P. 1
O LEGADO DE KEROUAC: On the Road como fonte histórica (FURUNO, Caique de Souza)

O LEGADO DE KEROUAC: On the Road como fonte histórica (FURUNO, Caique de Souza)

|Views: 3|Likes:
Published by cfuruno
Trabalho de Conclusão de Curso em História.

Sobre a contribuição do livro ON THE ROAD, de Jack Kerouac para a história

Autor: FURUNO, Caique de Souza
Trabalho de Conclusão de Curso em História.

Sobre a contribuição do livro ON THE ROAD, de Jack Kerouac para a história

Autor: FURUNO, Caique de Souza

More info:

Published by: cfuruno on Jul 24, 2013
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as DOCX, PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

07/24/2013

pdf

text

original

UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ Caique de Souza Furuno

O LEGADO DE KEROUAC: On the Road como fonte histórica

Taubaté - SP 2011

Caique de Souza Furuno

O LEGADO DE KEROUAC: On the Road como fonte histórica

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciências Sociais e Letras da Universidade de Taubaté, como parte dos requisitos para colação de grau no curso de Licenciatura em História. Orientador: Profª. Drª. Maria Januária Vilela Santos

UNITAU
Departamento de Ciências Sociais e Letras Taubaté - SP 2011

CAIQUE DE SOUZA FURUNO

TÍTULO: O LEGADO DE KEROUAC: ON THE ROAD COMO FONTE HISTÓRICA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciências Sociais e Letras da Universidade de Taubaté, como parte dos requisitos para colação de grau no curso de Licenciatura em História.

UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ Departamento de Ciências Sociais e Letras – Curso de Licenciatura em História Taubaté, 7 dezembro de 2011

Resultado:___________________________________

BANCA EXAMINADORA

Orientador:

Profª. Drª. Maria Januária Vilela Santos

__________________________________

1º Membro:

Prof. Dr. Cyro de Barros Rezende Filho

___________________________________

2º Membro:

Prof. Ms. Luzimar Goulart Gouvêa

____________________________________

Caique de Souza Furuno .Dedico este trabalho aos meus pais. eles continuaram a confiar em minhas escolhas e me apoiar. que nos momentos em que ninguém mais acreditava que eu encontraria meu caminho.

Drª. . Ms. Maria Januária Vilela Santos. por sempre acreditarem em mim e por continuarem ao meu lado. Ao Prof. Cyro de Barros Rezende Filho e Ms.Meus mais sinceros agradecimentos: À Profª. Ao meu amigo Daniel por me introduzir à literatura de Jack Kerouac. Luzimar Goulart Gouvêa. Aos meus amigos e familiares. Aos Professores Dr. Joel Abdala por me incentivar a escrever. pela orientação. pela disposição e atenção. pela paciência e por me fazer querer ser historiador.

a estrada do arco-íris..a estrada do místico. para qualquer pessoa. homem? . onde. qualquer estrada. a estrada dos peixes. Como. Há sempre uma estrada em qualquer lugar.Qual é a sua estrada. por quê? Jack Kerouac . em qualquer circunstância.. a estrada do louco.

RESUMO Nesta monografia são analisados a literatura. . Bob Dylan. em artistas como. de Jack Kerouac. e principalmente. Com base nas pesquisas de revisão bibliográfica e no confronto de informações de diversas obras investigamos o papel de On the Road e de seu autor na revolução. Geração beat. pôde-se abordar a possibilidade da utilização de On the Road como fonte histórica. como fonte histórica e o impacto que a obra causou na segunda metade do século XX. Anos 50. após sua publicação. Literatura. Palavras-chave: História cultural. principalmente do cinema e da música. Através dos diários de Jack Kerouac e de obras que fornecessem subsídios para comprovar o caráter autobiográfico da obra. E através de trabalhos que analisassem o impacto do romance de Kerouac. foi abordado a influência que ela causou em importantes nomes da cultura. Jack Kerouac. em especial a obra On the Road.

.........24 Conclusão......................................................................SUMÁRIO Introdução........................................……......................................... História Cultural e Literatura...22 1.....1.…………………................11 Capítulo 2 .........10 1....................................................................................................................22 1........................................... Jack Kerouac........................2........................................................................................................ Movimento beat...Jack Kerouac e o movimento beat......2...................................................................................................28 ........................ A história.....…….................1.....4...............On the Road………………..17 2..............................…………….................................20 Capítulo 3 ................3........................................................17 2.........................................................................................08 Capítulo 1........................10 1..................................................................................................As relações...............................................................27 Referências Bibliográficas........ O caráter autobiográfico..... O impacto causado pela obra.........................................................

Le Goff e Pesavento. Neste capítulo são utilizados. além de teóricos que abordam a história cultural e o papel da literatura na história. a literatura como fonte histórica. em duas partes. dá “forma” aos objetivos do trabalho: neste são abordados. sobre Bob Dylan. talvez o mais importante desta monografia. uma vez que ele próprio se declarou fã de Kerouac. através de uma descrição da história do livro e do caráter autobiográfico da obra. preparando uma ligação com o terceiro capítulo. Os aspectos relevantes na escolha do tema foram a bibliografia pouco extensa a respeito da Geração Beat e o pouco conhecimento que se tem no Brasil sobre o importante papel exercido por Kerouac e os outros beats como revolucionários do comportamento. entusiastas brasileiros do movimento beat. compilados e editados por Douglas Brinkley. No segundo capítulo. personagem central desta monografia. além de seus diários. O trabalho é dividido em três capítulos. da cultura e da literatura. em especial Bob Dylan. o que ganha destaque é a obra On the Road. além de textos de Cláudio Willer e Eduardo Bueno. analisando as influências. Em paralelo. Através de revisão bibliográfica são analisados os fatos narrados na obra e confrontados com outras obras e fatos tidos como verídicos. além de um enfoque na biografia de Jack Kerouac. utilizando base algumas biografias do autor. com a intenção de avaliar até que ponto esta obra pode ser utilizado como fonte histórica. como seus diários e autobiografia de Neal Cassady. analisou-se também a influência e o impacto causados pela obra em importantes nomes da cultura da segunda metade do século XX. . O terceiro capítulo. através de teóricos como Ruffié. o que é o movimento.INTRODUÇÃO A monografia O legado de Kerouac: On the Road como fonte histórica parte da premissa de que Jack Kerouac e sua obra On the Road criaram uma revolução comportamental que atingiu especialmente os jovens na década de 1950 e nas décadas subseqüentes e que o romance tem um caráter autobiográfico. quem foram os principais expoentes e suas principais obras. O primeiro terço. de Antônio Bivar e Yves Buin. o confronto de fatos de On the Road com outros. No primeiro capítulo é feita uma pequena introdução ao movimento beat. especialmente. e o impacto da obra na segunda metade do século XX.

com a divisão em três capítulos. o tema foi trabalhado de maneira a permitir uma melhor compreensão dos objetivos do autor. . separando as diferentes partes do trabalho.Assim.

de John Clellon Holmes. também por Holmes e também em 1952. a origem do termo “geração beat” está em uma conversa entre Jack Kerouac e John Clellon Holmes.Capítulo 1 – Jack Kerouac e o movimento Beat 1. os jovens integrantes desse movimento propagaram um estilo de vida avesso ao materialismo e ao conformismo. relembrando o glamour da Geração Perdida. Em contraponto ao consumismo baseado no intenso crescimento econômico proporcionado pela Segunda Guerra Mundial. this is nothing but a beat generation. denominado Jazz of the Beat Generation. 1 2 Disponível em http://translate. mas para desnomeá-la.2 (GINSBERG. Mas Kerouac descartou a questão e disse geração beat – não para nomeá-la. e Kerouac disse: “Isso não é nada senão uma geração beat. But Kerouac waved away the question and said beat generation – not meaning to name de generation. a expressão começou a aparecer com maior frequência. an “angelic generation. “Ah. pulsação. Eles estavam discutindo sobre a natureza das gerações. compasso. entre as quais: batida.” Eles conversaram se esta era uma “geração encontrada” (como Keroauc às vezes a chamava).1. batimento.O movimento Beat O Movimento Beatnik foi um movimento sociocultural iniciado nos Estados Unidos. recollecting the glamour of the Lost Generation. de Jack Kerouac. but to unname it. xiii) Segundo Willer (2009a). em 1948. na década de 1950. and Keroauc said. Mas antes de entendermos o início do movimento. além do artigo intitulado “This is the Beat Generation”. devemos entender o significado dos termos “beat” e “geração beat”.” (Tradução livre) . vibração.” or some other epithet. uma “geração angelical”. 1 Para Allen Ginsberg. They were discussing the nature of generations. versão essa adotada como definitiva: The phrase “Beat generation” arose out of a specific conversation between Jack Kerouac and John Clellon Holmes in 1948.com. publicado em 1952. após essa conversa. publicado na New York Magazine.google. A palavra “beat” pode ser traduzida de diversas maneiras. ou algum outro epíteto.” They talked about whether it was “found generation” (as Kerouac sometimes called it). e ainda numa publicação anônima de um fragmento de On the Road. como em Go.br/#en|pt|beat “O termo “geração beat” surgiu de uma conversa específica entre Jack Kerouac e John Clellon Holmes. In WALDMAN. 1996. em 1948. ritmo.

Um dos grandes escritores norte-americanos. 3 Thomas Wolfe (1900-1938). com a peça O Tempo de sua Vida. 2010a). Caninos Brancos (1906) e O Lobo do Mar (1904). famoso pela publicação de obras como Chamado Selvagem (1903). Allen Ginsberg e Neal Cassady. de Allen Ginsberg. . jornalista e ativista social norteamericano. cujo editor. posteriormente publicado juntamente com outros poemas em Howl and other poems. pseudônimo de John Griffith Chaney (1876-1916). ganhou o prêmio Pulitzer. Neal Cassady. Cada um dos três produziu uma das “obras máximas” do movimento. nascia Jean-Louis Lebris de Kerouac. Jack. E finalmente. diários e jornais esportivos que relatavam fatos fictícios. o que veio a ser pouco depois. Lawrence Ferlinghetti. o filho mais novo de uma família de origem franco-canadense. aos dezessete anos de idade decidiu se tornar escritor. quatro nomes são mais lembrados até hoje: Jack Kerouac. enfrentou um processo por pornografia pelo conteúdo da obra (WILLER. Um dos mais importantes autores da literatura norte-americana. baseada numa educação católica. estado de Massachussetts. 2010) Segundo o próprio Kerouac (2010). escrita de pequenos romances. autores que. da obra On the Road. influenciado por Sebastian Sampas. de Jack Kerouac. Os livros de London o fizeram querer se tornar um aventureiro. publicou clássicos com Por Quem Dobram os Sinos (1940) e O Velho e Mar (1952). 1.2. com a lendária leitura do poema “Howl”. em 1939. Burroughs é o autor de Naked Lunch. Entre passeios pelo campo. William Burroughs. mais tarde. Jack Kerouac Aos 12 de março de do ano de 1922. jovem poeta local. é mais conhecido como a personagem Dean Moriarty. notadamente influenciaram Jack. 4 Jack London.A “Geração Beat” foi apresentada ao mundo em 1955. foi um dos pioneiros da ficção autobiográfica. Escritor. Escritor de contos autobiográficos e dramaturgo norte-americano. em 1957. London4. 6 William Saroyan (1908-1981). (REFERÊNCIA) Dentre os inúmeros integrantes da chamada Geração Beat. teve uma boa infância. Kerouac se tornou um mito através do lançamento de On the Road. e a posterior publicação de “Howl and other Poems. 5 Ernest Hemingway (1899-1961). outra obra-prima do “universo beat”. Era leitor de Wolfe3. como seria chamado. Hemingway5 e Saroyan6. pela City Light Books em 1956 e de On the Road. pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1954. que apesar de ter escrito o livro O Primeiro Terço. Ginsberg escreveu o poema Howl. muito lidas até hoje e as mais conhecidas do grande público. na cidade de Lowell. (KEROUAC.

seu jeito cativante e exibicionista de jogar futebol americano o fez se destacar. chamando a atenção de seu treinador. A vida era uma possibilidade de mil pecados. Kerouac fumou seu primeiro cigarro de maconha e perdeu a virgindade com uma prostituta de Manhattan. (BUIN. (BIVAR. Tristessa. Flertava com o proibido.E como Wolfe e Saroyan. 2004). aos livros de Jack London e Thomas Wolfe. a vida de Kerouac mudou. ouvir música. O futebol americano. 2004. voltou a ter mais contato com o amigo de infância de Lowell. uma garota de origem irlandesa que mais tarde. Mas não demorou muito para que. Sebastian Sampas. ainda como calouro. se apaixonou por Mary Carney. Jack escreveu ficções baseadas em passagens autobiográficas. responsável pelo seu ingresso na universidade. 2005) Com mais tempo livre. que agora estudava em Nova York e apresentou Kerouac aos amigos e. Treinava todos os dias. o mais importante. Viajante Solitário. Era o fim de seus dias como jogador. rufiões e michês fazendo o trabalho deles na Rua 42. se integrasse ao grupo. em Nova York.” (BIVAR. se dedicou mais aos estudos e a outros hobbies. era visto como o “garoto pobre da província”. A escola era considerada. a melhor escola particular de Nova York. Em 1940. por sobrecarregá-lo nos treinos. como nas obras On the Road. apesar de ser considerado o melhor quarterback do time. à época. não lhe proporcionou tanto tempo de atividade. p. com sua personalidade e sua beleza. Além disso. estudava muito e trabalhava em meio período para se manter. como escrever. onde do meio de garotos ricos. admirando as prostitutas. Nesse mesmo ano de 1939. 19) Com o ingresso na Universidade de Columbia. London foi autodidata e um . 2004) Nessa época já era possível notar a atração de Kerouac pelo “submundo”: “Jack gostava de caminhar sozinho pelo Times Square. assistir filmes. quebrou a perna e culpou o treinador. Jack teve de enfrentar um ano de preparação na Horace Mann School for Boys. Esse fato lhe valeu uma bolsa como atleta na Universidade de Columbia. inspiraria Kerouac a escrever o romance Maggie Cassidy. observando gigolôs. que chegavam à escola de limusine. Logo na primeira temporada. Também aos dezessete. beber cerveja e namorada. em 1953. Antes de ingressar na universidade. (BIVAR. entre outras.

se alistou. no mesmo dia.500 palavras em uma campanha para terminar de uma vez o romance em abril. 2004) Aos vinte anos já acumulava uma grande experiência. ficaram inconformados com a decisão do filho de largar uma universidade de primeira linha e mandaram-no arranjar um emprego. com suas ricas descrições sobre as paisagens e as pessoas norte-americanas. e é parte de tudo. Seu primeiro romance publicado. depois de conhecer Neal Cassady. E Kerouac. na Marinha e na Marinha Mercante. (BIVAR. Wolfe. com planejamento e revisão incomuns em suas obras posteriores. notável na preocupação de Jack com o número de palavras de seu texto e a demora para finalizar o romance: “Segunda-feira 26 de março – Longo para explicar aqui. o que fez do trabalho desgastante em demasia. Esta noite escrevi 3. revelava o dilema que se passava na cabeça de Jack: como dar equilíbrio à “loucura” da vida na cidade com os valores da vida pacata do interior. 2004) Em seu segundo ano de faculdade. Cidade Pequena Cidade Grande. Tomou aquela que considerava a decisão mais importante de sua vida: largou a faculdade. (BUIN. O jazz bebop dominava a cena em Nova York. Aquela clareza ainda cresce.aventureiro. basta dizer que „minhas premonições da vida não era ilusões‟. Virou um modelo a ser seguido por Kerouac. foi operário de construção em Washington. Então muitas outras . Kerouac tentou “polir” demais seu trabalho. 2006). (BUIN. introduziu em Jack a curiosidade e a vontade de viajar a América. trabalhou em bares. finalizado em 1949 e publicado em 1950. Como relatado em “Diários de Jack Kerouac – 1947-1954” (BRINKLEY. uma vez que Jack se viu novamente infeliz com a universidade. tendo trabalhado nos mais variados empregos antes ser um renomado escritor. (BIVAR. 2005) A fase mais criativa da vida de Kerouac surgiu com suas grandes viagens rodoviárias pelo grande território dos Estados Unidos. A partir daí começava uma nova fase na vida de Kerouac. ou algo assim. tanto profissional como em drogas e sexo. 2005) Seus pais. Mas essa volta não durou muito tempo. Trabalhou como cronista esportivo em Lowell. percebeu que era perda de tempo querer seguir no futebol quando soldados davam seu sangue na guerra. que a essa altura haviam se mudado para Connecticut. importante personagem em sua vida e suas histórias. já havia vivenciado sua primeira experiência homossexual e estava de volta à Colúmbia.

Essa obra inaugura uma nova vertente na obra de Kerouac. onde conheceu mexicanos. com Neal Cassady e sua esposa Carolyn. entre outras coisas. A ação está voltando à minha cvida. Kerouac passou um bom tempo sem publicar um novo livro. mas apenas desgaste. em alusão à lenda na qual o herói suíço do século XIV Guilherme Tell teria sido obrigado. e se radicara no país. ou blocos de anotações que forneceram a Jack o material para escrever sua obra mais famosa: On the Road. no ano de 1951. Jack resolve ir para o México. Jack teve seu primeiro contato com o budismo. e o mais importante. apesar de sua natureza essencialmente católica. 9 Brincadeira na qual uma pessoa tenta acertar um objeto na cabeça da outra com um tiro.” (KEROUAC. o que o deixou atraído pelo tema. contra uma maçã na cabeça de seu filho. On the Road foi escrito por Kerouac em apenas três semanas. Lançado apenas em 1957. p. . que. 2005) O budismo. relatando sete anos em que Jack passou na estrada (DVD “Kerouac – O Rei dos Beatniks”). Em 1952. (BUIN. o que só ocorreria em 1957 com On the Road. Kerouac se dedicou. com uma besta. que havia matado acidentalmente a esposa. de acordo com Willer (2010b). 79) Como o livro não trouxe fama ou dinheiro. em 1955. p.9) disse que a qualquer lugar que Jack fosse. do cotidiano. Kerouac costumava escrever em diários seus relatos de viagens. cujo personagem principal era um misto de Burroughs com uma personagem memorável de sua adolescência. numa tentativa frustrada de brincar Guilherme Tell9. encontrou seu velho amigo William Burroughs. Brinkley (2006. divide-se em duas vertentes: recuperação do passado (Doctor Sax e Maggie Cassidy) e aventura (On the Road. após quase 7 anos de rejeições. seria o principal motivo pelo qual Kerouac realizaria sua aventura como 7 8 Haicais são poemas de origem japonesa compostos por três versos e dezessete sílabas. seus pensamentos espontâneos ou composições de haicais7. depois de uma temporada passada em “Frisco”8. mais tarde. 2006. Lá. por não cumprir uma determinação do governador austríaco Hermann Gessler de tirar o chapéu ao passar pela praça de Altdorf. o livro se tornou sucesso de vendas e alçou Kerouac a um status de celebridade. a atirar. segundo Bivar (2004). Lá passou uma temporada. Era como se referiam à cidade de San Francisco. e no que toca à literatura há tantos tipos de literatura. levava consigo um “caderno espiralado ou um bloco de guarda freios”.coisas estão se abrindo. Viajante solitário e Vagabundos Iluminados). consumido pelo remorso. Em 1954. a escrever Doctor Sax. E foram esses diários.

além de criticar os hippies. vários livros de Kerouac passaram a ser publicados em sequencia: Os Subterrâneos. Os vagabundos iluminados. Após On the Road e Vagabundos Iluminados. p. De acordo com Bivar (2004). também conhecido como Jack Duluoz. Visions of Gerard e Vanity of Duluoz. cuja morte. Visões de Cody e os outros. é algo como “Joãozinho” . Essa jornada de autoconhecimento e busca pelo Nirvana10 foi narrada no livro Os Vagabundos Iluminados. Desolation Angels. encher a prateleira de livros e morrer feliz. são apenas capítulos na grande obra que eu chamo de A lenda de Duluoz. 2009a. em 1958. Doctor Sax. em 1959. (KEROUAC. ele nunca conseguiu esquecer. a garrafa e a 10 11 Estado de “iluminação”.guarda florestal no alto de uma montanha isolada em Sierra Nevada. Doctor Sax. a Guerra do Vietnã. Tristessa. Segundo o mesmo autor. Segundo Buin (2005). inclusive. de acordo com os preceitos do Budismo. On the Road. Em Big Sur temos as tristes porém grandiosas consequências: o “Rei dos Beatniks” atravessa o país na cabine de um pullman para mais uma farra com os garotos e garotas antes de voltar para o estúdio. Maggie Cassidy. degradado pelas drogas e principalmente pelo álcool. Kerouac disse o seguinte: Minha obra encerra um livro de vastas proporções como o de Proust. por causa de uma hemorragia interna causada pela bebida. Kerouac. Já numa fase decadente de sua vida. após uma vida desregrada e cheia de aventuras e desventuras. em 1960. Maggie Cassidy. e Tristessa. Os subterrâneos. Sobre Big Sur. incluindo este Big Sur. o mundo de ação frenética e loucura e também de gentil doçura visto pela fechadura de seu olho. Na minha velhice. o ponto máximo que a alma pode atingir.5) Bivar (2004) disse que o livro Visions of Gerard foi escrito por Kerouac em memória de seu irmão. com a diferença de que as minhas memórias são escritas na corrida em vez de mais tarde doente numa cama. então com 47 anos. veio a óbito. após essas obras passou a ter uma tendência política de direita. Kerouac. apoiando. pretendo juntar toda a minha obra e reinserir meu panteão de nomes regulares. publicou ainda Big Sur. Por conta das objeções de minhas editoras eu não pude usar o mesmo nome para o mesmo personagem em obras diferentes. que ele havia começado a escrever em sua viagem ao México em 1952 (viagem essa onde ele conheceu uma prostituta viciada chamada Esperanza. “Ti Jean” era o apelido que Jack Kerouac tinha em casa durant e a infância. na infância. que o inspirou a escrever Tristessa). Tudo isso forma uma enorme comédia vista pelos olhos do pobre Ti Jean11 (eu). Em 1969.

Com a prosa incrustada no centro da mente. por causa de uma hemorragia severa causada pela bebida. 2009. Genet. Céline. tidos como romances autobiográficos. p. Ele tinha 47 anos. 2009. apesar de seus personagens com nomes fictícios: “Cada livro de Jack Kerouac é único.” (GINSBERG. Charlie Parker e das próprias visões atléticas sagradas de Kerouac. um diamante telepático.1) . Thomas Wolfe.máquina de escrever. o mito que se tornou.8) A admiração por Kerouac. encontra a morte. uma síntese de Proust. Hemingway. detalhando o vazio luminoso de sua própria confusão paranoica. e a lenda em torno de suas histórias continuam vivas através de seus livros. em 1969. Bashô. p. Thelonious Monk. Esta escrita natural e rica não tem igual na segunda metade do século XX. ele revela a própria consciência em toda a sua elaboração sintática. e então. (SAROYAN.

num total de quarenta metros initerruptos de prosa em espaço um sem parágrafo. E eu não tenho um só centavo. um famoso talk-show norte-americano do canal de televisão NBC.10) A outra informação da entrevista de Kerouac é negada por Giron (XXXX): “Paradise e Moriarty saem em busca dos restos de utopia. mostra uma entrevista que Kerouac deu a Steve Allen 12. ator. através de um romance autobiográfico. sem conseguir vê-los publicados (até a publicação de On the Road). movido por aquilo que o poeta Lawrence Ferlinghetti certa vez chamou de “onívora de observação”. Um bolso vazio. Kerouac escreveu ainda outros cinco romances e. como o fizeram Kerouac e Cassady em suas viagens entre 1947 e 1950”. em 1957.Capítulo 2 – On the Road 2. contradiz essa informação: “E para falar a verdade. suando uma camiseta atrás da outra. de Antonelli (2001). em 1956: O que tenho eu? Tenho 35 anos. . apresentador. Minha própria mãe. Uma filha que nunca vejo. p. em 1957. escreveu uma carta para seu amigo John Clellon Holmes. No entanto o próprio Kerouac (2006. tanto sobre as viagens que inspiraram Kerouac a escrevê-lo quanto sobre a obra em si.” A versão original de On the road de fato havia sido escrita entre 9 e 27 de abril de 1951 num rolo de papel para telex. Da escrita de On the Road até sua publicação. Tenha a obra sido escrita em anos ou dias e tenham as viagens sido realizadas em quatro ou sete anos. (BUENO. O documetário Kerouac – O Rei dos Beats. comediante e escritor norte-americano. tempo no qual acumulou histórias para depois escrever On the Road em apenas três semanas. ainda rala o rabo numa fábrica de sapatos. 235). Não tenho muita coisa para mostrar depois desse ano. um ano inteiro atrás. no Steve Allen Show. com Kerouac aditivado por doses colossais de benzedrina. nem para uma puta 12 Steve Allen (1921-2000) foi um famoso músico. Uma ex-mulher que me odeia e que gostaria de me ver na cadeia. 2009. comecei mesmo On the Road em outubro de 1948. após todos esses anos de labuta e lágrimas. mas o primeiro ano sempre é lento.1 – O caráter auto-biográfico Vários mitos giram em torno de On the Road. p. onde disse que passou sete anos na estrada. o que realmente importa é que a obra conta a história de uma geração. e influencia as gerações posteriores. datilografando como um alucinado doze mil palavras quatorze horas por dia.

Ainda no começo. e vou lhe dizer por quê: porque escrevi seis longos romances desde março de 1951 e nenhum deles foi aceito até agora. após seis ou sete anos de negociações com editores e revisões sugeridas por eles. p. Nada nesse mundo parece me querer. para acabar com a agonia de Kerouac. num calhambeque caindo aos pedaços. 2007. (FERLINGHETTI. Sou o mais solitário escritor da América.] Ficam em Salt Lake City por várias semanas até Maude se recuperar. [. Já neste ponto podemos identificar.” (KEROUAC. o narrador. agora. A história da livro se inicia quando Sal Paradise e Dean Moriarty (referências claras ao próprio Jack e a Neal Cassady. (CASSADY. como se ele representasse a última geração dos heróis populares – um protótipo arcaico do “cowboy” urbano que há cem anos seria um nômade fora-da-lei (é como Kerouac o vê em On the Road). p. Sal Paradise. descreve Dean Moriarty: “Dean é o cara perfeito para a estrada simplesmente porque nasceu na estrada quando seus pais estavam passando por Salt Lake City em 1926. ainda viajando no estranho caminhão. e então. Sabe o que acho dessa vida desprezível? Vou abandonar essa história de romances épicos e tentar concentrar meu talento – se é que eu tenho algum – no que quer que não seja escrever. p. 2009) No entanto. o relato da existência errante de Cassady torna-se matéria prima original para o velho mito do Oeste Selvagem. especialmente por mim. 2007. AGORA! (KEROUAC apud BUENO. 48/49) Os próprios integrantes do movimento beat veem On the Road como autobiográfico.p. elementos que comprovam o paralelo traçado entre o romance e “vida real”: Quando Maude13 deu à luz na estrada. Maldito seja! Filho da puta! Às vezes penso que única coisa que está pronta para me aceitar é a morte. segundo Bueno (2009).que preste. On the Road foi publicado algumas semanas depois. a caminho de Los Angeles. comparando com trechos da autobiografia de Neal Cassady.. respectivamente). ou lembrar-se de mim. O que sei é que existem apenas dor e desespero aguardando por nós todos. companheiro de muitas viagens de Kerouac. completaram a jornada até Los Angeles. do jeito que as oportunidades se mostrassem. Cassady se 13 Maude era a mãe de Neal Cassady . 2009.19).. O primeiro terço. tal qual Lawrence Ferlinghetti diz ao falar de Neal Cassady: Assim. Assim. 7) Kerouac via em Neal Cassady a imagem do herói beat: um cara interessado apenas em “viver a vida”. nossos viajantes ajudaram-na a ter um saudável descanso.

45). TABELA15 1 – Pessoas e personagens correspondentes NOME REAL Alan Ansen William Burroughs Lucien Carr Carolyn Cassady Cathy Cassady Jamie Cassady Neal Cassady Hal Chase Henri Cru Allen Ginsberg Diana Hansen Joan Haverty Luanne Henderson (Cassady) Al Hinkle Helen Hinkle John Clellon Holmes Herbert Huncke Frank Jeffries PERSONAGEM Rollo Greb Old Bull Lee Damion Camille Amy Moriarty Joanie Moriarty Dean Moriarty Chad King Remi Boncoeur Carlo Marx Inez Laura Mary Lou Ed Dunkel Galatea Dunkel Tom Saybrook Elmer Hassel Stan Shepard 14 15 Nota do autor. Bueno (2003) disse que “é o livro [On the Road14] que transformou Cassady em personagem imortal”. Editada pelo autor. Segue abaixo uma lista de amigos de Kerouac envolvidos no movimento beat que foram mencionados em On the Road. É mais uma prova do caráter autobiográfico da obra. Segundo Bivar (2004. .tornou Dean Moriarty aos olhos de Jack. sem as formalidades impostas pelos estilos de Jack London e Thomas Wolfe”. p. E essa prosa livre e espontânea se tornou marca registrada de Kerouac a partir de On the Road. foi também Cassady quem sugeriu a Jack uma escrita mais “livre e verdadeira.

p. sendo que o período entre elas permanece um tanto quanto desconhecido.2 – A história A narrativa do livro se passa entre o julho de 1947 e novembro de 1950. enquanto a terceira em julho do mesmo ano. A quarta e última viagem narrada no verão de 1950. p. dificilmente poderia . o segundo capítulo dá início a saga de Paradise. O primeiro capítulo da primeira parte pode ser lido como um prólogo. guardadas as devidas ressalvas. a obra de Kerouac pode ser utilizada como uma “muleta” para auxiliar no entendimento da sociedade americana nas décadas de 1940 e 1950. visto que descreve detalhadamente a situações vividas pelo autor durante suas viagens. 2009. narrando as aventuras de cinco viagens que Sal Paradise (ou Jack Kerouac) realizou. justificando o nome do livro: On the Road – Pé na estrada. que “estava pronto para ir para a Costa Oeste”. 2. A segunda foi realizada em janeiro de 1949. 2007. como de fato eram Cassady e Kerouac. além de sinalizar o início de uma fase diferente da vida de Moriarty. 28) As viagens ao longo do livro vão sendo narradas com uma riqueza de detalhes tão grande que.p. no livro. Ainda na primeira parte. a vida de viajante. O autor relata. essencialmente as viagens. A primeira viagem ocorre entre julho e outubro de 1947. apresentado as personagens Dean Moriarty e Sal Paradise e suas histórias opostas.Gabrielle Kerouac Jack Kerouac Allen Temko Joan Vollmer (Adams) Ed Uhl Fonte: PACOLA. A obra é dividida em cinco partes. (KEROUAC. se o autor não tivesse percorrido aqueles caminhos. 98 a 104 Sal‟s Aunt Sal Paradise Roland Major Jane Lee Ed Wall Com tudo isso.

Kerouac deslumbra os leitores com todos os detalhes: os carros. os motoristas. A viagem se dá por meio de ônibus. encontra seu amigo Dean. É um ritmo frenético. atravessar os Estados Unidos de carona parece ser a melhor experiência do mundo. Passeios noturnos por becos e bares undergrounds tocando o ensandecido bebop16. Com 50 doláres ele coloca o “pé na estrada”. Ao ler o livro. Mas a história não é sobre uma viagem. os habitantes locais. em 1947. mas sobre várias. uma narrativa simples e sem rodeios. Aí começa uma série de novos acontecimentos num vaivém tão grande entre Leste e Oeste que em determinado momento o leitor se perde entre “Frisco”. pessoas e situações são descritas num fluxo contínuo de idéias. caronas e trens. Quando Sal Paradise chega a San Francisco. Paisagens. é sobre o sonho americano e a liberdade que a estrada proporciona. A princípio a história foca-se Sal Paradise e sua decisão de viajar de New Jersey a San Francisco para encontrar Dean Moriarty. E não é apenas sobre viagens. Esta é a verdadeira “cena beat”. Sal passa por diversas cidades e Kerouac descreve-as. 16 Gênero do jazz no qual predomina o improviso .descrevê-los de tal maneira. os passageiros. Denver ou New York.

permitindo-lhe enxergar traços e pistas que outras fontes não lhe daria. Fonte especialíssima. porque lhe dá a ver. Logo. Pesavento (2006. alínea 51) Tomando a histórica como subjetiva. as duas formas de apreensão do mundo: a racional e conceitual. mas mesmo dentro da própria história. à “impossibilidade de que cada indivíduo maneje e domestique essa abundância textual”. 2006. porque lhe dará acesso especial ao imaginário. que assim como a literatura. de forma por vezes cifrada. há que se “pinçar” as informações. Logo. uma vez que depende do olhar do historiador ou outra pessoa que a analisa. Por vezes. os escritos literários. pelo mito. metafórica e alegórica. e a das sensibilidades e emoções. pois. de modo a utilizar corretamente as informações e não deturpar os fatos. a abundância de informações. mas privilegiada. A literatura é. oriundas de diversas fontes históricas e literárias podem levar. não só na literatura. A literatura é narrativa que.21). que forma o conhecimento científico. “os escritos literários hoje são considerados como documentos de pesquisa que possibilitam uma interlocução com o universo mental de escritores em suas temporalidades”. pela poesia ou prosa romanesca falado mundo de forma indireta. de modo ancestral. que correspondem ao conhecimento sensível. De outro lado. segundo Chartier (2001. uma fonte para o historiador. a escrita da história é “fruto da mente” de quem a escreve. mas não desacompanhados de uma base de pesquisa histórica.CAPÍTULO 3 – As relações 3. as imagens sensíveis do mundo. há espaço para acreditar. podem sim ser utilizados como fontes de pesquisa. na sua feitura. História dos Marginais e Literatura Podemos utilizar a literatura como fonte histórica? Segundo Conceição (2008). (PESAVENTO. coerência de sentido que o texto literário apresenta é o suporte necessário para que o olhar do historiador se oriente para outras tantas fontes e nelas consiga enxergar aquilo que ainda não viu. alínea 6) diz: O imaginário é sistema produtor de idéias e imagens que suporta. p. E sobre a possibilidade de utilizar a obra de Kerouac como fonte histórica? .1 História Cultura.

todos os personagens e acontecimentos de On the Road são reais: Carlo Marx.238) Pela citação acima. no tempo. e que se traduz no homem por um aumento dos conhecimentos.) Alguns fatos e algumas histórias deixam de ser contadas devido ao desinteresse de grande parte das pessoas. eram “marginais”. 2009. velhos. onde a população era tinha um caráter de homogeneidade. Tal situação gera tensões por vezes muito graves. p. é necessário encarar a transformação dos quadros de integração hoje ultrapassados e a criação de novos. p. As “tensões” por causa da marginalização de certos setores. 1990. na ausência de fontes mais confiáveis. igreja. mulheres.. pecados e virtudes. pela “cultura do consumo por promover o estabelecimento de uma nação dócil e padronizada”. jovens.769). Admitimos que a literatura é fonte de si mesma enquanto enquanto escrita de uma sensibilidade. aqueles que estavam fora desse “padrão” não tinham espaço na sociedade. E para isso. nota-se que Ruffié tinha em mente a necessidade de uma restruturação social. e ela o é no plano tecnológico. angústias. Camille é Carolyn Cassady. Existem grupos a que se pode chamar “marginais” (estrangeiros. Essas histórias são abrangidas pelo conceito de História dos Marginais. Infelizmente. existe a possibilidade de traçar um paralelo. Old Bull Lee é William Burroughs (1914-1997). da ordem e da contramão da vida. as diversas biografias que existem sobre ele. Como não se poderia pôr a questão de renunciar à especialização. a própria base do progresso. (BUENO. E é o caso.12 e 13. medos. causado. de seus escritos. podem ser minimizadas utilizando-se os escritos desses setores de modo a “eternizar” sua história. deficientes). da regra e da contravenção. autor de The naked lunch (O almoço nu). Logo. a qual se refere. por exemplo é o poeta Allen Ginsberg (1926-1997). A literatura registra a vida. que não ocupam um lugar normal no seio da comunidade. gravemente desequilibrada por falta de integração. os meios de integração social não seguiram o progresso da ciência e a humanidade permanece. O movimento ocorreu às margens da sociedade americana do pós-Segunda Guerra. pátria) revelam-se insuficientes ou ineficazes. enquanto registro. A sociedade deveria ser altamente eficiente em função da especialização dos indivíduos. e livros “históricos” para determinar o que é fato e o que é criação do autor. Dos seus sonhos. p. amante de Jack e autora do livro de memórias Off Road.Embora seja uma obra de ficção. no caso de Kerouac. Literatura é. E com isto. atualmente. mulher de Neal. das razões e sensibilidades dos homens em um certo momento da história. segundo Leuchtenburg (1976. (RUFFIÉ apud LE GOFF. chegamos a uma das metas mais buscadas nos domínios da História Cultura: capturar a impressão de vida. escola. sobretudo. e não a deixar cair no esquecimento. impressão de vida. a energia .. talvez do Movimento Beatnik. as estruturas tradicionais de integração (família. Ao mesmo tempo.p. autor de Uivo.

anjos desolados. Segundo Brinkley (2005. 2009) Segundo Pacola (2007. 2006. em On the Road. americanos”. p. a obra de Kerouac instigou os jovens a seguir um caminho completamente oposto. São Paulo. 55 (Nota da autora da citação) 19 Nota do autor. E quando da publicação do livro. narra a História Cultural de um grupo. seguido pelo sucesso de vendas. a enargheia17 presente no passado. utilizando a narrativa literária para registrar suas impressões e sua visão do mundo. na raiz da explicação de seus atos e da sua forma de qualificar o mundo. Para desespero dos pais acomodados. E quanto mais isso acontecia. muito mais do que em outro tipo de documento. Como afirma Ginzburg. Os jovens desejavam fugir da padronização imposta pela sociedade. a poesia – ou literatura – constitui uma realidade que é a verdadeira para todos os efeitos. Liberdade é a palavra chave. a sociedade tentava reprimir. registrando a vida e a “energia” do passado. o “submundo” dos Estados Unidos das décadas de 1940 e 1950. marginalizado pelo consumismo latente da sociedade do American Way of Life. e para isso. mais os jovens se interessavam. eles podem ser resgatados na narrativa literária. todos eles.18 (PESAVENTO. Carlo. Kerouac. Olhos de madeira. cujo estilo tanto literário como de vida residia no 17 18 Energia GINZBURG. satisfeitos com a situação social e econômica. somos levados a crer que a narrativa literária ocupa papel de fundamental importância na História Cultural. sem dúvida.18). 34): Essa maneira de viver e pensar [de Kerouac]19 iria se propagar por toda a geração beat. Portanto. p. E essa era a imagem que eles passaram aos jovens: todos esses adjetivos.2 – O impacto causado pela obra na história. idiotas sagrados e profetas subterrâneos. (WILLER. 2011. mas não no sentido literal. precisavam se libertar. Companhia das Letras. queriam ser diferentes. do seu mundo particular. 3. vivendo sua “vidinha pacata”. excluir ainda mais. p.vita. Nove reflexões sobre a distância. E estes traços. . alínea 57) Pela citação acima. porém livres. as personagens de On the Road formam “um desfile de foras-da-lei. Ele viveu o sonho de muitos jovens. E Kerouac abriu precedentes para essa liberdade.

2004. mas você não pode identificá-las. quando de sua transição musical do folk para o rock. A questão é que tal geração se multiplicou em muitas. Bob Dylan fugiu de casa depois de ler On the Road. tem uma compreensão instintiva daquilo – você fica livre. que vão mudar. com sistemas de valores.] moveram montanhas” e que “se a explosão hippie dos anos 1960 for interpretada como uma conseqüência indireta de On the Road [. deixou-se fotografar ao lado da tumba de Jack em Lowell. Uma característica em comum em praticamente todos os movimentos denominados contraculturais é a mudança. Gus Van Sant (o diretor) e Johnny Depp (o ator) envolveram-se numa filmagem nunca concretizada do livro – e. també. e Hector Babenco. então algo instantâneo acontece. o autor e o livro [.]. nenhum livro terá deflagrado uma revolução comportamental maior do que a obra de Kerouac”. os três compartilham o mesmo fervor reverencial pela obra. dá um salto rumo ao desconhecido. p. Dylan disse o seguinte: Às vezes você sabe que as coisas têm que mudar.12) diz que “Jack Kerouac e On the Road.. Bueno (2009.. Jim Morrison fundou The Doors. 2007.. p. “Change is Gonna Come” . o que ocorreu com Bob Dylan quando lançou Another Side of Bob Dylan. (PACOLA. No alvorecer dos anos 90. apesar da diferença de idade. em 1964. Jakob Dylan. como o próprio pai fizera. fundindo rap e poesia beat.você não sabe de maneira premeditada.. apesar de apresentarem caráter evolutivo. Esse freestyle baseado num Carpe Diem iria influenciar diretamente o movimento hippie. 2007). GOFFMAN. vinte anos antes. às vezes não são bem aceitas pela sociedade. Os contraculturalistas realizam apaixonadamente aquilo que Nietzsche chamou de “transposição de valores” – uma filosofia e um estilo de vida que implica uma contínua transformação. 53) Algumas mudanças. dos Pretenders. mas você só consegue sentir – como naquela canção de Sam Cooke.. (JOY.conhecimento adquirido das vivências pessoais e o intercâmbio deste com outros indivíduos. Porém. (DYLAN apud PACOLA. p. e você vai para outro mundo. Pequenas coisas prenunciam o que está vindo. Chrissie Hynde. filho de Bob. 58) . Em 1992. Massachusetts. Sobre as mudanças. Francis Ford Coppola (o produtor). o livro levou o jovem Beck a tornar-se cantor. influenciada pelo contato com o movimento beatnik. e já sabe quais são as respostas. percepções e crenças mutáveis. assim nas letras (parecidas com o fluxo de pensamento de Kerouac) como na recusa a um envolvimento sócio-político. Não precisa fazer perguntas. de Pixote. como um objetivo em si.

para serem salvos desejando ardentemente tudo ao mesmo tempo. loucos para falar. 2007) A influência de On the Road e de Jack Kerouac sobre Bob Dylan foi confirmada por ele mesmo num documentário de Martin Scorsese: Mergulhei naquela atmosfera de tudo o que Kerouac dizia sobre o mundo ser totalmente doido.Bob Dylan era um visionário e levou a literatura “jazzística” de Kerouac e Ginsberg para suas músicas de voz e violão. (FREITAS apud PACOLA. criando uma música cheia de poesia beat. os que sabe. eram loucos para viver. Para ele. (DYLAN In SCORSESE. E senti que me encaixava perfeitamente naquele grupo. os malucos. as únicas pessoas que eram interessantes eram as doidas. 2005) . todos os malucos. aqueles que jamais bocejam.

em parte. Muito provavelmente não teríamos conhecido “a paz e o amor” dos hippies. Allen Ginsberg. Mas sozinho. Sem Kerouac. Sem On the Road provavelmente não haveriam road movies. talvez não o mundo não tivesse conhecido a genialidade de Bob Dylan ou a sonoridade de seu folk-rock. Gregory Corso. Há de se recordar a importância de William Burroughs. uma lenda.CONCLUSÃO A obra de Kerouac. e levando-se em conta a subjetividade da história. tanto no pensamento da sociedade quanto na inauguração de um estilo literário mais “alternativo”. qual é o mal em utilizá-lo como fonte histórica? Baseando-nos em conceitos sobre o papel da literatura na História Cultural. mas também narrou histórias. se tornou um ícone. se a mente dele crê que os fatos são verídicos. Neal Cassady. a fim de evitar processos. Enfim. por causa de Jack Kerouac. a sociedade é o que é hoje. Kerouac não teria tido o impacto que teve. a literatura de Jack Kerouac é representativa da vida e consequentemente da história de Kerouac. não só marcou a história. ou a loucura de Jim Morrison. . entrando no imaginário dos jovens e possibilitando uma verdadeira revolução. influenciado pelo estilo de escrita de Cassady. Lawrence Ferlinghetti e tantos outros nomes. Outro aspecto fundamental abordado neste trabalho foi a utilização da literatura de Jack Kerouac como fonte histórica. Logo. O lançamento de On the Road possibilitou uma revolução cultural. O próprio Kerouac disse que seus livros têm personagens com nomes fictícios devido à exigência dos editores. nem mesmo as experimentações de Gus Van Sant no cinema ou mentalidade “beat” de Francis Ford Coppola. Mas o fato é que Kerouac.

GINSBERG. O primeiro terço. Porto Alegre: L&PM. Kerouac. Rio de Janeiro. tradução de Mauro Sá Rego Costa. tradução de Guilherme da Silva Braga. RA: Artmed Editora. Boston. tradução de Eduardo Bueno. 2009. tradução de Guilherme da Silva Braga. Dan. The Beat Book – Writings from the Beat Generation. Porto Alegre. RS: L&PM. tradução de Ernani Rosa. RS: L&PM.. Douglas. 2006. RJ: Ediouro. tradução de Edmundo Barreiros.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BIVAR. Porto Alegre. Porto Alegre. Big Sur. Porto Alegre. BUIN. “Nota” In CASSADY. Neal. GINSBERG. Porto Alegre. Porto Alegre. Diários de Jack Kerouac: 1947-1954. GOFFMAN. Jack. Apud BRINKLEY. Viajante Solitário. Jesús Anaya Rosique. Neal. Massachusetts: Shambhala Publications Inc. BRINKLEY. Ken. Kerouac: o rei dos beatniks. KEROUAC. RS: L&PM. Allen. RS: L&PM. 2005. 2007. Jack. “Nota” in KEROUAC. Porto Alegre. Yves. Porto Alegre. On the Road – Pé na Estrada. Daniel Goldin e Antonio Saborit. 2006. CHARTIER. 2009. Diários de Jack Kerouac: 1947-1954. Douglas. 2004. KEROUAC. . 2001. BUENO. RS: L&PM. O primeiro terço. “Introdução” In KEROUAC. 2010. Porto Alegre: L&PM. RS: L&PM. Jack. 1996. Anne. On the Road – Pé na Estrada. Eduardo. “Foreword” In WALDMAN. 2007. Roger. Jack. tradução de Edmundo Barreiros. Lawrence. tradução de Eduardo Bueno. Jack. tradução de Eduardo Bueno. JOY. KEROUAC. KEROUAC. RS: L&PM. Contracultura através dos Tempos. Big Sur. 2009a. CASSADY. Cultura escrita. São Paulo: Brasiliense. FERLINGHETTI. Porto Alegre. Jack. Allen. Literatura e História – Conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya. tradução de Mauro Sá Rego Costa. 2009b. RS: L&PM. Antonio. 2004.

Jacques. 2007 REFERÊNCIAS DA INTERNET BUENO.html> Acessado em 10/11/2011 PESAVENTO..com. Big Sur. Disponível em <http://www. WILLER. O primeiro beat ou o sonhador da estrada: Neal Cassady e a Beat Generation. BA: Universidade do Estado da Bahia. SAROYAN. 2009a. Curitiba. . Kaddish e outros poemas. Disponível em <http://revistaepoca. Luís Antônio.] – Campinas. Porto Alegre: L&PM. PR. Geração Beat. Cláudio. Uivo. Porto Alegre. Salvador. Disponível em <http://nuevomundo. História & literatura: uma velha-nova história. Jack. 2010a. UFPR. MONOGRAFIAS PACOLA. 1990.br/superarquivo/2003/conteudo_305915. SP: Editora da UNICAMP. WILLER. Porto Alegre. Gisele. RS: L&PM. O pai dos hippies.globo.. RS: L&PM. 2009. tradução de Guilherme da Silva Braga.revues. “Introdução” In GINSBERG.00.com/Revista/Epoca/0. A influência de Jack Kerouac na transição musical de Bob Dylan em 1965. Allen. [et al. Aram. 2008. ARTIGOS CONCEIÇÃO. “Prefácio” In KEROUAC.org/1560> Acessado em 01/11/2011 VIDEOGRAFIA DVD Kerouac – O Rei dos Beatniks. Graduação em Letras. Hélida Santos.. Uma viagem que dura 50 anos.shtml> Acessado em 10/11/2011 GIRON. Cláudio. Sandra Jatahy. tradução de Cláudio Willer. História e memória.LE GOFF.superinteressante. tradução de Bernardo Leitão .EDR78837-6006. 2006a. Eduardo. 01/12/2003.

Amália. 2005 REVISTAs PIMENTA. No Direction Home. maio de 2011. .SCORSESE. nº 36. “Kerouac – As pegadas que sua estrada deixou na literatura” In: Revista Literatura. Martin.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->