OBRAS INEDITAS

DE
DIOGO DE COUTO,
CHRONISTA DA INDIA J
E GVARDA MO R DA TORRE DO TOMBO,
OFFERECIDAS
A O
ILLUSTRI SSIMO SENHOR
DOMINGOS MONTEIRO
DE. ALBUQUERQUE,
E AMARAL.
POR
ANTONIO LOURENÇO CAMINHA,
l'ROFESSO!t REGIO DE ilHETORICA t E
PO!:.TICA, E CAVALLl:IRO DA REAL
ORDEM DE SANT·IAGO,
L I S B O A,
NA IMPRESSÃO ÍMPERl.'\L E REAL.
A. N N O M, DCCC VIU,
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lnibd, ftut/o.k Jfmu,f n'.-
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I
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-ILLUSTRISSIMO SENHÓR.
, Tito Pomponio Attico consa-
grou Cicero o seu Tratado Lelio, só
·de que na pmteridade em al-
çado e, monumento se per-
petuq,psc.. amizade que ternamente
consagrava a este grande Heroe .
• ( Igual trilho seguindo ao que pimu
o Príncipe da Eloquencia Romana ,
glorioso consagro a Vossa Senhoria
a producçao deste Genio Portuguez,
já por effeito da amizade que justa-
mente mereço a Vossa Senhoria, já
por conhecer (e comigo toda a R e·
publica das Letras ) que em V assa
Senhoria habitâo todos aguelJes do-
tes, de que farão ornados, e atavia-
dos os espi[itos dos Augustos, e dos
Mecenas.
A todos he notaria a ardua , e
.incançavel applicação qlJe Vo§sa Se-
nhoria tem feito na Portugue-
za; que fodí.o os Sousas , os Barros,
A ii os
os Lucenas , e outros (fontes peren-
ncs dapureza da nossa Língua) on-
de Vossa Senhoria a largos sorvos
bebco quanto ha ndles de puro, de
eloquenre , e de energico. Q!1e os Es-
cripros de Vossa Senhoria só pare-
cem filhos da simplicidade do Secu-
lo dos Teives, e dos Rezendes.
A frase nobre e substancial , o
estilo conciso e puro , que nelles
se divisa , confirrnão o que allego.
A elev3ç3o de pensamentos , a no:.
breza das imagens , a variedade de
rodeios , a vehernencia e energia ,
com que Vossa Senhoria escreve,
confesso ser mais para admiração ,
que para imitação. Q!:te valente Oia-
lerica , que abundancia de luzes, e
finalmente, que conhecimentos pro-
fundos do coração do homem !
A sabia e magistral pintura , que
o grande Bispo de França faz de
Dernosthencs á viHa de Eschines , he
a que eu tàço da sólida Eloquencia
de Vossa Senhoria a par' da afemina-
da e pueril locuç:io de muitos, que
sa
sabendo algumas regras da Arte , ain-
da lhes falra hum conhecimento per·
feito da Eloquenci:i sólida. Já isco
obrigou a rlizer a Cicero , que mui-
tos sabias se achaviio; eloquentes,
raros: Vossa Senhoria porém forneci-
do dos nobres principias dos Qyinti·
lia nos, dos Arisroteles , e de outros ,
assim maneja os preceitos desta di-
vina Arte, que transporra o coraçao
humano, ja com a escolha dos vo-
cabulos, já com a wlidez dos argu·
menros. He Demorhenes, louvando;
he Cícero, provando. Cheio de hu•
ma Hermeneurica nobre, sabe abrir
mão do que n3.o póde dar magesta-
de ao que escreve, e só se serve do
CJUe póde fazer fecundo e eloquente
o seu Discurso.
Sublime Dom do Ceo (r) divi-
na Poesia ( 2) tu agora h e que me.
has de ministrar as rimas J e pinceis
para exalçar o celeste fogo , que
soubeste acender no illustre peito des-
(1) l'latão,
(:z) e outros.
" te )
. 1
te teu Alumno ! He a ti , a quem com·
pete louvar seus Versos, seus canc-
ros e sublimes Versos.
Qye Epopeas, que Poemas famo
sos existem entre os Monaes , que
Vossa Senhoria nâo tenha lido, niio
tenha analyzado ! Conhece serem ellas
os thesouros , onde a alma se enri-
quece das nobres imagens, dos qua-
dros vivos e e:1ergicos, que surpren-
dem , e arrcbatão o coração mais
emperrado ; sabe que com ellas se
encantárão os maiores homens do
muFJdo , os Monarcas mais
veis , e que os mesmos Luminares
da Igreja Santa, assim Grega, co-
rno Latina , os liao , e reli;ío de
dia , c de noite.
Existindo pois em Vossa Senho-
ria ramos conhecimentos scientificos,
taO profunda erudicao , parece "-lUe
se faria huma ao mereci-
mento e á verdade , se eu procu-
rasse ourro algum Mecenas para es-
íe trabalho litterario , que n5o tosse
Vossa Senhorià, Ministró e
10-
inteiro , perfeito modelo da honra ,
da probidade , e finalmente do des-
interesse. Assim o conhece , e as-
sim o publicará sempre o mais hu-
milde, e reverente obsequiador
De Vossa Senhoria
Antonio Lourenfo Caminha.
DIS-
DISClJRSO
.. '
DO
EDITOR.
Ü Justo apreço que todo oMun·
do Lirerario tem feito das Obras de
Diogo de Couro, a fama immortal,
que este grande Portuguez espalhou
pelos mais remotos :ilmbitos da ter-
ra , tinhâo-nos posto na situação de
dispensarmos este breve Discurso, pois
l1e bem desnecessaria a contestação
de qualquer facto, segundo diz <)Ein-
tili:mo, quando este he notorio , e ha
àelle provas do irrefragaveis , e cla-
ras , como a luz do dia ; porém por-
que nem todos saberão a estima e
apreço , que já nos tempos antigos
fez esta N a ~ ã o com especialidadíi!
dos
dos Escriptos deste grande ·homem·,
diremos o seguinte. · ~
Lozo que Filippe Prudente foi ju-
rado Principc desta Monarquia, diz
Bc1rbosa : t:.um dos mais· nobres o e n ~
samentos , que teve Diogo de c:ou-
to , foi o proseguimento da Histo-
ria da India , desde o rempo em
C]Ue a deixou escripra o Li v i o Portu·
guez João de Barros. Era tão gran-
de a fama do talento de Diogo de
Couto , que assistindo tao distante
de ElRei , o julgcu digno de em-
preza tão illustre, a qual lhe com-
metteo com o titulo de Chronista
mór do Estado da India. Acceitou
promptameme esta laboriosa incum-
bencia , a que deo principio pela
d.:cirna Decada , em obsequio do
mesmo Principe ser jurado naguel!e
Estado, em o dia em que começa-
va aquella Obra , que concluía com
o Governo de 1\1ancel de Sousa.
Agradeceo este Principe cm'TI p u ~
ti-
(1) Bibliotheca Lusitanil.
I
""
..
"
(
ticulares honras o fructo primeiro da
sua appiicação , e lhe insinuou por
carta , qne voltando com a narra•
çâo da Historia , onde ficára inter-
ro:llpida por morte de João de Bar•
ros, a continuasse com o estilo, e
exactidão com que composera a deci-
ma Decada ; o que promptamen·
te executou , escrevendo a quarta ,
o.uinta , sexta , setima , undecima ,
~ duodecima (I). A oitava, e nona,
que acabára no anno de 1614, ao
tempo que as mandava para o Rei·
no, enfermou tão gravemente, que
estdva deplorado , por cuja causa
desapparecerâo ; porém restabelecido
que foi, das especies que conservava
na memoria , que era felicíssima,
reduzia a hum volume o que tinha
escripto em dois, os successos mais
dignos de rne.noria acontecidos na-
que!-
(1) Isto mesmo se confirma com as
p a l a v r a ~ da carta que se ajunta a esta obra,
monumento eterno da identidade destas
lleçadai,
};(n%
que_lle tempo : isto mesmó diz Se-
venm na sua vida, que ajuntamos.
O estilo que observou nesta grande
Obra, como nas que imprimimos de
novo , ainda que sincero , he muito
judicioso, censurando com liberda-
de as acções reprehensi veis, · e refe-
rindo com summa verdade , e exa·
cta Geografia os costumes daquelles
Povos, e a situacâo das Terras , co•
mo quem milis coin os
olhos, que com os livros. As car•
tas que ajuntamos á oração de n.
Vasco da Gama, foi avaliada de com•
mum acordo pelo rcspeiravel corpo
dos Senhores Socios da·•Real Aca·
demia das Scicncias , e pelo juizo
do Senhor Padre Joa<juim de Foios;
bem conhecido neste Reino pela sua
abalisada Literatura, como por hum
monumento maravilhoso, e de hum
valor infinito , se incorporar
nas Decadas ; pois não só h e adm i-
ra v e! na lingoagem , cerno huma pro-
va da identidade àes-
tas obras, e de do mesn-:o nos-
so
so Chronista , ,. pelo exacto reconhe-
cimento , que se fez da sua Letra.
No Catabgo das Obras , que
Diogo Barbosa .1v1ach:ldo traz no
fim da vida deste p;rande Portuguez ,
se menciona esta Oração que damos
ao Público ; porém sem dúvida ,
poucos a tedo visto. a
!ua posse ao cuidado do Senhor Bal-
thazar Pinto de Miranda , Contador
que foi do Era rio H.egio, cujos Ma-
nuscriptos comprámos , quando se
pôz em venda pública a sua Biblio-
theca, da qual 1ambem viemos a pos-
suir muitas raridades da nossa His-
toria, de que era assás enriquecida.
Esperam:ls que o Publico agradeça
o IJO:>so z.elo ,_e Patriotismo.
r
oJ •
V I-
1 -
. I
VIDA
DE
D. V ASCO DA GA.l\1A.
. ' I
N Asceo D. da Gama em
a marítima Vílla de Sines, situada
na Pro\·incia Transragana, podendo
competir com as mais famosas Ci-
dades do Mundo , por ter dado o
berco a tão illusrre Heroe. Forão
Progenitores Estevão da Gama,
Alcaide Mór de Sines , e Sylvei.
Commendador do Seíxal , Vedar
do Priticipe D. Atfonso , filho de
ElRey · D. João Segundo , Senhor
das Saboarias de Souzel,
e Fro::teira, e Dona Izabel Sodré,
6lln de João Rezende , Provedor
das Valias , e de Dona Maria So-
dré , filha de Fradique Sodré, dos
sendo descendente pela natu-
reza , foi seu ascendente pela gloria
que
que lhe adquiria. Desde os primei-
ros annos foi ornado de gcnio he-
roico para emprehender acções ar-
duas, e difficultosas, em que já le-
vava o applauso de as intentar, por
não ter tempo para• as conseguir.
Com a idade foi c;escendo este ge-
neroso ardor , até que chegou o
feliz com piem"· to de o mani-
festasse com assombro ' e inveja
todas as Nações, gue se jactão de
formidaveis e bellicosas. Meditan-
do o Augustissimo Rey D. Manoel
com madura reflexao o modo com
'que dilataria o Impcrio pelas Re-
giões Orientaes, como estivesse in-
formado dos dotes que ornavão a
tão insigne Va::sallo, lhe commeueo
a empreza de descobrir o berço do
Sol. Não causou horror ao impavi-
do coração de Vasco da Gama esta
. Ordem do seu Soberano , antes como
quem se iisongeava dos perigos, lhe
·a.. eleiçao , com CJUe que-
ria i!lustrar. o seu nome. Sahio do
-Porto Lisboa a 8 de Julho de
1497'
I) !#._
14?7, acompanhado de seu
Paulo da_ Gama, e N icoláo Coelho ,
em tre5 Navios guarnecidos de cen-
to, e homens, a emprehen-
der lmma jornada , que do Occaso
até ao Onente estendia em mais
de tres mil legoas, surcan.io mares
nur.ca cortadm ·de ou:ras Qyilhas,
tolerando a inclernencia de novos
Climas , e triumfando de Naçóes
barbaras, tâo diff..:rentes nas línguas,
corno nos costumes, cuja assombro-
sa tàcanha , em <]Ue se admirárão
unid;s constanc!a , e
resoluçao est!Jpenda, dissipou roda
a gloria dos famosos Argon:1utas Dl
4
ly.;ses, e jasão, celebrada com tan::
t.os elogios da Elo<]uencia Grega ,
e Romana. Descuberta a II h a de San-
ta Helena, dobrou a 10 de Novem-
bro aquel1e uomentom Cabo, qui!
o divino Camóe:; descreveo na for-
midavel figuraJ de Adamastcr, sen·
do hum dos- mais elegam cs cpiso-
dios do seu Poema. Avis-
tada a Costa da Edliopia Oriental ,
p
}';( 16 X:(
descobria a 28 de Fevereir() de mil
CjUatro centos noventa e pite a Ilha
de !v1oçambique, que qepois· foi a
cala para as nossas armada<;, que::
navegavâo para o Oriente , e lan•
çando ferro a 7 de Abril na barra
de Mornbaça , triumfou da intdeli-
dadc do seu Príncipe , assim como
passados dois dias a,çhou benevola
no porto de ElRey de
Melinde , não sendo inferior a re-
cepção , lJUC lhe fez o Çamorim ,
Rey de.lvlalabar , quando lançou
ferro a I 8 de Maio , na Cidade de
Calicut. Concluída tão dilatada na-
vegação , etn que gastou dous an-
nos; , e 2 I dias , voltou ao porto'
de Lisboa a 29 de julho de J 499,.
onde foi reçebido por EIRey D.
Manoel, com excessivas demonstra•
çoens de alvoroço, louvando-IJ1e o
intrepido animo com que humilhára
a soherba, .nunca domada do Impe-
rio de Neptuno , e fizera que o seu
fosse respeitado pelos Prínci-
pes de .Melinde , e 1\'lalabar , dos_
quaes
guaes com as suas cartas recebia.pre ..
ciosas primicias de tão illustre des
7
cobrimento. Segunda vez sahio e8te
Argonauta de Lisboa para o Orien-
te a I o de Fevereiro de 1502 , com
os honorificas Títulos de Conde da
Vidigueira , Almirante dos Mares
da lndia , Persia , c Arabia , acom-
panhado de huma Armada , com ..
posta de 20 Navios, e chegando a
:2.1 de Julho á Cidade de Qpeiloa,
fez o seu Principe tribut2rio annual·
mente em dois mil meticaes de oiro
ao nosso Monarca. Restituido a
Lisboa em hum de Septembro de
I 503 , lhe off'ereceo o tributo de
ElRey de , do qual mandou
com generosa piedade fabricar hu- .
ma Custodia para deposito do San-
tíssimo Sacramento , que deo ao
Convento de Belém , que magnifi-
camente edificára. es:e Heroe
por duas vezes navegado ao Orien-
te, que o foi da imrnonal E:lo-
ria, o mandou ElRey D. Joao Ter-
ceiro , nesta eleição ws
B
vesttgws de seu grande Pai , que
terceira vez intentasse tao dilatada
jornada ,, para a qual partia com o
Tirulo de Vice Rey do bstaào a 9
de Abril de 1)'·4 , acompanhado
de seus filhos Estevão , e. da
Gama, com 14 Náos grossas, cin-
co Caravellas guarnecidas. de tres
mil Soldados. Chegando á Costa
de , se senrio na
11Um tànnidavel manmoto' do qual
consternados excessivamente os
vegantes_, os ani'mou , corno supe-
rior a todos os . perigos . , dizendo·
lhe ,. _que trocassem o temor em ju·
bilo, e' .o susto. em alegriá", porque
o Mar com aquelle movimento, tes.
temunhava o medo que tinha ás suas.
Armas. Não mereceo o Estado da
India , que hum Heroe , CJUe tinha
domado o orgulho das ondas, aba-
tesse a soberba dos Orien-
taes no tempo do seu Governo:· que
foi tão breve, como dihnada a sua
fama, fallecendo em Cochim 2)
de Dezembro de 1 .P4 ás tres horas
de·
depois da meia noite ; havendo re-:
cebido com piedade catholica todcs
os Sacramentos. Foi casado com
Dona Catharína de Attaíde , filha
de Alvaro de Attaide , Senhor de
Pena-cova , e Alcaide Mór de Al-
vor , e Dona Maria da Silva, de
quem. teve a O. Francisco da Ga-
ma , segundo Conde da Vidigueira ,
Senhor da mesma Villa , e da de
Frades , \ Almirante Mór da Indía ,
e Estribeira Mór de ElRey D. Joao
Terceiro, que cazou com Dona Guio-
mar de Vilhena , filha de D. Fran-
cisco de- :Por_rugal , r primeiro Conde
de Vimioso; e de sua primeira
lher Dona Brites de•Vilheria., de quem
teve descenclencia : O. Estevao da
Governador• da ln dia , . O.
Paulo da Gama·, Capitão de Mala-
ca , D. Christovãó· Gama ; que
com ··o proprio sangue tyrannameme
derrama·d_o. pela · impiedàde-- do Im-
perador -da nobilitou os
Fastos do Christianismo , D. Pedro
da Silva-; ·Capitâo,de Malaca, O •
• ._s B ii Al-
.3f;( 2Q
Alvaro de Anaide da Gatl)a ,
Jsabel de A ttaide , Mulher de D.
Ignacio de Noronha, filho herdeiro
do primeiro Conde de: ·Unhares D.
Antonio de Noronha , Escrivão da
Puridáde de E!Rey D, l'vlanoel, de
quem nâo teve successão. Da
tura do Convento de Sáo Francisco
de Cochim , se trasladarâo os .seus
O!õsos, como ordenára em seu Testa-
mento, para o dos Religiosos Carmeli-
tas Calçados ; da Villa da Vidigueira ,
cuja. Capella Mór he Jazigo de sua
exceltemissima casa , e no Presbvte•
rio da parte do Evangelho
hum Caixão coberto de Veludo pre-
to , e em h uma ped .a se lê. grava-
da a seguinte ln!!cripçao. A fjUi jaz
() grmzde Arg01zauta D. Vasco da
Gama ,., primeiro Conde da Vidi-
f!.ueira , e 'Almirante das lndia.r
·orientaes , e seu famosfJ Descokri-
d0r. Eternizarão a memoria deste
p:: eroe com elegantes Elogios diver-
sos Esçri ptores , como s:ío Goes
Chron de El Rey D. M:moel parte I
- • H • • (..ap.
21 1f;€
Cap. 24., ·38 , 41 , e 44·
Decad. da lnd. I. Liv. 4· Cap •. :: 1 , e
seguintes. Faria Asia · Portug. tom.
I part. 1. Cap. 4, Solorzan de Jur.
Indiar. Tom. I. Liv. I. Cap. 3· n.
30. San Roman Hisr. de la Ind.
Orient. Liv. t. Cap. 8, 10, e 13·
de reb. Emman. Liv. I'
Andrade Chron. de E!Rey D. Joao
Terceiro part. I. Cap. 58 , e 64,
Souza , Hist. Geneolog. da Casa
Real Porrug. tom. 3. pag. I 67 ,
169 , 480, e wm. I r. pag. H r ,
Franc. de Sanr. Marc. Diar. Por-
tur;. tom. 3· pag. 535 , Fr. Jose
Pereira Chron. dos Carmelit. da
Prov. de Portugal tom. 2. part. 4·
Cap. 4· n. 59;. Sá Men. Hist. do
Carm. da Prov. de Portug. Pare. 1.
Liv. 3· Cap. 4• pag. 236. compoz
a Relaçáo da viagem que fez á India
em o anno de mil quinhentcs noven·
ta e sere. Do Manuscripto desta obra,
e seu Author , fazem mendo Ni-
coláo Antonio,
nia Ver. Li v. I o. Cap. J 5. §. 844,
e
~ 22 3f,€
e Antonio de Leão Bibliotheca ln.
d. tit. 2 , e o seu Addicionador
tom. x. tit. 2. Col. 2)·
' t
FIM.
l
V I-
1
)
.-
V IDA
DE
DIOGO DE COUTO ,
.,
Chronista do Estado da India , e
Guarda Mór da Torre do Tom-
bo della , escripta por Manod
Severim:defaria, Chantre, eCo-
, nego -da Sé de Evora.
'11
T força as obras dos
homens·tloutos, para estimar
seus Authores em toda a parte, que
não ganhão com particular
as .vontades dos que as vem ,
mas ainda Ievão apos si os desejos
<los Ausentes , para pertenderem sua
communicaçao. Estas me fizerão pro-
curar , com deste Reyno ,
a amizade de Diogo de Ccuto na
ln·
I
India , e agora me obrigão a que
ponha em lembrança a noticia que
a!cançei de su:rts c o u ~ a s , assi por
cumprir em parte neste officio com
o que lhe devo , como por enten·
der , que com isso faço huma obra
agradavel a todo este Reyno , de
que pelo muito , que trabalhou no
serviço público, com razão he tido
por merecedor de outras avantaja-
das mémorias.
Foi Diop;o de Couto , filho de
Gasp1r de Couto • e de Isabel Ser·
ra de Calvos , Pessoas nobres , e
dia foi filha de Vasco Serrão de
Calvos , por cuja via ficava Diogo
de Couto f>cndo Primo daquelle
insigne Pregador, e grande Religio•
:;o o Padre Luiz Alvares da Com-
panhia de Jesus. Nasceo Diogo de
Couto em Lisboa no anno de I 5 .p. ,
estando seu Pai Gaspar de Couto
em serviço do Infunte O. Luiz , a
quem o dera EIRey D. Manoel.
Por esra razau entrou Diogo de Cou·
to , como teve idade , no serviço
do
»{ 2)
do Infante , o qual o mandou estu-
dar em Lisboa ; de onze annos co-
meçou a ouvir Grammatica entre
primeiros Estudantes do Collegio 'de
Santo Antão da Cidade, que foi o
primeiro Collegio que a Religi:ío da
Companhia teve em tecla a Europa.
Seu na Lingua Latina foi
o Padre Manoel Alvares , celebre
Humanista, e Author da Arte da
Grarnmatica , que hoje se lê em todas
as Universidades , e Estudos, que
a Companhia tem a seu Cargo. A
Rhetorica ouvia do Padre Cypriano
Soares , que cornpoz a Rhetorica ,
por que se ensina esta Arte nas Es-
colas da Companhia. E se he ver-
dadeira aquella Sentença , que o
primeiro fervor e motivo da Sabe-
doria he a excellen;;ia dos Mes-
tres , com razão se podem ter em
muito as obras de Diogo de Couto;
pois álem de serem as ideas de
seu grande engenho, foi elle culti-
vado por tão celebres e doutos V a-
rôes daquelle tempo. Acabado.; os
Es-
~ 26 ~
Estudos & humanidade , parou i ~
go de Couro na continuação das '
Escolas, porque ainda então se não
lião em Lisboa mais que as Letras
humanas • e assi ficou mntin:Jando
no serviço do Infante, o qual man•
dando algum tempo depois o Se-
nhor O. Antonio seu filho ao Mos;
teiro de Bemfica para ouvir a Filo-
sofia do Santo Varáo Fr. Hartho-
meo dos Martyres , que depois foi
Arcebispo de Braga , e vendo a boa ,
e natural ·habilidade , que já em
Diogo de Couro se descobria , lho
deo por. Condiscípulo. A prendeo
Dior;o de Couto deste insigne Mes-
tre não sómeme as Artes Liberaes ,
em que elle foi eruditissimo , mas
juntamente as virtudes , que nelle.
mais resplandeciáo , como bem o
mostrou depois na temperança , mo-
destia , e piedade , que em toda sua
vida guardou, assi no estado de Sol-
da -!o , como no de Cidadao , sem
lhe as dilicias da India poderem fa-
zer
mudança nos costumes em tão
largos annos, como teve de vida.
Falleceo o Infante ao tempo,
que Diogo de Couto acabava a Fi-
losofia ,, e pouco depois desta per-
çla, recebeo a !!egunda com a mor
te de seu Pai; e assi çorrando-se-lhe
o curso de suas esperanças , foi cons-
trangido a mudar de estado, e dei-
xando as Letras , seguio as Armas ,
a que seu animo não pouco o indi-
l)ava. E como já naquelle tempo
não havia outra Conquista , !'en:ío
a do Oriente , por quanto EIRey
D. João Terceiro tinha largado os
lugares de Africa , sustentando só-
mente aquelles que podiao servir de
fronteira de Hespanha , determinou_
passar á India , corno o fazia então
a maior parte da nobreza de Portu-
gal, por nesta empreza terem mui-
tos em breve tempo ganhado hon-
ra e proveito , o que seml?re assi
acontecera , se os que depois v ie-
rão , continuar no valor
e vinudes dos primeiros, CjUe áquel-
las
....
las partes passárâo' e nao
os vi cios de sensualidade e a v a reza ,
com que corrumperâo agueUe tão
bom procedimento antigo. J
Diogo de Couto
no anno de IH6, militou n.l India
oito annos, achando-se nos mais- dos
feitos asignalados de seu tempo ,
mostrando com particular valor, gue
as Letras n1o impedem·, antes favo-·
recem as Armas," como derâo a en-
tender antigamente os• Gregos na
Imagem de Apollo, a quem pinta-·
vão armado de Arco , · e Serras , e·
o veneravao junramenre por Deos
das Sciencias. dez annos'
da M1licia contínua , tornou ao Rey-
no a requerer o premi o . de rra •
balhos; e :tinda que chegou a Lis--i
boa , quando com maior força ardia
o mal de peste , que vulgarmente
se chama grande, foi br.evemcnte ,
e bem despachado : com este àcs-;
pacho se parrio logo para a- India ,
onde se casou na Cidade de Goa
com Luiza de Mello ,- pessoa no-
bre,
bre, cttio Irmão foi o Padre Fr. De o.
dato da Trindade , da Religião de
Samo Agostinho , '!t:e no
Reyno lhe á impressão de
suas Decadas. L
"' Tanto que 0'-estado de Cidadão
pacifico , · e livre das da
Guerra lhe deó ugar para se lograr
do ocio , . tornon a renovar no ani ..
mo os antigos' estudos das Letras
humanas , .. e assi por , .. como por
sua cortéziar,. e boa condiç:í.o se fez
mui conhecido na Indi.a i' e amado
de todos os doutos, Dobres, e cu·
riosos ·, e até dos Príncipes pagãos
daquellas partes. I- • _ ' : 1.
o 1 Foi ·Diogo i de rrmi dou·
to has Mathematicas , e particular
mente na Geografia , so-ube b::!m a
lingua Latina -e Italiana, nas quaes
compoz alguns Poemas ; e. na
, nossa vulgar, em que teve particu-
lar .. graça , f tudo Obnts, Lyríc:as , e
Pastorís, de que deixou hum gran;
d.e tomo· .de Elegias , .. c Eglogas,
.Sonecas, e Trovas; Teve
• J.
-t. ii pâr•
--
particular amizade com o nosso ex·
cellenre Poeta Luiz de Camões , o
qual o consulrou muitas vezes , e
tomou seu parecer em alguns luga-
res das suas Luzi'\das e a seu rogo
commenrou Diogo do Couto este seu
l1eroico Poema , chegando com
commentarios até o quinto Canto , o
qual n3o acabou de todo por outros
impedimentos que lhe óccorrerao;
porém nem por isso" deixão de ser
muito estimados estes seus fragmen.
tos , e-'em poder de·D. Fernando
de Castro ; . Conego de Ev.ora estit
o. Volume,.original delles , que foi:
de seu Tio O. Fernando de Castro
Peréira quem -Diogo de Couto
e énviOlr,, por ser 'pani<!u.lar· amigo·
SfU. ::_; !lC "::> • Hl ;. 11.5hl
:-_.r. Succedendo· ElRey- D. Filippe
na Coroa destes Reynos , ·como era
Príncipe :tão prudente , •e::que sem;;
nos olhos' o qem com.!
muqt de .seus V desejou de
maFJdar.proseguir a Historia da ln-
do tempo em que·3. deixou.õ
nos-
João de Barros , e que se con-
tinuassem as suas Decadas com o
mesmo Titulo, e estilo ; pelo gran-
de appbuso , com que as tres pri-
meiras forão recebidas em toda_ a
Europa. Para tão grande empreza
foi nomeado a ElRey , Diogo do
Couro , ainda que estava morador
fm Goa ; ·abrangendo tão ·longe a
fama_ de suas partes. Encarregou-o
ElRey desta Obra 'com titulo de'
Chronista da lndia ,{.. qual Diogd
do Couto acceitou animosamente , e
á trouxe· a tão perfeito fim , com-o-
depois vio. A pnmeira' cousa, em:
que pôz a , : foi a· Decima De-
·;-p<>r começar ?o dia, em que
o tllesmo Rey foi jurado-:; e ·rece·
bido- Estado. , '"ç assi
mandar sua Magestade··, mais
gundo ·parece ) -:por pagar primeiro'
a divida em que estava aos Vassal-
los ·que o servirão naqnel-Ias partes ,
<jUe pelo gosto que Tullio' confessa-
ter ao- Historiador Lu Cio, pc ver-
\ · - r · ·suaS' )
'I
I
I
)
proprias acçoes escriptas em
Historia , ainda em vida sua.
Por e$ta razao acabou a Decima
Decada , concluindo-a com o Go-
verno de Manoel de Souza. Esti•
mou Elttey muito esta Obra , e agra-
deceo a Uiogo de Couto por carta
sua , encommendando-lhe de novo,
CIUe tornandÕ atraz coo{ a Historia,
:1 • d f
continuasse . as Deca as do tempo,
em Cj ue João de Barros as deixara.
piogo do Couto , e com
grande compôz a CjUarta
:pecada , , e a.ssi a quinta , . sexta , e
undecima, e çluodecima.
_ A ourava., .e nona _3cabou no
de no qual, querendo-
<!S J;)qno, _enfermou tão
gravemente que esteve
da vida. Com esta occasiao 'lhe dcs-
dous volumes de
ç_asa, tornandQ;os alguem para se de•
pois aproveitar dos trabalhos alhei•
o•. Mas foi Deos servido de dar sau-
de , e f rÇa1 -a Diogo do Couto
(que já neste tempo era de 72 an-
nos)

nos) para das lembranças que lhe
:ficarao , e da memoria , qtie a tinha
felicíssima ajunrar outra vez o que
naquellas duas Decadas tratava , . de
que fez hum só Volume, recopilan-
do nelle as cousas de mór impOitan-
cia , e relatando as maiores mais
largamente, com o que se remediou
este fllrto de maneira , que quando
. alguma hora apparecerem, assi pela
ordem, como pela mareria , publi-
' carão claramente seu Author.
Destas Oecadas estão até
agora impressas , a Qyarta , Q!,Iin-
ta , Sexta , Septima , porém á Sex-
ta succedeo hum grande desa5tre,
e foi que estando a impressão aca-
bada em casa do Impressor, se acen-
deo o fogo nas casas , e arderâo ro-
dos os , que acaso não esta-
vão já em o Convenro de S. Domin"
gos. de Lisboa. As mais Decadas não
sahiráo. ainda a luz ; e quandó fal-
leceo Diogo de Couto, ficarão em
poder do Padre Fr. Deodato da
.::frjndéide, seu Cunhado.- •
o c o
O estilo que nestas Decadas guar-
dou Diogo de Couto , he muito
claro , e chao , mas cheio de s e n ~
tenças, com que julga as acções de
cada hum , e mostra as cousas dos
successos adverses e prosperas, que
naquellas partes tiverão os Portu-
guezes. Porém ainda que nesta par-
te póde ser com outros comparado
na verdade do que escreve, que he
a alma da Historia; no que trata dos
Príncipes do Oriente, nos costumes
daqueUes Povos , e remotas Provin·
cias, na situação da sua verdadeira
Geografia , levou a muitos conhe-
cida vantajem , como se póde cla-
ramente ver nas suas Decadas , nas
quaes se mestrão os erros que nes-
tas materias tiverão , os que antes
delle escrevêrao as cousas do Orien•
te. Para esta noticia , álem da gran-
de applicaçao com que se deo ao es·
tudo dos Geografos antigos, r e mo-
dernos , lhe valeo a assistencia , que
teve naquellas partes por mais de
cincocnta annos) nos quaes vio por
r a-
razâo da Milícia ·, e CommerciO'
J:Íluitos daquelles Reynos , e depois
sendo Cidadâo de Goa , Cabeça da-
quelle Estado , poude bem alcançar
a verdade dos successos que refere ;
pois naquella Cidade assistem todos
os VicesReys , e della sahem todas
as Armadas , e a ella se tornão a
recolher de maneira , CJUe recebeo as
informaçôes dos mesmos , que se
achárão nas emprezas , e a tempo
que as testemunhas de vista , que
ila mesrria Cidade havia , os obriga-
vão a fallar a verdade. A esta ra-
zao se lhe acre5centou outra '. que
foi a do Officio de Guarda Mór da
Torre do Tombo do Estado da ln-
dia, o qual Cargo lhe deo E!Rey
D. FiEppe Primeiro, quando man-
dou ordenar este Arquivo pelo Vi-
ce-Rey Mathias de Alhuquergue ,
no CJUal se recolhêrâo todos os Con-
tratos de Pazes , Provisões, Regis-
tos de Chancellaria , e os mais pa-
peis de importancia , qne costuma-
Yão andar em poder do Secretario,
C ii e
...
~ de outras Pessoas daquelie Estas
do , com que lhe ficou huma noti-
cia eriginal de tudo o tocante áquel-
la Historia ; donde com razão pode ..
mos ter esta por não menos verda-
deira, que a de Polybio, e Sallustio ,
a quem este desejo levou de Grecia
a ltalia , e de Italia a Numidia,
para verem os si tios das Províncias,
de que haviâo de escrever, e alcan-
çar as informações dos feitos de que
tratavão, dos guaes (por se1 em pas-
sados muitos annos antes) de força
lhe faltaria a noticia em muitas par-
tes essenciacs , tendo juntamente o
mesmo tempo mudado a face das
terras , e lúgares , como cada .dia
vemos.
Não he menos de estimar esta Obra
por sua grandeza; porque álem de
escrever Diogo do Couto noventa
livros nestas nove Decadas / nume-
ro a que raros Escriptores chegá-
do, foi toda esta Hisroria escripta
por elle novamente , e não tomada
de outros Authores, no que se mos-
tra
)g€373«
tra bem a grandeza e valor de seu
engenho, a que nao chegou Li vio ,
ainda que . lhe cxcedeo no numero
dos Volumes , por quanto a maior
parte de sua Historia foi tomada
de outros, e principalmente de Po-
lybio ~ o qual rambem confessa de
si , que das Obras que muitos Es·
criptores tinhão publicado de cada
Conquista dos Romanos , em parti-
cular', coinpozera a sua universal
- Historia. Mas Diogo do Couto foi
o· primeiro que tirou á luz a Histo-
ria da India, do tempo em que a
deixou jo:ío de Barros , se nao foi
o que até o principio do Governo
de Nuno da Cunha tinha escripto
F e r n ~ o de Castanheda. Por quanto
a quarta Decada de Joao de Bar-
ros, que acaba com o Governo do
mesmo Nuno da Cunha, sahio mui··
tos annos depois.
rf Para aperfeiçoar esta Obra, e dar
huma consumada noticia do Ori-
ente , compâz outro Livro, a que
chamou Epilogo da Historia da In ...
dia,
* 38
eia / no qua.l trfltapdo de
Fortaleza· nossa , aponta as cousas
principaes, CJUC alli acontecerão , . e
que faltaráQ aos nos,s.os Historiaçlo-
res, e outras CjUe de novo forao
cedendo , de maneira , CJUe neste
Volume est2. summariarnente tudo o
que toca á Historia ; Coinmercio , e
Policia Oriental , o
estilo a _este Compendio.cpm muifa
darez.a ue .brevidade. N:-- o. foi me.,
nos eloCJuente no egtilo · Oratorio:;
porque álem do que !'e vê nas suas
Dccadas ; que nâo h€ p9uco • por in·
signe nesta fa(.uldade . , foi ..
do para fazer('as Praticas aos mais
.dos Governadore$ , e Vices-Rey:s
CJUe e::m seu tempo entrarão em Gea ;
mas isto não era só E. pela Lingua-:
gem , -e or'IiJto de. palavras com
fallava ,1 mas pela verdade; e
gano com que as dizia ; das quaes
algumas impressas, que nâq
de seu Author. 1 11i
Acompanhou a Diogo do Cou.
to, primeiros hum

39 3fk
grande zelo do Bem público da
tria , que junto com o entendimen ..
to e , de que era dotado ,
Jhe fez considerar as causas de al-
guns inconvenientes, GUe havia no
Governo da Republica, e principal-
mente no Est(ldo da India , onde
dle assistia , .c e onde por ausencia
dos Reys , e excesso dos Ministros,
1üao as desordens em maior cresci-
mento. Para remediar este mal , vi-
yendo ainda ElRey O. Sebastião,
compôz hum Livro ; a que chamou
9 Soldado prático , no qual intro-
duzia por modo de Dialogo hum
Vice-Rey novamente. eleito , fallan-
do com cerro Soldado velho da ln-
dia , que andava na Corte em seus
reGuerimentos, .para se informar das
cousas que lhe importavão para a
jornada , e- ·do mais que tocava ao
Governo da Fazenda Real , e Mi-
!.ic!a daquelle Estado , e em todas
estas cousas , apoma com cortezão
, e brevidade o que ge deve
seguir , ou evitar, dando Exe::n-
. ·· ·· pios,
. .
pios e razões fundamentaes ; de
inancira , que póde ser huma excel-
Jente in·:trucçao para aquelle .Gover-
no. Porém antes de aperfeiçoar es-
ta Obra, lhe foi hirtado o Original
della , e sem mais o poder haver
ás mãos , chegou a este Reyno
nome de onde se trasladá-
rão algumas ccpias , que foráo ri-
das em grande estimCJ dos que as
pudérão haver. Sendo disto adver-
tido no anno de 16 r o por hum
amigo seu , tornou a reformar esta
Obra , ou guasi fazella de novo ;
porque introduzia por pessoas do
Dialogo, hum Governador, que ti-
nha sido da India com hum Sol-
dado prático della, ambos em Casa
de hum Despachador, tratando so-
bre as cousas daquelle Estado , tra.;
zendo-as ao tempo presente , com
tanta ponderação, e juizo, que não
póde fervir de norte aos
·Cjue o governarem , mas em todo d
rempo dá claro desengano das cou-
sas ddle. Esta Obra dediCNI ao
·· Mar-
*4IY$..
Marquez de Alemquer, e o Origi-
nal está na Livraria de Manoel Se-
verim de Faria , Chantre de Evora ,
a quem elle o mandou.
Este zelo da honra da Patria lhe
fez escrever hum Livro contra o
que compôz _o Padre Fr. Luiz de
Urrera, Dominico da Historia, e
Policia do Reyno de Ethiopia , a
que vulgarmente chamamos Preste
João , no qual o Padre com pouc3
noticia , que tinha do Oriente , e
sem ler as Historias da India, nem
deste ( como quem escreveo
entre os bosg l!es , e delicias de Va-
lença , sem ver mais que hum só
homem , gue o informou , e a quem
creo) muitas cousas contra to-
da a verdade da Historia , sendo to-
do o seu Livro huma Obra fabulo-
sa, e temeraria. E posto que os Pa-
dres Fernâo Guerreiro • t! Nicoláo
Godinho-, da Companhia , tinhâo
respondido ao Padre Urreta com par-
ticulares Apologias, os
dres da Companhil de Goa pedí-
râo
râo· a Diogo de respondes.;
se tambem pela honra deste Reyno ,
'l J._' 1 • I '
o gue el e 1ez , Jl CjlJ2SJ. com
o Corpo na fepuhura , ·mas com
tanto vigor de animo, que bem pa-
rece que se lhe f.1lt?vao- forças
, qu:: as do entendimen-
to são sempre em maior perfeição.
Este Livro- os Padre_s da
ao .. rcebispo de Braga D. Fr.
Aleixo de , por o·rdem dÇ
seu Author. ·n
• c -' -' Ad
cm estas occupaçoes nao po e
de todo outra empreza que
deixou para luz do Com_
roercio da India , e que trarav? d
todos os _;tempos e em que
se navega para todas as partes do
Oriente , dos pesos , medidas. e
moedas , com todas as mais ,
que a este particular pertencião.
,.,· Nestas t2es Obras Dio-
go do a maior pane da sua
idade; exercitando o talento que lhe
foi cn!r ...'gu.<.! , como bom , e mil
Servo ai é o aimo de J 616, ,110 qual
scn-
sendo de 74 annos , o levou Deos
para si Sabado a dez de Dezembro
para lhe dar o premio que suas Obras
merecêr1o. Foi Diogo do Couto ha:
mem de meja estatura , de alegre ,
e veneraYel presença , oiiws vivos,
côr atericiada , e nariz algum tanto
aquilino , mui labo,.ioso , corno o
mostra a multidão de seus
ptos; teve grande conselho , e por.
causa era ch:1mado muitas ve-
zes dos Vice-Reys a elle , nos ne·
gocios de mór irnportancia. Era pou-.
co cubiçoso, que para homem gue
vivco tantos annos na India , he
grande maravilha , e assi foi mais
rico de partes e merecimentos ,
que de fazenda, posto que esta lhe
não faltasse em seu estado , com
que sempre passou hcnradamente.
''De sua Mulher, com gue viveo
largos annos; , teve lmma só filha ,
fjUe morreo antes de casar , donde
não ficou delle geração , o que os
Antigos julgavão por infelicidade;
porém não tal , que lhe possa tirar
a
(
a bemaventurança. que os mesmos
Antig-os tinhão por grande, que era
feitos alheios , e dar ma·
ter!a para que se escrevessem m seus
proprios, o que elle fez na sua Mi-
licia , e Historia , compondo, e pe-
lejando. Pelo que com razão lhe pu-
zerâo aguelle Distico ao pé de seu
Retrato , que corno Estatua immor-
tal lhe irnprimíráo nas suas Deca-
das, que diz : :1 -\
., . .
· e.JJigies, q:10d solúm in C&s«re vi-
.ftlm est.
Historiam ca:amo trpctnt
1
·et nrma manu •
.Jl
FIM.
ORA ..
ORARA CÃO
7
DE
DIOGO DE COUTO.
Que estaua feita para o di a
1
. que se aleuantas-
se a estatua do Conde, <;ue veio a efeito.
Copio:da fielmente do seu Original Autografo.
'A Qyelle Principe de toda a lle!lo-
quencia Latim Marco Tullio
ram , querendo defender a de
lvlillione em público theatro, diante
daquelle graui:;sirno Senado Roma-
no, comessando aguella
sima Oraç:io , lhe varreo toda
da memoria , como nunca a es·
rudára, alguns presomír5o que fôra
arteficio' por nao ter justiça no que
queria defender , e omros , que de
temçr I egioe: l'vlillitares , de
que
que estaua rodeado , mas eu neste
auto rao sollene , e concursso , n:lo
menos graue que aquelle , posto C]Ue
me falte a helloquencia que a outro
sobejaua , sobeja-me a justiça , e
verdade , com que espero defender
a causa deste insigne Capitâo D.
Vasco dagama , pello que , nem
temo que me esqueça o que perten-
do dizer, nem C]UC tenha temor de
todos os exerciros do mundo , e
das verdades, que hoje aqui disser,
a Vós ó Altíssimo Deos • onde to-
da a verdade mora , a V ó; tomo por
testemunha, e o mesmo faço a Vós
Virgem , e Martir Santa Cateri·
na > que pella da verdade
destes a vida em mãos crueis
naualhas, que atassalharão vossas del.
licadissimas carnes , e se peio mar-
tírio perdestes o Reynó paterno, e
c:tduco , por elle o cel-
lestial , e perpetuo , e· ynda na ter-
ra nao ficastes deserdadJ ' pois. vies-
tes a ser Senhora, e princeza de3ta
nossa famosa Cidade de ·goa. E
• -J pois
:%{ ):;€
pois Virgem tendes todos os
hum dia particular- de vossos
louuores , oje me dai licença pa-
ra tratar os deste valerôw Capitão,
a que na' terra deueis mais que a
todos , porque como diz Agostinho,
se Santo Esteuão não horára por Paul-
lo , não gozára a Igreja de tão rico
thesouro , se este Capitão não
descobrira csre estado , não fcreis
Vós Virgem Sar.ta nelle tão vene-
rada , e ynda lhe tendes obri-
gação por Pay ·do valleroso
nador D. dagama , que
foi o primeiro que ,-os visitou na
vossa Casa do 1V1onre Sinay , na
qual em louuor vo::so armou mui-
tos Caualleiros , f.::i;o tão hcroico,
que merecia ser muito engrandeci-
do de todos, corno da' Ceça-
rea Magesrade do Emperador Carlos
Q1into.
Hora por onde comcssarei que he
-Cio heroica , e sublime esta materia,
que temo · nella , e
tão alto este pego em quç me fui
.
me·
meter.do , que receio sosobrarsse
ndle o fraco barco do meu enge·
nho , e são tantos os caminhos que
vejo para entrar nos Iouuores deste
Capitão, que nao sei qual deHes si-
ga , mas Vós ho minha Calliope,
.Vós Virgem, e manire Santa Cathe-
rina , me dai oje a mão por que
me não perca.
Dai-me Senhores huma pequena
detença, c mostrar-vos hei , como
este valleroso Capitão, que essa es-
tawa representa ' nao só he digno
de estar no lugar em que estes Pa-
dres conscriptcs oje a querem a!e-
uantar, mas que inda o h e de. estar
em toda5 as CidJ.des da lndia , e
em todas as da Europa , em cujas
escretur:.Js anda mais celkbrado que
nas n o s ~ a s , porgué assi como todos
os estrangeires são mais polliticos
que nós , assí estimao hum feito táo
heroico , como o que este Capirão
cometeo , € acabüu reais gue nM,
aqudlas grandes façanhas, gue dous
poetas , grego , e latino , tanto
en-
* 49
engrandecerão da Navegação de v.
lisses , da perigrinaçâo de Eneas ,
aquellas patranhas .dos odres cheios
de vento , dos encantamentos das
Circes , e das· Sereas, do Gigante
Pollifemo, aquillu qu outros coo-
tão. dos Gorgonas do horto Hesphe-
r.idas , aqnellas de
Peritho Ethesio ao Vellocino dou-·
ro , fiDJ. tudo ·o em que tamd
-suas abellidades , e ale.:
uantarao com seus verssos , tudo fo-
rao·, fabulas sonhadas_ , em
rassa<?- po que este :Capitão vio e
acah0t1 , . porq\le todos os trahalhos,
. perigos, ·e da•
quelle , não forão fóra dos termos
da terra .tão sabida , nem de )CO
l_egoas __ por mar, tomando cada dia
re(rescos ·, e· recr :J($ÓCs , mas este
nosso Capitão não assi , não , que
por onde a4.ia de naue-
gar ; sae- poli"! barra de Lisboa fó-
ra , mete-se por esse largo oceano
em jornada de seis mil, legoas, cor-
tando- tantas vezes a equinocial
1
· D uf:o
não vendo mais: ou e ondas· bra min•
do contra :-eiie ·1 tristes , -e cai-
regados, :fu-
zis , e que parecia_ j
que os ceos , e ellemenros estauâo
conjurados contra elle ;- nuuens_ tris-
tes , e medonhas, CJUC em groços
canos , e trombas deçiao sobre eJ ..
le a tomar as agoas• do mar ·,!1que
cuidaua que lhe que rião sofi1ert as
Náos , que logo se tornauao a
soluer sobre em delu-
uios de agoa , monstros marinhos
de horrendas :;-e disform-es;
f • • 'r ,
que parec1ao que quenao tragar · a_s
Náos , e sobre .todos estes 'medos,
outros de fomes,.· cêdes, e doenças
irremediaues , e morraes , em· fim
tantas cousas destas. , que qualquer
dellas baHaua para fa1er recuar to-
dos os grandes peitos do Mundo,
mas no seu n1o fizerao aballo a-lgum,
antes por tudo passa , tudo vence
com seu vallor , e esforço , e com
mais reza o FOdéra dizer : por elle,
o que V c nus d_issc a seu filho · c;u-
pl•

pido, quando o mandaua que fosse
fauorecer Eneas com Dido. (a) Nate
patris summi , qui tela tiphoea tt-
mnis. Ho peiro generoso filho do gran-
de J upiter, que despresaste , e riueste-
em pouco todos os tiros , e rayos
de Tiphon , por tudo passastes VJll·
leroso Capitão , tudo vencestes , ré
chegardes a onde não
achastes hum laberinrho, senão mui-
tos· laberinthos , não hum. Pollife-
rno . , · senão cem mil Pollifernos ,
não ·hum a Cirsse-, senão infinitas
Cirsses, assi que se aqui escapastes
perigo, .41collá destes em cen·
to, por tudo passastes, tudo desba-
-ratastes , ré chegardes ás nomeadas
prayas de Callecur , que hieis buscar ,
onde cuidando descanssar , acha..stes
nouos perigos , nouas artes , . e ar-
dis para vos· queimarem :as Náos,
• achasteç nouos enganos , e
prisões,- e crueis da morte,
CjUe ·tudo vencestes, e desbaratastes,
-- D ji t_é
.
(•) Virg. AEn. 1. j. 66s.
té tornardes ao desejado porto de
Lixboa." com ·-as amostras· de todas
-as riquezas deste Estado ;1 e. com
·todas \'O!!S:àS náOS , mas Com
·.Irmâo ·Paullo d:11gama morto, qu:e
-foi o primeiro homem , que
nestes Descobrimentos perdeo a' vi·
da pollo seruiço doseu Rey.-.1 rr•-I
· Por. certo , que quando cuido
naquella n:ío S. Rafad, (a) em que
·este Capitao descobria este Estado,
.me parece que por Ordem diuina,
lhe:pôs .o nome1 deste Arcanjo,
porgtte assi cPmo elle guiou o Mo-
ço-Thobias (b) ao Castellode Gabei ..
-lo , assi guiasse este nessa pita o
té estas . <partes:- por ·ter determinado
(que nellas··dillatasse sua-santa Ley:,
... e qué•r--fossc este Capitão :o Author
d:esta ,Obra , e assi c:sreue tantos an·
nos esperando por·.dle. N3o des·
cobrio nesta jornada o horto ··das
Espheridas , onde fabullarao haucr
r 2:J ma-
\
(a) Eatr. Dt-cad 2.
(b) Tob. Cap. 6. n
maçans douro , mas, descobrio-ngs
montes douro , prata ,
descobrio-nos .minas. de diamantes,
e rubis , pedras desmeraldns , e
çafiras , de:scobrio mares, e_ pe!ca-
rias ·de perolas , deo
nPticia ao mundo de todas as es-
pecíes aromaticas com ique oje se
descobria-nos cm fim ro-
das as louçainhas lindezas , e ri-
quezas deste Oriente,, que tanto em-
requecerão , e alegrJrão o mundo)
e sobre tudo enrf'CJ ueceo esse .. coo Im-
rerio com infin!tos Martires , que
neHe Estado verterao seu pol-
)a fé de Chrisro , e do grande nú-
mero de casta Donzellas , e· infini-
tos Confessores • que como Estrel-
las rellusentes estáo formo;entando es-
se Ceo. Esre he este in2igne Capirão
D. Vasco dagama, que de tudo isro
foi o Antho• , e em ruJo no Ceo
tem sua pane, e qu;nhao, e segun-
do senrença de Cícero, (a) que diz,
gue
(n) Tu!. 6. Repnbl.
que todo o que dillatar, e acressen-
tar a Patria , teria serro , e determi•
nado lugar no Ceo, muito grande,
e muito glorioso o deve de ter lá es·
te nosso Capitao.
Hora vede se este, que assi vos
disse breuememe merecia aos ho-
meM. tanta ingratidao : que fôra de
nós se não ·descobrira terra tao
rica , e que tanto tem aleuantado
nossos Naturaes sobre todas as Na•
çóes , com a fama gloriosa dos he-
roices feitos , que nestas obrá-
rao' por certo que os apellidos ii-
lustres do nosso Reyno ficárao apa-
gados , e esquecidos, comendo os
filhos mais moços a proue raç5o
dos lrmaos morgados , que .. então
erâo bem poucos os que chegauâo
a quinhentos mil reis ; ponde oje
os olhos por todo esse RE.yno , ve-
reis muitas casas com titollos subli-
mados de Condes , Senhores de tan·
tos contos de renda A; e tantas ri-
quezas , que cada casa destas repre-
senta oje mais magestade , do que
an•
antigamente reprçsemaua a dos pro-
prios Reys: pois ·nós ps Caualleiros
foramos 12u.-adores pobres , fura•
mos em fim nada , rodos nos coms-
somiramos dentro nos eo:trcitos I emi-
tes do ngsso p:!queno Reyno. J..
Hora; vede o que· por esta Obra
mereceo a Oeos, eaoRey; a Ocas·,
deu-lhe a mais ampla çle
Portugal , tantos fiihas, tantos ne-
tos , tantos bisnetos , e entre_ elles
tantos ·Capitães tão x_allerosos. O
que mereceo ao Rey', nororio h e ;
deu-lhe os titollos · de AI mi r ante;: da
terra que descobria, o de Conde da
Vidigueira , fez-lhe outras · honras ,
e mercês , e sobre tudo deu-lhe suas
proprias 2rmas , que:. era o mais
<JUe se podia estimar.
Querendo Deos Nosso Senhor
huma grande mercê &o 8eu
mimoso Abram , lhe concedeo, que
podesse acressenrar ao ·seu nome es-
ta letra H , que era do mesmo Deos ,
e que dalli em diante se chamasse
Abraham , que quer dizer_ Pai de
rnui-
muitas gentes; assi a este nosso Ca·
pitão (que se póde com· muita re-
zão chamar- Pai de toda a Christan-
dade do Oriente , pois foi o ori-
meiro, que abria estas porras, 'por
onde entrou a Ley do Santo Euan-
gelho ) fez ElRcy outro mimo , e
mercê quasi semelhante, concedeo-
lhe que acressentasse ás armas de
sua linhagem huma das peças das
Reaes, ainda passou avante, que foi
o pr;meiro a que concedeo o Tirol-
lo de , porque quando
vissem as armas Reaes em seu es-
cudo , se Sangue Real cheira
aqui ; ouvindo-lhe o titollo , tam-
bem podessem dizer : nome Real,
só aqui ; e a mercê que Deos fez a
Abraham , foi com condissao, que
lhe- sacrificaria hum filho que tinhas
mas este nosso Capitão , sem esta
obrigaçâo , sacrificou ao seruiço de
Deos , e do seu Rt;y cinco filhos
neste Estado , dos quaes o D. Paul•
lo dagama foi mono pollos Mou·
ros, pellejando tão vallerosamente,
que
que ficárão suas cousas postas cm
cantigas entre mesmos Mouros.
O outro D. Chrisrouâo dagama ,
padeceo glorioso Martyrio em de-
fensâo da Christandade da Aba,il ,
e he certo, que cortando-lhe o Rey
tiranno a cabeça , na pane em gue
cayo, se abrio logo htima fonte de
agoa cristalina , que d :u .. n daua
saude a muitas e as-
si se diz , que pretende o Surnmo
Pontífice canonilallo , e que p2ra
isso se mandão recolher suas Relli-
(a)-.
Qyerendo Virgilio mostrar as
grandes esperanças que hauia em
Roma do Príncipe Marcello , que
morreo mancebo, o faz naquelle ver·
!0, (h)
Tu Marcel!tts eris , Mani!JtlS date ·Iili" p/ ma ;
Aquel-
(a) O mesmo se conta de S. Pauio,
que cortando-lhe a cabeça , cito saltos n1
terra , e em cada lugar se abrirão fontts de
agoa viva.
(b) Virg. Eneid. 6. V. SS4
j
58 );{
Aquelle he Mar$:ello, que rnor-
reo com as Armas cheias de lírios,
que se tomão pol!as esperanças, mas
eu com mais rezão- posso dizer .des-
te nosso l'vlarcdlo D. Christouâo da-
gama , que naqudla fresca idade ,
em que morreo , não só leuou as
mãos cheias de lirioc;, mas que ain-
da dçixou o mundo espantado de
suas Obras , e altat; Cauallarias , e
1mma grande vantagem leuou a Mar-
celta ' que trazia a mao esquer-
da cheia ele Jirios, que he de espe-
rancas dJs cousas da ;· mas o
D. Chri'>touão , dio trazia
cheia de lírios , sen:1o a mão di-
reita , que erão esperanças das cou·
da Ceo , e de padecer glorioso
Martírio por Christo , e assi podia
dizer , purpureas spargam {lorés_ ,
eu tingirei estes linos brancos em
rôxas rosas pollo Marririo, de que
oje está triunfando no C-eo (r) -
Es-
( 1) Eccle<iast. 1. Cor upientis in
tera ej<I<. ProYerb. IV. Longitudo dierum
in dextera ejus, etc.
Estando hum grande Orador,
regundo éonta: Sabelio, orando di.
ante do Filpilo , Rey de Macedo-
. nia , recitando as batalhas que al'!
.I • • •
canssara , proumc1as que conqUista·
ra ,- reynos que gmhara , reys que
caprimna ;-triunfos que alcanssara ,
veio a· concluir com dizer , mas tu-
do isto, poderoso Rey , he pouco
para o que mereces. por Pai do gran•
de Alexandre ; assi digo eu , que
tudo o que disse deste va!Jeroso Con-
de Almirante , e tudo o que tcdos
podem dizer delle, tudo fica muito
arras do que merece por Pai do
grande Marryre de Christo D. Chris-
touao dagarna.
Qye- mais ? Na o se satisfez El-
Rey de a este Capitao o tirol-
lo de Visorrey, mas . tambem o deu
a seu filho D. , e a seu Bis-
neto, o Conde O. Francisco, dig-
nissimo Presidente do Tribunal da
India, e muita justiça fàra que nun-
ca esre cerro saíra da sua geração.
Moises ferio o Mar verme-
lho ,
J
6o
lho·, que se lhe abrio para dar pas-
sagem aos filha3 dê· Israel, que vi•
nhão fugindo á furia de Faraó , Abi-
nadab >hum capitão do ·rribu: Ju·
daa, por ser o primeiro que tornou
a bandeira nas mãos , e se meteo
por aqudlas concauidades , pQ!;' on-
de todos o seguirão, lhe prometeo
Deos, que não sairia o cerro deju-
daa do seu tribu , ou de sua geração,
segundo a tradis--áo do ;
pois que menos merecia nosso
capitao, por· ser o primeiro que to•
mando a Re:U. ba_ndeira maus,
não se meteo com ella pello mar ver-
melho em passagem de quatro ho·
ras, sen3o por esse largo, e esten-
dido oceano , em pa.ssagem de
dous anos ; m1s posto que lhe
gasse este cetro a seus descenden·
tes, deu-lhe Deos Nosso Senhor ou-
tras cousas de mais estima , q e foi
acressenrallos cada vez mais em·san-
gue , casa , renda , e credito, e
openiâo, outras multas gerações des-
faliecerão , e;;ta sempre sobio çada
vez
6I
vez , fidalgos ilustres
-peios gamas , e tão. ilustres , que
logo este valleroso :Almirante foi e-
leito para Vüorrey . deste Estado ,
como disse, vêde o que depois acres-
centáráo 'em si. os· apellidos dos
Ataides , dos Porrugais , da Real
casa.do Vimioso, dos Vilhenas , dos
Telles, dos Silvas, dos Menezes,
dos Castres , e dos. Noronhas , e
aeora. dos Tauoras ;: é se mais ou-
uera no Reyno , a mais sobírão por
• , I
seus merectmentos. ,rnu&
• 1i• Derrietrio phallerio perfeito de
Athenas , alcanssou tantas , e tão
grandeS:- vicrorias: defensão
-sua patria· , .que rnereceo aleuanta-
:rem-Ule:tmuita::; estatúas em sua me-
moria, .e sendo ausente, .lhas. dem•
barão, seus inimigos , e dando-lhe
as nouas·laa: em .fgipta, onde
ua , : ·. con·
que -bem,: podiao:-:seus i migas r der---
rubar-lhe suas eHatuas ; mas que
nunca, porleriáo anichiilar, e abater
suasvutudes_,. nepaeudeitos,

I
, elles mesmos lhas •
râo , assi posso dizer em nome_
te capitao , que posto que s;eus he-
rnl!llos lhe de··rubassem ma estatua,
que virtudes , suas obras, he-
roicas , ninguem •lhas poderá niJnca
esc.uresser, Jlem abater, porque essas
.bem sabidas· estão por todo o mun-
do. sv
1
1>lb
Tanto que o Romullo acabou
.de fundar a Cidade· de Roma
dou < leuantar, ·-sua: estatua 'em hum
lugar púbríco, e pôz-lhe ao pee es.-
.te letreiro - Non, cadet donec vir-
go pariat ""!'"'· Não cahid paqui [ tee
parir h uma' virgem-;. querendo· dizer
C]Ue estaria auer
·por impossiueb parir virgem mas
como os. pemssarnentos, deDeos1 são
mais diferentes dos dos homens, quiz
que. cllc mefmo. i (6sse Pr.ofeta sua
reina, e· do-'partQ da Virgem Nos ..
sa Senhora ; e assim· o dia;que eUa
paria o Unigeniro Filho d.é· Deos,
"Veio·· a esra tua :donde estaua ·, ; abai-
..xo :J . e se fez ·em • ·' Mas .es-
l .... ':' ...... · ta
ta deste nosm capitão Jeua mui-
to aventajem , que aquella caio só
de ouuir nomear huma Virgem , e
esta
1
se aleuama. oje , em compa-
nhia desta Virgem , e Manir San-:
Carherina , pello que com mais
re•ião lhe cabe o ·letreiro,, de doncc
Virgo pariat porque corno já não
h;r·de ·parir outra
0
a !li estará , em
qu:mto o mundo durar. :J
"Que farei ? que'' as obrigações
que· temos a capitão dizem que
diga mais ; mas não ouso , porque
temo de enfadati i ·em fim cohcluo
com isto. Entre 3s· Ltis oue · Solon
fez em sua R'ejmWica- ·, .esra a
p6z grandes .pef)aS que- -nenhum
v ruo;.. fosse ousado ·a dizer mal de
nenhum morto,: ora:vêde ,r_que pe-
na . daria a quem esse
corpo morto·, e o maltratasse , e
inc!a se podéra isto se nesse
c.orpo tomasse sat'i'sfação
de alguma off(nSa grande, mas em
hum corpo de pedra , iem senti-
mento, e sem culpa, aqui pereo o
. . - .fun.
J
64
já que irnigos nao
derJ.o em outra cousa mostrar seu
odio , os amigos que conhecem suas
virtudes ,_ estes Padres conscriptos,
esres famosos cidadãos , tornão o·
je a leuantar sua estatua a seu lugar ,
e polia ventura, que pela imgratidão
que com elle se huzou , premitisse
Deos q,ue Qahi a poucos annos vies::
sem 'os rebeldes a nm destruir f e
afrontar, aos olhos destes vizinhos a
quem ro.mamos q. terra, Hora já que
agora se faz tão. restituissão ,
não temamos. que a!=oliteça desastre
nenhum a Cidade. · 1. ::>
Qyando David_, oi o AI
dssar de Çion, (1) ondeest:tuão os
Gebuseos , vendo ·elJes poder,
huzarâo deste ardil: pozerão sobre os
muros duas estatuas que tinhão, hu·
ma de lsac: cego, e outra de Jacob
c:ôxo, porque corno .todos lh<J tinhão
grqwle_vener<lça.9 ,. nem os de fóra
atirari3o ós muros , pellos não o-
:· w- fen-
.J '
Reg. 2. C. I.
fender, nem os de de-ntro de:xariâo
de acudir aos defender , e assim
rnandárão dizer a ; que en-
quanto alli cegos, e côxos ,
nã:J entraria em sua Cidade , assim
nós já nos n)o podemes arcceiar de
cousa alguma , pois temos sobre os
muros desra r:ossa Cidade outros
àous retr .aos doutros dous varoes
famozos , a quem todos temos tanto
, que em sua per·
deremos as vidas 1 hurna do grande
Albuquerque , sobre o muro da
Misericordia , e esta deste valleroso
Gama sobre estoutra , em gue se
oje aleuanta , com o que podemos
esperar , que esta nossa Cidade, e
todo o mais Estado , corrie muito
çedo á sua amiga grandeza, e pros-
peridade.
I
Dioguo doco:ttc.
E
' () ~ ~ ·
..: ~ - .. '
.TRESLADO
DO
Asento que se tomou em Mez<:t do
Camara desta Cidade de Goa , so-
bre se rrefazer o Vulto do Conde
Almirante D. Vasco dagama do
portal do Caes, lançado no Livro
dos Acordos della a foi. 3 3 •
ASSENTO.
A Nno do Nascimento de Nosso
Senhor Jesus Christo de mil seis
centos e noue annos, aos noue dias
do mez de Dezembro do dito an-
no , nesta muito noure, e sempre
leal Cidade de Goa , nas casas da
Camar!l ?ela, sendo junto em Me-
. za
67
za João Caiado de gamboa Perô
Correa de laserda , Fernâo dAn:.
drade Zuzarte , Vreaqores; •;Anto-
nio Moreira da , ·Juiz Or.
dinario, Francisco machado, pro:
curàdor da Cidade , e os quatro
procuradores dos Mesteres Anronio
Jorge, Miguel João·,. Marcos fer-
nandes ; e An1ador ferreira, comi-
go Bartholomeo soares de guoes ,
escriuao da dita Camara , fazendo
V reacâo , e praticando' nas mate ..
tias que por reza o
1
de seus officíos
tinhão obrigação de premer ,
1
entre
outras f(li tratado , como no· pouo
se tinha notado por descuidei :! esta
Cidade, e oiliciaes della nao se tér
m:mdado refazer a estatua, e vul-
to do Cocde almirante D. Vasco
dagama , que :'1 Cidade p-6f
no porra! , e arco que. fez no Caes
do Visorrcy , com tanta rez3o , e
aplauso conhecidn. E obrigjda' 'dé
seus ilustres feitos , e de auer
o primeiro descobridor deste Orien·-
te, e que a e-li e trouxe a fé de Nos:.
E ii so
so Senhor Jesu Christo ·; e seu san-
to euangelho ; c;endo obra sua , , e
feita á sua custa : Sendo assi, que
de !se auer tirado na f6rma que se
fez , ter sua M:agestade monrado
auer-se por mal seruido , mandan-
do deuasar do caso , pelo que pa·
recia obrigação tornarse a pôr no
estado em que a Cidade a tinha
posto , assi p:ara conseruação de
sua obra , como satisfação dos me·
recimentos de tão ilustre Varão ; o
que assi ouuydo de commum con-
sentimento de todos , foy asentado ,
que logo se mandasse fazer outro
vurro de pedra , do dito Conde,
e se pozesse em seu proprio lugar,
e nicho en que estaua , e que para
a Imagem de Santa Catherina, que
no dito Portal se puzera , se fizesse
outro nicho mais alto em cima do da
dita estatua no remate do dito Arco,
e nelle se puzesse a dila Santa , com
o que se fica satisfazendo a h uma,
e outra cousa com a rezão deuida ,
e poJo assi ascntarem , mandarão
fa-
fazer este asento em que se todos
asignarao. Eu escriuao C)Ue o es-
creuy , Joao Caiado degamboa ,
" Pero Correa de Iacerda , Fernao
" dandrade Zuzarte" Antonio Mo-
reira da fonceca , Francisco Ma-
chado de figueiredo, Antonio Jor-
ge , Marcos fernandes , Miguel
jo:ío , Amador ferreira. O C)Ual
treslado eu Banholomeo soares de-
gois , Escriuâo da Camara aqui fiz
rresladar do diw Liuro a que me
reporno , com que o consertei por
manda3.o da Cidade, a que o entre-
guey , e o conseney com o di to offi-
cial abaixo asignado em Goa a 9
de Dezembro de I 6o9. E por este
nada por ser da Cidade.
Batholomeo Soares degois.
J
~ R A S ·
L' ,r
..
...
-· T R E ·S L A D O
DE
fiuma Petição que a Cidade fez na
do assemo atras ,
ao Viscrrey Ruy Lourenço deta-
uora , e do despacho que nella
deu , lamçadCJ. ao pee deste asento
por p1angado da
D Izern ··os Vreadorcs ·, e me1is
. '
officiaes da desta
de Goa, que obrig3da ella dos :nui-
merecimentos , e ilustres feitos
do Conde Almirante 0.-Vasco da-
gama, que Deos haja , cm de auer
sido o primeiro de5cuhridor deste
Oriente , e que a elle trouxe a fé
de N osm Senhor J esn- C h r isto , e
seu santo Euangelho, que com tan-
.. to
to fructo de sua Igreja se rem dila-
tado por todo elle : h a muitos annos ,
CJUe mandou pôr hum Retrato sei.!
nas casas da Camara , e huma fi.
gura sua em vulto de pedra no por-
tal , e arco que mandou fazer jun·
to ao Caes desta Fortaleza , onde
com sua. _memoria fosse exemplo aos
que o v ·sem , e se CfD_xerguasse
muito dos grandes benificios .que per
seu meo Esr::do recebe·, e es-
tando assi , foi hum:! noite rirddo
do dito portal sobreticiamente por
peçoas particulares, de que sua Ma·
gestade tem mostrado auerssc por
mal seruido mandando este anno de-
uassJr do caso, eemcornendando in-
da a Vossa Senhoria mande
o corpo de seu filho O. Christouão
dagam.f\ qi.Je morreo mqrtir 10 Abr=-
xim , para o mandar canonizar , re-
zóis gue per ssi estão mostrando a
satisfaçáo que de suas obras tem o
rlito Senhor , e a elles supplicantes
obrigação, e farão motiuo para man-
dar refazer o dito. vulto , e. ror-
na r
72
nar ao lugar que esta Cidade justa•
mente lhe tem dado, e por essa re ..
zão he já de direito seu , e assi
em pelo asen·
to, cujo treslado offerecem se tor-
nasse a restiruir a seu lugar, na fór.
ma que por esta CidJde foi posto ,
como se delle verá , e porque esta
obra he nesta Fortaleza, e Apmen ...
tos de Vossa Ser.horia :=:: Pede esta
Cidade lhe fJça Vossa Senhoria mer-
cê dar para se mandar fazer
a dita obra , na fórma que está a ..
semad) • pois esta Cidade a fez á
sua custa, e está obrigada a refazei-
h. pdlo agravo, e gue
neste cxceço :::;: E
mercê ''
DESPACHO.
P a Ci,1ade mandar- fazer a
obn de que tàz como lhe
p:=!re:er, e tem determinado pelo a-
sento junto , pois he de sua ecencia ,
r e
e obrigaç1o. Goa a onze de Dezem·
bro de mil e seis centos e noue. Ruy
Lourenço derauora. O qt1al
to, pet ç:ío , e despacho, eu Bar•
tholorneo Soares deguois, Escriuão
da Camara desta Cidade de Goa a-
qui fiz tresladar d::> proprio Liuro ,
a CJUe me reportto, e o comertey com
Q official abaix9 comigo asignado.
OUTRA CARTA
DE
DIOGO DE COUTO
Sobre varias materias.
JÁ he tarde para esperar bem ne-
; porque quem nasco para
, já não pócle ser contente,
mo r-
morerei asi como sempre v1vt ,
€i para acabar de ser triste de todo,
sulSeàeo a extincão do Tribunal em
CJUe eu tinha a Vossa Senhoria, mas
se tiuera vida bem sey qu(j s<:mpre
auia de estar em outros lugares
grandes, em que podera fazer mer-
cês aos seus •. E posro que isro su-
cedeo asi , pt?rque me
çe tudo , me não faltarão cart3s de
Vmsa SenhoriJ, que he o que mais
eqimo que udo, quererá Nosso Se·
nhor conseru:lr-lha por largos a·
nos.
Pesto que ji não espero nada do
mundo , todauia espero de ver in-
àa a Voss3 Senhoria nos lugares que
merc5e a sua Magestade , que he
Principe muiro C.nolico , e a de
satisfazer tamanhos serviços , como
lhe tem feito. E posto que já nao
poso lograr as mercés que deseja
de me fazer , só por ese desejo ,
desejo todos os bens da yiqa.
Fico velho , e inda que, asi ,
tod<1uia csper9 Cl!J Deos
ficar de fóra daqueia ret;ra tao ge-
ral neste "B.Ísrado, que he, todo ho-
mem que nelle não es-_
, ou de pobre , ou de desonr-
rado ; pobre sou , mas muito honra-
do espero em Deos de acabar, por-
que me não póde tirar _o m!.lndo,
O:!Íxar nelle impressos seis , ou sete
Liuros tão acrcditaçlQ$ peJa Europa,
que se não fôra tão humilde , po-
déra-ll].e tocar uma pequena de al-
tivez, mas como tudo o que tenho
feito o emcaminhou Deos , me faz
estar com a rn:lo f,9lgada, e muito
leue ; nesas N:íos vão as minhas
oiraua , e nona Dccadas , e já lá re-
nho a decima , e undecima , e se
viuer acabarei duodecima com o
tempo de Vossa a gue!l}
pedi advertisse de algumas cou-
sas , o C]Ue não fez , dcuia de
com negocias.
Pellas Regras C]Ue asima digo ,
corno quá não ha homem mais velhq
que este Estado, o vejo pobre,
e deshonrado, cudq que acabará çe-
do,
co , porque para isto ser mais de-
presa , todos lhe dão de pé , asi
de lá , como de quá , e corno isto
fôr , ficáráo todos descansados , mas
pagalo-ha os que tiuerem a culpa ,
porque o sangue do justo Abel
ha de pedir do cruel Cahim;
e p2ra isto ser mais dipresa do que
digo, inuentou o demon:o que isto
foi obra sua, mandarem vemder as
fortalezas ' e os cargos ' nao ha
vestido que deu esta traça , que não
foi isso vender as fortalezas , se não
:as alfandigas de S. Magestade, e
o sangue de seus Vaçalos. Porque
Guem comprou as forralezas por
presos tão aleuancados , bem sabi-
do he , que os ha de paguar as al-
fandigas , e os Vaçalos, porque se
os capitães, que até agora scruido
liuremente , nâo viuer o
Rey, e o pouo, que será agora que
lhe cusraua ranto. Praza Deos que
as lcgrem , e que as veja lograr quem
isto emuentou, e Vossa Senhoria vi-
uirá, e verá, e não falo mais.
Es-
Escreueo-me o Padre Fr. adeo·
dato, que nem Vossa Senhoria , nem
dle tiuerão cartas minilas , de que
pasmei , porque escreui muito lar-
go , e mandei as Vias bem encami'7
nhadas, mas se até disso sou mo fi·
no, queixar me-hei de rnyrn.
Os Paineis das armadas que es-
tauao nesta casa da forraleza aoo-
dresêrao todos ' e tirarão-çe ' nao
ficou disto memoria , ha tres anos
que labuto com o VisoRcy
se renou.arem , até que depois des-\
tas náos vindas o acabey com elle,
encommendou-me isto , e renho já
feito de hum mez para quá, mais de
çem Paineis de tintas muito boa:i ,
que faz o pintor godinho , e por·
que o painel dn primeira armada,
em que o Senhor Conde Almirante
veio descubrir a India, era muito pe•
queno, e corno se aque-
le capitão nao fi:z.cra hum dos mo-
res feitos do mundo , mandei-lhe
fazer hum painel tamanhp como os
dou i
~ 78 J«
dous dos outros em que lhe puz le-
treiros que merese. ·
L Com esta será hurri escrito que
me escreueo o chanceler João frei·
re dandrade sobre o titulo·. que
dise , como Vossa Senhoria verá
nelle , pelo qual entenderá , que em
tudo o que se mofreçe seruir as cou•
sas de Vossa Senhoria , o faço , e
farey em quanto viuer. Isto não vio,
nem sabe o Senhor D. Luiz daga-
rna , o que nunca quiz sàber nad"
de mym, será por me não ter por
rnarl]a de fazer mercê. Nosso Se-
nhor dê a Vossa Senhoria tudo o que
póde. Goa 6 de Janeiro de 1616.
--- Dioguo docouto.
,
c -
li
'
. .
CAR·
-· -l
- CARTA FAMILIAR
ESCRIPT A A JOÃO ..

Sobre a Oração do Conde Ahni·
rante D. Vasco da Gama.
E Sse Papel que a ~ u i mando a
Vm. dentro, estaua feiro no primei-
ro borrão , para dizer na porta da
cidade , quando aleuantassem a es-
tatua de D •. Vasco dagarna , que
hauia de ser com omras sirimonias ,
bem difirentes das que fizerão ; mas
como cessou huma cousa , e fez ou-
tra ; pelo que ha mais de hum mez-;
e meio, que tinha lanssado este pa,;.
pel corno perdido ,amtre as presintas
da minha cama , e agora que o
· . i ~ achey,
achey, e o tornei a lê r, vi neJle CO•
mo prouaua este capiião fora discu·
bridor, e conquistador, pomo que
Vm. me preguntou na rua direira,
pelo que o mando amando a Vm.
pa:ra que veja, e como o 11ier rorn'ar-
mo , porque não tenho outro. úeos
guarde a. v m. ' de usa terça feira.
Diogtto docouto.
RESPOSTA
V I rrui deuagar a Oraçao que
Vm. tinha feito sobre o leuanta•
menfO da estatua do Conde Almi-
rante , e toda me pareçeo mui bem.
Viua Vm. muitcsannos para suprir
nossas f1has , com raz:ío tenho· ao
Conde Almirante D. Vasco pordes-
cubridor , e conquistador do esta·
do , como V m. foi mostrando no
dis·
discurso da Oração , que com esta
torno a 'tnandar, conformi-
dade continuei já em huma Senten·
ça nomeado por Conqui-staf!or. Nos-
so .. Senhor ·ett; de- Casa ·a 16
deJuJho.de 1610 •... r:'"
-:-:! • c. "!

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"' p l"u;; u
'João . 7 .'"' :'. • ·· . •
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A-PONTA·1\1E.NTOS
:.-!:1 r-t!:. ....
-: • · · :.. n D E
-
'l1 __ .. _ h BC:J S ·:--:: ..
'l:
. 1)0, COUTO,
..
_..,:;,.:.!;_.jl :. - : • ('hilr ;_fl !.•
Gu:mÍa Mór da ·TÕrte ·do Tombo,
: ·que· Vossa Magestaâe manda· o r·
dcmar:--na India , rlas· cousas que
-1 conuem para a dit-á Casa·,
_VQs9. mandar vêr.
t t:-·\.• ... 4 ,. •n:' .• -
F APON ..
•'"''"lo :1 c f' " l sf r;-:··:--'- 1
APONTAMENTOS.- c-mut
r • · r
• 1!.:-.! J 9 ·é).
D Is.

ção por onde manda ao 'aSa
do Tombo , que seraa polia ordem
da de Portugual , que quá não ha, he
necessario mandar Vossa Magestade
que se mande dellaa a Ordem , e Re·
gimento da Torre do Tombo de5se
Reino. . . __
Qye todas ·as Patentes das
fortallezas , todos contratos das ná-
os t e da. ri menta ) e n-iais'
todas as lnstruçôis, Listras de des-
pachos, Leys, Detrerninaçóes , Al-
uirres, e a couza desta esençia,
he 'maMar Vossa MÃges·
tade dellá mesmo que se registem
.no Tombo :Goa.-:;,
1
?--."· í>..,-:;:;u';)
:-. Q!le vias
Náos- ,Reino que .cada a-
DQ, vem._se no T mbo , .. para
alli. ticar. perpetuamente , .. porqAê se
se perderem os da Marricola , co-
mo
83
rno sâo perdidos os mais pa·
ra alli se ach9rem perpetuaDJe.nte.
Alguns inconvinientes cuido ·se
tratâo da parte dos Secre•
tario , Escrivao da ,
Go:arda dos Contos, ,
a entrcgua .. d.os liuros , .e papeis que
Vossa Mage.stade manda goardar
nesta .caza:.do polias
cas que leuão as partes , e- não pa-
reçe rezão, que pollo ·
se perca __ o_seruiço de .Vossa Mages-
tade , e o. bem comum destes S(i!.IS
Estados ,- trata de sua perpetui-
dade. , e , polla ·pou-
qua ordem até agora nesw
tas couzas ,

lo que · perdidos
todos..;.os liuros , e de im-
portancia antigo.s, que
_cada anos se fazem , , ·rodos
estes cargos, em cuja emregua se per ..
derão todas as-couzas passadfl.:'l , poli o
que necessario mande

.IVl.a-
gestade ·passar-; .ppra se en-
tregarem em ·todos; ej!res_ pfficiaii
;_assima- rodos ·,os liuros já ,esti·
::-: F ii ue-
84
uerem
1
findoS , e rodÓs. os mais pa·
peis péra se depositarem na caza do
Tombo, onde não padecerão os nau-
fragios passados, por cauza das mu•
passadas , para se acha-
rem perpetuamente sem-embargo dos
que se àpoittarem.
•n Porque em todos os ffstados , em
seos Ifombos , ·e estao as
Cronicas suas couzas , pera se
·saber o· fundamento deUas , he ne-
cessario auellas tambem , por
onde deue Vossa Magestade man•
dar, <JUe rodos os vollllmes das De·
cadas· de-:]oâo de barrOs de fer-
não lopes c:c:le Castanhtda , se man-
dem deUaa, para estarem nesta ca·
za do Tombo- da India como cou-
. za sua';:- porque se v ao· ac:1bando es-
tes vollumcs , que na India já os não
ha. ; : ...
, · · Porque as· Certidõis , ' e Instru-
mentos que os _homens tirão qua de
·seus. quis Vossa Magesta ..
de prouer por vezes ·pera ·se euita-
rem desordens , ·e ofensas de Deos
no i
nos juramentos falços , .e Testemu-
nhas. E sempre neçe Reino se ti-
uerao por suspeitozos ' e porque nao
faltâo inda desordens com quanro
s.e niso proueo , achei para as eui-
tar hum muito bom , de .que
me pareceo · deuia fazer lemlxança
a Vossa Magestade , que l1e este.
Qye todos os Capitãis M.óres
das Armadas leuem com siguo
Aiardos deUas n'um canhenho .,
todos os mezes corra os Na u.ios com
e.lle ,
1
e .os Soldados que falrarlhj;!
porá verba na margem , e o que
fi.riram "; ,e matarem na guerra , o
n,1esmo, .com .decraraçao das feridas
que -lhe derão. E o CJpitâo que
mar Nau_io de ladróis , tamb,;rn se
porá a margem, .e tJ.nto tJUe .a
Armada se recolht!r , entregar este
Alardo ap Visorrey , para que as ..
iÍne lílelle, e mande lançar na caza
do Tombo. E Jogo os Capitais .Mó·
res farão' a menu ta da cer.ridâo do
I .> - ( . •
s.ucesso da· jornada , em que ._asi:
nará .o Visorrey , se lançará no
mes·
mesmo Tombo com o Alardo ao
de Capitãis dos nauios daquella Ar ..
mada , Fidalgos , e Soldados , cada
ves que lhe fôr necesario , irâo
tirar suas ·çertidóis, que lhe o Gear-
da do Tombo passará rpollo Alar-
do , asinadas por elle , e depois
pollo Visorrey, pasadas polia Chan-
celaria , com que fique justificadas
pera Reino se lhe dar fee com
o que se euitarão as falsidades das
çertidôis pollos Testemunhos que
huns Soldados dão por outros, e es-
cuzarçe-ão os estrumemos que o-
je se rirão a dos Capitais com
que :mdarâo , que são mortos, ou
auzentes , nos quoais os Soldados
gastão trinta , e corenta cruzados,
pollo rnuyro que os Escriuãis lhe le-
uão , e com esta Ordem daquy a
çento , e a duzentos annos , acha-
rão os hpmens n'uma hora çerti-
dão do Pay, e do Irmão, que lhe
ferirao, ou matarão na guerra, e a
veuua do marido. e -do filho.
lhe custar mais que a pagua d'uma
· '
1
l:er-

-çertidáo , pollo que:: o . V isorrey
denar., L- r .l L• ·:) & •
· ; E o mesmo que· se dis Ar-:
madas , se_dís- das fortalezas onde
ouuer guerra··, e_ , nas coais
QS Capírãjs farão Alar:do cada mes
polias estãçias, e poUos Nauios que
tr®xerém e_mis margeos tà-
rá declaração do homem que lhe ma, ..
tarem , ou firirem , . as coaes decla-
s:açôes :togas , ao,, de ser asi.nadas
Jla mesma margem pollos Capitãis ,
.e depois da guerra acabada , man
dará çerridão do sucesso da guer·
ra. ' com G Alardq r asinado pqlJ,o
Visür ey_, se n Tomb_o·;
ondeiodos os homel}s que- se
la guerra acharão -,: irão 'tirar:
)ert.idóis polia manei:r.a ._.as i ma •. Jl. .ti
mande .. Voss..a Magestaoo
prouer hum Esçriu-âó :.do
como em· PurtnguaJ;, _e qu.e seja
homem que tenha·. párt_es , . e.ca1li-
dades p1ra . seruir , despoís
se fôr necesario , . -e· se paguem
Escriuãis :. pera
-)lo' rem,
rem ) como ha- na Matricola de Goa.
Qie se a casa do Tombo se
n5.o fizer em parte em que
possa pouzar ,-que se me tomem as
cazas . da Pouzentadoria perto"'·; e
que se paguem da Fazenda de Vossa
Magesrade, por estar mais á
porque ade auer muito trabal4o es ..
tes primeiros · anos , no recolhi-
mento de liuros , e papeis, e em
se por isto em ordem , como con-
uem ao de Nossa·· J;dages-
tade. !.. .!0-.l-;>
'- A Regimentos , ·Pra-
ças das fortificatóes da lndia , que
fez João Haurista Cairato , Arquite.:
to Mór que Vossa Magestade man·
dou á · a .iso com o Visorrey
D. Duarte; <lue. com sigo leua, sem
. querer dar a copia ' té nao àpre•
sentar tudo a Vossa Magestade; he
neçesario , · que se torne a man·
dar para se depositarem na Torre
do Tombo de Góa , como em seu
proprio lugar Etcre. Goa a vime :e
nove de Nouerribro·de 1)95:'' 2
11
-
DiQ·
n "' r
c r
• rr. c , _ ...
t f, Ji:.J Diogo dD C()uto.
-i:• r!; I Y·: ;_. .r
I
• I I ("o ?
Junto a ute P apd de Diogo de
Couto··, Guarda Mór da Torre do
Tombo ·do Estado da India , está
neste manuscripto o seguinte da rnes-
ma Letra , os Sabias njuiz.arão de.
q11em seja.
APONTAMENTOS
DA
CIDADE DE GOA
- .
S O B R E A F R A N QUI A.
O S da Fazenda . de
Vossa Magestade deste Estado (com
pretexro de augmenro dela ) jmen-
tão
tâo algumas nuuidades contra vasos
Regimentos , e contra o bem co·
mum , e liberdades desta Cidade,
pretendendo tirar-lhe a franquia, que
sempre teue , e obriguar os nauios
que nella estiuerem a paguar· 'das
fazendas que em si tem o:s direitos
que não deuem , o que o Visorrey
fauoresse com detrimento graue das
preminencias , e desta
Cidade , de que nos queixamos. a
Vossa Magesrade.
E primeiro , corno fundamento
principal , f:IZemos s:tber a Vossa
Magestade , que nenhum nauio. de
vosQs Vasalos de qualquer
de que seja entre nesta Costa da
India com fazendas, que delas não
pague dereitos Vossa Magesrade ,
tanto par· entrada , como por say-
da , quaQdo se n2o rirão por seus
proprios donos.
Qge pera estes fica improprio o
nome de franquia que esta Cidade
todauia tem pera náos , . e nauios,
<iue a seu Porto cheguao·, , porque
· co-
como do mesmo nome se entende ,
franqui!l , he lugar que se dá a na-
uios- de amiguos p e ~ a em qualquer
porto ~ u e chegao · poderem franca-
mente negociar , •• refrescar-se , - aco-
lher-se, e consertar-se , sem por is-
so paguarem nenhús dereiros nos di-
tos portos , ainda que leuem Js fa-
zendas que dentro em sy tem pera
Reinos estranhos. • ·· _r ~ t
E a franquia rdesta Cidade • no
modo cm que sempre esteue , nunca
foi prejudicial aos dereitos de Vossa
Magestade , nem da nosa ao de
mais da essencia de vosa fazenda ,
como se verá polas rezôes abaixo
apontadas. "-' .,
Esta Cidade. no tempo que era
de Mouros tinha- fran-quia, e depois
que lha ganhamos com dobrada re-
zão a teue , e deuia ter, porque co-,
mo naquelle principio por rez:ío das
guerras e ramos terror das N açóes de
todo este -Oriente , necessario foi
para- perderem o escandalo que de.
nós tinhão , · que· na :paz achasem
em
em . nossos portos , não só mente .
franquia segura ,
1
mas todos os of-
ficios de amizade , c e unanimidade,
que as outras Naçges: ainda que
barbaras , sempre cos.tumarão. E assi
desde de então rcue esta Cidade sem-
pre franquia, aprouad.a poJo!? Reys
passaçlos de ímmonal memoria , e
em seu Regimento foi sempre fauo ..
recicla , e Vossa Magesrade confir-.
mou o tal Regimento , mandando
que todos os nauios que a ella vies·
sem fossem fauorecidos, acolhidos,
e libertados segundo o vso, costume,
e posse desta Cidade , e atee gora
não ouue Ordem de Vossa. Mages-
tade em contrario , nem causa pera
• !
ISSO. pr • ~ :
. E que a fr:znquia não sej:t per-
judicial a voso deJ.eitos s.e mosJra_
porque todos os nauios que v m do
Sul, e dobrao o Cabo de Cornorim.
que a ella chegâQ. :com fazendas ,
não podem passar_ deli a ·sem os pa·
guarem , saluose ja os tem paguos em
Cochim segundo a o r d ~ m . , e .con-
tra-
93
trato que Vossa -Magestade tení· tHi-
quella ·alfandega co_m ElRey "de
O:khim, o que as Pessoas· que. as'rais
fazendas trazem r; vereficão -com
daquella alfandega , e nâo
o vereficando paguao nesta Cidade
-os dereitos , e com isto fidío ·liber-
tos pera podetetn teuar ·suas fazen-
das aos portos dos Reys amiguos ,. e
vasa los de v Magesrade. f _;: T
e f Os outros ·Jnáilios· que vem
banda do Norte ·; Ormuz ·,
baya etc. correm pofa mesma orde111,
saluo ··quando·· Cochim ,
porque·· então tem- liberdade para
estarem na dita ·franquia , pois na
Cidade para--onde· vão ande paguar
seus dereiros ,r o Regimen-
to ' e. quando na o vão perâ <f' dito
Cod1im , paguâo os ·' dereitos em
Mangalor, ou tBarcelor, fortalezas
na Costa da Canorá , onde Vossa
Magestade tem: alfandegas.
·, 1.. Há outras ·duas sortes de nau i os
que nauegao :esta costa rr- aos
quais • he tlibena· a- dita·· franCJuia,
• • • huns
lntns s3.o _os que nauegao com
tazes·· aos quais se guarda a fórma
qelle , ora seja· pera não
pasar porto para sima , ora
posão pasar · adiante , e a es-
·tes daro está que _se lhe n:ío póde
fl fr<1nquia.
1
A outra
de nauios he de alguns homens po-
bres CJUe sabem dos portos , , onde
Vossa Magestade nãq tem alfange-
;gas , 1 os CJ uais tem_ 4<t CQ tu me , e
-posse poderem tomar· a dita fran-
quia 1com liberdade , pera segundo
o _expediente das fazendas que tra-
zem , 'verem se lhe conuem entrar
nesta Cidade , ou não, e assy quan-
do sabem que as suas fazendas po-
dem gastar,· entrão dentro, e quan-
do não , as podem leuar a outras par·
tes, ou a portos dos Reys vizinhos,
aonde .paguão os dereitos costuma-
dos. r ',1 - .1
Nem faz contra seruiço
o <}Ue os officiaís 'da fazenc\.a õJr-
,.guem neste caso • CJUe os
rais nauios quer assi: nauegão
.. ·d me-
que paguem a
Vossa M.agestade ,-oque nao aos Reys
Mo Antes beni ·" esre
fundamento encontra o proueito que
se'-.pretende -da fazenda de rVossa
Mage-srade, ehecOti'a de:rnuitos·in-
, especiJlmmte de dous
e de nmira considi-
primeiro. he que os vasa-
Vossa Magestàde:, que co..'ll
nauegão (que com-
SaO !SC lhes
.impóefu clobràdos dereitos _, pqisohri!-
a pàguar aqLii h uns'
tos ,.-,JJs. nao desohrigão .a. paguaroh-
tros_ aos Reys, a cujos• portos leuão
as· taes·lfazendas , e assy·;ficão pa·
guando· -dereitos Jdobt;ad9S'·,- o que
areegora nunca vsdu..., fica ·sen-
im-posição grau e pera: ,
po,r tt!peito dos cp.1 a is assa
gestade até··agora qui.z 'que se goar:-
dase-. particular :cr liber.dade da
frãnquia 'Te se lha .. tirarem póde :re-
wltar , que ou estes deixe@
o T ou . VZCLU: --dell-e em pãr-
te ,. e de que paguar
óereitos dobra:dos, e se isto sucede
ficará frustrado: o intento desta im-
posisão , e Cidade perderá .a vti•
lidade de ser cada hora· socorrida ,
e prouida por rsta sorte de
::-w .. ,; O outra · incon uenienre he • qua:
.impede o comercio , e paz que se
tem com os Reis vizinhos ,
te fi:om o Idakau, de cujO'S pertos
esta Cidade, e .quasi todas ·as
estado s<t: prouem , e fica bem: cla-
ro, que permerindo Voss'a Mages:.
· tade- que os nauios sejáo constrangi-
dos a entrar neste porto ·; · e-· se lhe
tire a liberclade de fraBcamenre. na•
uegar segu!Jdo Õ costume antigo des-
ras partes r,·: CjUe' .o ha de resenrir 9
ldalcão·,: e ElRev· de.Cochim,
mo priuasáo de J seus dereitos
1
e
comercias' , e· qom este· exemplo
poderao ordenar. outro tanto em sel!S
Reinos com que pe1jud·ique· gran-
demente a fazenda de Vossa Map
gestade , e vasalos , nao. h e. re·
zão, nem· séruiço. de Vossa Maw:s-
ta-
);{ 97 * .
rade que se dê ocasiâo a igto , e a
perder este estado té!ÍS amiguos , ou
quando menos escanc\alizalos.
o -:I Nem tàz tambem outra rézâo
que se dá pelos mesmos officiais ,
que ha moradores , e estantes nesta
Cidade , o ~ quais fazem ~ n a venda
de suas fazendas ·, e saídas dellas
conluios ·, com os quais perjuclicâo
muiw '3 fazenda de Vossa Mages-
tade , e seus dereitos , porque aos
tais se póde dar a pena que o mes-
mo Regimento
1
por tal culpa orde-
na, e ainda impôr-lhe outras mayo-
res , quanto mais que s;; sabe que
os mais destes con!uios , e subrruti•
çios nasçem ·de homens da nação,
e de negoçeos , aos quais o Visor-
rei póde .rmandar pera o Reino ,
porque ainda querVossa Magestadc
o ~ liberte nas cartas desres annos ,
he porém em quanto não forem per-
judiciais a v o ~ seruiso , ·mas ran-
to ·que nisso to_rem comprendidos,
fique-lhes 'em pená ·(álem das mais)
deitalos' ·O :Vj5orrei logo rla India.
-{}' G E
E por estes nâo se;: tire aos mais
Mercadores, e Moradores sua. antt·
gua posse , e liberdade , pois a tro•
co deste peqJJeno fauor · cominuão
ateegora com seruisos .de ·muito
maior importansia , feitos a Vossa
Magestade , e dignos não só de os
mandar na dita po»e , e
liberdade antig:.t'l , mas ainda de
por elles lhe conceder mayores · fran-
qu!as , e mersês. 2r
Ha outra inouaçao de dereitos
que já for:ío reprou1dos de perjudi-
ciais a voso seruiço , e ao bem
comum , a qual he que das fazen-
das que vem da terra firme , pa-
guem dobrados. dereitos , · o que o
Visorrey. D. Antonio. en troduzio, e
o Gouern3dor Antonio muniz bar-
reta continuou por particu-
lar de algumas pesoas conluyosas ,
as quais não se duuida poderiâo co-
meter culpas contra os dereitos de
Vossa Magestade; porém parecen-
do em tudo o mais a tal imposisãó'
injusta·, e ca.ntra· a: Jo.J;Çl .de R.O:..o
Regimento , desde entao ateegora
se nao vsou mais della. Nem aind:t
em tempo do Visorrey D. Luis
de ataide , que muito de pensado
tratou todas estas materias de derei-
tos Reais.
Pedimos ., a Vosa Magestade
mande ver estas r e z ó ~ , e as mais
que ha pera se nao atier de fazer
a esta Cidade (metropoly , e cabe-
ça deste estado) tão grande' afi-on-
ta , como 5>eria tirar-lhe a franquia
que sempre teue, e inda em tempo
de mouros, e os inconvinientes que
disso podem resultar , que são mais ,
e mayores do que aqui se aponta. E
a mande Vossa Magesrade conser·
uar em sua pose, e liberdade •
<.
• T. 'f.. '" ~
G u
* 100 }';'(
REQUERIMENTO
Qye vem annexo ás Cartas de Diogo
do Couto.
E LRey D. Manoel de gloriosa
memoria , fez mercê , e doação re-
muneratoria a meu Vi zauou, e a seus
descendentes pellos notaueis serui-
ços que lhe fez , e á corôa destes
Reynos no descobrimento da India
que pudesse mandar a ella cada
anno duzentos cruzados, e trazellos
empregados em quaisquer mercado-
rias que quizesse , e estando eu , e
meus antepassados em posse de vzar
desta doação feita em remuneraçao
de seruicos merecedores de outras
~
muiro maiores mercês , por espaço
de outenra annos, trabalhárão ago-
ra algíias pessoas , nao com zello
~ .. do
101 };X
do seruiço de sua Magestade, mas
por injustos respeitos diminuir , e
mudar , e ao menos alterar o vzo,
e cusrume, de que conforme a dita
doação sempre se custumou, e vzou,
fui sobre isto a Madrid • pcra dar
de mim rezão a sua Ma gesta de , e
pedir·lhe certa , e declarada fórma ,
e certidões , que as mercadorias
que eu mandasse trazer , auíão de
ter pera me -Iiurar de inquietações ,
que estas: t pessoas tão injustamente
me querião dar; pareceu· a sua Ma-
gestade que era bem limitar-me cer-
to número de quíntaes de canella,
que eu pudesse fazer trazer da ln-
dia , mas não se acabou de tornar
nisso resolução' que eu deuesse acei-
tar sem notauel prejuízo. de minha
fazenda, e dó que conuinha ao ser-
uiço de Sua Magestade. Elle me
deu hurna -carta pera vossa Alteza,
em que lhe encornmendaua me
vista das , e orçamento dei-
las, que Reyno se fizerao pe-
ra se auirigUM a certeza des[e caso ,
e
e que V osga Alteza mandasse tratar
este negocio por pessoas assinala·
das , a que eu pudesse dar informa- ·
ção da agora entendi , · que
_náo. se achau:io Contas , mas que
era V. A. seruido qne eu desse os
neccssarios pera se is-
to auiriguar; farei o que V. A. man·
da meste. particular , e em tudo o
demais. t -; :.. ·:.:p
Denesse. primeiramente conside-
rar quam pouco he o que os offici-
aes. de s.ua,JMagestade procurão ·de
acrescentar .em. sua fazenda com a
_dinürmi<iâo do número dos quintais
çue sua Magestade ha por bem que
se me t:ertifiquem , pois. tem aren-
cada· a da India
2
1e o aren-
dame.nto não crece ·, nem diminue
pelo auginemo , ou diminuiçao dos
·meus quintais ' porque não sao de
aluitres ordinarios , ·· senão de mer-
cê remuneratoria que se resalua em
modos os contratos, e .dizem os le-
tra-ios t _que· esta tal doação , he co-
mo (Ompra , e venda.·,.· porque os
ser-
~ ,103 ~
seru-iços. em-. de rei to se repu tão co-
mo 'dinheiro de contado , e se al-
gum proueito disto podem ínteres•
sar os contratadores , seria de mór
seruiço de sua Magestade ficar na
casa. do Conde Almirante, C)Ue não
na. dos contraradores , pela grande
differença que ha das obrigações CJUe
o Conde tem ao seruíço de !Ua Al-
teza ás que os cpntratadores podem
ter. ,
Hasse tambem de considerar pe-
ra firmeza , e ampliação desta mer-
cê, e doação ; a qualidade, e gran-
deza de quem a fez , e de quem ã
confirmou, e o merecimento da<juel-
Je a quem se fez , e a causa que
ouue pera a fazer , porque quem a
fez , foi hum dos mais Jiberaes, e
magnanimos Reys que naquelle tem.
po auia na Chrisrandade , pois a
grandeza , e exuberante hberalida-
de de Sua Magestade, <juam gran-
de seja , e. foi sempre até com os
que o ' deseruirão , notoría he no
mundo ; pera o merecimento da
f:1la pes-
!04 3t.€
pessoa a quem se fezr- foy tal , qual
o mesmo Rey D. Mancel affirma
no relarorio que faz na carta, desta
doação, ·e d'outro que diz CJUC lhe
fez em parte de pago de seus gran-
des , e notaueis seruiços. A causa
porCJUe fez foy a maior , e mais
urgl!nte CJUe ouue nos Reynos · de
Reys Chrisrãos. Sendo isto assi co-.
mo , r CJUe 0s ·que traba-
lh3o por diminuir , e apoCJuentar
o effeito desta doação emcorrem na
indmaçáo CJUC o Imperador Jusri ..
niano , diz em .mas 1eys , CJUe o
Pnncipe, ou Reys deue ter conrra
aguelles, que com ou absur-
da interpreraçáo ou:zão temerariamen-
te e doa·
ç1o, em nío a estender, e augmen·
ta r.
tamhem a Vossa Al-
teza l]Ue os dias passados quucndo
Su 1. ]\iage>ti!de vzar re grandeza,
e.
1
ibera!i,iade , húas terras
da corôa vagas , manJou ver por
!erradus qu.al dos pretendentes ri-
·I nha
nha mé1is ,. ·e melhores rezóes perà
se lhe: darem as ditas terras , por-
que em rigor de Justiça , nenhum·
delles a tinha ' porgue todos erao
transuersais , e não descendentes do
derradeiro possuidor. Assi e com·
muito maior rezão deue Sua Mages-
tade ( vzando de sua rnagnaminida-
de, e_ grandeza) IHandar saber qual
dos números dos quintais tem')ior
si ma"is· razões , se o â e trezentos ,
se o de cento , e cincoenra , ou se o
de quatro centos, para admittir hum
destes números que melhor rezóes
por si tiuer, e ·digo que com maiór
rezao' deue sua M:gesrade fazer is-
to neste caso que no dos
tes, em que de e per todo-,·
nao auia justiça pella qual algum
delles obrigasse a Sua Magestade
da r-lhe as ditas terras , e neste meu
c.1SO 'ha · muitas de
pellas quüs, e pello rigor derei-
to , {d :ue Sua Magest:de fazerme
merce de esco:h::r o maior número
d03 -qu:ntais. Assi pellas allegaÇóes
rm de
3t{ zo6 "1k
de dereiro, que aqui vâo juntas de
mui insignes Letrados de muito no-
me , e authoridade , com<!_ por a sub-
stancia , e força da estar
em seu vigor, confirmada pelos Reys
seus predecessores , cuja ,
e ampliaiao o dereito permitte que
seja larga, e tal qual conuem á ma ..
gnificencia de. t.Jo grande , e
liberalissimo Senhor. w.-r.·flt 1-
. Dizem estes Letrados qlie tenho
direito poder mandar á IncHa
os dotemos cruzados na valia· que
in_trinsecamente tinha cada cruzado
douro ao tempo da doaçao , e por
não .;.e laurarem agora estes cruza·
dos. , e na valia de cada hum era
naquclle tempo de onze reales , e
meio que posso agora mandar est_es
duzentos cruzados em reaes,' e que
assi o principal, como o que se tnon-
rar na bondade , e qualid...ade / ntrill'-
seca da moeda douro , oU- p.rata pos-
50 faLer o emprego na lndia ; ,di-
zem mais, que Sua Magestade de-
· mandar-me satisfazer a perda que
... · me
me deu na baixa da moeda douro·,
como se_ fez neste Reyno na dimi-
muição eh dos patacóes. Ora
sendo assi parece que deue Sua Ma-
gestade mandar fazer a conta do nú-
mero que me quer limitar conside-
radas todas estas rezóes na maneira ,
e fórllla que abaixo declararei. ·t
j'}
... rc .:"lr;< •
c

uh
r
JUIZO
CRITICO ,.)
.JJ UI I
EDITCJ;R,
Sobre as presentes Obras.
J)
A

genios raros, que a Pro!
videncia concede aos mortaes de
Seculos em Secttlos, e secontao por
, são, como diz hijm .grande
.·- ..
... •• • I. l
.. r ,-.:8
108
Portuguez (1), Naçóes cul-
tas 03 lnm;!n5 eloquente-o , que
os Seculos adrnirao , e como- pro-
ducçóes raras , quasi unicás applau-
dem. 1 n • ·a .. ,
_. Para traça, e norma Deos
mortal , como diz o Principe da
Eloquençía Romana (2) ,- heque es-
creverão os Platóes, os Aristoteles ,
os Longinos, os Hermogenes , e to·
dos os grandes Rhetoricos do mun-
do aquellas Regras , que em to-
dos os tempos se hão de considerar,
como inalteraveis , e' como base
firme , e perduravel da sólida Elo·
quencia. Tão dificil he a posse des-
ta nobre Arte ! : t
Para c3bal conhecimento do pon-
derado, discurrarnos por hum pou.
co. De que dmes da natureza n:ío
he preciso se enriqueca o Orador ?
De que thesouros de diçao , para
!T• . :. )- po-
(1) Candido Lusitano ,' 1\laximas
torias.
1\.._ (J) Cícero cm. o seu Orador.
3f,( 109
poder ostentar a pompa da Eloquen-
cia. Finalmente que CJUa!idades na-
turaes , que obriguem a dizer aos
homens , o CJUe o grande Filosofo
d1sse, Gaudeant bme na ti. A ex:.
periencia de todos os tempos con-
firma esra doutrina. Para tudo pre-
cisa o homem de genio , pOiém pa-
ra a Eloquencia com especialidade.
Já Cícero !'e queixava da tàlta de
homens elo()uenres; appareccrn , di-
zia eile, cm todos os tempos sabios.
porém homens eloquentes, estes são
raros. Peritos autem muitos, elo-
que1ttem autem nemi7tem in-ueni.
Porém os Sabics obje-
tar, C]Ue Platão , e Cicero , quando
escreverao os seus Dia!ogcs • não
forao com as vistas de se poder for-
mar hum Orador, tal qual elles que-
rião que fosse ; porém que
estes preceitos, para que quando não
podessem chegar ao cume , c cr.:i.
nencia. d,:l. montanha. ·' pelo meno3
enrostassem as suas .fraldas ; mas
nós vemos que estes; grandes
-' mens '
'
mcns, apesar dos dotes naturaes, (1)
consurniâo seus preciosos dias , cur-
\<·ados sobre os Gregos, e sobre as
Obras dos Sabias dos seus tempos,
e não contentes com isto , atee fa-
zião longas Viagens, por se intrui-
rell} nos profundos conhecimentos
de muitas cousas. De Cicero lemos ,
que a pezar do seu feliz genio , e
da ardua aplicaçao, e trabalhos que
tinha no vzo forence, que todos os
dias se daua á liçâo dos bons Poe-
tas, fonte, aonde o Orador sagra-
do , deue de continuo saber as pre-
ciosas 2guas da mais nobre eloquen-
cia ( Neste immenso rhesouro ,
h e
( 1) QHaes erão os c;ue Cicero achava
em l<ruto. Erat autem i11 Bruto 11atura ad-
IIJÍ•·.zbilis , exquisita Óoct•·i1111 , el
Cic. de Clar. Ornt.
. (:!.) Plurimum di:.:it oratori cenferre Tbe-
ophrastus lectionem Poetarum , multique
-:jus judicium sequentur, neque id
to. Namque ab his , et in rebus spiritus ,
«:t in sublimitu , et in aifectibws orna-
tUB omnis , et io pcrsonis d=,or petitur.
Ç2uint:. L. x Cap. 1.
lii
he que elle deve fertilizar a sua ima-
Ginação , e a sua alma (I) assim o
fi ·eráo , ·não só os mais respeita veis
Gent:os , corno ainda os que gozão
da verdadeira luz da Religião Chris-
tã.
Do grande l\ gostinho ainda le-
mos ( 2) que nunca lera o q ;Jarro li-
vro da Eneida de Virgilio, sem der-
ramar grande copia de
Q9ern de huma vez quizer conhecer
poderosa alçada desta divina arte,
Í1áo tem mais do que fazer paralle-
1o della com a historia.
Qualquer Historiador, que nar-
rasse a guerra de Troia , faria 5irn
huma narração miuda , e circmns-
tanciada 1 de todos os seus
acontecimentos, mas nada mais fa-
ria; o Leiror porém quando 1e o se-
gundo livro da Eneida , não póclc
dei-
(r) Madama Da,ier diz dos que dão
a6 Estado da Poesia : pieno 1e proluit auro.
· ( 2) · Sant.• · ·:Ag1)stinho em o seu Tratado
das conffiÇóu-; as,im ingenuamente o 'on•
fessa. !!,"";": ••• · r . • "
1
deixar de enternecer-se á. yista. das
magistraes pinturas, e tocantes qua-
dros , com _que este raro Genio en-
riq ueceo o seu poema. Seria mos in•
finitos, quizessernos analyzar quan-
tC\ de nobre , e magestoso se encon·
tra nesta materia, já entre os anti-
gos Gregos, e Latinos, já entre os
nossos sa bios Portu guezes ( 1) porém
eu não preciso mais do que expôr
diante dos olhos esta Oração deHe
nosso sabio Chronista da lndia, que
a Naç3o deverá avaliar por hum dos
mais nobres monumentos de nossa
literatura. . 1
Qie elevação de espírito ; que
juizo delicado, que frase nQbre , e
cxpressiua se nao encontra nella ?
Eu dcviso quando a leio ter es1e
gran-
(1) Veja-se na Chronica do Senhor Rey
D. João terceiro a pintura yue Francisco
.1.: Andrade fez do sentimento Gue causou
a toda a de Goa a noticia
do Senhor Rey D. l'llanoel ; em Fr. Luiz de
Souza a pintura, e descripçã<> ·da sepuitu,
ra do A"ebispo, c d'outros muitos.,
~ 113 ~
·gr!nde Portuguez , vagado pelas
vastas Províncias do Imperio de Elo-
<JUencia Grega , e Latina , eu lhe
diviso huma alma ensopada na li-
ção dos Demosthenes, dos Ciceros,
e dos Horrensios , scienre de tudo
que deixarão est:ripro os Ariscote-
les, os Longinos, os D<i'merrios, e
os Quinrilianos , fontes immorraes ,
e perennes, onde unicamente se bebe
o gosro , e o verdadeiro conheci-
mento da EloC]Uencia sólida, ·rica ,
e maravilhosa ( 1). Do Imperio das
paixões, com C]Ue a nossa alma he
·continuamente agitada , á maneira
àas procellosas, e cavadas ondas do
Oceano (2) C]UC. 'conhecimentos não
tinha elle? A natureza , como sabia
guia dos mysterios do coração 1m-
mano , o tinha feito perceber , • pelo
laborioso estudo da Filosofia' dos
-costumes , tudo C]uanto he preciso
~ - fi sa·
' .
1
(1). Fenelon Dialog. sobre a Eloq. ·,do
• P.ulpite. r. . .., :J • ·• "O 1 •
(2) Mr. Gibert. ip- Rhet, ..• ~ ·' -.1.
ti4
saber-se para mover• :,·• para mitigar
os impulsos das paixões.; Os Padms,
e·Erhoa,.que todos .osgrandes rhe-
toricos r ôo • mundo wnsiderão pelo
mais dJficil desempenho da arte, el-
le os sabia· manejar -r corno mestre,
e por isso· dizia CJUe
todo ó. que compozdse , estribado
sempre- ·em os· sólidos. preceito3 da
arte nunca claudicaria. Ar s enim
sémel percepta, non labitur. ,,
(l!:!e! ·diremos do seu estilo pro.
prio ,;., natural, que só os grandes
Oradores possuem , depois de Ion-
gvs tempos se tere!n encantado com
os frívolos enfeites, corri'certas gr .....
ças pueris? Como diz Cie,ero, e divi-
sarno&.·em suas Orações , cotejando
as: que recitou em idade florida , com
-as q escrevco, quando tinha
adquiiido- huma mruor. idea de ver-
dade.ip Eloquencia: ! ( I•) Nos discur-
SOS
(1) ·Isto m;-smo cõii'fessa Socrates que
·poi• á' medida' que h ia crescendo em
annos, h ia deixando a es,ravidão do nume•
ro dos seus · :" · · )

de Demosthenes (r) encontra•
p10s desta verdade, porque
como graf?.de homem só b.llava
abrazado do amor da P atria ; nada
o interessava de pueril , e per isso
os seus discursos são cheios de hu·
ma pompa nobre , e magistral , os
seus pensamentos são grandes , as
paixóes fortes , e tocar_1tes ; fazia-os ,
não p.3ra deleitar os ouvintes , nem
p_?lr? se agradavçl, rças porque
via <JUe este he <JUe e!a o
ro modo bem orar , segundo Pla-
tão. ·r:· •[;P i
.Af.fligia-se ·S. João Chrysostomo
com os que lhe quan-
do orav,a 'i em Eu
bem sei , dizi? este. San-
to, :qt)e me tecem


elogjos, que dizem á bo
ca chea, que;' q:.1e
. I ' t' H 11 l: n as
_.., o. ( I - .1. • l1t
, ... r : ... -, •
_ (I): J11r •.
àes sc1enses , feles letres) et Art de la Vil·
Je de Roueri:{ ancien d'éfoquen•
e dans la- mêmc ville,• .dr: ·Demos·
Eloquent. ·
as minhas vozes, o número dos meus
períodos encantâo , e surprendern ,
porém eu antes quizera a conversa•
çao de hum só, do que a turba vâ
dos seus applausos •.
Este, creio, foi sempre o pensa•
mento do nosso Couto , despido de
toda a vãgloria , abrio mão de to-
dos os brincos de engenho, que só
poderião agradar aos que tivessem
huma baixa idea da arre de bem
fallar ; fornecido das nobres rnaxi.;.
mas dos antigos, cuidou unicamen,;.
te de mover , e de infiammar, e de
arrebatar os corações dos que o ou-
vião ; traspassado dos interesses da
Patria , e da sua gloria , pan:ce qual
outro Orador Grego, que tem aRe-
publica no fundo do seu coração.
Conhecendo ,mais , .que nao póde
aver hvm bom Orador ,' sem que
possua a virtude moral , nem que
já mais a virtude se persuade ;sem
a bondade' dos costumes ·; elle os
à i x o ~ · h ~ ~ \rer nas elogúentes apos-
throfes que dirj gio , já ao seu Heroe t
.. ·-· já
já á Virgem e Martyr , Santa Ca-
tharin<J. E na verdade como se po·
derá persuadir bem a virtude , diz
Qyintiliano (1), se o coração existe
entorpecido do vicio ? Se as belle·
zas da Eloguencia existem deposira-
das no coração virtuoso, que admi·
ra veis effeitos não produz ! por estl
causa dizia Cicero (2) 1.1iostrais di-
tmte dos vossos que sois
qztaes deveis ser , este he o ponto
mais importante da arte Ora to• ia ,
deste mesmo sentimento he Platão
nos seus Dialogas.
O ornato, de que se serve, he
o que julga bastante, e necessario ,
deixando o mais á magestade do as-
sumpto , á maneira das mulheres
sisudas, nas quaes a falta de enfei·
tes faz realçar mais a sua belleza ,
já este modo de fallar era de apre-
50 emrc os antigos Gregos , a que
eh a-
(t) Ne studio · 'luidem operis pulcher-
rimi valere mens , nisi omnibus vitiis li·
bera , porest. I. 12. C. 1.
{2) seu Orador.
II8 ·Xk
chamau3o Aflca , tâo recomendado
por Quintiliano (r) ao Orador.
A novidade donde resulta o ma-
ravilho· o da oração , he indispensa-
vel na Eloquencia, diz o mesrr.o C.l9in-
ti!iano (2), porque assim· como os
nosws olhos se encantão com os
objectos novos, e admira veis, assim
a nossa alma sente deleite com o
não esperado. O assumpto do nosso
Chronista , era inteiramente uovo,
e capJZ de per si causar a attenção
de todo o mundo , pois hia a elo-
giar a intrepidez de }lUm Heroe ·,
qu':! a pesar do contraposto Ocea-
JlO, c do rigor de do \'arias, c ini-
migas Ndçóes, poude fazenio 1mma
navegação de dous annos, e tantos
me1es, as panes do Ori·
ente , vedadas a todas as Nações
do lVlundo , desde o principio do
mesmo .1.\lundo, qúe os
an-
----- - ..... ___ ---
. (1) ln ornata Oratione.
( z) Est enim grata in eloguendo novi-
tas, et commutatio , et magis inopinata
delectaut. Quintil, L, 8. C. 6.
antigos tinháo por impossível , e a
que os modernos chamarâp -louca ,
e desasisada. Além disto, elle sou-
be adornar , e revestir o assumpro
de tâo o0bre erudição , j ~ í compa-
r:mdo-u com Vlysses , e Eneas , já
mostrando o quanto os excederJ. , c
a tudo e.spama, e arrebata.
___, Qye diremos da variedade que
soube semear no seu dis.:urso ? (I)
Elle s:3bia que a e ~ m a natUíeza se-
ria ingrata aos nossos olhos, se fos"'!'
se revestida de hum unico objecto,
e fornecido desta importante maxi-
ma, varía a cada passo o estilo ,. pre-
ceiro este que constitue O; desempe-
nho das leis da Eloquencia. A'ma-
neira do caudeloso rio , que sendQ
sempre o mesmo, ora corre socega•
do por brancas areas , ora arrebara-
~ ... (-
1
-. - do
. • • r
(I) Gaudent enim rei varietat e , et sic:.
ut oculi divci-sarum asrectu rerwm ma-
gis. detinentÜr , ita semper animis pra:·
stant in quqd ~ s e velut novum intentant.
Quint, Liv. 9• C. .:z.
110
do contra os rochedos, e pontes
encontra , até C}Ue finalmente se en-
tranha no vasto ., e espantoso Ocea-
no. A magestade dos conceitos, os
pensamentos elevados , as figuras , as-
sirn de palavras , como de pensamen-
tos, as Ítn3gens nobres de que final-
mente se serve , tudo isto faz persua•
dir ao leitor' que elle nao ignorava o
'}Ue Aristoreles diz a este respeito ,
e o que Longino nos deixou no seu
TratJdo do sublime. Com•
para clle o sabio Grego Demosthenes
a llulna tempesrade furiosa , cujos
raios desvastão , e destroção tudo
que encontrâo , e Ciccro a hutn in·
cendià, GUe tudo com o seu inlpe-
rio devora , e consome ; e porque
não diremos que o nosso Panegy-
rista he semelhante a hum rio cau ..
daloso, que assitn como este engros·
sado com as aguas do inverno , cor-
re arrebatado , já arrazando valles ,
já despenhando as mesmas pontes :
=tssin1 elle com abundancia da sua
elocução , já transporta , já arrebata
o
3Çf Ill
o coraçao de quem o ouve? A',na=.
neira de Herodoto , hutnas vezes
quando o pede a materil; outras co-
mo Tacito, h e forte, e valente.
Seriam os infinitos , se q uizesien1os
todas. as bellezas da arte,
com que este sabio Portuguez sou-
be enriquecer Oração : os sabios ,
a quetn pertence o apreço das obras
de es pi rito , passarão a dar-Jhe os
louvores devidos, '"}Ue os meus cur-
tos talenros lhe não sabem dar :r e
esperamos que a Nação nos agrade·
ça a posse de tal pedra precio-
sa de tantos quilates, e de tanto va-
lor.
Ora sendo esta a analvse das
suas bellezas , passaremos a "tnostrar
alguns defeitos do tempo do nosso
Panegyrista ; pois ninguem ignora
que o C]Ue l1e louvauel en1 húm
cu lo , h e censura vel no outro , e que
todas as N açóes tem gos-
tos, e genios , e di versos 1nodos de
pensar.
Pope he assás apaixonado rla
I lia•
122
Ilíada , e Odyssea de Homero, e nao
falta entre os Modernos quem encon ..
tre nelle puerilidades, e hyperboles
desmedidas. O mesmo succede a
Virgílio; porém p1ra .que não saia-
Inos das nossas regras , venha o nos-
so Mestre da língua , o incclnpara-
vel Frey Luiz de Sousa , e quem
duvida que ninguem fallando até
aqui melhor do que elle a lingua nla-
terna , teve igualtnente descuidos do
seu tempo? (1)
Nâo agrJve authoridade de mui-
tos , e judiciosos Sacias da
tnia Real da Sciencias , que sobre
esta • de Diogo do Couto ajui-
zarão, e lhe encontrarJO alguns de-
feitOS , como en1 prifneiro lugar o
apostrofe a Santa Cathari n3, o que-
rer prover o Panegerysta que guen1
trabalha nos negocias civis , terá
·galardão , e 1norada no Ceo , e ou ..
lras falhas desta natureza. Tudo o
1 pru-
(I) Yid. juizo sobre as suas do.
na Vida de Henr.ique Suro pag.
JS.
prudente Leitor s3berá desculpar,
olhJndo para o tempo em que es-
creveo Diogo de Cout<;> , e reparar
C]Ue rodos daquclles tempos · assim
pensavâo. Camóes nas su3s Luziadas
invocou as Ninfàs do Tejo, para que
lhe , e o ajudassem a
contar o fan1oso descobrin1ento da
Jndia, c as espantosas que
os Porruguczes fizer3o nestas parres.
Em Garcia de Rezende l1c censnra-
vel o facro dJ es1neralda, em a Chro-
nica do Infante D. Duarte, a pas-
sagetn dos figos , e na de ElRey D.
Sebastiao n1uitas pueriJid.1des desta
natureza, e isto he que o nosso D.
Frey Amador i\rraes charr1ou f:1l11as
da antiguidade. Sousa he
sun1marncnte credulo , c
por milagres muitas cousas que ca-
biâo na alcJdl das leis da narureza
(I). Não tudo isto , elle h e
sem dúvida quem soube fàllar ·a lin·
gua como mestre , e quem teve o
dom
(1) Iden1 no juizo das suas obras.
dom de eloquente, chorem os sabios
a perda de sua Chronica do Senhor
Rey D. J Qao terceiro , fadiga betn
propria da Real Academia das Sei-
eneias , pois póde muito ben1 ser
que exista e1n bastante despreLo em
algum Cartor!o
Tiremos de tudo o dito que não
ha obra hutnana isenta de defeitos ,
e que onde ha muitas bel!ezas , de
pouca tnonta são alguns
já este era o pJrecer do sabio Ve·
nuzino na sua E tola aos Pisóes ,
hum dos mais preciosos Inonumen-
tos , que nos ficou da antiguidade
Romana.
Ylrum uój plrrn in carmi11e, nem 'IJO pau-
eis
macttlis, tjuas attt j,zcuri« fudit
1
iiut lmmmJa ptlrum cavit 11atur11: ••••
FIM.
-,
I'
.
••
· C A Tr A L O G O •
, DAS
.Pessoas que em honra da Naçao Por•
tugueza tetn na Ediçao
desras e outras Obras do§ noss05
Escriptores=---, que ainda não tem
sido· publicadas_, · .:.
. . . . [ ( l c -1.
'-'
.. r r .J sh A -J • I
.. Jf
D. G i.
A gostinho Jose Martins Vidigal •
.Avres Pinto de Sousa.
"
Alexandre Antonio Vandelli.
Anastacio Feliciano de Bastos Tei·
'-... xeira. - 1
Anselmo Magno de Sousa Pinto.
Antonio de Almeida. .. c
Antonio de Azevedo Coutinho.
.. - An·
..
Antonio Barbosa de Amorim.
Antonio Cordeiro.
Antonio da Costa Correa e Sá.
Antonio de Couto Ribeiro de A breu.
O Padre .Antonio do iriro San o.
Antonio Feiis Contreire1s.
Antonio F,ernandes .Itodrigues.
Antonio Ferreira.
Antonio Ferreira de Lemos Malhei-
. ro Vas • ..... ;
Anronio Filippe. • o
Antoni_o Gon1cs Rib,eiro. ,
Fr. Antonio de Maria.
Antonio Joaquim Figueira.
Antonio Jose B:.arbosa da Silva!
Antonio Jose de
Antonio de
Antonio Jose dos Santos. .
Antonio. rle Le1nos Pereira de Lacer-
da: . "J f... ., '"
Antonio' Lopes da Cunha.
-Antonio·: Louren:;o MarAuei. '\.
Antonio Luiz Cordeiro de /1.raujo
s· L!-,..... ·rr.:: 1.
Antonio Luiz Qyintel!a EmJus. .
Antonio· .Macio ti. -.;· • _
·1 An-
Antonio Maria.
' Antonio Maria Furtado de Mendon-
ca.
A;tonio Mauricio.
Antonio Maximiano Dulac.
Antonio Mendes Franco. 1
Fr . .i\ntonio de Menezes.
Anto1io de Paiva Raposo.
Antonio Pedro de Castro.
·Antonio Pereira Rangel. ·ti
Antonio Pereira àos Santos.
Antonio Pinheiro. ·?(:_--·
Antonio Pires Leal. :.. --rl q
Antcnio Rodrigues Viegas.
de Sá Braga:. .i
Fr Antonio de Santa ·Tecla.
Antonio Silverio de Miranda. • .... ..i.
Antonio 1"'homâs da· Silva Leitão.
Antooio.·X·avier. -r" pf---.. .,· .....
Antonio.Xavier de Moraes Teixéi-
ra Hon1em. lc- c"'" ...... o .
·Arcebispo de ;,r. I ' ,,_
Armador Mór.
Augusto Guerrelle. h c'- .. ··- 1"1
.. ,,.•... t·
. ,_ . .j ....
B
B
B Aráo de
Barâo de Porto Couvo.
Barão de Qyintella.
Bartholo1nco Crotris, Reitor do Col-
legio de S. Patricia.
Bartholon1eo Jose Nunes Cardoso
Giraldes.
Belchior da Costa.
Bento Antunes da Fouceca. ....
Bento Jose Pacheco."
Bento Xavier de Azevedo Coutinho.
Bernardo Agostinho Borges.
Bernardo Jose Duarte. , 1 nn,, "'
Be_rpardo Jose da Silva. '
Fr. Bernardo Maria de Cannecatim.
Fr. Bernardo de ·s. ·Maria.
Bernardo !v1iguel de Faria. .. L 1
Bernardo Miguel de Oliveira· Bor•
ges.
Fr. Bernardo de. Vasconcellos.
Bispo do Funchal.
Inguisidor.
Bis-
~ 129 X,(
Bispo de Malaca.
Bremeu Ilius.
Brum da Silva.
c
C A etano Alberto Alvares da Sil-
va.
Caetano Manoel da Cunha Botelho.
Candido Jose Xavier Dias da Silva.
Carlos juliao.
Conde d' Alva.
Conde da Cunha.
Conde da Ega.
Conde da Louza, D. Diogo.
Conde de S. Paio.
Conde de Peniche.
Conde de Pevolide.
Conde de Redondo.
Conde da Ribeira Grande.
Conde da Villa Flor.
Consul da Ilha da Madeira.·
Cypriano Ribeiro Freire ..
I D
D A vid Moraes Sarmento.
Dcsentbargador Campos.
Dese1nbargador Dotningcs 1V1ontei-
. ro de Albuquerque e Amaral.
Diogo Jose de Moraes Calado.
Diogo Jose Martins.
Fr .. Diogo do Rosario.
D. Diogo de ·
Domingos Alvares Guera.
Domingos Cordeiro Briteiros.
Domingos Felis dos Santos.
D. Don1ingos de Sousa Coutinho.
Domingos Teixeira Marques.
Domingos Xavier de Andrade.
E
E Leutherio V as Ferreira Raposo.
Epifanio Carlos.
Esperidiao Jose Lisboa.
Es-
~ 131 ~
Estanisláo Antonio de Mendonça.
Escevão Rodrigues de· O li v eira.
-F
F Eliciano Jose Alvares Ferreira.
Felisberto Jose.
Fernando Jose Le Blanc.
D. Fernando de Lima.
Fernando Romao da Costa Maqui-
nés.
Fi li ppe Carlos.
Filippe Neri.
Fili ppe Pereira de Araujo e Castro.
Filippe V as de Carvalho e Sam Payo.
Fortunato Rafael Amado.
Le Franc.
Francisco Alberto Rubim.
Franci5co de Alenccurt. -
D. Francisco de Almeida Mello e
Castro.
Francisco Antonio Borges.
Francisco Antonio Ciera.
Francisso Antonio da Costa.-
Fr. Francisco Antonio Esteves·.
I ii Fran-
132
Francisco Antonio Maciei.
:f,t ancisco Antonio Marques _Geral-
des.
Francisco Antonio_Santa Barbélra Pi·
mente!.
Francisco de ·Assis.
Francisco de Borja Garção StocKlcr.
Francisco Caetano Freire de Andra-
de.
Candidó da Silva Pope.
Francisco Elie1s· Ro:lrigues da Silva.
Francisco Ignacio Ferreira Nobre.
Francisco Jeronymo de Brito.
Francisco .!
Francisco Jose de Ahneida.
Francisco Jose da Gama Machado.
Francisco Jose Marques de Paiva.
Francsico Isidoro de Andrade 1\'lo-
,.
ra. •·
Francisco Maria de Andrade Corvo.
Francisco Maria Angeleli.
Francisco Manoel Calvete.
Francisco Manoel "Gravito.
Francisco Manoel· Pinto de Mesqui·
ta.
Fran-

1
33 Y.A.'
Francisco de l\lello , de Fi-
calho.
Francisco de TV1ello Franco.
f'rancisco de Noronha e Mota.
Fr. Francisco Nunes da Piedade.
Francisco de Paula Cardoso de AI ....
meida V asconcellos.
Francisco de Paula Leite de Sousa.
Francisco Pereira de Albuquerque
Azeredo.
Francisco Rebello.
Francisco de Santl Barbara.
Francisco de Santo IgnJ:io Carva•
lho.
de Sousa Coelho e Sam
Payo.
Francisco de Sousa Coutinho.
Francisco Xavier de Montes.
Francisco Xavier Rodrigues de Car-
valho.
Francisco Xavier de Vazconcellos.
G
G
G Aspar Marianni.
G. E. D o ~ e , Capptdlão da Legaçâo
de S. Magestade de Dinan1arca.
Gregorio Gomes da Silva.
Gregorio Jose QEaresma Franco.
Gregorio de Mendonça Furtado.
G ~ Scarnich.
Guilhertne Francisco de Almeida.
H
HEitor Pinto.
Henrique Jose Bapti5ta.
Henrique Teixeira de Sam Payo.
Hennano David.
Hermano Jose Brancamp.
I
J Acinto Antonio Nobre Pereira.
Ja-
J anua rio Antonio Lopes.
Ignacio Antonio Ribeiro.
Ignacio Francisco Ferreira da Mota.
Ignacio J ase da Silva.
jeronyn1o Alvares de Moura.
Jerony1no Gonçalves Fróes Calhei-
ros.
Jeronyn1o Baptista Riheiro.
Jeronyrno Pedegache Sermanha Bran-
dáo.
Joao Antonio.
Joâo Antonio de
João Antonio de Oliveira.
Jo1o Antonio da Silva.
Joao Antonio da Silva Pereira Cou-
tinho.
João Ayres.
Jo3o Baptista Canal Murta,
Joao Baptista Jaquet.
João Ba pti:'ta ier.
Fr. João do Bom Jesus.
João Caetano Alvares.
Joao Carlos Mourão.
D. Joao de Castello Branco.
Joao da Costa Borges e Azevedo.
Joao Chrysostomo da Silva Valle
Lobo. João
Joao Diogo Stephens.
Joao Dowel Mac-Mahon.
Fr. João Evangelista.
Joao Faustino.
João Ferreira Prego.
Joao Gonç:1lves Marques.
Joao Henriques de Paiva.
Joao Ignacio da Silva.
João Ignacio da Silva Leal.
Joao Jose Bernardes Madeira.
Joao Laureano de Andrade.
João Laureano Nunes Leger.
João I.,obaro Q!Jinteiros.
Joao Manoel da Costa Pinto.
João Manoel Placido de Moraes.
Joao Manoel de Pontes.
João de Mattos e Vasconcellos Bar·
bosa de M3galhaes.
João Morgan.
Jo3o Pereira Ramos de Azeredo
Coutinho.
João Thomas de C2rvalho.
J o 5o Vida I da Costa e Sousa.
Joaquim Bonifacio Valladas.
Joaquim da Costa.
joaquin1 Pernandes.
Joa-

Joaquim de Foyos.
Guilhern1e da Costa Pos-
ser. -
Joaguim Jose Caetano Pereira e Sou-
sa.
joaquin1 Jose Cavalcanto de
']Uerque.
Joaquim Jose da Costa Siint!s.
Joaquim Jose Guião.
Joaquim Jose Mendes e Cunha.
Joaquim Jose Pereira de Carvalho.
Joaquim Jose da Silva.
jo:1guim Lopes de Sá 1\fourao.
Joaquim Machado de Câstro.
Joaquim lvianoel Constancio.
Joaquim Rafael do Va1le.
Fr. joaquin1 de Santa Clara.
Fr. Joaquitn de Sam Louren'io•
Joaquim Xavier de Melio.
Jose de Abreu Baceilar Chacoto.
Jose Alexandre Cardoso Soe!ro.
Jose .A.lexandre da Silva Castro.
Fr. Jose de Ahneida.
Coelho.
Jo!e Antonio de Ccuto.
Jose Antonio Loureiro.
]o-
Jose Antonio Pereira.
Jose ... L\.ntonio Raposo.
Jose Antonio Ribeiro Soares.
Jose Antonio Rodrigues Guimaraes.
Jose Antonio Viana.
Bonifacio de Andrade.
r Jose de Brito.
Jose Caetano de Paiva Pereira.
Jose Cardim Mani.
Tose Claudio.
Jose Cordeiro de Araujo.
Jose Felis Venancio.
Fernandes Gama.
Jose Foti.
D. Jose Francisco d' A Iencastre.
Jose Francisco Brancamp.
Jose Germano Dias.
Jose Ferreira.
Jose Henriques de Sousa Lobo.
Jose Ignacio.
Jose Joaquim Carneiro de Campos.
Jose Joaquim de Castro.
Jose Joaquim da Costa Simas.
Jose Joaquim de Oliveira Ferreira
Cunha e Moniz.
Jo-
~ 139 }X
Jose Joaquim de Oliveira Villas Boas.
Jose Joaquim da Silva IJeir3<l.
J o ~ e Joaquim \Tidigal Ã:1edeiros.
Jose Joaquim Xavier Vellasco.
Jose Justiniano.
Jose Luiz da Silva.
Jose Luiz da Silva Frae-oso.
D. Jose l\1anoel da Cati{ara.
Jose Maria.
Jose Maria de Almeiàa.
Jose Maria Cardoso Soeiro.
Jose !vlaria de Savedra.
Jose l\1aria Trener.
Jose lv1arques da Silva.
Jose l\1attheus Roch.
Jose l\1onteiro de Carvalho e Oli-
veira.
Jose Pedro de Azevedo Sousa da
Camara.
Jose Pedro de Rates.
Jose Pedro de Sousa Pereira Leite.
Jose Pinto de Azeredo.
Jose Ricardo Godinho Valdes.
Jose Roberto Vida! da Gama.
Jose Rodrigues Ribeiro Cesar.
Jose da Roca.
Fr.
~ 140 ~
Fr. Jose de S. Antonio.
Fr. Jose de S. Catharina.
Fr. Jose àe S. Clara.
Fr. Jose àc S. Narciso e Oliveira.
Jose de Seabra da Silva.
Jose Stbastião de SalJanha e Oli·
v eira.
Jose Silverio do V alie Pinheiro Fer·
rã o.
Jose \Ticente Caldeira do Casal Ri-
beiro.
Jose Xavier da Cunha.
lsidoro de Alrr1eida.
Isidoro da Encarnação Qgeirós.
Jorge Pedro Moller.
L
L Ourenço Antonio de Araujo.
Luca Aitavita.
Lucas de Seabra.
Luiz Candido Cordeiro.
Luiz Dias Pereira.
I..uiz Joaquün Frota e Almeida.
Luiz Jose.
Luiz
141
Luiz da Mota Feio.
D. Luiz de
l\1
M Anod Alvares da Costa Bar-
reto.
Manoel Antonio Falcao.
1v1anoel Caetano da S1l v a.
Manoel Caetano de L!ma,
Mano_el Chrisrovão Ivlascarenhas Fi·
gueiredo.
Manoe] Cypriano.
l\lar.oel Cypriano da Silva.
Fr. Manoei Ignacio das Dores.
1v1anoel de Je:;us 1"'avaíes.
f,r. Manoel de S. 1'.1aia.
Manoel Jose da Arriaga.
1vlanoel Jose de Freitas.
1vlanoel jose Sarmento.
Manoel Jose S:1turnino.
1v1anoel Jose Teixeira.
Manoel Luiz Aivares de Carvalf1o.
Manoe! Luiz àe Lemos.
Ma-
142
Manoel de Macedo Pereira Forjas
Ccutinho.
Manoel Pedro da Cunha.
Manoel Pereira de c\raujo.
M anoel Pt>reira ltamos de Azeredo
Coutinho.
Fr. Manoel da Piedade.
MJnoel
Man0eJ Polycarpo da Guerra Qya-

]11anoel de Sousa.
Manoel 1"'homas da Fonceca.
Manoel Velho da Silva.
lvlarquez de Abrantes.
1v1 arquez de Anjeja.
Marquez de Castello Melhor.
Marquez de Fronteira.
Marquez de Lavradio.
1V1arquez das Minas.
Marquez de Penalva.
lVlarg uez de 1""'ancos.
Marg uez de Valença.
Azedo.
Maximo Jose da Cunha.
D. l\ligucl Jose da Can1ara Mal do-
nado.
Mi·
Mig1.1el Lourenço Peres.
D. l\liguel Pereira Forjas.
Sotaro.
Monsenhor Letnos.
Monsenhor 1\'laris.
1\llonsenhor 1\tloraes.
Thorel.
O Padre !vlourão.
N
N Icoláo Clamoouse
p
P A>coal Tenorix.
Fr. Paterno de Ponrivv.
Fr. Paulino de S.
Pedro de Andrade. .
Pedro da Annunciacão.
Pedro Betanúo.
Pedro
Pedro da Silva.
Pedro Luiz Lechem.
D.
D& Pedro lVlanoei de Menezes.
Pedro rle Mello Brainer.
P o ~ s i d o n i o Jose Mainarte.
Princi pai Freire.
Principcll F urrado.
O Prior do Convento de Penha de
França.
O Prior Mór de A vis.
R
RAfael Ignacio Pimenta.
O Reitor Geral dos Conegos Secu-
lares do Evangelflisra.
R ic2rdo Jose de Matos.
RicJrdo jose Maniti.
Ricardo Raymundo Nogueir3.
Ron1ao Igna-cio da Silva.
J{ornâo Jose Nunes.
Ro1nâo Omiel.
s
s
SAbino Antonio Pereira de s1.
SebastHio Jose Xavier Botelho.
1
Sebasriâo Xavier de V asconcellos. :
Simão de Cardes. · ~
T
I
T Heodoro Jose Laurentino. . r
Theodoro Jose Pinheiro.
~ ' h e o d o r o Jose da Silva.
Fr. Thomas de Aquino.
Thomas de Aquino Sjmóes Penai ..
v a.
'Thomas Felis Thon1azinni.
Thomas Joaquim de Campos Limpo
Figueiredo, e Mello.
Thomas Jose Nepumeceno Ferreira
da Veiga.
Tiberio Blanc.
v
v
V AlentiiTI Leitê Homem de Ma•
galh3es
Fr. V, lerio de Sanro Thomas.
Jose de ()livetra:
D. Vicente Machí.
O \'igJrio (;cral dos Agostinhos
Descalços.
\'iscondc de Asc::cca.
d ll • '
\'iscondc= de Fontt', \rC'ad3.
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de V-il do Sou:
de EIRe\' o
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