Arquiteto da Memória. Uma Memória de Crateús.

Antonio Torres Montenegro

Prof. Dr. do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

Introdução A construção de uma memória segue muitas trilhas, algumas vezes obedecendo às margens que o tempo lhe ofereceu, outras vezes rompendo os limites e ocupando vastos territórios. A memória de Crateús poderia ser comparada ao movimento das águas que transforma a terra em água, “o sertão em mar” como afirmam os geólogos ou prognostica a sabedoria popular. No entanto, assim como a ação humana interfere de diversas formas nos transbordamentos, uma série de estratégias concorre para que determinadas práticas, alguns acontecimentos, lugares e pessoas produzam marcas e consolidem símbolos e significados que transcendem determinadas fronteiras, limites e espaços. Crateús está situada no sertão do Ceará, a 300 km de Fortaleza. Seu nome tem raiz indígena (Kraté = coisa seca; Yu = lugar muito seco) e está também associada à tribo Karatiu ou Karati, que foi antiga habitante da região.1 Para muitos que tiveram oportunidade de acompanhar pela imprensa os embates entre Igreja Católica e Estado, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, a cidade traz embutida em seu nome o do bispo Dom Antonio Fragoso. Para mim, entretanto, são lembranças que não vieram inicialmente pela imprensa, mas por caminhos familiares; eram os idos de 1971 e meu pai fora convidado para defender um dos padres da diocese de Crateús, que acabava de ser preso e acusado de subversivo. Passei então muitas vezes a ouvir histórias sobre o padre preso de Crateús, e também sobre o bispo chamado Dom Fragoso. Descrições do julgamento, de visitas à prisão onde o padre Geraldo de Oliveira Lima estava preso e fora torturado. Eram descrições impressionistas, que me deixavam indignado e revoltado contra a arbitrariedade do regime militar e a inoperância da justiça, que nos meus vinte anos desejava-lhe justa e reta. Passaram-se os anos, e aquelas memórias ficaram depositadas nas reminiscências dos tempos da ditadura. Algumas vezes eram atualizadas por algum comentário avulso ou mesmo quando lia notícias na imprensa ou artigos referentes à Igreja Popular. No final da década de 1990, iniciei um projeto para estudar a história da atuação de padres estrangeiros no Nordeste, principalmente na área rural, no período de 1960/19702. Realizei diversas entrevistas, e uma passagem no relato da história de vida do padre francês Xavier Gilles de Maupeu, quando da sua chegada em São Luís em 1963, provocou um impacto imediato em minhas lembranças de Crateús/Dom
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THOMÉ, Yolanda B. Crateús. Um povo, uma Igreja. São Paulo: Edições Loyola, 1994. p. 23. Projeto de Pesquisa “Guerreiros do Além Mar”, com apoio do CNPq.(1997-1999)

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peregrinar pelos sertões da Paraíba. apresentou-me a uma moça que estava ao nosso lado e disse: ‘Estás vendo essa moça. significados difusos e impressionistas de Crateús e seu bispo foi refeito de forma abrupta e incontrolável. comecei a perceber como. Imediatamente senti-me confuso. Tu não vens do mundo operário. me dava conta de que absorvera. e na oportunidade em que nos recebeu fez o seguinte comentário: ‘Xavier. nós pedimos um padre para o mundo operário. que comecei a entrar no mundo operário dos bairros de São Luís. Seria então necessário um novo período de aprendizagem. imagens. 2 . Apresentei então um novo projeto ao CNPq para estudar a atuação de bispos e religiosas no Nordeste no período do Regime Militar.4 Através deste projeto. deveria também reconhecer que esta forma de recepção estava associada a uma visão simplista das práticas sociais. mesmo que ocupando uma posição superior – bispo auxiliar – recebia um religioso estrangeiro afirmando que toda sua formação nos Seminários da França de nada valiam para atuar no Brasil. o conjunto de signos que constituía um quadro de impressões.Fragoso. Passado e presente emitiam signos distintos. os bispos tinham um papel muito importante na escolha dos padres e na direção que era dado ao trabalho eclesiástico e pastoral em cada diocese. Nesse sentido. Filho de pais agricultores – 3 Xavier Gilles de Maupeou não era bispo à época. mas não temos. por outro lado. entre eles. Dom Antonio Fragoso. Fui encontrá-lo em João Pessoa. perguntando-lhe sobre determinados acontecimentos. Foi difícil inicialmente. Um religioso nordestino. 4 Caminhos da Resistência Católica: Ação de Freiras e Bispos do Nordeste durante o Regime Militar.’ Em seguida. a formação intelectual e todo um conjunto de experiências trazidas da Europa pouco valiam. uma representação quixotesca daquele bispo que enfrentava o regime militar a partir de um lugar que era descrito como mais um sertão. em face da estrutura hierárquica e centralizadora da Igreja Católica. Significava uma inversão do discurso e da prática colonialista que se instalou quase que de forma natural na cultura do Brasil. Após todo um período de pesquisa acerca da história de vida de padres que vieram de outros países atuar no Nordeste do Brasil nas décadas de 1960 e 1970. Em fração de segundos. Conversar com Dom Fragoso. recriasse o diálogo que se estabeleceu no seu primeiro encontro com o bispo auxiliar de São Luís e. em parte. através dos relatos paternos. a narrativa não deixava dúvidas. e do Ceará. tu não conheces o mundo operário.’ Foi dessa equipe composta de oito moças. aquele relato de memória de Xavier descortinava um outro Dom Fragoso. onde mora após aposentar-se da diocese de Crateús em 1997. Dom Fragoso era bispo auxiliar de São Luís. Mas. ao narrar sua história de vida através de um relato oral de memória. Um padre francês ia aprender seu ofício com trabalhadoras. ou seja. esclarecendo certos detalhes foi. ouvindo sua história de vida. A proposta apresentada a Xavier apontava para novas relações de poder e saber. e tu não sabes nada do Maranhão. exercendo seu bispado por mais de trinta anos. Elas vão te ensinar tua tarefa sacerdotal. ela faz parte de uma pequena equipe de jovens trabalhadoras. Tínhamos necessidade de um padre que viesse do mundo operário. tua profissão de padre. sem saber exatamente o que pensar. Revisitando o passado. Narrava Xavier uma das suas primeiras entrevistas com o bispo auxiliar de São Luís. em fevereiro de 1963.” (Entrevista com Dom Xavier Giles de Maupeu. Precisávamos de um padre maranhense. mergulhei na realidade social do Brasil. tomei consciência de que construíra quase que inconscientemente uma idéia romântica de Crateús. onde nasceu e viveu até os onze anos. 1998)3 Após ouvir esse relato de Xavier. Apoio CNPq. onde os professores seriam uma equipe de jovens trabalhadoras. mesmo passados mais de trinta anos. ainda reavaliasse esse encontro como um momento difícil. Há de se considerar ainda que não era fortuito que Xavier. fev. que na época era Dom Fragoso: “Quando cheguei no Maranhão. iniciei os contactos para entrevistar diversos bispos e. Mas.

não ia acentuar minhas discordâncias. Após esse período o seminário consegue que uma família próspera de João Pessoa o adotasse. quando o bispo principal se afasta. foi capaz de proporcionar aos seus sete filhos uma educação universitária. 5 José Fragoso e Maria José Batista Costa tiveram seis filhos homens e uma mulher. Dom Fragoso é considerado o sucessor natural. eu não podia mudar nada. 8 MAINWARING. São Paulo: Brasiliense. No entanto. nessa transição lá. todos os seminaristas usavam batinas. Trabalhava muito. eu tinha que fazer unidade com ele. seria resultado da pressão dos militares.. 1916-1985. incapazes mesmo de viajar do sertão da Paraíba – Teixeira – para visitar o filho em João Pessoa. 6 Entrevista com Dom Antonio Fragoso em setembro/dezembro 2002 para o Projeto Caminhos da Resistência Católica: Ação de Freiras e Bispos do Nordeste durante o Regime Militar. Todos os seminaristas eram filhinhos de papai. Como vigário capitular passei um ano. Então. de fala delicada e ao mesmo tempo de uma postura firme e intransigente na defesa dos mais pobres. fazer junto com o povo o meu projeto. aos 24 anos de idade. como ele próprio narra: “chegando no seminário. meu pai não tinha nada. Então. tendo todo tempo livre. a indicação de Dom Motta em julho de 1964. pois percebe que deve agir em sintonia com o Arcebispo Dom Delgado: Então.8 Em meados de 1963. que também trabalhava na roça quando a necessidade se apresentava –. ir à rua e voltar. A espera pela nomeação do novo arcebispo será de um ano. Todos os seis filhos ingressaram no seminário e três vieram a tornar-se padres. Trabalhei dois anos no seminário de São Francisco. Mas fiz o curso”6. o que veio a tornar as coisas um pouco mais fáceis. conhecendo um pouco da sua história familiar. Scott. fiquei assim com ele esse tempo. Nos sete anos em São Luís não tem plena autonomia. Rastreando Sinais: A história de vida de Dom Antonio Fragoso. 160. questão de lealdade. inclusive por indicação de Dom Delgado. Dom Fragoso é indicado pelo cabido.7 Embora afirme seu cuidado em não aprofundar discordâncias com o arcebispo Dom Delgado. como vigário extra. onde eu pude ser o pastor. Não era o pastor de uma Igreja. mesmo essa não foi uma experiência fácil para Dom Fragoso que. 7 Entrevista com Dom Antonio Fragoso em setembro/dezembro 2002 para o Projeto Caminhos da Resistência Católica: Ação de Freiras e Bispos do Nordeste durante o Regime Militar. Para muitos. Aí. p. e tinha que dar conta das mesmas lições que os outros davam. onde permanece até agosto de 1964. Nada se muda. foi em Crateús. Não podia renovar nada. Igreja Católica e Política no Brasil. que um casal de agricultores tão pobres. Dom Delgado se transfere para Fortaleza. para levar todos os recados e trazer. até ir para uma diocese onde.José Fragoso da Costa e Maria José Batista. Era ajudante do pastor dessa Igreja. 1989. Inacreditável pensar. a figura do bispo auxiliar desaparece. E como ajudante. eu não pude ter um projeto próprio. e em 1957 é sagrado Bispo assumindo a função de Bispo Auxiliar de São Luís do Maranhão. Achava desonesto isso. porque não era o pastor. em alguns aspectos é muito semelhante à de muitas crianças e adolescentes nordestinos que muito cedo eram atraídos para os Seminários Católicos como forma de terem uma educação escolar que seus pais não estavam em condições de lhes proporcionar5.. Como na hierarquia eclesiástica. Então. Ao mesmo tempo. o bispo auxiliar será conhecido por sua postura em favor dos trabalhadores e trabalhadoras e seu trabalho junto à Juventude Operária Católica (JOC). em condições dificílimas de sobrevivência. da fome. podemos estabelecer algumas associações entre um homem extremamente suave. Dom Fragoso ordena-se Padre em 1944. E eu tinha que trabalhar como porteiro. muito pobres e que viveram intensamente a experiência da seca. durante a vacância de lá. eram padrezinhos. em lugar de Dom Fragoso. onde Antonio Fragoso a partir dos onze anos ingressara no seminário. 3 .

em Catholicism and Development: the Catholic Left in Brazil. Thomas G. das CEBS. em O Cristo do Povo. como comunista. Poderíamos relacionar ainda dezenas de títulos em que as práticas eclesiais e pastorais da Igreja de Crateús foram alvo de estudo.”. b) os grupos políticos. O natural teria sido ele se tornar o arcebispo de São Luís no lugar de Dom Delgado que fora para Fortaleza. reflexão e análise.) A Igreja dos Oprimidos. a diocese era constantemente alvo de críticas de representantes do regime. entre outros temas relacionados à Teologia da Libertação. Em seu poder foram encontradas duas cartas enviadas por Dom Fragoso. 9 Entrevista com Dom Antonio Fragoso em setembro/dezembro 2002 para o Projeto Caminhos da Resistência Católica: Ação de Freiras e Bispos do Nordeste durante o Regime Militar. fev. c) a ampla rede de comunicação e apoio que tem a Igreja Católica dentro e fora do Brasil. denunciando-o como comunista e traidor dos ideais cristãos. Possivelmente. Brasil Hoje. para Crateús. Márcio Moreira Alves. Helena Salen (org. como subversivo. está relacionado à prisão de uma militante de esquerda que havia trabalhado na JOC em São Luís. transferido para “o fim do mundo”. sertão da Paraíba. como também fizeram saber ao general que iriam todos presos em solidariedade. no interior do Ceará. divulga amplamente na imprensa suas críticas. jamais perdeu seus laços e compromissos. da Religiosidade Popular. Mas. se os militares tiveram algum poder de influência na decisão da Igreja de nomear Dom Antonio Fragoso para uma diocese recém criada no sertão do Ceará pensando que com isso iriam condená-lo ao esquecimento e ao silêncio. em sua entrevista. caso a ameaça se materializasse9. Thomas Bruneau. numa família de agricultores sem terra. as atividades desenvolvidas pelo bispo de Crateús é alvo de referências. e d) o bispo ter tido sempre a preocupação em documentar e publicar todo o trabalho diocesano desenvolvido em cada uma das paróquias da diocese. então. Benedito Santos et allii. 4 . o fato desta diocese tornar-se bastante conhecida mesmo não estando localizada em algum centro urbano de maior destaque. em The Political Transformation of the Brazilian Catholic Church. Crateús. Foi. representou uma volta às raízes daquele que fora criado em Teixeira. Sanders. entre outras acusações . Esta notícia foi publicada na imprensa com o seguinte destaque: “O General Domingues mandou prender Dom Fragoso. em A Religião do Povo. Pernambuco. em Catholic Radicals in Brasil. de alguma forma. Como encontrava-se. pode ser atribuída a um conjunto de fatores: a) a conjuntura do regime militar instituía como de extremo perigo as práticas sociais religiosas ou laicas de apoio e organização das camadas populares do meio rural e. na oportunidade. numa reunião dos bispos do Nordeste em Olinda.O Padre Xavier. 1998) Um outro fato que pode ter concorrido ainda mais para que os militares fortalecessem a construção do estigma de Dom Fragoso como religioso comunista. 3. e mesmo parcela da sociedade civil. Embora de lá tenha saído aos 11 anos para iniciar sua formação e nunca mais tenha voltado a morar com a família. cometeram um enorme erro de avaliação. Dom Fragoso foi denunciado por um padre do Maranhão. em Igreja Católica e Política no Brasil. descontentes com a linha pastoral que a Igreja de Crateús assume a partir do seu primeiro bispo. por essa razão. Emmanuel Kadt. N. (Entrevista com Dom Xavier Giles de Maupeu. Scott Mainwaring. “Ser Comunista” – Território do Discurso: Em quase todas as publicações que tratam do tema da Igreja Popular. faz o seguinte comentário: Em 1964. estes imediatamente se solidarizaram com Dom Fragoso e rechaçaram as acusações de bispo comunista veiculada na imprensa.

Ao mesmo tempo. como expõe ao comentar acerca da luta de classes: Quede claro que la motivación profunda no es el odio contra las personas. no sentido de que participem na construção de uma sociedade radicalmente nova. El Evangelio de la Esperanza. mas que também tem suas próprias divergências internas. No creo en la eficacia politica de la lucha armada de los oprimidos para vencer y suprimir la violencia establecida o la violencia de represión. O resultado dessa reunião. p. Observa. Dom Fragoso relaciona suas reflexões teológicas à experiência de bispo que faz uma opção pelo trabalho junto aos trabalhadores e trabalhadoras pobres da sua diocese. violência ou mesmo expressões como “a religião é o ópio do povo”. 10 11 FRAGOSO. o grupo Golconda na Colômbia. 1973. para que no sea sólo uma utopia. A articulação entre os princípios cristãos e o marxismo transforma-se num movimento que propaga-se pela América Latina em grupos como Sacerdotes para el Tercer Mundo na Argentina. França e Alemanha. Este movimento que trabalha com os marginais na luta por sua libertação e evangelização. 5 . La violencia provoca la violencia. mesmo em editoras católicas. Libertar o Povo – diálogo com Antonio Fragoso (bispo). Organização Nacional para a Integração Social (ONIS) no Peru. una denuncia organizada de todas las formas de opresión. Nessa oportunidade reuniuse com os militantes do Movimento do Ninho. 12 FRAGOSO. quando de uma viagem a Roma em julho de 1972. El Evangelio de la Esperanza. Lisboa: Base. foi depois transformado em livro.12 Estes pequenos fragmentos possibilitam ilustrar como opera-se a união entre conceitos marxistas e os princípios fundamentais do cristianismo e como esta articulação de alguma forma define a linha pastoral da diocese de Crateús. p. tem desenvolvido suas atividades na França. para que sea eficaz la esperanza de la liberación. 67. Portugal. luta de classes. para los opresores. em 1966. Antonio. mas não havia em Dom Hélder uma clareza conceitual e uma articulação entre cristianismo e conceitos marxistas como as que estabelece Dom Fragoso. en la socialización de las oportunidades. La lucha de clases de tipo evangélico hunde sus raíces en la fe en todo hombre. 1973. não se furta de definir sua visão cristã usando de conceitos marxistas como revolução. se es amado en la justicia y en la verdad. el odio contra las formas de opresión encarnadas em los mismos opresores. es muchas veces un golpe de estado. então. como una nueva reacción em cadena. Madrid: Ediones Sigueme. al mismo tiempo. por el hecho de ser hombres. deve-se considerar que Dom Fragoso representa uma certa linha de pensamento entre o clero considerado progressista do Nordeste. de todas las estructuras de opresión. con su dignidad humana. Para los oprimidos. es un golpe de las fuerzas armadas. este será publicado em outros países como Espanha. Mas esse caminho de construção deveria ocorrer sem o uso da violência.10 Em 1973. O princípio da não violência. de quem sempre foi grande amigo. 1973. enquanto para os oprimidos a possibilidade da construção de uma nova sociedade. Brasil e Portugal. também em 1968 – ao mesmo tempo que um número cada vez maior de cristãos começou a se envolver ativamente nas lutas populares. em que o bispo explicou detalhadamente as atividades do Ninho em Crateús e fez uma análise da situação do Brasil.11 Observa-se como na análise do termo revolução estabelece uma distinção de significados deste conceito: para os opressores seria a disputa entre oligarquias pela manutenção dos privilégios. Em Portugal. Nele. Antonio. que: La revolución. do qual é também assistente. Antonio.Embora após o golpe de 1964 e até o final da década de 1970 haja enorme dificuldade em publicar no Brasil. o trabalho desenvolvido em Crateús. sino el amor a la persona de los oprimidos y a la persona de los opresores y. liberdade. e al mismo tiempo la construcción de una sociedad nueva en la que participen todos los hombres. que sustituye drásticamente una oligarquía por otra oligarquía. en la certeza de que todo hombre es capaz de resurrección. é publicado na Espanha um outro livro de sua autoria: El Evangelio de la Esperanza. Nesse sentido. Dom Fragoso permaneceu dois dias em Lisboa. la revolución es una ruptura. FRAGOSO. e procura demarcar vários campos teóricos em que constrói e define a sua orientação pastoral. 65. Esta lucha de clases parece ser uma acción necesaria. Madrid: Ediones Sigueme. por exemplo. em 1968. o aproxima bastante de Dom Hélder.

que la felicidad sólo se da después. proíbe qualquer movimento de apoio e solidariedade às lutas e movimentos populares. o trabalho desenvolvido pela Igreja junto aos trabalhadores rurais e mesmo urbanos no inicio da década de 1960 era uma forma de buscar neutralizar a influência comunista ou das esquerdas em geral. Se estabelece então uma verdadeira batalha discursiva. pois o clima de repressão que se instala. El Evangelio de la Esperanza. que tenemos que tomar nuestra cruz porque no hay ahora ninguna otra salida. confirmaría la pasividad del pueblo. p. 76. 6 . entre a Igreja e o regime. tradução Vera Lúcia Mello Joscelyne. com muita facilidade. atribuir a opção de um Igreja dos Pobres que foi sendo construída por uma parcela significativa de religiosos e religiosas como resultado de diretrizes que viriam dos grandes centros de decisão. No entanto. Religião e política na América Latina. Puebla.13 Por outro lado. que la alegria sólo se tendrá después. 16 ALVES. Para reforçar a visão destes representantes do regime./ Michael Löwy. ao mesmo tempo em que reprime crescentemente as organizações de esquerda. Adormeceria en el pueblo su capacidad de lucha. Michael. passam a ser rotulados de comunistas. 1973. Após o golpe de 1964. tinha iniciado um trabalho semelhante. onde a Imprensa se transforma no palco privilegiado dessa disputa.16 Crateús não esteve fora do alvo dos 13 LÖWY. que la libertad sólo se obtendrá después. como o Vaticano II. fev. há que considerar que todos esses posicionamentos teóricos apresentados no El Evangelio de La Esperanza se constituiriam para muitos defensores do regime militar em suficientes sinais de mais uma prova do conhecido esquerdismo do bispo de Crateús. 1968. Rio de Janeiro: Editora Sabiá. Mais ou menos na mesma época. as considerações escritas pelo bispo acerca da afirmação marxista de que “a religião é o ópio do povo”. assassinatos e expulsões de padres quando de outras nacionalidades. que teve início este tipo de trabalho de base da Igreja. 70-71. ser e não ser comunista instituíram um dos campos de maior conflito entre a Igreja Católica e o Estado durante o período do regime militar no Brasil./ Michael Löwy. Costuma-se. Muitas dessas acusações algumas vezes antecipam prisões. especialmente com o chamado Monsenhor Cambron. algumas vezes. Márcio Moreira. pelo menos no Maranhão.Esses últimos reinterpretavam o Evangelho à luz dessa prática e. com a missão canadense. 1998). 2000. Antonio. que este mundo es sólo un valle de lágrimas. 77. Muitos relatos de história de vida de padres já apontam nessa direção. que afirma: Embora as CEBs tenham sido oficialmente reconhecidas a partir de Medellin. outras vezes as medidas repressivas são primeiro implementadas para depois serem formalizadas as acusações. 14 FRAGOSO. Madrid: Ediones Sigueme. A guerra dos deuses. que la justicia sólo existirá después. no Brasil de maneira geral. (Entrevista com Dom Xavier Giles de Maupeu. uma catequesis que nos dijese que el cielo sólo viene después. 15 LÖWY. Michael. em uma outra região do Estado. descobriam no marxismo uma chave para a compreensão da realidade social. Medellin. uma predicación. 2000. O Cristo do Povo. dentro de um movimento maior de renovação da Igreja entre as décadas de cinquenta e sessenta”. como os do próprio Dom Fragoso ou do Padre Xavier Gilles. foi nessa experiência em Tutóia. torturas. Religião e política na América Latina. P. seria uma evidência irrefutável da sua opção comunista: Un mensaje evangélico.14 Ser ou não ser comunista. e mesmo outros que aderem a essa linha. Petrópolis: Vozes. e orientações sobre como mudá-la. p.15 No entanto deveríamos romper com esta visão mecanicista e pensar também que esses grandes encontros apontaram na direção do muito que vinha sendo praticado no cotidiano das dioceses e paróquias. tradução Vera Lúcia Mello Joscelyne. A guerra dos deuses. Esse tipo de trabalho das CEBS surgiram em diversas partes da América Latina. Os setores da Igreja que sempre trabalharam nessa direção. de acusação e defesa. e mais especificamente no Nordeste. Petrópolis: Vozes. que nada de eso se realiza ahora: un mensaje presentado de esse modo sería verdaderamente um opio del pueblo. a situação altera-se radicalmente.

ocorre algumas vezes que uma declaração. encarcerado e depois expulso do País. 20-05-1969. Folha de São Paulo. 1973. Madrid: Ediones Sigueme. Diário de Pernambuco.”20 Essa curta declaração. Este choque culminará com a destituição do Monsenhor do cargo de Vigário Geral. sem direito a defesa. Dom Fragoso não era comunista. Dessa forma. a crise gera uma mobilização de parte da cidade contra a atitude do bispo. por extensão. à primeira vista banal.” 19 Para que seja possível avaliar a gravidade dessas acusações no contexto de um regime autoritário e repressivo. Este episódio. da Polícia e do Dops. O Vigário Geral da Diocese. alinhou as seguintes razões para a sua iniciativa: Dom Antônio Batista Fragoso disse que “Cuba deve ser um exemplo para a América Latina” e convidou o povo de Crateús “a transformar a diocese numa pequena ilha de Cuba”. Nonato Bonfim. 85. Correio da Manhã. 7 . 19 Jornal do Brasil. Disse numa conferência em Sobral que “quisera ter a coragem de Che Guevara para lutar pelos oprimidos. Geraldo de Oliveira. nunca se provou que tivesse 17 18 FRAGOSO. Antonio. Disse num programa de televisão em São Paulo que o marxismo é aceitável como método. Correio da Manhã. Rio de Janeiro. Considerou a Revolução de março uma “revoluçãozinha aspeada. acusando o bispo de não exercer o seu ofício de religioso e de fazer política e ser contra o regime: O vereador Nonato Bonfim que requereu fosse o Bispo considerado persona non grata. p. além dos laços familiares na cidade de Crateús. apontarem um desvirtuamento da prática religiosa e indícios de incitamento das camadas populares contra o regime e. é necessário procurar situá-las no conjunto maior das redes sociais. há uma transcrição de uma declaração de um porta-voz de Dom Antonio Batista Fragoso em que este teria afirmado que: o Bispo foi considerado persona non grata porque “vem mostrando que já se deve dar consciência ao faminto de que ele passa fome e que deve exigir dos que governam condições mínimas de segurança. Jornal do Brasil. 20-05-1969.17 Dom Fragoso viverá de forma muito aguda no ano de 1969 a experiência de ser estigmatizado como comunista. e um dos seus padres. faz aprovar uma moção declarando o bispo persona non grata. Rio de Janeiro. se transformará em assunto nacional.aparelhos de repressão. e nesse aspecto recorrem algumas vezes ao artifício de utilizar-se de falas ou expressões de terceiros. Correio do Ceará. políticas e culturais. O vereador e presidente da Câmara.” Afirmou numa conferência em Teresina que “Crateús é uma terra de analfabetos. que hoje pode ser lida como uma afirmação trivial. Monsenhor José Maria Moreira do Bonfim. ao projetar um conflito entre o denominado clero progressista e o clero tradicional. Rio de Janeiro. um segundo. entre outros.18 Ao analisar as diversas matérias publicadas na Imprensa. Imediatamente a Arquidiocese de Fortaleza distribui nota afirmando que “os vereadores serão considerados também persona non gratas ante a Igreja Católica”. onde não se lê jornais nem se toma conhecimento do que ocorre no resto do Brasil. 18-05-1969. torturado e mantido incomunicável durante 11 dias no Recife. comentado na revista Veja e nos jornais O Estado de São Paulo. trabalho e conforto. além dos diversos desmentidos pessoais a que foi instado pelas circunstâncias a fazer. na época era motivo para os setores contrários a Igreja Popular. No entanto. Padre José Pedandola. foi preso. El Evangelio de la Esperanza. realiza à revelia do bispo.”. poderemos diferenciar aquelas que são nitidamente contra o clero progressista. e das próprias comunidades uma reforma no cemitério. uma grande ameaça à ordem e à segurança nacional. Afinal. Tem concitado o povo a “não ter medo do Exército. 20 Jornal do Brasil. uma expressão ou mesmo uma fala que se pretende favorável pode transformar-se em mais um argumento para os adversários. em face dos seus 25 anos de trabalho pastoral. que encontrava-se em viagem. ou mesmo para compreender o significado dos discursos e das práticas de um período. foi também seqüestrado. Nessa mesma matéria do Jornal do Brasil.

outras em tom de relatório. documentar encontros. 1973. Mantinha relações de amizade dentro e fora da Igreja com pessoas também suspeitas de serem comunistas. Em seus escritos é possível identificar expressões e conceitos do universo da teoria marxista. Este outro livro de registro da memória das atividades da paróquia é denominado de Livro de Tombo. como também dos encaminhamentos e projetos. projetos. si es amado en la justicia y en la verdad. totalizando mais de 12 horas. Em alguns momentos temos a impressão que estamos ouvindo a leitura de um livro de alguém que escreveu antecipadamente suas próprias histórias. Mas não foi apenas a sua memória pessoal que Dom Fragoso teve o cuidado de organizar. Tamboril. Um índice remissivo. Tauá.. os discursos e as práticas que apontavam na direção da organização e fortalecimento dos movimentos populares eram considerados comunistas. Novo Oriente. en la certeza de que todo hombre es capaz de resurrección. Talvez as dezenas e mesmo centenas de entrevistas concedidas ao longo da vida sobre os mais diversos acontecimentos e temas da Igreja e sobretudo da prática pastoral em Crateús. e mesmo uma política da Diocese de Crateús. Como a diocese tem uma linha pastoral voltada para o cotidiano das comunidades. debates realizados. em que lembranças. Parambu. Arquiteto da Memória: Ao entrevistar o bispo de Crateús ao longo de vários dias. Muito mais que isto. à época era clandestino. 21 FRAGOSO. suas declarações e escritos apontavam constantemente na direção contrária ao materialismo histórico que fundamentava a teoria e a prática comunista. os problemas das condições de vida e trabalho são bastante debatidos. descritos. problemas. Monsenhor Tabosa e Senhor do Bonfim – que formam a diocese de Crateús. que resulta provavelmente de longos períodos de meditação. Os relatos. as lembranças. facilita enormemente a consulta. 8 . Estas visitas duram em média de dois a cinco dias. uma detalhada descrição das visitas pastorais periódicas realizados pelo bispo a cada uma das dez paróquias – Ipueiras. que têm o tamanho de uma folha de papel ofício. em que o padre é o responsável por descrever a memória da(s) comunidade(s) da sua paróquia. e são descritas pelo bispo em tom bastante pessoal. Em grandes livros encadernados.qualquer filiação ao Partido Comunista que. Acredita como homem de fé. caminhos e descaminhos. Independência. o que torna a leitura agradável. as reflexões ditas de forma muito delicada se associam a uma maneira firme e positiva de se expressar. enfim um minucioso retrato escrito das atividades realizadas. tenham concorrido para desenvolver essa capacidade de narrar. Madrid: Ediones Sigueme. Novas Russas. avaliados e os diversos posicionamentos e propostas de pessoas e grupos. como nome das pessoas envolvidas nas diversas práticas pastorais das comunidades. em que as palavras. reflexões. na contracapa. são encontrados em páginas cuidadosamente datilografadas. Ou deva-se considerar que essa memória pessoal encontra-se tão organizada porque sempre foi uma preocupação. p. afinal. Estas encadernações. a data e a página.21 Mas Dom Fragoso era comunista. práticas. 65. reflexões. Antonio. organizadas sob o título de Visitas Pastorais. escritos algumas vezes em forma de crônica. Poranga. La lucha de clases de tipo evangélico hunde sus raíces em la fe en todo hombre. inclusive. Estes são os argumentos constante dos seus adversários durante o período do regime militar. descobre-se um religioso que tem uma memória muito organizada. devem ser acompanhadas por um trabalho de registro dos acontecimentos de cada paróquia. intimista. mas todos oferecendo muitos detalhes. El Evangelio de la Esperanza. acontecimentos. sonhos e reflexões se projetam em um amplo mosaico multifacetado. fazia constantes afirmações de simpatia às propostas de comunistas como Che Guevara e o regime político de Cuba. inspirado nos evangelhos que a salvação é para todos. com o nome da paróquia.

Está incluído na área da Paróquia da “Senhora Santana” que cobre dois Municípios: Independência e Quiterianópolis. teve a pauta seguinte: 1°) As alegrias que tivemos da última reunião para cá. Maurízio presidiu a Eucaristia. resgatando a memória do que acontece e recolhendo dados para a história. Maurízio que iniciasse um Livro de Tombo. despertando o povo. da “Fraternidade Esperança” e Secretária Diocesana de Pastoral. Pasta No. de registro estimula a refletir acerca das muitas razões possíveis de serem relacionadas a este operar da memória que o bispo de Crateús realiza. ambas das “Missionárias Diocesanas”. a Banda de Música tocou a “alvorada”.Um pequeno fragmento do que o bispo denomina crônica de uma visita pastoral ajuda-nos a ilustrar o enorme trabalho desse artesão da memória: Visita à Quiterianópolis Quiterianópolis é município novo. Esta crônica. animada pelo Pe. me disse que este ano a Festa tem o duplo de gente. pela Ir. de relatório em um misto de estilos. em Crateús. Vila Coutinho. para evitar tentativas habituais de manipulação política que dificultariam a liberdade da Ação Pastoral. Em uma sociedade sem tradição de políticas de construção e 22 Diocese de Crateús. Livro III. 154. razões e estratégias na escolha de determinadas decisões.”22 A construção da memória. de começo. a Paróquia de Quiterianópolis. E.08 – Pelas 5 horas da manhã. no Salão Paroquial. de começo. no dia 11 de agosto. 3°) Revisão dos compromissos assumidos desde o último encontro. Gerardo Fabert. acompanhada de constante reflexão. Chamava-se antes Santa Quitéria e. também participou. A reunião. que se extendeu até à tarde. despertando o povo. que se materializa nesses relatos em forma de diário. depois. que escrevi. Por isto se decidiu que. possibilita recuperar a dimensão memorialista de alguém que está também preocupado em transmitir às gerações futuras. Pe. Também estava presente Fr. 4°) Previsão dos passos de futuro. 2°) Testemunhos dos presentes que participaram. 12. limitada e incompleta. do 4° Encontro Diocesano das CEBs. O estilo de diário em um misto de crônica se revela em passagens como quando registra que: Pelas 5 horas da manhã. Maria Alice de Oliveira e Silva e pela Irmã Salete. A Diocese decidiu não criar. Seguiu-se a oração comunitária. para evitar tentativas habituais de manipulação política que dificultariam a liberdade da Ação Pastoral. Essa política de documentação. Estava se realizando a novena da Padroeira. ensinamentos. à noite. Cheguei a Quiterianópolis. Deusimar. Nossa Senhora da Conceição. Maurízio Cremaschi. A animação pastoral do Município. Pelas 10 horas. na qual crianças receberam pela primeira vez a comunhão. Nesta visita pastoral. na cidade e no interior). comparando com a Festa de 1988. manifesta-se a dimensão de relatório. 9 . pedi ao Pe. irmãozinho do Evangelho. Pe. oferece condições de uma decisão de futuro. a partir de amanhã. da Coordenação Diocesana de Pastoral. a Banda de Música tocou a “alvorada”. A Ir. Maurízio me dizia que não há uma grande tradição da Festa da Padroeira. como ao afirmar que: A Diocese decidiu não criar. será celebrada no pátio externo da igreja. Já na transcrição da pauta. a Paróquia de Quiterianópolis. Visitas Pastorais. cedido à Diocese de Crateús pela Diocese de Bergamo (Itália). Pag. 01. 6 a 8 de agosto. Funciona como uma Área Pastoral autônoma. A igreja estava bem cheia. em que não incluímos o detalhamento de cada um dos quatro itens – que consta do texto original –. pelas 8 horas. deseja ajudar o conteúdo do “Livro de Tombo”. Olga Meyer. de crônica. que reside na Barra dos Ricardo e anima cerca de 2 dezenas de Comunidades que estão no Município de Quiterianópolis. reuniu-se a Coordenação (pessoas mais responsáveis pelo acompanhamento. mas que a participação está crescendo.

o livro O Rosto de uma Igreja. São O Rosto de uma Igreja. 16/17. Antonio Batista. p.23 O livro é dividido em três partes: Uma caminhada de 16 anos. Na primeira parte. São O Rosto de uma Igreja. comprometida com a libertação do povo”. Paulo: Edições Loyola. Transforma a sua vocação memorialista em uma política da Diocese e. 1982. que lhe pergunta: “se nós colocarmos para fora das terras os trabalhadores por causa da agitação dos sindicatos. como estava a catequese. 27 FRAGOSO. Paulo: Edições Loyola. Dom Fragoso que seu projeto de sociedade não coincidia com os da elite de Crateús. as discussões. que esperavam eles do bispo”. Ao descrever a caminhada. da situação de cada paróquia que fora na época visitada. opera a passagem de artesão a arquiteto. que o bispo demonstra interesse em rememorar e registrar no livro. 25 FRAGOSO. p. ao mesmo tempo em que reconstrói a memória de diversos acontecimentos. O orador lionista exclamou: “Sindicatos Rurais? Mas isto é subversão!”28 Conclui. Paulo: Edições Loyola. O seu texto das visitas pastorais irá também constituir-se em documento de memória a ser anexado aos Livros de Tombo. Antonio Batista. servidora e pobre”24. das atividades desenvolvidas pelos padres e grupos de leigos no momento da chegada em 1964.preservação de acervos. 10 . Ensaio de Interpretação e Depoimentos. além de um detalhamento da estratégia e das táticas propostas para que seja alcançada em Crateús “uma Igreja dos pobres. Antonio Batista. sobretudo. dividida em 20 tópicos. 1982. o senhor tem terra para oferecer a eles?”27 Também durante um jantar no Lions Clube de Crateús irá reafirmar sua posição pastoral de privilegiar “a conscientização do povo do campo” e “ajudar o cumprimento da lei: que se organizassem nos Sindicatos de Trabalhadores Rurais”. Antonio Batista. quando foi a uma emissora de rádio e afirmou a necessidade dos trabalhadores que viviam majoritariamente no meio rural procurarem se sindicalizar. embora a história da Diocese tenha sido vivenciada coletivamente. 26 FRAGOSO. São Paulo: Edições Loyola. Paulo: Edições Loyola. Antonio Batista.25 Em seguida. 21. o seu olhar e que “não é a história que o conjunto da diocese elaborou”. 1982. Antonio Batista. a iniciativa de Dom Fragoso. desenvolve uma reconstrução de memórias desde o momento da chegada. e que essas divergências poderiam ser motivo de tensões e conflitos no futuro. Paulo: Edições Loyola. São O Rosto de uma Igreja. em cada uma das 10 paróquias. p. então. são 23 24 FRAGOSO.29 Na segunda parte. através dessa postura. foi saber qual era a pastoral que faziam. Pag 52. Não constrói apenas e unicamente um diário pessoal e particular. relatando em detalhes a festa como foi recebido e suas primeiras discordâncias com o tipo de recepção organizado. 1982. Imediatamente recebeu a visita de um proprietário. p. São O Rosto de uma Igreja. apresenta-se também como o histórico de projetos e ações desenvolvidos nesse período. Ao completar 16 anos como bispo de Crateús. Afirma que o livro representa a sua visão. 1982. descreve o diálogo que estabeleceu com cada padre nas visitas às paróquias: “A minha conversa inicial com os padres. Dom Fragoso publica. 1982. pela Edições Loyola. O Rosto de uma Igreja. se havia ação católica especializada. 28 FRAGOSO.26 Uma segunda atitude. Pag 21. Esta primeira parte. 19. com a ausência quase completa do povo no coquetel que lhe foi oferecido. a liturgia. Antonio Batista. mas estimula as próprias paróquias a organizarem o seu Livro de Tombo. 29 FRAGOSO. São apresentadas em seguida as propostas. p. 11. com o palácio construído para sua moradia e. afirma-se como um projeto surpreendente. onde apresenta a história de sua caminhada nesta diocese. 51. as reflexões que foram encaminhadas coletivamente no sentido de buscar transformar a Igreja de Crateús em “um serviço evangélico do povo. como a dar exemplo e comprometer os padres das Paróquias na construção das suas próprias memórias. Paulo: Edições Loyola. realiza também uma cartografia da diocese. São O Rosto de uma Igreja. a prática das missas nas capelas e na sede. São O Rosto de uma Igreja. FRAGOSO. 1982. ocorreu alguns dias após sua chegada à cidade.

dos pobres. que atuam como intercessores32. Estudantes Jesuítas que trabalham ou passaram alguns dias nas comunidades das diversas paróquias. no interior da grande Igreja-Povo. dos pequenos. São Paulo: Edições Loyola. reunidos nos seus espaços de base que chamamos Comunidades Eclesiais de Base. Conversações. FRAGOSO. moderada – em um Igreja Popular. Dom Fragoso. Dessa maneira. Pag 97. dos fracos. ou seja tudo que está sendo proposto e desenvolvido de forma coletiva com a participação popular está respaldado em rigorosas reflexões teológicas. A reconstrução que realiza das lembranças do momento da chegada e os choques com as elites locais e estaduais se transformam no livro numa declaração de princípios. O Rosto de uma Igreja. Em 1990. o seu testemunho. algumas vezes. é apresentada uma série de depoimentos de Padres. da documentação. sobretudo quando se priorizam os mais pobres.33 A iniciativa de mais um livro de alguma forma revela que. das diversas comunidades. as vitórias e derrotas. sobretudo porque se alicerçam a partir do trabalho das Comunidades Eclesiais de Base. Entende esta Igreja como “a Igreja dos oprimidos. Entre os depoimentos. está emergindo a Igreja Popular”. à medida 30 31 FRAGOSO. Religiosas. As reflexões teóricas da segunda parte revelam os princípios em que se fundamentam os caminhos escolhidos. que dizes de ti mesma?” As respostas em formas de depoimentos. São Paulo: Editora 34.” 31 Estabelece uma cruzada a favor do registro. Antonio Batista. políticas. o relato produz uma representação que alia de forma bastante consciente as linhas básicas do projeto de Igreja Popular e Libertadora à sua fundamentação teórica.descritas as linhas teóricas e teológicas que fundamentam o projeto de transformar a Igreja de Crateús – considerada por Dom Fragoso ainda predominantemente tradicional. culturais e econômicas. uma Igreja. 1994. 32 DELEUZE. 11 . em 1995. em que seu bispo aparece como autor e ator bastante consciente do seu projeto. da memória. críticas revelam ao leitor os desafios e as dificuldades em desenvolver um trabalho coletivo. Crateús. p. completaria 75 anos e. Pag 58. por fim. conservadora. 1982. o que se aprendeu perca-se irremediavelmente no tempo. Assim. 1982. Ponham no papel a sua experiência. A partir deste ponto. se tiverem paciência de ir até o fim. um povo. Antonio Batista. os impasses. o livro procura construir uma imagem de exercício da democracia ao dar voz aos diversos atores. 134. catequética e litúrgica posteriores. E. Pode-se imaginar que receia que todo o enorme trabalho realizado nas diversas comunidades. Yolanda B. Dom Fragoso reafirma seu compromisso maior com a memória ao fazer a todos “os irmãos bispos. este arquiteto da memória inicia um novo projeto de história com vistas aos 30 anos de caminhada da diocese. as experiências. não há nenhum que se manifeste contra o projeto previamente escolhido e desenvolvido. os textos revelam conquistas e também dificuldades e mesmo críticas a algumas práticas. sociais. que irá informar as práticas pastoral. nesse momento. um pedido. Uma das preocupações centrais naquele momento era com a orientação pastoral do futuro sucessor. um apelo fraterno. padres e leigos que me lêem. A partir de um pedido do Bispo. 2000. Na terceira parte. relatos de experiências. apresentar críticas ao modelo instituído na diocese a partir de 1964. Com isso. E toda essa sabedoria acumulada possivelmente também em outras dioceses pode estar sendo perdida. O Rosto de uma Igreja.30 Escrevendo uma conclusão nessa segunda parte. Tradução Peter Pál Pelbart. que seria comemorada em 1994. Gilles. deveria aposentar-se. São Paulo: Edições Loyola. procurando construir uma outra relação entre religioso(s) e religiosa(s) e as pessoas das diversas classes. alguns colaboradores podem também construir sua representação da Igreja Popular da Diocese de Crateús e. 33 THOMÉ. procuram responder à pergunta: “Igreja de Crateús. da história. Fortalecer essas memórias transformando-as em documento escrito é também uma maneira de fortalecer e articular de maneira mais efetiva a Igreja Popular e seu clero. São Paulo: Edições Loyola. reflexões. O livro representa a produção da imagem/memória de uma experiência de Igreja Popular.

38 THOMÉ. uma expressão de paz e alegria.Um pouco de História. V. das injustiças. 15. São Paulo: Edições Loyola. que são então reconhecidos como pessoas. p. (ISSO). Yolanda B. Arrancaram a porta de seu casebre para pôr o corpo em cima. um povo. Crateús. São Paulo: Edições Loyola. basicamente através dos relatos orais transcritos.A Igreja de Rosto Novo. sem apoio. aluguei “o casebre da finada”.. Thomé. Surgiu então a Irmandade do Servo Sofredor. três das quais com grupos”35. Nos diversos temas abordados manifesta-se uma constante presença da Igreja através dos diversos grupos pastorais. um povo. abandonados. 37 THOMÉ. como irmãos. Esta viaja para Crateús. Encontram um lugar na 34 35 THOMÉ. uma Igreja. um povo. desde as lutas dos indígenas na região contra os colonizadores. 144. um povo. suas responsabilidades partilhadas não conseguiam alcançar.E lá descobri um verdadeiro santuário de Deus!39 Este trabalho junto aos mais pobres foi sendo ampliado e adquirindo uma dinâmica própria. 1994. O livro é dividido em cinco partes: I.34 Convida. Crateús. então. Foram. 36 THOMÉ. Viviam na rua. Mas o caminho escolhido. o sindicato. Os relatos são reconstruções de como os projetos foram vivenciados pelas pessoas entrevistadas. e fui viver na zona. algumas vitórias nas diversas lutas empreendidas. p. Crateús. Yolanda B. 1994. cuidando de escolas. então. Crateús. falando de reforma agrária. uma prostituta que estava morrendo de tuberculose: Vi então aparecer no seu rosto. o regime de trabalho. 125. p. São Paulo: Edições Loyola. 1994. Essa verdadeira revolução afastou muita gente.37 Este número denota de certa forma como a prática pastoral estava bastante articulada com um movimento de mobilização popular. A questão dos conflitos de terra. Ela morreu quinze dias depois. a partir do trabalho do padre suíço Freddy Kunz (conhecido popularmente como Alfredinho). Na segunda parte. por volta de 1990. uma Igreja. uma Igreja. um povo. p. que chegou em 1968 a Crateús. onde permanece dois meses conversando com o povo. 1994.36 Um dos projetos que passou a ter um grande significado para Diocese foram as Comunidades Eclesiais de Base. São Paulo: Edições Loyola. fundando seminários e outras obras nessa perspectiva. 135. 39 THOMÉ. uma Igreja. Em 1911 passa de Vila a Cidade. é apresentado um relato dos antecedentes históricos da cidade de Crateús. e em 1963 é transformada em Diocese. São Paulo: Edições Loyola. ouvindo sua história e transcrevendo o mais fielmente possível os relatos gravados. Crateús. Até 1991 trinta e um projetos haviam recebido apoio.Situação e Caminhada do Povo. bodegas. a criação da Vila em 1832. construir uma história “guardar a memória do caminho percorrido. como um reflexo da presença de Cristo. Na primeira parte. criou-se uma organização que tem ajudado na integração dos miseráveis. Yolanda B. uma Igreja. realizadas “trinta e seis entrevistas. Nesse aspecto. para executar o projeto. Na terceira parte. Um mês depois.Itinerários. um povo. a orientação adotada pela diocese foi uma frustração para muitos que esperavam que esta assumisse um papel civilizador. com a República seu nome muda para Crateús. dos sem-terra. sua leitura da Bíblia. uma amiga. deseja registrar. procura apresentar como a Igreja de Crateús construiu seu caminho e quais seus principais projetos. II. são abordados os principais problemas vivenciados pelo povo. Estas. do povo sofrido. grupos de crochezeiras. combinado com o bispo. THOMÉ. São Paulo: Edições Loyola. 1994. Dessa forma.38 No entanto. Yolanda B. Yolanda B. como relata uma entrevistada foi “Incentivar o povo a ser agente de sua própria história.. escandalizada de ver a Igreja com um discurso político. uma Igreja. 16. Narra este que um certo dia foi chamado para atender Antonieta. 154. contada por aqueles mesmos que o percorreram”. A Diocese realizava pequenos empréstimos para que fossem desenvolvidos projetos como hortas comunitárias. a Indústria da Seca. com o nome de Princesa Isabel. III. 12 . Um outro trabalho desenvolvido foi o dos projetos comunitários. que as CEBs com suas reuniões. havia os mais pobres ainda. Yolanda B.Conclusões: Forças e Fragilidades. a Comissão Pastoral da Terra. p. 1994. de depósitos para armazenar a produção. p. IV.que aproxima-se a aposentadoria. Yolanda B. estariam em torno de setecentas. Crateús.

leigos e religiosos para realizarem o enorme trabalho que se coloca a cada dia. o desconhecido. o esquecimento é um grande perigo. THOMÉ. uma Igreja. Crateús. destacar o enraizamento popular. muitas vezes. São Paulo: Edições Loyola. quanto à futura aposentadoria do bispo. Nos seja testemunha. destacar a ampla participação popular e projetar as inquietações que colocavam-se naquele momento. as memórias oficiais tendem a silenciar. Nas conclusões. 155. A página escrita em sangue. responderá às questões do meio urbano. Ao mesmo tempo destaca a diversidade na unidade como condição deste exercício democrático. como essa Igreja. as fragilidades decorreriam de vários fatores. p. diversos desafios da vida e do trabalho : Senhor bondoso e justo. sem seca e sem cobiça. produzir uma memória. tão voltada para o meio rural. São Paulo: Edições Loyola. o questionamento de se a maioria do povo está identificado com o projeto de pastoral de libertação. de alguma maneira. numa marca. Yolanda B. Primeiro. Apesar de contar com o apoio do bispo. como numa crônica do cotidiano. revela dissensões que. Esta. A quarta parte são relatos de homens e mulheres. buscava-se organizar e sistematizar uma história. dessa parte são transcritos trechos de poemas de cantadores populares em que são reproduzidos. 13 . grava em nossa memória Tão dada ao esquecimento.40 No entanto. procura reafirmar as linhas fundamentais do trabalho desenvolvido na Diocese. O livro Crateús. p. um povo. a questão da sucessão do bispo. 1994. Para esta a força está associada à radicalidade de um projeto de Igreja popular e libertadora. já que suas armas são a oração.. e ao mesmo tempo projetam inúmeras interrogações acerca do que foi silenciado. Ao final. que se coloca a partir de 1995. 1994. numa referência para enfrentar o futuro. uma Igreja. um povo.. Em outros termos.Irmandade. a autora se propõe a comentar tanto o que considera os aspectos fortes como as fragilidades. o conflito entre a linha da Diocese e a de Roma. Os relatos recriam acontecimentos e experiências que surpreendem pela força e intensidade como foram vivenciados. De que só a união dos pobres na justiça Fará vir nova era. pois alegam que esta não integra a dimensão política e que sua resistência é apenas religiosa. Yolanda B. 197. uma identidade. reafirmar caminhos. Mesmo os momentos mais difíceis e tudo o que se fez para enfrentá-lo parece que é apagado. religiosos(as) ou não. mesmo havendo bom tempo. 1990. que busca através de um esforço constante de exercício democrático estabelecer uma coerência entre as palavras e os atos. o jejum e a nãoviolência. Crateús. um povo. na dor deste momento. Por outro lado. para que a memória não seja ameaçada pelo esquecimento. E nesse momento solicita a intervenção divina. Fazendo a Nossa História: 40 41 THOMÉ. em face daquilo que seus narradores privilegiaram revelar. a possibilidade de ruptura. quiçá. no hoje como outrora. a publicação das discordâncias. que descrevem em algumas páginas um pouco da sua história de vida e como se engajaram no trabalho pastoral em Crateús. quando volta o bom tempo. poderia constituir-se num sinal.41 Para o poeta popular. uma Igreja. e também a escassez de pessoas. nem todos fazem uma avaliação positiva da Irmandade do Servo Sofredor.

FAZEMOS NOSSA HISTÓRIA. decidimos escrever estes CADERNOS. Geraldo de Oliveira Lima e José Pedandola. 1989. outras estratégias. Diocese de Crateús. Esta forma de encaminhar a reflexão apontava no sentido de trazer para a própria Igreja de Crateús a consciência de que era em razão das escolhas pastorais realizadas coletivamente que o confronto apresentava-se com o regime. a diocese de Crateús aparece relativamente isolada numa posição de “ponta profética”. Atualmente não há fatores novos que permitiriam diminuir a pressão sobre a Igreja desde o momento em que esta tome posições de defesa. José Comblin esteve. foram convidados para visitas de trabalho. Muitos intelectuais. na memória e no coração. hoje e amanhã. Para este. ou assumidas em nome da diocese pelo bispo diocesano. que prendera dois padres da diocese. Nessa cruzada pela memória. embora seja difícil fixar o momento mais oportuno. prisões. a partir 1974. e de certa forma isolava-a em relação a outras dioceses do Brasil: Em relação às demais dioceses do Brasil. como foram os anos de perseguições. uma reformulação de certos aspectos da pastoral diocesana parece inevitável. sobre as dificuldades e os riscos de que era alvo a Igreja de Crateús: Diante dos novos acontecimentos. Caminhamos juntos. a repressão de que era alvo a Diocese advinha das posições proféticas assumidas coletivamente ou assumidas por diversos movimentos. além da perseguição e prisão de líderes sindicais que trabalhavam junto com a Igreja. sendo este último expulso.Ao completar 25 anos. a partir dele procurar estabelecer outros caminhos. a nossa memória. tinha documentado e preservado os Planos Diocesanos de Pastoral (1965-1974) e também. e que suas práticas eram consideradas uma ameaça à ordem e à segurança nacional. que se transforma no ‘selo’ dos 17 cadernos publicados: Durante 25 anos. Era necessário aprender com o que de novo acontecia e. Escrevia Comblin. Diocese de Crateús. acompanhando reuniões e encontros. de representação ou de conscientização das classes populares. trazemos conosco. no final de 1971. expulsões de padres na primeira metade da década de 1970. num grande mutirão de Fraternidade e de Experiência de Deus. José Comblin – Clodovis Boff. o bispo que já havia garantido a memória das práticas cotidianas através dos livros das Visitas Pastorais. Coleção Fazendo a Nossa História. a Igreja de Crateús caminha por estes Sertões de Crateús e dos Inhamuns. a tornava o centro das atenções do regime. 6.42 Em outros termos. Suas reflexões naquele momento revelam o clima de tensão interno vivido por religiosos e leigos em face das pressões do regime. 1989. 1989. Testemunho de Amigos II. 44 Caderno 03. Muitos dizem que somos “um povo sem memória”. p. Naquele período. 43 Ou seja. 03. assessorando criticamente a caminhada da diocese. ameaçando destruir toda a caminhada da Diocese. p. numa visita de três dias a Crateús. Coleção Fazendo a Nossa História. Testemunho de Amigos II. Coleção Fazendo a Nossa História. ministrando cursos. companheiros de caminhos. 43 Caderno 03. as manhãs alegres e criativas e as noites de escuridão. Essa posição e esse isolamento tornavam inevitável uma situação de repressão que já começou a se manifestar. 5. Diocese de Crateús. em 1989 passava a editar os Cadernos: Fazendo a Nossa História. Não se pode prever que a repressão possa diminuir. iniciado a publicação do boletim Pastoral. a Diocese não se deixou paralisar pelo impacto da violência das medidas repressivas. participando de um Encontro da Diocese. sendo objeto de reflexão e debates constantes com uma rede ampla de interlocutores. o adversário não estava no presente. torturas. Testemunho de Amigos II. como declara na apresentação.44 A análise de Comblin quanto à repressão não criava qualquer expectativa de que esta viesse a diminuir. p. Para guardar viva. José Comblin – Clodovis Boff. 5. Era a difícil história do presente. religiosos ou não. a Diocese deveria entender que o caminho então escolhido. Estes simbolizavam mais um movimento de combate pela memória. Todos nós. apontava Comblin para a necessidade de se tirar lições das experiências vivenciadas e procurar redirecionar o trabalho pastoral. 42 Caderno 03. 14 . em 1971. José Comblin – Clodovis Boff.

ao retornar de Lovaina aonde ia todos os anos. e não o teólogo o fazer por ela. falhou em sua avaliação e a polícia reteve a carta e dela fez uma cópia. além de uma preocupação com a memória. Testemunho de Amigos II. como também a Comblin e a muitos outros. porque a função teológica estaria hoje sendo vista e sentida como uma função indispensável à organicidade de uma Igreja. Diocese de Crateús. 6 46 Caderno 03.47 A leitura do Caderno 3. 1989. de ser comunista. Só o tempo dirá quem terá mais força de resistência e mais capacidade de aguentar. As fontes a que recorre para escrever este trabalho sobre a diocese. mas prevendo que toda correspondência para Diocese de Crateús era interceptada pela polícia. 1989. foi convidado pela diocese para participar do Encontro de Pastoral da Diocese de Crateús. No entanto. é acusado de ter ligação com o bispo de Crateús. sem alimentar muitas esperanças de que com isto se alcançaria a vitória necessariamente. Fundamentalmente. No final de 1970. Um outro teólogo que produziu um texto para os Cadernos foi o Frei Carlos Maesters. Diocese de Crateús. organização e conscientização das classes populares. No interrogatório a que é submetido no Aeroporto do Galeão antes de ser embarcado de volta a Europa.46 Os desafios encontrados o fazem apontar para necessidade de se aprender a teologizar com a comunidade. possibilitar aos agentes diálogos e confrontos de idéias com pessoas de outras regiões e. demonstra uma prática voltada para ampliar o debate religioso. para que este faça chegar as mãos de Dom Fragoso.Pelo contrário. em que muitos problemas são abordados. por ser o bispo auxiliar um religioso alheio aos conflitos. é interrogado por um militar que lhe apresenta uma cópia da carta enviada a Dom Fragoso. de fazer uso de uma terminologia marxista e. Coleção Fazendo a Nossa História. 41. E a sugestão ou a proposta que apresenta resumia-se em uma palavra: agüentar. O convite ao teólogo Clodovis Boff. Coleção Fazendo a Nossa História. envia a carta ao bispo auxiliar de Fortaleza. O texto de 27 páginas é publicado com o título Uma Igreja Popular – Impressões de uma visita pela Igreja de Crateús – CE. Testemunho de Amigos II. José Comblin – Clodovis Boff. p. não há acordo possível. por extensão. consta. inevitável.45 Acreditava então que o desafio era resistir. uma outra carta – de uma página – que enviara de Roma com data de setembro de 1972. Atendendo a solicitação do bispo. Pag. ¨ Essas reflexões são fragmentos de um texto de 10 páginas redigido por Comblin em forma de carta. José Comblin – Clodovis Boff. Sobretudo. a problemática de uma Igreja como a de Crateús exige reflexão e reflexão rigorosa. 1989. transformar a experiência histórica de Crateús em mais uma referência nos debates acerca da Igreja Popular. no mesmo avião que viera da Europa. durante alguns meses. são os documentos produzidos pela própria Igreja. 15 . Para este teólogo da Teologia da Libertação. Coleção Fazendo a Nossa História. denota uma perspectiva de ampliação da reflexão teológica da prática pastoral desenvolvida. admitia que ao se escolher um trabalho de defesa. Acreditava Comblin que. a repressão do regime funcionava como algo determinista. Em março de 1972. 40. como síntese e análise do Encontro que acabara de participar. sua correspondência não seria controlada. onde descreve sucintamente como ocorreu o episódio da sua expulsão do Brasil. portanto. Um segundo texto que compõe o Caderno 03 é do teólogo Clodovis Boff. Enviado ao Rio de Janeiro. 47 Caderno 03. a pedido de Dom Fragoso. ministrar alguns cursos é impedido de desembarcar em Recife. como também a participação em encontros com a Coordenação Pastoral da Diocese e da Pastoral da Paróquia de Ipueiras. publicado em 1989. José Comblin – Clodovis Boff. tanto em nível nacional como internacional. além da carta de Comblin a que nos referimos acima. p. Diocese de Crateús. Esses são os argumentos básicos para expulsão. e os debates e reflexões que essa experiência lhe 45 Caderno 03. No Caderno 03. que descreve uma permanência de duas semanas em Crateús em 1981. Testemunho de Amigos II. na sua segunda viagem à diocese.

segundo este. No entanto. então.. Coleção Fazendo a Nossa História. aponta como estéril a forma como foi encaminhada a questão da violência e da luta armada. o que acontecerá a toda essa história. a toda essa caminhada quando em 1995. o sucessor assumir a direção da diocese? Muitos que não estiveram desde o início da caminhada. Pag. ao mesmo tempo em ele que não se furta em apresentar críticas a determinadas posturas e argumentos de alguns participantes. 08 50 Caderno 02. uma reflexão que podemos relacionar a desenvolvida por Etienne de La Boétie em o Discurso da Servidão Voluntária. Coleção Fazendo a Nossa História.através dos seus Cadernos 02 e 03 . em que os Cadernos passam a desempenhar um papel fundamental. Testemunho de Amigos Crateús. desde relatórios. Percebe-se que o texto tem um caráter de relatório. 1989. Para Mesters. Pag. em que buscava-se no passado reconstruído instituir uma forma de ser no presente. As discussões iniciais possibilitaram a Mesters fazer o seguinte diagnóstico dos participantes: um grupo muito heterogêneo. Diocese de I. Diocese de 16 . Poder-se-ia indagar qual o significado dessa volta ao passado. Diocese de I.. não conheciam muitas reflexões. revelam a riqueza das discussões. conflitos resultantes das inúmeras batalhas travadas ao longo desses 25 anos da Igreja de Crateús.51 Dessa forma. debates. Por exemplo. I. muito provavelmente.49 Estava. desejosos de uma avaliação e revisão. crônicas. O encontro. relatos de experiência e livros de história. a pergunta inicial informou todo o debate subseqüente. 1989. com a aposentadoria de Dom Fragoso. 51 Caderno 02. foi considerado um meio da diocese definir melhor seu objetivo. O que ela poderia ensinar sobre o presente e o futuro? Possivelmente essa volta a história. Testemunho de Amigos Crateús. 1989. Testemunho de Amigos de Crateús.provocaram foram transformados num texto de 90 páginas publicado no Caderno 02. através de novas questões como: “Roça comunitária é trabalho de igreja?” – “Politizar é pregar o Cristo?” – “Conscientizar é anunciar o evangelho?” – “Posso matar quando quero libertar?” – “Devo falar de Jesus Cristo nas frentes de trabalho?” – “MEB e trabalho sindical são organizações da Igreja?” 50 As respostas a estas questões comentadas pelo autor. Mas nessa diocese a história vivida constantemente foi acompanhada por um trabalho da memória que adquiria variadas formas. tenha como alvo o futuro. de alguma forma. de crônica. Carlos Mesters. Para ele aqueles que defendiam a luta armada estavam prisioneiros da visão de que o importante era ser livre daquilo que o oprimia. mas também de análise e crítica a algumas posições assumidas por determinados participantes e grupos. Pag. Sobretudo porque considerava fundamental pensar o oprimido também como aquele que mantém o opressor. que serviu de material para o texto de Mesters teve como linha básica a discussão entre os participantes da pergunta: “O que queremos para o ano de 1971?”48 Discutir essa pergunta. Para outros o importante era discussão de idéias e linhas de ação. Reler esse texto de 1970 é. Coleção Fazendo a Nossa História. 1989. através de toda uma memória construída. ou seja. Carlos Mesters. revisitar os principais temas que naquele momento estavam no centro das preocupações de religiosos(as) e leigos(as) que atuavam na Pastoral das diversas paróquias da diocese de Crateús. que ajudaram a pensar e planejar os impasses vividos naquele momento. Testemunho de Amigos Crateús. passados 25 anos o 48 Caderno 02. como um outro fator de tensão nas discussões. Carlos Mesters. a postura dos camponeses cujo interesse maior era com os trabalhos concretos na base. 11. 49 Caderno 02. Carlos Mesters. Coleção Fazendo a Nossa História. Diocese I.para a leitura e reflexão textos produzidos há quase vinte anos. dividido entre si quanto ao objetivo e quanto aos meios a serem usados para se alcançar o objetivo. a Diocese lançava . como Igreja Popular. 08. Enquanto a posição do autor era em defesa do debate da questão de ser livre para que. Destaca ainda o autor. registrado um primeiro elemento que é a pluralidade e os desafios para construir através de uma prática democrática um projeto comum de Igreja Popular.

através de um questionário enviado a todas as comunidades. 232. No Caderno 01. como parte do projeto de comemoração dos 25 anos da diocese. uma Pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos da Religião. mas buscar na história os elementos para enfrentar o futuro. mas da rememoração: Certamente. São Paulo: Brasiliense. quando Dom Fragoso entregou a Diocese ao seu sucessor. Avaliação Pastoral da Diocese de Crateús. Para os discípulos. No Caderno 04. padre Eliésio dos Santos. preocupado em transformar o resultado da 52 BENJAMIN. atividades e projetos das paróquias da Diocese. os advinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. a Irmandade do Servo Sofredor. Walter. Ao contrário. que teve como título 25 anos de Caminhada e. o Caderno 06. estruturada a partir das CEBs. acreditando que a vitória diante deste não dependeria dos advinhos. o MEB-Crateús.53 Para executar a pesquisa o ISER trabalhou em três linhas: primeiro realizou um mapeamento da diocese. projetos. 17 . Diocese de Crateús. enquanto rememoração a partir do conjunto infindável e complexo de experiências e questões colocadas pelo presente. de certa forma. A segunda etapa foi uma análise da documentação escrita da Diocese e a terceira parte foi uma análise de relatórios solicitados às comunidades de base. o Cáritas. Fundamentalmente a pesquisa se propunha responder às seguintes perguntas: que tipo de igreja está resultando de todo este esforço? Em que medida está sendo realizado o Projeto de se tornar Igreja Popular e Libertadora?A avaliação pastoral teve como objetivos consolidar os pontos ganhos. a rememoração desencantava o futuro. com o apoio da Comissão Pastoral da Terra. abre a coleção. que se constitui numa pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos da Religião. Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. que tem como título Partilhando a Experiência.Coleção Fazendo a Nossa História. Em 2001 foi publicado o Caderno A Fundação dos Sindicatos da Região de Crateús. p. Na introdução é apresentado como objetivo da pesquisa avaliar o projeto de Igreja Popular e Libertadora.desafio não era apenas como resistir no presente como observara Comblin em 1971. seria o território onde dever-se-ia buscar os sinais para os desafios projetados pelo futuro. para efeito de análise desse artigo. No entanto. Quem tem em mente esse fato. ao qual sucumbiam os que interrogavam os advinhos. Arte e Política. Destacaríamos. Ensaios sobre literatura e história da cultura. poderá talvez ter uma idéia como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio nem como homogêneo. irá pontuar de forma cronológica os momentos considerados fundamentais da história da diocese. Os Cadernos foram publicados até o ano de 1997. que a Diocese de Crateús se propôs realizar. Estes trataram da história da caminhada em algumas Paróquias. refletir sobre as dificuldades encontradas. Apresenta um quadro sucinto dos impasses. entre outros temas. a Pastoral da Juventude. assim como análise da documentação escrita e também dos relatórios enviados pelas comunidades.Instituto de Estudos da Religião. 53 Caderno 06 . 1985. o Torá e a prece se ensinam na rememoração. O caderno produzido pelo ISER é uma publicação detalhada. corrigir falhas.Volume 1 Magia e Técnica. ainda. tanto com informações estatísticas como também com análise destes dados. encontramos relatos de mulheres e homens que narram sua história de participação nas atividades desenvolvidas na diocese. realizações e questionamentos presentes na caminhada da Diocese desde 1964.52 Em Crateús a história. o autor do texto. 1989. Obras Escolhidas. os Cadernos abrem um espaço para que uma memória popular se faça presente na produção dessa história. Ao trazer o relato dos trabalhadores e trabalhadoras engajados nos diversas pastorais. paróquias e setores da diocese.

principalmente entre os segmentos populares e a pastoral diocesana. Ao lado dessa preparação para o futuro. para ser o irmão e amigo que caminha com o seu povo a serviço dele. Diocese de Crateús.pesquisa publicado no Caderno 06 em um texto que possibilitasse um diálogo mais próximo com as comunidades.. há um constante combate com o passado que também é presente. possibilitar um amplo debate em toda a Diocese no sentido de reavaliar a caminhada. Isso não podia ser de acordo. 55 Caderno 04. traz a tona a ponta de um iceberg de uma batalha silenciosa e quase sempre invisível.55 Nesse relato. as recomendações é que nós teríamos que ter muito cuidado. a Igreja não podia estar de acordo com isso. militante sindical. aí a gente viu que não era aquele bicho papão que se fazia. e realmente a gente que é jovem que não tem muita segurança. 56 Entrevista com Dom Antonio Fragoso. recebemos o convite para participar de um encontro da paróquia. Diferente da classe média que com muito mais facilidade expunha suas críticas à orientação oficial estabelecida pelo bispo. para o Projeto História da Resistência Católica no Nordeste. meu pai um religioso tradicional que também não aceitava muito o novo modelo da igreja. 04. depende muito do pai. com o indissociável movimento do passado.57 A oposição. a Igreja dos missionários. em razão da notícia que se espalhou de que o bispo estava mudando. foi vendo a necessidade que tinha uma nova igreja. Essa disputa entre a orientação pastoral que se instala com a posse do bispo em 1964 e o catolicismo que fora sempre praticado na região. (Apoio CNPq). para manter vivo seu projeto. da Coleção Fazendo Nossa História: Eu era um de uma descendência muito tradicional. é transformado em narrativa no texto de Ageu Siqueira Tenório.. a crítica dentro da própria Igreja no Brasil a este projeto revelam o perigo que se avizinha com a mudança no poder de direção da diocese. 09/10. a gente passou por essa fase e daí foi quando fomos abrindo mais o olho. as dificuldades de conseguir religiosos e religiosas para virem ajudar no trabalho pastoral tornou-se muito grande. publicado no Caderno 04. 1989. em seguida. e quando meu irmão Geraldo e eu. Tinha a Igreja de Crateús. mas com amplos setores da própria igreja. 18 . estava fazendo diferente. 56 Como relata Dom Fragoso. Esse confronto não era apenas com os fiéis. Diocese de Crateús.. a Igreja não podia. ou seja: para que o padre deixasse de ser o clérigo que domina. de uma nova participação do povo. que a gente fosse muito mais como um espião do que como participante. (Apoio CNPq). Partilhando a Experiência. que aquele sistema era muito perigoso. não era essa. que enfrentar-se com o tempo humano. representado por valores e práticas de um catolicismo tradicional muito arraigado em parcelas significativas da população. em Setembro de 2002. para o Projeto História da Resistência Católica no Nordeste. das comunidades. 25 anos de Caminhada. Paróquia de Parambu. foi constituída uma equipe encarregada de reler todo o material produzido pelo ISER.. a Igreja dos santos. Ageu ao relembrar o medo e o perigo representado pela nova orientação pastoral da igreja de Crateús. em Setembro de 2002. que aquilo não era a Igreja dos antepassados... 57 Entrevista com Dom Antonio Fragoso. junto as decisões da paróquia. – Coleção Fazendo a Nossa História. 1989.54 O convite ao ISER para realizar a pesquisa em toda Diocese. reflete mais um esforço de avaliação no sentido de rever práticas e encaminhamentos passados. p. presente e futuro que os rituais de passagem 54 Caderno 07. que se sentiam ameaçados com a estratégia implementada pela diocese de desclerizar a prática religiosa. resumi-lo para. junto as comunidades eclesiais de base. – Coleção Fazendo a Nossa História. da diocese. na tentativa de no futuro poder alcançar melhores formas de atuar para construção de uma Igreja Popular e Libertadora. p. que lutara durante trinta anos para se afirmar. trabalhador rural da comunidade de Monte Sião. as camadas populares nem sempre deixavam claras suas discordâncias.

Angela de Castro (Organizadora). 2004. 309-333. A Diocese de Crateús. ****************** Nota: Este artigo foi originalmente publicado no livro GOMES. Rio de Janeiro: Editora da FGV. a trincheira privilegiada para o combate pelo futuro que se avizinhava com a aposentadoria de Dom Fragoso. em face do desafio que se colocara na construção de uma Igreja que entendia como Popular e Libertadora. Escrita de Si. enquanto produção de conhecimento. pp. que atravessara tantos momentos de crise. 19 . análises e reflexões sobre o passado. Escrita da História.estabelecem. em que a história é ameaçada pela memória. enquanto possibilidade de transformar-se apenas em lembrança. projeta na história.

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