P. 1
O ESTADO ÉTICO E O ESTADO POIÉTICO

O ESTADO ÉTICO E O ESTADO POIÉTICO

|Views: 4|Likes:
Published by Mateus Dias

More info:

Published by: Mateus Dias on Jul 18, 2013
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/18/2013

pdf

text

original

26/4/2011

200.198.41.151:8081/tribunal_contas…

Revista do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais
E diç ão 2 0 0 2 _1 1 _1 1 _0 0 0 2 .2 xt de 0 2 - A no www.tc e.mg.gov.br/revis ta P ágina impres s a em 2 6 /0 4 /2 0 1 1

Doutrina

O ESTADO ÉTICO E O ESTADO POIÉTICO*
Joaquim Carlos Salgado
P rofe ssor Titula r da Fa culda de de Direito da UFMG. Asse ssor Jurídico do Pre side nte do TCMG.

A expressão Estado Poiético parece inusitada. Serve, porém, para precisar uma realidade do Estado contemporâneo, sobre a qual estudiosos começam a refletir. Esta conferência desenvolve-se em torno de três conceitos básicos: o poder, como conteúdo essencial do Estado, o ético e o poiético. C onvém esclarecê-los, primeiramente, para depois discorrermos sobre o tema propriamente dito.

A - O Poder, o Ético e o Poiético I - O Poder
O termo pode ser analisado em dois sentidos: 1) o poder em si mesmo considerado e 2) considerado na esfera do político. No primeiro sentido, poder é uma "vontade determinante". Aqui aparecem dois conceitos fundamentais: o de vontade, que pode ser considerada como impulso do querer ou como razão de querer, querer racional aferido na relação de meio a fim, na medida em que o meio seja adequado e o fim, compatível, realizável, valorável. O segundo conceito, "determinante", significa que essa vontade determina uma outra vontade, o que pode ocorrer pela força ou por convencimento. É, contudo, o elemento força que especifica o poder, considerado o convencimento apenas como uma dimensão analógica do conceito de poder1. A força pode ser natural ou humana. A natureza tem força, mas não tem poder, pois não tem vontade. O conceito de poder pode ainda ser mais restrito, para ganhar precisão científica: essa vontade determinante tem de ser aceita. Para haver eficácia do poder tem de haver a força que o garanta. A eficácia é garantida pela força, mas aceita. Exclui-se da esfera do poder a pura coação; tem de haver aceitação, senão será violência. É uma orientação e determinação de outra vontade, mas aceita por esta. Se não há aceitação da vontade determinada, ainda que na forma de submissão (coactus volui e sed volui),2 será violência. Essa aceitação, na esfera do político ou na esfera pública, aparece na forma de aceitação universal ou reconhecimento, ainda que formal e tácito. Então, pode-se fazer uma restrição ainda maior: o poder propriamente dito é poder político. Ao conceito de poder, não como impulso, mas como vontade determinante, dirigida racionalmente, e na medida em que esse poder se garante pela força (para determinar a vontade do outro com sua aceitação), é necessário acrescentar a noção do político, ou seja, a sua institucionalização como um poder, cujas características são a supremacia, a universalidade e a necessidade (não-contingência) ou irresistibilidade. Essa institucionalização implica uma organização do poder e uma ordenação normativa, na forma de uma constituição. É na constituição que se dá o encontro do político (poder) e do jurídico (norma) e é na constituição democrática contemporânea que se dá a superação da oposição entre poder e liberdade. E isso na forma de uma organização do poder e de uma ordenação da liberdade, qual se mostra como ordem jurídica ou liberdade objetivada. C om relação ao direito, diz-se ordenação, norma; com relação ao poder, diz-se organização. A organização só é possível por normas; a ordenação, por órgãos. Não há função para a norma, ou para o sistema, como quer a teoria funcionalista ou a teoria dos sistemas. Isso por um defeito metodológico, pois não observam um recorte correto entre o político e o jurídico. É preciso separar direito e poder, numa primeira instância de abordagem. A teoria monista, a funcionalista ou a sistêmica (Kelsen, Malinowski, C ohen e Luhmann) perdem muito de sua força. Órgão é que tem função, enquanto uma pessoa age no exercício do poder. Somente no plano filosófico é possível a superação da diferença entre direito e poder; não no plano científico stricto sensu. Neste há que se fazer o recorte epistemológico, segundo o objeto formal de cada ciência. Recorte temático e metodológico; não da realidade, que é objeto material, pois essa é um todo contínuo. Direito (ordenamento jurídico) é inseparável do poder (Estado) e vice-versa; formam um todo, mas esse todo é estudado em aspectos diferentes, inconfundíveis.

200.198.41.151:8081/…/-versao_impr…

1/12

Uma razão poiética é uma razão servil. É o ethos (com h. Quando. portanto. O ethos existe do ponto de vista racional. embora possa ser usada no interesse de uma classe ou facção. Aristóteles faz a distinção entre a ação de produzir (poiein) e a ação ética (pratein). Exemplo: fazer um móvel.151:8081/tribunal_contas… Pode-se. na forma de uma ordem normativa. A razão serve ao fazer. só se concretiza no mundo do direito. que se segue a uma deliberação (proairesis). sob pena de deformar-se em alienação. Esse ato que resulta num produto é a poiésis. a razão é determinada pela realidade. livre. não tem liberdade). É a razão servil. 200. a sua ética. obedece a um princípio de racionalidade. Na Ética a Nicômaco (1140 a). a eficácia do poder. O conceito de ético e de liberdade implicam um no outro. na medida em que o homem a constrói para si e para toda a sociedade. em grego) como hábito. A par desses elementos.3 Todo poder se orienta por uma ideologia. o meio (como tal) é que é a técnica. se se desmancha a parede. formassem a organização política do poder. às vezes de modo deformado. direito. III . seu mundo ético. que é o encontro do político e do jurídico. é característica da liberdade do homem.41. na medida em que garanta direitos subjetivos (quem não os tem. que tem como elemento formal o direito. O que veda a liberdade é o mal. ou no sentido imanente: a cultura e. temos o ethos (com e . A ideologia tem essa pretensão de universalidade. Quando é interiorizado. que seguem a coisa. A liberdade é um absoluto e. para dar unidade à sociedade. se põe a fazer. é pratein. É o que organiza a cultura e ordena objetivamente. a conduta humana. como tal. razão prática . é a ordenação jurídica. que tem como parâmetro a liberdade. Padrões que formam a ordem normativa de um povo (moral. a reintegração da essência que se alienou da sua realidade substancial pela cisão do poder e da liberdade individual. se coloca cada tijolo. Não no sentido reducionista de interesses de ide.198. um produto. o tempo ético. para dar unidade ao organismo político. de modo racional. Mas só se valora o bem e o mal a partir da razão. que é carência. de natureza ideal . II . por exemplo. É criado pelo homem e. Deus. Toda sociedade política tem um projeto com pretensão de universalidade. tem na sua ideologia um projeto para toda a sociedade e não apenas para o grupo. A força meramente física não poderia dar unidade a um Estado. O termo que Aristóteles usa para designar a ação ética. tem de ser interesse de toda a sociedade (assim foi a liberdade e a igualdade burguesa na Revolução de 1789). etc.26/4/2011 200. daí. A ação ética segue-se a uma deliberação (proairesis). Ela nos dá a noção de bem. Quando se pensa "como fazer" há o comando do intelecto. sectarismo ou ação de bando. da aceitação e do resultado positivo. então se vê com mais clareza como a razão é determinada pela coisa. em grego) como costume (mores). como tal. como livre. um projeto para toda a sociedade e não só para uma facção. A liberdade pode ser pensada num sentido transcendente. é o bem que caracteriza o mundo humano. ou seja.4 Essa liberdade. Um partido político. os momentos do querer racional determinante. há ainda um outro também essencial. É instrumental. A liberdade objetivada. assim.). Daí sua importância na gestão política: ela propõe um programa. não se encontra na natureza. a história. e a perfeição. o que se opera no advento do Estado democrático de direito contemporâneo.198. cujo momento final é o político. a coisa conduz a razão. ou seja. nesse sentido.O Ético Ethos: há duas acepções no grego para essa palavra. às mãos. espiritual e material. que. o fato. São padrões de comportamento. O poiético é o fazer humano para conseguir um resultado. Porque o homem é livre cria sua cultura e. o bem. com vistas ao bem ético. produzir) e se distingue da techné (Lima Vaz).O Poiético Vem de poiein (fazer. Não é possível encontrar o bem senão no ser livre. o ethos na sua forma e conteúdo mais elevados. um projeto para a sociedade. ou seja. senão através de um elemento espiritual. mecanicamente. no plano ético. Mesmo no caso do bem ontológico (Aristóteles) em que a carência é o mal. Essa organização da força. Pois esta.a ideologia. Ex: a construção de uma parede. religião. ainda que seja justificação ideária de interesses de classe. por nada: cria a partir da razão. nela. Essa diferença se esclarece ainda mais. na Ética. dizer que o poder político tem como elemento material a força e como elemento formal a sua institucionalização através da constituição. porém. não é determinante como nas ciências. Não é determinado instintivamente a criar. dentro dela.151:8081/…/-versao_impr… 2/12 . apresenta. combinando-se com os demais.41. São idéias cupulares que dão unidade à cultura humana. mas de um conjunto de idéias que dá unidade à cultura de um povo.

O poder e a liberdade. mas não o porquê do que se faz. voltada para o desenvolvimento do cidadão quanto à sua formação ética e inserção na vida social e política. uma cultura da liberdade ou que revela e realiza a liberdade. ocorre uma cisão. do Estado. a pessoa. de tal modo que há a técnica. que representa no aspecto político a unidade desses dois elementos no momento da imediatidade. Platão. o Estado Ético imediato. O bem que se quer realiza-se não através de regras técnicas. Aristóteles. que aparecem numa unidade imediata no Estado grego. mas que pode ser tão mecânico a ponto de aproximar-se de uma produção quase sem pensar. Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. operando essa ação sobre coisas .198. C om a dissolução do Estado ético grego. Na ação ética não há a coisa determinando as regras técnicas. ao passo que o resultado da ação ética é um bem caracterizado na perfeição de ser do homem. é ao mesmo tempo um tratado da justiça e um tratado da educação. na República de Platão. Trata-se de um movimento dialético da mesma realidade ética. segundo seu mérito. ou seja. portanto da revelação e realização do poder político democrático de direito. então considerada como história da revelação e da realização da liberdade através da dialética do poder e da liberdade. não é em si mesmo. justificando o Estado pelo seu destino ético.7 Justo. É no Estado de Direito Democrático contemporâneo que surge a idéia de autonomia (Kant) privada e pública (participação na elaboração das leis que regem a própria conduta). e o resultado desse atuar é o produto. Na ação de produzir tem-se o impulso de atuar sobre a coisa segundo uma necessidade.198. No Período C lássico. enquanto existente numa comunidade. que resulta num produto (poietiké ). mas como momentos que apontam um momento posterior e superior à sua oposição. a coisa dirige a ação. em primeiro lugar. como incompatíveis.151:8081/tribunal_contas… quando se verifica que o resultado da ação de produzir é um produto artefato. o Estado se justifica ou se legitima pela sua finalidade. não cristalizadas e afastadas uma da outra. o domínio da atividade sob regras dadas na experiência individual para atuar sobre as coisas. isso era feito pela educação. A justiça é nesse movimento a finalidade do Estado. Aristóteles desenvolve. pela qual se sabe como se faz. ou uma ação instintiva (tyché ). pois esses dois termos aparecem no mundo ocidental não como oposições abstratas. Sócrates. podem figurar como representantes do pensamento político dessa época. na experiência da Revolução. que só no Estado Democrático contemporâneo se supera. com o que se põe em definitivo a unidade do poder e da liberdade. Podem-se distinguir três planos teóricos na busca da justificação do poder ou do Estado. O embate "poder e liberdade" tem dimensões bem diferentes na cultura ocidental. a política e o direito. o moderno e o contemporâneo. é distribuir os cargos e encargos do Estado segundo essas aptidões. Estado Técnico e Estado Ético Mediato ou Estado de Direito. ou seja. mas pela mediação de leis éticas. o poder político na sua forma democrática ou do Estado de Direito contemporâneo. e o Estado funcionar como tal. de modo a sujeitar o poder à liberdade. a liberdade. que é por excelência. pois não é um acaso. Aí desenvolve Platão esses três momentos que formam o conceito de Estado.6 vale dizer. fornecendo ao mesmo tempo a forma de sua estruturação. a par de um estudo ético do homem. a técnica (techné ). para isso ser feito. que se justifica por uma finalidade. é um "Estado para". B . Mediando esse momento inicial e o final está a habilidade de produzir. Exemplificativamente. aferido por suas aptidões. o bem é que dirige a ação segundo normas (nomos) do próprio sujeito. a) O Estado Ético Imediato . mas dialéticas. a par de ser um tratado do poder político. ou da liberdade na sua face subjetiva e da liberdade no seu aspecto objetivo. como tarefa fundamental do Estado. De qualquer modo. que lhe dá o caráter de pessoa . ou pelo menos assim se mostrou.26/4/2011 200. a justificação do Estado ou do poder ocorre em função do fim do Estado. mas se determina pela própria estrutura da coisa a que se dirige.41. a habilidade consciente das regras do fazer (techné ) e o fazer como um todo. Platão desenvolve o conceito de poder político ético a partir de Sócrates. um estudo antropológico.41. Assim. após cumprirem uma trajetória de lutas na história do ocidente surgem como faces de uma mesma realidade. A República de Platão. 200. que é o fim absoluto da ação moral.O Estado Ético A história do pensamento ocidental é um embate entre a liberdade e o poder. que abrange do período greco-romano até a Idade-Média. três momentos fundamentais: o período clássico.151:8081/…/-versao_impr… 3/12 . pela sua superação. que para os gregos era eminentemente ética. E o que o justifica é ético: o bem para o indivíduo.5 Essa atividade traz em si um elemento de racionalidade. que poderíamos designar como Estado Ético Imediato. como justo. podemos distinguir na história do ocidente. isto é. o primeiro a pôr o problema ético perante o poder político como o mais importante. o poder é para realizar alguma coisa. é dar a cada um o que é seu. era necessário formar o cidadão para suas funções e tarefas. caracterizado pela dimensão ética. o seu lugar na sociedade. já que o justo. Entretanto.

se se submete ao poder espiritual e o serve no sentido de converter os homens para a cidade de Deus. Garantir o direito de cada um. é o sentido da vida do homem. Não há distinção entre poder do Estado. Aqui o Estado aparece como instrumento de salvação do homem. e o justo é o direito de cada um. só encontra a sua felicidade na convivência com o outro. física e intelectual. segundo a qual a finalidade do Estado é realizar a felicidade ética do indivíduo. é agora a beatitude. e isso só é possível no Estado. depois. a anedota atribuída a Alexandre no diálogo com o pirata. Razão. na sociedade. a potestas do povo e a auctoritas do senado. semelhante ao do pirata. O poder é um mal. e não como instrumento da vida espiritual. o poder espiritual ou a comunidade dos cristãos. para servi-la. pois não se conhece o racional como isolado. analogicamente à resposta dada pelos gregos à crise de ethos com a ética (Lima Vaz). passa para o pólo oposto. enquanto contempla o bem de todos e. sim. Em Santo Agostinho.151:8081/…/-versao_impr… 4/12 . mas também se legitima pela sua origem. converte-se ao cristianismo e encontra na vida espiritual o único lugar da felicidade. teria respondido o pirata: com o mesmo direito com que infestas o mundo com seu exército. ao espiritual. segundo Aristóteles. como o corpo à 200. O Estado não tem apenas de formar o indivíduo para a felicidade. sua felicidade. essa era a tarefa do Estado ou sua finalidade mais importante com relação ao indivíduo. por sua vez. reaparece em Santo Tomás. O Estado tem como finalidade realizar a felicidade dos indivíduos. que tinha no sujeito virtuoso o seu pólo. o que pôs em cheque uma civilização e cultura que pareciam ser eternas. pois que tem a missão de preparar o indivíduo para a felicidade espiritual. é palavra. o romano responde com o direito a essa crise ou ruptura. com efeito. Em Santo Tomás. Nessa salvação. entretanto. a guerra. Decepcionado como magistrado. O poder temporal está submetido. Isso mostra que. entende-o com um instrumento de realização do bem comum . que em Aristóteles era a realização da felicidade na sua pólis . não é algo que ocorre enclausurado no interior do homem. mas sem deixar de buscar ser feliz aqui na Terra.198. está sua finalidade ética.26/4/2011 200. que é a salvação espiritual. o que fez do poder do Estado um mal. Daí distinguir a cidade dos homens.41. que. C om Santo Agostinho. pois existe para realizar a eudaimonia em toda a sua plenitude (família.198. é fonte da desigualdade entre os homens. este é o único onde isso é plenamente possível. para significar como Santo Agostinho igualava todas as formas de poder entre os homens como poder para o mal. Isso significa que o homem só pode realizar sua essência racional com o outro. O Estado só pode justificar o seu poder se a serviço da cidade de Deus. o ethos grego. por isso. O bem comum dá o conteúdo ético do Estado. Das três estruturas sociais que propiciam esse desenvolvimento ou que pelo menos estabelecem as bases para a sua realização. depois da queda de Roma e invasão dos bárbaros. pois a cidade dos homens é a origem do mal maior. mas para a comunidade. este sim justifica-se por ser santo. em que se realiza a felicidade. O poder só será verdadeiro se for para realizar o bem. e palavra é a comunicação do pensar. O poder justifica-se pela sua finalidade. Ora. e a cidade de Deus. ou o absoluto transcendente. aliada evidentemente à de Santo Agostinho: a finalidade maior era o homem salvar-se. o sujeito de direito e não apenas de dever moral. O Estado Romano não perde a característica ética. ao mesmo tempo. o bem de cada indivíduo. vida social e política). Essa concepção. A dimensão ética do Estado concentra-se em função de uma técnica específica: o Estado garante aos indivíduos o justo. Deus legislador. É conhecida e muita citada. Entretanto. considerado em si mesmo.41. o bem supremo que só se realiza na C idade de Deus. a organização política é para Aristóteles o modo pelo qual o homem realiza plenamente o seu ser e. a família. a justa medida e a ordenação hierarquizada do bem (Lima Vaz) só se realiza como perfeição de ser na sociedade. É para realizar o bem que existe o Estado. Desse modo. a relação de senhorio e o Estado. a eudaimonia . Realizar as potencialidades do ser humano no sentido de realizar a sua perfeição de ser. O homem só se realiza. assume uma característica específica. que retoma e incorpora toda a filosofia e a ética de Aristóteles. o poder do Estado. logos . na medida em que realiza o bem do indivíduo como pessoa. o bem por excelência. algo demoníaco. O justo. mas tem na sua essência o manifestar-se para comunicar com o outro logos . numa organização de poder que torna isso possível. O logos .8 mas a potentia Dei absoluta. em vez de conceber o poder político como um mal. isto é. fonte do pecado maior: a guerra. Essa plenitude de ser significada pelo conceito de eudaimonia. Um conceito de qualquer realidade só tem sentido se for comunicado. que é mais do que o senatus populusque romanus. Entretanto. e o poder do bando.151:8081/tribunal_contas… Animal racional implica animal político. cuja finalidade é proporcionar que o indivíduo realize suas virtudes e natureza. o Estado continua com sua dimensão ética. que configurava todo um comportamento da comunidade por regras e princípios. com que adquire a felicidade. Ao ser interrogado por Alexandre sobre o direito de infestar os mares com seus navios. da política como lugar da realização plena do indivíduo. Aristóteles trata da Ética enquanto ciência do indivíduo e sua formação para a sociedade e. O poder espiritual. o verdadeiro objetivo da ética: a eudaimonia . refaz-se a teoria aristotélica. essa justificação ética do Estado também se dá pela sua finalidade.

O da legitimidade do poder 10 na sua relação com o povo. ou então no fato de ser adquirido. A potestas é o momento imediato do desenvolvimento do poder que se manifesta originariamente. O poder justifica-se internamente pelo próprio mecanismo da sua conquista e do seu exercício. No séc. O ato de autoridade vale segundo a legalidade. pela técnica com que o poder se exerce segundo procedimentos pré-estabelecidos. não acompanha a contribuição de Maquiavel e degrada a busca da origem do Estado. É importante a posição de Maquiavel. A questão não é buscar a justificação do Estado. já preocupação dos gregos.9 É o que Maquiavel designa como virtù. no momento da execução do poder. surge o conceito de Estado Técnico. Justifica-se em si e por si mesmo. A finalidade do poder é realizar o direito no seu todo e a partir do momento da constituição e estruturação do poder. Robespierre. c) O Estado Ético Mediato ou Estado de Direito . são características do estudo do poder até o advento do iluminismo no seu nível mais desenvolvido. reconhecido como seu único detentor. Esse empirismo limitado. Em Hobbes há uma decadência no estudo do poder. O poder político não tem de buscar sua justificação fora dele. nesse caso. tornando possível o estudo do poder como objeto autônomo em relação a outros fenômenos humanos. Estado de Direito não é apenas o que garante a aplicação do direito privado.O da legalidade . com Maquiavel: o poder pelo poder. pois procura fundá-lo na natureza humana. Maquiavel rompe com o conceito de Estado Ético. Legítimo se diz quanto à origem . quanto ao exercício direto e quanto à finalidade . a partir de Descartes e Galileu (que introjetou a matemática na natureza). pelo seu consentimento. no contrato histórico. "as forças e os meios adequados a conservação e objetivos historicamente propostos". pela técnica com que o poder se exerce e pela finalidade . em um determinado momento histórico. com a conhecida recusa da fé como instrumento da verdade. pela declaração e realização dos direitos fundamentais. O iluminismo é uma derivada do racionalismo. mas segundo a sua estrutura normativa e sua função orgânica. com objetivo próprio distinto da Ética. mera hipótese. cujo resultado é o fantasmagórico contrato social (configurador da vontade psicológica) histórico. em Hobbes e outros. enquanto o poder se considera na sua relação com o direito. com o voto popular. o que liga toda a execução da lei à origem. tendo seu momento de chegada no enciclopedismo. as regras de decisão da maioria e de respeito à minoria. O poder é considerado como poder em si mesmo e não "poder para". O Estado deve realizar essa felicidade aqui na Terra. 2 .198. mas o homem busca legitimamente sua realização temporal. origem psicológico-metafísica.41. pois a partir daí funda-se a ciência política. a capacidade de obtê-lo e mantê-lo por meios adequados. cujo instrumento é a razão. etc. e pela finalidade. caracteriza o modernismo. Poder é a "aptidão" para agregar.41. O que justifica o poder é ele mesmo. A origem legítima do poder não está em um ser transcendente ao homem. A justificação do poder é a técnica para alcançá-lo e preservá-lo (o princípio de inércia do poder). A justificação do Estado de Direito deve dar-se de modo racional e em três momentos: 1 . O racionalismo. como no Estado romano. o novo modus pelo qual a realidade é configurada e conhecida. Rousseau. mas nele mesmo.151:8081/tribunal_contas… alma. na vontade do povo. isto é. não se trata de justificar o Estado em razão de sua origem. que volta a ser ética: a declaração e realização dos direitos fundamentais. sem qualquer traço de prova. já dentro da ordem jurídica ou da legalidade. à legitimidade. b) O Estado Técnico Moderno . na medida em que o que importa é desenvolver técnicas para alcançá-lo e mantê-lo. quer pela sua origem. de tal forma que a estrutura de poder traçada pela C onstituição do Estado é montada tendo em vista essa declaração e garantia. como ocorre com a divisão da competência para o exercício do poder do Estado. instrumental do homem. a retomada da legitimidade e da técnica pela qual se possa garantir essa legitimidade: Montesquieu. O exercício do poder se dá face à criação e execução de normas jurídicas. enganosa como em toda incursão empirista.26/4/2011 200. mas o que declara os direitos dos indivíduos e estabelece a forma do exercício do poder pelo povo. O Estado ou o poder político legitima-se ou justifica-se pela sua origem . que se conservou e ainda faz sucesso aos olhos dos estudiosos sob a capa de cientificidade. com alcance principalmente no estudo e organização da sociedade humana. resultante do temor da selva social. por exemplo. nas faculdades (poder natural) do homem.198. a sua conformação com a lei. para que se dê o exercício pleno. em meras qualidades psíquicas e físicas do homem individual. técnica do exercício do poder em Maquiavel. na esfera da auctoritas. cuja finalidade era realizar a felicidade das pessoas. dentro de um quadro de 200. em virtude do psicologismo metafísico do seu método de tratá-lo. buscando sua origem. O momento da legitimidade é a esfera da potestas. XVII. Nesse caso.151:8081/…/-versao_impr… 5/12 . com um sim ou um não. Eis como se justifica o poder. O que caracteriza o Estado de Direito a partir da Revolução Francesa é a legitimidade. imaginária. D’Alembert. Une a coerção e a ideologia. quer pela sua finalidade. da Religião e da Filosofia. Indaga-se da validade dos atos praticados pela autoridade. Só a autoridade competente é autorizada por norma superior a criar norma ou executá-la. A legitimação do poder entre os gregos e romanos pela sua finalidade ética.

senão tentar repatriar a idéia aristotélica de Estado. permanente ação do povo na relação de poder. A esfera da pessoa.O da justiça ou ético . ou seja. portanto livre. dentro do qual está o da legalidade e o do direito adquirido.41. o que em si mesmo não compromete a sua liberdade. assim. pelo qual o homem se afirma como ser livre. superado na unidade com a sua natureza ética no Estado de Direito. porém. realizam o momento técnico do Estado. que nele a pessoa nunca é conceito heterônomo ou externo. ou o absoluto imanente. etc.151:8081/tribunal_contas… competência e segundo um processo regular. que é realizar a liberdade. só é possível realizar-se na sua plenitude na vida social. é a capacidade de o indivíduo determinar a sua própria conduta a partir da razão prática. C . implicitamente. o que se funda na legitimidade do poder. é instrumento para o outro. ou seja. que essa mesma tradição denominou imago Dei. portanto na soberania. portanto. a) Como surge o Estado Poiético? Uma das características da sociedade civil é ser ela um sistema das necessidades e. portanto. segundo a estrutura da relação senhor-escravo. A legitimidade do Estado está na vontade do povo. Mesmo a idéia de uma revolução socialista como abolição do Estado outra coisa não preconizou. Isso.198. quer através de instrumentos políticos (como plebiscito. pelo exercício. concebida não apenas como livre arbítrio.regra ou decisão da maioria. que a tradição ocidental denomina substância espiritual.198. não realizar no indivíduo a sua liberdade.). que torna possível o princípio da segurança jurídica em sentido amplo. segundo os princípios lógicos de ordenação formal do direito. provar a liberdade numa primeira instância (embora o faça Hegel). pessoa. tanto no que se refere à sua ação na esfera privada.26/4/2011 200. autodeterminações que o homem cria para tornar possível essa sociedade. A atualidade da análise de Hegel sobre a sociedade civil como sistema das necessidades. 200. realiza-se na organização política da sociedade. Tais regras. de natureza técnicojurídica. Fim em si mesmo é ter em si o logos da liberdade. o homem é ser-para-si. que dá origem ao poder. pois é sempre fim em si mesmo (Kant). pelas quais se garanta a dinâmica dos princípios de legitimidade. coisa. mas a sua instrumentalização enquanto é reduzido à pura dependência como ser-para-um-outro. indiferente do saber consciente desse fazer. C om efeito. com total supressão do seu ser-para-si livre. ou fim em si mesmo. Não é necessário. na medida em que é autônomo e sabe dessa liberdade. A liberdade. na medida em que é instrumento para algo. que é um direito fundamental.151:8081/…/-versao_impr… 6/12 . e pela finalidade ética do poder. O Estado de Direito é. e essa só pode existir enquanto sociedade livre num sistema de normas. da perda da substância espiritual da liberdade. garantia e realização dos direitos fundamentais. de respeito à minoria e de divisão da competência no exercício do poder -. mas que explica a realidade do mundo normativo. de tal modo que grave e incivil afronta à consciência jurídica e ao Estado de Direito é o desrespeito ao direito adquirido de modo justo . segundo a tradição que vai de Aristóteles. e que aparecem sob a forma de ordem normativa. mostra. porém. constituem a própria essência do Estado de Direito. com clareza. Essas duas faces da liberdade estampadas no pensamento kantiano. que o domina. C omo pessoa. só poderá ser possível através do assentamento de regras procedimentais. pessoa. o homem passa a ser instrumento para algo e. mas como autonomia. segundo os princípios axiológicos que apontam e ordenam valores que dão conteúdo fundante a essa declaração.41. na medida em que age como autor das normas jurídicas que regulam sua conduta. segundo a sua finalidade. É um dado essencial. já citadas . O poder legítimo não é aquele outorgado pelo povo. o que ele é em si. destituição. 3 . como na esfera pública ou política. Essa substância espiritual do homem. através da declaração. e de direito subjetivo. quer através de mecanismos administrativos. É suficiente tê-la como postulado transcendental. na relação com o indivíduo. de indivíduos como pessoas. guardada evidentemente a essencial diferença entre a relação de servidão ou escravidão e a do trabalho livre. do que se chama administração participativa. como tal. é a esfera da auctoritas. digamos. que se justifica pela sua origem. por ser essa finalidade a efetivação jurídica da liberdade. na forma de uma estrutura de legalidade coerente para o exercício do poder do Estado. a nova forma desse sistema: em vez de progredir para a superação das conexões de mercado que determinam a vida das pessoas. não ético. liberdade subjetivada. embora não anti-ético. como transferência. a sociedade civil faz do Estado o instrumento da despersonalização. liberdade objetivada. mas está também no exercício do poder. enquanto Estado de Direito. através de Hegel.O Estado Poiético O Estado Poiético é a ruptura no Estado Ético contemporâneo que alcançou a forma do Estado de Direito. esse logos theoretikós-praktikós. Na sociedade civil contemporânea. resistência. não é simplesmente a valoração do homem pelo que ele faz. até nossos dias. por ato formal de poucos segundos e que depois desaparece. segundo o princípio ontológico da origem do poder na vontade do povo. a priori (Kant).

pois o real é a técnica de produzir coisas na natureza. C om o aparecimento desse aparelho.41. precisam de um instrumento poderoso. o tecno-crata . b) Como se organiza o Estado poiético? A sociedade civil. de mercado. A produção é de dinheiro. Precisa da organização política. como interesse público absolutamente sobrevalente. mas como instrumento de produção das regras do jogo das relações sociais.41. no Estado. a empresa é do capitalista.26/4/2011 200.. enquanto que a do Estado democrático é a autonomia política. operada pelo Estado liberal: a separação da sociedade civil e do Estado.198. pois vale. a burotecnocracia malabarista. que nenhum compromisso tem com o ético. tem força circulante obrigatória porque institucionalizado formalmente pelo direito. um corpo burotecnocrata que passa a exercer a soberania. é vigente . C ria-se um órgão burotecnocrata que privilegia o econômico. que depois são transformadas em mercadorias pela magia do econômico. apenas tem função referencial simbólica. A característica do Estado liberal é a autonomia privada. o político e o social 200. porque o seu fazer não se dirige a realizar os direitos sociais. ou uma organização política da sociedade. Não só a autonomia privada. expulsando-o da estrutura essencial da unidade de produção. superar-se no Estado. detentor do poder de decisão política. abre-se uma cisão no Estado: de um lado. mas tautológica: produção do que está produzido pelo trabalho (da natureza transformada pelo fazer). é a ambiência em que se desenvolve o sistema das necessidades necessidades que criam setores de produção. mas com a concentração da produção de tecnologia de ponta e do controle do capital financeiro . que é o sistema das liberdades organizadas. E os que dominam esse fazer econômico. segundo um sistema das necessidades econômicas dos indivíduos. etc. A cisão do Estado está. que não é um bem econômico em si. porém. com total sujeição do político e do jurídico em nome do corpus econômico da sociedade civil. através da força coativa.151:8081/…/-versao_impr… 7/12 . com subordinação de todas as demais relações. transformou em mercadoria a força de trabalho e. que aparece como órgão de tutela e fiscalização do livre jogo econômico da sociedade civil. não mais para servir de porrete contra os trabalhadores. A sociedade civil funciona diante das necessidades dos indivíduos. o jurídico e o social. Mágica porque o econômico é apenas uma ficção. Não. em todo o Ocidente. havendo liberdade de pensamento. pois é ele a própria sociedade politicamente organizada. através de sua cartola e de sua hábil prestidigitação. No Estado poiético.11 Por isso. mas não a participação no poder político. ou produção criando necessidades -.151:8081/tribunal_contas… O que se quer dizer é que a sociedade civil criou um grupo que domina a técnica através do econômico. que impõe o fazer do produto econômico sobre o interesse social e jurídico. Economicamente. em que o indivíduo aparece como pessoa. a empresa. das bolsas de valores e da massificação globalizada do consumo das mercadorias. Evidentemente. com a aparência de cientificidade. esse fazer é ético. um Estado pode ser ao mesmo tempo liberal e autocrático. cujo produto significativo é o dinheiro. nesse embate que se trava dentro dele mesmo. que no Estado democrático não lhe pertence.198. da oferta e da procura. criando dois estados: o estado poiético do domínio burotecnocrata e o estado ético do domínio da sociedade política. Nela encontramos facções que organizam e dominam a economia e que irão desempenhar papel importantíssimo na formação do Estado Poiético. ou seja. enquanto Estado Democrático de Direito. não vê no trabalhador senão a força do trabalho e sua capacidade de fazer. Não é ético. como pensou Marx. fazendo do Estado um instrumento da produção dos efeitos econômicos. o elemento central e essencial do Estado de Direito é postergado. segundo a qual os indivíduos exercem os direitos políticos. pois o jurídico. Representa coisas ou bens. não da unidade dialética do trabalho e do capital. O trabalhador é descartado quando não necessário ou quando diminui o lucro. a organização ética da sociedade em que as decisões de soberania se dirigem ao bem comum ou à realização de uma ordem social justa e. e procura. procurando mostrá-lo. o produzir o econômico. especificamente financeiro e monetarista. se o Estado realiza os direitos sociais. Em vez de a sociedade civil. O fazer econômico. então. como sistema das necessidades. é também uma técnica. subjugar o político. o produto do fazer é o econômico. mas também a autonomia política. de outro. cria-se um órgão burotecnocrático que controla o poder político. porém. na total contingência da livre concorrência. A bifurcação do Estado começa a partir de uma divisão anterior. C ria-se. que não são as ides trabalhadoras. especificamente da economia. impondo-lhe o regime da oferta e da procura. característica do Estado liberal. pois. mas uma ficção jurídica. Não se nega que o técnico ou o cientista econômico sejam essenciais no Estado contemporâneo. como se disse acima. A palavra mágica com que se opera essa transformação é o econômico . como qualquer outro valor quantitativo. não se limitam ao controle da economia na sociedade civil. e na qual o Estado é uma entidade separada. O econômico. Não há um Estado separado da sociedade. esta é a determinante da sociedade civil. C om isso. É fácil verificar isso no fortalecimento do aparelho burocrático denominado Banco C entral.

É fácil ver que desde Bernardes poucos presidentes exerceram efetivamente o poder de governo: Bernardes. considerado objetivamente. ao lhe dizerem que não era possível conceder aumento aos militares. C astelo Branco. O órgão do Estado encarregado da realização de sua política econômica passa a decidir politicamente. com o alijamento do povo. através da retomada da produção de carros populares e da construção civil. com o deslocamento de decisões políticas à chamada área técnica. corte nas verbas sociais. como qualquer outro. como seu fim.151:8081/…/-versao_impr… 8/12 . através do qual se sacrificam direitos. pela submissão dos seus representantes. quando Itamar Franco respondeu. depois. sim". que não são especuladores no sentido pejorativo. com a ameaça da catástrofe. A alienação começa do povo para os representantes. ou: que o fato por eles produzido se submeta às regras do Estado Democrático de Direito. depois. cujas conseqüências futuras ainda não se avaliaram. sem esconder a sua incompatibilidade com a democracia. exercendo o poder em nome de uma facção econômico-financeira. Tal Estado passa a ter um organismo paralelo de decisão política. este o primeiro a impor-se à burotecnocracia econômicofinanceira. da sua validade e. violando os direitos adquiridos. não mais com dólares pertencentes à nação. técnica que freqüentemente aparece como intimidação. no político. e ao mesmo tempo como meio para realizar o objetivo técnicofinanceiro de uma facção da sociedade civil. corrupção. Entra em conflito com a finalidade ética do Estado de Direito. Recentemente. e dentro do governo. com um superávit de cerca de 10 bilhões de dólares anuais. educação. se submete a autoridade política. se instabiliza o sistema democrático. mas simplesmente aplicadores que observam a lei de mercado. o qual foi salvo momentânea e aparentemente com a dobra da taxa de juros para a nação pagar. por não ser conveniente a sua participação. de sua conseqüência prática para o bem comum. operando uma cisão profunda entre a potestas ou titulação do poder e a auctoritas ou exercício. É fácil notar a evolução do plano real. E vai-se de empiria a empiria. o jurídico e o social entram em choque com o técnico de dimensão econômica divorciada da dimensão ética do social. Não é mais o político que toma decisões fundamentais. sem a crítica. não apenas de indivíduos. Ou quando Sepúlveda Pertence advertiu contra o argumento ad terrorem ou do fato consumado: que os planos obedeçam à constituição. dizendo: "prevaleceu o critério técnico". implantou-se a política de recessão. Kubitschek. que a possível falta de competência de administrar dentro das regras democráticas exige para remover pseudo-empecilhos constitucionais. destes para o governo.26/4/2011 200. que é inversamente proporcional ao exercido pelo povo. profecias. até que ocorra uma reação do sistema. inclusive de governo. O Estado poiético é uma das formas de usurpação ou alienação do poder. aceitos no sistema projetado. nos investimentos. 200. mas quem as faz. do presidente para os burotecnocratas. C olor e Itamar. feitos à socapa formal da aparência de legalidade. C omeça com a formação de lastro seguro para garantir a moeda. abandonando sua tarefa de realizar os direitos sociais (saúde. o lastro passou a ser feito. Fácil é ainda verificar como se afronta o princípio de moralidade da administração pública. Portanto. O Estado poiético não tem em mira a "produção social".A de natureza política . subjugando o político e o jurídico. A sua incompatibilidade com a democracia se revela no aumento do poder burotecnocrata. Jânio. primeiro. etc. das decisões fundamentais. ainda que erradas. números. Por exemplo. e com uma política no estilo mineiro tradicional de desenvolvimento (Governo Itamar). No Brasil.A de natureza moral. A supressão da legitimidade do poder pela sua usurpação através de simulações democráticas que encobrem a alienação do poder à burotecnocracia.198. implantando a insegurança jurídica pela manipulação sofística dos conceitos jurídicos através mesmo de juristas com ideologia política serviente. os carros-chefes da economia.41. isso ocorre de modo mais grave. a crise da bolsa era prevista. mas da República. argumenta com o fato poieticamente consumado (por ela produzido). nos processos de privatizações. trabalho). forçado a abdicar do poder de decisão política que lhe foi dado. um político de boa formação ética. pagamento garantido com as medidas econômicas de aumento de impostos. Após esse Governo. contraditoriamente. 2 . pertencentes a aplicadores estrangeiros. o argumentum ad terrorem. O Poder aparece aí. mas com dólares eventuais. O político (que tem a dimensão do ético). c) Que conseqüências pode ter? Podem-se resumi-las em três grupos. bem como o risco da perda do lastro e do desmoronamento do real. pois que é sua tarefa primeira manter-se no poder e preservá-lo. ao estilo bernardiano. aparência de fatos.. a fim de remunerar o "especulador" e manter aqui os seus dólares por mais um ano. Aparece um tipo de corrupção. A lógica da burotecnocracia é perversa: depois de estabelecer as premissas da operação econômica. produzindo fatos. revelou essa sucumbência.41.151:8081/tribunal_contas… são submetidos ao econômico. acenando com reformas constitucionais. 1.198. o que traz como conseqüência uma dissimulada usurpação do poder. para se conseguir cerca de 20 bilhões de dólares. da legitimidade do critério técnico. não. ao argumento de que as contas não mentem: "as contas.

é ideólogo. com os dólares advindos dessa aplicação. Na verdade. ou seja. vários licitantes nas privatizações são estatais de outros países. a conseqüência é caminhar para instaurar o Estado autocrático. dono do poder. Para isso. o capital contingente. Para manter os aplicadores. com poder político "particular". Isso porque o tecnocrata não é técnico. ou que o seu tesouro emita títulos novos. o capital começou a evadir-se. Só se captam as aplicações se derem bom lucro. os antecedentes. de expansão. o real passa a ser como um cheque sem fundos. Vale menos. O lastro do plano real era de ser feito com o produto de privatizações controladas. investimento permanente. Sua lógica é a de cada vez mais aumentar o seu poder. valor próximo ao do aumento dos juros no ano (em dezembro/97. Havia um outro caminho. que controlam cerca de 3 trilhões de dólares nas diversas bolsas do mundo. C omo a lei da oferta deu melhores condições de aplicação em outras praças que não o Brasil. O capital especulativo.198. suspensão de investimentos. não comprometeria a economia. se não é viável. Sim. as premissas? Os mesmos. adiamento das soluções dos problemas sociais e da possibilidade de o País se tornar desenvolvido. principalmente no Governo Reagan. E o que é admirável: as medidas aparecem como obras geniais. a dívida cresce. teve-se de elevar a taxa de juros de modo a apetecê-los: de 23% para 48% a. etc. passou a formar o lastro da moeda. o real. Para dar suporte ideológico ao processo de alienação do poder. como era a intenção do Governo Itamar. Situação: o patrimônio decresce. época da medida. Grave decisão política encaminhada pelo aparelho tecnocrata foi a da falácia da privatização emocional e generalizada. Aliena-se um gigantesco patrimônio construído durante décadas. No entanto. não pode saber dos assuntos do Estado. ocorre ainda uma ação política não ética. decrescimento da economia com relação ao PIB em 1998. perda econômica substancial. "resposta eficaz" e tecnicamente correta (a única) à chamada especulação. precisa ser tutelado. crescimento abrupto do débito. o da desvalorização. Então. mas quem. Por isso foi necessária uma medida que prorrogasse o plano real na sua aparência de eficácia até depois das eleições. realmentte não havia outra saída ou conclusão. Mas o lucro são os juros que o próprio Governo paga. Mas esse caminho comprometeria a reeleição do atual governo. redução do poder aquisitivo e do consumo. a mudar-se da praça. se se perde a docilidade do parlamento. Falácia porque não encontra fundamentação lógica. etc. O grave risco do Estado poiético é a sua natureza para tender para a autocracia através da burotecnocracia. nem cientista. mas "emprestados" à vista. o investidor sabe como cuidar do seu dinheiro. Se a empresa estatal é viável. procura-se também justificar a alienação do direito à informação. ou da verdade cambial. porém. sujeito à oferta de melhor rendimento.26/4/2011 200.a. Além da falácia. de aplicações provisórias e retirada à vista. salvadoras.151:8081/…/-versao_impr… 9/12 . surgiu a pergunta: de onde tirará o Brasil dinheiro para pagar a diferença referente ao aumento da taxa de juros? Responde-se com o pacote de medidas destinadas a diminuir as despesas e a aumentar a receita em cerca de 20 bilhões de dólares..41. Porque se elegeu esse caminho errado.198. desemprego. pois. na verdade. de investidores eventuais e provisórios.41. criou as causas. Ao oferecer o Governo juros tão altos e atraentes. Isso traria mais exportação. Somente a "crença" ou a acientificidade em tratar a questão poderia sentir-se segura com tal lastro escorregadio. o que daria perto de 25 bilhões ao ano). ao contrário do que muitas vezes ocorre com o administrador do dinheiro público.2 bilhões de dólares. A cascata de conseqüências que surgem por força da adoção de determinadas premissas monetaristas de graves resultados econômicos para o País. uma falácia prática: o povo. Sem lastro próprio. enfim. O custo disso: recessão (fechamento de empresas.151:8081/tribunal_contas… Vamos retomar isso mais detalhadamente. do que se pode facilmente inferir que o seu rumo é a eliminação dos "entraves". atualmente de cerca de 300 bilhões de dólares. com ela ameaça para obter mais poder. o aumento dos juros a serem pagos pelo Brasil foi de cerca de 2. nenhum particular a comprará. um dólar. etc. para que esses aplicadores voltem para a matriz do capital financeiro. sem consultar o seu titular e apenas com avaliações formais. como era previsto e de se esperar. entrou-se num círculo. da demonstração de que um real não vale. ou seja. a menos que não tenha competência para fazê-lo. que mandou combater a inflação "pondo a mercadoria na prateleira" 200. de nova tributação. Entretanto.) por força dos juros altos. é suficiente que os Estados Unidos aumentem os juros em pequena fração. pelo qual o lastro é feito de dólares que não pertencem ao País. socorre-se de uma falsa generalização: o Estado é mau administrador. com saldo na balança. depois de ter criado as premissas da catástrofe econômica. É que. em sentido contrário ao exemplo dos Estados Unidos. então o administrador tem de administrá-la bem.

que insere na proteção constitucional outros direitos ali não mencionados. que o protege contra qualquer lei. ameaça até mesmo a segurança jurídica ou o direito adquirido. 5º e 64 da C onstituição Federal.198. pertence ao gênero a que se refere o citado inciso XXXVI. o trabalho. C omo se isso não bastasse. ainda. negar um direito adquirido. isto é. porque não está garantida no art. 5º. deslocando o problema para o futuro (o México. o Estado de Direito. Entenda-se aqui o princípio de moralidade pública em sentido objetivo. O argumento é falso. segundo regra hermenêutica. pelo menos para um jurista de razoável formação. porque. se houve ou não intenção do administrador ou mesmo do legislador. camuflada pela legalidade aparente das medidas provisórias. que. a garantia do Estado Democrático de Direito. 3. 5º. que se legitima não simplesmente por uma decisão contingente do voto formal. porém. Busca justificar-se pela própria técnica ou aparência técnica que o define. o Estado liberal (e mesmo autocrático) realizando o avanço técnico na distribuição do poder a órgãos tecnocratas e burocratas. no inciso XXXVI.41. respeitou o elemento de base desse Estado: a segurança jurídica na qual está o direito adquirido. e. e pela declaração universal. Conclusão O Estado contemporâneo enfrenta uma cisão no seu interior. Além de economicamente estratégicas. Sofisma. é extremamente difícil a conciliação do lucro com o interesse público. alienado no ato formal do voto exercido num hic et nunc. a declaração de direitos deve ser interpretada amplamente.26/4/2011 200. cujos efeitos jurídico-políticos e ético-administrativos são a interferência no sistema federativo. é negar vigência ao mesmo art. a igualdade.198. mas pela origem na real vontade popular. com o corte na receita dos Estados-Membros (em Minas é de cerca de 500 milhões de dólares). burotecnocrata. uma nova medida é posta em prática pela burotecnocracia: a Lei Kandir. a privatização. independentemente do elemento subjetivo. XXXVI. leva seus efeitos à instância ético-administrativa. O Estado poiético.151:8081/tribunal_contas… (Say). exceto no âmbito político. não participativa. aprofunda o aspecto mecânico de uma sociedade técnica. correndo-se o risco de o Estado voltar a comprar a sucata no futuro (veja-se o exemplo da Light-Rio). a exploração gratuita das rodovias implantadas com recursos públicos. cujos valores centrais são a liberdade. cujas reformas nada têm de necessárias e urgentes (a não ser a tributária e a política). a exemplo das já feitas. De um lado. emenda constitucional é lei. a instabilidade da lei e da própria C onstituição. Uma política orientada para o interesse público seria a formação de um pool das grandes estatais com as boas universidades. não lograrão alcançar o que valem. Portanto. embora posteriormente tenha nele se instalado o aparelho tecnocrata. Não se muda a C onstituição simplesmente porque o administrador se depara com dificuldades ou problemas que deve enfrentar ou resolver. Grave é. nas conseqüências negativas ao erário ou ao interesse público. qualquer que seja. antagônico ao nihilismo e à anomia. Mais ainda se agrava essa insegurança jurídica pela anarquia legislativa. em que a divisão do trabalho especializa instrumentalmente o indivíduo. Trata-se de um vício que o Poder Executivo contraiu: diante de qualquer problema. que a estabilidade não é cláusula intangível. é sabido que. pelo barateamento da matéria-prima. que a princípio aparece como mecanismo de conquista e conservação do poder. a privatização da TELEBRÁS. muda-se a C onstituição. O regime de 64 buscou uma justificação ética. e não administrativa). De outro. da ELETROBRÁS. cuja urgência e necessidade é da competência do Supremo examinar (pois a matéria é constitucional. sabido que. por exemplo. pela orgia de medidas provisórias. para quem sabe enfrentar o permanente desafio de administrar bem dentro das regras democráticas. conseqüência inevitável pela legitimação formal do poder da democracia representativa. introduzindo uma espécie de nihilismo ético e anomia jurídica. o festival de instalações de fábricas de automóveis onerosas para a nação. como o PROER. o sobre combustíveis. E a palavra lei está tomada pelo gênero naquele inciso. O Estado técnico de Maquiavel. isto é. para desenvolver a pesquisa científica e produzir tecnologia de ponta. garantia e realização dos direitos fundamentais (políticos. deverá gastar cerca de 18 bilhões de dólares para a sua recuperação).A de natureza jurídica . sociais e individuais). com a finalidade de deixar a cargo do Estado a recuperação e implantação das rodovias. Esse Estado do Entendimento (entendimento é o 200. é abertamente a-ético e a-jurídico. produzindo (medida que Itamar Franco. o Estado que recupera o sentido ético do Estado clássico. e conseqüente benefício aos importadores. A estabilidade não está protegida pela intangibilidade do art. onde houve privatização. Sofismam com o nome. aferida na permanente participação do cidadão na vida política.151:8081/…/-versao_impr… 10/12 . na esteira da tradição da política desenvolvimentista.41. elemento básico do Estado de Direito que sempre foi apresentado como o elemento de suporte do Estado liberal. pôs em prática. cuja solução tecnocrata já se aventa com mais um tributo. com o advento da economia liberal. A dinâmica do sistema atual. corroborada pelo § 2º. única porta de acesso ao denominado "primeiro mundo". mas o instituto do direito adquirido está. num país subdesenvolvido. reaquecendo a economia).

2 C f. 981b. Trad. 1996. como se coisas diversas fossem. Trad. 4 Aristóteles. de Derecho Privado. 7 C f. Andrea Daher. p.198. é a aptidão para captar o universal na particularidade dos interesses individuais. O passo dessa superação é o Estado Ético Racional. nunca político. 3 C f. São Paulo: Saraiva. 1986. e o Estado de Direito finalista e orgânico. Belo Horizonte: Editora da UFMG. de tal forma que a política é a técnica da aquisição e conservação do poder. 1980. O Poder. Bonfante. n. Madri: Aguilar. mas que recupera o ético como essência. Maurice. La Teoria de la Instituitión y de la Fundación. 1997. individuais. p. julho. p. em Poder e Autoridade. I. Michel. Entretanto. Disegno del Diritto Pubblico Romano. Belo Horizonte: Del Rey. 1968. portanto. a técnica de produção e distribuição de riquezas. Revista de Informação Legislativa. Ver Bastos. Revista de Direito C onstitucional e Política. Buenos Aires: Perrot. 71. deixada ao jogo das necessidades. 327. 31. p. políticos e sociais. Salgado. Rio de Janeiro. Historia del Derecho Romano. 1113b. Pietro. a superação da contradição do próprio conceito de Estado com a sua "realidade empírica". em que os indivíduos sejam autônomos. p.198. o Estado de Direito: o Estado que declara e realiza os direitos fundamentais. emergente do passo trágico da Revolução. § 5º. A interferência do técnico é fundamental no Estado Moderno. 10 C f. tipos e medidas do poder. A Idéia de Justiça em Kant.41. De sobre isso decidir não pode abrir mão . 88. ou seja. a teimosia divisora do Estado liberal permanece. 1200-1201. Resumo dos C ursos do C ollège de France (1970-1982). Brasília.Sociedade C ivil como um todo. p. 9 Maurício Godinho (Natureza Jurídica do Poder. 99 e segs. O exercício do poder cabe ao político. a economia e a política. p. Hauriou. 31) faz uma importante e clara exposição sobre esse tema. out. A brecha que abre na sua substância real é entre a declaração dos direitos e sua realização. p. Janice Helena Ferreri. Dobrowolski. como seu fim essencial. 33./dez. Oliveira. Samarandi. Trad. p. não já na forma imediata do Estado Ético antigo. O traço que distingue e faz o verdadeiro político emergir no mundo social e que dele faz agente da soberania popular. Milano: C ELUC . livres do ponto de vista de partícipes ativos do poder. O Estado liberal opera essa tarefa técnica e aprofunda a divisão do Poder Político . 8 C f. 1 Não se cogita de indagar a origem histórica do poder. Notas * C onferência pronunciada na abertura do C ongresso Euro-Americano dos Tribunais de C ontas e no encerramento do ano letivo do C urso de Direito da Faculdade de Direito do Médio Piracicaba. p. Grupos Sociais e Poder.151:8081/tribunal_contas… momento do pensar divisor e mecânico) mostra em dois aspectos a sua divisão. o Estado que não abandonou o elemento técnico. Ferreira 200. Silvio. O aprofundamento dessa divisão exige a sua superação. cujo lugar é a sociedade civil. 63. mas não como agente da soberania. titulares de direitos fundamentais. Metafísica. separado da sociedade civil. Arturo Henrique Sampay. Ver Foucault. 1994.41. ou a sua contraditória existência como Estado técnico instrumental e mecânico. C urso de Direito C onstitucional.. 182-183. Rio de Janeiro: Zahar.151:8081/…/-versao_impr… 11/12 .26/4/2011 200. 1984. Revista de Direito Público. Joaquim C arlos. e a economia. 5 Aristóteles. 70. mas na forma mediatizada do Estado C ontemporâneo. Baracho. 2 (3): 313-35. 1977. 6 Vicente Barreto. 1973. Madrid: Rev. superar a particularidade técnica pela universalidade do bem comum ou da ordem justa. p. 12. Ética a Nicômaco. A perspectiva que temos é a de um Estado Racional. 112. José Santa C ruz Teijeiro. Mommsen. fala em justificação pelo fim. Legitimidade do Poder. Trad. O papel do técnico é ser técnico. Francisco de P. em que o Estado aparece mais uma vez como árbitro técnico da livre concorrência. se na força militar ou não. C elso Ribeiro. 1944. que supera a separação sociedade civil e Estado.

11 O conceito de autonomia. privada ou pública. 79: 113-39. 200. vem de Kant./dez. 1984. 121. nem moral.198. p. em Habermas esse conceito não é claro. O Poder e seu C ontrole.26/4/2011 200.41.198.151:8081/…/-versao_impr… 12/12 .151:8081/tribunal_contas… Filho. Manoel Gonçalves. Revista da Faculdade de Direito da USP. jan.41. nem econômico (Faktizität und Geltung). não jurídico. n. tomao num sentido adaptado.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->