Crítica da filosofia do direito de Hegel

Karl Marx Crítica da filosofia do direito de Hegel 1843 Rubens Enderle e Leonardo de Deus Tradução .

br . 2. 5-137. 4. II. 1982.com. nos termos da lei.São Paulo : Boitempo. Hegel. p. Georg Wilhelm Friedrich. . Série. BOITEMPO EDITORIAL Jinkings Editores Associados Ltda. Estado./fax: (11) 3875-7250 / 3872-6869 editor@boitempoeditorial.com. I/2.12 É vedada. 2005. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS. Ciência política.[2. a reprodução de qualquer parte deste livro sem a expressa autorização da editora. Este livro atende às normas do novo acordo ortográfico. [supervisão e notas Marcelo Backes].br www.Filosofia. 3. I. 1818-1883 Crítica da filosofia do direito de Hegel. CDU 340. RJ. tradução de Rubens Enderle e Leonardo de Deus . Direito .boitempoeditorial. Título.ed revista]. 1843 / Karl Marx . 2010 Traduzido do original alemão: Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Coordenação editorial Ivana Jinkings e Aluizio Leite Assistência Ana Paula Castellani e Rodrigo Nobile Tradução Rubens Enderle e Leonardo de Deus Supervisão e notas Marcelo Backes Revisão – 2ª edição Ana Lotufo e Elisa Andrade Buzzo Editoração eletrônica Gapp Design Capa Antonio Kehl sobre desenho de Loredano Produção Marcel Iha e Paula Pires CIP-BRASIL. M355c Marx. Berlin: Dietz Verlag. 2010 Tradução de: Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie Apêndice ISBN 978-85-7559-151-2 1. Seguindo a edição da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA). 373 05442-000 São Paulo SP Tel. 1770-1831.Copyright da tradução © Boitempo Editorial. Karl. Rua Pereira Leite. 10-2859. .

................................................................................... ....SUMÁRIO Nota à primeira edição..... 10 Apresentação...... .................................................................................................... .... ................................. 11 Crítica da filosofia do direito de Hegel..................................... 159 Cronologia de Karl Marx e Friedrich Engels............... 7 Nota à segunda edição.............................................................. 145 Índice de nomes citados........................................................................... 27 A – O direito público interno I) A constituição interna para si a) O poder soberano b) O poder governamental c) O poder legislativo Apêndice............................... 161 . 143 Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução...........

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um projeto amplo que pretendia abarcar a filosofia do direito de Hegel como um todo. os professores Rubens Enderle e Leonardo de Deus –. como afirmara Hegel. destacando a soberania do povo em oposição ao poder do príncipe. com a Crítica. Na Crítica da filosofia do direito de Hegel – traduzida com rigor por dois estudiosos da obra de Marx. no ano de 1843 – logo após seu casamento com Jenny von Westphalen – ele se dedica à crítica da política e da filosofia. Embora não tenha sido concluído nem publicado. O lançamento dessa obra monumental de Marx e Engels fará parte das comemorações aos dez anos da editora. Para 2005 está prevista ainda a publicação de A ideologia alemã (pela primeira vez em tradução integral no Brasil). num projeto iniciado com a publicação da edição comemorativa aos 150 anos do Manifesto Comunista. um marco na sua estrada para o materialismo histórico: entre outras coisas o levou a ver que não era o Estado a base da “sociedade civil”. mas esse texto é também parte de um acerto de contas de Marx com a filosofia de seu tempo (acerto de contas que só será completado em A ideologia alemã. Uma minuciosa “Apresentação” de Rubens Enderle – nas 7 . o texto foi. Dando prosseguimento ao programa de fazer “uma crítica impiedosa de tudo o que existe”. obra em que a crítica de Marx – e Engels – se supera em força e abrangência). Ele inicia. e o faz desenvolvendo um comentário ao tratado de Hegel sobre o Estado. privilegiado por Hegel em sua obra. e em 2004 dos Manuscritos econômico-filosóficos ou Manuscritos de Paris. conforme o próprio Marx diria mais tarde.Crítica da filosofia do direito de Hegel NOTA À EDIÇÃO Crítica da filosofia do direito de Hegel é o quarto volume das obras de Karl Marx e Friedrich Engels lançado pela Boitempo. O fato de se ocupar criticamente com a obra de Hegel teve efeito profundo sobre o jovem Marx. Em 2003 foi a vez de A sagrada família. mas sim a sociedade civil que era a base do Estado. em 1998. Marx revisa a questão do Estado e a lição hegeliana acerca da monarquia constitucional.

sua importância. enquanto a democracia passa a ser identificada com a “emancipação política”. é quando Marx introduz o conceito de “democracia acabada” (vollendete Demokratie). Na “Introdução” – escrita no final de 1843. do comunismo). a “Introdução” representa uma ruptura de Marx com o seu próprio pensamento inicial. continua marcante em sua obra. o jovem ensaísta identifica o proletariado – conceito que surge pela primeira vez na obra marxiana – como o agente histórico da mudança revolucionária e anuncia o casamento da filosofia radical com o proletariado. definição que iria muito além da mera transformação da forma política na república burguesa. sobre a qual falaremos um pouco mais nos parágrafos seguintes. A influência de Feuerbach. Na conclusão. cuja obra tinha lhe oferecido uma “fundamentação filosófica para o socialismo” ao trazer “do céu da abstração para a realidade da terra” a ideia da espécie humana. Ou seja. conscientes de que – conforme assinalou o autor da “Apresentação” – há grandes diferenças entre ela e a Crítica de 43. assim como a de Hegel. Em suas páginas finais. ruptura esta que na Crítica de 43 é apenas anunciada. declara que a filosofia é a cabeça da emancipação revolucionária e que os proletários são o seu coração. Na Crítica. Além da obra que dá título ao livro. no sentido do pensamento de Rousseau (e de Feuerbach). Decidimos incluir a “Introdução”. e essa influência se mantém perceptível mesmo depois da crítica ainda mais contundente encaminhada em A ideologia alemã. Ao inserir esse artigo como um apêndice à Crítica. publicado por Marx juntamente com “Sobre a questão judaica” nos Anais Franco-Alemães em 1844. as circunstâncias em que foi escrito e os principais aspectos do “debate” do jovem hegeliano com seu mestre. didática e explicativa.Karl Marx Nota à edição páginas que se seguem à presente “Nota à edição” –. Marx afirma a “verdadeira democracia”. apesar do curto espaço de tempo que separa os dois textos. acompanhada de uma longa carta em que expressava seu respeito pelo pensador. em Paris –. Já na “Introdução” ele faz uma transição do liberalismo burguês ao tema da “emancipação humana” (isto é. este volume traz ainda o artigo “Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução”. escrita de forma clara. Apesar de toda a radicalidade de sua crítica. em agosto de 1844 Marx enviou uma cópia desse texto a Ludwig Feuerbach. Marx proclama a necessidade de uma “revolução radical” como caminho para a autorrealização do homem e insiste na necessidade de passar da “crítica da religião para a crítica da política”. contextualiza o texto de 1843. nosso objetivo é colocar à disposição dos leitores brasileiros o melhor da produção de 8 .

latinas. as palavras e/ou passagens em itálico foram destacadas pelo próprio autor. gregas etc. o manuscrito de Marx acaba. que contêm afirmações que se tornaram clássicas como a de que “Ser radical é agarrar as coisas pe­ la raiz. para o homem. é apresentado o original alemão entre parênteses.) e referem-se sobretudo às expressões francesas. muitas vezes pontuais – por exemplo para assinalar o número de um parágrafo hegeliano –. correriam o ris­ co de desaparecer das prateleiras se não fossem impressos ao lado das obras de maior extensão desses autores. Engels e outros teóricos que tantas vezes já foram considerados – e até mesmo declarados – mortos. As notas da edição alemã estão assinaladas por (N.E. interrompendo as referidas citações. O primeiro caderno manuscrito – que provavelmente continha a crítica dos parágrafos 257 a 260 da obra de Hegel – desapareceu. conforme aparecem na presente edição.A. As da edição brasileira aparecem assi­ naladas por (N. Nas citações de Hegel. Nas citações de Hegel. que vai até o parágrafo 360 na obra hegeliana. do editor alemão da obra. Os colchetes dão conta dos esclarecimentos e acréscimos. O manuscrito de Marx que deu origem à Crítica da filosofia do direito de Hegel existe na forma de 39 cadernos que foram numerados com cifras romanas. Pois escritos curtos e vigorosos como a “Introdução”. Além da qualidade do texto.B. Na página 4 do caderno numerado com XL. outras vezes argumenta –.E. Na tradução da “Introdução”. e não hesita em usar parênteses – nos quais às vezes questiona as afirmações de Hegel.Crítica da filosofia do direito de Hegel pensadores fundamentais como Marx. de autoria de Raul Mateos Castell 9 . também esse dado justifica sua publicação no presente volume.). Na primeira página do caderno seguinte – de resto totalmente vazio – está escrito.) e as notas dos tradutores da obra seguem grafa­ das com (N.T. Marx muitas vezes coloca apenas reticências para assinalar trechos que não são citados. bem em cima: “Índice. que Marx costu­ ma usar sem destaque no original. as palavras e/ou passagens em negrito são destaques assinalados por Marx. em meio ao debate do “poder legislativo” (que vai do parágrafo 298 ao parágrafo 320 na obra de Hegel) e bem antes do final da seção “O Estado” (“Der Staat”). nos quais é aprofundada a questão do Estado. a raiz é o próprio homem”. Em alguns casos. Sobre a transição de Hegel e explicação”. e os que restaram contêm uma análise detalhada e crítica dos parágrafos 261 a 313. Mas. depois da citação do parágrafo 313 da Filosofia do direito de Hegel. sobretudo conceituais. Nos manuscritos marxianos esses destaques aparecem sublinhados.

Dietz. O texto “Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie – Einleitung” foi escrito entre dezembro de 1843 e janeiro de 1844 e publicado nos Anais Franco-Alemães (Deutsch-Französische Jahrbücher) em 1844. e também um índice de personagens citados e relação de obras de Marx publicadas no Brasil Ivana Jinkings e Marcelo Backes maio de 2005 NOTA À SEGUNDA EDIÇÃO Esta nova edição do Crítica da filosofia do direito de Hegel traz aos leitores de Marx uma nova versão da “Introdução”. com informações úteis ao leitor. 170-83.). nesta página]. agora traduzida diretamente do original alemão por Rubens Enderle. para a revista Temas de Ciências Humanas) [ver “Nota à segunda edição”. Neste volume. Berlin. a antiga cronobiografia foi substituída por uma cronologia resumida de Karl Marx e Friedrich Engels. em 1977.B.E. p. No final do livro o leitor encontrará uma curiosa e útil cronobiografia resumida de Karl Marx [ver também aqui “Nota à segunda edição”]. a partir da Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA2). iniciado ou não na obra marxiana. 1982. a militância e a obra teórica. contendo três aspectos fundamentais de sua trajetória: a vida pessoal.Karl Marx Nota à edição (que revisou para esta edição um antigo trabalho feito em parceria com José Carlos Bruni. I/2. sendo de produção editorial interna as notas assinaladas com (N. julho de 2010 10 . as notas seguem o mesmo critério de identificação quanto às notas dos tradutores e da edi­ ção alemã.

já explicitava suas diferenças em relação a esses autores. em 1820. Para os jovens-hegelianos. No início de 1841. positiva. restituir à teoria do Estado de Hegel seu conteúdo humanista. acabaram por abandonar a filosofia hegeliana do Estado em nome da defesa da democracia. ou seja. Marx. tratava-se de demonstrar que o “real” não devia ser identificado imediatamente com a realidade empírica. 1 Georg Wilhelm Friedrich Hegel. pela prática jornalística. embora à época bastante próximo do pensamento jovem-hegeliano. emancipador. Discípulos de Hegel. e os “velhos”. ditos “de direita” –. ao mesmo tempo em que preconizavam. como afirmavam os velhos-hegelianos. Os jovens-hegelianos acreditavam. a superação da monarquia prussiana em um Estado racional e livre. assim. a realização desse conteúdo. a teoria hegeliana do Estado passou a ocupar um lugar central no debate político alemão. divididos em dois grupos antagônicos – os “jovens”. deve ser suprassumida em um nível superior do conceito. prefigurado na concepção hegeliana da monarquia constitucional. quando os jovens discípulos de Hegel. iniciaram uma acirrada disputa pelo título de herdeiros legítimos de seu espólio teórico.Crítica da filosofia do direito de Hegel Apresentação I Com a publicação dos Princípios da filosofia do direito1. pelo “trabalho do negativo”. Grundlinien der Philosophie des Rechts oder Naturrecht und Staatswissenschaft im Grundrisse [Princípios da filosofia do direito ou do direito natural e da ciência do Estado em compêndio] (Berlim. ditos “de esquerda”. no entanto. 1833). sofreu uma séria inflexão a partir de 1841. Tal disputa girava fundamentalmente em torno da interpretação do tema da “reconciliação” do real com o racional. mas sim com a realidade que. 11 . Essa posição. desiludidos com as possibilidades de uma reforma constitucional de caráter liberal no reinado de Frederico Guilherme IV. e identificando a monarquia constitucional com um mero compromisso de feudalidade e modernidade.

com o que ela é. “O jovem Marx e o manifesto filosófico da Escola Histórica do Direito” em Crítica Marxista. Essa primeira formulação da ideia de “crítica filosófica” seria retoma­­ da e desenvolvida. mas sim algo que se desenvolve. houve acomodação por parte de Hegel. realizava-se “um progresso do saber”. p. Differenz der demokritischen und epikureischen Naturphilosophie. algo cujo sangue espiritual se impulsiona do coração até as extremidades”. ele denunciava o teor “moral”. 2005. Cf. 1982. Se. Gustav Hugo3. MEGA2. I/1. como recorda Marx. o próprio Hegel ensinava que “a ciência não é algo que se recebe. em 1842. demonstrá-lo em sua verdade. MEGA2 . a filosofia kantiana). em vez de lutar contra seu objeto. isto é. Por esse procedimento. Marx compara o “ceticismo vulgar” da Escola Histórica com o “ceticismo do século XVIII”. I/1. Em vez de apontar e recriminar insuficiências do pensamento de Hegel. isso não podia ser explicado partindo-se de seu “saber particular”. Ao denunciar a impostura da filiação de Hugo à filosofia de Kant. isto é. Karl Marx.Apresentação em sua tese doutoral. 1975. em um pequeno artigo voltado contra a Escola Histórica do Direito e seu precursor. imputar a ele uma atitude de “acomodação”. “não filosófico”. com o caráter crítico da filosofia iluminista (id est. no 20. a crítica iluminista busca realizar a essência que se 2 Karl Marx. das críticas que os discípulos de Hegel dirigiam às chamadas “acomodações” do mestre. mas sua forma de consciência essencial é construída e elevada a uma determinada forma e significação. 67. 3 12 . Das Philosophische Manifest der Historischen Rechtsschule. Enquanto o ceticismo da Escola Histórica critica a racionalidade aparente apenas para se curvar ao puramente positivo. ela devia ultrapassá-lo. em atribuir ao autor uma “consciência reflexa” diante de sua própria obra e. de fato. tomando-se como base o desenvolvimento interno do seu pensamento. O erro desses discípulos estava em tomar como base da crítica a “consciência particular” do filósofo. Para Marx. a partir daí. mas em demonstrar em que medida a “possibilidade dessas aparentes acomodações tem sua raiz mais profunda na insuficiência ou na insuficiente formulação de seu próprio princípio”. reputada como imoral. Rubens Enderle. uma vez que. nas páginas da Gazeta Renana. ultrapassada”2. pois “não se suspeita da consciência particular do filósofo. a verdadeira crítica devia desvendá-las. uma crítica verdadeiramente filosófica não podia consistir em tributar as insuficiências da teoria política de Hegel a uma simples acomodação (consciente ou não). mas sim de sua consciência interior essencial. ao mesmo tempo. mais do que um simples “progresso da consciência” rumo à moralidade.

o “já repudiado” não dá lugar à “nova vida”. ele se libera das formas que. tão somente a atualização dessa racionalidade. altiva. ela expõe as contradições do existente apenas para desprezá-las como algo pertencente à massa. p. p. que destrói o já destruído e repudia o já repudiado”4. Fondo de Cultura Económica. Cf. 689-91. para si.Crítica da filosofia do direito de Hegel escon­ de por detrás dessa aparência. o mundo da prática sensível. 13 . Das Philosophische Manifest. A crítica não opõe ao mundo uma racionalidade exterior a ele. como “o espírito novo que se libera das velhas formas. Sem a intervenção da crítica filosófica. o tornar-se consciente. ao hegelianismo da posição marxiana incorpora-se o sentido ativo. não são mais “dignas nem capazes de acolhê-lo”. que se compraz em si mesma”5. essência que se manifesta. 1. v.. essa noção aparece contraposta tanto ao dogmatismo especulativo de Hegel quanto ao “erro dogmático oposto” da “crítica vulgar”. de modo dualístico. isto é. por um lado. o “espírito novo” fica preso às “velhas formas” e assiste-se à “putrefação do mundo de seu tempo. mas é. que luta contra seu objeto. Esta não é concebida por Marx como contraposição ao existente de uma moralidade subjetiva a priori. Quando trata da constituição. do 4 5 6 Karl Marx. na Crítica da filosofia do direito de Hegel e nas Cartas publicadas nos Anais Franco-Alemães (1844). ela “destrói o já destruído”.. Por outro lado. Ela é “crítica dogmática. É. graças ao próprio desenvolvimento desse espírito. cit.. em 1843 que Marx imprime à noção de “crítica filosófica” seus traços decisivos. 193. Identifica-se aqui. Karl Marx. termo com o qual Marx refere o grupo berlinense dos Livres 6. isto é. pretensiosa. se o “espírito novo” se libera das “velhas formas”. da filosofia de Kant. no plano histórico. Ibidem. A crítica vulgar assume diante da realidade empírica uma atitude arrogante. do trabalho do negativo que impulsiona o processo histórico para a realização de sua racionalidade intrínseca. Se a crítica destrói. prático-crítico. que já não eram dignas nem capazes de acolhê-lo” ou como “o sentimento próprio da nova vida. o noumenon kantiano é entendido como Espírito.” e “encontra contradições por toda parte”. 1987). cujos principais representantes eram Bruno Bauer e Max Stirner.. no entanto. No lugar da abstrata ideia da razão. Na Crítica. ao mundo humano. Escritos de juventud (México. sobre o qual paira a imaculada esfera puramente teorética do Espírito. ela mesma. a crítica vulgar “chama a atenção para a oposição entre os poderes etc. como desenvolvimento histórico da razão em seu conceito. uma leitura hegeliana da filosofia prática de Kant.

10 14 . Ibidem. o mesmo lugar central no discurso marxiano. p. É sabido que. para Marx. p. na Carta a Ruge de setembro de 1843. ao contrário. 108. e com ânimo redobrado. o dogma da santíssima trindade era eliminado por meio da contradição entre um e três”. Escreve Marx a Ruge: “Todo nosso objetivo consiste apenas em que. seja esta sob forma religiosa ou política”8. Marx an Ruge. desde fins de 1841. assim. 22. 488. as questões religiosas e políticas sejam trazidas à sua forma humana autoconsciente”9. März 1842. Tal contribuição. 5. Já a “crítica verdadeiramente filosófica da atual constituição do Estado”. o campo prático da política. MEGA2. Sua tarefa é a “reforma da consciência. II Municiado com as armas da crítica. p. I/2. como veremos adiante. está no reconhecimento da influência do pensamento de Feuerbach. Vê-se. III/1. “descreve seu ato de nascimento”7. que deveria 7 8 9 Karl Marx. 1982. é entendida como crítica ontogenética. Marx afirma que a “filosofia crítica” deve atuar em dois campos: o teórico (religião.Apresentação mesmo modo como. especialmente à sua teoria do Estado. restrito ao campo teórico da religião e da ciência. tal como na crítica da religião em Feuerbach. tal como nos textos anteriormente citados. Ein Briefwechsel Von 1843. mas mediante a análise da consciência mística. Em março de 1842. “mostra a gênese interna da santíssima trindade no cérebro humano”. MEGA2. não por meio de dogmas. obscura para si mesma. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Marx estava preparado para seu acerto de contas com a filosofia hegeliana do direito. ciência) e o prático (política). compromete-se a enviar para Ruge uma contribuição cujo núcleo seria “o combate contra a monarquia constitucional como uma coisa híbrida e completamente contraditória e superada”10. que em fevereiro de 1843 publicara as Teses provisórias para a reforma da filosofia. que compreende a “gênese” e a “necessidade” de suas contradições “em seu significado específico”. que o tema da “autoconsciência” continua a ocupar. O legado de Feuerbach será decisivo na crítica de Marx aos fundamentos da filosofia hegeliana. O diferencial. Tratava-se. ele começara a trabalhar em um artigo voltado à filosofia de Hegel. aqui. de estender o alcance da crítica para além dos limites do pensamento feuerbachiano. Logo em seguida. antigamente. A crítica devia explorar.

Além disso. então. A progressiva radicalização da crítica marxiana. Jornal diário publicado em Colônia. Abril Cultural. o direito consuetudinário da classe pobre. em 1859. pela sobrecarga de trabalho de Marx como colaborador e. p. contra o pretenso direito consuetudinário dos ricos. 1965). a partir de outubro de 1842. retirar-se da “cena pública” para seu “gabinete de estudos”. a indústria e o comércio]. de julho de 1841 a janeiro de 1843. em Kreuznach. como redator-chefe da Gazeta Renana13. acabou por gerar também uma insatisfação de Marx com os fundamentos de sua crítica à filosofia hegeliana do direito. Em vez de degradar-se ao nível dos interesses privados. segundo suas próprias palavras. 12 13 14 15 . visível nos artigos da Gazeta Renana escritos a partir de outubro de 1842. proibida de recolher a lenha seca caída das árvores. em Zurique. ao próprio Estado. Marx decide.Crítica da filosofia do direito de Hegel aparecer nos Anais alemães11 ou nas Anekdota12. Em defesa da população pobre. o que se justifica. onde. Revista publicada por Arnold Ruge. no Prefácio à Crítica da economia política: “Em 1842-43. me vi pela primeira vez em apuros por ter de tomar parte na discussão acerca dos chamados interesses mate­ riais”. o levou ao enfren­ ta­ mento de problemas cuja solução exigia um estudo mais aprofundado das relações materiais existentes. ou seja. Para a crítica da economia política (São Paulo. Anekdota zur neuesten deutschen Philosophie und Publicistik [Anedotas sobre as mais recentes filosofia e jornalismo alemães]. de janeiro de 1842 a março de 1843. cujos costumes enraízam-se na universalidade da natureza humana. Como ele mesmo relata. nunca foi entregue para publicação. Handel und Gewerbe [Gazeta Renana para a política. Karl Marx. 134-5. calcado na propriedade privada. sendo redator da Gazeta Renana. Marx afirma. em fevereiro de 1843. o Estado submete a universalidade 11 Deutsche Jahrbücher für Wissenschaft und Kunst [Anais alemães para a ciência e a arte]. publicados na Gazeta Renana em outubro e novembro de 1842. o Estado deve submeter esses interesses ao interesse comum. então. em Dresden. em parte. sabe-se que essa mesma atividade como jornalista. Com a lei punitiva do roubo de lenha. Revista semanal publicada por Arnold Ruge. Rheinische Zeitung für Politik. Um bom exemplo dessa discussão sobre os “interesses materiais” em que Marx fora chamado a participar encontra-se nos artigos Debates sobre a lei punitiva do roubo de lenha. Marx argumenta contra o rebaixamento da universalidade do Estado e do direito à particularidade da propriedade privada. “o primeiro trabalho que empreendi para resolver a dúvida que me assediava foi uma revisão crítica da filosofia do direito de Hegel”14. motivada pela luta prático-política.

nos seguintes termos: Minha investigação chegou ao resultado de que tanto as relações jurídicas como as formas de Estado não podem ser compreendidas por si mesmas. “articulação consciente” etc. Ao mesmo tempo em que se distanciava do pensamento hegeliano pela afirmação do direito da classe pobre contra o privilégio da propriedade privada feudal. é que a pobreza. aqui. essa contradição era superada no acolhimento. na filosofia hegeliana. mas apenas conquista uma universalidade abstrata. com todas as suas consequências. A pobreza. na própria sociedade civil. legal. de problema originário. reconhecer no “costume da classe pobre” o “instintivo sentido de direito” que. a “existência da classe pobre”) partindo-se do Estado como ideia de “organismo”. nem pela chamada evolução geral do espírito humano. A pobreza aparece como um problema de ordem política – a exclusão de uma classe em relação à articulação consciente do Estado –. Nesses termos. pelo Estado. na forma do direito consue­ tudinário. Debatten über das Holzdiebstahlsgesetz. MEGA2. Em segundo lugar. mesmo que engenhosa. nas 15 Karl Marx. p. ao contrário. A sociedade civil não se realiza como universal concreto pela superação. O que a ruptura com a concepção hegeliana do Estado representará para o desenvolvimento do pensamento de Marx será expresso. estatal. mostrava-se mais como uma “acomodação” do que como uma resolução efetiva para a contradição entre Estado e sociedade civil. tendo recebido apenas uma forma política. da positividade e da legitimidade dos costumes dos pobres. elevaria esta classe à efetiva participação no Estado15. Ao que tudo indica. da particularidade da propriedade privada. quando deveria. mas sim assentam. em seu seio. 1975. em sua realidade so­ cial. sua forma acabada. permanece intocada. 209. passa a ser explicada por uma derivação. pelo contrário. a insuficiência de uma resolução desse feitio para a contradição entre Estado e sociedade civil não escapou ao rigor teórico de Marx à época. como ausência de uma qualidade política. Marx acabava por reproduzir. e como consequência necessária. permanecendo dominada.Apresentação do direito ao “mero costume” da sociedade burguesa. a argumentação marxiana. Primeiramente. por ele mesmo. pelo Estado. 16 . O problema. a exigir uma solução igualmente política – o reconhecimento jurídico. I/1. do direito consuetudinário da classe pobre como direito positivo. o pressuposto da supremacia ontológica do Estado em relação à sociedade civil. genuinamente social. pressuposto este que acompanhou todo o pensamento político ocidental até alcançar. pela particularidade dos interesses. havia o problema de se entender a realidade social (no caso presente.

título mais provável do manuscrito segundo os editores. onde. a transição de sua fase juvenil para a fase adulta17. ao que tudo indica. Deutsch-Französische Jahrbücher [Anais Franco-Alemães]. como “Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel”. seguindo o precedente dos ingleses e franceses do século XVIII. aqui. um divisor de águas na obra marxiana. casou-se com Jenny von Westphalen. Periódico cujo único volume foi publicado em Paris. Desse confronto com Hegel restou um manuscrito de 157 páginas em que Marx transcreve e comenta parte dos Princípios da filosofia do direito. 18 19 17 . do fim da terceira seção. vale dizer. Marx trabalhou em sua “revisão crítica” da filosofia do direito de Hegel e dedicou-se. uma Introdução. na edição da MEGA1. Para a crítica da economia política. dirigida por Riazanov. em 1927. cit. Em sua primeira publicação. as referências à Crítica adotaram títulos diversos. iniciava com o § 257 da obra hegeliana. de modo que o manuscrito da Crítica. Marx se estabeleceu em Kreuznach. “Crítica de 1843”. perderam-se as quatro primeiras páginas. que se estende até o § 360. Nesse breve interlúdio. bem antes. Do texto original. que. periódico em que Marx comprometera-se a atuar como colaborador e coeditor. ele aparece com o título “Da crítica da filosofia do direito de Hegel: crítica do direito público hegeliano (§§ 261-313)”. Ensaio. 16 17 Karl Marx. Adotamos. na manhã de 19 de junho de 1843. em fevereiro de 1844. p. tal como o conhecemos. considerando-se a designação da obra à qual Marx dedicará. III Após seu desligamento da Gazeta Renana. Além disso. sob o nome de “sociedade civil”. “Manuscrito de Kreuznach” etc. dedicada ao Estado19. a consolidação dos pressupostos que continuarão a orientar a produção do seu pensamento até sua maturidade. o que alimentou incertezas e especulações sobre o verdadeiro título que Marx teria consagrado a essa obra. adotou-se “Para a crítica da filosofia do direito de Hegel”.. de 1982. e que a anatomia da sociedade civil deve ser buscada na Economia Política. 135. foram perdidas a folha de rosto e a capa do manuscrito. No Brasil. “Crítica de Kreuznach”. enquanto aguardavam notícias de Ruge sobre a data e o local da publicação dos Anais Franco-Alemães18. começa com a transcrição e o comentário do § 261 e é interrompido por Marx no § 313. assim. assim como em outros países. 1994). que serviu como original para a presente tradução. a periodização da obra de Marx proposta por José Chasin em Marx: estatuto ontológico e resolução metodológica (São Paulo. 350.16 A Crítica da filosofia do direito de Hegel significará. Já na edição da MEGA2. p. balneário nas proximidades de Trier.Crítica da filosofia do direito de Hegel condições materiais de vida cujo conjunto Hegel resume. ainda. ao estudo da história da Revolução Francesa e de clássicos da filosofia política. Os dois permaneceram em Kreuznach até outubro. logo em seguida. concentrando-se quase exclusivamente nos parágrafos de sua terceira seção.

“a força motriz”. pelas circunstâncias. que constitui o primeiro objeto da crítica de Marx. a crítica à especulação dará lugar à crítica da concepção hegeliana do Estado e de seu modelo prussiano. Crítica. o determinante torna-se o determinado. “não é racional devido à sua própria razão. independente do próprio fato. o procedimento marxiano procura compreender a “gênese” e a “necessidade” das contradições existentes. Os “sujeitos reais”. como em sua finitude”.. Este. sejam elas contradições do Estado prussiano. são convertidas em sua “manifestação. Como “crítica verdadeiramente filosófica”. 31.. os “pressupostos” do Estado. As contradições e insuficiências da filosofia de Hegel são explicadas a partir de seu próprio fundamento. do Estado moderno ou da filosofia hegeliana do direito. fenômeno”. mas sim porque o fato empírico. a apontar as contradições ou denunciar as “acomodações” de Hegel. A crítica marxiana não se limita. p. Nos limites de uma breve apresentação à obra. a “conditio sine qua non”. No § 262. dos pressupostos ontológicos da especulação hegeliana. a divisão de sua matéria “no singular. no entanto. possui um outro significado diferente dele mesmo”. no entanto. 18 . pelo arbítrio e pela escolha própria de sua determinação”. a começar pela crítica da especulação. A especulação hegeliana inverte a relação de sujeito e predicado: “a condição torna-se o condicionado. a família e a sociedade civil. é apreendido como “resultado místico”20. isto é. Em um segundo momento. o Espírito. que se divide ele mesmo nas duas esferas ideais de seu conceito. Hegel se refere ao Estado como a “Ideia real. em sua existência empírica.. não podemos ir além de conduzir o leitor por alguns de seus temas fundamentais. diz Marx. que Marx fará acompanhar de uma importante argumentação em defesa da democracia. “elas são produzidas pela Ideia real”. recebe uma forma lógica. racional. tampouco se ocupa em contrapor ao Estado prussiano um modelo político acabado.Apresentação O tema fundamental da crítica de Marx à filosofia política de Hegel é o da separação e oposição modernas entre Estado e sociedade civil e a tentativa hegeliana de conciliar esses extremos na esfera do Estado. O “fato” de que o Estado “se produz a partir da multidão. Família e sociedade civil são. tal como ela existe na forma dos membros da família e dos membros da sociedade civil” é enunciado como “um ato da Ideia”. o produtor é posto como o produto de seu produto”. concebido segundo o modelo da monarquia constitucional prussiana. Na especulação. segundo Marx. família e so- 20 Karl Marx.

Um bom exemplo desse tipo de interpretação com viés metodológico é a obra de Schlomo Avineri. como o leitor poderá perceber. ao passo que este é elevado à posição de sujeito. por outro a Ideia real subjetivada “tem como sua existência não uma realidade desenvolvida a partir dela mesma. 30. Em Hegel. A inversão determinativa entre sujeito e predicado é. comum”21. 60 ss. Cambridge University Press. mas a empiria ordinária. rebaixa-se à ‘finitude’ da família e da sociedade civil. finitas. foi frequentemente desviada pelos intérpretes. a forma inteiramente abstrata de determinação aparece como o conteúdo concreto”24. mas como uma outra realidade”. o conteúdo concreto e a ideia abstrata ou. 38. cf. Ele não faz mais do que conferir ao real uma “mediação aparente”. A Ideia é feita sujeito.Crítica da filosofia do direito de Hegel ciedade civil. a “empiria ordinária”. p. são convertidos em predicados do Estado. 1998). No entanto. mas apenas sua “significação”. The Social and Political Thought of Karl Marx (Cambridge. p. aparece como formal. seu “modo de expressão”22. Essa influência. por Ibidem. que reduziram a herança feuerbachiana de Marx à simples e prosaica adoção de um determinado “método”. família e sociedade civil são produzidas pela ideia de Estado. se por um lado a realidade. não privilegia o ato metodológico de inverter sujeitos e predicados. suas determinações concretas. Ora. No mesmo sentido. a inversão operada por Hegel não altera em nada a matéria. com a consequente desontologização da realidade empírica. deixando-o intocado em seu conteúdo. o ser e o pensar. poder-se-ia dizer. Ela “se degrada. A democracia contra o Estado: Marx e o momento maquiaveliano (Belo Horizonte. para. a crítica de Marx aos fundamentos da filosofia hegeliana sofreu uma grande influência do pensamento de Feuerbach. a determinação real. Crítica. que consistiria em transformar o sujeito em predicado e vice-versa23. um produto da Ideia”. o texto de Marx. p. de um resultado.. 21 22 23 24 19 . portanto. a inversão ontológica entre a determinação real e a determinação ideal. Karl Marx. O verdadeiro sujeito torna-se predicado do predicado: “o conteúdo concreto. 1971). a partir de si mesma. Miguel Abensour. a realidade empírica. Editora UFMG. 10-7.. Ou seja.. mas concentra-se na crítica dos pressupostos ontológicos que produzem essa inversão. na medida em que a ela é conferido o poder de engendrar. no entanto. Como referimos anteriormente. é explicada “não como ela mesma. p. O que Marx denuncia como o “mistério” da especulação hegeliana é a ontologização da Ideia. engendradas por ela. Ibidem. “a significação de uma determinação da Ideia.

ao arrepio de seus próprios princípios. O mais interessante é que. Ao que Feuerbach responde. o predicado finito do sujeito infinito. no fato de que a lógica hegeliana. à pergunta ontológica fundamental: “quem é o ser”. isto é. suas categorias podem encontrar correspondência na realidade empírica. “Teses provisórias para a reforma da filosofia” em Princípios da filosofia do futuro (Lisboa.. p. A insuficiência de Hegel.Apresentação meio da suprassunção destas. acidental e arbitrária. O ser finito nada mais é. produzir e gozar sua infinitude”25..). nesse caso. A pergunta lógica “quem é o sujeito” remete. nas Teses provisórias para a reforma da filosofia (1842): “Em Hegel. é tornada uma esfera autônoma. dotado de uma lógica específica a ser reproduzida pela ideação. O problema. mas sim na falsidade da determinação ontológica em que o método está assentado. não reside no “uso” incorreto da lógica e na necessidade de sua retificação. ao contrário. s.] A verdadeira relação entre pensamento e ser é apenas esta: o ser é o sujeito. é o sensível”27. cit. A correspondência das categorias com o real é. ou enquanto real.. de acordo com essa concepção. no entanto. Dizia Feuerbach. encontra-se justamente na transformação da lógica em algo passível de “uso”. do que o momento objetivo da Ideia infinita. o pensamento o predicado”26. é o real enquanto objeto dos sentidos. tratava-se justamente de afirmar o ser finito como o ser verdadeiro. a crítica de Marx não trata diretamente da lógica hegeliana. sem que. Feuerbach não centra sua crítica à especulação hegeliana na denúncia de um erro de método. Edições 70. Já para Marx. Princípios da filosofia do futuro. essa realidade seja expressa em seu “ser específico”. de modo inequívoco: “O real na sua realidade efetiva. Ludwig Feuerbach. O pensamento é transformado em sujeito do mesmo modo que Deus o é na teologia: pela atribuição de ser à ideia abstrata e de abstração ao ser concreto. – o pensamento é o sujeito. o pensamento é o ser . Do mesmo modo. 31. de acordo com Marx. portanto. sob influência de Feuerbach. Ludwig Feuerbach. o verdadeiro sujeito. 27 20 . seu estatuto ontológico. p. d. como escreve Marx ao tratar da dedução do poder governamental a partir da categoria da subsunção do singular e do particular sob o universal: 25 26 Ibidem. para ele. 71. carente de “necessidade”. o ser é o predicado.[. separada e ontologicamente anterior ao seu objeto. mas se concentra em seus fundamentos. 30-1. p. uma tal lógica pode funcionar corretamente.

Crítica. de subsunção”. A partir de agora. subsunção etc. Para Marx.. caberá ao próprio real a tarefa de guiar com segurança o pensamento rumo a sua realização. a constituição. Hegel dá à sua lógica um corpo político. o poder constituído. que se encontra nas bases do Estado moderno. quer dizer. dentre outras. mas um modo de determinar “a maneira racional. o Estado político. ele não dá a lógica do corpo político. e vice-versa. é a realização da vontade livre. um critério que dê a cada categoria lógica uma necessidade ontológica. p. o Estado realiza o seu conceito quando suprassume os estágios abstratos da família e da socie28 Karl Marx. sua “vontade genérica”. Nessa revolução copernicana às avessas... em verdade. e reconduzido à sua posição originária como verdadeiro sujeito. representa a separação do povo em relação à sua própria essência. A alienação política tem lugar no momento em que o povo. O povo.Crítica da filosofia do direito de Hegel De um lado: a categoria “subsunção” do particular etc. Essa oposição. dos pés à cabeça). ainda que com esta última seu ser específico não seja expresso. o poder constituinte. também. libertado de sua redução especulativa a simples “manifestação” da Ideia lógica. IV O segundo momento da crítica marxiana trata fundamentalmente do tema da alienação política. Ele é o “todo”. Estado político e Estado não político. escondese em Hegel sob o véu da especulação. O que era o todo passa à posição de parte. e que. então. O povo é o “Estado real”. 21 . de subsunção. a base da constituição. adequada. dá-se a separação e a oposição entre Estado (constituição) e sociedade civil. perde seu estatuto fundante e as posições são invertidas. se desenvolvido no interior do próprio pensamento. um tal critério. em busca de seu equilíbrio. racional. O Estado. não uma boa lógica. para ele. que se vê então hipostasiado na esfera política. uma existência empírica qualquer do Estado prussiano ou moderno (tal como ele é. A matemática aplicada é. é privado de seu conteúdo genérico. passará a girar em torno dos objetos. realiza também esta categoria. a constituição é a “parte”. produz apenas tautologias. Na Filosofia do direito. Ele toma. 67. Para Marx. Com isso.28 Falta a Hegel. Ele se agarra apenas a uma única categoria e se satisfaz em encontrar para ela uma existência correspondente. é a Ideia que. adequada. antes o “Estado real”. Assim. ao se submeter à sua própria obra. Ela deve ser realizada. razão pela qual ele deve ser buscado na realidade empírica. o centro de gravidade da lógica é deslocado para fora de seu eixo. Hegel não se pergunta se esta é a maneira racional.

. Por isso. no poder governamental.. em cada um dos seus três poderes. matéria amorfa destinada a receber uma forma 29 30 31 32 Georg Wilhelm Friedrich Hegel. exigiria fazer do homem o “princípio da constituição”. isto é. Esse dualismo deixa-se entrever por toda a monarquia constitucional de Hegel: no poder soberano.. A constituição. Na especulação hegeliana. realiza a ideia de Estado como unidade dos opostos. como uma corporação contra a sociedade civil (§§ 287-297). em seguida como deslocamento desse conflito para o particular (governo e estamentos) e. no entanto. na absurda mediação operada pela câmara alta. esses dois sentidos da constituição são confundidos: embora afirme tratar da constituição como um universal. Em Hegel. o todo”32. ela deve ser essa própria vontade geral.. a participação no Estado transformada em privilégio. 76. como particular. § 27. 22 . formada pelos senhores do morgadio (§§ 298-313).. Hegel a desenvolve. conjunto de determinações fundamentais da vontade racional. como a burocracia. Segundo Marx. Karl Marx. um “mixtum compositum”. um “tratado entre poderes essencialmente heterogêneos”30. o próprio todo. 76. convertido em uma parte da constituição. o povo. por fim. uma tal concepção. e o fim racional do homem é a vida no Estado. a constituição é entendida não como um código particular de leis positivas mas como produto do espírito de um povo. A constituição é uma “oposição de extremos reais”. Ibidem. encontra-se impedido de “modificar a constituição mesma. a “vontade livre que quer a vontade livre”29.. no entanto. O Estado é a vontade livre tornada autoconsciente. p. Como universal. cit. A constituição. no poder legislativo. Crítica. em verdade. encarnação exclusiva da personalidade do Estado. Para Marx.. como em Montesquieu. Grundlinien. p. que teria “em si mesma a determinação e o princípio de avançar com a consciência”31. para ser consequente. Como Estado não político. como um particular. p. momento da vontade geral. o povo é destituído de sua essência genérica e reduzido a uma multidão atomística. a constituição não passa de “uma acomodação entre o Estado político e o Estado não político”. inicialmente como conflito entre singularidade empírica (príncipe) e universalidade empírica (sociedade civil). Ibidem. 40. como a pessoa do monarca.Apresentação dade civil e alcança sua unidade como universal concreto. deve ser apenas “parte” do todo. os “muitos Unos” que compõem o povo (§§ 275-286). em abstração da pluralidade das “pessoas”.

a pergunta significa apenas: tem o povo o direito de se dar uma nova constituição? O que de imediato tem de ser respondido afirmativamente. O poder executivo deixa de ser uma “parte” submetida à vontade geral e passa a confrontá-la como um poder independente. A solução do problema segue. deva ter o direito de modificar a constituição mesma. o traçado rousseauniano. entre a lei e a execução”. o próprio Estado é apenas uma autodeterminação e um conteúdo particular do povo. a constituição política. tão logo deixou de ser expressão real da vontade popular. assim como em todo Estado diferente do democrático. 77. a primeira “colisão não resolvida” no conceito de constituição. o povo não o faz como ele mesmo. p. uma parte da constituição. 23 . a vontade geral não aliena seu poder no Estado político. a colisão entre “a constituição inteira e o poder legislativo”33.35 Esse será o sentido. igualmente. Já na democracia. p. Ibidem. Essa é. como o conflito do “povo en miniature” do poder legislativo com o poder governamental. Se o poder legislativo perde sua universalidade e passa a ser “parte” do todo. tem a significação do universal que domina e determina todo o particular”36. Na monarquia. na medida em que a constituição. ao contrário. a lei. A segunda colisão. no interior desse Estado. pensada em contraposição à defesa hegeliana da soberania do monarca. “é aquela entre o poder legislativo e o poder governamental. como dêmos inteiro. Assim. na medida em que esse conteúdo é constituição política”37. “este fato particular. o conflito do povo com o Estado político reproduz-se. ao mesmo tempo em que a vontade geral se vê rebaixada à condição de um poder particular do Estado. Ibidem. não se converte em um 33 34 35 36 37 Ibidem. miniaturizada no elemento político-estamental. consequência direta da primeira. na Crítica. para Marx. Na democracia. 76. tornou-se uma ilusão prática. o todo”34. 51. do desenvolvimento da ideia de democracia. Quando integra o Estado. p. “a constituição. Ibidem. A crítica de Marx à alienação política guarda um vínculo profundo com o pensamento de Rousseau. Ibidem. então é “impossível para a lei enunciar que um desses poderes. Escreve Marx: Corretamente posta. mas como sociedade civil. como um poder particular ao lado de outros poderes.Crítica da filosofia do direito de Hegel política do Estado.

Apresentação

conteúdo particular exterior ao Estado. Nela, “o Estado, como particular, é apenas par­ ticular, como universal é o universal real, ou seja, não é uma determi­ ni­ dade em contraste com os outros conteúdos”38. A democracia é dita, por isso, a “verdade”, o “gênero”, o “enigma resolvido de todas as constituições”. É preciso, porém, distinguir, na argumentação marxiana, os dois níveis em que o termo democracia é empregado: como “gênero” (a “verdadeira democracia”) e como “espécie” (a “república política”). A “verdadeira democracia” é um princípio político, não um Estado existente. Ela significa a realização plena do Estado como universal concreto, a verdadeira superação da oposição entre Estado político e sociedade civil. Na verdadeira democracia, diz Marx, “o Estado político desaparece”, assim como também desaparece o Estado não político, isto é, a sociedade civil39. Com o termo “república política”, Marx se refere à democracia no interior do “Estado abstrato”, à democracia existente, ainda não plenamente realizada. Nesse Estado, embora a constituição ainda seja política, ela não é mais “simplesmente política”, o que significa que o conteúdo genérico, político, já começa a penetrar as esferas não políticas. No interior do Estado abstrato, a questão da alienação política se coloca sob a forma da oposição entre constituição estamental e constituição representativa. Contra a representação dos estamentos, Marx defende a eleição ilimitada, a “máxima generalização possível da eleição”40. Uma vez mais, faz-se inevitável a comparação com Rousseau: a vontade de todos, dominada pela particularidade dos interesses, torna-se vontade geral pela “soma das diferenças” desses interesses. A vontade geral só erra quando enganada. Ela não pode querer o mal para si mesma, mas pode apenas confundir um bem aparente (um bem particular) com o bem verdadeiro (o bem geral). A garantia contra esse “engano” é a participação, no Estado, de cada um como cidadão, ou “que não haja sociedade parcial no Estado e que cada cidadão opine apenas a partir de si mesmo”41. Mesmo sob o predomínio do particular, a vontade geral nunca deixa de existir, razão pela qual ela deve sempre ser consultada. Por isso, afirma Marx, a questão prático-política fundamental é a participação, no poder legislativo, não de “todos singularmente”, mas dos “singulares como todos”42; não de todos
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Ibidem, p. 51. Ibidem, p. 50, 51. Ibidem, p. 134. Jean-Jacques Rousseau, Le contrat social (Paris, Garnier Frères, s. d.), p. 252. [Ed. bras.: O contrato social, 4a ed., São Paulo, Martins Fontes, 1999.] Karl Marx, Crítica..., p. 131.

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Crítica da filosofia do direito de Hegel

como simples justaposição de indivíduos atomizados, mas como “soma das diferenças”, isto é, como processo de formação da vontade geral, para além dos interesses particulares que a habitam. A defesa hegeliana da constituição estamental assenta, por sua vez, na concepção do povo como uma “massa” que “não sabe o que quer”, uma “multidão e uma turba” dotada de “uma opinião e um querer inorgânicos”, opostos ao Estado. Povo e Estado formam, em Hegel, extremos de um silogismo, cujo termo médio é composto pelos estamentos. Segundo Marx, no entanto, em vez da solução da contradição, os estamentos representam a própria contradição no interior do Estado político. No comentário aos §§ 302-304, Marx denuncia as insuficiências do sistema hegeliano das mediações 43. Em primeiro lugar, Hegel comete um paralogismo ao identificar o significado dos estamentos na sociedade civil com o significado que os estamentos recebem na esfera política. Ele transforma em “relação reflexiva” algo que, de acordo com Marx, é “relação de abstração”. Os estamentos políticos não são o “outro”, o “reflexo” dos estamentos privados. Eles são, antes, a abstração desses estamentos, a sociedade civil “posta como não existente”44. Sendo assim, o elemento político-estamental não significa a suprassunção da diferença dos estamentos civis, a mediação da contradição, mas apenas a anulação dessa diferença e seu enquadramento em uma forma política extemporânea, uma reminiscência medieval. Em segundo lugar, o sistema de mediações de Hegel, concebido segundo o modelo triádico do silogismo dialético, procura, em vão, ocultar uma oposição irreconciliável entre Estado e sociedade civil. Estes, para Marx, são extremos reais, que “não podem ser mediados um pelo outro, precisamente porque são extremos reais”45. Não há, entre eles, relação reflexiva, pois são extremos que “não têm nada em comum entre si, não demandam um ao outro, não se completam”46. Aqui, certamente sob influência de Feuerbach, Marx opõe à categoria de “reflexão” outra categoria da lógica hegeliana: a categoria da “autodeterminação do sujeito”47. A sociedade civil, como Estado real, deve realizar em si mesma sua determinação “genérica”, em vez de receber do Estado político uma “determinação alegórica”. Pelo poder legislativo democrático, a qualidade política do homem – a representação da função
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Para uma análise da crítica marxiana aos silogismos de Hegel, cf. Solange Mercier-Josa, Entre Hegel et Marx (Paris, L’Harmattan, 1999), p. 27-73. Karl Marx, Crítica..., p. 95. Ibidem, p. 105. Ibidem. Solange Mercier-Josa, Entre Hegel et Marx, cit., p. 38.

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Apresentação

de cada um como parte do gênero – deixa de aparecer como uma realidade separada de sua qualidade social, o mesmo podendo ser dito em direção inversa: a qualidade social do homem mostra, na representação democrática, seu caráter político, quer dizer, seu caráter genérico. Diferentemente dos outros Estados, a democracia não cria uma existência política para a existência privada do homem, mas apenas restitui a essa existência a essência genérica ou a essência política que lhe é própria. Na confluência dos pensamentos de Rousseau e de Feuerbach, a “verdadeira democracia” supera o plano da representação política na representação genérica. Nela, cada homem, conclui Marx, “representa simplesmente o gênero”. Ele “é, aqui, representante não por meio de uma outra coisa, que ele representa, mas por aquilo que ele é e faz”48. A Crítica da filosofia do direito de Hegel é a obra de um democrata radical. Significava esse primeiro esboço ao mesmo tempo o acabamento da crítica de Marx à política? V A tarefa de submeter a filosofia hegeliana do direito à “crítica filosófica” cumprira-se com sucesso. A construção da monarquia constitucional como universal concreto fora abalada em seus fundamentos e, ao mesmo tempo, desenvolvida, em sua verdade, como “verdadeira democracia”. Mais importante de tudo, o esforço de Marx em Kreuznach rendera-lhe a preciosa noção de “autodeterminação da sociedade civil”. Subsistia, no entanto, uma grave insuficiência: a contradição entre Estado e sociedade civil permanecia nos quadros de um problema de ordem política, uma deficiência localizada no terreno da “vontade”. Imediatamente após a Crítica, nos Anais Franco-Alemães, Marx tratará de superar essa posição. A gênese da alienação política será detectada no seio da sociedade civil, nas relações materiais fundadas na propriedade privada. Consequentemente, não se tratará mais de buscar uma resolução política para além da esfera do Estado abstrato, mas sim uma resolução social para além da esfera abstrata da política. Na Crítica, Marx encontrou seu objeto. Faltava desvendar sua “anatomia”.
Sete Lagoas, abril de 2005

Rubens Enderle

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Karl Marx, Crítica..., p. 134.

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B. organizado por Eduard Gans. as em negrito são destaques – muitas vezes irônicos. 1. v.) 2 3 27 .E.Crítica da filosofia do direito de Hegel [CRÍTICA DA FILOSOFIA DO DIREITO DE HEGEL (§§ 261-313)] A – O direito público interno § 261. W.E. na medida em que tais indiví­ duos têm deveres perante ele assim como.) Em alguns casos – bem poucos e especiais – será apresentado o original alemão entre parênteses.E. têm direitos. em todo caso importantes. (N. bem como seus interesses. o Estado é. Sobre os destaques: nas citações de Hegel. ao mesmo tempo. a cuja natureza as leis daquelas esferas. 8. em face das esferas da família e da sociedade civil. (N. é o Estado seu fim imanente e tem sua força na unidade de seu fim último geral e no interesse particular dos indivíduos. uma “necessidade externa”. em parte em sua “relação consciente” para com o Estado. Em face das esferas do direito privado e do bem privado. Auflage. as palavras em itálico foram destacadas pelo próprio Hegel. 1833). encontram-se subordinados e da qual são dependentes. determinada mais de perto. uma potência à qual “leis” e “interesses” são “subordinados” e da qual são “dependentes”. Hegel.) Marx muitas vezes faz uso irônico do itálico para destacar tanto o que Hegel diz quanto os pontos altos de sua própria argumentação. Mas o que Hegel entende por “dependência” mostra-se na seguinte frase da nota a esse parágrafo: 1 Marx cita Hegel a partir da seguinte edição: G. porém.1 O parágrafo precedente nos ensina que a liberdade concreta2 consiste na identidade (normativa. em face da família e da sociedade civil. uma “necessidade externa”. F. De um lado. Berlin. da família e da sociedade civil. Werke (Vollständige Ausgabe. o Estado é. dúplice (sein sollende. Que o Estado seja.B.B. Nos manuscritos marxianos elas aparecem sublinhadas. isso já se encontrava em parte na categoria da “transição”. A relação dessas esferas será. (N. de um lado. de outro lado. agora. uma necessidade externa e sua potência superior. A “subordinação” ao Estado ainda corresponde plenamente a essa relação da “necessidade externa”. zwieschlächtige 3)) do sistema de interesses particulares (da família e da sociedade civil) com o sistema do interesse geral (do Estado). quase sempre antecipando um ponto a ser debatido mais tarde ou opondo dois conceitos ou duas noções de maneira dialética – do próprio Marx.

que aquelas são subordinadas a este. De um lado. (Assim. Hegel fala aqui.Karl Marx Que a ideia da dependência. Na “subordinação” e na “dependência”. mas também suas “leis”. Eles vivem na “dependência” do Estado. Hegel estabelece. já o havia visualizado [. Que “as leis do direito privado” dependem “do caráter determinado do Estado”. em que família e sociedade civil se comportam em relação ao Estado como seu “fim imanente”. que elas se modificam segundo ele.) Essa identidade torna-se explícita na nota ao parágrafo: 28 . da família e da sociedade civil” com o Estado. Tais “interesses” e “leis” apresentam-se como seus “subordinados”. à outra relação. que sua existência é dependente da existência do Estado. necessidade externa. aqui. ao mesmo tempo. de colisões empíricas. Ele se relaciona com seus interesses e leis como “potência superior”. é o Estado seu fim imanente e tem sua força na unidade de seu fim último geral com os interesses particulares dos indivíduos. a “necessidade externa”. Hegel continuou a desenvolver o lado da identidade discrepante. em caso de colisão. suas determinações essenciais são “dependentes” do Estado e a ele “subordinadas”. para cuja expressão lógica Hegel utiliza. de outro. e a concepção filosófica de que a parte deve ser considerada somente em relação com o todo. aqui. particularmente das leis do direito privado. da dependência interna ou da determinação (Bestimmung) essencial do direito privado etc. que restringem e se contrapõem à essência autônoma. por exemplo. Por “necessidade externa” pode-se somente entender que “leis” e “interesses” da família e da sociedade civil devem ceder. é a relação da “família” e da “sociedade civil” com o Estado aquela da “necessidade externa”. é algo que está subsumido na relação da “necessidade externa”. de outro lado. A unidade do fim último geral do Estado e dos interesses particulares dos indivíduos deve consistir em que seus deveres para com o Estado e seus direitos em relação a ele sejam idênticos. como o outro lado. pelo Estado. fim imanente. o lado da alienação no interior da unidade.] principalmente Montesquieu etc. ou também que a vontade e as leis do Estado aparecem à sua “vontade” e às suas “leis” como uma necessidade. autônomo e pleno desenvolvimento. quer dizer. Precisamente porque “subor­ dinação” e “dependência” são relações externas. mas. precisamente porque “sociedade civil e família”. em relação ao caráter determinado do Estado. uma antinomia sem solução. Mas Hegel não fala. o dever de respeitar a propriedade coincide com o direito sobre ela.. ele fala da relação das “esferas do direito privado e do bem privado. de uma necessidade que vai contra a essência interna da coisa. corretamente. ele subsume essa dependência na relação da “necessidade externa” e a contrapõe. Não apenas seus “interesses”. às “leis” e “interesses” do Estado. são pressupostas ao Estado como “esferas” particulares. portanto. forçada e aparente. na medida em que tais indivíduos têm deveres perante ele assim como têm direitos. porém. “Subordinação” e “dependência” são as expressões para uma identidade “externa”. em seu verdadeiro. trata-se da relação essencial dessas próprias esferas..

essa mediação real são tão somente a manifestação de uma mediação que a Ideia real executa nela mesma e que se passa por detrás das cortinas. que se divide ele mesmo nas duas esferas ideais de seu conceito. Esse fato. primeiramente. A empiria ordinária não tem como lei o seu próprio espírito. os indivíduos como a multidão. O Estado. a existência em geral dessa substancialidade e. como manifestação. a matéria de sua realidade. real) é. a partir da idealidade delas. a família e a sociedade civil. apresentada como se ela agisse segundo um princípio determinado. no singular. a família e a sociedade civil são as “circunstâncias. esse arbítrio. nessas esferas. o arbítrio e a escolha própria da determinação”. a relação perante algo para mim substancial. assim. “para ser. divididos em lados ou pessoas distintos. mediada pelas circunstâncias. É o Estado que nelas se divide. ambos aparecem. por conseguinte. mas um 29 . Se traduzirmos essa frase em prosa. A Ideia real. e ele o faz. Essas circunstâncias. para”. mediante um desígnio determinado. Ela se divide em esferas finitas e o faz “para a si retornar. portanto. a partir da idealidade delas. O Estado provém delas de um modo inconsciente e arbitrário. teremos: O que serve de mediação para a relação entre o Estado. o lado de sua particularidade e de minha liberdade particular. em que participam do Estado como tal. em esferas. como interpenetração da substancialidade e do particular. pelo contrário. pelo arbítrio e pela escolha própria de sua determinação. Aqui aparece claramente o misticismo lógico. a existência de minha liberdade particular. como sua finitude. ela o faz de um modo que é precisamente como é na realidade. essa divisão aparece mediada pelas circunstâncias. nos níveis formais. Essa argumentação é notável em dois sentidos: 1) Família e sociedade civil são apreendidas como esferas conceituais do Estado e. Sob a matéria do Estado estão as funções do Estado. A realidade não é expressa como ela mesma. por conseguinte. Família e sociedade civil aparecem como o escuro fundo natural donde se acende a luz do Estado. essa escolha da determinação. § 262. “no singular. essa relação real é expressa. portanto. Ele “divide. de maneira que. Espírito real e infinito para si”. quer dizer. para ser. apareça mediada”. a matéria dessa sua realidade. panteísta. como fato da eticidade (Sittlichkeit). o que as pressupõe. de maneira que essa divisão etc. A relação real é: “que a divisão” da matéria do Estado é. com a divisão da matéria do Estado em família e sociedade civil. ao mesmo tempo. pelo arbítrio e pela escolha própria de sua determinação”. como as esferas de sua finitude. divide. para ser para si”. na medida em que elas formam partes do Estado. família e sociedade civil. Espírito real e infinito para si. como em sua finitude. com isso. o Espírito. bem entendido. A assim denominada “Ideia real” (o Espírito como infinito. A razão do Estado nada tem a ver. mas sim como uma outra realidade.Crítica da filosofia do direito de Hegel Uma vez que o dever é. no Estado dever e direito estão unidos em uma e na mesma ligação. “Ele se divide. e o direito é. fenômeno. com efeito. pela especulação. algo em si e para si geral. em verdade. estabelece que minha obrigação perante a substancialidade é.

como a finitude própria da “Ideia real”. não é dado como tal para o racional. família e sociedade civil são partes reais do Estado. elas são os elementos propriamente ativos. a si mesmas. se a Ideia é subjetivada. elas são. de um resultado. Elas são a força motriz. família e sociedade civil. convertemse em momentos objetivos da Ideia. A diferença não reside no conteúdo. o Espírito. A finalidade de sua existência não é essa existência mesma. que se divide ele mesmo nas duas esferas ideais de seu conceito. para ele. Não é seu próprio curso de vida que as une ao Estado. elas são modos de existência do Estado. pelo arbítrio e pela escolha própria de sua determinação”. necessária.A.) 30 . O interesse da parte esotérica é sempre o de novamente achar. recebe a significação de uma determinação da Ideia. Estado. Os cidadãos do Estado (Staatsbürger) são membros da família e membros da sociedade civil. família e sociedade civil se fazem. a Ideia real tem como sua existência não uma realidade desenvolvida a partir dela mesma. “circunstâncias.E. mas no modo de tratamento ou no modo de expressão. não autodeterminações. pelas circunstâncias. como em sua finitude” (portanto: a divisão do Estado em família e sociedade civil é ideal. Mas é na parte exotérica que o desenvolvimento verdadeiro prossegue. quer dizer. por isso. o legítimo em si e para si. a matéria do Estado é dividida “pelas circunstâncias. as sentenças de Hegel significam apenas que: A família e a sociedade civil são partes do Estado. Mas a condição torna-se o condicionado. existências espirituais reais da vontade. conditio sine qua non 4. “A Ideia real. com efeito. A divisão da matéria do Estado “no singular. isso se inverte. os sujeitos reais. a história do Conceito lógico. a família e a sociedade civil. tudo isso não é simplesmente expresso como o verídico. mas é o curso de vida da Ideia que as discerniu de si. porém. no Estado. pertence à essência do Estado. mas a Ideia segrega de si esses pressupostos “para ser. espírito real e infinito para si”.Karl Marx espírito estranho e. elas são determinações postas por um terceiro. ao mesmo tempo. o determinante 4 “condição absolutamente necessária”. a partir da idealidade delas. na especulação. arbítrio” etc. o necessário. No entanto. em que é deixado tal como é. A Ideia é subjetivada e a relação real da família e da sociedade civil com o Estado é apreendida como sua atividade interna imaginária. elas são produzidas pela Ideia real. mas. ao contrário. um produto da Ideia. Segundo Hegel. pelo arbítrio e pela escolha própria da determinação”. mas. Racionalmente. isto é. e. elas devem a sua existência a um outro espírito que não é o delas próprio. irreais e com um outro significado. por outro lado. ao contrário. mas a empiria ordinária. o é apenas na medida em que se dá para uma mediação aparente. O conteúdo permanece na parte exotérica. Família e sociedade civil são os pressupostos do Estado. elas são a finitude dessa Ideia. Nelas. o Estado político não pode ser sem a base natural da família e a base artificial da sociedade civil. são também determinadas como “finitude”. uma esotérica e outra exotérica. comum. (N. Trata-se de uma dupla história.

porém. A especulação enuncia esse fato como um ato da Ideia. com isso. por conseguinte (para alcançar sua finalidade). em sua existência empírica. na medida em que contêm. possui um outro significado diferente dele mesmo. 31 . enunciada como racional. bem como da confiança e da disposição (Gesinnung) dos indivíduos em relação a ele e aos pilares fundamentais da liberdade pública. também. isto é. o extremo da singularidade que sabe e quer para si e o extremo da universalidade que sabe e quer o substancial e que. O fato é que o Estado se produz a partir da multidão. imediatamente o primeiro extremo e. a “sua realidade finita”. ela divide. a matéria dessa sua realidade finita (dessa qual? Essas esferas são. rebaixa-se à “finitude” da família e da sociedade civil. em parte. de modo que a união da liberdade e da necessidade venha a existir em si. como uma “distribuição” que a Ideia leva a cabo com sua própria matéria. Os indivíduos da multidão. mas como resultado místico. porém. Nessas esferas. pelas circunstâncias. § 264. como a potência do racional na necessidade. o outro. portanto. o discurso era apenas o da divisão dos singulares nas esferas da família e da sociedade civil). nelas mesmas. eles mesmos. A Ideia real só se degrada. quer dizer. Também não possui a Ideia outra finalidade a não ser a finalidade lógica: “ser espírito real para si infinito”. como as instituições anteriormente tratadas. nas quais seus momentos. senão como o ato de uma ideia subjetiva e do próprio fato diferenciada). tal como ela existe na forma dos membros da família e dos membros da sociedade civil. no singular (antes. ela não é racional devido à sua própria razão. a Ideia não tem outro conteúdo a não ser esse fenômeno. não é apreen­ dido como tal. mas sim porque o fato empírico. aparece mediada”. só podem chegar ao direito na medida em que sejam reais como pessoas privadas e. em parte. A realidade empírica é. quer dizer. visto que nelas a liberdade particular se realiza e se racionaliza. em cada esfera. Essas instituições fazem. sua “matéria”?). a constituição. o dúplice momento. ao mesmo tempo.Crítica da filosofia do direito de Hegel torna-se o determinado. por meio da suprassunção destas. ela é. como pessoas substanciais – atingem. saído da existência empírica. § 265. em parte. por isso. por isso. o Espírito é como sua universalidade objetiva que nelas se manifesta. O real torna-se fenômeno. possuem sua realidade imediata e refletida. tomada tal como é. pelo arbítrio etc. § 263. a racionalidade desenvolvida e realizada e são. erigem um ofício e uma atividade na corporação voltados a um fim geral. os “indivíduos como a multidão” (“os indivíduos. a multidão” são aqui matéria do Estado. “de maneira que essa divisão. para. em particular. O fato. a base firme do Estado. de fato. Nesse parágrafo. encontra-se resumido todo o mistério da filosofia do direito e da filosofia hegeliana em geral. não como a ideia da multidão. o produtor é posto como o produto de seu produto. “deles provém o Estado”. essa sua procedência se expressa como um ato da Ideia. de maneira que têm a sua autoconsciência essencial nas instituições como o universal em si existente de seus interesses particulares e que. a singularidade e a particularidade. naturezas espirituais e. produzir e gozar sua infinitude). nessas esferas.

é o organismo do Estado.E. assim como da “disposição política”. o patriotismo.B.) 32 . por isso. Trata-se apenas de encontrar. pura aparência. como a alma desse reino que é para si real e que possui uma existência particular. o predicado é a disposição política e a constituição política. mas como “sua idealidade”. faz o predicado. existir como ciência. o Estado propriamente político e sua constituição. objeto e fim.Karl Marx § 266.E. A passagem da família e da sociedade civil ao Estado político consiste.A. além do destaque em negrito. A mesma passagem é feita. A pura idealidade de uma esfera real só poderia. mas como a idealidade dessa necessidade e como sua interioridade. real em si. (N. O desenvolvimento lógico da família e da sociedade civil ao Estado é. uma vez que a alma da família existe para si como amor etc. que não tem nada em comum com o desenvolvimento lógico. essa universalidade substancial é. aqui. a “necessidade na idealidade”. e essa necessidade se encontra. a instituição da família e as instituições sociais como tais relacionam-se com a disposição política e com a constituição política e com elas coincidem. O sujeito é. quanto a sua interioridade. portanto. a “Ideia dentro de si mesma”. para ela mesma. aqui. portanto. contudo. que é em si o espírito do Estado. a disposição social. diferentemente daquela. como tal em relação a si mesmo e que ele seja. em usar parênteses críticos – o parêntese. portanto. A passagem não é. O parágrafo 268 contém uma bela exposição sobre a disposição política. não é de modo algum uma passagem. pois não se desenvolve como a disposição familiar.]. ela é. mas da relação universal entre necessidade e liberdade. é outra de suas estratégias crítico-argumentativas fundamentais – no meio das citações de Hegel. e da essência particular do Estado. as determinações abstratas correspondentes. “todavia”. igualmente na forma da liberdade. contudo. O importante é que Hegel. a disposição política e. (N.. faz da Ideia o sujeito e do sujeito propriamente dito. como objetiva. derivada da essência particular da família etc. assim. sempre do lado do predicado. A necessidade na idealidade é o desenvolvimento da Ideia dentro de si mesma. São sempre as mesmas categorias que animam ora essas. na lógica. Somente5 o Espírito é objetivo e real não apenas como essa (qual?)6 necessidade [. a 5 6 Em Hegel. ora aquelas esferas.. da natureza inorgânica à vida. se comporte agora. da esfera da Essência à esfera do Conceito. na filosofia da natureza. É exatamente a mesma passagem que se realiza. como substancialidade subjetiva. A passagem em que o Espírito é “não apenas como essa necessidade e como um reino da aparência”. para determinações singulares concretas. por toda parte. O desenvolvimento prossegue. § 267.) Marx não hesita. em que o espírito dessas esferas. também. Em linguagem clara: a disposição política é a substância subjetiva do Estado e a constituição política sua substância objetiva.

Além dessa inversão de sujeito e predicado. tratar. as distinções e sua realidade são postas como seu desenvolvimento. a determinação ideal destas. da ideia política. (N. O predicado é a sua determinação como orgânicos. cujo desenvolvimento no Estado é a constituição política. Não se trata. é. não sei ainda 7 Ao que tudo indica um erro de escrita de Marx. É um grande progresso tratar o Estado político como um organismo. ou o organismo do Estado é a constituição política. Mas como Hegel apresenta essa descoberta? “Esse organismo é o desenvolvimento da Ideia em suas distinções e em sua realidade objetiva. Esses lados distintos são. por outro lado. o sujeito. mas da Ideia abstrata no elemento político. ao mesmo tempo. por consequência. é pura tautologia. os diferentes lados da constituição. e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito. uma vez que a constituição política é determinada como organismo. a Ideia é feita sujeito. a nota a esse parágrafo. § 269. enquanto. a distinção dos poderes não mais como uma distinção anorgânica7. A constituição política é o organismo do Estado. tautologia. essas instituições são. portanto. produz-se aqui a aparência de que o discurso trata de outra ideia que não a do organismo. O pressuposto. que provavelmente quis escrever “mecânica” ou “inorgânica” (anorganische). pelo contrário. O verdadeiro pensamento é: o desenvolvimento do Estado ou da constituição política em distinções e em sua realidade é um desenvolvimento orgânico. a Ideia deve ser desenvolvida a partir das distinções reais. se engendra de modo necessário e. A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado. conserva a si mesmo.) 33 . são as distinções reais ou os diferentes lados da constituição política. na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção. – esse organismo é a constituição política. enquanto. relacionem-se como determinações orgânicas e se encontrem em uma relação racional recíproca. Esse organismo é o desenvolvimento da Ideia em suas distinções e em sua realidade objetiva. uma objetivação da disposição política. igualmente. se mantém.E. a constituição política) é o desenvolvimento da Ideia em suas distinções etc. Que os diferentes lados de um organismo se encontrem em uma coesão necessária e oriunda da natureza do organismo.A. Em vez disso.Crítica da filosofia do direito de Hegel não ser que Hegel a determina “somente” como “resultado das instituições existentes no Estado. nas quais a racionalidade existe realmente”. Mas aqui se fala da Ideia como de um sujeito. como seu resultado. da Ideia que se desenvolve em suas distinções. Que. assim. Quando eu digo: “Esse organismo (organismo do Estado. Parte-se da Ideia abstrata. Cf. O orgânico é justamente a ideia das distinções. os diferentes poderes.” Isso não significa: esse organismo do Estado é seu desenvolvimento em distinções e em sua realidade objetiva.”. os diferentes poderes. mas como uma distinção viva e racional. por meio dos quais o universal continuamente. suas funções e suas atividades.

com suas “funções e atividade”. visto que não são determinações apreendidas em sua essência específica. diz o seguinte: A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado. seja o do Estado. Deve-se. reencontrar “a Ideia”. e os sujeitos reais. 1) A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado. para uma peculiaridade estilística de Hegel. de modo que há apenas a aparência de um conhecimento real. perguntar: “Como assim?”. e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito. se engendra de modo necessário e. se engendra de modo necessário e. e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito. O único interesse é. – esse organismo é a constituição política. pois esses sujeitos reais permanecem incompreendidos. portanto. Que os “diferentes lados do organismo do Estado” sejam os “diferentes poderes”. os “lados distintos” são determinados como os “diferentes poderes”.” Por meio da pequena palavra “assim”. Mas uma explicação que não dá a differentia specifica não é uma explicação. assim. cria-se a aparência de uma consequência. se mantém. é produzida a aparência de que esses “diferentes poderes” 34 . de uma derivação. Esse organismo é o desenvolvimento da Ideia em suas distinções e em sua realidade objetiva. de um desenvolvimento.. conserva a si mesmo. Vê-se como Hegel une as determinações ulteriores em dois sujeitos. é um fato empírico. aqui.. Em que se diferencia. com a mesma verdade. os diferentes poderes. os diferentes poderes. Esses lados distintos são. Na terceira frase. Esse organismo é o desenvolvimento da Ideia em suas distinções e em sua realidade objetiva. nos “diferentes lados do organismo” e no “organismo”. os diferentes poderes. Esses lados distintos são. na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção. a mesma sentença pode ser dita. convertem-se em seus simples nomes. pura e simplesmente. que eles sejam membros de um “organismo” é o “predicado” filosófico. por meio dos quais o universal continuamente. conserva a si mesmo. por meio dos quais o universal continuamente. a “Ideia lógica” em cada elemento... o organismo animal do organismo político? Tal distinção não resulta dessa determinação universal. Chamemos a atenção. suas funções e sua atividade. tanto do organismo animal quanto do organismo político. Intercalando-se a palavra “assim”. em seu conjunto. na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção. “Esses lados distintos são. antes. suas funções e atividades. O parágrafo. que se repete frequentemente e é um produto do misticismo. como aqui a “constituição política”.Karl Marx absolutamente nada sobre a ideia específica da constituição política. suas funções e suas atividades. – esse organismo é a constituição política. assim. se mantém. seja o da natureza. 2) A disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado.

Hegel não poderia ajuntar: “esse organismo”. ou em distinções por meio das quais “o universal” (o universal é. O que ele diz vale.. Ou. se engendra de modo necessário e. com isso.”. como lados “orgânicos”. de modo algum o resultado de um desenvolvimento anterior. À sentença: “a disposição toma seu conteúdo particularmente determinado dos diferentes lados do organismo do Estado”. Não se construiu. O que o autoriza. As frases: esse organismo é “o desenvolvimento da Ideia em suas distinções e na realidade objetiva destas”. portanto. simplesmente. dos “diferentes poderes”. Porém. como desenvolvimento da Ideia. a concluir que “esse organismo é a constituição política”? Por que não: “esse organismo é o sistema solar”? Porque ele determinou. ao falar das distinções da Ideia e ao intercalar.Crítica da filosofia do direito de Hegel são derivados. que são.”. para todo e qualquer organismo e não há nenhum predicado que justifique o sujeito “esse”. portanto. mas a partir do conceito pressuposto de “diferentes poderes”. 35 . Na frase inicial. produz-se a aparência de que se desenvolveu um conteúdo determinado. em seguida. porém. “da Ideia”. por meio disso. aqui. A frase: “os diferentes lados do Estado são os diferentes poderes” é uma verdade empírica e não pode se passar por uma descoberta filosófica. e tal ponte não pode ser construída nem na eternidade. Hegel não avançou. os “diferentes lados do Estado” como os “diferentes poderes”. o fato concreto dos “diferentes poderes”. Continua-se falando. A última é. em seguida. mas “o organismo é o desenvolvimento da Ideia etc. um passo sequer no conceito universal “da Ideia” e. A ponte para a “constituição política” não é construída a partir do “organismo”. pois isso já está presente na determinação desses poderes como “lados do organismo”. de “organismo do Estado”. avançou um pouco no conceito de “organismo” em geral (pois trata-se. se conserva. no mínimo. Tal frase não é. em seguida. da frase intermediária sobre o organismo. ainda. não é nada original. conserva a si mesmo” são frases idênticas. O verdadeiro resultado a que ele almeja chegar é à determinação do organismo como constituição política. o mesmo que a Ideia) “continuamente. nenhuma ponte pela qual se possa chegar à ideia determinada do organismo do Estado ou da constituição política a partir da Ideia universal de organismo. precisamente. essa determinação dos “diferentes poderes” não é senão uma paráfrase para dizer que o organismo é “o desenvolvimento da Ideia em suas distinções etc. ao determinar o organismo como o “desenvolvimento da Ideia”. na medida em que é igualmente pressuposto de sua produção. fala-se dos “diferentes lados do organismo do Estado”. simplesmente: “os diferentes poderes do organismo do Estado” ou o “organismo estatal dos diferentes poderes” é a “constituição política” do Estado. uma explicação mais aproximada do “desenvolvimento da Ideia em suas distinções”. se mantém. apenas dessa ideia determinada). determinados como os “diferentes poderes”. Diz-se. e aliás na medida em que esses poderes são determinados pela natureza do Conceito. A determinação de que o universal “se engendra” continuamente e. de suas “distinções” etc. no máximo. ademais. mais adiante.

isso é 1) sua realidade abstrata ou substancialidade.) 9 36 . graças àquela substancialidade. Santa Casa (em espanhol no original) era o nome da prisão da Inquisição. Hegel não faz senão dissolver a “constituição política” na abstrata Ideia universal de “organismo”. Sua sorte é. § 270. aparentemente e segundo sua própria opinião. age e atua segundo o conhecimento determinado que tem delas. nem tampouco demonstrada criticamente. por haver passado pela forma da cultura. em Madri. do Estado. ele tenha desenvolvido o determinado a partir da “Ideia universal”. tal substancialidade é. por isso. que não é propriamente mais do que aparência. isso é 1) sua realidade abstrata ou substancialidade. Não se trata de desenvolver a ideia determinada da constituição política.E. do mesmo modo. determinados por sua “própria natureza”. Que o fim do Estado seja o interesse universal como tal e que. antes. no caso presente. e. Que o fim do Estado seja o interesse universal como tal e que. (N. como algo pensado. que são. a necessidade não é extraída de sua própria essência. Ele transformou em um produto. sobre a relação entre Estado e Igreja. em Deus-pai.A.B. segundo fins sabidos. determinante e diferenciador. e o sabe em sua universalidade. mas por uma natureza estranha. ele não desenvolve seu pensamento a partir do objeto. mas desenvolve o objeto segundo um pensamento previamente concebido na esfera abstrata da lógica. por isso. poderes. seja a conservação dos interesses particulares como substância destes últimos. 3) porém. encerrada nos registros sagrados da Santa Casa8 (da Lógica). é o agens9. por isso. O “Conceito” é o filho na “Ideia”. precisamente. Os diferentes poderes não são. mas para a consciência. o universal os “engendra de modo necessário”. nisso. portanto. Outra determinação é a de que os “diferentes poderes” são “determinados pela natureza do Conceito” e que. em um predicado da Ideia. do drama Don Carlos. nisso. predestinada pela “natureza do Conceito”. será vista mais adiante. O Estado sabe. determinações estáveis e reais. ele age e atua.E. abstrações autônomas. predestinada antes de seu corpo. (N. embora. o que é seu sujeito. sabe-se e quer a si mesmo. aqui. enquanto ela se divide nas distinções conceituais de sua atividade.) A aplicação dessas categorias lógicas merece um exame todo especial. o espírito que. de dispô-la como um membro de sua biografia (da Ideia): uma clara mistificação. do mesmo modo. cena 10. Do mesmo modo. “Ideia” e “Conceito” são.Karl Marx Na verdade. na medida em que suas ações se atêm às circunstâncias e relações existentes. de Friedrich von Schiller. (A nota a esse parágrafo. 8 Marx faz referência ao ato V. seja a conservação dos interesses particulares como substância destes últimos. o que quer. A alma dos objetos. princípios conhecidos e segundo leis que não são somente em si. está pronta. mas de dar à constituição política uma relação com a Ideia abstrata. mas esta última é 2) sua necessidade.) “princípio ativo”.

determinações estáveis. o que quer. tenho que tratá-lo. o espírito que. enquanto ela se divide nas distinções conceituais de sua atividade. da distinção realizada. que são. A realidade abstrata do Estado. Compreende-se: a primeira determinação de sua realidade era abstrata. do mesmo modo. apenas uma determinação completamente universal desse objeto. cuja distinção é ra­ cionalmente determinada e que são. é o elemento da existência para o Estado. É esse o objeto essencial de sua vontade. Esse fim. tal substancialidade é. temos: 1) O espírito que se sabe e se quer é a substância do Estado (o espírito cultivado. do mesmo modo. ele age e atua. 3) Porém. a sua substancialidade. poderes. na medida em que o fim do Estado e a existência do todo só se realizam na existência dos poderes distintos do Estado. na medida em que suas ações se atêm às circunstâncias e relações existentes. 37 . ao mesmo tempo. O Estado sabe. a Substância aparece dividida em realidades ou atividades autônomas. sua existência. e o sabe em sua universalidade.Crítica da filosofia do direito de Hegel Que o interesse universal como tal e como existência dos interesses particulares seja o fim do Estado – isso é sua realidade. que são. Ela (a realidade abstrata. poderes. abstratamente definida. da “necessidade”. por haver passado pela forma da cultura. age e atua segundo o conhecimento determinado que tem delas. por conseguinte. quer dizer. ele deve ser tratado como atividade. como uma atividade distinta. princípios conhecidos e segundo leis que não são somente em si. a substancialidade) é 2) sua necessidade. graças àquela substancialidade. graças àquela substancialidade. Sua realidade abstrata ou substancialidade é sua necessidade. determinações estáveis e reais. precisamente. mas. a natureza estatal do espírito que se sabe e se quer. O Estado não é real sem este fim. segundo fins sabidos. Traduzindo-se esse parágrafo para nossa língua. determinações estáveis e reais. é necessidade. é o sujeito e o fundamento. por isso. Eu poderia empregar essas abstrações a toda e qualquer realidade. sob o esquema da “realidade concreta”. autoconsciente. Na medida em que. com isso. é a autonomia do Estado). mas para a consciência. enquanto ela se divide nas distinções conceituais de sua atividade. 2) O interesse universal e a conservação dos interesses particulares nele é o fim universal e o conteúdo desse espírito. sabe-se e quer a si mesmo. em seguida. O Estado não pode ser tratado como realidade simples. enquanto sua realidade se divide em atividades distintas. como algo pensado. porém essen­ cialmente determinadas. na condição de ser. e. eu trato o Estado sob o esquema da realidade “abstrata”. A relação de substancialidade é relação de necessidade. Mas esta última (a realidade abstrata. primeiro. a substância existente do Estado. a substancialidade) é sua necessidade (do Estado). do mesmo modo.

as categorias lógicas abstratas. como uma potência articulada. mas a lógica. mas. graças àquela substancialidade. visto que são apresentados como “modos de existência” da “Substância” e aparecem como algo separado de sua existência real. mas sim como determinações lógico-metafísicas em sua forma mais abstrata. O verdadeiro ponto de partida. sua existência real ou material. d) o conteúdo concreto. a forma inteiramente abstrata de determinação aparece como o conteúdo concreto. A essência das determinações do Estado não consiste em que possam ser consideradas como determinações do Estado. aparece apenas como último predicado da substan­ cialidade. embora 1) “ela”. por fim: “Tal substancialidade é. b) Por fim. O “fim do Estado” e os “poderes do Estado” são mistificados. transformada em sujeito. o “fim universal” seria seu conteúdo e os diferentes poderes seriam seu modo de se realizar. do “espírito cultivado”. Caso se tivesse partido do espírito real. atinge a realização desse conteúdo abstrato apenas como uma atividade distinta. sem o qual o “fim do Estado” e os “poderes do Estado” seriam ficções inconsistentes. por haver passado pela forma da cultura. é a substancialidade”. depois de ter sido determinada 1) como o fim universal do Estado e. como “sua” substancialidade. ela é. cuja determinidade teria sido desenvolvida precisamente a partir da natureza de seu fim. porém. isto é. portanto. como a existência de diferentes poderes. Sobre essa exposição hegeliana. O verdadeiro interesse não é a filosofia do direito. c) A substancialidade. há que se chamar a atenção: a) São transformados em sujeitos: a realidade abstrata. seja sua “necessidade”. determinações estáveis e reais. porque se partiu da “Ideia” ou da “Substância” como sujeito. 3) A “substancialidade” não é mais tomada como uma determinação abstrata do Estado. então. “a realidade abstrata” ou “substancialidade”.”. já anteriormente determinada como fim universal e como os diferentes poderes do Estado. o espírito cultivado e autoconsciente. como tal. o espírito que se sabe e se quer. precisamente. do Estado. como essência real. pois diz-se. portanto. a necessidade (ou a distinção substancial). No entanto. vazias de essência. mas em que as 38 .Karl Marx 3) O espírito que se sabe e se quer. o sujeito real aparece apenas como o último predicado do predicado abstrato. 2) ela é que “se divide nas distinções conceituais de sua atividade”. a substancialidade. do “espírito que se sabe e se quer”. Com efeito. sabe-se e quer a si mesmo”. o espírito que. a determinação real. também não se diz: “o espírito cultivado etc. “do mesmo modo. poderes”. 2) como os poderes distintos. O trabalho filosófico não consiste em que o pensamento se concretize nas determinações políticas. a “realidade abstrata” e a “necessidade” são designadas como “sua” realidade e necessidade. As “distinções do Conceito” são. aparece como formal. é determinada como 3) o espírito real cultivado que se sabe e se quer. predicado de seu predicado. ou até mesmo existências impossíveis. ao contrário: “a substancialidade é o espírito cultivado etc. O espírito torna-se.

Crítica da filosofia do direito de Hegel

determinações políticas existentes se volatilizem no pensamento abstrato. O momento filosófico não é a lógica da coisa, mas a coisa da lógica. A lógica não serve à demonstração do Estado, mas o Estado serve à demonstração da lógica. 1) O interesse universal e, nele, a conservação dos interesses particulares como fim do Estado, 2) os diferentes poderes como realização desse fim do Estado, 3) o espírito cultivado e autoconsciente, que quer e age, como o sujeito do fim e de sua realização. Essas determinações concretas são compreendidas exteriormente, como hors-d’oeuvre10; seu sentido filosófico é que o Estado tem nelas o sentido lógico: 1) como realidade abstrata ou substancialidade; 2) que a relação de substancialidade se converte na relação da necessidade, da realidade substancial; 3) que a realidade substancial é, em verdade, Conceito, subjetividade. Omitindo as determinações concretas, que poderiam, igualmente, ser bem confundidas com determinações concretas de uma outra esfera, como, por exemplo, a da Física, e que são, portanto, inessenciais, temos, diante de nós, um capítulo da lógica. A Substância deve “dividir-se nas distinções conceituais, que são, do mesmo modo, graças àquela substancialidade, determinações estáveis e reais”. Essa frase, a essencial, pertence à lógica e já se encontra pronta e acabada antes da filosofia do direito. Que essas distinções do Conceito sejam, aqui, distinções “de sua atividade (do Estado)” e que sejam “determinações estáveis”, “poderes” do Estado, tal parêntese pertence à filosofia do direito, à empiria política. Toda a filosofia do direito é, portanto, apenas um parêntese da lógica. O parêntese é, como por si mesmo se compreende, apenas hors-d’oeuvre do desenvolvimento propriamente dito. Cf., por exemplo, p. 347. [§ 270, Adendo]:
A necessidade consiste em que o todo seja dividido nas distinções do Conceito e em que essa divisão forneça uma determinidade (Bestimmtheit) estável e durável, que não é fixa, mas que sempre se reproduz na dissolução.

Cf. também a Lógica.
§ 271. A constituição política é, em primeiro lugar: a organização do Estado e o processo de sua vida orgânica em relação a si mesmo, na qual ele diferencia seus momentos em seu seio e os desdobra em existência. Em segundo lugar, ele é, como uma individualidade, uma unidade exclusiva que se relaciona com outros, dirige sua distinção, portanto, para o exterior e estabelece dentro de si mesmo, segundo essa determinação, em sua idealidade, as suas distinções existentes. Adendo: O Estado interno como tal é o poder civil, sendo a direção para o exterior o poder militar, que é, contudo, no Estado, um lado nele mesmo determinado.
10

“coisa secundária”. (N.E.A.)

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Karl Marx

I) A constituição interna para si
§ 272. A constituição é racional na medida em que o Estado diferencia e determina a sua atividade segundo a natureza do Conceito, de tal modo que cada um desses poderes seja, em si mesmo, a totalidade, e que tenha e contenha dentro de si, ativos, os outros momentos e que estes, uma vez que exprimem a diferença do Conceito, permaneçam simplesmente em sua idealidade e constituam apenas Um todo individual.

A constituição é, portanto, racional, na medida em que seus momentos podem ser dissolvidos em momentos lógico-abstratos. O Estado diferencia e determina sua atividade não segundo sua natureza específica, mas segundo a natureza do conceito, móbil mistificado do pensamento abstrato. A razão da constituição é, portanto, a lógica abstrata, e não o conceito do Estado. Em lugar do conceito da constituição, obtemos a constituição do Conceito. O pensamento não se orienta pela natureza do Estado, mas sim o Estado por um pensamento pronto.
§ 273. O Estado político se divide, assim (como assim?), nestas distinções substanciais: a) o poder de determinar e estabelecer o universal, o poder legislativo; b) a subsunção das esferas particulares e dos casos singulares sob o universal – o poder governamental; c) a subjetividade como a última decisão do querer, o poder soberano – no qual os diferentes poderes estão reunidos em uma unidade individual, que é, portanto, o cume e o início do todo – a monarquia constitucional.

Voltaremos a esta divisão após examinarmos detalhadamente sua exposição.
§ 274. Como o Espírito é somente enquanto real, enquanto é aquilo que ele sabe de si, e o Estado, como espírito de um povo, é ao mesmo tempo a lei que perpassa todas as suas relações, a moral e a consciência de seus indivíduos, a constituição de um determinado povo depende, em geral, do modo e formação da autoconsciência desse povo; nesta autoconsciência reside sua liberdade subjetiva e, com isso, a realidade da constituição... Cada povo tem, assim, a constituição que lhe cabe e que lhe é própria.

Do raciocínio de Hegel segue-se apenas que o Estado, em que o “modo e formação da autoconsciência” e a “constituição” se contradizem, não é um verdadeiro Estado. Que a constituição, que era o produto de uma consciência passada, possa se tornar um pesado entrave para uma consciência mais avançada etc. etc., são, por certo, apenas trivialidades. Disso deveria resultar, antes, a exigência de uma constituição que contivesse em si mesma a determinação e o princípio de avançar com a consciência; de avançar com o homem real, o que só é possível quando se eleva o “homem” a princípio da constituição. Hegel é, aqui, sofista.

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Crítica da filosofia do direito de Hegel

a) O poder soberano
§ 275. O poder soberano contém em si mesmo os três momentos da totalidade, a universalidade da constituição e das leis, a deliberação como relação do particular com o universal e o momento da decisão última como a autodeterminação à qual tudo o mais retorna e de onde toma o começo da realidade. Este absoluto autodeterminar-se constitui o princípio distintivo do poder soberano como tal, que é o primeiro a ser desenvolvido.

O início desse parágrafo significa apenas o seguinte: “A universalidade da constituição e das leis” é – o poder soberano; a deliberação ou a relação do particular com o universal é – o poder soberano. O poder soberano não se encontra fora da universalidade da constituição e das leis, desde que por poder soberano se entenda o poder do monarca (constitucional). Mas, em verdade, o que Hegel pretende demonstrar é apenas isto: a “universalidade da constituição e das leis” é o poder soberano, a soberania do Estado. É, portanto, incorreto fazer do poder soberano o sujeito e, uma vez que o poder soberano pode ser compreendido como o poder do príncipe, produzir a ilusão de que ele é o senhor desse momento, o seu sujeito. Antes, porém, vejamos o que Hegel entende por “princípio distintivo do poder soberano como tal”, a saber: “o momento da decisão última, como a autodeterminação à qual tudo o mais retorna e de onde toma o começo de sua realidade”, esta: “autodeterminação absoluta”. Hegel diz, aqui, apenas que: a vontade efetiva, isto é, individual, é o poder soberano. É o que afirma o § 12:
A vontade, ... dando-se a forma da singularidade, é decisiva e apenas como vontade decisiva ela é vontade efetiva.

Na medida em que esse momento da “decisão última” ou da “autodeterminação absoluta” é separado da “universalidade” do conteúdo e da particularidade da deliberação, ele é a vontade efetiva como arbítrio. Ou: “O arbítrio é o poder soberano” ou: “O poder soberano é o arbítrio”.
§ 276. A determinação fundamental do Estado político é a unidade substancial como idealidade de seus momentos, na qual: α) os poderes e as funções particulares do Estado são tanto dissolvidas quanto conservadas, e conservadas somente na medida em que não possuem uma legitimação independente, mas apenas uma legitimação tão abrangente quanto é determinado, na ideia do todo, que tais poderes e funções derivam da potência do todo e são seus membros fluidos, como seu Si-mesmo simples. Adendo: Nesta idealidade dos momentos, ocorre o mesmo que com a vida em um corpo orgânico.

Entenda-se: Hegel fala apenas da ideia “dos poderes e funções particulares”. Estes devem ter somente “uma legitimação tão abrangente quanto é determinado na ideia do todo” e devem apenas “derivar da potência do todo”. Que isso deva ser assim está implícito na ideia de organismo. Mas seria 41

o cruzamento acidental dos “poderes e funções” não pode-se fazer passar pelo racional. portanto. Esse disparate advém do fato de Hegel conceber as funções e atividades estatais abstratamente. – Em situação de paz. nem na vontade particular dos indivíduos. por isso. pelo qual uma tal esfera não é independente e autônoma em seus fins e modos de atuação e centrada apenas em si mesma. β) As funções e atividades particulares do Estado lhe são próprias como seus momentos essenciais. antes. o seu sangue. nesses fins e modos de atuação. o seu físico abstrato. mas é determinada. nem para si. e. o momento da idealidade das esferas e funções particulares. mas propriedade do Estado. portanto. seja a de um monarca seja a de um povo. vale como lei ou. ser propriedade privada. Isso é uma tautologia. Conduzidas e exercidas pelos indivíduos. § 277. estão unidas à sua personalidade particular como tal de uma maneira exterior e acidental. mas apenas por suas qualidades universais e objetivas e. a necessidade substancial meramente interna e. Esta dupla determinação – que as funções e poderes particulares do Estado não são independentes e estáveis. antes. É evidente que se as funções e atividades particulares são chamadas funções e atividades do Estado. por isso. com a expressão vaga de o bem do Estado). em lugar da lei. a situação da ausência de lei em que a vontade particular como tal. à sua qualidade estatal. Compreende-se. É. ao contrário. As funções e atividades do Estado estão vinculadas aos indivíduos (o Estado só é ativo por meio dos indivíduos). as esferas e funções particulares dão prosseguimento à 42 . pelo fim do todo (o que foi designado. para si. ao passo que a soberania. são considerados segundo suas qualidades sociais e não segundo suas qualidades privadas. em geral. Elas estão. Pois. no Estado. As funções e atividades estatais não podem. unidas ao indivíduo mediante um vinculum substantiale. mas sim a sua qualidade social. ridículo quando Hegel diz: elas estão “unidas à sua personalidade particular como tal de uma maneira exterior e acidental”. deve reinar a razão consciente. mas têm sua raiz última na unidade do Estado como seu Si-mesmo simples – constitui a soberania do Estado. em oposição à individualidade particular. mas não ao indivíduo como indivíduo físico e sim ao indivíduo do Estado. ele esquece que a essência da “personalidade particular” não é a sua barba. que os indivíduos. são apenas modos de existência e de atividade das qualidades sociais do homem. na medida em que estão investidos de funções e poderes estatais. meramente externa. função e poder estatais.Karl Marx preciso demonstrar como isso vem a se realizar. Essa idealidade aparece de uma dupla maneira. por isso. mas ele esquece que tanto a individualidade particular como as funções e atividades estatais são funções humanas. e que as funções estatais etc. em termos gerais. sendo dele dependente. por isso. constitui precisamente a situação legal e constitucional. O despotismo designa. Elas são a ação natural da sua qualidade essencial. por uma qualidade essencial do indivíduo. § 278. elas não são propriedade privada. elas não estão vinculadas a eles em razão de sua personalidade imediata.

aqui. racional. É essa a individualidade do Estado como tal. Por isso. Logo conheceremos sua outra realidade. 2) A soberania “existe somente como a autodeterminação abstrata. 1) A soberania. existe somente como subjetividade certa de si mesma e como autodeterminação abstrata. (e na constituição que atingiu a sua real racionalidade. autodeterminação esta na qual reside a decisão última. Por isso a soberania. por um lado.. 43 . inconsciente. na medida em que sua essência se expressa. pois se trata apenas da Ideia. que somente assim é Uno. primeiramente apenas o pensamento universal dessa idealidade. mas um indivíduo. por meio da “influên­ cia direta do alto”. e isso é. Ele aparece. Mas apenas como sujeito a subjetividade está em sua verdade. apenas como substância inconsciente. em cujo conceito simples conflui o organismo existente em suas particularidades e à qual é confiada a salvação do Estado com o sacrifício daquilo que seria legítimo. da vontade. o monarca. da vontade. por um lado. em situação de urgência. desenvolvido em um sistema consciente. Por isso..Crítica da filosofia do direito de Hegel satisfação de suas funções particulares. real para si. cada um dos três momentos do Conceito tem sua configuração separada. A soberania. esse momento absolutamente decisivo do todo não é a individualidade em geral. mas. A soberania existe. esse momento absolutamente decisivo do todo não é a individualidade em geral. sobre a vida privada.. cada um dos três momentos do Conceito tem sua configuração separada. como “situa­ ção de guerra e urgência” do Estado realmente existente. na constituição que atingiu a sua real racionalidade. real para si). Esse idealismo não é. o idealismo de Estado. apenas o modo da necessidade inconsciente da coisa. real para si. a personalidade apenas como pessoa e. mas um indivíduo. existe somente como a subjetividade certa de si mesma. na constituição que atingiu a sua real racionalidade. que somente assim é Uno . é a ação direta vinda do alto. primeiramente apenas o pensamento universal dessa idealidade. cada um dos três momentos do Conceito tem sua configuração separada. do egoísmo. em situação de paz ou somente como uma coação externa exercida sobre o poder dominante. Hegel se satisfaz com isso. Ele tem sua “realidade própria” apenas em “situação de guerra ou de urgência” do Estado. porém. quanto limitadas pela obrigação de contribuir diretamente para a sua conservação.. portanto. Mas apenas como sujeito a subjetividade está em sua verdade. seja ela interna ou externa. porque sem fundamento. existe somente como necessidade interna: como Ideia. ou como resultado cego. cega. É essa a individualidade do Estado como tal. a personalidade apenas como pessoa . § 279. autodeterminação esta na qual reside a decisão última. enquanto sua situa­ ção “pacífica” é precisamente a guerra e a urgência do egoísmo. portanto. pela qual elas são tanto reconduzidas continuamente ao fim do todo. por outro lado. impõe-se a soberania. segundo a qual seu egoísmo se transforma na contribuição à conservação recíproca e à conservação do todo. porque sem fundamento. situação na qual aquele idealismo chega à sua realidade própria. o monarca”.

então. como um momento da Substância mística. cuja triste existência acabamos de ver. Diz Hegel: “Mas apenas como sujeito a subjetividade está em sua verdade. A subjetividade é uma determinação do sujeito. e como é preciso haver um suporte para essa determinação. Se Hegel tivesse partido dos sujeitos reais como a base do Estado. Isto também é uma mistificação. ele não precisaria deixar o Estado subjetivar-se de uma maneira mística.. de forma mística. e. existe. A soberania . Mas. a personalidade uma determinação da pessoa. É essa a individualidade do Estado como tal. A Substância mística se torna sujeito real e o sujeito real aparece como um outro. em vez de partir do ente real (υποχειµενον. enquanto que a soberania não é outra coisa senão o espírito objetivado dos sujeitos do Estado. primeiramente. a soberania. Por 44 . a alma comum do Estado. do existente. da vontade. é apresentar o monarca como o homem-Deus real.. Mas consideremos. considerada como uma essência autônoma.. nem um sujeito singular a esfera da subjetividade. em lugar de ser a real autoconsciência dos cidadãos do Estado. é claro. é objetivada. sujeito. Hegel autonomiza os predicados e logo os transforma. um sujeito? Hegel não desenvolve mais a respeito nessa frase. na constituição que atingiu a sua real racionalidade. a Ideia mística se torna esse suporte. mas ele os autonomiza separados de sua autonomia real. sujeito). não considera o ente real como o verdadeiro sujeito do infinito. O que importa. Este é o dualismo: Hegel não considera o universal como a essência efetiva do realmente finito. porque sem fundamento.. em seus sujeitos. Assim. então. compreende-se. Em vez de concebê-las como predicados de seus sujeitos. a segunda frase... deveria ser a obra autoconsciente dos sujeitos e. Que idealismo de Estado seria este.Karl Marx A primeira frase significa apenas que o pensamento universal dessa idealidade. Posteriormente. o sujeito real aparece como resultado. como autodeterminação abstrata. é aqui. Depois. os objetos. o idealismo do Estado como pessoa. que. ao passo que se deve partir do sujeito real e considerar sua objetivação. existe somente . Fazendo abstração desse defeito fundamental da exposição. ainda. como a encarnação real da Ideia. o sujeito é a existência da subjetividade etc. Hegel autonomiza os predicados. Tal como se apresenta. de seu sujeito. do determinado. ligada à primeira. a essência do Estado. esse sujeito aparece como uma autoencarnação da soberania. cada um dos três momentos do Conceito tem sua configuração separada. a personalidade apenas como pessoa”. esse objeto deve se tornar novamente sujeito. ou. que somente assim é Uno . real para si. existir para eles e neles. Precisamente porque Hegel parte dos predicados. ela significa apenas que a soberania. autodeterminação esta na qual reside a decisão última. muitos sujeitos. A existência dos predicados é o sujeito: portanto. para Hegel. das determinações universais. pois nenhuma pessoa singular absorve em si a esfera da personalidade. seria uma pessoa. consideremos essa primeira frase do parágrafo. como muitas pessoas. isto é. como tal.

como a determinação real da parte por meio da ideia do todo. real para si”. A primeira frase é empírica. O que decorreria disso? O cidadão do Estado. arbitrária porque determinada. da vontade. ao determinar o universal. esse momento absolutamente decisivo do todo não é a individualidade em geral. mas do Estado. é legislador. é apenas a ideia do arbitrário. porque sem fundamento. tem uma “configuração separada. porém isto não é ainda Um indivíduo. da decisão da vontade. da sociedade. O discurso. Hegel transforma todos os atributos do monarca constitucional na Europa atual em autodeterminações absolutas da vontade. em suma. ao decidir o singular. Ele não diz: a vontade do monarca é a decisão última. 3) A soberania faz o que quer. como Hegel a desenvolve. o monarca”. autodeterminação esta na qual reside a decisão última”. a soberania. porque sem fundamento. real para si”? Já que não se trata. a individualidade é apenas o momento natural de sua unidade. “Por isso. pode-se. esse momento absolutamente decisivo do todo não é a individualidade em geral. autodeterminação esta na qual reside a decisão última. O Estado é Uno “não somente” nesta individualidade. de uma abstração. Como? Porque “cada um dos três momentos do Conceito” tem “na constituição que atingiu a sua real racionalidade a sua configuração separada. Um momento do Conceito é a “singularidade”. mas um indivíduo. enquanto Hegel concebe a soberania precisamente como idealismo de Estado. ao querer realmente. Todavia. da vontade. em que a universalidade.. A segunda distorce o fato empírico em um axioma metafísico. cada uma. Disso poderíamos concluir: “Estes indivíduos particulares são a legislação”. o monarca. fala agora da individualidade. mas a decisão última da vontade é. que antes falava da subjetividade. E que tipo de constituição seria essa. A ideia do poder soberano. O Estado como soberano deve ser Uno. a particularidade e a singularidade teriam.. 3) A soberania é a “autodeterminação abstrata. um indivíduo particular distinto de todos os outros? Também a universalidade. Já chamamos a atenção para esta frase: o momento da decisão. adotar a classificação de Hegel. em geral. real para si”. então. ele a transforma agora em “autodeterminação abstrata. deve possuir individualidade. a determinação natural do Estado. O homem comum: 2) O monarca tem o poder soberano. “sua configuração separada. é soberano.Crítica da filosofia do direito de Hegel isso. É essa a individualidade do Estado como tal”. o poder soberano da vontade. o que significaria: a individualidade da vontade do Estado é “um indivíduo”. Hegel confunde os dois sujeitos: a soberania “como a sua subjetividade autoconsciente” e a soberania “como a autodeterminação sem fundamento 45 . Hegel: 2) A soberania do Estado é o monarca. a legislação. Um indivíduo. o monarca. é. mas um indivíduo.

Hegel. com o fato de que a pessoa. que. desse modo. O desenvolvimento imanente de uma ciência. ela é novamente. não é à “peculiaridade da ciência” que o conceito fundamental da coisa sempre retorna. A personalidade abstrata era o sujeito do direito abstrato. a consciência corpórea do Estado. Primeiramente. ela não mudou. Mas quem pôde jamais duvidar que o Estado age por intermédio dos indivíduos? Se Hegel quisesse desenvolver: o Estado deve ter um indivíduo como representante de sua unidade individual. a dedução de todo seu conteúdo a partir do simples Conceito. Mas.) 46 . portanto. surpreender-se com o contrário. qualquer progresso. mostra a peculiaridade de que um único e mesmo conceito – aqui a vontade –.Karl Marx da vontade”. ao mesmo tempo. porque é o começo. é a personalidade do Estado. em seguida. ganha um conteúdo concreto. é abstrato. se conserva. Como resultado positivo desse parágrafo retemos apenas o que segue: O monarca é. aqui. como vontade individual. Hegel não deveria surpreender-se com o fato de que a pessoa real – e as pessoas fazem o Estado – reapareça em toda parte como a essência do Estado. 11 “soberania personificada”. do arbítrio. Ele deveria. da autodeterminação sem fundamento. a partir daí. a personalidade do Estado. construir a “Ideia” como “Um indivíduo”. sua certeza de si mesmo – esta última. O monarca é a “soberania personificada”. no direito absoluto. como personalidade abstrata. ele não deduziria o monarca. como pessoa do Estado. sua certeza de si mesmo”. como indivíduo. resolvendo-os por meio do: Eu quero e dando início a toda ação e realidade. da personalidade e da consciência do Estado. na objetividade da vontade plenamente concreta. Hegel não sabe dar a esta “Souveraineté Personne”11 nenhum outro conteúdo senão o “Eu quero”. define o monarca como “a personalidade do Estado. o momento da vontade individual. que devemos elucidá-la mais de perto. mas condensa suas determinações igualmente apenas por si mesmo e. Esse é o momento fundamental da personalidade primeiramente abstrata no direito imediato. que suprassume todas as particularidades em seu Si-mesmo simples. e ainda mais. todos os outros estão excluídos dessa soberania. por meio da qual. deve querer como unidade. antes.A. a “soberania feita homem”.E. para. A nota de Hegel a esse parágrafo é tão curiosa. momento que se aperfeiçoou mediante suas diferentes formas de subjetividade e que aqui. reapareça sob uma abstração tão pobre como a pessoa do direito privado. no Estado. Compreende-se que a subjetividade autoconsciente deve querer também realmente. Tampouco houve. interrompe a ponderação dos argumentos e contra-argumentos entre os quais se deixa oscilar para cá e para lá. no Estado. (N. inicialmente.

a exclusão de todas as outras. o monarca. sociedade.E. tem pura e simplesmente verdade. ela não chegou. mas esta razão personificada não tem nenhum conteúdo além da abstração do “Eu quero”. a personalidade e a subjetividade em geral. é dita abstrata. de fato. como as pessoas. e o sujeito apenas como Uno. L’état c’est moi12. e. sujeito que é para si mesmo. a essência. à verdade de sua existência. A pessoa moral. apenas como pessoa e sujeito. a “singularidade”. aí. Mas. mas o Estado é precisamente essa totalidade. Assim. O 12 13 “O Estado sou eu”. família. do mesmo modo: pelo fato de o homem singular ser um Uno. e o Conceito só é Ideia. Ao invés disso. O predicado. a personalidade do Estado só é real como uma pessoa. a pessoa contém simultanea­ mente a realidade deste último. na qual os momentos do Conceito alcançam a realidade segundo a sua verdade peculiar. por mais concreta que ela seja em si mesma. verdade. porque a subjetividade é real apenas como sujeito.E. Mas Hegel deveria acrescentar: o Uno tem verdade somente como muitos Unos. apenas como pessoa. A “razão de Estado” e a “consciência de Estado” são uma “única” pessoa empírica. jamais esgota as esferas da sua existência em um Uno. e o que é para si mesmo é igualmente pura e simplesmente Uno. comunidade. sem a pessoa. além disso. A personalidade exprime o Conceito como tal.) “como ela mesma”. Hegel poderia concluir. A personalidade. Em vez de reconhecer essa realização da pessoa como o que há de mais concreto. logo precisamente as formações genéricas nas quais a pessoa real traz seu conteúdo real à existência. É evidente que. mas a pessoa só é a ideia real da personalidade em sua existência genérica. portanto. com essa determinação. O que se denomina uma pessoa moral. (N. se objetiva e abandona a abstração da “pessoa quand même”13. e precisamente sua verdade imediata mais próxima. tem a personalidade apenas como momento.A. alcance uma “existência” mística. nela abstrato. a pessoa é Una. o Estado deve ter o privilégio de que nele “o momento do Conceito”.A. é certamente apenas uma abstração. a sociedade etc. Nesta frase reina uma grande confusão.Crítica da filosofia do direito de Hegel o momento do arbítrio na vontade. o gênero humano é apenas Um único homem. na medida em que a personalidade e a subjetividade são somente predicados da pessoa e do sujeito. Bela conclusão. Hegel conclui: A personalidade do Estado é real somente como uma pessoa. (N. elas existem.) 47 . mas em muitos Unos. como relação infinita consigo mesma.

O conceito do monarca é. enquanto a “Ideia-de-uma-única-pessoa” é algo que deva deduzir-se somente da imaginação. definida em oposição à soberania existente no monarca. e muito menos oposta. por isso. Os “pensamentos confusos” e a “representação desordenada” se encontram. não somente segundo a forma. Se o príncipe é a “soberania real do Estado”. Desse modo. pontos de vista limitados e o deduzir das razões. Uma trivialidade. símbolo da soberania popular. então ele é apenas representante. mas segundo sua determinação. mas ele por meio dela. 278). se se fala apenas. Mas soberania popular. para a reflexão do entendimento. e não do entendimento. 48 . pois é próprio do conceito de soberania que ela não possa ter uma existência dupla. O Estado é um abstractum. somente em Hegel. assim. Mas se ele é soberano porque representa a unidade do povo. “Ter início simplesmente por si mesmo” vale. por isso. isto só é correto. mas sim pelos momentos do Conceito abstrato. que a soberania compete ao Estado. porque o raciocínio permanece nas determinações isoladas e. sem dúvida. ou seja. pois aí se encontra seu elemento incondicional. mas o de ter início simplesmente por si mesmo. Assim. é uma estupidez falar em uma soberania oposta existente no povo. A soberania popular não existe por meio dele. em geral. tal como foi demonstrado anteriormente (§ 277. do todo.Karl Marx racional não consiste em que a realidade seja alcançada pela razão da pessoa real. para toda existência. da soberania interna pode-se dizer. Somente o povo é o concretum. em cujo fundamento reside a representação desordenada do povo. também. então “o príncipe” pode. ele representa a dignidade do monarca como algo deduzido. E é notável que Hegel atribua sem hesitação uma qualidade viva ao abstractum. Certamente: se a soberania existe no monarca. mesmo sem o povo. Mais próxima da verdade (sem dúvida!) é. em certo sentido. aqui. seu conceito não é o de ser algo deduzido. ao contrário. A soberania pode ser dita popular no sentido de que um povo em geral seja autônomo em relação ao exterior e constitua um Estado próprio etc. valer como o “Estado autônomo”. tanto para o piolho do monarca quanto para o monarca. e só o faça com hesitação e reservas em relação ao concretum. a representação que concebe o direito do monarca como fundado na autoridade divina. também externamente. o mais difícil para o raciocínio. Hegel não disse nada de especial sobre o monarca. Com isso. só conhece razões. Como se o povo não fosse o Estado real. é o sentido ordinário em que se começou a falar de soberania popular nos últimos tempos – nessa oposição a soberania popular pertence aos pensamentos confusos. que ela reside no povo. sob esse ponto de vista. Mas é uma real insanidade querer dizer sobre o monarca algo especificamente diferente de todos os outros objetos da ciência e da filosofia do direito. tal como a soberania.

não se pode mais falar de tal representação. Mas. Se por soberania popular se compreende a forma da república e. (N. De fato. mas ela falsifica o conteúdo. Na democracia nenhum momento recebe uma significação diferente daquela que lhe cabe. eis a question14. é uma massa informe e uma simples representação geral. O povo. ou é o homem o soberano? Uma das duas soberanias é uma falsidade. a democracia pode ser explicada a partir de si mesma. sem seu monarca e sem a articulação do todo que precisamente por isso se relaciona com ele necessária e imediatamente. não se trata de uma única e mesma soberania. a seguinte: não é uma ilusão a soberania absorvida no monarca? Soberania do monarca ou do povo. A democracia é a verdade da monarquia. deixa o povo de ser aquele abstrato indeterminado que na simples representação geral se chama povo. A constituição inteira tem de se modificar segundo um ponto fixo. magistratura. nascida de ambos os lados.E. definitivamente. Do mesmo modo em que se pergunta: é Deus o soberano. uma má espécie. tribunais. A democracia é conteúdo e forma.) 49 . a monarquia não é a verdade da democracia. precisamente. realmente.B. uma parte determina o caráter do todo. Tudo isso é uma tautologia. que já não é um Estado e para a qual não se aplicam nenhuma das determinações que existem somente no todo formado em si mesmo – soberania. ainda que uma falsidade existente. então. A monarquia é uma espécie e. mais precisamente. o momento monárquico não é uma inconsequência na democracia. A monarquia deve ser apenas forma. uma vez excluído dessa articulação. se ele está organizado como monarquia. dos quais um é tal que só pode chegar à existência em um monarca. apenas momento do dêmos inteiro. então ele. 14 Referência à dúvida hamletiana estabelecida por Shakespeare. 2) pode-se falar. Em inglês no original. com a vida do Estado. e o outro tal que só o pode em um povo. quer dizer. Se um povo tem um monarca e uma articulação necessária e diretamente relacionada com ele. de uma soberania do povo em oposição à soberania existente no monarca. então – em face da ideia desenvolvida. A democracia é o gênero da constituição. A monarquia é necessariamente democracia como inconsequência contra si mesma. Ao contrário da monarquia.Crítica da filosofia do direito de Hegel Mas: 1) a questão é. é a massa informe. caso se tenha da democracia apenas uma “tal representação” e não uma “ideia desenvolvida”. isto é correto. estamentos (Stände) e o que quer que seja. Cada momento é. Pelo fato de se evidenciarem em um povo os momentos relacionados com uma organização. da democracia. governo. também. Na monarquia. mas de dois conceitos absolutamente contrapostos de soberania.

o povo real. o povo. Hegel parte do Estado e faz do homem o Estado subjetivado. aqui (Hegel desenvolve de modo bastante correto estas formas abstratas de Estado. ela se relaciona com as demais constituições como o gênero com suas espécies. aqui. Na democracia. a constituição em geral é apenas um momento da existência do povo e que a constituição política não forma por si mesma o Estado. é 15 “preferencialmente”. do homem privado. outras religiões. a constituição não é somente em si. a sociedade civil aparecem. como entendimento que determina. A democracia relaciona-se com todas as outras formas de Estado como com seu velho testamento. mas segundo a existência. o princípio formal é. como o conteúdo com o qual o Estado político se relaciona como forma organizadora. isso vale também para a monarquia constitucional. a constituição mesma aparece somente como uma determinação e. como autodeterminação do povo. o contrato. o homem real. ora afirma. a verdadeira unidade do universal e do particular. limita. a essência de toda constituição política. como modos de existência particulares ao lado do Estado político. na democracia. segundo a essência. a constituição do povo. aqui. Tal é a diferença fundamental da democracia. na república como uma forma de Estado particular. O cristianismo é a religião χατ’ εξοχην o homem deificado como uma religião particular.A. em um certo sentido. Todas as demais formas estatais são uma forma de Estado precisa. Na democracia. o homem político tem sua existência particular ao lado do homem não político. mas a diferença específica da democracia é que. A democracia é o enigma resolvido de todas as constituições. em seu fundamento real. de fato. a constituição política. ora nega. A democracia. a essência da religião. mas o próprio gênero aparece. é subsumido a um de seus modos de existência. sem ter em si mesmo nenhum conteúdo. Por isso ela é. assim. mas o povo a constituição. Na monarquia temos o povo da constituição. como existência e.Karl Marx Na monarquia o todo. o princípio material. A constituição aparece como o que ela é. em um certo sentido. enquanto nas outras formas de Estado o homem é a existência legal. o matrimônio. assim também não é a constituição que cria o povo. mas ele crê desenvolver a ideia de Estado). poder-se-ia dizer que. Aqui. e posta como a obra própria deste último. determinada. é a existência humana. A propriedade. o homem socializado como uma constituição particular. mas o homem cria a religião. o Estado político na medida em que ele se encontra ao lado desse conteúdo e dele se diferencia. na democracia. ao mesmo tempo. particular.) 50 . Na monarquia. por exemplo. está para as outras formas de Estado como o cristianismo para as ` ` 15. a democracia parte do homem e faz do Estado o homem objetivado. o produto livre do homem. O homem não existe em razão da lei.E. com isso. como uma espécie particular em face das existências que não contradizem a essência. A democracia é. mas a lei existe em razão do homem. segundo a realidade. Do mesmo modo que a religião não cria o homem. (N. primeiramente.

o Estado material não é político. ela deixa de ser a constituição simplesmente política. deixa de valer pelo todo. uma determinação recíproca. portanto. mas as esferas particulares não têm a consciência de que seu ser privado coincide com o ser transcendente da constituição ou do Estado político e de que a existência transcendente do Estado não é outra coisa senão a afirmação de sua própria alienação.Crítica da filosofia do direito de Hegel ele mesmo um conteúdo particular. o próprio Estado é apenas uma autodeterminação e um conteúdo particular do povo. é apenas particular. como o é aqui a monarquia. aqui. Nos Estados antigos o Estado político constituiu o conteúdo estatal por exclusão das outras esferas. ou seja. o mais difícil de ser engendrado. o céu de sua universalidade em contraposição à existência terrena de sua realidade. à religião da vida do povo. como algo além delas. este fato particular. é evidente que todas as formas de Estado têm como sua verdade a democracia e. como universal é o universal real. considerando-se que o Estado político. a única esfera na qual o conteúdo. como particular. Na monarquia. A luta entre monarquia e república é. uma luta no interior do Estado abstrato. uma simples forma de Estado. assim como a forma. não são verdadeiras se não são a democracia. Na democracia o Estado abstrato deixou de ser o momento preponderante. A constituição política foi reduzida à esfera religiosa. por isso. em sua reivindicação. quando diz: O Estado político é a constituição. também seu 51 . A propriedade etc. como constituição. por isso. como uma forma de existência particular do povo. O conteúdo do Estado se encontra fora dessas constituições. A tarefa histórica consistiu. mas ao mesmo tempo de modo que. o mesmo na América do Norte assim como na Prússia. com poucas modificações. a república. foi o conteúdo genérico. a lei. a constituição. Em todos os Estados que diferem da democracia o que domina é o Estado. sem que ele penetre materialmente o conteúdo das restantes esferas não políticas. porém. não é uma determinidade em contraste com os outros conteúdos. aqui. Por isso Hegel tem razão. A esfera política foi a única esfera estatal no Estado. a constituição política.. na medida em que esse conteúdo é constituição política. quer dizer. o verdadeiro universal. a lei. por exemplo. a constituição. tem a significação do universal que domina e determina todo o particular. ela mesma. Dentre os diversos momentos da vida do povo. A república política é a democracia no interior da forma de Estado abstrata. sem que ele domine realmente. a constituição. foi o Estado político. como esta esfera se contrapôs às demais. apenas uma identidade exterior. daí. Na democracia o Estado. O que está correto. Na democracia. Tem-se. todo o conteúdo do direito e do Estado é. em suma. ainda. A forma de Estado abstrata da democracia é. Lá. assim. Ademais. o Estado moderno é um compromisso entre o Estado político e o não político. a república é. que na verdadeira democracia o Estado político desaparece. A constituição se desenvolveu como a razão universal contraposta às outras esferas. Os franceses modernos concluíram. quer dizer.

Karl Marx

conteúdo se tornou formal e particular. A vida política, em sentido moderno, é o escolasticismo da vida do povo. A monarquia é a expressão acabada dessa alienação. A república é a negação da alienação no interior de sua própria esfera. Entende-se que a constituição como tal só é desenvolvida onde as esferas privadas atingiram uma existência independente. Onde o comércio e a propriedade fundiária ainda não são livres nem independentes, também não o é a constituição política. A Idade Média foi a democracia da não liberdade. A abstração do Estado como tal pertence somente aos tempos modernos porque a abstração da vida privada pertence somente aos tempos modernos. A abs­ tração do Estado político é um produto moderno. Na Idade Média havia servos, propriedade feudal, corporações de ofício, corporações de sábios etc.; ou seja, na Idade Média a propriedade, o comércio, a sociedade, o homem são políticos; o conteúdo material do Estado é colocado por intermédio de sua forma; cada esfera privada tem um caráter político ou é uma esfera política; ou a política é, também, o caráter das esferas privadas. Na Idade Média, a constituição política é a constituição da propriedade privada, mas somente porque a constituição da propriedade privada é a constituição política. Na Idade Média, a vida do povo e a vida política são idênticas. O homem é o princípio real do Estado, mas o homem não livre. É, portanto, a democracia da não-liberdade, da alienação realizada. A oposição abstrata e refletida pertence somente ao mundo moderno. A Idade Média é o dualismo real, a modernidade é o dualismo abstrato.
Na fase anteriormente referida, na qual foi feita a divisão das constituições em democracia, aristocracia e monarquia, segundo o ponto de vista da unidade substancial que permanece ainda em si, que ainda não atingiu sua diferen­ ciação infinita e o infinito aprofundamento em si mesma, o momento da decisão última da vontade que determina a si mesma não surge como momento orgânico imanente do Estado para si em sua realidade peculiar.

Na monarquia, na democracia e na aristocracia imediatas ainda não existe a constituição política como algo distinto do Estado real, material, ou do conteúdo restante da vida do povo. O Estado político ainda não aparece como a forma do Estado material. Ou a res publica16 é, como na Grécia, a questão privada real, o conteúdo real do cidadão (Bürger), e o homem privado é escravo; o Estado político como político é o verdadeiro e único conteúdo de sua vida e de seu querer; ou, como no despotismo asiático, o Estado político é apenas o arbítrio privado de um indivíduo singular, e o Estado político, assim como o Estado material, é escravo. A diferença do Estado moderno em relação a esses Estados da unidade substancial entre povo e Estado não consiste, como Hegel pretende, no fato de que os diferentes momentos da constituição alcançam uma realidade particular, mas, antes, no fato de que a constituição mesma é desenvolvida
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“Estado, república; originalmente: coisa pública”. (N.E.A.)

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Crítica da filosofia do direito de Hegel

como uma realidade particular ao lado da real vida do povo, no fato de que o Estado político se torna a constituição do resto do Estado.
§ 280. Este último Si-mesmo da vontade do Estado é simples nessa sua abstração e, por isso, singularidade imediata; em seu próprio conceito reside, portanto, a determinação da naturalidade; o monarca é, por isso, essencialmente como este indivíduo, abstraído de qualquer outro conteúdo, e este indivíduo destinado à dignidade do monarca de modo imediato, natural, por meio do nascimento natural.

Já ouvimos que a subjetividade é sujeito e que o sujeito é necessariamente indivíduo empírico, Uno. Aprendemos, agora, que a determinação da naturalidade, da corporeidade, reside no conceito da singularidade imediata. Hegel não demonstrou nada senão o óbvio, a saber, que a subjetividade existe apenas como indivíduo corpóreo e, evidentemente, o nascimento natural pertence ao indivíduo corpóreo. Hegel pretende ter demonstrado que a subjetividade do Estado, a soberania, o monarca é “essencialmente como este indivíduo, abstraído de todo outro conteúdo, e este indivíduo destinado à dignidade do monarca de modo ime­ diato, natural, por meio do nascimento natural”. A soberania, a dignidade do monarca seria, portanto, de nascença. O corpo do monarca determina sua dignidade. No ponto culminante do Estado, então, o que decide em lugar da razão é a mera physis. O nascimento determinou a qualidade do monarca, assim como ele determina a qualidade do gado. Hegel demonstrou que o monarca deve nascer, do que ninguém duvida; mas ele não demonstrou que o nascimento faz o monarca. O nascimento do homem como monarca é tão pouco passível de se converter em verdade metafísica quanto a imaculada concepção de Maria. Assim como esta última representação, este fato da consciência, também aquele fato empírico pode ser compreendido de acordo com a ilusão humana e as circunstâncias. Na nota, que examinamos mais de perto, Hegel abandona-se ao prazer de ter demonstrado o irracional como absolutamente racional.
Esta passagem do Conceito, da pura autodeterminação à imediatez do ser e, com isso, à naturalidade, é de natureza puramente especulativa; seu conhecimento pertence, portanto, à filosofia lógica.

Pois o puramente especulativo não é que se passe da pura autodeterminação, uma abstração, ao outro extremo, a pura naturalidade (o acaso do nascimento), car les extrêmes se touchent 17. O especulativo consiste, antes, em que isto seja chamado uma “passagem do Conceito” e em fazer passar a mais perfeita contradição por identidade e a mais alta inconsequência por consequência.
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“pois os opostos se atraem”. (N.E.A.)

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Karl Marx

Pode-se considerar como sendo um credo positivo de Hegel o fato de que, com o monarca hereditário, o lugar da razão que se determina a si mesma é tomado pela determinação natural abstrata, não como o que ela é, determinação natural, mas como suprema determinação do Estado, e que este é o ponto positivo em que a monarquia não pode mais salvar a aparência de ser a organização da vontade racional.
De resto, é no fundo a mesma (?) passagem conhecida como a natureza da vontade em geral e é o processo de traduzir um conteúdo da subjetividade (como fim representado) em existência. Mas a forma peculiar da Ideia e da passagem aqui considerada é a conversão imediata da pura autodeterminação da vontade (do Conceito simples mesmo) num Este e numa existência natural, sem a mediação através de um conteúdo particular – (um fim no agir).

Hegel diz que a conversão da soberania do Estado (de uma autodeterminação da vontade) no corpo do monarca inato (na existência) é, no fundo, a passagem do conteúdo em geral que a vontade faz a fim de realizar um fim pensado, de traduzi-lo em existência. Mas Hegel diz: no fundo. A diferença peculiar que ele indica é, portanto, tão peculiar que suprime toda analogia e põe a magia no lugar da “natureza da vontade em geral”. Em primeiro lugar, a conversão do fim representado em existência é, aqui, imediata, mágica. Em segundo lugar, eis o sujeito: a pura autodeterminação da vontade, o Conceito simples mesmo; é a essência da vontade, como Sujeito místico, que determina; não é um querer real, individual, consciente; é a abstração da vontade, que se transforma numa existência natural; a Ideia pura, que se encarna em um indivíduo. Em terceiro lugar, como a realização da vontade em existência natural acontece imediatamente, isto é, sem os meios que a vontade habitualmente necessita para se objetivar, falta do mesmo modo um fim particular, isto é, determinado; compreende-se que “a mediação através de um conteúdo particular, de um fim no agir” não tenha lugar, pois não há um sujeito que age e a abstração, a pura ideia da vontade, para agir, age de forma mística. Um fim que não é particular não é um fim, assim como um agir sem finalidade é um agir carente de finalidade e de sentido. Toda comparação com o ato teleológico da vontade se revela, ao fim e ao cabo, como uma mistificação. Uma ação sem conteúdo da Ideia. O meio é a vontade absoluta e a palavra do filósofo; o fim particular é novamente o fim do sujeito filosofante, construir o monarca hereditário a partir da Ideia pura. A realização do fim é a mera garantia de Hegel.
Na assim chamada prova ontológica da existência de Deus é a mesma conversão do Conceito absoluto no ser (a mesma mistificação), conversão que constituiu a profundidade da Ideia nos tempos modernos, mas que mais recentemente foi considerada (com razão) como inconcebível. Mas como se considera que a representação do monarca cabe inteiramente à consciência comum (isto é, sensata), o entendimento permanece, aqui, cada vez

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portanto.] a entrega do poder de Estado à discrição da vontade particular. A escolha dos indivíduos para estas funções. fins e opiniões. No próprio Adendo. de tornar o acontecido não acontecido e anular o delito no perdão e no esquecimento. pois somente a ela compete a realização do poder do Espírito. Os dois momentos são: o acaso da vontade. pois justamente ela é abandonada à colisão. que o momento da decisão última no Estado em si e para si (isto é. A graça é a mais alta expressão do arbítrio acidental. portanto. que somente por meio dessa sua imediatez interna e externa escapa à possibilidade de ser reduzida à esfera da particularidade. Nega-se que a decisão última nasça. com seus lados objetivos. o arbítrio e o acaso da natureza. é o da particularidade ou do conteúdo determinado e da subsunção deste último ao universal. o nascimento. com seu arbítrio.. Nesta unidade reside a unidade real do Estado. a unidade real do Estado. e nega. Hegel determina que sua origem é “a decisão sem fundamento”. a constituição se torna capitulação eleitoral [. O que Hegel diz da monarquia eletiva vale em grau ainda maior para o monarca hereditário: Em uma monarquia eletiva. pela decisão. o Si-mesmo último sem fundamento da vontade e a existência também por isso sem fundamento. o conteúdo dos assuntos do Estado que se apresentam ou das determinações legais tornadas necessárias a partir dos carecimentos existentes. corpóreos. significativamente concebido por Hegel como um atributo próprio do monarca. mas quem jamais duvidou que a decisão última no Estado seja ligada a indivíduos reais.. do que resulta a transformação dos poderes particulares do Estado em propriedade privada etc. “à naturalidade imediata”? § 281. Que uma “imediatez interna e externa” deva ser retirada da colisão etc. então. O segundo momento. O acaso é. O direito de indultar é o direito da graça. os mais altos cargos deliberativos e seus ocupantes são aqueles que trazem ao monarca. Ambos os momentos em sua unidade indivisa. assim como sua 55 . as circunstâncias etc. o acaso. Da soberania do monarca decorre o direito de indultar os criminosos.Crítica da filosofia do direito de Hegel mais em sua separação e nos resultados decorrentes de seu tino raciocinador. a legislação pertinente. contido no poder do soberano. em razão da natureza da relação na qual a vontade particular é constituída em decisão última. § 282. e. enfim: Sua Majestade. como determinação reservada à natureza – essa ideia de não ser movido pelo arbítrio constitui a majestade do monarca. à luta das facções entre si pelo trono e ao enfraquecimento e desintegração do poder do Estado. no Conceito racional) seja ligado à naturalidade imediata. é uma afirmação incompreensível de Hegel. os fundamentos para a decisão. Na medida em que ele assume uma existência particular. e Hegel afirma que o monarca é a decisão última nascida. § 283.

a honra da responsabilidade. já que eles têm a ver com a sua pessoa imediata. “já que eles têm a ver com a sua pessoa imediata”. por isso. A garantia objetiva do poder soberano. em especial. não é objetiva. § 285. A responsabilidade dos ministros é melhor fundamentada “na medida em que o objetivo da decisão. Nessa confusão reside a total ausência de crítica da filosofia do direito hegeliana. considerado objetivamente. Apenas esses cargos ou indivíduos deliberativos estão sujeitos à responsabilidade. nesta medida. na medida em que o objetivo da decisão. o conhecimento do conteúdo e das circunstâncias. mas Hegel não demonstrou estes pressupostos pelo fato de tê-los analisado em sua noção fundamental. o desenvolvimento depende. o conhecimento do conteú­ do e das circunstâncias. reside em que. Do mesmo modo.. § 286. da vontade soberana. A demonstração de Hegel é contundente se se parte dos pressupostos constitucionais. Cabe a eles. no todo da constituição e nas leis. o poder soberano pressupõe. isto é. portanto. ela pode recair em uma deliberação distinta da vontade do monarca como tal. a subjetividade pura. por isso. na consciência do monarca. como subjetividade que decide em última instância. os fundamentos legais e os outros fundamentos de determinação são os únicos passíveis de responsabilidade. de prova da objetividade”. de prova da objetividade e. O terceiro momento do poder soberano diz respeito ao universal em si e para si. a “eleição ilimitada” do criado de quarto do monarca pode ser desenvolvida a partir da Ideia absoluta. e portanto também incapaz de uma prova de objetividade ou de responsabilidade tão logo um indivíduo seja a existência consagrada. já que eles são ministros. Em contrapartida. enquanto o monarca se satisfaz com a peculiar imaginação da “majestade”. § 284. mas a majestade própria do monarca. (Os ministros representam o lado racional. muito abstratos e muito ruins. de fundamentos inteiramente empíricos e. a sucessão legítima ao trono segundo a hereditariedade etc. o predicado do “momento da particularidade no poder soberano”. que consiste. recai no arbítrio ilimitado do monarca.) O momento especulativo é.Karl Marx remoção. Tudo o que a filosofia acrescenta é fazer deste “fato empírico” existência. os fundamentos legais e os outros fundamentos de determinação são os únicos passíveis de responsabilidade. Assim. Hegel descreve aqui de modo inteiramente empírico o poder ministerial. tal como ele é na maior parte das vezes determinado nos Estados constitucionais. é elevada acima de toda responsabilidade pelos atos do governo. os outros momentos. bastante escasso. objetivo. Entende-se que “a subjetividade que decide em última instância”. considerado subjetivamente. por exemplo. assim como cada um destes o pressupõe. sancionada do arbítrio. a eleição dos ministros é deixada ao “arbítrio ilimitado” do monarca. de fato. assim como esta esfera tem sua realidade separada dos outros momentos determinados por meio da razão. isto é. o puro arbítrio. 56 .

os membros só podem se conservar reciprocamente se o organismo inteiro é fluido e se cada um de seus membros é suprassumido nesta fluidez e que nenhum seja. a si mesmas. certamente. cada membro. Em segundo lugar. o fazem irresponsável. e esta única cláusula suprime a lei e a constituição. aqui. de modo que ele deveria chamar a constituição medieval de uma organização. Por meio desta determinação. a irresponsabilidade. nesta medida. os outros momentos. os dois primeiros momentos vão pelos ares. também a soberania do Estado deve ser consolidada em um indivíduo particular. da Irlanda ou de Veneza. p. assim também estes outros têm para si os direitos e deveres próprios à sua determinação”. porque cessa sua existência constitucional. ele é de outra matéria. eles precisam ser de igual nascimento. mas pelos outros momentos. essa constituição. Mas o monarca hereditário não é de igual nascimento. Se esta tese fosse tomada não misticamente. assim como esta esfera (tem) sua realidade separada dos outros momentos determinados por meio da razão. mas realisticamente. “imutável” e “inalterável” como. ele não tem mais do que uma massa de esferas particulares que encontram-se juntas em uma relação de necessidade exterior e. portanto. precisamente por isso conserva. porém. de uma só carne e um só sangue. seria uma determinação do Estado distribuída alternadamente aos indivíduos do Estado segundo o organismo dos outros momentos. quer dizer. Em um Estado onde cada determinação existe para si. portanto. o “universal em si e para si”. Hegel não vê que. A constituição do monarca constitucional é a irresponsabilidade.Crítica da filosofia do direito de Hegel assim também estes outros têm para si os direitos e deveres próprios à sua determinação. “O poder soberano pressupõe. A prosa da vontade racionalista dos outros membros do Estado defronta-se aqui com a magia da natureza. cessa sua irresponsabilidade. 367. ou vice-versa. Resumo do desenvolvimento de Hegel sobre o poder soberano ou a ideia da soberania do Estado. 57 . tal como o povo da Grã-Bretanha. Hegel se contenta. Além disso. com “que. Se o príncipe infringe o “todo da constituição”. mas de maneira fluida. a cabeça do Estado. portanto não hereditariamente. ao se conservar para si. aqui convém apenas um monarca corpóreo. assim como cada um destes o pressupõe”. mas precisamente essas leis. então o poder do príncipe não seria posto pelo nascimento. mas o povo da Inglaterra ou da Escócia. os outros em sua peculiaridade. Para que os membros se conservem. as “leis”. Na nota do § 279. assim. lê-se: Da soberania popular pode-se dizer que um povo em geral seja independente em relação ao exterior e constitua um Estado próprio. no organismo racional. Elas contradizem. Hegel suprime a “soberania de nascença”. Em um organismo racional a cabeça não pode ser de ferro e o corpo de carne. por meio deste terceiro momento.

uma pessoa empírica. XII) “O que se denomina uma pessoa moral”. Mas Hegel concebe sociedade. mas o Estado é precisamente essa totalidade. que forma para si e exclusivamente a soberania de um povo. As diferentes nacionalidades dos povos não podem ser melhor apreendidas e expressas que por meio dos diferentes monarcas. mas como pessoa real que tem nela. família.. que. família etc. a nacionalidade. aí. não como a realização da pessoa real. Esta inversão do subjetivo no objetivo e do objetivo no subjetivo (que decorre do fato de Hegel querer escrever a biografia da Substância abstrata. a pessoa moral em geral. foram acrescentadas posteriormente por Marx. antes do início de “b) O poder governamental”. tem a personalidade apenas como momento. a soberania do príncipe é a nacionalidade. mas é o Estado apenas que deve se converter em pessoa real. para ele. ocorre que um único homem empírico. por mais concreta que ela seja em si mesma. também não é a pessoa real que se converte em Estado. Na verdade. que a pessoa abstrata deu à sua personalidade uma existência verdadeira. em lugar de deixá-lo agir 18 As observações que seguem. já no monarca. do Ceilão etc. que essas observações deveriam ser acrescentadas exatamente aqui. sociedade. É por isso que. nela abstrato. portanto. ao contrário.B. foi somente na pessoa moral. possui um monarca. à verdade de sua existência. comunidade. sociedade. até o parágrafo 287. todavia. portanto. (ad. ou o princípio do principado é a nacionalidade. a pessoa tem em si o Estado. Os germanos são soberanos porque e na medida em que são nacionais (vide p. que Hegel queira deixar agir como uma singularidade imaginária o ser do homem para si. tenha que aparecer como atividade e resultado de uma outra coisa. como consta mais adiante na mesma nota. sociedade. porém. é produzido como a mais alta realidade do Estado. A pessoa moral. (N. na qual os momentos do Conceito alcançam a realidade segundo a sua verdade peculiar. p. a atividade humana etc. a mais elevada realidade social do homem. A soberania popular é aqui. ela não chegou. o autor deixou claro. Um povo cuja soberania consiste apenas na nacionalidade. família etc. O abismo entre um indivíduo absoluto e o outro se encontra entre estas nacionalidades.Karl Marx de Gênova. Isso pode ser visto através da numeração dos cadernos manuscritos originais de Marx. da Ideia. empírica. não são mais povos soberanos desde o momento em que deixaram de ter seus próprios príncipes ou governos supremos para si. XXXIV)18. Os gregos (e romanos) eram nacionais porque e na medida em que eram o povo soberano. família etc.E. o momento da personalidade apenas abstratamente. tem em si a personalidade apenas abstratamente. Em vez de o Estado ser produzido como a mais elevada realidade da pessoa.) 58 .

Isto aparece como necessário. são determinações da Ideia. produz-se também a impressão de algo místico e profundo. então é evidente que estes receptáculos completaram sua determinação tão logo se tornaram uma incorporação determinada de um momento da vida da Ideia. enquanto o singular não atinge em lugar algum sua verdadeira universalidade. no desenvolvimento da família. de trazer a verdade a uma existência empírica. Assim. por exemplo. da sociedade civil. até ao cidadão do Estado. assim. posta pelo nascimento físico. é concebida como a existência da Ideia em contraste com as demais. tudo o que ele se torna. Se.Crítica da filosofia do direito de Hegel na sua existência real. de atribuir a uma existência empírica qualquer o significado da Ideia realizada. o universal aparece por toda parte como algo de particular. Mas é muito profundo. É muito banal que o homem tenha que nascer e que esta existência. mas apenas se modifica a forma do conteúdo velho. ver uma existência particular posta pela Ideia e encontrar em todos os níveis um Deus feito homem. pois não se trata de trazer a existência empírica à sua verdade mas. Como se trata. O verdadeiro caminho a ser percorrido está invertido. em contrapartida. apenas de uma alegoria. a outra. família. pelo nascimento. então família etc. portanto. imediatamente feitas homem. Uma outra consequência dessa especulação mística é que uma existência empírica particular. em seguida. humana) tem necessariamente como resultado que uma existência empírica é tomada de maneira acrítica como a verdade real da Ideia. Estado etc. aparecem também como sua universalidade real e. de tal modo que aquilo que se encontra mais próximo é desenvolvido como um momento real da Ideia. no entanto. portanto. como o nascimento (no príncipe) ou a propriedade privada (no morgadio (Majorat)) – aparecem como as ideias mais elevadas. O homem permanece sempre como o ser de todos estes seres. apareceriam como qualidades inerentes a um sujeito. Ele recebeu uma forma filosófica. O que 59 . (Retomaremos posteriormente esta conversão necessária do empírico em especulativo e do especulativo em empírico. Produz. mística. sendo cidadã a massa dos homens na qual se desenvolve a ideia da sociedade civil e. as bases naturais do Estado. estes. no nascimento do príncipe. do Estado etc.. Deste modo não se ganha nenhum conteúdo. então. um atestado filosófico. uma única existência empírica. Se. o homem se torna. antes. é chocante que a ideia do Estado nasça imediatamente e que. de determinado. a Substância como sujeito. cidadã do Estado. do modo mais profundo e especulativo. eleve-se ao homem social etc. como o comum. estes modos sociais de existência do homem fossem considerados como realização e objetivação de seu ser. quando as determinações mais abstratas – que não são desenvolvidas em nenhuma verdadeira realização social. uma impressão profunda. assumir uma realidade empírica. no fundo. O mais simples é o mais complexo e o mais complexo o mais simples. E é evidente.) Desta maneira.. sociedade civil. ela mesma se engendre como existência empírica. elas devem.

no qual estão. por um lado. são. que têm mais diretamente relação com a particularidade da sociedade civil e fazem valer nestes fins o interesse universal. Só no seu ápice ele exprime seu segredo. Os interesses particulares em comum que recaem na sociedade civil e que se encontram fora do universal em si e para si do Estado (§ 256) têm a sua administração nas corporações (§ 251) das comunas e demais ofícios e estamentos. Diferentes da decisão são a execução e a aplicação das decisões do soberano e. que tem o Estado em si. a pessoa privada. diretores. A hereditariedade do príncipe resulta de seu conceito. de todas as outras pessoas. segundo este lado. de uma mistura de eleição pública desses interessados e de uma confirmação e determinação superiores. Esta função de subsunção em geral compreende o poder governamental em si. administradores e semelhantes. apenas. em geral. a diferença última. b) O poder governamental § 287. a propriedade privada e o interesse dessas esferas particulares e que. por outro lado. que convergem para as instâncias supremas que tocam o monarca. Simples descrição da situação empírica em alguns países. Ele deve ser a pessoa especificamente distinta de todo o gênero. das leis. poder policial e poder judiciário. portanto. das instituições existentes para fins comuns etc. A explicação ordinária do poder governamental. pois por meio dela ele faz um rei e dá continuidade a seu corpo. O corpo de seu filho é a reprodução de seu próprio corpo. a criação de um corpo real. em geral. de uma pessoa em relação a todas as outras? O corpo. a ocupação destes cargos resultará. Na medida em que estas questões. do mesmo modo. esses círculos têm de ser subordinados aos mais altos interesses do Estado. o prosseguimento e a manutenção do que foi decidido anteriormente. dos funcionários estatais executivos e das superiores autoridades consultivas enquanto colegialmente constituídas. O príncipe é a única pessoa privada na qual se realiza a relação da pessoa privada em geral com o Estado. A manutenção do interesse universal do Estado e da legalidade nestes direitos particulares e a recondução destes àquele exige uma gestão da parte dos delegados do poder governamental. compreendidos os poderes judiciário e policial. O ato constitucional mais elevado do rei é. que ele coordena poder governamental. isto significa tão somente que a essência do Estado é a pessoa abstrata. enquanto geralmente os poderes administrativo e judiciário são tratados como poderes opostos. então. A mais alta função do corpo é a atividade sexual. sua atividade sexual. O que se pode indicar como peculiar a Hegel é. das disposições. § 288. 60 .Karl Marx deveria ser ponto de partida se torna resultado místico e o que deveria ser resultado racional se torna ponto de partida místico. das quais eles se ocupam. § 289. sua autoridade repousa na confiança de seus colegas de estamento e concidadãos e que. Mas se o príncipe é a pessoa abstrata. precisa. em suas autoridades. Qual é.

Como a sociedade civil é o campo de batalha do interesse privado indivi­ dual de todos contra todos. considerando-o como um poder particular. As presentemente diversas e separadas existências empíricas do Estado são consideradas encarnação imediata de uma dessas determinações. o membro da sociedade civil. do mesmo modo. porque ele conserva as suas esferas particulares. na mesma medida que o cidadão. 2) porque o egoísmo privado é revelado como o “segredo do patriotismo dos cidadãos” e como “a profundidade e a força do Estado na disposição”. assim como o seu bem-estar. então tem lugar. ele é imediatamente confundido com a existência empírica e. O espírito corporativo. Mas mesmo supondo-se que o tenha feito. como uma raça fixa. Este é o segredo do patriotismo dos cidadãos no sentido de que eles sabem o Estado como sua substância. Hegel contradiz a si mesmo. converte-se em si mesmo. No espírito corporativo. no Estado. ele deduziu apenas que ele considera os “interesses particulares da sociedade civil” como interesses “que se encontram fora do universal em si e para si do Estado”. pode-se dizer. o conflito desse interesse com as questões comuns particulares e o conflito destas. aqui. aos “cidadãos”. encontra-se. excluída das qualidades restantes. no espírito do Estado. Hegel. É a essência da vontade quem desenvolve suas determinações pretensamente a partir de si mesma. uma determinação do cidadão do Estado em geral. Isso é estranho 1) pela definição da sociedade civil como bellum omnium contra omnes19.A. a sua legitimidade e a sua autoridade. do mesmo modo que o Estado se opõe. que se produz na legitimação das esferas particulares. somente enquanto ele não considera o “homem de família”. o homem do interesse particular em oposição ao universal.E. na medida em que ele contém imediatamente o enraizamento do particular no universal. o finito é tomado de maneira acrítica pela expressão da Ideia. (N. assim como a “família”. Mas não é o mesmo indivíduo que desenvolve uma nova determinação da sua essência social. logo a seguir. Como o universal como tal é tornado independente. simultaneamente. como determinação de cada indivíduo do Estado. portanto. 3) porque o “cidadão”.) 61 . separado. juntamente com aquele. contra os mais elevados pontos de vista e disposições do Estado. visto que ele tem. é considerado como “indivíduo fixo”. 19 “a guerra de todos contra todos”. a profundidade e a força que o Estado tem na disposição. em “indivíduos fixos”. portanto. as ulteriores “qualidades estatais” como determinação do indivíduo do Estado em geral.Crítica da filosofia do direito de Hegel Hegel não desenvolveu o poder governamental. aqui. o meio de conservação dos fins particulares. teria de conceber a “sociedade civil”. ele não demonstrou que esse poder é mais do que uma função.

por exemplo. mas de fazer com que essa função seja dividida em seus ramos abstratos. determinável. do mesmo modo. de fazer com que a vida burguesa. § 293. à substancialidade de sua relação como condição dessa ligação. Por meio da satisfação 62 . um direito subtraído à acidentalidade. Nisso se encontra. essa conjunção do indivíduo e do cargo. também. então sua função é. lá onde ela é concreta. a sua diferença determinada é dada. A organização das autoridades tem. As funções particulares do Estado que a monarquia outorga às autoridades constituem uma parte do lado objetivo da soberania inerente ao monarca. Como aqui o lado objetivo não reside na genialidade (como. por meio do qual este indivíduo. para si já decidida segundo a sua substância (§ 287) e devem completar-se e realizar-se por meio de indivíduos. a tarefa formal.Karl Marx § 290. e como a atividade das autoridades é o cumprimento de um dever. o lado subjetivo. Nos negócios do governo se encontra. a divisão do trabalho. natural. compete ao poder do príncipe enquanto poder estatal decisivo e soberano. na qual ele encontra. dentre os quais a preferência não é. porém difícil. a ligação do interesse universal com o particular.. como única condição.] o sacrifício da satisfação independente e caprichosa dos fins subjetivos e dá. como dois lados sempre acidentais para si um em relação ao outro. O serviço público. Cabe apenas chamar a atenção para o “lado objetivo da soberania inerente ao monarca”. precisamente por isso. a cada cidadão. § 291. como consequência dessa relação substancial. é escolhido e nomeado para um cargo e é investido na condução de uma função pública. como se lê na nota. § 294. na arte). que são geridos pelas autoridades próprias como centros distintos. em absoluto. seja governada concretamente a partir de baixo. e há necessária e indeterminadamente vários. por isso. mas somente nela. por esse lado. Entre os dois não há qualquer enlace imediato. os indivíduos não são destinados a elas por meio da personalidade natural e do nascimento. a possibilidade de se dedicar ao estamento universal. assim como no supremo poder governamental. O momento objetivo para a sua destinação àquelas tarefas é o conhecimento e a demonstração de sua aptidão – demonstração que assegura ao Estado aquilo de que ele necessita e. O Adendo a essa parte será considerado posteriormente. cuja atividade voltada para baixo. § 292.. igualmente. que constitui o conceito e a estabilidade interna do Estado (§ 260). As tarefas governamentais são de natureza objetiva. nessa medida. assegura simultaneamente. pela natureza da coisa. O indivíduo que se liga a um cargo oficial por meio do ato soberano (§ 292) está destinado ao cumprimento do seu dever. dentre vários. o poder e a satisfação assegurada da sua particularidade (§ 264) e a liberação de sua situação externa e de sua atividade oficial em relação a outra dependência e influência subjetivas. o direito de encontrar satisfação na prestação conforme o dever. converge novamente para uma visão global concreta. exige [.

A maior parte dos parágrafos poderia figurar. para si. que a impassibilidade. [. pelo alto. em parte.] Que esse estamento médio seja cultivado. estes lados subjetivos desaparecem para si e produz-se o hábito dos interesses. Os membros do governo e os funcionários do Estado constituem a parte principal do estamento médio (Hauptteil des Mittelstandes). mas isso só pode acontecer em uma organização como aquela que examinamos. quanto a vingança. isto é assegurado pelas instituições da soberania. é completado pelo controle de baixo. literalmente. e pelos direitos das corporações. da direta formação ética e de pensamento. que não atinge a conduta individual. a interferência do arbítrio subjetivo no poder conferido aos funcionários e o controle insuficiente do alto. por outro lado. por outro lado. por meio do qual tanto o peso dos laços familiares e outros laços privados são enfraquecidos. corporações. § 295. por um lado. No estamento médio. é ofendido fazendo-se valer contra ele o universal. § 296. ele constitui o pilar fundamental do Estado em relação à retidão e à inteligência. mais inofensivas. a prática exigida das funções. a legalidade e a benevolência da conduta se tornem costume. que serve de contrapeso espiritual àquilo que a aprendizagem das assim chamadas ciências dos objetos dessas esferas. § 297. o trabalho efetivo etc. é um interesse capital do Estado. Por isso. Porém. 63 . imediatamente na sua hierarquia e responsabilidade e. contra as paixões privadas dos governados. O agir de acordo com o direito universal e o hábito desse agir é uma consequência da oposição formada pelos círculos para si independentes. cujo interesse privado etc. é suprimida a necessidade externa. das opiniões e das funções universais. A garantia do Estado e dos governados contra o abuso do poder por parte das autoridades e de seus funcionários reside. ou seja. que pode levar à procura de meios para sua satisfação às custas da atividade oficial e do dever. entretanto. os encarregados de suas funções encontram proteção contra o outro lado subjetivo.. mediante a legitimação de círculos particulares que são relativamente independentes e graças a um mundo de funcionários cujo arbítrio se rompe diante de tais círculos legitimados.. o ódio e outras paixões semelhantes se tornam mais impotentes e. por baixo. no qual se encontram a inteligência cultivada e a consciência jurídica da massa do povo. com isso. Adendo. No poder universal do Estado. como aquilo por meio do qual é inibida. na legitimação das comunas. no código civil prussiano e. Que esse estamento não assuma a posição de uma aristocracia e que a sua cultura e habilidade não se tornem um meio de arbítrio e de dominação. O que Hegel diz sobre o “poder governamental” não merece o nome de desenvolvimento filosófico.Crítica da filosofia do direito de Hegel assegurada da carência particular. residem a consciência do Estado e a cultura a mais eminente. na ocupação com os grandes interesses existentes em um grande Estado. o tamanho do Estado é um momento capital. ao qual pertencem os funcionários estatais. têm em si de mecânico e algo semelhante. a administração propriamente dita é o ponto mais difícil do desenvolvimento. isto depende.

As “instituições da soberania. Eles devem ser. que ele desenvolve como burocracia. baseada nessa separação. As corporações são o materialismo da burocracia e a burocracia é o espiritualismo das corporações. entre os “interesses particulares” e o “universal que é em si e para si”. por um lado. A única determinação que a ela se acrescenta é de que a eleição dos administradores. a hierarquia e a responsabilidade dos funcionário e. Hegel não desenvolve nenhum conteúdo da burocracia. a legitimação das comunas. a “autoadministração” da sociedade civil em “corporações”. é uma eleição mista. pelo alto”. e a burocracia está. Voilà tout 20. com isso. da “direta formação ética e de pensamento” e. remunerados pelo Estado. de fato. por baixo”. a burocracia pressupõe as “corporações”. a vocação dos funcionários do Estado. o difícil capítulo do “poder governamental” está concluído.A. A distribuição dessas funções é “dada pela natureza da coisa”. O “estamento médio” é o estamento da “cultura”. na realidade. sua humanidade depende. de suas autoridades etc. (N. A corporação é a burocracia da sociedade civil. Por isso. A escolha dos indivíduos determinados para os cargos públicos compete ao poder soberano do Estado. em parte segundo a opinião que ela tem de seu próprio ser. Os indivíduos devem demonstrar sua capacidade para as funções governamentais.) 64 . de outro. certamente. protegem contra a transformação desse estamento em “aristocracia e dominação”. primeiramente. em parte como ela realmente é. isto é. os “funcionários estatais executivos” e as “autoridades colegialmente constituí­ das” que convergem no “monarca”. ela se defronta. E. como diz Hegel). corporações. Os funcioná­ rios constituem a “parte principal do estamento médio”. Hegel nos dá uma descrição empírica da burocracia. com o “Estado da sociedade civil”. encontra-se a “divisão do trabalho”. de fato. com as corpo20 “Isso é tudo”. Na burocracia está pressuposta.Karl Marx Como Hegel já reivindicou para a esfera da sociedade civil o poder “poli­ cial” e o poder “judicial”. do “tamanho do Estado”. para “a manutenção do interesse universal do Estado e da legalidade”. mas apenas algumas determinações gerais de sua organização “formal” e. de um lado. ao menos o “espírito corporativo”. encontram-se os “delegados do poder governamental”.E. Na “função do governo”. na condição de “sociedade civil do Estado”. a burocracia é apenas o “formalismo” de um conteúdo que está fora dela. prestar exames. de iniciativa dos cidadãos e confirmada pelo poder governamental propriamente dito (“confirmação superior ”. A função pública é o dever. Hegel parte do pressuposto das “corporações” e. A garantia contra o abuso da burocracia é. então o poder governamental não é senão a administração. Hegel parte da separação entre “Estado” e sociedade “civil”. por outro lado. e os “direitos das corporações. Sobre esta esfera. a burocracia é a corporação do Estado. portanto.

O espírito burocrático é um espírito profundamente jesuítico.Crítica da filosofia do direito de Hegel rações. Portanto. e se. é o “Estado como formalismo”. esta vontade contra a burocracia. mantém-se como um “universal”. como burocracia inacabada. (N. a “ilusão do Estado”. seu próprio espírito. no Estado. tanto quanto o particular. tão logo a vida real do Estado desperta e a sociedade civil se liberta das corporações a partir de um impulso racional. seu próprio espírito. que é a burocracia. e como tal formalismo Hegel a descreveu. como uma sociedade particular.A. desde o momento em que cai o “Estado da sociedade civil”. portanto.) 65 . onde o interesse universal do Estado começa a se tornar para si um interesse “a parte” e. isto é evidente na medida em que a “burocracia” é uma rede de ilusões práticas. a burocracia traz consigo. a fim de proteger a particularidade imaginária do interesse universal. também cada corporação tem. o “interesse universal” pode se manter apenas como um “particular”. antes. mas a burocracia é o Estado que se fez realmente sociedade civil. logo que o espírito corporativo é atacado. a “potência do Estado” como uma corporação (em contraposição ao particular. contraposto ao universal. A burocracia deve. cai também a “sociedade civil do Estado”. a burocracia procura restaurá-las. mas contra o princípio dessa existência.E. Os burocratas são os jesuítas do Estado. A burocracia é a république prêtre 21. Ela é a “cons­ ciência do Estado”. O Estado deve ser corporação tanto quanto a corporação quer ser Estado). A conse­ quência luta pela existência de seus pressupostos. Ela rebaixa a corporação a uma aparência e quer rebaixá-la a esta condição. como corporação acabada. ou seja. o espírito corporativo. a corporação. Lá onde a “burocracia” é um novo princípio. “real”. Mas a burocracia quer a corporação como uma potência imaginária. não contra a existência. a vitória sobre a corporação. O mesmo espírito que cria. teológico. fechada. agora ela busca manter à força a existência das corporações para salvar o espírito corporativo. ela luta contra as corporações como toda consequência luta contra a existência de seus pressupostos. os teólogos do Estado. no Estado. De fato. a burocracia. mas ela quer a burocracia contra a outra corporação. Portanto. é atacado o espírito da burocracia. A “burocracia” é o “formalismo de Estado” da sociedade civil. Em contrapartida. Que este “formalismo de Estado” se constitua em potência real e que ele mesmo se torne o seu próprio conteúdo material. cria. proteger a universalidade imaginária do interesse particular. ao mesmo tempo em que pretende que esta aparência exista e creia em sua própria existência. contra o outro interesse particular. O espiritualismo desaparece com o materialismo a ele contraposto. 21 “a república dos frades”. A corporação é a tentativa da sociedade civil de se tornar Estado. a burocracia combateu a existência das corporações para criar espaço para sua própria existência. com isso. na sociedade. O “formalismo de Estado”. a “vontade do Estado”. pois. tão logo um novo princípio luta. como seu interesse particular.

assim como a vida real aparece como morta. do mesmo modo que o saber é duplo. Mas é necessário que ele. de princípios. A burocracia é um círculo do qual ninguém pode escapar. Por isso ela transforma o “espírito formal do Estado”. porém. seja este jesuitismo consciente ou inconsciente. do mecanismo de uma atividade formal. Como a burocracia faz de seus fins “formais” o seu conteúdo. assim. O Estado existe apenas como diferentes espíritos de repartição. para o burocrata – quer dizer. A ciência real aparece como desprovida de conteúdo. portanto. um carreirismo. A burocracia se considera o fim último do Estado. já que o espírito desta vida tem sua existência separada para si na burocracia. cuja coesão consiste na subordinação e na obediência passiva. por isso. Os fins do Estado se transmutam em fins da repartição e os fins da repartição se transformam em fins do Estado. A finalidade real do Estado aparece à burocracia. Em segundo lugar. esta é sua propriedade privada. tendo a ciên­ 66 . sua existência é a existência da repartição. então ela o é. da essência espiritual da sociedade. os círculos inferiores confiam à cúpula o conhecimento do universal e. um duplo significado. como uma finalidade contra o Estado. Primeiramente. Mas o ser real é tratado segundo sua essência burocrática. o espiritualismo do Estado. na medida em que ela se torna objeto da atividade burocrática –. a vida é. assim como a disposição política aparecem para a burocracia como uma traição de seu mistério. um real e um burocrático. Sua hierarquia é uma hierarquia do saber. Por isso o espírito público do Estado. o espiritualismo se torna um materialismo crasso.Karl Marx Visto que a burocracia é. uma corrida por postos mais altos. segundo a sua finalidade. imóveis. o princípio de seu saber e o culto à autoridade é sua disposição. o materialismo da obediência passiva. segundo a sua essência. com seus fins “reais”. A autoridade é. por conseguinte. A burocracia é o Estado imaginário ao lado do Estado real. ele considera a vida real como uma vida material. fixa. O espírito universal da burocracia é o segredo. como corporação fechada. A cúpula confia aos círculos inferiores o conhecimento do particular. a fazer passar o formal pelo conteúdo e o conteúdo pelo formal. material. Quanto ao burocrata tomado individualmente. pois seu espírito lhe é prescrito. Ela é forçada. tornar a vida tão material quanto possível. por toda parte. A burocracia deve. em imperativo categórico. proceder de forma jesuítica para com o Estado real. também. segundo sua essência transcendente. O burocrata deve. o mistério. sua finalidade existe fora dele. assim. guardado em seu interior por meio da hierarquia e. ela entra em conflito. um saber real e um burocrático (assim também a vontade). espiritual. O espírito da burocracia é o “espírito formal do Estado”. da fé na autoridade. por isso. em relação ao exterior. eles se enganam reciprocamente. ou a real falta de espírito do Estado. No seu interior. Cada coisa tem. o fim do Estado se torna seu fim privado. portanto. A burocracia tem a posse da essência do Estado. ideias e tradições fixos. uma vez que este saber imaginário e esta vida imaginária valem pela essência. o “Estado como for­ ma­ lismo”.

Sobre a relação das corporações. dentre outras. Para o burocrata. realiza também esta categoria. ela mesma. A supressão da burocracia só pode se dar contanto que o interesse universal se torne realmente – e não. portanto. de uma mistura de eleição pública desses interessados e de uma confirmação e determinação superiores”. Ele se agarra apenas a uma única categoria e se satisfaz em encontrar para ela uma existência correspondente. de ela fazer da vontade a causa prima22. Esta identidade é. Uma tal identidade é a burocracia. de subsunção. o que é possível apenas contanto que o interesse particular se torne realmente universal. Quando Hegel chama o poder governamental de lado objetivo da soberania inerente ao monarca. pois ela é mera existência ativa e recebe o seu conteúdo do exterior e. a burocracia é este materialismo crasso. apenas no pensamento. subsunção etc. a sua primeira identidade (§ 288). na abstração – interesse particular. comunas. a primeira relação entre a sociedade civil e o Estado ou poder governamental. A matemática aplicada é. por outro lado. Essa identidade é tanto superficial 22 “causa principal”. segundo o próprio Hegel. Enquanto. e que. A única determinação filosófica que Hegel apresenta do poder governamental é a da “subsunção” do singular e do particular sob o universal etc. ele está correto no mesmo sentido de que a Igreja católica era a existência real da soberania. uma “mistura”. chegue também à autoconsciência e se torne desde já um jesuitismo deliberado. que sua administração (a ocupação de sua magistratura) depende. o seu espiritualismo crasso se mostra. em verdade. (N. portanto. A eleição mista dos administradores da comuna e da corporação seria. De um lado: a categoria “subsunção” do particular etc.E. com o governo. Hegel não se pergunta se esta é a maneira racional. “em geral. ainda que com esta última seu ser específico não seja expresso. Ela deve ser realizada. também. Hegel parte de uma oposição irreal e a conduz somente a uma identidade imaginária. Ele toma.A.Crítica da filosofia do direito de Hegel cia como seu oposto. no fato de ela querer fazer tudo. nós aprendemos. primeiramente. Na burocracia. por um lado. uma identidade contraditória. uma existência empírica qualquer do Estado prussiano ou moderno (tal como ele é. Acompanhemos detalhadamente seu desenvolvimento. do conteúdo e do espírito da Santíssima Trindade. então. o mundo é um mero objeto de manipulação. dos pés à cabeça). Hegel se contenta com isso. muito superficial. isto é. ele não dá a lógica do corpo político (§ 287). um mixtum compositum. contraposto aos demais fins privados. Hegel dá à sua lógica um corpo político.) 67 . só pode demonstrar a própria existência ao formar e limitar este conteúdo. como em Hegel. a identidade do interesse estatal e do fim particular privado está colocada de modo que o interesse estatal se torna um fim privado particular. adequada.

não são conhecidos. esses círculos têm de ser subordinados aos mais altos interesses do Estado”. sua autoridade repousa na con­ fiança de seus colegas de estamento e concidadãos e que. O “Estado” é feito valer. “Na medida em que” Hegel se refere a estas autoridades como “deliberativas”. o Estado não reside na sociedade civil. “fixa”. Por meio destes “delegados” a oposição não é suprimida. que na França. mas sim delegados do Estado para administrar o Estado contra a sociedade civil. Mas a oposição decisiva se manifesta somente na relação entre estes “interesses particulares em comum” etc. são a verdadeira “representação no Estado”. uma confissão do dualismo não resolvido. por um lado. 68 . segundo ele. dentro de sua própria esfera. no interior da sociedade civil. precisamente estes “delegados do poder governamental”. portanto. os “tribunais” e a “administração” não são deputados da própria sociedade civil. o “Estado ele mesmo”.) “são. com este “universal em si e para si existente do Estado”. dos funcionários estatais executivos e das superiores autoridades consultivas enquanto colegialmente constituídas. A oposição entre Estado e sociedade civil está. ele a toca apenas mediante seus “delegados”. a quem é confiado o “gestão do Estado” no interior dessas esferas. Hegel faz intervir. Hegel explicita com franqueza esta oposição mais adiante. que neles e por meio deles administra o seu próprio interesse universal. a propriedade privada e o interesse dessas esferas particulares e que. de passagem. que “se encontram fora do universal em si e para si do Estado ele mesmo”. mas fora dela. o “poder governamental”. segundo este lado. não “da”. A administração da corporação encerra. A manutenção do interesse universal do Estado e da legalidade nestes direitos particulares e a recondução destes àquele exige uma gestão da parte dos delegados do poder governamental. É desnecessário ressaltar que a solução desta oposição por meio da eleição mista é uma mera acomodação. a oposição: Propriedade privada e interesse das esferas particulares contra o mais alto interesse do Estado: oposição entre propriedade privada e Estado. Primeiramente. uma vez mais. ela mesma um dualismo. Os interesses particulares das corporações e das comunas têm. da comuna.”. pelos deputados deste ser contra a sociedade civil. para a “gestão” do “interesse universal do Estado e da legalidade etc. consolidada. portanto. da corporação etc. por outro lado. uma transação.. A “polícia”. uma “mistura”. “Na medida em que estas questões” (a saber. por exemplo. um dualismo que conforma o caráter de sua administração. mediante “delegados” e. no comentário supracitado. os “funcionários estatais executivos”. que elas sejam “constituídas em colegiados”. como algo estranho e situado além do ser da sociedade civil. Chamemos a atenção. isto resulta na referida “eleição mista”. para a construção dos colégios governamentais. é “portanto” evidente. mas transformada em oposição “legal”. mas “contra” a “sociedade civil”.Karl Marx quanto é aguda a oposição. que convergem para as instâncias supremas que tocam o monarca (§ 289). sem dúvida. o interior desta esfera.

o estamento de cada cidadão. um exame se faz mais necessário para se tornar sapateiro do que para se tornar funcionário público executivo. por isso. por meio da “deserção”. Em um Estado racional. separado de si mesmo. O mesmo ocorre com a sua construção dos “exames”. de se tornar membro do exército “inimigo” e. Hegel descreve com exatidão a situação empírica atual. o clero. as tarefas do Estado) é o conhecimento (o arbítrio subjetivo carece deste momento) e a demonstração de sua aptidão – demonstração que assegura ao Estado aquilo de que ele necessita e. que é apenas “poder natural do arbítrio” e.Crítica da filosofia do direito de Hegel As tarefas governamentais são de natureza objetiva. mas o “saber político” é uma condição sem a qual o homem vive. Mas Hegel parte do pressuposto do estamento pseudo-universal. Com isso. mas da capacidade do estamento universal de ser realmente universal. opõe-se menos ao católico? Que cada um tenha a possibilidade de adquirir o direito de uma outra esfera. um homem social. 69 . O “exame” não é senão uma fórmula maçônica. para si já definida (§ 291). fora do Estado. a ponto de poder ser completamente executadas pela “própria sociedade civil”? Ao contrário. a possibilidade de se dedicar ao estamento universal. Disso Hegel conclui que elas exigem tão pouco uma “hierarquia do saber”. não se trata da possibilidade de cada cidadão dedicar-se ao estamento universal como a um estamento particular. da universalidade estamental. de fato. a segunda relação afirmativa entre sociedade civil e Estado. do mundo). Ele faz a profunda observação de que elas devem ser realizadas por “indivíduos” e de que “entre os dois não reside qualquer enlace imediatamente natural”. como potência externa. Por isso. em que cada soldado tem a “possibilidade”. o reconhecimento legal do saber cívico como um privilégio. do estamento ilusório-universal. A identidade. pois o ofício de sapateiro é uma habilidade sem a qual se pode ser um bom cidadão do Estado. no Estado. portanto. de separar-se dos leigos. pode “nascer”. privado de ar. a segunda identidade. O “poder soberano” não é mais do que o representante do momento natural na vontade. é a identidade de dois exércitos inimigos. por ele construída. Essa possibilidade de cada cidadão se tornar servidor público é. demonstra apenas que sua própria esfera não é a realidade desse direito. como única condição. particular. O momento objetivo para a sua destinação àquelas tarefas (a saber. Alusão ao poder do soberano. os “funcionários públicos executivos” se diferenciam essencialmente do “príncipe” na aquisição dos seus cargos. com isso. assegura simultaneamente. ou seja. a cada cidadão. Ela é de natureza muito superficial e dualística. No Estado verdadeiro. do “domínio da natureza física no Estado”. Todo católico tem a possibilidade de se tornar padre (isto é. entre sociedade civil e Estado.

“Os negócios particulares do Estado que a monarquia outorga às autoridades” (a monarquia distribui. o que pressupõe a separação entre Estado e sociedade civil. assim como os teólogos encontram. É aqui. por exemplo. é escolhido e nomeado para um cargo e é investido na condução de uma função pública. pela primeira vez. em absoluto. A soberania inerente ao monarca é. o momento subjetivo da graça do príncipe. para que a fé dê frutos. Hegel desenvolve a remuneração dos funcionários a partir da Ideia. Hegel distingue. No § 294. o examinador sabe tudo). ainda. compete ao poder do príncipe enquanto poder estatal decisivo e soberano. os dois lados da soberania inerente ao monarca: o lado subjetivo e o lado objetivo. considerada de um modo formalmente místico. transmite as atividades particulares do Estado como funções às autoridades. ela as distribui assim como a santa Igreja romana distribui as ordens. determinável. e há necessária e indeterminadamente vários. Mas o que é um homem de Estado romano em face de um homem de governo prussiano! Ao lado do laço objetivo do indivíduo com o ofício público. na arte). na natureza. o lado subjetivo. reparte o Estado entre os burocratas. a monarquia arrenda as funções do Estado) “consti­ tuem uma parte do lado objetivo da soberania inerente ao monarca”. Quando Hegel diz: O serviço público exige o sacrifício da satisfação independente e caprichosa dos fins subjetivos – e isso é exigido em todo serviço – 70 . o “vínculo” do “cargo público” e do “indivíduo”. dentre os quais a preferência não é. o representante do acaso. na remuneração dos funcionários ou no fato de o serviço público garantir simultaneamente a segurança da existência empírica. O soldo dos funcionários é a mais alta identidade construída por Hegel. este laço objetivo entre o saber da sociedade civil e o saber do Estado. em todo exame. é apenas o batismo burocrático do saber. encontra-se um outro laço. O príncipe é. por toda parte. É a transformação das atividades do Estado em cargos. Nunca se ouviu falar que os homens de Estado gregos ou romanos tenham prestado exames. faz-se necessário ainda. ao lado do exame. a monarquia é um sistema de emanação. por meio do qual este indivíduo. Além do momento objetivo da profissão de fé burocrática (o exame). o reconhecimento oficial da transubstanciação do saber profano no saber sagrado (e é evidente que. o Deus personalizado. que está posta a identidade real da sociedade civil e do Estado. Como aqui o lado objetivo não reside na genialidade (como. Ele os havia confundido anteriormente. essa conjunção do indivíduo e do cargo. aqui. o arbítrio do príncipe.Karl Marx O exame. dentre vários. Foi dito. como dois lados sempre acidentais para si um em relação ao outro. que o monarca é o lado subjetivo da soberania inerente ao Estado (§ 293). Aqui.

O fato de que o adversário se encontra ele mesmo com pés e mãos atados e. em verdade. a possibilidade da luta. Se. é a garantia contra a derrota. sob as quais a hierarquia está novamente compreendida. ele nos responde: 1) A “hierarquia” da burocracia. os privilé­ gios da corporação. Ora. na sua “hierarquia” (como se a hierarquia não fosse o abuso capital e alguns pecados pessoais dos funcionários não fossem comparáveis de modo algum aos pecados hierárquicos necessários. Nisso se encontra. como um extremo dominante. Como ele estabelece. Mas Hegel ainda apresenta dois momentos (§ 296). perguntamos a Hegel qual é a proteção da sociedade civil contra a burocracia. portanto. Ora. a ligação do interesse universal com o particular. se para baixo ele é martelo.Crítica da filosofia do direito de Hegel e dá. pelo alto”. por um lado. A segunda garantia contra o arbítrio da burocracia são. No próprio funcionário – e isto deve humanizá-lo e tornar “costume” a “impassibilidade. A luta. assim. para cima ele é bigorna. onde está a proteção contra a “hierarquia”? O mal menor é certamente suprimido pelo maior na medida em que aquele desaparece quando é confrontado com este. 2) O conflito. a legalidade e a benevolência da conduta” –. por esse lado. o direito de encontrar satisfação na prestação conforme o dever. O próprio abuso. “é completado pelo controle de baixo”. que não atinge a conduta individual” (como se esse controle não se desse do ponto de vista da hierarquia/burocracia). mas somente nela. o conflito não resolvido entre burocracia e corporação. Somente a existência dos funcionários está garantida. em oposição ao membro da socie­ dade civil. “a garantia do Estado e dos governados contra o abuso do poder por parte das autoridades e de seus funcionários” reside. agora. precisamente por isso. a hierarquia dificilmente se convence dos pecados dos seus membros) e “na legitimação das comunas. não pode escapar a Hegel o fato de ele ter construído o poder governamental como uma oposição à sociedade civil e. mas ela o protege. que constitui o conceito e a estabilidade interna do Estado. tão logo a hierarquia peque no funcionário. como aquilo por meio do qual é inibida. Mais adiante (§ 297) Hegel ainda acrescenta como garantia as “instituições da soberania. a “direta formação ética e de pensamento” devem servir como “o contrapeso espiritual” ao mecanicismo de seu saber e ao seu “trabalho efetivo”. Como se o “mecanicismo” do seu saber “burocrático” e do seu “trabalho efetivo” não 71 . 2) é exato que a remuneração dos funcionários constitui a estabilidade interna das grandes monarquias modernas. para si. isso 1) vale para cada servidor. além disso. a hierarquia pune o funcionário na medida em que ele peca contra ela ou comete um pecado que para ela é supérfluo. corporações. a interferência do arbítrio subjetivo no poder conferido aos funcionários e o controle do alto. O controle. uma relação de identidade? De acordo com o § 295.

por isso. na medida em que elas necessitam de contínua determinação ulterior. O belo é que Hegel contrapõe a “direta formação ética e de pensamento” ao “mecanicismo do saber e do trabalho burocráticos”! O homem. mas isso só pode acontecer em uma organização como aquela que examinamos. apenas em uma tal organização o povo pode aparecer como um estamento. sua “relação substancial” e seu “pão”. de fato. são completamente universais (o que é uma expressão bastante geral). Hegel enaltece este “estamento médio” como o “pilar fundamental” do Estado “em relação à retidão e à inteligência”. O poder legislativo diz respeito às leis como tais. no funcionário. na esfera do “universal em si e para si do Estado ele mesmo”. em todo caso. mas é uma organização aquilo que se mantém em funcionamento mediante o equilíbrio dos privilégios? O poder governamental é o mais difícil de ser desenvolvido. na Rússia. ou seja. que lhe é pressuposta e que reside. Hegel exprime mais tarde.Karl Marx servisse de “contrapeso” à sua “formação ética e de pensamento”! E o seu espírito real e o seu trabalho efetivo não triunfarão. deve proteger o funcionário contra si mesmo. c) O poder legislativo § 298. Mas que unidade! Contrapeso espiritual. Aqui. O Exame e o pão dos funcionários são as sínteses últimas. Que categoria dualística! Hegel menciona. como substância. é um interesse capital do Estado. o seu conflito com a corporação. como consagração suprema. Hegel alega a impotência da burocracia. em razão de seu conteúdo. encontramos somente conflitos não resolvidos. e aos assuntos internos que. na nota ao § 308. que. ainda. na medida em que “os membros do governo e os funcionários do Estado constituem a parte principal do estamento médio”. (Adendo ao parágrafo citado) Que esse estamento médio seja cultivado. em si e para si. ele próprio. Ele pertence a todo o povo num grau muito mais elevado do que o poder legislativo. o “tamanho do Estado”. 72 . o verdadeiro espírito da burocracia. ao qualificá-la de “rotina de funções” e de “horizonte de uma esfera limitada”. não garante contra o arbítrio dos “funcionários estatais executivos” e. Hegel desenvolveu o “poder governamental” como “funcionalismo público” (Staatsbediententhum). sobre o acidental das suas outras capacidades? Seu “cargo” é. é uma circunstância que se encontra “fora” da “essência” da burocracia. mediante a legitimação de círculos particulares que são relativamente independentes e graças a um mundo de funcionários cujo arbítrio se rompe diante de tais círculos legitimados. Certamente. uma parte da constituição. Esse poder é. o estamento médio. No § 297 é estabelecida uma identidade.

Mas a constituição também não se fez por si mesma. Ela deu leis ao poder legislativo e lhas dá continuamente. ele próprio. (N. mas que obtém o seu desenvolvimento ulterior no aperfeiçoamento das leis e no caráter progressivo dos assuntos universais do governo. indiretamente. Na história francesa mais recente muito se ruminou em torno disso. fora de sua determinação direta”. mas. Antes de mais nada. Mas somente agora Hegel constrói o todo da constituição. em si e para si. É preciso que exista ou que tenha existido um poder legislativo antes da constituição e fora da constituição. ela se encontra. é precisamente nisso. A colisão é simples. fora da determinação direta dele”. O “poder legislativo é.E. o poder legislativo mo- 23 24 “fora da lei”. “Mas” – mas ela “obtém” “seu desenvolvimento ulterior” “no aperfeiçoamento das leis” e “no caráter progressivo dos assuntos universais do governo”. o poder legislativo é um poder constitucional. em si e para si. que lhe é pressuposta e que reside. Como resolve Hegel essa antinomia? Primeiramente. O poder legislativo só é poder legislativo no interior da constituição e a constituição estaria hors de loi23 se estivesse fora do poder legislativo. Mas. posto. têm de ter sido feitas. A constituição é lei para o poder legislativo. por outro lado. portanto: diretamente. nem a respeito do poder governamental.Crítica da filosofia do direito de Hegel fora da determinação direta dele. que reconhecemos sua profundidade. empírico. uma parte da constituição”. Ele ultrapassa a constituição.A. que “reside. no fato de que ele comece. que “necessitam de contínua determinação ulterior”. Ele está. porque Hegel não fez essa observação nem a respeito do poder soberano. uma parte da constituição. ele diz: A constituição é “pressuposta” ao poder legislativo. ele próprio. para os quais ela é igualmente verdadeira. por isso. é preciso que exista um poder legislativo fora do poder legislativo real. subsumido à constituição.A. “por isso. (N. Voilà la collision24.E. Ele não pode medir a Ideia pelo existente. surpreende que Hegel acentue que “este poder é. Quer dizer. É o poder da constituição.) 73 . em si e para si. portanto. no entanto. em toda parte. pela oposição das determinações (tal como elas são em nossos Estados) e as acentue em seguida. O poder legislativo é o poder de organizar o universal.) “E nisso está a contradição”. fora de sua determinação direta”. motivo pelo qual ele não poderia tê-lo pressuposto. mas deve medir o existente pela Ideia. as leis. a constituição se encontra fora do domínio do poder legislativo. Mas Hegel responderá: nós pressupomos um Estado existente! Acontece que Hegel é filósofo do direito e desenvolve o gênero do Estado.

no Estado – que. em verdade. quer dizer. a existência da liberdade. Subsiste a oposição entre a constituição e o poder legislativo. a existência da razão autoconsciente – não é a lei. Mas o verdadeiro não é que. a antinomia. o solo firme. No Adendo. em si e para si. constitucionalmente.A. segundo Hegel. mas re vera26 ele resolve todas as colisões difíceis mediante uma necessidade natural 25 As duas expressões estão em francês no original. com isso. o que ele não pode e não deve fazer pela via direta. por que então não reconhecer também a lei da coisa. ele a transformou em uma outra antinomia. mas na realidade se modifica. não tem a forma da modificação. em toda parte. que contradiz a primeira. de fato. Faz materialmente. ou. A constituição deve ser. Mas a faz aparecer ainda mais claramente.E. É justamente o contrário que está na lei. (N. por um desvio.E.Karl Marx difica a constituição. mas sim a cega necessidade natural quem governa? E se for reconhecido que a lei da coisa contradiz a definição legal. mas vem-a-ser segundo a realidade (a verdade). (N. Como pode Hegel fazer essa contradição passar pelo verdadeiro? “O caráter progressivo dos assuntos universais do governo” esclarece muito pouco. ela progride em sua formação.) 26 74 . Faz segundo a natureza das coisas e das relações o que não devia fazer segundo a natureza da constituição. Assim. Hegel não contribui em nada para a solução da dificuldade. mas também vem-a-ser essencialmente. Hegel definiu o agir de fato e o agir legal do poder legislativo como contradição. como lei do Estado? Como sustentar conscientemente este dualismo? Hegel quer. que é não aparente e que não tem a forma da modificação. a contradição entre o que o poder legislativo deve ser e o que ele realmente é. porque não pode modificá-la en gros 25. Ele faz. Ela é inalterável de acordo com sua determinação. A aparência é a lei consciente da constituição e a essência é sua lei inconsciente. tanto mais que é precisamente este caráter progressivo que deve ser explicado. então. ela não pode. vigente. estar apenas feita. a constituição é. O que é da natureza da coisa não está na lei. portanto. A aparência contradiz a essência. o que ele não faz formalmente. apresentar o Estado como a realização do Espírito livre. decompõe “minuciosamente” (no varejo) porque não pode modificá-la por atacado. legalmente. Este progredir é uma modificação. a sua ação constitucional. entre o que ele crê fazer e o que ele faz realmente.B. por isso.) “na realidade”. é a suprema existência da liberdade. Ele a decompõe en détail. da razão. pôs a atividade do poder legislativo. sobre o qual está assentado o poder legislativo e. quer dizer. Hegel não superou. esta modificação é inconsciente. Equivale a dizer que a constituição é segundo a lei (a ilusão). em contradição com sua determinação constitucional.

as revoluções retrógradas. é necessário que o movimento da constituição. historicamente falsa e. torne-se o princípio da constituição. em sua particu laridade. da ordem antiga que desmoronou etc. A categoria da transição gradual é. não esclarece nada. as reações. essa aparência ilusória não seja finalmente destruída pela violência. o poder governamental fez as pequenas revoluções. é. conclui Hegel. ele não combateu a constituição. É certo que constituições inteiras se transformaram a partir de necessidades que surgiram paulatinamente. lá onde ele. “Assim. 2) se o poder legislativo é de uma outra origem que o poder governamental etc. para uma nova constituição.Crítica da filosofia do direito de Hegel que se encontra em oposição à liberdade. mas a fez contra a constituição. para que o homem faça conscientemente aquilo que. o real sustentáculo da constituição. aparentemente. por toda parte. sempre se fez necessária uma revolução formal. 75 . mas uma particular constituição antiquada. tranquilo e imperceptível. essas modificações são pontuais. mas. o aperfeiçoamento de um estado de coisas”. em segundo lugar. O poder legislativo fez a revolução francesa. em geral. portanto. ele fez. da vontade genérica. as grandes revoluções universais orgânicas. precisamente porque o poder governamental era o representante da vontade particular. se o Estado político existe como “constituição”. a constituição. ele seria forçado a fazer inconscientemente em razão da natureza da coisa. o progresso. Deve.) Os exemplos que Hegel oferece sobre a mudança gradual da constituição são mal escolhidos: de bem privado. ele não fez a revolução por uma nova constituição. então. de outro modo. e Hegel quer no Estado. que. Além disso. torne-se o princípio da constituição. a passagem do interesse particular ao interesse universal não é uma lei consciente do Estado. mas mediada pelo acaso e executada contra a consciência. do arbítrio subjetivo. a própria “constituição” pertencer ao domínio do poder legislativo? Essa pergunta só pode ser formulada 1) se o Estado político existe como mero formalismo do Estado real. Ao contrário disso. o povo. O progresso ele mesmo é. a primeira transição se deu apenas com a conversão de toda propriedade estatal em propriedade privada dos príncipes. portanto. a realização da vontade livre! (Aqui se mostra o ponto de vista substancial de Hegel. se o Estado político é um domínio à parte. Para que a constituição não apenas sofra a modificação. uma constituição passa a uma condição totalmente diferente da anterior. em primeiro lugar. Depois de um longo tempo.. da parte mágica da vontade. precisamente porque o poder legislativo era o representante do povo. apareceu como dominante. a fortuna dos príncipes alemães e de suas famílias se converte em domínio público e a jurisdição pessoal dos imperadores se transforma em jurisdição por meio de deputados. portanto. contra uma antiga. Assim. também. Em contrapartida. para que.

as determinações fundamentais da vontade racional. o todo da constituição. (N. de modo algum. a vontade geral. “Essas matérias” (as matérias do poder legislativo) se determinam. na filosofia do direito. o todo. a pergunta significa apenas: tem o povo o direito de se dar uma nova constituição? O que de imediato tem de ser respondido afirmativamente. uma contradição no conceito da constituição. acima de tudo. então se entende que cada povo (Estado) as tem como seu pressuposto e que elas devem formar seu credo político. de modo que os trabalhos e serviços particulares que o indivíduo pode prestar sejam mediados pelo seu arbítrio. uma parte da constituição. reverte em seu benefício e que eles têm a usufruir e β) aquilo que eles têm de prestar ao Estado. como uma parte do todo. estão compreendidos as leis do direito privado em geral. § 299. por meio do Estado. um tratado entre poderes essencialmente heterogêneos. Procurou-se resolver essa colisão mediante a distinção entre assemblée constituante e assemblée constituée 27.A. tornou-se uma ilusão prática. os direitos das comunas e das corporações e as disposições totalmente gerais e. ela deve ser considerada. Aqui. em relação aos indivíduos. tão logo deixou de ser expressão real da vontade popular. A constituição não é senão uma acomodação entre o Estado político e o Estado não político. recaia ape27 “assembleia constituinte e assembleia constituída”. A vontade de um povo pode transgredir as leis da razão tão pouco quanto a vontade de um indivíduo. de maneira que. é que pode ser determinado de uma maneira justa e. o próprio Hegel assinala na nota a esse parágrafo: Qual matéria deve ser remetida à legislação geral e qual à determinação das autoridades administrativas e à regulamentação do governo em geral pode. Se se deve falar da constituição como um particular. aqui. Sobre essa determinação das matérias do poder legislativo. ele apenas a descobre e a formula. necessariamente em si mesma.E. indiretamente (§ 298). A colisão entre a constituição e o poder legislativo é apenas um conflito da constituição consigo mesma. É. Em um povo irracional. mais precisamente segundo os dois lados: α) aquilo que. Se por constituição se entendem as determinações universais. o nosso objeto é. na medida em que a constituição. Isso é mais propriamente matéria da ciência do que da vontade. impossível para a lei enunciar que um desses poderes. Mas aquilo que se deve prestar. por isso. como o valor geral existente das coisas e das prestações. ao mesmo tempo. ser diferenciado.) 76 . ela é. na verdade. portanto. somente quando é reduzido a dinheiro. antes. não se poderia falar. em geral.Karl Marx Corretamente posta. O poder legislativo não faz a lei. deva ter o direito de modificar a constituição mesma. Naquele. de uma organização racional do Estado. naquela.

A segunda é aquela entre o poder legislativo e o poder governamental. e pelas riquezas infinitamente variadas e vivas que neles se encontram. Ao mesmo tempo. 2. Eles são. ter de ser determinada em si. nesta. na execução real. na qual elas podem ser apreendidas como uma coisa. místico. Para isso. portanto. Mas é precisamente essa unidade orgânica que Hegel não construiu. À primeira vista. na medida em que elas se produzem na exterioridade da existência. A primeira colisão não resolvida era aquela entre a constituição inteira e o poder legislativo. propriedades. recaia o particular e o modo de execução. mas é o universal destas. o que prejudicaria o seu caráter de leis. o dinheiro não é uma riqueza particular ao lado das demais.. O dinheiro é o valor geral existente das coisas e das prestações. Entre nós. que ao mesmo tempo são ligadas à disposição. Buscar refúgio de seu conflito real na “unidade orgânica” imaginária. o Estado não exija uma prestação direta. para que seja lei e não um mero mandamento em geral (como: “não matarás” [. a determinação que fosse até esse ponto daria às leis um lado empírico que. teria de se submeter a alterações. apenas um subterfúgio vazio. – As prestações que se referem à defesa do Estado contra os inimigos pertencem ao dever que será tratado na seção seguinte (não na seção seguinte. por outras razões. as determinações legais e. porém. que é um espírito que estabelece o universal e que o conduz à sua realidade determinada e o executa.Crítica da filosofia do direito de Hegel nas o inteiramente universal segundo o conteúdo. talentos. dentre as muitas habilidades. de fato. voltaremos apenas posteriormente ao dever pessoal do serviço militar). por isso. em lugar de desenvolvê-los como momentos de uma unidade orgânica é. Mas essa distinção não está já plenamen­ te determinada pelo fato de a lei. mas pretenda à única riqueza que aparece como dinheiro. realidades fixas.]). mas. A prestação pode ser determinada de um modo justo somente por meio dessa redução. Somente assim a prestação pode ser determinada de modo tal que os trabalhos e serviços particulares que o indivíduo pode prestar sejam mediados pelo seu arbítrio. Na unidade orgânica dos poderes do Estado se encontra.. 3. mais o seu conteúdo se aproxima da capacidade de ser executado tal como ela é. pode parecer estranho que no Estado. Hegel observa na nota: ad. A segunda definição do parágrafo é que a única prestação que o Estado exige dos indivíduos é o dinheiro. 1. Mas. Os diferentes poderes têm um princípio diferente. 77 . mas. Hegel aduz as seguintes razões: 1. todavia. como é dito mais à frente no Adendo. quanto mais é determinada. atividades. entre a lei e a execução.

do mesmo modo. como o momento consultivo. 3. No tocante às prestações. como aquele ao qual compete a decisão suprema – o poder governamental. lê-se: Mediante o dinheiro. praticamente a única prestação pessoal. 2. o Estado tenha entrado em decadência ao se contentar com prestações abstratas. se a prestação dependesse da capacidade concreta. à primeira vista. em seu Estado. Pagai o quanto deveis. são igualmente de qualidade particular etc.] Ora. No Adendo. as prestações no Oriente. nos dias de hoje. como. Mas pertence ao princípio do Estado moderno que tudo o que o indivíduo faça seja mediado pela sua vontade. mas também em sua particularidade.. por exemplo. No Adendo. falta o princípio da liberdade subjetiva: que o agir substancial do indivíduo – que em tais prestações é um agir particular segundo seu conteúdo – seja mediado por sua vontade particular. ad. no Egito. a justiça e a igualdade das prestações. a justiça da igualdade pode ser mais bem realizada. Platão. o homem talentoso seria mais onerado do que aquele sem talento. diz-se: Entre nós. 78 .. § 300. dotado do conhecimento concreto e da visão geral do todo em seus múltiplos lados e nos princípios reais nele consolidados. o ofício de juiz etc. Apenas nesse extremo mais exterior (ou seja. No poder legislativo como totalidade são ativos sobretudo os dois outros momentos: o monárquico.Karl Marx o Estado compra aquilo de que necessita. serviços indeterminados. o Estado compra aquilo de que necessita. na qual elas podem ser apreendidas como uma coisa) é possível a determinação quantitativa e. ad. o elemento estamental. morta e inanimada. uma coisa abstrata.. faz com que os superiores repartam os indivíduos­ em estamentos particulares e lhes imponham prestações particulares. o respeito pela liberdade subjetiva é posto à luz precisamente por isso: só se prende alguém que é passível de ser preso. onde as riquezas se produzem na exterioridade da existência. na monarquia feudal. [. com isso. Fazei o que quiserdes. e isso pode parecer. O serviço militar é. Nessas relações. assim como com o conhecimento das necessidades do poder do Estado em particular – enfim. elas se reduzem quase todas ao dinheiro.. um direito que é possível somente por meio da exigência das prestações na forma do valor geral e que é o fundamento que produziu essa transformação. para as imensas obras arquitetônicas etc. De outro modo. com isso. os vassalos tinham de prestar. e pode também parecer que. O início do Adendo diz: Os dois lados da constituição se referem aos direitos e às prestações dos indivíduos.

não é outra coisa senão a “universalidade empírica dos pontos de vista e pensamentos dos muitos” (e. § 301. que o espírito real. a ele se faziam muitas reverências. ser momentos do poder legislativo. Os muitos devem. de uma hierarquia do saber. para si. que tem tão grande respeito pelo espírito do Estado. mas também para si. é exposta.A. quanto pensa já tê-lo convenientemente realizado em suas soi-disant28 existências. Mas se o poder legislativo é a totalidade. seja um mero pot-pourri dos “pensamentos e pontos de vista dos muitos”.. ele mal é visto. em verdade. pela consciência do Estado. A subjetivação do “assunto universal”. como “consciência pública”. segundo Hegel. a consciência pública. O elemento estamental é uma deputação da sociedade civil no Estado. do Estado. que reen­ contra a consciência do Estado na forma inadequada da burocracia. o assunto universal chega à existência. Enquanto o espírito do Estado assombrava misticamente no vestíbulo. Ele precisa se ocupar tanto menos com a existência real do espírito do Estado. admite.) 79 . (N. que dessa maneira é tornado independente. que. de fato. O elemento estamental tem a determinação de trazer à existência o assunto universal não apenas em si. empírica. A mesma abstração fantástica. apenas. o momento da liberdade formal subjetiva. Ele pode tratar a consciência pública real bem à part. antes. O elemento estamental que se acrescenta é. onde nós o apanhamos [in] persona.. Hegel idealiza a burocracia e empiriciza a consciência pública. empírico. “O elemento estamental tem a determinação de trazer à existência o assunto universal não apenas em si. e também nas monarquias constitucionais). pelo espírito ético. precisamente porque tratou a consciência à part como consciência pública. poder legislativo. Como essa abstração fantástica imputa uma essência estranha à burocracia. e que toma acriticamente essa existência inadequada pela existência real plenamente válida. solenemente o despreze no momento em que esse espírito se apresenta a ele em forma real. ao qual ela se contrapõe sob a forma dos “muitos”.Crítica da filosofia do direito de Hegel O poder monárquico e o poder governamental são. isto é assim nas monarquias modernas. É significativo que Hegel. poder legislativo ou o poder legislativo em sua diferença com relação ao poder monárquico e ao poder governamental. mas também para si. isto é.” E. É esse o enigma do misticismo. como objeto da consciência pública. como “universalidade empírica dos pontos de vista e pensamentos dos muitos”. por um momento. tratar com consciência os assuntos universais como seus próprios assuntos. o poder monárquico e o poder governamental deveriam. com a mesma inocência. Aqui. a consciência pública como universalidade empírica dos pontos de vista e pensamentos dos muitos.E. como um momento do processo vital do “assunto 28 “assim chamadas”. do mesmo modo ela abandona a verdadeira essência à forma inconveniente do fenômeno. aqui.

Os sujeitos não carecem do “assunto universal” como de seu verdadeiro assunto.Karl Marx universal”. pois ele não é o assunto da “sociedade civil”. e o assunto universal real. apenas simbolicamente. que é em si. que não são as formas desse conteúdo. Hegel separa conteúdo e forma. ele nada mais é do que isso. o sujeito real da liberdade recebe um significado formal. em con­ trapartida. Na nota. o elemento estamental não é nenhum complemento substancial. ou a ilusão de que a causa do povo seja o assunto universal. como atividade da liberdade subjetiva. É a ilusão de que o assunto universal seja assunto universal. assunto público. deve-se atentar particularmente para a distinção entre o “ser em si” e o “ser para si” do assunto universal. é evidente que a forma. O conteúdo está pronto e existe sob muitas formas. mas o assunto universal carece dos sujeitos para sua existência formal. por assim dizer. “universalidade empírica”. Que ele agora se torne também. A existência “formal” ou existência “empírica” do assunto universal é separada de sua existência substancial. que a frase tautológica: “O assunto universal é o assunto universal” pode aparecer apenas como uma ilusão da consciência prática. isso é um assunto seu. isso é meramente formal e chega à realidade. Porque ele deu ao conteúdo presumido ou real da liberdade um portador místico. ser em si e ser para si. A verdade é: o “assunto universal” em si existente não é realmente universal. A causa real do povo se concretizou sem a ação do povo. O elemento estamental é a existência ilusória dos assuntos do Estado como causa do povo. A separação do em si e do para si. tanto em nossos Estados quanto na filosofia do direito hegeliana. é apenas formal. Aqui. que a liberdade não reine como instinto natural. sem que ele seja o assunto real do povo. Hegel explicita corretamente o “elemento estamental” como um elemento “formal”. “consciência pública”. Que o “assunto universal” exista também como sujeito. ele existe sem ser realmente o assunto universal. Ele já encontrou sua existência essen­ cial. realmente. Em lugar de os sujeitos se objetivarem no “assunto universal”. A liberdade subjetiva aparece em Hegel como liberdade formal (é certamente importante que aquilo que é livre também seja feito livremente. 80 . da substância e do sujeito. empírico. O assunto universal está pronto. que ora deve valer como forma real do conteúdo. em parte suspeitos. Chegou-se a tal ponto. e deixa que este último se acrescente exteriormente. não tem o conteúdo real como o seu conteúdo. Hegel deixa que o “assunto universal” se torne “sujeito”. como um momento formal. é misticismo abstrato. isto é. O “assunto universal” já existe “em si” como função do governo etc. Tanto o saber quanto a vontade do “elemento estamental” são em parte insignificantes. da sociedade) precisamente porque ele não apresentou a liberdade objetiva como realização. inconsciente. O elemento estamental é a ilusão política da sociedade civil.. “ilusório”.

por certo. uma mera forma. Portanto. postos no ponto de vista do Estado e consagrados ao fim universal. o que quer a vontade que é em si e para si. Quanto ao conteúdo. e que este tenha indubitavelmente a melhor vontade para este melhor. sobre a necessidade ou utilidade da concorrência dos estamentos é particularmente. 2. apesar dos estamentos. teria. sobretudo se tivesse que ser respondida de forma igual. no que concerne à vontade especialmente boa dos estamentos para o bem geral. é o resultado de um profundo conhecimento (que. Saber o que se quer. que os deputados do povo. diz-se dos próprios estamentos: Os mais altos funcionários do Estado têm necessariamente um discernimento mais profundo e mais amplo da natureza das instituições e das necessidades do Estado. em detrimento do interesse universal. de modo aproximado. à vontade dos estamentos. Os estamentos não possuem a ciência do Estado na mesma medida dos funcionários. no que concerne à disposição. antes. a recriminação de que os estamentos. A representação que a consciência comum costuma ter. ainda mais. eles devem fazer o bem. em contrapartida. na medida em que se designa com essa palavra uma parte especial dos membros de um Estado. por isso. – uma suposição que. são inclinados a empregar a sua atividade em favor destes. com efeito. assim como eles também devem continuamente fazer o bem nas assembleias estamentais. já para si. dos quais ela é monopólio. Além disso. por consequência. do ponto de vista privado e dos interesses particulares. a razão. e. o saber e a vontade dos estamentos são em parte supérfluos. E é evidente que. tenham que compreender da melhor maneira o que melhor convém ao povo. Mais adiante. ocorre. ou mesmo o povo. que o povo. antes de tudo. do ponto de vista do negativo em geral. Os funcionários podem realizá-lo sem os estamentos. no sentido mais literal. supor no governo uma vontade má ou menos boa. O povo não sabe o que quer. ou seja. isso é plenamente verdadeiro. e não o assunto universal seu interesse privado. Mas que bela maneira de o 81 . já se notou acima que é próprio da opinião da plebe. significa a parte que não sabe o que quer. os outros momentos do poder do Estado estão. os estamentos são puro luxo. Mas. ele é suspeito. em parte suspeitos. Os estamentos são supérfluos para a realização do “assunto universal”. uma vez que provêm da singularidade. na organização descrita por Hegel. enquanto. pois os estamentos provêm do ponto de vista privado e dos interesses privados. reside nas repartições) e discernimento. No que diz respeito ao primeiro ponto. que não é precisamente assunto do povo. Na verdade. o interesse privado é seu assunto universal. Sua existência é.Crítica da filosofia do direito de Hegel 1. bem como uma maior habilidade e experiência no exercício dessas funções e podem fazer o melhor sem os estamentos.

e que ele tem também a forma do assunto universal.Karl Marx “assunto universal” ganhar forma. pois. e que uma forma sem conteúdo tem de ser disforme. e que. do assunto universal. por toda parte. e o “universal como conteúdo”. Com efeito. é. ser representado de algum modo no Estado como “assunto universal real” e. como assunto universal. Não se deve condenar Hegel porque ele descreve a essência do Estado moderno como ela é. com o que o universal se torna por si mesmo um papel a ser protagonizado. “empírico”. mas porque ele toma aquilo que é pela essência do Estado. O ser para si do assunto universal. deve ter uma existência. mas querer ver a lógica transformada em verdadeira objetividade. ou apenas o formal é assunto universal real. Trata-se. Hegel quer o luxo do elemento estamental apenas por amor à lógica. uma forma que engana a si mesma. sabe e realiza o assunto universal. A forma que o assunto universal assume em um Estado que não seja o Estado do assunto universal pode ser. uma não-forma. porém. emana do povo e é uma pluralidade empírica (o próprio Hegel nos ensina que não se trata de uma totalidade). Hegel não busca uma realização adequada do “ser para si do assunto universal”. em uma vontade que não sabe o que quer. aqui. que se mostrará como uma tal aparência. Digo: abstração arbitrária. por que ele não poderia ser determinado como o “ser para si do assunto universal”? Ou por que não poderiam os “estamentos” serem determinados como seu ser em si. Em vez de demonstrar que o “assunto universal” existe para si. por ela não querer ver a realidade resolvida na lógica mediante uma abstração arbitrária. como universalidade empírica. ele tem de aparecer em algum lugar com a coroa e o manto do universal. com isso. já que somente no governo a coisa ganha clareza. da oposição: o “universal” como “forma”. é o contrário do que afirma ser e afirma ser o contrário do que é. que quer. a realidade consciente. Que o racional é real. Em seguida. portanto. isso se revela precisamente em contradição com a realidade irracional. uma ilusão. assim como na filosofia do direito de Hegel. que. é apenas formal. execução e autonomia? Mas a verdadeira oposição é: o “assunto universal” deve. ele se contenta em achar uma existência empírica que possa ser resolvida nessa categoria lógica. 82 . na “forma da universalidade”. dado que o poder governamental. o elemento estamental. que contradiz a si mesma. subjetivamente. uma forma aparente. Hegel demonstra apenas que a ausência de forma é a sua subjetividade. apenas. verdadeira. ele ainda censura a consciência comum por ela não se contentar com essa satisfação lógica. determinidade. e ele próprio não deixa de ressaltar quão deplorável e contraditória é essa existência. existe realmente como tal. que nem ao menos possui um saber específico do universal e em uma vontade cujo conteúdo peculiar é um interesse contrário! Nos Estados modernos.

em parte. se refletirmos um pouco. mas também o conteúdo. também. (A verdade é que apenas a forma é assunto universal. O elemento estamental é a mentira sancionada. Porém.E. existe apenas formalmente. da vontade. naquele efeito que a esperada censura de muitos. A garantia. o de empregar antecipadamente o melhor discernimento nas funções e nos projetos a serem propostos e de organizá-los apenas segundo os motivos mais puros – uma obrigação que se impõe igualmente aos membros dos estamentos.A. Essa mentira será revelada no conteúdo. traz consigo. Ele se transformou numa formalidade. que deve residir particularmente nos estamentos. mas da socie­ dade. qual seja. o interesse do Estado readquiriu aqui. formalmente. trata-se. e no qual. aqui.) 83 . realidade como interesse do povo. O Estado constitucional é o Estado em que o interesse estatal. não em seu discernimento particular. na verdade uma censura pública. Isso modifica não apenas a forma. no haut goût29 da vida do povo. um “indivíduo” pode realizar o assunto universal. mas ele deve. em parte. encontra-se. mas reside. legal. num discernimento suplementar (!!) dos deputados. deveria dissolver-se imediatamente ou transformar-se numa verdade. que tem a sua verdadeira existência como vontade genérica apenas na vontade popular autoconsciente. O Estado moderno. todas as outras instituições do Estado também partilham com eles o 29 “requinte”.) Com isso. trata-se. além disso. em contrapartida. e existe como uma forma determinada ao lado do Estado real.Crítica da filosofia do direito de Hegel Na ciência. numa cerimônia. é o poder metafísico do Estado. O poder metafísico do Estado era a sede mais apropriada da ilusão metafísica. enquanto interesse real do povo. o assunto só se torna realmente universal quando não é mais assunto do indivíduo. realizou o estranho achado de apro­ priar-se do “assunto universal” como uma mera forma. é algo que diz mais respeito ao saber do que ao querer. e são sempre os indivíduos que o realizam. no qual tanto o “assunto universal” quanto o ato de ocupar-se com ele são um monopólio. que reside nos estamentos para o bem universal e para a liberdade pública. do Estado em que o próprio povo é o assunto universal. No que concerne à garantia em geral. aqui. ter apenas essa realidade formal. especialmente no que tange à ocupação dos funcionários que se encontram mais distantes dos olhares dos postos mais altos. (N. da ideia do Estado. que somente na aparência é o assunto universal real. Mas se trata. E. dos Estados constitucionais: que o Estado é o interesse do povo ou o povo é o interesse do Estado. por exemplo. enquanto a mesma mentira como poder governamental etc. universal. das quais (eles) têm a visão mais concreta diante de si. Ela se estabeleceu como poder legislativo precisamente porque o poder legislativo tem como seu conteúdo o universal. os monopólios são os assuntos universais reais. ele encontrou a forma correspondente ao seu conteúdo. do Estado. e particularmente às necessidades e falhas mais urgentes e especiais. e. aqui.

Karl Marx

fato de ser uma garantia do bem público e da liberdade racional, e há, entre elas, instituições como a soberania do monarca, a hereditariedade da sucessão ao trono, a organização judiciária etc., nas quais essa garantia reside, ainda, num grau muito mais decisivo. A determinação conceitual peculiar aos estamentos deve, por isso, ser procurada no seguinte fato: neles, vem à existência, em relação ao Estado, o momento subjetivo da liberdade universal, o discernimento próprio e a vontade própria da esfera que, nessa exposição, foi denominada sociedade civil. Que esse momento seja uma determinação da Ideia desenvolvida até a totalidade, essa necessidade interna, que não se deve confundir com necessidades e utilidades externas, decorre, como em toda parte, do ponto de vista filosófico.

A liberdade pública, universal, está pretensamente garantida nas outras instituições do Estado; os estamentos são pretensamente sua autogarantia. Pois o povo confere mais importância aos estamentos nos quais ele crê assegurar a si mesmo do que às instituições que, sem a sua ação, devem ser a garantia de sua liberdade, confirmação de sua liberdade sem ser confirmação de sua liberdade. A coordenação que Hegel consigna aos estamentos, ao lado das outras instituições, contradiz a sua essência. Hegel soluciona o enigma ao encontrar a “determinação conceitual peculiar aos estamentos” no fato de que, neles, “vem à existência, em relação ao Estado, o discernimento próprio e a vontade própria da sociedade civil”. É o reflexo da sociedade civil no Estado. Assim como os burocratas são delegados do Estado na sociedade civil, do mesmo modo os estamentos são delegados da sociedade civil no Estado. São sempre, portanto, transações entre duas vontades opostas. No Adendo a esse parágrafo, lê-se:
A posição do governo em relação aos estamentos não deve ser essencialmente hostil, e a crença na necessidade dessa relação hostil é um triste erro,

é uma “triste verdade”.
O governo não é um partido, ao qual se oponha outro partido.

Ao contrário.
Os impostos que os estamentos aprovam não devem, além disso, ser considerados como uma dádiva ao Estado, mas sim como consentidos para o bem daqueles mesmos que os aprovam.

No Estado constitucional, a aprovação do imposto é, de acordo com a opinião corrente, necessariamente uma dádiva.
O que constitui o significado próprio dos estamentos é que o Estado entra, por esse meio, na consciência subjetiva do povo, e que o povo começa a tomar parte no Estado.

A última coisa que foi dita é plenamente correta. Nos estamentos, o povo começa a tomar parte no Estado e, do mesmo modo, o Estado entra na consciência subjetiva do povo como algo transcendente. Mas como Hegel pode fazer passar este começo pela realidade plena? 84

Crítica da filosofia do direito de Hegel

§ 302. Considerados como órgão mediador, os estamentos se encontram entre o governo em geral, de um lado, e o povo, dissolvido nas esferas particulares e nos indivíduos, de outro. A determinação dos estamentos exige neles tanto o sentido e a disposição do Estado e do governo, quanto os interesses dos círculos particulares e dos singulares. Ao mesmo tempo, essa posição tem o significado de uma mediação comum com o poder governamental organizado, mediação que faz com que nem o poder soberano apareça como extremo e, com isso, apenas como simples poder dominante e como arbítrio, nem também os interesses particulares das comunas, corporações e dos indivíduos se isolem, ou, ainda mais, os indivíduos venham a se apresentar como uma multidão e uma turba, como uma opinião e um querer inorgânicos, como um simples poder de massa contra o Estado orgânico.

Estado e governo são sempre colocados do mesmo lado, como idênticos; do outro lado, é colocado o povo, dissolvido nas esferas particulares e nos indivíduos. Os estamentos situam-se como órgão mediador entre os dois. Os estamentos são o meio em que “o sentido e a disposição do Estado e do governo” devem se encontrar e se unir com “o sentido e a disposição dos círculos particulares e dos singulares”. A identidade desses dois “sentidos e disposições opostas”, identidade na qual deveria propriamente residir o Estado, recebe uma representação simbólica nos estamentos. A transação entre Estado e so­ ciedade civil aparece como uma esfera particular. Os estamentos são a síntese de Estado e sociedade civil. Não é demonstrado, porém, por onde os estamentos devem começar a unir, neles mesmos, duas disposições contraditórias. Os estamentos são a contradição entre Estado e sociedade civil, posta no Estado. Ao mesmo tempo, eles são a pretensão da solução dessa contradição.
Ao mesmo tempo, essa posição tem o significado de uma mediação comum com o poder governamental organizado etc.

Os estamentos não fazem mediação apenas entre povo e governo. Eles impedem que o “poder soberano” apareça como “extremo” isolado e, com isso, como “simples poder dominante e como arbítrio”; do mesmo modo, impedem o “isolamento” dos interesses “particulares” etc., bem como “que os indivíduos­venham a se apresentar como uma multidão e uma turba”. Essa mediação é comum aos estamentos e ao poder governamental organizado. Em um Estado, no qual a “posição” dos “estamentos” impede que os indivíduos “venham a se apresentar como uma multidão ou uma turba, como uma opinião e um querer inorgâni­ cos, como um simples poder de massa contra o Estado orgânico” – o “Estado orgânico” existe fora da “multidão” e da “turba”, ou a “multidão” e a “turba” pertencem à organização do Estado; apenas que sua “opinião e querer inorgâ­ nicos” não devem chegar a se pôr como “opinião e querer contra o Estado”, sob cuja orientação determinada eles se tornariam opinião e querer “orgânicos”. Do mesmo modo, esse “poder de massa” deve permanecer apenas “de massa”, de modo que o entendimento esteja fora da massa e, com isso, ela não coloque a si mesma em movimento, podendo ser posta em movimento apenas pelos 85

Karl Marx

monopolistas do “Estado orgânico” e ser explorada como poder de massa. Lá onde “os interesses particulares das comunas, corporações e dos indivíduos” não se isolam contra o Estado, mas onde os “indivíduos venham a se apresentar como uma multidão e uma turba, como uma opinião e um querer inorgânicos, como um simples poder de massa contra o Estado”, é aí precisamente que se mostra que nenhum “interesse particular” contradiz o Estado, mas que o “real pensamento orgânico universal da multidão e da turba” não é o “pensamento do Estado orgânico”, que não encontra naquele a sua realização. Onde, então, aparecem os estamentos como mediação desse extremo? Apenas em “os interesses particulares das comunas, corporações e dos indivíduos se isolem”, ou em que seus interesses isolados ajustem suas contas com o Estado por meio dos estamentos, ao mesmo tempo em que a “opinião e o querer inorgânicos da multidão e da turba” ocupou sua vontade (sua atividade) na criação dos estamentos e empregou sua “opinião” na apreciação da atividade dos estamentos e saboreou a ilusão de sua própria objetivação. Os “estamentos” protegem o Estado da turba inorgânica apenas por meio da desorganização dessa turba. Mas os estamentos devem, ao mesmo tempo, fazer a mediação “de tal forma que os interesses particulares das comunas, corporações e dos indivíduos” não “se isolem”. Ao contrário, eles fazem a mediação: 1) transigindo com o “interesse do Estado”, 2) sendo eles mesmos o “isolamento político” desses interesses particulares; esse isolamento como ato político, já que, por meio dos estamentos, esses “interesses isolados” alcançam o grau de interesse “universal”. Finalmente, os estamentos devem fazer a mediação contra o “isolamento” do poder soberano como um “extremo” (que, assim, apareceria “como simples poder dominante e como arbítrio”). Isto está correto na medida em que o princípio do poder soberano (o arbítrio) é limitado pelos estamentos, ou, ao menos, pode mover-se apenas dentro de entraves, e enquanto os próprios estamentos se tornam membros e cúmplices do poder soberano. Com isso, ou o poder soberano deixa realmente de ser o extremo do poder soberano (e o poder soberano existe apenas como um extremo, como uma unilateralidade, porque ele não é um princípio orgânico), tornando-se um poder aparente, um símbolo, ou, então, ele perde apenas a aparência do arbítrio e do simples poder dominante. Eles fazem a mediação contra o “isolamento” dos interesses particulares, pois expressam esse isolamento como ato político. Eles fazem a mediação contra o isolamento do poder soberano como um extremo, em parte porque eles se tornam uma parte do poder soberano, em parte porque eles fazem do poder governamental um extremo. Nos “estamentos” convergem todas as contradições da moderna organização do Estado. Eles são os “mediadores” em todos os sentidos, porque são “termos médios” em todos os sentidos. É digno de nota que Hegel desenvolve menos o conteúdo da atividade estamental, o poder legislativo, do que a posição dos estamentos, sua estatura política. 86

deixe de sê-lo e se torne um momento orgânico.E. – O sinal de que o antagonismo não é dessa espécie decorre. é tanto mais importante salientar esse aspecto. mas precisamente neles se evidencia que o Estado não é a totalidade. representação. o povo já é preparado. No que se refere à segunda.Crítica da filosofia do direito de Hegel Também é de notar que. segundo Hegel. quando ao mesmo tempo é termo médio. Hegel diz: Que um momento determinado. de conceber os estamentos principalmente do ponto de vista da oposição perante o governo. têm o significado de ser o povo contra o governo. não ficasse apenas na superfície. então o Estado estaria em vias de perecer. Os estamentos representam o Estado em uma sociedade que não é um Estado. enquanto. Organicamente. para não ter um caráter decidido. considerado na totalidade. o extremo do povo contra o governo. mas o povo en miniature30. como poder particular. ao mesmo tempo.) No objeto aqui considerado. isto é. Hegel qualificou. Eles mesmos são parte do poder governamental contra o povo. os estamentos são o povo contra o governo. que se encontram imediatamente. o qual. a sua posição. Na nota. o “poder legislativo como totalidade” (§ 300). o povo representado – ou seja. porque ele pertence ao preconceito. em relação ao governo. como ele o deve ser no organismo considerado. mas o governo ampliado. o Estado no Estado. Os estamentos têm. mas se tornasse realmente uma oposição substancial. acima. a posição do governo. No que se refere à primeira posição. mas de maneira que. separados do povo real – suprime a oposição real entre povo e governo. Ao se tornar imagem. tal como foi desenvolvida acima. eles são o governo contra o povo. É a sua posição conservadora. ou a oposição no próprio povo. ocupa a posição de um extremo.) 87 . estando em oposição. segundo a natureza da coisa. o elemento estamental é 1. A oposição entre governo e povo se concilia pela oposição entre estamentos e povo. O Estado é uma mera representação. os estamentos se encontram “entre o governo em geral. enquanto tem sua manifestação. como se essa fosse sua posição essencial. de outro”. ilusão. a posição do povo e. (N. É a sua posição oposicional. o elemento estamental se mostra apenas por meio da função de mediação. mas 2. de um lado. Os estamentos são realmente essa totalidade. Com isso. mas um dualismo. isso é algo que se encontra entre as mais importantes intuições lógicas. frequente mas altamente perigoso. disto: que os objetos desse antagonismo 30 “em pequena escala”. (Então. os estamentos. Aqui. Se ela. “tem o significado de uma mediação comum com o poder governamental organizado”. e o povo dissolvido nas esferas particulares e nos indivíduos. fantasia.A. termo médio entre povo e governo. a própria oposição é reduzida a uma aparência. ao mesmo tempo. em relação ao povo.

o esta­ mento privado alcança um significado e uma eficácia políticos. Na nota. tem imediatamente em sua determinação o universal como fim de sua atividade essencial. abstrata. como o estamento privado é alçado. representado no poder legislativo pelo poder governamental). mas. nem como uma multidão dissolvida nos seus átomos. são certamente um conjunto.A. 31 “contradição na determinação do conceito”. em geral. seja que eles escolham representantes para esta função. a solução do enigma. Essa opinião atomística. selvagem e terrível. de acordo com sua posição na sociedade civil (Hegel já qualificou o estamento universal como aquele que se dedica ao governo. mas a coisas mais especiais e mais indiferentes. Somente desse modo. Ou. antes. ou seja. onde o indivíduo só vem a aparecer como membro de um universal. o estamento privado alcança um significado político. uma organização de tais membros. (N.” Compreende-se que o estamento privado alcance esse significado de acordo com o que ele é. no elemento estamental do poder legislativo. à participação na coisa universal. é dito: Isto vai contra outra concepção corrente.Karl Marx não dizem respeito aos elementos essenciais do organismo do Estado. Mas o Estado é. um significado político.) 88 . Os muitos como singulares. que são círculos para si. portanto. nele. no estamento descrito por Hegel. O estamento universal. desaparece já na família. tal como os mais altos cargos do Estado. “No elemento estamental do poder legislativo. por si mesmo. um significado diferente de seu significado real. nem como simples massa indiferenciada. o elemento particular. à política desse Estado. assim como na sociedade civil. No Adendo está dito: A constituição é essencialmente um sistema de mediação. essencialmente. Hegel também dá àquele. precisamente por isso. no poder legislativo. O estamento privado pertence ao ser. e a paixão que. se vincula a esse conteúdo. como aquilo que ele já é. segundo a qual. O elemento estamental é: o significado político do estamento privado. Temos. real no Estado. diferenciado no estamento que se funda na relação substancial e no estamento que se funda nas necessidades particulares e no trabalho que as mediatiza. mas apenas como a multidão – uma massa disforme. a distinção do estamento privado) tem um significado político. que se dedica mais de perto ao serviço do governo. a saber.E. § 303. o estamento universal é. por conseguinte. ele deve aparecer na forma dos indivíduos. nenhum momento deve se mostrar como uma multidão inorgânica. ou que cada um deva exercer. torna-se partidarismo em vista de um mero interesse subjetivo. do estamento não político. o voto no poder legislativo. Ora. aqui. e. cujo movimento e agir seria. liga-se verdadeiramente ao universal. levando-se isso em consideração. este não pode aparecer. apenas elementar. o que de bom grado se entende por povo. o estamento privado (e. irracional. porém. aqui. uma contradictio in adjecto31.

o ponto de vista da mais elevada universalidade concreta –. como ele mesmo o confessa. Lá. Ele não tem eficácia e significado políticos pura e simplesmente. existia anteriormente. dever-se-ia concluir. os estamentos da sociedade civil em geral e os estamentos em sentido político eram idênticos. as comunidades já existentes nesses círculos – nos quais elas adentram o campo político. o ponto de vista da mais elevada universalidade concreta”? É importante seguir de perto esse desenvolvimento. porque o princípio orgânico da sociedade civil era o princípio do Estado. aliás. em uma massa de indivíduos”. A separação da “vida política e da vida social” deve. expressa a identidade dos estamentos da sociedade civil e dos estamentos em sentido político. Ele supõe a inteligência universal como “estamental e estável”. entrar na esfera política apenas segundo a distinção estamental da sociedade civil. por conseguinte o acidental. real no Estado.” Como se poderia querer dissolvê-las.” O “significado e eficácia políticos” do estamento privado são um significado e eficácia particulares dele. “levando-se isso em consideração. isto é. essa 89 . “O estamento universal. “No elemento estamental etc. Mas Hegel parte da separação da “sociedade civil” e do “Estado político” como de dois opostos fixos. em uma massa de indivíduos. uma “união” “que. Hegel se baseia nisto: “Naqueles círculos” (família e sociedade civil) “já existem comunidades.Crítica da filosofia do direito de Hegel A concepção que dissolve novamente. O estamento privado pode.” Hegel parte do pressuposto de que o estamento universal se encontra no “serviço do governo”. A própria linguagem. no momento em que “elas adentram o campo político. mantém precisamente nisso a vida social e a vida política separadas uma da outra e coloca esta última. diz Hegel. portanto. O ponto culminante da identidade hegeliana era. portanto. Embora na concepção de tais teorias os estamentos da sociedade civil em geral e os estamentos em sentido político se encontrem distantes uns dos outros. o elemento particular. desse modo. existia anteriormente” e que. e sua “identidade” deve ser posta. O estamen­ to privado não se transforma em estamento político. pois a sua base seria apenas a singularidade abstrata do arbítrio e da opinião. por assim dizer. isto é. a Idade Média. essa união que. ser suprimida. Hegel acha que. A distinção estamental da sociedade civil se torna uma distinção política. no ar. ainda. e não um fundamento firme e legítimo em si e para si. a linguagem conservou. já não existe mais. que se dedica mais de perto ao serviço do governo. duas esferas realmente diferentes. liga-se verdadeiramente ao universal”. aliás. Pode-se exprimir o espírito da Idade Média desta forma: os estamentos da sociedade civil e os estamentos em sentido político eram idênticos porque a sociedade civil era a sociedade política. mas ele se põe como estamen­ t o privado em sua eficácia e significado políticos. De fato. “novamente. Sua eficácia e significado políticos são a eficácia e significado políticos do estamento privado como estamento privado.

antes. pois o Estado político. de modo algum. O principado.E. Os estamentos da sociedade civil eram. a soberania.) 90 . ela não poderia ser. Essa identidade desapareceu. Em segundo lugar: Hegel trata. igualmente. Tal era a relação dos estamentos legislativos com o reino. real no Estado moderno. antes. sua aprovação do imposto para o reino. Eles não se tornavam político-estamentais porque tomavam parte na legislação. A relação com o reino era apenas uma relação transacional desses diferentes Estados com a nacionalidade. como tais. 32 33 “ponto de honra”.) “principal. era apenas uma emanação particular de seu significado e de sua eficácia política universal. o sentido ` ` 33 dessas diferentes corporações etc. (N. Se a identidade dos estamentos civil e político expressasse a verdade. Toda a sua existência era política. seu acesso ao assunto totalmente universal como uma coisa privada. aqui. por excelência”. uma mera emanação de seus reais e universais significado e eficácia políticos. certamente. A nacionalidade era o point d’honneur 32. sobre os quais é afirmada a identidade com os estamentos da sociedade civil. um acesso do estamento privado a um significado e eficácia políticos. o que isso tem em comum com o estamento privado hegeliano. Ora. mas. que. dos estamentos políticos em um sentido completamente diferente daquele dos estamentos políticos na Idade Média. Os estamentos medievais. portanto. seu acesso à soberania como um estamento privado. mais do que uma expressão da separação das sociedades civil e política! ou ainda: somente a separação dos estamentos civis e dos estamentos políticos exprime a verdadeira relação entre as modernas sociedades civil e política. Sua atividade legislativa. era um estamento particular que tinha certos privilégios mas que era. importunado pelos privilégios dos outros estamentos. porque não eram estamentos privados ou porque os estamen­ tos privados eram os estamentos políticos.E. não alcançavam uma nova determinação.Karl Marx separação é. na Idade Média. e somente a ela se político χατ’ εξοχην reportavam os impostos etc. era. Seu estamento era seu Estado.) A atividade legislativa universal dos estamentos da sociedade civil não era. (N. a sociedade civil era escrava da sociedade política.. diferentemente da sociedade civil. Hegel a pressupõe como desaparecida. como elemento político-estamental. De modo semelhante se comportavam os estamentos no interior dos principados particulares.A. ao mesmo tempo estamentos legislativos. (Entre os gregos. como elemento legislativo. mas sim tomavam parte na legislação porque e na medida em que eram político-estamentais. não era senão a representação da nacionalidade. A identidade dos estamentos civil e político era a expressão da identidade das sociedades civil e política. sua aparição como força legislativa era meramente um complemento de sua força soberana e governamental (executiva).A. a sua existência era a existência do Estado.

§ 304. de tal forma que sua própria atividade seja a prova da separação. Por outro lado.E. acima do materialismo da sociedade civil. Ele não quer nenhuma separação entre vida social e vida política. Opôs o universal em si e para si existente do Estado aos interesses particulares e à necessidade da sociedade civil. esse elemento deve ser o representante de uma identidade que não existe. A sua posição primeiramente abstrata. (N. Em uma palavra.) 91 . 2) Hegel opõe a sociedade civil. para retomá-lo depois da transcrição do § 307: “O mais profundo em Hegel”. O elemento político-estamental contém em sua própria determinação. e. segundo o lado do poder legislativo. novamente.. em verdade. 3) Ele qualifica o elemento estamental do poder legislativo como o mero formalismo político da sociedade civil. Qualifica-o como uma relação reflexiva da sociedade civil no Estado e como uma relação reflexiva que não altera o ser do Estado. ao mesmo tempo. encontram-se reunidas todas as contradições da exposição hegeliana. Marx interrompe o comentário ao § 303. ele expõe. por toda parte. o elemento estamental da sociedade legislativa (cf. como tais. mas ele quer que no interior do Estado seja expressa a sua própria unidade. Apresentou o Estado político na sua forma moderna da separação dos diferentes poderes. o conflito entre sociedade civil e Estado. isso deve ser realizado de maneira que os estamentos da sociedade civil constituam. do extremo da universalidade empírica contra o princípio do soberano ou do monarca em geral – na qual reside 34 Neste ponto. ao mesmo tempo. como tais. Ele faz do elemento estamental expressão da separação. como verdade absoluta racional. ao mesmo tempo. um significado e eficácia políticos a parte. Hegel quer: 1) fazer com que a sociedade civil não apareça. ao Estado político. também. a distinção dos estamentos. a mais alta identidade entre coisas essencialmente diferentes. nem como uma multidão decomposta em seus átomos. XIV. 2) Ele esquece que se trata de uma relação reflexiva e faz dos estamentos da sociedade civil. a saber. surpreendentes. mas. mas apenas. 1) Ele pressupôs a separação da sociedade civil e do Estado político (uma situação moderna) e a desenvolveu como momento necessário da Ideia. como estamento privado. Ao Estado real e agente.B. ele deu a burocracia como seu corpo e colocou esta. X)34. já existente nas esferas ante­ riores. em sua constituição de si como elemento legislativo.Crítica da filosofia do direito de Hegel alcança um aspecto de bravura política. indiferenciada. um estado de êxtase. Os números XIV e X identificam a numeração das folhas manuscritas de Marx. Hegel conhece a separação da sociedade civil e do Estado político. Uma relação reflexiva é. nem como uma simples massa. como o espírito que sabe. estamentos políticos. excepcionais? Nesse desenvolvimento..

assim. ao mesmo tempo. só é desejável no que respeita à política. quanto do favor da multidão –. em parte. no entanto. cf. com uma necessidade. no que respeita à sua particularidade.Karl Marx somente a possibilidade do acordo e. § 305. desse modo. se contrapõe o estamento industrial. faltam instituições políticas. a possibilidade da oposição hostil –. da busca do ganho e da mutabilidade da posse em geral – tanto do favor do poder governamental. por si. uma vontade que se funda em si e a determinação natural que o elemento da soberania contém em si. pela instituição do morgadio. entrave ao qual se deve acrescentar o significado político ou ele vai ao encontro da dissolução daquela liberdade. para a posição e significação políticas. em consequência do fato de os membros desse estamento. O direito dessa parte do estamento substancial está. o estamento da eticidade natural. § 306. nota ao § 302) somente porque sua mediação vem à existência. a propriedade da terra. A segurança e a estabilidade do estamento dos proprie­ tá­ rios fundiários pode ser aumentada. com isso. no que se refere à subsistência. ainda. como aquele dependente da necessidade e para ela voltado. e é reforçado mesmo contra o próprio arbítrio. é capaz de ser constituído como essa relação política. o patrimônio se torna. um bem hereditário inalienável. Onde. que tem por sua base a vida familiar e. e. § 307. assim também. essa posição abstrata se torna relação racional (silogismo. a disposição não está. ligada a um patrimônio – mas a conexão relativamente necessária é que aquele que possui um patrimônio independente não está limitado por circunstâncias exteriores e pode. Adendo: Esse estamento tem uma vontade mais consistente para si. chamados para essa determinação. do lado do poder soberano. fundado no princípio natural da família. a fundação e a proteção dos morgados não é senão um entrave colocado à liberdade do direito privado. No conjunto. como aquele dependente essencialmente do Estado. tal estamento possui. Esse estamento é constituído. que. mas este é alterado para o fim político. em comum com o elemento da soberania. igualmente. isto é. Um dos estamentos da sociedade civil contém o princípio que. na medida em que seu patrimônio é independente tanto do patrimônio do Estado. com isso. em parte. a essas duas espécies. certamente. assim. do lado dos estamentos. o estamento dos proprietários fundiários se diferenciará em sua parte culta e no estamento dos camponeses. mediante duros sacrifícios. mais de perto. um momento deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como momento do termo médio. reforçado pelo morgadio. O fundamento do morgadio está no fato de que o Estado não deve contar com a mera possibilidade da disposição mas. o poder governamental (§ 300) já tem essa determinação. Ao passo que. pois a ele está ligado um sacrifício para o objetivo político de que o primogênito possa viver independentemente. encontrarem-se privados do direito dos outros cidadãos de. quanto da incerteza da indústria. proceder sem impedimentos e agir em prol do Estado. e o estamento universal. de saber que ela é transmitida aos filhos com base na igualdade do amor por eles. dispor livremente de toda a sua propriedade e. porém. antes. com o que esse estamento é 92 . Ora. Como.

de resto. pois ela é a expressão aberta. lancemos ainda um olhar na exposição hegeliana. Antes de adentrarmos na coisa mesma. É a controvérsia entre constituição representativa e constituição estamental. Com isso. exigem a “separação” entre esta­ mentos sociais e políticos. a partir da Ideia absoluta. e. isto é.. tem ele a posição firme. as necessidades e os direitos que são. pois elas exprimem uma consequência da sociedade moderna: nesta. substancial. pois precisamente seu caráter de estamento privado exprime a sua oposição ao significado e à eficácia políticos. este “sustentáculo do trono e da sociedade”. vem à existência. ou a sociedade civil é o estamento privado. com o outro extremo. os pares por nascimento. Ela é a contradição declarada. que a sociedade civil em si e para si é sem significado e eficácia políticos. isso constitui algo novo. é chamado e legitimado a essa atividade pelo nascimento. O estamento privado é o estamento da sociedade civil. o discernimento próprio e a vontade própria da esfera que. como ele traz em si uma imagem do momento do poder do soberano. Por isso. o elemento político-estamental não é. o bem hereditário etc. entre o arbítrio subjetivo ou a acidentalidade dos dois extremos. sem a acidentalidade de uma escolha. a um só tempo. em consequência disso. dizia-se: A determinação conceitual peculiar aos estamentos deve. precisamente.. O mais profundo em Hegel é que ele percebe a separação da sociedade civil e da sociedade política como uma contradição. essencial e concreto da sociedade civil. tem-se: “A sociedade civil é o estamento privado”. não falseada. ser procura­ da no seguinte fato: neles. consequente. Mas o que há de falso é que ele se contenta com a aparência dessa solução e a faz passar pela coisa mesma. outra coisa senão a expressão fática da relação real de Estado e sociedade civil. Hegel exclui coerentemente o “estamento universal” do “elemento estamental do poder legislativo”. o estamento privado alcança um significado político. nota).Crítica da filosofia do direito de Hegel essencialmente destinado à atividade para esse fim e.. que se lhe acrescenta. assim também ele compartilha. Somente no elemento estamental do poder legislativo ela adquire “significado e eficácia políticos”. por isso. A constituição representativa é um enorme progresso. nessa exposição. 93 . em relação ao Estado . e então ele se torna. uma função particular. iguais. Resumindo o que vem a seguir. da condição política moderna. a privação do caráter político. Hegel não chamou a coisa de que aqui se trata por seu nome conhecido. Hegel realizou a proeza de desenvolver. No elemento estamental do poder legislativo. foi denominada sociedade civil. sustentáculo do trono e da sociedade. enquanto as “tais teorias”. por ele desprezadas. etc. ou o estamento privado é o estamento imediato. Anteriormente (§ 301. igualmente. e com razão. a sua separação.

que não 94 . certamente. ele caracterizou as distinções dos estamentos da sociedade civil como distinções não políticas. aqui. opostas. a saber. somente maiores ou menores massas acidentais (cidades. enquanto atomística. Sociedade civil e Estado estão separados. realizar uma ruptura essencial consigo mesmo. não pode. Como ele prossegue daí em diante? Ora. aparecer em sua atividade legislativo-estamental. liga-se verdadeiramente ao universal. aqui. que se dedica mais de perto ao serviço do governo. O cidadão deve. mas. nem como simples massa indiferenciada. A sociedade civil ou o estamento privado não tem isso como sua determinação. Como Hegel qualificou a sociedade civil como estamento privado. renunciar àquilo que ele é já como estamento privado. Há. Portanto. no indivíduo. Essas massas. tem imediatamente. isto é. real no Estado. a sociedade civil deve separar-se de si completamente como sociedade civil. O estamento privado é o estamento da sociedade civil contra o Estado. aparecer “como aquilo que ele já é”.). sua atividade essencial não é uma determinação do universal. Nele. do membro da sociedade civil. a ele se opõe diretamente. Esse ato político é uma completa transubstanciação. o universal como fim de sua atividade essencial. este não pode aparecer. diferenciado no estamento que se funda na relação substancial e no estamento que se funda nas necessidades particulares e no trabalho que as mediatiza (§ 201 ss. O estamento da sociedade civil não é um estamento político. O que é a lei geral se mostra. não é determinação universal. do Estado transcendente. pois a “simples massa indiferenciada” existe apenas na “representação”. a sociedade civil. por toda parte. ou seja. ou melhor. vilarejos etc. [§ 303] Como uma “simples massa indiferenciada”. nem como uma multidão dissolvida nos seus átomos. Somente com isso ele adquire seu “significado e eficácia políticos”. na “fantasia”. aqui. oposição e separação em relação ao Estado. levando-se isso em consideração. e deve fazer valer uma parte de seu ser. não só aparece. Como cidadão real. ele se encontra em uma dupla organização. o elemento particular. aquela que não somente não tem nada em comum com a existência social real de seu ser.Karl Marx O estamento universal. ele deve. antes. Pois o que ele já é? É estamento privado. até mesmo. Somente desse modo. isto é. antes. Para alcançar “significado e eficácia políticos”. a burocrática – que é uma determinação externa. e a vida burguesa e a vida política como heterogêneas e. como é realmente. como estamento privado. “uma multidão dissolvida nos seus átomos” e. do poder governamental.). ela deve aparecer e produzir-se em sua atividade político-estamental. também o cidadão do Estado está separado do simples cidadão. não na realidade. como. em sua determinação. essa massa. pois. como aquilo que ele já é. sua atividade essencial não tem a determinação de ter como fim o universal. O estamento privado. antes. aqui. a sociedade civil (o estamento privado) não pode. formal.

Se Hegel já opõe o conjunto da sociedade civil. que as distinções no interior desse princípio não existem para o Estado político. pois a única existência que ele encontra para sua qualidade de cidadão do Estado é sua individualidade nua e crua. que. sua vida social real deve ser posta como não existente. pois o elemento estamental do poder legislativo tem precisamente a determinação de pôr como não existente o estamento privado. por outro lado. a sociedade civil. pois. e a fim de que ele. ela não tangencia o Estado político como tal. como “poder”. como estamento privado. No elemento estamental. ele pode ser cidadão do Estado. o oposto do particular. Apenas em contradição com essas únicas comunidades existentes. chegue à existência. para alcançar significado e eficácia políticos. o Estado se comporta como oposição formal ao cidadão. têm apenas um significado privado. abstrair-se dela. já que a existência do Estado como governo está completa sem ele e que a existência dele na sociedade civil está completa sem o Estado. apenas como indivíduo. como idealista do Estado. o universal se torna realmente para si o que ele é em si. Sua existência como cidadão do Estado é uma existência que se encontra fora de suas existências comunitárias. Nesta última. Mas se o princípio deve ser abandonado. é. sua organização real. o estamento privado. Antes do “poder legislativo”. pois precisamente este estamento se encontra entre o indivíduo e o Estado político. o cidadão se encontra. fora do Estado. a sua própria realidade empírica. de fato. refugiar-se de toda essa organização em sua individualidade. com mais razão ainda. A separação da sociedade civil e do Estado político aparece necessariamente como uma separação entre o cidadão político. ao Estado político. para a qual ele sempre dá a matéria. porém. a organização da sociedade civil. nenhum significado político em relação ao Estado. portanto. na segunda. o estamento privado. puramente indivi­ dual. a saber. apenas a organização. não existe como organização estatal. dentro de si mesma. do estamento privado como princípio da sociedade civil. os diferentes estamentos da sociedade civil. para se comportar como cidadão real do Estado. ele é um ser totalmente diferente de sua realidade. Pois os diferentes estamentos da sociedade civil são simplesmente a realização. para obter significado e eficácia políticos. como homem privado. sendo. A primeira é uma organização estatal. aqui. “levando-se isso em consideração. O “poder legislativo”. liga-se verdadeiramente ao 95 . existe já como burocracia. o cidadão se comporta como oposição material ao Estado. o cidadão do Estado. cuja matéria não é o Estado. Na primeira. “Somente desse modo”. o elemento particular. então é evidente. efetiva. o corpo comum que ela deve adquirir. diverso. ele deve abandonar sua realidade social. então é evidente que as distinções no interior do estamento privado. oposto. um ser distinto. conclui Hegel o parágrafo.Crítica da filosofia do direito de Hegel tangen­ cia o cidadão e a sua realidade independente – e a social. em tal condição. a relação entre Estado e sociedade civil. Portanto. real no Estado. a sociedade civil. O cidadão deve abandonar seu estamento. e a sociedade civil. A sociedade civil realiza. a sociedade civil. A segunda é uma organização social. a existência do princípio.

e como a concepção de Hegel. em uma massa de indivíduos. O atomismo. [§ 303] 96 . Esse particular não é o “particular no”. Hegel não superou o estranhamento. mas ela é o atomismo da própria sociedade. Muito prudente é. resulta necessariamente de que a comunidade. na sociedade civil. Mas Hegel confunde.” Acabamos de indicar como essa concepção corrente é consequente. precisamente porque ele é uma abstração da família e da sociedade civil. e é inútil não querer ver este abismo que é transposto e demonstrado por meio da própria transposição. a determinação de que o particular “liga-se ” ao universal. e não um fundamento firme e legítimo em si e para si.” Abstrata é. como o próprio Hegel o desenvolve. isto é. por assim dizer. por uma má consciência. ainda que ela desapareça já na família e mesmo. Mas o Estado é etc. reaparece no Estado político. em que a socie­ dade civil se precipita no seu ato político. A expressão “o particular no Estado” só pode significar. abstrata. diz-se em seguida. também. para provar isso. Ligar é coisa que pode ser feita com as coisas mais heterogêneas. ao qualificar a sociedade civil como “estamento privado”. quer dizer. muito corrente em certos círculos. Não se trata aqui. “A concepção”. por conseguinte o acidental. uma “concepção necessária do atual desenvolvimento do povo”. A “opinião” não pode ser concreta quando o objeto da opinião é “abstrato”. é a sociedade civil separada do Estado. Hegel diz: “Essa opinião atomística. que a sociedade civil seja a so­ ciedade política. o ponto de vista da mais elevada universalidade concreta –. real no Estado”. mesmo sendo. também. talvez (??). que dissolve novamente. O mesmo acontece em sentido contrário. as comunidades já existentes nesses círculos – nos quais elas adentram o campo político. o Estado como totalidade da existência de um povo com o Estado político. de uma transição gradual. essa opinião. Essa opinião atomística. mas ele mesmo o confirma ainda nesse parágrafo. desaparece já na família etc. Ela é atomística também. “a particularização do Estado”. porém. necessária. mas “fora do Estado”. não deixa de ser uma inverdade. Ele não apenas não é “o particular. ou que o Estado político é uma abstração da sociedade civil. Diz Hegel na nota: “Isso vai contra uma outra concepção corrente etc. mas de uma transubstanciação. aqui. Hegel. fora do Estado político. o ser em comum no qual existe o indivíduo. no ar. Não só ele mesmo desenvolveu o contrário. mantém precisamente nisso a vida social e a vida política separadas uma da outra e coloca esta última. Retornando à concepção corrente. pois a sua base seria apenas a singularidade abstrata do arbítrio e da opinião. certamente. mas ela é a “abstração” do Estado político. aqui. como é também a “irrealidade do Estado”. Ao exprimir a estranheza desse fenômeno. isto é. etc. escolhe a expressão indeterminada.Karl Marx universal”. Hegel quer demonstrar que os estamentos da sociedade civil são os estamentos políticos e. supõe que os estamentos da sociedade civil sejam a “particularização do Estado político”.

uma comunidade que contém o indivíduo. Dinheiro e cultura são os critérios principais. Em seu sentido medieval. A ele se opõe a sociedade civil como estamento privado. nem a política. o que determina se ele se mantém ou não 97 . A transformação propriamente dita dos estamentos políticos em sociais se deu na monarquia absoluta. A separação da vida política e da sociedade civil foi. Essa concepção não põe a vida política no ar. fez das distinções estamentais da sociedade civil simples distinções sociais. a sociedade civil se tornou outra. mas que é em parte o acaso. algo de comum. distinções da vida privada. mas em círculos móveis. O estamento atual da sociedade mostra já a sua diferença do antigo estamento da sociedade civil no fato de que ele não é. O estamento da sociedade civil não tem como seu princípio nem a necessidade. o estamento permanece. consumada. é apenas aquele dos membros do poder governamental. mas a vida política é a vida aérea. como outrora. Característico é somente que a privação de posses e o estamento do trabalho imediato. Consideremos. apenas aquela entre cidade e campo. Mas dentro da própria sociedade a distinção se forma não em círculos fixos. uma distinção política no interior e ao lado da burocracia do poder governamental absoluto. O estamento propriamente dito. de modo que. constituam menos um estamento da sociedade civil do que o terreno sobre o qual repousam e se movem os seus círculos. então. onde posição política e posição social coincidem. É uma divisão de massas que se formam fugazmente. É um progresso da história que os estamentos políticos tenham se tornado estamentos sociais. ela é simplesmente a representação de uma separação realmente existente. os estamentos da sociedade civil se transformaram igualmente: mediante sua separação da sociedade política. do trabalho concreto. onde a posição social e a posição política são imediatamente idênticas. superficial e formal é. em parte o trabalho etc. a distinção social dos estamentos permanecia como uma distinção política. assim. a região etérea da sociedade civil. apenas no interior da própria burocracia. que é um momento natural. A única distinção geral. e sim na crítica à exposição hegeliana da sociedade civil. também os membros singulares do povo são iguais no céu de seu mundo político e desiguais na existência terrena da sociedade. o sistema estamental e o sistema representativo. cujo princípio é o arbítrio. A distinção estamental não é mais. do indivíduo.Crítica da filosofia do direito de Hegel Tal concepção não mantém a vida social e a vida política separadas. sem qualquer significado na vida política. Mas não desenvolveremos isso neste momento. Somente a Revolução Francesa completou a transformação dos estamentos políticos em sociais. aqui. Todavia. ao lado da burocracia do poder governamental absoluto. Basta. A burocracia fez valer a ideia da unidade contra os diferentes estados no Estado. ou seja. uma distinção segundo a necessidade e o trabalho como corpos autônomos. cuja própria formação é arbitrária e que não é uma organização. ainda. Com isso. assim como os cristãos são iguais no céu e desiguais na terra. aqui.

a ter significado. A era moderna. em seu interior. mas se concretize como comunidade. pois não é inerente ao seu trabalho nem se relaciona com ele como uma comunidade objetiva. uma função da sociedade. O médico não forma nenhum estamento particular na sociedade civil. são necessárias à sua existência no todo. um estamento que é. como um vínculo com o todo. corporação. existente. isto é. ele próprio. manifesta-se como sua determinação humana. na verdade. Um comerciante pertence a um estamento diverso daquele de outro comerciante. faz dele um animal que coincide imediatamente com sua determinidade. conteúdo etc. Ela não toma o conteúdo do homem como sua verdadeira realidade. organizada segundo leis estáveis e mantendo com ele relações estáveis. em lugar de fazer dele um membro. faz dele uma exceção da sociedade. o significado de que a distinção. como lei geral. O estamento não só se baseia. como determinações exteriores. O modo de vida. ele não mantém qualquer relação real com o agir substancial do indivíduo. material. em parte. quando não é uma tradição da Idade Média. Em vez de ser função da sociedade. isso não apenas não suprime a sua natureza exclusiva. A Idade Média é a história animal da humanidade. é a existência do indivíduo. ela também se separou. sua zoologia. isto é.) A constituição estamental. comete o erro inverso. apenas uma determinação exterior do indivíduo. antes. (A atual sociedade civil é o princípio realizado do individualismo. como um ser apenas exterior. Pois todas as suas outras determinações na sociedade civil aparecem como inessenciais ao homem. Em seu significado político. como ser social. deste último. que. de também fazê-la novamente uma distinção social. a separação. atividade.. Ao contrário. Que essa distinção não seja apenas uma distinção individual. geralmente. na limitação de sua esfera privada. mas um vínculo do qual ele pode muito bem prescindir. a civilização. a existência individual é o fim último. é somente aqui que ele chega. ou que sua determinação como membro do Estado. em estamento e posição social. com seu estamento real. são apenas meio. O princípio do estamento social ou da sociedade civil é o gozo e a capacidade de fruir. para tantas quantas são as relações que têm lugar entre ambos. na separação da sociedade. trabalho. o membro da sociedade civil abandona seu estamento. Assim como a sociedade civil se separou da sociedade política. dentro da própria esfera política. de fazer da sua particularidade a sua cons­ ciência substancial e. como também separa o homem de seu ser universal. como é.Karl Marx em seu estamento. como a distinção estamental existe politicamente. ao indivíduo. somente sua expressão. é a tentativa de lançar. Ela separa do homem o seu ser objetivo. a função individual se converte em uma sociedade para si. o homem. atividade etc. sua real posição privada. estamento. por sua vez. O homem real é o homem privado da atual constituição do Estado. 98 . é o seu privilégio. ele pertence a outra posição social. O estamento tem. como homem.

A. aqui. a distinção dos estamentos assume um significado “próprio”. imersa na esfera política. aparente identidade. uma determinação que deve provir unicamente da esfera política e. a distinção dos estamentos também afirmou. mas sim conferiam significado a si próprios. e sim uma determinação alegórica.E.) 35 99 . o estamento determinado (a distinção estamental). O dualismo de sociedade civil e Estado político. o homem. a distinção dos estamentos. a distinção social dos estamentos recebe. Passemos ao § 304. ela recebe uma determinação. já existente nas esferas anteriores. Eles não adquiriam um significado no mundo político. mas do sujeito da esfera social. encontra-se então em outra determinidade. aqui. que ele. mas. na medida em que este a acolhe como seu ser. (N. em diferentes significados. doutra vez. ainda não havia essa separação e duplicação de significado dos estamentos. inter Em Hegel “determinação” (Bestimmung) em vez de “significado” (Bedeutung). o homem não é sujeito. Para representar tal sujeito limitado. Porém. na esfera política. estes são mistificados e desenvolvidos em uma dupla figura ilusória. ele não perde sua identidade. não o seu “significado já existente” (o significado que ela possui na sociedade civil). mas sim o “elemento político-estamental”. permanece igual a si mesmo. já existente nas esferas anteriores”. Há. como o sujeito essencial dos dois predicados. correspondente a este elemento e não a ela.Crítica da filosofia do direito de Hegel O restante sobre esse assunto será desenvolvido na seção: “sociedade civil”. Já demonstramos que a “distinção dos estamentos. é algo diferente desta limitação) é mantida de forma artificial median­ te a reflexão de que. Enquanto a organização da sociedade civil era política ou o Estado político era a sociedade civil. indeterminada. há um duplo sujeito e essa identidade ilusória (ela é já ilusória porque o sujeito real. nas diversas determinações de seu ser. como tal. que a constituição estamental pretende resolver por meio de uma reminiscência. mas sim identificado com um predicado – o estamento – e. determinada. mas com uma determinação essencialmente diversa. ao mesmo tempo. ou para provar a identidade de ambos os predicados. afirma-se que ele. ao mesmo tempo. uma vez. um significado diferente daquele da esfera social. na esfera política. evidencia-se por si mesmo no fato de que a distinção dos estamentos (a distinção interna da sociedade civil) adquire. segundo Hegel. ou tem apenas o significado de uma distinção privada. o mesmo sujeito. O mesmo sujeito é tomado. O elemento político-estamental contém em seu próprio significado35. ao se encontrar nessa determinidade determinada. não tem nenhum significado para a esfera política. aqui. que não deriva da esfera política. portanto não política. mas o significado não é a sua autodeterminação. como esta limitação exclusiva. Eles não significavam uma coisa no mundo social e outra no mundo político. portanto. aqui. na verdade.

O significado que a distinção social dos estamentos adquire na esfera política não provém dela mesma. mas sim da esfera política. Enquanto o príncipe emana em uma circulação que se ramifica. e esta mesma vontade do Estado. Hegel continua: Como. de interpretar uma antiga visão de mundo com o sentido de uma nova. pois a monarquia constitucional só 36 “principal. o tem também o elemento estamental do lado do povo. entre a singularidade empírica e a universalidade empírica. outro sujeito concreto. mística. ter também outro significado. É a maneira acrítica. o termo médio entre o princípio monárquico e o povo. sujeito. Hegel devia determinar a vontade soberana como singularidade empírica. nem o significado alcança a forma e o significado real. “A sua” (do elemento político-estamental) posição primeiramente abstrata. do extremo da universalidade empírica contra o princípio do soberano ou do monarca em geral – na qual reside somente a possibilidade do acordo e. em comum com o poder governamental. E vice-versa. entre a vontade do Estado. deu-se historicamente. por excelência”. e ela poderia. aqui. pela determinação propriamente dita. o poder governamental (§ 300) já tem essa determinação. E nós já vimos que o mesmo significado que tem o poder governamental do lado do príncipe. o povo se condensa em uma edição em miniatura. e para o mesmo sujeito outro significado. mas ele não exprime a oposição em toda a sua agudeza. a possibilidade da oposição hostil –. e então se compara para saber se o sujeito que pretensamente lhe pertence é seu predicado real. (N. comparar com a nota ao § 302) somente porque sua mediação vem à existência. pelo que ela se torna apenas um híbrido infeliz.E. igualmente. tal como. esse misticismo. do lado do poder soberano. de resto. Vimos que os estamentos formam. para o mesmo significado. εξοχην em especial da filosofia do direito e da filosofia da religião. assim como determinou a vontade da sociedade civil como universalidade empírica. como muitas vontades empíricas. Liberta-se dessa ilusão da melhor maneira quando se toma o significado pelo que ele é. Ocorre que os verdadeiros opostos são o príncipe e a sociedade civil. se ele representa a sua essência e a sua verdadeira realização. como uma vontade empírica. no qual a forma engana o significado e o significado engana a forma. Poder-se-ia tomar. é tanto o enigma das modernas constituições (χατ’ ` ` 36 das estamentais) como é também o mistério da filosofia hegeliana.A. do lado dos estamentos. Essa ausência de crítica. com isso. como tal.Karl Marx posta. essa posição abstrata se torna relação racional (silogismo. um momento deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como momento do termo médio. assim também. faz-se dele.) 100 . a saber. e nem a forma alcança seu significado e a forma real.

parece não somente ter de permitir que a mediação venha à existência. o silogismo. em comum com o poder governamental. portanto. primeiramente. de sua própria determinação. a sociedade civil. parece. que este Estado não é um verdadeiro Estado. O elemento estamental é. que tem o poder legislativo no Estado moderno (do qual Hegel εξοχην é intérprete). (N. O poder legislativo. o silogismo como termo médio. o elemento estamental deveria propriamente ser. Disso se depreende. não a partir da natureza da coisa.Crítica da filosofia do direito de Hegel pode se entender com o povo en miniature. χατ’ ` ` 38 política. e a vontade da universalidade empírica.) 101 . do sujeito e do predicado. a saber. a oposição dissimulada entre universalidade e singularidade. em seu desenvolvimento do silogismo racional. “em comum com o poder governamental”. preferen­ cialmente. ilusória. mas antes por consideração a uma existência que reside fora de sua determinação essencial. Os dois extremos abdicaram de sua rigidez. o termo médio. mas praticamente.E. mas que ele mesmo já seja a mediação que veio à existência. porém. enviaram um ao outro o fogo de seu ser particular e o poder legislativo. o príncipe. por excelência”. A mediação parece. é construído somente em consideração a um terceiro. da singularidade empírica e da universalidade empírica. do extremo da universalidade empírica contra o princípio do soberano ou do monarca em geral. O poder legislativo. que a “mediação” que Hegel quer estabelecer aqui não é uma exigência que ele deduz a partir da essência do poder legislativo. realmente. do princípio monárquico e da sociedade civil. pois nele as determinações estatais. É uma construção da consideração. preferencialmente a construção de sua existência formal que absorve toda a atenção.A. na qual reside somente a possibilidade do 37 38 “mistura”. mas como forças em oposição. o termo médio entre a vontade da singularidade empírica. do lado da sociedade civil. exatamente a mesma abstração do Estado político que o poder governamental o é do lado do príncipe. não como forças independentes. Hegel também já qualificou o elemento estamental. A relação racional.A. mas segundo as regras da convenção. (N. portanto.). entre elas o poder legislativo. estar completamente constituída. Observemos. “sua posição” é uma “posição primeiramente abstrata. cujos elementos são precisa­ mente tanto o poder governamental quanto os estamentos. não teoricamente. como o termo médio entre povo e príncipe (assim como o elemento estamental como o termo médio entre sociedade civil e governo etc. O termo médio é o ferro de madeira. Portanto. têm que ser consideradas não em si e para si. toda a trans­ cendência e o místico dualismo de seu sistema tornam-se evidentes. portanto. na verdade.E. Isso decorre da posição falsa. estar concluída. É. como um mixtum compositum. em geral. por si. O poder legislativo é construído muito diplomaticamente. é um mixtum compositum37 dos dois extremos. Hegel concebe.) “principal. a propósito de todo esse desenvolvimento. Pode-se dizer que.

Todo empírico. deixou de ser a “universalidade empírica”. uma singularidade empírica ou particularidade. a sociedade civil tomou forma celeste em um certo número de homens políticos. a uma comissão. Uno empírico. nele abandona a sua vontade “sem fundamento”. no elemento estamental. tem necessidade apenas de “que sua mediação venha à existência”. exclusivo. responsáveis. bastante apropriada para que os elementos agarrem uns aos outros pelos cabelos. a sociedade civil perdeu seu inacessível. tal como Hegel desenvolve corretamente. também. portanto. também a sociedade civil se deu. parece ser. mais ainda. da responsabilidade e do pensamento. que tem tanto “o sentido e a disposição do Estado e do governo. assim como o poder governamental é delegado do príncipe. o princípio soberano deixa de ser o extremo da singularidade empírica. Hegel parece afirmá-lo sem fundamento. um a sua rigidez. uma “posição abstrata”. Que essa mediação seja realizada pelo lado do elemento estamental. muito mais. em sua edição estamental em miniatura. mas um todo bem determinado. o poder governamental (§ 300) já tem essa determinação. o extremo da singularidade empírica. Ambos se tornaram uma particularidade. uma oposição no interior do próprio poder legislativo. Essa “mediação”. A única oposição que ainda é possível aqui parece ser aquela entre os dois representantes das duas vontades do Estado. assim também. e. Ela é muito mais a existência da contradição do que a existência da mediação. a um número bem determinado. Do mesmo modo que. e. nos estamentos. No elemento estamental. com isso. quanto os interesses dos círculos particulares e dos singulares” (§ 302). entre as duas emanações. um momento 102 . Ela se rebaixou. palpáveis. do lado dos estamentos. No elemento governamental do poder legislativo. Os dois lados perderam sua intangibilidade. de um lado. Pois os estamentos são delegados da sociedade civil. que pretendiam juntos mediar sociedade civil e príncipe. igualmente a possibilidade da oposição hostil”. a inacessível singularidade empírica do príncipe tomou forma terrena em um certo número de personalidades limitadas. como Hegel observa corretamente. Antes de mais nada. rebaixa-se à “finitude” do saber. no poder governamental delegado. mas também uma contradição irreconciliável. nem o “princípio do soberano ou do monarca”. a oposição parece. no elemento estamental. a sociedade civil não parece ser mais a universalidade empírica. se contrapõem. entre o elemento governamental e o elemento estamental do poder legislativo. e no elemento governamental do poder legislativo. A sociedade civil. O poder soberano perdeu o seu inacessível. vago. Ele diz: Assim como. se o príncipe se deu uma universalidade empírica no poder governamental. de outro. parece que aqui nem o “extremo da universalidade empírica”.Karl Marx acordo e. portanto. a outra sua fluidez. assim também. A mediação “comum” parece. ter se tornado primeiramente uma oposição belicosa. do lado do poder do príncipe.

Eles fazem. o elemento governamental do poder legislativo? Acrescente-se. também. do lado da sociedade civil. ao contrário. tanto mais que “um momento determinado. por toda parte. portanto também 39 Marx faz aqui um trocadilho. que têm de ser. o próprio sacrifício? Deve ele cortar uma de suas mãos. Por que. como o Cristo desse poder.. que o papel dos extremos. quanto no sentido literal. ocupa a posição de um extremo. a fim de que não possa enfrentar com as duas seu antagonista. a própria ponte – o termo médio – que os une ao governo. que Hegel fez com que os estamentos resultassem das corporações. e que agora. (N. aqui. o princípio soberano. entre príncipe e sociedade civil. porém. nota). empregando a expressão “ponte dos asnos” tanto em seu sentido escolástico (pons asinorum). O outro extremo. Os estamentos não se situam apenas. a fim de que eles não fossem uma “mera universalidade empírica”. como extremo. que Hegel opõe. o qual. ainda. os estamentos. que se encontra como tal no meio do poder legislativo. então. deva ser o de servir de mediador “de sua mediação”. quando ao mesmo tempo é termo médio. já que ela não possui assento no “poder legislativo” como ela própria. assim também a sociedade civil estabelece sua mediação com o príncipe por meio dos seus padres. Eles chegaram ao cúmulo da mediação. do poder soberano (singularidade empírica) e da sociedade civil (universalidade empírica). Ele parece.Crítica da filosofia do direito de Hegel deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como o momento do termo médio. em comum com o poder governamental. Pois. por meio do poder governamental. de forma arbitrária e inconsequente.T. distinções estamentais etc. pois. mais do que o poder governamental o faz do lado do poder soberano. mas também entre o governo em geral e o povo (§ 302). antes. qualificado para isso. parece. isso é algo que se encontra entre as mais importantes intuições lógicas” (§ 302. estabelece sua mediação com a sociedade civil. por um lado. o todo do Estado está nele representado. Parece. portanto. A mesma determinação que o poder governamental possui do lado do poder do príncipe. uma vez que é propriamente este último que se contrapõe ao povo como seu oposto. o elemento estamental a possui do lado da sociedade civil. do diagrama utilizado para descobrir as possibilidades de termos médios de um silogismo. Os estamentos são os asnos sobrecarregados de funções. estando em oposição. A sociedade civil parece não poder assumir esse papel. ter de se fazer de mediador entre o elemento estamental e o governamental. ainda. deixe de sê-lo e se torne momento orgânico. para fazer com que deles resulte a distinção estamental! Do mesmo modo que. Já vimos.) 103 . ele os transforma em mera “universalidade empírica”. justamente entre ele e seu oponente? Por que é ele. sobrecarregar este asno com mais sacos ainda? Por que o elemento estamental deve. por toda parte. príncipe e estamentos como extremos. constituir. o príncipe. a ponte de asnos39.

Marx comete. para não ser um extremo unilateral? Aqui se evidencia todo o absurdo desses extremos.) O príncipe deveria. faz do poder governamental o representante. (N. um destes. que existe corporeamente no príncipe. seguimos a tradução de F. cena 1. coloca-se entre o intermediário e o outro litigante. 205-77). então. Porque. Aquilo que se determina primeiramente como termo médio entre dois extremos comporta-se. Para o nome das personagens em português. entre a mulher e o médico. como o faz o poder governamental. os outros dois não podem tocar nele.T. o poder governamental é justamente o termo médio entre ele e a sociedade estamental. de Almeida Cunha Medeiros e Oscar Mendes (W. Tal como o leão no Sonho de uma noite de verão. a emanação do príncipe. como extremo (porque em sua distinção com o outro extremo) entre o seu extremo e o seu termo médio. não o poder governamental na sua idealidade. C. ora o Marmelo da mediação. Hegel vê não a ideia real do poder governamental. p. antes. mas sim o sujeito que é a Ideia absoluta. por conseguinte. aqui. já que a universalidade empírica só é real como singularidade empírica. ora o leão da oposição. um pequeno equívoco: no entremez representado no interior da peça. ora de costas. este. o “leão” é protagonizado pelo marceneiro Pino (Schnock) e não pelo carpinteiro Marmelo (Squenz). que desempenham alternadamente ora o papel de extremos. cada extremo é. ora o de termo médio. então o poder governamental se torna um prolongamento místico da alma existente em seu corpo – no corpo do príncipe. cuja existência tem de ser o príncipe. a mulher devia se colocar entre o médico e o marido e. São Paulo. Ele mesmo é Estado. Shakespeare. ele mesmo. o momento material. Assim. na Ideia. aqui. e particularmente ele tem em comum com os estamentos a “singularidade empírica” da vontade. natural. no poder legislativo. Além disso. Abril Cultural. com o que. mas apenas golpear aquele que. 1981. Comédias e sonetos. porém. e esta é o termo médio entre ele e a sociedade civil! Como deveria ele mediar aqueles de quem ele tem necessidade. era o extremo. que através daquele era mediado com o outro. como extremo. por sua vez. (Hegel.) 104 . o príncipe é o cume e o representante do poder governamental. É uma complementação recíproca. mostra-se. que ora se mostram de frente. eu sou Marmelo”40. tem.Karl Marx a sociedade civil. da comédia de Shakespeare. em comum com a sociedade civil. e um dos dois extremos. mas que tem muito medo das manchas roxas para se bater 40 Referência ao ato V. como consciência de Estado. Tal como um homem que se encontra entre dois litigantes e. então. Trata-se de uma sociedade belicosa em seu âmago. de termo médio entre o poder governamental e o elemento estamental. ele não se opõe à sociedade civil apenas como formalidade. Por outro lado. São cabeças de Jano. e que de frente têm um caráter diverso do de costas. que tudo inverte. agora. É a história do homem e da mulher que brigavam e do médico que queria servir de conciliador entre eles. então. que exclama: “Eu sou um leão e não sou um leão. fazer-se. Quando um extremo grita: “agora eu sou o meio”. como seu termo médio.

os momentos abstratos do silogismo. mas. eles não chegam a qualquer decisão. Quanto ao segundo ponto. um dos dois apresenta-se novamente como o terceiro. antes. ambos. que. protegê-lo das pancadas do outro oponente. o espírito é apenas a abstração da matéria. então. então. polo norte e polo sul são. É notável que Hegel. O espiritualismo abstrato é materialismo abstrato. os sexos feminino e masculino igualmente se atraem. deva receber as pancadas. por isso não falseada. não atinge a realização de sua tarefa. A diferença é. Extremos reais não podem ser mediados um pelo outro. (Mas quando Hegel trata a universalidade e a singularidade. Mas eles não precisam. Por outro lado. Esse sistema também é feito de tal forma que o mesmo homem que quer espancar seu oponente deve.E. lógica. Verdadeiros extremos reais seriam polo e não polo. Não têm nada em comum entre si. como o silogismo racional. (N. a essência humana. Norte e sul são determinações opostas de uma essência. gênero humano e inumano. pois eles são seres opostos. Cada extremo é seu outro extremo. como opostos reais. O resto sobre isso pertence à crítica da lógica hegeliana. como o mistério especulativo da lógica. e. que reduz esse absurdo da mediação à sua expressão abstrata. compreende-se. aqui. do mesmo modo. na sua abstração. Um não tem em seu seio a nostalgia. ao mesmo tempo.) A isso parece se contrapor: les extrêmes se touchent 41. por exemplo. 41 “os extremos se atraem”. nele reside a determinação principal de que um conceito (existência etc. lá uma diferença da essência. como a relação racional. precisamente porque são extremos reais. em parte com a abstração independente (abstração. o objeto do qual ele abstrai.) 105 . aqui o materialismo abstrato. de qualquer mediação. se ajustam de tal modo que o terceiro. e somente pela união de suas diferenças extremas o homem nasce. de que ele não tem significado como conceito independente. os sexos feminino e masculino são um gênero. Eles são a essência diferenciada. assim. é esse precisamente o dualismo fundamental da sua lógica. mas apenas como uma abstração de outro conceito e apenas como essa abstração. não demandam um ao outro. É evidente. o materialismo abstrato é o espiritualismo abstrato da matéria. Polo norte e polo sul se atraem. de duas essências. intransigível. o contrário abstrato. que querem brigar. No que concerne ao primeiro ponto. sua essência é idêntica. uma essência. o espírito é. e os dois. a antecipação do outro. justamente porque essa forma deve produzir seu conteúdo. não se completam. e precisamente como essa determinação diferen­ ciada da essência. uma diferença da existência. Eles são o que são apenas como uma determinação diferenciada. nessa dupla ocupação. e. Se a diferença no interior da existência de um ser não fosse confundida. a diferença de uma essência em seu mais alto desenvolvimento. o designe. que se encontra entre eles. polo.Crítica da filosofia do direito de Hegel realmente.A.) é tomado abs­ tratamente. também. diante de tamanha precaução. sua essência real. a necessidade. por outro lado.

imediatamente prática. a ter necessidade de uma nova mediação do lado do elemento estamental? Ou compartilha Hegel o “preconceito. sua transubstanciação no Estado político. em verdade. o elemento “estamental”. cada abstração e unilateralidade seja considerada verdadeira. A posição não é igual. 3) que se procure sua mediação. enquanto o outro extremo. no “poder legislativo”. cristianismo ou religião em geral e filosofia são extremos. vimos que. Mas. do “poder legislativo”. em suma. frequente mas altamente perigoso. aparece como abstração de outro. 3) sociedade civil. é. além disso. e isso não tem para o outro o significado de verdadeira realidade. como se essa fosse sua posição essencial”?? (§ 302 nota). dissolvida na própria filosofia.Karl Marx não de outro. que deveria ser propriamente a sociedade civil. portanto. então um tríplice erro seria evitado: 1) que. Um invade o outro. seja pensada como algo possivelmente evitável ou nocivo. encontra-se nele 3) um extremo como tal. e o poder do príncipe como elemento governamental. Somente como elemento “estamental” a sociedade civil se organiza. o elemento “estamental”. é próprio apenas da essência de um deles o ser extremo. (É porque a sociedade civil é a irrealidade da existência política. 2) a deputação da sociedade civil. o “poder governamental”. mas. Pois a filosofia compreende a religião em sua realidade ilusória. Encontramos nele 1) a depu­ tação do princípio soberano. em existência política. Voltaremos a essa questão mais adiante. estimularam-se apenas para formar uma oposição real. sua sepa106 . enquanto quer ser uma realidade. Apenas o “poder legislativo” é. o poder legislativo é totalidade. Pergunta-se: como Hegel chega. portanto. sua constituição em extremos. a sociedade civil como elemento “estamental”. está. a sociedade civil como tal. O extremo. A religião. para a filosofia. o princípio soberano. como vimos. como vimos. em vez de aparecer como totalidade em si mesmo. O elemento “estamental” é “a sociedade civil do Estado político”. por meio do que um princípio. que a existência política da sociedade civil é sua própria dissolução. por essa razão. sendo verdadeiro apenas o extremo. Apenas por meio disso o elemento “estamental” se torna extremo do princípio “soberano”. de conceber os estamentos principalmente do ponto de vista da oposição ao governo. 1) princípio soberano. que não é senão a sua autoconsciência e o seu incitamento para a resolução da luta. Por outro lado. em parte com a contradição real dos seres reciprocamente excludentes. o Estado propriamente político em sua totalidade. O elemento “estamental” é sua existência política. Aqui ele é. por isso. A questão é simplesmente esta: por um lado. Então. mas propriamente de si mesmo). 2) poder governamental. que a sociedade civil deveria constituir perante o príncipe. não se encontra nele. Por exemplo. a religião não constitui uma oposição verdadeira à filosofia. Não se dá um real dualismo da essência. como ambos os extremos se apresentam em sua existência como reais e como extremos. 2) que a resolubilidade de opostos reais.

portanto. a determinação social re vera42 fosse a determinação política. portanto. mas a “particularidade empírica”. uma oposição ao poder governamental. a realização do bur­ guês (bourgeois). ele dá a esse elemento o significado oposto. Eis por que Hegel também designa o elemento “estamental” novamente como o “extremo da universalidade empírica”. Mas Hegel tem em vista o significado moderno do elemento estamental. como representantes das corporações etc. esse extremo constitui. ele a determine. trata-se da antinomia de Estado político e sociedade civil. então. a saber.) Do mesmo modo. Eles seriam o poder do particular sobre o universal. precisamente por isso. 42 “na realidade”. pois este último perde. isto é. dentro do poder legislativo. Sem dúvida. da contradição do Estado político abstrato consigo mesmo. e essa mediação deve partir do “elemento estamental”. (N. que transigiriam entre si e com o governo. portanto. da mediação.A. Não teríamos. (Hegel. não seriam a “universalidade empírica”. mas o poder legislativo dos diferentes estamentos.) 107 . corporações e classes sobre o todo do Estado. ao contrário. portanto. quando essa contradição tem sua razão em algo mais profundo. mas que. O “poder legislativo” é a totalidade do Estado político e. isso aparece como oposição dos elementos do princípio soberano e do princípio do elemento estamental etc. Os estamentos da sociedade civil não receberiam nenhuma determinação política. o que é propriamente a sociedade civil ela mesma. então. também. o significado de representação da sociedade civil e se torna elemento primário. da sociedade civil consigo mesma. não um poder legislativo. mas determinariam o Estado político. Isso só teria sentido se os diferentes estamentos como tais fossem estamentos legislativos e. a “particularidade da empiria”!). um poder legislativo do todo do Estado. na Ideia. aqui. O “poder legislativo” necessita. Os estamentos. Em verdade. Eles fariam de sua particularidade o poder determinante da totalidade. em si mesmo. por exemplo. no entanto. Nele colidem princípios totalmente diversos. de ser determinado pela essência do Estado político. O poder legislativo é a revolta posta. do mesmo modo. Teríamos. se a diferenciação da sociedade civil. o elemento estamental é a sociedade civil do poder legislativo. numa contradição essencial.E.Crítica da filosofia do direito de Hegel ração de si mesma. de um ocultamento da oposição. no fato de que a contradição do poder legislativo em si mesmo é somente a contradição do Estado político consigo mesmo e. porém mais poderes legislativos. Ele quer que o “universal em si e para si” do Estado político não seja determinado pela sociedade civil. fez resultar inutilmente o elemento político-estamental das corporações e dos diferentes estamentos. Por isso ele é. portanto. sua dissolução posta.. a sua contradição tornada manifesta. de ser a realização da cidadania do Estado. como. (O erro principal de Hegel reside no fato de que ele assuma a contradição do fenômeno como unidade no ser. acolhe a forma do elemento medieval-estamental. Enquanto.

Um tal elemento seria. Com isso. ao elemento “político-estamental”. Ela chama a atenção para a oposição entre os poderes etc. o dogma da santíssima trindade era eliminado por meio da contradição entre um e três. Agora ele deve. em vez disso. um elemento da vontade soberana e do governo e se encontraria. antigamente. Seria. do lado dos estamentos. o poder governamental (§ 300) já tem essa determinação. Estar voltado para a determinação! Essa “determinação” a pos108 . Ela as apreende em seu significado específico. mostra a gênese interna da santíssima trindade no cérebro humano. A possibilidade da oposição se encontra por toda parte onde se encontram vontades diferentes. que o elemento estamental e o elemento soberano são extremos opostos.Karl Marx A crítica vulgar cai em um erro dogmático oposto. assim também. desse modo. é um momento soberano do lado dos estamentos. portanto. Não pertenceria mais. na mesma oposição do próprio governo. igualmente a possibilidade da oposição hostil”. Isso é. O próprio Hegel diz que a “possibilidade do acordo” é a “possibilidade da oposição”. O que Hegel quer. A verdadeira crítica. a constituição. a liberdade de decisão e de pensamento perante o poder do príncipe e o governo. um momento deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como momento do termo médio”. com respeito ao real elemento estamental. a saber. do mesmo modo como.) Hegel expressa isso dizendo que na posição do elemento político-estamental diante do elemento do príncipe “reside somente a possibilidade do acordo e. ela esclarece essas contradições. instituir um elemento que seja a “impossibilidade da oposição” e a “realidade do acordo”. o elemento “estamental” deve se monarquizar em sua deputação. Descreve seu ato de nascimento. deve haver também um momento soberano do lado dos estamentos. Mas esse compreender não consiste. em reconhecer por toda parte as determinações do Conceito lógico. Assim como o príncipe se democratiza no poder governamental. para ele. com isso. a crítica verdadeiramente filosófica da atual constituição do Estado não indica somente contradições existentes. por exemplo. mas em apreender a lógica específica do objeto específico. compreende sua gênese. do lado do poder soberano. como pensa Hegel. ainda. Ela encontra contradições por toda parte. que luta contra seu objeto. Como o poder governamental é um momento estamental do lado do príncipe. O momento que é delegado do lado dos estamentos deve ter a determinação inversa daquela que o poder governamental o tem do lado do príncipe. sua necessidade. um momento deles tem de estar voltado para a determinação de existir essencialmente como momento do termo médio. Essa exigência é já bastante moderada pela conclusão do parágrafo: Como. crítica dogmática. portanto. muito mais. então. A “realidade do acordo” e a “impossibilidade da oposição” se convertem na seguinte exigência: “do lado dos estamentos. Assim ela critica.

T. isto é. os estamentos em geral. ao menos. Mas é a ilusão posta da unidade do Estado político consigo mesmo (da vontade soberana e da vontade estamental e. em que uma é a vontade do Estado como vontade soberana e a outra a vontade do Estado como vontade da sociedade civil. de fato. v. não deveria mais se tratar de “determinação”. de uma mediação do lado dos estamentos.Crítica da filosofia do direito de Hegel suem. o sonho de sua substancialidade ou de seu acordo consigo mesmo. O elemento estamental deve pôr a si mesmo como a realidade de uma vontade que não é a vontade do elemento estamental. Não basta o pressuposto acordo moral das duas vontades. em si mesmo. a oposição política organizada da sociedade civil. mas que a unidade seja a sua natureza. O “poder legislativo” necessita. “a realidade do acordo” e a “impossibilidade da oposição hostil”. Loyola. não pode haver igualmente escolha. A unidade. e de fato. portanto. É uma existência alegórica. deve. câmara dos pares. São Paulo. A questão é simplesmente esta: Os estamentos devem ser a “mediação” entre soberano e governo. que seja posta a aparência de uma identidade real entre vontade soberana e vontade estamental. com isso. além disso. 207. organizado. e exatamente à mesma distância. mas. mas eles não o são: eles são. Esse momento do elemento estamental é o romantismo do Estado político. p. portanto. do princípio do Estado político e da sociedade civil). é a síntese suprema do Estado político na organização considerada. ou a vontade soberana tem que ser posta como elemento estamental. É preciso. (Cf. mas sim de “determinidade”. J. que não está presente segundo a essência (se não ela deveria mostrar-se em ato e não por meio do modo de existência do elemento estamental). câmara alta etc. O poder legislativo é. Buridan pretendia. 1. cuja formulação é atribuída a Jean Buridan: “um asno que tivesse diante de si. de mediação. estar presente como uma existência. Ferrater Mora. de modo que não apenas dois princípios opostos se unam. de um lado.) (N. segundo sua “essência”. O elemento estamental tem que ser posto como vontade soberana. morreria de fome”. 43 Referência ao seguinte paradoxo. dessa unidade como princípio material. antes. Se não há uma “preferência”. apenas o Estado político total. ou uma existência do poder legislativo (do elemento estamental) tem a determinação de ser essa unidade daquilo que não é unido. a sua razão de existência. como foi visto. permanece-se na “possibilidade do acordo”. Esse momento do elemento estamental. questionar a redução do livre-arbítrio a um “livre-ar­ bítrio indiferente”. antes. com isso. dois feixes de feno exatamente iguais. Aqui. Certamente não se alcança. “de existir essencialmente como momento do termo médio”? É ser. 2000. e povo. mas precisamente nisso aparece também – porque em seu mais alto desenvolvimento – a manifesta contradição do Estado político consigo mesmo. não poderia manifestar preferência por um mais que pelo outro e.. o “asno de Buridan”43. aquilo que Hegel quer. segundo o § 302. de outro.) 109 . Que tipo de determinação é essa. Dicionário de filosofia.

em comum com o elemento da soberania. no que se refere à subsistência. § 305. no que se refere à subsistência. Um dos estamentos da sociedade civil contém o princípio que. no que respeita à sua particularidade. depois de tê-lo feito nascer das corporações. do real status quo da relação entre os elementos estamental e soberano. com isso. construir a mediação exigida no § 304. a propriedade da terra. ela se torna uma inverdade consciente e se torna ridícula. tal estamento possui. e. ao mesmo tempo. uma vontade que se funda em si e a determinação natural que o elemento da soberania contém em si. portanto eficaz. por si. que tem por sua base a vida familiar e. é capaz de ser constituído como essa relação política. em que esta última deva manifestar sua verdade. depois de já haver determinado os estamentos políticos como tais. (o estamento dos proprietários fundiários). ao contrário. a ilusão de sua unidade essencial é uma ilusão real. isto é. produz a aparência de que a realidade e o ser peculiar da distinção estamental social não determinam a suprema esfera política. a partir deles mesmos.Karl Marx Se essa ilusão é ilusão eficaz ou autoengano consciente. com isso. No caso contrário. no que respeita à sua particularidade. Já apontamos a inconsequência de Hegel: 1) de conceber o elemento político-estamental na sua moderna abstração da sociedade civil etc.. 2) de determiná-lo. tal estamento possui. como Hegel reintroduz a distinção estamental da so­ ciedade civil e. A “vontade que se funda em si” diz respeito à subsistência. a propriedade da terra. agora. uma vontade que se funda em si e a determinação natural que o elemento da soberania contém em si. e a “determinação natural” em comum com o poder do príncipe diz respeito à “vida familiar” como base. então. e. isso depende. no entanto. são rebaixadas à condição de mero material. é capaz de ser constituído como essa relação política. agora. 110 . O consequente seria: considerar os estamentos políticos para si como um elemento novo e. entendem-se. o estamento da eticidade natural. Vemos. em que consiste essa capacidade principiadora ou essa capacidade de princípio do estamento dos proprietários fundiários? Ele tem por sua base a vida familiar e. Um dos estamentos da sociedade civil contém o princípio que. por si mesmo. Ora. à “propriedade da terra”. que a esfera política forma e constrói segundo a sua própria necessidade. novamente. o poder legislativo. como sendo o “extremo da universalidade empírica”. o estamento da eticidade natural. isto é. em comum com o elemento da soberania. mas de que. segundo a distinção estamental da sociedade civil. Enquanto estamentos e poder soberano entram em acordo de fato.

e a partir dele buscar a mediação do Estado político consigo mesmo? Em suma. constitucional. Além disso. por ele aceita. como pode ele. antes. lá onde se trata do Estado político. como uma tran­ substanciação do estamento privado na qualidade de cidadão do Estado e. agora. o que a eticidade natural tem em comum com a determinação natural do nascimento como tal? O rei compartilha isto com o cavalo: assim como este último nasce cavalo. o rei nasce rei. mas o que isso tem em comum com a vida familiar como base do estamento dos proprietários fundiários.Crítica da filosofia do direito de Hegel A subsistência da “propriedade da terra” e a “vontade que se funda em si” são duas coisas distintas. nessa condição. Em lugar da “disposição”. no que diz respeito à “vida familiar” como base. mas no todo. Porém. e. se este último só adota a posição “abstrata” em face do elemento do príncipe por meio daquela separação? Mas depois que Hegel desenvolveu justamente o elemento político-estamental como um elemento próprio. parece que a eticidade “social” da sociedade civil esteja situada acima dessa “eticidade natural”. mas a base da sua existência social em geral. não em si mesma. precisamente por isso. o discurso deveria ser sobre uma vontade que repousa “na disposição do Estado”. da “propriedade do espírito público”. da qualidade de cidadão do Estado (Staatsbürgerthum). então o estamento dos proprietários fundiários como tal já seria uma parte autônoma do elemento estamental e se. uma distinção política. tanto quanto do estamento dos proprietários fundiários. a “vida familiar” é a “eticidade natural” dos outros estamentos. que necessidade haveria. já que ele aplicará leis patriarcais a uma esfera não patriarcal e fará valer o filho ou o pai. no estamen­ to dos proprietários fundiários. antes. tornar esse estamento inapto para a mais elevada tarefa política. Sua determinação natural consiste em que ele é o representante corpóreo do Estado e que ele nasceu rei. portanto. não é necessária aquela mediação. estamentos políticos. como tais. mas um rei moderno. o senhor e o servo. Se Hegel tivesse feito da distinção estamental como tal. ele é um momento da mediação juntamente com o poder soberano. Hegel desenvolveu não um rei patriarcal. descobriu-o carente de mediação. no estamento privado. ou do estamento dos cidadãos da sociedade civil. Dever-se-ia falar. isso parece. então. da construção de uma nova mediação? E por que separar o estamento dos proprietários fundiários do momento propriamente estamental. que a “vida familiar” seja. dissolver novamente esse organismo na distinção do estamento privado. no momento em que 111 . ou que a realeza é a sua herança familiar. No que concerne à determinação natural do elemento soberano. que anomalia que a suprema síntese do Estado político não seja outra coisa senão a síntese de propriedade fundiária e vida familiar! Em uma palavra: No momento em que os estamentos sociais são. Ademais. não apenas o princípio da família. de uma “vontade que repousa sobre a terra”. aparece a “propriedade da terra”. Mais ainda.

deixa de representar a cidadania da sociedade civil. Mas. vale dizer que o fato de ser estamento privado lhe confere uma posição à parte no elemento político-estamental. do poder legislativo em si mesmo. também o Estado político como totalidade foi suprimido. em sua própria determinação. o estamento social não é político. mas a sua separação do elemento político-estamental em sua qualidade de estamento privado social. 112 . aquela mediação. (Aqui. Se o estamento dos proprietários fundiários ou. aqui. a propriedade fundiária da nobreza. e quer o moderno poder legislativo. sua qualidade de cidadão do Estado é a sua qualidade de proprietário fundiário: ele não é cidadão do Estado porque proprietário fundiário. na medida em que ele a aniquila em si mesmo. Como Hegel pode fazer do estamento privado a solução das anti­ nomias do poder legislativo em si mesmo? Hegel quer o sistema medieval dos estamentos. mas como cidadão do Estado. portanto também a outra parte do elemento político-estamental assume a posição de um estamento privado particular e. No começo do § 304. enquanto. por conseguinte. no sentido desenvolvido por Hegel. e uma tal inconsequência é acomodação. O proprietário fundiário é uma parte do elemento político-estamental não como proprietário fundiário. mas no corpo do sistema medieval dos estamentos! É o pior sincretismo. no sentido de que é a dissolução do elemento político-estamental enquanto elemento político real. Com isso. portanto. da maneira descrita. a unidade restabelecida do Estado político consigo mesmo. abstrai dela. ao mesmo tempo. mas. em sentido moderno. o elemento político-estamental contém essa distinção somente na medida em que ele a anula.) Não há mais aqui. Não o estamento dos proprietários fundiários. já existente nas esferas anteriores. a mediação não é o estamento dos proprietários fundiários como tal. o estamento privado. lê-se: O elemento político-estamental contém em sua própria determinação.Karl Marx a mediação é necessária. isso é certamente a mediação do elemento político-estamental com o poder soberano. a análise (a redução) do elemento político-estamental no estamento privado é. então. o Estado político como duas vontades opostas. a mediação do Estado político total. o estamento dos proprietários fundiários potencializado. como ouviremos a seguir. mas no sentido moderno do poder legislativo. uma inconsequência de Hegel no interior de seu próprio modo de ver. encontra-se o Estado político (governo e príncipe) e. portanto. de outro. a separação posta e consumada da sociedade civil em relação ao seu estamento privado e suas distinções. mas proprietário fundiário porque cidadão do Estado! Eis aqui. mas o estamento. como tal se torna. O elemento político-estamental é. ao contrário (quando ele é cidadão do Estado quando proprietário fundiário ou é proprietário fundiário quando cidadão do Estado). a distinção dos estamentos. de um lado. a sociedade civil em sua diferença em relação ao Estado político (os diversos estamentos). e tampouco o é.

Essa independência também é desenvolvida da seguinte forma: Seu “patrimônio” é “independente do patrimônio do Estado”. retornaremos a isso mais adiante. “O fundamento do morgadio”. Em Hegel. ligada a um patrimônio – mas a conexão relativamente necessária é que aquele que possui um patrimônio independente não está limitado por circunstâncias exteriores e pode. a disposição do patrimônio é uma “mera possibilidade”. assim. é capaz de ser constituído como essa relação política”. No § 306. Ele se reduz a isto: “o patrimônio se torna. diz o Adendo. portanto. que deve corresponder à soberania da vontade. O dualismo fundamental entre o elemento soberano e o elemento estamental do poder legislativo é neutralizado por meio do dualismo do elemento estamental em si mesmo. o patrimônio dá a “possibilidade” da disposição de Estado. A constituição de seu patrimônio como independente é a constituição do estamento dos proprietários fundiários “para a posição e significação políticas”. p. pode “agir em prol do Estado”. assim. é desenvolvido o “princípio” do estamento dos proprietários fundiários. a caixa do governo. ou seja. por si. antes. “o estamento universal” “se contrapõe” “como aquele essencialmente dependente do Estado”. Mas há uma “conexão relativamente necessária”. certamente. embora esta “possibilidade” não satisfaça. Neste sentido. No que diz respeito à propriedade da terra como subsistência. O Estado não se contenta com “a mera possibilidade da disposição”. com uma necessidade. Primeira tese. no § 305. que a separação deste elemento em si mesmo. reforçado pelo morgadio”. Hegel não demonstrou que a propriedade da terra é o único “patrimônio independente”. essa neutralização ocorre quando o elemento político-estamental se separa do seu próprio elemento político. que deve corresponder à determinação natural do poder soberano. Ou “a independência do patrimônio” é sua “posição e significação políticas”. Terceira tese. Assim é dito no prefácio. Aqui. “que. Além disso. à soberania do príncipe. porém. isto é.Crítica da filosofia do direito de Hegel O sentido mais aproximado da duplicação do elemento político-estamental em si mesmo como uma mediação com o poder soberano é. “A disposição não está ligada a um patrimônio”. Ora. a disposição não está. um bem hereditário inalienável. trata-se deste “constituir-se” “para a posição e a significação políticas”. é a sua unidade restabelecida com o poder soberano. a saber: “aquele que possui um patrimônio independente” etc. o constituir-se político do estamento dos proprietários fundiários. sua própria oposição em si mesmo. e no que concerne à vida familiar como base do estamento dos proprietários fundiários. de acordo com a primeira sentença. Por patrimônio do Estado compreende-se. 13: 113 . está no fato de que o Estado não deve contar com a mera possibilidade da disposição mas. aqui. proceder sem impedimentos e agir em prol do Estado. ele deve contar com uma “necessidade”. evidentemente. Segunda tese. O “morgadio” seria. em geral.

em parte. quer dizer. pela relação com o patrimônio universal. a filosofia não é exercida como o era. e que a participação no patrimônio social seja concebida como “favor da multidão”. como uma arte privada. Sua exata natureza privada se evidencia 1) como “independência do patrimônio do Estado”. independente “tanto do favor do poder governamental. entre os gregos. de saber que ela é transmitida aos filhos com base na igualdade do amor por eles”. em parte. quanto do favor da multidão”. porque ele é limitado. (É igualmente característico que a participação no patrimônio do Estado seja concebida como “favor do poder governamental”. Seu patrimônio é independente “da incerteza da indústria. uma existência pública. “como aquele dependente da necessidade e para ela voltado”. do “favor do poder governamental”.) O patrimônio do “estamento universal” e do “estamento industrial” não é uma propriedade privada propriamente dita. em ambos os casos. é a oposição de propriedade privada e patrimônio. ou com a propriedade como propriedade social. em consequência do fato de os membros desse estamento. tal qual Hegel a desenvolve. em contato com o público. do “favor da multidão”. “encontrarem-se privados do direito dos outros cidadãos de. por excelência”. também a filosofia é “essencialmente” dependente da caixa do governo. A mais alta disposição política é a disposição da propriedade 44 “principal. isto é. Portanto. um patrimônio particular. da busca do ga­ nho e da mutabilidade da posse em geral”. aproximadamente.) 114 . ao lado de outros patrimônios. expressa em sua agudeza. principalmente ou unicamente a serviço do Estado. depois da construção do Estado político. antes. ` ` 44. chamados para essa determinação. A ele se contrapõe a propriedade fundiária como propriedade privada soberana.Karl Marx Além disso. ou do “patrimônio social”. pelo “acaso da vontade”. A oposição. (N. a constituição da propriedade privada. com isso. da propriedade que existe como “propriedade universal do Estado político”. é certamente mediado. por isso. No que diz respeito a isso. a ele se opõe o “estamento industrial”.A. aqui indiretamente. mas ela tem. uma forma totalmente nova e muito mate­ rial. ele é reforçado mesmo contra o próprio arbítrio. entre nós. dispor livremente de toda a sua propriedade e.E. A constituição política em seu ponto culminante é. a forma de uma propriedade posta pela vontade social. como mal poderíamos esperá-las no céu do Estado político. ele é uma participação nela e. a propriedade A propriedade fundiária é a propriedade privada χατ’ εξοχην privada propriamente dita. Esse patrimônio é. que ainda não alcançou a forma do patrimônio. 2) como “independência da necessidade” da sociedade. As oposições assumiram. lá diretamente. pelo “favor”. portanto. Finalmente. aqui.

Hegel declarara. o estamento dos proprietários fundiários capaz de ser constituído em “relação política”. é. a natureza rude da propriedade privada também em relação à passagem no interior do patrimônio familiar. o poder da propriedade privada abstrata sobre o Estado político.Crítica da filosofia do direito de Hegel privada. o morgadio é uma consequência da propriedade fundiária exata. Ele faz da causa o efeito.A. da vida familiar. a dignidade do intelecto.) 115 . Há. ainda. antes. No estamento que tem a vida familiar como sua base. vida do amor. a base da vida familiar. portanto. mas como meio para um fim. porque a “vida familiar” é a sua “base”. o princípio da propriedade privada contradiz o princípio da família. Mas ele mesmo qualificou o “amor” como a base. O estamento da eticidade natural é. sobre a qual houve. a ilusão da vida familiar. É a vida familiar sem espírito. uma certa decência. mas como determinidade de um outro. De nada adianta Hegel dizer que o morgadio é meramente uma exigência da política e que deve ser compreendido em sua posição e significação políticas. antes. o amor como princípio real. do determinante o determinado e do determinado o determinante. e aquilo que Hegel apresenta como o fim. antes. da família. e conserva. É inútil que ele diga: A segurança e a estabilidade desse estamento podem ser aumentadas. é. como a prima causa do morgadio. da propriedade fundiária. o espírito da vida familiar. O morgadio é meramente a manifestação externa da natureza interna da propriedade fundiária. apenas na sociedade civil que a vida familiar chega a ser vida da família. de sua vontade e de suas leis. pela instituição do morgadio. no entanto. ao estamento da eticidade natural. portanto. Em seu mais alto desenvolvimento. o princípio. (N. a soberana grandeza da propriedade privada. 45 “como ela mesma”. não como fim. portanto. os nervos sociais lhe são cortados e seu isolamento da sociedade civil é assegurado. a propriedade privada (quand même45) na mais alta independência e agudeza de seu desenvolvimento. um efeito. no § 305. Contrariamente. falta. pois a ele está ligado um sacrifício para o objetivo político de que o primogênito possa viver independentemente. portanto. a barbárie da propriedade privada contra a vida familiar. ao passo que Hegel descreve o morgadio como o poder do Estado político sobre a propriedade privada. independente até mesmo da pequena sociedade. da sociedade natural. recentemente. Ele não quer justificar e construir o morgadio em si e para si. ele o quer apenas com referência a outro. uma consequência. como o determinante. ela é separada. Porque ela não é transmitida “aos filhos de acordo com a igualdade do amor”. é a propriedade privada petrificada. não como autodeterminação. só é desejável no que respeita à política. tantos sentimentalismos e sobre a qual tantas lágrimas multicores de crocodilo foram derramadas. por conseguinte eficiente e determinante. e do efeito a causa. Porque esta última é inalienável. em Hegel.E. que. Na verdade. Essa seria.

“um entrave colocado à liberdade do direito privado”. segundo sua natureza. em relação à determinação e forma ideais ou que-devem-ser (sein-sollenden). mas apenas na medida em que a coisa. então. o poder do Estado político sobre a propriedade privada? O próprio poder da propriedade privada. § 66. de arbítrio humano geral. chamados para essa determinação. ele é. a saber. a vontade da família e da sociedade. no entanto. é verdade. o superlativo da propriedade privada. Comparemos. de que por meio do morgadio o patrimônio do estamento dos proprietários fundiários. ou. mas apenas para dar existência à vontade da propriedade privada que é sem a vontade da família e da sociedade e para reconhecer essa existência como a suprema existência do Estado político. que se libertou de todas as cadeias sociais e morais”. onde ele é determinado. seja algo de exterior. Com isso. em oposição a essa essência? A ilusão de que ele determina.Karl Marx Mas qual é o conteúdo da constituição política. pelo fato de a esfera de seu arbítrio se ter transformado. a construção da propriedade privada abstrata”. são inalienáveis aqueles bens.) (“A mais alta construção política é. Que poder exerce o Estado político sobre a propriedade privada no morgadio? Ele o isola da família e da sociedade. como a suprema existência ética. 116 . a propriedade fundiária. aqui no poder legislativo. como diz Hegel. aquelas determinações substanciais – assim como o direito a eles é imprescritível – que constituem a minha pessoa mais própria e a essência universal de minha autoconsciência. a consequência e a consciência. mas sim o arbítrio é o predicado determinado da propriedade privada. antes.) Antes de fazermos essa comparação. lógicas. Ele rompe. a propriedade privada se tornou o sujeito da vontade e a vontade o mero predicado da propriedade privada. é preciso ainda examinar mais de perto uma disposição do parágrafo. muito antes. já que ela só é minha na medida em que nela eu coloco minha vontade. a propriedade privada. Consideremos os diversos elementos. do fim político. ele o conduz à sua autonomização abstrata. a propriedade privada soberana. como eles se comportam. mediante a “inalienabilidade” da propriedade fundiária. no arbítrio específico da propriedade privada. no Estado total. o que o próprio Hegel diz no interior da esfera do direito privado: § 65. Eu posso alienar minha propriedade. “é reforçado mesmo contra o próprio arbítrio. em consequência do fato de os membros desse estamento. A propriedade privada (a propriedade fundiária) é assegurada contra o próprio arbítrio do proprietário. Qual é. qual é o fim desse fim? Qual é sua substância? O morgadio. sua essência trazida à existência. (O morgadio não é. desses elementos. a “liberdade do direito privado. no Estado político real. aqui. os nervos sociais da propriedade privada são cortados. encontrarem-se privados do direito dos outros cidadãos de dispor livremente de toda a sua propriedade”. O que resta ao Estado político. que atingiu a realidade. A propriedade privada não é mais um objeto determi­ nado do arbítrio. Já salientamos como.

Essa relação de vontade a vontade é o verdadeiro e próprio terreno onde a liberdade tem existência. a busca do ganho. mais dura com a debilidade humana. seu livre-arbítrio universal. como ser determinado. ele exalta a soberania imaginária de uma propriedade independente contra a “incerteza da indústria. No morgadio. a propriedade fundiária. aqui. apareça como a mais alta síntese do Estado político. Porém. no direito privado. portanto o arbítrio privado. onde é inalienável a propriedade privada. em uma vontade comum. portanto uma determinação substancial. A propriedade não é mais. a alienabilidade e a dependência da propriedade privada em relação a uma vontade comum como seu verdadeiro idealismo. torna-se um bem inalienável. pois a humanização. necessidade e contingência. a propriedade. é lei do Estado que se tenha a propriedade não em uma vontade comum. Aqui. minha eticidade. como a alienação suprema do arbítrio. o de que a vontade tosca. que consti­ tuem a “pessoa mais própria. O morgadio é a propriedade privada que se tornou religião de si mesma. Essa mediação. a propriedade privada absorvida em si mesma. minha vontade não possui. em contrapartida. sua “personalidade em geral. “na medida em que esteja posta na propriedade”. como espírito real que se manifesta também como lei real da família). é. com isso.) Enquanto Hegel concebe. portanto. como é a propriedade fundiária) e a eticidade (à qual pertence o amor. meu livre-arbítrio universal. a “alienabilidade” do livre-arbítrio universal e da eticidade. pelo lado em que se mostra uma existência como coisa externa. aqui. Do mesmo modo que se retira da alienação direta. sejam alienáveis. o de que a propriedade privada. O prurido romântico do regime do morgadio é. Hegel descreve a passagem da proprie­ dade privada ao contrato da seguinte maneira: § 71. a hominização da propriedade privada aparece. mas somente “mediante uma coisa e a minha vontade subjetiva”. (No morgadio. precisamente. o “livre-arbítrio universal” (ao qual também pertence a livre disposição sobre algo exterior. também lógico que. como existência da vontade. no direito público. A existência. minha religião. a dependência do patrimônio do Estado”. pela qual se tem propriedade não mais apenas mediante uma coisa e a minha vontade subjetiva.Crítica da filosofia do direito de Hegel bem como minha personalidade em geral. encantada por sua independência e soberania. religião”. imoral. o morgadio se retira também do contrato. sua eticidade. absolutamente limitada. como debilidade humana. A “inalienabilidade” da propriedade privada é. a mutabilidade da posse. a essência universal da autoconsciência” do estamento dos senhores do morgadio (Majoratsherrlichen Standes). mas é possuída. constitui a esfera do contrato. ao contrário. a propriedade privada exata. É. mas igualmente mediante outra vontade e. ao mesmo tempo. ela é para outro somente quando é para a vontade de outra pessoa. é essencialmente ser para outro. na medida em que “eu ponha nela minha vontade”. como a luta mais abnegada. apareça em sua forma mais abstrata. a propriedade fundiária. para outras exterioridades e em conexão com elas. mas minha vontade é. Mas 117 .

em todas essas qualidades pulsa.Karl Marx que Estado é esse. segue que. Uma tal monstruosidade. ela é humana. fim e produto de sua atividade. fragmentada 118 . é. – Essa disposição é. do Estado). no qual a racionalidade existe realmente. a propriedade privada se comporta para consigo mesma de maneira religiosa. na relação deste último comigo como indivíduo – com o que. através da propriedade privada. este outro não é imediatamente um outro para mim e eu sou livre nessa consciência. como certeza que se funda na verdade. que não pode suportar. a busca do ganho é patética (dramática). quando se dá a uma coisa. (Porque. a religião se tornou em geral uma qualidade inerente da propriedade fundiária. então. na autoconsciência do indivíduo. no morgadio. nítida para si mesma. se comparada com o escravo. assim como esta. sua existência mediata. em suma.. a dependência do patrimônio do Estado é moral. é a dependência do homem em relação ao homem. que se crê livre porque a esfera que o limita não é a sociedade. como a religião da propriedade privada. Nos costumes. é dito: O Estado é a realidade da ideia ética. um no tribunal do direito abstrato e outro oposto no céu do Estado político. De qualquer forma que essa dependência se configure em si e para si. assim como ela obtém sua atuação mediante o agir conforme a tais instituições.) A “vontade substancial evidente. o idealismo do direito privado? Que filosofia do direito é essa. quando se interpreta uma velha visão de mundo no sentido de uma nova. nem uma vez sequer. aqui. a mutabilidade da posse é um fato sério (trágico). precisamente. e a vontade tornada hábito. ele possui sua existência imediata e. se transforma numa vontade obscura. como sua essência. mas a gleba. é dito: A disposição política. um duplo significado. Chegamos. inevitável. a liberdade dessa vontade é sua vacui­ dade de outro conteúdo que não seja a propriedade privada. mediante a disposição.. o coração humano. Em suma. o patriotismo em geral. No § 268. No § 257. e que toda a literatura sobre o morgadio está repleta de unção religiosa. nos nossos tempos modernos. à comparação aludida acima. A realidade da ideia ética aparece. tem no Estado. a incerteza da indústria é elegíaca. a confiança (que pode se tornar inteligência mais ou menos cultivada) – a consciência de que meu interesse substancial e particular é conservado e guardado no interesse e nos fins de um outro (aqui. em geral. o espírito ético enquanto vontade substancial evidente. como aqui a propriedade privada. são apenas resultado das instituições existentes no Estado. em que a independência da propriedade privada tem no direito privado um significado diverso daquele do direito público? Diante da rude estupidez da propriedade privada independente... a sua liberdade substancial. nítida para si mesma”. como a de definir o morgadio como uma determinação da propriedade privada por meio do Estado político. A religião é a suprema forma intelectual dessa brutalidade.

a qualidade moral de um patrimônio inalienável? Na incorruptibilidade.”. como aquele dependente essencialmente do Estado”. o poder governamental? Como “aquele essencialmente dependente do Estado”. Além disso. antes. o estamento universal. a mais rude dependência da gleba. que. tem imediatamente em sua determinação o universal como fim de sua atividade essencial”. nota). Ele tornava. e o estamento universal. em verdade. precisamente por isso. Há aqui. que ela tem de ser construída como um poder político particular. A “manutenção do interesse universal do Estado etc. mais ainda. “tornada hábito”. é a certeza fundada em seu “próprio terreno” (em sentido literal). Nele residia a “inteligência cultivada e a consciência jurídica da massa de um povo” (§ 297). não é a regra. em suma. do Estado).”. do “favor da multidão”. A mesma transformação se passou com a sociedade civil. A “vontade” política. assim como eles também devem continuamente fazer o melhor nas assem­ bleias estamentais” (§ 301. a pretensa qualidade específica do senhor do morgadio? E em que pode consistir. na relação deste último comigo como indivíduo”. que “é a disposição política”. portanto. mas a exceção. a incorruptibilidade é algo tão à parte no Estado construído por Hegel. realmente. é construída aqui a pessoa privada independente. os estamentos supérfluos. que é. “O estamento universal. A disposição política não é mais a “confiança”. como aquele dependente da necessidade e para ela voltado. Enquanto. quanto da incerteza da indústria etc. não é mais “apenas resultado etc.” A ela se contrapõe “o estamento industrial. atingira sua eticidade na corporação. corrompem-se os senhores do morgadio por meio de sua propriedade inalienável. mas sim uma instituição existente fora do Estado. Qual é. pois os altos funcionários “podem fazer o melhor sem os estamentos. somente como cidadã do Estado essa pessoa se sente e deve se sentir independente.” (§ 289) era a tarefa do “poder governamental”. como o “patrimônio dependente do favor do poder governamental”. “Seu patrimônio é independente tanto do patrimônio do Estado. e se embriaga precisamente pela impenetrabilidade do elemento ao qual está presa. Para preservá-los da corruptibilidade. Ela é um patrimônio dependente “da incerteza da indústria etc. de acordo com a Ideia. a dependência do Estado e o sentimento dessa dependência deveriam ser a suprema liberdade política. provando. constitui. mas é muito mais a “segurança. [§ 303] E como aparece. independência do Estado e da sociedade civil. e essa abstração realizada de ambos. É a consciência da minha liberdade em relação ao Estado. A incorruptibilidade aparece como a mais alta virtude política.Crítica da filosofia do direito de Hegel na gleba. e que é construída como uma tal exceção. a consciência de que meu interesse substancial e particular é independente do interesse e dos fins de um outro (aqui. no poder 119 . portanto. porque se trata do sentimento que tem a pessoa privada de ser uma pessoa abstrata dependente e que. agora. uma virtude abstrata. que ela não é o espírito do Estado político. que se dedica mais de perto ao serviço do governo. “A certeza que se funda na verdade”.

“Este”. Com isso. é chamado e legitimado a essa atividade pelo nascimento. Como se a eleição. ou seja. desse modo. certamente. ao mesmo tempo. por nascimento. é alterado para o fim político por meio de duros sacrifícios”. é alterado para o fim político por meio de duros sacrifícios. à sua designação por meio da “acidentalidade de uma escolha”. mas apenas o direito. Aqui. igualmente. § 307. como Hegel ressalta no Adendo. o patrimônio privado abstrato e a pessoa privada a ele correspondente são a construção suprema do Estado político. não é desenvolvido nenhum direito desse estamento em sentido político. Veremos no próximo parágrafo o que são re vera46 a “independência”. igualmente. é puramente histórico. no princípio natural da família. Por meio dessa alteração do princípio natural da família. especialmente por parte dos senhores do morgadio.Karl Marx legislativo. sobre os direitos inatos do homem. Posteriormente. no entanto. “ao mesmo tempo.A. em consequência disso. sem a acidentalidade de uma escolha”. como. portanto. aqui. sem a acidentalidade de uma escolha. Muito se gracejou. do representante do cidadão do Estado. o produto consciente da confiança civil. “com o que (?) este estamento está essencialmente destinado à atividade para esse fim” – por meio da autonomização da propriedade privada? – “e. mas apenas a abstração realizada da propriedade privada. O patrimônio privado independente. o bem do primogênito. fundado. Aqui. a mediação nata do Estado político consigo mesmo. A “independência” política é construída como “propriedade privada independente” e “pessoa dessa propriedade privada independente”. Vimos. em consequência disso. com o que este estamento está essencialmente destinado à atividade para esse fim e. do senhor do morgadio à propriedade da terra. (N. temos legisladores natos. de um lado. a mediação e a unidade de ambos. a participação no poder legislativo é um direito inato do homem. “o princípio natural da família” é “alterado”. O direito dessa parte do estamento substancial está. Mas não é mais cômico que a mais alta dignidade do poder legislativo seja confiada a uma raça particular de homens? Não há nada mais ridículo do que Hegel contrapor a designação por “nascimento” do legislador. mas este. não se encontrasse em uma 46 “na realidade”. “a incorruptibilidade” e a disposição de Estado delas proveniente. Que o morgadio seja um bem hereditário é evidente por si.) 120 . e vimos como isso. é antes o fim político que é igualmente alterado. não representa “duros sacrifícios” “ao fim político”. mais detalhes sobre isso. Que ele seja. o princípio natural da família.E. Hegel não demonstrou em que medida o direito desse estamento substancial está fundado no princípio natural da família. é chamado e legitimado a essa atividade pelo nascimento. a menos que por um tal princípio ele entenda que a propriedade fundiária exista como bem hereditário.

121 . a substância. seu caráter. a propriedade da propriedade fundiária inalienável. Se a matéria não deve ser. da biografia de seu corpo. apenas acidente. do Estado) aparece de modo que as dignidades determinadas e. As supremas atividades do Estado coincidem com os indivíduos por meio do nascimento. nada mais perante a vontade humana. assim como a situação de um animal. O segredo da nobreza é a zoologia. então é seu corpo que faz dele este funcionário social determinado. O Estado. imediatamente. a coincidência imediata entre o nascimento individual e o indivíduo como individuação de uma determinada posição e função sociais etc. imediatamente. O senhor do morgadio. mas é apenas por meio do consentimento geral que esse nascimento determinado se torna nascimento de um par ou de um rei. Há dois momentos a salientar no morgadio hereditário: 1) O permanente é o bem hereditário. a propriedade fundiária. Por isso. A natureza se vinga de Hegel pelo desprezo demonstrado. Somente o consentimento faz do nascimento dessa pessoa o nascimento de um rei. o milagre é precisamente a identidade imediata. na nobreza. físico. as mais altas dignidades sociais.Crítica da filosofia do direito de Hegel relação necessária com o fim político completamente diferente do acaso físico do nascimento. é. a dignidade corporal do homem ou a dignidade do corpo humano (o que pode. em suas funções supremas. modo de viver etc. Se é o nascimento. Em toda parte. é natural. a identidade fragmentária. O chocante é ver como produto imediato do gênero físico o que é somente produto do gênero autoconsciente. É como se a propriedade fundiária herdasse sempre o primogênito da casa. nascidos da sociedade e não do indivíduo natural. o orgulho do sangue. Seu corpo é seu direito social. aparece como encarnação. na verdade. diferentemente das outras determinações. No cume do Estado político. a natureza faz. já que as determinações do Estado. e é naturalmente essa concepção zoológica que tem na heráldica a sua ciência correspondente. então a vontade humana não conserva nada mais para si fora da matéria.. que dá imediatamente ao homem uma posição. que faz de determinados indivíduos a encarnação das mais altas tarefas públicas. em pormenor. em primeiro lugar. é o consenso e não o nascimento que faz o rei. então o chocante. corpo e alma. entre natureza e espírito. assim como faz olhos e narizes. ela faz. é a herança. A falsa identidade. ser assim concebido: a dignidade do elemento natural. sem o consentimento da sociedade. como o poder legislativo etc. em verdade. Ele é o constante na relação. pares etc. lhe são imediatamente inatos. assim. em suma. Cada primogênito. reis. é o nascimento. na série dos proprietários fundiários. parcial. todavia. A propriedade fundiária se antropomorfiza nas diversas gerações. por toda parte. o proprietário. para si. Nesse sistema. Como o nascimento só dá ao homem a existência individual e o põe. Hegel cai de seu espiritualismo político no mais crasso materialismo. apenas como indivíduo natural e. da ascendência. como um atributo preso a ela. são produtos sociais. são as dignidades de corpos determinados. predestinados por nascimento. Nesse sistema. Eu sou humano por nascimento. assume uma realidade animal.

igualmente como propriedade da proprie­ dade fundiária. herança e. mas de um ser do direito privado abstrato. A qualidade política aparece aqui. nele. Se. ela não é o espírito que o anima mas. 2) a relação entre propriedade privada. na esfera do Estado político. não decorre ex proprio sinu47 do Estado político. tem o significado da independência política. 2) A qualidade política do senhor do morgadio é a qualidade política do seu bem hereditário. como propriedade fundiária inalienável.) 122 . ela não é uma dádiva do Estado político a seus membros. que aparece. Uma segunda consequência decorre disso. O significado que a propriedade privada tem no Estado político é seu significado verdadeiro. 3) a relação histórica real. A independência. porque o Estado político é a esfera de sua determinação universal. A independência política é um acidente da propriedade privada. Do mesmo modo. nos servos que lhe são subordinados. como vimos. em seu ponto culminante. Vimos que o morgadio é a abstração da “propriedade privada independente”. é que os momentos singulares do Estado se relacionam entre si como com o ser do gênero. essencial. A profundidade da subjetividade germânica aparece por toda parte como a rudeza de uma objetividade sem espírito. é o mistério revelado do verdadeiro valor e da verdadeira essência dos momentos do Estado. o significado que a distinção estamental possui no Estado político é o significado essencial da distinção estamental. é a propriedade privada. da propriedade privada abstrata.E. a 47 “a partir do próprio ser”. No que concerne ao primeiro ponto. ou relação germânica. ela é. (N. A vontade se torna propriedade da propriedade. a sua esfera religiosa. com isso. cuja construção nós seguimos até agora. manifesta-se no “poder legislativo” a essência do poder soberano e do governo. segue-se que o senhor do morgadio é o servo da propriedade fundiária e que.Karl Marx a substância predestinada de sua vontade e de sua atividade. como com seu “ser genérico”. ao contrário. no poder legislativo. Há que se explicar aqui 1) a relação entre propriedade privada e herança. os membros do Estado políti­ co recebem sua independência de um ser que não é o ser do Estado políti­ co. como uma qualidade que pertence imediatamente à terra (natureza) puramente física. no Estado político. A independência política. o poder legislativo. uma qualidade política inerente a esse bem hereditário. Aqui. O Estado político é o espelho da verdade dos diversos momentos do Estado concreto. portanto. então. a autonomia no Estado político. por conseguinte. O Estado político e. O sujeito é a coisa e o predicado é o homem. não a substância do Estado político.A. a “propriedade privada independente”. aparece apenas a consequência prática da relação teórica em que ele mesmo se encontra com a propriedade fundiária. o privilégio de certas linhagens da participação na soberania política. portanto.

Hegel fez a observação: Assim. personalidade abstrata. Os romanos são os racionalistas. no morgadio. e o que é a moralidade senão a moral desses sujeitos do Estado? Ou melhor. apenas o “sustentáculo da constituição”. uma personalidade abstrata. sua certeza de si mesmo. no direito absoluto. E. de resto. com isso. como seu direito supremo à existência. a base política de todo o Estado. como que surpreso com o “desenvolvimento imanente de uma ciência. ele tem que ser desenvolvido como a abstração do direito e. a dedução de todo seu conteúdo a partir do Conceito simples” (§ 279. Combateu-se Hegel muitas vezes por seu desenvolvimento da moral. a pessoa do direito privado e o sujeito da moralidade são a pessoa e o sujeito do Estado. no Estado político revela-se que a “personalidade abstrata” é a mais elevada personalidade política. como. primária! Ao construir o monarca hereditário. o que é o direito privado senão o direito. a eticidade. a constituição real. Mas o sustentáculo da constituição é a constituição das constituições. revela-se o direito dessa personalidade abstrata. um grande mérito de Hegel. ainda que inconsciente sob um certo aspecto (a saber. A “propriedade privada independente” ou a “propriedade privada real” não é. pois. momento que evolui mediante suas diferentes formas de subjetividade e que aqui. que os tem como pressupostos. sob o aspecto de que Hegel faz passar como ideia real da eticidade o Estado que tem uma tal moral por pressuposto). que elas são momentos subalternos dessa vida ética. na verdade. os alemães os místicos da propriedade privada soberana. ao contrário. na objetividade plenamente concreta da vontade. contudo disso não se segue que o Estado. também os romanos desenvolveram o direito do monarca puramente segundo as normas do direito privado ou o direito privado como a suprema norma do direito público.Crítica da filosofia do direito de Hegel independência política do Estado. significa apenas que a personalidade do Estado é abstrata ou que é o Estado da personalidade abstrata. Mas o que ele fez foi desenvolver a moral do Estado moderno e do direito privado moderno. esse é o momento fundamental da. mas é concluído. no Estado. Quis-se separar mais a moral do Estado. emancipá-la mais! O que se provou com isso? Que a separação do Estado atual da moral é moral. a “propriedade privada abstrata” como a suprema objetividade do Estado. primeiramente no direito imediato. a sua objetividade. mas “a constituição mesma”. ter apontado à moral moderna o seu verdadeiro lugar. Quer dizer. O fato de o Estado ser o monarca hereditário. que a moral é não estatal e o Estado é imoral. No entanto. É. Hegel qualifica o direito privado como o direito da personalidade abstrata ou como o direito abstrato. nota). é a personalidade do Estado. como o direito ilusório da personalidade abstrata. assim como a moralidade desenvolvida por Hegel é a existência ilusória da subjetividade abstrata. Do mesmo modo. Hegel desenvolve o direito privado e a moralidade como tais abstrações. antes. 123 . não possa ser senão a sociedade (a vida social) dessas ilusões.

o direito como exceção. seja de um estamento. ou seja. isso aparece de modo que uma forma particular de propriedade privada é essa garantia. portanto. nem atividade real. aparece como um privilégio. A constituição é. como na França. O príncipe constitucional expressa.) 124 . a separação entre a pessoa política e a real. Entretanto. No morgadio. Dignidades da corte. de existência social. está manifesto o que é a potência do Estado. encontramos também a constituição da propriedade privada. como pessoa e como príncipe. a ideia do Estado constitucional em sua abstração mais aguda. O morgadio é o sentido político da propriedade privada. (No príncipe. não se podia desconsiderar o fato empírico de que esses privilégios todos aparecem na forma da propriedade privada. Por um lado. é a propriedade privada do soberano. uma mera imaginação. O espírito é a propriedade privada do clero. a propriedade privada é a garantia da constituição política. são a propriedade privada de estamentos particulares. como o liame social. como uma exceção à regra. jurisdição etc. em sua contradição mais alta. eles atentaram contra a propriedade privada das corporações. aqui a nacionalidade. de liberdade. na Idade Média. em suas nuances particulares. a majestade santificada do Estado e. o liame universal do Estado. Mesmo as funções universais aparecem como propriedade privada. por isso. Qual é o fundamento geral dessa coincidência? Que a propriedade privada é a existência genérica do privilégio. Comércio e indústria. Aqui. eles atacaram a propriedade privada como corporação. na medida em que atacaram a propriedade privada das corporações. ele é a ideia do Estado. ele não tem nem poder real. Frequentemente se disse que. No feudalismo. em seu significado universal. constituição da propriedade privada. cada forma de direito. a pessoa universal e a individual. aqui. Nesse caso. a propriedade privada em seu significado político. A propriedade privada é a categoria universal. o homem e o homem social. seja de uma corporação. como representante do poder do Estado. Onde encontramos o morgadio em sua forma clássica. na verdade. é expressa. A soberania. é propriedade privada do imperador. o poder de todas as esferas do Estado.Karl Marx Na constituição em que o morgadio é uma garantia. são a propriedade privada de corporações particulares. aparece diretamente que o poder soberano é o poder da propriedade privada e no poder soberano está depositado o mistério do que é o poder universal. como esta pessoa. assim como meu direito é uma propriedade privada particular. Onde os príncipes atacaram a independência da propriedade privada. Minha atividade conforme ao dever é propriedade privada de outrem. O serviço militar ao país etc. antes de atentar contra a propriedade privada dos indivíduos. Ele é. As diversas províncias são propriedades privadas de príncipes singulares etc. nos povos germânicos. igualmente. a pessoa formal e a material. O morgadio é simplesmente uma existência particular da relação universal entre propriedade privada e Estado político.

Isso nos ajudará a solucionar o problema político discutido. como objeto da propriedade privada. no entanto. nos romanos. 2) As regiões conquistadas são tratadas como propriedade privada. a propriedade privada. também. ao contrário. aparecem: 1) O homem (como escravo). É somente por meio das determinações jurídicas. entre constituição política e propriedade privada. ocorreu. No que concerne ao vínculo. não um direito. é feito valer o jus utendi et abutendi. longe de considerar a propriedade privada como liame entre si e seus súditos. 1) O poder imperial não era o poder da propriedade privada. 48 “direito de uso e disposição (ou de uso e abuso)”. A mais elevada elaboração do direito da propriedade privada. mas a soberania da vontade empírica como tal. um fato inexplicável. patrícios e plebeus etc. O verdadeiro fundamento da propriedade privada. assim como nos povos antigos em geral. na verdade. Os romanos. O poder impe­ rial era. Neste ponto. bem como de todos os demais bens sociais. é bem verdade. o direito do arbítrio sobre a coisa. o direito de ocupação. como nos antigos povos clássicos em geral. seja como despesa da república nos tempos prósperos. seja como benfeitoria geral luxuriosa (banhos etc. livremente da propriedade privada. aparece a luta entre pobres e ricos. Salientamos principalmente duas relações em distinção aos alemães. o direito da pessoa abstrata. a propriedade privada se faz valer no todo. (N. precisamente porque sua existência política é aniquilada. O direito privado romano é o direito privado em seu desenvolvimento clássico.) 125 . hereditário apenas de fato.) perante a massa. que o direito da propriedade privada tenha sido mistificado. Ele não se tornará jamais. eles são escravos. não encontramos.E. conferidas pela sociedade à posse de fato. que. por isso. do direito privado. é um fato. De resto. nada de especial. que esta última adquire a qualidade de posse jurídica. como propriedade pública. foram os primeiros a desenvolver o direito da propriedade privada. o direito privado. O direito da propriedade privada é o jus utendi et abutendi48.Crítica da filosofia do direito de Hegel A propriedade privada tem a razão romana e o coração germânico. Nos romanos. 3) Em sua própria história. Nisso. O interesse principal dos romanos consiste em desenvolver e determinar as relações que se dão como relações abstratas da propriedade privada. nelas. A maneira como a escravatura é explicada é o direito de guerra. em nenhuma parte.A. dispunha. direito público. o direito abstrato. será instrutivo fazer uma comparação entre esses dois desenvolvimentos extremos da propriedade privada. tal como nos alemães. a posse.

que o poder legislativo é um atributo de sua pessoa empírica. entre conservador e progressista. o direito público foi abolido. Além disso. uma parte imóvel destes últimos (a parte da propriedade fundiária). ocorrem eleição e deputação. enquanto a propriedade privada deveria aparecer. (No morgadio. portanto. Tem-se apresentado essa oposição. também. mas essencialmente devido à natureza de sua determinação e ocupação. recentemente desenvolvida. uma nova oposição entre sociedade civil e estamentos: uma parte móvel e do mesmo modo. A segunda oposição é que os senhores do morgadio. quando o direito privado atingiu o pleno desenvolvimento em Roma. isto é. Encontramos. 2) As dignidades do Estado nunca são hereditárias em Roma. a primeira parte.) § 308. como oposição entre espaço e tempo etc. o Estado aparece. constituídas sem demora. não enquanto dissolvida atomisticamente nos indivíduos e reunindo-se. apenas para um ato isolado e temporário. De resto. no segundo estamento. mas ela é antes uma consequência da dissolução política do que a dissolução política uma consequência da propriedade privada.. veja-se o parágrafo precedente. 3) Ao contrário do morgadio germânico etc. Sobre isso. convocada pelo poder soberano.. é imediatamente claro que esta faz aquilo como aquilo que ela é – portanto. da propriedade fundiária. exteriormente devido à multidão de seus membros. num breve momento. como propriedade privada. o fato de a propriedade privada ser a relação com a função pública aparece de tal maneira que a existência do Estado seja uma inerência. aqui. Na outra parte do elemento estamental entra o lado móvel da sociedade civil. Nesta última oposição reside toda a diferença dos desenvolvimentos romano e germânico da pro­ priedade privada. são. ao passo que. um acidente da propriedade privada imediata. comunidades e corporações. Hegel fez igualmente estável. a propriedade privada não é a categoria política dominante. como tais. por meio das corporações etc. pode-se manifestar apenas por meio de deputados. mas sim são eles mesmos. a liberdade de testar aparece em Roma como uma emanação da propriedade privada. Na medida em que estes últimos são deputados pela sociedade civil. caminhou para sua dissolução. Assim. Hegel faz da qualidade de cidadão do Estado. que eles não são deputados. que. mas sim enquanto organizada nas suas associações. encontra a existência dos estamentos e de sua reunião uma garantia constituída. Em vez de fazer da propriedade privada uma qualidade do cidadão do Estado. da existência do Estado e da disposição do Estado uma qualidade da propriedade privada. enquanto na Alemanha ocorreu o inverso. do elemento estamental. legisladores. que recebem desse modo uma conexão política. como propriedade do Estado. 126 . sem atitude subsequente. no ápice.. No seu direito a tal delegação.Karl Marx na era dos imperadores. a parte móvel da sociedade civil. assim como no direito do primeiro estamento à manifestação (§ 307). peculiar. aqui.

na primeira câmara. Esta deve fazer “aquilo. à sua velha cantilena. É evidente. que a última não pode existir novamente como representação dos estamentos. A câmara dos deputados é. E é igualmente evidente que. por isso. a outra é a realização de sua existência política abstrata. mas sim a existência política da sociedade civil. apenas mediante deputados. Câmara dos deputados e câmara dos pares (ou como quer que elas se chamem) não são. aqui. a 127 . Uma é o princípio estamental existente da sociedade civil. Ao qualificar apenas essa parte do elemento estamental como aquela dos “deputados”. aos estamentos como “deputados da sociedade civil”. seu ato político é um ato isolado e temporário e. a “propriedade fundiária soberana”. a relação por ele indicada). “recebem desse modo uma conexão política”. pois ela não representa em absoluto a existência estamental.Crítica da filosofia do direito de Hegel Hegel dá duas razões para que essa parte móvel da sociedade civil possa entrar no Estado político. corporações etc. aqui. mais ainda.. como aquilo que ela não é. ele mesmo a considera como exterior e nos poupa. Hegel não encontrou dificuldade. com isso. a essência das duas câmaras (lá onde elas realmente guardam.. como representação estamental e como representação política da sociedade civil. a réplica. querer refutar isso formalmente? Hegel julga que na medida em que a sociedade faz delegados em suas corporações etc. Mas ela deve fazê-lo. aqui. por isso. como acima desenvolvido. como aquilo que ela é”. ela é “dissolvida atomisticamente nos indiví­ duos” “e reunindo-se. Em segundo lugar. proveniente dela mesma. Hegel designou. A primeira. então. um êxtase desta última. de modo que esta não “recebe” uma coloração política. Mas ou elas recebem um significado que não é o seu significado. a constituição política da sociedade civil em sentido moderno. realizar um ato político como um ato essencial a ela. sem atitude subsequente”. apenas para um ato singular e temporário. somente enquanto tal ele pode aparecer em sua realização. A “atividade” e a “ocupação” políticas são algo estranho à “natureza de sua determinação e ocupação”. diferentes existências do mesmo princípio. a multidão. Primeiramente. Câmara dos pares e câmara dos deputados se defrontam. mas é. a “política” que recebe dela sua conexão. Hegel retorna. pois ela é uma sociedade apolítica e deve. delegada da primeira) de sua realidade civil e se ponha como aquilo que ela não é: como pode ele. então “suas associações” etc. mas sim fazem parte de dois princípios e condições sociais essencialmente diferentes. tenha assento apenas a parte estamental da sociedade civil. Ele é um ato escandaloso da sociedade civil. ou sua conexão como tal é a conexão política. a câmara dos pares o é em sentido estamental.. Mas a razão essencial seria a “natureza de sua determinação e ocupação”. sem o saber. agora. em um breve momento. Com isso. aqui. antes. no poder legislativo. “constituídas sem demora”. entre si. e até mesmo estabeleceu como necessário que a sociedade civil se separe materialmente (faça tão somente o papel de uma segunda sociedade. e como tal ele também tem de se manifestar.

na câmara dos deputados. a câmara dos pares a uma pura nulidade. (N. A câmara dos pares. Os franceses deixaram subsistir a perpetuidade dos pares. era uma reminiscência. portanto. tem na câmara estamental a representante de sua existência medieval e. por sua natureza. A existência política empírica que Hegel tem diante dos olhos (Inglaterra) guarda. so­ cial. segundo o princípio da monarquia constitucional. caracterizado por alterações de caráter liberal na constituição restauracionista de 1814.Karl Marx nobreza hereditária. a ficção da harmonia entre príncipe e sociedade civil. portanto.) 128 . A câmara dos pares da revolução de Julho49 é uma criação efetiva da monarquia constitucional. precisamente por isso. apenas na redução da política estamental a uma existência política particular ao lado da política do cidadão do Estado. Seu progresso consiste em que eles não derivam mais a câmara dos pares da sociedade civil real. mas ele aparece mais como decoração política do que como estamento real. é algo que existe somente nela. com isso. Ela é o estamento. conhecido como “o rei burguês”. a representante de sua exis­ tência política (moderna).T. um estamento na sociedade civil. desse modo. também a constituição francesa representa um progresso. 49 Revolução de julho de 1830. um mérito dos franceses o fato de terem firmado essa realidade abstrata. portanto político. tal como Hegel ten­ cionava desenvolvê-lo. O progresso em relação à Idade Média consiste. aqui. de sua condição real. visando exprimir a independência destes em relação à escolha por parte do governo e do povo. de ter produzido o princípio político ele mesmo. de tê-la produzido e. Ela reduziu. Como na era moderna a ideia de Estado não poderia aparecer senão como a abstração do “Estado somente político” ou como a abstração de si mesma da sociedade civil. mas em uma oposição necessária – da reencontrada disposição política. Nesse sentido. consequência verdadeira e produto – ainda que apenas em uma oposição. ou do poder legislativo ou Estado político consigo mesmo como uma existência particular e. pois ela não é um estamento entre outros estamentos. A sociedade civil. só pode ser. provido de direitos particulares. mais uma vez contraditória. é. mas essa câmara. do príncipe. nessa constituição. Seu reinado (a Monarquia de Julho). mas sim o princípio estamental da sociedade civil como princípio real. Eles deixam derivar a sua escolha do Estado político existente. sem ter ligado este último a qualquer qualidade social. portanto. uma nulidade. Mas aboliram a expressão medieval: a hereditariedade. um estamento que é puramente político e criado a partir do ponto de vista da abstração do Estado político. mas a criaram a partir de sua abstração. sob a restauração. que depôs o rei Bourbon Carlos X e alçou ao trono Luís Filipe de Orléans. duraria até a revolução de 1848. portanto. A paridade é realmente. um significado bem diferente daquele que ele lhe imputa. em verdade. O mérito dos franceses é. Aquilo que se poderia censurar aos franceses como abstração é.

para Hegel. Ele não é o poder realizado. a descrever o “Estado político” não como a realidade mais alta. Ele necessita. Hegel desceu ao ponto de vista medieval e sacrificou completamente sua “abstração do Estado político como a esfera do Estado enquanto Estado. a “disposição política”. É a impotência sustentada. por toda parte. a garantia da sua existência política.Crítica da filosofia do direito de Hegel o de ter estabelecido a câmara dos pares como produto próprio do Estado político ou. que é em si e para si. existência legal. devem precisamente receber sua existência universal. a garantia universal. O sustentáculo é quem detém o poder. duvidar da existência do Estado. ser a existência universal desta mesma garantia e. Mas o outro elemento estamental é. encontra sua garantia na “propriedade privada independente”. Duvidar de sua existência é. Hegel retrocede. A garantia para a existência dos estamentos é. portanto. desse modo. mas o poder do sustentáculo. ou seu privilégio de ser política. da existência social. Como. “encontra a existência dos estamentos e de sua reunião uma garantia constituída. portanto. muito mais. sua verdadeira existência primitiva seria. antes. peculiar”. que depende. a tal delegação”. Que existência elevada é essa. na deputação por ele construída. mas a dar-lhe uma realidade precária.) 129 . em geral. Com isso. Hegel antecipa novamente essa existência universal como privilégio. portanto. de ter feito do princípio político em sua peculiaridade algo de determinante e eficaz. a existência da assembleia estamental é a existência política da sociedade civil. Sua existência é. Hegel observa ainda que. a lei. no desenvolvimento do poder legislativo. não é o poder sobre esses sustentáculos. como realidade da associação estatal. portanto. assim também sua existência encontra a garantia nos “privilégios das corporações”. o privilégio político da sociedade civil. que não considera a coisa em relação consigo mesma. Se a existência dos estamentos necessita de uma garantia. da garantia das esferas que se encontram fora dele. nos Estados constitucionais. da essência universal do Estado e não da potência ou impotência das corporações particulares ou associações. sua real garantia? Em suma. Portanto. anteriormente. Em sentido moderno. então. o privilégio das corporações etc. por toda parte. Hegel se limita. A garantia da existência da assembleia dos estamentos. mas. uma vez que ele deve ser. mas apenas uma existência fictícia do Estado. como existência dessas particularidades. o universal em si e para si”. eles não são uma existência real. que necessita de uma garantia fora de si mesma? e que deve. a essência do poder legislativo. além disso. (É somente aqui que as corporações etc. dependente em relação a outro: a descrevê-lo não como a existência verdadeira das outras esferas. e menos ainda pode ele encontrar sua garantia em tal privilégio. ele não pode de modo algum ser o privilégio de um modo social particular de sua existência. os círculos particulares da sociedade civil. no “direito das corporações etc. mas sim a deixar com que ele encontre nas outras esferas sua verdadeira existência.. do ponto de vista filosófico ao outro ponto de vista.

Mas que a “determinação de ser membro do Estado” seja uma determinação “abstrata”. pois ele não deve ser precisamente o direito dessa existência enquanto existência particular. a abstrata forma pensada do Estado como um Sujeito. no organismo estatal inteiro. que é tal somente por meio da referida forma. que não guarda em si nenhum momento passivo. Que todos devam participar singularmente nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado. mas do desenvolvimento hegeliano e das relações reais modernas. e o pensamento superficial se atém a abstrações.. como o ato político pelo qual a sociedade civil se concentra em uma delegação política. isso não é culpa desta determinação. não parece precisamente “ser o pensamento artificial que se atém a abstrações”. muito embora essa seja. pois estes todos são membros do Estado. Hegel se refere a uma “abstrata determinação de ser membro do Estado”. O elemento democrático deve ser. uma forma na qual ele não mostra a peculiaridade de sua essência. que ele entra apenas como princípio formal. sem nenhuma forma racional. Diante da abstração dessa Ideia. ou direito do Estado. a sua forma racional. 130 . A participação direta de todos nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado admite. a mais alta e a mais concreta deter­ minação social da pessoa do direito. para ele. cujos assuntos são assuntos de todos e no qual esses têm um direito de ser com seu saber e querer –. aparecem como conteúdo as determinações do real formalismo empírico do Estado e. apresenta-se tão óbvia porque permanece circunscrita à abstrata determinação de ser membro do Estado. O verdadeiro princípio material é. que pressupõem a separação da vida real em relação à vida política e fazem da qualidade política uma “determinação abstrata” do membro real do Estado. como direito das corporações etc. Já esclarecemos que Hegel desenvolve apenas um formalismo de Estado. que gostaria de colocar o elemento democrático. sem nenhuma forma racional. “o elemento democrático. no organismo estatal. ao contrário. por isso. Ater-se à “determinação de ser membro do Estado” e considerar o indivíduo nessa determinação. a Ideia absoluta. Antes de mais nada. contradiz totalmente o direito político enquanto político.Karl Marx O direito político. o elemento democrático pode ser admitido apenas como elemento formal em um organismo estatal que é somente formalismo estatal. Antes de passarmos à categoria da eleição. antes. o direito enquanto esta particular existência. ou seja. ele entra no organismo ou formalismo estatal como um elemento “particular”. ou seja. segundo a Ideia. material. essa concepção. segundo a opinião de seu próprio desenvolvimento. a acomodação. compreende-se por “forma racional” de sua existência a domesticação. detenhamo-nos ainda sobre algumas afirmações da nota a esse parágrafo. que é tal somente por meio da referida forma”. do membro do Estado. ou qualidade do cidadão do Estado. Se. o elemento real que dá a si mesmo. a Ideia. segundo Hegel. no organismo estatal.

portanto: todos devem participar. Ora. ou todos o fazem enquanto singulares. então. nas deliberações e resoluções sobre os assuntos gerais do Estado. a totalidade permanece apenas como pluralidade exterior ou totalidade dos singulares. real. Hegel pôs a essência do elemento estamental nisto: no fato de que a “universalidade empírica” se torna o sujeito do universal que é em si e para si. A questão sobre como a sociedade civil deve tomar parte no poder legislativo. da existência exterior. do singular. todas as singularidades. todas – nenhuma dessas determinações altera a essência do sujeito. ou no interior do Estado político abstrato. é a seguinte: os singulares fazem isto enquanto todos ou os singulares fazem isto enquanto poucos. a sociedade real etc. pois os “singulares” participam. muitas singularidades. que ela ingresse nele por meio de deputados. mas sim da existência e. não como todos. enquanto “todos”. a totalidade é apenas o número total da singularidade. desprovida de forma (aqui: o homem real. isto é. espiritual. a massa) participa. em sua forma própria. mas sim como “singular”. isto é. senão que os assuntos do Estado “são assuntos de todos e no qual esses têm um direito de ser com seu saber e querer”? E os estamentos. é uma questão política abstrata. enquanto não todos. poder-se-ia responder: “não devem participar todos singularmente nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado”. do número. como Hegel o desenvolveu. em verdade. Não todos singularmente. é ela mesma uma questão no interior da abstração do Estado político. que os todos queiram também a “realidade” desse seu próprio direito? Que todos devam participar singularmente nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado. do significado político da “universalidade empírica”. A oposição. dentro da sociedade e como membros da sociedade. em ambos os casos.). Uma singularidade. que significa isso. nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais. Em ambos os casos. A questão parece ser contraditória em um duplo sentido. Hegel se coloca o dilema: ou a sociedade civil (os muitos. Essa não é uma oposição da essência. 131 . da singularidade. não devem ser eles precisamente esse seu direito realizado? E é surpreendente. “Todos” devem “participar singularmente nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado”. muitas. A totalidade não é algo por meio do qual o singular perde a determinação da singularidade abstrata. Uma. com o que o fundamento que o próprio Hegel designou como “exterior” – a massa dos membros – permanece sempre como o fundamento último contra a participação direta de todos. Trata-se. por meio dos deputados. A totalidade não é uma qualidade essencial. mas os singulares como todos. como Hegel busca apresentá-la em seguida. Em um Estado realmente racional.Crítica da filosofia do direito de Hegel o conteúdo real aparece como matéria inorgânica. ou que “todos singularmente” participem de forma direta.

que todos os membros do Estado têm uma relação com o Estado como seu assunto real. portanto. cada um. Vimos ante­ riormente que o elemento estamental é a sociedade civil do poder legislativo. por isso. uma parte. cada membro do Estado participe na deliberação e da decisão (se essas funções são apreendidas somente como as funções da real participação no Estado) sobre os assuntos universais do Estado. e que essa participação possa aparecer apenas como deliberação ou decisão ou em outras formas semelhantes. Vimos. o indivíduo seria a verdadeira sociedade e tornaria supérflua a sociedade. participar nela conscientemente. portanto. por conseguinte. portanto. Eles não são apenas parte do Estado. Que. Sem essa consciência. sua existência política. desses sujeitos. A totalidade do Estado político é o poder legislativo. manifestar e realizar sua existência como membro do Estado político. a sociedade civil penetre no poder legislativo massivamente. portanto. portanto realmente os “assuntos universais”. participe no Estado. Mas. é evidente que sua existência social é. tomar parte no Estado político. tratar-se-ia. um membro estatal. Tomar parte nos assuntos universais do Estado e tomar parte no Estado é. Que. como membro do Estado. Por outro lado. Parece evidente. O Estado existe somente como Estado político. desde já. Mas o Estado é o “assunto universal”. que ele os toma como sua parte. então não se pode falar dessa participação como de um dever. se eles são uma parte do Estado. Ser parte consciente de alguma coisa é lhe tomar. uma parte dele. portanto. mas que não o são realmente. A deliberação e a decisão são a realização do Esta­ do en­­­ quanto assunto real. e que. mas o Estado é sua parte. A questão se todos singularmente “devem tomar parte nas deliberações e decisões sobre os assuntos gerais do Estado” é uma questão que deriva da separação entre Estado político e sociedade civil. também os outros por ele. Encontra-se já no conceito de membro estatal que eles são. assim como ele pelos outros. todos singularmente queiram participar no poder legislativo não é senão a vontade de todos de ser membros reais (ativos) do Estado ou de se dar uma existência política ou de manifestar e realizar sua própria existência como existência política. é uma tautologia. Se se trata. Se assim o fosse. Tomar parte no poder legislativo é. o membro do Estado seria um animal. caso se trate de assuntos determinados. de um ato singular do Estado. Bem diferente. uma parte do Estado. então é novamente evidente que não o realizam todos singularmente. que a sociedade civil real queira substituir-se à fictícia sociedade civil do poder legislativo. com consciência. por conseguinte. idêntico. isso não 132 .Karl Marx Os assuntos universais do Estado são os assuntos estatais. inteiramente se possível. sua real participação no Estado. o Estado enquanto assunto real. Que. que devem e querem ser membros do Estado. produz-se a aparência de que os “assuntos universais” e o “Estado” são algo de diferente. um membro do Estado. dos reais membros do Estado. O indivíduo teria de fazer tudo de uma vez. enquanto que a sociedade faz agir. antes. Quando se diz “os assuntos universais do Estado”.

desaparece totalmente o significado do poder legislativo como poder representativo. O Estado político é uma existência separada da sociedade civil. a atividade legislativa não é considerada como social. à participação no poder legislativo. assim como toda atividade social determinada. a participação da sociedade civil no Estado político mediante deputados é precisamente a expressão de sua separação e de sua unidade somente dualística. uma função política. 1) É uma representação da abstração do Estado político que o poder legislativo seja a totalidade do Estado político. O número não é. A sociedade civil é sociedade política real. assim como todo 133 . Ou ao contrário. isto é. Sendo esse ato uno o único ato político da sociedade civil. o Estado político. aqui. O poder legislativo é. 2) Todos enquanto singulares. por exemplo. De um lado. uma emanação. pode suportá-la apenas de um modo que seja adequado a seu formato. aqui. uma determinação que não se realiza na sua realidade viva. E então é um absurdo colocar uma exigência que deriva apenas da concepção do Estado político enquanto existência separada da sociedade civil. uma determinação de minha própria essência. mas sim. como o ato pelo qual os indivíduos assumem desde já uma função realmente ou conscientemente social. a mais universal possível. de outro lado. é meu representante na medida em que satisfaz uma necessidade social. enquanto atividade genérica. representativo no sentido em que toda função é representativa: o sapateiro. ao contrário.Crítica da filosofia do direito de Hegel é senão a tendência da sociedade civil a dar-se uma existência política ou a fazer da existência política a sua existência real. que encontra sua existência na monarquia constitucional. o pôr-em-questão do princípio representativo no interior do mesmo princípio. No elemento estamental. mas somente a formação dessa sociedade. uma exigência que deriva apenas da representação teológica do Estado político. A tendência da sociedade civil de transformar-se em sociedade política. isto é. Ou tem-se a separação de Estado político e sociedade civil. A determinação de “serem membros do Estado” é a sua “determinação abstrata”. Nessa situação. mostra-se como a tendência. aqui. O poder legislativo não é. muito mais. no interior da concepção fundamental do Estado político. e estes realmente se defrontam com ela como singulares. ou de fazer da sociedade política a sociedade real. Se o acréscimo do elemento estamental é um acréscimo físico e intelectual de uma das forças inimigas em luta (e vimos que os diferentes elementos do poder legislativo se defrontam como forças inimigas em luta). já a questão de saber se todos singularmente são membros do poder legislativo ou se eles devem intervir por meio de deputados é. como uma função da sociabilidade. Ou seja. que com ela se defronta. uma função da sociedade. então todos devem e querem participar dele por uma vez. sem importância. e nesse caso todos singularmente não podem participar do poder legislativo. A formação do poder legislativo exige que todos os membros da sociedade civil se considerem como singulares. a sociedade civil renunciaria a si mesma se todos fossem legisladores e. representa simplesmente o gênero.

ou a partir do momento em que a ela esteja ligada uma questão ministerial e. em suma. O poder “legislativo” é almejado não em razão de seu conteúdo. de direitos que se encontram em conexão com o formalismo político. em sua estrutura total. porque o poder legislativo representa a consciência política e esta última só pode se mostrar como política no conflito com o poder governamental. isto é. em geral. como uma outra consciência real que. muito mais o objetivo dos desejos populares do que o é a função legislativa. o país da cultura política. pois o Estado real existe apenas como o formalismo político de Estado acima considerado. como função legislativa real e como função representativa. deriva uma peculiaridade que se faz valer preferencialmente na França. não na sua energia prática. de determinar se a sociedade civil deve exercer o poder legislativo por meio de deputados ou todos singularmente.A. político-abstrata. o sentido de uma tendência formal contrária a uma outra força (ou conteúdo) e exterior ao seu conteúdo real. no Estado da abstração política. mas na sua energia teórica. por exemplo. A vontade não deve. mas a consequência necessária. como determinada pelo todo estatal – assume. por excelência”. Dessa natureza incerta do poder legislativo. mas por aquilo que ele é e faz. que ele representa.) O conteúdo próprio do poder governamental é tratado (tanto quanto os interesses particulares dominantes não entram em um conflito significativo com o objectum quaestionis50) muito à parte. em si e para si. aqui. a representação da existência política da sociedade civil. temos. O poder governamental. A função legislativa é a vontade. duas coisas: a ação real e a razão de Estado dessa ação. tanto do sufrágio ativo como do 50 51 “objeto da investigação (questão)”. De onde esse fenômeno? Porque o poder legislativo é. a função metafísica do Estado. tativo é a existência política χατ’ εξοχην Dentro da constituição representativa.) “principal.E. Ele é. em sua relação com os diferentes poderes do Estado político.A. diferente daquele em que Hegel a considerou. ao mesmo tempo. porque a essência política de uma questão consiste. sempre. (N.) 134 . valer em lugar da lei: mas sim trata-se de descobrir e formular a lei real. mas em razão de seu significado político formal. a questão investigada assume um outro sentido. como coisa acessória. seja comprovada no seu significado social como política. é a burocracia. portanto. A oposição no interior do poder represen` ` 51 deste mesmo poder. Não se trata. aqui. sim. Essa exigência essencial – de que toda necessidade social. da extensão e da máxima generalização possível da eleição. mas se trata. representante não por meio de uma outra coisa. Essa não é uma abstração dos franceses.E. aqui. lei etc. (N. a força do poder legislativo sobre o poder governamental. ou tão logo se trate. quer dizer. (No poder governamental.Karl Marx homem é representante de outro homem. Uma questão só suscita atenção especial quando se torna questão política. tinha de ser.

Retornemos. Ou seja. somente por essa sua determinação objetiva ele pode entrar em consideração no Estado. isto é. ele próprio. já dissemos o necessário mais acima. tanto na França quanto na Inglaterra. Do mesmo modo. do outro. a questão da reforma eleitoral sob uma outra forma. e com uma das partes separadas cai a outra. como pensante. sob o aspecto dos interesses. consciência e vontade do universal. Mas 135 . o sentido da Ideia. O Estado concreto é o todo organizado em seus círculos particulares. mas igualmente da dissolução da sociedade civil. mandatário da sociedade civil e. o indivíduo é gênero. não meramente representativa. que a sociedade civil se eleva realmente à abstração de si mesma. com o elemento representativo. o gênero próximo. à nota ao nosso parágrafo. A eleição é a relação real da sociedade civil real com a sociedade civil do poder legislativo. com o verdadeiro sentido prático. por isso. a eleição é a relação imediata. à existência política como sua verdadeira existência universal. que a eleição constitui o interesse político fundamental da sociedade civil real. que é. e uma peculiar existência dentro do formalismo político do Estado). A sua (do membro do Estado) determinação universal contém o duplo momento: de ser pessoa privada e de ser igualmente. mas para si. essencial. portanto. Encontraremos. não apenas em si. mas essa consciência e vontade não é vazia. discutiremos os outros conflitos. no interior do Estado político abstrato. ou seja. somente quando é preenchida pela particularidade – e esta é o estamento e a determinação particulares. A consideração racional. que derivam da dupla determinação do poder legislativo (de ser. Esse é o ponto propriamente controverso da reforma política. não mais do que o sentido racional. deva ser posta também realmente. em sua diferença com sua existência política. 2) de que essa determinação. mais tarde. desse modo. Não se considera a eleição filosoficamente. Mas o acabamento dessa abstração é imediatamente a superação da abstração. é concreta e coincide. o seu contrário. direta. de um lado. Tudo o que Hegel diz é correto. a espécie. simplesmente sua existência política. quer dizer. o membro do Estado é um membro de um tal estamento. tanto ativa quanto passiva. como espécie do gênero universal. quando ela é compreendida imediatamente em relação ao poder soberano ou ao poder governamental. a exigência de sua dissolução. a consciência da Ideia. mas real. deputado.Crítica da filosofia do direito de Hegel sufrágio passivo. primeiramente. [§ 308] Sobre isso. É somente na eleição ilimitada. com a restrição: 1) de que ele põe como idênticos estamento particular e determinação. mas plena e realmente viva. em sua essência peculiar. da sociedade civil com o Estado político. Quando a sociedade civil pôs sua existência política realmente como sua verdadeira existência. É evidente. mas tem sua imanente realidade universal como gênero próximo. como sua particularização. pôs concomitantemente como inessencial sua existência social. A reforma eleitoral é.

de que eles não devem fazer valer o interesse particular da corporação etc. primeiramente. Os deputados não devem 1) ser “mandatários comissionados ou portadores de instruções”. aquilo que ele converteu em sua determinação formal. como razão. tanto menos que a assembleia tem a determinação de ser uma reunião viva. § 309. e sua existência política não é senão essa abstração. ela deve eleger em sua inexistência como corporação. Eles não se encontram. o que. portanto. por meio da confiança. se persuade mutuamente e se decide em conjunto. Que os deputados entendam “mais” dos assuntos universais e não entendam “simplesmente”. constitui justamente a sua essência particular no Estado construído por Hegel. Ele não deixa que a sociedade se torne o determinante real. que eles fazem valer não o interesse particular de uma comunidade. uma vez mais. Com isso. isto é. mas as corporações não são a existência dos assuntos universais. como representantes das corporações etc. Hegel só pode afirmá-lo mediante um sofisma. Hegel construiu os representantes. atribuir-lhes a outra determinação política. também. por meio da confiança. com isso. pois a separa totalmente. de uma corporação. pois para isso é necessário um sujeito real e ele possui apenas um sujeito abstrato. a abstração de si mesma da sociedade civil em seu ato político. mas a partir do ponto de vista do Estado. 2) A “deputação deve ter o significado” de que a “estes são destinados. uma imaginação. contra o interesse universal. aqueles indivíduos que entendem mais desses assuntos do que os mandantes. Hegel aduz. ele separa também a corporação de si mesma como seu próprio conteúdo real. que os deputados não estejam. significa que a estes são destinados. do que se deve deduzir. pois ela deve eleger não a partir de seu ponto de vista. Ele reconhece. na situação de “mandatários”. ou de deputar indivíduos determinados para a sua execução. sua primeira determinação. 136 . no Estado – que ele apresenta como a existência autoconsciente do espírito ético – esse espírito ético seja o determinante apenas em si. Ele suprime. segundo a Ideia universal. em sua determinação essencial como representantes. como foi exposto. em que se debate. na situação de serem mandatários comissionados ou portadores de instruções. de uma corporação. então. mas sim essencialmente este último. contra o interesse universal. de sua existência corporativa. porque devem fazer “valer não o interesse particular de uma comunidade. na determinação mate­ rial. Que a deputação ocorre pela deliberação e pela resolução sobre os assuntos universais.. para. com isso. portanto. Pois isso só poderia ser concluído se os mandantes tivessem a escolha de deliberar e decidir eles mesmos sobre os assuntos universais. mas sim essencialmente este último”. aqueles indivíduos que entendem mais desses assuntos do que os mandantes”. precisamente se a deputação.Karl Marx Hegel se contenta com o fato de que. que os representantes devem ser escolhidos precisamente para o exercício dos “assuntos universais”. a representação não pertencesse essencialmente ao caráter do poder legislativo da sociedade civil. significa. ou seja.

eles não são mais comissionados. o verdadeiro fundamento: os deputados da sociedade civil se constituem numa “assembleia”. tem lugar o contrário: eles são comissionados como representantes dos assuntos universais. É significativo que Hegel qualifique. em sua forma limitada. habilidade e conhecimento das instituições e interesses do Estado e da sociedade civil – adquiridos por meio da efetiva administração das funções nos ofícios da magistratura ou do Estado. abandona a coisa no interior de sua própria particularidade e lhe imputa. a câmara da propriedade privada independente fora construída como garantia. a confiança como a substância da deputação. ao final. e somente essa assembleia é a existência política real e o querer da sociedade civil. como a existência política da universalidade empírica. a garantia dos mandantes. Sobre isso a seguir. A garantia das qualidades e da disposição correspondentes a esse fim – pois o patrimônio independente. essa confiança necessita. quando nele se observa a intenção de tratar minha causa como sua. A maioria dos votos é igualmente contrária ao princípio segundo o qual eu devo estar presente naquilo que deve me obrigar. para o príncipe e o poder governamental. aqui. do mandato. assim educado e experimentado. contra a disposição da segunda câmara. A contradição aparece duplamente: 1) formal: os deputados da sociedade civil são uma sociedade cujos membros não se encontram vinculados aos seus constituintes por meio da forma da “instrução”. Eles são constituídos formalmente. No Adendo. a garantia dos deputados era a confiança. da própria segunda câmara. 137 .Crítica da filosofia do direito de Hegel Eis um exemplo significativo de como Hegel. lê-se ainda sobre isso: A representação se funda na confiança. Primeiramente. mas confiança é algo diferente de eu dar. A sociedade simplesmente deputa de si mesma os elementos para a sua existência política. § 310. Agora. Confiança é uma relação pessoal. já na primeira parte dos estamentos. a primeira câmara. quase deliberadamente. Aqui. um sentido oposto a essa limitação. que deve garantir a disposição etc. Tem-se confiança num homem. na segunda parte. Hegel dá. Eles devem ser deputados e não o são. principalmente na disposição. segundo sua melhor consciência e conhecimento. mas eles representam assuntos realmente particulares. A separação entre Estado político e sociedade civil aparece como a separação entre os deputados e seus mandantes. e. e confirmados pela ação – e no sentido de autoridade e no sentido do Estado. 2) material: em relação aos interesses. que provém dos elementos móveis e mutáveis da sociedade civil. enquanto tal. mas. agora. Hegel exige novamente uma nova garantia. o meu voto. Primeiro. exige o seu direito – mostra-se. tão logo o são realmente. de uma garantia de sua validade. também ela. como a relação substancial entre representantes e representados.

Na conclusão do Adendo ao parágrafo precedente. com isso. O que ele realmente exige. numa garantia contra os eleitores. coisa que volta a esquecer já no parágrafo seguinte. Ele não exige apenas o “sentido do Estado”. outra como representação do povo. isso só se dá porque. Hegel esquece. uma prova ao governo de que eles são “seus” pontos de vista e pensamentos. e o Estado. nessa parte do elemento estamental. que fez a representação provir das corporações e que elas se opõem diretamente ao poder governamental. da qualidade civil. aquilo que neles é objetivamente reconhecível e comprovado. Se.Karl Marx A Hegel não agradaria fazer da segunda câmara a câmara dos funcioná­ rios estatais aposentados. contra sua “autoconfiança”. para o Estado. e até mesmo algo ofensiva. o Estado tem por sua determinação o que é objetivo e não uma opinião subjetiva e sua autoconfiança. faz-se abstração do estamento. Essa garantia para os eleitores se transformou. Ele expressa isso de tal forma que exige a burocracia duas vezes: uma como representação do príncipe. Porém. Hegel beira a servilidade. Falta apenas que Hegel exija que os estamentos prestem um exame ao digníssimo governo. “a consciência pública” deveria chegar “à existência” “como universalidade empírica dos pontos de vista e pensamentos dos muitos” (§ 301). a inconsequência irrefletida e o sentido de “autoridade” de Hegel se tornam realmente repugnantes. que “não se perturba com a opinião subjetiva e sua autoconfiança”. previamente. lê-se: A opinião subjetiva de si com facilidade acha superficial. para isso é necessário a garantia para os eleitores. formal”. esses “pontos de vista e pensamentos” devem dar. de uma maneira especialmente tola. para quem os indivíduos se deixaram “reconhecer” e “comprovar”. e a abstração da qualidade de cidadão do Estado é o preponderante. No elemento estamental. Aqui. sub-repticiamente. no elemento estamental. a exigência de tais garantias. a “universalidade empírica” devia alcançar o momento da “liberdade subjetiva. Agora. quando é feita ao assim chamado povo. mas também o sentido da “autoridade”. a ponto de criar uma distinção essencial entre os deputados das corporações e os deputados estamentais. Nele. 138 . a mutabilidade e o arbítrio têm o direito de passear. os indivíduos só podem ser. é que o poder legislativo deva ser o real poder governativo. nos Estados constitucionais. Ele fala do Estado como sujeito concreto. do Estado como uma existência acabada. Ele vai tão longe nesse esquecimento. Aqui. embora. aqui. Na nota a esse parágrafo. na medida em que esse elemento tem suas raízes nos interesses e atividades dirigidos ao particular. Hegel fala aqui. está escrito: Que o deputado a realize (sua tarefa descrita mais acima) e a faça avançar. o Estado acabado esteja apenas por ser construído. em geral. os funcionários também são admitidos como deputados. em que a contingência. o sentido burocrático. tem de cuidar tanto mais para ver.

agora o ponto de vista da plebe tende. quer dizer. 10) à deputação “enquanto emana da sociedade civil”. portanto. nesse caso. precisamente porque sua existência política é uma abstração de sua existência real. Mas. como o ser-para-si do assunto universal nos pensamentos etc. Em primeiro lugar. ao soi-disant52 Estado. a “opinião subjetiva” não bastam. então ela satisfaz imediatamente aquele ponto de vista e as eleições ou são algo em geral superficial ou se reduzem a um joguete da opinião e do arbítrio. os impedimentos. olha de cima a “autoconfiança” da “opinião subjetiva do povo sobre si mesmo”. além disso. contra o interesse universal. muito mais. Na medida em que a deputação. a pressupor a má vontade no povo. Segundo o § 309. nos teóricos por ele desprezados.Crítica da filosofia do direito de Hegel Vê-se que ele é completamente contagiado pela soberba miserável do mundo do funcionalismo prussiano. precisamente porque o todo do Estado não é a objetivação da disposição política. e ainda mais. os interesses particulares da sociedade civil. ao governo. Certamente. a disposição política da sociedade civil é uma mera opinião. com um simples “além disso”. As monstruosas contradições que residem neste “além disso” são por ele proferidas de forma igualmente impensada. parte de suas diversas corporações (§ 308). (N. a exigência de garantias “ao assim chamado” Estado. nem “ofensiva”. o sentido de que os deputados estejam familiarizados com as necessidades especiais. de acordo com a natureza da sociedade civil.B. em sua determinação representativa. nobre em sua limitação de gabinete. a “mera confiança”. achar nem “superficial”. por toda parte. enquanto emana da sociedade civil. no Estado construído por Hegel. mas sim essencialmente este último”.E. que empregar todos os meios para construir o elemento estamental segundo sua determinação essencial (§ 301). uma vez que Marx se refere diretamente aos teóricos franceses – do que acabou de ser dito. Se garantias são exigidas de que a disposição da burocracia seja a disposição do Estado. e que nela participem. Hegel não pode. Assim como Hegel anteriormente qualificara o ponto de vista da plebe como se este pressupusesse a má vontade no governo etc. de uma corporação. tem. então ele teria. Quisesse Hegel ser consequente. § 311. Hegel une. e a maneira simples de seu procedimento não é perturbada por meio de abstrações e de concepções atomísticas. idêntico ao “governo”. dos muitos. 52 Aqui o editor alemão não oferece nota – o que já aconteceu em outros casos – porque o significado da expressão francesa aparece entre aspas pouco antes e as palavras estrangeiras constituem mera repetição – irônica e aliás bem contextualizada. O “Estado” é.) 139 . em um Estado real. para Hegel.. os deputados devem fazer valer “não o interesse particular de uma comunidade. a deputação em sua determinação como “poder legislativo” (§ 309. A deputação. que. completamente independente dos outros pressupostos do Estado político.

“algo em geral superficial etc.. em um só fôlego. Aquilo que funda a representação. “ou são algo em geral superficial ou se reduzem a um joguete da opinião e do arbítrio”. da matéria particular. mas antes o homem e sua qualidade de cidadão do Estado. assim. um efeito insignificante. eles partem das corporações. No § 311. igual direito de ser representado. não comparecem para votar – de forma que resulta. encontrem-se. Mas cada um desses ramos possui. representantes de uma das esferas essen­ ciais da sociedade. indetermina da. frente aos outros. por exemplo para o comércio. sua essência. antes. ocorre necessariamente a indiferença em dar o próprio voto. exige-se o sentido corporativo e civil.”. O interesse particular não é o objeto da representação. e o espírito desse interesse é o espírito do representante. Apresenta-se como óbvio o interesse de que. os deputados adquiram e conservem o “sentido de autoridade” e o “sentido do Estado”. é. é dito que “a representação se funda na confiança”. entre os deputados. na multidão. para cada grande ramo particular da sociedade. Uma hora a representação é representação do homem. é exigido que “por meio da efetiva administração das funções etc. de uma massa.Karl Marx Segundo o § 311. representam esses interesses e necessidades particulares e não se deixam perturbar por “abstrações”. como se ele tivesse. representantes de seus grandes interesses. especialmente nos grandes Estados. essa circunstância importante é deixada apenas ao acaso. Hegel estabelece. – na concepção de uma eleição incoerente. Na nota ao parágrafo que ora examinamos. De acordo com o § 311. essa realização da confiança. No Adendo ao § 309. indivíduos que os conheçam a fundo e façam parte deles. para a representação. mas. pode ainda ser observado que. essas contradições são sustentadas de modo ainda mais estridente. De acordo com o § 310. Se os deputados são considerados como representantes. Sobre as eleições mediante muitos indivíduos. as seguintes contradições absolutas: A representação se baseia na confiança. Com isso. e ela não se baseia na confiança. as “eleições”. uma abstração precisamente de seus interesses corporativos etc. mas sim que o próprio interesse se encontra realmente presente nos seus representantes. muito mais o oposto de sua destinação. o representar também não possui mais o significado de que um está no lugar do outro. essa afirmação e manifestação da mesma. e a eleição 140 . assim como o representante está lá para o seu próprio elemento objetivo. o interesse universal.”. Por outro lado: o interesse particular é a matéria da representação. outra hora é representação do interesse particular. na confiança de homem a homem. para as fábricas etc. então isso só tem um sentido organicamente racional quando eles não são representantes de indivíduos. ainda que isso lhes seja apresentado e apre­ goado como alguma coisa de elevado. Isso não passa de um mero jogo formal. e os que têm o direito ao voto. como se o “interesse universal” não fosse também uma tal abstração. de tal instituição. portanto.

Nós os colocamos. Mediante essa separação. isto é. e é afastada a acidentalidade de um voto do momento. em duas câmaras. não apenas a maturação das decisões recebe sua maior segurança. cada uma traz uma modificação particular na deliberação. uma existência separada. Oh. então resulta para esse elemento. igualmente. § 308). e a assembleia estamental se dividirá. Das duas partes contidas no elemento estamental (§ 305. graças a uma pluralidade de instâncias. no caso de o elemento mediador se encontrar igualmente do lado do segundo estamento. além disso. portanto. Os parágrafos 312 e 313 são contemplados pelo que precede e não merecem discussão especial. contingente. como também. o elemento estamental possui menos ocasiões de se opor diretamente ao governo. do interesse particular. 141 . entre as partes existentes. aqui: § 312. Céus! § 313. principalmente. ou. porque um dos elementos possui a função particular da mediação no interior dessa esfera. assim. de um partido e. e. portanto.Crítica da filosofia do direito de Hegel cai em poder de poucos. justamente aquilo que devia ser neutralizado. assim como a acidentalidade da decisão por maioria dos votos. o peso de sua opinião será tanto mais reforçado quanto mais ele aparecer como imparcial e sua oposição aparecer como neutralizada.

.Fac-simile de página do Crítica da filosofia do direito de Hegel.

Apêndice .

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A religião é a teoria geral deste mundo. já não será tentado a encontrar apenas a aparência de si. porque a essência humana não possui uma realidade verdadeira. Ela é a realização fantástica da essência humana.B. terminada. A supressão [Aufhebung] da religião como felicidade ilusória do povo é a exigên­ cia da sua felicidade real. Por conseguinte. sua lógica em forma popular. seu entusiasmo. a religião não faz o homem. (N. contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião. a luta contra a religião é. Este é o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a religião. uma consciência invertida do mundo. Mas o homem não é um ser abstrato.) 2 3 “ponto de honra”. E a religião é de fato a autoconsciência e o autossentimento do homem. seu point d’honneur3 espiritualista. O homem.) “oração para altar e fogão”. lá onde procura e tem de procurar sua autêntica realidade. Traduzido por Rubens Enderle.Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução1 Na Alemanha. sua sanção moral. depois que sua celestial oratio pro aris et focis2 foi refutada. e a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica. assim como o espírito de estados de coisas embrutecidos. seu complemento solene. (N.T. a sociedade. o inumano. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião. o ânimo de um mundo sem coração. A religião é o suspiro da criatura oprimida.E. A existência profana do erro está comprometida. indiretamente. (N. que ou ainda não conquistou a si mesmo ou já se perdeu novamente.A. O homem é o mundo do homem. a crítica da religião está. onde procurava um super-homem. o Estado. seu compêndio enciclopédico. Ela é o ópio do povo. acocorado fora do mundo.E. sua base geral de consolação e de justifica­ ção. A exigência de que abandonem as ilusões 1 O texto “Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie – Einleitung” foi escrito entre dezembro de 1843 e janeiro de 1844 e publicado nos Anais Franco-Alemães (Deutsch-Französische Jahrbücher) em 1844. no essencial.) 145 . porque eles são um mundo invertido. que na realidade fantástica do céu. encontrou apenas o reflexo de si mesmo. A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real.

é verdade. segundo a cronologia francesa. a crítica da teologia. no primeiro caso. a que o presente ensaio serviria de introdução. Uma escola que legitima a infâmia de hoje pela de ontem. a tarefa da história. A história alemã. porque nossos senhores tiveram medo e. aja. A crítica da religião desengana o homem a fim de que ele pense. a fim de que ele gire em torno de si mesmo. na crítica da política. A tarefa imediata da filosofia.) 146 . Tomamos parte nas restaurações das nações modernas. fico ainda com as perucas desempoadas. O estudo crítico corresponde ao texto aqui publicado. encontramo-nos na sociedade da liberda­ de apenas no dia do seu sepultamento. (N. pela simples razão de se referir à Alemanha. não me encontro nem mesmo. Tendo nossos pastores à frente. assim. a crítica da reli­ gião.Karl Marx acerca de uma condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões. ancestral e histórico. Portanto. pois. em torno de seu verdadeiro sol. configure a sua realidade como um homem desenganado. é estabelecer a verdade do aquém. A exposição que se segue4 – uma contribuição a esse trabalho – não se ocupa diretamente do original. a filosofia alemã do Estado e do direito. desmascarar a autoalienação nas suas formas não sagradas. tal como o Deus 4 Marx refere-se à sua intenção de publicar um estudo crítico da Filosofia do direito de Hegel. na crítica do direito. Quando nego a situação alemã de 1843. é. uma escola à qual a história.B. Mesmo a negação de nosso presente político é já um fato empoeirado no quarto de despejo histórico das nações modernas. cuja auréola é a religião. porque nada temeram. no ano de 1789. A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões. depois de desaparecido o além da verdade. em germe. em segun­ do lugar. mesmo que da única maneira ade­ quada. quanto menos no centro vital do período atual. Se nego as perucas empoadas. A crítica do céu transforma-se. a crítica do vale de lágrimas. depois de desmascarada a forma sagrada da autoalienação [Selbstentfremdung] humana. não para que o ho­ mem suporte grilhões desprovidos de fantasias ou consolo. que chegou à razão. nas páginas que antecedem esta introdução. A religião é apenas o sol ilusório que gira em volta do homem enquanto ele não gira em torno de si mesmo. mas para que se desvencilhe deles e a flor viva desabroche. negativamente. Se nos ativermos ao status quo alemão. que está a serviço da história.E. no segundo. orgulha-se de um desenvolvimento que nenhuma nação no firmamento histórico realizou antes dela ou chegará um dia a imitar. porque outras na­ ções sofreram contrarrevoluções. Fomos restaurados primeiramente porque outras nações ousaram fazer uma revolução e. A crítica da religião é. sem termos to­ mado parte nas suas revoluções. que considera como rebelde todo grito do servo contra o açoite desde que este seja um açoite venerável. o resultado permaneceria um anacronismo. isto é. mas de uma cópia. na crítica da terra.

jura por cada libra de carne cortada do coração do povo. que se defrontam umas às outras com pequenas antipatias. não obstante.B. uma irritação geral. só mostra o seu a posteriori – a Escola histórica do direito5 –. seu trabalho essencial. defensor da tese de que o direito refletia a própria “alma” de um povo – sua cultura. abaixo de toda a crítica. já que era uma prerrogativa da Escola Histórica o estudo exegético dos textos e documentos relaciona­ dos ao seu objeto de investigação. mas a cabeça da paixão. von Savigny. A crítica para si não necessita de ulterior elucidação desse objeto. seus costumes –. refratário a qualquer reformulação do direito orientada pelos princípios racionalistas. Um Shylock. não sendo ele mesmo mais do que a indigência no governo. Seu objeto é seu inimigo. má consciência e grosseira mediocridade. chauvinistas alemães por san­ gue e liberais esclarecidos por reflexão buscam nossa história de liberdade além de nossa história. assim. uma estreiteza que tanto reconhece como ignora a si mesma.Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução de Israel fez com o seu servo Moisés. passiva. que está abaixo do nível da humanidade. inventado a história alemã. que ela quer não refutar. mas uma arma. Trata-se de retratar uma pressão sufocante que todas as esferas sociais exercem umas sobre as outras. muito maior impacto na formação intelec­ tual de Marx teve o principal adversário de Savigny. mas sim uma existência tão desprezível como desprezada. Em contrapartida. deixemos em paz as antigas florestas teutônicas! Mas declaremos guerra à situação alemã! Sem dúvida! Ela está abaixo do nível da história. em que se diferencia a história da nossa liberdade da história da liberdade do javali? Além disso. precisamente por causa de sua situa5 Tendência nas ciências históricas e jurídicas que surgiu na Alemanha no fim do século XVIII. (N. assim como o criminoso. continua a ser um objeto do carrasco. mas um Shylock servil. (N. é conhecido o provérbio: o que para dentro da floresta se grita. Eduard Gans. se ela só pode ser encontrada nas florestas. que. porque já o compreendeu. Assim. K. nas primitivas florestas teutônicas. Seu representante mais destacado foi o jesuíta F. Que espetáculo! A infinita e progressiva divisão da sociedade nas mais diversas raças. a crítica não é uma paixão da cabeça. Mas. seu título de crédito histórico. continua a ser um objeto da crítica. tal escola teria. situada nos limites de um sistema de governo que vive da conservação de todas as indigências. foi professor de Marx na Universidade de Berlim entre 1836 e 1837 e o influenciou quanto ao método de estudo. Seu pathos essencial é a indignação. um objeto memorável. T. Entretanto. mas apenas como meio. Em luta contra ela. em si e para si. Ela não constitui. não fosse ela uma invenção da história alemã. portanto. a denúncia.) Savigny. sendo. que sobre seu título de crédito. entusiastas bonacheirões. para fora da floresta ecoa. um hegeliano de tendências progressistas – bastante influenciado por Saint-Simon – que propugnava que as leis deveriam ser constantemente transformadas de modo a acompanharem o próprio desenvolvimento da Ideia.) 147 . Não é um bisturi. mas destruir. germânico-cristão. Pois o espírito de tal situação já está refutado.E. Ela não se apresenta mais como fim em si.

essa luta contra o teor limitado do status quo alemão não carece de interesse. encontram-se os próprios governantes. bem nascido. tentaria ele ocultá-la sob a aparência de uma essência estranha e buscar sua salvação na hipocrisia e no sofisma? O moderno ancien régime é apenas o comediante de uma ordem mundial cujos heróis reais estão mortos. se é um adversário interessante – o que importa é atingi-lo. como existências concedidas por seus senhores. sem exceção. Assim satisfaz-se uma necessidade do povo alemão. E até mesmo o fato de serem dominadas.Karl Marx ção alternadamente ambígua e suspeitosa. lutou contra um mundo que estava então a emer­ gir. Os deuses da Grécia. e as necessidades dos povos são propriamente as causas finais da sua satisfação. forçar essas relações petrificadas a dançar. Trágica foi sua história. Trata-se de não conceder aos alemães um instante sequer de autoilusão e de resignação. e nele não importa se o adversário é nobre. a fim de nele incutir coragem. Na medida em que o ancien régime. porque ele era o poder pré-existente do mundo. É preciso tornar a pressão efetiva ainda maior. pois o status quo alemão é a perfeição manifesta do ancien régime. e estas continuam a ser importuna­ das pelas reminiscências desse passado. como ordem do mundo existente. de Ésquilo. acrescentando a ela a consciência da pressão. cuja grandeza está em proporção inversa ao seu número! A crítica que se ocupa desse conteúdo é a crítica num combate corpo a corpo. É preciso retratar cada esfera da sociedade alemã como a partie honteuse6 da sociedade alemã. são tratadas.) 148 . porque ele mesmo acreditou em sua legitimidade e nela tinha de acreditar. e o ancien régime é o defeito oculto do Estado moderno. possuídas. já mortalmente feridos na tragédia Pro­ meteu acorrentado. por isso. Se acreditasse na sua própria essência. é instru­ tivo assistir ao ancien régime. ocorreu de sua parte um erro histórico-mundial.T. Em contrapartida. o atual regime alemão. E mesmo para os povos modernos. Seu declínio foi. mesmo que com diferentes formalidades. desem­ penhar uma comédia como fantasma alemão. elas têm de reconhecer e admitir como uma concessão do céu! Do outro lado. uma flagrante contradição de axiomas universalmente aceitos – a nulidade do ancien régime exposta ao mundo – imagina apenas acreditar em si mesmo e exige do mundo a mesma imaginação. que nelas viveu sua tragédia. era uma fantasia pessoal. tornando-a pública. numa palavra. ao contrário. e tornar a ignomínia ainda mais ignominiosa. trágico. A luta contra o presente político alemão é a luta contra o passado das nações modernas. governadas. (N. Para as nações modernas. ao passo que a liberdade. mas não um erro pessoal. A história é sólida e passa por muitas fases ao conduzir uma forma antiga ao sepulcro. 6 “parte vergonhosa”. A última fase de uma forma histórico-mundial é sua comédia. que é um anacronismo. entoando a elas sua própria melodia! É preciso ensinar o povo a se aterrorizar diante de si mesmo.

agora. teórico da burguesia ascendente nos anos anteriores a 1848 e promotor da união alfandegária (Zolverein). astuto. Sob que forma começa este problema a preocupar os alemães? Sob a forma de tarifas protecionistas. colocado pelos gregos. ela se encontra fora do status quo alemão ou apreende o seu objeto sob o seu objeto. um belo dia. T. do sistema de proibição. Por conseguinte. logo que. A situação antiga. por meio da qual se confere ao monopólio a soberania no exterior. comicamente. Jogo de palavras com o nome de Friedrich List (1789-1846): economista e defensor do protecionismo. nossos cavaleiros do algodão e heróis do ferro viram-se. Mas logo que a própria moderna realidade político-social é submetida à crítica. nos diálogos de Luciano. também. metamorfosea­ dos em patriotas. entre os sete sábios da Grécia. importa suprimir o monopólio que progrediu até as últimas consequên­ cias. a crítica se eleva aos problemas verdadeiramente humanos. portanto. trata-se da solução. da economia política. na Alema­ nha começa-se. assim. na França e na Inglaterra. importa progredir até as últimas consequências do monopólio. um alemão poderia tomar parte nos problemas do presente apenas na mesma medida em que um russo pode. com o mundo político é um dos problemas fundamentais da era moderna. na Alemanha ele é apresentado da seguinte maneira: economia nacional ou domínio da propriedade privada sobre a nacionalidade. Enquanto na França e na Inglaterra o problema se apresenta assim: economia política ou domínio da sociedade sobre a riqueza. (N.) Marx refere-se. na Alemanha. tal como um recruta inexperiente. Portanto. Um exemplo: a relação da indústria. Por que a história assume tal curso? A fim de que a humanidade se separe alegremente do seu passado. aqui. a Anacarsis.) 8 149 . ainda menos a nação é libertada por meio da liberta­ ção de um indivíduo. contra a qual essas nações se rebelam teoricamente e que apenas suportam como se suportam grilhões. Um exemplo suficiente da forma alemã dos problemas modernos. do mundo da riqueza em geral. Mas se o indivíduo não é coagido pelas limitações do seu país. T. começa-se agora a reconhecer a soberania do monopólio no interior do país. a Prússia. O chauvinismo alemão passou dos homens para a matéria e. da qual aproveitava-se. O fato de a Grécia contar com um cita entre seus filósofos8 não fez com que os citas dessem um passo sequer em direção à cultura grega. até agora só recebeu a tarefa de exercitar-se repetidamente em assuntos históricos envelhecidos. portanto. Na Alemanha. Se o desenvolvimento alemão inteiro não fosse além do seu desenvolvi­ mento político. apodrecida.Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução tiveram de morrer uma vez mais. É esse alegre destino histórico que reivindicamos para os poderes políticos da Alemanha. aqui. trata-se da colisão. 7 Listig. cita de nascimento. segundo Diógenes Laércio. com aquilo que já terminou na França e na Inglaterra. Lá. (N. em alemão. um exemplo de como nossa história. é saudada na Alemanha como a aurora de um futuro glorioso que ainda mal ousa passar de uma teoria astuta7 a uma prática implacável.

A nação alemã tem. nós. Quando. oriundo da filosofia. e ela quase tem sobrevivido à realização de suas condições ideais na contemplação das nações vizinhas. nós. por isso. Seu futuro não po­ de restringir-se nem à negação direta de suas condições políticas e jurídi­ cas reais. que o partido político prático na Alemanha exige a negação da filoso­ fia. É com razão. Em uma palavra: não podeis suprimir a filosofia sem realizá-la. Reivindicais que se deva seguir. Seu erro consiste não em formular tal exigência. na Alemanha. apenas com fatores invertidos. apenas no seu crânio. para as nações avançadas. Crê ser capaz de realizar essa negação ao murmurar – dando as costas à filosofia e afastando dela sua cabeça – algumas fraseologias furiosas e banais sobre ela. sem considerar que a própria filosofia até então existente pertence a esse mundo e constitui seu complemento.Karl Marx Felizmente. (N. mas esqueceis que o germe da vida real do povo alemão brotou. constitui uma ruptura prática com as modernas condições políticas é. pois. oficial. mesmo que ideal. O que. Dada a estreiteza de seu ângulo de visão. na filosofia. nem pode realizar. não considera que a filosofia encontre-se no mesmo nível da realidade alemã ou até mesmo a situa falsamente abaixo da prática alemã e das teorias que a servem.T. na medida em que partiu dos pressupostos da filosofia e ou aceitou seus resultados ou apresentou como exigências e resultados 9 “obras incompletas”. não somos citas. como ponto de partida. onde essas mesmas condições ainda não existem. o germe da vida real. portanto. alemães. até agora. mas igualmente sua continuação abstrata. pois a negação imediata de suas condições reais está em suas condi­ ções ideais. A filosofia alemã do direito e do Estado é a única história alemã situada al pari com o presente moderno. mas em limitar-se a uma exigência que ela não realiza seriamente. vivenciamos a nossa pós-história no pensamento. ele se comporta acriticamente em relação a si mesmo. Na presente luta. de ajustar a sua história onírica às suas condições existentes e sujeitar à crítica não apenas essas condições existentes. O mesmo erro. cometeu o partido teórico. Somos contemporâneos filosóficos do presente. esse partido vislumbrou apenas o combate crítico da filosofia contra o mundo alemão. A filosofia alemã é o prolongamento ideal da história alemã. criticamos as oeuvres posthumes10 de nossa história ideal – a filosofia – então nossa crítica situa-se no centro dos problemas dos quais o presente diz: that is the question. nem à imediata realização de suas circunstâncias políticas e jurídi­ cas ideais. em vez das oeuvres incomplètes9 de nossa história real. imediatamente uma ruptura crítica com a reflexão filosófica dessas condições. Assim como as nações do mundo antigo vivenciaram a sua pré-história na imaginação. sem sermos seus contemporâneos históricos. os alemães. (N.) “obras póstumas”.T. na mitologia.) 10 150 . Crítico contra seu oponente.

ao contrário. A crítica da filosofia alemã do direito e do Estado. substituir a crítica da arma. e demonstra ad hominem tão logo se torna radical. da filosofia como filosofia. Se. os alemães pensaram o que as outras nações fizeram. rica e completa. elevada ao status de ciência. cuja expressão mais distinta. portanto. embora estes – pressupondo-se sua legitimidade – só possam. Reservamo-nos o direito a uma descrição mais detalhada desse partido. o status quo da ciência política alemã exprime o inacabamento do Estado moderno. mais universal. A abstração e a presunção de seu pensamento andaram sempre no mesmo passo da unilateralidade e da atrofia de sua realidade. ao contrário.) 151 . só foi possível. A teoria é capaz de se apoderar das massas tão logo demonstra ad hominem. Pergunta-se: pode a Alemanha chegar a uma práxis à la hauteur des principes11. o poder material tem de ser derrubado pelo poder material.T. é o próprio homem. a crítica da filosofia especulativa do direito não deságua em si mesma. a deterioração de sua própria carne.Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução da filosofia exigências e resultados extraídos de outros domínios. mas a teoria também se torna força material quando se apodera das massas. pois. A crítica da religião tem seu fim com a doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem. Seu defeito fundamental pode ser assim resumido: ele acreditou que pode­ ria realizar a filosofia sem suprimi-la. o acabamento do espinho na carne do Estado moderno. que faz abstração do homem efetivo. Mas a raiz. quer dizer. porque e na medida em que o próprio Estado moderno faz abstração do homem efetivo ou satisfaz o homem total de uma maneira puramente imaginária. de sua energia prática. consiste tanto na análise crítica do Estado moderno e da realidade com ele relacionada como na negação decidida de todo o modo da consciência política e jurídica alemã. é o fato de ela partir da superação positiva da religião. Se a filosofia especulativa do direito só foi possível na Alemanha – esse pensamento extravagante e abstrato do Estado moderno. é claro. com o imperativo categórico de 11 “ à altura dos princípios” (N. mas em tarefas para cujas soluções há apenas um meio: a prática. ser obtidos pela negação da filosofia até então existente. a imagem mental alemã do Estado moderno. a uma revolução que a elevará não só ao nível oficial das nações modernas. Ser radical é agarrar a coisa pela raiz. para o homem. portanto. Em política. é justamente a própria filosofia especulativa do direito. mas à estatura humana que será o futuro imediato dessas nações? A arma da crítica não pode. A Alemanha foi a sua consciência teórica. o status quo do sistema político alemão exprime o acabamento do ancien régime. que com Hegel alcançou sua versão mais consistente. cuja efetividade permanece como um além. A prova evidente do radica­ lismo da teoria alemã. mesmo que esse além signifique tão somente o além do Reno –. Já como oponente resoluto da forma anterior da consciência política ale­ mã.

a emancipação teórica possui uma importância especificamente prática para a Alemanha. assim como a emancipação não se limita aos príncipes. escravizado. Quebrou a fé na autoridade porque restaurou a autoridade da fé. mas da luta contra o seu próprio padre interior. sobretudo. fazendo da reli­ giosidade o homem interior. nosso status quo. dos aristocratas rurais [Krautjunker] e dos filisteus. agora ela começa no cérebro do filósofo. Assim como outrora a revolução começou no cérebro de um monge. Transformou os padres em leigos. a Alema­ nha oficial era a serva mais incondicional de Roma. Libertou o homem da religiosidade exterior. com o fracasso da própria teologia. praticada pela hipócrita Prússia. ele era o modo correto de colocar o problema. Mesmo historicamente. Libertou o corpo dos grilhões. Hoje. transformando os leigos em padres. Relações que não podem ser mais bem retratadas do que pela exclamação de um francês acerca de um projeto de imposto sobre cães: “Pobres cães! Que­ rem vos tratar como homens!”. Mesmo os degraus que ela superou teoricamente. a Guerra dos Camponeses. a realidade deve compelir a si mesma em direção ao pensamento. os príncipes em conjunto com o clero. Mas se o protestantismo não era a verdadeira solução. Sem dúvida. Mas. desprezível. de uma base material. A teoria só é efetivada num povo na medida em que é a efetivação de suas neces­ sidades. Naquele tempo. se despedaçará contra a filosofia. abandonado. fracassou por culpa da teologia. o fato menos livre da história alemã. O passado revolucionário da Alemanha é teórico – é a Reforma. Mas a Alemanha não galgou os degraus intermediários da emancipa­ ção política no mesmo tempo em que as nações modernas. ela ainda não alcançou praticamente. Na véspera da Reforma. tampouco a secularização dos bens se restringirá à confiscação da propriedade da Igreja. prendendo com grilhões o coração. a uma revolução radical alemã parece ser colocada uma dificuldade fundamental. Na véspera de sua revolução. As revoluções precisam de um elemento passivo. Entretanto. Lutero venceu a servidão por devoção porque pôs no seu lugar a servidão por convicção. os privilegiados e os filisteus. ela é a serva incondicional de menos do que Roma: da Prússia e da Áustria. Como 152 . Já não se tratava mais da luta do leigo com o padre fora dele. o fato mais ra­ dical da história alemã. Corresponderá à monstruosa discrepância entre as exigências do pensamento alemão e as respostas da realidade alemã a mesma discrepância da sociedade civil com o Estado e da sociedade civil consigo mesma? Serão as necessidades teóricas imediatamente necessidades práticas? Não basta que o pensamento procure se realizar. a metamorfose filosófica dos clericais alemães em homens emancipará o povo. E se a transformação protestante dos leigos alemães em padres emancipou os papas leigos.Karl Marx subverter todas as relações em que o homem é um ser humilhado. que foi. a sua natureza clerical.

ao mesmo tempo. barreiras que. (N. algum país no mundo que participe tão ingenuamente de todas as ilusões do regime constitucional sem compartilhar das suas realidades como a chamada Alemanha constitucional? Ou não foi necessariamente ideia de um governo alemão combinar os tormentos da censura com os tormentos das leis francesas de setembro12. um belo dia. sem compartilhar de seus prazeres. A justiça podia fazer juízos sumários em caso de rebelião e recorrer a juízes. por outro lado. Haverá. sobretudo.B. escolhidos por ela. o absoluto e o constitucional. na realidade. pela glutonaria político-estética de um rei alemão13 que pretende desempenhar todos os papéis da realeza: o papel feudal e o burocrático. ela tem de sentir e buscar atingir como uma libertação de suas próprias barreiras reais? Uma revolução radical só pode ser a revolução de necessidades reais. Essas leis foram chamadas “leis de setembro”. por fim. a das nações modernas. que pressupõem a liberdade de imprensa? Assim como os deuses de todas as nações se encontravam no Panteão romano. Por isso. pelo menos da insensatez das formações políticas que ultrapassam o seu status quo. ao seu próprio instinto afortunado. Poder-se-á compará-la a um idólatra que padece das doenças do cristianismo. no nível da decadência europeia sem que jamais tenha atingido o nível da emancipação.) Trata-se de Frederico Guilherme IV. se a Alemanha acompanhou o desenvolvimento das nações modernas apenas por meio da atividade abstrata do pensamento. veremos que. por exemplo. eles são levados a combinar as deficiências civilizadas do mundo político moderno. por outro. ela compartilhou. ao ponto de vista da formação alemã e.) 13 153 . também os pecados de todas as formas de Estado se encontrarão no Sacro Império Romano-Germânico. T. devido às condi­ ções da época. à situação da Alemanha. Entre estas figuravam o depósito em dinhei­ ro por parte dos jornais. na Assembleia. por um lado. Mas. de cujas vantagens não des­ frutamos. de suas satisfações parciais. ao mesmo tempo. com um salto mortale.Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução poderia ela. Que esse ecletismo atingirá um grau até então inédito é garantido. um projeto de lei essencialmente reacionário que entrou em vigor em setembro do mesmo ano. (N. adotando. À atividade abstrata.E. seu ministro Thiers apresentou no mês seguinte. com as deficiências bárbaras do ancien régime. sem tomar parte ativa nas lutas reais desse desenvolvimento. corresponde o sofrimento abstrato. transpor não só suas próprias barreiras como também. o autocrático 12 Tomando como pretexto o atentado cometido contra o rei Luís Filipe a 28 de julho de 1835. se não da sensatez. a Alemanha se encontrará. Se examinarmos agora os governos alemães. das dores desse desen­ volvimento. de modo que a Alemanha tem de participar cada vez mais. de que fruímos plenamente. o encarceramento e altas multas por ataques contra a proprieda­ de privada e contra o sistema estatal vigente. para a qual faltam justamente os pressupostos e o nascedouro. severas medidas contra a imprensa.

A Alemanha. A todos os estamentos faltam. um momento de entusiasmo em que ela se confraternize e misture com a sociedade em geral. que um outro estamento seja o estamento inequívoco da opressão. meramente polí­ tica? No fato de que uma parte da sociedade civil se emancipa e alcança o domínio universal. por exemplo. é necessário que. ao menos para si mesmo. em que ela seja efetivamente o cérebro e o coração sociais. inversamente. realiza a emancipação universal da sociedade. seja sentida e reconhecida como sua representante universal. Tal classe liberta a sociedade inteira. a cora­ gem e a intransigência que delas fariam o representante negativo da socieda­ de. mas apenas sob o pressuposto de que toda a sociedade se encontre na situação de sua classe. exigências e direitos da sociedade. para que um estamento [Stand] se afirme como um estamento de toda a sociedade. Só em nome dos interesses universais da sociedade é que uma classe parti­ cular pode reivindicar o domínio universal. se não na pessoa do povo. ainda. Para que um estamento seja par excellence o estamento da libertação é necessário. a exploração política de todas as esferas da sociedade no interesse de sua própria esfera. a penetração. na verdade. de que ela possua ou possa facilmente adquirir dinheiro e cultura. não bastam energia revolucionária e autossentimento [Selbstgefühl] espiritual. aquela genialidade que anima a força 154 . Na Alemanha. inversamente. Para que a revolução de um povo e a emancipação de uma classe particular da sociedade civil coincidam. que uma determinada classe. como deficiência da atual política constituída num mundo próprio. não conseguirá demolir as específicas barreiras alemãs sem demolir as barreiras gerais da política atual. com isso. Em que se baseia uma revolução parcial. e se não para o povo. meramente política. a partir da sua situação particu­ lar. mas a revolução parcial.Karl Marx e o democrático. a revolução que deixa de pé os pilares do edifício. porém. é necessário que uma esfera social particular se afirme como o crime notório de toda a sociedade. um momento em que suas exigências e direitos sejam. faltam a todas as classes particulares não apenas a consistência. identifica-se com a alma popular. Nenhuma classe da sociedade civil pode desempenhar esse papel sem despertar. de modo que a libertação dessa esfera apareça como uma autolibertação universal. O significado negativo-universal da nobreza e do clero francês condicionou o significa­ do positivo-universal da classe burguesa. a emancipação humana universal. a incorporação das barreiras universais. em si e nas massas. que se situava imediatamente ao lado deles e os confrontava. mesmo que por um momento apenas. O sonho utópico da Alemanha não é a revolução radical. todos os defeitos da sociedade sejam concentrados numa outra clas­ se. Para alcançar essa posição emancipatória e. aquela grandeza de alma que. que um determinado estamento seja o do escândalo universal. pelo menos na sua própria pessoa. portanto. confunda-se com ela.

portanto. no mínimo. Na França. o burguês contra todos eles. enquanto o proletário já começa a entrar em luta contra os burgueses. é a impossi­ bilidade da libertação gradual que tem de engendrar a completa liberdade. o burocrata contra o nobre. por fim. assim. sem qualquer ação de sua parte. de modo que cada clas­ se. pelas diferentes classes do povo francês. Na França. oprimir. mas como representante das necessidades sociais. enredase numa luta contra a classe inferior. não são apenas os reis alemães que sobem ao trono mal-à-propos14. a emancipação parcial é a base da emancipação universal. A classe média dificilmente ousa conceber a ideia da emancipação a partir de seu próprio ponto de vista. problemático. A cepa principal da moralidade e da honradez alemãs. (N. a classe que realiza a liberda­ de social não mais sob o pressuposto de certas condições externas ao homem e. Na Alemanha. aquela audácia revolucionária que lança ao adversário a frase desafiadora: não sou nada e teria de ser tudo.) 155 . até alcançar. mas épica. e o desenvolvimento das condições sociais.Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução material a tornar-se poder político. ninguém pode ser nada se não renunciar a tudo. basta que alguém queira ser alguma coisa para que queira ser tudo. mas desde o momento em que as condições da época. cada classe da nação é um idealista político e se considera. tão logo inicia a luta contra a classe que lhe é superior. o principado entra em luta contra a realeza. já declaram esse ponto de vista como antiquado ou.T. dramática. manifesta sua essência mesquinha antes que sua essência generosa tenha conseguido se manifestar e. a emancipação universal é conditio sine qua non de toda emancipação parcial. cada esfera da sociedade civil sofre uma derrota antes de alcançar sua vitória. Assim. Por conseguinte. o papel de emancipador é sucessivamente assumido. na Alemanha. num movimento dramático. 14 “inoportunamente”. no entanto. criam um novo substrato social que ela pode. Na Alemanha. Por isso. é a realidade. assim como o progresso da teoria política. Até mesmo o autossentimento moral da classe média alemã assenta apenas sobre a cons­ ciência de ser o representante universal da mediocridade filistina de todas as outras classes. Cada uma delas começa a conhecer a si mesma e a se estabelecer ao lado das outras com suas reivindicações particulares. não apenas das classes como dos indivíduos. mas organizando todas as condições da exis­ tência humana sob o pressuposto da liberdade social. é formada por aquele modesto egoísmo que afirma sua estreiteza e deixa que ela seja afirmada contra si mesmo. por sua vez. Na França. Na Alemanha. a oportunidade de desempenhar um papel importante desaparece antes mesmo de ter existido. Na França. não como classe particular. cria suas próprias barreiras antes de ter superado as barreiras que ante ela se erguem. A relação entre as diferentes esferas da sociedade alemã não é. não a partir do momento em que é oprimida. em primeiro lugar. criadas pela sociedade humana.

mas a mas­ sa que provém da dissolução aguda da sociedade e. mas a injustiça por excelência. como um estamento particular. Assim. o proletariado encontra na filosofia suas armas espirituais. a emancipação dos alemães em homens se completará. Declarando o povo como sua propriedade privada. Onde se encontra. que o proprietário privado é rei. de uma esfera que possua um caráter universal mediante seus sofrimentos universais e que não reivindique nenhum direito particular porque contra ela não se comete uma injustiça particular. não a massa humana mecanicamente oprimida pelo peso da sociedade. nenhuma classe da sociedade civil tem a necessidade e a capacidade de realizar a emancipação universal. Assim como a filosofia encontra suas armas materiais no proletariado. com isso. onde a vida prática é tão desprovida de espírito quanto a vida espiritual é desprovida de prática. pela necessidade material e por seus próprios grilhões. de uma classe da sociedade civil que não seja uma classe da sociedade civil. O proletariado começa a se formar na Alemanha como resultado do emergente movimento industrial. e tão logo o relâmpa­ go do pensamento tenha penetrado profundamente nesse ingênuo solo do povo. o rei expressa. o proletário possui em relação ao mundo que está a surgir o mesmo direito que o rei alemão possui em relação ao mundo já existente. que não pode se emancipar sem se emancipar de todas as outras esferas da sociedade e. de um estamento que seja a dissolução de todos os estamentos.Karl Marx ao contrário. Façamos um resumo dos resultados: A única libertação praticamente possível da Alemanha é a libertação do ponto de vista da teoria que declara o homem como o ser supremo do homem. Quando o proletariado anuncia a dissolução da ordem mundial até então existente. tão somente. quando este chama o povo de seu povo ou o cavalo de seu cavalo. 156 . a perda total da humanidade e que. aquilo que nele já está involuntariamente incorporado como resultado negativo da sociedade. mas apenas o título humano. só pode ganhar a si mesma por um reganho total do homem. é o proletariado. uma vez que ele é a dissolução fática dessa ordem mundial. Tal dissolução da sociedade. portanto. a possibilidade positiva de emancipação alemã? Eis a nossa resposta: na formação de uma classe com grilhões radicais. ele apenas revela o mistério de sua própria existência. mas numa oposição abrangente aos pressupostos do sistema político alemão. até que seja forçada a isso por sua situação imediata. então. que não se encontre numa oposição unilateral às consequências. embora seja evidente que a pobreza natural e a servidão cristão-germânica também engrossaram as fileiras do proletariado. por fim. da dissolução da classe média. numa palavra. mas a pobreza produzida artificialmente. ele apenas eleva a princípio da sociedade o que a sociedade elevara a princípio do proletariado. Quando o proletariado exige a negação da propriedade privada. pois o que constitui o proletariado não é a pobreza naturalmente existente. uma esfera. que já não possa exigir um título histórico. sem emancipar todas essas esferas – uma esfera que é. acima de tudo.

a emancipação da Idade Média só é possível se realizada simultaneamente com a emancipação das superações parciais da Idade Média. A emancipa­ ção do alemão é a emancipação do homem. A profunda Alemanha não pode revolucionar sem revolucionar desde os fundamentos. Na Alemanha. Quando estiverem realizadas todas as condições internas. o proletariado não pode se suprassumir sem a efetivação da filosofia. o dia da ressurreição alemã será anunciado pelo canto do galo gaulês. nenhum tipo de servidão é destruído sem que se destrua todo tipo de servidão.Crítica da filosofia do direito de Hegel Na Alemanha. o proletariado é seu coração. 157 . A filosofia não pode se efetivar sem a suprassunção [Aufhebung] do proletariado. A cabeça dessa emancipação é a filosofia.

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a 1715. 36 (cf. santa Maria. Charles-Louis de Secondat. 28 SCHILLER. seu reinado representou um dos momentos culminantes da história do país. nota no 43) HEGEL. Rei da França de 1643. p. a dinâmica dessa necessidade não teria sua lógica determinada pelos princípios de identidade e contradição. a fim de superar o dualismo existente entre sujeito e objeto – estabelecido por Kant –. p. Citado indiretamente duas vezes. Jean (c. p. pensador e jurista francês. Filósofo escolástico francês.Crítica da filosofia do direito de Hegel ÍNDICE DE NOMES CITADOS BURIDAN. protetor da casa e mais tarde deus do princípio. p. nota no 8) SHAKESPEARE. 159 . mas sim pela “dialética”. parodianto o that is the question do “ser ou não ser” de Hamlet. barão de (1689-1755). uma decorrência da filosofia kantiana – surgida em oposição a ela – que começou com Fichte e Schelling. lançou as bases das principais tendências posteriores. cognominado o Rei Sol. é sempre representado com duas cabeças olhando para lados opostos. representante do Classicismo de Weimar em sua obra tardia. o fundamento supremo da realidade não podia ser o “absoluto” de Schelling nem o “eu” de Fichte e sim a “ideia”. p. também é conhecida como Nossa Senhora. Filósofo alemão. depois da morte do pai. 27-141. 1300-1358). 109 (cf. um dos maiores prosadores da língua francesa. Citado indiretamente através da referência à Santa Casa. Deus romano. que analisou o princípio da causalidade e revisou a mecânica aristotélica. Na Bíblia. Com base em suas obras. William (1564-1616). Citado indiretamente através da frase L’état c’est moi (“O Estado sou eu). Friedrich von (1759-1805). 47 MARIA. filha de santa Ana e Joaquim e mãe de Jesus. 53 MONTESQUIEU. último dos grandes criadores de sistemas filosóficos dos tempos modernos. 104 LUÍS XIV (1638-1715). símbolo do absolutismo. a primeira delas quando Marx diz “eis a question”. Para Hegel. autor de O espírito das leis e As cartas persas. os escritores franceses se tornaram mais que literatos e passaram a discutir os assuntos públicos e a influir nos destinos do país. segundo o qual apenas era possível conhecer a aparência fenomenológica das coisas e não sua essência. discípulo de Guilherme de Occam. p. Georg Wilhelm Friedrich (1770-1831). pensador influente nas áreas da filosofia da história e do direito constitucional. entre outras obras consideradas clássicas. junto com Goethe. p. venerada pelos cristãos. Hegel foi o maior expoente do “idealismo alemão”. 145-56 JANO. que se desenvolve numa linha de estrita necessidade. Madona e Virgem Maria. Escritor romântico-idealista alemão. esses dois pensadores trataram a realidade como se fosse baseada num só princípio.

Índice de nomes citados a segunda quando fala da comédia Sonho de uma noite de verão. poeta nacional da Inglaterra. 49. Personagem leonino de Shakespeare na peça Sonho de uma noite de verão. p. encenada antes de 1600. 104 MARMELO. Escritor inglês. 104 (cf. nota no 40) 160 . p.

vinda da Prússia. advogado e conselheiro de Justiça. em Trier. Marx entra para o Ginásio de Trier (outubro). 1830 Estouram revoluções em diversos países europeus. 1824 Simón Bolívar se torna chefe do Executivo do Peru. pondo fim à Regência. o segundo de oito filhos de Heinrich Marx e de Enriqueta Pressburg. O pai de Marx. em Barmen. é obrigado a abandonar o judaísmo por motivos profissionais e políticos (os judeus estavam proibidos de ocupar cargos públicos na Renânia). 1831 161 . primeiro dos oito filhos de Friedrich Engels e Elizabeth Franziska Mauritia van Haar. A população de Paris insurge-se contra a promulgação de leis que dissolvem a Câmara e suprimem a liberdade de imprensa. Trier na época era influenciada pelo liberalismo revolucionário francês e pela reação ao Antigo Regime. 1820 Nasce Friedrich Engels (28 de novembro). nascido Hirschel.Crítica da filosofia do direito de Hegel CRONOLOGIA RESUMIDA Karl Marx 1818 Em Trier (capital da província alemã do Reno). Inicia seus estudos no Liceu Friedrich Wilhelm. Insurreição constitucionalista em Portugal. nasce Karl Marx (5 de maio). George IV se torna rei da Inglaterra. Alemanha. Luís Filipe assume o poder. Morre Hegel. Friedrich Engels Fatos históricos Simón Bolívar declara a Venezuela independente da Espanha. Cresce no seio de uma família de industriais religiosa e conservadora.

Começa a escrever ensaios literários e sociopolíticos. na Inglaterra. Briefe aus dem Wupperthal [Cartas de Wupperthal]. doutrina predominante na época.Cronologia resumida Karl Marx 1834 Friedrich Engels Engels ingressa. fica noivo em segredo de Jenny von Westphalen. 1838 Estuda comércio em Bremen. Escreve Canções selvagens e Transformações. Na juventude. Transfere-se para a Universidade de Berlim e estuda com mestres como Gans e Savigny. Fatos históricos A escravidão é abolida no Império Britânico. Participa do Clube de Poetas e de associações de estudantes. Entra para o Clube dos Doutores. que originou o cartismo. primavera). como Literatura popular alemã. Engels deixa o ginásio e começa a trabalhar nos negócios da família. 1837 Por insistência do pai. 162 . 1835 Escreve Reflexões de um jovem perante a escolha de sua profissão. Morre seu pai. Fracassa o golpe de Luís Napoleão em Estrasburgo. vizinha sua em Trier. casar-se-iam apenas sete anos depois. Criação da Liga dos Justos. Estuda a filosofia de Hegel. entre eles o poema “O beduíno” (setembro). A rainha Vitória assume o trono na Inglaterra. sobre o espírito da liberdade. Proclamação da Carta do Povo. 1839 Feuerbach publica Zur Kritik der Hegelschen Philosophie [Crítica da filosofia hegeliana]. Karl Beck e Memorabilia de Immermann. Em razão da oposição entre as famílias. No verão. Em carta ao pai. Primeira proibição do trabalho de menores na Prússia. Auguste Blanqui lidera o frustrado levante de maio. no Ginásio de Elberfeld. sobre a vida operária em Barmen e na vizinha Elberfeld (Telegraphfür Deutschland. Escreve o primeiro trabalho de envergadura. Presta exame final de bacharelado em Trier (24 de setembro).Ins­ creve­ -se na Universidade de Bonn. Perde o interesse pelo Direito e entrega-se com paixão ao estudo da filosofia. no Brasil. Matricula-se na Universidade de Berlim. encabeçado por Bruno Bauer. na França. descreve sua relação contraditória com o hegelianismo. em outubro. Outros viriam. Revolução Farroupilha. Richard Cobden funda a Anti-Corn-Law-League. o que lhe compromete a saúde. Insurreição operária em Lyon. Escreve História de um pirata. 1836 Estuda Direito na Universidade de Bonn. poemas e panfletos filosóficos em periódicos como o Hamburg Journal e o Telegraph für Deutschland. O Congresso alemão faz moção contra o movimento de escritores Jovem Alemanha. fica impressionado com a miséria em que vivem os trabalhadores das fábricas de sua família. Escreve Poema.

Passa a lua de mel em Kreuznach. Fatos históricos Proudhon publica O que é a propriedade? [Qu’est-ce que la propriété?]. Conhece Engels. religião. Conhece Mary Burns. Marx casa-se com Jenny von Westphalen. do qual mais tarde seria redator. Publica artigos no Rheinische Zeitung. O jornal Schweuzerisher Republicaner publica suas “Cartas de Londres”. F. Critica intensamente o conservadorismo na figura de Schelling. 1842 Elabora seus primeiros trabalhos como publicista. e ele inicia estudos sobre os efeitos do capitalismo no operariado inglês. Redige os manuscritos que viriam a ser conhecidos como Crítica da filosofia do direito de Hegel [Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie]. Weerth. a Ermen & Engels. Começa a colaborar com o jornal Rheinische Zeitung [Gazeta Renana]. contra o obscurantismo religioso. entre eles “Crítica às leis de imprensa prussianas” e “Centralização e liberdade”.Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx 1840 K. Presta o serviço militar em Berlim por um ano. Em outubro vai a Paris. 163 . com isso Marx perde a oportunidade de atuar como docente nessa universidade. Feuerbach publica Grundsätze der Philosophie der Zukunft [Princípios da filosofia do futuro]. esporte. pintura. publicação da burguesia em Colônia. viagens. literatura e política. Feuerbach traz a público A essência do cristianismo [Das Wesen des Christentums]. Recu­­ sa convite do governo prussiano para ser redator no diário oficial. e seus adversários]. no Mitternachtzeitung (março-maio) e Cidade natal de Siegfried (dezembro). Ao longo desse período. Em Manchester assume a fiação do pai. Marx recebe em Iena o título de doutor em Filosofia (15 de abril). O Ashley’s Act proíbe o trabalho de menores e mulheres em minas na Inglaterra. conhece o poeta G. Começa a escrever para a imprensa cartista. suas cartas à irmã favorita. revelam seu amor pela natureza e por música. Feuerbach publica Vorläufige Thesen zur Reform der Philosophie [Teses provisórias para uma reforma da filosofia]. Bruno Bauer. Schelling e a revelação e Schelling. Koeppen dedica a Marx seu estudo Friedrich der Große und seine Widersacher [Frederico. cerveja e tabaco. vinho. Volta a Trier. livros. Publica Ernst Moritz Arndt. Friedrich Engels Engels publica Réquiem para o Aldeszeitung alemão (abril). Seu pai o obriga a deixar a escola de comércio para dirigir os negócios da família. que viveria com ele até a morte. Engels prosseguiria sozinho seus estudos de filosofia. Vida literária moderna. com Edgar Bauer. Mantém contato com a Liga dos Justos. Primeira lei trabalhista na França. 1841 Com uma tese sobre as diferenças entre as filosofias de Demócrito e Epicuro. Marie. Frequenta a Universidade de Berlim como ouvinte e conhece os jovens-hegelianos. 1843 Sob o regime prussiano. com destaque para Hegel. acusado de ateísmo. o Grande. é expulso da cátedra de Teologia da Universidade de Bonn. Em Bradford. Mary e a irmã Lizzie mostram a Engels as dificuldades da vida operária. jovem trabalhadora irlandesa. filósofo em Cristo. com os escritos Schelling em Hegel. é fechado o Rheinische Zeitung. onde se dedica ao estudo de diversos autores. Engels escreve. Eugène Sue publica Os mistérios de Paris. que na ocasião visitava o jornal. o poema satírico “Como a Bíblia escapa milagrosamente a um atentado impudente ou O triunfo da fé”. onde Moses Heß e George Herwegh o apresentam às sociedades secretas socialistas e comunistas e às associações operárias alemãs.

1845 As observações de Engels sobre a classe trabalhadora de Manchester. Ambos começam a escrever A ideologia alemã [Die deutsche Ideologie] e Marx elabora “As teses sobre Feuerbach” [Thesen über Feuerbach]. Substitui Arnold Ruge na direção dos Deutsch-Französische Jahrbücher [Anais Franco-Alemães]. O Graham’s Factory Act regula o horário de trabalho para menores e mulheres na Inglaterra.Cronologia resumida Karl Marx Conclui Sobre a questão judaica [Zur Judenfrage]. escreve e publica em Frankfurt A sagrada família. juntamente com Bakunin. Ruge. Encontra Engels em Paris e em dez dias planejam seu primeiro trabalho juntos. Muda-se para Bruxelas e. com quem desenvolve atividades militantes. Colabora com o Vorwärts! [Avante!]. formam a base de uma de suas obras principais. inicia em Paris estreita amizade com Engels. escreve para os Deutsch-Französische Jahrbücher e colabora com o jornal Vorwärts!. Em setembro nasce Friedrich Engels Fatos históricos Em fevereiro. texto que influenciou profundamente Marx. a edição seria traduzida para o inglês 40 anos mais tarde). feitas anos antes. Vai para Barmen. Leroux. fundada por Weitling. Em Paris torna-se amigo de Marx. elabora e publica o primeiro e único volume dos Deutsch-Französische Jahrbücher. Insurreição de operários têxteis na Silésia e na Boêmia. no qual participa com dois artigos: “A questão judaica” e “Introdução a uma crítica da filosofia do direito de Hegel”. primeira filha de Marx. Bürgers e Bornstedt. O governo decreta a prisão de Marx. Blanc. 164 . 1844 Em colaboração com Arnold Ruge. Deixa Manchester. Nasce Jenny. Proudhon e Bakunin. em colaboração com Engels. Em dezembro inicia grande amizade com Heinrich Heine e conclui sua “Crítica da filosofia do direito de Hegel – Introdução” [Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie – Einleitung]. Hoe registra a patente da primeira prensa rotativa moderna. Em Barmen organiza debates sobre as ideias comunistas junto com Hesse e Kötten e profere os Criada a organização internacionalista Democratas Fraternais. órgão de imprensa dos operários alemães na emigração. em Londres. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra [Die Lage der arbeitenden Klasse in England] (publicada primeiramente em alemão. Richard M. Heine e Bernays pela colaboração nos Deutsch-Französische Jahrbücher. Escreve os Manuscritos econômico-filosóficos [Ökonomisch-philosophische Manuskripte]. Fundado o primeiro sindicato operário na Alemanha. a pedido do governo prussiano Marx é expulso da França. Engels publica Esboço para uma crítica da economia política [Umrisse zu einer Kritik der Nationalökonomie]. o que os leva a criar laços cada vez mais profundos com as organizações de trabalhadores de Paris e Bruxelas. A sagrada família [Die heilige Familie]. Marx publica no Vorwärts! artigo sobre a greve na Silésia. Por causa do artigo sobre a greve na Silésia. Rompe com Ruge e desliga-se dos Deutsch-Französische Jahrbücher. Conhece a Liga dos Justos. Segue à frente dos negócios do pai. Amigo de Heine.

Guerra civil na Suíça. Crise alimentar na Europa. alemão emigrado dono de um periódico socialista em Nova York. Realiza-se em Londres. Filia-se à Liga dos Justos. de Proudhon. uma rede de correspondentes comunistas em diversos países. Realiza-se o primeiro congresso da associação em Londres (junho). ele renuncia à nacionalidade prussiana. estudam economia e fazem uma breve visita a Manchester (julho e agosto). na Inglaterra. junto com Marx. como o Manchester Guardian e o Volunteer Journal for Lancashire and Cheshire. voltando em seguida a Paris para mais uma série de encontros. o terceiro filho de Marx. o II Congresso da Liga dos Comunistas (novembro). Publica Princípios do comunismo [Grundsätze des Kommunismus]. julho). Em carta a Annenkov. Em dezembro nasce Edgar. ocasião em que se encomenda a Marx e Engels um manifesto dos comunistas. a qual Proudhon se nega a integrar. juntos. Lançada A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Em abril sai de Barmen e encontra Marx em Bruxelas. em seguida nomeada Liga dos Comunistas. na União Soviética). ele se desloca para Paris com a incumbência de estabelecer novos comitês de correspondência. segunda filha de Marx e Jenny. uma “versão preliminar” do Manifesto Comunista [Manifest der Kommunistischen Partei]. as “leis dos cereais”. Por falta de editor. Marx e Engels desistem de publicar A ideologia alemã (a obra só seria publicada em 1932. onde percorrem alguns jornais locais. Depois de atividades em Londres. Marx critica o recém-publicado Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria [Système des contradictions économiques ou Philosophie de la misère]. Seguindo instruções do Comitê de Bruxelas. 1847 Engels viaja a Londres e participa com Marx do I Congresso da Liga dos Justos. Engels estabelece estreitos contatos com socialistas e comunistas franceses. propagando ideias comunistas e discorrendo sobre a utopia de Proudhon e o socialismo real de Karl Grün. 165 .Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx 1845 Laura. No outono. Fatos históricos 1846 Marx e Engels organizam em Bruxelas o primeiro Comitê de Correspondência da Liga dos Justos. volta a Bruxelas e escreve. Participa de um encontro de trabalhadores alemães em Paris. Em Bruxelas. Começa sua vida em comum com Mary Burns. em Leipzig. Marx é eleito vice-presidente da Associação Democrática. Redige com Engels a Zirkular gegen Kriege [Circular contra Kriege]. Abolidas. o Manifesto Comunista. Eles participam do congresso de trabalhadores alemães em Bruxelas e. A Polônia torna-se província russa. Juntos. Rebelião polonesa em Cracóvia. Em dezembro. participa da reunião da Associação Democrática. Friedrich Engels Discursos de Elberfeld. Os Estados Unidos declaram guerra ao México. fundam a Associação Operária Alemã de Bruxelas. com Marx. Conclui e publica a edição francesa de Miséria da filosofia [Misère de la philosophie] (Bruxelas.

durante grande ato popular promovido pelo Neue Rheinische Zeitung. Abolição da escravidão nas colônias francesas. O movimento revolucionário reflui. Marx começa a dirigir a Associação Operária de Colônia e acusa a burguesia alemã de traição. Com Engels publica. motivo pelo qual sofre sanções legais por parte das autoridades prussianas. de cuja derrota falaria quatro anos depois em Revolução e contrarrevolução na Alemanha [Revolution und Konterevolution in Deutschland]. em condição financeira precária (vende os próprios móveis para pagar as dívidas). Fim da escravidão na Áustria. do Comitê de Segurança Pública criado para rechaçar a contrarrevolução. Marx. O governo revolucionário francês. Marx e Engels vão para o sudoeste da Alemanha. Marx se estabelece com a família em Londres. mas. Blanqui lidera novas insurreições operárias em Paris. em setembro. é extinto (maio). À frente de um batalhão de operários. onde é preso e depois expulso. impedido de ficar. enquanto Marx é convidado a deixar o país. Criada a Associação Operária. Juntamente com Marx. o Comitê Central da Liga dos Comunistas. o Manifesto Comunista. brutalmente reprimidas pelo general Cavaignac. 1849 Em janeiro Engels retorna a Colônia. em Londres (fevereiro). Muda-se para a Suíça. a jornada de dez horas para menores e mulheres na indústria têxtil. mas ainda publicaria Trabalho assalariado e capital [Lohnarbeit und Kapital]. O periódico sofre suspensões. Fatos históricos Definida. Decretado estado de sítio em Colônia em reação a protestos populares. Participa. em Londres. muda-se em fins de maio para Colônia.mas prossegue ativo. é obrigado a deixar a cidade em 24 horas. tenta se exilar na Bélgica. O periódico. entra em Elberfeld. Redige com Engels “Reivindicações do Partido Comunista na Alemanha” [Forderungen der Kommunistischen Partei in Deutschland] e organiza o regresso dos membros alemães da Liga dos Comunistas à pátria. Em junho. tenta voltar a Paris. chega a Bruxelas no fim de janeiro. na Inglaterra. toma parte militarmente na resistência à reação. Ambos defendem a liberdade de imprensa na Alemanha. antes de seguir para Londres. Publicado o último número do Neue Rheinische Zeitung. Procurado pela polícia. por meio de Ferdinand Flocon. A Hungria proclama sua independência da Áustria. 166 . Graças a uma campanha de arrecadação de fundos promovida por Ferdinand Lassalle na Alemanha. Proudhon publica Les confessions d’un révolutionnaire. o rei Luís Filipe abdica e a República é proclamada. em Berlim. onde nasce Friedrich Engels Expulso da França por suas atividades políticas. com a participação de Marx e Engels. Proclama o terrorismo revolucionário como único meio de amenizar “as dores de parto” da nova sociedade. A revolução se alastra pela Europa. convida Marx a morar em Paris depois que o governo belga o expulsa de Bruxelas. em difícil situação. Marx é convidado a deixar o país. recém-criado por ele e Marx. Com sua família e com Engels. Conclama ao boicote fiscal e à resistência armada. Barricadas em Paris: eclode a revolução. Em maio. reorganiza-se no fim do ano. Engels exerce o cargo de editor do Neue Rheinische Zeitung. Marx e Engels são absolvidos em processo por participação nos distúrbios de Colônia (ataques a autoridades publicados no Neue Rheinische Zeitung). cuja primeira edição é publicada em 1º de junho com o subtítulo Organ der Demokratie. Após período de refluxo. onde Engels envolve-se no levante de Baden-Palatinado.Cronologia resumida Karl Marx 1848 Marx discursa sobre o livre-cambismo numa das reuniões da Associação Democrática. toma parte na insurreição alemã. onde ambos fundam o jornal Neue Rheinische Zeitung [Nova Gazeta Renana].

Luís Bonaparte é proclamado imperador da França. da polícia e do judiciário prussianos. atacam os dirigentes burgueses da emigração em Londres e defendem os revolucionários de 1848-1849. organiza a ajuda aos emigrados alemães. Edita em Londres a Neue Rheinische Zeitung [Nova Gazeta Renana]. graças ao êxito dos negócios de Engels em Manchester.Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx Guido. Dedica-se intensamente aos estudos de economia na biblioteca do Museu Britânico. Abolição do sufrágio universal na França. os planos do governo. em cartas e artigos conjuntos. onde viverá por vinte anos. A Liga dos Comunistas reorganiza as sessões locais e é fundada a Sociedade Universal dos Comunistas Revolucionários. de Nova York. 1850 Ainda em dificuldades financeiras. Morre o filho Guido. conta com ajuda financeira. nela. hoje desaparecida. Morre a filha Francisca. Friedrich Engels Fatos históricos Publica A guerra dos camponeses na Alemanha [Der deutsche Bauernkrieg]. intitulados “Contrarrevolução na Alemanha”. golpe de Estado de Luís Bonaparte. bem como Lutas de classe na França [Die Klassenkämpfe in Frankreich]. Expõem. Estuda língua. elabora o panfleto O grande homem do exílio [Die groben Männer des Exils] e uma obra. Em novembro. Hermann Becker publica em Colônia o primeiro e único tomo dos Ensaios escolhidos de Marx. quinta de seus filhos. seu quarto filho (novembro). textos que teriam grande repercussão. o êxito nos negócios possibilita ajudas financeiras a Marx. nascida um ano antes. Envia ao periódico Die Revolution. retorna a Manchester. começa a colaborar com o Movimento Cartista [Chartist Movement]. publicados sob a assinatura de Marx. e às suas atividades na Ermen & Engels. Nasce Francisca (28 de março). Aceita o convite de trabalho do New York Daily Tribune. Continua em dificuldades. A difícil situação financeira é amenizada com o trabalho para o New York Daily Tribune. mas é Engels quem envia os primeiros textos. juntamente com Marx. Na França. Sua proposta de dissolução da Liga dos Comunistas é acolhida. mas. em Londres. cuja liderança logo se fraciona. uma série de artigos sobre O dezoito brumário de Luís Bonaparte [Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte]. revista de economia política. Com Marx. 1851 Engels. 1852 Publica Revolução e contrarrevolução na Alemanha [Revolution und Konterevolution in Deutschland]. Realização da primeira exposição universal. história e literatura eslava e russa. 167 . chamada Os grandes homens oficiais da Emigração. com o título de Napoleão Bonaparte III.

Retoma os estudos sobre economia política. 1854 1855 Escreve uma série de artigos para o periódico Putman. dessa vez com artigos sobre a revolução espanhola. Mary Burns. Morte de Nicolau I. sem necessidade de aprovação parlamentar. Retoma a correspondência com Lassalle.Cronologia resumida Karl Marx 1853 Marx escreve. Morrem Max Stirner e Heinrich Heine. e em 6 de abril morre Edgar. O divórcio. sua sexta filha. de Breslau. nos passeios com a família em Hampstead. A esposa Jenny recebe uma herança da mãe. Começa a redigir os manuscritos que viriam a ser conhecidos como Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie [Esboços de uma crítica da economia política]. o que faria somente em 1857. Continua trocando cartas com Marx. Sua precária saúde o impede de voltar aos estudos econômicos interrompidos no ano anterior. O médico o proíbe de trabalhar à noite. na Rússia. Guerra franco-inglesa contra a China. estuda a questão eslava e aprofunda suas reflexões sobre temas militares. o terceiro. Fica no Museu Britânico das nove da manhã às sete da noite e trabalha madrugada adentro. com Marx. Continua a colaborar no Friedrich Engels Escreve artigos para o New York Daily Tribune. 1857 Adoece gravemente em maio. tanto para o New York Daily Tribune quanto para o People’s Paper. Analisa a situação no Oriente Médio. discorrendo sobre a crise na Europa e nos Estados Unidos. Fatos históricos A Prússia proíbe o trabalho para menores de 12 anos. e ascensão do czar Alexandre II. a Irlanda. Só descansa quando adoece e aos domingos. versando sobre as guerras. artigos sobre a Guerra da Crimeia. o que permite que a família mude para um apartamento mais confortável. Em 16 de janeiro nasce Eleanor. Escreve a célebre Introdução de 1857. Engels visita a terra natal dela. por considerar iminente nova crise econômica europeia. e que servirão de base à obra Para a crítica da economia política [Zur Kritik der Politischen Ökonomie]. Começa a escrever para o Neue Oder Zeitung. Continua colaborando com o New York Daily Tribune. se torna legal na Inglaterra. inúmeros artigos sobre temas da época. Publica. Estuda a história e a civilização dos povos eslavos. 168 . 1856 Acompanhado da mulher. Discursa sobre o progresso técnico e a revolução proletária em uma festa do People’s Paper. Estuda o persa e a história dos países orientais. Ganha a vida redigindo artigos para jornais. Sua contribuição para a New American Encyclopaedia [Nova Enciclopédia Americana]. e segue como colaborador do New York Daily Tribune. faz de Engels um continuador de Von Clausewitz e um precursor de Lenin e Mao Tsé-tung.

Blind e Freiligrath. Atravessa um novo período de dificuldades financeiras e tem um novo filho. Nizza und der Rhein]. da teoria revolucionária e suas táticas. foi um fracasso. Publica a brochura Savóia. Abolição da servidão na Rússia. onde o tio Lion Philiph concorda em adiantar-lhe uma quantia. Friedrich Engels Fatos históricos Engels dedica-se ao estudo das ciências naturais. Marx polemiza com Karl Vogt (a quem acusa de ser subsidiado pelo bonapartismo). Marx escreve Herr Vogt [Senhor Vogt]. Gebhard Blücher e outros na New American Encyclopaedia [Nova Enciclopédia Americana]. Giuseppe Garibaldi toma Palermo e Nápoles. 1861 Enfermo e depauperado. Escreve o artigo “Po und Rhein” [Pó e Reno]. Escreve mais artigos no New York Daily Tribune. como Liebknecht e Lassalle. Guerra civil norte-americana. o compreenderam. O livro. Começa a colaborar com o periódico londrino Das Volk. 169 . e as querelas chegam aos tribunais de Berlim e Londres. 1858 O New York Daily Tribune deixa de publicar alguns de seus artigos. Escreve artigos sobre Jean-Baptiste Bernadotte. junto com Marx. Nice e o Reno [Savoyen. muito esperado. Nem seus companheiros mais entusiastas. Volta a Berlim e projeta com Lassalle um novo periódico. Marx comentaria: “Seguramente é a primeira vez que alguém escreve sobre o dinheiro com tanta falta dele”. A obra só não fora publicada antes porque não havia dinheiro para postar o original. A França declara guerra à Áustria. Publica em Berlim Para a crítica da economia política. em que analisa o bonapartismo e as lutas liberais na Alemanha e na Itália. Enquanto isso. de Darwin. Continua escrevendo para vários periódicos. entre eles o Allgemeine Militar Zeitung. Simón Bolívar. Marx vai à Holanda. Agravam-se os problemas de saúde e a penúria. polemizando com Lassalle. natimorto. Morre Robert Owen. estuda gótico e inglês arcaico. Contribui com artigos sobre o conflito de secessão nos Estados Unidos no New York Daily Tribune e no jornal liberal Die Presse. Vogt começa uma série de calúnias contra Marx. contra o grupo de Edgar Bauer. Em dezembro. lê o recém-publicado A origem das espécies [The Origin of Species]. publicada em coluna do Das Volk. Marx dedica-se à leitura de Ciência da lógica [Wissenschaft der Logik] de Hegel. por conta da herança de sua mãe. 1860 Engels vai a Barmen para o sepultamento de seu pai (20 de março). 1859 Faz uma análise.Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx New York Daily Tribune.

e novas solicitações ao tio e à mãe são negadas. o que reduz ainda mais seus rendimentos. O cargo. Ele permaneceria morando com a cunhada Lizzie. desenvolve uma crítica à teoria ricardiana sobre a renda da terra. na Inglaterra. No segundo semestre. a quem é dedicado O capital. Começa a redação definitiva de O capital [Das Kapital] e participa de ações pela independência da Polônia. Mary Burns. com Marx. Fundação. Regressa a Londres e participa de uma ação em favor da libertação de Blanqui. Apresenta o projeto e o estatuto de uma Associação Internacional dos Trabalhadores. tenta um cargo de escrevente da ferrovia. Marx elabora o Manifesto de Inauguração da Associação Internacional dos Trabalhadores. dispensa os serviços de Marx. amigo íntimo de Marx. Malgrado a saúde. Morre sua mãe (novembro). um texto sobre rebeliões camponesas. entretanto. Marx continua seus estudos no Museu Britânico e se dedica também à matemática. É convidado a substituir Lassalle (morto em duelo) na Associação Geral dos Operários Alemães. mas é reprovado por causa da caligrafia. justificando-se com a situação econômica interna norte-americana.Cronologia resumida Karl Marx Reencontra velhos amigos e visita a mãe em Trier. em Manchester. companheira de Engels (6 de janeiro). Torna-se coproprietário da Ermen & Engels. 1862 Trabalha o ano inteiro em sua obra científica e encontra-se várias vezes com Lassalle para discutirem seus projetos. para o Sozial-Demokrat. O New York Daily Tribune. periódico da social-democracia alemã que populariza as ideias da Internacional na Alemanha. 170 . De volta a Londres. deixando-lhe algum dinheiro como herança. mas não conclui. 1863 Morre. Friedrich Engels Fatos históricos Nos Estados Unidos. Em suas cartas a Engels. O escritor Victor Hugo publica Les misérables [Os miseráveis]. Morre Wilhelm Wolff. Reconhecido o direito a férias na França. Viaja à Holanda e a Trier. Retoma seus trabalhos científicos e a colaboração com o New York Daily Tribune e o Die Presse de Viena. contribui. continua a trabalhar em sua obra científica. durante encontro internacional no Saint Martin’s Hall de Londres. é ocupado por Becker. Esboça. Não consegue recuperar a nacionalidade prussiana. Lincoln decreta a abolição da escravatura. 1864 Engels participa da fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores. da Associação Internacional dos Trabalhadores. Dühring traz a público seu Kapital und Arbeit [Capital e trabalho]. depois conhecida como a Primeira Internacional.

Redige instruções para Wilhelm Liebknecht. em Londres. e Engels continua ajudando-o financeiramente. Morre Proudhon. em Hamburgo. em especial sobre o mir russo. Escreve a Marx sobre os trabalhadores emigrados da Alemanha e pede a intervenção do Conselho Geral da Internacional. Corresponde-se com o russo Danielson e lê Dühring. Os problemas de Marx o impedem de prosseguir no projeto. preço e lucro [Lohn. é reconhecido o direito de associação e a férias. Friedrich Engels Recebe Marx em Manchester. seu futuro genro. Em Bruxelas. recém-ingressado na Dieta prussiana como representante social-democrata. O editor Otto Meissner publica. Conhece o socialista francês Paul Lafargue. acontece o Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (setembro). Envia carta de congratulações a Marx pela publicação do primeiro volume de O capital. Ambos rompem com Schweitzer. de linha 1869 Em Manchester. Engels publica A questão militar na Prússia e o Partido Operário Alemão [Die preubische Militärfrage und die deutsche Arbeiterpartei]. o primeiro volume de O capital. diretor do Sozial-Demokrat. que havia assumido após a morte do Fundação do Partido Social-Democrata alemão. Congresso da 171 . 1867 Engels estreita relações com os revolucionários alemães. especialmente Liebknecht e Bebel. Publica no Sozial-Demokrat uma biografia de Proudhon. morto recentemente. Casamento da filha Laura com Lafargue. Engels elabora uma sinopse do primeiro volume de O capital. por sua orientação lassalliana. dissolve a empresa Ermen & Engels. Preis und Profit]. 1868 Piora o estado de saúde de Marx. Prepara a pauta do primeiro Congresso da Internacional e as teses do Conselho Central. com fins de divulgação. Suas conversas sobre o movimento da classe trabalhadora na Alemanha resultam em artigo para a imprensa. Estuda as novas descobertas da química e escreve artigos e matérias sobre O capital. Fatos históricos Assassinato de Lincoln. Pronuncia discurso sobre a situação na Polônia.Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx 1865 Conclui a primeira redação de O capital e participa do Conselho Central da Internacional (setembro). Na Bélgica. Marx conclui a redação do primeiro livro de O capital. Marx escreve Salário. Marx elabora estudos sobre as formas primitivas de propriedade comunal. Bakunin se declara discípulo de Marx e funda a Aliança Internacional da Social-Democracia. 1866 Apesar dos intermináveis problemas financeiros e de saúde. Fome na Rússia. Proudhon publica De la capacité politique des classes ouvrières [A capacidade política das classes operárias]. Liebknecht e Bebel fundam o Partido Operário Social-Democrata alemão.

auxilia Marx e sua família. Participa com Marx da Conferência de Londres da Internacional. Legalização das trade unions na Inglaterra. em profundidade. Suas conclusões seriam utilizadas por Marx em O capital. as formas de desenvolvimento do modo de produção capitalista. Em Genebra instala-se uma seção russa da Internacional. Começa a contribuir com o Volksstaat. o órgão de imprensa do Partido Social-Democrata alemão.Cronologia resumida Karl Marx marxista. na qual se acentua a oposição entre Bakunin e Marx. acompanhado da filha Jenny. Instrui Frankel e Varlin e redige o folheto Der Bürgerkrieg in Frankreich [A guerra civil na França]. acompanhado de Lizzie. Nasce Vladimir Lenin. instaurada após revolução vitoriosa do proletariado. 172 . Continua os trabalhos para o segundo livro de O capital. Engels escreve História da Irlanda [Die Geschichte Irlands]. Marx e Eleanor. com ele. com a família. é reeleito secretário da seção russa. Em setembro. na mais absoluta miséria. durante a Internacional em Londres. 1870 Continua interessado na situação russa e em seu movimento revolucionário. É violentamente atacado pela imprensa conservadora. Prossegue suas atividades no Conselho Geral e atua junto à Comuna de Paris. Suíça. mantém intensa correspondência. Lá continua escrevendo para o Pall Mall Gazette. O contato com o mundo do trabalho permitiu a Engels analisar. Escreve uma pequena biografia de Marx. Na França são presos membros da Internacional Comunista. visita a Irlanda. Fatos históricos Primeira Internacional na Basileia. Marx. Com um soldo anual de 350 libras. e instala-se em Londres para promover a causa comunista. visita Kugelmann em Hannover. Friedrich Engels pai. 1871 A Comuna de Paris. Atua na Internacional em prol da Comuna de Paris. Vai a Paris sob nome falso. dessa vez sobre o desenvolvimento das oposições. envia instruções para os membros da Internacional presos em Paris. Revisa o primeiro volume de O capital para a segunda edição alemã. É eleito por unanimidade para o Conselho Geral da Primeira Internacional. publicada no Die Zukunft (julho). Em setembro. Começa a colaborar com o periódico inglês Pall Mall Gazette. A filha Jenny colabora com Marx em artigos para A Marselhesa sobre a repressão dos irlandeses por policiais britânicos. Lançada a primeira edição russa do Manifesto Comunista. Por meio de Serrailler. que instaura um governo operário na capital francesa entre 26 de março e 28 de maio. a partir do Conselho Central. é brutalmente reprimida pelo governo francês. fugindo das polícias da Europa continental. passa a viver em Londres. uma grande atividade em favor da República francesa. onde permanece algum tempo na casa de Laura e Lafargue. Estuda russo e a história da Irlanda. acompanhado de Lizzie. Deixa Manchester em setembro. Corresponde-se com De Paepe sobre o proudhonismo e concede uma entrevista ao sindicalista Haman sobre a importância da organização dos trabalhadores. que redige e distribui uma circular confidencial sobre as atividades dos bakunistas e sua aliança. Mais tarde. Redige o primeiro comunicado da Internacional sobre a guerra franco-prussiana e exerce. discorrendo sobre a guerra franco-prussiana.

Morre Lizzie. Com a filha Eleanor. intitulado As pretensas cisões na Internacional [Die angeblichen Spaltungen in der Internationale]. Morre Bakunin. publica pequena biografia de Marx. A Rússia declara guerra à Turquia. Morre Napoleão III. atendendo a pedido de Wolhelm Bracke feito um ano antes. Friedrich Engels Redige com Marx uma circular confidencial sobre supostos conflitos internos da Internacional. 1876 Fundado o Partido Socialista do Povo na Rússia. é publicada Crítica do Programa de Gotha [Kritik des Gothaer Programms]. Morre Moses Heß. Acometido novamente de insônias e transtornos nervosos. Com Marx. Por ordens de seu médico. de Marx. Na França. Engels participa do Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores. Fatos históricos Morrem Ludwig Feuerbach e Bruno Bauer. Conta com a colaboração de Marx na redação final do Anti-Dühring [Herrn Eugen Dühring’s Umwälzung der Wissenschaft]. discorrendo sobre a teoria marxista. O amigo colabora com o capítulo 10 da parte 2 (“Da história crítica”). da social-democracia alemã. 1875 Continua seus estudos sobre a Rússia. Redige observações ao Programa de Gotha. Otto von Bismarck proíbe o funcionamento do Partido Socialista na Prússia. publicados inicialmente no Vorwärts! e transformados em livro posteriormente. envolvendo bakunistas na Suíça. Participa dos preparativos do V Congresso da Internacional em Haia. complementada com estudos de geologia. lançada em 27 de março. Paralelamente ao segundo volume de O capital. 1877 Marx participa de campanha na imprensa contra a política de Gladstone em relação à Rússia e trabalha no segundo volume de O capital. viaja a Karlsbad para tratar da saúde numa estação de águas. Elabora escritos contra Dühring. Continua o estudo sobre as formas primitivas de propriedade na Rússia. Dedica-se 1878 Publica o Anti-Dühring e. Marx trabalha na investigação sobre a comuna rural russa. Jenny. 1874 Prepara a terceira edição de A guerra dos camponeses alemães. escreve para periódicos italianos uma série de artigos sobre as teorias anarquistas e o movimento das classes trabalhadoras. são nomeados inspetores de fábricas e é proibido o trabalho em minas para mulheres e menores. é proibido de realizar qualquer tipo de trabalho. Por iniciativa de Engels. discorrendo sobre a economia política. As tropas alemãs se retiram da França.Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx 1872 Acerta a primeira edição francesa de O capital e recebe exemplares da primeira edição russa. Negada a Marx a cidadania inglesa. a filha mais velha. 1873 Impressa a segunda edição de O capital em Hamburgo. Primeira 173 . intitulada Karl Marx. Bakunin é expulso da Internacional no Congresso de Haia. Volta com Eleanor a Karlsbad para tratamento. quando se decide a transferência do Conselho Geral da organização para Nova York. Marx envia exemplares a Darwin e Spencer. viaja com a esposa e a filha Eleanor para descansar em Neuenahr e na Floresta Negra. “por não ter sido fiel ao rei”. casa-se com o socialista Charles Longuet. Ambos intervêm contra o lassalianismo na social-democracia alemã e escrevem um prefácio para a nova edição alemã do Manifesto Comunista. Crise na Primeira Internacional.

com problemas respiratórios. Após a morte do amigo. publica uma edição inglesa do primeiro volume de O capital. prefacia a terceira edição alemã da obra. Marx escreve o prefácio do livro. 174 . publicada postumamente em 1927. Fundação de um partido marxista na Rússia e da Sociedade Fabiana. que mais tarde daria origem ao Partido Trabalhista na Inglaterra. Lê sobre física e matemática. e já começa a preparar o segundo volume. forte queda na Bolsa. Marx morre em Londres. sob o título Socialismo utópico e científico [Die Entwicklung des Socialismus Von der Utopie zur Wissenschaft]. Assassinato do czar Alexandre II. Acometido de pleurisia. Deprimido e muito enfermo. Ataca o oportunismo do periódico Sozial-Demokrat alemão. Escreve outro obituário. Bernstein e Singer visitam Marx em Londres. Continua as leituras sobre os problemas agrários da Rússia. sua esposa. 1883 Começa a esboçar A dialética da natureza [Dialektik der Natur]. Escreve as Randglossen zu Adolph Wagners Lehrbuch der politischen Ökonomie [Glosas marginais ao tratado de economia política de Adolph Wagner]. 1880 Engels lança uma edição especial de três capítulos do Anti-Dühring. Elabora um projeto de pesquisa a ser executado pelo Partido Operário francês. Fundada a Federation of Labour Unions nos Estados Unidos. Escreve um obituário pela morte de Jenny Marx (8 de dezembro). Implantação dos seguros sociais na Alemanha. estuda a história da Alemanha e prepara Labor Standard. adoece. dirigido por Liebknecht. Engels estabelece relações com Kautsky e conhece Bernstein. Crise econômica na França. Danielson e Nieuwenhuis. Recebe a visita de Kautsky. Bebel. Torna-se amigo de Hyndman. Jenny. Jenny. Friedrich Engels Fatos históricos grande onda de greves operárias na Rússia. dessa vez para a filha de Marx. Prossegue os contatos com os grupos revolucionários russos e mantém correspondência com Zasulitch. 1879 Marx trabalha nos volumes II e III de O capital. em 14 de março. Morre Jenny Marx.Cronologia resumida Karl Marx também à Questão do Oriente e participa de campanha contra Bismarck e Lothar Bücher. O casal vai a Argenteuil visitar a filha Jenny e Longuet. A filha Jenny morre em Paris (janeiro). imediatamente depois. visita a filha Jenny em Argenteuil. 1882 Redige com Marx um novo prefácio para a edição russa do Manifesto Comunista. um diário dos sindicatos ingleses. 1881 Enquanto prossegue em suas atividades políticas. É sepultado no Cemitério de Highgate. No sepultamento de Marx. Morre Arnold Ruge. viaja pelo Mediterrâneo e pela Suíça. Por prescrição médica. Os ingleses bombardeiam Alexandria e ocupam Egito e Sudão. profere o que ficaria conhecido como Discurso diante da sepultura de Marx [Das Begräbnis von Karl Marx].

Redige uma nova introdução para As lutas de classes na França. Editado por Engels. O oficial francês de origem judaica Alfred Dreyfus. Após longo tratamento médico. 1885 1889 Funda-se em Paris a II Internacional. acusado de traição. da propriedade privada e do Estado [Der Ursprung der Familie. 1894 1895 Os sindicatos franceses fundam a Confederação Geral do Trabalho. Suas cinzas são lançadas ao mar em Eastbourne. ofuscando a si próprio e a sua obra em favor do que ele considerava a causa mais importante. Os irmãos Lumière fazem a primeira projeção pública do cinematógrafo. Também editado por Engels. é preso. embora os principais grupos políticos logo tenham começado a estudá-la. Engels morre em Londres (5 de agosto).Crítica da filosofia do direito de Hegel Karl Marx 1884 Friedrich Engels Publica A origem da família. Fatos históricos Fundação da Sociedade Fabiana de Londres. Protestos antissemitas multiplicam-se nas principais cidades francesas. é publicado o segundo volume de O capital. é publicado o terceiro volume de O capital. Dedicou-se até o fim da vida a completar e traduzir a obra de Marx. 175 . des Privateigentum und des Staates]. O mundo acadêmico ignorou a obra por muito tempo. Engels publica os textos Contribuição à história do cristianismo primitivo [Zur Geschischte des Urchristentums] e A questão camponesa na França e na Alemanha [Die Bauernfrage in Frankreich und Deutschland].

Cronologia resumida 176 .