bastante incipiente. que vai até 1962 e também data de extinção deste órgão e de sua transformação em Secretaria de Serviços Sociais. Os incentivos para que os antigos fossem substituídos por “moradias mais adequadas”. Esta gestão. reforçava a idéia de permanência das favelas em seus locais originários. a levá-lo a assumir compromissos que vão desde a colaboração com os programas da instituição. Cabe observar que. o fato para o qual se precisa atentar é de que o SERFHA se propunha a recuperar favelas. 37 . mesmo com a proibição da construção de novos barracos. é marcada pela criação de associações de moradores em favelas. as quais seriam mediadoras entre os órgãos do governo e os moradores. Embora esta perspectiva estivesse colocada. portanto. até a fiscalização e repressão das tentavas de construção de novos barracos. 1986: 83). é criado em 1956 o Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações Anti-Higiênicas (SERFHA). assinar um acordo padrão com o SERFHA. Para sua instituição legal a associação deveria. A perspectiva de tomar o habitante da favela como ser adulto. tornando-se mais independente e atuante. sob a direção de José Arthur Rios. equivale. com a eventual ajuda da polícia (VALLA. capaz de resolver o seu problema de moradia. através da auto-ajuda. no entanto.

(ABREU.Carlos Lacerda. que desde a década de 1950 encontrava-se estagnada e percebia no projeto de construção de casas populares e conjuntos habitacionais uma possibilidade de recuperação e movimentação da economia estadual através da geração de empregos. assume com um cenário de reforma administrativa.1986). Além disso. na cidade do Rio de Janeiro. um problema que era na verdade um falso problema. o abastecimento de água e a ordenação do espaço urbano da Guanabara” (MOTTA. Sobre esta última meta. aquelas localizadas sobretudo na Zona Sul da cidade. 1997: 133) 38 . tendo em vista a reestruturação necessária após a transferência da capital federal para Brasília. a que mais nos interessa para a discussão. duas premissas são fundamentais: o interesse da indústria de construção civil. como primeiro governador do recém criado Estado da Guanabara. Lacerda empenhou-se na implementação de alguns pontos fundamentais como metas de seu governo. dentre eles: “a ampliação do sistema escolar. de priorização de um modelo de desenvolvimento viário voltado para o automóvel. e ainda os interesses do capital imobiliário pelas áreas de favelas. das décadas anteriores. O início da década de 1960 é marcado. pela confirmação de uma tendência nacional. tornaram-se mais explícitos (VALLA. posto que derivava da crescente concentração de renda nas mãos de uma minoria da população. eleito pela legenda da UDN em 1960. O governo Lacerda (19601965) representou O exemplo mais marcante da intervenção direta do Estado na solução do problema viário. 2001).

moradora da Zona sul. 1997. enquanto os industriais nacionais eram obrigados a adquirir previamente. “que em pouco tempo passou a constituir um dos setores líderes da economia” (ABREU. dava aos investidores estrangeiros o direito de trazerem seus equipamentos sem nenhuma despesa cambial. o qual com suas linhas coloridas visava a articulação da cidade através de vias expressas com o privilégio da ordenação urbana ao veículo particular. em janeiro de 1955. com pagamento à vista. contratado a um grupo grego chefiado por Constantinos Doxíadis e elaborado entre 1960 e 1963. a adequação do espaço urbano ao uso dos veículos particulares. que. no Rio de Janeiro. A instalação das multinacionais e principalmente as automobilísticas. Caio. do governo Jucelino Kubitschek. demonstrava claramente para quem a cidade estava sendo pensada.197: 232). o país consolida o impulso da industrialização através do capital estrangeiro. e ainda. com o “Plano de metas 50 anos em 5”. a rodoviarização do país e. acessível apenas às classes de maior poder aquisitivo. as licenças de importação exigidas para trazerem do exterior os equipamentos de que necessitassem (PRADO Jr. mas que diferentemente do Plano Agache teve seus dados elaborados por equipe de técnicos brasileiros – o que não impediu as críticas de ter sido elaborado por um estrangeiro – . p.133). segundo Caio Prado Jr.Após a instrução 113 da Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC) – instituição que cumpria o papel de autoridade monetária antes da criação do Banco Central do Brasil – . As Linhas Amarela e Vermelha que temos hoje são resultado desse plano. O peso desse viés também se mostrou preponderante na elaboração do Plano Doxiadis.. 39 .

como passaremos a observar adiante. marca do governo Lacerda. com a transferência das famílias para casas populares e conjuntos habitacionais. O início dos anos 1960 assistiu ao maior índice de disparidade entre os salários. 40 . o custo de vida geral e o custo da habitação especificamente. pelo menos no intervalo de 1949-1961. não era o objetivo do modelo de desenvolvimento social e urbano que vem se estruturando e se agravará a partir da década de 1960 e da ditadura militar. podemos afirmar que o bem estar das classes populares através do projeto de remoções.Por conseguinte. O alto custo da habitação possui uma íntima relação com o crescimento das favelas na Guanabara e o esgarçamento da tensão política em torno da questão da moradia terá um grande significado nas políticas relativas às favelas ao longo da década.

IBGE SNE. anos incidados. Rio de Janeiro apud PARISSE. 1969. 0 1949 1951 1953 1955 1957 1959 1961 41 .Custo de Vida e Salários no Distrito Federal 1949-1961 2000 1800 Custo da Habitação Custo de vida geral Salário indústria transformação Salário Mínimo 1600 1400 1200 1000 800 600 400 200 Fonte: Anuário Estatístico do Brasil.

a Companhia de Habitação Popular do Estado da Guanabara (COHAB-GB) foi criada6. tendo por base a construção de unidades habitacionais para população de baixa renda (Idem). 1986: 84). o capital privado permitido. e o vice-governador Rafael de Almeida Magalhães. era controlado pelo grupo político de Lacerda. na qual. A COHAB-GB. incluindo seu genro. em maio de 1962. 6 Criada em 1962. que apoiavam projetos de reformulação urbana tendo em vista o apoio a “grupos de interesses ligados aos mercados de construção habitacional e de capital” (LEEDS E LEEDS. assim como todas as outras criadas posteriormente. pois foi a partir daí que o governo começou a colocar em funcionamento uma política específica de habitação popular” (VALLA. no caso da Guanabara. é transformada em Companhia Estadual de Habitação do Rio de Janeiro – CEHAB-RJ –. constituía-se como companhia de economia mista. Flexa Ribeiro.A extinção do SERFHA. No bojo dessa conjuntura. 49%. no momento da derrocada do SERFHA. a obtenção por parte do Estado de subsídios provenientes da Agencia Internacional de Desenvolvimento (AID) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). por ocasião da Fusão do Estado da Guanabara com o do Rio de Janeiro. e o próprio desenvolvimento dos interesses do capital imobiliário privado. em âmbito nacional. com o objetivo de formular uma nova política habitacional. em 1975. “tem um importante significado. 42 . a possível independência política que a organização comunitária poderia gerar e a não-liberação de áreas valorizadas da cidade que se encontravam ocupadas por favelas significava um entrave para a eleição e reeleição de políticos com bases eleitorais em favelas. Para muitos. 1978).

o programa norte- 43 . a construção de habitações destinadas à população de baixa renda. entre os Estados Unidos e 22 países da América. para urbanização e recuperação de favelas do Rio de Janeiro. op.250 habitações de baixo custo” (LANGSTEIN apud VALADARES. em Senador Câmara. cit. a urbanização total de uma grande favela e a construção de 2.24). O Acordo se estabelecia sob o programa Aliança para o Progresso. O contexto da criação deste programa é a Guerra Fria e a proximidade da vitória da Revolução Cubana. 3% da renda anual de impostos. a COHAB-GB deixou de lado a urbanização de favelas e aplicou o dinheiro na construção de três vilas. em Bangu e Vila Esperança. no caso. Assim. foi firmado em fins de 1961. 2001). Na prática. Vila Aliança. entre o governador Carlos Lacerda e o embaixador Lincoln Gordon. A. Para além de um financiamento específico para a urbanização. a saber: Vila Kennedy. em 1959.As negociações em torno da assinatura do Acordo do Fundo do Trigo Estados Unidos-Brasil serviram como pano de fundo para a estruturação da política habitacional que caracterizaria as décadas de 1960 e 1970. com o intuito formal de assistência ao desenvolvimento sócio-econômico da América Latina (Abreu. além de construir três Centros de Habitação Provisória (VAZ e ANDRADE. formalizado em agosto de 1961 quando da assinatura da Carta de Punta del Este. um significado da Aliança seria a contenção de um possível avanço do comunismo na América Latina. O financiamento destinava-se “à urbanização parcial de algumas favelas. em Vigário Geral. 1994). O Acordo do Fundo do Trigo. e os recursos seriam provenientes da United States Agency for International Development (USAID) e recursos próprios do Estado da Guanabara. p.

comerciais e industriais) e de estética urbana segundo os padrões das práticas e pensamento norte-americanos. Este guarda-chuva que é o programa Aliança para o Progresso ainda articulou. diretora da Escola de Administração Pública (EBAP/FGV). sobretudo através da utilização da autoajuda” (VALLA. organizativas e administrativas dos órgãos de planejamento local. ao final de 1963. através da USAID. foi iniciado em outubro de 1964 tendo como instituição base para implantação a Fundação Leão XIII. um financiamento. 44 . pois. que então já integrava formalmente a estrutura do Estado. de uma contribuição da Aliança para o Progresso por intermédio da Fundação Getúlio Vargas ao desenvolvimento do nosso país” (FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. métodos do planejamento urbano. Nas palavras de Beatriz Wahrlich. 1986). além do empenho específico em planejamento das diferentes zonas da cidade (residenciais. 1965). que propunha a tradução de 15 obras sobre administração pública num sentido de “programação para o desenvolvimento”.americano Aliança para o Progresso destinaria recursos também para a solidificação de um modelo de pensamento aliado a seus interesses. “a projetos de desenvolvimento comunitário baseado em pesquisas. no prefácio à tradução intitulada Planejamento Urbano: “Trata-se. demonstra uma clara intenção de consolidação de um modelo de urbanização baseado em objetivos. que obteve aceitação por parte do Governo Lacerda. bases legislativas. O acordo firmado entre a USAID/Brasil e a Fundação Getúlio Vargas. com o objetivo de divulgar entre a população favelada as experiências localizadas de redução dos custos da habitação. Denominado Brasil-Estados Unidos: Movimento para o Desenvolvimento e Organização de Comunidade (BEMDOC).

O contexto de sua criação é a mudança de foco das lutas que passa a atuar não só contrariamente às ações de despejo. em outubro de 1964. O BEMDOC foi extinto em dezembro de 1966. “as principais diretrizes do Congresso demonstram. tentando encobrir o conflito essencial de disparidades dentro do sistema onde uns tem mais e em melhores condições do que outros. 189). Escapa aos interesses deste texto versar especificamente sobre os movimentos de organização dos moradores de favela7. o ano de 1967 pontua “uma postura mais combativa fundamentada na compreensão de serem os problemas 45 . a FAFEG demonstre uma atuação que buscava apoio nas instituições e autoridades do Estado. Após uma atuação marcante durante as enchentes de 1966. contudo. Embora em seu primeiro congresso. em 1962. onde cobra do Governador Negrão de Lima sua promessa de campanha de não remover favelas. entretanto uma breve consideração sobre a atuação da FAFEG nos será útil.Esse projeto serve à intenção já descrita acima de espraiar uma forma de pensamento. Pensando no contexto que se delineia no país após o Golpe Militar de 1964. A organização dos moradores de favelas através das associações iniciam a década de 1960 fundando a FAFEG . aqui através de uma ideologia humanístico-assistencial que justificava a atuação de instituições não-remocionistas. divergências quanto à política para favelas que passou a ser adotada no governo Lacerda” (LIMA.Federação das Associações de Favelas da Guanabara. mas também em obter melhorias significativa para além dos períodos eleitorais. p. 1989. a atuação da FAFEG sofre com as restrições de atuação que os movimentos organizados viviam à época.

Como resultado deste último congresso algumas das resoluções foram: a posse definitiva da terra nas áreas ocupadas pelos favelados. trabalhando. As eleições que se seguiram tinham sua chapa submetida à avaliação pela Secretaria de Segurança e a atuação passou a ser atrelada aos interesses do Estado. p. teve uma diferença fundamental em relação ao primeiro: não houve solicitação de presença de nenhuma autoridade de governo. Iuperj. 1989. ocorrido em novembro de 1968. na remoção da Catacumba. as atividade da FAFEG tornaram-se menos freqüentes e combativas. Esta posição foi claramente expressa na convocatória: “As pessoas que vivem em palácios não podem raciocinar como as pessoas que vivem em barracos” (Convocatória II Congresso FAFEG apud LIMA. Nísia Trindade. em 1970: 7 Para maiores informações ver LIMA. Com o endurecimento da ditadura e pelas posições tomadas pela FAFEG.vividos pela população favelada de natureza essencialmente política” (LIMA. 1989. (. (. 46 . as associações. O movimento de favelados do Rio de Janeiro: políticas de Estado e lutas sociais (1954-73).) rejeitou categoricamente qualquer proposta de remoção. a perseguição aos líderes comunitários toma vulto e após o episódio da Ilha das Dragas – remoção de pequena favela localizada na Lagoa Rodrigo de Freitas (Zona Sul).. Como descreve Perlman (1977). 1989). inclusive nas remoções. Rio de Janeiro. O segundo congresso. 196-199).193)..) uma atuação autônoma da associações de moradores em relação ao governo. p. defendendo a urbanização local enquanto responsabilidade do governo (LIMA.. onde o presidente da associação de moradores e mais três diretores da Federação são presos –. numa conjuntura precedente à promulgação do Ato Institucional n°5.. em 1969. 1989.

“a associação foi coagida a transformar-se num comitê de guardas uniformizados de 31 homens para impedir qualquer tipo de melhorias nas casas.782 5. de Negrão de Lima (1965-1971) e de Chagas Freitas (1971-1975). que realizam o maior número de transferências de famílias faveladas para Conjuntos Habitacionais. em 1965. uma das 47 .685 63. 59) A memória carioca fixou a década de 1960 como o período das grandes remoções e Carlos Lacerda como seu agente. sem perder de vista que ele não inaugura a prática de remover famílias das favelas.193 Total de habitantes removidos 41.218 (COHAB-GB apud VALADARES. Sem dúvida alguma cabe a ele a designação como o que iniciou este processo.março/1971 Governo Chagas Freitas Abril/1971 – março/1974 Total Total de favelas atingidas 27 s/resposta 33 20 80 1962-1974 Total de barracos removidos 8.333 26. tendo em vista a filiação partidária de Flexa à UDN (União Democrática Nacional). Entretanto não é o seu governo e sim os dois posteriores.078 s/resposta 12. Flexa Ribeiro. foi analisado por Leeds e Leeds (1978) como uma resposta negativa ao Programa de Remoções e ao regime militar.958 6.910 26. a entrada ou saída da favela sem autorização e a mudança de novas famílias para lá” (p.665 139. Remoções realizadas na Guanabara Administrações e período das remoções Governo Carlos Lacerda 1962-1965 Governo Negrão de Lima 1966-1967 (enchentes) maio/1968. que venceu o candidato e contraparente de Lacerda. 1978: 39) O contexto de eleição do governador Negrão de Lima.

e tendo como sua primeira presidente. a criação de uma instituição voltada para a habitação deveria além de utilizar um Fundo de Assistência Social destinado às famílias faveladas ou que vivem de salário mínimo. Para isso novas instituições serão criadas e outras reforçadas. O Banco Nacional de Habitação (BNH). criado em agosto de 1964. Segundo carta de Sandra Cavalcanti ao presidente Castelo Branco. deu amplo apoio econômico e institucional à política de erradicação de favelas (LEEDS e LEEDS. O alicerce para “o fim das favelas” formulado no início da década. ajudar 48 . parte das intenções do Banco eram postas na mesa. o Governo Negrão de Lima foi o que removeu sozinho mais do que a soma dos Governos Lacerda e Chagas Freitas (70.623 mil moradores). em coalizão com setores do PTB. logo após o Golpe.bases de apoio do regime e ao próprio rol político de Carlos Lacerda. em especial a do Morro do Pasmado –. Sandra Cavalcanti – anteriormente Secretária de Serviços Sociais do Governo Lacerda . em números totais de moradores de favelas. só vai se intensificar após a implantação da ditadura que fará ponto de apoio no impulso da indústria da construção civil.164) Embora tenha sido promessa de campanha não efetuar remoções.595 contra 68. e da criação da Coordenadoria da Habitação de Interesse Social na Área Metropolitana do Rio de Janeiro – CHISAM (1968-1973) –. “o partido populista baseado no trabalho de Getúlio Vargas” (p. e de Negrão ao PSD. tendo atuado diretamente na remoção de favelas. com a construção de grandes Conjuntos. Através de novo impulso dado a COHAB-GB (após a implantação do BNH foram instituídas COHABs em todo o país com o mesmo modelo da Guanabara). 1978).

49 . baseavam-se na organização comunitária para a urbanização das localidades com apoio técnico do governo..1986) responde ao impulso organizativo de comunidades contrárias à remoção. O surgimento da CODESCO. aliado a um grupo de jovens arquitetos dispostos a repensar os termos de construções de habitações populares (SANTOS. 1986: 97). subsidiária autônoma da Companhia de Progresso para o Estado da Guanabara – COPEG – grupo de trabalho criado em 1961 com o objetivo de realizar pesquisas sobre favelas após o oferecimento pela USAID de “financiamento ao governo estadual para que este criasse um programa de auto-ajuda de desenvolvimento habitacional-comunitário e criasse uma instituição que centralizasse a resolução de problemas urbanos do Grande Rio” (VALLA. VALLADARES. 1978). Segundo Victor Valla (1986). 1978.) dar destino melhor à capacidade de poupança dos mais bem aquinhoados (apud Fontes. MataMachado e Morro União). com a finalidade de “promover a integração dos aglomerados subnormais na comunidade normal adjacente” (BLANK apud VALLA. 1981). a existência do BNH serviu mais a uma camada da população diversa daquela que habitava as favelas (LEEDS e LEEDS.. (. 1986: 246-248).a construção civil do país a se recuperar.. FONTES. 1986.) atuar brilhantemente na abertura das frentes de trabalho. Quatro meses antes da iniciativa do governo federal em criar a CHISAM.) melhorar as empresas médias e pequenas de produção de material para a construção e (.. Pelo que conhecemos hoje.. Os projetos levados a intento pela CODESCO (Brás de Pina. foi criada a Companhia de Desenvolvimento da Comunidade – CODESCO (1968).. (.

1986: 98). a criação da CHISAM serviria como resposta ao governo estadual. Aprofundaremos este ponto mais adiante.000 favelados por ano. No entanto.Se de um lado. com pouca oferta de trabalho e infra-estrutura. a CODESCO surge como resultado das articulações das autoridades do Estado da Guanabara com BEMDOC/USAID. 50 . Vários são os motivos para o insucesso: não consideração da pressão sobre os orçamentos das famílias no morar em lugares distantes. principalmente de transportes. entre 1971 e 1974 foram removidos 26. de que a questão da habitação não é um problema em si. e a principal delas. desvio de interesses nas políticas para a habitação implementadas pelo BNH. Negrão de Lima e Chagas Freitas. E ainda. também essa iniciativa representava a oposição entre essas autoridades populista e a nova coligação “militares/governo federal (VALLA. (VALLADARES. em 1976. Realmente o objetivo de fazerem desaparecer da paisagem do Rio de Janeiro todas as favelas não se concretizou. a partir de junho de 1971” e contava chegar a seu objetivo (remoção completa de todas as favelas do Rio de Janeiro).665 moradores. pois a CODESCO “não favorecia nem o BNH e a indústria de construção civil. e que portanto a simples construção de casas não soluciona algo que é estrutural. 1978). que em sua história atendeu mais à classe média. 1978 apud VALLA. nem as companhias de poupança. crédito e finanças” (LEEDS e LEEDS. A erradicação de favelas na Guanabara era a tarefa primordial da CHISAM. e a base de sustentação deste texto. mas mexeu com a vida de mais de 130 mil pessoas nos doze anos que englobam os governos Lacerda. que “propunha-se a remover 92. 1986: 98).

interessado em estadualizar. 2001). e possui como preocupação fundamental a organização administrativa da cidade do Rio de Janeiro. O novo plano urbanístico de 1977. representa intenções do governo federal. tanto do Governador da Guanabara. no sentido de ganhar força política e econômica na mão contrária do “alegado esvaziamento da economia carioca” e na intensão “de formar um estado forte no centro-sul para contrabalanças São Paulo e Minas Gerais. sob a coordenação da pasta do Interior. 51 . resultado de diversos interesses. Pub-Rio. Numa conjuntura de redemocratização e sob as pressões advindas da política econômica declinante após o “Milagre econômico” que ao fim e ao cabo “não repartiu o bolo”.A década de 1970 viu três importantes momentos para o Rio de Janeiro. é o primeiro a ser elaborado totalmente por técnicos brasileiros. novo ordenamento para a cidade foi elaborado. Chagas Freitas (1971-1975). Com a Fusão. 2001). recomenda-se a instituição dos Projetos de Estruturação Urbana (PEU) para o planejamento local e enfatiza a necessidade de recuperação do centro da cidade (RESENDE. a estrutura urbana é dividida em áreas de planejamento (APs). Assim. o Governo Federal cria. Ao final da década de 1970 um novo e grande projeto para moradia popular é colocado em prática. o que já havia se intensificado no Governo Médici (19691974) com a transferência para Brasília de diversos órgãos que ainda eram sediados no Rio de Janeiro e que no Governo Geisel (1974-1979) se efetivou como um dos resultados do interesse de reorganização administrativa do país (MOTTA. como do governo militar que desejava “retirar da Belacap os atributos de capital e em transferi-los para a Novacap” (MOTTA. em 1979. 1982). Plano Urbanístico Básico. Em 1975. a fusão do estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro.

e que no Rio de Janeiro se concretizará no Projeto-Rio. após a fusão do estado da Guanabara e do Rio de Janeiro. na realização de pesquisas e levantamento de dados cadastrais. na zona norte da cidade. em 1982. A Vila do João. que se extendia da Ponta do Caju até Duque de Caxias. criando espaços através de aterros para habitações populares e ainda criar condições para “ambientação ecológica e paisagística do trecho mais poluído da Baía” (VIEIRA e VIEIRA. 1999). e ainda sob a coordenação do Departamento Nacional de Obras e de Saneamento (DNOS). dentre elas: Baixa do Sapateiro. conhecida como Complexo da Maré. 1999). A organização comunitária e a atenção da imprensa influenciaram a revisão do projeto e as famílias foram realocadas nas regiões de aterros dentro da região da Maré. Nova Holanda. tendo inicialmente a intenção de remover famílias de localidades desse complexo.FUNDREM . área entre a Avenida Brasil e a Baía de Guanabara. que atuará em todo o país. criada em 1975. O Projeto-Rio propunha uma intervenção em 27 quilômetros. É notório perceber a necessidade do Governo Militar em obter ainda algum fruto que possibilitasse uma boa visão de suas realizações num momento em que os movimentos sociais conseguem reativar de modo crescente suas lutas. O programa contou com empréstimos do Banco Mundial.cujo Ministro é Mário Andreazza. Parque Maré. Timbáu. Basicamente o Projeto atuou na área da Maré. alusão direta ao presidente João Figueiredo (1979-1985) foi inaugurada. o BNH atuou como gestor de recursos e a Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro . a execução dos aterros (VIEIRA e VIEIRA. com grande festa que contou com a apresentação de grupos escolares em homenagem ao 52 . o programa de Erradicação da Sub-habitação – (PROMORAR).

A remoção de favelas não foi inaugurada na década de 1960 e também não terminou ali. A permanência da questão nos leva a necessidade de refletir que existem mais questões envolvidas do que a construção de casas propriamente dita. Por diferentes motivos elas ainda se realizam.presidente que esteve presente a festa. Passados 40 anos o “problema habitação” ainda está em discussão. 53 . em pleno momento de campanha eleitoral para governadores de Estado. e seu principal tema é a habitação popular.

FAVELA E CAPITALISMO .Capítulo II HABITAÇÃO.

uma notada atenção de estudiosos sobre as questões urbanas. morador de Nova Holanda. (Depoimento de Seu Alexandre. removido da Praia do Pinto) A construção de habitações populares para famílias que seriam removidas de favelas. em sua maioria localizadas no Centro e Zona Sul da cidade. nos leva a encarar a necessidade de pensar como e porquê algumas camadas da população urbana não podem habitar determinadas áreas da cidade. Este processo trouxe consigo. aumentaram consideravelmente seu quantitativo de habitantes. Isso significa analisar quais mecanismos atuam na organização urbana de forma a dar essa conformidade de papéis para cada grupo social. nos locais distantes do centro urbano. nos últimos tempos. concentrando atualmente a maior parte da população mundial. pelos empreendimentos do poder público. sendo repetidamente empurradas. marcadamente após os processos de industrialização.Plantaram um edifício em cima do meu barraco. para locais cada vez mais distantes. As cidades. 55 .

é preciso deixar claro que 56 . marcadamente representado na disputa pelo acesso e uso do solo urbano. a cidade. Em grande medida. Dentro desse espectro. que entende a problemática da moradia relacionando-a diretamente ao modo de produção capitalista. alimenta e reproduz as favelas. Neste sentido. Acerca do tema. Tendo em vista a necessidade de entender a dinâmica que gera. 1983: 23). do uso e das relações. da forma como a conhecemos hoje. parto da interpretação trabalhada por F. conturbada e caótica. violenta. Ribeiro e Pechman salientam que: a relação entre a exploração do trabalho e carência e precariedade habitacionais não é direta. é historicamente construído (PECHMAN. sociais e simbólicos” que. um fator se mostra fundamental: a questão da habitação. como o “processo de conferir sentido ao espaço”. O urbano. Segundo esta interpretação. o espaço urbano. mas mediatizada pelos mercados de terras e o imobiliário (RIBEIRO e PECHMAN. constituído como “o lugar dos processos econômicos. da mesma forma que assinala Pechman (1991). não é simplesmente a constituição física do lugar. a disparidade entre as condições de moradia de “uns” e “outros” é assinalada por um processo oriundo das contradições de classe. é fundamentalmente o espaço da representação. funcionando como suporte da múltiplas relações. Engels. é vista por vários segmentos da sociedade como problemática. então.Compreendemos o urbano. 1991: 127). e ressaltando a crença de que nossos problemas são conformados segundo nossa problemática teórica e metodológica.

1979). temos a necessidade de aqui explanar melhor este assunto de forma a dar-lhe maior consistência. em moldes capitalistas. a que está sendo submetida. Em termos muito gerais. numa conjuntura de dependência econômica e atrofia de mecanismos reguladores/estatais. Acumulação de capital e espaço urbano Se o entendimento da questão da habitação está relacionada ao modo de produção capitalista e há entre esta e a exploração do trabalho uma mediação dos mercados de terras e imobiliário. partindo do pressuposto de que a questão fundiária é uma das contradições mais amplas da urbanização capitalista. Assim sendo. a 57 . nesse tópico. podemos dizer que a precariedade da habitação urbana da classe trabalhadora é apenas uma das cruéis conseqüências da intensificação do processo de exploração. teve conseqüências graves para a situação de vida de grande parte da população brasileira. urbana e rural. Visto assim. a agudização dos conflitos entre as facetas da exploração do capital e da especulação imobiliária tem muito o que ver com a precariedade das moradias populares (KOWARICK. tentaremos tecer algumas considerações sobre a relação entre espaço urbano e acumulação de capital. No caso específico dos trabalhadores urbanos.partimos da premissa de que a estruturação de uma forma capitalista de apropriação territorial.

um modo de compatibilizar a acumulação global. 58 . que se tornaram hegemônicas. agudizando problemas estruturais. Analisar a economia nacional a partir do entendimento de dependência obriga a perceber que esta forma de desenvolvimento implica na não-internalização de parte ponderável do excedente localmente produzido. onde a taxa de empregos tende a aumentar em ritmo inferior ao incremento da força de trabalho potencial (KOWARICK. inclusive a agrícola. elevando em muito as migrações que se dirigem às cidades. aliadas a forças internacionais. A expansão do capitalismo no Brasil se dá introduzindo relações novas no arcaico e reproduzindo relações arcaicas no novo. entendemos essa dependência não simplesmente como perniciosamente arquitetada no exterior. 2003: 60). afirmamos que. afirmar que existe a possibilidade de visualizarmos o desenvolvimento do capitalismo no Brasil.forma de penetração e arranjo do capitalismo em nosso país – economicamente dependente – aflorou contradições. através da base interpretativa de economia dependente. mas sobretudo ligada a interesses corporativos de frações de classe nacionais dominantes . ao contrário de alguns autores da época. principalmente durante o regime militartecnocrático da ditadura militar de 1964. na implantação de pacotes tecnológicos com alta densidade de capital que desarticulam economias préexistentes. É preciso. em que a introdução das relações novas no arcaico libera força de trabalho que suporta a acumulação industrial-urbana e em que a reprodução de relações arcaicas no novo preserva o potencial de acumulação liberado exclusivamente para os fins de expansão do próprio novo (OLIVEIRA. 1979: 63). neste ponto. Entretanto. F.

Vol. de autoconsciência e de organização alcançado pelos vários grupos sociais” (GRAMSCI. Em um segundo momento. Sendo assim. os grupos se organizam econômico-corporativamente sem possuir identificação com grupo social. através das relações de força. que Gramsci faz. Em um primeiro momento. Fazendo um breve passeio por essa análise. romper com os modelos interpretativos da tradição do marxismo denominados da Terceira Internacional. embora Gramsci ainda dê atenção às forças sociais e às forças militares. e até mesmo de capitalismo monopolista de Estado” (COUTINHO. no período que agora analisamos. forçosamente economicista. Cadernos do Cárcere. como Carlos Nelson Coutinho assinala. no período da ditadura militar. A. 59 . o país “alcançara um nível de desenvolvimento capitalista pleno. os grupos sociais em processo de organização política possuem diferenciados graus de consciência política coletiva.8 A relação de forças políticas é a “avaliação do grau de homogeneidade.3: 40). 1999: 194). à luz conceitual de Gramsci significa. na tomada de consciência de que os interesses corporativos superam o círculo 8 Ver GRAMSCI. Quando falamos anteriormente em frações de classe que se tornaram hegemônicas.36-46. muito nos valeram os conceitos desenvolvidos por Gramsci nos Cadernos do Cárcere. nos deteremos sobre as relações das forças políticas. 3. nos apoiamos na análise das situações. vol. 2000. Por último.Para chegarmos a essa forma interpretativa. impossibilitando a visão de que. a consciência de solidariedade se espraia para o grupo social e a questão do Estado se coloca em termos de reivindicação na participação da legislação e administração. que desde os anos 1930 figuraram predominantemente na interpretação da realidade brasileira. p. 2000. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Entender o processo de desenvolvimento do capitalismo no Brasil.

em suma. dentre os muitos problemas da população de baixa renda dos centros urbanos. entendendo-se que esses interesses devem tonar-se também interesses dos grupos subordinados. nada melhor do que a casa própria. como “problema fundamental” (BOLAFFI. Castelo Branco. compensando-as psicologicamente pelas pressões a que vinham sendo submetidas pela política de contenção salarial. valores. 1982: 42). ainda que inconscientemente. os grupos sociais que buscavam hegemonia se organizaram elegendo a habitação popular.corporativo (grupo econômico). por todos. Para tanto. na qual encaminha uma série de observações juntamente com um esboço de 55 artigos a ser transformado em texto 60 . 1982: 44) Em carta enviada em 18 de abril de 1964. por Sandra Cavalcanti ao primeiro presidente após o Golpe. (MENDONÇA. S. malgrado desavenças ou conflito. (BOLAFFI. significa deter e fazer valer um dado corpo de representações. incorporadoras e bancos como agentes financeiros de crédito e financiamento –. quando foi montado o Banco Nacional de Habitação (1964). 2000. vol. o grupo social passa a atuar na esfera das superestruturas complexas. 1996: 98) Essa análise de forças feita por Gramsci nos ilumina a visão possibilitando atentar. um código cultural aceito e partilhado. deter hegemonia. para de que forma na década de 1960. buscando assim anteparo para interesses do capital – envolvendo para isso construtoras. (GRAMSCI. citada anteriormente.3) Assim. e ainda se utilizando do discurso de fundamental da política habitacional para conservar o apoio das massas populares. neste registro. por exemplo. no terreno das ideologias anteriormente constituídas que passam a agir enquanto Partido.

de lei para solucionar o problema da habitação no país. é preciso dar conta de que estamos tratando desse Estado entendendo-o dentro de uma sociedade de organização ocidental.) ser o Estado uma condensação de relações sociais cristalizada numa dada ossatura material.. Elas estão órfãs e maguadas [sic]. por outro. pelo menos nos grandes centros. junto à qual se inscrevem grupos e/ou 61 . além de manter o compromisso de conter as pressões inflacionárias incentivando o desenvolvimento capitalista. o governo instalado em 1964 deveria manter a ordem interna se apoiando. com um plano consciente. 1986: 256). Isto é.. ficam claras as bases de pensamento em que se apoiavam a criação do BNH: Prezado amigo Presidente Castelo. pudesse dar conta dos anseios e necessidades da sociedade brasileira. por um lado. no convencimento de boa parcela da população de que a tomada do poder era inevitável para que o país. Estava destinado à campanha de Carlos [Lacerda]. mas nós achamos que a revolução vai necessitar de agir vigorosamente junto às massas. no interior do qual interagem a sociedade política e a sociedade civil. portanto. Penso que a solução dos problemas de moradia. Sem pensar nessa construção como mecanicamente organizada. atuará de forma amenizadora e balsâmica sobre as suas feridas cívicas (apud FONTES. (. Aqui vai o trabalho sobre o qual estivemos conversando. na força da repressão com seus mecanismos de controle. prisão e tortura e. de modo que vamos ter de nos esforçar para devolver a elas uma certa alegria. Compreendendo.

os movimentos sociais urbanos. podem ser entendidos como máquinas de um processo de produção. precisamos atentar para os fatores que se apresentam ao mesmo tempo como objeto de consumo e de valorização do capital imobiliário (vias de transporte e 62 . casas. No que tange à relação entre a organização fundiária no espaço urbano e a estrutura de acumulação capitalista. as classes ou frações de classe não hegemônicas pressionam. se intensifica a atenção à questão habitacional... Ao tratarmos especificamente da dinâmica da valorização imobiliária do mercado de terras. esgotamento sanitário. Definido o Estado como o produto de permanente inter-relação entre sociedade civil e sociedade política. no nosso caso. quando. remetendo a primeira à noção de legitimidade e a segunda à de coerção (. estrito senso. e mediação nos interesses privados que se exprimem na cidade. Não obstante as situações de coerção e consenso. etc. O bom funcionamento do capital lá estabelecido depende daquilo que dá sustentabilidade ao espaço urbano: ruas. por modificações na atuação do Estado. o espaço da cidade é constituído de elementos que. Assim. estão postos na arena também as pressões exercidas pelos grupos não hegemônicos. num esforço de abstração. sistemas de eletricidade. por exemplo. 1996: 96).seus agentes.) (MENDONÇA. mas também daquela de cunho simbólico sobre o conjunto da sociedade a ele correspondente. S. quando determinados direitos são ampliados. em busca do monopólio do uso legítimo da violência física. mesmo que atendendo a interesses diversos. água. previamente organizados ao nível da sociedade civil.

a segurança pública não podem ser adquiridos individualmente. constrói. distribuição e tratamento de água e esgoto. no bojo da urbanização capitalista. loteia. sistema de captação. locais onde o poder do proprietário de interesses adversos aos do grande capital seria inabalável contando-se somente com a lógica de mercado. ou aluga sua terra. o poder público é pressionado a intervir. os canos. é o agente dominante. parques. No momento do choque entre esses sistemas. 1979). abastecimento alimentar) e que a formação e renovação do espaço construído são uma combinação complexa de vários processos autônomos de produção e circulação de mercadorias. O processo de penetração do capital na organização da cidade esbarra com grandes porções de terra utilizadas como suporte de atividades não estritamente capitalistas: artesanatos e oficinas de pequenos proprietários. enfim. A tendência geral é a de que o mercado imobiliário vá tomando espaços dos 63 . hegemônicos e nãohegemônicos.comunicação. Não obstante. Entretanto. moradias. “heranças improdutivas”. rentista: proprietário é agente dominante. para desobstruir os caminhos da dinâmica mais forte. incorporação imobiliária: dominância do capital de circulação através da figura do incorporador (KOWARICK. os diferentes interesses na alocação e boa implantação desses bens ou serviços se traduzem em conflitos entre diferentes grupos da sociedade. praças. muito rico ou muito pobre. favelas. É possível diferir três sistemas de produção da habitação: - não-mercantil: usuário. energia. nem todos os objetos que dão suporte ao capital imobiliário são mercadorias estrito senso: as ruas. a título de renovação/reforma urbana.

guardando imensas áreas mais próximas aos núcleos centrais à espera de valorização. concebe o projeto imobiliário e mobiliza o capital necessário.) (KOWARICK. enquanto zonas mais longínquas eram abertas para a aquisição das classes pobres. Nesse sentido. a relação estabelecida entre o incorporador e o construtor apresenta-se na equação onde a interferência do primeiro é visivelmente maior. Tentando analisar mais especificamente a dinâmica do sistema de incorporação imobiliária. 64 . embora essa seja só uma tendência. A política de compra de terras pelo incorporador deve levar em conta as inovações nos usos do solo e antecipação da alta de preços do mercado de terras numa determinada zona a partir da realização de infra-estrutura estatal. dominando o processo de construção. 1979: 32). A ocupação de novas áreas. estão agregados ao seu valor de uso. que cresce quanto maior a diferenciação do espaço construído. longe de seguir critérios programados.. mas para isso deve interferir na dinâmica produtiva. baseou-se na retenção especulativa de terrenos (. já que os três sistemas continuam tendo sua funcionalidade e coexistindo em todas as cidades. Novamente lembramo-nos que o preço da terra é condicionado pela procura capitalista. No processo geral de expansão urbana a atuação do setor imobiliário pressupõe a ocupação espacial. analisa o mercado. principalmente o fator localidade. principalmente na hora da compra da terra. no qual a construtora trabalha sob encomenda. Posteriormente.. que suscita a oferta de terras urbanas. No momento da venda da mercadoria-moradia.outros sistemas de habitação. a figura de suma importância é o incorporador: agente que escolhe e compra o terreno. Esse é um elemento que valoriza seu capital na esfera da circulação.

em todas as metrópoles brasileiras. na prática.) constituindo-se [o investimento público] num elemento poderoso que irá condicionar onde e de que forma as diversas classes sociais poderão se localizar no âmbito de uma configuração espacial que assume. 65 . desigualdades sociais e grupos de pressão com poderes diferenciados. Assim. onde o investimento público é fator fundamental no preço final das moradias. já que a renda da terra não é fruto de esforço algum de seu proprietário. 1979: 57).os agentes imobiliários podem se beneficiar do preço se controlarem o uso dos elementos de consumo do sistema imobiliário do seu terreno. se constituiu por características marcadamente segregadoras. o mercado de terras urbanas não pode ser visto somente como regulado pela funcionalidade da oferta e da procura. A terra não pode ser encarada como mero fator de produção. Assim. como pontua Lucio Kovarick: (. é possível dizer que o uso do solo urbano no Brasil. é possível definir o mercado de terras como o somatório da especulação imobiliária com a infra-estrutura estatal. por todos esses condicionantes apresentados. na medida do investimento em infra-estrutura. essa oferta e procura são determinadas por oligopólios.. Em suma. Os preços fundiários são determinados sobretudo pelo poder público. já que. características nitidamente segregadoras (KOWARICK..

no sentido de criar a infra-estrutura necessária à expansão industrial. financiando a curto ou longo prazo as empresas ou agindo diretamente como investidor econômico. atua com dois papéis complementares. sabendo que o papel do Estado é fundamental na dinâmica da produção e renovação desse mercado. em uma de suas instâncias. Por esse molde explicativo. Portanto. Considerando-se que há relação formal e informal das ações do Estado com os grupos de alto poder aquisitivo que se tornaram hegemônicos. expresso. o que influi na segregação residencial das famílias segundo os tipos de rendimento.USO DO SOLO URBANO E AÇÃO DO ESTADO Tendo sido deixado clara a ilusão do suposto mercado livre de terras e. as ações do Estado geram uma distribuição espacial dos benefícios líquidos. O Estado. apreendido aqui como resultado parcial do somatório de forças que se tornaram hegemônicas. no fornecimento ou não de bens de consumo coletivos ligados às necessidades da reprodução da força de trabalho. vale a pena aprofundar os mecanismos de como isso se dá. as áreas em que residem possuem mais benefícios em infra-estrutura. 1979: 59). que provoca impactos sobre a superfície de preços do mercado de terras. o perfil sócio-econômico do grupo populacional de uma área determina tanto o nível de demanda efetiva por serviços 66 . Esse processo de apropriação dos benefícios da ação do Estado foi estudado a fundo por Vetter e Massena onde chegaram a um modelo de causação circular da estrutura interna da cidade. e também como elemento fundamental para manutenção da “‘ordem social’ necessária à realização de um determinado modelo de acumulação” (KOWARICK.

Estas ações são ao mesmo tempo intencionais. como também podem em alguns momentos ser fonte de conflitos. o Estado. Novamente Kowarick nos lembra que as necessidades sociais são forjadas historicamente. nada nos leva a afirmar que a conquista de certos benefícios tenha como conseqüência amortecer o conflito de 67 . ainda. Assim. as ações do Estado em remover famílias resultaram na expulsão de grupos de menor rendimento das áreas onde o excedente fiscal foi maior. essa valorização excedente é agregada pela renda da terra. Nesse aspecto. quando os recursos estatais se canalizam preponderantemente para os imperativos da acumulação de capital em detrimento daqueles mais diretamente acoplados a reprodução da força de trabalho.quanto o status social daquela área. e aí entra o papel dos movimentos sociais urbanos. para viabilizar semelhante “modelo de ordem social” de características selvagens para a força de trabalho só pode assumir feições nitidamente autoritárias e repressoras. também dinheiro dos pobres (VETTER e MASSENA. e nesses sentido. já que se incrementa também o preço do aluguel. dificultou-se o acesso de famílias não-proprietárias mais pobres às áreas mais valorizadas. 1981). acirrando o processo de espoliação urbana. e quando a criação de excedente se realiza também através da pauperização absoluta de vastos contingentes sociais. 1979: 59-60). tem sido a tônica do processo de acumulação recente no Brasil (KOWARICK. O controle e contenção dos movimentos reivindicativos passa a ser condição para a efetivação de semelhante modelo excludente de repartição dos benefícios que. sendo incorporada pelos proprietários e futuros incorporadores às custas dos impostos públicos que são. ou. por sinal. em última instância. como o valor das benfeitorias estatais é totalmente agregado ao valor dos impostos pagos pela população. no sentido de maximizar a acumulação especulativa e capitalista do solo. Além disso.

a falta de democracia e liberdade de organização – suspensão de garantias constitucionais – e. pela manutenção da própria super exploração da força de trabalho. A experiência da escravidão no Brasil fincou marcas possíveis de serem enxergadas até hoje no processo de construção da idéia de cidadania. é possível que vejamos o acirramento de todos esses processos que acabamos de descrever. dinâmico e insolúvel dentro de um sistema marcado pela apropriação privada do excedente econômico (KOWARICK. há medidas restritivas.classes: este é. onde o favelado é visto como invasor. uso do solo urbano e o papel do Estado brasileiro na sua regulação. 1979: 73). sem qualquer direito reivindicatório sobre a terra que ocupa. por um lado. durante os anos 1960 e 70. É indispensável relembrar que. por definição. Ao longo do século 68 . no microcosmo do Rio de Janeiro. o apego a um código de habitação completamente deslocado da realidade social. se somaram para que. enquanto que. para outros. nos parece coerente chegar à conclusão de que para alguns é facultado o direito de habitar a Cidade. as favelas e cortiços continuem a ser a melhor opção orçamentária para os grupos de baixa renda. a população removida fosse novamente inserida na dinâmica de valorização imobiliária – expulsão para a periferia – e por outro. DIREITOS E EXCLUSÃO Visto que realizamos nas páginas anteriores as discussões acerca da relação entre capitalismo. contraditoriamente. Junto a eles.

os ganhos em termos de direitos sociais estão diretamente ligados à profissão e às relações formais com o mercado de trabalho. não em um código de valores políticos. ademais. a constituição do ser cidadão foi estipulada pela marca de quem tem direito a esse status e quem não o tem. Assim. e que. Por cidadania regulada entendo o conceito de cidadania cujas raízes encontram-se.XIX e XX. em determinado sentido. não rompe com as formas de exploração do indivíduo e podem. mas em um sistema de estratificação ocupacional. a palavra status é a que bem define a formulação da idéia de cidadão no Brasil até os dias atuais. tal sistema de estratificação ocupacional é definido por norma legal (Santos apud Vianna. A possibilidade de ser cidadão depende da posição social que o indivíduo ocupa na sociedade. Debruçando-nos sobre a idéia de sistema de Proteção Social. pela criação dos Institutos de Pensões e Aposentadorias e da instituição da 69 . Isto significa dizer que é necessário relacionar “a emergência da política social à necessidade de regulação estatal dos conflitos gerados pela forma industrial da produção e acumulação capitalista” (VIANNA. identificada como cidadania regulada por Wanderley Guilherme dos Santos. 1989: 9). 1989: 9). Aliás. sua instituição “acompanha o desenvolvimento das sociedades e economias modernas. tal sistema. Seja pela Consolidação das Leis do Trabalho. Nesse sentido. Nesse entendimento a cidadania é definida pelo lugar do indivíduo no sistema produtivo. que emerge em uma conjuntura de necessidade de proteção quanto às exacerbações que a forma capitalista de acumulação pode impor. assentadas sobre o trabalho assalariado e sobre a dinâmica capitalista do mercado”. garantir a própria acumulação.

políticos. Trabalhar com a categoria exclusão pressupõe a intenção de inclusão. Se os direitos sociais e o sistema de proteção social. que existe defasagem entre aquilo que é constituído como norma e a sua efetiva aplicação (NOGUEIRA. educação. ou sociais. abrangem os trabalhadores e trabalhadoras vinculados ao mercado formal. para que não paire dúvida. O indivíduo que. que teria como característica marcante sua não generalização às classes populares. (SANTOS. que não obstante as intenções de grupos alocados no corpo do Estado em estabelecer direitos como forma de manter a acumulação capitalista sem grandes choques. portanto. décadas de 1960 e 1970. sejam eles civis. Há que se ressaltar. dentro 70 . excluído socialmente. nos marcos cronológicos apontados para o estudo. 2001). 1979. é em grande medida reflexo de lutas históricas dos movimentos sociais. quais as garantias sociais para aqueles que não se incluem nessa categoria? Santos nos responde afirmando que as especificidades de nossa formação capitalista também seriam responsáveis por uma particular conformação histórica dos direitos sociais. abarcado ou não pelas políticas de proteção social. uma vez que os direitos se restringiram ao trabalho regulamentado pelo Estado. E. ou mesmo pela criação do Fundo de Assistência Rural e a possibilidade de inclusão dos autônomos e empregados domésticos no Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). tem dificuldades em prover seu sustento e de sua família é caracterizado por algumas vertentes como sujeito carente de algum bem social (moradia. etc) e. criado no Governo Militar.carteira de trabalho no Governo Vargas. a conquista de direitos.175). p.

capitalista. A inclusão social significa inserir o sujeito no grupo que necessita vender sua força de trabalho como forma de garantir sua sobrevivência. afiançando a reprodução do sistema na sua forma de expropriação do indivíduo e concentração da propriedade.. p.do mesmo sistema. simplesmente porque ninguém pode dele sair. Entretanto. Assim. quando alguém é expulso do mercado. converter-se-ia na impossibilidade prática de escapar a esse processo.) ninguém pode ser excluído do mercado. funcionalmente ou não.36). se entendemos que com a abrangência do desenvolvimento capitalista outras formas de subsistência foram soterradas e que a permanência de grupos fora do mercado significa a possibilidade deste lançar-lhe mão quando for necessário. reduzia (ou simplesmente eliminava) a possibilidade da sobrevivência individual fora do mercado (Fontes. na realidade. (.) A generalização da mercantilização da sociedade. componente essencial da expansão capitalista. 1996. nos aproximamos do conceito de inclusão forçada como caracterizado por Virgínia Fontes: A exclusão. Não seria o mercado essa estrutura ou instituição social paradoxal.. Dito de outra forma. talvez sem precedentes na história. ele é mantido em suas margens. historicamente constituída e perpetuada – a impossibilidade de assegurar a subsistência –. (. e suas margens estão sempre ainda em seu interior. que inclui sempre suas próprias margens (e 71 . posto que o mercado é uma forma ou uma formação social que não comporta exterioridade. pois se constituíram em exército de reserva...

buscava manter acalentada as possibilidades de melhoria das condições de vida dos favelados que chegavam para morar num “lugar decente” e que poderiam encontrar nas organizações de cursos e palestras. acalentada pelo vislumbre da inclusão no sentido de forjar uma coesão social. Nesse sentido agia. “melhores condições de vida”. entendida como o somatório de extorsões que se opera através da inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo que se apresentam como socialmente necessários em relação aos níveis de subsistência e que agudizam ainda mais a dilapidação que se realiza no âmbito das relações de trabalho (KOWARICK. para além de braço organizativo do Estado no Centro de Habitação Provisória de Nova Holanda. serviram para dar suporte às atitudes de controle do solo urbano. por exemplo. que mais aos dias de hoje seriam chamados de inclusivos. conforme veremos no próximo capítulo. a Fundação Leão XIII que. A visão dos problemas sociais brasileiros. da esperança de ascensão social. se expressa através da possibilidade.portanto seus próprios marginais) e que. A forma de encarar as classes populares tanto pelas classes dirigentes como por grande parte da classe média. 72 . somente conhece exclusão interna? (BALIBAR apud FONTES. via a categoria da exclusão. 1996: 37). formulando opiniões e forjando consensos. isso tudo a despeito das condições reais de trabalho e ganhos experimentados por essas pessoas. finalmente. 1978: 59). reforçando a face de espoliação urbana.

73 . especulação imobiliária.Assinalar a relação entre capitalismo. acesso e direito ao uso do solo urbano e aos bens da cidade são de suma importância. tornando necessário articular uma análise amparada na perspectiva de conflito social e processo histórico com a dimensão da experiência dos sujeitos que vivenciaram o processo de remoção.

Capítulo III: CENTRO DE HABITAÇÃO PROVISÓRIA DE NOVA HOLANDA: O MEIO DO CAMINHO 74 .

(depoimento Otávio Felipe da Silva dos Santos.O governo fez remoção na gente pra tirar a favela lá pra trazer praqui. a partir do final de 1961. morador de Nova Holanda removido do Morro da Catacumba) O projeto de remoções das décadas de 1960 e 1970 cumpriu o papel de transferir famílias de favelas. construído pelo Estado da Guanabara. recebeu. Neste trajeto houve. sobre aterro de área de mangue. outro pra outro. famílias que vinham de favelas removidas da zonas Sul e Norte. a maior parte delas situadas na Zona Sul e Norte da cidade do Rio de Janeiro. O Centro de Habitação Provisória de Nova Holanda. para conjuntos habitacionais na longínqua e mal servida de infra-estrutura Zona Oeste. Um prum canto. o meio do caminho. eu não vi mais. no período inicial do governo de Carlos Lacerda (1960-1965). e desabrigadas no período de chuvas de 1966/67. dentro da seguinte lógica: 75 . para alguns tantos. em uma região caracterizada como zona industrial e de armazenagem. Botou gente pra tudo quanto é lugar. outro pra outro. à margem da Baía de Guanabara e ao lado da Avenida Brasil. Tem gente que era vizinho. mas que em boa medida já constituía-se como uma faixa domiciliar de baixa renda.

quem não tinha ia para esses Centros de Habitação. já que podemos considerar a Zona da Leopoldina. Geograficamente também. como o meio do caminho em relação aos distantes conjuntos habitacionais da Zona Oeste da cidade. 76 . Paciência e Andaraí e ainda existiam os setores dentro dos Conjuntos Habitacionais conhecidos como Casas de Triagens. São José. famílias que os assistentes sociais chamavam de sobra das remoções . provisoriamente. no Centro de Habitação Provisória. e incorporada à estrutura do Estado da Guanabara em 1962. criada em 1947 através de acordo entre a Prefeitura e a Arquidiocese. Ramos. ano em que a Fundação Leão XIII. isto é. Manguinhos. ficavam no meio. passa a ser 9 Depoimento concedido em janeiro de 2004. Leblon. quem tinha renda ia para os apartamentos. mas não eram levadas definitivamente para um conjunto habitacional. Marquês de São Vicente (Gávea). de 1969 a 1975: “Nas favelas. Eram casas que os moradores também não viriam a ser donos e ali estariam provisoriamente.”9 Dessa forma. Nova Holanda não era o único local nestes termos. Caju. Reforça essa idéia o depoimento de Aldiza Muniz Tavares. aquelas que não atingiam o nível de renda de um salário mínimo necessário para participar do programa de aquisição da casa própria” (SALIBY apud OLIVEIRA. 1993:13). Como CHP havia mais oito localidades. onde o CHP foi instalado. parte das famílias eram removidas das favelas. A denominação “Centro de Habitação Provisória” foi instituída em 1969. assistente social coordenadora do CHP de Nova Holanda.habitações precárias destinadas a abrigar.

77 . A Vila Nova Holanda – vizinha da favela da Maré. podemos tratá-la desde seu início como parte do projeto geral de remoções de favelas. Quando de sua criação. de “moradia provisória para favelados que tivessem que ser removidos” (FREIRE e LIPPI. foi dado em referência a moradias em locais sobre águas ou passíveis de alagamento como são comuns na Holanda. Assim. amparado no programa Aliança para o Progresso. segundo ele. O nome “Nova Holanda”. que serviria. 25/01/1962)Governador foi à favela ver sua obra. 25/04/1962)Nova Holanda ganha hoje luz elétrica. se auto-intitula autor intelectual da construção de Nova Holanda. ainda segundo Arthur Rios. que financiariam seu “grande projeto de habitação” para o Rio de Janeiro. em Bonsucesso.responsável pela administração dos mesmos. Essas diferentes denominações refletem a pouca clareza sobre os planos do governo Lacerda. neste momento inicial em que os acordos com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o acordo do Fundo do Trigo. será ligada pelo governador Carlos Lacerda às 18 horas” (Tribuna da Imprensa. ainda estavam se firmando. 2002). Lacerda visitou a Favela Nova Holanda onde estão sendo construídos 700 barracos pelo governo do Estado” (Tribuna da Imprensa. terá luz elétrica a partir de hoje. que à época era o coordenador de Serviços Sociais do Estado da Guanabara. Nova Holanda era citada em jornais de diferentes maneiras: Mais 11 famílias estão no Parque Nova Holanda (Tribuna da Imprensa. 15/05/1962). José Arthur Rios.

Sobre a política de Lacerda para favelas, sem dúvida ela passa a ficar mais clara com a transformação da Coordenação de Serviços Sociais em Secretaria e a substituição de José Arthur Rios por Sandra Cavalcanti. Enquanto o primeiro teve uma atuação mais próxima do fomento da organização dos moradores de favelas através da criação de associações de moradores, a segunda atuará de forma muito presente na remoção da favelas, com ênfase para a erradicação da favela do Morro do Pasmado.10

Os CHPs Marquês de São Vicente (Gávea), Caju e Leblon foram criados ainda na década de 1940 como Parques Proletários. A mudança de nome desses espaços para Centro de Habitação Provisória evidencia uma similaridade entre esses dois projetos separados por duas décadas, que além da intenção provisória teve como termo importante a “função educadora”, pressupondo a incapacidade das famílias em utilizar os equipamentos da nova casa e viver em comunidade, obviamente nos moldes espelhados nas idéias da classe média ou alta. Na Gávea, o remanejamento de moradores foi iniciado em 1969, por ocasião do incêndio da Favela Praia do Pinto, localizada às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, quando famílias com renda suficiente para a entrada no Sistema Financeiro de Habitação foram transferidas para Conjuntos Habitacionais, dando lugar a desabrigados do incêndio. O último remanejamento aconteceu em 1975 e o CHP 1, como era classificado pela Fundação Leão XIII, foi extinto. Caju e Leblon, CHPs 2 e 3, respectivamente, foram extintos entre 1969 e 1970. O primeiro, por ocasião do início das obras da Ponte RioNiterói, com a transferência de famílias para o CHP de Paciência, e o segundo no período do incêndio da Praia do Pinto, tendo suas famílias sido enviadas ao conjunto Cidade Alta,
10

Sobre esse assunto observar depoimentos de José Arthur Rios e Sandra Cavalcanti, publicados em FREIRE e LIPPI, 2002. 78

em Cordovil. E, seguindo a lógica já citada dos CHPs, as famílias que não possuíam renda suficiente para ingressar no Sistema Financeiro de Habitação foram levadas para os CHPs de Manguinhos e Nova Holanda. (BELTRÃO, 1978)

Observemos a descrição de Sonia Maria Beltrão (1978) dos de número 4, 5, 6, 8 e 9: O CHP4 – Manguinhos: correspondia a uma área de favela que, em 1969, passa a ser administrada pela Fundação Leão XIII. O CHP 5 – São José: localizado na mesma região de Manguinhos, constituiu-se de habitações construídas pelo prefeito Sette Câmara para os funcionários de limpeza urbana. Passa para a administração a Fundação Leão XIII na mesma época de Manguinhos. O CHP 6 – Ramos: foi construído por iniciativa de D. Hélder Câmara, para abrigar as famílias que residiam na favela de Ramos, e que perderam suas habitações em conseqüência do incêndio de 1968. CHP8 – Paciência: foi construído através da secretaria de serviços sociais, em 1967, para abrigar as vítimas das enchentes daquele ano. Inicialmente foram construídas 520 habitações. Em 1970 foram acrescidas 800 por imposição da extinção do CHP do Caju. CHP 9 – Andaraí: foi construído em 1968 pelo Departamento de Estradas de Rodagem, devido a necessidade de remanejamento de famílias causada pela construção do viaduto Ataulfo Alves.

Entre 1969 e 1975, Nova Holanda era denominada CHP 7, passando ao final deste período por um desmembramento que redundaria em duas áreas assim especificadas:

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CHP 1 – Nova Holanda Sul e CHP 7 Nova Holanda Norte (BELTRÃO, 1978). Os números dos CHPs extintos, CHP 1, 2 e 3, são redistribuídos pelos outros restantes.
O CHP de Nova Holanda teve três etapas de construção:

1ª- 980 casas pequenas de madeira, geminadas – em lotes de 5.00m x10.00m, que em blocos de 8 a 10 formavam um vagão, sendo que dois vagões simetricamente situados formavam uma quadra.

2ª- Pouco mais de 1.000 unidades habitacionais, nos termos da primeira etapa.
3ª- 6 blocos de casa de dois pavimentos – duplex. Galpões monoblocos, estrutura única, em madeira. Divididos internamente em 38 unidades – ao todo 228 com aproximadamente 30m² cada uma.

Além dessa construções alvenaria pré-moldada abrigar famílias vítimas das grandes enchentes 1993:13).

em madeira foi erguido um galpão em para funcionar como albergue para dos desabamentos ocorridos na época no verão de 1966/67 (OLIVEIRA,

Nova Holanda era acessível por três vias principais, partindo da Avenida Brasil. Quais sejam: ruas Teixeira Ribeiro, Sargento Silva Nunes e Bittencourt Sampaio, todas constantes no mapa oficial da cidade. As outras tantas, em número acima de 30, apesar de planejadas ortogonalmente pelo poder público, não apareciam no mapa. As habitações compunham-se de 5 cômodos (sala, dois quartos, cozinha e banheiro), totalizando um espaço de 5x10 metros (MIRANDA, 1997).

Os mapas das páginas seguintes oferecem a localização do CHP de Nova Holanda na cidade do Rio de Janeiro, bem como seu desenho interno, e suas principais ruas.

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recebiam um documento de notificação de sua permanência em Nova Holanda. Para alguns a remoção significou uma melhora na condição da moradia. levou à transferência de mais de 130 mil pessoas em 12 anos. esgotamento sanitário). conforme observado na capítulo I. por ter sido planejada apenas para a primeira (Vaz e Andrade. Teve os filhinho no Esqueleto. O programa de remoções de favelas. mas a maioria do pessoal gostou. Era também uma luta grande.. sala.. luz. quando estas pudessem arcar com os custos das parcelas que a aquisição da casa própria exigiria. Este documento seria a garantia de transferência das famílias para novas casas em conjuntos habitacionais. Depois a água acabou. 1994).Segundo Maria Aparecida Miranda (1997). Entretanto. mas não era bom lá não. o incremento da segunda e terceira fase de construções. as famílias.) Minha mãe chorou muito. Era o barraquinho bem feitinho. Tinha uma caixinha d’água. (. cozinha e banheiro. em termos de estrutura da casa e de infra-estrutura (água. Parte dessas pessoas foram morar “provisoriamente” em Nova Holanda. Era lama preta. ao chegarem ao CHP. Uns não gostavam. Mudamos pra um 84 . Cheio de viela. quarto. a ótima oportunidade de ter água encanada durou pouco. iniciado no governo Lacerda. assim como as outras redes. a luz tinha problemas constantes e a rede de esgotos não agüentou. Carregava água de lata. não tinha água também.

do grau de concordância. das condições específicas de moradias anteriores. revolta ou aceitação e do próprio processo de remoção. joguei meus sapatos de salto tudo fora! (. lazer. e desilusão com a nova localidade de moradia. por ocasião da realização do documentário Mataram Meu 85 . (Depoimento Maria Poubel.. Para alguns. 11 Os depoimentos de moradores foram concedidos a Ana Rieper e Maria José Freire. Joguei tudo na Maré! Como é que eu vou sair daqui com esse salto! Lá. os que já tinham sua casa em alvenaria. já tava em casa! Quando eu cheguei aqui e vi a distância até a Av. então. O barraco como expressão da favela. com participações eventuais de Marcelo Abreu e Mario Miranda. Penha a nova casa era de “barraquinho”. 2004. Brasil. o trabalho. para dentro e para fora dela.lugar com água. saltava do bonde. ainda mais se levarmos em conta que as condições de acesso aos bens coletivos de consumo se deterioraram bem rapidamente. Removido da Praia do Pinto) Cheguei aqui com salto alto. Removida do Esqueleto) Essas diferentes visões dependeram do tempo em que cada grupo de moradores chegou à Nova Holanda. Penha.) Lá era maravilha! Eu não saía do cinema no Largo do Maracanã. que eu gostava. ficamos satisfeitos. Para muitos a remoção apresentou-se como dificuldade em relação a trabalho. Ficamos 18 anos sem água. 2004.” (Depoimento D. Removida do Esqueleto)11 Embora dizendo que era “bem feitinho” a referência de D. Aqui.. mais dificultoso. 2004. mas nossa alegria durou pouco. No Leblon era tudo na mão. Era. mudar sem sair da favela. voltar a morar numa construção de madeira era retornar ao barraco. (Depoimento Seu Helio.

Ao chegarem as primeiras famílias encontram as casa sem luz e sem água. Muitas pessoas que viviam bem. num troço esquisito. A iluminação só foi estabelecida em 15 de maio de 196213. 12 Depoimento Marisa. Aí vem o governo e precisa da casa.. cai e eles não querem nem saber.Esse movimento eu fiz obrigado. Precisa do terreno. 200 serão entregues a moradores das favelas do Esqueleto. Em abril de 1962 o jornal Correio da Manhã noticia a visita do governador Carlos Lacerda e dá algumas informações sobre as condições de Nova Holanda naquele momento. Bota num muquifo de tábua. os restos de material de construção serviram para a construção das primeiras moradias e o Gato. A favela do Esqueleto ocupava um grande espaço ao redor de onde hoje se encontra a Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ. Tá bem de vida. o que compete à Light. durante o ano de 2004 e princípio de 2005. ficaram a pão e banana.) A luz já está instalada. 300 barracos já estão habitados. faltando somente ligar. 2004. foram mais de 4 meses sem luz12. 2004 86 .. A senhora tá na sua casa. Essa construção inicialmente foi pensada para ser o Hospital das Clínicas da Universidade do Brasil. (. (Depoimento Otávio Felipe da Silva dos Santos. Removido da Catacumba) A ocupação de Nova Holanda inicia-se ainda sem o término das obras da primeira etapa. Abandonada a obra. vindo removidas da Favela do Esqueleto. 25/04/1962) Para as famílias que chegaram ao final do ano de 1961 à Nova Holanda. 200 estão sendo construídos para os desabrigados do morro do Querosene. (Correio da Manhã.

informavam a procedência das famílias e para onde partiram quando deixaram a casa. Segundo depoimentos e notícias de jornais. as famílias removidas do Esqueleto foram as primeiras a chegar em Nova Holanda: Mais 11 famílias se mudaram ontem da Favela do Esqueleto para o Parque Nova Holanda. que serão instaladas em casas de madeira (Tribuna da Imprensa. 1978). São fichas que se organizam pela casa.) A mudança começou a ser feita pelos caminhões da SURSAN [Superintendência de Urbanização e Saneamento] na segunda-feira e até hoje já deixaram o Esqueleto 21 famílias. Segundo Aldiza Muniz Tavares. (. Os dados informados a seguir. 13 “Nova Holanda tem luz elétrica desde ontem”.esqueleto da construção deu nome àquela localidade. Em geral. O Esqueleto teve episódios de remoção de 1961 até sua erradicação completa em 1965. 16 /05/1962.. 87 . 25 de janeiro de 1962). durante vários momentos de construção da Avenida Radial-Oeste (LEEDS e LEEDS.. isto é. Correio da Manhã. esse levantamento foi realizado durante sua atuação como coordenadora do CHP. a ficha referenciava-se à casa e sua localização e assim informava dados das famílias que lá moraram. são resultado de um levantamento realizado pela fundação Leão XIII.

197714 % N° de moradias Total % 57.8% 81 Outras favelas Outros bairros/Conjuntos Habitacionais 3.8% 9 Minas Gerais 0.1% 25 Morro do Querosene 2. 88 .037 do cadastro de moradores realizado pela Fundação em 1977.1% 227 Total 100. Fonte: Fichas cadastrais da Fundação Leão XIII .2 50 4.7% 20 15. por não termos tido acesso às fontes originais.1977 (apud Miranda.190 fichas de um universo total de 2.4% 17 Duque de Caxias 0.9% 58 Praia do Pinto 3.3% 15 Ramos 0.2 50 Outros estados Não respondeu 19.0% 1.2% 14 Outras cidades Outros estados 1.0% 24 Manguinhos 1.9% 23 Catacumba 1.1 Total de moradias 679 Favelas 16.6% 90 Macedo Sobrinho 4.7% 44 Cordovil 1.0% 12 Parque Santa Luzia 6.9% 11 Nova Iguaçú 0.7% 8 Miguel Pereira 1.4% 5 Rio de Janeiro* 1.3% 16 Vila Kennedy 1.7% 115 Maré 7.5 184 4.8% 10 Vila Aliança 6.3% 194 Esqueleto 9.1% 13 Morro do Turano 1.Procedência dos Moradores Levantamento Fundação Leão XIII . apresentada a Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1997) 14 Trabalhamos aqui com os dados previamente coletados por Maria Aparecida Miranda para sua dissertação de mestrado.8% 10 Sampaio 0.7% 44 Rocinha 2.6% 78 Outros bairros Outras cidades 1.9% 11 Brás de Pina 0.3% 16 Paraíba 0.190** *provável preenchimento incorreto da ficha **Os dados baseiam-se em 1.

Após o incêndio. continua o documento. que a transferência de moradores foi iniciada em 23 de março de 1969. mas deixou de existir na paisagem do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. as famílias provenientes da Favela do Esqueleto eram também as que representavam o maior quantitativo dentro do CHP. explana em suas páginas. mesmo que a conclusão do estudo sócio-econômico só tenha ocorrido no dia 22 do mês seguinte. datado de 1969. sempre com ênfase nas palavras “ordeira e pacificamente”. No total as famílias que passaram pela experiência da remoção de favela representaram quase 60% dos moradores. Macedo Sobrinho e Catacumba tem histórias semelhantes: foram erradicadas. o programa de remoções desde o início do Governo Negrão de Lima. Praia do Pinto. com riqueza de imagens. 89 . em Jacarepaguá. Humaitá (1971). 1969: 69). “irrompeu um incêndio devastador na favela Praia do Pinto. e intitulado Rio: Operação Favela. que além de terem sido os primeiros moradores de Nova Holanda. e que após já terem sido transferidos cerca de 7 mil moradores para os conjuntos habitacionais Cidade de Deus. As favelas Esqueleto. a partir dos dados. e aborda com entusiasmo o que chamou de Operação Praia do Pinto. Ilha das Dragas (1969). Excetuando-se o Esqueleto. Documento oficial do governo do Estado da Guanabara. que destruiu a maioria dos barracos remanescentes e deixou ao desabrigo cinco mil favelados” (ESTADO DA GUANABARA. A Praia do Pinto teve vários momentos de remoção. todas as outras situavam-se na zona sul da cidade assim como outras que também deixaram de existir – entre elas Pasmado (1964).É possível perceber. Relata. em 1969. quando um incêndio de grandes proporções foi o empurrão final para sua erradicação. Piraquê (1969). em Cordovil. e Cidade Alta.

mas nenhuma fatal. No entanto.” (Idem) E. (.. (. o depoimento de Cimar. aquilo ali não era pra gente. moradores de Nova Holanda removidos da Praia do Pinto. aquilo ali era pra elite. abrigo do Estado. com aspas. também morador de Nova Holanda removido da Parai do Pinto. Dizem que em vez de tocar água.“promoveu o governo apenas a aceleração da mudança (. em uma semana apenas. Parque Proletário da Gávea.. 2004). afirma que: Não foi acidente não. Nós saímos abaixo de fogo (Depoimento Cimar.” (Idem:) Sobre a história do incêndio paira.. a dúvida de que tenha sido proposital. tocaram gasolina” (Idem) Janice Perlman (1977) utiliza a expressão “acidental”. Foi um incêndio bem planejado. evidentemente 90 . desde seu acontecimento. o que pode excluir a versão da intencionalidade. E ainda oferece outra explicação para o tamanho do estrago: “O bombeiro veio. Tacaram fogo e mandaram a gente embora.)Teve várias vítimas.. o incêndio começou na casa do mestre-sala da escola de samba da Praia do Pinto.. Acidente não fazia aquele estrago.) Aquele pedaço ali. o grosso dos desalojados estava instalado em apartamentos do Conjunto de Cordovil e em novas moradias de Cidade de Deus.. (. em vez de apagar acenderam mais. etc. estes. Nova Holanda.) a tal ponto que. Segundo os depoimentos de Betinho e Alexandre..) e no dia 25 [de julho] dava por encerrada a vitoriosa Operação Praia do Pinto.. o documento ainda arremata: “Cumpria-se uma etapa de extrema relevância na nova política habitacional do Estado da Guanabara. na intenção de colocar em dúvida a versão oficial do incêndio e afirma que “apesar de muitos moradores e vizinhos alarmados terem chamado os bombeiros. você vê aqueles arranha-céu lá hoje.

na mesma região da Lagoa Rodrigo de Freitas. Macedo Sobrinho e Catacumba tiveram o mesmo fim. percebe-se a participação de policiais que se espalhavam pelas favelas durante as remoções. dão conta do contraste que se formava. pós AI-5. As fotos do jornal Correio da Manhã. 2004)... ocorrida cerca de dois meses antes. além da observância da perda das famílias de tudo que haviam construído.cumprindo ordens. a priori. Mandaram botar fogo porque o pessoal não queria sair. 1977). à época da remoção. através desse acervo.15 E ainda. O que nos interessa neste episódio. as remoções passam por seu período de maior violência. (. No rastro da erradicação da Praia do Pinto. Macedo Sobrinho era uma favela localizada ao final da Rua de mesmo nome. em terreno extremamente verticalizado. Sei que eu tô aqui e cada um tá prum canto (Depoimento Maria de Sousa. As famílias que chegaram da Macedo Sobrinho. em 91 . não apareceram. criminoso ou não.” Após a desocupação da Praia do Pinto foi erguido um conjunto de prédios identificado como Selva de Pedra. é atentar que após este incêndio. no Humaitá. ao contrário da Praia do Pinto que era completamente plana. Lembremo-nos que o país passa pelo período mais duro da ditadura militar.) Se é verdade ou se é mentira a gente não sabe. e que os direitos individuais estavam todos. e o desaparecimento de três lideres da resistência à remoção da Favela Ilha das Dragas. pois nelas é possível observar uma intensa movimentação de construções de prédios de apartamentos voltados para a classe média. suspensos. para oficiais militares (PERLMAN.

por exemplo: “Em breve. 1977: 59). Daí botavam o barraco abaixo.. viram o morro desmoronando. Ao final do mês de março de 1962 os moradores do morro. localizado no bairro Rio Comprido. A remoção das famílias que moravam no Morro do Querosene tem uma história um pouco diferenciada. 2004). Cada dia descia um metro” (Depoimento Hélio. foi forçada a trabalhar em prol da remoção. segundo Perlman. os barracos. Em Macedo Sobrinho era ruim subir com lata d’água na cabeça. (Depoimento de Tutuca. vai dar lugar a luxuosos prédios de apartamentos. (. A retirada das pessoas ocorreu porque “a terra do morro desceu.. não vou”. A Sociedade de Moradores foi coagida a transformar-se num comitê de guardas uniformizados de 31 homens para impedir melhorias em qualquer das casas. Ocorrida entre 1969 e 1970 a erradicação contou com a participação da associação de moradores que. nenhuma oposição se levantou publicamente à medida (PERLMAN. né? O resto era bom. dizia “eu não vou. a entrada ou saída da favela sem autorização e a mudança de novas famílias para lá. Ainda que as famílias lastimassem sua sorte. Carreguei muita água pros outros. Algumas imagens possuem uma identificação relacionando-as com as matérias em que foram publicadas. influindo na estrutura de alguns prédios da Rua Itapirú que tiveram de ser 15 Acervo iconográfico Correio da Manhã. já não cobrirão o morro que olha para a Lagoa” publicada em 10/08/1969. já encontraram Nova Holanda bastante deteriorada nos bens de consumo coletivo e o depoimento de Tutuca reflete a resistência em forma de desespero dos moradores. localizada na encosta do entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas. 92 . 2004).1969. e para preservar a tranqüilidade geral. A remoção da Favela da Catacumba.) Aqui só era ruim por causa da água. a estratégia utilizada na remoção e a comparação no acesso a água: Teve gente lá no Macedo que chorava.

26/03/1962.“Apelo insistente da propaganda governamental em favor da ideologia da casa própria” (VALLADARES. e ao final o desmonte do trecho ameaçado do morro realizado por empresa especializada. 1978). A favela da Rocinha que também consta na lista de moradores removidos para Nova Holanda teve um trecho de casas demolidas para a construção da auto-estrada Lagoa Barra. para Nova Holanda. organizar um calendário de remoção. “Querosene: empresa faz desmonte”. Para o êxito da remoção o poder público atuava de três formas: .gov.br/planoestrategico capturado em 10/04/2006. e/ou da Fundação Leão XIII – trabalhando em consonância à COHAB ou à CHISAM –. “Em ritmo acelerado Querosene vem abaixo”. 17 http://www. que procediam um recenseamento com três finalidades fundamentais: identificar os moradores e suas condições sócioeconômicas. o trabalho de convencimento através dos assistentes sociais e visitas às unidades habitacionais dos conjuntos antes da mudança) . Tribuna da Imprensa. 93 . inaugurada em 1970. 16 “Morro ameaça desabar”. Tribuna da Imprensa.demolidos. Tribuna da Imprensa. e evitar um inchaço da localidade com a chegada de novos moradores interessados na aquisição da casa própria dos conjuntos habitacionais (VALLADARES. 09/04/1962.16 Os moradores foram então levados. 10/04/1962.rj. 17 O passo-a-passo oficial do processo de remoção contava inicialmente com a visita de assistentes sociais da Secretaria de Serviços Sociais. pelo governo da Guanabara. 1978: 52).Conquista dos moradores por adesão (pela pressão e cooptação de lideranças.rio.

A intenção dessa marcação era evitar o crescimento da favela com novas construções. (Depoimento de Maria Poubel. Durante o levantamento preparatório para a remoção. passou a primeira fichação. Uma lembrança corrente nos moradores de Nova Holanda. em seu Passa-se uma Casa: Análise do Programa de Remoção de Favelas do Rio de Janeiro (1978). Eu disse que não ficasse ciente disso não que a gente mora no centro da cidade. botaram a segunda. faz uma descrição geral das etapas do processo de remoção. Na última marca. repressão policial. Como o processo de levantamento de moradores podia levar muito tempo. aliás.. Veio uma equipe falando que ia ser removido. marcou. Mandou cada morador ir na associação e foi chamando cada um e dizendo – você vai este mês. disse que era fogo de palha.Por fim. E muitas vezes o levantamento de uma favela começava também sem confirmar a verdade de suas intenções como nos indica Maria de Sousa: “A moça que passava falava que era recenseamento. removidos de favelas. agosto de 2004) Lícia do Prado Valladares. A gente acreditou. é a marcação das casas. a sempre possível. do trajeto total do morador da favela ao conjunto habitacional e muitas das vezes de volta à favela. havia dois modos oficiais de entrada no Conjunto Habitacional: de modo compulsório (via remoção de 94 . Ah! Passou! [pessoas para avisar da remoção] A gente não levou fé. agosto de 2004) A clareza no processo de remoção nem sempre existia para o morador. as casas eram marcadas com números e as iniciais da Secretaria de Serviço Social.” (Depoimento Maria de Sousa. não era incomum a marcação das casas mais de uma vez. Segundo a autora. veio a definitiva pra gente sair.

eram encaminhados aos CHPs ou casas de triagem. e assim das maiores possibilidades 95 . nas declarações aos levantamentos sócio-econômicos.” (VALLADARES. 1977: 242). segundo os dados da CHISAM. as famílias eram enviadas para apartamentos em prédios de cinco andares sem elevador. localidades que dispunham da maior concentração de renda da cidade. 1978: 57) Deve-se levar em conta ainda as estratégias de super ou subvalorização voluntária da renda feita pelas famílias. como dito anteriormente. De acordo com seus níveis de renda. e ainda a dificuldade de avaliação global do Programa do impacto que a renda familiar sofreria com as mudanças de endereços e conseqüentes perdas de empregos ou biscates. O que revelou-se um problema para os órgãos gestores do programa foi exatamente o subdimensionamento do número de famílias com renda insuficiente para a entrada no programa de aquisição da casa própria. “Com efeito. CHISAM). de acordo com suas intenções de conseguir uma unidade habitacional melhor ou em determinada localidade. e com a inscrição nos órgãos responsáveis pela política de habitação (COHAB. devido às distâncias que os conjuntos habitacionais tinham em relação ao centro da cidade e zona sul. originários de favelas.favela). dependendo da possibilidade de comprometimento de sua renda familiar com os encargos das prestações da casa própria. para casas individuais. ou – no caso dos mais pobres – para alojamentos provisórios chamados triagem (PERLMAN. Os moradores inscritos compulsoriamente ou voluntariamente passavam por um levantamento de suas condições sócio-econômicas e com esse resultado eram destinados a diferentes unidades de habitação. Aqueles que. 17% das famílias percebiam uma renda mensal inferior ao mínimo exigido. em cada favela. não possuíam renda suficiente ou passível de comprovação.

as distorções em relação ao plano esquematizado numa ordem burocrático-administrativa precisavam de um estreito controle de modo que os organismos gestores tivessem a clara dimensão do número de moradias provisórias que tinham disponíveis para novas remoções de favelas. foi o reconhecimento de que já em 1969. o trabalho. Podemos assim. 96 . é muito mais próxima do centro e zona sul do Rio. o depoimento de Helio reafirma o que dizem os estudos sobre o tema: “No Leblon era tudo na mão. presumir que o nome adotado de Centro de Habitação Provisória nas diferentes localidades que já serviam a esse fim. mais dificultoso.” (Helio. após as considerações sobre a renda familiar de muitos moradores de favelas. 1978 e ABREU. pouco depois da criação da CHISAM. agosto de 2004) Lembremo-nos ainda que Nova Holanda. 1977. em comparação com Cidade de Deus ou Vila Kennedy. Sobre essa afirmação de pressão sobre a renda. 1981). VALLADARES. e uma administração mais rígida realizada a cargo da Fundação Leão XIII. o que não nos permite desprezar as pressões sobre os moradores ali alocados.de empregos formais e informais (PERLMAN. mas nos faz vislumbrar todo o impacto sofrido pelas famílias incluídas no programa de remoção e aquisição da casa própria. Aqui [Nova Holanda].

1978 e depoimentos de moradores. nem “inscrito” “ compra a casa” Recebe autorização para ocupar o imóvel Ocupa o imóvel Ocupa o imóvel do CHP ou do Conjunto Habitacional Efetua o pagamento da taxa de ocupação Assina promessa de compra e venda Passa a casa adiante (“vende”) Recebe aviso de pagamento das prestações Paga prestações Impossibilidade de arcar com os custos Morador é retirado da casa e conduzido a um CHP ou Casa de Retorna a uma localidade de favela Diagrama apresentado por VALLADARES. 1978: 48. Diagrama baseado em informações de VALLADARES.PERCURSO PREVISTO E NÃO PREVISTO NO ÂMBITO DO PROGRAMA DE REMOÇÃO DE FAVELAS E AQUISIÇÃO DA CASA PRÓPRIA Acesso compulsório (Via Favela) Inscrição por conta da reserva técnica (Via sede dos organismos responsáveis) Levantamento sócio-econômico do morador Renda insuficiente para aquisição da casa própria Interessado preenche formulário sócioeconômico Recebe ficha de inscrição Levado para CHP ou Casa de Triagem Interessado busca ficha de inscrição Recebe autorização de mudança È levado para o Conjunto Recebe ficha de ocupação: possível mudança p/ obtenção da casa própria “Inscrito” recebe coordenadas de destino “Inscrito” muda-se para Conjunto Acesso por via não-oficial Nem morador de favela. Assina escritura definitiva do imóvel Impossibilidade de arcar com os custos atraso nas prestações Triagem 97 .

Vila Kennedy e Vila Aliança enquadram-se neste caso. Retomando os dados da tabela de procedência dos moradores (p. a família não tinha termo de posse nem de propriedade. e possivelmente Cordovil também já que o Conjunto Habitacional Cidade Alta era em vários momentos referenciado apenas como Cordovil. 1995: 76).O diagrama apresentado acima dá conta das diferentes alternativas possíveis dentro do programa de remoção e aquisição da casa própria. A família que saía realizava a mudança de madrugada e a que chegava também (SILVA. como alternativa. Outro modo de chegar a morar no CHP não era feito de modo aberto. era feita num acordo com a família que “vendia”. aliando esses dados aos depoimentos de moradores e da assistente social anteriormente citada. na maior parte das vezes. e comprovando o demonstrado no diagrama. que além do funcionamento do CHP para alocar famílias que no levantamento inicial não tinham renda servia também para receber famílias que não conseguiam efetuar os pagamentos das unidades habitacionais. passava pela anuência do plantão do posto policial e do administrador do CHP. os quais levavam algum pagamento por isso. e que. onde o acesso à casa podia ser oficial ou não e ainda que a favela. A venda do barraco que era proibida. VIVER NO CENTRO DE HABITAÇÃO PRÓVISÓRIA 98 . acabou sendo realimentada visto que o programa em geral não foi capaz de avaliar os impactos sócio-econômicos na vida das famílias. 88) o segundo bloco que trata das famílias oriundas de outros bairros e conjuntos habitacionais nos permite perceber.

enfim. Mesmo que a auto-construção. aumenta seu controle sobre as melhorias habitacionais em favelas. 1993: 13). reativa centros médicos e educacionais. Atentemos que essa afirmativa repetia a lógica já implementada nos Parques Proletários. que o provém da habitação provisória. configure-se como uma forma de poupança. a Fundação Leão XIII torna-se administradora do CHP de Nova Holanda. a provisoriedade estava explicada na idéia de que “as famílias desobrigadas do pagamento da habitação poderiam ‘poupar’ de modo a adquirirem sua casa própria” (SALIBY apud OLIVEIRA. e que apresentou-se infrutífera na “solução do problema”. para que estas não fossem passadas ou vendidas. nas favelas. mantendo vivo o caráter de provisoriedade e o “fantasma” da remoção (OLIVEIRA. Ativar a Fundação como organismo administrador tem relação com sua atuação anterior em favelas. se dá de acordo com os interesses e a disponibilidade daquele que poupa e não a partir dos critérios de outro. Segundo os órgãos gestores do programa. além de exercer maior controle sobre as casas. executor do discurso hegemônico. 1993:15). Com o objetivo de levar a termo a “função educadora” – que também era elemento fundamental no projeto dos Parques Proletários. na década de 1940. neste caso o governo. aumenta os dispositivos controladores junto às associações de moradores. novamente 99 . quando na incorporação da instituição à estrutura organizacional do estado da Guanabara. A precariedade dos ganhos da população alvo dessas políticas não abriam espaço para a poupança.A primeira consideração a ser feita após a discussão sobre o trajeto percorrido pelas famílias até a chegada em Nova Holanda é a adjetivação da habitação como “provisória”. em 1962. como dito anteriormente –.

1986: 95). política e até mesmo policial sobre boa parte dos moradores de favelas do Rio de Janeiro (VALLA. de madeira que ameaçavam. jurídica. reforçava essa idéia. nos piores casos. o controle de modificações não permitia nenhuma melhoria na casa. que era feito pelo domicílio e não pela família. proibia-se qualquer modificação na intenção de que o morador não criasse “laços emocionais” com essa casa. em 1969. No entanto. A justificativa desta proibição estava na manutenção da idéia de provisório e no “objetivo de se impedir a criação de vínculos maiores entre os moradores e a casa. 1993:18). Em Nova Holanda. Ou. alternativas sendo criadas para lidar com as adversidades do local. mesmo que fosse reparo. 18 Depoimento Aldiza Muniz Tavares. o que levava a uma rápida deterioração das moradias. o tempo foi passando e as famílias ficando lá mesmo (Depoimentos Cimar. desabar.18 Através dessa lógica as famílias continuavam vivenciando os mesmos medos antes experimentados nas favelas: de que a qualquer momento chegasse uma ordem para deixarem o lugar. mais explicitamente na fala da assistente social Aldiza Muniz Tavares. nas esquinas das ruas Principal e Sargento Silva Nunes. O levantamento da Fundação Leão XIII. A única casa transformada de madeira em alvenaria. 2004).” (SALIBY apud OLIVEIRA. Aldiza Muniz Tavares. tendo em vista que não a habitaria por muito tempo. E. Otávio Felipe da Silva dos Santos. era aquela onde funcionava a sede da administração da Fundação. Betinho. sendo o perigo maior nos “duplex”.amplia aos poucos sua capacidade de exercer uma dominação ideológica. 2004 100 .

S. praticamente apenas dois anos depois de ter se iniciado a ocupação. ou os barris. era uma das pessoas que fabricava o Rola. e chegou a ter 20 deles para alugar a outras famílias. que ficaram conhecidos como Rola. que serviam para ir buscar água do outro lado da Avenida Brasil. equipamento feito de um barril de madeira e uma armação de madeira e ferro. 101 . já podiam ser vistas imagens de moradores carregando latas d’água. Otávio Felipe da Silva dos Santos.Ainda em 1964. morador de Nova Holanda – removido da Catacumba –.

102 .

vindo da Favela do Esqueleto: Tenho até vergonha de falar. dado o grau de embate necessário para tal medida.Se a ocupação de Nova Holanda começa ao final de 1961 e vai até 1970. Estava tudo cheio de cocô. quando chegam os últimos moradores removidos da Catacumba. onde 19 Depoimento Roseni Lima de Oliveira. que arriou dentro da casa. ficasse mais difícil de impedir a melhoria e praticamente impossível de destruí-la depois estivesse pronta. Além da solução emergencial para a falta d’água outra alternativa foi sendo tomada a luz da experiência que as pessoas já tinham na favela. removida da Favela do Esqueleto. Nova Holanda – o que no início era marcado pela diferença que cada grupo tinha na origem. Ao fim de todas essas considerações e percebendo que a provisoriedade vai se transformando em permanência das famílias – o que faz hoje em dia até ter desaparecido a sigla CHP do nome que se identifica e se reconhece essa localidade. pelo mesmo motivo de proibição de melhorias para evitar o enraizamento das famílias e consolidação da localidade. Quando a Preta. 2004). minha filha mais velha. muitos saíram de suas casas nas favelas e não encontraram as condições propagandeadas de casas com infra-estrutura. as coisas tudo amarrado nas trouxas. Agora tu presta atenção: a casa suja de cocô e sem água pra lavar (Depoimento Maria Poubel. 103 . ela arriou minha roupa toda em cima de um monte de cocô. 2004. Da mesma forma que era comum nas favelas. tirar as trouxas de dentro do caminhão. algo não tão distante do que se pensava para Nova Holanda. Exemplo disso é a narrativa de Maria Poubel sobre sua chegada em 1965. assim. as pessoas começaram a construir sua casa de alvenaria por dentro da de madeira19 para que a fiscalização não percebesse e. quando ela começou a arriar as trouxas.

mas que desta vez. iniciado em 1979. quem era do Esqueleto” (Depoimento Roseni Lima de Oliveira.“era aquela coisa de dizer: porque lá onde eu morava era melhor. através do futebol. que promoveu nova remoção. que vai dar origem à atual escola de samba Gato de Bonsucesso –. amigos e parentes. 2004). Significou para muitos o desfazer dos laços e distanciamento de vizinhos. quem era da Macedo Sobrinho. a uma nova configuração de pertencimento.. agora nas palafitas que se ergueram ao longo da década de 1970 nas bordas do CHP e de outras localidades vizinhas.) quem era da Praia do Pinto. e um refazer de relações com um novo espaço físico e social. “Começaram a criar vínculo com a comunidade.. traduzida no conjunto habitacional. assentou as famílias na mesma região. Configuração de pertencimento a uma localidade também construída na negociação com o poder público. construir uma história”20. desejada ou não. em forma de construção. que foi sempre uma perspectiva distante. em 1982. Estar entre a favela e o Conjunto habitacional significava o quê? Não houve mudança da forma estigmatizada como as pessoas removidas de favelas eram tratadas pelo poder público e nem a aquisição da casa própria que o projeto de remoções propagandeava.. era mais. quando da execução do Projeto-Rio. (.. do desenvolvimento das relações de vizinhança. da ajuda mútua quando a queima de um transformador de luz exigia esforços de abaixo-assinados e pressão sobre a Fundação Leão XIII e a Light. do samba – expresso na Unidos de Nova Holanda e depois no Bloco Mataram meu Gato. foi dando lugar. como resultado da negociação. porque lá era mais bonito. 2004 104 . 20 Depoimento Roseni Lima de Oliveira. com novo aterro sobre a Baía de Guanabara que vai dar origem à Vila do João e Conjunto Esperança.

. Conseguimos juntar. Hoje tem essa miscigenação de favelas. criei filho. gostei desse local aqui também. sem julgarmos a utilização do termo e apenas atentarmos curiosamente para seu emprego: Eu me acostumei aqui.. (.) A gente foi se unindo depois aí.. fiz vida aqui.. 2004) [grifo nosso] 105 . (Depoimento de Cimar.Por fim deixemos a consideração de Cimar.

baseada em frase do 106 . não? Então. buscam capitalizar possíveis votos com a divulgação de suas atuações para os moradores da região. como fizemos ao longo das páginas desta dissertação. Esta luta tão difícil. mas não estamos. que encontrou tantos empecilhos. versava sobre favelas. Marcelo que é subprefeito da Zona Sul II e sua mãe. Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Em ano de eleição. em sua maior parte. foi vencida pela força de vontade de Marcelo Maywald e Leila do Flamengo”. e daí?”. situada em Laranjeiras. intitulada “Sem parede. sem chão” que. Atual. Em 2004 o jornal O Globo publicou uma série de reportagens sobre a crise habitacional. Trecho retirado de panfleto distribuído na primeira semana de abril de 2006. Esta frase foi manchete do jornal O Globo em 18 de outubro de 2005.Considerações finais Manchete de jornal: “Favelas protestam contra política de remoção”. Em 2005. vereadora pelo Partido da Frente Liberal. nas ruas dos bairros de Laranjeiras e Flamengo. o mesmo jornal fez circular a série “Ilegal. vejamos: “Remoção da Favela da Vila Alice. Leila do Flamengo. A matéria relata o protesto de moradores da Favela da Vila Alice. Poderíamos estar falando da década de 1960 e 1970.

Como 107 . veiculada em 1971 através do documentário da Agência Nacional. reportagens. na estratificação social e urbana. não satisfez boa parte dos moradores. E mais: por não ser o problema da moradia um problema com início e fim em si mesmo. na cidade do Rio de Janeiro. e em tantas outras do Brasil. desprovidas de melhoramentos públicos. de reportagem sobre a verticalização das construções na Favela da Rocinha. Hoje o termo não serve só a “aglomerados humanos localizados em áreas não urbanizadas. no mesmo jornal. A prática da remoção também não deixou de existir. construídas em terra de terceiros: do Governo.prefeito César Maia por ocasião da divulgação. A favela não desapareceu como previa a propaganda do Programa de Remoção. A favela continua a existir como alternativa possível de moradia para grande parte das pessoas dos centros urbanos brasileiros. mas o que difere a atualidade das décadas de 1960 e 1970 é a clara explicitação. 1978:30). os conjuntos habitacionais viraram. de particulares ou de domínio não definido” (Censo IBGE-1970 apud VALLADARES. da remoção como política pública para a favela (ou “contra a favela”?). removem-se favelas. E. “Vida Nova sem Favela”: “Felizmente a favela carioca é algo que tende a desaparecer de nossa realidade. Hoje. A política de remoções não acabou com o “problema favela”. e acabou por inchar diversas favelas no caminho de volta. constituídas por habitações rústicas ou improvisadas. artigos ou cartas de leitores. o que aproxima é que não houve modificação na estrutura de acesso à terra e no uso do solo urbano. seja em matérias. como se lê nos jornais ou se observa nos mapas oficiais da cidade. Todos os dias há no mínimo uma citação sobre favelas nos jornais. na forma estigmatizada que as populações que moram na favela são encaradas pelo restante da sociedade. O lema é demolir para construir”. nas décadas referidas. favelas.

observa Valladares. serviu para diferenciar aqueles que tinham ou comprovavam renda daqueles que não tinham ou não comprovavam (salvo as respostas nem tão condizentes com a realidade aos “questionários sócio-econômicos”). a remoção de famílias de favelas não satisfez. Alguns arquitetos e planejadores do espaço urbano no Brasil defendem que o dinheiro público não seja investido na construção de moradia. como visto no capítulo II. no caso. os dados oficiais e os estudos atuais “reconhecem um universo muito variado geográfica e demograficamente” em se tratando de favelas. esta política foi capaz de aplicar a divisão dentro da divisão. mas apenas na ordenação urbana. 1996: 98). E a política de habitação provisória. ficando a cargo das famílias e da iniciativa privada a construção da habitação. além de manter a insegurança das famílias sobre o direito à moradia. A análise que fizemos ao longo deste trabalho nos possibilita perceber que essa perspectiva funciona perfeitamente na base da desigualdade social tendo em vista que. A partir das análises realizadas. desejam garantir um modelo social 108 . mas no modelo social. nenhum dos envolvidos no processo. S. O retorno à favela e à consideração geral do conjunto habitacional como favela reafirma a idéia de que os problemas de moradia não residem estritamente na construção da habitação. a longo prazo. ao fim das contas. que. Se já era observada a estratificação entre favelados e não-favelados. o aparelho estatal atua respondendo às pressões da sociedade onde o peso dessas pressões tende às exigências das classes hegemônicas. “malgrado desavenças ou conflito” (MENDONÇA.

está em disputa. a favela. sociedade política e sociedade civil. 1978: 18) Em última análise. 3. e possível. Como observou o arquiteto Mauro Kleiman (1978). base da desigualdade social. e. se a estrutura estatal. Ed.baseado no capital. e também como resultado da estruturação econômica capitalista. o projeto era acabar com o ‘quisto’ urbano representado pela favela. garante. na sua estrutura física.: “Os parques eram uma solução setorial para um problema geral. 2000 109 . entre atuações hegemônicas e contra-hegemônicas. Assim como o programa de remoções dos anos 60 e 70. determinada configuração social que permite e facilita a exploração de uns por outros. na propriedade privada. através de sua atuação. que deve se dar o embate em busca da modificação dessa estruturação social. Notas sobre o Estado e a Política. é também na arena do Estado Ampliado21.Maquiavel. Civilização Brasileira. portanto. que persiste como alternativa criativa. Cadernos do Cárcere – vol. sustentação para a expropriação de direitos de uns em favor de outros. Antonio. Em suma. 21 Ver GRAMSCI. Rio de Janeiro. não com sua estrutura econômica” (KLEIMAN. como conformação das forças hegemônicas.

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