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DAS HOMILIAS DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, BISPO (Oratio 3 adversus Iudaeos: PG 48, 867-868) Por que razão jejuamos nestes quarenta dias? Outrora, principalmente no tempo em que Cristo se entregou à morte, muitos se aproximavam dos santos mistérios temerariamente e sem discernimento. Por conseguinte, quando os pais compreenderam quanto prejuízo resultaria dessa aproximação temerária, determinaram quarenta dias de jejum, preces, escuta da Palavra de Deus e assembléias religiosas. Isto para que nesses dias todos nós, diligentemente purificados pela oração, pela esmola, pelo jejum, pelas vigílias e lágrimas, pela confissão e por outras ações, segundo a nossa capacidade, nos aproximemos dos santos mistérios com a consciência pura. É evidente que, por este seu empenho, realizaram eles algo de grande e excelente ao nos inculcarem o hábito do jejum. Com efeito, mesmo se cessarmos de pregar e proclamar o jejum o ano todo, ninguém dará atenção a nossas palavras. Basta porém que chegue o tempo da Quaresma e embora ninguém exorte, ninguém aconselhe, até as pessoas muito negligentes serão estimuladas e aceitarão o conselho e a exortação oferecidos para este tempo. Se, portanto, alguém te pergunta o motivo por que jejuas, não digas: por causa da Páscoa, nem por causa da cruz. Pois não é por causa da Páscoa, nem por causa da cruz que jejuamos, mas por causa de nossos pecados, porque vamos nos aproximar dos santos mistérios. A Páscoa não é ocasião de jejum, nem de luto, mas de alegria e exultação. Na verdade, a cruz destruiu o pecado, foi a expiação do mundo, a reconciliação do ódio inveterado; ela abriu as portas do céu, tornou amigos os que eram inimigos, reconduziu-nos ao paraíso, colocou nossa natureza à direita do trono de Deus, concedeu-nos com largueza inúmeros outros dons. Portanto, não convém chorar ou amargurar-se, mas alegrar-se e regozijar-se por causa de tudo isso. Por essa razão, disse também Paulo: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 6,14). E ainda: A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores (Rm 5,8). João afirma claramente: Deus amou tanto o mundo. Como? pergunto. E deixando tudo mais, assumiu a cruz. Como dissesse: Deus amou tanto o mundo, acrescentou: que deu o seu Filho unigênito para ser crucificado, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). Por conseguinte, se a cruz é ocasião de caridade e de glória, não vamos dizer que choramos por sua causa. Não choramos por causa dela, mas, ao contrário, por causa de nossos pecados. Por isso é que também jejuamos.