No capítulo intitulado “Quinta fonte de incerteza”, Latour aborda uma questão de suma importância para a nova teoria que

ele propõe, o problema de como operacionalizar as pesquisas em ANT. Depois de tecer várias críticas às abordagens clássicas da sociologia ao longo de quatro longos capítulos, o autor se preocupa com os desdobramentos de suas ideias no campo da pesquisa. Se o social e a sociedade não podem mais ser entendidos como antes, então como pesquisar os fatos sociais? Como delimitar um fato social – um ator social? Como demonstrar seu aparecimento, sua mudança e seu desdobramento? Essas são questões que permanecem em aberto para o pesquisador depois de ouvir tantas críticas ao pensamento social clássico. A saída para essas dúvidas pode ser bem simples: se alimentar de incertezas. E como fazer isso, compondo relatos. A ação de compor relatos é a própria ação de traçar conexões sociais. Daí a importância do relato para a sociologia, e a importância do bom relato. Latour faz algumas provocações à velha ideia de texto objetivo cultuado pela sociologia, que procura de certa forma imitar as ciências naturais. Para ele o bom texto deve ser essencialmente um texto interessante, saturado de questões de interesse. Ao invés do texto que visa focar certos objetos e deles não sair, a ANT deve procurar se desligar de uma visão unidirecional e dar voz a todos os atores, se deslocar entre inúmeros objetos. Esse é um dos grandes problemas da sociologia tal como vem sendo feita, a falta de uma democracia verdadeiramente participativa para os sujeitos de seus relatos. Ao invés de considerar os objetos recalcitrantes em seu texto como forma de crítica ao status quo, essa sociologia prefere calar-lhes a boca, privando os de se levantarem contra seu discurso inabalável. Enquanto os cientistas naturais tem quase que como dever, porque não tem outra escolha, ouvir seus objetos recalcitrantes, a ciência social prefere dissolver o discurso de seus objetos de análise em “uma metalinguagem” homogênea e pouca diferenciada para cada caso em particular. Nas ciências naturais as questões acabam se revelando como quase obrigação em um texto, porque os objetos não se permitem calar como acontece nas ciências humanas. Nessa última, os sujeitos estudados, por uma série de motivos, inclusive por serem seres tão próximos a quem os estuda, são constantemente calados, proibidos de falar, lavados ao mais completo silêncio. O que faz

se por um lado é fruto da experiência crítica em relação à sociologia clássica. uma influência maldita. pois aí está um encontro com muitas perspectivas sobre a realidade. Quando ouviam falar de relatos textuais. Para Latour. Os estudiosos da ciência não herdaram a mesma personalidade objetiva dos sociólogos do social.alguns textos de sociologia serem tidos como leituras absolutamente chatas e irretratáveis. O objetivo é justamente resignificar a palavra objetividade. aqueles que tecem essa crítica não percebem que falta de objetividade é antes de tudo o que se encontra nos textos ortodoxos que calam os objetos e preferem se restringir à rigidez de um discurso pretensiosamente concreto e objetivo. O que não acontece com as ciências da natureza. por outro não se assemelha em nada à matriarca mal herdada. que. Em seus estudos sobre os métodos da ciência descobriram que a objetividade nas ciências humanas segue um caminho sinuoso. nada próprio a ela. Dar voz aos sujeitos. cada vez mais. Essa visão ortodoxa chega ao seu auge quando confunde o trabalho da ANT com um texto ficcional que não tem nenhuma exatidão ou pretensão à objetividade. Por aí vemos a importância que adquire o texto multivocacional para a ANT. que só fazem crescer nosso entendimento sobre o fenômeno social. É justamente no texto impregnado de relatos e diversidade de pensamentos que encontramos uma objetividade. Ele é somente uma das muitas estratégias que podem ser utilizadas para se chegar uma descrição . dar-lhe outro sentido que não esse estático e pouco interessante. inúmeras novas questões sejam postas em debate – essas são as chamadas questões de interesse. os cientistas naturais e sociais [das antigas] duvidavam da capacidade científica de uma teoria social tão permissiva. a ANT recebe uma influência diferente. Assim. se permitir ao diálogo com os objetos estudados. É nessa tradição crítica que se situa Latour e a ANT. “caminhar entre as formigas”. que em sua diversidade de diálogos permitem que. Foi antes uma herança amarga das ciências naturais. essas são práticas duvidosas para um cientista. mult iplicar os relatos. Frente a isso tudo a ANT se viu com sérios problemas em se tratando da veracidade e cientificidade de seus textos.

ao permitir-lhe ser mais abrangente. mais aberto a novos discursos. se é uma reunião. em sua participação na cadeia de acontecimentos. Mas afinal. então pode ser retraçado. mas a mais importante. ao mesmo tempo. colocá-lo em outro patamar. então pode ser reunido”. Para Latour. De forma que no texto. como numa rede. A descrição deve ser a mais ampla possível.interessante do mundo. de pontos cegos. só ela faz fazer. A questão não é abandonar de todo um método que já era utilizado pela sociologia clássica. mais democrático. só ela tem poder para mudar. todos os nós sejam colocados sob uma lupa e vistos em seu movimento de ação. reunir os nós. abarcar o maior número de discursos e ações. Contornar os nós da rede. tarefas típicas do pesquisador da ANT. Só ela faz acontecer. de sujeitos estáticos. Desenhar a rede. a força por traz de todo acontecimento. retraçar os laços. Os sociólogos do social usaram o relato textual de uma maneira diferente das dos pesquisadores da ANT. “se o social é um traço. os textos da sociologia crítica ou clássica reduzem todas as causas e movimentos do real à ação de uma única e poderosa força causal. usando de uma causalidade formada por uma força estranha que habitava todos os lugares e ordenava o mundo indiferente aos objetos e sujeitos. mas reformulá-lo. que multiplica os discursos. mas que. da descrição rica. Essa é a metodologia fundamental da ANT. esse é o objetivo do relato. e faz isso a todos – um verdadeiro éter social. sendo levados a fazer certas coisas e levando outros a seguir o movimento. porque se permite ser o lugar da experiência. Contrário ao bom relato. Decorado de agentes passivos. o texto é o seu laboratório. É esse o texto típico da sociologia crítica. fazendo fazer. Enquanto os primeiros tentavam criar um mundo no papel sem respeitar os múltiplos discursos dos agentes. não se torna menos concreto. existe também o mal relato. todo texto que dobra e reduz a realidade e todos os atores que participam . Isto significa que esse relato deve levar em conta todos os atores que aparecem em uma ordenação social. a ANT procura retraçar os caminhos seguidos e ao mesmo tempo ditados por esses objetos e agentes. o que é um bom relato/texto para Latour? O bom relato é aquele “que tece uma rede”.

trata todos os mediadores como intermediários.desse movimento a um único princípio. um poder louvável. e para que seu projeto dê certo ela precisa primeiro dissolver essa forma pobre de descrição do acontecimento. reduz a complexidade do acontecimento e atribui a um poder invisível. Ele esquece da circulação da ação. que nem sequer existe. É contra esse texto reducionista que a ANT quer lutar. é um mal texto. .

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