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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro

A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo

1

Aposta Imprudente

Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho.
Bravo!... interessante cena! mas certo que desonrosa fora para casa de um estudante de Medicina e já
no sexto ano, a não valer-lhe o adágio antigo: - o hábito não faz o monge.
- Temos discurso!... atenção!... ordem!... gritaram a um tempo três vozes.
- Coisa célebre! acrescentou Leopoldo. Filipe sempre se torna orador depois do jantar...
- E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
- Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão houvera no cumprimento
do recém-chegado; naturalmente. Bocage, quando tomava carraspana, descompunha os médicos.
- C’est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé em que se achava deitado.
- Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores; mas, por minha vida, que a
carraspana de hoje ainda me concede apreciar devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez
acaba de chegar de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém, tendo a cabeça
encapuzada com a vermelha e velha carapuça do Leopoldo; este, ali escondido dentro do seu robe-de-
chambre cor de burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que, para não cair com
ela, põe em ação todas as leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim, o meu romântico
Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra, estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda
agora mesmo fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! VV. SS. tomam café!... Ali o senhor
descansa a xícara azul em um pires de porcelana... aquele tem uma chávena com belos lavores dourados,
mas o pires é cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor azul ou de rosa, nem
xícara... nem pires... aquilo é uma tigela num prato...
- Carraspana!... carraspana!...
- O’ moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traze-me café, ainda que seja no
púcaro em que o coas; pois creio que a não ser a falta de louças, já teu senhor mo teria oferecido.
- Carraspana!... carraspana!...
- Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...
- Carraspana!... carraspana!...
- Não sei de nós quem mostra...
- Carraspana!... carraspana!...
Seguiram-se alguns momentos de silêncio; ficaram os quatro estudantes assim a modo de moças
quando jogam o siso. Filipe não falava, por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não
deixar concluir uma só proposição, e estes, porque esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe:
carraspana!...

Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:
- Paz! paz!...
- Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.
- Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não guardar silêncio uma hora.
- Está bem, o passado, o passado; protesto não falar mais nunca na carapuça, nem nas cadeiras,
nem no canapé, nem na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...
- Hein?... olha a carraspana.
- Basta! vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês passar o dia de Sant’Ana?
- Por quê?... temos patuscada?... acudiu Leopoldo.
- Minha avó chama-se Ana.
- Ergo!...
- Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera e dia de Sant’Ana conosco na ilha de...
- Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
- E dois, acudiu Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
- E tu, Augusto?... perguntou Filipe.
- Eu?... eu não conheço tua avó.
- Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse Fabrício.
- Nem eu, acrescentou Leopoldo.
- Não conhecem a avó; mas conhecem o neto, disse Filipe.
- E demais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós tomará o trabalho de lá ir por
causa da velha.
- Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.
- Sim?... que idade tem?
- Sessenta anos.
- Está fresquinha ainda... Ora... se um de nós a enfeitiça e se faz avô de Filipe!...
- E ela, que possui talvez seus duzentos mil cruzados, não é assim, Filipe? Olha, se é assim, e
tua avó se lembrasse de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa daria o meu “recebo
a vós” aos cobres da velha, do que a qualquer das nossas “toma-larguras” da moda.
- Por quem são!... deixem minha avó e tratemos da patuscada. Então tu vais, Augusto?
- Não.
- É uma bonita ilha.
- Não duvido.
- Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.
- Melhor para vocês.
- No domingo, à noite, teremos um baile.
- Estimo que se divirtam.
- Minhas primas vão.
- Não as conheço.
- São bonitas.
- Que me importa?... Deixe-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me logo com ele: moças!...
moças!... Confesso que dou o cavaco por elas, mas as moças me têm posto velho.
- É porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
- Ora... o que poderão ser senão demoninhas, como são todas as outras moças bonitas?
- Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a Filipe.
- A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem cabelos negros, belos
olhos da mesma cor, e é pálida.

- Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe do canapé onde estava
deitado, então ela é pálida?...
- A mais moça tem um ano de menos: loura, de olhos azuis, faces cor-de-rosa... seio de alabastro...
dentes...
- Como se chama?
- Joaquina.
- Ai, meus pecados!... disse Augusto.
- Vejam como Augusto já está enternecido...
- Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
- Sim, é uma moreninha de quatorze anos.
- Moreninha? diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.
- Está sabido... Augusto não relaxa a patuscada.
- É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis, e, assim como vocês, também eu quero
andar em dia com alguns senhores com quem nos é muito preciso estar de contas justas no mês de
novembro.
- Mas a pálida?... a loura?... a moreninha?...
- Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção de belos tipos!...
uma jovem de dezessete anos, pálida... romântica e, portanto, sublime; uma outra, loura... de olhos
azuis... faces cor-de-rosa... e... não sei que mais: enfim, clássica e por isso bela. Por último uma terceira
de quatorze anos... moreninha, que, ou seja, romântica ou clássica, prosaica ou poética, ingênua ou
misteriosa, há de, por força, ser interessante, travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das
três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer de minha alma peteca, de meu coração pitorra!...
Está tratado... não há remédio... Filipe, vou visitar tua avó. Sim, é melhor passar os dois dias estudando
alegremente nesses três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar as horas, por
exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página
do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer pelo mundo.
- Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria inveja a um caloiro, disse Fabrício.
- Bem raciocinado... não tem dúvida, acudiu Filipe; então, conto contigo, Augusto?
- Dou-te palavra... e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
- Sim... já sei... isso dirás tu a ela.
- Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se amuado e pensativo, desde que se falou
nas primas de Filipe?...
- Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.
- A pálida?... pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé-de-alferes com a loura.
- E tu, Augusto, quererás porventura reqüestar minha irmã?...
- É possível.
- E de que gostarás mais, da pálida, da loura ou da moreninha?...
- Creio que gostarei, principalmente, de todas.
- Ei-lo aí com a sua mania.
- Augusto é incorrigível.
- Não, é romântico.
- Nem uma coisa nem outra... é um grandíssimo velhaco.
- Não diz o que sente.
- Não sente o que diz.
- Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.
- O que quiserem... Serei incorrigível, romântico ou velhaco, não digo o que sinto não sinto o
que digo, ou mesmo digo o que não sinto; sou, enfim, mau e perigoso e vocês inocentes e anjinhos.

somente com o fim de vê-la. eu digo a verdade e vós.Ou. .. e em toda a parte confesso que sou volúvel. duas e três vezes por dia.. que horror!. e como ele diz aquilo! . se.. basbaque e namorador?. oh!. ... mas entre nós há sempre uma grande diferença: . está romântico!..Está romântico!. porque apaixonando-me tantas vezes não chego nunca a amar uma vez. Sou inconstante. mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé.Quem?..vós enganais e eu desengano... .... . Por minha vida.Papel e tinta.Oh!. . digo a todas o como sou e.. loucamente apaixonado de alguma de minhas primas. para vê-la lançar-me olhos de ternura. apesar de tal..Ora. e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?.. às vezes.. ah!.. meus senhores. .. e para quê?. certo. mentis... porque sempre têm damas.. . enquanto eu digo também comigo: “que vaidosa!” . que não é minha. pateta. meus caros amigos. inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto. eu não amarei jamais.. vós jurais amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas. está dizendo consigo: “ele me adora”. ou sorrir-se brandamente quando eu para ela olhar..Ah!.. que blasonais de firmeza de rochedo.. eu nunca amei. não se ocupa.Assevero que sim. E vós... . porém. que horror!.. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoques para me . eu não amo ainda... . se querem. Não.. alguma de vós. esta não é má!.Aposto que não. eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda há pouco mostrei.A alma que Deus me deu. interessantes senhores. . Então vocês querem governar o meu coração?.Juro que não.Que vaidoso!. . meus pensamentos nunca têm dama. que meu pensamento nunca se ocupou.. .. verdade seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um “eu vos amo”. . para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo. minhas belas senhoras da moda! eu vos conheço. eu?.. é sensível demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. vós sois tanto ou ainda mais inconstantes que eu!. pelo contrário. ..Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitaria a menor..Aposto que sim.. nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias.Pode bem suceder que de ambas.. ah!. amante apaixonado quando vos vejo. .. muitas vezes. é um número de feiticeiras muito limitado.. Ah!. certamente. por causa de uma moça?.Não. eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas todo o tempo que for da vontade dela. fingirei obedecer a vossos caprichos e somente zombarei deles. . . Eis o que faço.E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de. sua vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis. eu mesmo passar duas e três vezes por dia por uma só rua. esqueço-me de vós duas horas depois de deixar- vos. meus senhores. exclamou Filipe.. exclamaram os três.. . numa mesma hora. precisarei melhor o meu programa sentimental.. . te digo eu.Assevero que não... a culpa.. não é amor..Eu te mostrarei. quando me ouve dizer: “sois encantadora”. rindo às gargalhadas. Tens apenas duas primas...... Fora disto só queimarei o incenso da ironia no altar de vossa vaidade.Que mimos de amor que são as primas deste senhor!..Todavia.. continuou Augusto.. .E que todo o resto do ano letivo passarás pela rua de.Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só dia.. escreva-se a aposta. lá vai: afirmo.. mas sou feliz na minha inconstância..

E. na sala parlamentar da casa n. o chapéu. Ao muito acharão uma estante. caiu tudo por grande maioria. igual “pena sofrerá o primeiro acordante. depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos. também estudantes. o infeliz. e um de nós dois. disse Fabrício. Augusto tinha respondido: Ora vivam! bem basta que eu faça gazeta na aula de partos. . onde ele guarda os seus livros.. e entre bravos. mas escreve. apoiados e aplausos. foi aprovado. até duas canastras de roupa. e. em que qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria. porque Augusto não se quis convencer de que deveria dar um ponto na Clínica para ir com eles ao amanhecer. Acordantes: Filipe e Augusto. no caso contrário. Augusto escreveu primeira. . segunda e terceira vez o termo da aposta. sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo.” Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo.. Pagará um camarote no primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano. da “rua de. será obrigado a escrever um “romance em que tal acontecimento confesse. pena se toda essa série de coisas que compõem a mobília do estudante. É inútil descrever o quarto de um estudante. Aí nada se encontra de novo. uma para responder e dez ou doze pela ordem.E quem perder?. tenham o direito de te fazer ganhar a aposta. Agora ele está só. a vaidade de todas as belas. mas um sábado véspera de Sant’Ana. uma. Sala parlamentar. não vou senão às dez horas do dia. Augusto está só. o seguinte termo: “No dia 20 de julho de 18. um cabide. no dia seguinte retiraram-se descontentes. Salva a redação. escreverei o triunfo da tua inconstância. amanhã será sábado. 20 de julho de “18. o moringue. 2 Fabrício em Apuros A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira. a bengala e a bacia. cheia de papéis.Como quiseres. o castiçal. sentado junto de sua mesa. . será o autor. pois. pois. desse quarto saíram três amigos: Filipe. despediram-se amuados. não um sábado como outro qualquer.Pagará a todos nós um almoço no Pharoux.. talvez. Leopoldo e Fabrício. que. nem camarote. é pouco mais ou menos assim o quarto de Augusto. a cama. Já lá se foram quatro dias.Nem almoço. onde pendura a casaca. . escrever-se-á um romance. Trataram da viagem para a ilha de.. hoje é sexta- feira.Bem. de flores e fitinhas misteriosas.. . acordaram Filipe e Augusto..encantar. a mesa onde escreve e que só apresenta de recomendável a gaveta. São dez horas da noite.. concluiu Filipe. se perderes. salva a redação. E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão. tendo diante de seus olhos seis ou sete livros e papéis. se até o dia “20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma “só mulher durante quinze dias ou mais.Qual almoço! acudiu Leopoldo. Os sinos tocaram a recolher... escreverás a história da tua derrota.. .. todas as belas.. Às sete horas. mas depois de longa e vigorosa discussão. de cartas de família. meu valente campeão do amor constante! . e se ganhares. Fabrício queria ainda demorar-se e mesmo ficar com Augusto. Meus sentimentos ofendem.

Daqui tirava eu dois proveitos.. nem aos bailes para com ela dançar. Conto com a tua amizade. Principio por dizer-te que te vou pedir um favor. porque. “Estas eram as bases fundamentais do meu sistema. tu te lembrarás que bradavas contra o meu proceder. Melhor seria que eu te falasse.. porém tu não ignoras que a semelhante respeito estamos discordes no mais: tu és ultra-romântico e eu ultraclássico. e poupava os meu cobres. o Sr. Com justa razão. acabam de deixar-me. porque era longo o que tenho de escrever-te. quitutes apimentados e finos doces. Em amor a imaginação é tudo: é ardendo em chamas. tanto mais que foram os teus princípios que me levaram aos apuros em que ora me vejo. paixão romântica! Ainda não sentiste como é belo derramar-se a alma toda inteira de um jovem na carta abrasadora que escreve à sua adorada e receber em troca uma alma de moça. portanto. Ei-la aqui: “Augusto.. Concordei mesmo algumas vezes em dar batalha a dois e três castelos a um tempo. que. é elevado nas asas de seus delírios que o mancebo se faz poeta por amor.. limpa-botas.. e nada do moleque. tinha um papel de importância a mandar.Mas quando as chamas se apagam. nem quitutes nem empadas. porém. Eram dez horas da noite. apesar de me ajudares a comer saborosas empadas. e tudo mais que as urgências mandavam que ele fosse. Não reqüestar moça endinheirada. “Ora. moço de recados e. “2º. e que foi aprontar o chá. como indigno da minha categoria de estudante. porque eu me lembro que em patologia se trata mui seriamente dos derramamentos. Fabrício fez-se acompanhar do moleque que servia Augusto. que era ao mesmo tempo o seu cozinheiro. Demorei o Rafael. o seu querido moleque. com que as belas pagavam por vezes minha assiduidade amantética. O estudante deve considerar o amor como um excitante que desperte e ateie as faculdades de sua alma: pode mesmo amar uma moça feia e estúpida. e à mercê das trevas. tu exclamavas: . e Rafael. o poeta por amor não tem.Vejam isto!. Felizmente. E por tal modo livrava-me de pagar doces. “Mas tu prosseguias: . do qual dependerá o meu prazer e sossego na ilha de. já tocou a recolher e Rafael está ainda na rua!! Se cai nas unhas de algum beleguim.. enquanto Augusto lia a carta.. Era Rafael. esses derramamentos de alma bastante me assustavam. meus beijos por entre os postigos das janelas.Fabrício! não convém tais amores ao jovem de letras e de espírito... a saber: não pagava o moleque para me levar recados e dava sossegadamente. Eis o caso. como eu. que tantas mil vezes se beija. Assim eu não ia ao teatro para vê-la. e as asas dos delírios se desfazem. Que macistas!. concordando com algumas de tuas opiniões a respeito de amor. não é. à força. O meu sistema era este: “1º. estava cuidadoso Augusto.. contanto que sua imaginação lha represente bela e espirituosa. Augusto. “Tu sabes. cabeleireiro..mas Leopoldo e Filipe o levaram consigo.. Não namorar moça de sobrado. e. sempre entendi que uma namorada é traste tão essencial ao estudante como o chapéu com que se cobre ou o livro em que estuda. Fingir ciúmes e ficar mal com a namorada em tempo de festas e barracas no Campo. “Eu então te respondia: “. Augusto via-se atormentado pela fome. “3º. que de momento a momento exclamava: . derramada toda inteira em suas letras.. que trazia uma carta de Fabrício. O bom Rafael. decerto.É porque ainda não experimentaste o que nos prepara o que se chama amor platônico. bem viste as impertinências de Filipe e Leopoldo. “Ora. “E tu me tornavas: “. Pobre do Rafael! que cavaco não dará quando lhe raparem os cabelos! Mas neste momento ouviu-se tropel na escada. não aparecia. dizia ele. festas e outras impertinências.. Fabrício quem há de pagar as despesas da Casa de Correção.

eu quis experimentar o amor platônico. “Porém. erguendo-me para tornar-me mais saliente. principalmente quando ela lhe velasse na véspera de alguma sabatina. eu ia entabular um namoro romântico. Pedro de Alcântara. nova desgraça! Mal me tinha levantado. nunca viraste as costas nem fizeste má cara a esses despojos de minhas batalhas. para fingir que enxugava o suor. ela voltou os olhos para a cena. Beijos por beijos antes os reais que os sonhados. mas a minha má fortuna ou. “. e quer saber como?. a moça se tinha voltado completamente para a tribuna. gemendo e fazendo uma careta horrível. “... Para ser tudo à romântica.Isto só pelo diabo!.. que essa imagem que vela no pensamento não será a melhor companhia possível para um estudante. “Eis o caso: “Nessa noite fui para o superior. então? acudi. “.E depois. “Entabulei-o. “. fui o primeiro a sentar-me. levantou-se o pano.Agora sim. quando de novo olhei para o camarote. Tirei. alterando-me. queira perdoar!. espirrei e a pequena... Não sei se é bonita ou feia. e então pensei comigo mesmo: seja aquela!. empinando-se.. que tinha estado no vácuo. finalmente eu. o meu companheiro da esquerda. pois.... tomei tabaco. com a maior força. sem dizer por quê. “Além disto no teu sistema nunca se fala em empadas. “Confesso que deveria ter notado que a minha paixão começava debaixo de maus auspícios. .Não tenho que lhe dar satisfações.. no melhor calo do meu pé direito.Tem. Começou a ouverture. como é sublime deitar-se o estudante no solitário leito e ver-se acompanhado pela imagem da bela que lhe vela no pensamento. disse eu comigo mesmo. porque eu sempre acho muito mais apreciável sorver os beijos voluptuosos por entre os postigos de uma janela. nem por que não . 2º. doces. assoei-me. Estou em apuros. começará o nosso telégrafo a trabalhar. tossi. etc. Consultei com meus botões como devia principiar e concluí que para portar-me romanticamente deveria namorar alguma moça que estivesse na quarta ordem..O senhor está doido?! disse-me.Acaba de pisar-me.. porque eu pensava: 1º. Representou-se o primeiro ato.. “. “..Pois que lhe fiz eu. vi se irem enchendo os camarotes. mas que importa? Um romântico não cura dessas futilidades. da casaca o meu lenço branco. e dirigindo- me certa noite ao teatro S... retorquiu-me o sujeito. parecia que o negócio com ela não era.. quando a moça ergueu-se por sua vez e retirou- se para dentro do camarote.. Levantei os olhos. entabulei-o. Tempo perdido. “ E dando mil desculpas ao homem. “Mas enfim. exclamei eu involuntariamente. “. Augusto de uma figa!.. ou despertar ao momento de ver-se em sonhos sorvendo- lhe nos lábios voluptuosos beijos! “Ainda estes argumentos me não convenciam suficientemente. Saí fora do meu elemento e espichei-me completamente. saí para fora do teatro. vi uma que olhava para o meu lado. nada. melhor.. pensando no meu amor. Porém.. petiscos. apesar de romântico.Ó senhor. ó infortúnio!. “.. disse entre mim: esta noite hei de entabular um namoro romântico. abanar-me e enfim fazer todas essas macaquices que eu ainda ignorava que estavam condenadas pelo romantismo.. nem caso. ainda o lustre monstro não estava aceso.. consegui entrar antes de todos. achei-me no mundo: o teatro estava cheio. no meu eles aparecem e tu. “. Sr. brilhante de luzes. do que sorvê-los em sonhos e acordar com água na boca. maldita curiosidade de rapaz!. sim senhor. Veio o pano finalmente abaixo. respondi-lhe amuado. os teus maus conselhos me empurravam para diante com força de gigante. sem olhar para o meu lado. batendo com o pé com toda a força. vi-o descer e subir depois.. e não podia ser de outro modo.

“. agora mesmo.Tu pertences àquelas senhoras que estão no camarote. A porta estava cerrada. a inquietação e rapidez de movimento de um macaco e terás feito idéia desse diabo de azeviche.º 3 um moleque com todas as aparências de ser belíssimo cravo- da-índia. avancei para o moleque. senhor. todo vestido de branco.A Sra. que assoar-se com um lenço de seda verde.Como te chamas? “.. “.Como se chama a senhora que está vestida de branco? “. com uma cara mais negra e mais lustrosa do que um botim envernizado.. abracei-me com ele.Quem te disse isso?. etc. eu podia muito bem mandar-lhe um recado pelo qual me fizesse conhecido.. “Ah! maldito crioulo. “. eu já sei o que se diz nessas ocasiões: o discurso fica por minha conta.Hoje. estava-lhe o todo dizendo para o que servia!. quando ela para ele olhar. “. dá-lhe a ligeireza.. Nestas coisas Tobias não cochila: com licença de meu senhor..º... Bastou um movimento de olhos para que o Tobias viesse a mim. Joana. “.. tem 17 anos e morre por casar.. Joana..Pois toma sentido. ocultando duas ordens de finos e claros dentes.Mais pronto. pé de coelho e boca de taramela. senhor..... crioulo de qualidades. lembrava-me que nesse camarote a minha querida era a única que se achava vestida de branco e.Hás de levar um recado à Sra. Luísa. D..Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas. O meu defunto senhor era negociante e o pai de minha senhora é padre.Tobias. um crioulinho de 16 anos. Pinta na tua imaginação. Vá dizendo o que quiser que em menos de dez minutos minha senhora sabe tudo. me respondeu ele.E amanhã. mais lesto e mais agudo! .º 3 (número simbólico.. ao anoitecer.. subi para os camarotes e fui dar comigo no corredor da quarta ordem.E quem são?. etc. “. “.. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje ou só amanhã. lesto e agudo. pois. cabalístico e fatal! repara que em tudo segui o romantismo). e elas moram na rua de.ª coluna da superior..Não precisa dizer duas vezes. que se chama Tobias.Pronto. fiel como um cão e vivo como um gato. Eu continuei.. Joaninha. passei junto do camarote de minhas atenções: era o n. grandes. o recado de meu senhor é uma carambola que.. espera-me na porta de tua casa. “. lesto e agudo. “. repetiu de novo o crioulo. n.. escravo de meu senhor. meu senhor!. vai logo bater no da senhora D.Sim. se fores fiel.Pronto.Ouve. meus parceiros me chamam orelha de cesto. e que se chama a Ilma. que também aí está. E. etc. D. “...Eu recompensar-te-ei. “Eu tinha visto junto à porta n.Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última cadeira da 4. “. Sra. eu cá sou doutor nisto. se acha loucamente apaixonado de sua beleza. “Não me foi preciso chamá-lo. vivíssimos e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo. “.. “. ao lado esquerdo de quem vai para cima. “. Levei-o para um canto. “. pois. rindo-se desavergonhadamente. fui ao fim do corredor e voltei de novo: um pensamento esquisito e singular acabava de me brilhar na mente. Ora. respondeu-me o moleque. “. D. tendo dois olhos belos. que fariam inveja a uma baiana. “. “.Sim. Augusto. “O maldito do crioulo era um clássico a falar português. etc. com lábios grossos e de nácar.São duas filhas de uma senhora viúva. batendo no meu ouvido. a cuja porta te encostavas?. “Sem pensar no que fazia. “. “. perguntei.

nem mais asneiras para lhe escrever. Já não tenho tempo de exercer o meu classismo. pois o Tobias não me sai da porta. moça feia. “E eu. o que. desenxabimento. Aqui vês bem.. “Malditos românticos. se eu não posso pagar-lhe com gratidão?. principia a minha vergonha.º Devo ir ao teatro sempre que ela for.Ó.Por agora toma estes cobres. hoje é ao contrário: sublime languidez!. mostra amar-me com extremo. “4. grandes e excelentes parladores. antigamente. os reformadores dizem: menina simpática!. não posso deixar de convencer-me que a minha “linda prima” é. o negócio adiantou-se. Isto é um despotismo detestável!. Esta despesa arrasa-me a mesada terrivelmente. Já não há mais meninas importunas e vaidosas. “. com antecedência. a minha casaca. Para maior martírio a minha querida é a Sra. O que numa moça era. “O que. a chamariam “pálida”. a minha bengala. pois não há pela vizinhança gordurento caixeirinho que se não ria nas minhas barbas quatro vezes por dia. D. aqui te escrevo alguma das principais exigências da minha amada romântica. “.. Vocês. “1. lestíssimo e agudíssimo.. portanto. Joana leu o Faublas. apesar de minhas economias. a folha.. “O Tobias está no caso de muitos que.. D. porque eu não sei onde vá buscar mais cruzados para comprar papel. amarela e feia como uma convalescente de febres perniciosas. por último. Sr. ando sempre com as algibeiras a tocar matinas. e hoje. ela quer governar os meus cabelos. Eu. O que sei é que antes de começar o 2.. “Finalmente. Ora. meu senhor! prontíssimo. as minhas barbas. que têm crismado tudo e trocado em seu crismar os nomes que melhor exprimem as idéias”!. em papel bordado. escorrego-lhe. D. de custo de 400rs. “3. Joana. há três meses que não como empadas e. porque era isto falta de patriotismo. e. “Finalmente. “Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram com a tal paixão romântica que me aconselhaste. se torna sobretudo insofrível é o despotismo que exerce sobre mim o brejeiro do Tobias.. concedendo-me apenas amiudados e curiosos olhares. “Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar a sua comissão.. pelo menos. “5. que sou clássico em corpo e alma e que. embora a moça não correspondesse aos sinais do meu telégrafo. isso era já muito para quem a via pela primeira vez. me é participado.º ato já eu havia feito o sinal.. dou às coisas o seu verdadeiro nome. tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante entaladela. As que o foram chamam-se agora espirituosas!. o mesmo a respeito de bailes..º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço ou manta da cor da fita que ela porá em seu vestido ou no cabelo. são péssimos financeiros . prima de Filipe. isto é detestável. O que outrora se chamava em bom português. o que sucede quatro vezes no mês.. apesar dos tratos que dou à minha imaginação. “Entende que todos os dias lhe devo dar dinheiro e persegue-me de maneira tal que. e então comecei a pôr em ação toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro estava entabulado.. e cor dos meus lenços. dir-te-ei.. para ver-me livre dele. com seu romantismo a que me não posso acomodar. ordenou-me que não fumasse charutos de Havana nem de Manilha... os botins que calço..º Devo escrever-lhe. cum quibus. Daqui concluo que a Sra. mas que importa isso. e no meio de seus caprichos de menina dá-me provas do mais constante e desvelado amor.º Devo tratá-la por “minha linda prima” e ela a mim por “querido primo”. A escola dos românticos reformou tudo isso. porém. Augusto dos meus pecados. “Para compreenderes bem o quanto sofro.. Boa recomendação!. aqui para nós.º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã e duas de tarde. em consideração ao belo sexo. Joana. a chamarei sempre “amarela”. a despeito da minha má vontade. quatro cartas por semana.. “2.

Bem-vindo sejas. E esta!. talvez. muito antes do que supunha..E esta!. “Eis aqui. persegue-a.. enquanto por uma bela avenida.Fabrício.. das quais a que fica à esquerda de quem desembarca está simetricamente coberta de belos arvoredos. sempre brilhantes e viçosas. 3 Manhã de Sábado Seriam pouco mais ou menos onze horas da manhã. Ainda que ela não te corresponda.. depondo a carta sobre a mesa e sorvendo uma boa pitada de rapé de Lisboa. principalmente. o lamentável estado em que me acho. se dirigiam à elegante casa. despediu o seu bateleiro.. ciumento e delirante.Então. ou pelos frutos de que se carregam. não farás caso e continuarás com a reqüesta para diante. e. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro dela.Não: pouca. Soprava vento fresco e. Augusto. A que fica à mão direita é mais notável ainda fechada do lado do mar por uma longa fila de rochedos e no interior da ilha por negras grades de ferro está adornada de mil flores. que o vinha chamar para tomar chá. . daremos idéia em duas palavras. Embarcando às dez horas.na prática. graças à eterna primavera desta nossa boa terra de Santa Cruz. se não fosse interrompido pelo Rafael. Augusto ergueu-se... à minha vista. Leopoldo?. No entanto. Aí podemos levar a efeito. portanto. como teu amigo e colega de coração . que lhes ficava a trinta braças do mar. A ilha de. Acabando de sorver a pitada. aproveitarei o primeiro instante em que estiver a sós com D. conto que me ajudarás no que te vou propor. Não te custará muito isso. “Ver-me-ás enfadado. e com facilidade. Nisto se limita o teu trabalho. Joaninha.. é tão pitoresca como pequena. como por dever. A avenida por onde iam os estudantes a divide em duas metades. talvez que te trate com rispidez e que te dirija alguma graça pesada. não só por amizade. “Tu deverás reqüestar. . que se foi remando e cantando com os seus companheiros. Não sabes o que tens perdido. farei um discurso forte e eloqüente contra a inconstância e volubilidade das mulheres.. que sempre depois de longo discurso me apresenta um déficit e pede-me um crédito suplementar. e deitou-se para ler mais à vontade o Jornal do Commercio. Rir-se-ia a noite inteira.. ele designou ao seu palinuro o lugar a que se destinava. E no meio de meus transportes dou-me por despeitado de meus amores com ela e. Lembra-te que foram os teus conselhos que me obrigaram a experimentar uma paixão romântica. mas escolhida. Como eles fazem ao país. “Eu preciso de um pretexto mais ou menos razoável para descartar-me da tal “pálida”.. o curioso estudante recém-chegado examinava o lindo quadro que a seus olhos tinha e de que.” . a tal minha querida. “Ela vai passar conosco dois dias na ilha de. ou pelo aspecto curioso que oferecem. que é mais importante. exclamou Augusto.. para não ser prolixo. o nosso estudante desatou a rir como um doido. . “Eu então irei às nuvens. orlada de coqueiros. correrei a apertar-te contra meu peito. faz Tobias comigo. e começará então o meu.. pulando fora da tal paixão romântica. De tudo isto se conclui que a avó de Filipe tem no lado direito de sua casa um pomar e do esquerdo um jardim. quando o batelão de Augusto abordou à ilha de. estimáveis.... Leopoldo deu-lhe o braço. . Augusto pagou.. muita gente.. o meu plano: ele é de simples compreensão e de fácil execução. meu Augusto. pois que é o teu costume. ouvindo a voz de Leopoldo que o esperava na praia. Desesperado.

mas. Não há remédio senão dizer alguma coisa sobre elas. para nem desgostar a dona da casa. algumas outras senhoras aí estavam. quando apenas contava oito anos. a inocente criança tinha. e pretende tratá-la com seriedade e estudo. vamos adiante. derramou no chapéu de Leopoldo mais de duas onças d’água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos aparadores. Augusto apresentou-se. porém isso ainda mais lhe sanciona a propriedade da comparação. que as negras madeixas e rosto romântico de D. no interior meia dúzia de quartos. achado no seio da melhor das avós toda a ternura de sua extremosa mãe. Verdade seja que. Perdendo seus pais. Ana. que insinua. Em suma. outras duas palavras sobre a casa: imagine-se uma elegante sala de cinqüenta palmos em quadro. cheia de bondade e de agrado. Enfim. E fizemos muito bem em concluir depressa. D. que só se entreteve. maçando-o duas e três horas com enfadonhas e intermináveis dissertações. Imagine-se mais. deu um beliscão em Filipe e Augusto a surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa. depois uma alegre e longa sala de jantar. a outra a loura. pelos aromas que exala. São as primas de Filipe. Além destas. D. irmã de Filipe. supondo que lhe têm feito grande honra e dado maior prazer. curiosa e em algumas ocasiões impertinente. dos quais um. havia também algumas rugosas representantes do tempo passado. porque Filipe acaba de receber Augusto com todas as demonstrações de sincero prazer e o faz entrar imediatamente para a sala. entre esses orgulhos da idade presente. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes cadeiras. Pois bem. porém. vai ao ardor da paixão.. inconseqüente e às vezes engraçada. Quanto aos homens. confessando. e ter-se-á feito da casa a idéia que precisamos dar. este o nome da avó de Filipe. uma varanda terminada em arcos. O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que ela é. todavia. D. é uma senhora de espírito e alguma instrução. Toda a dificuldade. finalmente o largam. caprichosa e mesmo feia. porque há muitas rosas murchas nos jardins e estrelas quase obscuras no firmamento. com janelas e portas para o pomar e jardim. e outra.. achou- lhe mesmo muita harmonia nos cabelos louros. espelhos que brilham. cujos nomes se adivinharão facilmente: uma é a pálida. fez chorar uma criança. ela dispensa tudo quanto se poderia dizer sobre seu físico. assim como Filipe.. olhos azuis e faces coradas. para acabar de uma vez esta já longa conta das senhoras que se achavam na sala. se entretém e se há de entreter em admirar a graça e encantos de duas filhas que consigo trouxera. Quinquina tem as feições mais regulares. para Augusto. está em pintar aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez. Agora. A Sra. o do lado esquerdo. nem o que não é: acha-a estouvada. Ao lado da Sra. Em consideração a seus sessenta anos. valendo bem a pena de se olhar para elas meia hora sem pestanejar. fazendo frente para o mar e em toda a extensão da sala e dos gabinetes. Ana estavam duas jovens. Estas observações que aqui vamos oferecendo fez também Augusto consigo mesmo. e um não sei quê. Filipe apresentou o seu amigo a sua digna avó e a todas as outras pessoas que aí se achavam. e ainda mais: seu afeto para com essa menina não se limita à doçura da amizade. que pertence ao gênero daquelas que nas sociedades agarram num pobre homem. durante o tempo que gastou em endereçar seus cumprimentos e dizer todas essas coisas muito banais e já muito . Joaninha fizeram-lhe uma brecha terrível no coração. viva. A sala estava ornada com boa dúzia de jovens interessantes: pareceu ao estudante um jardim cheio de flores ou o céu semeado de estrelas. Ambas são bonitinhas. aos lados dela dois gabinetes proporcionalmente espaçosos. nem se sujeitar a sofrer as impertinências e travessuras que a todo momento a vê praticar com os outros. seu coração se pode talvez dizer o templo da amizade cujo mais nobre altar é exclusivamente consagrado à querida neta. diremos que aí se notavam também duas velhas amigas da dona da casa: uma. ela recebe a todos com o sorriso nos lábios. desfolhou um lindo pendão de rosas. está dizendo que é gabinete de moças. sentam-no ao pé de si. Não vale a pena!. depois que Augusto entrou na sala: é a irmã de Filipe.. e.

... começar novo ataque de maçada. não fuja. .. continuou ela com um acento meio açucarado e terno. Violante era horrivelmente horrenda.Ah! vê-se que a sua delicadeza iguala à sua bondade..Não fuja. .Sim. Violante. Ah!. estendeu a mão e chamou-o. e a si. se um cego as ouvisse. ..sediças. mostrando com o dedo carregado de anéis um lugar livre junto dela..Não. a segunda das duas velhas.. Violante. Violante. . seus rendimentos. com olhos enxutos e o prazer na face. Não havia remédio: era preciso sofrer.Olhem como ele é lisonjeiro!. seus amores. seu papagaio e até suas galinhas. D. ... porém.. S. mas D.Nada! disse a velha. de quem há pouco se tratou.. querem ver que a velha está namorada de mim?!! e recuou sua cadeira meio palmo para longe dela. com obrigado sorrir nos lábios e indiferença no coração. E suava suores frios. seu tempo... exclamou a velha. porque me faz bem cheio de rudeza e mau gosto..Oh. que mostrava dois únicos dentes que lhe restavam. . . Violante sempre tinha novas coisas a dizer.Com licença de V.. talvez para respirar. Augusto olhou fixamente para ela e conheceu que na verdade se havia adiantado muito. para que o senhor me dissesse que ...O senhor está no quinto ano de Medicina?. deixando-se cair sobre a cadeira. quando se discute o voto de graças. Augusto quis aproveitar-se da intermitência: estava desesperado e pela quarta vez ergueu-se. pensou Augusto consigo. Três vezes tentou levantar-se..Muito que dizer?. fazem grande injustiça a si própria e a mim também: a mim. com certo ar de ironia.Eu. Augusto sentou-se ao pé da Sra. sua esterilidade.. e acompanhando esta ação com uma terrível olhadura. fiz ou não uma galante conquista?. . balbuciou o estudante automaticamente. batendo levemente com o leque no ombro do estudante.Adivinho..Já cura? . porque. como fulminado por um raio. prosseguiu D.. que lhe está pesando demais o sacrifício de perder alguns momentos conversando com uma velha.. mas que se dizem sempre de parte a parte. com toda a ingenuidade. eu estou às ordens de V.. e com sessenta anos de idade apresentava um carão capaz de desmamar a mais emperreada criança.. A conversação continuou por uma boa hora. seu finado marido. porque os de D...Ó minha senhora! respondeu o moço. minha senhora. detendo-o e apertando-lhe a mão. . para melhor passar as horas e esperar as do jantar. minha senhora. . . as palavras de V. Ela lançou-lhe um olhar de bondade e proteção e ele abaixou os olhos.O senhor está incomodado?. D. seus pais. Ó itempestivo castigo dos seus maiores pecados!.E então? pensou de novo Augusto. perguntou D. . falou mais que um deputado da oposição. S. Concluída essa verdadeira maçada e reparando que todos tratavam de conversar. o tédio do estudante chegou a ponto de fazê-lo arrepender-se de ter vindo à ilha de. . certo que não faria idéia do vigor e da. castigo de meus pecados!. Violante são terrivelmente feios e os do estudante não se podem demorar por muito tempo sobre espelho de tal qualidade. S. rindo-se com tão particular estudo. Falou-lhe sobre a sua mocidade.. eu ainda tenho muito que dizer-lhe. disse ela. Finalmente parau um instante. . eu quero dizer-lhe coisas que não é preciso que os outros ouçam. arrastando por sua vez a cadeira até encostá-la à do estudante.Pois eu desejava referir-lhe certos incômodos que sofro.. o martírio que se lhe oferecia. . ele voltou o rosto com vistas de achar uma cadeira desocupada junto de alguma daquelas moças.. . ó monfina do pobre estudante!.

enquanto ele se via obrigado a ouvir a mais insuportável de todas as histórias. Firme neste propósito.. .. . por tão insignificante motivo.. disse em tom profético: . E procurava uma cadeira. há de ser agora mesmo.Agora. mas eu julguei dever dizer o que entendia. e. Rogo-lhe que me desculpe. minha senhora. Violante. e vendo-o deixá-la. pela grande vitória que acabava de alcançar. encarou o estudante com despeito. Ah!. . etc..Sinto ter desmerecido o agrado de V.moléstia padeço e que tratamento me convém. Às vezes Augusto olhava para seus companheiros e os via alegremente praticando com as belas senhoras que abrilhantavam a sala. pois. calafrios. Daqui e de certos fenômenos que acusava a macista. dizendo: .Pois.. tome o meu conselho: outro ofício. padece de.Agora quero que. esse peso dos lombos. S..Hemorróidas D. que tão a miúdo sofre. Eram duas horas da tarde e ela ainda dava conta de todos os seus costumes. me parece que é o único capaz de acertar com a minha enfermidade. esperou com paciência que D. cuja vizinhança lhe conviesse. a velha já não fez o menor movimento para o demorar.. que V. . S.. Isto dizendo.. de sua vida inteira. A digna hóspede compreendeu perfeitamente os desejos do estudante. com toda a sinceridade. dava graças ao poder do seu diagnóstico e augurava muito bem de seu futuro médico. eu estou pronto para ouvi-la: porém julgo que o tempo e o lugar são poucos oportunos.. .Menino..Este não nasceu para Medicina! Mas Augusto... fixando nele seus tristíssimos olhos furta-cores. . senhor?.. . e de que mais se queixa. Ela soltou uma risada sarcástica.. foi uma relação de comemorativos como nunca mais ouvirá o nosso estudante. concluo e todo o mundo médico concluirá comigo. como tonteiras.Mas. . horrível como a mais horrível das fúrias. sim. respondeu com mau humor. o estudante ergueu-se... disse ele com os seus botões. mostrando-lhe um . perguntou: . A boa da velha falou e tornou a falar.Eu tenho inteira confiança no senhor. nasceu-lhe o desejo de tomar uma vingançazinha. . S.Pois. me diga se conhece a minha enfermidade e o que devo fazer.Diga. afastando-se de D.Hemorróidas. atendendo tudo quanto ouvi e principalmente a estes últimos incômodos.V. Às duas horas e meia a oradora terminou o seu discurso. vou recuperar o tempo perdido. . .Eu o exijo.Nada..O que foi que disse. . minha senhora. . S. eu ainda não sou médico e só no caso de urgente necessidade me atreveria. minha senhora.Mas ali está um estudante do sexto ano. dá-me licença para falar com toda a sinceridade? . minha senhora. certas dificuldades. o senhor não nasceu para médico. enfim. Violante fez-se vermelha como um pimentão. . Violante fizesse ponto final bem determinado a esmagá-la com o peso do seu diagnóstico e ainda mais com o tratamento que tencionava prescrever-lhe.Então V.Eu quero o senhor mesmo.. dores no ventre. quer que lhe prescreva o tratamento conveniente? . não tenha medo.

eu serei bem feliz se puder fazer com que o senhor. não quero que o Sr. D. Vai exigir que Augusto o ajude a forjar cruel cilada contra uma jovem de dezessete anos. diante de um ranchinho de belas moças. terá de sair de seu empenho com tantas contrariedades.. Por mim não seja.. e ele tem razão! Por último. Quem pede e quer ser servido. ... Ora. Violante.. um desses instantes de capricho e de delírio em que Augusto pensasse que ferir a fibra mais sensível e vibrante do coração da mulher. e mal. a influência cativadora da formosura em botão... como lhe foram as horas que gozou ao pé da Sra. Violante. Augusto passe junto a mim momentos tão agradáveis. eu devo ir apressar o jantar.. porque. exclamou a menina com prontidão. disse: . minha senhora.Creio que não é preciso que seja imediatamente.. até o dia de hoje ainda não me supus boneca. preciso seria que Fabrício aproveitasse um momento de loucura. o tempo não lhe é propício. o Sr. é apenas perdoável e interessante divertimento de rapazes. e principalmente um estudante com fome. quem poderá tramar contra o sossego delas?. cujo único delito é ter sabido amar o ingrato com exagerado extremo. . acudiu Augusto. de. . .Augusto. Ora. .Se a Sra. dos tais que por semelhante povo são como formiga por açúcar. não é um crime. . porque Augusto começa a sentir todos os sintomas de apetite devorador. minha avó.Tu me deves dar uma palavra. mesmo um apetite de. a travessa moreninha correu para fora da sala. um rapaz.Não.. D. estava para desarmá-lo o poder indizível da inocência. senhor. pois a Sra. . Augusto gostou da ironia. eu estimaria falar-te já. Fabrício me olhe com maus olhos. de beleza virgem ainda. . Então Augusto. a fibra do amor. deve medir bem o tempo. eu o ouvirei mais tarde. principalmente do que lhe cheira a maçada. e Fabrício não soube conhecer que o tempo. pois leu no seu rosto que a conversação que teve com a Sra.Nada. macaco por banana. e nessa hora não podia Augusto raciocinar tão indignamente.De estudante... querendo retê-la.Mas.. o lugar e as circunstâncias lhe eram completamente desfavoráveis.Menina!. D. porque é símbolo de um anjo a virgindade de uma jovem bela. o lugar e as circunstâncias.. sem dúvida. E mal o disse. criança por campainha.. enfim. as circunstâncias também contrariavam Fabrício. se aborrece de tudo. ao menos produziu-lhe muito apetite..lugar junto de sua neta.. para conseguir semelhante torpeza.Aquela menina lhe poderá divertir alguns instantes.Contudo.. minha senhora..Acabe. .. Ainda quando não houvesse nele muita generosidade. não é pelo menos louca e repreensível leviandade. e já se dispunha a travar conversação com a menina travessa. de uma anjo.. quando mais não desse. . . Carolina o permitisse. disse a menina erguendo-se. quando Fabrício se chegou a eles e disse a Augusto: . D. O lugar não menos lhe era desfavorável.. Violante .. Além de que. Mas Fabrício olvidou tudo. 4 Falta de Condescendência Fabrício acaba de cometer um grave erro e que para ele será de más conseqüências... o poderoso magnetismo de vinte olhos belos como o planeta do dia.

para se achar em toda a liberdade.Aquilo não tem resposta. estavam sós. que súbito acesso de moralidade é esse que tanto te perturba. sem a mais pequena desculpa?. segue-se que estou encadernado nos axiomas da ciência. deves respeitar e cultivar nobre sentimento que te liga a D. . chama-se inspiração de bons costumes. como os outros... Fabrício.Então o quê. os rapazes. .Ainda me não perguntaste nada.... homem?.. Fabrício tomou. Foi Augusto quem teve de rompê- lo. . . e o primeiro com ares de quem ia tratar importante negócio.. Eles se dirigiram ao gabinete do lado direito da sala.E então?. . Voltados um para o outro. Pelo contrário. o braço de Augusto e ambos saíram da sala: este com vivos sinais de impaciência. que teve ainda bastante audácia para fingir um sorriso de gratidão. tive a paciência de lê-la toda.Espero a tua resposta.Bravo! bravo! foi muito bem respondido. juras amor eterno.. sim.Quem é que te fala em peteca?.. não podíamos deixar de inscrever por divisa em nossos escudos os infinitos destes três outros verbos: fingir.. . para contrabalançar tão parlamentares e viciosas disposições. Não te supunha tão adiantado! . . . Pois meu amigo. que tenho dó te ti! Vejo que em matéria da natureza de que tratamos estás tão atrasado como eu em fazer sonetos. tu verás que eu estou na regra. ficamos a jogar o siso? . . palavra de honra.Por tua culpa. Sempre te achei com juízo e bom conceito e agora temo muito que estejas com princípios de alienação mental. mas. bem vês que. a pesar teu. Fabrício? . e tu.Então.Estou desconhecendo-te. e entrando. fechou Fabrício a porta sobre si. por espaço de três meses. Que se diria do teu procedimento.Pois então cuidas que o amor de uma senhora deve ser peteca com que se divirtam dois estudantes?. Augusto.A minha carta?.Eu a li. .. pescar e casar. .Com efeito!. quero te dizer: a teoria do amor do nosso tempo aplaude e aconselha o meu procedimento. se depois de trazeres uma moça toda cheia de amor e fé na tua constância.Ora. que não acharia nem mais uma só dose homeopática desse tão necessário confortativo para despender com o novo macista. estes três infinitos de verbos: - iscar. o qual fora destinado para os homens. respondeu o outro. porque as moças têm ultimamente tomado por mote de todos os seus apaixonados extremos ternos afetos e gratos requebros.Então tu... .havia tido o poder de esgotar toda a elástica paciência do pobre estudante.. . Ora. A inocente D. .. a desprezasses sem a menor aparência de razão. .. Enfim. .Pois que dúvida? Para viver-se vida boa e livre é preciso andar com o olho aberto e pé ligeiro. . talvez. Apesar de todo o teu romantismo ou. . . rir e fugir.. com o teu sistema de. Augusto.Não. Joaninha os acompanhou com os olhos e riu-se brandamente. o que eu quero é desgrudar-me do fatal contrabando. vamos mangar com a moça... Portanto. disse Fabrício. . pois.Eu desengano: previno a todas que minhas paixões têm apenas horas de vida. Joaninha. nós.Tu estás doido.Isso. não vês o que se passa a duas polegadas do nariz. encontrando os de Fabrício.A resposta?. guardaram alguns momentos de silêncio. Explica-me. por quem és.. deixa-te disso. principalmente por causa dele.

. . .Puxa-lhe as orelhas.. Isto só! o talento que é preciso para inventar asneiras e mentiras dezesseis vezes por mês! e depois.. não contava divertir-me tanto! ... .. . .. não posso suportar o peso: escrever quatro cartas por semana. mete por força o pé no laço e adeus minhas encomendas. E.Como?. sorrisos. .Mostrarei que a tua moral a respeito de amor é a pior possível.Vê lá o que dizes! . Anda. .Não sei.Olha que te hás de arrepender! . .Desafio-te a isso.Ora. . medeixes aproximando-se. atrapalhar-te continuamente. já que te meteste nisso.Bravo!.Então tu teimas no teu propósito?. com a facilidade e indústria com que a aranha prende a mosca na teia. ajuda-me! .Agora digo mais que não quero.Pois bem. . isso não te custava cinco minutos de trabalho.Sim. . Benedito da família!.Além disso é impossível. arranja-te como puderes..Fabrício. . zelos afetados e arrufos com sal e pimenta. Joaninha..Oh! oh! oh!. a tal paixãozinha me esgotou já paciência.... meu Augustozinho. com os olhares. .Ótimo!. uma verdadeira traição... .Tenho dito. . juízo e dinheiro..Torno a dizer-te que estás doido. pretendes meter-me medo?.Desacredito-te na opinião das moças. fui experimentar a paixão romântica.Então as tais sujeitinhas que..Que blasfêmia! .. .Eu sou capaz de vingar-me. se ele é a cria de D.Melhor.. Então. Tu a deixavas. avante! Além de que.Descubro e analiso o teu sistema de iludir a todas. D.É um meio de tornar-me objeto de suas atenções.Quem.. portanto.Tu sempre foste um papa-empadas. . . meu amigo.Hei de. o alfenim da casa. pois que me acreditas capaz de servir de instrumento para um enredo. ..Direi que és um bandoleiro.. se o papagaio é tolo e não voa logo.. . saí do meu elemento.... . .. e depois quem me livraria dos apertos em que necessariamente tinha de ficar?.. deixa-te de asneiras. meu Augusto. . Peço-te que o faças. ..Esta é melhor!.. aí a tens!.. Eu reqüestaria D.. inconstante por índole e por sistema.... são capazes de tecer de repente.Não posso e não devo. não é assim?. .. suspiros a tempo.. elas se esforçarão por fazê-la boa. uma armadilha tão emaranhada que. Joaninha. uma desenxabida. o Tobias. Fabrício..Tornar-me-ás interessante a seus olhos. palavrinhas doces. eu apenas te disse que não sabias o gosto que tinha o amor à moderna. Joaninha é um peixão.. o S. . que pensas?. Tu. eu?.. fingindo ciúmes. .. elas farão por tornar-me constante. deixa-te de insípidos escrúpulos e ajuda-me a sair dos apuros em que me vejo. nestes dois dias.. . .Augusto! ..Lembra-te que foste a causa principal de tudo isso. fica de gaiola para todo o resto de seus dias. Não a quero mais. e há dois meses que não sei o que é o cheiro delas.

. as duas adversárias mostravam-se ambas fortes e decididas. Quinquina. entre senhoras e homens. pudibunda. como é moda dizer . . raios de alegria brilharam em todos os semblantes. Clementina. disse: . tomara eu que chegasse a hora dele!. que manejava. par a par. a Moreninha?. repetido pela boca de Filipe. e a irmã de Filipe.. não poupa a melhor de suas camaradas. disse a irmã de Filipe. fingindo antes não prestar atenção ao que conversavam os dois. Seu moral é belo e lânguido como seu rosto. sua vivacidade e espírito se empregam sempre em descobrir e patentear nas outras as melhores brechas. que. estes dois dias. . lançou sobre elas o ridículo. que estava defronte ou.Vamos jantar. Clementina pertencia.. Durante as primeiras cobertas ela dissertou maravilhosamente acerca de suas companheiras. porém D. por mais que contra ela se dispusesse. sorriu-se . para abatê-las na opinião dos homens com quem pratica.E que pensa V. dirigindo-se aos dois. como o copo de vinho nos do alemão. e os sorrisos de Augusto. Quinquina. Clementina para logo recuou. podia Augusto afirmar que D. se dirigiram para a sala de jantar. respondeu ela no mesmo tom. como querendo não passar por vencida. . . .Portanto.Sim. Maliciosa e picante.. Cada cavalheiro deu o braço a uma senhora e.. provavelmente por ficar- lhe muito vizinha. vinte e seis pessoas.. que com destreza desafiava.Acabe D. até o jantar! Neste momento Filipe abriu a porta do gabinete e.Augusto. tinha chegado até ao gabinete onde conversavam Augusto e Fabrício.Pois. e mostra ser muito modesta. As únicas que lhe haviam escapado eram D. sem vaidade. guerra! . guerra! . todas nós gostamos de chamá-la Moreninha. Clementina é um epigrama interminável. a falar a verdade. também.. decididamente.Fabrício. Augusto quis provocar os tiros de D. Um velho alemão ficava à esquerda dela e. D. Eram. e. que. um apurado observador.Falo da irmã de Filipe. desta jovem senhora que está defronte de nós? perguntou ele com voz baixa. Clementina prestava mais atenção a ele que aos jagodes. minha senhora. S... .vis-à-vis.Bravíssimo.Antecipo-te que meu primeiro ataque terá lugar durante o jantar. Coube a Augusto a glória de ficar entre D. . 5 Jantar Conversado Ao escutar-se aquele aviso animador que. que lhe dera a honra de aceitar seu braço direito. Essa. e uma jovem de quinze anos. D.Quem?. não exitaria de classificá-la entre as sonsas.. D. se é precisamente agora que estou vendo os bons resultados que ele me promete! . acabava de fixar de repente na terrível cronista dois olhares penetrantes e irresistíveis. Quinquina (como a chamam suas amigas) conversa sofrível e sentimentalmente: é meiga.. Clementina contra aquela menina impertinente que tão pouco lhe agradava. cuja cintura se podia abarcar completamente com as mãos. a outro gênero: o que ela é lhe estão dizendo dois olhos vivos e perspicazes e um sorriso que lhe está tão assíduo nos lábios. por seu turno mais se importava com o copo do que com a moça. Parecia que uma luta interessante ia ter lugar. até o jantar! .Oh! por milhares de razões. meu Fabrício. terna.

enfim. minha senhora?!. Coitadinho. Carolina.. Clementina. imitando-a na malícia do sorriso e no acento gracejador.. já basta. .Neste lugar. prosseguiu ainda: . cedeu um pouco a tormenta. A cronista fez-se cor de nácar e a sua adversária... Enfim.. com tanta injustiça. Quinquina... não. Oh! minha camarada. executou com o braço um movimento. portanto. floresce e brilha o prazer. e curiosa como.Não quis vir com seus colegas? .... balbuciou D. decidiu magistralmente que a moça tinha todos os defeitos possíveis. se não por si. juro-lhe que ninguém lhe iguala na habilidade de compor um mapa! . . portanto. continuou a menina. por ofuscada.. mas perde-se também a liberdade de um mancebo! Os dois foram interrompidos para corresponder a uma longa e interminável coleção de brindes que o alemão principiou a desenrolar.. que decerto não poderá toda esta tarde e noite olhar para nós outras. . e com tanta freqüência e tão pouca fertilidade que só a Sra. apontando para a Moreninha. E assim dizendo. Carolina. que havia gostado do que lhe dissera o estudante. tornou-lhe D. Augusto.Ela é travessa como o beija-flor. . porém.Pois é precisamente agora que eu reconheço ter chegado muito tarde ou. porém feia. Clementina. E desde então começou o nosso estudante a demorar seus olhares naquele rosto que. como quem desejava travar conversação com Augusto. afetando um acento gracejador: .Sempre é má e triste a solidão. você deu o cavaco?.. o Sr. que agora mesmo já está pensando com os seus botões: ela não será bonita!. espichou-se tão completamente.Cedo demais?. por havê-la surpreendido fazendo-lhe uma careta. Carolina. e apontando depois para D.. isso é demais! . o tal Sr. . portanto. faceira como o pavão. D. de vê-lo beber seis vezes.. . disse a moça enrubescendo. com toda a empáfia de um semidoutor. pelo contrário. Prevenido contra D..... talvez cedo demais. perco eu o amor que tinha ao astro que me ofuscou. a Moreninha estendeu e apinhou os dedos de sua mão direita. não se chegará sempre cedo demais onde se corre algum risco? . . disse. sem compaixão ou desgosto.. Quinquina.Penso. pregando nela um olhar de quem está pedindo um sim. inocente como uma boneca. .Certamente.. ... continuou: .... Preciso é que os ouvidos estejam bem abertos e a atenção bem apurada.Aqui. com picante ironia. voltando os olhos por todas as senhoras.. D. é fato que nenhuma de nós gosta de ser ofuscada com o esplendor de outra..Oh! não.Sim. minha senhora. D. Quinquina. . tachara de irregular e feio.Mas ninguém conclua daqui que.. Ana teve..Chegou muito tarde à ilha. e aqui principalmente. por sua saúde. quando se está defronte de uma moça como D. ao menos por nós.Pensa deveras isso. Bela rosa do jardim! teus espinhos feriram a borboleta. e D.. que sempre tem coisas tão engraçadas e tão inocentes para dizer!.Oh! disse Augusto consigo mesmo: a tal menina travessa não é tão tola como me pareceu ainda há pouco. . Já basta de brilhar. uma mulher. como se atirasse o beijo sobre D.. respondeu este. Augusto deve estar tão enfeitiçado com o seu espírito e talento. Clementina.maliciosamente e.. mas nem por isso deixarás de ser beijada por ela!.Mas. fez estalar um beijo no centro do belo grupo que eles formaram e.Eu gosto de andar só.. continuou o estudante.

sons de harpa sonora. vibrada por ligeira mão de formosa donzela.. que com facilidade e sem risco se podem tocar por baixo da mesa. disse por fim Fabrício. não ouvir e não cheirar coisa alguma. todos olham para nós. medrosa e muito sonsa D. Augusto?.. pela triste conquista que acaba de fazer. minha prima. o aroma das rosas. meio aturdido. apesar de amigo e colega de Augusto. depois de amanhã o quê? .. escutando uma voz tão doce como serão as melodias dos anjos. rindo-se com a melhor vontade. pôs em ação três sentidos. . Sr.. se as mãos do Sr.. porque os olhos. enfim..Ah!. . Digo que. de fatigado.. Começava então a servir-se a sobremesa. respondeu a mocinha. Uma risada geral aplaudiu as últimas palavras de D. quem sabe os transes por que passariam os pés de minha prima?. além de ser moça. continuou a terrível Moreninha. D. Carolina. Augusto tanto se empenha em lhe explicar.. não posso deixar de lastimar a Sra. Devo.E eu.. Além de me dar a honra de tomar-me por objeto de seus gracejos. sem figuras e flores de eloqüência. minha senhora. exclamou outra vez inesperadamente D.A respeito de tato. já sei o que querem de mim os seus elogios. . com acento de repreensão. . . Carolina. porque. ela era neta da dona da casa.Depois de amanhã? repetiu ela. Augusto. Ana. não é assim?. depois de amanhã preferirei não ver. até que ele. que desta vez me há de compreender perfeitamente.Por desdita dele não houve ocasião de pôr em campo um outro sentido. como que esperando uma resposta. nem eu mesmo posso de mim formar outro conceito. o que poderia também suceder era que.Minha senhora. . e. depois de amanhã. E vendo que todos tinham os olhos nele. você o teria compreendido no primeiro instante.. estão juntinhos.Obrigado. modesta.Minha prima. cintilando em céus do mais puro azul. . o gosto ficou em inação bem contra sua vontade. para dar lugar a mais vivas finezas. não direi palavra. . a ver os olhos pardos e escovados ali do meu amigo Leopoldo. doem-se de ouvir o toque inqualificável da viola desafinada da rude saloia. D.. pois.. endireitando-se.. cujo bafo é um perfume de delícias. o Sr. a ouvir a voz de taboca rachada do meu colega Filipe e a respirar a fumaça dos charutos de meu companheiro Fabrício. dá-me também o prazer de apreciar e admirar seu espírito e agudeza. e.. não é assim. consinta que ela continue a gracejar. por exemplo. . . ouvidos que escutaram acordes.Mas às vezes também a sociedade se torna insuportável.Minha prima. . como algumas costumam fazer. Joaquina. vendo eu hoje dois olhos que por sua cor e brilho se assemelham a dois belos astros de luz. . disse Augusto. eu fingisse não compreendê-lo logo. se exaspera ao respirar logo depois a atmosfera grave e carregada de miasmas de um hospital. Fabrício queria tomar vingança de sua nenhuma condescendência..Minha senhora.Menina! exclamou a Sra..Eu não o compreendo bem. Quinquina. os ouvidos e o nariz do Sr. Augusto conservaram-se em justa posição. Augusto conheceu que lhe era dado o sinal de combate. sem perturbar-se. não falo mais.Agradecida! muito agradecida! tornou o diabinho da menina. todavia. os eflúvios da angélica. Quinquina terá finalmente compreendido o que o Sr.Minha senhora!... . Ora isso quase que aconteceu. estou comprada. atreveu-se a dizer a ingênua.Ainda o não entendi. eu creio que D. . sorrindo-se. que. disse. se incomoda.. ... dissesse tudo. Augusto hão de estar certamente cansados de tão excessivo trabalho!. respirando junto de alguém. não hesitou: ..Certamente. preparou-se para sustentar a luta com todo o esforço. Eu cá não custo tanto a compreendê-lo como minha prima. que.Quem respirou o ar embalsamado dos jardins..Pois juro. não há nada mais natural. . além de falar com habilidade e fogo. é rica.. declarar . . Os Srs.

Muito bem! muito bem! disseram algumas vozes.. Poder-se-ia julgar fraqueza querer de algum modo ocultar que. A interessante Moreninha lançou sobre Augusto um olhar de aprovação e sorriu-se brandamente. manda o meu destino que eu sempre tenha andado. D. .. e foi. antes de três dias de amor. . também o nosso estudante teve em muita conta aquele sorriso da menina travessa. com a maior crueldade do mundo.Venha embora o ridículo. afeta prestar pouca atenção ao seu acusador. Novo olhar.. quando soluça à flauta ternos sons de músico discurso. Fabrício torceu-se sobre a cadeira e prosseguiu: . respondeu o estudante. talvez. . Sem se explicar o porquê.. com seriedade.. . a mais alegre e apreciável conquista! A ironia o feriu.. tira-me todos os lances. Fabrício compreendeu em quão triste situação estava o seu adversário. concluiu Fabrício. que será logo deixada pela vista de uma nova. A Moreninha olhou-o com espanto. suspiros e ânsias de condenado. pois. mas logo depois soltou uma sofrível risada e pareceu ocupar-se exclusivamente de uma fatia de pudim. que conserva uma impressão.Apoiadíssimo!. enfim. ande. Desde as fatais palavras de Fabrício. acudiram Leopoldo e Filipe. e quase de todo esgotada. quis ainda mais piorá-la. . e haja de andar em companhia dele. apontando maliciosamente para uma garrafa que se achava defronte do orador. nem pode haver amor que dure mais de três dias.É absolutamente verdade. Fabrício está hoje romântico! exclamou Leopoldo. que não entende o dizer de Auber. . novo prazer de Augusto por merecê-los. enquanto Augusto.. gostou de o ver manejar a sua arma favorita. . se já o nosso colega afirmou que eu me prezava de ter essa qualidade?.Mas ele deverá viver de lágrimas. novo sorriso de aprovação de D. inexperiente. que. rindo-se. . Lançou depois um olhar ao derredor da mesa e todas as senhoras lhe voltaram o rosto.Misericórdia! exclamou uma das moças. Augusto era naquela mesa o que costumava ser um leproso na Idade Média: . porque. tanto em prática como em teoria. e..É possível?!.E para que negar. Fabrício continuou: . apontando também para a garrafa. Fabrício. Reinou silêncio por alguns instantes: Fabrício parecia vitorioso. mostravam temer encontrar seus olhos. minhas senhoras. Quinquina tinha nos lábios um triste sorriso. arrancá-lo dela. se havia deixá-lo debatendo-se em sua má posição. as senhoras embebem nele seus olhos e o aplaudem. fala. cujo contato podia fazer a desgraça de outro. não há. que nem por isso poder-se-á negar que para o nosso Augusto não houve. servindo-se de um prato de grosso melado.Bravo!. Augusto estava como em isolamento. é um jovem inconstante.Nada de fugir da questão. Augusto respondeu: .que. as senhoras olhavam para ele com receio. certo que lhe eu daria meus parabéns em prosa e verso. como se ele fosse a inércia da matéria. pois aquela muda superfície reflete a todos e a todos esquece com estúpida indiferença!. porque Fabrício é. sem contradição.. repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra. . . se me fosse dado conhecer a ditosa mortal que conseguiu ganhar os pensamentos e o coração do meu colega.E o que há aí de mais engraçado é que Fabrício tem culpa disso. Carolina.Sim. mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la! . Todas as senhoras olharam para o réu daquele horrendo crime de lesa-formosura. o meu colega é e se preza de ser o protótipo da inconstância. perguntou a avó de Filipe. acessível a toda as belezas.Seu coração é pétrica abóbada de teatro. durante um curto momento. murmurou Augusto.Eis o que ele não pode negar...o homem perigoso. .. dir-se-ia que receavam que de uma troca de olhares nascesse para logo o sentimento que as devesse tornar desgraçadas.

pois. que me vejo em termos de segui-lo. mas a primeira vence a segunda na delicadeza do talhe. mas de um só objeto que não tem existência real..Eis aqui. prosseguiu Augusto. eu repreendi o meu coração pela sua volubilidade. . Estou achando um não sei quê tão aproveitável no teu sistema. . o mais inconstante dos homens em negócio de amor.Tem a palavra. e a terceira.A minha inconstância é natural. justa e. sem dúvida.. que não vive.Duas palavras. coroando um rosto romanticamente pálido.. . Consegui-o. minhas senhoras. que me faz ser volúvel.Bravo!. .Que folha d’alho!.Sim. por amar a delicadeza do talhe da primeira. mas também não quero.. exclamou Filipe.É exageração! disse uma senhora. procurei uma jovem bem encantadora para me lançar em cativeiro eterno. Augusto.É exatamente assim.Peço a palavra para responder! exclamou Augusto. é talvez o excesso a que levo as considerações que julgo devidas ao sexo amável. pretendi primeiro achar na mesma natureza um corretivo que o fizesse.Antes que ninguém. . . Ora. este atributo não foi exclusivamente dado a uma só senhora. minhas senhoras.. vamos ao desenvolvimento da primeira proposição.. amo-a não porque ela é senhora. ora.. pela mesma razão. Suponhamos que eu estou na agradável companhia de três jovens. continuou Augusto. defenda-se.Ouçam! ouçam! . porque eu sou. debaixo de certo ponto de vista o meu colega Fabrício disse a verdade. . minhas senhoras. mas nada de maçada! . Quinquina. Quantas vezes. defenda-se. enfim. . julgo apenas oportuno dar algumas explicações.Mais ainda. mas vendo que era vão trabalho querer extinguir por tal meio uma disposição que a natureza nele plantara. . esta supera aquela na ternura do olhar e na graça dos sorrisos. fora injustiça que eu desprezasse nesta aquilo mesmo que tanto amei na primeira.Muito bem. eu olvidei o amor da manhã desse mesmo dia por outro amor. . Sou firme amante de um objeto. poderia. a qual. . e quando o encontro em outra.. assim como das bastas madeixas negras e do rosto romanticamente pálido da última... acusar. estimável. minhas senhoras. exclamou D.O senhor está compondo enigmas. . . minhas senhoras. ganha as duas na sublime harmonia de umas bastas madeixas negras. ao contrário. Agora eu entro na segunda parte da minha explicação.Ainda repete?! . . .. que se extinguiu no baile dessa mesma noite!. que sempre me sucedia esquecer a bela de ontem pela que via hoje. . eu entendi que devia recorrer a mim próprio para tornar-me constante.. me esquecesse das ternuras dos olhares e da graça dos sorrisos da segunda.. .. acudiu Fabrício. certo que o não farei. Todo o mundo sabe que não há quem nasça perfeito.. porque eu sou tão sensível ao poder da formosura. .. só duas palavras.Defender-me?. por que sou inconstante.Bravo!. . mas porque é bela. eu amo a beleza.Mas também quem me conhece bastante conclui que. com efeito. Minhas senhoras.Então. nos meus passeios da tarde. muito bem!. não há amante algum mais firme do que eu. por fim de contas. deixem-no apresentar o seu programa amoroso. é o respeito que tributo ao merecimento de todas.. ele vai provar que é constante!.. era esquecida depois. minhas senhoras. ..Não o interrompam. mas debalde o fiz... bem se vê que seria cometer a mais detestável injustiça se eu.Atenção!. Eu vejo uma senhora bela. todas são lindas. viva o raciocínio! . bravo!.. logo.Sim.

do talhe elegante daquela. no qual Augusto. exasperado com um acesso de tosse que atacara Augusto.. graças a meu proveitoso sistema.. contudo. que eu me pude tornar constante e. minha senhora. . .C. .Nada disso.. . acudiu a interessante Moreninha. .. . ..De quais destas meninas estás mais apaixonado.J..Que passaremos a mais agradável noite. continuou a menina... . uma coleção não deixa de ser singular..Eu. . a quem tributo o amor mais constante. ao alfabeto inteiro! Meia hora depois levantaram-se da mesa.. no meio dos prazeres de um festim. À custa dos belos olhos de uma.Estou na minha regra. eu creio que vestirei o meu belo ideal de novas formas! . exclamou. só o inconstante faltava.A boneca que se vê na vidraça do Desmarais?. . propor um belo meio de terminar esta discussão... ele há de beber também.Augusto desempenhou-se. Clementina. nos não poderá acompanhar. resumidas num só ente ideal... muito bem!.A sua sombra. Augusto. . disse Leopoldo. a dificuldade toda é poder..E quem ganhará a aposta? ..Mas que letra. um copo de vinho depois de pronunciar o nome daquela que é dama de seus pensamentos: aqui não estamos só mancebos e. . . como Narciso?. minha senhora! no beber um copo de champagne não está a dúvida.. . do colo de alabastro desta. Carolina.. entre tantos nomes. se eles me dessem licença. eu faria o enorme sacrifício de reduzir as que me lembram ao diminuto número de vinte e três. .Nada! nada! nesta saúde não entra o número plural. beba o seu copo de champagne ao alfabeto inteiro! . Acode-me tal número dos que têm tocado o superlativo do amor..Muito bem!..Foi assim.Sim. por castigo de sua inconstância.Eu vou.Então que dizes.Ah. Sr. . então a quem ama? .Não..Pois bem. Leopoldo aproximou-se de Augusto. Augusto. . Disse.Alguma estátua da Academia das Belas-Artes?. mas hoje tenho-me apaixonado só de três. posso amar a todas as senhoras a um tempo sem ser infiel a nenhuma..E o que pensas da irmã de Filipe? . escolher o mais amado. minhas senhoras. Leopoldo tomou a palavra pela ordem. .Sim! sim! disse Filipe.Viva o cumprimento!. pronunciaremos. eu formei o meu belo ideal. não faremos tanto.. como Aquídias de Rodes? . Augusto não beberá conosco.Eis! ânimo.. .. O champagne estourava naquele momento. balbuciou Fabrício.. retirando-me desta ilha... . Não é novo que mancebos bebam.. Sr.A todas as senhoras. principalmente.Ao cupido de Praxiteles. .. Augusto?. a inicial do primeiro nome. . Por exemplo. disse D.Como é isto!. minha senhora?. pronunciou Filipe.Então a quem? . esvaziando seu copo. convidando a todos os senhores para um brinde. . olhando para D. das lindas madeixas de outra. maninho. pois. Os outros mancebos pronunciaram suas letras. ..M. Reúno o que de melhor está repartido e faço mais ainda: aperfeiçôo a minha obra todos os dias. .

.E daqui a pouco? . .. . . .Eu a supus estouvada e desagradável.. é.. .... ..Má. ao meio-dia.A melhor resposta que te posso dar.. não sei.. .... .E agora? .Durante o jantar?.Fui achando-lhe algum espírito e acusei-me por havê-la julgado feia.Eu te direi. . a julgava travessa. mas era-me completamente indiferente.Parece que me sinto muito inclinado a declará-la engraçada e bonitinha.. porque..À uma hora?.Às duas horas?. importuna e feia. e desejava vê-la longe de mim.

Ela quer correr. dispostos a acabar o dia e entrar pela noite com gosto. Carolina. Augusto viu de repente todos os braços engajados. Carolina. cá para nós. que era muito mais proveitoso ficar fazendo honras a meia dúzia de garrafas de belo vinho do que acompanhar as moças.Existo para ti só! tornava imediatamente. o dicionário das flores era lembrado a todo o momento. o prender com inquebráveis cadeias aquele capoeira do amor. desde o programa de Augusto. nem mais nem menos. Pela nossa parte confessamos que não há cachaça que embebede mais depressa do que uma que se bebe nos olhos travessos de certas pessoas. contra a vontade. E o mesmo fazia a respeito de todas as flores que lhe mostravam. fingiram não ouvi-lo. saltar e entender com as outras. inimigo invencível. vê. melhor. aquela lânguida e sonsinha D. não só na sala do jantar. sobretudo. 6 Augusto com seus Amores Poucos momentos depois da cena antecedente. que por diversos caminhos vão. de cada suspiro. todos animados e cheios de prazer e harmonia. andavam. tornando-se difíceis. Carolina e Augusto. . ou se desculparam. D. Um braço era uma prisão e a engraçada Moreninha gosta. aparecer e . com seus olhos sempre brilhantes.Acácia! . Cada cavalheiro dava o braço a uma senhora. mas a bela. Esta última costuma sempre ser mais perigosa.Amor-perfeito! . não sabemos se mal ou bem. por assim o querer. com que quase sempre se triunfa da mulher. Duas senhoras. havia rejeitado dez braços. corria. a um mesmo fim. como se costuma dizer. Passeava-se. que de perto as acompanharam. era por isso temido e acariciado. de cada ação que percebia tirava motivo para seus epigramas. mas também no jardim. D. ou. porque. porque não tinha travo por onde fosse atacado. observa tudo e de tudo tira partido para rir-se: em contínua hostilidade com todas aquelas que passeavam com moços. correr e saltar. a quem se dirigiu. com seu pezinho sempre pronto para a carreira. e. divagando-se assim pelo jardim. cumpre-nos dar algumas razões. pouco a pouco. isto é . cem vezes dela se aproximava o sujeito. saltava. apenas algum lhe dizia. ágil. a sala de jantar ficou entregue unicamente ao insaciável Keblerc. agora adiante de todos. e esta menina era. Mas dissemos que não sabíamos se Keblerc havia feito bem ou mal em não imitar os outros. e. esgotadas as garrafas e terminado o passeio. Outro tanto não fizeram os rapazes. ela está em toda a parte. da liberdade. Menina havia que. cada uma delas entendeu lá consigo que seria grande glória para qualquer. Queria passear só. de cada palavra. de cada vista d’olhos. pelo contrário. a diferença é que uma será mona de vinho e a outra de amor. Eram eles D. porém. como uma doudinha. solteiros. Augusto passeava só.Sonhei com você! respondia logo. voava como um beija-flor. Sem dúvida já fomos condenados por homem de mau gosto. Era uma doutora de borla e capelo em todas as ciências amatórias. e daqui a pouco ser a última no passeio: viva. vê-lo reqüestando-as. Deixemo-la. Quinquina. assim como pais. Em resultado. como uma abelha ou. que se foram deslizar pelo jardim. maridos e irmãos. apontando para a flor: . inocente para não se envergonhar de suas travessuras e criada com mimo demais para prestar atenção aos conselhos de seu irmão. haverá mona. antes. quando mais perto o via. que entendeu. tanto o alemão como os rapazes. e que o melhor meio de o conseguir era fingir desprezá-lo e mostrar não fazer conta com ele. Entendemos. Exatamente intentavam batê-lo por meio dessa tática poderosa. Fiai-vos nas sonsas! Um moço e uma moça. queriam. O inconstante não lhes fazia conta. pois.

onde iríamos assentar o sossego das famílias.. Eles entraram.Ignoro-o. minha senhora. . . .O seu semblante? . ..Mas... .. rogo-lhe que por um instante pense comigo: se o seu sistema é bom.. não sei por que se quer espantar!.desaparecer ao mesmo tempo. o certo é que eu sou e quero ser inconstante com todas e conservar-me firme no amor de uma só.. ou. Finalmente.Desejo muito sabê-lo. um sistema perigoso e capaz de produzir grandes males. é uma opinião.Como? . o que há é muita velhacaria. . não sou tal qual me pintei durante o jantar. ..Nunca. Não tenho a louca mania de amar um belo ideal. D.a constância?.Pois o senhor não sabe?.Eu devo crer que o Sr.. mas que eu resumirei em poucas palavras.Então o senhor já ama? .É uma história muito longa. .Sem dúvida bela!. e se assim acontecesse. satisfazendo a curiosidade que vejo muito avivada no seu rosto.Pois então a quem? . o que eu não lhes diria. Ana.Não senhor. deve ser seguido por todos. conversa.Que mistério!. para plantar no amor-próprio das moças o desejo de triunfar de sua inconstância. . devo confessar que me espantei ouvindo-o sustentar com tão vivo fogo a inconstância no amor. onde praticaremos livres de testemunhas e mais em liberdade. porque eles provavelmente rir-se-iam de mim. o pobre Augusto encontrou uma senhora que teve piedade dele. se lhes faltava a sua base . Vamos ouvi-los: .Juro que não. disse a Sra.Um erro. . Com efeito.A uma moça? . entremos nesta gruta. Estão afastados do resto da companhia. .Eu devo mostrar-me grato à bondade com que tenho sido tratado. melhor ainda. consinta que lhe diga: no seu pretendido sistema. . nem à nossa pena é dado o poder acompanhá-la. senhor!...Julgo que sim.. Augusto guardou silêncio e ela continuou: . finge não se curvar por muito tempo diante de beleza alguma. o único partido que eu procuro e tenho conseguido tirar é o sossego que há algum tempo gozo. . minha senhora.Com efeito.Não me lembro dele.. . como pretendi fazer crer. . porém. que ela é tão rápida como o pensamento..Como se chama?.Mora na Corte?. a senhora vai ouvir o que ainda não ouviu nenhum dos meus amigos. . nada há aqui que exagerado seja. .. a paz dos esposos. . Se deseja saber o mais interessante episódio da minha vida. .Não. Augusto pensa de maneira absolutamente diversa daquela pela qual se explicou.Creio que deve ser..Vê-a muitas vezes? . e pois.Eis o que também me espanta! .

Com suas lindas mãozinhas arregaçou o vestido até aos joelhos. Foi este lugar escolhido por Augusto para fazer suas revelações à digna hóspeda. é porque imagina novas travessuras ou combina os meios para executar alguma a que se põe obstáculos. com o sorrir dos anjos nos lábios. e começou a história dos seus amores. límpida e fresca água que do alto do rochedo se destilava. vi uma menina que não poderia ter ainda oito. vendo-se com o vestido cheio de areia. para servir a quem quisesse provar da boa água do rochedo. Era uma gruta pouco espaçosa e cavada na base de um rochedo que dominava o mar. se expunha a ser apanhado pelas ondas. ela fez um movimento. eu ia morrer afogada!. como se fora sucedido ontem o acontecimento que vou ter a honra de relatar.. apontando para a concha. ela precipitou-se sobre a concha. mas a areia escorregou debaixo de seus pés.. mas ficou ainda no mesmo lugar. minha senhora. no fundo via-se uma pequena bacia de pedra. preso por uma corrente à bacia de pedra estava um copo de prata. Ao lado direito havia um banco de relva. Eu vi a travessa menina hesitar longo tempo entre o desejo de possuir a concha e o receio de ser molhada pelas vagas. ela olhou de novo para o mar. é uma loucura a minha mania. no banco de relva. depois pareceu haver tomado uma resolução: o capricho de criança tinha vencido. a pequena distância dela parei.. E como se não bastasse esta passagem rápida do susto para o prazer.. segunda.. mas tão perto do mar... eu sabia isto por experiência própria. balbuciou com voz pesarosa. o dia. com a graça divina em toda ela. eu o acompanhei. o lugar. ao refluxo da sexta. quinta onda. Uma criança viva e espirituosa. porque já tinha adivinhado seu pensamento. para saber em que pensava a menina. exclamando: . Isto foi há sete anos. sacudindo-o e dizendo ao mesmo tempo: . com cabelos negros e anelados voando ao derredor de seu pescoço. Branco e Verde Negócios importantes. há sete anos. quando está quieta. Foi.. Ana. em que poderiam sentar-se a gosto três pessoas. depois de certificar-se de que toda a companhia estava longe. sem risco e com graça. .. então. que rebentavam com força. D. inclinada para diante e na ponta dos pés. aproximei-me devagarinho. com o fogo do céu nos olhos. pois. gota a gota. tudo está presente à minha alma. como qualquer porta ordinária. que quem a quisesse tomar e não fosse ligeiro e experiente. 7 Os Dois Breves. e nessa época houve um dia. terceira. e a interessante menina caiu na praia. e tornando-se levemente melancólica.. e tinha eu então treze de idade que.Eu caí! eu caí!. e sempre a mesma cena de ataque e receio do inimigo. Figure-se a mais bonita criança do mundo...Ah!.. Ela estava à borda do mar e seu rosto voltado para ele.. pois. brincando em uma das belas praias do Rio de Janeiro. agradável e alegre semblante. e quando a onda recuou. Finalmente. tinham obrigado meu pai a deixar sua fazenda e a vir passar alguns meses na Corte. veio sentar-se junto da Sra. e far-se-á ainda uma idéia incompleta dessa menina. Na praia estava deposta uma concha. erguendo-se logo e espantada ao ver perto de si a nova onda. O estudante. Entrava-se por uma abertura alta e larga. assim como toda a nossa família. embora. a hora. eu o poderia dizer já. onde caía. Depois. mas que importa o dia?. correu para trás e sem pensar atirou-se nos meus braços. começou a rir-se muito. e cheguei-me. com um vivo. que dessa vez vinha mansa e fraca como respeitosa. quarta.

perguntamos ambos. pois.Sou bonita. . tornou-me ela.. do que com o mais formoso de meus amigos da infância. que há de apanhar bonitas conchinhas para mim. . eu o quero. minha mulher! A viveza. Eu quero. havemos de nos casar.. corri para elas com entusiasmo e.. saltando de prazer. para mostrar- mo. posto que já a esse tempo fosse eu um pouco velhaquete e sonso.. Ouvindo a sua voz harmoniosa e vibrante.. Entramos. e que ainda em parte se dava em mim. nós nos esquecemos de procurar saber os nossos verdadeiros nomes. Desde a mais nova idade e no mais inocente brinquedo aparece o tal mútuo pendor dos sexos.Melhor!...... apontando para uma velha casinha que avistamos algumas braças distante de nós. Corremos a brincar juntos com toda essa confiança infantil que só pode nascer da inocência.. e finalmente murmurei tremendo: . de: meu marido. É sempre digno de observar-se esta tendência que têm as calças para o vestido. Este acontecimento fez-nos logo camaradas.. eu vi cair outra vez em seu pescoço. Olhe: os meus são pretos! E nisto ela puxou com a sua pequena mãozinha um de seus belos anéis de madeixa. . embora um pouco molhado mas trazendo a concha desejada. ou feia?.. Mas. corei. continuou o lindo anjinho de sete anos... Ainda corremos mais e continuamos a brincar juntos. .Porém. pois bem!. corríamos e caíamos na areia. porque nos bastavam esses com que já nos tratávamos.O que tem?. sempre preferia esconder- me atrás das portas com a menos bonita de minhas primas. Uma pobre velha e três meninos . nós estávamos como dois antigos camaradas. E corremos para a pequena casa. Ficamos um momento tristemente surpreendidos. Tínhamos esquecido todo o mundo. ela e eu dissemos a um tempo: . e perguntou: .. mas ainda ontem me quebrou a minha mais bonita boneca. sim? . como ia dizendo.. e depois ríamos ambos de nós mesmos.. como dominados pelo mesmo pensamento.. e que por tal já procurava minhas blasfêmias no dicionário.. Olhe. melhor!. .Vamos lá. como os melhores amigos.. radiante de prazer e felicidade. a graça e o espírito da encantadora menina tinham feito desaparecer meu natural acanhamento. apresentei-me à linda menina. e largando-o depois. sem o pensar... quando fomos interrompidos em nossas travessuras por um outro menino que para nós corria chorando... Eu cá sempre fui assim.Tão bonita!. Além disso ele não tem como o senhor os cabelos louros nem a cor rosada. que nossa imaginação e inconstância de meninos modificava e inventava a cada momento... eu gosto mais dos cabelos pretos.Oh!. quando brincava o tempo-será.... quando formos grandes. e de mistura umas vergonhas muito engraçadas.. o marido não deve quebrar as bonecas de sua mulher!. Eu quis responder-lhe mil coisas. eu não quis saber de fluxos nem refluxos de ondas.Mas. exclamou a menina.. e pensávamos somente em nos divertir.Pois então. Depois de uma agradável hora passada em mil diversas travessuras. me casar com o senhor. . como um estudante de latim que era. depois.É meu pai que morre! exclamou ele. Era um quadro de dor e luto que tínhamos ido ver..... a minha interessante camarada voltou- se de repente para mim. e. Ora..... . a minha concha!.Havemos. nós brincamos juntos. de novo torcido como um caracol. o meu primo Juca me queria também. por exemplo.

. tornou o velho. Dava com as mãos. . ... dizer.. que tínhamos há pouco visto fora. não me lembro de que valor e por minha vez a entreguei. mas que poderia não ser mortal. Depois.. A minha camarada dirigiu-se então à velha.Marido? . Não é possível descrever o que se passou então naquela miserável choupana. morre de miséria!..Não senhor. balbuciou.Quem são estes dois meninos?. . disse ainda ela.... E quem é este menino?. morre de fome!..Dois anjos.mal vestidos e magros cercavam o leito em que jazia moribundo um ancião de cinqüenta anos.. quem sois? . e tendo no rosto um ar de inspiração e em suas palavras um acento profético... respondeu a aflita velha. não tenho fome.. foi a menina que respondeu. sem excetuar a minha bela camarada e eu. Pelo que agora posso concluir.Quem sois? pôde.. enfim.. chamando-nos.Foi meu padrinho que ma deu hoje de manhã. se atiravam sobre ele. sufocado em pranto. amai-vos. Acabando de pronunciar estas palavras.. Eu não vos iludo. vede!. de ver de joelhos a nossos pés a velha e os meninos. e escondendo o rosto entre as mãos. pouco mais ou menos.. meu. e penetrar com seus olhares através do véu do futuro!. marido. Ninguém lhe respondeu....Fome! exclamamos com espanto.. . vejo lá. exclamou o velho. olhando com ternura para seus filhos. disse: . continuou: . dizendo: . . Quando chegamos ao pé de seu leito.....Ainda não morri. E instintivamente a minha interessante companheira tirou do bolso do seu avental uma moeda de ouro e.. Minha linda mulher e eu tivemos de ser abraçados mil vezes. eu não preciso dela... meus meninos. uma síncope havia causado todo o movimento..Seja dado ao homem agonizante lançar seus últimos pensamentos do leito da morte. ..Sim. dando-a à velha. sim. porque todos choravam... e deixando cair dos olhos grossas lágrimas... da mais nobre e da mais sublime das dores. .Foi minha mãe que ma deu e ela me dá também um abraço. sempre que faço esmola aos pobres. enquanto seus três filhos e o quarto. que já não serão para ele.. eis aí outra vez o delírio!. bem longe. O ancião forcejava por falar há muito tempo.. que enxugaram o pranto e mataram a fome da indigência.. .Não chorem ao pé de mim.O que tem então ele?. ele sofre uma enfermidade cruel. Meus filhos! amai-vos. olhando de novo para nós. que nos apertou com entusiasmo contra o coração. porém é pobre!... fome! pois também morre-se de fome?.... eu quero que ele seja meu marido. . . Meus filhos. ...Vosso irmão?. e morre mais depressa pelo pesar de deixar seus filhos expostos à fome!... ele tornava a si.....Deus realize vossos desejos!.. e amai-vos muito! A virtude se deve ajuntar. perguntou com viva demonstração de interesse.Ó.. . E eu tirei de meu bolso uma nota.É o meu camarada. Finalmente nós nos aproximamos dele.Oh!.Duas crianças. deparando conosco.. os meninos que entraram na casa do miserável. além dos anos. são abençoados por Deus e unidos em nome d’Ele!. o ancião guardou silêncio por alguns instantes. . assim como o vício se procura. bebeu com sofreguidão um púcaro cheio d’água e. disse a velha vendo a exaltação e o semblante afogueado do enfermo. . exclamou: . eu vos vejo casados lá no futuro!. no excesso da maior. a promessa realizada! São dois anjos que se unem. pranto e desolação que observamos..

. continuou ele... lá no futuro. Ó meus meninos! Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!. crescei e sede felizes! vós olhastes para mim. vós o sentireis.Menino! que trazeis convosco que possais oferecer a esta menina?. A menina. dai- lho. abriu a gaveta de uma mesa. Ele contém a vossa esmeralda: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele bom anjo. para entregar ao admirável homem que me falava. dizendo: . cuja cor exprime a candura da alma daquela menina. descosa esses dois breves. e Deus olhará para vós. a fim de que ela o guarde com desvelo. sua mão rugosa tinha três vezes nos abençoado. que estava junto de seu leito. cuja cor exprime as esperanças do coração daquele menino. E voltando-se para minha bela camarada. nós pensamos no velho e choramos . Os breves eram dois: um verde e outro branco. o velho prosseguiu ainda: . Ele contém o vosso camafeu: se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo. pus-lhe nas mãos o meu camafeu.Menina! que trazeis convosco que possais oferecer a este menino?. Pois o quê!. dai-lho.. um lindo alfinete de camafeu. Eu corri com os olhos tudo que em mim havia e só achei. maquinalmente.. e tirando de uma pequena e antiga caixa dois breves. Sinto ainda sobre meus dedos o calor abrasador dos seus e agora compreendo que. Quando as ordens do ancião foram completamente executadas. como que já esperando tal pergunta. O doente... apoiando-se sobre um dos cotovelos. com efeito. Seus lábios tremiam convulsivamente.. Não parou aí a nossa admiração. cujas forças pareciam haver reaparecido subitamente.. os descoseu com prontidão. eu senti. Quando tudo isto estava feito.Tomais este breve. os deu à velha. Enfim. O velho o deu à sua mãe.. que meu pai me tinha dado para trazer ao peito e. Isto dizendo. não pode o Eterno abençoar a virtude pela minha boca?... A velha. Eu mal compreendi o que o velho queria: ainda maquinalmente entreguei o breve à linda menina.Não. eu acreditei que estávamos ouvindo uma profecia infalivelmente realizável. e eu prendi o breve ao meu pescoço com uma fita que me deram. que o velho ardia. O nosso homem deu-lhe o outro breve. O velho quebrou o pé do alfinete e dando-o a sua mãe. então. Depois o ancião. o rosto do ancião se havia tornado rubro..Minha mãe.. Sós. minha mãe.. pronunciada por um inspirado do Senhor. que sua mão era uma brasa que queimava. a fim de que ele o guarde com desvelo. Chegou a vez dela. voltando-se para mim. Minha bela mulher executou a insinuação do velho com prontidão.. senti que seu bafo era como vapor de água fervendo. meus meninos... que o prendeu no cordão de ouro que trazia ao pescoço. ele delirava quando assim praticou com duas crianças. Ah! recebei a bênção de um moribundo! recebi-a e saí para não vê-lo expirar. pobre e miserável. dizendo: . acrescentou: • Minha mãe. ele tomou os dois breves e. não! não é delírio. dando-me o de cor branca. cosa esta esmeralda dentro do breve verde. continuou: .... Escutando suas palavras. disse-me: . entregou-lhe um botão de esmeralda que trazia em sua camisinha. obedecendo pontualmente. seus olhos flamejantes. cosa dentro do breve branco este camafeu.Ide.Minha mãe. apertou nossas mãos com força. ainda uma vez...Tomai este breve. Nós estávamos espantados. atilada e viva. dizendo: . disse: . nós deixamos aquela morada aflitos e admirados...

. gritou: . . que me parecera estar pensando. nossa dor se mitigou. a menina olhou para mim e disse: . minha linda mulher. D. na verdade. e.E quando minha mãe perguntar pela esmeralda?.Oh! eu o prometo.O velho disse que sim. . Ana.. passados alguns instantes.Então?... . .. D. dirigindo-se à entrada da gruta e observando em derredor dela. depois.. pois. a Sra. ..E não o achando. para cuidarmos em brincar outra vez. perguntou a Sra..Alguém nos escuta! disse ele.juntos.. .Diz que é para nos casarmos quando formos grandes. Esse fatal descuido acabava de entristecer-me. disse sorrindo-se: . sem dúvida.Enganei-me. tornou Augusto. esquecer-se-ão disso. .. esquecendo-se até de despedir-se de mim. quando ela. .Eu o guardarei! Pela minha parte entendi dever dar-lhe igual resposta. 8 Augusto Prosseguindo ..Eu direi à minha mãe que perdi a minha esmeralda na praia.. ouvindo ruído à entrada da gruta.. mostrei-lhe o meu breve verde e gritei-lhe também: • Eu o guardarei!.Eles mandarão procurar. Carolina..E quando meu pai perguntar pelo meu camafeu? Ficamos olhando um para o outro. minha senhora.Mas vê alguma pessoa?. eu ouvi distintamente a bulha que faz uma pessoa que corre. isto não merece reparo.... . . minha mãe ralhará comigo! E. . Eu cuidei que lhe respondia.. .Eu vou pregar uma mentira. ergueu-se logo. correu.Apenas lá vejo sua bela neta. . . . nas crianças. . De repente.Pois então nós os guardaremos.E qual?. porém. .Não.Foi talvez uma ilusão! respondeu a digna hóspeda. Aqui parou Augusto para respirar. . mostrando-me o breve branco. dizendo isto.Eu o juro..E os breves?. .Para que será isto?. já de longe.Neste momento soou ave-maria. tão cansado estava com a longa narração.Tão tarde! exclamou a menina.E eu responderei a meu pai que perdi o meu camafeu nas pedras. . voltou-se para onde eu estava e.Nós os guardaremos?. . e fiz-lhe igual pergunta: . pensativa e recostada à efígie da Esperança. ..

Temo que esse breve tire o juízo àquele menino: talvez que nos seja preciso casá-lo cedo. interrompendo Augusto. .minha mulher! Riem-se? não me importa: eu não posso dizer de outro modo. e com ela sonhando de noite. ou que esse breve tivesse em si alguma coisa de encantador... guarda melhor esse breve do que guardaste o camafeu. pediam-me para recitar sonetos em dias de anos. eu te perdôo tuas novas loucuras. para entender que todas as moças deviam rir-se de mim e zombar de meus afetos! Pensa que brinco. ou seja que meu coração a tivesse amado deveras. meu pai o leu à sua vontade e soube o destino do camafeu. minha senhora. minha senhora.. que teve o amor comigo.... o velho!. mancebo. mas também para contar alguma vitória de amor. soube que o velho morrera no dia seguinte e que no momento da agonia abençoara de novo a minha camarada e a mim. pois foi isso mesmo o que me sucedeu no decurso de minhas paixões. porém. mas que havia eu de fazer?. como cheguei a fazer algumas quadras. o estudante lhe fez ver que ainda muito faltava para o fim de suas histórias.. E isto dizendo. e assim introduziram- me em mil reuniões.o meu breve!. pois nem lho perguntei. deixou-me..Esqueceu-se.. porque. Sempre com sua imagem na minh’alma. para não endoidecer por causa do breve e. digo: . nem soube notícia alguma de minha interessante camarada. exclamando: . a palavra.. e voltando de novo ao seu lugar.Ao contrário. triunfos e derrotas amorosas. . Sem saber seu nome. finalmente. quanto me havia acontecido. determinei-me a amar. Meu amor-próprio se despertou. era uma loucura. Além disto freqüentava as casas de meus companheiros de estudos e os ouvia contar proezas de paixões.. quando quero falar a seu respeito. sem precisar que eu lho dissesse. Não se falou mais nesse acontecimento.O acontecimento que acabo de relatar. socorrendo um velho enfermo. Julguei esta minha determinação ainda mais justa.Anda. Eu já era. produziu vivíssima impressão no meu espírito. eu to peço. . agora. tornou este. doidinho. guarda. com seu engraçado sorriso diante de meus olhos. para não ser necessário à minha mãe casar-me cedo. Eu nunca mais vi. de sua mulher e do seu breve?! perguntou a Sra. por conseqüência. mas nem por isso a esqueci. o certo é que eu ainda hoje me lembro com saudade dessa criança tão travessa. em louvor da ação que praticaste. porém tão bela. ajudado por minha memória de menino de treze anos. julgavam que eu dançava com graça e lá ia eu para os bailes. Portanto. pois. disse-me meu pai com bondade. Ana. A avó de Filipe quis tomar. continuou: . por sua vez. para não ouvir somente. porque. foi essa minha resolução que me tornou mais firme e mais amante de minha mulher.Cheguei assim aos meus dezoito anos. D. palavra por palavra.Não sei. . Meu pai fez todas as despesas do enterro do velho e socorreu sua desgraçada família. e mesmo to mando. ouvi a minha mãe dizer uma vez. pois tendo ido passear certas férias na roça. finalmente.. . minha senhora?. e lá falando mil vezes no meu breve e em minha mulher. onde as belezas formigavam e os amores eram dardejados por brilhantes olhos de todas as cores. minha senhora. Meus pais nada poupavam para me educar convenientemente: aprendia quanto me vinha à cabeça: diziam que minha voz era sonora. Isto me tirou o trabalho de mentir. Eu resumo algumas. adormecendo sobre o papel que acabava de escrever. nem ela mo disse. passei cinco anos pensando nela de dia. tive vontade de amar e ser amado. Ele ainda estava junto de mim quando despertei. minha mulher!. apenas entrei em casa escrevi. em que me julgava longe: . continuou Augusto. com suas sonoras palavras soando a meus ouvidos. e por tal convidavam-me para cantar em elegantes sociedades.

Sou capaz de jurar que adivinho a razão por que o senhor olhava tanto para aquela porta.Nós devemos ser amigos. procurei-a com os olhos e certo moço. porém. mas. li a minha carta e a resposta que havia recebido: fui vivamente aplaudido. . fui correspondido com ardor. com quem me dava. E apertamos as mãos.. sempre encontrava os olhos de um outro moço.. Voei para ele. Lamente-o antes. Cheguei-me de manso: conversavam os dois. Fiquei espantado e tanto mais que. aparecia-me depois chorosa e abatida.. oito dias depois. onde se dava todas as semanas uma partida. os mesmos estudantes quase que me quebraram a cabeça com cacholetas e gargalhadas. o meu novo amor chegava a ser tocante demais: a minha querida levava o ciúme até um ponto que atormentava prodigiosamente: se passava algum dia em que a não visse e lhe não mandasse uma flor. se na tal partida eu me atrevia a dançar com alguma outra moça bonita. tendo terminado cedo meus trabalhos. eram onze horas da noite. Sem emendar-me. onde tinha de haver esplêndida festa. e. de dezesseis anos de idade. com a condição de lhe redigir eu as respostas. A primeira moça que amei era uma bela moreninha. Infelizmente eu não conhecia o primo da minha amada. cheguei cedo. .. correspondido por uma interessante jovem tão coradinha. mas. Um sábado mandei-lhe prevenir que faltaria à partida. disse ele. eu exigi que a minha terceira amada continuasse a receber cartas dele e que as respondesse. Pouco durou o mau tempo. que parecia mesmo uma rosa francesa. Jurei não amar moça nenhuma que tivesse a cor morena. e receber em resposta as seguintes palavras: .. porém as ruas deveriam ter ficado alagadas e a bela esperada não podia vir. mas deste tive eu provas de afeto mui sérias. Belo! disse comigo: vou também divertir-me por minha vez à custa de um amante infeliz! E o negócio ficou assentado.. Soltei um surdo gemido.O Augustozinho?. respondi. consentiu nisso. disse com o maior sangue-frio: . Ela estava sentada junto de um mancebo e com as costas voltadas para a porta: tomavam sorvetes. a minha terna amada casou-se com um velho de sessenta anos. voltando- se depois para o seu querido. coisa notável. era a mais agradável sabatina que podia ter um estudante.Ora aí tem! perdi por sua causa este divertimento. Fiz-lhe a minha declaração na carta mais patética que um pateta poderia conceber: no fim de três dias recebi uma resposta abrasadora e cheia de protestos de gratidão e ternura. certamente. rebentou uma tempestade e choveu prodigiosamente. Na primeira reunião de estudantes contei a minha vitória.. . meu coração se entusiasmou com isso. e tudo mais por este teor e forma. depois dessa resposta. como das outras vezes. quando entrei na sala. pelo que ouvi. que me entendeu. porque oito dias. mas o meu espanto se tornou em fúria quando ouvi o machacaz falar no meu nome. Este amor já estava um pouco velho. apesar disso eu olhava a todos os momentos para a porta e. Apaixonei-me logo e fui. mas essa era a infelicidade mais tolerável possível. acabada a festa. Antes de ver-me. eles já se correspondiam há muito tempo. e desmaio de que não acordava sem que eu mesmo lhe chegasse ao nariz o seu vidrinho de essência de rosas. bem contadinhos. ela amava um primo e até escrevia-lhe a miúdo. sem vergonha nenhuma. ambos nos aproximamos.. tinha três meses de idade. • Eu penso do mesmo modo. apontou para um gabinete vizinho. desgraçadamente. ainda tomei-me cego amante de uma jovem pálida. coitado! é um pobre menino com quem me divirto nas horas vagas!. logo depois da minha chegada. a traidora olhou para mim e. continuou ele. Nós nos encontrávamos nas noites dos sábados em certa casa. não pude resistir ao desejo de vê-la e fui à reunião. Jurei não amar moça nenhuma de cor rosada. em seus amores!. Um dia tratamos de encontrar-nos em certa igreja. porém. que se dirigiam também para lá. era contar com um desmaio certo. fingindo-se zeloso.

que ao menos dessa vez se fez cor-de-rosa. rimo-nos todo o dia. . . vingar-nos... embraçamo-nos e fomos.. Jorge devorou todas as cartas e normas que lhe dei. Jorge. assim como as normas que eu redigira para as que deveriam ser enviadas ao meu amigo. O bom humor de Jorge tornou-me alegre. por último recebi ainda e de maior confiança.É por certo um famoso pateta.Aquela jovem adora-me! .. . A minha amada morava perto... talvez por ver-me de braço com o meu novo amigo. eu a avistei debruçada na janela. Um estudante a reqüestou e escreveu-lhe. é.. .E eu também.Tenho provas... . e eu acho um belo divertimento. Não sei por que ainda tive ânimo de tirar o meu chapéu à tal pálida. . talvez me esperando..Concordemos ambos que. iremos juntos.. . exclamou: . .Fale-me a verdade: eu acho aquela moça com cara de ser sua prima.juro que não hei de amar moça nenhuma de cor pálida.Está certo disso. um belo divertimento. . disse-me com fogo: .é aquela!. sem se incomodar com o trabalho da redação de suas cartas!.Acredita muito nelas? .Na rua de... .Mas que é isso? está tão pálido!. Passando a maldita casa. minha prima! . mas. ..Não me fale mais nela... e eu respondi em seu lugar.. . indo agora vê-las à janela. .. quando ele me pronunciou com indizível prazer .Não é bom ir tão longe. ..Ainda melhor.Não tem dúvida. e que ela me tinha mandado. e tirando dela todas as cartas que Jorge havia escrito à sua prima. Apenas chegamos à minha casa.Bravo!..Eu queria propor a mesma vingança..Não é coisa de cuidado..Exatamente. meu amigo? . se o estudante foi um famoso pateta e um tolo rematado. caro estudante. não o foi menos o primo daquela senhora a quem cortejamos na rua de. abri a boca para dizer ao meu novo amigo: é aquela!.. o estudante. eu lhe conto. . onde mora a sua?. acrescentei: . Jantamos juntos.Mas nós vamos.. sem dúvida. pois olhava para o lado donde eu vinha. Saímos da igreja.... ela mandou-me a carta. abraçando-me. Eu.Pois vamos à minha casa. antes de adormecer. . ora. Julgue. é tolo rematado.. a minha é na mesma rua.. achará isto imprudência. falei ainda comigo mesmo: .... que assim se chamava o moço.E a sua amada?.. A correspondência tem continuado por minha vontade e sou eu quem sempre faço a norma das cartas que ela deve escrever. com efeito.Tenho as mais fortes. depois desatou a rir e. da minha exasperação! pela terceira vez eu era a boneca de uma menina!.Convenho: esperávamos ambos as nossas amadas e a chuva mangou conosco. .... e só de noite se retirou. abri a minha gaveta..Quem lhe disse?... que minha prima tem bastante habilidade para se corresponder com meio mundo. Tratei de dormir...Sim... .Concordemos também. . .. minha senhora.

. tornei-me ao que era dantes.. frade!. Minha tristeza.ora pois. estes são os tipos da beleza. II Mereçam-lhes todos Olhares ardentes. Mas eu andava triste e abatido e às vezes pensava assim: .. Não caia em amar A homem algum. jovial e espirituosa esposa de um de meus bons amigos. Nem seja notável Por sua esquivança. minha mulher terá. Que.. e. A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano. isto é. A qualquer que for O pode jurar.. Desde então declarei guerra ao amor. ocupei- me somente em me lembrar de minha mulher e em beijar o meu breve. . uma das tais cores. Não tire a esperança De amante nenhum... portanto. vou ser. Ela me pediu que lhe confiasse as minhas penas e eu não pude deixar de relatar estes três fatos à consorte de um caro amigo.. Nunca foi desgraça Um velho marido. em falta de moço Que fortuna faça. jurei não amar a moça nenhuma que fosse morena. logo não me caso com minha mulher e. e ouvi-la cantas as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional: I Menina solteira Que almeja casar. estas são as cores. Suspiros ferventes Bem pode soltar: Não negue a nenhum Protestos de amor. Porquanto eles são Um grande partido. frade. a pesar meu. serei celibatário. meu abatimento deu nos olhos da digna. corada ou pálida. III Os velhos não devem Formar exceção. minha senhora. em última conclusão.

.. pouco mais ou menos. ao vê-la levantar-se do piano.Escute: abatido e desesperado com os meus infortúnios.. .Já serve. Não será loucura Fingida estudar. . minha senhora. IV Ciúmes e zelos. Amor e ternura. . A vida passar. Pronta pra rir. Assim praticando. é este. já tirei grande proveito dele. . minha senhora? exclamei eu. esgotados os belos tipos. Dos homens zombando.. Em todos os casos Sempre deve estar Pronta pra chorar. .Certamente.Fico-lhe extremamente agradecido pelo desengano. V Contra os ardilosos Oponha seu brio: Tenha sangue-frio Pra saber fugir. VI Pode bem a moça. me respondeu ela.Então o negócio é assim. Assim ganhar tudo Moças se tem visto. . se aparecer Algum toleirão. estavam. corada ou pálida. pois... . Serve muito isto Antes de casar. Mas. É logo casar. Sem mais reflexão. o breviário por onde reza a totalidade das moças. . eu tinha jurado não amar a mais nenhuma moça que fosse morena.E agora?. eu deveria morre celibatário..Estimo que lhe sirva de muito.E como?.

fiz-me absolutamente um ser novo.Eu lhe vou contar a história das lágrimas de amor. como da outra vez. sem segurar-se. tornou Augusto. Carolina. mas a Sra.. . Eis. continuou Augusto. Ana. .Enganei-me.Certamente que não o adivinho. dirigindo-lhe estas palavras pela ordem: . As Lágrimas de Amor . coradas.Não.Uma borboleta. tal qual a ouvi a minha avó. que em pequena a aprendeu de um velho gentio que nesta ilha habitava. finalmente. juro que de hoje avante amarei a todas elas. disse ela. graças ao seu lundu. D.É talvez uma nova ilusão. minha senhora. 9 A Sra.. respondeu a digna hóspeda..Pois estava neste momento lembrando-me de uma tradição muito antiga. A Sra. põe em tributo a minha curiosidade. D.Eu o satisfaço com todo o prazer. viu que a boa hóspeda estava rindo-se maliciosamente. o esgotou até ao fim. Terminando assim. a história de meus amores!.Agora?. o bom do estudante que. D. que vou beber uma gota d’água. enquanto todas as outras são o divertimento dos meus olhos e o passatempo de minha vida.. que já tinha-o por vezes interrompido fora de tempo e debalde. Tais foram as razões que me tornaram borboleta de amor. quando voltou os olhos.Sim. Ana. não quis tomar a palavra para responder. E. . . . mas bem apropositada dessa fonte. magras e gordas. D. Sr. Ana. tudo serve. Augusto ia respirar um instante. eu ouvi distintamente a bulha de uma pessoa que corre. julgou dever fazer pausa de suspensão. .. minha senhora.Então?. .Então concluiu.. guardando e beijando com desvelo o meu querido breve... E isto dizendo. Ana principiou... e peço-lhe perdão por me haver tornado incômodo. e que tem muita relação com a história de seus amores e com o copo d’água que acaba de beber.. seguramente fabulosa. graças ao lundu. perguntou a Sra. Ana com suas Histórias Finalmente. cortesãs ou roceiras. . tão minucioso em minha narração que eu mesmo tanto me fatiguei.. D... era mais difuso que alguns de nossos deputados novos na discussão do art. pálidas. feias ou bonitas. 1.Mas vê alguém?. morenas.. eu conservo a lembrança mais terna e constante de minha mulher: ela é o amor de meu coração.. . foi ao fundo da gruta.. a Sra.. dirigindo-se à Sra. . .. . quando pela segunda vez lhe pareceu ouvir ruído na porta da gruta.V.º dos orçamentos.. . pois fui. disse ele. dirigindo-se à entrada da gruta e observando ao derredor dela. S.Alguém nos escuta. com efeito.Apenas lá vejo a sua bela neta.Sabe de que estou rindo?. minha senhora. D. na verdade. . quando lhe dava para falar. . que sempre comigo trago.. sem dúvida. que se precipita com a maior graça do mundo sobre uma borboleta que lhe foge e que ela procura prender.. e enchendo o copo de prata na bacia de pedra. . Augusto?.

A pobre Aí. o traduziu para a nossa língua e fez dele uma balada. ele viu sobre o rochedo a jovem Aí e disse bem alto: • Linda moça! . até que se partia o bárbaro que nunca dela dava fé. e vinte vezes já o havia feito. como sempre. mas terno canto. Ou porque sua dor era tão grande que lhe podia espremer o amor em lágrimas desde o coração até aos olhos. a pobre Aí subia ao rochedo. e já então o rochedo estava todo traspassado pelas lágrimas da virgem selvagem. começou a fazer-se tímida e depois triste. nem fugiu-lhe. Aí cantou. ela já tinha compreendido que a grande arma da mulher está no pranto. o nome dela era Aí. Uma jovem tamoia. e. sem que uma só desse fé dos olhares ardentes que lhe dardejava a moça. como das outras. Mas tantos extremos era tão mal pagos. Dizem que um velho frade português. ora lhe buscava as flechas disparadas. que o mesmo não pôde vencer do insensível moço. e nunca ele a atendia. que até aos quinze anos era inocente como a flor. pôde do bruto rochedo. ouvindo- o por tradição depois de muitos anos. que diariamente vinha caçar ou pescar na ilha. na volta não só admirou a beleza da jovem. E o mancebo vinha sempre. mas. e dessa vez a gota de lágrima lhe caiu no lugar do coração e. refrescar a fronte do guerreiro adormecido. ela entrava de manso e com um ramo de palmeira procurava. Aí chorou. que sempre o seguia. que lhe cerravam os olhos. adormecer na gruta. e por isso alegre e folgazona como uma cabritinha nova. caíram-lhe sobre as pálpebras.No outro dia ele voltou e já. a esperança que no pranto lhe adicionava a doçura. movendo o ar. como na saudade. que Aí. Mal a avistava ao longe. uma vez veio Aoitin e. como. nem mesmo quando. dessa vez. ela. olhou para a virgem selvagem. a qual minha neta canta. tinha por habitação esta rude gruta. a causa estava no agradável parecer de um mancebo da sua tribo. veio repousar na gruta. ou porque. uma doce amargura. mas não ouviu ainda o canto dela. por vir sempre temperado com o reativo da esperança. Era no tempo em que ainda os portugueses não haviam sido por uma tempestade empurrados para a terra de Santa Cruz. seu canto havia amolecido a rocha e suas lágrimas a traspassaram. e sempre ela cantava e chorava. tendo de exprimir a doçura. como o gemido da rola. como era de esperar. disse bem alto: . Todos os dias. selvagem mesma. o canto soava sobre a sua cabeça. e nem o esqueceu. ao tempo que em mais sossego dormia. e. que serve de teto a esta gruta. ouvindo a terna cantiga. de cansada. cujo rosto moreno parecia tostado pelo fogo em que ardia-lhe o coração. saltando dentro de sua piroga e afastando-se da ilha. sem descanso. Desde então tomou outro partido: chorou. mas. nem lhe escutou as sentidas cantigas. quando se sentiu fatigado. dormindo na gruta. com efeito. não olhou para Aí. então. onde ainda então não se via a fonte que hoje vemos. que a fazia chorar amargores. e nunca um só sinal de reconhecimento obtinha. ora lhe apanhava as aves que ele matava. Ora. a gota de lágrima lhe veio cair no ouvido. entregou- se a seus prazeres e. que tinham passado através do rochedo. ao romper da aurora. e tomando suas flechas. correu para o mar. E porque também nas lágrimas de amor há. disse bem alto: . Seu canto era triste e selvagem. O nome dele era Aoitin. chorava e cantava horas inteiras. caçou e cansou. quando no fim de seus trabalhos. quando voltava. a moça julgou dever separar da dor.Voz sonora! Terceiro dia amanheceu e Aoitin viu e ouviu Aí. depois de caçar veio. uma jovem tamoia linda e sensível. duas gotas das lágrimas de amor. que é veneno que não mata. Esta pequena ilha abundava de belas aves e em derredor pescava-se excelente peixe. Uma vez. Mas Aí era tão formosa e sua voz tão sonora e terna. procurou fugir do insensível moço e fazer por esquecê-lo: porém. Aoitin ia adormecer na gruta. e esperava a piroga de Aoitin. Aoitin despertou. entrou na gruta e adormeceu num leito de verde relva.

As lágrimas de amor. por força. mas não dormiu.Apenas a Sra. fingindo não amar. que seu coração estava em fogo: .. Nada de caça. . porém já a este tempo as muitas que havia derramado tinham dado origem a esta fonte.Sinto amar-te! E Aí não respondeu e só sorriu-se. minha senhora. para a gruta..Pois examine depressa. Saindo da gruta. até chegar junto de Aí. . Desde então foram felizes ambos na vida. nem chorava: mesmo antes de chegar à praia..Sempre minha neta!.E vê alguém no jardim?. . já estava feliz. No dia seguinte veio Aoitin. que vai apressadamente para o rochedo. e viu a sua amada.. que já não cantava.E eu sou capaz de jurar. foi bebendo as lágrimas de amor. Carolina. um raio de esperança lhe brilhava.Rogo-lhe que. nem ficou devendo o beijo que nesse instante lhe estalou na face. por sua intervenção. A cada trago que bebia. que tanto me interessou com o seu amor. a fonte era milagrosa. que ainda hoje existe. não puderam esconder a sua origem e fizeram com que Aoitin conhecesse que era amado. já o insensível era escravo e não vivia longe do encanto que o prendia: correu. trepando pelo rochedo. deseja ser senhora do mesmo de quem é escrava: e pois Aí nada respondeu. nada de pesca. . suas lágrimas secaram... pois. Quem ama não dorme. disse a Sra.. Ana. a dois passos viu a fonte que manava. .Sinto amar-te! Mas de repente ela estremeceu.Tu me amas!? Aí não respondeu.. pois.. que pela terceira vez sinto ruído de alguém que se retira correndo. Dizem. e que a ela cumpria responder a este último grito de Aoitin.. . mas também não fugiu dos braços de Aoitin. Augusto correu à porta e voltou logo depois. foi clamando: . e quando a sede foi saciada. . . . ajuntando as suas mãos. de manso. esperava ver partir o seu amante e ouvir o seu belo grito: . . mas riu-se. A fonte nunca mais deixou de existir e há ainda quem acredite que por desconhecido encanto conserva duas grandes virtudes. D. sentiu que em suas veias corria sangue ardente. respirando. que sorrindo-se lhe disse num tom seguro e terno: . fez um rodeio e foi. porque uma mão estava sobre seu ombro: e quando olhou viu Aoitin... Aoitin teve sede. .. Então ele não mais buscou sua piroga. que quem bebe desta água não sai da nossa ilha sem amar alguém dela e volta.era a febre do amor. disse Augusto. que.Ninguém. D. . parece que nada mais faltava a Aí.E então?.Sinto amar-te! Ora. correu açodado para ao pé dela e. perguntou a Sra.Diga. Ana. tanto na selvagem como na civilizada: a mulher deseja ser amada. que haviam tido o poder de tornar amante o insensível mancebo. com os olhos na praia do lado oposto. em demanda do objeto amado.Terminei aqui a minha história. confessando também o seu amor tão antigo. deitou-se. . e foi numa mesma hora que morreram ambos. respondeu o estudante. mas a natureza da mulher é a mesma. tenho que pedir-lhe uma graça.E eu. me facilite o prazer de ouvir sua linda neta cantar a balada de Aí.. querem também alguns que algumas gotas bastam para fazer a quem as bebe adivinhar os segredos de amor. E em segundo lugar. D.

..... E a balada.Será possível?! .. não carece pedir. não a ouve cantar...Oh!. sobre o rochedo?.. .Adivinhou o seu pensamento..

tomando campo no jardim para vencer a altura do rochedo. e cantando com terna voz o seguinte: I Eu tenho quinze anos E sou morena e linda! Mas amo e não me amam. IV A face cor de jambo Enfim se descorou. O pranto sucedeu. II O riso de meus lábios Há muito que murchou. que morreu. E tenho amor ainda. Aquele que eu adoro Ah! foi que a desbotou: A face tão rosada De pranto está lavada! . viram a bela Moreninha em pé e voltada para o mar. 10 A Balada no Rochedo A hóspeda e o estudante deixaram então a gruta e. III O fogo de meus olhos De todo se acabou: Aquele que eu adoro Foi quem o apagou: Onde houve fogo tanto Agora corre o pranto. E por tão triste amar Aqui venho chorar. com seus cabelos negros divididos em duas tranças que caíam pelas espáduas. Aquele que eu adoro Ah! foi quem o matou: Ao riso.

Sem ver a flor pendente Que à margem murcha e morre: Eu sou a pobre flor Que vou murchar de amor. E sempre o vejo e choro: Por paga a tal paixão Só lágrimas me dão! VII Aquele que eu adoro É qual rio que corre. VIII São horas de raiar O sol dos olhos meus. Mau sol! queima a florzinha Que adora os raios seus: Tempo é do sol raiar E é tempo de chorar. E nunca ele me vê. V O coração tão puro Já sabe o que é amor. Aquele que eu adoro Ah! só me dá rigor: O coração no entanto Desfaz o amor em pranto. VI Diurno aqui se mostra Aquele que eu adoro. Que sempre dá pesares: . IX Lá vem sua piroga Cortando leve os mares: Lá vem uma esperança.

X Enfim abica à praia. Garboso como o cervo Que salta alto valado: Quando há de ele cá vir Só pra me ver sorrir?. XI Lá corre em busca de aves A selva que lhe é cara. Ligeiro como a seta Que do arco seu dispara: Quando há de ele correr Somente pra me ver? XII Lá vem do feliz bosque Cansado de caçar. Que sempre causa pranto. que cansa De mil flores beijar: Quando há de ele cansado Descansar a meu lado?. . Qual flor de belas cores...Lá vem o meu encanto. Que cai do pé na grama: Quando há de nesse leito Dormir junto a meu peito? XIV Lá súbito desperta.. E cai na rude cama. Qual beija-flor. XIII Lá entra para a gruta. Enfim salta apressado..

E na piroga embarca. se ocultando. Em que lábios tu podes Achar maior doçura?. Seus beijos não tereis! XVIII Meu colo alevantado Não vale teus braços?. Meus lábios murchareis. Qual sol que. Que colo há mais formoso.. aonde? XVII Somente pra teus beijos Te guardo a boca pura.. O fim do dia marca: Quando hei de este sol ver Não mais desaparecer? XV Lá voa na piroga.. Mais digno de teus braços? Ingrato! morrerei... Que o rasto deixa aos mares.. Qual sonho que se esvai E deixa após pesares: Quando há de ele cá vir Pra nunca mais fugir?. .. E não te abraçarei. XVI Ó bárbaro! tu partes E nem sequer me olhaste? Amor tão delicado Em outra já achaste? Ó bárbaro! responde Amor como este..

se amanhã vieres. apenas suas faces se coraram com o rubor da agitação. Carolina Mas ela não pára: o movimento é a sua vida. Terás de ouvir meus ais: E ouvir queixas de amor. Cantando me ouvirás. 11 Travessuras de D. Chorando me acharás!... esteve no jardim e em toda a parte. cantou de sobre o rochedo e ei-la outra vez no jardim! Infatigável... XXII E... XIX Meus seios entonados Não podem ter vala? Desprezas as delícias Que neles te oferecia? Pois hão de os seios puros Murcharem prematuros? XX Não sabes que me chamam A bela do deserto?.. E aqui não tornes mais: Que. Empurras para longe O bem que te está perto! Só pagas com rigor As lágrimas de amor?. Em pé na rocha dura ‘Starei cantando aos ares A mal paga ternura.. XXI Ingrato! ingrato! foge. .. E ver pranto de dor!. sempre que tornares....

que ela estivera alguns momentos recostada à efígie da Esperança.Só isso?. .Interessante.Então. adeus! o meu lindo par se levanta do banco de relva em que descansava. cada cumprimento que lhe endereçamos paga ela com uma resposta que não tem troco e que nos racha de meio a meio... . Carolina. tinham notado.Tem a boca mais engraçada que se pode imaginar...Pois meu amigo. disse Leopoldo.. .. Tu ainda não lhe disseste nada? . Não há um só. vou tomar-lhe o braço. entre todos. Fabrício jurava mesmo que a vira enxugar uma lágrima. tornou a brilhar-lhe o prazer em ebulição. mas logo depois desapareceu completamente a menor aparência de tristeza.E ela? .Cousas vãs.. como esta defende os direitos das mulheres.Zomba de todos nós. à primeira vista...Tem voz muito agradável. . enfim! . .. o diabinho da menina nos tem posto o coração em retalhos..Dize tudo de uma vez. ela tempera todas as travessuras com tanta viveza..Só?... fez as pazes..Amá-la? não faltava mais nada! amo-a como amo as outras.Pois é opinião geral que ela te prefere a todos nós. .. .E pior para ela. trabalharia para encartar-me na Assembléia Provincial e lá.... O mesmo Augusto não pôde resistir à vivacidade da menina.Muito esbelta. .. . .Travessa menina!. .Tanto melhor para mim.Pois que queres que eu diga? . No entanto D. . de novo. pois lhe prometi que. e palavras da tarifa. espirituosa e capaz de levar a glória ao mais destro casuísta.. Fabrício vê-se doido com ela. .Que mais? .É tudo o que pensas?. . que dás o cavaco por ela.E ela? . Mas.. se fizer a saúde que hoje fizemos. . enfim. Porém.. é verdade. disseram duas palavras sobre ela.. como a achas agora?.. .Nada mais?... apenas me formasse.. faze idéia! Já leu Mary de Wollstonecraft e. perdido. todos nós estamos derrotados. estradas e canais.. mas. em prol dos tais direitos das mulheres: além de que. triste e pensativa. tu bem vês que ela me está chamando: adeus!. porque lhe pedi uma comenda para quando fosse Ministra de Estado. Se. pronunciarão a letra C.Palavras da tarifa. que menos valera se não fizera o que faz.. adeus!. Olha. Encontrando Leopoldo.. Carolina continuava a cativar todos os olhares e atenções.Que a amas!.. à exceção de Filipe. todos. doido. promoveria a discussão de uma mensagem ao governo-geral.Ora! esse está doente. .. . e cousas vãs. produziu o gênio inquieto de D.É tão ligeira como um juramento de mulher.. mas. e a patente de cirurgião do exército. . isso sim. em lugar das maçadas de pontes.Acho-a bonita. ... graça e espírito. no caso de chegar a ser general.. der cuja alma se não tenham esvaído as idéias desfavoráveis que. tenho-me singularmente divertido: a bela senhora é filósofa!. . agastou-se comigo.. apontando para a irmã de Filipe.Também Fabrício? .

Todos tinham tido seu quinhão, maior ou menor, segundo os merecimentos de cada um, nas
graças maliciosas da menina. Ninguém havia escapado: Fabrício era a vítima predileta, porque também
foi ele o único que se atreveu a travar luta com ela.
Finalmente D. Carolina acabava de entrar outra vez no jardim, depois de ter cantado sua balada.
De todos os lados soavam-lhe os parabéns, mas ela escapou a eles, correndo para junto de uma roseira
toda coroada por suas belas e rubras flores.
Fabrício, que ainda não estava suficientemente castigado e que, além disto, começava a gostar
seu tantum da Moreninha, se dirigiu com D. Joaninha para o lado em que ela se achava.
- É decididamente o que eu pensava, disse Fabrício, quando se viu ao pé de D. Carolina; e
dirigindo-se a D. Joaninha: sim... sua bela prima ama as rosas, exclusivamente.
- Conforme as ocasiões e circunstâncias, respondeu a menina.
- Poderia eu merecer a honra de uma explicação? perguntou Fabrício.
- Com toda a justiça e, continuou D. Carolina rindo-se, tanto mais que foi a V. S.ª que me dirigi.
Eu queria dizer que, entre um beijo-de-frade ou um cravo-de-defunto e uma rosa, não hesito em preferir
a última.
Fabrício fingiu não entender a alusão e continuou;
- Todavia não é sempre bem pensada semelhante preferência; a rosa é como a beleza: encanta
mais espinha; V. S.ª o sabe, não é assim?
- Perfeitamente, mas também não ignoro que a rosa só espinha quando se defende de alguma
mão impertinente que vem perturbar a paz de que goza; V. S.ª o sabe, não é assim?
- Oh! então a Sra. D. Carolina foi bem imprudente em quebrar o pé dessa rosa com que brinca,
expondo assim seus delicados dedos; e bem cruel também em fazê-la murchar de inveja, tendo-a defronte
de seu formoso semblante.
- Pela minha vida, meu caro senhor! nunca vi pedir uma rosa com tanta graça: quer servir-se
dela?
- Seria a mais apetecível glória...
- Pois aqui a tem... Querida prima, nada de ciúmes.
E Fabrício, recebendo o belo presente, em vez de olhar para a mão que o dava, atentava em
êxtase o rosto moreno e o sorrir malicioso de D. Carolina. Ao momento de se encontrar a mão que dava
e a que recebia, Fabrício sentiu que lhe apertavam os dedos; seu primeiro pensamento foi crer que era
amado; mas logo se lhe apagou esse raio de vaidade, pois que ele retirou vivamente a mão, exclamando
involuntariamente:
- Ai! feri-me!...
Era que a travessa lhe havia apertado os dedos contra os espinhos da rosa. Mas a flor tinha caído
na relva: Fabrício, já menos desconcertado, a levantou com presteza, e, encarando a irmã de Filipe,
disse-lhe, em tom meio vingativo:
- Foi um combate sanguinolento, ma ganhei o prêmio da vitória.
- Pois feriu-se?... perguntou D. Carolina, chegando-se com fingido cuidado para ele.
- Nada foi, minha senhora: comprei uma rosa por algumas gotas de sangue... valeu a pena.
- Maldita rosa! exclamou a Moreninha, teatralmente... maldita rosa! eu te amaldiçôo!...
E dando um piparote na inocente flor, a desfolhou completamente; não ficou na mão de Fabrício
mais que o verde cálice. D. Carolina correu para junto de sua digna avó; o pobre estudante ficou
desconcertado.
- E esta! murmurou ele, enfim.
- Foi muito bem feito! disse D. Joaninha, cheia de zelos e dando-lhe um beliscão, que o fez ir às
nuvens.
- Perdão, minha senhora... seja pelo amor de Deus! exclamou Fabrício, que se via batido por

todos os lados.
No entanto começava a declinar a tarde; uma voz reuniu todas as senhoras e senhores em um só
ponto: serviu-se o café num belo caramanchão; mas, como fosse ele pouco espaçoso para conter tão
numerosa sociedade, aí só se abrigaram as senhoras, enquanto os homens se conservavam na parte de
fora.
Escravas decentemente vestidas ofereciam chávenas de café fora do caramanchão, e, apesar
disse, D. Carolina se dirigiu com uma para Fabrício, que praticava com Augusto.
- Eu quero fazer as pazes, Sr. Fabrício; vejo que deve estar muito agastado comigo e venho
trazer-lhe uma chávena de café temperado pela minha mão.
Fabrício recuou um passo e colocou-se à ilharga de Augusto: ele desconfiava das tenções da
menina; sua primeira idéia foi esta: o café não tem açúcar.
Então, começou entre os dois um duelo de cerimônias, que durou alguns instantes; finalmente,
o homem teve de ceder à mulher. Fabrício ia receber a chávena, quando esta estremeceu no pires... D.
Carolina, temendo que sobre ela se entornasse o café, recuou um pouco. Fabrício fez outro tanto: a
chávena, inda mal tomada, tombou: o café derramou-se inopinadamente. Fabrício recuou ainda mais
com vivacidade, mas, encontrando a raiz de um chorão que sombreava o caramanchão, perdeu o equilíbrio
e caiu redondamente na relva.
Uma gargalhada geral aplaudiu o sucesso.
- Fabrício espichou-se completamente! exclamou Filipe.
O pobre estudante ergueu-se com ligeireza, mas, na verdade, corrido do que acabava de sobrevir-
lhe: as risadas continuavam, as terríveis consolações o atormentavam; todas as senhoras tinham saído
do caramanchão e riam-se, por sua vez, desapiedadamente. Fabrício muito daria para ser livrar dos
apuros em que se achava, quando de repente soltou também a sua risada e exclamou:
- Viva as calças de Augusto!
Todos olharam. Com efeito, Fabrício tinha encontrado um companheiro na desgraça: Augusto
estava de calças brancas, e a maior porção de café entornado havia caído nelas.
Continuaram as risadas, redobraram os motejos. Duas eram as vítimas.

12

Meia Hora Embaixo da Cama

Não tardou que Filipe, como bom amigo e hóspede, viesse em auxílio de Augusto. Em verdade
que era impossível passar o resto da tarde e a noite inteira com aquela calça, manchada pelo café; e,
portanto, os dois estudantes voaram à casa. Augusto, entrando no gabinete destinado aos homens, ia
tratar de despir-se, quando foi por Filipe interrompido.
- Augusto, uma idéia feliz! vai vestir-te no gabinete das moças.
- Mas que espécie de felicidade achas tu nisso?
- Ora! pois tu deixas passar uma tão bela ocasião de te mirares no mesmo espelho em que elas
se miram!... de te aproveitares das mil comodidades e das mil superfluidades que formigam no toucador
de uma moça?... Vai!... sou eu que to digo; ali acharás banhas e pomadas naturais de todos os países;
óleos aromáticos, essências de formosura e de todas as qualidades; águas cheirosas, pós vermelhos
para as faces e para os lábios, baeta fina para esfregar o rosto e enrubescer as pálidas, escovas e escovinhas,
flores murchas e outras viçosas.
- Basta, basta; eu vou, mas lembra-te que és tu quem me fazes ir e que o meu coração adivinha...
- Anda, que o teu coração sempre foi um pedaço d’asno.

E, isto dizendo, Filipe empurrou Augusto para o gabinete das moças e se foi reunir ao rancho
delas.
Ai do pobre Augusto!... mal tinha acabado de tirar as calças e a camisa, que também se achava
manchada, sentiu rumor que faziam algumas pessoas que entravam na sala.
Augusto conheceu logo que eram moças, porque estes anjinhos, quando se juntam fazem,
conversando, matinada tal, que a um quarto de légua se deixam adivinhar; se é sediço e mesmo insólito
compará-las a um bando de lindas maitacas, não há remédio senão dizer que muito se assemelham a
uma orquestra de peritos instrumentais, na hora da afinação.
Ora, o nosso estudante estava, por sua esdrúxula figura, incapaz de aparecer a pessoa alguma;
em ceroulas e nu da cintura para cima, faria recuar de espanto, horror, vergonha e não sei que mais, ao
belo povinho que acabava de entrar em casa e que, certamente, se assim o encontrasse, teria de cobrir o
rosto com as mãos; e, portanto, o pobre rapaz seguiu o primeiro pensamento que lhe veio à mente:
ajuntou toda a sua roupa, enrolou-a, e com ela embaixo do braço escondeu-se atrás de uma linda cama
que se achava no fundo do gabinete, cuidando que cedo se veria livre de tão intempestiva visita; mas,
ainda outra vez, pobre estudante! teve logo de agachar-se e espremer-se para baixo da cama, pois
quatro moças entraram no quarto. E eram elas D. Joaninha, D. Quinquina, D. Clementina e uma outra
por nome Gabriela, muito adocicada, muito espartilhada, muito estufada, e que seria tudo quanto tivesse
vontade de ser, menos o que mais acreditava que era, isto é, bonita.
Depois que todas quatro se miraram, compuseram cabelos, enfeites e mil outros objetos que
estavam todos muito em ordem, mas que as mãozinhas destas quatro demoiselles não puderam resistir
ao prazer, muito habitual nas moças, de desarranjar para outra vez arranjar, foram por mal dos pecados
de Augusto, sentar-se da maneira seguinte: D. Clementina e D. Joaninha na cama, embaixo da qual
estava ele; D. Quinquina de um lado, em uma cadeira, e D. Gabriela exatamente defronte do espelho,
do qual não tirava os olhos, em outra cadeira que, apesar de ser de braços e larga, pequena era para lhe
caber sem incômodo toda a coleção de saias, saiotes, vestidos de baixo e enorme variedade de
enchimentos que lhe faziam de suplemento à natureza, que com D. Gabriela, segundo suas próprias
camaradas, tinha sido um pouco mesquinha a certos respeitos.
Depois de respirar um momento, as meninas, julgando-se sós, começaram a conversar livremente,
enquanto Augusto, com sua roupa embaixo do braço, coberto de teias de aranha e suores frios, comprimia
a respiração e conservava-se mudo e quedo, medroso de que o mais pequeno ruído o pudesse descobrir;
para meu mor infortúnio, a barra da cama era incompleta e havia seguramente dois palmos e meio de
altura descobertos, por onde, se alguma das moças olhasse, seria ele impreterivelmente visto. A posição
do estudante era penosa, certamente; por último, saltou-lhe uma pulga à ponta do nariz, e por mais que
o infeliz a soprasse, a teimosa continuou a chuchá-lo com a mais descarada impunidade.
- Antes mil vezes cinco batinas seguidas, em tempo de barracas no Campo!... dizia ele consigo.
Mas as moças falam já há cinco minutos; façamos por colher algumas belezas, o que é, na
verdade, um pouco difícil, pois, segundo o antigo costume, falam todas quatro ao mesmo tempo. Todavia,
alguma coisa se aproveitará.
- Que calor!... exclamou D. Gabriela, afetando no abanar de seu leque todo o donaire de uma
espanhola; oh! não parece que estamos no mês de julho; mas, por minha vida, vale bem o incômodo
que sofremos, o regalo que têm tido nossos olhos.
- Bravo, D. Gabriela!... então seus olhos...
- Têm visto muita coisa boa. Olhe, não é por falar, mas, por exemplo, há objeto mais interessante
do que D. Luísa mostrar-se gorda, esbelta, bem feita?...
- É um saco!
- E como é feia!...
- É horrenda!

Clementina.Pernas finas também é moda presentemente. acudiu D. ah! ah! ah! .. . ... D.Ainda que estivesse na moda. . um pezinho que só se poderia medir a ..... Quinquina.. . você reparou no vestido de chalim de D. que parece o morro do Corcovado!. o nosso estudante.. que não parecia estar muito consigo e que só por honra da firma dissera o seu “nem eu!”.É um bicho! . recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas.É verdade... não somos todas moças?.Que tinha isso?.Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas. juro-lhe eu! exclamou D. Clementina. suspirou ela... D. . tornou D.. felizmente. não me obrigue a rir!.Havia de ser engraçado. mas. .. porque se eu quisesse falar. pois não posso emendar a natureza. disse.Eu não sei por que as outras não hão de ser como nós. dir-se-ia que não temos dormido juntas.É verdade.. .Por quê? . . apesar de se ver em apuros embaixo da cama. não te chamarei eu feliz!. veio deixá-lo com água na boca. Ouvindo tal proposição.Pois por mim não era a dúvida.Não. não há nada que nela assente bem... não se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido. .Deus me livre!... Joaninha. .. arregaçarmos aqui nossos vestidos!. e deixando escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito.Não lhe fico atrás..E que língua que ela tem! ..Facilmente: vamos medir nossas pernas. acrescentou D.Ora.Não. .Parece que anda sempre pedindo boquinhas..E talvez algum saiote. tem uma testa maior que a rampa do Largo do Paço!. podemos tirar as dúvidas. Josefina aplaude com prazer a moda dos vestidos compridos! .. Mas.... tornou a primeira. arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das órbitas.. .Isso é bom de se dizer.. D.. . . com ar de triunfo.Diga sempre. Gabriela. . porque tem pernas de caniço de sacristão. .Se ela pudesse arranjar também um postiço para o queixo! ..É uma víbora! . é um pau vestido!. D... Quanto a mim....Como? . Clementina e.... .. Quinquina.Um nariz com tal cavalete.. de modo que ficou à mostra até o joelho. pelo menos para mim nunca deve ser. ele vê a um palmo dos seus olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!. não. até tocar com o pé no chão.E a boca?. porém. Agora não faz senão rir!. D..D... através da finíssima meia aprecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e. que me deu pernas grossas.. .. por sua vez.. disse ela. . acudiu D. . Pobre Augusto!. rematando este interessante painel róseo. além de que. Clementina. .E não vimos a filha do capitão com sua dentadura postiça?. Joaninha.Quem me dera já casar. vamos a isto! . . passando a outra coisa. Quinquina. . está absolutamente fora da moda. que não dizemos mal de nenhuma delas.Ora. Carlota?. não quero.Ora.Coitadinha! aperta tanto os olhos! .

quem o pensaria? não foram beijos o que desejou o estudante outorgar àquele precioso objeto.São caprichos de namorados! falou D.. e a tudo isso julga ele ter muito direito por ser tenente da Guarda Nacional! Pois. . Filipe a deixar esta noite. até parece romântico. o que hei de dizer? respondeu esta. lembrando-se da exótica figura em que se via. Quinquina. repetiu D. antes quero assim. Olhem..Bravo. tirando um papel do seio.Bem mostra pelo bem que escreve. a tal preta.Ora. sabem o que fez?. Gabriela. . mil beijos. Clementina. D. te condenam às perpétuas galés do desprezo.. Tenente Gusmão sério sem soltar uma gargalhada. a quem já doíam as cadeiras de tanto agachar- se.. mas. o meu ciúme e justo ressentimento.. por que lhe não entrega ou não lho manda entregar?. Gabriela! o Sr. Querem ver uma dessas? O meu predileto está de luto e por isso exige que eu vá à festa de. não diz nada?. em sinal de sentimento. apertando-os com força. Juca.. Quase que já se não podia suster. que são os juízes.Não.. Eu confesso que me correspondo com cinco. para não constipar. pegando no corpo de delito da tua perfídia! Escreves a outro? Compareces por tão horrível crime perante o júri do meu coração.polegadas.. .. .. Gabriela. disse D.. . Joaninha. . Porém.Quem me dera já casar!. cem.. recebeu da minha mão duas. uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas.” . Joãozinho: “Ingrata! Ainda tremem minhas mãos.. Eu começo declarando que estou comprometida com o Sr.E o resultado?. Joãozinho é sem dúvida estudante de jurisprudência? . meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e. por isso mesmo. .. com uma fita preta no cabelo. apertado em um sapatinho de cetim.Que asneira?. Trocou as cartas! .E você. e. um embrulhozinho com uma trança de meus cabelos... valso todas as vezes que posso..... ao vir embarcar. procurava iludir sua imaginação. e quando descia a escada.. com a destreza precisa... eu vejo-me doida!... enfim. Joãozinho e a de verde é do Sr. é doutor.. bem que tenhas nesse tribunal a tua beleza por advogada. respondeu D. exige ainda que eu não valse mais. perguntou ainda ela a D. mana. a maldita estava de mona. e só te poderás livrar delas se apelares dessa sentença para o poder moderador de minha cega paixão. principalmente se devemos dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. ontem. isto é só para ver qual dos cinco quer casar primeiro.Logo duas?. embaixo da quarta roseira da rua do jardim..Eu?. já estava de boca aberta e para saltar. .. disse D. tomo sorvetes até não poder mais.Isto é fácil. e que estava mesmo pedindo um. ..Ora pois.. havia tanto tempo para isso! mas.... e que jamais me ria quando ele estiver sério. veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria dando-lhe uma dentada. . que não tome sorvetes. embaixo da cama. . de futilidades é que amor se alimenta. ando agora de fita branca no cabelo. digo que ainda não amo. .. . mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?. entregou-me este escrito do Sr.. nós devemos pagar com gratidão a confiança de D. Mesmo dizendo- lhe eu dez vezes: a de lacre azul é do Sr. ..... apesar de todas as minhas explicações..Mas eu sou bem tola! conto tudo o que me sucede e ninguém me confia nada! . dou dominus tecum aos moços mesmo quando eles não espirram e não posso ver o Sr. pois bem.Olhem lá o diabinho da sonsa! murmurou consigo mesmo Augusto. ..Isso é razoável.. dez. Clementina. Gabriela. eu tenho muita vergonha.É a única que ama deveras! pensou o estudante.Ei-lo aqui. que vai direita ao caramanchão. que não dê dominus tecum a moço nenhum que espirrar ao pé de mim.

. mas é uma verdadeira desgraça ser hoje moda ouvir com paciência quanta frivolidade vem à cabeça . mas. . devemos ter conquistado alguns corações! .. tenho-me visto doida... eu não sei se sou bonita.. Quinquina. onde quer que esteja. assemelha-se muito a uma preguiça. Leopoldo. todas nós gostamos de ser conquistadoras. ... porém. . e esse paspalhão!.Pela minha parte não digo nada..Tem as pernas tortas.... onde está o seu talento?. D.Essa opinião segue também o Augusto! ... O tal Sr. numa hora. .Mas que temos nós feito nesta ilha?. .. Vaidade para o lado: moças bonitas.. aos lábios de um desenxabido namorado. Joaninha. ainda não tive tempo de olhar para as pernas.Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um tempo... só as perninhas que ele tem!. . acudiu D.Há de ser interessante dançando! . murmurou entre dentes o nosso estudante. .. que triunfos havemos conseguido?. Amo a todas elas. tem-se regalado hoje com o incomparável Fabrício. Gabriela mirando-se no espelho. Leopoldo..... . . . . estendendo o pescoço a modo de cágado..Pois confessemos. .. Clementina..não direi à cabeça.Não.. mas enfim. vejo-me sempre cercada de adoradores. e o Sr.. . eu ainda não vi estudante mais desestudável!..Oh!..Pois bem. é o único de quem gosto. Fabrício?. D.. . exclamaram as três.Você. . .. que se ponha outra no meu lugar.Que pateta!.Juro que estou completamente aturdida com os protestos de eterna paixão do Sr.Ora. mas também você parece que não se arrepia muito com a corcova do nariz de meu primo. No mesmo lugar Eu gosto de amar Quarenta Cinqüenta Sessenta: Se mil forem belas. como somos. por exemplo..Como lhe fica mal aquela cabeleira!. minha amiga.Forte impertinente! falando é um Lucas... respondeu aquela. Joaninha..E o Sr. era impossível ter tempo de mangar com todos a preceito.. Fabrício?. Houve já um que não teve vergonha de escrever isto em um papel: Num dia. porque parece que os tolos como que não a têm. não é graça.. assobiou D.. .Que tolo!. disse D. perseguiram-me constantemente seis. aquilo é magreza. Não lhe gabo o gosto..Pois bem.Que vaidoso! . confessemos.. isso é verdade. Gabriela. ... .Eu creio que ele é corcunda. tornou D...Ei-las comigo..Vamos nós tomá-lo à nossa conta? . hoje.Mas.

Mas elas não tiveram tempo de pensar. por nome Paula. . ergueu-se e sentiu que as paredes andavam-lhe à roda. . se dirigiu para a sala. que não estava menos assustado. exclamou D. não é certamente ela. Por infelicidade de Paula... Ora. O grito de dor tinha sido. soltado por D. neste momento. que os copos dançavam. contudo. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.Coitada! que lhe sucederia?. Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira. com efeito.. como já estivesse um pouco impertinente. e muito naturalmente. pareceu-lhe que estava uma nuvem diante de seus olhos. todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar.. Joaninha. risonha e imóvel. Carolina que. por isso. . por sua vez. acreditando sentar-se numa cadeira. e. Ana uma pobre mulher. O caso é simples. o alemão a lobrigou ao entrar num quarto. saiu de seu esconderijo. Passado algum tempo. e com prontidão e cuidado pôde. vendo a infeliz mulher estirada no .. caiu com estrondo contra uma porta.. quando deu com os olhos na carta do Sr. na verdade. depois. com a pressa e agitação. em que se vira em tantos apuros. mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai. junto à mesa. havia D. Chamou-a. obrigou-a a sentar-se junto de si. se alguém corre perigo. O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel. mas. onde inda há pouco só se respirava prazer e delícias. de D. gritando que Paula acabava de ter um ataque. 13 Os Quatro em Conferência Ninguém se arreceie pela nossa travessa. muito estimada de todos. das quais se achava ternamente enamorado. se tivesse deixado embriagar. Gabriela deixado cair. rubicundo e reluzente. enquanto o alemão. porque o era da despotazinha daquela ilha. a quem tinha servido de ama.. ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a reqüestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. porque. em resultado as seis garrafas foram-se. Carolina quis levantar-se. que o assoalho abaixava e levantava-se debaixo dos pés. e. que. As quatro moças correram precipitadamente para fora do quarto. sempre sóbria e inimiga de espíritos. cambaleou e. Paula deixou-se ficar sentada. que havia duas mesas. Carolina. Carolina. Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. Logo confusão e movimento.. ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela casa. O grito de dor foi. . escapar-se do gabinete. mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honras à meia dúzia de lindas garrafas. sem ser visto. . A primeira pessoa que entrou em casa foi D. não pôde dar mais que dois passos.Pareceu-me a voz de minha prima Carolina.. D. As quatro moças levantaram-se espantadas. correram alguns escravos para o jardim. Ninguém ousou pensar que Paula. Augusto. deixar aquele lugar. Quando daí a pouco a ama de D. Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes. Morava com a Sra. Joãozinho. seu.Pois pensemos.Vamos: pensemos nos meios de zombar dele cruelmente. forçava Paula a virar copos cheios. sua mãe e sua família.. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua meia língua dirigir uma saúde.Vamos ver. vestiu-se apressadamente e ia. ouviu-se um grito de dor. duas salas e tudo em dobro.

a minha Paula nunca teve tão feio costume.. se está molhada com vinho. sempre em voz baixa. é uma mona de primeira ordem.. . por força.. que mal se entendia uma palavra. caiu sobre ela.. Oh! é bem cruel que.Oh diabo!.É espírito maligno! acudiu outra.. tornou Augusto. não vale nada.. o caso é que nos não entendam.Não. que há pouco lhe despejou meia garrafa por cima. que acabava de entrar no quarto.Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza. nenhuma delas quer ver o que está diante de seus olhos. O rosto e o bafo da doente bastaram para denunciar-lhes com evidência a natureza da moléstia. à vista de tanta gente que. exclamando com força: . são maleitas!. torrada e depois desfeita num copo d’água tirada do pote velho com um coco novo e com a mão esquerda.Diremos tudo o que nos vier à cabeça. . pelo lado da parede.Isto não vale a pena. senão que ela está espirituosa demais? perguntou Augusto. gritou uma avelhantada matrona. . Violante. . . que parecera somente capaz de brincar e ser estouvada. minha irmã ficaria inconsolável.Mas que iremos dizer nesta conferência.São maleitas! exclamava D.Ora. por mais que lépida e risonha o fosse engolindo a largos tragos. Quem lhe olha para o nariz diz logo que são maleitas! Eu já vi curar-se uma mulher. digam semelhantes coisas!. é espírito maligno que lhe entrou no corpo! venha quanto antes um padre com água benta e seu breviário. não pareces estudante.. que se supunha com muito jeito para a Medicina. . não pôde livrar-se de que a interessante Esculápia lhe entornasse boa porção pelos vestidos.assoalho. portanto..Foi este o seu grito de dor.São lombrigas! gritava uma terceira.É ataque de estupor! bradava a quarta senhora. Junto do leito apareceram os quatro estudantes. aturdidas pelo caso repentino e preocupadas pela sobriedade desta mulher. não sejas tolo. é fraqueza complicada com o tempo frio. com toda a força de seus pulmões.. porém. podemos aproveitar as circunstâncias.Oh! minha mãe!. Momentos depois Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por toda a família. Curto foi o exame. . .Há de ser bonito.. havia algazarra tal. No meio de toda esta balbúrdia era de ver-se o zelo e a solicitude da menina travessa!. e. conhecerá esta patacoada. nem sentir o cheiro que lhes está entrando pelo nariz. tornou Filipe. vamos sossegar estas senhoras.. . se lhe disséssemos que sua ama se embebedou. que a boa da Paula tomou? Olhem: até tem o vestido cheio de vinho. que foi mais ouvida que as primeiras. brigaria conosco e não nos acreditaria.. ... não se vê logo que isto não passa de uma mona. devemos lançar mão de tudo o que nos possa dar prazer e não ofenda os outros.. e.. . não senhora! acudiu D. . É fazer isso já.. que teve o mesmo mal. Observava- se aquela Moreninha de quinze anos..Ora. ficando entendido que as honras pertencerão ao que maior número de asneiras produzir. . mesmo vendo-se a minha dor. disse uma senhora. .Mona. ainda que também nós não entendamos.. foi despejando meia garrafa de vinho na boca da pobre Paula que.. Carolina. . com cauda de cobra moída. venha um copo de vinho! E dizendo isto.. zombar de todas elas e divertir-nos fazendo uma conferência.Está claro. isso é do catecismo dos charlatães! .. disse Filipe em tom baixo a seus colegas. . a culpa é desta senhora. Só cuidava de si quando devia enxugar as lágrimas. para que estão com tal azáfama?. prevenindo tudo e aparecendo sempre onde se precisava apressar um serviço ou acudir a um reclamo. correndo de uma para outra parte.

no qual os quatro estudantes fingiram observar o pulso. penetrando pelas câmaras ópticas. mas já. Depois eles se colocaram em um dos ângulos do quarto. a língua. com o Amazonas ao pé!. . que por isso se tornando em linfa hemostática. . e promovam uma rebelião entre os indivíduos cerebrais: por conseqüência isto é nervoso. . Disse: . as nossas lancetas estão bem afiadas e duas libras de sangue de menos não farão falta à doente. senhores.. tornou Filipe. rogamos breves momentos de atenção.O tratamento que proponho é concludente: algumas gotas de éter sulfúrico numa taça do líquido fontâneo açucarado. eu concordo com o diagnóstico de meu colega.. e acidulado com algumas gotas de éter sulfúrico. Uma taça de líquido fontâneo açucarado. que foi o maior charlatão do seu tempo. .. como pensam os modernos autores. passando à garganta.Eis aí a consideração que os leva ao erro!. quebrai vossas lancetas. senhores! para curar o mundo inteiro basta-vos uma botica homeopática. podendo mesmo produzir uma protorragia nas glândulas de Meyer. capaz de envenenar a todos os habitantes da China! O mesmo direi do cozimento do coffea arabica. Seguiu-se novo exame da enferma.. Uma mulher padecia este mesmo mal.. haviam-lhe mandado aplicar mais de trezentas bichas. Movimento de curiosidade. Eu diagnostico uma baquites. é porque a ação maléfica desses medicamentos não se faz sentir logo.Acabastes.. Hahnemann.. já tinha sofrido trinta sangrias. . ..Não respondo aos apartes. cause um retrocesso prostático... é..... que. o rosto e os olhos da enferma auscultaram e percutiram-lhe o peito e fizeram todas as outras pesquisas do costume. purgantes sem . senhores.Mas por que não têm morrido envenenados os que por vezes o têm já tomado?. Senhor meu colega.Muito bem concluído.. Desde Hipócrates. .Como ele fala bem! murmurou uma das moças.Está enganado. voltando-se para os circunstantes. no alcorão de nosso Mafoma. sudorária e todas as que acabam em ária. Ouçam-me.. aqui ninguém nos entende. em minha opinião. creio.. o cozimento dos frutos do coffea arabica torrados. às vezes só aparece depois de cem. disse com voz teatralmente solene: . no Organon do grande homem! Ah! se depois do divino sistema morre por acaso alguém. .Qual conhecer?..C’est trop fort!. até os nossos dias. até que.. ou mesmo o thea sinensis. queimai todos os vossos livros. porque a verdade está só. brilhou o sol da sabedoria. perturbam a quimificação da hematose. Poucas palavras bastam. . A moléstia de que nos vamos ocupar não é nova para nós. duzentos e mais anos. uma vez que a compresão do diafragma lhes cause vibrações simpáticas que os façam caminhar pelo canal colédoco até o periósteo dos pulmões. como a estercorária. Profundo silêncio. . o que julgo impossível...Daí. e quando isto não baste. no esfíneter do cerebelo.. queremos conferenciar.Meus senhores.. ah!. mesmo. vá de um jacto causar um tricocéfalo no esfenóide.Sangue! sempre sangue! eis a Medicina romântica do insignificante Broussais! mas eu detesto tanto a Medicina sanguinária. Mas eu tenho observações de moléstias de natureza da que nos ocupa e que vão mostrar a superioridade do meu sistema. mas devo combater o tratamento por ele oferecido. eis a grande verdade!.. Filipe teve a palavra.. exclusivamente.. Concebe-se perfeitamente que as etesias desenvolvidas pela decomposição dos éteres espasmódicos e engendrados no alambique intestinal. enfim. . tem triunfado a ignorância. Fabrício tomou a palavra. é por se não ter ainda descoberto o meio de dividir em um milhão de partes cada simples átomo da matéria! Senhores. herbária. de fazer-me observar uma enfermidade que não nos deixa de pedir sérias atenções e sobre a qual eu vou respeitosamente submeter o meu juízo.. que qualquer de vós já a tem padecido muitas vezes..

Olhem como a doente está risonha.Senhores. portanto. pois. que. . que tanto abismaram Paracelso e Kisker. por ter a ama de D. eu devo confessar que restam-me muitas dúvidas a respeito do diagnóstico e. parece prudente omitir.. . para que comecemos já a aplicar-lhe os passes. . Voto. e umas poucas de velhas determinadas a maçar meio mundo. mas posso afirmar que ela mora em uma casa e que hoje está nédia. não tendo entrado no número delas a essencial lembrança de um escalda-pés. E além disso. Era por isso que todos brincavam alegremente.... não era justo que tantas moças e moços. se arrojaria Paula a morrer. a saúde alheia. nos aclara sua enfermidade. Outro fato. mas concordou com o tratamento por ele proposto e falou com arte tal que D. isto pode ser fatal à doente! . em boa disposição de brincar. contra a ordem expressa dos quatro hipocratíssimos senhores?. como. quatro semidoutores já haviam pronunciado favorável diagnóstico.Menos ruído. a pôs completamente restabelecida. um mau enfermeiro e. por último. dêem-lhe o preconizado escalda-pés! E fugindo logo do quarto.Aquilo é pressentimento! . dou por terminado o meu discurso. menos o Sr. eu tenho fé de que não há moléstia alguma que possa resistir à maravilhosa aplicação dos passes. jogava-se. Seguiu-se o discurso de Augusto que.. . ficassem a noite inteira pensando na carraspana da rapariga.Ainda em cima de não lhe mandar aplicar uma ajuda.. eu nunca vi negar-se um escalda-pés! . Carolina o escolheu para assistente de sua ama..O Sr.Se não lhe derem um escalda-pés. segundo. minhas senhoras. que se viu quase doido com a balbúrdia de novo alevantada no quarto.. por longo demais. Todos se haviam já esquecido da pobre Paula. levada ao sonambulismo. . dobrada razão acho para sustentar o meu parecer porque... . 14 Pedilúvio Sentimental Ria-se.Basta! basta!. as senhoras mezinheiras. enfim. minhas senhoras. Leopoldo tem a palavra.Pois bem. e propondo a aplicação da nihilitas nihilitatis na dose da trimilionésima parte de um quarto de grão. Na verdade também que. Augusto determinou as aplicações convenientes ao caso. com três doses..Sr. quis o seu bom gênio que ela recorresse a um homeopata. pois. vomitórios às dúzias e tisanas aos milheiros. Ainda mais: se o diagnóstico do colega que falou em primeiro lugar é exato. foi pensando consigo mesmo que as coisas que mais contrariam o médico são: primeiro.. disse Augusto para se ver livre delas. necessariamente o magnetismo tem de curar a baquites. para vermos se a enferma. Doutor. só por ouvir falar em escalda-pés!. dizia o rapaz. enfim. . com boas cores e até remoçou e ficou bonita.Ora. e quem quiser pode ir vê-la na rua. . Em resumo basta dizer que ele combateu as raras teorias de Filipe. . gorda. mas. um escalda-pés!. basta. julgo útil recorrermos ao magnetismo animal..Pois bem. diante de meia dúzia . Carolina tomado seu copo de vinho de mais.conta. esquece-se também do escalda-pés!.. brincava-se.. se similia similibus curantur. caiu a tropa das mezinheiras sobre o desgraçado estudante. É certo que não me lembro agora onde.. Além disto. Keblerc que... das quais cada uma continha apenas a trimilionésima parte de um quarto de grão de nihilitas nihilitatis. eu não respondo pelo resultado!.

. mas a cada travessura ajunta tanta graça. ora expliquem. roncava prodigiosamente. Com efeito. abolindo-se. de pernas arqueadas. . sem dúvida!. viúvos. Carolina é um beija-flor completo. adeus etiquetas e cerimônias!. por felicidade deles sempre se encontra desses. dir-se-ia que entoava um hino. Violante ocupou-se em desenvolver a um velho roceiro os meios mais adequados para se preencher o defict provável do Brasil para o ano financeiro de 44 a 45. principalmente das moças: era... O seu jogo tinha diretor que. a travessa. Violante tinha casas na cidade. Augusto pediu que o dispensassem e foi ter com a dona da casa. Augusto? disse ela. Tal o diretor da roda dos moços... não estava bem senão entre rapazes. vivo e delicado. . Batista (este é o seu nome) era fértil em jogos. jugo muito bonito e muito variado... está em sê-lo a sua maior graça. . ..Por ora não. a tentaçãozinha não está aí. outra mesa em que alguns senhores. há um que não está absolutamente satisfeito: é Augusto. D... aquele rosto moreno. sem aumentar os direitos de importação. já se viu que coincidência!. mas na sua roda não havia nem mesa... com aplauso geral. ligeiro como abelha. exclama: . como o episódio do ás galar o sete. Augusto.. A rapazia empregava melhor o seu tempo: também jogava. Caso célebre!. bequadros e sustenidos!. Neste momento a Sra. . não está na sala! Augusto vê o jogo ir indo o seu caminho muito em ordem. casados e velhos pais perdiam ou ganhavam dinheiro no écarté. a buliçosa.Eu já não dei inda agora?. sentou-se defronte do jardim.. cabelos e barbas ruivas. pelo contrário. Joaninha! E sempre. D. Ana entrou na sala. que na verdade as divertia muito.. vinha logo outro melhor. mas.. Carolina é o prazer em ebulição. O terceiro agradou tanto. que se repetia pela duodécima vez. Já se havia jogado o do toucador e o do enfermo. nem cartas. O Sr. haviam festejado. dirigindo-se à grande varanda da frente..Parece-me pouco alegre. D. nem criar impostos. nem dados.. não podia ter menos de cinqüenta anos. não! ele esperava isso como castigo de sua inconstância. era uma escala inteira que ele solfejava com bemóis. Carolina está ausente!. Ana achou a ocasião oportuna para ir dar ordens ao chá. como se pouca vontade houvesse nelas de dar o abraço. Batista acabava de dar fim ao jogo da palhinha e começava novo. Filipe ainda não gritou com a dor de nenhum beliscão.. pois outra vez?... quando um aborrecia. tinha o rosto muito vermelho. o jogo da palhinha... se são capazes. a décima urbana. tudo se faz em regra e muito direito. grande alemão para roncar!. ajuntava ao ridículo de sua figura muito espírito. como é seu velho costume. perderia metade de que vale. Estabeleceu-se um cordão sanitário entre a velhice e a mocidade. já faz dela idéia absolutamente diversa da que fazia ainda há poucas horas. passada meia hora.Quantos abraços!. Era um homem de estatura muito menos que ordinária. exceção de regra entre os mais. sem mais nem menos. D. A causa é outra: a alma da ilha de. no fim de cada jogo. principalmente aquelas que tinham trazido consigo moças. Tem-se jogado a palhinha doze vezes e em todas as doze tem a sorte feito com que Filipe abrace D. minha senhora.. porém. aquele corpinho. a interessante Moreninha é. Carolina (ele assim o pensa). se é inquieta e buliçosa. grandes inventores. e fazendo-se coradinha. enfim.de garrafas vazias.. na verdade. que tudo se lhe perdoa. ora isto!. e depois... O beija-flor nunca se mostra tão belo como quando se pendura na mais tênue flor e voeja nos ares.. cumprimentado e aplaudido as senhoras idosas que se achavam na sala. a Baco. Restavam quatro senhoras. Sr. havia. Será por que no tal jogo da palhinha tem por vezes ficado viúvo?. Os rapazes estavam nos seus gerais. a inquieta. se não estivesse em contínua agitação. D. não se rasgou ainda nenhum lenço. a Sra. Clementina e Fabrício D. que nos vieram ensinar os senhores franceses. qualquer das duas recua um passo. Entre os rapazes. que julgaram a propósito jogar o embarque.. Agora.Não joga mais. sem amar D.. gordo. Já se vê que D. a princípio. segundo ele. D. travessa.

Ana levou Augusto pela mão até ao corredor e depois o empurrou brandamente. tanta honra!. .Está fervendo!.. mostrando as flores. Carolina. Ana. . disse a Sra.Não está fervendo. D. e sacudindo-a: . que desprezava a sala. exclamou D. A Sra. .A Sra. vá vê-la e consiga arrancá-la de junto de sua ama. banhando- os com sossego. Pela sua voz conhecia-se que tinha chorado. e receba isso como a mais franca prova de minha estima para com o amigo de meu neto. este objeto era nobre. tão lindas. com presteza e alegria.. . D.O amigo de meu neto deve merecer minha confiança.. curvada aos pés de uma rude mulher. e depois abaixou-se no lugar da escrava. disse: . .. ou antes não sabia o que via.. pelo quarto em que padecia uma pobre mulher. a segunda era uma escrava que acabava de depor. a bacia em que Paula deveria tomar o pedilúvio recomendado. minha senhora. esta casa é dos meus amigos e também dos dele. objeto indiferente. puxou os pés da pobre Paula.. A porta estava cerrada.Afasta-te daí. Augusto não esperou ouvir nova ordem: e endireitou para o quarto de Paula. . disse ela. pondo a mão n’água. tirou-a de repente. Os últimos vislumbres das impressões desagradáveis que ela causara a Augusto. A escrava não obedeceu.. dá-lhe o escalda-pés! disse D. apertou-os contra o peito..Vá. nessa mesma água que fizera lançar um grito de dor à escrava. D... respondeu a menina. por isso não pôde suster-se e. junto do leito. tomou os pés de sua ama. que bateu com os pés de Paula contra a bacia. depois. respondeu ele. disse. sai. chorando. abriu sem ruído e parou no limiar.. quando aí tocara de leve com as suas.É a delicada borboleta deste jardim. de todo se esvaíram. tão grosseiras e calejadas!.Gosta de minha neta. Sr. minha senhora.Perdoe. .. . mergulhando suas mãos. Carolina. . Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a porta e por isso não viam Augusto: Paula olhava..Oh! seu rosto mostra não sentir o que me dizem seus lábios. se não padecesse. e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para não gemer. Acabou-se a criança estouvada. . assim disseram os moços.. D. A escrava tornou a pôr a mão e de novo retirou-a com presteza tal.Oh!. era um objeto triste e talvez ridículo..Na verdade que aqui não está tudo. A escrava abaixou-se. Tomásia. estou satisfeitíssimo. em que borbulhava o prazer.Minha senhora. Augusto? . era tocar-lhe no fraco. e começou a banhá-los. disse a menina com tom imperioso. Carolina está sem dúvida no quarto de Paula. se aqui lhe falta alguma coisa. Três pessoas havia nesse quarto: Paula.Anda. adiantando-se. Seu orgulho de avó acabava de ser incensado. mas não via. . arregaçando as mangas de seu lindo vestido. Mas o sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da piedosa menina já roxas. deve ser bem quente. tão finas.. Carolina. apontando para dentro.Ao contrário. . . deitada e abatida sob o peso de sua sofrível mona. o senhor estava aí? . ficou em seu lugar o anjo de candura. afasta-te.Vá buscá-la.Então que falta? .Estonteada!. Belo espetáculo era o ver essa menina delicada. A boa senhora riu-se com satisfação. .. a terceira era uma menina de quinze anos..

Não.Ela me deu de mamar. ainda bem. alto lá! no gabinete das moças..Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa..Experimente. depois de uma noite como a da véspera. minha senhora. no dos rapazes.. atirou-se entre Fabrício e Leopoldo e imediatamente adormeceu.. Um autor pode entrar em toda parte e.. ouviu-se a voz de: . . .Veja se eu sei dar um pedilúvio! E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula.. quando todos se achavam acomodados. A porta está aberta. quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia encarregar-se do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada. Os estudantes dormiram juntos.. . perturbava a ordem dos jogos. a passear pelo jardim.vamos dormir. . descansando nos braços do sono.. Mas que faz o nosso Augusto? Ri-se. A chegada de D. oferecendo a mão direita à bela Moreninha.. e cada qual tratou de fazer por consegui-lo.Obrigada! .Ela corre algum risco?. de volta do seu passeio noturno. não senhor. mas olhou-o com gratidão. enquanto D.Nenhum o fará com jeito. A bonita Moreninha tornou-se mais travessa do que nunca.Pois nem para escravo eu presto? . murmura frases imperceptíveis. não cumpria certos castigos que lhe impunham.O senhor falava de meus escravos.Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos a serem queimadas. confusa e apontando para a doente. e aceitando o braço do mancebo deixou o quarto de Paula. 15 Um Dia em Quatro Palavras Ao romper do dia de Sant’Ana estavam todos na ilha de. perguntou a menina. e como roncam!. disse o moço. . outras tantas rebelde. São seis horas da manhã e todos dormem ainda o sono solto. . .. não deu um só beijo e aquele que atreveu-se a abraçá-la teve em recompensa um beliscão. Carolina.A mim. junto dele. o olhava com ternura... não. era isso muito natural.. Ela não respondeu. Eis os quatro estudantes estirados numa larga esteira.E tenho testemunhado tudo! A menina abaixou os olhos. Finalmente. Carolina e Augusto lhes deu ainda dobrada viveza e fogo. Quando Augusto julgou que era tempo de terminar. . .. pois. os jogos de prendas tinham-se prolongado excessivamente.. . suspira.. Agora deixemo-la descansar. Com efeito. .Mas a quem encarregarei? .. O último que se deitou foi Augusto e ignora-se por que saiu de luz na mão. de modo que era preciso começar de novo o que já estava no fim. . a jovenzinha recebeu os pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos braços. em que tanto se havia brincado..Senhor!. disse: .Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse Augusto. mil vezes bulhenta.

as que mais apaixonados fossem da doce melancolia de certos semblantes em que a languidez dos olhos e brandura de custosos risos estão exprimindo amor ardente e sentimentalismo. E apesar do poder todo da cachaça do jogo. dá-se por acabado o jogo e a Moreninha. Corra-se. que se acusava de haver sido injusto para com ela. peste!. Uns conversavam. que o rosto chegou à distância de meio palmo e. não contente com as zombarias que faz ao homem que vela. quando eu sonhava com um anjo.. finalmente. jamais querendo. ir de um salto colher o voluptuoso beijo naquela boquinha de botão de rosa. e. quando se aproximasse o belo rosto.. com toda a força e estouvamento. colocava-se uma sentinela. de cada vez quer qualquer deles dava cartas.. Nunca também se havia mostrado a Moreninha tão jovial e feiticeira.. de quem ele teve até aborrecimento e que agora começa com os olhos travessos a fazer-lhe cócegas no coração. vinha terna e amorosamente despertá-lo. por exemplo. fazendo-se de grave. e como se o colega tivesse culpa de tal infelicidade. Oh! beleza! oh! inexplicável poder de um rosto bonito que. Carolina atira no meio da mesa do voltarete uma mão cheia de flores.. para. porém não havia quem resistisse à viveza de seus olhares. escondendo-se. ficava na mesa um lugar vazio e junto do arco da varanda. em vez de chamá-lo. alguém queria que ela tivesse maiores olhos. enquanto Filipe faz tenção de dirigir-lhe um discurso admoestador. ria-se ao ver as contrações que produzia a titilação causada pelo sopro. D. para tornar a aparecer logo depois.Sai-te daí. estava completamente restabelecida. D. bater com os beiços e nariz contra a testa de Fabrício. jurando não dizer palavra. Carolina nada iria melhor do que o prazer que nele transluz e o sorriso engraçado e picante que de ordinário enfeita seus lábios. que ele fingira continuar a dormir e ela se sentara à sua cabeceira. assoprando-lhe os lábios. sempre em brincadora guerra com todos e em interessante contradição consigo mesma. outros jogavam.. sempre quer. queria rir-se. fala. que. e ele. por graças e encantos que todos sentiam e que ninguém poderia bem descrever. graceja.. que. mas jurava-se que era encantadora. assentara de. ora. estava ardentemente desejoso de furtar-lhe um beijo. foi. que traquinas como sempre. além disto. dizendo: .. Eis uma deliciosa invasão!.. aproximava seu rosto do dele. deu-lhe dois empurrões. que às vezes passava com basto e espadilha e era codilhado todas as mãos que jogava de feito. Carolina brilhava no jardim e. porém. ela furta-lhe a espadilha e voa. A Moreninha já fazia travessuras muito especiais no coração do estudante. sua estimada ama. render-lhe toda a justiça.. dá um beijo em Fabrício. agora a observava com cuidado e prazer. em compensação. concordariam por força que no lindo rosto moreno de D. que olhava para o jardim. distraía- se com freqüência tal. ao sentir tão perto dos seus os lindos lábios dela. o ilude e ainda zomba dele dormindo! Estava o nosso estudante sonhando que certa pessoa. mas para isso boas razões havia: esse era o dia dos anos de sua querida avó e a pobre Paula. mais que as outras. . acordando-o pouco a pouco.. (aqui parou o sonho e principiou a realidade) e ele deu um salto e. acorda espantado e ainda em cima empurra cruelmente o mesmo a quem acaba de beijar.. É impossível continuar assim!. apresenta-se. mas que temia vê-la fugir ao menor movimento. A sociedade se dividiu logo depois em grupos. dois velhos ferraram-se no gamão.. Carolina. Augusto. para isso. Já se vê que o voltarete não podia seguir marcha muito regular. ela a um tempo solta um ai e uma risada. que ele. confessava-se que não era bela. em lugar de pregar um terno beijo nos lábios de D. dez moças entram de repente na varanda e num momento dado tudo se confunde e amotina. acordo-me nos braços de Satanás!. um véu sobre quanto se passou até que se levantaram do almoço.Então que é isso lá?. as moças espalharam-se pelo jardim e os quatro estudantes tiveram a péssima lembrança de formar uma mesa de voltarete.. não podendo mais resistir aos seus férvidos desejos.

minha senhora. os dois velhos deixaram o tabuleiro do gamão! Resuma-se alguma coisa. um instante despercebida.Sua prima. Leopoldo abaixou-se para levantá-lo e D. Carolina é muito rebelde. um outro moço serviu de escrivão.. . não.Basta! basta! Organizou-se o júri. Toda a companhia veio tomar parte naquele divertimento improvisado e até. .Certo que não. a menina travessa. Longo fora enumerar tudo o que se passou em duas horas muito agradáveis e por isso muito breves.Morreu a bela cativa!. a aurora e a rosa disputam sobre qual primará na viveza da cor. era mais um motivo para se tornar perjura. houve um conflito entre duas finas mãozinhas. dou a minha palavra. explique-se.. Quinquina. . aceito mas rogo um outro obséquio. acudiu D. Carolina. sentindo a mão da prima sobre a rosa. acrescentou D. Sra. será satisfeito. e enfim.Parabéns. O . Doutor! . disse Augusto. e com a sua foi acudir a esta. minha senhora! .. A idéia foi recebida com aplauso geral. curvou-se também e soltou logo um grito.Não. Augusto foi declarado suspeito na causa. . .Você jura obedecer?.Desafio-lhe a isso! respondeu-lhe a prima.à custa de um único sorriso. .. Fabrício foi encarregado da presidência.. .. Sr..Mas cuidado. . A sessão começou. .. Quinquina.. Quinquina. vamos levá-la ao júri. com um rápido movimento. e se fosse condenada não cumpriria a sentença.Que por ora lhe conceda seus cabelos por homenagem. .Tanto pior. Depois de uma meia hora de hábil afetação. Carolina está criminosa! disse D. e cinco moças saíram por sorte para juradas. querendo tirar uma linda rosa do cabelo. que se mostra tão vaidosa! . Carolina.D. . fez cair o leque de sua adversária.Eu juro por você. não é suficiente? .Protesto que a hei de furtar. não menos viva. Quinquina. As testemunhas foram D... e em resultado desfolhou-se completamente a rosa.Como?.Vai ao júri. faz as pazes com o irmão. já triunfou de uma de suas rivais! . Joaquina. que esta minha prima nunca entende as figuras do Sr. veio sossegadamente conversar junto de D.Qual?. quem o diria?!.É verdade. .Eu o encarrego com prazer da guarda fiel desta minha competidora. fingindo-se fatigada.. Augusto. Então começou uma luta de ardis e cuidados entre a Moreninha e D. Clementina terá de ser a relatora da sentença. eu guardarei a sua rosa. só Filipe se opôs. .. Clementina. disse ele. Aquela já tinha debalde esgotado quantos estratagemas lhe pôde sugerir seu fértil espírito. . .. .. para oferecê-la a Augusto. também. não haja quem liberte a bela cativa! disse Leopoldo. que.Pois bem. . morreu a pobre cativa!. conservava-se na defensiva. .Pois rejeita?.Pois bem.. . e Filipe foi escolhido para advogado da ré e Leopoldo da autora.Ó maninho! não diga isso.Ora. que deram provas de bastante espírito. que mutuamente se beliscaram. Gabriela e uma outra. D. e eu vejo que ela já tem presa no cabelo uma das duas rivais.Ó minha senhora! seria um cruel castigo para ela. D. gritaram as moças. seja o seu carcereiro! disse D. . perguntou ela.

depois.. procurou provar que D. disse a ré. Clementina. só o cometera a autora.. com razão. Carolina criminosa e a condenou a indenizar o dono da rosa com um beijo.Agradecida! disse ela com vivo acento de gratidão e estendeu sua destra para Augusto que. por último. minha prima. tome um beijo. que não houvera premeditação.. O velho lembra-se dos minuetes e das cantigas do seu tempo. perdoada. como dizer que não a quem pede como ela?. . Augusto. Carolina. estão no seu elemento: aqui uma. respondeu a autora. O júri declarou D. demonstrando que tinha havido a circunstância agravante da premeditação e que o crime se tornava ainda mais feio.. cônscia de seus encantos e beleza.Me perdoa?. Carolina. exclamou Augusto. Em um sarau todo o mundo tem que fazer. pois. que ela se enchera de zelos supondo. . ainda quando fosse a ré que desfolhara a rosa e mesmo dando-se o propósito de o fazer. por desconfiar que o zéfiro brincava mais com ela do que com seus olhos. e á tarde voltou-se aos preparativos do sarau. . aproximou-se de Augusto e. se havia crime. O debate dos advogados esteve curioso. de telhados abaixo.interrogatório de D. os mais intrincados negócios. O diplomata ajusta. Carolina estava. e que. que já na tarde antecedente jurara a perda daquela flor. como resistir ao seu sorriso?. .clamaram de todos os lados.Para fazer tal. tornou a perguntar com meiguice e ternura: . que tanto a venciam em rubor e viço. não carecia eu de sentença do júri. As juradas recolheram-se à toilette e cinco minutos depois voltaram com a sentença. o dono da rosa é o Sr.. 16 O Sarau Um sarau é o bocado mais delicioso que temos. todos murmuram e não há quem deixe de ser murmurado. De rosa fez-se então o rosto de D. e o moço goza todos os regalos da sua época. . tomou entre as suas aquela mãozinha de querubim e fez estalar sobre ela o beijo mais gostoso que tinham até então dado seus lábios..O senhor me perdoa?. porque a ré não quisera matar mas. por prender uma inocente flor.. colocando-a tão perto de suas faces. com um copo de champanha na mão. Filipe não se deixou ficar atrás. as moças são no sarau como as estrelas no céu. que o ciúme da ré era tão excessivo. dever-se-ia atribuir tal ação à piedade. por ser causado pelo ciúme.Porém. enfim.Não é a mim que o deve dar. Mas a menina parecia contar com o poder de seus lábios. A manhã deste dia foi assim passada. por lhe ser dada por uma moça bela como a autora e. pois que D.Não! não! . D. que. que foi lida por D.O beijo! o beijo! gritaram as juradas. Argumentou dizendo que era impossível decidir que mão tinha dado a morte à bela cativa. Leopoldo acusou a ré. Quinquina a estava matando pouco a pouco com o veneno da inveja. porque.. . que Augusto desse subido valor à rosa. disse: . não podendo ceder tudo com tão criminoso desinteresse.. sim libertar. Carolina fez rir a quantos o ouviram.Não! Não! Não! . cantando suave cavatina.. com seu sorriso feiticeiro e irresistível nos lábios. sorrindo-se ainda do mesmo modo. Você deu sua palavra! Ela hesitou alguns momentos. queria ser senhora absoluta de todos os corações e até de todos os seres. eleva-se vaidosa nas asas dos aplausos. entusiasmado.. ..

o elevado colo de alabastro.Não. vermelho de despeito e aturdido com um beliscão que lhe dera Leopoldo. no sarau não é essencial ter cabeça nem boca. Finalmente.Juro.por entre os quais surde. que deixou cair pelas costas: não quis adornar o pescoço com seu adereço de brilhantes. Augusto poderá dizer se ontem pediu-me ou não a terceira contradança? . por não ser sobejamente comprido. Enquanto as outras moças haviam esgotado a paciência de seus cabeleireiros. . .. disse Fabrício ao ouvido de Leopoldo. tornou D. pensar pelos pés e falar pelos olhos. já estava engajada para doze quadrilhas. e que ela leva aos pequenos que.. mesmo na ocasião em que a moça se espicha completamente. repetiu pela quarta vez aquele. Outras criticam de uma gorducha vovó. numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa. Terminam sem dúvida a sua prática.Com muito prazer. vamos ouvi-los. que até pecava contra a moda reinante. Os dois estudantes aproximaram-se de Augusto. é inútil qualquer juramento de homem. . Vamos apreciá-lo. lhe ficaram em casa. há cinco minutos que já estava engajada até a duodécima. . mais a compasso que qualquer de nossos batalhões da Guarda Nacional.Está na verdade encantadora!. um bravíssimo inopinado.. às vezes. se deslizando pela sala e marchando em seu passeio. minha senhora. que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto.Leva de tábua. . durante ele. . para mostrar. Mas a jovenzinha pensou um momento antes de responder ao pretendente. nem com seu lindo colar de esmeraldas. arrebatou todas as vistas e atenções. Carolina. que senta-se ao lado. E vindo assim aparecer na sala. dir-se-ia que o gênio da simplicidade a penteara e vestira. Entre todas essas elegantes e agradáveis moças. para alguns é regra. mas simples vestido de garça.Oh! lá vai ter com ela o nosso Augusto. pelos braços de seus pares.Mas. Hábil menina é ela! nunca seu amor-próprio produziu com tanto estudo seu toucador e. depois das . Carolina dividiu seus cabelos em duas tranças. todo nu. posto em tributo toda a habilidade das modistas da Rua do Ouvidor e coberto seus colos com as mais ricas e preciosas jóias. que com aturado empenho se esforçam por ver qual delas vence em graça. contudo. para ostentar as longas e ondeadas madeixas negras. encantos e donaires. senhoras e senhores. que acabava de rogar à linda Moreninha a mercê da terceira quadrilha. se um atento observador a estudasse.Danças com ela? perguntou Leopoldo. princesa daquela festa. que ensaca nos bolsos meia bandeja de doces que veio para o chá. balbuciou Augusto.Basta! acudiu Fabrício interrompendo-o. em belo contraste com a alvura de seu vestido branco. daí a pouco vão outras. .É verdade. que solta de lá da sala do jogo o parceiro que acaba de ganhar sua partida no écarté. recomendáveis por caráter e qualidades... disse Fabrício. ao mesmo tempo que conversam sempre sobre objetos inocentes que movem olhaduras e risadinhas apreciáveis. descobriria que ela adrede se mostrava assim. depois riu-se e respondeu a Augusto: . Inúmeros batéis conduziram da Corte para a ilha de. porque. desafinando um sustenido. vestiu um finíssimo. alegre.. é a mesma que eu lhe havia pedido. tendo os olhos pregados na sinhá. . olhou para Fabrício e com particular mover de lábios pareceu mostrar-se descontente. e que seu pecado contra a moda reinante não era senão um meio sutil de que se aproveitara para deixar ver o pezinho mais bem- feito e mais pequeno que se pode imaginar. diz.. que tanto a formoseia. Não importa.. E o mais é que nós estamos num sarau. Sobre ela estão conversando agora mesmo Fabrício e Leopoldo. certo que sobrepuja a travessa Moreninha. Ali vê-se um ataviado dandy que dirige mil finezas a uma senhora idosa. Porém. e agora só acabo de ratificar uma promessa: o Sr. D.

As filhas deram carreirinhas ao som da música.É não dizer o que sinto.. mas..Pois bem. Agora são quatro horas da manhã. dirigindo-se à sua mana. que diz ele?..Acabe. entrando no toilette. eu. minha senhora? . falaram em política e reqüestaram as moças.. já idosas..Agradeço-lhe a condescendência com que ia tomar parte na minha mentira. tocou em todos os doces.. quero antes dançar com qualquer. e. que tinha iludido o primeiro..Ofendeu-lhe.. mas.Fala tantas vezes em amor. como todos os outros. as mães.Meu Deus! é um crime que eu tenho estado bem perto de cometer! .Antes dos seus olhos. ninguém cuidou do futuro. erguendo-se.. foi preciso que a Sra...É possível?!. E assim tudo mais. os moços aproveitaram o presente.. obrigou alguns moços a tomá-la por par e até dançou uma valsa de corrupio. . .Cuidado. vamos ouvir quatro belas conhecidas nossas. .. . os casados trabalharam por esquecer-se dele. . . levaram todo o tempo a endireitar as toucas e comer doce. as senhoras ouviram finezas. . D. tomou o braço de Augusto. Violante fez o diabo a quatro: tomou doze sorvetes. foi necessário que eu praticasse assim.. os convidados vão retirando-se e nós. Carolina.. .. Tudo esteve debaixo destas regras gerais. diz-me coisas que não quero saber.Ainda há pouco ia jurar falso. . . Sr. exclamou D. não sei mentir. alguns momentos mais e serei réu como Fabrício.Pois será preciso dizer que a detesto?. Aproveitando o passeio. . comeu pão-de-ló. Augusto! lembre-se da contradança! . Augusto lhe fez uma declaração de amor?. D. que conversam com ardor e fogo. Quinquina. .. . pois é verdade que esse Sr. receberam cumprimentos por amor daquelas. o rapaz é incorrigível. e temendo que daquela ocorrência tirasse este alguma explicação lisonjeira demais.Basta não dizer que me ama. Augusto apaixonou-se por seis senhoras com quem dançou. .palavras de uma senhora.. minha senhora. as avós. é um sarau.Nas palavras de um anjo ou de uma.Misericórdia! eu não falei em amor!. por não ter que fazer nem que ouvir. Fabrício e Leopoldo retiraram-se.. disse: . quis aplicar um corretivo e... do que com aquele seu amigo. A interessante D.. Os homens jogaram. Carolina sempre dançou a terceira contradança com Augusto.. foi esta a única razão. não quis passear com o estudante..Então. trataram de modas e criticaram desapiedadamente umas das outras..Perdeu a terceira contradança.Mas eu temo perder a minha contradança.Certo que não. como nenhuma. a tirana princesinha da festa esteve realmente desapiedada. só resta dar conta das seguintes particularidades: D. basta dizer o seguinte: Os velhos lembraram-se do passado. . É preciso antecipar que nós não vamos dar ao trabalho de descrever este. . o sarau está terminado.A culpa será de seus lábios. Os solteiros fizeram por lembrar-se do casamento. .Tentaçãozinha.. Ana empenhasse todo o seu valimento. Neste momento a orquestra assinalou o começo do sarau. . vendo brilhar o prazer na face de Augusto. para isso.

.... D.. ridicularizemo-lo como for possível.. quando um suspiro as suspendeu. uma prenda.. Gabriela.Então. ... Gabriela. mais alguém estava no toilette. ...Por nós quatro. Joaninha...Pois tiremos por sorte! A idéia foi recebida com aprovação e a sorte destinou para secretária D. o próprio que afirmou ser-lhe impossível viver sem alentar-se com a esperança de possuir-me... bradou D. . ..Oh! que moço abominável!. maninha?. que me jurou ser a mais bela a seus olhos e a mais cara a seu coração.. Clementina que.. disse.. disse D. Cada uma lhe pedirá um anel de seus cabelos. As quatro moças iam sair.. Com efeito. Asseverou que meus olhos pretos davam à sua alma mais luz do que a seus olhos todos os candelabros da sala nesta noite.. ....Vejam como ela dorme!.Deus me defenda!. quer ser apenas .Então.Eu não. e mesmo do que o sol.. .. . .. voltou- se para o fundo do gabinete e o susto para logo se dissipou.Bravo! então escreva. escreva você. e ousou dizer-me que me amava com tão subida paixão que.Uma idéia!. recostada em uma cadeira de braços.Deus nos livre! à vista de tanta gente!. ponhamo-lo doido. tornou D.Uma jovem que vos ama e que de vós escutou palavras de ternura. medrosa de que uma testemunha tivesse presenciado a cena que se acabava de passar..E havemos de ficar assim?. desmascaremo-lo. obriguemo-lo a dizer qual de nós é a mais bonita.Não. Joaninha. porque das virgens do céu somente se beija os pés. que tem boa letra. por meia hora ainda. Saiamos.. porque eu sabia ferir corações com minhas vistas e curar profundas mágoas com meus sorrisos!.. palavras dele. Ao raiar da aurora a encontrareis no banco de relva da gruta.Sim.Bem.Muito bem pensado! vamos! . quando e onde? . palavras dele. seja a zombaria completa: escreva-se uma carta anônima. convidando-o para estar ao romper do dia na gruta.. . . se fora por mim amado e pudesse desejar e pedir algum extremo. ele mesmo. vamos ter com ele.. . D. . sede circunspecto e vereis a quem.. talvez por outras mais.Apaixonado?!. por sua vez.” .Qual! se ele está apaixonado!.......Que insolente!. Quinquina. porque meus cabelos eram fios d’ouro e a cor das minhas faces o rubor de um belo amanhecer!. disse. Carolina estava profundamente adormecida. Clementina.....Como se estará ele rindo!.. .. .. . acudiu D... Quinquina.Uma incógnita. . não me pediria como as outras. uma lembrança..... . nos dias mais brilhantes. . ele pensa assim. . escreveu sem hesitar: “Senhor: . eu me encarrego de fazer-lhe receber a carta.. para beijar-me a face.. palavras dele.Como quer que lhe diga. escreva. palavras dele. e de joelhos!.Pois troquemos os papéis: finjamos que estávamos tratadas para desafiar-lhe os requebros.Que maldito brasileiro com alma de mouro!. . .. nenhuma escreve...Isto é nada para quem não tem vergonha!.Que atrevido!. D. E por quem? . tem um segredo a confiar-vos.. D.. tirando de seu álbum um lápis e uma tira de papel..Mais isto é um insulto feito a todas nós! . .

. encantadora no mole descuido de seu dormir: à mercê de um doce resfolegar. a tornavam mais feiticeira que nunca. . A Moreninha se mostrava. seu pezinho bem à mostra. Clementina não pôde resistir a tantas graças.. se é que o anjo realmente dormia... suas tranças dobradas no colo. Carolina. suas pálpebras cerradas e coroadas por bastos e negros supercílios. dois rostos angélicos se aproximaram. Um beijo tinha despertado um anjo. na verdade. quatro lábios cor-de-rosa se tocaram e este toque fez acordar D. seus lábios entreabertos e como por costume amoldados àquele sorrir cheio de malícia e de encanto que já lhe conhecemos e. os desejos se agitavam entre seus seios. correu para ela. finalmente. D.

o certo é que o estudante.Uma incógnita” . então correu logo para um lugar solitário. disse D. porém sim conhecidas.. que estavam todas sentadinhas no banco de relva. que pretendem zombar de vós...As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que me entusiasmo vendo quatro auroras. Quinquina. como quatro pombas-rolas enfiladas no mesmo galho. achou o interessante escritinho. mas de vazar as algibeiras da gente. que tinha entre os lábios o copo de prata.Oh! se ele vier! . é coisa que pouco interesse dá. em lugar de uma só! Belo amanhecer é este. e até passou os dedos por sua basta cabeleira.. sorvendo uma boa pitada de rapé. meu Deus. foi de mansinho se aproximando.Ei-lo aqui. Joaninha. .Principie você. estou exatamente representando um papel de romance! mas quem sabe se ainda acharei mais cartas?.. As moças. porque esta mesma noite jurastes amar a cada uma delas em particular.. era isso mesmo o que ele queria. “Senhor: . . disse Augusto beijando o bilhete. exposto ao fogo abrasador de oito olhos brilhantes... minhas belas senhoras.Uma moça.. e depois entendeu que. que nem é bonita nem namorada.. deveria avivar o cérebro. apesar de ser vossa amiga. ainda com o lenço acudiu a tempo. lançou a mão ao segundo bolso de sua jaqueta. sem esquecer o do relógio. Gabriela. eis-me aqui!. Augusto correu para a gruta encantada. também duas cartas tão curiosas já eram de sobra em uma só noite. Não procureis adivinhar quem vos escreve... para melhor decidir o que lhe cumpria fazer naquela conjuntura. . Portanto. sem dúvida. temíveis mãozinhas seriam estas. sentiu o rumor e ouviu que alguém dizia em tom baixo: . presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo de cabelo que lhe escondia as orelhas. indo tirar o lenço para assoar-se... mas. quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte. E nisto pensando. Bem! bem! melhor.. Eis ali uma fonte. que entendeu não lhes dever nunca dar tempo a tomar a ofensiva. enfim. E sem mais dizer. .Bravo! exclamou o nosso estudante. O estudante pensou no conteúdo de ambas e ainda reflexionava se lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças.. uma gota desta linfa de fadas!. se se dessem ao exercício não de encher. que ele adivinha quais eram. porque. abriu e leu o escrito. mana? exclamou D. nada mais havia. ergueram-se sobressaltadas ao ver entrar inopinadamente o estudante. Quinquina ou se foi ela mesma quem pôs a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto. juro que tenho sede. . foi correndo um por um todos os bolsos dos seus vestidos. Mas. apontando para Augusto. entende dever prevenir-vos que no banco de relva da gruta não achareis ao amanhecer uma incógnita... 17 Foram Buscar Lã e Saíram Tosquiadas Se houve alguém que quisesse servir a D. mas que quer interessar-se por vós. e só depois de devorar o convite sem assinatura foi que lembrou-se que ainda não se havia assoado e que o pingo estava cai não cai na ponta do nariz. é a fonte encantada que descobre os segredos de quem está conosco!.É preciso decidir-nos a começar. e eis que lhe sai com a caixa do bom Princesa um outro escritinho como o primeiro. eu me sinto arder. Chegando ao pé.. serei por agora . disse D.. Porém...Muito bonito! muito bonito!. exclamou o estudante.O que é que ele está dizendo. pois continuou: .

sou eu que o tenho.. . .A senhora mesma. quer mais alguma coisa ainda e me dá uma cruel missão! ordena-me que eu diga a cada uma de vós.. disse. Joãozinho. estais incursa em igual delito.Impossível! balbuciou D.. murmurou D. . trocou-as e deu. recuando. D..Ora.. enquanto vos falar inspirado por um poder sobrenatural.Sois sobremaneira delicada. Ela não podia encontrar o escrito.Oh! não vos impacienteis. algum segredo do fundo de vossos corações. uma vendedeira de empadas. passando junto das três companheiras. que ingratidão!. a fada que preside àquela fonte.Eu não. a. . em particular. que se encarrega de vossas cartas. para bem perto do lugar encantado. à mercê de sua água. Então o estudante.Senhor!.Vós. Sra. Augusto já estava falando em voz baixa a D... para melhor provar os seus encantamentos. boa fada! Quem será?. e começo por dizer-vos que aquela fonte é realmente encantada. . senhora..Começo eu. quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de aceitar a minha mão até à porta da gruta?.. D.Mas. na hora de minha partida para a Corte. se bem me lembra a fada. Juca e a de lacre verde ao Sr. desgraçadamente.. porque pelo jardim talvez estejam passeando alguns profanos. qual de vós quer ser a primeira?. .Eu?! respondeu a menina.. senhora. eu tenho. toda vergonha e acanhamento. enganou-se na entrega de duas. . vinde. Perdoai e consenti que vos trate assim. só olhais como real a galanteria.Ele está mangando conosco. comece você.. voltou-se para elas.Sr. ... Clementina. e dando a seu rosto uma expressão animada e às suas palavras estudado acento: . porém.. senhora. Gabriela. Gabriela pôde apenas dizer-lhes: . . Iluminai-me. pois só por cartas vos correspondeis com cinco mancebos.. que sou a mais moça. . .Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender... .. que vos foi entregue no momento de vossa partida para esta ilha.Pois não quereis ouvir mais nada?. adivinhado belos segredos: escutai vós. ouvi. agora silêncio.Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. Qual de vós quer ser a primeira?. ainda não amastes a pessoa alguma. . . Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar de mim.. Eu não ouso falar alto. eu vos poderia perguntar como o poeta: Assim se paga a um coração amante?! . disse Augusto. Será. a fada mo deu há pouco com sua mão invisível.. Nenhuma se moveu... eu lho rogo que me dê esse papel. mas dê-me o que lhe pedi. Então os dois se dirigiram para fora. sim.. senhora. Escolherei. Vós não achareis em vosso álbum o escrito desesperado do Sr.Eu não.. . Há quatro dias.. . vós quereis zombar de mim.Com muito prazer.. este excesso vos deve ser nocivo. trazendo-a pela mão para junto da fonte. que tinha acabado de esgotar o seu copo d’água.. disse então. Pois bem. com uma condição. a de lacre azul ao Sr.. por haver amado a todas vós numa só noite. ora. recorrendo ao seu álbum. é preciso obedecer. todavia. senhor! quem lhe contou essas invenções? .Pode dizê-la... quereis provas?. Augusto. porque vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais três companheiras vossas e. para vós amor não existe: é um sonho apenas.A fada! e fez mais ainda. . Gabriela. Gabriela. . minhas senhoras..Daqui a pouco. Joãozinho.

mas daí a um quarto de hora essa mesma flor. tomou a de moço.. Augusto começou: .Eu me explico: o Sr. .. no palpitante seio. eu poderia dizer-vos. D. poderei gozar o prazer de conduzir- vos até à porta da gruta?. conversando com o Sr. porém.. deixando cair uma lágrima na mão de Augusto. Lúcio..Obrigada.Minha senhora.. contou-me que no baile desta noite. e quando viu o Tobias. Lúcio. Lúcio queria esse cravo. que não tomeis sorvetes. . seria uma lágrima se o relento da noite não molhasse também a rosa. tudo era verdade. como lhe é dado tomar todas as figuras. Augusto chegou-se a D. vos pediu esse cravo.. .A fada. senhor?. ouviu quanto dissestes e. balbuciou. . enfim. este lhe daria por senha as seguintes palavras: sete botões. não foi assim? D. por nome Tobias. que vós sois como as outras de vossa idade. sentados em um banco e com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo. que leva o seu despotismo amoroso ao ponto de exigir que não valseis. porque. lhe levaria a flor. muito notável. . disse sete botões.Pois bem. deveria ir parar no bolso de um belo jovem. ei-lo aqui!.Bem! então consentireis que eu a traga esta manhã no meu peito?. Quinquina. mas vós lho não podíeis dar. Não é possível bem descrever a admiração das três. porque o velho militar não tirava os olhos de vós. o que diante delas se passava pedia uma explicação que não estava ao seu alcance dar. . não poupe as outras. tão ternamente aceita. as moças tinham perdido toda a força. ora.Senhor!. respondeu D. . acordastes ambos que ele iria esperar um instante no jardim e que um pequeno escravo.. espero que me faça a justiça de crer que fico extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo a glória de acompanhá-la. a fada esteve recostada a essa janela. e como o tal Tobias ainda não conhecia o Sr. fingindo-se zeloso. se acaso não fosse roubada pela fada que preside esta fonte. Chegando à porta. O senhor coronel ainda se não retirou e.Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo. mas eu vejo que vossa face está umedecida. que não deis dominus tecum quando ao pé de vós espirrar algum moço e que não vos riais quando ele estiver sério. . é chegada vossa vez. senhora. Augusto falou já em outro tom: . não é verdade? Pois o Sr.Isto é uma invenção. Quinquina guardou silêncio.. eu não conheço essa flor. . mas para tal saber não precisava eu beber da água encantada. Quinquina.. podia também gastar meia hora em falar-vos do vosso galanteio com um tenente da Guarda Nacional.Por nome Gusmão. eu a mostrarei. Lúcio viu ser dado e recebido o presente e.Isto se passou estando vós na grande varanda. ouvi mais.Até logo.. .Eu vo-lo darei na hora de minha partida. por nome Gusmão. Se não confessais. foi ao jardim. isso não é comigo. com gesto apaixonado. vós recebestes da mão dele um lindo cravo e a seus olhos o escondestes.... ela estava cor de nácar. . dizei.Quem lhe disse isso. Quereis descansar. e tomando-lhe a mão.Perdoe-me. . Quinquina deixou-se levar para junto da fonte. . passeando com um velho militar. mas sabe o que ainda tenho de fazer.. Gabriela..Senhora. Dê-me esse maldito cravo. havia sete flores em botão. D. Ora. Augusto prosseguiu: . . sem dúvida. chamado Lúcio. ora.Minha senhora. tão volúveis como eu. e ainda me disse mais: por exemplo. basta.. e o cravo foi logo da fada e é agora meu. pelo que me conta a boa fada. disse: .. senhora. . além da flor aberta.Basta..

Então dir-vos-ei o que mais vos interessa. exclamou D..A fada.Senhor. disse Augusto. se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco se passou.Não as tenho eu bastante.. o que convosco conversou o meu colega Filipe. senhor!? . um pouco excessiva em exigências. senhora. ei-la aqui. e essa trança pára..Sim. quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim somente? Augusto ia falar. senhora: quer que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel.Então. eu agradeço o benefício que recebi. senhora. Augusto? . como as duas primeiras. e sou eu que lhe peço que me acompanhe até à porta da gruta. quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos negros. . e até que não fume charutos de Havana nem de Manilha. todavia.. eu lhe peço que ma dê. que passe por defronte de vossa casa quatro vezes por dia. Joaninha com sentimento.Que quer dizer. . quereis saber mais alguma coisa? . Vós quatro queríeis zombar de mim.. Sois. Duas guerreiras tinham sido batidas. a quem dais a honra de chamar querido primo.. . só a curiosidade retinha as outras: Augusto se chegou para elas e falou a D. . porque a vós é que eu mais admiro.É uma vil traição! .. a respeito da perda de certo objeto. . . .Eu não preciso saber nada disso.. senhoras. .Quer. estes são meus. Sr.Quereis fatos de anteontem ou da noite passada.Venceu. Augusto!. Só restava D. senhora? . quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro vezes por semana.Eu estou pronto. senhora. Joaninha. em minhas mãos.Senhora. que sabe que amais a um moço. Clementina: . . sossegarei mesmo os vossos cuidados e os do Sr. mas só na hora de minha partida.Quem lhe disse isso. porque vós sois exatamente a única dentre elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido. pelo menos. era a vez dela.Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada... ela o interrompeu. não concebo até onde iria a vossa vingança. .Não. Filipe. senhora. que não sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas.Eu não entendo o que o senhor quer dizer. hoje.Eu estou pronto a obedecer-vos. . o senhor quis zombar de mim. eu vos explicarei isto.Eu já sei que o senhor sabe demais! . que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que freqüentais. . oferecer-me a mão e obrigar-me a desamparar o campo? . . . . para servir-vo em tudo.Pergunto.Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis? . por ser falta de patriotismo. senhor. foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão. e o estudante começou: .. como das outras. senhor. quando tomáveis chá? .Oh! dê-ma.Que quereis muito. preciso de reféns que assegurem a paz entre nós.Eu vos deixei para o fim.. . Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte.Sr. .Agora nós... e ainda mais.

Vieram buscar lã e saíram tosquiadas! E já estava para pôr o pé fora da gruta. Augusto ficou só. balbuciou o estudante. Augusto.Minha senhora!. senhor! eu posso apenas agradecer-lhe. creio. ao menos para ouvir por mais tempo os vaticínios e palavras de tão amável Sibila.. ela prosseguiu: . Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso. foi de idade de treze anos. . permita que eu entre só em casa. confuso. disse ela. Augusto lhe ofereceu o braço.Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro senhoras. .Agradecida. A menina fingiu não entender a alusão e continuou: . Carolina estava. vós amastes muito cedo.Amastes. disse: ... dizendo: . do presente ou do futuro? . finalmente disse.E quem era ela? como se chamava? perguntou Augusto com fogo. dizendo que tenho tanta confiança na sua discrição e no seu caráter. uma outra toma o cuidado de vingá-las. a uma menina de sete anos.Senhor. D.Pois então principiemos pelo passado.Que cruel juízo! . estou dentro do vosso espírito e de vosso coração! . que também não sabeis quem era essa menina e só a conheceis pelo nome de minha mulher. que cedo começava a fazer loucuras.Agora.. esmeralda. camafeu. fosse daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às vezes. com efeito. quando uma voz branda e sonora o suspendeu. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que acabava de ter lugar. estou vendo tudo.Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo. A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d’água e depois. ao contrário... Augusto recuou um passo.. por certo. adivinhando e podia dizer-lhe o que ele mesmo ignorava. porém. Joaninha ia deixar a gruta. Sr.. mas basta de vossa mulher. atalhou o estudante. eu estou lendo no livro da vossa vida.Quereis que vos fale do passado.Prossiga.Oh! sim. é chegada a sua vez.. e depois assim: . talvez pensando que D. soltando uma risada: . . que se achava junto dela.De todas essas épocas.mas não o fez. talvez. Oh! que belas revelações me fez a fada! Sim. sim. . 18 Achou Quem o Tosquiasse Escutando aquelas inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição em que ele tinha colocado as quatro moças. com quem brincastes à borda do mar. estudante.Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha. Sr. .. que. que nem mesmo lhe recomendo o cuidado do meu segredo. sei amar até o extremo. a fada só me diz o que se passou em vosso coração e vós. Adeus. . minha senhora! . Augusto voltou-se de repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha. . sim. eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la em meu auxílio. imitando o estilo de Augusto. permiti que vos diga que mostrava ser uma criança doidinha. que enchia o copo de prata. eu juro que isso é verdade. atalhou em princípio uma grande enfermidade. D.

- Oh! não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção a vós, porém, vamos acabar com o
vosso passado. Houve um tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas,
e por justo e bem merecido castigo fostes desgraçado: todas elas zombaram de vós!
E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.
- Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.
- A primeira jovem que reqüestastes foi uma moreninha de dezesseis anos, que jurou-vos gratidão
e ternura, e casou-se oito dias depois com um velho de sessenta anos! não foi assim?
E a menina, de novo, desatou a rir.
- Minha senhora, de que gosta tanto?
- Ora! é que a fada está-me dizendo que ainda em cima vossos amigos, quando souberam de tal,
deram-vos uma roda de cacholetas!
- Então a Sra. D. Ana lhe contou tudo isso?
- Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes objetos. Consenti que eu continue.
A segunda foi uma jovem coradinha, a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre
menino com quem ela se divertia nas horas vagas, não foi assim?
- Prossiga, minha senhora.
- A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente, tanto de um primo que tinha, como
de vós. Eis alguns de vossos principais galanteios. Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente
tocado das leras e da música de certo lundu que se vos cantou, tomastes outro partido e desde então vós
pretendeis fazer-vos passar por borboleta de amor.
- Borboleta?!... Sim... sim... lembro-me agora que a senhora passeava pelo jardim. Já sei de
quem foram certas carreirinhas e, portanto, compreendo que sabeis tudo à custa...
- À custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque vós estais bem certo de que eu
devo saber ainda muito.
- Sim, mas diga sempre.
- Não, antes quero falar-vos do vosso presente.
- Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes ao que eu não sei, vamos ao meu
futuro.
- Sois sobejamente sôfrego! não vedes como isso vai contra a boa ordem da narração?
- Mas a desordem é hoje a moda! o belo está no desconcerto; o sublime no que se não entende;
o feio é só o que podemos compreender: isto é romântico; queira ser romântica, vamos ao meu futuro.
- Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como pretendia fazer, se falasse do presente de
vossa vida, dizendo-vos que vós não sois inconstante como afetais.
- Misericórdia!
- Mas que estais a ponto de o ser: digo-vos que perdereis uma certa aposta que fizestes com três
estudantes.
- Como é isso? Então a senhora sabe...
- A fada, que me revelou isso, leu a termo na carteira de quem o guardou.
- A fada? sim, a feiticeira o leu... Compreendo.
- Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje cultivado com religioso empenho o amor de
vossa mulher; mas vós ides ser, porque não longe está o dia em que a esquecereis por outra.
- A culpa será dos olhos dessa outra; porém, quem sabe?...
- Desejo que não; contudo, eu já vos vejo em princípio e temo que vades ao fim; sereis perjuro,
tereis de escrever um romance e perdoai-me se vos desejo este mal: eu quisera que ao pé de meu irmão,
que vos apresentará o termo da aposta, aparecesse a vossos olhos a mulher traída. Do vosso futuro eis
quanto me disse a fada.
- E disse bastante para me confundir.

- Quereis que vos fale agora de vosso presente?
- Oh, se quero! No presente está a minha glória.
- Ontem, no baile, dissestes palavras de ternura pelo menos a seis senhoras.
- Esta agora é melhor! e quem o pôde notar?
- Provavelmente a fada vos observava.
- Então a fada, a feiticeira fazia isso?
- Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.
- Que mãos delicadas...
- Não mo sabe dizer a fada; porém, vós viestes para esta gruta acudindo a um convite e fingistes
adivinhar segredos de corações. Não era verdade: a fada nada vos revelou; o que dissestes sabíeis antes
e a fada me disse como.
- Explique-me, pois, minha senhora.
- Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café nas calças, vós fostes mudar de
roupa e entrastes para o gabinete das senhoras; lá ouvistes tudo o que afetastes adivinhar há pouco.
- E quem me viu entrar?
- A fada, sem dúvida. O cravo de D. Quinquina fostes vós que recebestes no jardim; na noite dos
jogos de prendas, fostes vós ainda quem, com uma luz na mão, procurou e achou a trança de cabelos de
D. Clementina, embaixo da quarta roseira da rua que vai para o caramanchão.
- Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto cuidado?
- A fada, que, segundo penso, vos tem sempre seguido com os olhos.
- A fada?!... a feiticeira me segue sempre com os olhos?!... Oh! como sou feliz!... a feiticeira é
a senhora!
- Senhor! sois pouco modesto; que me importariam vossos passos e vossas ações?...
- Perdão! perdão!... eu sou um tresloucado... um incivil... um doido... não sei o que faço, nem o
que digo; mas continue...
- Basta! vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui.
- Não! não, minha senhora! é preciso dizer-me mais alguma cousa ainda!... por força a fada lhe
deveria ter revelado! ela, que adivinha tudo o que está dentro do meu coração, digo o que ainda se passa
nele.
- Nada mais de disse.
- Beba outro copo d’água...
- Não julgo necessário.
- Pois então...
- Cumpre retirar-me.
- Não, por certo! perdoe-me minha senhora, mas eu devo descobrir todos os meus segredos a
quem conhece tão boa parte deles.
- Eu me contento com o pouco que sei.
- Ouça uma só palavra...
- Não sou curiosa.
- Pois a senhora...
- Sei que sou senhora, mas sou exceção de regra; não quero saber.
- Embora, eu lhe direi ainda contra a vontade...
- E para isso toma-me a saída?...
- É só para dizer que eu amo...
- Já sei, a sua mulher.
- Não é isso: a uma bela moça...
- Ela o deve ser agora.

- Muito espirituosa...
- Já ela o era em criança.
- E que se chama...
- Ah! espreitam-nos da entrada da gruta?
Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha; não aparecia pessoa alguma;
compreendeu então que fora ainda um meio de que se lembrara D. Carolina para não deixá-lo concluir
sua declaração e, disposto a lançar-se aos pés da menina, voltou-se já com o nome da bela nos lábios e...
D. Carolina tinha desaparecido da gruta.

19

Entremos nos Corações

O que é bom dura pouco. As festas estão acabadas; nossas belas conhecidas bordam; nossos
alegres estudantes estão de livro na mão. Mas, pelo que toca a estes, qual é, digam-me, qual é o estudante
que, depois de uma patuscada de tom, não fica por oito dias incapaz de compreender a mais insignificante
lição? Isto sucede assim; essa pobre gente vê, por toda a parte, e misturando-se com todos os
pensamentos, no livro em que estuda, nas estampas que observa, na dissertação que escreve, o baile, as
moças e os prazeres que apreciou.
O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as lições e impertinente com tudo. Rafael
é quem paga o pato; se o inocente moleque lhe apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia de bolos,
porque quer ir vadiar pelas ruas; se no dia seguinte se demora só dez minutos, leva dois pescoções, para
andar mais ligeiro. Não há, enfim, cousa alguma que possa contentar o Sr. Augusto; está aborrecido da
Medicina, tem feito duas gazetas na aula; de ministerial que era, passou-se para a oposição; não quer
mais ser assinante de periódicos, não há para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo; aborrece a
Corte, detesta a roça e só gosta das ilhas.
Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e um pouco menos carrancudo, porque
Leopoldo, o seu amigo do coração, o acompanha e tem a paciência de lhe estar ouvindo, pela duodécima
vez, a narração do que com ele se passou na ilha de...
Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta, entre ele e a bela Moreninha,
porque Leopoldo lhe perguntou:
- E por onde fugiria ela?...
- Por uma difícil saída que eu não havia observado, respondeu Augusto, e que exatamente se
praticava no fundo da gruta.
- Que diabinho de menina!
- Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela, quando eu entrei na sala, me perguntou
sossegadamente: “Esteve dormindo na gruta, Sr. Augusto?...”
- Então ela gostou da tua semideclaração?!...
- Não... não... se ela tivesse gostado, não me fugiria.
- Ora, é boa! não devia fazer outra coisa.
- Se ela gostasse de mim!... mas, por que me não deu um só sinal de ternura?... Também eu, às
vezes, tão adiantado, fui desta um tolo, um basbaque! tremi diante de uma criança que não tem quinze
anos e não soube dizer duas palavras.
- Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que D. Carolina foi mais sensível aos teus
cumprimentos que aos de nenhum outro, e se não, dize por que se não deixou ela dormir, como as
outras senhoras, e foi à hora de tua partida passear pela praia e ver-te embarcar?... Por que ficou ali

Carolina...... até a própria mentira. finalmente. não é lá essas coisas.Modera-te. Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe conversava na gruta.Há três dias que não falas senão na irmã de Filipe e. nem fim. não sei onde irá isto parar. Realmente notei-lhe muitos defeitos. Augusto. que daí a algumas horas comecei a achar bonita.. .. e até mesmo séria. Ora! estou com dores de cabeça. Augusto. olha que estás vermelho como um pimentão. Mas depois. amor é o diabo.. encantadora. veio de novo sentar-se junto de Leopoldo. não é a minha cabeça: a causa está no coração. viva! quero divertir-me. aquela menina que aborreci no primeiro instante.. acalma-te.. ature-se um namorado!..Que efeito?. Houve um momento de silêncio. no princípio. tudo isso ao mesmo tempo. estamos realmente apaixonados?! . Leopoldo. . disse. ah! ela rindo-se. mas uma mentira que excitou a minha imaginação. então como é isso?. eu fatigado e sequioso. Esta minha cabeça!.Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de D. uma mentira.. pois.. pois. a nossa boa hóspeda contou-me uma fabulosa e singular tradição daquela fonte...... Que lição temos amanhã? .passeando até desaparecer o teu batelão?. em que a vi de joelhos banhando os pés de sua ama. .. do. .... plantou no meu coração um domínio forte.. . mas.. . que se transformou em verdade. que não sei como o chame..Oh! tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me... sempre ela é bela. quando ela canta ou toca ou brinca ou corre... mas sentimento que é novo para mim. nem princípio. passeou pelo quarto duas ou três vezes e. formosa.. enfim.. finalmente. é o teu coração. . porém não posso mais esconder estes sentimentos que eu penso que são segredos e que todo o mundo mos lê nos olhos! Leopoldo..Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a lição de amanhã? . no curto trato de um dia...... e muito.Não é a tua cabeça..Deveras que isso não deixa de ser interessante.. Leopoldo.. então. .. com os cabelos à négligé. sim.Tratar-se-á das apresentações de. um sentimento filho da admiração. chamaste feia?.Eu? Pode ser. e é tudo. depois tomou rapé. porque eu bebi daquela água e não pude deixar a ilha sem amar. . Eis aqui. porque o amor é um nome muito frio para que o pudesse exprimir!. às vezes.Quem te disse semelhante asneira?. parece ter mau gênio. A água dizia-se milagrosa e quem bebesse dela não sairia da ilha sem amar algum de seus habitantes.. que julguei insuportável e logo depois espirituosa. Sr. digo-te que a acho feia.. sim. ainda melhor.... angélica! . Mas que efeito esperas tu que provenha de toda essa moxinifada? . Dize-me. um de seus habitantes. O.Então..Ora.E tu acreditaste muito nessa senhora?.. uma mentira que me perseguiu lá dois dias e que me persegue ainda hoje.. .... uma mentira. Augusto abriu um livro e fechou-o logo. mas venha cá.Ora.. quando. este maldito Velpeau!..Escuta.Amor?.. em alguns minutos de uma cena de amor e piedade.... talvez.. .. ou melhor ainda. amor.Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu. tenho tido pejo de te confessar.. que história é essa? Acabas divinizando a mesma pessoa que. bebi um copo d’água da fonte do rochedo. Leopoldo. não é graça. quando ela fala ou mesmo quando está calada... Eu a mim não conheço. ou divididos em belas tranças. . . principiando. Amor não é efeito. Eu amo! ardo! morro! . Para que dizer mais? Sempre.. ... quando ela dança ou mesmo quando está sentada. nem causa.Isto não significa nada. . para encurtar razões... do baile.É verdade. tudo. Augusto. Olha. é uma coisa que.

seu espírito. Augusto.. de escolher para mulher uma menina que foi criada. é para nunca mais esquecer. Olha. sua alma. Ora. . não a deixa mais. falemos sério. porém tu nem cuidas em casamento nem.. tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras.. do passeio.. se esse desejo me dominar. qual o resultado que pensas tirar de tudo isso que me contaste. sempre a mesma lua que prateia seus raios na lisa superfície do lago. durante o dia.és bela! e assim enchendo-a de orgulho e muitas vezes de vaidade. aqui encontramos nas moças mais espírito..E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto. certamente que o satisfarei com uma das muitas cachopinhas de minha terra. essa tua exaltação estava muito em ordem num moço que quisesse desposar D.. pois. . Deveras que ainda não me passou pela mente a idéia do casamento.Que mal?.. que são a mesma vida e que não podem acabar senão com ela!... quando concebe uma idéia.Tu falas em amor. ainda contra a vontade.. tão mudável como a moda dos vestidos. tem o teatro.. é para viver e morrer por aquele que ama. que variedade de sensações! seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro. a mudar de galanteador em cada contradança. quando chega a amar. mais livre. mas suponhamos o contrário disto: que mal tu achas em que um roceiro se case com uma moça da cidade?. Isto é assim. escuta: devendo ir morar na roça.Como estás exagerado. não se recorda.Esta agora não é má!. Augusto?. Leopoldo! juraria que desejas casar com alguma moça da roça! .Que resultado?.Eu logo vi que nos teus raciocínios e observações andava o gênio da prevenção. do teatro. por prazeres e distrações que se precipitam.. nem chegará a tal ponto minha loucura. anima-a. .. Ali ela está na solidão de seus campos.. não se deseja. abraça-a. que. da senhora que passa para o menino que brinca. Carolina. sem medo de ofender a susceptibilidade de cortesão algum.. . porém. que por natureza e hábito. educada e pode-se dizer que mora na Corte. dessa cadeia de delícias. não. se o marido for amado por ela!.. roceiro como és. é sempre e só aurora que bruxuleia no horizonte. nelas não acharemos nem mais beleza. O.. ... A moça da Corte cresce e vive comovida sempre por sensações novas e brilhantes.. a moça tem. os brados de alegria e o ruído do povo. os lamentos.. quando a amada companheira recordar-se de sua família.. de tarde. porém.Oh!. amor.. os mesmos bosques e árvores. nem tanta constância. Estudemos as duas vidas. considera que é lá em nosso campos que mais brilham esses sentimentos. sua alma é todos os dias tocada dos mesmos objetos.. Assim.. são sempre os mesmos prados.. não se quer mais nada!. certamente. Depois. . as nossas roceiras são mais constantes que as cidadoas?. ao romper d’alva. por objetos que se multiplicam e se renovam a todo o momento. quanto atormentará o coração do pobre marido à vista dos dissabores e contrariedades que sofrerá na solidão e monotonia campestre a senhora amamentada no seio dos prazeres e festins da Corte!. vive eterno com ela. ela se acostuma a ver e amar um único objeto. ela se faz por força e por costume tão inconstante como a sociedade em que vive. de mudar de costumes e de vida.. Quando se ama deveras e se está com o objeto do amor.sinceramente falando.Oh! não. . Pois ainda não observaste que o verdadeiro amor não se dá muito com os ares da cidade?. a ouvir frases de amor a todas as horas. tudo a obriga a ser volúvel: se chega à janela um instante só. Leopoldo. onde cem óculos fitos em seu rosto parecem estar dizendo . compreende. . mais jovialidade. a pesar dela a ligará ainda a seu passado!. de suas amigas.. onde ela se acostuma a fingir o que não sente. quanto devem entristecer os suspiros e saudades de que serás testemunha. talvez menos alegre.. do séquito do casamento para o acompanhamento do enterro! Sua alma tem de sentir ao mesmo tempo o grito de dor e a risada de prazer. à noite. . finalmente.. Ainda bem que somos ambos estudantes da roça e posso dizer- te agora o que entendo. sempre o mesmo gado que se vem recolhendo ao curral. te lembrarias. enfim. depois.. Queres agora ver o que se passa com a moça da roça?. se tal pensasses.. graça e prendas. escuso-me. necessariamente.

o delírio de quantos a praticavam. perdendo seus belos olhares na vastidão do mar. parece que caiu no visco dos olhos e graças da jovem beleza da ilha de. ora. Hoje suas maneiras são outras. sem dúvida. leva o seu domínio muito cedo aos olhos.... Basta. de responder-te.. Augusto! a culpa é toda sua. amoldava os corações à sua vontade. Também suas modificações têm aparecido no caráter de D. ou. nos seguintes termos: “eu olhei e ela olhou. mas aquela menina não é como as outras: é uma tentação. por pior trato que se lhe dê. suas bonecas não mudam de vestido. reduzindo- se à expressão mais simples. como aquele. e. Em quê?. que chega a ir encarapitar-se no juízo.. Augusto... ficaria em zero ou.pode ser.. depois dos festejos de Sant’Ana.. Esta bela menina. faz-se dono da casa alheia.. Irreconciliável inimiga da tristeza.. Vamos agora entrar no coraçãozinho de um ente bem amável. boa. ah! o amor é demoninho que não pede para entrar no coração da gente e. era essa interessante jovenzinha o prazer da ilha de......Quando. pois que falaste em geral e desse modo concedes. que não vê o que olha. o ídolo. não pode ser”. a flor o aroma e a dor o gemido. mas. tomando por um momento seu antigo bom humor.. porém.. que suspira sem ter flatos. Carolina. E às vezes suspira.. acostumada .Que há muitas exceções. parece que a tal tentação anda fazendo pelóticas no peito da nossa cara menina. sabia tirar partido de todas as circunstâncias para fazer rir. e está sinceramente enamorado dela.. Faremos uma visita à nossa linda Moreninha. o senhor Augusto entregue a seus cuidados de moço. sem dúvida? . que acha todo o guisado mal temperado. Augusto! Sr. também não há moléstia de mais fácil diagnóstico. e tanto mais que já conhecemos o estado em que se acha. por força ou vontade. Pois muito bem. ela ignorava o que era estar melancólica dez minutos e praticava o despotismo de não consentir que alguém o estivesse.. hóspede quase sempre importuno. Antes deles.. tu me forçarias a tomar a palavra para defender a linda Moreninha. portanto. Eis o que é já um pouco explicativo. e então. portanto.. e por isso sofre talvez mais. se eu pudesse esquecê-la!.. tem o amor o suspiro. Ah! Sr. com quem a mamãe não é impertinente. e. todos sabem que os amantes têm um prazer indizível em matrequear os ouvidos dos que os atendem com uma história muito comprida e mil vezes repetida que. quais serão os solitários pensamentos de uma menina de menos de quinze anos?. porventura.Daqui até lá. teremos. afável e carinhosa para com todos. começas a escrever? .. um romance? ... descansa a cabeça em sua mão e pensa...Então. pois. respondeu Augusto. .Bom! quando não. seu piano passa dias inteiros fechado. sem vergonha nenhuma.. um suspiro?. uma pessoa a quem confie suas penas. Uma mocinha que não tem cuidados. que quer campar de beija-flor. adeus minhas encomendas!. que tanto me cativa? . Já temos ouvido bastante o nosso Augusto e demorar-nos mais tempo em seu gabinete fora querer escutar ainda as mesmas coisas: porque o tal mocinho. toma conta de todas as ações. enquanto suas músicas se empoeiram. a quem?!.. . quando muito. ela vaga solitária pela praia. e às vezes dá tais saltos no coração. que não sabe dizer onde lhe dói. que não tem. eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três vezes. . vai-se colocando e deixando ficar. não desconfia. um diabinho.porém. de estudantes. Carolina ama. D. Assim como o grito tem o eco. que não quer que se chame médico. não se despede.Perderás a aposta e ao completar-se o mês. era ela a vida daquele lugar e empunhava com as suas graças o cetro do prazer. junto dela.. tudo tinha que respirar alegria.. sentada no banco de relva da gruta. eu lhe disse .Estás tolo.Que romance? .. Deixemos. é porque já ama.

eu lhe agradeço a sua boa visita. Diz o ditado que: . .desde as faixas a exercer um poder absoluto sobre todos os que a cercam. depois distinguiu sobre esse rochedo negro um ponto. viu o rochedo em que outrora a tamoia deveria ter cantado seus amores e de sobre o qual cantara. o incômodo de um sentimento novo. que ostentava a alvura de seus vestidos. e muito. Sr. ela derramou uma lágrima: doce lágrima. Enfim o batelão abordou a ilha de. Ana até à última escrava. Augusto correu a casa de que tantas saudades sofrera. se venceste também estás vencida! Com efeito. Carolina. e no fim dele a orgulhosa guerreira apalpou o seu coração e sentiu que nele havia penetrado um dardo. .. D. um objeto branco. D.. acresce que Filipe se deixou ficar na cidade a semana inteira. 20 Primeiro Domingo: Ele Marca Augusto madrugou.falai no mau. ideou mesmo um plano de ataque.Pensei. a figura branca havia desaparecido como um sonho. e. Carolina ama o feliz estudante. Carolina?. Estas palavras tiveram poder elétrico. Carolina a sua balada. ninguém dormia. ele o acusava de pesado. D. ouves. uma pessoa que tinha o mau costume de dormir até alto dia.E quase que deixei a viagem para amanhã.. para ocultar a perturbação que a agitava.. porém. ajunte-se a isto a novidade e os cuidados de um amor nascente e primeiro. Eis.O ingrato ainda o diz. ei-lo aí que recebe a bênção de sua avó e beija a fronte de sua irmã. talvez. ela pôs então em ação todo o poder de suas graças. não pôde ouvir o estudante vangloriar-se de não ter encontrado ainda uma mulher que o cativasse deveras.. . consultou a sua consciência e ouviu que ela respondia.. nós temos passado oito dias de nojo. . viu a casa.. desde a Sra.Eu lhe agradeço bem. disse aquela. tinha há muito descoberto a ilha de. Então por quê?.. Augusto.. quando a aurora começou a aparecer. para reviver nossa antiga alegria. Ana. e foi preciso que Filipe nos trouxesse a notícia de sua vinda. Depois ele tinha desviado um pouco os olhos. Além de quanto se acaba de expor. bateu- se: o combate foi fatal a ambos. correu a esconder-se em seu quarto. bem às escondidas. e. que lhe enchia o inocente coração e ver-se-á que ela tem suas razões para andar melancólica. E. há na ilha uma epidemia de mau humor que tem chegado a todos. os objetos foram pouco a pouco se tornando mais e mais distintos. Lá. por exemplo. estudou a natureza e os fracos do inimigo. sempre crescendo. depois dos primeiros cumprimentos.. disse a Sra. aprontai o pau! Filipe estava esperando pelo dia de sábado para aproveitar o domingo todo no seio de sua família.. era de prazer. que enfim lhe pareceu uma figura de mulher. que foi crescendo. sem sentir o mais vivo desejo de reduzi-lo a obediente escravo de seus caprichos.. toda a família está assaltada do mesmo mal. D. rápido como uma flecha pelos ares. observou. Carolina. minha boa avó. portanto.Para vir na companhia de Augusto. todos já se tinham levantado... que não queria mais ver-nos! . há oito dias. D. enquanto seu batelão se deslizava pelas águas. já ele havia vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha de. Carolina estava vestida de branco. que deve passar o dia conosco.. de vagoroso. o que se chama acusação injusta. e uma mistura de saudades e de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a causa de sua tristeza. D. sem querer dispensar uma só tarde para vir visitar sua querida avó e a tão bonita maninha. quando os voltou de novo para o rochedo.. . desde ontem à noite já tem estado sofrivelmente travessa. por isso instava com os seus remeiros para que forcejassem. inexplicável.

menina. eu acho tudo o melhor possível. D. que dizia ter por ele notável predileção.Querem ver.Ora.É ir muito longe.De que estás rindo.Minha senhora. durante essas duas horas.Que é muito comum. . poder-se-ia dizer que este X foi marcado por mão de moça travessa. pejo e ardor.Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado. a visita que vim ter o gosto de fazer é a melhor resposta que lhe posso dar. Augusto teve de agradecer as obsequiosas atenções da avó de Filipe. minha senhora. . tens estado melancólica e abatida toda esta semana. no Barbeiro de Sevilla. . . respondeu a menina. Sr. Carolina. Carolina voltou o rosto. minha avó.Não. ao muito. disse Filipe tomando a palavra. D. finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava na mão de D. respondeu a menina.Não o negues. eu o .E nem por isso merece menos. olhava-o furto.É porque não posso. quando mais parecia ocupar-se com seus alegres trabalhos. eram saudades da agradável companhia que tivemos. ouvindo as últimas palavras do estudante. .É verdade.Eu não entendo assim.Eu. estivemos todos carrancudos e. . realmente foi ele que o mostrou sofrer maiores saudades. ela sorriu brandamente.Então. . Carolina tinha os olhos em um livro de música. aí o tem. repare que barafunda vai por aqui.Eu. que minha maninha reduz Augusto a aprender a marcar! . Augusto. Carolina? perguntou Filipe. . Carolina estava bonita como dantes. que a embelecia ainda mais. . minha senhora. . . que se passaram muito depressa. . Então ele examinou o livro e viu que havia mentido. mais lânguida. Duas horas depois serviu-se o almoço. . por certo. Quem não sabe marcar? . maninha pode mesmo dar-te algumas lições. .O mesmo por lá nos sucedeu. porém. Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros objetos. e se ontem me adiantei. seria isso alguma asneira? . porque o que tinha diante de seus olhos era uma coleção de modinhas do Laforge.Um dia de paciência lhe seria suficiente. Augusto arregalou os olhos e sentiu que a ventura lhe inundava o coração. disse Augusto. que às vezes reparava suas indiscrições e que outras. . aprecio bem pouco o que todo o mundo pode ter.Nada. se aí não estivesse. seja dito em amor da verdade. sou muito raivosa e à primeira linha que ele rebentasse. gostou de nosso trato e nossa companhia. . com uma certa expressão de receio. e também de reparar com esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos.É porque não quer. mais do que nenhum outro. . Que eram saudades conheci eu pelos suspiros que soltavas e também não vai mal nenhum em confessá-lo. observe-o de mais perto. . foi porque chegou-me um companheiro para traquinar comigo. . mas seus ouvidos e sua atenção pendiam dos lábios de Augusto. Mas. Augusto? perguntou a boa hóspeda.De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro. Em resultado de suas observações concluiu que D. sempre tive fama de desinquieta e prazenteira. eu não me poderia haver com uma agulha na mão. acudiu Filipe. e que. passaria desapercebido. .Tem uma bela prenda.Quer dizer que foi pela minha? Adivinhou.

minha avó.Então isso era comigo? . eu não estou pedindo a ele que venha aprender comigo. minha bela mestra. gritou ela com mau modo e sem se importar . minha senhora. os dois estudantes não deram atenção a isso e continuaram: o jogo tornou-se duvidoso. .. mas contentou-se com dizer: . . Filipe desafiou Augusto para uma partida de gamão e incontinenti foram travar combate na varanda..Se é uma condição que oferece. dirigindo-se ao seu discípulo. mas rogo-lhe o obséquio de consentir que termine esta partida. eu a aceito. as explicações necessárias.Pois bem. escutava. sentado em uma banquinha aos pés de sua bela mestra. qualquer dos dois podia dar ou levar gamão.E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe.Ele há de aproveitar muito. Carolina não podia conservar imperturbável sua afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do aprendiz graciosamente se trocavam. são horas de lição.Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha!.Levará um puxão de orelha. pronto para ir caçar. então quer você. aceito as condições. enfim.Ora. Filipe derrotou seu competidor em três jogos consecutivos. respondeu D. .. . é boa! acudiu Filipe.E se por acaso errar alguma vez? . Carolina.É uma mão de honra! . porque estava pescando. senhor. não lhe dou licença.. Daí a pouco estava tudo em via de regra. Carolina apareceu e. . nem o que não quero. D. Augusto acabava de lançar uns dois e ás. estavam no começo do quarto.Se me é permitido. com os olhos fitos no rosto dela.Veja o que diz!.chamaria a bolos. . levantando-se.É o que pretendo fazer.Sim.Mas. Ana. .E é preciso obedecer. disse com engraçada seriedade: . Todo o mundo adivinha que Augusto disse que não. porque era já pela quarta vez que a bela mestra recomeçava suas explicações e o aprendiz cada vez a entendia menos. . quando tocou uma campainha. ensine-me com palmatória. porque. quando D.. . concluiu Augusto. fazendo-se de grave.Repito-o.Depois da lição.Porém podes ensinar-lhe com bons modos. Augusto. Filipe apareceu na sala. mas de cada vez que eu julgar necessário.O senhor não ouviu tocar a campainha? . ela se mostrava mais pacífica e ele menos atento do que haviam prometido. . . . podia doer-lhe muito. ele poderia responder que não queria caçar.Menina! disse a Sra. . . respondeu a mestra. algum tempo foi destinado a descansar. . . e espero que para outra vez não me seja preciso chamá-lo. .Minha bela mestra não dá licença. Às vezes D.Aceito a admoestação.Pior está essa! . está o senhor matriculado na minha aula de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição. são horas de lição.Pois bem.. senhor.Não tenho a dizer-lhes o que quero. que desconcertaram seu antagonista. Levantaram-se da mesa.Não. antes. . e convidou o seu amigo para com ele partilhar do mesmo prazer.Terá os meus elogios. disse Augusto. vamos. . dar-lhe-ei um puxão de orelha. . palmatória não. .

levar à sua bela mestra a lição de marca que lhe foi passada. . ora. A madrugada seguinte foi triste. tenha modos!. Augusto não é criança. radiante de esperanças.. Augusto olhou-a admirado. E depois acrescentou.. Um momento se passou. Carolina. passados entre sonhos. rebentou o senhor pela quinta vez a linha. minha bela mestra. o dedal estava bem junto dos pés dela e o aprendiz. a menina estremeceu toda. Ana.Já não posso mais! exclamou a bela mestra... não dá um ponto que preste. o Sr. ora.. D. essas mãos se encontraram.Ora. eram: “meu aprendiz”. na gruta encantada. que de súbito deu um grito e acudiu com as suas.. Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de D. D. Novo fogo de olhares! que aproveitável lição!.Digo-lhe que já me vai faltando a paciência.Está bem. exclamou a Sra. Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição um nome marcado pela sua mão. aos pés da sua bela Onfale! . Sr. minha senhora! eu não sou sua senhora.. sorrindo-se: . . Hércules. esse contato fez mal. Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios. o sossego se restabeleceu. lançou uma das mãos à orelha do aprendiz. porque ambos meigamente se disseram: .Fique-se aí. Augusto está viajando: já não é mais aquele mancebo cheio de dúvidas e temores da semana passada. disse este. e nesse ensejo os dedos da bela mestra foram docemente apertados pela mão do aprendiz. é um amante que acredita ser amado e que vai. ao apanhá-lo. dizendo isto. .. Carolina triunfa e seu .. sou sua mestra.Não se exaspere. A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil vezes se repetiu a mesma cena do encontro das mãos. que seguiu a sete outros. se vai verificando: Augusto está completamente esquecido da aposta que fez e do camafeu que outrora deu à sua mulher. e “minha bela mestra”. . tocou.. . eu o vou apanhar e não cairá mais nunca. que a dez passos cosia. .Ora. saindo. com seus dedos em um daqueles delicados pezinhos. porque presidiu às despedidas do aprendiz e sua bela mestra. E. ninguém sabe se de propósito. o amor lhes tinha ensinado outros.Menina. e que só podia ver a exterioridade do que se passava entre a bela mestra e o aprendiz. O resto do dia se passou como se havia passado o seu princípio para Augusto e D. não há outro remédio. Tudo foi às mil maravilhas.. minha senhora. D. debateram-se. Ora..com Filipe. O prognóstico de D. mas ainda foi bem doce. Carolina. eu não os posso aturar. minha senhora!. Carolina. Carolina não conseguiu puxar uma só vez a orelha do estudante e o aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar os dedos da mestra. já tem quatro vezes rebentado a linha e é a décima segunda que lhe cai o dedal. os olhos de ambos se encontram e os olhos de ambos tinham fogo. Um bonito rosto moreninho fez olvidar todos esses episódios da vida do estudante.Até domingo! 21 Segundo Domingo: Brincando com Bonecas (1) Raiou o belo dia.Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto.Minha bela mestra! . O senhor não atenta no que faz!.Já lhe tenho repetido três vezes que não é assim que se pega na agulha. saudades de esperanças. . .

mas para que divagações? que mancebo há aí. de minha credulidade. fruía já de antemão o terno agradecimento com que contava. porque só a ele é isto de grande entidade. . . que tantas noites se tem sonhado beijar.. apreciar sobre si o doce contato de uma bem torneada mão. . é uma bonita realidade. que nome marcou? . Carolina. .Oh! sempre precisarei que me queira puxar as orelhas. tudo isso.. essa figura se demora sobre o rochedo. e creia que estou pouco disposta a perdoar-lhe. vamos.. . ver a sua obra.Não. que teve de ler em cada ângulo dele o nome Carolina e no centro o dístico Minha bela mestra.Mas. Venha a marca.. disse ela a custo. tão leves para a reflexão e tão graves e apreciáveis para a imaginação de quem ama? Pois bem. ... . dizendo-se: almoçaram e chegou a hora da lição. que não tenha experimentado esses doces enleios. Uma moça que lhe marcou este lenço para o senhor vir zombar e rir-se de mim.. Carolina a Augusto. Como da primeira vez.. Augusto vê o dia amanhecer-lhe no mar.Então errarei toda a lição. à medida que seu batelão se aproxima. até que distintamente conhece nele a elegante figura de uma mulher.. cujo sorrir se considera um favor do céu. roçar às vezes com o cotovelo um lugar sagrado. abreviar toda a história de duas horas. voluptuoso e palpitante.Vamos. mas.orgulho de despotazinha de quantos corações conhece deveria estar altaneiro. é D. não desaparece como um sonho. minha bela mestra. mas desta vez. que vai crescendo mais e mais. já sei que traz nome bem marcado. sentir sob sua face perfumado bafo que se esvaiu dentre os lábios virginais e nacarados.Vamos. o apanhar o leque que escapa da mão que estremeceu. pode-se. eu não farei tal na lição de hoje..Foi uma mulher! isso não carece que me diga..Vejam!. sem inconveniente. se ela não amasse também.. não como da outra. . de tudo. continuou. . e. que sua bela mestra ia gradualmente corando e por fim se fez vermelha de cólera e de despeito.Eu não entendo.Entendi que devia ser o nome da minha bela mestra.Meu aprendiz!. . Augusto esperava com ansiedade ver brilhar nos olhos de sua bonita querida o prazer da gratidão. Eles se sorriram. quando viu. já nem me quer chamar sua mestra!. mas Filipe acaba de chegar e todos três vão pela avenida se dirigindo a casa. preciso é confessar: o aprendiz havia marcado melhor do que nunca o tivera feito D.. como na passada viagem. Ter a ventura de receber o braço de uma moça bonita e a quem se ama. bela por força.E se eu merecer? .... . Tudo estava primorosamente trabalhado. pois.Nunca a mão grosseira de um homem poderia marcar assim!. Augusto apresentou então um finíssimo lenço aos olhos da sua bela mestra. que estava já sentado a seus pés e em sua banquinha.. Augusto . A interessante jovem acabava de ser inesperadamente assaltada de um acesso de ciúme. Ela não esperava outra resposta. e convém dizer apenas o que absolutamente se faz preciso. de dezesseis anos por diante. Augusto os está gozando neste momento.. . . Carolina que só desce dele para ir receber o feliz estudante que acaba de desembarcar. . o senhor comprometeu-se a trazer-me um nome marcado pela sua mão.. agora só sabe dizer “minha senhora!”. com espanto. avista sobre o rochedo o objeto branco. disse D.. meu aprendiz. • Minha bela mestra!.Minha senhora. como fiz na lição passada...Eu quero saber quem foi! exclamou com força.Talvez.

vamos à minha lição.. A Sra. Carolina? exclamou a Sra. chorei diante do meu aprendiz. menina? que tem que ele tomasse outra mestra? pois por isso choras assim? .Mas nem me quer dizer o nome dela!.. respondeu a bela mestra. . Ana. o ofereceu a Augusto. E dizendo isto. pelo trabalho que me trouxe.Quis trazer um lenço bem marcado para ostentar meus progressos e motivar alguns gracejos e mandei-o encomendar a uma senhora muito idosa. . basta de marcar. . tudo mau. Sabe. mas que marca melhor que eu. .. julgou a propósito não dar resposta alguma.Eu não admito uma só desculpa. minha querida avó: aqui está a marca que ele me traz! Eu queria um nome muito mal feito. . acudiu Augusto: exterminou o mau gênio que acabava de fazê-la chorar.. Então ela ergueu-se e.Pois rejeita um presente de minha neta? perguntou a amante avó..Pois eu o rasgo..Agora.Como se chama ela? . que não há de ter a minha paciência. ocultou o rosto no seio da extremosa senhora e começou a soluçar. veja. Ana. querendo.Ao contrário. quero saber-lhe o nome. com a voz entrecortada. ele tem outra mestra.. . D.É verdade. .Que loucura é essa. o que fez? foi para a Corte tomar outra mestra.. Augusto olhou para a Sra. . já tarde.Que é isto menina? perguntou.. minha senhora. Ana. sou eu quem tem outros cuidados. D. porém. porém. voltou-se para Augusto e perguntou: . D. vi que o senhor estava adiantado demais.Pode o fazer. .Veja.Juro que não sei. nem o meu prazer. peço-lhe licença para dar um dos meus ao Sr.Que fazes.Ei-lo em tiras. . . .Não. não. que vive destes trabalhos. como para ler-lhe n’alma o que ela pensava daquilo.Então fui julgado incapaz de adiantamento? . disse ele. que começava a desconfiar da natureza dos sentimentos da mestra e do aprendiz. minha querida avó. mas com toda a beleza da dor e delírio do ciúme. uma barafunda que se não entendesse. que é mais bonita!. outra bela mestra!. . eu me riria com ele.. . levantando os olhos ao escutar a última exclamação de sua neta. Que me importa que seja moça ou bonita? nada tenho com isso. que já estamos bem.Muito idosa?. porém. .Fez o que cumpria. não falemos mais nisto.. o pano suado e feio. mas nem isso desnorteou a viva mocinha que. . A resposta de Augusto foi um beijo na prenda de amor.Não sabe?.. só o nome!. com os olhos ainda molhados.Paguei-o.E que importa que eu rasgasse um lenço? minha querida avó. Ana.. tudo péssimo. impedir que sua neta rasgasse o lenço. . D. Augusto. quero que aceite este lenço. .estava espantado e a Sra. tirando de sua cesta de costura um lenço recentemente por ela marcado. não desejo ver a menor hesitação. dizendo: ... .Já tem cuidados?. . viu- a correndo para ela. não me saí bem do magistério.Não lhe deram este lenço? ..

que sou criança. talvez brilhou em ambas aquelas almas. ela pareceu não ouvir. conhece os diversos graus de parentesco que existem entre eles.Elas se amam! E a menina murmurou apenas: . com que o feio pareça bonito e o grão de areia um gigante. A mão da bela Moreninha tremia convulsamente no braço de Augusto e este apertava às vezes contra seu peito. dobra- se aos prazeres de sua bela mestra. apontando para as pombas. essa delicada mão.Com o maior prazer. conversa com todas. Ana os observa cuidadosa. mas nem por isso quer entregar todo o futuro do objeto que mais ama no mundo ao só abrigo do nobre caráter e sérias qualidades que tem reconhecido no mancebo. examina o guarda-roupa. faz mesmo. mas...Já ama também?.. O amor foi inventor das cabeleiras.São felizes! .. perguntou tremendo: . tenho as minhas bonecas. Em uma das ruas do jardim duas rolinhas mariscavam. como qualquer moça da moda as tem no seu toucador.Comecei a amar há poucos dias.. o nome de Augusto foi mil vezes pronunciado. rogando-lhe que o reservasse para a sua neta.. Augusto o sentiu. batiza. A virgem guardou silêncio e o mancebo. dos dentes postiços que.Pois acredita que em amor possa haver felicidade? . Como de costume. enfim. . Ana. Ora.. D. jóias e um número extraordinário de bugiarias. . o senhor os seus livros e eu. Augusto já sabe de cor e salteado todos os nomes dos membros daquela família.Às vezes. casa.. mas esta lhe fez cair a sopa no mel. Quer vê-las? . Um momento depois a sala estava invadida por uma enorme quantidade de bonecas. mas suspirou. o amor está fazendo um estudante do quinto ano de Medicina passar um dia inteiro brincando com bonecas. seus vestidos. começaram a beijar-se com ternura. a tarde deve de ser empregada em passeios à borda do mar e pelo jardim. tem simpatizado muito Augusto. acalenta as bonecas pequenas. que iam adiante. em uma palavra. o rei humilde cativo. . mas. Filipe acompanhava sua avó e na viva conversação que entretinham. porque os olhares da menina e do moço se encontraram ao mesmo tempo e os olhos da virgem modestamente se abaixaram e em suas faces se acendeu um fogo. já tem a senhora amado? . o sábio doido. a um surdo o companheiro companhão e a um cego o procura quem te deu.. e esta cena se passava aos olhos de Augusto e Carolina!. D. Uma vez Augusto e Carolina. alto lá! que isto é bulir com muita gente. e o senhor?! .Acaso. Ele falou menos baixo: . como uma varinha ao vento. O amor faz o velho criança. alguns suspiros vinham também perturbá- los mais e havia dez minutos eles se não tinham dito uma palavra. cada uma das quais tinha seus parentes. que era o do pejo. em um arbusto.E a senhora já amou também? Novo silêncio. E o mancebo.Eu?!. depois de alguns instantes.Quem é que deles não carece?. como involuntariamente. Com efeito. tendo de oferecer seu braço à Sra. O pai de família tem os filhos.. despe umas e veste outras. disse: . O amor seria capaz de obrigar um coxo a brincar o tempo-será. O maior inimigo do amor é a civilidade. o tal bichinho chamado amor é capaz de amoldar seus escolhidos a todas as circunstâncias e de obrigá-los a fazer quanta parvoíce há neste mundo. No entanto a Sra. Igual pensamento. ficaram muito distantes do par que os seguia. às vezes. voaram e assentando- se não longe. ao sentir passos.

Oh!..É a senhora..Serei eu?. não posso...É impossível.. talvez... .. . nem a brisa o leve.. A jovenzinha murmurou uma palavra que pareceu mais um gemido que uma resposta. basta o nome pronunciado bem em segredo..Então. .Quando estiver certa que ele não me ilude.Não sei. mas.Serei eu?.. Depois ainda continuou: . D.. .. levou o braço do mancebo até ao peito e lhe fez sentir como o seu coração palpitava. Não pôde. eu não posso!.... Augusto está desesperado.. ...Quer que lhe diga?.. A vigem tremeu toda e não pôde responder....E nunca o dirá?! . apertando-lhe vivamente o braço...Talvez um dia...Talvez..Eu não pergunto. forcejando um sorriso: .Não.. .E a senhora não me revela o nome feliz?.Serei eu?... perguntou uma terceira vez Augusto.. . . ele é volúvel?.Mas por que não pode? . Não lho impeço. sem o pensar. .. porém que fez transbordar a glória e entusiasmo na alma do seu amante.. A interessante Moreninha quis falar.Oh!... Ela abaixou ainda mais os olhos e com voz quase extinta disse: .....E a quem? .Se eu perguntasse?.. .Um só nome que peço!.Ostenta sê-lo. Voltando da ilha de.Porque não devo.. Augusto lhe perguntou ainda. .. ... .Senhor!. Pelo céu!. pelo céu!.... 22 Mau Tempo Tristes dias têm-se arrastado.Oh! para sempre!..Posso eu fazê-lo? .. não!. . ..Por quantos dias? . com fogo e ternura: .Eu não. respondeu Augusto.. ....Eu não perguntei a quem o senhor amava. bem no meu ouvido. com requintada ternura. . .....E quando?. acabe de matar-me!. depois daquele . . . Carolina fez-se cor-de-rosa e só depois de alguns instantes pôde perguntar. Ela tinha dito somente: . para que ninguém o possa ouvir.

que. escabuja. atirou com todos os seus livros para baixo da cama e deitou-se de novo. donde. o pai de Augusto não falava em voltar para a roça. esbravejou. O experimentado velho fingiu ter-se deixado enganar e. principalmente no caso em que se acha o nosso estudante.. por mais força que se faça mais o maldito rasga. esperneia. saltou exasperado fora do leito em que se achava deitado. mais forte que seu espírito. Ouviu-a acusá-lo de inconstante e ingrato. O amor é um anzol que. começou a criar mil sublimes quadros e em todos eles lá aparecia a encantadora Moreninha. e obteve em resposta um não redondo. e um discurso cheio de conselhos e admoestações. então. que já alguém o havia prevenido das suas loucuras e dos muitos pontos que ultimamente tinha dado nas aulas. Já era tarde. escarapela. jurou que tinha dado sua palavra de honra de lá se achar nesse dia e o pai. e pela primeira vez em sua vida. muita indústria deve ter quem o quer pôr na rua. para que ele disso se desgoste. pois. daí a pouco pareceu-lhe que ela soluçava. julgou muito conveniente trancá-lo no seu quarto. agadanha-se logo no coração da gente. mais que nunca. escutou um grito de dor semelhante a esse que soltara no primeiro dia que ele tinha passado na ilha! Aqui. sem tocar num só prato. vieram por fim dar-lhe a certeza de que o seu bom velho estava ciente de tudo. achou na Corte seu pai e em poucos momentos teve de concluir. por ver que ele não chegava. Ora. exercia nele um poder absoluto e invencível. belisca e incomoda mais que solto e livre. acusou a crueldade dos pais. não há idéias mais livres que as do preso. se não é com jeito destravado. a julgar-se pelo sossego e vagar com que tratava os menos importantes negócios. e. mandou voltar o almoço. jurando que não havia de estudar dois meses. para que não corra. esburaca e se profunda. quando vêm à cidade. mergulha-se inteira em . toda cheia de encantos e graças. parlamentares oferecimentos e nunca bater-lhe com a porta na cara. Chegou o sábado. O nosso Augusto.belo dia da declaração de amor. prudente é facilitar-lhe o que deseja. Uma noite de amargor foi. e sentindo que seu pai abria a porta do quarto. viu-a chorar. foi o nosso estudante às nuvens. escabelou-se e. Porém os homens. . na solidão e silêncio das trevas. a alma do homem que padece é. chora. quando alguém intenta refreá-lo. estão no caso do fogo viste lingüiça? e ainda bem não puseram os pés no Largo do Paço já têm os pés na Praia Grande (que por estes bons cinqüenta anos há de continuar a ser Praia Grande. para que o filho não cumprisse a palavra. e o amor. como nada disso lhe valesse. experimentou se podia arrombar a porta. com seu vestido branco. quando se engole. pediu finalmente licença para ir passar o dia de domingo na ilha de. Augusto? perguntou o bom pai. A única resposta que obteve foi um ronco que mais assemelhou-se a um trovão. e para consegui-lo convém ir despedindo-o com bons modos. amor é um menino doidinho e malcriado.. para que ele durma e muitas vezes morra. apesar de a terem crismado Niterói). Augusto ama deveras. Mania antiga é essa de querer triunfar das paixões com fortes meios. o jantar e a ceia que lhe trouxeram. esperando-o em cima do rochedo. contra o costume do maior número dos nossos agricultores. erro palmar. sem dúvida para vir consolá-lo e dar-lhe salutares conselhos. e suas lágrimas queimavam-lhe o coração. passeou a largos passos por seu quarto. morde. parecia haver esquecido a moagem e a safra. para que não passe: acabar com as dificuldades e oposições. concentra-se. depois de muitos rodeios e cerimônias. retirando-se. Carrancudo e teimoso. fez mil planos de fuga. da severidade com que era tratado. Para coroar a obra. O resultado disso é o mesmo que tirará o pai de Augusto da energia e violência com que procura apagar a paixão do filho. viu-a. que voou atrevida por esse mar imenso da imaginação: então. limpar-lhe o caminho. voltou o rosto para a parede e principiou a roncar como um endemoninhado. Portanto. soltá-lo no prado. A mais bem merecida repreensão. nem faltasse à honra. a que se passou para este. toda de sua dor.Já dormes. e. só se lembram do seu tempo para gritar contra o atual e esquecem completamente os ardores da mocidade. mal passam de certa idade. o nosso encarcerado estudante soltou as velas da barquinha de sua alma. abrindo as cortinas do leito. trancou a porta ao pobre estudante. que.

.. o pai veio encontrá-lo ainda acordado.Não vamos bem. mas.. que o tinha vindo procurar.Eu amo. tomando e beijando a mão paterna. que também se desenhava no ardor dos olhares. Oh! ele queria dizer que sofria muito! Imediatamente foi-se chamar um médico que. tomou outro tipo: Augusto tornou-se pálido. Algumas aplicações se fizeram e um dos colegas de Augusto. meu filho!. com lágrimas nos olhos: . exclamou. Augusto sujeitou-se com brandura ao exame necessário e quando o médico lhe perguntou: . algum elixir tão admirável. e tal idéia derramou em seu coração todo esse fel. como insensível. voltando passadas algumas horas. não concebe. sua paixão. A enfermidade de Augusto não cedeu.. com tanta facilidade como a princípio supôs o médico.O meu filho!. como que obsequiavam a luz quando por acaso se entreabriam.. e seus olhos. um leve sorriso de gratidão lhe alisou os lábios. fez-lhe o que chamou uma bela sangria de braço.. disse ele: tu me obrigas a fazer loucuras! E saiu do quarto e logo depois de casa. provavelmente.O que sente? Ele respondeu. Isto aconteceu a Augusto. .Nada. como meio morto. prolongadas insônias eram marcadas minuto a minuto por dolorosos gemidos. louco? perguntou o pai. com toda fria segurança do homem determinado: .. Carolina também padecia. ficando só com ele.seu sofrimento. e vendo-o prostrado no leito. meu pai. fez retirar todas as pessoas que aí se achavam e. cuidadoso. não pensa.. Doces frases que retumbaram com mais doçura ainda no coração do velho. seus olhos se abriram.. Os namorados são semelhantes às crianças: primeiro divertem-nos com suas momices. com os olhos em fogo e o rosto mais enrubescido que de ordinário.Oh! Sr. com seu sentimentalismo. também duas lágrimas ficaram penduradas em suas pálpebras e ele. amortecidos.Querido louco!. tão bom!. entrou de novo na câmara do doente. fez-se esperar pouco. na viveza das expressões e na audácia dos pensamentos. eu não sofro nada . Na visita do quarto dia o médico disse ao pai de Augusto: . doutor. estavam azedando a vida dos que lhes queriam bem. Que milagre não será capaz de fazer o amor dos pais? Novidades do mesmo gênero perturbavam a paz e os prazeres da ilha de. passei uma noite em claro. horas inteiras se passavam sem que uma só palavra fosse apenas murmurada.. no mesmo instante.. . contra o costume da classe.Meu pai. por seus lábios. de modo que. a flor de suas esperanças. Uma idéia terrível apareceu então no pensamento do sensível velho: a possibilidade de morrer seu filho. Os nossos amantes acabavam de chegar ao sentimental e. ao abrir-se na manhã seguinte a porta do quarto. sombrio e melancólico. porém. . O médico deu por terminada a sua visita. por que me queres matar? Um brando favônio de vida passeou pelo rosto de Augusto... ele estava em violenta exacerbação.. três dias se passaram sem conseguir-se a mais insignificante melhora. e entrou apressado e trêmulo no quarto do enfermo. não vela e não se exalta se não por ele. contudo..Que fizeste. cujo amargor só pode sentir a alma de um pai. que as melhoras começaram a aparecer como por encantamento. uma mudança apenas se operou: a exacerbação foi seguida de um abatimento e prostração de forças notável. depois incomodam-nos choramingando. deu-lhe. .E mais nada? . D. murmurou com voz sumida e terna: . julga isso pouco? E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única sobre o seu estado. E. Augusto quis dar dois passos e foi preciso que os braços paternais o sustivessem para livrá-lo de cair. mas.. .

enfim. deixa o rochedo. outras amargores de boca. repetindo com fogo a estrofe que tanto lhe condiz. a boa avó livrou-a desses tormentos. (bradava ela lindamente enraivecida) falsos. Coitadinha! vai passando uma semana de ciúmes e amarguras. apontando para o céu: .. em que um velho e particular amigo de sua família veio da Corte visitá-la e com a respeitável senhora ficou duas horas conferenciando a sós. Pertencia a uma classe. o chá não se podia tomar. Retirou-se. Um exemplo dessa regra está sendo a nossa cara menina. ela busca o rochedo. D. apontou também para o céu. como para corresponder a tão animador cumprimento. e.. Acordando-se ao primeiro trinar do canário. teme vê-la fugir vermelha de pejo. feios. que a terra chegaria a lembrar-se de ser competidora do céu. se não produzisse também agastados arrufos.. se não fingir com finura que ignora o estado de seu coração. que se prolongaram até a tarde do dia seguinte. fazendo com habilidade e destreza cair . ataques de hipocondria. para passar o dia inteiro no fundo do gabinete. o amor não podia deixar de fazer parte da regra. Esse homem despediu-se.Esperarei! 23 A Esmeralda e o Camafeu Dona Carolina passou uma noite cheia de pena e de cuidados. etc. às vezes algumas cólicas.Esperança! D. conhecendo já a causa da tristeza da querida neta. seria tão completa a felicidade cá embaixo. não ceou e não dormiu. porque. porém já menos ciumenta e despeitada. Ele. deixando-a cheia de prazer. o dia estava frio de enregelar. vendo a interessante Moreninha que tristemente passeava à borda do mar. por principiar assim: “Eu tenho quinze anos. E sou morena e linda. mas. com os olhos embebidos no mar. que por um só cabelo faz escarcéus tais. sem exceção. na hora do chá. que mal pode consolá-la. da Sra. que de um nadazinho tira motivos para o prazer de dias inteiros. D. e pondo a outra mão no lugar do coração disse: ... Tudo neste mundo é mais ou menos compensado. À tarde sentiu- se incomodada. Carolina levantou a cabeça e viu que já o batel cortava as ondas. que por uma cartinha de cinco linhas põe os lábios de um pobre amante em inflamação aguda com o estalar de tantos beijos. sem exceção nenhuma. por sua vez. Ana recebeu cartas que a tornaram talvez menos triste.. saudou-a com esta simples palavra. A presença da linda neta parecia alentar mais essas reflexões. No almoço não houve prato que não acusasse de mal temperado: faltava-lhe o tempero do amor. cujos membros eram. e.. ou ao lado de sua boa avó. mentirosos e até. que nem mesmo a sorte grande os causaria. O dia de sexta-feira trouxe ainda algumas novidades à ilha de. pruído de canelas. seu próprio irmão tinha um defeito imperdoável: era estudante. voltou para casa arrufada.” E quando o sol começa a fazer-se quente. canta muitas vezes a balada de Aí. tendo debalde esperado o seu estudante até alto dia. maus. ela. no momento em que saltava dentro do seu batel. que de uma flor já murcha engendra o mais vivo contentamento. e. toda a gente de sua casa a olhava com maus olhos. A Sra. palpitações. A bela Moreninha tinha visto romper a aurora do domingo no rochedo da gruta. Ana. mas sem dúvida muito pensativa.

” .Eu me alinhei. pois.Minha avó.. Carolina.. que tanto gostava de fazer ondear pelas espáduas.Graças a Deus. . não entendes assim?. pensava ela. parece pagar-nos bem a amizade que lhe temos. Com força e comoção desusadas bateu o coração a D. . Desde sábado à noite que Augusto está na cama.. teria vindo domingo.” Augusto.Eis uma injustiça. abica à praia Enfim.. e depois deu a mão a seu pai.. Ah! era o batel suspirado. talvez consiga com algum esforço vir ver-me. que calou-se para só empregar no batel que vinha atentas vistas. Carolina. Quando o ligeiro barquinho se aproximou suficientemente. ao amanhecer. dividiu seus cabelos nas duas costumadas belas tranças.Aquele interessante moço. hoje já pôde chegar à janela. vestiu o estimado vestido branco e correu para o rochedo.. voando com asa intumescida para a ilha. até que. E. para ajudá-lo a desembarcar.. E quando o sol começou a refletir seus raios sobre o liso espelho do mar. E sou morena e linda” Mas. . porque.. A menina hesitou um instante. a bela Moreninha distinguiu dentro dele Augusto. . há uma semana esquecido. sentado junto de um respeitável ancião.. cheias de amor e de esperança. disse: . No dia seguinte... no instante mesmo em que ela dizia no seu canto: “Lá vem sua piroga Cortando leve os mares” um lindo batelão apareceu ao longe... como por encanto. pensarás acaso de maneira diversa?.. .a conversação sobre o estudante amado. há dois dias ficou livre dele. prostrado por uma enfermidade cruel. Como ontem já pôde chegar à janela. buscando o toucador.. . então.Se ele pagasse bem. prosseguiu seu canto. ela vendo que chegavam à praia. Carolina. fingiu não tê-los sentido e continuou sua balada: “Enfim. hoje é domingo e talvez. . que ainda não mostrava dar fé deles. quando dizia: “Quando há de ele correr Somente pra me ver.Dize sempre. a quem não pôde conhecer. Carolina. e D. todos os antigos sentimentos de ciúme e temor da inconstância do amante se trocaram por ansiosas inquietações a respeito de sua moléstia.. assim me mandou dizer Filipe. se não fosse isso teria vindo ver-nos!. salta apressado. em perigo?. com efeito... a amorosa menina despertou e.. e depois respondeu: .Oh! pobre moço!. eu não sei. ela principiou também a cantar sua balada: “Eu tenho quinze anos.. enfim.Doente?! exclamou a linda Moreninha... Doente?. saltava nesse momento fora do batel. extremamente comovida.

. Uma hora depois o pai de Augusto e a Sra. sem dizer palavra. E o bom do rapaz não fez mais que olhar para a moça. . Carolina saiu com ar meio acanhado e meio maligno.. D. D. Foi preciso que se repetisse pela terceira vez a pergunta. mas olhavam-se com fogo.Pois creio que ninguém melhor que tu o poderá saber. A Sra. Ao servir-se o almoço. a balada foi nessa estrofe interrompida e D. Ana os convidou a entrar no gabinete. E D.O mar está bem manso. . A bela Moreninha pensou um momento. abrir a boca e fechá-la de novo. ela lhe perguntou: . Fala. é necessário que os ajudemos. Prazer imenso inundava a alma da menina. defronte um do outro. desceu do rochedo e foi cumprimentar o pai dele. o ancião falou: . Alguma grande resolução obrigava o moço a estar silencioso. . como tremendo pelo êxito dela?.Por que não veio o meu neto? . tiveram só olhares para trocar e suspiros a verter..Minha avó. Carolina. com ternura. Carolina. D. o Sr.Eu rogo que daqui a meia hora se vá receber a minha resposta na gruta do jardim. disse a Augusto: .. Augusto para aí se dirigiu tremendo. Ana tomou então a palavra e disse sorrindo-se: . como todos prevêem. . Tanto D. D. com os nossos dois amigos Leopoldo e Fabrício.. Desejas que eu responda em teu nome?.Eu o espero. e como lembrando-se dos pesares que tinha sofrido. não sabia mais servir-se de seus sorrisos com a malícia do tempo da liberdade e mostrava-se esquecida de seu viver de alegrias e travessuras. murmurasse apenas: .. . D. E para que mais?.Enfim. Ana recebeu com sua costumada afabilidade o pai de Augusto e abraçou a este com ternura. No fim de muito tempo eles haviam conseguido dizer-se: . tu que dizes?. sem levantar a cabeça. Quando eles se sentaram. e os dois namorados achavam-se. cônscia já de sua fraqueza.. Carolina.Ficou para vir mais tarde. agora resta que alcances o sim da interessante pessoa que amas. D.. e já por tal podia gracejar com os noivos.Augusto. para que possa ser descrito. iremos. Ambos os amantes compreenderam o que queria dizer a palidez de seus semblantes e os vestígios de um padecer de oito dias. D. como quem estava certa do resultado da meia hora de reflexão.. não pôde vencer-se..Então teremos um excelente dia. Felizmente para eles a Sra. Augusto te ama e te quer para sua esposa. E eles continuavam no silêncio. Nem palavra. houve bons cinco minutos de silêncio: o pai de Augusto instou para que ele falasse. no vão de uma janela. eu não sei. sorriu-se como se sorria dantes.sentiu que Augusto corria para ela. aceitando o braço do estudante. disse: . porém sempre estremecia ao entreabrir os lábios. e erguendo a cabeça.O dia está sereno. Carolina como o pobre estudante ficaram cor de nácar.Quererás consultar a fonte? Pois bem. para que a menina. Carolina curiosa.. Ana. A Sra. Augusto parecia querer comunicar alguma coisa bem extraordinária à sua interessante amada. não tiveram uma palavra para pronunciar. guardaram silêncio. Passados alguns instantes a Sra.. eu acabo de obter desta respeitável senhora a honra de te julgar digno de pretenderes a mão de sua linda neta. Ana conferenciavam a sós.

Já a senhora em outra ocasião me disse isso mesmo.E a honra.A senhora? . .Eu creio que ainda se não passou meia hora.Eu.Para que. . pois. . confesso que trabalhei por prendê-lo. . pede-me para sua esposa?.. .. e só casará com sua desposada antiga.. veja como verificou-se o prognóstico que fiz do seu futuro! Não se lembra que aqui mesmo lhe disse “que não longe estava o dia em que o Sr. contudo..Juro-lhe que há de sê-lo. senhor. Sr. Carolina estava sentada no banco de relva.. . portanto. só para ter a glória de perguntar-lhe uma vez. . portanto. . retomado o antigo verniz do prazer e malícia.. quem venceu: o homem ou a mulher?.E quem me poderá obrigar? . . o senhor só será esposo dessa menina. Escute: na idade de treze anos o senhor amou uma linda e travessa menina.. continuou a cruel Moreninha. pedindo.. eu só venho ouvir a minha sentença.. e eu devo lembrar-lhe o dever que com a paixão esquece. cumprirá a palavra que deu. e..Junto ao leito de um moribundo jurou que havia de amá-la para sempre. .O Sr. que contava apenas sete.Foi a beleza.. .. até por direito de antiguidade. e seu rosto. minha senhora. .. somente para isso..Pois bem. D. Augusto.Muito a tempo ainda me lança em rosto a parte que tenho na sua infidelidade..Então.Para satisfazer as minhas vaidades de moça.A senhora o ouviu há pouco. Vendo entrar o moço disse: . .. murmurou o estudante!.Embora.. havia de esquecer sua mulher”? .” . Trabalhei.O senhor é um moço honrado. se eu roubasse um coração que lhe pertence. trocou com ela aí mesmo prendas de amor. mandando. O senhor há de cumprir a palavra que deu há sete anos! Augusto recuou dois passos. ... e quando a menina lhe apresentar a que recebeu e lhe pedir a que lhe ofereceu e o senhor aceitou?.Ela deve ser uma bonita moça!. . ora eu.. senhora? . animou o amor que pela senhora sinto?. Eu o ouvi gabar-se de que nenhuma mulher seria capaz de conservá-lo em amoroso enleio por mais de três dias. eu emendarei a mão agora. foi um juramento.. . . fiz talvez mais do que devia.. e desejei vingar a injúria feita ao meu sexo. . .Jamais! .Oh! isso é uma recomendação contra a sua constância!..E quem tem culpa de tudo. pois.. não quer refletir também no jardim? O estudante não esperou segundo conselho e para logo dirigiu-se à gruta.Acaso veio perguntar-me alguma coisa?. tinha.Não. sem poder ocultar a comoção e o pejo que lhe produziu o objeto de que se tratava.Oh!. agora já é impossível! . teria razão de queixar-se contra mim. .. e.Mas eu nunca fui casado. como agora o faço: “Então.Foi um juramento de criança. apesar de ser travessa. não sou má. . ..Ah! podia eu esperar tanto tempo?.Porém já passou o tempo do galanteio.

..Então.Atirar-me-ia a seus pés.. Mas.E para sempre. Carolina. vá ter com sua desposada. . enquanto eu padeço. abandonar esta terra de minha pátria.Oh! pois bem. penso que é uma barbaridade inqualificável que.E nem ao menos se lembra de que o velho disse com voz inspirada: “Deus paga sempre a esmola que se dá ao pobre!... quando a minha mãe era viva. . deixe a senhora brincar nos seus lábios o sorriso com que costuma encantar para matar. dando-lhe o breve de cor branca disse: tomai este breve. esposa.Penso que devo fugir para sempre desta ilha fatal.Então?. a escutei repetida nesta gruta por seus lábios. se perdoar. antes que eu visse o lindo anjo desta ilha? ..Ah! senhora!. onde?. um louco!. vá. tornou D. e sofro mil torturas..Acabe! . . deve partir. Senhor! senhor! o que foi que prometeu há sete anos passados?. perdoai-me... . . .. penso que a lembrança do meu passado faz a minha desgraça. mas já com voz fraca e trêmula: . matei a fome de sua família e cobri a nudez de seus filhos. por um momento suspendido. continuou Augusto: “recebei este breve que já não devo conservar.” E o infeliz amante arrancou debaixo da camisa um breve.Espere...... parte?.. repita-lhe o que acaba de dizer. exclamou D. . eu corro... ele contém o vosso camafeu.Sim. meu Deus. Talvez encontre aquela a quem jurou amor eterno.Se eu encontrasse!. eu já não posso ser vosso esposo! tomai a prenda que me deste.Penso que sou um desgraçado. senhor. volte que eu serei sua. . onde meu Deus?.” A cena se estava tornando patética.Eu lhe diria.Quando o velho moribundo.... se tendes bastante força para ser constante e amar para sempre aquele belo anjo. Ah! senhor! nunca lhe seja perjuro. se já o vejo faltar à fé a uma outra?. ambos choravam e só passados alguns instantes a inexplicável Moreninha pôde falar e responder ao triste estudante. disse.. senhora...Sim. que o futuro. Como o senhor e sua camarada. Por que deu o senhor o breve à menina?. .. . Carolina deixou cair uma lágrima e falou ainda. uma criança? . onde poderei achar essa moça a quem não tornei a ver...... nem poderei conhecer?.. ..E como...Então eu não pensava no que fazia.. em que eu também socorri um velho moribundo. que faria?.. que é mais bela e mais cruel do que vós!. Carolina. porque eu amo outra que não sois vós..Porque eu era um louco... que convulsivamente apertou na mão. escute. para que ela o guarde com desvelo.... Oh! já não haverá futuro para mim! Adeus senhora!.. ..E agora pensa no que quer fazer? . dai-lho. o breve que contém a esmeralda!. .. em sinal de reconhecimento também este velho me fez um . posso eu acreditar nos seus protestos de ternura e constância.. .. . .. Houve um dia.. deixar aquela cidade detestável. onde não posso ser outra vez feliz!. cuja cor exprime a candura da alma daquela menina. que o presente me enlouquece e me mata. D. Penso. E tornou a deixar correr o pranto. e se ela ceder... lá no futuro vós o sentireis”? Não tem o senhor esperança de ver realizar- se essa bela profecia? não se lembra de ouvi-la? Pois ela soou bem docemente no meu coração quando às escondidas. . senhor.. abraçar-me-ia com eles e lhe diria: “Perdoai-me.O breve verde!.Oh! mas por que Deus não me prendeu a essa menina nos laços indissolúveis...

de dar o que se deseja. entusiasmado e como delirante.Já está pronto.. elaborado por Filipe. exclamando: . Só falta a derradeira capa do breve. .Estamos no dia 20 de agosto: um mês! . asseverou-me ele. . isto quer dizer que Augusto deve-me um romance.. por certo.Um mês!. .. Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que reinava na gruta. dê-me esse breve! A menina. ei-la que cede e se descose. entregou o breve ao estudante. Carolina.. que fizera a proposta. eu cosi essa relíquia dentro de um breve. .. Aquela relíquia. respondeu a travessa Moreninha ingenuamente: nós éramos conhecidos antigos.. tem o poder uma vez na vida de quem a possui.O meu camafeu!. tire a relíquia e à mercê dela encontre sua antiga amada.presente: deu-me uma relíquia milagrosa que.Eu não entendo isto! disse a senhora D. e com o velho amigo. portanto. .Que loucura é esta? perguntou a senhora D. . ainda não lhe pedi coisa alguma. . apesar de me roubares minha irmã. O projeto de casamento de Augusto e D. ele perdeu ganhando.. Finalmente para este tesouro sempre teria de haver um ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste.. que também por sua parte chorava de prazer.Como se intitula? .. . que ainda no dia antecedente viera concluir os ajustes com a senhora D.Muito bem! muito bem! disse por fim Filipe. . tendo sido como foi. era sua última esperança.Ah! minha boa avó!.Não.Como?. ... A senhora D. bradava Augusto. acudiu a noiva. e Augusto. salta uma pedra. de acordo com o pai do noivo. quem pôs o fogo ao pé da pólvora fui eu.. encontrei minha mulher! . cai aos pés de D. Obtenha o seu perdão e me terá por esposa. que obriguei Augusto a vir passar o dia de Sant’Ana conosco. . Ana e o pai de Augusto entram nesse instante na gruta e encontram o feliz e fervoroso amante de joelhos e a dar mil beijos nos pés da linda menina. Ana. . . . gritaram Fabrício e Leopoldo. isto quer dizer que finalmente está presa a borboleta. Carolina não podia ser um mistério para eles.Isto tudo me parece um sonho.. semelhante ao náufrago que no derradeiro extremo se agarra à mais leve tábua. Ana. exclamou Filipe.Achei minha mulher!. e. que se dizia milagrosa.. descosa-o. mas trago-a sempre comigo..A Moreninha.... respondeu o noivo.Que quer dizer isto. o meu camafeu!. Epílogo A chegada de Filipe. dê-me. que começou a descosê-lo precipitadamente. meu maninho.Então estás arrependido?. respondeu Augusto. . tome o breve..Minha boa avó. o tempo que se gastaria em explicações passou-se em abraços. e. porém. Carolina?. eu lha cedo. . ele se abraçava com ela.Mas. com efeito.É verdade! um mês! exclamou Filipe.... ...Minha boa avó.. Ana..