You are on page 1of 3

FICO, Carlos. Além do golpe. Versões e controvérsias sobre 1964 e a Ditadura Militar . Escrito em 2004.

40 anos do golpe Livro lançado numa “efméride”. 40 anos do golpe. Iniciativa importante, segundo o autor, para divulgar ao público geral uma visão mais sistemática do assunto. Segundo o autor, Episódios recentes vem despertando maior interesse sobre o período, como por exemplo entrevistas com ex presidentes e militares, testemunhos de ex-torturadores e vítimas, abertura dearquivos. “Já vão entrando na fase adulta os brasileiros nascidos em 1985, data da eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República, marco formal do fim do regime militar. Não surpreende, portanto, que haja entre os jovens um relativo deconhecimento daquela fase, que não viveram, diferentemente dos mais maduros, para os quais o regime militar não é apenas história, mas memória habitualmente rediviva, pois é difícil expurgar da lembrança tempos que deixaram marcas tão fortes como as da censura, da prisão, da tortura e do assassinato político. Tempos que também foram de iniciação política para muitos, atravpés do movimento estudantil, da atuação clandestina na esquerda, da opção extremada pelas armas ou por formas mais brandas de oposição, como a adesão a um abaixo-assinado ou a ida a u show de música de protesto. Para muitos outros, uma memória a ser apagada, pois são raros, hoje em dia, os que defendem a ditadura militar, mesmo os que se beneficiaram diretamente dela. Há também aqueles que passaram pela época em relativa apatia, ora favorecidos pelo crédito fácil do período do “milagre econômico”, ora vitimados pela propaganda política do “Pra frente, Brasil!”, estupidificante a ponto de levá-los, ainda hoje, a buscar o “lado bom” da ditadura”. (FICO, 2004, p. 09) “A ditadura militar,de algum modo, continua nos assombrando, tanto são os “cadáveres insepultos”. Isso talvez decorra do fato de que o “modelo” brasileiro de retorno à democracia (talvez disséssemos melhor de “saída da ditadura”) se baseou em satisfações incompletas: a anistia também dada aos torturadores e a eleição de um civil pelo inolvidável “Código Eleitoral” – tudo decorrente do por vezes celebrado topos da cultura política brasileira, a conciliabilidade.” (FICO, 2004, p. 10) Estudos históricos sobre o tema tardaram. Há primeiramente apenas estudos da ciência política. Exceção é a obra do “brasilianista” Thomas Skidmore, lançada em 1966 sob o título brasileiro “Brasil: de Getúlio a Castelo.” (talvez a “facilidade” por ser estrangeiro) No inicio os estudos foram dificultados devido a se tratar de uma “história do tempo presente” e a falta de documentação. HISTORIOGRAFIA O problema é que A reforma universitária do final dos anos 1960 que criou o moderno sistema de pósgraduação no país e que impulsionaram as pesquisas acadêmicas, se deu em um dos momentos mais repressivos do período militar (FICO, 2004, p. 21) ñ é citação

Os carbonários: memórias da guerrilha perdida. 87) . por certo. 2004. pelo menos. especialmente se não fosse marxista.” (FICO. p. quando está formalmente abolida. que em alguns momentos produziu matérias reveladoras. Havia a imprensa. estando por ser feita uma análise intertextual desses fragmentos como se formassem um texto único ou. também pode ser estudada como luta pelo estabelecimento da “versão correta”. “Para além das perseguições políticas impostas pelo regime – que identificava intelectuais liberais como “inocentes úteis” e os de esquerda como “subversivos” a serviço do “movimento comunista internacional” . sendo compreensível. Alfredo Sirkis. 24) Fernando Gabeira – O que é isso companheiro? Rio de Janeiro: Codecri. p. como é sabido. foram publicados alguns dos mais impactantes depoimentos de exmilitantes da chamada “luta armada”. artistas.” (FICO. pois. principalmente aqueles que participaram da assim conhecida “guerrilha urbana”. já no governo do general Ernesto Geisel. havia ainda suspeitas internas à própria intelligentsia. São Paulo: Global. 2004. p. se é certo que descreve a época. tal memorialística constitui-se ao mesmo tempo em fonte e objeto históricos.” (FICO. por iniciativa pessoal ou estimulados. o que também contribuía para desestimular aqueles que pudessem se interessar pelo assunto.Grande parte estudos com influencia marxista. que na imprensa e entre os mais jovens. “A memorialística sobre a ditadura militar foi enriquecida com o passar dos anos. 1979. 2004. Um pesquisador de temática militar. também no final dos anos 1970 e início da década de 1980. 2004. e formas diferenciadas dela persistem mesmo hoje. p. 2004. 22) MEMÓRIAS “As primeiras descrições detalhadas sobre o golpe de 64 e a ditadura militar brasileira vieram de uma memorialística que se tornaria cada vez mais abundante e variada. 1980. quando a descompressão política permitia – e talvez mesmo ensejasse – a revelação de episódios que. a censura sempre esteve ativa no Brasil.” (FICO. a menção ao assunto remeta imediatamente ao regime militar. (FICO. poderia ser classificado de reacionário. p. jornalistas e outros atores também têm deixado seus depoimentos. já que políticos. portanto. p. 23) Estudos baseados em “memórias oficiais” “Do outro lado. no contexto da abertura. Curiosamente. 2004. uma debate animado por “réplicas” e “tréplicas.. então. Porém. O predomínio acadêmico do marxismo e o acirramento de posições em face do regime infausto acabavam por induzir posições maniqueístas e preconceituosas. apenas por isso. 25-26) CENSURA “A lembrança da censura sempre aparece associada ao último período no qual ela existiu. já podiam ser considerados como “históricos” (FICO. 23) “Mas as primeiras revelações factuais mais precisas viriam em livros de memórias e somente surgiram no contexto da chamada distensão política.

ou por O Globo durante todo o período” (FICO. praticada por todos.” (FICO. pois o decretum terrible permitia praticamente tudo. a censura da imprensa foi implantada através de diretrizes sigilosas. 2004. em função do medo de represálias. de espionagem e de “combate à corrupção”. acatando a censura. Talvez a expressão esteja sendo usada para designar coisas diferentes. “que assume a função de comunicar a seus repórteres o que podem ou não escrever”. adotada por algumas empresas de comunicação e a individual. tornou-se rotineira e passou a obedecer instruções especificamente emanadas dos altos escalões do poder. 87) ver SOARES. mas a usa na acepção corrente das redações. p.“Porém. Revista Brasileira de “A afirmação sobre a inconstitucionalidade da censura da imprensa peca por não se dar conta da globalidade das ações repressivas. a expressão. Segundo Kuschnir (p.] A censura política da imprensa foi apenas mais um instrumento repressivo. Tal como a instituição do “Sistema Codi-Doi”. é certo que. p. não é a mesma coisa que colaboracionismo ou apoio político. [. Gláucio. Tendo sido usada com freqüência nas redações dos jornais para designar a obediência às proibições determinadas pelo Ministério da Justiça. a partir de dezembro de 1968. 2004. Soares distingue a autocensura institucional. 2004.. a censura da imprensa sistematizou-se. quando usada na análise histórica. escritas ou não. a autocensura era uma capitulação da direção do órgão de divulgação. Para Aquino. porém. 90) O autor analisa o caráter político ou “moral” destas censuras.” . a “autocensura” era um “crime intelectual”. p. 94) . houve uma intensificação da censura da imprensa. toda censura é um ato político “Outra controvérsia que a análise da censura da imprensa enseja é a que se refere à prática que ficou conhecida como “autocensura”. Smith admite que a expressão é imprópria. o regime autoritário. Esse tipo de acatamento.” (FICO. Desde então. nos anos 1970. 127) .” (FICO. A censura durante Ciências Sociais. e a alternativa seria a censura prévia ou o fechamento jornal. Para Kucinski. presta-se a equívocos pelo comprometimento que sugere. do já mencionado caráter de projeto que presidiu a institucionalização dos “sistemas” de segurança interna. do gênero praticado pela Folha da Tarde. p.. isto é. 2004. estava colaborando com ela? Certamente pode-se falar em uma capitulação. em maior ou menor grau. 94) Ver SMITH p 135 “A direção de um jornal que recebia a lista de temas que não poderiam ser abordados e transmitia à redacao. com a edição do AI-5.