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* EMÍLIO BOSSI

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*** JESUS CRISTO NUNCA EXISTIU ***
P UBLICADO
ORIGINALMENTE COM O PSEUDÔNIMO

“M ILESBO ”

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* EMÍLIO BOSSI *

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JESUS CRISTO NUNCA EXISTIU ***
P UBLICADO
ORIGINALMENTE COM O PSEUDÔNIMO

“M ILESBO ”

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(T R A D U Ç Ã O D E A U G U S T O D E C A S T R O – 1900) E DI T O R A J O Ã O C A R NE I R O - L I S B OA (T R A D U ÇÃ O D E T H O M A Z D A F O N S E C A – 1909) A L M AN A C H E N C YC L O P E DI C O I L US T RA D O - L I SB O A

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E MÍLIO BOSSI
(1870 - 1920)

Estátua em Bruzella - Suíça

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Assim começa um dos ensaios mais polêmicos e surpreendentes dos anos 1900. demonstração alguma”. com provas e mais provas. ainda que somente como pessoa física? Bossi declara um categórico NÃO demostrando taxativamente. ponto a ponto. prova alguma. Seria ele filho de Deus? Este não é um argumento de pesquisa histórica e. nem deste ensaio. consequentemente. Viveu ele realmente. ser humano. O advogado Emílio Bossi desmonta minuciosamente. com extrema habilidade e rigor. a história não nos conservou documento algum. pessoa real. qualquer vaga ideia que a nossa cultura possa ter a respeito de um personagem chamado Jesus Cristo. Este ensaio mordaz de 1900 (Raramente reimpresso) é uma viagem através dos mecanismos meméticos da evolução cultural. que não há nenhum traço de evidência ou sequer sombra de suspeita da possível existência deste homem chamado Jesus. 5 . mostra como as religiões mais primitivas e os rituais mais antigos evoluíram para o que hoje se chama "verdade revelada".TEMA “De Jesus Cristo.

................................................................................................................................................................................................................................................................130 QUARTA PARTE – FORMAÇÃO IMPESSOAL DO CRISTIANISMO .....33 SEGUNDA PARTE – CRISTO NA NÉVOA..................................................................................................................................................... JESUS CRISTO É PESSOA ABSOLUTAMENTE SOBRENATURAL...................................................................................................................................................................................191 6 ...............................................................................................................................................178 CONCLUSÃO....................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................SUMÁRIO TEMA........................................................................................................49 CAPÍTULO III................................................................................. CRISTO É UM MITO SOLAR..........................................................................106 CAPÍTULO II.......... A MITOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO NÃO É ORIGINAL.................64 CAPÍTULO V.. A MORAL SECTÁRIA DOS EVANGELHOS NÃO É OBRA DE UM HOMEM..................................................................................43 CAPÍTULO II.......27 CAPÍTULO IV...77 CAPÍTULO VI..........................................14 CAPÍTULO I............................................................................115 CAPÍTULO III.... A PRÓPRIA BÍBLIA FALA DE CRISTO APENAS SIMBOLICAMENTE................................................... JESUS CRISTO NÃO É PESSOA HISTÓRICA.........................................................................................................................................................................................................................................................124 CAPÍTULO IV............................................... AS SUPOSTAS PROVAS HISTÓRICAS DA EXISTÊNCIA DE CRISTO............................................................................................................................................................................................ ABSURDOS ESSENCIAIS DA BIBLIA ACERCA DE CRISTO............................................................................................. O SILÊNCIO DA HISTÓRIA ACERCA DA EXISTÊNCIA DE CRISTO............................................................. A MORAL CRISTÃ SEM CRISTO.................................................................................................................................................................................................................................................................................. ORIGEM E SIGNIFICADO DOS DEUSES REDENTORES............ FORMAÇÃO PSICOLÓGICA DO CRISTIANISMO............ O CULTO CRISTÃO SEM CRISTO............................................152 CAPÍTULO III................................................................ DA TEOLOGIA...................................................................................................... MAS SIM ...........................................................................................................................................................92 TERCEIRA PARTE – CRISTO NA MITOLOGIA...................................................................42 CAPÍTULO I..................................................................................................................139 CAPÍTULO I.............................................................................7 INTRODUÇÃO...........................................................................21 CAPÍTULO III...................................... COMO ACONTECEU O TRIUNFO DO CRISTIANISMO................................................................................................................................. A BÍBLIA NÃO TEM VALOR DE PROVA.....................................................................................................................................................................................................................140 CAPÍTULO II................................................................................................................................5 PERFIL DO AUTOR.............................167 CAPÍTULO V......... PROVAS HISTÓRICAS CONTRA A EXISTÊNCIA DE CRISTO.. CRISTO É UM MITO ADAPTADO DAS ALEGORIAS DO ANTIGO TESTAMENTO........................................................................................... A DOUTRINA CRISTÃ SEM CRISTO...............................................57 CAPÍTULO IV.................105 CAPÍTULO I..... CONTRADIÇÕES ESSENCIAIS DA BÍBLIA A CERCA DE CRISTO..................................160 CAPÍTULO IV.......................................................................................................................................................84 CAPÍTULO VII................. CRISTO ANTES DE CRISTO.............9 PRIMEIRA PARTE – CRISTO NA HISTÓRIA..........................................................................................................................................................................................................................................................................15 CAPÍTULO II......

Em 1906 fundou e editou A Ação. e de Emilia Contestabile. Suíça (El. Como tal. De 1915 a 1920 dirigiu A Gazeta Ticinense. foi com Romeo Manzoni. De 1905 a 1910. 1914-1920). do Conselho Nacional (19141920) e do Conselho dos Estados (1920). propugnava a escola neutra e a separação entre Igreja e Estado. Jesus Cristo Nunca Existiu foi publicado simultaneamente em 1904 em Milão (Milan Editorial da Companhia) e em Bellinzona. Empreendeu carreira no jornalismo e ganhou fama como um grande polemista com o pseudônimo de Milesbo. a Radical Extrema desaparece como grupo autônomo. Com Manzoni foi o líder carismático da Extrema Radical. Travou duras batalhas contra os "menatorroni" (desonestos) da vida pública. Em seguida à sua entrada no Conselho de Estado. Foi adversário inflexível do clericalismo e defensor acérrimo da italianidade de Ticino. Morreu 27 de novembro de 1920. ocupou o cargo de juiz de instrução substituto. Bossi foi forçado a se adequar à lógica das negociações. Colombi e C. dirigiu o 7 Departamento do Interior (191014).PERFIL DO AUTOR Emilio Bossi nasceu em Bruzella (cidade do Cantão suíço de Ticino) em 31 de dezembro de 1870. elm. Foi deputado do Grande Conselho (1905-1910. Iniciou seus estudos no Liceu de Lugano e bacharelou-se em direito na cidade de Genebra. Francisco. o flagelo implacável da política "oportunista" e das "transações" de Rinaldo Simen. Liberal radical. filho de um arquiteto. Colaborou com o jornal "O Dever" desde 1891 e foi seu diretor em 1920 e editor de 1896 a 1902. Em 1897 foi um dos fundadores da União Social Radical Ticinense. uma associação que. em Lugano.). além das reformas sociais defendia. Em consequência. Foi diretor do semanário Nova Vida em 1893 e fundou o jornal Ideia Moderna em 1895. órgão do Extrema Radical. Também em Milão foi reedita- . fundada em 1902 após uma violenta polêmica com a corrente de Simen.

Vinte Meses de História Suíça 8 .Jesus Cristo Nunca Existiu 1909 .do em 1905 e 1906.A Clerezia e a Liberdade 1916 . Revê a luz em 1951 em Bolonha. se encontra publicado em Ragusa pela La Fiaccola.Sobre a Separação Entre o Estado e a Igreja. pela Lida. Bibliografia 1899 . Finalmente. 1900 . com um apêndice de Andre Lorulot. Não se conhece outras edições. em 1976.

a autonomia da razão humana. isto é. porque a vida é una. ainda na infância. a ciência positiva armada do método experimental. As novas ideias. porque é a fé que reina soberana. E de outro lado. como muito bem diz Haeckel. no campo da ciência positiva. os métodos que fizeram triunfar a ciência positiva. trabalhem na construção de um novo edifício moral. De um lado. É preciso desconsiderar todas as crenças tradicionais e abandoná-las ao seu destino. do ideal e da realidade. Basta. Já é tempo de restabelecer a unidade do mundo moral e do mundo material. o que constitui aqui a base do progresso e do conhecimento. o esplêndido e imortal edifício . continua absoluto. a liberdade na investigação. contraste que se manifesta nas Mentiras Convencionais da Nossa Civilização descritas por Max Nordau. o aspecto moral. descrito por Mantegazza. encontram obstáculo fatal ao seu desenvolvimento no conjunto das falsos conceitos formados pela educação religiosa. o experimentalismo como instrumento e o racionalismo como sistema. e está em contraste com tudo que à ciência vem descobrindo. aplicar à ciência moral. para isso. que sobrevive na forma inercial. com atividade e voz cada vez mais intensa e febril. ali está excluído. que se inaugura sob um duplo aspecto. conservando somente as que resistam à crítica. e que deve coroar o soberbo. o que é mal ali. o pensamento libertado. O que é verdade aqui é erro ali. fecundadas pelo saber positivo. e as leis que governam o mundo físico e o mundo moral são idênticas. do dogma e do apriorismo escolástico. aquelas que. e no Século Hipócrita. é bem aqui. apenas com a experiência e o exame. necessário e imóvel ali.INTRODUÇÃO Uma nova primavera agita a vida humana: é a primavera da idade positiva. porque é a autoridade que domina. o que aqui alenta os ânimos para o progresso e a liberdade. que demoliu e desfez para sempre a bagagem da superstição. ali está esmagado. o 9 que é relativo e progressivo aqui. do pensamento e da ação. que jaz sob uma forte camada de gelo e trevas invernais. para fecundar com a potente energia do progresso material as veias do corpo social.

que. as narrações e os preceitos do Antigo e do Novo Testamento não são mais do que variações feitas sobre as lendas. Deste exame. a ciência mitológica e a teoria da evolução aplicada à investigação das origens naturais do Cristianismo. A crítica histórica já tinha notado o silêncio da História sobre Cristo. Por outro lado. especialmente de Celso. a exegese bíblica. conclui-se que Cristo nunca existiu. Mesopotâmia e do Egito. sobretudo da China. Estas investigações e esta crítica. tinha afirmado que as lendas. começaram com a Renascença italiana. O estudo acerca do Cristianismo tinha chegado a este ponto quando a Inglaterra aperfeiçoou e estabeleceu cientificamente. em parte. e assinalava como suspeitas as passagens dos poucos historiadores profanos daquele tempo sobre a sua existência histórica. a lanterna mágica que explica e interpreta o curso das relações humanas e nos faz . Judeia. Pérsia. se apresentava como o grande argumento. direcionamos esta nossa modestíssima obra ao exame dos dois mil anos de crença em Jesus Cristo. para não citar as primeiras seitas heréticas nem os protestos da filosofia pagã. pela arqueologia e pelas descobertas dos viajantes. nasça um novo templo: o Templo da Humanidade. mitos. a Teoria da Evolução. ratificando muito pouco do que se quer fazer passar por histórico. empreendido unicamente por amor à Verdade e sem qualquer inclinação teológica ou antiteológica. os mitos. partindo do ponto em que já chegaram a crítica histórica. para que. narrações e preceitos da mesma natureza. continuaram com a Reforma e chegaram ao seu apogeu na França com os filósofos do século XVII e na Alemanha com os críticos e os sábios do século XIX. da união desses dois monumentos. ajudada pela filosofia. anteriores ao Cristianismo.das descobertas positivas de útil aplicação que a ciência vem levantando. enquanto que a exegese bíblica já tinha reduzido o Antigo Testamento a uma obra apócrifa composta pela casta dos sacerdotes para edificação dos fieis. com Darwin e Spencer. que. do pensamento e da história. a ciência mito10 lógica. abalaram a Igreja Triunfante. levando em conta a evidência das leis da Natureza. Outro tanto vinha fazendo a respeito do Novo Testamento. Animados por essas ideias.

bíblica e mitológica. como tampouco se admitiu nas ciências físicas. da identidade mitológica de Cristo com Cristna. ou seja. Esses mitólo- . ao Cristianismo. Essas razões. desapareceria. tinha precedido já os mais avançados entre os modernos. Buda. Esta foi a obra primordial de Ernesto Havet. Mitra. a Teoria da Evolução foi aplicada com muita antecedência por Vico. enfim. Dupuis e Volney. fundamentados na teologia comparada e na explicação solar do mito dos Deuses Redentores. Leibnitz e Condorcet. a existência humana de Cristo. juízos. Horus. especialmente por Tindall. foi reduzir-se ou inutilizar-se a pessoa de Cristo. etc. pelos fins do século XVIII. demonstrando que o Cristianismo não era produto de nenhuma revelação. se dedicaram a explicar naturalmente a origem e o desenvolvimento do Cristianismo. à historia em geral. não podendo mais admitir nada de sobrenatural na ciência moral. não foram aceitas pela crítica. E mesmo quando não tinha ainda sido reduzida a sistema científico. O resultado da crítica histórica. há dois séculos no seu Cristianismo Antigo Como o Mundo. aspirações e esperanças mais ou menos quiméricas. e o da aplicação da teoria da evolução ao Cristianismo.. com os Deuses Redentores da antiguidade. e. Porém. depois. não porque não fossem justas. reveladoras de uma grande cultura. é que conseguiu vencer a tradicional e 11 fetichista veneração ao Sagrado entre os Sagrados. O mesmo sucede com os mitólogos que vieram. mas porque esta não estava ainda suficientemente amadurecida. só quando a Teoria da Evolução dominou efetivamente no campo da natureza. que ele. acumuladas. com todas as provas. que este era consequência dos fatos que o precederam e do ambiente em que nasceu. mas apenas o resultado necessário da influência de um conjunto indecifrável de fatores diversos na determinação da essência. porém. extensão e eficácia do sistema religioso cristão. enquanto. quando todas as circunstâncias a que devia a existência fossem totalmente transformadas. quando a humanidade estava ainda subjugada em suas dores.compreender o progressivo desenvolvimento das instituições e da sociedade. Tindall. Foi então que os espíritos positivos. negavam com poderosas razões. ao próprio Cristianismo.

. pelo contrário. a missão de conservar o mosaísmo. por outro lado. como se fosse um Fílon? Ernesto Renan. os últimos mistérios. com o aditamento das preciosas informações postas à sua disposição pela mitologia comparada.e não são poucos são os que derivam da pretendida existência do Cristo. não pensa sequer em conciliar o fato da ignorância helênica de Cristo com o fato de ele.. contentando-se uns com rodeá-lo com um engrandecimento lendário e uma divinização mitológica. a presença de Jesus continua como um último obstáculo à completa explicação do cristianismo segundo o método científico. Enquanto que a interpretação evolucionista baste para explicar a origem e a formação do Cristianismo.diz ele . bastava que Jesus acreditasse nele para que se arrogasse tal missão . que. falar como um discípulo de Platão. E como nesse exame todos partiram de um ou vários pontos de vista parciais e unilaterais. conforme o pretende Celso. conhecer os livros de Platão. por outro lado. nascido e criado entre hebreus. Posto isto. Jesus ignorava o nome de Buda. de o destruir. se lhe atribui? Como explicar o fato de Jesus.gos não ousaram negar em absoluto a pessoa de um Jesus hebreu. e acabando por se eliminarem mutuamente. segundo atestam mesmo os seus pretendidos discípulos. filho de um obscuro artista.. 12 Como conciliar. o grande romancista de Cristo porém. e outros com ambas. o que. perante a observação de Celso.com a missão oposta. infundamentado. dada a sua existência. ignorando a literatura grega. Acreditamos. não responde melhor do que Orígenes: Reconhecemos no cristianismo . que ele se atribui ainda que o mosaísmo fosse apócrifo. em vez de se apoiarem e completarem reciprocamente. destruíram a obra comum. no quarto Evangelho especialmente. criticando-se uns aos outros nos pontos controversos. mesmo que excluindo a sua presença e considerando que a crítica bíblica e histórica tenham reduzido as fontes da crença em Jesus à sua mais ínfima expressão. únicos pontos obscuros que permanecem sem explicação no cristianismo . em resposta a igual pergunta de Orígenes.uma obra excessivamente complexa para que possa ser trabalho de um só homem. que nela tenha colaborado a humanidade inteira.

do parsismo e da sabedoria grega . no qual organizamos os resultados obtidos pela crítica e pela erudição. por essas simpatias existentes entre as diversas partes da humanidade. tenhase sempre em conta que é obra de um profano que se propôs aplicar o bom senso natural à crítica do Cristianismo.de Zoroastro. ante a incompatibilidade de Jesus com a explicação do Cristianismo. por outro lado. a recorrer aos citados argumentos só cabíveis num faquir hindu. este livro não vem dizer nada de novo. E.intervenções que se realizavam por canais secretos. num astrólogo medieval ou num médium do espiritismo ilusionista. nenhum sutra búdico. Tal é o fruto da presente obra que oferecemos a público sem nenhuma pretensão literária. com o único fim de contribuir para divulgar o racionalismo entre o povo em lugar de fazer uma obra de grande erudição.reforça a suspeita que nos levou a examinar de perto a questão da existência histórica do Cristo e a con13 cluir pela sua negativa. aqui também. Emílio Bossi . É apenas um trabalho de síntese. de integração e de lógica. não obstante. do concurso dos diversos elementos da verdade. que. e quando se pensa no amor infinito que Renan põe no seu personagem. Quando homens do valor e da inteligência de Renan se veem obrigados. pois à fé nada pode parecer estranho ou impossível . Seja qual for o juízo emitido sobre o presente trabalho. de uma determinada ordem do investigações completam os resultados obtidos por outra ciência ou por outra ordem de investigações. o ponto de partida necessário para os futuros progressos da ciência. Esta dúvida que em nós surge. reunia em si mais de um elemento. procedia do budismo. em virtude da absoluta impossibilidade de se explicar satisfatoriamente o Cristianismo e os próprios Evangelhos. Não leu nenhum livro grego. de Platão. sem que ele próprio o suspeitasse.Milesbo . assim.desde que não se creia na sua divindade. como os resultados de uma ciência ou. e. sem lhes tirar a pessoa de Cristo . neste campo. surge a conclusão lógica de que Cristo nunca existiu. Além disso. Esta conclusão é. é permitido duvidar de que a pessoa de Cristo seja histórica.

Primeira Parte Cristo na História 14 .

Ésquilo e o divino Platão. se. pessoa real. declarando. Aristipo.CAPÍTULO I O SILÊNCIO DA HISTÓRIA ACERCA DA EXISTÊNCIA DE CRISTO De Jesus Cristo. que Cristo nunca escrevera coisa alguma. a história não nos conservou documento algum. ainda demonstra o contrário. pelo menos a título de probabilidade. porventura. ser humano. baseia-se em Sócrates ter por discípulos pessoas históricas. ela tivesse alguma aparência de autenticidade. a terceira. enfim. dos discípulos de Cristo nenhum é conhecido. por um modo formal.Tácito. que Cristo. há três diferenças capitais: a primeira consiste no fato de Sócrates não ensinar nada que não fosse racional. Orígenes e Santo Agostinho. nada deixou escrito. entre o Cristo e Sócrates. e esse pouco ainda misturado com muita coisa milagrosa. para não irmos mais longe. como nenhuma linha foi escrita a seu respeito. além de não dar nenhuma prova sobre a personalidade real do Cristo. ao passo que Cristo pouco tem de humano. Cristo não só nada escreveu. a própria Igreja em tal ponto concorda. nenhum nos deixou o menor vestígio acerca dele. De sorte que. a não ser se dermos crédito a documentos de pura fé. como aconteceu aos . Sem levar em conta a Bíblia que. ao passo que é permitido admitir legitimamente. pelo fato de Sócrates nada escrever. que teria vivido cinco séculos mais tarde. demonstração alguma. excluem-na. Suetônio e Plínio – ou foram interpolados e falsificados. Fédon. Além disso. cuja 1 A pretensa carta ao rei Abgaro provouse que foi uma piedosa fraude. como Xenofonte. 15 existência é notória. não se pode concluir que ele não existiu. humana. Cristo nada escreveu1. Mas. ao passo que. Euclides.se ao ensino oral. a segunda diferença deduz-se da circunstância de Sócrates ter passado à história só como personagem natural. prova alguma. limitando. É certo que Sócrates também nada escreveu. Dos muitos autores profanos que foram contemporâneos de Cristo. Os únicos autores leigos que lhe mencionaram o nome – Flávio Josefo. enquanto Cristo nasceu e foi conhecido apenas como pessoa sobrenatural. O mesmo pode dizer-se da carta de Pilatos a Tibério. totalmente suspeitos. como teria feito. pois não a inclui entre os documentos canônicos.

Josefo. A Mishná. Justo de Tiberíades. como se qualifica o fundador do Cristianismo. nascido 50 anos depois de Cristo. No judaísmo. nascido no ano 37 e que escreveu até fins do primeiro século. sem darem provas da sua existência. a voz de Jesus 16 Que o próprio Renan anota para adver- . não cita sequer o nome de Cristo. não cita a dos cristãos. que narrou a história dos hebreus desde Moisés até fins do ano 50 da era cristã. Ele escreve que os países gregos e romanos nunca ouviram falar de Cristo. diz ainda Renan. Um escritor hebreu. em suas numerosas obras. como os dois restantes. Dicionário Filosófico. Juvenal. Escreveram muito tempo depois. Jesus não deixou impressão duradoura. Ernesto Renan. Porque. nada sabe acerca dele. que fustigou com a sátira as crenças do seu tempo.dois primeiros. segundo atesta Fócio. historiador eminente e consciencioso. sem o terem conhecido. que morreu no ano 50. ou. Mesmo com os movimentos sediciosos provocados pela sua doutrina e as perseguições de que foram alvo os seus discípulos. Vida de Jesus. falaram de Cristo apenas etimologicamente para designarem seus seguidores e a superstição que tomou o seu nome. mas não dedica uma única palavra aos cristãos como se eles não existissem4. quer ao chefe da nova fé. vol. e em termos tais que só servem para comprovar que ele nunca existiu. narra a sua condenação em algumas linhas2 en 2 passant e. o mais célebre dos cristólogos. Plutarco. XXVIII 4 Stefanoni. IV. cap. 3 Renan. que cometeu o erro de fazer da Vida de Jesus uma biografia quando não passa de uma engenhosa lenda. não nos levam além do quarto ou quinto século3. foi interpolada. Fílon. sequer indiretamente. ao enumerar as seitas do seu tempo. ainda assim o seu nome não aparece nos autores profanos durante o primeiro século depois da sua morte. fala extensamente dos hebreus. só alterada? Como veremos. nada fala sobre a nova doutrina. vê-se obrigado a reconhecer o silêncio da história em volta do seu herói. quer a seus tir que a passagem de Josefo foi alterada por mão cristã. que decerto não poderia ignorar a existência de Cristo e dos seus prodígios. os personagens dos dois Gemaros. nem uma só vez alude.

O Helenismo. se Cristo realmente tivesse aparecido sobre a face da terra e levado a cabo uma tão grande revolução do espírito humano. não os distingue dos hebreus. extraviado ou destruído. não diz uma única palavra acerca de Cristo. nada sabe ou diz acerca dele. chegou a formar uma doutrina platônica do Verbo ou Logos. Fílon se preocupou especialmente em conjugar o judaísmo com o helenismo tomando do Antigo Testamento as partes mais edificantes. Cantù. Uma circunstância de grande relevo torna mais eloquente o silêncio de Fílon em torno de Cristo: é que todos os ensinamentos de Fílon podem passar por cristãos.discípulos. XIV 17 que morreu alguns anos depois deste. tomo II. que por seus escritos cheios de máximas perfeitamente cristãs faz duvidar se foi cristão ou teve relações com os discípulos de Cristo. O Cristianismo e suas Origens. que tem muita afinidade com a do IV Evangelho. Por outro lado. Cesare Cantù. depois de distinguir o sentido alegórico do literal. ocupou-se especialmente de estudos sobre filosofia e religião. por certo. que contaria de 25 a 30 anos. e. consola-se dizendo que Plutarco é sincero na crença das suas divindades e que por isso. em nenhuma das obras que escreveu sobre moral se refere aos cristãos5. não esqueceria Cristo. enxertando na árvore da religião hebraica o misticismo dos neoplatônicos alexandrinos. a quem chama de um povo abominável6. no seu livro sobre as crenças. Sêneca. de tal sorte que Havet não hesitou em chamar a Fílon um verdadeiro Padre da Igreja. Como escritor distintíssimo que foi. Ch. História Universal. e. seu compatriota de origem. e 5 C. Deste modo. Desiludido da sua fé pelo silêncio de Plutarco. Mas sobretudo expressivo e decisivo é o silencio de Fílon acerca de Cristo. aparecidos já em muitos pontos da terra. na qual o Logos é precisamente o Cristo. Fílon. Pois bem: . Época VI. Parte II 6 Ernest Havet. quando apareceu Cristo. a quem a crença mais cega e indigna de um historiador vedou os olhos. falando dos cristãos. dado a conhecer por Santo Agostinho. mistura fatos históricos com as invenções mais absurdas do cristianismo.

como se fosse um cristão. da existência material e histórica de Cristo? Em suma: se Cristo um dia existiu. como explicar a incompreensível anomalia de que Fílon não fale dele? Por outro lado. que não diz uma única palavra acerca da 18 pessoa humana. helenização e platonização idêntica à que os Evangelhos promovem. Fílon. Se Cristo tivesse existido. que fala do Logos ou do Verbo do mesmo modo que o IV Evangelho. e que morre ainda alguns anos depois. Conhece e descreve os essênios estabelecidos junto de Jerusalém nas ribeiras do Jordão. e que ensina a mesma doutrina atribuída Cristo? Se Fílon pôde falar do Verbo e escrever como se fosse um cristão. que vive no tempo de Cristo.não é isto uma grande revelação? Fílon. sobretudo o IV. o Platão hebreu. sem saber nada de tal nome. mas sim pura invenção ou criação mitológica e metafísica. O silêncio de todos os escritores contemporâneos acerca de Cristo tem sido. alexandrino. antes de Cristo. a referir-se a ele. que fala do Verbo sem conhecer o Cristo. para o que contribuiu mais do que ninguém o próprio Fílon. no mínimo. Salvador explica o fenômeno apoiando-se em débil vestígio deixado em Jerusalém pelo filho . Foi como delegado a Roma para defender os hebreus no reinado de Calígula. nestes últimos tempos. que realiza com o Judaísmo a mesma transformação. contemporâneo de Cristo fala de todos os acontecimentos e de todos os personagens principais do seu tempo e do seu país. Fílon. sem nada saber e nada dizer acerca dele. Fílon. não indica isto que o Cristianismo se elaborou sem Jesus e por obra precisamente e principalmente do mesmo Fílon. Fílon certamente ver-se-ia obrigado a. embora alguns escritores liberais tenham-no avaliado de maneira leviana e superficial. o que faz supor nele um profundo conhecedor das coisas e nomes da sua terra. sem esquecer Pilatos. objeto da mais atenta consideração por parte da verdade histórica. que escreveu. porque não cita Cristo uma única vez sequer em suas numerosas obras? Porventura. que já é célebre antes do nascimento dele. não prova este fato eloquentíssimo que Cristo nunca foi pessoa histórica e real.

O mesmo silêncio da História acerca de Jesus revela-se também a respeito dos apóstolos. como acertadamente notou Dide9. desde a multiplicação do número e a transformação da natureza dos elementos à cura dos enfermos e à ressurreição dos mortos. a um processo. tomo I. lugar mencionado também na Histótia Crítica das Superstições. perante um personagem tão extraordinário e acontecimentos tais que atrairia a atenção das pessoas mais indiferentes e excitaria a curiosidade dos cronistas. a um drama judicial seguido de morte trágica. circunscritas aos limites de uma ocorrência comum8. sua vida não foi mesquinha. livro II. contra o que pretende Salvador. analistas e historiógrafos. foi de tal forma rumorosa e extraordinária que nenhum outro Ser Humano viveu algo semelhante. Este silêncio constitui. Flamarion. a dominação dos elementos às trevas e terremotos. que assinalaram a sua morte até à sua própria ressurreição. Paris. desde a degolação dos inocentes às discussões que 7 J. Este personagem não deixou nenhum vestígio em Jerusalém. O fim das Religiões. sobre os quais não existem outros documentos senão os eclesiásti9 A. I. desde. Realizou prodígios maravilhosos. uma grande presunção contra a existência histórica e real de Cristo. desde a visita dos anjos até as estrelas que marchavam para indicar o lugar do seu nascimento aos soberanos vindos da Ásia expressamente para o visitar. este silêncio demonstra aquela não existência. Outros elementos críticos nos provam que só a inexistência de Cristo pode explicar o silêncio da história em volta dele. . em oposição ao que supõe Stefanoni. por sua vez. Vol II . Jesus deu causa a alvoroços públicos. a prisão. Nós não conhecemos mais do que um único Jesus: o dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos. 8 Luigi Stefanoni. o silêncio da história é absolutamente inexplicável. Inverossímil e singularíssimo. Salvador. pag. segundo a Bíblia. Cap. a vida de Cristo.de Maria7. Jesus Cristo e sua Doutrina. por irrespondível. O próprio Stefanoni não pode explicar o fenômeno sem reduzir o nascimento de Cristo e toda a sua vida a proporções demasiadamente mesquinhas. e que. Ora. Mas esta explicação é inadequada. Dide. 55. 19 sustentou aos doze anos com os doutores. ao contrário.

Pedro e outros fatos. o que vem a dar na mesma10. Porém. Pedro com Jesus e o famoso Quo vadis. não como homens naturais. A simples consideração de que nada do que narram os Atos está conforme com qualquer dos autores profanos deveria bastar para nos pôr em guarda a respeito desta fonte. o autor comete o equívoco de tomar como fonte histórica os Atos dos Apóstolos. destituídos de todo o valor provativo. até á segunda metade do século IV. morte de S. Outro tanto pode afirmarse de José e de Maria. Domine?. taumaturgos. 20 . pois que nô-los apresentam. Pedro a Roma e as suas disputas com Simão Mago. no seu excelente livro Os apóstolos demonstra a impossibilidade de S. o encontro de S. mas como personagens sobrenaturais.cos. impossibilidade esta confirmada pelo silêncio dos mais antigos escritores da Igreja. até na compilação dos livros canônicos da Bíblia. o perigo de se pô-lo a descoberto desde o seu princípio. que não pertence de modo algum à Bíblia porque. Os únicos fatos históricos que se atribuem aos apóstolos. e bem assim de seus irmãos e de toda a sua família. são narrados exclusivamente em livros decla10 rados apócrifos pela própria Igreja. progenitores de Cristo. como se fossem notícias verdadeiras. Emilio Ferriére. Pedro ter estado em Roma. Todas estas circunstâncias aumentam a significação do silêncio da história em volta de Cristo. Maria e os Apóstolos são puras criações místicas. evitando. tais como a viagem de S. assim. escolhendo as poucas notas que estes nos deixaram. ou pelo menos. Maria ou dos Apóstolos que pudessem ser facilmente impugnados pela crítica histórica. a Igreja teve o astucioso cuidado de se descartar de todos os documentos que falavam de Cristo. circunstâncias que adquirem maior valor quando se vê que Cristo.

CAPÍTULO II AS SUPOSTAS PROVAS HISTÓRICAS DA EXISTÊNCIA DE CRISTO

Os únicos autores profanos que falaram de Cristo reputados como testemunhas da sua existência foram Tácito, Suetônio e o historiador hebreu Josefo. Vamos, pois, examinar um a um estes testemunhos para vermos que, não só não constituem prova da existência de Cristo, como também são novas demonstrações do contrário. De todos os historiadores citados, o único que poderia ter valor de prova pela sua qualidade de historiador hebreu é Josefo, ainda que tenha vivido e escrito muitos anos depois do período que se considera como sendo o da vida de Cristo. Josefo fala de Cristo apenas casualmente nestas poucas linhas: Naquele mesmo tempo, nasceu Jesus, homem sábio, se é que pode se chamar de homem pois realizou obras admiráveis, ensinando aqueles que queriam inspirar-se na Verdade. Não só foi seguido por muitos hebreus, como também por alguns gregos. Era o Cristo. E, tendo sido denunciado a Pilatos pelos principais da nossa nação, este fê-lo crucificar. Os seus partidários
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não o abandonaram nem mesmo depois de morto. Vivo e ressuscitado, reapareceu no terceiro dia da sua morte como o haviam predito os santos profetas, e realizou muitas outras coisas milagrosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o seu nome11. Salvador, Renan, Stefanoni e vários outros escritores nada dizem acerca da possibilidade de terem sido alteradas as palavras de Josefo, o que se compreende em autores que, embora não creiam na divindade de Jesus, abrigam em si a crença nesse Cristo Homem, mais ou menos extraordinário, do qual se originou o Cristianismo. Porém, uma análise criteriosa levará à convicção de que a passagem de Josefo relativa a Jesus foi interpolada. O texto está perdido no meio de um capítulo, sem conexão alguma com o assunto que o precede e o que lhe sucede, intercalado nos relatos de um castigo militar infligido ao populacho de Jerusalém e dos amores de uma matrona romana
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Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap. III

com um cavalheiro que obtém os seus favores fazendo-se passar por uma personificação do Deus Anúbis. Além do mais, estes dois eventos históricos são relacionados entre si. Estão interligados porque o historiador, ao relatar o segundo, chama-lhe de outro acidente deplorável, donde se depreende que esse outro acidente deplorável só pode estar relacionado com o primeiro, do motim popular e a consequente repressão. A passagem intercalada entre esses dois acontecimentos não pode ser atribuída a Josefo porque rompe bruscamente o fio da narração, e o autor revela-se, em toda a sua obra, mestre na arte de colocar cada coisa em seu lugar12. Além disso, na referida passagem, Josefo fala de Cristo como o faria um bom cristão, pois considera-o um ser sobrenatural e relaciona-o com as predições dos profetas. Como pôde Josefo empregar semelhante linguagem, isto é, acreditar na divindade de Cristo sem ser cristão e continuando hebreu? É tanta a evidência que até o erudito padre Gillet se vê
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obrigado a reconhecer que Josefo não pôde falar daquele modo, como o faria um cristão, e que, por conseguinte, deve ser considerado apócrifo e intercalado o texto referido13 Além disso, constitui-se em prova direta e definitiva desta interpolação o fato de S. Justino, S. Cypriano, Tertuliano e Orígenes, em suas numerosas e ardentes polêmicas contra os hebreus e pagãos, não citarem esta passagem de Josefo. Orígenes declara que Josefo não reconhecia Cristo14 na pessoa de Jesus, o que não diria se o personagem citado por Josefo fosse conhecido no seu tempo. Em suma: por consenso de todos os críticos sensatos e competentes, esta passagem de Josefo foi julgada interpolada por uma piedosa fraude dos cristãos primitivos. Cita-se, ainda, outra passagem de Josefo (Livr. XX, cap. 9), na qual, falando na condenação de Thiago, acrescenta: Irmão de Jesus, chamado o Cristo. Aqui Josefo se contradiz porque fala de Cristo como de um homem qualquer, demonstrando que não crê
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A. Peyrat, História elementar e crítica de Jesus. Conclusão.
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Larroque, Exame crítico das doutrinas da religião cristã. Prim. Part. cap. IV. 14 Contra Celso, livro 1, § 47.

na sua divindade, ao passo que noutro lugar mostra acreditar nela. Esta contradição se esclarece ao se considerar interpolada ou desfigurada a passagem anteriormente relatada. Mas, na realidade, não há critério fixo para aceitar a primazia de uma ou de outra das duas passagens contraditórias, de forma que, não só uma exclui a outra, como as duas se excluem mutuamente. Apenas que na última, a interpolação foi feita com maior astúcia do que na primeira, pois nela Josefo fala como hebreu que era, o que se explica por ser anterior à primeira, já que existia no tempo de Orígenes e exigiu maior prudência. A última passagem não é e não pode ser considerada autêntica pela simples, óbvia e indeclinável razão de que, se Josefo houvesse tido efetivamente notícias de Jesus, chamado o Cristo, não teria deixado de se explanar muito mais sobre a sua vida, tratando-se de um homem que tomara uma parte tão grande, tão notável, tão extraordinária, tão original e culminante na história do seu país. Se alguma dúvida ainda restou sobre a prova definitiva de que a passagem de Josefo acerca de Jesus foi interpo23

lada, nada mais nos resta do que ler Fócio, que declara formalmente que nenhum hebreu jamais falou de Cristo. Vejamos, agora, Tácito. A passagem deste historiador, que pode apresentar-se como testemunho a favor da existência de Jesus, é a seguinte: Nero, sem grande alarde, submeteu a processo e a penas anormais aqueles que o vulgo chamava cristãos, por causa do ódio que lhes votava por suas feitiçarias. Quem lhes deu o nome foi Cristo, a quem Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério, condenou ao suplício. Apenas reprimida, esta perniciosa superstição (o cristianismo) fez novamente das suas. Não na Judeia, de onde provinha todo o mal, mas na própria Roma, para onde afluíam de toda a parte os sectários, cometendo as ações mais audaciosas e vergonhosas. Por testemunho dos que os puniam e pela opinião pública geral, (os cristãos) eram incendiários e professavam ódio extremo ao gênero humano15. Nunca se cometeu uma falsificação mais evidente em detrimento do grande historiador romano, falsificação esta que se
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Tácito, Anais, livro 15, § 44.

estende a todo o texto. Enquanto Tácito afirma que o vulgo chamava assim aos cristãos porque eram odiados por suas feitiçarias, o falsificador fálo contradizer-se nas linhas que logo se seguem, e nas quais pretende que os cristãos procediam de Cristo. Tal contradição é impossível num escritor da envergadura de Tácito, e resulta da interpolação das palavras que se referem a Cristo, porque a etimologia dada por Tácito ao nome dos cristãos é somente a que corresponde à sua opinião favorável dos cristãos, expressamente posta e mantida em todo o trecho em que ele fala dos mesmos16.
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Outra circunstância, que prova a interpolação, encontra-se na passagem do mesmo Tácito, oportunamente revelada por Ganeval17 e onde o eminente historiador romano (Liv. II, § 85) diz que foram expulsos de Roma os hebreus e os egípcios, que formavam uma única superstição. Neste ponto, é evidente que Tácito não faz proceder da Judeia os cristãos, mas do Egito, destruindo assim a pretendida origem etimológica dos cristãos de Cristo, origem essa que o obriga a defender na passagem que vimos de examinar.
deparamos sempre com o motivo pelo qual Tácito colocou naquela passagem o per flagitia invisos, que não teria, em tal caso, relação alguma com o resto do texto, ao passo que estaria em seu lugar na filípica que dedica, mais à frente, aos cristãos. Pelo contrário, este trecho estaria perfeitamente no seu lugar, mesmo como está porque tem relação com o trecho seguinte, em que Tácito fala dos cristãos, admitindo nós a interpolação do período intermédio em que se faz dizer a Tácito que o nome de Cristãos vem de Cristo. Mas, deixemos na dúvida essa questão etimológica: resultaria daí que Tácito deu testemunho histórico de Cristo? De modo algum. Ainda nesta hipótese, não teria feito mais que citar o que os cristãos diziam, especialmente nos tribunais, para dar a conhecer a pretendida origem histórica da sua superstição. 17 Ganeval, Luiz – Jesus, perante a história, nunca existiu. Cap. IV – Genebra. Livraria Veresoff etc... 1874
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Nota da segunda edição. “quos per flagitia invisos vulgus Christianos appellabat”. (que, odiados por seus crimes, eram popularmente conhecidos como cristãos). Os nossos anticríticos caíram sobre a tradução desta passagem de Tácito com tanta disposição quanto é certo terem a insânia de crer que, enfraquecido assim o nosso argumento, ficava comprometida a seriedade do livro. À falta de melhor juízo, pensaram que, atacando este argumento, feriam o próprio calcanhar de Aquiles. Pois bem: queremos deixar na dúvida a questão de saber se Tácito quis dar ao nome dos cristãos a origem da aversão que inspiravam com suas feitiçarias. Queremos admitir que não haja relação alguma etimológica, pelo menos aparente, entre o homem e o assunto. Mas, nesse caso,

sua informação. sabendo-o ou conhecendo-o. Roma – diz ele. como Larroque e outros consideraram. se Tácito nos diz que foi crucificado no reinado de Tibério. 30. têm apoiado a interpolação de Tácito. do orientalismo e do helenismo. Mas somos gratos ao sr. cap. como podia ele viver ainda no tempo de Cláudio. 25. instigados por Cresto. forçoso é reconhecer que os dois testemunhos. Ganeval pretende que o nome de Cristo. de Tácito e Suetôdo caminho e que outros. Bom e Agathos. mas sim da fusão do hebraísmo. e onde afirma. mais competentes do que nós. 25 Alfredo Taglialatela. 18 A passagem de Suetônio é ainda mais breve e mais contraditória. segundo ele. faz saber que Hochart sustentou a interpolação de Tácito com muito mais veemência do que nós o fizemos. como acreditar que tenha sido expulso de Roma onde nunca esteve? E. Não se pode admitir que Tácito tenha escrito acerca de Cristo da forma enganosa com que o fizeram escrever. visto que ele o cita unicamente para dar a origem etimológica do nome dos cristãos. Ignoramos a crítica de Hochart e lamentamos muito. Cristo é uma pura e simples transformação do Deus morto e ressuscitado do Egito. que precedera o de Calígula e este o de Cláudio? Em vista disto. Se era Cristo. no Rinnovamento di Roma de 23 de julho de 1904. n. pois se Cristo tivesse realmente existido. absolutamente. Mesmo que não se quisesse admitir esta fraude. Ponhamos de lado a diferença entre Cresto e Cristo20 para analisarmos a dificuldade a que dá origem a pessoa aludida por Suetônio. nunca limitando-se a falar de um homem extraordinário. se esteve em Roma. aplicado a Serápis. realizada no Egito.De maneira que os que falsificaram esta passagem esqueceram-se de falsificar aquela onde Tácito ignora Cristo. pela. falando do reinado de Cláudio – expulsou os judeus que. ditas a correr e entre incidentes ocasionais18 . Taglialatela. em poucas palavras. promoviam contínuos tumultos19. e nos livros sybillinos no Egito seja uma derivação do nome de Cresto. que vem a confirmar que não estamos fora . Ainda. o testemunho de Tácito não provaria de modo algum a existência de Cristo. como em seu lugar demonstraremos. 19 Suetônio. que o Cristianismo não procede de Cristo. o historiador teria falado certamente muito mais a respeito dele.empregado pelos cristãos nos séculos I e II em Roma. Vida de Cláudio. 20 Esta questão etimológica não é tão desprezível assim.

liv. o que fica das pretendidas provas históricas da existência de Cristo? Nada. e demonstrada a falsificação do que se atribui a Josefo e a Tácito. fala em Cristo21. se excluem e se eliminam mutuamente. X. então é quase estranho ao debate. sem emitir opinião alguma sobre a sua existência. a respeito de Cristo. Teriam sido necessárias as falsificações para provar a existência de Cristo se esta fosse real? As falsificações só foram fei21 tas para ocultar verdade. Pela mesma razão. não como pessoa de quem se pretende demonstrar existência história. O testemunho de Plínio. 26 . pois não seria necessário falsificar a história para nos provarem a sua existência. absolutamente: apenas a prova do contrário. maldizendo o Cristo. falando dos brahmanes. teria aludido a Brahma. E como as falsificações deviam ter sido praticadas para fazer crer na existência de Cristo. que ele nunca existiu. temos de deduzir. (Plinio Epist. para indicar o objeto do seu culto. o Moço. fora os testemunhos de Suetônio e de Plínio por impertinentes à questão. 97. sem com isto querer demonstrar a existência de Brahma. Numa carta enviada a Trajano. Portanto. Todos comigo invocaram os Deuses e ofereceram incenso e vinho à tua imagem.nio. mas como divindade simbolizadora da adoração dos cristãos. Em suma: Plínio falou de Cristo só etimologicamente. logicamente.

extraídas de documentos próprios da fé cristã e da história das crenças humanas. por falta de documentação suficiente. Nunca Existiu. Foi infeliz ao lhe introduzir elementos análogos aos da mitologia dos outros povos orientais. e os recentes trabalhos convergem todos para a demonstração definitiva desta verdade. Parecerá estranho. mas até. Ganeval reuniu grande número dessas provas na sua obra Jesus. antes dele. Ganeval não desenvolveu adequadamente a sua tese. quando é certo que. só Dupuis e Volney abordaram a tese da mitologia comparada. façamos-lhe a devida justiça. Entretanto. pode 27 não ser correta mas somente provável. . As provas históricas contra a existência de Cristo provém dos hebreus. Chamamos de históricas a estas provas porque são fatos verídicos. existem outras provas históricas que demonstram a sua não existência. Perante a História. as provas se acumulam. porque são testemunhos concretos e válidos de escritores e de determinadas escolas. Entretanto. No nosso entender. muito provável. Serápis é certamente o deus que tem mais analogias com Cristo. mesmo porque. mas é assim. Deveria ter percebido que. ainda que valiosas. excelente pela sua convicção e séria pelo seu propósito. como veremos. ao passo que as provas que apresentaremos a seguir. não só prova que os autores profanos que dele falaram foram neste ponto falsificados. apesar de certas expressões simbólicas referentes à cópula. como Serápis. dos pagãos e até de alguns cristãos primitivos e padres da Igreja. Cristo não é tanto a encarnação alegórica do Phallus como o é do Sol.CAPÍTULO III PROVAS HISTÓRICAS CONTRA A EXISTÊNCIA DE CRISTO A história não só ignora Cristo. obra que merecia melhor sorte apesar das suas repetições provenientes da falta de sistematização e da unilateralidade da tese que vê em Cristo uma transformação pura e simples de Serápis. certos e positivos. reconhecendo que descobriu a verdade da lenda de Cristo e dos relatos da história. não têm o mesmo valor histórico por serem deduções exegéticas da bíblia e da mitologia comparada. tese que poderá ser justa mas.

In Ganeval. Epifânio. como sendo muito anteriores a si próprio. II. pois este teria nascido quando Fílon já con23 Alfred Maury.O hebreu alexandrino Fílon. Cont. são os cristãos24 que tinham o seu Evangelho e os seus Apóstolos. cita Filon entre aqueles que têm servido de guia para Eusebio. Eusébio. (liv. X e XVII) confirma isso afirmando que os livros de que fala Fílon eram os Evangelhos e os escritos dos Apóstolos. er. pois tiveram lugar antes de se falar do nome cristão. pelo processo de diferenciação. Segundo ele. que habitavam junto do lago Mareótides.nascido da fusão do judaísmo com o orientalismo egípcio. E isto se confirma pelo fato dos judeus e egípcios. Este só foi elaborado e criado muito depois. 24 S. 28 Não é exagero dizer que não existia ainda a palavra cristão quando já existia a superstição judaico cristã. Enquanto que ele próprio. confirma as palavras de Fílon e de Eusébio. com vestígios muito próximos do neoplatonismo alexandrino 23. Isto exclui absolutamente a existência de Cristo. e se Fílon nasceu 25 ou 30 anos antes de Cristo. na sua História. que abandonaram bens e família para se dedicarem ao ascetismo. S. no estudo da história do começo do cristianismo contido em seu livro Crenças e Lendas da Antiguidade. De fato. algumas linhas antes. chama isso de uma má interpretação de Eusébio. p. Epifânio. Mas não explica as razões.120. Outro padre da Igreja. no dizer de Tácito – terem sido expulsos de Roma 22 duas vezes no tempo de Augusto e uma terceira no tempo de Tibério.. vê-se logo que a existência dos cristãos é anterior a Cristo. se os Evangelhos e os escritos dos Apóstolos já existiam antes de Fílon. relata que estes viviam como verdadeiros cristãos. e declara que os terapeutas citados por Fílon são os cristãos solitários. atribuindo-lhes um Evangelho e vários Apóstolos.22 O que se conclui destes documentos é que o cristianismo é muito anterior a Fílon. os terapeutas do Egito citados por Fílon. referindo-se evidentemente à superstição judaico egípcia . Fílon falou dos cristãos.que se confunde com o cristianismo . o cristianismo existiu algum tempo antes do seu nome. cap. no ano 19 da nossa era. que formavam uma única superstição – os cristãos. Portanto. . no seu livro sobre os terapeutas. que tinham livros religiosos e seguiam as máximas de seus pais. Estas expulsões desmentem implicitamente a existência de Jesus.

e dizermos mais adiante que foi ele o seu principal fundador. Ainda mais: Fílon escrevera um tratado. Fócio opina que é dele que procede a linguagem histórica da Escritura. Não faltou também um falsificador cristão que ousou dizer a Orígenes que. Além disso. embora. este já existisse séculos antes. ficamos na dúvida sobre se ele quis fazer crer. segundo Epifânio). Filon escreve um episódio alegórico sobre Jesus. máximas e ritos é produto da colaboração de varias gerações. um verdadeiro Evangelho acerca do Deus Bom (Serápis) – livro que foi destruído – e cujas alegorias deviam ser tão semelhantes às dos 25 Nota da segunda edição. que Fílon não 26 Eis a passagem de Orígenes interpolada: "No livro III de sua obra Sobre o Deus Bom. de vários séculos e de muitos sábios. Evangelho um século anterior ao dos cristãos. que escreveu um Evangelho mais tarde atribuído a Jesus. e Fílon não poderia esquecê-lo já que se ocupava dos cristãos. citaria a ele e não a Ágatos. Se entendermos que a multiplicidade de crenças que formam uma doutrina. no seu Evangelho sobre o Deus Bom. que se referira a Cristo (ainda que o falsificador diga: sem o nomeá-lo). até que encontre o seu precípuo expositor. O testemunho de Fílon contra a existência de Cristo é tanto mais formidável quanto o mesmo Fílon contribuiu intensamente para a formação do cristianismo25. Assim. um sistema complexo de dogmas. A falsificação é tanto mais evidente quanto é certo que Fílon e Orígenes nem conheceram nem nunca falaram de Jesus. Parece haver aqui uma contradição. Se Fílon tivesse escrito sobre Jesus. em vias de formação. E se este Evangelho de Fílon acerca do Deus Serápis. sabe-se que os Evangelhos atuais não apareceram senão muito tempo depois de Cristo. ainda que não citando seu nome” (Contra Celso). visto termos afirmado que o Cristianismo é anterior a Fílon.tava 25 a 30 anos. este tem direito a ser considerado o seu fundador. Logo. pode dizerse que Marx é o fundador do socialismo. 29 Evangelhos que logo se atribuíram a Cristo. Ganeval demonstra que o nome de Jesus foi interpolado na obra de Orígenes. falando de Serápis. o Deus morto e ressuscitado do Egito. . era essencialmente semelhante aos que depois vieram a ser os Evangelhos cristãos. Fílon falara de Jesus sem escrever o seu nome 26. de modo que não pode ser a eles que Fílon alude falando dos livros (os Evangelhos. segundo Eusébio) e dos terapeutas (os cristãos. uma fé. que era o deus Serápis. temos de reconhecer que Fílon foi um dos fundadores dessa crença que depois se converteu em cristianismo.

que é Jesus28. porém. . a existência de Cristo. enfim. falando do livro das Disputas de S. tendo já os 27 28 seus Evangelhos e os seus Apóstolos. vejamos as que nos dão cristãos autênticos e de valor perante a Igreja – S. e segundo Eusébio e Epifânio. Assim se depreende da análise feita pelo patriarca Fócio que. no qual o hebreu Trifon nega a existência e a aparição de Cristo sobre a terra. Especialmente deve se notar a parábola do filho pródigo. É igualmente certo que Fílon descreveu os Terapeutas como muito anteriores a Cristo. esse ponto é completamente desconhecido. Tanto um como o outro destes episódios estão totalmente deslocados na Judeia.conheceu e nem citou em seus trabalhos. 30 Dide. e. II. Celso. Os seus copiadores não fizeram mais do que introduzir o nome de Jesus em lugar do de Serápis. Um eloquente testemunho citado por Ganeval para denunciar a origem egípcia dos Evangelhos está nas alegorias do jumento e dos porcos. Clemente Alexandrino e Orígenes. substituindo o Deus Bom dos egípcios por outro Deus morto e ressuscitado. este último falecido no ano 254. fica evidente que Fílon escreveu um Evangelho sobre Serápis. que se faz guardador de porcos. donde. S. Cap. Posto isto. Clemente Alexandrino e Orígenes – cujos testemunhos são tanto mais concludentes. se derivaram os Evangelhos posteriores. Faz notar que Celso. visto que a sua tese era outra. Parte IV. na obra já citada. onde o porco era a imagem da dissolução e símbolo do demônio. o silêncio de Fílon acerca de Jesus não só prova que este nunca existiu. põe em destaque um diálogo com Trifon. não nega a existência de Cristo. que o mesmo Cristo nunca existiu. negam a encarnação. o qual logo pôde adaptar-se a Jesus. dizendo: se Jesus nasceu. Em qualquer dos casos. Pondo de lado as inúmeras provas que Fílon nos fornece29. quanto é certo terem contribuído poderosamente para a difusão do cristianismo. que viveu no século II não cuidou de tal assunto. e que esta se limitou a refutar o cristianismo. que estes Terapeutas eram os cristãos primitivos. 29 Veja-se. existiram muito antes de Cristo e. de Justino mártir. cuja obra foi destruída. mas não no Egito. e o milagre dos demônios arrojados dos possessos para os porcos. segundo Fócio. como autoriza e legitima a hipótese – que no desenvolver deste trabalho será corroborada por outras provas 27 – de que Fílon foi o principal fundador do cristianismo. por conseguinte. em algum ponto da terra. valendo-se para isso dos próprios livros da nova religião.

Clemente, afirma que nele o autor declarara que Logos, o Verbo, nunca encarnara (p. 286, in Ganeval, c. II e III) e, analisando os quatro livros dos Princípios, de Orígenes, mostra-nos que este falava de Cristo segundo a lenda e que, a respeito da encarnação do Salvador, opinava que o mesmo Espírito se encontrava em Moisés, nos profetas e nos apóstolos, o que leva Fócio a declarar escandalizado que neste livro Orígenes escreveu muitas blasfêmias30. A nós só importa constatar que a forma pela qual se exprimem S. Clemente e Orígenes, falando do Verbo, do Cresto e do Salvador, exclui absolutamente a existência de Cristo, pois nenhum deles assim falaria se Cristo tivesse sido um homem real e verdadeiro. E nem nós poderíamos pormenorizar mais, visto que esses livros foram todos destruídos. Ganeval cita ainda os testemunhos de S. Irineu, Papias e S. Justino, o primeiro dos quais afirma que o Deus cristão não é homem nem mulher; o segundo cita fragmentos do antigo Evangelho egípcio, e o último, falando do Logos (Cristo), afirma que é uma emanação de Deus produ30

zida como as projeções dos raios do Sol. Como se vê, as três opiniões concordam em negar a existência de Cristo. E trata-se de santos e teólogos célebres, insuspeitos de aversão contra o cristianismo, do qual foram os principais e mais autorizados propagadores. Cita ainda Ganeval, apoiandose em Fócio, as opiniões de Eunomius, Agápio, Carmim, Eulógio e outros cristãos primitivos, que todos eles formaram do Cresto um conceito que exclui a sua existência material e corpórea. E finalmente lembra o juízo do S. Epifânio acerca das mais antigas seitas heréticas dos Marcinitas, Valentinianos, Gnósticos, Simonianos, Saturnilianos, Basilidianos, Nicolasianos e outros, dos quais deduz que o Deus Redentor dos cristãos é Horus, filho da Trindade egípcia, convertido mais tarde em Serápis. A estas seitas mencionadas por Ganeval, que negavam a existência do Verbo, deve juntar-se especialmente a dos Docetistas, impugnadores da realidade de Cristo, que Salvador31 refuta no livro Jesus Cristo E A Sua Doutrina, citando o quarto Evan31

Fócio, in Ganeval
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Salvador, Jesus Cristo E A Sua Doutrina, livro II, cap. II.

gelho que destaca o golpe de lança que fez manar sangue e água do corpo de Cristo, e que isto provaria a sua realidade. A existência desta seita é particularmente importante, porque no dizer de S. Jerônimo 32, foi contemporânea dos Apóstolos. E, caso não fosse bastante o que já foi dito, tínhamos Cerinto, Cerdon, Taciano, e os Ebionitas, todos eles impugnadores da existência de Cristo, e, sobretudo, Saturnino, que segundo o abade Pluquet, viveu nos tempos e nas paragens onde Cristo realizou os seus milagres, apesar de ter-lhe negado, ele também, um corpo natural. A negação da existência de Cristo por parte dos primeiros heréticos, alguns dos quais viveram no tempo e no lugar onde teriam residido Cristo e os Apóstolos, é prova histórica evidente de que eles nunca existiram. Um testemunho valiosíssimo, apresentado também por Ganeval, é o do imperador Adriano que tendo feito uma viagem a Alexandria no ano 131 declarou que o Deus dos cristãos era Serápis e que os devotos de Serápis eram aqueles a quem chamavam bispos dos cristãos. Sua opinião está de
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acordo com todos os documentos conhecidos daquela época. Época em que não existiam ainda os atuais Evangelhos, em que Tácito nos revela que os hebreus e os egípcios formavam uma única superstição, em que Fílon tinha já escrito sobre o Deus Serápis, de tal fôrma que facilitava a qualquer falsificador cristão o ensejo de fazer crer que se referia a Cristo, e em que havia já falado acerca dos cristãos primitivos – os Terapeutas – segundo a confissão de Eusébio e Epifânio, apresentando-os como muito anteriores a ele, que por sua vez, era anterior a Cristo. Época em que, segundo S. Epifânio e Fócio, muitas seitas cristãs continuavam adorando a Horus como Deus Redentor, Filho da Trindade egípcia. Época em que S. Clemente de Alexandria e Orígenes escreveram negando Jesus e falando de Cristo – nesse tempo Cresto, segundo a lenda – tudo isto por confissão do próprio Fócio33.
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Contra os luciferianos , cap. 8, in Estefânio, Dicionário Filosófico.
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Ganeval cita, entre as provas Históricas contra a existência de Cristo, a linguagem de S. Paulo e daquele apóstolo Apolo chamado também Cresto, que nos Atos dos Apóstolos prega o cristianismo sem ser cristão. Provas graves, sem dúvida, por emanarem dos próprios documentos da fé, e de que falaremos, quando tratarmos da Bíblia.

CAPÍTULO IV JESUS CRISTO NÃO É PESSOA HISTÓRICA

Não só a história permanece muda a respeito da pessoa de Cristo; não só se demonstrou que os autores históricos que dele falam foram nesse ponto falsificados; não só existem provas históricas contra a existência de Cristo, mas até se prova que a História nunca o conheceu, não podendo sequer conservar-nos a sua fisionomia humana. Cristo não é pessoa histórica; é Deus, somente Deus, mais ou menos antropomorfizado. A própria etimologia nos indica: Jesus significa Salvador, Cristo significa Ungido. Na própria Bíblia e no Antigo Testamento, o nome de Messias ou de Cristo aplica-se a certos reis pagãos: a Cyro, segundo Isaías (XLV, 1) e ao rei de Tyro, segundo Ezequiel (XXVIII, 14). Aplica-se, também, a todo o povo e a todos os seus membros, como se vê nos Salmos. Jesus Cristo quer dizer, pois: O que foi ungido Salvador. A própria etimologia demonstra que se não trata de uma pessoa histórica. Em que ano, nasceu Cristo? Difícil e tenebrosa questão!
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Quase todos os que dela têm se ocupado concordam em que o seu nascimento não coincide com a era vulgar. Durante os primeiros seis séculos, depois da sua pretendida existência, um monge, Dionísio o Pequeno, não alude à era cristã, fixando o seu princípio, ou seja o nascimento de Cristo, no ano 753 da fundação de Roma, data julgada errada em pelo menos 6 anos, ainda que este erro não possa ser facilmente demonstrado. E é compreensível: nada é mais difícil de ser demonstrado do que aquilo que não existe. Calvisio e Moestlin contam até 132 variantes e Fabrício cerca de 200. Nada há que demonstre exatamente o dia do seu nascimento. Uns falam em 6 ou 10 de janeiro; outros dizem 19 ou 20 de abril, 20 ou 25 de março, e alguns optam por dias e meses inteiramente diversos. No Oriente celebrou-se o nascimento de 1o a 8 de janeiro e no Ocidente, no dia 6 do mesmo mês. João Crisóstomo, no ano 375, falava em 25 de dezembro como um uso introduzido no Oriente.

Em Roma, fixou-se o nascimento de Cristo em 25 de dezembro. Isto antes do ano 354, segundo se vê num calendário de Bucer, daquela época34. Estas mudanças de datas foram interpretadas no sentido de querer a Igreja colocar o nascimento do novo Deus em relação com os dos Deuses Salvadores e especialmente com o do Deus Invicto, ou seja Mitra, que em Roma se solenizava com grande pompa, espetáculos e luminárias no dia 25 de dezembro, tendo os cristãos conferido ao seu Cristo os atributos místicos daquele deus Sol, cuja ressurreição os pagãos celebravam. Esta hipótese não excluiria a existência de Cristo, mas deporia muito em favor da sua divinização. Não obstante, fica destruída pelo fato de estar em relação com outras tantas datas mitológicas: por exemplo, a festa do achado de Osíris, que tinha lugar a 6 de janeiro (Creuzer, Symbolik und Mithologie). Por aqui se vê que a formação do mito foi laboriosa e longa, pois a Igreja primitiva fez todo o possível para colocar o nascimento de Cristo além do solstício do inverno, a fim de afastar
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Bianchi-Giovini, Crítica do Evangelho, livro II.
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toda a suspeita de um novo mito em nada diferente do dos Deuses Redentores que nasciam somente em 25 de dezembro. E não só se ignora o dia e ano em que Cristo nasceu, como também o lugar onde nasceu. Segundo algumas profecias, deviam ser em Nazaré, e, segundo outras, em Belém, visto que devia descender de Davi. O segundo e o quarto evangelistas nada dizem a tal respeito. O primeiro e o terceiro, se bem que falem dele, todavia contradizemse, visto que um faz de Belém a sua residência habitual, ao passo que o último, só por casualidade, numa narração de viagem inverossímil e impossível, o faz passar por Belém. Além disso, falam do assunto, relacionando-o com as profecias, o que lhes tira todo o interesse e seriedade histórica, convertendo-se em fontes suspeitas pela sua preocupação apologética que os desqualifica perante a crítica. Mas, a História, que não conhece o nascimento de Cristo, nem a data e nem o local, também desconhece em absoluto a sua vida, a sua morte e todas as demais circunstâncias que, segundo os Evangelhos, acompanharam uma e outra. Assim também a famosa de-

Cristo foi alto ou baixo? Barbado ou imberbe? Moreno ou loiro? Feio ou formoso? Ninguém o disse. Santo Agostinho. Caifaz e outros. ao tempo de Vitélio. As disputas 35 Anatole France. Por exemplo: não tomou parte na Política do seu país e do seu tempo.. Então. nem uma única vez foi importunado pela justiça apesar da sua vida de vagabundo. a quem conhecera em Jerusalém quando era procurador na Judeia. Estas duas opiniões foram a origem das diversas imagens de Cristo. Mas. nunca realizou qualquer ato pequeno ou grande. um encontro às margens do golfo de Baia entre Lélio Lâmia. patrício romano exilado por Tibério. não há uma única notícia acerca da sua pessoa física. e com ele a Igreja Latina. desses que todos os Homens fazem durante a vida.. "Pôncio Pilatos franziu as sobrancelhas e levou a mão à fronte como alguém que busca em sua memória. que deviam ter tido relações com Jesus. há mais: Cristo. nem sequer foram notados pelos contemporâneos. apesar de serem acontecimentos de excepcional importância. nem ainda por aqueles que deviam ter sido testemunhas oculares dos mesmos fatos. a morte trágica do Cristo e os terremotos e trevas que a acompanharam que. O silêncio da história sobre tais acontecimentos supõe algum motivo mais grave e significativo que um simples desconhecimento histórico: supõe a invalidação da veracidade dos únicos livros que narram tais coisas. barbado ou imberbe. . a não menos famosa Estrela dos Magos e os próprios Magos. de um modo fixo e positivo. “Pontius Pilatus fronça les sourcils et porta la main à son front comme quelqu'un qui cherche dans sa mémoire. conforme uma profecia de Isaías. porque ninguém nunca o viu. se ele se lembrava de um taumaturgo da Galileia chamado Jesus. Nenhum dos homens históricos. deixou algum vestígio dessas pretendidas 35 relações. após alguns instantes de silêncio. ainda que relatado pelos Evangelhos. murmurou: Jesus? Jesus de Nazaré? Não me recordo” . querem que Jesus tenha sido formoso. Lâmia perguntou a Pôncio.35 Enfim. isto é. après quelques instants de silence: Jésus? murmu-t-il.. jamais. em sua pequena obra prima O Procurador da Judeia. Jésus de Nazareth? Je ne me rappelle pas”.golação dos inocentes. porém. Puis. não levou a cabo ato ou sacrifício algum do culto. dos Evangelhos. como Pilatos.. e Pôncio Pilatos. Tertuliano o descreve como feio. imagina. Hannaz. estando nesse ponto de acordo com a Igreja do Oriente.

e mesmo porque há estátuas e afrescos de Cristo em que ele aparece. Por isso. ou não fizeram mais do que escrever romances. como Renan. . e com razão: Desde que se queira tocar em alguma coisa real na vida de Jesus. e não é pouco. se ninguém o viu. E. os que escreveram sobre a Vida de Jesus fracassaram inteiramente. Estes puderam salvar um fragmento. o escritor Moy. um traço da pessoa histórica de Cristo sem que. Adoradores do Sol. depois do que. que deveria ser um retrato da face de Cristo. até fins do ano 326. pois foi estampado pelo contato direto com o seu rosto. como Strauss e Renan. alguma coisa há de indiscutível é essa do aspecto físico de Jesus. 36 de Cristo. conclui. ou porque os evangelistas não estão de acordo sobre este ponto. que tratou este assunto com muito interesse e consciência. não se encontra mais do que contradição e incoerência. dos Evangelhos que não só não nos fornecem prova alguma da existência histórica de Cristo. isto é. ou se fizeram trabalhos sérios. porém. critério algum de demarcação os fizesse separar o real do fantástico.duraram até ao século XVII. conseguiram salvar o seu nome. Tudo o que se pretende saber 36 Moy. graças ao seu talento e engenho. foi apenas na parte crítica. absolutamente nada se sabe do Cristo Homem por meio da História. representa-o de barba abundante.. O sudário. Se porém. Neste ponto. sempre confirmada pelos monumentos arqueológicos. Para nós. completamente imberbe. e sem perceberem que essa pretendida realidade tinha o mesmo aspecto evangélico de tudo quanto eles reconheceram antes como fantástico. provém das fontes cristãs. prevaleceu o modelo atual de Cristo com cabeleira espessa e barba farta. todavia. ou porque existem outros igualmente autênticos.. não é documento fidedigno. a ausência total de informações precisas sobre sua aparência é uma prova certa de que ninguém jamais o viu36. Apenas um ou dois. Do tudo o que anteriormente se disse deduz-se que nada. claro está que ele nunca existiu. que é a única fonte incontestável em que devemos acreditar. O sudário. como Strauss. Os cristólogos. como até nos confirmam a sua não existência.

2. Poucas coisas são devidamente averiguadas e mesmo aquelas a que de preferência se aferra a ortodoxia – as milagrosas e sobre humanas – nunca aconteceram. recolhamos algumas das conclusões a que chegaram os críticos mais autorizados. mas todo aquele que se ocupar sincera e seriamente deste assunto saberá tão bem como nós que na História. p. Cristo é um personagem ideal... . e logo após a sua morte. 415 e 416. Nouvelle vie de Jésus . o mesmo Strauss dizia: Há quem não o queira ouvir nem acreditar. é tão absurda que hoje nem vale a pena refutá-la37. v. diz: Sócrates é uma pessoa real. como veremos – conclui sua obra colossal sobre a Vida de Jesus: dizendo – Mas esta verossimilhança. das quais uma parte é absolutamente fictícia. p. a outra incerta e somente uma parte mínima verdadeira (e veremos ainda que essa parte mínima não existe) essa pretensão. Ernesto Havet. Nouvelle vie de Jésus . não perderemos mais tempo com os cristólogos e nem com os críticos que. depois de ter dito que tudo pode admitir-se como provável na vida de Cristo – coisa impossível. Antes. franc. que o conheceram e escreveram sobre ele. vizinha da certeza (tão pouco deixou de subsistente. Conhecemos Sócrates por Xenofonte e Platão. dizia.Por conseguinte. pretendem conservar a pessoa histórica de Cristo. em refutar indiretamente o sistema ilógico dos cristólogos. 418 e 419. de prosseguir. cingindo-nos à lógica. pois. que todos os que falaram de Jesus não o conheceram (Havet poderia ter acrescentado que 37 Strauss. confrontando a certeza que se tem da existência de Sócrates com a incerteza da existência de Cristo. O nosso trabalho consistirá. 2. e mesmo esse pouco se reduz a uma verossimilhança vizinha da certeza) não vai até muito longe. franc. embora eliminando uma ou outra parte do Novo Testamento. de Nefftzer e Dolfuss. trad. Strauss. que tentaram a impossível tarefa de escrever a vida de Jesus. Ver-se-á pelo contrário. da história de Jesus.. v. 38 Strauss. entre os atenienses com os quais vivera. e indo até as últimas consequências. A pretensão de que a salvação dos homens de37 pende da fé em coisas. Poucas páginas antes. porém. poucos grandes homens há sobre os quais estejamos tão mal informados como a respeito de Jesus38. na própria Atenas. trad.

38 Miron. que escreveram meio século depois (esta versão é a ortodoxa. 166-168. impossível40 . em sua boca só se põem oráculos. p. Não se fala de seu aspecto nem se indica a sua idade. porém.nem mesmo estes foram conhecidos. A nossa admiração não desapareceria. Sem dúvida que não era casado. Quem sabe se Jesus aparece à nossa vista disfarçado com humanas fraquezas somente porque o vemos de muito longe. tom. Dele só se contam as suas aparições. Le Christianisme et ses origines. os que nos falam de Jesus não o conhecem. ou um sectário hebreu parecido com João Batista? Queremos acreditar que o personagem real oferece em si algum traço do personagem ideal. Enfim. ainda mesmo quando a ciência nada pudesse dizer de certo e chegasse forçosamente às negações. I. através da névoa da lenda? Quem sabe se aparece na história como o único homem irrepreensível só porque faltam os 40 Ernest Havet. Esses não escreveram mais que uma lenda: Jesus é um personagem que não tem história. . Nada se diz acerca dos seus costumes nem dos detalhes da sua vida.. nada conhecemos da vida de Jesus. p. Jésus réduit à sa juste valeur. porém. Miron nos.. dirigindo-se a homens que ainda o conheciam menos. como assegurá-lo ante tantos elementos mitológicos e legendários? Uma vida de Jesus é. recolhendo as tradições correntes na comunidade cristã.). por conseguinte.. Genève. nada garante que os Evangelhos não sejam muito posteriores à data fixada pela tradição) em países que não eram o seu e em língua que não era a sua. mesmo sob a impressão de fantasia do seu romance e depois de reconhecer que há bem pouco o que dizer da vida de Cristo. acrescenta: Jesus foi realmente um homem celestial e original. o próprio autor da Vida de Jesus. diz. Os redato39 res dos Evangelhos e os primeiros autores eclesiásticos.. Numa palavra. o que não tiveram o cuidado de nos fazer saber em termos bem explícitos. Tudo o mais fica envolto em trevas. XIII. trevas que são precisamente a substância das coisas divinas. Renan. não tem biografia. os que os falam de Sócrates são testemunhas. porquanto pertença àqueles que se faziam eunucos para reino dos céus. imaginam-no39. 1864. poderiam adquirir algum fragmento da verdade.

com sinceridade que. neste caso. o celestial não seriam reivindicados com iguais e legítimos direitos pela humanidade? Em geral. se Cristo aparece em nossa cultura. Pelo contrário. porque a massa possui. como claramente ele o deixa compreender. mas pela fantasia da coletividade e do espírito dogmático dos que o criaram42. visto ser um ideal humano a criação e personificação do mesmo. 39 Aqueles que. coletiva. evitando entregar-se a eles. poderia ser. tirando de Cristo a qualidade sobrenatural que nele é tudo. impessoal. inocente e limpo de toda a mancha. . A beleza de Beatriz pertence a Dante e não a Beatriz.meios para o criticar? Ai de mim! Creio. se lhe executamos os funerais. como afirma Havet. o divino. pretendem conservá-lo ainda como pessoa humana. Das palavras de Renan deduzse. pela mesma lógica e pelo mesmo critério. criação humana. outra consequência. fato absolutamente incompreensível. tomo III. De Cristo só se disse bem porque. Quem sabe se. se o tocássemos. não é por obra da Bíblia nem de Cristo. como no caso de Sócrates. se Cristo tivesse existido. o admirável. porém. Se a beleza de Cristo é criação do espírito humano. Nós. que ninguém ainda notou. Quem cria é a massa. salvamo-lo ao menos da crítica humanista fazendo-o subir da terra ao céu. num grau de espontaneidade eminentemente superior. Este ideal. aten42 La liberté de discussion . encontraríamos também a seus pés um pouco do lodo terrestre. como efetivamente é. não se encontra na Bíblia. não só o expõem a um amesquinhamento histórico. assim como a beleza de Jesus e de Maria é obra do cristianismo e não de Jesus e de Maria41. como nas demais criações do espírito humano. Dide. onde deveria estar. além disso. a boa crítica deve desconfiar dos indivíduos. uma criação do espírito humano. também a sua própria pessoa. p. Renan não precisava ter dado mais do que um passo para esclarecer a sua dúvida. os instintos morais da natureza humana. à humanidade e não a Cristo. Mais adiante veremos que Renan foi bem sucedido ao revelar uma intuição admirável: atribuir o tipo do ho41 mem ideal. personificado em Cristo. como o levam a absorver pechas que o tornariam indigno. no seu louvável livro acerca do fim das religiões. mas ideal. não foi pessoa histórica. a beleza de Cristna corresponde ao gênio hindu e não a Cristna. 468-469.

E assim. até encher pelo menos todo um volume. E ao mesmo . o mesmo autor. quer pela evidência que se observa na falta de um fim qualquer biográfico. à priori.. é melhor repetir com Virgílio: ab uno disce onmes – por umas coisas tiramos as outras (Em bom português: Uma coisa pucha outra). A respeito da vida de Jesus. observa que nada mais fica do que um resíduo pequeníssimo. desse modo aos seus leitores esta reflexão: Então. esquecer Labanca. e que depois dessa idade só nos aparece em milagres. 43 Jean Jaurés44. até a idade de trinta anos. mas se obstinam em considerá-lo como homem. quase nada se sabe sobre a vida de Cristo ? Pergunta que também se fez um dos mais notáveis leitores do livro do padre Didon. A tentativa de lançar à historia e arrancar das trevas da teologia uma personalidade que. o líder socialista francês. para escrever a biografia de Jesus. é absolutamente desconhecida. faz ver que este autor ortodoxo. provocando. mais adiante. 122. menos se encontra. falando da Vida de Jesus. o mais arguto e o mais consistente dentre todos os que foram publicados sobre o mesmo tema que. a Vida de Jesus de Strauss.contudo. Labanca.do-se às tentativas de Channing e dos unitários que negam absolutamente todo o caráter sobrenatural a Cristo. se vê constrangido a preencher com hipóteses a enorme lacuna da vida do seu Deus. sem ele não existiria . mas. Não podemos. ora absurdos. adverte Dide. exclama: Mas quem é este Cristo? De que Cristo se trata? Onde se encontra? Sucede com ele o mesmo que com todos os entes legendários: quanto mais se procura. cuja obra – Jesus Cristo – tem o mérito de reunir todos os resultados até agora obtidos pela crítica a propósito deste assunto. p. porém. 45 Labanca queria se colocar entre os que clamaram pelo fracasso da interpretação lógica do mito de Strauss. quer pelas múltiplas questões contra a autenticidade de todos os pontos dos Evangelhos. mas simplesmente de propaganda. E. pode se dizer impossível43. é uma pretensão tão difícil que. 40 Jean Jaurès. L'action socialiste . p. 316. Labanca impugna a possibilidade de uma biografia científica de Jesus. quase reduzido a zero45. poderíamos continuar aduzindo citações da mesma natureza. do padre Didon. é e continua sendo o livro mais completo. ora ridículos. omitindo o sobrenatural.. La fin des religions. 44 Dide.

comete o erro de fazer uso da apologia e da teologia em seu trabalho. o que seria suficiente para explicar o cristianismo sem a pessoa mais ou menos histórica de Cristo. ocupando-se do livro de Harnac. publicou um opúsculo pela Cooperativa Tipográfica Parmense. se alguma coisa resta de Cristo. Entretanto. mesmo na própria Bíblia. T. acrescentamos nós. além dele não dizer nada de essencialmente novo. o que tira a objetividade histórica e racionalista necessárias numa obra séria de crítica. fechemos esta primeira parte. a pessoa de Cristo da sua personalidade preexistente nas profecias. Mas.Breve demonstraremos que nem mesmo esse resíduo pequeníssimo fica. 41 . no qual distingue com perspicácia. e que. tempo. a interpretação mitológica de Strauss será a única parte duradoura de sua obra. Armani. com a confissão dos próprios cristólogos: Cristo não é pessoa histórica46. 46 O último momento da crítica alemã foi marcada pelo livro de Harnack: A Essência do Cristianismo. é a prova de que jamais existiu um homem que se chamasse Jesus Cristo.

“bibbia”.) 42 .Segunda Parte Cristo na Névoa * *(As edições antigas citam “nebbia”. as mais recentes.

Cristo nunca existiu! Para o nosso propósito. não o conhece nem dele fala. dos Evange47 Para uns. que o crucificaram e nele martelam a toda a hora. não porque tenhamos mais talentos. verdadeiros especialistas na matéria! Bastar-nos-á fazer coisa diversa de uma inútil repetição. o despojam dos atributos divinos para o conservarem ao menos como homem – um homem quase divino que justifique o culto que lhe tributa a Humanidade. A lenda tem sempre um fundamento verdadeiro e humano. não é preciso refazer a crítica bíblica nem repetir os profundos e invencíveis argumentos de um Strauss e de toda a rica constelação de teólogos e de sábios. mas ampliada até as proporções de lenda. antes confirma a nossa tese. ele é inteiramente mítico. para o salvarem das ruínas 43 que transtornaram o Olimpo. da Bíblia ou só do Novo Testamento. a lenda foi substituida por uma pessoa mitológica justaposta à pessoa histórica. Iremos mais além do que os críticos que nos precederam. agora. pelo contrário. Para nós. antes que a crítica. mas porque a lógica tem. mas sim de um Deus. Para outros. mas exagerado até ao inverossímil. não descobre a fisionomia de um homem. nada prova a seu favor. O mito. . as suas justas consequências e conclusões a fim de que a verdade triunfe e brilhe. porque a sua existência seria a negação da própria humanidade. que se ocupa de Jesus. Cristo foi pessoa histórica. não tem origem em fatos verdadeiros: é apenas criado pela imaginação humana. demonstrar que o exame. porque a História. Abandonamo-lo aos cuidados dos seus ministros protestantes que. Não nos ocuparemos do Deus: esse abandonamos aos piedosos cuidados dos seus ministros católicos. Vamos demonstrar. lenda e mito são coisas diferentes. Por conseguinte. demonstraremos que Cristo não podia ter existido. a verdadeira. ao sobrenatural. A propósito. que a própria Bíblia. mesmo superficial. se bem que seja pequeníssima a parte do Cristo histórico que quiseram salvar depois de terem destruído a rica cultura mitológica e lendária47. E. única fonte que dele nos fala.CAPÍTULO I A BÍBLIA NÃO TEM VALOR DE PROVA Demonstramos que Cristo não é pessoa histórica.

O seu livro. dos Atos e das Epístolas dos Apóstolos escolheremos apenas o que nos for preciso para demonstrar a inconsistência histórica de Cristo. do princípio ao fim se apoia naquele. Veremos porém que a Bíblia. 1890. em absoluto. Todos os livros do Novo Testamento são anônimos. mas apenas simbólico e teológico48.lhos. a mais racional. Se tal é o resultado da exegese bíblica. sem caráter algum histórico. Por agora. a si própria deve provar. basta saber que o edifício bíblico se fundamenta todo em terreno duvidoso. Não é nosso objetivo recompilar do princípio ao fim tudo quanto a crítica histórica tem estabelecido a respeito da autenticidade dos referidos livros sagrados do cristianismo. Leroux. lógico é que tal consequência se aplique também ao Novo Testamento. A referência mais antiga que temos sobre este ponto é de Papias. as palavras precedidas pelas frases consagradas. pelo que respeita ao An48 Maurice Vernès. 44 tigo Testamento. etc.. a época precisa em que os Evangelhos foram escritos. Les résultats de l'exégèse biblique. basta observar que é tão pouco verídico e autorizado que tornou legítima a hipótese de ter sido alguns século anterior à época assinalada para o aparecimento do cristianismo. que se supunha martirizado no tempo de Marco Aurélio (161 . em geral. pois este. porém. a crítica já demonstrou o Novo Testamento não apresenta os requisitos necessários para autenticar a veracidade do que diz. antes de provar o que nos conta. Deveríamos talvez começar por pesar a autoridade do Novo Testamento. numa antevisão genial e muito convincente assegura que aquilo que os livros do Antigo Testamento narram são. não . Maurice Vernès. segundo Marcos. não só não provam que foram realmente dos Apóstolos ali citados. bispo de Yerápolis. De qualquer dos modos. porque é dentre todas. Estamos convencidos de que a crítica chegará um dia a confirmar esta hipótese. Quanto ao Antigo Testamento. de feitura sacerdotal e profética. Paris. mas até indicam que foram redigidos por outros. para ver qual valor de prova tem a respeito das coisas que narra.180). segundo Mateus. Ignora-se. incerto e vago. Cingindo-nos aos Evangelhos.

quando já Celso no II século se vangloriava de haver refutado o cristianismo. mas sim e apenas. em presença de uma tão grave circunstância. neste ponto. de acordo com a sua hipótese a que Pápias aludiu referindo-se às origens egípcias do cristianismo 45 E como sabemos que as seitas nasceram com o cristianismo. se não a prejudicassem. Quem nos garante. que tais originais tenham existido? Tudo são trevas nos dois primeiros séculos do cristianismo. que demonstram não se referir aos atuais Evangelhos. servindose unicamente dos próprios livros cristãos. a Igreja não teria destruído os livros nos quais se consignavam as controvérsias das seitas primitivas e que tão bom serviço podiam prestar à crítica. a segunda. que datam do III e IV século. cópias dos mesmos e cópias das cópias. as obras abundam e com elas as falsificações mais audaciosas50. pois. conserva-se apenas alguns fragmentos em Irineu e Eusébio. Maury. e que nunca se tiveram à mão os pretendidos originais. . Os testemunhos dos Evangelhos. Jerônimo. emite duas opiniões: a primeira diz que os cristãos primitivos escreveram muito pouco. representaram opiniões contrárias às que mais tarde triunfaram no concílio de Niceia (325) e que. que fé podem eles merecer? O que é indiscutível. convertida em soberanas e despóticas. Em tudo vemos. Veja-se Peyrat na sua História Elementar E Crítica De Jesus. De sorte que os documentos cristãos que prevaleceram em Niceia têm autoridade desde o IV e quando muito desde o III século. por uma deplorável fatalidade. fizeram desaparecer os documentos contrários. desde o século II. que os documentos escritos naquele tempo se perderam. E nós também 49 Seria casualidade? Seria estratégia? Ganeval insiste tratar-se de uma das muitas fraudes habitualmente usadas na formação do cristianismo. é confissão do próprio S. É evidente que. E supõe mais verossímil esta segunda hipótese. é que nenhum dos Evangelhos foi escrito no tempo em que Jesus Cristo viveu. é lógico supor-se que todas aquelas que andaram errantes até se perderem. e que. que todas elas se esforçavam para que prevalecessem os seus respectivos pontos de vista.chegou até nós49 De seu testemunho relativo a Marcos e a Mateus. 50 Não é injúria que se faz.

incerteza nos originais. No Novo Testamento achamse mesmo passagens que se referem a lendas contidas unicamente nos referidos Evangelhos apócrifos. Isto nos explica. seleção ao acaso e falta de critério na pretensa autenticidade conferida pela Igreja aos Evangelhos atu46 ais – eis aí ao que se reduz a autoridade do Novo Testamento! Como se tudo isto fosse pouco. que S. Ad Damas. . e especialmente à falsificação das diversas seitas. In Evang. que bastariam para lhes tirar toda a autoridade. as numerosas alterações a que estiveram sujeitos os Evangelhos atuais. Mas. Entre elas. Temos. a Igreja e os próprios Santos Padres serviam-se indiferentemente dos Evangelhos. como diz Baur. que mais tarde foram declarados apócrifos. em luta contínua entre si. E mais ainda. porque quatro eram as regiões do mundo e quatro os ventos. Jerônimo temia passar por falsário ao constituirse em árbitro para escolher entre a profusão de tantos e tão diversos exemplares dispersos pelo mundo. Os Evangelhos atuais não foram escolhidos pela Igreja com critério que revelasse maior autoridade nesses que em outros muitos Evangelhos que então andavam em voga: destes foram escolhidos quatro ao acaso. diz Santo Irineu.51 Juntemos ainda a demonstração feita já pela crítica. Antes do concílio de Niceia. E não é tudo. a diversidade dos exemplares sobre os quais se fez a tradução do Novo Testamento em língua latina – diversidade tão grande e tão grave.o anonimato e a falta de certeza. há mais. E declarava ter-se visto obrigado a acrescentar. O último argumento contra a validade dos livros do Novo Tes51 Praef. trocar e corrigir. principais características dos livros do Novo Testamento. por outro lado. devido à inépcia dos copistas. Resumindo: anonimato. outras circunstâncias a diminuem ainda mais. a manifesta contradição das doutrinas englobadas no Novo Testamento. porque era igual a autoridade de todos. relativa à falta específica de autenticidade em não poucas partes do Novo Testamento. A Igreja conservou muitas lendas que se encontram apenas nos Evangelhos apócrifos.

ao menos porque representam tradições dos tempos em que foram produzidos. acaso. contudo opina que a crítica os deve ter em conta. tratando-se de coisa sobrenatural. pela dúvida. E. para não falar nos seus erros. Observamos. na questão que debatemos é preciso ir até ao fundo. até a negação de tudo quanto afirmam e impõem como divino. para não dizer da impostura sacerdotal. apesar de a Igreja ter declarado que foram inspirados. Em tais circunstâncias. pelo Espírito Santo! Isto posto. em parte alguma deles surge a menor prova.tamento está no fato das irreparáveis contradições e das discordâncias numerosíssimas que ainda hoje contém. este não é mais que um dos muitos argumentos que concorrem em favor da nossa tese e. quem não verá que tudo quanto ali se conta é filho da imaginação. em nossos dias. um único documento que apoie ou venha em auxílio dessas narrações evangélicas. parece lógico que concorram provas pelo menos tão certas autênticas como as que acompanham os fatos comuns. pelo que a nós se refere. os Evangelhos são um milagre contínuo. Além disso. enquanto declara que os escritos revelados não podem fazer fé na história. tais como os Evangelhos. ao passo que estes livros do Novo Testamento nada demonstram do que afirmam. na sua imoralidade e absurda puerilidade. não já a autenticidade. e que nada. tanto na ordem física. Porém. assim como na crítica normal poderia optar-se pelo partido mais sensato. que em primeiro lugar. e. não obcecada pela fé. admitir. explicar com verdadeiro critério os primeiros rudimentos da origem da nossa idade. mas ao menos a veracidade e seriedade do Novo Testamento como argumento de prova acerca do que ele narra? Stefanoni. livros que. absolutamente nada. pode salvar-se do que por tantos séculos nos impuseram por modo extraordinário e sem autoridade alguma? . são destituídos do todo o fundamento. uma pessoa séria. nem esta pode. que nos achamos em face de uma 47 matéria tão excepcional que. sobre a base de tais livros não se pode reconstituir a vida nem a doutrina de Jesus sem se escreva um romance. pode. porém admite que. palavra por palavra. em segundo lugar. nada disso acontece e. isto é. como na ordem moral. na história profana não ha um único sinal.

reforçada 48 com a autoridade de Santo Agostinho. Em todo o caso. 52 Citação da Peyrat. porém. 1864. a crítica deve. Aqui. do que neles se conta. o certo e indiscutível é que a Bíblia. por mínima que seja. . 70. ter muita cautela no aceitar qualquer parte. mais do que em nenhum outro campo. Levy Frères. História E Crítica Elementar De Jesus. 3a edição. faz esta confissão capital: Não acreditaria nos Evangelhos se a isso não me visse obrigado pela autoridade da Igreja52. por não terem chegado à conclusão a que nós chegamos: o preconceito duas vezes milenar que tem maltratado nossas mentes. para legitimar a conclusão da não existência de Cristo.Não censuremos os críticos positivos e os autores que nos precederam e nos desbravaram o terreno. Esta afirmação está. Portanto. discutindo com Os Maniqueus. de resto. Não devemos. se o fato de serem clandestinos os livros do Novo Testamento não pode bastar. que. Paris. por si só. em lugar de servir de prova do que relata. comprova-se que natura non facit saltus (a natureza não dá saltos). pag. dada a natureza teológica e sobrenatural dos referidos livros. arrastando-as para esse erro com tal força inercial que nem os mais destemidos puderam se libertar dele de um só golpe. negar à critica o direito de chegar a conclusões que não são mais do que consequências necessárias das próprias premissas. tem necessidade de comprovar-se a si própria.

deduzindo-se daí que a concepção de Cristo. 49 de salvar a divindade de Cristo. tudo são milagres. O protestantismo liberal e o racionalismo espiritualista viram a tempo o perigo da crítica naturalista. de João. se viu ser de mau gosto.CAPÍTULO II JESUS CRISTO É PESSOA ABSOLUTAMENTE SOBRENATURAL Os milagres de Cristo – eis a pedra de toque de todos os teólogos. chamados sinópticos. 1878. caídos os milagres. pois que. admitindo que Cristo haja realmente . e o quarto. De modo que se chegou a supor tal Evangelho como uma tentativa feita. caída estava toda a concepção divina de Cristo. desde logo. corta fundo na questão dos milagres. os teólogos e críticos. se foi pessoa humana. da crítica dos pagãos. agarrandose aos três primeiros para salvarem ao menos o homem. Assim. contanto que não sejam fenômenos psicológicos. muito tempo depois dos três primeiros. Esta tentativa não é mais do que uma concessão que. segundo o quarto Evangelho. começaram a fazer distinção entre os três primeiros Evangelhos. divindade comprometida com as incongruências dos Evangelhos Sinópticos em certas passagens em que o elemento humano sobrepuja o divino. é puramente metafísica. visto serem os milagres a única prova da sua existência. a ponto de o não conhecermos senão através do milagre. Salvar a Cristo como homem é o mesmo que salvar o cristianismo. pois que se encaminha a um fim mais teológico do que à primeira vista parecia. na vida de Jesus. Eis como se explica a tentativa de despojar Cristo da divindade e dos milagres para poder salvá-lo como homem. como se explicam esses milagres? Ainda que hoje os milagres. Dumolard. a fim 53 Gaetano Negri. e a maior parte dos de Cristo não o são nem podem sê-lo. Se Cristo existiu realmente. abandonaram à crítica o quarto Evangelho. especialmente os da sábia Alemanha. Dizem que este último fala de Cristo. A este respeito. viram que. com sua pena magistral. como Platão falou do Logos. isto é. Veja sua Crise Religiosa. se negam facilmente53. Ora. Milão. pp 77-83. como disse Hartman.

Mas salvar o homem. Para Renan. um homem tão elevado que até do céu abre as suas portas à humanidade ? Com as concepções dos teólogos. que importa que seja a consequência direta de Deus.existido. segundo Renan. Em cada passagem do seu romance. e ainda que ele tenha fugido da teologia. “Fazer do Cristo um sábio. Cristo não é já o Deus que desce à terra para se fazer homem. no fundo não faz mais do que prolongar a vida do cristianismo. em todos os aspectos um homem extraordinário? Lançado o divino pela porta afora. era salvar cristianismo. Cristo-Deus não podia viver nem reinar nesta idade positiva. mas simplesmente um homem que da terra sobe ao céu para se endeusar. quer subindo da terra ao céu . Um salvaria o outro. em vez da excomunhão e do vitupério dos crentes. As suas próprias palavras . De sorte que. merecia ser colocado entre os Padres da Igreja. ei-lo que entraria renovado pela janela a fim de envolver com a sua auréola a loira cabeça tradicional do Nazareno. o cristianismo deve proceder dele. era manter o culto da humanidade pelo Cristo. E esta seria a prova do cristianismo. quer descendo do céu à terra. como cristianismo seria a prova de Cristo. à maneira de uma encarnação. alcança o ideal da humanidade. que é um verdadeiro romance. Assim o compreendeu Renan que. aparece esta metamorfose do homem em Deus. e um homem de tal natureza.chamado por Deus indicam claramente. de uma grandeza sobre-humana. O sobrenatural e divino. no seu sentimentalismo místico e transcendental pôs a Bíblia à prova para dela arrancar uma biografia fantástica de Jesus. ou que seja um enviado extraordinário de Deus. restituindo Cristo à humanidade. fazendo dele um 50 personagem real e histórico. que na Bíblia rodeia Jesus em meio dos milagres e que atualmente se reduzem a nada assim como Cristo e o Cristianismo. foram restituídos a Cristo pelo grande professor da Sourbonne. Na verdade. era personalizar a adoração da Humanidade por um homem ideal. Se Cristo. a não ser que fosse. que homem poderia criar toda uma nova civilização. fora de todas as proporções que . mas Renan fez mais e melhor que todos eles: tentou salvar Cristo como homem.

Creio que o teria pensado de antemão. de algum modo. segundo a expressão do seu amigo Berthelot. . conservando só a moral cristã. 51 siderando-o um simples simbolismo. Teria podido conservar as suas cerimônias. apresentando-se. Renan apresentava a fórmula conveniente. é impossível concluir pela não revelação. Para esta inteligente transformação. substituir um milagre por outro?54” Camilie Mauclair. nem de urna negação pública da revelação que equivalesse a uma bancarrota. Mas. no mundo. para não andar mais em choque constantes com o espírito científico. com a sua fina inteligência. Não considero a Vida de Jesus. Qual era o serviço que Renan pretendia prestar à Igreja Católica? Convencê-la de que devia abandonar o dogma divino. esse serviço não foi agradecido ao escritor. astuta e insinuante. como quem lhes não desse senão o mero valor histórico e alegórico. e separar os Testamentos. e portanto. Certamente. é certo.a história fornece. de resto. e só pela estupidez crassa da mesma Igreja. 100. a ciência. que permitiria a Igreja o esquivar-se a um conflito direto com. o intento do escritor? Destruir o dogma. que confirma a nossa tese: “Renan intentou prestar à Igreja um serviço capital. Creio mesmo que não é grande coisa. Tratava-se apenas de uma transformação hábil. pag. Não se tratava de um suicídio da Igreja. con54 Vacherot. com um sorriso significativo. uma obra perfeita. Toda a vida deplorou que não o quisessem compreender. escrevia o seguinte. A Religião. não será isso. Renan esperava que a Igreja aceitasse esta solução elegante do problema de antinomia entre a ciência e a Fé. infinitamente diplomático entre o dogma e a crítica. em uma correspondência de Paris para o jornal italiano Avanti. Se a Igreja a tivesse o aceito. como sendo a depositária de uma moral de justiça. seja corno for. que ele considerava a melhor e a mais conforme com a evolução social de um século em que a ciência. pela não divindade de um homem sublime. Qual foi. em 7 de setembro de 1903. teria adquirido uma força enorme. aspira à direção material e moral da sociedade. mas conservar a moral evangélica. de Renan. Estava embebido do catolicismo e era um conciliador.

e este foi um erro fatal. Ao escrever A Vida de Jesus Renan devolveulhe a vida e o fez descer uma segunda vez sobre terra . assim. que pretendeu seguir o mesmo caminho. O vetusto poeta soube polir a velha imagem do Nazareno. Vil-liers de l'Isle-Adam. nem com a verdade histórica.. quando arroja o lastro da nacela para que esta não caia e o arraste em sua queda. No seu empenho de repelir todos os escritores que podiam servi-la com fé e engenhosidade como Lammenais. Barbey d'Eurevilly e Verlaine. escurecida e manchada por dezoito séculos de ignorância. A Vida de Jesus colocava-a em um dilema difícil.. Gustave Tery. Perdeu. desembaraçando o catolicismo de toda o estorvo judaico do Antigo Testamento e de toda a insustentável metafísica dos livros sagrados.. a Igreja politiqueira não compreendeu a ocasião que Renan lhe oferecia. Ernesto Hello. E. E num lance genial. erros e mentiras. disse o seguinte: Para dizer a verdade.. das fórmulas e teologia. não faz obra de destruição. Ele lavou Jesus das injúrias e sujeiras católicas. Só que esses salvadores do Cristo Homem não estão de acordo com a lógica. E. se a Igreja não tivesse cometido a imprudência de protestar com uma indignação ultrajante. a Igreja repeliu também Renan. assim. além de livrá-la dos ritos e catecismos. mas sim de conservação religiosa.Teria podido aceitar a ciência e ficar com a moral publica. a piedosa exegese de Renan poderia servir prodigiosamente aos interesses do cristianismo. depois de citar várias passagens de Renan nas quais ele demonstra sua 52 grande veneração por Jesus. O protestantismo liberal. em urna escabrosa encruzilhada: a Igreja negou-se a caminhar pela senda do futuro encerrando-se no dogmatismo. Faz o mesmo que o aeronauta. . A Igreja inimiga de Cristo. fez o homem sem diminui-lo. no Ação. de quem os modernos anarquistas se dizem continuadores. se se tivesse admitido realmente o seu martírio de homem. de 6 de agosto de 1903. uma vez que já o tinha engrandecido como ente sobrenatural. o último ensejo que teve de se modernizar. que grandeza para a moral de Cristo. Preferiu as banais imagens policrômicas às obras primas da arte religiosa.

partindo do conceito de que. Esta continha em gérmen todo o destino e a contradição que lhe pressagiava o resultado negativo. porém. ao deixar escapar da sua escrita estas palavras.Não estão com a lógica porque. nem pela crítica moderna55. Procurou eliminar todo o sobrenatural da vida de Jesus. se os antigos encontraram digno do homem não considerar como estranho à humanidade tudo quanto é humano. vê-se obrigado a reconhecer que. não contrários. como justamente observa Vacherot. Ela era a ratoeira em que a teologia do nosso tempo tinha necessariamente de cair e perder-se56. porque o Cristo da Bíblia. considerando-os como mitos justapostos. Ain56 Obr. à pessoa histórica de Cristo.cit. 4.. é a supressão da personalidade histórica de Cristo e de tudo quanto dele se conhece. e nós acrescentaremos o racionalismo espiritualista. p. irremediavelmente condenados pela ciência. Esta fatalidade da teologia devida. porém. para conservar. é uma pessoa inteiramente sobrenatural. sem disso dar conta.Sob este ponto de vista. pode se dizer que a ideia de uma Vida ou de uma Biografia de Jesus foi a fatalidade de toda a teologia moderna. limitando-se simplesmente a eliminá-los da parte histórica. não o salvou da contradição e do resultado negativo. como o próprio Strauss confessa.. tom. 382-383. a ultima fórmula à qual se agarrou o protestantismo liberal. sacrificando o Cristo dogmático para salvar o Cristo histórico. porque é a única que não pode ser demonstrada nem pela filosofia. 53 Op. a divisa dos modernos deve ser eliminar como estranho tudo o que não é humano e natural. à preocupação de salvar o cristianismo. à qual ele mesmo se mostrou obediente. Não estão de acordo com a verdade histórica. . que dizem mais do que um livro inteiro: . era faltar abertamente à logica e à verdade histórica. como vimos. cit. O próprio Strauss. I. este à humanidade e à história. a intrusão do princípio sobrenatural e a concepção dogmática do Cristo tornam impossível uma biografia de Jesus. Isto. pp. 55 Não repetiu o erro de quebrar a cabeça e violentar o bom senso para explicar racionalmente os milagres de Cristo. o maior dos críticos desta escola. de toda a Bíblia.

pois o concebeu de modo . a sua própria pessoa. a um determinado Redentor. mas também pela sua mesma essência. Além disso. Cristo é sobrenatural. quando não das imposturas sacerdotais. Assim como Cristo. portanto. não já por seus milagres. onde o elemento antropomorfo é mais engenhoso. tanto nos sinópticos corno em João. A única diferença entre os Evangelhos sinópticos e o de João está em que a concepção de Cristo nos três primeiros é uma cópia mais genuína dos Deuses Redentores das religiões orientais. torna-se insustentável. E. pag. os persas de Mitra. tudo é sobrenatural: milagres e potência milagrosa.da que a única base para falar de Cristo esteja nos Evangelhos e estes. quem quer raciocinar sem preconceitos e de boa fé vê-se obrigado a reconhecer que os Evangelhos só nos mostram Cristo pelo sobrenatural. um Redentor. em Cristo. Se nos si57 Mirou. Jesus Reduzido Ao Seu Justo Valor. além de serem uma base suspeita por emanarem da fé. A pessoa de Cristo. enquanto que o quarto Evangelho se ressente da influência dogmática e metafísica do helenismo. nos representam Cristo apenas como pessoa sobrenatural. Há sempre. do que deve ser tomado no sentido figurado? O real. fora da Humanidade. Os Evangelhos sinópticos e o quarto Evangelho não são de natureza diferente senão no seu grau maior ou menor. se vão despojar parte do Evangelho do seu caráter histórico para o converter em puro mito. antes do neoplatonismo alexandrino. também Maria. e o livro perde todo o seu valor histórico 57 porque. os egípcios de Horus e mais tarde de Serápis. é a mesma que nos dão os livros hindus sagrados falando de Cristna e de Buda. em todos eles. Mas. 54 nópticos está mais afirmado o elemento humano de Cristo. nos primeiros. este elemento não é menos fabuloso do que os seus milagres porque não se referem a um homem determinado mas ao Redentor. 233. nesse caso. porque não aplicar e estender então o mesmo critério à interpretação de todo o livro? Como distinguir o que deve se tomar ao pé da letra. a sua missão e ainda a natureza e o propósito dos livros que dele falam. sua mãe é sobrenatural e está.

assim como não podia morrer. mais antropomorfo nos sinópticos. Em todos os Evangelhos. Todas as suas palavras tinham já sido escritas antes dele as pronunciar. Estes não só se não prestam à biografia. Nasce por milagre e morre para poder realizar o último milagre. A virgindade de Maria não é tão estranha ao cristianismo como a sua concepção milagrosa. Todos os seus feitos são dogmáticos. que não é próprio dele mas de todos os Deuses Redentores. sem eliminar os próprios Evangelhos. Assim. As outras virgens. e não de outra maneira. assim é. os autos de fé. Não podemos explicar humanamente o sobrenatural dos Evangelhos. nem eliminá-lo. Maria é a mãe de um Deus. o sobrenaturalismo do Cristo. para reduzir à sua mais ínfima expressão a parte que contém os elementos humanos e biográficos. Cristo não é uma pessoa individual. falam de Jesus os Evangelhos. Têm querido ver nos dogmas. por sua vez. como reconhece Strauss. Não é licito escolher dos Evangelhos apenas a parte milagrosa. tinham-na já precedido e prefigurado. Todos os Evangelhos dão a conhecer um Cristo. apenas.não fez mais do que desenvolver logicamente o Cristianismo. é uma encarnação divina. 55 Não! Em Cristo nada há de humano. Limitar-nos-emos. E de fato. O catolicismo . e esse Cristo é um Deus.dizemos de uma vez para sempre . O sobrenaturalismo de Maria confirma. que cerca a divina pessoa de Cristo. portanto. menos antropomorfo em João. a reconhecer a existência deste so- . o próprio Cristo e até o cristianismo. por obra de um homem. excetuando o seu antropomorfismo. Veio ao mundo para salvar os homens: a sua missão é sobrenatural. e a mãe de um Deus não pode ser manchada com as fraquezas da natureza humana. inclusos.milagroso e o deu à luz. mães dos Deuses Redentores. ficando sempre virgem. mas nem sequer à eliminação do elemento sobrenatural. coisa não menos impossível. claro está. relativos à mariolatria. mas ele próprio é um milagre. ressuscitando. Cristo não só faz milagres. coisa absolutamente impossível. superstições católicas. ficar grávida de Cristo. Não podia.

porém. Faremos alguma coisa mais do que até agora se tem feito:demonstraremos que nada de humano se pode referir a Cristo. Não nos ocuparemos. claro está que não é. nem pode ser homem. a própria Bíblia na mão. é pessoa absolutamente sobrenatural. dos seus milagres. 56 . nem sequer para os enviar à mitologia. Isto basta para a nossa tese. E ao céu o restituímos. pois. não foi. Se Cristo.brenatural. se é Deus. E demonstrá-lo-emos com. Cristo pertence ao céu. inseparável da pessoa do Redentor. evidentemente.

II. 3). esta Bíblia. é para que se cumpram as profecias. (Mat. pode pretender fazer-nos crer que Jesus tenha existido como homem. com uma ingenuidade extremamente infantil que Cristo fez isto porque tal profeta o predisse. Se volta à Galileia e vive em Nazaré. nem mais nem menos que os demais homens? De nenhum modo! A vida. II. Cristo fez aquilo para que 57 se cumprisse a Escritura. III. II. que não estejam em relação com a Escritura. julgando que Cristo realmente existiu. Os Evangelhos dizem-nos que tal acontecimento teve lugar em virtude das palavras do profeta (Mat.CAPÍTULO III A PRÓPRIA BÍBLIA FALA DE CRISTO APENAS SIMBOLICAMENTE O que deveria ter aberto os olhosaos mais precavidos. o pensamento. 23). é porque as Escrituras o haviam predito. II. a doutrina de Cristo. (Mat. 22). é porque se cumprem as palavras do profeta: Chamei meu filho para o Egito. e se Jesus vence a tentação. Do mesmo modo. De maneira que as próprias palavras dos Evangelhos o dizem. é a linguagem que emprega a Bíblia. é porque o profeta Isaías o havia predito. o diálogo entre Satanás e Cristo se funda nas próprias palavras dos livros do . Se nasce em Belém. Se o diabo o tenta. Se foge para o Egito. a ação. que é o único livro que fala de Cristo. Se Jesus encontra em seu caminho a João Batista. nem um dito. previstos pelo Antigo Testamento e pregados pela lei antiga. I. A Bíblia. Nem um gesto. A começar pelo seu nascimento milagroso. 17). não existem sequer nos Evangelhos. a não ser enquanto são preditos pelos profetas. nem um fato de Cristo se narra nos Evangelhos. 5). Se Herodes ordena a degolação dos inocentes. segundo as quais devia chamar-se Nazareno: (Mat. 14). a palavra. é porque está também escrito pelo profeta (Mat. falando do seu protagonista. durante vinte séculos. é para que se cumpram as palavras do profeta Jeremias (Mat. e demonstrar a todo o mundo a enorme mistificação de que a humanidade tem sido vítima.

Se Jesus vai a Cafarnaum. é para que se cumpra a . 17). segundo a qual seria confundido com os malfeitores (Luc. 9). XXVI. recusa-se a que o defendam. 40). Se manda comprar uma espada. XI. 10. cumpre-se a profecia de Isaías (Mat. 46) . XXVII. XXII. nos Profetas e nos Salmos sejam cumpridas.Antigo Testamento (Mat. fá-lo para cumprir o que lhe. 14) . IV. é para que se cumpra também a profecia. XXI. 54). VII. Se manda buscar um jumento e um jumentinho. 4). E acrescenta: Como também era mister que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos ao terceiro dia. 14). Jesus diz que não foi preso pelas multidões quando se sentava junto delas para ensinar no templo. Se Judas o atraiçoa e recebe em paga trinta dinheiros. XIII. XII. (Luc. os soldados dividem a túnica. Se cura os endemoninhados. IV. XII. di58 zendo: Como poderiam cumprirse as Escrituras. 44. Jesus demonstra que tudo o que lhe sucede é por que convém que todas as coisas escritas acerca dele na lei de Moisés. Se prega que não façamos aos outros o que não queremos que nos façam . Até na Cruz. Se. Se tem de permanecer sepultado três dias. é para que se cumpra o que disse o profeta (Mat. 17). se Jesus pede de beber. é para dizer que é aquele de quem está escrito: É Elias que devia vir (Mat. diz o profeta (Mat. Se fala em forma de parábolas para não ser compreendido. XXIV. é para cumprir uma profecia de Isaías (Mat. Quando Jesus está a ponto de ser preso no horto de Getsemani. a fim de se cumprirem as Escrituras (Mat. 35). isso sucede em cumprimento do que predissera o profeta (Mat. após crucificado. é porque assim esta escrito na lei e nos profetas (Mat. I10). é em cumprimento do que lhe diz o profeta Isaías (Mat. que dizem ser conveniente que assim suceda? (Mat. 14). cumpre-se o que predisse o profeta Isaías (Mat. Se cura as multidões e lhes proíbe que o divulguem. 12). 37). XXVI. Cingindo-nos aos seus Apóstolos. XXVII. IV. Se fala de João Batista. é porque Jonas esteve três dias no ventre da baleia (Mat. 56). 36.

e a questão das profecias será humanamente insolúvel. ainda mesmo que os Evangelhos o não digam explicitamente. disse João. inclinou a cabeça e entregou o espírito (João. E só então. 32 – 37). 30). que não são os únicos em que os Evangelhos obrigam a fazer e dizer a Cristo apenas o que estava escrito no Antigo Testamento. quando viu que nele se tinha realizado a Escritura. e se lhe abrem o peito com a lança. claramente. disse: Tudo se cumpriu. E basta de exemplos. Despojai Cristo da sua realidade histórica. ou Cristo foi inventado para o relacionarem com as profecias. a de que Cristo foi inventado para a realização em si das profecias. E. apenas quisemos deduzir da linguagem dos Evangelistas a confissão de uma circunstância capitalíssima: Cristo não disse nem foi ele próprio mais do que aquilo mesmo que Escritura ordenou que fosse e que fizesse. XIX. 27) . Enfim. Mais adiante. Estando a primeira hipótese desmentida pela história e pela circunstância indeclinável de que. bebido que foi o vinagre. Não nos dirá nada esta cir59 cunstância essencialíssima ? Não significará isto. e ainda que não citem as respectivas passagens do Antigo Testamento. hipó- . as profecias e a sua realização não tivessem deixado nada a desejar. e que não veio ao mundo e não procedeu senão para executar o plano teológico preconcebido no Antigo Testamento. demonstraremos que tudo é símbolo em Cristo. resta-nos somente a segunda. Neste ponto da nossa obra. tendo-o inventado os Evangelhos para cumprimento das Escrituras? Pode-se volver e revolver a questão. XIX.Escritura (João. se não lhe quebram as pernas na mesma cruz. minuciosamente e a distância como devia ter ocorrido com Cristo. XIX. é. Pois bem: como hoje é simplesmente absurdo pensar que possam existir profetas e profecias e que possam realizar-se ponto por ponto. em tal caso. em cumprimento da Escritura (João. e tereis explicada a questão das profecias: deixai-a subsistente. que Cristo nunca existiu. mas a única conclusão plausível a que se chega é a que nós acabamos de indicar. havemos de concluir que: ou as profecias foram inventadas.

porque nos fornece a chave para explicar o fato de tantas profecias serem sofísticas a fim de poderem aplicar-se a Jesus. e que. porque demonstra que a causa de tantas discordâncias e de tantos contrassensos se fundamenta no 60 fato dos evangelistas. que tivessem acreditado que as referidas profecias. como aconteceu com Larroque. quer dizer. tiveram de submeter os seus neurônios a verdadeiras torturas. Os positivistas e os racionalistas. pois não estavam devidamente relacionadas para se conciliarem numa só pessoa. como aconteceu com Míron. explicando complicadamente uma parte do problema sob o ponto de vista da concepção simbólica e dogmática. esbarravam ainda com o insuperável obstáculo de explicar esse Jesus-Homem. ou de realizar um tours de force. Strauss e Havet. A mesma hipótese explica o fato. existiram e foram tal qual eles pensavam. Não se atrevendo a saltar o . ou ainda de serem ilógicos. preocupados em escrever acerca de um Cristo imaginário. das faltas e inexatidões de não poucas profecias.tese que resolve toda a dificuldade inerente a tal assunto. para justificar o seu trabalho de adaptação a Cristo de tão decantadas profecias. sem o concurso das causas sobrenaturais que negavam. a sua vida tivesse sido profetizada por homens inspirados pela vontade divina. descuidando de adaptá-lo à circunstância da narração e do meio ambiente. portanto. Ante este problema tão heterogêneo. mas. estudarem somente a forma de o pôr em harmonia com as exigências dogmáticas do assunto. como aconteceu com Salvador. não podendo aceitar a pretensão teológica de que Cristo fosse Deus. não chegando a negar a existência humana de Cristo. Fora disso. imaginárias ou exatas. ou antes fossem alteradas depois. Esta solução elimina também radicalmente uma série de outros absurdos encontrados na Bíblia. devido a este plano armado para aplicar Cristo às profecias. cuja realização os Evangelhos anunciaram pois pode acontecer que existissem ao princípio e logo fossem extraviadas nas numerosas vicissitudes da Bíblia. e abandonando a outra ao caos em que se envolveu a pessoa humana de Cristo. bastaria que houvesse sido essa a crença dos evangelistas. que tantos trabalhos custou aos críticos.

61 se esquecer. caíram nos contrassensos da própria Bíblia ao passar da teologia para o naturalismo. depois da passagem citada. c.fosso. enquanto que esta formava. Já vimos contra que obstáculos vão bater este lugar comum. para proceder assim. IV. os quais ele procurava com ardor. porque nem os seus dogmas nem a sua moral são frutos da sua inspiração. de que.. o seu princípio e o seu fim confessados. Salvador combate a opinião dos filósofos. Cristo deveria ter vivido com o Antigo Testamento na mão. I. seria preciso que a sua morte fosse unia consequência involuntário e quase acidental dos seus esforços. a não ser pela morte que desejava. mas também a circunstância da sua adaptação às profecias começar com o seu nascimento e não acabar senão com a sua morte. Fica excluído completamente neste caso. pelo contrário. terminando no lugar comum de que a vontade de morrer. nada ficaria de Cristo. o que nunca deverá 58 Vita di Gesù . já por outros notado. qualquer fenômeno de autossugestão. vol. 59 Id. XXV. vol. it. I. Milano. 60 Id. para que esta opinião fosse fundada. trad. em um interesse dogmático e místico. 1863. Por exemplo: Renan vê nas profecias de Isaías um raio do olhar de Jesus58 e pensa que este se julgava o espelho no qual todo o espírito profético de Israel tinha lido o futuro59. vol. dizendo que. provinha de uma ordem de convicções e de um entusiasmo conforme com as ideias da sua época e com a interpretação oriental dos livros sagrados dos hebreus.. di De Boni. Só em um ponto adverte que nas últimas palavras de Jesus se nota a intenção de manifestar claramente o cumprimento das profecias60. Mas permanece de pé a preciosa confissão de Salvador. XVI. . c. e onde diz que. Nem vale a pena discutir a hipótese de que Cristo acomodasse a sua própria vida às prédicas e se exaltasse a ponto de realizar o profetismo hebraico.. que segue imediatamente. firme em Cristo. c. IV. Salvador esteve aqui verdadeiramente inspirado e poderia ter conhecido toda a verdade se não perdesse o caminho que seguia. tanto mais que se trata de uma vida em absoluto milagrosa. que fazem de Cristo um reformador religioso e social. Daelli. Não só concorre contra semelhante hipótese o fato.

(in Vacherot. Flammarion. Assim o compreendeu Scherer sem que por isso chegasse à consequência lógica que o fato supõe. não veio ao mundo senão para cumprir as profecias. Por isso.Não há termo médio: ou aceitamos a revelação. La Religion ). este já não seria o Messias que os crentes pretendem. 1902 . A vida de Jesus e as aventuras dos Apóstolos desenrolam-se como se fossem uma cena teatral. a razão de ser histórica de Jesus61. executam este ou aquele ato. p. e. não podemos deixar de reconhecer que o sistema narrativo dos escritores apostólicos exclui todo o interesse e toda a emoção. Quando lemos com imparcial atenção o Novo Testamento. agitando-se. e então é Deus. Esta está no seu papel. que a chave da vida de Jesus é o cumprimento das profecias messiânicas. ainda que não chegue a consequências lógicas . quando escreve que Jesus nem é um filósofo. em conjunto. temos de escolher.torna o mesmo Jesus e os seus apóstolos indiferentes á Humanidade. ou não é 62 A. Dide. sofrendo. O sobrenatural já nos não preocupa. Realmente. é porque era preciso que se cumprisse esta ou aquela profecia62. em uma personificação mais ou menos completa daquelas. Hoje não precisamos mais negar que o Antigo Testamento revela o Cristo. 370. definitivamente: Ou Cristo existiu. nem o fundador de uma nova religião. 61 Mélanges d'histoire religieuse. pensando. em virtude desta afirmativa. por não corresponder exatamente aos vaticínios. Paris. antecipadamente. mas sim o Messias. 99 e seg. La fin des religions.assim o diz Dide. esta maneira de ser de Jesus . com exata ponderação dos textos. Se Cristo e os seus realizam isto ou aquilo. 62 Este testemunho da missão de Cristo com relação às profecias é a própria razão de ser de Cristo pois. previsto e indicado. ou repelimos a natureza humana do Cristo. o qual se converte. isto é. La vie de Jésus. pp. portanto. caso contrário. equivale a dizer que Cristo veio ao mundo apenas como um símbolo. como isto não é uma ação humana. Cristo. e que esta ideia messiânica é o centro dos fatos evangélicos. Não é a Humanidade vivendo. quando diz que as profecias provam a existência de Cristo. que Cristo nunca existiu. entregando-o inteiramente à teologia. em que tudo está apontado.

como sucedeu com Strauss. Quando se reconhece que Jesus era o Messias e que não tem nenhum outro caráter. porque o Cristo da Bíblia é o único Cristo conhecido. apesar desta o não dizer explicitamente. . Reuniremos alguns dos elementos essenciais que concorrem para que qualquer existência humana seja real e vital. elementos esses que faltam a Cristo de modo tão contraditório e absurdo que excluem toda a possibilidade de ter existido um homem em tais condições pela contradição que não o permite. E nós. que ele não pode ter biografia. em breve veremos que. sem mais considerações. Não é licito dividir-lhe a sua natureza em divina e humana e reduzir à expressão mais simples a sua figura humana para o salvar do exílio a que os Deuses. como Deus. violentaríamos o bom senso. Veremos que não é possível escrever a biografia de Cristo. atentando contra ele. e porque na própria Bíblia ele não é mais do que um personagem sobrenatural e simbólico. Impõe-nos a lógica que o aceitemos tal qual ele é na Bíblia. elaborado com os dados subministrados pelo Antigo Testamento: verdadeiro ídolo. e então nunca existiu. completaremos a demonstração de que Cristo está na Bíblia. atacando cada vez de mais perto os Evange63 lhos. segundo afirmou o grande profetizador de Epicuro. modificado e alimentado com a concepção mitológica do Oriente como se fora um mosaico. da qual não se escapa. já que não teve existência humana. É claro que não seguiremos passo a passo a narração bíblica e nem a linha dos doutos especialistas na matéria. combinação de materiais preexistentes nas tradições e nos textos religiosos do hebraísmo. isto é. a sua pretendida realidade histórica. hoje mais do que nunca.Deus. No entanto. a não ser que se ponha de parte. Do contrário. e atormentaríamos nossa mente sem resultado algum. não se pode humanizá-lo conservando a humanidade e deixando que a divindade se volatilize: um Messias profetizado e um Deus Redentor não é e não pode ser um homem. apenas como sendo um personagem puramente e completamente simbólico. do naufrágio de Cristo nada de humano pôde se salvar. estão confinados. por maior que fosse o valor de quem tal fizesse.

pag. oferece-nos. a demonstração de que é estranho à história. II. a esse respeito. como já resulta. Ep. Cantu Hist. II. mas para ela remetemos os leitores que queiram se informar. uma prova evidente. porque este caso se encontra já em Isaías (VII. cap. porque alude à realização das esperanças do Israel. resultará que Cristo é um mito. junto ao dos livros do Antigo forma segundo afirma seriamente Cantu. A sua significação de boa nova é 63 também simbólica. Univ. O anjo.. mesmo que os Evangelhos não digam com toda a clareza.CAPÍTULO IV CRISTO É UM MITO ADAPTADO DAS ALEGORIAS DO ANTIGO TESTAMENTO Do exame bíblico que empreendemos. vol. precisamente de uma palavra do profeta Isaías. Não reproduziremos aqui a demonstração de Strauss. Aqui em pleno campo bíblico. anunciando-lhes o nascimento do Salvador é tirado de 64 Salvador. VI. Até a denominação de Evangelhos é tirada de lá. Vamos ver agora que. 14). As genealogias atribuídas a Jesus são inteiramente simbólicas. e é prenunciado por Isaac. nada há neles. O anjo Gabriel é já conhecido no Antigo Testamento. traduzida em grego63. José e Sansão. provaremos que o mito Cristo foi adaptado. sem atentar à consequência. . O numero dos livros do Novo Testamento. porém. das alegorias do Antigo Testamento. Cristo nasce em Belém. (Nova Vida de Jesus. 2) em virtude de ter sido aquela terra o berço de Davi. porque isso foi profetizado por Miqueias (V. Jesus nasce de uma virgem. op. implicitamente. que não seja decalcado do Antigo Testamento. como acabamos de ver no capítulo precedente.). 33. que aparece aos pastores. mais evidente se torna na parte que consagraremos à mitologia. mais ou menos felizmente. cit. e portanto em Cristo. com a linguagem simbólica que emprega para pôr em relação as palavras e os feitos de Cristo com o Antigo Testamento. Este resultado. o número místico de setenta e dois64. 64 C. 8 e seg. O próprio Evangelho. lib.

Strauss observa outra reminiscência do Antigo Testamento.) Os Reis ou Magos que vêm da Ásia. 17. v. 10. pelo assassínio de seus filhos (Jer. o mesmo fizera Jacob com José (Strauss. II. segundo a qual a oposição dos hebreus contra 65 Cristo fazia parte do plano divino (Strauss. foi criada por analogia com Moisés e Samuel. A cena do menino Jesus. 1. foi copiado do Antigo Testamento (Strauss. vindos para adorar Jesus. encontra-se nos Provérbios e em Siraco. I. 85): Jesus de volta do Egito. 4. Pag. 30). para que pudesse chamar-se o Nazareno. corresponde à estrela alegórica. a glorificar o Eterno. cit. 28). que dirige os Reis Magos. . 18 e IV. 1). mencionada nos livros de Moisés (Num. 15.) A estrela. João Batista foi criado segundo as profecias de Malaquias (III. 31 e XLI.1. ditadas pelo coração. obr. A divina sabedoria. trazendo ouro e incenso. II pag.). 27. vol. 16. A natureza simbólica de Cristo provém também de João Batista. Já vimos que a história das 65 Isaia LIII. 29. assim como o restante da adolescência de Jesus. 2 e VII. 84. A degolação dos inocentes. 1-6). cit. 14). cit. obr.10. obr.Isaías (IX. 4 e seg. a fim de que se verificasse a profecia de Jeremias sobre o pranto de Raquel. o Verbo divino que se encarna em Jesus. 43). A propósito das palavras deste a sua mãe. 19 de Lucas. A anunciação e o nascimento do precursor. 2. vindo depois dele. que o apresenta como um cordeiro que assume os pecados do mundo65 e afirma que Jesus. disputando no templo com os doutores. cit. João Batista. habitou em Nazaré. 26. 53 e seg. conforme tinham vaticinado os profetas. XXX11-15. As próprias palavras dos Evangelhos são tiradas destes livros do Antigo Testamento (Strauss. como a do cap. a cena de Simeão e Ana e a circuncisão têm por objeto demonstrar o cumprimento das leis de Jeová em Cristo e a profecia de Simeão. absolutamente fantástica. II. lendo-se no profeta Oseias que o menino Jesus devia ser chamado por Deus ao Egito (XI-1) e por outro lado.5. ob. 5) e de Isaías (XL. encontramse também em Isaías (LX. foi imaginada para justificar a fuga da Sagrada Família para o Egito. existia já antes dele (João. XXIV. 90 e seg. A presença de Jesus no templo.

XXIII. como a Abraão. 16). pode entender-se. dado ao chefe dos Apóstolos. Além disso. Moisés e Elias tinham jejuado 40 dias. obrigaram-no a andar pelo espaço. 31. os ninivitas jejuaram 40 dias e os hebreus andaram 40 anos errantes no deserto. que à maneira deles. A mesma ideia simbólica. portanto. XXXII. Deut. ei-lo que parte para Cafarnaum. 3.16). O modo por que os apóstolos seguem Jesus imediatamente e sem o conhecerem é por demais simbólico. O nome de Pedro. Quando os Evangelistas nos 66 dizem que Jesus escolheu doze apóstolos não fazem mais do que cumprir à risca o consignado no livro dos Números (I. fizeram-no tentar no deserto e. correspondendo os doze apóstolos às cabeças das doze tribos.tentações de Jesus remete explicitamente ao Antigo Testamento. IV. obrigaram Jesus a jejuar 40 dias. 30. 15. não fazem senão copiar a seleção de 72 homens. Jerônimo. Assim: o dilúvio durou 40 dias. como a Elias e a Ezequiel. re66 67 Com. e a sua significação explica-se desde logo. O mesmo numero de 153 peixes. que todas as classes de homens são pescados para a sua salvação66. tanto que Moisés havia feito da pedra o sinal alegórico de Jeová67. cuja região o evangelista descreve com as mesmas palavras do profeta Isaías: Como um país que jazia nas trevas (Mat. in Ezequiel. tirados milagrosamente da água pelos apóstolos. IV. empregaram-se 40 dias para embalsamar o corpo de Jacob. que Jesus passou no deserto era tradicional e sagrado entre os hebreus. Temos. Abandonado Jesus em Nazaré. Elias tinha viajado pelo espaço e o Espírito transportara Ezequiel de um ponto para outro. e significa. Também o número de dias (40). 4. segundo este padre da Igreja. 13. a fim de cumprir o anunciado pelo profeta (Mat. segundo S. feita por Moisés entre os anciãos do povo. 31). 4. 47. Samuel e II Reis XXII. simbolizava no hebraísmo a fé inabalável e indestrutível. 18. . Cafarnaum ficava na Galileia. E quando atribuem aos doze apóstolos outros 72 discípulos. 3. 23. IV. Moisés viveu 40 anos na corte de Faraó. 40 anos no deserto de Madian e 40 anos governou o povo de Israel. 2. em relação com as 153 espécies de peixes que então conhecidas. 14) e (Luc.

é igual a cena de Geazi. 37-43. et non erit qui aperiet” (Isaia XXII. II. Eliseu curara um leproso.73 que não tinha sabido fazer voltar à vida o filho de Sumanita. XVII. Então. et claudet. 72 Mat.) 70 Isaia XXXV. Luca XI. 71 I dos Reis. IV. Strauss faz notar a diferença de poder. XIII. 29-37. A cura do filho do Centurião. ele a fechará e ninguém a abrirá. são reprodução textual do Antigo Testamento. servo de Eliseu. IX. com os seus cinco pórticos. XVII. Em ambos estes casos. 5 ss. realizada por Eliseu (Lucas IV. ele a abrirá e ninguém a fechará. XXII. 16) foi copiada da figura de Davi que tinha se colocado à frente de uma turba de 400 desgraçados (I Reis. As palavras de Jesus após ressuscitar o rapaz de Nain. 22). II dos Reis. realizada por Jesus à distância74.). Os milagres de Cristo fazem parte do programa profético: Então. 17. 5-13. melhora nas mãos de Jesus72. 67 mesmo Jesus cita a cura de Naamã. que a História não conhece. 2). operada também de longe por Eliseu: o Messias não podia ser inferior em poder ao profeta do 10 e seg. o coxo 69 saltará como um cervo e a língua dos mudos cantará 70. 14-29. que existia entre os Discípulos e o Mestre. Finalmente. 73 II Re IV. Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi. IV. não podendo ser curado pelos Discípulos. VIII. 14-29. 1-40. 69 A figura dos coxos que saltam. 74 Mat. ressuscitam um morto cada um71. serão abertos os olhos aos cegos e abertos os ouvidos dos surdo. Giov. (Marc. Mar. mas esses dois gêneros de milagres acham-se nas lendas dos profetas. A cura da mão dissecada é tirada literalmente do Antigo Testamento (Livro 1 dos Reis. A piscina de Betesda. repetese literalmente nos Atos dos Apóstolos (III. . É verdade que em Isaías não figuram as narrações dos leprosos nem as ressurreições dos mortos. 8 ss. “et dabo clavem domus David super humerum ejus: et aperiet et non erit qui claudiat. a companhia de pessoas de má fama que rodeiam Jesus para escândalo dos Escribas e Fariseus. 46-54. ressuscitando-o o próprio Elias. e junto com Elias. quando Elias ressuscita o filho da viúva de Sareta. 7 e seg. 4 e seg.presentada pelas chaves confiadas ao chefe dos Apóstolos. é parecida com a cura de Naamã. simboliza os cinco livros de Moisés. se encontra no Antigo Testamento68. 27). Luca VII. A cena do endemoninhado que.. O 68 . cap.

68 Salmo CVII. que pretendendo andar sobre as águas está prestes a se afogar. 10.sendo por ele salvo. IX. 77 IX. 16. 7) em que se chama ao templo casa de oração. Nem mesmo a cena dos vendilhões expulsos do templo é original: Jesus não faz senão transportar duas sentenças do Antigo Testamento. 7 ss. revela a mais perfeita semelhança com outro episódio do Antigo Testamento onde se diz. 28-30). 11) que diz que o templo não se há de converter em covil de bandidos.. perfeitamente análogos. Jesus que caminha sobre as águas imita Jeová. Se em Jesus a água se muda em vinho e não em sangue. no que diz respeito aos milagres. 42-44. Salmos LXXVII. Trata-se do Salmo CVII (v. foi por terem fé. uma de Jeremias (VII.Antigo Testamento. é uma imitação poética das cenas de Jacó e Raquel. 8. 4-9. de Eleazar e Rebeca na fonte. de Elias e de Eliseu76. que se os israelitas passaram o Mar Vermelho. II Re XXXVIII. na Epístola aos Hebreus (XI. 20. ao passo que os egípcios se afogaram. O milagre da transformação da água em vinho tem seus precedentes no Antigo Testamento: Moisés fizera brotar água da rocha e transformara em sangue toda a água do Egito. O milagre da multiplicação dos pães e dos peixes é decalcado igualmente sobre o Antigo Testamento por uma parte. 25. quando se refere ao maná que os he75 breus recebem no deserto e por outra. Pedro. A cena da transfiguração é co76 Isaia XLIII. junto do poço. A maldição da figueira que não produzia frutos precoces é tirada de Oséas77 e de Miqueias. . Jesus acalmando os ventos e as ondas é uma imitação de Jeová ordenando ao Mar Vermelho que se afaste para dar passagem ao Povo Escolhido. A cena da Samaritana. é porque no Antigo Testamento aquele é o símbolo deste e ainda do próprio sangue expiatório do Messias. merecendo de Cristo o famoso Homem de pouca fé. que no Antigo Testamento está poeticamente representado. viajando sobre elas75. porque duvidaste? . 29). Giob. I Re XVII. Melhor ainda: Hengstenberg achou uma outra figura idêntica à de Jesus que também acalma a tempestade para salvar os Apóstolos que corriam perigo na sua barca. e outra de Isaías (LVI.

Salvador.piada do Antigo Testamento. que são por assim dizer. no curto espaço que vai de Betfagia a Jerusalém. uma nuvem cobre a montanha durante seis dias. Jeová aparece em meio da nuvem e chama Moisés. Matt. astutamente observa que todas as imagens relativas à sua entrada em Jerusalém não custaram nada para a imaginação da tão grande e rica nova escola (a cristã). 7. dizendo-lhe: Escutaio79. Tanto no Sinai como na mon69 tanha da transfiguração. Aarão. levando consigo. comparam-se Moisés e Elias: o primeiro para tornar mais evidente a relação que vai do primeiro ao segundo salvador. IX. onde o legislador promete a Israel um profeta semelhante a si próprio. a mesma nuvem luminosa entra em cena. XVII.78 acabando a frase com o mesmo vocábulo que serve de conclusão à passagem do Deuteronômio. o segundo em virtude da profecia de Malaquias. o comitê diretor dos Apóstolos.se resplandecente como Moisés. no Êxodo é o mandato de Moisés. uma vez que a sua substituição por João Batista deixaria uma lacuna. o 78 79 Is. Mais ainda: estas palavras estão copiadas do Antigo Testamento. De volta da montanha. Descendo do monte Jesus encontra o jovem possesso. a quem chegam os resplendores da divina auréola. Nadab e Abim. segundo a qual Elias deveria voltar em pessoa antes do Messias. 9. encontra o povo adorando o bezerro de ouro e encolerizase. é testemunho de Deus aos discípulos acerca de Jesus. o evangelista fez viajar Jesus ao mesmo tempo sobre uma burra e um jumentinho. A entrada de Jesus em Jerusalém foi adaptada às profecias de Isaías80 e de Zacarias81. além dos 72 anciãos. 5. E para que a adaptação a este último fosse literal. . que os seus discípulos não puderam curar. e o seu primeiro sentimento é de cólera pela impotência contra o demônio. Tendo sido mal interpretada a passagem do profeta e havendo-se repetido duas vezes a palavra jumento. quem fala é a nuvem. segundo o sentido modificado. no Evangelho. Moisés subira ao Monte Sinai. 11. Jesus sobe também a uma montanha anônima em companhia de três pessoas. Com Jesus no monte. 81 Zac. XLII. . citando textualmente uma passagem de Zacarias na qual a entrada de Cristo em Jerusalém é antecipada e minuciosamente descrita. e por fim. no sétimo. 1. Salmo II. . 80 LXII. lá torna.

Além disso. cit. XC. a sua morte prematura e o gênero dessa morte. 90 Êxodo. mais teológico do que os sinópticos. é para que se veja nele o cordeiro conduzido ao suplício sem lamentações. 7. 7. 89 Strauss. A traição de Judas foi adaptada do episódio da traição de certo comensal de Davi. As palavras Sou eu que o quarto evangelista. II. tudo isso se encontra em vários textos do Antigo Testamento89. 22. proclamando que o é. acrescenta o hissope. para que se realize aqui o Antigo Testamento86. Deuter. põe na boca de Jesus no momento em que este avança para os soldados que o vêm prender . Quando porém. 6. Os ultrajes e maus tratos infligidos a Jesus. A prisão de Cristo como delinquente são relacionadas pelos próprios evangelistas Marcos e Mateus com as predições dos profetas. em cumprimento literal da profecia de Isaí82 83 as85. 13. copiados do Antigo Testamento83. 13. por conseguinte. que no Êxodo90 se emprega no sacrifício do cordeiro 85 86 Salmo XLI. 10. o remorso e o arrependimento de Judas.são as mesmas que pronunciou Jeová. Se Jesus não responde à pergunta do sumo sacerdote. corresponde a idêntica revelação do rei salmista82. 1.palavras que os fazem cair por terra .. XII – 21. durante a ceia. Isaia XLIII.evangelista julga que o referido fragmento se deve entender como se os jumentos fossem dois. op. e. e até mesmo os detalhes da história da crucificação foram copiados pelos evangelistas do capitulo LIII de Isaías e dos Salmos XXII e LXIX. Daniele VII. XXXII. João preocupado a mostrar em como Jesus é o verdadeiro Cordeiro. foram previsto expressamente por Isaías87 Os trinta dinheiros da traição de Judas e o seu gesto de atirálos fora no Templo são tomados à letra do oráculo de Zacarias88. 70 LIII. a anasarca e a cegueira. A compra do campo de sangue com os dinheiros da traição. relativa ao depoimento das testemunhas. A fuga dos Apóstolos equivale ao cumprimento da profecia de Zacarias84. 39. . lhe perguntam se ele é o Messias. 84 XIII. Todo o plano. e a declaração de Jesus. 88 XI. 10 ss. já se não cala. 87 L. Salmo CX.

de quem se tinha escrito: Não se quebrará nenhum dos seus ossos. que colocado entre malfeitores e carregado com os pecados de todos. Quanto aos malfeitores. Se Cristo escolhe a Páscoa para ser crucificado. Daqui também a necessidade de não lhe quebrarem as pernas. Mas Jesus não era só aquele a quem feriram. o cordeiro pascal. é porque a sua missão é exatamente a do cordeiro pascal. perdoa-lhes porque não sabem o que fazem. O profeta Zacarias dissera que os habitantes de Jerusalém veriam Jeová trespassado por uma lança. Mateus e Marcos põem na boca de Jesus as palavras: .Meu Deus. a não ser que despojassem Cristo de toda a realidade histórica. 13). suporta ainda o peso da sua iniquidade92. segundo o próprio Marcos. assim como já tinham mudado o símbolo. Os dois ladrões entre os quais Jesus é crucificado relacionamse. são postas na boca de Jesus para realizar o que Isaías tinha dito do enviado de Deus.12). Seja-nos permitido lastimar aqui a grande soma de energia empregada por todos aqueles que. para que. isto é. como se esse dia fosse histórico e não simbólico.12). Isaías dissera que o servo de Jeová morreria entre ricos e malfeitores93. com a profecia de Isaías91. meu Deus. 71 93 Isaías (LIII . por que me abandonaste? No Salmo XXII. e ainda como se tal mudança houvesse tido outro fim que não fosse o de mudar o dia da Páscoa hebraica. substituindo o cordeiro material pelo cordeiro simbólico. Era também o cordeiro de Deus.pascal. VII. que os evan92 Isaías (LIII . 91 versículo 2. por que me abandonaste? As palavras Pai. 9. Dali a necessidade de ferir Jesus com a lança. como aos dois ladrões. lá estão os dois ladrões. quebraram a cabeça para explicar aquilo que se vê ser totalmente inadmissível. quando ele regressasse às nuvens do céu. meu Deus. fosse possível ver-lhe a ferida (Daniel. a mudança do dia do seu sacrifício. e. precisamente. Isaias. querendo defender a existência humana de Cristo. lê-se textualmente: Meu Deus. . sacrificando-se na dita época para salvar a humanidade do pecado original. LIII.

aberto na rocha. reconstituiríamos. principalmente de Ezequiel e Daniel. devia ser o Messias. XXVI. 10-12). Filho e descendente de Davi. que lhe dá a significação de homem honrado com as mais altas revelações de Deus98 e em Daniel. A expressão . 1. Pois bem: tudo isso não faz mais que confirmar o seu caráter simbólico. 8. 89.já era usada no Antigo Testamento para designar. XXII. onde significa. 30. 64). designando uma morada na pedra? 94. 1. Finalmente. o Novo Testamento sobre o Velho. 13 . Isaías dissera também: Que fazes aqui? Para que fizeste abrir aqui um sepulcro para ti? Porque se abriu um sepulcro num lugar alto. segundo se lê em Mateus (XXIV. mas aos reis do mesmo. ponto por ponto. fizeram com que o rico José de Arimateia enterrasse Jesus. Salvador prova que o Apocalipse é uma pura cópia dos profetas. Para o nosso fim. Jesus ressuscita porque isso está previsto no Salmo XVI (9 ss. Isto é o que o evangelista faz dizer a Jesus junto ao sepulcro de José de Arimateia. XVI. Se quiséssemos continuar em citações. 98 II. Filho de Davi. o Messias que virá nas nuvens do céu. 99 VII. 97 Salmo II. 6. além de Cristo e Messias. 3.Filho de Deus . 17. A expressão Filho do Homem se encontra em Ezequiel. Acrescentaremos.1. não tanto ao povo de Israel95 . 4. que a festa do Pentecostes esta tomada à letra do Antigo Testamento (Deut. 3. dando-lhe três denominações sobrenaturais ou metafórica. quanto aos ricos. etc. 96 II Salmo VII. XXVIII. como Davi e Salomão96 e aos seus mais dignos sucessores97. porém. 16. Os evangelistas falam de Jesus. 9-11. precisamente. A luta de Pedro e Paulo contra Simão o Mago tem seu motivo simbólico 94 na luta de Moisés contra os taumaturgos egípcios. bastam os pontos capitais. no entanto. Oséas XI. 22. 7.) e em Isaías (LIII. Filho do Homem e Filho de Deus. sobe ao céu onde está sentado à direita de Deus. Sal. 26). 72 Ezequiel IV.gelistas fazem morrer a seu lado. Num. 16. III. 27). segundo a teologia hebraica. em cumprimento do versículo 1 do salmo CX: O Senhor diz ao meu Senhor: senta-te à minha direita. até que eu ponha os teus inimigos como um escabelo a teus pés.99 95 Isaias.14. Salmo LXXX. 10.

Não há, pois, nos Evangelhos, nada que já não estivesse no Antigo Testamento: nada há de novo debaixo do Sol, como dizia Salomão. Todos as designações de Cristo tinham já sido usados no Antigo Testamento, mais ou menos metaforicamente, enquanto que no Novo Testamento adquiriram o carácter sobrenatural próprio de um mito. Para aqueles que acreditam que Cristo era um homem a dificuldade é insolúvel, porque, queiramos ou não, Cristo está falando apenas de si mesmo como o Messias que havia de vir, mesmo nos sinóticos e precisamente nessa passagem de Mateus (XXII, 41). A única solução racional é que Strauss dá: Jesus quis mostrar a superioridade de Davi, do qual era descendente de acordo com a carne ou a lei, enquanto procedia de Deus como espírito. Essa dificuldade sempre foi o tropeço da cristologia que queria o impossível: Fazer de Cristo um ser humano inconsistente com as leis da natureza e da história. Assim sendo, surge a seguinte pergunta: Qual das alegorias aplicadas a Cristo no Antigo Testamento e nos próprios Evangelhos era verdadeira
73

A pergunta não é sem sentido porque, mesmo no caso de nenhuma das duas ser verdadeira, haveria um meio de se sustentar a tese de que Cristo poderia ter existido, pois se os evangelistas lhe aplicassem por equívoco alegorias indevidas, ainda assim, nada disso se oporia à realidade da existência de Jesus. Por outras palavras: mesmo quando se objetasse que Cristo não foi mal imaginado para ser mal adaptado às pretendidas alegorias do Antigo Testamento, que então não seriam alegorias, estas foram mal imaginadas para serem mal adaptadas a este personagem que, não obstante, não deixaria de ser histórico. Enfim! Já não precisamos de cansar-nos muito para demonstrar que efetivamente as alegorias do Antigo Testamento precederam a Cristo, se não cronologicamente, pelo menos na mentalidade daquele meio em que ele foi criado. Porque, ainda mesmo que o Antigo Testamento, nas passagens de onde saiu a concepção do Cristo, não contivesse verdadeiras alegorias mas unicamente expressões poéticas, imagens e figuras retóricas, coloridas com a ardente fantasia oriental dos profetas, isto não desmentiria o

fato indiscutível de que os hebreus tinham costume, desde tempos imemoriais, de explicar o Antigo Testamento por meio de alegorias, antes que em suas mentes nascesse a ideia do Cristo. Em breve, faremos esta demonstração, que pertence à História100. Notemos que Fílon - que não foi colocado entre os padres da Igreja por não ter falado no Cristo, e a quem destruíram os livros porque demonstravam que o cristianismo nasceu sem Jesus Fílon tinha já posto em alegoria o Antigo Testamento. Fócio, como já vimos101, opina que a linguagem alegórica da Escritura procede do próprio Fílon. A nós, basta saber que o método de interpretar o Antigo Testamento estava já em uso entre os hebreus alexandrinos102, antes da
100

Ernest Havet, O Cristianismo E Suas Origens - O Judaísmo, tomo III, 421 ss., Paris, Lèvy, 1878. 101 Primeira parte, cap. III 102 Não é irrelevante a circunstância de que os simbolistas Hebreus fossem alexandrinos. Porque esta condição explica perfeitamente a passagem da doutrina, da moral e do culto do Antigo Testamento, que no judaísmo é fechado e nacionalista, para o cristianismo do Novo Testamento, que é um judaísmo mais suave e espiritualizado por influência do helenismo e, sobretudo, da filosofia ne74

época assinalada à vida de Cristo. Basta que essa fosse a ideia e o espírito dominante daquela época para aplicar a adaptação do mito do novo Redentor, imaginado pelo exemplo dos outros Deuses Redentores, às alegorias que se encontravam ou se julgava encontrar no Antigo Testamento. E que tais foram a ideia e o espírito dominante naquela época - o que deu nascimento ao Cristianismo, entenda-se - isso confirma-se, de um modo que não admite réplica, com os primeiros padres da Igreja, principalmente com os que nasceram e viveram no mesmo ambiente de Fílon, do qual foram verdadeiros discípulos. Entre eles contam-se Clemente d'Alexandria103 e Orígenes104 que, como vimos,105 são discípulos e seguidores de Fílon, até mesmo na negação da existência histórica de Cristo. Mas para o provar, não precisamos sair da Bíblia. S. Paulo atribui constantemente um duplo sentido à Escritura106, acompanhando as opiniões de Santo
oplatônica, que inspirou a famosa Escola alexandrina 103 Havet, op. cit., III, pp. 433-434. 104 Peyrat, op. cit., pp. 183 ss. 105 Parte I, c. III. 106 I Cor., IX, 9; X, 1 e ss.; Gal. IV, 21 ss.; Col. II, 16, 17; Eb. VIII, 5; IX, 1 ss.; X, 1.

Ambrósio, Santo Agostinho e S. Gregório107. Além disso, a interpretação alegórica foi obra dos mesmos hebreus, do tempo em que a ideia de Cristo tomou corpo. Tem-se querido ver, nos quadros proféticos, apenas a imagem de um Messias régio e guerreiro, que devia fazer renascer o esplendor do reinado de Davi, quando é precisamente o contrário. Porque o verdadeiro plano da paixão de Cristo, está precisamente na imagem famosa de Isaías108. Uma imagem não exclui a outra; os hebreus porém acabaram por confundi-las. As provas dolorosas do cativeiro de Babilônia e a dos romanos, acabaram por lhes levar a persuasão de que a época sonhadora de uma nova glória de Davi se afastava cada vez mais, e só então convieram que as dolorosas provas de Cristo (personificação de Israel) e a sua própria morte (Daniel, IX,26) não eram outra coisa mais do que o caminho para chegar à gloria, colocada mais tarde no outro mundo. De modo que a ideia da ressurreição, estranha primeiramente ao judaísmo, confunde-se logo com os povos orientais, encon107 108

Peyrat, op. cit., pp. 184-188. Isaias LII, 13 ss.
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trando o seu apogeu no Antigo Testamento109, ao se adaptar ao mito do Redentor, que morre e ressuscita. Este é, como demonstramos com os próprios Evangelhos, o plano dos cristãos: adaptar o novo mito às profecias do Antigo Testamento. Todas as crenças do Evangelho, como tão justamente observa Havet, foram, portanto, sonhos hebraicos, antes de serem dogmas cristãos. Mais certa e precisa é ainda a proposição inversa, isto é, que não foi o Antigo Testamento que preparou o Novo, mas sim este que se adaptou àquele. Está explicado como puderam existir profetas e um Messias vaticinado. Não pode ser doutra maneira, a não ser que admitamos o sobrenatural, mas, nesse caso, a filosofia não tinha mais a fazer do que retirar-se. Se Cristo foi adaptado ao Antigo Testamento, nada fez nem disse que não estivesse já escrito na lei; se a sua própria vinda e a sua morte tiveram lugar em tudo, segundo as profecias; se os evangelhos faltaram a este plano preconcebido, tanto antes do seu nascimento como antes da sua morte, excluindo toda a possibilidade de autossugestão em Cris109

S. Paulo, I Corintios , XV, 4 ss.

to; se enfim, Cristo nada fez que não fosse sobrenatural ou predeterminado, mística e teologicamente, quem se atreverá a sustentar ainda que ele foi pessoa real e histórica, um homem, um ser limitado e terrestre? Não, Cristo não foi um homem. Foi um Deus. Cristo não existiu, não viveu

vida própria. Foi apenas uma criação teológica, dogmática e mitológica. Tal é o testemunho da Bíblia, única fonte que nos fala de Cristo, e que, em lugar de nos subministrar as provas da sua existência, apenas é uma demonstração constante da sua inexistência.

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48. 113 Mat. Strauss. que se Jesus foi concebido desse modo.20-23. pois. II. sem tocar em um cabelo de nenhum outro menino. em ponto algum. 110 111 Em Mateus. mas ainda mesmo com a matança dos inocentes. 39. apêndice nº 2. I. de Lucas sobre o censo do Cirino. 23-38. pois que. Lucas III. Mat. o mesmo Mateus afirma que Jesus fora concebido por obra do Espírito Santo111. descendendo de Davi. voltam tranquilamente para Nazaré114 É assim que a narração de Lucas não só contradiz materialmente a de Mateus. fazendo descender José. em Lucas. segundo muitas profecias. ordenada por Herodes113 Pelo contrário. José e Maria vão publicamente ao templo de Jerusalém. da linha de Davi. Quanto ao erro histórico . para salvarem Jesus da degolação dos inocentes. José e Maria partem de Belém sem irem a Jerusalém e fogem para o Egito precipitadamente depois da adoração dos Magos. Mateus pretende demonstrar que se cumpre o vaticínio. e depois. implicitamente. Cit. há contradição formal entre Mateus e Lucas.CAPÍTULO V CONTRADIÇÕES ESSENCIAIS DA BÍBLIA A CERCA DE CRISTO Mateus e Lucas dão a Jesus duas genealogias diversas110. 22. Parece. I. a famosa degolação dos inocentes. onde tem lugar a cena de Simão e Ana. Devendo Jesus nascer. ao passo que. onde é publicamente reconhecido por Simão como o Messias não se harmoniza. Quanto ao ano em que Jesus nasceu. vid. II. não podia de modo nenhum ser concebido por obra do Espírito Santo. pai de Jesus. O fato de levarem Jesus ao templo de Jerusalém. II. não podia descender de Davi. não digo já com a fuga para o Egito. em vez da fuga para o Egito. Herodes teria podido apoderar-se dele. depreende-se de um modo incontroverso que o Cristo de Mateus devia ter pelo menos 11 anos quando veio ao mundo o Cristo de Lucas112. 13. da estirpe de Davi. 77 Mat. 114 Lucas. em tal caso. mas até exclui. Por outro lado. Confrontando as circunstâncias históricas com que os dois relacionam o nascimento de Jesus. Paganismo dos hebreus. 1-17. obr. porém. por via de José. os únicos evangelistas que dele falam. 16. 112 Ferrière. narrada por aquele.

I-7-11.A infância de Jesus é completamente ignorada por Marcos e João. envia da prisão a Jesus 116 117 Lucas. não o compreenderam. onde recebe o batismo pelas mãos de João Batista. reconhecendo-lhe explicitamente o caráter de Messias119. Mateus. por que os abandonara. 33. Lucas. a ponto dos habitantes perguntarem uns aos outros quem ele era.14. desde que. segundo o mesmo Lucas. I. segundo Mateus118. pelo mesmo motivo. III-13-17. só para cumprir o ob115 jetivo das suas pregações é que vai a Jerusalém. 41-44. se dera a conhecer como precursor de Jesus. Mas segundo Lucas117. 78 João. Marc. narrando este episódio cai em contradição consigo mesmo. Batista. também. tanto Batista conhecia Jesus quando o batizou. a princípio. e ele lhes respondera que fora para ocupar-se das coisas de seu Pai. onde realiza os principais atos da sua vida. tendo-lhe perguntado quando o encontraram no Templo. Só Lucas fala da discussão que Jesus aos 12 anos de idade teve no Templo com os doutores da lei115. 118 Mateus. Lucas. I. não se faz cristão e continua a pregar por conta própria. Jesus tinha nascido milagrosamente como. se não deviam inquietar com o extravio de Jesus. porque diz que os pais de Jesus. I. cair do céu nas margens do rio Jordão. II. . que segundo todos os evangelistas. fugir para o Egito e regressar a Nazaré nunca mais fala dele. a quem só põem em cena aos trinta anos. depois de o fazer nascer milagrosamente. Entretanto. 21. III. É absurdo que os pais de Jesus não compreendessem a resposta. Segundo João116. fazendo-o. onde é quase inteiramente desconhecido. Luc. Cingindo-nos agora aos três Evangelhos sinópticos. que até recusou fazê-1o. quando é preso e encarcerado. Já o quarto Evangelho o faz viver quase só na Judeia mas ir várias vezes a Jerusalém. Depois. e só para a realizar. E. 41-50. por assim dizer. onde saltou de prazer quando Maria a visitou. João. 29-34. vemos que Jesus começa e continua a sua missão na Galileia. 22. batizando-o com o concurso da pomba celestial e da voz do Eterno.III16. cedendo apenas às repetidas instâncias de Jesus. 119 Mat. até á idade de trinta anos. João Batista declara formalmente não conhecer Jesus quando este se lhe apresenta para receber o batismo. João Batista conhecia Jesus desde o ventre de sua mãe Isabel.

79 Lucas. 2-13 Marcos. Lucas faz-nos saber que os samaritanos acolheram Jesus com hostilidade e que João. Os três primeiros colocam a última 123 Mat. Quanto à ultima ceia. o que há de vir. porventura. XIV. se encolerizou sobremaneira123. excetuando o quarto evangelista os outros três se contradizem a cada a linha. contraditórios125. Igualmente João. ou temos ainda de esperar por outro?120. que as excluiu sistematicamente. XXVI. X.dois dos seus discípulos. nem mesmo aí os Evangelhos se harmonizam. sendo portanto. 39-42 125 Mat. como em geral de tudo o que se refere aos milagres. 124 . faremos graça para nossos leitores. ao terceiro dia. o mesmo João. etc. IX-51-56 João. que o acompanhava. VII. encadeando os novos detalhes da vida de Jesus . 2-3. Sobre o episódio da mulher que unge Cristo. que estava com Jesus e que tanto se revoltou com a ação dos samaritanos. Jesus declara que João batista é o profeta Elias121. 1-8. 1-9. que era o discípulo amado de Cristo e que. XI-14. não podia ignorar os detalhes da vida dele. portanto.) de modo que não passaria por alto os quarenta dias que ele permaneceu no deserto e as respectivas tentações. mas este mesmo João Batista declara que não é tal o profeta Elias122. Demonstrado está assim que. Por sua vez. que constituiu um fato capitalíssimo para o cristianismo porque nela teria Jesus instituído o mistério da Eucaristia. vendo isto. no seu Evangelho conta que quando Jesus passou por Samaria os samaritanos lhe fizeram uma excelente recepção. encarregando-os de lhe perguntarem: És tu.desde o batismo até ao primeiro milagre . 120 Da citação dessas contradições. IV-9. nada nos diz acerca das coisas praticadas pelo Mestre com os endemoninhados. 36-40. Luc. 122 João I-21. As tentações de Satanás contra Jesus não vêm mencionadas no quarto Evangelho. João XII. pedindo-lhe que ficasse com eles e proclamando-o Salvador do Mundo124. quer relatando a história das tentações quer contando os exorcismos de Jesus. por que não é necessária sequer para nossa demonstração.com as mais rigorosas indicações do tempo (ao segundo dia. todos os evangelistas relatam o caso diversamente. 121 Mat.

XXVI. Marco XIV. permanecendo triste até à morte e conformando-se. Chegado ali. segundo os sinópticos. 32 ss. 36-39. a ponto de suar sangue130. 12-8. 36 ss. absorto pela ideia eucarística (CapítuloVI) narra a última ceia com inúmeros pormenores. Repitamos aqui. que deveria ser a testemunha íntima desse episódio tão comovedor. Cristo cai por terra. enquanto João a coloca antes da Páscoa127. qui toilit pecata mundi. Luc. Pela sua parte. a pouca distância. 3236. XXVI. mas sem dizer uma única palavra acerca dessa mesma ideia eucarística. com o rosto unido ao chão. precisamente o mito do Cordeiro Pascal. pois vale a pena. enquanto que no quarto. Marco XIV. Marco XIV. Cristo sendo um mito. 19-21. Só que nos três Evangelhos Sinópticos. se pode resolver esta complicação. Luca XXII. os primeiros fazem Jesus instituir nesta ceia o mistério da Eucaristia128 ao passo que João. Luca XXII. em estado de profundo abatimento. Luca XII. 26-28. Estas contradições dos Evangelhos mais uma vez confirmam o nosso modo de ver. o único que teria valor testemunhal. enfim. sendo ele de resto. enquanto os três primeiros nos apresentam Jesus no Monte das Oliveiras. Além disso. ao invés da instituição do sacramento ser feita pela boca do Agnus Dei. o quarto evangelista. 39 ss. não pode ser explicada exceto pela nossa dedução na qual. . Jesus levou consigo apenas Cefas e os dois filhos de Zebedeu. XXVI. que essa contradição. pois assistiu a ela desde o princípio. pois só considerando Cristo como um mito. 130 Matt. apesar das minúcias com que relata os episódios dessa noite. XIV. 2224. 127 128 João XIII. Os discípulos dormiam.ceia no dia de Páscoa126. Jesus afastou-se dos seus discípulos. passada no horto de Getsemani. 41-44. XXII. 80 Matt. mais antropomórficos. Marc. o mistério se cumpre 126 pelo seu próprio sacrifício.. e assim ora por largo tempo. ele precisa dizê-lo explicitamente. Durante a última noite. 17-20. Matt. 7-15. nada diz a tal respeito. e exatamente o mito do cordeiro pascal qui tollit peccata mundi é ele mesmo o alimento da ceia pascal. Além disso. 1. XXVI. o quarto põe 129 Mat. na qual muita tinta tem sido gasta inutilmente pelos estudiosos. com a vontade divina129..

que João não cita. dizendo: Eis aqui o vosso Rei. toda a terra se cobriu de trevas. toda a terra se cobriu de trevas. 16. XXVI. do meio dia às três da tarde. mas nem mesmo o tinham ainda condenado à morte. ao seu interrogatório. Jesus devia ter exalado o último suspiro. ao passo que. Pelo seu lado. à altivez dos dois ladrões. Marco XIV. Pois bem: se no dizer dos primeiros. Matt. XVIII. isto é. à beberagem dada a Jesus. desde o meio dia até às três. 81 mente. precisamente neste tempo. contradições estas de detalhes. circunstância esta que não o impede de ver tudo o que se vai passando.na boca de Jesus discursos cheios de tranquilidade131. 2-8. 4346. 45) Marcos (XV. 47-50. 47. à natureza do sepulcro e ao tempo em que esteve sepultado. Luca XXII. 14) diz que. ou fosse às nove. 15. à inscrição colocada na cruz (diferente em cada um dos quatro evangelistas). com tranquilidade e segurança. Pilatos mostrava-o aos hebreus. 133 João. à quebra das pernas. ao golpe de lança no peito. João (XIX. . 17 e 18. à hora terceira do dia. Repararemos apenas nas contradições mais graves que acompanharam a sua morte. ao depoimento das testemunhas. Além disso. 33) e Lucas (XXIII. ao episódio da devolução de Pilatos para Herodes só conhecida por Lucas. A essa hora. ao Cirineu. que preciso se torna citá-las sumaria131 132 João. devemos concluir que João faz desenrolar todos os sucessos na mais densa escuridão. ou fosse ao meio dia. e ao passo que nos primeiros evangelistas o beijo de Judas denuncia Jesus aos seus inimigos. 25) Jesus teria sido crucificado. à exclamação e palavras ditas antes de morrer. segundo Marcos (XV. tiveram lugar a saída para o Gólgota e a crucificação. segundo João. Cap. mas tão numerosas. dizendo aos soldados que o rodeiam: Eu sou o Cristo133! Passemos por alto as contradições relativas à hora em que Jesus foi julgado pelos sacerdotes na presença do povo. não só Jesus não estava ainda na cruz. ao momento em que é maltratado e injuriado. 14. à hora sexta. Segundo Mateus (XXVII.132 no quarto é o próprio Jesus que vai ao encontro dos seus inimigos. assim como sucedia aos demais espectadores. ao embalsamamento. 44) desde a hora sexta até àquela em que.

36. insulta quem lhes pedem141 e ordena àqueles a quem cura e aos que assistem. João. 82 Marco V. da violência. 2. 28-41. Marco I. 15.As contradições. IX. 36. VI. 40-44. dos pobres. ou seja daqueles que sofrem materialmente fome e. ao passo que. diz Cristo em Mateus145 e em Lucas146. XVIII. 40. 137 Mat.Marco VIII. Segundo Mateus148 Marcos149 140 141 Lucas. VIII. V. XXIII. 23. 147 Marcos IX. 52. Mateus. 8. porque saem do campo da razão para entrarem no do sobrenatural. 2-4. XVIII. XIX. XXVI. Na célebre sentença. Jesus os trata ora com afeto136. Lucas X. Quem não é por mim é contra mim. conosco está147. 144 Mat. um dos critérios de condenação da veracidade da Bíblia. que divulgue o milagre140 e de acordo com o segundo ponto de vista recusa terminantemente fazer milagres. que não divulguem nada142 . porém. 136 Matt. 38. na opinião de Lucas. VIII. 15-17. 16. curado por ele. segundo Mateus. 39. 142 Matt. 148 Mateus V. XIII. V. IX. 10-12. em que glorifica a pobreza. 3-10. IX. que é por outro lado. A contradição não pode ser mais grave. 20 ss. 9-14. 34. 139 Matt. Lucas V. interessam-nos sobremaneira as contradições que a mesma Bíblia põe na boca e no procedimento de Cristo. 29-31. 7-9. diz: Quem não é contra nós. 49. 30. 17. em suma. ora com ódio e desprezo137. VIII. 149 Marcos I. 143 Lucas XXII. 44. e ainda aconselha o seu emprego144. enquanto fala e procede como homem. XI. 19. VI. 19. 145 146 Mateus XI. 2-10. Luca IX. que se seguem à ressurreição não nos prenderão muito a atenção. 25. ordena ao endemoninhado de Gheraseni. Acerca das boas obras. 15. 1. Cristo diz ao mesmo tempo que devem138 e não devem139 ser conhe134 135 cidas pelos homens. Em Marcos. Cristo não só as recomenda como as pratica143. XVI. 11-12. 9. 39. . 1-4. falava indistintamente dos pobres de espírito e dos que têm fome e sede justiça135. VII. No que diz respeito ao uso da força física. Luca. 138 Matt. Marcos II. Pelo contrário. sede134. 27-30. em sentido concreto. II. XIII. Matt. XVIII. Jesus fala. Quanto aos publicanos. V. 22-26. da resistência. Em conformidade com o primeiro modo de ver.

16. é a que se refere á missão de Cristo. tanto estes como aquela. tiveram já o Seu tempo! À vista de tão extraordinárias contradições. e segundo Lucas152 diz que. 18. Segundo Mateus151. 152 Lucas. Mateus. A principal. denunciadas pela diversidade de planos e de doutrinas na composição de um mesmo mito? 150 151 Lucas V. V. XVI. quem se atreverá a dizer que Cristo seja um personagem histórico e real? Mesmo sem levar em conta o anteriormente exposto? Quem não vê aí a mão criadora das diversas escolas metafísicas e teológicas. a mais irrespondível das contradições. 83 . 19. mas em parte alguma da Bíblia se vê que ele tome parte em qualquer desses sacrifícios.e Lucas150 Jesus ordena os sacrifícios. 14. 17. Jesus diz que não veio para abolir a lei nem os profetas.

bastaria um ato simples da sua vontade. mas todos os seus descendentes. Contudo. como se vê. . também inocente. não faremos caso dos muitos absurdos ali disseminados no que se refere a Cristo-Deus e taumaturgo Se quiséssemos sair do nosso tema. e ainda destes. E toda esta série de imoralidades para salvar. aqueles predestinados por Deus. Eis as concepções fundamentais sobre as quais se funda o cristianismo: Um Deus proíbe ao primeiro casal humano que coma do fruto que lhes daria a conhecer o bem e o mal. e se era homem. Eles porém desobedecem e são castigados. E mesmo dos que são cristãos. que em nada foram participantes desse mesmo fato. para cúmulo de imoralidade. embora nenhuma culpa tenham. Deus condena este povo à infâmia. onde se prova que esta religião é exclusivamente teológica e não obra de um homem histórico. para isso. tanto mais imerecida. não a Humanidade inteira. ainda é bem pouco cristão. só se salva uma pequeníssima parte. obrigando um povo a um deicídio. inocentes. como se ouve todos os dias pela voz autorizada da Igreja. o qual. é o seu próprio Filho. pois que o mundo. visto que antes de comerem esse fruto não sabiam distinguir entre o bem e o mal. Falta revelar o principal. Deus recorre a outra vítima. sendo certo que. mas apenas aqueles que vierem ao mundo depois de Cristo. pouco nos custaria fazer ver o absurdo da religião cristã. Assim. Deus não só castiga os autores do fato. não podia morrer. Esta vítima. só uma pequena parcela. Enfim. não podia ressuscitar. examinada em seus delírios sobrenaturais. faltava quem o matasse. para que esse Deus fosse morto. quanto era uma necessidade determinada pelo próprio Deus a fim de realizar o seu plano. passados vinte séculos. se era Deus.CAPÍTULO VI ABSURDOS ESSENCIAIS DA BIBLIA ACERCA DE CRISTO Fiéis ao nosso propósito de não nos ocuparmos do elemento sobrenatural contido na Bíblia. 84 Para salvar a Humanidade dessa pretendida falta.

Larroque. imediatamente depois. proclamando-o rei de Israel (V. Marcos. 36). 37) como assim que o Mestre terminou de falar. Jesus fala à multidão. Esta é uma das provas mais apreciadas do caráter simbólico e de nenhum modo histórico. e ainda dentre esses. atestando que ressuscitou Lázaro (V. se existiu o homem chamado Cristo. Segundo Mateus153 e Marcos154. serena e conscienciosamente. a Bíblia quer evidentemente revelar a importância da vocação. toda a obra de Jesus. Aqui. pondo em destaque os absurdos acerca de Cristo-Homem. como vimos no 153 154 Mateus. IV. I. 18-22. inverossímil. diz que não se pode explicar senão como uma distração do narrador. que a própria Bíblia atribui a Cristo. sem lhe pedirem a menor explicação. Em Mateus. Ora. 17) e julgando-o filho de um anjo (V. quando Jesus convida aos que desde logo são seus discípulos para que o sigam. o Evangelista explica os motivos de tal estra- . cuja explicação será muito teológica. 29). ou antes. por conseguinte. foi embora se esconder. e para isso. naturalmente. num entusiasmo que tocava as raias da loucura fez. 85 capítulo precedente. Queremos averiguar. que o recebe em triunfo. sem saberem quem era Jesus. uma invenção dos teólogos. que valor pôde ter semelhante declaração e. apesar disso. ignorando enfim. 13). se hoje é certo e sabido que os livros atribuídos a Moisés são apócrifos? No capitulo XII de João. mas sim para cumpri-la. forma que é de todo o ponto. sim. (V. mas tira ao fato toda a importância e verossimilhança humana. Pois bem: apesar do que essa multidão. 16-20. Jesus declara que não veio para abolir a lei de Moisés. estes abandonam imediatamente o ofício e a família sem refletirem. muito mais do que o suficiente não só para crer em Jesus mas também para se converter. analisaremos apenas os mais salientes. Por isso. disse e viu.Isto tudo demonstra incontestavelmente que Cristo é. o que viria a ser deles. Comecemos pela forma como os apóstolos seguem a Jesus. o evangelista diz que essa multidão não só não se convenceu (V. em gritos de Hosana. perante tamanho absurdo. nos cingiremos à Bíblia apenas enquanto fala humanamente.

de Galileia . de novo. . sem que ninguém o estorvasse. a crucificação. da prisão de Jesus à sua ressurreição. 38) aconteceram para que se cumprisse a palavra do profeta Isaías. que esta contradição absurda não se explica senão recorrendo à necessidade de cumprir-se uma profecia (neste caso. para que não vejam com os olhos e não entendam com o coração. o enterro e o tempo que permaneceu sepultado (três dias. 155 Mateus. quem acreditou no que dissemos? A quem foi revelado o braço do Senhor? (V. porque outra vez dissera Isaías: (V.. Tudo isto confirma que a Bíblia faz proceder Jesus só para cumprir o prescrito no Antigo Testamento. que ninguém me venha com afirmação de que os livros bíblicos são narrações históricas.nheza. (V. Pois bem: segundo Mateus e os outros evangelistas sinópticos.. festejando-o. que é abertamente simbólico o sentido da narração bíblica? Segundo os quatro evangelistas. correndo ao seu encontro. XXI-8. 86 E foi assim que ele pôde realizar. a façanha da expulsão dos vendilhões do templo. respondia a multidão: Este é Jesus. deste modo. a de Zacarias) que impunha ao evangelista a obrigação de dizer que Jesus fora acolhido pelos habitantes de Jerusalém com extraordinárias manifestações de alegria. 40) Cegou-lhes os olhos e endureceulhes o coração. dizendo que esses fatos (V. Jerusalém não conhecia ainda então Jesus. que dissera: Senhor. adornando as ruas com bandeiras e palmas e exclamando: Hosana ao filho de Davi! Bendito seja o que vem em nome do Senhor! E aos que perguntavam quem era. a saída para o Calvário. a multidão procedeu como se o conhecesse e venerou-o como se tratasse-se de um grande personagem. a morte. Segundo Mateus155 quando Jesus entrou em Jerusalém. 41) Isto disse Isaías. compreendendo neste espaço de tempo o processo e a devolução de Herodes a Pilatos. o Profeta de Nazaré. e se convertam e eu os sare. 11. Ora. Será preciso repetir aqui novamente. embora incompletos) não se passaram mais que três dias incompletos! É isto possível? Respondam os que tenham um pouco de bom senso. 39) Por isso não podiam crer. sem reparar que isto comprometia ou invalidava a sua narração? Será preciso concluir.

grosseiramente da que Eliseu deu ao seu servo. de não fazer depender diretamente de Pilatos a responsabilidade de um ato odioso. X. Pilatos estava convencido da inocência de Jesus e até intentou salválo156. pela necessidade de agradar a Pilatos e de lançar sobre os Judeus toda a responsabilidade da parte odiosa da lenda. o conselho dado por Jesus aos seus companheiros para que fugissem ante os seus inimigos (Mateus. devia necessariamente passar por sedicioso. se por um lado. neste caso. não poderia acontecer Haveria nos Evangelhos absurdos que seriam imorais. tanto mais que era um governador prevaricador e tirano. no que ele imita a Jeremias. por outro não se pode explicar a 156 Luc. não se explicaria a sua consideração por Jesus. a não ser que se admita a nossa tese. que sem ele. por determinados motivos que . proclamando-se Rei dos Judeus. 4) é copiada. pois para condenar e crucificar publicamente a Jesus era preciso a aquiescência de uma autoridade competente. 20). apesar de abandoná-lo aos judeus. imoralidades que seriam absurdas. Como explicar uma tão grave incoerência ? João faz supor que Pilatos temeu um castigo de César por não ter condenado à morte quem. para os evangelistas. senão recorrendo á invenção da morte de Jesus. XXIII. porque ofuscam e mancham sem necessidade o caráter de Cristo. Só assim o absurdo em questão se explica satisfatória e racionalmente. XIX. dada por Jesus aos seus apóstolos para que não saúdem a ninguém quando viajar (Lucas. ou se querem. por exemplo. como atribuir a este magistrado a responsabilidade pela condenação de um inocente? Daí a necessidade. a responsabilidade dos judeus estava predestinada pelo profetismo. Outros supõem que esta narrativa fora inventada quando o cristianismo se infiltrava no mundo romano. segundo o testemunho do contemporâneo Fílon. João. Citemos. 87 atribuída a Pilatos pela Bíblia. XXI. Mas. A ordem. depois de consentir os ultrajes dos soldados no Pretório e de o haver preterido a um prisioneiro da pior fama. se não fosse evidente a sua razão de ser e a sua origem simbólica e mitológica.A parte da Bíblia referente a Pilatos é simplesmente impossível e inexplicável. XXIV. Mas. Mas. 16. 17 Lucas.

VIII. por favor. um verdadeiro fantoche que se move só quando e como o controlador quer. e para que. pelo contrário. 27. dado por Jesus aos comensais para que não se coloquem nos primeiros lugares a fim de que o dono da casa os não faça passar aos últimos. que se encontrava em . mas inventadas por aqueles que o criaram. se não fosse por nossa interpretação simbólica e mitológica que desculpa de tais ações o objeto da adoração dos cristãos. para que não o entendessem os que o ouviam. 22. mas por outro lado. zombando do mundo. 18. filho de Baraquias. aos seus discípulos157. a quem mataram entre o templo e o altar: a crítica demonstrou que não existiu qualquer personagem com tal nome e em tais circunstâncias. 18. e em mais de uma ocasião. Só existiu um Zacarias. Sal. demonstrando que não foram cometidas por ele.não existiam aqui. porque os mais instruídos ficariam desorientados. 35. (Job. Jesus censura os hebreus por terem derramado o sangue de Zacarias. E o conselho. pelo contrário. 18. dirigindo-as não só aos inimigos e aos predestinados. 29. olhariam e não veriam158. que nunca existiu. mas também. filho de Baruch. VIII. que faltamos ao respeito a um objeto de grande veneração. demonstra a Bíblia que Cristo não é pessoa real que procedesse naturalmente. se não lhe explicassem os próprios evangelistas. incapazes de compreender a razão porque se expressava de tal modo. 13. 18. Marco IV. 13. impelidos pela necessidade de cumprir um plano teológico. dignos de um desequilibrado. segundo a qual ouviriam e não entenderiam. consignado no capítulo XIV de Lucas. 88 do simbólico dos processos de Cristo. No versículo 35 do capítulo XXIII de Mateus. 17. Não se diga. é um ser fantástico. 18. Este seria o maior absurdo. Prov. Cristo falava em parábolas. a fim de que aquele os brinde com os primeiros são lições de hipocrisia e de orgulho citadas para dar cumprimento a esta máxima do Antigo Testamento: Aquele. 67). 29. se coloquem nestes. 23. 17. pois muitas outras palavras bem mais duras teremos de empregar para definir semelhante maneira de proceder. Isto explica realmente o senti157 158 Marco IV. advertindo que Cristo o fazia para cumprir a profecia de Isaías. que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado.

Leiamos pois o capítulo XVIII dos Atos dos Apóstolos: . Apolo! Quem é este Apolo? – indagaria Dom Abbondio (personagem do romance Os Noivos. . Uma das figuras bíblicas que demonstra a inconsistência histórica da narrativa é a de Nicodemos. que é Baruch em lugar de Baraquias.que não figura no número dos apóstolos? A própria Bíblia o vai dizer. muito tempo depois da época em que os cristãos colocam Jesus. natural de Alexandria. Mas. morto Cristo. denunciar as suas imposturas e invenções. como tendose já realizado. a um sucesso que deveria ocorrer muito tempo depois dele. e que os seus autores não foram muito escrupulosos em respeitar a verdade histórica. antes muito pelo contrário. criaram o mito. pondo-lhe na boca palavras absurdas. O primeiro termo do dilema resolve já a questão.24.por dois dos seus discípulos: Apolo e S. diferença de resto fácil de explicar. Era instruído no caminho do Senhor. . para literalmente destruir. Este rico fariseu. descrito pela Bíblia como pessoa de bons costumes e boa fé. Mas o caso é que o assassinato deste Zacarias foi cometido no ano 67 da nossa era. E veio a Éfeso um Judeu de nome Apolo. membro do Sinédrio. menos a diferença do nome do pai. este Nicodemos não se fez cristão. De modo que se torna a dar o caso de João Batista (que também não se fez cristão). que vai procurar 89 Jesus de noite159. numa época de menos credulidade. que mais tarde defende Cristo das acusações dos seus correligionários160 e que. que tem com ele uma entrevista. falava com fer159 160 João III. sem se darem conta do que estas deveriam. o golpe de misericórdia na própria Bíblia.1. 50 ss. isto é. e o segundo demonstra que os Evangelhos foram escritos muito tempo depois da época assinalada a Cristo. 161 João XIX. João VII. homem eloquente e muito douto nas Escrituras. De sorte que. de Alessandro Manzoni) . segundo o historiador Josefo.25. Paulo. 39. aniquilar e dissipar em absoluto a pretendida existência de Cristo é dado quem o diria! . ou este falou por falar ou se referiu.idênticas circunstâncias ao citado por Jesus. praticou piedosas curas sobre o cadáver do mestre161.

Não fala nunca dos parentes de Jesus. Este apóstolo. convencia publicamente os judeus. se conservava judeu? E. cit. há mais.vor de espírito e ensinava com diligência sobre Jesus. Mas. . Não nos diz quando veio ao mundo. Não é estranho que um judeu falasse para converter os outros ao cristianismo. e promete encerrar-se em seu seio depois de cumprida a sua missão de ir a Espanha saudar um grande número de filiados. saindo muitos outros a recebê-los em todo o percurso. Paulo não fala de Cristo como de uma personalidade histórica. o que fez e como o fez.. 15 e ss. sem pai. se justificar da acusação que lhe faziam.162. comparece perante o rei Agripa. Paulo escreve que a fé dos cristãos de Roma tinha adquirido grande fama em todo o mundo. 163 164 mens como encarnação de uma divindade. que Jesus era o Cristo. quando Paulo e os seus companheiros chegaram a Pazzuoli tiveram uma boa acolhida da parte dos seus irmãos ali estabelecidos. E. mas como de uma tese teológica 164.. pelas Escrituras. 5 Dide. como se realizou esta encarnação? O apóstolo não o diz. XXVI. p. S. Paulo convocou os principais judeus que lá viviam.. III. sem mãe. enquanto pela sua parte. Paulo. Jesus é um ser misterioso.28. como se isto ainda fosse pouco.4 Atos. diante deles. mostrandolhes.). Mas. de Pazzuoli a Roma. 338. próximo já do final da sua carreira. declara-se Fariseu e sustenta que a seita dos Fariseus é a mais severa do que a sua religião163. para. op. depois de ter exercitado o seu apostolado Cristão. 93. . que se mostra aos ho162 Epístola I aos Coríntios. na Epístola aos Romanos (1-8). de ter ofendido em Jerusalém o povo e os ritos dos padres. tendo somente conhecimento do batismo de João. com grande veemência. 90 5. Chegado a esta capital. quando e como foi crucificado165. a Epístola I aos Coríntios diz-nos que este Apolo era igualado a ninguém menos do que a Cristo. nem sequer de Maria. Vejamos S. Como explicar-se o fato da165 Peyrat. op. p. Por consequência. Segundo os Atos dos Apóstolos (XXXVIII.cit. 12. para cumprir um grande sacrifício expiatório. Porque. Para ele.. sem genealogia. I.

invalidam o que ela pretende fazer crer. que faz dos hebreus e dos egípcios uma única superstição. de maior importância do que a que os textos consentem. Ou seja: que o cristianismo já era um fato muito tempo antes de Cristo.fato relativo às justificações da sua própria fé hebraica . ou pelo menos. tão íntimos de Paulo . Como se vê.e a crença do mesmo apóstolo acerca da sua obrigação de se justificar perante eles? E como explicar o fato inegável segundo o próprio Paulo. dos Essênios e dos Terapeutas. que admite serem cristãos os terapeutas do Egito de que Fílon já tinha falado. ou que os cristãos existiam já muito antes da época assinalada a Cristo. e como veremos ainda ao ocuparmo-nos das doutrinas de 91 Fílon. e como vimos em Tácito. mas. a não ser que admitamos que a narrativa dos Atos dos Apóstolos e da Epístola aos Romanos é uma fábula. sem necessidade dele. porque concorre para demonstrar a nossa tese adaptando-se perfeitamente aos resultados da crítica. inconcebíveis em um livro que se propõe proclamar a existência de Cristo bastam só por si. sem que possam passar por exceções. Naturalmente. como nós a aceitamos. Isolados. a mesma Bíblia. proporciona ajuda e apôio à nossa demonstração. pois originam-se da própria Bíblia e nela se apoiam. no entanto. não podem ser ignorados diante do acúmulo de outros elementos de prova que temos e daqueles que ainda aduziremos contra a existência de Cristo. Por outras palavras: estes absurdos. cuja pregação Paulo apenas começava agora? Evidentemente. A primeira hipótese não será admitida pelos cristãos. não há explicação possível. só nos basearemos nestas incongruências da Bíblia em razão da sua flagrante evidência para deduzirmos uma conclusão forçosa. . da difusão do cristianismo por todo o mundo. Estes fatos adquirem um valor excepcional porque provam o contrário do que a Bíblia se propõe a provar.queles hebreus da Itália. como já vimos em Eusébio. deverão admitir forçosamente a segunda. estes fatos talvez tenham pouca credibilidade. Por isso. para nos persuadirem do contrário.

que os apologistas ergueram até aos céus e agora a crítica vai ponto a ponto destruindo.não são uma criação de Cristo ou dos Evangelhos porque preexistiam já no Antigo Testamento.como mais adiante veremos. É completamente oposta às preocupações teológicas e metafísicas de uma seita. E vemos a Humanidade.essa moral é a prova mais firme e segura de que Cristo não existiu. por certo. principalmente da búdica e da zêndica ou persa. concentrando nele toda a idealidade. mas que não podem entusiasmar um espírito positivo. além disso. deve reconhecer que. mas apenas a de uma teologia determinada. MAS SIM . se bem que esta parte boa da moral cristã.. Suprimindo todas estas máximas que não pertencem ao cristianismo e são. na sua adolescência. ao desfazer as ilusões criadas em torno da lenda e da idealidade humana . 92 As máximas . prova contrária à existência de Cristo. porque a moral que os Evangelhos lhe atribuem não pode ser obra de um homem.não faças a outrem o que não queres que te façam e faze aos outros o que desejas que te façam . DA TEOLOGIA A Bíblia fornece-nos uma prova ainda maior que todas as aduzidas até agora contra a existência de Cristo. se fosse obra de um só homem. A Humanidade. sem a qual o cristianismo não teria podido desenvolver-se não é cristã . que cresceu nas doces ilusões de que o Cristo fora a personificação de todas as perfeições humanas.CAPÍTULO VII A MORAL SECTÁRIA DOS EVANGELHOS NÃO É OBRA DE UM HOMEM. Esta prova está precisamente na sua moral. porque é excessivamente sectária e irrealizável para que pudesse ser ensinada e praticada por um homem. onde estavam desde a moral metafísica das religiões orientais. Os que neste ponto se encontram da verdade verão porque motivo determinados cristãos da . tornada adulta. e seria bastante para execrar o homem que a criasse. máximas realmente morais o boas nos Evangelhos. Há. o resto da moral evangélica é condenável sem remissão. por místico que seja. foi vítima de uma enorme mistificação. Essa moral..

não tem que se preocupar com consequências. 17 e 18 Lucas XIII. de resto. rico de ensinamento é o fato de apelarem para Cristo. e enquanto destrua o velho erro . Para os revolucionários e para os próprios anarquistas.. deve fazer-se agora. Não é porventura. Pois bem: enquanto a crítica trabalhe na demolição do ídolo cristão e das ilusões de uma moral superior. nem as classes dominantes. serão por ele condenados todos os que oponham resistência (Rom. como Tolstoi e certos reformadores alucinados pela lenda. O que. a não ser pelo receio que há em dizer à Humanidade verdades tão amargas. emanando de Deus todo o poder. mas até o teria já precipitado na Geena. nem a casta sacerdotal. São Paulo chega a proibir que se reclame e faça justiça (I-Cor. Um dos fenômenos mais extraordinários da nossa época. X. porque a Verdade não reconhece compromissos nem fraquezas humanas e porque a lógica não se sente satisfeita se não chega até as últimas consequências. que além da ilusão. 1-2). edificante essa duplicidade do cristianismo? Não serão ingênuos os que baseiam as suas esperanças e os seus privilégios numa moral tão absolutamente contraditória? 93 Não se verá que semelhante moral não pode ser obra de um só homem ? Mas. não só arrojado dos altares este último ídolo. E têm razão uns e outros.na hora presente a crítica já teria. Cristo não só exalta a pobreza. XIII.. até hoje se não fez. mas até considera o governo como um abuso. por isso constitui uma grande força moral . de a privar tão bruscamente de uma ilusão que. faz-se. A ciência. tanto os revolucionários como os déspotas. a todo o conhecimento sereno e crítico do assunto. julgando-se talvez continuadores de Cristo se regozijam em manter as antigas ilusões. Algumas vezes. Poucos séculos há que esta luz começou a brotar das inteligências e.nem elas sequer poderiam impedir que a luz da razão ofusque a moral evangélica.nossa época. e todo o magistrado como um natural inimigo dos homens e de Deus (Mat. Cristo prega a resignação. tem interesse em perpetuar a mistificação de 2 mil anos . porém. 11). Isto é para os déspotas. opostas a toda a evidência. VI-7) e declara que. que o torna respeitável mesmo a alguns incrédulos.

raciocinando como o hebreu Abraão que.de acreditar na existência de Cristo. Os defeitos da moral cristã são tão evidentes que muitos católicos eruditos. um homem real desta terra não teria ousado concebê-las e muito menos pregá-las sem ir para um manicômio ou cárcere. Citemos. colocamnos entre as provas da divindade desta religião. por este ideal de perfeição por ela mesma criado . atraídos pela força irresistível da Verdade. apesar de tanta corrupção é porque tinha a proteção do céu. seç.nós. porque não nos compete. e acerca da segunda. . V. em nós não influem preocupações de nenhuma índole estranha à verdade: nem a finalista daquele que crê. XVI. tantas vezes secular. tantas e de tal calibre que. contratistas gerais. advertiremos que queremos aproveitar para a nossa tese os defeitos desumanos da moral cristã que entram a fazer parte do nosso quadro. não é evidente que tal circunstância depõe contra o caráter histórico daquele homem e a favor da sua criação puramente mitológica. simbólica 166 Nicolau Tomásio Roma e o Mundo. Se os Evangelhos abundam em máximas desumanas. uma adúltera. cap. nem a utilitária do nosso sistema. como exemplo. um homem que mente e atraiçoa o seu amigo. mas sim à teologia que o criou. mudando em execração a veneração. demonstrando-lhe que os defeitos da moral cristã não são imputados àquele Cristo. E entenda-se bem que. tendo visto em Roma as torpezas da 94 corte pontifícia se fez cristão dizendo que se esta religião pôde triunfar e subsistir. Nicolau Tomásio. mulheres a quem o mundo chama perdidas. Eis os eleitos de Cristo! Esses querem que a história dos seus prodígios e das suas virtudes registre entre os antepassados do Salvador do mundo um fornicador. Nada diremos da primeira. não podendo negá-los e não querendo decidirse a abandonar a fé. outro que protege os que se dedicam a lapidar inocentes. pelo contrário. uma meretriz. da Humanidade. poupemos à Humanidade a dor de lhe destruirmos o objeto da sua maior veneração. que nunca existiu. um rei traidor e homicida. que disse: Soldados pagãos. Estes pensamentos humilham o espírito mas abrem o coração à severidade para nós mesmos e à caridade para com o próximo166.

173 João. 171 Mateus. IX. 26. pois umas e outras têm por fundamento comum o caráter teológico. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim. E em João173: Quem amar a sua vida. 25. 167 Em Lucas168 exprime-se assim: se alguém vem a mim e não odeia seu pai e sua mãe.Eis aqui um que diz: Seguir-te-ei. da filha contra a mãe. que denuncia a sua origem impessoal e a sua formação sistemática e eclesiástica. deixa-me ir dispôr do que tenho em minha casa. porém a fatos. Em Mateus169 (VIII. Em Mateus171 Jesus aconselha os seus discípulos a praticarem a castração voluntária.e sobretudo teológica? Especialmente se essa circunstância entra coerentemente num processo de provas análogas que se confirmam umas às outras? Vamos. . como as sectárias são desumanas.Jesus lhe disse: Quem põe a mão no arado e olha para trás. e quem ama seu filho ou filha mais do que a mim. VIII. para que se façam dignos do reino dos céus. porque tanto as humanas são sectárias. não é digno do reino de Deus. 34-37. diz Jesus em Lucas172. A moral evangélica. XIV. seus irmãos e irmãos e até a sua própria vida. mas sim a espada. mas primeiro. não é digno de mim.62. sua mulher e seus filhos. não pode ser meu discípulo. Mateus. 12. 26. 61. da nora contra a sogra. 170 Lucas. E não se diga que tais máximas sejam puramente virtuais. 172 Lucas. 21-22) a alguém que lhe pedira autorização para sepultar seu pai Jesus diz-lhe: Segue-me e deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Vim trazer a discórdia do filho contra o pai. X. tiradas algumas máximas boas que não são suas pode dividir-se em duas grandes categorias: a das máximas irrealizáveis ou desumanas e a das máximas sectárias. senhor. Comecemos pelas máximas irrealizáveis ou desumanas Em Mateus167 Cristo discorre deste modo: Não julgueis que vim trazer a paz à terra. XII. 95 Lucas. 21-22. Em Lucas170 lê-se . Jesus aconselha também a que 168 169 Mateus. perde-la-á. XIV. e quem a odiar neste mundo. XIX. não pode salvar-se. não vim trazer a paz. conserva-laá na vida eterna. para nós mais eloquentes. Quem não odeia a sua própria vida.

. Basta expô-la que por si própria se condena. 22. apresenta-lhe a outra. a sua missão limita-se única e exclusivamente aos hebreus: é um mesquinho nacionalista! Tanto assim é. 180 Mateus. 181 João. X. E. V. Passemos agora às máximas sectárias da moral evangélica. VI. 39 . Acrescentando não ser justo tirar o pão aos filhos para o deitar aos cães180. que não se cansam nem fiam174. X. com a bebida. que não trabalham e os lírios do campo. na indigência mais miserável: Em Lucas. a Marta que por si só. declara que pede só pelos que nele creem.26. Diz que os doze apóstolos se sentarão em doze tronos para julgarem as doze tribos de Israel179. Jesus ordena aos seus discípulos que preguem o seu Verbo unicamente aos hebreus. XV. com os vestuários. O amor pregado pelos Evangelhos não se dirige a todos os homens. 9-20. que troca os labores domésticos pelo ascetismo. XIV. Quer que o homem viva na mais absoluta pobreza. 177 Mateus. e proíbe-os de entrarem na cidade dos gentios e dos samaritanos178.4. 24-34. a que não pensem no dia de amanhã: que imitem as aves do céu. Mateus. Portanto. deixa-lhe também a capa. que lhe pedia a cura de sua filha: que fora enviado só para Israel. 39-42. 178 179 Mateus. vai com ele outros dois mil a mais. que ele próprio responde à Cananeia. 33. 96 Mateus. E ao que te obrigar a ir carregando mil passos. E se alguém te ferir na face direita. quando em João181 pronuncia a sua última prece. a que se não preocupem com a comida. E aquele que quiser demandar-te em juízo e tirar-te a túnica. Em Mateus177 ele diz: Não resistas ao mal. Lucas. Prefere Maria. há de realizar todos os trabalhos da casa175. A própria dignidade humana não lhe merece a mais insignificante consideração. XVII. 5-7. Não é mister grande engenho nem muita eloquência para provar que esta moral não é realizá174 175 vel.não trabalhem. XIX-28.176 diz ele: Nenhum de vós que não renuncie a quanto tenha pode ser meu discípulo. isto é por contrária às leis biológicas e sociológicas. 176 Lucas. por desumana. incompatível com a conservação e progresso da espécie humana. mas apenas aos hebreus.

IV. sem outro mérito mais do que a sua pobreza. 10. XI. Este dogma imoral. próprio. o qual chama. A mesma inspiração é reconhecida pelas parábolas do convidado castigado sem culpa189 e do filho pródigo190. 189 Mateus. VIII. que representa Deus. I Tim. 9. 8-13. ensina que todo aquele que se exalta será humilhado e o que se humilha será exaltado185. 25. a diversas horas os operários da sua vinha.diz Cristo . 44. XV. que punha a justiça e a Humanidade acima dos próprios deuses. XXII. ainda que sejam vagabundos. quando eles não respeitavam as leis da natureza e da consciência.se o Pai. I. Rom.Mais imoral e não menos sectário ainda é o dogma da predestinação. Ef. IX. VI. 20. XVIII. 9. 10-12. 5. Por isso. 38. IV. O dogma da predestinação encontra-se. que dos pobres será o reino dos céus. XIX. XX. II. Paulo191 e se constitui num retrocesso em relação ao politeísmo greco-romano. 184 Mateus. para que não compreendam as suas palavras e não possam se salvar183. XIV. 11-12. E aos que censuram a sua parcialidade. só por suas riquezas. não o trouxer182. pagando-lhes depois a todos por igual. se assim querem. na Bíblia. que me enviou. declara que adotará a parábola com os que não forem seus discípulos. 25. II. Ninguém pode vir a mim . Filip . Marcos X. 10-25. responde. Mateus. que àquele que tem ser-lhe-á dado e terá em abundância. 18. O caráter. 11. 14-16. que os ricos serão castigados. 16-21. o próprio fim teológico da moral evangélica estão comprometidos pela cir186 João. 47 ss. II. deste modo. 24. 1-6. 13. por isso. 185 Lucas. II. e àquele 182 183 que não tem. fazendo-lhes desfrutar do que outros lavraram187. ele. 12. VIII. XIII. II. 25 e 26. 190 Lucas. e segundo esta preocupação teológica.. 25. 187 João. 97 Mateus. 8. a origem. II Cor. 191 Gal. II Tes. pois. muitos serão os chamados e poucos os eleitos. E sempre. até o que não tem lhe será tirado186 que mandou ceifar os que não lavraram. embora sejam bons188. 188 Lucas VI. ou sectário. em Mateus:184 Não terei eu direito de fazer do que é meu o que entender? Os últimos serão os primeiros e os primeiros os últimos. 9. I Tim. Lucas. III. Marcos IV. 25. III. 6. . erigido em verdadeira doutrina de S. 3. Lucas VIII. foi posto de propósito na parábola do dono de casa. I. 29-30. 4.

16. e por isso conquistou o ódio da casta sacerdotal. Esta é outra das inúmeras contradições irreconciliáveis. além disso. contanto que sejam crentes. 8. Mas poupou a vida ao rei da Síria. Lucas. mas um objeto de especulações da mais disparatada das escolas teológicas. o exemplo de Achab. aos incrédulos. muitos lugares cita a máxima referida. onde Jesus diz aos discípulos que os que não escutarem suas palavras serão tratados no Dia de Juízo mais severamente do que os habitantes de Sodoma e Gomorra193. IX. este rei de Israel é acusado de ímpio e tratado com a maior aspereza. Pelo contrário. entre muitos outros. transtornando toda a ordem moral e baseando esta nas práticas do culto e nas crenças. que provam que ele não é pessoa real. Limitar-nos-emos a citar a instituição do bode expiatório (Levítico. 98 te teológica194 e em. são preferíveis os delinquentes vulgares. mas quem não crer será condenado192. que: Quem crer e for batizado será salvo.cunstância desta moral se basear. magnânimo. . mas apenas segundo a sua devoção. ainda que sejam honrados. XVI) e a da água de purificação. não era original. XVI. Esta moral só pode ser teológica. Está relacionada com a moral de todo o Antigo Testamento. humanitário. não nas boas obras. uma vez que essa doutrina era proveniente do profetismo. 3. Muitos são os exemplos do Antigo Testamento que podemos aduzir. se baseia na moral religiosa. Aqui temos. A Bíblia não mede o mérito ou demérito das pessoas. Nos capítulos que lhe são consagrados no Antigo Testamento. 193 Mateu. tão injustamente exaltadas pela Bíblia. que não acreditava no Deus da Bíblia. é obra quase exclusivamen192 Marcos. Em geral. generoso. Achab é um bom rei. o Evangelho. 13-15. sob o ponto de vista das boas ou más ações. Veremos ainda. no tempo oportuno. mas exclusivamente na crença e no culto. Ensinava Cristo. Donde se deduz que. Em outros lugares Cristo prega a moral independente do culto. 194 Vernès. apesar de não ter cometido as iniquidades de Davi e de Salomão. X. cit. que como já demonstramos. todo o espírito. Marcos. que anima a Bíblia. Benadad. que Cristo ou melhor. para a moral evangélica. Esta máxima está em relação com a outra. VI. op.

No capítulo VII de Mateus. versículo 27.Temos porém. Juliano e Constantino: o primeiro foi um modelo de virtudes. mas nada quis com o cristianismo. que são semelhantes às arvores que dão maus. as seguintes palavras: E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles. Jesus disse que todos os que não estavam com ele. Davi e Salomão que cometeram toda a espécie de iniquidades. só por têla favorecido. XVIII. Cristo. Não só com o famoso compelle in99 trare. 20). Bastou isso para que a Bíblia o enaltecesse. mas dai lugar à ira. que é ele próprio. o infame Ehu. fazendo isto. 16-24. 8) e o aturar ao inimigo nesta vida: não vos vingueis do vosso inimigo. Jesus adverte os seus discípulos de que se guardem dos falsos profetas. 41-46. palavras estas que querem significar. Mas o coroamento deste sistema é a eternidade das penas pregada pelo manso cordeiro de Nazaré (Mateus. era dado à leitura dos sacerdotes. 15-19 . porque. Mas onde sobretudo se manifesta o caráter sectário. Frutos. No capítulo XIX de Lucas. que o cristão deve ter por inimigo aquele que não é cristão. assassinando a própria família. é enaltecido pela Igreja. trazei-os aqui e tira-lhes a vida na minha presença. XXV. amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. 198 Mateus. os que escreveram com a máscara do seu nome. Veremos ainda mais tarde. (Epístola aos Romanos XII. 30. dois imperadores. XII. proclamaram a legitimidade da perseguição religiosa195. E acrescenta que toda a árvore que não der bom fruto. Jesus põe na boca de um dos personagens das suas parábolas. Jesus 195 196 Lucas. Segundo Mateus196 e Lucas197. Até os Evangelhos propriamente ditos são a pura expressão da evidência absoluta em prol desta perseguição. XI-23. necessariamente. deve ser cortada e arremessada ao fogo198. Mateus. XIV. estavam contra ele. que foi um miserável. ou antes. teológico e verdadeiramente sacerdotal da moral evangélica é na instigação às perseguições religiosas. mas favoreceram a casta sacerdotal: logo a Bíblia os elevou até às nuvens. Mais ainda: Ehu. O segundo. Foi o bastante para passar à história com um nome infamante. No capítulo XV de João. 197 Lucas.

isto é. inventando-se. segundo os Atos dos Apóstolos. É na Bíblia que se encontram as primeiras execuções e apologias da intolerância. 9. onde queimou. . sem o menor escrúpulo. para que Deus o possa castigar infinitamente199. Paulo em Éfeso. da intolerância irmanada com o preconceito religioso. porque o fundamento destes encontra-se na própria moral evangélica. delata a fábula. pois que só devia ter vindo depois dele e por ele. 18.000 israe200 201 Epístola aos Romanos XII. é ainda o mesmo Cristo dos Evangelhos que leva a cabo a instituição da excomunhão. com o auto de fé realizado por S. Citemos. E o apóstolo João testemunha que o que se revolta e não permanece na doutrina de Cristo não possui a Deus. . e meu pai é o lavrador. as perseguições seguintes Moisés faz exterminar por ordem de Deus 24. isto é. por isso. 19 João. repetindo a doutrina dos provérbios (XXIV. S. grande numero 199 de livros. ele a tirará. como a vara. e secará. Em tese geral. II. colocando entre o número de adversários da igreja aqueles que com ela não se conformam202. falando da Igreja. Daqui se depreende que os Evangelhos foram escritos quando a Igreja estava já constituída. pode afirmarse que o Antigo Testamento não é mais do que a escola das perseguições religiosas. 20). Ep. para amontoar sobre a sua cabeça carvões acesos. XVIII. XIX.. A Igreja Católica encoleriza-se contra os que lhe recriminam as suas perseguições religiosas e autos de fé. se elevava a 50000 dinheiros de prata200. 17. e quem o não segue. textualmente: Eu sou a verdadeira videira. porque a Igreja não podia ainda existir no seu tempo. será arremessado fora. Aqui. 10. e arderá. Paulo. 11. O que não permanecer em mim. não deve ser recebido em casa e nem sequer saudado201. vós outros as varas. Eu sou a videira. 20. 17. Toda a vara que não der fruto em mim. Por fim. 100 Atos. Jesus. As máximas da moral evangélica explicam-se perfeitamente sob o ponto de vista teológico. pondo-se na boca de Jesus o que ele não pudera ter o dito. cujo valor. e será enfeixado e atirado ao fogo. 202 Mateus.diz. XXV 21-22) aconselha que se dê de comer ao inimigo que tenha fome e de beber ao que tenha sede. como exemplo. (Epístola aos Romanos XII.

De tudo isto se vê que a Igreja Católica imitou bem os exem101 plos de violência e de intolerância da Bíblia. E o excitador devia ser morto. a casta sacerdotal que o inventou. incluindo mulheres e crianças. por seu pai. só porque tinham induzido os israelitas à apostasia. precisamente. o sumo pontífice Mattatias estrangula um herege sobre um altar. a carta magna. invocadas e abençoadas por Deus. Bastava o fato de alguém excitar a que se adorassem deuses estranhos para ser castigado com a morte. em razão das suas perseguições ferozes contra os outros cultos. deixou a descoberto a origem meramente teológica do mito que deu lugar a Cristo. e ordena a carnificina de todos os moabitas. onde as excitações ao ódio teológico e às perseguições dos incrédulos. por sua esposa ou por um seu amigo. O profeta Eliseu ordena atrozes perseguições religiosas. Para se convencer. arvorando-se única e exclusiva depositária da verdade absoluta.litas. Josias é bom visto por Deus. Nos Salmos. animada pelo preconceito religioso. que tinham sacrificado perante o Deus Baalpeor. ou antes. encontram se a cada passo. basta ler os exemplos muito persuasivos da . Nos Macabeus. Elias manda exterminar 850 profetas de Baal. as perseguições religiosas são exaltadas. por mais que seja próprio da casta sacerdotal minar as máximas fundamentais da moral humana para impor o domínio daquela sobre esta. por seu irmão. Mas. por assim dizer. Outro tanto se lê em Isaías. não faz mais do que manter a tradição do Antigo Testamento. Cristo. O livro dos Judeus não é mais do que uma alternativa perpétua de apostasias por parte dos hebreus e de horríveis castigos por parte do Deus bíblico. A origem teológica da moral evangélica se evidencia ainda em outra passagem importante dos livros do Antigo Testamento: a constante preocupação da Bíblia a favor dos privilégios da casta sacerdotal da qual ela é. Jeremias pede o extermínio dos infiéis. Pregando a intolerância e a perseguição religiosas. a lei fundamental. ao mesmo tempo. Fazendo-se perseguidora e inquisitorial seguiu apenas a Bíblia judaico cristã tanto nas palavras quanto no espírito. O Eclesiastes é do mesmo parecer.

206 João. mas apenas uma obra teológica da casta sacerdotal e que as teocracias da Idade Média são seus frutos genuínos. XII. logo parte também. ao espírito sectário da teologia. 29. IV. mulher?205. e. X. 20-21. o deus da Bíblia faz morrer 50. por outra. 3135. encontramno. VI. 9. Quando seus irmãos o convidam a ir a Jerusalém. em parte. 41-49 205 João II. ao cabo de três dias. uma obra histórica. 31. às ocultas206. enganando os que lhe falam. As ações que os Evangelhos atribuem a Cristo respondem também. o deus da Bíblia mata-os como quem mata moscas. aos doze anos.070 pessoas. que a recebem com alegria e holocaustos. VIII. 1-10. VI. pelo que eles resolvem devolvêla aos israelitas. de modo algum. Marcos II. 19). diz que não. Quando. 102 Recusa-se Cristo a receber sua mãe e seus irmãos. 14. Mas. IX-39. II-21 III. por sua parte. 15. responde brutalmente: O que há de comum entre mim e ti.Bíblia em favor desses privilégios sacerdotais: Levítico (VI. 26. Uza é fulminado só porque ousou segurá-la para não que ela não caísse (Paral. simplesmente porque se tinham atrevido a guardar a Arca (I Reis. à preocupação constante da vida pós-terrena que torturava constantemente o pensamento dos seus inventores. 13. mas apenas eles partem. II. falando ele. estes. deixou a casa de seus pais. para não ser compreendido207 Outras vezes. sua mãe lhe observa que os comensais já não têm vinho. e Jesus responde secamente às doces advertências deles: Por que me procurais?204 Quando nas bodas de Canaã. 207 João. Em muitos casos. a Arca Santa faz um parada entre os betsamitas. XIII. Estes e outros exemplos. como o de Samuel que destrona o rei Saul demonstram bem que a Bíblia não é. Números. VIII. 46-50.VII-2-10. . 23. XXV. em meio desta adoração. 10). 13. Tendo os filisteus tomado a Arca do Senhor. pela Festa do Tabernáculo. atribui a si próprio uma missão obscurantista208 203 Mateus. XVIII. dizendo que os seus únicos parentes são os seus discípulos203. 30-32) e sobretudo. 208 João. entretém-se. Durante a viagem. fartos de pesquisas e cheios de vivas inquietações. XXVII. em Jerusalém. 204 Lucas. que tinham ido procurá-lo.

217 Marcos II. enfim. desde Abel a Zacarias caia sobre eles211. Declara que estes estão irremissivelmente condenados ao inferno. demonstrando que o caráter e a doutrina moral de Cristo são sempre conforme a Bíblia. Irineu no versículo 9 do capitulo XVI de Lucas. 16. Mas. 29-30. encoleriza-se de improviso. Ezechiel XVIII. 212 Jeremias. 103 Lucas. que no Antigo Testamento. apoiando-se S. 211 Mateus. XVI.Outras. Lucas VIII. a hipocrisia e a vaidade221. Lucas VIII. 12-14. insulta sem razão alguma. para que continuar? 214 215 Mateus. 218 Mateus VIII. o egoísmo220. 23. 213 Mateus. III-7. porque se fazem batizar embora reconheça que são partidários da lei de Moisés. . Porém. Jesus o apostrofou. sem que motivo algum justifique tal mudança de sentimentos214. sem pensar no prejuízo causado aos seus donos218. por conselho do Deus da Bíblia e de Moisés (Êxodo III. 221 Lucas XIV. aconselhando que se faça tudo o que ela ensina210. 216 Marcos II. 2. XVI.3. 1-20.19). 13-36. XXXI. Poderíamos continuar indefinidamente. os escribas e fariseus209. Mateus. 1-3. coisa bem diversa daquele ideal de perfeição que a Humanidade formou. 32-33. 10. chamando hipócritas aos ouvintes. 22. 209 210 Falando pacificamente ao povo. 23. Quando Pedro teve notícia do fim que levava Jesus. Marcos VIII. sustentando assim a doutrina da reversão de penas. Ordena aos apóstolos que não saúdem ninguém quando em viagem219. 56. fez voto de que tal não sucedesse. XXIII. XXIII. 4. 28-34. a fim de que todo o sangue inocente derramado sobre a terra. XII. 21-22) tinham roubado aos egípcios os seus vasos de ouro e prata e suas vestimentas. 19-20. Ele prega. 220 Lucas XIV. Marcos V. para justificar aos Israelitas. 26-39. Faz-se manter pelas mulheres dos outros215 Cerca-se de gente faminta216 e vagueia com os seus discípulos sem respeitar a propriedades alheias217 Faz atirar ao mar uma manada de porcos. Na parábola do mordomo infiel. condenadas pelos próprios profetas212. 219 Lucas X. em suma. chamandolhe Satanás213. aprova o furto (Luc.

mas sim a de uma seita teológica ou precisamente. não pode ser a moral de um homem.Basta-nos ter provado que a moral de Cristo não é. 104 . da casta sacerdo- tal preocupada. com o interesse da Igreja e com a salvação da alma. mas sim de preferência. não com a Humanidade e com a realidade da vida.

Terceira Parte Cristo na Mitologia 105 .

onde exporemos uma nova e luminosa prova contra a existência humana. recomendando-lhe. 106 A antiga Índia teve mais de um Deus Redentor. se demonstrarmos que outros personagens análogos. teremos demonstrado também que Cristo não é apenas uma cópia. o Deus bom e conservador aparece a Lakmi. nasce de uma virgem. como e por que foi inventado ou imaginado? A esta pergunta responderá o presente capítulo do nosso trabalho. para lhe revelar os futuros destinos daquela que estava para nascer e para lhe indicar o nome que devia impor à mãe do Redentor. real e objetiva de Cristo. Vedanta). pois Cristo não é mais que a repetição do mesmo tema. a virgem Devanaguy. mas um mito igual. Para o nosso trabalho só é interessante a oitava e nona avatar ou encarnação de Vischnú.CAPÍTULO I CRISTO ANTES DE CRISTO Se Cristo nunca existiu. Além disso. que na oitava assume a pessoa de Cristna e na nona se encarna como Buda. senão idênticos a Cristo. Cristna. Vedangas. tomando forma humana para redimir a Humanidade do pecado original. o precederam na história das ideias humanas ou nos tempos dos conceitos representativos. a não ser na imaginação daqueles que têm acreditado nele. atendendo a que se deviam cumprir os desígnios de . finalmente. O mesmo Vischnú. de onde se concluirá logo que nunca existiu. onde o maravilhoso e o sobrenatural têm a sua origem. que não una sua futura filha em matrimônio com pessoa alguma. o Deus Redentor Vischnú encarnou nove vezes. e a sua vinda está vaticinada nos livros sagrados hindus (Atharva. o Redentor hindu. Se provarmos que os predecessores de Cristo. os mesmos que deram a este todos os elementos da sua vida. mãe da virgem Devanaguy. do seu pensamento e da sua missão não foram mais do que simples mitos. que precederam Cristo e da qual veio o mito cristão. Começaremos por passar uma rápida vista sobre a vida e milagres dos Deuses Redentores. Porque nessa região.

Na noite do parto e enquanto o recém-nascido exalava os primeiros vagidos. Por esta razão. por um mensageiro de Vischnú. iluminou-se a prisão e Vischnú apareceu diante dela com todo o esplendor da sua divina majestade. colocando ainda um valente guarda à vista da prisão. nascidos nos seus Estados durante a noite em que Cristna tinha vindo ao mundo.Deus222. O tirano de Madura. 107 espírito de Deus que queria encarnar-se. que parece ter servido do modelo à do Batista. sabedor do parto e da fuga de Devanaguy encolerizou-se em extremo e ordenou uma matança geral de todos os meninos. um vento fortíssimo desmoronou o muro da prisão e a Virgem foi transportada com o filho. uma celeste música veio de improviso deleitar os seus ouvidos. tão semelhante ela é. não podia ser impedida: E o espírito divino de Vischnú atravessou as paredes para se unir a sua amada. o tirano de Madura faz encerrar Devanaguy numa torre e soldar a porta para evitar toda a possibilidade de fuga. enquanto a virgem orava. Cristna . piedoso rei de Masdras. Certa noite. à uma cabana de pastores pertencente a Nanda. velho e sem prole que se lamentava de não ter descendência e se entregara por 18 anos a contínuas penitências e frequentes exercícios de piedade. Quando os pastores souberam do depósito que tinha-lhes sido confiado prostraram-se diante do filho da Virgem e adoraram-no. mas Cristna escapa milagrosamente daquele ameaça. O rajá teve um sonho em que se viu expulso do trono pelo filho que nasceria de Devanaguy. O recém-nascido foi chamado Cristna. fossem homens ou diabos. que saia sempre vitorioso dos perigos e ciladas que lhe armavam os que queriam a sua morte. A menina recebe ao nascer o nome de Devanaguy. A deusa solar Sâvitri deu um filho a Asvapatis. A profecia de Poulastya. pequena província da Índia oriental. Tudo porém foi inútil. Aos dezesseis anos. Devanaguy foi ofuscada pelo 222 No poema hindu Maha Bhárata encontra-se outra anunciação. Um pelotão de soldados sai imediatamente para o aprisco de Nanda. São quase inenarráveis os episódios dos primeiros anos de Cristna. conforme o que estava escrito. Isto teve lugar uns 3500 anos antes da era vulgar e no palácio do rajá de Madura. e concebeu.

os seus discípulos correram a recolher os sagrados despojos. Rodeia-se de discípulos que devem continuar a sua obra. isto é. acercaram-se dele duas mulheres da pior condição que lhe derramaram perfumes sobre a cabeça e o adoraram.abandona os seus parentes e começa a percorrer a Índia. transportando-se às margens do Ganges mergulhou no rio sagrado. que estava orando perto. Os povos acudiam em massa avidamente para o ver e ouvir os seus ensinamentos. Proclama-se a segunda pessoa da Trindade. os discípulos chamaram-lhe Jezeus. aparecendo-lhes com todo o esplendor da divina majestade e com o rosto de tal modo iluminado que 108 nem os discípulos puderam resistir a tanta luz. descido à terra para salvar o homem do pecado original. Um dia. Cristna. cura leprosos. É o tempo dos seus grandes milagres: ressuscita mortos. O que o matou foi condenado a vaguear eternamente sobre a terra. restitui a audição aos surdos e a vista aos cegos. tinham já desaparecido. estes porém. Ensina por meio de parábolas. que parecia abalado na sua fé. Nesta posição foi atingido por uma flecha e pregado a uma árvore. Em seguida ajoelhou-se. em que o tirano de Madura enviara muitos soldados contra ele e seus discípulos. estes. e orando esperou a morte. A sua moral é pura. elevada e completamente altruísta. chefe dos discípulos. quiseram fugir. porque ele ressuscitara e subira ao céu. Vischnú. Quando Cristna compreendeu que tinha chegado a hora de abandonar a terra e voltar ao seio de quem o tinha enviado separou-se dos discípulos proibindolhes que o seguissem e. repreendendo-os pela sua pouca fé. Em seguida a esta transfiguração. adorando-o como a um Deus e dizendo: Este é realmente o Redentor prometido a nossos pais. ouvindo os seus lamentos foi ter com eles. pregando a sua doutrina. que quer dizer nascido da pura essência divina. A nona encarnação de Vischnú é aquela em que aparece . De outra vez em que se encontrava com os discípulos. Quando se espalhou a notícia da morte do Redentor. tomados de pânico. especialmente Ardjuna.

o mentor espiritual dos Sâkya. embora o seu espírito se alegrasse pelo futuro reservado a esse menino. os prisioneiros recuperaram a liberdade. nome imposto por seu pai e significa Aquele no qual se cumpriram os desejos. à semelhança do que dizem os sírios. e concebera-o de um modo maravilhoso. sob cuja sombra deveria transformar-se em Buda: Aquela árvore tem as folhas continuamente em movimento. foi por suas virtudes. uma casta principesca. Quando morreu. Isto acontecia 628 anos antes de Cristo. Siddârtha. fora de toda a relação conjugal. Foi revelada em sonhos à sua mãe a grandeza do filho e o ascendente que teria sobre todos os seus semelhantes. para nela nascer. as florestas abriram-se em corolas multicores e dos céus choveram lírios de aromas inebriantes. Por ocasião do seu nascimento. Escolhe. e diante dos espíritos e dos ho223 Ao nascer. que em troca da sua vida devota recebeu o dom das profecias. assim como Cristo escolheu a de Davi. de cuja árvore se diz ter sido feita a cruz. . os cegos viram. muito semelhante ao nosso Simeão. acodem reis a adorá-lo. E. Entre os que cheios de gozo vão visitar a maravilhosa criatura. andaram os paralíticos. com o que se quer significar o estremecimento comemorativo da sagrada cena de que foram testemunho. posteriormente. palavra derivada do radical budh (saber) 109 mens maravilhados. foi chamado de Guatama. acerca das folhas da trêmula. mananciais fresquíssimos rebentaram do seu seio. aparece no céu uma estrela brilhante. que incessantemente se agitam em memória da crucificação de Cristo.como Buda223. nome da tribo a que pertencia sua família. recebida no céu. sucedem coisas maravilhosas: uma luz deslumbrante iluminou dezesseis mil mundos. Tão logo nasceu. onde habitam os Nat. saíram espíritos para vigiar o palácio onde devia nascer a criatura e desviar dele e de sua mãe todos os males. uma doce brisa refrescou e animou a terra. fala-se principalmente de um velho. em virtude dos seus anos não poderia assistir aos triunfos dele. De suas altíssimas moradas. surge a famosa árvore Bo. Sâkya-Muni. e da terra. que significa O iluminado. Budda. A mãe de Buda chama-se Maya ou Maïa. falaram os mudos. e desce à terra. e. pôs-se de pé. não podia deixar de chorar pensando que.

Buda era belo e dotado de extraordinária inteligência, maravilhando os doutores pela sua sabedoria. Por fim, abandonou o teto paterno para levar a cabo a sua missão. Enquanto jejuava no deserto, à sombra da árvore, por um período de 49 dias (7x7) foi tentado várias vezes pelo demônio, sempre saindo vitorioso. Pregou pela primeira vez em Benares, convertendo à fé grandes e pequenos. A sua moral, como veremos, é muito superior à de Cristo. O mais célebre dos seus discursos ficou sendo chamado, em virtude do local onde foi pronunciado, de o Sermão da Montanha, precisamente como o de Cristo. Depois da morte, aparece aos discípulos, em forma luminosa, com a cabeça circundada de uma auréola. Buda teve também um discípulo traidor, Devadatta. Não deixou nada escrito. Os seus discípulos, porém reunidos em conselho geral recolheram todas as suas doutrinas. Entre esses discípulos, houve dois de natureza diametralmente oposta: um sério e crente em absoluto e cheio de zelo; outro dulcíssimo por natureza e predileto
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de Buda. O mesmo que Pedro e João, discípulos de Cristo. Buda, como Cristo, revoltouse contra o poder soberano dos sacerdotes. Como os cristãos, os budistas estão divididos em varias seitas. No budismo encontram-se todas as práticas religiosas do cristianismo. E tanto é assim que, quando os missionários católicos se encontraram pela primeira vez com os monges budistas, acreditaram numa tentação do diabo, o qual teria sugerido a esses monges as práticas católicas, sem pensarem que os imitadores não podiam ter sido os budistas, muito mais antigos que os cristãos. Até no seu Papa (Dalai Lama) e na sua infalibilidade, os budistas precederam os cristãos. Mas, não antecipemos o plano da nossa obra e continuemos narrando a história dos Deuses Redentores, precursores de Cristo. Do pouco que já dissemos se depreende, com evidência que não pode ser maior, que na Índia houve uma encarnação do Deus Redentor, 3.500 anos antes de Cristo, e outra seis séculos anteriores, também, e que em seu Jezéus Cristna e em seu Buda exis-

tem já quase todos os elementos do mito cristão, aos quais se assemelham extraordinariamente. Quanto mais avançarmos na breve resenha dos Deuses Redentores que precederam Cristo, mais claramente veremos que na época em que foi concebido este mito (de Cristo), não foi preciso inventar nada para conformá-lo tão bem quanto foi configurado. Vejamos agora Mitra, o Deus Redentor da Pérsia, que como observa Stefanoni, é um ponto de passagem entre o avatar, encarnação hindu, e a encarnação cristã. A diferença característica entre os dois antropomorfismos não é, na realidade, muito sensível. Ocorre porém, considerar que na encarnação hindu é a divindade única e absoluta que toma da forma humana, sem vínculo algum de inferioridade com o pai celestial, ao passo que a encarnação cristã se distingue pela procedência do filho do pai. E nos livros sagrados da Pérsia, o Deus Redentor transforma-se em patrono de Ormuz, quase igual a Deus. Mitra é precisamente o intermediário entre Deus e os homens, como diz Plutarco224. Além disso, como nota
224

Maury225, em Mitra realiza-se a união da ideia física da passagem das trevas para a luz, com a ideia moral da união do homem com Deus. Mitra, chamado também Senhor, nasce de uma virgem, numa gruta. Como Cristo, que nasce num estábulo, também de uma virgem. O dia em que nasce Mitra é o mesmo em que, depois, nasce Cristo: em 25 de dezembro, isto é, no solstício do inverno. Este dia era o da festa principal da religião dos Magos, segundo Freret e Hyde. A mãe de Mitra continua virgem depois do parto. Na esfera dos magos e dos caldeus, o signo zodiacal da Virgem, tem junto desta um menino e um homem, que parece ser o suposto pai da criatura. O nascimento de Mitra anuncia-se astrologicamente por uma estrela, que aparece do Oriente, e pelos magos que lhe levam perfumes, ouro e mirra. Mitra, que nasce em 25 de dezembro, como Cristo, morre como ele, no equinócio da primavera. E, como ele também, teve o seu sepulcro, ao qual iam
225

Sobre Isis e Osiris, c. 46.
111

Crenças e lendas da antiguidade, c. Mitra.

os seus iniciados derramar lágrimas. O escritor cristão Firmico conta que os sacerdotes levavam ao túmulo, de noite num andor, a imagem de Mitra, cerimônia que eles acompanhavam com cânticos fúnebres. Acendia-se o círio sagrado (círio pascal), ungia-se com perfumes a imagem do Deus e um dos sacerdotes declarava solenemente que Mitra tinha ressuscitado e que as suas penas tinham remido a Humanidade. Outra parte da vida de Cristo na mitologia persa, já tinha sido aplicada a Zoroastro. O reverendo dr. Mills, eminente teólogo e sábio cristão não pode deixar de se render à evidência, declarando e reconhecendo que a tentação de Cristo figurava já na mitologia persa, como tentação de Zoroastro, e acrescenta: Nenhum súdito persa, que passeasse pelas ruas de Jerusalém, poderia deixar de reconhecer imediatamente este maravilhoso mito. Mais adiante veremos a surpreendente semelhança entre os mistérios persas e os cristãos, semelhança tão extraordinária, que S. Justino, não podendo negá-la nem sabendo explicá-la com razões favoráveis à ortodoxia, acusava o diabo de ter revelado aos persas os mistérios do cristianis112

mo, antes do nascimento de Cristo. Continuemos com a resenha dos Deuses Salvadores. Os egípcios tinham também o seu Deus Salvador em Horus, convertido depois em Osiris ou simplesmente Serápis226. Horus também nasceu de uma virgem no solstício do inverno e morreu no equinócio da primavera para depois ressuscitar como Cristo. Horus estava exposto no solstício do inverno sob a imagem de uma criatura à adoração dos fiéis, porque então, diz Macróbio, o dia era mais curto e este Deus não passava de um débil menino: o menino dos mistérios, cuja imagem os egípcios tiravam de seus santuários todos os anos e em um dia determinado (25 de dezembro ). Deste menino proclamava-se mãe a deusa de Sais, na famosa inscrição: O Deus que pari é o Sol. O deus Horus teve também a sua fuga, levado pela virgem Ísis, montada sobre um jumento. O mesmo mito foi aplicado no Egito ao rei Amenófis III, que convém recordar aqui por ser um
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Segundo a lenda egípcia, no dia em que nasceu Osiris uma voz gritou do alto do céu, que tinha nascido o Senhor de todo o mundo. (Plutarco, De Isis e Osiris, XIII O evangelista Lucas (II, 11) apenas copiou a lenda egípcia.

documento da maior importância para demonstrar que, dezoito séculos antes de Cristo, os mistérios que se encontram no Evangelho de Lucas (c. I e II) já eram conhecidos. Trata-se de um quadro pintado numa das paredes do templo de Luxor, no qual se veem as cenas da Anunciação, da Concepção, do Nascimento e da Adoração. Este quadro foi reproduzido por G. Massey no seu livro Natural Genesis227. Na primeira cena, o Deus Yath, o Mercúrio lunar (anjo Gabriel) saúda a virgem e lhe anuncia que ela dará à luz um filho. Na cena seguinte, o Deus Knept (o Espírito) produz a concepção. Na cena da adoração, o menino recebe as homenagens dos deuses e as oferendas de três personagens (os Magos). Também Baco nasceu no solstício do inverno, depois de morto desceu aos infernos e ressuscitou, e a cada ano se celebravam os mistérios da sua paixão no equinócio da primavera. Chamava-se Salvador, como Cristo, e como ele, realizava milagres curando enfermos e prevendo o futuro. Na sua infância, ameaçaram matá-lo, como Herodes a Jesus, em uma emboscada. No
227

Citado por Malvert in Ciência e Religião.
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templo de Baco operava-se o milagre da mudança de água em vinho, tal qual fez Jesus nas bodas de Canaã. Igualmente, Adônis, cujo nome significa meu senhor, tinha as suas festas que duravam oito dias (adonias), quatro de luto pela sua morte e quatro de alegria pela sua apoteótica ressurreição. Uma verdadeira semana santa sem lhe faltar nem mesmo os santos sepulcros, onde as mulheres executavam lamentações fúnebres em torno do deus morto. Apagavam-se todos os círios, menos um (o pascal) que se escondia no altar, para de novo ser mostrado no dia da ressurreição. Depois, o deus morto ressuscitava e o luto dava lugar à alegria. Estas festas continuaram a ser celebradas no mundo antigo, especialmente entre os fenícios, durante mais de cinco séculos, antes de se transformarem nas da paixão de Cristo. Um dos rasgos característicos dos Deuses Redentores é a sua descida aos infernos, durante o tempo em que estão mortos. Também antes de Cristo e em idênticas condições, Baco, Osíris, Cristna, Mitra e Adónis, aproveitam o tempo em que estavam mortos para fazer nova visita aos defuntos. (Dupuis, Ori-

etc. O leitor. de idênticos caracteres e notórios representantes do Sol: como Ati na Frígia. 114 . Fo entre os chineses. já tinham existido muitos Cristos antes dele. Belenho entre os Celtas.gem de Todos os Cultos. quando Cristo foi concebido. Joel entre os germanos. deve por si próprio tirar suas conclusões e deduzir consequências espontâneas e naturais. 204348). V. Poderemos continuar a resenha dos Deuses Redentores. Até agora temos demonstrado suficientemente que. neste ponto.

Cristo está para o Antigo Testamento assim como os Deuses Redentores do Oriente estão para as mitologias orientais. teremos que. o Dilúvio. Mas esta dificuldade logo desaparecerá assim que se prove que nem mesmo o Antigo Testamento é original. com mais razão derivará Cristo. Jahouh.CAPÍTULO II A MITOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO NÃO É ORIGINAL Neste ponto poder-se-ia objetar que Cristo não foi copiado dos Deuses Redentores dos outros povos. Logo. A mitologia do Antigo Testamento baseia-se nestes conceitos fundamentais: Deus. demonstraremos que a mitologia do Antigo Testamento é uma imitação das mitologias precedentes. porque outros povos a tiveram. Ilou. um legislador inspirado e os Profetas. porque Cristo está para os Deuses Redentores. a queda dos anjos. enquanto Cristo deriva dos Deuses Redentores. Pois bem: esta mitologia não é original. porque. As origens filosóficas do Deus hebreu são comuns com as dos outros deuses semíticos: Jahveh. a Criação. os Patriarcas. se limita a uma cópia das mitologias orientais. o mesmo Antigo Testamento. ou antes a sua mitologia. Eva. IV. que serve de base ao Novo. se por um lado. Jahoh. a Torre de Babel. e por outro. o Éden. e que ele. o Paraíso e o Inferno. cap. III. . assim como o Novo Testamento está para as mitologias orientais. o mesmo Antigo Testamento. é pura cópia das mitologias orientais. que serve de base ao Antigo Testamento não teria acontecido a Redenção. Cristo é uma cópia dos Deuses Redentores do Oriente. De sorte que. se o 228 pecado original deriva das mitologias orientais. do qual Cristo depende. Neste capitulo. Jeová nasce de Eloa. Jahouh. a que Cristo se adapta deriva das mitologias orientais criadoras dos mitos dos Deuses Redentores. como nós próprios já admitimos228. muito antes dos hebreus. e por sua vez. que 115 Segunda Parte. os Anjos e os Demônios. Em outras palavras: sem o pecado original. a Serpente e o Pecado Original. Cristo é um mito adaptado às alegorias do Antigo Testamento.

das quais uma seria a idade do bem. o mundo seria composto de um total de 229 A ordem da criação persa é idêntica à do Gênesis (Hyde. Contando o dia de repouso temos sete dias ou períodos. que é . a idade do mal. em seis Períodos. que terminaria após seis mil anos.000 de infelicidade.000 revoluções (em torno do Sol) divididas em duas revoluções parciais. tanto que nos Evangelhos Cristo anuncia o iminente fim daquela geração. depois do ano mil. De acordo com estas. o Sol. persa. Sobre o Deus hebraico tiveram incontestável influência os outros deuses alheios ao grupo semita.000 anos de felicidade e outros 6.) Notável e a circunstância de que nos livros sagrados dos etruscos também se encontra a mesma tradição. tanto que. Supondo que aqueles até então passados fossem os anos de infelicidade. como Ahoura Mazda. ou 6000 partes. que tinham lugar de sete em sete dias Assim como a lenda da criação. como em todos os livros sagrados de todos os povos mais antigos. foi posteriormente tomada em sentido concreto e interpretada como se o mundo fosse durar 12.são os nomes de Deus tirados de vários povos semíticos. 116 12. A criação tem lugar no Gêneses. e a outra. Sabe-se como essa crença abalou a autoridade da Igreja cristã nos primeiros séculos. cada um dividido em 6 meses.000 partes e os dois períodos de inverno e verão. da Lua e dos cinco planetas e das fases lunares. o Ser Eterno cria o Céu e a Terra. e o homem.000 anos. conforme cálculos atribuídos aos 70 eruditos judeus. a Lua e as Estrelas. No Zend-Avesta. aparece no último229. Valney etc. divididos em 6. como no Gêneses. foi relegado o cumprimento da profe- . fazem uma alusão à revolução anual do planeta. Esta divisão. ou dos 6000 anos estava próximo. dos persas.Aquele que é. inicialmente apenas astrológica. a do fim do mundo também foi adaptada a partir das mitologias orientais. hebraico. composta de 12 meses. Como se vê. cada um dividido em 1. Volney explica que isso aconteceu pela interpretação equivocada das tradições astronômicas persas e caldeias. e Jeová. número tido por sagrado nas nações antigas porque provinha da primitiva adoração do Sol. os cristãos acreditavam que o fim do mundo. que terminaria depois de outros seis mil anos.

mas expulsa-os daquele lugar de delícias. Apenas no mazdeísmo é que mesmo os ímpios serão limpos e perdoados. Brahma os perdoou. Na criação hindu. e proibiu-lhes de deixar o paraíso terrestre (Ceilão).cia do Apocalipse. Em seguida. o que não conseguiu salvar o prestígio dos livros sagrados cristãos quando se percebeu que a Profecia dos Evangelhos colocada na boca de Cristo não se concretizara. tornando-os superiores a tudo que tinha criado. Colocou-os em um paraíso terrestre em meio de uma esplêndida vegetação. Brahma criou o homem e a mulher. dando-lhes a consciência e a palavra. Eles desobedeceram e logo o encanto da Natureza desapareceu. A descrição do fim dos tempos. só inferiores aos Devas e a Deus. como no Gêneses. virá ao mundo para destruir o império das trevas e julgar os vivos e os mortos. precedido por dois profetas (Elias e Enoque. na mitologia judaica). Este. procriassem e o adorassem por toda a vida. Não é a toa que se imagina que o pretenso autor do Apocalipse esteve na Ásia e o tenha escrito após o seu retorno. quando o invisível Brahma as dispersou e criou as águas. presididas por Mohassura. prevendo que se tornarão maus influenciados pelo espírito do mal que invadira a Terra. o zêndico Messias. ordenou-lhes que se unissem. porém dizendo que lhes enviará Vischnú. Siva foi encarregado de os expulsar do céu superior. e precipitá-los nos globos inferiores (inferno). de quem se afastara. 117 Criou logo uma série de divindades subalternas. Ao homem chamou Adima (Adão. Consola-os. a que completa a vida). aceso por um cometa. o universo estava submerso nas trevas. como se encontra na Revelação é uma cópia idêntica da lenda dos livros sagrados da Índia. segundo as leis de Manu. chamadas anjos. e condena-lhes os filhos a trabalhar. tanto no cristianismo. que têm as mesmas imagens e os mesmos fenômenos que no do Apocalipse. A lenda do fim do mundo. como na religião zêndica é que o mundo será consumido pelo fogo. movido por um desenfreado desejo de reinar induz os anjos à rebelião contra o Criador. o primeiro homem) e à mulher Heva (Eva. imprimindo-lhes o movimento. que se encarnará no seio de uma mu- .

durante o seu cativeiro nas margens do Tigre e do Eufrates. diz Bianchi-Giovini. Ormuz promete ao primeiro homem e à primeira mulher a felicidade eterna. Expulsos desse lugar. eles e suas gerações. a mitologia dos anjos e demônios. Rafael. de luz e de trevas. . desde que se mantivessem bons. que correspondem aos 12 signos do zodíaco e aos 12 meses do ano 118 durante o qual o Homem passa alternativamente por períodos de bem e de mal. Os próprios nomes dos anjos (dividido em 7 ordens como as 7 órbitas dos planetas). Para finalizar. nasceu o ódio e a inveja e foram malditos. para redimir o gênero humano do pecado. Tronos (Ofanins) e Dominações . Miguel. cobrindo-se com as peles dos mesmos. dos persas. tendo havido corrupção de uma letra na passagem da lenda persa para a hebraica. No nome do anjo posto de guarda no jardim. de calor e de frio. e. Querubins. O demônio levou-lhes alguns frutos. E no coração destas infelizes criaturas humanas.Gabriel. A árvore tem doze frutos. Foi só depois do desterro do Babilônia é que foi usado com o significado de anjo do mal. vê-se a semelhança da cópia com o original: No Zend-Avesta ele se chama Chelub enquanto que no Geneses é Cherub (Querubim) Os hebreus tomaram igualmente. mas fala do Apocalipse. O paraíso persa chama-se Eren. Nesse demônio acreditam. Mas um demônio com a forma de serpente é enviado por Ariman.lher. consequentemente. que logo comeram. Em outros paraísos terrestres há os mesmos rios. O Gêneses não faz menção deste número. Serafins. começaram matando animais para se alimentarem. Mesmo Asmodeu. O vocábulo Satã significava entre os hebreus. um homem inimigo. que no Antigo Testamento foi causa de perturbações histéricas em mulheres . pois os persuade de que Ariman é o distribuidor de todos os bens. Uma particularidade digna de nota é a semelhança entre o paraíso terrestre persa com o Éden do Gêneses. Na mitologia persa.foram copiados das religiões persa e caldaica. desaparecendo imediatamente a felicidade de que gozavam. em vez de Éden. a ideia da imortalidade da alma e da vida futura. e começam a adorá-lo.

egípcios. Mas esses povos não conheceram a eternidade das penas. romanos (Tártaro). cuja ideia foi talvez tirada de Platão. nem no Antigo nem no Novo Testamento. e manda-lhe que escreva uma história de todas as coisas. gregos (Elísio). demonstra a precedência da lenda védica sobre a semítica (pp. Também lhe ordena que construa uma embarcação na qual se recolherá com sua família e os seus amigos. Vaiwasvata desembarcou no cimo do Himalaia. por três vezes. a Bíblia não o conhece. Isso estava reservado para ser proclamado pelo manso cordeiro de Nazaré. que enterrará na cidade do Sol. que construísse um barco onde se encerraria com sua família. A Gregório devem os cristãos as primeira menção do Purgatório. as curáveis e as incuráveis. Só se salvou Vaiwasvata.). já figuravam na mitologia dos hindus. significa jardim. o deus da concupiscência. Deus resolveu castigá-los.8. persas. algumas aves que à terceira vez não voltaram. sinal evidente de que encontraram terra seca. O Paraíso e o Inferno. Quanto ao Purgatório . Para saber se as águas tinham já descido. fez sair do barco. 119 senhor mandou-o avisar do que sucederia. O Paraíso e o Inferno provêm dos mitológicos orientais. um casal de todas as espécies animais e exemplares de todas as plantas. por causa das suas virtudes. de que a hebraica não é senão cópia. Essa lenda foi recentemente decifrada nas tábuas encontradas na ruína de Ninive. As memórias caldaicas das . Como Nascem os Mitos. Os filhos de Adima e Heva tornaram-se tão numerosos e tão maus. A nave dá sobre a montanha e ele sai com os seus. Quando o Dilúvio findou. O Deus Ilu adverte Xisultrus de que em breve um dilúvio destruirá todo o gênero humano. gauleses e escandinavos.(Tobias. onde se encontrou toda a mitologia. III. que chegaram a negar à Deus e suas promessas. que dividiu as almas em três classes: as puras. Então. 59 e segs.14) foi copiado do Aeshmodaeva persa. Os Vedas contam também a lenda do Dilúvio230. O 230 Regnaud no livro. onde pousar. um casal de cada espécie animal com alimentos para todos. A narrativa caldaica é ainda mais importante porque explica melhor a origem do Gêneses. em persa. VI. Paraíso. mandando-lhes o Dilúvio.

derrubaram o edifício e confundiram a linguagem dos homens.000 anos. dispõe-se a obedecer. Um dia. livro das profecias hindus. tomando a forma de pomba lhe aparece ordenando-lhe que guarde o filho e acrescentando que este viveria longo tempo. E finalmente. Os primeiros habitantes da terra. porém. enfim. sem filhos até que este faz sua mulher con120 ceber de um modo milagroso. Um cretense vai ao Egito para estudar as instituições que pretende implantar em seu país. A certa altura. falam também da lenda da construção da torre de Babel.Tábuas de Nínive. o libertador da casta dos escravos dos judeus que fundou uma nova comunidade se chama Moisés. Aqui. os deuses. que até então falavam uma só língua. Dos dez patriarcas hebreus. auxiliados pelos Ventos. levantando no lugar onde ficava Babilônia uma torre que chegasse até ao céu. Também foram dez os primitivos reis da tradição sagrada persa e dez heróis da Armênia. O legislador da Bíblia é. hindus e germânicos fala-se de dez personagens igualmente míticos que viveram antes do período histórico. A tradição caldaica fala também de dez monarcas que reinaram 432. porque dele devia nascer a Virgem que conceberia de gérmen divino. Vie de Iezeus Christna (1869) . chineses. predileto de Brahma. e a história confirma nos anais o seu nome: Minos. um copista fiel das antigas mitologias. orgulhosos de sua força e poder começaram a depreciar os deuses. Adgigatha é um homem justo. 231 La Bible dans l'Inde. Nos contos árabes. Brahma ordena-lhe que sacrifique o filho. que foi tirada do romance egípcio os Dois irmãos. Pois bem: não é mais do que uma cópia da lenda do patriarca Adgigatha que se lê em Rhamatsariar. O legislador egípcio recebe o nome de Manes. quando Brahma. e se bem que tal ordem lhe apunhale o coração. A Bíblia fala de dez patriarcas que viveram antes do dilúvio. As modernas investigações no Egito vieram pôr a descoberto a historieta de José e da mulher de Putifar. e morreram com idade muito avançada. ressalta-se especialmente Abraão pelo seu famoso sacrifício. cedemos a palavra a Jacolliot231: Um homem chamado Manu dá à Índia leis políticas e religiosas.

As variedades leves de pronúncia são consequência da diversidade de línguas que se falava no Egito. disto não resta a menor dúvida. aqui estão quatro nomes que dominaram o mundo antigo. continuando 121 através dos tempos fizeram dar ao legislador judeu que queria regenerar o mundo. Moisés. Esta etimologia concorda com a de Jacolliot. em sânscrito. um nome similar ao de Jezeus Cristna que tinha. significa o Homem por excelência. Manes. A origem do nome pouco importa. do Antigo Testamento e da Índia para demonstrar que as primeiras são uma simples cópia da última e que Moisés e Manes são plágios de Manu. cercados pela mesma aura misteriosa de grandes sacerdotes e legisladores. e das quais não se tem como negar a procedência. de acordo com tradições indianas. seria necessariamente um dos primeiros países colonizados pela emigração indiana a receber a influência desta antiga civilização que chegou até nós. fundadores de sociedades sacerdotais e teocráticas. Jacolliot faz em seguida o paralelo entre as instituições do Egito. Ao que acrescentaremos que também já está demonstrado e provado incontestavelmente pela exegese e a crítica literária da Bíblia que os livros atribuídos a Moisés não podem ser de sua autoria. evidentemente vêm da mesma raiz sânscrita. Verdade evidente quando se estudam as instituições do Egito. Manu foi o precursor. O im- . Manes. não se estranhará dizer que a Bíblia nasceu na Alta Ásia. pela sua posição geográfica."Manu. regenerado o mundo antigo. Minos e Moisés. Será mostrado que as influências e as memórias dos berços da civilização. de resto. Minos. o legislador. Malvert afirma que Moisés é o nome do Deus solar Masu. totalmente baseadas nas da Alta Ásia. Sabemos que um precedeu aos demais. que a Índia é a origem de todas as lendas da antiguidade. vendo a semelhança de nomes e de identidade das instituições que eles criaram. Será muito fácil provar que os três últimos são a continuação de Manu. e quando se averígua. Manu. O Egito. na Grécia e na Judeia. como já se fez. Os quatro aparecem nos primórdios de quatro povos diferentes para representar o mesmo papel.

da do rei arcadiano Sargon. em tempos remotos supos que a história do mundo era uma série de períodos cada qual presidido por um profeta. Baco é transportado ao monte Nisa. Pigault-Lebrun faz o seguinte paralelo entre Baco e Moisés: Os antigos poetas fazem nascer Baco no Egito. Aqui também o judaísmo copiou a Pérsia. Baco passa o Mar Vermelho a pé enxuto. terminada a época dos quialismos. com sua carruagem de fogo e seus cavalos flamejantes. E no suceder destas períodos é composta a trama dos acontecimentos que prepararão o reino de Ormuzd.portante é saber-se que Moisés também é um mito. Moisés também. Baco é exposto ao Nilo. o que também sucede a Moisés. faz brotar água. Baco ordena ao Sol que pare. depois do qual foi rei mil e tantos anos antes de Moisés. que nasceu em um lugar deserto. tocando em uma rocha. a assiriologia demonstrou que a história de Moisés foi copiada. Tanto basta conhecer esta para conhecer . que também. raios que as crianças confundem com cornos. como Moisés. Moisés também. Baco faz nascer da terra uma fonte de vinho Moisés. Moisés ao Sinai uma deusa ordena a Baco que destrua um povo bárbaro. por exemplo Elias que. Dois raios luminosos surgem da cabeça de Baco. Cada profeta tinha sua Kazar. que. Assim provamos que a mitologia do Antigo Testamento não é original. em parte. O rio Horusnte suspende o curso em homenagem a Baco. Josué igualmente. que era um reinado de mil anos (quialismo ou milênio). como diz o reverendo 122 Bown. permanece encerrado três dias no ventre de um monstro marinho e que. mas uma cópia de mitologias anteriores. foi colocado por sua própria mãe num cesto de vimes. Na Bíblia judaico cristã. como Sansão. virá o paraíso. Além disso. os personagens correspondem também a outros entes mitológicos. Moisés recebe a mesma ordem. Ao final dos tempos. como Jonas. também significa pequeno sol. Sansão e Jonas são cópia do mito pagão de Hércules. lançado ao rio e recolhido e educado por um estranho. Nem mesmo o profetismo é invenção judaica. e o Jordão em favor de Josué. reproduz o Apolo grego.

mas seria uma excessiva preocupação erudita que nada acrescentaria à nossa demonstração Em conclusão: se o Antigo Testamento não é original. este o tinha cumprimentado. os privilégios que a religião. a semana de sete dias o descanso dominical. o rei Hamurabi esta representado no ato de receber das mãos de Deus (o deus Sol) um livro das leis.aquela. o próprio decálogo. Quer dizer que a criação. pelo sábio assiriólogo Morgan. O mundo ortodoxo na Alemanha reprovou o imperador como um adesista a um sistema que destrói a revelação. o próprio descanso de sábado e um grande número de prescrições rituais.. entre elas a pena de Talião. numa sua conferência pública a que assistiram o imperador Guilherme II e sua consorte imperial. as ferozes prescrições penais do Deus Pai dos cristãos. a divindade de Cristo. recordaremos que a descoberta das inscrições cuneiformes feitas nas escavações de Babilônia.. morais e penais foram para o Antigo Testamento depois da civilização caldaica. a religião e. 123 . o dilúvio. o nosso ponto de vista. Friedrich Delitzsch divulgou que. uma cópia das antigas alegorias? Para mais completa persuasão do leitor. Poderíamos reforçar isso com uma maior abundância de documentos de fontes mitológicas de outros povos. O prof. além do decálogo que depois foi copiado pelo legislador hebreu e atribuído a Moisés. Na tábua recentemente descoberta em Susa. a queda de Adão. resolveram para sempre este ponto de história mitológica.. pondo acima e fora de toda a discussão. As leis de Hamurabi contem. que está indissoluvelmente ligado à mitologia do Antigo Testamento. cena que prova que a de Moisés no Sinai é uma cópia. O decálogo de Moisés foi copiado de uma recopilação de leis do rei Hamurabi. desfrutava. Sobre as revelações devido a estas descobertas surgiu na Alemanha um debate significativo. oito séculos anterior a Moisés. consequentemente.. a base do direito divino e força conservadora por excelência. quem não vê em Cristo.

O Sol é o manancial da vida do Universo. Para que seja completa a nossa demonstração e persuada a todos é preciso demonstrar a origem e significado destes Deuses que. segundo a comum opinião dos mitólogos. etc. 124 de toda a beleza o movimento que origina é a causa de todo o bem. à luz incriada e eterna. mas não seriamente refutados e a cujas obras remetemos os que quiserem profundar o assunto232. que tratam a questão sob o ponto de vista mitológico e evolutivo. Por outro lado. A ideia de Deus é. até ao dieu dos franceses. à força fecundante do universo. que o culto da Humanidade tem por origem principal o Sol. este corpo luminoso que tão grande influência exerce na vida do homem e de toda a natureza. de origem humana e significação naturalista são a transfiguração de um mesmo mito. precisamente. ao distribuidor de todo o bem. pois. especialmente de Girard de Rialle. originária do simples conceito do Sol. que é a que mais nos interessa. As próprias investigações dos orientalistas estabeleceram que até mesmo a etimologia da palavra Deus procede de um atributo do Sol. do deus latino ao dia irlandês. Ainda que a primitiva humanidade tenha podido passar do fetichismo ao politeísmo e deste ao monoteísmo. Da raiz divv se derivam quase todos os nomes da suprema divindade dos povos europeus: desde o theos dos gregos ao disvas dos lituanos. que em sânscrito significa. A primeira adoração da Humanidade dirige-se ao ministro máximo da Natureza.CAPÍTULO III ORIGEM E SIGNIFICADO DOS DEUSES REDENTORES Passamos em revista vários Deuses Redentores anteriores a Cristo e dos quais ele é uma simples cópia. coisa que foi já magistralmente demonstrada por Dupuis e Volney. e o Bom: é uno e trino. Ele e só ele é o verdadeiro. Do Sol deriva a primitiva ideia de Deus. o Belo. como o Sol é inacessível aos homens. ao dios dos espanhóis. de Devv e da raiz divv. ao dio italiano. cujos sistemas podem ser atacados. a sua luz é a fonte 232 Ciência e Religião de Malvert e Os Adoradores do Sol de Moy. o luminoso. estes . encontramos ainda na época religiosa.

o de Prometeu. a não ser por meio do fogo ou seja a acumulação do calor solar nas plantas. E. também o Cordeiro ocupou na cruz o lugar de Cristo durante seis séculos. utensílios. na época que coincide com o renascimento anual do Sol. Daí o mito de Perseu. na qual se realizava. de defesa e de saúde.) o mandou substituir pelo corpo de . No cristianismo. que indica claramente a sua origem. No rito védico. do Pai Celestial. e do Espírito (Vayú) o sopro do ar. Eis aí a origem da antiquíssima veneração dos homens pela cruz. O Fogo é substituído pelo Cordeiro. por assim dizer. ficou como dogma fundamental das religiões de origem ariana. metais. Agni é também o mediador da oferta. no solstício do inverno. sendo por isso condenado a permanecer no Cáucaso com os braços em cruz. não se remindo de seus males. Esta antiga Trindade. Agni e Vayu.não podem usufruir diretamente os seus benefícios. do Fogo (Agni) filho e encarnação do Sol. o Fogo e o Ar. A oferta do pão e do vinho fazia-se ao fogo sagrado. desde que o Fogo. celebrava-se 125 todos os anos o nascimento de Agni. Cristo). Há os sacerdotes que sobre o altar derramam um licor sagrado. armas. uma partícula da oferta (hóstia) e a comiam como um alimento onde estivera Agni. Agni se transforma em Agnus. o sacrificador que a si próprio se oferece como vítima. meios enfim. Os sacerdotes e os fiéis recebiam. até que o Concílio Quintesexto de Constantinopla (692 dC. sobre o altar. (25 de Dezembro) isto é. ao contato do Espírito. até ao dia em que o Fogo foi descoberto pela ação de dois lenhos cruzados. salvador da Humanidade que tanto lhe deve. composta do Sol (Savistri) o pai celeste. o mistério do Salvador da Humanidade nascido de Maya. que o rouba do céu para salvação da Humanidade. obra de carpintaria. o espirituoso soma. que faz baixar o fogo do céu à terra. que também era imagem de Deus Redentor. descendendo. cada um. o mito hindu da Trindade primitiva de Savistri. dando-lhe alimentos. filho do Sol e consubstancial com ele. trouxe ao homem a sua proteção. se produz por meio de uma cruz de madeira. isto é: o Sol. Há a unção e Agni toma o nome de Unto (em grego Crisnos. ou do ar. e sobretudo.

porque a própria antiguidade o deixou escrito em caracteres claros e com palavras ex- . decretamos de agora em diante se deve representar nos ícones ao cordeiro. servindo de base às religiões. Apollo. Horus. primeiro e Redentor depois. Mitra. de Ariman. triunfando das trevas do inverno. Ainda mais: os próprios desenvolvimentos teológicos do tema.jamais se perdeu o conceito fundamental que. A vida dos Deuses Redentores é a descrição da vida do Sol. em 25 de dezembro. ou melhor. isto é. pois. Naturalmente.sábia observação de Valney. remontando. de Siva. Só esta chegou à compreensão das outras forças físicas. em sua natureza humana no lugar do antigo cordeiro. que o Deus criador foi o Sol. não há a menor dúvida. o infante. Adonis. Nascem todos no solstício de inverno.se à concepção das ideias morais. aquEle que é perfeito. seja indiretamente. como Cristo. Que isto sucedera a respeito dos Deuses Redentores da antiguidade. 126 É assim que. se indianizasse . personificado no Deus Criador. e que o filho. ao passar do próprio para o figurado. fizeram-se sobre a base das revoluções da Natureza. 233 . Cristna. e submetido a todas as peripécias humanas.. do físico para o moral . e especialmente do Sol. quando o Sol recupera todo o seu poder e esplendor. em quem tinha encarnado para salvar a Humanidade era ainda e sempre o Sol. que serviu de base ao sistema de Muller . do mal. de Tiffon. que parece próximo a extinguir-se. de Satanás.Cristo.para que a arte da pintura simbolize diante os olhos de todos. Cristo Deus nosso. e ideia fundamental. essa.a antiga fonte do mito foi se esgotando.(cânone-82)233. E todos eles morrem para ressuscitar na primavera. que tomou os pecados do mundo. Porém. volta a renascer. a origem do mito não desapareceu nunca de todo. ainda mesmo que pelo processo do tempo e origem naturalista do mito perdesse ou mudasse o significado. fica sempre.. seja direta. com o caráter de fogo. todos nascem em 25 de dezembro e ressuscitam no equinócio da primavera. porém. e precisamente. quando o Sol. apesar do desenvolvimento que logo tomou a teologia. O gérmen primitivo. foi se transformando. O Deus do dia foi. e ainda que se fizesse mais antropomorfo. com o tempo e o significado da linguagem. É a criatura.

Julio Firmico Materno vê em Mitra a personificação humana do Fogo. concebido segundo as relações das estações. Sob este aspecto se representou sempre Cristo. e Anaxágoras testemunha a existência desta adoração. O monote- . O Deus solar Mitra era representado com a cabeça rodeado pelo disco solar. como a urna luz eterna. Segundo Plutarco. com a mão direita levantada ao alto e um globo na esquerda. que tem por emblema a luz. e em seguida a Roma. com efeito. e a própria Roma nos dá disso uma prova na formula Deo Soli invicto Mitrac. durante a qual era adorado. Mitra era adorado pura e simplesmente como o Sol. O próprio S. fato sucedido até o ano 68 da nossa era. o Areopagita. Mitra. diz-nos que Mitra era. o Deus Redentor persa. Niceto. S. quando. circundado de um risco radiante. Archelau. por piratas sicilianos. uma descrição dos mistérios de Mitra. usada sempre nas inscrições latinas. bispo de uma cidade 127 da Mesopotâmia. que tantos são os dias do ano. Para Heródoto. bispo de Nola. como para Estrabão. Platão e Aristóteles admitiam a adoração do Sol e dos astros. por uns. Em Roma. os mistérios Mitra foram levados ao Ocidente. O pretendido Dionísio. identifica completamente Mitra com o Sol. deixou-nos. como sendo o Fogo. que vivia no princípio da nossa era. Windischmann reuniu outros testemunhos. dizia que o Sol não era mais do que urna pedra inflamada. vê em Mitra um deus de tríplice forma. pelos quais se vê que Mitra é. rei indo-escita. não é outra coisa mais do que o Sol. Nas moedas de Karneki. Mitra aparece como o Sol. Jerônimo quer encontrar no nome de Mitra um anagrama do numero 365. Um escritor bizantino. o Sol. como indica uma medalha cunhada no reinado de Aureliano. Paulino. considerado como sendo o Sol e por outros. para a demolir.plícitas. nos quais o esplendor deste Deus solar se opõe às trevas da noite. Um padre da Igreja. Pois bem: em Roma. consagradas ao deus redentor dos persas. o Deus Mitra acabou por converter-se em divindade preponderante chamanda Senhor. nos seus versos. e Quinto Cúrcio diz que os persas invocavam Mitra ou o Sol. o mediador do mazdeísmo. na disputa que sustentou até 277 com Maneton. isto é.

é uma personificação do Sol. o prototeísmo Cristão. segundo Juliano.que enche o universo. No Egito. onde tinha altares por toda a parte. e. A cidade de Sipara era-lhe consagrada. que era o mais poderoso adversário da encarnação Cristã do Deus Sol. Os seus monumentos eram representados como um globo alado. etc. o criador dos seres e das coisas. mas também dos persas e dos fenícios. e sobretudo da principal. Era o principio ativo e luminoso. chamava-se o Pai Celestial. achamos o globo alado sobre o Caduceu. havia um templo consagrado ao Deus Sol. quando todos os povos do império romano designavam o Sol sob a denominação de Dominus ou Senhor. ígneo. O Deus Redentor. que o imperador Juliano chamava o pai comum dos homens. prova que os nomes de Apolo. como na índia. Na Grécia. Baco. o fluido luminoso. Por isso. lê-se que Agamemon. transportados a Roma. o todo esplendente. na obra acerca das Saturnais. o Sol invencível. portanto. Orfeu considerava o Sol como sendo o maior dos Deuses. sutilíssimo. ou melhor. na China. Em Homero.ísmo. o Sol era gerador do universo. definia assim: O grande Deus. Entre os romanos. O globo alado do Sol não era só dos egípcios. no Japão. Belenho. ardia continuamente fogo em sua honra. Esta evolução foi facilitada pelo culto de Mitra. não só Apolo e Baco eram personificações do Sol. Macróbio. os Cristãos concentraram todos os seus esforços em combater Mitra. não eram senão as diversas denominações do Sol entre várias nações. Era o princípio universal. o Sol. e reduz toda a antiga teologia ao culto do Sol. Adonis. o justo Deus. pode dizer-se que tinha já nascido. que a antiga inscrição de um dos obeliscos egípcios. assim como em Palmira. encimado com uma coroa ondulada. .. Na Índia. e nos seus templos. Na Síria. dos gauleses. toda a mitologia é a representação antropomórfica das for128 ças da Natureza. Em toda a América ficaram sinais evidentes do antigo culto do Sol. mas também Júpiter. na cidade de Edessa. apostrofando o Sol. lhe chamava o que tudo vê e ouve tudo. O Sol está representado geralmente nos monumentos assírios e caldaicos. ao Circo Máximo.

129 . o mito do Sol. apesar da sua transformação em mito antropomorfo e em símbolo teológico. direto e concreto do Sol.era não só a personificação. mas era também o culto primitivo. que transmitiu os seus sinais. como também era o antigo sabismo ou heliosísmo.

os egípcios e os persas também tinham 12 grandes deuses.no solstício do inverno e ressuscitado na Páscoa. um Deus que leva atrás de si um cortejo de doze apóstolos. no século em que aparece o cristianismo. dos adoradores do Sol.diz Dupuis . O silêncio da história acerca dele. muito mais com que robustecer o argumento. como Jano entre os romanos e Pedro entre os Cristãos. era a virgem das constelações zodiacais. mãe de Horus. 130 passar os homens sob o império da luz. o seu caráter exclusivamente sobrenatural. o novo Sol. sendo um puro mito solar.nos a tirar esta conclusão. porque existem provas ainda mais diretas e convincentes. A que ponto do céu correspondia esta Virgem da esfera e o seu filho? Na meia noite de 25 de dezembro. especialmente. e cuja ascensão marcava a abertura da nova revolução solar. . a constelação celeste. no equinócio da primavera. a sua afinidade ou identidade com os mitos solares que o precederam. depois de ter descido aos infernos. Os romanos tinham 12 grandes deuses. via-se um menino colocado entre os braços da Virgem celestial. o Cristo pela parte do Oriente e no mesmo ponto onde se levantava o Sol no primeiro dia. No céu da esfera armilar dos Magos e dos caldeus. estamos no direito de concluir que Cristo nunca existiu. É um fato independente de todas as hipóteses e de todas as consequências que possamos deduzir. que se erguia no Oriente.Um Deus nascido de uma virgem . não pode ser senão um Deus solar. quando nasce o Deus do ano. porém. E é também um fato que o Sol. como os Cristãos 12 apóstolos. na hora precisa da meia noite. nascido no solstício do inverno entra nesta constelação e derrama os seus raios . copiado de tantos mitos heliostáticos em que abundavam as religiões do Oriente. que o 25 de dezembro. correspondentes às doze constelações234 e que faz 234 O número 12 é comum a todas as religiões de origem heliostática. cada um dos quais presidia a um mês. e. a mesma a que Eratóstenes dá o nome de Isis. a sua inexistência como pessoa terrestre. Os gregos. autorizam. mais do que nunca. Temos.CAPÍTULO IV CRISTO É UM MITO SOLAR Agora. O chefe destes deuses guardava a barca e a chave do tempo.

Conta como nas tradições dos persas. prova-se depois com iguais citações dos astrólogos antigos. e que em árabe se escreve Adrenedefa. Lactâncio e Julio Firmico. de alguns autores cristãos que têm expressões e conservam 235 Segundo Bianchi-Giovini. a quem devia ser mais familiar do que a nós a ciência dos caldeus. que oferece o seu único filho (o Fogo) para salvação dos homens. forçosamente. açoitavam-no e crucificavam-no. Atanásio. Este fato deduz-se. um condenado à morte. em seguida. por confissão dos escritores pagãos. no seu próprio ou na reunião de ambos no céu. antes de rebaixar o limite do equinócio da primavera. de formosa aparência. tirada inteiramente dos Vedas. Durante este tempo. não representavam mais do que o Sol. Nem mais nem menos235. estes Deuses Redentores. aparece uma jovem chamada em persa Seclenidas de Darzama. É o Deus (o Sol). 1ibr. que alegoricamente pode ser mãe sem deixar de ser virgem. A teoria de Cristo foi. convém que esteja exposto a todas as calamidades da sua vida mortal. como a sua biografia. realiza as três grandes funções da virgem mãe de Jesus.de fogo na época da nossa festa da Assunção. cap. pois. O Sol. Tem entre as mãos duas espigas. vestiam-no de rei. na região atribuída ao mal e às trevas. dos caldeus. nascendo no solstício. da própria Bíblia. Logo. isto é.. dos próprios padres da Igreja e dos primeiros escritores cristãos como Heródoto. Macróbio. está sentada num trono e amamenta um menino a quem alguns chamam Jesus é nós o Cristo. despojavam-no das vestes. ou reunião da mãe com o filho. Virgem casta. Impõe-se. Cristo repete todas as circunstâncias dos outros Deuses Redentores que o precederam. reparador dos males que o inverno causa. passados cinco dias. dos egípcios. Plutarco. de Hermes e de Esculápio. .. colocavam-no no trono davam-lhe liberdade. É indubitável que a virgem. pura e imaculada. seja no nascimento de seu filho. de longas tranças e ar modesto. na festa chamada em caldeu Suchaia. (Crítica dos Evang. de maneira evidentíssima. que assegura o seu 131 triunfo sobre a noite. Que isto seja um fato positivo. a consequência lógica de que Cristo é também um mito solar.IV. deve permanecer ainda três meses nos signos inferiores. VII) na Pérsia costumavam escolher.

creem que o nosso Deus é o Sol. Clemente de Alexandria escreve que o Verbo veio ao nosso conhecimento por meio da madeira. Deus estabeleceu os seus arraiais no Sol. da descida de Cristo aos infernos. o próprio Tertuliano reconhece que o dogma da ressurreição do Deus cristão é idêntica à da religião persa. falando. Orígenes escreve que era necessário adorar os astros em razão da sua luz espiritual e não da sua luz sensível. e a vossa vida estará nos seus raios. Foi no quintesexto Sinodo de Constantinopla (Cânone 82) que esse cordeiro foi substituído pela figura de um homem crucifica132 do. bem como na arte Cristã. João diz no seu Evangelho que o Verbo era a lei. não é ao astro que se dirige o culto cristão: Outros. venerou Cristo sob a figura simbólica de um cordeiro. que temeis o meu nome. chama-lhe. Vai de um extremo ao outro do céu e nada se subtrai à sua vista. Se dedicamos à alegria o dia do Sol é por urna causa estranha ao culto deste astro. Esta ideia provém. Sobre vós. nas suas homilias. a luz que ilumina os olhos de todos os mortais. O Apocalipse. porém. mas nem por isso desapareceu: subsiste nos escritos e nas ladainhas eclesiásticas. Já no Antigo Testamento (Salmo IV e XVIII) encontramos o Sol identificado com Deus. com maior razão ou verossimilhança. aparentemente. a luz do mundo.usos. apesar das aparências em contrário e dos sinais exteriores da veneração pelo Sol. (Evidentemente alude ao fogo produzido pela madeira). dizendo que. por conseguinte. a Bíblia revela melhor a origem heliostática de Cristo é quando lhe chama cordeiro. o Agnus Dei qui tollit peccata mundi. para orar. o . Do mesmo modo. a luz e a vida. até 680. Não obstante. a origem e a natureza solar do mito cristão. sobretudo deleita-se representando Cristo sob a forma de cordeiro. se levantará o Sol da Justiça. de que nos dirigimos para o Oriente. cuja significação tem íntima relação com a adoração do Sol e que denunciam. Onde. a Igreja Católica. Tertuliano tenta defender os cristãos da acusação que lhe faziam de adorarem o Sol. João Crisóstomo.

diziam que o Sol era o próprio Cristo. No ostensório católico. Domingo vem de dominas. que pelos conhecimentos científicos têm o mesmo valor que o tronco de onde provêm. no culto. Estes mesmos livros eram frequentemente citados com a autoridade canônica dos antigos teólogos. por exemplo. pois em tal caso seria fixo e incontestável o dia da sua morte. dos gregos e dos Istaspes. em que se aconselha a leitura de livros sibilianos. 133 Algumas das seitas primitivas.sol da justiça. várias provas de que Cristo é um mito solar. que leva a luz. que deixa o corpo na terra. brilhando como o Sol. conservaram a sua origem solar do culto Cristão. Assim o atestam Teodoro e Cirilo de Jerusalém. Clemente de Alexandria conservou-nos um fragmento de S. consagrado ao Sol. Os maniqueus. os maniqueus colocavam Jesus na substância luminosa do Sol e da Lua. como o seu nome o indica. a qual não faz mais do que refletir a luz daquele. A autoridade dos livros sibilianos ainda hoje é reconhecida pela própria Igreja no Dies irae. como se chamava o Sol na época em que nasceu o Cristianismo. que se chama precisamente a Lúnula: está rodeada de seis pla- . Por exemplo: a festa da Páscoa não cai nunca em dia certo. ou a ele atribuído. Os saturninos acreditavam que a alma tinha a substância do Sol. onde se cita a Sibila como testemunha de que o mundo será destruído pelo fogo. outros dias do calendário expõem em favor do culto solar. A Igreja conserva-nos ainda. Segundo S. Sinésio chama a Cristo o tipo sensível do sol intelectual. Paulo. Leão. o Senhor. e portanto. segundo as circunstâncias e alternativas astronômicas. Além disso. vê-se a Lua representada no mesmo centro. precedido da lua. O primeiro dia do calendário é ainda hoje. do calor sideral. Firmico Materno também o descreve. Descreve-o saindo do inferno como um astro nascido das trevas noturnas. conforme as antigas tradições das religiões heliostáticas. voltando a sua origem. e isto não seria possível se Cristo fosse um personagem histórico. porque conservam os nomes correspondentes à lua e aos cinco planetas. O Santo Sacramento tem a forma do disco luminoso do Sol. na descida ao inferno. variando. seguindo o rasto luminoso do sol.

que. porém exata. do famoso círio pascal. não revela menos a sua verdadeira origem solar. o costume de se voltarem para o Oriente. verdadeiro contrassenso numa cena que se passava em pleno inverno. na palha. do abanador. encontra-se o berço em que repousa o menino recém-nascido. jurando então fidelidade ao seu novo Senhor. a Igreja representou o Padre Eterno. finalmente. Todo ele é extraordinariamente semelhante ao budismo. Todas as nossas cerimônias do sábado santo e especialmente. o Deus Pai. Uma congregação de irmãos adoradores do Santo Sacramento e que subsistiu até á revolução francesa de 1789. e em companhia do boi. e depois para o Oriente. do mesmo modo que o Sol. que têm . não tem outra significação. desde a ablução à comunhão. onde cumpre uma função importante: a de manter viva. do século nono.netas. Malvert demonstra as transformações sucessivas destas representações. nem outra origem que o triunfo do Sol sobre as trevas. traduziram a palavra ressurectio por Veskres. durante largo tempo. do primitivo mito védico. de modo que a luz do Sol viesse ferir o disco de ouro do Santo Sacramento. colocado em frente da porta do templo. junto da virgem sua mãe. literalmente significa ascensão do fogo. que no altar rodeiam o Santo Sacramento. confundido com o simbolismo cristão. O Santo Sacramento explicase. As primeiras versões eslavas dos Evangelhos. Este detalhe simbólico passou à liturgia primitiva. Também se observou. do jumento místico dos Vedas e. durante as preces. tinha o nome de Irmãs do Sol. sob a imagem do Sol. a primeira chispa do Fogo. sobre a palha. Por muito tempo. símbolo das trevas. No simbolismo cristão. do fogo novo. bem como o de cons134 truírem as igrejas na mesma direção. representados também nos seis círios. no uso comum. onde o abanador se agitava durante a missa. Malvert cita um curioso documento que. prática conservada na Igreja romana até o século XIV. O mesmo uso do culto solar se encontra também no antigo rito do batismo em que o catecúmeno se voltava primeiro para o ocidente. É o abanador. se não fosse uma reprodução inconsciente. a fim de repelir de si Satanás.

lugar no equinócio da Primavera. do mesmo culto interessado em fazê-lo desaparecer. . que Cristo existiu. sendo adorados pelos respectivos fieis. unicamente. a ponto de serem hoje bem poucos os sinais que se conservam de tal origem. Baco. com a completa personificação do símbolo. adoradores do Sol. Crer. pela Páscoa. que sobe aos céus para se unir ao pai. muitas seitas antigas o negaram. Em muitas orações deste ofício reproduzem quase literalmente os hinos védicos. o hebreu Trifon tinha já negado Cristo. também conhecido por Serápis. por conseguinte. dando-lhe cada uma nome e existência peculiares ao país respectivo. simbolizando. com grande fundamento. Este último. unidos às provas precedentes adquirem valor de documento definitivo. de que logo brotou essa exuberante vegetação do mito e da poesia oriental. pela Páscoa. Apolo. celebravam a sua volta. da alegoria e da rica 236 Segundo Justino mártir. E a todos estes se tinha dado existência humana. precisamente o Sol.mitra. quando. Não tem maior valor a opinião dos que creem na existência de um hebreu chamado Jesus. lugar de nascimento e morte. que toma o nome do Deus Sol dos persas . O perspicaz Luciano riu. o Deus Sol. que não admite réplica. com caracteres especiais. segundo o imperador Adriano. E como já vimos. Mas os poucos que restam são de uma eloquência tão extraordinária. e se por si só não bastassem para afirmar a conclusão da não exis135 tência de Cristo. se chamava Cristo e era adorado pelos cristãos. da pretensão das diversas religiões em querer elas. adorar o Sol. como provenientes que são. equivale a crer que tenham existido Mitra. como o prova a forma dada às pirâmides do Egito. Enfim. A palavra Alelúia (de all (elevado) e oulia (brilhante) era o grito de alegria que pronunciavam os antigos persas. o barrete dos bispos católicos. enquanto a divindade permanecia sempre a mesma e era comum a todos236. Adônis. pela sua forma piramidal. seu filho o Fogo. Pouco a pouco. nada mais fácil do que fazer desaparecer os vestígios da origem heliostática de Cristo. Jezéus Cristna e Horus. aos obeliscos messiânicos e druidas e aos carros piramidais da Índia. usava-se já entre os magos ou sacerdotes de Mitra. ou se assim querem.

ao passo que nós. por quem e 237 como foram criados os mitos dos Deuses Redentores que precederam Cristo e que. de quem ele é o papa rei. a obra do cristianismo nascente. com 10.imaginação da lenda. De Cris fizeram os hindus Cristna e os cristãos Cristo. Com igual motivo se poderia dizer que existiram Hércules. por muito tempo 238 Segundo Volney. representado por um menino que nasce da virgem das constelações. seguidos e adorados por tantos milhões de seres humanos e durante tantos séculos? Em um tempo em que reinava uma tão densa noite de ignorância. Apolos. apoiandose na razão de que o nome de Jesus era muito vulgar entre os hebreus. em pleno século XX. É certo que não podemos jamais provar de um modo positivo. e muito acessível à critica e não contentava de modo algum os que buscavam a forma de resolver o grande problema da vida futura e sobrenatural. e sobre todos. nem sequer é legendário. era de resto. Não. Os tempos eram propícios para toda a criação mística. Sião. O que não seria antigamente! . dava-se ao Sol o nome Jes ou Cris. sabe-se também. é completamente mitológico. Para isso concorreu. mas em todas as divindades orientais que invadiram a Europa e que. Não só na mitologia assíriopersa. Quem pretender sustentar o contrário não o poderá provar. porque nunca época alguma foi mais atacada pelo sobrenatural. foram acreditados. E isto acontece perto de Chicago. por ventura. o Jesus da Bíblia surgiu da mitologia. conseguiu atrair crentes e fundar uma nova cidade. tudo então era celestial238. natureza e significado. de certo. Tudo então era Deus. 136 Os jornais americanos trazem notícias detalhadas acerca de um certo Dovie. todos seus sequazes. dada a distância e tenebrosidade dos tempos. nomes que têm a mesma raiz de Jesus. Josués e Jasones. como já se viu. provamos que é mitológico por sua origem. bem fácil dar corpo a todos os mitos e lendas. como ele. O politeísmo helênico tornarase muito humano. Por outro lado. como e por meio de quem se criou o mito de Cristo. nos livros sagrados persas e caldáicos.000 habitantes. só porque muitas pessoas se chamavam assim237. destruindo todos os documentos que se opunham à sua propagação. que tendo-se feito passar pelo próprio profeta Elias ressuscitado.

Simão. dominaram o império romano. . Mesmo na sociedade culta. conta cheio de fé e com a maior seriedade os mais estu239 A vida de Apolônio foi escrita por Filostrato até o ano 200 da nossa era e ainda naquele tempo o autor acreditava a sério em todos os milagres do seu herói. ao cego. 1893. um indivíduo do povo cego e outro paralítico acercaram-se dele. 137 pendos milagres daqueles tempos tão supersticiosos e crédulos. Sabe-se de um Dositeu. este se decidiu. lê-se este fragmento: Enquanto presidia o tribunal. em presença de todos. correspondentes aos dias do mês julgando-o descido do céu. Os tempos estavam realmente em sazão para que se realizasse uma nova encarnação da divindade. a tentar a prova que teve o mais completo êxito240. pois Serápis lhes tinha prometido. 81. tendo-se afrouxado a fé nos deuses falsos. Não crendo que tal pudesse realizar-se. sem que a substituísse o conhecimento das leis naturais. até que. de um historiador sério. que por seus milagres e prodígios foi confundido com o Messias e seus sequazes . Na Vida de Vespasiano. 242 LXVI. IV. como hoje o nosso bom Cantu.entre os quais se contavam trinta discípulos. sendo sempre seguido e acreditado pelo populacho. Leipzig. a incredulidade re240 Edição Teubneriana. o milagre esteve.ainda. que recuperaria a vista se lhe cuspisse o imperador e ao paralítico. 8. que andaria se ele lhe tocasse com um pé. contudo. tendo-o exortado os amigos. 229. Heródoto. Tácito241 e Dion242 confirmam estes milagres de Vespasiano. tanto em voga. em sonhos. como é Suetônio. o que prova as disposições dos espíritos de então. realizou os mais espantosos milagres. Nem o elemento milagroso podia prejudicar o crédito do novo Deus porque nunca. 241 Histórias. mais intensa pelo fato de que. encontraram-se a nova linfa de que muito necessitavam para alimentar o seu misticismo. deste baixo mundo de uma maneira milagrosa239. a incredulidade só era aparente: a crença no sobrenatural tornavase. pag. rogando-lhe que os curasse. como então. chamado o Mago. Apolônio de Tianeo fez por si próprio milagres atribuídos a Cristo e desapareceu também. não ousava Vespasiano fazer a experiência.

Por isso a grandeza histórica do efeito cristianismo. demonstraremos que o cristianismo não foi criado por Cristo. Naquele tempo a loucura. seja qual for o valor que lhe seja dado. históricas e do meio ambiente. de muitos eruditos e de diversos povos. porque uma só pessoa é causa muito inferior a um efeito tão grande. o cristianismo foi obra impessoal e criação coletiva de vários séculos. o escândalo da cruz. os uniram em corpo mais ou menos orgânico. de produzir os seus efeitos. não pode ter produzido. na época em que determinadas condições psicológicas.dundou em crenças ainda mais estupendas. 138 . por conseguinte. políticas. em contrário do que a Bíblia diz. que impressionavam a imaginação em maior grau do que os milagres de que se riam os augures. Na parte que segue. Por isso.cristianismo. dando vida. de distintas doutrinas. se bem que não é de valor intrínseco. mas que já existia. na positiva civilização Ocidental. um tão considerável movimento na sociedade humana. mas à nova forma . de ter demonstrado aos espíritos apaixonados que Cristo nunca existiu e de ter introduzido a dúvida no ânimo dos mais crentes. não podia deixar de assentar bem. não ao fato novo . no mundo greco-romano. servirá para demonstrar que Cristo não existiu. esse Cristo. em seus elementos constitutivos. Orgulhamo-nos. Não.cristianismo.

Quarta Parte Formação Impessoal do Cristianismo 139 .

Poderíamos intitular este capítulo. etc. mistificação cristã. É completamente falso. que abundam em todas as suas páginas. 1-7). esse ponto é a crença na originalidade e perfeição da moral. Ecles. porque. conclui que ela deve sujeitar-se ao mesmo (I Ep. Uma das glórias usurpadas pelo cristianismo é a de ter redimido a condição da mulher. que a precederam. etc. provaremos agora que. O celibato e a virgindade são a condenação do amor e da maternidade. Êxodo XXI. Quando esta tem uma filha sofrerá mais que quando tem um filho. Tertuliano chama-lhe a porta do demônio. no Antigo Testamento é obra em segunda mão: foi tirada duma costela do homem. O Novo Testamento não a trata melhor. III. 21. 7. XII. o que ela tem de bom. V. atribuída a Cristo. Os padres seguem a Bíblia. baseando. Passagens que envilecem a mulher são. por fim. 6).CAPÍTULO I A MORAL CRISTÃ SEM CRISTO Se um ponto de apoio resta ao cristianismo. XI. (Gen. já vimos a que se reduz. VII. III 16). e especialmente. 18. 9) A mesma ideia se repete em I Tim. Todo o Antigo Testamento é um contínuo envilecimento e servidão para a mulher. as dos Num. 3. Cor. 4. à das religiões orientais. que quebrou o segredo da árvore proibida. 18. ao judaísmo. 1. V. II. (Levit. forçoso será provarmos que é inferior. Comecemos pelas religiões . Isto sem contar os in140 cestos e as poligamias. e o Deus Judeu-cristão condena-a. entre outras da Bíblia. isto é. em muitos pontos. inferior à civilização greco-romana. 2-5 XXVII. Acerca da sua pretendida perfeição. S. a parir com dor e sujeita-a ao homem. das principais e mais sagradas funções que a natureza confiou à mulher. XXI. Eva. Pedro III. Paulo. não é em nada original. Col. e outro declara-a mais amarga que a morte.. tendo de provar que a moral cristã não é original no que tem de bom.se em que foi tirada do homem. inferior mesmo. É ela que introduz o mal no mundo. sob este aspecto. O seu voto é calculado em grau muitíssimo inferior ao homem. Deut.

admitia que os malvados. a religião persa. Confúcio. isto é.orientais. o preceito da caridade positiva. porque o amor do próximo pregado por esta não ultrapassa os confins do país nem as valas da seita. uma dupla confissão: negativa. atri141 buído mais tarde a Jesus. Não cometi fraudes contra os homens. A moral dos egípcios continha. cinco séculos antes do advento do cristianismo. pregava já o preceito de não fazer aos outros o que não queremos que nos façam. além dos preceitos de boa moral dos Evangelhos. tinha já pregado o outro preceito. em vão se procuraria uma palavra em favor da ciência. Ainda mais: enquanto o Cristo dos Evangelhos condena o trabalho e reserva a felicidade suprema para a mendicidade miserável. depois de certo período de expiação. outro filósofo chinês. repetia o mesmo preceito 300 anos antes de Cristo. Zoroastro santifica o trabalho. e positiva. Não atormentei as viúvas. que abarca toda a Natureza e não apenas a Humanidade. O brahmanismo hindu pregava também a mesma máxima. o de fazer ao próximo o que desejaríamos que nos fizessem. No famoso capítulo CXXV do Livro dos Mortos. Não menti no Tribunal. Zoroastro. o dogma iníquo da eternidade das penas. Não enganei. Buda repete o mesmo conceito e sublima a moral até fazer dela uma caridade universal. A moral budista é imensamente superior à cristã. o morto faz. Mêncio. desfrutando também a bem aventurança dos bons. igualmente. Na índia. e ao passo que o cristianismo devia pregar depois. seriam purificados e reabilitados. ao passo que. máximas mais elevadas e mais práticas para bem viver. de tudo quanto fez de bom. especialmente o dos campos. o fundador do mazdeísmo ou religião persa. pelo contrário. perante o tribunal de Osíris. 500 anos antes. Não exigi aos trabalhado- . nos Evangelhos. de que não fez mal a ninguém. A moral budista tem ainda outra vantagem sobre a do pretendido Cristo: a de admitir a livre investigação da verdade. enaltecendo-o e dando-lhe muito mais mérito do que aos rogos e orações. a caridade para com o próximo florescia e fecundava as instituições de hospitalidade e casas de beneficência.

Rodriguez. que toda a pregação moral de Cristo. que sob muitos aspectos. e neste ponto. Salvador. Reconciliei-me amorosamente com a divindade. que caracterizou a doutrina moral e social de Cristo. mas a verdade é que nem sequer tem o mérito da novidade. Não fiz chorar ninguém. A afirmação parecerá estranha aos crentes. Não disso mal de ninguém.do Antigo Testamento. Há muitos anos já que se provou que o Evangelho era a reprodução da parte boa . mas também a justiça.. . com as citações do Antigo Testamento. pertence à civilização oriental. Não tirei o leite da boca dos que mamavam. copiando também os bons conceitos daquelas religiões. a perdoar aos inimigos. Não deixei que a inveja roesse o meu coração. Não me embriaguei. E na segunda: Fiz aos Deuses as oferendas que lhes eram devidas. sem excluir o famoso Sermão da Montanha se formou. de beber ao sedento. Não matei nunca. dada a mistificação de vinte séculos que o cristianismo arraigou nas mentes. bem teriam andado aqueles que copiaram o seu mito. em prejuízo de outrem. Não promovi nenhum desastre. Não dei ordens injustas. muitos e muitos séculos antes do cristianismo. Não meti medo a ninguém. Dukes e Cohen demonstraram por forma que não admite réplica. 18). e não só isso. reduz-se apenas a uma cópia servil do Antigo Testamento. Daqui se vê. Não levantei falsos testemunhos. pois. delas aprendeu tudo. se pregava uma moral caritativa e misericordiosa..vesti o nu e dei barca ao que não podia continuar viagem. delas tirou tudo. Não mandei jamais assassinar à traição. achava-se já no Levítico (XIX. A moral do Evangelho porém. 142 aconselhando a maneira de fazer as pazes com eles. Não fui preguiçoso. O Cristo dos Evangelhos nada forneceu à moral das religiões do Oriente: pelo contrário. Não fui negligente. ensinara muito antes de Cristo. Dei de comer ao faminto. Não lancei mão de coisa alguma. Nunca fui indiscreto. Pitágoras. que no Egito. Não provoquei abortos.res mais trabalho do que o que podiam fazer.e nem sempre . O preceito amarás ao próximo como a ti mesmo. palavra por palavra. Nunca abri a boca para intrigas.

XXIV. mais modernos ainda. merecem ser duramente reprimidos. diz ele. pois. O preceito não faças aos outros o que não queres que te façam. 22. As bases da igualdade foram lançadas. Nisto. 29). tinham já aconselhado. por Fílon. Porque és tão orgulhoso e te julgas superior aos outros? Não são todos os teus parentes feitos do mesmo modo e não pertencem à mesma terra? Não bastaria a vida de um homem para narrar os bene- . A verdadeira distinção não pertence senão aos homens de inteligência e de justiça. como Antígono de Soco. Cristo foi nacionalista e não eximiu os filhos das culpas dos pais. estendendo o amor do próximo mais além do que os confins da Judeia. em termos mais positivos que os do Evangelho. o hebreu alexandrino. é o cristianismo inferior ao judaísmo. Sábios hebreus.E o melhor é que os próprios Evangelhos. antes do cristianismo. numa palavra. lê-se já no livro de Tobias (IV. A pureza do pensamento e o amor especial para com os pobres e os oprimidos. Jesus filho de Sirach e Hillet. nascido em nossa casa ou comprado com o nosso dinheiro (Tratado da nobreza). encontra-se nos Provérbios (XX. Amós e Sofonias. que seja dito de passagem. no livro de Job. Tinham também condenado a vingança. Isaías. racionalista e místico ao mesmo tempo. O preceito que proíbe pagar o mal com o mal. veem-se. Os que. devia ter já há séculos aberto os olhos à Humanidade. se não o impedissem a escravidão do pensamento e o preconceito teológico. ainda que sejam filhos do escravo. Jeremias e os 143 Salmos tinham já preconizado uma religião menos formalista e menos hipócrita no que respeitava às práticas exteriores do culto: mais espiritual. o perdão das ofensas e a doçura de caráter. encontram-se em Isaías. Os profetas Jeremias e Ezequiel tinham já condenado a parte do Antigo Testamento que castiga os filhos pelos pais. Jeremias. 16). como já provamos. indicam a sua procedência. Os ataques contra os potentados da terra e a defesa dos fracos. Oséas. em termos comoventes. exaltam a nobreza como sendo um grande bem. filósofo e teólogo. pondo esse preceito na boca de Jesus.

fazendo desta sentença toda a sua moral: A vida não é mais do que uma preparação para a morte. Outros pretendem que vêm dos Terapeutas. da preocupação na crença do fim próximo do mundo. principiis). ao lado da qual a cristã fica ofuscada. senão recordar algumas das máximas mais salientes daquela época de ouro do pensamento humano.fícios da igualdade. O que é positivo aqui é esta parte da moral cristã ter já existido antes do cristianismo. pois condena o primeiro e passa em silêncio a segunda. que depois foi em parte assimilada pelos padres e doutores do cristianismo teve uma moral elaborada pelos seus sábios. Nem mesmo as virtudes negativas são originais nos Evangelhos.. pelos seus literatos e filósofos. na alma a honestidade e a virtude (De victim. ainda que sejam culpados. Comparem-se os poemas de Homero e Virgílio com o tenebroso poema de Dante. Na Odisseia vemos a divindade protegendo o fraco e o desgraçado. ao bem estar social e ao celibato. não enganes o amigo. e sobretudo. No Universo produz a unidade. como a dos estoicos. A parte boa do essenismo relativa ao cultivo da terra e à abolição da escravatura não foi imitada por Jesus nos Evangelhos. No que se refere ao desprezo pelas riquezas. na cidade a democracia bem regulada. também o cristianismo é inferior ao judaísmo. manda gravar pelos caminhos públicos: Caminha na senda da justiça. Hiparco. 144 do medo do outro mundo243. no corpo a saúde. A demonstração disso já a fizeram Denis (Histoire des theories et des idées morales dans l ´antiquitè) e Havet (obra citada): não faremos. . Mais ainda: essa mesma inferioridade não lhe pertence. Esta é a fonte dos maiores bens que podem existir: a boa vontade e a amizade entre os homens. por isso. ainda o politeísmo greco-romano é superior ao cristianismo. A civilização greco-romana.. não importa. 243 Neste ponto. de creat. do misticismo. filho de Pisistrato. o pobre e o infeliz são recomendados ao respeito e à piedade do próximo. pois provêm dos essênios. enquanto que a parte boa da evangélica era tirado do ascetismo. Os essênios hebreus tiveram outra superioridade sobre a moral evangélica: a de ser a sua moral puramente humana. Offer.

S. recomenda a humildade.9 Fim. encontramos todo um sistema de máximas cristãs. Não está aqui. espírito mais positivo. que a justiça suprema é o amor. 28. XXIX. Crisóstomo. 24 e 27 Levit. epist. 5. de razão e de ciência. as melhores do Evangelho. é impossível. Hisócrates promete. XLIII.S. S. cheia de humanidade. o pudor. a castidade. Para os que assim pensam vejam a Bíblia Exod. 1. E a sua abolição deve-se à obra do livre pensamento. e quanto a certos deuses obscenos. Bossuet e Bouvier santificaram a escravidão e a Igreja praticou-a e serviu-se dela. de costumes aprazíveis. em muito. A filantropia e a anistia são palavras que vieram de Atenas. toda a moral cristã? Em Platão se encontra. o Pater Noster atribuído a Cristo.No teatro de Atenas havia máximas que sobrepujavam. em respeito às crenças. 44 e 45 Proverb.2. ao passo que exalta a alma etc. finalmente. VI. segundo as quais se a vida e morte de Sócrates são de um sábio. Condena o suicídio e a voluptuosidade. XXV. XXXIII. Os padres da igreja. não só a paz nesta vida. etc. E Sócrates? Havemos de falar dele? Apenas para inverter as palavras de Rousseau. VI. Aristóteles. 145 go. a sociabilidade era ali viva e intensa e a civilização ateniense. Inácio. Sócrates não tremeu nem chorou diante da morte! Grande era a liberdade concedida aos escravos em Atenas. como os cristãos. era um verdadeiro foco de luz que iluminava o mundo anti244 Diz-se geralmente que o cristianismo aboliu a escravatura. João. onde eram tratados com doçura e humanidade244. Recomenda que se não exponham ao público imagens indecentes. S. antecipando-se a Dante. quer que só os . XXI. Em Platão. 21. por ventura. Eccles. de equidade. da exaltação dos humildes e da humilhação dos exaltados. Os últimos partidários da escravatura foram os maçons católicos. Agostinho. Nada menos verdadeiro. S.5. aos Epes. Proíbe a vingança e proclama o desprezo dos sentidos. Paulo. a vida e morte de Cristo são de um Deus. mas esperanças melhores na outra. detesta a riqueza: Ser bom e rico ao mesmo tempo. das mulheres e dos prisioneiros de guerra. aos que praticam a piedade e a justiça. e enfim. Xenofonte fala em favor dos escravos. de letras e artes. . confunde a virtude com a justiça e chega a dizer que a comunidade repousa mais no amor do que na justiça. Isidoro.

É certo que admite a escravatura. que l’empire byzantin a au moins égalé l'autre en scandales et en horreurs. Mas Epicuro tinha também ensinado que o escravo é um amigo de condição inferior.que le monde d’après le Christ a conservé longtemps les mêmes misères. Ernest Havet escreveu uma página maravilhosa que. Grande parte da moral cristã deve-se ao estoicismo. do homem sabe-se que deixou em testamento. o espírito positivo da moral aristotélica sobreleva em muito o espírito nulo e decadente da moral evangélica. e recomendava que não se lhe tocasse. 146 para obter um prêmio na outra vida. que la torture . como depois vieram a fazer os monges cristãos. a família e a pátria. nem mais que um mal. o pecado. que même sous la chrétienté moderne. a liberdade aos seus escravos. Devemos especialmente aos estoicos a concepção da fraternidade humana universal. mas unicamente para salvá-la. os cristãos copiaram a parte pior do epicurismo. Nem sequer o cinismo é estranho à formação da moral cristã. C'est oublier bien facilement escreve ele então no prefácio de sua obra imortal . contra todas as evidências. A propósito da podridão que assolava a sociedade antiga. mas se esta fraqueza é imputada ao filósofo. Diógenes. reproduzimos na língua original para que não se perca a sua veemência. evidentemente. Eis aqui a essência do cristianismo. do Logos e do Verbo. Além disso. a virtude. o mérito de tê-la erradicado. que ensinava a indiferença para com a vida pública. ao contrário do nosso hábito.padres os adorem. para o qual não ha mais que um bem. Ensinou também que a comunidade tem obrigação do instruir todos os seus filhos. mas com uma diferença: é que este não procura a perfeição da alma pela própria virtude. que foi um ateu moderno em toda a acepção da palavra condenou o matrimônio. os cristãos não se preocupavam com ela. enquanto os estoicos amavam a liberdade política. Aqui. la Rome des papes a été quelquefois aussi impure et aussi sanglante que celle des Césars. que ultrapassa as fronteiras de cada pátria em nome da universalidade da raça. e aos pretextos dos cristãos em atribuir ao cristianismo. e a este respeito.

et que l'esclavage dure encore. Porque não há maior exemplo de ilusão possível do que a determinação dos crentes em atribuir ao cristianismo e à Igreja Católica a abolição da escravatura. e a tortura. que condena tão facilmente e tão descuidadamente tantas coisas. l'éducation par les coups. qu'il n'a commencé à tomber que depuis le dix-huitième siècle. qui condamne si facilement et si imprudemment tant de choses. que l'esclavage des noirs s'est établi sous le règne de l'Église. qu'il a duré assez avant dans le moyen âge. Que a tortura durou até a Revolução Francesa. quand il est certain que l'esclavage antique a subsisté dans l'empire chrétien comme dans l'empire païen. la torture. de l'aveu de l'Église et dans l'Église. depois que a Igreja Católica passou a perder força e começou a ruir. e que. O grego Gelon. e que estes Estados são católicos. o que significa dizer. et que ces États sont catholiques. a catequese forçada e muitas outras injustiças vigoraram durante todo esse tempo por obra da Igreja e na Igreja. que leur obstination à faire honneur au christianisme et à l'église de l'abolition de l'esclavage. bien d'autres injustices encore ont continué tout ce temps. E que até o presente momento o Papado. que le servage existait encore en France à la veille de la Révolution. c'està-dire depuis que les Églises menacent ruine. a escravidão. Que. 245 “É fácil esquecer que o mundo depois de Cristo conservou durante muito tempo as mesmas misérias. la Papauté. e que a escravidão ainda existe. qu'il persiste encore aujourd'hui dans deux États. no final do século XVIII. determinara que estes não imolassem mais vítimas humanas aos seus deuses.a duré jusqu'à la Révolution française. a servidão sobrevive na França até às vésperas da Revolução. L'Église a régné dix-huit cent ans. O cristianismo tem reinado por mil e oitocentos anos. e quase levou tudo de um só golpe”. et l'esclavage. et elle a tout emporté presque d'un seul 147 coup”245. quando é certo que a escravidão antiga sobreviveu no império cristão tal qual no império pagão. Car il n'y a pas de plus grand exemple des illusions que peuvent se faire les croyants. subsistindo ainda na Idade Média. na Sicília. et qu'à l'heure qu'il est. tratando com os cartagineses. Que o Império Bizantino era. igual aos outros em escândalos e horrores. . a Roma dos papas foi tão impura e sangrenta como a Roma dos Cesares. Que ela só começou a diminuir depois do século XVIII. la philosophie libre n'a régné qu'un jour. n'a pu encore se résoudre à le condamner. mesmo na cristandade moderna. A filosofia livre não reinou mais que um dia. ainda não teve a dignidade de a condenar. Que a escravidão negra foi criada durante o reinado da Igreja e ainda persiste em dois estados. no mínimo. à la fin du XVIII e siècle.

à parte da tão citada Charitas generes humani. Sêneca quer suprimir a pena de morte. A sua pátria é a mesma dos Cristãos: o mundo todo 247. Virgílio dizia: maxima debetur puero reverencia246. encontramos um verdadeiro sacerdote cristão. E Lucano cantava: 246 O vitæ tuta facultas Pauperis. Opes irritamenta malorum. pensava Ovídio. um sobre a paciência e outro sobre a castidade. Cristo. insensíveis à dor e ao prazer. Finalmente. de Horácio. ao passo que o altruísmo cristão se limita aos eleitos sendo por isso discriminatório e tem por fim o prêmio do céu. pela sua moral pura. Basta recordar a importante carta de Santo Agostinho. em lugar de serem perseguidos. o munera nondum Intellecta Deum! A moral de Sêneca é por tudo e sobretudo cristã a ponto dele recomendar que sejamos superior às paixões. Horácio mostra-se cheio de sentimentos viris e delicados. devem ser con247 Deve-se à crença a máxima reverência. prega a tolerância até para com os culpados. Aconselha a generosidade e a bondade para com os escravos e chega até a dizer que todos os homens são iguais. Fala do céu como os cristãos e diz que todos somos filhos do mesmo pai. Lucrécio ensinava que o fraco deve encontrar apoio em todos. Foi só o cristianismo de Paulo que tirou a pátria ao cristão. mascarando um egoísmo. porque ele quer que o fim da nossa vida seja a felicidade de todos. enquanto que o cristianismo a conserva. um sobre a pobreza. A moral de Valério Máximo é já de todo cristã: tem um livro sobre a continência. A dignidade humana. esse era um acérrimo judeu nacionalista.Em Cícero. Mas a sua moral era superior em muitos pontos à do cristianismo. ao mesmo tempo. sendo a sua grandeza objeto da saeva paupertas. domina o seu coração. sobretudo. podiam ser recolhidas pelos livros cristãos para edificação religiosa. 148 Entendamo-nos. na qual este santo recomenda a leitura de Cícero. . Muitas das suas sentenças. angustique lares. que diz ele. A exaltação da pobreza precedeu o cristianismo na própria Roma. declarando que a da Igreja não é diversa daquela. e indulgente quanto à punição.

Por conseguinte. . em todo o caso. pois demonstra que a moral humana não é monopólio de uma seita. antes do cristianismo. Não falamos já na admirável filosofia de Epiteto e de Marco Aurélio. cap. preocupada apenas com o zelo religioso.romano foram mestres de moral. o advento do cristianismo é até um princípio de decadência. Isto é consolador para a Humanidade. livr. colocando a Bíblia. com a sua cosmologia errada e pueril. agregando o imobilismo aos erros de então. a ciência não poderia avançar para além das Colunas de Hércules da Bíblia. A liberdade de pensamento foi banida para plagas longinquas porque é inadmissível o debate de ideias numa igreja que se arvora depositária da verdade divina absoluta. no que tem de bom. com a diferença que aqueles não estavam constituídos em casta privilegiada. I. Pelo contrário. mas obra da mesma Humanidade. 149 visto já existir antes dele e sem ele. sufocou a liberdade de pensamento. e consoladores. o que fica claro é que a pretendida moral cristã não foi inventada nem revelada pelo suposto Cristo. como diz Havet. Porque. que os filósofos do mundo greco. fonte de todo o progresso intelectual e moral. E daqui pode concluir-se que ela é tão antiga quanto a Humanidade racional. mas até a preexistência desta moral contribui para excluir o Cristo. XIV. Apresentaremos agora. Vimos que a moral cristã se formou independentemente do pretendido Cristo e que já existia. não só não é precisa a presença de um Cristo para explicar esta moral.vertidos248. tão cheias de caridade e fraternidade. como deviam ser depois os sacerdotes cristãos. nem impunham o seu dogma pela força. não é de estranhar que se repute infalível tudo o quanto nela é dito. Observa-se. É tempo de concluir. mesmo no domínio científico. geralmente. e seus muitos erros científicos como uma emanação da verdade divina. para mostrar a completa inferioridade do cristianismo em face ao politeísmo e ao judaísmo. o seu espírito anticientífico e dogmático que. quando tratarmos da formação psicológica do cristianismo. 248 De ira. Na verdade. sobretudo moral. decadência que explicaremos melhor. porque Deus não pode errar e portanto.

Gaetano Negri sintetizou admiravelmente o imobilismo da Igreja Católica com estas palavras: O cristianismo tomou. a perseguição a Galileu. teorias e sistemas. especialmente pela boca de Lucrécio. num vasto sistema teológico baseado inteiramente em entidades metafísicas. (conforme Theophrastus) sem que eles tivessem sofrido qualquer tipo de constrangimento A grandeza principal da Grécia é devida à liberdade de pensamento e de palavra que ali se desfrutava. de um lado. e por isso foi tão produtiva. o cristianismo representou um inegável retrocesso sobre os princípio científicos que já tinham sido reconhecidos pelos pensadores gregos. quem duvidar será amaldiçoado e per- . ao qual a liberdade de pensamento é tão necessária quanto o oxigênio para os pulmões. e mesmo Hipócrates. a única importante para os alucinados crentes no além. o antropomorfismo da divindade hebraica e o conceito de criação e de governo do universo que encontrara nos textos sagrados de Israel. originário da escola de Alexandria. Citamos como exemplo. liberdade que foi a causa do rico florescimento do gênio. foi o cristianismo por seu ascetismo e seu distanciamento deste mundo. quando a mesma descoberta já havia sido anunciada na Grécia por Hiceta e Aristarco de Samos. o cristianismo foi fatal para o progresso da . o espiritualismo helênico. quatro séculos e meio antes do tempo assinalado para Cristo. Com tais princípios. eterna. No campo do conhecimento. Assim. já mostrava as causas naturais de fenômenos atribuídos à obsessão. para em seguida dizer: esta é a verdade. o cristianismo infelizmente seguiu o judaísmo do Eclesiastes. que o fez negligenciar todas as artes e estudos para melhorar a vida presente. considerada como uma mera peregrinação para uma outra vida. e de outro. o mundo greco-romano já tinha proclamado. 150 ainda que o Talmude reconheça a liberdade de opinião e de interpretações heterodoxas. a inflexibilidade das leis naturais. Quando o cristianismo surgiu.Sabe-se quão funestos foram os efeitos que daí derivaram. verdadeira. Mas ainda mais fatal para o progresso e a ciência. Fundiu tudo. por obra do Concílio. que condena abertamente a ciência.

O cristianismo quis e soube como imobilizar a humanidade por muitos séculos. disseminou por toda extensão do mundo a mais intensa barbárie. (Negri G. 1878). Impôs à raça humana. como verdade absoluta.seguido. decadente desde as invasões e posteriormente sufocada por completo. 64. A Crise Religiosa. p. o que não era nada senão um produto mutável e passageiro de um momento da evolução intelectual. Milão. Dumolard.. A antiga civilização. 151 . Pôs a ferros o pensamento e condenou-o a viver por séculos e séculos na falsidade.

355aC): Disse Ciro ao morrer: Eu nunca pude persuadir-me de que a alma. a ressurreição e dogma do Verbo. Os dois primeiros substituíram-nos os judeus por Enoch e Elias e o terceiro pelo seu Messias. que vive enquanto está num corpo mortal se extinga desde que sai dele e que perca a faculdade de raciocinar. o escandinavo e o gaulês. O dogma da ressurreição dos corpos é um dos principais do Zend-Avesta. para completar os dogmas capitais da doutrina cristã: a imortalidade da alma.nos restam ainda a analisar. e segundo Zoroastro. o indiano. segundo se vê pelas seguintes palavras da Ciro152 pédia (430 . abandonando o que é incapaz de raciocínio. . segundo os seus méritos ou deméritos. O dogma da imortalidade da alma encontra-se na religião persa. Veremos pois de que modo se formou aquela concepção metafísica e teológica de Cristo. Outros povos. formando-se primeiro e fora do pretendido Cristo. acreditavam já na imortalidade da alma. O dogma da imortalidade da alma era já conhecido dos persas. tal como foi adaptado à religião cristã. o fim do mundo devia preceder aquele grande acontecimento que seria anunciado pelos profetas Ascedermani e Ascedermat e realizado pelo Messias persa. provaremos em seguida que nem sequer a doutrina cristã é original. principalmente e podemos até dizer unicamente . como o egípcio. Os sequazes de Zoroastro (1700 a 1000 aC) acreditavam que a alma se formava pura e imortal com o livre arbítrio e que devia ser recompensada ou castigada. Três pontos. um fato consumado antes do pretendido Cristo. A doutrina dos Evangelhos era já. por conseguinte.CAPÍTULO II A DOUTRINA CRISTÃ SEM CRISTO Depois de concluirmos que a mitologia judaico-romana e o mito de Cristo eram anteriores ao cristianismo e ao judaísmo. Os hebreus não adotaram esta crença senão depois que se desenvolveu o comércio e relações que tiveram no desterro com as nações situadas além do Eufrates. que obscureceu por tantos séculos a sua origem mitológica. antes mesmo de Zoroastro.

E quanto à doutrina do Verbo. cit. obr. Os próprios oráculos falavam de Deus no singular. sendo este. cap. Eusébio. Justino. ele só e primeiro que tudo. Porfírio cita um oráculo de Serápis assim concebido: Deus é antes. No mundo romano. nos seus anjos e santos tinham a sua Trindade e os seus deuses redentores. 153 giões orientais nem para o mesmo politeísmo greco-romano. fosse qual fosse a forma. O judaísmo conhece outros deuses. apoiado no judaísmo. Para sermos mais completos. tinham um Deus supremo. a fim de por intermédio dos oráculos. Tem-se dito que o cristianismo. Univ. Lactâncio. O mesmo dizia Prudêncio o povo tinha sempre na boca as expressões . que encarnou e viveu escravo na terra. encontramo-la no Egito. o próprio Cantu admite (Hist. rebuscaremos as origens no próprio judaísmo e helenismo 249. rapidamente copiadas pelo cristianismo. Neles encontraremos ainda mais do que o que procuramos. todos os povos acreditavam num só Deus. apenas um mediador entre Deus e os homens. revelar a sua vontade. a Júpiter e Apolo. que em nada era inferior ao que logo foi o Deus Pai dos cristãos. Nicolas . nasce o Deus do fogo e da vida Fta. introduzira. e M. novo nome e nova forma. Máximo de Tiro assegurava que. Além disso. Havet. e como salvador da Humanidade. VI) que o politeísmo se restringira quase à crença num Deus único. Agostinho. onde o Deus supremo gera Kneph. o Verbo e o Espírito com um e outro. se Deus quiser. cit. depois e ao mesmo tempo. pois que. e da união do Verbo com o seu divino autor. a palavra semelhante a seu pai.Deus o sabe. pai de todas as coisas. como já vimos.Doutrinas religiosas dos Judeus. e sobretudo. se tinham um grande numero de divindades inferiores. obr. que vivifica todos os seres. Isto prova que os elementos da doutrina cristã preexistiam muito tempo antes daquele movimento que lhes deu nova organização. ainda mesmo que Jeová fosse o único deus dos hebreus. nem para as reli249 Veja-se a tal respeito Salvador. a unidade de Deus. Atenágoras e outros . submetido aos padecimentos para expiação do gênero humano. que decerto não era uma novidade. Deus o abençoe. Nada mais falho de provas. o cristianismo ajunta a Trindade.

tirou-a o cristianismo das escolas místicas e espiritualistas da Grécia. . Tanto que o primeiro converteu e inspirou S. que fez desta terra um deserto.apologistas do cristianismo. naquela época de evolução religiosa em que nasceu e se propagou o cristianismo. que propagou a distinção entre a alma e o corpo. Platão foi o verdadeiro propagandista. Foi ele que popularizou a Trindade e o Logos. Além disso. fazendo consistir a felicidade nos delírios metafísicos. 11 e seg. São de Ezequiel as palavras em que Deus declara não querer a morte do pecador. O versículo de Paulo (Gal. que faz dos sentidos uma prisão e do mundo um mal. que era o nome dado á divindade suprema (o Sol) por todos os cultos. 23. nem dos essênios. Agostinho na teologia. encontra-se já em Habacuc (II.11). subordinando este àquela. escrevem como perfeitos padres da Igreja. Seria supérfluo repetir aqui a demonstração. mas que se converta e viva (XVIII.) segundo o qual o justo viverá da fé. tendo-o Platão. como atesta Planto. III. reconheciam também que a unidade de Deus era admitida pelos antigos filósofos e formava a base da religião de Orfeu e de todos os mistérios gregos. por sua vez. tendo a versão grega da Bíblia substituído o nome de Deus hebraico pelo de Senhor (em latim Dominus). Deste deriva igualmente a doutrina metafísica do Verbo.da metafísica cristã. foi um puro acidente de tradução. 4). que se pretende achar em Jesus. XXXIII. em suma. E a invenção do Pai Celeste. como observa Fílon. que reduziu. no mundo romano. 154 Porém. sabe-se que o que produziu o êxito do Deus hebraico. e o segundo foi suspeito de haver tido relações filosóficas com algum dos apóstolos. pertence também ao Antigo Testamento.não dizemos criador porque a procedência é toda do místico Oriente . tirado do Egito250. . os elementos metafísicos da doutrina cristã procedem da filosofia grega. fazendo-o comum a todos os cultos. especialmente em Isaías (LXIII. O amor de Deus não é invenção cristã encontra-se já no Antigo Testamento. para não falar dos gregos. especialmente de Platão. 15). do mesmo modo por que o faz o Evangelho. Também a intolerância religiosa. que 250 Convém recordar que já antes de Platão. Cicero e Sêneca. Heráclito falara do Verbo. a sistema filosófico a decadência moral.

os quais tinham abandonado o culto nacional do templo e do sacrifício. que é a filosofia dos judeus alexandrinos. no helenismo. acrescentando ainda aquele famoso ponto de intersecção ideológica. de que nasceu a doutrina do Verbo que se faz carne. abolindo os prazeres dos sentidos. . também sem que ainda existisse o nome de Cristo. aconselhando a caridade. o Cristo metafísico. influem sobre as ideias e estas sobre os costumes. Importa recordar aqui a seita dos terapeutas do Egito. querendo libertar a alma da tirania do corpo. e por sua vez. a Idade Média. presbítero. só faremos referência à parte relativa ao mesmo Verbo. diácono. única que importa a nossa tese. pois temos pressa de chegar à parte culminante da demonstração da nossa tese. porque as palavras são o símbolo da ideia. bispo. Só lhe faltava a exaltação dos humildes e infelizes. De todo o modo. obediente a uma severa disciplina. as principais palavras da doutrina cristã são de origem grega: dogma. invisível. ao judaísmo profético. 252 Segundo Havet. Poremos também de lado as provas que poderíamos tirar da cultura helênica. retirandose à vida contemplativa. excetuando o Hortêncio. que foi buscar. que eram os israelitas descontentes das práticas religiosas públicas do seu povo. sobre as religiões e sobre os acontecimentos e porque em todo o caso provam a verdadeira origem das ideias. com o nome de Verbo. símbolo. Esta observação é dig155 Com os judeus alexandrinos cristaliza o Oriente o espiritualismo helênico de Platão e o judaísmo. procede da lenta elaboração dos materiais daquela cultura. E de toda a sua doutrina. catecismo. 251 Havet prova que o cristianismo existia todo. oferece-nos dela uma prova plena. tendo o matrimônio como um impedimento. os verdadeiros artífices do dogma cristão252. criando não só a doutrina cristã mas o mesmo Cristo. teologia.já é do domínio da filosofia e se conta entre as verdades experimentais adquiridas. pois que com ele se poderia provar que o cristianismo foi anterior a Cristo251. corruptível. ou antes. criatura. afeição. mistério. graças à afeição que por eles teve. como vimos. longe do comércio dos homens: que estabeleceram a comunidade de bens. provavelmente suprimido para evitar aos cristãos uma desairosa situação. ou antes metafísica. de Cícero. porque nos conservou as obras daqueles autores. ao menos na sua parte filosófica. pelo menos em gérmen. em demonstração de que o cristianismo. a na de ser notada. sinônimo de cristianismo. etc. monge.

His. de Zenon e de Platão.. não faltando senão o nome de Cristo e a aplica253 Que foi o primeiro hebreu alexandrino que tentou a fusão do hebraísmo com o helenismo. Fílon discorre acerca do Verbo. quando explicava. apesar de nunca ter falado em Cristo. Mas com que fundamento? Que razão ficará que justifique a objeção feita pela crítica à afirmação de Eusébio. um dos que combatem a opinião de Eusébio. principalmente Fílon. libr. com uma evidência incontestável. Introdução. e segundo eles. que o próprio Strauss. a quem Havet chama o primeiro dos padres da Igreja. etc. aquele Fílon que deixamos noutro ponto do nosso trabalho. É certo que a critica impugna a afirmação de Eusébio. II. em alegoria o Antigo Testamento. o criador de Cristo.. Os principais autores hebreus alexandrinos. outra seita análoga. exaltando a pobreza e o celibato. Este Fílon. verdadeiros cristãos.. os terapeutas eram já em ação. Eram semelhantes aos essênios da Palestina. tem dado sempre 156 muito que pensar. nós o consideramos como o verdadeiro fundador do cristianismo. por isso mesmo. como se fossem há muito uma seita cristã. Vid. se suprimirmos a fonte suspeita da Bíblia? A opinião de Eusébio é fundamentada em fatos. Foi esta a obra dos hebreus alexandrinos. mas sob o influxo da mitologia egípcia. E tanto assim é. Vacherot. de que falava Fílon.beneficência e as preces em comum. de base ao cristianismo. crit. e precisamente. eram os cristãos: opinião esta que demonstra. mas não idêntica. Para os essênios e terapeutas praticarem toda a moral e doutrina cristã. não no sentido de Salomão ou do Livro da Sabedoria. pois esta admitia o trabalho na agricultura e nos diversos ofícios. não à maneira de Heráclito. praticando a abstinência. . condenando o juramento. segundo a qual os terapeutas. o criador do Verbo. de que nos ocuparemos neste lugar são Aristóbulo253 e Fílon. Importa igualmente recordar aqui a opinião de Eusébio. se vê obrigado a confessar que a semelhança e o parentesco dos essênios e terapeutas com o cristianismo primitivo. da escola de Alexandria. só lhes faltava a doutrina da encarnação do Verbo. que o cristianismo existia já antes do pretendido Cristo. depois. de tal modo que devia servir.

255 No livro da Sabedoria. Paulo. a figura de Deus. crê Vacherot que está precisamente contido o princípio de uma grande doutricorpo. na sua obra a Religião. o Adão celeste. deduz que não deve duvidar da origem grega do Verbo cristão. Deus é inefável e inacessível à inteligência humana que. que não pode proceder à criação do mundo nem comunicar com os homens criados sem a obra de um mediador. Deus não se mostra aos homens na sua figura invisível. dá o Verbo feito humano. tantas vezes fundidos numa nova religião254. o Verbo não é só a palavra. que devia ser mais tarde empregada. e a voz da inteligência existe desde o princípio. Foi criada antes de todas as coisas. e com ele esteve sempre. fazendo dela o instrumento da criação. S. Segundo ele. a doutrina do Verbo é ainda mais precisa: A sabedoria vem de Deus. em Fílon. no mesmo sentido. Jerônimo. se Deus não descesse até ela e se não se lhe revelasse. Este Verbo. 254 Fílon porém. O Verbo de Deus. notando a perfeita identidade da teologia do quarto Evangelho com a do Verbo platoniano e alexandrino. o Livro da Sabedoria define a natureza deste princípio intermediário. Já Salomão tinha distinguido a sabedoria divina de Deus. por S. E aqui já nós estamos muito perto da linguagem do quarto Evangelho255. de Jesus de Sirac. declara que tal obra não existia em hebraico e que os antigos escritores a atribuíam ao filosófo hebreu Fílon. No Eclesiastes. o Verbo. mesmo ajudada pela graça divina não chegaria até ele. É uma circunstância bem digna de reparo. bem como o dogma da vida futura e imortalidade da alma. o tipo ideal da natureza humana. mas mostra a sua imagem. Para Fílon. é alguma coisa mais que em Platão. e a transformação de tantos materiais. Por isso. transformando o pensamento vago de Salomão sobre a sabedoria. o Verbo convertese precisamente neste Mediador. está já nitidamente professada a divisão da alma e do . Ele é o ungido por Deus. é a fonte da sabedoria. 157 Vacherot.ção do antropomorfismo dos Deuses Redentores orientais ao seu Verbo. na doutrina do Verbo propriamente dito. mas a imagem visível. que traduziu do grego o livro da Sabedoria. Em Filon. para completar a fusão do Oriente (espécie egípcia) com a Judeia e a Grécia. Nesta última denominação. dado o principio da essência impenetrável de Deus. no mais alto do céu. Nesta revelação.

Melhor ainda: segundo Fílon. III). livro II. e além disso.. interpreta as ordens de Deus aos homens. por outro lado. Cristo que criou o cristianismo. .. tanto na teoria do Verbo como na da Trindade e no seu misticismo. Poderíamos continuar o exame da doutrina de Fílon. Audiat igitur anima vocem Dei.na .a da encarnação do Verbo de Deus sob a fôrma humana256. O mesmo Fílon diz que. a ceia. Não foi. o Verbo de Platão deixa de ser uma pura entidade abstrata para se converter em princípio de vida.. Fílon faz mais ainda: oferecenos a eucaristia. alguma coisa mais encontramos: a doutrina cristã de onde nasceu Cristo. em linguagem científica. por sua vez. de pão por excelência. quod um solo pane vivet homo fact us ad unaginem. o Verbo. se Deus criou o homem à sua imagem. antes de serem filhos de Deus. mas ao Verbo de Deus. o Verbo de Fílon é particularmente o tipo da natureza humana. fora da qual não será coisa alguma. Porque. alleg. pois. que é absolutamente cristã. deixando incólume a substância. porém. observa Vacherot. que fala como 257 Vacherot. se o Verbo divino é o tipo da Humanidade. Nam hic est panis datus nobis ad viscendum vedelecit verbum hoc. Ao nosso plano. Fílon. Mais ainda: em Fílon. importa que nos detenhamos aqui. Dá ao Verbo os nomes de pão da vida.. assegura à criatura que o criador não a 256 abandonará à sua fraqueza e impotência. Este Fílon. e. não é a ele a quem pode comparar-se. de tal modo que o cristianismo não teve que acrescentar mais do que palavras. e todos os homens são seus filhos: filhos do Verbo. Escola de Alexandria. Com Fílon. que por isso são filhos do mesmo pai. é pai de todos os homens. Foi o cristianismo que criou Cristo. o Verbo converte-se em filho de Deus. cibus quem doclit Deus animibus ut se pascant.. pois. que. sed omni verbo quod procedit ore Dei (Philo. Assegura ao criador que a criatura será fiel à lei suprema. mediador entre o criador e a criação intercede junto do Eterno pela mísera Humanidade. De modo que.. porque. buscando a formação da doutrina Cristã antes do pretendido Cristo e sem ele. Introd.. o que.. também o pai o é. Verbo ipsius atque sermone. chamamos teofagia. Legis. indispensável (aos fieis) para se alimentarem257. para se encarnar. 158 Hic est panis.

Paulo fala de Cristo como do Adão celeste.cristão. de pessoa humana. e a pedir à ciência que retifique as opiniões seculares acerca de Cristo. de quem forçosamente devia ser contemporâneo. o faça voltar ao que foi em suas origens: uma pura entidade abstrata. além disso não conhece Cristo. fica demonstrada inteiramente a nossa tese. porventura. que os discípulos imediatos de Fílon. que funda o cristianismo . a mais formosa e contundente prova de que Cristo nunca existiu? Numa palavra: se recordarmos o que escrevemos no princípio deste trabalho.embora o nome da nova seita não apareça ainda em suas obras . considerando nele apenas o Verbo e o filho de Deus. e que. uma criação mitológica e metafísica da Humanidade. mais do que nunca.e que. à maneira de Fílon. estaremos autorizados a declarar que. 159 . Clemente Alexandrino (depois colocado no número dos santos!) e Orígenes não falavam de Cristo como homem. se recordarmos que o próprio S. não será. se acrescentarmos o fato bem notório de que. como foi julgado durante mais de quinze séculos. isto é. os primeiros padres da Igreja se não interessaram pela humanidade de Cristo. em geral.

considerado infalível como o católico. os bonzos devem ser bem tratados. Escusado é dizer que nos limitaremos aos cultos antigos que passaram para o cristianismo. isto é. . sendo numerosíssimos os irmãos258. O Dalai-Lama é o seu papa. mas. providos dos respectivos mosteiros e do necessário para viver.tudo ali o encontrou ele. este capítulo não era preciso ao nosso assunto. moral. Também o budismo. Na religião de Buda. só ela pode ler os Vedas.cerimonia. Também estes não se casam. símbolos. às cerimonias e à parte exterior ou social das religiões que precederam a cristã. cap. o vigário de Deus e o sucessor de Fo. Por ela se vê que tudo quanto há no cristianismo . mas logo a sua fé encontrou uma . lançaremos uma rápida vista às práticas religiosas. pois. 160 O sumo sacerdote não pode casar-se e é venerado como um Deus. para que se veja que o cristianismo não trouxe novidade alguma ao mundo e que não é necessária a presença de Cristo para explicar a religião cristã. bem como a de enviar missionários a outros países. superior. No budismo era antiquíssima a prática de celebrar concílios. especialmente no Tibete. História da luta entre a ciência e a teologia na cristandade. abundava em mosteiros.CAPÍTULO III O CULTO CRISTÃO SEM CRISTO Em realidade. uns para homens. podendo fazer cessar os açoites o as calamidades públicas. A tese. lazarista francês realizou na China. oferecer sacrifícios. as terras dos brahmanes são as únicas isentas de impostos. ritos. XX. ensinar a religião e apropriar-se das esmolas depositadas nos templos. ficou confundido. prático. 258 No livro célebre de Andrea Dickson White. de forma. que a diversidade dos tempos e dos povos explicam. a fim de condenar e evitar os erros infiltrados na religião. as quais nos provam que também o culto cristão antecedera o cristianismo. O missionário. a vista disto. vem descrita a missão que em 1839 o padre Huc. perfeito. salvo algumas leves modificações. A religião de Brahma coloca a casta sacerdotal acima da sociedade: só ela é que tem conhecimento das coisas santas. realizado. outros para mulheres. e esta: as práticas das antigas religiões foram copiadas pela cristã.

nunca mais fui enviado a fazer missões. no que se refere ao sacerdócio cristão: tudo estava já em prática nos povos mais antigos. . a esse tempo. antecipando-se ao cristianismo. Os magos persas deviam ser puros e abster-se de todo o trabalho manual. medindo com o corpo o espaço que o separa. algum poder oculto sobre a Natureza. porém.Na religião dos persas aparece a divisão hierárquica do clero em várias ordens e a ele pertence a décima parte das rendas dos cidadãos. a quem arrendavam as terras dos templos. e possuíam certas plantas e licores. um penitente faz em dez anos a peregrinação de Benares. revelara ao budismo essa ordem de coisas divinamente constituída. à abstinência de carnes e a muitas práticas austeras. a ação insidiosa de Mahadeva. Uns arrastam cadeias de ferro por toda a vida. vendo o perigo que essas revelações traziam em pleno século XIX. não aceitou tal explicação. de modo que a cristã não faz mais do que copiar. mesmo pelos mais ferozes ascetas da Idade Média. de joelhos. os sacerdotes formavam a primeira casta da nação tinham o poder de eleger os reis e limitar a sua conduta. há certas épocas do ano destinadas ao jejum. No Egito.. proibiram a circulação do livro do padre Huc. A Igreja romana. mas foi debalde. Inseparáveis dos sacerdotes são as profecias. As expiações são o alimento ordinário das religiões anteriores ao cristianismo. porque a sua missão seria inútil. Pois bem: os brahmanes indianos tinham o poder de paralisar. aqueles passam a vida inteira imóveis. As mortificações dos indianos jamais foram excedidas. a que atribuíam virtudes milagrosas. entre as quais a de se transportarem aos templos. E quantos se deixam despedaçar debaixo das rodas dos carros que conduzem os deuses! No budismo. os prodígios. como diria Salomão. porque. Padre Huc. se não tivessem. debaixo do sol. só eles tinham o direito de instruir e oferecer sacrifícios. para interesse das necessidades humanas. O cardeal Antonelli e todas as autoridades da Roma papal. estes caminham sobre carvões acesos. em diversas traduções. os seus alimentos eram fornecidos pelas classes inferiores. outros trazem sobre as carnes agudos espinhos de ferro. Nada de novo. ou explicação: que Satanás. com maldições e malefícios.. os oráculos. os exorcismos. 161 não julgassem ter. os sortilégios. pois. já ele se tinha espalhado em todo o mundo.

por corrupção. por exemplo. As galhetas para as libações. Os votos são comuns a todas as religiões. vestido de branco. já vimos como eles se usavam nas religiões antigas. faziam voto de não deixar extinguir o fogo sagrado e de conservar a virgindade. Por fim. Os persas tinham a sua euca259 Pretende-se que a cristianismo acabasse com os sacrifícios sangrentos. voltava-se para os circunstantes. despedia os assistentes. e até mesmo o de animais já tinha acabado. os egípcios. purificava o templo e os fiéis com agua benta. oferecem a Deus pão e vinho. O sacerdote. que entravam aos seis anos. abençoam o povo.ite míssio est de onde veio. quando triunfou o cristianismo.E. O sacerdote. A elevação do cálice é de origem ariana. os gregos e os romanos. onde o colégio das vestais era um verdadeiro convento as jovens romanas. com o tempo. que remonta a Orfeu. . era sepultada viva e o amante condenado à morte. exceto à de Confúcio. Os budistas. erguia as mãos ao céu. tinha lugar a 162 imolação da vítima que. sobretudo. A hóstia de pão era já usada entre egípcios e romanos. em Roma. Se alguma delas violava este último compromisso. antes de fazer a libação do vinho sagrado. O uso de não imolar homens estava já há muito em prática. de onde procedem os nossos Kyrie-eleison. na Grécia. (a palavra libação provém de ser o vinho oferecido a Líber. estendia-as sobre a hóstia. foi substituída pela hóstia259. etc. Baco) lavava as mãos. Acerca dos sacrifícios. Nada menos verdadeiro. até nos mais pequenos detalhes litúrgicos. O voto de castidade. invocando-a três vezes no Sanctus e no Agnus dei. Em seguida. que representam o corpo do Agni. para lá permanecerem até aos quarenta. no Egito. antes da cerimônia. e os bonzos. A cerimônia era acompanhada de hinos ao Sol e ao Fogo. Encontra-se na Índia. oferecia pão e vinho à divindade. O Lavabo é uma oração antiga. ora ajoelhava. já existiam tal como hoje. uma para deitar a água nas mãos e outra para o vinho. O celebrante. como estes. queimava incenso. ora se levantava. A missa é completamente pagã. o ite missa est. Em Roma era com as palavras .

E na Etrúria era já costume antigo rezar com as mãos juntas. O solidéu negro. ao nascer e ao pôr do sol. eram as mais importantes orações dos persas. tal como os católicos. ou tricorne. o anel de ouro. A confissão auricular já se praticava no brahmanismo. As peregrinações eram já praticadas pelos indianos. por ocasião das calamidades. desde a maior antiguidade. Os fiéis iam para o templo de olhos baixos e ar suplicante beijavam o chão e ficavam de joelhos. Na religião de Zoroastro é prescrita a oração fervorosa. a comemoração dos defuntos e a primeira comunhão. é igual ao que usavam os sacerdotes de Júpiter. As ladainhas são antiquíssimas.de que se serviam colocando os dedos entre os grãos e escrevendo num papel o número dos recitados.ristia. Na Grécia. a tiara. pois às barbas se atribuíam certas virtudes. são cópia dos costumes sírios e babilônicos. Pelo que se refere às orações. confronta as la- . A sotaina procede dos sacerdotes de Mitra.convertida pelos cristãos no rosário . a oração fazia-se pela manhã e à noite. A confissão era também usada pelos persas. as sandálias. Os romanos tinham duas espécies de orações: as execrações que se dirigiam contra os deuses. e significava um grande sacrifício. Malvert. O pater. por exemplo. que eram pedidos de graças. 0 uso de rapar toda a barba. palavras e obras. com pureza de pensamentos. Já falamos das festas da Natividade e da Páscoa. no livro a que já nos referimos. acrescentaremos as mais importantes. o cristianismo está muito longe das religiões que lhe serviram de modelo. onde estavam representados os signos do zodíaco. acompanhada de sincero arrependimento era considerada superior a todo o existente. o credo e o confiteor. o manto branco. O barrete preto. e as súplicas. e os 163 confessores empregavam as mesmíssimas formas dos atuais sacerdotes católicos. o báculo. A oração humilde. em todos os seus detalhes. em Roma. Os budistas tinham já a sua coroa . todas elas anteriores ao Cristianismo. como são. bem como a estola. era próprio dos sacerdotes. Os hábitos ou vestimentas sacerdotais são tirados das antigas religiões.

164 Os cânticos e a música eram também já usados nas cerimônias religiosas dos gregos e romanos. As preces públicas eram em Roma a Ambarvalia. crianças vestidas de branco e sacerdotes de cabeça raspada. e vê nelas a origem das próprias palavras da ladainha da Virgem. que a precederam. uso que passou para Igreja romana. Havia também o costume de adornar as ruas quando passava a procissão. figurando nela altares. celebrava-se a festa do Sol. através dos campos. pedindo para eles a proteção divina. e caso curioso. princípio gerador do Sol e dos astros. relíquias sagradas. Tem-se dito que o cristianismo foi o primeiro e único a aboli-lo. que o cristianismo converteu na de João.dainhas da Virgem Maria com as das virgens-mães. que se acendiam para honrar a luz. sem alteração alguma. cortando-lhe os cabelos em forma de coroa para imitar o disco daquele astro. porém. O culto das imagens é antigo como o homem. Plutarco. que se convertia em seu protetor. Ovídio e Apuleyo descrevem procissões em honra de Juno e Diana. incenso. e tinham também lugar em maio. muitas vezes sucede que as imagens dos deuses antigos são objeto da devoção dos cristãos. menino que ao fim de quatro meses era oferecido ao Sol. que poderiam aplicar-se às de nossos dias. O mesmo diremos dos círios e das lâmpadas. etc. No solstício do verão. com uma simples mudança de nome. em tais termos. recorda que os tebanos não representavam Deus sob forma alguma e o próprio Numa admoestou os romanos para que não fizessem imagens materiais dos deuses. importa recordar a dos indianos. promessas. Das cerimonias que acompanham o nascimento. Mas até o cristianismo acabou por adotar o culto das imagens. que lavavam o menino em água benta. Os budistas levavam estandartes nas procissões. No budismo. dando-lhe em seguida o nome de um gênio. o mobed (sa- . As procissões remontam igualmente à mais remota antiguidade. Nas dos persas. os fieis eram chamados à igreja pelo toque de campainhas e no vestíbulo de todos os templos gregos havia água lustral.

mas isto é ainda um fato que depõe a nosso favor. pois não só prova que quem escreveu os Evangelhos se não preocupava com o culto. esta ligeira resenha das principais cerimônias do culto das religiões pré-cristãs. pois. Acerca do matrimônio. relativas a este ou àquele ato do culto são verdadeiras sandices e perdem todo o valor. Entre os indianos. do exame do culto. quando a criança chegava à idade de oito anos. É certo que nos podem observar que nos Evangelhos nada se encontra referente ao culto.cerimônias que passaram todas para o cristianismo. espremendo. das quais ela os copiou. esplêndidas e irrefutáveis provas da origem e natureza mitológica de Cristo. a criança devia. tiramos para a luz. embora parecesse. Entre os persas. começava a recitar o hino ao Sol. a religião cristã nenhuma necessidade teve de criar coisa alguma porque todos os elementos do seu culto pree165 xistiam já nas várias religiões. as contendas e lutas entre as várias seitas cristãs. porque evidentemente praticava já um. porque primeiro devia criar-se o novo Deus e a crença nele mesmo. Sob este ponto de vista. as cerimônias que a ele presidiam eram quase as mesmas. O mesmo sucedia entre os egípcios. e pouco depois. preparar-se para as cerimônias do Zuzodi ou iniciação na religião e só então era purificada e conduzida ao templo. ainda aqui. em resultado mostrar que. deu. o mito do Deus Redentor.lhe na boca. o suco da árvore chamada hom . ia à escola do Gurom ou diretor espiritual. Concluiremos. Importava à nossa argumentação demonstrar que nem para criar o culto cristão era preciso a existência e a obra do pretendido Cristo. que lhe ensinava os Vedas. mas também que o que depois foi culto de uma ou outra seita cristã não se tinha ainda adotado. Como se vê. dizendo. estranha ao nosso tema. encarnado no novo Deus. a princípio.cerdote) batizava a criatura. com caracteres distintos. aos quinze anos. Entre os indianos. . contudo. ou antes diferenciado dos precedentes. assim como na morte. com algodão. tanto mais que. a extrema unção consistia em banhar as mãos do enfermo em urinas de vaca. já que todas elas beberam da mesma fonte oriental.

o conjunto dos progressos gerais de cada um. feitos em todos os tempos. quase inesperada. a História. veio lenta. obra de um só homem nem de poucos anos. ainda que a fé ensine que a nova religião foi consequência da divindade novamente revelada. nem quebras de tradições a iniciaram. vol. Nem cataclismos.com Stefanoni. irrevogavelmente preparada. que em vários pontos da sua admirável obra estabelece com grande lógica e sólida argumentação a pergunta se Cristo realmente existiu: A nova época (a do nascimento do Cristianismo) estava. insensível. 166 . O cristianismo não foi. pois. XVI. 260 Stephanoni. cap. a erguer as inteligências a uma nova ideia. 1. por conseguinte. E. mas completou o trabalho de vários séculos. História Crítica das Superstições. Não iniciou. mas o resultado de largo trabalho de vários povos. fundamentada em documentos pode afirmar com toda a segurança que o cristianismo existia antes de Cristo260.

não bastaria ainda para explicar a razão por que vieram a fundir-se num único corpo de doutrinas e crenças. não pode dizerse. como difusa nebulosa que. está já difundido e consistente quando se dá por isso . inadvertido quando se difunde. dando origem a uma nova religião. imponderável. quase impenetrável . Quando se apresenta como um fato completo e consumado na cena da história. Esta razão deve ser procurada fora dos materiais da nova religião. pelas mesmas leis de gravidade que regem o Universo. E aqui surge de novo a observação de que hajam sido vãos todos os esforços que se têm tentado para determinar o momento preciso da origem histórica do cristianismo por parte das inteligências positivas. precisamente. porque as suas origens perdem-se na noite dos tempos. fixar a sua causalidade e determinar. podemos. mas sim o produto de um processo lento e quase imperceptível em suas fases. determinada ou determinável. indefinível e indeterminável. de um trabalho absolutamente interno. se não podemos determinar o verdadeiro momento da história em que surgiu o cristianismo. nos tempos e lugares onde o cristianismo se foi elaborando. qual seja a sua fonte. com justiça. em compensação. e especialmente. do conjunto das capacidades humanas.porque. concreta. Este meio é a psicologia que avalia os . que o precederam. Mas. não podem reconhecer o milagre. afirmando que o nascimento de uma religião não pode 167 ser uma coisa palpável.da filiação das ideias e dos sentimentos. mediante meios diretos e experimentais de observação. da qual forma a parte objetiva. esta razão não pode ser mais do que o estado subjetivo dos ânimos. que constituem a causa verdadeira da formação de uma religião nova. deu princípio a um novo núcleo de atração em torno do qual vieram gravitar as forças psíquicas da evolução humana.CAPÍTULO IV FORMAÇÃO PSICOLÓGICA DO CRISTIANISMO O haver demonstrado que todos os elementos que formaram o cristianismo já preexistiam nos vários cultos e escolas filosóficas. que com justa razão. naquele mistério. o processo da sua formação. paulatinamente.

que teve o seu apogeu na Grécia. Como diz Gaetano Negri. deste fenômeno. Diz-se. só porque é infundada. tinha também aumentado o sentimento da intolerância dos males que afligiam os homens e os povos. que foi o encontro dos hebreus e dos gregos no Egito. e que só se explica pela grande força da tradição. e é mesmo um lugar comum arraigado na persuasão de todos. não tem mais que um meio para sair de sua .ou a fortuna .absorveu de todos esses povos.fenômenos morais com o estudo das condições do meio ambiente. devida também aos homens que tiveram a desgraça . aquela dor universal das coisas. que tornava a existência inexplicável e intolerável ao mesmo tempo. uma explicação suficientemente clara.consumado organicamente em Roma . às desilusões trazidas pelas contínuas adversidades. o conjunto daquelas lágrimas das coisas de que falava então. veio quando a felicidade de viver. porque com a cultura. o poeta latino. E desde já passamos a demonstração. que o cristianismo fora um progresso moral. a felicidade e a esperança de reconquistá-las no mundo presente. até mesmo sob o ponto de vista positivo e evolucionista.de viver antes do cristianismo. O cristianismo fez a sua aparição quando hebreus. Pois bem: ainda com risco de sermos apedrejados. foi destruída pela reflexão e pela prática dolorosa da vida. devido à necessidade de pôr termo à corrupção do paganismo. crisol onde se realizou a fusão do Oriente com o Ocidente . precisamente. própria da antiguidade primitiva. como expoente comum e denominador de suas diversidades étnicas. e em nome da verdade e como homenagem à justiça. contra essa infundada crença nos revoltamos. declaramos que a causa psicológica do advento do cristianismo foi um princípio de decadência e não de progresso. daremos contudo. até de muitos positivistas. dando lugar ao tédio. deixando que falem os fatos para que. gregos e romanos tinham perdido a liberdade. 168 O cristianismo. num argumento de tanta monta não figure a retórica em linhas de combate. Sem pretendermos descrever a fundo a formação psicológica do cristianismo. incomparável filósofo e artista: E não podendo o homem renunciar à felicidade.

modelo das consolações. para a substituir. que depois de ter reduzido tantos povos à dominação de Roma. tinha preparado aquela literatura da dor. destacando-se da vida real por sua brutalidade. Esta foi. a filosofia grega chegava por um lado à Egesia. sem liberdade nem justiça. e a Humanidade. em si mesmo se concentrou. além da esperança na vida futura. do acadêmico Crantor. Foi por conseguinte. que aconselhava a morte voluntária como meio mais seguro para alcançar o repouso da alma. àquele misticismo que. com sua vista de águia penetrou até a íntima essência do cristianismo. combalida. A sorte do povo hebreu. e nada é mais caduco nem mais mortalmente perigoso que o velho Evangelho semita aplicado ainda como único código moral e social. 169 ção e difusão do que mais tarde se chamou cristianismo. As ruínas morais da pátria não fizeram senão dar maior incremento à filosofia de Platão. Este século. a de admitir a adversidade no mundo presente. uma doutrina nascida da decadência. continuamente escravizado por uma e outra dominação. justamente. O cristianismo foi pois. a religião da decadência262. O advento desta filosofia da dor. pela esperança da felicidade no mundo futuro. a doutrina do cristianismo261. ao escrever: É do negro pessimismo da Bíblia que é preciso libertar o mundo. vivendo apenas para a morte. . da resignação e do desprezo da vida presente precedeu igualmente as mais graves calamidades públicas na Grécia e em Roma. Platão . que deveria consolar os humildes e os aflitos e ser um poderoso elemento para a forma261 262 Gaetano Negri. Crise Religiosa. espantado e esmagado há dois mil anos. A ciência experimental não tinha ainda nascido.o primeiro padre précristão da Igreja . se assim pode dizerse.miserável condição o de transportar esta sua felicidade da vida terrena para a vida transcendental. Emíle Zola. não tinha então outro remédio contra os males desta vida.escrevia precisamente quando os destinos de Atenas decaíam a olhos vistos. no século anterior ao advento do cristianismo. como em último refúgio. Encaminhada assim. Não andavam melhor as coisas de Roma. e por outro lado. submete a mesma Roma ao domínio de um só. desiludido nas suas esperanças de voltar aos tempos felizes e à glória. ao Livro do Luto. a paz sem inquietações.

O Problema do Cristianismo. desgraçadamente. o suicídio converte-se numa salvação. nós vamos encontrá-la em Horácio. assiste às guerras de Mitrídates e dos partos no Oriente. que inspira a Tusculane de Cícero. anunciando o fim próximo do mundo. . assiste às guerras entre Mário e Sylla. as esperanças messiânicas dos hebreus. E como a arte é o termômetro moral do tempo. não era necessário o ultramoralismo oriental. E eis porque. naquela época. segundo a feliz antítese de Renouvier264. É então que desabrocha um grande mal estar para a vida. para que. às fações de Pompeu. de Bruto. 170 Citado por Benoit Malon no livro Questões Ardentes. e esta na religião do sofrimento e da morte nesta vida. sem que tenham conseguido ainda expulsá-lo as repetidas renascenças do naturalismo filosófico e do experimentalismo científico.um outro mal que. para gozar na outra o paraíso. e a morte é considerada. A filosofia converte-se em religião. ao antimoralismo daquele tempo. E esta era a disposição dos espíritos. enquanto a moral degenerava. Por outro lado. horroriza-se com a organização geral e terrível dos piratas. que dividiram e ergueram em armas o mundo que Roma dominava. de Antônio e de Augusto. as crenças na antiga divindade esfumavam-se 264 Paulo Orano. a ressurreição e a palingenésia universal! Vejam se.inaugura-se sob os auspícios de uma interminável guerra entre cimbros e tentões. e a fim de curar um mal viesse outro mal . na Bretanha. na Espanha. como Sêneca. vê cenas de ferocidade e de luta. não como o termo. que à frente dos escravos fez tremer os senhores. vê levantarem-se todos os povos da Itália contra Roma. sob Tibério e Nero? 263 Daquele ambiente não podiam sair senão almas cristãs. admira Espártaco. O que não seria depois. nos sucessores. de César. mas como o objetivo da vida é a filosofia da desolação. começa a fazer à sua aparição misteriosa o nome cristão e com ele o objeto. pessimista até ao ascetismo263. a fim de curar um excesso. nada se esperando já da liberdade nem da lei. permaneceu no corpo social enfermo e debilitado. viesse um excesso contrário. antes de Augusto. Vejam se naquele ambiente não deviam surgir e tomar forma concreta. na África.

e que ainda hoje é verdadeira para certas tradições 171 secundárias. Isto não quer dizer que à antiguidade clássica faltassem espíritos liberais e críticos racionalistas: Anaxágoras. . Protágoras. A incredulidade entra nas consciências de tal modo. que até Virgílio admirava Lucrécio nos famosos versos: Foelix qui potuit rerum cognoscere causas. apesar das precauções que toma ao apresentar a ideia. Já Evemero de Messina estabelecia a teoria de que os deuses não eram mais que grandes homens ou reis divinizados. além disso. Já. o estoicismo encontrara a verdadeira explicação da origem das religiões nos mitos. animando o seu culto apenas o elemento puramente espiritual. nem pouco nem muito. Se a fé diminuía. com Cicero. e a idolatria. Lucrécio. etc. e que no seu tempo. intentara explicar os fenômenos naturais. Na sociedade culta era moda ser incrédulo. (Feliz. numa época em que faltavam a liberdade e a ciência experimental. mas do encontro entre os vários cultos e a crítica recíproca. essa era só para o vulgo. não podia conduzir à negação absoluta. Estava portanto batido o politeísmo. embora fosse excessivamente atrevida e adiantada para o maior numero dos homens daquele tempo. o cristão Séneca. Sobretudo.até desaparecer de todo. não era tanto obra do livre exame. até á negação absoluta da divindade. nos quais a imaginação dos antigos. teoria que esteve muito em voga até os nossos dias. são nomes que o moderno livre pensamento pode colocar entre os seus membros honorários. Epicuro. devia ter sido de uma grande influência e contato com os persas. Mas esta crítica. A crítica religiosa tinha chegado.. Demócrito. nos seus diálogos sobre Deus e sobre a adivinhação. Não se cria em milagres. desconhecedora das leis da Natureza. pois não tendo os seus deuses estátuas nem altares. aquele que foi capaz de aprender as causas das coisas ) E o próprio Séneca. os gregos seriam levados a meditar sobre o grosseiro antropomorfismo dos seus deuses. escrevia o não menos famoso verso em que faz acabar tudo com a morte. Diágoras de Melos. devia ter exercido uma influência demolidora sobre as religiões constituídas.

fazem-se eco da devoção dominante nos espíritos do tempo. mais tarde. nem costumes basta172 vam a reforçar a fé debilitada. o neoplatonismo. por uma intensa febre de crer. Sêneca mostra acreditar na astrologia. em busca de uma nova fé. como na ordem temporal. Na desagregação política e na desconsolação pela liberdade perdida. em alguma coisa que adormecesse a inteligência amodorrasse os sentidos. caminhava. onde se senta entre as almas santas. A superstição recrudescia. em certas ocasiões. como para se agrupar em torno da última âncora de salvação. O grande número de dogmas e religiões concentrados em Roma favorecia. Lucano mostra-nos a alma de Pompeu subindo ao céu. no místico. contemplando de lá o nosso mundo miserável e o despojo mortal que nele deixou. no fim do mundo e numa nova palingenésia. estava agitado. predispondo-os para aceitar a doutrina religiosa que mais autoridade mostrasse pela necessidade universal . embora houvesse perdido toda a fé nas desacreditadas divindades ocidentais. se bem que para a concentrar no Deus ignoto de Sócrates. sonhando. A impotência geral sentia a necessidade de um jugo.Ainda assim. na fé do apocalipse sibilino. especialmente no maravilhoso. um leito onde repousar. E não conhecendo ainda a ciência experimental. O espírito febrilmente agitado procurava um ponto. na ordem espiritual. O neopitagorismo e. Também em Virgílio se revela a crença na palingenésia universal. o nascimento de um menino sugere-lhe o cumaeum carmen. imóveis e livres da crítica. destruir a fé nos vários Deuses. conseguiu. Por fim. Ovídio e Tíbulo sobre todos. Os próprios poetas eróticos. a Humanidade entregava-se de corpo e alma aos sonhos do sobrenatural. Diodoro tinha já invejado a tranquilidade que os caldeus desfrutavam em suas crenças religiosas. de olhos abertos. não foram mais que esboços de tais tentativas. mais que nunca. Dominava o ceticismo filosófico. delirando. esta altitude dos espíritos. quando nem leis nem poderes. de Eurípedes e do douto e grave Varrão. mais que tudo. 0 povo greco-romano não se julgava incrédulo. na novidade. Chega a falar no reconhecimento que se deve ao Sol e à Lua.

Os espíritos estavam fatigados. durante dois séculos. hebraica. sobre as dos terapeutas por outro. preparada por Alexandre e consumada em Roma. mas acabaram por se confundir com os dos hebreus.da unidade religiosa e de submissão a uma crença. introduziram-se em Roma os mistérios de Mitra. na universal escravidão. às mil maravilhas. as que mais se disputavam o domínio dos espíritos eram a persa e a hebraica. de Alexandria. No tempo de Adriano. a que Porfí- . da confusão e do caos. como a multidão das religiões (gaulesa. teve em Roma. provavelmente por estes se terem impregnado daqueles. que já era adorado na Pérsia. onde se realizava a paz universal. Mitra. o sonho do Messias. e sim homem humano. estabelecer-se em Roma. Que religião seria essa? O único obstáculo estava na seleção. de Jerusalém ou de Roma.) conduz os espíritos a buscar a sua fusão e confusão numa crença única. helenizada especialmente por Fílon. segundo a justa expressão de Strauss. na Armênia e na Capadócia. convertida em veículo e em ponto de contato moral das mais diversas nações. antes da época assinalada ao nascimento de Cristo. alcançando um êxito prodigioso e conseguindo milhares de adeptos. persa. etc. que vieram. cansados de pensar. compôs um tratado especial. que depois viria realizar. com quem podia confundir-se. e ansiavam o repouso. a preferência dos devotos. que um escritor grego. e a universalidade da língua grega. A unidade do mundo. conduziram todas as inteligências à concepção do homem universal. Pelo ano 68. sobretudo. caldaica. tinham igualmente conquistado grande influência. cujo centro seja o Deus supremo e único e a periferia toda a Humanidade. como Roma viera a ser o centro e ponto de contato material dos diversos povos. que não fosse apenas um cidadão de Atenas. o seu culto era tão popular. egípcia. com todas as outras. Acusava-se o público do ultramoralismo das religiões orien173 tais. que acalmasse os espasmos da incerteza. com o Deus Redentor Serápis e sua Virgem Mãe Ísis. E destas. tirando deles o mito do Deus Redentor. Os mistérios egípcios. conseguiu por muitos anos conquistar a supremacia. Mitra. Paládia. sobre as doutrinas de Platão por um lado.

Vir- . baixo-relevos e inscrições em sua honra. Os hebreus tinham começado a exercer determinada influência sobre os ocidentais. começaram a ser conhecidas as suas crenças. era geral naquela época. que então chegava ao cúmulo. ali se foi estabelecer Onia. já eles exerciam em Roma uma influência considerável. reinando Tibério. porém. depois 174 das guerras de Pompeu. A vitória definitiva. descobertos e recolhidos no nosso tempo. a crença no fim do mundo. dos humildes e dos doentes e também a exaltação do misticismo religioso. A crença no fim próximo do mundo e numa regeneração da vida. sobretudo quando Alexandre leva 40 mil deles para Alexandria e quando. O seu culto torna-se quase geral nos últimos séculos do paganismo. seguida da ressurreição ou palingenésia universal. Ovídio. rebaixando as gregas. levavam a Roma aquilo de que Roma. 150 anos antes da nossa era. Foi principalmente em Alexandria que. Antes disto. especialmente nas horas de sofrimento e prostração. e no Ocidente. já no tempo de Cícero. a ponto de. fundando um templo ao Deus israelita. (Breve se verá porque falamos de hebreus e não ainda de cristãos). porém. essa devia caber aos hebreus. Lucrécio. Plutarco. Passaram logo a Roma. estabeleceram numerosas colônias. por suas contínuas emigrações. esta irrita-se. Assim. feitas em grego. segundo atestam os escritores hebreus Josefo e Fílon. tanto na vida dos povos como na dos indivíduos. alexandrinas e egípcias. segundo diz Plutarco. trazida da Pérsia para o mundo latino. provocando a criação de muitos monumentos. que conduziu consigo alguns milhares de prisioneiros. mais que nenhuma outra religião. tinha necessidade. especialmente no Egito. terem no Senado alguns amigos. desde a Índia a todo o Mediterrâneo. a exaltação da pobreza. que segundo Tácito. pois. onde. e com ela todo o mundo. isto é. porque sendo uma enfermidade. teve lugar um Senatus-consultus contra os hebreus e os egípcios.rio faz referências. formavam em Roma uma única superstição. os hebreus. onde a sua iniciação misteriosa feria as imaginações. por meio das traduções dos seus livros sagrados. em Roma. Já no ano 22.

os oprimidos e os deserdados se convertessem em massa à nova fé. em que o sentimento da revolta contra a miséria e a opressão se tinha generalizado e selecionado pela força das coisas e das doutrinas filosóficas. O que mais devia contribuir para o culto do cristianismo. com a religião cristã. em lugar de uma redenção. A religião judaico-cristã vinha aqui dar um destino a esta crença. 175 Com a diferença de que. que também era o mais bem disposto para que esta se pudesse arraigar nele e estenderse rapidamente. devia ser a predileta naquele ambiente exaltado. mais profundamente sentidas naquela época. porque prometia a felicidade só com a esperança. só se tornaram populares. Sob este ponto. discordante em quase tudo. só se generalizaram por intermédio da nova religião. como sendo de direito divino e como meio meritório. explica como e porque essa mesma moral e essa mesma doutrina. Os livros do Novo Testamento. pregando nesta vida a resignação e a miséria.era a tendência eminentemente popular do judaísmo. as armas da vitória. e por conseguinte. As aspirações morais. foi uma decadência que retardou a reivindicação que prometia. andavam de harmonia neste ponto sobre que gravitava a crença na próxima vinda do Messias. na vida futura. Estas eram.gílio. era extremamente sugestiva e de molde a que os humildes. o in hoc signo vinces daquela época. como uma mancha de azeite sobre uma superfície plana. Este elemento. separada de toda a ação e iniciativa. tornando-se dignos do reino dos céus. aquela filosofia. tendência que. a uns para exercer a caridade. há tanto professada de maneira sublime. foi uma ilusão pior que o mal. a outros para dar motivos a que os primeiros a exercessem. passado do judaísmo ao cristianismo. realmente. que para tal fim convergiam. foi moroso o triunfo do cristianismo. tanto na literatura como nas figuras ideais dos seus personagens. adotado por eles no Egi- . que nesse tempo era provavelmente Serápis. fonte única de todo o verdadeiro progresso moral e material. Lucano e Sêneca tinham se tornado seus intérpretes. colocando-a mais longe. juntavam os hebreus o culto a um Deus Redentor. assim como a filosofia greco-romana.

Deus que era preciso fabricar na expectativa messiânica dos hebreus. Assim. amante e depois esposa de Nero. inverossímil e absurdo que os Evangelhos as igualam aos hebreus: o papel de deicidas. que acompanha sempre a exalta176 ção mística das crises religiosas. Pomponia Graecina comparecia no ano 57 perante um tribunal. achando nas mulheres um dos meios de propagação mais eficazes. na instituição dos ágapes. filha da exaltação erótica. possa ter sido inventada pelos hebreus. mas dos romanos. chegou ao extremo de se beijarem na boca e dormirem no mesmo leito.to. já conhecidos e adorados por todos os povos. só porque se negou a acreditar na mentira da vinda do Messias. Não: essa calúnia só pode ter sido elaborada pelo cristianismo romano. protegia os hebreus nos momentos difíceis. em cujo auxílio acudia um novo Deus para melhor consolidar o seu poder. Ajuntemos a isto o atrativo da comunhão dos sexos nesta religião. embora isso seja indiferente à psicologia. mas pelo papel odioso. Recordaremos. Agora pergunta-se: em que época começaria Cristo a ser humanizado? Não é fácil determiná-lo com precisão. que corresponde à logica dos fatos. abusos cuja autenticidade está fora de toda a dúvida. encarnando-o num deus feito homem. e a famosa Popea. Repugna à inteligência e ao coração supor que uma calúnia tão atroz. e que viera substanciar e materializar o Verbo de Fílon. que por tantos séculos devia pesar sobre um povo. de Horus. de novo. como se vê pela história. como veremos. comunhão que. no entanto. e em geral. acusada de judaísmo. ao formar-se o catolicismo czarista e teocrático. um Deus Redentor que tinha os mesmos atributos de Mitra. não já pela parte favorável atribuída a Pilatos. sobretudo depois da destruição de Jerusalém e dis- . por pretendido espírito de mortificação. de Apolo. inovadores e expatriados. dos Deuses Redentores. de que se serviram. na propaganda. tanto fanatismo como o mesmo público. que a invenção de Jesus não pode ser obra dos hebreus. Os propagandistas mostravam. segundo afirma Horácio e a história confirma. contra a lógica das ideias. e que tornaram necessária a imposição de limites a tão misteriosa intimidade.

deixemos isso. que poderiam desmenti-lo. que afinal. O momento histórico aproximado. Mas. pouco tem com o nosso assunto. em que foi inventada a fabula de Cristo. 177 .persão dos hebreus. constitui uma questão por completo supérflua para o nosso objetivo. doutrinas. de que surge o cristianismo. foi isso um efeito do meio ambiente e do estado relativo dos ânimos. em que começavam a passar as gerações e os testemunhos. religiões e aspirações cosmopolitas. Nessa fusão histórica e psicológica de raças. já suficiente e exuberantemente demonstrado.

não fica. a casta sacerdotal ou o cristi178 anismo? Foi o cristianismo que gerou o clero cristão. de todo explicado o grande fenômeno de unificação que gerou o cristianismo. porém. ou veio primeiro a missa. e quando fala em levar a própria cruz. do estado de ânimo geral que deveriam operar a transformação da civilização greco-romana. que não obedece à Igreja. ou este que gerou o cristianismo? Veio primeiro o sacerdote. tais como as palavras de Cristo. como publicano e fariseu. como diria Guerrazzi? Desgraçadamente .causas que explicam a preparação subconsciente e evolutiva do fenômeno. e contra a vontade deste. Naquelas condições criadoras do meio e por sua vez. contra este. como a História de Eusébio. e finalmente. conscientes.em relação do efeito produzido com seu involuntário concurso . mas nunca a sua determinação definitiva. o que não poderia nunca ter dito antes que a pretendida paixão de Cristo se tivesse difundido e fosse acolhi- . determinadas e determinantes foram a Igreja e o Estado. só vemos agir causas mecânicas e inconscientes . que neste capítulo indicaremos rapidamente. Primeiro.temos de nos resignara confessar a ignorância da história sobre este ponto. onde e como se formou o primeiro núcleo. são documentos interessantes. depois com este e por meio deste. aquela só. tanto mais que os únicos documentos que sobre tal assunto existem. Estas forças ativas. O que. está evidentemente provado é existir já a Igreja antes da redação dos Evangelhos. porém. Quando. quando diz que se deve considerar o herege. que também é a primeira e só data do ano 313. a primeira organização da Igreja cristã? O que existiu primeiro: o clero.CAPÍTULO V COMO ACONTECEU O TRIUNFO DO CRISTIANISMO Exposto o meio ambiente em que se produzira o cristianismo. coordenadoras. Isso foi obra de causas conscientes e de vontades ativas. em sentido metafórico. e os próprios Evangelhos nos dão provas disso.e dizemos desgraçadamente porque a história verdadeira da Igreja seria também a da origem precisa do cristianismo .

etc. caráteres que terminaram ambos por fazer parte da doutrina da Bíblia. porque ao ideal. assistimos desde o principio do cristianismo a este duplo caráter da sua política ser a um tempo rebelde à autoridade constituída. ainda que aquela fosse de gravidade. que à primeira vista parecem inconciliáveis. Dada assim a existência da Igreja. E como a Igreja era anterior aos Evangelhos. que se não encontra apenas nos doutores jesu- . bispo. não o são. tanto como na vida da Igreja. com que ela fabricou o novo Deus Redentor. concilia-as admiravelmente. diocese. E também é certo que. Pela presença. como tantas outras que formam grande parte do trama da vida dos povos. desde o princípio da nova seita. estímulo e aguilhão especialíssimos para a ação. duma nova casta sacerdotal. presbítero. própria para fazer duvidar da boa fé do clero cristão e até mesmo da origem da nova seita. só diremos que pode muito bem existir. na qual. em seu interesse. Estas duas doutrinas. que parecem formar o substractum da psicologia dos povos. então passa a outra doutrina. certamente. estão em desacordo. de cujos nomes principais se apropriou (clero. e que provavelmente estão determinadas pelo trama dos mais diversos e vários interesses das diferentes classes sociais. é outra daquelas contradições lógicas. se encontra a Igreja hierarquicamente organizada sobre a imagem da teocracia hebraica e conforme a associação grega e o colégio romano. O que a Igreja quer é a sujeição do povo ao poder civil. conciliando-se com a moral evangélica. armando a mão dos Ravailac e dos Clement inspirando a justificação do regicídio.da com aquele caráter de autoridade que pressupõe uma organização.). como já vimos. é lícito deduzir que a casta sacerdotal presidira desde o princípio à formação e difusão da nova religião. já temos uma das causas mais poderosas e eficazes da difusão do cristianismo. Quando a Igreja quer. quando este trata dos interesses dela mas quando se ocupa dos interesses próprios. 179 E a constituição do cristianismo em teocracia. o clero juntou o próprio interesse. Acerca da contradição entre a organização de uma nova Igreja e a pregação do próximo fim do mundo. e instrumento de submissão à mesma.

encurtando as disputas internas da Igreja cristã. ele próprio o confessa na carta em que. este aproveitou-se habilmente da doutrina da resignação e da submissão aos princípios .de proteção contra o medo do governo romano. A restauração foi religiosa e política ao mesmo tempo. apegando-se a uma religião que tinha o poder de lavar toda a culpa. falando da disputa com Arrio. admirável. para quem a religião era questão de Estado e pedra de escândalo. l50. restabelecendo a or265 dem. muito mais que a de apagar os remorsos de sua consciência de assassino. LXIV. E quando chegou o tempo de Constantino. neste ponto. porque a nova era também uma sanção para o Estado e um instrumento de servidão. foi o que produziu. que a filosofia helênica e romana há muito defendia e fomentava. muito mais que o elemento revolucionário popular. (Eusébio. de povos reduzidos à escravidão e escravos ansiosos pela emancipação. 180 Que a conversão de Constantino fora uma hábil manobra de oportunismo político. conforme lhe lançavam em rosto os pagãos267. livr. cap. Este segundo elemento da doutrina cristã. para exploração do fenômeno religioso. em princípios do reinado de Constantino. Este desprendimento dos ânimos. restabelecia a religião. restaurada por Augusto. em mãos de uma nova teocracia lançou-os depois nos braços do despotismo político.se bem que nem sempre . inútil. Constantino.instrumentos do direito divino . etc. apelida de mesquinha. que os fez abdicar da própria independência. O seu livro Deus e o Estado é. o triunfo do cristianismo265. A primeira destas doutrinas serviu à Igreja cristã para fazer prosélitos nos pontos da terra. indigna de discussão e de resposta.) 267 Zósimo. Esta e só esta pode ter sido a razão da pretendida conversão de Constantino266. A segunda doutrina serviu-lhe . vã. II. Augusto.íticos.ensinada pela Igreja cristã. povoados de nações vencidas. . Thomaz de Aquino. o hipócrita. que tinham marcado o largo período da lenta formação durante o qual esta vinha elaborando e aperfeiçoando os seus dogmas mediante a discussão das várias 266 Ninguém como Bakounine viu a reciprocidade das relações entre o Estado e a Igreja. para colocar simplesmente esta nova religião no lugar da antiga religião romana. mas também nos diplomáticos como S.

de onde data a consolidação do cristianismo. O cristianismo conquistou o mundo com a violência. E Por violência. deixando a Igreja em pé. Esta falsificação foi demonstrada inequivocamente por Lorenzo Valla. e só com a violência pôde tê-lo sujeito por tantos séculos. é provável que este não chegasse nunca a triunfar. que provou também a falsidade da Carta de Cristo a Abgaro . a moral da opinião e. o desterro. pôde o cristianismo triunfar e estabelecer a tirania das consciências ao lado da tirania temporal dos princípios. Loyola escreveu a constituição jesuíta que deu origem a uma organização rigidamente disciplinada. as guerras de extermínio dos heterodoxos. 268 A Doação de Constantino é apócrifa e não foi redigida antes da metade do século sexto. a confiscação. sobre as suas ruínas. a tortura. à espera do tempo em que pudesse empunhar as duas espadas. não entendemos só a da força bruta. Só por meio da força. a legal. dos cismáticos e dos hebreus. os tribunais de exceção e capitis diminutio dos hereges. não já pela sua pretendida268 doação. mas também. (NE). o que permitiu à Roma dos Césares converter-se na Roma dos Papas e a invasão dos bárbaros. 181 que desorganizou o império. que fez pesar sobre a pobre humanidade até a esmagar e horrorizar com a fogueira.seitas cristãs. no ano 325. a censura. auxiliado pelos embustes do clero e outras circunstancias fortuitas como a mudança da capital do império de Roma para Bizâncio. mas pelo rico dote Que de ti arrancou o primeiro Papa mas porque facilitou ao cristianismo a maneira de impôr-se com violência. que arrancava ao poeta gibelino de Florença a famosa invectiva: Ai! Constantino de quanto mal foste a causa! Não tanto pela tua conversão. dizemos iniciou o famoso Concílio de Niceia. tal como fez o próprio cardeal Nicolan de Cusa com as Decretaes de Isidoro e com os escritos atribuídos a Dionísio. que foi a mais poderosa arma da Igreja católica. sobretudo. a inquisição. e que chegou à sua perfeição doutrinal na fórmula jesuítica perinde ac cadaver. os índex. Constantino. Sem a conversão de Constantino ao cristianismo. . o cárcere.269 Mas isto não basta para che269 Disciplinado como um cadáver. as duas tiranias. entre si e em luta com o paganismo. a patológica da servidão intelectual. enfatizando a absoluta auto-abnegação e a obediência ao Papa e superiores hierárquicos. o Areopagita.

a persuasão de empregarem a violência contra o paganismo: ora transformando em 182 demônios os deuses pagãos e em práticas de magia os ritos dos seus sacrifícios. sem a supremacia do Estado. mais do que sancionar leis severas contra a magia. que a liberdade dirigida por livres pensadores tenda sobretudo a emancipar com a mais intensa propaganda intelectual. Por este processo. com leis repressivas e perseguições de todo o gênero. É mister a separação. feriam de morte o paganismo. na realidade. os bispos obtiveram o duplo efeito de induzir os imperadores a exterminarem o paganismo. a perseguição deixou cair a máscara que a cobria.gar à liberdade. Constante. é necessário enfim. no sentido cavouriano da Igreja livre no Estado livre. Os primeiros decretos de Constantino não fizeram. desta maneira. mas. Por dois modos a Igreja insinuou aos imperadores a ela convertidos. psicológica e sociológica aqueles a quem a crença católica faz escravos da superstição. A mais perigosa das teocracias é aquela que o padre exerce sobre as consciências. sem dar a conhecer que se inaugurava uma nova perseguição. que só logrou aniquilar passada uma larga série de anos. a fórmula da liberdade de consciência das constituições modernas. bastava respeitar os decretos anteriores contra a magia: assim se alcançava o fim desejado. de se esconderem por detrás do braço secular. Basta examinar as leis . lançando sobre este toda a responsabilidade e odioso da perseguição. em aparência. inabilitando-os para desfrutar a liberdade de pensamento. Alfieri e Filippe De Boni que a liberdade é incompatível com o catolicismo e onde este impera não pode nascer nem conservar-se pura a liberdade. Constâncio. a declará-los culpados de delitos de lesa-majestade. Com muitíssima razão disseram V. dirigindo-se diretamente contra o paganismo. ora fazendo-lhes crer que as cerimônias dos pagãos eram uma permanente conspiração contra a vida do soberano e obrigando-os. o cristianismo preparou-se para a grande luta contra o paganismo. Para fazer passar por magia os ritos do paganismo. Com aquisição do favor imperial. a ferro e fogo. Com os imperadores. Valério e Teodósio. e ao mesmo tempo.

XXI. Não se permite ter nem usar outro nome que o dos cristãos católicos. as prisões regurgitam de 270 gente. O culto dos deuses. . Queremos que todos se abstenham de fazer sacrifício. para cujo cativeiro não é salvaguarda a honra de muitos méritos. João e Valentiniano I imitam o rigor de Constâncio.contidas no Códice Theodosiano. Teodósio arremete contra ele até no ultimo refúgio. apenas voltava a tranquilidade. Se alguém fizer semelhante coisa. proscrito da cidade. não já o direito de 183 Amiano Marcelino. o terror operava simuladas conversões mas. ordenando a confiscação do campo onde se consumasse um sacrifício. a maioria dos convertidos abraçava a antiga crença. e declarando infames os apóstatas do cristianismo. sacrificiis et templis para compreender todo o alcance e gravidade daquela odiosa perseguição destinada a exterminar o paganismo. e só o veneno os pode libertar de pior suplício. na Tebaida. será morto com a espada vingadora. Teodósio decretou uma lei. Guiado pelo clero. XI. que despojou do direito de testar aos pagãos que voltassem ao seu culto. Em 353. Dez anos depois. Deste modo. Para impedir isso. Um decreto imperial começou por proibir os sacrifícios pagãos. a mesma lei era renovada. Constantino manda matar. escrevia Zózimo. Libânio e Jamblico foram acusados como tais. Outra lei proíbe toda a espécie de sacrifícios pagãos. todos os sequazes do antigo culto270. lib. Constâncio e Constante promulgam este decreto: Decretamos que. reina o pranto e o desespero. Decretamos que os bens do executado vão para o fisco e queremos que sejam castigados os governadores das províncias que se mostrarem negligentes na repressão dos delitos. o próprio nome de filósofo era um titulo de proscrição. Por toda a parte. cap. adorar outros Deuses). Sob o império de Valério. com o titulo de paganis. em todo o lugar e em toda a cidade sejam fechados os templos (refere-se aos pagãos) que ninguém possa entrar neles e que aos ímpios se negue o direito de delinquir (isto é. proibido em absoluto aos apóstatas. refugiara-se nos campos. concedia que se ultrajasse a sua memória e se rasgassem os seus testamentos.

aproveitando-se arteiramente daquela época de terror para se dedicar à obra fraudulenta de falsificação e destruição dos livros que poderiam revelar as mentiras e farsas demasiadamente visíveis da nova religião. A Igreja é que tinha a seu cuidado atear o fogo nos seus concílios. privações de todo o direito civil para os não católicos.violação das sepulturas dos pagãos e roubos dos seus bens . as vítimas da perseguição. confiscação dos bens. autorizada e permitida a delação. O clero cristão consegue toda a sorte de privilégios e imunidades. secundava os imperadores na obra de destruição por ela sugerida. além do fisco. desterro e excomunhão contra quem ouse discutir as afirmações da Igreja e dos sacerdotes. as prescrições dos imperadores cristãos. pena de fogo contra quem abraçar religião contrária. ordem para derrubar todos os templos pagãos. . para quem continue ainda realizando sacrifícios pagãos. Mal os irmãos tinham qualquer possibilidade de se assenhorearem de um campo. expulsão dos soldados de todas as legiões. excitava as turbas cristãs a cometerem excessos contra os 184 pagãos . impondo silencio a toda a heresia. pedindo que contra ele se mandasse a soldadesca. Tais são. que até os mesmos imperadores. pena de morte. proibição aos hereges de receberem bens.testar. que contradiga o Concilio de Niceia. Uma só fé para todos: a de Niceia. O clero tinha. pena de morte contra o possuidor de qualquer livro. acusavam o seu proprietário de ter sacrificado aos deuses. momentaneamente. se vêm obrigados a proteger. Para melhor armar o braço secular. os bispos dão a entender aos imperadores que as calamidades públicas são devidas à impiedade dos que se não convertem ao cristianismo. que se encontrem em igual caso. com a respetiva confiscação de bens. destituição de todos os cargos públicos para aqueles que se não conformarem. desterro. mas até o de vender.excessos tais. além doutras. e que de algum modo poderiam 271 Libânio. falando-lhes de assuntos respeitantes ao sacrilégio e tratando de delatar contravenções à lei da fé271. Oração em favor dos templos. entre eles Valentiniano. combinados para exterminarem o paganismo e consolidarem o cristianismo. o direito de se apossar dos bens dos perseguidos.

Hilário e S. traduzindo Orígenes. que lhe assegurou o triunfo. começara com o mesmo cristianismo e se praticara em grande escala por todas as seitas. obra de falsificação que. contanto que fosse devota. Porfírio. porque a Igreja tem sempre caluniado todos os que não vão com ela. recorreu a um último expediente. Crisóstomo. etc. chegando em contraposição. não teve em conta senão o que lhe pareceu útil. se lhe não deu o aplauso do povo. como Atanásio. apesar desse regime de terror e dessa inquisição. Orígenes. Macróbio foi falsificado para justificar o martírio dos inocentes. distinguindo as feitas com bom fim. ao bisavô de Noé e de Enoc. Mas. foram inventados esses números escritos. É nossa opinião que toda a história do cristianismo. S. e apesar de tantas proscrições e perseguições. escusandose com a desculpa que o mesmo fizeram S. pelo menos . Foi assim que desapareceram muitas obras importantes de Cícero. Fílon. Orígenes chegou até a inventar uma teoria para justificar essas falsificações. (De Loicis Ebr. que haviam concorrido para formar a nova religião. Clemente. O pior de tudo porém foi a destruição das obras que poderiam ter esclarecido as suas imposturas. Foram falsificados Josefo e esses outros autores que já vimos. Então. Eusébio. Confessou isso no prefácio que fez ao livro de Eusébio. a colocar sobre os altares a última canalha. a Igreja não conseguiu conquistar o politeísmo para a nova fé. etc. foram gravíssimas as falsificações realizadas pelos apologistas e historiadores 185 do cristianismo primitivo. eliminando tudo o que julgou nocivo. O próprio S. sobretudo. Foram até inventados documentos atribuídos ao pai de Matusalém. deve ser quase por completo reescrita com critério naturalista. até a Reforma. em verdade. Proclo. Jerônimo confessa que. Eusébio. que a própria Igreja viria depois declarar apócrifos. Contudo.esclarecer suas origens. das feitas com má intenção. Basílio.) Celso acusava os cristãos de terem falsificado os oráculos sibilinos e a ciência justificou a acusação de Celso. Eunômio. e que. Celso.

O politeísmo não conseguira destruir o fetichismo. Dionísio e S. Festejavam Baco com a festa de Dionysios. com os de S. o cristianismo converte-se. Sotero e S. com os nomes de S. A festa de Ceres. fundindo-as e amalgamando-as. a moral e a doutrina das religiões precedentes. nas mesmas datas. Agora assistimos ao processo de integração deste culto. estas festas foram mantidas com os nomes de S. As Saturnais converteram-se em S. processo mediante o qual assimila as práticas e a própria divindade do paganismo romano. Demétrio. pouco devia custar-lhe já o triunfo. herdando delas. Já vimos que o culto cristão não é mais que uma amálgama de cerimônias tiradas dos cultos precedentes. As divindades do paganismo. na dita constelação. Foi assim que. a loira (Flávia) é a de Santa Flávia. no calendário cristão. Pois também o catolicismo não destrói o politeísmo. pois os dois nomes encontram-se na mesma data. Baco era adorado sob o nome de Soter (Salvador) e Apolo com o de Efoibios. Os gregos celebravam festas em honra de Hermes (Mercúrio) e de Nícan (o Sol). aproveitando assim. em idólatra e fetichista. arrancando um novo farrapo àquela doutrina que queria adorar Deus em espírito e em verdade. Efebo ou Efésio. a do Palladium de Minerva veio a ser a festa de Santa Paládia. converteu-se na Assunção da Vir- . Nicanor. Deste modo.foram convertidas em santos cristãos. a festa da pudica Diana converteu-se em Santa Prudência. como é costume em todas 186 as religiões . já em uso entre os pagãos.tornou tributárias à sua dominação as práticas religiosas. o dia do signo da Virgem (15 de agosto). por sua vez. transformando-o e corrompendo-o. em seu favor. em que Astrêa aparece no céu. a grande força do costume que adotou as formas exteriores do culto. Ermeto e S.que convertem em demônios os deuses das religiões contrárias . que não foram declaradas infernais. a que se seguia outra em louvor de Demetrius. a festa de Afrodisia (Venus) corresponde a S. Afrodísio e Santa Afrodísia. Saturnino. estas festas passaram ao calendário católico. limitando-se apenas a sobrepujá-lo. antes o subordina aos seus interesses.

importa observar quão frequente é o nome de S. inventaram-se santos novos. não que tenham sido numerosos os Dionísios santos. se celebrava em dezembro com o nome de Dionísia. Vito. que. Apolinario comemora-se alguns dias depois daquele em que se celebravam os jogos Apolinares em honra de Apolo. A fórmula da saudação. (Festum Dionysis Eleuterie Rustici) deu lugar. perpetua felicitas. indicam a virtude curativa dos antigos ídolos: Santa Luzia para o mal dos olhos. a três santos cristãos: S. Uma nova festa consagrada a Baco. transformou-se em Santa Flora e Santa Lúcia. Rogadano.gem. cuja festa se celebra no mesmo dia. A deusa Pelino transformouse em S. e o de Juno. . colocada nos limites dos caminhos ( viae). que simboliza as trevas maiores do ano. gerou duas santas Perpetua e Felicidade. com estes três nomes distintos. Orar e dar (rogare e donare) correspondem a S. que o paganismo simbolizava na mulher de Baco. S. E quando não se cristianizaram as formas pagãs. que se chamava na Grécia Eleutério ou Dionísio e que tinha uma festa denominada rústica. porque celebrando-se no tempo das vindimas. transformou-se na estátua de S. aura placida. Pelasgia. O sobrenome de Júpiter. Até os Idus do mês se transformaram em Santa Ida. que eram muito frequentes na época do paganismo. Niceforo. Atenena (Minerva) originou S. flor e luz. mas que os santos Dionísios não são mais que outras tantas transformações das festas em honra de Baco (Dionísio). A festa da Gorgona. divindade infernal. Rústico. Baco. converteu-se para os cristãos em Santa Aura Plácida. S. Dionísio no calendário católico. E aqui. pelo próprio nome.era essencialmente campestre. Pelino e o Termes. foi substituída pela festa de Santa Górgona. 187 de onde lhe vem o nome. S. Nicefor. Dionísio. é nem mais nem menos que S. Apolônio e Santa Apolônia. que presidia aos limites dos campos e dos caminhos. Donaciano e S. Santa Pelagia. Eleutério e S. simbolizando-se por uma pedra. também passou para o calendário católico. o que prova. A brisa matutina. A fórmula romana flor et lux. Atanásio e Apollon o S.

Noé e S. divindade que presidia aos partos. tinham caído do céu. Santa Margarida. que fecunda as mulheres. Como Esculápio. dedicado a Diana Juno Lucina. A Igreja de S. etc. Como Minerva. Jorge. S. colocavam junto dos seus altares um voto e acendiam círios. tal como muitas estátuas e imagens da Virgem cristã. Antônio e S. e de Diana que presidia a caça. Santa Toscana para a tosse. é a representação flagrante de Baco. Até mesmo os atributos dos deuses passavam para os santos cristãos. que Enéas trouxera de Troia e colocara em Alba. que encontrava o perdido. Eládio. com a taça. Vicente presidem a conservação da videira e da vindima. e. Esculápio com a serpente. obtidos estes. Cosmo preside a medicina. se fez um S. em memória de um templo pagão ali existente. Santana ampara as parturientes. Vicente Ferrer invocam-se para acalmar as tempestades. O dragão de Apolo passou para S. Latino para as afecções do leite. de Mercúrio. Santa Barbara. Lourenço de Lucina. que guarda os jardins. Os pagãos pediam favores às estátuas dos seus deuses. A verdadeira imagem (vera icon). santa advogada dos partos das mulheres. Como Neptuno. Como Baco. 188 Os deuses e as deusas pagãs desciam à terra para conversar com os mortais e o mesmo fizeram as Nossas Senhoras Cristãs. assim como S. Santa Catarina infunde a ciência. Priapo converte-se em S. Bono para as enfermidades bovinas. Fiacre. Também Nossa Senhora de Montenegro. A águia de Júpiter foi substituída pela de João. foi substituído por S. Muratori demonstrou como. Como Juno. de uma casa destinada a hospedar peregrinos. voltaram para os seus antigos templos. S. nem mais nem menos do que fazem os cristãos com seus santos e madonas. Humberto. é copiada de Lucina. foi logo personificada em uma Santa Verônica. em Roma.Gotardo para a gota. Nicolau e S. Lourenço. assim como o martelo de Vulcano para S. As estátuas dos deuses. trazida de Livorno. foi transformada em S. A estátua de Diana em Efeso e a de Pallas em Atenas. S. voltou para o seu monte. Patrício com a sua. Pe- . S. que algum tempo se venerou pintada em uma tela.

foi somente mediante a perseguição. A Igreja adotou também o culto das imagens. que se obtinham nos templos pagãos. e de outra chamada o Santo Albergue. em troca e para conservar sempre o número dez. dos ossos. Turim. Compiègne e Cadouin) além doutros menos importantes. para os catalogar. ou litolatria. sobretudo. As curas milagrosas. para produzir tal decadência273. que condena toda a representação da divindade com coisas sensíveis272. a da Cruz . E citamo-los unicamente. Sorel. com práticas sugestivas e mediante peregrinações a mananciais de fontes sulfurosas. 3.regrino. O cristianismo não foi apenas o herdeiro do império romano. etc. sobreviveram ao paganismo. 272 273 Êxodo. mais que nenhuma outra causa. G. (Paris. Que diremos agora do culto das relíquias. dos braços. pela desagregação do Império romano e pela invasão dos bárbaros. se o cristianismo pôde triunfar e substituir o paganismo.até nem se acredita! . especialmente da Senhora e dos Santos.6. Cesáreo. tantos que. a farsa e a assimilação do culto pagão.. vendo-se obrigada. . é uma supervivência do fetichismo. como também sobreviveram as crenças nos sonhos e nas aparições. da multiplicação das cabeças. situada no território de S. de que existem quatro exemplares famosos. a favor da autenticidade de um ou outro dos sudários. cujo culto. que tanto se generalizou no cristianismo. das pernas. se fez uma Santa Alberga. etc. a subdividir o décimo mandamento em duas partes. XX. Ruína do mundo antigo. Igual destino tiveram as pedras. disputando todos a autenticidade (os de Besançon. ferruginosas. de cuja decadência se aproveitou para se erguer sobre as suas ruínas. ser-nos-iam precisos muitos volumes. porque ainda se não apagou o eco das discussões acerca 189 dos mesmos e em que tomaram parte . mas até contribuiu enormemente. Portanto. os animais que foram dados como companheiros a alguns santos e com eles colocados nos altares. e.homens de ciência de Paris. favorecido por outro lado. 1902). das mãos dos Santos.evolução regressiva para cujo cumprimento teve de suprimir a segunda lei do Decálogo hebraico. Recordaremos apenas o sudário. arsenicais.

é certo. martirizados nesta vida e glorificados na outra. mas da ilusão popular.O seu triunfo. como de sobra temos demonstrado no presente livro. porém. que viu em Cristo o símbolo dos infelizes. não tendo jamais existido. porém não foi de Cristo. Esta força de expansão. 190 . uma divindade acessível aos sentidos e em forma humana. O mito do Cristo serviu. para dar impulso ao cristianismo porque apresentava ao vulgo um novo culto antropomórfico. como também fora isento à formação da nova religião. foi completamente isento da pretendida pessoa de Cristo.

Conclusão 191 .

da verdade por nós demonstrada. e agora menos do que nunca. porque a dúvida é o princípio da sabedoria. compete erguer o edifício até a suma perfeição. por exemplo. E se é fácil destruir erros antigos. porque na conservação de Cristo estão interessados milhões de pessoas que vivem dessa crença. Porque não se trata apenas de uma verdade científica. a origem das descobertas e o ponto de partida de todo o progresso. A estes. de que realmente Cristo nunca existiu.CONCLUSÃO Lisonjeamo-nos por ter persuadido os nossos leitores. ou melhor. na medida das nossas poucas forças. tomar superficialmente e destruir sem discussão a hipótese da não existência de Cristo. que a deve conduzir á resolução do problema da origem do cristianismo. pois que nele estão arraigados os interesses de uma imensa casta de parasitas que jungem ao erro dos outros a sua própria existência. os de boa fé e despidos de todo o preconceito. que a crença em Cristo tenha . histórico e moral. como a aranha está interessada em conservar a sua teia. Temos consciência absoluta de haver contribuído. Além disso. Aos de maior engenho e mais favorecidos pelas circunstâncias do tempo e do ambiente. é certo que não poderiam jamais. a nós basta o prazer de ter levado a nossa pedra para o edifício da Verdade. no terreno científico. para imprimir a crítica aquela nova direção. basta fazê-los duvidar da própria fé. desde o momento em que existe o farto cristianismo. que ainda quando derive de uma ilusão inicial. para que não estremeça aos embates das tormentas. Se a ciência pôde destruir sem dificuldade. não deixa de ser um fato consumado e da maior importância? Que importa. dirão outros. não sucede o mesmo no religioso. o mito ou lenda de Guilherme Tell. não sucederá o mesmo com Cristo. seja qual for o resultado prático deste nosso trabalho. não nos iludamos 192 muito acerca da fortuna da tese. Contudo. Dir-se-á: Que importa. histórica e moral: trata-se também de uma religião. Quanto aos outros. no fim de contas. que Cristo não tenha existido. os seus próprios privilégios.

Deste modo. amalgamando-as em monstruosa confusão. que é. mas tem a sua razão de ser. Decompondo este nome. fruto da sugestão teológica.se no símbolo do ideal humano: pode dizer-se que. objetivamente. É um mosaico em que há de tudo. se julga. sob o nome cristão. O que é o cristianismo? Parecerá talvez uma pergunta paradoxal. mas não o que realmente se vê. para o subtrair às vistas naturais. provenientes das fontes mais opostas como o hebraísmo 193 e o helenismo. quem diz Cristo. menos a perfeição ideal do pretendido fundador e de seus pretendidos sequazes primitivos. venerável apenas pelos séculos de veneração usurpada que sobre ele pesam. na sociedade atual. quer dizer o homem. se deu cabimento às doutrinas mais disparatadas. o oriente e o ocidente. Subjetivamente. sem véu algum nos olhos.sido uma ilusão da Humanidade. uma religião. não o deixando ver senão àquelas vistas particulares que só veem o que querem ver. Em uma palavra: o cristianismo. cristianismo ou cristão. porque. que a ciência nada tem com as consequências nem com a utilidade prática das suas investigações. do visionismo sobrenatural e do ilusionismo transcendental. se essa crença foi tão benéfica? A estas objeções poderemos responder. A pretendida perfeição do cristianismo não é mais que o ideal humano. Hoje. Tão estranha quão monstruosa . lendo a própria Bíblia. mas a arbitrária combinação e justaposição de elementos heterogêneos e inorgânicos. O cristianismo é um nome que serve para legitimar toda a espécie de aberrações. uma crença homogênea. subjetiva e objetivamente. tomado como fato consumado. Mas importa ainda examinar o significado do que geralmente se chama o cristianismo. preocupando-se apenas com a descoberta da verdade. simplesmente. o nome de Cristo converteu. quem não é cristão é comparado com as bestas ou pouco menos. porque usa o nome de um autor que nunca existiu. ideal que se tem formado em volta daquele centro de gravidade. E isto é assim. a doutrina. vê-se que não é já o resultado de elementos afins reunidos em um todo harmônico e orgânico. não é uma doutrina. como neste estudo se viu e como pode ver-se. o crente. ou quer ser perfeito como o Pai que está nos céus.

moeda a moeda. foi o abandono da família. em que incorrem os exaltados que se retiram do mundo. a não ser nos conventos. copiado por Pio X. onde está a crença no próximo fim do mundo. ficou a intolerância provocadora de ódi- . ao mesmo tempo. mas também e sobretudo. porque na nossa sociedade não há de cristão mais que o nome. à pobre gente. o trabalho das pobres criaturas exaltadas. moderna. em suma. que julgam que só eles vivem na justiça e na verdade. se os sacerdotes abençoam as guerras. e um pouco a todos os crentes. desprovidas de todo o consentimento e de toda a verdade prática? Onde o retiro místico. progressiva. desfrutando. ou sequestrando os penitentes ricos. por cegueira voluntária. e os fanáticos. Leão XIII. mesmo sem nenhum outro mérito para se salvar? Onde está a fraternidade. com a sugestão e o terror das penas do inferno ? Onde está a pobreza voluntária. o ódio ao próximo. que indica o expoente da civilização presente. aceita e procurada como meio mais seguro de ir ao céu. considerando os que não estão com eles . promovendo-as até por conta própria? Onde está a igualdade. repetem que a pobreza e as diferenças entre as condições sociais são de direito divino? Onde está o ódio e o abandono da família para seguir o Senhor? Ah! Se alguma coisa ficou da moral cristã.e ingênua é esta alucinação coletiva! Não só porque o cristianismo da Bíblia e dos doutores da Igreja é completamente diferente daquela perfeição que a si próprios se atribuem. a não ser nas leis arbitrárias e políticas da Igreja. para conquistar o reino dos céus? Onde o celibato.quem não é por mim é contra mim como eternamente condenados. para passar à vida contemplativa? A própria Igreja não estará ainda farta de engolir os patrimônios das viúvas e dos órfãos e 194 de engordar com os milhões roubados. aparte a época medieval. ainda que a consideremos na sua parte civil. que dele fazem um cômodo instrumento de parasitismo. aceito como um meio de perfeição. foi a parte bruta. enganadas e roubadas à família ? Onde está o desapego. que constitui a base da moral evangélica? Onde as castrações voluntárias. naquela. se os próprios padres e o próprio chefe. Porque. evolutiva. a renúncia espontânea das riquezas. com contratos fraudulentos.

que degolam o próximo para ganhar o paraíso. mas representa uma série de conquista obtidas pelo pensamento humano. os inquisidores. que vivem sobre as colunas. os Simões de Monfort. do progresso intelectual ao econômico. tudo o que serve de base à nossa civilização é anticristão. instruído e social. imobilista. para a si mesma se salvar da sua intolerância e consigo salvar as conquistas da civilização. ficou o misticismo contemplativo e ocioso das ordens eclesiásticas e dos crentes de boa fé. reacionário. 195 fazendo do cristianismo o fim ideal. a parte moral se refugiou (ironia da história!) na esfera da incredulidade. os torturadores. trabalhador comedido. místico. Alfredo Pioda) que torna a mente dos fiéis refratária à razão. ficou o entorse cerebral (como diria o dr. que suprimem toda a liberdade para consolidarem uma . O ideal do cristianismo não é o homem moderno. E não vê ou não quer dar a conhecer os interesses que mantém com tal engano. ao passo que a parte bela. não só não é devido ao cristianismo. os censores. cujos danos à economia pública e ao progresso todos nós podemos avaliar. o espelho de toda a perfeição. iliberal. da liberdade de pensamento à soberania do povo. Sepultado. os Pedros Eremitas. e que tudo aquilo que forma o orgulho da civilização moderna.o que inspirava a Tertuliano quando ingenuamente proclamava os motivos da sua fé. ascético e visionário. os Semiões Estilitas. tornado autônomo. Da liberdade civil à política. ressuscitou: isto é certo. porque é impossível. sobre o cristianismo intolerante. nestes termos: O filho de Deus morreu: isto é crível porque é absurdo.os e de guerras. os abstêmios. esta é a sociedade que tem posto obstáculos ao cristianismo com a proclamação da laicização do Estado e da liberdade de consciência.se cristã. promovendo outras. forçando-a e habituando-a a crer no absurdo . Esta é a sociedade que de cristã só tem o nome e a parte brutal. porque nesta se continua a serena investigação da verdade e se trabalha para a redenção dos povos e para fraternidade universal. são os déspotas. que maceram a própria carne para salvar a alma. são os irmãos da Tebaida. teocrático. os acendedores de fogueiras. da civilização europeia e americana. esta é a sociedade que continua a chamar.

Ainda mesmo que esta fosse uma ilusão boa.a Humanidade tem muito a ganhar e nada a perder. todas as mistificações: a moral é também uma ciência positiva. os suplícios infligidos à carne. destinada a um mundo melhor. 196 E já sabemos que o progresso moral só procede da razão autônoma. como diz João Bovio. de uma vida sempre melhor e mais intensa. porque nos delírios de além-túmulo. que ele representa uma ideia mãe.única: a de ser cristão. conservaria sempre dois defeitos capitais: primeiro. fora um ideal de perfeição. isto é. abandonando o patrimônio nas mãos da Igreja madrasta. Pois que este mundo é um lugar de provações. e se dissesse. o livre pensamento. São os devotos. fora do homem. colocaram o fim do homem. feita a alma uma entidade concreta. quem as fará conhecer e quem as avaliará a não ser a razão humana.bem longe de ser certa . num limite heterogêneo. de querer ser cristão? Ainda mesmo que no delírio da hipótese. Porque perpetuar. Além disso. ainda na hipótese . pela sua lei moral oposta à natureza humana. segundo. São inúteis. em um escândalo. no abandono de todos os cuidados corporais. do conhecimento da verdade e do amor. causa de todo o mal. imoralíssimas quando mais pretendem ser morais. de julgar-se. o descuido por melhorar as condições da existência. ao passo que a atual sociedade só respira o amor da vida. ser uma ilusão que. que deve ser conservada. que passam o tempo em orações. a mentira de chamar-se. A sua norma única baseia-se nas necessidades da natureza humana. a nossa resposta é que. companheiro do bem. pois. jejuns e penitências. E estas necessidades. pois. Em uma palavra o cristianismo é a religião da morte. quando deixar de lhe dar fé. a ciência armada do método experimental? Suprimi o uso da razão prática e positiva na investigação do bem e voltareis às máximas antissociais do cristianismo. o corpo convertia-se em um cárcere. enquanto que . daqui. e o ideal de perfeição baseado na dor. tal como o figuram os cristãos. embora seja uma ilusão. cedo ou tarde provocaria um conflito entre o pensamento livre e conhecedor da verdade e os costumes baseados no erro tradicional. por consequência. santificado pelo beato Labre. se quisesse admitir que Cristo.

Porque a fé não raciocina. à qual legou o modo de conquistar o reino dos céus com o conhecimento e a prática dos seus mandamentos. que dará. E posto que. não só é necessário abandonar definitivamente essa ilusão. morais e materiais da existência. Assim é que a civilização cristã poderia se definir dizendo que nela o homem.concorrem o conhecimento positivo das leis da 197 natureza humana e sempre o uso da razão natural. à força de os atormentar ou exterminar. se dispensa a ilusão de um Homem Deus para conduzir a Humanidade ao bem. que tem sido causa de tão grandes danos. Iluminando as inteligências. Não só. na própria moral. não descobre nada. como esplendor da verdade. segundo a revelação. pois. nem sequer o bem. pode descobrir as leis do bem e os métodos para o alcançar. a vitória definitiva da ciência sobre a fé. não examina. deverá também diferenciar-se e constituir terreno autônomo. induzindo a amá-lo. não discute. fazendo-o contudo conhecer. que é a última das disciplinas humanas a emancipar-se da religião. mas até preciso se torna emancipar para sempre . todo o interesse pelas condições políticas. pela persuasiva propaganda que faz dele. para buscar e alcançar a felicidade. É uma questão de método. como a moral repousa também na ciência e como só a razão humana. nunca exaltada nem desviada por nenhum transcendentalismo. pois. autônoma e experimental. portanto. ao passo que a ciência faz precisamente o contrário. engrandece e nobilita os corações: a sensibilidade mais requintada é a que se desenvolve e apura na investigação da verdade. Eis aí.a verdadeira pátria do homem seria em um mundo futuro. e não impõe nada. deixaria de existir. convertendose em ciência experimental. A moral. era meritório obrigar os não crentes a converterem-se. aceitando-se resignadamente o mal como um mérito maior para conquistar a pátria celestial. iludido acerca do fim da vida. um Deus se tivesse feito homem e morresse na cruz para salvar a Humanidade. era pérfido e satânico aquele que se não aproveitasse da boa nova para se salvar.e mais que em parte alguma . Eis aí. como também no campo moral . reduzia toda a felicidade a torturar a si próprio para conquistar a glória. não investiga.

floresceram filósofos. Cristo. de boa fé: Que será então da Humanidade sem a benéfica ilusão de um mito. ricos. por outro lado. para não citar se não os maiores. talvez. perguntarão. nesse tempo houve Estados poderosos. em suma. para a tornar verdadeiramente humana. Cristo. Cristo pode voltar definitivamente para o céu. Cristo. atrozmente perseguidos. racional. livres pensadores de todos os tempos. artistas. existiram instituições más e costumes desumanos. a vós. Nesse tempo. homens de ciência. a vós. a luta da alma contra o corpo e a perseguição dos crentes contra os incrédulos. nenhuma nostalgia sentimos por esse ídolo que se vai. em quanto que o cristianismo agravava os males que esta não pudera destruir. pelo contrário. viveram as sociedades cultas e civis. Agora. para com o seu nome a encher de ruínas e desventuras. urna ciência positiva. hebreus injustamente odiados e infamados. estes não fo- ram abolidos pelo cristianismo mas pela filosofia. de onde não devia ter descido nunca à esta terra. poetas. antes dele. a reabilitação da história. Com Cristo. sentimos a alegria que traz sempre um mal menor. que o cristianismo nunca conseguiu ultrapassar. experimental. acrescentando-lhe outros novos. estultamente caluniados e destruídos. a vós todos. como o é Cristo? À essa pergunta. Antes. esse vosso perseguidor. juristas que ainda hoje servem de modelo. ideal do homem. prósperos. basta responder com esta: Teve a Humanidade a necessidade de Cristo durante todo o tempo pré-cristão? De modo algum. nesse tempo deram-se altos exemplos e excelentes costumes de moral. pagãos. natureza e grau. para a basear nas necessidades reais da vida: fazê-la. deverá necessariamente desaparecer o cristianismo. no futuro não haverá necessidade do mito Cristo para ordenar o que à natureza humana cabe executar. esse vosso detrator. E se. Como antes do cristianismo. não existe! FIM 198 . da ciência e da Humanidade. a vós. Os que confundem o cristianismo com moralismo.a moral de toda a tutela teológica e de toda a infiltração mística e sobrenatural. como. Pela nossa parte.

199 .

com extrema habilidade e rigor. Francisco. a história não nos conservou documento algum. Morreu 27 de novembro de 1920. consequentemente. com provas e mais provas. a Radical Extrema desaparece como grupo autônomo. Assim começa um dos ensaios mais polêmicos e surpreendentes dos anos 1900. em Lugano. ainda que somente como pessoa física? Bossi declara um categórico NÃO demostrando incontestavelmente. Empreendeu carreira no jornalismo e ganhou fama como um grande polemista com o pseudônimo de Milesbo. nem deste ensaio. prova alguma. qualquer vaga ideia que a nossa cultura possa ter a respeito de um personagem chamado Jesus Cristo. filho de um arquiteto. Em 1906 fundou e editou A Ação. Foi adversário inflexível do clericalismo e defensor acérrimo da italianidade de Ticino. Revê a luz em 1951 em Bolonha pela Lida e finalmente em 1975 em Ragusa. De 1905 a 1910 ocupou o cargo de juiz de instrução substituto. Jesus Cristo Nunca Existiu foi publicado simultaneamente em 1904 em Milão e em Bellinzona. o flagelo implacável da política oportunista e das transações de Rinaldo Simen. Emilio Bossi nasceu em Bruzella no Cantão suíço de Ticino em 31 de dezembro de 1870. Em consequência. além das reformas sociais que defendia propugnava a escola neutra e a separação entre Igreja e Estado. que não há nenhum traço de evidência ou sequer sombra de suspeita da possível existência de um homem chamado Jesus.De Jesus Cristo. Liberal radical. ponto a ponto. foi com Romeo Manzoni. Viveu ele realmente. pessoa real. na Suíça. órgão da Extrema Radical. dirigiu A Gazeta Ticinense. Em seguida à sua entrada no Conselho de Estado. uma associação que. O advogado Emilio Bossi desmonta minuciosamente. pela La Fiaccola. do Conselho Nacional e do Conselho dos Estados. e de Emilia Contestabile. Como tal. Em 1897 foi um dos fundadores da União Social Radical Ticinense. dirigiu o Departamento do Interior. Travou duras batalhas contra os "menatorroni" da vida pública. ser humano. Este ensaio mordaz de 1900 (Raramente reimpresso) é uma viagem através dos mecanismos meméticos de evolução cultural: mostra como as religiões mais primitivas e os rituais mais antigos evoluíram para o que hoje se chama de "verdade revelada". demonstração alguma. . fundada em 1902 após uma violenta polêmica com a corrente de Simen. Bossi foi forçado a se adequar à lógica das negociações. Com Manzoni. Bossi foi deputado do Grande Conselho. foi diretor do semanário Nova Vida e fundou o jornal Ideia Moderna. Colaborou com o jornal O Dever. foi o líder carismático da Extrema Radical. Iniciou seus estudos no Liceu de Lugano e formou-se em direito em Genebra. Seria ele filho de Deus? Este não é um argumento de pesquisa histórica e.